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Full text of "Collecçaõ de livros ineditos de historia portugueza : dos reinados de D. Joaõ I., D. Duarte, D. Affonso V., e D. Joaõ II"

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Presented to the 

USRARYofthe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 



INÉDITOS 

DE 

HISTORIA PORTUGUEZA. 



COLLECÇAÕ 

DE LIVROS INÉDITOS 

DE HISTORIA PORTUGUEZA, 

DOS REINADOS DE 

D. JO AO I. , D. DUARTE , 
D, AFFONSO V. , e D. JOAÕ IL 

PUBLICADOS DE ORDEM 

DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 



DE LISBOA. 

Por JOSÉ CORRÊA DA SERRA, 

Secretario da mefma Academia , e Sócio de varias outras. 

Obfcurata diu populo } bónus eruet , atque 
Proferet in lucem Hor. 

TOMO II. 




LISBOA 

NA OFFICINA DA MESMA ACADEMIA. 

ANNO M. DCC. XCII. 

Com licença da Real Meza da Cemmif. Geral [obre o Exame , e Cenfura dos Liv„ 



\ 



INDEX 

DOS ( 

ARTIGOS QUE NESTE VOLUME SE CONTÉM. 

IV. 

W' Hronica tPElRey D. JoaÕ II. , por Riiy de Pina. Pag. $ 

V. 

Chronica do Conde D. Pedro de Menezes , por Gomes Eannes 
de Zurara. «*- — ---_.. 213 




N. IV. 

CHRONICA 

DELREI 

DOM JOAÕ IL 

ESCRITA 

POR RUY DE PINA, 

ClíRONISTA MOR DE PORTUGAL , E GuARDA MOR 

da Torre do tombo. 



Tom. IL A IN- 






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INTRODUCÇAÕ. 

T\ E todas as Chronkas que trazem o nome de Ruy de Pi' 
m J na y ejla d?EJRcy D. JoaÕ II. hé a que mais fe deve ef- 
timar , pelo author ter fido nao fó teflemunha de vi/la , mas tao- 
bem aflor em muitos dos faftos que nella fe relatao. Já nejie 
fêculo Miguel Ferreira fe propôs dala ao publico , a quem a 
prometteo , no prologo da fua edição das Chronkas dos féis Reis y 
mas nao chegou a cumprir a fua promeffd. Para a prefente edi- 
ção nos Jervimos do exemplar da Torre do Tombo , que confe- 
rimos com outro de baftante antiguidade , que os Religiofos Be- 
neditinos do Mojleiro de Lisboa , com a urbanidade que lhes hé 
própria , nos permittirao de examinar. Nas Chronkas precedentes 
feguimos fervilmente a orthografia dos originaes , o que continua- 
remos afazer nas feguintes , mas julgou- fe apropofito fupprimir 
as letras dobradas , de que fe fazia hum ejlr anho abufo nos tem- 
pos em que for ao efcritas , e cauzavao embaraço na imprejfaõ. 



A íi CO- 



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COMEÇA 

> 

CRONI.QUA 

DO MUY EYCELLENTE REY 

DOM JOHAM 

DA GRORIOSA MEMORIA , DOS REYS 

o tredecimo, defte nome o fegundo de Portu- 
gal , e o primeiro que íe entitulou Se- 
nhor de Guiné. 

PROLOGO 

D E • 

RUY DE PINA, 

CAVALLEIRO BA CASA &ELREY NOSSO SENHOR $ 
e Cronifla Mor , e Guarda Mor da Torre do Tombo 

de /eus Reynos* 

ESte Officio eftorial , que nas letras , ena pluma 
confilte , que he afli fielmente crara luz de not 
fa vida , e de nofla memoria , e das coufas paliadas 
teftemunha taõ verdadeira, que coníirados com animo 
agradecido , os grandes e immenfos benefícios , que 

pe- 



6 PROLOGO. 

pêra deleitação, proveito do corpo, e boa governança 
da vida , e inteira falvaçaõ d'alma deile fempre recebe- 
mos , certo bem parece ,. que a bondade e prudência Di- 
vina o outorgou ioomente a nós os racionaes por graça 
mui íingular , e bem fobre todos ; e porque dos louva- 
dos, fantos, e vertuofos eixemplos, e fegura doutrina, 
que na eíloria como em vida e imagem fe nos reprelèn- 
tam fomos afli enfinados , que nao lómente em noflòs 
erros , e vicios naturaes nos esfriam , e refream pêra 
com menos lembrança hos obrarmos , mas ainda pêra as 
vertudes e craro nome, em tanto amor , e defejo nos 
acendem, que com dobrado coração, ehua vertuofaen- 
veja nos esforçam , e obriguam pêra confeguirmos a fi- 
nal tenqaó porque nacemos , que he vivermos fempre 
bem , porque moiramos melhor , e acabemos como de- 
vemos. E a cada hum de nobre efprito ; pôde fer affi 
mefmo mui autorizado eixemplo ; pois he certo que 
nas taes lembranças , e contemplações das eiccellen- 
tes coufas paíladas , que affi lemos , e ouvimos , em ef- 
pecial de noffos proginitores , e naturaes , e logo fecre- 
tamente íintimos que nos entra no coração húa vertuofa 
enveja acompanhada de hum novo esforço , que pêra 
ferinos nobres , e juílos , e verdadeiros , oufados , e boós 
nos avia dobrado , e pêra legitimamente confeguirmos 
per noílas obras grorioía fama de nolFos maiores , nos 
coftrange huma neceílidade de fangue , e natureza com 
agudos, e receofos pongimentos de vergonha j de que 
fe fegue , que quando fobre elles outro maior mereci- 
mento de honra , e mais onrado nome naõ alcançamos , 

ao 



PROLOGO. 7 

ao menos porque naõ pareça que por noíía infâmia , 
vicio , e minguoa fe apaguou em nós fua trifteza , e 
refplandecente herança , que elles com verdades, efeitos 
notavees acenderam , trabalhamos por fer taes , que em 
algua boa parte os íemelhemos ; pelo qual os Eftoricos 
antiguos fentindo em algum Principe paíTado hua íó 
vertude íingular, elles per fua memoria, e bom eixem- 
plo dos futuros fumamente lha louvavam , e por ella 
avendo ho de mortal por immortal • e de umano por 
divino ho alevantavam até ho Céo j certamente aífína- 
da engratidaó , ou barbara negrigencia íeria , fe a vida , 
craros feitos , muy Reaes perfeições do muy alto , e 
poderofo Principe EIRey Dom joaõ , defte nome ho 
iègundo de Portugal , em que todalas bondades , e ver- 
tudes froreceram , ficaram por efcrever , apaguadas e con- 
denadas ao efcuro efquecimento pêra fempre , e antes 
aíli he neceíTario ficar defte mui Real Principe efta fua 
groriofa memoria, que poftoque atéfeu tempo naõ fora 
cuftumado efcrepver-fe das bondades , e feitos notavees 
d'alguem ; defte bemaventurado Rey per hu fingular , e 
maravilhofo enfino de Reis, era rezaõque fecomeçálTe 
primeiro , e que por memoria de feu nome , groria , e 
louvor , fôramos enventores de hum taõ fanto officio , e 
taõ proveitofo ; porque fendo melhor de todolos munda- 
nos , foíTe primeiramente atrebuido a hum dos melhores 
Reys do mundo , que foi efte gloriofo Rey , porque 
por affeiçaÕ , e eicellencia de fuás bondades e vertudes , 
de que na paz, e na guerra, no pubriquo, eno fecre- 
to, na vida, e na morte maravilhofamente fempre hu- 

íou, 



8 PROLOGO, 

fòu , foi tal , que jufta caufa he terem pêra fempre 
noííbs íegres vindoiros , e fermofa força delle , e regra 
geral ; porque hos que boõs quiferem fer íe rejam , e 
governem, eos que naó tacs, com lua vergonha fecaf- 
tiguem , e emmendem , e pois he certo que tanta parte te- 
ram de boõs , e vertuofos , quanto feguirem fuás bondades, 
e vertudes ^ mas aqui me perdoará a bondade de fua al- 
ma bemaventurada , poisque com a culpa de meu baixo 
engenho dou a penna aos muy altos merecimentos de fua 
vida j caa bem fei que fuás vertuofas obras , e craros 
feitos como, fora dinos de feitos per elle, logo por fua 
perfeição merecerão outro Cronifta , que com outra 
gravidade de íentenças , e outra doutrina de palavras a 
elies , e á fua memoria fizeram immortaes ; e conhecen- 
do de mim efta fraqueza, naó íe me efeuía o coração 
daquella trifteza que íentem , os que defejam muito , e 
podem pouquo; e porque aindaque esforce meu enten- 
dimento , e me ponha em neceílidade de faber mais do 
que poífo , fempre vejo que per ifto fiquo muito a quem 
do que devo aos Croniftas Romanos pêra eu fer fora 
de reprenfoes , e temores que naõ poílo fogir. Quem 
fora hum de vós ? E vós que fofpiros darêes por naó fer 
em voífos dias Príncipe, taó perfeito pêra delle eferep- 
verdes ? E eu também foípiro por voíla doutrina , mas 
he com dor da minha eníoficiencia por ver fuás coufas 
taó eicellentes íometidas a minha rudeza , e porque 
quanto vejo que as grandes vertudes , e obras Angulares 
deite groriofo Rey íaõ muidinas de fe efcrepverem , taõto 
naó fey como eferiptas por mim fiquem dinas como el- 
las merecem. ' CA- 



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CAPITULO I. 

Comcçafe a Crónica. 




Muyto excellente , c de gloriofa memo- 
ria ElRey Dom Affom defte nome ho 
quinto , e dos Reys de Portugal ho do- 
zcno , faleceo de febre nos Paaços da 
Villa de Sintra , na mefma cafa em que 
naceo , a vinte e oito dias d'Agofto do 
anno do Nacimento de Noflb Senhor 
Jhesu Chriíto de mil quatrocentos eoy- 
tenta e hú , em hidade de quorenta e 
nove annr s , de que regnou os quorenta e três. Era preferi- 
te na ora de feu falecimento ho Princepe Dom Joham feu 
filho , que como de lua doença foy avifado , logo a gram 
preffa ho veeo veer de Beja onde entam eftava com a Prin- 
cefa Dona Lianor fua molher. Foy logo o corpo d'ElRey 
com muita follepnidade , e grande trifteza levado ao Moef- 
teiro da Batalha, honde foy fepultado na Cafa do Cabydo , 
como em fua Crónica he mais declarado. E ho Princepe feu 
filho com fynaaes verdadeiros de grande door 5 e fentimento , 
veftido de burel fe ençarrou em fua camará três dias , aca- 
bados os quaes veftido por ehtam de viftiduras mui ricas, 
e com a cerimonia acuftumada , logo no derradeiro dia do 
diclo mes , foy pelos Nobres de feu Regno , que fe hy acer- 
taram , alevantado por Rey , em hidade de vinte e féis an- 
nos , e quatro mefes. E afli per fua geeral noteficaçam foy 
folépnemente alevantado y e obedecido por Rey ? em todos 
Tom. II. B feus 



io Chronica 

feus Regnos 1 cujos valTallos , e naturaaes per feu efpecial 
mandado , em final de tamanha perda , e tam grande triíte- 
za, foram fem deferença cubertos de vafo , e burel fazendo 
cm todolas Igreijas e Moefteiros particulares exéquias , e 
orações , em que devotamente a Deos s'encomendava fu*al- 
ma, e na fem grandes prantos, e lamentações. Nom ficaram 
d'ElRey Dom Affom outros filhos falvo ElRey Dom Joham 
que o focedco , e a Ifante Dona Johana mais velha, que 
fem cafar , e com vida , e obras de muy oneíta , e vertuofa 
Princefa acabou ao diante fua vida no Moefteiro de Jesu da 
Aveiro , em hidade de trinta e féis annos , no anno de mil 
quatrocentos e noventa. Emviou logo EIRey cartas a todolos 
Grandes , e Prelados , e Fidalgos de feus Regnos , pêra vi- 
rem ao faymento d'E!Rey que fe avia de fazer , como fez 
com muitas defpefas , e em grande comprimento, e perfei- 
çam no di&o Moefteiro da Batalha na fim do mes de Setem- 
bro que logo vynha. E aífi avifou as Cidades , e Villas , e 
Àlcaydes pêra Cortes , obediência , e menageés , que logo 
defpois do faymento , no mes de Novembro que vynha fe 
aviam de dar, e fazer na Cidade d'Evora. E recolheo pêra 
fy com muyto amor , e cuidado , todolos Oficiaaes da Cafa 
d'ElRey feu Padre , e a hús tomou com todolos Ofícios hon- 
ras , e cargos que tynham , e a outros que os nom deviam , 
òu nom podiam fervir , deu inteiras fatisfações com acrecen- 
tamentos , teenças , e mercees ; porque como vertuofo , e pie- 
dofo foceflbr quis /fola morte d'ElRey feu Padre , que em 
feu tempo , e em fua vida ouveíTe em todos mais confortos , e 
contentamentos , que agravos , nem gimidos. E nas coufas 
do bem , e defcargo de fu'alma , tanto mais foy nobre , e 
diligente , quanto foube que ao Padre finado era mais ne- 
ceífareo ; e ao filho vivo de moor louvor. 



CA- 






D 5 E L R I Y D, J O A 6 II. 1 1 

CAPITULOU. 

Fundamento do Cajlello e Cidade de Sam Jorge 

na Myna. 

k 

E Porque nefte tempo a Cidade de Sam Jorge na Mina 
fe edeficou novamente , he de faber , que ElRey em 
fecndo Princepe ouve per Doaçam Real d*ElRey feu Pa- 
dre , a governança inteiramente dos lugares d' Africa, e af- 
fy as rendas , e tratos da Myna , e de todo Guinee , que a 
eíTe tempo trazia por muy pequena contia arrendados aFer- 
nã Gomes da Myna , Cidadaão de Lixboa. E coníirando El- 
Rey , como prudente , quam grande proveito , e faude feus 
naturaaes receberiam nos corpos , e nas almas , e afy quam 
certa fegurança fuás mercadorias, e as coufas de fua honra, 
eftado, e ferviço teriam, avendo naquellas partes da Mina 
hua fua Fortalleza , defejando faber fe fe poderia , ou deve- 
ria fazer, teve fobr^íTo confelho , em que ouve votos , e opi- 
niões muy contrayras. Porque a hus parecia coufa fácil, e 
muy proveitofa , e a outros de muito damno , e perygo , c 
em fim impoífivel , ou muy difícil manteerfe , aíTy pola gran- 
de diftancia da terra, como por fer muy doentia, e os ne- 
gros de pouca verdade , e menos fiança , em cafo que Ioga 
confentiítem fazerfe. Os quaaes aviam por tamanhos incon- 
venientes , que fe nom devia fazer : pofpoftos os quaaes El- 
Rey todavia detri minou que fe fezelTe. E pêra iiTo ordenou 
que toda madeira, e pedraria , que pera portaaes , e janel- 
las , e efquinas dos muros , e torres , e pera outras coufas que 
foíTe necelTarea , logo de ca foíTe lavrada , e concertada pe- 
ra fem detença do lavramento fe poder logo afentar. E aíTy 
fe fez preítes muita cal amaífada , e compofta , e telha , e la- 
drilho , pregadura , e ferramentas , e mantiimentos , e toda- 
las outras coufas pera a obra pertencentes em grande abaf- 

B ii tan- 



12 Chronica 

tança. E afTy foram ordenados , e prcíles feiscentos homens 
.f* cem Meftres de pedraria , e carpentaria , e os quinhentos 
pêra defender , e fervir. E foy acordado que todo efto fe 
levafle , como levou , em Urcas , e Navios grandes , com fun- 
damento de mães nom tornarem , nem navegarem , e aalem 
deites foram outros Navios , e Caravellas fortes , e bòos com 
muitas provisões , meezinhas , e ricas mercadorias a que fo- 
ram ordenados Capitaaes homens muy honrados , e Criados 
d'ElRey. E teendofe ja efcuíadas a EIRey algúas peflbas , 
a que encarregava eíta obra , por recearem as dificuldades , 
e perygos delia , ho primeiro homem que com defpejo a acep- 
tou, e a quis emprender foy Ferna Lourenço , que era feu 
Efcripvam da Fazenda, e tynha cargo do Tefouro , e Fei- 
toria deites tratos , e defpois o teve por oficio. Mas EIRey 
defpois de lhe dar por iífo muitos louvores, e grandes agra- 
decimentos , como fua boa vontade merecia , polo mcfmo 
cargo que tynha ho efcufou. E pêra iflb feendo certeficado das 
bondades , lealdade , e grande esforço , e defcripçam de Die- 
go da Azambuja Cavaleiro de fua Cafa , que ja em outras 
coufas de muyta importância , e grande perygo efperimenta- 
ra , com palavras de fingular confiança que nelle tynha , e 
çom efperança de muita mercee , e acrecentamento que lhe 
prometeo , ho encarregou da dicla obra, e elle com outros 
de muy louvada obediência , e certa lealdade , com grande 
defcarrego da cara , e feguridade do coraçã a aceptou. E pê- 
ra exuquçam diíTo fe foy logo aparelhar a Lixboa , donde 
partio em Dezembro em befpera de Saneia Luzia do anno 
de mil quatrocentos , e oytenta e hú, teendo ja emviadas 
diante as Urcas que ho foram efperar ao Cabo Verde. E 
porque levava per Regimento que a Fortaleza fe edefi- 
caíTe na Terra da Mina , no lugar que lhe melhor parecef- 
fe do Cabo das Três Pontas atee ho Cab.o das Redes , que 
pouco mais , ou menos fam em travelTa quarenta legoas , a 
que elle nefta paragem , da outra armada hu pouco fe adian- 
tou ? com muito tento , e refguardo oolhou y e efeoldrinhou 

os 



D' E L R E Y D. J O A 6 II. I^ 

os lugares de toda aquella terra pêra ifíb convenientes, e a 
algús em que avia boa defpofíçam na terra , achava ho mar por 
maas ancorações muy contrai to ; e em outros, em que ho mar 
era defpofto , a terra ou porbaixura, ou por mingoa d'agoa, 
e pedra o nom confentiam. E finalmente guiado do Spirito 
Saneio , e emeoméndado a elle , arribou fobre a Aldeã que 
fe dizia das Ditas Partes , onde íbrgio a húa quarta feira de- 
zanove dias de Janeiro do anno de mil quatrocentos , e oi- 
tenta e doos , e oolhando com grande tento , o alto aflen- 
to da terra , que pêra defenfam , e faude da gente era muy 
defpofto , e aífy efperimentando , e fondando as ancora- 
ções do mar pêra os Navios , achou que pêra Fortaleza fe 
nom podia achar, nem pyntar melhor defpoíiçam , efpecial- 
mente por aver hy muyta pedra , e grande povoraçam , que 
dava efperança d'agoa doce , e d'outras provisões , aas gen- 
tes pelos tempos compridoiras. E ao outro dia que era dia 
de Sam Sebaftiam per aviamento d'hú Joham Bernaldez , que 
achou hy refgatando , faio em terra veftido de feda , e bro- 
cado , e com fua gente muito em ordem. E ao pee , e fom- 
bra d'húa arvore mandou dizer , e ouvio MiíTa ; que foi a 
primeira que fe difle , e daly fe chamou aqueile Vale , e cha- 
mara pêra fempre de Sam Sehaftiam. Onde defpois de comer 
mandou concertar hú rico eftrado , em que fe aífentou , acompa- 
nhado de muy honrados homens , e com fuás trombetas , tambo- 
riins , e tambores , e todos em auto de paz , pêra nelle receber 
per concerto ho Senhor do lugar, que fe dezia Caramanfa , a que 
os negros chamavam Rey , e lhe fallar. Ao qual ho Rey veeo , 
e diante delle húa grande matinada de búzios , chocalhos , 
e cornos que fam os feus eftormentos , acompanhado de in- 
findos negros , delles com arcos , e frechas , e outros com. 
azagayas , e efeudos ; e os principaaes traziam de trás de fy 
pages nuus com alTentos de paao como cadeiras pêra fe af- 
fentar. E o Rey vinha nuu, cubertos os braços, pernas, e 
pefcoço de cadeas , e joyas d'ouro de muitas feições , e com 
infindas campaynhas, e contas d'ouro compridas, pendentes 

de 



14 Chaonica 

de feus cabellos da barba , e cabeça. E o Capitam faio re- 
cebelo fora do eftrado com grande eftrondo dos feus eftor- 
mentos , e o Rey deu ao Capitam feu cuftumado fynal de 
paz , que foi tocaremfe os dedos , trincando logo hú com ho 
outro , dizendo em fua linguagem Bere , bere , que na nofla 
quer dizer Paz paz , e ho Capitam a elle outro tanto. E afy 
ho profeguiram os principaaes que com elle vinham , molhan- 
do todos primeiro os dedos na boca , e alimpandoos logo 
ao peito antes que tocaíTem os do Capitam , que antr'elles 
he corteíia , e preminencia , que em fpecial le guarda aos 
Reys , e peflbas de grande eftado. E tornados a fentar todos , 
fe&o fynal de lilencio , ho Capitam começou fua falia, ecom 
hú negro diante por Lingoa, que logo a enterpretava , cuja 
fuftancia foy : Que pela boa emformaçam que EIRey feu Se- 
nhor tynha delles , e bòo trato , que fobre todos hos da- 
quella terra, faziam a feus valTallos que aly vinham refgatar, 
Sua Alteza ho mandava aly pêra com elles tratar , e fegu- 
rar paz , e amizade pêra fempre ; por tal que naquelle lugar 
mais que em oujro algú daquella Comarca fe fezelle , e fof- 
fe perpetuu aíTento de muitas , e mui ricas mercadorias , pê- 
ra que per feu b 6o trato, elles, e os que delles defcendef- 
femfoíTem fempre mais ricos, e mais emnobrecidos. E como 
quer que outros Reys , e Senhores daquella Terra , avendo- 
fe diíTo por bem aventurados ja com muitas dadivas o re- 
quereíTem , pêra tal aíTento , EIRey feu Senhor nom queria , 
falvo com elles pola grande fiança , e credito que ja em ef- 
pecial com elles tynha. E por quanto por aver razam de as 
mercadorias que agora traziam , e ao diante vieíTem , efta- 
rem aly fempre continoas , limpas , e feguras , era neceíTa- 
rea hua cafa , lhes rogava que deflem lugar , e licença , e 
ainda ajuda pêra na boca do rio fe fazer, porque delia, e 
dos Chriftãos que nella eftevcíTem fempre achariam, e rece- 
beriam emparo , proveito , e favor. E ho Rey com elles feus 
principaaes logo lhe refponderam, dizendo que a gente dos 
ChriMos que atec aquelle tempo aly viram fora pouca , cu- 
ja, 



d'elRey D. João II. 15: 

ja , e vil , e que efta que entamviam era muito pelo con- 
trairo , em efpecial fua peíToa , que por feus vcftidos , e pa- 
recer, devia ler filho, ou irmão d'ElRey de Portugal. E a 
eilo íem mais em ília falia procederem , lhes tornou logo. o 
Capitam : que elle nom era filho , nem irmão d'ElRey feu Se- 
nhor , mas era hú muy pequeno feu vafallo ; porque EIRey 
era tam poderofo , e tamanho Senhor , que em feus Regnos 
que mandava , e lhe obedeciam , tynha dozentos mil homens 
maiores , e milhores , e mais ricos. Da qual coufa maravi- 
lhados , em fynal de grande efpanto , como he feu cuftume , 
deram em fy muitas palmadas. E procedendo cm fua repof- 
ta diíTeram mais : que fegundo fua prefença , e afegurança 
com que em nome d'ElRey lhes fallava , nom podia fer, 
que lhes efcondeíTe a verdade , nem lhes trouxeíTe em feus 
requerimentos engano , nem malicia. E por tanto lhe davam 
lugar que fezelTe em boora a cafa como quifeíTe ; porque fe 
com ella feita manteveíTe o que prometia , foíTe certo que 
EIRey de Portugal feu Senhor feria mais fervido , eos Chrf- 
tãos feus naturaaes pelos tempos melhor tratados : e f e o con- 
trairo fezelTe , que lhe leixariam as cafas , e a terra , e que 
poeriam em liberdade fuás pefloas , a que em outra terra nô 
falleceriam palhas , e paaos de que logo fezeíTem outras. E 
ho Capitam por fynal lhes repricou : que de todo ho que lhes 
diíTera , foíTem fempre certos , e feguros ; porque os Chrif- 
tãos nom cuftumavam mentir , antes fazer , e comprir as cou- 
fas melhor do que as deziam ; e por tanto creelTem que EI- 
Rey feu Senhor, e os que delle defcendeíTem fariam aquel- 
la terra a mais honrada , e mais rica , e de moor povoaçã 
que nenhua outra que anti^elles ouveíTe. E feendo deito muy 
fatisfeitos , lhe deram com rifonhos alaridos grandes graças , 
e fe lhes ofereceram muito , e levantados todos fe foram. E 
ho Capitam ante de fe recolher , foi logo co os Meílres que 
levava apeegar ho aífento da Fortaleza, que tomavam pelo 
cume d'hús penedos altos a que os negros adoravam, e ty- 
nham por feus San&os. E aquelle dia repartio logo o Capi- 
tam 



16 Chronica 

tam ha obra per lanços , e Capitanias pêra no outro dia 
que eram vinte hú dias de Janeiro , a começarem , como co- 
meçaram. E aíTy ordenou pêra o Rey ,, e pêra os feus hú boo 
prefente de muitos lambres , e bacias , manylhas , e pano 
outro , que ante de tudo lhes foíTe pêra fua brandura primei- 
ro dado , de que deu cargo a Joham Bernaldez , que com el- 
le nom foy tam cedo , que ja os oficiaaes , e cavouqueiros 
mais cedo nom começaíTem a obra ; porque em amanhecen- 
do entenderam em abrir hos aliçeçes da Torre , e aíTy que- 
brar pedra, e logo aíTentar. E os negros veendo com ta- 
manho deítroço deftroir os feus San&os Penedos fentiramno 
tanto , como fe viram quebrar a efperança de toda fua fal va- 
cam ,. e acefos todos em grande fúria tomaram fuás armas , 
e aíTy deram rijo nos oficiaaes , que nom os podendo reíif- 
tir , fogindo fe recolheram aos batees. Ao que Diego da A- 
zambuja logo focorreo trigofamente ; e porque foube que o 
prefente ordenado ainda fe nom dera , entendeo que da ne- 
grigencia do meiTegeiro , a caufa do alvoroço procedera. Po- 
lo qual mandou que o prefente nom tardafle, em que pola 
maior neceííidade que avia de favor enadío mais algúas cou- 
fas , com que todo o mal dos negros fe tornou logo em bem , 
e fua cílreita defefa em dobrado confentimento. Polo qual 
atee que a Torre foy a cima do fobrado , nom fe aíTynou , 
nem fundou outra cafa , nem alTento algíí. E como foy em- 
cimada , logo fe começou o cerco do Caftello , pêra que foy 
neceíTareo derribar algúas cafas de negros , em que elles , e 
fuás molheres per grandes fatisfaçóes , e dadivas que lhes de- 
ram , levemente , e fem efcandalo confentiram. E d'agoa co- 
meçou logo aver muy grande neceííidade ; porque da que na 
terra, e hy junto avia, por continoa guarda, e defefa dos 
negros nom fe podiam delia aproveitar : e porem por evitar 
alvoroços nom quiferam cometelos , e avella por força. E def- 
pois de bufeados muitos remédios , ouveram per acerto , e qua- 
fi milagrofamente de fe proveer cPoutra parte. E tanta prefla 
íe deu aa obra , com quanto da gente adoeciam muitos , e 

mor- 



d'ilRey D, Jdao II. 1 7 

morriam algíís , que em vinte dias o muro da Fortaleza foy 
pofto em toda fua altura , e aífi a Torre , e muitas cafas de 
dentro acabadas. E poslhe entam nome oCaftello àe Sam Jor- 
ge por devaçam delle , que he Padroeiro , e Prote&or de Por- 
tugal ; mas defpois eítando EIRey em Santarém a quinze dias 
de Março de mil quatrocentos e oytenta e féis , a fez per fua 
Carta Patente Cidade , e com privilégios , e preminencias de 
Cidade. E defpois de a gente refgatar a feu prazer toda fua 
mercadoria , e taixas ordenadas, pêra que avia ouro em avon- 
dança , Diego>da Azambuja apartou fefenta homens, e três 
molheres , que com elle ficaram , e os outros todos defpe- 
dio , e fe vieram a Portugal com larga conta que mandou 
dar a EIRey , de todo o que era paífado , e fe&o. E ho Ca- 
pitam ficou no Caftello doos annos , e fete meies em que pos 
forca , e picota , e fez outras Ordenanças , e Concordias com 
os negros muito per honra , e ferviço d'ElRey , e em pro- 
veito da Cafa , e Fortaleza. Acabados os quaes EIRey o man- 
dou viir, e fem feu requerimento em chegando lhe fez mui- 
ta honra , mercee , e acrecentamento , como tam grande me- 
recimento , e tamanho ferviço merecia com que Deos foy mui- 
to fervido , e a EIRey , e fua Real Coroa , e aos herdeiros , 
e foceíTores delia fe acrecentou honra , gloria , e louvor , e a 
feus Regnos , e Senhorios , e VaíTallos , e naturaaes delles 
muito bem, e grande proveito pêra fempre. 

CAPITULO III. 

Cortes cP Évora pêra obediência , e menagees , e Ca-* 

pitolos. 

T Ornando aas coufas do Regno , defpois que o faymen- 
to d' EIRey Dom Affom fe acabou na Batalha a que 
vieram todolos Grandes , e Nobres do Regno , EIRey Dom 
Joham, e a Raynha Ç>ona Lianor fua molher, fe foram aa 
Tom* II. C Cida- 



i8 Chronica 

Cidade d'Evora , onde no começo do mes de Novembro 
deite anno , também fe juntaram todolos Senhores princi- 
paaes , e Procuradores das Cidades , e Villas do Regno , 
pêra as Cortes , que com grande emnovaçam de perfeições , 
e muy ricos corregimentos fe teveram nos Paaços de Sam 
Francifco , onde defpois do dito Doclor Vafco Fernandcz 
Chançarel da Cafa do Civel fazer a arenga acuítumada , e 
em ftillo pêra ho caio própria , e muy elegante , afentado 
EIRey em fua Real Cadeira com o Ceptro da Juftiça na 
maao , e acompanhado de feus Oficiaaes em fua antyga , e 
cuftumada ordenança, logo Dom Fernando , Duque de Bra- 
gança , e de Guimaraaes, por f y , e por Dom Diego , Du- 
que de Vifeu , que per contrato das Tercerias era entã em 
Caítelia, deu nas mãos d'ElRey fua devida obediência , e 
fez pelos Caftellos d'hú , e do outro, menagem em forma. 
E o Senhor Dom Alvoro feu irmaao como Procurador fofi- 
ciente do Marques de Monte Moor , e do Conde de Faa- 
raao feus irmaaos , e por todolos outros Senhores do Regno , 
por fy, e por elles deu fua folépne obediência. E defy hú 
Procurador de Lixboa a deu por f y , e por todalas outras 
Cidades ; e outro da Villa de Santarém por todalas Villas» 

CAPITULO IV. 

... 
Principio do cafo do Duque de Bragança. 

E Porem ante de eftas menageés fe fazerem, EIRey com 
ho Duque , e feus irmãos , e com os do Confelho con- 
fultava , e praticava acerca das palavras formaaes , cm que fe 
as di&as menageés fariam , em que ouve grandes debates , e 
fundamentos de muitos agravos , pela rigorofa forma cm que 
os EIRey queria , e quis obrigar. Porque atee feu tempo tan- 
ta negrigencia , e tam pouco provimento , ou tanta confiança 
ouve nos Reys paíTados, e feus Oficiaaes , que com grande 
dificuldade fe pode faber e achar em eferipto algúa das me- 

na- 



d'elRey D, JoaÕ II. tó 

ríagees , que feus Alcaides em tanto tempo lhe fezeram. Ê 
por eltes inconvenientes , e debates ao diante ceifarem , EI- 
Rey mandou fazer hú folepne Livro , que d'hy em diante 
nunca de fua Camará faifle , em que as menageés , que to- 
dulos Alcaides poios tempos fezeíTem, folTem nelle autenti- 
camente efcriptas , com lugar $ dia, mes, e anno , e com os 
Alcaides , e teftemunhas nelle afinadas. E finalmente EIRey 
com acordo de Leterados que também eram prefentes tomou 
por concluíam jurídica , que as menageés eítando EIRey af- 
íentado , e o Alcaide ante elle em giolhos com fuás maoá 
ambas antre as d'ElRey , lhe deviam fer feclas , como feze- 
ram, nefta maneira. 

CAPITULO V. 

