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BIBLIOTHECA 

PE 

CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



Director litterario 

Conselheiro LUCIANO CORDEIRO 



Proprietário e fundador 

^ELLO UqAZEVEDO 



BlBLIOTHEGA DE ClASSICOS PoRTUGUEZES 
' Director Litterario — Conselheiro Luciano Cordeiro 
Prtpriílario e fnndador — Mello d'Azevedo 



CHRONICA 

DE 

EL-REI D. JOÃO I 




POR 



Fernão Lopes 



-^OTu. "Vil 



ESCRIPTORIO 
147 — Rua dos Retrozeiros — 147 

LISBOA 

1898 



3P 

I 




'%8 




CAPITULO GLXIX 



Como el-rei partiu pêra Gallt^a, e do que lhe avetu 
no pau do cMinho. 



EL-REI partiu pêra Coimbra, como dissemos, le- 
vando grande sentido d'aquella entrada cjuc 
os casteilãos fizeram, e das trabalhosas jor- 
nadas que elle e os seus em tal tempo passaram, 
por os tomar dentro do reino, e estando el-rei 
n'aquella cidade, lhe veiu recado como João Fer- 
nandes Pacheco e seus irmãos se foram pêra Cas- 
tella, e isso mesmo Gil Vasques da Cunha e João 
Aífonso Pimentel, por cuja partida seu adversário 
cobrara as villas e castellos de que tinham feito 
menagem, assim como Bragança e Vinhaes, e o 
Mogadouro e Villa Maior. 

E se algum notar por mingua, não poermos aqui 
o porque se estes e outros fidalgos partiram do 
reino, isto seria grave de adivinhar, e cousa que 
por elles cumpria ser recontada; mas a commum 
fama de todos era que elles diziam que por aggra- 



Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



vos que d'el-rei recebiam, se foram de sua terra; 
porém fallaram bem os que disseram que qual deve 
ser o príncipe acerca dos fidalgos e súbditos, for- 
mosa cousa é de contar e ligeira d'escrever. 

Mas contentar grandiosos corações de desvaira- 
das vontades, isto é mui grande encarrego, e cousa 
assaz dimpossivel, porque aprazendo a uns, convém 
que anoje a outros. 

Mas el-rei, posto que taes noras ouvisse, e lhe 
d'ellas dcsprouvesse, não mudou porém propósito 
do que na vontade tinha, que era entrar por Gal- 
liza por fazer guerra a seus inimigos, e partiu logo 
pêra o Porto, e dalli mandou chamar suas gentes, 
e foram juntos em Ponte de Lima, onde fez seu 
alardo, e achou quatro mil lanças, e muitos peões 
c besteiros, e moveu caminho de Monsão, que eram 
d'alli sete léguas, e des-ahi ás Choças, que eram 
traz do rio do Minho, por onde entendiam passar; 
e todos alli recolheitos, aos quatro dias do raez de 
maio de i43() nasceram entre elles novas, e era 
assim deífeito, que da parte além do Minho, junto 
com Salvaterra, eram juntas muitas companhas por 
lhe embargar a passagem, e se irem lançar dentro 
cm Tuv, sabendo que el-rei o ia cercar, e a ver- 
dade d isto era que Diogo Peres Sarmento, adean- 
tado de Galliza com outros fidalgos, quando sou- 
beram a ida d'el-rei pêra aquella comarca, entende- 
ram, o que era certo, que el-rei ia cercar Tuy, e 
quizeram-se lançar dentro na cidade pêra a ajudar 
a deffendcr c os de dentro não quizeram isto con- 
sentir, dizendo que abastantes eram pêra dar d'ella 
conta. 

Kntonce se tornaram, e pozcram seu arraial no 
campo do Louro, que é junto com o rio, e receando 



Chromca cT El- Rei D. João 1 



a ida d'el-rei, que se ia chegando, aífastaram-se 
d'alli, espaço de uma legoa; e estas eram as gentes 
que a el-rei disseram, sobre as quaes teve conselho; 
e accordaram que sem mais tardança movessem á 
pressa o arraial e passassem da banda dalém, e se 
os podessem tomar, que seria mui bom começo. 
Começaram entonce de andar cada um quanto mais 
podia, e chegando por acerca de Monsão, pediram 
a Diogo d'Abreu, alcaide daquelle logar, que lhe 
mandasse um seu escudeiro, que chamavam Fernão 
d'Ayres, que lhe fosse amostrar o vau; e elle e 
outro, que diziam João Vasques, foram ambos por 
serem guias d'elle, e chegaram ao vau das estacas, 
que n'aquelle logar era d'ancho como a costumada 
passagem do Douro, sendo já sol posto muito acerca 
do serão, e a noite, por antepoimento de nuvens, 
não bem clara como pêra tal passagem cumpria. 

El-rei fez chamar uma guia d'aquellas que os 
houvesse d'encaminhar, e elle entrou em cima de 
seu cavallo dando-lhe a agua pelos peitos : o vau 
não era direito, mas desviado pêra cima, qual na- 
tureza ordenava, de um pedregulho seixal, e a altura 
da agua por uma igualança, não mais alta em um 
logar que em outro, mas era junto com elle um 
profundo pego, bem mortal visinho, azado pêra 
muitos perecerem, de que poucos sabiam parte. 

A guia passou além; tornou mais rijo do que 
foi, por o grão corrimento da agua que descia; 
mandou el-rei passar a bandeira, por lhe avivar os 
corações de passarem mais toste; João Gomes da 
Silva, que era alferes, como foi além e alguns com 
elle a fundo por ribeira do rio donde el-rci ficava, 
que foi grande azo da perda que se alli fez, porque 
ao som das vozes donde elle estava, tirava a gente 



8 Bibliotheca de Clássicos Poytugi/e^es 



por ali direito, e o vau ia mais acima desviado, e 
assim se perdiam muitos, e tornou a guia por en- 
caminhar outra ida, e foi com ella muita mais gente 
que da primeira, e quando veiu a terceira vez, fo- 
ram tantas que a espessura das bestas cresceu a 
agua fazendo des-ahi parede, e botou grande parte 
delles e deitou-os no pego sem sendo vistos dos 
que eram em terra; des-ahi a noite, mal azada pêra 
tal trabalho, fazia topar uns nos outros, e d'elles 
travavam de seus companheiros por se terem a 
elles, e levavam-nos comsigo, e d'esta guisa e d'ou- 
tra morria muita çente, ate que os que iam detraz 
foram cm conhecimento da perda que se fazia, e 
disseram- no a el-rei, e mandou que não passassem 
mais; uns se afogavam e não surdiam mais, outros 
nadavam as bestas com elles, e quando chegavam 
á beira dagua, por a áspera subida da borda do 
rio, não podiam montar acima, e assim morreram 
bradando a grandes vozes que lhe accorressem, 
mas não prestavam a tal tempo, ca posto que se 
alguns nomeassem quem eram, e lhes seus servido- 
res accorrer quizessem, não podiam, tanta era a 
pressa. 

El-rei esteve um bom espaço áquem do rio não 
sabendo quaes eram mortos, e andada gran parte 
da noite a fundo mui longe de onde foi esta perda, 
passou cm uma b^rca, e des-ahi aquelles que o fa- 
zer podiam, e quando foi o dia claro e soube 
aquelles que falleceram, ficou espantado e mui no- 
joso por se assim perderem por tão desaventurado 
cajão; e dctcvc-se alguns dias por os mortos que 
surdiam e tiravam fora. Outros tiravam fora com 
redes, e trabalhavam de soterrar todos; e o damno 
que se alli fez, contam alguns por sommas desvai- 



Chronica cVEl-Rei D. João I 



radas, mas aquella que achamos em que se mais 
accordam, seriam, por todas, d'escudeiros e pagens, 
e d'outra boa gente, até quinhentas pessoas, e de 
capitães que de nomear cumpre, D. Aífonso, sobri- 
nho d'el-rei, e João Rodrigues Pereira. 



CAPITULO CLXX 

Como el-rei cercou Tuy e o combateu 

QUANTAS razões el-rei tinha de tomar gran 
nojo por tal aquecimento, qualquer sizudo 
o pode entender; porém postas a de par- 
te, segundo convém, aos grandes senhores, seus 
feitos em breve e curto razoado foram estes : 

Passou o Minho e cobrou Salvaterra, e chegou 
por Souto Maior, e des-ahi veiu poer arraial sobre 
Tuy, e cercou-o de tal guisa que nenhum ligeira- 
mente podia ir de fora pêra dentro, nem dos cer- 
cados pêra fora. 

O logar estava porém bem percebido de gentes 
d'armas, peões e besteiros, e de bons fidalgos, que 
tinham vontade de o deffender, assim como Paio 
Sarodea, que era o principal que da cidade cargo 
tinha, e Pedro Fernandes d'Andrade, seu sogro, 
que viera em sua ajuda, e Pedro Dias de Córdova, 
e Gonçalo Açores, e com elle até tresentas lanças, 
afora peões e besteiros; tinham pão e vinho, c 



jo Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



muitos mantimentos, e coração e desejo pêra se 
não dar ligeiramente. 

El-rei poz seus engenhos a redor delia, que tira- 
vam de cada parte, e por o muito damno que fa- 
ziam, foi preitejado d'esta guisa: que os engenhos 
não tirassem de noite nem os de dentro não lan- 
çassem nenhumas settas com herva. 

El-rei consentiu em ello, porque lhe não prazia 
por nenhum modo que uma Sé honrada e antiga 
que ha na cidade, onde é fama que Jaz o corpo de 
Frei Pedro Gonçalves, recebesse nenhum damno 
de sua parte; dcs-ahi os de dentro sahiam amiúde 
a escaramuçar, e com boa e forte bestaria que ti- 
nham, maguavam mui mal os da hoste, não lhe 
prestando armas, por boas que fossem, que não 
ferissem muitos, e d'elles morriam cm tanto que os 
receavam já muito. 

Também os engenhos faziam gran damno na ci- 
dade, e matavam algumas pessoas. 

Em esto foi um dia ordenado de se poer a escala 
e combater a cidade, na qual haviam de ir mui no- 
táveis escudeiros escolheitos por el-rei, não por 
linhagem de fidalguia, mas por conhecimento de 
bons homens darmas, entre os quaes era um cha- 
mado João Preto, conhecido por especial entre os 
outros, o qual fallanJo uma vez, como c costume, 
com um mui afamado besteiro de dentro, que di- 
ziam Gonçalo de Paredes, perguntou-lhe se havia 
de ir na escala quando combatesse. E elle disse 
que sim. 

— tQueres-me peitar, disse o de dentro, e não 
te tirarei ? — 

E elle respondeu que não presava seu tirar, e 
outras razões de desagradecimcnto, dizendo-lhc lo- 



Chronica d'El-Rei D. João I ii 



go, por mór despreso, as armas que havia de levar 
por que o bem podia conhecer. 

El-rei, a que João Preto já contara esta historia, 
quando foi o dia do combate disse-lhe que se ar- 
masse bem, e lhe fez levar um seu forte bacinete, 
porque elle o não tinha tão bom, e bem armado 
doutras armas, movendo a escala e começando 
combater a cidade, ia João Preto na dianteira com 
outros escudeiros, vestido de umas folnas cobertas 
de velludo verde, com uma banda de trena d'ouro, 
que eram os signaes que elle dera ao outro, que 
lhe melhor fora callar. 

Gonçalo de Paredes, segundo se mostrou, estava 
já prestes com a besta no rostro aguardando de 
fundo da torre onde a escala havia ue pousar por 
fazer aquello que fez, e como João Preto deu logar, 
já quanto á cara pêra haver uma pouca mais de 
vista da que receber podia, logo em ponto nasceu 
um rijo virotão entre os olhos d'elle, que o feriu de 
mui má maneira, de guisa que a pouco espaço co- 
mo d'alli foi levado morreu ; outros foram feridos 
e mortos, como em tal jogo podeis entender e não 
se dando a bem o combate por azo da escala não 
chegar como cumpria, des-ahi por damno que em 
ella fez uma cabrita que de dentro tirava, mandou 
el-rei que i aíTastassem afora, ficando os de dentro 
com grande lédicc, posto que perda recebessem 
em alguns seus, e el-rei anojado do que acontecera. 



ia Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



CAPITULO CLXXI 

Como os da cidade /iteram saber a el-rei a pressa 
em que eram, e do conselho que sobre cllo teve. 

PENSANDO os da cidadc quando esto foi, que 
por azo do quebrar da escala que a cabrita 
fez, e por a perda daquelle escudeiro, e 
doutros alguns que foram feridos, que lhe el-rei 
não quizesse jamais combater, receando similhante 
damno do que então aviera, começaram d'apupar 
grandes brados, escarnecendo do combate que lhe 
leito tinham., dizendo doestos e outras palavras, 
com que lhes parecia que se vingavam dos do 
arraial. 

Kl-rei que contraria tenção d'esto tinha, mandou 
logo d pressa carregar a escala, e fazer uma gran 
caniçada por guarda do arraial e da escala quando 
outra vez f^ouvesse de combater. 

Os da cidade quando viram o repairar que se na 
escala fazia, e a gran pressa que davam em acabar 
a caniçada, entenderam que vontade era d'el-rei 
asseccgar sobre o cerco até que os por força ou 
por prcitczia os houvesse de tomar, e buscaram 
maneira como fizessem saber a el-rei de C^ístella o 
afincamento em que eram postos, e em que espe- 
ravam ao deante de ser, segundo as maneiras que 
os de fora mostravam, e que fosse sua mercê de 
lhes accorrer. 

Kl-rei de Castella, que já desto parte sabia, teve 
seu conselho como se daria accorro a esta cidade, 



Chronica d^El-Rei D. João 1 i3 



cnde se fallaram estas razões, e foram estas as 
principaes, dizendo alguns que se maravilhavam de 
urna tão grande casa e tão poderosa como a de 
Castella, que por todo o mundo era nomeada, se- 
rem per seus peccados em tal sujeição postos, que 
uns poucos de portuguezes com um cavalleiro que 
tomaram por seu rei, lhe corriam a terra a seu des- 
peito, e cercavam villas e cidades, que accorrer não 
podiam, assim como ora tinham aquella ainda não 
com toda sua gente, mas com essa pouca que lhe 
ficara depois da perda do vau, que apodavam a 
mil e quinhentas lanças entre más e boas, e mais 
não, assim que lançaram conta que houvera menos 
n'aquella passagem bem mil e quinhentas pessoas, 
das quaes eram a terça parte de homens de armas, 
e besteiros de cavallo, nem estar ahi o Conde Nuno 
Alvares, com que andava gran parte da boa gente 
que em Porlugal havia, e ser tão alongado em cabo 
do reino, des-ahi o rio Minho que os portuguezes 
entre si e a terra tinham, que era grande estorvo 
pêra haverem bom acolhimento, e que dês que se 
os homens acordavam, sempre os reis de Castella 
tiveram sujeitos os de Portugal, quando os mister 
haviam pêra seu serviço, a que destruiriam a terra 
por muitas vezes se o fazer quizeram, havendo 
d'elles grandes ajudas, assim por mar como por 
terra, tanto que lh'o mandavam dizer como a hou- 
vera el-rei D. Affonso d'el-rei de Portugal seu so- 
fro, até mandado chamar que fosse com elle á 
atalha dos mouros, onde logo fora com todo seu 
poder, c depois ei-rei D. Pedro seu filho quando 
guerreava a casa de Aragão, que mandara pedir a 
Portugal quinhentos de cavallo pêra o servirem 
n'aquella guerra, e que logo lhe foram enviados, e 



14 Bibliothcca de Clássicos Portugueses 



por capitão dellcs o mestre de Aviz D. Martim do 
Avellar, c mais dez galés pagadas á sua custa cem 
seu almirante Monsieur Lançarote, e assim doutras 
ajudas que os reis de Portugal aos de Gastella gra- 
ciosamente por bons dividos faziam, todas ali foram 
nomeadas que eram feitas por via de sujei:ão, e 
por mais fazer não poderem alem d'esto, que se o 
haviam por uma batalha que fora vencida, e el-rei 
seu padre fugiu, que esta era pequena miravilha, 
que também o fora el rei D. Anrique seu avô 
ael-rei D. Pedro seu irmão, e que depois o tornara 
a vencer e matar, e cobrar o reino de çue, a Deus 
graças, elle era senhor, c assim acontecera já a ou- 
tros muitos. E porém não havia por que se espantar 
e leixar-sc subjugar de quem não deviam, mas to- 
mar bom esforço e levar suas honras adiante, como 
fizeram seus padres e aquelles de cu)as linhagens 
descendiam, e que pois aquelles fidalgos, que em 
Tuy jaziam por seu serviço e suas honras, traba- 
lhavam como bons por o defender, que elles mos- 
travam gran mingua e covardice deixarem-n'os as- 
sim sem curar d'elles e serem tomados, e perde- 
rem se de todo, por a qual razão em nenhum se- 
nhor nem principe do mundo fidalgos de Gastella 
haviam de achar acolhimento, mas grande profaço 
com muita sua vergonha. 



Chronica d'FA-Rei D. João 1 i5 



CAPITULO CLXXII 

Do conselho que foi havido pêra accorrer á cidade 
dí Tuy. 

FA.LADAS n'aquelle conselho estas e outras ra- 
ztes, quaes formava o grande ódio que aos 
po-tuguezes, das cousas passadas tinhann, 
sahiram d'elle dois benn mastigados accordos, os 
quaes tocos louvaram por bem ditos e sisudamente 
cuidados, ' foram e^ies : 

O primero, que o infante D. Diniz, irmão do in- 
fante D. João, que fallecera por morte, e andava 
em Castella, como já tendes ouvido, que lhe desse 
el-rei logar qi^ tomasse titulo de rei, e se chamasse 
D. Diniz rei dt Portugal e do Algarve, c que todos 
os portuguezes que se pêra Castella foram, e os 
que dantes lá andavam, se ajuntassem a elle e o 
recebessem por senhor, e que desta guisa entrando 
no reino, des-ahi por largas promessas que a muitos 
faria, outros por montar em mór estado, que se 
chegariam a elle todos, tomando sua voz, e lhe da- 
riam villas e castellos como seu senhor natural, e 
que por este modo cobrariam Portugal, pois que 
até entonce por arte, nem por outras forças de gran- 
des trabalhos nunca haver poderam, a qual cousa 
se bem fazer podia, e melhor entonce que em outro 
tempo, porque com as gentes que lhe el-rci desse, 
c com as que os portuguezes alli tinham, elle podia 
bem levar duas mil lanças, afora outras gentes que 
se a elle chegariam, e entrando d'csta guisa pela 



i6 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



Beira, com Martim Vasques da Cunha e João Fer- 
nandes Pacheco, c João AíTonso Pimentel e os oq 
tros, seria grande ajuda e azo de os povos o toma- 
rem por seu rei e senhor, e este accordo dizrfn 
que foi por conselho de Martim Vasques e «os 
outros portuguezes que se pêra lá foram, dizrtido 
que n'aquella comarca não havia nenhum froni^iro, 
nem outra pessoa que Ih a defender podesse. 

O segundo, que el rei juntasse doutra pirte as 
mais gentes que podesse, e que as mandasse com 
um bom capitão sobre a cidade de Tuy per acudir 
a seu cerco, e que o som da fama fosse qje elle ia 
la por seu corpo pêra poer batalha a seu aiversario, 
e mais que o mestre de Santiago ajuntasse tam- 
bém suas companhas, dando voz que qaeria entrar 
por riba de Odiana, frontaria do Condestabre, pêra 
se vingar da sobranceria que lhe fora feita quando 
entrara duas vezes por sua terra, e com esto que 
se armasse a mais frota que podesse, pêra correr a 
costa e vir sobre Lisboa, e que desti guisa se ema- 
vezariam os portuguezes, que não saberiam cobro 
nenhum que em si poer, ca o Conde não havia de 
leixar sua frontaria como lhe taes novas chegassem; 
el-rei isso mesmo como ouvisse que el-rei de Cas- 
tella ia pcra lhe poer batalha, que leixaria o cerco 
por se fazer prestes pcra ella, o que era gran du- 
vida de poer sem seu condestabre, o qual não 
ousaria de mandar chnmar, por não ficar aquella 
comarca desamparada; mas era de crer que acudi- 
ria ás gentes que entrassem na Beira com o infante, 
e assim ficaria Tuy descercado, e ajuntando-se 
aquclles que fossem pêra o descercar, com os que 
o infante assim levasse, que podiam bem pelejar 
com elle e o desbaratar, porque seria livrado todo 



Chronica d'El-Rei D. João I ij 



esto, e baixado seu orgulho, ou cobrando o infante 
o reino da guisa que se fallava, que o contentaria 
el-rei com um bom ducado, segundo a elle perten- 
cia, e assim ficariam todas as cousas em bom asso- 
cego com grande honra da casa de Castella. 



CAPITULO CLXXIII 

Como foram juntas estas gentes que dissemos, e o 
el-rei soube em Tuf. 

AccoRDADO esto assím por todos, e determi- 
nado por final conclusão, que os poz em 
grande esperança, mandaram á pressa re- 
cado aos de Tuy que fossem fortes e se defendes- 
sem ardidamente, que elles seriam cedo tão bem 
accorridos como todos podiam ver, e?crevendo-lhe 
a maneira que el-rei queria ter sobre ello; com a 
qual resposta cobraram grande esforço, começan- 
do-se de soltar em muitas abafas e desmesuradas 
palavras, peiores que ante diziam; e isso mesmo 
sahiram logo cartas mandadas por toda a terra a 
vassallos e a ginetes, e a besteiros de cavallo, que 
fossem presies pcra entrar cm Portugal com el-rei 
seu senhor, e com os capitães que lhe mandado 
fosse; e ainda diziam alguns no conselho que era 
bem de lançarem os prelados e beneficiados certos 
homens d'armas pêra ajudarem a levar este feito 
adiante, que de todos era tão grande honra. 



l8 Bibliotheca de Clássicos Portugne:{es 



As cartas mandadas, não tardou muito que se 
todos não fizessem prestes com renovada sanha 
pêra quem tanto desamavam. 

Aquelle infante bastardo tomou logo o titulo de 
rei, chamando-se rei de Portugal e do Algarve, tra- 
zendo bandeira e sêllo das armas de Portugal di- 
reitas, e Martim Vasques e os outros portuguezes, 
assim como João Fernandes e João Allonso Pimen- 
tel, e as linhagens de uns e dos outros todos se 
chegavam a elle, nomeando-o por seu rei e senhor; 
e com as gentes que lhe el-rei deu, e com as que 
com elle se juntaram, passavam de duas mil lan- 
ças. Floram mais juntas algumas companhas com o 
mestre de Santiago, mas d'estas não fazem os au- 
thores menção que fizessem cousa alguma que de 
cont*r seja; e todas assim juntas com seus capitães, 
partiu o infante caminho da Beira, e Ruy Lopes de 
Avalos, que depois foi condestabre de Castella, 
com aquellas gentes que iam pêra descercar Tuy, 
soando fama e voz que el-reí de Castella ia ali. 

El rei, que sobre Tuy estava, d'esta fama sendo 
muito certo, não perdeu esforço, posto que assim 
estivesse, dizendo de praça, que ouviram muitos 
que sobre esto fallavam dentro em sua tenda : 

— «Venham castellãos quantos quizerem, c com 
quantos trazer poderem, ca aqui me hão de achar 
sem duvida; e elles cuidam de me espantar com 
suas palavras e ajuntamentos, cuidando que por 
isso me hei-de partir e leixar o cerco d'este logar. 
E cu tenho esto mui pouco em vontade, ca eu não 
lhe guerreio sua terra, nem quero tomar esta cida- 
de por cubica que d'ella haja, mas porque me tem 
minhas villas forçadas e me fazem guerra muito 
contra direito, e eu assim c por força que assim 



Çhronica cTEl-Rei D. João 1 ig 



faça a elles, e porém cada um se avise que seja 
apercebido como cumpre; que ora venha el-rei com 
estas gentes que dizem, ora não, elles a não podem 
descercar senão por batalha, a qual lhe entendo poer 
em sua terra, pois lhe já puz outra em meu reino; 
e vencida esta como espero em Deus, que será a 
cidade tomada, então iremos poer outra a aquelle 
rei novo de nosso sobrinho que se agora fez com 
aquelles condes e bons portuguezes que com elle 
vem contra a terra que os creou.» — 

— «Se attender nos quizesseses, senhor, (disseram 
alguns) parece-nos que será bem mandardes cha- 
mar o vosso Condestabre que viesse com as gen- 
tes que podesse ajuntar, e seria boa ajuda e grande 
esforço pêra taes feitos.» — 

— «O Condestabre, disse el-rei, está daqui alon- 
gado, e não sei se poderá vir a tal obra tão toste 
como cumpria, mas outrem temos nós em seu lo- 
gar que nos ajudará melhor que elle, que é o Se- 
nhor Deus, e a sua preciosa Madre, em que eu te- 
nho grande esperança, e em cujas mãos ponho 
meus feitos, que sabe, como já disse, que eu não 
lhes faç. » guerra senão por me darem paz. Porém 
eu lhe escreverei, se o fazer poder, que se venha 
com todas as gentes da sua fronteira, e ainda man- 
dei chamar das que são daqui mais acerca, que 
se venham quantos poderem. 



30 Bibliotheca de Clássicos PortUfíuc^es 



CAPÍTULO CLXXIV 



Como o Condestabre encaminhou por ir pelejar com 
o infante 7). 'Z)í';n'{, e o não qui^ attender. 



O Condestabre em esta sazão estava em 
Montemor o-Novo, villa de sua frontaria, 
por espaçar alguns dias, e ahi lhe chegou 
recado d'cl rei em como el-rei de Castclla com todo 
seu poder vinha a aquelle cerco onde elle estava, 
pcra lhe poer batalha, e que se fosse logo pêra 
elle com todas as gentes de riba de Odiana. 

Quando o Conde tal recado viu, moveu logo 
pêra Évora pêra poer aguça em sua partida; e es- 
tando n'aquL'Ila cidade com este afincamento, vie- 
ram lhe novas que o mestre de Santiago de Cas- 
tella ajuntava muitas gentes pêra entrar n'aquella 
comarca, e se vingar das entradas que o Conde em 
sua terra fizera; e apoz este lhe chegou outro de 
Gonçalo Vasques Coutinho, e d'alguns logares da 
terra da Beira, fazendo-lhe saber que fosse certo 
aue o infante D. Diniz, que se chamava, vindo, rei 
de Portugal, e o conde Mariim Vasques e conde 
João Alíonso Pimentel e outros muitos em sua 
companhia entravam n'aquella comarca, fazendo 
tal damno c perda em cila, que se lhes não accor- 
rcsse, que seria toda destruida; e assim era de 
feito, ca elle entrou por Sabugal, e chegou á Guarda, 
c correndo Martim Vasques e os ginetes isso mes- 
mo ac»rca de Vizeu, e por aqucllas aldeias, tudo 



I 



Chronica d^ El- Rei D. João 1 21 



destruíam como terra onde não estavam taes gine- 
tes qse a de tamanha assuada defender podessem. 

Quando o Conde viu taes recados, e ass m des- 
vairados, foi posto n'aquelle cuidado e grande pen- 
samento, que cada um sisudo pôde cuidar que elle 
devia de ser^ e outro cuidado que tanto o afincava 
assim, era não ter dinheiros d'el-rei, nem seus, pêra 
pagar soldo ás gentes que com elle houvessem de 
ir; porém do almoxarife d'aquelle logar houve uns 
poucos emprestados com que lhe satisfizesse algu- 
ma pouca cousa. 

Entonce chamou a conselho a aquelles com que 
costumava fallar, e vistos os recados que ao Conde 
vieram, accordou que era bem leixar os outros, e 
ir buscar o infante D. Diniz, e prazendo a Deus de 
o desbaratar, que se iria logo seu caminao a Tuy, 
onde o el-rei mandava chamar. 

D'este conselho não foram alguns contentes, nem 
prouve a todos com estas palavras, dizendo d'elles 
que o Conde queria, o que Deus não queria, dar lhes 
cada dia trabalho e afães com poucas mercês nem 
bem fazer, e que lhe não bondava britarem os cor- 
pos de dia e de noite, mas ainda gastarem os bens 
que lhes el-rei nem elle deram, e ouiras taes razões 
porque bem mostravam que haviam pouca vontade 
de ir como Conde buscar o infante; as quaes o Con- 
de ouvindo, desprouve-lhe d'ellas muito, e alçou-se 
do conselho e cavalgou, e foi-se fora da cidade por 
espaçar algum pouco, e Martim AlTonso de Mello 
com elle, e andando ambos fallando, disse Martim 
Aífonso contra o Conde: 

— «Senhor, vós sois annojado do que aquelles ca- 
valleiros disseram em vosso conselho por turvarem 
vossa ida, c por mercê que não o sejacs, mas Icvae 



32 Biblioíhcca de Clássicos Portugueses 



vosso íeito adiante, e Deus que sempre bem enca- 
minhou vossos feiros, encaminhará este, ainda que 
elles não queiram, e de mim vos digo que vos se- 
guirei com boa vontade com estes que tenho, e 
posto que soldo náo haja, eu o darei aos meus da 
minha casa.» 

E desto foi o Conde mui ledo, agradecendo-o 
muito a Martim AlTonso ; e estas razões que lhe 
ellc disse, souberam logo os do conselho que o con- 
tradisseram, de que se muito arrependeram, por- 
que bem viram que segundo o caminho que Mar- 
tim AlTonso abrira tal ida já não podia ser torvada. 

O Conde mandou logo pagar soldo a essas gen- 
tes que com elle eram, posto que fosse de pou- 
cos dias, e partiu-se logo com vinte lanças, não 
mais, indo com elle Martim AtTonso, com todos os 
seus, e assim chegou ao Crato pêra recolher os ou- 
tros que iam após elle, e achou alli D. Álvaro Gon- 
çalves Camello, priol que não havia visto depois 
que fugira da prisão de Coimbra, e ordenou de o 
levar comsigo pêra o fazer ver a el-rei e reconci- 
liar com ellc, c foi aconselhado por Martim AfTonso 
que não fiasse delle, porque entendia que não 
amava o serviço del-rei, mas muito pelo contrario. 

O Conde disse que assim o faria, porém levou-o 
comsigo até Niza, e des-ahi a Castello Branco, e 
assim depois todo o caminho, e elle naquelle lo- 
gar achou recado que o infante era em termo de 
Covilhã, que eram d'alli sete léguas, de que foi mui 
ledo; e assim era de feito que ellc estava n'aquella 
comarca, e d'alli escrevia suas afincadas cartas a 
muitos do reino secretamente, fazendo-lhe saber 

3ue a rainha D. Beatriz por outorgamento d'el-rei 
e Castclla pozcra todo direito que de Portugal 



Chronica dEl-Rei D. João 1 23 



tinha, em elle, e que elle vinha em nome e titulo 
de rei com todos os portuguezes que em Castella 
andavam, que lhe beijaram a mão por seu rei e se- 
nhor, com outras muitas e boas gentes que lhe el- 
rci de Castella dera, que em sua companha vinham, 
rogando-lhes que elles assim o fizessem, e fariam 
em ello direito, e o que teúdos eram de fazer, e 
que lhes promettia como rei, que era, de fazer mui- 
tas mercês e grandes acrescentamentos. 

Mas por todo esto, nem outras boas razoes que 
em suas cartas escrevia, ninguém se vinha pêra 
elle; e logo sem mais tardança enviou uma carta ao 
infante, cujas razoes eram estas: 

— «Senhor. Nuno Alvares Pereira, Conde de 
Barcellos e d'Ourem, e d'Arrayolos, Condestabre 
por meu senhor el-rei de Portugal, e seu mordomo 
mór, me encommendo em vossa graça e mercê, e vos 
faço saber que a mim me é dito que vós sois vindo 
com muitas gentes ao reino de meu senhor el-rei a fa- 
zer em elle guerra e mal e damno, e ainda o peior 
que é que por onde vindes vos chamaes rei de 
Portugal, de que me muito maravilho, e parece-me 
que se de vosso conselho só tal nome tomastes, que 
o devereis melhor de cuidar, e se vol-o outrem con- 
selhou, emendo verdadeiramente que pêra homem 
de vosso estado é cousa feia e vergonhosa, e po- 
rém eu sentindo estas cousas que são contra o ser- 
viço d'el-rei meu senhor, sou vindo a esta terra 
pêra vol-o contrariar com a ajuda de Deus, e hoje 
á feitura d'esta carta cheguei a Castello Branco, e 
envio-vol-o a dizer por serdes d'ello certo, e rogo- 
vos e peço-vos que não hajaes por nojo de vos um 
pouco deter, porque Deus querendo, eu serei daqui 
a breve espaço comvosco.B 



24 Bihliotheca de Clássicos Portuguei^es 



Escripta esta carta, mandou-a o Conde por um 
seu crendo á Covilhã, onde sabia que o infante es- 
tava; e não indo o men«tageiro duas léguas de Cas- 
tello Branco, ao Conde chegou recado daquelle 
legar e doutros que o infante com os que trazia, 
como souberam que elle ia a elles, que logo de- 
ram volta e se tornaram pêra CasttUa, e que não 
havia porque ir mais a trabalhar; e assim foi 
d'aquclla guisa, que tanto que este infante, e aquel- 
les que com elle vinham, ouviram novas da partida 
do Conde quando moveu de Évora pêra ir contra 
elles, que logo foi sabido onde cada uns andavam e 
haviam accôrdo, que pois o Conde ia a elles assim 
depresssa cora trigosas jornadas, que se não escu- 
sava de haverem batalha, c vieram-se pêra o infan- 
te, e vistas por elle taes novas de que descuidado 
estava, maravilhou-se muito, ca elle pensava que 
por a muito boa gente que trazia, que não se atre- 
vesse nenhum a pelejar com elle, ainda que fosse 
el-rei, sem primeiro juntar todo o reino. 

E havido sobre esto conselho, diziam alguns que 
o attcndesscm, e que vencendo-o, como era de 
cuidar, vistas as boas gentes, e muitas, que trazia, 
que era bom começo de sua entrada e azo grande 
pêra se virem muitos do reino pêra elle, e outras 
taes razões em que se accordavam os mais dos 
poriuguezcs. Outros fidalgos castcllãos que vinham 
com elle, dos que foram na batalha real, e delles 
nas do Condestabre e já eram escarmentados, não 
se outhorgavam em tal feito, dizendo que elles fo- 
ram já juntos por vezes com ajuda de gentes es- 
trangeiras a pelejar com os poriuguezes, e em quan- 
tas batalhas houveram com elles sempre foram ven- 
cidos. 



Chronica dEl-Rei D. João 1 25 



—Pois como aguardaremos nós, diziam elles, esses 
que vêem a passos contados, sem rei nem infante 
que lhes dê trigança ? , • - 

— Digo-vos que o não havemos por bom sizo, nior- 
mente que de quantos recados este rei D. Diniz 
mandou pelo reino, nunca vimos um que se pêra 
elle viesse, e que porém pelejar com eile, nem es- 
perar sua batalha, que lhe não parecia razão; e 
assim se partiram todos pêra Castella com seu rei 
novo que traziam; e ao Conde pezou muito d'esto e 
a quantos iam em sua companha, e ordenou de se 
ir a Tuy pêra el-rei, que o mandara chamar, e man- 
dou tornar Martim Aífonso com certas gentes por 
guarda da comarca de riba d'()diana, e elle foi-se 
com mil e dozentas lanças á Covilhã e d'ahi á 
Guarda, que eram seis léguas, por folgar alguns 
dias do trabalhoso caminho que elle e os seus le- 
varam por chegar a aquellas gentes, as quaes de- 
pois que foram em Castella, e o infante ia ao paço, 
os rapazes que estavam nas bestas dizem que nao 
quedavam de lhe chamar apupando: — i^ez, o/^rfe 

Onde sabei que assim como foram mandadas 
cartas por todo o reino de Castella que se fizessem 
prestes, como já dissemos, assim foram enviadas 
outras a Santander, terra de Biscaya, que á pressa 
com grande aguça ordenassem as mais naus que 
ahi houvesse, e algumas galés com ellas. 

Isso mesmo D. Diogo Furtado de Mendonça, 
almirante-mór de Castella, trabalhou em Sevilha de 
armar mui toste dessas galés que ahi eram, e na- 
vios que achou, e foram armados treze, e outros 
tantos navios, e cm Biscaya vinte e sete e duas ga- 
lés, que foram por todos quarenta, entre naus c 



20 Dibliotheca de Clássicos Portugueses 



barcas, e quinze gales, e todas se haviam d'ajuntar 
no porto de Lisboa, onde chegaram, lançando al- 
guns trons em direito da cidade, sem empecimento 
que fizessem, e tornaram-se a Restello, meia légua 
da cidade, e a gente foi tanta que sahiu da cidade, 
de pé e de cavallo, por guarda da Ribeira, que até 
Cascaes, que são cinco léguas, todo era guardado 
de noite e de dia, que somente a agua não podiam 
as galés daquella parte filhar, e não fizeram, nem 
lhe foi feito cousa alguma que de contar seja, e 
jouveram alli alguns poucos de dias, e foram-se. 



CAPITULO CLXXV 

Como el-rei combateu Tuy^ e tomou a cidade por 
preite\ia. 

FICOU cl-rei, como dissemos, corregendo a escala, 
quando os de Tuy mandaram recado que lhes 
accorressem, e emquanto passaram estas cou- 
sas que ouvistes, correu bem dois mezes, no qual 
tempo continuou el-rei sobre ella seus guerreiros 
trabalhos, que foram d'esta guisa. 

Soube por novas, das gentes que de Castella par- 
tiram com Ruy Lopes d'Avalos, que se vinham che- 
gando por onde elle estava, c quando foi certo que 
eram tão peno dclle, pouco mais d uma jornada, 
tendo já divisado o campo muito acerca da cidade, 
mandou tornar todas as barcas da passagem da 



Chronica dEl-Rei D. João 1 2j 



parte d'além pêra sua terra, defendendo, sob pena 
de morte, que não fossem lá mais pêra trazer ne- 
nhuma pessoa ; em esto, ante nem depois, não ces- 
savam corredores estenderemse pela terra a trazei 
mantimentos sem receio dos moradores da comar- 
ca, e das gentes que assim vinham, ás quaes os 
cercados fizeram saber toda a maneira em que es- 
tava seu feito, e como el-rei aguardava já dias ha- 
via, mostrando que d'haver batalha com elles lhe 
prazia muito, tendo já escolhido o campo, e que 
viessem bem apparelhados pêra pelejarem, mos- 
trando isso mesmo os do logar grande esforço, ten- 
do conselho por este modo: que como el-rei moves- 
se pêra a batalha, que sahissem todos a queimarem 
os engenhos e escala, e corrigimento do arraial. 
Chegou-se tanto Ruy Lopes d'Avalos com as gen- 
tes que trazia, que não era já meia jornada do ar- 
raial. 

Entendendo el-rei a arte com que o enganar que- 
ria, e elle estando assaz cuidadoso da maneira que 
sobre ello haviam de ter, chegou-lhe recado certo 
que aquellas gentes se foram caminho de S. Paio, 
uma pequena aldeia seis léguas donde elle estava, 
e ali eram aposentadas, e apalancada a ponte por 
não receberem damno, e assim era de feito, que 
elles dormiram ahi aquella noite, e o outro dia par- 
tiram pêra Pontevedra, que era dalli duas léguas, 
onde estava o arcebispo de Santiago, em que não 
acharam bom acolhimento, porque trazia era von- 
tade de se lançar em Portugal, como depois fez, c 
assim se tornou aquelle ajuntamento grande sem 
mais aproveitar a Tuy d'esto que tendes ouvido. 

A' véspera de Santiago, que eram vinte e quatro 
do mez de julho, ordenou el-rei de combater a ci- 



28 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



dade, e movida a ala e escala, chegaram ao muro, 
e besteiros e peões onde lhe era divisado, faziam 
todo seu poder; e a escala pousou em uma torre, 
e os de dentro pozeram em ella fogo que se não 
poude supportar, e entonce trabalharam os de fora 
rijamente por arredal-a d'alli, e em esto tirou de 
dentro aquelle pequeno engenho que tinham, e uma 
pedra deu na escala e outra na arca da ala, que 
pareceu que toda era quebrada, mas não foi o dam- 
no tanto como pareceu no som do quebrar, e ces- 
sou o combate. 

Por tal azo ficou el-rei mui annojado, e os de den- 
tro mui alegres, pensando que não tornassem mais 
a combater, por estes contrários aquecimentos. 

Mas essa noite não cessou el-rei de mandar cor- 
reger aquelles fracos quebramentos, e foram mui 
bem adubados. 

Em outro dia, vinte e cinco do mez nomeado 
de quatrocentos e trinta e seis, que era festa de 
Santiago, não pensando os da villa, nem os do ar- 
raial, que ahi houvesse d'haver combate, mandou 
el-rei dar ás trombetas, e mover a escala e fazer 
todos prestes pêra combater como no dia passado, 
c os engenhos não quedassem de tirar, e pousou 
a escala em cima da torre, e os que n'ella estavam 
com lanças d'armas aos de cima, e os da escala a 
elles ás pedradas e bestas de torno, faziam grão 
damno com elles, de guisa que lhes faziam desam- 
parar o muro e a torre, c mataram com uma setta 
o mestre que tirava com o engenho, e o primeiro 
que nella faltou foi um escudeiro chamado Vasco 
Farinha, que depois foi como conde D. Affonso fora 
da terra quando foi com sua irmã, que cumpre con- 
tar mais pelo meudo, que foi o combate tamanho 



Chronica d'El-Rei D. João 1 29 



que desesperaram de se defender, e começaram de 
bradar que estivessem quedos, que se queriam 
preitejar. E sahiu Pêro Fernandes d'Andrade fora, 
e foi fallar a ei rei, e fincando os joelhos em terra 
disse que lhe pedia por mercê que se soffresse de 
mais combater, que lhe queriam leixar o logar» 
léixando-os ir com seus corpos, armas e haveres. 
E que lhe não devia de ter a mal de se defen- 
derem, por sua honra ser guardada, e outras ra- 
zoes. 

El-rei disse que não havia por mal de defende- 
rem a cidade, por guarda de sua honra, e serviço 
d'el-rei seu senhor. Mas gentes que em tão desme- 
suradas palavras se soltavam, como os que den- 
tro jaziam, que não havia mister outra preitezia, 
salvo tomai os por força, como elle já tinha pres- 
tes, e cortar lhes as cabeças com as linguas, pêra 
mais não pairarem em outro logar. 

A esto respondeu Pêro Fernandes tão humil- 
dosamente e com tão mesuradas palavrns que as 
suas afincadas preces e por alguns seus não rece- 
berem cajão na entrada por força, lhe outorgou 
que se fossem em salvo com suas armas, e os 
bens ficassem a sua mercê. 

Entonce lhe beijou as mãos, e tornou-se pêra 
dentro, e assim cessou o combate. 

Em outro dia ordenou el-rei de entrar na cidade, 
e João Gomes da Silva, que era alferes, subiu pela 
escala com a bandeira d'el-rei tendida, e muitos 
com elle, lodos armados com lanças nas mãos e 
bacinetes postos, e assim entrou a bandeira muito 
acompanhada por cima do muro, com muitas trom- 
betas e pipias, e outras alegrias. E ao pé da escala 
ante que a bandeira fosse, fez el-rei cavalleiro seu 



3o 'Bibliotheca de Clássicos Portuguc:{es 

filho D. AíTonso, e d'oatros bons até seis ou sete, 
e depois que a bandeira andou pelo muro a redor, j 
entraram na sé, e puzeram-n'a em uma alta torre 
d'ella. 

Isso mesmo Gonçalo Vasques Coutinho entrou 
pela porta, que chamavam da Pia, com muitos 
homens darmas e assim outros fidalgos, e foi co- 
brada d'esta guisa. 

Na sé foi achada muita riqueza, porque quantos 
moradores havia na cidade e termo d'elia, todos ali 
tinham o seu ; e quando se houveram de partir, 
requeriam que Ih o dessem. 

El-rei disse que tal não promettera, mas dissera 
que os bens ficassem á sua mercc, e a sua mercê 
era de os haverem os seus. 

Entonce se foram todos sem lhe fazerem nenhum 
desaguisado, somente apupavam-lhe escarnecendo 
delles, e não mais. 

El-rei leixou no logar por fronteiro Lopo Vas- 
ques, commendador-mór d'Aviz, e deu-lhe a rique- 
za que ahi foi achada, pêra elle e pêra os que com 
elle ficaram por guarda do logar, c leixou ahi os 
engenhos e os outros artifícios de combater, e tor- 
nou-se ao Porto, onde estava a rainha sua mulher, 
e alli o veiu a ver aforrado, de Vizeu onde estava 
com cincoenta, não mais, Nuno Alvares, seu Con- 
destabre, e cl-rei o sahiu a receber, e a seu rogo 
foi reconciliado na mercê d'el-rei o Prior D. Álvaro 
Gonçalves, que dias havia que o não vira. 



Chronica d'El-Rei D. João 1 3i 



CAPITULO GLXXVI 

Como os de Serpa entraram por Castella^ e do que 
lhes aconteceu. 



DEPOIS d'esta vinda de Tuy, no mez de de- 
zembro da era nomeada, souberam parte 
Diogo Nunes de Serpa e Gonçalo Vasques 
de Mello, o moço, alcaide d'esse logar, e Álvaro 
Mendes de Beja como em Castella, na serra de 
Revoredo, acerca de Cortegana, andavam bem 
cinco mil vaccas, e fizeram sua falia todos trez que 
fossem alá o mais encobertamente que ser podesse 
pêra trazer aquelle gado com algum outro roubo, 
se o achassem; e ajuntaram suas gentes, a saber: 
noventa lanças, os vinte e dois d'elles bacinetes e 
cotas, e os outros as cotas taes á guisa de corredo- 
res, e cem homens de pé e dez besteiros de monte, 
e partiram do logar um domingo de madrugada, 
que eram vinte e seis dias d'esse mez, e foram 
logo em esse dia descobertos por esta guisa : 

Jazendo clles em um valle escuso, que chamam 
a Coelheira, poendo cevada ás bestas, passavam por 
cima da serra d'esse valle doze de cavallo casiellãos 
que levavam gado de Portugal; e viram-nos jazer, 
e leixaram o gado que levavam, e foram-se á pres- 
sa a dar novas a Arrunche, a Diogo Garcia de Val- 
dez, alcaide desse jogar, e des-ahi a Freixinal e a 
Cortegana, e a Aracena e Rio Frio, e ds Naves de 
Sevilha e a todos os logares por alli de redor como 



32 "Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



viram alU jazer aquellas gentes para entrar por 
Castella. 

E elles não sabendo esto, partira -se ci'aUi e fo- 
ram assim todos juntos até além de Arronche, e 
d'alli se partiram em três partes, a saber : 

Gonçalo Vasqucs a Cortegana, e Diogo Nunes a 
Galarosa e a Rio Frio, e Álvaro Mendes ás Navas 
de Sevilha, e que em outro dia se ajuntassem todos 
em um logar que entre si divisaram, com aquella 
aventura que lhe Deus a cada um quizesse dar. 

E Gonçalo Vasques chegou sobre Cortegana bem 
cedo ante manha, cuidando de precalçar os do arra- 
balde nas camas, e porque os do logar sabiam já 
d'elles parte, acharam-nos com as lanças nas mãos, 
bem trezentos entre homens de pé e besteiros, e 
maravilharam-se de os acharem assim percebidos, 
e escaramuçaram com cUes assaz rijamente, e pren- 
deram dous d"elles, os quaes lhe disseram como já 
eram descobertos, e a maneira como o foram; pêro 
por todo esso não leixaram com clles de pelejar em 
tal guisa, que por força lhe tomaram quinhentas, 
entre cabras e ovelhas, e quizeram poer fogo ao 
arrabalde, e os do logar lhe rogaram que o não fi- 
zessem, e que lhe dariam duas carregas de pão e 
de vinho, e elles porque sabiam que eram já des- 
cobertos, por se não deterem não curaram do que 
lhe davam nem de o poer, e foram-se e correram 
toda a terra de Reborcdo, cuidando que achassem 
o gado porque iam, e cllc era todo arredado d'alli, 
salvo que acharam quarenta bois darado, que fi- 
caram por esses montes espalhados, c vieram-se 
com elles áquelle logar onde se haviam dajuntar 
todos, e elles alli, acerca da noite viram vir gentes 
por uma serra; cuidando que eram castellãos pozc- 



Chronica d El- Rei D. João I 33 



ram-se logo á batalha, todos pé terra, e elle era Dio- 
go Nunes com suas gentes, q^xe vinha de correr, e 
não trazia mais que dez cabeças de gado e sete pri- 
sioneiros, porque toda a terra achara já guardada, 
e elles folgaram muito com elle. E sendo já de todo 
noite hi veiu Álvaro Mendes, e cuidando que eram 
castellãos, fizeram-se prestes assim como antes, e 
quando o conheceram folgaram muito mais, pois já 
eram todos juntos, ca elles bem sabiam que gentes 
vinham apoz elles, mas não sabiam quantos, nem em 
que logar eram ; e jazendo alli em aquelle logar, vie- 
ram villãos de noite pêra ver se lhe podiam furtar 
os gados, e foi grande alvoroço entre elles, cuidando 
que eram as gentes que apoz elles vinham, e alça- 
ram-se muito azinha e souberam que não era nada, 
e tornaram se a dormir. 

Em outro dia, á quarta-feira, partiram-se todos 
d'alli, e andaram quatro léguas ; e porque as inver- 
nadas eram grandes e não podiam passar as cabras 
e ovelhas, mataram-n'as todas, e comeram d'ellrs as 
que quizeram, e as outras leixaram mortas, e os 
castellãos chegaram aquella noite acerca d'elles, e 
houveram seu accordo que dessem sobre elles de 
noite, e que assim os poderiam mais ligeiramente 
desbaratar; des-ahi disseram: 

— «Não é bem, que se dermos em elles de noite, 
pode ser que cuidando que matamos aos outros, 
mataremos a nós mesmos.» — 

Os portuguezes houveram entre si conselho, que 
pois descobertos eram, que seria bem andarem de 
noite pelo luar. Depois accordaram que não andas- 
sem de noite, porque qualquer cousa que ihe aviesse, 
melhor era de lhe acontecer de dia que de outra 
guisa. 

FOL, a voL. vn 



34 Btbliotheca de Clássicos Poríuirue:yes 



E assim dormiram aquella noite bem acompanha- 
dos de lobos que se achegavam ás carnes mortas, 
náo sabendo parte de que seus inimigos eram tão 
perto d'eiles. 



CAFMTULO CLXXVII 

Como os poi-tUi!,iic-t's pelejaram com os castellSos e 
os i^enceram, no anuo de mil quatrocentos e trinta 
e sete. 



EM o outro dia, quinta-feira, que era primeiro dia 
de janeiro em que se começava a era de mil 
quatrocentos e trinta e sete annos, começaram 
os portuguezes dandar seu cammho com o gado e 
treze prisioneiros que levavam, por se chegarem a 
Portugal o mais azinha que podessem ; e indo ellles 
mui desfigurados á longa, viram e.^tar um cabeço e 
em elle trinta ginetes; e quando os viram, disseram 
entre si : 

^ — «Por certo as gentes que apoz nós vêem, estas 
são, c estas vieram a descobrir terra.» — 

E juntaram-se logo todos em batalha com as lanças 
levant^idas, por parecerem mais; e entonce se partiu 
Alvíiro Mendes com dez de cavallo pêra verem que 
gentes eram, e chegou-se a elles tanto, que o poderam 
ouvir; e dis-se : 

— «Que gentes sois vós outros, ou qual capitão é 
esse que ahi vem ?• — 

— eOs capitães, disseram elles, são taes os que 
aqui vêem, com o que vos hoje pesará. • — 



Chronica d'El-Rei D. João I 35 



E perguntaram os castellãos e disseram : 

— «E vós outros que gentes sois, ou que capitão 
é aquelle que vem alli?» — 

— «Vós sabereis hoje, disse elle, que os capitães 
que alli vêem, são taes com que vos prazerá pouco.» — 

E assim se espediu d'elles sem havendo ahi mais 
palavras ; e tornou-se pêra os seus, que não que- 
davam d'^ndar todavia com sua bandeira tendida 
dos signaes de Diogo Nunes, a qual levava um escu- 
deiro, creado d'el-rei, que chamavam Gomes Mar- 
tins; e logo acerca chegaram a um rio, que chamam 
Aguas de Mel, que é dentro em Oastella, e o rio ia 
cheio em tal guisa que nadavam os cavallos, e pas- 
saram o gado, e des-ahi elles todos. 

Os castellãos quando viram que se elles lançavam 
ao rio, cuidando que fugiam, descobriram-se de todo, 
e os portuguezes, como foram da parte áquem do 
rio, e transpozeram um cabeço que chamavam de 
Bramadeira, e foram em o valle, pozeram-se logo 
todos pé terra com o rostro pêra onde elles haviam 
de vir, e ordenaram sua batalha em esta guisa: 

Pozeram a par da bandeira dez de bacinete de 
uma parte, e dez da outra, e os sem bacinetes com 
suas lanças a par d'elles, e os homens de pé e bes- 
teiros, tantos de uma parte como de outra, e os 
pagens, cavallos e gado, e prisioneiros, todos detraz 
si, por não darem os ginetes nas espaldas d'elles ; e 
elles postos assim em batalh9, e os castellãos pa- 
reciam todos em cima do outeiro, eram assaz de gentes 
pêra lhes tolher o roubo ; e assim vinham estes ca- 
pitães, a saber: — um cavalleiro, que fora aio de 
Dom Pedro F^once de Marchena, com as gentes e 
bandeira de Dom Pedro Ponce, e com todos os de 
Freixinal, onde clle estava por frontei''o ; e Diogo 



36 Bibliotheca de Clássicos Portuguesas 



Garcia de Valdez com o concelho de Arronche e 
com suas gentes que tinham na frontaria ; c João 
Martins Rabião e outros, que eram por todos tre- 
zentas lanças, e sessenta ginetes, e cem besteiros e 
oitocentos homens de pé: assim que eram mais de 
seis pêra um ; e como foram em cima do monte c 
os viram assim estar, deram a trombeta mui rija- 
mente, e não se moveram d'alli, e fizeram des ahi 
uma batalha, a maior que poderam, e estiveram 
assim um pouco; des-ahi juntaram-se todos e leixa- 
ram-se estar. 

Os portuguezes quando viram que não queriam 
vir a elles, enviaram a lá Vasco Kstevcs Godinho, 
commendador d'Ourique, e foi a elles e disse: 

— cAquelles cavalleiros que alli estão vos enviam 
dizer, que pois aqui cstaes, que vos apraza de lhe 
poerdes praça.» — 

— «Cavalleiro, disseram elles, vós dizei a esses ca- 
pitães que elles não teem ganho de um pouco de 
gado e prisioneiros que levam, que lhes apraza de 
nol-os darem, e des ahi que se vão á boa ventura. • — 

E elle veiu com a resposta, e elles disseram : 

— oTornade a elles, e dizei-!he que nós não lhe da- 
remos tão somente um rabo de vacca, nem um pri- 
sioneiro, mas ou que se percebam de virem a nós, 
senão iremos nós a elles.» — 

Quando elles e.«te recado ouviram, disseram : 

— fPois que assim é, dizei-lhe que se vão com 
Deus com todo o que levam, ca nós não queremos 
ir a elles.» 

— • Certamente, disseram os portuguezes, esto falso 
é, a mensagem não é verdadeira, ca não pôde ser 
tantas e tão boas gentes como aqui vêem, nos lei- 
xarem assim ir em salvo ; mas mandaram-nos dizer 



Chronica d'El-Rei D. João I Sj 



«sto pêra nos desbaratarem por arte, que tanto que 
nós formos desconcertados de como estamos, e nós 
quizermos partir-, que dêem em nós de roidao, e 
assim nos matem a todos, e detêem-nos em palavras 
por se chegar a noite e se ajudarem de nós.» — 

E assim, era de feito, ca elles entendiam de os to- 
mar ás mãos. e já traziam um taleigo cheio de cor- 
reias de cervo pêra os atarem a todos, e a esto dis- 
seram : 

— «Não seja assim; mas pois elles não querem a 
nós vir, nós todavia vamos a elles. e matemos estes 
prisioneiros que aqui vão, que quando começarmos 
a batalha não os soltem os outros, e nos ajudem 
estes a matar.» 

Des-ahi com piedade não o quizeram fazer, pêro 
assim acontfceu depois. 

Os castellãos, quando viram que elles em toda a 
guisa queriam pelejar, ordenaram sua batalha em 
uma az todos a cavallo, e quatrocentos homens de 
pé, e cincoenta besteiros a uma parte, e outros a 
outra, e os ginetes detraz. 

— «Ora, disseram os portuguezes, estas gentes 
que aqui vcem, todos viram divisados ; e porém 
cumpre de nos assignarmos pêra nos podermos co- 
nhecer.» - 

Entonce tomaram todos ramos de trovisco, e jiga- 
ram-n'os cada um onde havia gcito. E aqui é de 
notar como Deus os quiz guardar e lhe dar victoria; 
porque este mesmo cuido, e por esta guisa, o fizeram 
os castellãos ; assim que estes e a maior parte dos 
outros todos se assignaram d'aquelles ramos ; pero 
prougue a Deus que não morreu na batalha nenhum 
portuguez por azo d'cste assignamento. 

E esto todo feito, r.cndo já horas de meio dia, co- 



38 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



meçaram de se esforçar os portuguezes uns aos ou- 
tros, segundo o dia que era, e promettcr seus votos 
de sabor, como c de costume, antes que entrem ás 
batalhas. E des-ahi moveram logo a elles pelo monte 
acima dando á trombeta,^ chamando altas vozes: — 
Portugal^ 'P<)rtugal\ São Jorge ^ São Jorge. — 

Os cast-^llãos como os viram acerca de si, desce- 
ram a elles rijamente, bradando : — Castella^ Cas- 
tella ; Santiago. Santiago — e começaram a pelejar. 

Deram os ginetes dos inimigos nas espaldas d'el- 
les, e tomaram-lhe trinta cavallos, e mataram-lhe 
um pagem; e os portuguezes ao juntar das azes, 
derrubaram dos seus vinte de cavallo, e durou a 
batalha acerca de meia hora, e foram vencidos os 
castellãos; e mortos d"elles entre a batalha e o en- 
calço, de cavallo e peões c besteiros, dozentos e ses- 
senta e seis, e captivos doze, e dos portuguezes foi 
morto o commendador Vasco Esteves, e ferido Dio- 
go Lopes Sarrazinho; e um castellão que ia com os 
portuguezes quando se começou a batalha e se sen- 
tiu fendo, fugiu e veiu-se a Serpa, dizendo que to- 
dos eram mortos e desbaratados, pela qual cousa 
foi feito grande pranto no logar; e elles vieram em 
outro dia com grande ledice e prazer com a boa an- 
dança que lhe Deus havia dado. 



Chronica d' El- Rei D. João I 3g 



CAPITULO CLXXVIII 



Como el-rei de Castella mandou a el-rei de Portugal 
Micer Ambrósio com recado. 



JÁ vistes em seu logar, onde falíamos das tréguas 
que entre Castella e Portugal por quinze annos 
íoram firmadas, como em trez cousas estava sua 
força, segundo a forma dos trautos, a saber: 

Na entrega dos prisioneiros, e na satisíaçáo dos 
damnificados, e da penhora que uma das partes nos 
bens da outra podia fazer, sendo negligente em as 
cumprir; e como por não boa fé injustamente muitos 
portiiguezes foram reteúdos e não entregues, e dos 
damnificados nenhum satisfeito; e havendo el-rei so- 
bre esto conselho, achou que não somente podia fa^ 
zer penhora dos bens d'el-rei de Castella, mas ain- 
da, pois que elle promettera de livrar os prisionei- 
ros, e não os livrara, que era teudo a injuria que 
d'ellc cm tal caso os prisioneiros haviam recebido, 
a qual o senhor d'elles demandar podia perante quem 
d'ello fizesse direito; e pois el-rei de Castella nenhum 
maior que si tinha que o d'elle fizesse, que el-rei 
justamente lhe podia mover guerra, mormente pe- 
nhora cm seus bens, que era mais pequena cousa; 
e quando os castellãos quizessem dizer que tal to- 
mada de cidade ou villa, injustamente fora feita, 
pois era contra os trautos n'aquelle logar onde dizia 
durando assim o tempo das tréguas, el-rti de Por- 
tugal por si, nem por outrem não tomaram nem rou- 



40 Bibliotheca de Clássicos Portugue^^es 



baram cidade, villa nem castello, logar, terra, nem 
outra cousa dos reinos de Castella e súbditos d'elles, 
que lhe responderam com outra clausula d^onde fa- 
zia menção do soltar dos prisioneiros, que o rei a 
ello negligente, seu adversário, o podesse penhorar 
em tantos dos seus bens e dos seus súbditos, quanto 
montasse na preitezia que entre elles fosse firmada; 
e porque no geral nome de bens se entendiam mo- 
veis e de raiz. e villas e cidades, e quaesquer outros, 
que elle nos d'el-rei mais propriamente que em ou- 
tros, podia fazer penhora, e que o trauto dava lo- 
gar, que por esto se entendesse a trégua não ser 
quebrada, nem feita outra penhora a quem tal toma- 
da fizesse, ca não a tomava indevidamente por mo- 
do de propriação, mas por maneira de penhora, as- 
sim como faria um juiz execução por uma sentença 
em uma cidade ou villa de um devedor que a ou- 
trem fosse obrigado, não se diria por tal execução 
tomada nem roubada aquella villa; e que as repre- 
sarias direitamente feitas em logo de execução de sen- 
tença eram havidas; assim, que vistas estas razoes, e 
outras m.ais que acharam por direito, ordenou elrei 
de tomar Badalhouce, e quizera tomar Albuquerque, 
por cujo azo foi britada a trégua da parte de Cas- 
tella, assim na tomada das naus que de Génova vi- 
nham, como em frota, que caladamente foi armada, 
e damnos que se em Portugal fizeram, aos quaes el- 
rei tornando, começou-se de accender a guerra. 

Em esto foi novamente entre os reis ordenado 
outra convença, posto que d'ella menção não fizés- 
semos, e esto, por todo saberdes, a saber: 

Que el-rei de Castella desse cincoenta mil dobras 
a el-rci de Portugal, pagadas em certos termos, c 
mais as dcspezas que fizera na cidade de Badalhou- 



Chronica d El- Rei D. João I 41 



ce, e que fizesse soltar de seu reino todos os prisio- 
neiros portuguezes, enviando lá el-rei quem lhe prou- 
guesse pêra inquirirem onde estavam, e saber seu 
adversário quanto se fazia em tal requerim.ento, dã 
guisa que no primeiro trauto íôra ordenado, e sen- 
do el rei de Gastella a ello negligente, que pagasse 
por cada um portuguez trezentas dobras castellãs. 
E não sendo os prisioneiros soltos, nem as do- 
bras que em elles montasse pagas, que em tal caso 
Garcia Gonçalves fizesse preito e menagem de se 
poer em poder d'el-rei de Portugal até os prisionei- 
ros serem soltos, ou pagada a quantia que montas- 
se em todos; e mais que el-rei de Gastella quitava a 
el-rei e a seus súbditos toda a somma das sentenças 
que contra elles fora julgada; e isso mesmo el-rei a 
elle todo o que montasse n''aquellas que contra seus 
naturaes foram dadas, e as penas que por razão dos 
prisioneiros incorrido tinha. 

E assim o jurou el-rei de Gastella por sua real fé 
aos evangelhos, c os senhores e grandes de seu reino. 

E porque esta convença foi tão maFguardada como 
a primeira, começou-se outra vez a guerra, em que 
foram feitos estes e outros males como até aqui con- 
támos. 

Ora, vendo el-rei de Gastella como havia menos 
duas cidades de seu reino, a saber: — Tuy e Bada- 
Ihouce, e esio nos extremos d'ambas as partes, que 
era assaz odioso, dcs-ahi cuidando por muito que 
trabalhasse por ellas, que era duvida de as nunca 
cobrar, por o grande accorrimento que haver po- 
diam, pensou que a melhor maneira pcra se cobra- 
rem sem gasto e despesa, e perda das gentes, assim 
era mover a el-rei alguma tal avença em que se tra- 
tasse de lhe serem entregues. 



42 Bihliotheca de Clássicos Por tu guetes 



Entona fallou a um genoez que em sua mercê an- 
dava, homem discreto e entendido, chamado Micer 
Ambrósio de .Marines, a maneira que em esto tives- 
se, e mandou o a Portugal por embaixador, o qual 
chegou ao Porto, onde el-rci estava, e bem recebido 
d'elle, vieram as suas falias, nas quaes o genoez mos- 
trou concluindo que por serviço de Deus, e prol de 
seus reinos, e por se escusarem tantas mortes e per- 
das, e outras que sobrevir podiam, que elle tallara 
a el-rei seu senhor mui largamente sobre esto, e que 
a melhor maneira que por elles fôra achada assim 
era : 

Que todos os debates e querellas que um rei do 
outro houvesse, que fossem postos em mãos de 
bons juizes alvidros que vissem os damnos diambas 
as p:irt"s por procurador de cada um mostrados, e 
que elles os determinassem segundo Deus e suas 
consciências, na melhor e mais breve maneira que 
se fazer podesse, tratando entre elles trégua ou paz, 
como por bem e proveito do povo, e serviço de Deus 
entendessem; e que se em esto outorgar quizessem, 
que elle trazia firmadas tréguas entre elle e el rei seu 
senhor por um mez e meio, pêra se poderem escolher 
os alvidros, e serem juntos onde se esto houvesse de 
tratar. 

E el-rei sabendo o direito que tinha, e por dar lo- 
gar a todo bem e assocego, disse que lhe prazia, e 
pois elle tanto bem fallava acerca destes feitos, que 
elle era contente que elle fosse um d'clles. 

Micer Ambrósio lhe teve em mercê fiar delle tan- 
to, e concordaram logo que D. Nuno Alvares Perei- 
ra, seu Condestabre, e Dom João bispo de Coimbra, 
que depois foi Cardeal, fossem por sua parte juizes, 
c de (yastella viessem Dom Lourenço Soares de Fi- 



Chronica d' El- Rei D. João I 48 



gueiroa, mestre de Santiago, e Ruy Lopes de Ava- 
les, Adiantado de Murcia e camareiro mór d'el-rei, 
e mais aquelle Micer Ambrósio. - 



CAPITULO CLXXIX 

Do poder que el-rei deu ao bispo de Coimbra e ao 
Conde ^ e como se viram o mestre de Santiago e 
Ruy Lopes. 

PARTIU o genoez pêra Castella, e el-rei escreveu 
logo ao Condestabre, que áquella sazão estava 
em Évora, todo o que lhe aviera com elle e com 
que recado se expedira, e que porém cumpria que se 
fosse a Olivença, onde elle e o bispo de Coimbra 
por sua parte haviam de estar, e quaes de Castella 
haviam de vir a Villa Nova de Barcarrota, pêra d^ahi 
tratarem seus feitos, segundo o poder que lhe dado 
fosse. 

Como o Conde tal recado viu, começou de se fa- 
zer prestes com quinhentas lanças bem carregidas, 
e encavalgados, e com elle o bispo de Coimbra, e 
em sua companha haviam de ir Ruy Lourenço, ba- 
charel em degredos, e outro famoso lettrado, que 
chamavam Álvaro Pires Escolar, pêra por parte d'el- 
rei mostrarem os aggravos que de seu adversário 
havia recebidos; e o poder que levavam e que el-rei 
outorgou a todos, posto que a alguns pareça sobejo 
escripto ser brevemente tocado, era este : 

fQue elle em seu nome e de seus herdeiros com- 
promettia e dava poder a todos cinco como alvidros 



44 Bihliolheca de Clássicos Portugueses 



bons varões amigáveis compoedore55 sobre todas as 
demandas, questões, discórdias e brii;as da guerra 
em que postos eram, elle e seu adversário, e sobre 
todai> :ís cousas que d'clla nascer podessem e espe- 
ram ser, por qualquer guisa que um ao outro fosse 
obrigado; e que clles todos, nenhum desvairando, 
summariamer.te, sem outra figura de ju:zo, ora fos- 
sem os reis, e seus procuradores presentes, ou dado 
que o não fossem, podessem concordar e determi- 
nar os males, damnos e roubos que um rei ao outro 
era teudo, e os fazer amigos como quizessem e por 
bem tives- cm, e que podessem tirar d entre elics toda 
a inimizade c malquerença, e poer tréguas ou paz por 
sempre, qual lhe melhor parecesse; c q c não nppel- 
lassem nem aggravassem de quanto elles em uma con- 
córdia mandassem, sem mais reclamação que so- 
bre ello fazer podessem, nem por razão de scisma, 
nem de suspeição nem J outro qualquer ceincdio que 
lhe por direito, assim canónico coir.o civil, fosse 
dado, sob pena de pagar cem mil marcos d ouro 
quantas vezes fosse contra r> que os ditas alvidros 
mandassem, que e elles a podessem executar: e 
posto que os quatro accord issem, e um d'elles não, 
que .-eu accordo fosse nada, e se todos accordassem 
em algumas cousas, e não em trégua ou perpetua 
paz, que tal accordo não valesse, e se por ventura 
não concordassem cm sua vontade, e quizessem es- 
colher outro que os concordasse, que o não podes- 
sem fjzer, salvo se pelos reis elegido fosse, e que 
nenhum prehuio nem papa não podesse constranger 
os que desaccordassem, pêra concord ir ,-.^m os ou- 
tros. 

K porque pêra tratar tamanha coii>a, como era 
trégua ou paz entre os reis, vendo seus grandes 



Chronka d''El-Rei D. João I 48 



queixumes, convinha tempo d'assocego sem outra 
discórdia entre os povos, ordenou el-rei uma abas- 
tosa soffrança de guerra, a qual se publicasse na ar- 
raia, entre Castello Kodrigo e São Felizes no come- 
ço do mez de janeiro do anno que havia de vir, de 
mi! quatrocentos e trinta e sete, e esto que conta- 
mos era em dezembro, a qual durasse até março 
meado; e com este cargo que dizemos, partiu o Con- 
de e o bispo e foram-se a Olivença; e aos oito dias 
de fevereiro, que er* o praso certo que todos ha- 
viam de ser postos nos logares nomeados, chegou o 
mestre e Pvuy Lopes a ViUa Nova de Barcarrota com 
similbante poder e soffrença de guerra, e com elles 
Micsr Ambrósio, pêra estarem em qual dos logares 
quizessem, e mais Pêro Sanches, doutor em leis, que 
vinha por procurador, que se não vieram áquelle dia 
que era ordenado, que tal softrença de guerra não 
valesse. E como alli foram, a primeira cousa que se 
failou.^ por Micer Ambrósio, que andava entre elles, 
foi que se vissem uns com os outros, e dois cavallei- 
ros com elles, e afora estes, trouvessem cada uns cin- 
coenta de cavallo com cotas e braçaes de sua parte. 
O (^onde, o dia que se haviam de ver, cavalgou 
em um grande e formoso cavallo com cota e bra- 
çaes, e uma jaqueta preta e arnez de pernas de ma- 
lha, sob umas botas, e um cutello na cinta solto, 
levando comsigo Gonçalo Annes de Abreu, e Pedro 
Annes Lobato e mais de cincoenta, entre cavallei- 
ros e escudeiros, isso mesmo com cc tas e braçaes, 
e espadas e adagas; e Martim Gonçalves, tio do 
Conde, ficava com as outras gentes em Olivença 
pcra se ir pêra elle, se tal cousa recrecesse; e aquella 
ribeira onde as falias haviam de ser, partia se em 
duas partes n'aquelle logar, e em meio um ilhéo pe- 



46 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



queno de boa e graciosa verdura, e alli foram jun- 
tos, na maneira que dissemos, todos oito; e os outros 
cincoenta cada uns da parte de seu reino attastados 
um pequeno espaço, avisados porém os do Conde 
que tivessem olho em elle, que se alguma cousa en- 
tre elles recrccesse, que acudissem logo alli ; e abra- 
çando se o Conde e os outros senhores, des-ahi os 
cavalleiros uns com os outros, começaram de fallar 
n'aquello por que alli vieram, e departiram em ello 
por grande espaço, e acabadas suas falias, tornou-se 
o Conde a Olivença, e mandou convidar a mór parte 
dos grandes que com o mestre e Rey Lopes esta- 
vam, e fez uma falia assaz honrosa e mui abastada, 
e tornou-se pêra onde haviam de estar d'assocego. 



CAPITULO CLXXX 

Do que se começou de fallar perante estes alvidros 



POIS trouvemos aqui estes juizes pêra pocr con- 
córdia entre os reis, razão nos parece dizer 
ylgum pouco do que se perante elles tratou, 
c que fim houve tamanho negocio, e esto mui breve, 
por não mostrar destemperada perlonga, onde assim 
foi que porque a todos bons juizes pertence sem 
afíeição proceder nos feitos que hão de julgar, e por 
sua iníormação haver comprido conhecimento das 
qucrcllas e direito que as partes que em elles com- 
promettem tccm. conveiu aos procuradores que alli 
eram, mostrar entre elles todo o direito que cada um 
rei contra seu adversário tinha ; e fallando o Doutor 



Chronica d'El-Rei D. João I 4j 



Pêro Sanches por parte d'el-rei seu senhor das sem- 
razÕes que lhe foram feitas pelos portuguezes, co- 
meçou tão longe seu razoado con-jo os que pregam 
da Vera Cruz vão buscar á bocca de Adão aquelle 
pau de que foi feita, e elle por multiplicar aggravos 
fez alicerce á sua querella nas tréguas que se fizeram 
em Monsão entre Portugal e Castella em vida d'el- 
rei Dom João, padre d'este rei D. Henrique, que 
entonce reinava, contando como el-rei de Portugal, 
estando n'aquellas tréguas, tratara de casar sua filha 
bastarda que tinha, com o duque de Benavente, e o 
induzira que fizesse guerra a el-rei de Castella e se 
levantasse contra elle, quebiantando com esto as 
tréguas, e não as querendo guardar, e as!=.im outras 
razões de fraco fundamento, de que se logo leixou 
descahir, e veiu ter na tomada de Badalhouce, e 
allí lançou ancora e se amarrou o mais ^rme que 
poude, dizendo que durando aquellas tréguas de 
quinze annos, el-rei mandara tomar Badalhouce e 
quizera filhar Albuquerque, contra a forma do trauto, 
se o fazer poderá, e portanto elle fora o quebranta- 
dor d'ellas, e elrei de Castella justimente se movera 
a lhe fazer guerra, ca elle não fora devidamente re- 
querido sobre o soltar dos prisioneiros, e que pois 
especialmente era defeso que se não tomasse villa 
nem cidade, posto que se dissesse geralmente que 
se podia fazer tomada em bens, que se não enten- 
dia em taes bens que fosse cidade ou fortaleza, ca 
não era de presumir que el-rei de Castella obrigasse 
a cidade de Badalhouce c,ue estava no fim do seu 
reino, e que as clausulas de penhora cm seus bens 
e de seus súbditos, se entendia em outros bens, e 
não cidade, villa ou castello, nem se podia fazer pe- 
nhora pelas sentenças e sommas d'ellas, senão nos 



48 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



bens dos súbditos, segundo as palavras dos trautos, 
e outras tantas razoes guarnecidas de direito a seu 
propósito estorcidas. 

A' primeira das trez razoes dVstas foi por parle 
d*el-rei respondido que o contrario se provaria tam- 
bém por frades que os andaram buscando, como 
por outros q .e fizeram fazer taes requerimentos e 
publicas escnpturas, da denegação da justiça que se- 
gundo dito, e era abastante prova. 

A' segunda : que pois que se nos trautos dispunha 
que se podesse fazer tomada nos bens do dito ad- 
versário, que em cidade ou villa cercada se enten- 
dia, ca d'outra guisa não se poderia fazer penhora 
em seus bens, se se não fizesse cm villa ou outra 
fortaleza, porque os outros bens eram de seus do- 
nos, e não do principe da terra, salvo quanto é ao 
detendimento, ca el-rei de Castella não havia ne- 
nhuns bens de especial património, que se chamavam 
em direito bens de Gesar, e posto que os houvesse, 
seriam de maneira que se não poderia fazer em elles 
penhora senão de grande ventura, e onde nos trautos 
fazia menção que se não tomasse villa nem cidade, 
ou algum castello, entendia-se se o fosse mal e injas- 
tamente, mas bem e por penhora, tal cousa man- 
dava o direito, e o trauto a não defendia. 

A' terceira se respondeu assim : 

Que mais daria el-rei de Castella licença de lhe 
fazer penhora em aquella cidade que estava no ex- 
tremo dos reinos, que em outra que estivesse na 
metade delles, a qual se não poderia tomar sem ir 
a ella, com damno grande da terra em que estivesse, 
mormente que os logares que estavam no cabo do 
reino podiam-se possuir, e prescrever por tal pessoa 
que tivesse publica auctoridade, assim como era el-rei 



Chronica d' El- Rei D. João I 4g 



de Portugal demais, se os senhores, cujos eram taes 
legares, tiveram costume de fazer obrigações d^elles, 
e os penhorar, como já fizeram alguns reis de Gas- 
tei! a. 

Estas, e outras muitas razões, com direito allega- 
das, eram alli perante elles postas, por cada um que- 
rer r. ostrar que todo o que seu senhor fizera, fora 
bem e justamente feito. 



CAPITULO GLXXXI 

Das ra:^õss que os procuradores mostraram, cada um 
por parte de seu senhor. 

GASTANDo-SE O tempo em disputações que os 
procuradores dos reis a justificar suas cau- 
sas formavam, era já esto no mez de março, 
e aquelle Micer Ambrósio, que dissemos, veiu alli a 
Olivença, e disse : 

— «Que por quanto dambas as partes eram alle- 
gadas muitas razões, a cada um mostrar sua que- 
rella ser boa, e uma parte di/.ia que movera justa 
guerra, e a outra também que direitamente a fazia, 
e uns diziam que as tréguas foram quebradas por a 
parte adversa, outros que as quebrantara seu adver- 
sário, que por estas duvidas e todas outras virem a 
boa egualdade, que leixassem as disputações que 
tarde ou nunca haveriam fim, e tomassem outro 
modo de razoar chão, sem mistura de mais direitos, 
posto que algumas cousas já por elles allegadas re- 
plicassem cm seu fallamento ; c sendo todos concor- 



5o Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



dados em esto, foram dadas por parte d'cl-rei de 
Castella umas razões por seu procurador, cuja con- 
clusão, em breve, era esta : que el-rei de Portugal 
era teúdo a Iheentiegar logo a sua cidade de Bada- 
Ihouce, tal e tão boa como estava quando não devida- 
mente fora tomada por seu mandado, com o que 
fora achado e roubado em ella, que podia valer cem 
mil dobras castcllãs, e o damno que se depois se- 
guira aos visinhos d'ella por tal azo, que podia che- 
gar a outra tanta somma, e mais que lhe entregasse 
os arrefens que recebera por conservação das tréguas, 
e a cidade de Tuy, a qual contra direito tomara, com 
todos os males e roubos que n' lia e seu termo fo- 
ram feitos, os quaes damnos estimava serem satis- 
feitos não menos de sessenta contos de maravedis, 
que trinta c cinco valessem uma dobra castella, que 
era um conto setecentos e dezeseis mil dobras, os 
quaes contos el-rei de Castella havia despesos na 
guerra por azo de seu adversário; e os procuradores 
d'el-rei de Portugal, summariamente mostrando seu 
direito, apresentaram outi as entonce, que foram estas: 
— que sendo el rei seguro de seu adversário por azo 
das tréguas entre elles firmadas, que por sua parte 
foram induzidos cavalleiros e escudeiros, naturaes 
de Portugal, vassallos do dito senhor, que tinham 
castellos e logares da sua mão, de que lhe f.zeram me- 
nagens Bragança e o Mogadouro, e Vinhaes, e os en- 
tregctram a seu adversário, indo se pêra elle e serviam 
com elle; e mais que elle lhe tomara Segura e Picôa, 
fazendo taes fidalgos guerra de taes logares que ti- 
nham, e vindo ao leino por vezes por si e em compa- 
nhia o^outros, fazendo todo o mal e damnoquc podiam; 
isso mesmo sendo el-rei seguro e despercebido, ten- 
do que a trégua lhe fosse guardada, que seu adver- 



Chronica cPEl-Ret D. João I 5i 



sario armara uma frota e a enviara ao reino de Por- 
tugal por desvairadas partes, as quaes gentes fizeram 
damno e perda, e quanto mal podiam, tomando-lhe 
naus e outros navios seus e de seus naturaes, e que 
porém pediam que em qualquer accordo que entre 
os reis fizessem, que lhe mandassem entregar seus 
legares, e emendar os damnos e perdas que elle e 
seus naturaes por tal azo haviam recebidos. 



CAPITULO CLXXXII 



Uoutras ra^^óes dos jui\es alvidros por trazerem os 
reis a boa concórdia. 



LEiXADAS taes razões de uma parte e da outra, 
por ser em grat? perlonga que se escusar devia, 
o Conde e o bispo ordenaram outras por tra- 
zerem os reis a boa concórdia, as quaes, fallando 
muito breve, foram estas : 

Que a el-rei de Portugal fossem entregues as vil- 
las e castellos de seus reinos, que eram em poder 
de seu adversário e d'aquelles que se foram pêra elle, 
e mais que lhe fosse satisfeito n'aquello que mon- 
tava nas sentenças por os juizes dadas, e penas dos 
prisioneiros, e as dcspezas que se fizeram na guarda 
de Badalhouce, pois por penhora de taes cousas fora 
filhada; e porquanto os portuguezes que se pêra Cas- 
tella foram, deram azo á guerra e dariam ao diante, 
posto que paz ou trégua entre os reis houvesse, que 
porende entendiam que por serviço de Deus e assoce- 
go de taes feitos, que era bem de serem postos fora de 



5-2 Bibliothecã de Clássicos Portugueses 



Castella, ca d'outra guisa, em quanto elles assim an 
das.^-em, não viam razão como entre os reis podesse 
haver amisade nem fiança, honrando um os inimi- 
gos do outro, e ,que lhe entregassem livres e soltos 
todos os prisioneiros que foram presos na primeira 
guerra e em esta segunda., onde quer que fossem 
achados ; e mais as duas naus que vinham de Gcnoa. 
E que el-rei de Portugal entregasse a el-rei de Cas- 
tella a cidade de Badalhouce, pagando-lhe elle a 
quantia das sentenças e as penas dos prisioneiros, 
e o que se dispendera por guarda d'ella, e mais lhe 
entregasse a cidade de Tuy com os outros logares 
que do seu rei-.io cobrara, e isso mesmo os prisio- 
neiros que em seu reino fossem achados. 

Outrosim que todos os damnos e despeziis, c per- 
das e mascabos que se fizeram nas tomadas de 
quaesquer logares, assim de Badalhouce como dos 
outros, assim de um reino como do outro, que fos- 
sem quites de parte a parte; e que em feito dos ar- 
refens que lhe parecia bem, pêra sejíurança de taes 
feitos, como quer que da parte d'el-rei seu senhor 
fosse allegado que eram seus prisioneiros, que es- 
tivessem por arreíens assim como estavam, ou ou- 
tros da condição d'clles, também de Portugal como 
de Castella, com as condições das tréguas de quinze 
annos, em mão de um senhor em que ambas as par- 
tes consentissem, a aquellc tempo que entre elles 
fosse ordenado. 

Simiihavelmente o mestre de Santiago e Ruy Lo- 
pes d'Avalos fizeram outro escripto em que pozeram 
suas tenções acerca d'cstes negócios, por bem de 
concórdia e paz entre os reis, leixando, segundo di- 
ziam, muito d'aqucllo que se por parte dei rei seu 
senhor podia pedir por bem de direito e boa justiça 



Chronica d''El-Rei D. João I 53 



per azo das tréguas que quebrantaram, tomando a 
cidade de Badalhouce da guisa que fora. 

Primeiramente, que lhe tornasse el-rei de Portu- 
gGl aquclla cidade asbim bca com^o estava quando a 
filharam, e todo o que fora roubado em ella áquelle 
tempo., e mais os arrefens que em poder tinha ; des- 
ahi a cidade de Tuy assim boa como estava quando 
a cobrara, com os bens dos que em ella m.oravam, 
que prim.eiro havia segurado, e todos os outros Jo- 
gares que n'aouella guerra havia filhados ; outsosim 
que soltasse todos os prisioneiros que em Portugai 
eram. presos. E que porquanto as despezas que el-rei 
de Castella havia feito eram muitas, e a todas cl-rei de 
Portugal era teúdo, pêro por bem de concórdia .!ue 
el-rei de Castella perdesse ametade, e a outra ame- 
tade lhe fosse pagada. 

Isso me^mo Alicer Ambrósio formou sua razão a 
de parte, que pois o mestre e Ruy Lopes já disse- 
ram suíis intenções, que elle compromissario com 
elles queria dizer a sua, a qual foi esta : 

Que era bem que se entregassem todos os lega- 
res que cada um rei tinha do reino do outro, tam- 
bém todos os prisioneiros que cada uma das partes 
tinha reteúdos, sem nenhuma rendição que por si 
pagassem, e que fossem quites de parte a parte 
damnos e perdas, e sommas e despezas de senten- 
ças que dadas eram, e as penas dos prisioneiros, e 
que entregas.sem seus arrefens a el-rci de Castelia, 
e os de Portugal fossem também livres e quites, e 
os portuguezes que se foram pêra Castella não fos- 
sem lançados fora, e ficassem em ella, que assim 
quedariam todas as cousas chãs c em bom asso- 
cego. 



54 Bibliotheca de Clássicos Portugue:{es 



CAPITULO CLXXXIII 

Das cousas que os castellaos mats emaderam além 
das primeiras por elles pedidas. 



VISTAS as intenções de todos, como aqui é con- 
teúdo, foi emadido da parle dos castellaos 
outras razões além doestas formuladas d'a- 
questa guisa, dizendo que pois el-rei de Portugal re- 
queria trégua, ou paz por sempre, que por se tirar 
de todo o debate e apagar toda a discórdia, assim 
da rainha Dona Beatriz, filha d^el-rei Dom Fernan- 
do, sobre o direito dos reinos que pretendia d'haver, 
como d'outra.s cousas que se dizer podiam, que el-rei 
de Portugal casasse seu filho maior com ella, e que 
o casamento feito, que então aquelle seu filho se 
chamasse rei de Portugal e dos Algarves, e que em 
tal caso fossem dados á dita ramha logares taes em 
Portugal, quaes a rainha de tal reino pertencia pêra 
governança de seu mantimento e estado, e que esta 
cousa era cumpridora e proveitosa pêra o bem da 
paz : o primeiro por assentarem sua vida e esta- 
do de seu filho; a outra, porque ainda que seu 
filho fosse rei, elle mandaria todo no remo que 
quizesse, assim que no elíeito e obra elle ficava rei; 
c de mais seu filho assentado na firmeza do reino, 
assim SC cumpriria o desejo do padre ái em sua 
vida ver bem collocado o filho, o bem do qual é sua 
gloria. Outrosim, porque ao bem d'aquella paz era 
mui cumpridouro todo embargo e empacho ser fora, 
por tal que Deus e o mundo visse que taes pazes se 



Chronica d El- Rei D. João I 55 



faziam com boas e claras vontades. E que o infante 
Dom Diniz, filho d'el-rei Dom Pedro, que tinha to- 
mado titulo de rei por" direito que tinha em Por- 
tugal, que lhe fosse dado um ducado em elle, 
com terras e logares razoados, secundo cujo filno 
era; e porque se el-rei durasse em ódio e rancor 
contra os portuguezes que andavam em Castella, e 
lhes tivesse o seu, não pareceria a Deus nem ao 
mundo que as pazes que se fizessem, eram chãs e de 
boa vontade. Portanto diziam que por bem, e gran- 
de firmeza de paz, que el-rei restituísse logo todos 
os bens moveis e de raiz aos portuguezes, assim a 
aquelles que se foram com a rainha Dona Beatriz, 
como a outros quaesquer que por outra occasiao es- 
tivessem no reino de Castella, tornando os a todas 
as honras e estados que nos tempos passados ha- 
viam, sem outra delonga nem preito, nem debate; 
e que os segurasse por firme segurança, que lhe não 
tivesse ódio nem rancor, nem lhes fosse feito nenhum 
desaguisado nem mal; e fazendo-se assim, que ve- 
riam todos claramente que elle chã e de boa von- 
tade vinha ás pazes, sendo tal cousa grande conser- 
vação d^ellas, mostrando que as cousas passadas 
eram de todo postas em esquecimento, o que não 
pareceria, sendo de outra guisa, ca se as pazes, pra- 
zendo a Deus, se fizessem, olvidados quaesquer es- 
cândalos, todos de consum viveriam em irman- 
dade. 

E emadiam mais outra razão, que prazendo a Deus 
de se taes pazes fazerem, por d'ella.s sahir algum 
bom fruito, e o serviço de Deus e a sua fé ser exal- 
çada, e a má seita de Mafamede ser abaixada, que 
ei-rei de Portugal fosse teúdo de ajudar a el-rei de 
Castella, na guerra que contra os mouros fizesse, 



56 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



com dez galés por mar por trez annos ás suas pró- 
prias despezas, e que d'esto lhe devia aprazer muito, 
por tal cousa ser santa e muito cumpridoura pêra 
satisfação das culpas em que havia cahido nas guer- 
ras passadas contra os christâos do reino de Gas- 
tella. 

O Conde e o bispo quando e^tas razoes viram 
por Micer Ambrósio, que Ih'as em escripto trouve, 
desprougue-lhe muito d'cllas, vendo que eram taes, 
porque os reis que em elles comprometteram, nunca 
podiam vir a concórdia de p^z, c enviaram-lhe a 
dizer por elle que não entendiam sua intenção, e que 
quantas cousas foram emadidas alem d'aquellas que 
primeiramente pedira o procurador d^el lei seu se- 
nhor, eram taes e tão fora de razão, que não haviam 
mister resposta. 

Entonces ordenaram Ruy Lopes e Micer Ambrósio 
de se irem a casa d el-rei, pêra lhe fallar, muito con- 
tra vontade do Conde por não terem nada feito d'a- 
quello por que alli foram Juntos, andando já cm nove 
mezcs que em ello dispendiam tempo. 

Entonce se veiu a Évora, onde el-re estava, que o 
viu, e sahiu a receber bem duas léguas, e de Évora 
se partiu elrei pêra Lisboa, e o Conde se foi a Al- 
mada, e nãj se fez mais sobre este negocio. 



Chronica dEl-Rei D. João I ^ Sj 



CAPITULO CLXXXIV 

Como o Priol D. Álvaro Gonçalves se foi pêra ps- 
X! efoi dado o ^Priorado a Lourenço Esteves 
de Góes. 



D 



URANDO a trégua dos nove mezes que em Oli- 
I . vença foi firmada pêra o Conde e os outros 
L^ senhores poerem paz entre os reis, segundo 
dissemos, acertou se em esta sazão de se ir pêra 
Castella o Priol D. Álvaro Gonçalves, que ainda 
estava no reino depois da fugida do Castello de Co.m- 
bra; e porque el-rei havia promettido ao Condes- 
tabre de dar o Priorado a Lourenço Esteves de 
Goes,commendador de Santa Vera Cruz, que o havia 
bem servido em companhia do Conde, se o Pnol o 
perdesse a direito, entonce poz em vontaae de o dar 
a Fernão d' Alvares d" Almeida, aio de seus filhos 
e mandou dizer primeiro ao Conde qual em esto 
era o seu desejo, por a promessa que lhe feito ti- 

"''o Conde viu o recado d'el-rei, e a pessoa pêra 
que era foi um pouco cuidoso, e disse : 

— tOue elle lhe tinha em mercê o recado que lhe 
enviara; e que em outro dia lhe enviaria a resposta 
por um de que se fiasse.» — „ ^., * 

^ E assim o fez. ca mandou a e le Gil Ayres seu 
escrivão da Puridade, por o qual lhe enviou dizer 
que dias havia que lho tinha outorgado pêra Lou- 
renço Esteves, em que elle bem cabia, por ser bom 
cavalleiro e o bem haver servido em sua companha, 



58 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 

e pois elle era PVeire da Ordem, que o le'X3sse ele- 
ger aos Freires, que o não ousavam fazer por sua 
defesa, pedindo-lhe por mercê que Ih'o não tirasse, 
pois lh'o tinha outorgado, e outras taes razões, a' 
que el rei respondeu d'esta guisa : 

— € Verdade é que minha vontade era dar este 
Priorado a Fernão d'Alvares, por ser tal que o bem 
merece, des-ahi porque vós vedes que em mmha ter- 
ra ha quatro dignidades deshonradas, a saber:— o 
Mestrado de Christus, e o de Santiago, e de Aviz e 
o Priol do Hospital, que são assim como quatro co- 
lumnas que sustém a honra de meu reino, e que to- 
dos os grandes de fora da terra, quando vêem, es- 
guardan. seus estados e nobrezas; e porém me pa- 
recia a mim que os que taes estados houvessem d'ha- 
ver por meu serviço e honra do reino, deviam de 
ser pessoas notáveis e de grande auctoridadc, e esto 
me similha que cabe mais em Fernão d'Alvares, que 
cm Lourenço Esteves.» — 

E esta razão dizia el-rei, porque Lourenço Este- 
ves era mui pequeno de corpo, e não vistoso. 

— «Mas segundo parece, disse elle, o Conde não 
o entende assim, e devia de ser pelo contrario em 
esto e outros cousas, ca devia mais de pesar os meus 
feitos que os seus, porque se os meus fossem esguar- 
rados. outrem os não podia correger senão Deus, e os 
seus eu os podia correger.» — 

Sobre esto passaram tantas razões, que cl-rei con- 
sentiu mandar suas cartas aos cavalleiros da Ordem, 
que elegessem cm Priol quem segundo sua regra, e 
serviço de Deus, fosse mais proveitoso á Ordem; e 
foi elegido D. Lourenço Esteves, e foi entregue do 
Priorado e das fortalezas dellc. 

Em esto viera-se o Conde a Porto de Moz, por 



Chronica á^El-Rei D. João I 5p 



espaçar ahi alguns dias, e el-rei, que estava já em 
Santarém, escreveu ao Conde que bem sabia como 
a trégua dos nove mezes que em Olivença fora fir- 
mada, era já acerca de sabida, e que elle esperando 
que a el-rei de Castella prouguesse de se alongar 
por mais tempo, que Micer Ambrósio viera a elle, 
e que segundo o recado que lhe trouvera, a el-rei 
de Castella não prazia que se espaçasse mais tal 
soffrença de guerra, e que porém elle ficava com 
elle na desavença em que ante eram postos, e por- 
tanto lhe mandava que se fosse logo a Santarém pêra 
haver com elle conselho da maneira que havia de ter 
na guerra. 



CAPITULO CLXXXV 



Como el-rei foi sobre Alcântara, e se levantou do cer 
CO d'ella. 



O Conde em Santarém, teve el-rei conselho 
pêra ir sobre Alcântara e mandou lhe que se 
fosse entre Tejo e Odiana, e juntasse as gen- 
tes d'aquella comarca e do reino do Algarve pêra ir 
com elle áquclle logar, 

O Conde foi a Évora, como lhe el rei mandou, e 
des-ahi se foi caminho de Alcântara, e juntou-se com 
el-rei, que partira de Santarém por outro caminho 
por beira do Tejo acima, passando por uma ponte 
de barcos que mandara fazer forte mui bem feita, 
e este ajuntamento foi em uma ribeira áquem do 
Crato, que chamam a Cafardela, e d'aquelle logar 



6o Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



foram assim sempre o Condestabre na vanguarda, 
e el-rei na reguarda, com os Mestres de Christus e 
de Santiago, e outros senhores c fidalgos com mui- 
tas gcr.tes, que apodavam a quatro mil lanças, e gran- 
de numero de peÕes e besteiros, e com esto muita 
carriagem d'engenhos e escalas, e mantimentos; e 
passou pelo Crato, e des-ahi ás Meadas, e por Va- 
lença, e um sabbado se foi lançar sobre Alcântara, 
e era esto no mez de maio de 43g. elrei tinha man- 
dado que lhe viesse a ponte das barcas por que pas- 
sara, pêra ter um arraial d'alé;n do Tejo que vae 
per uma parte do logar, e outro d''aquem pera ser 
todo cercado. 

C) arraial assentado d'aquella parte, mandou as- 
sentar seus engenhos, e tirar á villa, attendendo 
cada dia por a ponte, de que muito lhe pesava por 
não vir, e emquanto concertavam a e>cala e passa- 
vam alguns dias, teve el rei conselho quem manda- 
ria á forragem, por a fama das muitas gentes que 
n'aquclla comarca se dizia que andavam, por azo do 
cerco a que acudiam. 

João Aflonso de Santarém, que era do conselho, 
como el rei aquello propoz, fallou logo contra elle e 
disse : 

— «Senhor, pera que é dizer e cuidar quem man- 
dareis á forragem por esto que se diz; vá lá o Con- 
destabre que aqui está, que já o conhecem os cas- 
tellãos.» — 

O Conde vendo quanto era serviço d'el-rei, por- 
que os mantimentos começavam de minguar, outor- 
gou que lhe prazia, e el-rei Ih^o enrommendou. 

E uma segunda-feira partiu com certas gentes, en- 
tre as quaes ia com elle Martim Ationso de iMello, 
que entonce tinha Badalhonce, e passou por Cace- 



Chronica d'El-Rei D. João I 6i 



res e des-ahi a Montanches, e foram d'aquella vez 
dezeseis léguas por Castella além de Alcântara, on- 
de el-rei ficava, e indo o Conde assim seu caminho^ 
mandava alguns corredores diante que corressem a 
terra, e trazia muitos orisioneiros e gados, porque 
não cuidavam os casteilãos que seus inimigos tão 
longe entrassem, e chegou a uma ribeira que cha- 
mam Boteia, que era com.arca abundosa e bem po- 
brada, e d'aqui mandou correr ao longe por duas 
partes; a uma mandou Lourenço Esteves, que já 
nomeámos, com certas gemes, e á outra mandou 
Martim Aííonso de Mello, e elle ficou n'aquella ri- 
beira com seu arraial; e havendo dois dias que am- 
bos partiram, sendo o Conde á mesa que começava 
de comer, chegaram lhe novas que D. Lourenço 
Esteves vinha com grande roubo, e que sahira a elle 
João de Velasco, que ahi acerca da comarca estava, 
com 400 lanças pêra pelejar com elle. 

O Conde se levantou á pressa da mesa, e man- 
dou dar ás trombetas, e logo foram juntos todos do 
arraial á sua tenda, e ahi mandou os que ficasssm, 
e com os outros sem mais tardança partiu com sua 
bandeira diante tendida, e uma légua e meia d'alli, 
o achou vir com grande roubo de gados e prisionei- 
ros, e soube qte João de Velasco não viera a elle, 
mas mandara certos de cavallo que viessem vêr como 
vinha. 

Entonce se tornou o Conde e D. Lourenço Este- 
ves com elle, á ribeira onde o arraial estava. 

ALirtim Affonso, que fora por outra parte, bem 
cinco léguas de onde ficara o Conde, encontrou com 
o commendador mór de Leão, que se vinha lançar 
em l^accres com cento e cincoenta lanças, c pelejou 
com elle c desbaratou-o, e prendeu no encalço trin- 



02 Bibliotheca de Clássicos Portugue:{€S 



ta e oito, entre cavalleiros e escudeiros, e mais trou- 
xe grande roubo de gados e outros prisioneiros. E 
o Conde que chegava com D. Lourenço, como 
dissemos, e Alartim Atíonso, que chegou em outro 
dia, partiu o Conde d'aqueila ribeira caminho de 
Alcântara, e andou tanto que cheirou ás Brocas, 
cinco léguas áquem d'ella; e sendo comendo lhe 
veiu um recado dei rei por Rodrigo Aílonso de Mel- 
lo, que se fosse á pressa, porquanto d'além do rio 
chegaram pêra se lançar em Alcântara o Priol D. 
Álvaro Gonçalves que se fora pêra Castella, e Mar- 
tim Vasques da Cunha e os outros portuguezes que 
lá andavam, e Ruy Lopes d'Avaios com elles, com 
gentes que diziam que eram duas mil e quinhentas 
lanças. 

O Conde partiu trigosamente, e chegou aquelle 
dia á tarde a Alcântara com muitos gados e prisio- 
neiros, e d'outios mantimentos assaz, com que os 
do arraial folgaram, quj o bem haviam mister. 

A ponte que el-rei esperava nunca veiu, e posto 
que entonce viera, já não podia prestar, e os castellãos 
entravam na villa cada vez que queriam, que não 
era cousa que se embargar podesse. 

El-rei não embargando quizera jazer sobre ella até 
que a filhasse, cuidando de a destruir com os enge- 
nhos, posto que muita gente tivesse, e sem duvida 
a filhara, se a ponte viera a tempo que elle mandou. 

Mas quando entonce foi aconselhado que não apro- 
fiasse mais no cerco, ca inda que lhe derribasse o 
muro e quantas torres tinha, que não acabaria seu 
desejo, por a muita gente que dentro estava, El-rei 
vendo esto, mandou alevantar o arraial, e veiu-sc 
pêra seu reino, e d'elles mandou pêra suas casas, e 
outros pêra as frontarias. 



Chronica d'El-Rei D. João I 63 



CAPITULO CLXXXVI 

Dos embaixadores que foram a Castella pêra tratar 
a pa:^, e não se avieram. 



Os feitos da guerra estando em estes termos, 
foi movido que se tratasse entre os reis tré- 
gua e paz por sempre, e foram enviados a 
Castella por embaixadores os honrados D João, 
arcebispo que depois foi cardeal, e João Vasques 
d'Almada, cidadão de Lisboa, mui honrado caval- 
leiro, e Martim Docem, doutor em leis. 

Estes mandou el sei bem corregidos como cum- 
pria, e ses-enta em cavalgaduras com elles, os quaes 
chegaram a Segóvia uma quarta feira, primeiro de 
junho, e depois de comer foram ver el rei e lhe fal- 
lar, propoendo a razão de sua ida como era por se 
tratar de trégua ou paz entre elle e el-rei seu se- 
nhor. 

E el-rei se apartou com os de seu conselho, e res- 
pondeu por um cardeal de Avinhão, que ahi era, 
que se chamava Cardeal de Hespanha, que da paz 
lhe aprazia mais se fallasse que na trégua, e leixada 
grande proluxidade de razões que se por dias de uma 
parte e da outra se propoz, respondeu estas seguin- 
tes, se as lerdes quizerdes, que foram as principaes 
que os castellãos deram em escripto, dizendo : 

«Que por o quebramento da trégua dos quinze 
annos, e por as perdas e injurias que recebidas ha- 
viam, que el-rei de Portugal por bem de concórdia 
e assocego, desse a el-rei de Castella vinte contos 



04 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



de antiga moeda de Portugal, que eram seiscent' 
mil (rances d''ouro, e quarenta mil dobras em cad, 
um anno em vida d'el-rei seu senhor e da infanta 
D. Maria sua filha, e mais que lhe desse dez galés 
por mar cada anno, armadas seis mezes á sua cus- 
ta, e mii homens d'armas por terra por essa guisa 
pagados, esto em vida dos reis ambos, e aue se el- 
rei de Castella houvesse dhaver batalha com os mou- 
ros, que el-rei de Portugal fosse em ella por sua pes- 
soa presente. 

Outrosim que perdoasse e recebesse em seu reino 
todos os portuguczes que andavam em Castella des 
o tempo que a. rainha D. Beatriz casara, e lhe en- 
tregasse todos seus bens que em Portugal haviam ; 
e isso mesmo entregasse Badalhouce, e os logares 
todos que elle e os seus haviam tomados, e mais os 
arrefens que de Castella tinha; e além d'esio ema- 
diam mais, dizendo: 

Que el rei seu senhor tinha direito nos reinos de 
Portugal, não por parte da rainha D. Beatriz nem 
do infante D. Diniz, pois que herdar não podiam, 
mas porquanto elle era o mais chegado parente d'el- 
rei D. F^ernando, sendo el-rei seu padre primo com 
irmão à'elle, e que por elle leixar este direito e as 
injurias que elle e seu padre haviam recebidas, lhe 
deviam ser feitas as taes ajudas e satisfação de di- 
nheiros, trazendo a seu propósito o que fora dado 
ao duque de Alencastro e a sua mulhert. 

A esto foi respondido que taes razoes não eram 
de mover, nem era aquelle caminho pêra virem á 
paz, ca o que entonce fora feito ao duque tinha fun- 
damento razoado, porquanto elle pretendia haver 
sua mulher direito cm Castella, por ser filha lidima 
d'elrei D. Pedro, chamando-se elle rei c ella rainha 



Chronica d'El-Rei D. João I 65 



d'aquelles reinos; assim que o caso não era similha- 
vel, nem entendiam mais de fallar sobre tão desar- 
rasoadas cousas. 

E os castellãos responderam que se elles não de- 
cendessem a alguma d'aquellas cousas, em razão dos 
contos da moeda e das dobras, e ajudas que peiiam, 
que se não accordariam com elles em feito de paz, 
ca lhe seria grão vergonha fazerem-n'a d'outra gui- 
sa, sem emenda d'alguma cousa, e posto que a res- 
posta d'esto fosse que a paz era a elles assaz de hon- 
rosa por el rei de Portugal haver de receber todos 
os portuguezes que em Castella andavam, que lhe 
era grande encarrego e empacho, e lhes tornar suas 
terras e bens, e compral-as áquelles que as tinham, 
des-ahi entregar-lhe seus arrefens, e quitar lhe a som- 
ma das dobras que montava nos prisioneisos e sen- 
tenças, e entregar-lhe melhores logares que os que 
elles haviam de entregar, e sobre todo enviar-lhe a 
requerer a paz a sua casa por tão honradas pessoas; 
e outras razões a esto pertencentes finalmente foram 
desacordados, e não fallaram mais em feito de paz. 



CAPITULO CLXXXVII 

Do conselho que el-rei de Portugal pediu pêra fa^er 
a paz^ e do que lho. foi respondido. 



LEixADA a paz, fallaram em trégua, na qual ra- 
zoando por dias e não se podendo em ella 
concordar, conveiu partir um dos embaixado- 
res por notificar a el-rei seu senhor todas as cousas 
roL. 3 voL. vu 



66 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



até alli passadas, posto que lh'as por escripto já fizes- 
sem saber, e as que novamente cntonce apontavam, 
e partiu pcra Portugal o Doutor xMartim Docem, se- 
gundo el rei de Castella consentira, e dizendo a el- 
rei todo o que sobre este negocio alá viera, mandou 
el-rei chamar fidalgos e conselhos de seu reino, e fo- 
ram juntos na villa de Santarém, onde elle entonce 
estava, e deu aos senhores, cavalleiros e escudeiros 
um escripto das cousas que os castellãos pediam, 
e outros aos concelhos pêra responderem o que so- 
bre tal feito devia fazer; e visto por todos, a respos- 
ta dos fidalgos foi esta : 

Que entregassem villas por villas, e prisioneiros 
por prisioneiros, e mais que lhe déssemos arrefens, 
c na parte do perdão dos portuguezes, pois que a 
paz d'ouira guisa dar não queriam, que lhes per- 
doas'^e a todos, e lhe antrcgasse os bens patrimo- 
niaes que haviam de sua herança, e não dos que 
pertenciam á coroa do reino, comprando tacs bens 
a aquelles que os tinham por boa e justa estimação; 
e que em effeito das dobras das sentenças, a pena 
dos prisioneiros e dos outros damnos e perdas, que 
se descontasse uma cousa por outra, e se algum 
mais devesse, que não fosse teúdo de o pagar, mas 
que ficasse tudo quite de parte a parte; mas que em 
razão da emenda dos vinte contos que pediam, e da 
ajuda das galés e das mil lanças, que taes cousas 
não eram pêra ouvir, nem somente fallar em cilas, 
e que com taes condições como estas, que guardas- 
sem sua paz ; e que na parte da trégua por oito ou 
dez annos, em que pediam que se entregassem vil- 
las por villas, e prisioneiros por prisioneiros, e mais 
que lhe dessem os arrefens, esguardadas muitas cou- 
sas, que não cumpre de escrever, e como os arre- 



Chronica d El- Rei D. João I 6j 



fens lhe eram pouco proveitosos, accordaram que 
lh'os dessem. 

Os concelhos isso mesmo deram outra acerca tal 
como esta, dizendo : 

Que entregassem legares porlogares dos que eram 
tomados, ou que tinham alguns portuguczes que se 
com elles alçaram, e soltassem todos os prisioneiros 
de uma parte e d'outra sem nenhuma ren lição, e 
quem alguma cousa d'ella já tivesse pagada, que a 
perdesse ; e sobre o perdoar aos portuguezes lhe pa- 
recia que os que se foram no tempo da rainha D. 
Beatriz, a quem el rei perdoava por vezes, e lhe en- 
tregava seus bens e terras, e não quizeram tornar, 
que a taes como estes, que foram em culpa de seu 
mal, que não devia de ser perdoado, salvo se se 
por elles tornasse a paz Mas que tal como Martim 
Vasques, e João Fernandes, e o Priol e os outros 
que diziam que por aggravos que d'elle recebiam, 
se furam de seu reino, que a estes perdoasse e en- 
tregasse seus bens c terras, vistos os bons serviços 
que feitos haviam, que deviam mais pezar que sua 
partida ; e mais que lhe entregasse seus arrefens, 
posto que n'elle5 direito houvesse, e quitasse as do- 
bras das penas das sentenças, e quaesquer outras 
dividas, de guisa que todo ficasse livre, sem nenhu- 
ma obrigação de parte a parte. Nas condições dos 
vinte contos e dez galés, e as mil lanças, que esto 
elle não devia fazer, porque era mais guerra que 
paz, ca Deus lhe dera os reinos de Portugal por 
aprazimento do povo^ livres e sem sujeição, pêra os 
livrar e defender de toda prema e encargo, e que 
elle não devia leixar seue súbditos, e taes filhos 
como tinha, assim sujeitos a Gastella com taes obri- 
gações; e se a ajuda houvesse de haver, fosse d'a- 



68 Bibliothecã de Clássicos Portugueses 



quella maneira e necessidade cm que a el-rei D. 
Aftonso, seu avô, dera a el-rei de Castella, quando 
o fora ajudar contra mouros, de que tirara gran 
fama e honra, t d"outra guisa não. 



CAPITULO CLXXXVIII 



Como foi feita trégua por de^ annos^ c com que con- 
dições. 



TORNANDO o Doutor a Castella pêra fallar em 
etleito de trégua, segundo o recado que d'el- 
rei levava, e leixando o longo razoado que 
d'ambas as partes sobre esto houve, e as condições 
odiosas de que se os castellãos de todo desceram, 
finalmente foram concordados cm trégua de dez an- 
nos, com certos capítulos em cila postos, dos quaes 
brevemente diremos estes : 

Que el-rei e seus herdeiros não fariam guerra por 
pane da rainha D. Beatriz, nem d^aquelle infante 
que se chamava rei, nem con-^entiria a elles que a 
fizessem com gentes d'outra nação, nem sua, e quan- 
do a fazer quizcssem, que ellc seria em desfazimento 
de tal com rodo seu poder. 

Outrosim que se entregassem de um reino a ou- 
tro todos os logares que foram filhados por qualquer 
guisa que fosse. De Portugal a Castella, Badalhou- 
ce e luy, Salvaterra e São Martinho; e de Castell 
a Portugal : Bragança, Vinhacs e o castcUo de P 
conha, Miranda, Penamacor, Pena Garcia, Segurai 



Chronica cPEl-Rei D. João I 6g 



Noudar, as quaes entregas haviam de ser d*esta. 
guisa : 

Que a certos dias depcis da publicação d'esta tré- 
gua, fossem postos por arrefens em poder do Con- 
destabre, ou quem seu poder tivesse, na Ribeira, 
entre Villa Nova e Olivença, D. Álvaro Pires de 
Gusmão, Justiça mór de Sevilha, e o marechal Diogo 
Fernandes, Alcaide mór de Córdova, e Gomes Soa- 
res, filho maior lidimo de D, Lourenço Soares, Mes- 
tre de Santiago, e que do dia que lhe fossem entre- 
gues, até vinte primeiros seguintes, que el-rei de 
Portugal entregasse a cidade de Badaihouce ao dito 
Mestre de Santiago, livre e desembargadamente, e 
Badaihouce entregue até dois mezes, el rei de Cas- 
tella entregasse Bragança e Vinhaes, Piconha e Nou- 
dar, tirando os bastimentos e artifícios de guerra 
que em elles estivessem postos por aquelles que os 
em poder tinham, e todas suas cousas; e que d'a- 
quelle dia que estes quatro logares fossem entregues, 
a vinte e cinco dias, o Condestabre tornasse a en- 
tregar os trez arrefens, que lhe foram dados n'a- 
quelle logar ondj os recebera ; e entregados taes 
arrefens, que dV^quelle dia até um mez, el rei de Por- 
tugal fosse teudo d'entregar a aquelle Mestre de San- 
tiago outros de seu reino, que fossem estes: João 
Mendes de Vasconcellos, irmão de D. Mem Rodri- 
gues, Mestre de Santiago de Portugal, e Gonçalo 
Pereira, filho maior de João Rodrigues Pereira, e 
Vasco Fernandes, filho maior legitimo de Gonçalo 
Vasques Coutinho, marechal de Portugal, n'aquelle 
mesmo logar onde os outros foram entregues, e do 
dia que fossem entregues até quarenta seguintes, 
fosse el-rei de Portugal entregue de Miranda e Pe- 
namacor, e Pena Garcia e Segura, e do dia que es- 



70 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



tes logares se entregassem até um mez, fosse entre- 
gue Tu3^ Salvaterra e São Martinho. 

E feitas taes entregas, tornassem os portuguezes 
de onde fciranl levados por arrefens, em este mesmo 
dia e logar fossem entregues Inhigo de Mendonça, 
e Gonçalo d"'Estunhiga, e todos os outros que vivos 
eram, que foram postos da parte de Gastella por ar- 
refens das tréguas de quinze annos. 

Que como taes entregas fossem feitas, que logo 
fossem soltos todos os prisioneiros de um reino ao 
outro, segundo entre elles foi divisado. 

E porquanto el-rei de Gastella disse que lhe pra- 
zia depois das entregas até seis mcze^^ «=eguintes fal- 
lar-se no feito da paz, e elle por entonce não podia 
determinar por quaes pessoas, nem em que logar 
deviam de ser taes falias, qie quando elle enviasse 
a Portugal tomar os juramentos que os do reino ha- 
viam de fazer, que entonce notificasse a el-rei por 
quaes pessoas lhe prazia se tratasse paz, e esto na 
postrimeira semana dos ditos seis mezes ; e d'esta 
guisa cessou entonce a guerra que entre Portugal e 
Gastella havia. 



GAPÍTULO GLXXXIX 

Cotfio a rainha D. Catharina consclhava seu marido 
que houvesse paz em Portugal. 

Cessada a guerra da guisa que dizemos, ficava 
por fallar na paz depois da dada dos loca- 
res e entrega dos arrefens passados aquelies 
seis mezes, segundo no trauto era conteúdo, e havia 



Chronica d^El-Rei D. João I ji 



de ser tal fallamento entre Elvas e Badalhouce, em 
quanto aos ditos reis proguesse, e de consentimento 
d'ambos. 

Por certas razões que sobrevieram, foi este espaço 
alongado, de guisa que se houve de começar a cabo 
de quatro annos, por Paschoa de Ressurreição de 
mil quatrocentos e quarenta e cinco, entre São Fe- 
lices e Gastei Rodrigo ; mas esto foi já em tempo 
d'el-rei D João, filho d^aquelle rei D. Anrique que 
ez aquèllas t-eguas, que no capitulo antes d'este ha- 
vemos recontadas, 

E pois do tratar das pazes aue se seguiram, have- 
mos de fallar, e vós d 'isto serdes em bom conheci- 
mento, sede nembrados que onde contámos as aven- 
ças feitas entre o duque de Alencastro e el-rei de 
Castella, o que perdeu a batalha, foi feito casamento 
do infante D. Anrique, seu primogénito filho, em 
edadc de nove annos com D. Catalina, filha d*a- 
queile duque, irmã de D. Felippa, que só ficava 
rainh i de Portugal ; e morto aquelle rei D. João 
da queda do cavallo, ficou este seu filho D Anri- 
que, que depois reinou depôs elle de tão poucos an- 
nos, que não era pêra lhe darem sua mulher ; e de- 
pois que foi crescido., sendo de dezeseis, entonce or- 
denaram de os ajuntar ambos, havendo ella vinte e 
sete, e sendo elle de tão nova edade, cujos annos 
muito pareciam contradizer ao bem commum e re- 

fjimento do povo, por graça do mui alto Deus que 
he prouf^ue de em elle poer, foi assim acompanhado 
de taes costumes e bondades, especialmente da mui 
clara entre todas as virtudes, chamada por nome jus- 
tiça, que seus prudentes e bem ordenados feitos as- 
saz eram dignos de notável relembrança, ca elle re- 



72 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



gia sua terra muito mais cumpridamente que nenhum 
rei que ante elle houvesse. 

Este rei D. Anrique houve d'esta sua mulher 
um filho e duas filhas; ao filho chamaram D. João,, 
que reinou depois de seu padre, e uma das filhas 
houve nome D. Beatriz, e a mais pequena D. Ga- 
tharina, como sua madre. 

Esta rainha D. Catharina, sendo seu marido vivo^ 
trabalhava muito com elle que houvesse paz e ami- 
sade com D. João, rei de Portugal, casado com sua 
irmã, fazendo lhe palavras dos grandes dividos que 
todos de consum haviam, e todas as boas razoes que 
a seu propósito acarretar podia, por que a esto o de- 
mover podesse. 

El rei era homem sisudo e temia a Deus, e vendo 
sua boa intenção., outorgava que bem lhe prazia, se 
elle tal guerrr. podia leixar, não lhe sendo vergonha 
e prasmo ; mas que se elle n'ella tinha direito, e lhe 
fosse contado por mingua, que o não leixaria de fa- 
zer por quantos dividos ahi haver podesse ; c que 
cobrando tal terra, entonce ficava a elle podel-a 
leixar com sua honra, dando-a em casamento a 
seu filho com sua filha, ou a sua filha com o seu 
filho. 

— iMas se é cousa, dizia elle, que a mim não 
pertença, nem á coroa de Castella, seja vilta, eu a 
íeixarei de grado, posto que dividos ahi não hou- 
vesse, porque não o sinto por minha prol, nem 
honra.» — 

A rainha dizia que não era a elle mingua alguma, 
ca elle, nem seu padre, não faziam tal guerra, salvo 
por parte da rainha D. Beatriz, e que ella ouvira 
dizer a lettrados que .seu padre se houvera tão mal, 
acerca dos trautos, que sobre tal successão fo am 



Chronica d^El-Rei D. João I j3 



feitos, que seu direito era mui duvidoso, e que por- 
tanto era bem haver paz. 

El-rei disse que tal tenção tinha, e que por esto 
fizera trégua de dez annos, na qual era posto que 
como as tréguas fossem feitas, que logo se fallasse 
na paz, e que elle mandaria chamar os fidalgos e 
concelhos de sua terra, e fazendo com elles cortes, 
alli se veria esta cousa bem e direitamente. 



CAPITULO CXC 

Como se juntaram os trautadores de Castella e Por- 
tugal pêra fallarem no trauto da pa:^. 

TENDO este nobre rei vontade de fazer tal ajun- 
tamento por se determinar em elle esto que 
razoado temos, sendo elle doente já dias ha- 
via, sobreveiu i morte, que o tirou de tal propósito, 
e ficou seu filho, o infante D. João, que ora de 
presente reina, muito pequeno de dias; e a madre 
o reteve em seu poder que o não creasse outrenn 
senão ella, segundo a forma do testamento e accor- 
do que sobr'ello foi feito, e regiam por elle o reino 
esta rainha D, Catharina e o infante D. Fernando 
seu tio, irmão d'aquclle rei D. Anrique, como seus 
tutores e curadores, que eram. 

E tendo este infante c esta rainha cuidado de todos, 
como estava em razão, e vendo como era obrigado 
as cousas que seu padre promettido tinha, entre as 
quaes uma era que se fallasse na paz, tanto que as 
tréguas e entregas fossem feitas, por cumprirem 



']4 Bihliotheca de Clássicos Portugueses 



aquella promessa, fizeram saber a el-rei de Tortu- i 
gal o tempo e logares onde se esta falia fizesse, e j 
accord;iram que fosse feita entre São Felices e Gas- 
tei Rodrigo, na raia d''entr'ambos os reinos; e alli 
veiu da parte de Gastella, D. João, bispo de Se- ' 
gonça, c D. Pedro Viegas, alcaide mór de Cor-! 
dova, e um doutor chamado Pedro Sanches; e de: 
Portugal foram D. João, arcebispo de Lisboa, e, 
Martim Aííonso de Mello e um douíor nomeado Gili 
Martins; e porque dês que as tréguas foram apre-l 
goadas até este dia, correram quatro annos e mais^i 
e depois tamanho espaço, que havia já nove cum-| 
pridos quando a paz foi acertada, pode imaginar 
qualquer sisudo que detenças furam estas, ou que 
cousas de tamanha tardada, e sabei que o fez duas' 
cousas: a primeira a doença d'cl-roi D. AnriquCy! 
e a morte que lhe sobreveiu, por cujo azo nasceram | 
taes duvidas e alvoroços no reiro de Gastella sobre 
a creação e guarda d'el-rei, como sobre outras cou- 
sas, c que el rei de Portugal foi movido de todo 
ponto, se alguma cousa se comt^çasse contra honra 
e estado da Rainha e de seu filho, de poer em ello 
mão, até ir por seu corpo a Gastella, quando mister 
fora, por o divido que com ambos havia. Assim lho 
fez saber por sua carta, e prougue a Deus que 
amanç( u tudo. 

A segunda, e mór detença foi depois que come- 
çaram a fallar na paz, as cousas desarrazoadas, que 
moviam a el-rei que lhes outorgasse ; e por não ficar 
esso em aberto.^ e saberdes que era esto que lhe de- 
mandavam, leixando prolixidade de tantas razões 
como d esta vez c d'outras, d'ambas as partes foram 
despesas, e do ctíeito de tudo summariamente con- 
vém ordenar dois breves capítulos : o primeiro, que 



Chronica cTEl-Rei D. João I jS 



requeriam seus embaixadores, e que lhe era respon- 
dido ; o segundo, que recados mandava depois a rai- 
nha sobre esto, e que resposta lhe levavam ; e enton- 
ce quaes foram a Castella pêra tratar essa paz, e 
<:omo se accordaram, e foi depois a grandes passa- 
das rectificada e cessou a guerra de todo. 

Ora, seguindo esto que dizemos, depois da Pas- 
choa e da festa da Ascenção, ordenaram de fallar 
na raia, a par de Escarigo, e mandaram se senhos 
escudeiros, que fossem divisar onde fosse perten- 
cente pêra tal falia, e acharam uma formosa noguei- 
ra de grande altura e formosa sombra, bem azada 
pêra aquello, e não quizeram que alli íallassem, por 
ser da parte de Portugal. 

Entonce foram mais acima, onde era um lizirao pe- 
queno cercado d'asf,ua que corria, e alli accordaram 
de se fazer, e que todos seis entrassem em elle e os 
escudeiros que traziam, além cada uns da parte de 
seu reino. 

Era uma segunda feira cavalgaram os castellãos, 
chegando primeiro áquelle logar, e vinham todos de 
mulas; os portuguezes chegaram logo acere.", sendo 
mais que elles, ca eram sessenta de cavallo com suas 
espadas cintas, sem outras armas nenhumas; e como 
os outros viram que os portuguezes eram tão perto 
do rio, como elles, moveram todos pêra fundo, de 

guisa que entraram de sum na agua, e des-ahi no 
zirão, ficando os escudeiros fora, cada uns de sua 
parte. 

Entonce fizeram suas reverencias uns aos outros, 
tirando uns sombreiros, e beijando-os nas faces. Os 
portuguezes quizeram fallar a pé, e elles disseram 
que bem fallariam de bestas ; e juntos d'esta guisa, 
estando um pouco callados, disse o bispo ao arce- 



']6 Bibliotheca de Clássicos Portugue-{es 



bispo primeiro, dizendo que fallasse, e elle respon- 
deu que dissesse elle, e assim se refertaram tantas 
vezes quem havia de começar, que fallou o arcebis- 
po primeiro, dizendo que bem sabiam o accordo que 
fícara ms tréguas feitas de dez annos, que logo a 
cabo de seis mezes, como publicadas fossem e as 
entregas feitas, se fallasse no trauto d:i paz; e que 
aquelle termo fora muitas vezes espaçado a reque- 
rimento seu d'elles, e que ora eram alli vindos 
pera aquelle mesmo, e pois para aquello eram jun- 
tos, que lhe parecia que era bem de ter em ella 
tal maneira, por que a paz com ajuda de Deus fosse 
entre elles firmada com todo o bom amorio, dizen- 
do assaz de razoes porque se devia de fazer; e esto 
largamente e bem ordenado, acabado seu fallar. o 
bispo tirou o sombreiro, dizendo que era verdade, 
emadendo outras tão boas por latim, e por lingua- 
gem, alk-gando Cas^iodoro e outros Doutores da 
Igreja, do bem que se seguia da paz, cujos ditos let- 
tradamente a seu propósito excitava, e concluindo- 
todo, veiu a dizer que pois esta paz pelos portugue- 
zes já outr vez fora ] edida, e ora isso mesmo a de- 
mandavam, que prestes eram de a tratar, mas por- 
que el-rei de Portugal devia fazer algumas emendas 
a el-rei de Gastella por cousas que íoram não devi- 
damente feitas nas guerras atraz passadas, que cum- 
pria de se fallar em ellas, por todas as cousas que 
tratadas fossem serem postas em boa igualança, que 
em estas cumpria primeiro de depariir, e fallaram 
logo em ellas quanto lhe aprougue, dizendo que mais 
largamente lhas enviariam depois por cscripto. 

Os de Portugal disseram que taes cousas não eram 
pera ementir por palavra, nem escripto, nem as re- 
duzir em memoria, salvo fallar em bera de casamen- 



Chronica d El- Rei D. João I yy 



tos dos de uma parte com outra, e nos bons dividos 
que haviam, e similhantes cousas todas inductivas 
de paz, e leixar as chagas soldadas, que por taesL 
razões tornariam a deitar sangue; e elles disseram 
que não podia ser doutra guisa, por bem e concór- 
dia d'ambas as partes por verem mais certo que taes 
eram ; des-ahi espediram-se un? dos outros, e fo- 
ram-se. 



CAPITULO CXCI 



Das i'a:{ôes que entre os tr aut adores foram f aliadas^ 
e como se não concordaram. 



PAKTiDos OS embaixadores pêra onde pousavam, 
mandaram um escripto aos de Portugal, que 
começava d'esta guisa : 
«Porque justo e razoado parece por tirar de raiz 
as discórdias, e matar os riscos das cousas passadas, 
que todos os homens, especialmente os reis, que 
tratar querem de se ligar por amor, e que as discór- 
dias e guerra que entre elles são, e podem ser, se- 
jam tiradas de todo, e venham á paz limpa e de boa 
vontade, que os trautos de suas avenças sejam taes 
e assim direitos, que a parte que com razão pede 
emenda e corregimenio, seja razoável e devidamente 
satisfeita naquello que justamente demanda e pede, 
e assim consirando as cousas passadas que entre 
Portugal e Castella até aqui foram, e serão adiante, 
e nós pela graça de Deus somos aqui vindos pêra 
tratar, se a ella aprouguer, perpetua paz, por não 



7<y Bibliotheca de Clássicos Portusçiie:{es 



virem outras, cumpre que seja assim ordenada, que 
todas as cousas por boa e razoada igualança feitas, 
liguem os senhores que as fazer mandam, em bom 
amorio e paz de vontade, e porém nós os embaixa- 
dores de nosso senhor el rei de Ca-tclla, leixando 
muit.is cousas das que por sua parte, justa e razoa- 
damente demandar podíamos, e da outra seroutor-^ 
gadas, porque as vontades d'el rei nosso senhor, e 
da rainha sua madre e do infante D. Fernando, 
seus tutores e regedores de seus reinos, que nos a 
nós cá mandaram, são em tal feito claras e boas a 
esta parte, respondendo ao trauto da paz sobre que 
é começado de fallar, dizemos de presente que pêra 
ser firme, e qual deve entre el rei nosso senhor e seu 
adversário de Portugal, que elle é teudo de outor- 
gar e fazer estas cousas que se seguem : 

Primeiramente que porque taes principes, depois 
das pazes feitas, não podiam estar sem grandes fa- 
digas e inquietações, e aquelles a que nas guerras 
passadas foram tomados bens de raiz. e villas, e Jo- 
gares, e quaesquer outros que lhe não fossem toma- 
dos, que as pessoas que os de Portugal em Cas- 
tella haviam, ou de Castella em Portugal, do tempo 
d'el rei D. João de Castella, e d'el-rei D. Fernando 
de Portugal até entonce, que todo lhe fosse cumpri- 
damente tornado, segundo os que primeiramente 
possuiam. 

E que porquanto as boas obras ligeiramente ven- 
ciam os corações, e os traziam a grande amizade, 
que el-rei de Portugal por serviço de Deus e exalta- 
mento de sua fé, ajudasse el-rei de Castella, quando 
houvesse guerra com os mouros, por mar com dez 
galés, seis mezes á sua custa, ou por terra com seis- 



I 



Chronica dEl-Rei D. João I jg 



centas lanças e dois mil homens de pé, por essa 
mesma guisa. 

Outrosim, que todas as despezas que el-rei de Cas- 
tella, que veiu á batalha, avô deste D.João que rei- 
nava, fizera na guerra em sua vida, e quanto gastara 
em manter os logares que por elle tomaram voz, e 
isso mesmo o que dispenJera na guerra que se por 
a tomada de Badalhouce começara, em vida d'el-rei 
D. Anrique, as qaaes chegariam a grão somma de con- 
tos da moeda de Gastella. que todo el-rei de Portugal 
era teíido de pagar. xMas que por bem da concórdia e 
amizade, que se queriam atrever a tanto abatimento 
do que pedir podiam, que não fosse el rei teúdo a 
mais pagar que sessenta contos de moeda velha de 
Gastella, que eram um milhão e setecentos e dezeseis 
mil dobras, contando trinta e cinco maradevis por 
dobra ; não sendo esto a decima parte do que mon- 
tava no que obrigado era. 

Os de Portugal vendo esto e outras mais cousas 
que em seu escripto pediam, por outro que lhe en- 
viaram, responderam d'esta guisa : 

Que quem taes cousas como aquellas entre reis 
que tão bons dividos haviam, iam espertar a poer 
em capitulo, que pouca vontade nem zelo havia de 
os concordar e poer em paz. Porque se el-rei de 
Portugal quizesse demandar e requerer similhantes, 
e muito mores cousas, bem o podia fazer por direi- 
to, mas que por honra d'ambas as partes era melhor 
cessarem de todc', que se haver de fallar em ellas. 

Porém se seu senhor era tão piedoso e de tão boa 
consciência, que taes pessoas de um reino a outro 
todas queria que fossem satisfeitas, que bem lhe 
prazia ver cm escripto quaes eram, e de que estados, 
e elles dariam outro dos bens que pedir podiam. 



8o Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



E quanto era da ajuda que pediam que el-rei de 
Portugal houvesse de fazer, disseram que mal pare- 
cia tal requerimento em quanto se por palavra e es- 
criptos chamassem adversários um ao outro; mas 
depois que as outras cousas fossem concordadas, e 
postas d'assocego como cumpria, que entonce era 
pêra fallar e requerer qualquer ajuda, e d'outra guisa 
não. 

Aos damnificamentos e despezas que foram feitas 
nas guerras passadas, e todas as cousas que n'aquelle 
capitulo pediam, lhe foi respondido : 

Que tantas e muitas mais era seu senhor teudo e 
obrigado a pagar, quando lh'as por direito deman- 
da'- quizessem, como se bem mostrar podia, mas 
que por serviço de Deus e bem de paz, e honra de 
um reino e doutro, não cumpria fallar em taes cou- 
sas, mas serem afíastadas, e todas quites de uma 
parte a outra, pêro se isto não quizesse, salvo ir por 
tal feito em diante, que lhe dessem escriptos as pes- 
soas, e nomeassem seus bens, e elles lhe dariam ou- 
tro similhante, que pezasse mais que o seu. 

Entonce deram escripto em um rol estes, a que pe- 
diam que entregassem os bens e terras que em Portu- 
gal haviam elles, e os filhos d^alguns, a saber: o conde 
de Vianna João Rodrigues Portocarreiro, Ayres Go- 
mes da Silva, Martim Aííonso de Mello, Atlonso 
Gomes da Silva, Álvaro Gil de Carvalho, Fernão 
Gonçalves de Sousa, Gonçalo Rodrigues de Sousa, 
Gonçalo Vasques de Azevedo, e d'outros contados 
por nome até cincoenta e seis, afora outros cavallei- 
ros, donas, escudeiros e pessoas, de que se entonce 
não accordavam, nem haviam informação. 