Forma das Menageés. 

yt À Os tantos dias de tal mes , e de tal armo na Villa: 
y> /~\ ou Cidade tal , nas cafas taaes , onde EIRey NoíTo 
» Senhor poufa , foaão lhe fez preito , e menagem polo Caf- 
» tello , e Fortaleza tal , na forma que fe fegue : » Muytó 
alto , muito excellente , e muito poder of o meti 'verdadeiro , e na- 
tural Rey , e Senhor , eu foaão vos faço preito , e menagem po- 
lo vojfo Gaftello , e Fortaleza tal , de que me ora novamente 
encarregaaes , e daaes cargo que a tenha , e guarde por vos , 
e vos acolherei no alto , e no baixo delia , de notle , e de dia , 
e a quaesquer oras e tempo que Jeja , irado , e pagado cont 
poucos , e com muitos , vyndo em vojfo livre poder : E delle fa- 
rey guerra , e manteerey tregoa , e paz , fegundo me por vos 
Senhor for mandado. E o nom entregar ey a algúa pejfoa de qual- 
quer tftado , graao , dinidade , ou pr 'eminência que feja , fe nom a 
vos meu Senhor , ou a vojfo certo recado, logo J em delonga , ar- 
te , nem cautella , a todo tempo que qualquer pejfoa me der vof- 
fa Carta ajfmada per vos , e afeelada com vojfo feio , ou fineté 

C ii de 



20 GhRONICA 

de vqffar Armas 5 per que me quitaaes àefte diélo preito , e me- 
nagem. E fe acontecer que eu no diclo Cajiello aja de deixar 
algúa pejfoa por Alcaide , e Guarda de He , eu lhe tomar ey ef- 
te diclo preito , e menagem ? na forma , e maneira ? e com as clau- 
fulas , condições , e obrigações nelle cÕtheudas ; e eu por ijfo nem 
ficarey defobrigado defte diclo preito , e menagem , e das obri- 
gações , e coufas que fe nelle conthem. Mas antes me obrigo , 
que o diclo Alcaide y ou pejfoa que ajjy lei x ar 5 tenha , e mante- 
nha , cumpra y e guarde todas eflas coufas , e cada húa delias 
inteiramente. E eu fobrediclo foaão faço preito , e menagem em 
maaos de Voffa Alteza , que de mym a recebe húa , duas , e três 
vezes Jegundo ufo , e euflume Refles vojfos Regnos , e vos pro- 
meto e me obrigo , que tenha , e mantenha , guarde , e cumpra 
inteiramente ejle diclo preito , e menagem n e toàalas claufulas 7 
condições , e obligaçoes , e todas as coufas , e cada húa delias 7 
em ella contendas , fim arte r cautella , fraude , engano , nem min* 
guamento algú. E por firmeza de lio afynei aquy. Teftemunhas 
foaão y e foaão &c. » E eu foaão Efcripvam da Puridade que 
» efta Menagem por mandado do diclo Senhor Çz efcrepver , 
> e eftive ao tomar delia , e também afyney. » Ho Duque 
principalmente ? e afíy feus irmaaos , com outros Senhores 
ouveram entam a forma defta menagem por rigorofa , e a 
fuás honras muy prejudicial. E o Duque fez por fy protef- 
tos , e pedio eftormentos que em cafo que entam alTy a fe» 
zelTe , era coílrangidamente , mas que proteftava defpois de 
bufear fuás Efcripturas de Doações , e Privilégios , EIRey ho 
ouvir fobr'iíTo com fua juftiça , e lha, guardar , e ho nom 
obrigar a mais . do que os Reys paíTados feus anteceífores 
obrigaram a elle , e a feu Padre , e Avoos. E pêra o Du- 
que confeguir algú recurfo do que acerca defto proteílara , 
emeomendou ao Bacharel Joham Affóm , Veedor de fua Fa- 
zenda , que foíTe a Villa Viçofa onde de fuás Doações , e 
Efcripturas efpeciaaes 9 e fecretas tynha hú cofre , e delias 
bufcalTe , e trouxeíTe as que pêra efte cafo compriam. E o 
Bacharel por acupações outras que tynha ? ou por negligen- 
cia , 



d'elRey D. João IL 21 

cia, por ventura caufada de pecados , e permitida per Deos , 
cometeo a bufca das Efcripturas a hú feu filho moço de 
que muito fiava , o qual em bufcando o difto cofre , chegou 
a elle per acertamento Lopo de Figueiredo , Efcripvam da 
meíma Fazenda do Duque , homem em que por feu officio 
avia muita confiança. O qual per emcomenda , e emforma- 
çam do moço ajudando a bufcar as Efcripturas do propoíl- 
to , topou lem induftria , nem efpecial avifo que pêra iíTo 
tevelTe , com algíías Cartas , e inftruçoes de Caftella , e pê- 
ra os Reys de Caftella , delias próprias , e outras em menu- 
tas , emmendadas , e poftilladas da própria maão do Duque. 
E veendo que tocavam muito contra ho eftado , honra , e 
ferviço d'ElRey apartou , e fem vifta do moço as recolheo , 
e guardou , com detriminada tença de as moftrar a ElRey , 
ho que logo comprio. Porque de Villa Viçola partio efcon- 
didamente , e veeo a Évora onde teve maneira de fecreta- 
mente fallar com ElRey , a quem com cautellas , e protefta- 
ções que primeiro fez de bõo Português , e leal vaífallo ^ 
moítrou tudo afirmando que pêra o fazer nom fora commovi- 
do por ódio , nem por outra paixam , que contra o Duque 
teveíTe , pêra quem tynha muita obrigaçam de o amar , e 
fervir. Nem menos fe movera com efperança de mercec , nem 
acrecentamento , que d'E!Rey por iíTo efperalTe ; foomente 
porque era leal vaífallo , e bõo Chriftao , principalmente te- 
mendo dar a Deos conta de fundamentos de tanto mal , fe 
por fua culpa fe nom atalhaífem. ElRey defpois de tudo per 
íi veer , e lho agardecer como era razam 7 ficou affaz penf- 
ofo e trifte ; e porem mandou a Antam de Faria feu Cama- 
reiro , que daquellas Efcripturas , e Cartas , as de moor im- 
portância reconheceíTe , e com muita preífa , e grande fe gr e- 
do as trelladaíTe , como trelladou. E os próprios a requeri- 
mento do di£lo Lopo de Figueiredo lhe deu ElRey em fua 
maão pêra os tornar ao cofre donde os tirara ;• dizendo que 
pêra tirar fofpeitas do paliado, e fe poder do mefmo cofre 
nas femelhantes coufas aproveitar do futuro , aífy compria. 

As 



*ii Chronica 

As quaaes coufas com quanto a EIRey davam muito cuida- 
do , c torvaçam , elle com moftrança de grande repoufo as 
diílimulou , e encobrio pêra o tempo que comprio , como 
ao diante fe dirá. E porem dali por diante concebeo muitas 
fofpeitas , contra o Duque , e nom lhe teve boa vontade. 
Ncftas Cortes a requerimento do povoo , e da própria von- 
tade d'ElRey fe fezeram muitas e boas Ordenanças por bem, 
e proveito do Regno. Antre as quaaes EIRey nova , e pri- 
meiramente ordenou os Contadores , e Officiaaes das Terças, 
Relidos , Capellas, Efpritaes, e Orfaãos repartidos em cada 
Comarqua, como agora ainda eítam. E aíTy a requerimento 
dos povoos , e por caufas , e razões muy evidentes que fe 
apontaram , EIRey tirou os Adiantados que em cada Comar- 
ca do Regno eram poftos per EIRey Dom Affom , peííbas 
de Titolo , e principaaes que punham por fy Ouvidores que 
ouviam como Corregedores. E aíTy EIRey detriminou que 
as Confirmações que avia de fazer nom folTem geraaes , como 
os Reys feus anteceíTores cuftumavam , mas que todalas pef- 
foas de qualquer eftado , condiçam e preminencia que fof- 
fem , aíli Eccleíiíifticas , como Seculares , e todalas Igrejas , 
Moeíleiros , e Cafas piedofas de feus Regnos com todalas 
Cidades , Villas , e Lugares , a certo tempo vielTem parti- 
cularmente oferecer aos Oficiaaes Deputados de fuás Confir- 
mações , todalas Doações , Graças , e Privilégios que tevef- 
fem , pêra delles confirmar os que razam , e juftiça lhe pa- 
receífe. E nom ha comprindo , que d'hi em diante perdef- 
fem a graça de tudo. E a caufa que a EIRey pêra iffo prin- 
cipalmente moveo , foy parecerlhe neceífareo veer as Doa- 
ções , e coufas todas dos Grandes e Senhores , Fidalgos , e 
Cavaleiros de feus Regnos , por fer certeficado que em fuás 
Terras , e nos Lugares as eítendiam a mais tempo , e pêra 
mais qualidades do que as Graças , e palavras delias lhes 
davam lugar. E aíTy pêra nom confirmar per geeralidade , 
muitas coufas que os Reys paíTados , e principalmente EI- 
Rey Dom AíFõm feu Padre , quaíi coftrangido outorgara em 

tem- 






d'elRey D. Joaõ II. .2^3 

tempos de necelfidades , e afrontas que paíTara , que de de- 
rei to y e razam , antes fe deviam revogar , que confentir 9 nem 
confirmar. E aíTy pêra renovar em nova letera privilégios ^ 
e liberdades antygamente concedidas , que por fua velhice 
ja fe nom podiam leer. E porque a Cidade d'Evora fe con- 
rompeo de peftenença, EIRey com fua Corte logo no Janei- 
ro feguinte de mil quatrocentos e oitenta e doos , fe foy 
a Monte Moor o Novo , pêra hi dar fim aas coufas particu- 
lares das Cortes $ e aífy ordenar outras que pêra bem de 
feus Regnos, e Eíbado compriam. 

C A P I T U L O VI. 

Difcordia antre o Marques , e Arcebifpo Dom Joham 

Galvam. 

DUrando eíles defpachos , em Fevereiro na entrada da 
Corefma ouve antre Dom Joham Marques da di£la Vil- 
la , e Dom Joham Galvam , Arcebifpo de Bragaa grande de- 
ferença fobre as cafas d'hú criado do Marques, que ao Ar- 
cebifpo davam d'apoufentadoria , fobre as quaaes ho Marques 
pub ricamente lhe dilfe palavras feas , e muy injurio fas , de 
que ho Arcebifpo como injuriado , e muy fentido fe quei- 
xou a EIRey , que por iífo moftrou receber grande defpra- 
zer , e delTerviço. E porque ho cafo fora em fua Corte , e 
antre taaes peíToas, EIRey entendeo logo nelle , pêra que 
ajuntou os de feu Confelho , e Leterados fem fofpeita, com 
que EIRey ávida primeiro certidam do cafo , acordou que 
o Marques logo naquelle dia da pubricaçam , fe faiíTe da 
di&a Villa de Monte Moor , e delle a cinquo dias logo fe- 
guintes fe paífaíTe aalem do Tejo , atee fua mercee. É ho 
Marques que no Caftello , que eram fuás próprias cafas , ef- 
tava ja por iíTo reteudo , tanto que cite Acordo d 5 ElRey lhe 
foy pobricado , logo na mefma ora o comprio , e fegundo 

fuás 



*24 Chronica 

fuás palavras , nam fem muita paixam , moftrando que o avia 
por grande abatimento , e agravo. E dentro do termo fe 
foy a Caftello Branco, onde eíteve algíis dias, em que com 
a danada vontade que pêra EIRey tynha , compillou , e for- 
mou húa inftruqam muito defoneíta , e de Capitolos muy fal- 
fos , e muy defamatorios da vida , honra , e Eíbdo d'El- 
Rey , a qual logo emviou a EIRey , e aa Raynha de Caf- 
tella, que eftavam em Medina dei Campo , per Afíom Vaaz 
que fe dezia feu Secretario , que pola pouca autoridade do 
melfegeiro, ou pola defoneítidade da fuftancia , a dicla inf- 
truçam nom foy recebida , nem vifta com aquelle credito , 
que ho Marques defejava. Polo qual ordenou de formar ou- 
tra , que defpois emviou aos di&os Reys per Pêro Jufarte 
criado do Duque homem acerca delle de boa reputaçam. 
Da qual inftruçam ante d'hir a Caftella , o Marques per Lo- 
po da Gama feu Cavaleiro , a emviou moílrar ao Duque 
leu irmaao que eftava em Villa Viçofa , e fegundo o que 
craramente defpois fe foube , foy que ao Duque pefou mui- 
to de aveer, e lha mandou gravemente eflranhar, avendoa: 
por fanteíia guiada de fua muita paixam , e pouco íifo. E 
porem efte degredo do Marques aíll rigurofo , e acelerado, 
acrecentou muita parte na maa vontade do Duque que ja 
tynha pêra EIRey , creendo que o feZera por abatimento 
feu, e de feu irmaao, a quem fe devia outro refguardo. Em 
que nom mingou nada a detriminaçam que EIRey , a reque- 
rimento dos povoos , tomou, que feus Corregedores per ai- 
gú tempo entra/Tem , e fezeífem Correiçam em todolos lu- 
gares , e terras do Regno , fem algúa excepçam , de que 
moftraram receber grandes defeontentamentos o Duque , e 
feus irmaaos , cujas Terras eram delia per graça efpecial yfen- 
tas. E porem pareceo que nom devera ho Duque receber 
por iífo ho efcandalo , e defeontentamento que recebeo, 
porque EIRey pêra fer com feu prazer , lho diífe primeiro , 
e encomendou muito que fem paixam o quifeífe obedecer, 
ao menos por bõo exempro de todolos outros , pois a ellc Rey 

convy- 



D' E L R E Y D. J O A 6 II. 2? 

convynha fazelo : aíTy porque era dos povos pêra ifíb eftrei- 
tamente requerido ; como também porque era razam , que 
em principio de feu regnado nom lhe ficaíTe por faber a 
juítíça que em feus Regnos avia, e fe em fuás terras, e nas 
dos outros fe faziam alguns infultos , edefmandos, que com 
dereito fe ouveíTem de proveer , e remediar. Porque quando 
os ouveíTe , o qual nom cria , elle fe averia em fuás coufas 
com aquelle refguardo , e temperança , que clle por feu 
langue , e dignidade merecia. 

CAPITULO VII. 

Embaixadas que EIRey enviou a Cajlella , e In- 
graterra. 

NEfte anno elfcando EIRey ainda em Monte Moor , orde- 
nou por Embaixadores a EIRey Duarte de Ingraterra , 
Ruy de Soufa , e o Do&or Joam d'Elvas , e por Secretario da 
Embaixada Fernaó de Pina , que per mar foram muy hon- 
radamente , e bem acompanhados. A fuftancia da Embai- 
xada foy , hirem em nome d'ElRey confirmar as Ligas anti- 
gas com Ingraterra , a que per condiçam delias o novo fo- 
ccífor de hua parte , e da outra he obrigado. E também 
pcra moftrarem o dereito e titolo que EIRey tynha no Se- 
nhorio de Guinee , peraque vifto , EIRey d'Ingraterra def- 
fendeíTe , e nom deíTe lugar que em feu Regno fe fizef- 
fem armadas , nem favoreceíTem , nem confentiíTem algtías 
peflbas armar contra Guinee ; e aíTy pêra fe desfazer húa 
armada, que per favor, e emcomenda do Duque de Sevilha 
acíTe tempo faziam humjoham Tintam, e outro Guilhelme 
Falibram , Ingrefes. E a todo EIRey d'Ingraterra fatisfez na 
forma , e maneira que os Embaixadores por parte d'ElRey 
requereram , de que trouxeram efcripturas autenticas das 
diligencias , que com pregoes pubricos lá fe fezeram : 
Tom. II. D c 



16 Chronica 

e pêra ca as provifoés das aprovações que foram necef- 
f árias. 

CAPITULO VIII. 

Embaixada a Cajlella. 

TAmbem de Monte Moor enviou EIRey nefte anno por 
Embaixadores a EIRey , e aa Raynha de Caítella Dom 
Joham da Silveira Baraõ d'Alvito ; e com elle Ruy de Pina , 
por Secretario da Embaixada : cuja fuíbncia foy requerer 
algúas reftituiçoés que pelos Reys aviam de fazer : e per- 
does que fe aviam de dar a algus Cavalleiros Caíteihanos , 
que durando as guerras ferviram EIRey Dom Affóm , co- 
mo em feu favor no trato das pazes fora capitolado , o 
que a muitos delles nom fe compria : com achaques , e cau- 
tellas que punham , e inteligências que aos Capitolos davam 
erradas. E principalmente o dicto Embaixador foy fobre mu- 
dança das Tercerias de Moura pêra a corte d'ElRey ; ou 
pêra outra parte deite Regno , cm que ouveíTe lugar faão, 
forte , e feguro ; em que o capitolado fe compriíTe : ou des- 
fazimento delias : pello grande perygo das vidas , e criaçam 
nom devida , em que pella indifpofiçam do lugar , o Prin- 
cepe Dom Aífôm , e a Ifante Dona Yfabel eftavam. Che- 
gou o Bara a Medina dei Campo , onde EIRey , e a Ray- 
nha citavam na Corefma defte anno : e nom foy ali defpa- 
chado , nem acabado d'ouvir ; porque eftando pêra iíTo , 
veeo aos Reys recado , que a Villa d'Alfama do Regno 
de Grada era pello Marquez de Calez tomada aos Mouros : 
e lhe foy pedido neceíTario e apreíTado focorro : e a foy fo- 
correr 5 baftecer e a fortellezar em gram perfeiçam , o que 
deu caufa , e principio a fe logo conquiítar , e ganhar per 
clles , como ao diante fe ganhou todo o Regno de Graada. 
E como eito proveo , veoíe a Córdova : onde efperou a 
Raynha fua molher, que eítando prenhe, de Medina fe veeo 

a 



\ 



d'elRey D. João II. 27 

a Tolledo , e hy pario a Ifante Dona Maria junto com a 
Pafcoa da Refurreiçam do anno de mil quatrocentos e oyten- 
ta e doos. H de Tolledo fe foy a Córdova : onde a Ifan- 
te na Igreja mayor foy pello Bifpo da cidade com muita 
honra , e grandes cerimonias baptizada. Efta Ifante Dona 
Maria foy defpois Raynha de Portugal , cafada com ElRey 
Dom Manuel ho primeiro noíTo Senhor. E o Baram que já 
lá era , foy feu Padrinho : o qual acabou de dar aos Reys fua 
Embaixada , e requerer , e apontar as coufas que em fuás 
inítruçoés lhe eram encomendadas. E porque os Reys de 
Caftella tynham concebidas , contra ElRey , muy erradas 
fofpeitas : creendo que ho fundamento de feu requerimen- 
to era cauteloíò , e com refpeitos de boliços , e novida- 
des , e nam pêra o fym que apontava : finalmente o diclo 
Embaixador em todalas coufas que requereo , nom tomou 
algúa concrufam que foíTe pêra aceptar. E porque nom pare- 
cefle eftranho aos Reys nom defejarem , c confentirem em 
meos tam honeftos , e a ambas as partes tam proveitofos ; 
pêra os averem por bõos , metiam a ElRey por condições 
coufas tam feas , e tam contrairás a fua honra, e honeftida- 
de, que parecia mais crara denegaçam, que defejo de con- 
córdia. E as mais deitas tocavam em eíttreitezas da Excel- 
lente Senhora Dona Johana , e entrega que delia fe avia de 
fazer, fora do poder d'ElRey , e de toda fua ordenança, e 
defpoíiçam. Pelo qual porque os Reys em nada refponde- 
ram aos Requerimentos , e vontade d'ElRey , ho Baram de 
defcontente do defpacho fe defpedio dos Reys , e delles 
nom quis receber grandes dadivas , e muita mercee que lhe 
mandaram dar, e oferecer. E afy fe tornou a efte Regno 
dar de tudo conta a ElRey : que defpois de coníirar na jufti- 
ficaçam , proveito , e honeftidade de fua Embaixada , e na 
fem razam do defpacho delia , teve muita fofpeita que pro- 
cederia de confelhos , e avifos do Duque de Bragança a que 
o desfazimento das Tercerias muito pefava : creendo que o pe- 
nhor delias o fegurava de algús receos que tynha , ou moftra- 

D ii va 






28 Chronica 

va ter d'ElRey , porque com ellas por refpeito do Prince- 
pe feu filho eftava atado : confiando que em quanto duraf- 
lem fempre ho fofteria em fua honra a Ifante Dona Briatiz 
fua fogra , que parecia terlhe amor como era razam : e dar 
muito credito a feu confelho. E nom foy fem caufa tomar- 
fe do Duque efta prefunçam ; porque cotejadas as repoftas 
que ho Baram trouxe de Caftella , com os avifos que nas 
inftruçoés do Duque pêra osReys fe contynham , achavafe cra- 
ro as fentenças ferem conformes. Porque ante de o Baram 
partir deite Regno, ja EIRey, e a Raynha de Caftella, in- 
teiramente fabiam as coufas pubricas , e fecretas que avia de 
requerer. Mas porque o Duque nefte tempo nom era na Cor- 
te ; nem eftava aos Confelhos d'ElRey ; e o Senhor Dom Al- 
voro feu irmaó era entam a peflba mais principal de quem 
EIRey tudo fiava ; e per cujo confelho nas coufas de moor 
preço mais fe governava : ouve contra elle prefunçam que 
deitas coufas que EIRey em confelho acordava daria parte 
ao Duque , nam com emtençam de mal ; nem com propoíito 
de deíTervir a EIRey : mas como a Irmaó , e tal peíToa, 
que tanta razam com tanta obrigaçam tynha , pêra confer- 
var e ajudar as coufas de feu eftado , e ferviço. E no fe- 
tembro deite anno , EIRey tornou a emviar ao di&o Ruy de 
Pina aos Reys de Caftella que eram no moefteiro de Santa Ma- 
ria de Guadalupe ; com repricas aas repoftas da Embaixada 
em que fora com ho Baram : apertando com razoes muy evi- 
dentes , e com fundamento de mais amizade , e amor antre 
elles ; que as Tercerias fe mudaíTem toda via , ou desfezef- 
fem. Pedindolhe mais que acerca da Excelente Senhora Do- 
na Johana nom requereflem mais novidades nem moores ef- 
treitezas , aífi por nom parecer que as pazes , e coufas paira- 
das antre elles ? nom foram feclas com aquella firmeza que 
deviam ; como principalmente porque da maneira em que 
ella eftava , tudo pêra bem , e aiTeíTego de húa parte , e da 
outra feria fempre feguro. E fe cafo foífe que no caíamen- 
to do Princepe com a Ifante Dona Ifabel pella deiconve- 

ni- 



D' E L R I Y D. J O A 6 II. 2f 

niencia das hidadcs, nom tomaílem muyto contentamento; 
que por verem quanto eftímavam fua liança , e amizade , 
que Te fiezeíTe com a Ifante Dona Johana também fua filha , 
em que avia nos dias muita conformidade : com apontamen- 
to ; que fempre no dote deite cafamento fe requereíTem as 
Ilhas das Canareas , que EIRey pêra fegurança mayor de 
Guinee fempre muito defejou. E os Reys refponderam lo- 
go ao di&o Ruy de Pina : Que bem criam que tal Prin- 
cepe , como era EIRey feu primo^ nom diria , nem afirma- 
ria taes coufas fenom foíTem verdadeiras , e muito de fua 
vontade ; porem que elles tinham comprendida hua coufa , 
em que EIRey lhes daria de feu coraçam , e defejo muy 
craro teítemunho ; Dizendo logo com palavras , e moítran- 
ças de grande fentimento , que no mefmo lugar de Guada- 
lupe tynham prefo hum Pedro Monteíinho Caftelhno com 
cartas , e inftruçoés de Dom Gomes de Miranda , Bifpo de 
Lamego , prior de Sam Marcos , que fora de Caftella : e 
Alonío de Ferreira Caftelhano : e d' Álvaro Lopes , Secreta- 
rio d'ElRey , fobre cafamento d'ElRey Febos de Nabarra, 
com a Senhora Dona Johana , e que por fer cafo que tanto 
tocava , e que de fua paz , e amizade era ho eixo principal : 
que na emmenda e caftigo que a elles deíTe, pois eram feus 
VafTallos , e andavam em fua Corte , fe veria fem emeuber- 
ta a efperiencia de fua verdadeira vontade. E que pêra iflb 
ante de nas coufas que requeriam tomarem algúa concru- 
fam , era neceíTareo que o di<fb Ruy de Pina tornaíTe a EI- 
Rey com efta duvida : e fegundo o que na exuquçam delia 
obraffe, afy entenderiam defpois nas coufas de feu requeri- 
mento. Pêra prova do qual moftraram ao ditto Ruy de Pi- 
na as ditas cartas , e inftruções , cuja fuftancia o di&o Mon- 
teíinho aprovou e declarou logo em Talaveira per tormen- 
to afpero , que fobriíTo lhe foy dado. E porem por a pery- 
gofa novidade deite negocio , que os Reys de Caftella con- 
cebiam nom fe tratar fem algum confentimento d'ElRey , e 
pellos defacordos que fentiam aver ja em Portugal , antre 



30 Chronica 

elle , e o Duque , e fcus irmãos ; defejavam ver a Ifante 
Dona Ifabel fua filha fora de Terçeria , porque lhe tinham 
grande amor , e ho aviam por penhor dçftima fem compara- 
çam , perque em tempo de taes mudanças , e em Regno 
eftranho , vyndo as coulas a rompimento eftava em grande 
rifco de fua vida , e liberdade ; E d'outra parte receavam 
dezatar os noos da paz , que eram o Princepe, e Ifante era 
Terçeria : temendo que EIRey pellas enformaçoés que delle 
tynham , teendo o filho fora , e livre moveria coufas de que 
antr'elles fe poderiam feguir ódios , e guerras , que co- 
mo vertuofos Princepes defejavam efcufar. Tornou Ruy de 
Pina a EIRey, que fobre o cafo , e tratos de Montcíinho 
teve confelho ; e em fim porque aos movedores delles , que 
em fua Corte feguramente andavam nom deu o caftigo que 
mereciam , fe contra fua vontade , e faber os moveram ; 
nom fe achavam por EIRey defculpas afy boas , e lídimas , 
com que os Reys de Caftella fe develfem com razam fatis- 
fazer. E porem porque EIRey no defejo de veer o Princepe 
fora de Terçeria era conforme com os Reys de Caftella ; 
defpois de fobre tudo bem conílrar , logo no Janeiro fe- 
guinte de mil quatrocentos e oitenta e três , tornou a emviar 
aos di&os Reys o di&o Ruy de Pina , e frey António feu 
ConfeíTor , Frade de Sam Francifco a Obfervancia , peíToa de 
grande credito , e autoridade : que em repofta , e faneamen- 
to das coufas palTadas , o dicl:o Frey António principalmen- 
te diífe aos dicl:os Reys que eram em Madril , taes defcul- 
pas , e coufas em nome d'ElRey y com que lhes prouve 
confentir no desfazimento das Tercerias ; porque toda a def- 
culpa d'ElRey pêra fe ellas desfazerem , como muito defeja- 
vam , lhes parecia boa , e de receber. Mas concertoufe lo- 
go j que o cafamento do Princepe , que da Ifante Dona Ifa- 
bel ficava defatado , fe fezeíTe com a Ifante Dona Johana , 
a que íe daria mais dote por hum graao que fe alonguava 
mais da Ifante Dona Ifabel pêra a foceíTam de Caftella : E 
defta fuftancia formaram hum breve efcripto , que os fobre- 

di- 



d'elRey D. João II. 31 

di&os fecretamente trouxeram a EIRey que era em Almei- 
rim , com certidam , que paíTada a Pafcoa da Refurreiçam 
que vynha, emviariam os Keys feus Embaixadores pêra con- 
cordarem o diclo cafamento , e afy receberem, e levarem das 
Tercerias pêra Gaftella a dita Ifante Dona Ifabel que nellas 
eftava. Deite afento foy EIRey muy alegre, e contente ; por- 
que nelle tomou efperança de veer cedo feu filho em feu po- 
der, a que muito contrariavam os movimentos que no Reg- 
no ja fentia contra fi , e lhe começavam feer revelados. E 
nefte anno de mil quatrocentos e oitenta e três , feendo a 
Raynha Dona Lianor prenhe , fegundo fe alíirmava , moveo 
na Corefma em Almeirim , de que lua vida efteve mui do- 
vidofa , e EIRey por iíTo mui anojado; a cuja viíítaçam veeo 
ali o Duque de Vifeu , que ja era vyndo de Caftella , e o 
Duque de Bragança , e afy outros muitos Senhores , e Do- 
nas do Regno. E com a vynda dos Duques recebeo EIRey 
muito prazer, e defcanfo , e lhes fez muita honra, e deu de 
fy muita parte ; e defejando aíTeíTegar principalmente a von- 
tade ao Duque de Bragança , e fazela conforme pêra as cou- 
fas de feu ferviço , ho apartou na Capella dos Paaços den- 
tro em fua cortina : e perante Dom Fernam Gonçalves de 
Miranda Bifpo de Vifeu , e feu Capellam Moor lhe fallou 
nefta maneira. 

CAPITULO IX. 

Falia d c ElRey ao Duque de Bragança. 

» IV/f ^ito honrado Duque , as coufas que vos agora direi , 
» 1.T-A por feerem na cafa em que volas falo , avees de crer, 
» que fam tam verdadeiras , como fe ante Deos volas difelTe. 
» Eu fom emformado que vos contra o que devees a mym , e 
» meu Eílado, e ferviço; e fem refguardo do que a vofla 
» honra e lealdade pertence : tendes em Gaftella algúas prati- 

» cas , 



32 CHRONICA 

» cas , e inteligências , ao que nom fey como dee fee ; e pois 
» tantas razoes pêra mym , e pêra vos lhe fam tam contrairás : 
» E porem feniíTo algúa coufa , com algua maginaçam errada 
» entendcftes ; fabee que minha vontade , e verdadeiro deíejo 
y> he , efquecerme de tudo , e aíli volo perdoar , como fe as 
•)) culpas diíTo foram louvados merecimentos , pelo qual com 
» toda a eficácia que polTo , e mais da que devo , vos rogo , 
» que pofpoíto tudo , queiraes íer conforme comigo , pois que 
)> me Deos fez , e leixou por erdeiro delia Coroa de Portugal , 
» que em tantas coufas por merecimentos voflbs , e dos que 
» defcendees , vos foy , e he tam liberal ; e por iflò após mym 
» foés nefte Regno o principal efteo que a deve foíteer ; por- 
» que aalem do Património Real que partio com voíc:> , e co- 
» migo pouco menos de permeo , fabecs bem que da nobre 
» gceraçam das duas irmaas , que do Ifante Dom Fernando , e da 
y> Ifante Dona Briatis naceram , deu a mim hua por mulher , e a 
» vos juntamente nom denegou a outra. E porem daqui nom me 
» efcufo da culpa geeral , que com rigores dam a Juizes , e Offi- 
» ciaes novos; e afy fera a Rey novo , de que em íeus prin- 
» cipios nom fefcufam alguns agravos ; mas eftes quando a- 
» gravalTem , vos fobre todos por lingular enxempro dobedien- 
» cia , os avees de comportar, e fofrelos fem paixam ; quanto 
:» mais que os meus pêra vos, que iam o degredo devoíTo ir- 
» mão , e a entrada dos Corregedores em voíTas terras , nom 
» fam tam crimes , que na razam ? e honeltidade nom tenham 
» muita parte , e que a nom teveíTem , íofrendoos fem efcan- 
» dalo , tanto mais me obriguariees ; porque feendo afy , bem 
» fey que por voíTa grandeza , e merecimentos , e por voíTo 
» faber , e lealdade , em fim fempre ey de fazer o que vos 
» quiferdes. E por tanto a mym , a quem efta Cafa de Por- 
» tugal coube per graça de Deos em focefsam , avees fempre 
» em tudo ajudar , e favorecer , nom foomente com o bom 
» confelho que tendes , mas com as armas , e forças quan- 
» do me comprir ; e ali vos rogo, e emeomendo outra vez 
» que o façaaes. » 

CA- 



d'elRey D. JoaÓ II. 33 

CAPITULO X. 

Repofta do Duque a EIRey. 

EHo Duque defpois de ouvir , lhe refpondeo logo co- 
mo esforçado Cavalleiro , e mui leal VaíTallo dizendo : 
Senhor , eu beijo as mãos a Vojfa Alteza por efta , que pêra mym 
por muitas canjas ey por muito grande , e muy Jyngular mercee ; 
E porque em breve lhe refponda , faiba , qne de todo o que dizees 
pêra vos muito dever , e fervir , eu fom em muito verdadeiro 
conhecimento ? e certamente ajji he ; e por ijfo vos peço por mer- 
cee j que de mym nom creaes Jenam que fempre ey de viver , e 
morrer por vojfo ferviço \ e a iflo nom contradiz fer eu por 
ventura agravado de vos ? em coufas de que Vojfa Alteza ms 
de fa gravar d com mercee , honra , e acre cem amento como ejpe- 
ro ; porque os achaques nom je ejeufam antre hos Senhores , e 
fervidores , pois os ha antre os Pais , e filhos : mas os meus 
nom fam de graveza , nem qualidade ? que minguem em mym 
ho grande amor , e muita lealdade , com que vos fempre ey 
d?obedecer , e fervir em todo o que a vojfa honra , Ejla- 
do , e Serviço , e bem de vojfos Regnos comprir. E fobre efta 
boa , e leal tençam do Duque , com que pareceo que delRey 
entam fe defpedio , fe afirmou , que logo em fe recolhen- 
do a fua poufada , moftrou grande contentamento do que 
com EIRey paliara , entrepetando fuás palavras tam Reaes, 
e tam esforçadas , a próprio medo , e pouco esforço. De que 
fe feguio que o Duque de Vifeu y e o Duque de Bragan- 
ça , e feus irmãos fe ajuntaram logo no Vimieiro , onde te- 
veram fobriífo pratica , e louvaram muito o modo que ty- 
nham ; pois delle EIRey prefomia , que pêra feu favor e ajuda 
quando lhes compriíTe , tynham intelligencias com Caítella , 
que davam caufa a EIRey os eíHmar. Pelo qual fegundo 
dicl:o d'alguns que eram prefentes , ali tomaram todos por 
concrufam determinada ? e conforme, que nom confentiíTera 
Tom. 11. E a 



34 Chronica 

a entrada dos Corregedores em fuás terras , e que com to- 
do rifco lhe reíiftiíTem ; e íbbrifto o Marquez , e o Con- 
de de Faarom , e o Senhor Dom Alvoro algúas vezes fe 
viram no Mocíceiro de Santa Maria do Efpinheiro d' Évora , 
em que com temor do ódio d'ElRey , que contra íi magma- 
Vam , confultavam a maneira que teeriam pêra contra elle fe 
vallerem , em que claramente fe foube , que o voto , e 
teençam do Marquez cada vez era mais acefa em defamor, e des- 
lealdade contra EIRey ; e que por todalas maneitas procura- 
va defobediencia , e rompimento. A que o Conde de Faarom , 
e o Senhor Dom Alvoro com palavras de fe , e muita leal- 
dade a EIRey , fempre contrariaram , concludindo que quan- 
do pêra defobedecer oveíTe a razam , que nom avia , que en- 
tregaíTem a EIRey todo o que delle tynham , e fe defna- 
turalTem delle como ja outros bós fezeram ; e que entam o 
deíTerviíTem fc quifeíTem ; porque deita maneira no cairiam 
no cafo, em que fem iíTo fariam o que nom era pêra querer. 
E que porem a declaraçam fua com EIRey lhes parecia boa , 
è necefíaria , mas o modo , e com que palavras fe faria , fi- 
caffe foomente a juizo , e defpoíiçam do Senhor Dom Alvo- 
ro ; e que em outra maneira nom confentiam , nem fe fa- 
ria. E do que paíTavam , avifavam logo o Duque de Bra- 
gança , que era em Villa Viçofa. Como EIRey foube deitas 
viftas, e ajuntamentos, lembrandofe da maneira em que ty- 
nham o Princepe feu filho , que no confentia femelhantes 
alterações , detriminou com brandura , deílimulaçam , e lifo apa- 
gar fua fúria, e encendimento. E pêra iíTo deilítio do man- 
dar dos Corregedores a fuás terras , o que com palavras do- 
ces , e com refpeitos do que a elles por fua honra , e con- 
tentamento le devia , ho noteficou logo ao Senhor Dom Al- 
voro ; que com moftrança de muita alegria , por veer ceíla- 
da a principal caufa de feu efcandalo ; o fez faber a todos. 
E por El,Rey acrecentar mais neíta temperança , fatisfez ao 
Marquez , e ao Conde de Faarom aas fuás vontades , em 
certos requerimentos , que ja de dias com elle traziam , o 

que 



d'elRey D. João II. 35- 

que deu entam caufa a fe esfriarem de feu acefo propoíito , 
e ceíTarem de fuás intelligencias , e recados. E andando aíTy 
eíhs coufas veeo ao Duque hum Triftam de Vilha Roei mef- 
fegeiro da Raynha de Caftella, e a ella mui acepto, e fe- 
gundo teftemunho dos que o viram , fecretamente , e de 
nc&e tratava , e negociava com ho Duque defpois de dar boas 
no cies , fem d'alguem fer vifto , falvo de Jerónimo Fernandez 
feu Meyrinho , que encubertamente em fua cafa ho agafalhava. 
E*de Villa Viçofa o Duque fe paliou aa Vidigueira, e com 
elle emeuberto ho mefmo Triftam , e fobre a concórdia , e afen- 
to que tomaram , fezeram húa Capitolaçam , que foy moftrada 
ao Marquez , que pola veer veeo ali de noite das Alcáçovas 
onde eítava , e com elle Aífom Vaaz feu Secretario , que difíe 
a di&a Capitolaçam fer em deiferviço d'ElRey fobre duas 
coufas : A primeira concordaram que os Reys de Caftella 
requereíTem a EIRey, que por quanto a Excellente Senhora 
Dona Johana , em nome , trajos , e ferviço , nom compria em 
lua Religiam , ho que per bem do capitolado , e de feu 
abeto era obrigada , que fe entregaíTe em poder do Duque , 
ou de cada hum de feus irmãos, pêra lho fazerem comprir j 
o que parecia honefto , e razam pêra fazer , pois eram feus 
Valfallos , e aviam d'eftar em feu Rcgno. A fegunda concor- 
daram que por quanto na Capitolaçam das pazes , fora defefo , 
que os Cafteihanos fob graves penas , nom foífem tratar aas 
partes de Guinee , o que os Reys de Caftella nom podiam 
fazer , por fer contra bem commum de feus Regnos , cujos 
tratos , preftanças , e proveitos nom eram aos Portuguefes 
denegados , pagando feus dereitos ; antes com iíTo podiam 
hir , e vyr livremente , que aíTy com impofiçam d'algum juf- 
to tributo , e dereito , deíTem lugar , que a feus naturaes o 
femelhante trato de Guinee per EIRey fe nó denegalTe. E 
o desleal fundamento difto era , e diziam : que com quanto 
a conceíTam deftas coufas , trazia comliguo muita razam, juf- 
tiça , e honeltidade , que pela qualidade delias EIRey lhas 
nom avia d'outorgar , e antes morreria fobriíTo : fobre as 

E ii quaes 



36 Chuonica 

quaes os Reys teriam razam de romper com elle guerra; e 
que o Duque , e feus irmãos com efta coorada cauía fe eícu- 
fariam d'EÍRey , ao nom fervir , nem fofteer guerra , e contra- 
dições tam injuftas , e ferviriam a elles , e dariam a luas gen- 
tes entrada per fuás terras. A qual Capitolaçam foi metida 
em cera , e dada ao diclo Jerónimo Fernandez , que com 
ella na mão , e em cima d^um boo cavallo fc partio de 
no&e com o dito TriUam ; fendo pelo Duque avifado , que fe 
algúa gente os falteaíTe , fezefíem pola efconder , e falvar ; 
e como chegaíTem em falvo a Caftella , que a entregaíTe , 
como entregou, ao dicto Triftam. 

C A P I T U L O XI. 

Defcobrimento que Gafpar Jufarte , e Vero Jufarte 
fezeram a EIRey contra bo Duque de Bragan- 
ça e feus irmãos. 



EStando EIRey em Santarém na Corefma do anno de 
mil quatrocentos , e oytenta e três , Gafpar Jufarte ho- 
mem Fidalgo , e boo Cavalleiro , fabendo que feu irmão 
Pêro Jufarte , que vivia com o Duque tratava em Caílella , per 
mandado fcu , e do Marquez principalmente , contra a pef- 
foa , e Eítado d'ElRey ; elle como bõo , e leal feu VaíTal- 
lo detriminou d'ho defcobrir. E pêra iíTo per efcriptos fe- 
cretos que paíTaram , e per confentimento d'ElRey , fe vio 
em hum Cafal com Antam deFaria feu Camareiro , a quem 
logo defcobrio a fuítancia d'hua inftruçã , que fobriílb vira , 
a qual o mefmo Pêro Jufarte per confelho , e exortaçam de 
feu irmão molhou , e deu defpois a EIRey eltando em Aviz , 
que foy pofta no proceflo contra ho Duque como a diante fe 
dirá. E por eífca revelaçam que eftes irmãos fezeram , EIRey 
lhes fez defpois muyta mercee , e acrecentamento , como quer 

que 



d' e l r e y D. J o a 6 II. 37 

que a que Pêro Ju farte recebeo , que foy a maior , parece 
que procedeo mais da nobreza d'ElRey , e de bõo exem- 
pro pcra bem dos Reys , que do próprio , e verdadeiro me- 
recimento de Pêro Jufarte ; porque fe foube craro , que 
elle com a dieta inítruçam fora contra fervi ço d'ElRey duas 
vezes a Caítella, e por ventura do efFedto porque hia foy pêra 
a terceira defeípcrado , e a revelou : ca pêra merecer gualardam 
como bõo , e leal Vcflallo d'E!Rey , na primeira o devera 
logo revelar, o que nom fez. Foy EIRey na entrada da Co- 
re fma deite anno veer a Ifante Dona Johana fua irmaã, que 
citava no Mocfteiro d' Aveiro , e tornou tcer com a Raynha 
fua molher a Pafcoa em Santarém ; onde paliada a Pafcoella , 
foy aviíado que o Prior de Prado ConfeíTor dos Reys de 
Caítella , e Arcebifpo que defpois foy de Graada , como pef- 
foa de grande confiança , e a elles muy acepta , vynha por 
feti Embaixador pêra o desfazimento das Tercerias , e que 
era em Aviz , com que EIRey foy muy alegre. E com a 
Raynha , e toda a Corte fe partio logo pêra a dieta Villa 
d' Aviz , onde logo com o didto Embaixador a quinze dias de 
Maio de mil quatrocentos e oitenta , e três , tomou conclufam y 
e afento , jurado e firmado fobre o desfazimento das dietas 
Tercerias , per que o Princepe , e Ifante ficaram delias livres ; 
e afy defatados , e íoltos todolos feguradores , e defnatura- 
mentos ; e afy todalas obrigações que por ellas eram fectas. 
E o cafamento ficou por entam concertado de futuro com a 
Ifante Dona Johana , filha fegunda dos dictos Reys , com 
as mefmas condições , e obrigações com que o da Ifante 
Dona Ifabel era com o Princepe concordado , com adiçam 
mais de dez contos de reaes que fe mais davam em dote com 
ella. E porem no dicto contrato ficou logo acautelado , e efpe- 
cificado , fem efperança que entam ouveíTe de fe comprir; 
que fe ao tempo que ho Princepe compriíTe hidade de quator- 
ze annos , a dieta Ifante Dona Ifabel eítiveíTe por cafar , que 
nelte cafo o caíamento que primeiro fora concordado fe com- 
priíTe antre elles per palavras de prefente. E pêra recebe- 
rem 



38 C - H B O N I C . A 

rem em Moura, e trazerem o Princepe , fez EIRey feus Pro- 
curadores Dom Pedro de Noronha feu Mordomo Moor , e ho 
Docltor Joham Teixeira feu Chanceler Moor y e Frey Antó- 
nio feu GonfeíTor ; os quaes todos , e afy o dicto Prior 
Embaixador fe partiram a gram preíia caminho de Moura, 
e EIRey , e a Rainha foramfe logo aa Cidade d'Evora pê- 
ra hy receberem o Princepe ; e poufaram nas cafas do Con- 
de (POlivença , que fam junto com ho Moefteiro de Sam To- 
ham por ferem de bõos aares , e faadias pêra o verão que efpe- 
ravam hi de teer. E ante d'EÍRey partir d'Aviz , porque ali 
trouxe Pêro Jufarte em peífoa a inftruçam com que fora a 
Caítella , como atraz fica , e acerca do cafo lhe defcobrio mui- 
tas particularidades em que ordenavam e tratavam , de ho 
deífervir ; logo EIRey propôs, quando nom podeíTe prender 
o Duque , de o cercar em qualquer lugar que o acolhelfe. 
E pêra íífo ouve muito dinheiro junto , que trazia em fua 
Camará ; e aíi tynha ja copiladas , e fechas as menutas das 
Cartas , e Provisões , que vyndo tal cafo , avia de mandar pelo 
Regno , e aífy aas Villas , e Alcaides dos Caítellos do Du- 
que , de cuja fuíhncia ao diante fe aproveitou na noc~le de 
lua prifam. E ho Duque de Bragança ao tempo que o dicto 
Embaixador de Callella entrou em Portugal , eftava em Villa 
Viçofa : e porque a fama logo foy que EIRey pêra o dcfpacho 
da Embaixada fe vynha a Eftremoz , que era delle tam acer- 
ca ; creefe que por honeítidade , e por efcufar fofpeitas , e ou- 
tros inconvenientes de fua honra , fe partio foo pêra Portei , 
onde os Procuradores d'ElRey ho acharam dia do Pinticofte 
hindo ja pêra Moura; com os quaes per modo de confelho 
praticou , fobre o que acerca da vynda do Princepe devia 
fazer , pois vynha per fua terra ; porque d'húa parte por 
obediência , e por fua dignidade , e por outras muitas caufas 
lhe parecia razamhir pêra o Princepe , e ho acompanhar, e 
fervir atee a Corte : e aífy em fuás terras lhe fazer aquelle rece- 
bimento que era razam , e elle por feu Senhor merecia. E 
da outra receava de ho fazer por nom faber quanto EIRey 

feria 



d'elRey D. João II. 3 ^ 

feria diíTo fervido, e contente, pois lhe nom efcrepvia. E 
defpois de muitas praticas , os di&os Procuradores faamente , 
e fem cautella aconfelhandoo concrudiram : que pêra elle lol- 
dar quebras , e achaques que no povo fe dezia aver antre 
ElRey e elle ; e também porque aífy era razam e honefto , 
devia hir pêra o Princepe , e fervilo , e feftejalo em fuás ter- 
ras , e hir com elle atee a Corte : e que a hora em que El- 
Rey vííTe o Princepe , feria pêra elle de tanta gloria, e pra- 
zer , que em feu coraçam gaitaria quaesquer fofpeitas , e 
ódios fe os antre elles ouveífe. Da qual coufa o Duque mof- 
trou fer íatisfeclo , e mui alegre ; e na diligencia que logo 
pos pêra fe perceber , e o comprir , e no vivo defejo que 
moftrou pêra em tudo fervir a ElRey , e ao Princepe , certo 
mais parecia entam aver nelle lealdade , e amor , que ho 
contrairo. E antre os di&os Procuradores , defpois de ferem 
do Duque defpedidos , hyndo pelo caminho , ouve logo de- 
bate .f ê confirada bem a condiçam , e deferipçam d'ElRey , 
fe fora bem , ou mal confelharem ao Duque daquella ma- 
neira ; e pêra com tempo featalhar, quando ElRey ho nom 
ouveíTe por feu ferviço , logo do mefmo caminho lho feze- 
ram faber per paradas de cavallo , que d'Evora a Moura eram 
poftas. E a repofta d'ElRey nom tardou muito ; aprovando , 
e louvando com palavras doces , e fengidas , a detrimina- 
çam , e confelho que o Duque tomara , dando nellas algúas 
efeufas que pareciam honeftas , porque o pêra iíTo nom con- 
vidara , reportandoo principalmente , a fer certeficado , o Du- 
que nom eftar em boa defpoíiçam de fua faude. Ao qual a 
dicla repofta foy logo moftrada em Moura , onde ja entam 
era ; porque aforrado foy logo noteficar aa Ifante Dona Bria- 
tiz , fua hida com o Princepe aa Corte ; que a aprovou , em 
efpecial veendo tal Carta d'ElRey , com tam fegura difÉmu- 
laçam , com que ambos moftraram ler muy alegres. E certa- 
mente do alvoroço , e defpejo do Duque, poderam entam 
tomar craros fynaes , e nam emeubertos de aver nelle pêra 
ElRey a lealdade, e verdadeiro amor que diíTe ; e que fe em 

ai- 



40 Chronica 

alguas coufas tynha entendido, que a eftas foíTem , ou pa- 
recelTem contrairás , que aquellas feriam acidentaes , e fengi- 
das , e com maginativo defejo d'algum remédio , e feguran- 
ça pêra as fofpeitas d'ElRey , em que eíbas eram verdadeiras , 
e de coraçam. A qual carta d'ElRey , que o Duque vio , 
que parecia de boa fee, e nom dobrada, como vynha ; ho 
defcarregou e fegurou , pêra defpois nom creer os muitos avi- 
fos , que lhe no caminho foram dados pêra nom hir aa Corte. 

CAPITULO XII. 

Desfazimento das Tercerlas , e entrega dos If antes. 

CHegaram os Procuradores d'ElRey , e o Embaixador 
de Caftella a Moura , onde aos vinte e quatro dias 
de Maio do.di&o anno, dentro no Caftello da dita Villa , 
feendo prefentes o Princepe Dom AíFóm , e as Senhoras Ifan- 
ites Dona Briatiz , e Dona Ifabel. E logo o dicto Prior Em- 
baixador , com muita autoridade fez húa falia , cuja fuftan- 
cia foy : Que aquelle desfazimento das Ter certas nom fe fazia, 
a outro fim , falvo porque os penhores da paz , que foram 
aquelles Senhores Princepe , e Ifante , nom eram ja necejfareos 
antre os Reys de Caftella , e "Portugal , pela grandz certidam , 
e verdadeira [egurança que de fua paz , e amizade tynham. 
Com outras razoens, e comparaçoens de grande prudência, 
e muito ao propoíito. Acabadas as quaes a Senhora Ifante 
Dona Briatiz , nam fem muitas lagrimas , entregou logo o 
Princepe aos di&os Procuradores d'ElRey ; e a Ifante Dona 
Ifabel ao Embaixador d'ElRey , e da Raynha feos Padres , 
com que logo fayram da Fortaleza. E porem a dita Ifante 
Dona Briatiz , com toda a entrega que tynha fe&a do Prin- 
cepe , veeo com elle atee Évora , e ho entregou outra vez 
a EIRey feu Padre. E ho Duque de Vifeu que hi era , foy 
com a Ifante Dona Ifabel atee ho eftremo , onde a entregou 



d s elRey D. Jo aó lí. 41 

a Senhores de Caítella que a efperavam , e tornou ainda cont 
gram preíTa pêra o Princepe y que também entrou na Corte 
d'ElRey. 

CAPITULO XIII. 

Entrada do Princepe. 

O Princepe veeo dormir ao lugar da Vera Cruz , onde perà 
elle veeo ja muita i e nobre gente da Corte ; e ao'outro 
dia nom pafíbu de Portel , onde do Duque de Bragança 
que o efperava foy recebido , e feítejado d^legrias , e ban- 
quetes em gram perfeyçam ; e a outro dia foy dormir aa 
Torre dos Coelheiros 5 e no feguinte terça feira , que era 
befpera da befpera do Corpo de Deos foy dormir a Évora , 
e com elle ambos os Duques. Sayo ElRey a receber o Prin- 
cepe , e com elle muita gente , em que os ValTallos da Ci- 
dade , e Comarca vynham ao recebimento todos armados, 
porque algúa maginaçam , e propoíito teve ElRey de lo- 
go prender o Duque , tanto que o viíTe ; o que pelo grande 
repoufo ? c muita íegurança que via no di£to Duque , o ouve 
entam por efeufado. E porem nom fez menos honra , e aco- 
lhimento aos Duques , que ao Princepe feu filho , abraçan- 
dofe com elles tantas vezes ? e com tanta alegria , que pa- 
recia , que em feu coraçam nom jazia o contrairo , e com 
tudo tynha detriminado , toda via o prender como a trás 
fica , mas quiz que foíTe defpois , porque feria com menos 
alvoroço , como fe fez. E na befpera do Corpo de Deos , e 
no dia , afy por a cuftumada folépnidade de feita , como por 
a hida do Princepe , ouve na Cidade muitas feitas , e tou- 
ros , e nos Paços d 5 ElRey muy alegres danças , e com mui- 
tos prazeres , em que o Duque era prefente , fem conhecer 
nunca d'ElRey o contrairo de fua moftrança , o que deu 
caufa a elle nom creer muitos. avifos que neftes dias lhe vy- 
nham , em efpecial do Marquez feu irmão j perque o amoef- 
Tom. II. F ta- 



42 Chronica 

tavam , e aconfelhavam que fe faiíTe j e falvalTe. Mas elle ou 
por fer confiado de fy mefmo , ou fegurandoie na fcgurarça 
que via d'ElRey , ho nom quiz fazer ; porque o Duque 
fabeendo que todalas coufas, em que algúa culpa fua fe po- 
dia notar, que eram efcrituras , elle as próprias tynha em 
feu Cofre , que cuidava teer fempre em feguro recado , cria 
que ho mais que contra elle averia, feriam prefunções 5 de 
que mui levemente fe podia afolver. 

CAPITULO XIV. 

Prifam do Duque. 

NA feita feira logo feguinte , vinte e nove do mcz de 
Mayo de mil quatro centos e oytenta e três , o Duque 
fem chamamento d'ElRey com propoíito de fe deípedir del- 
le , e hirfe com feu prazer pêra fuás terras , fe veeo aa tarde 
a feus Paços onde o dito Senhor eítava com feus Crfi- 
ciaes em Defembargo ordenado. E EIRey , em o Duque 
chegando com a honra acuílumada o fez afentar junto con- 
íigo : e defpois de prefente elle tomar algum afento d'alguns 
negócios pendentes , fez defacupar de toda a gente húa logea 
em que eftava , e ò Duque ficou foo com EIRey ? a quem propoz 
muitas coufas , em fim das quaes , lhe tocou as fofpeitas que 
delle contra leu ferviço lhe faziam teer , pedindolhe por 
mercee que as nom creelTe, e fe afirmalTe no que outra vez 
fobre tal cafo lhe difera em Almeirim , que era morrer por fua 
honra , Eftado , e ferviço quando compriíTe : E que por iíTo 
aaquellas peflbas , que tamanhos erros contra elle falfamente 
aíTacavam , devia dar , e lhe pedia que deíTe muy afperos caf- 
tigos: e com tudo porque nom parecelTe que elle por receo 
dalgfías fuás culpas fe acautelava , o di£k> Senhor acerca del- 
le s*emfórmaíre bem da verdade , fegundo a qual fezclfe o que 
feritiffe feer razam, ejuftiça. E EIRey lhe refpondeo logo a 
algúas coufas primeiras de fua propofiçam fora deíla fuftancia f 

fe- 



d'e.lRey D. J o.a.õ II. 43 

fegundo que a cada hua com p ri a ; e quando lhe. ouve de re£ 
ponder aa final que tocara, ante de tudo lhe diíTe : Que por 
quanto era ja muito tarde , e a eafa em que e fiavam era efi- 
cura , que fe fobiffem a húa fua guardarroupa , que era em cima: 
E deípois de fobidos , ElRey lhe diíTe : Qiie quanto aas coufar 
.que apontara , que fe delle diziam , fobre que lhe pedira que fe 
enformajfe da verdade , que feu requerimento era tal , a que 
de razam fe devia fatis fazer ;, e que elle ajfi detriminava f aze lo z 
e pêra ijfo por Je nom paffarem mais inconvenientes , e fe fazer 
com maior Jegar idade , era necejfareo elle Duque eftar ali reteudo 9 
onde foj/e certo , e feguro ., que fua honra , com Jua defefa , e 
jufiiça , lhe feria inteiramente guardada. E como ElRey ifto 
diíTe , leixou o Duque na guardarroupa em poder d' Aires da 
Silva leu Camareiro Moor, e d'Antam de Faria feu Camarei- 
ro, que guardada lua preminencia , poíeram nelle a guarda 
que por entam compria. ElRey fe fobio a outra camará 
onde logo mandou vir alguns Fidalgos , e Cavaleyros de fua 
Cafa , a que encomendou a guarda , e férrico do Duque : e 
aífi fez ajuntar os Condes , e peiToas principaes e d'autoridade 
que eram na Cidade , pêra fobre o càfo teer logo confelho ; 
o que fe comprio com tam grande trigança , e efpanto como a 
novidade do cafo requeria. E como a nova foy pela Cidade 
derramada, porque tocava em deslealdade contra ElRey , foy 
tam contrairá nos ouvidos , e coraçoens leaes dos Portuguezes ? 
que a gente toda da Cidade , nom foomente aquella que pêra 
as armas era defpofta , mas ainda a outra que per grande 
velhice , ou poucos annos pêra tal exercido era efcufada , fe 
veeo trigofamente ao Paço atee nom caber , acefos todos em 
muita ira braadando por crua vinguança , efquecidos por o 
crime fer tal , de toda clemência , e piedade , e defejofos 
e defpoiios pêra focorro, e defenfam da vida , e Real peíToá 
d'ElRey como fe fora a própria de cada hum. E juntos com 
ElRey muitos de feu Confelho em que avia alguns bòos 
Letcrados , o di&o Senhor com aquella temperança, que ent 
hum rnuijuítoj e vertuofo Rey fe requere, lhes moíhrou lo- 

F ii go 



44 G H R O N 1 C A 

go por caufa, e fundamento da prifam do Duque as cartas, e 
jnftruçóes de que atras fe faz mençam ; e com cilas tomou o 
alTento de todo o que em tal cafo , e neceflidade compria. 
.f* Qíif fe fegurajfe bem a pejfoa do Duqiie , e fe cobraf- 
fem Jeus Cajiellos , e Fortalezas : e ajji Je notificajfe o cafo 
aos Reys de Caftella , e nam como a fabedores da caafa delle , e 
ajfi ao Prior de Trado Embaixador , -por fe impedirem , e ata- 
lharem requerimentos , e alvoroços daqtielles Regnos contra eftes. 
Mandou logo EIRey a todalas Fortalezas , que ho Duque 
tynha em todo ho Regno , Fidalgos , e Cavaleiros princi- 
paes de lua Cafa , e Gonfelho , delles que na Corte fe acer- 
taram , e outros que eram aufentes , pêra com fuás Cartas , e 
Provisões, e com outras do Duque, que também levavam, 
as cobrarem , ou combaterem fe logo nom fe entregaíTem. 
Repartindo logo apontadamente as Comarcas , Villas, e 
Fortalezas a que cada hum com melhor defpofíçam avia 
d'hir ; Os quaes como bóos , obedientes , e leaes fervido* 
res , nom efquecidos do que ho tempo , e a importância do 
cafo requeriam , com muito amor , e trigofa diligencia com- 
priram e deram a defejado efFeito os mandados d'ElRey. Porque 
como chegaram , logo fem alvoroço , perygo , nem con- 
tradiçam algúa as cobrarom todas ; em que poferam Alcai- 
des , e peflbas que fobre fuás menagens as tiveram fempre 
fielmente a ferviço d'ElRey ; o que neftes Regnos foy cou- 
fa mui digna de louvor , e em outros muy maravilhofa , entre- 
garemfe aíli levemente , e tam fem duvida vinte e cinquo 
Villas , e Fortalezas do Duque , por foo mandado d'ElRey 
fem viíta de fuapeíToa, efquecida em todo toda a reíiílencia 
dos Alcaides , os quaes foram certo muy de louvar, por fua íin- 
gular obediência , e grande lealdade a EIRey. Ho Marquez 
que era nas Alcáçovas , e o Conde de Faarom que eítava ^Ode- 
mira , pelo avifo da prifam do Duque , que logo ouveram , 
poferam com fogida fuás peflbas em falvo , e acolheram- 
fe a Caftella : e o Marquez quiferafe lançar na Forraleza 
de Portel, de que era Alcaide dg Duque Nuno Pereira, que 
* * por 



D* E L R E Y D. J O A Ô II. 45- 

por fer do cafo avifado , ho nom quiz recolher ; e o Marquez 
fe foy logo a terra de Campos em Caftella 5 e defpois 
recolheo a Marquefa fua mulher em Sevilha , onde pafíados 
muitos dias defpois faleceo , e ho Conde de Faarom fe pafíbu 
a Andaluzia , onde d'hi a pouco tempo , com mais door , e 
trifteza , do que neftes cafos tinha de culpa acabou fua vida , 
ho que a EIRey nom prouve , porque fe fe tornara pêra o 
Regno , como logo lho mandou requerer , teve tençam de fe 
avcer com elle nobre , e piedofamente \ e com Dom Alvoro feu 
irmam tomou EIRey affento , que por entam fe fofíe fora 
d'Efpanha , e nom efteveíTe em Roma atee fua mercee , e 
que em todolos outros Regnos , e Terras podeíTe eftar , e 
aver la todalas rendas , que nefte Regno tynha ; mas nom ho 
comprio, porque partindo com propolito de fe hir a Jherufa- 
lem , foy favorecido d'ElRey , e da Raynha de Caftella ; 
e nom fayo de feus regnos , a que recolheo fua molher, e fi- 
lhos ; onde em fua Corte teve cargo da governança da Juftiça , 
e ouve com os diclos Reys grande credito , e muita autori- 
dade , e la faleceo defpois de fer a eftes Regnos de Portugal 
retornado per EIRey Dom Manuel noíTo Senhor , como em 
fua Crónica fe fará mençam. A Duquefa Dona Ifabel molher 
do Duque era em Villa Viçofa , e como da prifam de feu 
marido foy avifada , mandou logo três filhos feus barões a 
Caftella , e com elies alguns Fidalgos de fua Cafa .f- Dom 
Felipe ho mayor , que feendo moço la faleceo , e Dom Ja- 
mes ho fegundo , Duque de Bragança , e de Guimarães , 
que ora he retornado a eftes Regnos per EIRey Dom Ma- 
nuel feu tio, noíTo Senhor , como em leu próprio lugar e 
tempo fe dirá : e Dom Diniz o terceiro , que em Caftella 
cafou com filha do Conde de Lemos : E com a Duquefa ficou 
hua filha mynina , que neftes Regnos a poucos annos logo 
faleceo , e avia nome Dona Margarida. E a Raynha de 
Caftella fua tia , como nobre , e vertuofa Princefa , os re- 
colheo a fua Cafa , e os tratou , e honrou fempre como era 
razam que fezelTe a fobrinhos , filhos de tal Padre y & Madre , e 

prin- 




4^ C H R O N I C A 

principalmente- íbbrinhos , e netos de taes A voos , e Tios» Ho 
Duque nõ iayo mais da guardarroupa em que o EIRey lei- 
xou , onde íem ferros , nem outra eftreita prifam em feu 
corpo ,. foy de bóos Fidalgos , e Cavaleiros fempre bem 
guardado, e fervido e acatado como a feu eftado , feendo em fua 
liberdade compria , aífi no ferviço da mefa com íuas falvas 
devidas , e cuftumadas , como nos Officios Divinos , e pra- 
tica, e viíitações de feu ConfeíTor, e também nos avifos de 
léus Avogados , e Procuradores que nunca lhe foram privados , 
quando ho elle defejava , e algúa neceífidade o requeria. 
E pofto que EIRey pela calidade do cafo , fegundo def- 
poííçam de Dereito , poderá mandar fazer juftiça do Duque, 
como do crime ouve fommaria emformaçam fem outra 
lolépnidade , como d'algus foy pêra iíTo aconfelhado , o di- 
clo Senhor o nom quiz fazer : antes naquelle publico Con- 
felho , cheo de temor , e efpanto , foy EIRey vifto com mui- 
tas , e mui perfeveradas lagrimas , e com palavras de gram, 
compaixam , fentir muito efte cafo , molhando grande defejo da 
boa defculpa , e inocência do Duque ; e doerfe mais com 
piedade de fua defaventura , que reprendela com ira ? nem com 
fanha , acufando a Deos feus pecados próprios a que muita par- 
te delia reportava ; e acordou que o cafo fe vilTe , e determi- 
na íTe por juftiça. Alguns Grandes, e Condes, e Senhores da 
Regno , que na Corte eram preíentes , praticando antre fy 
fobre efte cafo , doendofe da deftroiçam , e queeda do Duque , 
e por efcufarem principalmente fua morte, todos juntos mo- 
veram a EIRey por partido , que lhe delTe a vida ; e que por 
fegurança do que a feu ferviço compria , e que o Duque 
cPhi em diante bem, e lealmente fempre o ferviria , ouvefíe 
a feu poder todas fuás Fortalezas , e mais as dos di&os Se- 
nhores ; as quaes fortalezas todas em vida do Duque fempre 
foflem em poder , e da mão d'ElRey. E porque ao tempo que 
fe ifto moveo, ainda EIRey nom era certeficado da entrega 
das? Fortalezas do Duque , que eram nas comarcas d'antre 
Doiro ? c JMynho ; ç Tralo/mantes , em que tynha muita du- 
vida , 