Os de i^ortugal deram outro do que seu senhor 
demandar podia, que eram ametade das terras que 



Chronica d? El- Rei D. João I 8i 



foram tomadas ao Conde D. Affonso, que perten- 
ciam á condessa D. Isabel sua mulher, sobrinha 
d'el-rei de Portugal, filha de seu irmão el rei D, 
Fernando, e des-ahi Aguilar de Campos, com todas 
as terras que foram dadas a D. Pedro, filho do 
Conde de Vianna, e Salvaterra com todos os legares 
que foram do Conde D. Álvaro Pires, que per- 
tenciam a D. Pedro de Castro, seu filho, e as ter- 
ras e logares que eram de Vasco Martins de Mello, 
e mais as penas das terras da rainha, que foram da- 
das a sua mulher, e isso mesmo os jantares das di- 
tas terras de Vasco Martins de Mello seu filho. Ou- 
trosim Micer Lançarote, que havia Fonte Guinaldo, 
e outros logares; os castellos e lo.',ares que a Martim 
Gonçalves seu filho, des-ahi Alarcão e outras terras 
que foram dadas a Gil Vasques da Cunha, e assim 
as dignidades e bens que havia o abbade de São Jus- 
to, e outros assim nomeados, pouco mais de vinte 
pessoas, dizendo que não vinham avisados d'esto, 
nem haviam prologo de mais outra informação, e 
com esto cento e oitenta mil dobras das penas dos 
prisioneiros, e cincoenta mil das sentenças julgadas, 
e cincoenta mil da tomada das naus que de Genoa 
vinham, e assim os damnos e interesses, e outras 
cousas muitas; e emaderam mais em razoado, e dis- 
seram mais por palavra : 

— «Senhores, nós quanto mais pensamos nas cou- 
sas conteudas em vosso escripto, tanto nos parece 
escusado fallar em ellas, porque adur se podem ra- 
zoar taes feitos, que se delia não gere escândalo e 
mal querença, e não paz nem outro bem nenhum, 
porém nos parecia d*aguisado fallar na paz simples- 
mente, e não nas discórdias e ódios passados, como 
|á dissemos; a qual não deve ser embargada por 



82 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



proveito de pessoas privadas, a que pertence a mór 
parte de quanto dissestes e daes em escripto; ca 
aquelles que se d'estcs reinos foram, por qualquer 
razão que tosse, e vieram contra elles a lhe fazer 
guerra, bem merecium perder os bens, pois desser- 
viam nosso senhor el-rei, vindo contra a terra de on- 
de eram naturaes, não cahindo em menos erro, ca 
senão foram seus vassallos, mormente os que reco- 
nheceram por senhor, fazendo-lhe vassallagem, rece- 
bendo d'elle muitas mercês, que são a maior parte 
dos que andam em Castclla; e a paga que dizeis que 
elrei de Portugal deve fazer por emenda das cousas 
passadas, vista a guerra que por seu azo foi ordena- 
da, por esses trautos que ailegaes, se pode bem mos- 
trar que elle não é tcudo a nenhuma cousa, pois ti- 
nha justa razão ds se defender de seus contrários; 
mas que os reis de Castella os quebrantaram, e são 
teudos ao por vós pedido, e muito mais ao que por 
sua parte podíamos pedir, se quizesscmos. ca alem 
do que é dito, bem podia el-rei nosso senhor pedir 
que lhe sejam entregues as terras que o duque de 
Alencastro deu á rainha D. Filippa, sua filha, em 
casamento com elle, das quaes lhe fez pura doação 
sendo elle rei dos reinos de Castella e sua mulher 
D. Constança rainha, outorgando a infanta D. Ca- 
tharina sua filha, nossa senhora, rainha de Cas- 
tella que ora é. E d'esto tem firme doação assigna- 
da por suas mães, e sellada dos seus sêllos, a qual 
poderamos trazer pêra a verdes que tal é, e nomes 
de muitas mais pessoas das que ementadas temos, 
se soubéramos que em taes cousas houvéreis de fal- 
lur; mas porque a serviço de Deus c concórdia d'es- 
tes feitos não se requerem taes caminhos pêra vir a 
paz, não nos foi com ello fallado, nem vínhamos per- 



Chronica d El- Rei D. João I 83 



cebidos de responder a tal demanda, ca se taes cou- 
sas fossem cumpridoras de pedir pêra bem da paz, 
tantas e mais tortes que as que vós tendes, temos 
nós que razoar podíamos por nossa parte; mas a 
nós nem a vós, pêra bem da concórdia, não cum- 
pria fallar em cousas que renovam ódios e imisades, 
mormente quando vós sabeis que já esto foi pedido 
outra vez de vossa parte, tratando-se a paz pelos al- 
vidros de um reino a outro, e nunca vos em tal 
cousa cahiram, nem em parte, nem em todo; demais 
sendo vós bem certos que uma parte, nem outra, taes 
sommas de dinhieiros não havia de pagar, por mui 
culpado que fosse, que ante não soubesse dispender 
em guerra contra seu adversário; e porém não cum- 
pria fazer menção de cousas que geram novos ódios, 
que tanto é contrario ao bem da paz e ao prologo 
de vosso escripto. á qual se vos prouver de nos che- 
garmos, abreviando todo e leixando esto que tocas- 
tes, quitando de parte a parte, entonce fallaremos na 
ajuda que pedis, e em outra qualquer cousa que bem 
€ honestamente, com honra d'ambas as partes devia 
ser requerida.» 

Responderam elles, e disseram : 

— «Nós bem vemos vossas razoes que com boas 
e sãs vontades por vós foram e são propostas, as- 
sim por palavra como por escripto, mas pois em tão 
santo negocio somos, em que se trata do bem da paz, 
a qual Deus por sua mercê traga a termos de boa 
conclusão, convén todavia de se fallar, segundo dis- 
semos, nos males e damnos que passados foram, e 
€m quaesquer outras cousas que chãmente com di- 
reita consciência entendemos que se devem de fal- 
lar, por todas as cousas ficarem chãs, e cm tal es- 
tado, como se nunca entre taes reinos houvesse 



84 ibliotheca de Clássicos Portugueses 



guerra nem discórdia, salvo boa paz, e boa amiza- 
de e irmandade; e d'estodeve a vosso senhor prazer 
muito, porque fallando-se taes cousas, por ellas se 
pôde melhor ver a razão e direito que cada uma 
das partes tem, de que tratando, se segue eoualda- 
de, e cessam os afiiicamentos que os principes de- 
pois das pazes feitas podem haver de seus súbditos; 
mas porque nós allegamos muitas razoes, que os 
que vieram contra o reino, fizeram o que deviam, 
vista a forma dos trautos, e vós dizeis que erraram 
muito guerrear a terra de onde eram naturaes, e 
dar-lhes galardão por o mal que fizeram, isso mes- 
mo mostramos claramente que el-rei de Portugal é 
teudo pagar o por nós pedido, e muito mais, se de- 
mandar quizessemos, e vós affirmaes que el rei nosso 
senhor não é obrigado em muito mór quantia, e 
sendo tão contrários nas cousas em que pende a mór 
força do trauto, nunca havemos de ser concordados. 
Porém nos pareee ser cousa justa, por bem diam- 
bas as partes, que houvesse.nos um juiz que, vendo 
todo, determinasse em certo qual d'ellas tem o di- 
reito. Mas porque o tal haver não podemos, seria 
bem feito que o primeiro Papa que ahi houver, a 
que todos obedeçam, conhecesse d''esto, e elle o de- 
terminasse até dez annos como sua Santidade por 
bem visse, e os reis fo>sem teudos guardar seu man- 
dado e determinação, sem mais duvida que pozessem 
em ello; e se até este tempo ahi não houvesse tal Papa, 
ou posto que o ahi haja, não determinasse de todo 
as cousas sobre que debatemos, que ficassem no 
ponto e estado em que ora são; e assim prazerá a 
Deus, que é verdadeira paz. que mais toste conclu- 
diremos em ella, quercndo-vos vós chegar ao ar- 
razoado.» 



Chronica d' El- Rei D. João I 85 



Os portuguezes responderam que outras cousas 
haviam ahi mais pertencentes pêra vir á paz, como 
lhe já disseram, que aquellas em que fallar queriam, 
pois que adur nunca podiam ser determinadas, mas 
pois em juiz e Papa fallavam, que el-rei seu senhor 
não havia mister outro Papa, nem juiz pêra livrar 
tal negocio, salvo o mui alto Deus, que em simi- 
Ihantes feitos já outra vez pozera seu juízo; e pois 
seu senhor leixava de sua parte quanto demandar 
podia, e elles da sua não queriam fazer similhante, 
que bem se podia dizer d'elles o que disse Jesu 
Christo aos judeus, quando lhes fallou que não cui- 
dassem que viera metter paz na terra, mas espada, 
e apartar o padre do filho, e a filha da madre. 

— «E vós, disseram elles, parece que não viestes 
por metter paz em estes reinos, mas espada e guer- 
ra, como já em outro tempo houve, e apartar os 
bons dividos que entre os reis d'elles ha.» 

Tornaram entonce a dizer que não podiam fazer 
ai, nem minguariam d'aquello que á primeira por 
elles tora proposto, porque assim lhes era mandado, 
e o traziam por escripto. 

A esto lhe foi respondido que se o elles assim ha- 
viam de seus senhores, que sua estada era alli de- 
balde, e não cumpria dispender mais tempo sobre 
tal negocio, e que melhor era a el-rei seu senhor fi- 
car em guerra depois das tréguas, que ihe outorgar 
as cousas que pediam, pois nas que elle demanda- 
va, não queriam consentir; e assim se partiram uns 
dos outros, ficando o trauto abrido e não desatado. 



S6 Bibliútheca de Clássicos Poríuguet^es 



CAPITULO CXCII 

Das razões que a rai>iha D. Catharina enviou di^er 
a el-reiy e do que lhe fui respondido . 



Foram-sê os embaixadores pêra Castella, e con- 
taram a seus senhores aquello que lhes com 
os de Portugal aviera, e como tal feito ficara 
sem nenhuma conclusão, e entendiam que sempre 
ficaria por muitas vezes que sobre esto lá fossem. 
A rainha D. Catharina, que muito desejava paz 
e as5ocego entre Portugal e Castella, vendo quanto 
cumpria a seu filho, segundo a sua tenra edede; des- 
ahi os annos das tréguas se gastavam indo, e mais 
os bons dividos que entre elles havia, que muito 
contradizia haver entre elles tal guerra, tendo desto 
esperto sentido, trabalhou de tal guisa, que o infan- 
te D. Kernando, tio del-rei, e todos os grandes do 
reino, do conselho de seu filho, leixaram ancarrego 
a ella que fallasse no trauto de paz e egualasse 
quaesquer cousas que a ella pertencessem, e ella o 
fez logo saber em Vizeu a el-rei onde entonce estava, 
dizendo que se elle quizesse chegar-se a razão aguisa- 
da sobre as cousas em que se até nlli não accordaram, 
que ella entendia poer ahi taes meios pelo grão di- 
vido que dambas as partes eram, que os feitos vies- 
sem a bom fim, e que mandasse lá seus embaixado- 
ree; e el-rei respondeu áquelle que lhe o recado 
trouve, que elle os mandara já por vezes ao extremo 
fallar no fim d'esta paz, e que sempre por sua parte 
foram requeridas tão desvairadas e desiguaes cousas. 



Chronica dEl-Rei D. João 1 87 



ue nunca em ello fora feito nada e sempre o trauto 
cara aberto, sem nenhum bom fruito que de tal 
alia nascesse; e que portanto duvidava de os en- 
viar, porque mandando-os a sua casa, sendolhe pe- 
didas taes cousas como até alli foram, as quaes elles 
não haviam doutorgar, e tornarem se sem o tra 
boa firmeza, que os não entendia de os mandar la, 
a menos de saber d^ella o sobre que havia de ser 

fallado. y " r, A • 

Partido el-rei pêra Santarém, chegou João Rodri- 
gues, arcediago de Gordom, com resposta da rai- 
nha, dizendo todavia a el-rei que lhe mandasse di- 
zer sua tenção n'aquellas cousas que se cumpria de 
' se fallar no feito da paz, e que ella, como media- 
neira, a todo o seu poder o fana vir a toda boa 
concordança, e el-rei lhe mandou aquella resposta 
que por seus trautadores fora dada aos de Castella 
sobre as cousas que pediam, dizendo que ellee seus 
reinos eram os damnificados, e que a elle tora a 
guerra injustamente feits, e cumpria de receber 
d'ello emenda, mas pêra se tratar boa paz entre 
elles, que de uma parte nem d'outra taes cousas nao 
deviam ser pedidas, porque antes se mettena a toda 
guerra, que podesse ser qualquer d'elles que aquello 
fosse obrigado, que o haver d'outorgar; e quanto ao 
que dizia' que pozecsem tal feito em mão do Papa 
que os houvesse d'ouvir, e estar por sua sentença, 
que tal cousa pouco proveito trazia a nenhuma das 
partes, porque fazendo-se a paz sob tal esperança, 
os annos que passassem até áquclle tempo, e des- 
ahi até que a sentença fosse dada, sempre estarmm 
em duvida e em lide de demanda uns com outros, 
e dando sentença por uma das partes, como era de 
cuidar, que mal soilreria a outra execução em seus 



88 



Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



bens, valor de trez ou quatro milhões d'ouro, mór- 
rn^ente poer esto cm mão de um juiz, que por affei- 
çáo ou outra cousa porque se os homens costumam 
de mover, ligeiramente julgaria á vontade de uma 
das piírtes (ainda que fosse Papa), porque a outra 
seria muito perdidosa, e que em tal cousa não era 
de fallar. 

Outrosim, que no que demandavam que por irau- 
to se obrigasse a lhe dar ajuda contra os mouros, 
disse que por nenhuma guisa o faria, porque a mais 
grave cousa que a alguma pessoa posta em estado 
e honra, podiam demover que fizesse, assim era 
demandar-lhe tal cousa, porque parecesse que a fa- 
zia por modo de obrigação, e porque tal ajuda, fa- 
zendo-a por trauto, bem mostrava por ello ser feita, 
que tal partido não era de commetter, ca pois que 
natureza e amizade, se a Deus entre elles pozesse, 
constrangia a fazer tal ajuda, que não havia mister 
tal requerimento, que fazendo-o lhe fosse verganha. 
A outra, em que lhe era requerido que perdoasse 
a todos os portuguezes e lhe tornasse os bens, res- 
pondeu que ouvir tal cousa, a toda a pessoa fazia 
aborrecimento, mormente a aquelles que o recebe- 
ram por senhor, que não havia mais contraria cousa 
á humanai natureza, que haver de fazer bem a 
aquelles que lhe erravam, recebendo d^elle muita 
honra e mercê, e que bem via ella, e os de seu con- 
selho podiam entender, que quem tal espelho cada 
dia visse em sua casa, que lhe não seria saborosa 
cousa, nem vista, mormente os que se foram na ida 
de Martim Vasques, e demais fazel-o por força de 
trauto, como elles requeriam, e que pêra a paz ser 
bem feita, e a honra de cada uma das partes ser 
guardada, que lhe rogava como irmã e amiga, pois 



Chronica d' El- Rei D. João I 8g 



d'esta cousa tinha carrego, que o quizesse poer em 
bom fim. 

Partido João Rodrigues com este recado, tornou 
outra vez a Lisboa, onde el-rei já estava d'assocego, 
não em forma de embaixador, mas com uma carta 
de crença, guarnido porém de muitas razoes pêra 
fallar no feito da paz, segundo parece, que lhe fo- 
ram encommendadas, as quaes brevemente resumi- 
das propoz ante el-rei d'esta guisa : 

O que a mui alta e mui nobre senhora rainha de 
Castella manda a mim João Rodrigues, seu creado, 
que a vós, mui nobre senhor, rei de Portugal, seu 
mui claro e mui amado irmão, da sua parte dissesse, 
é esto em conclusão : 

Que ella bem viu a carta que lhe enviastes sobre 
as cousas que vós pelos trautadores da paz, por sua 
parte foram requeridas, das quaes a primeira e a se- 
gunda vos não prazem, e a terceira dizeis qúe natu- 
reza e amisade constrangem fazer-se tal ajuda sem 
mais obrigação de trauto, e que d outra guisa traz 
vergonha e prasmo ao que a fizer. 

A quarta quando se a emenda houvesse de fazer 
aos portuguezes que aos da guerra primeira, que 
vossos vassallos não foram, se devia de fazer, mas 
aos outros não, e que todo bem esguardado, que os 
da sua parte entendem que el-rei seu filho ha ra- 
zão d'esto demandar, e as escusas por vós dadas 
não são de receber, mas porque as vontades dos ho- 
mens são desvairadas, e não se concordam assim de 
ligeiro, foi necessário a ordam de juízo entre elles 
por o juiz haver de declarar qual das partes tem ra- 
zão, posto que seja contra vontade de uma d'ellas, 
c haja d'esperar sentença, e porque entre os reis, 
que superior não conhecem, o Papa por direito fica 



go Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



seu juiz, pede ella que vos praza que o primeiro Pa- 
pa que ahi houver a que todos obedeçam, determi- 
ne esta cousa, e que esto não deveis recusar, pois 
que vos razão requer, e vós se quizerdes esto, 
não torva a paz, a qual tira os grandes males que 
se na guerra fazer podem, ca posto que o preito se- 
ja chamado lide, mais ha mister tal lide, leis, e de- 
cretaes e livres de direitos, que buscar outras armas 
pêra ser vencida; e o que condemnado fosse segun- 
do lei de Deus e razão natural, deve attender a 
execução, que os principes, quanto mais pederio de 
Deus recebem, tanto mais sujeitos devem ser á ra- 
zão e á lei, mormente quando tal sentença é dada 
por aquelles a que todos os direitos privam, e liram 
a suspeita. 

A outro capitulo diz minha senhora, a rainha, que 
bem entende ella que segundo o grão divido que en- 
tre vós ha, e o amor que se accrescentará, Deus 
querendo, por azo d'esta paz, que em razão está 
que seu filho e ella ajudassem a vós e a vossos fi- 
lhos nas cousas que vos cumprissem, e vós assim a 
elles, mas que entre os reis e principes, ainda que 
haja grandes dividos, sempre costumaram firmar 
suas amizades por lianças e obrigações, ca esto ac- 
crescenta a amizada e traz mór segurança, e d'ahi 
outro proveito, que aquelles que sabem tacs lianças 
e obrigyçÕes, não ousam poer entre elles senão bem e 
amor, e são sempre mais timidos, que não somente 
receiam aquelle contra quem se mover querem, mas 
ainda seus alliados, e que se a vós prouguer pensar 
bem cm esto, que pêra vós e pêra vossos filhos será 
grande proveito, reinando em paz e assocego. sen- 
do sempre poderoso de fazer vossa vontade. E que 
os homens devem esguardar o que avir pode, ca mui- 



Chronica d'El'Rei D. João I gi 



tas vezes aquece alguns ser em guerra, e de ligeiro 
ser em mui breve em paz e viver em folgança, e ou- 
tros que pensam doestar em assocego, levantar-se 
entre elles, porque vivem em guerras e tribulações; 
e porende queria ella, como está em razão, que 
aquelles que natureza e divido obriga de se be.r 
querer, que de feito assim o cumprissem por obra, 
de guisa que todos entendessem que eredes uma cou- 
se, e que os vossos feitos eram seus, e os seus eram 
vossos, e que não foi sua tenção, nem Deus quizes- 
se, que trauto nenhum fosse feito n'esia matéria, que 
a vós fosse vergonhoso, mas egual a ambas as par- 
tes, e que se porventura a vós praz que se tire aquel- 
la limitação da ajuda contra mouros, que entonce 
fique o trauto chão, a saber: 

Que nas guerras que el-rei seu filho e os que d'elle 
descenderem, geralmente houverem, que vós e vos- 
sos successores o ajudeis, com certo numero de ga- 
lés á vossa custa, e isso mesmo faça elle a vós, e 
os que apoz elle reinarem, e d'esta maneira não ha- 
verá vantagem de uma parte a outra, e se cuizerdes 
que d'esta guisa se faça por terra, que assim se or- 
dene, o que d'esto em se fazendo vem a vós e a 
vossos filhos muito maior proveito, que a el-rei seu 
filho de grande ajuda de navios ou de homens d'ar- 
mas que lhe fazer podesseis, ca por aqui seguraes 
vosso estado e linhagem pêra todo sempre. 

Em vos requerer que torneis os bens aos portugue- 
zes que se pêra Castella foram na guerra primeira 
e segunda, diz a rainha minha senhora que o não 
deveis haver por aggravo, ca de vós o deveis fazer, 
por serem notáveis pessoas e naiuraes d'esta terra^ 
e andarem assim íóra d'ella por cousas que muitas 
vezes costumam d'aquecer; e querer agora entrar 



^2 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



em questão se fizeram bem ou mal, que é a ques- 
tão entre vós è a rainha D. Beatriz sobre o direito 
d'este reino, ca assim os primeiros como os segun- 
dos, todos teem razoes e escusas que fizeram o que 
deviam, e querer poer esto em disputaçao, não con- 
vém a vossa honra e estado, mas perdoar o quei- 
xume que d'elles tendes, tornando-lhe todo s'^u e fa- 
zendo-lhe outras mercês com que vos sirvam, e não 
andarem fora da terra, ca própria cousa é dos reis 
perdoar, mormente o que toca a suas pessoas, e se 
bem semençardes os feitos passados, assim em Cas- 
tella como em outros reinos, achareis que d'esta 
guisa o costumaram fazer os principes, perpetuando 
por aqui sua honra e estado, recebendo de taes pes- 
soas grandes serviços e proveitos; e porém ^os roga 
muito a rainha minha senhora, que pois é feito de 
direito, que não tenhaes em conta tal paga e outor- 
gueis este capitulo. 

El-rei, presentes os do conselho, ouvindo estas ra- 
zões um pouco como sorrindo, entonce disse : 

— oDigo-vos, arcediago, que vós haveis mui bem 
fallado se vossa pregação fosse nova, e não fosse 
ainda ouvida, mas já esse sermão foi tantas vezes 
pregado, assim pelos embaixadores que vieram fal- 
iar na paz, como por cartas da rainha que nos so- 
bre cllo enviou, que )á o sabemos todo de cór, e não 
cumpre ser por vós repetido, posto que mudeis mais 
doces palavras, por demover que vos ha)a de crer; 
ca em o que á primeira disse e me pareceu, isso 
digo agora, e parecerá sempre que liança com taes 
condições, quejandas sempre demandaes, que nunca 
entendo de as fazer; e leixando os outros capitulos 
em que fallar não cumpre por bem da paz vir a ho- 
nesto fim, somente esta da liança com taes partidos, 



Chronka dEl-Rei D. João I g3 



eu não dou logar a se fazer, por ser vergonhoso a 
nós, e cahir em grande mingua; ca posto que pelas 
palavras pareça esto bem igualdado ser, quanto a 
obra é bem desigual, porque Castella tem muitas 
nações, assim como : França, Navarra, Aragão e 
Grada, com que pode haver guerra, como ora tem 
abrida, pêra as quaes nos podia requerer tal ajuda, 
e nós, posto que guerra podessemos haver, não te- 
mos senão Castella só, e havendo paz com ella, fi- 
camos teudos de lhe dar como logo cumpre d'haver, e 
elles a nós não, pois que a mister não havemos, e posto 
que taes cousas esguardar não quizessemos, era for- 
çado quem nos visse fazer taes ajudas, e elles a nós 
nenhuma, que dissesse que por comprar paz fazía- 
mos tal feudo, e Ih^a dávamos em logo de páreas, 
o que era assaz desigual e grande nosso prefaço; as- 
sim que sobre esto não cumpre pregar mais.» 

— «Mui alto e nobre senhor, disse João Rodri- 
gues, pois vossa mercê não consente si;r tal condi- 
ção posta em feito de liança dizendo que é desigual, 
posto que á rainha minha senhora pareça direita 
igualeza, ella vos roga que se trate esta paz sem 
poer este capitulo, mas que se faça esta ajuda de 
fora por cartas firmadas d'ambas as partes, que ju- 
rem todos guardar este segredo e não ser desco- 
berto, salvo não querendo alguma d'ellas cumprir o 
q\xe se na carta contivesse, e quando tal ajuda hou- 
ver de ser pedida, que o fosse por divido de amor 
c parentesco, e não por força de liança, e assim ces- 
sará todo o que se dizer pode contra esto.» 

— «Rogo-vos que me digaes, disse el-rei, que dif- 
ferença fazeis vós de tal capitulo a este em que fal- 
lastes, que não seja todo um, salvo quanto quer mos- 
trar que se faz mais encobertamente por encobrir 



g4 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



nossa mingua, dando-se cartas d''essa guisa que di- 
zeis, ante é rtiais feio que o primeiro, porque sa- 
bendo esto os do conselho dambas as partes, como 
convinha de fazer a saber, não podia ser que por al- 
gum modo descoberto não fosse, e sabendo-se como 
era forçado esto, haveriam já por a mor vergonha e 
prasmo. ca bem entenderiam que se não fazia por 
tal modo, senão por encobrir a sujeição em que nos 
meitejamos. pois tal partido é bem vergonhoso, não 
cumpre em elle mais de fallar. » 

— «Ora senhor, disse o castellão, pois vós doestes 
ambos tendes despedido, ainda tenho outro pêra di- 
zer, que por contemplação da rainha vossa irmã, é 
por força d'outorgardes, o qual é: que por íerviço 
de Deus por que se isto faz, de.s-ahi por assocego 
d'ambas as partes, que vos praza d'a)udardes el rei 
seu filho nesta guerra dos mouros que tem come- 
çada, por vossa pessoa quatro annos, com certos 
navios e homens d'armas segundo cumpre a vossa 
honra, e que se leixe todo o outro tempo, e que esto 
deveis faz( r de boa vontade, a uma por serviço de 
Deus, porque se a guerra principalmente faz, a ou- 
tra, pois que toda vossa vida dispendestes em guerra 
de christãos, espargindo muito sangue d'elles, que 
isto fosse como emenda e pendenç^ de vossos pec- 
cados, e de mais grande louvor quanto ao mundo 
ajudardes a conquistar terra de que tanto mal ha 
vindo a todo Hespanha, que bem sabeis vós que nos 
passados tempos os mores do mundo se houveram 
por honrados de vir ajudar a esta conquista.» 

— "Já vos respondi, disse cl rei. que ajuda por 
trauto em nenhunia guisa entendo fazer, e se ella 
bem vira a carta que lhe de Santarém mandámos 
por Álvaro Gonçalves da xMaia, escrivão da nossa 



Chronica cTEl-Rei D. João I gS 



camará, não nos mandara esto requerer, por ser fora 
de igualdança e muito desaguisado, ca se lhe nós 
escrevemos que nenhuma ajuda por trauto entendía- 
mos d'outorgar, muito menos o fanamos por nosso 
corpo, havendo de ser por força de trauto, posto 
que fosse sob figura de liança e por serviço de Deus, 
assim que n'esto não cumpria fallarmais, nem man- 
dar outros mensageiros, como ella escreve que vão, 
porém consirando em o grande amor que entre nós 
ha, porque lhe prougue de tomar desto carrego, 
des-ahi por não darmos logar ao inimigo da huma- 
na geração de semear ódios e discórdias onde Deus 
deu tamanhos dividos, posto que já lhe de todo 
mandássemos resposta da guisa que comnosco fal- 
íamos, a nós praz de mandarmos lá nossos mensa- 
geiros, e este recado lhe levar. 



CAPITULO GXCIII 

Qitaes embaixadores el-rei enviou a Castella, e da 
carta que sobre ello enviou á rainha. 

PARTIU o arcediago pêra Castella, e el-rei or- 
denou d'enviar a lá um honrado fidalgo, seu 
alferes mór, chamado João Gomes da Silva, 
e dois doutores comelle, um diziam Martim Docem, 
e outro Fernão Gonçalves Belcago, e estes mandou 
el-rei corregidos como cumpria á sua honra e esta- 
do, e por elles uma carta que dizia desta guisa: 

«Mui cara e mui amada, a quem com todo o nosso 
coração inteiramente bem queremos, irmã amiga, 



g6 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



rainha de Castella e de Leão. Nós, el-rei de Portu- 
gal e do Algarve, vos enviamos muito saudar como 
irmã e amiga que muito amamos e prezamos, pêra 
que queríamos que Deus desse tanta saúde e vida e 
honra, como vós mesmo desejaes. Mui cara e mui 
amada irmã: Fazemos a saber que João Kodrigues, 
arcediago de Gordom, vosso creado, checou a nós 
e nos trouxe vossa carta de querença, pela qual nos 
prometteu trez partidos em feito das lianças que nos 
ante por clle enviastes dizer, dizendo que vos pare- 
cia íazerem-se por aquelle modo entre nós e vosso 
filho com trautamcnto das pazes, dos quaes um era 
que em todas guerras que vosso filho e seus succes- 
sores houvessem contra quaesquer pessoas, que nós 
e nossos herdeiros o ajudássemos com dez galés ar- 
madas a nossa custa, e isso mesmo fizessem elle e 
os que depôs elle viessem, a nós e a nossos descen- 
dentes. Outro era que tal partido de lianças não 
fosse feito por trauto, mas simplesmente de fora por 
nossas cartas e vossas, e que a ajuda que se hou- 
vesse de requerer, fosse pelo bom divido e amisa- 
de qua entre ambas as partes era, e não por as di- 
tas cartas, e que todos jurássemos as cousas em ellas 
conteúdas a nenhum ser descoberto, salvo fallecen- 
do alguma das partes das condições n'ellas postas, 
equeentonce podesse dizer e requerer sem prasmo 
do juramento. O terceiro partido que nos disse, que 
nós por nossa pessoa com certos navios e homens, 
segundo cumprisse o nosso estado, ajudasserrtos 
vosso filho cm esta guerra dos mouros por quatro 
annos, e que leixasse a ajuda do mais tempo. 

Mui cara e mui amada irmã e amiga: Porque nos 
estes partidos todos trez parecem mui desiguaes a 
nossa parte, e muito fora do que nos sempre dizer 



Chronica dEl-Rei D. João I gj 



enviastes, especialmeute o terceiro, que bem cremos 
que nunca por vós íoi demovido, mas por tal pes- 
soa que pouco desejo havia de trazer taes feitos a 
boa fim, des ahi por o arcediago outra cousa não 
trazer que nos da vossa parte dissesse, porém não 
quizeramos em ello mais fallar, porque sempre por 
parte de vosso filtio são tão desvairadas e desiguaes 
cousas movidas, que parece sobejo poer mais mão 
em tal feito. Pêro por serviço de Deus, e por não 
contrariar do bom divido que entre nós ha, dando 
logar ao Principe das discórdias, des-ahi por vossa 
contemplação, nos accordamos de vos enviar sobre 
esto nossos mensageiros, pelos quaes podereis saber 
nossa final intenção, e rogamos-vos, como irmã e 
amiga, que vos praza por parte de vosso filho, bre- 
ve e sem delonga, declarar de todo o ponto a sua, 
de guisa que taes feitos hajam tostemente fim, por- 
que quando consiramos os bons dividos que entre 
nós ha, e a perlonga que comvosco, que sois nossa 
irmã, tantos tempos ha que dura sem nenhum frui- 
to de bem. Deus sabe que a nossa alma é muito 
anojada, e sede certa que nos fareis estremado pra- 
zer de uma guisa, ou d'outra, dar final determina- 
ção n^estes feitos, pois a vós são encarregados, mui 
cara e mui amada irmã. 



rOL. 4 VOL. TU 



g8 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



CAPITULO CXCIV 



Das rabões que os embaixadores disseram d rainha 
por palavra e por escripío. 

CHKGARAM OS cmbaixadorcs a Castella, onde fo- 
ram bem recebidos, e feita boa honra e aga- 
zalhado dos senhores e fidalgos da corte, e 
leixando as saudações que a rainha e el-rei seu filho 
deram, as encommendaçÕes dos infantes de Portu- 
gal que pêra suas primas irmãs dVl-rei levavam, 
isso mesmo pêra o infante D. Fernando e sua mu- 
her e filhos, e as ceremonias do beijar das mãos, 
porque é cousa que todos sabem, as falias que se 
dispenderam por trautamento d'esta paz, tornemos 
a nosso breve fallamento, e dizemos logo que as 
encommendaçÕes dadas á rainha ante que fallassem 
do infante D. Fernando, tio d'ei-rei e seu tutor, dis- 
seram a ella d esta guisa : 

— € Senhora, nós somos enviados a vós por vos 
dizer algumas cousas da parte d'el-rei de Portugal 
vosso irmão, nosso senhor, e porém vos pedimos 
por mercê que nos assigneis dia e hora a que vos 
tornemos a fallar o que nos por elle é mandado.» 

E ella disse que lhe prazia, e disse o dia e hora, 
e quando. 

Éntonce foram ver aquelle infante D. Fernando, 
e ditas as saudações que pêra elle levavam, disse- 
ram estas palavras: 

— € Senhor, nós somos aqui vindos, porquanto a 
rainha, madre d'cl-rei vosso sobrinho, fez saber a 



Chronica d'El-Rei D. João I gg 



el-rei nosso senhor por pessoas e cartas que lhe en- 
viou, que vós e todos os do reino déreis cargo a 
ella de egualdar o feito destas pazes, em que se até 
aqui não concordaram, e porque elle viu que estes 
feitos iam a perlonga, visto o razoado que lhe deu 
a arcediago João Rodrigues, moveu-se de nos man- 
dar cá pêra esta paz haver fim, e porque nós, se- 
nhor, somos certo que quantas cousas á rainna fal- 
larmos, todas vós haveis de saber, nós ora não vos 
faremos d'ella palavra, pêro. senhor, tanto vos pe- 
dimos por mercê que n'estes feitos esguardeis o ser- 
viço de Deus, des-ahi prol e honra d'ambas as par- 
tes fazendo todo vosso poder d'egualdar bem esto, 
porque vimos de guisa que el-rei nosso senhor sinta 
quão boa tenção e vontade sempre n'estes feitos 
mostrastes por vós, e trazida a tal fim.» 

O infante se offereceu a todo o que diziam com 
gracioso vulto; e partiram-se d'ante elle, e indo fallar 
á rainha, o que lhe disseram foi esto: 

— «Senhora, el-rei vosso irmão nosso senhor vos 
envia dizer que bem sabeis como por Álvaro Gon- 
çalves da Maia, escrivão da sua camará, e homem 
de que muito fia, fizestes saber que vós trabalhareis 
muito com o infante D. Fernando, e com os do con- 
selho d'el-rei vosso filho, por estes feitos virem a boa 
concordança, e que a todos prouguera de vós serdes 
medianeira d'elles, e pois a vós eram encarregados, 
chegando-se elle a cousas aguisadas, que vós enten- 
díeis de ter tal meio que ambas as partes viessem 
a boa concordança, e que lhe prouguesse de man- 
dar a vós seus mensageiros pêra se poer esto em 
bom fim, e elle vos respondeu por aquelle Álvaro 
Gonçalves como já por vezes enviara seus mensa- 
geiros, satisfazendo ao capitulo da trégua onde falia 



100 Biblioíheca de Clássicos Portugueyes 



d'esta paz, e sempre por parte d''estes reinos foram 
taes cousas pedidas, que nunca de tal falia nasceu 
um bom fruito, e porém duvidava muito d'enviar 
seus mensageiros a vós, como lhe dizer enviáveis, 
sem saber de vós primeiro em que cousas vos pra- 
zia que se houvesse de fallar, ca se aquellas eram 
que lhe sempre fallavam e requeriam, escusada era 
sua vinda, pois que os d'outorgar não haviam, .,ue 
rós lhe mandastes dizer por João Rodrigues, arce- 
diago, a primeira vez que a lá foi, que vos enviasse 
dizer sua tenção n aquellas cousas que entendesse 
que cumpriam de se fallar, e vós trabalharíeis a todo 
vosso poder de as trazer a toda boa concordança, 
e elle sem mais detença vos enviou dizer por elle 
sua final intenção, e agora quando chegou a Lisboa, 
d'esta segunda vez que a lá foi, lhe fallou da vossa 
parte algumas cousas, que a cl-iei nosso senhor pa- 
recem mui deseguaes, de que logo recebeu respos- 
ta, e não quizera mais em ello fallar, mas por vossa 
contemplação, segundo lhe escrevestes ordi. noa de 
nos mandar a vós, rogando vos como irmã e ami- 
ga, em que ha grão fiúza, que olhando tão bons di- 
vides como heis, des-ahi tão grande serviço de Ueus, 
como se d"esto seguirá, egualdasseis estes feitos com 
honra d'ambas as partes, de guisa que nos tenha- 
mos razão de consentir em ello.» 

A rainha disse: 

— «Que bem lembrada era de todo, e lhe prazia 
muito com sua vinda, mas por as cousas se melhor 
encaminhai em, e mais toste haver despachamcnto, 
que cumpria de lhe darem em escnpto aqucliaò cou- 
sas que por parte d^tl rei seu senhor entendiam de 
dizer.» 

Outorgaram que lhes prazia, e foram-se j.KTa as 



Chronica cTEl-Rei D. João I loi 



pousadas, e tornaram depois com um escripto, cu- 
jas razões eram e!=>ías: 

• Mui alta, e mui nobre e mui excellente senhora: 
Por parte del-rei nosso senhor, vosso irmão, dize- 
mos a Vossa Alteza que elle e os do seu conselho 
hão muito pensado em estes feitos da paz, sobre as 
cousas que por psrte d'el-rei vosso filho até ora fo- 
ram movidas, e que elle, e quantos são, vistas em 
quaes pretende haver direito, e as maneiras que de 
um reino e 'l'outro se requer, que não podem achar 
melhor via pêra estes feitos virem a fim, e egualda- 
de d'ambas as partes, sem vergonha e prasmo d'al- 
guma, salvo fazer-se boa, simples e verdadeira paz, 
sem nenhumas outras condições; porque da paz fei- 
ta simplesmente, não pode nenhuma das partes di- 
zer que a alguma d'ellas, ou ambas, traga mingua 
nem prasmo, o que não é quando n'ella ha certas 
condições, que quantas mais são, tanto d'ellas mais 
recrecem novas tensões, e sus/eitas, pelas quaes se 
dizer pode que a alguma das partes traz mais hon- 
ra, ou mais mingua, e quando alguma sinta que em 
tal fallimento fica, ou que alguns assim o entendem, 
sempre seu coração está d'ello escandalisado muito, 
e busca caminhos e maneiras por se tirar d'ello a 
fora, porém tal amizade nunca fica certa e firme, 
como pela paz feita simplesmente. 

E ainda, senhora, mais achareis que d'esta paz 
simples se segue a ambas as partes amor e aprovei 
tamento, e pretenças, e com muito melhor vontade, 
que quando é feito emadendo-lhe condições, porque 
na paz simples todas as cousas que se d'ella seguem 
entre as partes, procedem de grande amor e livre 
vontade, sem constrangimento de condição que obri- 
gue; pois onde ha dividos tão chegados, não é ne- 



J02 Bibliotheca de Clássicos Portugue^^es 



cessario outra maneira, salvo aquella que arreda to- 
dos os nojos e escândalos das cousas passadas, que 
é a simples e verdadeira paz, sem lhe cmadendo ou- 
tras clausulas nem condições, e se esguardardes nos 
tempos passados, não as achareis feitas, salvo d'esta 
guisa. E não havia ahi porém taes dividos, como, a 
Deus graças, agora ahi ha, porém, senhora, vos pe- 
dimos por mercê, que pois esta é a final intenção 
d'el rei vosso irmão, nosso senhor, que vos praza 
verdes e pensardes bem todo, e nos dardes cedo em 
cllo livramento.» 



CAPITULO CXCV 

Das ra:íóes que por ambas as partes foram falladas 
no cntifíelho. 



PROPOz a rainha em conselho que maneira se te- 
ria de faliar em estas pazes, e havido accordo 
por todos, disseram que não achavam melhor 
cousa em que se faliar podesse, pêra o effeito da paz 
vir a boa fim, salvo aquella que o arcediago em Portu- 
gal propozcra e que já outras vezes por seus embaixa- 
dores fora requerido, porque da paz simplesmente 
feita, sem outra liança dajuda, não achavam ne- 
nhum proveito, que se a el-rei seu senhor seguisse^ 
Porque paz simples, diziam elles, posto que se 
razoa por alguns que é mais egual a ambas as par- 
tes, nunca uma de outra pôde ser segura como e 
quanto, e em que guisa, dellc ha de ser ajudado, 
ou se dirá depois, que não pode ser entonce, ou por- 



Chronica d' El- Rei D. João I io3 



ventura que não quer, e pois í^e melhor via não acha 
que esta, em ella todavia se deve de fallar; e assim 
concluiram. _^ 

Todos os portuguezes, sabendo tal conselho, e 
como haviam de responder a elle no dia que lhe foi 
assignado, foram a eile, e razoando disseram : 

— fSenhores, vós haveis accordado que se não 
falle em paz simples, mas condicional com certas 
lianças, dizendo que na paz simples não ha nenhum 
proveito, e na feita com lianças assignaes muitas 
vantagens, e nós, senhores, não o pensamos assim, 
mas muito pelo contrario, porque na paz condicio- 
nal, quantas mais partes em ellas são, tanto mais 
traz suspeitas e duvidas, e por as muitas extensões 
que se d'ellas tomar podem, tanto filham em si ellas 
^zo pêra se dizer: esto é mais honra, ou menos deshon- 
ra; o que não faz quando a paz é simples, e se vós 
esta causa fazeis por vos aproveitar d'alguma ajuda 
d'el-rei nosso senhor, isso mesmo elle de vós, por 
cgualdade de trauto a paz simples a faz haver mais 
cumpridamente, e com melhor vontade, ca a paz 
com lianças, de que vem muitas tensões, sentindo 
aquelle que a fizesse, que ficava em mingua, ou que 
a podiam cuidar outros d'elle, posto que elle enten- 
desse que não ficava n^ella, ou que necessidade lh'o 
fizesse fazer, seu coração seria escandalisado, e por 
tal escândalo não se moveria a fazer mais d'aquello 
que no trauto de tal paz fosse conteúdo, e tanto que 
cada uma das partes tal intenção tivesse, ou lhe fos- 
âe dito que alguns bons a tal parte tomavam, que 
não era sua honra logo cataria modos como se de 
tal escusa podesse sahir, e entonce era forçado que 
a pane que pensava haver d'elle tal ajuda pela paz 
de lianças, que a houvesse de perder, e demais a 



104 Bibliotheca de Clássicos Porlugueies 



amisade entre cllcs nunca seria firme nem verdadei- 
ra, e a paz simples não traz nenhuma cosa d'estas, 
ca n'ella não ha vergonha de uma p;irte nem de ou- 
tra, nem cousa que possa tomar a mau respeito, mas 
de mostramcnto de limpa vontade, de guisa que se 
não pode nenhuma d^ellas lazer tão alta ajuda, por 
mui grande que fosse, que lhe possa ser reduzida a 
nenhuma vergonha.» 

— «Verdade é, disseram os do conselho, que bem 
se podia interpretar, e ter tenção em tal ajuda da 
guisa que vós dizeis; mas porém havia mister de ser 
certa a parte que houvesse de fazer tal ajuda, como e 
quanto, e era que guisa se haviam d'ajudar um ao 
outro.» 

Responderam e disseram : 

— a Isso que vós dizeis era bem de se requerer 
entre aquellcs que fossem inimigos, ou entre si não 
houvessem dividos, mas entre os reis que taes divi- 
des hão, o parentesco só abasta por certidão, e fir- 
meza de se fazer tal ajuda, e mais não hão mister, 
e nós somos certos d'el rei nosso senhor, que tanto 
que a paz fosse feita, os reis ficariam em tão gran- 
de e tão nobre amizade, alem dos dividos que entre elles 
ha, que não havia mister mais segurança nem firme- 
za, senão o amor de que se mariam ambos, pêra 
se ajudar e aproveitar um do outro. r 

— oE nós cuidamos muito, disse aquelle que fal- 
lava, porque não quereis tão boa paz como aquesta 
que dizemos, ca vós bem vedes que d'el-rei nosso 
senhor nem tendes cousa alguma, nem esperança de 
a haver, e pois d'eile não tendes, nem e-peraes na- 
da, porque não aventuracs este nada a muito? Ca 
vós não cahindo na paz simples, nem tendes d'elle 
o que pensacs d'havcr, nem tereis d'ello esperança, 



Chronica d'El-Rei D. João I io5 



e cahindo em tal paz, ganhareis n'elle um bom e 
verdadeiro amigo, havendo d'elle aquella ajuda que 
lhe por trauto demandaes, e muito melhor quando 
se poder fazer, ca como dizeis, que as cousas que 
trazem em si suspeita de vergonha, movem os ho- 
mens de leixar de fazer muitas cousas das que lhe 
são d:imandadas, e d'onde tal vergonha não nasce, 
e se segue honra e fam.;, são muito mais promptos 
e alegres de fazer aquello que de sua vontade e pra- 
zer lhes c requerido. 

E porém como dizemos, vós deveis aventurar 
o mui pouco que pedis, que é ajuda por trauto, 
ao muito que se seguir onde por razão e azo da 
paz simples, mormente que esta ajuda que vós re- 
quereis, de cez ou doze galés, é assaz pequena e 
de fraco proveito, sem emadendo em vós honra ne- 
nhuma, esguardada a grandeza de Castella, e por- 
tanto nos parece razoado aventurar esta pouca aju- 
da, que pedis e não tendes, á muito maior, que por 
boa e liberal vontade d'clrei nosso senhor haver po- 
deis, cada vez que lhe fôr requerida; e assim con- 
cluímos que a paz com lianças nunca será de tanto 
proveito, como a paz simples pode ser,» 

E os do conselho aporfiando que com lianças, e 
elles que não, havia ahi mais limpa amizade, não se 
fallou mais aquelle dia. 



jo6 Bibliotheca de Clássicos Porlugue^^es 



CAPITULO CXCVI 



Como os embaixadores fallaram a departe d rainha, 
e lhe foi outorgada a paz como a demandaram. 



VENDO os embaixadores com quantas razões 
dizer podiam, que se não mudavam os do 
conselho a cahir em simples paz, salvo toda- 
via com lianças por serem seguros da ajuda que ha- 
viam d'haver, tiveram geito de fallar á rainha não 
sendo ahi os do conselho, e fallando-lhe, disseram: 
— a Senhora, vós haveis visto o que por nós foi 
proposto, presente os do conselho, e posto que en- 
tonce e depois a algnns d^elles dissemos por vezes 
que não achávamos mais formosa via pera os effei- 
tos serem egualdados, como é o da paz simples, nem 
entonce, nem depois, não vos dão a entender que 
em ella queiram consentir, pêro as cousas por nós 
ditas são tão razoadas, que se não pode cuidar ou- 
tra maneira que melhor seja, ca se a entender po- 
dessemos, fallariamos em ella de boa vontade, e as- 
sim parece que nós somos desaccordados, e pois, 
senhora, as^im é, dês hoje mais fica a vós, que sois 
medianeira nestes feitos, segundo mandastes dizer 
a el rei vosso irmão, fazerdes aquello que melhor en- 
tenderdes, egualdando a honra d'ambas as partes, ca 
a nosso vér, em pequena cousa está este desaccordo, 
pera Deus ser servido, e seguir-se grande paz e as- 
socego d'estes reinos.» 



Chronica d'El-Rei D. João I loy 



— «Eir verdade, disse ella, eu bem vejo as razoes 
que vós dizeis, mas eu duvido muito de vos quere- 
rem cahir em nenhum partido sem lianças, por não 
serem seguros, nem certos da ajuda que se houvesse 
de fazer.» 

— «Senhora, disseram elles, a nós parece que toda 
a duvida d'esta paz é por mingua de certidão, que 
vós não haveis tão cumpridamente como auereis ha- 
ver ; de que nós entendemos que deveis de ser muito 
certa, sem poendo em ello mais duvida, porque visto 
os grandes e bons dividos que entre el-rei e a rainha 
nossa senhora, e vós, seus filhos e os vossos ha, isto 
só a vosso entender é bastante certidão e confiança 
pêra vos el rei nosso senhor fazer qualquer ajuda, 
quando lhe por vossa parte fosse requerida, sem ha- 
vendo ahi mais obrigação de trautos, a qual não é 
honesta entre taes dividos, porquanto, ou vós que- 
reis esta ajuda por trauto, por grão proveito que 
d'ello entendaes d'haver, ou por vos recrecer d'ello 
honra. Se por proveito, este parece ser mui ptqueno, 
considerando as cousas que el-rei vosso filho ha de 
fazer na guerra, tanto por terra como por mar, ca 
onde tamanha força ha, e frota como el rei vosso fi- 
lho arma em cada um anno sobre mouros, e consi- 
rando o que faz por terra, pequena vantagem darão 
dez ou doze galés pêra ajuda de liança, que tão 
pouco valem em vosso feito, e não poderdes tão 
alta cousa, como tendes começada, e que tanto é 
serviço de Deus por tal ajuda quererdes haver; e se 
o, senhora, fazeis por honra que se d'ello a vosso fi- 
lho siga, havendo esta ajuda por trauto, esto não é 
logo feito como lhe vós sempre escrevestes, dizendo 
que vos prazia que fosse egual a ambas as partes, e 
demais, quem visse a uma tão gran casa, como é a 



io8 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



de Castella guarnecida de tão boas gentes, pedir 
ajuda a um tão pequeno reino, como Portugal, pêra 
guerrcíir a uns poucos de estrosos mouros, de que não 
é de fazer conta, mais apregoaria, pedindo tal ajuda, 
sua mingua e fraqueza de coração, que ardilcza e 
fouteza de bons guerreiros., e ora, senhora, vos que- 
remos dizer o que escusar quizeramos; mas porque 
vemos vossa tenção é por força que o digamos nós, 
senhora, somos muito maravilhados não riardes-vos 
em cl-rei nosso senhor, que tanto que ellc houvesse 
paz com vosso filho, que vos elle não fizesse toda 
ajuda que pêra vossa guerra e qualquer cousa cum- 

E risse, ca um homem, que a vós e a vosso filho tanta 
emquerença mostrou, como vós bem sabeis, quando 
vosso marido finou, ficando vós e vosso filhj com 
grandes duvidas em estes reinos, e pensando el rei 
nosso senhor que se moveria alguma cousa contra 
a honra de vosso estado, se vos enviou por sua carta 
ofterecer a toda ajuda e lavor, que vós d'elie e pe- 
los seus cumprisse, e ainda por ellc mesmo, se vos 
tanto mister fosse, como bem sabeis; de cuidar é 
que vos ajudaria, sendo por vó« requerido, ca pois 
elle, senhora, se vos oílereceu assim de bom talante, 
como aquelle que havia grão cuidado de vossa honra, 
como podeis mostrar que haveis delle ião pouca 
fiúza, que se comnosco houvesse paz, não ajudasse 
a vós e a vosso filho, nas cousas que vossa prol e 
honra fosse. Certamente, senhora, a nosso ver, me- 
lhor seria confiardes-vos de um homem que vos 
ama e preza esta cousa, e muito mór que quererdes 
d^elle levar por pazes cf m Lanças, e fazer se com 
sujeição de trauto, o qual todo mundo, se se assim 
fizessw', bem veria que pouca fiúza havicis vós em 
elle, e que mais confiáveis em uma pouca de escri- 



Chronica d'El-Rei D. João I log 



ptura, que no bom amor e divido que a rainha sua 
mulher e seus filhos hão comvosco e com vossos fi- 
lhos, devia d'abastar pêra d'esto serdes certa, como 
dizemos. » 

A rainha louvava estas razões, dizendo que assim 
o entendia, mas porém pela regra — que primeiro são 
dentes, que parentes—, assim ella como os do con- 
selho, por parte d'el-rei seu filho, fortemente tinham 
mão na paz com lianças, todavia por trautos feitos. 

E foi debatido muito sobre ello por espaço de 
dias. e assim aprouve a Deus, que é verdadeira paz, 
que se tratou entre estes reis, um domingo depois 
de véspera, quatorze dias do mez de junho da era 
adiante escripta, de 1449, estando a rainha em seu 
estrado, mandou chamar os embaixadores, presente 
o bispo de Palença e o bispo de Segóvia, e Aflonso 
Henriques, almirante, e Diogo Lopes de Estunhega, 
e outros fidalgos e prelados, que mingua não faz se- 
rem nomaados, e presente todos Ihj disse: 

«Que ella havia trabalhado com o infante D. Fer- 
nando seu irmão, e com os do conselho d'el-rei seu 
filho e outros grandes do reino, e isso mesmo com 
os procuradores das cidades e villas que alli eram, 
e tivera com elles taes maneiras, que, a Deus mui- 
tas graças, a paz era concordada segundo a elles de- 
mandavam.» 

Elles responderam o que por serviço dcl-rei seu 
senhor entendiam; e porque o infante não era pre- 
sente, foram lhe fallar á sua pousada, estando com 
elle João Alvares de Osório, guarda mór dei rei, e 
João AiVonso, secretario da rainha, e outros; e pe- 
rante estes disse o infante que bem sabia a resposta 
da paz que lhe a rainha sua irmã e senhora havia 
dado, e que dava muitas graças a Deus por estes 



lio Bibliotheca de Clássicos Portugue:{es 



feitos virem a tão bom fim, entendendo que era ser- 
viço de Deus e' grande bem d'ambos os reinos, e 
que Deus sabia que sempre seu desejo fora não ha- 
ver guerra com christãos, e que lhe parecia que fo- 
ra grande mal, onde havia tão bons dividos, haver 
guerra nem discórdia; e outras boas razões que dis- 
se, que lhe em grande mercê tiveram. 

Entonce foi ordenada boa e simples paz por sempre, 
com aquelles elementos e condições por que ella me- 
lhor valer podesse; de que leixando os geraes capí- 
tulos de entregas e )uizos, e outros similhantes, com- 
muns a ambas as partes, em estes dois seguintes foi 
a substancia d'ella : 

fQue el-rei de Portugal fizesse emenda aos por- 
tuguezcs que entonce em Castella andavam, que se 
íoram com a rainha D. Beatriz, e em tempo d'el-rei 
seu marido, a saber, aquelles que o não receberam 
por senhor, nem estiveram sob sua obediência, e 
esto dos bens dos seus patrimónios, que em Portu- 
gal haviam quando se d'elle partiram; e similhavel- 
mente fizesse el-rei de Castella a aquelles que em 
Portugal andassem, que em Castella houvessem 
bens » 

tOutrosim que os portuguezes, que em Castella 
houvessem bens patrimoniaes ao tempo que se a 
guerra começou, que lhe fossem tornados, ou feita 
emenda por elles; e que esto mesmo fosse feito aos 
castellâos que alguns bens de seus patrimónios ha- 
viam em Portugal.! 

E esta foi a substancia de todo o trato da paz. 



Chronica d'El'Rei D. João I m 



CAPITULO CXGVII 

Como foi feito o trauto da pa^, e em que tempo ap- 
provado por el-rei. 

A paz concordada, querendo ordenar o traato, 
foi-lhe presente uma forçosa duvida, em que 
tiveram assaz de cuidar, a saber: 
A pouca edade que el rei havia, que era menor de 
sete annos, no qual tempo jurar não podia, nem se 
obrigar a condição de tal paz, até ser de edade de 
quatorze, ou havendo auctoridade de sua corte, que 
eram os ouvidores d'ella, a qual se requeria ser da- 
da por tal ordenança e perlonga que lhe seria mm 
má d'haver, e tarde. 

— cPois, senhores, disseram os ponuguezes que 
d'esto carrego tinham, que eram o bispo de Çamo- 
ra e um Doutor Pedreanes, que modo se terá em 
esta cousa, que chegando el-rei aos quatorze annos, 
bem pode approvar ou reprovar este trauto, e pos- 
to que o approve, taes pazes em tanto guardadas, 
mais pareceriam soflrença de guerra, ou tréguas, que 
direita paz nem perpetua até aquella edade em que 
o direito ha o homem por perfeito pêra entender se 
aquello que faz é bem ou mal, que é conto de vinte 
e cinco annos, e menos d'cste tempo quanto fizej, 
tanto é debalde, e pode-se chamar enganado, e não 
será valioso, assim que a firmeza d'esta paz não fi- 
cará, salvo no juramento da rainha e do infante, e 
prelados e fidalgos e concelhos, e não sendo a paz 



JI2 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



valiosa d'esta guisa, não era razão de se fazer o con- 
tentamento em ella posto, até que firmasse cl rei 
por juramento ao tempo que o direito quer, ca d ou- 
tra maneira ficaria ei-rei de Portugal sem paz e com 
sua perda, tendo grande ajuda feita a seus inimigos 
com o que o podessem desservir e fazer guerre, e 
mais ainda muita despeza em fazer armadas e outras 
ajudas, que bem certos eram que as havia de fazer, 
como lhe requeridas fossem.» 

Outorgado esto que era assim, foram fallar á rai- 
nha, e propostas estas razoes, disse que não curas- 
sem d'outro caminho, salvo d^aquelle que simples- 
mente ordenado tinham, ficando a paz em seu jura- 
mento e dos outros do reino, e quanto era a acou- 
teza que se d'ambas as partes havia de fazer, que 
era ella certa d'el-rei seu irmão, e ella assim o en- 
tendia, que não podia haver senão por grão siso 
aventurar o pouco ao muito, e o que se havia de dar 
por tal satisfação, era mui pouco em respeito do 
bem que se da paz seguia. 

Concordados em esto, firmaram o trauto n'aquella 
villa de Ilhão, onde entonce estavam, postrimeiro dia 
de outubro de mil quatrocentos e quarenta e nove 
annos; e depois que el-rei de Castella chegou á eda- 
de de quatorze annos, foram a lá outra vez esses 
mesmos embaixadores requerer-lhe que approvasse 
este trauto que pela rainha sua madre, e pelo infan- 
te D. Fernande seu tio, que depoi> foi rei de Ara- 
gão, em seu nome fora feito, a esta sazão já ambos 
finados. 

El-rei mandou ler o trauto, e por algumas razões 
que sobre ello pensou, não foi entonce firmado nem 
ratificado, e tornaram-se os mensageiros, e depois 
mandou el-rei de Castella a el-rei de Portugal sobre 



Chrcmca d" El Rei D. João I ii3 



este negocio Afíonso iGarcia, deão de Santiago, e 
João Affonso de Samora, escrivão de sua camará, e 
concordaram com el-rei a maneira como el-rei de 
Castella jurasse. 

Entonce mandou a Castella o muito honrado fidalgo 
D. Fernando de Castro, do seu conselho, e um Dou- 
tor em leis chamado Fernão Afíonso, a requerer 
esta approvação; e na cidade de Ávila, onde eirei 
estava, postrimeiro dia de abril de mil quatrocentos 
e sessent. e um annos, em que a era entonce anda- 
va, approvou el-rei o dito trauto, e não por ^empre, 
mas até seis dias de março de mil quatrocentos e 
setenta e dois annos, no qual anno elle fazia edade 
de vinte e nove annos, e mais quanto tempo elle 
quizesse, e assim se guardou cumpndamente até 
áquelle tempo; e ante uns trez annos que se aquelle 
tempo acabasse, íoram a Castella dois cavalleiros 
chamados Pedro Gonçalves e Luiz Gonçalves, am- 
bos irmãos, do conselho d'el-rei, e um Doutor Ruy 
Fernandes, e com estes concordou el-rei sobre a di- 
ta paz por sempre em Medina dei Campo, trinta 
dias d'outubro de mil quatrocentos e sessenta e no- 
ve annos. na qual foram quites todas as pagas que 
os reis hciviam de fazer aos que foram tomados 
bens, como em cima dissemos, e todas as outras 
cousas, por que cessou a guerra de todo, e veiu 
amor e boa paz, que hoje em dia dura, e prazerá a 
Deus que durará por sempre, como a estes nobres 
reis por si e por seus herdeiros outorgaram. 



JJ4 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



CAPITULO GXCVIII 



Como a rainha de Castella enviou a el-rei pedir certa 
ajuda de galés por sua carta^ e da resposta que 
lhe por outra enpiou. 



ASSIM como de uma regra nasce outra, segun- 
do dizem os lettrados, assim d'esta paz aos 
entendidos nascem duas cousas desejosas de 
saber: a primeira, se depois d'esta paz assim feita, 
foi requerido el-rei de Portugal que lhe fizesse algu- 
ma ajuda, e quanta e de que guisa, e se lh'a fez ou 
prometteu, e que resposta deu sobr'ello; a segunda, 
pois taes filhos,^ a Deus graças, havia de uma parte 
e d*'outra, como se não moviam casamentos entre 
elles, por ser mui maior liança de amor e bemque- 
rença. 

Contentando algum pouco os que esto saber que- 
rem, sabei que foi, e não tardou muito, ca logo por 
experiência provar quizeram, se tinham n'elle tão 
fiel amigo, quejando os mensageiros por tantas ve- 
zes tinham affirmado, e dada fim aos negócios da 
paz, a mui poucos dias que os mensageiros a Por- 
t-.gal chegaram, logo o rainha escreveu uma carta a 
el-rei requerendo-lhe ajuda pêra a guerra dos mou- 
ros, cujas ra/.Ões eram estas: 

— tMui caro, e mui amado com todo meu cora- 
ção bem querido irmão, el-rei de Portugal: Eu asem 
ventura rainha de Castella e de Leão, madre d'el- 



Chronica d^El-Rei D. João I iib 



rei e sua tutor, e regedor de seus reinos, vos envio 
muito saudar como aquelle pêra que tanta saúde, 
vida com honra queria quanta vós mesmo desejaes. 
Mui caro e mui amado irmão, bem sabeis como en- 
viastes a mim, com vossa embaixada sobre os feitos 
da paz, João (iomes da Silva e o doutor Martim 
Docem, do vosso canselho, e o doutor João Gon- 
çalves Beleago e Álvaro Gonçalves da Maia, vossos 
servidores; e eu, mui caro e mui amado irmão, tra- 
balhei metter sobre ello, assim com o infante meu 
irmão, como com todos os do conselho d el-rei meu 
filho, as melhores maneiras, que eu entendi que 
cumpria por bem de taes feitos virem a bom fim, 
de guisa que, a Deus muitas graças, a paz é con- 
cordada entre el-rei meu filho e seus reinos, e vós 
e os vossos, pela guisa que me mandastes dizer; e 
esto, mui caro e mui amado irmão, vos escrevo, por- 
que Deus sabe que d'esta cousa hei grão consolação 
c sou mui leda, e entendo que isso mesmo vós e a 
í| rainha vossa mulher, minha muito prezada e amada 
irmã, fareis por a Deus prazer por esta paz os gran- 
des e bons dividos que entre nós ha, serem unidos 
e confirmados em bom e verdadeiro amor, e por- 
quanto, mui caro e mui amado irmão, vós sabeis 
bem como elrei meu filho tem começado guerra 
com os mouros de Grada, a qual é disposto con- 
tinuar, prazendo a Deus por seu serviço, e eu enten- 
do que pêra ella lhe cumpria, e é muito necessário, 
haver de vós ajuda de dez ou doze galés pêra o pri- 
meiro verão em que se a guerra de fazer houver. 
Porém, mui caro e mui amado irmão, vos rogo afin- 
cadamentc quanto pos^o, que por serviço de Deus, 
e minha honra e contemplação, e por mostrardes 
por obra o bom desejo que eu sempre senti que vós 



ii6 Biblioiheca de Clássicos Portugueses 



a mim e a elrei meu filho hav is, por razão dos 
grandes e bons dividos que entre nós ha, vos praza 
d'outorííar e fazer a cl rei meu filho a dita ajuda, 
que vos certifico que elle vos fará outra similhan- 
te, quando vos d'clle cumpridouro fôr, e em esto, 
mui caro e mui prezado irmão, fareis serviço a Deus, 
e a mim obra de bom e verdadeiro irmão, e mos- 
trareis a boa vontade que a el-rei meu filho e a mim 
sempre houvestes, e cousa que vos elle e eu muito 
agradeceremos, mui caro e mui amado irmão. A 
Siinta Trindade vos haja sempre em sua santa guar- 
da; escripta, etc.» 

El rei recebeu bem o men-íageiro mostrando lhe 
bom gazalhado por lhe trazer tal recado, e por elle 
escreveu outra á rainha cm resposta, que dizia desta 
guisa : 

— f Mui cara e mui amada, a que com todo nosso 
coração inteiramente bem queremos, irmã e amiga, 
rainha de Castella e de Leão. Nós, el-rei de Portu- 
gal e do Algarve, vos enviamos muito saudar como 
irmã e amiga que muito amamos e prezamos e pêra 
quem queriamos que Deus desse tanta saúde, vida 
e honra como vós mesma desejaes. Mui cara e mui 
amada irmã: Fazemos-vos a saber que vimos a carta 
que nos por Álvaro Gonçalves da Maia, escrivão de 
vossa cambra, enviastes, na qual era conteúdo que 
vós haveis trabalhado sobre os feitos da paz, assim 
como o infante vosso irmão, como com todos os do 
conselho d'el-rei vosso filho, teudo com elles as me- 
lhores maneiras que podereis em tal guisa, que a 
Deus graças, a paz é concordada entre el-rei vosso 
filho e seus reinos, e nós e os nossos reinos, pela 
guisa que por nossos embaixadores vos enviámos a 
dizer, e que nos certificáveis d'esto, porque Deus 



Chronica d^El-Rei D. João I 117 



sabia que d'esta cousa haveis grão consolação, e en- 
tendeis que assim mesmo nós e a rainha nossa mu- 
lher, vossa irmã, seriamos, porque por esta paz, os 
grandes e bons dividos que entre nós ha, serão uni- 
dos e confirmados em bom e verdadeiro amor. Mui- 
to amada e prezada irmã: Deus sabe que nós, e a 
rainha vossa irmã, minha mulher, somos d'esta cou- 
sa bem ledos, e agradecemos muito a Deus de en- 
tre nós haver paz, e grfnde mal fora onde tão gran- 
des e tão bons dividos, como entre nós ha, ser 
guerra, nem outra nenhuma cousa que de mal fosse. 
Ov/trosim, muito amada e prezada irmã, ao que nos 
enviastes dizer que pois esta cousa assim era feita 
de sermos em paz, que nós bem sabiamos como el- 
rei vosso filho era em guerra com os mouros de Gra- 
da, a qual era disposto continuar por serviço de 
Deus e seu, e que porém nos rogáveis que pcra o 
primeiro verão em que se a guerra houvesse de fazer, 
fizéssemos ajuda a el-rei vosso filho de dez ou doze 
galés, que lhe eram muito cumpridouras. Muito ama- 
da e prezada irmã, vós haveis de ser bem certa que 
pois a Deus prougue tirar o embargo da guerra que 
entre nós havia, que toda a cousa que nos d'aqui em 
diante por vós, e por el-rei vosso filho, bem poder- 
mos fazer, lh'o faremos bem de grado em tal guisa, 
que prazendo a Deus, vós a nós achareis bom e ver- 
dadeiro irmão, e d'estas galés que nos enviacs de- 
mandar, a nós praz pêra o primeiro verão cm que 
vosso filho fizer a guerra, de as mandarmos lá em 
sua ajuda. Mui amada irmã, etc.» 

E cm fazendo el-rei esta pedida ajndn, não se 
contentou seu grandioso coração, cheio d"'e.\tremada 
grandeza, tél-a leita dV^sta guisa, entendendo pois 
lhe tão afincadamente fora pedida e requerida, que 



jiR Bíblioíheca de Clássicos Portugueses 



os afincados -rogos acompanhavam e constrangiam 
que o fizesse, o que era a elle pouca honra e fama, 
e logo a pouca sazão depois desto, sendo ]á o in- 
fante D. Fernando rei de Aragão, tendo porém go- 
vernança de Casteila, como d'ante tinha, este no- 
bre rei de Portugal, vendo tão nobre conquista, qual 
se d"aquelles reinos contra mouros fazer queria, ha- 
vendo grão desejo ao serviço de Deas, e que o em- 
pacho que Hespanhà recebia de terem mfieis o rei- 
no de Grada, fosse de todo tirado, lhe enviou oflere- 
cer, que prazendo-lhede os guerrear e continuar sua 
conquista, que elle por seu corpo c com seu poderio 
o ajudaria mui de grado, e elle foi mui ledo de tal 
embaixada, e dispondo-se de o cumprir, torvou-o a 
morte acabando seus dias, e depois de seu finamento, 
continuando em sua boa vontade este catholico prín- 
cipe, rei de Portugal, mandou fazer similhante re- 
querimento á rainha D. Gatharina, madre del-rei de 
Casteila, a qual agradeceu qaanto entender podeis, 
mas disse que ella era mulher, a que não pertenciam 
feitos de guerra, e que el-rei seu filho não era de 
taes annos que em ella podesse ser, e que por esto 
lhe não convinha de se dispoer a tal obra. 

Depois que el-rei foi em tal edade, e regia seus 
reinas, e começou de con-^uistar os mouros, o no» 
bre rei de Portugal lhe enviou recontar estes reque- 
rimentos passados e porque não houveram efteito, e 
que agora pois que o Deus trouvera a perfeita eda- 
de, e elle com santa e boa tenção começava fazer 
tal conquista, querendo-a contmuar, que elle por 
pessoa, com muito boa vontade, acompanhado de 
seu primogénito filho, e dos outros infantes e con- 
des da sua terra, o ajudaria a ella, declarando-lhe 
logo a maneira em que o entendia, com a graça de 



Chronica d'EURei D, João I iiQ 



Deus, de fazer, e se porventura lhe fosse empacho 
r elle por pessoa, que elle lhe mandaria seus filhos 
todos, ou aquelles de que a seu bom prazer melhor 
entendesse de ser servido. 

E d'esta e d'outras vezes que lhe tal a)uda toiot- 
ferecida, sempre sua resposta era que lhe agradecia 
muito seus bons oâerecimentos, e que a breve tempo 
lhe mandaria resposta, a qual a breve espaço, nem 
longo, de nenhuma vez foi enviada, cngeitando mui 
de vagar esta inteira ajuda, a qual, á primeira, com 
grande trigança, em pedaços requeriam. 



CAPITULO CXCIX 



<Zomo foram movidos alguns casamentos dos filhos 
d'estes rets de uma parte e da outra^ e não se acer- 
taram. 

RESPONDENDO á outra cousa desejosa de se sa- 
ber, porque se não moviam casamentos en- 
tre laes infantes, pois que os de ambas as 
partes havia, e ser liança mais firme, sabei que mo- 
vidos foram, mas porque os casamentos dos filhos 
dos reis, posto que razoados sejam, não são assim 
ligeiros de fazer, por as muitas cousas de que se 
n'elles trata, des ahi outros senhores, posto que os 
tenham, não ousam honestamente de os casar fora 
do reino sem licença do rei da terra, embarga-se ás 
vezes tal ajuntamento, e posto que se consiga como 
os padres querem e seja de todo acertado, fortuna 
poderosa em todas as cousas os desvia quando quer. 



120 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



por caminhos não cuidados, assim como fez a algui 
d'estes que se tratar começaram: ca el-rei de Por- 
tugal ante d'estas pazes tratava secretamente gran- 
de liança e amizade com aquclle infante D. Fernan- 
do, tio d'el-rei e seu tutor, na quaK entre as outras 
cousas, era casarem seus filhos uns com o outros, 
e sendo assim concordados por cartas e pessoas que 
entre alies íallavam, fez saber este infante a el-rei 
de Castella se lhe prazeria de tratar elle estas pazes 
que dissemos, e casar elle seus filhos com os d'el-rei 
de Portugal, e elle lhe mandou dizer que nas pazes 
podia bem fallar, mas dos casamentos não se en- 
tremettesse, e assim se desatou esta liança, e não 
se fez mais nenhuma cousa, e foi esto n^aquella sa- 
zão que el rei partiu pêra ir sobre Alcântara, quan- 
do depois a rainha D. Catharina fez a saber a el-rei 
como aquelle infante e todos os do reino de Cas- 
tella leixaram a ella o carrego do trauto pêra firmar 
a paz. 

Isso mesmo lhe escreveu logo que assim outorga- 
ram que casasse sua filha a infanta D. Catharina com 
seu filho o infante D. Duarte, primogénito e herdei- 
ro do reino, pelo qual casamento prazeria a Deus 
que se atalhariam as guerras e viriam á paz, e fat- 
iando el-rei ao infante seu filho acerca d'este casa- 
mento, foi o infante posto em uma grande e razoa- 
da duvida, dizendo que sua esposa que havia de ser, 
era mui pequena, ca não havia mais de quatro an- 
nos, e elle de edade de vinte, e não era boa egual- 
dança, ca convinha d'attender pêra com ella poder 
casar nove ou dez annos. 

Pêro por se fazer a paz, vendo os bens que se 
d'ella seguiam, que elle com a)uda de Deus enten- 
dia supportar aquelle encarrego, cora tanto que sen- 



Chronica d'El-Rei D. João I 121 



do casado, que o fosse bem quanto a Deus e quan- 
to ao mundo; mas porque era tão pequena punha 
grão duvida de casar, porque elle logo ficava casa- 
do, e ella não ficava casada, e acontecendo a ella, 
ante que tomassem casa, algum cajão em seu corpo, 
assim como sandia, cega, ou paralítica ou gafa por- 
que d'ella não podesse ser bem casado, que esto lhe 
era mui grão duvida, pois que a por nenhum does- 
tes cajÕes não podia leixar de mulher, a qual cousa 
seria a elle mui impecivel, e des-ahi a todo o reino; 
e depois que as pazes foram, firmadas, fallou-se tan- 
to n'este casamento e nas cousas a elle pertencen- 
tes, assim de cem mil dobras que promettiam com 
ella, se as dariam todas em ouro ou por que guisa, 
até que a rainha veiu dizer que se queria ver com 
sua irmã, a rainha de Portugal, sobre esto, e que 
entonce fallariam sobre o feito d'este dote e em todo 
o ai que cumprisse. 

A el-rei pareceu esto que era perlonga que tarde 
poderia vir a fim; entonce mandou commetter casa- 
mento de sua filha á infanta D. Isabel, que depois 
foi duqueza de Borgonha, cem este rei de Ca.^-tcUa, 
entendendo que estava azado pêra se fazer; porquan- 
to el-rei D. Henrique seu padre, isso mesmo o in- 
fante seu tio, sendo vivos, tinham accordado de se 
fazer assim, se tão cedo não falleceram por morte. 

E quando esta paz foi apregoada em Valladolid, 
ante que os embaixadores partissem, perguntou a 
rainha presentes elles a el-rei seu filho, dizendo d'es- 
ta guisa: 

— • Filho, senhor, com quem vos prazeria a vós de 
casar?» 

E elle respondeu e disse: 



122 



Bibliotheca de Clássicos Portugue:;es 



— fCom a infanta de Portugal, que me dizem que 
é uma das formosas donzellas do mundo.» 

E por aqui podeis ver que casamentos houve ahi 
commcttidos, e posto que razoados e eguaes fossem, 
assim de linhagem e estado, como d'outras cousas, 
por aquella commum falia — que morte e casamento 
talhado é no céo — , não se ancaminhou nenhum 
d'elles. 

E porém fallaremos d'outras cousas, pois que dos 
feitos de Castella com Portugal não temos mais que 
dizer, e p'este logar se contaram estes melhor que 
em outra parte d'esta obra. 



CAPITULO CC 

Da maneira que o Condestabre tinha andando na 
guerra. 

Pois a Deus aprougue a guerra cessar de todo, 
€ os reis postos em assocegada paz ante que 
doutra cousa façamos menção, digamos um 
pouco dos modos que o Condestabre na guerra ti- 
nha, posto que já alguns espalhados por parte d'esta 
obra em curta relembrança hajamos tocado, não só 
por louvor d*elle, que o bem merece, mas por ser 
exemplo aos que hão de vir, mormente aos que seu 
logar e officio tiverem, certo é que o longo costume 
das cousas que se dão a bem, faz aos homens ter 
auctoridadc de louvar a aquelíe a quem acontece, 
dizendo que velhos annos o fizeram sagcs, e a lon- 
ga pratica lhe deu bons aquecimentos, assim como 



Chronica dEl-Rei D. João I i23 



contam de Diogo Lopes Pacheco e d'outros similhan- 
tes que se nomear podiam. 

Mas que diremos d'esie Nuno Alvares Pereira no- 
vo guerreiro? 

Em sendo el-rei Mestre, quando lhe foi encom- 
mendada a írontaria de riba de Odiana, em edade 
de vinte e deis annos, que partindo de Lisboa com 
tamanho carrego, mormente em guerra tão accesa e 
por tantas partes, sendo-lhe estranhas e fora de usan- 
ça sagezarias a tal negocio pertencentes, não curou 
de levar comsigo numero de muita gente, em que 
os capitães costumam de confar; mas escolheu Pe- 
dro Annes Lobato, que dos bons homens d'armas 
havia conhecimento, aquelles a que prougue de ir 
em sua companha, que lhe em tal obra foi fiel al- 
coveto, e assim era depois seu costume que toman- 
do algum escudeiro ou homem de pé pêra viver com 
, elle, sempre inquiria que fosse tal, que por obras e 
nome merecesse ser chamado homem. 

Que avisamento foi entonce o seu quando chegou 
a Setúbal, dormindo no arrabalde que mandou poer 
as escuitas contra o castello de Paimella, e disse a 
Álvaro P^ernandes que viesse dar as novas que ou- 
vistes, por verem se eram taes como cuidava, os que 
levava comsigo ccmo es acharia prestes a taes horas, 
e porque guisa, se seus inimigos contra elles viessem; 
se alguns com elle acompanhavam que taes não fos- 
sem como slle queria, elle tinha geito de os fazer 
bons, e dos bons muito melhor, dizendo bem d'elles 
quando presentes não eram, louvando-os como bons 
homens darmas, que era graude azo de acrecenta- 
rem cm si por tal fama como d'elles dava. 

Como seu arraial era assentado, cavalgava elle c an- 
dava-otodo vendo, e se d'ellesse alojavam afiastados 



124 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



delle, posto que pequeno espaço fosse, por azo de 
suas bestas melhor pascerem, ou por companha, ou 
qualquer outra cousi», ainda que não fosse mais de 
humilde e de pequena condição, chegava a elle ahi 
mansamente, e com gracioso gesto dizia: 

— «Que é isto amigo? Que pousada é esta que 
tão arredada de mim tomastes? Logo vossa tenda 
seja alçada e armada a par da minha, que de taes 
como vós queria minha tenda acompanhada, e guar- 
dada minha bandeira.» 

E não Ihi. valendo nenhuma cousa, mostrando que 
tinha seu servjço em boa conta, docemente lh'o fa- 
zia fazer, ( osto que na vontade a tal pessoa lhe mui- 
to pezasse. 

Kra gracioso em suas palavras, recebendo graciosa 
c mesurud-iniente quaesquer da hoste que a cilc che- 
gavam; a^Miii capitães como homens darmas, de 
guisa que scm;>re sua mesura passava em es honrando 
além do qnc c ida um em seu estado merecia; mas com 
esto no movimento do arraial, ordenando suas ba- 
talhas com j hiviam de ir. queria-se mui temido como 
senhor, de guisa que nenhum faliecesse do que elle 
mandava, ca d''outra guisa tornava bravo como leão, 
quando se algum desordenava do regimento que lhe 
era dado, chegando alli trigosamente; e se era escu- 
deiro cambei ro ou honrada pessoa, com gesto quei- 
xoso dizia contra elle : 

— tO amigo se quer vós?» 

E com t:il conimencia lhe dizia esta palavra, que 
tomava d elle grão ve gonha, logo se ordenava ;]e 
se eram pessoas de mais pequena condição, a uns 
matava os cavallos, a outros feria nos corpos, que 
o sentiam de geito que os pequenos lhe haviam me- 
do, e os fidalgos e cavalleiros receio de o anojar, 



Chronica d El- Rei D. João I I25 



assim que todos lhe eram obedientes e o amavam, 
ca elie depois caladamente por encobertos modos e 
gracioso geito, por não entenderem que por aquello 
era, fazia assaz boa emenda áquelle que assim ano- 
jara, posto que o justamente, e por proveito de to- 
dos o fizesse. 

Em sua companhia serviam o mestre de Santiago, 
e o Priol do Hospital, e Martim Affonso de Mello 
que havia dozentas lanças, e geralmente todos os fi- 
dalgos dentreTqo e Odiana, e do reino do Algarve, 
todos aguardavam sua bandeira, sendo d'ello muito 
contentes, salvo o mestre d'Aviz que servia com el- 
rei, pêro foi com elle a Cáceres, 

Em todas as cousas que fossem tomadas dos ini- 
migos em batalhas e feitos d'armas quando entrava 
por Castella, ou por outra qualquer guisa, se mos- 
trava mui sem cobiça, não tomando nenhumas 
d'ellas a aquelles que as alcançavam por nobres e 
boas que fossem, mas mandava partir as cavalgadas 
e esbulho das pelejas por grande egualdeza, poendo 
por quadrilheiros pêra as partir, bons homens, e sem 
cobiça, de guisa que todos eram contentes; e se lhe 
alguma cousa cahia muito em vontade, posto que 
lh'a offerecessem, não a queria tomar, mas manda- 
va-a comprar á vontade d'aquelle cuja era, sem geito 
nenhum de senhorio, e d'outra guisa não. 

Em guerra e em trégua trazia muito a miúdo es- 
cuitas com os inimigos, por saber de seus feitos 
parte quando algum movimento quizessem fazer. 

Quando entrava por Castella mandava que ne- 
nhum pozesse fogo a pães, nem aldeias, nem arra- 
baldes, nem outros edificios, e se o alguém fazia, 
anojava-se muito com elle, e por vezes descavalgava 
e ajudava-o a matar, mostrando por obra quanto 



120 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



lhe pesava dando escarmento aos que o punham>^ 
não porém tão áspero como aos que entravam nas 
egrejas por tomar d'ellaí= alguma cousa. 

Se os seus tomavam algumas mulheres ou moças^ 
ou moços pequenos indo á forragem ou por outra 
guisa, ainda que muito fizessem por encobrir d'el- 
las, elle trabalhava por fieis inculcas por saber parte 
de todo, e fazia-os trazer ante si, e mandava que se 
fossem pêra a villa ou castello, se eram perto d'ello; 
e se ia de caminho mandava metter essas mulheres 
e moços em alguma egreja se a ahi havia, e se a não 
achavam fazia-os pot-r em um matto mandando fi- 
car certos em guarda d'elles até que toda a gente 
da hoste passava ; e que entonce sahissem e fossem 
pêra suas terras. 

Louvavam a Scipião Africano, como é razão, por 
uma cousa que fez na Hcspanha, a qual foi que 
sendo tomada dos seus na guerra d'ella uma filha de 
um grande homem, esposada com um mancebo seu 
egual em linagem e estado, o padre e parentes d'ella 
mandaram dizer a Scipião que lhe desse a donzella, 
que lhe d,--. riam por ella qualquer rendição que razoada 
fosse, e elle respondeu que lhe prazia coni condição 
que fossem fazer as bodas a sua casa, do que elles fo- 
ram mui ledos, e Scipião deu em casamento á noiva 
todo o que por ella lhe fora dado, e mais outras jóias 
aos que vieram á festa, e diz a historia que por 
este azo ganhou mais da Hespanha que por quan-» 
tas bíitalhas até áquelle tempo fizera; mas esto fez 
Scipião no tempo que elle e os outros capitães eram 
cheins de nobres costumes e aformosentados de na- 
turaes virtudes, como se largamente acha em escri- 
pto : mas agora n'estes postrimeiros tempos, em que 
os vicios todos entraram em logar das virtudes, é 



Chronica cPEl-Rei D, João I 12^ 



muito de louvar este Condestabre, o qual entrando 
uma vez por Castella, gentes do seu arraial com 
capitães foram correr adiante, chegando a uma al- 
deia onde de tal aquecimento estavam dessegurados; 
e fazia-se n'aquelle dia alli uma boda ; prenderam o 
noivo e a noiva onde s'iam pera os levar á egreja a 
lhe fazer seu officio, e alguns que andavam na festa, 
e muitos se metteram na egreja e d'elles fugiam por 
onde melhor podiam; e quando tornaram ledos to- 
mando tal presa, o conde se anojou muito, repre- 
hendendo asperamente o capitão que o fizera, nem 
consentira aos seus de o fazer nem outro nenhum 
nojo em dia de sua boda, e mandou que lhe trou- 
xessem o noivo e a noiva, e perguntou a ella se lhe 
fora feita alguma deshonra que tangesse a ella ou a 
seu marido. 

E ella respondeu que não; e d'esto prouve muito 
ao Conde, e mandou soltar o noivo e a noiva, e os 
que vinham presos com elles, e mandou diante se- 
gurar os que achassem na egreja, ou por outra guisa, 
c chegou á aldeia por azo d'isto, dizendo que a que- 
ria mais honrar do que a honraram os que a pren- 
deram, e tornou-lhe a fazer sua festa e officio, can- 
tando os seus em ella, e leixou os noivos com os 
outros em paz, e tornou a seu alojamento, dizendo 
como assim cumpria de se fazer, pois que o casa- 
mento era um dos sacramentos da Santa Egreja. 

Quanto elle guardava as egrejas e gentes que se a 
cilas acoitavam, já algum pouco havemos tocado, de 
guisa que nenhum, sob pena de morte, não era ou- 
sado de os descoitar, nem tomar d'cllas cousa que 
dentro estivesse, fazendo cumprir tal mandado com 
gran diligencia e sentimento, assim como se mostrou 
por vezes^ e logo acerca da vinda de Alcântara, 



J28 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



quando Fernão Lopes Rombo, fronteiro do Redondo 
lançou uma cilada em Villa Nova dei Fresno, cui 
dando tomar o alcaide da torre d*'aquelie logar e os 
que com elle eram, quando sahisse fazer os oito dias 
a seu padre que lhe morrera, e soterrara na egreja 
acerca da barbacã da torre, e por se não fazer 
aquelle dia, não sahiu elle fora, mas sahiu sua mu- 
lher e í^ua irmã d'elle, e trez hlhos d"ella, e tomaram 
todos dentro na egreja, e d'outros até quarenta, e 
levaram-n os presos; e lendo-os captivos em seu po- 
der, fizeram-n'o saber os castellãos ao Conde, e elle 
mandou logo que quantos foram tirados da egreja, 
que os tornassem a lá com as cousas que dentro to- 
maram; e os que esto fizeram se aggravaram muito, 
dizendo que não era razão nem direito, porquanto 
já tinha bestas e armas d'alguns cm rendição, e de- 
mais que aqueila egreja era cova de ladiões, d'onde 
sabiam a fazer muito mal uns cincoenta moradores 
que alli havia, a termo d"'Evora e daquclla comarca 
toda; e pêro lhe assim mostravam por direito mes- 
tres em theologia, nunca em ello quiz consentir, salvo 
que tornassem á egreja, com todo o seu, aquelles 
que d"'ella tiraram; e os que tomaram fora, lhe fi- 
cassem. E assim se cumpriu logo sem mais tres- 
passo. 

E por esta e outras boas maneiras que o Conde 
na guerra usava com seus inimigos, assim como la- 
vradores e gentes meudas, lhe queriam todos grande 
bem e rogavam a Deus por elle; mas os senhores e 
fidalgos com que pelejava, não lhe tinham tal von- 
tade, porém tinham-n"o por mui bom, ca elle poderá 
fazer muito mal se quizcra, mas sendo em seu tem- 
po claro espelho de honestos costumes aos senhores 
entonce viventes, não o quiz fazer, e pode bem 



Chronica dEl-Rei D. João I i2g 



"verificar-se d'elle, aqnello que se escreve, onde 
diz : 

Potint enim facere malum^ et non fecit. 

Assim que seus militares feitos e humanaes virtu- 
des são lição abundosa pêra qualquer príncipe, dos 
quaes grande e immortal fama convém que fique por 
sempre. 



CAPITULO CCI 

Que maneira o Conde tinha de viver no tempo da 
pa^. 

OUVIDOS os modos que o Conde na guerra ti- 
nha, vejamos quaes eram no tempo da paz, 
e assim leixaremos fallar mais d'elle; onde sa- 
bei que seu geito de vida em continuadamente man- 
ter seu estado era este : 

Elle em tempo de paz e de guerra sempre havia 
trinta escudeiros que o guardavam, tendo bons ca- 
vallos e armas, e mui bem vestidos, e assim manteú- 
dos de guisa que no reino não havia senhor que os 
melhor corregidos tivesse. 

Estes e os outros que com elle viviam, castigava 
elle tão bem, que lhe não consentia que a nenhum 
fizessem mal nem damno, e nos logares onde mais 
costumava estar d'assocego, não costumavam os seus 
pousar pela villa, nem consentia que troux''ssem mu- 
lheres, salvo aos casados, mas nos castellos tinham 
pousadas e camas, que o Conde mandava fazer, es- 

rOL. 5 VOL. TU 



l3o Bibliotheca de Clássicos Portugue:{es 



to por serem privados de por mau azo fazerem de 
noite cousa que não deviam. 

Não consentia a pessoa leiga, que publicamente 
estivesse em peccado mortal, e muito menos aos sa- 
cerdotes, e quando taes pessoas sabiam que Mavia 
de vir a aquelle logar onde assim viviam, fugiam 
d'alli pêra outros jogares até que se d'alli partia; e 
d'elles por bom geito fazia casar com as mancebas 
que tinham, assim que bem se cumpria em sua casa 
e terra o dito de Santo Agostinho, que dizem que 
fallava (Si non casie, tamem caule). 

Se algumas mulheres casadas uzavam de si mal, 
e elle havia certa informação que os maridos sabiam 
d*ello parte e lho consentiam, degredava-as de suas 
terras contra vontade dos maridos, dizendo que pe- 
los peccados d'ellas e d'elles, pois lh'o consentiam, 
não queria que Deus lançasse a sua ira onde elle es- 
tivesse. 

Sua terra era mui bem regida de justiça, vedando 
muito que uns com outros não houvessem arruido, 
nem se fizessem nojo. e as demandas que perante 
seus ouvidores vinham, cedo e por direita balança 
havia cada um seu peso, não se desembargando fei- 
tos pesados, que elle presente não fosse. 

Nos divinaes officios era elle assim attento, sem 
mistura d''outros negócios, que continuadamente cum- 
pria sua ordenança d'oMvir cada dia duas missas caU 
ladas, e nos domingos e festas lhe diziam mais uma 
officiada bera solemnemente com sua pregação, c esta 
usança nunca errava, posto que em guerra fosse, c 
ihe algum feito grande cumprisse de fazer, que to- 
davia de noite lhas haviam de diser, se a manha 
pcra ello não podesse aguardar, e pêra esto trazia 
mui honrada capella, e guamida de ornamentos, c 



Chronica d' El- Rei D. João I i3i 



vestimentas, e bons clérigos e cantores, os quaes 
sempre eram prestes, antes que os condemnasse, 
tendo cada um previsto ante que o Conde viesse, o 
que havia de dizer e de fazer, não fallando em ou- 
tra cousa, salvo n'aquclla que a seu officio pertencia, 
€ esto mui mansamente, sem outro riso e joguetes, 
ca d'outra guisa lhe era muito estranhado. 

Este Conde fez o mosteiro de Santa Maria do 
Carmo em Lisboa, e a egreja de Santa Maria dos 
Martyres em Estremoz; e refez e corregeu outras 
cgrejas muito melhor do que estavam. 

Assaz foram vistos, e não mui poucos, que mu- 
dando sua vida e corregendo seus costumes fizeram 
mudança com grande fervor mas sua perseverança 
foi de pouca dura, leixando depois o que começaram 
cheios de mingua e vergonhosa reprehensão; e este 
não mudando, mas começando em sua nova edadc 
uma virtuosa e honrada maneira de viver, sempre 
€m todos seus feitos, essim mundanaes como d'es- 
piritual ordenança, a teve, da qual nunca foi vis- 
to que disviasse por cousa que avir podesse; assim 
que se não pode escrever dVlle o que alguns sabe- 
dores notaram, dizendo que mal viviam os que sem- 
pre começavam de viver, e que outros começavam 
sua vida quando a deviam d acabar, e d'elles mor- 
riam primeiro ante que a começassem; e este Condes- 
tabre continuando um theor de vida, não se mudou 
d'aqu€lle caminho. 

Não é pouco de maravilhar da castidade d'estc 
cobre varão, que ficando elle viuvo em edade de 
vinte e seis annos finando-se a Condessa sua mulher, 
acmpre depois manteve castidade, posto que haver 
poderá a mais honrada do reino. 

Fazia grandes esmolas e muita caridade aos pj- 



j32 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



bres, e especialmente aos envorgonhad.^s, e viuvas 
e orphãos; e em cada uma das suas villas tinha cer- 
tos mercieiros a que dava serto mantimento e de ves» 
tir, e aconteceu no tempo da trégua que dissemos, 
que veiu um anno minguado de pão, e em que o 
trigo foi muito caro, e vieram-se muitos castellãos 
pêra Portugal com mingua de mantimento, e a to- 
dos que se acertavam a vir a Extremoz, e ás terras 
do Condestabre, a todos elle mandava dar cada se- 
mana senho« meies alqueires de trigo, s. ao marido 
meio alqueire, e á mulher outro, e a cada filho, quer 
fosse grande, quer pequeno, a cada um seu meio al- 
queire, e assim os manteve todo aquelle tempo, até 
que Deus deu novidade de pão no reino de Castel- 
la, e se tornaram pêra suas casas, na qtal esmola 
dispendeu muito pão que tinha encovado das suas 
rendas, que foi grão pregão de sua boa nomeada. 



CAPITULO CCII 



Como el-rei encommendou ao Conde o carrego da 
justiça de rtba de Odiana. 

POSTO el-rei em tal assocego, desabafado dos 
feitos da guerra, cuidou corregcr sua casa e 
terra de algumas cousas que lhe pareceu di- 
gnas d'emendar, e fallou todo com o Condestabre, 
dizendo-lhc a maneira que em todo entendia ter, e 
como por elle e os do seu conselho queria que o 
reino e as despesas grandes de sna casa e da rainha 



Chronica cPEl-Rei D. João I i33 



sua mulher fosse todo ordenado e corregido, espe- 
cialmente departiu muito com elle sobre feito da jus- 
tiça, a qual por azo da presente guerra cada vez fo- 
ra mais minguada e deitada em devassidade, atre- 
vendo-se os homens a commetter muitos malefícios, 
entendendo que por servirem em ella, lhe haviam 
de ser relevados, chegando-se a taes capitães que 
lhe de seus erros ganhavam perdão, os quaes disse 
€l-rei : 

— «Posto que eu entendesse que bem a fazia, 
convinha-me outorgar cm taes tempos por compra- 
zer os fidalgos que m os pediam, e por quanto eu 
entendo que uma das cousas a que muito obrigada 
sinto minha alma quanto a Deus e quanto ao mun- 
do, assim é o feito da justiça, tanto por Deus aos reis 
encommendada, que lhe rogava, assim como elle foi 
seu ajudador e parceiro em trabalhar por ganhar o 
reino e o ajudara a defender, que assim Ih^o ajudasse 
a governar em boa e direita justiça, tomando carre- 
go da justiça d'entre Tejo e Odiana, e isso mesmo 
do reino do Algarve, sem mais alçada que pêra elle 
viesse, somente por seu bom accordo e madura dis- 
crissão fosse todo findo n'aquella comarca, e que lhe 
faria em ello prazer e serviço, e grande ajuda em des- 
carregar sua consciência.» 

— «Senhor, disse o Conde, eu entendo bem vosso 
bom desejo, e Deus seja muito louvado por vos tal 
conhecimento dar, ca certamente como vós dizeis, 
esto é o maior encarrego que o rei da terra tem, e 
que entre as cousas mais lhe ha de ser demandada, 
da qual não devia desviar por creaçao, nem rogos 
de pessoas, nem outra cousa que se dizer possa, e 
não somente o rei kixando-o de fazer, mas aquelles 
que lh"o rogam, por cujo azo tão boa obra se em- 



j34 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



barga, darão a Deus d"ello grave conta, e tendo, 
como é verdade, que taes rogos são grande encar- 
rego de consciência d'aquclle qucos assim faz, nunca 
vol os por nenhum requerimento quiz fazer, posto 
que bem certo fosse de vossa mercê que m'o fa- 
ríeis, mas quando algum me cahe em tal erro por 
que merece pena ou fazer outra emenda, não quero 
que lhe minha casa seja couto, nem vos escrevo 
por elle, mas digo-lhe que se vá fora d'clla, e que 
se venha livrar perante os vossos desembargadores, 
e depois que fôr livre, entonce se torne, e quando 
vem e me mostra carta de seu desembargo, enton- 
ce o recebo, e d'outra guisa não, e por este azo se 
refreiam de muitas cousas, em que cahirí-m, porque 
sabem que não tecm em mim cobro de rogo que eu 
por elles ha)a de fíizer, mas pois a vossa mercê é de 
me d'ello dardes carrego, a mim praz por serviço 
de Deus e vosso, porque vejo que a terra é bem 
minguada d'ella, de o tomar e poer em ello mão no 
melhor modo que me Deus encaminhar.» 

El-rci foi ledo com esta resposta, pois que outor- 
gava de o fazer, e entonce fez chamar os do seu 
conselho, assim como o iSlestre de Christo e o Mes- 
tre d^Aviz, e outros senhores e prelados, e notificou- 
Ihes as cousas que em sua casa e reino corrcgcr que- 
ria, e todos com o Condestabre cada dia postos era 
conselho, ordenaram sobre todo como lhe melhor, 
e serviço mais seu d'(ílle e proveito do reino pare- 
ceu; e fallando logo na justiça, accordaram que qual- 
quer que comsigo trouvesse algum malfeitor, ou o 
defendesse, que pagasse pola primeira vez cincoenta 
dobras, e por a terceira trezentas; e se fossem con- 
des ou mestres os que e>io fizessem, que pagassem 
por cada vez qumhentas, e todas tossem pêra obras 



Chrontca d' El- Rei D. João I i35 



dos muros; ■: porque acharam que no reino haviam 
locares coutados, em que se colhiam os homisiados 
por malificois que faziam, por cujo azo mais ousa- 
damente se soltavam os homens a fazar mal, man- 
daram que nã > houvesse outros coutos do reino, 
salvo trez, que foi achado que o eram antigamente, 
a saber: 

Entre Tejo e Odiana, Noudal, e na Beira, o Sa- 
bugal, e Traz os Montes, Freixo d'Espada Cinta. 

O Conde depois doesto, tomou carrego da justiça 
d'aquella comarca que lhe el-rei encommendara, e 
poz em ella mão de tal guisa, que a terra em pouco 
tempo foi assocegada e a justiça sentida, porque elle 
em tal feito não tinha lei, nem afleição com grande 
nem pequeno, nem creado nem amigo, por seu di- 
vido que fosse, mas todavia fazer direito, tendo Deus 
ante seus olhos, a que se não esconde cousa algu- 
ma, e a balança direita a todos, de geito que esses 
grandes que o acompanhavam em serviço d'el-rei, se 
affastavam d'elle^por aquella aspereza que com elles 
tinha em feito da justiça, posto que razoada e di- 
reita fosse; e porquanto lhe uma vez el rei escreveu 
sobre um cavalleiro seu creado que mandava justi- 
çar, que se houvesse com elle por outra maneira, 
posto que merecedor fosse, o Conde respondeu que 
pois assim era, que tal carrego não pertencia senão 
a elle, e pediu lhe por mercê que lh'o tirasse; e não 
quiz delíe mais usar. 



i36 Bibliotheca de Clássicos Portugue:{es 



• CAPITULO cem 

Das cousas que ordenaram mais os do conselho, e 
como as si^as não foram lançadas pelos reis. 

TORNANDO a fallar do mais que pelo Condestabre 
e pelos outros senhores em aquelle conselho 
foi accordado, ordenaram acerca da guerra, 
em que depois porventura por algum azo não pensado 
ligeiramente poderiam ser, não embargando a paz em 
que eram postos, que por bom provimento e mais se- 
gurança da terra, que el-rci tivesse sempre ordenança 
certa pêra defensão de seus reinos, de tre2 mil e do- 
zenias lanças, a saber: pelos capitães 5oo, de escu- 
deiros de uma lança duas mil trezentas e sessenta, 
e pelas ordens do reino trezentas e quarenta, a sa- 
ber: o Mestre de Christo, por si e seus commenda- 
dores, cento, e o Mestre de Santiago outros cem, e 
o Meítre de Aviz oitenta, e o Priol do Hospital 
sessenta; e mais que el-rei tivesse quinhentos arne- 
zes, e o Contestabre, e D. Aííonso, hlho d'el-rei bas- 
tardo, o Mestre de Christus, o Mestre de Santiago, 
o bispo de Coimbra, o arcebispo de Lisboa, o ar- 
cebispo de Braga e o bispo de Évora, cada um cin- 
cocnta arnezes, e mais o Mestre de Aviz quarenta; 
c Gonçalo Vasques Coutinho, e o bispo do Porto, 
e o Priol de Santa Cruz, cada um, trinta; e o Priol 
do Crato e o bispo de Silves, e o bispo de Vizeu, 
e o bispo da Guarda, e o bispo de Lamego e o ab- 
badc d'AIcobaça, cada um tivesse vinte, e cem estes 
mil e quinhentos arnezes, atóra as armas que no 
reino havia, estaria a terra egualmente percebida 



Chronica d'El-Rei D. João I j3j 



pera tempo de mister quando tal tempo viesse, pos- 
to que doesto bem descuidados estivessem pelo bom 
amorio e paz em que eram postos, como ouvistes. 
Proveram isso mesmo por correger a casa d'el- 
rei quanto havia de suas rendas e direitos reaes, e 
acharam que lhe rendia todo o reino oitenta e um 
contos e seiscentos mil libras; a saber: as sizas ses- 
senta contos novecentos e cincoenta mil, que eram 
juntamente por todo cento e oitenta e cinco mil e 
fezentas dobras, valendo entonce a dobra mouris- 
'^ca, ou coroa, qual quizesseis, quatrocentas e qua- 
renta libras, que eram entonce cento vinte e trez 
reaes de trez libras e meia, e que todo esto el-rei 
dispendia e não lhe abundava, segundo sua grande- 
za e sobegidão de gentes, assim de homens como 
de mulheres, que em sua casa e da rainha andavam, 
e que guardada sua honra e estado, adelgaçando 
taes despezas lhe podiam abundar yuas rendas pera 
o gastamento ordenado, e mais sobejar-lhe pera ou- 
tras dadivas quando mister fizesse. Entonce orde- 
naram que das pessoas do conselho não andassem 
continuadamente mais de quatro, e que estes hou- 
vessem moradias em quanto ahi andassem, e posto 
que outros do conselho viessem á corte além dos 
quatro que ahi d'andar haviam no conselho, não hou- 
vessem moradids, mas se outros além dos quatro 
fossem chamados por mandado d'el-rei pera cortes, 
ou algum conselho, que até quinze dias não houves- 
sem moradia, salvo d'alli em diante, e muito mais 
pouco se viessem arrecadar seus feitos á corte, e que 
cl-rei podesse mandar aquelles quatro, e traz*:r ou- 
tros quatro, quando sua mercê fosse, e que afora 
estes do conselho trouvessem a el rei de corte de 
pessoas grandes pera acompanhar a elle, e a rainha 



j38 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



e os infantes, inda que eram pequenos, vinte, e d'es- 
cudeiros moradores, contando em elles as guardas. 
d'el-rei, oitenta, e de cincoenta e sete moços da ca-i. 
mara que trazia lhe ficassem com os pagens no mais 
de doze, e os quarenta e cinco tirasse por escudei- 
ros, e de moços da estribeira com o apresentador 
trouvesse dez, e de caçadores no mais de vinte, e 
de moços do monte vinte e cinco; e assim tempe- 
raram as pessoas que trouvesse cm todos os offi- 
cios de sua casa, assim nas relações como d'escu- 
deiros, e de clerezia como de quaesquer outros. 

Outrosim ordenaram que na casa da rainha an- 
dassem quatro donas, e onde andavam vinte cinco 
donzellas, que não trouvesse mais de quatorze, e as 
outras agasalhasse el-rei, e mais uma camareira e 
outra mulher de camará, e assim outras mulheres e 
officiaes, e tiraram as covilheiras aos infantes, que 
eram mulheres que lhe guardavam suas roupas e 
a limpavam, e toda a outra limpesa que mulheres 
a moços honestamente é dado de fazer, e que lhe 
dessem escudeiros que tivessem este cuidndo como 
consentindo el rei na tenção d'elles, havendo-o por 
bem ordenado todo quanto assim faziam. 

Mas porque fazemos menção que as sizas ren- 
diam muito mais que os direitos reaes do reino, e 
alguns cuidam e tem hoje em dia que os reis acha- 
ram novamente tal sujeição, e a lançaram sobre o 
povo, e esto não foi nssim, queremos rqui dizer 
brevemente qual foi seu começo delias, por desfa- 
zer esta opinião, onde sabei que não acharr.os, nem 
SC mostra que até o tempo d'el rei D. Diniz, que 
morreu na era de mil trezentos e vinte cinco annos, 
que entre os povos houvesse siza por alguma razão 
que fosse, mas escripturas certas nos dão testemu- 



Chronica cPEl-Rei D. João I i3g 



Tiho que no tempo d'el-rei D. Aôonso, o quarto fi- 
lho d'el-rei D. Diniz, antes da pestilência grande, 
que foi 3 cabo de vinte quatro annos, na era de mil 
trezentos quarenta e nove, já antes d'esta mortan- 
dade ahi havia sizas que os povos deitavam entre si, 
cada uns em seus logares como lhes prazia, quan- 
do taes necessidades avinham, pêra que as houves- 
sem mister assim como os moradores de Setúbal, 
que sendo o logar descercado a aquelle tempo, e 
mandando este rei D. Afíonso que o cercassem, lan- 
çaram entre si duas sizas, por haverem dinheiro pêra 
se cercar, a saber, uma siza, que chamavam gran- 
de, nos vinhoi, que egualmente rendia quatro mil 
libras, que eram mil e trezentas dobras, e outra siza 
meuda, que rendia umas quinhentas, e todas estas 
mil oitocentas dobras se dispendiam no cercamento 
do logar de Setúbal, e cousas a elle pertencentes; e 
esta foi a primeira siza que achámos que concelho 
lançasse, e durou até que a villa foi acabada. 

E depois er tempo d'el-rei D. Fernando, por as 
grandes necessidades das guerras em que o reino 
foi posto, lançavam os povos entre si sizas pêra sup- 
portar os muitos encargos que de taes feitos nas- 
ciam, cada uns em seus logares, especialmente em 
Lisboa, que mór parte dello tinha, des-ahi pêra cer- 
car esta ci Tade; e depois que taes necessidades eram 
acabadas, se outras mais não sobrevinham, tiravani- 
n'as de todo ou parte d'ellas, como os povos enten- 
diam por seu proveito, tomando conta aos recebe- 
dores de taes sizas, e thesoureiro a que eram entre- 
gues, sem o senhor da terra em taes feitos poer 
mão. 

E vendo os reis taes rendas e sizas, havendo von- 
tade de as haver, mostravam ao povo necessidades 



I40 Bíbliotheca de Clássicos Portugueses 



passadas, ou que eram por vir, e pediam-lh'as gra- 
ciosamente por dois ou trez annos, e que logo as 
leixariam; e outorgadas d'esta guisa, emadiam depôs 
outra necessidade pêra que as haviam mister, e pe- 
diam n'as por mais tempo, e assim lhe ficou a posse 
d'ellas, mas não que as elles deitassem. 

E sendo o Condestabre e outros do conselho muito 
certos d'esto que dizemos, ordenaram entonce oue 
se tirassem das sizas do reino a terça parte, por esta 
guisa, a saber : que quem pagava de siza um so do 
de cada libra, que pagasse não mais de oito dinhei- 
ros; e não embargando o terço, que assim tiraram 
das sizas pagadas as quantias de cento e sessenta 
capitães, e dos outros todos que as haviam d'haver, 
e quantas dcspezas que el-rei e a rainha com os 
infantes tinha em costume de fazer, ainda ficavam 
a el-rei de sobejo pêra outras cousas que cumpris- 
sem dez mil dobras; a qual ordenança el-rei louvou 
por boa usança em todas as cousas, como elles or- 
denaram. 



CAPITULO CCIV 

Como casou el-rei seu filho natural D. Affonso com 
a filha do Condestabre. 

NÃO prougue aos antigos que os senhores e fi- 
dalgos de seus reinos casassem seus filhos 
com as grandes pessoas das terras a elles 
comarcas, sem sua licença e consentimento, recean- 
do que de tal divido e liânça, como se doeste pa- 



Chronica d El- Rei D. João I 141 



íí ntesco seguia, lhe podesse nascer em algum tempo 
contraria torvação a seus filhos, e por esta regra o 
mui avisado e discreto Nuno Alvares Pereira, Con- 
destabre de Portugal tendo uma filha mulher cres- 
cida em boa edade pêra casar, chamada D. Beatriz, 
era requerido de alguns fidalgos e senhores de Cas- 
tella sobre feito de seu casamento, e elle muito hu- 
mildoso a seu rei e senhor, e como tinha de costu- 
me, mostrava-lhe as cartas que sobre esto lhe en- 
viavam, pedindo-lhe por mercê que pêra tal feito lhe 
desse licença. 

El-rei ia sempre espaçando esto, dizendo lhe que 
de todo bem e honra que a sua filha viesse, lhe pra- 
zeria muito, porém se não trigasse a ello, ca por- 
ventura Deus lhe encaminharia pêra ella outro e 
mais honrado casamento, d'aquelles que lhe eram 
commettidos; e elle lhe tinha em grande mercê re- 
ceber d'elle tão boa resposta, e assim se foi espa- 
çando por tempo até esta sazão, em que estando o 
Condestabre com el-rei em Leiria, e tendo isso mes- 
mo el-rei aquelle seu natural filho chamado D. Af- 
fonso, que houvera ante que casasse, como contá- 
mos dos filhos que houve, tratou-se casamento, e 
firmou, d'este D. Aflonso, filho d'el rei, com a filha 
do Condestabre, e de que o Conde foi mui ledo, e 
dcu-lhe com ella em casamento o condado de Bar- 
cellos com terra de Penafiel e de Basto, e Monta- 
legre com terra de Barroso, e Chaves e Guimarães, 
e Baltar, e o Arco de Boulhe, c certas qumtas que 
o Conde havia entre Douro e Minho, e com outras 
rendas; e pediu a el-rei por mercê que pois elle dava 
o condado de Barcellos a seu filho, que o fizesse 
conde d'elle, e esto era porque el-rei lhe tinha pro- 



142 Btbliotheca de Clássicos Portugue-^ 



es 



mettido que emquanto elle vivesse não fizesse outn 
conde em Portugal, como ouvistes. 

A testa de seu casamento ordenaram ser em Lis 
boa, e foram feitas suas bodas mu, honradamente 

Este conde D. Aftonso houve da condessa su-. 
mulher uma hlha, que chamaram D Isabel, mulher 
que fo. depois do infante D. João seu tio. governa' 
dor do Mestrado de Santiago de Portugal e esto 
caTar nod? '" ^T' ^"^ '^^P^"-" comMs qu^ 

seram^n Aft?^ " ''°"^' '""'^ ^^'^ fi'^«^' ^ -^ Pu- 
seram D. Aftonso, que depois foi conde de Ourem 

e a outro D Fernando, que foi conde de Arrayolo^* 

ambos condes depois da morte de seu avô^comà 

falUremos onde convier de ser contado 

lença, e o conde de Arrayolos foi duque de Bra- 
gança e d-este houve um filho, que sendo seu pac 
v.vo foi duque de Guimarães, Tcasou com umi^fi! 
lha do infante D. Fernando, irmão dei-rei í) A 
fonso, o quinto. ^ 



Chronica dEl-Rei D. João I 14^ 

CAPITULO CCV 

amo foi tratado casamento de D "Beatriz, irmã 
doeste Conde de "Barcellos, com o Conde de Aran- 
dei. 

EspAçou-SE um pouco de tempo depois d'esto, po- 
deriam ser uns trez annos, e foi tratado casa- 
mento de sua filha d'este rei O. Joáo,irma d a- 
Quelle conde de Barcellos. genro do Condestabre,com 
D Thomaz, conde de Arandel ou d Armandel, um 
honrado senhor na casa de Inglaterra, e doeste casa- 
mento foi trautador o honrado cavalleiro JoaoVasques 
d'Almada, cidadão de Lisboa, que a aquelle tempo 
estava em Inglaterra, e um Doutor chamado Martim 
Docem enviou depois ei-rei a Londres e chegaram 
lá no mez de fevereiro, e aos sete dias andados, 
d'elle fallaram a esse conde em seus paços sobre as 
cousas que a este casamento cumpriam, e depois de 
muitas cousas a tal trautamento necessárias, concor- 
daram em estas avenças, a saber: 

«One se formosura e feições de corpo, e sua graça 
d'esía D Beatriz, contentassem a seus embaixado- 
res, que a Portugal sobre esto (pêra a verem) d en- 
viar entendia, que a recebessem em seu nome, e que 
cl-rei lhe desse com ella em casamento cincoenta mil 
coroas, as vinte cinco mil logo na primeira paga, e 
as outras vinte cinco, do dia que fosse recebida em 
Inglaterra até um anno s'ígumte, e.q"/^^'"^^' ^, ^j*" 
viasse á sua custa, segundo pertencia á honra d am- 
bos. 



144 Btblicíheca de Gassicos Portugueses 



E acontecendo sua morte d'elle primeiro que a 
d ella, que houvesse depois a terça parte do que lhe 
assim davam em sua vida, pêra supportamenio de 
sua honra . 

E outras condições que não faz mineua serem es- 
criptas. 

Partiram os embaixadores de Portugal, e vierard 
outros de Inglaterra, a saber: Monseur João HueN 
tezira, cavaileiro da casa do conde, que era seu prinj 
cipal procurador pêra tal negocio, e mestre João] 
Doutor em degredos, e um bom escudeiro que conJ 
elles vmha; e chegaram todos trez a Lisboa, onde 
entonce el-rei estava, e fallando elrei sobre aquello 
por que eram cnviadoí, e concordados em iodo, « 
isso mesmo da formosura contentes e condições boaj 
de sua filha, depois por alguns dias em uma espa- 
çosa camará dos paços do dito senhor rei, muito . 
bem corregida pêra o q e se seguiu, sendo esto noi r 
mez de abril, estando com el-rei, D. João circebispd^ ! 
de Lisboa, e Gonçalo Vasques de Mello, e outro3 
do conselho, el-rei chamou sua filha pêra acerca dei 
sj, e com ella vinham assaz donas e donzellas ; A 
aquelle Monseur João, especial procurador pêra estoJ 
com grão reverencia tomou a mão d'ella direita tÁ i 
em linguagem portuguez, sem emadendo aqui paia-^ ^ 
vra, nem mudando a forma, disse estas seguintes*^ 
razoes : ^ ' 

— «Mui nobre e honrada senhora D. Beatriz, o 
mui excellenie e mui estremado senhor D. Thomaz, 
conde d'ArandeI, c de Soria e de Varreria, vos saúda, 
e vos manda dizer que cllc por mim Monseur João 
Hueltezira, cavaileiro seu procurador cm esta parte 
sufflciente, e lidimamcnte estabelecido, e ordenado 
medianeiro, recebe a vós D. Beatriz em sua mulher 



Chronica cPEl-Rei D. João I 145 



boa e lidima, assim como manda a Santa Egreja de 
Roma, e consente em vós, assim como em sua mu- 
lher, e pêra esto em minha pessoa vos dá sua fé, 
sob esta condição se todas e cada uma das cousas 
promettidas, escriptas e conteudas pubhcas entre o 
dito poderoso meu senhor conde de uma parte e 
João Vasques de Almada cavalleiro, e Martim Do- 
cem Doutor em Leis embaixadores do mui alto prin- 
cipe D. João pela graça de Deus rei de Portugal e 
do Algarve, vosso padre da outra parte sobre vosso 
dote, e honesta passagem em Inglaterra feitas, e no 
escripto, e obrigatório por esse mesmo mui poderoso 
principe e rei, feito ao dito meu senhor e conde, e 
sf^llado dos sellos do dito senhor rei e em instru- 
mento publico sobre esto feito por vossa parte, e por 
vós bem e fielmente em toda a guisa pagadas e cum- 
pridas: e assim eu Monseur João Hueltezira já dito 
procurador, e em nome e como procurador do dito 
D. Thomaz Conde, e de mandado seu especial, re- 
cebo a vós, D. Beatriz, em mulher do dito meu se- 
nhor D. Thomaz Conde, e em seu nome consinto, 
e clle em sua pessoa consente em vós assim como 
em sua mulher, e pêra esto em seu nome, e em sua 
alma o juro, e dou a vós minha fé cm nome de sua 
fé, e em sua alma sob a condição susodita.» 

— *Eeu D. Beatriz por vós Monseur João Huelte- 
zira, cavalleiro procurador do mui excellente e es- 
tremado senhor D. Thomaz, Conde de Arandel So- 
ria, e de Varreria já dito, tomo e recebo o dito se- 
nhor D. Thomaz Conde vosso senhor, em varão e 
marido meu, bom e lidimo, assim como manda a 
Santo Egreja de Roma, c em clle por vós medianeiro 
por vós consinto de vontade, e expressamente, as- 
sim como em meu marido, e pêra esto a elle mui 



7^ Bihliotheca de Clássicos Portugue^^es 



excellente, e estremado senhor Conde D. Thomaz 
susodito, e a vós em seu logo, e nome recebente 
juro, e a minha fé dou sob a condição, e maneira 
que por vós em nome do dito senhor Conde rece- 
bida, e assim consinto aquellas cousas que me no- 
tificastes da sua parte.» 

E esto todo assim leito presente notários públicos 
d'ambas as partes, foram d'ello feitas escripturas 
quaes cumpriam, assim pêra el-rei, como pêra os 
embaixadores. 



Carta que escreveu D. Lourenço^ arcebispo de 
Braga^ a D. João de Oruellas^ abbade de Alcubjça^ 
em que relata algumas cousas da batalha de Alju 
barrota. 

Dom abbade, senhor c amigo ; de cima da outra 
semana que Deus andou comnosco contra os scis- 
maticos, não hei sabido mais de vós, aprouve a 
Deus e a Santa Maria sua madre que as ribeiradas 
do meu gilvaz se)am já vedadas, e os mestres vão 
de bem em melhor; eu o sinto bem, ca se vierem 
caizo, já darei e levarei outra pela mesma requesta, 
e crede vós, bom amigo, que quem esta pespegou 
não levou cnxebre, nem irá contar em Castella aos 
soalheiros o cruzamento de minha cara. Hontem ti- 
ve lettra e mensagem do Condestabre que me fazia 
saber el-rei de Castella sivera em Santarém como 
homem tresvaliado, e maldizia a seu viver, e jurava 
pelas barbas. Ca bofe, bom amigo, melhor é que o 
faça elle, que nuo fazemel-o nós, ca homem que as 
suas barbas arrepclla, mór sabor fará das alheias. 
Também outro dia que elle se ia embarcar na frota 



Bibtiotheca de Clássicos Portugueses 147 



que jazia sobre Lisboa, por não levar caminho de 
terra ; se ora os ventos lhe fizeram por agua, o que 
cá lhe fizeram por terra, de bom fadário nos livra- 
ria. Mas assim, ou assim de feição, vae elle hospe- 
dado, que não tornará tão azinha a ouvir as cam- 
pas do vosso mosteiro. 

João Vaz de Almada e Antão Vasques, seu ir- 
mão, estiveram aqui domingo ensembra com Mem 
Rodrigues, e se foram a Lisboa pêra ver algum geito 
de empecer, e esto de empecer aos castellãos que 
jazem na frota, mas eu lhe disse que não iam elles 
de cá enxotados de geito, que esperassem outro ru- 
xoxo. 

Quando eu vinha pêra cá, por mingua do sangue 
que não queria estar, vos disse eu que tivera outra 
vegada por estas partes, a cá cobrara o ouvir, que 
por uma porrada se escendalecera. Agora por o 
prasmo da Virgem, esteve logo á correnteza, puz eu 
ementes de lhe amanhar o telhado por baixo do las- 
tro da madeira, seja vossa mercê de mandardes d'es- 
sas vossas coutadas, por onde melhor se poder ha- 
ver e no que vos fôr prestadio, sempre serei a vosso 
mandar. Feita a vinte e seis d'agosto. 



FIM DA SEGUNDA PARTE 



r]>TiDEx: 



Pag. 

Capitulo CLXIX. — Como el-rei partiu pêra Galliza e do 

que lhe aveiu no vau do Minho 5 

Capitulo CLXX.— Como el-rei cercou Tuy e o com- 
bateu . 9 

Capitulo CLXXI. — Como os da cidade fizeram saber a 
el-rei a pressa em que eram, e do conselho que so- 
bre ello teve I3 

Capitulo CLXXII. — Do conselho que foi havido pêra 
accorrer á cidade de Tuy i5 

Capitulo CLXXIIL- Como foram juntas estas gentes 
que dissemos, e o e!-rei soube em Tuy 17 

Capitulo CLXXIV. — Como o Condestabre encaminhou 
por ir pelejar com o infante D. Diniz, e o não quiz 
altender 20 

Capitulo CLXXV. — Como el-rei combateu Tuy, e to- 
mou a cidride por preitezia 26 

Capitulo CLXXVI. — Como os de Serpa entraram por 

Casiella. e do que lhes aconfeceu 3i 

Capitulo CLXXVII, — Como os portuguezes pelejaram 
com os castellãos e os venceram, no anno de mil 
quatrocentos e trinta e sete 34 

Capitulo CLXXVIII. — Como el-rei de Castclla mandou 

a el-rei de Portugal Micer Ambrósio com recado... Sq 

Capitulo CLXXIX. — Do poder que el-rei deu ao bispo 
de Coimbra e ao Conde, e como se viram o mestre 
de Santiago e \ioy Lopes 43 

Capitulo CLXXX. — Do que se começou de fallar pe- 
rante esies alvidros 46 

Capitulo CLXXXI — Das razões que os procuradores 

mostrariiin, i ada um por parle de seu senhor 49 

Capitulo CLXXXII. — I)'outras razões dos juizes alvidros 
por trazerem os reis a boa concórdia 5i 



INDEX 



Pao. 



Capltnlo CLXXXin. — Das cousas que oi castellãos n.ais 
emaderam além das primeiras por elles pedidas 54 

Capitulo CLXXXIV. — Lomo o Priol D. Álvaro Gonçal- 
ves se foi pêra Castella, e foi dado o Priorado a Lou- 
renço Esteves de Góes Sy 

Capitulo CLXXXV. — Como el-rei foi sobre Alcântara, e 
se levantou do cerco d'ella 59 

Capitulo CLXXXVI. — Dos embaixadores que foram a 
Castella pêra tratar a paz, e não se avieram 63 

Capitulo CLXXXVIL— Do conselho que el-rei de Por- 
tugal pediu pêra fazer a paz, e do que lhe foi res- 
pondido 65 

Capitulo CLXXXVIII. — Como foi feita trégua por dez 

annos, e com que coniliçóes 68 

Capitulo CLXXXIX. — Como a rainha D. Catharina con- 

selhava seu marido que houvesse paz em Portugal. 70 

Capitulo CXC. — Como se juntaram os trautadores de 

Castella c- Portugal pêra fallarem no irauto da paz.. 73 

Capitulo CXCI — Das razoes que entre os trautadores 

loram fnlladas, e como se não concordaram 77 

Capitulo CXCII.— Das razões que u ruinha D. Catliari- 

na enviou dizer a el-rei, e du que lhe foi respondido 86 

Capitulo CXCIII. — Quaes embaixadores el-rei enviou 
a Castella, e da carta que sobre ello enviou á rainha. 95 

Capitulo CXCIV. — Das razoes que os embaixadores dis- 
seram á rainha por palavra e poi escripto. 98 

Capitulo CXCV. — Das razões que por ambas as partes 

toram falladas no conselho toa 

Capitulo CXCVI.-Como os embaixadores fallaram a 
departe á rainha e lhe íoi outorgada a paz como a 
demandavam 106 

(íapitulo CXCVII. — Como foi feito o trauto da paz, e 

em ^lue tempo approvado por el-rei 1 1 1 

ilapitulo CXCVIII. — Como a rainha de Castella enviou 
a el-rei pedir certa ajuda de galés por sua carta, e da 
resposta que lhe por outra enviou 114 

llapitulo CXCIX. — Como loram movidos alguns casa- 
mentos dos Hlhos d 'estes reis de uma parte e da 
outra, e não se acertaram 119 



INDEX 111 



Pag. 



Capitulo CC. — Da maneira que o Condestabre tinha an- • 
dando na guerra 122 

Capitulo CCÍ — Que maneira o Conde tinha de viver no 

tempo da paz 129 

Capitulo CCII. — Como el rei encornmendou ao Conde 
o carrego da justiça de riba de Odiana l32 

Capitulo CCIII. — Das cousas que ordenaram mais os 
do conselho, e como as sizas não foram lançadas 
pelos reis. l3G 

Capitulo CCIV.— Como casou el-rei seu filho natural 
D. AíTonso com a filha do Condestabre i^.') 

Capitulo CCV. — Como foi tratado casamento de D. 
Beatriz, irmã d'este Conde de Barcellos, com o Con- 
de de Arandel , 148 

Carta que escreveu D. Lourenço, arcebispo de Braga, 
a D. João de Ornellas, abbade de Alcobaça, em que 
relata algumas cousas da batalha de Aljubarrota. . . . 146 



BIBLIOTHECA 

DE 

CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



Director litterario 

Conselheiro LUCIANO CORDEIRO 



Proprietário e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



a4 LIBERAL, oflicina typographica, R. de S. Paulo, 3i6. 



BlBLIOTHECA DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



Director Litterario — Conselheiro Luciano Cordeiro 



Proprietário t fundador — Mello d'Azeviido 



CHRONICA 



DE 



EL-REI D. JOÃO I 



POR 



Gomes Ra7i7ies d' Azurara 



-VOI^. I 



ESCRIPTORIO 
147 — Rua dos RETkOZKiKOS — 147 

LISBOA 
1899 



DUAS PALAVRAS 



e X Íendo imposto a paz e o reconhecimento da in- 
I dependência portugueza á cubica e insolência 
da Hespanha nascente que repellida e duramen- 
te castigada d'este lado da Peninsula ensaiava nova- 
mente os tentaculos do lado do Aragão, o Rei de 
cBoa Mem.oria», com os seus hábeis conselheiros po- 
liticos, comprehcndera naturalmente a dupla necessi- 
dade de dar emprego e campo á multidão aventurosa 
e guerreira, áquellc «novo mundo», como diz Fernão 
Lopes, que a revolução nacional e democrática fizera 
surgir da grande crise politica, e de crear, simulta- 
ni aincntc, novos esteios de força e de prestigio que 
intimidassem ou reprimissem futuras investidas ou 
recalcadas velleidades do ambicioso e vencido visinho. 
Assegurar a paz publica e a consolidação econó- 
mica do j)aiz, abrindo horisontcs novos aos brios e ás 
paixões de fidalgos e soldados, creando-lhes como 



Bihliotheca de Clas.súws Portuguezes 



que um viveiro e escola em que elles se formassnn c 
exercitassem para novas contingências bcUicas; alar- 
gar o senhorio, rompendo novos veios de exploração 
e de accrcsccntamento ao trabalho e íí riqueza na 
cional; ampliar o território, consequentemente o po 
der e o prestigio, era o necessário corolário dos úl- 
timos acontecimentos ; tinha de ser o pensamento, o 
interesse, a rasão histórica da nova tlynastia. 

— <Oue se os fidalgos e outros bons homens d'este 
Reino, — diz João i, pela penna de Azurara, — não 
acharem em que exercitar suas forças, é necessário 
que de duas cousas façam uma : ou travarão arruidos 
e contendas entre si, como se lè, que fizeram os Ro- 
mãos depois que tiveram suas guerras acabadas, ou 
farão tacs damnos aos de Castella que se aze de se 
as pazes quebrarem, a qual cousa eu não queria por 
nenhuma guisa.» 

A primeira idéa, — como era então intelligente, e 
pratica a politica portugueza ! — foi a de proscguir 
a guerra com os mouros, corrcndo-os das bcUas ter 
ras andaluzas que elles infamavam ainda com a longa, 
dissolução do seu dominio peninsular. Uma cspecií 
de tradição histórica da politica castelhana, attribui 
á Coroa de Castella o privativo direito de succcssàc 
no dominio do ultimo resto do império hispano-mus 
sul mano. 

Para aquelle lado, pois, voltava a politica portu- 
gueza os olhos, — nem era a primeira vez, — desde* 
que assente a paz com Castella não podia volvcl-os 
para as bandas de Leão ou da Galliza. 

4Mais azado para se poder conquistar» do que O 
litoral africano, ficava aquelle reino de Grada Mlra- 
nada), observava I). João i aos filhos, acirescentando 
loeo : 



Chronica d'El-Rei D. João I 



— <Ora que proveito tenho eu de aquelle Reino 
ser posto em sugeição dos Castelhanos?» 

Elle não se illudia. 

Sabia bem que o hespanhol havia de ser o inimigo 
contra o qual precisávamos precaver-nos ; que, recal- 
cadas e repellidas, a cubica e a soberbia castelhana 
haviam de continuar a espreitar-nos, a ameaçar-nos, 
sempre. 

Hontem . . . como hoje. 

Foi infelizmente na altura d'estes acontecimentos 
novos, d'esta phase nova da historia nacional, que 
bem pode dizer-se a segunda fundação da nacionali- 
dade portugueza, que Fernão Lopes, teve de largar a 
penna encantadora, deixando incompleta e truncada 
a chronica do Rei da «Boa Memoria». 

Continuou-a, por commissão do neto do grande 
Rei, Gomes Eannes de Azurara. 

rr a continuação d'este, — a 3.* parte da bella 
chronica, na edição do dedicado e patriótico António 
Alvares, — que damos em seguida, não somente cum- 
prindo o comprimisse tomado, mas congratulando-nos 
pelo acolhimento feito á republicação da l." e 2.* 
parte. 

Aljubarrota e Ceuta, a grande batalha campal e a 
primeira conquista ultramarina, são dois feitos que 
valem por dois symbolos do velho e do novo Por- 
tugal : — a independência e a expansão. Pôde dizer-se 
que n'aquellcs dois gloriosos nomes se resolvem c 
completam, condignas uma da outra, as obras de 
Fernão Lopes e de Goincs Eannes. 



S^. 9". 



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LICENÇAS 



Vy 1 por mandado do conselho geral do Santo Of- 
^í^ ficio, esta terceira parte da Chronica d'cl-rei 
D. João o primeiro, de gloriosa memoria, cujo 
auctor foi Gomes luinnes de Azurara; não tem cousa 
alguma que encontre nossa santa fé e bons costumes, 
antes muitos exemplos de extraordinário valor, que 
podem servir de motivo aos portuguezes d'este nosso 
tempo, para commcterem grandes emprezas em ser- 
viço d'el-rei nosso senhor que Deus guarde, e em 
honra da nação portugucza. Lisboa, no con\'ento da 
Santissiiiia Trindade, em IO do novembro de l6.}2. 

O D. T'r. Adrião Pedro. 



Esta terceira parte da chronica d\l-rei D. João o 
primeiro, de gloriosa memoria, composta por Gomes 
Eanncs de Azurara, não tem cousa alguma contra a 



Chronica d'El-Rei D. João I 



fé e bons costumes, antes n'ella se tratam feitos he- 
róicos de valorosos portuguezes, assim da primeira 
como da segunda condição, que tomaram e sugeita- 
ram á coroa de Portugal a insigne cidade de Ceuta, 
dos quaes podem tomar exemplo os presentes de 
quem se não espera menos do que seus antepassados 
com tanto valor fizeram. E assim me parece este li- 
vro muito digno de se imprimir. S. Domingos de Lis- 
boa, l6 de dezembro de 1642. 

M. Fr. Ignacio Galvão. 

Vistas as informações pode-se imprimir a terceira 
parte da chronica d'el-rei D. João o primeiro, de glo- 
riosa memoria, auctor Gomes Eannes de Azurara, e 
depois de impressa tornará ao conselho para se con- 
ferir còm o original e se dar licença para correr, e 
sem ella não correrá. Lisboa, 29 de novembro de 
1643. 

Fr. João de Vasconcellos. 

Francisco Cardoso de Torne o. 

Pedro da Silva. 

Pode-se imprimir. Lisboa, 17 de novembro de 1642. 

O Bispo de Torga. 

Não achei n'esta chronica d'el-rei D. João o pri- 
meiro, de gloriosa memoria, cousa por onde se possa 
negar a licença que pedem para se imprimir. Lisboa, 
31 de Dezembro de IÕ42. 

Diogo de Paira de Andrada. 



10 Bihliotheca de Clássicos Poiiuguezes 



Que se posea imprimir esta chronica, visto as licen- 
ças do Santo Officio e ordinário que offerece, e depois 
de impressa torne para se taxar, e sem isso não cor- 
rerá. Lisboa, 13 de Janeiro de 1643. 

yoâo Sanches de fíaena. 
D. Rodrigo de Menezes, 
jfoão Piíiheiro. 




PROLOGO 



CONCLUSÃO é de Aristóteles no segundo livro da 
Natural Philosophia, que a natureza e o come- 
ço de movimento é de folgança, e para decla- 
ração d'esto, aprendamos que cada uma cousa tem 
qualidade, por a qual se demove a seu próprio logar, 
quando está fora d'elle, entendendo ali ser confirma- 
do melhor e por aquella mesma propriedade assaz 
assocegamento, depois que está onde a natureza re- 
quer. 

Exemplo d'isto c a pedra que por sua gravcza e 
pezo descende ao logar que lhe pertence, e depois 
que o percalça não se move. 

Assim similhavelmente cada um hc^mcm tem de- 
sejo de conservar sua vida, á qual são necessárias 
muitas cousas sol)re que ellc não ha posição, e por- 
tanto ha mister que as peça por seu movimento a 
(]Ufm i-nfrndcr que ;\^ pôde riuthorgar, c depois que 



12 Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



as tiver cobrará folgança, usando d'ellas segundo o 
que deve, c portanto a grandeza de nosso Senhor Deus 
infindamente é liberal, a clle que em que peçamos esto 
se pôde mostrar por algumas razões. 

Para conhecimento da primeira, saibamos que no 
primeiro livro da gloria, diz o philosopho que se al- 
guma propriedade convém a duas cousas, uma a tem 
por azo da outra, e é necessário que a tal perfeição 
compridamente seja em a primeira, cujo exemplo é 
aqueste. 

Certo é que a quentura não convém ao frio es- 
quentado, senão por o fogo, porém não embargante 
que elles ambos sejam, ella mais pertence ao fogo 
sobre o qual direitamente podemos fundar nosso pro- 
pósito em aqueste meio, crendo que nenhum bem fa- 
zer convém aos homens, senão por azo do Senhor 
Deus, em cuja provação diz o Apostolo Santiago na 
sua primeira Canónica, que toda boa doação e todo 
liberal outhorgamento de cima descende do padre, 
dos lumes que sobre esto esparge os raios de sua bon- 
dade. 

E porque nós tenhamos ouzia de lhe pedirmos aju- 
da para todas nossas cousas, elle mesmo nos convida 
no capitulo de S. Matheus, dizendo : 

Vinde a mim todos os que trabalhaes em vossos 
desfallecimentos e sois encarregados, eu vos outhor- 
garei avondança do que desejaes. R no capitulo 16." 
do Evangelho de S. João manda que peçamos e re- 
ceberemos, no que parece que sem receio o de\'cmos 
rogar que nos ajude, pois que elle mesmo se oíTerece 
a nos outhorgar o que lhe pedirmos. 