D* E L R E Y D. J O A Ó II. tf 

vida , e grande receo ^ nom refufou o partido ; e com cau- 
tella moítrou que avia prazer de lho cometerem, e elle en- 
tender nelle , com fundamento , que fe as di&as Fortalezas , 
ou algCia delias fe/revelaram a fua obediência , ou enten- 
dera , que em Caftella por efta prifam do Duque fe fazia 
contra elle , e feus Regnos alguns boliços , e movimentos - 
aceptara o diclo partido ; fobre o qual mandara foltar o Du- 
que , com moftrança, que aquella fora fempre fua vontade. 
Mas como foy certeficado da entrega das Fortalezas , fem ai* 
gfía refiftencia , e affi do aíTeíTego de Caftella ; efeufoufe do 
di£k> partido , e como feguro , e defeanfado nos receos que ty- 
nha , mandou logo que o cafo do Duque fe viífe , e detriminaf- 
fe por juftiça. Ao outro dia defpois da prifam do Duque $ 
fez EIRey húa falia ao Duque de Vifeu perante a Ray- 
nha fua irmaa , na qual fuftanci ai mente o reprendeo muito , 
por lhe dizerem , que elle foubera das coufas pairadas , que 
o Duque de Bragança , e feus irmãos contra elle quiferam 
cometer ; E por fua pouca , e nom madura hidade lho perdo- 
ou, dandolhe fobriílb taes enfynos , caftigos , e confelhos, 
que pareciam mais de Padre amorofo , que de rigurofo 
Princepe. A que o Duque nom refpondeo mais , que bei- 
jarlhe por iflb as mãos ; e a Raynha que ho eftimou cm muito 
com as palavras que em fua muita bondade , e grande deferi- 
çam cabiam lho teve muito em mercee. Eperajuftificaçam da 
caufa do Duque de Bragança , EIRey mandou vyr a Évora 
todos hos Letrados da Cafa da Sopricaçam , que entam era em 
Torres Novas. Foy logo deputado Juiz ho Licenciado Ruy 
da Grãa , e dado Procurador a EIRey o Dotor Joham d'El- 
vas , e por Procuradores do Duque ho Doftor Diego Pinhei- 
ro homem fyngular em Dere&os , e da criaçam da Cafa do 
Duque , e com elle AíFóm de Bairros , que antre hos Pro- 
curadores do Regno tynha grande efpecialidade de bem prati- 
co , e fabedor. Aos quaes EIRey emeomendou , e mandou , que 
com muito cuidado , e eftudo procuraíTem e defendeíTem a 
caufa do Duque , e que por iflb lhes faria muita mercee. Foy 

fe- 






48 C H R O N I C À 

fe£lo , e dado Libello contra ho Duque , que logo procedeo , 
com vinte e dous artygos fundados naquellas coufas em que 
parecia elle fer culpado ; os quaes pelo Juiz lhe foram logo 
levados onde citava , e lydos todos ; de que ho Duque logo 
moftrou alguma torvaçam , porque na fuítancia delles conhc- 
ceo logo craramente , que muitas coufas fuás eram revella- 
das, e defcubertas , que elle avia por mui fecretas , e cf- 
condidas. E defpois d'eftar hum pouco fofpenfo , ante de na- 
da refponder , emcomendou a Ruy de Pyna , que era prefen- 
te , que foíTe dizer a EIRey feu Senhor , que aaqucllas cou- 
fas nom tynha repofta mais própria , nem que mais conviefíe aa 
fua grandeza, vertudes , e piedade que a que ho Profeta dif- 
fera a Deos no Verfo : Et non intres injuâicium cum fervo tno , 
Domine , quia non juftificabitur in confpeftu tuo omnis vivais. Ou 
que quando nom quifeíTe tomar efte meo , que a elle por todos 
refpeitos mais convynha , que entam por fua dinidade , e 
por fer affi dereyto lhe quizeíTe dar Juizes paris curie , e 
que feu fe&o mandaíTe detriminar a Princepes , e Duques , 
pois elle ho era. Mas EIRey houve tudo ifto por efcufado , 
e mandou que toda via refpondeífe , e fe livraíTe per Dereito. 
E aalem das cartas, inftruções , e fcripturas , que logo pêra 
prova do libello foram no fedlo oíferecidas , fe perguntaram 
pelos artigos delle eftas peíToas por teftemunhas ; .f- , Lopo 
da Gama , AíFom Vaaz Secretario do Duque , Diego Lourenço 
de Monte Moor ho Novo , Pêro Jufarte , Lopo de Figueire- 
do , Jheronimo Fernandes , Fernam de Lemos , Joham Velho de 
Viana de Caminha , todos da criaçam do Duque , e de feus ir- 
mãos ; cujos teliemunhos pareceo que faziam ao Libello pro- 
va inteira ; nem avia a elles contraditas , nem lhas receberam. 
Foy ho libello contra o Duque fulminado em vinte e doos 
dias , e nenhua diligencia que pêra elle compria , foy necef- 
fareo fazerfe fora da Corte : e pêra a final detriminaçam 
delle , foram também per mandado d'ElRey juntos pêra 
Juizes alguns Fidalgos , e Cavaleiros do Regno , do Con- 
felho, c fem fofpeita , que per todos fizeram numero de 

vinte 



d' E L R E í D. J O A 6 II. 4£ 

vinte e hu Juizes. Tanto que foy o fetto concrufo , os Juizes 
foram juntos todos em huma Salla , dentro do apoufent amento 
d'E!Rcy , armada de panos da eftoria da feveridade e juíbiça do 
Emperador Trajano, onde fe poz húa meia, aparelhada pê- 
ra o auto como compria , em que de liua banda , e da 
outra os Juizes eftavam todos aíTentados , e no topo delia 
ElRey , e junto com elle ho Duque em húa cadeira , a 
quem ElRey em chegando a elle , e fe defpedindo,, inteira- 
mente guardou fua corteíia 5 e cerimonia. O qual Veeo ali 
duas vezes em que vio ler o fe&o , e pelos Procuradores 
d'hua parte , e da outra defputar em gram perfeiçam os me- 
recimentos do proceíTo ; e aa terceira em que pubricamente 
fe aviam de preguntar as teftemunhas em prefença do Du- 
que , elle fe efcufou vyr ; porque fendo d'ElRey chamado 
pêra iífo per Ruy de Pina , lhe refpondeo eftas pallavras : Di- 
zee a ElRey meu Senhor que eu me confejfey , e comunguey oge , 
e que agora ejlou com ho Padre Paulo meu Confejfor f aliando em 
coujas de mini? alma , e do outro mundo ; que ejjas para que me 
chama , fam do corpo , e dejle mundo , e de feu Regno , de que 
elle he Juiz ; que as julgue , e detrimine como quifer , por~ 
que a, hida de minha pejfoa nom he neceffarea. E naô foi. E co 
efta repofta mandou ElRey logo defpejara Salla, pêra fobre 
a Sentença final tomar os votos dos Juizes , a quem ante de 
votarem fez ElRey hua falia em que lhes emcomendou o que 
devia como bõo , e jufto Rey , e nam fem muitas lagrimas , que 
todos aquella nocte lhe viram correr , e muitas vezes ; porque a 
cada voto em que cada Juiz conciudia na morte do Duque , 
ElRey chorava com grandes faluços , e muita trifteza. E no 
votar fe deteveram doos dias menhaã , e tarde , com a nocle 
derradeira hú pouco ante menhaã , em que finalmente acor- 
daram todos com ElRey , que na Sentença pos o feu paíTe : 
Que viftos os merecimentos do procejfo , conformandofe no cafo com 
as Leys do Regno , e Imperiaes , e com a pura , e muy antyga le- 
aldade que aos Reys defte Regno de Portugal fe devia fobre to- 
dos , acordaram que ho Duque morreffe morte natural , e fojfe na 
Tom. II. Q pra- 



A 



5o Chronica 

praça da cidade d? Évora pubricamente degollado , e perdejfe to- 
dos feus bees , affi os patrtmoniaes , como os da Coroa , pêra o 
Fifco , e Real Coroa d? EIRey. E acabado d'afentar , e afynar 
a Sentença , tomou logo EIRey com todos afento fobre o 
que na exuquçam delia fe avia de fazer. E aos vinte dias do 
mez de Junho defte anno de mil quatrocentos e oitenta e três , 
em amanhecendo tiraram o Duque dos Paços , e em cima 
d'húa mulla ho levaram com boa feguridade aa praça , e 
ao fair , fempre o Duque creeo , que ho levavam a algúa 
Fortaleza ; mas como fe vio meter em cafas da praça , co- 
nheceo logo a verdade , que mais craramente lhe foy lo- 
go manifeftada per feu ConfeíTor , que o ja eíhva efpe- 
rando. E defpois de lhe dar, com muitos esforços, e con- 
fortos nova tam amargofa , elle a recebeo com pallavras , 
que pareciam de moor paciência que trifteza. Fez logo híla 
cédula de teftamento , que elle notava , e hum Chrif- 
tovam de Bairros , Efcripvaó efcripvia , na qual afinou com 
Paulo feu ConfeíTor , em que por defcargo de fu'alma 
decrarou algúas çoufas. Principalmente pedio aa Duquefa 
fua molher por mercee , e aíli a feus irmãos , e encommendou 
a feus filhos por fua bençom 5 e mandou a feus criados , que 
por o. cafo da fua morte nom tiveífem ódio , nem efcanda- 
lo contra nenhúa peíToa que lha caufaíTe ; e muito menos 
contra EIRey feu Senhor , porque em todo o que fazia 
era verdadeiro Miniftro de Deos , e muy inteiro exuqutor de 
fua JuíHça ; nom decrarando porem fe era, ou leixava de fer 
culpado no cafo porque morria : falando muitas coufas , e 
fazendo em tal ora alguas preguntas , como de baram acor- 
dado , muy esforçado , e fobre todo Católico , e bóo Chrif- 
tao. Mandou pedir perdam a EIRey com palavras de mui- 
ta humildade , e acufaçam de fy mefmo , e pedio que 
ante de padecer foubelle , que lhe fora pedido ; e aífi 
fe fez. Foy veílido de húa loba roçagante , e capello , 
e carapuça tudo de doo ; ataramlhe diante ao cinto com 
húa fita os polegares das mãos ; e em lhos atando lhe dif- 

fe- 



r>' e lRe y D. J o a 6 II. 51 

feram , que ouveíTe paciência , e nom fe efcandalizaíTe , por- 
que afll era acordado per EIRey ; e elle manfamente , e fem 
algúa fanha , refpondeo : Sofreloey ,. e mais hum baraço no 
pefcoço fe Sua Alteza mandar. Sayo a hum cadafalfo , que 
de madeira foy fe&o em boa altura pegado com as janelas 
das cafas per onde avia defair, coberto todo também de pa- 
nos de doo ; e diante delle ConfelTores , e Religiofos com 
a Cruz , hús rezando oraçoens devotas , e encomendando fu'al- 
ma a Deos , e outros dizendolhe palavras pêra tal ora de 
grande esforço , e muita confiança em Deos. Mas certamente 
elle foy fempre tam esforçado, e tam inteiro na Fe , e em 
tanto feu acordo , que pareceo , que pêra fua íalvaçam as nom 
avia mefter. E porque a gente principal do Rcgno acodio to- 
da a EIRey , era a praça toda chea de gentes d'armas , e a 
Cidade também nellas revolta, e confortavamno muito, que 
de vifta , e rumor tam efpantofo nom fe torvaíTe. Mas elle em 
faindo ao cadafalfo , pos os giolhos em terra , e com os olhos 
na Igreja de San&o Antam , que era defronte fez oraçam 
a Deos , encomendandolhe lua alma : e defpois de fe ale- 
vantar, ante de fe lançar e obedecer ao agudo , e fevero cutel- 
lo da J.uftiça , diíTe : Eu nom me torvo , nem agravo do que dizees y 
porque fe o foffo , ou devo dizer, Jefu Chriflo Noffo Senhor nom 
morreo morte tam honrada. E no cabo de hum efpantofo pregam , 
que deu hum Rey d'Armas com dous pregoeyros conforme 
aa Sentença de trás , hum Algoz veftido de doo lhe cortou 
a cabeça cuberta primeiro d'huma toalha. A efte Algoz foy 
logo dado livre perda.m por a qualidade da juíUça que fezera 
em tal peíToa : e verdadeiramente eu que o vi ho teítemu- 
nho , e afirmo , que o Duque recebeo a morte com tanto ar- 
rependimento , e com tam efperta acufaçam de feus pecados , 
e com tanta paciência , e contriçam , que quanto a Deos , e 
a elle , bem poderiamos como Chriftaos chamar fua morte 
bemaventurada ; pois nella fe viram muy craros fynaes de ver- 
dadeira falvaçam de fu'alma , a que fua vida em coufas def- 
te mundo revolta , parecia fer muito contrairá. Jouve o corpo 

G ii do 



Cl 
H R O N I C A 

do Duque aíTy pubricamente no cadafalfo por efpaço d'hu- 
ma ora ; e dali fem dobrarem fynos , nem outro pranto , ho 
Cabydo , Ordés , e Clerezia da Cidade ho levaram cantan- 
do folépnemente com muitas tochas acezas ao Mofteiro de S. 
Domingos onde foy foterrado : e na Corte nom tomou alguém 
doo por elle , falvo ElRey , que três dias nom fayo fora , vefti- 
do fempre de panos de laã pretos , e capuzes çarrados. E por- 
que na Capitolaçam das Tercerias fora concordado , que duran- 
do ellas , o Senhor Dom Manuel , que ainda era muy moço , 
andaíTe em Caftella , ElRey pêra comprimento difíb , ho an- 
no paíTado lhe ordenou , e deu cafa honrada , e comprida dos 
feus próprios moradores , e por Ayo Diego da Silva de Me- 
neies , que defpois foy Conde de Portalegre , homem por cer- 
to de nobre fangue ? prudente , de bóo fífo , e são confelho , 
católico , verdadeiro , e bóo Cavaleiro ; e lhe deu mais 
por devifa htía Esfera , que he a figura dos Ceeos , e da 
Terra , em que como per verdadeira profecia lhe deu a certa 
efperança de fua legitima , e Real Soceflam , como ao diante fe 
feguio. O qual Senhor Dom Manuel , eftando ja em Freixival , 
Villa do eftremo de Caftella , porque as Tercerias fe des- 
fezeram , fua hída a diante nom foy mais neceíTaria : e fe 
tornou aa Corte onde ElRey com toda a cafa que lhe 
tynha ordenada , ho recolheo , e criou defpois em fua ca- 
ma , c mefa , e nos confelhos , e boas do&rinas com mof- 
tranças , e obras de verdadeiro amor, nam como a primo que 
era , mas como a próprio filho que gerara ; a quem pêra 
teer com que em alguma maneira em fua mocidade mantevef- 
fe feu Eftado, tynha ja ElRey ordenado darlhe ho Meeftra- 
do d'Aviz , com grande , e honrado afentamento de fua Fa- 
zenda. Mas logo fe feguiram coufas, per onde a provifam 
difíb fe efeufou , como a diante fe dirá. 



CA- 



d'elRey D. João II. 

CAPITULO XV. 



53 



Partida d^ElRey devora fera Abrantes , e d*hi a ou- 
tras Comarcas do Regno. 

NO mes de Julho deite anno de mil quatrocentos e oy ten- 
ta e três , EIRey com a Raynha , e toda fua Corte fe 
foy aa Villa d* Abrantes , onde veeo a elle hum Núcio com 
Breve do Papa Sixto quarto , per que por caufas , e Coufas 
nelle apontadas , porque parecia principalmente meter in- 
dividamente as mãos na Igreja, ho emprazou que por f y , ou 
feu* Procurador pareceíle em a Corte de Roma dar delias 
razam. De que EIRey moftrou receber paixam , e fentimento ; 
porque ainda lhe pareciam dependências da defaventura paíTa^ 
da , pêra no temporal , e fpritual lhe darem fadiga , e tor- 
mento. E porque EIRey fe fentio muy livre da culpa de todas 
aquellas coufas, de que as mais delias paliaram em tempos 
que elle ainda nom regnava , detriminou de emviarfe logo 
defculpar do Papa, e do Colégio dos Cardeaes ; e aíTy lhe 
refpondeo per o dicto Nucio , que fe dezia Joanes de Mer- 
le. Pêra o qual ordenou fua embaixada honrada , e por Em- 
baixadores Fernam da Sylveira Coudel Moor , e o Do&or Joham 
d'Elvas , a qual fendo ja defpachada pêra partir , foy delia 
avifado ho Cardeal Dom Jorge , Arcebifpo de Lixboa , que 
era em Roma , e por feer certificado , que muita da embaixa- 
da hia fundada em reprenfoens , e ingratidões contra elle, 
de quem ouve prefunçam , que as di£las emformações contra 
EIRey naceram ; elle mefmo por fe em Roma nom aba- 
ter feu credito, e autoridade, que era grande; ouve do Pa- 
pa relevamento do emprazamento paliado , que a EIRey per 
Breve emviou, com que ceifou a dicla embaixada. 



CA- 



54 C M R O N 1 C A 

CAPITULO XVI. 

Hida d' EIRey , e da Raynha a Sam Domingos da Quei- 
mada e ao Porto. 

NA fim de Setembro defte armo , EIRey com a Ray- 
nha , e Princcpe , e Senhor Dom Manuel fe partio 
d' Abrantes ; e o Duque de Vifeu por mal fentido , ficou em To- 
mar. E com gram devaçam foram em romaria a Sam Do- 
mingos da Queimada , que he junto com a Cidade de La- 
mego , pedirlhe com ricas Ofertas que lhe ofereceram , 
que por fuás prezes , e merecimentos Deos lhe dclTe filhos 
d'antre ambos , que EIRey fobre todalas coufas fempre mais 
defejou. E de Lamego a Raynha fe tornou a Vifeu , e 
d'hi pela eftrada fe foy aa Cidade do Porto ; porque EIRey , 
de Lamego paíTou a Villa Real , e d'hi fe foy a Bragança, 
e a alguns outros Lugares de Traslos Montes , e'An- 
tre Doyro , e Minho , em que nunca fora , correndo mui- 
tos montes Reaes , e provendo alguns repairos de Fortale- 
zas , e coufas de juftiça que compriam ; e tornoufe ao Porto , 
onde a Raynha o efperava , e ali por grandes invernos que fo- 
brevieram, eítiveratn atee o Janeiro do anno feguinte de mil qua- 
trocentos e oytenta e quatro. E do Porto EIRey, e a Raynha fe 
vieram a Aveiro, onde eftava alfante Donajohana lua irmãa 
com quem fe falou em cafamento feu , com ho Duque de Vifeu , 
por cuja defaventura nom fe acabou ; porque fe fe concertara , 
fora de creer , que afirmara em bem fua vontade , e lha nom fe- 
zeram danar pêra o mal de fua morte que fe ao diante logo 
feguio , como fe dirá. D' Aveiro fe veco EIRey a Santarém , 
onde fe juntou com elle ho Duque de Vileu , que ficara 
em Tomar; e paliada a Pafcoa fe fizeram de dia, e de no&e 
feftas de touros , canas , e danças ; e tudo em muita per- 
feiçam , e gentileza, e com mui grandes defpefas. 

CA- 



d'elReí D. Joaõ II. 

CAPITULO XVII. 

Principio da Jegunda de [aventura em que foy contra EI- 
Rey o Duque de Vifeu com outros. 

AQiú em Santarém fe começou de compillar , e tratar 
a fegunda e desleal deíaventura , de que fe caufou 
a trifte , e anticipada morte do Duque de Vifeu ; na quaí 
elle , nam por fua maa condiçam natural , porque em fuás ma- 
nhas , vertudes , e perfeições parecia de mui Real efpe- 
rança ; mas por húa arteficial incrinaçam de errados , e nom 
fices confelhciros que ho cegavam pêra huma vaã , e poítiça 
gloria de regnar , fazendolhe eíquecer , que EIRey era feu 
legitimo Rey , c Senhor , e nom fe lembrar , que o criara 
em amor como filho , e ho honrava como irmaõ ; pellas quaes 
coufas , fendo o primeiro , que por eítas tam urgentes 
obrigações fobre todos com verdadeira obediência devera 
amar , e defender feu Eftado ; fezeram que nom receaíTe de 
fer , e foy na conjuraçam dos primeiros , que fua deítroiçam T 
e desobediência tratavam ; porque fendo nella comprendi- 
do , e pofto em poder d'ElRey , elle como atras fica , mo- 
vido mais de mifericordia , e piedade , que vencido de fa- 
nha , e rigor , por nom dar a fua inocente mocidade a pe- 
na das culpas , que entam nom eram fuás , mas alheas , e ve- 
lhas , quis meter em abftenencia o cutello da juftiça , que 
fegundo riguor delia , por ventura lhe bem merecia : e 
porque os íeus erros pareciam entam acidentaes , a que feu 
entendimento por fua pouca hidade no chegava, emprimidos 
nelle fem algúa legitima caufa , de que EIRey efperou , que 
por bondade, e com arrependimento , e feu confelho fe 
emendaria ; foy entam mais contente de ho perdoar como 
Pay , que de ho punir como Rey. E por fua grandeza d'ani- 
mo , e Real condiçam levava mais gofto d'ho honrar , e acon- 

fe- 



$6 .U'C H * O N I C A 

felhar com amor , que de ho efquivar , nem reprender 
com fanha. Mas finalmente tanto bem nom aproveitou , pois 
tanto mal fe ieguio ; porque o mal afortunado Duque porfua 
infelice cõftelaçam , ou por algum outro fecreto juizo , 
nom pode aqui em Santarém fogir outros danados incitado- 
res , e mais perverfos confelheiros , que com húa falfa eí- 
perança de verdadeira tirania , fazendolhe creer , que an- 
dava prefo , e fora de fua liberdade , ho inclinaram a fer Ca- 
pitam da fea emprefa da morte d'E!Rey , porque com ella 
nó podeíle éfeufar de fea , e fupitamente perder fua vida 
revolta em fangue. Ca elle fe efquecia ja , e feus confe- 
lheiros nó lhe queriam lembrar , que devia a ElRey a vi- 
da que lhe Deos dera , o que em fua memoria devera andar 
cravado pêra fempre , com lembranças continoas de muita 
lealdade ; e nom devera eftimar em tam pouco aquelle tam 
Real , e piedofo perdam d'Evora , que com puro amor , 
e fem algúa outra neceífidade lhe tinha outorgado. Alas 
os graves pecados de feus diabólicos confelheiros os tra- 
ziam com tanta indinaçam emlheados , que efle tamanho bem , 
com grande mal o queriam vingar : e nom fe aconfelhando 
com lealdade , obediência , nem honeftidade , como fora razam ; 
mas movidos de feus abominavees , e próprios erros que os 
guiavam pêra a cova que injuftamente faziam , tratavam 
privar a ElRey a vida com ferro, e peçonha ; e feus Re- 
gnos delle com fogeiçam de novo tirano. Mas Deos noflb Se- 
nhor na lembrança da grande Fe , e muita devaçam d'EI- 
Rey , e de fua muita inocência , como jufto , e mefericordiofo 
que he , converteo fua desleal fanha delles em fuás cabeças ; e 
fua gloria vaã em pena deshonrada , e mortal : teendo fem- 
pre Deos a vida d'ElRey pêra os perygos da morte tam 
bem aceirada , que hum dia ho guardava , pola verdade , e 
juftiça que fempre guardou , e outros fempre ho defendia , 
porque fempre fua Fe defendeo , e foíteve com fe , e 
amor. E porem a dooiofa foceíTam deite cafo brevemente foy 
na maneira feguinte. Ho Duque de Vifeu poufava fora da cer- 
ca 



D' E L R F. Ti D. J O A 6 II. 57 

ca de Santarém nas caías do Arcebifpo de Lixboa , que fam 
junto com ho JVjoefteiro de Sam Domingos das Donas ; e ha 
Bifpo d'Evora Dom Garcia de Menezes , . que deftc cafo fem 
alçua caufa foy o principal movedor , e confelheiro tynha 
feu apoufentamento nas cafas d^ffõm Caldeira , junto com 
hú poftygo que efta no muro a través de Sant'Eftevam , don- 
de lecretamente faya a fallar como Duque ; e com elle Dom 
Fernando feu irmaão , e Fernã da Silveira filho do Baram 
d'Alvito ; e Dom Goterre Coutinho , filho do Marichal : 
e Comendador de Cezimbra , c Dom Álvaro d'Ataide , e 
Dom Pedro d'Ataide feu filho; e Pêro d' Albuquerque ; e o 
Conde de Penamacor , Dom Lopo d^Albuquerque feu ir- 
maão ; os quaaes todos foram os fabedores , e confentidores 
deita deslealdade , e traiçam : ainda que muy craro fe pro- 
vou , que a Dom Fernando foomente y quando per o Duque , 
e feu irmaão lhe foy revellada, lhe pefou muito fabello , e 
com palavras de lealdade , e muita prudência , fempre co- 
mo bòo Português , e fiel ValTallo d'ElRey , a eftranhou , c 
contradiíTe gravemente. E paíTados defpois de Pafcoa algús 
dias , ElRey com a Raynha , e Princepe , e toda fua Corte , 
hindo pêra Setuvel, foy pelas leziras a montes, e caças, a 
com muitos banquetes , e prazeres , e feitas. 

CAPITULO XVIII. 

De como foy a morte do Duque de VI feu. 

DEftes fegundos desleaaes movimentos começou ElRey 
de feer primeiramente avifado per Diego Tinoco ^ 
a quem o Bifpo d'Evora , teendo nelle confiança , deu delles 
parte , por teer por manceba húa fua irmãa , a que era mui- 
to afeiçoado : e eito mandou logo revelar a ElRey per meo 
d'Antam de Faria , porque defpois foy mais decraradameu- 
te avifado per o mefmo Diego Tinoco 7 que por maior dif- 
limulaça , foy em peíToa fallar a ElRey no moefteiro de 
Tom. II. H Sara 



5*8 fc A tf l cPn i c a 

Sam Fíancifco de Setuvel veítido em abetos de Frade. E 
ora foíTe por lealdade pura , como he mais de creer , ou 
por cobyçofa efperança de grande mercee que recebeo , El- 
Rey per palavras , e com obras lho conheceo , e agrade- 
ceo muito, como avifo tam leal, e tam proveitoíb merecia. 
Porque logo juntamente lhe deu cinquo mil cruzados em 
ouro , e mais lhe dava de renda per benefícios logo afina- 
dos feifeentos mil reis , pollos quaaes tynha ja ao Papa íb- 
pricado , e eram concedidos , mas nó ouve efe&o ; porque ao 
tempo que as Bulias fe ouveram de defpedir o diclo Die- 
go Tinoco faleceo. E fegundariamente foy ElRcy avifado 
defte cafo per Dom Vafco Coutinho, o qual por achaques, 
e defeontentamentos que tynha d'EJRey y íeendo a cite tem- 
po delle defpedido , com fundamento de fe hir fora do Re- 
gno , Dom Goterre feu irmaao avendo por certa a morte oir 
defobediencia d'ElRey , com que lua partida leria efeufada , 
o mandou chamar , e pedir , que ante de fua partida fe vif- 
fe com elle. E em Cezimbra onde fe viram , Dom Goterre 
por lhe nó defcobrir a caufa verdadeira de feu fundamento y 
fingidamente lhe diíTe : Que o mandara chamar , fentyndo mui- 
to feu defpedimento , e partida ; que lhe pedia que fobrejleveffe 
ali algús dias , nos quaaes trabalharia de remediar com EIRey 
feus agravos , e coufas de maneira , com que fua hida fe efeufaf- 
fe. E porque Dom Vafco nó queria fatisfazer a feu petitó- 
rio , e requerimento , avendo que eram delongas fem fun- 
damento ; conveo a Dom Goterre pollo aíleíTegar, defcobrir 
lhe inteiramente todo o cafo. Mas Dom Vafco tanto que lio 
foube , como bóo Fidalgo , e leal Vaílalo , prepos logo a 
lealdade que devia a EIRey , e a longa criaçam que delle 
recebera , aos agravos, e pouca mercee , que por feus ier- 
viços, c merecimentos lhe tynha feéla. E per meo de Antam. 
de Faria também fe vio com EIRey ; a quem muy efpecifi- 
cadamente tudo defcobrio , cuja final detriminaçam era mata- 
remno aferro, c recolherem o Princepe per mar a Cezimbra - 7 
e que. por logo afcilega-rem cõ elle o Régno , hò. alevanta- 

riam 



D' E L R £ Y D. J O A Ó II. 59 

riam por Rey , que ho feriu atee que o Duque quifelTe , o 
que ficaria em fua máo , e vontade. E feendo EIRey em Al- 
cácer do Sal, fabendo o Duque , e os da conjuraçam , que 
avia de tornar per mar; detriminaram cfperallo na praya , e 
ali ao fair dos batecs ho matarem. Do qual perygo ordena- 
do , EIRey foy per Dom Vafco logo avifado ; pello qual mu- 
dou por iííb a vynda do mar , e fez o caminho da Landeira 
per terra , bem acompanhado de boa gente de fua guarda , 
que por iííb , e fem algú alvoroço , fingindo outro achaque , 
a mandou perceber ; porque defpois da morte do Duque de 
Bragança , fempre EIRey trouxe Guarda da Camará , e dos 
Ginetes , de que era Capitã Fernam Martyns Mazcarenhas , 
que neftes fe&os , em que a vida , e faude d'ElRey , e do Re- 
gno pendiam, fempre fervio bem, continoada , e muy leal- 
mente, e de quem EIRey entam mais confiava. Chegou EI- 
Rey a Setuvel fefta feira vinte e fete dias d'Agofto de mil 
quatrocentos e oytenta e quatro ; e ao outro dia Sábado man- 
dou vyr ho Duque de Vifeu de Palmella onde poufava , e em 
fe çarrando a no&e ho chamou a fua Guardarroupa , que era 
nas cafas que foram de Nuno da Cunha , em que entam EIRey 
poufava ; onde ho Duque entrou de todo defacompanhado , 
e fem muitas palavras que precedeíTcm , EIRey ho matou per 
fy aas punheladas : fendo a tudo prefentes Dom Pedro d'Eça , 
e Diego da Azambuja , e Lopo Mendes. Foy logo de fua mor- 
te feclo hú auto per o Do&or Nuno Gonçalves como Juiz, 
e per Gil Fernandez , Efcripvam da Camará , cm que EIRey 
verbalmente diíTe as caufas , e razoes que tevera pêra o ma- 
tar , que logo foram eferiptas , e per ellas logo perguntados 
por teftemunhas , os di£tos Dom Vafco , e Diego Tinoco , 
que com fua depoíiçam aprovaram , e juftificaram a morte do 
Duque. Mandou logo EIRey chamar , e vyr perante fy ha 
Senhor Dom Manuel , que entam jazia doente , e com elle 
Diego da Silva feu Ayo , a que em fuftancia diíTe : Que 
elle tynba morto o Duque feu irmaao , -porque o quifera ma- 
tar j e como quer que todalas coufas que elle em fua vida ty- 

H ii nha 7 



6o Chronica 

nha , ficajfem por fua morte livremente a fua Coroa \ porem que 
de todas dali em diante lhe fazia pura doaçar.i pêra fempre , ■ 
porque Deos fahia , que elle ho amava como a propio filho ; pêra 
prova do qual lhe dezia , que fe o Princepc feu filho falccef- 
fe , e elle no tivejfe outro filho legitimo que ho Jòcedejfe , que da- 
quella hora pêra entam ho avia por feu filho , e herdeiro de to- 
dos feus Regnos , e Senhorios. E ifto cThfía parte , e da outra 
foy di£to , e ouvido com muito cfpanto , c nam íem muitas 
lagrimas, c door, e com louvada acufaçam qíie EiRcy de fy 
mefmo fez ; atribuindo tamanhas defaventuras em algíía ma- 
neira a feus pecados. E o Senhor Dom Manuel, pos os gio- 
Ihos em terra , e fem longa repofta lhe beijou as mãos. E 
EIRcy trocoulhe o titolo do Duque de Vifcu , porque fe nó 
intitoíaíTe como feu irmão , e ouve por melhor que fe in- 
titolaíTe Duque de Beja, e Senhor de Vifeu , com d'hi em 
diante fez. E logo em eíia mefma falia , ElRey tocou ao 
Duque em querer pêra fy as Villas de Serpa , e Moura , 
mas que por ellas lhe daria dentro no Regno muy equi- 
valente fatisfaçam ; e aíTy apontou nas Saboarias do Re- 
gno que tynha , em que por ventura averia mudança , por- 
que as avia por opreflam do Regno , e com algíí cargo feu 
de conciencia. E aííi lhe diíTe mais que a Ilha da Madeira 
no que pertencia a fua Coroa, elle Duque a teeria em fua 
vida inteiramente , mas que per feu falecimento , quando 
Deos ordenaíTe , era razam que por fua grandeza fe tornaíTe 
aa dich Coroa , e aos Reys deites Regnos que foccdeíTem. 
E o Bifpo d'Evora , e Dom Goterre , e Dom Fernando de 
Menefes per aviamento , e mandado d'ElRey , forom logo 
aquella noclc ali prefos ; • e o Bifpo d'Evora foi levado ao 
CaftelJo de Palmella , e metido em húa ciíterna , onde a 
poucos dias , e dizem que com peçonha, acabou íua vida. E 
Dom Goterre , porque Dom Vafco feu irmaao pedio a El- 
Rey. que nó morreíTe por juftiça , foy metido prefo na Torre 
d'Avis ; honde também logo morreo , e fegundo fama , na 
natural, mas arteficialmente. E Dom Pedro d'Atayde em fo~ 

gin- 



d'elRey D. João II. 61 

pindo de Setuvel pêra Santarém , foy no caminho prefo , e 
trazido aa Corte , onde contra elle , e contra Dom Fernan- 
do foy acerca de fuás culpas proceííado ; pellas qu a a es foram 
pubricamente degollados , e feclos em quartos per juftiça. E 
Fcroã da Silveira ficou efcondido em híía cova dentro em Se- 
tuvel , per fegredo , e fiança d'hú criado de feu Pay , que 
nunca íe corrompeo , nem por temor 'das mortaaes penas d'- 
EIRey a quem ho efeondefíe , nem por fuás promeíTas de 
grandes mercees a quem ho defcobriíTe. E porem em fua pou- 
fada foy achada húa fua borjalleta , com muitos cruzados, 
que per mandado do Duque recebera , de que ja defpende- 
ra muitos mais per aquelles da conjuraçam , cujos nomes , e 
fomas per fua emmenta fe acharam, E d'hi a muitos dias ho 
dito Fernani da Silveira íe foy, e falvou per mar a Caítella : 
mas feendo delia defpois , e a requerimento d'ElRey , def- 
terrado, foy a ferro morto em França na Cidade d' Avinham 
a oyto dias de Dezembro de mil quatrocentos e oitenta e 
nove , per ho Conde de Palhais Catellam , que em França 
também andava defterrado ; a que EIRey pello fazer per leu 
mandado , fez mercee de muita foma d'ouro em que fe pri- 
meiro contratou. E porem ho Conde per mandado d'E!Rey 
de França , foy por iíTo logo prefo , e pofto em perpetua 
prifam ; a que os favores , e requerimentos muitos d'ElRey 
de Portugal no aproveitaram pêra mais , que pêra logo pello 
meímo cafo nó morrer per juftiça , de que com dificuldade 
efeapou. Dom Alvoro d'Atayde era em Santarém , onde pel- 
los da conjuraçam foy acordado , que efteveíTe com muita 
gente , que com diílimolaçóes recolhia , pêra tanto , que da 
morte d'ElRey , ou d'algú alevantamento contra elle folTe 
certificado : logo recolheíTe ao Caftello a Excellente Senhora 
Dona Johana , que entam eftava no Moefteiro de Sandia Clara 
da dicla Villa ; porque pêra húa coufa , e pêra a outra , fe 
ho cafo fobreviera , tynha ja as coufas aviadas , e poftas em 
hú aparelho muy aftuciofo ; porque fobre o recolhimento 
deita Senhora, tynham cfperança d'ajuda, e favor dos Reys 

de 



6i Chronica 

de Caftella , a quem fegundo fama tudo ifto era revelado. 
Mas Dom Alvoro como da morte do Duque foy aviiado , fo- 
gio , e foyfe pêra Caftella , onde andou em vida d'ElRey. 
E porem defpois per mercee , e piedade d'ElRey Dom Ma- 
nuel noíTo Senhor, foy a eftes Regnos com fua honra retor- 
nado , e nam fem algú efcandalo , e defcontentamento dos 
Portuguefes , por efte feo crime fer atribuído a fua própria 
peíToa ; e por iífo no devera aver tal privilegio , como fe no di- 
clo crime encorrera per foceífam , e per rigores de Derey- 
to ; com que leve, e piedofamente fe podia bem defpeniar, 
como o di&o Senhor a muitos fez , e em feus tempos fe di- 
rá. E Pêro d' Albuquerque que acolhendofe foy logo prefo 
em Lixboa , e trazido aa Cafa da Sopricaçam : onde foy con- 
tra elle procelTado , e ouvido perante EIRey, e em fim foy 
pubricamente degollado em Monte Moor o Novo. E o Con- 
de de Penamacor fe lançou logo na fua Villa de Penamacor, 
e quando EIRey hia fobre o Sabugal , como adiante fe dirá ; 
tornandofe EIRey de Caftello Branco pêra Santarém , o di&o 
Conde com Seguro Real lhe veeo fallar nas Cortiçadas jun- 
to cõ o Tejo a baixo do Rodam ; e porque fe no quiz poer 
a dereito , como EIRey quifera , defpediofe delle , e de feu 
Regno, e com fua molher, e filhos fe foy pêra Caftella. E 
defpois em Roma , e fora d'Efpanha andou em muitos Re- 
gnos commetendo contra EIRey muy desleaaes movimentos ; 
atee que tornou acabar em Caftella; como ainda fe dirá. Ao 
tempo da morte do Duque de Vifeu a Ifante Dona Briatiz 
fua Madre eftava em Palmella , a quem EIRey pêro Doclor 
Nuno Gonçalves , e Gil Fernandes mandou logo noteficar , e 
moftrar as caufas , e culpas do cafo , e aífi a Doaçam que ao 
Senhor Dom Manuel feu filho tynha fedia ; pedindolhe por 
mercee , que fe confortaíTe. E ella ouvio tudo com muitas 
lagrimas, e door ; e lhe refpondeo com palavras , que pa- 
reciam de Princefa muy trifte , mas muito mais fofrida , e 
vertuofa» E logo aquella no&e da morte do Duque , EIRey 
fez j e mandou fazer as diligencias que compriam pêra aver, 

co- 



d'£lReí D.Joao II. 63 

como logo fe ouveram , c cobraram fem algúa duvida , nem 
renitência todalas fortalezas do Duque , e de feus partici- 
pantes , íalvo a do Sabugal , em que eftava Dona Caterina. 
molher de Pêro d'Albuquerquc , que fabendo da prifam de 
ícu marido a no quiz entregar. E pêra EIRey remediar, e 
atalhar cite inconveniente , mandou logo diante Dom Pedro 
de Noronha , Moordomo Moor , que cercafTe , eomo logo 
cercou o Sabugal , e aperelhouíTe de hir logo após elle , co- 
mo foy em peííba. Chegou a Caftello Branco , onde cô elle 
íc ajuntou logo muita , e boa gente do Regno , pêra guer- 
ra dermas , e cavallos bem percebida. E d'ali nõ feguio EI- 
Rey mais adiante , porque Dona Caterina entregou logo ho 
Caftello y e elle lhe fez mercee da fazenda do marido , que 
por fua deslealdade tynha perdida. Á Caftello Branco vie- 
ram a EIRey por Embaixadores d'EIRey , e da Raynha de 
Caftella , Gafpar Fabra Valenciano Cavaleyro muito honra- 
do , e o Bifpo de Córdova ? peííbas de grande autoridade. 
E o que principalmente requereram , foy reftituiçam dos fi- 
lhos do Duque de Bragança , que eram em Caftella ; por- 
que ao tempo da partida deites , ainda os diclos Reys no fa- 
biam da morte do Duque de Vifeu. Mas EIRey temporizou 
co elles acerca de feus requerimentos , e leixou fua detri- 
minada repoíta a outra fua embaixada ? que fobriílb , e fo- 
bre outras coufas emviou defpois per Fernam da Silva , e 
per Eftevam Vaaz com efeufas legitimas r e de receber pêra 
hos requerimentos paliados ; e pêra o fob riflo maia nô deve- 
rem importunar , efpecialmentc pois a foceílam. deftes Re- 
gnos fc efperava vyr a feus filhos d'ambos antre quem o ca- 
lamento era concordado ; a que femelhante reftituiçam mui^ 
to prejudicava. Em Caftello Branco adoeceo EIRey ,. e pe- 
lo pcrygo fupeto em que efteve, teve maginaça errada , que 
fora de peçonha. E de Caftello Branco , ainda doente , fc 
veeo aas Cortiçadas , e d 5 hi pello Tejo a fundo atee Al^ 
meirim ; onde defpois de fe curar , fe foy com toda fua 
Corte a Monte Moor o Novo , em que efteve atee o Janei- 

nei- 



64 Chronica 

ro de mil quatrocentos e oytenta e cinquo. Em Monte Moor 
ho Novo fez EIRey novamente Conde de Borba Dom Vaf- 
co Coutinho , pello leal , e afynado fervi ço que lhe fez do 
defcobrimento da fegunda , e desleal defaventura do Duque 
de Vifeu , como atras fe diíTe, e deulhe a di&a Villa deju- 
ro , e herdade , e o Caítello e Reguengos d*Eftremoz com 
outras rendas , e feu honrado aífentamento. E de Monte 
Moor porque fe defpos mal de peítcncnça , que a efte 
tempo era no Regno geeral , EIRey fe foy a Viana d'Alvi- 
to , e d'hi a Beja , onde teve Confelho fobre a moeda no- 
va que faria ; porque ainda defpois de regnar a nom fezera , 
pêra que ordenou , e emnovou algúas coufas no Real Efcu- 

do de fuás armas. 

I 

CAPITULO XIX. 

Mudança que EIRey fez no Efcudo Real , e fazimento 

de novas moedas. 

A Primeira mudança que fez foy , que tirou do di&o Ef- 
cudo a Cruz verde da Ordem d'Avis , que nelle por 
grande erro, como parte d'armas fuílanciaaes , andava ja en- 
corporada ; porque EIRey Dom Joham o primeiro feu Bi- 
zavoo , ante que devidamente , e per autoridade Apoltolica 
fe intitolaíTe Rey dos Regnos de Portugal , e do Algarve , 
era Meftre d' Avis : e defpois de fer Rey tomou por de va- 
cam da Ordem , afentar o di&o Efcudo de Portugal 'fobre a 
Cruz verde , com as pontas delia fora do Efcudo por nó 
parecer da elTencia delle , como ainda em fuás obras Reaaes , 
e muy excellente fepultura oge em dia parece. E defpois 
por negrigencia , e pouco avifo dos pintores , e oficiaaes y 
foy por longo tempo , e por erro metida dentro do Efcudo j 
e por tirar efte inconveniente que parecia labeeo , e magoa 
dVmas , EIRey a mandou tirar de todo. Outro fy porque 

dos 



d^lRey D. João II. 6$ 

dos ciiíquo Efcudos , do raeo do Efcudo , que fazem cruz ^ 
os dous das ilhargas jaziam derribados , com as pontas atra- 
vees pêra a cruz, o que era contra regra dereita dermas, e 
parecia lígnificar algúa grande quebra , ou rota recebida con j 
tra íi em batalha campal ; o que nó era : EIRey outro II por 
tirar efta fofpeita , e achaque , mandou affentar todolos 
Efcudos direitos, e com as pontas pêra fundo, como devi- 
da , e naturalmente devem andar , e afy andam agora. El- 
Rey em fendo Princepe tomou por devifa , polia Princefa 
fua molher hú Pelicano , Ave rompente fangue no peito , 
pêra foítentamento , e criaçam de feus filhos , que no ninho 
tem comílgo. E tanto foy de feu contentamento , que a nom 
mudou defpois que foy Rey ; e com ella trouxe por letra 
correfpondente aa piedofa morte do Pelicano que dizia : Por 
tua ley , e por tua grey. E-nefte anno nova, e primeiramen- 
te fe entitolou , e chamou o primeiro , Senhor de Guinee , 
inferto em feu titolo- nefta maneyra : Dom Joham per graça 
de Deos , Rey de Portugal , e dos AlgarUes , d' * aquém , e 
d' alem mar , em Africa , e Senhor de Guinee. E porem pe- 
las Doações , e concefsões Apoftolicas , que os Reys feus 
anteceífores tynham do difto Senhorio , bem , e legitimamen- 
te fe poderam delle também intitolar: mas porque em feus 
dias , e atee ho tempo d'ElRey, foy Guinee coufa muy pe- 
quena, e de pouca eftima , pêra Reys delia fe intitolarem, 
ho leixaram por ventura de fazer. E nelte mefmo anno de 
mil quatrocentos e oytenta e cinquo , no mes de Junho , 
mandou EIRey novamente lavrar as primeiras fuás moedas *f # 
moeda d'ouro , a que chamaram Jujlos , de ley de vinte e doos 
quilates , e de preço de feiscentos reaes cada hú , e d'hua 
parte eflava ja o Efcudo Real dereito com a letra darredor 
do titolo d*ElRey ; e da outra citava hua figura d'ElRey 
armado , aíTentado em Cadeira Real com o cetro da juftiça na 
mão , e por letra darredor : Jujlus flcut palma fiorebit. E afi 
mandou fazer outra moeda d'ouro chamada Efpadys , da ley 
dos Jujlos , e de meo preço , e pefo delles ; e d'híía banda 
Tom. II, I ti- 



C6 Chronica 

tynham o Efcudo Real , e da outra húa mão com hua ef- 
pada , com a ponta pêra cima , e por letra darrcdor: Domi* 
mis proleSior vite mee , a quo trepidabo. E eítes EJpadys man- 
dou fazer deite nome por devaçam , cera lembrança da con- 
quifta d* Africa > que fempre com a efpada na mão fe faz , 
e profegue por honra , c exalçamento da Fee Xpãa. Fez tam- 
bém Reaaes , e Meos Reaaes de prata de ley d'onze dinheiros , 
e de preço de vinte reaaes cada hú inteiro ; e deu novo cre- 
cimento aa valia da prata , que mandou geralmente que ho 
marco delia d'hi em diante valeíTe doos mil e dozentos e 
oytenta reaaes ; e a efte refpeito fe fizeram os ditos reaaes > 
cujo nome fe corrompeo , e eomumente lhe chamaram Vm* 
tees. 

CAPITULO XX. 

Embaixada y e obediência ao Papa Innocencio Oflavo, 

NEfte anno eftando EIRey em Setuvel , lhe fby notefí- 
cado ho falecimento do Papa Sixto quarto , e íignifica- 
da a criaçam do Papa Innocencio ocíavo per feu Breve : a 
cuja obediência emviou por Embaixadores Dom Pedro de No- 
ronha feu Mordomo Mor , e Comendador de Santiago ,eo 
Do&or Vafco Fernandes do feu Confelho ^ e grande Letera- 
do in utroque jure ? e bóo Orador; e por Secretario delia Ruy 
de Pina* Os quaaes atee Roma foram per terra , com fua 
embaixada honrada , e de Fidalgos , e Cavaleiros *, e outra 
nobre gente muy bem acompanhada, E em chegando foy 
de toda a Corte de Roma com muita honra recebida. E o 
dia da obediência foy em Conliftorio pubrico , dada ao Pa- 
jpa muy folépnemente , com hôa muy elegante Oraçam , com 
grandes , e muy verdadeiros louvores do Regno , e dos Reys 
de Portugal , e de íua muy íingular devaçam , e obfervancia 
ãu Se Apoftolica. E aas soufas que. em nome d'ElRey fe 

reque- 



. d*elRe y D. Joaõ*' II. 67 

recjuercrnm , ho Papa per meo do Cardeal de Portugal , que 
era feu Proteftor^ farisfez muy benina , e graciofamente ; è 
antre as muy tas graças , e coufas que fe concederam foram 
eíhs priucipaaes. Primeiramente a Cruzada , pêra a guerra 
d'Africa > com grandes indulgências , e remifsóes de pecados 
aos que pêra elia contribuiífem certa foma logo taxada, fe- 
gundo a qualidade das pefíbas , e poflíbelidade das fazendas 
de cada hú. Licença ad perpetuam rei memoriam , pêra nos 
Caftelios dos eftremos deites Regnos fe poderem dizes Mif- 
fas em lugares honeftos , e fem prejuizo das Igrejas Parro- 
chiaaes. Outra tal licença pêra nas cafas fuás da juítiça que 
fam da Sopricaçam , e do Civel , também fe poderem dizer 
fempre MiíTas. Licença , e autoridade a ElRey para poder 
reduzir em hú 1 todolos Efpritaaes de Lixboa , e aíTy os de 
Santarém. Indulto de Benefícios pêra os Capelaaes d'ElRey ^ 
e da Raynha > e do Princepe .f- doos em cada Prelada do 
Regno i e com outras muitas graças , e benções particula- 
res. Nefte anno querendo ElRey armar, e proveer feus vaf. 
fiillos e naturaaes das armas , e coufas cm que fentio que 
avia mingoa , e neceíUdade , mandou fazer , e trazer de fora 
aa fua eufta muitas lanças compridas ^ e hú grande numero 
de jubanetes de muitas fortes > e as mandou lançar pello Re- 
gno v , fegundo cada hú merecia , e pella paga do preço del- 
ias , deu ElRey a todos húa conveniente cfpera > em que fe 
pagaram. 

CAPITULO XXL 

Tomada das Galees de Veneza pelos Francezés. 

NEfte anno foram ao Cabo de Sam Vicente tomadas $ 
e roubadas de Francezés quatro Galees de Veneza que 
hiam muy ricas em Fraudes; cujo Capitam e Patrões delias i 
foram per os Francefes lançados , roubados , feridos , e mal 
tratados em Cafcaes , onde entam eftava -Dona Maria de 

I ii Me- 



68 C H R O N I C A 

Menefes , CondelTa de Monfanto ; fendo EIRey em Alcoba- 
ça , e a Raynha fua molher em Sintra. Os quaaes Capitã , 
e Patrões , aalem de ferem logo da CondcíTa mui bem rece- 
bidos , honrados 7 e agafalhados em gram comprimento , 
ainda os proveeo de beftas , e dinheiro. O que a CondelTa 
aíll fez tanto por ufar de fua nobreza e vertudes , como por 
fer afeiçoada aaquella Naçam : e também nom lhe efqueceo 
que fazia niíTo prazer , c ferviço a EIRey. Foramfe efperar 
ÊlRcy a Syntra , onde a Raynha os mandou agafalhar , 
e proveer com grande honra , e mui:a abaftança , como a fuás 
muitas bondades , e grandeza convynha , atee que ElRèy 
chegou , que defpois de logo faber como o diclo Capitam y 
e Patrões vynham em todo desbaratados , nom os quiz veer , 
nem ouvir , atee primeiro lhes nom mandar aas pouíadas , 
mullas , e cavallos , e veftidos inteiros , e dobrados de bro- 
cados , e fedas com todalas outras coufas , que pêra elles , 
e pcra os feus eram neceíTarias. E com iflo lhe emviou di- 
zer, que pêra homens tam honrados , e tanto léus amigos 
f aliarem a tal Rey , nom convynha , que ante elle vieíTem 
em menos abetos , porque íeendo doutra maneira , parece- 
ria que feus Regnos lhe eram eft ranhos , o que muito fenti- 
ria ; porque pella antyga amizade que elle, e os Reys feus 
anteceflbres tynham com Veneza , todolos de fua Naçam de^ 
viam aver , e eftimar feus Regnos , e Senhorios por própria 
fua terra. E aíi foram ante EIRey , que com grande honra , 
e muito acolhimento os recebeo ; em cujas palavras entam 5 e 
defpois nas obras , elles bem moftraram fer em tudo gente 
nobre , e agardecida. E a feu mal , e defrroço que com ra- 
zoes de grande miferia, e extrema neceílidade ante EIRey 
propoferam , elle fe ofereceo a todo o que foíTe razam 5 e 
poífivei ; em efpecial , porque os Francefes tynham ainda em 
Cafcaaes as di&as Galees , diffe : que fe as quifeflem cobrar , 
e refgatar, lhe empreitaria pêra ifíb quarenta mil cruzados 
d'ouro , e mais fe mais quifefferh. E porque os Francefes 
com os Venezianos nom quiferam vyr a razoado concerto , os 

Fran- 



d'elRey D. Joaõ II. 69 

Francefes recolheram a feus navios as mercadorias das ga- 
Ices, e venderam , e deram os cafcos delias , que EIRey 
comprou , e recolheo , e teve fempre em Riba-Tejo , aa 
defpofiçam do que a Senhoria de Veneza ordenalTe. Defen- 
dendo por favor da prefa , que nenrulas coufas delias , em 
feus Regnos fe compraíTem , e aíTy fe comprio. E ao defpe- 
dir do di&o Capitam, e Patrões , EIRey pêra defpefa do ca- 
minho , lhes fez mercee a todos em abaftança. E porque a 
efte tempo em vyndo ho Mordomo Moor de dar a obediên- 
cia que a traz diífe, veeo a Veneza polia veer , certo a Se- 
nhoria em recebimentos , apoufentamentos defpefas , feitas , 
e dadivas ricas , que lhe fez , craramente moftrou que no 
Duque , e peíToas , que a di&a Senhoria regiam avia muita 
nobreza com muy fingular gratificaçam. Os quaaes nom aca- 
bando ahinda per aquy de reconhecer a EIRey a mercee, 
e honra que a feu Capitam , e Patrões por feu refpeito fi- 
zera , lhas enviaram per tanta diftancia de terras remercear , e 
conhecer com húa muy folépne embaixada , que pêra o ca- 
fo nom careceo de palavras doces , e muy elegantes , e aíTy 
com ricos ferviços , e prefentes. E veeo por Embaixador Ihe- 
ronimo Donato grande Leterado , e ÍIngular Orador, a que 
EIRey , e toda a Corte fez muita honra , e ao defpedir lhe 
fez EIRey mercee de mullas , cavallos , negros , e muyta 
prata , e muy ricamente lavrada. Nefte anno de mil qua- 
trocentos e oitenta cinquo , por grandes merecimentos , e 
aílinados ferviços , que Gonçallo Vaaz de Caftellobranco , 
Veedor da Fazenda tynha fe&os a EIRey Dom AfFõm , e 
fez a EIRey Dom Joham feu filho , afy no fegredo , e con- 
felho dos grandes fe£los , em que foy fempre bòo e fiel Con- 
felheiro , como nas guerras de Caílella , e paíTagées d'Afri- 
ca , em que fervio com grandes gaftos , como nobre Fidal- 
go , e esforçado Cavaleiro ; EIRey por fua honra , e galar- 
dam , deu , e acrecentou a elle , e a feus filhos , e a todo- 
los que delle decendelTem o titolo de Dom , e d'hy em 
diante fe chamou Dom Gonçallo , e lhe deu mais aífenta- 



men- 



JO, C H R Ô tf I C A 

mento de Conde , e Bandeira quadrada. A quem mais pél* 
pellas efpericncias paíTadas de fua bondade, confciencia , e 
íaber, deu a governança da Juftiça na Cafa do Cível de Lix^ 
boa. E foy ho primeiro a que efte ti to lo de Governador foy 
dado , e delle fe intitulou. E ficou a Veedoria da Fazenda a 
Dom Martinho de Caftellobranco feu filho , que per faleci- 
mento de feu Pay a leixou. E como verdadeiro herdeiro, e 
fucelíbr de lua fazenda , e principalmente de fuás bondades 
e vertudes , ouve e teve a mefma governança da Juftiça. E 
defpois que regnou ElRey Dom Manuel rtoíío Senhor , fen- 
do pêra ifib requerido per o di£to Senhor , e com eiperanç.v 
de ho mais honrar , e acrecentar , tornou a iervir a dicía 
Veedoria da Fazenda, por fer nas coufas delia nom foomen- 
te fiel , muy enfynado , e fem algúa corruçam ; mas pêra as 
outras coufas do Regno de pefo , e importância, peífoa de 
muita prudência ;, e bõo confelho ; e leixou a d i&a governan- 
ça da Juftiça que juftamente foy dada a Dom Álvaro de 
Crafto, que fempre a fervio aíi bem, e fem paixam d'odio/ 
nem afeiçam , como fe podia efperar d'hu bõo , e fiel Ca- 
valeiro fem letras d'eftudo. E no anrto de mil quatrocentos 
e oitenta e féis , a Cidade -d' Azamor do Regno de Fez em Afri- 
ca , temendo fer d'ElRey tomada , e conquiftada per força , 
por efcufarem fua perdiçam , e cativeiro , com acordo , e pre- 
curaçam de todolos Governadores , e moradores delia , envia- 
ram a ElRey eftando em Santarém ò fua obediência , e ho 
receberam por feu Senhor , com tributo -de dez mil favees 
cad'ano ; e ElRey lhes deu fua Bandeira Real , de que fizeram 
firmes contratos , e efcripturas , que em fua vida d'E!Rey 
fempre compriram. E nefte anno chegou aa Cidade de Lixboa 
Monfeor Duarte Senhor d'Efcallas em Ingraterra, irmão da 
Raynha d'Ingraterra molher que foy d'ElRcy Duarte , o qual 
por devaçam , e exalçamento de noíTa Saneia Fe , aa fua euf- 
ta veeo d J armas , e gente bem aparelhado, pêra ferviraDeos 
na guerra que ElRey Dom Fernando , e a Raynha Dona Yfa- 
bel de Caftella entam faziam ao Regno de Graada que def- 
pois 



\ 

d'elRey D. Joaõ II. yt 

pois acabaram de tomar ; na qual emprefa , o di&o Monfeor 
fe ouve como bóo , e devoto cavaleiro ; e aa fua chegada £ 
Lixboa , nom fendo ElRey prefente , de íeu mandado lhe fby 
fecla muyta honra , e grandes banquetes , e feílas per Fer- 
nam Lourenço , que entam era Tefoureyro , e Feitor de Gui- 
nee. E aa íua volta de Graada , que veeo pêra embarcar em 
Lixboa , e fe hir em fua terra , achou ja ElRey em Lixboa , 
que lhe fez logo muy honrado acolhimento , e defpois o tra- 
tou com grandes feitas de touros , e canas , e momos ; e co- 
meo com ElRey a húa mefa pêra que o convidou nos Paa- 
ços d* Alcáçova , e algús de fua companhia pelToas princi- 
paes , comeram a vifta em outra mefa com algús Condes , t 
homens honrados defíes Regnos , que na Corte fe acertaram , 
e que ElRey efpicialmente pêra ido convidou , onde fe fe- 
zeram muitas e mui bem guardadas cerimonias ; porque El- 
Rey era delias muito amigo , e nellas muy fotil e prudente 
enventor. E pêra fua viagem , e tomada , ElRey lhe fez mer- 
cee d'húa boa naao aparelhada de todo o que pêra fua fe- 
gurança , e provisões lhe compria* E defpois efte Monfeot 
d'Efcallas no anno de mil quatrocentos , e oytenta , e oyto 
foy morto em húa batalha que ouve o Duque de Bretanha 
com gente d'ElRey de França, a que o di&o Monfeor foy 1 
emviado per ElRey d'Ingraterra , em favor do di&o Duque ; 
e de fua morte moftrou ElRey grande fentimento por per- 
der nelie hú bôo fervidor. Nefte anno polo grande , e fer- 
vente defejo que ElRey fempre teve do defcobrimento , no- 
ticia , e participaçam da índia , aalem do vivo cuidado , e 
grande trabalho que pêra iíTo moítrou , e obrou de a mandar 
defcobrir pola cofta domar, emviou per terra com fuás car- 
tas , inftruçóes , e avifos , e largas defpeías , hú AfFóm de 
Paiva natural de Caftello Branco , e outro Joham de Covi- 
Ihaã ambos Portuguefes ; pêra que por via de Jerufalem , e 
do Cayro paíTaíTem ao Prefte Joham, que fegundo fama era 
Chriftão , e Senhor das índias , e o comoveíTem pêra conhe- 
cimento y trato , e preítança d'ambos : enviandolhe muy çra- 

n cio- 



ãi . t - 

72 Chronica 

ciofas oíTertas de íua boa vontade, e afy lhe noteíicando, 
muy efpecificadamente per rumos , e ventos , e Regnos , e 
terras todo o que pollo mar , e Cofta de Guinee tynha ja 
defcuberto , por tal que com mayor certidam , e menos difi- 
culdade fe podeíTem conhecer , o que feria muito ferviço de 
Deos , e grande exalçamento de fua Sandia Fe. E aalem diífo 
per feus bóos , e honeftos tratos , tratariam fuás mercado- 
rias , com grande proveito de todos. E defpois da partida 
deites , EiRey emviou outros nam fem muitos provimentos , 
€ avifos. E porem nunca finalmente fe foube o que obraram , 
porque nunca mais tornaram. 

CAPITULO XXII. 

Prifam de Dom Alvor o de Souto Mayor com fofpeha de 

traiçam. 

NEfte anrto de mil quatrocentos ê oytenta e féis, foy 
em Lixboa prefo Dom Alvoro de Souto Mayor , filho 
de Dom Pedralverez de Souto Maior Galego por naçam , 
e Conde que foy de Caminha neftes Regnos : o qual Dom 
Alvoro com fofpeita de traiçam foy por mandado d'ElRey 
metido a muy afpero tormento , pêra fe faber per elle a 
verdade ; porque hú criado do Conde feu Pay que chama- 
vam Joham da Galda , diíTe a EIRey , e o acufou falfamen- 
te , que o diílo Dom Alvoro de Caftella onde andava , fe 
lançara em Portugal pêra matar EIRey : e porque eíle tefte- 
munho foy achado fer falfo , o di&o Joham da Galda foy 
logo prefo j e por teftemunhar falfamente em tal cafo , e con- 
tra tal peííba , foy defpois na Praça de Santarém per juftiça 
degolado , e efquartejado. E ao dicío Dom Alvoro fez EIRey 
muita mercee como fua inocência , e lealdade bem merecia, 
porque de moço fora criado d'ElRey. 



CA- 



d'elRei D. Joaõ II. 73 

CAPITULO XXIII. 

Defefa das fedas , e brocados , &c. 

OUtro fy nefte anno pola grande licença que os do Re- 
gno tomavam no veftir das fedas , brocados , chapados r 
&c. por EIRey atalhar a tamanha foltura de que fe feguiã 
grandes perdas , e defmafiadas defpefas a feus vaíTallos ; de- 
tcndeo , e pos por ley que nenhú de feus Regnos , e Se- 
nhorios home , e molher de qualquer eftado , e condiçá que 
foífe , nô trouxeíTe né veftiíTe d'hi em diante coufa algíía das 
di£hs , laivo que de fedas os homés poderiam trazer foo- 
mente jubóes, e carapuças, e as molheres fainhos , e guar- 
nições de veftidos : a qual ley como quer que em EIRey , e 
na Raynha, e no Princepe, e no Duque fe nom emtendelle \ 
porem elles todos pêra bõo exempro do comprimento e exu- 
quçã delia , fempre a guardara, e compriram , como qualquer 
outro particular do Regno , o que foy híí grande beneficio 
a feu Regno , efpecialmente pêra os grandes , e nobres de 
fua Corte. Mas com a di&a ley fe defpenfou em todo duran- 
do as feftas do cafamento do Princepe Dom AíFòm cõ a Prin- 
cefa Dona Ifabel , acabadas as quaes a dieta ley ficou , e efta 
oge em feu vigor e força. Nefte anno no mes de Junho eftando 
EIRey , e a Raynha de Caftella em cerco fobre a Cidade de Ma- 
lega do Regno de Graada , pola grande refiftencia , e defefa 
que os Mouros da Cidade faziam , e pelos apreíTados , e 
continos combates , que com armas , e tiros de fogo lhes da- 
vam , tendoa ja em muita eftreiteza : faleceolhes a pólvora y 
que dava caufa a di&a Cidade por falecimento do comba- 
te nõ fe ganhar. Polo qual os di&os Reys com palavras de 
grande amor , neceífidade , e confiança , enviaram pedir a EI- 
Rey , que era em Santarém , ajuda , e focorro de pólvora 
empreitada , ou falitre. Ao que EIRey com grande trigança 7 
Tam. II K e 



74 C H K O K I C A 

c muy nobremente logo fatisfez ; porque mandou logo armar 
hôa Caravella , na qual lhe emviou per EHevã Vaaz , pcflba 
a elle muy acepta , e de gram confiança , hila gram foma de 
pólvora , e falitre de graça , com verdadeiro oferecimento 
de fua peíToa , e de feus Regnos , e coufas delles , pêra o 
que em neceffidade , e emprefa tam fan&a , e tam meritó- 
ria lhes compriíTe. Com a qual coufa os diclos Rcys , e to- 
do feu arrayal , fegundo feu grande prazer , alTy íe favore- 
ceram , e aííi a eítimaram , como a própria Cidade , que d*- 
hy a poucos dias , com muita fua honra , e grande vi- 
toria , aos Infiees logo tomaram. E aíi o enviaram logo di- 
zer a EIRey per o diélo Eltevaó Vaaz , a que por iflb feze- 
ram honra , e muita mercee. 

CAPITULO XXIV. 

Defcobrimejito de Beny. 







Eíte anno foy primeiramente defeuberta a terra de Be- 
ny aalem da Myna nos Rios dos Efcravos , per Joham 
Aítom da Aveiro , que la faleceo ; donde a eítes Regnos veeo 
a primeira pimenta de Guinee , de que avia naquella ter- 
ra per nacença muita quantidade ; cujas molhas foram lo- 
go emviadas a Framdes , e a outras partes , e foy logo ávi- 
da em grande preço, e eítima. E ho Rey do Beny , emvyou 
a EIRey hú Negro feu Capitam d'hum lugar de porto do 
mar, que fe diz Ugato , com embaixada, defejofo de faber 
novas deitas terras, cujas gentes ouveram la por grande no- 
vidade. Era efte Embaixador home de bõo repoufo , e natu- 
ral faber ; foramlhe fectas grandes feitas , e moítradas muitas 
coufas das boas deites Regnos. E foy retornado a fua terra , 
em Navio d'ElRey , que aa fua partida lhe fez mercee de 
veítidos ricos pêra elle , e fua molher : e aíTy emviou per el- 
le ao Rey , hú rico prezente de coufas que elle entendeo 
que muito eítimaria. E aíTy fan&os 7 e muy Católicos con- 



N 



d' E L R E Y D. J O A Õ II. 75- 

felhos , com louvadas amoeftaçócs pêra a Fe , reprendendo 
muito , as hereílas , e grandes ydolatrias , e feitiçarias , de 
que naquella terra os negros ufam. E com elle foram logo 
novos Feitores d'ElRey y pêra la citarem, e refgatarem adi- 
cta pimenta , e aíll algúas outras coufas , que pêra os tra- 
tos d'E[Rey pertenciam. Mas por a terra fe achar defpois 
de muito perygo de doenças , e nam de tanto proveito como 
fe efperava, o trato fe desfez. 

capitulo xxv. 

Canos d'agoade SetuveL 

O anno de mil quatrocentos e oytenta e (qíq eftando 
EIRey em Setuvel , desfez os eftaaos , e a ordenança, 
'apoufentar que na Villa avia , como em Lixboa ; porque 
as rendas , nem as cafas delia abaftavam pêra toda a Corte , e 
foltoufe ho apoufentamento per toda a dieta Villa ; e d'al- 
gú dinheiro , que per impoíiçoes era pêra os eftaaos , c 
apoufentadoria rendido , e eftava junto , EIRey por mayor 
ennobrecimento da dieta Villa , e mais abaftança , e melhor 
ferviço delia , ho converteo nos canos , per que a agoa vêem 
da Serra contra Palmella. E aíTy mandou fazer as Praças ào 
Sapal , e do Paaço do triguo , que fe fezeram com muitas 
defpefas , pêra que fez mercee , e de fua Fazenda deu mui- 
ta ajuda. 

CAPITULO XXVI. 

Como EIRey dejiflio das Leteras das pobricacoes que fe 
davam aas Leteras Apofiollcas. 

A Via neftes Regnos hú privilegio , ou cuftume antygo ; 
porque todolas Bulias, Breves, e Leteras Apoftolicas 
nom fe pobricâvanij nem fe podiam dar a exuquçam, falvo 

K ii que 



j6 Chronica 

que primeiro folTem viftas , e examinadas pelo Chanccllcr 
Moor d'ElRey ; e defpois de achar ferem verdadeiras , e ex- 
pedidas direitamente, dava em nome d'ElRey aas taacs le- 
teras de pobricaçam ; e a caufa, e fundamento difto foy por 
fe evitarem falíidades , com que as partes indevidamente nó 
fecebelTem^danos , e perdas , e principalmente por arredar 
inconvenientes, que nos tempos das Cifmas fe podiam feguir 
avendo mais d'hú Papa , como muitas vezes acontecia , por tal 
que fempre neftes Regnos fe obedeccífe ao Padre Saneio de 
Roma. E porque o Papa Inocêncio oclavo , que nelic tempo 
era em Roma Prelidente , e aíTy o Collegio dos Cardeaaes 
avendo ifto por grave, requereram nefte anno a EIRcy , que 
deliíHlFe do tal cuftume, que parecia quebra de fua obediên- 
cia , e ainda abatimento da aucloridade da See Apoftolica ; 
a EIRey por lhe obedecer , e comprazer prouve deíiítir dif- 
fo , de que o Papa , e Cardeaaes moftraram grande conten- 
tamento , e ho enviaram agardecer a EIRey com muitos feus 
louvores , e defpois ateegora fempre aíTy fe guardou. 