De si o disse o propheta nos quarenta c nove psal- 
mos, dizendo a cada um homem: — Chama-me cm o 
dia da tribulação e eu te li\"rarci c tu me louvarás. 



Chronica d'El-Rei D. João I 13 



E o mestre das sentenças em a quadragessima 
quinta defiaição do quarto livro diz que a creatura 
racional deve dizer as cousas temporaes á verdade 
eternal, pedindo aquillo que bem deseja que lhe seja 
outhorgado. E posto que nós razoemos esto em sua 
presença, não cuidemos que entenderá novamente o 
que não conhece, cá escripto é em o Evangelho que o 
nosso Padre sabe as cousas que nos são necessárias 
primeiro que as façamos. E porém diz S. Gregório 
em o dialogo, que o nosso pedir não faz mudança 
em a disposição divinal, mas faz-nos impetrar o que 
eternalmente se ordenou ser-nos outhorgado por nos- 
sas petições, e portanto em o dezoito capitulo de S. 
Lucas se diz : — Convém de orar. 

Entonce cobraremos o que fôr bem requerido, po- 
rém devemos poer em Deus toda nossa esperança, 
que é poderoso pêra nos ajudar em qualquer obra 
pêra que o requeremos. 

Empero esta sua ajuda não podemos assim por nós 
mesmos percalçar, porque elle des o começo fez em 
as creaturas encadeamento por guisa que as virtu- 
des do ceu não vem á terra que não passem primei- 
ramente por os corpos que são entre ellas, nem se 
move alguma cousa d'um termo pêra outro que por 
a metade não faça movimento. 

Porém como de nosso Creador infindamente seja- 
mos alongados, c no começo são postos alguns corpos 
a que elle deu parte em sua gloria, e com alguns 
d'ellcs nós temos alguma natureza, cumpre que a 
estes roguemos por nossas petições de que desejamos 
haver bom desembargo. E por algumas razões se 
pode aquesto provar, das quacs a primeira se faz por 
aquesta maneira. 

Quanto a petição é mais humildosa e apresentada 



14 Bibliotheca de Clássicos Portugiiezes 



sem presumpção, tanto deve ser outhorgada com maior 
vontade, porém como mais humilde se mostrar cada 
um, pocndo em outrem sua confiança c não presumir 
de si mesmo, segue-se que com maior vontade lhe 
deve ser outhorgado o que demanda, pois toda sua 
esperança põem na bondade do Senhor e nos mereci- 
mentos de quem por elle pede, e por confirmação 
d'esto é escripto em o quinto capitulo de Job que nos 
tornemos a algum santo, por cujo merecimento nos 
seja outhorgado o que requeremos. 

A segunda razão é que todo aquelle que se conhece 
por vil e mesquinho em presença de quem quer de- 
mandar, esperará com razão de não ser ouvido e de 
o não leixarem chegar pcra dizer o que ha mister, c 
portanto deve requerer a outrem que verdadeiramente 
peça por elle, e pois nós quanto aos corpos n'esta 
vida somos mui sujos, depois da morte seremos mui 
torpe vianda de vermes. E quanto ás almas diz o 
propheta em o pslaino cincoenta que em maldade so- 
mos gerados, e concebidos em pecado, mostra-se logo 
devemos rogar a quem não tenha empacho de infin- 
damente ao glorioso Senhor apresentar nossa infor- 
mação, nem duvidaremos se alguns santos esto podem 
fazer, que no sexto capitulo do Apocalipse é escripto 
que a devoção das nossas orações sobe por mão do 
anjo á presença de Deus. R no doze capitulo de Tho- 
bias se lê que lhe disse o anjo como apresentara suas 
orações quando jejuava e fazia esmolas e soterrava os 
mortos, cm que parece que os anjos e os santos são nos- 
sos ajudadores, quando devotamente os requeremos. 

A terceira razão é aquesta, que é néscio o que tra- 
balha de ir só pelo caminho duvidoso, tendo seguro c 
proveitoso guiador, portanto as petições que fazemos a 
Deus de serem quejandas, devem pela maior parte ser 



Chronica d' El- Rei D. Jaào I 15 



duvidosí^, e temos medianeiro homem Jesus Christo, 
segundo diz o apostolo S. Paulo em a primeira epis- 
tola a Thimoteo; a elle nos tornaremos, principalmente 
por nos encaminhar, pois em o decimo quarto capitulo 
do Evangelho de S. João disse: 

Ninguém vae ao divinal Padre, senão por elle, que 
é caminho e claridade do mundo. 

Oraremos humiidosamente, que por seus mereci- 
mentos seja guardador dos nossos desejos c por sua 
misericórdia nos queira impetrar as graças que have- 
mos mister. 

Ora fallando da quarta razão, entendemos que qual- 
quer que leixa em as cousas necessárias a certa pra- 
tica pelo duvidoso entender, não tão somente faz sim- 
pleza, mas ainda commete loucura, porém como nossa 
petição toda seja duvidosa de aprazer a Deus, porque 
diz a Santa Escriptura que nenhum sabe se merece 
ódio ou amor em sua presença, e com esto somos 
certos que Deus outhorga a muitos grandes mercês 
n'aquella vida e na outra, por a bondade dos que as 
pedem, por elles se mostra claramente que se nós que- 
remos bem pedir, d'esta pratica devemos uzar, em cuja 
provação se lê em o decimo oitavo capitulo do Génesis, 
que sovertendo Deus as cidades de Sodoma e Gomorra, 
livrou Loth por rogos do santo patriarcha Abrahão. 

Quem soverteu as cidades e livrou Loth ? 

Muitas vezes fora perdido o povo de Israel por 
sanha de Deus se o não abrandaram os rogos do pro- 
pheta Moysés. E a linhagem de Salomão de todo per- 
dera a cadeira real, senão fora por el-rei David, ser- 
vidor do mui alto; e direita razão é que pois aos 
homens são outhorgadas muitas graças por azo d'a- 
quellcs que podem pecar, muito mais lhe devem ser 
feitas mercês por rogos d'aquelles que já por sempre 



16 



Bihliotheca de Clássicos Poriuguezes 



não podem falleccr, e porém entenderemos que os 
santos rogam .por nós em a outra vida 

Saibamos que o mestre das sentença, di^ em as 

quarenta e cmco definições do quarto livro, que as 

rl;"^l 7^'''"'"""^^' ^"" P°^ ^ esperança divinal 
recebem led.ce em a face de Deus. entendem as cou- 
sas que se fazem de fora, quando é compridouro 
pêra seu prazer ou pêra nossa ajuda, em que parece 
que os santos não dizem a Deus o que nós requere- 
mos, mas elle lhe mostra os nossos desejos, queren- 
do que por suas petições nos sejam cumpridos, po- 
rém a elle, segundo cada um tiver sua devoção se 
tornara devotamente, por guisa que aonde o seu re- 
querimento não poder abranger chegue o mereci- 
mento d aquelle em cuja santidade pozer confiança, 
especialmente poremos em a Virgem Santa Maria 
benhora dos Anjos, que seja nossa advogada por sua 
misericórdia, porque as cousas que forem requeridas 
por ella pêra nós, sem tardança serão outhorgadas, ca 
diz banto Anselmo no livro do Conccbimento Virgi- 
nal, que muitas vezes chamando os homens aquesta 
Senhora mais trigosamentc recebem graça que se 
Jesus Christo fosse chamado, esto não por ella ter 
melhoria sobre seu filho, mas por quanto Elle é jul- 
gador dos merecimentos de cada um não embargante 
que ouça quem quer que o chama por justo juizo, e 
retendo outhorgar o que não é merecido e de quem 
a sua Madre é chamada e requerida, posto que o 
pcdidor^ nao mereça ser ouvido, os merecimentos 
delia sao abastosos pêra comprir a petição do que 
for desejado. L por quanto eu sinto de mim tanta 
íraqucza pcra continuar a seguinte obra, digo com 
toda humildade e reverencia em aquesta guisa: 

Aquelle cuja graça por divinal resplendor infia- 



Chromca d'El-Rei D. João I 17 



mou os corações de seus santos apóstolos da perfeita 
sabedoria e espiritual eloquência, mande sobre mim 
alguma parte dos átomos d'aquella graça que por 
minha rudeza e fraco engenho possa fallar da fran- 
queza e maravilhosos feitos d'este virtuoso e nunca 
vencido príncipe rei D. João, aquello que em seus 
grandes merecimentos mui inteiramente cabe, cuja 
historia nos seguiates capítulos entendo escrever, 
porque não menos me parece que deve o seguinte 
feito e os que detrás d'elle são escriptos, haver me- 
nos auctorizado registro do que houveram os feitos 
do grão Machabeu e d'outros muitos duques e prín- 
cipes que por suas obras a Deus muito prouveram. 
Des-ahi punha fiúza em a divinal Madre mais glo- 
riosa que outra pessoal creatura e virtuosa, possuidor 
em sobreavondavel cumprimento, em cujo ventre de 
virtuosa pureza fez a divindade graciosa morada e 
foi gerado finito temporalmente Deus Nosso Senhor 
Jesus Christo, porque ella é exalçada sobre todas 
três hierarchias dos santos principados que por este 
seu infindo merecimento, pois ella de todas graças é 
ministradora, não tanto por meus fracos rogos, como 
por a singular devoção que este glorioso príncipe na 
santíssima pureza sempre houve, impetrará por mim 
tal graça que eu possa escrever sua historia, segun- 
do seus grandes merecimentos requerem, conhecendo 
que por mim nenhuma cousa posso sem sua graça e 
ajuda, segundo é escripto por Avicena em sua Meta- 
phisica, dizendo que o não ser vem de nós e o ser de 
outrem, s. de Deus nosso creador em cuja provação 
diz S. Gregório que todas as cousas seriam tornadas 
em nada se as mãos do todo possante Deus as não 
conservassem, portjue nenhuma condição é tanto 
izenta que cm fallccimento não haja sua parte. 




TERCEIRA PARTE 



Da chronica d'Ei,-Rei D. João o primeiro 

E dos reis de Portugal o decimo 

Em que se contem a tomada de Ceuta 

Composta por Gomes Eannes de Azurara 

CHRONISTA M(JR d'eSTES REINOS 

CAPITULO I 

Do cometo da historia e fundação de Ceuta. 




tempo e grandeza das obras, nos constrange 
fortemente que escrevamos nos seguintes ca- 
pítulos a gloriosa fama da mui notável em- 
preza tomada por este virtuoso e nunca vencido 
príncipe, senhor rei D. Joào, que em seu propósito de- 
terminou forçosamente por armas conquistar uma tào 
nobre e tào grande cidade, como é Ceuta, no qual 
feito consirnndo podemos esguardar quatro coisas, 
a saber, grande amor da fé, grandeza de coração, 
maravilhosa ordenança e proveitosa victoria, a qual 
foi maravilhoso preço de seu grande trabalho, e pas- 



Chronica d'El-Rei D. João I Í9 



saremos ao presente pela declaração de aquestas 
coisas, porque se de alguma d'ellas singularmente íal- 
lando pouco disséssemos, nossa força seria mgrata, e - 
se de todas assaz fallassemos, pareceria infinda, em- 
pero sob muita brevidade algumas coisas diremos de 
cada uma, porque os ledores saibam como o dito rei 
se em ellas houve acerca d'este feito. 

Grande ardor foi o de sua fé em todas suas obras, 
singularmente em esta, ca todo seu principal movi- 
mento foi serviço de Deus e grande desejo que tmha 
de emendar alguma cousa, se a contra vontade de 
Deus fizera no tempo da guerra passada, e assim o 
dizia muitas vezes em sua vida, quando se acertava 
em ello fallar, que posto que em ello houvesse guerra, 
mui justa com seus inimigos, a qual era por defensão 
de sua terra, na qual suas armas muitas vezes foram 
tintas de sangue, que elle não entendia d'ello fazer, 
senão lavando suas mãos no sangue dos infiéis. 

Oh! maravilhosa caridade de príncipe, cuja sinii- 
Ihança em homem d'aquelle tempo não foi achada, 
que com tamanho temor divinal tratava suas obras, 
que certo não era sem rasão que tão cathohco e re- 
ligioso príncipe cobrasse bcmaventurados aquecimen- 
tos, pois sob o jugo da fé com tanto temor de Deus 
trí'balhava seus feitos, que escripto é por \ alerio Má- 
ximo, no seu primeiro livro, que porque os Komaos 
guardavam reverencia aos Deuses e sem sua vontade 
alguma cousa não faziam, por isso durou longamente 
o seu senhorio; e fallando da grandeza de seu cora- 
rão que poderemos dizer, senão que loi uma coisa 
mais pêra maravilhar, que pêra fallar de j^randioso 
homem, sendo de tamanha edade era pouco seguro 
de seus imigos, porque as pazes que com elles tinha 
não eram tão firmes cjue se ligeiramente não podessem 



20 BihitOtheca de Clássicos Portuguezes 



quebrar, maiormente não sendo outhorgadas por el- 
rei, a qual colisa muitos consiravam que podia empa- 
char sua obra, mas elle com nenhuma cousa poude 
receber embargo, antes com aquella íârmeza e ardor 
da fé, que já falíamos, desprezou todos os contrários 
que o poderiam empachar pêra cobrar aquella victo- 
ria a que o seu coração prophetizando o chamava, não 
se contentando ainda por si só cobrar este feito, mas 
de seis filhos que tinha, os quatro que eram pêra to- 
mar armas áquelle tempo, levou comsigo. 

Mas da postura de seus feitos e de como os trcs 
d'elles foram cavalleiros, fallaremos ao deante mais 
cumpridamente, leixando somente o rei no sob go- 
vernança de um antigo cavalleiro, creado òeu, que 
era mestre d'Aviz. Mas a ordenança de seus feitos 
foi cousa maravilhosa pêra aquelles que viviam n'a- 
quella edade, a qual pela historia adeante será devisada 
cumpridamente a quem em ella esguardar, porque 
achará que nem o cerco de Tróia nem a passada de 
Sipião em Africa, foram de tanta excellencia. 

Pois da victoria que lhe o Senhor Deus outhorgou 
em fim de seus grandes trabalhos, por contrato de 
suas famosas cavallarias, bem pode ser exemplo a 
todos os príncipes do mundo. 

Muitos suficientes historiadores escreveram cavallei- 
rosos feitos e façanhosas historias de muitos reis, du- 
ques e principes passados, mas por certo em nenhuma 
escriptura se achará que em tão breve tempo uma 
tão notável e tão grande cidade fosse filhada por 
força d'armas, não porque ella de muitos por sua 
grande nobreza, não fosse cobiçada e desejada, mas 
punha espanto aos rostos dos que a olhavam e es- 
guardavam seu temeroso semblante. 

Santo Agostinho, que foi bispo em Africa, dá tes- 



Chronica d'El-Rei D. João I 21 



i temunho da nobreza d'esta cidade, e que de todos os 
I senhores, d'aquella terra fõi sempre desejado seu se- 
1 nhorio. 

{ Conta um senhor d'ella, Abdabiz, que foi grão dou- 
I tor entre os mouros, que esta cidade foi fundada 
depois da destruição do diluvio, annos duzentos e 
trinta e três, e assim havia a aquelle tempo que ella 
foi filhada quatro mil duzentos e oitenta e três annos, 
e havia oitocentos e dezoito que era em poder de 
mouros, e diz que o fundador d'ella foi seu neto de 
Noé, e que esta foi a primeira que elle fundou em 
toda aquella terra d'Africa, e que portanto lhe poz 
o nome Ceyt, que quer dizer em lingua caldea, co- 
meço de formosura, e diz que mandou escrever umas 
letras em a primeira pedra que se poz no alicerce 
que diziam: 

Esta é a minha cidade Ceyt, a qual eu povoei pri- 
meiramente de companhas de minha geração; os seus 
cidadãos serão estremados de toda nobreza d'Africa; 
dias virão que sobre o seu senhorio se espargirá san- 
gue de diversas nações, e o seu nome durará até o 
acabamento do derradeiro segre. E assim deveis de 
saber que depois que esta cidade foi primeiramente 
fundada até o tempo que el-rei D. João a filhou, nunca 
foi nenhum principe nem senhor que cobrasse seu 
senhorio por força d'armas, porque ella foi primeiro 
de gentios, como dito é, e depois foi convertida á fé 
de nosso Senhor Jesus Christo, na qual durou até o 
tempo que o conde Julião a entregou aos mouros, 
quando por vingança d'el-rei D. Rodrigo, os mouros 
primeiramente passaram em llespanha, segundo conta 
Santo Isidro c mestre Pedro e D. Lucas de Tuy. 

Oh! ciílade de Ceuta, diz o doctor, ante todas as 
de Africa mais exalçada, muito favoráveis te foram 



22 Bibliothtcu de Clássicos Portuguezes 

os planetas e os signos muito sujeitos á tua constel- 
laçào, em quc^ primeiro foi teu fundamento, pois tào 
longamente guardaste tua virgindade em despre/o de 
tantos e tao ricos barões de quem sempre foste tão 
desejada, por te dares inteira e só a um tão alto e 
glorioso rei, o qual te depois tanto amou e tão va- 
lentemente defendeu. Dina será a tua façanha de per- 
petua remembranga, eras tu primeiramente de nação 
barbara, mais baixa de todas as nações, e agora acom- 
panhada e guardada por força de linhagem dos reis 
de llespanha e da casa de Inglaterra. 

Partidas são de ti as ensujentadas cerimonias do 
abominável Alafamede, e as suas mesquitas sarradas 
com elle são todas tornadas em templos do nãò mor- 
tal Ueus, e n'elles tratado o mysterio do divinal sa- 
crifício. Qual cidade é hoje no mundo mais temida e 
prezada que ti? Por certo grande gloria te será quan- 
do pensares quanto nobre sangue é espargido por teu 
defendimento, alegre e com grado deverás tu receber 
tal senhor. 

Ora com graça de Deus começaremos nossa histo- 
ria, repartida em capitulos segundo real ordenança 
dos antigos historiadores. Rmpero não será tão com- 
pndamente contada como foi o feito, porque nós co- 
meçamos de escrever trinta e quatro annos depois de 
sua tomada, e afora os impedimentos que ao deante 
serão contados, no dito tempo falleceram quasi a maior 
parte das auctorisadas pessoas que foram no conse- 
lho e feito da dita obra, que d'elle perfeitamente sa- 
biam, e os que ficaram de que tinhamos razão saber 
eram tao grandes senhores que pela exccllencia de 
seu estado loram sempre tão ocupados que perderam 
a lembrança de mui grão parte das circumstancias 
d aquellas cousas, maiormente que o principal d"est.s 



Chronica d'El-Rei D. João I 23 

era o infante D. Henrique, o qual foi sempre tão oc- 
, voado nos feitos do reino, des-ahi teve sempre em 
cUe muito grandes encarregos cuja força occupou 
muito seu accordo em este feito, a qualidade dos quaes 
contaremos ao deante. ^ 

Proseguindo nossa força e tomando porem alguns 
pedaços que ficaram pegados nas paredes do enten- 
dimento d'este senhor, cheias de mui grandes cuida- 
dos e cercadas de feitos estranhos, com algumas mi- 
galhas que de fora apanhamos, trabalharemos de fazer 
cousa que pareça inteira, segundo a forma do proces- 
so que se segue. 



CAPITULO II 

Em que se declaram as razões porque esta força foi 
começada tão tarde. 

.UAL foi o primeiro movimento d'aquella de- 
manda que era entre o reino de Castella e 
^ Portugal, des-ahi todos os aquecimentos que 
se d'elle seguiram, assaz tenho que fica declarado em 
um livro que d'elle c escripto, o qual foi posto em 
ordenança por uma notável pessoa que chamavam ber- 
nao Lopes, homem de communal sciencia c grande 
auctoridadc, que foi escrivão da puridade do inlante 
D Fernando, ao qual el-rei D. Duarte em sondo 
infante, commetteu o cargo de apanhar os avisamen- 
tos que pertenciam a todos aqucUes feitos, e os ajun- 
tar e ordenar segundo pertencia á grandeza d clles 




24 Bihliotheca de Classicon Portiiguezes 



e auctoridado dos príncipes e outras notáveis pessoas 
que os fizeram. 

E por quanto o dito Fernão Lopes não pôde mais 
chegar com a dita historia que até a tomada de Ceuta, 
assim pela grandeza da obra que se n'aquelles feitos 
passados reijueria, como pelos avisamentos d'elle se- 
rem caros e maus de apanhar, e esto porque a dita 
historia foi começada tão tarde que muitas das pes- 
soas que verdadeiramente sabiam, eram já partidas 
d'este mundo, e outras que ficaram estavam departidas 
pelo reino, cada um onde lhe a ventura ordenara de I 
serem, com galardão de seu trabalho segundo a parte j 
de seu merecimento, ca não foi alguni que servisse cm 
alguma maneira a aquelle grande principe e senhor 
rei D. João, que ficasse sem maravilhosa satisfação 
de seu serviço, não ainda segundo a qualidade de seu 
merecimento, mas muito melhor e mui grandemente, 
segundo em sua historia em algumas partes podereis 
achar, ca entre os reis que foram em Portugal até 
sua edade elle foi havido por mais grande, e a sua ma- 
gnificência procedia de sua mui grande magnanimi- ; 
dade, e assim foi necessário ao dito Fernão Lopes de ,'; 
andar por todas as partes do reino pêra haver cum- ' 
prida informação do que havia de começar, e não tão 
somente por aquellcs que os ditos feitos trataram pôde 
ser perfeita informação, por quanto os mais d'elles 
eram chegados a derradeira edade, onde a memoria 
perde muito das primeiras cousas, que os velhos por 
natureza, por razão de esfriamento tio sangue, perdem 
muitas cousas que na mancebia aprenderam, como es- 
crevia S. Jeronymo em uma epistola a Nepociano, 
que sendo elle mancebo todas as cousas retinha viva- 
mente, mas depois que a cabeça foi cã e a face cn- 
verrugada, logo um sangue frio lhe cercou o coração. 



Chronica d' El- Rei D. João I 25 



de guisa que muitas cousas que vira e aprendera na 
'mancebia lhe esqueceram na velhice, e des-ahi os 
[grandes trabalhos em que aquelles velhos andaram 
com el-rei todo o outro tempo passado, foi grande 
azo de se não lembrarem de todo compridamente, por 
cuja razão o dito Fernão Lopes despendeu muito 
tempo em andar pelos mosteiros e egrejas buscando 
os cartórios e os letreiros d'ellas, pêra haver sua in- 
formação, e não só em este reino, mas ainda ao reino 
de Castella mandou el-rei D. Duarte buscar muitas 
escripturas que a esto pertenciam, por quanto o seu 
desejo não era que os feitos de seu padre fossem es- 
criptos, senão mui verdadeiramente, e assim por esta 
tardança e por a historia ser começada tarde, o dito 
Fernão Lopes não pôde com ella chegar mais que 
até o tempo que os embaixadores d'este reino foram 
a Castella primeiramente firrnar as pazes com el-rei 
D. Fernando de Aragão, e com a rainha D. Catharina, 
que áquelle tempo eram tutores d'el-rei. 

E porquanto o mui alto e mui poderoso príncipe 
c senhor el-rei I). Affonso o quinto, ao tempo que 
primeiramente começou de go\ernar seus reinos, 
soube que os feitos de seu avô ficavam por aca- 
bar, considerando como o tempo escorregava cada 
vez mais, c que tardando de ser cscriptos, pode- 
riam as pessoas que alli foram fallccor, por cuja 
razão se perderia a memoria de tão notáveis cousas. 
Portanto mandou a mim Gomes Kannes d'Azurara, 
seu criado, que trabalhasse de as ajuntar e escrever 
por tal guisa que ao tempo que se houvessem de 
ordenar em chronica, fossem achadas sem fallLcimcn- 
tos. F eu em cumprimento de seu mandado c por 
satisfazer a seu desejo, como de meu senhor e meu 
rei, me trabalhei de cu querer e saber as ditas cousas 



26 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



e as escrevi em estes cadernos pela guisa que ao 
deantc é conteuda, com tenção de as accrescentar ou 
mingoar em quaesquer logares em que foi achado, 
por verdadeiro juizo que o merecem, e a auctoridade 
d'aquellas pessoas, porque fui avizado, em ellas haverá 
pouco fallecimcnto, ca é cousa certa, que nos feitos 
que muitos viram e sabem, nunca homem tantas vezes 
pode perguntar quem sempre não ache cousas novas 
que saber, e isto porque cada um conta o feito pur 
sua guiza, buscando muitos homens que vissem uma 
cousa e perguntando a cada um por si, achará que o 
primeiro não concerta com o segundo, nem o terceiro 
com o derradeiro, quanto a circumstancias da obra, 
e esto sei eu bem porque o pratiquei por muitas vezes. 
Ora quando se esto faz em uma cousa pequena, que 
se fará no fdhamento de uma cidade, ou no revolvi- 
mento d'uma batalha campal, onde a occupação de 
cada um não se pôde mais entender, que a defensão 
de sua vida, em que elle tem tanto que fazer, que não 
é de crer que pêra outra nenhuma parte reparta seu 
cuidado? E quem quizer escrever os falamentos de 
todos seria uma cousa dcfusa, ou mais direitamente 
impossivel, ca elles não se contentam de contarem o 
que sabem, mas ainda accresccntam no que ouvem, 
e em muitas partes tão largamente, que fazem aquelles 
que hão de escrever a sustancia dos feitos, pôr em 
mui grandes duvidas, de guiza que é mais segura 
parte perguntar a poucas e a certas pessoas, que 
demandar a todos o que perfeitamente não ha razão 
de saber. 



Chronica d'El-Bei D. João I 27 



CAPITULO III 

Da tenção que el-rei houve de mandar requerer pazes 
a Castella. 

JV!. AS é agora primeiramente de saber o grande 
/A\ desejo que el-rei havia de ver acabados os 
^y % feitos da guerra, que era entre elle e o reino 
de Castella, não porque elle em seu coração temesse 
o poder dos castellãos, nem d'outras nenhumas pes- 
soas, que assís era de esforçado e valente em todos os 
casos perigosos, e quanto o trabalho e o espanto era 
maior, tanto o seu esforço era mais grande, segundo 
bem ouvistes nos grandes e perigosos logares em que 
foi, como os susteve esforçadamente ; nem ainda havia 
elle razão de desejar paz, porque lhe as cousas até 
alli não accudissem segundo sua vontade, ca em todos 
aquelles feitos a fortuna lhe rendera melhor do que 
elle desejara, por cuja razão os feitos d'aquclla guerra 
eram por todas as partes do mnndo mui nomeados, 
ca falíamos ainda mais pelos damnos e perdas que 
os castellãos receberam, que elle nem os seus, mas 
de tal guisa pelejava que sempre pelejando parecia 
que buscava a paz, segundo se claramente mostrou 
por todos os seus feitos, a qual cousa foi sempre muito 
louvada, assim pelos douctores da santa cgroja, como 
pelos philosophos históricos e peripaticos, e por todos 
os outros auctorcs historiacs, assim gregos como la- 
tinos, os quacs todos juntamente c cada um por si 
accordaram esta scr.1 mais cxcellcnle virtude cuic se 



28 Bihliotheca de Clássicos Portugv,ezes 



pode achar em um príncipe, nas adversidades ser forte 
e nas prosperidades humildoso, e por fallecimento de 
cada uma d'ellas cahiram já muitos principes mui 
grandes quedas, segundo conta João Bocacio, um 
poeta que foi natural de Florença. 

Nem entendaes que el-rei assim desejava a paz por 
força de cansaço que houvesse em suster os traba- 
lhos da guerra, os quaes são por si tão grandes que 
sobre elles não ha outros maiores, ca não ha princi- 
pe que os continuadamente supporte, que se lhe a 
velhice não antecipe antes muitos annos, do que a 
sua natureza requer, e como o podereis vêr na se- 
gunda década de Tito Livio no decimo livro, onde fal- 
ia das razões que houve Annibal com Sipiâo chaman- 
do-se velho, sendo ellc cm edade de trinta e seis an- 
nos, somente por o trabalho da guerra que sustivera 
em Hespanha e Itália por espaço de dezeseis annos; 
e se el-rei D. João este cansaço e enfadamento senti- 
ra, não mo\'era logo tanto que a paz foi acabada tão 
grandes cousas, como achareis adcante que moveu, e 
pois medo das aventuras da fortuna, nem o espanto 
da grande multidão dos inimigos, não foi o principal 
azo porque ellc buscasse paz, nem outrosim vontade 
pêra se afastar dos trabalhos e buscar repouso c as- 
socego, senão esta sua vontade de paz se atribuíram 
aquelles dois principios, que sào escriptos na primei- 
ra taboa pelo dedo de Deus, dados a ^íoysés no mon- 
te Oreb, nos quaes se encerram todos outros segun- 
do o diz a Santa Kscriptura, o que amará a Deus so- 
bre todas as cousas e a seu próximo como a si 
mesmo. 

E amava Deus emquanto cobiçava c desejava de o 
servir n'aquelle officio ; quem a seu estado convinha, 
offerecendo seu corpo de receber muitas chagas e fe- 



Chronica d'El-Rei D. João I 29 



ridas, não estimando trabalhos corporaes nem espa- 
lhamento de sangue pelo seu amor, e o que mais caro 
era, não perdoar a sua vida por exalçamento de sua 

: santa fé catholica. 

E posto que alguns néscios e covardes digam que a 

: guerra dos mouros não é o maior serviço que a Deus 
pode ser feito por os seus fieis christãos, erram gra- 
vemente, que se assim foram os mui nobres reis de 
Hespanha que lançaram os mouros d'ella depois da 
morte d'el-rei D. Rodrigo, não fizeram hoje tão gran- 
des milagres, como Deus cada dia por elles faz nas 
sepulturas onde jazem, nem se lhe fizera tanto servi- 
ço como se lhe faz nas sés, mosteiros e egrejas que 
elles tão grandemente edificaram e dotaram, e deixan- 
do-lhes mui grandes rendas de que se mantiveram e 
mantém muitas pessoas religiosas, que cada dia lou- 
vam e adoram o nome do Senhor e os bemaventu- 
rados martyres, que por exalçamento de sua santa fé 
se foram entre os mouros a receber coroa de marty- 
rio, não teriam taes sedas como tem e possuem eter- 
nalmente entre o throno do imperador celestial. 

Amava ao próximo emquanto se doia de qual- 
quer damno que lhe viesse, ca posto que aqucllas vi- 
ctorias houvesse contra elles, sempre os requeria e 
amoestava que todavia houvessem paz, esto era forte 
cousa, que elle que havia de ser requerido pêra ella 
pela victoria que havia, c elle a mandava requerer. 
Mas isto fazia elle a dois fins por duas cousas, a 
primeira porque lhe pezava de seu damno emquanto 
eram christãos, a segunda porque guerreando com 
elles não podia haver logar para servir a Deus, como 
desejava, em este passo tem alguns pouco menos que 
hereges, que todas as crcaturas racionaes de qualquer 
lei que sejam, devemos de contar por próximos, o que 



30 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



se assim fosse seria erro fazermos-lhes damno de cer- 
ta sciencia, mas a isto posso eu dar aqnella resposta 
que já dei acima com outras muitas auctoridades da 
Santa Escriptura que eu bem poderia amostrar, posto 
que fraco letrado eu seja, as quaes ficam por escrever 
porque não são pêra declarar de todos em similhan- 
tes logares, porém concluindo este capitulo, o victo- jc 
rioso rei D. João, em cumprimento de seu grào dose- •■ 
jo, segundo os mandamentos de Nosso Senhor, tanto 
que elle pôde buscou e requereu paz, a qual lhe Deus 
encaminhou, conhecendo sua vontade, pela maneira 
que adeante ouvireis. 



CAPITULO IV 

Cof^ío os e77iba:xadores foram a Castella e cia respos- 
ta que houveram. 



EPOis da morte d'el-rci IX Henrique, que foi 
filho d'aquelle rei D. João, que veio á bata- 
lha de Aíjubarrota, ficaram d'elle dois filhos, 
a saber, um filho que chamavam D. João como seu 
avô, e uma filha que houve nome D. Catliarina, como 
sua madre, e porquanto aquelle filho d'cl-rei D. Hen- 
rique que lhe succcdeu no reino era de muito pequena 
edade, quando primeiramente começou de reinar, 
ficaram por seus tutores a rainha D. Catharina sua 
madre, que era irmã da rainha I). Filippa, e o infante 
I). Fernando seu tio, que depois foi rei de Aragão, c 
logo a cabo de tempo el-rei enviou seus embaixadores 




Ckronica d'El-Eei D. Joào I 31 



áquelles tutores d'el-rei, com suas cartas de crença 
pêra acertarem com elles as pazes entre ambos os 
reinos, assim e por aquella guiza em que fosse achado 
por direito que se devia de fazer, os quaes embaixa- 
dores eram João Gomes da Silva, alferes d'el-rei e rico 
homem e de seu conselho, e Martim Docem, gover- 
nador da casa do infante D. Duarte, seu filho herdei- 
ro, e o doutor Beliago, Adayão da Sé de Coimbra, 
todos três em seus estaos eram notáveis pessoas e de 
grande auctoridade, e tanto que chegaram á corte 
d'el-rei, lhe deram suas cartas de crença e começaram 
de acertar seus feitos com aquclles tutores d'el-rei, 
os quaes mostraram logo pelo presente que eram bem 
contentes que a paz se fizesse, comtanto que fosse 
buscado caminho, como se bem e direitamente podesse 
fazer, deveis de saber que as boas vontades d'aques- 
tes, eram movidas por esta guisa. 

Primeiramente a da rainha precedia por causa do 
divido que havia tamanho com a rainha D. Filippa, 
cujos filhos eram primos com irmãos dos seus, e por 
ello desejava que se fizessem entre elles taes amiza- 
des, por que ao deante não houvesse nenhuma con- 
tenda entre si e o infante D. Fernando, trazia seus trau- 
tos no reino de Aragão pêra haver de ser rei, como 
ao deante foi, e esto era porque por morte de el-rei 
D. Martinho não ficou nenhum filho nem neto que her- 
dasse o reino, e porém eram em contenda sobre a he- 
rança d'aquelle reino, el-rei Reynel, que era rei de 
Nápoles, o infante D. Fernando e o conde de L'rgel, 
padre que foi da mulher do infante D. Pedfo, e o du- 
que de Ciandia, empero este não pode muito seguir 
sua demanda por azo do padre que lhe falleceu pêra 
ello, os outros três ficaram em contenda, e por quanto 
o conde de Urgel era natural ilo reino e se criara em 



32 Biblioikeca de Clássicos Portuguezes 



elle, sentia o infante D. Fernando que com qualquer 
parte do direito que tivesse, seria mais favorecido no 
reino que elle que era estrangeiro, pela qual razão ti- 
nha vontade de proceder poderosamente no regimento 
d'aquellc feito, e porque elle cada dia estava em espe- 
rança de se ir ao reino de Aragão, com poderio de 
gentes pêra tomar posse do senhorio, sentindo que se 
a guerra de entre Portugal e Castella ficasse em 
aberto, que não poderia tão bem acabar seus feitos, 
porque era necessário que elle fosse o principal go- 
vernador d'ella, e que sendo occupado em similhante 
trabalho perderia de todo o reino de Aragão, que lhe 
era tamanha honra e acrescentamento, e porém não 
somente lhe aprouve de se a paz requerer em tal 
tempo, mas ainda teve que lhe fazia Deus mercê por 
lhe trazer tamanha segurança pêra seus feitos, empero 
ao tempo que os embaixadores acerca d'ello faltaram 
apartadamente, elle não mostrou outra necessidade, 
porque o fizesse somente por lhe parecer razão e di- 
reito de se fazer, e assim pela boa vontade que mostra- 
va a el-rei D. João, de maneira que toda a duvida e 
tardança d'aquelle feito ficou nas cgualanças que se ha- 
viam de fazer por causa dos damnificamentos que fo- 
ram feitos entre um reino e o outro no tempo das 
guerras passadas, sobre as quacs foram tiradas suas 
inquirições por todos os logarcs do estremo, assim 
d'um reino como do outro, c por todas outras partes, 
onde quer que os ditos damnos foram feitos, des-ahi* 
fizeram seus descontos e finalmente firmaram as pa- 
zes entre ambos os reinos com todo bom amor e con- 
córdia pêra todo sempre, das quaes foram feitos cer- 
tos capítulos firmados por aquelles tutores d'cl-rei c 
por todos os outros principacs do reino, ficando res-, 
guardado de ser depois requerido a cl-rei D. João de 



Chronica d'El-Rei D. João I 33 



Castella, como fosse de edade que firmasse e jurasse 
os ditos capítulos, porque d'alli adeante não os po- 
desse contradizer nem revogar, e des-ahi os embaixa- 
dores d'el-rei de Portugal, por poder de suas procu- 
rações que pêra ello tinham mui sufficientes, juraram 
e firmaram as pazes até que os embaixadores de Cas- 
tella viessem a este reino e as firmassem de todo, as- 
sim el-rei e seus filhos, como todas as outras pessoas 
grandes do reino, e esto todo acabado, foram dados 
pregões por todo aquelle logar, onde a corte era, com 
toda a solemnidade que a tal feito cumpria, e assim 
feitas cartas pêra todas as cidades, villas e logares 
d'aquelles reinos, pêra que as fizessem apregoar por 
todas as suas praças e ruas principaes, a firmeza com 
que as ditas pazes eram feitas, mandando-lhe que 
d'alli em deante tratassem com os d'este reino com 
todo bom amor e concórdia. 



CAPITULO V 



Co7no os embaixadores tornaram de Castella e como 
as pazes foram divulgadas por todas as partes do 
reino. 

COMO as novas chegaram a Lisboa onde el-rei 
estava, da vinda dos embaixadores, mandou 
logo que lhe tivessem prestes suas pousadas e 
os fez nobremente agazalhar, assim pelo merecimento 
de suas pessoas, como por razão da embaixada que 
traziam, e des-ahi teve seu conselho, no qual os di- 
tos embaixadores foram ouvidos, da resposta que tra- 

VOL. I 3 



34 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



ziam, contando a el-rei toda a maneira que se com 
elles tivera n'àquelle reino de Castella, dando- lhe en- 
commendas da rainha c do infante D. Fernando, as- 
sim a elle como a seus filhos e a todas as outras 
grandes pessoas do reino, e des-ahi entregaram a Gon- 
çalo Lourenço todas as escripturas que traziam das 
firmezas das pazes, as quaes logo alli foram lidas e 
publicadas em presença d'el-rei e de todos os outros 
senhores que alli eram; el-rei agradeceu muito aos 
embaixadores o que assim trataram e encaminharam 
por seu serviço, porque fora todo muito bem trata- 
do e encaminhado. 

Depois que esto todo foi acabado, mandou que se 
apregoassem logo aquellas pazes em aquella cidade,' 
com aquella festa c solemnidade que tamanho auto 
requeria, e mandou isso mesmo que fossem feitas! 
cartas pêra todas as cidades e villas do reino e pêra 
alguns nobres homens que alli não eram de presentes, 
por as quaes lhe fazia saber como por graça de Deus 
entre os seus reinos e os de Castella eram firmadas 
pazes c amigáveis lianças para todo sempre, e porém 
lhes encommendava que dessem por ello muitas graças 
a Deus e que fizessem apregoar as ditas pazes, cada 
um em seus logares. As quaes cartas assim feitas e 
enviadas, foi feito por todo o reino o que lhe el-rei i 
assim mandara. 

Mas pêra fallarmos direitamente, é bem que diga- 
mos a diversidade das opiniões que havia nas gentea 
do reino, cada uns em sua parte; primeiramente todoa 
os velhos e aquellcs que haviam direito juizo, erar 
muito alegres, ouvindo a certidão d'aqueste feito, 
convidavam seus amigos pêra suas casas e logares, 
fazendo mui grandes convites, nos quaes faziam muU 
grandes despczas, somente por se alegrarem de tama* 






Chronica d' El- Rei D. João I 35 



nho bem, e não podiam em alto fallar, emquanto assim 
estavam em seus ajuntamentos, senão nas grandes 
virtudes d'el-rei D. João.» 

«Agora, diziam elles, é Portugal o maior e mais bem 
aventurado reino que ha no mundo, ca nós temos 
entre nós todas as boas cousas que um reino abastado 
deve ter, nós temos grande abundância de pão, por 
tal guiza que nunca a destemperança dos tempos pode 
ser tamanha que sempre em algumas de nossas comar- 
cas não haja pão com que se as outras possam re- 
pairar, e ainda quando os annos forem eguaes, de 
nossa abundância poderemos aproveitar a muitos de 
nossos amigos. 

Temos muitos vinhos de desvairadas nações, de 
que não somente a nossa terra é abastada, mas ainda 
se carregam muitas naus e navios pêra soccorrimento 
das terras estranhas. 

Pescados do mar e do rio são tantos e taes que em 
outras nenhumas partes do mundo são achados, e em 
maior abundância, ca dos nossos portos se mantém 
mui grande parte da Hespanha. 

Azeites e melles são entre tantos e tão bons, que 
os nossos visinhos hão mister de nós e não nós d'el- 
les. 

Carnes de todas as maneiras proveitosas e de grande 
sabor, que nas nossas terras e campos se criam por 
todos os tempos do anno, quacs e quejandas as natu- 
rezas dos homens sãos c doentes hão mister. 

Fructas e legumes com todas as outras cousas nas- 
cem em nossas terras sem grão trabalho dos homens. 
E assim havemos estas cousas em tamanha abastança 
que a multidão d'cllas nos faz desprezar sua valia. 

Os nossos portos c ancoraçõcs são tão seguras de 
todos os tempos contrários, que tarde ou por grande 



36 



Bihliotheca de Clássicos Portugiiezes 



ventura rcccb(yn os navios nenhuns damnos em elles, 
porque hajam razão de se perder. 

Ora pois, que assim é que nós temos tanta abun- 
dância entre nós, qual cousa poderemos mais rasoa-' 
velmcnte desejar que a paz, que sem cila por grande) 
e boa que seja a cousa, não se pode em seu perfeito' 
estado conservar, e os damnos que da guerra se 
seguem assaz são muitos e grandes, porém pois que 
a Deus aprouve de dar tanta victoria e tanto bem ao 
nosso bom rei, que nos procurasse a paz com o reino 
de Castella, temos grande rasão de nos alegrar e ro- 
garmos a Deus pela saúde e estado d'el-rei nosso se- 
nhor, que pois nós temos com Castella paz todo o 
outro poder do mundo não no havemos que temer, 
cá nós de uma parte nos cerca o mar, e da outra te- 
mos muro no reino de Castella. 

Ora d'aqui avante poderemos aproveitar nossos 
bens e vender nossos fructos sem alguma torva nem 
empacho, e já agora os nossos mercadores poderão ir 
seguramente por toda a Hespanha a vender suas 
mercadorias, de que nos poderão trazer muitas nobres 
cousas, para guarnição de nossas casas, e os nossos la- 
vradores que moravam n'aquelle extremo tornarão a 
povoar os casaes e herdades que desampararam com 
temor dos inimigos, e nós outros jazeremos nas camas 
repousando sem esperança dos trabalhos da guerra 
para que hajamos de ser chamados, nem ouviremos os 
gemidos das mulheres a que chegarem as novas das 
mortes de seus maridos, e quando andarmos pelas 
nossas praças, não teremos nenhum temor de nos 
chegarmos ao ajuntamento de nossos amigos, por re- 
cearmos de ouvir as desaventuras de nossa terra, 
porque quando se as cousas revolvem por similhante 
maneira, ameude correm as novas pelas cidades c\ 



Chronica d'El-Rei D. João I 37 



villas, as quaes continuadamente não podem ser ale- 
gres. 

Nós andaremos por nossas romarias, visitando as 
reliquias dos santos, pêra que possamos cobrar sal- 
vação pêra nossas almas, e quando jouvermos em 
nossas camas, chegados a morte, teremos vagar pêra 
fazer nossas mandas e testamentos, com grande segu- 
rança que se nos hajam de cumprir nossas postrimei- 
ras vontades, depois do acabamento de nossas vidas, 
e alegres nos partiremos d'este mundo, quando cer- 
tamente soubermos que as nossas carnes se hão-de 
gastar nos cemitérios d'aquellas egrejas, onde os dizi- 
mos dos nossos fructos e as primícias dos nossos ga- 
dos dêmos aos reitores, padres de nossas almas, e que 
será outra cousa a terra que nos gastar, senão carne 
de nossos padres e avós, filhos e parentes ? Em cuja 
companhia nos alevantaremos quando derradeiramen- 
te formos chamados para irmos juntamente áquelle 
juizo no qual o Filho da Virgem determinará nossas 
maldades, como por sua mercê, os quaes proveitos 
todos nos trouxe a bem aventurança da paz. 

Outras departições mui contrarias d'aquestas eram 
entre os fidalgos mancebos, com todos os outros de 
sua edade, e assim alguns homens que não tinham 
outro bem senão esperança do ganho que lhe havia 
de ser dado pela avantage que fizessem no feito das 
armas. 

Certamente, diziam elles, não tinha cl-rei menos cui- 
dado de tratar pazes com Castella, que se na guerra 
tivera perdido os melhores castellos do de seu reino. 

(Jue queria elle mais senão que os castcllãos vies- 
sem requerer pelos dam nos cjue lhe cada dia oram fei- 
tos, nós tínhamos agora tempo de cobrarmos de Cas- 
tella quamanlia parle quizeramos, cá cl- rei c tm mui 



38 Bibliotheca de Clássicos Portugiiezes 



pequena cdade, por cuja rascão todo seu reino se rege 
por tutores, os quaes continuamente não podem serem 
em um accordo, e com qualquer pequena desavença que 
entre elles houvera, logo fora necessário que todo o 
reino fora devizo, que fora grande azo para nós fa- 
zermos nossas entradas por aquelle reino, de cu]' s 
roubos cnriqueceriamos toda nossa terra, e os nobres 
homens tiveram tempo e azo de exercitar suas forcas 
e valentias, segundo pertence a ardideza de sua edatl 
quanto o trabalho fora maior e a guerra mais conti- 
nuada, tanto elles tiveram mais uzado o officio das 
armas e mais cousas c melhores experimentadas com 
que poderam fazer grande empecimento a seus inimigos, 
o que agora será pelo contrario, cá os mancebos per- 
deram a melhor parte da sua edade, ou se irão fora 
do reino, onde os galardões de seus trabalhos serão 
atribuidos aos estranhos, empero esta culpa não é 
senão da velhice, ca el-rei e todos aquelles que algo 
seguiram nas guerras primeiras, são já cansados e 
enfadados pela grande soffrença dos trabalhos que 
houveram, e porém desejam repouso, pelo qual tra- 
balharam de trazerem todos os feitos a este fim, cá 
se elles foram dos nossos dias, não se trigaram tão 
azinha de buscar assocego pêra si nem pêra o reino, 
salvo se fora com outra muito maior avantagem. 

Quem será aquelle que possa em este mundo fazer 
cousa por santa e boa que seja, que haja de aprazer 
a todos, quando aquelle que fez todas as cousas, 
obrando tão justamente, não pôde fazer cousa com 
que approuvesse a todos, ca se fòr obra de sizo, é 
necessário que aborreça ao sandeu, e se fôr feito de 
fortaleza enteja ao fraco, e assim que cada uma cousa 
aborrece seu contrario. 

Outras departições houve em aquelle feito comoge- 



Chronica cVEl-Eei D, João I 39 



ralmente se faz em todas as obras dos homens, das 
quaes não curamos, porque não é bem que vamos pelo 
rasto de todas as cousas. 



CAPITULO VI 

Como el-rei D. João enviou requerer ao infante D. 
Fernando a conquista de Grada. 

JCl ssiM trazia o mui nobre rei D. João prantado 
T o amor da santa fé nas entranhas de seu cora- 
ção, que tanto que aquella paz teve cobrada, 
logo se trabalhou de imaginar logar e maneira como 
podcsse fazer serviço a Deus, segundo tinha desejo, e 
porquanto o reino de Grada lhe pareceu mais azado 
pêra guerra que outro algum, fez saber sua tenção ao 
infante D. Fernando, porquanto os reis de Castella 
tem assim aquelle reino quasi em sujeição, dizendo 
que é de sua conquista, que por tanto não o deve 
guerrear nenhuma pessoa, sem sua auctoridade e 
mando, e isto ficou assim assentado em uzo des o 
tempo que os reis de Ilespanha tinham os mouros 
entre si, que \(\. agora convinhavelmentc o hão por 
direito, e tanto que aquelle recado foi ao infante D. 
Fernando, deu em resposta que os feitos de Castella 
estavam assim empachados, que elle por entonce não 
podia determinar direitamente a resposta que n'aquelle 
feito houvesse de dar, e também tinha sua demanda 
começada por parte do reino de Aragão, a i|ual en- 
tendia proseguir até haver cumprimento de seu direito, 



40 Bibliuthvcu de tlustiicu.s I'urtu(jtU'~i's 



e que por ello tinha feito tréguas com o reino de 
Grada por certo tempo, e que elle repouzasse assim 
até as ditas cousas serem findas, e que se a guerra 
com aquelle reino começasse, que elle lh'o faria saber, 
e que entonce poderia enviar seu recado por declara- 
ção de sua vontade, sobre a qual se teria conselho e 
lhe seria dado determinadamente resposta. 



CAPITULO VII 

Como el-rei tinha vontade de fazer grandes festas em 
Lisboa pêra Jazer seus fillios cavalleiros^ e como os 
infantes f aliaram acerca d ello entre si, gue simi- 
lliante maneira de cavallaria não era honrosa pêra 
elles. 

EM este capitulo nos é necessário que tornemos 
alraz por trazermos nosso processo cm sua di- 
reita ordenança, cá muitas vezes se acerta que 
jazem as primeiras pedras ao pé da obra, esperando 
por seu próprio logar, e as derradeiras são postas no 
fundamento do alicerce, quando o mestre da geo- 
metria lavra em seus officios. 

Onde assim é verdade que antes muitos dias do 
presente negocio, o mui nobre rei D. João dissera 
como tinha grande vontade de fazer seus filhos ca- 
valleiros, o mais honradamente que se bem podesse 
fazer. 

Esto fallara elle já por vezes antes d'aquclle tempo, 
e não é duvida ser esto a principal cousa cm que seu 
coração por entonce fosse mais occupado, cá via ante 



Chronica d'El-Rei D. João I 41 



seus olhos taes três filhos barões fortes e mancebos, 
como de uma edade, que pouco levava mais um ao 
outro que um anno, os quaes cada vez que pareciam 
diante seu padre, lhe acrescentavam o desejo sobre o 
primeiro pensamento, como e porque maneira pode- 
ria_ mais honradamente dar estado cavalleiroso áquel- 
les filhos que lhe Deus por sua mercê quizera dar, 
com tanta apostura de todas as cousas que a nobres 
príncipes convinha. E fallando sobre ello uma vez 
disse assim: 

«Se me Deus por sua mercê traz assocego a este 
reino por firmeza de pazes com Castella, eu queria 
ordenar umas festas reaes, que durem todo um anno, 
pêra as quaes mandarei convidar todos os fidalgos e 
os gentis homens que tiverem edade e disposição 
pêra tal feito, que houverem em todos os reinos da 
christandade, e ordenarei que nas ditas festas haja no- 
táveis justas e grandes torneios, e mui abastosos con- 
vites, servidos de todas as viandas que por todo o 
reino e fora d'elle se possam haver, e assim danças e 
outros jogos, e serão tantos e taes que assim d'clles 
como de todas as outras cousas as gentes que o vi- 
rem tenham que sobre a grandeza d'ello não se pos- 
sam fazer outras maiores, e com esta darei tantas e 
tão grandes dadivas, principalmente áquelles estran- 
geiros que a grandeza c doçura dos benefícios que 
lhe eu assim fizer lhes ponha necessidade de os apre- 
goarem grandemente ante todos seus amigos. \í em 
fim d'estas cousas farei meus filhos cavallciros.» 

\\ isto foi assim dito por el-rei, a qual cousa bem 
(jucriam todos cjue se pozesse em oljra, tanto que 
cl-rei houvesse logor pêra ello, empero os infantes 
lembrados de quem eram, e a alteza do sangue que 
tinham, posto (|ue este feito a outros alguns parecesse 



42 



Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



grande, a elles pareceu mui pequeno, empero sup- 
portaram-no assim emquanto o feito das pazes era em 
duvida, considerando que se as pazes não firmassem 
e a guerra ficasse aberta, que taes cousas lhe viriam 
ás mãos em que honrosamente podessem receber sua 
cavallaria, mas depois que as pazes foram firmadas, 
entenderam cllcs que não ficava ahi cousa certa em 
que elles podessem ser cavalleiros pela guisa que elles 
deseja\'am. 

E sendo um dia todos três juntos e ainda o conde 
de Barcellos com elles, trataram em aquclla razão, 
como cousa que não andava muito longe de suas 
lembranças, e isto era na camará de seu padre, sendo 
elles apartados de sua presença, dando-lhe logar al- 
guns feitos em que por entonce estava occupado, e tanto 
fallaram n'aquclle feito de sua cavallaria, movendo-se 
entre elles muitas razões, que ordenaram de fallar a 
el-rei. 

— Vamos, disseram elles, fallar a el-rei nosso senhor 
e padre, e digamos-lhe que ordene alguma cousa em 
que possamos fazer de nossas honras, onde nos elle 
possa fazer cavalleiros, como pertence á grandeza de 
seu estado e á excellencia de nosso sangue, ca pois as 
pazes de Castella são firmadas e da parte de Grada 
não temos esperança certa, não ha ahi, pelo presente, 
cousa nenhuma azada em que possamos receber es- 
tado de cavallaria, se novamente não fòr buscado. 

Pela maneira que sua senhoria tem vontade de o 
fazer todo, é cousa de pequeno valor pêra a grandeza 
de tamanho feito, que, por grandes que as festas se- 
jam, nunca seu nome é de grande valia pêra similhante 
caso, porque simiihantes pessoas, nos grandes feitos de 
fortaleza, com ^^randcs trabalhos e perigos, vendo o 
sangue de seus inimigos espargido ante seus pés, só é 



Chronica d'El-Rei D. Joào I 43 



de receber agrado de sua cavallaria, e os filhos dos 
cidadãos e dos mercadores, cuja honra se não pôde 
mais estender, que a similhante estado, o de serem 
cavalleiros, a estes é cousa convinhavel de serem fes- 
tas feitas e jogos, porque toda a força de sua honra, 
está na fama de sua despeza. 

O conde de Barcellos era mais velho que nenhum 
d'elles, o qual, posto que fallecesse na nobreza de ge- 
ração, quanto a parte da madre, fizera-o Deus tão vir- 
tuoso e de tamanha grandeza de coração, que em to- 
das as cousas de honra, escondia a baixeza do sangue 
da madre, e, com isto, havia elle mui grande sizo pelo 
qual havia no reino grande logar pêra conselho, quan- 
to mais que elle fora já fora d'estes reinos, por es- 
paço de grande tempo, e fora por casas de grandes 
príncipes e senhores, onde lhe fora dada grande au- 
ctoridade, assim por ser filho de quem era, como pela 
grandeza de seu corrcgimento, porque além dos seus 
corregimentos serem grandes e bons, levava comsigo 
muitos senhores e grandes homens, com outros mui- 
tos fidalgos d'este reino de que sempre foi muito bem 
ocompanhado, e foi tão longe a sua ida, que chegou 
á casa santa de Jerusalém, e cm esta \'iagcm, que elle 
assim fez, aprendeu e soube muitas cousas que viu 
n'aquellas partes estranhas, as quaes acrescentavam 
muito em seu bom conselho, assim que, por todas es- 
tas cousas, posto que os infantes fossem tão prudentes 
e discretos, tomaram porém grande ouzio pêra faíla- 
rem a seu padre cjuando viram que o conde lhes lou- 
vou tão grandemente seu propósito. 




44 Bibliotheca de Clássicos Portugwezes 



CAPITULO VIII 

Como João A ff ouso. vedor da fazenda, f aliou aos in- 
fantes na cidade de Ceuta., e como os infantes falta- 
ram a el-rci seu padre. 



Ã'i eram ainda estas razões de todo postas em íim, 
quando logo ahi chegou João Aflbnso, vedor 
da fazenda d'el-rei, o qual posto que determi- 
nadamente não ouvisse a certidão do propósito, pelas 
conjecturas que viu, entendeu que o feito em que 
aquelles senhores fallavam era de grande pezo, ca em 
similhantes cousas são apartados os homens avisados 
dos outros de grosso engenho, os quaes por pequeno 
movimento que aconteça e se faça, interpretam grande 
parte do que o homem tem na vontade. P2, porém, 
João Affonso, cuja clareza de entender fora a princi- 
cipal causa de seu acrescentamento, quando assim 
achou os infantes, desejou de saber o fim de seu pro- 
pósito, por lhe parecer a qualidade da sustancia de 
tamanha força de que não podia nascer senão um feito 
grande e pezado, e pediu-!hes de mercê que lhe qui- 
zessem dizer o fundamento de sua tenção, e como 
quer que os infantes quizessem dissimular o próprio 
motivo de s^u razoado conhecimento, como elle era 
homem seguro e bom e que tinha grande auctoridade 
no reino pela grande fiança que el-rei seu padre em 
elle havia, vieram-lhe a contar declaradamente sua 
tenção. 

— Vossos pensamentos, disse elle, sãoassíís de gran- 
des e bons, e pois que vós tal vontade tendes, cu vos 



Chronica d'El-Rei D. João I 45 



posso ensinar uma cousa em que o podeis bem e hon- 
radamente executar, e esto é a cidade de Ceuta, que 
é em terra d'Africa, que é uma mui notável cidade e 
mui azada pêra se tomar, e esto sei eu principalmente 
por um meu criado que lá mandei tirar alguns capti- 
vos de que tinha encarrego, e elle me contou como 
é uma grande cidade, rica e mui formosa, e como de 
todas as partes a cerca o mar, afora uma bem pe- 
quena parte porque hão sahida pêra terra, e segundo 
o grão desejo de vosso padre e o vosso, não sinto 
pela presente cousa em que mais honrosamente po- 
desseis fazer de vossas honras, como no íilhamento 
d'aquella cidade, porém me parece que havereis bom 
conselho fallardes em ello a el-rei e pedir-lhe que 
encaminhe como se faça, ca esto é cousa pêra ter em 
conta, ca não festes de convite de comer e beber, em 
que não ha senão despeza de vianda e occupação de 
tempo, cuja memoria prescreve com pequeno lou- 
vor. 

— Pois, disseram elles, porque não fallaveis isto a el- 
rei primeiro, contando-lhe todas estas cousas por 
meudo, pêra verdes o que respondia acerca d'ello? 

— Si, lhe fallei, disse João AfTonso, e não me parece 
que me respondeu como eu quizera, antes passou o 
feito como quem o tinha em jogo, mas pêra isto me- 
lhor ser, chegac-vos a elle assim como estaes todos 
quatro, e faliac-lhe no feito, dizendo-lhe todo o que 
sobre ello vos parecer, e pôde ser que vos entendera 
melhor do que entendeu a mim. 

Os infantes disseram que era mui bem. 

Des-ahi foram-se todos quatro juntamente pêra 
onde estava seu padre, e comcçaram-lhc a fallar era 
todo o cjue passaram n'aquclla camará, dizcndo-lhe 
que posto que elle tivesse vontade de fazer assim 



46 Bihliotheca de Clássicos Portugueses 



aquellas festas com grandes despezas, que a honra 
que se d'cllas seguia, sempre foi pequena a respeito ; 
da obra que elle cm ellas queria fazer, a qual cousa 
seria boa pêra outro algum principe cujo nome e 
fama fosse de mais pequeno valor, mas pêra elle que 
tantas e tão grandes cousas tinha acabadas, não era 
similhante cousa pêra ter em grande extremo, ra- 
zoando acerca d'esto estas e outras muitas rasòes, 
cada uma segundo as melhores podia entender. 

Mas el-rei, cujo coração não se movia assim ligei- 
ramente, começou de se rir contra elles, mostrando 
que tinha em jogo suas palavras, como ante fizera a 
João Affonso, e este é o verdadeiro coração do ma- 
gnânimo, o qual logo no primeiro movimento, por 
grande que seja a cousa, não se derriba consentir em 
nenhum proveito nem perda que acerca d'ello se 
lhe possa mostrar, mas esta posto em uma firmeza 
pela qual livremente consira quaesquer azos ou estor- 
vos que se lhe de aquelle feito possam seguir, e assim 
respondeu passamente, como quem não tem a grande?. i 
do feito em tal estima, que lhe faça espanto. 

Os infantes assim como homens desejosos de simi- 
Ihantes novidades, como quer que lhe seu padre 
aquella resposta desse, não se poderam partir assim 
ligeiramente de seu propósito, antes consiraram em 
cllo por alguns dias, e quanto mais em ello consira- 
vam tanto a cousa lhe parecia melhor e mais honrosa, 
e porém juntaram-se outra vez c fallaram ante si o 
que antes consirara cada um em sua parte, sobre 
todo houveram seu conselho e se tornaram outra 
vez a el-rei, mostrando-lhc todo o que ha\iam consi- 
rado, porque quanto era o que a elles pertencia, a 
cousa era tão boa que não tinham senão que lh'a 
trouxera Deus á- memoria por grande milagre, c assim 



Chronica d'El-Rei D. João I 47 



foram a el-rei, havendo por boa determinação de lhe 
f?Ilarem todavia, não somente aquella vez, senão 
o itras muitas até que lhe fosse outhorgada, e já esta 
d.^rradeira vez fallaram a seu padre com muito maior 
p?zo, como aquelles que tiveram maior espaço pêra 
ci.-darem no feito, e pêra isso traziam muitas sufficien- 

s razões e induzidoras a seu propósito, entre as 
^ ;aes disseram que lhe pediam por mercê que es- 
guardasse bem n'aquelle feito, porque sendo bera 
consiradas todas as partes do seu movimento, o acha- 
ria que dando-lhe Deus victoria, que acabaria três 
cousas mui boas, as quaes nenhum grande principe 
devia engeitar quando se lhe assim offerecessem, como 
se a elle em tal caso offereciam, s. 

A primeira grande serviço de Deus, que se elle no 
similhante caso engeitasse, tarde ou por grande ven- 
tura lhe sobreveria, outro similhante; e se vós, senhor, 
disseram ellcs, todo este tempo trabalhastes por paz, 
assim de fazerdes serviço a Deus, muito mais é razão 
que o sirvaes agora em este caso, pelo qual seguireis 
a boa intenção dos bemaventurados reis de Hespanha, 
de cuja linhagem descendeis por real geração. 

A segunda cousa é honra que se vos d'ello segue, 
cá posto que vos Deus desse muitas e grandes victo- 
rias contra vossos inimigos, esto foi em defensão do 
vosso reino, a qual cousa em muitos logares vos apre- 
sentava a necessidade, porque vergonhosa cousa seria, 
nenhum grande principe que possue nome real, leixar 
guerrear seus reinos, que antes não offerecesse a si e 
a seu corpo por defensão d'clles, e esto é pelo con- 
trario, porquanto vós por vossa eleição própria, sem 
constrangimento de nenhuma pessoa vos oííercceis a 
este perigo e trabalho, não por outra necessidade, 
senão por scr\-iço de Deus e por accrcscentamento 



48 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



de vossa honra, e esto assim como um scUo firme, 
que poerá grande firmeza em vossas victorias. 

A terceira cousa é a grande e boa vontade t|uo 
tendes de nos fazeres bem e honradamente cavalleiros, 
o que por outra guisa não podereis fazer de que se 
a vós siga maior honra, pois que outra nenhuma con- 
quista tendes em que o possaes fazer. 

Porém vos pedimos por mercê que queiraes sobre 
todo consirar, provendo sobre nossas razões com 
outras muitas que o vosso nobre e grande entendi- 
mento concebera, e nos respondaes com eíTeito a nossa 
petição, a qual quanto a nosso juizo, não pode ser 
melhor nem mais direita, segundo as muitas razões 
que vos acerca d'ello temos dito, e outras muitas que 
leixamos perder. 



CAPITULO IX 

Como el-rei disse que íiâo queria determinar alguma 
cousa daquelle Jeito até que soubesse se era serviço 
de Deusfazer-se, e como ?>iaudou cJiamar os letrados 
pêra o saber. 




i;m na verdade, posto que cl-rci fizesse aquellas 
demonstrações em não querer consentir no 
requerimento de seus filhos, sua vontade po- 
rém não era menos que a de cada um d'elles, mas 
quanto elle mais retardava o feito, tanto fazia maior 
desejo aos infantes, e ainda provava seus entendimen- 
tos e engenhos, ncgando-lhe o que clles tanto deseja- 
vam, porque as) du\idas trazem muitas vezes azo pcra 



Chronica d'El-Rei D. João I 49 



que a cousa seja melhor entendida, e por ello tem os 
velhos mestres em costume demoverem grandes e 
muitas questões aos seus discipulos, porque o trabalho- 
!|ue elles tomam em buscar as provações, traz grande 
acrescentamento a sua sabedoria, porque a maior 
parte da sua lógica é fundada em argumentos grandes 
e duvidosos, em que os escolares apuram todas as 
partes das outras sciencias. 

Pratica que fez el-rei 

«Bem ouvi, respondeu el-rei, o que até agora me 
dissestes, e posto que vossas razões sejam justas e 
razoadas, eu tenho ainda outras contrarias que vos 
responder, quando quer que sobre ello fallarmos acerca 
da determinação, empero ante que eu nenhuma cousa 
responda, quero primeiramente saber se esto é serviço 
de Deus de se fazer, cá por mui grande honra nem 
proveito que se me d'ello possa seguir, senão achar 
que é serviço de Deus, não entendo de o fazer, porque 
somente aquella cousa é boa e honesta na qual Deus 
inteiramente é servido, porém vos ide pêra vossas 
casas e cada um em sua parte consire qtiaesquer du- 
vidas que se possam seguir acerca do serviço de Nosso 
Senhor Deus, e entretanto mandarei chamar meu con- 
fessor e assim outros alguns letrados, e fallarei com 
elles toda a ordenança d'este feito, eencomendar-lhes- 
hei que provejam em seus livros e consciências se 
por ventura terei algumas duvidas em contra do que 
eu devo fazer, segundo fiel e catholico christão, c eu 
de minha parte consirarei em ello, e emfim de todo, 
ao tempo que houver sua resposta, nos juntaremos 
todos e teremos nossa falia, onde se tratará de toda 
a sustancia d'este feito, sobre o qual determinaremos 
se é bem de se fazer ou não. 



50 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



Assim ficou el-rei com aquclle encarrego, e os ia- 
fantes e conde de Rarcellos foram pêra suas casas, 
onde cada um tomou seu apartamento pêra cuidar 
com muito mais diligencia as circumstancias e casos 
duvidosos, que o proseguimento d'aquelle feito po- 
dia trazer, quanto a fé e serviço de Nosso Senhor. 

El-rei mandon logo chamar o mestre Frei João 
Xira e o douctor Frei \^asco Pereira, que eram os 
seus confessores, c o infante D. Duarte, e assim outros 
alguns principaes letrados que se n'aquella cidade 
poderam achar, e também fez chamar alguns prin- 
cipaes do conselho, ainda que poucos fossem, e sobre 
grande segredo lhe disse por esta guiza: 

«Amigos fiz-vOs aqui ajuntar conhecendo de vós, 
que assim por natural entender, como por abundân- 
cia de sciencia de que vos Deus guarneceu entre 
todos os outros do meu reino, me podereis sã e pro- 
veitosamente aconselhar em todo aquello em que mi- 
nha alma possa ser em alguma duvida, e pêra esto sei 
certo que vos não fallccerão três cousas principaes, que 
se requerem pêra os conselheiros dos grandes senho- 
res, entre outras muitas que bem sabeis que são de- 
terminadas em todos os livros, que os antigos escre- 
veram pcra ensinança dos príncipes. 

A primeira que hajam amor áquoUe principe ou se- 
nhor que hão de aconselhar, porque o amor traz 
uma necessidade pela qual move o coração de seu 
possuidor a enquercr e buscar todas as cousas pro- 
veitosas e honrosas pêra aquella cousa que ama, e 
porque as cousas que desejamos ter a nossos amigos 
hão nascimento cl'aquellas que pcra nós qucriamos, ca 
cada um naturalmente deseja ao seu amigo o que 
pêra si mesmo queria, e se os conselheiros dos reis 
fallecessem d'csta paixão, muitas vezos aproveitariam 



Chronica (VEl-Rei D. Jaão I 



cjm maior força seus conselhos, e porém disse Xosso 
i Senhor Jesus Christo aos seus apóstolos, depois que 
lhe revelou seus segredos, que lhe não chamaria mais 
seus servos, porque os servos não sabem a vontade 
de seu senhor, mas que lhe chamaria amigos, por- 
quanto lhe tinha já ensinado a \ontade de seu Padre. 

A segunda cousa que se requer ao conselheiro, é 
que haja sabedoria, porque sem ella não se poderá 
direitamente aconselhar, ca posto que tivesse boa 
vontade, se lhe faltasse saber, não poderia muito 
aproveitar a aquelle que seu conselho houvesse mis- 
ter, porque a boa vontade sem a obra não é cousa 
perfeita, e porém diz Salomão que dos conselheiros 
um se havia de escolher entre mil, o que se entende 
principalmente por rasão de ser sabedor, e porque 
guiza e em que cousas esta sabedoria se deva enten- 
der, seria sobejo de vos ser por mim relatado por 
extenso, porque sou bem certo que vos não fallece 
por entender em este caso o que vos eu leixo por 
declarar. 

A terceira cousa que no conselheiro se requer, é 
grande segredo, por quanto o rompimento do conse- 
lho traz desfazimento da obra, e sabeis como no tem- 
po dos romanos, que bem e pro\'eitosamcnte regiam 
a grandeza d'aquelle império, uma das cousas porque 
seus feitos são tanto louvados por seus auctores, 
assim é por guardarem com grande diligencia a pu- 
ridade de seus conselhos, e de eu ser bem certo que 
em vós ha cumprimento d'estas cousas, e que a mim 
pertence vossa naturííza e auctoridade, e ainda a mi- 
nha boa vontade me faz crer, e affirmar, e portjue 
communalmente em vós outros, que aqui sois presen- 
tes, está toda a força do conselho que pertence a 
saúde de minha alma, e alguma parte da que perten- 



52 Biblioiheca de Clássicos Portuguezes í 

ce ao corpo, vos rogo e encommendo, que com toda U 
vossa diligencia, queiraes esguardar e consirar sobn- 
todo o que agora entendo de propor. 

Ora é assim, que posto que eu trabalhasse por 
firmar as pazes em o reino de Castella, como \-6s 
outros todos sabeis, este Deus sabe que principalmen- 
te era por serviço seu, e por mim grande victoria, 
que cu contra elles houvesse, nunca em minha von- 
tade poude receber alguma intrinseca alegria, sómcr 
te quanto era que pois elles queriam contra direita 
è razão, aprumar as cousas de meus naturaes, e por- 
que meu senhorio não devia sugeição, somente ni' 
prazia, porque Deus por sua grande mercê me que 
ria dar esforço c ajuda, como os podesse contrariar 
seu mau propósito, que contra mim c contra meus 
reinos haviam. 

Em pêro Deus é verdadeiramente sabedor, e mi- 
nha Senhora a Virgem Maria, a que muitas vezes po- 
dia ajuda em minhas orações, que sempre lhe roguei 
e pedi que por mim nem por meu azo, nunca nenhu- 
ma geração dos christãos recebesse algum mal nem 
damno, antes pelo seu amor todo favor e ajuda, >• 
desejando sempre ver algum azo porque o podess 
empecer, ainda que fosse com grande meu trabalho e 
perigo, aos inimigos de sua santa fé, e de tal ser meu 
desejo e vontade, é bem certa testemunha o requeii- 
mento que eu acerca d'ello comecei a fazer ao infan- 
te D. Fernando, que ora é defensor do reino de Cas- 
tella, por cuja resposta senti que meu desejo nào s' 
podia cumprir, segundo meu requerimento, e porqi; 
nào sentia cousa que pelo presente podesse t(^r\ai 
meu estado, não senti ai que podesse fazer senão 
pedir a Deus que minha boa vontade recebesse por 
obra, pois por mim não fallecia de a cumprir. 



Chronica d/El-Rei D. João I 53 



D'outra parte considerada a edade de meus filhos, 
! como os Deus por sua mercê quiz fazer taes, que 
;om grande direito devem receber estado de cavalle- 
ia, a qual pêra ter alguma similhança de honra, pois 
que se por outra guiza não podia fazer, quizera que 
fora em esta cidade, com umas mui grandes festas, 
porque ao menos a sua grandeza trouxesse azo de se 
soar pelas partes estranhas a honra d'este feito, mas 
elles consirando em ello entre si, tinham que se não 
podia por similhante maneira fazer cousa, por gran- 
de que fosse, que acerca de similhante feito não fos- 
se pequena, movendo-me acerca d'isto muitas e justas 
razões porque devia buscar outra cousa em que os fi- 
zesse cavalleiros, as quaes posto que me justas e ra- 
zoadas parecessem, não podia porém mais fazer, ca o 
azo pêra similhantes cousas não se acha assim ligei- 
ramente. 

Estando em isto cuidoso, fallou-me João Affonso 
na cidade de Ceuta, como é grande e nobre e azada 
pcra se tomar, a qual cousa parece que soube por 
avisamento d'um seu homem que lá mandou tirar al- 
guns captivos. 

Em poro eu assim pelo presente levei o feito a jo- 
go, porque era cousa en\ que ainda não consirava 
pouco nem muito, mas os infantes e o conde de Bar- 
cellos meus filhos, a quem o dito João Aflonso fallou, 
consiraram melhor em ello e fallaram-me já por duas 
vezes, mostrando-me muitas razões porque me devia 
dcspôr a este trabalho, sobre a qual cousa lhe eu não 
quiz dar alguma resposta, antes que primeiramente 
não saiba, se o proseguimcnto d'ello é servigo de 
T)eus. 

iui o não teria por \'ictoria, nem o faria em boa 
verdade, ainda ([ue soubesse coi)rar todo o mundo 



Õ4 BiUiotheca de Clássicos Portuguezes 

por meu, se não sentisse que em alguma maneira era 
serviço de Deus; porém porque eu possa saber cer- 
tamente se isto é seu serviço ou não, vos fiz aqui 
juntar, porque sinto pelo grande conhecimento que 
tendes da lei de Nosso Senhor Deus, me podereis 
bem d'cllo avizar, a qual cousa vos encommendo e 
mando que com toda diligencia queiraes cscoldrinhar, 
assim por vossos bons livros e santas escripturas 
como pela alteza de vosssos entendimentos, e me tor- 
neis dello resposta o mais cedo que bem poderdes. 



CAPITULO X 

Co7no os letrados tornaram com resposta a el-rei di- 
zendo que era serviço de Deus tomar-se a cidade 
de Ceuta. 




, s confessores sobre quem principalmente o en- 
cargo desto ficava, não tomaram aquellc feito 
com pequeno cuidado, assim pela necessida- 
de que os tanto constrangia a seguir os mandados 
d'el-rei, como por a sustancia do feito ser de tama- 
nho peso, que nenhum homem de são entender o 
não devia ter em pequena conta, e porem foram-sc 
logo pêra seus mosteiros, e com grande cuidado prou- 
veram seus estudos por tal gui^a que lhe não ficou 
nenhuma cousa por vêr d'aquclles textos e glosas da. 
sagrada escriptura, em que os santos douctores deter- 
minaram taes conclusões, mas pêro que o seu cuida- 
do fosse assaz de grande no escoldrinhamento d 'esta 
duvida, com muito maior diligencia e vontade filha- 



Chronica d'El-Eei D. João I 55 



ram os infantes a força d'aquelle encargo, ca nunca 
seus pensamentos podiam ser livres nem apartados 
d'aquella maginaçâo, e tanto corriam por ella em dean- 
te que passavam por todas as duvidas e começavam e 
proseguiam o feito por tal guiza, que se esqueciam 
do ponto em que estavam, 'e viam-se no meio d'aquella 
cidade envoltos entre os mouros, alegrando-se com o 
espalhamento do seu sangue, e tanta doçura sentiam 
em taes maginações, que lhes pezava quando se lhes 
oíTerecia cousa porque se tiravam d'ellas, e porque 
assim como naturalmente os feitos em que magina- 
çâo do homem é occupada de dia, esses se lhe repre- 
sentam des que o somno tem occupados seus sentidos, 
assim aquelles senhores pela grande deleitação com 
que tomavam aquelles cuidados, a maior parte da 
noite, depois de jazerem em suas camas, não podiam 
ser livres da similhança d'aquellas cousas, e uma vez 
lhes parecia que viam grão multidão de naves carrega- 
das de gentes d'armas, outras vezes viam as torres da 
cidade apendoadas de suas bandeiras, outras vezes lhes 
parecia que se achavam entre as forças dos mouros e 
que continuavam tanto suas pelejas que por força os 
affastavam d'cntre si, ca não menos trabalhados acha- 
vam seus corpos que depois de acordados sentiam 
algum descanso, tão grande era o trabalho em que a 
vontade passava aquellas cousas. 

Nós tomemos o entendimento d'estas cousas como 
chrisLãos, como quer que muitos dos antigos tiveram 
que muitas das cousas que hão de vir, parecem aos 
homens cm similhantcs tempos, secundo Valério es- 
creve no seu primeiro livro e Marco 'liilio no Livro 
da Velhice. 

O (lia em ([ue el-rci iiavia (Thaver sua resposta, 
foi assignado a a([ui'llcs senhores e letrados, no ijual 



Õ6 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



cada um disse sua rasão e intenção, segundo a quan- 
tidade de seu entender e saber, não porém alTastados 
de um propósito, e assim por reverencia da santa 
egreja, como pelo principal encarrego ser d'aquelles, 
fallaram primeiro os letrados, c disseram assim: 

Resposta dos leirados 

«Em esta j->resente matéria, senhor, disseram elles, 
não houve mister de queimar muitas candeias reque- 
rendo seu estudo, e esto é por não ser cousa nova 
nem sobre tal escureza posta na escriptura, porque o 
seu intento nos pozesse em muitas duvidas, pêra cuja 
declaração nosso entendimento somente podesse abas- 
tar, antes são cousas tantas vezes limadas e dcsputadas I 
que em qualquer parte que homem vá pela santa 
escriptura, pode achar mui largamente qualquer cousa 
que acerca d'esto queira escrever, e pêra que são 
mais outras cscripturas, senão as historias que tendes i 
nos outros príncipes em vossas camarás, pelos quacs 
vossos antecessores são ante vossos olhos, e por cilas 
achareis o grande milagre que Nosso Senhor r)cu^ 
fez por aquelle bom remigio rei, que prometteu o 
votos ao apostolo Santiago, pelo qual lemos que v 
bemaventurado apostolo visivelmente appareceu em 
sua batalha, e por sua divinal virtude houve em tila 
tamanha victoria como sabeis, em cujo testemunho 
lhe ainda hoje pagam aquelles votos em todas as 
terras que a-aquella sasão eram de christãos. 

El-rei D. AíTonso, sendo na batalha das Naves, 
querendo passar uma serra pêra ir pelejar com o 
grande Miramolim de Marrocos, sendo clle duvidoso 
de seu caminho, pela grande fragua que havia n'a- 
quella serra, por on<]<' cllc de necessidade havia de 



Chronica d'El-Rei D. João I 57 



passar, Nosso Senhor Deus, querendo approvar a 
boa tenção e desejo que em elle sentia, enviou um 
anjo do ceu que o levou por meio d'aquel]a serra, 
mostrando-lhe caminho largo e chão porque sua 
hoste passasse, onde antes nem depois nunca foi 
achado. 

Que foi, senhor, d'el-rei D. Fernando, que tomou 
Coimbra aos mouros e fez outras muitas batalhas com 
elles no reino de Castella, e d'el-rei D. Affonso seu 
filho, que tomou Toledo, e do conde Fernão Gonçal- 
ves, e do Cid Ruy Dias, e dos outros bons cavalleiros 
fieis e catholicos que por amor de Nosso Senhor Je- 
sus Christo, com tantos e tão grandes trabalhos e 
cora tanto espalhamento de seu sangue, passaram sua 
vida? Ou em que logar alojaremos suas almas, segundo 
nossa piedosa crença, senão na companhia dos bem- 
aventurados martyres e apóstolos? E que elles não 
morressem deante as sedas dos principes infiéis, como 
muitos d'aquelles santos faziam, não era porque o seu 
desejo se aíTastasse d'aquelle propósito por nenhum 
receio nem temor, antes com mui grande fortaleza, 
armados de santa fé, commettiam ardidamente os 
inimigos cm tal guiza, que rindo esperavam a sua 
derradeira hora, em meio d'aquellcs trabalhos. 

Mas pêra que lembro eu, mui excellente príncipe, 
outros nenhuns reis nem senhores, apartados de vosso 
senhorio, pois temos ante nossos olhos a memoria do 
mui notável fiel c catholico christão, el-rei D. Afibnso 
Henriques, cujas relíquias tratamos entre nossas mãos. 

Vede, senhor, os signacs que trazeis cm vossas ban- 
deiras, e perguntae e sabei como c porque guíza foram 
ganhados, os quaes certamente do todas as partes 
mostram a paixão de Nosso Senhor Jesus Christo, 
por cuja reverencia e amor o bema\i'nturado rei of- 



58 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



fercceu seu corpo em o campo d'Ourique, vencendo 
aquelles cinco reis como vossa mercê sabe. 

Consirae isso mesmo senhor, se elle duvidara se o 
seguinte trabalho era serviço de Deus, não tivéreis 
vós hoje em dia esta mui nobre cidade, nem a villa 
de Santarém, com outros lugares em vossos reinos, 
onde foram por elle começadas muitas e grandes 
egrejas e mosteiros, e acabados por outros fieis e 
catholicos christãos, em que o officio divino, com 
tanta solemnidade cada um dia é tratado e adorado, 
e se isto assim não acontecera, muito pequena parte 
houvera no mundo, onde os mandamentos do santo 
evangelho, inteiramente foram guardados, saiba vossa 
mercê que o estado militar não é por outra cousa 
tanto louvado entre os christãos, como por guerrea- 
rem entre os infiéis, cá não é necessário, nem ha ahi 
mandamento de Deus que façamos guerra a nenhuns 
christãos, antes nos encommenda que nos amemos 
uns aos outros, como irmãos que devemos ser em 
Elle, que 6 Nosso Senhor, segundo é escripto por S. 
Paulo em muitos legares de suas epistolas. 

Bem é verdade que todo rei deve guardar seu povo, 
assim como cousa que lhe é encommendada por Nosso 
Senhor Deus, assim como o pastor deve guardar suas 
ovelhas, não tão somente dos infiéis, mas ainda dos 
christãos, quando por alguma maneira de soberba 
lhe quizessem empecer, cã malaventurado é o rei em 
cujo tempo os seus senhorios recebem queda. 

Mas esto porém deve cada um de fazer com tama- 
nha examinação c madureza de conselho, que antes 
que nenhuma cousa comece, pro\eja e saiba se ha 
ahi justiça e direito em aquella cousa que por simi- 
Ihante maneira quer começar, cá não deve ser sua 
intenção fazer ajuntamento de gentes por se deleitar 



Chronica d'El-rei D. João I 59 



de andar sobre os campos empecendo aos visinhos, 
somente de\'e guardar sua terra pela guisa que lhes 
é encommendado, e tanto que tiverem sua terra bem 
reparada deve de leixar as armas e buscar a paz, por 
quantas maneiras poderem, como fazia o S. Propheta 
Moysés, e outros alguns bons duques guiadores do 
povo de Deus. 

Mas os infiéis por nenhuma guisa devemos consen- 
tir em quanto pertinazmente aturarem sua perversa 
intenção, e o bom imperador Justiniano que com tanto 
trabalho fundou as primeiras leis, e todos os juris- 
consultos ordenadores do direito civil, muitas vezes 
nos amoestam e mandam que arranquemos de nós 
com todas as nossas forças, esta má e damnada seita 
dos infiéis, e assim as sagradas leis juntamente com 
os decretos dos santos padres se o não tivessem, quem 
daria ouzio ao nosso Summo Pontifice vigário geral 
sobre toda a universal egreja, cujo poderio cremos e 
confessamos por auctoridade do sagrado evangelho, 
que é tão abastante que pode ligar e absolver nossas 
almas, e assim é o que tem pela guiza que o teve o 
apostolo S. Pedro primeiramente, e este nos dá absol- 
vição perpetua, quando direitamente morremos guer- 
reando os infiéis. 

Ora, senhor, disseram ellcs, não temos porque 
acrescentar mais somma de palavras, basta que nós 
que aqui somos presentes, por auctoridade da sagrada 
escriptura, assim como homens que sem nosso mere- 
cimento temos graus na sacra theologia, determina- 
mos que vossa mercê pode mover guerra contra 
quaesquer infiéis, assim mouros como gentios, ou 
quacsqucr outros que por algum modo negarem algum 
dos artigos da santa fé catholica, por cujo trabalho 
merecereis grande galardão de Nosso Senhor Deus, 



60 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



pcra vossa alma, e além d'esto não ouçaes cousa que 
vos acerca d'ello seja dito nem ainda que vos pareçam 
visões em similhança de cousas divinaes, não lhe 
deis fé, cá entendei verdadeiramente que o espirito \ 
malino \'cm pêra vos tirar de vosso bom c santo 
propósito. 



CAPITULO XI 

Como el-rci moveu outras duvidas que tinha pêra filhar 
aquella cidade. \ 

ò \ ^ODAS estas razões foram alli allegadas em prc- 
f sença d'el-rei, e outras muitas de que não cura- 
mos fazer expressa menção, assim pelos infanta 
e conde seus filhos, como por outros do conselh' 
empcro el-rei não quiz logo assim de presente respon- 
der nenhuma cousa, antes mandou que lhe pozesscni 
assim todo em escripto pêra o elle melhor poder ver 
e examinar com algum soccgo e repouso, e depois 
tornaria a ello sua resposta, como entendesse que era 
razão, c assim lhe ficou aquelle escripto, o qual ellc 
proveu, examinando cada uma cousa em sua sustan- 
cia, empero tem muitos, e eu que esto escrevi com 
elles, que a necessidade não era tanta porque cl-rci 
assim houvesse de retardar aquella resposta, mas qur 
o {q.7. por ser azo de guardar melhor o seu segrcd(^ 
porque de trinta e uma virtude, que ao príncipe s.V> 
apropriadas, muito lhe convém que seja cautelos 
segundo cscre\e Santo Agostinho no Livro da Cidai 
de Deus, louvando muito em os romanos o seguimen; 
d'esta virtude. 



Chronica d'El-Rei D. João I 61 



't 



Não tardou muito el-rei em prover seu escripto, 
como aquelle cujo coração andava muito acerca da 
obra, se não tivesse contrários que razoadamcnte o 
podessem empachar sobre toda a efficacia de seus 
filhos, os quaes traziam assim tal viveza em aquelle 
requerimento, que nunca o leixavam haver nenhum 
repouso, como eram acerca d'elle. 

Um dia os mandou chamar todos quatro e fallou 
com elles em esta guiza: 

Pratica d'el-rei a seus filhos 

«Pode ser que cuideis que me leixo repousar na 
ordenança do que tendes a mim fallado com mingua 
de vontade, a qual cousa certamente é muito pelo 
contrario, ca posto que eu em esta edade seja, não 
daria avantage a nenhum de vós em cobiçar a hora 
em que este feito podesse acabar, mas porque vi 
outros mui grandes feitos e experimentei seus gran- 
des cargos, conheço como são caros de acabar, a 
qual cousa ainda a vós outros é escura de conhecer. 

Disse o outro dia que antes de dar nenhuma res- 
posta em este feito, queria saber se era serviço de 
Deus, porque sobre este devemos de fazer nosso ali- 
cerce, quanto á primeira intenção, e quanto á segunda, 
devemos de saber se o podemos fazer ou não, porque 
muitas cousas são boas e desejadas em algumas von- 
tades dos homens, fallecc-lhe porém o poderio pêra 
as poderem acabar. 

Porém já sei que esto inteiramente é serviço de 
Deus, e quanto é o que pertence a elle, que o devo 
de fazer, mas é agora de ver quanto eu sou poderoso 
pêra o fazer, sobre a qual consiraçâo eu achei muitas 
e grandes duvidas, das quaes principalmente direi 



62 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 

* 

cinco que não tão somente todas juntas, mas cada 
uma por si é abastante pêra empachar afim d'aqueste 
feito, e queremos dizer quaes são, porque possaes co- 
nhecer a força de sua valia. 

Primeiramente consiro como pcra similhante feito 
se requerem grandes dcspezas, pêra as quaes hei mis- 
ter muito dinheiro, o qual eu não tenho nem sei pelo 
presente d'onde o haja nem como, ca posto que o 
quizesse haver do povo, lançando-lhe alguns pe- 
didos, acho que se o fizer que se me seguem d'cllo 
duas perdas, a primeira escândalo do povo, a segunda 
rompimento do segredo. 

Secundariamente consiro como a cidade de Ceuta 
é tão alongada de nós pêra cujo combate não so- 
mente havemos mister as gentes d'este reino, mas 
ainda outras de fora, se se offerecerem pêra nossa 
ajuda, e estas gentes hão de levar armas e fardagem 
e outras bitualhas que lhe são necessárias, e nós ha- 
vemos mister artelharias de muitas maneiras e man- 
timentos em grande abundância, porque não sabemos 
quanto tempo estaremos sobre aquella cidade. 

Ora pêra todas estas cousas serem passadas além, 
é necessária uma mui grande frota de muitos na\ios 
e grandes, afora os pequenos de que não faço grand • 
conta, os quaes não ha em meus reinos, nem possu 
achar caminho como os de fora possa haver, nem 
porque guisa. 

A terceira causa acho que é abastança de gente, 
que não tenho, porque como já disse, não tão somen- 
te aquella que tenho, mas outras muitas mais que 
seriam necessárias se as razoadamente podesse haver 
e eu não tenho as de fora, nem esperança como as 
haja, principalmente pelo fallecimento do dinheiro 
que sinto cm meu reino, e sobre todo porque o não 



Chronica d'El-Rei D. João I 63 



posso haver de meu povo, pelos empachos que vos 
já disse, e assim que com as minhas gentes me con- 
vém somente fazer todo meu feito. 

Mas que será que eu tenho grande duvida e pouca 
segurança no reino de Castella, cá pode ser que sen- 
tindo como sou fora de minha terra, poder-se-hão 
mover contra meus senhorios, a qual cousa será mui 
má ao deante de repairar, porque acharão toda a 
terra desapercebida e sem alguma contradição, obra- 
riam todo o que quizessem, e assim que pela segu- 
rança d'esto convinha que eu leixasse minhas fron- 
teiras ao menos acompanhadas d'alguma gente, e se 
as quizer leixar, não terei abastança pêra o que de 
outra parte houver mister, cá a cidade de Ceuta é 
mui grande e mui forte, pêra cujo combate e cerco ha 
mister muitas maneiras de gente, da qual se homem 
perfeitamente não fôr percebido, não será outra cousa 
senão começar feito de cujo doesto fique memoria 
pcra todo sempre. 

A quarta duvida que tenho, é consirando que posto 
que me Deus desse victoria, como em Elle confio, o 
filhamento d'esta cidade me pode fazer maior damno 
do que proveito, porque o reino de Grada, fica mais 
azado pêra se poder conquistar. 

Ora que proveito tenho eu d'aquelle reino ser posto 
cm sogeição dos castelhanos? 

Antes me é conhecida perda, por quanto sou bem 
certo que a mim e a meus naturaes tiveram e tem 
mui grande ódio, quanto mais ainda agora, em cujo 
tempo a memoria de seus vencimentos está tão re- 
sente. 

Assim que o filhamento da cidade de Ceuta pode 
ser azo pêra que se cobre c haja o reino de Grada, 
da qual cousa eu por razão devo estar em maior es- 



&4 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



perança de perda que de proveito, porquanto o acres- 
centamento de seu senhorio fará menos fortaleza aos 
meus pcra sua defensão, e a elles maior esforço e 
poder pêra vingarem seus damnos passados. 

A quinta cousa me parece que é muito pêra duvi- 
dar, porque todo o sages ou discreto, antes que 
comece a cousa, deve de escoldrinhar até onde chega 
seu encargo, assim como aquelle que de todo se deve 
prover e avisar, quanto mais nos feitos grandes 
pezados de que homem nào deve tào somente cons; 
rar as cousas presentes, mas as que hão de vir ver 
ainda temer e arrecear os casos duvidosos, que com- 
munalmente aquecem, mas os que podem aquecer. 

Ora sendo assim que Deus nos queira fazer tani 
bem que cobremos esta cidade a nosso poder, q 
nome ou que honra nos vem se ao deante a nào 
dermos manter ou defender } 

Nós certamente teriamos duas duvidas mui grani 
sobre este ponto. 

A primeira que nosso trabalho nào seria mais, 
nào como um pau, que o homem lança de sua m; 
o qual somente aproveita emquanto mata ou derri 
porque ao depois fica em duvida de se poder 
brar ; nós se esta cidade cobramos e se a nào podi 
mos manter e defíender, nào nos fica nenhuma coi 
de que nos arrezoadamente possamos louvar, cá 
to que matemos no seu filhamento grào multidão 
mouros, esto nào pôde ser sem nosso damno e p( 
go ; quanto vemos que uma alimária por seu besti 
sentir trabalha de se amparar e detTender de qualq 
cousa, porque espera fazer sua fim, cá esto lhe é da- 
do des o começo de sua nascença naturalmente, quí* 
busque mantimentos morada e ajuntamento pcra fa/ 
geração e defensão pêra si e pêra seus filhos, e per 



Chronica d'El-l£ei D. Jaão I 65 



isto foram providos cada um em seu grau, de mara- 
vilhosas maneiras de defensões por aquelle que criou 
a natureza, porque a cada um foi posta fortaleza em 
seus braços, assim como aos ursos, e a outros simílhan- 
tes e aos leões, poderio nos dentes e nas unhas, e a 
outros fortaleza nos cornos, assim como aos touros e 
bois, e a outros deu estremada ligeireza, assim como 
a toda veação e lebres, que se criam nos campos, e a 
outros deu entendimento e engenho, que fizessem mo- 
radas nas cavernas dos montes e nas concavidades da 
terra, em cuja profundeza podessem ter sua defensão, 
mas por certo mais grande e liberal foi a natureza 
aos homens, dando-lhe caminho e maneira como po- 
dessem além do natural, por sua industria e saber, 
buscar desvairadas maneiras de artifícios pêra sua 
defensão, encaminhando-Ihe primeiramente como fi- 
zessem ajuntamento em certos logares, des-ahí que os 
cercassem de grandes torres e muros fortes, e que fi- 
zessem espadas e lanças, fachas, dardos com todas as 
outras cousas que vedes porque se os homens defen- 
dem ; pois entendeis que os homens que tal engenho 
teem, ainda que de todo nào sejam perfeitos, que 
quando matarem algum d'elles, que mataram elles a 
quem os quizesse matar? 

Certamente náo é de presumir o contrario ; cá se 
esto assim não fosse, toda sua victoría seria de baixo 
valor, mas tanto a fortaleza dos vencedores ficará 
maior, quanto os vencidos são mais fortes. 

Pois que nos queiramos gloriar na grandeza c va- 
lor do esbulho da cidade, esto é assaz de pequena 
victoria, porque por mui grande que a riqueza seja, 
nimca poderá ser egual á grandeza de nossa despc/a, 
e não ha nenhum que por sua vontade queira empre- 
gar seu dinheiro em similhante mercadoria. 

VOL. I 3 



06 Bihliotheca de Clássicos Portugvszes 



VJ pois a honra que devia ser o principal preço c 
galardão de nossos grandes trabalhos, camanha pi 
de ser, quando nós, ainda não estando ainda bem do- 
cançados em nossas casas, ouviremos pelo meio (. 
nossas ruas que os mouros estão já em sua cidade bus- 
cando novas maneiras de fortaleza, além da que d'an- 
tes haviam, por que jamais outra vez por similhante 
modo ligeiramente não possam ser entrados. 

Quanto certo é que os aquecimentos da perda, tra- 
zem novos avisamentos, se é em logar que a pessoa 
avisada possa receber emenda, e quanto a perda c 
maior tanto os avisos por seu azo são buscados por 
mais prov^eitosa subtileza de que se nos seguira a se- 
gunda duvida. 

Esto é que os mouros que estão n'aquella cidade, 
registarão nas taboas de seus corações a lembrança 
d'aquellc damno e injuria, por cuja vingança carre- 
garão suas fustas e navios da flor de sua mancebia 
e virão aos nossos do reino do Algarve, que jaram 
desegurados em suas quintas, e roubal-os-hão de suas 
vidas e haveres, e sobre todo perderemos a espe- 
rança de jamais nenhumas de nossas mercadorias 
poderem, sem grande temor, passar em nenhuns na- 
vios pêra nenhum porto nem cidade que haja no 
mar ]\Icditerraneo, pela devisa que muitas vezes por 
necessidade vão fazer em aquella parte, e que ainda 
que quizessemos poer caso não certo que esta de\'isa 
se podia escusar, ellcs teriam as tarcenas de suas 
cidades cheias de fustas e de navios, somente afim 
de impedir a nossos naturaes; a sentença qual seria 
sobre as cabeças d'aquelles que ahi tomassem, não é 
necessário a mim que vol-o haja de declarar. 

Ora vede que nos apro\'eita tantas e tão grandes 
dcspezas, com tamiinha furça de trabalho e cuidado. 



Chronica d'El-Rei D. João I 67 

l 



com esperança de tão pequena victoria, cá a força 
principal da honra está na mantença da cidade, a 
qual eu não vejo caminho nem maneira como se por 
nós longamente possa manter nem governar. 

Certamente eu diria que seria muito melhor por- 
mos em esquecimento o movimento d'este feito, que 
de o abalarmos nem seguirmos, pois esta só cousa é 
bastante, afora as outras quatro que são taes como 
ouvistes pêra nos empachar todo nosso propósito; e 
se por ventura algum de vós entende que estas du- 
vidas não são justas nem razoadas, mostre-me o con- 
trario ; eu lh'o reconhecerei segundo fôr direito e razão. 



CAPITULO XII 



Como os infantes /aliaram entre si acerca cTagnellas 
duvidas, e da resposta que trouxeram a el-rei. 



UEM poderia declarar por escripto quanto 
aquellas palavras d'el-rei eram contra o que 
os infantes desejavam, pelas quaes foi entre 
elles um silencio, como se lhe fossem dadas outras 
algumas novas porque lhes certificassem alguma per- 
da que por razão devesse ser d'elles muito sentida, e 
por dizer verdade quanto a aquella sazão não podia 
no mundo ser cousa cjuc clles mais sentissem, que o 
fallecimento d'aciuclle feito, empero porque o caso 
não ficava ainda todo determinado por negação, to- 
maram já quanto quer de conforto c entendimento 
de prover sobre os contrários que pertenciam aquel- 
las razões. 




68 Bihliotheca de Clássicos Portugiiezes 



Parece-me, diz aquelle que escreveu aquesta histo- 
ria, que vejo os entendimentos d'cstes grandes prin- 
cipes andar por as vagas assim como a nau quando 
no alto mar, onde com fortuna de tempo contrario 
perde o conhecimento de sua direita viagem, cujos 
regedores são entre si em mui grande desaccordo, 
porque cada um em similhante tempo por muito sabe- 
dor que seja, nunca inteiramente confia de seu saber 
e muito menos de conhecimento de nenhum outro, 
porque quando as vontades são postas em algum 
grande temor, não ha ahi parte tão segura, que lhe 
não pareça duvidosa, quanto mais onde os homens 
tem alguma esperança de grande honra ou proxeito, 
quaesquer contrários que lhe sobrevenham principal- 
mente, são d'elles muito sentidos, bem assim segundo 
o juizo d'estcs senhores, estimado pelo trigoso desejo 
de suas vontades, não lhe parecia que seu padre uza\ 
na determinação d'este feito, como quem deseja\ . 
de vel-o acabado; porém accrescentavam em su.i 
orações, pedindo ás virtudes do ceu que lhes aprt 
sentassem a hora em que se aquelle feito ha\'ia ti 
acabar. 

(^ra Icixcmos seus pensamentos desvairados e con- 
cludamos na certidão de sua resposta, onde havei 
de saber que elles tomaram assim a força d'aquella 
razões, com todas suas circumstancias e particularid.. 
des, sobre as quaes fallaram entre si por tantas vczt: 
até que finalmente tornaram com a resposta a cl-r> 
seu padre. 

1\1;S1'()S1A DOS IMA.N 1 !..-> 

«Senhor, disseram elles, consirando nós sobre lotli 
o que vossa mercê nos tem dito, achamos que á maii ; 
parte das vossas duvidas tendes mui sufficientes coii- 



Chronica d'El-Rei D. João I 69 



trarios pelos quaes podeis todavia determinar vossa 
ida, cá não ha ainda empacho que nos torve, com- 
tanto que a vossa vontade seja boa. , 

Dissestes primeiramente que pêra tamanho feito 
era necessário abastança de dinheiro, a qual vós não 
tendes nem podeis haver. 

A esto, senhor, se podem achar muitos remédios, 
assim como por provimento de metal d'aquella sorte 
de que se o dito dinheiro deve de fazer, que se po- 
derá haver por escaimbo de mercadores de vosso 
reino, fallando vossa mercê com elles, por cujo trato 
se esto mais larganiente pode encaminhar. 

D'outra guisa se podem ainda haver os ditos di- 
nheiros, e esto é fazer-se bom provimento em vossas 
rendas, abatendo em algumas despezas menos neces- 
sárias, prover as outras que forem mister pêra vossa 
ida, e ainda das pessoas principaes do reino pode 
cada uma fazer de suas rendas mui grande parte de 
seus corregimcntos, e assim como vossa mercê enten- 
dia buscar dinheiro pêra as despezas das festas que 
tinheis vontade de ordenares pêra nos fazerdes caval- 
Iciros, assim podereis buscar pêra este feito em que ha 
muitas e maiores avantagcs, que no outro das festas. 

Ainda, senhor, consirc vossa mercê quantas vezes 
começastes em vcssos trabalhos passados, muitos e 
grandes feitos, em cujos começos não tinheis abas- 
tança de dinheiro com que tão somente podesseis 
chegar a metade do feito, e prouve a Nosso Senhor 
Deus de vos prover pêra tudo muito melhor do que 
poderíeis pensar, assim prazerá a Klle por sua mercê 
de vos .ijudar em esti; feito, que não é menos de seu 
serviço do que eram os outros. 

Ainda, senhor, este é um arrependimento cjuc ne- 
nhum principc deve nunca de tomar, porque nunca 



70 Bihliotheca de Clássicos Porfuguezes 



homem pôde ter Lamanha abastança de dinheiro, que 
lhe não jDareça que é pouco, nem as rendas do reino 
nunca podem ser tão certas que a homem não pareça 
que são muito áquem do necessário. E quanto é, se- 
nhor, aos na\ios que dizeis que não tereis em abas- 
tança, esto, senhor, é a mais pequena torva que vós 
n'este feito podeis haver, e isto é porquanto \-ós po- 
deis enviar vossos recados por toda a costa de GalHza 
e de Biscaia, e assim a Inglaterra e Allemanha e a 
outras partes, d'onde vos podem vir navios cm grande 
abastança, de cuja vinda homem pode tomar pequeno 
receio, consirando com ciuanta diligencia clles vem 
ao frete do sal e dos azeites e \-inhos, quando quer 
que pêra ello são requeridos, e sobre todo podemos 
entretanto repairar vossas galés e fazer outras de no- 
vo, e avizar os navios que ha em vossos reinos que se- 
jam prestes pêra aquelle tempo que vossa mercê or- 
denar de partir, e ainda se segue um mui grande pro- 
veito, porque por azo do chamamento d'estes navios, 
que assim mandaes avisar pêra seu frete, correrá fama 
de vossa armada, á qual muitos homens bons estran- 
geiros virão pêra vos ser\-ir, desejando de fazer de 
suas honras. 

Quanto á terceira cousa, em que me parece que 
mostraes que tendes receio de mingua, que vos a 
gente pode fazer, especialmente pela pouca segurança 
que tendes do reino de Castella, por cuja razão vos 
é necessário leixar as frontarias de vossa terra acom- 
panhadas d'algumas gentes, pelo qual não tereis cum- 
primento, segundo o que nos c necessário pêra tama- 
nho feito. 

Esto, senhor, com a graça de Deus não é pêra ar- 
recear nem temer, cá em vosso reino ha muita e boa 
gente e bem disposta pêra qualquer trabalho, que a 



Chronica d'El-Rei D. João I 71 



)SSO serviço e honra seja necessário, e posto que 
.sim fosse que de necessidade vos conviesse leixaf 
vossas frontarias repairadas, ainda ahi haveria gente 
pêra se de todo remediar, quanto mais que com a 
graça de Deus, não ha ahi razão porque se espere 
similhante duvida, e esto por duas cousas : a primeira 
pela firmeza das pazes que são entre vós e elles, nas 
quaes ha tanta força de juramento, que não tão so- 
mente entre os christãos, mas ainda entre os mouros, 
seria feio de quebrar; a segunda porquanto o infante 
D. Fernando, que é a principal pessoa do reino, por 
cujo azo o tal feito se havia de mover, é assim oc- 
cupado em seus negócios, que não é de crer que 
leixe a certa esperança que tem de haver o reino 
d'Aragão, por se entremetter em similhante novida- 
de, a qual ainda ficaria em duvida se lhe dariam os 
do reino consentimento pcra ello ou não, e sobre 
todo sendo lá a senhora rainha, á qual não prazeria 
de similhante feito, por onde deveis ter segurança 
pêra começardes vossos feitos, sem receio nem empa- 
cho que vos d'aquelle reino possa vir, nem é bem 
que similhante duvida vá fora de vosso segredo, 
porque os bons d'aquelle reino teriam razão pcra 
receber escândalo d'elle pela pouca fé que se mostra- 
ria acerca de suas verdades. 

Até que chegaram a estas palavras, segundo acha- 
mos por verdadeiro acordo d'aquelles senhores que 
ahi estavam, não entendeis que por similhante pala\Ta 
se deve entender que ahi estava mais que el-rei e 
stus filhos, mas cu digo que o houve por seu acordo, 
poríjuanto tendo o infante D. Pedro carrego do 
regimento d'estcs reinos, me contou grande parte 
d'estes feitos, com intenção de o assentar todo em 
chronica, segundo d*ello fiz algum começo. 



72 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



Depois me contou assim o senhor infante D. Henri- 
que, duque de Vizeu e senhor de Covilhã, em cuja casa 
estive alguns dias, por mandado do senhor rei, o qual 
dos ditos feitos havia mais certa lembrança, que ne- 
nhuma outra pessoa do reino, quanto á sustancia das 
principaes cousas, em que está a força da historia, c 
esto era por duas cousas, a primeira principal por- 
quanto elle do ventre de sua mãe trouxe comsigo 
abraçada a similhança da cruz de Nosso Senhor Jesus 
Christo, por cujo amor e reverencia sempre teve 
mui grande desejo de guerrear aos infiéis, no qual 
desejo viveu e aturou toda sua vida, como ao dcante 
será contado. 

E esta declaração fiz aqui, porque vejo em muitas 
chronicas escriptas por mui sufíicientes auctores, 
nascer mui grandes duvidas por fallecimento de mui 
pequena declaração. 

E tornando a meu primeiro propósito, digo qi; 
sobre a quarta razão, em que el-rci dizia que filhanii 
a cidade de Ceuta, daria azo ao reino de Castella co- 
mo filhasse o reino de Grada, sobre esto se falou al- 
gum pouco, principalmente pelo infante D. Henriqu , 
e assim esta quarta duvida, como a quinta, ficaram 
por aquella vez sem determinação, e esto foi por- 
quanto el-rei por sua vontade se apartou d'entre sei; 
filhos, mostrando que por entonces não queria mai.. 
ouvir d'aquellas razões. 



Chronica d'El-Rei D. João I 73 



CAPITULO XIII 



Como el-rei mandoti chamar ao infante D. Henrique 
e das razões que lhe disse, e como determinou ir 
tomar a cidade de Ceuta. 

Lj Bicaram assim aquellas duas conclusões pêra de- 
Fls terminar ; não pKjrquc a resposta fallecesse aos 
j infantes pêra ellas, mas somente por vontade 
d'el-rei, como acima é declarado, mas não passaram 
muitos dias, quando el-rei mandou chamar o infante 
D. Henrique seu filho, e apartou-se com elle dizendo : 
porque te vi o outro dia fallar mais que nenhum de 
teus irmãos, acerca dos feitos de Grada, quero que 
me digas agora o que inteiramente te parece. 

Pratica d<j infante D. Henrique 

Senhor, flisse o infante, todo o que eu cntonces 
fallei, é a melhor parte do que sobre ello entendo, nem 
é cousa que por minha determinação só entendesse 
que se ha\ia de acabar, mas eu fallava como quem 
tinha taes três ajudas acerca de si, como eram nieus 
irmãos, mas agora que eu de minha parte somente 
haja de dar inteira resposta, parece-me que me deve 
abastar minha pouca edade e pouco conhecimento 
c|iic tenho de similhantes feitos pêra minha escusa, e 
si)bre tudo a pobre dehberação que sobre ello tenho 
j)<>sta, empcro por()ue hei de cumprir vossos manda- 
dos cofiK» de miMi senhor t- padn-, assim coiiio riT-Ihor 



74 Bihliotheca de Clássicos Portiiguezes 



poder entender, direi o que me parecer, senhor, disse 
elle ; eu acho que todas as cousas que fazemos n'este 
mundo, se resolvem em três pontos principalmente, 
s. no passado, no presente e no vindouro, e quanto é 
ao passado, eu consiro como ao tempo que Deus por 
sua graça quiz que vós houvésseis nome de rei, como 
não tínheis outra cousa senão uma pequena parte 
n'esta cidade, cíl o castello era contra v6s e assim o de 
Almada, Cintra, Torres Vedras, Óbidos, Santarém e 
quasi pela maior parte todos os outros do reino, e 
quiz Deus por sua mercê encaminhar vossos feitos por 
tal guisa, que sem \-osso grande damno \'ieram todos 
a vossa obediência e sujeição. 

Pois não menos deveis esperar agora, porque posto 
que aquellc reino de Grada fosse de todo livremente 
em poderio d'el-rei de Castella, ainda vos ficara poder 
com ajuda de Deus, de lhe poderdes contrariar qual- 
quer damno ou offensa que vos novamente quizessem 
fazer, cá mais ligeira cousa vos seria de o fazerdes 
agora, antes que no primeiro começo, por muitas ra- 
zões que pelo presente não são necessárias serem-vos 
declraradas pelo grande conhecimento que d'ellas ha- 
veis, e quanto é ao presente, consiro o serviço de 
Deus e a vossa grande fé e christandade, e a razão 
que não consente que hajaes de negar a guerra con- 
tra os infiéis, por se d'ella seguir alguma ajuda e fa- 
vor a el-rei de Castella, em acrescentamento de nossa 
fé, por muito nosso inimigo que elle fosse, porcjue os 
infiéis por natureza nos querem mal, e elle por aci- 
dente. 

Quanto é ao vindouro, eu tenho esto assim, que o 
filhamento d'acjuella cidade, não pôde ser azo por 
alguma maneira porque a amizade e paz que ora no- 
vamente filhastes com aquelle reino se haja por ello 



Chronica d'El-Rei D. João I 75 



'li gastar, nem destruir, antes o sinto pelo contrario, 
porque elles conheceram pela grandeza d'este feito a 
ardideza e boa disposição de vossos naturaes, e isso 
mesmo a maravilhosa fortaleza com que obrastes ta- 
manho feito, conheceram outro sim como o filhamento 
d'aquella cidade será azo grande pêra melhoramento 
de sua conquista, e quando de todo em todo cm elles 
fallecesse tal conhecimento, ainda sua- má vontade 
não tinha pêra ello perfeito cumprimento de execu- 
ção, assim pela conquista não ser tão ligeira de aca- 
bar, como depois de seu acabamento não se lhe seguir 
menos cuidado de a conservar e manter, e sobre todo 
Nosso Senhor Deus, que é perfeição de todas as cousas, 
sentindo vossa boa vontade e disposição, será senipre 
pela vossa parte, onde direitamente podereis dizer 
com o santo Propheta : pois que o Senhor é em mi- 
nha ajuda, não temerei cousa que me faça o homem. 

E por esta guisa acabou o infante D. Henrique sua 
resposta, da qual el-rei seu padre ficou muito ledo, e 
assim com a bocca cheia de riso, lançou os braços em 
elle e lhe deu a sua benção. 

— Ora, disse, meu filho, eu nàn quero mais resposta 
pêra derradeira conclusão, por quanto eu mesmo a 
tenho consirada, e isto c que cu acho que nenhuma 
virtude pôde ser em perfeição sem algum exercício, e 
assim todos os officios, cada um em sua guisa, prin- 
cipalmente dos cavalleiros em que se requer forta- 
leza, que S3 os fidalgos e outros bons homens d'>'ste 
reino não acharem em que exercitar suas forças, é 
necessário que de duas cousas façam uma : ou tra\'a- 
râo arruidos e contendas entre si, como se Ic que 
fizeram os romanos, depois que tiveram suas guerras 
acabadas, ou farãcí taes damnos aos de Castella que 
se aze de se as pazes í|uebrarem, a qual cousa cu não 



76 Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



queria por nenhuma guisa, e porém me parece que 
ainda que por ai não aproveitasse o filhamento d'a- 
quella cidade, pêra esto somente devemos d'haver 
por bem despendido nosso trabalho e gasto de di- 
nheiro, e quanto é acerca do mantimento que pêra 
sua governança ao deante pertence este carrego, 
quero eu leixar de todo ao Senhor Deus. 

E assim como Elle é poderoso pêra fazer de pouco 
muito e de pequenas cousas muito grandes, assim 
poderá por sua grande mercê abrir azo e caminho 
como se aquella cidade governe e mantenha, se fôr 
sua vontade de a trazer a nosso poder, e porém 
determino com a sua graça e ajuda de começar a 
proscguir este feito até o poer em fim ; não me falle- 
cendo alguma d'aquellas cousas porque razoadamente 
deva ser estorvado, e pois nos Deus aqui trouxe em 
ora que eu assim esto houvesse de determinar, praz- 
me que vós sejaes o mensageiro que leveis as novas 
a vossos irmãos e lhe declareis toda minha intenção 
pela guisa que vol-a já tenho dito. 

Bem é verdade que todos aqucUcs filhos d'el-rei, 
tinham mui grão desejo de vêr aquelle feito posto em 
fim, mas nenhuma d'aquellas vontades era cgual á do 
infante D. Henrique, cá esto nascera com elle, como 
já disse, c porem assim como homem a quem muito 
prazia d'aquellas novas, poz os giolhos em terra e 
beijou as mãos a seu padre, dizendo-lhe que lh'o ti- 
nha em grande mercê. 



Chronica d'El-Bei D. João I 77 




CAPITCLO XIV 



Como o infante D. Henrique levou as ?iovas a seus 
irmãos e do grande prazer que houveram. 



infante D. Henrique, que sabia com que von- 
tade havia de ser recebido de seus irmãos, 
quando lhe levasse as novas d'aquelle feito, 
logo com grão trigança se foi a elles, contando-lhe 
toda a vontade de seu padre, segundo o que com elle 
passara, de cujas novas e recados os infantes e conde 
houveram grande prazer, como senão poderia dizer 
cousa que os mais alegrasse, e porém cavalgaram 
logo todos cada um de sua casa, e foram-se ao paço 
pêra mostrarem a el-rei agradecimento de tamanha 
mercê, beijando-lhe as mãos- por ello, como aquelles 
que bem mostravam que até aquelle tempo nunca 
viram prazer similhante, nem el-rei dentro em sua 
vontade não sentia pequena ledice, vendo as vontades 
de seus filhos assim dispostas pêra as cousas de 
honra, pelas quaes conhecia todo o conhecimento de 
suas virtudes. 

Bem é verdade que em todas as outras manhas 
que a grandes homens pertenciam, conhecia elle toda 
sua disposição, cá os via bem dispostos a cavallo e 
a pé, grandes monteiros e caçadores ligeiros, desenvol- 
tos pêra correr c saltar, lançadores de barra e rcmcs- 
são e dcsenvíJÍtos nas armas pêra justar, c assim pêra 
quaesqucr outros actos que a cavallaria pertencessem ; 
nào porém que diga que todos egiialmonte ha\'iam 



78 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



estas cousas e perfeição, cá antes digo, que é erro 
em ello c em todas as cousas, porque a virtude cjue 
em um fallcce cm acabado cumprimento, é achado no 
outro, e assim em estes senhores, posto que em to- 
dos houvesse boa diligencia pcra experimentar todas 
as cousas que a elles pertenciam, algumas das quaes 
cousas eram cumpridamente em um, que não eram 
em outro, e n'aquelle que alguma cousa fallccia, acres- 
centava- se cm clle outra, não porém que a algum 
d'elles fallecesse disposição boa pêra todo fazer. 

E deveis de saber que em cada uma sciencia ou 
virtude, são achados quatro graus ou quatro differcn- 
ças pelas quaes o entendimento sobe e desce, assim 
como por uma escada, pêra entender claramente as 
definições das cousas, e quanto á virtude temos qua- 
tro graus por esta guisa, a saber : bom, melhor, muito | 
melhor, perfeito; assim como dizemos que ha ahi tem- ' 
perança, continência, perseverança e o quarto modo 
d'estes se chama virtude heróica sobre a qual não ha 
ahi outra maior, e pozeram-lhe tal nome porque os 
gregos chamam aos seus príncipes heroes, e dizem 
que a estes convém esta virtude, principalmente, c 
assim na sciencia são achadas quatro diíTerenças, a sa- 
ber : a primeira, que é a mais baixa, se chama singu- 
lar substancia, sob a qual não poderemos achar algu- 
ma outra; a segunda se chama substancia commum 
a muitas sciencias, a qual será principio de sua defi- 
nição, se as primeiras substancias esto receber podes- 
sem ; a terceira se chama substancia geral, a qual en- 
contra essencialmente na definição d'outras muitas ; 
a quarta é chamada muito alta, c muito geral subs- M 
tancia, que de sob si comprchcnde todas as outras, e ^ 
esto escrevemos assim, porque os exemplos são azo 
a cousa ser melhor entendida. 






\ 



Ckronica d'El-Eei D. João I 79 



E porém el-rei todas estas boas disposições e actos 
de virtudes conhecia em seus filhos, mas não era 
ainda em certa segurança, com que coração suppor- 
tariam os verdadeiros actos de cavallaria e fortaleza, 
os quaes principalmente são nos trabalhos das guer- 
ras mais que em outra cousa, porque ali é presente 
muitas vezes perigo da morte, da qual o philosopho 
disse que era o fim de todas as cousas terríveis e es- 
pantosas, e, porém, é o estado da cavallaria muito 
mais prezado entre os homens, da qual cousa el-rei 
via assim aquelle começo, porque havia grande parte 
do conhecimento de todo o que elle deseja\'a de vêr. 

Seus filhos passaram assim todas aquellas reveren- 
cias e agradecimentos, e des-ahi foram escorregando 
tanto por suas razões, até que el-rei disse : 

«A mim me parece que o principal começo que a 
mim convém fazer n'este feito, assim é que primeira- 
mente haja de saber o assentamento d'aquella cidade 
e a fortaleza e muros e altura d'elles, e como são 
acompanhados de torres, e caramanchões, pêra saber 
que artilherias me convém de levar pêra ser comba- 
tida. 

Outro sim, convém que saiba as ancorações que 
tem, e com quaes ventos trabalham os navios mais 
lá estando sobre ancora, e se por ventura as praias 
são assim livres e dcsempachadas, que nossas gentes 
possam sahir sem grão trabalho ou perigo, ou que o 
mar é tão chegado ao muro que dos navios mesmo 
se possam combater, consirando acerca d'isto quaes 
pessoas lá posso melhor enviar, porquanto cumpre 
que sejam homens discretos c entendidos c tacs que 
possam bem todo prover segundo é necessário pcra 
tal caso, e não me parece que tenha outros que o 
melhor possam fazer, que o prior do Hospital c o 



80 Bibliotheca de Classicoíi Portuguezes 



capitão AíTonso Furtado, a saber o prior pêra divisar 
a cidade e o capitão pêra divisar o mar, com todas 
as outras cousas que a elle pertencem, mas como 
seja que elles hajam logar pcra isso poderem ver e 
saber sem ser entendida nem sabida a fim porque 
elles vão, pêra a qual cousa tenho vontade de fingir 
uma formosa dessimulação, e isto é que quero dar 
voz que os envio com embaixada á rainha de Sicilia, 
a qual ao presente está viuva e em ponto pêra casar, 
a qual cousa eu sei pelo requerimento que me ella 
enviou fazer, que me prouvesse de casar meu filho o 
infante D. Duarte com ella, e eu agora mandal-a-hei 
requerer pêra o infante D. Pedro, a qual cousa eu 
sei bem certo que ella não ha-de fazer, empero apro- 
veitará muito similhantc cometimento, porquanto 
meus embaixadores terão azo de ir e vir pela cerca 
d'aquella cidade, onde poderão divisar todo o que 
lhe por mim fôr mandado. 

Aos infantes pareceu mui bem a consiração de seu 
padre, e «porém ficou a cl-rei encarregado de o poer 
todo em obra, segundo o tinha consirado. 



CAPITULO X V 



Como cl-rei mandou chamar o prior do Hospital e o 
capitão^ e o que lhe disse que haviam de jazer. 

EL-Kii mandou logo chamar o prior do Hospital 
c foz -lhe saber como sua vontade era de os 
enviar a casa da rainha de Sicilia com sua em- 
baixada, empero, que seu principal fundamento e | 



tenção, era que elles divisassem a cidade de Ceuta, 
de todas as cousas que antes dissera, portanto lhes 
mandava que se fizessem logo prestes pêra seguir suar- 
viagem, pêra a qual cousa logo mandou desembar- 
gar-lhe dinheiros pêra alguns corrigimentos que lhe 
fossem necessários, e mandou logo correger e aparelhar 
duas galés, as melhores que estavam em suas tarace- 
nas, as quaes foram assim corregidas de todas as 
cousas, como se houveram d'andar d'armada, esto 
era porque além da nobreza com que lhe convinha 
de os enviar, segundo seus embaxadores que eram, 
quiz que fossem de tal guisa apercebidos, que não 
podessem receber algum damno d'alguns mouros, se 
os achassem, e mandou el-rei fazer mui nobres librés 
de seu modo e devisa, pêra todos aquelles que nas 
ditas galés haviam d'ir, e isso mesmo embandeirar e 
toldar aquellas galés desde a proa até á popa de 
pannos de suas cores, a qual cousa nunca ainda até 
aquelle tempo fora vista em nenhuns navios simtlhan- 
tcs, e des-ahi avante o começaram a poer em uzo até 
agora que se faz como vedes, e por este modo foram 
assim as ditas galés aparelhadas e corregidas, e os 
embaxadores despedidos por tal guisa que em breve 
tempo começaram de seguir sua viagem, e partindo 
de Lisboa com aquella voz e fama chegaram sobre a 
cidade de Ceuta, onde lançaram suas ancoras, mos- 
trando que queriam dar algum descanso á sua gente, 
e o prior assentado em sua galé, assim como homem 
muito sages e indiscreto, olhava muito bem o assen- 
tamento da cidade, como quem sabia a fim porque o 
fazia, c o capitão d 'outra parte com grande aviso es- 
guardava sol)re a praia oliiando qual era mais limjia 
de pedras, pcra poderem em ella mais desiMupacha- 
damente sahir as gentes d'armas, cjuando viesse a 



82 Bihliotheca de Clássicos Portugueces 



hora do mester, e depois que foi noite soldou, an- 
dando em um batel mui passamentc todas as ancora- 
gcns d'arredor da cidade, de guisa que peia maior 
parte foi de todo em conhecimento, e ao outro dia 
levantaram suas ancoras e seguiram sua viagem. 

Des-ahi chegaram ao reino da Secilia onde era a 
rainha, a qual fizeram logo saber como ali eram, po- 
rém que fosse sua mercê de lhes lavrar mandado da 
maneira que haviam de ter. 

As quaes novas ouvindo a rainha, mandou que se 
viessem logo a sua corte, onde foram assim recebidos 
e agazalhados como convinha a embaixadores de ta- 
manho principe, e leixando suas maneiras, que cada 
um tem em seu senhorio, como lhe praz por guarda 
do seu estado, finalmente depois que deram suas 
saudações da parte d'el-rei á rainha e apresentaram 
suas cartas de crença, deram sua embaixada por esta 
guisa. 

Embaixada á rainha da Sicília 

Muito alta e muito excellente senhora, rainha, nosso 
senhor el-rci D. João de Portugal, vos faz a saber por 
nós, seus embaixadores, como os dias passados vossa 
alteza enviou a elle por rasão de casamento de vossa 
senhoria com o infante D. FJuarte seu filho, da qual 
cousa elle fora muito contente, se o feito estivera em 
azo de se poder acabar, e lhe não fora fallado pri- 
meiramente da parte da infanta D. Catharina, irmã 
d'el-rei de Castclla, por cuja rasão não podia começar 
cousa alguma cm similhante acto, até que elle de 
todo fosse posto em fim de si ou de não, quanto mais 
que aquclle casamento é mui proveitoso pêra ambos 
os reinos, pela grande discórdia que se tão longa- 
mente entre cUes seguiu ; a qual posto que a Deus 



Chronica d'El-Eei D. João I 83 



graças, agora seja finda por firmeza de pazes, que 
entre elles são tratadas, todavia por azo d'este ca- 
samento se firmaram melhor, e que esta foi a causa 
principal porque vossa embaixada não houve outra 
mais graciosa resposta, empero que elle consirando a 
disposição de vossa edade e como o infante D. Pedro 
seu segundo filho é um principe dotado de muitas 
virtudes, do qual vossa senhoria seria mui bem ca- 
sada, que lhe prazeria muito que o dito casamento se 
fizesse. 

Porém que elle vos roga e encommenda que es- 
guardeis muito bem como o dito infartte é seu filho, 
e a mui real geração de que descende, assim de sua 
parte como de sua madre, da qual o dito infante por 
seu merecimento não fallece cousa alguma, e como 
lhe será dado tão grande casamento como a excel- 
lencia de seu grande estado convém, e que havido 
sobre todo vosso bom conselho lhe envieis vossa res- 
posta com effeito, crendo que além de ser vossa 
honra e proveito, fareis cousa que vos muito agrade- 
cerá, sobre as quaes palavras a rainha lhe disse que 
elles se fossem por entonces pêra suas pousadas e 
que ella fallaria com seus conselheiros e que lhe da- 
ria sobre ello sua resposta. 

Todos aquelles grandes homens, cjuc eram com a 
rainha, esguardarani mui bem como aquelles embaixa- 
dores d'cl-rei de Portugal eram homens de grande 
auctoridade, c assim por ello como pelo mui nobre 
corrcginicnto que levavam, representavam mui bem a 
grandeza d'aquellc senhor que os lá envia\'a, pela 
(jual cousa ponderaram mui mal a dissimulação que 
jazia n'aquellc feito, des-ahi começaram a tratar sobre 
aquella embaixada da qual a rainha era muito pouco 
contente, por cjuanto lhe parecia que seu estado rc- 



84 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



ceberia abatimento, mandando ella primeiramente tra- 
tar casamento com o infante D. Duarte, que era her- 
deiro no reino, e tornar a casar com o infante D. Pe- 
dro, que era sujeito a seu irmão, por rasão de sua 
primeira nascença, porém respondeu aos embaixado- 
res d'el-rei, como ella por entonces não estawi em 
ponto pêra dar resposta em similhante feito, por 
alguns negócios que tinha em seu reino, nos quaes de 
necessidade entendia de tratar, porém que se tornas- 
sem com boa ventura pêra seu reino c llic saudassem 
el-rei e a rainha e toda a nobreza de sua geração, 
que com elle Tosse em sua corte. 

Os embaixadores, como quer que lhe bem mostras- 
sem que lhe prouvera levar outra melhor resposta, 
não curaram de replicar mais sobre aquella matéria, 
porque bem sabiam que não era aquella a principal 
causa de sua primeira viagem, e porém espediram-se 
da rainha e meteram-se cm suas galés e tornaram-se 
pêra Portugal, mas não lhe esqueceu de tornarem ou- 
tra vez acerca da cidade de Ceuta, fazendo algum 
mais repouso que da ida, pêra acabarem de todo o 
que lhe fallecera da primeira vista, e tal maneira ti- 
veram em todo, que lhe não ficou nenhuma cousa por 
tentar, d'aquellas que a el-rei prazia saber. 

Alguns mouros d'aquclla cidade, que depois do fi- 
Ihamento d'ella consiraram na vinda d'aqMcstas galés, 
maldiziam a si, e a fraqueza de seus entendimentos,] 
porque tão tarde conheceram a sagacidade com que] 
se tratara sua destruição ; e entonces se acordavamf 
como viram ao prior ir com sua galé ao longo da ci- 
dade assim vagarosamente, como quem se trabalhava] 
de a esguardar com femcnça. R chegando a Lisboa, el- 
rei havia dias que estava em Cintra, e com cUe seual 
filhos, afora o conde de Barccllos que se tornara pêra 



Chronica d'El-Rei D. João I 85 



sua terra, porquanto era já casado e lhe mandara seu 
padre que se tornasse pêra sua casa. 



CAPITULO XVI 



Como o prior e capitão partiram pêra Lisboa e da 
embaixada que levavam e das cousas que fizeram 
em sua viagem. 

V^^EQUENA detença fizeram as galés, depois que 
1^ partiram de Ceuta, pêra chegar a Lisboa, cá o 
j vento foi mui prospero e as galés vinham mui 
^ bem apparelhadas, de guisa que lhe não fallecia 
nenhuma cousa pêra seguirem brevemente sua via- 
gem, e quiz Deus assim ordenar por que todo aquelle 
porto de Lisboa estava mui bem acompanhado de 
muitas naus c outros navios pequenos que vieram ahi 
descarregar suas mercadorias, com intenção de ir ao 
Algarve carregar figo, pêra levarem a suas terras, 
porquanto o tempo da carregação era já acerca, e as 
galés acertaram de trazer assim sua viagem ordena- 
da, que um domingo a horas da missa, appareccrara 
á bocca da foz de Lisboa, c como era dia em que os 
homens não eram occupados em nenhuns trabalhos, 
começaram de correr psra a ribeira, como conimum- 
mente tem por costume, quando algum grande navio 
entra por aquella foz. 

As galés com a descente da maré que era contra- 
ria, fi/eram tanta detença por aquelle rio, que as ^cv\.- 



86 Bihliothecd de Clássicos Portuguezcs 



tes tiveram espaço de comer e tornaram a olhar como 
se vinham chegando pêra a cidade, e certamente que 
era grande prazer assim dos que estavam na terra co- 
mo dos que vinham pelo mar, porquanto as galés vi- 
nham nobremente embandeiradas e toldadas, e cada 
uma trazia duas mui rcaes trombetas, cujo som ale- 
grava os corações d'aquellcs que as estavam olhando, 
e não era pequeno descanso aos das gales, vendo os 
ajuntamentos que a gente da cidade faz-ia pcra olharem 
sua chegada, cá todas aquellas torres e muros eram 
cheias d'homens e mulheres, que se chegaram pêra 
alli por esguardarem a doçura d'aquella vista, e os 
mercantes estrangeiros eram muito maravilhados 
com aquella novidade que \-iam, no corregimento das 
galés, o qual certamente era assim formoso e bom, 
que lhe fixziti representar mui grande estado ; certa- 
mente, disseram elles, este rei de Portugal, assim 
como é grande em todos seus feitos, assim faz gran- 
diosamente todas suas cousas. 

Os outros da cidade moviam entre si muitas porfias, 
sophismando cada um o fim d'aquella embaixada. 

Em esto, chegaram as galés d'avante da cidade, 
onde já estava a mór parte dos grandes c bons que 
ahi havia, pêra acompanharem aquclles embaxadores 
assim por seu merecimento, como pela honra da em- 
balada que traziam, e assim eram todos cegos no en- 
tender que não havia ahi nenhum que podesse magi- 
nar outra cousa, senão que toda a força d 'aquella 
embaxada fora somente pêra tratar aquclle casamento. 

O repouso que os embaxadon-s fi/eram na cidade, 
foi pequeno, cá logo no dia seguinte fizeram saber a 
el-rei novas de sua chegada, e entretanto concertaram 
suas bestas, de guisa que a quarta feira muito cedo, 
partiram pêra Cintra, onde os cl- rei mandou mui bem 



Chronica d'El-re{ D. João I 87 



receber e agazalhar, segundo mereciam taes pessoas, 
quanto mais por virem assim novamente com simi- 
Ihante embaxada de fora do reino, e por quanto todos 
os conselheiros outrosim tinham que aquelles embaxa- 
dores não foram a outra cousa enviados, somente por 
tratar aquelle casamento, teve el-rei maneira de os 
ouvir logo perante elles, onde cumpridameate disse- 
ram todos os aquecimentos de sua viagem, calando 
aquelle principal que se guardava pêra outro maior 
segredo, e porque ainda esta dissimulação podesse ser 
melhor tratada, quando el-rei ouviu determinadamente 
a vontade da rainha, fez semblante como que lhe 
desprazia d'aquelle feito não vir a fim, mas os outros 
dois lhe razoaram sobre os remédios que lhe pareciam 
que eram necessários pêra tornar outra vez a replicar 
no cometimento d'aquelle feito, el-rei não desprezando 
seus arrazoados, mostrou que era muito melhor leixar 
assim o feito quedo por algum espaço de temj30, mas 
não tardou muito que o prior e o capitão foram 
avisados da maneira que haviam de ter quando lhe 
fossem dar o verdadeiro recado d'aquella cousa por- 
que os elle enviara, tendo maneira como os infantes 
se chegassem aquelle tempo pêra a camará de seu 
padre, sob similhança d'alguma outra necessidade 
que cada um fingisse aos seus, por melhor encobri- 
mento d'acjuclle segredo. 