CAPITULO XXVII. 

Hida de Dom Diego d? Almeida aos Aduares em Africa. 

Efte anno de mil quatrocentos , e oitenta e fete , no 
mes d^gofto , porque na Cidade de Lixboa morriam 
de peílenença, armou EIRey d'avante Povoos , e Villa Fran- 
ca , pêra hú certo ardil na Coita da Berbéria em Africa , 
trinta navios , e taforeas , em que foram cento e cinquoenta 
de cavalo , todos Moradores de fua Cafa , e os mais bóos Fi- 
dalgos , e Cavaleiros , e com elles mil homés de pee anrre 
efpingardeiros , beefteirôs , e lancei ros , de que deu por Ca- 
pitam Moor Dom Diego Fernandez d* Almeida que entam era 
Monteiro Moor , e defpois foy Prior do Crato , Cavaleiro 
muy esforçado , e a EIRey por feus dinos mericimentos muy 
acepto , e com elle hia Dom Joham d , Ataide filho de Dom 

Mar- 




d'elReí D, João II. 77 

Martinho d'Ataide Conde da Atouguia , que EIRey nomeou 
por icgundo Capitam , quando Dom Diego por algú cafo ho 
nom podeíTe fer. Os quaes por quanto o prineipal ardil a 
c]uc hiam fe defacertou , por nom ficar em vaao fua paflagem , 
arribaram junto com a Cidade de Nafe , donde o Capitam 
per confelho dos principaes que com elle eram , mandou 
com guias certos Cavaleiros , e beeíteiros do monte efpiar a 
-terra ; os quaes com grande rifeo feu foram efpiar certos adua- 
res de Mouros da Emxouvia , em que delles avia muita gente , 
e jaziam a duas legoas da cofta do mar; fobre os quaes fo- 
ram , e na todos os dos navios, por embaraço , e maa def- 
poíiçam que ouve ao defembarcar, e pelejando com elles os 
desbarataram , onde morreram novecentos inmigos , e foram 
muitos feridos fem algu perygo dos Chriítãos , e cativaram 
delles antre homés , e molheres quatrocentos que a efte Re- 
gno foram trazidos com outro muito defpojo , e muitos ca- 
vallos. E por efte fefto fer tal, e ta m honrado , foram hi ar- 
mados muitos Cavaleiros que ho bem mereceram , do que 
EIRey foy com razam alegre , e contente. E deita coufa , a 
Enxouvia toda tomou grande temor , e efpanto ' y porque EI- 
Rey moítrou que lhes mandara fazer efte mal pela defobe- 
diencia em que entam citavam contra Muley Befageja feu 
Rey , com quem EIRey tynha entam paz , porque fe dava por 
feu amigo , e fervidor ; com que o di&o Rey Mouro fc favo- 
receo muyto , e fegurou feu citado , e fobriíTo enviou a EI- 
Rey fua embaixada com grandes prefentes remerceandolhe 
muito a honra , e mercec que nilTo recebera , e oferecen- 
dofe a feu ferviço pêra fempre ; da qual coufa foy alTy cer- 
teficado eítando em Almeirim. 



CA- 



78 Chroniga 

... 

CAPITULO XXVIII. 

Desbarato , e f rifam de Barraxa Mouro per Dom Jo- 
ham de Menefes Capitam de Tanger, 

T7* Efte anno de mil quatrocentos , e oitenta e fete aos on- 
!i ze dias d'Ocl:ubro Alle-Barraxa , antre os Mouros ávido 
por Xarife , e peíToa de gram valia , e de muita terra antre 
os Mouros , e contino guerreiro dos Chriftaos , com quatrocen- 
tos de cavallo , e muita gente de pee veeo correr a Cidade 
de Tanger , fendo nella Capitam , e Governador Dom Jo- 
ham de Menefes , que defpois foy Conde de Tarouca , e 
Mordomo Moor d'EÍRey Dom Manuel noíTo Senhor. E le- 
vando ja os Mouros algos Chriftaos cativos, e outra cavalgada 
de gaado , faio a elle o di&o Capitam com a gente da Ci- 
dade , e com os fronteiros que hi eram. Os quaaes peleja- 
ram com o di&o Barraxa , e o desbarataram, e mataram dos 
feus quarenta Mouros principaaes , antre os quaaes foy hu 
Cide-Omar feu tio , Mouro de grande eftima , e bóo cava- 
leiro , e cativaram o di&o Barraxa com cinquo grandes feri- 
das , e afy prefo o trouxeram aa dióla Cidade com muito 
prazer , e alegria ; e diante delle a cabeça do difto feu Tio , 
fem os Chriftaos receberem dano nem perda que folfe d'algu 
fentimento: da qual coufa foy EIRey logo certeficado eftan- 
do em Santarém ; porque deu a Deos muitos louvores , e en- 
viou, devidos agardecjmentos ao Capitam , e aos que no fe- 
clo com elle foram , e deu ao meflegeiro da nova boas al- 
vifaras. E por iflb enviou logo EIRey a gram prelTa hú boo 
Fiílco e folorgiam pêra cura do di&o Mouro , que durando feu 
cativeiro foy fempre bem , e honradamente tratado : e fo- 
briíTo mandou EIRey Eftevam Vaaz que entam era feu Ef- 
cripvam da Camará , e defpois foy foo Feitor de Guinee , e 
da índia , homem de grande prudência , e muita confiança , a 
* en- 



d' e l R ei D, João II. 79 

a entender com acordo do Capitam em feu refgate , que foy 
por quinze mil dobras da banda , e dez cativos Criílaos , e 
por vinte bòos cavallos , pêra que deu filhos feus y e outros 
Mouros peíToas principaaes por feus arrefees , fobre que foy 
folto, e fez capitolaçam , e concerto de fempre feer a fér- 
rico d'ElRey ; porque a eífe tempo elle era immigo de Mol- 
Jexeque Rey que entam era de Fez , com quem tynha guer- 
ra , e fabia que EIRey continoadamente lha mandava fazer. Mas 
eítc refgate nom ouve cffefto porque Barraxa d'hi a poucas 
oras foy livremente folto, e aíi feus arrefees por Dom An- 
tónio filho do Marques de Villa Real , que fendo feu Pa- 
dre Capitam em Cepta foy doutros Mouros em húa pelleja 
ferido y e cativo como adiante fe dirá. ^h 

CAPITULO XXIX. 

Como EIRey per autoridade ApoJloBca mandou emquerer 
fobre os confejjos que de Cafiella eram nejles 
Regnos lançados. 

NEfte anno de mil quatrocentos , e oitenta , e fete co- 
meçou EIRey per licença , e autoridade do Papa d'en- 
tender nos ereges , e confeflbs , que com medo das inquiri- 
ções que fe contra elles tiravam em Caftella fe acolheram a 
eif.es Regnos , o que foy per confentimento , e licença d'El- 
Rcy em quanto viveíTem bem , e como fiees Criífãos ; mas 
defpois que EIRey foy certeficado que começavam de dar 
linaaes , e fazer obras devida herética, e contra aReligiam 
Criítãa , ordenou , e deputou pêra iíTo certos ComiíTairos , 
Dolores em Cânones , e outros Meftres em Theologia , que 
polas Comarquas do Regno entenderam per inquirições em 
fuás vidas , e nelles fe fez muita puniçam , e caftigo de fo- 
go , e cárceres perpétuos , e outras pendenças fegundo que 
cada ml por fuás culpas o merecia. E porque algús def- 

tes 



8o Chronica 

tes per mar fc lançaram em rerra de Mouros ? onde pubrica- 
mente fe tornavam logo Judeus, foy defefo per EIRey, e 
pofto per ley, que nenhíi de feus Regnos , e Senhorios, fob 
pena de morte , e de perdimento de fazendas d'hi em dian- 
te fem fua licença , os paflaíle ; e defpois deu lugar que fe 
fayíTem per mar , mas os Capitaães dos navios davam pri- 
meiro feguras fianças de os nom poerem falvo em Levante 
em terra de Chriítaos. 

CAPITULO XXX. 

Repairo nas Fortalezas dos ejlremos. 

NO começo do anno de mil quatrocentos , e oitenta , 
e oyto , com quanto ElRey eílava em pacifica paz , e 
amizade com Caítella , e fem algúa caufa , nem fofpeiçam 
de rompimento ; porem como Rey bõo , e muy prudente 
que nos tempos da paz ama as coufas da guerra , e nos da 
guerra precura fempre os meos da paz , mandou proveer a 
fortalezar , e repairar , todalas Cidades, Villas , e Caftel- 
los dos eftremos de feus Regnos , afly no repairo , e defenf- 
fam dos muros , e torres , como em munições , ebaítecimen- 
tos d'artelharias , pólvora, falitre , armas, almazeés, pêra o 
que mandou fazer em todalas Fortalezas , novos apoufenta- 
mcntos , e cafas deputadas pêra iflb. E pêra que eítas cou- 
fas per negligencia , e pouco provimento dos Alcaides fe 
nõ perdelTem , ordenou logo novos Orficiaaes moores , pef- 
foas difcretas , e d'autoridade , que per repartiçam das Co- 
marquas com grande cuidado proveeíTem , e fezeíTem repairar 
as fobredicl:as coufas. E pêra repairo , e acalmamento das 
di&as artelharias na Comarqua da Beira , mandou novamen- 
te fazer a Tarecena da Villa de Pinhel , em que as di&as 
coufas eftavam em depoílto , e abaftança : e afly nelle anno 
mandou começar a Cava , e Torres d'01ivença , a que os 

Reys 



d'e lRe y D. Jo ao II. 81 

Rcys de CaltelJa quiferam por rogos empidír : dizendo , que 
em tanta certidam , e fegurança de paz , como antre elles 
todos avia , nom era neceíario , d'hua parte , nem da outra , 
fc fazerem coufas de que fe íeguiíTem fofpeitas , nem al- 
voroços de guerra. Mas pêra ElRey nom foy ifto caufa le- 
gitima pêra a obra fe leixar de profeguir , e fazer como fez. 

CAPITULO XXXI. 

Prifam , e Refgate do Alcaide d? Alcácer e-Quebir polo 
Conde de Borba Capitam d Arzilla. 

ENeíte anno na Corefma de mil quatrocentos, e oyten- 
ta , e oyto , eftando ElRey em Avis , veeo d' Africa hu 
meflegeiro de Dom Vafco Coutinho Conde de Borba , que 
entam eftava degradado, e Fronteiro em Arzilla, o qual no- 
teficou a ElRey a prifam , cativeiro, e deftroço que com cen- 
to de cavallo foomente fezera no Alcaide d'Alcacere-Quebir , 
antre os Mouros de grande poder , e eftima , e contino guer- 
reiro de Chriftaos , trazendo o diclo Alcaide comligo quinhen- 
tos , e cinquoenta de cavallo , Mouros muy efcolhidos ; de 
que na peleja grande que ouveram , morreram logo cinquoen- 
ta feus mazaganyns , homens principaaes , e também dous 
feus fobrinhos , e ho diclo Alcaide foy muito ferido : os 
quacs Mouros vieram Arzilla fobre hú trato dobrez , em que 
o diclo Conde por ardil falfo de certos Mouros faio vendi- 
do. Mas Deos principalmente por fua piedade , e defy por 
bõo laber , e ardileza do diclo Conde , e d'outros Fidalgos , 
e Cavaleiros que com elle eram , quis que todo aífi foíTe a 
falvamento dos Chriftáos , e com muita gloria, e honra fua; 
e com grande deftroço , e perda dos Enfiees , foy o di&o Al- 
caide trazido a Arzilla prelo , com outro muito defpojo. E 
per maao de Joham Garcez Proveedor das Capellas de Lix- 
boa , e Efcripvam que foy da fazenda d'ElRey > que pêra ííTq 
Tom. II, L foo- 



8a Chronica 

foomente foy com poderes la enviado , foy o di£to Alcaide 
refgatado em quinze mil dobras da banda , e vinte cavallos 
pera ElRey , e mais dez Chriftãos cativos ; e defpois de con- 
cordado o dicto refgate , leixou por fy em arrercés dezoito 
Mouros peíToas principaes fobre que foy folto , e ellcs cati- 
vos atee fe pagar como pagou lio diclo refgate. 

CAPITULO XXXII. 

Prifam d' 'ElRey dos Romaaos , e Jua foltura. 

NA Corefma deite anno eftando ElRey em Aviz , lhe 
vieram Cartas de Diego Fernandez feu Feitor em 
Frandes , e também de Maximiliano Rey dos Romaaos feu 
primo , com creença remetida ao diclro Diego Fernandez , note- 
ficandolhe a grande guerra , que antre elle , e ElRey de Fran- 
ça avia , e a muito maior , e mais crua que ao diante s'ef- 
perava ; pedindo lhe por muitas caufas , e razões , com que 
ho a iíTo obrigou , quifeíTe fer medeaneiro de paz an- 
tre elles. A qual emprefa , porque nella avia obrigaçam na- 
tural, bondade, honra, gloria , e muito ferviço de Deos , 
ELRey como de todas eítas era muy zelozo , e todas lhe 
pertenciam , foy muyto contente de a aceptar e lhe fatisfa- 
zer. Pera exuquçam do qual detri minou logo enviar o Do- 
clor Toham Teixeira, Chanceler Moor, e com elle Fcrnam 
de Piua, que eftando j a defpedidos d'ElRey , e preftes pe- 
ra partir, com embaixada honrada, e tal como pera o cafo 
compria , veeo do di&o Diego Fernandez outra nova certa , 
que a ElRey foy dada em Almeirim befpera de Pafcoa , em 
que certeficou o di&o Rey dos Romaaos fer prefo em 
Bruges pellos Governadores da Cidade , e pofto em feu 
poder , com fua vida , e eftado em grande perygo. Afacando 
falfamente ao di&o Rey , que queria meter em Bruges 
guarniçam de gente d'armas pera os aveerem de matar, 
e roubar, fobre o qual foram logo indinadamente degolla- 

dos, 



d'elRey D. João II. 83 

dos , e jultiçados muitos dos feus do Rey. Com a qual no- 
va EIRey moítrou receber grande nojo , e trilteza , e aífi 
roda ília Corte , por fynaaes do qual , EIRcy íe veftio de 
pano preto fino, e feus Paaços , e os da Rainha , e do Prin- 
cepe foram logo defarmados dos ricos panos , e tapeçarias , 
de que pêra a fefta eftavam armados , e nella ceíTararn en- 
ram todolos tangeres , e feftas , e aíli fe guardou defpois 
atee que veeo nova de fua foltura. Mandou logo EIRey fo- 
brefecr a dicla embaixada , e defpois de teer fobre o cafo 
confelho , ordenou outra fua per Duarte Galvam do feu Con- 
felho , com Cartas ao Emperador , e Rey de França , e pê- 
ra outras pelToas que compria; e com poder de defafiar , e 
romper guerra com os irriygos do dicto Rey, e com todos, 
e quaaesquer que pêra fua delibraçam entendeíTe fer necef- 
fario. E aífi levou créditos , precuraçôes , e provifões abaf- 
tantes pêra receber , e defpender atee cem mil coroas dou- 
ro , em todo o que a fua foltura podeíTe aproveitar , com 
offerecimento , e detriminaçam de logo neftes Regnos man- 
dar armar fua Frota com gentes pêra fua ajuda , e redem- 
çam , tamto que foíTe avifado que compria. E feendo ja o 
diclo Duarte Galvam partido, eftando EIRey em Almadaa, 
no Junho logo feguinte deite anno , chegou a elle , que veto 
de Frandes per mar , hum Joham de Bairros com Cartas 
perque EIRey foy certificado que ho diclo Rey dos Romaos 
era ja folto , e pofto em toda fun liberdade em poder do 
Emperador feu Pay , per cujo medo foy livre , porque vinha 
d'Alemanhá pêra deftroiçam de Frandes com grande poder. 
Da qual nova EIRey moftrou fer , e foy muy alegre , e aífi 
fua Corte com todo ho Regno , em cujo teftemunho na Cor- 
te , e em Lixboa fe fezeram per muitos dias , e no&es no 
mar , e na terra muitos íinaaes d'alegria com foilenes , e de- 
votas procifsôes , em que pcllo mefmo cafo em todo ho Re- 
gno fe deram a Deos muitas graças , e louvores. Fez EIRey 
ao di&o Joham de Bairros mercee , e acrecentamento , e aíTy 
outras mercees aos do feu navio por alviífaras, E o diclo 

L ii Duar- 



84 Chronica 

Duarte Galvam Embaixador , defpois de fer em Frandes , 
aproveitou muito ao diclo Rey dos Romãos que achou ja 
folto , aíTy em ajuda de dinheiro , que em nome d'EIRey 
per vertude de feus poderes , e comifsam lhe deu , como 
principalmente em antrevir por medeanciro , e requeredor de 
íua paz , e fegurança , com muitos Senhores , e Terras , que 
o diclx) Rey requereo , e de que tynha grande neccílidade. 

CAPITULO XXXIII. 

Confelho Jobre o caf amento do Princepe. 

ENo Agofto deite anno de mil quatrocentos , e oytenta , 
e oito , eftando EIRey em Almadaa teve Confelho pu- 
brico e geeral, fobre o cafamento do Princepe; por quan- 
to como atraz fica , ao tempo que as Tercerias de Moura 
fe desfezeram , foy defatado o cafamento do Princepe com 
a Ifante Dona Ifabel y e ficou concertado de futuro com a 
Ifante Dona Johana mais moça , e ficara logo acautelado , 
que fe ao tempo que o Princepe ouveffe hidade perfeita pe^ 
ra contraer Matrimonio per palavras de prefente , a Ifante 
Dona Ifabel , que era maior, eftevelTe por cafar, que o Prin- 
cepe toda via cafalTe com ella , ali como de primeiro fora 
concordado. E porque o Princepe entrava entam em hidade 
de quatorze annos , e a^di&a Ifante Dona Ifabel nom era 
cafada , quiz EIRey faber que nefte cafo faria: fobre o qual 
acordou de ho fazer alTy faber a EIRey , e aa Raynha de 
Caftella per Ruy de Sande , que entam era Moço da Ca- 
mará , e a EIRey muy acepto , que com Cartas d'ElRey foy 
aos didtos Reys ; que per elle logo refponderam lua final de- 
terminaçam fer , nom quererem dar ao Princepe por molher 
a Ifante Dona Johana ; mas a Ifante Dona Ifabel , em cujo 
cafamento os dictos Reys tynham ja defpedidos os Embaxa- 
dores do Rey dos Romaaos , que a Valhedolid a vieram re^ 
querer, e aíTy EIRey de França ; e EIRey de Nápoles , com 

quem 



d' e lRe y D. João II. 85- 

quem fobr'eíte cafamento da Ifante Dona Ifabel ouve mui- 
tos requerimentos , e grandes pendenças. Do qual EJPvey 
moftrou receber grande alegria e contentamento ; e porque 
logo foy certeficado , que pêra o anno que vinha , o diclo 
cafamento íe avia de fazer , e confumar , EIRey deu logo 
ordem ? e aviamento ao que pêra as feitas , e pêra as outras 
couías feria neceíTario ; e d'Almadâa fe partio com fua Cor- 
te pêra Setuvel no Setembro logo feguinte. 

CAPITULO XXXIV. 

Prtfam do Conde de Penamacor em Ingraterra. 

NEÍte anno foy EIRey avifado que o Conde de Pena- 
macor , nom canfado de profeguir com fuás forças , e 
pouco poder a deslealdade y que contra elle , e feu citado , 
e ferviço ja começara , era paíTado a Frandes , e Ingraterra; 
e com feu nome mudado em Pêro Nunez , comprava merca- 
dorias , e coufas pêra os tratos , e refgates de Guinee , e 
convocava , e incitava peflbas , e armadores daquellas terras 
pêra iíTo , que ja em algíla maneira fe aparelhavam. Polo 
qual EIRey por atalhar coufas de tanto feu deílerviço , e per- 
da , ordenou de mandar em Ingraterra com líúa Caravella bem 
armada Alvoro de Caminha , que defpois morreo Capitam 
da Ilha de Sam Thomee , pêra com algum engano , ou dif- 
fimulaçam prender o diclo Conde, e ho trazer a eítes Re- 
gnos , ou matallo , quando mais nom fofíe poílivel. E algúa 
deitas , ou por nom aver defpofiçam , ou por outra caufa ai- 
gua , nom fe comprio ; e conveeo a EIRey fobre o cafo 
tornar a enviar JamAlverez Rangel , feu Cavaleiro , com 
Cartas , e inftruções pêra EIRey d'Ingraterra , noteficandolhe , 
e aífeando com muitas caufas e razoes , ho desleal movimen- 
to do diclo Conde , paíTado , e prefente , pedindolhe que por 
bõo exempro de Reys , e mais delle , que per bem de fuás 
lianças , era a ifío per todas maneiras obrigado , o quifefle 
mandar prender , e entregarlho pêra neftes Regnos, fegun- 

do 



86 Chuonica 

do ho merecimento de fuás culpas , fe fazer delles juftiça, e 
emmenda , ou ao menos foíTe la prefo , e reteudo pêra fem- 
pre em cacere perpetuu. E ElRey d 5 Ingrarerra por fatisfa- 
zer em algíia maneira aos requerimentos d'ElRey , mandou 
prender o diclo Conde no Caftello de Londres. Da qual 
coufa ElRey foy logo avifado , e com grande prazer diííb , 
defpachou logo mui trigofamente por Embaixador a ElRey 
d'Ingraterra , ho Licenciado Aires d'Almada , Corregedor em 
fua Corte dos feclos Civees , que mui em breve per mar paf- 
fou la, onde ainda o dicto Conde era prelo, e com grande 
inftancia , e com fundamentos de Dereclo , c de fuás ligas 
principalmente requereo , que do diclo Conde fe fezeíTe en- 
trega , ou juftiça , qual mais no cafo coubelTe. E finalmente 
o diclo Rey depois de fobre tudo aver feu Confelho , s'ef- 
eufou , e nom confentio em algua daquellas , e ouve por bem 
que o diclo Conde , por aílelTego , e fegurança do que a El- 
Rey compria , efteveíTe em prifam , na qual efteve alguns 
dias , e tempos. E defpois com mudança que o tempo traz , 
foy da dieta prifam folto , e fe veeo a Barcelona , onde os 
Reys de Caftella eftavam , ao tempo da entrega de Perpi- 
nham , e d'hi fe foy a Sevilha onde tynha fua molher , e fi- 
lhos , e a poucos dias logo faleceo. 

capitulo xxxv. 

Prifam de Dom António filho fegundo do Conde de Vil- 
la Real que era Capitam em Cepta. 

ENefte anno de mil quatrocentos , e oitenta , e oito ef- 
tando ElRey em Benavente lhe veeo certidam como 
Dom António filho fegundo de Dom Pedro de Menefes pri- 
meiro Marques de Villa Real, que citava entam por Capi- 
tam em Cepta, em húa entrada que fezera a terra de Mou- 
ros ? e trazendo húa cavalgada , rçcreceo muita gente dos 

Mou- 



d' e lRe y D. Jo a 6 II. 87 

Mouros fobr'el!e, per maneira que pêra efperança de fua fal- 
vaçam lhe convceo aver com elles peleja , onde fora muito 
ferido, e levado cativo em poder de Mouros , e alTy algús 
outros ChriMos em que morreram algús principaaes , antre os 
quaaes foi Chriftovam de Mello , Alcaide Moor d'Evora , e 
Symao de foufa filho do Comendador Moor que foy de Chtif- 
tos, e Martim Vaaz da Cunha, que era Senhor de Tavoa , 
e tynha Lanhofo , e outros que morreram como bóos Cava- 
leiros ; nem fem mortes , e muito fangue dos Mouros der- 
ramado. A qual nova EIRey fentio muito , e mandou logo 
proveer com grande trigança doutro Capitam , e focorro a 
dicl:a Cidade de Cepta. E o di&o Dom António veeo a maaos, 
e poder de Barraxa que o procurou aveer, e ouve pêra fua 
deliberaçam , o qual o livrou , e foliou polas Refées que 
por elle , e feu refgate eftavam em Tanger em poder de Dom 
Joham de Menefes que o cativou , como atraz faz mençam. 

CAPITULO XXXVI. 

Armada que fe fez pêra alem mar , de que Fernam Mar- 
tyns Mazcarenhas fqy Capitam , e o feSio que 
fez em Alcacer-Quibir. 

ENefte anno defejofo EIRey de fazer guerra mais aper- 
tada a Africa 7 como fempre era feu defejo , efpecial- 
mente por aparelhar melhor o caminho a fua paíTagem, pê- 
ra que em peíToa fe fazia preftes , detriminou d'enviar per 
mar deites Regnos pêra hú certo ardil que contra Mouros 
era praticado , Fernam Martins Mazcarenhas feu Capitam dos 
Ginetes, e Aires da Silva feu Camareiro Moor, e co elles 
quinhentos de cavallo , homes todos dos livros d'FJRey , e 
efeolhidos ; e mil homes de pee .f Befteiros , e Efpingardei- 
ros : os quaaes feendo preftes em Lixboa , e a Frota pêra 
elles aparelhada , e eftando pêra embarquar , veeo dos Ca- 
pitaães d'aalem avifo a EIRey eftando em Almadãa , como) 

i 



88 Chbonica 

a terra d'Africa era da di&a armada avifada, e com medo 
delia fe guardavam , e punham a falvamento fuás peífoas , e 
fazendas. Polo qual a mais da dicla armada fe defarmou , 
e porem mandou ElRey o ditto Fernam Martyns com trin- 
ta Caravellas , e taforeas , e co elle cento , e cinquoenta de 
cavallo homés Fidalgos de fua guarda , os quaes tanto que 
defembarquaram em Arzilla , fe ajuntaram per concerto que 
dantes tynham afentado com Dom Joham de Menefes Ca- 
pitam de Tanger, e com o Conde de Borba, que citava por 
Fronteiro d\Arzilla ; os quaaes todos fazendo quinhentas lan- 
ças , e trezentos homens de pee , entraram per terra dos imy- 
gos , e foram correr o campo d^lcacer-Quibir aalem da 
ponte , que he lugar onde os Mouros eftavam fem receo dos 
Chriftaos , e ©nde atee entam nenhua gente dos Chriftaos che- 
gou fazer guerra : e d'húa Aldeã groíTa que chamam Bene- 
geneve , em que per força d'armas entraram , trouxeram ca- 
tivas duzentas e cinquoenta almas, e do campo apanharam 
húa muy groíTa cavalgada , de gaados , beftas , e afíy muita 
prata, e outro emiimdo defpojo ; e mataram muitos Mouros 
fem algú perygo nem dano dos Chriftaos , e fairam a 
elles mil , e fetecentos , e cinquoenta Mouros de cavallo , e 
muita outra gente de pee, que nom oufaram de pelejar: 
pelo qual os Chriftaos muito a feu falvo trouxeram tudo a 
Arzilla , onde fegundo feu antigo cuftume a di&a cavalgada 
foi bem repartida. E os di&os Capitães per fua carta note- 
ficaram logo efta nova a ElRey eftando ainda em Áimadãa , 
com que foy muito ledo , e ali toda a Corte ; e por iíTo fe 
deram muitas graças a Deos , e ElRey lhes enviou logo 
agardecer feu bdo efeito, e afíy em hú navio lhes mandou 
muito refrefco. 



CA- 



d'eLREyD. JoAO II. Sp 

CAPITULO XXXII. 

Como Bemoym foy feSlo Cbrijlao. 

NEfte anno de mil quatrocentos, e oitenta, e oito, ef- 
tando EIRey em Setuvel , fez Chriftão Bemoym , 
Princcpe Negro do Regno de Gelof , que he na entrada do 
Rio de Çanaga em Guinee. E ascaufas, e fundamentos que 
pêra iíTo ouve , e o modo como fe fez , breve , e verdadei- 
ramente foy nefta maneira. Ho anno paíTado feendo Gonça- 
lo Coelho criado d'ElRey , na boca do diclo Rio refgatan- 
do, o diclo Bemoym, que entam com profperidade , e gran- 
de poder governava o dicto Regno de Gelof, feendo enfor- 
mado pelas lingoas da Real perfeiçam , e muytas vertudes 
d'ElRey , defejando d'ho fervir , lhe enviou pelo di£k> Gon- 
çalo Coelho hum rico prefente d'ouro , e cento efcravos to- 
dos moços , com algílas outras coufas de fua terra. E com 
elle veeo hú feu fobrinho por Embaixador a EIRey , que per 
vertude d'húa grolTa manilha d'ouro , que a EIRey , fegun- 
do feu cuftume , e por defeito de leteras , deu por carta de 
crença , lhe enviou pedir armas , e navios ; a que EIRey com 
juílas caufas fundadas nas Eícomunhòes , c Apoftolicas de- 
feías , por elle nom feer Chriftão s'efcufou. E nefte anno , 
porque o di&o Bemoym foi por traiçam lançado fora do Re- 
gno , detriminou meterfe em hua Caravella das do trato , que 
feguiam a Cofta , e em pefToa vyr pedir ajuda , focorro , e 
juftiça a EIRey que eftava em Setuvel. Chegou Bemoym a 
Lixboa , e com elle algús Negros do feu Sangue Real , c fi- 
lhos de peífoas acerqua delles de grande eftima. Como EI- 
Rey foy de fua vynda avifado , mandou , que fe vielTem a- 
poufentar a Palmella , onde mandou logo proveer aos feos 
muy abaftadamente , e fervir a elle com prata , e oficiaaes , 
e todolos outros comprimentos , que teem femelhança d ? Ef- 
tado. E a todos mandou dar de veftir de panos ricos , e fi- 
Tom. Ih M nos , 



^O C-HKON1CA 

nos , e como a qualidade, e merecimento das peíToas ho re- 
queria. E como foy em defpofiçam de poder vyr aa Corte , 
EIRey lhes mandou a todos cavallos , e mullas muy bem a- 
parelhados ; e o dia que aviam d'entrar , EIRey ho mandou 
receber pello Conde de Marialva Dom Francifco Coutinho , 
e com elle todolos Fidalgos , e nobre gente da Corte a 
que EIRey de induftria mandou veílir, e concertar o melhor 
que podeílcm. EIRey poufava nas cafas d'Alfundega da di- 
cla Villa , e a Rainha em outras junto com elle , e huas , e 
as outras foram todas armadas , e aparelhadas de muy ricos 
panos de feda , e de Raz , com eftrados Reaaes , e dorfees 
de brocado. Com EIRey eftava o Duque Dom Manuel , e 
com elles muitos Senhores de Titolo , e Prellados , e ou- 
tros muitos Fidalgos com muita gentileza, e grande perfei- 
çam aparelhados. E com a Raynha ho Prineepe feu filho ; 
porque era ordenado , que em acabando de veer , e fallar a 
EIRey , aíTy foíTe logo aa Raynha. EIRey , e o Duque fe 
poferam aquelle dia de fuás pelíbas , com muy ricos , e auto- 
rizados veftidos , guarnecidos em tudo de muito ouro , e pe- 
draria. Era Bemoym homem que parecia de quarent'annos , 
de grande corpo , muito negro , barba muito comprida , e 
dos membros todos muy propocionado , com muy gra- 
ciofa prefença ; e aflí veftido entrou na Salla d'ElRey , que 
ho veeo receber fora do eftrado dous , ou três paflbs , com 
ho barrete hum pouco fora; e aíTy ho levou ao eftrado em 
que citava hua Cadeira Real em que EIRey fe nom afentou , 
mas afly em pee encoftado a cila ho ouvio. E logo ho di&o 
Bemoym , e todolos feus fe lançaram ante feus pees , pêra 
lhos beijarem , e fezeram moftrança de tomar a tjerra de 
baixo deites , e cm fynal de fogeiçam , e fenhorio/ , e por 
grande acatamento , a lançaram per cima de fuás cabeças. 
Mas EIRey com muita honra , e corteíia ho alevantou , e 
per Negros Interpretes que pêra iíTo ja eftavam prefentes , 
lhe mandou que dhTeíTe. O qual com grande repoufo, def- 
criçam y e muita gravidade , fez huma falia pubrica , que 

du- 



fc 



d'elRey D. João II. ^i. 

du rou per grande efpaço , em que pêra feu caio meteo pala- 
vras , e fentcnças tam notavees , que nom pareciam de Ne- 
gro bárbaro, mas de Princepe Grego criado em Athenas ; 
cuja fuftancia foy : recontar a EIRey com aprefados fofpiros i 
c muitas lagrimas , feu defaventurado infortúnio , eaufado da 
traiçam que em feu Regno contra elle fe fezera ^ que por 
cxtenfo declarou. E que a EIRey foo lhe lembrara , peia de 
vingança , focorro , e ajuda , e fobre tudo juftiça , teer certa 
efperança j porque elle foo no mundo lha podia , e devia 
dar, aífy por fer Rey tam nobre, e tam poderofo , tamjuf- 
to , e tam piedofo ; como principalmente por fer Senhor de 
Guinee , cujo valTallo era , ped indolhe focorro , juftiça , e 
piedade: dizendo, que em caio que feu Efcudo Real por fua 
gloria , e louvor foíTe de vitorias de Rcys , ricamente bor- 
dado , nom feria menos acompanhado agora com memorias 
de Reys , que fezeíTe ; ca a primeira feria por ventura be- 
neficio de fortuna , e efta feria própria bondade , e grandeza de 
feu coraçam. Dizendolhe mais ; Muito poderofo Senhor , Deos 
fabe , ouvindo tuas grandezas , e vertudes Reaes quam acejòs 
foram fempre meus fpritos , e defejofos meus olhos pêra te veer j 
e nom fey porque nom foy , porque tanto mais me prouvera , que 
fora em toda minha hvre profperidade , quanto efte meu defiro- 
ço , e defterro , por fua trifie condi çam , menos autoriza minha, 
fe , e palavras ; mas fe ajfy era de cima ordenado , que per ou- 
tros meos a mym mais favoi"avees , eu nom podia veer , e alcan- 
çar tanto bem , como pêra mym he veerte , louvo muito Deos 
com minha deftr oiçam , e ja efie contentamento ajji me fatisfaz , 
que ja defia jornada nom hirey defeontente. Profeguindo mais 
em fuftancia , e dizendo , que íè aa juftiça , e focorro quer 
lhe pedia , por ventura contradizia nom fer elle Chriftão y 
como outras vezes , por efeufa d'outro femelhante lhe man- 
dara dizer, que iíTo nom fezeíTe duvida , nem agora o con- 
•tradifíeíTe , porque elle, e todolos feus que eram prefentes^ 
a que nom falleciam nobres , e Reaaes nacimentos , aconfelha- 
dos em outros tempos de íuas fanecas amoeftações , vynham 

M ii • pe- 



92 Chkonica 

pêra em íeus Regnos , e de fuás mãos logo ho ferem ; e que 
a foo pena, e maior torvaçam , que por iíTo recebiam, era 
porque pareceria que foiças de fua neceílidade , mais que de Fe 
lho faziam fazer. E com eftas diíTe outras muitas, e boas 
razoes fobre fua tençam. Refpondeo lhe logo ElRey cm cur- 
tas palavras , e a tudo com grande tento , e muita prudcn- 
cia , alegrandofe muito com fua vifta , e muito mais com feu 
final propoíito de querer fer Chriftao. Polo qual lhe dava 
nefte Mundo , e em feu cafo efperança do focorro , e reftí- 
tuiçam de feu Regno , e no outro Gloria , e falvaçam pcra 
fempre. E co ifto o defpedio , que foy fallar aa Raynha , e 
ao Princepe , ante quem fez húa falia breve com grande acor- 
do , e muy natural defcripçam pedindolhe pêra com ElRey 
feu favor , e ajuda. E a Raynha , e o Princepe o delpedi- 
ram com muita honra , e gafalhado. E ao outro dia veeo Be- 
moym fallar a ElRey , e foos apartados com húa lingoa fa- 
laram ambos per grande efpaço ; onde tornou dizer fuás cou- 
fas com graude avifo ; e alfy refpondeo aas que lhe pergun- 
tava muy fabida , e apontadamente , de que ElRey ficou 
muy contente. Ordenou ElRey por refpeito delle feitas de 
touros , e canas , e teve feraáos de momos , e danças ; e pê- 
ra as veer teve ordenado afento de cadeira no topo da Sai- 
la defronte d'ElRey. Ouve ElRey por bem , que ante de fer 
Chriftao , foífe primeiramente enformado nas coufas da Fe ; 
porque Bemoym era da Seita de Mafamede em que cria , 
pola vezinhança , e partecipaçam que avia cõ os Azanegues , 
e tynha algú conhecimento das coufas da Brivia. E pêra iíTo 
fallavam co elle Teolegos , e Leterados que o enformavam , e 
confelhavam ; e foy acordado , que vilTe , e ouviíTe primei- 
ro húa MiíTa d'ElRey , que em Pontifical , e com grandes 
comprimentos , e cerimonias fe diíTe na Igreja de Saneia Ma- 
ria de todolos Santos. E Bemoym com os feus , c com 
Leterados Chriftaãos efteve no Coro > e ao levantar do 
Corpo de NoíTo Senhor , quando vio a todos de jiolhos 
e com as mãos alevantadas ho adorar, deu de mão a fua tou- 
ca 



D' E L R E Y D. J O A Ô II. 93 

ca que tynha na cabeça , e aíli como todos com os jiolhes 
no chaão , e a cabeça defeuberta ho adorou : dizendo logo 
com fynaes de muita verdade , que ho pongimento , que na- 
quclla ora fentia em feu coraçam , tomava por crara prova, 
que aquelle era o foo Deos , e verdadeiro pêra falvar. E 
a dous dias vio comer ElRey pubricamente , pêra que íe vef- 
tio , e mandou aparelhar a cafa , e mefa , de baixe lias , e 
tapeçarias, iguarias, fervi ços , maniftrees , e danças , tudo em 
gram perfeiçam ; porque ElRey nas couías de propofíto , que 
tocavam feu Eftado , era fobre todos muy cerimonial , e per- 
fcyto. E aos três dias do mes de Novembro o dic~b Be- 
moym , e féis dos principaes que com elle vieram, foram fe- 
chos Chriftaãos a duas oras da nocle , na Camará da Ray- 
nha , que fe aparelhou pêra iíTo em grande comprimento ; 
foram feus padrinhos ElRey , e a Raynha , e o Princepe , e 
o Duque , e hú ComiíTairo do Papa que na Corte andava , 
e o Bifpo de Tanger , que entam era ho Licenciado Calça- 
dilha. Fez ho oíhcio em Pontifical Dom Jufto Bifpo de Ce- 
pta que hos baptizou , e Bemoym ouve nome Dom ]bham. 
por amor d'ElRey. E aos fete dias de Novembro ElRey ho 
armou Cavaleiro , e dos outros feus vinte e quatro foram 
fectos Chriíhãos dentro da Cafa dos Contos da di&a Villa. 
Deulhe ElRey por armas húa Cruz dourada em campo ver- 
melho , bordado ho Efcudo das quinas de Portugal. E nef- 
te mefmo dia em auto folemne , e com palavras de grande 
Senhor deu obediência , e fez menagem a ElRey. E alfy em- 
viou outra ao Papa eferipta em Latim , em que recontou 
feu cafo , e fua converfam aa Fe com palavras de muita 
devaçam , e de grandes louvores d'ElRey. Acordou ElRey 
de lhe dar , e deu de focorro , e ajuda , vinte Caravellas 
armadas , e por Capitam delias Pêro Vaaz da Cunha , que 
levava por mandado de fazerem na entrada do Rio de 
Çanaga , húa Fortaleza , que nom foífe dada ao diólo Be- 
moym , mas efteveíTe fempre por ElRey ; pêra o que 
logo foram muitas pedras , e madeiras kyradas > e afy gran- 
de 



p4 Chronicà 

de ordenança de Clérigos , e coufas pêra Igrejas , e fazer 
Chriftãos ; de que hia por peflba mais principal Meftre Ál- 
varo , Preegador d'ElRey , da Ordem de Sam Domingos. E 
húa das caufas mais principaes que moveram a EIRey pêra 
efta armada , e principalmente pêra ho edeíicamcnto da For- 
taleza na entrada deite Rio , foy a certidam que tynha de 
o di&o Rio , bem metido no fertaão vyr pêra a Cidade de 
Tambucutu , e per Mombare , em que iam os mais ricos 
tratos , e feiras d'ouro que ha no mundo , de que toda 
a Berbéria de Levante , e Ponente , ate Jheruíalem fe 
provee , e baftece , creendo que a dicla fortaleza pêra eíca- 
pola , e fegurança do trato feria em tal lugar pêra os feus , 
e pêra as mercadorias grande fegurança. E atee cite Rio , 
e pouco mais adiante foy defcoberto em tempo , e por 
mandado do Ifante Dom Anrique inventor, e defcobridor 
defta emprefa , e conquiíta de Guinee , e em íuas Cartas , e 
memorias parece que elle chama a efte Rio o Nillo , nam 
ho que entra em Alexandria no Mar do Levante ; mas outro 
braço delle que os Cofmografos dizem que vem ter a efte 
mar Oceano ; mas a certa verdade difto ainda atcegora que 
he o tempo d'EiRey Dom Manuel o primeiro noífo Senhor 
feita por faber. E porem todas eftas obras , defpeías , e fun- 
damentos de Bemoym fe tornaram em efe&os de mal ; porque 
deípois de o difto Pêro Vaaz fer arribado , e entrado no 
di&o Rio , por tomar contra Bemoym fofpeitas desleaes , e 
de traiçam , ou mais verdadeiramente com defejo que tinha 
de fe tornar pêra o Regno , matou o dito Bemoym a fer- 
ro , e f e tornou logo a eíte Regno , de que EIRey eftando 
em Tavilla foy muito anojado , e fofreo eíta culpa a Pêro 
Vaaz por nom dar a elle grave pena , e a outros muitos , que 
por o melmo cafo a mereciam ; porque EIRey eítranhou mui- 
to mataremno aflí , porque feendo em tal erro comprendido 
deveramno trazer como o levaram , pois ho tynham fem afron- 
ta , nem perygo em feu livre poder. E noanno.de mil qua- 
trocentos, e oitenta, e nove eftando EIRey em Beja o pri- 
mei- 



D' E L R I Y D. J O A 6 II. jç 

meiro dia de Março , nas cafas de Joham de Soufa onde en- 
tarn poufava , com muita , e grande folêpnidade fez Mar- 
quez de Villa Real , e Conde d'Ourem a Dom Pedro de 
Menefes , que foomente era intitolado Conde de Villa Real , 
e Senhor d' Almeida. E o auto , e cerimonias com que fe fez , 
foy ncfta maneira. EIRey veftido em veftiduras Reaes ef- 
rava em pee no topo da Salla , que pêra iíTo eivava muy ri- 
camente aparelhada , e junto co elle o Princepe e o Duque 
de Beja. E ho Marquez entrou na falia acompanhado de fuás 
poufadas com muita , e nobre gente da Corte , com grande 
eftrondo de trombetas baftardas , e atabaques , e Maniílrees 
altos , e baixos ; e diante delle homeés do Confelho d'El- 
Rey , muy Fidalgos , e de grande autoridade , dos quaes hum 
trazia ho Eftendarte de fuás armas , com pontas , e outro 
nua fua efpada mui rica metida na baynha , com a ponta pê- 
ra cima , e outro húa carapuça de feda forrada d'arminhos 
poíla em hum bacio de prata. E como chegaram ante EI- 
Rey , c fe&as fuás mefuras , fe&o fynal de íilencio , ho Do- 
&or Joham Teixeira Chanceler Moor per mandado d'ElRey 
fez em linguagem hCía Oraçam dos louvores d'ElRey , e dos 
grandes merecimentos muy afinados, eleaes ferviços do Mar- 
quez , muy elegante , e pêra tal auto muy conveniente , em 
que declarou , que EIRey novamente o fazia Marquez de Vil- 
la Real , e Conde d'Ourem. Ao cabo do qual per aprova- 
çam do que difto era , EIRey fez chegar ante fy ho Mar- 
quez , e lhe pos a carapuça na cabeça , e cingio a efpada 
per cima das veftiduras , e da cinta lha tirou nua , com que 
logo por fua mão cortou as pontas do dióto feu Eftendar- 
te , e ficou em Bandeira quadrada como Princepe ; e aífi lhe 
meteo hum rico anel em hum dedo da mão ezquerda , e aca- 
bado tudo ifto o diclo Marquez beijou as mãos d'ElRey, e 
do Princepe, e o mefmo Princepe , e o Duque , e todolos 
outros Senhores beijaram as mãos d'ElRey ; de que logo o 
Marquez foy convidado pêra comer co elle , porque aífi eítava 
ja concordado. E na mefa, que eítava com dorfel de broca- 
do, 



põ Chronica 

do, EIRey fe afentou nomeo, eo Princepe aa fua mão de- 
reita , c abaixo do Princepe o Marquez , e da mão efquer- 
da d'ElRey eftava o Duque. E defpois ouve em cafa do Mar- 
quez per dias muitas feftas , e danças , e mui abaftados ban- 
quetes , em que como nobre, e grande Senhor fez também, 
e deu algúas dadivas honradas aos OfEciaes que feus defpa- 
chos fezeram. 

CA p i t u l o XXXVIII. 

Fundamento 5 e fim da Gr acto f a. 

NEfte anno de mil quatrocentos, e oitenta, enove, po- 
lo muito defejo que EIRey tynha pêra a Conquifta 
d'Africa, e muito maior obrigaçam de ha profeguir per ref- 
peito da Cruzada , que pêra iíTo lhe fora concedida , e de que 
ja tinha ávido muito dinheiro, revolvendo em fua memoria co- 
mo o poderia fazer melhor , e com mais ferviço de Deos , e 
acrecentamento maior de fua honra, e Eirado ; fem confe- 
Iho , e contra Coníelho maginou de fazer hua Villa com fua 
fortaleza polo Rio acima de Larache , que he em Africa ; 
com fundamento , que d'aly com feus Fronteiros , e gente 
d'armas , que fempre nella teria , e com ajuda das outras Ci- 
dades , e Villas que la tynha , e aos Mouros foram ganha- 
das , fe faria muita guerra a Feez , e a Alcacere-Quibir , e a 
toda aquella terra , de que por muita parte fe poderia per 
força conquiftar , ou ao menos coftranger , pêra grandes , 
e ricos tributos. Pêra o qual defpois que muitas vezes , e 
per muitos mandou defcobrir , e fondar o di£lo Rio , apare- 
lhada pêra ifíb a armada com artelharias , pedra , cal , ma- 
deiras , mantymentos , e coufas que compriam ; no começo 
do mes de Julho , mandou logo per Gafpar Jufarte com pou- 
ca gente , e algús navios fundar a di£la Villa , que pos no- 
me Graciofa , por lhe parecer, que pêra entam mais nom era 
neceíTareo. Creendo que em quaesquer afrontas , que dos Mou- 
ros 



D* E L R E Y D. 7 O A 6 II. 5>7 

ros íbbrevieíTem , fe podia pelo di&o Rio focorrer , e pro-* 
veer , fazendoo fem ho fer , navegável a navios , e caravel- 
las em todos tempos. E pêra fe dar a tudo mais breve, e 
melhor aviamento , e focorro quando comprille , EIRey com 
a Raynha , e Princepe , e toda Corte fe foy a Tavilla , on- 1 
de cada dia de todo ho que fe paliava recebia continos avi- 
fos : Efcoiheo EIRey , e emviou pêra iífo a frol da gente 
nobre de feus Regnos , em que averia mil e quinhentos Fi- 
dalgos , e Cavaleiros principaes , todos de feus livros , e Cor- 
te. Começoufe logo a Villa , e Fortaleza , a lugares com fun- 
damentos de pedra , e cal , e nos mais de valos , e fortes 
paliçadas de madeira ; da qual Fortaleza fendo avifado Mo- 
le-Xeque Rey de Feez, junto de cujas terras fe fazia , por 
quanto do tempo da tomada d\Arzilla , nas pazes que Mo- 
le-Xeque fez , a di&a terra com outras ficou com Portugal , 
fegundo nas diílas pazes fe contem ; conlirando que fe no 
principio a nom ímpidiíTem , que feriam portas abertas pêra 
lua crara deílroiçam , fez logo fobr'hTo ajuntamento com os 
Alcaides, e principaes de feu Regno, e com os Alarves, 
e Enxouvios , e Colotos feus Comarquaaos ; que fem defe- 
rença acordaram todos de vyrem cercar como cercaram , a 
di£t.a Villa , em que o di&o Rey de Fez veo em peíToa , e 
com elle também Moe-Heia feu filho maior , que com qua- 
renta mil de cavallo , e outra gente de pee fem conto , po- 
feram cerco de todalas partes aa di&a Villa, em que tam- 
bém nom leixaram o Rio livre d'húa banda , nem da outra 
contra a fooz ; porque de terra impidilTem qualquer fo- 
corro , que aos ChiMos por elle foífe. E por a muita gen- 
te dos Mouros começar de vyr fobre a dieta Fortaleza, e 
afy por o diclo Gafpar Jufarte adoecer , mandou EIRey Dom 
Joham de Soufa peflba principal do feu Confelho com mais 
gente pêra na dieta Fortaleza aver de ficar ; e defpois cre- 
cendo mais o poder dos Mouros, e fendo EIRey j a em cer- 
to enformado dos fegredos do Rio , e afy ho perygofo lítio 
da di&a Fortaleza, perque lhe certeficavam , que em algúa 
Tom. IL N ma? 



$>8 .': ChRONICA 

maneira fe notn podia foíteer, ordenou de mandar Fernam 
Martins Mafcàrenhas , e Dom Diego d'Almeida , que def- 
pois foy Prior do Crato , e Dom Martinho de Caftelbran- 
co , Veedor da Fazenda ; pêra per elles com fua tornada fe 
enformar , e detriminar o que ouveíTe de fazer .f- ou a lei- 
xar ,. ou fofter : e fendo os fobredi&os dentro na dicla Gra- 
ciofa , veeo Mole-Xeque Rey de Fecz fobr'elles com todo 
feu poder j aos quaes parecendolhe , que polo que compria 
a fuás honras, e a ferviço d'ElRey , que elles nom deviam 
leixar o di&o cerco , e aflí por Dom Joham de Soufa , Ca- 
pitam da di£la Villa fer tam enfermo , que os cargos de 
Capitam nom podia foprir , como por s'efperar delle mais 
morte que vida ; polo qual detriminaram logo de ho fazer 
fair, por tal que por mingoa de Fiíicos , e de coufas necef- 
fareas nom faleceíTe : e elles acordaram , que antre fy ele- 
geflem Capitam que ouveíTe de fervir, e mandar, a que to- 
dos obedeceíTem , e por elles todos três ferem peíToas tam 
principaes pareceo razam que antre elles fe lançaífe fortes , 
como lançaram , e caio iobre Dom Diego d' Almeida. E os 
Mouros confírando na pouca gente dos Chriítaos em com- 
paraçam da fua , e veendo o pequeno repairo da Villa criam , 
que nos primeiros combates , que mui rijamente deram , lo- 
go per força a cobrariam com mortes, e cativeiro de todos. 
Mas veendo , e efperimentando em íuas gentes ho grande 
dano , e muito eftrago que delles com aprefados , e furiofos 
tiros de fogo, e d'outras armas recebiam; e ho forte repai- 
ro , que pêra fua defenfam tynham ja feito ; e conhecendo 
a bondade , e valentia de feus corações , que tynham 
nom íoomente pêra fe defender , mas muito melhor pê- 
ra os ofender , defefperados deíle primeiro fundamento , 
tentaram pêra os vencer , outro , que pêra elles aviam 
por mais feguro , que foi poerlhe o di&o cerco , mais afaf- 
tado , como poferam. E em huma parte do Rio , que abai- 
xo da Villa fe vadeava , ho atraveíTaram com húa forte efta- 
cada dobrada , chea no meo de ceítos de pedra , por tal eme 

ho 



d' eiR e y D. J o a 6 II. $9 

ho Rio per navios grandes, nem per barcos pequenos, pê- 
ra cima contra a Vilía fe nom podeíTc navegar, com que os 
Chriltáos fbfícm de locorro , e provimento per agoa defef- 
perados de todo. E por defenfam peite repairo , porque ho 
nom desfezeíTem , poferam ao longo delia d'hua banda, e 
da outra do Rio, bombardas grofías , e outros tiros de pól- 
vora , guardados fempre , e defefos de gentes fem numero, 
fazendo co iíto fuás contas , que os Criítãos de canfados, 
e vencidos de doenças , e fome , efpecialmente nom teendo 
efperança de focorro , fe dariam a fua defpofíçam , e pieda- 
de. E como os da Villa foram deite embargo certeficados , 
ouve antr'clles algíía confufam , e foy ainda muito maior, 
como iouberam , que Aires da Silva , Camareiro Moor d 5 El- 
Rey , que era Capitam Moor da Frota, que eftava na fooz, 
com todas fuás forças , e deligencias que pos , nom poderá 
desfazer, nem foomente pola grande refiítencia dos Mouros , 
chegar aa dic~bi eítacada. E porem porque os mais eram Fi- 
dalgos , e de esforçados corações , nom caíram em defmaio , 
nem fraqueza , mas cobraram vivo esforço com que fe for- 
talezaram , e proveeram em feus mantimentos , e provisões ? 
com que fe defendeíTem , e manteveífem o mais tempo que 
foíTe poífivel , fendo confiados na bondade , e grandeza d'El- 
Rey , que em peíToa quando compriíTe os focorreria. Defte 
cafo foy EIRey logo avifado em Tavilla , com que foy pof- 
to em gram penfamento ; porem como Rey , que nas coufas 
da fortuna fora ja muitas vezes vitoriofo , e nunca vencido, 
deu logo grande aviamento a mandar mais navios , e mais 
gente com mais armas , e artelharias pêra com Aires da Sil- 
va tentarem , e desfazerem per força a di&a eíhcada , e re- 
pairos do Rio , pêra húa vez as pefloas dos cercados ao me- 
nos fe falvarem , o que fobre todo mais defejava. Porque po- 
la enformaçam que a efte tempo tynha do lugar , afíi de fe 
nom poder o Rio atee elle navegar em todos tempos , co- 
mo principalmente pola terra feer naturalmente doentia , ja 
tynha propofto em cafo que o didlo lugar fofíç feito , e nom 

N ii ccr . 



\ 



IDO C H R O N I C A 

cercado d'ho mandar defpovoar , e derribar. E porem como 
EIRey finalmente foube , que o derradeiro remédio , e fal- 
vaçam dos Chriítaos , eftava foomente no focorro de íua pef- 
foa Real, como Princepe nom menos esforçado, que piedo- 
fo , detriminou de os focorrer ; de que per meo de Mou- 
ros , que com dadivas fe corrompiam , aviiou logo os cerca- 
dos. Os quaaes na foo confiança de íua palavra , que aviam 
ja por obra mui verdadeira , cobraram hú novo esforço , e 
defcanfo ; porque fe viram logo tam livres , e feguros , co- 
mo fe no Regno eltevelfem. E EIRey pêra comprimento do 
que prometera , e era razam que defejalTe , e prometeíTe , 
mandou pêra o cafo fazer per todo ho Regno percebimen- 
tos geraes , e pêra tempo muy breve, e com palavras de tan- 
ta obrigaçam, em efpecial afirmando que paliava cm pefíba , 
que nom foy neceflareo fazer coítrangidas apurações ; porque 
atee aos muy velhos , e muy moços efquecidos de fuás fra- 
quezas , e fazendas , parecia razam bir , e nom ficar em Por- 
tugal. E defta detriminaçam , que EIRey tomou de em toda 
maneira focorrer, e defcercar feus Fidalgos e vaflallos natu- 
raes , foy logo avifado EIRey de Feez , que por lhe ja co- 
meçar de fogir a gente de feu arrayal , efcarmentada muitas 
vezes de cruas mortes , e feridas ; e principalmente temen- 
do fua total deftroiçam , que nom podia efcufar , fe com EI- 
Rey fe vifíe em rompimento , e batalha , em vez de fazer 
afpera guerra , cometeo piedofa paz ao Capitam Aires da Sil- 
va , que com a frota em nome d'ElRey eftava. De que lhe 
enviou hum afento , perque lhe prazia dar lugar que os Chrif- 
taos cercados na Graciofa a leixalTem , e que com todalas 
armas , cavallos , artelharias , e coufas que teveflem , faiiTem , 
e fe foliem livres, e feguros; eque EIRey de Portugal lhe 
confirmaíTe a paz , que EIRey Dom Affòm ao tempo da to- 
mada d'Arzila com elle firmara. O qual afento o di&o Aires 
da Silva logo aceptou , e fobr'elle manteve aos Mouros tre- 
goa atee o noteficar a EIRey, que delle foy muy alegre , 
e contente : porque per o diclo afento de paz , nom fe tolhia 

pç* 



d'e lRe y D. Jo a 6 II. toi 

poder cercar, e tomar quaesquer Villas, e Lugares do di- 
cto Rey de Feez , que fe pêra ifíb ofereceflem • e per elle 
fem pcrygos , nem outras defpefas cobrava fua gente cerca- 
da, que ibomente ja defejava. E pêra o confirmar , e apro- 
var enviou logo Ruy de Soufa , e outros que com poderes 
que ao dicto Aires da Silva dobrou , o confirmou , e fegu- 
rou per Efcriptura , e Contrato feito em Xamez a vinte c 
iete dias d'Agoíto de mil quatrocentos , e oitenta , e nove. 
E dadas d'híia parte , e da outra feguras arrefées , os Mou- 
ros cercadores fe partiram , e os Chriítaos cercados fe re- 
colheram aa frota com falvamento de fuás pefíbas , e coufas , 
e fe vieram a Tavilla , onde ElRey , e toda fua Corte os 
receberam com muito amor , e alegria. E ElRey mandou 
co ifto defperceber a gente do Regno , e lhes agardecer fua 
lealdade , e grande trigança , e muito amor , com que fe a- 
parelhavam d'ho fervir. E de Tavilla andou ElRey com a 
Rainha, Princepe , e Duque poios Lugares do Algarve, pro- 
veendo , e remediando algúas coufas que por bem , e alfeíTe- 
go daquelle Regno , e dos moradores delle compriam , e em 
que muito aproveitou. E veeofe aa Cidade d'Evora a fete 
dias de Novembro deite anno , onde fobrevieram algus reba- 
tes de peítenença , que ElRey fofreo , e remediou por fof- 
ter , e confervar a faude da Cidade em que propofera feer 
ho recebimento, e feitas do cafamento do Princepe. 

CAPITULO XXXIX. 

Cortes fobre o cafamento do Príncipe, 

NO mes de Janeiro de mil quatrocentos , e noventa an- 
nos , foram as Cidades , e Villas do Regno percebi- 
das pêra Cortes Geeraes fobre o cafamento do Princepe , pê- 
ra que ordenava mandar , como mandou , embaixada a Caf- 
tella , pêra que também queria dos povoos ajuda de dinhei- 
ro. 



102 C H R O tt I C A 

ror As quaaes Cortes fe fezeram na dieta Cidade d'Evora a 
vinte e quatro dias de Março logo feguinte na Salla dos Pa- 
ços da Raynha , onde EIRcy com todo feu ordenado Eftado 
efteve , e ouvio perante os Grandes , e Procuradores das Ci- 
dades , e Villas do Regno , a arenga que fez o Licenciado 
Aires d'Almadaã , em que concludio , por muitas defpefas , 
e razões que alegou , que EIRey queria delles ajuda de di- 
nheiro pêra o dicto cafamento , a cual remetia a fuás boas 
vontades ,. e delcripçóes. Os quaes deípois de fobriíTo prati- 
carem , e averem feu confelho , lhe outorgaram de ferviço 
cem mil cruzados '", de que os povoos fezeram fuás reparti- 
ções antre f y , e EIRey pos os Recebedores. 

) 

CAPITULO XL. 

Nova Jujltca que EIRey mandou fazer. 

NEfte anno eftando EIRey em Évora ante da vinda da 
Princefa feendo certeficado , que em Lixboa nas cafas 
cThú Diego Piryz , Cavaleiro que fe dezia do pee , que eram 
junto com a Praça da Palha fe jugavam dados , e cartas, e 
outros jogos com que Deos NoíTo Senhor era deíTervido , e 
feu nome , e de feus San&os arrenegado , e blasfemado ; co* 
mo em tudo era Princepe mui Católico , por evitar aazo de 
tamanho mal, mandou, que com pregões dejuítiça pelo meí- 
mo cafo , folTem como foram de dia , e pubricarnente quei- 
madas a primeiro dia de Junho do dicto anno de mil qua- 
trocentos e noventa. Nefte anno de mil quatrocentos e no- 
venta , dous Negros comarquaos aa Cidade de Sam Jorge na 
Mina, fendo imygos , e tendo aprazada batalha, hú delles, 
a que pareceo fer mais razam , s'enviou femgidamente favo- 
recer ao outro com a ajuda que dezia teer certa dos Chrif- 
taos que eram na dieta Cidade , fabeendo que os Chriftãos 
antrelles fam fobre todos muito timídos, efpecialmente em 

fei- 



D' E L R E Y D. J O A 6 II. lOJ 

feitos cParmas ; e efte teve tal maneyra que a muita gente da 
fua que eram Negros , mandou timgir os roítros , e pernas , 
e braços de barro branco , e lhes mandou tomar a diantei- 
ra concertandoos em todalas outras coufas pêra mais parece- 
rem Cliriilaos \ e o outro Rey ao tempo do rompimento 
creendo que os Chriílãos vynham em ajuda de feu imigo , 
nom efperou a rota , e fem peleja fe desbaratou, e fogio com 
muito feu deíhoço , e com grande vitoria , e alegria que 
deu a feu contrairo. 

CAPITULO XLI. 

Tomada de Targa^ e Çamjce. 

^Eíte anno de mil quatrocentos , e noventa , Baraxa 
Í Mouro poderofo , e bõo guerreiro no Algarve d'Afri- 
xa tratava per manha de tomar Cepta , per ardil de Lopo 
Sanches bõo Efcudeiro que eftando nella fingio de lha dar, 
de que per fua conciencia , e lealdade avifou ElRey eftando 
em Évora. E as coufas vieram antre ambos a tanta eltreita , 
e concerto , que pareceo claro , que o di&o Mouro por creer 
que o diclo Lopo Sanchez lhe tratava verdade , íe fiava ja 
nelle , e que com hú dobrez ho poderiam dentro da Cida- 
de acolher , e calHgar no mefmo trato. Do qual ElRey en- 
carregou a Dom Fernando de Menefes , filho maior , e tam 
erdeiro que efperava feer da honrada cafa , e erança do Mar- 
ques de Villa Real feu Pay, como ja o era de fuás muitas 
bondades , e esforço de coraçam , em que ja fora per mui- 
tas vezes com louvor efperimentado. O qual defpois d'El- 
Rey co elle praticar como fe faria , e o que pêra iflb era ne- 
ceíTario , partio pêra Cepta com cinquoenta vellas , que com 
grande trigança foram bem armadas no Algarve , e providas 
de muita , e boa gente , que levaram muitos cavallos , e ar- 
mas. E diante delle foy Fernam de Pina , de quem ElRey 
muito fiava, e que do trato era participante, e fabedor • pê- 
ra 



104 Chronica 

ra no caminho o avifar da defpoíiçam dellc. E Dom Fernan- 
do chegou com a armada a Gibaltar , onde de nocle a me- 
teo fecretamente pcra o cafo com grande refguardo ; e por- 
que o trato pêra que principalmente fora , fegundo os avi- 
fos que de Fernam de Pina ouve , nom eftava em ordem , 
nem concerto pêra fe logo exuqutar , porque tanta frota nom 
podia tanto tempo eftar fecreta fem os Mouros nom fe avi- 
iarem , com que a efperança do trato principal fe perderia, 
e mais qualquer outra coufa que fe quifeíTe fazer : Acorda- 
ram o dicto Dom Fernando , e Dom António fcu irmaao , 
que era por íeu Pay Capitam em Cepta com outros Cava- 
leiros , que ho bem entendiam , que em tanto foliem dar 
na Villa deTarga que he na Coita. Pêra a qual , delpois de 
bem viíta , e efpiada , partiram bcfpera de Ramos com a di- 
cla frota , e com algus navios de Caftella , e de Cepta que 
fe a ella juntaram , ern que hiriam per todos atee dous mil 
homens , de que foomente os cento e trinta eram de cavai- 
lo. E alfi foube Dom Fernando mandar fair a gente em ter- 
ra , e poer tudo em ordenança devida , que a Villa foy en- 
trada , e fem algua refiítencia tomada ; porque os Mouros 
como ouveram vifta da frota , fabendo que hia fobr'elles , os 
mais fe acolheram logo aas ferras em que fe falvaram. E po- 
rem algus foram mortos , e cativos , e a Villa toda rouba- 
da j e queimada , e derribada pelo chaao , e aífi tallada em 
torno das arvores , e coufas principaes de fruito. E Dom Fer- 
nando acabado efte fe£lo armou Cavaleiros Dom Diego , e 
Dom Anrique feus irmãos , e também a Fernam de Pina. 
Acharamfe no porto delia vinte , e cinquo navios antre gran- 
des , e pequenos ; e na cafa da Taracena , bombardas , pól- 
vora , falitre , ancoras , muitas lanças , coiraças , capacetes , 
e outras muitas ferramentas , e almazem , que recolheram. E 
acharam trinta Chriftãos cativos , que falvaram , e trouxe- 
ram a Cepta, aalem d'outros que fe logo paliaram a Caílel- 
la , e coifto outro muito defpojo da Villa com que entra- 
ram em Cepta, Seita feira d'Endoenças com muito prazer, 

fem 



d' elRey D. João II. 105 

fem algu dos Chriftãos fcr morto , nem ferido , de que o 
di&o Dom Fernando, como bõo Capitam foy muito louva~ 
do. E porque ifto ainda nom fatisfazia aa bondade , e esfor- 
ço de feu coraçam , deíejando acrecentar no ferviço de Deos, 
c d'ElRey , e em fua honra; e também porque o trato prin- 
cipal íobre que fora hia ja perdendo efperança de concerto, 
per confulta, e acordo que fez com Dom Martinho de Tá- 
vora Capitam de Alcacer-Ceguer , e de Manuel Paçanha, 
que era Capitam de Tanger , e com os Adaís , e peíToas 
que ho bem entendiam , detriminou ir a Çamice , e deftroil- 
lo , que era lugar fem cerca, pofto nas mais fortes, e af- 
peras ferras de todo Africa, a que os Mouros por fua gran- 
de fortaleza y e muita povoaçam , e por atee entam nunca de 
Chriftãos fer cometido , nem vifto , chamavam ho Encan- 
tado. Pêra a qual coufa fe ajuntaram em Alcácer, e parti- 
ram quatrocentos de cavallo , e mil e dozentos de pee , e 
chegada ja a ora do cometimento , antre os que o melhor 
entendiam, veendo fua dobrada fortaleza, e muy perigofas 
entradas , ouve muita duvida , e nam fem caufa fe fe come- 
teria : e porem afli fouberam repartir a gente pêra cometer , 
e fegurar os perygos , que com muito esforço , e oufadia 
pofpofto todo o medo, cometeram o lugar em que acharam 
muitos lugares, e povoações , e entraram na maior Fortale- 
za, em que avia muitas, e grandes fortalezas. E nom po- 
dendo os Mouros refeftir a tam bravo , e apertado comba- 
te , muitos defempararam o lugar por fe falvarem per bra- 
nhas , e ferras ; e porem nom poderam em fim efcapar , de 
mortes , e cativeiros da gente do Chriftãos , que pêra iíTo 
logo de induftria , e boo avifo dos Capitães encavalgou , e 
fegurou primeiro a ferra. E em fim ho lugar defpois de 
roubado , ficou todo em brafas , e as cafas tam defpovoadas 
de Mouros vivos , como as ruas ficaram bem fameadas de 
mortos : e ao recolher por maao tento dos Chriftãos , e a 
terra fer muito fragofa , e de qualidade que hús aos outros 
nom fe podiam bem focorrer , morreram delles fete , e dos 
Tom. II. O Mou- 



io6 Chronica 

Mouros fegundo a verdadeira eítimaçam morreram quatro- 
centos , e feriam cativos atee cento. E co iíto recolheram 
grande cavalgada de gaados grandes , e pequenos , e egoas , 
e afnos , e muito outro defpojo de roupas , e outras muitas 
coufas ; o que todo foy em Alcácer repartido fegundo fuás 
ordenaçoens a contentamento de todos. E logo Dom Fernan- 
do fe veeo aa Corte d'ElRey 5 de que foy com muita honra 
recebido , e feu tamanho e tam honrado ferviço lhe eíti- 
mou , e agardeceo , como era razam , e elle merecia. 