Juntos assim todos, primeiramente perguntou el-rei 
ao capitão pela resjjosta de seu encargo, a que elle 
sem outra solemnidade de palavras disse: 

— Senhor, eu não trago outra resposta, senão que 
tendes mui boa praia e mui boa ancoração, c que po- 
deis encaminhar vossos feitos e ir muito em boa hora, 
quando quizerdcs, c a citlade sem grande tardança com 
a graça de Deus serí em vosso poder posta. 



88 Bihliotheca de Clássicos Poriuguezes 



— Assim prazerá a Deus, disse el-rei, cmpero quero 
saber principalmente a ancoração com todas as outras 
cousas que \'0S encommendci. 

— Não mais, disse o capitão, senão que podeis ir 
como já disse, que todo tendes bom e á vossa von- 
tade, e ainda mais senhor, entendo que não somente 
cobrareis aquella cidade, mas ainda outros muitos le- 
gares que por seu azo virão a vosso poder ou de vos- 
sa geração. 

Isto, senhor, sei eu por um mara\-ilhoeo aconteci- 
mento que me aconteceu quando era moço, do qual 
sempre trouxe mui grande lembrança pelos niara\'i- 
Ihosos azos que sempre depois acerca d'ello vi seguir, 
c porque vem a propósito, não é mau de o saberdes 
pela guisa que me aconteceu, e foi assim que el-rci 
D. Pedro vosso pae, cuja alma Deus haja, mandou 
meu padre fora d'este reino com uma sua embaxada, 
e como quer que eu fosse meço de poucos dias, le- 
\'OU-me porém meu padre comsigo pêra vèr terras e 
aprender, e seguindo nós assim nossa viagem chegámos 
a um porto acerca d'um logar d'Africa, que chamam 
Ceuta, onde me eu trabalhei de vêr algumas d'aquellas 
cousas que me pareciam mais especiaes, e andando 
assim chcguei-me a unia fonte que alli estava, com 
um nobre chafariz, onde me cu acostei um peilaço, 
tomando desenfadamento em vêr a formosura dos 
cavallos que alli traziam a beber, os quaes eram muitos 
e bons, e estando assim, sobrechegou ahi um homem 
de comprida edade, cujos hábitos e barba era mani- 
festo signal de sua velhice; o qual chegando-se a 
mim começou-me d'olhar perguntando-me d'onde era, 
e eu lhe disse como era hespanhol. Não \'os pergunto 
disse elle, senão de que logar sois á Ilespanha ? eu 
lhe respondi como era natural da cidade de Lisboa. 



Chronica d'El-Rei D. João I 8.9 



— Essa cidade, disse o velho, em que reino é ? Eu 
lhe respondi como era do reino de Portugal. -^ 

— E qual é o rei que agora reina n'esse vosso reino ? 
disse o velho. 

— E' um mui bom rei, disse eu, que se chama D. Pe- 
dro, filho que foi do mui nobre rei D. Affonso, que 
foi na batalha do Saládo, o qual D. Pedro é um rei 
mui justiçoso e amador do seu povo. 

— Que hajaes prazer, disse o velho, dizei-me quan- 
tos filhos barões tem esse vosso rei.^ Eu lhe disse como 
tinha três, o primeiro havia nome D. Fernando, o 
segundo D. João, o terceiro D. Diniz. E não tem 
mais .■" disse o mouro, certamente não, disse eu, de que 
eu saiba parte. Elle começou-me de rogar que consi- 
rasse bem se tinha outro algum filho, e por vossa 
mui pequena edade, não me veiu á memoria vosso 
nascimento, porém como quer que me aquelle velho 
muitas vezes aficasse, rcquerendo-me sempre que es- 
guardasse bem se além d'aquelles três filhos tinha 
el-rei outro algum, o qual lhe eu sempre negava, e 
ainda muitas vezes conjunctamentc como quem lhe 
não vinha á memoria mais d'aquello que lhe sempre 
dizia, empcro a fim vcndo-me atficado d'elle, comecei 
de consirar com semença, até que me cahiu no enten- 
dimento a verdadeira lembrança de vossa nascença, 
cntonces lhe disse: 

— Amigo, é mui grande verdade que el-rei tem 
ainda um filho pequeno, que se chama D. João, mas 
eu não me lembrava d'elle, porque entre nós os filhos 
bastardos não são havidos em tamanha honra como os 
lídimos. Por isso vos perguntava» disso clle, c cm di- 
zendo esta palavra, deu um mui grande suspiro c 
abaixou o rosto chorando, da {[ual cousa cu fui muito 
espantado, c |)()r clle assim continuar cm seu choro c 



90 Bihliotheca de Clássicos Portugiiezes 



tristeza, roguei-lhe muito que me dissesse a causa 
que o assim movera a chorar, como quer que m'o por 
muitas vezes negasse, a conclusão afficado com meus 
requerimentos, me disse: 

— Amigo, o meu choro não é tanto como eu tenho 
rasão, nem entendeis que choro cousa nenhuma que 
seja presente, mas pelo conhecimento que tenho da 
perda que ha-de vir a meus naturaes e amigos, e 
porque a tua ventura te trouxe aqui, nota bem o que 
te agora disser, 

— Sabei que esse rei D. Pedro que vós agora tendes 
por vosso rei em esse reino, não ha muito de viver, 
por cuja morte reinará em seu logar o infante D. 
Fernando seu primeiro filho, o qual será casado com 
uma mulher, por cujo azo o reino depois da morte de 
seu marido ficará em grande revolta, e os outros dois 
filhos por engano de sua cunhada serão lançados em 
Castella, onde farão fim de seus dias. 

Finalmente esse filho jjequcno que tu vês despre- 
zado, em comparação de seus irmãos, será ainda n'essc 
reino, como uma pequena faisca de que se le\-anta 
mui grande fogueira, cá dias virão em que elle pri- 
meiramente vingará a deshonra de seu irmão, e depois 
por escolhimcnto do povo será alevantado por rei; o 
qual haverá grandes demandas com o reino de Cas- 
tella, de que sempre ficará vencedor, e elle será o 
primeiro rei de Hcspanha que terá posse em Africa, 
e será o primeiro começo da destruição dos mouros, 
e ainda elle ou os da sua geração, virão a este chafa- 
riz dar de beber a seus cavallos. 

— Ora vede, senhor, quem estas cousas assim ouviu 
e as viu passar por aquella própria ordenança, se cre- 
rá que a cidade de Ceuta é já posta em vosso poder, 
e porém torno a dizer o que já disse, que podeis ir 



Chronica d'El-Eei D. João I 91 



:om boa ventura, quando quizerdes, cá tendes todo 
í \-ossa vontade, assim a praia como as ancoraçôes. 

El-rei era homem que tinha em pouco similhantes 
iii/os, e porém começou de se rir, tendo em jogo as 
palavras de Affonso Furtado, dizendo-lhe que toda- 
. ia lhe dissesse a certidão do que lhe encommendára, 
[ue bem sabia elle que o não mandara fora d' estes 
ti nos, senão principalmente áquelle fim, crendo que 
ílle era tal pessoa, que saberia provar e conhecer não 
;ão somente similhante cousa, mas ainda outro muito 
maior feito, quando quer que fosse necessário, que 
porém passasse por aquellas palavras e dissesse se 
aquella ancoração era sobre pedra, ou sobre areia, 
Du sobre vaza, ou se por ventura era alli o mar tão 
ilto que os grandes navios podessem ancorar perto 
dos muros da cidade, ou se por ventura, por azo das 
marés ou correntes, seriam os navios em algum tra- 
balho na enchente ou vazante da maré. 

Todas estas razões prestaram pouco acerca do capi- 
tão, cá elle por nenhuma guisa quiz mais dizer do 
que tinha dito, entonce perguntou el-rei ao prior que 
lhe dissesse do assentamento da cidade, e as mais 
cousas que lhe encommendára. 



92 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO XVII 



Da resposta qne o prior deu a el-rei acerca do assen- 
tamento de Ceuta^ e mais cotisas qtie lhe enccvimen- 
dára. 

vI^iiNHOR, disse o prior, de cousa que visse nem 

lUy achasse, não vos hei de dar resposta, até que 

^/^"^ me façaes trazer quatro cousas, duas cargas 

d'arcia e um novello de fita e meio alqueire de fa\-as, 

e uma escudella. 

— Cuidaes, disse el-rei, que não temos aqui o capi- 
tão com suas prophccias? 

Entonce começou de se rir, e disse que lhe leixasse 
o jogo, e que lhe desse recado do que lhe pergun- 
tava. 

— Senhor, disse o prior, eu não tenho costume de ju- 
gatar com vossa mercê, mas ainda vos torno a dizer 
que sem as ditas cousas vos não direi nenhuma res- 
posta. 

Jíí el-rei começava de tomar algum queixume, pen- 
sando que os embaxadores não arrecadaram seu leito 
pela guisa que lhe elle mandííra. 

— Vede, disse elle contra seus filhos, que bem con- 
certadas duas respostas pêra homens de tal auctori- 
dade; estou-lhe perguntando pelas cousas que lhe 
mandei, e um me falia em astrolomia, outro me falia 
em similhança de feitiços, quem havia de cuidar que 
taes dois homens houvessem de trazer similhantc re- 
cado ? 



Chronica d'El-Rei D. João I 93 



Os infantes conhecendo quem era o prior, não po- 
diam crer que elle tornasse de sua viagem sem tra- 
zer certo recado, porém lhe disseram que se arrecadara 
como d'elle confiavam, que desse a resposta a el-rei 
seu padre. O prior estava-se rindo porque via que 
el-rei não conhecia sua tenção, porém disse que ainda 
que elle quizesse responder, que não saberia, sem lhe 
trazerem as ditas cousas, as quaes lhe foram trazidas 
pela guisa que as elle requeria, e tanto que as teve 
dentro em uma camará, metteu-se só n'ella e com a 
areia, começou a devisar sua embaixada por esta 
guisa: tomou aquella areia e fez logo o monte d'Al- 
mina, com toda a cidade, assim como jaz com suas 
alturas e valles e fundos d'ellas, e des-ahi a Aljazira 
com a serra de Ximeira, assim como jaz em sua parte 
e onde havia de fazer demonstração d'um muro, cer- 
cava com a fita, e onde havia de assignar casas, pu- 
nha aquellas favas, em tal guisa, que lhe não ficou 
nada por divisar, e depois que todo houve assim 
acabado, chamou el-rei e seus filhos e disse-lhe : 

Agora podeis vêr a similhança de meus feitos, é 
perguntar-mc por todo o que vossa mercê fôr, e eu 
podcr-vos-hei responder com experiência ante vossos 
olhos. 

Esguardou cl -rei mui bem toda aquella mostra, 
como estava, des-ahi o prior começou-lhe a devisar 
todo mostrando-lhe logo toda a largura do muro 
como estava da parte do mar, e quanto era acompa- 
nhado de torres e de que altura eram a maior parte 
d'cllas, e depois lhe mostrou o castcUo com todo seu 
assentamento, e quaes eram os logarcs por onde a ci- 
dade podia receber combate, com todas as mais 
cousas que a el-rei prouve de saber, c como quer que 
o iiliildKoplio diga que mais forte é o conhecimento 



94 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



da cousa conhecida por si mesmo, que por sua simi- 
Ihança, não reprovando seu dito, que seria escarneo 
pêra mim, certamente não falleccu nenhuma cousa 
ci'aquellas que eram na cidade pêra vêr e saber, que 
todas ahi não fossem mui bem declaradas e conheci- 
das, segundo cumpria, da qual cousa foi el-rei muito 
contente, louvando muito a boa discripção do prior 
e muito lhe pareceu aquella cidade asada pêra o que 
elle desejava, e depois d'algum pequeno razoado que 
sobre aquelles feitos houve, mandou el-rci que tiras- 
sem a areia e aquellas cousas que alli estavam, e por 
entonce não se fallou mais nada em cousa que áquelle 
caso pertencesse. 



CAPITULO XVIII 



Como el-rei disse a seus f lhos que duvidava muito co- 
meçar aquellc feito adites de primeiro o saber a 
rainha e o Condestabre. 



V^yisTO aquella mostra que o prior fez, el-rei con- 
^yC sirou sobre todo alguns poucos dias, e depois 
cjuc todo teve bem consirado, fallou com seus 
filhos em esta guisa : 

— Consirei acerca de nossos feitos começados, e acho 
que pêra se bem pederem executar, tenho dois mui 
grandes inimigos ou impedimentos. 

O primeiro c a rainha minha sobre todas muito 
amada e prezada mulher, a (jual por suas grandes 



Chronica d'El-Rei D. João I 9õ 



virtudes e bondades, é assim amada de todos geral- 
mente, que se ella em este feito não dá consentimentOT 
nenhum dos do povo, nem dos outros maiores, não 
porão mão em este feito, com nenhuma fiúza nem es- 
iorço; o segu.ndo impedimento é o Condestabre, o qual 
sabeis que por sua mui boa vida e pelos grandes e 
l)emaventurados agradecimentos que houve, tem as- 
sim as gentes do reino chegadas á sua amisade, que 
SC elle por ventura contradisser esse conselho, todos 

rão que não era feito direitamente, a qual cousa 
:ies faria menos esforço pêra nos ajudarem a ello 
([uando fosse requerido. 

Porém antes de nenhuma cousa é bem que vejamos 
[)orque maneira lhe faremos saber a determinação 
([Lie em ello havemos, porque ao depois por seu des- 
prazimento não recebamos algum pejo. 

Os infantes foram algum tanto descontentes no 
movimento d'aquelle feito, pensando que em ambas 
aquellas pessoas teriam mui grandes contrários, e esto 
consiraram por esta guisa. 

Primeiramente que a rainha era mulher, a qual 
segundo sua natureza não lhe poderia desejar ne- 
nhuma cousa perigosa, e quanto era a parte do Con- 
destabre, consiraram como era homem velho c que 
toda sua mancebia despendera em tantos trabalhos, 
dos quaes pela graça de Deus havia dias que tinha 
repouso com grande c proveitoso galardão de seus 
merecimentos, a qual cousa porventura seria azo de o 
pocr em duvida, na esperança da victoria ([ue lhe 
d'aqucllc feito poderia vir. 

Kmpero assim como homens cm que morava uma 
formosa e maravilhosa fortaleza, não íjuizeram mos- 
trar que aqueiles eram os maiores impedimentos ijue 
n'a(iuelle (eito podiam ha\'er, e consirando em ello, o 



96 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



disseram a el-rei, que similhantes cousas não eram 
pêra ter em grande estima, porque o disseram clles, 
tanto que a rainha nossa senhora e madre, fòr con- 
tente, .Iccrca de nosso movimento, o Condestabre não 
é liomcm que contradiga nenhuma cousa que vós or- 
denardes por serviço de Deus e por accrescentamento 
de vossa honra e estado. Porém quanto á rainha nós 
iremos a ella e lhe fallaremos por tal guisa que ella 
mesmo seja a que vos peça que nos outhorgueis o 
proseguimento d'este feito. 

A el-rei pareceu bom conselho o que tinham seus 
filhos, e disse que se trabalhassem de o poer cm fim, 
por quanto sentia que estes dois impedimentos tira- 
dos não tinha outra duvida pêra que leixasse de pro- 
seguir sua demanda. 

Os infantes se foram logo á rainha e apartaram-n'a 
em seu estrado, dizendo por esta guisa : 

Pratica dos ini^antes Á rainha 

Senhora, bem sabe vossa mercê a alteza do sangue 
d'onde por graça de Deus viemos a este estado cm 
que^de presente somos, a qual cousa nos acarreta con- 
tinuadamente mui grandes cuidados, porque possamos 
conseguir a virtude d'aquelles principes, de cuja li- 
nhagem a Deus prouve de nos trazer a este mundo, e 
sobre todo consirando a edade em que somos, e como 
poderemos mais honradamente receber estado de ca- 
valiaria, em algum logar onde se movessem alguns 
grandes feitos d'armas, ou trabalhos perigosos, onde 
nossa virtude podesse ser demonstrada ante a vista 
de todos, pois que os cavalleiros principalmente fo- 
ram ordenados porcjue entre os outros homens tenham 
vantagem nos feitos das armas, quanto mais aquelles 



Chronica d'El-Rei D. João I 97 



a quem Deus quiz dar nobreza de geração nos loga- 
res onde se provam as forças e se experimentam os^ 
corações, devem mais honrosamente receber a ordem 
d'aquelle estado, e por quanto el-rei nosso senhor e 
padre desejando nossa honra e accrescentamento, 
como de seus filhos, quizera fazer grandes festas e 
convites pêra honrar nossa cavallaria, da qual cousa 
nós por nenhum modo podiamos ser contentes, con- 
sirando o que dito é, e estando em esta duvida, quiz 
Deus que sobrechegou ahi João AíTonso, vedor da 
fazenda, e fallou-nos em uma cidade que é em Africa 
(jue chamam Ceuta, mostrando-nos como era mui 
azada pêra ser filhada, a qual cousa nós falíamos a 
el-rei nosso senhor e padre, o qual enviou lá o prior 
c o capitão, por devisarem o assentamento da cidade^ 
se porventura seria tal como João AíTonso dizia. 

Ora são já chegados de lá e segundo o recado que 
trouxeram, a cidade é mui azada pêra se filhar, ha- 
\'< ndo bom aviamento pêra ello, e porquanto, senhora, 
'is temos mui grande vontade de se este feito poer 
111 fim, e sentimos que el-rei senão quer despoer 
;i (lio assim despachadamente, como nós queríamos, 
])cdimos-vcs por mercê que primeiramente vos pra- 
za consentirdes em ello, porque sentimos certamen- 
te, que o principal impedimento que el-rci ha-de 
ttr, é a duvida cm que estará, não sabendo se \'os 
jirazerá d'ello ou não, por quanto cuidará que por o 
amor que vos nos tendes, segundo a condição das 
I utras mulheres, que não vos prazerá que cometamos 
1 Dusa de que nossas vidas fiquem em perigo, c des-ahi 
'|iie lhe peçacs da vossa parte seja sua mercê do en- 
nninhar como isto seja posto cm fim. 
'liem é verdade, respontlcu a rainha, que cu \'OS te- 
nho assim acjuelle amor que c[uaK|ucr matlre por 

V<ji.. I 4 



98 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



obrigação natural deve ter a seus filhos, e ainda 
muito maior, por duas cousas. 

A primeira pelo grande amor que tenho a cl-ri 
vosso padre, assim pelas grandes virtudes que em el 
ha, como por ser meu senhor e marido, e sentir qr. 
me tem tão grande amor, como homem do munci 
que o mór tenha a sua mulher, e a segunda por vi^ 
Deus fazer taes, de que eu espero que não nascera 
outra cousa, salvo aquella que requer o estado que 
tendes, e grande linhagem de que descendeis, empero 
quanto pêra similhantes feitos eu nunca vos poderia 
privar vossas boas vontades, antes vos ajudarei a ci- 
las com todas minhas forças e poder, e certamente 
que eu não poderá hoje ouvir novas com que me 
mais provera, cá por similhante requerimento me fa- 
zeis entender que taes vontades tereis ao dcante pcra 
obrardes aquellas cousas que sempre obraram e obram 
aquelles reis e principes da lingahem de que descen- 
deis. 

Porém a mim me praz muito de poer logo mão 
em este feito, por tal guisa, que com a graça de Deus 
vossas boas vontades hajam efíeito, segundo desejaes 
e quereis. 



Chronica d'El-Rei D. João I 99 



CAPITULO XIX 



Como a rainha f aliou a el-rei no requerimento de seus 
filhos^ e da resposta que lhe el-rei acerca (Tello deu. 

J'lI ão quiz a rainha poer aquella cousa em tama- 
\ \. nha tardança, porque lhe parecia que mingua- 
^ va na boa vontade que mostrava a seus filhos, 

e fez logo, saber a el-rei como lhe era necessário fal- 
lar-lhe, porém que fosse sua mercê servido de lhe fa- 
zer saber a disposição em que estava, mas el-rei 
usando de sua nobre cortezia, não quiz consentir que 
se ella mettesse em tal trabalho, e disse ao mensagei- 
ro que lhe dissesse que elle iria onde ella estava, co- 
mo de feito logo foi. 

Pratica da rainha a el-rei 

«Senhor, disse a rainha, eu vos quero requerer 
uma cousa, que é muito contraria pêra requerer ma- 
dre pcra filhos, porque commummcnte as madres re- 
querem aos padres, que arredem seus filhos dos tra- 
balhos perigosos, tendo sempre grande arreceio de 
qucasqucr damnos que lhe podem acontecer. 

Eu tenho tenção de vos requerer que os arredeis 
dos jogos c das folganças e os mctacs nos tral")alhos 
e perigos, e isto senhor é por esta guisa: vossos filhos 
e meus vieram hoje a mim e me contaram todo o 
feito que tinhcis passado acerca da cidade de Ceuta, 



100 Dihlioiheca de Clássicos Portugwezes 



sobre que vos fallou João AíTonso, vosso vedor da 
fazenda, dizendo-me como sentiam que vos não des- 
punheis a encaminhar seu filhamento como elles de- 
sejavam, porém que me pediam que me prouvesse 
de vos fallar em ello c vol-o requer da sua parte e 
da minha. 

Eu, senhor, csguardando como elles vem de linha- 
gem de imperadores e reis, e de outros mui notáveis 
e grandes príncipes, cujo grande nome e boa fama é 
hoje por todas as partes do mundo nomeada, não 
queria por nenhuma guisa, pois lhe Deus por sua 
mercê quiz dar a disposição dos corpos e do enten- 
der, que elles por seus trabalhos fallecessem de conse- 
guir os feitos d'aquelles que disse, e portanto eu accei- 
tei seu encargo e me prougue muito de seu requeri- 
mento, havendo seu desejo por bom pêra começo de 
sua nova edade, pelo qual vos peço por mercê que 
queiracs encaminhar como elles possam exercitar suas 
forças c provar suas virtudes segundo devem, pcra 
a qual cousa parece que tendes mui bom azo queren- 
do-vos aviar que se ponha em obra aquillo cjue já 
tendes fallado, e além da parte que a vós ácêrca' 
d'ello acontece, eu da minha vol-o terei em mercê. f' 

«Senhora, respondeu el-rei, tal requerimento me fa- 
zeis vós de que eu recebo mui grande empacho, e esto 
é por me requererdes primeiramente o que vos cu 
houvera de requerar a vós, metendo a mim em pra- 
zimcnto o que cu por ventura duvid.ira muito de 
vós quererdes outhorgar sem constrangimento de ro- 
gos. 

Porém, dou muitas graças a Deus, porque vos 
trouxe a tempo de me tal cousa requererdes, da qual 
eu sou muito ledo e me praz de o pocr em obra se- 
gundo me requereis, o que com graça de Deus espero 



Chronica d'El-re{ D. João I 101 



que venha a proveitoso fim, e por quanto, senhora, me 
vós tendes feito este requerimento, prazer-vos-ha 
que eu vos faça outro não mui longe d'este propósito, 
que vos praza de eu ser onde vossos filhos forem, 
assim participador de seus conselhos e companheiro 
de seus perigos. 

Bem foi a rainha leda d'ouvir as razões que se até 
alli passaram, mas quanto a aquelle ponto bem mos- 
trou que lhe não prazia de o ouvir, e disse: 

«Senhor, a mim será muito grave de poder com meu 
coração que outhorgasse cousa similhante, cá por 
aquella guisa que a mim pareceu razoado o reque- 
rimento que vos primeiro fiz, por essa me parece, 
quanto a meu juizo, o vosso fora de razão, porquanto 
aquello que meus filhos requerem, é pêra ganharem 
honra, que vós já tendes ganhada, a qual elles ainda 
não tem senão por razão de vós e d'aquelles reis e 
senhores d'onde descendem, e porém lhe é necessário 
de a buscarem agora sometendo seus corpos a gran- 
des trabalhos e perigos, não receando sua morte, se 
por algum caso acontecer por chegarem a aquello que 
seus avós percalçaram, cá por certo não lhes ficará pe- 
queno encargo depois de vossos dias, de conseguirem 
vossas virtudes c parte de vossa honra. \\ pois que 
a Deus graças, por muitas partes do mundo c notório 
como vós por vossos grandes merecimentos e traba- 
lhosos encargos, cobraste tanta honra, que não tão 
somente ao mais poderoso rei do mundo poderia 
abastar, mas ainda três ou quatro seriam d*cllo con- 
tentes, assim, senhor, me parece vossa ida escusada, 
se vossa njcrcè fòr, cá sobre todo deveis de consirar 
na edade em que sois, a qual creio que é pouco menos 
de cincoenta e dois ou cincocnta e trcs annos, e como 
toda vossa mancebia despendentes cm trabalhos por 



102 Bíbliotheca de Clássicos Portuguezes 



defensão e' acrescentamento de vossos reinos, a qual 
cousa prouve a Deus de vos poer em termo e fim 
bemaventurado. K pois a Ellc prouve de assim ser, 
mais honesto e mais rasoado é que os annos que vos 
derradeiramente ficam pêra viver despendaes em cor- 
regimento de vossos reinos e emenda de vossos pe- 
cados, porque assim como a Deus prouve de vos 
honrar o corpo em este mundo, que assim vos honre 
a alma no outro, antes que moverdes agora no\"as 
pelejas, das quaes se pode seguir por \-entura que 
ainda que depois queiraes assocegar, o não possaes 
fazer, porque os feitos se aquecem muitas vezes por 
tal guisa que com umas guerras se começam outras, 
e são similhantes ao fogo que os lavradores põem aos 
matos, os quaes pensando queimar uma pequena mouta 
queimam suas sementeiras. E deveis ainda consirar 
como todas as honras d'este mundo caem ao ponto 
d'unia só hora, e por uma mui pequena dcsaventura 
perdem os homens mui grande parte de suas honras 
passadas, porque toda a boa andança dos homens 
commummente se julga pela fim : cá em nenhuma 
d'aqucllas cousas que os homens esperam n'este 
mundo, não responde menos a sorte c a fortuna que 
os feitos das pelejas. 

I^orém de nossos filhos irem e cometerem qualquer 
cousa que lhe vós ordenardes, a mim me parece que 
é bem, e que vós fiqueis em vosso reino, e aquecendo, 
o que Deus não queira, que seus feitos não succcdam 
segundo sua vontade e nossa, melhor é que vós te- 
nhaes com que os vingar ao depois, que a contraria 
fortuna abranger assim a vós, como a todas as grandes 
pessoas do reino, cá necessário será se vós fordes, 
que não fique nenhuma pessoa no reino notável sem 
vosso grande constrangimento. \í assim, senhor, que 



Chronica d'El-Eei D. João I 103 



minha tenção é ser melhor ficardes, que por nenhu- 
ma cobiça de honra vos moverdes de partir de vosso 
reino. 

«Todas vossas razões, senhora, disse el-rei, são pêra 

insirar quanto pertence a aquelle que se movesse 
j)or caso d'honra, o que certamente não é em mim, 
súmente me lembra como sugei meus braços em san- 
iie dos christãos, o qual posto que justamente fizesse, 
o.inda me parece dentro em minha consciência que 
não posso d'ello fazer cumprida pendença, salvo se 
os mui bem lavasse no sangue dos infiéis, cá determi- 
nado é na santa escriptura, que a perfeita satisfação 
do pecado, é cada um por onde peca, por alli haver 
a pendença. 

Pois que pendença posso eu fazer, de quantos 
homens por mim e por meu azo foram mortos, senão 
matar outros tantos infiéis ou muitos mais se poder 
por serviço de Deus e exalçamento da santa fé catho- 
lica .'' cá posto que eu quizesse fazer similhante emen- 
da por orações ou esmolas, não me parece que have- 
ria perfeita satisfação, pois a pendença é desegual do 
erro, cá o officio de rezar principalmente é dos cléri- 
gos e frades e outras pessoas religiosas, e a esmola 
que áquclles quizesse fazer, são dinheiros de minhas 
rendas, dos quaes cu não posso sentir mingua, pois 
de outra qualquer parte meu estado ha-dc ser gover- 
nado, c ainda me parece que seguindo este feito per- 
faço todas estas cousas, porque assaz de esmola será 
buscar dinheiros c mantimentos pêra governar tantas 
gentes, como eu com a graça de Deus espero de 
levar a esta santa romaria. 

Pois quanto ás orações parecc-me que assa/ será 
Deus servido de similhante modo quando por sua 
graça aqucUas casas em que se agora serve e adora 



104 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



o nome de Mafamede, cuja alma por seus justos me- 
recimentos é sepultada nas funduras do inferno, forem 
acompanhadas de clérigos c religiosos, que de noite 
e de dia se sirva e adore o seu santo nome.» 

«Quanto senhor, disse a rainha, ao serviço do Senhor 
Deus, eu não fallo nenhuma cousa, antes me praz e 
lhe dou muitas graças por vos poer em tal propósito, -^ 
cá não poderei torvar nem ser contraria a nenhuma ( 
cousa que a seu serviço toque, e Elle que é sabedor | 
de todas as cousas, sabe certamente que em minha | 
vontade não está o contrario.» \ 



CAPITULO XX 



Covio el-rei pelo presente não quiz declarar á rainha 
que elle havia ííir em aqnelle feito, e como logo 
viandou encaminhar as cousas que pertenciam pcrd' 
a frota. 



.UEM poderia ouvir aqucllas palavras, que entre 
aquelles senhores passavam, que não houvossi- 
extremada folgança ? por certo bem disse Sa- 
lomão cm seus provérbios que a maior parte da hcm- 
aventurança d'esta vida, pêra ter qualquer homem, 
está em ter boa mulher, nem cl-rei foi pouco led»' 
d'ouvir assim aquellas palavras á rainha, das quac^ 
em sua vontade foi muito contente, cmpero não tiui. 
determinar sua ida, consirando que se a rainha deter- 
minadamente soubesse que elle havia d'ir, que se lhe 




Chronica d'El-Rei D. João I 105 



recresceria mór trabalho de espirito, da qual cousa 
se lhe poderia seguir algum damno pela fraqueza de 
sua compreição, mas a ida de seus filhos ficou logo 
posta em determinação, e logo el-rei começou de en- 
caminhar avivadamente o corregimento que pertencia 
pêra sua ida, e a primeira cousa que logo mandou 
fazer foi provimento de suas tercenas, pêra saber parte 
dos navios que tinha, e como eram repairados; man- 
dou logo trigosamente cortar madeira pêra refazi- 
mento d'algumas galés e fustas que lhe falleciam, pêra 
comprimento do numero que elle entendia de levar, 
a saber, quinze galés e quinze fustas, e assim mandou 
!(igo apparelhar carpinteiros e calafates que obrassem 
nos ditos navios, e des-ahi guarnecimento pêra elles 
' om todas as outras cousas que lhe pertenciam. 
Mandou mais el-rei apanhar quanto cobre e prata 
, SC pôde achar no reino, e assim mandou trazer outro 
I de fora, fazendo seu trato com os mercadores, pelo 
( melhor modo que elle pode, em tal guisa que em 
I mui breve tempo teve d'elle mui grande abastança, e 
' |oão AíTonso, vedor da fazenda, proveu logo todas 
s rendas da cidade e fallou com Ruy Pires do Lan- 
iroal, que era thezoureiro da moeda, não lhe dccla- 
i icindo porém o segredo, por tal guisa cjue lhe man- 
I dou ([ue fizesse apparelhar as fornalhas todas da 
j moeda, as quaes logo foram prestes, e despachada- 
i mente começaram de lavrar, e tanta trigança se pu- 
nha n'aquelle lavramento, que tirando alguns dias de 
n^ui grandes festas, todos os outros continuadamente 
de dia e de noite lavravam. 

Mice Carlos, o almirante, foi logo avisado por man- 
dado d'el-rei ([uc prouvesse todos os mareantes, cada 
um em seu cstacUi, de guisa que despachadamente 
podesse fazer dVlIes o cjue lhe el-rei mandasse. 



106 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Gonçalo Lourenço de Gomidc, que era escri\ão da 
puridade, mandou logo fazer cartas em nome d'cl-rei 
pcra o escrivão dos maravedis, c assim pêra todos os 
coudeis e anadeis dos besteiros do reino, que fizessem 
logo seus alardos c lhe enviassem os cadernos d'clles, 
onde quer que elle esti\csse, nos quaes declarada- 
mente fossem cscriptas as edades das pessoas e cor- 
regimentos que tinham pcra serviço d'el-rei. 

Mas quem poderia escrever a multidão das senten- 
ças que se davam sobre aqucstc feito, cá o rumor do 
povo era mui grande vendo o abala mento d'estas 
cousas, e posto que cada um cm sua parte se traba- 
lhasse de esquadrinhar aqueste segredo, não havia 
ahi algum que certamente soubesse determinar o logar 
pêra onde aquelle corregimento era, e as sentenças 
que se davam acerca d'cllo leixamos pêra outro capi- 
tulo, porquanto aqucllas cousas não se faziam ainda 
tão trigosamente, como se ao deante fizeram, c deveis 
de saber que a diligencia que el-rei mandou poer na 
moeda c rendas, foi por não lançar pedidos, a qual 
cousa fez a dois fins. 

A primeira porquanto aquelle feito principalmente 
era movido por serviço de Deus, e não queria el-rei 
que pessoa alguma de seu reino tivesse azo de receber 
algum escândalo. A segunda era porque se houvera 
de lançar pedidos, fora necessário de fazer ajunta- 
mento de cortes, nas quaes de necessidade se hou- 
veram de declarar algumas congeituras, ou partes do 
feito, por tal guisa que se poderia entender a ver- 
dadeira determinação que el-rei sobre esto tinha. 

Em este corregimento e cousas que el-rei assim 
mandou fazer, se pozeram bem dezoito mezcs, no qual 
espaço os infantes fallaram a seu padre, pcdindo-lhe 
por mercê que quizcsse poer maior trigança n'aquellc 



Chronica d'El-Rei D. João I 107 



feito, cá posto que el-rei muito trabalhasse, a elles 
não parecia tanto que nas cousas que homem muito 
deseja, quando está em esperança de as cobrar, nunca 
o espaço pode ser tão pequeno, que lhe não pareça 
grande, e além d'esto uma das propriedades dos ho- 
mens mancebos, segundo declara frei Gil de Roma, 
por authoridade do philosopho, na terceira parte do 
segundo livro do Regimento dos Principes, e Paulo 
Virguerio na Ensinança dos Moços Fidalgos, é serem 
trigosos e arrebatados em seus feitos, e esto por razão 
do esquentamento do sangue, que em elles natural- 
mente é n'aquella edade, e tanto lhes parecia aos in- 
fantes que esta cousa se fazia de vagar, que disseram 
a seu padre que pensavam que elle queria cessar do 
propósito que com elles determinara. 

«Bem sabeis, disse el-rei, como antes que faltássemos 
á rainha, vos disse que não podia em este feito fazer 
nenhuma cousa que a primeiramente ella e o Condes- 
table não soubessem, e pois da rainha houvemos seu 
prazimento, convém que fallemos ao Condestable, por 
cuja razão não posso mais trigosamente despachar 
meus feitos pêra aviar o que me é necessário. 

Os infantes disseram que era mui bem que sua 
mercê encaminhasse como se logo poze?se em obra 
de fallar ao conde, porque ao deante tivesse certa 
determinação do que haviam de fazer. 



108 Bíbliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO XXI 



Como el-rei e os infantis determinaram a maneira 
porqne se havia de f aliar ao Condestable n^aquelle 
feito, e como lhe foi f ai lado e por que guisa. 

EL-REi c os infantes eram áquelle tempo em San- 
tarém, quando estas cousas entre elles foram 
falladas, onde determinaram que este feito não 
fosse fallado ao Condestable por cscripto nem mensa- 
geiro, mas el-rci lh'o dissesse pessoalmente, e que 
pêra isto se fazer mais fora de suspeita, que o infante 
D. Duarte e o infante D. Henrique partissem logo 
caminho de Riba d'Odeana levando comsigo mon- 
teiros e caçadores que andassem assim despendendo 
dois ou três mezes cm seus descnfadamentos, até que 
el-rei e o infante D. Pedro passassem o Tejo, e se 
fossem chegando contra algum logar que fosse mais 
acerca d'onde quer que o Condestable entonce esti- 
vesse. 

O infante D. Duarte avisou logo seus officiacs que 
se fizessem prestes pêra continuarem seu caminho, e 
escreveu a Martim Affonso de Mello, porque era um 
fidalgo grande caçador e montciro, fazendo-lhe a sa- 
ber como elle e o infante I^. Henrique seu irmão iam 
a folgar contra aquclla parte, porem que lhe rogava 
que elle estivesse prestes com suas a\'es e cães, e isso 
mesmo avizasse a quacsquer pessoas que sentissem 
que tinham disposição para ello. 

E logo os infantes partiram sem toda a sua gente 



Chronica d'El-Rei D. João I 109 



entender o tal segredo, somente no monte e caça, e 
entretanto el-rei esteve em Santarém até que lhe pa- 
receu que era tempo de partir, e tanto que se passa- 
ram dois mezes, logo na segunda semana do terceiro 
mez el-rei fez encaminhar sua partida, e por sua ten- 
ção ser melhor dessimulada, disse um dia contra o 
infante D. Pedro, de maneira que todos ouvissem. 

«Já agora v'ossos irmãos cuidaram que não ha mais 
na caça nem no monte, que quanto elles sabem, em- 
pero meu filho, ainda eu quero vêr se lhe posso le- 
var avantagem, porque vós outros mancebos, pensaes 
que nós, os velhos, não sabemos as cousas tão per- 
feitamente como vós, mas prazendo a Deus nos par- 
tiremos d'aqui e iremos vêr estes montes, onde eu 
achei muitas vezes mui grandes porcos, e se a Deus 
prouver de nos deparar cousa em que nos desenfade- 
mos, porém podemos vêr quando nos ajuntarmos 
quaes foram melhores monteiros. 

Aquelles senhores e fidalgos que eram com el-rei, 
começaram muito de departir n'aquella montaria, de 
guisa que todo entendimento da corte, não era por 
entonce em outra cousa senão em corregimento per- 
tencente pêra aquelle caminho. 

Partiu-se el-rei logo d'aquclla \-illa de Santarém, e 
o infante D. Pedro com ellc, c correram logo aquella 
ribeira de Mugem, e dcs-ahi foram-se á ribeira de Sôr, 
que é acerca de ('oruche, e repousaram alli algum 
pouco, por quanto o Condestable a aquelle tempo es- 
tava em Arrayolos, e encaminharam sua ida contra 
Montemor, e esto mui de vagar, e antes que partisse 
d'aquclla ribeira de Sôr, disse el-rci contra o infante: 

«Certamente eu acho já agora minha casa desfeita 
de bons cães, especialmente de alões, cá me parece 
que estes que trago, ou é porque os mais d'cllcs não 



110 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 

foram ainda encarniçados, ou porque por ventura não 
são bons de sua natureza, ou porque não tem conhe- 
cimento das matas d'esta terra, como tem das outras 
da Extremadura, onde foram criados. 

«Pois, disseram alguns dos que alli estavam, se- 
nhor, seria bom mandardes de vossa parte saber a 
casa d'alguns fidalgos desta comarca, se tem alguns 
cães que vol-os enviem, especialmente pêra aquella 
ribeira de Laver, em que sempre sois de achar gran- 
des porcos e bons. 

«Não parece que aproveitara, disse cl-rci, por quanto 
o mestre d'Aviz que é um homem que sempre tem 
muitos e bons, sei que será já com meus filhos, ou 
lhe enviariam pedir os melhores cães que tivesse, cá 
assim fizeram a Martim Affonso de Mello, mas enten- 
do, disse elle, que o Condestable terá algum bom, 
que nos possa enviar. 

— Se vossa mercê fôr, disse o infante, escrever-lhe- 
hei eu, porquanto me vem mais a gcito que a vossa 
mercê, por eu ser alongado de minhas terras, e vir á 
corte desapercebido de similhantes desenfadamentos. 

El-rei disse que era mui bem consirado, e todos os *! 
outros assim disseram, como se commummente faz ante 
os senhores que qualquer cousa que dizem em louvor 
ou doesto, todos conseguem seu propósito, e tanto se 
poz esto em uzança em nossos dias, que alguns fun- 
dando sobre ello interesse, filhavam similhantc geito 
por officio, mas o que dcllo se seguiu fallaremos ao 
diante, depois do acabamento d'estas cousas, passan- 
do primeiro pelos feitos do reinado d'el-rei D. João 
cD. Duarte, porquanto em seus dias nenhum d'aques- 
tes achámos que ante sua presença houvesse avan- 
tajado favor. 

Ora tornando a nosso propósito, o escrivão foi 



Chronica d'El-Rei D. João I 111 



logo chamado, ao qual foi logo mandado que fizesse 
uma carta em nome do infante D. Pedro, pêra o Con- 
destable, na qual depois de suas encommendas lhe fa-" 
zia saber como el-rei seu padre e elle eram partidos 
de Santarém com intenção de se desenfadarem por 
aquelles montes, e que porquanto elle viera de suas 
terras á corte aforrado mais com intenção de desem- 
bargar seus feitos, que d'andar a monte, que lhe 
rogava que se tivesse um bom alão de filhar, que 
lh'o enviasse, porquanto os que seu padre trazia não 
eram taes que entre elles houvesse algum especial. 

Esta carta foi logo feita e assignada, e o moço da 
estribeira prestes pêra a levar, mas foi necessário le- 
varem-na ainda á camará do infante pêra lhe elle 
poer o sinete, e esto era porque além d'aquelles sel- 
los que o seu escrivão trazia, costumava elle sempre 
trazer um com que sellava algumas cartas especiaes, 
que a ello prazia, e ao tempo que lhe houve de poer 
aquelle sinete, teve tal modo, que fez um escripto por 
sua mão mui secretamente, no qual fazia saber ao Con- 
destable como el-rei seu padre era necessário fallar 
com elle algumas cousas sustanciaes e de grande se- 
gredo, porém que lhe encommendava que dissimu- 
lasse por alguma boa maneira, como bem podcsse 
chegar a Montemor, onde el-rei seu padre logo ha- 
via de ser, a qual carta assim enviada, vendo o Con- 
destable a alma que em cUo vinha, como sagcs e dis- 
creto, calou mui bem aquelle segredo, fazendo ao 
moço algumas perguntas mui alongadas d'aquelle 
propósito, s. pela saúde d'el-rei e de seu filho, e dcs- 
ahi dos dcsenfadamcntos ([uc trazia cm suas montarias. 

«Sei, disse elle, que el-rei meu senhor houve novas 
da boa csquença de seus filhos, que cá traz em seus 
montes, e (juiz vir tomar sua parte, por lhe ellos não 



112 Bíbliotheca de Clássicos Portuguezes 



levarem avantagem, mas muito me peza porque não 
tenho agora taes cães com que lhe possa fazer servi- 
ço, empero entre estes que tenho, será buscado o 
melhor pêra serviço do senhor infante D. Pedro, que 
m'o envia pedir ; des-ahi fez logo fazer a resposta 
assim de praça, como o infante fez a que lhe enviou, 
dizendo que de seus desenfadamentos lhe prazia muito, 
mas que lhe pezava por não ter cousa especial, como 
elle desejava, pêra lhe fazer serviço, empero que dos 
alões que havia em sua casa, lhe enviava o melhor, e 
que lhe pedia por mercê que qualquer outra cousa 
em que clle entendesse que o poderia servir, não o 
houvesse d'ello por escusado. 

El-rei fazendo assim sua viagem, chegou a Monte- 
mor, e tanto que o Condcstable soube que elle alli es- 
tava, disse contra os seus : 

«Pois el-rci meu senhor alli é tão perto, que não são 
mais de três léguas, ainda que grandes sejam, desme- 
sura será não ir eu fallar-lhe, havendo tanto tempo 
que o não vi ; porém encaminhou logo sua partida e 
foi fallar a cl-rei, e tanto que chegou lhe foi fallado 
todo o feito passado, dizendo-lhe el-rei, que posto 
que algumas cousas tivesse começado d'ordenar, que 
não era porém com determinação de o feito se poer 
em execução, até ser fallado com elle, porém lhe ro- 
gava cjuc lhe dissesse o que lhe d'aquelle feito pare- 
cia. 

— O que a mim parece, respondeu o Condcstable, é 
que este feito não foi achado por vós nem por outra 
nenhuma pessoa d'este mundo, somente que foi reve- 
lado por Deus, querendo-vos abrir azo e caminho 
pêra que lhe fizésseis este tão especial serviço, pêra 
que vossa alma ante Elle possa receber grande mere- 
cimento, pois que a E)llc praz de o servirdes n'este 



Chrordca d'El-Rei D. João I 113 



feito, não ha mais que esquadrinhar, cá assim como a 
Elle prouve de o trazer ante os olhos do vosso enten- 
dimento, assim lhe prazerá por sua mercê de o trazei^ 
a proveitoso fim, e vós por mercê não leixeis d'obrar 
em ello, de guisa que por vossa mingua não falleça 
nenhuma cousa do que pêra similhante feito pertence. 
Em esto chegaram os infantes D. Duarte e D. Hen- 
rique, d'onde andavam em seus desenfadamentos, e 
sem outra mostrança de conselhos nem de falia certa, 
sentiram a vontade do Condestable, e brevemente se 
partiram cada um pêra sua parte, el-rei e infante D. 
Pedro pêra Santarém e os infantes D. Duarte e D. 
Henrique pêra Évora, e o Condestable pêra Ar- 
rayolos. 



CAPITULO XXII 



Como el-rei começou de ordenar mais trigosamente 
sua ida, e como se os infantes tornaram d Évora, e 
como se os infantes D. Pedro e D. Henrique parti- 
ram pêra suas terras, e cousas que lá fizeram. 



ESPAÇO que os infantes estiveram em Évora, 
foi pouco, que tanto que souberam que seu 
padre era em Santaram, logo partiram d'a- 
quella cidade e foram pcra cllc, onde seu ajuntamento 
não (lurou muito porcjue o infante D. Pedro c o in- 
fante \). Ilenricjue se foram logo pêra suas terras. 
El-rei c o infante D. Duarte, ficaram alli dando 




114 BihUoiheca de Clássicos Portuguezes 



aviamento mais trigoso ás cousas começadas, do que 
se até hi dera. 

O infante D. Pedro e o infante D. Henrique, ti\e- 
ram tal maneira em seu caminho, que se o descnfa- 
damento de Riba d'Odeana foi grande, aquelle não 
foi menos, cá tanto que chegaram a Coimbra logo i> 
infante D, Pedro fez buscar quantos desenfadamentos 
se poderam achar pêra folgança de seu irmão e sua, c 
com esto grande abastança de viandas, de que sempr^ 
foram governados emquanto estiveram pelas terras 
do infante D. Pedro. 

Por similhante fez o infante D. Henrique, tanto 
que entraram na comarca da Beira, onde elle tinha 
seu senhorio. 

Mais fez ainda o infante D. Henrique por acres- 
centar seus desenfadamentos, cá ordenou como se 
fizessem umas nobres festas em Vizeu, pêra as quaes 
mandou convidar o conde de Barcellos seu irmão, 
com todos os senhores bispos, fidalgos e outros bons 
homens que havia em aquella comarca, aos quaes 
fez saber como aquellas festas se haviam de começar 
em véspera de Natal e haviam de durar até dia dos 
Reis, porém que lhe prouvesse de terem tal maneira 
em sua vinda, que aquelle tempo fossem alli ou antes, 
se o fazer podesscm, por a;^o de suas apozentadorias 
serem melhor aviadas, e pêra esto mandou o infante 
a Lisboa e ao Porto por pannos de sirgo e de lã, e 
brosladores e alfayates pêra fazerem suas librés e 
momos, segundo pêra sua festa realmente pertencia, 
e dcs-ahi foram buscadas viandas por todas as partes 
mais abastadamente do que se poderam achar. 

l^oram ali trazidas muitas cargas de cera, que se 
despenderam em muitas tochas, assim de servir como 
de danças, brandões e vellas e outros, em tamanho 



Chronica â/El-Rei D. João I llõ 



numero que quasi seria impossível de se poderem 
contar. 

Alli foram outrosim de todas as viandas de assu- 
car e conservas que se poderam achar no reino, ern 
mui grande abastança, e assim de todas maneiras de 
espécies e outras fruitas verdes e secas, que compra- 
ram pêra a festa ser bem abastada, e também vieram 
alli muitas pipas de malvasia, com outros muitos vi- 
nhos brancos e vermelhos, assim da terra como de 
todas as partes onde os havia melhores, e quando 
veio a véspera de Natal, eram já todas estas cousas 
prestes, e assim muitos corregimentos de justas e outros 
arreios de desvairadas maneiras, e a cidade e aldeias 
de arredor eram todas cheias de gente, de guisa que 
parecia a alguns estrangeiros que por alli passavam, 
que aquelle ajuntamento não era senão corte d'el-rei. 

Em aquellas festas houve mui grande prazer, por- 
que havia em ellas muitos senhores e grandes com 
muitas maneiras de desenfadamentos, e sobre tudo a 
abastança que era mui grande, de muitas deleitosas 
viandas, cá não se acha que em todos aquelles dias 
houvesse nenhum fallecimento porque aquella festa 
em alguma parte podesse ser abatida. E deveis saber 
que o infante D. Henrique foi um homem cujos feitos 
e estado entre seus irmãos teve maior avantagem de 
realeza, Icixando o infante D. Duarte a que por direita 
successão convinha de o fazer, e como quer que se 
estas festas começassem com intenção de não serem 
em ellas outras pessoas de grande estado, afora aquel- 
las que já dissemos, o infante D. Duarte que estava 
em Santarém com seu padre, tanto que soube as no- 
vas d'a(iuelle ajuntamento, houve mui grande desejo 
de ser em ellc, c logo como passou dia de Janeiro, 
houve licença de seu padre e escolheu seis fidalgos, 



116 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



os mais gentis homens de sua casa, com algum outro 
pequeno corregimcnto, e assim aforrado partiu de 
Santarém, e trigou tanto seu andar que posto que os 
dias fossem pequenos e os caminhos maus, chegou a 
Vizeu a taes horas, que ouvio o officio de véspera 
dos reis com seus irmãos. IMas quem poderia dizer o 
acrescentamento da festa que aquelles senhores fizeram 
com sua vinda ? 

Ao outro dia houve justas mui grandes, nas quaes 
justou o infante D. Duarte e aquelles gentis homens 
que com elle vieram, e da outra parte justaram os in- 
fantes e os mais d'aquclles fidalgos e gentis homens 
que eram alli com ellc, e todo aquellc dia se des- 
pendeu em justas e danças e outros desenfadamen- 
tos. 

Alli houve momos de tão desvairadas maneiras que 
a vista d'elles fazia mui grande prazer a quantos alli 
eram, e ainda a muitos de fora que o souberam. 

E no dia seguinte disse o infante D. Henrique ao 
infante D. Duarte, seu irmão. 

— Senhor, pois que foi vossa mercê virdes a esta ter- 
ra aonde nós estamos, não como cortezãos, mas como 
homens que continuadamente seguiamos o monte, 
será vossa mercê filhardes uma libré das que aqui 
temos feitas pêra nós outros os monteiros. 

O infante disse que lhe prazia muito, a qual libré 
foi repartida por alguns d'aquellcs fidalgos e gentis 
homens, e posto que ella não fosse de muito finos 
pannos, era porém desejada de muitos, porque não a 
dava senão a especiaes homens. 



Chronica d' El- Rei D. João I 117 



CAPITULO XXIII 



Como os infantes foram a Santarém todos três, e da 
maneira que tiveram em seu caminho, e do qtie fat- 
iaram a seu padre tanto que chegaram aonde elle 
estava. 

' iil. GABADAS assim aquellas festas, como tendes ou- 
\ \^ vido, partiram-se os infantes com seu irmão, 
^ caminho de Santarém, e o conde de Barcellos 
e os outros senhores e fidalgos se espediram d'elles 
e tornaram-se pêra suas terras. 

Os infantes todos três tiveram entre si esta maneira, 
a saber: o infante D. Henrique fez a despeza a seus 
irmãos emquanto foram pela comarca da Beira, e o 
infante D. Pedro depois que foram na Estremadura, 
e o infante D. Duarte emquanto estiveram em vSanta- 
rem, esto todo fizeram entre si tão abastadamente, 
que o segundo não estudava em ai, senão como so- 
brepujaria ao primeiro, e o terceiro ao segundo, em- 
pero tão grandemente foi todo feito e ordenado, que 
não tinham em que levar vantagem um ao outro. 

Ah ! Deus, diz o auctor, c como posso cu fallar cm 
estas cousas, que se me não demovam as entranhas 
da vontade, pcra haver d'cllo uma saudosa lembrança, 
que assim como os enfermos se deleitam cm consi- 
rar os deleites da saúde, c os velhos em contar os 
bons aquecimentos das cousas passadas, onde se acha- 
ram, não menos folgança sinto eu em mim em consi- 



lis 



Bihliotheca de amsicos Portugnezes 



rar e saber as cousas d'aquelle tempo, e ainda que na- 
turalmente todos os homens depois que passam as 
prm.e,ras três edades, doestam muito Íquelle tempo 
em que sao, d.zendo que viram outro melhor mundo 
prasmando o presente, buscando-lhe novas maneiras 

enfenH ' ^^J^T'^^'^''] ''" P^^P^^i^o. segundo noss, 
entender nao e tanto pela maldade das cousas d'aquelk- 
tempo, como pela fraqueza de sua edade, cá Certa- 
mente nao se pôde aquesto 'entender em mim n 
quanto a minha edade não é similhante á d'anue 1 
que d.sse, nem a Deus graças, nào sou assim\pa 
sionado por enfermidades porque me annoje a vi, 
presente, somente me despraz porque não vejo ud 
tempo sim.Ihante áquelle. cí todos os senhoíes dl 
remo n aquelles dias amavam muito seu princip-^ e 
o pnncipe a elles, entre os quaes havia ins geraes 
desenladamentos, e os cidadãos tinham entre si con- 
córdia e amisade. 

Como os infantes chegaram a Santarém, foram re- 
cebidos de seu padre e de toda outra gentileza da 
corte, com mu, grande prazer e alegria e desenfada- 
mento, e o mfante D. Duarte, em cuja pessoa e casa 
entonce era a gentileza do reino, teve encargo de 

.m?olln ''"?'' '' ''"' ''■"'^^°'' ^'"^"^nto estiveram em 
aquella v.lla com seu padre, e como quer que ellcs 
ass.m andassem em suas folganças e desenfadamento, 
nao perdiam porém cuidado de acabarem este feita 
em que tmham fallado, pareccndo-lhe que se alonga- 
va ma.s do que seu desejo queria, cá segundo acha- 
mos desde que n'este feito primeiro fof fallado até 
aquelle ponto, eram passados melhoria de três annos 
e acordaram entre si de fallarem em ello a seu padre' 
o que ass.m Hzeram, pedindo-lhe por mercê que po- 
esse aquelle leito em algum certo termo pêra cUes 



m 

i 



Chronica d' El- Rei D. João I 119 



encaminharem seus feitos, segundo lhe pertencia. Ao 
que el-rei respondeu e disse : 

— Esto não foi ainda fallado a nenhum dos do meu^ 
conselho, e tenho terminado pêra o S. João, a Deus 
prazendo, fazer ajuntamento dos conselhos em Torres 
Vedras, onde entendo propor este feito e determinar 
o termo certo em que com a graça de Deus hajamos 
de partir. 

E porque era já na quaresma, partiram-se os in- 

Ifantes D. Pedro e D. Henrique, e foram-se pêra Ten- 
tuguel, onde juntamente tiveram a quaresma. E por- 
que nossos feitos de todo levem sua direita ordem, 
diremos aqui o que falleceu em est'outro capitulo pas- 
sado, por accrescentar no aviso bom que el-rei teve 
em sua ordenança. 

Onde é de saber que querendo el-rei chegar a 
Montemor, que era véspera de entrudo, houve novas 
como seus filhos em aquelle mesmo dia chegaram a 
Évora, e porque sentiu que elles não poriam grão 
tardança de vir a elle sabendo sua vinda, e que por 
azo do Condestable que ahi havia de vir, teriam 
alguma presumpção os seus, mandou-lhe logo dizer 
que sem alguma tardança partissem logo d'alli e tor- 
nassem a continuar sua montaria, cá posto que fosse 
quaresma, a mancebia relevava todo, e que depois 
que assim andassem alguns dias, tornassem pcra 
Montemor. A qual cousa os infantes pozeram cm 
obra, e logo a quarta-feira, acabado o officio da cinza, 
partiram caminho de Beja, cá o outro tempo andaram 
por Elvas c por outros logarcs de Riba d'f\lcana, e 
tanto que assim passaram alguns dias, fizeram \'olta 
pcra Montemor, e no caminho acerca de Portel, ma- 
taram um mui grande urso, que enviaram a seu padre, 
mandando-lhe dizer pala\'ras graciosas, de que seu 



120 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



padre houve grande prazer, e do que se entre ellcs 
mais passou, fica no capitulo antes d'este. 



CAPITULO XXIV 



Como el-rei mandou chamar os de seu conselho e como 
os infantes tomaram á corte, e das C07isas que o 
infante D. Henrique requereu a seu padre. 



@ 



)NÇALO Caldeira somente foi aquelle a que a 
puridade d'este segredo foi revelada, o qual 
era escrivão da camará d'el-rei, esto porque 
Gonçalo Lourenço, escrivão da puridade, cujo creado 
elle fora, não podia por si só escrever tanta escriptu- 
ra, como pertencia pêra este feito, e porém foi re\c- 
lado assim a aquelle por sentirem d'elle que era homem 
que o guardaria, certamente elle tomou d'elle tama- 
nho cuidado, que posto que depois da tomada de 
Ceuta muitos annos vivesse, nunca houve homem que 
em ello lhe ouvisse fallar senão por grande ventnra, 
e ainda o que fallava com muita cautella e temor. 

A aqueste Gonçalo Caldeira foi dado carrego de fazer 
as cartas porque el-rei mandou chamar aquelles do 
conselho que haviam de ser com elle em Torres Ve- 
dras, e com todo esto el-rei não cessava de encami- 
nhar seus feitos o mais despachadamcnte cjue podia, 
e passada a festa da Paschoa os infantes partiram de 
Tcntuguel e foram-se pêra Cintra, onde seu padre 
estava e tivera aquella festa, e outrosim o conde de 



Chronica d'El-Rei D. João I 121 



Barcellos e o Condestable e o mestre de Christus, e o 
mestre de Santiago, e o mestre d'Aviz, e o prior do 
Hospital, e Gonçalo Vaz Coutinho, e Martim Affonso^ 
de Mello e João Gomes da Silva, com todos os outros 
senhores e fidalgos que haviam de ser em aquelle 
conselho, vieram-se chegando pêra aquelle logar onde 
lhes era mandado que viessem, e chegando-se o tempo 
assignado, el-rei partiu de Cintra e foi folgando por 
aquella comarca de Lisboa caminho de Torres Vedras, 
e antes d'esto chegando el-rei a Carnide, o infante 
D. Henrique que muito desejava por seu corpo fa- 
zer alguma cousa avantajada, chegou a seu padre e 
disse : 

— Senhor, primeiro que por estes feitos mais vades 
adeante, porque com a graça de Deus vão já por tal 
via que virão a boa fim, eu vos peço por mercê que 
me outhorgucis duas cousas. 

A primeira que eu seja um dos primeiros que filhe 
terra, quando a Deus prazendo chegarmos da\'ante 
da cidade de Ceuta, e a segunda que quando a vossa 
escada real fôr posta sobre os muros da cidade, que 
eu seja aquelle que vá primeiro por ella, que outro 
algum. 

Kl-rei olhou contra elle com continência toda cheia 
de rizo e lhe respondeu por esta guisa : 

— Meu filho, vós hajaes a benção de Deus e a minha 
por terdes tão boa vontade pêra meu serviço e pêra 
acrescentamento de vossa honra, em pêro pelo presente 
eu não vos respondo a nenhuma d'essas cousas, mas 
prazendo a Deus cu vos responderei a ellas cm outro 
tempo mais pertencente pêra se dar que agora. 

Assim chegou el-rei áquella villa de 'J'orrcs Vedras, 
onde se ajuntaram com elle todos aquelles senhores 
que foram chamados pêra aquelle conselho, e antes 



122 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 

que se alguma causa fallasse, disse el-rei ao Conde<=- 
table. 

— Porquanto este feito é assim grande e árduo cu 
sou em mui grande duvida de o mover a estes como 
por nova determinação, cá posto que eu verdadeiri- 
mente d*elles conheça que são todos mui bons e de- 
sejosos de meu serviço, acho porém que todos os 
homens tem cada um seu desvairo nas condições c 
virtudes, e que assim não são todos em um coração e 
vontade, e pode ser que poendo eu este feito determi- 
nadamente em seu juizo, que a similhança do perigo 
com mmgua da fortaleza poderá poer em alguns tat- 
duvidas, que leixando-lhes homem limar por razão 
farão aos outros tamanho receio, que pode ser azo 
d este feito se leixar de acabar, porém queria saber 
a maneira que vos parece que devo ter pêra me 
poder segurar d'aquesta duvida. 

— Senhor, disse o Condestable, vossa consiraçâo me 
parece mui boa, mas o remédio pêra ello me parece 
que será bem que vós não movacs esta cousa, como 
quem a move novamente, mas como cousa que ten- 
des determinada por justa e boa, cá pois vosso prin- 
cipal movimento foi por serviço de Deus, a elle prin- 
cipalmente deveis leixar a determinação do conselho, 
e o que a vós pertence é firme propósito pêra o 
poerdes em fim com a sua graça e ajuda, e o que a 
estes de vosso conselho quizcrdes dizer não seja pêra 
vos elles aconselharem se é bem de se fazer ou não 
mas sómennte que lho dizeis por seu aviso e assim' 
por vos-elles dizerem e conselharem os melhores azos 
e caminhos porque este feito se possa acabar, e pêra 
se esto melhor encaminhar, vós ordenareis que eu 
falle primeiro no conselho que outro nenhum, e cu 
com graça de Deus ordenarei melhor minha falia por 



Chronica d'El-Rei D. João I 123 



;al guisa que nenhum d'elles não haja rasão depois 
• que eu fallar contradizer nosso propósito. 

A el-rei prouve muito d'aquelle conselho, e man- 
dou logo chamar seus officiaes, aos quaes mandou 
," Ique fizessem prestes aquellas cousas que pertenciam 
'pera corregimento da casa em que elle havia de ter 
seus conselhos, a qual era uma salla dianteira, que 
está em aquelles paços de Torres Vedras, onde 
' 'está a capella, e foi todo assim corrigido como cum- 
pria á excellecia de seu estado, a saber, o assentamento 
'Tel-rei em meio e os bancos dos outros d'uma parte 
l'outra, e o dia em que esto houve de começar, era 
uma quinta-feira, na qual el-rei e seus filhos ouviram 
uma missa do Espirito Santo officiada com grande 
solcmnidade, por tal que a sua santa graça lhe po- 
dessc dar verdadeiro conhecimento de todo o que 
n'aquelle feito, por seu santo serviço entendia fazer, e 
(ralli por diante ficou a el-rei sempre por devoção a 
ouvir similhante missa cada semana em aquelle dia, 
n.io tão somente elle, mas todos seus filhos o cos- 
1 ninaram sempre em suas capellas emquanto vive- 



124 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO XXV 



Como el-rei toviou juramento aos do conselho e porqiu 
guisa, e das palavras que lhe disse acerca de seu 
propósito. 

yTJiyiD.K a hora em que aquelle conselho havia 
*'y d'haver fim, juntos aquelles senhores e fidalgos 
em aquella casa, antes que el-rei fallasse ne- 
nhuma cousa do que desejava, disse: 

Pratica d'el-rei aos do conselho 

Aquellas cousas soemos haver por fortes e ásperas 
as quaes por algum aquecimento contra nosso desejo 
novamente acontecem, porque a uzança das cousas ge- 
ra menos prazo d'ellas e a vós assim parecerá algum 
pouco grave esta novidade, que hora entendo fazer, a 
qual por ventura cuidareis que é feita com mingua de 
fiança ou com alguma nova suspeita que tenho con- 
tra algum de vós, ou por ventura contra todos, o qu' 
certamente não é assim, ante vos tenho por bons 
leaes e amadores de minha honra e serviço, e assim 
conheço que fui sempre de vós lealmente servido <• 
aconselhado, cá se assim fora que eu de vós tiver 
duvida ou suspeita, bem poderá buscar azo pêra que 
vos affastára de meus conselhos, mas esto que cu 
faço é uma amoestação, á qual o pezo c grandeza do 
feito requer, e Nosso Senhor Deus quando foi a sua 
transfiguração em o monte Tabor, não houve p* 



Chronica d'El-Rei D. Jaào I 125 



mal de amoestar aquelles três apóstolos que apartou 
comsigo, que calassem o segredo d'aquella celestial 
visão, como quer que estes eram os principaes que 
elle tinha emquanto a humanidade do seio dos seus 
conselhos e por testemunhas de seus segredos. 

Porém antes que nenhuma cousa falle comvosco 
d'aquello sobre que fostes aqui chamados, quero que 
me façaes preito menagem que guardareis fielmente 
todas as cousas que eu de presente comvosco fallar, e 
que as não direis a nenhuma pessoa por palavra nem 
por escripto, antes affastareis todo azo e geito porque 
nenhuma cousa que ao dito feito pertença, se possa 
saber nem entender. 

Todos disseram que lhe prazia, empero cada um 
era duvidoso entre si, pensando que cousa podia ser 
aquella sobre que se fazia tão novo fundamento, en- 
tonce lhe deu el-rei juramento no Lenho da Vera 
Cruz, sobre o livro dos Evangelhos, que guardassem 
assim todo aquelle segredo como dito é, esto assim 
acabado começou el-rei seu propósito em esta guisa : 

«Amigos, este dia foi sempre de mim muito desejado, 
ca bem sabeis quanto minha vontade sempre foi che- 
gada ao amor de todos os christãos, e isto podeis cla- 
ramente entender, consirando como havendo guerra 
entre mim e o reino de Castella, quantas vezes fui 
requerido d'el-rei de Grada oíTcrcccndo-me gentes 
pcra me ajudar a destruir c damnificar meus con- 
trários, á qual cousa sempre eugeitci conhecendo que 
posto que me trouvcssc proveito, que nào era razão 
tomar tal ajuda, sendo elles inimigos da nossa Santa 
fé; outro sim fui d'cllcs requerido pcra lhe dar de 
mim ou de meus reinos paz perpetua ou tréguas por 
algum tempo, oírereccndo-nie por ello a meu serviço 
por suas cartas e recados, a cjual cousa menos cjuiz 



Í2() Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



outhorgar, havendo tal amizade e concórdia por má 
e deshonesta, e que sendo a elles favor, que é vitu- 
pério de nossa fé, pois ainda d'elles em este mundo, 
segundo sua tenção é por seu doesto, e sabeis outro- 
sim, que em todos os feitos passados posto que por 
graça de Deus sempre houvesse victoria de meus ini- 
migos, nunca em meu coração pude desejar outra 
cousa, senão paz, não que esta cobiça houvesse por 
me haver por cançado de similhantes trabalhos, mas 
por me lembrar que eram christàos, cujo damno eu 
muito sentia, e como e quantas vezes eu esta paz desejei 
e busquei com elles, manifesto é ante o conhecimento 
de vós outros, e porque Nosso Senhor Deus verdadei- 
ramente conhecia o meu desejo e com que intenção 
me movia a requerer a dita paz, prouve-lhe por sua 
mercê de a trazer a este fim que sabeis, a qual cousa 
eu não tive nem tenho por menos victoria do que tive 
o vencimento da batalha real, na qual se determinou 
grão parte de nossa duvida, e porque n'aquelles tempos 
passados eu semprs desejei de fazer um tal serviço 
a Nosso Senhor Deus, por cujo grande trabalho e 
perigo podessc satisfazer por merecimento alguma 
offensa se a contra sua vontade, por mim ou por 
meu azo tivesse feita, e trazendo assim este cuidado, 
muito a meude revolvia meu entendimento, esquadri- 
nhando onde, ou como lhe poderia fazer aquclle ser- 
viço. 

Empcro não me podia vir á memoria logar azado 
em que o podesse fazer, e porque eu podcsse entender 
que o meu trabalho e esquadrinhamcnto era de pouca 
sustancia c valor ante a sua perfeita e mui alta sabe- 
doria, mui ligeiramente me apresentou ante a imagem 
do conhecimento, por azo não maginarlo nem pen- 
sado, como lhe este serviço perfeitamente poderia 



Chronica d'El-Rei D. João I 121 



fazer, filhando a cidade de Ceuta, mostrando-me logo 
certos azos e caminhos porque mais ligeiramente po- 
deria acabar meu desejo, e porque sento e soube a 
grandeza d'aquella cidade e a multidão de gentes 
que em ella moram, e consirando outrosim como é 
nas partes d'além d'este nosso mar, retive assim este 
segredo sem vol-o divulgar, por duas causas, a pri- 
meira por saber se teria pejo no aviamento de meu 
feito, quanto as pazes de Castella, a segunda por ha- 
ver certo conhecimento se haveria alguns impedi- 
mentos em minha passagem, e ora que já de todo sou 
avizado, fiz-vos ajuntar aqui por duas cousas. 

A primeira por me ajudardes a dar graças a Nosso 
Senhor Deus, que me tão boa e tão honrada cousa 
trouxe a mão em que o podessemos servir, o que de- 
veis fazer com muito boa vontade, porque todos os 
que aqui estaes fostes commigo n'aquelles meus pri- 
meiros trabalhos, por cuja razão eu sou muito ledo 
de haverdes isso mesmo commigo parte em qualquer 
cousa que eu faça, por salvação de minha alma. 

A segunda pcra receber de vós aviso e conselho 
como melhor e mais proveitosamente possa cobrar 
a fim do dito feito, e ainda a terceira, por vos avizar 
que vos façacs prestes das cousas que vos forem ne- 
cessárias pêra corregimento de vosso ida. 



128 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO XXVI 



Como o Condcstable respondeu prwieiro n'açuel/e con- 
selho, e das razões gne disse, e como o infante D. 
Duarte e seus irmãos responderam^ e porque ma- 
neira. 

V-J^osTO que el-rei despendesse pouco tempo em 
T^ aprender sciencia, todas suas palavras porém 
j eram ditas com mui grande auctoridade, tanto 
^^que elle assim te\'C acabada sua razão, a primeira 
voz, que devera ser do infante D. Duarte, ficou ao 
Condestable, segundo por el-rei fora ordenado, tendo- 
se tal maneira, que nenhum dos outros podesse en- 
tender que era feito de certa sabedoria, e como quer 
que o Condestable fingidamente refuzasse muito de o 
fazer, empero houvc-o do fazer por rogo do infante, 
aprofiando sobre ello primeiramente algum pouco, 
aqui haveis de saber que sempre até aquelle tempo 
se acostumava nos conselhos dos reis fallarem primei- 
rameiramente as maiores pessoas e des-ahi as outras, 
descendo cada uma por seu grau até á mais pequena, 
e d'alli avante ficou em uzo de fallarem primeiro as 
mais pequenas, c por similhante subirem ordenada- 
mente pêra cima, até chegarem á maior, a qual cer- 
tamente é uma mui boa maneira pêra todos os con- 
selhos dos grandes senhores, posto que quando as 
maiores pessoas faliam primeiro, as mais pequenas to- 
mam receio de contrariarem o que as maiores disse- 
ram, ainda que lhe pareça o contrario. 



Chronica d'El-Rei D. João I 129 



«Que argumento de pala\-ras, senhor, respondeu o 
Condestable, posso eu fazer, nem outra alguma pes- 
soa que aqui seja em vossa presença dirá que pare- 
ça razoada, somente dizer-vos com o propheta, isto é 
feito do Senhor e é maravilhoso ante os nossos olhos, 
nem vós não queiraes mctter este feito no conto dos 
outros, porque as outras cousas^ sobre que vós filhá- 
veis conselho, ainda que justamente o fizésseis, era 
porém pêra buscar certos caminhos porque mais li- 
geiramente se podessem segurar vossa vida e honra, 
e assim de vossos sujeitos e naturaes, mas este feito 
somente pertence ao serviço de Deus e salvação das 
almas, vossa e d'aquelles que vos em ello servirem, 
e quanto a alma é mais nobre que o corpo, tanto 
Nosso Senhor Deus toma maior cuidado de ende- 
reçar os conselhos d'aquelles que se movem pêra 
sua salvação. 

Porém eu não tenho nem sinto outro conselho que 
vos em ello dar, somente que o carrego d'este feito 
principalmente leixeis a Deus, remerecendo-]he o cui- 
dado que teve e tem de vossa salvação, e eu de mi- 
nha parte ponho lei a mim mesmo de lhe dar muitas 
graças por ello, pela parte que a mim acontece, e 
assim como vos servi em todas as outras cousas, 
assim vos servirei em esta ora, e ainda quanto a cou- 
sa é melhor e mais proveitosa, tanto porei cm ello 
mór vontade c diligencia». 

K acabando esta palavra se alevantou d'onde esta- 
va e foi pocr os joelhos ante cl-rei, e em lhe beijan- 
do a mão disse: eu vos faço esta reverencia, tendo- 
vos muito em niorcc de me azardes cousa cm que 
vos sirva em meu olficio de cavailaria em c|ue me 
Deus por sua mercê poz, sendo cousa tanto de seu 
serviço. 

VoL. I e 



130 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



Depois que o Condestable acabou estas razões, fal- 
lou o infante D. Duarte por esta guisa : 

«Pois que o Condestable que é um homem que foi 
em tantas e tão boas cousas, por seu corpo, onde ga- 
nhou tantas e tão grandes honras como tem por seus 
merecimentos, ha por tão bom vosso propósito e fun- 
damento, não achando contradicção alguma, que pos- 
so eu hi dizer, que ainda por mim não fui em nenhu- 
ma cousa perigosa nem de temor, somente folgar mui- 
to por me Deus trazer em que possa fazer de minha 
honra, e por ello dou muitas graças a Deus, e a vós 
senhor tenho em grande mercê por vos prazer de 
aviar cousa em que vos possa servir com tanto ser- 
viço de Deus e accrescentamento de minha honra. 

li em acabando estas palavras, alevantou-sc em pé 
e foi beijar a mão a seu padre el-rei, e por similhante 
maneira fizeram seus irmãos de cujas palavras não 
curamos fazer expresa mensão, porque commum- 
mente todas faziam a este propósito. 

Ora qual pcnsaes que havia de ser nenhum dos 
outros, por ouzado que fosse em fallar, que tivesse 
atrevimento de contradizer o fundamento d'aquelle 
propósito? cá não entendaes que ainda que a intenção 
d'el-rei fosse tão boa como era, que ahi não houvera 
alguns debates, sobre que se poderam seguir algumas 
razões, se aquella maneira não fora primeiramente 
consirada, porque assim como Nosso Senhor poz 
grande desvairo nas continências dos homens, assim 
lhe prouve que nos entendimentos fossem dcseguacs, 
e dizem os antigos que esta somente é aquella cousa 
que no mundo foi melhor repartida, porque nenhum 
homem não tem tão pouco sizo, que se d'clle não 
contente sem cobiça da vantagem que d'outrem co- 
nheça, empcro foi requerido áquelles que dessem suas 



Chronica d'El-Eei D. João I 131 



vozes, cada um segundo melhor entendesse, mas não 
houve ahi algum que soubesse dizer o contrario. 

Mas João Gomes da Silva, que era um homem forte 
e ardido, cujas palavras sempre traziam jogo e sabor, 
levantou-se em pé. 

«Quanto eu senhor, disse elle contra el-rei, não sei 
ai que diga senão ruços além, e esto dizia porque 
el-rei e os mais dos que alli estavam tinham já as 
cabeças cheias de cans. 

El-rei e todos os outros começaram de se rir, e 
assim folgando, fizeram fim de suas falias, quanto 
áquelle propósito. 



CAPITULO XXVII 



Como el-rei teve conselho sobre o encobrhnento (Taquelle 
propósito, e co7no foi determinado que mandasse des- 
afiar o duque cf O landa, e da maneira que el-rei 
teve n^aqiieile desafio. 

Vi^ouKE estas cousas passadas, teve el-rci seu con- 
1 I9I selho porque maneira poderia melhor enco- 
^/^"^ brir o avisamento do sua frota, porque todos 
tivessem em ello olho e perdessem o cuidado d'in- 
querir a certidão d'a<iuelhi viagem, c pêra esto foi 
achado um nuii proveitoso remédio, a saber, que o 
duque d'r)landa fosse logo desafiado, e pêra esto orde- 
naram (jue Fernão h^ogaça, que era vedor do infante 
I). Duarte, fosse portador d'aquelle desafio, e alli ficou 



132 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



logo determinado que pêra o outro S. João, que se- 
ria d'alli a um anno, fossem todos prestes, cada um 
onde houvesse de embarcar, e feita a embaixada que 
Fernão Fogaça havia de levar, foi logo despachado, 
de guisa que cm breve tempo fez sua viagem, c tanto 
que chegou a casa do duque, fez-lhe saber como elle 
era alli enviado por parte d'el-rei D. João de Por- 
tugal, segundo lhe d'ello fazia certo por sua carta de 
crença, porém que lhe pedia por mercê que lhe as- 
signasse tempo em que lhe podesse dizer cumprida- 
mente sua embaixada. 

O duque respondeu que elle se fosse por entonce 
pêra sua pousada e que elle consiraria quando podia 
ser despachada, e que lh'o faria a saber. 

Fernão Fogaça tanto que foi na pousada, mui se- 
cretamente fez saber ao duque como lhe era muito 
necessário de lhe primeiro fallar apartadamente, por- 
quanto aquello que lhe entonce havia de dizer, era 
principal causa de sua vinda, e o que lhe depois havia 
de dizer de praça, era cautelosamente por melhor en- 
cobrimento de seu propósito. 

Ao duque prouve muito de fazer seu requerimento 
e assim encaminhou como secretamente lhe desse au- 
diência, e tanto que Fernão Fogaça foi com elle, dis- 
se-lhe : 

«Senhor, vossa mercê poderã bem saber como el-rei 
D. João de Portugal meu senhor, se faz ora prestes 
com todos os senhores de seu reino pêra fazer um 
grande feito por serviço de Deus e accrescentamento 
de sua honra, e esto é que elle entende este anno se- 
guinte d'ir sobre os inimigos da santa fé, e porquanto 
a elle prazerá muito de sua xerdadcira intenção ser 
encubcrta pcra maior descuido dos ditos infiéis, acor- 
dou de vos mandar desafiar, porque os que \'issem 



Chronica d'El-Rei D. João I 133 



assim este corregimento, não tinham azo de suspeitar 
a certeza do que elle deseja, porém vos roga que vos 
praza receber este desafio como mostra de o haver 
por firme, pêra cuja confirmação façaes alguma ma- 
neira de apercebimento, e que prazerá a Deus que 
lhe trará alguma cousa á mão pêra accrescentamento 
de sua honra, em que elle vos poderá mostrar o agra- 
decimento de vossa boa vontade e despeza que em 
vosso apercebimento fizerdes. 

O duque respondeu que agradecia muito a el-rei de 
o querer fazer sabedor de tamanho segredo, o qual lhe 
certificava que elle o guardasse mui bem, e esto dizia 
o duque porque Fernão Fogaça lhe contou toda a 
verdade do feito, e que quanto era ao desafio, que 
daria acerca d'ello tal maneira, que elle houvesse por 
bem empregado o atrevimento que em elle tivera. 

Tornou-se Fernão Fogaça pêra sua pousada, e o 
duque ficou-se em seus paços, e a cabo de dois dias 
lhe mandou dizer que tivesse paciência, porquanto elle 
queria mandar chamar seus conselheiros, em cuja pre- 
sença queria ouvir a sustancia de sua embaixada, ca 
bem era de presumir, que um tão honrado príncipe, 
como o era el-rci I). João, não poderia a elle enviar 
senão cousa de grande pezo e auctoridade, e porém 
mandou logo o duque fazer suas cartas pêra todos 
aquelles grandes senhores de sua terra, em as quaes 
lhe fazia saber como alli estava um embaixador d'cl- 
rei D. João de Portugal, o qual lhe trazia uma embai- 
xada, porém que lhes mandava que trigosamcntc fos- 
sem com elle, porquanto não entendia dç ouvir d'ella 
nenhuma cousa fora da sua presença. 

Em esto fazia o duque duas cousas mui sagcs, a pri- 
meira fazia entender a aquelles que os tinha em grande 
conta, pois não fjueria ouvir similhante cousa senão 



I''i4 Bibliotheca de Clássicos Porfuguezes 



em sua presciiça, a sci^unda fazia grande serviço a el- 
rei, porque estando alli aquelles ao tempo do seu de- 
safio, seria azo de ser divulgado com maior auctori- 
dade e firmeza. 

Depois que tudo foi prestes e o duque posto em seu 
estrado, fez chamar Fernão Fogaça, e lhe mandou que 
dissesse todo o porque alli fora vindo. 

«Senhor, disse elle, o muito alto e muito poderoso 
príncipe el-rei de Portugal D. João meu senhor, vos 
envia dizer por virtude da carta de crença a vossa 
mercê apresentada, que a elle são por muitas vezes 
feitas grandes querelas e queixumes por seus súbditos 
e naturaes, de muitos roubos e damnos que lhe os 
moradores de vosso senhorio hão feito e fazem cada 
dia, não querendo leixar passar livremente as merca- 
dorias dos ditos seus naturaes pelos mares e portos 
do vosso senhorio, e ainda por outros de fora, onde 
elles podem abranger, fazendo-Ihe represálias injustas 
e não certas, sobre as quaes se hão socorrido a vossa 
mercê pedindo-vos direito e justiça, pois aquelles dam- 
nadores em o dito tempo eram vossos súbditos e natu- 
raes e habitantes em os ditos vossos senhorios, e vós 
poderoso de os castigar e corregir, na qual cousa 
não quizestes prover com justiça, antes pozestes os 
negócios em dilações transitórias, sobre o qual os di- 
tos damnificados se tornaram a elle, não achando em 
vós satisfação nem justiça, no que se mostra vós dar- 
des a ello fa\'or e consentimento. Quanto mais que 
ainda se tem por certo que vossos ofíiciaes cm \os- 
so nome receberam os direitos das mais das ditas cou- 
sas, no que se mostra vós dardes a ello favor e con- 
sentimento, porém sua alta senhoria, querendo prover 
sobre as ditas cousas vos requer que façaes log(» 
emenda d'ellas com satisfação perfeita, cl de outra 



Chronica d'El-Ilei D. João I 135 



guisa elle ha por desafiadas tod^s vossas terras com 
vossa pessoa e senhorio, pêra fazer em ellas guerra 
por mar e por terra, e que porém vol-o faz a saber 
por serdes avisado de sua parte, como pertence a sua 
alteza de vos avisar em similhante caso. 

Grande queixume mostrou o duque ouvindo assim 
aquella embaixada, e todos os outros que eram com 
elle por similhante guisa ficaram mui espantados, e 
entonce mandaram a Fernão Fogaça que se sahisse 
fora da casa pêra elles fallarem em aquelle feito. 

O duque mostrava todavia que não podia haver 
nenhuma paciência, dizendo que não tão somente el- 
rei de Portugal, mas toda a Hespanha, não temia ne- 
nhuma cousa, e deveis de saber que esta desafiação 
trazia mui justa côr, porque certo era que os natu- 
raes d'aquelle ducado faziam mui grandes roubos no 
mar em os navios d'estes reinos, mas tanto aprovei- 
tou aquella embaixada que já mais nunca se fizeram 
como se antes faziam, principalmente porque o duque 
ficou muito amigo d'el-rei, por aquella fiança que em 
elle tivera. 

Alguns d'aquelles conselheiros houve alli que dis- 
seram que seria bem de o duque enviar a el-rei sua 
resposta branda, porquanto disseram elles : 

«Senhor, este rei de Portugal é um homem forte e 
ardido e bem esquençado, e todos seus naturaessão ho- 
mens que hão uzado as armas e estão agora bravos e 
orgulhosos pelas grandos victorias que houveram con- 
tra o reino de Castella, e sobre tudo cl -rei é um ho- 
mem que viu já muitas cousas, e posto que vos ora 
assim este recado enviasse, certo é que já terá todos 
08 seus feitos corregidos, e antes que vos vós possaes 
aperceber, virá sobre vós com todo seu poder, cá bem 
ha dois annos, disse um d'elles, que cu ouvi a um 



136 Bihliotheca de Clássicos PoHuguezes 



mercador que vinha de Bruges, que alii novas eram 
que el-rei fazia repairar sua frota e mandava fazer outra 
de novo, com outros grandes corregimentos de guer- 
ra, de que se percebia caladamente, e pois elle tem 
pazes feitas com Castella, bem se mostra, segundo 
este recado, que a vossa honra se fazia toda esta fes- 
ta, c por mercê não queiraes que pelo mal que quatro 
ladrões de vossa terra podem fazer e querem meter 
vossa pessoa e senhorio em prova não certa, ca 
esta experiência não se deve fazer senã(» sobre os der- 
radeiros remédios, pois em ella pende a honra e a 
vida. 

Outros hou\'e aili que razoa\'am pelo contrario, mas 
o duque todavia não podia abrandar de seu queixume; 
entonce fez chamar Fernão Fogaça, e com continência 
mui áspera, começou de lhe dar sua resposta em esta 
guisa. 

«Segundo parece este vosso rei ficou assim posto 
em orgulho dos bons aquecimentos que houve nos 
tempos passados contra seus visinhos, empcro pois | 
sesudo é. deve consirar que não morrem todos de sob ' 
uma massa, c que em este meu senhorio, assim ha ho- 
mens que sabem o officio da cavallaria, como no seu, i 
e que não tem menos vontade de me servir, que os '| 
seus tem a elle, porém vós lhe dizei que a mim pra/ 
muito de sua vinda, e que elle me achará prestes 
quando vier, e que lhe faço certo que o víí receber a 
qualquer logar onde sua frota vier portar. 

K pcra esto lhe mandou fazer sua carta de crença, 
e des-ahi mandou que se partisse quando quizesse, 
mas depois que foi noite mandou o duque por I''crnào 
Fogaça mui secretamente, dando-lhe suas encommen- 
das mui graciosas pêra el-rei, com outras muitas pa- 
lavras de regradecimento, e sobre todo fez-lhe mercê 



Chronica d'El-Rei D. João I 137 



e mandou que se tornasse muito embora pêra seu reino, 
nem Fernão Fogaça não ficou tão simples que lhe mui_ 
bem não soubesse agradecer com suas boas palavras 
pela parte d'el-rei seu senhor toda a boa maneira que 
clle em aquelle feito tivera, e assim fez fim de sua em- 
baixada. 



CAPITULO XXVIII 



Conto Fernão Fogaça tornoti com a resposta de sua 
embaixada, e como se as cousas passaram acerca do 
cor regimento da frota eraquanto e lie fez sua viagem. 



EM mostrou o duque d'Olanda que tinha von- 
tade de fazer prazer a el-rei, porque tanto que 
o embaixador Fernão Fogaça partiu fez logo 
saber a todos os logares de seu senhorio como por 
certos recados que havia d'cl-rei de Portugal, era ne- 
cessário de ser prestes, porquanto o mandara desafiar, 
e assim começou de se correger d'algumas cousas, de 
maneira que em todo seu senhorio não podiam ai 
entender, senão que todavia tinham guerra aberta 
com Portugal. 

P^l-rci, depois que Fernão Fogaça partiu, começou 
muito mais trigosamentc de correger todas as cou- 
sas que lhe cumpriam pêra bom aviamento de sua 
partida. 

Mandou logo fazer prestes certos escudeiros com 
suas procurações abastantes, os quaes mandou por toda 
a costa de (lalli/a e de Biscaya e a Inglaterra c Alie- 




138 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



manha, fretar navios grossos, quantos se podesscm 
achar, a qual cousa não era, senão um manifesto pre- 
gão que corria por muitas partes da christandadc 
d'aquela armada que el-rei assim fazia, e porque as 
novas de longe sempre fazem a cousa maior do que 
é, posto que o corregimento d'el-rci fosse mui grande, 
ainda a fama era maior. 

E em se corregendo estas cousas e outras muitas, 
sobrechegou Fernão Fogaça com seu recado, do qi...! 
muito prouve a el-rei, e mandou que se divulgasse pi»; 
todo o reino que os principacs capitães d'esta arm i li 
haviam de ser os infantes D. Pedro c I). Henriqr. , 
mas não quiz que se vulgasse determinadamente q;:' 
haviam de ir sobre o duque d'01anda, empero que em 
sua vontade bem lhe prazia que o cressem assim to- 
dos, porque similhante maneira de encobrimento fi- 
zia parecer a cousa mais certa a aquclles que o pt - 
sumiam, e ainda que se determinadamente dissess ■. 
não leixaram alguns de conhecer que a disposiçà» 
d'aquella terra não requeria taes arteficios como el- 
rei ao presente mandava fazer, e consirando em cll" 
poderiam conjecturar outra mais certa determinançn, e 
tinha el-rei esta maneira, que quando lhe falla\-ani 
n'aquella ida, assocegava sua continência por tal gui: i 
que lhes fazia entender que não era aquelle o loi^.r 
certo pêra onde elle fazia seu percebimento, e d'out' 
parte movia questões e l.izia perguntas e figuras <]': 
queriam representar a conquista d'aquplla terra de q;; ■ 
elle desejava que se prezumisse. 

Ora que seria que estando el-rei com estes ciúmes 
d'a(iuelle segredo, chegou um homem pêra arrecadar 
seus feitos, c trouxe-lhe a cidade de Ceuta toda debu- 
xada, assim perfeitamente como ella está, e como qui r 
que aquoUc homem similliante intenção não lrou\'es- ■ 



Chronica (VEl-Rei D. João I 139 



de suspeitar alguma cousa d'aquelle segredo, foi el-rei 
posto em grande trabalho entre si, pensando mesmo 
que sua vontade era descuberta por presumpção d'al- 
guns, a qual moveu aquelle homem de lhe trazer 
aquella figura parecendo-lhe que lhe prazeria com ella, 
segundo o desejo que tinha, empero el-rei teve tal 
a\':samento ao tempo que lhe assim aquello foi apre- 
sentado, que não fez demonstração de nenhum con- 
tentamento, nem ainda, segundo cremos, fez nenhuma 
conta de similhante figura, antes a menos prezou de 
todo. 

Bem poderemos certamente entender, que a von- 
tale de Deus era de encaminhar todavia como el-rei 
houvesse a victoria d'aquelle feito, quando aquelle 
simples homem, fora de nenhuma presumpção, que ao 
similhante negocio tangesse, movido por graça espe- 
cial a qual elle não conhecia, nem sabia, lhe apresen- 
tava assim aquella figura porque mais ligeiramente 
podesse tirar algumas duvidas, se as em sua vontade 
tinha, acerca da conquista d'aquella cidade. 

Outrosim depois do acabamento d'aquelles conse- 
lhos, determinou el-rei como toda a gente da comarca 
da Beira e Traz os Montes e hntre Douro c Minho, em- 
barcassem na cidade do Porto, e mandou ao infante 
D. Henrique que se fosse á comarca da Beira, e que 
fizesse ajuntar todos os coudeis c anadeis, e assim 
d'aquclla comarca, como de Trás os Montes, eque por 
seus livros fizesse apurar toda a gente que fosse pêra 
servir, dando-lhe os cadernos dos alardos, que j.i an- 
tes d 'esto mand.lra fazer, os quaes tinlia em si Cion- 
çalo Lourenço, como dito é. 

K por esta mesma guisa mandou ao conde de Bar- 
cellos que tivesse carrego da comarca d'Entrc Douro 
e Minho, e a gente da Estremadura e dV-ntre Tejo c 



140 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



Odcana e do reino do Algarve, determinou que em- 
barcasse na cidade de Lisboa sob capitania do infante 
D. Pedro, ao qual leixou o carrego da operação das 
gentes d'estas três comarcas, pela guisa que o tinham 
seuè irmãos das outras, e porque os vassalos e toda 
outra gente que haviam d'haver contia e soldo, po- 
dessem aviar melhor seu corregimento mandou que 
lhe pagassem as ditas contias e soldos, e mandou ou- 
tro sim ao infante D. Duarte seu filho, que por ello 
inteiramente tivesse carrego e regimento da justiça e 
da fazenda de todo o reino, e era o infante ao tempo 
que lhe este carrego foi cometido de edade de vinte 
e dois annos. E porque estes dois trabalhos são mui 
grandes e elle era homem mancebo e não os havia 
acostumado, tomou-os com tão grande cuidado, que 
em nenhuma cousa faltava, e punlia tanta diligencia, 
que se levantava tão cedo a ouvir missas que pouco 
espaço depois do sol sahir era na rolação, onde estava 
continuadamente até ás onze e doze horas, e logo como 
acabava de comer, dava audiência mui grande espaço, 
e sem filhar grande repouso tornava a desembargar 
petições ou prover feitos da fazenda, de guisa que 
pêra seu descanço lhe ficava mui pequena parte da 
noite, o que foi causa de se lhe gerar doença de humor 
melcnconico, a qual se lhe acrescentava muito mais 
com a continuação do trabalho, sendo elle homem 
muito gracioso e mavioso de condição, que nunca 
soube a nenhum homem dar má resposta, e aquella 
dor segundo sua natural propriedade, é anojar-se da 
gente e querer sempre apartamento. 

l^ram em aquelle bom principe duas mui grandes 
pelejas, porque por sua condição queria estar entre 
gente e ouvir graciosamente seus requerimentos, e 
aqucUa triste enfermidade o constrangia a aborrecer 



Chronica d' El- Rei D. João I 141 



todas aquellas cousas. Em pêro tanta era a bondade e 
virtude em elle, que \'encia a maldade da dôr e se- 
guia sua boa natureza e condição, de guisa que de 
mui poucos homens era entendido ter elle enfermi- 
dade. 

Por certo, diz o auctor, grande resplandecimento 
fazia no mundo tanta bondade e virtude de principe, 
da qual me aparto dolorosamente, leixando de fallar 
em ella por tornar ás outras cousas, cá por certo bon- 
dades dos homens d'aquelle tempo eram nada em com- 
paração da d'este principe. Mas do maravilhoso re- 
médio que elle achou pêra sua cura, seria proveitoso 
a qualquer que sente algum padecimento d'esta en- 
fermidade, se lesse por aquelle livro que elle compoz, 
que se charna o Leal Conselheiro, onde achará o re- 
médio d'aquella cura cumpridamente escripto aos vinte 
e três capítulos. 

E assim foram repartidos os carregos do reino, pe- 
los infantes e conde de Barcellos. 

A el-rei somente íicou cuidado de suas artilharias 
e armas, com todas outras cousas que pertenciam pêra 
aviamento de sua frota, e pêra estas cousas melhor se 
poderem encaminhar, foi-se el-rei chegando contra a 
cidade de Lisboa, pêra d'alli mandar mais ligeiramente 
perceber todas as cousas. 



142 Bibliotkeca de Clássicos Portuguezes 




CAriTULO XXIX 



Coffw el-rei escreveu aos fidíilgos que se fizessem pres- 
tes pêra irem com seus filhos, e do grande trafego 
que entonce era no reino acerca daquclle corregi- 
mento. 



UKM poderia em aquelle tempo fallar em outra 
cousa senão em armas e em apercebimento de 
guerra ? cá logo el-rei escreveu a todos os se- 
nhores e fidalgos e homens de conta suas cartas de 
apercebimento, nas quaes lhe fazia saber como elle por 
seu serviço e honra do reino tinha ordenado enviar 
seus filhos, a saber o infante D. Pedro e o infante D. 
Henrique por capitães de sua frota pêra o servirem 
no que elle mandasse, com os quaes lhe aprazia que 
fossem aquellcs a que elle assim escrevia, e porém que 
lhe mandava que se fizessem logo prestes pcra irem 
com elles em a dita frota, e lhe fazerem primeira- 
mente saber as gentes com que o entendiam de ser- 
vir pêra lhe desembargar seus dinheiros e ordenados, 
pcra corregimento seu e das ditas suas gentes, e com 
isto era o fervor tão grande no reino, que cm todos 
os logares as gentes não trabalhavam em ai, porque 
uns andavem em alimpar c correger suas armas, ou- 
tros em mandar fazer biscouto c salgar carne e man- 
timentos, c outros cm correger navios e aparelhar 
guarnições, de guisa que ao tempo da necessidade, não 
se achassem d'alguiTias cousas fallecidos. 



Chronica d'El-Eei D. João I 143 



Mas principalmente era este trafego na cidade de 
Lisboa e do Porto, porque commummente não havia 
ahi aijum que fosse li\'re d'este cuidado. 

Tanta e tamanha era a revolta, no corregimento 
d'estas cousas, que quando fazia tempo calado, clara- 
mente ouviam o ruido por mui grande parte dos le- 
gares de Ribatejo, e em verdade era formosa cousa de 
vêr, ca por toda aquella ribeira jaziam naus e navios, 
nos quaes de dia e de noite andavam calafates e ou- 
tros mesteiraes que lhe repairavam seus fallecimentos, 
d'outra parte jaziam muitos bois e vacas decepadas, e 
illi muitos homens a esfolar e outros a cortar e sal- 
L^^ar, outros a meter em toneis e em botas, em que ha- 
viam d'ir. 

Os pescadores e suas mulheres tinham cuidado de 
abrir e salgar as pescadas e cações e arrayas, e simi- 
Ihantes pescados, dos quaes todos os logares onde o 
.^ol tinha maior assocego, eram cheios. 

Os officiaes da moeda, de dia e de noite nunca seus 
martelos estavam quedos, por tal guisa que ainda que 
um homem bradando dissesse alguma cousa entre 
aquellas fornaças, escassamente podia ser entendi- 
do. 

Os tanoeiros não eram pouco trabalhados em fazer 
e rcpairar as vasilhas pêra os vinhos e carnes e outros 
mantimentos. 

Os alfaiates e tozadores em aparelhar pannos e fazer 
librés de diversas guisas, cada um segundo o senhor 
d'ellas lh'as mandava fazer. 

Carpinteiros cm encaxar bombardas e trons c en- 
dereçar todas as outras artiliiarias, as quaes eram 
muitas e grandes. 

Os cordoeiros cm fazer guindarczas e estrinquos e 
cabrcs, e outra muita cordoalha de linho, tiue faziam 



144 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



assim pcra os navios da terra como pêra os de fora, 
cá todo se repairava em este reino. 

Quem seria aquelle, que distinctamcnte podessc con- 
tar os trabalhos que havia entre aquellas gentes? Cá 
não era algum que fosse escusado d'aquelle encaircgo, 
porque posto que os velhos por razão de sua ^dade 
soubessem que haviam de ficar, não tinham porém 
pequeno cuidado de esquadrinhar qual seria certa- 
mente a parte pêra onde aquella frota havia de fazer 
sua viagem, e sobre isto tinham grandes dcpartições, 
cá este officio principalmente deixa-o a natureza aos 
velhos, por razão das muitas cousas que viram e sa- 
bem, e porque são já livres das paixões, as quaes não 
leixam aos mancebos livre poder pêra cuidarem direi- 
tamente as cousas e como quer que os seus cuidados 
fossem tão agudos, não havia ahi porém algum que 
podesse determinar a certidão d'aquelle feito, cá uns 
diziam que el-rei mandava a infanta á Inglaterra pcra 
cazar em aqucUe reino mui honradamente e que iam 
seus irmãos com ella com aquelle poderio de gentes 
e corregimentos de guerra, pêra ajudarem el-rei seu 
primo a conquistar o reino de França. 

Outros diziam que iam sobre o reino de Nápoles, 
porque a rainha estava viuva e que escrevera a el-rei 
que enviasse lá um de seus filhos pêra casar com ella 
e receber o senhorio do reino, e que desta mesma 
viagem haviam de fazer similhante no reino de Seci- 
lia, e por isso enviava cl-rei aqucllcs dois filhos, por 
razão dos dois casamentos. 

Outros diziam que cl-rei no começo da demanda 
que houvera com o reino de Castella, que prometera 
d'ir em romaria á casa Santa de Jerusalém, por tal 
que o Senhor Deus lhe desse victoria contra seus ini- 
migos, e porquanto lhe o Senhor Deus dera assim 



Chroriica d'El-Bei D. João I 14õ 



aquelle estado e os de seu conselho não eram em 
acordo que elle fosse fora de seus reinos, e por tanto 
enviava lá seus filhos assim poderosamente por duas 
razões. 

A primeira por cumprirem a romaria por elle e po- 
derem passar por todos os logares sem receio de pes- 
soa alguma, dizendo ainda que quando lá fora o conde 
de Barcellos, que esta fora a principal causa de sua 
ida, a saber, que o mandara seu padre com intenção 
de vêr aquella santa cidade e os portos e ancorações 
que havia em este mar Mediterrâneo n'aquelle porto 
de Jafa, onde faz sua fim, e esto é quanto a este mar 
que entra pelo estreito de Ceuta, e a segunda era por 
trazerem aquelle Santo Sepulcro com todas as outras 
reliquias que se podessem achar em aquella cidade e 
termos d'ella. 

Outros diziam que haviam d'ir sobre a cidade de 
Bruges, por certas razões que allegavam que el-rei 
tinha pcra o fazer, as quaes aqui não declaramos por 
extenso, porque são tantas e com tantas particulari- 
dades, sem pro\'eitoso eífeito, que tivemos por melhor 
de as leixar, por dar logar a outras cousas. 

Outros diziam que os infantes todavia haviam d'ir 
sobre o duque d'Olanda, pela guisa que já ouvistes, 
cá posto que aquelle segredo assim fingidamente fosse 
calado, aquelles que iam com Fernão Fogaça o con- 
tavam a seus amigos, c quanto lhes elles mais en- 
eommcndavam que fosse sm segredo, tanto cllcs mais 
azinha o descobriam, porque aquella cousa c azinha 
quebrantada, que cm si traz maior força de defcza 
quando por medo d'alguma pena se não leixa de que- 
brantar. 

í^)utros disseram cjuc por ([uanto em Avinhão 
n 'aquelle tempo estava o Auti-Papa, que se chamava 



146 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Clemente vn, ao qual obedecia toda Hespanha, afora 
este reino de Portugal, que el-rei como fiel e catholico 
christão que sempre tivera com o Papa de Roma, 
tendo verdadeiramente que aquelle era o direito Vi- 
gário de Nosso Senhor Deus em logar do Apostolo S. 
Pedro e verdadeiro pastor da egreja, enviava seus fi- 
lhos, querendo desfazer tamanha divisão como estava 
entre os ciiristãos, e os infantes iam assim poderosos 
porque se por ventura alguns d'aquelles seus súbditos 
quizessem tornar a ello, que os infantes levassem ta- 
manho poder, qae lh'o podessem contrariar. 

Outros disseram que aquella frota principalmente 
ia sobre Normandia, porque el-rei achava que tinha 
direito em ella, por razão d'el-rei D. Afionso, que 
fora bisavó de seu padre el-rei D. Pedro, o qual fora 
conde de Bolonha. 

Outros fallav^im outras muitas cousas, tão desvaira- 
das, que seriam longas de escrever, porque é deter- 
minado na Santa Escriptura que onde verdade se es- 
conde, alli se multiplicam muitas mais pala\'ras, e como 
quer que assim estes desvairos e outros muitos havia 
entre elles, não era porém algum que podesse certa- 
mente nem assim apalpando fallar na cidade de Ceuta, 
somente quanto achíímos que um judeu servidor da 
rainha D. [""ilippa, que chama\-am Juda Negro, que 
era grande trovador segundo as trovas d'aquelle tempo, 
em uma trova que enviou a um escudeiro do infante 
D. Pedro, que chamavam Martim AtTonso d'Athou- 
guia, contando-lhe as novas da corte, disse todas es- 
tas cousas que dissemos e outras muitas, entre as 
quacs no derradeiro pé da quarta trova disse que os 
mais sezudos entendiam que el-rei ia sobre a cidade 
de Ceuta, mas esto entendiam que elle não o soubera 
tanto por nenhum signal corto que visse, quanto por 



Chronica d'El-Rei D. João I 147 



\ juizo de astrolomia de que elle era mui sábio e muito 
uzava. 



CAPITULO XXX 



Como em Castella souberam estas cousas e do conselho 
que acerca de lio tiveram, e de como determinaram 
de enviar a el-rei seus embaixadores por firmarem 
as pazes. 

^ 1 UODOS os homens, segundo sentença do philoso- 

I pho no primeiro livro da transcendente philo- 

sophia, naturalmente desejam saber e aqueste 

natural desejo nos mostra o cego, a que Nosso Senhor 

Jesus Christo perguntou que era o que desejava? 

Respondeu que lhe desse vista, não determinando 
que visse uma cousa nem outra, porque na Santa Es- 
criptura por saber se põem vêr segundo diz o pro- 
pheta no quarto verso do psalmo oitavo, «porque eu 
verei os céus teus dos teus dedos obra», mostrando 
que aquella vista era perfeita sabedoria, que elle en- 
tendia percalçar depois do trespassamcnto d'esta \'ida, 
mas sobre esta sentença do philosopho se faz um for- 
moso argumento, se por ventura este desejo a que as- 
sim nos move a natureza, é quanto ás cousas que per- 
tencem (\ alma, ou quanto ás que pertence ao corpo. 
Sobre o qual argum(rnto brevemente entendamos 
que em ambas ha logar; tendo cada uma parte seus 
graus apartados, cuja declaração pelo presente não é 
pcra nosso processo, c fallando d'cstc desejo que per- 



148 Bibliotheca de Clássicos Porttiguezes 



tencc ás cousas do corpo, saibamos que este dcs' • 
é partido em quatro partes, porque um desejo ' 
aquelle que homem deseja saber, não somente a outro 
fim senão por filhar em si um desenfadamento que 
o entendimento recebe quando ha perfeito conheci- 
mento da cousa sobre que tem duvida, cuja experiên- 
cia cada um pode ver em si, vendo no\'amente al- 
gum homem ou mulher que elle por ventura conhece, 
mas não é em certa lembrança d'onde nem de quan- 
do ha d'elle este conhecimento, e posto que lhe pro- 
veito nem perda traga, empero o natural entendi- 
mento totalmente deseja chegar a esta sabedoria, e 
cobrando-a sente folgança ; outro saber é quando ho- 
mem aprende alguma sciencia, por cujo fim espera re- 
ceber honra ou proveito, e quando a percalça sente 
ledice por razão da honra e do proveito, mas não por 
outro fim. 

Outro saber é quando algum deseja saber alguma 
cousa subtil qual se elle imagina que poucos sabem, e 
quando a percalça sente Jedice, possuindo em si 
mesmo um intrínseco prazer, consirando como elle '' 
em perfeito conhecimento d'aquello que poucos s.i 
bem. 

O quarto desejo de saber é quando homem deseja 
de saber aquellas cousas de que não é certo, se lhe 
virá damno ou proveito, e muito mais ainda trabalha 
o entendimento por saber a certidão de que certa- 
mente espera de receber damno, que das outras de 
que se segue proveito, cá somente o temor é azo de 
filhar os homens conselho, cujo movimento foi em al- 
guns d'aquelles principaes do reino de Castella, que 
ou\indo as novas como este feito crescia cada vez 
mais, tiveram mui grande cuidado de saber o princi- 
pal movimento d'el-rei. 



Chronica d'El-Rei D. João I 149 



Mas este desejo não era, salvo por aquella derra- 
deira razão, que já dissemos, temendo o damno que 
lhe podia vir, e diziam entre si como podia ser que eh- 
rei fizesse tamanha armada e tão grande ajuntamento 
de gentes pêra ir sobre o duque d'Olanda, sendo en- 
tre elles tão poucas injurias passadas, que posto que 
el-rei o mandasse desafiar, seria a outro fim, mas não 
já que a sua verdadeira tenção fosse d'ir sobre elle, 
e sobre esta duvida alguns genovezes estantes na ci- 
dade de Lisboa escreveram a outros seus parceiros 
estantes em Sevilha, recontando-lhe todo o ardimento 
que se trazia em Portugal, acerca do aviamento d'aquella 
frota, e posto que se algumas cousas dissessem de des- 
vairadas maneiras, os mais dos sezudos todos criam 
que se fazia pêra irem sobre a cidade de Sevilha, porém 
que elles fossem avisados de tirarem d'alli sagesmente 
suas mercadorias e cousas em que entendiam receber 
algum damno em abatimento de sua fazenda, e com 
estes recados e muito mais com a presumpção que se 
fazia manifesta se ajuntaram aquelles vinte e quatro 
da quadra de Sevilha, e tiveram sobre ello grandes 
conselhos sobre os quaes escreveram ao conselho d'el- 
rei, a saber á rainha e alguns outros grandes senhores 
que eram com ella, porquanto o infante D. Fernando 
era já rei d*Aragão e estava em seu reino provendo 
sua terra. 

Chegou assim este recado a Palença, onde el-rei 
estava, sobre o qual se fallaram muitas cousas, entre 
os quaes fallou primeiramente um bispo d'Avila, a 
quem aquelle recado de Sevilha especialmente fora 
encomendado, porquanto elle era natural d'aquella ci- 
dade, e esto fallou elle assim porque muitos d'aquclles 
do conselho diziam que nào era pêra se fallar em si- 
milhante cousa, que bem era de presumir que se cl- 



Í50 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 

rei D. Joào tivera vontade de cometer sinulhante 
cousa que não mand.ira lá seus embaixadores requerer 

PRATICA DO BISPO DAVILA 

«Senhores disse o bispo, muitas mais vezes dão as 
cousas conselhos aos homens do que os homens o dão 
.Is cousas, e sobre todo a experiência, que é mestra de 
odas as cousas, não certa, e porém o que os de Sevi- 
lha requerem, não é sobre fundamento vão, que não 
ha nenhum tão simples em esto reino, que não sinta 
que s.m.lhante ajuntamento como se fn. no reino de 
Portugal, não seja muito pcra temer e arrecear, cá não 
tao somente nós outros que somos seus visinhos, mas 
amda os alongados de seu reino, pensam similhante 
cousa econsiram bem o damno que se lhe pode se- 
guir d ello, cá aquelle é havido por prudente e se^udo 
que consira as cousas ante que venham, cá por isso 
disseram os velhos antigos, que o homem apercebido 
e meio combatido, e aquelle bom cavallheiro D. Toão 
Manuel portanto poz n^aquelle livro que fez, que se 
chanaa o Conde Lucanor, um exemplo que aconteceu 
á andor.naa com as outras aves, que faz muito a este 
propósito. 

Certo é que o reino de Portugal é cercado todo de 
mar d uma parte, e d'outro o cercam estes nossos rei- 
nos, e ainda até agora não se acha que algum dos 
re.s de Portugal tivesse outra conquista, em que tanto 
tempo nem tão grandemente trabalhasse, como a guerra 
destes reinos, leixando aquelle primeiro rei que se 
occupou em despejar muitos daquelles logares que ti- 
nham os mouros, e ainda d'aquelle não foi de todo li- 
vrc, cá muitas cousas achamos nas chronicas antigas 
que se passiram entre elle e este nosso reino, mas pêra 



Chronica d'El-Rei D. João I 151 



que me deteaho eu em estas cousas? Abaste o que já 
disse, a saber que elles não tem com quem hajam con- 
tenda senão comnosco. 

Pois como pensaremos que el-rei agora haja de fa- 
zer armada pêra ir buscar novas conquistas, não ha- 
vendo nenhuma cousa pêra ello, é bem pêra crer 
aquelles que não tem sizo, que el-rei haja de fazer 
uma armada em que ha quatro annos que entende e 
despende dinheiro, e não tão somente abala pêra ella 
as cousas de seus reinos, mas ainda manda por todas 
as partes da christandade buscar navios e armas pêra 
ir sobre o ducado d'Olanda. 

Por certo as imizades e os damnos não são passa- 
dos entre elles tão grandes nem taes que por razão 
d'elles se houvessem de mover tamanhas cousas, nem 
ainda el-rei é homem que por similhantes cousas co- 
metidas por pessoas vis e de tão pequeno preço, hou- 
vesse de mandar dois seus filhos fora de sua terra com 
tamanho poder. 

Mas por certo que o feito que assim anda calado, 
alguma grande cousa ha-de partir, e os geno\'ezes es- 
tantes em Lisboa que similhante escreveram, alguma 
cousa conliecem e sabem porque deram tal aviso a seus 
amigos. 

Porém meu conselho é que emquanto a cousa as- 
sim está, que a cidade de Sevilha seja logo avizada, 
que os muros sejam repairados e os almazens provi- 
dos, e que as portas sejam mui bem fechadas e as cha- 
ves entregues a homens fieis, c que seja mandado a 
todos os fitlalgos e cavallciros comarcães d'aquclla ci- 
dade que se venham pêra cila logo e façam cumprir 
e guardar todas estas cousas, como sentirem que per- 
tence pêra segurança da dita cidade, e provejam todas 
as galés (• navios que estiverem nas tcrcenas, que lhe 



1Ò2 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



não falleça nenhuma cousa, pêra se apro\-citarem cJ'cllas 
quando cumprir.» 

Depois que o bispo acabou sua falia estava alli en- 
tre aquelles senhores o adeantado de Caçorla, que era 
um fidalgo muito sczudo, posto que muito \clho niio 
fosse, o qual se estawi sorrindo emquanto o bispo fal- 
lava. 

«E bem, disse ellc, que nós hajamos de tomar o te- 
mor por todos os outros a que por ventura maior 
parte pertence d'esto? Como poò.cmos nós fazer ne- 
nhum movimento de nos aperceber, que não fizésse- 
mos mui grande injuria a el-rei de Portugal, tendo com 
elle nossas pazes e lianças firmadas e ha\'endo ahi tào 
chegado divido, como ha entre nosso rei e seus filhos, 
e sendo elle um príncipe tão grande e tão nobre que 
hajamos de suspeitar d'elle que ha-de quebrar sua 
verdade e sua fé d'onde nunca se acha que similhante 
fizesse ? 

E o que os genovezes de Lisboa escreveram não c 
cousa razoada que por esso se haja de crer, nem movi- 
o conselho d'el-rei, ca o feito d'aquclles não é outra 
cousa senão salvar aquelle dinheiro que tem, porque 
em elle está toda a sustancia de sua vida e honra. 

Poréiií o que me a mim parece acerca d'ello é que 
nos não façamos mudança acerca de nenhuma cousa, 
porque se possa suspeitar que nós temos receio de cousa 
alguma que se n'aquelle reino faça, mas que hajamos 
nossas pazes por boas e firmes, co;no é razão que 
nunca Deus quizesse que a verdade sahisse em simi- 
lhante caso d'entre os senhores e príncipes, cá se as- 
sim fosse grandes males se recresceriam d'eIIo. 

I'^ porque ainda estas cousas fiquem mais firmes e 
mais seguras, podemos enviar nossos embaixadores a 
el-rei por lhe tomarem juramento, segundo ficou de- 



Chronica d'El-Rei D. João I lõS 



terminado quando seus embaixadores d'aqui partiram, 
e este movimento será justo e honesto, e podere- 
mos por elle fazer dois grandes proveitos. 

O primeiro será que se el-rei jurar as pazes, como 
é de crer que fará, ficarão nossos feitos todos seguros. 
e se por ventura elle tem em vontade de fazer outra 
cousa, logo porá algumas escusas ao não fazer, do que 
se elle não pôde escusar que não fique prejuro e in- 
famado, e nós poderemos entonce entender por qual- 
quer pequena duvida que elle ponha que todo seu 
fundamento é pêra nos empecer, e entonce teremos 
razão pêra nos percebermos descubertamente e sem 
nenhum prasmo». 

AUi estavam n'aquelle conselho mui grandes senho- 
res, ca estava o duque de Arjona e o mestre de Ca- 
latrava, e o prior de S. João, o conde de Benavente e 
o arcebispo de Toledo, e o bispo de Burgos e um deão 
de Santiago que era mui grande douctor, e assim ou- 
tros muitos douctores e cavalleiros que alli leixára el- 
rei D. Fernando pêra se determinarem as duvidas que 
sobreviessem ao conselho d'el-rei seu sobrinho, e estes 
todos fallaram entre si, havendo seus debates acerca 
d'aquelle feito, e finalmente acordaram que o conselho 
do adeantado era mui bom, e porém mandaram logo 
fazer a embaixada e elegeram pcra ello o bispo de 
Mondonhedo e a Dia Sanches de Benavides. 



KIM DO PRIMEIRO VOLUME 



Pag. 

Capitulo I — Do começo da historia e fundação de 

Ceuta i8 

CiPiTULO II — Ein que se declaram as razões porque 

esta força foi começada tão tarde 23 

Capitulo III — Da tenção que el-rei houve de man- 
dar requerer pazes a Castella 27 

Capitulo IV — Como os embaixadores foram a Cas- 
tella e da resposta que houveram 30 

Capitulo V — Como os embaixadores tornaram de 
Castella e como as pazes foram divulgadas por todas 

as partes do reino 33 

APitulo VI — Como el-rei D. João enviou requerer 
ao infante D, Fernando a conquista de Grada 39 

Capitulo VII — Como el-rei tinha vontade de fazer 
t^randes festas em Lisboa pêra fazer seus filhos ca- 
vallciros, c como os infantes fallaram acerca d'ello 
entre si, que similhante maneira de cavallaria não 
era honrosa pêra clles 40 



// INDEX 



Pag. 

Capitulo VIII — Como João AfFonso, vedor da fazenda, 
fallou aos infantes na cidade de Ceuta, e como os 
infantes fallaram a el-rei seu padre 44 

Capitulo IX — Como el-rei disse que não queria deter- 
minar alguma cousa d'aquelle feito até que sou- 
besse se era serviço de Deus fazer-se, e como 
mandou chamar os letrados pêra o saber 48 

Capitulo X — Como os letrados tornaram com respos- 
ta a el-rei dizendo que era serviço de Deus tomar- 
se a cidade de Ceuta 54 

Capitulo XI — Como el-rei moveu outras duvidas que 

tinha pêra filhar aquella cidade 60 

Capitulo XII — Como os infantes fallaram entre si acer- 
ca d'aquellas duvidas, e da resposta que trouxeram 
a el-rei 67 

Capitulo XIII — Como el-rei mandou chamar ao infan- 
te D. Henrique e das razões que lhe disse, e como 
determinou ir tomar a cidade de Ceuta 73 

Capitulo XIV — Como o infante D. Henrique levou as 
novas a seus irmãos e do grande prazer que hou- 
veram 77 

Capitulo XV — Como el-rei mandou chamar o prior 
do Hospital e o capitão, e o que lhe disse que ha- 
viam de fazer 

Capitulo XVI — Como o prior e capitão partiram pêra 
Lisboa e da embaixada que levavam e das cousas 
que fizeram cm sua viagem 85 

Capitulo XVII — Da resposta que o prior deu a cl-rci 
acerca de assentamento de Ceuta, e mais cousas 
que lhe encommendára 93 j 

Capitulo XVIII — Como el-rei disse a seus filhos que 
duvidava muito começar aquellc feito antes de pri- 
meiro o saber a rainha e o Condestabre 



INDEX III 



Pag. 

Capitulo XIX — Como a rainha fallou a el-rei no re- 
querimento de seus filhos, e da rosposta que lhe 
el-rei acerca d'ello deu 99 

Capitulo XX — Como el-rei pelo presente não quiz 
declarar á rainha que elle havia d'ir em aquelie fei- 
to, e como logo mandou encaminhar as cousas que 
pertenciam pêra a frota. . . 104 

Capitulo XXI — Como el-rei e os infantes determina- 
ram a maneira porque se havia de fallar ao Condes- 
table n'aquelle feito, e como lhe foi fallado e por que 
guisa 108 

Capitulo XXII — Como el-rei começou de ordenar 
mais trigorosamente sua ida, e como se os infantes 
tornaram d'Evora, e como se os infantes D. Pedro 
e D. Henrique partiram pêra suas terras, e cousas 
que lá fizeram . ... 113 

Capitulo XXIII — Como os infantes foram a Santarém 
todos três, e da maneira que tiveram em seu cami- 
nho, e do que fallaram a seu padre tanto que che- 
garam aonde elle estava 117 

Capitulo XXIV — Como el-rei mandou chamar os de 
seu conselho c como os infantes tornaram á corte, 
e das cousas que o infante D. Henrique requereu a 
seu padre 120 

Capitulo XXV — Como cl-rei tomou juramento aos do 
conselho e porque guisa, e das palavras que lhe dis- 
se acerca de seu propósito 1 24 

Capitulo XXVI — Como o Condestable respondeu 
primeiro n'aquellc conselho, e das razões que dis- 
se, e como o infante D. Duarte e seus irmãos res- 
ponderam, e porque maneira 128 

Capitulo XXVII — Como cl-rei teve conselho sobre o 
encobrimento d'aqucllc propósito, e como foi deter- 



IV INDEX 



Pag. 

minado que mandasse desafiar o duque d'01anda, 

e da maneira que el-rei teve n'aquelle desafio 131 

Capitulo XXVIII — Como Fernão Fogaça tornou com 
a resposta de sua embaixada, e como se as cousas 
passaram acerca do corrigimento da frota emquan- 
to elle fez sua viagem 137 

Capitulo XXIX — Como el-rei escreveu aos fidalgos 
que se fizessem prestes pêra irem com seus filhos, e 
do grande trafego que entonce era no reino acerca 
d'aquelle corrigimento 142 

Capitulo XXX — Como em Castella souberam estas 
cousas e do conselho que acerca d'elIo tiveram, e 
de como determinaram de enviar a el-rei seus em- 
baixadores por firmarem as pazes 147 



BIBLIOTHECA 

DE 

CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



Direcior litterario 

Conselheiro LUCIANO CORDEIRO 



Proprielario e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



A LIBERAL —Officina Typographica 
Rua I)K S. Paulo, 2ló 

1899 



BlBLIOTHECA DE ClASSICOS PoRTUGUEZES 



DlEECTOR LiTTEKARIO — CoMSELHEIRO LUCIANO COTiPEIRO 



Prcprietíirio e foaáador — Mello d'Aze\t:do 



CHRONICA 



DE 



EL-REI D. JOÃO I 



POR 



Go7nes Eanncs (T Azura7'a 



-S7'OXj. II 



ESCRIFTORIO 

147 — \^\.'s. uos RETUozfiKOS - 14; 

LISV.OA 

IS99 



CAPITULO XXXI 



Corno aqnelles embaixadores vieram a Portugal e co~ 
vio derard a embaixada a el-rei, e da res^wsta que 
houveram, e como Dia Sanches de Benevides mor- 
reu^ e o bispo se tornou. 



jVÍ OBREMENTE mandou a rainha corregar aquelles 

jjNà embaixadores, assim pelo que pertencia á ex- 
^J cellencia do estado de seu íilho, como por se- 

rem os primeiros que vieram a este reino, depois 
da morte d'el-rei D. Henrique, os quaes partidos de 
Castella traziam em si mui grande duvida de acaba- 
rem o porque vinham, tamanho era o espanto que lhe 
pozeram ficcrca do movimento d'el-rei contra a cida- 
de de Sevilha, a qual opinião lhes fazia pensar que 
seriam mal recebidos e peior agazalhados. 

limpcró acharam tudo pelo contrario do que cUes 
esperavam, porc[ue tanto que el-rei houve novas de 
sua vinda, mandou logo um escudeiro ao extremo, 
que os fizesse mui bem receber em todos os lo<>ares 
do reino, por onde clles viessem, o (jual cscuílcuo le- 



Bihliotheca de Clássicos Portxigiiezes 



vava poder abastante crd-rci pcra que lhe fizesse dar 
abastantcmcntc todas as cousas que lhe fizessem mis- 
ter, sem lhe ser levado dinheiro algum, mas tudo á 
custa d'el-rei. 

E quando assim aquelles embaixadores viram simi- 
Ihante começo, prouve-lhe muito, do qual logo man- 
daram recado á rainha e aos do seu conselho, fazen- 
do-lhes saber aqueile agazaihado que lhe el-rei ao 
presente mandava fazer 

Mas quando clles chegaram acerca de Lisboa, onde 
el-rei estava, ali ])oderam ellts de todo conhecer 
quanto a sua opinião era errada, cá mandou el-rei 
mui grande parte dos bons que ha\ia na cidade pêra 
os acompanharem, e tanto que foram ante elie, rece- 
beu-os mui graciosamente de sua pessoa, do que elles 
sobre todo foram mui mais contentes. 

«iSenhor, disse o cavalleiro, el-rei nosso senhor c 
a rainha sua madre vos en\iam muito saudar, e o du- 
que com todos os outros da sua valia se encommen- 
dam em vossa mercê, e os outros fidalgos e cavallci- 
ros com a mais gentileza da corte enviam beijar \ts- 
sas mãos c encommendar cm vossa mercê.» 

As quaes encommendas assim dadas foram recebi- 
das por el-rei com aquella mesura e cerimonia que 
convinha a seu estado, entoiíccs lhe deram a carta de 
crença e lhe apresentaram sua embaixada cm esta 
forma : 

Embaixada i)'i!:i,-ri;i de Castixla 

«Mui poderoso e sereníssimo principe, senhor el- 
rei 

O bispo de Mondonhedo c Dia Sanches de Benavi- 
dos, súbditos naturaes e feituras do mui alto, muito 
poderoso serenissimo e illustrissimo principe senhor, 



Chronica d'El-Rei D. João I 



el-rei de Castella e de Leão, vosso sobrinho e nosso 
senhor, notificamos a vossa mercê, como ante a sua 
real mngestade foram vossos embaixadores, a saber : 
João Gomes da Silva, vosso alferes-mór e o doctor 
^.lartim Docem, e o doctor Beliago, os quaes com vos- 
sa auctoridade e podertrataram com a senhora rainha 
e com el-rei D. Fernando, que entonces era infante, 
como tutores do dito senhor, pazes jrerpetuas, firmes 
e valedoiras pcra todo sempre, ante a sua real senho- 
ria com todos os seus reinos e senhorios e terras, e 
vossa alteza com todos seus reinos senhorios e terras, 
sobre as quaes foram feitos uns capitules, em que in- 
teiramente se contem a forma das ditas pazes e a ma- 
neira como se devem firmar e guardar. 

E porquanto os ditos senhores, tutores e curadores 
d'el-rei, fizeram juramento solemne segundo pêra tal 
auto cumpria, e assim todos os outros príncipes d'aquel- 
les reinos, passando-sc todo assim em presença dos 
ditos vossos embaixadores, segundo d'elle tornaram 
suas escripturas publicas, os quaes embaixadores ju- 
raram outrosim, em vosso nome e de vossos filhos, 
por virtude e poder de vossas procurações, que pcra 
ello levavam sufficientes e abastantes, ficando res- 
guardado aos ditos senhores, de enviarem ao deante 
seus embaixadores pcra ser tomado pessoalmente o 
dito juramento de vossa mercê c assim de todos os 
outros, a c)uem pertence similhante juramento. 

K porque depois dos ditos tratos passados se se- 
guiram outros negócios d'ac|uclU.s reinos, j)rincipal- 
mcnte os feitos d'el-rei D. l*'ernando, não poderam 
enviar a vossa mercê requerer o dito juramento. 

Porém, porque as ditas pazes sejam firmes- e ratas, 
el-rei nosso senhor, por auctoridade da rainha sua 
madre e dos outros do seu conselho, nos mandou co- 



Bihliothtca de Clássicos Portuguezes 



mo seus embaixadores, que firmássemos o dito jura- 
mento e lhe levássemos d'cllo nossas escripturas pu- 
blicas, nas quaes se contivesse todo o auto que se 
acerca d'ello passasse. 

Ora muito alto e muito jjodcroso principe, a vossa 
senhoria apraza encaminhar como o dito juramento 
seja feito, por tal que as ditas pnzes se guardem c fir- 
mem segundo por \os.sos embaixadores foi tratado c 
firmado.» 

Acabada assim a sustancia d'aquella embaixada, 
disse el-rei : 

«Como quer que em todas as cousas os grandes 
principias tenliam maneira de retardarem algum pouco 
suas respostas, pêra haverem razão de se aconse- 
lhar, quanto .icêrca d'esta presente, muitos dias ha 
que eu Lenho havido meu ct)nselho, cá por tão firme 
tive e tenho qualquer cousa que aquelles meus em- 
baixadores cm meu nome tratassem, como se cu por 
minha própria pessoa o fizera, c portanto me praz 
muito de fazer o dito juramento, por a guisa que me 
por vó.s é requerido, e d'aqui por deante tratar com 
todas as cousas de meu sobrinho, por aquella guisa 
que trato com as minhas, te:ido seus naturaes com os 
meus a(i'.iella maneira que é razão.» 

E quanto ao juramento, disse el-rei que pêra se fa- 
zer como cumpria, que elle mandaria chamar alguns 
dos principaes do seu reino que ali não estavam, c 
que entoncos encaminharia como elles fossem despa- 
chados segundo se;i requerimento, e assim fizeram fim 
quanto aquelle dia das cou^^as sosuditas, e os embai- 
xadores houveram nobres pousadas, e se ante eram 
bem agiízalhados c providos das cousas que lhe faziam 
mister, d'ali adcante o foram muito melhor, cã eram 
em a(|uclhi cidade, onde el-rei estava, muitas cousas 



Chronica d'El-Rci D. João I 



deleitosas, especialmente pescados frescos, de que elles 
cm algumas partes de seus reinos são mal pro- 
\idos. 

El-rei tinha maneira de os mandar abastar de todo, 
e des-ahi, quando foi tempo, el-rei e seus filhos fize- 
ram juramento assim e por aquella guisa que fora 
feito em Castella, de que os ditos embaixadores to- 
maram seus instrumentos e escripturas, segundo sen- 
tiam que cumpria pêra segurança de seus feitos. 

Mas porqne alem da dila sua embaixada elles tra- 
ziam outras cousas, que ha\'iam de requerer, assim 
como tomadas de alguns navios, ou damnos que se 
sempre fazem entre os visinhos dos extremos, foi-lhe 
necessário estarem ainda alguns dias na corte pêra re- 
quererem aquellas cousas, no qual espaço se seguiu 
<iue aquelle cavalleiro Dia Sanches de Benavides 
adoeceu, e como quer que por mandado d'el-rei fosse 
mui bem curado, a enfermidade era tal, de que por 
necessidade houve de fazer fim de sua vida, na qual 
cousa a el-rei desaprouve, e assim lhe mandou fazer 
mui honradas exéquias, e a sepultura foram a maior 
parte dos bons homens que havia em aquella cidade, 
])or mandado d'el-rei, c assim d'ello, como de todo 
outro ga/alhado que lhe el-rei mandou fazer, o bispo 
foi mui contente, e assim lou\-ava muito el-rei, por to- 
ilos os lugares por onde ia, quando se tornou pêra 
sua terra, cá logo cm breve tempo foi despachado. 

]i haveis de saber, que depois que estes embaixa- 
dores entraram cm Portugal, até que se o bispo tor- 
nou, sempre foram manteudos, elIcs e seus homens o 
bestas, .1 custa d'cl-rei, assim grandemente como ellc 
costumava de fazer; e emfim foram dadas ao bispo 
grandes dadivas de jóias de ouro e de praia, e pannos 
de grande v^alia, as quaes com outras cousas, loran» 




10 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



azo porque «iquellcs servidores, que \ieram com os 
ditos embaixadores, contra sua natureza louvavam 
muito a grande magnificência d'el-rei. 



CAPITULO XXXII 



Co?}io el-rei de Aragão enviou seus embaixadores a 
el-rei, e da resposta que levaram, e como iieste icmf>o 
vieram alguns estrangeiros offerccer-sc a el-rei, e di 
maneira que com elles teve. 



'ois cjue já dissemos dos embaixadores de Cas- 
tella, e de todo o que se seguiu em sua em- 
baixada, digamos agora todos os outros em- 
baixadores que vieram a el-rei, por razào d'aquella 
armada que assim fazia tão grande, cá a fama (i'clla 
como já dissemos soava por Iodas as partes, e espan- 
tava muito os corações dos homens, especialmente 
d'aquelles que eram mais chegados a este reino. 

K foi assim, que tanto que em Casteila foi deter- j 
minado que os embaixadores viessem a Portugal, lo- j 
go alguns senhores do conselho escreveram a el-rei 
D. Pernando, fazendo- lhe saber todo o feito como 
passava, cá posto que elle estivesse assim alongado, 
não se fazia nenhuma cousa de peso em Casteila que 
a elle não soubesse, e esto era porque os mais 
d'aquelles eram sua feitura, e assim como lhe fizeram 
saber a partidii dos embaixadores, assim lhe escre- 
veram depois toda a resposta que levaram, mas en- 



Chronica d'El-llei D. João I 11 



tonces ficou a eHc outro muito maior cuidado, porque 
consirou em si, que pois el-rei de todo segurava o rei- 
no de Castella, firmando as pazes por juramento, como 
dito é, que poderia ser a verdadeira tenção de irem 
contra elle, ou contra algum Jogar do seu senhorio. 
Este pensamento, tinha eile assim, porquanto hou- 
vera o reino por aquella guisa que já ouvistes, do 
qual havia tão ponco que estava em posse, e fòra-lhe 
dito como o conde de Urge!, que pensa\a ter maior 
direito no reino que elle, vendo como já por si não 
podia cobrar o nome de rei, que escre\-era a el-rei 
I). João, como elle era assim forçado do f-eu, e que 
pois já n'aquelle reino não podia cobrar direito, que 
lhe prouvesse de ò ajudar, e que com pequeno movi- 
mento (jue elle fizesse acerca d'elle, seria de todo 
ponto em posse d'e!le, cá os mais e maiores d'aquelle 
reino não obedeciam a el-rei D. Fernando renão por 
força, cá conhecido era a todos que o reino justa- 
mente pertencia a elle mais que a el-rei D. Fernando, 
c que se a Deus prouvesse d'elle cobrar a dita posse, 
que elle não filharia nome de rei, mas que elle tinha 
duas filhas para casar, c elle isso mesmo a Deus gra- 
ças tinha filhos, que as casasse com dois d*elles, cem- 
tanto (jue o que casasse com a maior, tomasse logo 
nome de rei de Aragão, e que ao outro filho seria 
dada terra cm aquelle reino com que podesse \iver 
honradamente, e que por seu fallccimcnto lhe ficaria 
o seu condado, coiu toda sua terra. 

\l, como quer que nenhuma cousa d'estas se falasse 
a el-rei D. Jcião, c porém certo que foi assim ilito a 
el-rei D. l'ernando, e de o elle crer não era souí ra- 
zfto, porí|uanlo elle estava assim cm aquelle reino 
onde era quasi estrangei: o, e conhecia bem «lue ainda 
que o seu direito fosse maior, i|ue muitos d'acjucl!cs 



12 Bibliofhecd fie Clássicos Portnquezes 



que lhe obedeciam qui/eram antes o conde por seu 
rei, por azo da natureza que havia cora elles, cá bem 
conhecia que u seu obedecimcnto era constrangido, 
mais que por \ontade, e que obediência constrangida 
nunca se pódc possuir sem grande suspeita, e por- 
que os seus llíc conheciam aquelle grande cuidado, c 
que lhe aprazia de ouvir qualquer cousa de movimen- 
to de cada um de seus contrários, trabalhavani-se de 
saber tudo o que acerca d'ello podiam saber, e di- 
ziam-lho: c querendo-lhe comprazer, muitas vezes 
lhe afirmavam o que não sabiam, de que se seguiam 
penas injustas a al^juns, cá isto e uma cousa que faz 
a muitos principes ganh.ar grandes imizadcs com seu 
povo, e os males que se d'ello seguirahi, manifestes 
são a todos a<:[uelles que sabem as chronicas antigas. 
Não era pois esta cousa pêra el-rei I). Fernando 
não crer, trazendo comsigo tão manifesta còr, e po- 
rétn mandou logo fazer prestes seus embaixadores, 
os quaes enviou logo com suas cartas a el-rei D. João, 
e leixando a prolixidade das outras cousas, brevcmenti! 
chegaram a este reino, e tanto que foram em ponto de 
serem ouvidos, disseram a el-rei jjor esta guisa: 

Embaixada d'kl-kki de Aragão 

«Senhor: el-rei de Aragão, nosso senhor, vos faz a 
saber como ha muito tempo que ha novas ijue \"ós vos 
percebeis de guerra, e que clle emquanto vosso per- 
cebimento não foi muito sor.do, sempre pessoa que 
era alguma cousa pequena, m:is depois que houve 
certas novas que mandáveis aperceber todas as gen- 
tes do vosso reino e buscar por diversas partes n:ius 
e navios pêra fazer grande ajuntamento de frota, que 
entendeu, e entende, que um tão alio príncipe como 



II 



Chronica d'El-Rei D. João I 13 



vós não pode mover similhante feito, senão a algum 
grande fim, e que quanto a certidão do feito é mais 
duvidosa, tanto é maior razão que se proveja sobre 
ello, e porque entre as muitas partes que se determi- 
nam ácêrca de vossa armação, principalmente são só 
duas que a elle pertencem, a saber, que alguns seus 
contrários vos moveram partido, que os ajudeis a co- 
brar aquelle reino, pondo-vos esperança de o darem 
depois a cada um de vossos filhos, e a nutra é, que 
enviais sobre o reino de Secilia, de que elle tem tanta 
parte como sabeis. 

Porém, que elle vos roga que consireis a boa von- 
tade que elle sempre teve a vós, e a todos vossos 
feitos, e ao direito que elle tem n'aquelles reinos, o 
qual já foi visto e determinado pelo vSanto Padre, e 
assim por todos os letrados e sabedores dos ditos 
reinos, por cuja razão em elle foi em posse posto, e re- 
cebido por rei e senhor, como bem sabeis, e portanto 
(jue vos não queiraes mover contra elle por nenhu- 
ma esperança de proveito que vos .Icêrca d'ello seja 
movida, não havendo justa razão pêra ello, e que so- 
bre tudo pêra obrardes segundo pertence a vossa clara 
magnificência, vos praza qae liie envieis dizer ácêrca 
de todo vossa vontade, cá elle posto que lhe estas 
cousns fossem ditas, nunca determinadamente em seu 
coração pôde caber que vós similhante movimento 
fizésseis, não havendo mais justa causa, que porque 
vos conhece por justo e direito em todas vossas cou- 
sas, e assim obrador de grandes feitos». 

El -rei não quiz mais alongar resposta, porque não 
era cousa que pertencesse ao conselho. 

— Vós direis, disse elle, a cl-rci D. Fernando meu 
amigo, depois de lhe dardes minhas saudações, (|ue 
elle saiba certamente, (jui: meu ajuntamento não é 



14 Bihliothcca de Chissicos Portugueses 



contra clle, nem contra cousa que a elle pertença, 
cá saiba clle que com maior vontade o ajudaria a ga- 
nhar outro reino, tendo n'el!e alguma parte de direi- 
to, do que lhe dnria fadigo sobre o que tem ganhad<\ 
do qual Deus sabe que me prouve, e me praz muit(^ 
e que se porventura eu tivera determinado de dizer 
este segredo a algum principe similhante, que iôra a 
elle, mas que prazendo a Deus, mui cedo saberá certo 
recado de minha intenção.» 

Não ha\'cmos aqui porque escrever os gazalhados 
nem as mercês que cl-rci fez áquellcs embaixadores, 
cá esto havia el-rci avantajadamente sobre todos on 
principes do mundo; elles foram muito contentes dr 
cl-rei, e mais o foi el-rei D. Fernando depois que lh- 
os embaixadores contaram a boa \'ontade que el-rci 
tinha pcra elle, c pcra toda sua honra. 

E porque as novas eram taes, e a elle tanto pra- 
ziam, lh'as contavam aquelles seus embaixadores com 
muita diligencia, e assim toda a maneira que el-rei 
tinha em seu estado, e o corregimcnto de sua frota, 
e principalmente louvawam muito a postura dos in- 
fantes, e de todo prazia muito a el-rei I). Fernando. 
«Certamente, disse elle, sempre conheci el-rei D. João 
ser muito avantajado principe, c em todos seus feitos 
sempre se mostrou grande e virtuoso e elle que este 
feito assim move, membre-nos que ha-de ser uma 
cousa notável e grande, cuja forma será de mui 
grande preço, e ainda inveja de muitos principes do 
inundo.» 

(^utrosim \ieram cm este ensejo a el-rei, um grande 
duque dWllcmanha e um barão com elle pêra o ser- 
vir em aciuclle feito; e o duque disse a el-rei que 
ouvindo no\-as em sua terra, d'este seu movimento, 
vinha com intenção de o servir, porem que lhe pe- 



Chronica d'El-rci D. João I 15 



dia por mercê que lhe declarasse logar certo pêra 
<fnde ia sua frota, porque pêra tal poderia ir, que não 
seria razão de o seguir em ella. 

El-rei lhe respondeu que elle tinha determinado 
por seu serviço, de não revelar aquelle segredo a al- 
guma pessoa fora de seu conselho, e que ainda sa- 
beria que nem todos do conselho eram d'e!lo sabe- 
dores, somente alguns d'elles certos e especiaes, po- 
rém que se a elle prouvesse de ir assim com elle 
por acrescentar em sua honra, que lh'o teria em ser- 
viço, e lhe faria por ello mercê. 

O duque respondeu que sua determinação não era 
tal, senão pela guisa que lhe já dissera, porém que 
com sua licença se queria tornar pêra sua terra. 

El-rei mandou-lhe fazer mercê, segundo requeria 
seu estado, e des-ahi encaminhou pcra vSantiago, e 
d'ahi caminho de sua terra. 

E o barão ficou eom el-rei e o serviu depois mui 
bem, segundo fizeram outros muitos estrangeiros que 
vieram fazer de suas honras em este feito, entre os 
quaes foram principahnente três grandes fidalgos, 
gentis homens da casa de França, e o principal d'elles 
havia nome Mosem Arredentão, o segundo, Pierre de 
Souvre liatalha, e o terceiro Gibotalher ; empero ne- 
nhum d'elles vinha tão grandemente corrcgido como 
o grão barão, que trazia comsigo quarenta escudeiros 
fidalgos gentis homens, que depois provaram mui bem 
por seus corpos, suas honras, na tomada d'aciuclla 
cidade. 

E posto que estas embaixadas e cousas \ào assim 
juntamente, nào sejam porém apropriadas a aqucllcs 
tempos, cá enlre umas e outras se metiam alguns es- 
paços, os (]uaes homem disctintamcnte não poderia 
escrever, j)orque as chronicas (pie levam similhanlc 



16 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



ordenança, não podem levar mais certa declaração, 
salvo aquellas que levam os feitos contados d'urti 
anno a outro, similhantes a aquellcs a que os roma- 
nos chamavam Atniaes, porque havia ordenança que 
se escrevessem os feitos de cada um cônsul apartada- 
mente, e porque elles não reinavam mais que um anno 
era necessário que se fizesse cada um anno o dito 
livro, empero ainda estes livros tinham outro nome, 
cá lhe chamavam os livros dos dias fa tos, cá era fasto 
em sua linguagem, como dia convinhavel pêra pele- 
jar ou fazer outros grandes feitos, a qual cousa sem- 
pre era mui bem esguardada pelo regimento das ro- 
das celestiaes, e ou vencessem ou fossem vencidos, 
todavia haviam de fazer escrever todo seu aconteci- 
mento, e ao dia em que elles venciam, chamavam 
fasto, a saber, dia convinhavel, e ao dia em que lhe 
não convinha pelejar, chamavam-lhe nefasto, porque 
tanto quer dizer em nossa própria linguagem fasto, 
como bem aventurado, e nefasto como não bem aven- 
turado, á qual ordenança nos não podemos guardar 
cm esta obra, por ser começada tão tarde, como já 
ouvistes, e tratada en\ tão grande segredo que foi 
cousa d'haver daquelles feitos mui poucas escriptu- 
ras, que ao deante parecessem, somente aquelles que 
se fizeram, depois do conselho de Torres \'edras, 
quando ficou determinado de se divulgar a partida 
dos infantes, e as cousas que se entoncc escreviam 
não eram senão ordenanças, que se geralmente fazem 
em todas as armações em (]ue ha-de ser alguma mul- 
tidão de gente, o que ainda não foi feito, senão no 
derradeiro anno, e sobre todo as cousas foram mui 
grandes e embrulhadas umas com as outras, por cuja 
razão não se poderão escrever por outra guisa, cá as 
muitas cousas não são assim hgeiras de abarcar, por- 



J 



Chronica d^El-Rei D. João I 17 



que aquelle que acha as rodas do carro apartadas, 
algum tempo ha mister pêra as ajuntar. 



CAPITULO XXXIII 



Como os embaixadores ãel-rei de Grada vieravt a el- 
rei e do que lhe requereram, e como traziam re- 
cado d el-rei ao infante D. Duarte e á rainha, e do 
que lhe prometeram. 



i_ú. iNDA fica agora pêra dizer, como el-rei de Gra- 
yJl da enviou seus embaixadores a el-rei de Por- 
y tugal, cá se os outros reis christàos tinham 
temores, muita mais razão tinha elle, consirando quan- 
tas vezes enviara seus recados a el-rei pêra cobrar 
sua amizade e segurança de paz, e nunca a d'elle 
poderá haver, e que poderia agora suspeitar ouvindo 
as novas de tamanho ajuntamento, cuja fama espan- 
tava muitos príncipes da christandade ? 

Quanto mais que os mouros forros, que viviam em 
este reino, vendo assim aquelle ajuntamento, como 
homens que não tinham perdida a amizade dos ou- 
tros mouros, que a sua seita requeria nunca cessavam 
de perguntar qual era o verdadeiro propósito d'el-rei ; 
e não c duvida que este segredo lhe não fora revela- 
do, segundo a grande diligencia que elles tinham de 
O saber, se algum dos do reino, afora aquelles que 
já dissemos, lunivera azo de o saber, empcro apalpan- 
do assim, depois (|ue viram qne el-rei segurava Cas- 



18 Bihliotheca de Classicoít Portuguezes 



tcUa e Aragão, suspeitaram que aquelle ajuntamento 
nào podia ser, senão sobre o reino de Grada, e aviza- 
ram por suas cartas a el-rei de Grada, o qual ouvindo 
assim aquellas novas de tantas partes, enviou seus 
embaixadores a el-rei de Portugal, os quaes eram 
C(.rtos mouros de grande auctoridade, levando seus 
tr.rgimàes, que lhe interpretassem a linguagem. 

El-rei, assim como tinha em costume de receber 
b^m todos os estrangeiros, recebeu a elles, segundo 
seu estado, e quando foi tempo de darem sua embai- 
xada, disseram: 

Hmiíaixada d'el-rei de Grada 

«El-rei nosso senhor, vos envna dizer, como depois 
que este vosso senhorio, está em posse de reino, 
nunca entre os seus naturaes e os vossos foi achada tal 
discórdia, porque leixassem de tratar uns com os ou- 
tros, trazendo-se d'aquelle reino ao vosso grandes 
mercadorias, e do vosso ao seu, e que além de todo, 
o dito senhor vos teve sempre em sua vontade gran- 
de amor, principalmente por vossas grandes virtudes 
e bondades, o qual o constrangem a vos enviar por 
muitas vezes seus presentes, o que nunca fez a ne- 
nhum christâo. 

Porém, disseram cllcs, que agora, que alguns seus 
naturaes tinham receio de vir a vossos reinos, com 
suas mercadorias, como antes sahiam por azo do cor- 
regimento de vossa frota, suspeitando que podia ser 
contra algum dos logares de seu senhorio, e que ou- 
tros mercadores, de seu reino, lcixa\'am de levar as 
suas ao vosso, receando que lhe fossem rcteudas por 
vós ou vosso mandado, que vos prouvesse, por evitar 
assim esta suspeição de lhe enviardes certa segurança 



CJironica d^El-Rei D. João I 19 



de uns e outros poderem estar, e contratar amigavel- 
mente, como sempre fizeram, na qual cousa lhe fareis 
uma grande graça, a qual elle prazendo a Deus en- 
tende de emendar com outra similhante,ou muito maior 
quando lhe requerida fôr da vossa parte». 

— Não sei que razão tem os mouros, respondeu 
el-rei, de terem similhante suspeita, nem os meus na- 
turaes isso mesmo, tendo tão pequena certeza de mi- 
nha vontade? porque ainda que eu assim mande cor- 
reger minhas gentes, pêra enviar meus filhos, por 
meu serviço, a verdadeira tenção d'ella está muito 
longe de seu conhecimento nem vejo que razão po- 
desse ter que parecesse razoada pêra fazer similhante 
segurança. 

Porém vós lhe dizei que eu não entendo fazer com 
elle, nem com outra alguma pessoa, similhante inno- 
vação, pois que a nunca fiz em todos os meus dias, e 
porque esta é a conclusão de meu propósito, vós po- 
deis ir, muito embora, quando vos aprouver. 

(^s mouros sentiram que por aquella resposta não 
levavam nenhuma segurança, e faliaram entonce á 
: rainha, por vêr se poderiam encaminhar o feito por 
outra guisa, cá tal avisamento traziam d'el-rei de 
Grada; o qual era que a Rica Forra, que era a prin- 
cipal das mulheres d'aquelle rei mouro, enviava 
dizer á rainha D. Felippa, como el-rei seu senhor e 
marido, enviava seus embaixadores a este reino re- 
querer algumas cousas a el-rei, as quacs a ella prazc- 
ria muito que cilas fossem bem aviadas, e por- 
(juanto ella sabia quanto os bons requerimentos das 
mulheres moviam os corações dos maridos, quando 
llic requeriam alf^umas cousas em que tinham vonta- 
ilc, (jue lhe rogava, que por contemplação sua, lhe 
prouvesse filhar cargo de requerer a el-rei a resposta 



20 Bibliotkeca de Clássicos Portuguezes 



d'aquelle feito, poendo cm ello todo seu bom desejo, de 
guisa que a vontade d'el-rei de Grada, seu senhor e 
marido, fosse posta n'aquelle fim que elle desejava, e 
que pois ella tinha filha pêra casar, que em breve 
tempo poderia ver o agradecimento de sua boa von- 
tade, cíí lhe certificava que lhe enviasse pêra ella o 
melhor e mais rico enxoval, que nunca fora dado a 
nenhuma princesa moura nem christà. 

Mas quem havia de ser aquelle que movesse a rai- 
nha, pêra falar em tal partido? cá a rainha era uma 
mulher muito amiga de Deus, e segundo suas obras 
filhara do niámcnte encarrego de nenhum infiel, pêra 
lhe procurar nenhum favor, quanto mais que era na- 
tural de Inglaterra, cuja naçào entre as do mundo,^ 
naturalmente desamam todos os infiéis. 

— Eu não sei, respondeu ella, a maneira, que os vos- 
sos reis com suas mulheres teem, que entre os chris- 
tãos não é bem contado a nenhuma rainha, nem a outra 
alguma princesa, de se entremetter nos feitos de seu 
marido, (juanto em similhantes casos, pêra os quaes 
elles teem seus conselhos, onde determinam seus fei- 
tos, segundo o entendem, e as suas mulheres quanto 
melhores são tanto com mais diligencia se guardam 
de c]uererçm saber o que a cilas não pertence, cá co- 
nhecem, certamente, que seus maridos, com seus con- 
selheiros, teem maior cuidado do cjue á honra do seu 
estado pertence, do que o ellas podem conhecer, ver- 
dade é, que ellas não são assim afastadas de todo 
que lhe não fique poder de requerer o que lhes praz^ 
mas estes requerimentos, são taes, que os maridos não 
liào razão de lh'os poderem negar, e algumas que o 
contrario fazem, não são havidas por ensinadas, nem 
discretas. 

Porem vós direis á rainha vossa senhora, (juc ca 



CJironica d'El-Rei D. João I 21 



lhe agradeço sua boa vontade, mas que ella poderá 
de seu enxoval fazer o que lhe prouver, cá com a 
graça de Deus, a minha filha não fallecerá enxoval 
pêra seu casamento; e vós requerei vosso feito a el- 
rei meu senhor, que elle é tal, que se lhe vós reque- 
rerdes o que é razão, que vol-o fará com mui boa 
vontade. 

Os mouros sentiram que não tinham bom recado na 
rainha, e provaram deattentarao infante D. Duarte, pêra 
ver se com suas grandes promessas o poderiam incli- 
nar a sua devoção, e foram-se a elle, e disseram-lhe 
como el-rci de Grada, seu senhor, era um homem que 
muito desejava ter amisade com seu padre, e por con- 
seguinte, com elle, e com toda a casa de Portugal, e 
para elle crer que sua vontade era tal, que o poderia 
saber de todos os mercadores, e outros naturaes d'este 
reino, como eram tratados tão docemente, e com tanto 
favor, leixando-lhe trazer suas mercadorias e tratar 
com seus naturaes, assim como se fossem súbditos 
d'algum rei mouro, com que elle houvesse mui che- 
gada liança de sangue, por cuja razão, disseram elles, 
senhor nos enviou a el-rei vosso padre com sua em- 
baixada, da qual cremos que vossa mercê haverá já 
certa informação. 

Porem, senhor, porque el-rci de Grada, nosso se- 
nhor, muito deseja cobrar aquella segurança que re- 
'^\ queremos, elle vos envia dizer que por quanto 
eile sabe que el-rci vosso padre, ha-de obrar em 
este feito, principalmente por vosso consellio, que vos 
roga que por sua contemplação, vos praza lilhar 
encargo do dito recjucrimento, de guisa que pela boa 
vontade que vós cm ello pozerdcs, possa vir a fim 
de seu desejo, c por vós não haverdes vosso trabalho 
por mal despeso, (|uc elle vos promctte, assim como 



22 liihliotheca de Clássicos Portuguezes 



rei que é, de vos fazer um tal serviço que em todas 
as partes do mundo seja nomeado por grande, pêra 
segurança do qual vos será feita por nós qualquer 
lirmeza que vossa mercê mandar, c ainda se mister 
fizer, abastante fiança.» 

«Os príncipes d'esta terra, respondeu o infante, não 
são costumados de vender suas boas vontades por 
preço de dinheiro, cá uzando de similhanto modo, te- 
riam mais razão de se chamarem mercadores, que 
não senhores, nem príncipes; porém vossas promes- 
sas são escusadas acerca de similhante caso, cá não 
tão somente esse presente, que el-rei diz que me en- 
viará, mas que me fizesse segurança que me daria 
todo seu reino, por similhante modo o não receberia 
d'elle, nem poderia fazer a el-rei meu senhor e padre 
nenhum requerimento, senão aquelle que fosse justo 
e razoado, c el-rei de Grada, vosso senhor, não ha 
porque tomar taes cócegas, não havendo mais justa 
causa pêra ello. 

K d'esta guiza se tornaram os mouros, pouco con- 
tentes de tal resposta. 



Chronica d'El-Rei D. João I 23 



CAPITULO XXXIV 



Como o i)ifante D. Henrique veio depois de janeiro 
f aliar a el-rei sen padre, e como se tornoxi para o 
Porto, e da maneira que teve na sua armação. 

JÁ me parece que tenho tempo de leixar estas 
cousas, e fallar nas outras que são mais chega- 
das ao aviamento da frota, emperó antes direi 
um pouco das boas vontades que todos traziam 
para servir el-rei n'aquelle feito, porque cada um tra- 
zia tamanha lédice em seu corregimento, como se de- 
terminadamente soubessem que sem nenhum perigo 
haviam d'haver victoria, nem lhes fazia nenhum em- 
pacho, a duvida que tinham do logar certo cá não 
sabiam pêra onde havia de ir. 

Era antonce a gente do reino repartida em duas 
partes, porque havia ahi uns, que serviram el-rei em 
todos os seus trabalhos, e eram quasi todos d'uma 
cdade pouco mais ou menos, e os outros eram os fi- 
lhos d'aqucstes, os quaes traziam em si mui grandes 
desejos de chegarem aos merecimentos de seus pa- 
dres ; cá assim como os filhos dos galgos geralmente 
seguem a natureza de seus padres em caçar, assim os 
filhos dos bons houiens, commummente se chegam a 
aquelle olficio c|ue seus patlres u/aram c porcjue me- 
receram. 

Não fallo (Talguns, cjue pui .sua desvairada conste- 
lação perdem sua bondade, cá assim ha hi outros, 
que por sua nascença não são obrigados a seguir \ir- 



24 Biòliotheca de Clássicos Portuguezes 



tude, e dá-lhe Deus graça que se chegam a ella, e a 
seguem, porque cobram honra, cá em todas as cousas 
se toma a maior parte, pelo todo, mas pêra este cor- 
regimento não ser tão perfeito, como todos tinham 
em vontade, sobreveio um grande empacho, porque 
começaram de morrer de pestilência na cidade de 
Lisboa, e também no Porto, e esto foi, segundo di- 
ziam, por azo dos navios que vieram de muitas par- 
tes, e em alguns d'eiles havia pestilença, e porque esta 
enfermidade, segundo diz S. Izidoro na sua Etimolo- 
gia, é contagiosa, fez mui grande damno no havia- 
mento d'aquella frota, principalmente na morte da , 
rainha, que sobre todos, foi mais sentida. 

Não podemos falar direitamente, que algum do rei- 
no tivesse m.iior cuidado de aviar o que lhe perten- 
cia, que o infante U. Henrique, cá tanto que passou o 
mez de janeiro, veiu falar a seu padre, contando lhe 
o ponto em que Icixava todas as cousas, e dizendo-lhe 
outrosim, que lhe pedia por mercê, que lhe desse seu 
regimento escripto, da maneira que havia de ter. 

— Meu filho, disse el-rei, a mim me praz que por 
o presente vós não leveis outra ordenança, nem cor- 
regimento, senão vossa descripção, com a boa von- 
tade que cu em vós sinto pcra me servir, mas leva- 
reis uma minha carta, pêra que vos obedeçam todos, 
assim como a capitão general, e outra similhante da- 
rei a vosso irmão, o infante O. Pedro, e vós partivos 
logo pêra a cidade do Porto, e trigai-vos quanto vos 
fòr pos3Í\cI que fsçacs vir essa frota de lá, mas sede 
avisado, que o mais que poderdes, escuseis d'entrar 
na cidade, senão quando fòr muito necessário. 

Assim partiu o infante de Sacavém, d'()ndc enton- 
ce estava seu p.idrc, c onde esteve cm mentes a pesle 
foi grande em Lisboa, e até que a rainha adoeceu. 



Chronica d'El-Rei D. João I 25 



O infante teve tal modo em seus feitos, que n'a- 
quelles três mezes seguintes aviou todas suas gentes 
e armas e mantimentos, de tal guisa, que no começo 
do mez de maio, foi dentro na cidade do Porto, onde 
logo começou dar trigoso aviamento a sua frota, e fa- 
zer encaminhar todas as cousas que pêra ella perten- 
icião tãobem e tão ordenadamente, que nem sua no- 
; va edade, nem fallecimento de pratica de taes feitos, 
i i não o poderam empachar que não recebesse mui 
grande louvor de seu maravilhoso trabalho, cá diziam 
aquelles velhos, que era muito pêra maravilhar, um 
homem de edade de vinte annos, ser tão destro e tão 
desempachado pêra aviar tamanho feito, e se Tito 
Livio (diz o auctor) louva tanto no livro da segun- 
da guerra, a prudência de Cypiào, porque estando 
em Secilia ordenou tãobem sua frota pêra passar 
em Africa, sendo elle quasi de trinta e cinco annos, 
e havendo já cometidas muitas pelejas, pelo mar, e 
por terra, como não louvaremos a este príncipe sen- 
d(í de edade de vinte annos, sem haver conhecimen- 
to de similhantes feitos, por certa pratica somente, 
quanto tinlia uma natural inclinação pêra commeter 
grandes feitos ? 

Nào falamos aqui da armada do infante D. Pedro, 
porque, posto que o nome fosse seu, o cuidado era 
principalmente d'el-rei seu [)adre, e do infante D. 
Duarte, e com todas estas cousas, não esquecia ao 
infante I). Henrique de mandar fazer mui ricas librés, 
as quaes ordenou que levassem todos os capitães, 
ciue eram ordenados, sob sua capitania, e tratando es- 
s cousas, chegavam-sc, vindo para a cidade, todos 
'is senhores e (idalgos que haviam d'ir com elle. 

Alli chegou Ayrrs (ionçalvcs de h^igut-iri-do, nobre 
I ivalheiro, st*ndo i-m i'da<le de no\ffila annos, corre- 



20 Bibliotheca de Clássicos Portugiiezes 



gido com seus escudeiros, e gente de pé, e elle com 
sua cola vestida, cuja continência parecia pouco d'ho- 
mem de sua edade, e quando o infante o viu chegar 
a elle, pêra lhe beijar a mão, começou de se rir e 
disse: 

— já me parece, que homem de tantos annos, de- 
via filhar repouso, por descanço de tantos trabalhís. 

— Eu não sei, respondeu Ayres de Figueiredo, se cs 
membros, por razão da edade, enfraqueceram, mas a 
vontade não é agora menos, da que foi em todos os 
trabalhos que eu levei com vossso padre, e não poderá 
por certo haver maior honra, nas exéquias de minlia 
sepultura, que antes de meus dias acabados, ser cm 
este feito. 

Por esta guisa fizeram dois escudeiros bayoncscs, 
que por muitos serviços que fizeram a el-rei na guer- 
ra, lhes dera alli mui boas tenças pêra sua mantença, 
os quaes eram homens de pouco menos edade que 
Ayres Gonçalves de Figueiredo, os quaes se foram 
ao infante requerer que lhe mandasse dar seu pro- 
vimento, pêra sua ida. 

— Assaz é, disse o infante, o que vós tendes traba- 
lhado, eu vos tenho muito em serviço, vossa boa \'on- 
tadc; parece-mc que é bem que fiqueis, cá já a vossa 
edade não é pêra mais trabalhos. 

Os escudeiros, por nenhuma guisa quizeram ficar, 
antes mostraram suas continências queixosas, quando 
lhe foi falado cjue ficassem. 

— Puis que será, disse o infante, que as armas que 
tinha, são já todas repartidas, e não tenho assim pres- 
tes com que vos armasse? 

— Não é bom homem, disseram clles, aquellc que 
por necessidade alguma, vende suas armas, e nós, 
posto que por algumas vezes nos fizessem mingoa 



Chronica d'El-Rei D. João I 27 



nossos soldos e a tença, depois que nos foi assen- 
tada, por fallecimento da paga, as nossas sempre es-^ 
tiveram comnosco, porém o mantimento nos dae se- 
gundo vossa ordenança, e das armas não tenhaes 
cuidado. 

Í Muito ledo foi o infante de suas boas vontades e 
além de seu ordenado lhe mandou fazer mercê, co- 
nhecendo que era muito pêra agradecer a homens 
de tal edade, similhante desejo. 

Não sei ídisse o auctor) se fale aqui, como gentio, 
mas por certo, eu penso, que os ossos dos finados 
desejavam ser vestidos em carne, onde estavam gas- 
tados em suas sepulturas, para serem companheiros 
de seus filhos e parentes no ajuntamento d'aquelle 
feito, e direitamente podemos dizer, que se os vivos 
tinham ledice, que as almas d'aquelles que por res- 
plendor divinal sabiam a verdade d'ebto, se alegra- 
vam muito m.ais. 

Pêra cuja prova, é bem que saibaes o que aconteceu 
a um frade, da ordem de S. Domingos, que era em 
aquella cidade do Porto, no segundo dia das ladai- 
nhas, sendo-lhe mandado que pregasse ao outro dia 
á procissão, se levantou depois que o gallo cantou a 
primeira vez, e estando fazendo oração deante do al- 
tar da Virgem Maria, antes que entrasse em seu 
estudo, lhe appareceram maravilhosas visões, entre as 
quaes lhe pareceu que via a el-rei D. João, ante a 
Virgem Maria, armado, posto de giolhos e as mãos 
levantadas contra o ccu, d'onde lhe apresentavam 
uma espada, cujo rcsplcnçlor a aquclle homem bom, 
aparecia que não tinha comparação, mas o portador 
d'aquella espada, não conheceu elle, como quer que 

sua vista lhe parecia cousa divinal, e porque este 
M)in honícm era simples, não quiz contar esta visão 



■n.1 



28 Bibliuthtcii de Clasbicus Purtiujuezes 



senão a outro frade seu amigo, que era sacliristão 
<l'aquelle mosteiro. 

(^h ! como as almas d'aquelles bons homens, que 
morriam n'aquella peste, partiam saudosas dos pró- 
prios corpos, não tanto por aquella natural saudade 
com que se as almas partem das carnes, como por 
não verem a fim aquelle feito. 

Ah ! diziam elles, morte sem remédio, fim de todas 
as cousas terrivois, sobre cujo império c senhorio não 
ha poder nenhuma cousa creada de sob novel Io da 
lua, e ante cujo brado tremem todas as cousas que 
se n'este mundo mo\em, por que trigavas tanto teus 
dolorosos passos pêra nos levares d'aquestra \'ida ? 
Porque nos não leixavas algum pequeno espaço pêra 
vermos a fim d'esto? Onde tiveras razoado tempo pêra 
te entregares de nossa divida, se as nossas almas te 
faziam mingua pêra po\-oares as casas do outrt) 
mundo. 

Bemaventurados serão aquelles que receberem os 
derradeiros golpes ante os olhos de seus senhores, aos 
quaes seus parentes e amigos contaram as chagas, 
porque depois seus filhos recebam honra pelos mere- 
cimentos de seus padres, e o seu nome, depois da vi- 
ctoria, não poderá escorregar d'antc o conhecimento 
dos que depois vierem. Mas nós, não só dos que hão 
de vir, mas aimla dos presentes, nossas mortes são es- 
quecidas, e o trabalho do presente negocio não lhes 
dá vagar que se possam apartar pcra chorar nosso 
fallecimcnto. 

Era ali o trafego tamanho em aquella ribeira, que 
de dia, nem de noite, nunca estava só, nem os mari- 
nheiros eram pouco cansados em arruiiiar tamanha 
mnitidào de frasca, e com esto as estradas e cami- 
nhos eram cheios de carros c de bestas, que vinham 



Chronica d'El-rei D. João I 29 



carregadas de mantimentos e armas, das terras d'a- 
queiles fidalgos, e doutras cousas que lhe cumpriam 
pêra sua ida, e aquelles que tão azinha senão podiam 
despachar da terra, trigava-os o infante por suas car- 
tas, de guisa que não abalasse sua frota, e elles ficassem 
contra suas vontades. 



CAPITULO XXXV 



C ouio el-rei escreveu ao infante D. Henrique que par- 
tisse com sua frota, e corno o infante partiu, e da 
ordenança que levava. 



CAJ)A dia el-rei havia novas do corrcgimento da 
frota que estava na cidade de Porto, assim 
pelas cartas que o infante lhe escrevia, como 
[)iir outros muitos que cada dia iam d'uma cidade 
' r.i outra, cá segundo os tempos, não podiam os ca- 
ihos estar mui livres, porquanto aquelles fidalgos 
■ravam d'ir íl cidade de Lisboa, c por tanto man- 
am seus homens e cousas deantc cada um segundo 
iii cumpria, escreveu el-rei ao infante, que tanto que 
a(.|uelles principaes fossem prestes, que partisse logo 
O mais trigosamentc que podcssem, porque tanto que 
elle viesse com sua frota, entendia logo aviara outra 
de Lisboa, de guisa que ao tempo (|ue tinha orde- 
nado partissem. 

K como o infante foi prestes, mandou apparelhar 
uma fusta, na cjual mandou um seu escudeiro, que 



30 Bihliotheca de Clássicos Portugueses 



chamavam AfTonso Annes, que depois foi contador 
d'aquella cidade, o qual levava recado a el-rei, como 
o infante, seu filho, partia já da cidade do Porto com 
sua frota, e logo o infante mandou que se recolhes- 
sem todos, pêra seguir sua viagem, e era formosa 
cousa de ver o corregimento d'aquclla frota, porque 
todas as naus, gales e outros navios, eram nobremen- 
te embandeirados, com balsões e pendões pequenos, 
das cores, motes e devisa do infante. 

E porque eram todos novos, c bem acompanhados 
d'ouro, davam muito grande \'ista, e as galés eram 
toldadas de finos pannos d'aquelles motes e devisa 
que já disse, e os capitães das galés, eram estes que 
se seguem, a saber, o senhor infante, o conde seu ir- 
mão e I). I' ornando de Bragança, filho do infante 1). 
João, e Gonçalo Vasques Coutinho, marechal e João 
Gomes da Silva, alferes mór d'el-rei, e V^asco Vcr- 
nandes d'Atayde, governador da casa do infante, e 
Gomes Martins de Lemos, aio que fora do conde de 
Barcellos, e assim eram sete galés, e sete capitães, e 
assim estes como todos os outros que iam nas naus, 
de qualquer condição que fossem, que capitania de 
gente alguma tivessem, levavam a libré do senhor in- 
fante, a qual era de pannos de sirgo e outra de finos 
pannos de lã, repartida pelo contrario, porque as 
maiores pessoas houveram a libré dos pannos de lã, 
e as outras de menos estado, vestiam os pannos de 
sirgo. 

\l. porque falamos nos capitães das galés, é bem 
que saibacs d'alguns dos principacs que iam da outra 
frota, a saber; I). Pedro de Castro, filho de D. Ál- 
varo Pires de Castro, Gil Vaz da Cunha, Pcro Lou- 
renço de Távora, Diogo Ciomcs da Sil\a, João Rodri- 
gues de Sc1, João Alves Pereira, Gonçalo Annes de 



Chronica d'El-Rei D. João I SI 



l 



::)Ousa^ Martim Affonso de Sousa, Martim Lopes d' Aze- 
vedo, Ayres Gonçalves de Figueiredo, Luiz Alvares 
Cabral, Fernão d'Alvares, seu filho, Estevam Soares 
'de Mello, Mem Rodrigues de Refoyos, Garcia Moniz, 
: Payo Rodrigues d'Araujo, Vasco Martins d'Alber- 

ria, Álvaro da Cunha, Fernão Lopes de Azevedo, 

\lvaro Fernandes Mascarenhas. 

Todos estes homens levavam a libré do infante, e 
n^^sim outrcs slguns fidalgos e escudeiros, cujos no- 
mes não podemos perfeitamente saber, e quando foi 

lia d'aquella partida, era entre todos aquelles da 

ta rriui grande alegria, cá todos os navios eram 
icompanhados de trombetas e outros instrumentos, 
' -lio som espertava seus corações, pêra serem ale- 

i^ ainda haviam outro azo pêra serem muito mais 
)S, cá em aquelle dia foram todos vestidos de novo, 
mal cousa, por sua novidade sempre traz algum 
lesccntamento de folgança em o coração de qual- 
uer, e muito mais no dos homens mancebos, cuja 
Iara experiência não ha mister outra prova, li além 
'aquella libré, que assim o infante deu aquelles se- 
nhores e fidalgos, e assim geralmente a todos os seus, 
Içada um d'elles dava aos seus apartadamente sua li- 
bré, como lhe aprazia, mas porque seria grande pro- 
ilixidade escrevermos a devisa de cada um, abasta só- 
'mcnte que a do infante ; eram umas capellas de car- 
i rasco, bem acompanhadas de chaparia, e por meio 
'uns motes, que diziam: vontade de bem fazet\ e as 
suas cores eram branco c preto e vis. 

Todos os bons homens da cidade que ali ficavam, 
SC espcdiram aquelle dia do infante, ofíercccndo-lhe 
seu serviço, porque além de em elle haver uma graça 
singular pêra todos aquelles que com clle trata\am, 



32 Bibliotheca de Classicoa Vortayutzt» 



porquanto elle era natural d'aquclla cidade, tinha es- 
pecial cuidado dos moradores d'ella, pêra requeri- 
mento de seus feitos, por cuja razão era' mui amado 
d'elles todos, e o tinliam quasi por seu cidadão. 

Tanto que as novas chegaram a Lisboa da vinda 
do infante I). Henrique, logo cl rei mandou ao infante 
D. Pedro que fosse receber seu irniào, pêra cuja ida 
logo foram prestes as outras oito galés, que ali esta- 
vam, e assim todas os bateis e navios pequenos que 
havia na frota, nas quaes ia primeiramente o infante 
D. Pedro e na segunda, o mestre de Christo e na 
terceira, I). AíTonso, na quarta, o prior do Hospital, 
na quinta, o almirante, na sexta, seu filho Mice Car- 
los, e na sétima, o capitão, e na oitava, João Vaz fl 
d'Almada. 

O Condestable, com todos os outros senhores que 
eram ordenados para ir com o infante D. Petlro, fo- 
ram nos bateis de suas naus, e assim em alguns navios 
pequenos, e se a frota do Porto vinha bem emban- 
deirada e toldada, esta que partia de Lisboa não ia 
menos, emperó tudo era dos motes e divisas d'elrei, 
e assim começaram de fazer sua viagem, caminho da 
foz, contra onde os outros vinham, e o infante D. Hen- 
rique trazia tal ordenança em sua frota, que pareces- 
sem primeiro por a foz os navios pequenos, e depois 
as naus grandes, e após ellas as gales, das quaes a 
mais derradeira era a do infante, e des-ahi todos os 
navios começaram d'andar balraventeando ao travcz 
d'aquelle mar, fazendo sempre divisa sobre a galé do 
infante, c pelo espalhamento que assim faziam, era 
aquella frota de todos estimada em muito maior 
numero, e assim andaram um pedaço, até que se 
ajuntou uma frota com a outra, d'ondc aquelles ir- 
mãos houveram entre si grande prazer, como aqucl- 



Chronica d'El-Rei D. João I 33 



les cuja amizade entre os vivos não foi outra simi- 
Ihante. 

E certamente taes cinco filhos, assim abedientes a 
seu pedre e amigos entre si, nunca se achou em es- 
criptura que algum principe os tivesse, e assim Í'o- 
ram aquelles senhores juntamente acompanhados de 
sua frota, até que chegaram áquelle logar, onde o in- 
fante D. Henrique depois mandou fazer uma egreja, 
a qual se agora chama Santa Maria de Belém. 



CAPITULO XXXVI 



Cojno Afonso Auri es chegou aos infantes com as no- 
vas da doença da rainha, e como por aqnelle azo 
aquelle g7'ande prazer em gtie estavam^ foi tornado 
em tristeza. 



H ! quanto minha vontade deseja\-a chegar ao 
fim d'esta victoria sem algum antrepoimento 
de tristeza, mas a cega fortuna, com seus tris- 
tes aquecimentos, não quiz que a nossa gloria fosse 
livre d'algum triste acontecimento, nem ha cousa, en- 
tre os vivos, mais certa, que o movimento das cou- 
sas terreaes, e portanto se determina em philosophia 
que a direita derivação do tempo, é ser duran~cnto 
do mundo, em perseverança mudável, o qual é depar- 
tido em quatro partes, segundo o desvairo quaterná- 
rio do circulo do ccu, que é chamado zodíaco, o qual 
em cada uma cjuarta, tem três signaes chamados por no- 

VoL. II a 




34 Bibliofheca de Clássicos Portuguezes 



mes desvairados de animacs, os quaes se regem en- 
tre os homens por quatro ternários de mezes, em 
que são desvairadas influencias, que geram aos ho- 
mens novos faliecimentos. 

E porém um philosopho, cujo conselho requeria 
um homem, pêra consolação da tristeza que tinha 
por morte de seu padre, lhe disse: 

— Amigo, lembra-te depois que nasceste quantas 
vodas e alegres desenfadamcntos hou\-este, e soporta 
em paciência, este triste aquecimento, que te veio, cá 
o movimento do mundo, por tal condição, foi assim 
ordenado, que não leixasse alguma cousa em perdu- 
rável assocego. 

Ora pois, que assim é, vamos por nossa historia 
adeante sem receio. 

Onde deveis de saber, que tanto que os infantes 
chegaram com sua frota a aquelle porto de RestcUo, 
segundo iá dissemos, mandaram alli lançar as anco- 
ras de seus navios, e a outra frota fazia andando 
suas voltas ao travez d'aquelle mar, tangendo suas 
trombetas e instrumentos, que traziam, como homens 
que queriam mostrar aos outros da terra, que esta- 
vam em grande ledice, que traziam em seus corações. 
Nem o infante D. Henrique estava pouco ledo, 
assim pela vista de seus irmãos, e de toda a outra 
gente da corte, que o alli vieram receber, como por 
trazer assim sua frota bem aderaçada de todo o que 
lhe cumpria, mas porque sua gloria não fosse de 
todo acabada, chegou alli Affonso Anes, aquelle seu 
escudeiro, que trouxera recado a el-rei de sua vinda, 
e lhe disse como sua senhora e madre a rainha, es- 
tava doente. 

Kmpcro, disse elle, que não ficava ella tão aficada 
de sua dòr, porque elle houvesse de tomar trisceza 



Clironica d'El-Rei D. João I 35 



alguma, antes lhe fora dito, que a principal causa 
d'aquella enfermidade, era por azo da grande absti- 
nência que fazia em seus jejuns e orações, cá posto que 
ella, em toda sua vida, fosse uma das princezas do 
mundo de mais singular devoção, ainda que nos ou- 
tros tempos quizesse jejuar, era-lhe defeso por seus 
abbades, com accordo dos phisicos, por azo da fraca 
compreição, e tinham determinado- os phisicos que a 
dita abstinência, seria muito perigosa pêra sua vida, 
e porém cessava de o fazer, cá deternainado é por 
santo Agostinho, que cada um tenha tal temperança 
no jejum e oração, que lhe fique livre poder pêra 
uzar das outras virtudes, cá d'outra guisa, seria ho- 
micida de si mesmo. 

Mas depois que a rainha foi certa da ida de seus 
filhos, que ainda até aquelle tempo, não sabia da 
'd'el-rei, nem do infante D, Duarte, cá posto que lhe 
fosse d'antes fallado como já ouvistes; el-rei não quiz 
que o ella o soubesse até acerca da sua partida, por 
lhe arredar o coração do cuidado que sentia que ella 
filharia, ali não curou ella de phisicos nem de conselhos 
de confessores, mas jejuava muito amiúde, c fazia 
grande oração, além do que tinha em costume, cá 
tanto que era manhã, logo se ia á egreja, onde esta- 
va até o meio dia, e tanto que comia e filhava um 
pouco de repouso, logo tornava a sua oração. 

Mandava visitar as casas dos santos, e dar grandes 
esmolas aos pobres, e fazer outros bens, por acrescen- 
tar em seu merecimento, e de como lhe el-rei contou 
determinadamente sua tenção, e des-ahi o seguimento 
de sua dôr, até que a Devs levou d'este mundo, ou- 
vireis agora, no seguimento d'estes capítulos. 



30 Bibliotheca de Clássicos Portuçjuezes 



CAPITULO XXXVIi 



Como el-rei disse á rainha dctenninadamentc sua teu- 
fão, e dl resposta que lhe a rainha deu, e como por 
azo dalguns, que ali adoeceram de peste, el-rci se 
partiu pêra o mosteiro d' Odivellas, e covio a rainha 
fcou pêra acabar suas devoções e como em aquelle 
dia adoeceu. 



ORQUE todo fim principal dos historiadores, está 
no recontamcnto das virtuosas pessoas, porque 
a sua clara memoria, por nenhum prolonga- 
mento d'edade possa ser afastada d'antc os presentes, 
a qual cousa por certo traz comsigo dois proveitosos 
fins; o primeiro quando amoesta aquclles, que \'em 
e ouvem o memorial de suas mui virtuosas obras, o 
qual certamente é aquelle espelho, que Sócrates phi- 
losopho, mandava que os mancebos esguardasemameu- 
de por tal que os bons feitos de seus antecessores 
fossem a ellcs pro\'eitoso ensino, cá assim como no 
besteiro não pode ser conhecida aventagcm, antes 
que tire a algum certo signal, assim nenhum bom 
homem, poderia obrar perfeitamente o auto d'alguma 
virtude, senão trouvessc ante os olhos a imagem d'al- 
gum tão virtuoso, que a sua proveitosa inveja lhe 
mostrasse o \ordadeiro caminho pêra chegar ao fim 
de seu desejo. 

D segundo fim c que, se os homens sentissem, que 
pelo fallecimento de sua \ida se acabava toda sua lem- 




Chronica d'ElReí D. João I 37 



branca, certamente não se poeriam a tão grandes tra- 
balhos e perigos, como vemos que se manifestamente 
põem, a qual cousa foi o principal azo porque os pri- 
meiros auctores se esforçaram a com poer historias, cá 
naturalmente toda a creatura racional deseja duração, 
por cuja razão os primeiros philosophos sentindo este 
natural desejo, pensando que a morte não vinha aos 
homens por lei determinada, somente, por corrompi- 
mento dos humores, se trabalhavam muito por buscar 
arteíicio pelo qual os mantivessem em duração, orde- 
nando proveitosas veandas, segundo as qualidades 
das compreisões, e assim buscaram leituario e me- 
zinhas, porque arredassem as enfermidades do corpo, 
mas depois que conheceram que em aquello não ha- 
via algum proveito, disseram que por quanto o ho- 
mem era feito de muitos contrários, de necessidade 
havia de morrer. 

Aristóteles, que d'isto tomou especial cuidado, disse 
n'aquelle livro que se chama Segredo dos Segredos, 
que enviou a Alexandre acerca do fim dos seus dias, 
que bem certamente elle se maravilhava do homem 
que comia pão de trigo e carne de dois dentes, po- 
der fallecer naturalmente, e depois que os homens 
conheceram que por si mesmos determinadamente 
não podiam durar, buscaram certas maneiras de si- 
milliança porque elles fossem aos presentes em certo 
conhecimento uns fizeram tão grandes sepulturas e 
assim maravilhosamente obradas que a vista fosse 
azo de os presentes perguntarem por seu possuidor, 
outros fizeram ajuntamento de seus bens, havendo a 
auctoridade real pêra o que fizessem morgado pêra 
ficar ao filho maior, de guisa que todos os que 
d'aquella linhagem deccndesscm houvessem razão 
de se leinbrarem sempre d'aqucllc, que a primeiro 



3S Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



fizera outros se trabalharam de fazerem tão excellen- 
tes feitos d'armas, cuja grandeza fosse azo de sua 
memoria ser exemplo aos que depois viessem, por 
cuja rasão honravam muito aos historiadores das taes 
cousas, como diz Valério que fazia Cypiào a Lucano, 
e assim outros muitos aos seus auctores, e porém di- 
zia Alexandre, o grão rei de Macedónia, que elle se- 
ria bem contente de trocar a prosperidade que lhe os 
Deuses tinham aparelhada, e alTastava sua mão de 
toda a parte, que lhe no ceu podiam dar, por haver 
um tão alto e tão summo orador pêra seus feitos» 
como tivera Achiles em tiomero poeta; e um romano 
sendo perguntado em um convite, qual era a cousa 
que mais desejava? disse que saber certamente que 
depois de sua morte, seus feitos seriam assim, e com- 
pridamcnte escriptos como os elle fizera. 

Creio que o dizia porque fora três vezes levado no 
carro do triumpiío, e houvera onze coroas d'aquellas 
que se davam áquelles que primeiramente entravam 
em algumas cidades ou villas, ou grandes navios 
quando era em peleja de mar. 

E, não somente filharam os antigos cuidado de es- 
crever os feitos dos virtuosos h(jniens, mas ainda das 
virtuosas mulheres, assim como se acha na historia da 
Biblia, da rainha Ilestcr, e de Judith, e assim nas 
obras de Tito Livio, de Lucrécia e de Virginia, e 
d'outras similhantcs, e se estes auctores assim quize- 
ram remembrar os feitos virtuosos d'aquestas, peque- 
na culpa mereceremos nós ao deante, escrevendo o 
acontecimento, e virtuoso fim d'aciucsta rainha, cujas 
grandes virtudes são dignas de grande memoria. 

Já dissemos a maneira como lhe seus filhos falaram c 
como lhe el-rci falara em Cintra, e como sua ida, nem 
do infante D. Duarte, ficava posta cm determinação. 



Chrordca d'El-Rei D. João I 39 



Ora sabei, que depois que el-rei de todo teve seus 
feitos aviados, pêra partir, querendo-lhe determinada- 
mente declarar sua vontade, estando um dia na ca- 
mará folgando com a dita senhora, sendo ahi acerca 
do seu estrado Brites Gonçalves de Moura e sua filha 
Mécia Vasques, começou d'ordenar el-rei suas depar- 
tições, por tal guisa, que chegou á conclusão de sua 
vontade. 

— Senhora, disse elle, como quer que ao tempo que 
me falastes acerca da ida de nossos filhos, eu por en- 
tonce não determinasse, se não somente a ida dos 
infantes D. Pedro e D. Henrique, e pêra elles princi- 
palmente ordenei todo este feito, consirando como fa- 
ria grande agravo ao nosso filho, o infante D. Duarte, 
sendo elle de tal edade e tão desejoso de provar sua 
força, não ordenar como elle fosse em tal feito, e des- 
ahi a mi não seria bem cabido de os mandar assim 
sem minha presença, pois por a graça de Deus, são 
em tempo de lhe poder mostrar a ensinança que de- 
prendi cm similhantcs feitos por continuação de mui- 
tos dias, c soíTrimento de grandes trabalhos e muitos 
perigos, e pêro que vos algumas vezes tocasse na 
vontade cjuc tinha de ser em este feito, agora vol-a 
declaro, que a Deus prazendo, eu entendo d'ir e levar 
comigo assim ao infante como a seus irmãos. 

E como quer que a rainha, dos outros dias passa- 

Mos, sentisse a vontade que cl-rei trazia n'aquelle feito, 

ouvindo-a assim determinadamente, não pôde suster 

sua continência, que não mostrasse em cila, que havia 

lande sentimento, cíí posto que assim fosse virtuosa, 

•mo jã ouvistes, a natureza das mulheres em simi- 
liiantcs casos, não pôde ser tão esforçada que não 
laça mover o coração a alguma tristeza, mas 15rites 
Gonçalves e sua filha ouvindo aqucllas palavras sol- 



40 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



taram de todo seus olhos cm lagrimas, e a rainha tor- 
nando á sua razão disse a el-rei, não como cabia di- 
zer a mulher, mas como quem falava por respeito da 
linhagem de que descendia. 

— Verdade é senhor, disse ella, que eu vos pedi 
que mandásseis vossos filhos a este feito, e vos disse 
logo entonce quanto me parecia ser razoado de vós 
não irdes, e de vós agora mandardes o infante, se- 
gundo dizeis, conhecendo quanto lhe é compridouro, 
como quer que grande sentimento por cUo houvesse, 
meu gosto nunca o poderia mostrar, mas a vossa ida 
me faz que me não abaste sizo, nem entender pêra me 
reter de não mostrar o que sinto, mas pois vós, por 
bem houvestes c haveis de ir, a I^eus prazendo, ellc 
enderence vossa ida por tal guisa, que seja muito a 
seu serviço, e vossa honra e de vossos filhos e bem 
de vossos reinos, e disse contra as outras que estavam 
chorando com grande sentimento. 

—Amigas, não haveis porque chorar, porque o cho- 
ro em taes casos, não é cousa que aproveite, antes 
vos rogo que d"aqui em dcante uzcmos do que a nós, 
e a nossos officios pertence, isto c encomendarmos a 
Deus este feito muito afincadamente, lazendo taes 
obras e bens, porque mereçamos ser ouvidas, e não 
tão somente, ainda por nós, mas por todas as virtuo- 
sas pessoas, por cujo merecimento sintamos que este 
feito, pôde ser ajudado, cá certo é. que em taes cou- 
sas presta muito a oração, segundo se mostrou nos 
feitos da lei antiga, que pela oração que fazia Moy- 
sés, quando o povo dos judeus pelejava, recebia mór 
ajuda que por suas próprias forças, e nós assim ore- 
mos, menosprezando todo o trabalho e cansaço, que 
se em ello possa seguir, e façamos outros bens, por- 
que nossas orações sejam dignas de ser ouvidas ante 



Chronica, cVEl-Rei D. João I 41 



Deus, e isto é melhor, que espargimento de lagrimas, 
nem outra alguma maneira de grande tristeza, e em 
acabando esto disse a el-rei: 

— Senhor, eu vos peço por mercê, que se me Deus 
quizer dar dias de vida, que chegue até o tempo de 
vossa partida, que vós façaes vossos filhos cavalleiros 
presente mi, ao tempo de vosso embarcamento, com 
senhas espadas, que lhe eu darei, e com a minha 
benção, cá posto que seja dito, que as armas das 
mulheres enfraquecem os corações dos cavalleiros, 
bem creio que, segundo a geração de que eu venho, 
nunca serão enfraquecidos por as receberem de mi- 
nha mão. 

Ao que el-rei respondeu, lhe prazia muito. 

A rainha mandou ao outro dia chamar João Vas- 
ques d'A!mada, ao qual disse que lhe mandasse fa- 
zer três espadas, e as mandasse guarnecer mui rica- 
mente (ieouro, e aljofres e de pedras prcciosis, e tanto 
que fossem acabasias lh'as trouxesse, des-ahi prosc- 
guindo ella em suas orações, que tanto era manhã 
logo se ia á egreja, onde estava até o meio dia, e 
tanto que era \espera, logo se tornava a ella e estava 
até noite, que se tornava para a sua casa, onde des- 
pendia o serão, não em danças, nem em outros de- 
senfad imentos d'este mundo, somente em espiritual 
contemplação. 

Além d'esto mandou a rainha, por muitos mostei- 
ros, grandes esmolas, e assim a outras algumas pes- 
.soas (]ue cila sabia que eram de boa vida, encom- 
niendando-lhe que toda sua principal intenção, fosse 
encommendar a Deus, que lhe prouvesse, por sua pie- 
dade, trazer aquclle feito a proveitoso fim, e estando 
assim alguns dias, seguiu-sc que adoeceram algumas 
pessoas de peste, em aiiuclle logar de Sacavém, o esto 



42 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



era porque a peste andava muito grande em Lisboa, 
como já ouvistes, e por ser tão perto da conversação 
da gente, que era necessário, que tivessem uma com 
outra, a necessidade do tempo não podia ser, que o 
dito logar fosse largamente livre d'aquelle padeci- 
mento, e como el-rei soube, que alli adoeceram 
aquellas pessoas, disse á rainha, que seria bem que 
se partissem logo antes de comer. 

— Senhor, disse ella, vós vos podeis logo partir, 
que eu depois que acabar meus otTicios, me partirei, 
cá mulher tão velha, como eu, não deve haver medo 
de peste, e isto dizia a rainha, porque ella era enton- 
ce de cdade de cincoenta e três annos. 

— Pois senhora, disse el-rei, que vós assim quereis, 
podeil-o fazer, mas peço-vos, que o mais cedo ijue 
poderdes vos partaes d'este logar. 

Entonce se partiu el-rei, caminho do mosteiro de 
Odivellas, e a rainha não quiz partir até o meio dia, 
como dissera, e estando assim na egreja lhe deu a 
dôr de peste, não porém que ella sentisse, que era si- 
milhante enfermidade, somente imaginava que seria 
outra alguma dôr, que viria por causa de sua fraque- 
za, segundo lhe já outras vezes viera, e assim partiu 
caminho do dito mosteiro. 



Chronica d'El-Ixei D. João I 4S 



CAPITULO XXXVIIÍ 



Como o infante D. Henrique e o conde D. Affonso 
chegaram a Odivellas, e como a dòr se acrescentou 
a rainha. 



agora pêra fallar, como as novas foram tão 
azinha a el-rei, como se a rainha sentia, cá por 
azo d'aquelle ar corrupto que assim andava, não 
podia alguém sentir nenhuma enfermidade, que logo 
pelo prezente cuidasse que era outra cousa, mas tanto 
que a rainha chegou, a el-rei foi a ver, assim como 
aquelle que de sua enfermidade tinha maior cuidado 
que outra alguma pessoa, e muito foi ledo, quando 
achou tão boa mostrança de continência, pelo que lhe 
pareceu, que sua enfermidade, não era causa de pe- 
rigo, e em este ensejo, sendo já, porém, passados três 
dias da enfermidade da dita senhora, chegou ahi o 
infante D. Henrique e o conde D. AfTonso, cora to- 
dos os outros senhores e fidalgos, que vinham em a 
sua frota, os quaes logo ao outro dia, depois que che- 
garam a Restellu, foram a Odi\ellas fazer re\erencia 
a el-rei e á rainha e ao infante D. Duarte, c mui gra- 
ciosamente foram recebidos d'el-rei, especialmente o 
infante, e muito ledo fora elle, quando o dia passado 
J lhe fora contado pelo meudo, como a frota vinha do 
' Porto e a ordcnanga que trazia, c sobretodo, a grande 
j diligencia que o infante tivera em dar aviamento. 
I — Bem parece, meu filho, disse elle, que o cargo 



44 Bibliotheca de Clássicos Portaguczes 



que vos eu dei não foi filhado por \-6s, como por l.o- 
mem de vossa edade, cíí segundo me contaram toda 
vossa frota vem mui bem aviada, como de homem 
que tem vontade de me servir, e acrescentar em sua 
honra, e bem podeis dizer, que tivestes maior diligen- 
cia em vosso corregimento, do que nós tivemos no^ 
nosso, pois que fostes prestes, primeiro que nós; e 
entonce foram falar á rainha, a qual com a força do 
grande prazer, encobria o mal da enfermidade, cá 
assim o recebeu com tão boa continência, que pouco 
parecia mulher sentida de tamanha dòr, mas a ledi- 
ce, que o infante D. Duarte trazia, era cousa que po- 
deria pelo presente ser mal contada, porque até aquel- 
le tempo, sua ida estivera encoberta pela guisa em 
que estivera a d'el-rei, por cuja razão lhe fora neces- 
sário, posto que bem soubesse que havia d'ir, mostrar 
fingida tristeza, por fazer crer aos outros, a certeza 
de sua ficada, nem tinha outrosim ouzadia de aviar 
nenhuns corregimentos de sua pessoa, por arredar 
todos os azos, porque aquelle segredo podesse ser cor- 
rompido, somente quanto mandara a João Vasques 
d'Almada, que fizesse mui bem corrcger sua galé, porv 
quanto ordenava de ir com ella, e assim com aquclla 
ledice e boa vontade, que trazia, recebeu a seus ir- 
mãos, e a toda a outra boa gente, que com elle vinha» 
e por certo não era fingida a boa vontade, que elle 
n'aqucllc feito trazia, por a qual se podia conhecer 
parte da grandeza de seu coração, e posto que o tem- 
po fosse pouco, nenhuma cousa lhe faleceu pêra seu 
corregimento^ cfi também c tão compridamente hou- 
ve todas as cousas, que pertenciam pêra corregimen- 
to de sua pessoa, como se des o começo d'aquelle8 
feitos, mand.-lra ordenar seu corregimento, e bem é 
de crer, que se a doença da rainha, não fora, que 



Chronica d'El-Rti D. Juào I 45 



jainda o infante D. Henrique íòra d'elle muito nmelhor 
agazalhado, cá além do grande amor que lhe havia, 
Imuito se desenfadara de falar no coíiieço d'aquelles 
jfeitos, de como os Deus trouxera por sua graça, a teai- 
Ipode os poderem proseguir. 

Já o infante D. Pedro a aqueile tempo estava na 
\- frota, como aquelle que tinha a capitania de todas 
as naus, e assim tinha a sua nau certo signa), porque 
fosse conhecida entre todas as outras, cá levava grande 
estandarte, avantajado dos outros, e um farol de noite 
segundo costume, mas a capitania de todns as galés 
era d'el-rei^ e depois que o infante D. Henrique falou 
áquelles senhores tornaram- se ambos os infantes e 
conde pêra a frota, pensando que a doença da rainha 
não fosse a que depois pareceu, cá logo no dia se- 
guinte, o infante D. Duarte, mandou chamar os in- 
fantes seus irmãos, fazendo-llie saber, como a rainha 
sua senhora, e madre se sentia muito mal, os quaes, 
logo trigosamente cavalgara:íí^ e se foram a Odivellas, 
onde estiveram até o acabamento da dita senhora. 

Nrio foi sua tristeza pouca, quando chegaram á rai- 
nha, e a acharam tão aflicada da dôr, tomando mui 
grande cuidado de a servir assim no presente, como 
depois, e lhe faziam buscar todos os remédios que se 
podiam achar pcra aliviamento de sua enfermidade, e 
posto que todos grande cuidado ti\essem, o principal 
encargo era do infante D. Duarte, o cjual cora grande 
diligencia, nunca podia dar o seu cuidado a outra 
cousa, senão a pensar e rec|uercr toilas as mezinhas 
e cousas, que pertenciam pêra remédio da rainha, e 
nâo sei (diz o auctor) em quantas maneiras louve tanta, 
virtude de príncipes, por certo se o próprio enten- 
dimí;nto d'aquclle preceito, que foi cscrinto na se- 
gunda tal)oa^ que diz que aquelle que honrar seu 



46' Bíbliotheca de Clássicos Porfuguezes 



padre e madre, viveria longamente sobre a terra, i 
quanto a esta \ida corporal bem creio, que estes dc- 
\-iam cumpridamente ser aquelles, certamente assim 
foram sempre obedientes a el-rei seu senhor e padre, 
e á rainha sua madre, que nem aquelle filho de Vc- 
turia Cariola de que Valério faz menção, nem outros 
alguns, que sejam emmentados na escriptura, não s- 
póde egualar a este, e esto não entenda algum qu. 
se diz, por falar de graça, cá eu que esta historia es- 
crevi, li mui grande parte das chronicas e livros his- 
tóricos, e nunca em ellas achei similhante. 

'lodos os outros cuidados da guerra, em aquellis 
dias foram esquecidos, e somente a occupação era 
em ouvir phisicos e surgiões, e pocr em execução tod:' 
as cousas que elles ordenavam pêra saúde d'aquei:.i 
senhora, como quer que seus remédios e trabalhos 
pouco prestassem, porque a dòr se acrescentava muito 
mais á rainha, cá a determinação da fim não tem al- 
gum certo remédio, cá escripto c (posuisti términos 
eius, etc.) da qual cousa el rei estava mui anojado, 
como aquelle que conhecia a perda que se lhe se- 
guia por morte de tão boa mulher, com a qual havia 
vinte e sete annos que estava cazado sem algum en- 
trepoimento de desacordo, que entre elles houvesse, 
antes muito amor e concórdia, como já ou\-istes, e 
tamanho era o sentimento que el-rei tomava pela en- 
fermidade da rainha, que se lhe privava o comer e 
dormir, por cuja razão muitos presumiam que se lhe 
seguiria alguma grande enfermidade por aquelle azo, 
se não fora seu mui grande esforço. 



Chronica d'El-Rei D. João I 47 



CAPITULO XXXIX 



Como a, rainha havia verdadeiro conhecimento de sua 
morte, e das obras que acerca dello fazia, e como 
deu o Lenho da cruz a seus filhos. 

JÁ falei em outro logar em aquella sentença do 
philosopho, como todos os homens naturalmente 
desejam saber, e falei tão somente n'este natu- 
xal desejo, quanto ás cousas temporaes, assim como 
as cousas que são dadas ao homem como principaes 
do verdadeiro saber, cá toda sabedoria em este mundo 
seria cousa de pouco valor, somente porque por ella 
podemos chegar áquelle verdadeiro conhecimento das 
obras, porque a alma recebe salvação, porque todo 
saber sem Deus, não é saber, porém todo o fàm da 
virtuosa vida é no verdadeiro conhecimento de Deus. 

E porque já muitas vezes falamos nas grandes vir- 
tudes que havia em esta rainha, é de saber como lhe 
Nosso Senhor quiz dar conhecimento do verdadeiro 
saber, mostrando-lhe a escuridade da presente vida, 
por intrinseco amor que lhe deu de si mesmo, com 
certo conhecimento da fim de sua vida, e posto que 
o juizo d'alma seja somente no conspecto de Nosso Se- 
nhor Deus, o qual segredo quiz que não soubesse ne- 
nhuma pessoa vestida cm esta carne humana. 

Todos os saiicdores, especialmente S. 1 homaz, que 
por comteniplação divinal, subiu ao monte do verda- 
deiro saber, tem cjue cjuanilo a crcaUira acerca de 




48 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



sua fim, ha verdadeiro conhecimento do Creador eJ 
se arrepende amargosamente dos seus peccados, quef 
o juizo d'este, é a verdadeira salvação, o qual sign 
se pôde conhecer por aqiielles que em similhaiT 
tempos falam com seus abades quacsquer faltas, i; 
sentem em suas consciências, segundo aquelle san ■ 
conselho que o Propheta ensina no psalmo di- 
zendo : 

«Eu tornarei por todos os meus annos atra/, alim- 
pando as entranhas de minha consciência, pêra te re- 
contar as amarguras de minha alma»; por o qual ar- 
rependimento poderemos verdadeiramente saber como 
aquesta santa rainha, cobrou a verdadeira bema\'("n- 
turança, cá posto que muito ameude fosse confessa ' , 
em todos os outros tempos, depois que se a enfernii- 
dade esforçou em cila, falou mui compridamente cem 
seu abbade, e em satisfação d'alguns encargos, se n- 
tinha, mandou fazer muitas esmolas, e outras grandes 
obras de piedade, dizendo muitas razões em arrepen- 
dimento de seus peccados, a? quaes faziam grande con- 
tricçào a aquelle seu confessor, e acabado esto, tez 
chamar seus fdhos. — I^eus sabe, disse ella, tamanho 
desejo sempre tive, de vèr a hora. era que vos vossoJ 
padre fizesse cavalleiros, e pêra ello mandei fazer eJ 
guarnecer três espadas, e pois a Deus apraz, que eu' 
cm este mundo não veja tamanho prazer, EUe seja] 
louvado por todo, e logo mandou saber se lhe enviara 
já João Vasques as ditas espadas, c disseram-lhe que 
não. 

— Pois, disse ella, vão logo trigosamente a Lisboa,' 
e façam-m'as trnzer. ()uizera, meus filhos, disse ellaj 
contra os infmtes, dar-vos agora as espadas, em que 
vos antes falei, mas por não serem aqui, leixo de 
vol-as dar, pêro dar-vos-hei o verdadeiro escudo de| 



Chronica d/El-Rei D. João I 49 



brtaleza e defensão, que é o lenho da Vera Cruz, e 
le manhã, a Deus prazendo, vos darei as espadas. 

E entonce mandou trazer uma cruz d'aquelle ver- 
dadeiro pau, em que Nosso Senhor Jesus Christo pa- 
ieceu, e partiu-o em quatro partes, segundo os quatro 
Draços. que estão na cruz, e deu a cada um dos in- 
antes seu braço e o quarto guardou pêra el-rei seu 
senhor. 

— Meus filhos, disse ella, eu vos rogo, que vós re- 
:ebaes esta preciosa jóia, que vos eu dou cora grande 
devoção, e que creaes perfeitamente na grande virtu- 
de que r3eus em ella poz, e como é perfeito remédio 
pêra todos os perigos da alma e do corpo, e quem 
a'ella tem verd-ideira fiúza cobra escudo firme e for- 
:e pêra sua def.:nsão, contra o qual não pode empe- 
;er nenhum imigo espiritual nem temporal, especial- 
mente contra os infiéis, e não tão somente é defensão 
;ontra elles, mas ainda destruimento, segundo se con- 
ta no seu officio, o qual diz : 

«l*"ugi partes adversas, c<1 venceu o Leão, o qual 
é Jesus Christo, que n'ella padeceu.» 

— Eu vos rogo, filhos, que sempre continuamente 
quciraes trazer comvosco, que não sabeis os dias, 

nem as horas dos perigos ; e elles lhe beijaram as 
mãos e lh'o tiveram niulto em mercê, no fini da qual 
pratica lhe lançou a sua benção. 



ÔO Bihliotheca de Clássicos Portugttezes 



CAPITULO XL 



Como a rainha déu as espadas aos infantes, e das ra^ 
zõcs que disse a cad.i um, quando lhe deu a sua es- 
pada. 

*^j£ Fxo de grande amor, mostrou sempre a rainha 
JTW^ aos infantes, especialmente acerca d'cste tem- 
po, em que falamos, a qual causa, foi sempre 
d'elles muito conhecida, em especial n'aquelle Lenho 
da Cruz, que lhe assim deu, o qual elles filharam com 
mui grande devoção, e assim o trouxeram sempre 
comsigo em todos os dias da sua vida, e tão continuo 
o trazia o infante D. Duarte, que depois de rei, ao 
tempo de seu falecimento, quando morreu o soterra- 
ram com elle, e depois de muitos dias se lembraram 
que o levava, e abriram a cova d'onde jazia, pêra 
lh'o tirarem, o qual houve a rainha sua mulher. 

E o infante D. Pedro não sabemos que maneira te- 
ve com o seu, emperó bem é de crer que homem tão 
catholico como elle era, não partiria de si cousa tão 
boa, nem tão santa. 

Mas do infante I). Henrique, podcmos-vos dar 
certo testemunho, porque ao tempo que escrevemos esta 
historia, elle era de cincoenta e seis annos, e falando 
acerca d'esto nos disse, que nunca lhe lembrava de- 
pois que o dito Lenho lhe fora dado, que o tivesse 
fora de si, somente um dia que o tirara por não aten- 
tar em desvestindo a camisa, e ouvimos depois a Luiz 



Chronica d'El-Rei D. João I õl 



de Sousa Carneiro, da ordem de Christo, seu cama- 
reiro mór, e filho de Gonçalo Rodrigues de Sousa, 
que quando se o dito infante finou que lhe tirara o 
dito Lenho da Cruz, e o dera a el-rei em Évora, com 
o sinete, e o seu livro de rezar. 

Acabando assim estas cousas, chegou ahi João Vas- 
ques d*AImada, que trazia feitas e guarnecidas aquel- 
las espadas em que já falámos, com as quaes muito 
prouve á rainha, pêra com ellas conseguir seu bom 
propósito, e tanto que as teve em seu poder, fez che- 
gar pêra a par de si, seus filhos, e tomou a espada 
maior e disse contra o infante D. Duarte. 

— Meu filho, porque Deus vos quiz escolher entre 
vossos irmãos pêra serdes herdeiro doestes reinos, e ter- 
des o regimento e justiça d'elles, a qual já el-rei vosso 
padre vos tem comettido, conhecendo vossas virtu- 
des e bondades, tão cumpridamente, como se já a'os- 
so fosse, eu \'os dou esta espada e ^"os encomendo 
que vos seja espada de justiça, pêra regerdes os gran- 
des e os pequenos d'estes reinos, depois que a Deus 
prouver que sejam em vosso poder, por fallecimento 
ci'el-rei vosso padre, eu vos encomendo seus povos, e 
vos rogo, que com toda a fortaleza, sejaes sempre a 
elles defensão, não consentindo que lhe seja feito al- 
gum desaguisado mas a todos cumprimento de direi- 
to e justiça, e vedes filho, como digo justiça, justiça 
com piedade, cá a justiça que em alguma parte nào 
é piedosa, nào é chamada justiça mas crueldade, e 
eu vos rogo e encomendo, que queiraes ser ca- 
vallciro com esta espatla, e estas espadas mandei 
assim fazer, pcra as dar a vós e a vossos ir- 
mãos, ante de vossa partida, pêra vos el-rei meu 
senhor fazer com ellas cavalleiros, presente mi, como 
já disse, mas a Deus aprouve de não ser assim, po- 



Õ2 Dihliotheca de Clássicos Portuguezes 



rém vos rogo, que sem empaxo, vós queiraes filhar 
esta de minha mão, a qual vos eu ciou, com a minha 
benção e de vossos avós d'ondc eu descendo, e como 
quer que seja cousa empachosa, os cavalleiros toma- 
rem armas das mãos das mulheres, eu vos rogo que 
não queiraes ter acerca d'esta que vos cu dou simi- 
Ihante embargo, cá segundo a linhagem, d'onde des- 
cendo, e a vontade que tenho pêra acrescentar vossas 
honras, não entendo que por ello empccimento nem 
damno vos possa vir, antes que a minha benção e 
d'eiles \'os fará niui grande ajuda. 

O infante U. Duarte, com grande obediência, poz 
os giolhos em terra, e lhe beijou a mão, dizendo que 
elle cumpriria o que lhe ella assim mandava, com mui 
boa vontade, o que certo nunca lhe esqueceu em to- 
dos seus dias, antes o cumpriu mui perfeitamente, 
como ao deante será contado. 

A rainha ouvindo-lhe aquellas palavras, prouve-lhc 
muito, e alçou a mão e deitou-lhe a benção, e depois 
tomou a outra espada e chamou o infante D. Pedro e 
disse-lhe: 

— Meu filho, porque sempre desde a meninice, vos 
vi muito chegado á honra e serviço das donas e don- 
zellas, que c uma cousa, que especialmente deve ser 
encomendada aos cavalleiros, e porque a vosso irmão, 
encomendei os povos, encomendo cilas a vós, as quaes 
vos rogo que hajaes sempre em vossa encomenda. 

VMe lhe respondeu que llic prazia muito, c que as- 
sim o f.iria sem duvida, e entonce se poz em giolhos 
c lhe beijou a mão, e ella disse que lhe rogava- que 
fosse com ella cavallciro, dizendo-lhe outras muitas ra- 
zões, como dissera ao infante I). Duarte, e depois lhe 
deitou a benção. 

Mas é de consirar com que continências os infan- 



Chronica d'El-Rei D. João I 63 

pes ouviam similhantes palavras, cá no tratamento de 
similhante razoado, não se podia escusar grande mul- 
tidão de lagrimas, as quaes, posto que as elles forte- 
mente retivessem, suas continências estavam mui tris- 
:es, ouvindo as palavras, que lhe a rainha dizia, com 
tanto amor, sizo e conhecimento de sua morte, e ella 
Dutrosim, vendo o grande sentido, que os filhos ha- 
viam de seu padecimento, alem de sua dôr, havia por 
ello grande sentimento de tristeza. 

Ainda nos fica por dizer da terceira espada, que foi 
dada ao infante D. Henrique, o qual a rainha chamou 
dizendo: 

— Meu filho, chegai-vos pêra cá; vestindo ella sua 
continência de nova ledice, e enchendo sua boca de 
rizo, e mui honestamente disse: 

— Bem vistes a repartição que fiz das outras espa- 
das, que dei a vossos irmãos, e esta terceira guardei 
pêra vós, a qual eu tenho que assim como vós sois for- 
te, assim é cila, e porque a um de vossos irmãos enco- 
mendei os povos, e a outro as donas e donzellas, a vós 
quero eu encomendar todos os senhores cavalleiros e 
fidalgos e escudeiros d'este reino, os quaes vos enco- 
mendo, que hajacscm vosso especial encarrego, cá posto 
que todos sejam d'el-rei, c clle d'elles tenha especial 
cuidado, cada um segundo seu estado, ellcs porém ha- 
verão mister vossa ajuda, pêra serem manteudos em di- 
reito, e lhe serem feitas aquellas mercês que fòr ra- 
zão, cá muitas vezes acontece, que por informações 
falsas, e requerimentos sobejos dos povos, os reis fa- 
zem contra elles o ([uc não de\'em, pêra o qual car- 
rego vos escolhi, conhecendo de vós (juanto amor lhe 
sempre tivestes e vol-os encomendo, que alem de vos- 
sa boa vontade, vos seja posto por necessidade. Eu 
vos dou esta espada, com a miiiha benção, com a 



Õ4 Biiliotheca de Clássicos Portuguezes 



qual vos encomendo, e rogo que queiraes ser ca\al- 
leiro. 

Não poderia bem declarar por escripto a grande 
tristeza com que o infante D. Henrique estava, por- 
que além das boas vontades de seus irmãos, elle ! a- 
via razão de a ter muito maior, como no seguinte i i- 
pitulo será contado. 

— Senhora, disse o infante, vossa mercê seja mr. i 
certa, que emquanto me a vida durar, terei firme k > 
branca Je todo aquello que me ora assim encom ; - 
daes, pêra cumprimento do qual, offereço todo n~ u 
poder e boa vontade. 

Entonce lhe beijou a mão, dizendo que lhe tinha et 
mercê aquella espada, que lhe assim dava, a qual el 
não sabia estimar em nenhum preço. 

A rainha, ouvindo-lhe aquellas palavras, esforçoi 
se-lhe a vontade pêra rir, e alçou a mão, e lançou-ll 
a sua benção. 



CAPITULO XLI 



Co;t:o a rainha tornou a falar ao infante D. Dtiari 
e lhe encomendou os infantes seus irmãos e Britei^ 
Gonçalves de Moura e Mécia \'az sua f lha; e assin 
tildas as outras suas cousas. 

>Í^KM mostrava a rainha em aquellas palavras, quí 
4^^ assim disse ao infante D. í lenrique, que o am« 
A^"^ va especialmente, e portanto dissemos no ca- 
pitulo antes d'este, que elle havia razão de ter em si 
mór tristeza que algum dos seus irmãos, e podemos 



Chronica d'El-rei D. João I 55 



inda entender que a rainha sentia por divinal reve- 

'^ 1 quaes, e quejandas virtudes havia de ter ao deante 

.ante seu filho, e posto que já agora razoadamente 

m ellas podessemos falar, leixemo-las pêra depois, por 

darmos de cada cousa era seu próprio logar, e quanto 

encomenda que lhe sua madre deu, elle lh'a mante- 

e tão cumpridamente, como lh'a prometeu, e d'esto 

ou eu bem certa testemunha, porque vivendo com 

1-rei D. Duarte, cuja alma Deus tenha na bemaven- 

urança, vi por muitas vezes seus grandes requerimen- 

s que fazia por muitos senhores, fidalgos e cavallei- 

os, pelos quaes remedeava seus feitos, e acrescentava 

m suas honras. 

Vi outrosim, que ao tempo que a rainha D. Leo- 
or, foi em desacordo com o infante D. Pedro, mui- 
os fidalgos e escudeiros d'este reino, foram em ponto 
e se perder, senão acharam em elle amparo e ajuda, 
sobre todo. do que elle tinha nunca foi negado a 
odos aquelles que se a elle soccorriam, fazendo-lhe 
luitas mercês a catla um, segundo seu estado. 

Depois que a rainha deu as esp.idas a seus filhos, 
:omo já ouvistes disse ao infante D. Duarte: 

— P^ilho, eu vos rogo, pois, que vos Deus fez n''este 
nundo senhor de vossos irmãos, que \'ós tenhaes es- 
jecial cuidado d'elles, e os hajaes por vossos especiaes 
iervidorcs, honrando-os sempre, quanto em vós fòr; 
: fazendo-lhe as mercês que merece ser feitas a taes 
: tão bons irmãos, como n'elles tendes, e não creaes 
}uc outros melhores servidores que elles, possaes ter, 
lem quciraes prepoera clles outros alguns, cá quando 
vos lembrar que são meus filhos, e de vosso padre, 
que vos tanto amamos, com razão deveis crer que el- 
los não podem ai desejar senão vossa honra e serviço. 
li posto que alguns, por inveja, se entremetam a vos 



56 Bihlioikeca de Clássicos Portuguezes 



dizer alguma cousa contra elles, nunca lhe deis cum 
prida fé, antes primeiro os ouvi, e bem creio que acha- 
reis que elles nunca se apartem d'aquella verdadeira 
tenção, que devem ter a seu irmão e senhor. 

Por certo, (diz o auctor) esto guardou o infante 
D. Duarte mui especialmente, o que eu vi mui bem, 
quando o infante D. Henrique veiu de Tanger, por 
que alguns d'aquelles fidalgos que com elle foram, 
querendo encobrir suas faltas, diziam algumas cou- 
sas contra o infante, ás quaes elle não quiz dar ne- 
nhuma fé, antes dizia que seu irmão não poderia fa- 
zer cousa que nllo fosse justa c boa, mas que elles o di- 
ziam por se escusar do que contra elles arrozoadamente 
podia ser dito, e não tão somente guardava isto entre 
seus irmãos, mas com todas as pessoas do seu reino, 
cá tanto era bom, que tarde ou por grande força, 
podia crer mal algum de nenhuma pessoa, e bem creio, 
segundo já disse em outro logar, que não é esta pfr 
quena virtude, pêra qualquer principe, especialmente 
pêra aquelles, em cujo regimento, é posta a vara de 
justiça. 

— Outrosim, disse a rainha, vos encomendo Brite» 
Gonçalves de Moura e Alécia \^az sua filha, que sãi 
mulheres que me tem bem servido, e sabeis a cont 
em que as sempre tive, e assim vos encomendo t 
das as outras minhas servidoras e creadas. 

Ao que o infante respondeu, que lhe tinha muit 
em mercê deixar-lhe tal encomenda, a qual elle cumi 
pria o melhor que podesse, e que a Deus-aprazcri 
de o ajudar, por tal guisa que sua vontade e manda^ 
fosse era perfeita execução, e entonce disse aos i 
fantes D. Pedro e D. Henrique. 

— Filhos, deveis crer firmemente, que Deus ordc 
todas as cousas, como ha por bem, c todos os bo 



Clironica d'El-Rei D. João I 57 



' devem conformar a sua vontade, com o seu querer, 
e a EUe aprouve por sua mercê, de ordenar que vossd 
j irmão fosse herdeiro d'este reino, e vosso senhor, da 
[ qual cousa vós deveis ser muito contentes, consirando 
que pois haveis de ser servidores, que o sois d'um 
vosso irmão mais velho, o qual conhecidamente é 
tão bom como vós sabeis, e vos tanto ama, e do seu 
pouco, segundo a disposição da terra, vos deveis mais 
contentar, que do muito de outro algum príncipe, 
ainda que fosse o maior do mundo, e porém o deveis 
sempre servir e amar, com grande vontade e de- 
sejo. 

E os infantes com grande mesura responderam á 
rainha que lhe tinham muito em mercê similhante 
conselho, o qual elles com a graça de Deus, poeriam 
em obra mui cumpridamente, porque além da razão e 
natureza e sangue, que com elle haviam, os constran- 
gia a ello manciar-lh'o ella, a qual cousa foi por elles 
mui bem guardada, cá em todos os dias do dito se- 
nhor, o serviram e amaram com grande vontade e 
obediência. 



õ8 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO XLII 



Covio o infiinte D. Pedro requereu á rainha que fosse 
sua mercê leixar as suas terras á inf atita sua ir- 
mã, e como lhe foratn outorgadas . 




Ão me posso partir d'cste razoado, posto que 
o seu recontamento me cause tristeza, conhe- 
cendo quanto a sua contemplação é proveito- 
sa pêra ensinança d'aquellas pessoas que verdadei- 
ramente querem conseguir virtude. 

Cremos que já fica escripto no outro volume, em 
que se recofitam, os feitos passados d'el-rei D. João, 
quantos filhos elie houve da rainha sua mulher, e co- 
mo não houve mais d'uma filha, que depois foi du- 
queza de Borgonha, a qual a aqueile tempo, era mulher 
de perfeita edade. 

E vindo a rainha sua madre e senhora n'aquella 
disposição, apartou-se d'alli com as outras senhoras 
e donzellas, onde estava com grande tristeza, rogando 
a Deus, pela saúde da dita senhora, e depois que cila 
assim repartiu suas encomendas, como j.l ouvistes, che- 
gou-se a ella Brites Gonçalves de Moura, e dissc-lhe: 

— Senhora, parcce-me que todos os do reino ha- 
veis encommcndado a vosso filho o infante, e não ti- 
vestes lembrança da infanta vossa filha, que é mulher 
e em tal edade como sabeis, o qual é mais necessário 
ser encomendada a ellc, que outra nenhuma pessoa. 

— A meu filho, respondeu ella, todas minlias cou- 



Chronica d'El-Rei D. João I 69 



sas são encomendadas, especialmente minha filha de 
que elle sabe que eu tenho tamanho cuidado, e po- 
rém não curei de lhe falar em ella, sentindo que elle 
é tal, que lhe não fará mingua ser-lhe dito por mr 
d'ella. 

O infante D. Pedro, que ahi estava, disse á rainha: 

— Senhora, se vossa mercê fosse, a mi parecia bem 
chamarem a el-rei, e lhe pedirdes que as terras que 
vós tendes, que haja por bem dal-as á infanta sua fi- 
lha, pêra seu soportamento emquanto não ha outra 
rainha. 

E os infantes ajudando as razões de seu irmão, dis- 
seram que lhe parecia muito bem de se fazer assim, 
sobre o qual o infante U. Henrique foi falar a el-rei 
seu padre, por mandado da dita Senhora, dizendo como 
a rainha lhe enviava pedir que chegasse lá, pêra falar 
'com elle algumas cousas, que lhe era necessário, no 
que el-rei não poz nenhuma tardança. 

— Senhor, disse ella, de todos quantos estão n'este 
reino, de que eu tinha carrego, eu não sei quem vos 
haja de encomendar em esta hora em que estou, por- 
que de todos sinto que tendes especial cuidado prin- 
cipalmente dos que meus são, e me serviram, segun- 
do os bens e mercês, que lhe sempre fazeis. Bem 
creio, segundo as grandes virtudes que Deus em 
vós poz, que depois de minha morte, lh'o fareis assim 
cumpridamente, e ainda muito melhor, mas porque 
vossa Senhoria bem sabe, como a infanta nossa filha 
é já quasi de dczenove annos, e como tem forma cum- 
prida de mulher, e que depois de minha morte todas 
as senhoras, donas e donzellas, que andam em minha 
casa é necessário que fiquem a ella, c que cila as sus- 
tente com vossa mercê e ajuda, porém eu vos peço, 
que as terras que eu de vós tinha, que lhe façaes 



60 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



d'ellas mercê, até que a Deus praza de lhe trazer ca- 
samento, ou que venha rainha a este reino, ainda que 
eu espero em Deus, que vós a casareis mui cedo, como 
é razão. 

E como quer que el-rei fosse homem de tamanho 
coração como já ouvistes, pelo grande amor que ha- 
via á rainha, ouvindo-lhe suas palavras não se pôde 
ter que não chorasse, e assim com os olhos cheios 
d'agua, lhe respondeu. 

— Senhora, eu sou muito ledo de cumprir todo 
esto que me vós requereis, e mais ainda lhe faço mer- 
cê e doação de todas as jóias e baixellas e os corre- 
gimentos que de vós ficarem, e mi a pertencerem. 

E ella disse que lh'o tinha muito em mercê, e a in- 
fanta que já ahi estava, lhe foi beijar a mão, e á rainha 
sua madre, e por similhantc guisa fizeram os infantes 
todos três, que presentes estavam. 

Não falamos aqui do infante D. João, nem do in 
fante D. Fernando, porquanto os mandara do dito 
mosteiro, por razão da dita pestclença que assim an- 
dava entre elles, consirando porquanto eram assim 
moços, que lhe poderia mais azinlia aquelle ar em- 
pecer, porque um d'elles havia quinze annos e o outro 
doze, e assim ficaram em este reino com a infanta 
sua irmã, sob a governança do mestre d'Aviz, a qu 
o regimento do reino ficou encomendado. 

E por acabarmos de todo as encomendas da rainha 
haveis de saber que depois que se el-rei assim partit 
d'ella e a infanta sua filha, ficaram os infantes todoí 
três, e o infante I). Duarte se apartou com os phisicoí 
c surgiões, pêra falar com elles em razão da cura qu( 
pertencia á rainha sua madre, e ficando os outros in 
fantes juntos com ella, assim fraca como cila estava 
lhe começou a dizer: 



Chromca d'El-Rei D. João I 61 



— Porque sempre vos vi, em um amor e vontade, 
sem haver entre vós nenhuma desavença, por obra riem 
por palavra, avSsim como verdadeiros irmãos, vos rogo 
e encomendo, que assim como vos até aqui amastes, 
assim vos ameis d'aqui em deante, em serviço de Nosso 
Senhor, e sempre vossos feitos irão de bem em me- 
lhor, e não haverá nenhum no reino, que vos possa 
empecer, e se fordes desvairados e inimigos, não ha- 
verá em vós a força que ha, sendo ambos em um amor, 
como claramente podeis entender, pelo exemplo da 
frecha, de que em nossa terra ha uma historia, em que 
se diz que ligeiramente pode um homem quebrar uma 
e uma, e pêra quebrar muitas juntas, cumpre muito 
mór força; e os infantes lhe disseram que prazeria a 
Deus, que assim o fariam, e certamente sempre entre 
elles foi grande amor, e não tão somente quanto ás 
vontades de dentro, mas ainda por certos signaes de 
fora, cá nos motes e divisas, assim tomaram ambos 
quasi uma similhança, cá o infante D. Pedro, trazia 
no seu escudo por mote. Desejo, e a sua erva carras- 
co, e ainda se acertara que a repartição das terras 
era assim junta uma com outra. 

Mas do que se depois seguiu, acerca da morte do 
infante D. Pedro, fica um grande processo, pêra con- 
tar adeantc, onde perfeitamente podereis snber quan- 
to o infante D. Henrique trabalhou por salvação de 
seu irmão, e muitos que em esto falaram, não como ho- 
mens que inteiramente sabiam a verdade, disseram que 
o infante poderá dar vida a seu irmão, se tivera boa 
vontade de o fazer, o que é certo que se fora contra 
outra alguma pessoa, elle trabalhara em ello como por 
si mesmo, mas contra seu rei c senhor, achou que o 
não podia fazer, sem quebrantar sua lealdade, o que 
elle di/ia que o não faria, não tão somente por seu 



62 Bihliotheca de Clássicos Portuguczes 



irmão, mas por mil filhos, ainda que os tivera, nem 
ainda por salvação de si mesmo, posto que por sua de- 
fensão se podesse salvar, das quaes cousas a obra foi 
manifesta testemunha. 



CAPITULO XLIII 



Como os infantes pediram a el-rei que se partisse 
(Talli, e do conaelho que acerca dello tiveram, c das 
visões que a rainha viu antes de sua tnorte. 

vi^ K quizessemos julgar determinadamente qual 

1 Uy era o logar que Nosso Senhor tinha aparelha- 
^y^""^ do, á alma da rainha, bem poderiamos dizer, 

julgando as cousas do outro mundo pelas circums- 
tancias d'este, que era aquelle onde os bemaventura- 
dos tem o seu alojamento perdurável, cá dito é pela 
bocca da \'erdade, da abondança do coração falaaboua, 
porque cada um nunca prophetiza senão d'aquello que 
deseja, e quem ouviu taes razões como a rainha dizia 
antes de sua fim, bem poderia julgar que as não fa- 
lava senão por espirito prophelico, segundo podeis vêr 
pelas seguintes palaxTas, cã estando assim depois que 
falou a seus filhos, estando ellcs assim, junto com a 
sua cama, começou o vento a se esforçar em tal gui- 
sa, que o sentiam aquelles que estavam na casa, c a 
rainha perguntou que vento era o que assim corria. 

Os infantes lhe disseram, que era Aguiào. 

— Creio, disse ella, que bom seria este pcra vossa 



Çhronica d'El-Rei D. João I 63 



viagem ; respondeu-lhe o infante, que era o melhor 
que ahi havia. 

— Que cousa tão estranha, disse ella, eu que tanto 
desejava vêr o dia de vossa partida, em que pensava 
tomar tamanho prazer, por razão da vontade que te- 
nho de vêr vossa cavallaria, segundo cumpre a vos- 
so real estado, ser eu agora tamanho estorvo d'ella, e 
demais ser certa de a não poder aqui vêr. 

— A Deus prazerá senhora, disse o infante D. Duar- 
te, vós a vereis tão cumpridamente como desejaes, cá 
posto que agora sejaes em tal ponto, por razão de 
vossa enfermidade, outros muitos foram já muito mais 
doentes, e prouve a Deus de lhe dar saúde, assim lhe 
prazerá por sua mercê, de a dar a vós, porque nos 
vejaes fazer cavalleiros, e partir nossa viagem como 
desejaes. 

— A Deus prazerá, disse a rainha, de me não dar 
n'este mundo tal prazer, porque entendo que se m'o 
aqui desse, que me minguaria alguma parte da bem- 
aventurança do outro, cá espero na sua mercê, que 
pois lhe praz de cu aqui não vêr prazer, de m'o dar no 
outro mundo, onde me será mais proveito pêra a saú- 
de perdurável. 

O infante tornou a repetir cjue todavia ella haveria 
prazer n'cste mundo, como ante dissera, e haveria saú- 
de, e veria o que (lescjava. 

Mas ella, como mulher, que das cousas temporaes, 
não tinha algum sentido, começou de dizer: 

— (l\\ subirei no alto, e de lá vos verei, e a minha 
doença não torvará a vossa ida, cá vos partireis por 
festa de Santiago»; do que foram serão maraxilhados, 
duvidando muito de tal cousa poder ser, porque tl'alli 
até aquella festa, não havia mais de oito dias, e por 

cnhum modo podiam cuidar que a ida se podcsse cn- 



^V' 



64 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



caminhar em tão breve tempo, segundo a disposição 
das cousas, cá se a rainha vivesse, havia mister mais 
tempo pcra sahir da fraque/a em que já estava, e dr 
razão elles não haviam de fazer movimento até que 
ella fosse em melhor ponto, e se morresse convinha 
de serem feitas suas exéquias, como pertencia a seu 
real estado, e parecia a cada um que esto consirava que 
era necessário passarem primeiro alguns dias, antes 
que el-rei passasse o sentimento de tamanho nojo, pêra 
haver de tomar conselho acerca de sua ida. 

Em pêro a santa rainha, falava como quem o sabia, 
cá assim foi perfeitamente cumprido, como ao deante 
será contado, porque a hora da morte é a mais forte 
cousa e a mais tcrribel que se pode achar entre todos 
os tormentos do mundo, onde tem muitos que as al- 
mas são assim apressadas com infernaes visões qui- 
lhe alli apparecem, que o espanto lhe faz perder a ver- 
dadeira fortaleza; cá posto que Nossa Senhora fosse y 
tão fora do pecado como todos verdadeiramente cre- 
mos, não pode consentir na dita hora similhantes vi- 
sões, segundo se Ic, que pediu a seu filho que lh'as não 
mostrasse. 

Pois quando Ella que é Madre de Deus, e a mais 
santa entre todas as creaturas, teve este receio, que 
pensamento deve ser o nosso, quando pensarmos o 
estado em que somos? principalmente os príncipes 
terreaes que tamanho logar tem de pecar, os quaes 
posto que muito virtuosos sejam, não podem porém, 
segundo diz Salomão, andar de cote sobre as brazas, 
que não escaldem seus pés, nem trazer o fogo em seu 
seio, que se lhe não queimem os vestidos, pelo qual 
se escreve no Apocalipse : «nome tens que vivas, e és 
morto», e porém hão perigoso porto, cá assim como o 
grande navio, e muito carregado, ha mister mais sa- 



Chronica d'El-Bei D. João I 66 



bedores e fortes marinheiros, que outro mais pequeno, 
isto mesmo é dos grandes senhores aos outros homens, 
e deveis porém de crer, que assim como elles tem li- 
vre poder sem prema de algum superior, pêra peccar 
em esta vida, assim tem grande merecimento na ou^ 
tra, aquelles que por virtude o leixam de fazer, e as- 
sim lhes é maior excellencia, prometida no outro mun- 
do, segundo verdadeiro testemunho do evangelista, que 
disse que resplandeciam assim como sol, e muitas his- 
torias ha ahi de muitos e grandes príncipes, porque 
Deus fez muitos milagres, assim como se acha d'aquella 
santa rainha D. Izabel, que foi mulher d'el-rei D. Di- 
niz, que jaz em Santa Clara de Coimbra, á qual foi re- 
velado o dia de sua morte, e d'el-rei D. Pedro, que 
sendo partido d'esta vida, por bom espaço, tornou sua 
alma outra vez á carne, pêra confessar um só peccado, 
sem cuja penitencia, não podia receber a bemaventu- 
rança da gloria. 

Esta rainha D. Filippa, estando n'aquelle ponto, que 
já ouvistes, lhe apareceu Nossa Senhora, pêra lhe dar 
verdadeiro esforço pêra a passagem d'aquella hora, cá 
depois d'estas cousas que já dissemos, ella endereçou 
seu rosto pêra cima, tendo seus olhos direitos pêra o 
ceu, sem nenhum mudamente de continência, c foi 
visto em ella um ar todo cheio de graça, o qual to- 
dos visivelmente conheciam que era espiritual, e ten- 
do as mãos juntas, como temos em costume de fazer 
quando vemos o corpo do Senhor, disse: 

— Grandes louvores sejam dados a vós minha Se- 
nhora, porque vos prouve de me virdes visitar do alto, 
c assim filhou a roupa que tinha sobre si, e a beijou 
como se beijasse uma paz. 

Quando os infantes viram assim estas cousas, co- 
nheceram bem que aquelles eram os derradeiros si- 

VOL. II \ 



66 Bihliotheca de CUissicos Portiiguezes 



gnaes do conhecimento da morte de sua madre, e con- 
siraram que seria grande empecimento, se el-rei seu 
padre alli estivesse, cá sabiam muito certo, segundo o 
grande amor que lhe havia, que estando alli, quando 
ella morresse, que não poderia ter aquella temperan- 
ça, que lhe cumpria pêra guarda de sua saúde, e fo- 
ram-se a elle assim juntamente, dizendo : 

— Senhor, porque sentimos que a senhora rainha é 
em tal ponto, que cedo será fim de sua vida, parecc- 
nos que é bem que vossa merco se parta d'aqui pêra 
alguma parte, porque o mal não haja razão de ser maior 
sobrevindo-vos alguma enfermidade, por azo do vosso 
grande nojo, o qual com menos pena sentireis, não 
tendo ante os olhos a força do nojo, porque o haveis 
de sentir a causa d'elle. 

— E bem vos parece, disse el-rei, que eu haja de 
desamparar uma mulher cm similhante tempo, com 
que tão longamente manli\e companhia r por certo bem 
se pode seguir qualquer caso, que a Deus prouver, mas 
cu por nenhum modo rpe partirei da par d'ella, cm 
cuja companhia me faria Deus mercê, levar-me pêra 
o outro mundo. 

— Por que quereis vós, senhor, disseram os infantes, 
azar dois grandes males, por vossa estada, sem espe- 
rança de nenhum proveito? O primeiro, que sentin- 
do-vos a rainha acercar de si, acrescentar-lhe-heis 
maior trabalho, quando lhe lembrar que já vos mais 
não ha de vèr, cá posto que a sua vontade esteja con- 
forme com as cousas do outro mundo, cmquanto a 
alma está na carne, é necessário que a humanidade 
requeira o que é de sua natureza^ o segundo é que 
vós estando aqui, é necessário que esteis a todos seus 
officios, e que a vejaes depois de finada, a qual vista 
vos trará á consiraçào muitas cousas, cuja lembrança 



Chronica d'El-Rei D. João I 67 



acrescentará vosso grande nojo, de que se vos pode 
seguir alguma grande enfermidade, que será muito 
peor. Porém vos pedimos por mercê que vos não apar- 
teis d'aquello, que sempre uzastes, a saber, razão e 
conselho, maiormente sobre cousa tão assignada. 

— Pois que assim é, disse el-rei contra o infante D. 
Duarte, vós mandae chamar todos os do conselho que 
aqui são, e fallae com elles, e o que acordardes que 
é bem que eu faça, isso farei ; e brevemente o conse- 
lho feito, determinaram que todavia el-rei se devia 
partir d'alli, e passar-se além do Tejo, a um logar que 
chamam Alhos Vedros, como de feito logo partiu. 

Mas d'aquelle triste despedimento que elle fez da 
rainha sua mulher, quando a foi vêr antes que se par- 
tisse, não posso eu fallar tanto como devia, que a for- 
ça das lagrimas me embargam a vista, que não pos- 
so escrever, consirando cm cousa tão triste, ca se me 
apresenta ante a imagm do entendimento, como o ver 
dadeiro e leal amor é mais forte das cousas, que a na- 
tureza n'cste mundo ajuntou, do qual Salomão diz nos 
Cantares, que é forte como a morte. 



68 Bihliotheca de Clássicos Porttigttezes 



CAPITULO XLIV 



Cowo a rainha foi comungada e nngidãy e como Jez 
fim de seus dias, e como o auctor diz que em ella 
havia cumpridamente as quatro virtudes cardeaes. 

^/^~v RANDii tristeza sentiram os infantes, quando sou- 
^j^# beram certamente, que a morte de sua madre, 
^"^^ por nenhum modo se escusa\"a, e fizeram logo 
chamar os phisicos e surgiõcs, pcra falarem com cllcs 
acerca d'alguns remédios que se podesscm achar, pêra 
que ao menos seu padecimento não fosse tamanho, e 
acordaram os ditos phisicos que era htm que a rainha 
se mudasse pêra outra cama mais baixa, pêra lhe aquel- 
la ser corregida como cumpria. 

Mas ella, que nos cens tinha firmadas as ancoras de 
sua vontade, tanto que foi assim mudada, requereu que 
lhe trouxessem o corpo de Nosso Senhor, c foi-lhe logo 
trazido, e ella com todo acatamento c reverencia, co- 
mo melhor poude, alevantou suas mãos, e disse mui- 
tas palavras de grande devoção, pedindo-lhe com gran- 
de humildade perdão de seus pcccados, e sahação pêra 
sua alma, com tanta humildade e graça espiritual, que 
a quantos ahi estavam parecia que eram ditas por um 
anjo celestial, c depois que recebeu a comunhão, foi 
ungida, e mostrou que se sentia d'uma perna, abaixo 
do giolho, e vista pelos phisicos, assim honestamente, 
como era razão, acharam que tinha um carbúnculo, o 
qual foi bem conhecido, que era cousa nova, porque 



Chronica (VEl-Eei D. João I 69 



até alli não lhe sentiram mais dôr que uma levação, e 
posto que sentissem, que com nenhum remédio podia 
receber saúde, mandaram porém que lhe furassem 
aquelle carbúnculo, dizendo logo que não podia mais 
durar, por determinação da phisica, que até o outro dia, 
que era uma quinta feira, na qual pouco mais de meio 
dia, a dita senhora mandou chamar os clérigos, e dis- 
se que começassem o officio dos mortos, e ella com 
todo seu entendimento, ouvindo o dito officio, portal 
guisa, que quando algum d'elles errava, ella o corre- 
gia, e em acabando a derradeira oração, ella corregeu 
todo seu corpo e membros ordenadamente e levantou 
os olhos contra o ceu, e sem nenhum trabalho nem 
pena, deu sua alma nas mãos de seu Creador, pare- 
cendo na sua boca um ar de rizo, como quem fazia 
escarneo da vida d'este mundo, cíí assim hade ser, se- 
gundo tenção d'alguns doctores, que o homem que di- 
reitamente ha-de viver, venha a este mundo choran- 
do, e parta-se d'elle rindo. 

Os infantes tiveram seu conselho acerca da enter- 
ração da rainha, e acordaram que, porque o tempo era 
quente, cá era quando o sol está em dois graus do si- 
gno do Leão, que a enterrassem de noite o mais se- 
cretamente que podcsscm, e ao outro dia pela manhã 
lhe foi feito o officio, segundo cumpria ás exéquias de 
tamanha senhora, empcro que eu creio, que não seria 
tão grande em este mundo, como lhe será feito no ou- 
tro. 

Os infantes foram em aquclla noite vestidos de bu- 
rel, c assim todos os outros, que a maior parte dos 
bons do reino eram juntos n'aquella cidade, e não ha- 
via algum, que de seu moto próprio não tomasse dó 
por ella, cá certo perdiam n'ella mui grande es- 
teio pêra todas suas honras c acrescentamentos, se- 



70 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



gundo já ouvistes, que nem ainda á hora da morte lhe 
pode esquecer de encommendar todos os estados do 
reino a seus filhos, como aquclla que d'elles todos ti- 
nha especial cuidado. 

Por certo, diz o auctor, nós poderiamos aqui fallar 
muitas razões acerca do grande dó que foi feito por 
esta senhora, as quacs nos parece que se de\-cm escu- 
sar, consirando como seu recontamento não traz 
honra íís grandes virtudes d'aquclla senhora, cujo fal- 
lecimento escrevemos, porque todos certamente sabe- 
mos que no dia que entrámos n'esta vida, por lei de- 
terminada, fomos julgados á morte. 

A nossa vida não é senão uma trasladação que fa- 
zemos do ventre ao sepulchro, segundo diz Job, e 
porque n'esta vida nos são mostrados em este mundo 
dois caminhos, a saber um de virtude e outro de de- 
leitação, segundo os poetas fingem que Hercules 
achou no deserto, e o caminho da deleitação c aquelle 
que nos leva direitamente ao inferno, e a morte dos 
que este caminho seguem devemos chorar por sua 
perpetua damnação, mas com o fallecimento d'aqucllcs 
que \ão pelo caminho das \-irtudes, nos devemos d( 
alegrar tanto, quanto mais nos a sua bema\'cnturança 
pertence por natural di\-ido, ou ajuntamento de ami- 
zade, e portanto dizia Ovidio, poeta: 

«Não me honre nenhum com lagrimas nem vá ao 
meu enterramento com choro, porque não deve cor 
razão chorar a morte que me leva á \Mda immortal» e 
Xenefontc conta que Cyro, o maior, estando para 
morrer dizia: 

«Oh! meus muito amados filhos, não queiraes cui- 
dar que como eu partir de vós, que me tornarei eir 
nenhuma cousa, nem farei em algum logar, por que 
quando eu conversa\'a com\osco, certo é que ner 



Chronica d'El-Rei D. João I 



vieis a minha alma, mas entendíeis que morava em 
este corpo, pelas cousas que me vieis obrar, pois 
, aquella mesma alma crede que me ficará pêra sem- 
pre, depois de minha morte, a qual entonce perfeita- 
mente começará de viver, e porém não me queirais 
chorar com dor.» 

Mais poderia alguém dizer por auctoridade do sa- 
bedor. 

Qual dos homens poderá este caminho certo fazer.? 
cá escripto é que ninguém sabe se merece ódio se 
amor, na presença de Nosso Senhor. 

Ao que eu posso direitamente responder, que, de 
tanta sciencia cumpriu Deus o entendimento dos ho- 
mens, que ligeiramente podem conhecer, pelas obras 
de cada um, por qual d'estes caminhos faz sua via- 
gem. 

E porque já disse, que a virtude era aquelle cami- 
nho, pelo qual podíamos chegar á verdadeira vida, 
quero dizer como esta rainha seguiu verdadeiramente 
este caminho, por onde com razão, não devemos cho- 
rar seu fallccimento. 

Grande cuidado tiveram os antigos sabedores, de 
esquadrinhar verdadeiramente quaes em tamanho nu- 
mero são estas virtudes, porque assim havemos de 
fazer nossa viagem, porque ellas são assim como pro- 
veitosas balisas, que são postas em algum vau peri- 
goso, em cujo passamento os homens teem alguma 
duvida de poderem fallecer, e uns disseram que eram 
trinta e uma virtude, c outros disseram que não eram 
mais de onze, e brevemente determinaram que posto 
que muitas hajam, que somente quatro são aquellas 
■que nos podem direitamente encaminhar, portanto 
^Ihe chamaram virtudes cardeaes, porque cardo em la- 
iltim quer dizer couce, em que se a porta revolve, e 



72 



Bíhliotheca de Clássicos Portuguezes 



por similliantc guiza todas as mais virtudes se revol- 
vem sobre o couce d'aquestas, que são justiça, pru- 
dência, temperança e fortaleza, as quaes a rainha houve 
cm mui exccllenle grau, e ainda as outras três que se 
chamam theologaes, segundo no seguinte capitulo ser 
contado. 



CAPITULO XLV 



Como o aticior faz divisão das virtudes^ e como se 
infantes partiram d'aquellc mosteiro pêra Restei lo. 



JUSTIÇA c a jirimeira virtude, e a principal de to- 
das, a qual, segundo diz Séneca, é tal virtudí 
que não tão somente pertence áquelles que hão- 
de julgar, mas ainda a cada uma creatura racional^ 
pêra julgar a si mesmo, a qual virtude era mui per- 
feitamente em aquella senhora, cá assim trazia su; 
vida justamente ordenada, que nunca achámos qu< 
a alguma pessoa fizesse injuria, por nenhum modo] 
porque suas palavras sempre eram ditas mui mansaíl 
mente, e fora de toda escatema, fazenda muitas ami<P( 
zades, porque se escusaram grandes injurias e males 
cá tanto que sabia que alguns se queriam mal, log< 
lrabalha\'a de os avir e concertar, ou por si ou poi 
pessoas religiosas, e muito lhe prazia de dispender 
alguma cousa do seu, se entendia que pêra os apaxi 
guar e acabar seu desejo era necessário. 



Chronica d'El-Rei D. João I 73 



Nunca do alheio mandou tomar nenhuma cousa 
I forçosamente, nem contra vontade de seus donos. 
! Trouxe sua vida assim ordenada, que todas as cou- 
sas que pêra ella eram necessárias, eram compradas 
! ou aviadas, segundo a vontade d'aquelles que as ti- 
' nham. 

j Da virtude da Prudência seria sobejo fallar, em ta- 
j manho grau uzou d'ella em todos os seus feitos, e 
j porque já disse assaz do claro conhecimento que teve 
j pêra seguir todas as virtudes, cá a prudência nâo é 
; outra cousa senão um habito ou clara disposição, por 
I que o homem por intrinseco conhecimento pode re- 
ceber conselho pêra se arredar das cousas más, e se 
chegar ás boas. 

Em outros ramos se parte esta virtude, segundo os 
gregos, assim em uma, que se em grego chama sicne- 
sis, e outros cibalia, de que a nós não convém falar. 
A virtude da '1'emperança foi mui louvada em esta 
senhora, por que em todas as cousas achamos que vi- 
veu muito temperadamente; seus trajos foram sempre 
muito honestos, assim ordenadamente, que nem eram 
de tão baixo valor, que por seu azo nascesse presumpção 
de escaccsa, ou menos preço, nem assim altamente obra- 
dos, que por sua vista mostrasse aos outros uma co- 
nhecida louvam inha. 

Muito louva o philosopho a todas as mulheres, o si- 
lencio e ocupação, a qual cousa certo em ella era acha- 
da cm grande sufficiencia, cá tarde e por grande ven- 
tura falava sem necessitlade, c suas palavras sempre 
eram ditas com a continência baixa, e mui mansa- 
mente razoadas, nem se parecia em ella o geito, que 
muitas senhoras tomam cm falar, (jue leixam a manei- 
ra que lhes pertence, e faliam á parecença, como mo- 
ças creadas cm mimos, e a sua continência era sem 



74 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



pre baixa, c o rosto a meude vestido d'um ar cheio de 
honestidade, e seu comer, não era por deleitação, so- 
mente por suster a vida, nem o seu cozinheiro era mui- 
to importunado pêra buscar novas maneiras de igua- 
rias; jejuava tanto, como a sua natureza podia soíTrer, 
e maior trabalho tinha o phisico em a constranpi^er que 
comesse pcra ajudar a natureza, que o confessor tinha 
em a rcprehender da sobcgidão; amava muito a ve- 
nerosa castidade, e assim fazia grande honra a todas 
as pessoas que a mantinham ; não se deleitava em ja- 
zer longamente na cama, depois das horas razoadas, 
mas muito primeiro do que a sua natureza e seu es- 
tado requeriam, era alevantada; a maior parte de sua 
ocupação era em rezar, c todos os dias rezava as ho- 
ras canónicas, segundo o costume de Salusbri,e as ho- 
ras de Nossa Senhora e dos mortos, e os sete psalmos, 
com outras muitas devoções, e muitas vezes rezava o 
psalterio todo, e outras horas certas vigilias, segundo a 
ordenança de sua devoção, e o tempo que lhe ficava 
não era despreso em prover o cofre das jóias, nem 
corregimentos de seus toucados, mas com proveitoso 
exercicio, obrando por suas mãos algumas obras per- 
tencentes a seu estado, nas quaes muito a meude 
fazia ocupar todas as mulheres de sua casa, pelas ar- 
redar dalguns azos contrários a sua fortaleza. 

Não quero dizer mais, porque a fim de sua victo- 
ria, é manifesta prova de sua virtude. 

E pois que já disse d'estas quatro virtudes, {}ue 
pertencem ao encaminhamento de bem ordenada vida, 
quero dizer das outras três, que são chamadas thcolo- 
gaes, que inteiramente pertencem á alma. 

Não foi pequena sua fé, quando por amor do Se- 
nhor Deus lhe prouve trabalhar sua vida, por chegar 
a Hm de seu desejo, conhecendo que o perfeito bem 



Chronica d'El-Rei D. João I 7õ 



era o reino dos céus, e assim amava todos os guiado- 
res de nossa santa fé, e havia grande ódio aos infiéis, 
e não é duvida que o infante D. Henrique seu filho, 
houve aquella mesma impressão, dentro no seu ven- 
tre, a qual o fez ao depois sempre conseguir aquelle 
desejo, segundo ao deante em nossa historia será 
contado ; sua verdadeira esperança sempre foi em 
Deus e nus suas virtudes, cá nunca foi achado que 
tentasse outras maneiras de pouca firmeza, somente 
ter sua esperança verdadeira n'aquelle Senhor, em 
cujo serviço desejava viver e acabar, o qual desejo 
lhe Deus cumpriu, como já ouvistes. 

Da sua caridade não direi tanto, quanto com ra- 
zão se pôde dizer, cá sua riqueza tudo era thezourO' 
de pobres, fazendo muitas esmolas segundo já temos 
dito; ella tinha muitas mercieiras em todas suas ter- 
ras, e em todos os mosteiros cm que havia pessoas re- 
ligiosas, e de boa vida, dava cada um anno ajuda pêra 
seu mantimento, e assim pêra casar orpliãs e crcar me- 
ninos ; requeria a cl-rei que uzasse de piedade com 
algumas pessoas, em que a justiça não havia tamanho 
logar, e Hizia outros muitos bens, em cumprimento 
das obras de caridade. 

Por todas estas cousas cobrou assim a bemaven- 
turança d'este mundo, como do outro, cá em este me- 
receu nascer da mais alta geração, que havia entre 
todos os príncipes christãos, e mui aposta de seu cor- 
po cota a excellencia de virtudes, e houve um dos 
honrados príncipes do mundo, por marido, constituí- 
do cm dignidade real, o qual a amava muito, e assim 
houve filhos, de que nunca viu nojo, antes teve razão 
de se alegrar nuiíti) com ellcs, p<>r(|ue conhecia que 
nenhuma rainha no mundo tinha filhos símilhantes a 
cllcs; houve ricjueza e serviílores nuiito t)l)edientes, e 



76 BihlLotheca de Clássicos Portuguezes 



seguidores de sua vontade, assim que em este mundo 
não havia mais que haver, e pêra merecer a gloria do 
outro, lhe deu Nosso Senhor a sua graça, que seguis- 
se o caminho das virtudes, porque mereceu chegar 
áquelle fim que já dissemos; morreu em sua cama 
acompanhada de seus fillios, houve assaz espaço em 
sua dôr, pêra fazer os derradeiros officios que a chris- 
tãos pertence, cá durou treze dias em sua enfermida- 
de; houve o \'erdadeiro conhecimento do Senhor Deus 
com grande arrependimento de seus peccados; sua 
consciência descarregou sem nenhum trabalho, e se 
partiu d'este mundo mostrando taes signaes antes de 
sua morte, pelos quaes conhecemos verdadeiramente 
que é no lugar dos Santos, d'onde conhecem quantas 
trevas jazem sobre a claridade de nosso dia; pois como 
poderemos chorar sua morte com razão ? antes alta- 
mente devemos de nos alegrar, aquelles a que praz 
de sua bemaventurança, e creamos certamente que 
Nosso Senhor Deus, mandou por ella as prizões 
d'este mundo, porque a sua alma lançava ante os 
seus pés, que lhe piedosamente desse victoria pêra 
seu marido e filhos com salvação de todo outro po- 
vo d'estes reinos, que por azo de sua morte seus 
filhos podessem ser mais honradamente cavalleiros, cá 
se cila vivera sens filhos foram feitos cavalleiros em 
l'ortugal, segundo lh'o el-rei tinha prometido, que lhe 
não iôra tamanaha honra, como foi de o serem em 
terra d'Africa, cm uma tão honrada cidade, depois do 
acabamento de tanta victoria. 

Ora fazendo fim d'cste capitulo haveis de saber que 
tanto qne aquella sant» r.iinha foi posta em sua se- 
pultura, e feitas suas exéquias, os infantes se parti- 
ram d'ali acompanhatlos d'aquelles senhores e fidal- 
gos, e se foram pêra uma aldeia, que está acima 



Chronica d' El Bei D. João I 



d'aquella egreja que o infante D. Henrique man- 
dou fazer, que chamam Santa Maria de Belém, e a 
aldeia ha nome Restello, por amor d'aquella ancora- 
rão que alli está, que se chama por essa mesma gui- 
sa, e alli estiveram até que a frota partiu, como ao 
deante ouvireis. 



CAPITULO XLVI 



Como os infantes tiveram seu conselho acerca dos fei- 
tos primeiros, e como foram falar a el-rei e torna- 
ram outra vez a ter conselho a aqiiella aldeia. 



■|~^OR azo d'aquelle forte acontecimento, era feito em 
I- todo aquelle ajuntamento um geral silencio, com 
•^/ que todos andavam não menos pensosos do que 
eram de ledos antes d'aquellc feito, e assim como todos 
andavam vestidos de dó, assim tiraram todos os arreios 
que tinham as galés e navios, de guisa que nào pare- 
cia a frota outra cousa senão arvores d'alguma mata 
a que a força do fogo priva das folhas c fructo, e não 
sabiam falar em outra cousa, senão das grandes vir- 
tudes que havia na rainha, nas quaes não havia ahi 
algum que podesse achar contrario, e muitos duvida- 
vam de se poder fazer algum movimento acerca do 
que era começado, cá diziam que tamanhos três si- 
gnacs como Nosso Senhor Deus cm aquelle feito mos- 
trara, não eram pêra ter em jogo, s. a grande peste- 



78 BihUotheca de Clássicos Portuguezes 



lença que dias havia que andava entre clles, pela qual 
já faleceram muitas e boas pessoas, e o segundo fora 
o eclypsc do sol, que foi antes alguns dias da morte 
da rainha, e em tamanho grau como antes na memo- 
ria d'aquellcs, que entonce eram, nem depois ate este 
prezente, nunca foi visto, cá duas horas continuadas 
esteve coberto por tal guisa, que pareciam todas as 
estrellas, e assim todos os outros signaes do ceu que 
geralmente parecem depois que o sol passa o Occi- 
dental orizontc, e o crepúsculo nos traz a escuridade 
da noite, e o terceiro foi a morte da rainha, que so- 
bre todo era mais sentido. 

Os infantes, tanto que loram em Rcstcllo, como já 
ouvistes, falaram logo entre si que maneira deviam 
ter acerca de seus feitos, e acordaram que era bem de 
irem falar a seu padre, a qual cousa logo cm aquella 
noite seguinte pozcram em obra, cá pouco mais de 
meia noite mandaram fazer prestes os bateis, e se fo- 
ram a Alhos Vedros, em tal guisa, que quando era 
manhã estavam com seu padre, o qual acharam mui 
anojado, vestido de panos tintos, e quando outrosim 
viu os filhos vestidos de burel, renovou-se em sua 
vontade uma mui dorosa lembrança da rainha sua 
mulher, e com elle estava o conde de Barcelios seu 
filho, e Gomes Martins de Lemos. 

— Senhor, disseram os infantes, consiramos de vos 
vir falar acerca d'estes feitos, pêra sabermos a maneira 
que quereis ter, e fazermos segundo sentirmos vossa 
vontade. 

— Meus filhos, respondeu el-rei, bem vedes no tempo 
cm que estou, e que cuidado deve ser o meu, consi- 
rando em tamanha perda, como pi^rdi, cuja lembrança 
me traz tamanho nojo, que não sei cuidar em outra 
coisa. Porém Icixo este encarrego a vós, disse elle contra 



Chronica d'El-Rei D. João I 79 



o infaní;e D. Duarte, que com vossos irmãos e com 
esses outros do conselho, faleis acerca d'este feito, e 
o que acordardes, me fareis a saber, pêra eu consirar 
sobre ello e determinar o que melhor e mais provei- 
toso parecer. 

E logo os infantes se tornaram sem outra detença 
pêra Restello, e fizeram chamar aquelles do conselho, 
que estavam mais prestes, os quaes, por conto foram 
quatorze, contando hi os infantes, cujos acordos foram 
partidos em duas partes eguaes, a saber, sete a cada 
uma parte, os infantes todos trez, e outros quatro dos 
do conselho, eram de acordo que el-rei devia de par- 
tir como primeiramente tinha determinado, porque 
diriam que tamanhas despezas como já eram feitas, e' 
tal provimento com tão grandes trabalhos remedeado 
e buscado, não deviam assim passar em vão, quanto 
mais pois aquello fora principalmente movido por ser- 
\iço de Deus, que se não devia leixar de acabar por 
nenhuma cousa, nem havia ahi razão porque se justa- 
mente leixasse de fazer, cá posto que assim a rainha 
falecesse, sua morte a tal feito não devia fazer empa- 
cho, cá a rainha não era mais que uma mulher, cuja 
morte não trazia outra torva pêra seu propósito, so- 
mente a tristeza que elles por sua causa filhavam, a 
qual prazeria a Deus que ajudaria a boa andança da 
victoria. 

(Juanto mais c[ue a fama d'este feito era tão divul- 
gada por tantas partes do mundo, que todos pensa- 
vam que tamanho movimento não podia parar sem 
commettimcnto d'algum grande feito, pelo fim do 
c|ual estavam cada dia em esperança de ouvir certo 
recado. A qual cousa seria muito vergonhosa assim 
pêra el-rei, como pêra todo o reino, quando soubes- 
sem que por similhante azo o leixavam de poer em fim. 



80 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Os outros sete acordaram que el-rei por nenhum 
caso devia de partir. 

— Por certo, disseram elles, se vf^^s dizeis que por 
isto ser serviço de Deus, o devemos principalmente 
seguir, bem se mostra que lhe não praz de similhante 
movimento, porquanto ante os nossos olhos traz tão 
manifestos signaes, porque de razão devemos crer que 
nosso movimento é contrario a sua vontade. 

Que cousa tão maravilhosa pcnsaes que é o damno 
que esta peste fez e faz cada dia cm tanta e tão boa 
gente, como d'ella falleceu e fallece? e não é duvida 
que depois que forem todos dentro nos na\-ios, que 
se não acenda muito mais, cá o ajuntamento a fa- 
rá muito mais acender, e o remédio proxeitoso pêra 
ella seria espalhar agora esta gente, e é certo que não 
poderia tamanho fogo estar muito que se não apagas- 
se, e se nos agora partisscmos, pode ser que assim 
como morreu a rainha, morrerão outras pessoas taes, 
cujo damno trará muito grande perda. 

Devemos ainda muito recear tamanho damno, co- 
mo recebemos na morte d'aquella senhora, porque 
somente as suas orações eram bastantes pêra nos li- 
vrarem de quaesquer perigos, cá bem mostrou Nosso 
.Senhor Deus signaes acerca de sua morte, porque 
muito devemos sentir a perda de seu faiiecimcnto, da 
qual não ha nenhum, posto que de pequena condição 
seja, que não tenha mui grande sentido. 

Certamente nós lhe mostraríamos signal de pouco 
amor, perdendo em tão breve tempo a memoria de 
sua morte, não tomando sequer algum espaço porcjue 
o mundo conhecesse o sentinícnto cjue linhamos d'cl- 
la, mas logo assim tirados dos choros de sua sepul- 
tura fazermos viagem, não seria bem, e que ainda que 
quizessemos leixar estas cousas, temos outro muito 



Chronica d' El- Rei D. João I 81 



grande empacho, que é muito pêra consirar, e esto é 
que por azo da morte da rainha se desaviaram mui- 
tas cousas, pêra corregimento das quaes não ha m.is- 
ter menos de um mez, pois nós somos agora quasi 
em fim de julho, e passado um mez seriamos em fim 
de agosto, que é já começo de inverno, em que se 
não deve começar similhante feito. 

Assim que por todas estas razões, se deve por 
agora escusar a execução d'esta cousa. 

Sobre estas duas opiniões houve em aquelle conse- 
lho grande debate, em o qual, dizem alguns, que o in- 
fante D. Pedro respondeu algumas razões mais áspe- 
ras do que devia, ao Condestabre, porque disseram 
que era um d'aquelles que mais affirmava que el-rei 
devia ficar, empero nós não o soubemos determinada- 
mente, nem o infante D. Henrique, que no similhante 
nos fallou, creio que o fez, por escusar algum prasmo 
que houveram aquestes, que estas vozes mantinham. 



CAPITULO XLVII 



Como os inj antes e três dos outros do conselho torna- 
ram a falar a el-rei em a determinação de seus acor- 
dos^ e das ra'jões que el-rei acerca cTello disse, e co- 
mo finalmente determinou a partida. 

Loco em aquelle dia aquelle conselho foi posto em 
determinação, de guisa que a noite seguinte or- 
di-narain os infantes de tornar com resposta de 
todo a seu padre, mas porcjuo clles todos três eram 



82 Bihliotheca de Clássicos Porluguezes 



de uma parte, segundo já ouvistes, disseram os outros, 
que tinham a outra, que fossem outros três, pêra da- 
rem cada uns sua razão, segundo alegaram. 

Os infantes disseram que eram contentes, e tiveram 
tal maneira em sua partida, que quando era manh<ã, 
ao domingo seguinte, foram com seu padre, segundo 
fizeram o dia d'antes. El-rei se apartou logo com elles 
em um alpendre que esta\'a n'aquellas casas onde pou- 
sava, e o infante I). Duarte disse todas as razões que 
os outros alegaram, contrariando a ida d'el-rei, dan- 
do-lhe ainda melhores entendimentos, e mais claros do 
que lhe os outros que ahi estavam deputados pêra ello 
poderam dar, e emfim perguntou-lhes se queriam ain- 
da além d'aquello dizer alguma coisa? e elles disse- 
ram que não, cá tão bem o arrazoara por sua parte, 
que elles sentiram de si que o nào podiam melhor fa- 
zer. 

Muitos falaram depois acerca d'aquclle arrazoamen- 
to, que assim fez o infante, havendo por grande ma- 
ravilha tomar assim aquellas cousas na memoria, c 
retel-as por extenso, louvando muito a clareza de seu 
entender; outros porém de mais dura crença, não po- 
diam entender senão que artificialmente tomava o in- 
fante assim aquellas cousas, cá por outra guisa magi- 
navam que se não podesse fazer, como quer que cm 
ello fossem enganados, cá aquello era assaz de bem 
pouco pêra outras muitas virtudes que lhe o Senhor 
Deus outorgara. 

Acabadas assim aquellas cousas, que pertenciam á 
primeira razão, disse o infante pela mesma guisa as 
outras, que a clle e aos de sua parte pertenciam. 

El-rei ouvidas assim aquellas razões, descobriu sua 
cabeça, que tinha coberta com seu dó, e disse : 

— M'Jito me pesa que cm tão boas pessoas seja 



Chronica d'El-Fei D. João I 8S 

achado algum falecimento de fraqueza em similhante 
caso, cá certamente eu cuidara que, posto que eu por 
causa de minha grande tristeza, ou por outro algum 
azo, quizera ficar, que elles me constrangeram a ir, 
aconselhando-me que todavia seguisse minha viagem. 
Porém consirando acerca de todos os empachos que 
elles pozeram em minha ida, cuja força principalmen- 
te está em estes acontecimentos que se hora seguiram, 
contando pelo mais forte o fallecimento da rainha que 
Deus haja, crendo que o aparecimento d'estes signaes 
é mui grande amoestação de nossa ficada, o que eu 
tudo entendo pelo contrario, porque notório está que 
pêra proscguimento de tamanho feito, não cumpre mais 
que irmos arrependidos e pungidos de nossos pecca- 
dos, inclinando ao Senhor Deus nossas almas, tornan- 
do-nos a Elle de todo coração, fazendo penitencia dos 
erros passados, que contra Elle comettemos, deman- 
dando-lhe mui humildosamente que nos livre de nossos 
inimigos, e que lhe praza dar gloria ao seu nome, 
exalçando a sua santa fé, quebrantando e destruindo 
todos os seus contrários, com a sua própria virtude, 
esto devemos tanto com maior diligencia fazer, quan- 
to a nossa tenção é movida a mais certo fim, a qual 
humildade nós não poderemos mostrar melhor, nem 
mais cumpridamcntc cm outra alguma cousa, como sof- 
frendo com bom coração todos os casos contrários, pois 
cremos certamente que por Elle são ordenados, cá lhe 
não fazemos em ello tamanho serviço como fazemos 
de nosso proveito, porque necessário é que Deus uze 
de suas creaturas, como lhe prouver. 

Qual é o cavalleiro que ha-dc entrar cm alguma 
justa, (pie não prove primeiro seu cavallo, c um dia 
vê com que assocego suporta o arruido e pezo das 
armas, outro com cpic força toma o trabalho, e assim 



84 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



todas as outras cousas? Pois que sabemos se Nosso i 
Senlior Deus, por estas cousas nos quiz provar, cá o 
ouro prova-o o fogo, c os casos da fortuna provam os 
homens, certamente eu creio que todas estas cousas, 
que assim aconteceram, são mais porque Deus por 
ellas nos mostra a certidão da victoria que o contra- 
rio, porque o fim da tristeza é ledice e o fim da ledi- 
ce é tristeza, e nôs que agora somos tristes, prazendo 
a Deus começando nosso feito, seremos ledos, porque 
todas as cousas depois que chegam á maior alteza, 
não ha mais logar de subir, e a nossa tristeza não 
poderá ser maior, por todos em ella termos parte, 
que morrer uma similhante pessoa, em cu'o faleci- 
mento não ha ahi algum por de pequena condição 
que seja, que com razão não mostre sentimento em 
sua perda. 

Quanto a nós falando directamente, não faz outro 
damno, somente uma saudosa lembrança, a que nos 
sua presença, por razão de seu fallccimento acarreta, 
que quanto é pêra rogar a Deus por nós, certo é que 
nenhuma pessoa n'esta vida, por virtuosa que seja, 
não é tão digna de ser ouvida, como depois que é 
apartada d'esta miserável casa, que é a carne, cu- 
jos apetites continuadamente nos constrangem a 
pecar, e assim entendemos que Nosso Senhor Deus, 
querendo mais limpamente ouvir as orações da rai- 
nha, lhe prouve de a tirar d'cntre nós, porque solta 
d'este corporal cárcere, a sua alma mais livremente 
podesse comtemplar na divinal magcstade, procuran- 
do a nossa victoria, c pêra nós isto firmemente crer- 
mos, ponhamos ante os nossos olhos as maravilhosas 
cousas que lhe aconteceram antes da sua morte, pelas 
quacs certamente sabemos que a sua alma está em 
bemaventurado repouso. 



Chronica d'El-Bei D. João I 85 



Porém por todas estas razões, eu determino com a 
caraça do Senhor Deus, de todavia seguir minha tenção 
por seu serviço, cá d'outra guisa não me parece que 
iaria o que devo. 

O conde de Barcellos, que alli estava, falara já 
com el-rei acerca d'aquello, acons^lhando-o que toda- 
\'ia seguisse seu propósito, e assim o fez em aquella 
hora, que ajudou muito a tenção dos infantes, e por 
similhante fez Gomes Martins de Lemos, que era 
um homem de grande sizo, pelo qual el-rei dava gran- 
de auctoridade a seus conselhos. 



CAPITULO XLVIII 



Como os infantas se tornaram a Restello, e do avia- 
fnento que deram a todas as cousas que pertenciam 
a sua via z em. 



^UANDo os infantes sentiram de todo a vonta- 
de de seu padre, houveram grande refrigério 
pêra seu nojo passado, assim disseram (]ue lhe 
tinham muito em mercê similhante determinação. 

— Ora que será, senhor, disseram os outros trcs 
que alli estavam, que ainda não tendes todo acabado, 
porque uma das maiores duvidas cjuc achamos, é 
o desconcerto que se foz na frota, por azo da morte 
da rainha, o qual não se pôde tão azinha remedear, 
que ao menos nào seja necessário esperar um mez } 

— A nossa frota, disse el-rei contra o infante I). 




86 Bihliotheca de Clássicos Portugiiezes 



Henrique, assim está desconcertada, que lhe seja ne- 
cessário aquelle espaço pcra se tornar a a\'iar? 

— O desconcerto, senhor, que ella tem, disse o in- 
fante, é que vos podeis logo meter em ella e partir 
quando quizerdcs, cá a maior detença será alevantar 
as ancoras e apparelhar as velas. 

— Porém pois que assim c, Ioda a minha detença, dis- 
se el-rei, será d'aqui até quarta feira, e depois siga-me 
quem poder, e vós meus filhos, tornae-vos logo a vossa 
frota e (azei dar a todo tal aviamento que quarta feira, 
prazendo a Deus, possamos partir, e porque o feito 
das armas, não ha mister tristeza nem choro, nem 
roupa de dó, antes requerc que os cavalleiros se guar- 
neçam das melhores cousas que tem, porque a sua 
vista lhes alegre os corações, como se escreve que fa- 
ziam os romanos. Porém vós tirae logo vosso dó, e 
vesti-vos, como d'antcs andáveis, e ainda melhor, e 
assim dae aviamento a todos os outros que o façam, 
e em outro tempo, com a graça de Deus, escolhere- 
mos em que se possa mais razoadamente fazer nosso 
dó. 

Os infantes partiram logo caminho da frota, e o in- 
fante D. Henrique con\iilou seus irmãos pêra janta- 
rem com elle na sua galé, e tanto que foram em ella, 
trouxeram logo os vestidos aos outros infantes, e elle 
também se vestiu e mandou embandeirar a galé toda, 
e disse ás trombetas que se pozessem na maior altura, 
e que fizessem em seus instrumentos todo o signal de 
ledice ciue podessem, e como era domingo c os ho- 
mens por razão das calmas estavam jogando todos e fol- 
gando em seus navios, porque o mais que podiam es- 
cusavam a cidade por causa da grande peste que 
n'ella havia, e quando ouviram o som das trombetas, 
de que tinham pouca esperança, ficaram entre si mes- 



Çhronica d'El-Rei D. João I 87 



mos muito maravilhados, empero pensaram que os in- 
fantes não estav^rm ahi, e que por ello aquelles seus 
trombetas, com pouco tento filhariam aquelle ouzio, 
e alguns d'aquelles capitães que ali estavam queriam 
mandar requerel-os que se calassem, mas quando lhe 
disseram que a galé estava embandeirada e que além 
do som das trombetas ouviam n'ellas charamelas e 
outros instrumentos, bem criam que era feito a outro 
fim, e trigosamente mandaram aparelhar seus bateis 
pêra saber parte, "que cousa era aquella novidade, e os 
que pousavam nas aldeias, ou andavam folgando ao 
longo d'aquella praia, muito azinha se chegaram á ri- 
beira pêra serem certos do que aquillo queria dizer, e 
em breve tempo foram tantos os bateis d'arredor da 
galé do infante, que queriam jogar as punhadas sobre 
qual chegaria primeiro a bordo, e depois que soube- 
ram a determinação do feito, pozeram logo muita tri- 
gança em tornarem a correger seus navios pela guisa 
que já estava aquella galé. 

Em verdade era formosa cousa de vêr uma frota, 
que pela manhã parecia alguma mata que perdera as 
folhas e fructo, ser em tão breve tempo tornada a pa- 
recer um formoso pomar acompanhado de muitas fo- 
lhas verdes e flores de di\ersas cores, cá assim eram 
aa bandeiras e estandartes de desvairadas guizas, e 
que cantavam em elle muitas aves de graciosos sons, 
cá os instrumentos não eram poucos, porque cm cada 
navio havia instrumentos de desvairadas guisas, os 
quaes todo aqucUe dia a uma voz nunca fizeram fim 
de tanger. 

Não tardou muito que as novas não chegaram á 
cidade, as quaes fizeram cm ella mui grande alvoroço, 
porque todos estavam já quasi desapercebidos de si- 
milhante movimento, por cuja razão lhes foi nccessa- 



88 Bihliotheca de Clafsicof» Portiiguczes 



rio de se trigarem pcra tornarem todo a correger, e cá 
o espaço era mui breve pêra se correger tamanho 
feito, e foram logo dados pregões que até terça feira 
por todo o dia, fossem todos recolhidos á sua frota. 

Bem é de consirar, que mandado tào trigoso, de 
similhantes cousas, não lhes daria grande espaço pêra 
dormir. 

Muitas cousas fallaria aqui, se quizcsse, acerca dos 
desvairados juizos que se davam sobre aquella par- 
tida, especialmente a gente do povo, culpando muito 
el-rei, por fazer similhantc mo\imcnto, dizendo que o 
prior do Hospital, com suas fortalezas, mo\cra pri- 
meiramente aquclle feito, e que eile tirava ainda agora 
el-rei de seu sizo; outros diziam que el-rci não qui- 
zera partir, posto que aquelle ajuntamento estivesse 
feito, visto os maravilhosos signaes cjue lhe acontece- 
ram, mas que o prior induzira os infantes, e que ellcs, 
como homens mancebos, desejadores de cousas novas, 
afficaram seu padre tanto, que o faziam partir contra 
sua vontade. 

«Ora, bom Pae, diziam elles, cã pulhas foi a per- 
tia da rainha, pêra a que mui cedo ha-de ser, cá nós 
outros não partimos senão como homens que querem 
tentar a Deus, e el-rei cuida que com estes filhos ha- 
<le tomar a garça no ar, porque os vê assim homens 
de prol, e desenvoltos nas manhas, e que não ha mais 
nas forças das armas, que quanto elles sabem; ainda 
c de vêr quejandos homens serão depois que forem 
nos perigos, cá elles até agora não provaram como sa- 
be a ferro frio. 

<Mas a culpa d'cstc feito, não é tanto de nenhum 
d'clles, como d'outros muitos senhores de Portugal que 
são homens diosos, e que teem experiência de muitas 
cousas, que lhe deviam de contradizer, ao menos con- 



Chronica d'El-Rei D. João I 89 



sirassem taes signaes, como acontecem cada dia no ceu 
e na terra.» 

«Quem cuidaes, diziam outros, que ha-de ter atre- 
vimento de falar a el-rei em tal cousa? cá ha mais 
de três annos que elle tem este feito começado, e 
ninguém o sabia senão os infantes e o priol, que é 
certo que aquella ida que elle fez a Castella não foi 
senão por mandado d'el-rei, nem a prizão em que o 
tiveram, não foi senão acinte ?» 

«Ora, diziam outros, calae-vos, que nós ouvimos a 
pessoas que hão razão de o saber, que el-rei não qui- 
zera ir, vistas as cousas que aconteceram, se o infante 
I). Henrique não fora, cá diziam todos que a frota 
não podia ser prestes, senão passante d'um mez, pela 
qual causa elle quizera ficar se lhe o infante não dis- 
sera que fosse na sua, que estava de todo prestes.» 

«Não foi ai, diziam outros, cá el-rei sempre teve 
este filho por mais homem que nenhum dos outros, pê- 
ra feito d'armas, e assim se gloriava estranhamente de 
lalar em elle, quando lhe disseram que trazia sua frota 
bem corregida do Porto; empero ainda é de vêr quão 
grande diffcrcnça ha de matar os porcos montezcs na 
Heira, a pelejar com homens armados, que se sabem de- 
fender. Cuidam que são as justas d'aqui, que se não atre- 
\'e ninguém aos ir encontrar ? sobre todo, praza a Deus 
que seja por bem, o que á bó fé está em duvida, 
segundo muitos sczudos prczumem, consirando os du- 
vidosos casos que acerca d'ello se podem seguir. 



90 Bibliotlieca de Clássicos Portufff^ze» 



CAPITULO XLIX 



Conto el-rei parihi d Al lios Vedros na galé do conde 
de Barcellos^ e se veiu lançar evi Restcllo^ e como no 
dia seguinte se foi com stui frota ancorar a Santa 
Catharina. 



EM este pequeno espaço que temos dito, se fizeram 
prestes quasi a maior parte de todos os que ha- 
viam de ir em aquella frota, e onde antes pediam 
espaço d'um mez, lhe abastaram três dias, e ainda não 
de todo acabados. 

A quarta feira seguinte se metteu elrei na galé do 
conde D. AfTonso, e foram-se pêra elle os infantes, e 
muitos d'aquellcs senhores que ahi eram, e veiu 
aquella noite cear e dormir a Restello, a qual nós po- 
demos bem affirmar que foi melhor vigiada, que por 
ventura fora .1 noite da nascença de Nosso Senhor Je- 
sus Christo, porque o arruido era tão grande na fro- 
ta, que os homens uns com os outros senão podiam en- 
tender, e a praia não era menos aluminada de tochas, 
e acompanhada, que se se cm ella fizeram festas d'al- 
gum grande principe, e não menos era o trafego na 
cidade, por azo das muitas cousas (jue lhe eram ne- 
cessárias pêra sua viagem. 

Na dia seguinte, que era vespora de Santiago, vin- 
te e quatro dias de Julho, partiu el-rei d'aHi c man- 
dou levar ancora, c foi aciuella noite acerca de Santa 
Catharina, e este pouzo, cjue assim alli fez tão perto, 



Chronica d^El-rei D. João I 91 



foi pêra dar azo que se recolhesse a gente com maior 
trigança, mas no outro dia, que era dia de Santiago, 
mandou dar ás trombetas da sua galé, porque tanto 
que fora em Restello se sahiu da outra, e se passou á 
sua. Assim como deram <1s trombetas na sua, assim de- 
ram em todas as outras naus, fazendo signal aos ma- 
rinheiros que desferissem as veias, o qual em um 
ponto foi posto em obra, e assim encaminharam com 
iDoa ventura, caminho da foz. El-rei, como já disse 
levava a capitania das galés, e o infante D. Pedro, 
das naus, levando cada um seu farol, pêra regimento 
•das outras. 

E porque alguns quererão saber quaes eram os prin- 
cipaes que iam com el-rei, escrevemo-los aqui, em- 
pero não lhe guardamos nenhuma ordem no escrever, 
porque achamos que por nenhum modo o podería- 
mos fazer. 

Eram principalmente, depois d'el-rci, os infantes D. 
Duarte, Y). Pedro e D. Henrique, o conde de Barcel- 
los e o mestre de Christo, D. Lopo Dias de Sousa e 
o prior do Hospital Álvaro Gonçalves Camello, o Con- 
destable, o almirante Mice Lançarote, o marechal Gon- 
çalo Vaz Coutinho, o capitão Aflonso Furtado de Men- 
donça, João Gomes da .Silva, alferes crel-rei, o conde 
de Vianna, D. Pedro, alferes do infante, D. Fernando 
de Bragança, filho do infante D. João, irmão que foi 
d'cl-rei, D. AíTonso de Cascaes, D. João de Castro, D. 
Fernando seu irmão, D. Álvaro Pires de Castro, D. 
Pedro s(ni filho, D. João de Noronha, I^. Henrique seu 
irmão, Marlini Allbnso de Mello, guarda- mór crel-rci, 
João rVeire d'Andrade, Lopo Alves de Moura, Gomes 
da Silva, Gil Vaz da Cunha, Vasco Martins da Cunha, 
Diogo (xomcs da Silva, (lonçalo Anes de Sousa, Pcro 
Lourenço de 'i'avora, AKaro Noguinra, João AKerc-s 



02 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Pereira, João Rodrigues de Sá, Martim Vaz da Cunha, 
Ayres Gonçalves de Figueiredo, AíTonso V^az de Sou- 
sa, Gonçalo Lourenço de (jomidc, escrivão da puri- 
dade, Nuno Martins da Silveira, João AíTonso de San- 
tarém, Gonçalo Nunes Barreto, Álvaro Mendes Cer- 
veira, Mend'Aflonso seu irmão, Diogo Lopes de Sou- 
sa, Gonçalo Anes d'Abreu, Vasco l'"ernandcs Couti- 
nho, Álvaro Pereira, sobrinho do Condestable, aquellc 
cujos filhos depois tiveram carrego da creação d'el- 
rei D. AíTonso, como adeante se dir.1. Gomes Martins 
de Lemos, João AíTonso de Brito, Diogo Ahares, mcs- 
tre-sala, Luiz Alvares Cabral, Pernão d'Alvares seu 
filho, o doctor Martim Docem, Diogo Fernandes d'Al- 
meida, Diogo Soares de Albergaria, Álvaro da Cu- 
nha, Álvaro Fernandes Mascarenhas, João AíTonso 
d'Alemqucr, Gonçalo Pereira de Bouzela, Ruy Vaz seu 
irmão, (ionçalo Pereira, das armas, Lopo Dias d'Azc- 
vedo, Pernão Lopes d'Azevedo, Martins Lopes d'Aze- 
vedo, Gonçalo Gomes d'Azevedo, alcaide de Alemqucr, 
Janemendes de Vasconcellos, Ruy de Sousa, Nuno Vaz 
de Castello Branco, Lopo Vasques, Paio Rodrigues, 
Pêro Vasques, Gil Vasques, Diogo Soares, João Soa- 
res, todos estes irmãos de Nuno Vasques, Ruy Go- 
mes da Silva, Garcia Moniz, Paio Rodrigues d'Arau- 
jo, João Pogaça, Vasco Martins do Carvalhal, Fernão 
Vasques de Siqueira, Fernão Gonçalves de Arca, P.s- 
tevào Soares de Mello, Mcm Rodrigues de Refoyos, 
V^asco Martins d'Albergaria, João Vasques d'AImada, 
Pedro Vasques, Álvaro Vasques, seus filhos, Álvaro 
Gonçalves d'Atayde, governador da casa do infante 
D. Pedro, Vasco P^ernandes de Atayde, governador 
da casa do infante D. Henrique, Pedro Gonçalves Ma- 
lafaia, Luiz Gonçalves seu irmão, João Rodrigues Ta- 
borda, Pedro Gonçalves de Curutello, João d'Atayde, 



Chronica d'El-Rei D. João I 93 



João Pereira, Álvaro Peixoto, Pêro Peixoto, Pedro An- 
ncs Lobato, Belendim de Barbuda, Ruy Vasques Ri- 
beiro, Diogo Lopes Lobo, Álvaro Anes de Cernache, 
Álvaro Ferreira, que depois foi bispo de Coimbra, Go- 
mes Ferreira, todos estes senhores e fidalgos eram 
capitães de gente pouca, ou muita, cada um segundo 
seu estado. 

Afora estes, eram com el-rei aquelles estrangeiros 
que já dissemos, e um rico cidadão inglez, que cha- 
mavam Mondo, que veiu a serviço d'el-rei com qua- 
tro ou cinco naus, e muitos frecheiros e outra gente. 

Ficaram isso mesmo no reino, pêra todas as co- 
marcas, fidalgos repartidos pêra guardarem as fron- 
teiras, e sobre todos o mestre d'Aviz, que ficava em 
pessoa d'el-rei. 



CAPITULO L 



Coino el-rei em aqnelle dia que partiu fez sua oração 
mui devotadamente, e das cousas que em ella pediu. 



RANDE foi sempre a devoção que el-rei em 
todos seus dias teve, segundo jã disse no pro- 
logo d'aquesta historia, e dizem que cm 
aquclla sexta feira, que houve de partir, tendo seu al- 
tar corregido, cm desferindo as vellas de sua frota, se 
poz em giolhos e alevantou os olhos e mãos contra o 
ceu, e disso: 




94 lUbliotheca de Clássicos Portuguezes 



Oração d'el-rei 

«Senhor, pois que por tua infinda mcrcc e piedade, 
entre as tuas maravilhosas obras a mim feitas, por 
teu infindo poder te prouve trazeres a mim, teu pe- 
queno servo, a este estado em que me pozeste por 
tua graça, dando-me reinos e terras pêra reger e man- 
dar, no qual me fizestes muitas e grandes mercês, 
principalmente dando-me ajuda e esforço pêra con- 
trariar meus inimigos, e agora me chegasse a este tem- 
po, praza-te que por tua santa mercê, que te lembres 
de mim, e d'este teu povo, de que me deste cargo, 
■que somos aqui juntados pêra fazermos teu santo 
serviço, e nos queiras dar victoria contra os inimi- 
gos de tua santa fé, guardando a satisfação de nossos 
pecados pêra outro tempo. 

E vós minha Senhora \'irgem Maria, que sempre 
de meus feitos fostes avogada, praza-vos continuardes 
em minha ajuda, porque pelos vossos merecimentos 
receba eu victoria d'aquello que sabeis que com ta- 
manho desejo vos requerer.» 

Como o vento frio nas velas começou de lançar a 
frota pela boca da foz, a qual cousa era tão formosa 
de ver que aquelles que a \iam não podiam cuidar 
que sobre similhante prazer, havia outro maior, todo 
o ajuntamento dos que ficaram em Lisboa era pelos 
muros da Alcáçova, e assim por todos os outros 
logares d'onde se bem podia vêr a sahida d'aquella 
frota, na qual cousa sentiram todos muita folgança, 
salvo alguns que el-rei por necessidade mandara fi- 
car. 

«Oh ! senhor, diziam elles, tamanho amor mostras- 
te ao povo de Portugal, em lhe dar similhante prin- 



Ckronica cVEl-Rei D. João I 95 



cipe pêra seu regimento, bemaventurado foi o dia em 
que seu nascimento apareceu em este mundo, cá eile 
por certo poz a verdadeira coroa sobre a cabeça do 
seu povo; vá, diziam elles, com tanta boa ventura que 
a fama de sua victoria faça inveja a todos os prínci- 
pes do mundo;» e alli queria cada um certificar que 
sabia a verdade d'aquelle segredo, mas não porém que 
algum o soubesse, certamente outros se queriam tra^ 
balhar por saber o numero da frota, como quer que 
seu trabalho acerca d'ello prestasse pouco, e assim 
estiveram em suas departições com pouca lembrança 
de comer nem beber, e muitos d'elles tinham o rosto 
e olhos cheios d'agua, não podendo reter a força das 
lagrimas ante a grandeza de sua maravilhosa alegria, 
não se querendo d'alli partir até que os montes de 
Cezimbra esconderam toda a vista da frota. 

Assim correram todos aquclles navios sua viagem, 
de guisa que ao sábado sob a tarde, começaram de 
dobrar o cabo de S. Vicente, e por razão de certas 
reliquias que alli jaziam, mesuraram todos suas velas 
em dobrando o cabo, em signal de reverencia, e aquella 
noite foi a frota toda junta ancorar na bahia de La- 
gos, e ao domingo seguinte sahiu el-rei em terra, e 
teve logo alli seu conselho, no qual foi determinado 
que se divulgasse claramente toda a verdadeira inten- 
ção d'aquelle movimento, porém foi mandado ao mes- 
tre frei João Xira que pregasse, porque todo o povo 
podesse verdadeiramente saber qual era a intenção 
porque el-rci se movera a fazer aquelle ajuntamento. 



9H Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO 1.1 



Como o mes fre frei João Xira pregou deante de toJo 
o povo, e diis razões que disse. 

íx/l uiTAS vezes falámos nos capitules antes d'cste, 
TAy com quanto cuidado e diligencia foi sempre 
y V guardado o silencio d'aqueste feito, até este 
ponto, que já a sua rotura não podia trazer algum 
damno, e porém determinou el-rei, com accordo de 
seu conselho, de ser alli divulgado, pêra a qual cousa 
mandou pregar o mestre frei João Xira, o qual avi- 
sado do que havia de dizer, subiu em seu púlpito pêra 
haver de pregar deante d'aquelle povo, e ainda que 
lhe mui breve espaço fosse dado, elle assim como ho- 
mem muito abastado de sciencia, falou muitas cousas 
de grande auctoridade, das quacs nós apanhámos al- 
gumas poucas, assim como as podemos aprender, se 
gundo a longura do tempo, por acompanharmos nossa 
historia. 

Sl.RMÀO no I-ADKi: IR Kl JoÀO XiKA 

«Creio, disse e!!e, que depois que el-rei nosso se- 
nhor teve determinada a execução d'cstc feito, foram 
entre vós outros desvairados juizos acerca de sua in- 
tenção, não com pequenos desejos de saber seu pro- 
pósito verdadeiro, e cllc assim como principe muito 
sezudo, acautelando-se dos damnos que poderiam acon- 



Chronica d'El-B,ei D. João I 97 



tecer a vós e a elles, guardou sempre seu segredo como 
cumpria á grandeza de tamanho feito. 

Agora, honrados senhores, que sente que é razoa- 
do de vos ser revelado, vos faz saber, que conside- 
rando elle as muitas e grandes mercês que Deus tem 
feito a este reino seu, e a vós seu povo, dando-lhe 
tantas e tão grandes victorias contra seus inimigos, 
pelas quaes trouxe seu feito a este fim, e porque em 
tratando assim aquellas primeiras cousas, ainda que 
'^Tntra sua vontade fosse, se fizeram muitos damnos 

> christàos, dos quaes elle muito sempre desejou 
lazer cumprida pendença, não porque elle sentisse sua 
consciência por ello agravada, cá pequena culpa mere- 
ce o que erra, sem consentimento de sua vontade, mas 
porque das boas vontades é, segundo diz S. Bernar- 
do, conhecer o homem culpa, onde culpa não tem, quiz 
elle mover-se a fazer tal serviço a Nosso Senhor Deus, 
porque merecesse pêra si e pêra nós outros, parte na 
sua gloria, a qual por certo não podia ser maior, que 
guerrear os inimigos de nossa santa fé catholica, cá 
aquelle que pôde contradizer ao erro e não o con- 
tradiz, por esse mesmo consentimento parece que 
o aprova, segundo é escripto na terceira causa, e na 
terceira cjucstào do degredo, dizendo que aquelle que 
pôde contradizer e empachar aos maus e não o faz, 
não é outra cousa salvo dar-lhes favor á sua malda- 
de, e não carece de escrúpulo de suspeição, da compa- 
nhia escondida, o que manifestamente vc o pecado con- 
tra a santa fé, c não o contraria. 

E pois tal como este, que é outra cousa senão si- 
milhavel a aquclles inimigos, que o fazem ? pelo qual 
é digno c merecedor da mesma culpa, e assim deve 
por Deus ser julgado, cá como diz o Apostolo no pri- 
'Cneiro capitulo da sua epistola aos romanos, que não 

VOL. II 4 



98 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



somente aquelles que são contra a fé, são dignos de 
morte, mas ainda os que lh'o consentem, não lh'o con- 
trariando com todas suas forças, pela qual cousa pa- 
rece aquelle que se tem por catholico e verdadeiro 
christão, e que com toda sua força não se dcspõe 
a defender a sua santa fé, não é verdadeiro cavallei- 
ro, nem membro de Jesus Christo, nem tem parte al- 
guma com elle, e que é peor que cada um d'aquclles 
infiéis, cá todo aquelle que vive sob alguma lei, é teu- 
do a se poer a perigo de morte pela guardar e man- 
ter, cá diz Tullio, no primeiro livro dos (^fficios e o 
philosopho no terceiro li\ro das Éticas, que aquelle é 
verdadeiramente forte, que vivamente soffre a morte 
por defensão de sua lei. 

Ora quando o homem é obrigado a deffendcr as 
leis de sua terra, quanto mais deve ser pela lei de Nos- 
so Senhor Jesus Christo, pela qual somos certos que 
posto que moramos em esta vida, viveremos sempre 
na outra, segundo dá testemunho S. Leão, Papa, na 
vigessima tercia e na oitava questão dos Degredos dos 
Santos Padres, onde' diz : 

«Tirae todo o pavor e espanto, e estudae cm pelejar 
esforçadamente contra os inimigos da santa fé, cá Deus 
todo poderoso sabe que se algum de vós outros mor- 
rer, que morre pela verdade da fé e salvação de sua 
lei, pelo quai elle mesmo dará o celestial galardão.> 

Poendo exemplo de Moysés, coudel de seu povo, cá 
tantos perigos c trabalhos soflrcu por defensão da sua lei. 

Porém nosso senhor el-rei, assim como verdadeiro 
cavalleiro, se moveu principalmente por fazer serviço 
a Nosso Senhor Jesus Christo, empecendo aquelles 
que em doesto de sua lei vivem, na terra que elle pri- 
meiramente deu aos christãos. 

Cá podeis saber que a cidade de Ceuta com toda a 



Chronica d'El-Rei D. João I 99 



•outra mourisma, depois de sua paixão foi convertida 
a sua santa fé, na qual durou até o tempo do conde 
Julião, que a por sua vontade deu aos infiéis, os quaes 
tornaram as suas santas egrejas em mesquitas, tiran- 
do d'ahi as cousas santas, e lançando-as em nosso does- 
to, por logares sujos e vis, e d'alli fizeram depois mui- 
tos damnos na Hespanha, pelos quaes nós justamente 
podemos fazer aquelle pranto que se escreve no se- 
gundo capitulo do primeiro livro dos Machabeus, que 
fez aquelle santo barão Mathatias, sobre a cidade de 
Jerusalém, dizendo: 

«Ai ! de mim, porque nasci pêra vêr a destruição 
da santa cidade, vendo-a posta nas mãos dos inimi- 
gos, e as cousas santas lançadas em sugidade, e o seu 
templo feito assim como o homem sem honra, e os 
vasos de seus santos sacrificios são lev^ados captivos 
e tornados em usos abomináveis e sujos, e toda a for- 
mosura lhe é quitada, e o que era livre, agora é feito 
servo, ante a vista de nossos olhos.» 

O qual santo barão, depois do pranto que assim 
fazia com tamanha dôr pelo abatimento de sua lei, e 
movido com zelo de virtude, mui ousadamente ma- 
tou um judeu de seu povo, sobre a arca onde publi- 
camente em presença de todos queria fazer sacrificio 
aos Ídolos, e matou outrosim um gentio de Antiocho, 
porque o requeria que fizesse aquelle obominavcl sa- 
crificio, ellc logo começou a dar grandes vozes, cha- 
mando os seus, dizendo : 

«Todo aquelle que tem zelo da lei, saia de pós mim , 
e assim morou com elles, com grandes trabalhos no 
deserto, até que lhe veiu o tempo da morte, antes da 
quM os confortou que perseverassem todos fielmente 
pelejando e padecendo por amor da lei de seu Sc- 
íihor Deus, dizendo: 



100 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



«Agora filhos muito amados, sede amadores da 
lei, e dae vossas almas pelo testamento dos padres, e 
acordae-vos das obras que clles fizeram em suas ge- 
rações, e recebereis grande gloria e nome perdurá- 
vel!» 

Ora, honrados senhores, el-rei nosso senhor vos 
faz saber como por todas a razões susoditas, sua ten- 
ção é, com a graça do Senhor Deus, ir sobre a cidade 
de Ceuta, e trabalhar quanto elle poder pela tornar 
á fé de Nosso Senhor Jesus Christo, porem \os cn- 
commenda que ajunteis em vós mesmos todas vossas 
forças, pêra cobrardes verdadeira fortaleza, segundo 
sua intenção, e haverdes com elle parte de seu gran- 
de merecimento, e arredae de vós opiniões que al- 
guns outro dia traziam em Lisboa, pareccndo-lhc 
grave mo\imcnto o que el-rei assim queria fazer. 

E isso mesmo o dó que mandou tirar tão em bre- 
ve, pela morte de sua mulher, o qual juizo certamente 
foi assim deliberado, como de príncipe muito virtuoso 
e conhecedor de todo o bem, o qual bem deveis de 
saber que teve maior sentimento da morte de sna 
mulher, que outra nenhuma pessoa. 

Empero, por fazer limpamente o serviço de Deus, 
tirou de si, pelo presente, todo signal de tristeza, c 
em esto não fez elle cousa nova, cá reconta Valé- 
rio Máximo, no seu primeiro livro, c Tito Livio no 
livro da segunda guerra, que havendo os romanos 
uma batalha com Annibal, acerca do rio de Canas, 
morreram dos romanos de dentro da cidade, quaren- 
ta e sete mil trezentos e trinta e quatro, afora seus 
amigos e liados, de que morreram quasi numero infi- 
nito, pelo qual não ficou mulher cm Koma que nào 
fosse tinta de dô. 

Empero acabados os trinta dias, foram todas ves- 



Chronica d'El-Eei D. João I 101 



tidas de vestiduras brancas, e assim leixaram todo 
outro signal de tristeza, somente por sacrificarem 
mais alegremente suas animalias ante os altares de 
seus deuses, da qual cousa poderemos tirar dois res- 
peitos, o primeiro a estima em que aquelles tinhania 
morte de seus filhos, irmãos e parentes, cá era entre 
elles havida por honrada e digna de gloria, quando 
a recebiam por defensão ou acrescentamento de sua 
própria terra. 

E porém tinham que não devia por elles de ser 
tão longamente chorada, segundo era o grande acen- 
dimento e fervor que tinham acerca das cerimonias 
e sacrificios de seus deuses, pois que sobre tanto es- 
pargimento de sangue, contra a natural inclinação de 
suas vontades, somente com a v^ontade de religião 
se arredavam de toda tristeza, a qual cousa por certo 
é a nós mui grande doesto, quando estes certamente 
sabiam que as almas d'aquelles iam direitamente ao 
inferno, que razão temos nós de chorar a morte 
d'aquella que sabemos que é na companhia dos bem- 
aventurados santos? cá visivelmente vimos signaes 
ante os nossos olhos porque o com grande razão 
devemos crer, quanto mais em similhante auto pêra 
o qual alegremente devemos endereçar nossas vonta- 
des, quanto mais certamente sabemos que a sua fim 
é saudável e digna de grande merecimento. 




102 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO LII 



Como o mestre publicou a cruzada, e como por sua 
atictoridaiie absolveu a todos de culpa e petui. 



^EPois que o mestre assim acabou sua razão, 
quanto era aquelle processo em que tom.lra 
seu fundamento, disse: 
— Honrados senhores, todo o que vos até aqui dis- 
se, foi dito e fallado por auctoridade e mandado de 
el-rei nosso senhor, mas o que vos agora quero dizer 
será dito como de meu officio, porque nós outros não 
somos senão como atalaias no povo de Deus pêra 
o avisar contra seus inimigos corporaes e cspirituacs, 
segundo é escripto em muitas partes pelos santos pa- 
dres prophetas, especialmente em o terceiro, e em os 
trinta e três capitulos de Ezechiel, onde diz aos simi- 
Ihantes pastores que os ha feito atalaias sobre o seu 
povo, ameaçando-os que se não forem diligentes em 
amoestar todos os seus errores e pcccados, perigos e 
damnos, em que de presente estão, ou ao deante po- 
derem estar, que a morte c damnação que lhe por ello 
possa vir, que a demandara de suas mãos, e condem- 
nára por cila o seu sangue d'ellcs mesmos, e por essa 
mesma guisa se querela o propheta jeremias, em a la- 
mentação e pranto que fez sobre Jerusalém, dizendo 
que os seus prophetas c sacerdotes foram causa de 
seu captiveiro e destruição, segundo mais comprida- 
mente se declara no segundo capitulo, onde diz : 



Chronica d^El-Rei D. João I 103 



«Os teus prophetas te viram cousas falsas e loucas, 
e não te mostravam a tua maldade pêra te provoca- 
rem a penitencia, cá em similhantes tempos, disse o mes- 
tre, são as nossas armas necessárias, a saber, a pala- 
vra do Senhor Deus, presentando os seus santos sa- 
cramentos aos seus fieis e catholicos christãos, por- 
que a sua fim possa ser segundo pertence a sua santa 
religião, assim como é escripto no mesmo capitulo do 
Deutoronom, que chegando-se a hora da batalha es- 
tivesse o sacerdote deante da face da hoste, dizendo : 

— Ouve, Israel, e vós outros que quereis commetter 
peleja contra vossos inimigos, não haja medo em vos- 
sos corações, nem queiraes fugir com o seu temor, cá 
Nosso Senhor Deus em meio de nós pelejará contra 
nossos adversários, porque nos livre de seu perigo, e 
isto mesmo confirma vS. Thomaz na 2. 2. quadrages- 
sima quaestione, no artigo segundo, onde trata esta 
matéria, concluindo que ainda que aos prelados e clé- 
rigos não convenha pelejar, pêro a elles principamen- 
tc pertence c é justo e meritório animar, induzir e es- 
forçar a todos os fieis christãos porque justamente pos- 
sam pelejar pela maneira que já tenho dito, acerca 
do qual propósito diz S. Leão Papa, falando de si mes- 
mo, na vigessima tercia causa, e na oitava questão do 
segredo, que elle fez ajuntar o seu povo contra os mou- 
ros, que era fama que vinhrmi a um porto de mar, e 
que elle por sua |)ropria pessoa sahiu com elles. 

\í porém uzando do meu officio vos requeiro e rogo 
a todos quantos aqui presentes sois, que consireis bem 
em vossas consiencias quaesquer pcccados, males ou 
erros, que tenhacs commctidos, c que peçacs ao Senhor 
Deus perdão crcllcs, com todo coração e vontade, c 
façaes d'clles penitencia, iiavendo firnic propósito de 
vos guardar de pcccar d'aqui em deante, pela qual cou- 



104 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



sa sereis absoltos de culpa e pena, por virtude d'uma 
letra que o Santo Padre ontorgou a el-rei nosso se- 
nhor, vendo seu santo desejo, a qual letra logo alli de 
presente o mestre publicou, em fim da qual fez absol- 
vição a todos, c disse: amigos, ha\'eis de ter que a vida 
d'estes infiéis não é entre nós por virtude de sua pró- 
pria força, somente por vontade do Senhor Deus, ao 
qual praz dar logar que nos dêem fadiga e trabalho, 
porque nós assim affligidos e trabalhados, pelo poder 
de tão vis inimigos, conheçamos os muitos erros que 
contra Klle commettcmose nos tornemos alílle por \'cr- 
dadeira penitencia, e nós assim tornados ao verdadei- 
ro caminho possamos d'elle receber esforço e ajuda 
pêra os destruir, os quaes até aqui eram por sua gran- 
de piedade suportados, não sem grande e escondido 
juizo, cá assim como Nosso Senhor Deus, no tempo do 
pataiarcha Abrahão, suporta\-a os gentios e inimigos 
de sua fé, somente por correição do seu povo, assim 
mantém agora aquestes entre nós em vista de nossos 
olhos, fazendo damno a muitos de nossos irmãos, so- 
mente a fim de nos amocstar c castigar, onde se lê que 
Deus Nosso vSenhor disse áquelle santo patriarcha: 

«Tu irás a teus padres, e serás enterrado cm tua ve- 
lhice, pêro em a quarta geração tornarão cá, a saber 
os que de ti descenderem, cá ainda não são compri- 
das, até este tempo presente, as maldades dos que esta 
terra possuem». 

Pois se nós tivermos em Elle cumprida esperança, é 
de crer que nos ajudará contra esta má geração, que 
por certo não será a nós pequena gloria e honra en- 
tre todos os povos que forem em esta Ilespanha, ser- 
mos os primeiros que passamos em Africa, e come- 
çamos de poer o jugo da fé sobre os pescoços dos in- 
fiéis, e assim teremos dois mui grandes proveitos, o 



Chronica d'El-Rei D. João I 105 



primeiro é a salvação que sabemos certamente que 
receberemos pêra nossas almas, e o segundo honra mui 
grande entre todos nossos vizinhos, e perdurável me- 
moria, que ficará pêra todo sempre, emquanto hi hou- 
ver homens que possam falar, e não ainda aquelle no- 
me que os gentios cobravam por suas victorias e fa- 
çanhas, ou que alguns principes christãos ainda rece- 
beram, por quererem sobjugar seus visinhos sem cau- 
sa justa nem honesta, mas receberemos o verdadeiro 
nome, porque o fazemos somente por amor e honra 
d' Aquelle que por acorrer a nossa miséria e condem- 
nação em que éramos, e livrar-nos d'ella, não duvidou 
decender do céu e poer-se ante nós, vestido de nos- 
sa humanidade, em a qual padecendo poz sua alma por 
nós até ser morto na cruz e livrar-nos, em o que, co- 
mo diz S, Pedro no segundo capitulo da sua primei- 
ra canónica, nos deu exemplo maravilhoso pêra que 
sigamos as suas pegadas, em cuja provação diz S. João, 
no terceiro capitulo da sua primeira canónica, que as- 
sim como elle morreu por cada um de nós, assim de- 
vemos dós morrer, se fôr mister, por saúde e salvação 
de sua santa fé, dizendo : 

«Em esto conhecemos a caridade de Deus, porquanto 
Elle poz sua alma por nós, c nós outrosim devemos 
pór nossas almas contra aquelles que blasphemam seu 
santo nome». 

Que como em este corpo glorioso da cgrcja militan- 
te, cuja cabeça é Jesus Christo Nosso Redemptor, se- 
jamos todos seus membros, e todas as perfeições, di- 
gnidades, ri(|ue/.as e estados, nos sejam dispensados 
pôr Deus, porque com cilas ajudemos c sirvamos na 
sua santa casa, doendo-nos da deshonra que foi feita 
nas suas santas egrejas, sendo tornadas cm serviço dos 
inimigos da fé, assim como se fosse feita a nós mesmos 



106 Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



segundo mais largamente nos ensina o apostolo nos 
doze capitulos da Epistola que enviou aos romanos, 
e em outra similhante que escreveu aos do Corintho, 
e muitos exemplos da Santa Escriptura vos poderia 
aqui ementar, senão sentisse as vossas vontades tão 
inclinadas a todo o bem. 

Empcro, por acabar meu ofíicio, vos quero aqui poer 
um breve exemplo do grande amor que uma santa 
mulher teve acerca do serviço de Deus, e da sua santa 
fé, a qual foi aquella santa madre dos Machabeus, cá 
como assim fosse que ella visse sete filhos estar pos- 
tos em duros c graves tormentos, por mandado d'a- 
quelle mau rei Antioclio, por quanto não queriam fa- 
zer contra a lei do seu verdadeiro Deus, e comer carne 
de porco, esta gloriosa mulher, com o amor da lei e 
da honra de Deus esqueceu o natural divido que com 
os filhos havia, e espertou-os a soffrer dorosa morte 
sobre sua carne mesma, que se gerara em o seu ven- 
tre, amocstando os filhos com voz não de mulher mas 
de forte e santo varão, que morresem pela lei de seu 
Deus, onde assim é escripto d'ella, no sétimo capi- 
tulo do segundo livro df)S Machabeus, das cousas que 
disse, e como esforçava os filhos, quando os viu cm 
tormentos, e por tanto madre assim maravilhosa cm 
tanta maneira, é digna de boa memoria, a qual vendo 
sete filhos perecer sob espaço d'um dia, soíTria-o com 
bom coração, pela fiel esperança que tinha em Deus, 
e assim amoestava fortemente com voz paternal, a cada 
um d'ellcs, cm esta maneira, dizendo: 

«Não sei em que maneira pareceste em meu ventre, 
cá eu não vos dei o espirito, nem a alma, nem a vida, 
nem ajuntei os membros de cada um de vós, mas o 
creador do mundo, o qual primeiramente formou a na- 
tureza de todas as cousas, e achou o nascimento e 



Chronica d'El-Rei D. João I 107 



começo de todos os homens, Elle vos dará outra vez 
com misericórdia o espirito e a vida, assim como agora 
menosprezaes a vós mesmos pelas suas leis, e disse 
ao postrimeiro filho : 

«Have misericórdia de mim, que te trouxe nove me- 
zes em meu ventre, e te dei leite três annos, e te 
criei e trouve até esta edade, rogo-te filho que es- 
guardes ao ceu e a terra, e todas as cousas que são 
em ella, e conheças que de nenhuma cousa as fez Deus, 
e a geração dos homens, e assim será feito em ti es- 
forço pela sua mercê, que não temas este carniceiro, 
mas sendo feito digno com teus irmãos recebe morte». 

A qual cousa o mancebo com mui bom coração 
soffreu, e depois a madre cora grande constância e 
com aquella bemaventurada esperança, que em seu 
coração tinha, recebeu coroa de martyrio. 

E pois aquella mulher, cuja natureza é fraca, tão 
esforçadamente aconselhava os filhos que soffressem 
morte por serviço de Deus, quanto mais sendo ainda 
na velha lei, aos quaes segundo diz o Apostolo todas 
as cousas em figura aconteceram, que mostrança posso 
eu fazer a vós outros, que sois fieis membros de Jesus 
Christo, comprados pelo seu sangue precioso? E por- 
que disse em cima que a memoria d'esto duraria, 
pêra todo sempre ante os homens, quero que saibaes 
que se os jiiizos astrólogos são verdadeiros, segundo 
aprendi d'aiguns sabedores que sabiam a hora em 
que SC este feito primeiramente determinou, por entrar 
Martes em sua exaltação em casa de Vcnus de sahi- 
mento do sol, e a Saturno entonce que o signo de 
Libra, significador das cousas remembradoras, mostra 
que a memoria d'esto ha-ile durar e se ha-de pocr em 
eacripturas, cujo trasunto será levado a muitas partes 
em remembrança de nossos bons feitos. 



108 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO LI II 



Como el-rci partiu de Lagos e se /ai a laro, e conto 
(falli seguiu seu caminho até que chegou com toda 
sua frota ante as Algeziras. 



J;rl CABADAS assim aqucllas palavras do mestre, todos 
tlT tiveram mui boa vontade pcra seguir &eu en- 
sino se elles creram que aquella determinação 
que lhes el-rei fazia saber era verdade, o que elles 
tinham muito pelo contrario do que tinham da pri- 
meira, cá diziam que lhes não lora aquello assim dito 
senão por esconder a outra mais certa determinação 
que el-rei tinha ordenada. 

«E' mau de conhecer, diziam elles, estas praticas que 
el-rei traz por encobrir sua vontade, sabe já todo o 
mundo que \ac pêra Cecilia, e agora nos quer fazer 
entender que vae sobre a cidade de Ceuta, tal é agora 
esta como a outra que disseram agora ha um anno, 
que havia d'ir sobre o duque d'lIolanda ; dizei-lhe que 
busque outra mais formosa encoberta, que quanto 
esta muito ha que a sabemos.» 

Assim esteve alli el-rci até a quarta feira que par- 
tiu pcra Faro, e porque em seguindo sua viagem 
encalmou o vento, foi-lhe necessário de estar alli até 
outra quarta feira, que eram sete dias do mez d'agosto; 
entonce partiu na viagem do Estreito, c á sexta feira, 
um pouco antes da noite, houveram vista da terra de 
mouros, c alli mandou el-rei que fizessem andar todos 



Chronica d'El-Rei D. João I 109 



os navios de mar em roda, porque não era sua v^ontade 
entrar pela boca do estreito senão de noite, cremos 
que seria porque os mouros da terra não podessem 
tão azinha saber a viagem que el-rei queria levar. 

Tanto que foi a noite, começaram de caminhar pela 
boca do estreito. 

Em aquella noite aqueceu ali um pequeno caso, de 
que se houvera de seguir mui grande perigo, cá foi 
assim que porquanto aquella galé de João Vaz, em 
que ia o infante D. Duarte tinha cheiro, por azo de 
sua bondade sahiu-se o infante d'ella, e foi-se pêra a 
galé do infante D. Henrique seu irmão, e aqueceu de 
se acender fogo em uma alenterna, pelo qual foi gran- 
de alvoroço dentro da galé, e o infante D. Duarte que 
jazia em cima da coberta, por azo da calma que era 
grande, lembrou-se de seu irmão, e abriu trigozamente 
a porta^ e o infante D. Henrique tomou a alanterna 
assim como estava ardendo, e a poz em cima, e o 
infante D. Duarte a lançou n'agua, e o infante D. Hen- 
riijuc tomou em si menencoria, pensando que lhe 
empolassem as mãos c lhe fizesse empacho ao tempo 
da necessidade ; mas alguns que ahi estavam lhe en- 
sinaram pêra seu remédio que pozesse as mãos no 
mel e que seria seguro d'aquelle damno, como de feito 
foi, cá posto que ao depois pelasse aquelles couros 
das mãos, não leixou porém de trabalhar como se 
não tivesse algum empacho. 

Bem é verdade que este remédio é proveitoso, 
mas assim pelo presente, segundo a força do fogo 
foi grande, se a forte comprcissão do infante não fora 
não poderá assim trabalhar que primeiro não pas- 
saram alguns dias, empcro todos aquelles couros fo- 
ram pelados ao depois em (juanto o fogo abrangeu. 



110 Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO LIV 



Como a frota chegou toda ante as Algeziras e como alli 
veiu Pedro I^ernandcs Portocarreiro e os mouros de 
Gibraltar trazer serviço a el-rei. 

>1^EM é de consirar qual esperança os mouros de 
A>_y Gibraltar teriam quando vissem chegar tama- 
^•^^"^ nha somma de frota tão perto de seus ter- 
mos, porque ao sabbado sobre a tarde foi ancorar ante 
as Algeziras, a qual cousa poz muito grande espanto 
entre todos os mouros d'aqucllas partes, e pelo pre- 
sente não souberam outro remédio senão ajuntar as 
melhores cousas que se poderam haver, e levaram-nas 
em presente a el-rei. 

— Senhor, disseram aquelles que o presente leva- 
vam, os visinhos e moradores desta villa de Gibraltar 
vos enviam este serviço, não cousa egual á excellencia 
de tamanho príncipe, mas como se pode haver por si- 
milhantes pessoas, certificando-vos que vos não é of- 
ferecido com menos vontade do que seria a el-rei de 
Grada, nosso senhor, se presente fosse, porque senti- 
mos e cremos que todo o serviço que vos fizemos ellc 
o haver.1 por tão bem empregado, como em si mesmo, 
c vos enviam pedir por mercê, que não hajaes por mal 
d'elles mandar fechar suas portas e poer recado em sua 
villa, cã o fizeram por duas cousas, a primeira porque 
elle foi certificado que não quizcreis dar segurança de 
vossa frota a el-rei de Grada quando vola enviou re 



Chrordca d'El-Rei D. João I 111 



<^Lerer, a segunda porque alguns d'aqueiles mouros 
mancebos não tenham livre poder pêra sahir fora da 
villa cá poderia ser que se travaria entre uns e ou- 
tros tal escaramuça, porque vossa mercê haveria al- 
guma sanha, e por ventura poderia ser azo de vos mo- 
verdes de todo contra elles, o que poderá ser que ago- 
ra não tendes em vontade. 

Porém por lhe fazerdes mercê e os tirares d'este cui- 
dado, vos pedem que lhe mandeis declarar vossa von- 
tade acerca do que a elles pertence, pela qual cousa 
serão muito mais obrigados a vosso serviço do que até 
aqui foram. í) 

— E se eu, respondeu el-rei, não quiz a el-rei de Gra- 
da fazer similhante rogo, que m'o tão aficadamente 
mandou requerer, que razão teria agora de o fazer .^ 
pois a determinação d'este feito ainda não está fora 
d'aquellas pessoas que são ordenadas pêra meu con- 
selho, quanto pêra dar similhante segurança; quan- 
to é ao presente lhe dizei que lh'o tenho muito em 
serviço, e que me praz de lh'o receber por entender 
de lhe fazer mercê em alguma outra cousa, fora d'a- 
questa que me de presente requereis. 

Os mouros ficaram muito tristes ouvindo similhan- 
te resposta, porque quanto elles podiam entender, 
todo o movimento d'aquelle feito se ordenara por 
caso de sua destruição, pêra a qual cousa não havia 
mister mais certa prova que a \ista da frota que viam 
repousada e ancorada entre a face da sua terra, a qual 
cousa lhes fazia acarretar des\-airados pensamentos, 
porque as adivinhas das vontades sobre os males du- 
vidosos, sempre aduzem tristes cuidados. 

iCm Tarifa tinha cl-rei de Castella por fronteiro c 
alcaide um nobre cavalleiro que fora natural ii'estes 
reinos, irmão da condessa I). Cuiomar, tio do condi" I). 



119 Bihliotheca de Clássicos Portugiiezes 



Pedro de Menezes, o qual se chamava Martim Fít- 
nandes Porto Carreiro, e assim aqueceu que o dia pas- 
sado, quando a frota chegou á cabeça do estreito, 
como já ouvistes, os de Tarifa hou\-cram vista /l'clla, 
e porque viam tamanha multidão de frota como nun- 
ca viram nem esperavam em aquelle estreito, estavam 
em si muito maravilhados, mas a cabo de pouco 
amainaram todas as velas, e como era longe e sobre 
a tarde, os de Tarifa que estavam olhando disse- 
ram : 

— Certamente que aqucllo eram phan\asmas ; mas 
um portuguez que ahi estava disse: 

— Mais azinha creio eu, que é aquelle poder d'el- 
rei de Portugal, meu senhor, que outra nenhuma vã 
similhança. 

— Pois, disseram os outros, que todas as arvores 
de Portugal fossem desfeitas em madeira e todos os 
homens se tornassem carpinteiros, não poderiam cm 
toda sua vida fazer tamanha multidão de navios. 

— «Vós vereis, disse elle, muito cedo aquello a que 
agora chamaes phantasmas, carregadas de boas gentes 
d'armas com as bandeiras de Portugal, passar peran- 
te os vossos olhos;» a qual cousa nenhum dos outros 
podia crer, porque além da multidão da frota, quando 
os navios assim andam, e muitos mais, se os homens 
vêem de longe, parece dez tanta somma. O portuguez 
teve cuidado de dar vista á ribeira pêra ver a certidão 
do que elle suspeitava, e quando ao outro dia era ma- 
nhã, a frota começava já de passar por d'avante os 
muros da villa, e pêra ainda ser a sua vista mais for- 
mosa, acertara-se em aquella manhã uma grande né- 
voa que a encobriu toda; senão quando eiles ou\iram 
o som das trombetas e dos outros instrumentos que 
se tangiam em todos os navios, cujo som p.in-cia a 



Chronica d'El-rei D. João I 113 



elles cousa celestial, e em esto rompeu a força do sol 
e pareceu a frota que passava sua viagem. 

Mas qual seria aquelle que podesse fazer outra cou- 
sa na villa, que leixasse de vèr tamanha formosura? 

<2 Certamente, disse ]Martim Fernandes, bem parece 
esta obra ordenada por el-rei D. João; parece-me 
quando consiro nos feitos d'este homem, que é um 
sonho, no que me parece quando Jacob dormindo; con- 
sirae bem, disse elle contra os outros que alli estavam, 
que nunca vistes nem ouvistes que nenhum rei de 
Hespanha, nem d'outra nenhuma parte, por si só 
ajuntasse tamanha multidão de frota; e tanto que a 
frota ancorara ante as Algeziras, mandou logo ]\Iar- 
tim Fernandes fazer prestes um grande presente de 
vacas e de carneiros, e mandou com ellas Pedro Fer- 
nandes seu filho, fazer serviço a el-rei. 



CAPITULO LV 



Covio el-rei teve conselho se levaria logo sua frota so- 
bre a cidade, e como alli Pedro Fernandes viandou 
enforcar wn almogavere de Grada. 

l£ oMO alli chegou Pedro Fernandes com aquelle 
yJ>- presente, logo houve um batel em que foi fa- 
lar a el-rci a bordo da galé, e depois que lhe 
leijou a mão, disse: 

— Senhor, meu padre Martim Fernandes vos envia 
)edir por mercê, que se entenderdes que vos elle cm 



114 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



alguma cousa pode servir, que façaes d'elle conta co- 
mo de cada um dos outros de vossa casa, e vos en- 
via dizer que por que elle tem em si carrego d'aquella 
villa, por el-rei de Castella seu senhor, que vos não 
pôde por si vir fazer aquella reverencia que é teudo, 
segundo vosso grande estado, nem esso mesmo se pô- 
de fazer prestes pêra se ir coravosco pelo encarrcg - 
que tem, mas quer-vos fazer serviço de mim, que sou sc; 
filho, em edade e desposição pêra vos poder servir ^i 
qualquer cousa que me vossa mercê mandar, e por- 
que entende que ha já dias que sois no mar e que ha- 
vereis mister algum refresco pêra vossos cavalleiros e 
fidalgos, \'os envia alli aquelle gado, o qual vos pede 
por n-.jrcê que recebaes d'clle em serviço como de 
cousa vossa. 

El-rei foi muito ledo com aquelle ofTerccimento de 
Pedro Fernandes, e disse: 

— A boa vontade de vosso padre recebo eu por 
grande serviço, e por ello lhe farei mercê, e assim a 
vós quando quer que me fôr requerido, e quanto é ás 
vacas e carneiros, dizei-lhe que eu tenho provisão por 
agora que me baste pêra mim e pêra minha frota, c 
que aquello sinto que será melhor pcra elle, pêra guar- 
nição de sua fortaleza. 

Pedro Fernandes tanto que foi fora do batel ca\al- 
gou em um ginete que trazia, e começou de alancear 
todo o gado ao longo d'aquella praia, e os da frota 
quando aquello viram, mataram todas as vacas e car- 
neiros, e aproveitaram-se d'ellas, cada um como me- 
lhor podia, o que el-rei e todos os bons que alli eram 
tiveram a grande bem aquelle fidalgo. 

Mas outro serviço fez elle, que lhe el-rei muito mais 
agradeceu, cá ouvindo o dito Pedro Fernandes dizer 
como um grande almogavere do reino de Grada anda- 



Chronica d'El-Rei D. João I 115 



va alli salteando os moços que sahiam á fructa, como 
entonce levava um, trabalhou-se de o filhar e trouxe-o 
alli preso em uns pardieiros velhos que alli estavam, 
entre os quaes era uma torre, que tinha ameias, e alli 
o mandou enforcar. 

Mas o mouro não recebeu pequena honra em sua 
justiça, que foi acompanhado de muita e muito boa 
gente, que com boa vontade o iam vêr, os quaes tanto 
que o viram enforcado o atassalharam todo ás espadas, 
e esto fez Pedro Fernandes com mui boa vontade, sem 
embargo do reino de Castella ter entonce pazes com o 
de Grada, mas estes serviços não lhe foram a elle mal 
agradecidos, que logo alli lhe mandou el-rei dizer que 
lhe rogava que tanto que fosse em seu reino, o viesse 
vêr, como de feito depois veiu, onde lhe foi dado so- 
mente por el-rei mil dobras d'ouro em uma copa, dizen- 
do que lh'as mandava pêra um cavalo, fora outras mui- 
tas jóias que foram estimadas em outro tanto valor, e 
com todo esto lhe fizeram os infantes cada um por 
si mui grandes mercês, de que elle foi mui contente. 

E estando assim el-rei em aquelle logar, teve 
conselho d'ir sobre a cidade a segunda feira seguin- 
te, e em fazendo em aquelle dia sua viagem, sobre- 
veiu uma mui grande cerração que fez grande empa- 
cho a toda a frota, pêra governar direitamente onde 
queria, e porque as correntes são alli mui grandes, lan- 
çaram toda a frota das naus caminho de Málaga, fora 
uma em que ia Estevão Soares de Mello, e as galés 
e fustas e outros navios pequenos foram em aquelle 
dia mesmo ante a cidade, onde a torvação era entre 
os mouros por similhante chegada, em poro não gran- 
de, porquanto clles ainda não viram toda a frota junta 
tão perto (Ic si, como viram as gales c fustas, nem po- 
diam cuidar que el-rei ia sobre aquella cidade, po- 




116 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



rém fecharam suas portas e pozeram-se por cima dos 
muros mais por vêr que por se deflender. 



CAPITULO LVI 



Como el-rei juaiidoii passar as galés da outra parte de 
Barbaçoie, e do conselho que alli teve. 



^r.pois que os mouros viram as galés de todo an- 
coradas sobre o seu porto, foram já algum tan- 
to perdendo de sua primeira segurança, espe- 
cialmente Salabençala, e assim alguns d'aquelles \'e- 
Ihos da cidade, por cuja razão escreveram logo a todos 
aquelles logares d'arredor que se viessem com suas ar- 
mas e corregimentos, até que vissem o que podia ser 
d'aquella vinda. 

Outros dizem que logo que a frota apparcceu pelo 
estreito, mandaram este recado. 

Mas de qualquer guiza que fosse,, o espaço podia ser 
pouco, porque sabbado houveram elles vista primeira- 
mente da frota, e á segunda feira chegou sobre a ci- 
dade, e d'aquelles mouros que estavam sobre os mu- 
ros começaram alguns de tirar com troes c bestas aos 
da frota, no (jue bem mostravam que tinham perdida 
toda a esperança de paz, e como quer que assim tra- 
balhassem de fazer seus tiros, não podiam muito em- 
pecer a nenhum dos christãos, porque os navios esta- 
vam bem afastados do muro, senão a galé do almiran- 
te, a (jual logo como chegou foi ancorar mais perto 



Chronica d'El-Rei D. João I 117 



da praia que as outras, onde estava mui sugeito ao pe- 
rigo d'aquellas settas, mas elle por nenhuma guisa se 
quiz afastar d'alli, como quer que lhe fosse dito por al- 
gumas pessoas, ao que elle respondia que pois que a ven- 
tura alli primeiramente o lançara, que alli queria es- 
perar qualquer perigo que lhe viesse, que pois elles 
vieram pêra ir deante, não era razão que tornassem 
atraz. 

Certo que elle em sua vida foi sempre mui esforça- 
do homem d'armas, e portanto não queria que por elle 
passasse cousa grande nem pequena, que não perten- 
cesse ao nome que tinha. 

Alguns d'aquelles mouros mancebos sahiram á praia 
escaramuçar com os christãos, e os christãos isso mes- 
mo sahiram nos bateis e andavam ao longo da praia 
tirando uns aos outros, e assim travaram sua escara- 
çauça um grande pedaço. 

Alguns d'aquelles mouros filharam um grande pe- 
nedo que estava no mar, pêra terem d'alli melhor azo 
pêra empecerem aos christãos, mas Estevão Soares, 
conliecendo-lhe aquella vantagem, foi rijamente a el- 
les e tomou-lhes o dito penedo, e assim andaram um 
grande pediiço até que alguns d'aquelles mouros mor- 
reram, e outros houveram por seu barato de se reco- 
lli r á cidade. 

\' fjuarta feira, que era véspera de Santa Maria de 
A;^'osto, teve el-rei seu conselho de se passar da ou- 
tra parte da cidade pcra onde se chama o Barbaçote, 
com intenção de esperar alli as naus que as corren- 
tes lançaram em Málaga, como jã dissemos, e depois 
que lá foi, porque viu que as naus punham grande 
tardança cm sua vinda, mandou ao infante D. Henri- 
que que fosse na sua galé pelo infante D. Pedro seu 
irmão, e que disscse a toda a outra frota cjue trabalhasse 



118 Bihliotheca de Clássicos Portuguej:es 



muito de se ajuntar com ellc, o mais cedo que po- 
desse. ^ 

O infante D. Henrique partiu á quarta feira acerca 
da noite, e começou de seguir sua viagem, e pelo fa- 
rol que a nau do infante D. Pedro trazia, logo em aquel' 
mesma noite a galé de seu irmão chegou a ella. 

• — Senhor, disse o infante D. Henrique, el-rei noss 
senhor e padre manda que vós vades logo em esta galt 
que quer ter conselho acerca de filhar da terra, se sci 
em aquella parte de Barbaçote onde já está, ou se te: 
nará da outra parte onde primeiro estivemos, c qi 
mandeis esse mesmo recado a todas as outra? naus d. 
avisamento que se trabalhem de o mais cedo que p' 
derem fazer sua viagem direita pcra o logar onde ts 
tão as galés. 

— Não sei porque maneira, senhor, respondeu o ii. 
fante D. Pedro, deva partir assim c leixar esta gent 
na qual sinto bem que será mui grande dcsconsolaçãl 
além da que trazem pela peste que anda entre elles, 
assim pela tristeza que os sãos trazem dos mortos 
doentes, eoutrosim pelo enfadamento do mar, que poul 
cos homens suportam de boa xontadc, empero d'outi 
parte consiro que vou a mandado d'el-rei, e mais seni 
do chamado por tal pessoa como vós. 

Entonce mandou dar avizo a toda a outra frota qi 
se trigasse o mais que podesse, segundo cl-rei tini 
mandado, e os infantes se foram ambos na galé á sexl 
feira pela manhã cedo, e indo assim sua viagem, acoí 
teceu que um peixe ia voando pelo ar, e cahiu dentro 
galé dos infantes, com que elles aquelle dia houvera 
algum refresco, e porque esta historia escrevi, nui 
vi nem ouvi similhante cousa, o reconto assim pí 
me parecer cousa maravilhosa, e algum tanto afastj 
da da natureza, segundo meu juizo. 



Chronica d'El-Rei D. João I 119 




CAPITULO LVII 



Como o auctor fala nas grandes divisões que havia 
nos mouros da cidade^ e das cousas que aconteceram 
o outro anuo passado. 



OR certo, diz o auctor, a mim conviria falar por 
muitas maneiras, se eu quizessc contar toda a 
maior mormuração que havia entre os mouros 
depois que as galés primeiramente lançaram anco- 
•a deante da cidade, e diremos primeiro o que acon- 
:eceu n'aquelle Março passado, em que elles tiveram 
) seu Ramadão, que é o jejum, o qual se começara a 
^•inte^^e sete de Fevereiro quando a lua fazia um bis- 
exto, segundo o conto dos seus annos, porque elles 
razem a sua era segundo o costume da lua, e por- 
^uc o circulo da lua é mais pequeno que o do sol, tor- 
lani elles sempre atraz onze dias com começo d'aquelle 
ejum, a que elles chamam l\amad<ão e em pouco me- 
ios de três annos tem acabada a volta de sua roda, 
;m que ha dezenove bissextos, e assim dão os dias 
io anno solar trezentos sessenta e cinco, e do anno 
ia lua trezentos sessenta e oito e uma hora e deze- 
ete minutos e quarenta e nove pontos. 

¥. porque os mouros em aquelle tempo fazem suas 
■bstinencias, assim como nós fazemos em nossas qua- 
esmas, e pensam elles que quaesquer si^nacs que em 
iquellc tempo apareçam ou sonhos assignados, por- 
que elles muito crêem, c.i dizem que por uma de qua- 



120 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



tro cousas \cm a qualquer homem os sonhos quando 
dorme, a primeira por sobegidão de vianda, de que o 
estômago está empachado, a segunda por mingua de 
mantimento, a terceira por força de pensamentos que 
o homem traga de dia em alguma cousa, e a quarta 
por revellação divinal. 

Ora foi assim, que n'aquelle Ramadào que já dis- 
semos, foram três partes da lua criz, e pareceu logo se- 
guinte na novidade da outra lua, uma estrella acerca 
d'ella, de maior grandeza e resplandimento que ou- 
tra alguma que houvesse no ceu, das mil e vinte e 
duas em cujo conto alguns astrólogos pozeram o nu- 
mero das cstrellas de que se possa filhar alteza, a qual 
estrella durou assim entre elles toda a circulação da 
lua, cuja \ista trouxe a elles grande cuidado, e muito 
mais porque um d'aquelles seus mouros santos, du- 
rando o tempo de jejum, sonhou que via aquella ci- 
dade cubcrta de abelhas, e que pela boca do estreito 
vinha um leão com uma coroa d'ouro posta na cabe- 
ça, e que trazia muito grandes bandos de pardaes após 
si, que cometiam todas aquellas abelhas, por cuja ra- 
zão Calabençala fez juntar quantos sabedores se po- 
deram achar por toda aquella terra, entre os quaes 
veiu alli um grande astrólogo, que era Almocadem 
maior na cidade de Tunes, e grande sabedor em 
muitas cousas da sua seita, especialmente cm astrolo- 
gia, ao qual chamavam Almedebenfilhe, e tanto que 
assim foram juntos, tiveram seu conselho na mescjuita 
maior, onde foram recontadas todas estas cousas pas- 
sadas, sobre as quaes houve mui grandes debates. 

Mas aquelle almocadem nunca faiou palavra, antes 
meteu as mãos de sob uma ai juba que trazia, e a con- 
tinência muito triste, e os olhos baixos contra a terra, 
suspirando muito a mcude, se deixou estar acerca de 



Chronica d'El-Eei D. João I 121 



duas horas, sem nunca dar nenhuma resposta a cou- 
sa que lhe perguntassem, e em fim constrangido por 
Calabençala, alevantou a cabeça e poz a mão em a 
barba, que tinha sem nenhum cabello preto. 

— Dou ao demo, disse elle, taes movimentos e taes 
signaes, cá o curso do mundo anda fora de toda sua 
lei, e os planetas perderam sua certa carreira, ou a 
destruição de toda a terra d'Africa é aparelhada, cá 
similhantes três signaes nunca me lembra que os les- 
se, que assim apparecessem sobre um effeito ; verdade 
é que eclipse da lua traz muitas vezes pestilença, ou- 
tras vezes fome ou discórdia. ^^las estella nunca foi 
homem que a visse ante a face da terra, senão agora. 
Bem é que eu acho que ella parece certos tempos do 
anno em terra da índia maior. 

Mas não que acompanhe a lua, nem siga seu cur- 
so, como fez agora esta, a qual chamam alguns dos 
nossos auctores Orião, porque traz figura de espiada, 
e dizem alguns que a sua influencia traz fogo e san- 
gue, cá ella é uma d'aquellas estrellas que cahiu do 
cabo do carneiro, segundo é declarado nos textos de 
Ptholomeu, e porque d qualidade d'aquelle signo, que 
se chama Aries, é quente e seco, dizem que traz esta 
estrella comsigo fogo, e porque outrosim os primeiros 
auctores a pozeram em figura de espada, é forte si- 
gna!, ca se o planeta Saturno, que é estrella que em- 
pece a parceira, designada de seu curso, não me ano- 
jara tanto como esta, e sobre tudo o cris que 
ante apareceu me faz ainda a esperança muito pcor, 
ca acho pelos almcnaques, que quando os mouros 
outra vez perderam Hespanha, que outro similhante 
criz foi visto primeiro, c ainda não tão forte como 
este, porque acho cjue a aciuc^Ilc tempo, mais estava 
na casa do Escorpião, o qual com seu cabo ardente 



122 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



apremava Júpiter em sua alteza. E Vcnus, que é nos- 
so planeta, vejo-a triste e fora de toda alegria. Mer- 
cúrio outrosim, que lhe devia de acorrer por sua tri- 
gança que traz pelo ceu, acho-o mui afastado de sua 
companhia. 

Ora que leixassemos estas cousas, somente aquelle 
sonho é abastante pêra nos poer grande espanto, por- 
que creio que tendes em vossos escriptos como no 
tempo do grande Miramolim, que a primeira vez que 
passou d'esta terra em Ilespanha andava um mouro 
cavando em uma sua horta, acerca d'esta cidade, e 
tirando a pedra d'uns alicerces velhos, achou um már- 
more, em o qual era esculpida uma imagem d'um 
nosso propheta, que chamavam Brafome, de Marro- 
cos natural, sob cujos pés estavam escriptas umas 
letras em quatro regras, que diziam assim : 

«Da casa de Ilespanha sahirá um leão com trcs ca- 
chorros seus filhos, acompanhado de grande frota, 
carregada de muitas gentes, e apremará a tua nobre 
cidade. Oh ! cidade, e do seu femel virá o destrui- 
dor das partes d'Africa. Mouros fugi, e não queiracs 
esperar o brandimcnto de sua espada.» 

E assim concerta esta prophecia com o sonho 
d'este mouro, porque diz que via leão coroado, pela 
boca do estreito, outrosim as abelhas significamos nós 
outros, e os pardacs são os christãos, cá similhante 
viu um mouro cm Córdova em sonhos, quando os 
mouros a perderam. 

Porém o meu conselho é que nos soccorramos á 
providencia divinal, fazendo nossas orações mui devo- 
tamente, que nos livre de tamanho perigo; c pêra isto 
ser bem feito, cumpre de escreverdes a alguns loga- 
res onde sintacs que estão alguns religiosos, que lhe 
praza receberem este feito cm encommenda, o que 



Chronica d'El-Rei D. João I 123 



eu creio que elles farão de necessidade, porque estes 
signaes assim pertencem a elles, como a nós, se não 
tanto que aquelle sonho dos pardaes que filhavam as 
abelhas, significa que o damno será primeiro n'esta 
cidade, e será bem que se tenha todo bom avizamen- 
to em quaesquer estrangeiros que aqui sejam, de 
yuisa que não tenham azo de esguardarem os muros 
ila cidade, nem os leixem andar soltamente por onde 
lies quizerem, porque não sabe homem a tenção que 
trazem. 



CAPITULO LVIII 



Como a frota por azo da tormenta tornou outra vez 
ás Algeziras^ e como ao dobrar do cabo de Almi- 
tia as galés foram em grande perigo 

LjU IÇARAM os mouros mui desconsolados, ouvindo 
ri, assim aquellas novas de sua destruição, empe- 
j ro foi em isto, o que é em todas as cousas, que 
quando hão de ser, não podem leixar de ser, e a 
"ortuna cega os entendimentos dos homens, que se 
não sabem desviar d'aqucllas cousas que lhe são or- 
denadas. 

Que cousa foi a de Annibal, que com tanta fortale- 
ça correu toda a Itália, fazendo tantos e tão maravi- 
lhosos feitos em armas, e por derradeiro constrangido 
da fortuna requeria piedosamente paz a seu inimigo ca- 
pital Sei pião ? 
E Pompeu, n'aquella derradeira batalha que houve 



124 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



com Júlio Ccsar, seu sogro, nos campos de Emathiaj 
pêro tivesse tamanho poderio, elle mesmo confessa qui 
a fortuna forçosamente o tirava de seu entender pel 
trazer á batalha, a fim de se mostrar. 

E Gayo César, quando foi a hora de sua fim, coma 
quer que tamanho sabedor fosse, c lhe tantos signacs 
fossem re\-elados em declaração de sua morte, nunca 
porém se pode desviar de seu cruel aquecimento, e as- 
sim o diziam alguns d'aquelles mouros sabedores, a 
quem preguntavam que pois clles sabiam que el-r. " 
ia sobre a cidade, e passaram tantos dias sem lhe l.i- 
zer nojo algum, porque não punham em si, e cm seus 
muros melhor guarda? Quanto mais, sendo assim 
avisados por aquelles signaes, que tinham visto. 

«Verdade é, diziam ellcs, que nós tinhamos este a\ " 
samento, e bem poderamos em treze dias, que el-r 
andou d'arredor de nós sem nos fazer algum cnipe- 
cimento, afortalezar nossa cidade muito mais, e fazer 
pêra nossa guarda mil remédios, se tivéramos indus- 
tria. Mas as rodas celestiaes nos tinham assim atados, 
que éramos feitos quasi imobilcs, e portanto não era 
em nosso livre poder receber nenhum conselho nem 
avizamento, sobre a cousa determinada. 

Depois que os infantes foram assim com seu pa- 
dre, como dito é, toda a outra frota se juntou aquelle 
dia, segundo lhe fora mandado. 

Kl-rei teve seu conseliio, no qual se determinou dc 
tomar terra em direito d'umas salgas que ahi estavam, 
nas quaes se aconteceu que alguns dos christãos sahi- 
ram fora, assim como homens dc pouco sizo, e sahiraai 
os mouros a elles e começaram de se embrulhar dc 
tal guisa que morreu um christão, pelo qual se poz a 
frota em tamanho alvoroço que quizeram a maior 
parte d'elles sahir fora, senão fora por temor el-rei que 



Chronica d'El-Rei D. João I 125 



o mandou defender mui rijamente, porque certamente 
fora um mui grande perigo, por azo da grande mul- 
tidão dos mouros que estavam mui acerca, e d'outros 
muitos que se poderam recrecer, os quaes todos em- 
brulhados fora azo de grande perdição, e muito mais 
dos christãos que dos mouros, assim pela vantagem do 
logar, como pela pouca ordenança que entre si leva- 
vam. 

E estando assim el-rei em este conselho pêra filhar 
alli terra, sobreveiu uma grande tormenta, pela qual 
foi necessário que se el-rei d'alli partisse pêra outra 
parte, porque o logar era tal que a frota não podia 
alli pairar, mas esto foi enviado pela graça de Deus, 
segundo adiante será contado. 

E assim foram as galés em muito grande perigo ao 
dobrar da ponta d'Almina, e as naus não poderam 
tão azinha fazer sua volta, e andando assim pairando 
ao mar, abrandou a tormenta, e quando quizerara 
seguir a viagem das galés que eram tornadas ás Al- 
geziras onde primeiro estiveram, lançou-as a corrente 
caminho de Málaga, segundo antes fizera. Do qual 
abalamento que assim a frota fez os mouros hou- 
veram muito grande prazer, como quer que se en- 
ganavam muito em ello, porque aquelle foi um mui 
grande azo pelo qual a cidade foi tão azinha tomada, 
segundo adiante será contado. 



126 Bibliotheca de Clássicos Portugnezes 



CAPITULO LIX 



Da maneira que os mouros tiveram depois que a frota 
partiu^ e como se em ello pôde cotisnar que Deus só 
foi o que trouxe o fim da victoria. 



%. 



RANDE folgança tiveram os mouros por aquella 
partida d'el-rei, não conhecendo o calado se- 
gredo que a Providencia Divina em ello or- 
denawa, e porque em ello verdadeiramente possamos 
conhecer quanto Nosso Senhor Deus em ello quiz 
obrar' por sua graça, devemos csguardar trcs mara- 
vilhosas cousas que se em ello seguiram, além da 
ordenança da rasão, pelas quaes podemos receber 
avizamento pêra o deantc, que posto que algumas 
cousas não venham á nossa vontade, que as hajamos 
por boas, consirando que nos acontecem a fim d'outro 
bem maior, o qual nós por aquelle presente não co- 
nhecemos. 

Onde c de saber, que a determinação d'el-rei era 
filhar terra pela parte de Barbaçote, segundo já 
ouvistes, pensando que a não poderia tão dcsempa- 
chadamcnte filhar da outra parte, a qual cousa, se 
assim fora, poderá ser que posto que se a cidade 
depois filhdra, fora com mui grande trabalho, e não 
sem grande cspargimento de sangue, cíí o logar era 
muito fragoso, c a multidão dos mouros muito gran- 
de, porcjuc alem dos visinhos da cidade, eram ahi 
outros de fora que estavam em numero de cem mil, 



Chronica d'El-Rei D. João I 127 



e aquella tormenta foi causa de se el-rei partir, e es- 
cusar aquelle perigo, e mais que tanto que os mouros 
viram assim partir aquella frota, cuidaram que se ia 
de todo, e porque os outros mouros de fora lhe fa- 
ziam nojo e damno, cá elles por natureza são grandes 
estragadores de cousas alheias, mandou Calabençala 
por requerimento dos outros da cidade que se fossem 
muito embora pêra suas casas, porque sua presença 
a elles já não era necessária, ágradecendo-lhe porém 
muito seu trabalho e boa vontade que tiveram pêra 
os vir ajudar. 

Ora vede se poderemos direitamente attribuir este 
acontecimento senão a Deus, o qual é Aquelle, segun- 
do diz o Apostolo, que obra em nós o seu cumpri- 
mento, segundo diz Arato, poeta, vivemos á per- 
feição de todas as cousas. 

Outra cousa diremos ainda aqui, porque pertence 
a Deus Nosso Senhor, esto é que el-rei D. João era 
assim compressionado, que quanto na terra era forte, 
no mar enfraquecia muito, e somente em passar de 
Lisboa pêra Coina, enjoava de tal guisa, que não 
sabia de si parte, e porque elle conhecia em si esta 
falta, se encommendou á Virgem Maria da Escada 
que o livrasse d'aquelle trabalho, e foi cousa maravi- 
lliosa, que em todo um mez que andou no mar, nunca 
fez mostra de nenhum cnjoamento. 

El-rei quizera ter logo alli seu conselho, porque 
toda a outra frota levara a corrente, como já dis- 
semos. 

Mandou el-rci outra vez ao infante D. Henrique 
que fosse com as galés pelas naus, como antes fizera, 
c indo assim sua viagem de noite, ouviram vozes da 
companha que vinha em uma nau, em que era João 
Gonçalves Homem, com outros muitos do infante D. 



128 Bihliotheca de Claêsicos Portugweze» 



Pedro, e segundo parecia, encontrou outra nau com 
ella de cujo encontro abriu por tal guisa que parecia 
que a escalaram com um cutello, c estavam em mui 
grande perigo os que n'ella vinham, e não lhes foi 
pequeno conforto quando sentiram as galés junto 
comsigo, pedindo ao infante D. Henrique que lhes 
fizesse acorrer. 

O infante fel-a logo alijar da mór parte da carga 
e apertar com cabres mui grossos e fortes. Mas to- 
davia foi-lhe dito que aquella nau por nenhuma \'ia 
podia fazer vela que logo de todo senão alagasse, e 
entonce a levaram á tòa, de guisa que d'ella senão 
perdeu cousa alguma, e a nau foi depois concertada 
segundo era necessário, pêra navegar como da primeira. 

O infante seguiu sua viagem, c trouxe as naus 
como lhe fora mandado. 



CAPITULO LX 



Da visão que Pcrjião d Alvares Cabral viu acerca do 
acontecnncnto do infante^ e das razões que acerca 
delia diziam. 



^UTRO acontecimento se seguiu maravilhoso ain- 
da, em aquella frota, e foi assim que ao tem- 
po que cl-rei havia de partir de Lisboa, além 
da gente que o infante D. Henrique trouxera do Por- 
to, lhe subrcvciu outra muito mais, por cuja razão Ihí 
foi ordenado por seu padre el-rci uma nau grande 




Ckronica d'El-Rei D. João I 129 



em que podesse levar a dita gente, da qual o infante 
fez capitão Luiz Alvares Cabral, seu vedor, e mandou 
a seu filho Ferrão d'Alvares Cabral que fosse com 
elle em logar de seu padre pêra o fazer servir em a sua 
galé, e estando assim n'aquella obra de Gibraltar 
aqueceu que o dito Fernão d'Alvares se lançeu a dor- 
mir sobre uma mesa que estava debaixo do telhado, e 
d'alli a um pedaço acordou bradando, e assim acor- 
dado começou a dizer com o espirito apressurado e 
trigoso, que acorressem ao infante seu senhor que an- 
dava embrulhado com os mouros, e tantas vezes e com 
tal aficamento disse isto, que alguns dos que andavam 
pela galé se chegavam pêra elle, e porque o viram as- 
sim acordado, foram mui maravilhados, empero fala- 
ram-lhes alguns dizendo que cousa era aquella que 
lhe assim parecia, que o infante estava fora de simi- 
Ihante cuidado. 

— Vedes, disse elle, que cousa pêra crêrr vejo-o eu 
andar entre aquelles perros, sem lhe acorrer nenhum 
de vós outros. Mas empero Deus é com elle, que já 
tem derrubados dois ; ajudae-o por Deus, que o não 
levem aquelles mouros ante si, cá são tantos que sou 
espantado como se pode d'clles defender ; e entonce 
começou a dizer, oh! Virgem Maria, acorre-lhe, que 
se tua ajuda lhe falece, de nenhum dos seus pode ser 
ajudado. 

\í qucixando-se fortemente contra os seus porque 
o não iam ajudar, e quando lhe parecia que o infan- 
te dava algum golpe a algum mouro, era o seu pra- 
zer tamanho que todo o rosto se lhe enchia de rizo, 
(• muito mais quando lhe parecia que o matava, e en- 
tonce começava de esforçar o infante, dizendo que não 
temesse nenhuma cousa, que Deus o ajudaria, e assim 
dizia outras muitas cousas, como se propriamente vis- 

VoL. 11 5 



130 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



se andar o infante entre os mouros, como de feito de- 
pois andou. 

A qual cousa fizeram saber ao infante, o qual posto 
que bem conhecesse que aquillo era ar de peste, man- 
dou porém ao seu phisico, mestre Joào, que o fosse ver, 
e quando chegou a elle c lhe falou, foi Fernão d'Al- 
varcs muito mais queixoso, dizendo-lhe que faria mui- 
to melhor d'ir ajudar seu senhor, que de estar com elle 
em similhantes razões. 

— Empero, disse elle, deixai \-ós os fanados, cá cuido 
eu que lhes vae a elles de quando em quando o infante 
meu senhor, corregcndo a fazenda, e assim tornava íís 
suas primeiras razões, e o mestre João disse ao in- 
fante : 

— Eu tenho bem visto a Fernão d'Alvares, e que- 
ro-vos acerca d'ello fallar como phisico e como conse- 
lheiro, e quanto a phisico me parece que todavia o de- 
vereis d'ir \êr, porque certo é que isto que assim fala 
não é ai, senão ramo de peste, o qual lhe representa 
assim estas cousas e revelações como cousas que hão 
de ser, trazendo a alma quasi apartada do corpo pê- 
ra conhecer aquellas cousas, que por si só depois ha- 
de ver, c tanto que vos vir não ha duvida senão que 
perca aquclla maginação e torne a seu próprio enten- 
der, e falando como conselheiro me parece que não 
deveis lá de ir, antes vos afastar d'elle quanto poder- 
des, porque este ar é contagioso como sabeis, e che- 
gando-vos a elle ponde-vos a perigo. \\ porém sobre 
tudo vossa mercê pôde fazer o que lhe prouver. 

O infante disse que Deus Nosso Senhor fizesse o 
que sua mercê fosse, que todavia entendia de o ir vêr, 
e tanto que chegou a elle e lhe falou, Fernão d'AIva- 
res saltou logo em pé fora da mesa, e alcvantou as 
mãos contra o ceu dizendo que louvava muito ao Se- 



Chronica d'El-Rei D. João I 131 



nhor Deus pela victoria de tamanho perigo, contan- 
do-lhe todo o- que lhe aparecera. 

— Ora pois, disse o infante, tornae-vos a repousar e 
folgar, ca esto não foi ai senão algum assombramento 
d'ar corrupto que vos quizera empecer e não pôde. 

— O repouso que eu hei-de fazer, disse Fernão 
•<i'Alvares, é mandar-vos fazer a ceia, que já pedaço ha 

que me quizera alevantar pêra ello, se não estivera 
em aquelle trabalho. 

Todas estas cousas que assim Fernão d'Alvares 
disse, depois aconteceram ao infante, sem falecer ne- 
nhuma, e assim aconteceu a elle que estando a frota 
ante a cidade de Ceuta lhe deu uma levação, pela qual 
logo o infante o mandou bem curar de sangrias, e 
de todas as cousas que lhe ao presente eram necessá- 
rias, e mandou que o levassem a Tarifa pêra ser lá 
melhor curado, mas elle por nenhum modo quizera 
partir até se despedir do infante, o qual o mandou 
trazer a bordo da sua galé, e lhe falou. 

— Senhor, disse elle. Deus sabe quanto desejo de 
vos servir, e não quizeram os meus pecados que eu 
n'estc tempo vos servisse segundo desejava, de que 
minha alma não leva pequena magua, porém estou 
n'estes termos que vedes, que não sei a fim que hei- 
de haver, mas qualquer que seja, eu vos peço por 
mercê que me encomendeis em vossas orações, e se 
eu morrer vos lembreis de minha alma, cá se me Deus 
dá vida bem creio que por meu serviço conhecereis 
minha boa vontade. 

1'^ prouve a Deus de lhe dar vida c mostrou bem 
a obra de suas palavras, cá sempre depois serviu bem 
, o infante, e assim mesmo em seu serviço morreu sobre 
o cerco de Tanger. 



132 Bihliotheca de Clássicos Porttiguezes 



CAPITULO LXI 



Como el-rci teve seu conselho se tornaria outra vez 
sobre a cidade de Ceiíta, e das razões que se no dito 
conselho passaram. 

JÁ na frota não havia algum que cuidasse que ha- 
via d'alli fazer viagem senão pêra Portugal, e 
entonce havia entre elles muitas e desvairadas 
lepartições. 

«Agora, diziam elles, poderá cl-rci conhecer as 
traições do prior, cá certo é que nos trazia todos ven- 
didos pêra nos resgatar como seus prisioneiros; vede 
que cousa ia metter em cabeça a el-rei, que havia de 
tomar a cidade de Ceuta, onde se adergaramos de 
filhar terra, nunca de nós tornara pé d'homcm pcra 
Portugal. 

«Quem duvida que cllc não escrevesse a Salaben- 
çala que pozesse em si recado, avizando-o de todo 
corregimento d'el-rei ? cá certo é que quando ellc foi 
á Secilia, em vez de olhar os muros da cidade, foi 
falar com Salabençala, e á bó fé, segundo alguns 
disseram, mais levou elle d'aqui do que rendeu o seu 
priorado vinte annos; pois vede vós, diziam outros» 
ainda com todas essas cousas os infantes não o che- 
gam menos a si, que se porventura entendessem que 
por seu aro haviam de cobrar á cidade. 

«Assim lh'o meterá elle em cabeça, diziam outros, 
e elles como são gente manceba crer-lhe-hào quantas 
abusões lhe elle disser. 



Ckronica d'El-Rei D. João I 183 



«Não pode ser, diziam alguns, cá el-rei não é parvo 
nem esse feito não é pêra ter em jogo, e posto que 
el-rei cale, vós vereis a derradeira, que elle lhe dará 
tão bom castigo que pêra todo sempre seja memo- 
ria, e o que lhe a elle faleceu pêra fazer quando jouve 
no castello de Coimbra, acabar-lh'o-hão agora. 

Mas sobre todo foi prazer de vèr quando el-rei á 
segunda feira mandou chamar todos do conselho que 
viessem nos bateis pêra falar com elle acerca d'aquelle 
feito. 

Quando o prior passava acerca dos navios no seu 
batel, não olhavam todos menos pêra elle cá se sou- 
beram certamente ser verdade o que antes diziam, e 
não cuidavam ai senão que el-rei lhe queria deman- 
dar razão d'aquelle feito, e não era a gente do povo 
muito de culpar, pois que muitos dos capitães lhe da- 
vam culpa, dizendo que elle ordenara todo aquelle 
feito. 

Mas o prior que era homem sezudo, ainda que ou- 
via todas aquellas palavras, deitava tudo a jogo, so- 
mente se acha que disse a alguns d'aquelles fidalgos 
que o atormentavam por aquella razão, que os cora- 
ções lhe não falecessem, cá o que elle encaminhara e 
ordenara elle daria d'ello boa conta. 

Depois que os do conselho foram assim juntos pro- 
poz el-rei sua razão, dizendo que bem sabiam com 
quantos trabalhos e despezas trouxera alli aquelle 
ajuntamento a fim de filhar a cidade de Ceuta, como 
elles bem sabiam, sobre o qual se fizera já quanto el- 
les viram, porem que lhe dissessem o que acerca 
d'ello lhe parecia, sobre a qual proposição foram ar- 
razoadas muitas cousas, c finalmente foi o conselho 
partido cm trcs partes, a saber : uns disseram que era 
bom todavia tornar a Ceuta, outros disseram cjue fi- 



134 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



Ihassem Gibraltar, e outros que se tornassem pêra Por- 
tugal, e os que eram do conselho que se filhasse 
Ceuta, foram principalmente os infantes, os quaes 
responderam a seu padre por esta guisa : 

«Senhor, vós deveis consirar quanto tempo ha 
que começastes este feito e quantas e quão grandes 
cousas tendes movidas pêra chegardes ao fim, por 
cuja razão a fama d'este feito voou por muitas partes 
do mundo, e como posto que no começo encobristes 
este segredo, que já agora o tendes revelado, e tor- 
nando-vos assim ou apontando em outra cousa de 
menos valia, não podeis ha\cr victoria que vos não 
fique maior prasmo, quanto mais por não provardes 
nem sairdes com vossa força e poder sobre a gran- 
deza d'aquella cidade, cá se por ventura já vos jou- 
vereis cm seu cerco sobre ella alguns tempos arra- 
zoados, não tivera o mundo porque vos dar tamanha 
culpa, mas tornardcs-vos assim, parecerá que vos es- 
pantou a sombra dos mouros, nem aos mouros será 
pequena alteração quando consirarem que vos assim 
espantastes da sombra da sua cidade, e pôde ser que 
lhe ficara d'aqui ouzio e atrevimento decorrerem com 
seus navMos a costa do .Algarve, mais do que até qui 
fizeram, porém nosso conselho é que todavia vos va- 
des sobre a cidade e que a cerqueis e combateis com 
vossos engenhos, e esperamos em Deus que vos dará 
victoria, cá pois esto principalmente foi ordenado por 
seu serviço, pelo qual desprezastes todos os outros 
contrários, cjuantos se vos offereceram no começo 
d'este leito, não deveis agora tornar atraz por este 
que é muito mais pequeno, e Deus que sabe vossa 
vontade e tenção vos ajudará por tal guisa que aca- 
beis vosso feito como descjaes.» 

Estas razões e outras muitas acerca d'cste propo- 



Chronica cfEl-Rei D. João I 135 



sito disseram os infantes e o conde de Barcellos a 
et-rei, com os quaes se foram dois ou três do conse- 
lho, e os que falaram em Gibraltar propozeram suas 
razões em esta forma: 

«Se por ventura este feito não pertencesse senão á ci- 
dade de Ceuta somente, ou ella fosse tal que se po- 
desse bem cercar, logo seria bem de aventurarmos 
nossos corpos e fazendas por cobrar seu senhorio, e 
ainda que víssemos milhares de mortos dos nossos 
christãos, e nós outros feridos e cangados sobre elles 
pelejando, não era razão que nos partíssemos de si- 
milhante contenda. 

«Mas que será quando cuidarmos que havemos de pe- 
lejar com todos os mouros d'Africa, e aventurar com 
tanto fim o que não tem fim. 

«Quanto mais que nós não podemos cercar a cida- 
de, ainda que nos muito trabalhemos, não lhe tolhere- 
mos que não entrem mantimentos e gente de fora 
quanta quizerem. 

«Entonce vos digo, disse um d'aquelles, que será pe- 
leja bem egual nós affastados de nossa terra comendo 
nossos mantimentos cada dia que d'clla trouxemos, por 
cujo falecimento não estamos cm certa esperança que 
possamos tão azinha cobrar outros, e entonce será nos- 
sa peleja muito razoada, elles serem mais que nós mui- 
to, que hão de vir como quem vem a perdoes como sou- 
berem que nós aqui estamos, c farão escarneo de nós 
se nos virem jazer em nosso cerco, sentindo com nos- 
sa vinda razoado temor ; vede que logar é Ceuta, que 
ha n'elle uma légua pêra cercar assim de ligeiro, pêra 
O qual por boa fé que havia mister toda a llespanha, 
pela qual razão somos em accordo que pois já cá 
somos que vos contenteis de filhar a villa de Gibral- 
tar, porque alem de todas razões é pêra consirar 



136 Bihliotheca de Clássicos Porfuguezes 



como somos hoje cm dczcnove dias de Agosto, e que 
pêra assentar vossas artilherias e arraial ha mister 
dez ou doze dias de Setembro, e não tardará muito 
o inverno que não comece mostrar os signaes de sua 
frieldade, cá tanto que o sol entra no signo de Libra, 
logo os dias começam de abaixar cada vez mais, e as 
tormentas aqui no inverno são muito grandes, de 
guisa que gravemente podem aqui estar nenhuns na- 
vios sobre ancora muito tempo, e esta é uma das 
cousas que vos é muito necessárias, a saber, a frota, 
porque a maior parte d'ella como vedes é cercada de 
mar, aonde ha mister estes navios, e ainda se os tivés- 
seis, porem é bem que consireis sobre todo, cá estas 
cousas são mui grandes e hão mister mui bem provi- 
das com todas suas partes. 



CAPITULO LXII 



Como os outros do conselho disseram a terceira razão, 
e como por el-rei foi determinado à ponta do Car- 
neiro, que queria ir sobre a cidade de Ceuta. 

I ONGO mais do arrazoado fora este capitulo, se qui- 

IV zcramos escrever em elle a declaração de todas 

as razões d'aquclle conselho, porem guardamos 

pêra aqui a derradeira intenção dos que diziam que se 

tornassem pêra Portugal, os quaes ouvidas as razões 

dos outros disseram : 

«Nem é conselho o primeiro que dizem que vades a 



Chronica d'El-Rei D. João I 137 



Ceuta, nem o segundo em que vos aconselham que to- 
meis Gibraltar, porque não são cousas que devaes de 
poer em execução, segundo nosso conhecimento. 

<E fallando primeiramente do que pertence a Ceuta, 
assaz nos parece que vos foi alli fallado os muitos in- 
convenientes que havia, os quaes evidentemente são 
conhecidos entre aquelles que entendem em similhan- 
tes feitos, empero não foi em elle fallado na tardança 
que se segue de necessidade, se a cidade fôr cercada 
segundo pertence, cá deveis de consirar que não será 
vossa honra alevantardes-vos do cerco depois que a 
uma vez cercardes, cá sabeis como se diz que el-rei 
D. Fernando de Castella jouve sobre a cidade de 
Coimbra sete annos, e outros dizem que el-rei D. Af- 
fonso de Castella jouve outros sete annos sobre esta 
cidade, no qual tempo fez aquclle cerco de Algezira, 
que está de fora. 

«Pois vós ao menos que estivésseis aqui um anno se 
mister fosse, não seria muito, ora vede que frete ha- 
veis mister pêra a multidão de tantos navios como 
aqui tendes, quanto mais ainda que elles por sua von- 
tade não estarão aqui, cá tem de levar as mercado- 
rias pcra governança de suas terras, sem as quaes 
porventura se não poderam governar. Ora pêra que 
são mais razões acerca d'ello? basta que consirados 
todos os casos contrários, acJiareis que é quasi impos- 
sível de o poderdes acabar. 

«lí quanto é á filhada de Gibraltar, isto é cousa que 
não deveis fazer, pelas pazes que tendes com o reino 
de Castella, cá dirão (juc o não fizestes, senão a fim 
de os injuriar, mostrando que seu poder não era bas- 
tante pêra acabar sua conquista, e vós em seu des- 
prcso (jucreis vir guerrear sua em preza, cá bem sa- 
beis como escrevestes a el-rei I). ivrnando, que vos 



138 Bihliotheca de Clássicos Portugueses 



filhasse na companhia d'aquella conquista, e o que vos 
el-rei respondeu, e poderia ser que durando-vos sobre 
o cerco desta vilia, os castellãos haverão as pazes 
por quebradas e se trabalharão de fazer alguma no- 
vidade em vossos reinos, o que seria azo de grande pe- 
rigo, e finalmente nossa tenção é que vos torneis pêra 
Portugal, visto como não podeis nem deveis mais fa- 
zer. 

«E pois que vós principalmente começastes este feito 
por serviço de Deus, EUe que sabe vossa tenção e co- 
nhece que não podeis cm cUo mais fazer, receba vossa 
boa \ontade com a grandeza do trabalho que acerca 
d'ello tendes levado cumpridamentc por obra, cá não 
é seu serviço levardes tanta gente a morrer sem algu- 
ma esperança da victoria, cá escripto é que os mor- 
tos não louvam o Senhor, mas os que vivem e conhe- 
cem o seu nome.» 

Esto ate aqui disseram aquclles derradeiros, mas cl- 
rei não quiz nenhuma cousa responder, antes disse que 
a determinação d'aquillo leixava pcra depois, e mandou 
logo fazer prestes toda a frota, e que se fossem lançar 
á ponta do Carneiro, a qual cousa foi feita mui Icda- 
mente, porque todos maginawim que ahi não havia já 
outra cousa senão tornar pêra Portugal, tendo pouco 
cuidado de quanto trabalho e despeza sobre aquelle fei- 
to era levado, e como todo juntamente se perderia ao 
ponto d'uma só hora, e assim pareceria que todas as 
cousas ate alli feitas, foram feitas afim de trazerem 
deshonra a el-rei e ao reino. 

Depois que a frota foi assim toda junta na ponta 
do Carneiro, el-rei saiu cm terra c ajuntou comsigo to- 
dos os do conselho, e assentou-se no chão e elles todos 
d'arredor d'elle. 

— Agora, disse elle, vos quero responder a todo o 



Chronica (VEl-JRei D. João I 139 



que me falastes acerca de meus feitos, e quanto é ao 
que me dizeis que me torne pêra meu reino, parece- 
me que assaz seria de grande mingua haver acerca de 
seis annos que ando n*este trabalho, fazendo sobre ello 
tantas circumstancias como sabeis, pelas quaes o mun- 
do está com as orelhas abertas pêra ouvir a fim da vi- 
ctoria, e leixal-o assim agora parece-me que não seria 
outra cousa senão um escarneo. E outro sim acerca do 
que dizeis de Gibraltar, assaz seria feia cousa ter o fito 
posto em uma tamanha cidade e por derradeiro des- 
fechar em uma similhante villa, e porém abreviando 
as circumstancias dos contrários que acerca d'ello po- 
deram acarretar, declaro que minha vontade é o dia 
d'hoje, a Deus prazendo, ser sobre a cidade de Ceuta, e 
d'amanhã filhar terra, e d'ahi em deante proseguir mi- 
nha intenção até que Deus traga aquelle fim que sua 
mercê fôr. 

Ora convém, diz o auctor, que digamos aqui de 
como Pedro Fernandes Porto Carreiro, tanto que 
sentiu que a determinação d'el-rei era filhar a cidade 
de Ceuta, requereu a seu padre licença pêra se ir 
pêra elle. 

— • Leixa primeiro, disse seu padre, a el-rei assentar 
seu arraial, e entretanto encaminharemos alguma boa 
cousa que lhe leves em serviço, que assís de tempo 
haverá hi pêra o servires. 

Esto escrevemos assim aqui como membro que fa- 
zem os pedreiros sobre a parede, pcra tornarmos 
depois aqui pcra fundarmos outra rasão. 



140 Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO LXIII 



Como el-rfi ainda teve conselho acerca do filhar da 
terra onde seria, e das rasdes que disse ao infante 
D. Henrique. 



J\/l uiTO parecia á maior parte d'aquelles do con- 

TAa selho d'el-rei aquella viagem perigosa, em- 

J ^pero não tiveram nenhuma rasào de a con- 

tradizer, depois que viram determinadamente a 
vontade d'ol-rei, quanto mais sendo seus filhos pri- 
meiramente em aquelle accordo, c bem podcramos 
aqui nomear expressamente quaes eram aquelles con- 
selheiros que alli estavam e as vozes que cada um 
dava, mas porque poderia ser que seriam julgados ao 
revez de suas intenções, leixamos de o fazer. 

Ora sabei que não foi menos contenda sobre o 
desembarcar d'aquclla frota, do que foi primeiro so- 
bre o cerco da cidade, porquanto el-rei determinada- 
mente disse que queria poer seu arraial na Almina, 
a qual cousa era contra a opinião de todos, cã lhe 
disseram que seu cerco não prestaria nenhuma cousa 
se clle não empachasse aquella parte do sertão. 

— Parece, senhor, disseram elles, que vós vindes 
pêra cercar e quereis ser cercado, bem sabeis que os 
mouros não tem tamanho poder por mar como por 
terra, e alem d'isso tereis abastança de mais aguas e 
melhores, e sereis seguro d'elles enviarem recado a 
nenhuma parte, e posto que grande multidão de 



Chrordca d'El-Rei D. João I 141 



mouros venha, podereis fortalezar vosso arraial de 
cavas e artifícios de madeira, por tal guisa que nunca 
vos poderão empecer, e se estiverdes na Almina elles 
podem metter quantos mouros quizerem dentro na 
cidade e entrar e sahir quando lhes aprouver, e adubar 
seus bens e trazer seus fructos pêra suas casas, como 
se vós ahi não estivésseis, assim que vós estareis 
mais cercado que elles; e por esta guisa se passaram 
sobre este feito outras muitas rasões, ao que el-rei 
respondeu que elle havia por melhor de ter alli seu 
arraial, porque não tinha necessidade d'outro palan- 
que, e que somente havia de ter cuidado depois que 
alli estivesse de pelejar com os mouros da cidade, e 
se estivesse da outra parte que teria dois cuidados, 
um de pelejar com os mouros da cidade e outro de 
se defender dos que viessem a seu soccorro. 

— Ora, disse elle contra o infante D. Henrique, 
meu filho, bem me lembra os requerimentos que me 
fizestes quando éramos acerca de Lisboa, aos quaes 
vos eu disse que vos responderia quando fosse mis- 
ter, e porque agora é tempo de vos responder ao que 
me requerestes, que vos outorgasse que fosseis em 
companhia d'aquelles que primeiro filhassem terra, eu 
voro concedo, mas não me apraz que em ello vós 
vades como companheiro, mas como principal capitão, 
e quando el-rei isto falava toda sua cara estava cheia 
de rizo, como aquelle cjue tinha grande esperança no 
engenho e fortaleza de seu filho. 

— Nós prazendo a Deus, disse el-rei, iremos hoje so- 
bre a noite ancorar nossa frota d'avantc da cidade, e 
vós ireis primeiramente com a vossa frota que trou- 
xestes do Porto direito a Almina, c ahi fareis lançar 
vossas ancoras e alojar vossa frota, c nós iremos da 
outra parte dos banhos por tal, que quando os mou- 



142 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



ros virem a maior força da frota em aquella parte, 
entendam que alli ha-de ser a principal força da nessa 
desembarcação ; pela qual cousa acudirão alli a maior 
parte d'elles por empachar nossa sahida, e da outra 
parte de Almina não farão grande conta, pela sus- 
peita que terão que não havemos alli de filhar terra, 
e vós tanto que virdes meu signal, lançareis vossas 
pranchas em terra e sahireis o mais dcspachadamentc 
que poderdes, e depois que nós sentirmos que tendes 
a praia filhada, passaremos nossa frota pêra acerca da 
vossa, e encaminharemos de vos seguir, de guisa que 
vos não leixemos muito estar sem companhia. 

— Outro sim, disse el-rei, porque a correnie não 
haja logar de nos lançar as naus caminho de Málaga, 
como já fez duas vezes, tereis maneira de le\ar vos- 
sas galés por tal ordenança que posto que alguns dos 
navios de nossa companhia queiram esgarrar por força 
da corrente, que não hajam logar de correr mais 
avante. 



Chronica d'El-Rei D. João I 143 



CAPITULO LXIV 



Como a frota partiu pêra ir sobre a cidade de Ceuta, 
e da: razões que os escudeiros do infante D. Hen- 
rique houveram com elle. 

n. 1 Ão poderia direitamente contar o grande prazer 
jjVl que o infante D. Henrique houve, quando lhe 
^J seu padre deu aquellas novas, cá assim como 

^^ hom^m que o recebia em especial mercê, lhe foi 
beijar a mão com a continência mui alegre, e tanto 
que todos foram na frota, mandou logo o infante apa- 
relhar todas suas cousas de guisa que quando as trom- 
betas fizeram signal pêra partir, disse a todos que 
pensassem de si de maneira que depois que a frota 
partisse não se andassem ocupando em outras cousas, 
de que todos houveram mui grande prazer, pensando 
que a saa viagem direitamente havia de ser pêra Por- 
tugal, e assim com aquella lédicc, posto que fosse vã, 
corregeram mui azinha todas suas cousas, de maneira 
que sendo feito o signal de partida estavam todos 
prestes, e porque era em tal tempo como sabeis, acerca 
da tarde muitos d'elles fizeram sua ceia têmpora, por 
darem maior esforço a seu prazer, e o infante mandou 
logo adereçar, suas galés por aquella ordem que lhe 
seu padre mandara, pêra reter a corrente da agua 
quando trouxesse os navios da frota d'el-rei, e depois 
que o infante e o conde seu irmão foram partidos, 
começaram de caminhar todos os navios da frota d'el- 



144 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes t 



rei, e depois que todos os mareantes e aquelles que hi- 
viam de reger a frota sentiram que todavna haviam 
d'ir avante á cidade, alevantaram vagarosamente suas 
ancoras e corrcgiam seus aparelhos assim como tem 
por costume de se levantar homens preguiçosos quando 
em tempos de frio jazem em camas moles e jrandas, 
de guisa que por sua tardança mostram quarto suas 
vontades sào contrarias aqucllo que fazem, c assim 
faziam aquelles marcantes em corregcr seus apirelhos, 
porque já a galé d'el-rci era acerca de Aljezira, quando o 
derradeiro navio partia da ponta do Carneiro, 2 assim 
iam ordenados um ante outro, que não pareció senão 
uma ponte que chegava de terra a terra, e depois que 
os navios do infante D. Henrique assim foram parti- 
dos como já dissemos, e os da frota d'el-rei começa- 
ram partir caminho d'Aljezira, aquelles que iam na 
galé do infante pensavam que se tornavam pêra Por- 
tugal, e ficaram d'ello muito espantados, e disseram 
que caminho era aquclle que aquella frota assim le- 
vava ? 

— Leixae, disse o infante, cá o que governa já sabe 
por onde ha-de ir. 

— Antes nos parece que o não sabe, responderam 
ellcs, pois que leva tal caminho, cá ellcs vão caminho 
de Ceuta e nós imos pêra Portugal. 

— Leixae fazer, disse o infante outra vez, a frota 
sua viagem, que vae acabar o por que aqui foi vinda, 
a qual palavra não foi mui doce nos ouvidos d'aquel- 
les, entre os quaes se começou logo um novo rumor 
falando cada um apartadamente sobre a determinação 
d'aquelle feito, e principalmente se apartaram todos 
aquelles escudeiros que iam com o infante, e acabado 
de pouco foram assim todos juntos falar ao infante. 

— Senhor, disseram elles, nós vos pedimos por 



Chronica d'El-Rei D. João I 145 



mercê nos queiraes perdoar algumas razões que vos 
queremos dizer, porque sentimos que será muito me- 
lhor de voras dizermos agora que ao depois que o 
feito fôr começado, cá poderia ser que parecendo nos- 
sas tenções justas e razoadas, ao tempo que nos hou- 
vésseis de mandar não compririamos vosso mandado 
com aquella obediência que vos devemos, a quai 
cousa seria azo de vos queixardes do que agora ou- 
vireis antes que o feito seja começado. 

— Ora senhor, disseram elles, nós somos bem cer- 
tos que el-rei vosso padre fez duas vezes conselho 
acerca de sua vinda, porque sente que não pode fi- 
lhar a cidade de Ceuta como queria, e não sabe como se 
torne que pareça razoado ao mundo, e por isso quer 
levar a frota sobre a cidade e mandar sahir a mor 
parte da gente meuda com alguns capitães dos mais 
somenos, e elle comvosco e com outros principaes fi- 
cardes na frota, porque ao depois se possa dizer que 
elle trabalhou por tomar terra e não pôde, e que fez 
sobre ello toda sua posse. O que senhor se assim é, 
vós sabeis que será grande mal, cá outra melhor cau- 
tella devia vosso padre buscar que não aquesta, que 
notório é que nos espadaçarâo alli a todos na me- 
tade d'aquclla arca, ante a vista de vossos olhos, sem 
nenhuma esperança de remédio. Porém vós sabei que 
posto que vos ouçamos tal mandado, que muitos 
havemos de poer duvida ao comprir. Por tanto vol'o 
fazemos a.ssim a saber por vosso avizamento, que con- 
sircis cjuc será bem de o fazerdes saber a vosso padre, 
cá segundo cremos não o tem menos cm vontade to- 
dos os outros. 




146 Bihliotheca de Clássico» Portuguezes 



CAPITULO LXV 



Como o infante D. Henrique respondeu a aquelles es- 
cudeiros e a frota chegou d' avante da cidade. 



INFANTE algum tanto ficou espantado de simi- 
Ihantc novidade, e assim mostrou a continên- 
cia alguma maneira queixosa quando lhes deu 
a resposta, principalmente por reprehender suas des- 
avisadas palavras. 

— Parece, disse elle, que cl-rei meu senhor teve um 
conselho em terra e vós outros tivestes outro no mar, 
e pensaes que elle nem nós outros teremos de vossas 
vidas aquelle carrego que é razão de termos, porém 
vossas prdavras me forçaram declarar-vos o que d'an- 
tes tinha pouco em vontade, e esto é que de manhã 
prazendo a Deus Nosso Senhor, me vereis sahir pri- 
meiro que ninguém pela prancha d'esta galé em terra, 
e porque nenhum de vós haja razcão d'ir apoz mi, 
mandarei aos outros navios por dois dos meus, pêra 
levar commigo, e vós podereis seguir bem vossas von- 
tades, porque a mim apraz que até que me vós não 
vejaes sahir, que por mandado que venha d'el-rci meu 
senhor, nem meu vós não façaes movimento algum. 
Cirande arrependimento mostraram todos aquelles 
d'aqucllas palavras que disseram ao infante, e antes 
quizeram perder sua fazenda, que ter falado similhante 
cousa, e alli começaram de se queixar mui fortemente, 
dizendo que aquello seria já muito peor que o da pri- 



Chronica d'El-Rei D. João I 147 



'■ meira, cá o que elles disseram não fora dito com má 
intenção, somente por lhe parecer que não seria ra- 
zão de os alli leixar morrer sobre cousa de que a elle 
ficava pouca honra. 

— Empero, disseram elles, senhor, vós não cuideis 
que assim haveis de sahir sem nossa companhia, an- 
tes crede que não ha aqui tal, que antes se não leixe 
morrer, que ser-lhe feita similhante injuria. E posto 
que vós queiraes sahir como dizeis, vós sabei que nós 
sahiremos todos a par de vós, ou nos alagaremos 
neste mar. 

— Não mais, disse o infante, que sobre o que vos 
disse não entendo fazer outra mudança. 

K assim ficaram todos aquelles escudeiros com 
aquelle nojo, dispendendo a parte que lhe ficava do 
dia, fallando sobre aquelle feito. 

1 Os mouros da cidade tanto que viram a frota 
acerca de seus muros, encheram todas as janellas e 
frestas de candeias, por mostrarem que eram muitos 
mais do que os christãos presumiam, c assim pela 
grandeza da cidade como por ser de todas as partes 
tão alumiada, era mui formosa de vêr, sobre a qual 
nós aqui podemos interpretar que assim como a can- 
deia quando se quer apagar dá sempre grande lume, 
assim estes que ao outro dia haviam de leixar suas 
casas e fazendas, e muitos d'olles haviam de partir das 
vidas pêra todo o sempre, faziam aquella sobeja mos- 
trança de claridade significando sua fim, ou porven- 
tura mais direitamente podemos dizer que Nosso Se- 
nhor fieus querendo mostrar como aquelles maus sa- 
crificios que até alli se fizeram, estavam pcra fazer 
fim, quiz assim em figura demonstrar que assim como 
em aquella hora a cidade era mais alumiada do que 
nunca fora por fogo temporal, assim seria no dia se- 



148 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



guinte alumiada do verdadeiro fogo do Espirito San- 
to, quando os christãos trouxessem o signal da crui 
por todas as partes da cidade. 



CAPITULO LXVI 



Como os da frota traziam por essa mestrni guisa lume 
por seus navios, e das tenções que entre si haviam. 

Vj^osTO que aquelles mouros assim alumiassem 
T^ sua cidade a fim de acrescentarem em a simi- 
j Ihança de sua multidão, os outros que cstav^am 
^^ nos navios não alumiaram menos a sua frota, mas 
esto era mais por necessidade que por mostrar sua 
multidão, porque tanto que os na\'ios tiveram suas 
ancoras lançadas, logo cada um começou de cuidar 
no que lhe cumpria pêra o dia seguinte, e com tochas 
que os capitães tinham ante si e as candeias que os 
homens traziam nas mãos quando andavam corregen- 
do suas cousas, era a frota mui alumiada c parecia 
ainda muito mais aos da cidade, porque o fogo feria 
na agua do mar e parecia que tudo era lume, a qual 
cousa não punha pequeno espanto aquelles mouros 
que a direitamente podiam csguardar, mas depois que 
a noite se começou de gastar e os senhores se mette- 
ram em suas camarás pcra filharem seu repouso, co- 
meçaram cada uns d'aqucllcs de se acostar em seu 
alojamento, c porque cm similhante tempo os homens 
tem vagar de cuidar cm quaesquer cousas, porque cm- 



Chronica d'El-Rei D. João I 149 



\ quanto a força do somno não tira o natural sentir, 
; não podem arredar de si desvairadas imaginações, onde 
I cada um leva seu entender pêra aquello que traz mais 
\ acerca da vontade. , 

! E certo é que em tal tempo pode homem consirar 
\ o damno ou proveito que lhe pode vir melhor que 
; em outro algum tempo, cá dito é pelo philosopho 
: que o coração estando quieto se faz prudente. 

Jazendo assim aquelles, começaram a consirar qual 
seria a sua fim no outro dia, cá posto que ahi houvesse 
muitos ardidos e fortes, assim estavam outros de pe- 
quenos corações. 

Cá na grande multidão necessário é que haja de 
todo metal, os quaes toda aquella noite não podiam 
(\ «rmir senão a bocados, e andavam a seus peitos tão 
svairados pensamentos que os não leixavam livres 
um só cuidado, e assim como a nau quando traz 
[uena carga a arvore secca, anda sobre as ondas 
ima parte pêra outra sem ter certo rumo porque 
I , ,a sua viagem, bem assim andavam os pensamentos 
d'aquelles, aluindo sem certo curso. E uma vez se lhe 
apresentava ante a imagem da alma como os mouros 
eram homens que arreceavam pouco a morte, comtanto 
que elles podessem cumprir suas vontades matando 
seus inimigos; outra vez pensavam que se ali falleccs- 
sem, no que elles punham grande duvida, que sepul- 
turas haveriam e como os não veriam seus filhos nem 
seriam acompanhados de parentes no seu enterra- 
mento, quando lhe fizessem sua derradeira honra, 
nem poderiam chorar sobre suas covas os que grande 
sentimento de suas mortes tivessem. 

<()h ! diziam elles entre si, como foram bemaventu- 
rados todos aquelles a que Deus leixou acabar seus 
dias cm seus leitos, os quacs cm tal tempo são acom- 



150 Bibliotheca de Clássicos Portugxiezes 



panhados de suas mulheres e filhos, aconselhados de 
seus abbades com grande proveito de suas consciên- 
cias, e estão fazendo repartição de seus bens segundo 
o movimento de suas vontades. 

<^las nós outros os que aqui morremos não vere- 
mos nenhumas destas cousas, antes jazeremos sem se- 
pulturas, desprezados de todos os vivos, e assim se 
gastarão nossas carnes sem de nós alguém saber parte 
senão depois da derradeira resurreição do juizo. 

«E que proveito nos pôde trazer o ganho dos tra- 
balhos que levamos em nossas mocidades e mancebias, 
senão havemos de ter poder em nossos dinheiros 
pêra os darmos pêra saúde de nossas almas?» 

Por certo mais nobres pensamentos tinham aquelles 
a que a natureza guarnecera da verdadeira fortaleza, 
os quaes consirando em este feito diziam entre si : 

<Bemaventurados somos nós a quem Deus entre 
todos os de Hespanha outorgou primeiramente graça 
de cobrar terra nas partes d'Arrica, e que havemos 
primeiro de despregar nossas bandeiras sobre a for- 
mosura de tamanha cidade. 

<\ á com Deus, diziam elles, por bem empregado 
nosso trabalho em similhante serviço, pois que o nosso 
sangue ha-de ser espargido por remimento de nossos 
peccados. E que perda receberemos os que aqui fizer- 
mos fim de nossos dias? Pois temos certeza que as 
nossas almas que são espirituaes, verão verdadeiros 
prazeres no outro mundo. E os auctores das historias, 
apartados em seus estudos, estarão contemplando na 
bondade de nossas forças, e escreverão nossos feitos 
pêra ensinança de muitos vivos, e voará a fama de 
nossas mortes por todas as partes onde os homens 
conhecerem escripturas, e nossa fortaleza será como 
espelho de todas aquellas gentes que descenderem de 



Chronica d'El-rei D. João I lõl 



nossa linhagem, os quaes sempre viverão em favor 
de nosso merecimento, cá os reis que depois vierem 
a Portugal sempre terão rasão de se lembrar de ta- 
manho feito. 

E pensando assim em estas cousas muito a meude, 
SC levantavam a olhar o movimento das estrellas pêra 
saber camanha parte ficava por passar da noite, cá tar- 
de lhe parecia que chegava a claridade do dia pêra ve- 
rem a hora que tanto desejavam. 



CAPITULO LXVII 

no no dia seguinte os mouros e os christãos cada 
uns trabalhavam em seus feitos. 



Vt^^equena tardança poz o sol em começar seu diur- 
Y nal trabalho, cá esto era uma quarta feira vinte 
j e um do mez d' Agosto, em a qual aquelle impe- 
'^^rial planeta entrava em seis graus do signo que se 
cliama de Virgo, e em aquella hora que Ganimedes co- 
niogou de romper a primeira teia do oriental crepús- 
culo. 

A gente da frota que no começo da noite fora tra- 
liilhada, uns cm corrcginicnto das suas fardagens, ou- 
ti"S aparelhando as guarnições de seus navios, eram 
ainda algum pouco asonorentados, e quando viram a 
claridade do sol que tendia seus raios pelas arcas de 
s»'us navios começaram de se apitar uns aos outros, 
chamando-se por seus nomes, e dcs-ahi meteram suas 
mà(js a revolver as armas, provendo-as de todas as 



Iò2 Bibliotheca de Clássicos Portugiiezes 



partes se tinham algum falecimento, outros andavam 
com os ferramentaes nos braços e com os martellos na» 
mãos pêra pregarem seus arnezes, outros tentavam as 
atacas de seus gibões se tinham aquella fortaleza que 
lhe cumpria, outros se lembravam de seus pecados e 
andavam buscando seus abades, mostrando a Deus o 
grande arrependimento que haviam em seus corações, 
outros provavam suas armas tomando as fachas nas 
mãos e desenvolvendo os braços pêra uma parte e pê- 
ra outra pêra ver se os embargavam em alguma par- 
te, outros tiravam as espadas das bainhas e começa- 
vam-nas a brandir, provando se tinham aquelle fio que 
lhes cumpria. 

<Ah! diziam elles, boa espada que quando Deus 
queria, bem sohieis vós a cortar por cima das folhas 
e das cotas, veremos hoje o que sabeis fazer pela car- 
ne d'estcs perros que não podem suportar nenhuma 
cuberta.:» 

Outros abriam as cerraduras das suas botas cm que 
traziam seus biscoitos, apresentando a seus amigos as 
melhores viandas que tinham. 

«Comamos, diziam elles, cá por ventura este é nos- 
so derradeiro dia, c se nos Deus por sua mercê leixar 
vivos depois d.i victoria, não nos falecerá vianda. > 

Taes havia ahi que já tinham as cores quejandas 
lh'as a morte havia de aparelhar d'ahi a pouco espaço; 
outros andavam tão ledos que já em seus rostos se 
via a similhança da victoria. 

Nem os mouros não estavam tão ociosos que não 
cessavam de rcpairar todas as cousas que sentiam 
que lhe poderia prestar pcra sua defensão, e assim an- 
davam correndo por aquelles muros d'uma parte pêra 
outra, mostrando que nenhum medo tinham em seus 
corações. 



Çhronica d'El-Rei D. João I 153 



Mas outro cuidado era o dos mouros velhos e de 
todos os que sabiam a declaração d'aquelles signaes 
que já dissemos, e uns andavam escondendo seus ha- 
veres, outros estavam descalços em suas mesquitas com 
os corpos tendidos ante as reliquias dos seus prophe- 
tas, pedindo mercê ás divinaes virtudes que trouxes- 
sem aquelle feito a tal fim que a sua cidade não fi- 
casse quebrantada ante a ira d'aquelle rei. 

«Ah ! Deus, diziam ellcs, e pcra que era tal funda- 
mento de cidade, cuja nobreza nas partes d'Africa ti- 
nha coroa, se a formosura de nossas ruas ha-de ser 
tinta de nosso sangue ? E tu santo propheta Mafamede 
que na casa de Deus Padre tens a segunda cadeira, 
porque não abres os olhos de tua divinal magestade 
e esguardas sobre nós que vivemos sob a tua discipli- 
na? e não nos leixes assim trilhar em poder d'estes 
infiéis que com tamanha soberba querem destruir a 
tua lei, e se tu sabias que a tua cidade havia de ser 
casa de christãos, porque o não revelavas a nossos 
padres que a leixassem despovoar ? Mas agora que os 
seus ossos já são desfeitos em cinza d'arredor das tuas 
sagradas mesquitas, cujas paredes elles com seus tra- 
balhos alevantaram, e nós obrigados de as acompa- 
nhar, queres tu agora consentir que nós vamos buscar 
as terras alheias e participar com aquelles em egualeza 
que por razão da nobreza de nossa cidade nos viviam 
em obediência ? 

«Certamente a tua divinal clemência não consentirá 
que vejamos hora de tanta crueza. Se por ventura a 
grandeza de nossos pecados te forçarem de o consen- 
tir, tu ouvirás os nossos gemidos no meio da nossa 
cidade quando recebermos os derradeiros golpes ante 
as aras sagradas das tuas mesquitas, cspargendo nosso 
sangue sobre as sepulturas de nossos padres, e nós 



154 Bihlioiheca de Clássicos Portuguezes 



alli tendidos receberás nossas almas que sahirão de 
nossos corpos, c nossas mulheres e filhos que escapa- 
rem da crueza do triste ferro, carregados de prizões 
passarão nas partes da Ilespanha, onde muitos dos 
nossos parentes já tiveram tamanho senhorio. E alli 
farão os seus netos vida misera\el, pelo falecimento 
da celestial ajuda. E sobre todo a força do captiveiro 
lhes fará renunciar a tua lei, que tu entre todas as ou- 
tras cousas devias mais sentir. Ora vè com que pie- 
dade poderás suportor todas estas cousas, e que pro- 
veito nos veiu a nós de guardarmos a tua lei e se- 
guirmos os teus mandamentos, se na hora de tão es- 
treita necessidade não acorres a este povo mesquinho 
com a tua celestial ajuda?» 



CAPITULO LXVIII 



Como el-rei mandou apparelhar uma gaivota em que 
andou avisando todos os capitães da frota da ma' 
neira que haviam de ter. 



^UANDO el-rei viu que o sol começava de que- 
cer e que a sua gente andava toda em traba- 
lho de se correger, mandou fazer prestes uma 
galeota c mcteu-se n'ella, posto que n'aquclle tempo 
lhe era mais razoado o repouso que o trabalho, por 
quanto em querendo entrar na sua galé, quando esta- 
va da outra parte do Barbaçote, se feriu em uma per- 
na, e por azo do grande trabalho e a ferida não ser 




Chronica d'El-Rei D. João I 155 



pequena, se lhe fez na perna um grande inchaço o qual 
cada dia crescia mais, e pêra dor de similhantes logares 
é a melhor mezinha o repouso que outra nenhuma. 

Empero el-rei não fez outra mostrança, somente es- 
cusou de levar o arnez das pernas, e assim com uma 
cota vestida e com uma barreta na cabeça e a sua es- 
pada na cinta, andou por todos aquelles navios, dan- 
do avizamento a cada um da maneira que havia de 
ter, e assim trazia sua continência alegre que a todos 
iparecia manifesto signal da victoria que esperav^am, e 
Iquando falava com aquelles capitães todos os outros 
df) nario sahiam a bordo pêra ouvir suas palavras, e 
nào menos esforço recebiam de as ouvir, que se cer- 
tamente souberam que Deus lhe enviava um anjo do 
ceu pêra lh'as dizer. 

— Todos, disse elle contra os capitães da sua fro- 
ta, tende tal avizamento que nenhum de vós nào saia 
f\\\ terra senão depois que vir que o infante D. Henri- 
(lue meu filho tem filhada a praia d'aqucla parte d'onde 
tjslá determinado, porém tende todos vossos bateis 
torregidos por tal guisa que com pequena tardança 
' saes ser em aquelle logar onde o infante estiver; 
' hegando á galé do infante D. Henrique começou 
<i' se rir, e perguntou-lhe em que termo estava seu 
' ' rregimento ? 

- N'este que vedes senhor, respondeu elle pare- 

ido todo armado com todos os seus acerca d'elle 

nados e a bordo de sua galé, e assim estão todos 

outros d'esta frota que cá mandastes. 

•Vedes? não vos disse eu, disse cl-rei, que ante 

manha havia de ser meu filho de todo prestes? caem 

tacs tempos como estes logo elle sabe jierder o somno 

toda uma noite sem mostrança de sertir por ello tra- 

iKlIho. 



lÔtí Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



— Ora pois meu filho, disse elle contra o infante, 
com a benção de Deus e com a minha, quando virdes 
tempo já sabeis o que haveis de fazer. 

Tanto que aquelle nobre principe acompanhado de 
todas as virtudes, o infante D. Duarte, viu seu padre 
fora da galé, cá ambos estavam aquelle dia em uma, 
mandou trazer suas armas com intenção de ser dos 
primeiros no commetimcnto d'aquelle feito, c como 
se armasse acertou d'haver uma pequena ferida em 
uma mão. 

— Certamente, senhor, disseram os que ahi esta- 
vam, não seria mau escusardes \'ossa ida á terra por 
este dia, cá o espalhamento d'este sangue é muito 
pêra arrecear, cá são signaes que ás vezes parecem 
por bem, se o homem se quer guardar por seu avi- 
zamento, assim como dizem que fez um cônsul ro- 
mano quando estava pêra pelejar com Anibal junto 
da cidade de Taranto, que por vista d'um similhante 
signal escusou sua partida por aquelle dia, pelo qual 
salvou sua vida e de toda sua hoste. 

O infante ouvindo aquellas razões começou de se i 
rir contra elles, dizendo que sabiam muito mal co- ^. 
nhecer a verdadeira intenção d'aquelle signal. 

— Pois que quer isto ai dizer, disse elle, senão que 
assim como em esta minha mão primeiro apareceu 
sangue, assim espargirei eu hoje com ella com a graç.^ 
de Deus, tanto sangue dos corpos dos infiéis, até qu» 
por força de meu braço os veja sahir ante mim fór. 
da sua cidade. 

E' certo que o esforço do dito principe era grande, 
c posto que elle aquellas cousas dissesse em jogo, 
certo foi que a sua espada aquelle dia foi muitas ve- 
zes banhada em sangue, cá aquelle que elle acertava 
ante si com o primeiro golpe, não havia mister o se- 



Chronica d'El-Rei D. João I 167 



gundo, e taes dava que logo com elles lhe dava a der- 
radeira hora. 

Todos os seus que alli estavam sentiam aquelle 
grande prazer que elle tinha, e emquanto lhe vestiam 
as armas departiam, estando em muitas cousas de 
seus desenfadamentos, falando n'aquello que os ho- 
mens mancebos mais trazem acerca de suas vontades, 
a saber, bemquerença de suas amigas. 

— E vós, senhor, disse Fernão Affonso de Carvalho, 
que era page do infante, haveis hoje de fazer alguma 
cousa de aventagem por amor de vossa dama? 

— Se m'a tu lembrasses, respondeu o infante, em 
tempo que eu tivesse logar de fazer pelo seu amor tão 
assignada cousa porque podesse cobrar sua graça, fa- 
rias boa cousa ! 

Bem mostrou o infante, diz o autor, por aquellas ra- 
zões, que era pouco de damas, cá se o elle fora verda- 
deiramente, não houvera mister outra lembrança se- 
-não aquelle mortal tormento que os bem amantes por 
força de razão trazem esculpido em seus peitos. 



HM DO SEGUNDO VOLUME 



insriDEJx: 



Capitulo XXXI — Como aquelles embaixadores vieram 
a Portugal e como deram a embaixada a el-rei, e da 
resposta que houveram, e como D:a Sanches de Be- 
navides morreu, e o bispo se tornou 

Capitulo XXXII — Como el-rei de Aragão enviou seus 
embaixadores a cl-rei, e da resposta que levaram, 
e como n'este tempo vieram alguns estrangeiros of- 
ferecer-se a el-rei, e da maneira que com elles teve 

Capitulo XXXIII — Como os embaixadores d'el-rei 
de Grada vieram a el-rei, e do que lhe requereram, 
e como traziam recado del-rei ao infante D. Duarte 
e á rainha, e do que lhe prometeram 

Capitulo XXXIV — Como o infante D. Henrique veio 
depois de janeiro fallar a el-rei seu padre, e corno 
se tornou pêra o Porto, e da maneira que teve na 
sua armação . . 

Capitulo XXXV — Como el-rei escreveu ao infante D. 
Henrique que partisse com sua frota, e como o in- 
fante partiu, e da ordenança que levava 

Capitulo XXXVI — Como Afíonso Annes chegou aos 
infantes com as novas da doença da rainha, e como 
por aíjuellc azo aquclle grande prazer em que es- 
tavam, foi tornado em tristeza 

Capitulo XXXVII — Como cl-rei disse á rainha deter- 
minadamente sua tenção, e da resposta que lhe a 
rainha deu, e como por azo dalguns, que ali adoece- 
ram de peste, el-rei se partiu pêra o mosteiro d'Odi- 
vellas, e como a rainha ficou pêra acabar suas de- 
voções e como em aquelle dia adoeceu 

Capitulo XXXVIII — Como o infante I). Henrique e o 
conde D. Afionso chegaram a Odivellas, e como a 
dôr se acrescentou á rainha 

Capituio XXXIX — Como a rainha havia verdadeiro 
conhecimento de sua morte, e das obras que acerca 
d'elIo fazia, e como deu o Lenho da cruz a seus filhos 

Capitulo XL — Como a rainha deu as espadas aos in- 
fantes, e das razões que disse a cada um, quando 
lhe deu a sua espada 

Capitulo XLI - Como a rainha tornou a falar ao in- 
fante I). Duarte c lhe encomendou os infantes seus 
irmãos c Brites Gonçalves de Moura e Mécia Vaz 
sua filha, e assim todas as outras suas cousas 

Capitulo XLII — Como o infante D. Pedro requereu á 



INDEX II 



rainha que fosse sua mercê leixar as suas terras á 
infanta sua irmã, e como lhe foram outorgadas. ... 58 

iCapitulo XLIII — Como os infantes pediram a el-rei 
que se partisse d'alii, e do conselho que acerca 
d'ello tiveram, e das visões que a rainha viu antes 
de sua morte 62 

Capitulo XLIV — Como a rainha foi com.ungada e 
ungida, e como fez fim de seus dias, e como o au- 
ctor diz que em ella havia cumpridamente as quatro 
virtudes cardeaes 68 

Capitulo XLV — Como o auctor faz divisão das virtu- 
des, e como se os infantes partiram d'aquelle mos- 
teiro pêra Restello 72 

Capitulo XLVI — Como os infantes tiveram seu conse- 
lho acerca dos feitos primeiros, e como foram falar 
a el-rei e tornaram outra vez a ter conselho a 
aquella aldeia 77 

Capitulo XLVII — Como os infantes e três dos outros 
do conselho tornaram a falar a el-rei em a deter- 
ninação de seus acordos, e das razões que el-rei 
acerca d'eIlo disse, e como finalmente determinou 
a partida 81 

Capitulo XLVIII — Como os infantes se tornaram a 
Restello, e do aviamento que deram a todas as 
cousas que pertenciam a sua viagem 85 

Capitulo XLIX — Como el-rei partiu d'Alhos Vedros 
na galé do conde de Barcellos, e se veiu lançar em 
Restello, e como no dia seguinte se foi com sua 
frota ancorar a Santa Catharina 90 

Capitulo L — Como el-rei em a(juelle dia que partiu 
fez sua oração mui devotadamente, e das cousas 
que em ella [lediu 93 

Capitulo LI — Como o mestre frei João Xira pregou 

deante de todo o povo, e das razões cjue disse. ... 96 

Capitulo LII — Como o mestre imblicou a cruzada, e 
como por sua auctoridade absolveu a todos de 
culpa c |)ena 102 

Capitulo LIII — Como cl-rei partiu de Lagos e se foi 
a Paro, e como d'alli seguiu seu caminho até (jue 
chegou com toda sua frota ante as Algcziras 108 

Capitulo LIV — Como a frota chegou toda ante as Al- 
gcziras c como alli veiu Pedro Kernandes Portocar- 
reiro e os mouros de Gibraltar trazer serviço a cl-rei 1 10 



/// INDEX 



Capitulo LV — Como el-rei teve conselho se levaria logo 
sua frota sobre a cidade, e como alli Pedro Fernan- 
des mandou enforcar um almo^avere de Grada. . . 113 

Capitulo LVI — Como cl-rei mandou passar as jjalés 
da outra parte de Harhaçotc, e do conselho que 
alli teve 116 

Capitulo LVII — Como o auctor fala nas grandes di- 
visões que havia nos mouros da cidade, e das cousas 
que aconteceram o outro anno passado 119 

Capitulo LVIII — Como a frota por azo da tormenta 
tornou outra vez ás Algeziras, e como ao dobrar do 
cabo de Almina as gales foram em grande perigo.. 123 

Capitulo LIX — Da maneira que os mouros tiveram 
depois que a frota partiu, e como se em cllo pôde 
consirar que Deus só foi o que trouxe o fim da vi- 
ctoria I 

Capitulo LX — Da visão que Fernão d'Alvarcs Cabral 
viu acerca do acontecimento do infante, e das ra- 
zões que acerca d'ello diziam 1 28 

Capitulo LXI — Como cl-rci teve seu conselho se tor- 
naria outra vez sobre a cidade de Ceuta, e das ra- 
zões que se no dito conselho passaram 133 

Capitulo LXII — Como os outros do conselho disseram 
a terceira razão, e como por el-rei foi determinado 
á ponta do Carneiro, que queria ir sobre a cidade 
de Ceuta ... 1 36 

Capitulo LXIII — Como cl-rei ainda teve conselho 
acerca do filhar da terra onde seria, e das razões 
que disse ao infante D. llcnricfue 140 

Capitulo LXIV — Como a frota partiu pêra ir sobre a 
cidade de Ceuta, e das razões que os escudeiros do 
infante D. I Icnrique houveram com elle 143 

Capitulo LXV — Como o infante D. Henrique respon- 
deu a aquelles escudeiros e a frota chegou d'avante 
da cidade . 1 46 

Capitulo LXVI — Como os da frota traziam por essa 
mesma guisa lume por seus navios, e das tenções 
que entre si liaviam 148 

Capitulo LXVII — Como no dia seguinte os mouros c 

os chrislãos cada uns trabalhavam em seus feitos.. 151 

Capitulo LXVIII — Como el-rci mandou apparelhar 
uma galcota cm que andou avizando todos os ca- 
pitães da frota da maneira que haviam de ter 154 



BIBLIOTHECA 

DE 

CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



Director litterario 

Conselheiro LUCIANO CORDEIRO 



Proprietário e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



A LIBERAL— Officina Typographica 
Rua de S. Paulo, 216 

1899 



BlBLIOTHECA DE ClASSICOS PoRTUGUEZES 



DlEECTOR LiTTEBARIO — CONSELHEIRO LUCIANO COKPEIRO 

Proprietário e fundador — INIello d'Azevedo 



CHRONICA 

DE 

EL-REI D. JOÃO I 



POR 



Go7nes Rannes cT Azurara 



■VOL. III 



ESCRIPTORIO 

147 — Rua dos Retrozbiros — 14; 

LlStiOA 

1900 




CAPITULO LXIX 



Como Salabençala estava mui anojado vendo como a de- 
terminação d^el-rei de todo era filJiar terra ante os 
mnros da sua cidade. 



VTLr AZÃo é que digamos algum pouco da maneira 
I \ que tinha Salabençala depois que viu de todo 
f^ a determinação d'el-rei ; o qual deveis de sa- 
ber que era um homem já de edade e de linhagem 
dos Marins, a qual entre todas as gerações que ha em 
Africa é havida por melhor, e pêra elle acrescentar 
mais cm sua nobreza, era senhor d'aquella cidade e 
d'outros muitos e bons logarcs da costa d'aquclle mar, 
e bem deveis de entender qual seria o seu pensamento 
quando visse a novidade de tal visinhança, qual lhe 
chegava ante as portas da sua cidade. 

I^^ porque quanto os homens são mais sezudos tanto 
acham mais duvidas nas cousas grandes e perigosas c 
porem consirava Salabençala como el-rci D. João era 
um príncipe de tão grande fortaleza, posto qne elle 
viesse além do mar, não eram os feitos d'el-rei tão 
pequenos nem elle tão pouco avizado que não soubesse 



BihUotheca de Clássicos Portuguezes 

mui bem parte de todo, consirava como com tão pouca 
gente nílo negara a batalha a el-rei de Castella, vendo-o 
acerca de si com tào grande poder, e o vencera e des- 
baratííra, e como depois por suas gentes houvera com 
os naturaes d*a(iuelle reino tão grandes contendas co- 
mo todos sabiam, das quaes sempre ficara vencedor, e 
que comcç.lra assim aquelle feito com tão grande sa- 
geza que nunca poderá ser revelado senão quando a 
friíta parecera deante dos muros da sua cidade, onde 
elle o via acompanhado de quatro filhos barões, no- 
bres e de grande ardimcnto, com tão grande poder de 
gentes e com tamanha frota. 

«Pois, dizia elle entre si mesmo, quando posso eu 
ser soccorrido e repairado pêra resistir a tamanha for- 
ça. l'J-rei de manhã me começard a combater e eu não 
tenho ainda quatro pedras no muro a respeito das que 
hei mister pêra a redondeza de tamanho cerco ; quan- 
do o farei eu j.1 saber a el-rei de Fez? ou quando teríí 
tempo pêra mandar avisar suas gentes e espaço pêra 
se correger que primeiro os muros de Ceuta não se- 
jam desfeitos pedaço a pedaço? c n'estes pensamentos 
estava mui duvidoso de nenhum bom aquecimento. 
Ah ! Deus, dizia elle, que peccado foi o meu tão gran- 
de que me trouxe a tanta m.i ventura acerca de mi- 
nha \'elhice? e estando assim n'este cuidado, chegou 
a elle grande companliia (Taquelles mouros mancebos 
que se ajuntaram pêra defender a cidade, e porquanto 
o acharam assim pensati\o, começaram de o reprc- 
hender di/endo que era escarneo pêra similhante pes- 
soa mostrar-se de tão pouco esforço sem perigo ra- 
zoando. 

«Que ha ahi, tliziam elles, mais que virem os chris- 
tãos sobre nrts? os quaes cm numero não são tantos 
que n.'.s mui bem não possam.. s pelejar com elles? e 



Chronica â/El-Rei D. João 1 



que sabemos nós se pela ventura a sua vinda é assim 
de nossa maior honra e acrescentamento de nosso pro- 
veito? cá pôde ser que esta formozura de frota que 
elles ajuntaram pêra vos cercar, ficará ainda nas nos- 
sas taracenas e as suas baixelas d'ouro e de prata fi- 
carão pêra casamento de nossos filhos, e os corregi- 
nicntos de suas capellas poremos em nossas mesquitas 
em testemunho de nossa victoria. 

— Ora, disseram elles, a sua frota está repartida em 
duas partes, e cremos que siia tenção é de filharem 
terra hoje, o que se assim fôr iremos a elles á praia e 
antes que saiam dos bateis, faremos n'elles mui gran- 
de matança, cá os mais e melhores vem todos cober- 
tos de ferro, por cuja razão o seu movimento não pode 
ser sem grande força e trabalho, e nós desenvoltos e 
ligeiros chegaremos a elles quando quizermos, e tanto 
que os uma vez tivermos cm terra, tarde ou por gran- 
de ventura se poderão depois alevantar. \\ que gcito 
poderão ter pêra se erguer aquelles que são pouco 
menos de pezados, que grandes penedos? e em tanto 
uns de nós empacharem os que quizercm sahir nos ba- 
teis, os outros terão em tanto cuidado de buscar lo- 
gar e maneira pêra haverem as sarraduras d'aquelle 
ferro, por onde tirem as vidas áquellcs (jue primeiro 
Bahirem em terra. 

— Não sei, respondeu Salabençala, se tereis essas 
ousas assim azadas pêra acabar como arrezoacs ? pra- 
za a Deus cjue não acheis sobre ello outro cmpaciío, 
porém hivos com boa ventura e ordenae vossos feitos 

melhor r|ue [)oderdcs, e de cjuakjucr cousa (jue se lá 
passar tende cuidado de m'o fazer a saber a mcudc. 
Mas o c|ue depois se seguiu diz o auctor (|u<; falará 
.deantc, declarando a maneira (|uc S;ilal)inçala acerca 
cl'ello teve. 



Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO LXX 



Como Mar tini Paes, cape Hão mòr do infaute D. Henri- 
que, falou algumas razões em presença de todos. 

vl^OMMA de grande processo se faria em nossa his- 

1 U) toria se quizessemos seguir todas as cousas sc- 
^/^"^ gundo as achamos por informações d'aquelles 
que verdadeiramente sabem, empero segundo attençào 
dos modernos abreviamos todo aquello que com razão 
podemos, cá ainda ficavam por dizer muitas cousas que 
os mouros passavam entre si emquanto a gente da 
frota não filhava terra. 

E estando assim o infante D. Henrique com a pran- 
cha prestes e todos os seus armados pêra sair quando 
vissem o signal, Martim Paes que era seu capcllão 
mor, tomou o corpo do Senhor nas mãos e pouzou-se 
deante de todos, e começou de os esforçar cm esta 
guisa: 

«Irmãos e amigos, eu acho, disse elle, que nunca 
homem pode direitamente fazer alguma cousa senão 
sabe o fim porque o faz, e vós outros que aqui sois 
ajuntados por ventura não sabeis direitamente porque 
aqui viestes; agora sabei que sois aqui vindos por ser- 
viço de Nosso Senhor Jesus Christo, o qual vos aqui 
apresento, por cujo amor c serviço el-rei nosso senhor 
se moveu a começar esta demanda. 

«Este c aqucUe primeiramente cjur de nrnluimacoi* 
sa formou o mundo e creou em elle todas as cousas 



Chronica d'El-Rei D. João I 



somente por seu querer, e sobre todo formou o ho- 
mem que é da mais nobre e melhor natureza que ou- 
tra alguma creatura terreal, tendo-lhes aparelhado ca- 
sa perdurável pouco mais baixa que a dos anjos, se- 
gundo diz o Propheta, e como quer que os homens se 
desviassem do verdadeiro caminho, Nosso Senhor quiz 
vir a este mundo tomar carne humana e viver em elle 
até soífrer morte por remir o nosso pecado. 

«Leixo de vos dizer, disse elle, como depois de sua 
santa paixão aquelle ensujentado e abominável e cis- 
mático Mafamede tomou nome falso de propheta, e 
sob color de virtude e honestidade semeou pelo mun- 
do esta sua damnada seita, a qual assim como as más 
hervas crescem muito mais que as proveitosas e boas, 
bem assim esta má semente dos infiéis cresceu tanto 
na horta do Senhor, que senão fosse arrancada pelos 
fieis e catholicos príncipes, em breve tempo cresceria 
tanto que amorteficaria toda a boa semente. 

E porque nosso senhor el-rei é um d'aquelles 
obreiros que o Senhor convida no Evangelho, ajuntou 
aqui este seu povo pêra fazer seu santo serviço, o 
qual hoje com sua graça e ajuda o espera de poer em 
obra. 

«Ora, disse elle, porque saibaes que todos os 
bons servidores que verdadeiramente desejam traba- 
lhar em alguma cousa com grande cuidado, buscam 
todas as maneiras por onde melhor possam achar 
sua fnn, e porque o nosso verdadeiro remédio é a 
nossa consciência a qual devemos de alimpar e pur- 
gar de todas as maguas que em ella sentirmos, e por- 
que sem a graça de Nosso Senhor Deus o não pode- 
mos percalçar, vol-o apresento aqui, no (jual contem- 
plando vos possaes dorosamente doer e arrepender 
de vossos peccados, cá escripto é nas historias da Hi- 



10 Bihliothtca de Clássicos Poriuguezes 



blia onde diz que falou Ahior, príncipe dos filhos de 
Amon ao gran capitão Olofernes, quando tinha cer- 
cado aos judeus a cidade de Betulia. declarando como 
o Senhor maravilhosamente sabia deíTendcr todos os 
seus quando elles guardavam perfeitamente seus man- 
damentos, 

«Sabe, Senhor, que nunca houve quem podesse 
contradizer a csle povo, salvo quando se apartou da 
honra de seu Deus, cá logo foi dado em preá c roubo 
a seus inimigos, e como outrosim fizeram penitencia e 
se arrependeram de seus peccados, logo a \'irtude do 
ceu foi com elles pêra resistir a todos seus inimigos. 

«As quaes cousas são cscriptas no quinto capitulo 
do livro de Judith, pelo qual entendemos que duas 
Cíiusas somente nos ficam pêra fazer com toda dili- 
gencia a saber, cobiçar a perfeição da victoria contra 
os inimigos da fé, e a segunda humildar nossas almas ao 
Senhor, tornando-nos a elle de todo coração, fazendo 
penitencia de nossos erros passados e pedindo-lhe que 
por sua santa piedade nos queira ajudar, dizendo-lhc 
aquello que no \ igessimo capitulo do Paralipomenon 
é escripto, onde diz: 

«Porque, Senhor, não sabemos que maisdevamosncm 
possamos fazer, esto somente nos fica, a saber que en- 
derecemos nossos olhos a ti, pois não ha ahi cousa 
porc]ue devamos ser alheios d'este negocio. 

<ílí porque o dia de hoje seremos ajuntados com a 
graça de Deus sobre este feito, e assim todos os do 
povo de Portugal, deveis-vos de esforçar e ajudar uns 
aos outros com todo coração c vontade, cá este c o 
próprio officio da natural justiça, segundo é escripto 
no primeiro livro dos Officios, onde 'lullio allcga um 
dito de Platão, dizendo ser mui altamente escripto por 
este philosopho, a saber, (|ue não somente nascemos 



Chronica d'El-Iíei D. João I H 



pêra nós mesmos, cá parte de nosso nascimento re- 
quer o serviço de nossa terra e parte os amigos que 
de nos alguma cousa hão mister, c segundo oraz aos 
estóicos as cousas que são em terra geradas, prin- 
cipalmente são pêra uso dos homens, e os homens 
outrosim são gerados por causa e proveito dos homens 
porque elles entre si mesmo aproveitem uns aos outros, 
no qual seguimos a natureza commum, e esto vemos 
em brutas alimárias, as quaes naturalmente se amam 
umas ás outras, segundo diz o Sabedor aos treze ca- 
pítulos do Eclesiástico, poendo a similhavel lei do 
amor em os homens, dizendo: 

«Toda alimária ama a outra a si similhante, e 
todo homem deve isso mesmo amar a seu próximo 
segundo se mostra nos instrumentos da musica, nos 
quaes todas as vozes concorrem a uma consoante e 
correspondem e dão perfeição umas ás outras, e assim 
diz I ohcrato que deve ser na communidade dos ho- 
mens, os quaes se devem ajudar pêra soccorrer uns 
aos outros. 

«E esto mesmo parece na supernal natura em a 
communidade dos anjos, a cuja similhança devem cm 
a egreja militante serem ordenados os homens, os 
quaes todos são em um amor e concórdia despostos 
e partidos, segundo diversas hierarchias c ordens, e se 
correspondem uns aos outros pêra gloria de Deus 
cada um segundo suas excellencias e perfeições, e to- 
dos concorreram prestesmentc e de um coração pêra 
destruir c derribar aciuelles que se quizeram alevan- 
tar contra sua santa cidade celestial, c egualar-se ao 
8CU Deus Lúcifer c os seus maus anjos, segundo que 
no duodécimo capitulo do Apocalipse é cscripto que 
i5. Miguei e os seus anjos pelejaram contra elles até 
08 derribar do ceu ; devctis ainda cobrar verdadeira 



VJ Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 

"—-——^—^'---^'^ ^...^^.^ 

fortaleza poendo ante vossos olhos como pelejaes por 
amor de Nosso Senhor Deus que é a verdade, consi- 
rando que assim como vos clle ajudou contra vossos 
inimigos christãos que eram muito mais que vós ou- 
tros, assim vos ajudará contra estes que são nossos 
inimigos e de Christo, nem de\'cis recear o cspargi- 
mcnto de vosso sangue sobre similhante conquista, cá 
escripto é que na edificação do templo de Jerusalém 
todas as pedras iam primeiramente picadas e lavradas 
com martelos, porque mansamente fossem postas na 
obra que havia de durar. 

«Por este exemplo tem os douctores que aqucllas 
que se hão de poer no fundamento e alicerce d'aquelle 
muro do templo celestial, que é dito Jerusalém, hão 
de ser primeiro n'este mundo picaçados com o ferro 
porque o seu assentamento ha-dc ser em aquclle logar 
pcra todo sempre, e também como vos o Santo Padre 
vos outorga os \'erdadciros perdões que é salvação 
das almas por sua santa letra, da qual assas vos foi 
falado por o mestre Frei João Xira, quando estives- 
tes em Lagos, e os que ainda em si sentirem alguma 
cousa porque suas consciências sejam aggravadas, che- 
guem-se a seus abbades c mostrem d'ellas arrependi- 
mento, e des ahi vindo todos aqui, dar-lhe-hei paz por 
tal que elle vol-a dè pêra todo sempre no seu reino. > 1 

I^ntonce se levantou o infante d'onde estawi em i 
giolhos, e fazendo sua oração ante o corpo do Senhor, T " 
beijar o pé d'uma Custodia mui rica em que elle sem 
pre estava depois que partiram de Portugal, e pi 
esta mesma guisa fizeram todos os outros, e depc 
d'esto disse Martim Paes que fincassem todos c 
giolhos em terra e fizessem a confissão, em fim da (jual i^ 
os absolveu de culpa e pena, segundo poder da santa j. 
cruzada. 



Chronica d'El-Rei D. João I 13 



«Agora, disse elle, irmãos e amigos tendes sobre 
vós as armas da fortaleza, e d'aqui em diante pelejae 
sem algum temor, cá o nosso Deus estará aqui em 
presença de todos até fim de vossos trabalhos sem 
nenhum temor dos inimigos pêra vos dar o seu ver^ 
dadeiro esforço; e depois que o infante foi fora sem- 
pre Martim Paes acompanhado de muitos capellães 
alli esteve com o Corpo do Senhor, resando muitos 
psalmos e orações de grande virtude até fim de todo 
o feito, e como quer que muitos virotes e pedras fos- 
sem lançadas de fora contra a galé, prouve a Elle de 
nunca empecer em aquelle logar onde estava, nem em 
nenhum d'aquelles clérigos que ante Elle resava. 



CAPITULO LXXI 



Como o batel de jfoão Fogaça foi o primeiro que sahiii 
fora, e como Ruy Gonçalves filhoxi primeiro terra e 
des ahi todos os outros. 

tí \ Godas aquellas palavras que assim razoou Martim 
I Paes fizeram grande fortaleza e acrescentamento 
da fé em quantos estavam n'aquella galé, mas 
porque em todos os outros navios não se fazia simi- 
Ihante aucto e o sol começava já aquecer, annojavam-se 
os homens porque tardava tanto o signa! que lhes ha- 
via de ser ieito pcra sahir em terra, des ahi os mou- 
ros andavam já pela ribeira fazendo suas maneiras 
pelas quaes punham grande alvoroço em as gentes 



14 Bibliotheca de Clássicos Portuguczes 



que estavam nos navios, e cada um desejava de sahir 
senão tivera receio da defeza d'el-rei. 

Empero João Fogaça que era vedor do conde <' 
Barcellos não pôde supportar tanta tardança e m.T 
dou endereçar seu batel direito íí praia, e o primeiíi 
homem que saltou em terra foi Ruy Gonçalves, com 
mendador que depois foi de Canha, e vedor da in- 
fanta, mulher do infante D. João, mas não o achara n 
os mouros tão ligeiro de derribar como elles ant^-^ 
diziam a Salabençala, cá tanto que elle saltou entre 
elles em terra começou de os ferir tão rijamente qr. 
os fez affastar d'aquelle logar onde os bateis havi.i 
de sahir, e o infante D. Henrique porque tinha a su._ 
prancha algum tanto affastada da terra, lançou-s( 
dentro em um batel que passava por ahi e mettei 
comsigo Estevam Soares de Mello e Mem Rodrigues 
de Refoios que era seu alferes, c mandou as trombe 
tas que fizessem rijamente signal pêra sahircm todos o; 
outros em terra, e tanto que o infante foi na praií 
começou a gentç a recrescer, e Ruy Gonçalves 
que sahira primeiro, andava já diante entre os mouros 
e um gentil homem allemão em sua companhia, oí 
quaes Serrilharam um grande mouro que entre todo; 
os outros mostrava maior fortaleza. 

Mas é agora de saber como o infante D. Duarti 
como valente cavalleiro, sahiu da sua galé emquant< 
seu padre anda\'a provendo a outra frota, e foi-s« 
pêra aquclle porto onde o infante I.). I lenrique filhar: 
terra, e Martim Affonso de Mello e Vasques Anm 
Corte Real eram acerca d'elle quando saltou na praia 
e assim fizeram outros muitos se o elle quizera consen- 
tir, mas com receio de seu padre leixava de o fazer 
e n'esto seriam os christàos já fora n'aquclla praií 
desembarcados até cento c cincoenta, e assim começa- 



Chronica d'El-Rei D. João I 15 



ram mui rijamente de se metter com os mouros, má- 
goando-os a meude com suas armas, até que por 
força os fizeram metter pela porta da Almina, e o 
primeiro homem que foi dentro com elles foi Vasques 
Annes Corte Real, e des ahi o infante D. Duarte e os 
outros após elle, indo também pelejando com os 
mouros. 

E entonces o infante D. Henrique conheceu seu ir- 
mão, cá posto que o infante D. Duarte havia pedaço 
que andava entre os mouros, não entendaes que os 
homens em similhantes logares quanto mais sendo 
armados se podem tão azinha conhecer, empero quando 
o infante assim conheceu seu irmão fez-lhe mui grande 
mezura, dizendo que dava muitas graças ao Senhor 
' Deus por lhe dar tão boa companhia. 

— E a vós senhor, disse elle, tenho muito em mercê 
a boa vontade que tivestes e tendes pêra nos vir 
ajudar. 

Não era aquelle o logar segundo o tempo em que 
se muitas palavras houvessem de ser prolongadas, 
porque as lanças e pedras não estavam em vão.^e em 
esto foram levando os mouros contra a porta da ci- 
dade, ferindo e matando em elles sem nenhuma pie- 
dade, cá eram já com os infantes melhoria de trezen- 
tos homens, e ordenaram alli sua batalha com intenção 
de esperarem el-rei segundo lhe fora mandado. 

—Não me parece que c bem, disse o infante D. 
Duarte, que façamos agora alguma detença, porque 
estes mouros sâo aqui acerca de nós e se os levar- 
mos assim poderá ser que quando elles entrarem que 
entremos de volta com elles ou ao menos forçal-os- 
hemos tanto que não possam fechar as portas e en- 
tretanto acudirá a nossa gente e entraremos a seu 
despeito; e o infante D. Henrique disse que lhe pare- 



16 Dihliotheca de Clássicos Poriuguezes 



cia mui bem, e cm esto começaram de seguir os 
mouros em tanto que os fizeram tirar entre as cister- 
nas e um chafariz que ahi estava em que se coava 
agua quando vinha de cima dos outeiros, e en- 
tre aquelies mouros andava um mouro grande e crespo 
todo nu, que não trazia outras armas senão pedras, 
mas aquellas que elle lançava da mão parecia que 
sahiam d'um trom ou colobreta, tanto eram forçosa- 
mente enviadas, e quando os mouros assim foram em- 
puxados como já dissemos, aquelle mouro virou o 
rosto contra os christãos e dobrou o corpo e foi dar 
uma tão grande pedrada a \'^asco Martins de Alber- 
garia sobre o bacinete que lhe lançou a cara fora. 

A vista d'este mouro não era pouco espantosa, cá 
elle havia todo o corpo negro assim como um corvo, 
e os dentes mui grandes e alvos e os beiços mui 
grossos e revoltos, mas a Vasco Martins não esqueceu 
de lhe pagar seu trabalho, cá posto que aquella pe- 
drada fosse mui grande e em similhante logar, 
Vasco Martins não perdeu o tento, mas ainda o 
mouro não havia vagar de se virar da outra parte, 
quando elle adiantou seus pés e correu a lança com 
as mãos e passou-ocom ella de parte a parte, c tanto 
que aquelle mouro foi morto, logo todos os outros 
viraram as costas e acolheram-seá cidade, e os chris- 
tãos de volta com elles, e sobre a entrada d'esta porta 
houve ahi muitas divisões, especialmente entre aquel- 
ies que se acertaram ser ahi acerca, os quacs com de- 
sejo de cobrarem nome de honra apropriaram assim 
o grau d'aquella entrada, e ainda o peor que foi que 
muitos que estavam ainda nos navios disseram em al- 
gumas partes que aquella honra fora sua, emper('> a 
verdade é que Vasco Martins d'Albergaria foi aquelle 
que entrou primeiro pelas portas da cidade, e dizem 



Chronica d'El-Re{ D. João I 17 



ainda que em chegando á porta deu um grande apupo 
e brandindo a lança disse: 

«Já vae o de Albergaria»; e assim como elle foi o 
primeiro que entrou a cidade assim fez depois muito 
avantajadas cousas por sua mão como nobre cavalleiro 
que era, e a primeira bandeira real que entrou na ci- 
dade foi a do infante D. Henrique, e certamente que 
aquella bandeira devera ser bem conhecida entre toda 
a nobreza e geração d'aquelles Marijs, e muitas vezes 
foi depois despregada entre grandes ajuntamentos 
d'elles onde foi feita grande mortandade entre os 
mesmos mouros, segundo adeante em muitas partes 
de nossa historia entendemos de contar, nem havia ahi 
outra bandeira nem estandarte senão uma bandeira de 
Martim Affonso de Mello e um estandarte de Gil V^az, 
e quando os infantes entraram, entraram com elles 
obra de quinhentos homens d'armas. 



CAPITULO LXXII 



Como as novas cJiegaram a Salabençala de como os 
ckristãos eram dentro na cidade. 



\^'y KNHAMOS agora dizer a maneira que os mouros ti- 
^C \eram em lc\ar aquellas novas a Salabençala, 
e acjui faremcs fim de todas as cousas que a elle 
pertencem. 

Onde haveis de saber ([iie depois (|ue aquclles mou- 
ros disseram a Salabençala cpie ijueriain ir empachar 



18 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



a vinda dos christàos á ribeira, elle mandou ordenar 
seus mouros por tal guisa que muito a miude lhe 
trouxessem as novas de qualquer cousa que se pas- 
sasse para seu avisamento, e os primeiros que chega- 
ram a elle foram aquelles que lhe contaram como os 
christàos tinham já a praia filhada e como mataram 
um d'elles e feriram outros muitos. 

— E agora, disse Salabençala, em que ponto são? 
— São já acerca de Almina, disse o mouro; estando 
alli em estas rasões chegaram outros mouros e disse- 
ram como Ahninaera fiihada e não somente disseram 
aquelles. 

— Estão os christàos em este ponto mas trazem os 
nossos ante si como ovelhas caminho da porta da ci- 
dade. Parece, Salabençala, que os não acham tão 
ligeiros de vencer como eiles entendiam. 

— E foram muito enganados, respondeu o mouro, 
acerca d'aquelle ferro que os christàos trazem sobre 
si, cá pensavam que se não podessem com elle abalar, 
o que é muito pelo. contrario porque não menos sal- 
tam c correm como se andassem cobertos de papel. 

— Ora, disse Salabençala, ide e dae avisamento a 
todos que sarrem mui bem as portas da cidade e fa- 
çam muito pelas deffender de cima do muro quanto 
poderem. 

E estando assim pcra enviar aquelles, chegaram 
outros depenando suas barbas e fazendo grande dó. 

— Já, disseram elles, nem presta nenhum avisamento 
acerca d'ello que os christàos já são dentro na cidade 
e sobrevem outros muitos mais e matam os nossos 
como se fossem cães. 

IC assim como vieram estes sobrevieram outros 
muitos mais que contaram aquelias mesmas novas e 
outras muito peores, cá lhe disseram como os chris- 



Chronica d'El-Eei D. João I 19 



tãos se espalhavam já pelas ruas e faziam nos mouros 
mui grande mortandade. 

Salabençala virou o rosto pêra outra parte pêra es- 
conder a força das lagrimas que lhe corriam dos olhos, 
e tornando contra elles lhes disse: 

— Pois que a minha má \'entura e a vossa assim or- 
dena que hajamos de perder nossa honra e nossas ca- 
sas e fazendas, trabalhae por salvar vossas vidas o 
melhor que poderdes, yjorque das riquezas já me pa- 
rece que mal vos podeis aproveitar, e pois que na 
cidade pozcstes tão máu remédio, eu não sinto como 
se deffenda o castello. 

Os infantes e o conde de BarceJlos e os que eram 
com elles, depois que foram dentro na cidade filha- 
ram logo uma pequena altura que alli está, por conse- 
lho do infante D. Duarte, e esto era um outeiro que 
se alli fizera com as esterqueiras das casas que se alli 
por grandes tempos costumavam lançar, e alli esti- 
veram um pouco esperando que recrescesse mais gente 
que ainda não era com elles, mais d'aquelles quinhen- 
tos que dissemos, e porque a cidade é muito grande 
e era necessário que se espalhassem aquelles por ella 
e poderia ser que não acudiriam outros tão azinha 
pêra poderem empachar os mouros que não cerrassem 
as portas, correriam mui grande perigo de se perde- 
rem todos, mas a tardança não foi muita, porque a 
gente da frota não punha \'agar em sua sahida e em 
breve tempo se ajuntaram alli outros muitos, e Vasco 
Fernandes de y\thaide não se teve por contente de 
entrar por aquella porta por onde os infantes entra- 
ram, mas apartou-se com alguns seus e assim com ou- 
tros alguns de pé de Gonçalo Vaz Coutinho seu tio, e 
foi-seao longo do muro da parte de fora, a outr.i porta 
<jue estava acima d'aquclla, e começou de a britar. 



20 Bibliotheca de Clássicos Portugitezes 



Em esto chegaram outros alguns que vinham de 
fora e á força de machados e de fogo foram aquellas 
portas de todo britadas, mas esto não foi ligeiramente 
acabado, cá primeiro morreram alli sete ou oito ho- 
mens que não eram tão bem armados, cã os mouros 
eram ainda muitos sobre os muros e recresciam pêra 
alli cada vez muitos mais, porque pensavam delíender 
a entrada aos christãos á força de pedras e de armas 
que lançavam do muro, empero esto era grande engano 
que ellos tinham, cá posto que as suas portas estive- 
ram fechadas, abastante era a fortaleza dos christãos 
pêra as abrirem, assim como fez Vasco Fernandes 
áquella, empero elle foi ferido, por cuja rasâo lhe con- 
veio estar alli até que foi entrada. 

Grande má ventura, diz o auctor, que foi a de 
aquelle dia pela morte de tão bom homem, cá por 
certo elle era um fidalgo em que havia muitas bonda- 
des, e assim era muito amado d'el-rei D. João e de 
todos seus filhos, em especialmente do infante D. Hen- 
rique com quem vivia, e de como elle fez sua fim fa- 
laremos em outro logar. 



Chronica d'El-Rei D. João I 21 



CAPITULO LXXIII 



Como os infantes partiram (Talli e das razões que lhe 
João Affoiíso, vedor da fazenda, disse quando che- 
gou a elles. 

CHRiSTO Jesus Nosso Senhor, direitamente foi 
aquelle a quem podemos dar a honra d'este 
feito, empero não ficam os homens que em 
ello trabalharam sem mui grande parte d'ella, entre 
os quaes João AíTonso, vedor da fazenda, merece sua 
parte por ser por elle movida uma tão santa e tão 
honrada cousa, e assim teve elle mui grande prazer 
quando lhe disseram que a cidade era entrada, não 
porém que elle fosse achado ao tempo que lhe deram 
estas novas dormindo, antes já era na praia e come- 
çav^a de seguir o caminho dos primeiros, e quando 
chegou áquella pequena altura onde estavam os in- 
fantes alevantou sua cabeça e disse lhes: 

— Senhores, parece-vos que são estas assaz de hon- 
radas festas pêra o dia de vossa cavallaria, melhor 
me parece que vos vejo hora onde estacs, cíí vos ver 
nas logcas frias de Cintra, provendo os assentamentos 
do reino. 

V. em passando assim estas cousas não cessava a 
gente d'armas de chegar cada vez mais. K por que 
Gonçalo Vaz Coutinho f.dando muitas vezes n'aquella 
armada dissera que lhe pezava muito, porque a honra 
d*aqucllc dia seria toda dos homens de pé por causa 



22 Bibliotheca de Clássicos Portugiiezes 



das pvoucas armas que levavaní, e que seriam mais des- 
envoltos que os homens d'armas, a qual palavra não 
esqueceu ao intante I). Duarte, o qual quando assim 
viu aquelles homens d'armas seguir avante tão desen- 
voltamente disse contra o infante D. Henrique: 

— Parece-me, irmão, que não é hoje a honra toda 
dos homens de pé, como dizia Gonçalo Vaz; porque 
a gente era já muita mandou o infante D. llcnricjuc 
por requerimento de seu irmão que se repartissem 
cada uns por sua parte, a saber: o conde D. AíTonso 
por uma rua e a sua bandeira com parte d'aquella 
gente por outra, cMartim Affonso de Mello por ou- 
tra, e disse o infante I). Duarte que era bem que ellcs 
ambos se fossem por acerca d'aquelle muro a filhar 
todas as alturas que se podesscm achar, porque os 
mouros não tivessem logar de se acolherem a ellas 
primeiro, e indo assim porque o sol era mui grande c 
aquella costa áspera de subir, tirou o infante D. Duarte 
parte das suas armas porque sentiu que era trabalho 
sobejo trazel-as, vendo como os mouros já levavam 
caminho de desempachar a cidade, e o infante D. Hen- 
rique porque ia ainda todo armado não o podia se- 
guir, pela qual cousa seu irrnão o esperou duas vezes 
até que lhe foi necessário tirar a maior parte das suas 
armas, de guisa que não ficou senão com uma só cota. 

Mas porque falamos n.is razões que os escudeiros do 
infante D. Henrique quando vinham da ponta do Car- 
neiro disseram e da resposta que lhes clle deu, pra- 
zer-vos-ha de saberdes a conclusão que houveram |)or 
emenda do seu falamento, e foi cjue quando elles vi- 
ram o infante no batel, lembrando-se do que elle lhes 
dissera accrcscentaram muito niais sua trigança con- 
sirando como todos não cabiam na prancha, quizeram 
arremedar ao infante langando-se em um batel, c fo- 



Chronica cVEl-Eei D. João I 23 



ram tantos que os não pode suportar e alagou-se com 
elles, mas prouve 3 Deus que posto que alli fosse a agua 
d'altura d'uma lança d'armas e elles fossem todos ar- 
mados nenhum d'elles se afogou, e foi ainda mor ma- 
ravilha que a Duarte Pereira que era um d'aquelles, 
cahiu um cutello que levava do infante, e lembrou-se 
d'elle depois que sahiu fora, e olhando pêra o pego o 
viu jazer, porquanto a agua é alli muito clara, e tor- 
nou outra vez por elle assim armado como estava e 
sahiu sem perigo, mas as cotas d'armas e plumões e 
outras cousas que cada um levava á sua maneira, per- 
deram alli toda sua formosura, cá bem haveis de sa- 
ber como cousas de taes louvores se corregeriam em 
similhante logar, empero alguma cousa lhe aproveitou 
aquelle alagamento pêra soportarem a força da quen- 
tura. 



CAPirUi.O LXXIV 



Co/HO o infante D. Duarte foi filhar a altura do Cesto 
e o infante D. Henrique tomou a rtui direita. 

EM aquelle logar onde o infante tirou suas armas, 
aqucllcs escudeiros de que j.i falLimos, os quacs 
se pelo tom de suas palavras nílo foram já co- 
nhecidos quanto por suas divisas nem cotas d'armns 
pouco conhecimento d'clles podia haver, c se di/om 
que os homens nunca pclej;uii melhor cpie quimdo são 
acesos em sanha, aquelles cm aijuella hora deveram 



24 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



de pelejar avantajadamente, porque assaz de sanha ia 
com elles, assim pela primeira menencoria como pelo 
segundo aquecimento de que elles não levavam pe- 
queno sentido. 

O infante depois que assim tirou suas armas ficou 
em uma só cota e trigou-se muito por alcançar seu ir- 
mão, e seguiu -o tanto até que chegou a elle no fim da 
primeira altura, e tornando-se d'alli o infante U. Duarte 
saltando umas paredes, foi necessarioapartarem-se cada 
um pêra sua parte, porque o infante D. Henrique cui- 
dou que pois aquella altura era tomada, que seu irmão 
tomasse pêra fundo, e com tal intenção tomou aquclle 
caminho, mas o infante D. Duarte foi assim filhando 
todas as alturas, até que chegou ao cume da maior onde 
se chamava Cesto, c não cuideis .que a passagem d'cstes 
logares era sem algum trabalho, porque a cidade por to- 
das as partes anda\-a cheia de mouros, e não podiam os 
homens andar por alguma parte que não achassem mui- 
tos, mas não podia o infante D. Duarte encontrar com 
tantos que não desejasse ainda muitos.piais, porque ha- 
via muitos dias que elle desejava a sua vista, e muitas 
cousas se poderam dizer acerca de sua ardideza, as 
quaes contadas direitamente em qualquer outro homem 
por grande e bom que fosse, poderiam ser contadas 
por grandes, mas o infante não quiz d'ellas fazer grande 
conta, por serem muito áquem do que elle desejava. 

Empero posto que alguns bons liomcns com elle 
fossem, cá toda a força da sua gente ficava ainda na 
frota, a qual depois veiu com a sua bandeira; a sua es- 
pada era a primeira que feria em qualquer logar que 
se achava ser necessário, assim como ti-ndes ouvido 
que foi primeiramente filhada a praia, e dcs-ahi a Al- 
mina, des-ahi a cicLule, porque todos os da frota d'el- 
rei esperavam c|ue houvessem de sair por outra or- 



Ckronica d'El-Rei D. João I 25 



denança, segundo era ordenado, e não estavam tão 
prestes como se o caso offereceu. 

Mas depois que viram como todos os da frota do 
infante D. Henrique sahiram com tamanha trigança, 
e como depois que entravam na Almina não tor- 
nava mais nenhum, e viram isso mesmo como os mou- 
ros que estavam no muro corriam todos pêra a porta, 
sentiram que toda a força do feito estava em aquelle 
logar, porque el-rei andava ainda pelos navios e a frota 
era mui grande e elle havia de falar com muitos, man- 
dou ao infante D. Pedro e a um seu vedor que cha- 
mavam Diogo Gonçalves de Travassos, que fosse era 
um batel dizer ao infante D. Duarte se lhe parecia bem 
de filharem terra, que o infante D. Henrique, seu irmão, 
já era na Almina e que estava acerca das portas, segundo 
lhe parecia no sair da gente que da sua frota sahia. 

Mas quando Diogo Gonçalv^es lhe tornou com re- 
cado que o infante D. Duarte era em terra, mandou 
elle logo Diogo Seabra, que era seu alferes, que po- 
zesse a bandeira no seu batel, e mandou fazer signal 
com as trombetas a todos os outros navios que se fi- 
zessem trigosamente prestes. 

!> estando o infante D. Pedro pêra ir falar a el-rei, 
seu padre, chegaram alguns d'aquelles senhores que vi- 
nham buscar el-rei, o qual se acertou logo de chegar 
ahi com intenção de dizer ao infante que sahisse o 
mais trigorosamente que podesse pêra filhar terra, elle 
e todos da frota. 

— A bom tempo, disseram alguns d'aquellcs fidal- 
gos, podemos nós já ir pêra levarmos d'aqui honra 
nem nome que nos muito preste, pois a cidade é já 
entrada; entonces contaram a el-rei o grande arrnido 
que ouviam dentro e como lhe parecia cpie ás \-czes 
ouviam o som das trombetas. 



26 Blbliotheca de Clássicos Portugiiezes 



— Por certo, disseram elles, bemaventiirados foram 
aquelles que acertaram de ser em aquelle ajuntamento, 
cá de toda a honra d'este feito elles levam a melhor 
parte ; e em esto chegaram as novas em certo como a 
cidade era entrada e os infantes e o conde de Harcel- 
los andavam dentro espalhados cada um pêra sua 
parte. 

Na lidice d'el-rei não falo, cá posto que elle por sua 
vontade a tivesse tamanha como era razão, não a mos- 
trou muita em sua continência, cá este era o seu geito 
em todas as cousas nunca amostrar continência ale- 
gre por grande bemaventurança que lhe viesse, nem 
isso mesmo tristeza, pelo contrario, mas começou de 
se rir contra os outros, quando soube a maneira que 
o infante D. Duarte tivera em se esconder d'elle pcra 
se ir com seu irmão em aquella dianteira. 

— Parece,' disse elle, que meu filho não quiz esperar, 
porque entendeu que por azo de minha velhice sahi- 
ria m:iis tarde ou por ser mais pezado que elle pêra 
saltar, ou quiz ir com seu irmão porque lhe sentiu a 
vontade mais acesa" que a minha. Mas dou muitas 
graças a Deus parque lhe mostrou tão azinha o fim 
de seu desejo. 



Chronica d'El-Rei D. João I 27 




CAPITULO LXXV 



Como el-rei e o infante D. Pedro com todos d'aqiiella 
frota filharam terra e cotno Gonçalo Lourenço de 
Gomide foi feito cavalleiro chegando á porta da ci- 
dade. 



Ão era pequena a trigança que tinham todos 
'J\^ aquelles que estavam pêra sair em terra, e sa- 
bei que inveja e cobiça não era mui longe da 
maior parte d'elks, por que os fidalgos e gentis ho- 
mens desejavam de ser na companhia dos que entra- 
ram primeiro na cidade, aos quaes parecia que o 
agradecimento d'aquellas cousas em que elles mais 
trabalhassem todo seria nenhum, pois que não foram 
n'aquella deanteira e a elles não conta\'am nenhuma 
cousa por grande senão aquella entrada que os pri- 
meiros fizeram na cidade, e os populares haviam gran- 
de tristeza por a cobiça das riquezas que pensavam 
que os outros tinham, e diziam em suas vontades que 
todo seu trabalho fora despeso em \'ào, porque elles 
haviam de ficar sem parte de tamanha rique/a como 
criam que havia n'aquella cidade. ^ 

— Amigos, diziam elles, foram lá muito em boa 
hora os que vieram em companhia do infante D. Hen- 
rique na frota do Porto, que toda a honra e proveito 
d'esta demanda , fica com elles, empero assim traba- 
Ihámo-nos e despendemos como cada um, elles apa- 
nharam o ouro e a prata e toda a outra ric|ucza, e n(')s 



28 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



chegaremos ao esbulho dos almadraques velhos e das 
outras cousas de similhante valia, e assim sahiram to- 
dos cada um como melhor podia, até que el-rei che- 
gou á porta da cidade onde fez detença, assim por 
razão da perna que tinha ferida, como por entender 
que a seu estado não cumpria partir d'alli senão ao 
combate do castello, visto como a cidade já estava em 
tal ponto. 

E todos os outros se espalharam pelas ruas da ci- 
dade, a saber, a bandeira do infante D. Duarte com 
todos os seus por uma parte e o infante D. Pedro com 
sua gente, e por outra o Condestable e o mestre de 
Christus e assim todos os outros capitães cada um on- 
de a ventura o levava, empero cada um d'elles tinha 
assaz de trabalho porque todas as ruas ainda andavam 
cheias de mouros, e Ruy de Sousa que era sobriniio 
do mestre de Christus e padre de Gonçalo Rodrigues 
de Sousa, que foi capitão dos ginetes d'cstes reinos, 
querendo fazer avantagem, levou os mouros por uma 
rua deante si, sobre o qual recresceram tantos que o 
cercaram em uma torre onde hoje em dia chamam o 
postigo de Ruy de Sousa, e alli ardidamente se defen- 
deu até que foi socorrido. 

Nuno l\Iartim da Silveira filho de Martim Gil Pes- 
tana, que foi da linhagem d'aquelles que primeiramente 
fundaram a cidade de Évora, foi aquelle dia bem co- 
nhecido entre todos os do infante D. Duarte, porque 
asdfcn como lhe Deus dera grandeza na forma do cor- 
po assim tinha especial força para suportar ^^randcs 
trabalhos, segundo pareceu aquelle dia, cá fez tanto 
por si que mereceu ser um d'aquelles que o infante 
D. Duarte fez cavalleiros no domingo seguinte, e lhe 
fez depois muita mercê e acrescentamento, segundo 
em nossa historia se dirá ao deante. 



Chronica d^El-rei D. João I 29 



D'outros muitos e bons poderia fallar se quizesse 
alargar meu processo, mas deixo tudo por chegar ás 
principaes cousas. 

Quando el-rei estava assentado á porta da cidade 
chegou alli Gonçalo Lourenço de Gomide, seu escri- 
vão da puridade, acompanhado de quatrocentos ho- 
mens todos de sua libré e a maior parte d'elles da sua 
criação, e disse a el-rei assim. 

— Senhor, em galardão do serviço que vos tenho 
feito e por acrescentardes em mim e em minha honra 
vos peço por mercê que aqui me façaes cavalleiro, 
da qual cousa el rei disse que era mui ledo, e assim 
fez el-rei cavalleiro a Gonçalo Lourenço, como dito é. 



CAPILULO LXXVI 



Do grande trafego que havia na cidade e da maneira 
que os mou/os tinham em sen defendimento. 

Vt^EM podeis consirar qual seria o trabalho d'uns 
j\y e dos outros, c depois que a' fazenda estivesse 
-^•''^ em tal estado, entre os quaes era um arruido 
tão grande que muitos disseram depois que o ouviam 
em Gibraltar, c muitas cousas notáveis se passaram 
aquelle dia no revolvimento d'aquelle feito que foram 
bem dignas de memoria, se chegaram a nosso conhe- 
cimento, cá bem é de consirar que aonde era tanta e 
tào boa gente c desejosa de bem fazer, que senão pas- 
çariam cousas senão grandes e boas; quanto mais pa- 



30 Bihliotheca de Clássicos Portugueses 



recendo um signal tão manifesto como era a grande 
mortandade dos mouros que foi em aquelle dia, mas 
deveis de saber que duas cousas houve alli por que a 
bondade de todos não foi tão perfeitamente conhecida 
como devera; a primeira e principal foi por ser aquella 
peleja dentro na cidade quanto mais sendo as ruas 
tão estreitas como eram, cuja estreitura não consentia 
em si senão mui poucos, cá se aquella peleja fora em 
campo ou cm alguma praça larga muito maior fora o 
seu nome, e a segunda cousa foi a tardança que se 
poz em escrever o acontecimento d'este feito, porque 
como já disse no prologo d'esta historia a maior parte 
de todos os bons eram já finados, cá a outra gente 
popular não trazia em aquelle dia o cuidado senão cm 
roubar, cá achavam bem assaz pêra fartar suas cobi- 
ças, e era este um caso mui perigoso por quanto as 
casas tinham as portas baixas e estreitas e eram feitas 
segundo a ordenança dos mouros, e os homens com 
aquelle acendimento da cobiça que traziam entravam 
sem algum resguardo, e muitos dos mouros estaxam 
em suas casas mostrando uma mui desavizada porfia 
que lhe causava a morte, a qual elles podiam escusar 
senão fora sua cobiça, e alguns d'estes mouros podendo 
fugir e salvar as vidas o não faziam, mas estando me- 
tidos em as casas diziam entre si : 

« Pois a minha má ventura foi tanta que visse a 
hora de tamanho mal, aqui quero morrer em esta casa 
em que morreram meus padres e avós, e assim anda- 
vam os mesquinhos por meio d'aqucllas casas, em 
mentes não chcga\'a a sua derradeira hora, e esguar- 
davam com mortal semença na formosura das cousas 
que seus padres ou avós cm ellas fizeram, e quanto a 
esperança era mais certa de sua perdição tanto lhe 
pareciam aquellas cousas mais nobres, porque o desejo 



Chronica d'El-Rti D. Joào I 31 



naturalmente é da cousa que mais desfalece, e quando 
as assim olhavam punham os olhos fitos em ellas e da- 
vam mui grandes gemidos, lembrando-se de sua fim. 
«Ah ! Santo Propheta, diziam elles, e que é o que 
nos has de dar pela fieldade que guardamos em tua 
lei se nos tu desamparas em hora de tamanho mister?» 
e taes havia que não haviam vagar de acabar este pen- 
samento quando sentiam os inimigos, e com aquella 
lastima tamanha metiam-se de traz das portas pêra 
matarem os inimigos quando entrassem, mas esto não 
lhe aproveitava muito, cá achavam os mais dos chris- 
tãos armados, e assim ligeiramente não lhe podiam 
empecer, e como esto nunca se acertava em similhan- 
tes logares que um só entrasse que logo não achasse 
outros alguns acerca de si, era a magua d'aquelles mou- 
ros tamanha que sem arma nem ferro se lança\-am 
aos christãos, e não havia hi tal nem tão desesperado 
que por grande multidão que vissem que não mos- 
trassem signal de defensão, e jazendo na terra as al- 
mas quasi fora dos corpos, ainda moviam seus braços 
pêra uma e outra parte como que desejavam cortar 
alguma cousa, e alguns tomavam suas riquezas e as 
alagavam nos poços ou as soterravam nos cantos de 
suas casas, maginando que posto que entonce perdes- 
sem sua cidade, que a tornariam ainda a recobrar e 
se aproveitariam d'aquellas cousas que assim guarda- 
vam. 



32 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 




CAPITULO LXXVII 



Como o infante D. Henrique tornou á rua direita e 
das cousas qtie alli fez. 



^issEMOS nos outros capítulos como o infante D. 
Henrique presumiu que seu irmão era em ou- 
tra alguma parte, e porém dcsccu-se contra a 
rua direita pêra ir tentar a fortaleza do castello, cá 
de todas as outras cousas da cidade não fazia já ne- 
nhuma conta pelo vencimento em que os mouros an- 
davam, e menos era o seu desejo contente d'uma boa 
dita que n'aquelle feito houvesse; não porque elle não 
conhecesse a grandeza da victoria, mas porquanto se 
houvera conT tão pequeno trabalho, cá certo é que 
aquella cousa é menos ou mais amada, segundo o tra- 
balho com que a alcançarmos, cujo senhorio por gran- 
de trabalho cobramos, e por tanto diz o philosopho no 
livro da Económica que os mancebos desprezam as ri- 
quezas porque as cobraram ligeiramente, e portanto 
naturalmente são liberaes e gastadores, o que os velhos 
são pelo contrario, e porém finge aqui o auctor que 
dizia o infante entre si mesmo: 

«Que me prestou a mim ser eu o primeiro capitão que 
el-rei meu senhor e padre manilou (]ue filhasse terra, 
pois com tão pequeno trabalho havia de lia\er minha 
victoria ? ou que gloria poderei ter no dia de minha 
cavallaria se a minha espada não fòr molhada no san- 
gue dos infiéis ?» c indo assim com este pensamento 



Chronica d'El-Rei D. João I 33 



chegou á rua direita pela qual seguindo um pequeao 
espaço chegaram a elle muitos christãos, os quaes se- 
gundo justa estimação seriam até quinhentos, que vi- 
nham fugindo ante os mouros, e vendo-os o infante 
cerrou a cara do bacinete e embraçou um escudo que 
trazia e leixou passar quasi todos os christãos até que 
chegaram os mouros, os quaes muito azinha conhece- 
ram os seus golpes entre todos os outros, cá assim 
os cometeu rijamente que os fez per força virar as es- 
páduas pêra onde antes traziam os rostos. 

Os christãos tanto que conheceram o infante cobra- 
ram esforço e fizeram outra vez volta sobre os mou- 
ros e começaram de os seguir até chegarem com el- 
les a umas casas onde descarregavam as mercadorias 
que vinham de fora, e ainda pousavam al!i genoeses, e 
chamavam-se a Aduana e ainda agora se chamam as- 
sim, as quaes casas tinham uma porta barreirada d'a- 
quella parte da Almina, e quando alli chegaram os 
mouros, ou por verem outros de novo em sua ajuda 
ou por sentirem que os christãos não traziam tamanho 
esforço como da primeira, voltaram outra vez o rosto 
sobre elles e fizeram-lhe outra vez virar as costas muito 
mais depressa que da primeira, e levando-os ante si 
toparam outra vez com o infante, o qual, era entonce 
de edade de vinte e um annos e tinha os membros gros- 
sos e fortes e não lhe falecia coração nem cousa pêra 
lhe fazer suportar os trabalhos, e quando assim viu 
outra vez os christãos desbaratados, dobrou-se-lhe a 
sanha e saltou outra vez entre elles e tào fortemente 
os cometeu que os fez esborralhar pêra uma parte e 
por outra. 

Mas os christãos traziam comsigo tamanho temor 
que a maior parte d'ellcs passaram pelo infante sem 
o conhecerem, e nào tornaram mais atraz, e outros 

VoL. Ill a 



34 Bihliotheca de Clássicos Portugiiezes 



que ficaram saltaram com o infante no meio d'aquella 
empresa e revolveram o feito por tal guisa que alguns 
dos mouros cahiram alli e os outros não poderam 
supportar a fortaleza d'aquelles golpes e voltaram as 
espadas, por cuja rasão receberam muito maior damno, 
mas o infante não os quiz leixar assim como da outra 
vez, antes os seguiu levando-os ante si até que che- 
garam á sombra dos muros do castello, mas aquella 
passagem se podia conhecer mui bem por o rasto dos 
mouros que jaziam mortos na rua, os quaes em breve 
espaço tinham companhia uns aos outros, e assim di- 
ziam elles cm seus brados quando falav\im aos dian- 
teiros que abalassem rijamente, cá os seus parentes e 
irmãos não podiam supportar tamanho damno, e esto 
era porque aquella rua era aquelle tempo estreita e 
os mouros eram muitos mais, de guisa que os chritãos 
primeiros e os mouros derradeiros não podiam pele- 
jar senão mui poucos, e dos christãos foi sempre o 
dianteiro o infante, cujos golpes eram bem conheci- 
dos entre todqs os outros, e assim se foram os mou- 
ros recolhendo os que podiam, até que chegaram á 
sombra dos muros do castello, onde receberam algum 
accorro, porque se ajuntam alli três muros, a saber 
o do castello e outro muro que departe as villas 
ambas. 



Chronica d'El-Rei D. João I 35 



CAPITULO LXXVIIÍ 



Conto o infante pelejou alli muí grande pedaço e como 
Fernão Chamorro foi derribado. 



JssiM entre aquelles muros pensaram os mouros 
de recobrar suas forças, e assim pararam os 
rostos direitamente contra os inimigos atreven- 
do-se na estreitura do logar e multidão que esta- 
vam sobre os muros, a qual cousa não era sem razão 
porque o logar é assim azado, que por poucos que em 
cima estivessem faziam grande damno nos debaixo, ou 
por força se tornariam pêra traz, e pêra elles terem 
ainda mór esforço viam o pequeno numero dos chris- 
tãos que estavam com o infante, o qual os fazia ter 
esperança de se vingar alli do damno de seus amigos 
e parentes, cá de quantos primeiramente abalaram 
com o infante quando partiu da Aduana, não eram 
alli com elle mais que dezesete, porque os outros se 
partiram poucos e poucos cada uns pêra sua parte 
onde os levava a cobiça do roubo, e outros levava-os 
a grande sede que haviam, porque toda sua vianda era 
salgada e a grande quentura do sol secava-lhe a humi- 
dade dos corpos c fazia-os muito a meude bus- 
car os poços das aguas, onde se não podiam haver far- 
tos, outros haviam as compreições mollcs e delicadas 
c não podiam suster longamente a força do trabalho e 
tiravam-se a fora, e assim com aquelles dezesete sus- 
teve o infante sua peleja melhoria de duas horas e 



36 Bihliotheca de Clássicos PuHugu^zes 



meia, e em estes commettimentos cahiam ás vezes al- 
guns d'aquelles mouros em terra, e deram uma tão 
grande ferida a um escudeiro do infante, que chama- 
vam Fernão Chamorro, que sem nenhum accordo ca- 
hiu tendido em terra sem ter similhança alguma de 
vida, e os mouros se triga\'am muito pêra o filharem, 
e o infante e aquelles que com elle estavam não lh'o 
quizeram consentir, e sobre a defensão e filhada d'a- 
quelle escudeiro durou a contenda um grande pedaço 
até que o infante deu uma arremetedura grande, a 
qual os mouros não quizeram esperar, e conicçando- 
se a retrahir foram assim fortemente seguidos que 
lhes conveio por força leixar toda aquella rua e 
meterem-se por aquella porta que vae pêra a outra 
villa, e o infante de volta com elles, mas d'aquelles 
dezesete que primeiramente o acompanharam não o 
seguiram mais de quatro, a saber, Álvaro Fernandes 
Mascarenhas que depois foi senhor de Carvalho, Vasco 
Esteves Godinho e Gomes Dias de Góes natural de 
Alemquer, os .quacs todos três viviam com o infante, 
e o quarto era um escudeiro d'el-rei que se chamava 
Fernão d'Alvares, e por ser homem que desejava ser- 
vir ao infante e se acertou alli com elle, assim o con- 
tinuou em aquelie feito, e bem é verdade que o escu- 
deiro era bom pêra serviço d'aquelles senhores, mas 
a vontade do infante não foi menos pêra o deante 
lhe dar o galardão dos outros, porque eram seus e 
viviam com elle, não digo nada porque geralmente ti- 
nha maneira de os galardoar, nem era o serviço 
d'aquestes pêra ter em pouca estima, e de dois d'cstcs 
que eu conheci posso dar certo testemunho porque 
foram bem alojados e pagos de seu serviço, mas quem 
havia de cuidar que o infante nem nenhum daquclles 
quatro que com elle foram podesse escapar d'aquelle 



Ckronica d^El-Rei D. João I 37 



feito vivo, porque sobre aquella porta é o muro muito 
grosso e forte e tem duas ordens de ameias, de guisa 
que de ambas as partes é defensável, e está ainda 
mais uma torre com uma aboboda furada em certos 
logarcs, e d'aquella torre sahia a segunda porta feita 
em volta, e assim vão por entre aquelle muro e a bar- 
reira até que chegam á terceira porta. 
■ Ora que seria aqui ? cá os mouros que elles leixa- 
vam ante si eram muitos e os muros isso mesmo es- 
tavam cheios d'elles, cujo cuidado não era outro senão 
empecer aquelles christãos onde elles podiam che- 
gar com suas armas, e quando elles sentiram que os 
inimigos entravam de volta com os seus, puzeram-se 
sobre os buracos da aboboda por tal que com as pe- 
dras que lançassem de cima podessem impedir a pas- 
sagem aos christãos quando quizessem passar por bai- 
xo, mas quiz Deus que o seu desejo não houve aquel- 
la execução que elles com tão boa vontade quizeram, 
e a poder de força o infante passou além d'aquelles 
mouros que levava ante si, em])ero presumem alguns 
que os chriátãos serem tão poucos e os mouros tan- 
tos arreceavam os de cima de lhe lançarem as pedras 
por não darem aos seus mesmos que não sabiam que 
posto houvessem de ter sobre tão pequeno numero, 
assim foram aquelles mouros todos empuxados até 
que passaram a terceira porta. 

Mas aquella passagem não foi sem grande trabalho 
dos christãos e damno dos infiéis, cá parte d'elles ja- 
ziam por a(}uelle caminho, cuja morte os outros de 
cima do muro choravam com grande sentimento. 

«Alli, diziam elles, jaz Foão, nomeando cada um por 
seu nome, e ainda hoje o seu coração estava aílastado 
de tamanho cuidado, por certo não é este pequeno 
signal quando o poderio de cinco homens s<')mente te- 



38 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



ve esforço e ardideza de empuchar tamanha multidão 
com tamanho damno e estrago de seu sangue, se quer 
ao menos não fora a nossa fortuna Ião sobranceira e 
desastrada, e viramos alguns d'aquelles christàos jazer 
na companhia dos nossos, porque vingados do seu 
sangue poderamos abrandar nossa tristeza. > 

«Bem parece que ÒMafoma, o nosso santo propheta 
quer povoar de nossas almas outra cidade no outro 
mundo, já d'aqui avante não haverá ahi esforço nem 
conselho entre nenhum de nossos cidadãos, porque a 
frol de nossa mancebia é partida d'entre nós.» 

«Bem aventurados sois vós outros que não sentis já 
das cousas d'este mundo alguma parte, cujas almas 
pelo martyrio de vossas carnes vivem agora satisfeitas 
dos eternaes prazeres que nos antigamente foram pro- 
mettidos pelo verbo de Deus Padre, que é o nosso 
Propheta Mafamede.» 

«Mas de nós é pêra haver piedade que estamos ain- 
da vestidos de humanai conhecimento e sentimos 
com tanta dòr o espargimento de nosso sangue, e o 
que mais é que não sabemos ainda qual será o logar 
da nossa queda, ou quacs serão os tormentos que da- 
rão fim a nossa miserável vida.» 



Chronica d' El- Rei D. João I 39 



CAPILULO LXXIX 



Como o infante esteve duas horas alli entre aquelles 
muros e motiros, e das razões que o auctor põe 
acerca de sua fortaleza. 

VÍ^OR conseguir a matéria da humanai fortaleza, 
T^ não posso partir d'ante meus olhos a virtude 
j d'um príncipe tão singular que com tamanha 
^^ força e granileza de seu coração arrancou tama- 
nha multidão de infiéis fora da terra de sua natureza. 
Por certo eu não reconto estas cousas em tama- 
nha grandeza como devia, porque eu mesmo me es- 
panto quando alevanto a minha consiraçào pêra con- 
templar a profundeza de tamanho feito, porque me 
lembra que li nas obras de Tito Livio, como aquelle 
valente romano, Oracio Cocles, tem tamanho nome 
porque teve atrevimento de pelejar com três inimi- 
gos, cuja virtude de fortaleza Valério Máximo na sua 
Historia Romana antepõe aos feitos de Rómulo, que 
foi o primeiro fundador d'aquella cidade. 

Ora que posso eu dizer da fortaleza d'um homem, 
que sem esperança de nenhuma companhia commet- 
teu tantas vezes um tamanho ajuntamento de seus 
inimigos, derribando ante seus pés aquelles que com 
maior atrevimento de sua fortaleza queriam esperar 
o brandimenlo de sua espada? certamente eu creio 
segundo meu juizo t[ue se as cousas n\udas hão al- 
gum sentimento, (jue aquellas portas dos muros estão 



40 Bihlioiheca de Clássicos Portugueses 



ainda espantadas de tão maravilhosa fortaleza; em- 
pero não quero este feito de todo attrihuir a sua for- 
ça, porque consiro que o quiz Nosso Senhor Deus 
trazer ao mundo por defensão de seu santo Templo, 
que é a sua Santa Igreja, por vingança dos erros e 
commettimcntos que aquellcs inimigos da fé por 
muitas vezes fizeram aos seus fieis christãos, e que 
este principe, assim como seu cavalleiro armado com 
o signal da Santa Cruz, pelejasse pelo seu nome. 

E pêra provar minha intenção, ponho afite os 
meus olhos o processo da sua vida, na qual acho taes 
e tão maravilhosas virtudes que consirando em ellas 
não me parece senão d'algMm homem trazido a este 
mundo por espelho de todos os vivos, as quaes virtu- 
des a Deus prazendo, eu contarei destinctamente em 
seu próprio logar, pêra que possaes verdadeiramente 
conhecer a prowa de minhas palavras. 

Oh I excellentc principe, diz o auctor, flor da caval- 
laria do nosso reino, coração e fortaleza digna de 
grande memoria, e qual outro posso eu louvar em 
superlativo gráoque houvesse verdadeira fortaleza, sal- 
vo se dissesse este é outro infante D. Henrique? 

Os mouros assim empuchados por entre aquelles 
muros passaram a terceira porta que vae pêra a villa 
de fora, mas alli voltaram clles rijamente, acordando- 
se que, se aquellas portas fossem fechadas que teriam 
elles de todo a perdida esperança de cobrarem j.lmais 
aquclla villa primeira, e assim pozcram toda sua força 
pelo empachar. 

O infante c os outros que com elle estavam, tinham 
o contrario d'aquelle desejo, poendo toda :\ diligencia 
pêra acabar de fechar aquellas portas, mas com todo 
seu trabalho um grande pedaço estiveram assim, que 
nunca poderam fechar mais de uma porta, porque 



Chronica d'El-Rei D. João I 41 



quando queriam fechar a outra logo os mouros os 
cometiam rijamente, de guisa que lhe não queriam lei- 
xar uzar do que pretendiam. 

Mas dava grande ajuda á defensão dos christãos uma 
parede que estava ante a face d'aquella porta, a qual 
empachava os mouros por tal guisa que não podiam 
alli pelejar senão mui poucos, e tanto estiveram n'a- 
quella porfia, que cada um d'aquelle3 escudeiros por 
sua vez provou de ter assim aquella porta, e não o po- 
dia longamente soffrer assim pela força do trabalho co- 
mo pelo nojo que lhe os mouros faziam nas pernas com 
azagaias que metiam por baixo, e vendo o infante co- 
mo sua estada alli não aproveitav^a, fez de todo soltar 
as portas e saltou fora e os outros com elle, e come- 
çou de seguir os mouros, os quaes sem nenhuma mos- 
tra de sua defensão começaram de fugir, que não pa- 
reciam senão homens que fogem d'algum touro, quan- 
do o sentem vir após si por alguma rua, e d'aquella 
fugida que os mouros fizeram teve o infante e os seus 
tempo pêra tornarem a fechar sua porta, segundo an- 
tes desejavam, e depois que elles entraram primeira- 
mente pela porta da abobada até que se tornaram, pas- 
saram duas horas. 



42 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 




CAPITULO LXXX 



Como iodos pensavayn que o infante era morto, e como 
nenhum oii:;ara passar por aquella porta com medo 
dos fnouros que estavam nos muros. 



^UEM poderia julgar que o infante nem nenhum 
d'aquelles estava em tal ponto segundo os 
muitos azos contrários que se poderiam magi- 
nar, cá aquella villa de fora estava toda cheia de mou- 
ros sem esperança de nenhum socorro, e pelas portas 
não ouzava nenhum de passar por azo da grande guar- 
da que os mouros de cima do muro acerca d'ello pu- 
nham, e assim por estas cousas deram todos voz que 
o infante era morto, e pensavam todos que el-rei fi- 
zesse por ello mostra de grande nojo, pela qual razão 
não ouzava nenhum de lh'o dizer, mas quando lho dis- 
seram respondeu elle que não montava muito, pois 
morrera cm seu officio, mas depois que soube a \'er- 
dade do feito, houve em sua vontade grande prazer, 
especialmente porque aquclle filho se parecia mais 
com elle na feitura do corpo que nenhum dos outros, 
e pensava el-rei que se assim o não parecesse nas 
propriedades de dentro que lhe seria quasi um doesto 
depois de seus dias, cá é nm commum f.ilar entre os 
homens quando falam em algum que é já finado, que 
logo lhe buscam um simllhante por cuja proporção o 
possam fazer conhecer a aquelles com que falam, e 
muito melhor se faz ainda esto quando ahi ha filho 



Chronica d'El-rei D. João I 43 



que pareça a seu padre, que logo dizem que não ha- 
via mais em elle do que ha n'aquelle seu filho, e por 
bom que o padre seja, logo recebe doesto quando o 
apropriam com algum filho que por ventura não se 
parece com elle nas virtudes e costumes. 

Mas por certo mais conhecida esperança leixou el- 
rei D. João do infante seu filho quando se partiu 
d'este mundo, especialmente por aquelle começo que 
se alli seguiu tão manifesto, que não somente elle que 
era seu padre mas qualquer outro do povo folgava 
de ouvir similhante cousa. 

E posto que o amor dos padres aos filhos não te- 
nha egual comparação entre as cousas que a natureza 
n'este mundo ajuntou, empero o feito foi por si tão 
grande e tão notável que entre todos os grandes fei- 
tos dos homens deve ser havido por maravilhoso, cá 
elle por si só acrescentou toda a grandeza d'esta vi- 
ctoria. 

Grande padecimento tinham os mouros que esta- 
vam em cima dos muros, porque sentiam como o in- 
fante e os outros tinham a porta fechada e não lhe 
podiam empecer, e esto era por razão da volta do 
muro que vinha sobre aquella porta onde elles esta- 
vam, sob cuja sombra rerebiam amparo, nem aquella 
detença que o infante alli fazia não era a outro fim 
senão por esperar que recorressem os seus pêra alli, 
cã sua vontade de todo era disposta pêra tornar ou- 
tra vez a pelejar com aquelles mouros até que os bo- 
tasse de todo fora, e quando viu que a tardança era 
tamanha e que nenhum dos seus acodia, disse a um 
d'aquelles que com elle estavam que os fosse chamar 
ou outros quacscjucr que achasse, porque elle podes- 
se receber ajuda. 

Mas cada um por si respondeu que o não faria por 



44 Bihliotheca de Clássicos Portnrjuezes 



nenhuma guiza, não porque arreceasse o perigo do 
caminho, mas por elle não ficar alli tão desacompa- 
nhado e que se lhe alguma cousa recrecesse que seria 
grande mal não serem todos juntamente com elle. 

— Mas será muito melhor, respondeu o infante, que 
vades, porque por vossa ida acabaremos nosso feito, 
cá os mouros correm pcra aquella outra parte de cima, 
e com atrevimento do socorro que têm em esta outra 
villadão trabalho aos nossos, o que não fariam se sen- 
tissem que alguma gente andava cá entre elles, e ainda 
pôde ser que cada um de meus irmãos sabendo parte 
d'este feito sahirá por aquella porta e nós sahiremos 
por esta, e assim os poderemos ligeiramente empuchar 
fora da cidade. 

— Como quereis, senhor, responderam elles, que ne- 
nhum de nós haja de filhar atrevimento pêra vos lei- 
xar ainda que estivésseis em uma camará seguro de 
todo perigo, quanto mais aqui ? Vergonha ha\eriamos 
de vos Icixar sendo tão poucos, ainda que fosse muito 
breve. 

De maneira que nunca se d'alli quizeram partir, di- 
zendo que pois a ventura alli os ajuntara, que mortos 
ou vivos a par de si os havia de achar. 



Chronica d'El-Rei D. João I 45 



CAPITULO LXXXI 



Como Garcia Moniz flhou atrevimento de passar 
aquella porta pêra ir buscar o infante^ e das razões 
que lhe disse. 

COMO quer que a doçura do ganho que os homens 
haviam no despojo d'aquella cidade trouvesse 
suas vontades alegres, quanto mais com a vi- 
ctoria que em todas as cousas onde acontece é tanto 
desejada, todavia tanto que as novas do infante che- 
garam ás suas orelhas muitos correram pêra acerca 
d'aquella porta por verem a certidão d'ellas, e quanto 
o passo d'aquella porta era mais perigoso tanto a cer- 
tidão de sua tristeza se acrescentava muito mais, e 
preguntavam uns aos outros cada um como vinha mais 
tarde pelas novas que havia do infante. 

— Não sabemos, di,?iam elles, nem ha nenhum que 
o possa saber, cá depois que clle passou aquella porta 
e quatro que foram com elle, nunca mais tornou ne- 
nhum, empero quaesquer novas que ellas sejam não 
podem ser senão muito tristes pêra todos aquelles 
que o amavam, cá certo é que toda aquella villa de 
além é cheia de mouros, e mais além d'isso o grande 
perigo que seria ao passar d'estas portas não se havia 
de ter que não passasse além onde nào havia remé- 
dio que o escusasse de morte, elle c aquelles que com 
ellc passaram, salvo se foi a graça de Deus que os 
quizesse guardar, empero bem c de cilm* c|ue se elles 



46 Bihliotheca de Clássicos Porfuguezes 



vivos foram, já algum d'ellcs acudira, em duas horas 
que arrazoadamente pôde haver que elles d'aqui são 
partidos. 

E em estas departições estavam, mas não havia hi 
algum que ousasse de passar aquella porta, porque 
poucos ha que se queiram poer á ventura onde a 
morte está aparelhada. 

Mas quando G ircia Moniz, que era um fidalgo que 
fora guarda do infante sendo moço, chegou alli e lhe 
disseram o feito como era, não quiz mais esperar ne- 
nhuma cousa, mas assim como ardido cavalleiro se 
poz a todo o perigo e saltou rijamente pelas portas 
dentro até que chegou onde o infante estava. 

— Ah ! por mercê, disse clle, porque meteis os vos- 
sos em tamanhas desesperações, que não está alli tal 
a aquella porta que não tenha por fé que jámaes vos 
não ha-de vêr, e estão dizendo assim mal á sua ven- 
tura que os apartou de vós, que consiram o grande 
doesto que lhes poderá ficar se se acertar de vós 
fallecerdes por não serem comvosco. Por Deus, Senhor, 
vós quereis cometer umas cousas, e perdoae porque 
vol-o digo, que são além de todaardideza dos homens, 
e ainda leixaivos aqui estar com esperanças que se 
hajam de vir pêra vós alguns outros, e não quereis 
consirar como aquellcs muros estão cheios de mouros, 
e que acima d'esta porta está outra porta por onde 
entram e sahem os mouros quantas vezes querem, 
que não cuideis que todo o cuidado dos vossos é em 
pelejar com os mouros, porque os mais d'elles tem 
mór cuidado de roubar as casas que acham vasias, 
e vossos irmãos e todos os outros capitães andam es- 
palhados pela cidade cada uns por sua parte, c entre- 
tanto pôde ser que sahiram alguns d'aquellcs mouros 
que estão no castello, ou por ventura muitos que 



Chronica d'El-Rei D. João I 47 



andam na cidade querendo-se recolher, virão por esta 
porta e acharão por boa dita de vos acharem aqui 
pêra se vingarem no vosso sangue. Porém, por mercê, 
partivos d'aqui e tornae-vos pêra fora, onde podeis 
fazer de vossa honra com maior segurança de vossa 
vida. 

E o infante conhecia bem Garcia Moniz que era ho- 
mem sezudo e bom cavalleiro, e conheceu que o acon- 
selhava mui bem, e assim o poz logo por obra e os ou- 
tros isso mesmo que lhe falaram acerca d'ello, e po- 
rém cometeu seu caminho pêra se tornar, onde achou 
já estar Fernão Chamorro, alevantado com uma gran- 
de ferida no rosto. 

Nem cuideis que os que antes alli estavam passavam 
seu tempo ociosos, cá os mouros acudiam alli a meu- 
de e continuamente aturavam sua peleja, mas depois 
que o infante chegou cobraram elles em si muito maior 
esforço e cometeram-nos rijamente, de guisa que derri- 
baram alli alguns. 

E estando assim os feitos n'este ponto chegou alli 
Nuno Antunes, filho de António Vaz de Góes. 

— Senhor, disse elle ao infante: vossa bandeira e 
o estandarte do infante D. Pedro vão caminho da ou- 
tra porta de cima com intenção de se irem por alli 
pcra a villa de fora, e os mouros são muitos acerca d'a- 
quclla porta, façavo-lo a saber porque é bem segundo 
me parece que vós vades contra lá por tal que os vos- 
sos recebam esforço e ajuda. 

\i o infante disse que lh'o tinha muito em serviço e 
assim encaminhou logo rijamente pela rua acima, até 
que chegou onde os seus estavam, e certamente sua 
chegada foi alli mui proveitosa, cá a força dos mou- 
ros era mui grande sobre a entrada d'aquella porta, 
8 quaes punham toda sua diligencia em defender a 



48 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



passagem aos christãos, e assim deram uma grande pe- 
drada na haste da lança da bandeira do infante que a 
derribaram em terra, a qual mui azinha foi alevantada 
por força d'aquelle que a trazia, e o infante vendo 
assim aquelle feito saltou muito azinho entre ellcs c 
cometeu-os de tal maneira que os lançou além das 
portas, mas não traziam alli todos tal ardideza como 
elle, cá somente Garcia Moniz achou comsigo na es- 
curidade d'aquellas abobodas que estavam sobre aquel- 
la porta. 



CAPITULO LXXXII 



Co7no o infaiite tornou outra vez áquelle logar donde 
partira^ e como os mouros Icixaram de todo o cas- 
tello. 



UTRA vez se tornou o infante pêra aquelle lo- 
gar d'onde ante partira, por aquella rua direita 
por onde suas bandeiras vieram, não que elle 
estivesse n'aquelle próprio logar, mas na entrada da 
outra travessa que é a fundo d'aquella onde elle á pri- 
meira estava, porque alli estava um grande ajuntamento 
de mouros com que ainda tornou a pelejar, e em esto 
lhe chegou recado de seu irmão o infante D. Duarte 
que o enviava a chamar a uma mesquita que alli es- 
tava acerca, onde depois foi a se cathcdral. 

— Dizei vós, respondeu elle a aquelle mensageiro, 
ao infante meu senhor e irmão, que melhor seria se 




p1L\ 



Chronica d'El-Rei D. João I 49 



sua mercê houvesse por bem de elle vir pêra cá pêra 
arrancarmos estes mouros de todo d'aqui, que de me 
eu partir agora pêra nenhuma parte, e esto lhe envio 
dizer pela vontade boa que lhe sinto pêra similhantes 
feitos, e que saiba que como eu d'aqui partir que en- 
tendo que não ficará aqui mais nenhum. 

E como quer que muitos bons alli estiv^essem com 
o infante, assim pelo grande trabalho que já tinham 
passado como por razão da mui grande calma que 
fora aquelle dia, estavam já mui annojados, tomando 
mui ameude folga quando quer que haviam algum 
pequeno espaço, e chegavam-se ao infante requerendo 
que leixasse aquelle feito, porque ao tempo que se o 
castello houvesse de combater todos aquelJes mouros 
de necessidade se haviam de partir d'alli. 

Mas esto não prestava muito, cá tal desejo tinha 
elle que emquanto os alli sentira nunca os houvera de 
leixar se não fora o mandado de seu irmão, a quem 
elle em todas as cousas guardava obediência, porque 
fora aquelle recado que lhe primeiro veiu foram ou- 
tros, aos quaes o infante sempre achou resposta di- 
zendo que em aquelle dia não era pêra leixar simi- 
Ihante logar, não tanto pelo damno que os mouros 
depois poderiam fazer, como por lhe não dar algum 
azo porque lhe podesse ficar alguma esperança de sua 
salvação, c esto dizia o infante pensando que aquclla 
mesquita era muito mais alongada d'ondc elle estava, 
e que isso mesmo não era chamado a outro algum fim 
senão pelo tirariam crafiucUe trabalho pela grande con- 
tinuação que sabiam que elle aquelle dia tivera acer- 
ca d'aquella contenda, empcro mandou-lhc dizer cm- 
fim o infante D. Duarte que todavia fosse sem outra 
alguma tardança. 

— Senhor, disse o mensageiro, vosso irmão vos en- 



60 Bihlioiheca de Clássicos Portugueses 



via dizer que elle e os outros vossos irmãos são alli 
ajuntados, onde tem comsigo a maior parte dos capi- 
tães que vieram a este feito afim de falarem no filha- 
mento do castello, pêra a qual cousa lhe é vossa pre- 
sença muito necessária, porém vos encommcnda que 
vos vades logo sem outro dctimento. 

Ouvindo esto o infante não se deteve mais, antes 
chamou logo aquelles que com elle estavam, dizendo 
que pois a vontade de seu irmão era que se partissem 
d'alli que seria mui bem partissem de maneira que os 
mouros não sentissem que se partiam constrangidos. 

— E pêra isto me parece, disse elle, que será bem 
que vós vades deante e cu ficarei detrás, ou ficae vós 
detrás e eu irei deante. 

— Isso não é razão, disseram elles, que vós senhor 
hajaes de ficar, tendo aqui taes pessoas que vos d'ello 
muito bem podem escusar. 

A esto respondeu o infante que pois elles assim 
queriam, que tivessem tal modo em sua ida que não 
mostrassem a seus inimigos que se partiam constran- 
gidos, o que elles fizeram pelo contrario, porque tanto 
que o infante se partiu, olhando pcra traz viu que os 
seus não traziam aquella ordem que deviam, segundo 
o que lhes elle antes dissera, e tornou outra vez so- 
bre os mouros que os seguiam e os levou ante si por 
aquella rua até que chegaram a aquelle logar onde 
primeiro cahiu Fernão Chamorro, mas em aquella ida 
não o seguia nenhum nem os mouros quizeram tornar 
após elle pensando que ficavam todos os outros de 
traz ao canto, afim de os enganar, e assim se tornou 
o infante seu passo e passo até que chegou á mesquita 
onde estavam seus irmãos. 

De Salabençala não falei até aqui da maneira que 
teve depois que lhe os mouros levaram aquellas no- 



Chronica d'El-Rei D. João I 51 



vas que já tendes ouvido, mas agora me mandou elle 
requerer que escrevesse o seu feito pêra dar fim á sua 
triste espedida. 

Porém é de saber que depois que elle de todo viu 
que a cidade era entrada e os christãos por ella es- 
palhados, sentiu que não havia outro remédio senão 
perder-se de todo, entonce tomou certos d'aquelles 
seus servidores de que se mais fiava, e entregou-lhcs 
suas mulheres pêra lh'as porem fora da cidade, e elles 
com a trigança e desacordo que tinham não se lem- 
bravam senão de mui poucas cousas pêra levar com- 
sigo, e Salabençala andava entre tanto passeando por 
aquellas casas alevantando muitas vezes os olhos pêra 
o ceu, e gemendo fortemente, como quem tamanha 
perda recebia, até que por derradeiro cavalgou em um 
ginete e se foi fora da cidade, mas qual seria o pranto 
que elle por tamanha perda fizesse, claro será a todos 
aquelles que direito juizo tiverem, mas sei eu que por 
grande que seu nojo era nunca o mostrou muito em 
sua continência, cá elle era homem fidalgo e de grande 
sizo e auctoridade, e o nojo que tinha suportava-o 
comsigo mesmo. 



52 Bibliotheca de Claasicos Portuguezes 



CAPITULO LXXXIII 



Como o infante D. Henrique chegou aonde esfarajn 
seus irmãos, e como Vasco Fernandes de Aíayde foi 
morto. 



Lj Fazendo conclusão de todos os aquecimentos do 
Tj, infante D. íienriqjc, nos quaes foi a força de 
T todas as cousas que se em aquelle dia fizeram 
que de contar fossem, nem presuma algum que cu 
não puz tanta diligencia em requerer e buscar todos 
os aquecimentos dos outros senhores, porque não digo 
eu dos principaes, mas de qualquer outro do povo 
escrevera seu feito se o achara de merecimento ou o 
poderá sabçr por qualquer guisa, conhecendo bem 
que a vontade d'el-rci meu senhor é saber perfeita- 
mente todos os merecimentos de seus naturaes, pêra 
honrar a memoria dos mortos e remunerar aos vives, 
pelos trabalhos de seus padres, ou d'elles mesmos, c 
esto porque sua vontade é posta em uma egualeza do 
justiça, segundo no processo de seus feitos tnais com 
pridamcnte será achado, e de eu não saber perfeita 
mente a verdade das cousas, tenho três rasões pêra 
minha escusa, a saber as primeiras duas que já disse, 
uma a estrcitura d'aquellas ruas c a outra a longura 
do tempo, e a terceira é o pouco cuidado que alguns 
queriam ter em me dizerem as cousas que sabiam, e 
taes rcfjueria cu que pêro lhes mostrasse mandado 
d'el-rei meu senhor, não me faziam menos aguardar á 



Chronica d' El- Rei D. João I 53 



sua porta, que se eu por ventura principalmente vi- 
vera por sua bemfeitoria, outras vezes me davam 
suas escusas, allegando escusações, as quaes conheci- 
damente eram mais por tomarem similhança de esta- 
tado, que por nenhuma outra necessidade. 

Em verdade não leixarei de dizer que quando eu 
consirava que um doutor, e outro similhante me mos- 
trava taes mostranças, recebia por fadiga d'ir muitas 
vezes a sua casa, lembrando-me como aquelie com 
quem eu vivo, que é meu senhor e meu rei, offerece 
suas orelhas a ouvir meus rascados, com menos ceri- 
monias, quando sente que é rasão. 

E perdoar-me-heis porque me affastei tanto da his- 
toria, cá o fiz por me escusar d'alguma culpa, se m'^ 
alguém quizer poer. 

No recebimento que o infante D. Duarte fez a seu 
irmão, não fallei algum i cousa, porque muitas vezes 
disse o grande amor que entre eiles havia, e isso 
mesmo como o infante D. Duarte foi um principe 
muito mavioso e agazalhador. 

Mas fica-me por dizer d'aquelle bom c valente ca- 
vallciro Ayres Gonçalves de Figueiredo, de cuja gran- 
deza de edade já fallei, o qual em aquelie dia andou 
sempre armado, e se acertou alli com o infante depois 
que os mouros sahiram pela outra porta de cima, 
onde derribaram a bandeira a Mem Rodrigues, o qual 
/Vyres Gonçalves de l''igueiredo pelejou sempre con- 
tinuamente, melhor c|ue outros alguns de muito me- 
nos edade, c outros (iois escudeirus bayone/cs que 
moravam no Porto, e acharam o infante no meio 
d'aquella rua, quando logo primeirametUe começou a 
seguir por cila. 

— Nào vos parece, senhor, disseram t-llrs, que esta- 
mos agora melhor m\\ú ciur nas logcas do 1'orto, onde 



54 liibliotheca de Clássicos Portuguezeê 



nos vossa mercê rcqurria (juc ficássemos ? I'". c\w atjucllr 
segundo cometimento (|iic o infante fez cm os mouros, 
quando assim foi chamado da parte de seu irm.lo, 
Vasco r^ernandes de Atayde houve novas como seu 
senhor andava n'aquelle trabalho, c trahalhou-se de o 
ir buscar, e quando i he^u)u .Icjuclle lofjar onde o in- 
fante esti\'era primeiro com os mouros, (pie era acerca 
da porta, lançaram os inimigos de cima uma pedra, a 
qual era tão grande e com tanta força lançada, qui* 
tanto que deu sobre a barreta de Vasco I^^crnandes 
cahiu logo morto em terra, e este só cavalleiro foi 
aquelle ipie por seu sangue pagou toda a desavi-ntura 
d'aquelle feito, em pêro bema\'enlurado foi elle que em 
tal logar fez fim de sua vida, e sua almasrtmcnte levou 
as novas ao outro mundo ila pcrfeiçAo d'aquella victo- 
ria, i- não é duvida sen;\o cpie sua morte fora muito 
mais chorada se lV)ra por outra maneira. 

(irande tlesenfadamenlo lilharam todos aquelles se- 
nhores que estavam juntos em aquella mestpjita, e as- 
sim todos os outros, fallan<lo da boa victoria que lhe 
Deus dóra, e cada um contava o (jue lhe acontecera, 
mas sobre todos acpielles i-scudeiros que foram com o 
infante tinham mui grande gloria em contar a sua 
parte, porcpie n;\o ha no mundo tamanha honestidade 
que não seja loeaila ile doçura de gloria, e tanto 
é maior quanto o seu merecimento c havido com 
maiores traballu)s, o (pie certamente era ass.ls de 
grande, tpianto a aijuelles, cl ft)i achado cpie depois tpic 
chegaram .Iquelle logar aonde cahiu l^ernAo Chamorro, 
até cpie o infante partiu pêra a mescpiita, passaiain 
cinco horas tiabalhandíi continuamente, c posto (pie 
n6s em outras parles digamos o espaço do tempo 
maior ou mais pe(pieno, a verdade é esta, e o ai se 
diz segundo o fallamento d'a(]uelles (pie emment.lmot. 



CÃrettic« <£M-I^i J3. JqSq I 5Ô 




CAPrruLo Lxxxiv 



tj-rti/ .-■'■''.". •n.iM.tjtí iÁ.tmur o infanta ÍK t{i!nrz(fut^ 



Kio Vasco Fernandes, como dito é, logo os 
tnouros coí-ne^urum de despejar de todo u^iuella 
villu primeiru, e estando assim a^ielles se- 
nhores, tiveram seu conselho e comes:aram de aviar 
,.. ..,,.. ,^[ q^^; cimipriam pêra combate do castello, de^ 
•do que por aquella noite nílo fuessem nenhU' 
'Ce que lhe fossem postas suas guar- 
ita que o combatessem realmente, e o 
ue L>. tiennque tanto que toi n'aquella mesquita, 
t causa do grande trabalho que tinha passado, lan- 
< ■ se algum pouco a repousar, e todo seu principal 
era as teridas que tinha nas pernas, de que 
u tanto sentido, e em jazendo assin\ lhe che- 
recado d'el-rei que o enviava chamar, o qual es» 
em outra mesquita, apartada d'aquella onde ago- 
ra e o mosteiro de S. Jorge, e bem deveis entender 
que onde elle estivesse em similhante tempo, qual se- 
ria a companhia que com elle tosse, Cit di-'en\ os di- 
reitos que o testenumho que el-rei der deve valer sete, 
sto disseranx porque alem dA sua virtude, por bem 
de ra^ilo e direito s».>bre os outros hon^ens tem eNCcN 
lencia. 

C"onsirae ijue el-rei nAo podia estar »i^ que uAo es- 
tivessem com elK' ao u\eno8 seis n\il hi>mei\s, viepar- 



66 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



tindo certos officios, segundo em seus livros está de- 
clarado. 

Ora se de necessidade os homens lião-de acompa- 
nhar o rei, certo é que com melhor \ontade se che- 
gam a elle no dia da folgança e ledice, que quando está 
pelo contrario, c não ainda a elle que sobre todos os 
homens tem excelleencia, mas ainda a qualquer outro 
do povo se chegam de boamente no dia de sua ledice, 
como vemos geralmente quando se fazem bodas, que 
além dos que pêra ellas são convidados se chegam 
outros muitos, e portanto cumpre mais aos reis, que 
hão de agazalhar gente, mostrarem sempre suas caras 
alegres e mandar ás vezes fazer festas em suas casas, 
quando o tempo o requer, cá diz o auctor dos feitos 
d'el-rei D. João de Castella, que foi na batalha de Al- 
jubarrota, que uma das cousas porque perdeu muitos 
fidalgos quando vinha pêra este reino, foi por ser ho- 
mem que sempre em sua continência mostra\'a tris- 
teza. 

Todas as palavras que se alli a el-rei diziam vinham 
á conclusão do louvor da victoria, c uns falavam no 
filhar da terra, e outros como o infante D. IJuarte sa- 
hira escondidamente da galé com desejo de ser com 
os primeiros, c outros como a I )eus prouvera de a villa 
ser entrada tão azinha, outros falavam da discrissão 
do prior, que antes doestavam, dizendo que soubera 
mui bem encaminhar todo o que lhe fora mandado. 

— Bem sabia, respondeu el-rci, o prior o recado que 
me levava, e eu bem conhecia quando o primeiramente 
enviei, que se visse que a cidade era desposta ou aza- 
da pêra a eu poder filhar que o saberia conhecer, nem 
eu nào começara nenhuma cousa n'este feito se me 
elle o contrario dissera, conhecendo quem elle é, cá 
bem creio verdadeiramente que se algum homem de 



Chronica d'El-Eei D. João I 57 



engenho e sizo houvesse de subir ao ceu vivo, era 
carne, o prior seria. 

Certamente, diz o auctor, não sra pequena honra 
áquelle cavalleiro aquellas palavras que el-rei assim 
dizia d'elle ante aquelle povo, e se nós ante dissemos 
da honra que havia de ser dada o João Affonso, ve- 
dor da fazenda, nem ao prior flca d'este feito pequena 
parte. 

E tornando á nossa historia, entre todas as cousas 
que alli falavam, principalmente se dizia como Deus 
quizera por sua mercê em aquelle dia guardar o in- 
fante D. Henrique, contando seus aquecimentos pela 
mais formosa maneira que elles podiam dizer, conhe- 
cendo que não podiam em ello falar tanto que a seu 
padre rtiais não prouguesse, cá doce cousa é a todos 
os homens ouvir os louvores de quaesquer cousas 
que a elles pertencem, especialmente dos filhos, além 
dos quaes não ha hi maior amor, e querendo o infante 
vir ao mandado de seu padre, achou que lhe furtaram 
aquelle bom cutello com que elle aquelle dia tantos 
e taes golpes fizera, por cuja bondade o infante houve 
assim queixume de lh'o levarem, dizendo que por ne- 
nhuma cousa d'alli partiria até que lh'o não tornas- 
sem, e posto que alli estivessem mais de cinco mil ho- 
mens, tal diligencia foi posta em o buscarem, que lhe 
foi tornado á sua mão, e quando o infante chegou onde 
el-rei estava, foi d'elle recebido com grande prazer. 

— Meu filho, disse elle, pois que a Deus prouve 
dar-vos hoje tal aquecimento, assim como elle foi avan- 
tajado de todos os outros feitos, assim praz a mim 
que por louvor de vossa fortaleza reccbaes logo aqui 
ordem de cavallaria. 

— Senhor, respondeu o infante, posto que meu me- 
recimento não seja tamanho, cu vds tenho muito em 



Ô8 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



mercê a boa vontade que tendes pêra accrescentar 
em minha honra, empero eu vos peço por mercê que 
me não queiraes fazer similhante cousa senão ao tempo 
que a fizerdes a meus irmãos, porque assim como nos 
Deus trouxe a este mundo um ante outro, assim me 
prazeria que nossa honra fosse dada ordenadamente. 
El-rei disse que lh'o agradecia muito, e que assim 
encaminharia que se fizesse. 



CAPITULO LXXXV 



Como João Vaz cf Almada foi poer a bandeira da ci- 
dade de Lisboa sobre as torres do castello e isso 
nièsmo o conde D. Pedro levou a bandeira do infante 
á torre de hez. 



EPOis que aquelle conselho assim foi feito acer- 
ca das guardas que em aquclla noite haviam 
de poer sobre o castello, indo assim aquelles 
que pêra eílo foram ordenados seu caminho, porque 
o tempo era já acerca cm que convinha começarem 
seu trabalho, acertou de olhar um d'elles pêra o cas- 
tello, sobre o qual viu estar uma grande banda de 
pardacs. 

— Não vedes, disse clle contra os outros, como 
aquelles pardacs alli estão assocegados? que me matem 
se Salabcnçala com todos os outros não é partido d"alli 
e Icixou o castel lo vazio, cá se assim não fosse não es- 
tariam alli aquelles pardacs assim de assocego, e to- 




Chronica d'El-Rei D. João I 59 



dos os outros disseram que lhes parecia ser assim, so- 
bre a qual cousa tornaram a el-rei pêra receberem seu 
mandamento, acerca do que haviam de fazer. 

Mas por ventura não seriam aquelles os pardaes 
que o outro sonhava que comiam as abelhas? 

— Pois que assim é, disse el-rei, vão chamar João 
Vaz d'Almada que traz a bandeira de S. Vicente, e 
digam-lhe de minha parte que a vá logo poer sobre 
a mais alta torre. 

João Vaz foi logo chamado e a bandeira prestes, e 
ajuntaram-se com ella parte d'aquelles bons homens, 
e foram-se caminho do castello, e querendo quebrar 
as portas que estavam fechadas, pareceram sobre o 
muro dois homens que dentro estavam, a saber um 
biscainho e outro genoez. 

— Não filheis trabalho, disseram elles, em quebrar 
as portas, cá não tendes nenhum empacho em vossa 
entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui, e 
somente ficamos nós ambos, que vos abriremos as por- 
tas quando quizerdes. 

— Ora pois, disse João Vaz, filhae lá essa bandeira 
e ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos. 

Alguns disseram aqui, querendo fazer este caso maior, 
que aquelle genoez, com outros alguns que dentro es- 
tavam, quizeram mostrar signal de defensão, e que el- 
rei mandara sobre elles certa gente d'armas e besta- 
ria, e que por força d'armas se filhara o castello, a 
qual cousa verdadeiramente achamos que não foi as- 
sim, c tanto que o castello foi aberto, foi dentro o in- 
fante D. Duarte e o infante D. Pedro, e o conde de 
Barcellos, e assim outros senhores c fidalgos, cá o in- 
fante I). llcnrifiuc estava com el-rei, c andando as- 
sim provendo todas as cousas (juc havia em aquella 
fortaleza, deram muitas graças ao Senhor Deus 



60 Bíbliotheca de Clássicos Portugiiezes 



que por similhante maneira os pozcra cm posse de 
todo. 

E é pêra rir do que alli aconteceu a um escudeiro 
do mestre de Christus, cá onde os outros andavam 
apanliando ouro e prata e outras cousas de grande 
valia, elle se foi occupar com um gavião treçó que 
trazia na mão, que achara n'aqucllc castello, e tão con- 
tente andava d'a([uelle bom achadcgo, que não tinha 
lembrança d'outro nenhum ganho nem proveito, e 
estimando seu presente n'aqueile preço em que o elle 
tinha, foi fazer serviço d'elle ao infante, mas eu não 
sei se o agradecimento de similhante dadiva aeria ta- 
manho como a perda do proveito que elle poderá 
haver, carregando-se d'aquellas cousas de que assas 
havia no castello. 

Muitos se começaram alli de aposentar com intenção 
de serem companheiros de João Vaz, mas el-rci não 
o quiz consentir, e mandou lá o infante D. Henrique 
que os fizesse sair todos fora, e que a posse do cas- 
tello leixassc .somente a João Vaz e aos seus, e se- 
gundo aprendemos, melhor encontro achou elle alli 
que o gavião treçó do escudeiro do mestre, cá a me- 
lhor parte das mais e melhores cousas que tinha Sa- 
labençala e todos os outros que com elle estavam 
n'aquclle castello, houve João Vaz, as quaes eram 
n'elle mui bem empregadas, cá era nobre cavallciro e \ 
trabalhou sempre cm sua vida pêra accrescentar em 
sua honra, com muitos serviços que fez a el-rei c ao 
reino. 

Como o castello foi assim ilesaniparado como dito 
é, mandou logo o infante D. Duarte ao conde I). Pe- 
dro de Menezes, que era seu alferes, que levasse a sua 
bandeira á outra villa de fora e que a pozessc sobre 
a torre de Fez, mas isto não era assim ligeiro de fa- 



Chronica d'El-rei D. João I 61 



zer, porque os mouros não podiam assim leixar de 
boamente a posse da sua cidade, cá muitos d'elles 
determinavam fazer alli antes fim de suas vidas que 
leixar suas moradas, e não é sem rasão que não so- 
mente os homens que hão verdadeiro conhecimento, 
mas ainda as brutas alimárias naturalmente mostram 
sentimento quando são tiradas do seu, segundo diz o 
philosopho no livro de Proprietatibus Rerum, e assim 
houve alli uma escaramuça á sahida d'aquella porta, 
que se agora chama de Fernão AíTonso, na qual ma- 
taram a um alferes de D. Henrique de Noronha, em- 
pero isto prestou pouco aos mouros porque ia a ban- 
deira acompanhada de mui nobres pessoas, cá eram 
alli o dito D. Henrique e D. João seu irmão, e Pêro 
Vaz d'Almada e Álvaro Mendes Cerveira, e IMem de 
Affonso seu irmão, Álvaro Nogueira e Nuno Martins 
da Silveira e Vasco Martins do Carvalhal, e o grão 
barão d'Allemanha, o qual em aquelle dia provou 
como valente cavalleiro que era, e assim o fizeram a 
maior parte de todos os gentis homens que com elle 
vinham, c Nuno Vaz de Castello Branco, e cinco ir- 
mãos seus que alli vinham, e Diogo Fernandes d'Al- 
meidi c outros muitos e bons c grandes fidalgos, cujos 
nomes não podemos perfeitamente saber, e assim fo- 
ram todos juntamente poer aquclla bandeira sobre a 
torre de Fez, e a guardaram aquella noite, e D. Fer- 
nando de Castro e I). João seu irmão, acompanhados 
d*outros muitos cavalhiros, sahiram pela outra parte 
de cima cscaramuçanflo com os mouros, até que os 
lançaram fora pela outra porta, que se ora chama de 
Álvaro Mendes. 



62 Bíbliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO LXXXVI 



Em que o auctor declara o tempo em que a cidade foi 
tomada e quaes eram os trabalhos dos homens em 
aquella noite. 

V^/iNiE e um dias eram do mez de agosto, quando 
*"X andava a era de Adão, que é o anno do mun- 
do em cinco mil cento setenta e seis annos he- 
braicos, e a era do diluvio em quatro mil quinhentos 
e dezesete annos romanos, e a era de Nabucodonosor 
em dois mil cento c sessenta e dois, e a era de Filippc, 
o grão rei de Grécia, em mil setecentos e vinte e oito 
annos, e a era de Alexandre, o grão rei de Macedónia, 
em mil setecentos e vinte e seis, e a era de César 
imperador dé Roma, cm mil e quatrocentos e cin- 
coenta c três, c a era de Nosso Senhor Jesus Christo, 
em mil quatrocentos e quinze, e a era de Alimus, o 
Egypciâo, em novecentos e setenta e um, e a era dos 
Alarves em setecentos e noventa e três, segundo os 
seus annos, cá os outros annos todos são romanos, e 
a era dos Persas cm setecentos e oitenta e três, e a 
era do reinado d'el-rei D. AfTonso o primeiro de Por- 
tugal em trezentos e treze, c o anno do reinado d'este rei 
D. João em trinta e dois dos annos solares, quando es- 
tava o sol cm seis graus do signo de Virgo, e a lua 
sobre o primeiro quarto de seu crescimento, no pri- 
meiro grau dos dois gémeos que são Pollux e Castor, 
filhos de Leda, já passavam de sete horas e meia de- 



-áJ 



Chronica d'El-Rei D. João I 63 



pois do meio dia quando a cidade foi de todo livre 
dos mouros, e os nossos assim como andavam mui can- 
sados por razão do trabalho, e assim por a força da 
quentura que passaram, começaram de se aposentar 
aquelles que ainda não eram aposentados, cá muitos 
havia ahi que depois que uma vez entravam na casa 
alli aguardavam a vinda da noite, outros tomaram as 
esperanças tão largas que não se contentaram do pri- 
meiro achadego, e a derradeira ficaram sem nenhuma 
cousa. 

Depois que a noite de todo foi cerrada tanto foi o 
desprezo em que tiveram os mouros pela victoria que 
tão facilmente houveram, que não tiveram cuidado de 
poer nenhuma guarda na cidade, somente quanto ti- 
veram acordo de fecharem as portas, como quer que 
segundo meu juizo as guardas não eram muito neces- 
sárias por aquelle presente, porque a cidade pela 
maior parte é cercada d'agua, onde tinha assaz segu- 
rança, e aquelle pequeno espaço que ficava da parte 
do sertão não lhe cumpria melhor guarda que agente 
do infante que estava sobre a porta de Fez, e outra muita 
que isso mesmo estava á porta de Álvaro Mendes, e as 
outras companhas que jaziam pela cidade não tinham 
cuidado d'outra cousa que de apanharem o esbulho, e 
quanto mais o tempo se afastava do primeiro começo, 
tanto o fogo de sua cubica era mais aceso, e entonce 
começavam de se arrepender do damno que fizeram 
cm muitas cousas de que se depois poderam aprovei- 
tar, cá logo no primeiro começo não esguardando ne- 
nhuma cousa fizeram tamanho damno cm muitas cou- 
sas de grande valia, cuja cobiça lhes ao depois trazia 
grande arrependimento, porque muitos que se acerta- 
ram primeiramente n'ac|uellas logeas dos mercadores 
que estavam na rua direita, assim como entravam pc- 



64 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



las portas, sem nenhuma temperança nem resguardo 
davam com suas fachas nos sacos das especiarias e es- 
farrapavam-nõs todos, de guisa que todo lançavam 
pelo chão, e bem era pêra haver dó de similhante es- 
trago, qual alli foi feito n'aquelle dia, cá as especiarias 
eram muitas e de grosso valor, e as ruas não menos 
jaziam d'ellas cheias do que poderia jazer de junco nos 
dias das grandes festas, as quaes depois que foram pi- 
zadas dos pés da multidão das gentes que por cima 
d'ellas passavam, e des ahi com o fervor do sol que 
era grande, davam de si muito grande cheiro. 

Mas porque aquelle damno sem proveito lhe po- 
desse logo trazer emproviso arrependimento, a cobiça 
d'aquella perda os subjugava a andarem depois pelas 
ruas apanhando os pedaços de canella e grãos de pi- 
menta, menosprezando o trabalho e fadiga que lhe 
sobre ello vinha, cá em treze dias que alli depois cl- 
rei esteve, nunca as ruas eram desacompanhadas d'a- 
qucllas gentes de pouco valor, em tanto que não 
podiam os homens passar livremente que não fossem 
empachados' d'aquella multidão. 

Barris de conserva c jarras de mel, manteiga, arrobe 
e a/.eite, eram alli tantas estruidas que não faziam alli 
mpjibs- enxurro pelas ruas que se fossem alguns canos 
cUagua quando chove, a qual perda era muito chorada 
f^alguns d'aquellcs de \'il geração, cá os bons e nobres 
^ão punham o seu cuidado em similhantes cousas. 

Mantimentos houveram alli assaz, assim dos que 
achavam nas casas, como outros que faziam vir da 
frota, especialmente vinho, que em similhante tempo 
era tão desejado que este era um licor de que nas 
casas dos mouros havia pouca quantidade, ainda que 
aquellés que acertaram de o beber lhe praz muito do 
bom. 



Chronica d'El-Rei D. João I 65 



CAPITULO LXXXVII 



Como os christãos em agtiella noite traziam entre si 
desvairadas occiípações. 

tíXuODA a occupação dos mais3d'aquelles era delei- 
I tosa, cá posto que todo aquelle dia fossem tra- 
balhados e o espaço da noite fosse tão pequeno, 
não havia ahi algum tão perigoso que se contentasse 
de a dormir toda, cá uns se occupavam em fazer trou- 
xas das cousas que apanharam, outros estavam eg\ia- 
lando suas partilhas com aquelles com que primeira- 
mente traziam conserva, outros anda\am cavando as 
casas onde achavam a terra movediça, e faziam n'el- 
las mui grandes foios, pensando de achar alguma ri- 
queza soterrada, e por um pouco que achavam desfa- 
ziam grandes alicerces pensando de achar mais, outros 
tentavam as alturas das aguas que jaziam nos poços 
e metinm-se n'elles apalpando com os pés pêra vêr 
se poderiam achar ainda algumas riquczr.s mais sobre 
o que tinham, e por dizer verdade a muitos não eram 
seus trabalhos em vão, cá achavam muitas cousas em 
elles de grossa valia, e os que maior eficácia traziam 
em estes trabalhos era a gente do povo, especial- 
mente os que eram casados, dos (juaes não parecia 
cousa sobeja por refice que fosse, se elles haviam logar 
pcra a trazer. 

Oh! como a ventura muda suas cousas, como lhe 
praz e acrescenta e mingua segundo seu (]ucrcr, cá 
tal havia entre acjucllcs que n'este reino mantinha 
uma s6 choça, e alli acertava ter por pousada grandes 

Voi.. IH X 



66 Bihliotheca de Clássicos Portugueze* 



casas ladrilhadas com tigellos de desvairadas côrcs 
vidrados, e os teitos forrados de olivel com formosas; 
soteas cercadas de mármores mui alvos e polidos, c> 
as camas brandas e moles e com roupas de desvaira- 
dos lavores, como \êdcs que geralmente são as obras 
dos mouros. 

«Em forte hora, diziam elies, aquelles pelejassem 
sobre tanto viço pêra nós outros, mesquinhos que 
andamos no nosso Portugal pelos campos colhendo 
nossas messes, e fadigados com a força do tempo, cá 
por derradeiro não temos outro repouso senão pobres 
casas que em comparação d'estas querem parecer 
choças de porcos». 

Os nobres homens tinham o primeiro acertamento, 
já contentes não curavam d'outra cousa senão des- 
pender o tempo que lhes o somno não occupava os 
sentidos em recontar a grandeza d'aquella victoria, c 
uns louvavam os golpes que acccrtavam de vêr a 
seus amigos, ou os aquecimentos que houveram, outros 
culpavam algum estorvo se lhe aquecera, porque per- 
deram algum golpe que poderam farer, outros estima- 
\'am a multidão dos mortos quanta seria, sobre cujo 
numero eram desvairadas opiniões, não com pequena 
gloria da desaventura de seus inimigos. 

Mas sobre todas as cousas se falava nos feitos que 
o infante I). Henrique fizera, que todo o ai estimavam 
por pouco, e outros tinham cuidado de arrecadarem 
os prisioneiros, sobre cuja guarda se punha grande 
diligencia, a uns levando-os ás galés, outros metlcndo- 
os em taes prisões porque tivessem d'elles segurança, 
outros tinham cuidado de esquadrinhar porque parte 
se azara mais certamente aquella victoria. 

K uns a atribniram de tudo o Deus, os quaes entre 
todos os outros falavam mais verdadeiramente, dizen- 



Chronica d'El-rei D. João I 67 



do que todas as ordenanças prestaram pouco se os 
mouros tiveram acordo de fecharem as portas e não 
quizeram sahir fora, cá por pouco que se tiveram de- 
fendendo sua cidade, não poderá ser que lhe em bre- 
ve tempo não viera grande socorro de seus vizinhos 
e parentes. 

Outros diziam que aquello não prestava, cá posto 
que elles fecharam as portas não tiveram vianda nem 
lhe poderá vir tão azinha de fora, segundo seu grande 
despercebimento. 

«Ah! como podéra ser, diziam elles, que os mouros 
defenderam a cidade posto que fecharam as portas, 
cá el-rei tinha ordenado de poer seu arraial na Al- 
miaa, onde os mouros foram assim combatidos por 
força de seus inimigos, e com multidão de sua gente, 
que não se escusava que em breve tempo não subiram 
os homens por cima dos seus muros, e posto que os 
da cidade tiveram mantimentos não puderam ter tan- 
tas que podessem abastar a tanta multidão de mou- 
• s como era na cidade, porque além dos moradores 
Ha eram ahi outros muitos de fora que ficaram ahi 
da primeira vez que os mouros viram os navios an- 
corar no Barbaçote, afora outros que Salabcnçala não 
(|iiiz receber na villa que estavam fora, os quaes era 
necessário que recebesse quando visse que de todo 
queriam combater a cidade». 

«Ora vós calae, diziam outros, cá depois de Deus não 
ti in ahi nenhuma cousa tamanho louvor como o no- 
bre conselho que el-rei tc-ve, cá se os mouros tiveram 
avizamento, ainda que, não fora mais cjue um mez antes, 
nunca se a cidade cobrara que se primeiro não gas- 
tara todo Portugal pedaço a pedaço». 

\í assim em estes feitos c deparliçòes despenderam 
as gentes aijuclla i)arle ila noite. 



68 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Mas o entendimento d'el-rei não buscava nenhuma 
d'estas cousas, antes jazia pensando na grande mercê 
que lhe Deus fizera, pêra a qual lhe pedia em sua von- 
tade que lhe abrisse azo e caminho como podesse guar- 
dar e defender aquella cidade, por testemunho de ta- 
manho milagre, e por tal que a lembrança d'aquella 
victoria ficasse por successão a todos os reis que de- 
pois d'elle viessem e possuíssem sua herdade. 



CAPITULO LXXXVIII 



Do grande pranto qíie os mouros /aziatn sobre a perda 
da sua cidade. 



Vj^iKDOSA cousa era de ouvir os gemidos d'aqucl- 
1^ les mouros depois que foram afastados da som- 
j bra dos muros de sua cidade, cá se começaram 
^^ a apartar por entre as espessuras dos arvoredos 
das suas hortas e pomares, e não havia ahi tal que logo 
á primeira chegada podesse ter segurança, por muito 
escuso que o lugar fosse, cá assim vinham amedronta- 
dos da mortandade que viram fazer cm seus vizinhos 
e parentes. 

I\Ias depois que a noite começou de sobrevir cobra- 
ram elles algum atrevimento, e começaram de se sa- 
hir d'aquelles matos, cada um por sua parte, c chamar- 
se uns aos outros por seus próprios nomes, e as ma- 
dres chamavam os filhos, e os maridos as mulheres, c 



Ckromca d/El-Rei D. João I 69 



aquelles que se acertavam de se acharem tinham algum 
remédio por seu conforto, ainda que lhe muito não po- 
dessc durar, porque a lembrança de sua perda geral 
não podia esquecer por outra nenhuma cousa de me- 
lhoria, por grande que fosse, e sobre todo não havia 
ahi algum que não tivesse alguma parte que chorar, 
porque a uns falleciam os filhos, a outros as mulheres 
e amigos, e taes se acertavam alli a que falleciam to- 
dos, e assim começaram a fazer seu pranto mui dori- 
do, chorando sua perdição, cá se alembravam das cou- 
sas que perderam, as quaes eram tantas e tão gran- 
des, que cada uma por si lhe fazia mui doloroso senti- 
mento^ e entonce cada um nomeava a nobreza d'ellas, 
e como as perdera. 

«Ha no mundo entendimento, diziam elles, em que 
poderá caber que uma tão nobre e tão real cidade em 
um só dia se podesse perder? Por certo não foram 
esto homens viventes, mas foram os poderios do in- 
ferno que chegaram sobre nós, cá similhante obra mal 
se poderá crer que foi em tão breve tempo acabada 
por nenhuma força nem poderio terreal. Iv escrevam 
os auctores das historias que nunca foi nem será al- 
guma companha tão malaventurada como esta nossa, 
e ainda que nós estivéramos em meio d'um campo com 
umas poucas de palhas ante nós, não poderamos tão 
ligeiramente ser vencidos, e se quer ao menos nos Ici- 
xára nossa má ventura tanto bem que tivéramos al- 
gum espaço em que poderamos conhecer nosso ven- 
cimento, o qual nos não aproveitara pouco para nosso 
avizamento.» 

IC cntonccs comcça\'am a contar uns aos outros to- 
dos os a(iUL'cimc;nt()S de sua partida, c (juaes eram os 
que morreram logo na primeira rua, e quaes ao depois, 
e contavam outrosim a grande multidão de seus pa- 



70 Bibliotheca de Clássicos Portugiiezes 



rentes e amigos que jaziam espargidos pelas ruas e 
praças da cidade. 

Os velhos diziam que ouviam a seus padres e avós 
fallar n'aquella perdição, dizendo que dias haviam de 
vir em que aquella cidade havia de ser regada com o 
sangue de seus filhos, s. de seus moradores. 

(outros contaxam sonhos que sonharam de cousas 
maravilhosas que lhe apareceram, os quaes depois do 
damno declaravam. 

Um hou\-c que disse: 

«Quando cu era moço, me mandou meu padre a Tu- 
nes pêra um meu tio que lá morava, o qual me deu 
a ensinar a um almoedada mesquita maior, e estando 
eu um dia fallando com elle, contando-lhe as bondades 
d'esta cidade, elle em fim de minhas pala\-ras poz as 
mãos sobre os olhos e começou de suspirar mui forte- 
mente, e muitas \ezes lhe pareciam as lagrimas por de 
sobre a mão, e entonce me disse: 

«Filho meu, rogo-te qbe me não digas mais das 
bondades de tua cidade, que me não podes tu mais 
dizer que eu não saiba. Mas esto te digo, que se os 
mouros da terra d' Africa soubessem o que eu sei, que 
já em ella não estaria pedra sobre pedra que não fos- 
se toda no chão, e a sua formosura e bondade ha ain- 
dade ser por nosso mal, o qual sentirão primeiroosd'clla 
e depois o sentiremos nós outros os de cá, e esto sei 
eu, disse elle, porque não ha muitos annos que jazendo 
eu n'esta mesquita, dormindo uma noite, sonhava que 
via uma mulher com muitos filhos d'arredor de si, e 
que via uma ponte que se começava de junto de seus 
pés c chegava até o reino do Algarve, pela qual vi- 
nham da terra dos christãos grandes manarias de mo- 
ços, os quaes pelejavam com os filhos d'aquclla mu- 
lher ate que os matavam todos, e mamavam em suas 



Chronica d'El-Rei D. João I 71 



tetas, e esto contei eu a outros mouros sabedores, e 
todos acordámos que aquella mulher representava a 
terra d'Africa, e os primeiros filhos somos nós outros, 
os quaes empucharam os christãos de suas terras, s. 
de sua terra, e de todo esto se ha-de alevantar por 
cobiça de vossa cidade. 

«E porque, disse aquelle mouro, eu nunca tive cren- 
ça em sonhos, não curei muito esguardar sobre ello.» 

Disseram ainda mais que quando a frota d'el-rei 
partiu de Barbaçote pêra os Algeziras, uma das mu- 
lheres de Salabençala sonhara que seu marido se mu- 
dava d'alli pêra outras casas, e porque o ella via mui- 
to triste que lhe perguntava porque vinha assim an- 
nojado ? E que lhe respondia elle que pelo coração 
que lhe ficava em Ceuta. 

«Pois, dizia ella, porque não tornaes lá por elle.'* por- 
que me tem as portas fechadas, respondia elle»; e Sa- 
labençala dizia que sonhara aquella manhã que seu 
padre o vinha abraçar; outros contavam quantas abu- 
sões sonharam havia cem annos, as quaes todas atri- 
bulam ao entendimento d'aquella perdição, e assim 
estiveram aquella noite em suas tristes departições, 
cada um contando sua parte, ate que o somno os for- 
çava, onde lhe passavam pelos sentidos cousas mui 
desvairadas, e segundo se faz commummente a todos 
aquclles que vigiando são carregados de pensamen- 
tos. 

E taes havia ahi a que pareciam grandes chamas 
de fogos, outros aguas correntes, outros multidão de 
navios, outros viam pilejar touros, outros viam a lua 
c as estrc-llas c oiitros signacs do ccu, a outros pare- 
cia- lhes que lhe falavam seus padres, parentes c ami- 
gos finados, e ainda muitos d'aquellcs que aquelle dia 
falleceram, e muitos se iam pcra asher datles e quiu- 



72 Bihllotheca de Clássicos Portuguezes 



tas que tinham, onde tinham suas casas em que esta- 
\'am no tempo do seu alacir, segundo vèdcs que os 
mouros costumam quando passam suas fructas, e as- 
sim se lançavam sobre o monte das palhas que alli 
tinham pêra suas camas, cá aquelle era o tempo que 
elles mais aturavam similhantes logares, por razão dos 
fructos que entonce amadurecem, e alli se começavam 
a lembrar quanto proveito elles houveram n'aqucllas 
herdades, e das arvores fructiferas que em ellas poze- 
ram, e quanta despeza fizeram em seus edificios, c co- 
mo tudo em tão breve tempo haviam de leixar a seus 
inimigos. 

Outros ahi havia que se lançavam a chorar pelos 
cômoros dos vallados das suas hortas, emfim d'aquelle 
triste pensamento a outros sobrevinham tanianiia bra- 
veza que com aquella lastima se enviavam ás vergon- 
teas de seus enxertos e começavam de as britar, e as- 
sim andavam duma parte pcra outra como homens 
fora de si, parecendo aquella sacerdota Edonis, que mo- 
rava nas montanhas do monte Pindo, a qual fazia ca- 
da um anno seus sacrificios ao Deus Bacho, que era 
Deus do vinho, segundo conta mestre Gonfredo, pa- 
recendo-lhes que se far'tavam em fazer aquelle estra- 
go, até que cansados faziam fim. 

Outros que tinham alguma ferramenta em aquellas 
quintas decepavam as arvores pelos pés, mas outros 
havia ahi que se temperavam em suas sanhas, espe- 
rando que por ventura cobrariam ainda sua cidade e 
se poderiam aproveitar d'aquellas cousas, e traziam ás 
suas memorias muitas escripturas que leram, nasquaes 
achavam muitos acontecimentos e grandes de outras 
cidades e villas, que depois tornaram a cobrar seus 
primeiros moradores, e se lograram das cousas simi- 
Ihnnlf"^ Miii" nnli'"» Irlv ;i\-.'im. 



Chronica d'El-Rei D. João I 73 



«Ora pois, diziam elles entre si mesmos, porque des- 
truiremos nós as nossas cousas? cá pôde ser que Deus 
obrará em nós com a sua misericórdia, e nos tornará 
á posse da nossa cidade, a qual ainda que ai não fos- 
se, é tão longe do reino de Portugal que os christãos 
a não poderão manter. 



CAPITULO LXXXIX 



Como el-rei enviou seu recado a Martim Fernandes 
Porto Carreiro, alcaide de Tarifa, notificando-lhe 
sua victoria. 

^^ÓMENTE a dois logares achamos que el-rei en- 
i Is^ viou notificar o bom acontecimento que lhe 
^/^"^ Deus dera em sua victoria. 

Onde haveis de saber que pela boa vontade que 
Martim Fernandes Porto Carreiro mostrou a seu ser- 
viço, quando enviou seu filho a elle á frota, como já 
ouvistes, teve el-rei por bem de lh'o fazer saber pri- 
meiro que a outro algum, e ainda disseram alguns que 
lhe enviou assim aqucllas novas, além do que dito é, 
porque as podcsse o dito Martim Fernandes notificar 
por outras partes d'aquelle reino de Castella, e porém, 
tanto que foi dentro na cidade, mandou fazer prestes 
um bergantim no qual enviou com seu recado |oão 
Rodrigues Comitre, (|ue lhe contasse as iio\as il'aciuellc 
aquecimento, e assim todo o outro feito c(>mo passara. 
Tanto que João Rodrigues chegou a Tarifa, íbi logo 



74 Bihliotheca de Clássicos Portugueses 



com aquellc recado a Martim Fernandes, o qual foi 
tão ledo com elle que por mui grande espaço não se 
podia fartar de o ouvir, tornando muitas vezes a per- 
guntar por todas as circumstancias d'aquelles aqueci- 
mentos. 

— Vós, disse elle a aquclle mensageiro, sejaes tão bem 
vindo como a melhor Paschoa florida que eu n'este 
mundo houve, direis a cl-rei meu senhor que lh'o te- 
nho em muito grande mercc, e que saiba elle que sua 
vontade não foi enganada em me querer fazer saber 
de sua victoria, cá não ha em seu reino homem de 
meu estado a quem eu desse vantagem de lhe mais 
prazer de seu bom aquecimento. ^las que se m'o elle 
assim não fizera saber por vós, ou por outro algum de 
seu mandado, que eu fora muito duvidoso de o crer por 
outra alguma maneira. Mas não sabeis, disse elle, co- 
mo estava o castello acompanhado, ou se tinham os 
mouros tenção de se porem cm defensão, da qual 
cousa me não prazeria, porque o castello é forte e 
poderiam dar algum trabalho a el-rei? 

— Ainda quando eu parti, respondeu João Rodri- 
gues, os mouros estavam cm jíosse d'elle, mas depois 
que eu fui no mar alongado, quanto seria uma légua 
da cidade, vi as bandeiras em cima das torres. 

E quando Pedro I^^ernandes Porto Carreiro, seu fi- 
lho, ouviu assim aquelle recado, houve grande quci- 
xunf»e porque não fora n'aquelle feito, segundo antes 
requeria a seu padre. 

— Vós me tirastes, disse elle contra o padre, d'este 
meu bom propósito, estorvando-me que não fosse com 
el-rei, que me fora grande honra, da qual cousa cm 
todos meus dias nunca perderei magua. 

— Se eu cuidara, respondeu o padre, que este feito 
tão ligeiramente se havia de acabar, não fizera tama- 



Chronica d^El-Rei D. João I 7ô 



nha detença em te aviar teus feitos como fiz, cá bem 
sabes a tenção que tinha acerca d'ello, e esto era encami- 
nhar-te algum regimento pêra ires como te pertencia, 
mas parece que Deus quiz acabar o feito por outra 
guisa, pelo qual me parece que nunca ouvi falar que 
cidade nem villa fosse tão em breve filhada, cá mui- 
tas vezes já me aconteceu mandar tingir uma meada 
áquella cidade e não foi tão azinha coberta de tinta, 
como agora foi tomada d'el-rei. 

— Certamente, disse elle, este é tamanho feito que 
é duvida de se crer assim logo pelo presente, até que a 
fama d'elle não seja mais declarada. 

O escudeiro foi muito bem agazalhado, e assim 
aquelles que com elle foram, e des-ahi partiu Martim 
Fernandes com elle por alviçaras segundo seu estado 
requeria. 

Aqui haveis de tornar que além da boa vontade 
que aquelle fidalgo tinha a el-rei, havia mui grande 
razão, assim elle como todos o.s moradores da Tarifa, 
de se alegrarem d'aqucllc feito, especialmente por lhe 
ser tirada de ante os olhos tamanha vergonha como 
tinham em terem aquelles mouros, cá depois até agora 
elles e seus successores sempre fizeram e fazem mui 
grandes proveitos pêra si em aquella cidade, venden- 
do ahi seus fructos c mercadorias, com grande avan- 
tagem de grandes ganhos. 




76 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



CAPITULO XC 

Como 7nandou el-reí João Escudeiro a casa del-rei 
D. Fernando de Aragão, c depois a A/varo Gonçal- 
ves de Amaya, e das cousas que lhe enviou dize/. 

uiROsim mandou el-rei João Escudeiro, um 
bom homem de sua casa, com seu recado a el- 
rei de Aragão. 
— Direis, disse el-rei, a el-rei D. Fernando como 
trouxe minha frota de Portugal sobre esta cidade, e os 
contrários que houve, assim por azo das cerrações co- 
mo das correntes que me levaram os navios, e como 
no fim determinei, sem embargo de todo, pôr-me so- 
bre a cidade, ainda que de muitos fosse aconselhado 
do contrario, e contar-lhe-hcis a ordem que tivemos em 
trazer a nossa frota, e como meus filhos sahiram na 
Almina e pela guisa que a cidade foi entrada, da qual 
por graça de Deus são em posse, cujo aquecimento es- 
crevo a elle primeiramente que a outro algum prm- 
cipc, pela grande e boa vontade que lhe tenho, e dcs 
ahi pelo desejo que lhe sinto pêra guerrear aos infiéis, 
e logo a cabo de poucos dias enviou a elle Álvaro 
Gonçalves de Amaya, que era seu vedor da fazenda 
na cidade do Porto, com outra embaixada, na qual lhe 
fez saber que por quanto ellcs já contrataram por suas 
cartas sobre a conquista, pelo qual, lhe disse el-rei, cu 
trabalhei de tomar assim esta cidade, por o qual en- 
tendo que faço d'aqui grande empacho aos mouros 
d'aqucm e d'alcm, ci por seu azo se podem agora 



Chronica d'El-Eei D. João I 77 



mover quaesquer cousas que quizerem fazer em cada 
uma d'estas partes acerca da destruição dos mouros, 
cá os que houverem de vir guerrear estas partes de 
Africa tem já logar onde venha desembarcar sua frota, 
e boa fortaleza d'onde possam correr a terra, e pêra 
os que quizerem guerrear o reino de Grada aprovei- 
tará muito, porque em esta cidade poderão sempre 
estar navios que guardem todo o estreito, de guisa que 
não possam passar nenhuns mouros pêra ajudar aos 
outros, porém, que eu lhe rogo que elle me faça saber 
a vontade que tem acerca d'este feito, porque eu pos- 
sa aviar e correger os meus pêra proseguir minha in- 
tenção. 

Muito prouve a el-rei D. Fernando com similhan- 
tes novas, e assim disse que dava muitas graças a Deus 
por dar tão bom acerto a el-reí D. João, seu amigo, 
mas porém que era já assim aficado d'uma enfermi- 
dade que tinha, que duvidava muito viver tanto pêra 
poder ver tamanho prazer, podendo cometer similhante 
feito, empero que elle se faria levar em umas andas 
ao estremo de Portugal, onde lhe rogava que elle qui- 
zcsse chegar, pêra falarem ambos mais largamente 
acerca de todos seus feitos, e posto que elle morresse 
em aquella viagem, o que elle entendia que se lhe não 
escusava, segundo o grande padecimento que tinha, 
que haveria por mui bem despeza sua vida em simi- 
lhante trabalho, c por esta guisa se partiu Álvaro (Gon- 
çalves de Valença do Cide, onde cl-rei cntoncc estava, 
mui contente do bom agasalhado que recebera, cá as- 
sim elle como João ICscudeiro houveram d'olle suas 
jóias e outras mercês mui grandes, segundo que o cl- 
rei era, o qual tanto que Álvaro Gonçalves partiu 
começou sua viagem, mas cm poucas jornadas fez fim 
de sua vida, e de tal guisa foi lodo cncaniinhad(í que 



78 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



primeiro houve el-rei as novas da morte d'el-rei D. 
Fernando, que .\lvaro Gonçalves viesse a elle, c cer- 
tamente que Ilespanha devera muito de sentir a mor- 
te de tal príncipe, cá era um homem de grandes 
virtudes, as quaes o encaminhavam a grandes fei- <* 
tos, e elle ficou e foi mui poderoso e amado de todo 
povo de Castella quando el-rei D. Henrique seu ir- 
mão falleccu d'este mundo, onde se elle poderá nomear 
por rei se quizera, porque seu sobrinho a aquelle tem- 
po era de edade de dois annos, a qual cousa elle não 
quiz fazer, posto que lhe muito requerido fosse, dizen- 
do que nunca Deus quizesse que elle fizesse cousa 
porque seu nome recebesse algum prasmo, e assim poz 
el-rei seu sobrinho na cadeira real e o fez receber por 
rei em todo seu reino, e o regeu depois com a rainha 
sua madre mui proveitosamente com grande contenta- 
mento de todos os do reino, e elle cercou Antcquera 
e a filhou aos mouros, e fez muitos damnos aos mou- 
ros dos reinos de Grada, e emquanto regeu Castella 
cobrou o reino de Aragão, como já temos falado, e se 
a morte se não antecipara ao levar, não foram os seus 
dias despesos em outro officio senào na guerra dos in- 
fiéis, cuja intenção é de crer que seria grande parte 
de seu merecimento no outro mundo, cá a boa von- 
tade onde o poder não abasta, em muitos logares é re- 
cebida por obra. 

Quatro coroas reaes ficaram na 1 lespanha, que sa- 
hiram da sua primeira geração, e um mestre de San- 
tiago, senhor das terras do infantado, com muitas e 
boas fortalezas em Castella, e outro filho, duque de 
Gandia, com outros muitos logares em Castella e em 
Aragão, mas porque os feitos d'aquelles reinos em 
muitos logares são tecidos com os nossos, fallaremos 
n^sadeantc mais compridamcnte em todas estas cousas. 



Chronica d'El-Rei D. João I 79 



CAPITULO XCI 



Como o aiictor falia na grande mortandade que se fez 
aquellc dia nos mouros. 



EM todos os livros historiaes costumam os aucto- 
res de mentar assim o numero de mortos como 
dos captivos, mas esto não entendemos que se 
possa fazer geralmente em todos os logarcs, que os 
vencedores em tal tempo sempre trazem maior cui- 
dado de apanharem o despojo dos inimigos, que 
contar os que jazem mortos no campo. 

Bem pode ser que se possa esto fazer por os capi- 
tães dos vencidos, os quaes pelos livros dos seus alar- 
dos querem muitas vezes haver conhecimento de sua 
perda, ou sendo tão poucos os mortos que os possam 
os vencedores ligeiramente contar, cujo numero nós 
em este feito nunca podemos certamente saber, por- 
que uns foram que disseram que eram mortos cinco 
mil, outros fallaram mais largamente e disseram dez 
mil, outros pozeram o conto em dois mil, c assim an- 
daram errados em seus contos que nós não queremos 
determinadamente escrever neuhum d'elles, leixando 
este juizo a aquelles que tiverem discrissão, consi- 
rando que, onde o feito andava por tal guisa, qual se- 
ria o fim dos inimigos entre aquelles cuja peleja era 
por dcsegual comparação por duas maneiras, a primei- 
ra porquanto os christàos eram todos armados, pouco 
ou muito, cada um em seu estado, e a segunda a vi- 



80 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



ctoria que os nossos cobraram, e a natureza consente 
que os corpos postos em desaventura sigam mais li- 
geiramente os medos, que aquelles a quem a fortuna 
mostra contrario semblante, e quanto os victoriosos 
sentiam mais fraqueza nos vencidos, tanto maior dam- 
no faziam em clles, por cuja razão foi feita em aquelle 
dia grande mortandade, a qual jazia espargida por to-j 
das as ruas da cidade, cá posto que alguns ma*:assem 
nas casas, como de feito matavam, especialmente mu- 
lheres e moços pequenos, quando foi acerca da noite 
cada um como os achava na pousada, posto que a ca- 
sa fosse sua na vida, mui azinha os lançava fora d'ellaJ 
não se contentando de os receberem por aquclla noite, 
em sua companhia, empero com grande alegria alber- 
gavam os mouros, uns pela esperança que tinham do 
ganho que haviam de haver por seu resgate, outros 
por serviço que esperavam d'elles, e assim que todas 
as ruas jaziam acompanhadas d'aquelles mortos, cada 
um com aquella jazeda que a sua derradeira ventura 
o leixara, salvo alguns cujas roupas faziam cubica 
aos christãos, por a qual os tiravam d'cllas, e os prin- 
cipaes logares em que esta mortualha jazia, assim era 
n'aquellas ruas acerca do castello onde o infante Dj 
Henrique acertara com aquelles seus, como já disse- 
mos, e como nós outros arrepiamos nossas carnes quan- 
do, por accidentc, vemos algum homem morto ante 
nossos olhos, e estamos esmorecendo sobre elle, ma- 
ravilhando-nos do desvairo de sua continência, c vem 
a nós um mordimcnto de piedade, posto que na sua 
vida lhe houvéssemos ódio, vós outros, diz o auctor, 
que andáveis alli, porque vos não fartáveis de olhar i 
similhança d'aquelles que por força de vossos golpes* 
periliam as vidas? os quacs jazendo cm terra não po- 
diam direitamente ser conhecidos, e tanto eram ator- 



I 

Ckronica d'El-Rei D. João I 81 



mentados das feridas, que não davam nenhum vagar 
ás almas pêra sair das carnes, e a taes se lhe partiam 
os espirites apressados, que lhe leixavam as caras tão 
feias que verdadeiramente arremedavam a similhança 
dos anjos infernaes, cuja fera e áspera companha elles 
em breve tempo haviam de conhecer. 

Nem creais que a todos geralmente a morte leixou 
um geito de jazeda, cá uns jaziam com os corpos ten- 
' didos e as mãos apertadas e os dentes fechados, e os 
outros jaziam com o focinho sobre a terra e embru- 
lhados no seu sang-ue mesmo, outros com os corpos 
embuizados, apertando com seus punhos a roupa que 
traziam, outros jaHam assim espedaçados, que homem 
não poderia direitamente julgar qual fora a sua queda, 
taes havia que os golpes primeiros não eram tão fe- 
ros como o trilhamento dos vivos, quando acertavam 
de passar por cima d'elles, pouco prestava alli os fal- 
sos promettimentos das torpes deleitações porque 
aquelle velhaco Propheta primeiramente induzia aquelle 
simples povo, cá os principes infernaes enviaram alli 
grandes azes de suas companhas invisiveis, que com 
mui grande trigança arrancavam as almas d'aquelles 
mesquinhos e as levavam com mui grandes alegrias 
pêra aquelle eternal captiveiro, onde cm preço da es- 
pera da luxuria, lhe apresentavam caras tristes e espan- 
tosas, nas quaes pêra sempre continuailamcntc hão de 
contemplar, e assim todas as outras doçuras pagailas 
por triste preço, e porquanto a lua fora nova nos primei- 
ros graus do signo Aries, seguiam a sua claridade as pri- 
meiras horas da noite, e com isto era necessário que 
as gentes fiassem de umas casas pcra as outras visitar 
seus amigos e buscar suas necessidades, annojavam-sc 
fortemente com a vista (rat|uellcs mortos, especial- 
mente por([ue muitos cl'i-llcs jaziam tão feios que na 



82 BiUiotheca de aassicos Portuguezes 

metade do dia traziam aborrecimento, quanto mais de 
noite, e sobre todo ainda se acertava que alguns d'el- 
les nao eram de todo mortos e tinham alguns mem- 
bros cortados, e depois que os leixava algum tanto a 
dor, provavam de se levantar com as caras cheias de 
sangue e de pó, com que acrescentava mui mais sua 
lealdade; e porem, com todos os trabalhos do infante 
U. Henrique não lhe esqueceu o cuidado d'aquelle feito 
e enviou a seu padre um escudeiro a perguntar-lhe 
que era o que se faria d'aquelles mouros mortos? a 
qual cousa lhe el-rei muito agradeceu, e disse que, 
pois elle d ello tivera tal lembrança, que lhe enconien- 
dava que tivesse cuidado de mandar aquella gente 
que os levasse ao mar, sobre a qual cousa houve gran- 
de referta, porque elles diziam que os mareantes an- 
tes deviam de ter tal cuidado, os outros diziam que 
nao, empero a qualquer d'elles que pertencesse, a ci- 
dade íoi livre pela guisa que el-rei tinha mandado, e 
assim do numero dos mortos nem dos captivos nào 
poemos certo termo pelo que dito é, mas dos chris- 
taos sabemos certamente que morreram oito em aquclle 
dia, a saber: cinco á porta que \\isco Fernandes bri- 
tou e dois dentro na cidade, contando com elles Vas- 
co Fernandes de Atayde, e mais o alferes de D. Hen- 
rique. 



Chronica d'El-Rei D. João I 83 



CAPITULO XCII 



Como os mouros no outro dia olhavam oz muros de 
Ceuta, e do que diziam em seu louvor. 

COMO a noite foi trazendo o fim de sua escurida- 
de, e o sol começou a ferir no oriental orizonte, 
os' mouros que sahiram da cidade tomaram 
suas mulheres e filhos e levaram-nos pêra cima da 
serra, onde as leixaram acompanhadas d'aquelles, que 
por razão de sua velhice, não podiam inteiramente 
mandar seus membros. 

Todos os outros que eram rijos e poderosos pêra 
pelejar, se vieram caminho da cidade com intenção de 
tornar á escaramuça com os christãos, pêra os tirarem 
fora dos muros, pensando que alli haveriam com el- 
les melhor direito. 

Mas os outros que ficavam sobre a serra assenta- 
dos sobre penedos, não podiam partir seus olhos das 
torres da cidade, onde começavam de consirar como 
tão pouco tempo havia que estavam em suas ca- 
sas e em tamanho repouso, abastados de grandes 
riquezas, c agora (juc se viam povoadores dos montes 
ermos, fazendo vida pouco menos de bestas, e des-ahi 
começavam a olhar o assentamento da cidade c a lor- 
mosura de suas mesquitas, des-ahi a ordenança das 
casas com todas as outras cousas e bondades de sua 
terra, e por ventura havia ahi tal que nunca com ta- 
manha scmença a esguardára, c via os seus muros 



S4 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 

cheios de gentes estranhas, e com estes pensamentos 
taes e outros similhantes, lhe sobrevinham grande» 
choros, e ora culpavam os seus santos, ora Salaben- 
çala, dizendo que fora preguiçoso e covarde em sua 
deíesa, outras vezes culpavam seus officiaes e aquelles 
que primeiramente abriram suas portas para irem pe- 
lejar, ora culpavam sua má ventura, até que nào acha- 
vam Já outrem a quem pozessem mais culpa, e enton- 
cc começavam uns cantares de palavras muito tristes 
louvando as bondades de sua cidade. 

« Oh ! diziam elles, cidade de Ceuta, flor de todas 
as outras da terra de Africa, onde acharão os teus 
moradores terra em que façam outra similhante? ou 
conio poderão elles consentir que as suas vidas senão 
gastem com tamanha perda? Onde acharão d'aqui em 
deante os mouros estranhos que vinham da Kthiopia e 
de Alexandria, de Berbéria, de terra de Siria, que é o 
re.no dos turcos, e os do Oriente que vivem além do 
no de hufrates e das índias, e outras muitas terras que 
sao alem do eixo que está ante os nossos olhos, os 
quaes todos vinham a ti carregados de tantas e tào 
ricas mercadorias? 

«Onde acharão elles outro logar similhante cm que 
possam lançar suas ancoras, ou nós outros mesquinhos 
onde iremos morar que sejamos visitados de tantas e 
tao nobres cousas ? 

«Por certo já na redondeza do mundo nào fica ou- 
tra similhante, cuja perda não somente será sentida de 
nós que a perdemos, mas de todos aquelles que nas- 
cerem do ventre de Agar, ou que viverem sob a dis- 
ciplina do nosso santo Propheta Mafamede. 

«Que farão agora os moradores de Gibraltar, e assim 
todos os outros do reino de Grada, cá perdido é o seu 
acorro e o seu amparo? E nós dcsaventurados, que 



Chronica d'El-Rei D. João I 85 



faremos de nossos filhos e filhas que tínhamos caza- 
das d'aquella parte, das quaes nos partíamos um 
.dia e n'aquelle mesmo tornávamos pêra nossas casas? 
1 «Agora já acabamos de os vêr pêra todo sempre. 
Que jóias lhe mandaremos que tragam nas suas gran- 
des paschoas ou por onde nos virão seus recados co- 
mo sohiam? Acabados são já, e assim choremos suas 
perdas como se as tivéssemos postas nas sepulturas; 
quaes de nós acharão agora, quando se levantarem 
das camas, as bestas carregadas de pannos de seda que 
nos vinham da cidade de Damasco, ou as casas cheias 
de pedras preciosas dos da communidade de Veneza, 
ou os grandes sacos de especiaria que nos vinham dos 
desertos de Libia ? 

<E que riquezas e nobrezas poderíamos nós nomear 
que nós cada dia não achássemos ante as portas de 
nossas logeas? 

«Ou qual navio poderia correr por todo o mar Me- 
diterrâneo que não mesurasse as suas vellas ante a 
grandeza de nossa cidade ? Nós éramos conhecidos 
não somente entre os mouros, mas na maior parte de 
toda a christandade, cá todos nos haviam mister e to- 
dos nos buscavam, não tão somente os amigos, mas 
ainda os inimigos, não nos podiam escusar. 

«E se te tu não contentavas, cidade de Ceuta, dos 
teus próprios moradores, porque não mandavas chamar 
outros por toda a terra d*Africa que te viessem po- 
voar, cá assaz acharas d'cllcs? E se quer que tanto 
nos fizesses ora cm galardão do que em ti fizeram 
nossos antecessores, porque ao menos nos ficara poder 
pêra virmos visitar tuas sagradas mesquitas, onde são 
as sepulturas de nossos padres, c tivéramos licen(;a de 
entrar nas nossas casas, e nào fora tanto o nosso mal 
quando as viramos povoada de gente da nossa lei, 



86 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 

mas trouxeste aqui os nossos inimigos do cabo do 
mundo, porque tingissem as mãos do sangue de teus 
cidadãos, ^ão tinhas tu fortaleza de muros em que 
nos poderamos defender, até que fôramos accorid..s 
dos outros Jogares de nossa comarca? Pois que mal 
loi este tamanho porque te tão azinha Icixaste sorji- 
gar a aquelles que te nunca conheceram nem sabiam? 
i\ao foi esto por certo com mingua de tua fortaleza 
cá muros e torres tens tu arredor de ti feitas por 
grande mestria, e o teu alcaçar -não era feito de ten 
movediça nem de pedra ensoça, que se poderá derri- 
bar do prmieiro combate, mas feito de mui formosa 
cantaria, hado com mui forte betume de argamassa o 
as torres mui bastas e direitas com todos os outros 
louvores que se a uma proveitosa fortaleza requer c 
o teu assentamento era assim azado pêra grande ci- 
dade, qual não havia no mundo similhante dcs a ponta 
do estreito ate o porto de Jafã, que é o postcimeiro do 
mar Mediterrâneo, e por certo fdiziam elles) não po- 
demos direitamente dizer que a tua bondade te derri- 
bou. Agora é já acabada a inveja que nos nossos vi- 
zinhos havia. Mesquinhos de nós, que proveito faze- 
mos agora sobre nossa velhice andar por terras es- 
tranhas.^ melhor nos seria aguardarmos nosso Hm em 
esta terra que nos criou. 

«Que resposta daremos íquelles que nos pergunta- 
rem como perdemos nossa cidade? Senão que a lei- 
xamos como x is cidadãos, porque a longa edade que 
gasta todas as cousas e as lembranças d'eilas, não po- 
derá tirar deante o conhecimento dos homens a me- 
moria de tamanho feito, a qual viverá em nosso doesto 



Chronica d'El-Rei D. João 1 87 




CAPITULO XCIII 



Como os outros mouros chegaram acerca da cidade, e 
da escaramuça que travaram com os christãos, e co- 
mo o infante D. Duarte sahiu a elles. 



Ão tinham os outros mouros que se vieram acer- 
ca da cidade similhante occupação, antes era 
todo seu desejo de tirarem os christãos o mais 

afastado da cidade que podessem, segundo já dissemos, 
e porém chegaram-sc quanto poderam á cidade, onde 
estivessem seguros da bestaria que estava sobre os mu- 

'ros. Asquaes novas chegaram aos infantes, cada um em 
sua parte, e o infante D. Henrique estava ouvindo missa 
n'aquella mesquita que ora é Santiago; tanto que 
aquelle officio foi acabado mandou que lhe trouxessem 
um cavallo, e cremos que poucos mais havia, pelo qual 
lhe era necessário que esperasse, porque d'outra ma- 
neira não lhe poderá fazer nenhuma cousa, por razão 
das feridas que tinha nas pernas, e chegando ass.m á 
porta de Fez, onde se desceu pêra ir acima da torre 
pêra vêr o que os mouros faziam, e estando assim cm 
cima da torre como dito é, sobrechcgou o infante D. 
Duarte e cavalgou sobre o cavallo de seu irmào, e sa- 
hiu fora, dizendo que dissessem ao infante, D. Henrique 
que tivesse paciência por aquella vez, que clle queria 
ir vêr a tenção d'at|ucllcs mouros. 

E tanto que assim foi fora ajuntou-se muita gente 



S8 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 

com cUe e ordenou suas batalhas, as quaes teve assim 
ordenadas um grande pedaço, até que viu que os mou- 
ros nao queriam descer pêra pelejar, e por entonce não 
se fez alli ai que de contar seja, senão que um inglez 
criado da rainha, que chamavam Iniquixius Dama, que- 
rendo fazer vantagem entre os outros, leixou a orde- 
nança e foi pelejar com os mouros e foi ali morto, e 
porque estas são cousas de pequena substancia, não 
queremos contar mais largamente suas partes. 

Outra vez se ajuntaram aquelles mesmos mouros 
e outros muitos mais que vieram de f(3ra, as quaes no- 
vas chegaram ao infante D. Duarte, e elle assim como 
lhe tmha bom desejo fez-se logo prestes pêra se ir a 
elles, e assim o Condcstable que acertou de haver si- 
milhante recado, e estando assim o infante e o Con- 
destablc com elle, acompanhados de muitos senhores 
e fidalgos com intenção de sahirem a pelejar com os 
mouros, e em esto sobre chegou cl-rei e mandou a 
seu filho que se tornasse logo pêra a cidade, cá elle 
não viera pêra andar todo dia em escaramuça com 
os mouros, que era cousa sem fim e com pequena 
vantagem de sua honra, e assim se tornaram todos 
por aquella vez, e em onze dias que el-rei alli esteve 
depois que a cidade foi tomada, cada dia os mouros 
alli vinham e os christàos sahiam a elles, onde trava- 
vam suas escaramuças, em as quaes morriam alguns 
como se faz ccmmummente onde se travam taes cou- 
sas, e por ora não queremos fazer maior detimcnto 
porque achamos que são coisas de baixo valor, cujo 
recontamcnto traz pequeno fructo, e queremos levar 
esta gente a Portugal, porque muitos d'elles querem 
ainda tornar a fazer suas vendimas c aproveitar-se 
de seus fructos, segundo a disposição do tempo. 



Chronica d'El-Rei D. João I 89 



CAPITULO XCIV 



Como el-rel mandou chamar o seu capelão mór, e das 
razões que lhe disse. 

lill SEXTA feira seguinte, que eram vinte e três dias 

yêri do mez, mandou el-rei chamar o mestre Frei 
^ João Xira e Affonso Eannes, seu capelão mór, 
e disse-lhes: 

— Domingo, prazendo a Deus, entendo de ir ouvir 
missa solemne e pregação á mesquita maior, porém te- 
reis cuidado de ajuntar todos os capelães de meu§ fi- 
lhos e quaesquer outros clérigos que venham na mi- 
nha frota, e assim mandareis fazer prestes todos os 
corregimentos pêra a capela que mister forem pêra 
similhante auto. 

E logo no outro dia o capelão mór foi ver aquella 
mesquita, e achou que lhe cumpria de ser limpa, cá 
posto que cila fosse mui bem ladrilhada, acerca do 
chão jazia em ella mui grande multidão de esterco, e 
esto era por razão das muitas esteiras velhas c podres 
que em ella jaziam, porquanto os mouros t[uando fa- 
zem sua oração muitas vezes jazem em terra, e outras 
vezes estão descalços e lançam assim aquellas esteiras 
por razão da frialdade, c segundo parece depois que 
a primeira esteira que alli lançaram apodreceu não a 
quizeram tirar, mas lançaram outra sobre ella, e assim 
fizeram sempre atí'; ac|uel!e tempo, de guisa (jue as es- 
teiras de cima estavam sãs, e todas as ouiras se moe- 



9o Bihliotheca de Clássicos Portugxuzes 



ram de tal guisa, que eram tornadas em esterco, 
cuja razão em aquellc sabbado foram juntadas mu 
enxadas e cestos com que lançaram toda aquella 
tcrqueira fora, e alimparam muito bem toda a casa, 
trouxeram isso mesmo uma taboa larga pêra o alt; 
com seus pés, e por similhante todos os outros corr< 
gimentos que pertenciam pêra aquclle officio do d 
seguinte. 

No outro dia muito cedo foram alli juntos n'aqucll 
casa todos os clérigos -que vinham em aquella compí 
nha, os quaes todos juntos faziam um formoso collc 
gio, e foi assim que em aquelle tempo não se acerto 
alli nenhum bispo, porque n'aquelle tempo que se 
armada fez, uns morreram, outros esta\-am em seu 
estudos, outros eram em corte de Roma, e assim pc 
acerto se não achou alli nenhum. 

Empero sua presença não foi alli muito necessari.- 
cá assaz havia ahi de clérigos bem sufficientes per 
acabarem aquelle officio, e porém, tomaram logo mui 
tos d'aqucllcs clérigos suas capas mui ricas de qu 
havia assaz, e o Preste isso mesmo com seu diácono 
subdiacono, tendo prestes sua caldeira com agua 
sal, pêra fazerem seu officio. 

Em esto chegou el-rei e seus filhos com elle, e as 
sim o Condestable e o mestre de Christus, e o priol d' 
Esprital com todos os outros barões e ricos homens» 
grandes senhores que alli eram, os quaes todos cran 
vestidos mui ricamente por honra de tamanha festa, « 
entonce começou aquelle sacerdote primeiramente fazei 
suas csconjurações sobre o sal, dizendo sobre clle utAi 
oração que se reza na santa madre egreja, cujas pala 
vras dizem assim : 

«Piedosamente te rogamos Todo Poderoso Deus, qut 
por tua infinda clemência queiras benzer e santificai 



Chronica d'El-Rei D. João I 91 



esta creatura d'este sal, a qual te prouve por tua santa 
Jmercê dar por bem e saúde da humanai geração.» 
Por similhante guisa foi feita na agua que estava 
uma caldeira de prata, e os sacerdotes cantaram 
mentes uma antífona que diz: 
«Fundada é a casa do Senhor sobre todas as altezas 
s montes, á qual virão todas as gentes, e dirão : 
«Gloria seja dada a ti. Senhor». 
E o Preste disse a seguinte oração: 
«Todo Poderoso Deus que em todo o logar é o teu 
Dderio, e obras segundo te praz, inclina tua vontade 
nossas supplicações porque esta casa que ora nova- 
nte é fundada no teu nome, seja por ti guardada 
t tal que a maldade de nenhum poderio a possa 
trariar, mas o Espirito Santo obrador faça sempre 
ella obrar teu puro serviço e devota liberdade.» 

assim disse outras orações, e ajuntou o sal com 
gua, e isto assim acabado tomaram as cortinas e as 
eçaram d'armar, e des ahi concertaram o altar em 
logar, que era uma formosa cousa de vêr a repar- 
to d'aquellas cousas como andavam tão ordcnada- 
^nte por todos aquelles clérigos, cl um trazia a sarja, 
ro o cordel, outros os pregos pêra armarem, e as- 
im todas as outras cousas ordenadamente até que o 
Itar de todo foi assentado, sobre o qual foi feito o si- 
.'nal da cruz com agua benta, dizendo : 
«Paz seja comtigo». 

E depois foram assim espargenflo sua agua por ;<s pa- 
sdes da egreja, começando nas parles do Oriente, as- 
^ím cercando toda aquelh casa de arredor, c entre tan- 
|3 os outros clérigos cantavam : 

<I*2sta é a casi do Senhor Deus, a qual é bem funda- 
a sobre firme pedra, levantc-se o Senhor e di-strua 
3 seus inimigos por tal c[ue fujam todos aquelles que 



92 Bihliúiheca de Clássicos Portnguezes 



aborrecem a sua face, dizendo ainda, a minha casa s 
chamará casa de oração, recontarei o teu nome ati, 
meus irmãos, no meio da tua egreja te louvarei.» 

E assim foram dizendo suas orações e antifonas até 
que chegaram ao fim da sua benção, e cobriram o al- 
tar com lenços mui delgados e alvos, sobre os quaes 
pozcram a .Vra sagrada com seus corporacs, e assim 
pozeram n'aquelle altar um mui rico frontal, acenden- 
do por toda a casa muitos cirios e tochas. 

Oh ! quanto me parece que seria em aquelle dia ale- 
vantado o coração d'el-rei pêra dar muitas graças a 
Deus, vendo seu estado real posto cm similhante offi- 
cio com tanto louvor e honra do santo nome de Jesus 
Christo, e acrescentamento de sua real coroa, nem aos 
outros não era pequena folgança ver similhante feito, 
cá leixando a honra em que todos tinham tanta parte, 
folgavam de ver a ordenança daquelles estados com 
toda a nobreza das outras cousaa que se alli faziam, c 
esto assim acabado começaram todos os clérigos em 
alta voz: 

«Te-Deum laudamus»,mui bem contra-ponteado, em 
fim do qual fizeram todas as trombetas uma soada, c 
vede quejanda seria, pois passa\'am de dozentas. 



Chronica d'El-Rei D. João 1 93 



CAPITULO XCV 



Como o mestre frei João Xira pregou e os inf atites 
foram feitos cavalleiros. 

VÍ^EM mostrou Nosso Senhor Deus que queria ser 

4\y servido em aquella casa que com tanta honra 
^ se corregia no seu nome, e esto é porque em 

todas as egrejas por ordenança apostólica devem ser 
postos sinos com que chamem o povo de Deus pêra 
sua santa casa. 

E estando assim em aquelle corregimento lembrou 
ao infante D. Henrique como em outro tempo os mou- 
ros levaram de Lagos dois sinos pcra aquella cidade, 
e mandou logo que soubessem com muita diligencia 
d'elles e que os trouxessem logo alli. 

Os quaes prouve a Deus que foram achados e corre- 
gidos por tal guisa, que logo em aquella missa servi- 
ram de seu officio. 

O mestre pregou alli uma pregação com muitas 
auctoridadcs da Santa l'3scriptura, aprovando o grande 
serviço que Nosso Senhor Deus recebera em aquelle 
feito, dizendo (|ue todos poderiam direitamente dizer o 
seu thema s. ((ue em Ceuta era toda a gloria e honra. 

SkRMÃO do I'A1JRK KRKl JoÃO XlKA 
\)K OkUKM DK S. l''l<ANCiSCO 

«(jloria (disse elle) se toma por muitas guisas por- 



94 Bihliothcca dos Clássicos Portugueze» 



que cada um cobrando aquella cousa em cuja bcm- 
aventurança tem posta sua fim c propriamente lhe parece 
que tem a perfeição da gloria, empero falando direi- 
tamente, em duas cousas somente está a perfeição da 
gloria, s. na bemaventurança que pertence á alma, a 
qual sobre todas as outras cousas é a perfeição. 

A segunda gloria é a honra d'este mundo, quando 
aos hemens percalçam cobrando-a por uzança d'al- 
guma virtude a victoria d'alguma cousa tratada ou 
cometida afim d'algum bem, e pêra ser aquella que 
deve, sempre o seu respeito deve de conseguir o ser- 
viço de Deus, sem o qual não devemos contar nenhu- 
ma cousa por boa, cá os philosophos antigos, pêro 
que gentios fossem, departindo a gloria em muitas 
maneiras, disseram que uma das cousas porque o ho- 
mem n'este mundo recebe maior gloria assim era por 
se maravilharem ^os outros de suas virtudes e bonda- 
des, havendo-o por digno de grande honra, e ainda o 
auctor do Regimento dos Príncipes, na primeira parte 
do seu. primeiro livro, departindo a bemaventurança 
em muitas maneiras, finalmente concludiu que todos 
os príncipes e grandes senhores na bemaventurança 
da alma devem poer todo seu fim, da qual direitamcn- 
tamente nasce honra que aos homens é dada n'este 
mundo, porque a honra não se dá senão por razão da 
virtude. 

«Ora vede se é assaz de gloria a el-rei nosso senhor 
e a todos vós outros seus criados e naturaes, verdes 
hoje por força de \'ossos trabalhos edificar uma casa 
a honra e louvor de Nosso Senhor Deus, cá posto que 
lhe vós não fizésseis as paredes de novo, muito mór 
merecimento é a vós tirarde-Ia de poder dos infiéis, 
e d'onde primeiramente estava sugcita aos maus c 
abomináveis sacrifícios, por exemplo d'aquelle Senhor 



; 



Chro?iica d' El- Rei D. João I 



que as mesas dos cambadores derribou e aos que ven- 
diam as pombas lançou com seus azorragues fora do 
seu santo templo, mostrando a nós que devemos com 
toda nossa força trabalhar por as suas santas casas não 
serem corrompidas por nenhum mau sacrifício, e não 
tão somente aquellas que foram de nossa lei, mas to- 
das as outras em que os infiéis fazem seus sacrifícios 
devemos quebrantar ou tornar em mosteiros e egrejas 
se o bem podessemos fazer, e em esto mostraríamos 
signal de verdadeiros servos de Christo. 

«E porque a Moysés, que foi um homem que elle 
muito amou, mandou primeiramente na lei velha que 
fizesse tabernáculo, que era como uma tenda em que 
faziam os filhos de Israel oração e sacrifício a Deus. 

«E depois el-rei Salomão, á similhança d'este fez o 
templo de Jerusalém, que foi outrosim a primeira casa 
de oração que os judeus houveram, e d'alli em dcante 
uzaram elles de fazer casas em que orassem e fizessem 
seus sacrificios, que são chamadas Sinagogas. 

«Outrosim os christãos fizeram na no\'a lei egrejas 
á similhança de templo, em que fizessem limpamente 
o sacrificio verdadeiro de Nosso Senhor Jesus Christo, 
e rogassem e orassem a Deus, e lhe pedissem mercê 
e perdão de seus peccados. 

«E pois vós tendes feito o verdadeiro templo, e ver- 
dadeira casa a Nosso Senhor, na qual cousa o servis- 
tes em duas guisas, a primeira era quanto lançastes 
d'esta cidade os maus infiéis e os tirastes de posse 
dos seus templos, que são as suas mesquitas, e a se- 
gunda em quanto tornastes aquellas mesquitas cm 
templos verdadeiros, que são as egrejas de Nosso Se- 
nhor. 

«E ainda contemplando acerca d'este acho que doso 
fundamento d'esta cidade teve Nosso Senhor l>eu8 



96 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



ordenado de ser aqui posta a cabeça da egreja de to- 
da a terra d' Africa, porque por duas guisas se contem 
em nome d'esta cidade a verdadeira essência de Nos- 
so Senhor Deus, a primeira porquanto o seu nome tem 
em si três sylabas que representam como Nosso Se- 
nhor Deus em pessoal ternário é sua essência em ro- 
da escripta, cujo centro, segundo diz Hermes é em to- 
do logar, a circumferencia não é em algum, e porém 
são três ternários em geral universidade do mundo 
compridos de todo em circulação. 

«O profundo philosophal thealogo, grande Alberto, 
sobre o primeiro capitulo da Celestial Uierarchia põe 
três graus de entendimento porque se ha-de conhe- 
cer Deus. 

«A segunda maneira é porque em nome d'esta ci- 
dade se contem cinco letras que representam as cinco 
chagas porque Nosso Senhor Jesus Christo reuniu o 
género humano, e assim que não é Ceuta pequena glo- 
ria, pois o seu nome traz taes significações. 

>sCobra5tes ainda a segunda maneira de gloria, que c 
a honra d'este mundo, cuja perfeição está n'aquellc 
Decorum, a que os gregos disseram Prepain, que quer 
dizer em nossa linguagem formosura das obras. 

«Em verdade assaz de formosa obra é, cujo nome em 
todo o tempo será grande, filhar assim uma tamanha 
cidade em tão bre\c espaço e tão longe de vossa 
terra, e fica pêra os letreiros de \'ossas sepulturas uma 
tal palavra, qual muitos pela ventura desejaram, e os 
aulhorcs das historias não poderão calar a grandeza 
de tamanho feito, cá certamente não será a vós pe- 
q uena gloria quando pensardes que depois de vossos 
dias, o vosso nome e fama de vossos feitos entre to- 
das as presenças dos vi\os, e não tão somente entre 
os homens de nossa geração mas por todas as partes 



Chronica d'El-Bei D. João I 97 



do mundo voará vossa fama, cá assim como a vós 
trouxeram os feitos que se fizeram em Itália e em 
Lombardia e em outras partes, nas quaes vedes os no- 
mes d'aquelles que nunca vistes nem conhecestes, e 
louvaes os seus bons feitos pela escriptura que vistes 
e ledes d'elles, o que deveis de crer que não menos 
farão de vós pelo merecimento de vossas obras. 

«E assim concluo que Ceuta é a perfeita gloria e 
honra.» 

E por esta guisa fez o mestre fira de sua pregação. 

Não seja porém algum de tão simples conhecimen- 
to que presuma que este é o teor próprio d"aquelle 
sermão, cá bem é de conhecer que não ha nenhum 
homem por entendido que fosse, que podesse tomar 
todas as palavras d'uma pregação, quanto mais sendo 
tanto tempo passado como já dissemos, somente apa- 
nhamos assim algumas cousas que podemos percalçar, 
pêra acompanharmos nossa historia. 

Depois que a missa foi acabada, os infantes se fo- 
ram pêra suas pousadas armar, e depois vieram todos 
juntamente á egreja, a qual cousa era muito formosa 
de vêr, cá elles haviam todos grandes corpos e bem 
feitos, e vinham armados em seus arnezes mui limpos 
e guarnidos, e com as espadas da benção cintas, e 
suas cotas d'armas, e ante elles iam muitas trombetas 
e charamelas, de guisa que não sei homem que os po- 
desse vêr que não tomasse mui grande prazer, e mui- 
to mais aquellc que com elles havia maior divido, que 
era el-rei seu padre. 

E tanto que chegaram ante elle, o infante IK Duar- 
te se poz primeiramente cm giolhos e tirou a espada 
da bainha e beijou-a, e meteu-a na mão a seu padre, 
e fel-o com ella cavalleiro, e por similhante guisa fize- 
ram seus irmãos, e esto assim acabado bcijaram-lhe a 

VoL. III 4 



98 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



mão, e apartando-se cada um pêra sua parte pêra fa- 
zer os de sua quadrilha cavalleiros. 

Muito me peza porque não poude saber os nomes 
d'aquelles que alli receberam ordem de cavallaria, em- 
pero direi alguns que aprendi; o infante D. Duarte fez 
cavalleiros o conde D. Pedro, D. Fernando de Mene- 
zes, D. João de Noronha, D. Henrique, seu irmào, 
Pcro Vaz d'Almada, Nuno Martins da Silveira, Diogo 
Fernandes d'Almeida, Nuno Vaz de Castello Branco 
e assim outros alguns. 

E o infante D. Pedro fez ahi cavalleiros Ayres Go- 
mes da Silva, filho de João Gomes, Álvaro Vaz d'Al- 
mada, Ayres Gonçalves de Abreu, Martim Corrêa, 
João de Athaydc, Martim Lopes d'Azcvedo, Diogo 
Gonçalves de Travassos, Diogo de Seabra e Fernão 
Vaz de Sequeira; e o infante D. Henrique fez cavallei- 
ros D- Fernando, senhor de Bragança, Gil Vaz da 
Cunha, Álvaro da Cunha, Álvaro Pereira, Álvaro 
Fernandes Mascarenhas, Vasco I^Iartins de Alber- 
garia, . Diogo Gomes da Silva e assim outros mui- 
tos. 

D'el-rei não falamos nada, porque fez tantos, até 
que com enfadamento os leixou de fazer. 



Chronica d'El-Rei D. João I 99 



CAPITULO XCVI 



Como el-rei teve seti conselho acerca da guarda da 
cidade. 



Lj^oi um grande falamento acerca da guarda d'esta 
M, cidade, no qual foram desvairadas opiniões, po- 
^ rém tanto que estas cousas foram acabadas el- 
rei mandou ajuntar todos aquelles que tinha ordenado 
pêra seu conselho, e tanto que assim foram juntos pro- 
proz el-rei ante elles estas cousas seguintes, acerca de 
seu propósito: 

«Bem sabeis, disse elle, todo o fundamento que tive 
no começo d'este feito, e crede muito certo que eu 
não fui fácil de trazer ao fim d'este propósito, como 
sabem bem meus filhos, que foram os principaes mo- 
vedores d'aquesta empreza, e posto que muitas e suffi- 
cientes razões mostrassem porque o devia de fazer, eu 
resguardei sempre mui bem todos os contrários que 
podiam empachar nossa victoria, e principalmente res- 
guardei se seria serviço de Deus começarmos simi- 
Ihante obra, c bem sabeis toda a maneira cjuc acerca 
d'ello tive. 

«Consirei ainda mais se por ventura poderia manter 
e guardar esta cidade sob a fé e religi.lo de Nosso 
Senhor Jesus Christo, porcjuc d'outra maneira me pa- 
rece que nosso trabalho não fora justamente despeso, 
a qual cousa não quiz muito esquadrinhar, consirando 
que se vontade fosse de Nosso Senhor Deus de a tra- 



100 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



zer a nossas màos, não lhe seria difícil de dar azo e 
caminho porque a podessemos guardar e manter. 

«Agora pela sua graça cobramos todo o fim de nosso 
desejo, pelo qual direitamente lhe devemos dar muitas 
graças por três razões: 

«A primeira por nos dar victoria, a segunda por 
no-ra dar em tào breve tempo e com tão pouco tra- 
balho, a terceira porque nos guardou de tào grandes 
perigos que podiamos haver, se por sua graça e ajuda 
não fora. 

«Porém minha vontade é com a graça de Deus, de 
leixar esta cidade sob a obdiencia de Nosso Senhor Je- 
sus Christo e da coroa de meu reino, pêra o qual me 
movem quatro razões mui sufficientes, segundo meu 
juizo. 

«A primeira porque se faça em ella o sacrifício di- 
vino em memoria e lembrança da morte e paixão de 
Nosso Senhor Jesus Christo, e este é o verdadeiro si- 
gnal de conhecimento que lhe poderemos mos- 
trar da, grande mercê que nos acerca d'cllo tem feita, 
cá d'outra guisa seria errado nosso primeiro funda- 
mento, onde dissemos que nos moviamos por seu ser- 
viço, cá se agora leixassemos assim esta cidade, não 
sei que serviço receberia de nosso trabalho, cá os in- 
fiéis tornariam logo a ella, e por doesto de sua santa 
fé, n'aqucllas casas onde o seu sacrifício foi feito fariam 
outras cousas de grande vitupério e deshonra nossa. 

«A segunda razão é porque ficando assim esta ci- 
dade sob nosso poder, poderá ser azo de se moverem 
alguns principcs christãos pcra virem aqui, e com seu 
poder e frota sobjugarem alguns outros logares d'csta 
conquista, principalmente eu ou cada um dos reis que 
depois de meus dias sucederem em meu senhorio, os 
quaes vendo ante os olhos o portal aberto, mais li- 



Chronica d'El-Rei D. João I 101 



geiramente se moverão de accrescentar em sua 
honra. 

<A terceira rasão é porque os bons homens de meus 
reinos não hajam rasão de esquecer o virtuoso exer- 
cicio das armas, ou por ventura querendo obrar em el- 
lo não irão buscar os reinos alheios onde provem 
suas forças, tendo ante si cousa tão azada em que o 
possam fazer, cá bem sabeis quando me alguns pe- 
dem licença pêra irem farzer armas a França ou a 
Inglaterra, é necessário que os correja e lhe faça mer- 
cê pêra sua viagem, com menos da qual despeza os 
posso correger e enviar a esta cidade, onde me farão 
maior serviço. 

<E ainda muitos de meus naturaes, que por alguns 
negócios são desterrados de meus reinos, muito me- 
lhor estarão aqui fazendo serviço a Deus, e cumprin- 
do sua justiça, que se irem por terras estranhas e des- 
naturarem-se pêra todo sempre de sua terra. 

«A quarta razão é porque a memoria de tamanho 
feito possa durar ante os olhos dos homens, emquan- 
to a Deus prouver de a conservarem á obediência dos 
reis de Portugal, e porque alguns gentis homens que 
por honra e amor de Nosso .Senhor Deus quererão 
trabalhar contra os inimigos de sua santa fe, tenham 
casa e logar onde o possam fazer, cá sabeis muito 
bem como o reino de Grada não é tão azado pêra 
ello como é esta cidade, pelas pazes e tregoas que se 
entre elles fazem a meude, e porque saibacs minha 
intenção, e como tenho arrezoado, o faço saber a vi')S, 
pois de vós tanto confio, pêra que me aconsclljcis 
n'aquellas cousas que por ventura nuu entendimen- 
to não pódc alcançar. 



102 Bibliofheca de ClassicoH Porhiguezes 



CAPITULO XCVII 



Como olgiins d'aqiielles do conselho responderam a el- 
rei. 

V^yisTA assim entre todos aquclla intenção que el- 
^C rei tinha, todos a aprowaram por mui boa, e hou- 
ve n'aquelle conselho algumas divisões como ge- 
ralmente ha em todas as cousas grandes, cá bem deveis 
de consirar que o movimento de tamanha cousa não 
podia ser sem muitas duvidas, segundo vereis n'estc 
capitulo, cmpero por escusarmos somma de palavras 
departiremos o conselho em duas partes. 

A primeira foi d'aquelles a que a tençcio d'el-rei 
de todo- pareceu boa sem alguma contradição, e das 
rasões d'estes não havemos porque falar, pois não 
desacordaram do propósito. Mas os da segunda parte 
disseram assim : 

«Por quanto, senhor, conhecemos de vossa vontade 
que é sempre serdes aconselhado em todas as cousas, 
c que vos não despraz de vos serem ditas quaesqucr 
cousas que homem, sinta contra vossa vontade, vos di- 
remos agora o que nos parece por vosso melhor a\i- 
samento. 

«E quanto é a vossa tenção assim simplesmente fi- 
lhada, não ha ahi alguma rasão que a possa aíTastar 
de ser muito justa e muito boa, mas é de vêr se ha 
ahi outras contrarias que possam embargal-a, e no- 
mear-\'os-hemos aqui algumas pêra verdes se são taes 



Chronica d'El-Eei D. João I 103 

que hajam logar pêra direitamente empachar vossa 
vontade. 

«E primeiramente, senhor, deveis consirar como esta 
cidade e mui alongada de vossa terra e como está 
em meio de vossos inimigos, os quaes por vingança 
de sua injuria quererão trabalhar quanto poderem e 
tanto que vos d'aqui sentirem affastado buscarão 
suas ajudas de todas as partes, as quaes de rasão lhe 
nao serão negadas pêra similhante feito, e não é du- 
vida que se não faça mui grande ajuntamento sobre 
esta cidade, ao qual por ventura os que aqui leixar- 
des não poderão resistir, e vós posto que lhe queiraes 
enviar soccorro, ou não sabereis sua necessidade, ou 
não tereis abastança de frota tão prestes com que lhe 
possaes acorrer, cá todo é pêra consirar. E posto que 
lhe uma vez ihe acorraes, não podereis assim fazer 
outras muitas, e sendo vós tão alongado d'esta terra 
e os mouros á porta, será peleja mui desaguai, os quaes 
cada dia se hão-de trabalhar quanto poderem de vin- 
gar sua deshonra. 

«Consirae isso mesmo a grandeza d'csta cidade, por 
cuja defensão vos é necessária muita gente e boa, e 
que pôde ser que vindo cl-rci de Castella a perfeita 
edade não quererá estar pelas pazes que seus tutores 
tem confirmadas comvosco, por cuja rasão vos convirá 
haverdes mister esta gente e outra muita mais se a 
tivésseis, pêra defensão de vossos reinos. 

«Consirae como a gente que aqui estiver ha mister 
mantimentos e dinheiros pêra soldus e pêra mcrccs, e 
que por pouco que aqui sirvam, sentindo a vontade 
que haveis na defensão d 'este logar, vos rcquererào 
maiores mercês do que seu estado c serviço requerem, 
sobre o qual é necessário que recebaes fadiga e es- 
cândalo de vosso povo, e portjue é necessário ciuc 



104 Bihliothcca de Clássicos Portugueses 



sejam constrangidos pêra muitas cousas de sua ser- 
ventia, cujo trabalho lhe não fard pequeno empacho, 
quanto mais se ainda fôr necessário de lhe tomar algu- 
mas cousas pêra governança d'ella, o que seria azo de 
muitos Icixarem o reino c se irem pcra terras estra- 
nhas. E \êde ainda, senhor, a pequena fortaleza que 
ha em esta cidade, a qual posto que bem cercada 
seja, não é porém tanto como cumpre, cá logo a cerca 
d'ella seria boa e assas defensável se a cidade fosse 
cheia de gente que morasse em cila, mas estando aqui 
com fronteiros nunca podem ser tantos que somente 
a possam demear. 

«E quanto é, senhor, ao que dizeis que vosso prin- 
cipal movimento é por serviço de Deus, querendo 
que se trate aqui o divinal sacrifício, assim deveis vós 
de ordenar similhantc cousa que o bem que ahi fizer- 
des não seja azo de maior mal, por quanto em fazer- 
des egrejas em que se faça o santo sacrifício, ass.ls 
d'ellas tendes em vossa terra, que são quasi todas 
destrXiidas, que seria maior mérito reparal-as e corre- 
gel-as que fazer aqui outras de novo, cm defensão das 
quaes vossos servidores e naturaes estão em tamanho 
perigo. 

<Onde nos parece que deve ser mais sentida a per- 
da de cada um d'elles, que não o merecimento que se 
receber da edificação das egrejas que se tão justamente 
podem escusar, cíí diz o Apostolo: 

«Nós outros somos templos de Deus», por onde se 
parece que maior merecimento é conservar os tem 
pios espirituaes, que edificar novamente os templo 
materiaes. 

«Outrosim, o sustcntamcnto d'esta cidade pôde sei 
azo de haver mais malfeitores cm \'Osso reino do qii( 
até aqui houve, cá o atrevimento da liberdade qu< 



Chronica d'El-rei D. João I 106 



hão-de haver, os fará cometer mais ouzados crimes do 
que fariam, se não soubessem que a determinação da 
pena fosse tão certa. 

«E finalmente, senhor, consirando todas estas cousas 
podeis esguardar as cousas que hão de vir, e se vos 
nossas rasões parecem sufficientes, ordenae sobre ellas 
vosso feito, de guisa que ao diante vos não possa tra- 
zer impedimento. 



CAPITULO XCVIII 



Como el-rei determinou todavia manter a cidade, e 
como dava o cargo d''ella a Martim Affonso de 
Mello. 



Eu sou bem lembrado (respondeu el-rei) quantos 
contrários houve no começo d'este feito, e 
quantas vezes fui aconselhado por alguns de 
vós outros que leixasse minha demanda, mostrando- 
me outras muitas rasões porque o devia de fa/cr, e eu 
sempre tive ante meus olhos o fundamento (|uc tomei 
pêra proseguir este obra, e como me lembrava que 
era serviço de Deus, logo me parecia (|ue não tinha 
rasão pêra a leixar de acabar, antes me devia despoer 
a todo o trabalho c perigo pelo poer cm fim. 

«E consiro agora como sobre tantos contrários oflc- 
rccidos, Nosso Senhor Deus quiz dar a xictoria contra 
todo natural jui/o dos homens, assim espero n'Elle 
que lhe prazerá trazer minha tenção a seu santo ser- 



106 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



viço. E certamente que quanto eu em ello mais con- 
siro, tanto me parece que presumo que ainda esta ci- 
dade ha-de ser azo de outro muito maior bem pêra 
mim ou pêra outros alguns de minlia geração, e final- 
mente ponho estes feitos rias mãos do Senhor Deus e 
de minha Senhora a Virgem Maria sua madre, sob 
cuja esperança determino de guardar e manter esta 
cidade a sua honra e louvor>^. 

Acabadas assim estas rasòes, logo alli n'aquelle 
mesmo conselho el-rei disse a Martim AíTonso de 
Mello, por fazer logo começo de sua tenção, que se 
fizesse prestes pêra ficar por fronteiro em aquclla ci- 
dade. 

«Martim AfTonso, (disse el-rci) assim pelos muitos 
serviços que vós e vosso padre e os de vossa geração 
tem feito a mim e aos reis d'onde eu venho, como 
por sentir que o sabereis mui bem fazer, a mim praz 
de vos entregar esta cidade, na qual sinto que fareis 
serviço a Deus e a mim, e acrescentareis em vossa 
honra e a de vossa geração, e eu vos leixãrei dos fi- 
dalgos de minha casa c de meus filhos, e assim dos 
outros meus naturaes, com que vós sejaes bem ajuda- 
do cm vosso trabalho, e isso mesmo vos leixãrei arti- 
lharias e corregimento pêra vossa defensão, quanto 
mister fôr, c logo pelo presente vos ficarão bitualhas 
e mantimentos pcra vossa governança, e tanto que a 
Deus prazendo eu fòr em Portugal, eu terei o cuida- 
do de vós que é rasão». 

Martim Alfonso assim pelo presente foi beijar a 
mão a el-rei, dizendo que lh'o tinha muito em mercê, 
empcro que haveria sobre ello seu conseliio, mas 
qualquer que o conselho fosse, diz o auctor, a sua 
determinação foi muito prasmada da maior parte dos 
bons que alli eram, porque Martim Affonso foi acon- 



Ckronica d'El-Rei D. João 1 107 



selhado de dois homens que não consirarana bem a 
grandeza d'aquelle feito nem esquadrinharam direita- 
mente a honra de Martim Affonso, aconselhando-o 
que não acceitasse tal carrego, dos quaes foi um es- 
cudeiro de Veiros que chamavam João Gomes Arna- 
Iho, e o outro João Zuzarte. 



CAPITULO XCIX 



Como o conde D. Pedro requereu aquella capitania e 
fronteira a el-rei^ e qziaes foram os que alli ficaram. 



^ESPROUGUE muito a el-rei quando Martim Af- 
fonso alegou suas escusas, rcfuzando aquella 
ficada ; cá certamente não lhe fazia el-rei si- 
milhante movimento senão pelo grande amor que lhe 
havia, e pelo conhecer por mui bom cavallciro e bem 
pertencente pêra similhante encarrego, cá além do seu 
grande esforço e ardideza, compoz um livro por seu 
engenho e saber que se chamava da Guerra, no qual 
contem muitas e boas cnsinanças e avizamentos pcra 
todos aquellcs que tiverem fort.ilcza ou algum logar 
cercado em frontarias de inimigos, mas muitas vezes 
os maus conselheiros privam os bons homens de seu 
entender, por cuja rasão disse o Sabedor: 

«Do mau conselheiro guardarás a tua alma». 
\L porque el-rei sentiu que o principal movimento 
de Martim Aflonso foram acjuelles (jue o assim acon- 
selharam, ao cpial os íez in<>\ir seu prt>j)rii> interesse 




108 Bihliotheca dos Clássicos Portuguezes 



mais que outra nenhuma justa necessidade, sentindo 
que se elle alli ficasse que era necessário ficarem elles, 
portanto mandou el-rei que entre os outros que alli 
houvessem de ficar, fossem ellcs; ficando assim este 
feito pêra el-rei eleger em sua vontade outro que alli 
houvesse de ficar com aquelle encarrego. 

O conde D. Pedro de Menezes soube d'ello parte, e 
foi-se muito trigosamente ao mestre de Christus, ro- 
gando-lhe muito que o quizcsse ajudar cm aquelle 
feito, cá sua vontade era ficar alli se lhe el-rei fizesse 
mercê d'aquelle encarrego, a qual cousa o mestre fez 
com mui bom desejo, sentindo a disposição do conde, 
e isso mesmo por ser homem que lhe mostrava bom 
desejo, c assim foi lago acerca d'ello falar ao infante 
D. Duarte, pedindo-lhe que requeresse a el-rei seu 
padre aquella cousa pêra o conde, de que muito prou- 
ve ao infante, e assim foi logo todo encaminhado por 
a guisa que o conde requeria, do que elle foi muito 
ledo, e foi por ello beijar a mão a el-rei e ao infante. 

Ruy de Sousa, que depois foi alcaide do castello de 
Marvão, pac de Gonçalo Rodrigues de Sousa, foi o 
primeiro fidalgo que requereu a el-rei que o leixasse 
em aquella cidade, dizendo como tinha quarenta ho- 
mens bem armados c com boas vontades pêra ficarem 
com elle em seu serviço. 

Ora vede se em tal tempo era pêra outhorgar simi- 
Ihante requerimento. 

El-rei foi muito ledo com tal petição, e assim disse 
que lh'o agradecia muito, e que prazcria a Deus que 
o acrescentaria ao deante por ello, e lhe faria muitas 
mercês. 

I^ntonce disse aos infantes que escolhessem de suas 
casas certos fidalgos e escudeiros que ficassem alli, os 
quaes foram estes que se ao deante seguem s. Lopo 



Chronica d'El-Rei D. João I 109 



Vaz de Castello Branco, alcaide de Moura, que era 
monteiro-mór d'el-rei, ficou alli por coudel de todos 
os seus, e os do infante D. Duarte ficaram sob go- 
vernança do conde D. Pedro, capitão. 

E os do infante D. Pedro ficaram a Gonçalo Nunes 
Barreto, e os do infante D. Henrique a João Pereira, 
que depois foi mui bom cavalleiro, em aquella ci- 
dade e em outras muitas foram clle e outros bons 
homens antes d'aqueste feito, os quaes andando nas 
guerras de França e de Inglaterra, ouvindo novas da 
armada que el-rei fazia, leixaram toda a doçura de 
França e d'aquellas terras, por vir a serviço d'el-rei, 
os quaes eram o dito João Pereira e Diogo Lopes de 
Sousa e Pedro Gonçalves, a que diziam jMadafaia, e 
Álvaro Mendes Cerveira. E além d'estes ficaram 
n'aquella cidade Ruy Gomes da Sllv^a, Pedro Lopes 
de Azevedo e os já ditos Pedro Gonçalves e Álvaro 
Mendes, e Luiz Vaz da Cunha c Luiz Alvares da Cu- 
nha, e Fernão Furtado, e o cavalleiro de Santa Catha- 
rina, e Álvaro Annes de Cernache, e Diogo de Seabra 
e Mem de Seabra e Gil Lourenço d'I^lvas, c Diogo 
Alvares Barbas e Gomes Dias, e Pedro \'az Pinto e 
João Ferreira, e com estes ficaram por toda a gente 
dois mil e setecentos homens em Ceuta, e Mico Itão 
que ficou alli com duas galés pcra guardar o estreito, 
e mandou el-rci que lhe ficassem muitas bitualhas de 
armaria, assim armas do corpo como bestas e almazem. 
Outrosim entre as cousas que foram achadas em 
Ceuta, que de contar sejam, foram quatro galés e 
uma galé real, e muitos viratòcs, bestas e escudos, c 
uma bombarda e muita pólvora, cebo, cera e pez, 
dardos, ancoras, cabres, treu, mastros, vergas, arti- 
mões, governalhos e todo esto enj grande abastança, 
as quaes cousas foram achadas nas terccnas. 



110 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



E estas cousas assim postas em fim, ante que el-rei 
partisse mandou ao infante D. Henrique que fosse 
meter de pcsse do castello ao conde D. Pedro. 

— E a menagem, senhor, (disse o infante) recebcl-a- 
hei eu d'ellc, ou a virá fazer a vós? 

— Não quero outra menagem, respondeu el-rei, 
senão o conhecimento que tenho de sua bondade, pela 
qual d'elle confio que a guardará como é razão. 

E assim foi o infante tirar João Vaz d'Almada do 
castello, e cntregal-o ao conde, dizcndo-lhe aquellas 
mesmas palavras que lhe el-rei dissera acerca da me- 
nagem, a qual cousa o conde disse que tinha muito 
em mercê a el-rei e ao infante, e entonce filhou o in- 
fante as chaves em a mão, e lh'as entregou e o leixou 
assim em posse. 

E como quer que João Vaz havia tantos dias que 
alli estava, e cada dia enviasse d'aquellas cousas que 
alli achou aos navios, e ainda áquellc tempo que lei- 
xou o castello ahi ficaram muitos que com o que de- 
pois hou\cram foram assaz contentes, cmpero não 
como os primeiros que estiveram com João Vaz. 



Chronica d'El-Rei D. João I 111 



CAPITULO C 



Como èl-rei partiu de Ceuta e chegou ao Algarve, e 
como fez em Tavira seus filhos duques. 



Iá agora a gente de nossa frota anda corregendo 
I os aparelhos pêra fazer sua viagem, empero en- 
r tre elles havia duas tenções mui desiguaes, fa- 
lando somente d'aquellas pessoas de baixo estado, 
porque os fidalgos e outros bons homens haviam 
grande folgança de ficarem em aquella cidade, espe- 
rando que pelo bem que cm ella fizessem acrescenta- 
riam muito mais em suas honras. 

Mas os do povo tinham as tenções mui contrarias 
de aquestas, cá não podiam presumir que depois que 
el-rei partisse algum havia de ficar vivo. 

E quanto aos outros que haviam de \'ir pêra Por- 
tugal, traziam de ledice tanto quanto cuidavam que os 
que ficavam tinham de tristeza, c uns buscavam roga- 
dores que os escusassem d'aquellc trabalho, e outros 
buscavam novas maneiras de roncaria fingindo enfer- 
midade que conhecidamente nunca li\'cram, outros 
prometiam além de sua fazenda o (|uc ni\o tinham, 
por não haverem razão de ficar, cmpcro estas cousas 
não lhe aproveitavam muito, por quanto a(iuelles que 
eram determinados ficarem, se a necessidade não era 
manifesta, por seus fingimentos não se Icixava de exe- 
cutar toda a primeira ordenança. 

Dois dias eram do mez de Setembro, a uma segun- 



112 Bihliotheca de Clássicos Portiigiiezes 



da feira, quando a frota de todo foi prestes pêra par- 
tir, e todos aquelles fidalgos e escudeiros foram beijar 
a mão a el-rei, o qual lhe fez mui grande agasalhado, 
dizendo primeiramente ao conde. 

— Pois que a Deus prouve de vos encaminhar pêra 
requerer similhante cousa, com mui boa vontade 
que tendes pêra me fazerdes serviço, pelo que eu sou 
teudo de vos acrescentar e fazer honra e mercê, vos 
encomendo que tenhaes sempre ante os olhos o en- 
carrego que filhastes, e que não menos coração te- 
nhaes pêra o guardar e defender do que tivestes pêra 
o requerer, e ainda muito maior consirando bem que na 
guarda d'esta cidade se contem vossa honra e vida, c 
vos encomendo que agasalheis mui bem estes fidalgos 
que aqui leixo pêra vos ajudarem a defender e guar- 
dar esta cidade, e isso mesmo vos encomendo toda a 
outra gente que aqui fica, que os trateis docemente c 
com todo favor que arrezoadamente poderdes, e a uns 
e a outros encomendo que vos obedeçam como a capi- 
tão e a verdadeiro fronteiro. 

E ditas estas palavras lhe beijaram todos a mão e 
se despediram delle. 

Aos fidalgos disse el-rci que lhes encomendava que 
não fizesse mingua sua presença ante os seus olhos, 
mas que sempre trabalhassem por sua honra, segundo 
a linhagem de que vinham o requeria, e a confiança 
que n'elles ha\'ia. 

Ao que todos responderam que elles fariam por 
tal guisa que antes ellc ouvisse novas de sua morte, 
que de nenhuma outra sua falta. 

Os navios que haviam de partir eram já todos 
prestes, c uns tinham as \crgas altas e somente esta- 
vam sobre uma ancora, e outros andavam já á vella, 
c tanto que el-rei foi dentro na galé, mandou fazer 



Chronica d'El-Rei D. João I 113 



signal com suas trombetas porque todos os outros na- 
vios desfraldassem suas vellas, seguindo sua viagem, 
na qual cousa foi posta pouca detença, e assim come- 
çaram todos de encaminhar com mui grande prazer 
caminho do Algarve, fazendo desvairados sons ern 
seus instrumentos, como aquelles que a doçura da vi- 
ctoria e a esperança que traziam de ver sua terra e 
seus amigos e parentes, fazia seus corações mui ale- 
gres. 

Mas os outros que ficavam estiveram todo aquelle 
dia sobre os muros, olhando a frota com mui grande 
saudade, cá taes ahi havia que não choravam menos 
que se tivessem certa esperança de nunca mais verem 
sua terra nem seus amigos e naturaes, e em verdade 
falando directamente, não era sem rasão de haverem 
entre si mui grande saudade, cá o logar e o tempo e 
a presença do feito trazia grande azo pêra ello, cá ve- 
mos quando se um homem parte de outro, ainda que 
o espaço seja pequeno de seu apartamento, e todo cm 
um reino e senhorio, não pode a vontade movida com 
mavioso zelo estar, que não mostre alguma similhança 
de sentimento. 

Ora que fanam aquelles que por similhante guisa 
ficavam ? certamente não os devemos culpar por ne- 
nhuma mostrança que em ello fizessem, cá aquella 
braveza os fez depois ser muito mais ardidos contra 
os inimigos, segundo ao deante será mais contado. 

A ordenança da frota das galés e alguns outros 
navios era irem direitamente ao porto de Farão, por- 
que aos outros era dada licença t|ue se fossem a Lis- 
boa pêra lhe des(Kicharcni seu frete, c encaminhar 
cada um pcra sua terra onde houveram de ir. 

E foi assim que os marinheiros da galé d*cl-rci 
erraram viagem, e onde houveram de ir a l''arAo, fo- 



114 Bibliotheca de Clássicos Portugtiezes 



ram a Castro Marim, e os outros navios quando de 
noite perderam a vista do pharol, seguiram sua via- 
gem direita a Farão, e querendo ir por terra buscar 
el-rei, acertou-se de se acharem todos em Tavira, onde 
el-rei estando chamou seus fillios c dissc-lhes assim: 

« lodos os serviços naturahnente requerem galardão, 
e porque além de serdes meus filhos sinto que recebi 
de vós especial serviço em todo este feito, quero que 
por ello recebaes algum galardão, e primeiramente a 
meu filho infante D. Duarte, não sei que acrescenta- 
mento e que honra lhe possa fazer sobre a que Deus 
lhe quiz dar, a saber sendo meu primeiro filho her- 
deiro de meus reinos e d<^ minha terra, elle pode filhar 
em minha vida tanta quanta lhe aprouver. Mas a vós 
outros me praz de fazer duques, a saber: a vós in- 
fante D. Pedro faço duque de Coimbra, e ao infante 
D. Henrique duque de Vizcu, c pela grandeza do tra- 
balho que filhou em todos estes feitos, assim na ar- 
mada que fez no Porto, como do trabalho e perigo 
que houve no dia que filhámos a cidade, c por todas 
às cousas que em ello obrou, o faço senhor de Co- 
vilhã. 

E os infantes todos trcs lhe beijaram a mão, tendo- 
lh'o muito em mercê, e entonce os fez duques com 
aquella solemnidade e cerimonia que se costuma, cá 
assaz havia ahi de nobres homens e corregimentos 
pêra que aquella festa fosse honrada. 



Chronica d'El-Rei D. João I 115 



CAPITULO Cl 



Como el-rei despachou alli todos e lhe fez mercê agra- 
decendo-lhe muito seus grandes trabalhos. 

VÍ^ OR quanto o reino do Algarve jaz todo na 
T^ costa do mar oceano, a maior parte de sua ser- 
f^ ventia é toda em navios, e ainda ha ahi poucas 
^^ bestas por rasão da terra que não é muito forte 
pêra mantimentos, por cuja rasão el-rci consirou que 
seria bem despachar alli toda aquella gente, por tal 
que podessem ir os navios até Lisboa, cá era neces- 
sário que todos alli fossem desembarcar por azo do 
frete que haviam de haver, no qual João Aífonso de 
Alemquer fez um especial serviço a el-rei, entre ou- 
tros muitos que lhe tinha feitos, e foi assim que con- 
sirando elle as mui grandes despezas que el-rei tinha 
feitas, e como lhe era necessário ainda despender no 
frete de todos aquelles navios, tanto que foi na cidade 
de Lisboa mandou comprar pêra el-rei todo o sal 
que havia por toda aquella terra, o qual houve assaz 
de bem barato por rasão da imposição, e quando lhe 
os mestres dos navios requeriam frete, fazia-lhes per- 
gunta se lhes prazeria de haverem o sal em preço de 
sua paga ? 

Os quaes todos juntamente foram contentes consi- 
rando como lhes seria melhor levarem seus navios 
carregados de alguma mercadoria, que levarem o di- 
nheiro, «lue ligeiramiiite poderiam ^Mstar, c assim fo- 



116 Bibliútheca de Clássicos Portuguezes 



ram todos mui bem pagos com pouco custo d'el-rei. 
E estando assim el-rei em Tavira, como dito é, fez 
ajuntar todos aquelles principacs, e disse-lhes: 

— Por quanto minha vontade é de vos despachar, 
por vos arredar do custo e do trabalho, cada um de 
vós outros pode a\'isar os que vem em sua companha 
que me venham requerer quaesquer mercês ou cou- 
sas que a suas honras ou liberdades pertençam, e como 
quer que já eu por muitas vezes tivesse experimen- 
tado vossa boa vontade, em todas as cousas pêra que 
vos requeri, em este presente trabalho senti -muito as 
boas vontades de todos, as quaes fizeram muito mais es- 
forçar a minha pêra vos sempre buscar toda a honra e 
acrescentamento que em minha posse fôr, e sobre todo 
dou muitas graças a Nosso Senhor Deus por me fa- 
zer reinar sobre gente que me tão verdadeira e leal- 
mente tem servido, pelo qual lhe peço por sua santa 
mercê que me dê sempre azo e poder pêra que 
vos possa governar e reger em todo direito e 
justiça, e aos bons honrar e acrescentar segundo é 
razão. 

Todos foram muito contentes d'aquellas palavras 
d'el-rei, dizendo que lh'o tinham muito em mercê, e 
assim começaram logo alguns a fazer suas petições 
pêra requerer suas cousas segundo lhes pertencia, as 
quaes eram mui graciosamente desembargadas, outhor- 
gando a todos aquello que achavam que era razão e 
se podia fazer, e aquelles que por ventura pediam mais 
do razoado era dada graciosa resposta, de guisa que 
a doçura de palavras lhe fazia grande contentamento; 
outros houve ahi que não quizeram pelo presente pe- 
dir nenhuma cousa, e se cspediram espaçando seus 
requerimentos pcra outro tempo, e por tal guisa foi 
todo encaminhado que todos partiram muito ledos e 



Chronica d'El-Eei D. João I 117 



contentes da presença d'el-rei, e elle outrosim das 
boas vontades que lhe sentia pêra seu serviço. 



CAPITULO CII 



Como el-rei partiu do Algarve e chegou a Évora, e do 
recebimento que lhe foi feito. 



Jpi GABADOS assim aquelies espedimentos, começou 
1^ de espalhar toda aquella gente cada uma pêra 
sua parte, e porque os mais d'elles eram anoja- 
dos do mar, quizeram antes fazer sua viagem por terra, 
empero esto era mui grave de fazer por razão das bes- 
tas que não havia, e assim era mui grande trabalho cm 
as buscar e haver, cá por derradeiro não se podiam 
achar em tamanho numero como eram necessárias, e 
tanto bem fez alli a necessidade, que ensinou a muitos 
contentarem-se das cousas pequenas, que cm outro 
tempo desprezavam as grandes, c.1 muitos d'elles se 
não contentavam senão andar em grossas facas e em 
bons cavallos, se tinham algum geito contra seu pra- 
zer, e em aquelle ensejo havia por boa dita se alcan- 
çava um pobre mu ou asno de albarda que os ptv 
desse escusar do trabalho que esperavam de sentir 
em aquelle caminho, se houvessem de andar a pe. 

Ante que leve el-rei á cidade de Kvora me parece 
que é bem que faça aqui menção d'alguns fidalgos 
que morreram de peste, 

\\ esto escrevemos atjui porque achann^s (jue ai. 



118 Bihliotheca de Clássicos Portiiguezes 



guns homens que escreveram algumas cousas que vi- 
ram d'este feito, não declaravam a morte d'estes se- 
não que morreram em Ceuta, o que mui simplesmente 
SC poderá entender que morreram na filhada da cida- 
de, e porque já especialmente falamos dos outros, di- 
remos agora dos que morreram de peste, falando 
somente nas pessoas de conta, c esto depois que a 
frota partiu de Lisboa até que tornou ao Algarve, 
e ainda no caminho depois que partiu el-rei pêra 
Évora. 

Morreu primeiramente Gonçalo Annes de Sousa, 
D. João de Castro, Álvaro Nogueira, Álvaro de 
Aguiar, Vasco Martins do Carvalhal, Nuno da Cu- 
nha, Álvaro da Cunha, Álvaro Pinhel, Antão da Cu- 
nha, Pedro Tavares e D. Pedro de Menezes. 

Deteve-se el-rei alli no reino do Algar\-e, em men- 
tes entendeu em despachar suas gentes, e tanto que as 
teve despachadas, logo encaminhou pêra a cidade de 
Évora onde estavam seus filhos e o mestre com elles, 
cuja ledice não era pequena ouvindo as novas d'aquel- 
la victoria, como quer que em sua vontade muito de- 
sejara de haver quinhão d'aquclle feito. 

Tanto que o mestre soube que el-rei vinha, fez pres- 
tes todo seu corregimento pêra o receber, segundo 
pertencia a seu estado, e segundo o caso e a terra de 
onde elle vinha. 

Em aquelle dia sahiram os infantes D. João e D. 
Fernando, e o mestre d'Aviz com elles um grande es- 
paço, c não ficou homem de pé nem de cavallo na ci- 
dade que não sahisse fora, tanta era a sua ledice com 
a vinda d'el-rei, e as mulheres alimpavam as ruas, 
lançando ás janelas as melhores cousis que tinham, e 
ajuntavam-se cada umas de suas freguezias vestidas 
de seus melhores vestidos, e com grandes cantares fi- 



Chronica d'El-Eei D. João I 119 



Ihavam quinhão d'aquelle recebimento que todos fa- 
ziam a el-rei. 

E qual seria o coração que visse aquelle recebi- 
mento que todos faziam a el-rei, que podesse reter 
aquellas veias por onde correm as lagrimas, que não 
se enchessem seus olhos d'agua. 

E não somente as pessoas de comprido entendi- 
mento, mas os meninos parvos haviam entender pêra 
se alegrarem com a vinda d'aquelle principe, e assim 
vinham todos ante elle cantando como se fosse alguma 
cousa celestial enviada a elles pêra sua salvação. 

Em todo aquelle dia não fizeram cousa alguma em 
toda a cidade, cá os officiaes dos officios mecânicos 
por bem despezo haviam o ganho d'aquelle dia por 
honrarem a festa do seu principe. 

Todas as nobres mulheres d'aquella cidade se foram 
pêra a infanta D. Izabel e a acompanharam até que 
el-rei seu padre chegou, e ella sahiu até a primeira 
sala assim acompanhada de todas aquellas nobres 
mulheres, e com grande mesura e reverencia recebeu 
seu padre e seus irmãos, e assim todos os outros no- 
bres homens que com elles vinham, cada um segundo 
seu estado. 

Des-ahi el-rei com seus filhos se foi pelo reino, 
como entre si por melhor ordenaram. 

E por agora acerca de seu recebimento e folganç.i 
não departo mais, porque bom seria de consirar a 
qualquer que ler os virtuosos feitos d'este grande 
principe, e os grandes trabalhos que filhou por sah-a- 
ção e honra de seu povo, (jual seria o amor com que 
o elles receberiam, quanto mais trazendo comsigo ta- 
manha victoria. 

Por certo eu dissera aciui muitas cousas acerca das 
grandes virtudes d'el-rei, sen:\o houvera de escrever 



120 BihUoiheca de Cl^issicus Portuguezes 



as suas honrosas exéquias com todas as outras ceri- 
monias que pertencem á sua sepultura, onde me pa- 
rece que tenho razoado logar pêra falar de minha in- 
tenção o que de suas bondades verdadeiramente sou- 
ber, porque toda a bemaventurança do homem no 
fim é de louvar, mas não é pêra calar a geral folgança 
que todos haviam com a certidão d'aquelle feito, e 
muito mais quando viram as presenças d'aquelles 
cujas vidas tinham alguma duvida, porque além da vi- 
ctoria não havia ahi tal que viesse sem parte da ri- 
queza d'aquclla cidade, e a occupação das mulheres 
entonce era recontar as cousas que seus maridos 
trouxeram, porque em ellas naturalmente mora a glo- 
ria, e deleitavam-se muito em recontar aquelle bem 
que houveram, e por tal guisa foi este feito encami- 
nhado, que muitos leixaram o pão de seus agros 
guardado em seus celeiros, c tornaram ainda a apa- 
nhar as novidades de suas vinhas. 



CAPITULO cm 



Como o auctor mostra que todas as cousas doeste mun- 
do fallecem^ senão a escriptiua. 



y^/'7\RANOE louv 

y^A/' a Numa ?( 

^"^^ achou a ai 



•or deram os philosophos antigos 
Pompilio, porque foi o primeiro que 
arte da moeda, por cuja rasào ficou 
áquellcs que falam latim, chamar-lhe dinheiros, sim- 
plesmente dizendo 7iummus^ e certo c que cllc merece 



Chronica d'El-Rei D. João 1 121 



por a sua boa invenção grande louvor entre os vivos, 
porque achou o verdadeiro meio em toda a justiça 
comutativa, não foi elle porém aquelle que repartiu 
tantas maneiras de moedas como vedes que ha no 
mundo, que depois sobre aquella forma ordenou cada 
um em seu senhorio a divisão d'ella, segundo Ilie 
aprouve, somente quanto ficou uma moeda geral por- 
que os homens possam fazer verdadeira comutação 
em todas as partes, e d'esto não curamos fazer maior 
distincção que por chegarmos ao nosso propósito. 

Ora se Numa Pompilio merece tamanho louvor por 
a arte da moeda, que devem merecer aquelles que 
primeiramente inventaram o escrever? Pois trouxeram 
a nosso conhecimento, não tão somente a sabedoria 
das cousas terreaes, mas ainda nos fizeram que co- 
nhecêssemos e soubéssemos as cousas que são sobre 
a esphera da lua até o postrimeiro ceu, cá pela Santa 
Escriptura conhecemos aquella real ordenança das 
nove ordens dos anjos, e como são repartidas em três 
hierarchias, e qual é o officio de cada uma, e assim des- 
cendo pêra fundo até á esphera de Saturno, que de 
todas sete é a mais alta. 

E em verdade seria formosa repartição se eu dis- 
sesse alguma cousa acerca da divisão d'aquclles plane- 
tas, e os caminhos que trazem cada um cm sua volta, 
salvo a novena, que é única, e não tem 1-LpicicIo, se- 
gundo mais cumpridamente podem saber acjuellcs que 
tem vistos os textos de Ptolomeu ou leram o Alma- 
gesto, ou aquello que escreveu Alfragano em suas dif- 
ferenças, ou por outros muitos auctorcs que Acerca 
dello assaz fallaram, e de como esta escriptura foi 
primeiramente achada, e as rasõcs porque, achareis ao 
deante em nosso prologo, onde começarmos a lalar 
das outras cousas do reino. 



122 Bihliothca de Clássicos Portuguezes 



Que cousa pode melhor ser entre os vivos que a 
escriptura? Pela qual seguimos direitamente o verda- 
deiro caminho das virtudes, que é o premio de nossa 
bemaventurança; esta é aquella que nos mostra quaes 
serão os nossos galardões depois do traspassamento 
d'esta vida, e outras muitas cousas que propriamente 
pertencem á alma, das quaes não curamos muito falar 
em este logar, por quanto nossa intenção não é mos- 
trar em este capitulo outra cousa senão como todas 
as boas obras d'este mundo se perderiam, se as escri- 
pturas não fossem. Como soubéramos agora que tal 
foi aquelle império dos Assyrios? o qual entre os ou- 
tros impérios assim por longura do tempo como por 
grandeza, foi muito acrescentado, cujo começo foi cl- 
rei Nino, durando por muitos segrcs, correndo por 
successão de reis até o tempo de Osias, rei de Judá, e 
por azo da desordenança de Sardanapalo foi destruí- 
do por Arbato, capitão dos Medos. 

Outrosim o reino dos Caldeos.'^ do qual a Santa Es- 
criptura .tão a mcude faz memoria, onde reinou Na- 
buchodonosor, porque Bàlthazar, seu neto, se poz em 
grande oufania em aquelle convite, do qual Daniel 
faz menção, em a seguinte noite foi encurvado por o 
rei dos romanos. 

Como poderamos saber a desordenança d'el-rei 
Xerxes, quando ellc com mil e oitenta mil homens de 
armas e cem mil navios passou em Grécia, e por uma 
pequena companha dos gregos foi desbaratado somente 
por sua soberbosa presunção, desprezando o provei- 
toso conselho de Amargaro, philosopho? 

Como soubéramos outrosim os virtuosos feitos d'ar- 
mas que fizeram primeiramente os reis de Roma? 
que SC começaram a reger por ordenança de dita- 
dores e cônsules, onde achamos as grandes ensinanças 



Chronica d'El-llti D. Joào 1 123 



que recebemos pêra regimento de cousa publica, nos 
quaes se houveram tão virtuosamente ^Iarco Furio 
Camillo e Marco Regulo, Appio Cláudio e Quinto Fá- 
bio e Lúcio Paulo e Cláudio Nero, Marco Marcello, Lú- 
cio Pinario e o grande Cypião Africano, e depois 
Marco TuUio Cicero, Marco Crasso, Gayo César, Pom- 
peu Magno e o virtuoso Catão, e assim todos os nobres 
homens d'aqueile tempo, os quaes de boamente sof- 
friam morte porque depois pêra todo sempre seus 
nomes fossem achados nas escripturas por dignos de 
grande memoria, como dizia V^ulteo, quando em a 
terra de Dalmácia, na ribeira do mar Adriático que 
jaz contra o occidente, se razoava contra César e con- 
tra sua ventura, esforçando seus cavalleiros que es- 
perassem a morte no dia seguinte, a qual tinham 
muito certa, por Octaviano, capitão de Pompeu. 

Oh ! (dizia elle) nobres mancebos, esforçai-vos na 
virtude contra a fortuna, e dae conselho ás cousas de 
vossa postumaria, cá não é pequena vida a que nos 
fica, pois em ella temos tempo de escolher qual morte 
quizermos, nem a gloria de vossa morte não e peor 
que a vida que por algum pouco mais tempo poderamos 
viver. Cá morrer pêra viver, é bemavcnturada cousa. 

Segundo Lucano, escreve todo esto no sétimo e 
oitavo capitulos do seu quarto livro, c por certo não 
são pêra esquecer as virtudes d'aquelles primeiros au- 
ctores que com tão forçosa industria c eloquente os- 
tylo reformaram ante nossos olhos os prémios e no- 
bres merecimentos dos excellentes feitos de armas c 
a gloria e a honra da corte judicial, pelo qual estado 
quantas cousas maravilhosas foram feitas pela mào e 
ditas pela lingua, são traduzidas afim de claro conhe- 
cimento, e tanto é esta industria mais perfeita virtud.-, 
quanto mais reforma o homem a sua perpetuidade 



124 Bibliutheca de Clássicos Portuguezes 



até o fim da vida de todos os homens, cuja clara me- 
moria sempre traz aprazivel deleitação aos corações 
aparelhados e dispostos a seguir honra, e por certo 
não é pequeno encarrego o nosso, quando por nosso 
trabalho os virtuosos homens justamente hão seu me- 
recimento dos seus grandes feitos. 

E portanto dizia Tullio no livro d^ Senectutí, que 
lhe não pezava de morrer porque sabia que a sua me- 
moria não havia de morrer com a sua morte, porque 
dizia elle que assim proveitosamnte vivera, que lhe pa- 
recia que não nascera de balde, e a escriptura é a 
mais segura sepultura pêra qualquer principe ou ba- 
rão virtuoso, porque representa o claro conhecimento 
de suas obras passadas. 

Certo toda a nobreza dos homens fora destruida, se 
as plumas dos escrivães a não puzeram em fim, e 
historias dos historiadores não foram. 

E portanto dizia Lucano, no oitavo livro de sua 
historia, falando de como César chegou alli áquelle 
legar d'ondc fora Troya, contando a destruição d'a- 
quellas cousas tão grandes, as quaes Júlio César es- 
guardava com tanta semença, porque elle e toda a 
geração real de Roma descendia de P2néas. 

«O santo e grande trabalho dos auctorcs historiaes, 
Lucano dizia, como tolhes a morte a todas as cousas 
que achas e as guardas em memoria, que não esque- 
çam nem morram, e dás aos homens mortaes, edade 
que lhe dure sempre». 

E porém concluindo este capitulo, entendemos que 
os grandes príncipes e outros bons homens devem 
assim virtuosamente obrar em seus feitos, que oò au- 
ctores das historias hajam rasão de escrever suas 
obras por sua notável memoria e ensinança dos outros 
cjuc depois d'elles cjuizerem conseguir virtude e arre- 



Chronica d'El-Rei D. João I 12i 



dar-se dos viciosos costumes, por tal que o seu nome 
não viva entre os homens pêra todo sempre em seu 
doesto, porque além do bom nome que nunca morre 
ou o contrario que nunca se perde, acrescentam na 
bemaventurança que pertence á sua alma, por quanto 
aquelles que descendem de sua geração, recebendo 
honra pelo seu merecimento rogam a Deus por elles, 
e assim todos os outros hão em grande reverencia 
suas sepulturas e bem dizem o seu nome ouvindo ou 
vendo o processo de suas bondades. 



CAPITULO CIV E ULTIMO 



No qual o auctor dá graças a Deus no fm de sim 
obra. 



1 Esu Christo nosso redemptor e salvador foi aquel- 

T le que chamei no começo de minha obra, conhe- 

/ cendo minha fraqueza pêra receber sua ajuda, 

sem a qual cm este mundo não se pôde começar, 

mear nem acabar nenhuma cousa. 

Porque disse no começo que esta sua ajuda não 
podíamos por nós mesmos percalçar sem requerimento 
e intercessão dos santos, principalmente da gloriosa e 
sem nenhuma mazela Virgem Nossa Senhora Santa 
Maria sua madre, a qual diz o philosopho no livro da 
natureza das animalias que a própria condição da 
pomba é em toda sua vida sempre gemer, e Nossa 
Senhora é aquelhi que sempre geme em presença de 



126 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



seu filho, pedindo salvação pêra nossas almas, e ainda 
remédio pêra nossas vidas. 

Portanto, em conclusão de minha obra, com toda 
reverencia e humildade dou muitas graças a Ellc ver- 
dadeiro Deus meu Senhor Jesu Christo, porque a 
Elle prouve por sua mercê encaminhar meus feitos 
por tal guisa, que os trouvesse a fim em louvor e 
honra d'este virtuoso rei e do mui excellente príncipe 
e virtuoso barão, o infante D. Duarte seu filho, e dos 
outros infantes seus irmãos, e assim de todos os prín- 
cipes, senhores, cavalleiros e fidalgos que no dito 
feito houveram parte. 

Dou outrosim muitas graças á Virgem Maria, por 
cuja graça e merecimento meu petitório foi outhorga- 
do, e á Senhora Santa Catharina, Virgem e martyr, em 
cuja santidade singular devoção tenho, e assim a 
todos os outros santos e santas da celestial corte. 

E peço com grande reverencia a el-rei meu senhor 
que me perdoe todas as faltas que em esta obra de 
minha. parte forem adiados, culpando em ello mais 
minha rudeza e fraco engenho, que a determinação de 
minha vontade. 

E peço e rogo outrosim a todos os fieis christãos, 
especialmente aos naturaes d'estes reinos, que lendo 
esta obra sempre hajam cm memoria a alma d'aquelle 
santo rei, por cuja virtude, industria e força esta ci- 
dade de Ceuta foi ganhada e tirada de poder dos in- 
fiéis e 'posta sob o jugo da fé de Nosso Senhor Jesu 
Christo, e outrosim pela alma d'el-rei D. Duarte, seu 
filho, de gloriosa memoria, que a ajudou a ganhar e a 
manteve e defendeu todos os dias de sua vida, e assim 
de todos aquelles que primeiramente em cila traba- 
lharam e depois até agora morreram em seu defcndi- 
mento. E devem outrosim pedir a Deus de todo co 



Chronica d'El-Rei D. João I 127 



ração e vontade que haja misericórdia d'ellas e queira 
conservar o estado d'el-rei Nosso Senhor, e o queira 
sempre ajudar pêra que mantenha e governe seus 
reinos, especialmente aquella cidade que está por 
acrescentamento da sua santa íé e da coroa real 
d'estes reinos, não esquecendo o infante D. Henrique 
que com tão grandes trabalhos e despeza a governou 
sempre em seu estado. 

Foi acabada esta obra na cidade de Silves, que é 
no reino do Algarve, a vinte e cinco dias de Março, 
quando andava a era do mundo em cinco mil cento 
e onze annos hebraicos, e a era do diluvio em quatro 
mil quinhentos e cincoenta e dois annos romanos, e a 
era de Nabuchodonosor em dois mil cento e noventa 
e sete, e a era de Filippe, o grão rei da Grécia, em 
mil setecentos sessenta e três, e a era de Alexandre, o 
grão rei de Macedónia, mil setecentos e scsseixta e um, 
e a era de César em mil quatrocentos oitenta e oito, 
e era de Nosso Senhor Jesus Christo em mil quatro- 
centos e cincoenta, e a era de Alimus o Egypcião em 
mil e seis, e a era dos Arábigos em oitocentos e vinte 
e oito, e a era dos Persas em oitocentos e dezoito, e 
a era do primeiro rei de Portugal em trezentos e 
quarenta e oito. 

Aos onze annos e duzentos c cinco dias do reinado 
d'el-rei D. Aflbnso, o cjuinto d'cste nome, e dos reis 
de Portugal o duodécimo. 

FIM 

DA CHRONICA QUE COMPOZ GoMES EaNNES DE AzURARA, 
CHRONISTA MÓR QUE KOI D'ESrES REINOS 



128 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Do FALLECIMENTO d'eL-REI D. JoÃO O I 

Deposito de seu corpo na Sé de Lisboa e triumpho 

COM QUE depois foi LEVADO E TRASLADADO AO REAL 

mosteiro da Batalha 

Tirado da chronlca d'el-rei D. Duarte que escreveu 

RuY DE Pina, chronista mór, a qual se conserva 

na torre do Tombo d'este reino 



CAPITULO I 



Da vtorie d^el-rei D. João e como seu corpo foi depo- 
sztíuio na Sé de Lisboa e do pranto e exéquias que 
se lhe fizer a7n. 



í^\ muito virtuoso principc de gloriosa memoria, 
, aJ/ el-rei D. João, dos reis o decimo, e d'cste nome 
o primeiro, rei dos reinos de Portugal e do 
Algarve, e primeiro senhor de Ceuta, sendo já em 
muita edadc e tocado de doença e paixão perigosa e 
mortal, foi pelos physicos aconselhado, e pelos infan- 
tes seus filhos acordado, que por algum mais alonga- 
mento de sua vida estivesse no logar de Alcochete, 
em Ribatejo, que sobre outros houveram por logar 
fresco e de singular disposição perá sua saúde, onde 
estando jíí alguns poucos de dias, sentindo-sc fraco e 
apressado de accidentes e fraquezas que acerca d'elle 




OiTonica d'El-Rei D. João 1 129 



e de todos testemunhavam bem sua morte, disse e 
encomendou aos infantes seus filhos e a outra nobre 
gente do seu conselho, que por quanto se sentia já no 
extremo de sua vida, e pêra tal rei como elle não 
convinha morrer em aldeias e desertos, mas na prin- 
cipal cidade e melhor casa de seus reinos, logo o le- 
vassem á cidade de Lisboa e o aposentassem dentro 
no seu castello que entonces mandava muito enobre- 
cer, e assim se cumpriu. 

E passados alguns dias em que sentiu melhoramento, 
os infantes seus filhos por seu mandado e por sua de- 
voção o levaram com grande acatamento á capella 
mor da Sé e o pozeram em todo seu estado ante o 
altar do Martyr S. Vicente, onde seu corpo jaz, por- 
que el-rei por ser d'elle muito devoto, ante de sua 
morte se quiz d'elle cm sua vida despedir, e alli ouviu 
com muita devoção missa solem ne em que com gran- 
de efficacia encomendou a Deus sua alma. 

E porqne a dita capella mór a este tempo estava 
por sua ordenança e dcspezas começada, e não ainda 
acabada, por tal que no acabamento d'ella depois de 
sua morte não houvesse mingua ou tardança, logo 
ante que se d'alli partisse mandou trazer em ouro 
amoedado, o que por vista de bons officiaes pareceu 
que pêra sua perfeição abastaria, e á oflerta da missa 
mui devotamente a oflereceu, e encommendou ao vedor 
da obra que d'ella muica desistisse até se de todo 
acabar, como se acabou, segundo agora se vê. 

E d'alli foi visitar a egreja de Santa Maria da Es- 
cada, que esta apegada com o mosteiro de S. Domin- 
gos, que novamente mandou fazer, em que tinha sin- 
gular devoção. 

E depois de se despedir da imagem de Nossa Se- 
nhora, e com inteiro conhecimento de sua morte, en- 

VoL. III 5 



130 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



commendou a Ella sua alma, e foi levado ao castello 
d'ondc partira, onde poucas horas esteve ante de seu 
fallecimento, sendo já em poder de religiosos e outros 
ministros de sua consciência; e pocndo por caso as 
mãos em sua barba real, porque a achou um pouco 
crescida a mandou logo fazer, dizendo que não con- 
vinha a rei que muitos haviam de vêr, ficar depois de 
morto espantoso e disforme. 

Feito isto, o dito glorioso rei acabou logo sua 
bemaventurada vidn, com mui claros signacs da salva- 
ção de sua alma, a quatorze dias de Agosto, véspera 
da assumpção de Nossa Senhora do anno do nasci- 
mento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatro 
centos e trinta e três. 

E foi cousa assas maravilhosa e de singular exem- 
plo de sua devoção e grande prognostico de sua 
bemaventurança, que em tal dia também nasceu e 
n'elle cntonces cumpria a edade de setenta e seis an- 
nos, e ení tal dia em batalha campal cm que se com- 
priam quarenta c oito annos, venceu n'este reino 
el-rei D. João de Castella, com que segurou eslcs rei- 
nos e estado, por cuja memoria mandou novamente 
edificar o mosteiro de Santa Maria da Victoria, que 
vulgarmente se diz da Ratalha, e em tal dia, cm que 
se cumpriam dezoito annos, partiu de Lisboa quando 
em Africa passou e tomou aos inimigos da fé a mui 
nomeada cidade de Ceuta. 

No qual dia de seu fallecimento o sol foi cris em 
grande parte de sua claridade, e assim também foi o 
sol cris o dia que a rainha D. 1'ilippa sua mulher 
falleceu primeiro que elle em Sacavém, c assim o dia 
que el-rei D. Duarte seu filho herdeiro falIcccu depois 
em Thomar. E como quer que a memoria das suas 
rcaes exéquias deve mais propriamente em sua chro- 



Chronica d'El-Rei D. João I 131 



nica ser registada, porém porque foram as mais ex- 
cellentes e mais ceremoniadas que até seu tempo 
n'estes reinos a rei d'elles se fizeram, e foi já obra e 
officio do mui excellente e seu verdadeiro e legitimo 
filho seu successor, el-rei D. Duarte, não leixarei de as 
tocar brevemente. 

A hora de seu fallecimento eram presentes seus 
filhos D. Duarte, primogénito e herdeiro, e o infante 
D. Henrique e o infante D. João, e o infante D. Fer- 
nando, porque o infante D. Pedro, também seu filho, 
a este tempo era em Coimbra. E do pranto e lamen- 
tações que ao tempo de sua morte os infantes seus 
filhos, por mingua de tal padre, e os vassallos por 
perda de tal rei deviam fazer, cesso de as especificar, 
somente saiba-se que em caso, que em as mortes dos 
reis e principes geralmente se fazem sempre signaes 
de grandes sentimentos, na d'este glorioso rei assim em 
prantos como em lagrimas, como na tristeza das ves- 
tiduras de todos, se fez por muitos dias com grande 
especialidade de dôr, que o reino foi todo coberto de 
vaso de burel, e não era sem causa, porque reinou 
tanto tempo e com vida tão prolongada, c|ue a nobre 
gente e povo do reino era já n'elle c por clle por 
creação e bemfeitorias todos reformados. 

K o infante D. Duarte sendo n'este officio de tris- 
teza com os infantes seus irmãos occupado, es(|uecido 
por isso do outro pêra que o ceptro real já o chama- 
va, parecendo que se não lembrava do i|ue á sepultu- 
ra d'el-rei seu padre cumpria, foi por frei Gyl Lobo 
seu confessor, espertado, reprendendo-lhc bcin e ho- 
nestamente como devia fazer algumas cousas que mais 
eram necessárias que em boca de rei não cabiam, que 
nos olhos seus e de todos cada vez mais lagrimas re- 
novava, pedindo-lhe (jue nas Dulras cousas (juc mais 



1S2 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



eram necessaria^que se offereceram, se recolhesse com 
os infantes e com os do conselho que ahi eram a uma 
camará, onde consultaram a maneira que se logo te- 
ria na sepultura do corpo d'el-rei, que em seu testa- 
mento dispozera ser enterrado no mosteiro de Santa 
Maria da Victoria, que elle em memoria da batalha 
que venceu alli novamente fundara como já disse, na 
qual cousa houve votos desvairados, porque a uns 
parecia que lego ante de o corpo mais se corromper 
fosse em uma azemula levado ao dito mosteiro, e isto 
pareceu abatimento pêra tão excellente rei. 

Outros diziam que se enterrasse n'aquclla cidade de 
Lisboa, e que os ossos com devida honra fossem tras- 
ladados depois, e que o sahimento se faria logo no mos- 
teiro da Victoria, posto que seu corpo ahi não estivesse. 

A uma d'es'as cousas e a outra, houve justas e ra- 
zoadas contradições, e finalmente foi acordado que o 
corpo d'el-rei fosse como foi logo metido em um 
ataúde de chumbo bem soldado, por ser metal de cor- 
rupções conserwitivo, encaixado cm uma tumba de 
pau coberta de veludo negro, com cruzes brancas por 
cima, e assim esteve na salla até á tarde. 

E como a noite sobreveiu, o corpo d'el-rei foi tra- 
zido ao patim do castcllo, c ahi posto em umas andas 
de grande magnificência pêra o caso c^rrogidas, as 
quaes os infantes e condes e outros grandes senhores, 
cobertos já de triste burel, tomaram sobre seus hom- 
bros, e n'elles com solemne pocissào alumeados com 
tochas sem conto, o levaram com espantoso pranto .i 
Sé, onde o Icixaram ante o altar de S. Vicente, em 
outra tumba mais alta a que subiam por degraus, feita 
e guarnecida n'aquella perfeição como pêra tal pessoa 
e tempo convinha, de redor da qual sempre arderam 
tochas em grande abastança. 



Chronica d'El-Rei D. João I 133 



E a capella d'onde estava foi somente coberta de 
panno de dó, e n'ella, em quanto o corpo alli esteve, fi- 
cou ordenança que certos do conselho o acompanhas- 
sem, e assim muitos frades da observância e outros 
clérigos e religiosos o guardassem continuadamente 
de dia e de noute por repartição, rezando e orando 
sempre, rogassem a Deus por sua alma, e os seus ca- 
pelães eram assim ordenados que nunca a capella es- 
tava sem n'ella mui devotamente as horas e officios 
divinos se dizerem. 

E em cada um dos dias que o corpo d'el-rei assim 
esteve, ordenadamente se diziam por sua alma trinta 
missas, d'ellas rezadas e outras cantadas, e cada sema- 
na uma vez se fazia por elle sahimento solemnizado com 
vésperas e missas, a que o collegio da Sé c outra cle- 
rezia e ordens da cidade eram presentes. 



CAPITULO II 



Como se accordou e fez a trasladação do corpo cCel-rei 
D. jfuão pêra o mosteiro da Batalha. 



\^j Qi'CO depois estando cl-rei D. Duarte em 
\^ Cintra, accordou o tempo da trasladação do cor- 
/ po d'el-rei D. João seu padre, cjue seria era 
^ Lisboa aos vinte c cinco dias de í )utubro logo 
seguinte, pêra o qual por cartas e recados, mandou 
chamar os prelados e ahbades bentos e muitas ordens 
e cabidos, e infmda clere/ia do reino, e assim todos 



134 Biblíotheca de Clássicos Portuguezes 



os infantes e o conde de Barcellos seu irmão, e seus 
filhos os condes de Ourem e de Arrayolos, e todos 
os outros grandes e nobres, e muita outra gente do 
reino. 

E vieram alli também a infanta D. Isabel, mulher 
do infante D. João, e a condessa de Barcellos e a 
condessa de Arrayollos, e outras grandes senhoras e 
donas do reino. 

E não vieram a rainha alli nem a mulher do infante 
D. Pedro, porque ambas n'aquelle tempo eram prenhes 
de muitos dias. 

Pousou el-rei nos pagos d:i Moeda, e como foi tempo 
de vir ás vésperas da trasladação, sahiu a pé muito 
coberto de dó preto, c com clle todos os senhofes e 
nobre gente alli iam todos cobertos de burel, orde- 
nados em procissão com um silencio muito triste, e 
se havia rumor era de todos os sinos de todas as 
egrejas e mosteiros da cidade, que não cessavam de 
tanger. 

E foi tanta a gente que houve n'esta ordenança, 
que os primeiros iam j.1 í porta da Sé e os derradei- 
ros não acabavam de sahir dos paços. 

As portas da Sé eram todas fechadas, e sobre uma 
das janellas da capclla de S. António estava o mes- 
tre Frey Rodrigo, da ordem de S. Domingos, confes- 
sor do infante D. Henrique, que fez um sermão por 
modos de perguntas ao povo, dito com tanta inven- 
ção de tristeza, com que moveu a todos pêra muitas 
lagrimas e espantoso pranto com que entraram na .Sé 
e se alojaram na ordenança em que cada um ha\ia de 
estar. 

A Sé de dentro era de todo coberta de pannos ne- 
gros, e nos andaimos das naves, cheios de tochas ace- 
sas e no cruzeiro, estava feita uma eça grande e alta 



Chronica d'El-Rei D. João I 135 



e mui triumphante, cercada de muitas tochas, e a ban- 
deira real d'el-rei acompanhada das bandeiras das 
armas de todos os reis e principes que por sangue e 
parentesco com el-rei tinham alguma rasão, postas 
n'aquella devida precedência que umas a outras de 
razão tinham. 

El-rei e os infantes com os outros grandes senho- 
res como entraram, assim com muitas lagrimas toma- 
ram as andas e tumba em que o corpo d'el-rei ante 
estava, e o trou\'eram á eça, e o pozeram sobre ura 
assentamento que pêra isso estava ordenado, que por 
todos os quatro quadros foi cercado de bispos e abba- 
des bentos, revestidos em pontifical, e doze religiosos 
que com sendos tribulos ensençavam sobre a tumba, 
e fez aquelle officio com grande solemnidade, D. Fer- 
nando, arcebispo de Braga, e acabou-se com grande 
devoção e mui maiores prantos, nos quaes, porque 
alguns fidalgos e outras pessoas se chamavam desam- 
parados, el-rei que o ouvia lh'o estranhou muito e 
lhe defendeu que alguns criados de seu pae não 
uzassem mais em sua vida de tal nome, porquanto 
elle os ampararia e lhes faria bem e mercês como cada 
um merecesse ou tivesse merecido. 

Ficou aquella noute com o corpo d'el-rei o infante 
D. Pedro, por ser filho maior, após clrei, o qual teve 
sua guarda com muitos senhores e fidalgos, tendo vi- 
gília de noite com seus capellàes, e com outra muita 
clerezia, que foi pcra isso junta. 

Ao oulro dia, porque cl-rci sentiu que a detença do 
officio havia do ser grande, e os dias eram j.1 peque- 
nos, foi por isso muito cedo na sé, acompanhado 
como devia, c disse a missa o arcebispo U. Fer- 
nando, em pontifical, e á oíTcrta a que veiu, se oflc- 
receram, pela alma d'el-rei, muitas ricas cousas de 



186 BihUotheca de Clássicos Portuguezes 



ouro e prata e brocado, e seda, pertencentes .1 ca- 
pella. 

E Fr. Gyl Lobo, grande letrado, fez o sermão com 
thema ao auto conforme. 

Acabada a missa, foi ordenada procissão mui so- 
lemne, com muitas infindas cruzes, cm que todos os 
clérigos e religiosos levavam tochas acesas. 

E el-rei, e os infantes, e condes, pozeram as andas 
e tumba em que o corpo d'el-rei estava, em grande 
perfeição concertada. 

E logo a procissão abalou, após a qual, e dcante da 
carreta, seguiam adestro cinco cavallos grandes e mui 
formosos, com ricos paramentos, levados por homens 
de nobre sangue, a saber o primeiro e dianteiro co- 
berto de damasco branco e vermelho, brosladas n'elle 
as armas de S. Jorge. 

O segundo ia com paramentos de damasquim ver- 
melho e azul, em que as armas d'el-rei iam brosladas. 
O terceiro, com similhantes paramentos de panno e 
cores em que o mote e letra d'el-rei de, Por Beni^ iam 
em muitas partes broslados. 

O quarto ia com outros tacs paramentos, cm que 
iam por letreiros broslados uns F F, que foi a divisa 
d'el-rei, que tomou pela rainha D. Filippa, sua mu- 
lher. 

O quinto ia todo coberto de damasco negro, sem 
algum broslamento, após os quaes cavallos se seguia 
logo a carreta que el-rei c os infantes, c outros gran- 
des senhores com suas mãos faziam mover. 

E após ella, seguiam logo doze cavallos, em que 
iam cavalgados doze homens nobres, em que levavam 
as bandeiras c armas d'el-rei; o primeiro foi Pêro (lon- 
çalves, vedor da fazenda, levava a bandeira real em 
sua hastea emburilhada e derribada sobre o hombro, 



Chronica d'El-Rei D. João 1 137 



e os outros um o elmo, e outro levava o estandarte, e 
outro o guião, e outro a lança, e outro a facha, e as- 
sim as outras armas, salvo que o derradeiro levava 
solto um balsão preto com hastea sobre o hombro, 
cujas pontas iam pelo chão arrastando, e após ellç5 
seguiam grandes companhas cobertas todas de burel 
e fazendo tão grande pranto, que se não podiam ou- 
vir sem muito espanto, dôr e tristeza. 

Na rua Nova se fez um púlpito, em que um mestre 
em theologia, chegando a elle a carreta fez um ser- 
mão pêra o caso muito louvado, o qual seguiu a pro- 
cissão até junto com S. Domingos, onde em um cada- 
falso que se pêra isso ordenou, o doctor Diogo Af- 
fonso Manganha, que era letrado e bem eloquente, 
tanto que a carreta chegou, fez outro sermão cujo 
thema foi: 

Et nos ntoriamur cwn eo ; com que trouve pêra o 
caso cousas mui notáveis e assaz bem ditas. 

Acabado o qual, a procissão seguiu até ser fora da 
porta de S. Vicente, d'onde se tornou com muita 
gente, e leixaram a carreta que foi logo posta a qua- 
tro grandes cavallos que a levaram, com a qual foi 
el-rei e es infantes c outros grandes homens todos a 
cavallo, e com clles vinte c quatro homens, padres de 
religião com tochas acesas nas mãos, iam com o cor- 
po d*el-rei rezando suas horas, rogando a Deus por 
sua alma, e assim chegaram ao mosteiro de Odivellas, 
no meio do qual estava uma eça com pannos de dó, 
tochas e bandeiras pelo modo e maneira que era na 
Sé de Lisboa, e o D. abbadc de Alcobaça com outros 
abbades e religiosos estavam fora do cerco do mostei- 
ro revestidos com cruzes em maneira de procissão, 
esperando o corpo d'el-rei, o qual el-rei e os infantes 
levaram com grande cerimonia e acatamento ao mos- 



138 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



teiro, e pozeram na eça, a qual noite vigiaram muitos 
religiosos com orações continuas c devotas, e acom- 
panhou e o guardou o infante I). Henrique com to- 
dos os commendadores da ordem de Christo, e com 
seus moradores. 

Ao outro dia disse missa o D. abbadc em pontifical, 
c á oíTerta se oíTereceram por os infantes e outros 
senhores, grandes e ricas cousas pela alma ci'el-rei. 

No qual dia se partiram, e foram a \'^illa Franca 
de Xira, e na egrcja d'ella era feito outro tal corri- 
gimento como o de Odivellas, onde D. Álvaro de 
Abreu, bispo d'Evora, sahiu a receber o corpo d'-el-" 
rei acompanhado de muitos abbades e clérigos e outra 
muita clerezia, e assim o levaram até á eça, onde de- 
pois das vésperas ditas, ficaram por ordenança cer- 
tos religiosos pêra de fioute sempre rezarem, e o in- 
fante D. João que sempre acompanhou o corpo d'el- 
rei com os commendadores e cawilleiros da ordem de 
Santiago, e com outros muitos fidalgos e pessoas hon- 
radas de sua casa, e ao outro dia disse o bispo missa 
em pontifical, e acabada a missa caminhou pêra Al- 
coentre, e sempre n'aquella ordenança de religiosos 
e cerimonias como partiram de Lisboa. 

lí de Alcoentre sahiu o bispo da Guarda receber 
o corpo d'el-rei, re\'estido em pontifical, e mui acom- 
panhado de clerezia, e o levaram á egreja que assim 
mesmo estava corregida como as outras, e ditas as 
vésperas, ficaram de noute os religiosos ordenados, e 
por guarda do corpo o infante I). Fernando, acom- 
panhado dos seus c dos creados d'el-rei seu padre. 

Ao outro dia o bispo da Guarda disse missa em 
pontifical. 

E n'esta jornada e nas outras passadas sempre ás 
offertas das missas, por el-rei e pelo infante se olíere- 



Chronica d'El-Rei D. João I 139 



ram ricas vestiduras e calez, e outras jóias pêra ser- 
viço da egreja. 

Acabada a missa partiram e foram ao mosteiro de 
Alcobaça, d'onde sahiu a receber o corpo d'el-rei com 
devota procissão o D. abbade com seus monges, 
acompanhado d'outra muita clerezia, e depois das vés- 
peras ditas, além dos religiosos que eram ordenados, 
ficou alli em sua guarda de noite o conde de Barcel- 
los seu filho natural, e os condes de Ourem e de Ar- 
rayolos, seus filhos, com seus fidalgos e cavalleiros. 

E ao outro dia em amanhecendo ouviu el-rei missa 
rezada e nâo se fez outro officio, porque o maior era 
aquelle dia reservado no mosteiro da Batalha pêra 
onde logo partiram, e em chegando á ermida de S. 
Jorge, onde foi a batalha, acharam já ahi os cavallos 
assim guarnecidos e aparelhados, e os cavalleiros a 
cavallo, assim como partiram da Sé de Lisboa, e em 
aquella mesma ordenança seguiram até o mosteiro 
acompanhados de muita gente, porque muitas pessoas 
que pêra isso foram chamadas, e assim os procurado- 
res das cidades e villas e alcaides do reino não pode- 
ram por seus impedimentos ir a Lisboa, e vieram 
alli. 

O mosteiro assim na eça, como na cera e bandei- 
ras, e nos outros cumprimentos estava aparelhado co- 
mo a Sé de Lisboa, que disse. 

Sahiram fora, em procissão, a receber o corpo d'el- 
rei, todos os bispos em pontifical, e assim toda a ou- 
tra clerezia, revestidos com capas e vestimentas as 
mais ricas, e com muitas cruzes, e como o corpo che- 
gou a elles, esteve quedo, e cl-rci c os infantes c con- 
des se desceram, e da carreta tomaram a tumba so- 
bre seus hombros, e a levaram com grande reveren- 
cia e a pozeram na eça dentro no mosteiro, e disse. 



140 Bihliotheca de Clássicos Portuguezet 

ram muitas missas, e .1 maior que o bispo d'Evora 
disse em pontifical, se oíTereceram muitas mais cousas 
e mais ncas das que até alli foram ofTerccidas, segun- 
do amda hoje parecem no thesouro d'aquelle mos- 
teiro. No qual mosteiro fez o sermão mui conveniente 
e mui authorisado, Fr. Fernando da Rotea, frade da 
ordem de S. Domingos, pregador d'el-rei D. Duarte 
O pranto que sobre o corpo d'el-rei se fez foi as- 
saz maravilhoso e de grande espanto c sobeja triste- 
za, que por brevidade se não escreve particularmente 
como passou. 

E porque não dcsfraudemos aos curiosos de seu 
cpitaphio, pareceu acertado copial-o n'este logar o 
qual é o seguinte: ' 



Chronica d'El-Rei D. João I 141 



Traducção do epitaphio 



Em nome do Senhor, jaz n'esta sepultura o sere- 
níssimo e sempre invicto, victoriosissimo, magnifico e 
em virtudes esclarecido príncipe D. João, decimo rei 
de Portugal e sexto do Algarve, e o primeiro entre 
todos os christãos, que depois da perda geral de Hes- 
panha foi senhor da famosa cidade de Ceuta, em 
Africa. 

Nasceu este excellentissimo rei na muito nobre e 
muito leal cidade de Lisboa, no anno do Senhor de 
mil e trazentos e cincoenta e oito, e n'elia foi arma- 
do cavalleiro em edade de cinco annos, por mão do 
sereníssimo rei D. Pedro seu pae. E tomando á sua 
conta depois da morte d'el-rei I). Fernando seu irmão, 
o governo da mesma cidade e de muitas outras for- 
ças que se lhe entregaram, defendeu-a \'aIorosamente 
contra el-rei de Gastei la, que nove mezes a teve cer- 
cada por mar, com mui grossa armada, e por terra 
com grande exercito, acomcttendo-a com muitos o 
apertados assaltos, e sendo ajudado de muitos portu- 
guezes. 

Sendo depois levantado por rei na cidade de Coim- 
bra com geral alegria, no anno de 1385, fez por sua 
pessoa e de seus capitães grandes feitos cm armas, e 
entrando muitas vezes pelas terras de seus inimigos, 
alcançou notáveis victorias, e a principal que teve foi 
a que Deus lhe deu junto a este convento, vencendo 
e desbaratando em batalha campal a el-rei L). João 
de Castella, que trazia comsigo um poderoso .•v.,, it.» 



142 Dihliotheca de Clássicos Portuguezes 



de seus vassallos, e vinha acompanhado de muitos 
portuguezes e outros estrangeiros que o serviam. E 
logo foi ganhando á força darmas muitas forças e 
castellos de que os inimigos se tinham apoderado, 
que depois valorosamente sustentou e defendeu por 
toda a vida. 

R conhecendo que Deus fora o que lhe dera a vi- 
ctoria por intercessão da gloriosíssima Virgem Nos- 
sa Senhora, que succedeu na véspera da sua festa da 
Assumpção por agosto, mandou á sua honra edificar 
este convento, que é a melhor obra de toda a Iles- 
panha. 

R com desejos da maior gloria de Deus e preten- 
dendo que só a P'lle se reconhecesse n'este reino supe- 
rioridade cm tudo, assentou que os annos que pelo 
tempo atraz se costumavam a contar nos autos e ins- 
trumentos públicos pela era de César, se reduzissem 
ao nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, e fez 
que começasse a correr esta conta do anno de mil e 
quatrocentos e vinte e dois em deante, no qual an- 
dava a era de César em MCCCCLX. 

R achando estes reinos não menos estragados de 
costumes que desbaratados das insolências dos inimi- 
gos, poz diligencia em os emmendar e apurar, dester- 
rando com seu exemplo e obras santas todas as de- 
vassidões c maldades que geralmente se uzavam, e 
prantou e fez florecer em seu logar obras de virtude, 
honestidade e honra. 

R procurando escusar guerras com christàos, leixou 
antes de sua morte assentada com ellcs paz perpetua 
pêra si e pêra seus sucessores, 

E abrasado cm fogo da fé, passou em Africa com 
uma grossíssima armada em que havia mais de 220 ve- 
las, a maior parte naus de grande porte c galés reaes. 



Chronica d' El- Rei D. João I 143 



e foi acompanhado n'ella do infante D. Duarte seu 
filho e herdeiro, e dos infantes D. Pedro e D. Henri- 
que, e do conde de Barcellos D. Affonso seus filhos, e 
de grande poder e numero de animosos vassallos, com 
os quaes no mesmo dia em que poz os pés em terra 
de mouros, tomou de assalto com espanto do mundo 
a fortissima e famosa cidade de Ceuta. E pouco tem- 
po depois vindo sobre ella (segundo se affirmaj mais 
de cem mil combatentes mouros de Berbéria e Gra- 
nada, e tendo-a apertadamente cercada, elle a man- 
dou soccorrer pelos infantes D. Henrique e D. João e 
pelo conde de Barcellos seus filhos, e por outros se- 
nhores e fidalgos, os quaes acomettendo aos mouros 
os fizeram levantar e fugir com morte de muitos, e 
toda sua armada desbarataram, mettendo muitos na- 
vios no fundo, queimando e tomando outros, e assim 
livrou a cidade. 

E havendo dezoito annos menos oito dias, que se 
cumpriam, a véspera da Assumpção da Virgem Nos- 
sa Senhora, do anno de I433, que a tinha tomado e 
fortificado bastantemente contra todo accometimento 
de inimigos, no mesmo dia mez e anno acabou este 
gloriosíssimo rei bemavcnturadamente sua vida na 
cidade de Lisboa, rodeado de seus filhos e de grande 
parte da nobreza do reino, leixando a cidade de Ceu- 
ta em poder do mui alto e mui glorioso rei D. Duar- 
te seu filho, que á imitação de tal pae procura man- 
tel-a e governal-a com estes reinos na fé de Jesus 
Christo. 

O mesmo rei D. Duarte trasladou com grande hon- 
ra e magcstade o corpo d'el-rei seu pac, acomiianhan- 
do-o seus irmãos, o infante D. Pedro dui|iie de Coim- 
bra c senhor de Montemor, e o infante D. Henrique 
duque de Vizeu c sonhor de Covilhã e governador 



144 Bihliotheca de Clássicos Portuguezes 



do mestrado de Christo, e o infante D. João condes- 
tahle de Portugal, e governador do mestrado de San- 
tiago, e o infante D. Fernando e o conde de Barcel- 
los D. Affonso, filho do dito rei D. João, o qual ao 
tempo de seu fallecimento não tinha outros, senão 
duas filhas que esta\'am casadas, e viviam em suas 
terras com seus maridos, uma a infanta D. Izabel du- 
queza de I^orgonha e condessa de I^^randes e senhora 
d'outros muitos estados, c outra a senhora D. Bea- 
triz, condessa de Hontinton e Arondel, em Ingla- 
terra. 

Assistiram mais n'csta trasladação todos os netos 
e bisnetos cjue havia d'el-rei D. João s. D. AlTonso 
conde de Ourem e D. Fernando conde de Arrayolos, 
filho do conde de Barcellos. E tinha n'este tempo 
outro neto que era o infante D. Affonso, filho primo- 
génito d'el-rei D. Duarte, os quaes contados com os 
filhos faziam todos numero de vinte pessoas. 

Acudiram também e foram presentes todos os bis- 
pos que havia no reino, com outros muitos prelados, 
com grande numero de clerezia e frades, e os senho- 
res de terras e alcaides mores, e fidalgos particu- 
lares. 

Assim foi trazido o real corpo com muita reve- 
rencia a este convento, e entrou n'elle aos trinta dias 
do mez de novembro do dito anno, e foi sepultado 
na capella niór com a rainha D. Filippa sua única 
mulher e mãe illustrissima d'el-rei D. Duarte e dos 
infantes ditos. 

K no anno seguinte, aos 14 de agosto, foram os 
corpos ambos com nova pompa passados a esta ca- 
pella que pêra sua sepultura tinham eilificado, 

\í acharam-se presentes a mui alta e excellentis- 
sima princesa D. Leonor, rainha d'estcs reinos, e as 



Chronica (VEl-rei D. Joào I 145 



infantas D. Izabel, duqueza de Coimbra, e D. Izabel 
mulher do infante D. João, com a maior parte dos 
prelados e nobreza do reino, até ficarem recolhidos 
em suas sepulturas. As almas tenha o Senhor Deus 
em sua gloria. Amen. ^ 

A cabeceira d'el-rei estão estes versos latinos; 

Hoc tegitur tumulo faelix rex ille Joannes, 
Magnanimus, pius, e cunctorum gloria Regum, 
Militiaque decus, firmíssima regula legum; 
Qui tumidum Regem parvo cum milite fregit 
Castellae et Septum sibi magna classe subegit. 

Declaram-se estes versos latinos em linguagem : 

Encobre-se n'esta sepultura aquelle ditoso rei D. 
João magnânimo, piedoso, gloria de todos os reis e 
honra da Milicia, firmíssima regra das leis, o qual 
com poucos soldados quebrantou o soberbo rei de 
Castella e sujeitou com grande armada a cidade de 
Ceuta. 



TESTAMENTO D'EL-REI D. JOAO I 



TIRAUO DA TORRK DO TOMBO 

Em nome de Deus verdadeiro, que é Padre, Filho 
e I^spirito Santo, trcs pessoas cm uma substancia, c 
da bemaventurada Virgem gloriosa Santa Maria sua 
Madre, c de todos os .Santcjs c Santas da gloria ce- 
lestial. 



140 Bihliothcca de Clutiaicos Purtufjvcze» 



Nós I). João, pela graça de Deus rei dVstes reinos 
de Portugal e do Algarve, senhor de Ceuta, vendo c 
consirando como é força que nós e todos os homens 
hajamos de fiir a \ida d'este mundo por morte, a 
qual não sabemos quantlo lia de ser, porém querendo- 
nos prover d'algumas cousas a que nos parece que 
cumpre depois de nosso acabamento, sendo são e em 
nosso entender cumprido, qual nos Deus deu, e sem 
outra nenhuma duvida nem embargo, fazemos, or< le- 
namos e estabelecemos nosso testamento e postrimeira 
vontade, pela guisa que se ao deante S(.gue: 

Primeiramente damos e encommendamos minha alma 
ao sobredito verdadeiro Deus, e rogamos á Virgem 
Santa Maria sua madre e corte celesti il, que rogue a 
Elle por nós, ao qual pedimos por mercê que haja 
d'ella piedade e se nemi)re do que soffreu por nós e 
por todos os outros pecadores até ser posto na cruz, 
de guisa que hajamos parte e quinhão com Klle no 
seu santo reino. 

liem, mandamos c|uc nosso corpo se lance no 
mosteiro de Santa Maria da Victoria, que nós man- 
dámos fazer, com a rainha D. Filippa minha mulher, 
a quem Deus accrescente em sua gloria, em aquelle 
moimento em que ella jaz, não com os seus ossos 
d'ella, mas em um ataúde assim e em tal guisa que 
ella jaca cm seu ataúde e nós em o nosso, pêro jae 
mos ambos em um moimento, assim como o r.<' 
mandamos fazer. E isto seja na capella mór, assim 
como ora e'la jaz, ou na outra que nós ora mandamos 
fazer, depois que fôr acabada. 

Item, fazemos nosso testamenteiro e cumpridor <! 
todas as cousas c|ue aqui em este testamento mand.. 
mos e estabelecemos, o infante I^uarte, meu filho pri- 
im >rrrni( íi <' iv 'T"' '• 'ir' >, (!"f nrr/cníln n n''n<:. iI.miívi; de» 



Chronica d'El-Rã D. Joào I 147 



nossos dias ha de ficar cm nosso logar por rei e se- 
nhor d'estes reinos e senhorio, ou seu filho ou neto 
lidinio descendente pcjr linha direita, segundo se re- 
quer por direito e costume em successão d'estes reinos 
e senhorio, ou algum de meus filhos por sua direita 
ordenança, a saber, primeiramente o infante D. Pe- 
dro, e depois de sua morte seu filho ou neto, na ma- 
neira susodita, e não o havendo hi, fique ao infante 
D. Henrique, des ahi aos outros meus filhos pelo modo 
sobredito. Aos quaes mandamos e encommendamos, 
e a outros quaesquer que depois forem reis e senho- 
res d'estes reinos e senhorio, que tenham e tomem 
encargo d'este nosso testamento e o cumpram, guar- 
dem e façam cumprir e guardar a todo o seu poder, 
assim e pela guisa, assim como por nós é feito, orde- 
nado e mandado. 

Item primeiramente mandamos ao dito infante que 
haja em sua guarda e encommenda a infanta D. ka- 
bei minha filha, sua irmã, e o infante D. Pedro e o 
infante D. Henrique, e o infante I). João, e o infante 
D. Fernando, e o conde D, AfiTonso seus irmãos, meus 
netos seus sobrinhos, filhos do dito conde, e os ajude 
a casar e alojar e lhes faça toda a honra e bem que 
poder, c em especial lhe encommendamos que aos 
sobreditos seja sempre mui bom .senhor e os leixe vi- 
ver nas terras qui; lhe por nós foram e fi)reni dadas, 
e haver as rendas e senhorio d'ellas. 

K ao infante D. Pedro, além das terras que tem, o 
cjne lhe demos no commum de Florença, pela guisa 
que as tem por nossas cartas, c a.ssim a seus filhos 
maiores c netos, c a outros descendentes lídimos por 
linh.a direita, e lhes ordene em cada um anno como 
hajam seus assentamentos, na maneira que os hão de 
nós. 



148 BihUotheca de Clasí-icos Porhignezeê 



K outrosim lhe encommendanios todos nossos cria- 
dos e criadas, que os guarde em suas honras e em seus 
privilégios, e lhes faça todo o bem e mercês que 
poder. 

\í por quanto nós somos mui bem servidos dos fi- 
dalgos, e outrosim dos povos d'estes reinos, e nos fize- 
ram muitos e estremados serviços pêra tirarmos estes 
reinos da sujeição a que os quizeram sojugar os cas- 
tellàos, que sempre os haja em sua guarda e encom- 
menda, e lhes guarde suas honras e pri\ilegios, e lhes 
faça toda a honra e mercês que poder, como pertence 
a cada um em seus estados. 

Item, porque nós promettemos no dia da batalha 
que houvemos com el-rei de Castella, de que Nosso 
Senhor Deus nos deu victoria, de mandarmos fazer a 
honra da dita Nossa Senhora Santa Maria, cuja vés- 
pera entonccs era, alli cerca d'onde ella foi, um mos- 
teiro, o qual depois que foi começado, nos requereu 
o doutor João das Regras, do nosso conselho, e fr. 
Lourenço Lampreia, nosso confessor, estando nós cm 
o cerco de Melgaço, que ordenássemos que fosse da 
ordem de S. Domingos, e nós duvidamos de o fazer, 
porque assim foi nosso promento de se fazer á honra 
da dita Senhora Santa Maria, e responderam-nos que 
a dita ordem em especial era muito da dita Senhora, 
declarando-nos as rasões porque, as quaes vistas por 
nós, acordámos e prouve-nos de ordenar que o dito 
mosteiro fosse da dita ordem, e pêra provimento dos 
frades que houvessem de estar em el supricámos ao 
Padre Santo que nos desse logar de comprar pêra 
elles certos bens que podessem haver e possuir pêra 
sua governança, e foi- nos por el outhorgado. 

E consirando nós depois a maneira que estes frad( s 
tem entre si em similhantes casos, ordenamos que se 



I 



Chronica d' El-Rei D. João I 149 



tenha esta ordenança no acabamento do dito mosteiro 
e seu bom suportamento e mantimento dos ditos fra- 
des, ao qual mandamos, rogamos e encommendamos 
ao dito infante Duart.e meu filho, e a outro qualquer 
que vier que seja rei e senhor dos ditos reinos, que a 
faça cumprir e guardar pela guisa que por nós é de- 
terminado. 

Primeiramente mandamos que o dito mosteiro se 
acabe de crasta, casarias e de todos os outros edi- 
fícios que a bom cumprimento do dito mosteiro fo- 
rem necessários, pelas rendas de Leiria e seu termo, 
com seu almoxarifado, assim e pela guisa que se ora 
faz, e sejam em el manteudos e governados aquelle 
numero de frades que ora hi de cote egualmente 
está, assim e pela guisa que o ora são. Os quaes te- 
nham aquella maneira de resar suas horas, e dizer 
suas missas, responsos e fazer sahimentos por minha 
alma e da rainha minha mulher, em cuj i gloria Deus 
accrescente, assim como ora se faz, accrescentando por 
minha alma, depois de nosso enterranjenlo, aquellas 
missas e horas que o dito infante ou outro que traz nós 
ficar rei d'estes reinos ordenar, até o dito mosteiro 
ser acabado, e o numero dos trinta frades em elle pos- 
tos e governados como a suso faz menção. 

E d'alii avante se tenha a maneira por nós orde- 
nada. E acabado o dito mosteiro de todas as obras 
necessárias, como dito é, pelas ditas rendas de Leiria 
e termo, e seu almoxarifado, tirando aquello que fòr ne- 
cessário pcra governança dos ditos frades, se com- 
prem tantas e taes herdades e bens, porque se possam 
razoadamente manter e governar de comer, beber, 
vestir e calçar os ditos 30 frades da dita ordem de 
S. Domingos, s. os vinte de ordens sacras, c os dez 
noviços e frades leigos, e além d'csto certos servido- 



!')(> liihliotloca dos C/nssicos Portugnezes 



res, assim como amaçadeira, cozinheiro, azemel, lava- 
deira, sapateiro e outros similhantes que lhes forem 
necessários. 

K a(]uest<is trinta frades ordenamos que estem con- 
tinuadan^enti no dito mosteiro, *e pela esmola que de 
nós recebem e ha\-erào de receber, serão teudos de 
dizerem por minha alma e da dita rainha minha mu- 
lher em cada um dia, duas missas rezadas, a saber uma 
do Espirito Santo, e outra de Santa Maria. 

E á quinta feira dir.ão uma missa cantada de San- 
to Espirito, e uma rezada de Santa Maria 

E ao sabbado dirão cantada a de Santa Maria, c a 
do Santo Espirito rezada, e á segunda feira dirão por 
nós as horas dos mortos e uma missa de Rcquiem 
cantada, além das ditas duas missas rezadas que hão 
de dizer, li^ todos os dias, como acabarem suas horas, 
ante que vão comer, venham todos onde nós e a dita 
rainha jouvcrmos, com cruz e agua benta, e digam 
um responso cantado. 

E nos dias que se hou\-erem de fazer os sahimen- 
tos por nós e pela dita rainha, assim como no dia em 
que se faz sahimento geral por todos os finados, e em 
os dias dos nossos finamentos, elles digam todas ;is 
horas, a saber vésperas, matinas e todos os outros ot- 
ficios tios mortos, e duas missas de Requiem, e dois 
responsos, além das duas missas que sempre have- 
rão de ílizer. \í nos dias dos finamentos da rainha c 
meu os frades de Alcobaça e os do mosteiro, e outrcs 
quacsquer frades e clérigos que hi venham, digam um 
trintairo rezado em cada um sahimento, além das mis- 
sas c horas que hão de dizer, e sejam sempre p;igadas 
as ditas missas pelo provedor e escri\ão do mosteiro, 
segundo se costumarem de pagar as missas re/.adas 
a ,T'n •''■'": f iMii Tio-í í!i)" «SI"" n7<'ri'ni es dit<^s sah.imen- 



Chronka iVEl-Eci D. Joào I lõl 



tos. E mandainos e encommendamos ao dito infante 
meu filho e a outro qualquer que fôr rei d'estes rei- 
nos, que saiba parte era cada um anno como estes 
frades vivem e cumprem esto que por nós é ordena- 
do, e toda a cousa em que acharem erro faça corre- 
ger n'aquella melhor maneira que lhe Deus der a 
entender com serviço de Deus e prol de nossas almas, 
e guarda d'este nosso ordenamento. 

Item, lhe mandamos e encommendamos que os bens 
que assim forem comprados pêra mantimento e go- 
vernança dos ditos frades e servidores, não sejam en- 
tregues aos ditos frades, mas ponham em elles dois 
bons homens naturaes d'estes reinos, de boas famas e 
consciências, moradores na dita vilia de Leiria, que 
hajam bens de raiz e sejam bem arreigados, um que 
seja provedor dos ditos bens e outro escrivão, os quaes 
tenham cargo de adubar e aproveitar e colher os 
fruitos e rendas d'elles, pelos quaes provejam os ditos 
30 frades e servidores de todas as C(nisas que lhes fo- 
rem mister pêra seus comeres, beberes, vestidos e 
calçados. 

() dito provedor e escrivão tenham poder de ar- 
rendar estes bens até três annos e mais não, pêro se 
virem que é necessário rendarem-se por mais tempo, 
ou se aforarem, ou emprazarem, façam-n'o saber ao 
que então fòr rei d'esles reinos, e por sua carta e au- 
thoridade se faça, e d'outra guisa não. 

Item, mandamos e encommendamos ao dito intante 
meu fiiho e aos outros que depois de nossus dias fo- 
rem reis d'estes reinos, (|ue saibam e provejam o me- 
llior e mais continuadamente c|ue pi)ileren\ <|ue ma- 
neira tem este provedor e escri\des cm seus oilicios, 
e lhes façam tomar conta em cada um anno, c dar 
quitação, e eiutiuanto adiarem cjue os i»cr\cm btrin c 



JÔ2 Bihliotheca de Ci-assicos Portnguezes 



como de\'em lhos leixcm ha\cr e nào lhos tirem, e 
hajam por seu afan em cada um arino o provedor um 
moio de trigo e dois de cevada e um tonnel de vinh< 
e um marco de prata, e o escrivão haja outro tanto 
como a metade do que dão ao dito provedor, e quan- 
do acharem que o fazem como não devem, deem-lhes 
aquelle escarmento que entenderem que merecem, e 
tirem-lhe os officios e ponham logo em elles outros 
provedor e escrivão, que seja da maneira susodita, 
os qunes haverão o tnantimcnto sobrcdi*:© cmquanto 
servirem os ditos officios. 

E mandamos-lhe e encommendamos que se aconte- 
cer que por alguma esterilidade ou outro caso que 
sobrevenha, estes bens que assim forem comprados 
não abastarem pêra esta dita governança, que das ren- 
dos da dita villa e termo, com seu almoxarifado, lhes 
Sfíja provido tão cumpridamente e em tal guisa que 
esta nossa ordenança seja cm todo bem cumprida e 
guardada pêra sempre. 

Item, mandamos e encommendamos ao dito infante 
e a outro qualquer que fòr rei d'cstcs reinos, que 
não consinta que ninguém se lance nem soterre den- 
tro no jazigo que nós mandamos fazer em nossa ca- 
pella, em alto, nem no chão, salvo se fòr rei d'estes 
reinos. 

E mandamos que pelos jazigos das paredes da ca- 
pella todas cm quadra, assim como são feitas, se pos- 
sam lançar filhos e netos de reis e outros nào, e de 
quaesquer cousas que cada um dos que se lançarem 
na dita nossa capella quizcrem leixar ao dito mostei- 
ro, possam ser apropriadas as duas partes aos ditos 
frades, e a nossa capella se apropria só de haver a 
terça parte de todo o que assim leixarem, e se con- 
juntem aos outros bens d'ella. 



Chronica â/El-Rei D. Joào I lõ3 



E o dito provedor e escrivão os aproveitem e admi- 
nistrem com os outros bens pêra ajuda e governança 
dos ditos frades, e d'outra guisa se não possa nenhum 
lançar nos jazigos da dita nossa capella, assim dos 
de cima que apropriamos pêra os reis, como dos ou- 
tros d'arredor d'ella que apropriamos aos filhos e ne- 
tos dos reis, salvo leixando á dita capella o terço de 
todos os bens e cousas que assim quizerem leixar ao 
dito mosteiro, pelo guisa susodita. 

Item, mandamos que se não lance nenhum, de qual- 
quer estado e comdição que seja, na capella principal 
e maior, do dito mosteiro. 

Item, não embargando que os ditos frades hajam 
de nós o sobredito mantimento de comer, beber, 
vestir e calçar, não lhes seja embargado nem to- 
lhido de elles haverem e poderem haver suas ofTer- 
tas e mortorios, e todas as outras cousas que os 
frades de S. Domingos hão em todos os outros mos- 
teiros. 

Item, porque poderá ser que os frades por não se- 
rem apoderados das rendas d'csta nossa capella, não 
attenderiam ao repairamento e corrcgimento do dito 
mosteiro, como lhe cumpria, pela qual razão se dam- 
nificaria em as casarias, guarnimentos e todas as ou- 
tras cousas que pêra elles e pêra o dito mosteiro fos- 
sem cumpridouras, porém encommendamos e manda- 
mos ao dito infante meu filho e a outro qualíjucr que 
fôr rei d'estes reinos e senhorio, a que damos carrego 
d'este nosso testamento, que elles tenham especial en- 
carrego que assim como em cada um anno hào de 
mandar prover as rendas do dito mosteiro, que assim 
em cada um anno mandem prover o corpo do dito 
mosteiro, com a capella maior c nossa, e esso mentes 
as outras caprllns do cru/eiro e a sanchristia, e o ca- 



lô-í Bibliotheca dé Vlussicos i^ortuguezux 



bido do todos os outros adubios que lhe íorem com- 
pridoiros e necessários, 

E que esto mesmo façam \èr todos os ornamentos 
da sanchristia, de cruzes, caiiccs, tribolos e de todos 
os outros ornamentos de ouro e de prata, e também 
as capas e \estimentas frontaes, e todos os outros or- 
namentos que lhes por nós até ora foram dados e de 
aqui em deante dermos, e outros quaesquer que lhe 
são ou forem dados e leixados pelo dito infante meu 
filho, e por seus irmãos, ou pelos que forem reis e fi- 
lhos ou netos de reis. 

Os quaes ornamentos encommendamos c mandamos 
que se appropriem á nossa capella e sejam postos em 
mãos do dito provedor e escrivão, que os tenha^i c 
guardem, e de suas mãos recebam os frades aquelles 
que lhes cumprir pêra seus officios cotidianos. 

E quando vierem os dias das festas principaes, deem- 
Ihes também os que hou\-erem mister, e logo se tor- 
nem aos sobreditos. 

E as outras cousas do dito mosteiro, assim como 
refeitório e casa de dormitório e crasta, e todas as 
outras cousas de officios, sejam entregues aos ditos 
frades bem rcpairadas e corregidas, e seja-lhes d'ello 
feita escriptura, que assim como as recebem bem fei- 
tas, repairadas e corregidas, que assim sejam teudos e 
obrigados de as manter, correger e repairar e fazer 
que sejam bem corregidas e repairadas de todo o que 
lhes fizer mister, e em tal guisa que sejam cada vez me- 
lhoradas, e não peioradas. 

E esto façam os ditos frades pelas esmolas que hou- 
verem e por outra maneira, segundo o clles melhor 
entenderem, assim como o fazem os outros frades nos 
outros mosteiros de nossos reinos. E se os ditos fra- 
des estas casariís e '~rasL i com seus Mo:n ires, h<>rtas 



Chronica (FEl-llei D. João I lòõ 



e aguas, tiverem mal repairadas e correg'das, o que 
fôr rei d'estes reinos os faça requerer e constranger 
na melhor maneira que bem poder que as correjam, 
como devem. 

Pêro, se acontecer por algum caso fortuito, sc^n 
culpa dos ditos frades, que algumas das ditas casas e 
edifícios de que elles ha\-erão de ter carrego sejam de 
todo ou pela maior parte derribados, encommendamos 
e mandamos ao dito infante e a outro qualquer que 
seja rei trás nossos dias, que as faça le\antar e cor- 
reger em tal guisa que as tornem ao seu primeiro e 
bom estado, e assim as entreguem aos ditos frades, 
que as recebam cm si e hajam cuidado de seu repai- 
ramento e corregimento, como ante haviam. 

Item, porquanto podia ser que ao tempo de nosso 
acabamento, serão ainda por nós devidas algumas cou- 
sas a algumas pessoas, assim do que lhes por nós e 
nosso mandado, como dos nossos officiaes ft^ram to- 
madas, ou que nos alguns emprestassem ou aos nossos 
officiaes, ou que nós devêssemos por bem de mercês 
de cazamcntos e corregimentos d'elles, e muitos vesti- 
rtis, tenças, como de algumas mercês de graças que 
por nós fossem feitas a alguns ou algumas, que lhe 
não fossem pagadas até o dito tempo; 

E porque nossa tenção e vontade é que todo esto 
sej.i !>cm pagado, encommendamos e mandamos ao di- 
to infante meu filho e aos outros que vierem por reis 
d*eslcs reinos, a que temes dado o carrego de cumprir 
este nosso testamento, que façam bem todo pagar. 

Primeiramente a€ cousas (jue por nós c nossos of- 
ficiaes de nosso mandad^^ forem tomadas, e depois as 
cousas (|ue a nós, ou a algum d'elles foram emprcsta- 
dis, e finalmente todas as outras que nós devermos 
por bem de mercês de cazuiientos e corregimentos 



1Ô6 liihliuikixa de Clássicos Portugueses 



d'ellcs, e mantimentos, vestires e tenças e outras quaes- 
qucr graças e cousas de que a alguns fizéssemos mer- 
cês. 

E a maneira que nós acordamos como se estas so- 
breditas cousas paguem, e esta: 

Que logo depois de nosso acabamento o dito infan- 
te meu filho, ou ontro qualquer que vier por rei e 
senhor d'estes reinos, aparte todas as rendas da alfan- 
dega de Lisboa c do almazem do Porto, e por ellas 
se faça pagamento das ditas dividas, primeiro do que 
foi tomado, e depois do que houvemos emprestado, ou 
d'outra qualquer guisa do alheio, e finalmente todo o 
ai, lie que fizemos mercês como dito é. E das ditas 
rendas da alfandega de Lisboa e do almazem do Por- 
to, não se façam nenhumas despezas até primeiramen- 
te todo esto ser pagado. E encommendamos e manda- 
mos que o façan) assim cumprir. E se por ventura o 
dito infante ou outro que fôr rei d'estes reinos, achar 
iilgum modo e maneira porque se estas cousas me- 
iiíer e mais tostemcnte p;iguem, encommendamos-lhe e 
mandamos que assim o façam, e a muito nos prazcria 
de .ser todo cedo e bem pagado, por nossa consciên- 
cia ser desencarregada. 

Item, encommendamos e mandamos ao dito infan- 
te meu filho, ou a outro qualquer que fòr rei d'estes 
reinos, a que o carrego d'este nosso testamento fica, 
que por minha alma, e da dita rainha minha mulher^ 
cazem, e dêem cazamento a quarenta mulheres de boa 
linhagem, que sejam minguadas, e os não possam ha- 
ver todos, ou grão parte d'elles, segundo cumpre as suas 
condições e estados. .\s quaes sejam naturaes d'estes 
reinos e nossas criadas, ou filhas de nossos criados ou 
criadas, dando-lhe cazamentos razoados, segundo as 
pessoas e as condições e linhagem de que forem, e 



Chronica d' El- Rei D. João I 157 



com quem cazarem. E estes cazamentos se paguem pe- 
las ditas rendas da alfandega de Lisboa e almazem do 
Porto, das quaes rendas se não façam outras nenhu- 
mas despezas, até esto ser primeiro pagado. E se por 
ventura o dito infante ou qualquer que fôr rei d'estes 
reinos, achar algum caminho, como se estes cazamen- 
tos melhor e mais tostemente possam pagar, encom- 
mendamoslhe e mandamos que assim o façam. 

Item, porquanto nós por algumas vezes mandamos 
a Gonçalo Lourenço, cuja alma Deus haja, nosso cria- 
do e escrivão de nossa puridade, e do nosso conselho e 
do infante, e entendendo por nosso serviço, assim quan- 
do se foi Martim Vasques da Cunha e João AíTonso Pi- 
mentel pêra Castella, como pelo cazamento e ida da 
minha filha D. Beatriz, condessa de Arondel, a Ingla- 
terra, e esto mesmo em lhe mandarmos despender por 
nosso mandado, as nossas despezas não certas por 
seus alvarás assignados por sua mão, sem outra nossa 
carta, e nos foi mostrado que todo o que por ellc e 
por seus mandados foi feito em as cousas sobreditas 
e cada uma d'ellas em seus tempos, como foram fei- 
tas e achamos que fora tudo por elle bem feito, leal- 
mente e verdadeiramente, e como cumpria a nosso 
serviço; 

Mandamos e encommendamos ao dito infante e a ou- 
tro qualquer que vier por rei d'estes reinos, que em 
nenhum tempo nem por nenhuma maneira nem lhe seja 
contradito nem seja feito a seus bens e herdeiros por 
esto mal, nem constrangimento, nem outro nenhum 
dcsaguisado nem demanda do conto, nem recado de 
como nem porque guisa foi despeza, nem que mostrem 
nosso mandado de como lhe esto mandamos fa/er, cl 
n6s vimos todo c achamos (jue nos serviu em ello mui 
bem, le.d e verdadeiramente, e que nAo fez em ello 



1Ò8 Bihliotheca de Clássicos PortugutZ' 



cousa nenhuma, senão pela guisa que lhe nós manda- 
nifs fazer. 

E similhante achamos e soubemos do doctor Mar- 
tim Docem, do conselho nosso e do infante meu fillio, 
e seu chanceller mór, que em desembargar as nossas 
não certas, e fazer outras cousas por nosso serviço , 
assim ante que fosso em casa do dito infante como 
depois que em cila andou, que todo fez muito bem 
e como devia, com resguardo 'de nosso serviço. E 
porém queremos e mandamos que o dito doctor, e 
Gonçalo Lourenço nem seus herdeiros, nem bens, não 
recebam por elio nenhuma perda, mal nem damno 
por nenhuma guisa. 

K mandamos ao dito infante Duarte, ou a outro 
qualquer que fòr rei, que assim lh'o cumpram c 
guardem e façam cumprir e guardar, e não consintam 
que lhes nenhum contra elio vá em nenhuma guisa 
que seja, cá não cumpria a nossa consciência que aquel- 
les que nos bem serviram c servem, receberem por elio 
nenhum mal nem damno. 

\\ o dito infante meu filho, ficou a cumprir c man- 
ter bem e verdadeiramente e cumpridamente todas 
as cousas contendas em csle nosso testamento. E em 
tesLemunliíj d'elIo assignou conmosco por sua mão. 
Fe: Lo em os nossos paços de Cintra, quatro dias de 
outubro. 

Eopo AíTonso o fez, anno do nascimento de N< sso 
Senhor Jesus ('hristo de I426. 

I"lM DO TKRCtlKO E ULTIMO VOLUME 



INDEX 






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Lopes, Fernão 

Chronica de el-re-* D, 
■João T. 



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