CAPITULO XLII. 

Treladaça do Moefleiro de SanSios. 

NEfte anno de mil quatrocentos , e noventa , aos cinquo 
dias de Setembro fe treladou per mandado d'ERey 
ho Moeíteiro velho de Sanclos , que era em Lixboa antre Cata- 
que-faras , e a Ponte d' Alcântara , pêra o lugar onde agora 
eíta j que he Sandia Maria do Paraifo , antre ho Moeíteiro 
de Santa Clara , e o Moeíteiro de Sam Francifco d'Em-Xa- 
bregas. O qual Moeíteiro da Ordem de Santiago EIRey 
mandou ali fundar de novo , e as reliquias dos Mártires que 
no velho citavam , poítas em huma tumba dourada ; e a Co- 
mendadeira que fe dezia Violante Nogueira, Dona de mui- 
ta honeítidade ? e íingulares vertudes , e aíTi as Donas todas 
do Convento a pee foram no dicto dia levadas ao dito Mo- 
eíteiro novo , com folene prociíTam do Cabydo , Ordés , e 
toda a Clerizia da Cidade ; e hi fe manteve defpois muy 
honéítamente o diclo Convento. 



CA- 



d'elRey D. Joaõ II. 107 

CAPITULO XLHI. 

Vinda primeira do Senhor Do?n Jorge , filho d' El- 
Rey y aa Corte. 

NO mes d'Agofto de mil quatrocentos , e oitenta , e 
híi em que ElRey Dom Affom o quinto faleceo , nacco 
o Senhor Dom Jorge, que ElRey Dom Joham feendo Prin- 
cepe , e cafado , ouve de Don'Ana de Mendoça molher Fi- 
dalga , e de nobre jeraçam , ho qual por ordenança d'E!Rey 
feu Padre, foy criado em poder da ífante Dona Johana ília 
irmaa, que eílava em Aveiro, aílí publica, e honradamente 
como pertencia a filho d'ElRey. E porque nefte anno a difta 
ífante faleceo, conveo a ElRey por remediar a criaçam de 
feu filho pedir aa Rainha Dona Lianor fua molher, que fem 
algúa paixam das muitas que em feu nacimento recebera, 
quifefe confentir , que vieíTe , e fe criaíTe na Corte. E a Rai- 
nha como em todalas coufas foy fempre exempro de perfe- 
itas bondades, e grandes vertudes , efquecida j a de paixões , 
e defeontentamentos paflados , de cuja caufa fabia que ElRey 
por fua conciencia , e autoridade Real era ja muito mais ef- 
quecido ; e lembrada principalmente do verdadeiro amor, 
e inteira obediência que fempre lhe teve, prouvelhe nom foo- 
mente que o Senhor Dom Jorgo vieíTe aa Corte ; mas pedio 
a ElRey, que lho deíTe pêra o trazer , e criar em fua ca- 
fa , como por fer feu filho merecia. Do que ElRey foy muy 
alegre , polo qual mandou que o Senhor Dom Jorge vieíTe 
logo, como veeo a Évora aos quinze dias de Junho , e com 
elle o Bifpo do Porto Dom Joham d' Azevedo. Sairam a re- 
cebello fora da Cidade o Princepe feu irmaão , e o Duque 
com todolos Senhores, e Fidalgos da Corte , e em feu re- 
cebimento nom ouve algum final de feita por razam do fref- 
co falecimento da di&a ífante fua tia. E o Senhor Dom Jor- 
ge a pee q.uife.ra beijar as mãos ao Princepe , e a caval- 

O ii lo 



io$ Chkonica 

lo lhas deu , e ho abraçou , e alfi fe abraçaram co elle o Du- 
que , e ho Marques, e as peíToas de Titolo que hi eram, 
com os quaes foy logo beijar as mãos a EIRey , que entam com 
a Rainha , e com o Princepe poufavam nas cafas de Jane 
Mendes de Oliveira; porque os Paços de Sam Francifco , fe 
lavravam entam , e emnobreciam pêra a vinda da Princeza. 
È d'hi o Senhor Dom Jorge foy logo beijar as mãos da Rai- 
nha, que -com moítranças de tanta honra , e amor como nel- 
la avia de verdadeiras , e louvadas vertudes , ho recebeo , e 
recolheo com cuidado , e cargo de todalas coufas , que a fua 
Vida , eníino , e criaçam compriam ; o que fe fez em quan- 
to andou em fua cafa inteiramente, e em gram comprimen- 
to, que foy atee morte do Princepe > como fe dirá. 

CAPITULO XLIV. 

Ho fundamento, e principio do cáf amento do Princepe 

Dom Affom com a Pr ince f a Dona Ifabel, è fejlas 

que fe por elle fezeram , foy e fe feguio 

fumaria, e verdadeiramente nejla 

maneira, 

PRimeiramerite porque aas guerras paíTadas antre os Reys , 
e Regnos de Portugal , e Caftella fe deíTe fim com boa 
paz , e concórdia ; foy por ferviço de Deòs , e com fua gra- 
ça tratada concórdia, e afentada paZ perpetua per meo da 
Ifante Dona Briatiz antre os di&os Reys , e Regnos , e fo- 
ceíTores delles pêra fempre , no anno de mil quatrocentos 
fetenta , e nove ; em que pêra maior firmeza delia , foy pe- 
lo di&os Reys concertado , e jurado cafamento antre os di- 
ftos Princepe , e Princefa , que por norn ferem entam era 
hidade pêra logo de palavras de prefente poderem cafar, 
fe concordaram que foliem , como foram poftos em Ter*- 
ceria em Moura em poder da di&a Ifante Dona Briatiz. È 

def- 



D' 



>' E L R E Y D. Jo AO II. iop 

defpois por confentimento dos dictos Reys feus Padres, por 
juftas caufas que pêra iíTo teveram , fairam da dieta Terceria 
com algíías condições confervatorias de íua paz , e amifade , 
antre as quâaes , como ja atras fica, foy hua , que comprin- 
do o Princepe hidade perfeita de quatorze annos , fendo a 
dieta Princefa Dona Ifabel por cafar, que cafaíTem ambos. 
E porque a efte tempo o Princepe entrava em quinze an- 
nos , e a dieta Princefa nom era cafada , defejando EIRey de 
poer efte cafamento em obra , e bõo efeclo , como fempre 
muito defejou , pêra fe requerer , e afentar , enviou por Em- 
baixadores a Caítella , Fernam da Silveira , Coudel Moor , 
e Regedor da Cafa da Sopricaçam , e ho Do&or Joham Tei- 
xeira, Chanceller Moor , e por Secretario da Embaixada Ruy 
de Sande , que com fua Embaixada muy grande , e honra- 
damente partiram deites Regnos , no começo de Março \ e 
a requerimento da Rainha de Caítella , levaram a fegura do 
Princepe inteira , bem tirada por natural , que natural e ver- 
dadeiramente era das muy fermofas do mundo. Foram a via 
de Sevilha , onde citavam os di&os Reys , e Princefa , e o 
Princepe Dom Joham feu filho. E como os di&os Embaixa- 
dores partiram deites Regnos , logo EIRey como bòo, e 
Católico Princepe , e que todos feus cuidados , e fundamen- 
tos eram principalmente fundados no ferviço , e amor de 
Deos , enviou logo com grande devaçam muitas efmollas a 
todolos Moefteiros , e Cafas piedofas do Regno, encomen- 
•dolhes que em fuás devações , jejuns , orações , e obras me- 
ritórias , ouveíTem em lembrança o diclo cafamento , e a Deos 
pediiTem devotamente , que nelle ordenaíTe o que foíTe mais 
feu ferviço , e moor bem , paz , e aíTeíTego deftes Regnos , 
encomendandolhes que neítas devações quifeíTem aíH continoar 
atee fe veer o fim do di&o cafamento : e aíli fe fez , e çom- 
prio com muito amor , e diligencia. E o dia que foy orde- 
nado pêra os dictos Embaixadores entrarem em Sevilha per 
-provimento dos di&os Reys, foram per todolos Eítados da 
Corte, e da Cidade com tanta honra e cerimonias recebi- 
dos y 



no Chronica 

dos , quanta nunca outra Embaixada , atee entam fe recebeo 
em Efpanha ; c aflí lhes foram feftas outras honras, e favo- 
res d'apoufentamentos honrados, e prefentes , e viíitaçóes , 
que fem duvida pareciam craros íinaaes de muita gloria , e 
prazer , que com fua hida todos em geerai , e efpecial rece- 
biam. O que muito mais, e em maior comprimento fe con- 
firmou , e pareceo nas próprias peflbas Reaacs , ao tempo que 
os di&os Embaixadores lhes propoferam a di&a Embaixada , 
cuja foo e finai fuftancia era, requererem, e concordarem o 
difto cafamento , que logo fem delonga , nem duvida fe 
concordou : por bem do qual ho di&o Fernam da Silveira 
em nome do Princepe , cujo Procurador foficiente hia pêra 
o cafo em mão do Cardeal de Caftella , recebeo a Prince- 
fa por fua molher per palavras de prefente , o Domingo da 
Pafcoela aa no&e deite anno de mil quatrocentos , e noven- 
ta , em prezença dos diclos Rey , e Rainha de Caftella , e do 
Princepe , e Ifantes feus filhos , e d'outros muitos Senhores , 
que em fua Corte eram. Pêra o qual dia , e aíi pêra outros 
muitos logo feguintes fe aparelharam , e fezeram em Sevilha 
muitas, emuy fumptuofas feftas de momos, e juftas Reaaes, 
que o d i cio Rey por amor, e honra da Princefa fua filha, 
juftou , e manteve com Real comprimento. E porque EIRey 
Dom Joham era avifado do dia certo em que o diclo cafa- 
mento fe avia de fazer, por tal que em poucas oras defpois 
de feclo fe foubeífe , ordenou Efcudeiros de fua Cafa poltos 
a cavallo em paradas polo caminho , que com toda preífa 
d'hú , em outro lhe trouxeífem , como trouxeram a diclacer* 
tidam, logo aa fegunda feira feguinte ainda de dia , e lha 
deram andando na Praça da Cidade d'Evora a cavallo ? e co 
elle o Princepe feu filho , e o Duque com muitos Senho- 
res ; que defpois de ouvida , foy a ella logo refpondido com 
gritas, e alegrias de todos , a que continoaram, e ajudaram 
as coufas que na efperança daque^la ora eram ja pêra ella per- 
cebidas , .f* finos, trombetas-, bombardas, fògareeos , emra- 
mamentos de ruas, e bandeiras infladas per os muros, tor- 
res, 



d* e Jl R e r D. J o a õ II. 1 1 r 

tes , c lugares viftozos da Cidade, que em chegando a no- 
va era per EIRey mandado, que todo juntamente jogaíTe , 
e fezeíTe feu omeio. O que fe fez com tam fupeto eftron- 
do , que com elle , e com a grita juntamente , e alvoroço 
geral de toda a gente parecia verdadeiramente que a terra 
tremia. EIRey , e o Princepe defpois de logo darem por iííò 
a Deos muitas graças , e louvores , com húa aprefíada ale- 
gria fe foram decer em cafa da Rainha , onde a mefma no- 
va obrava ja com tanto , e verdadeiro prazer , quanto ella 
com todalas Damas , e Donzellas de fua Cafa com feu ale- 
gre recebimento craramente o moftraram. E defpois nom me- 
nos nas danças , e feftas , que em muitos dias , e nocles y 
nas Cafas Reaaes , e por toda a Cidade fe fezeram ; e nom 
foomente na Cidade, mas fabida a nova em todo ho Re- 
gno , fem algú avifo, nem mandado pêra íífo. E a ifto aju- 
daram muy liberal, e nobremente os Cavaleiros das Villas, 
e Lugares dos Eftremos de Caftella , os quaes acefos do ar- 
dor, e prazer deita nova fe juntavam todos, e com as Ban- 
deiras dos Lugares , de que partiam , fe vinham com mui- 
ta alegria aos confiins deftes Regnos de Portugal , e a vifta 
delles por íignificaçam que nelles eftava o Princepe cafado 
com fua Princefa primogénita , por reverença , e acatamento 
abatiam , e alevantavam muitas vezes as dietas Bandeiras , 
rogando a Deos com altas vozes por fuás vidas , fazendo por iíTo 
muitas feftas. E aa terça feira logo feguinte como amanheceo , 
EIRey , e ho Princepe , e o Duque com todolos Grandes , 
e Fidalgos da Corte • e a Rainha com fuás Donzellas , Se- 
nhoras , e Donas honradas da Corte , e da Cidade , todos 
a cavallo muy ricos, e galantes, acompanhados dos Judeus, 
e Mouros , e povoo , envencionados todos de feftas , e pra- 
zer, como pêra o cafo compria , foram ao Moefteiro de 
Saneia Maria do Efpinheiro a ouvir Miífa , e dar a Deos , 
e a ella polo fecto muitas graças; e la comeram , e fobre 
a 'tarde cem grande eftrondo de prazer fe volveram aa Ci- 
dade , em que pelas praças , e ruas , ouve convites muy abaf- 

ta- 



112 CHRONICA 

tados , e nos Paços danças, e feitas atee pela menhaa. E aa 
quarta feira logo feguinte no Terreiro dos Paços que foram 
toldados, ouve momos Reaaes , e mui ricos, a que veeo El- 
Rey com Senhores cafados , e o Princepe , e o Duque cada 
hum per fy , com feus Fidalgos , e Gentiis homés , envencio- 
nados todos , com muita graça , c gentileza , de coores , e 
devifas como pêra feus propoíitos fe requeria. E aífi ouve ou- 
tros muitos mornos de Fidalgos em grande perfeiçam , a que 
pêra danças , e feitas pareceo que a no&e minguava. E aa 
quinta feira ouve touros , e canas na praça da Cidade , a que 
EIRey , e a Rainha vieram com grande eirado , e manificen- 
çia ; e aíli fe efperava de fazer, e continoar, e cada vez em 
moor perfeiçam , fe ho no atalhara a nova da morte da Ifante 
Dona Johana que a EIRey no fervor deitas feitas , e praze- 
res foy diida ; a qual pareceo , e elle aíl a tomou , que fora 
em tal tempo porpendença de tam fobeja alegria como por 
efte cafamento tomara. E como efte cafamento fe fez em 
Sevilha , logo EIRey , e a Rainha de Caftella o noteficaram 
a EIRey , e aa Rainha de Portugal per fuás cartas , em que 
com palavras de muito amor moítraram por ifíb receber mui- 
to contentamento. E aífi efcrepveo a Princefa ao Princepe 
com aquella prudência , e honeítidade como de coraçam tam 
vertuofo, e juizo tam difereto fe devia efperar; a que por 
Moços Fidalgos , filhos de grandes homés Fidalgos foy logo 
refpondido em tudo mui conforme. E delias viíitações nunca 
de húa parte , e da outra fe deíiftio, atee a vinda da Princefa. 
E porem com todo ho fentimento da morte da Ifante Dona 
Johana no fe leixou de prover per EIRey com muito cuidado , 
confelho , e diligencia, todo ho que compria pêra a vinda da 
Princefa , que fe efperava no Outubro logo feguinte , por tal 
que feu recebimento foíTe feclo neftes Regnos com a mais 
honra, feitas, e cerimonias com que nunca outra Princefa, 
nem Rainha fora nclles recebida. E pêra ifto , logo tanto que 
EIRey foy per feus Embaixadores , certeficado que o di&o 
cafamento era fe£to, e do tempo que avia de fer confumado , 

lo- 



d'elReyD. Joáó IÍ. j 1 3 

logo ordenou de teer fempre em feus Paços cafa deputada , 
que fe chamava das feitas , de que deu principalmente cargo 
a Dom Martinho de Caítelobranco , Veedor da Fazenda , em 
que avia tanta confiança, que affi nas coufas graves, e de 
muita importância , como nas femelhantes de feitas, e prazer, 
fempre leu fifo , defcripçam , e faber, foy dos Reys a que 
fervio muy eítimado. Na qual cafa fempre eftava , e com elle 
outros Oficiaacs pêra iíTo deputados , e efcolhidos , que enten- 
diam em ordenar , maginar , e praticar aquellas coufas que 
fentiam fer convenientes , e neceíTarias pêra mais comprimen- 
to , e perfeiçam maior das feitas. Porque EIRey ordenou , e 
mandou que foíTem as maiores , e mais excelentes que fe po- 
deíTem fazer como diíTe, aíli naquellas coufas que tocavam a 
cerimonias Reaaes , que nas viíitaçóes , e recebimentos s'efpe- 
ravam , como em apoufentamentos , e em outras policias , e 
principalmente em provimento de mantimentos pêra tanta 
gente , e falia de madeira pêra banquetes , e confoadas , mo- 
mos , touros , canas , e juítas , e outros entremefes : e afy 
principalmente d'ouro , prata , e fedas pêra EIRey fazer mer- 
cees : e aíi brocados, e mais fedas, tapeçarias, cavallos , ar- 
nefes , lanças, Oficiaes de broslar , e chapar, cera, fruótas, 
confervas , efpeciarias , caças , pefcados , ginetes , jaezes , e 
todo o mais que compria. Ao qual todo fe logo proveeo com 
tempo, e afentou com detriminaçam per efcripto, e repar- 
tidos os cargos de cada coufa per aquellas peíToas do Re- 
gno que fentiam pêra ello pertencentes , e todo fe comprio 
com tanta diligencia , e abaítança , e perfeiçam ; e as feitas 
foram em tudo tam ricas , e tam Reaaes, que ja fempre em 
Efpanha feram lembradas por foos , e fem comparaçam : e 
antre as muitas coufas , que com prazer , e confentimento 
do dicto Senhor Rey acordaram , foram algúas as feguin- 
tes , que pêra memoria deitas , e exempro cToutras aqui tó- 
carey. Primeiramente EIRey per fuás cartas , e com pala- 
vras de grande confiança, amor, e prazer noteficou o di&o 
cafamcnto a todos os Prellados , Senhores , Fidalgos , e Ca- 
Tom. II. P va- 



"114 CuRONICA 

valeiros principaes de íeus Regnos , e os convidou pêra as 
feitas delle , encomendando a todos que coníigo foomente 
trouxeíTem os continos de fuás cafas , e que de fuás pefíbas , 
cafas, camas , e mefas vieíTem em toda poffivcl perfeiçam 
percebidos , por tal que com honra , e abaítança elles po- 
delTem agafalhar , e feítejar os Senhores eítrangeiros que aas 
feitas vieíTem : e a muitos efcrepveo , e encomendou que 
trouxeííem fuás molheres , como trouxeram mui ricamente 
aparelhadas. Enviou com grande deligeneia , e muita abaf- 
tança de dinheiro feus mefíegeiros per mar, e per terra , em 
Levante , e em Ponente , nom foomente a comprar os ar- 
reos , comprimentos , e coufas que pêra taaes feitas eram 
neceííareas , mas ainda pêra maior perfeiçam delias , enviou 
a noteficar a todalas gentes , e nações do mundo , que po- 
deriam trazer pêra ellas, ou enviar fuás joyas, fedas, bro- 
cados , arreos , panos , e coufas. E per Decreto , e detrimina- 
çam geral os franqueou dos dereitos que das dietas coufas 
ouvelTem de pagar, e podeíTem fem pena tirar em ouro, e 
prata o preço delias , e affi fe comprio. Enviou logo húa 
Caravella bem armada em Itália em que mandou Feitores com 
grande foma d'ouro , donde per compra trouxeram muitos, e 
mui ricos brocados, fedas, pedraria , e outros muitos com- 
primentos pêra as dietas feitas ; aíll pêra arreos , e veítidos 
das peíToas Reaaes , e pêra fuás falias , e camarás ; como pê- 
ra toda a Corte. E tanta foy a quantidade , que das dietas 
coufas fe comprou , e pêra o didto cafame«ito foram necef- 
fareas , que pêra fuás receptas que levavam nom abaftaram 
as coufas diíto feitas em Florença , Genoa , e Veneza , ef- 
pecialmente brocados, e fedas , que ainda leixaram muitos 
mais em teares, que defpois foram trazidos. E por quanto 
na Cidade de Lixboa como mais principal do Regno, por 
fua indifpoliçam de faude , e morrerem nella de peítenença 
fe nom podiam fazer as dietas feitas , nem o Princepe to- 
mar fua cafa , como EIRey por maior perfeiçam defejou , 
detriminou que fofle na Cidade d'Evora , que no Regno 

he 



d'elRey D. Joaô II. n^ 

he a fegunda. E como quer que nella havia apoufentamen- 
tos, em que E(Rey, e a Rainha, e o Princepe , e Prince- 
fa razoadamente todos fe poderam agafalhar ; porem por- 
que todalas coufas do diclo cafamento refpondeíTem em tu- 
do com grandezas , e manificencia , mandou ElRey fem em- 
bargo da grande brevidade do tempo , que pegados com os 
feus Paços de Sam Francifco fe fizeíTem , e fundaífem de no- 
vo outros apofentamentos tam perfeitos , em que bem po- 
deíTe agafalhar o Princepe , e principalmente a Princefa : e 
quiz que com diligencia de muitos Meftres , e oficiaes , e 
com dinheiro de feu Thefouro fe fopriíTe a brevidade do 
tempo , e a dificuldade da obra , o que logo afli fe fez , e com- 
prio com tanta trigança , e perfeiçam , que veendofe parecia 
impoífivel. Proveeo mais , que de Frandes , Ingraterra , Ir^ 
landa , e Alemanha vieíTem , como vieram em navios mui- 
tas , e mui ricas tapeçarias , e panos de lãa finos , e faca- 
neas , forros de martas , arminhos , e d'outras penas, e 
muita prata em pafta , cozinheiros , maniftrees altos , e 
baixos , cujo aviamento , e vynda cuftaram muito dinheiro. 
Recolheo ElRey em feu Thefouro da Corte todas as dietas 
fedas , e brocados , e panos que vieram de Itália , e alfi ou- 
tros infindos que ouve comprados das Cidades , e Feiías de 
Caftella , das quaaes coufas a feus Cof tesãos , e a outros mui- 
tos do Regno , e fora delle fez mui grandes , e muy libe- 
raes mercees. E a outros que o aíli queriam , e por lhes fa- 
zer mercee , mandava dar empreitado todo o que aviam mef- 
ter do die~k> Thefouro , e o feu Thefoureiro recebia defpois 
os pagamentos per as tenças , e defembargos que do dieta 
Senhor tynham atee dous annos, e mais nom. E os preços 
das coufas que recebiam , eram primeiro per juramento apre- 
çadas. Ordenou que a todo Fidalgo , e Cavaleiro que qui- 
feíTe juftar , folie dado cavallo , e armas de graça , de 
que ouve de muitas partes grande abaftança , e mais pêra 
ajuda da defpefa da juíta duzentos cruzados em brocados, 
e fedas no dieto Thefouro. Ordenou aos Fidalgos Gen- 

P ii tiis 



\ 



ji6 Chronica 

tiis-Homés que nom ouveíTem de juftar, e foíTem pêra dan- 
çar , e fazer momos , e fe veftirem , a delles duzentos cru- 
zados , ea outros cento , fegundo entendia que o mereciam, 
e poderiam fervir. Outro fy foy logo oorçado , e ordenado, 
por defpefa neceflarea , e principal , quanto fe poderia dar 
dè mercees , e dadivas per ElRey , e Rainha , e Princcpe 
aas peíToas de toda qualidade , que aas feftas vieíTem , aífi em 
ouro amoedado, como em colares , joyas , baixelias de pra- 
ta lavrada , brocados , fedas , panos de lãa , cavailos , e cí- 
cravos. E como quer que a todo fe provceo em muita abaf- 
tança ; porem as feftas, e comprimentos delias focederam de 
maneira que a defpefa delias coufas pafíbu muito pola orde^ 
nança , que todo fe comprio com muita grandeza, e louvor 
d'ElRey. Segurou mais ElRey por dou-s annos as rendas de 
todos aquelles que pêra defpefa das feftas as arrendaífem an- 
ticipadas , ora foíTem Eccleíiafticas , ora Seculares. Deu a 
todalas peíToas que aas diclas feftas por feu mandado vie* 
ram , efpaço d'hú arino pêra paga de fuás dividas , de qual- 
quer qualidade que foíTem ; e outr'anno aas demandas : e if- 
to nom s'entendia quando as taaes dividas , e demandas tam- 
bém tocavam a peíToas que vieíTem aas feftas ; porque em 
tal cafo efte previlegio ceifava. Proveeofe mais de muita ce- 
ra , porque pêra feftas era adiçam muy principal , e efta fé 
ouve da Berbéria , e aílí de fruitas verdes , e fecas , e tâma- 
ras , confervas , açucares, melles , manteigas , efpeciarias , e 
todalas outras deltas qualidades em muita abaftança pêra 
banquetes , e confoadas. Proveeofe nos portos do mar com 
dinheiro que la foy enviado, e por peíToas pêra iffo depu- 
tadas , que fizeflem fempre pefear todos pefeados d'eftima , 
e envialos aa Corte com toda preíTa , hús frefeos , e outros 
em confervas. Mandou que de todalas Comarcas d'arredor 
foíTem trazidas a Évora muitas camas, porque as da Cida- 
de pêra a muita gente que fe efperava , nom podiam abaftar, 
e eftas foram entregues a peíloas deputadas , que as davam , 
e defpois recolheram , por boa , e fegura recadaçam. Marr- 



. 



dou 



d'ElReyD. JoAÕ II. II7 

dou que de todalas Comarcas d'arredor foíTe trazido per con- 
tribuiçam geeral dos Lavradores muito trigo , cevada , fari- 
nhas, vacas, carneiros, e outras qualidades de mantiimen- 
tos, porque nunca faleceíTem , e fempre fobcjaíTem ; e eftas 
couías fe davam , e repartiam ordenamente , e com provei- 
to , e prazer de feus donos. Ordenou -mais que os caçado- 
res de toda forte , e pefcadores de rio daquellas Comarcas 7 
dcfpois da Princefa fer entrada em Portugal, e as feftas d u- 
raíTem , fempre continoadamente caçaílem , e pefcaíTem por 
giros , e as caças , e pefcados enviaíTem logo aa Corte per 
troteiros que eram ordenados. Ordenou mais que de todo ho 
Regno per mar , e per terra, feus Almoxerifes , e oficiaes 
mandaífem aa Corte galinhas, capões, patos, e aves infin- 
das , como mandaram ; e foy certo que as di&as aves , du- 
rando foomente as feftas , comeram mais de cem moyos de 
trigo , porque tanto fe levou em razoada conta , e defpefa 
aos oficiaaes que delias tinham cargo. Ordenou mais , que 
das partes d'orredor a Évora mais chegadas cóftrangelTem os 
Lavradores , e criadores pêra trazerem junto com ella mui- 
tas vacas, e cabras paridas pêra manjares de leite, que nos 
banquetes fe nom podiam efcufar ; e afy porcas com leitões , 
e vacas com vitelas , as quaaes coufas feus donos vendiam 
aas fuás vontades. Mandou que de todalas Mourarias do Re- 
gno vielTem aas feftas todolos Mouros , e Mouras que fou- 
beífem bailar, tanger, cantar, a cada hu dos quaes foy da- 
do mantiimento em abaftança , e em fim delias lhes foy fei- 
to mercee de veftidos finos , e dinheiro pêra defpefa dos ca- 
minhos. Foy ordenado , e comprido que dos lugares mais 
acerca vieífem aas di£las feftas , moças fermofas , que fou- 
beífem bem bailar, e cantar, que vieram com mancebos fo- 
liaães veftidos de fuás envenções ; e a todos durando ellas fe 
deu mantimento em abaftança , e aa partida mercee de di- 
nheiro , e veftidos. Foram ordenadas na Cidade cinquo pra- 
ças que de toda qualidade de mantimentos foram fempre bem 
providas , e na principal praça da Cidade foy defeíò , que 

duran- 



II 8 , C H R O N I C A 

durando as feitas fe nom vendeíTe coufa algúa , porque foo- 
mente era pêra juítas , e prazeres refervada. E por quanto 
nos Paços todos nom avia falia tam grande , em que tanta 
gente podeíTe agafalhar, mandou EIRey fazer híia de no- 
vo de madeira que per grande arteficio , e engenho d'ofl- 
ciaes fe fez na Orta de Sam Francifeo , logo pegada no 
Moefteiro cuja largua jazia Norte , e Sul , em que de 
longo avia cem covados de três palmos covado , e de an- 
cho vinte , e cinquo covados , e d'altura vinte e quatro 
covados ; e foy toda armada das paredes que eram de tai- 
pa , e eíteos , de ricos lambees , e aíli delles também tol- 
dada. Tynha a porta principal contra o Norte , e no to- 
po era fc£k> hú Eitrado Real ? que chegava de parede 
a parede a que fobiam per degraaos ; e contra o Ponente 
tynha híía porta per que fe ferviam pêra os Paços. Tynha qua- 
tro cadafalfos enveftidos nas paredes, dous de cada banda pê- 
ra maniítrees ; e hú mui grande aa mão direita da entrada pê- 
ra baftardas , e atabales ; e aa mão efquerda húa grande , 
e alta copa de muitos degraaos. E ao longo da dicla falia 
de cada banda foram fectos hús eflrados que continuavam 
atee os cabos , a que fobiam per degraaos , ao longo dos quaaes 
de cada parte , eram fedias duas grades de paao pintadas híías 
ao pee dos didtos degraaos , e outras no degrao de cima ; 
e eito pêra nos degraos que avia vazios antre a primeira , 
e a fegunda fe recolher a gente toda ? e pêra nos dous de- 
graaos que ficavam vazios antre a fegunda grade , e as me- 
ias , citarem foomente os fervidores delias que eram quator- 
ze £• fete mefas de cada banda. E no meo deites eftrados 
ao longo da dieta falia fe fazia hua rua muy ancha , e o ter- 
rado delia era argamaífado , e muy igual. E ao longo da 
falia fobre as primeiras grades eítavam per polees pendura- 
dos trinta caítiçaes fechos em cruzetas de paao pintado ; e 
em cada hú eítavam quatro tochas , e debaixo hú bacio cra- 
vado , de maneira que durando as feitas na falia , fempre 
no, aar ardiam cento e vinte tochas, aalem das com que os 

P*- 



d'e l Re y D. Jõ a o II. ii£ 

paçes ferviam , que eram fem conto. E por quanto , feen- 
do ja pêra as ditas feitas muitas , e as mais principaes def- 
pcfas fedias na dieta Cidade fobrevieram nella alguas fofpei- 
çdes de peftenença i por fe de todo fegurar feu perygo , e 
encendimenco , que de todo impediam as dietas feftas nom 
fe fazerem com aquella ordenança , e perfeiçam que era 
ordenado : acordou ÊiRey per confelho de Fiíicos , que ante 
do antrelunho de Setembro em que os aares corrutos tynhairi 
mais força , toda a gente da Cidade fe faiíTe delia como 
faio per efpaço de quinze dias. Nos quaaes EIRey andou 
fora polas Alcáçovas , e Viana , e efteve na Quintaã da Uli- 
veira, onde a primeira vez juftou d'enfaio ; e em tanto fe 
meteo na Cidade infindo gaado vacú , que nella dormia. E 
foram ordenados homes de fora , e de dentro por guardas 
delia , e das fazendas que nella ficavam , que por elía dili- 
gencia , e bom recado efteveram fempre feguras. Outro fy 
no outro antrelunho d^&ubro EIRey mandou que todolos 
eícravos negros , que na Cidade avia , todos por dez dias 
fe faiíTem, como fairam fora delia fopena de fe perderem. 
Por as quaes providencias , e principalmente pola piedade 
de Deos a Cidade fe defpos bem , pêra fem receo fe fazler/ 
nella o que eftava detriminado. 

CAPITULO XLV. 

Vinda da Princefa, 

ESeendo- afy aparelhadas , e compridas todas eftas coufas 
em Portugal , logo EIRey ho noteficou a EIRey , e aa 
Rainha de Caftella , que eram em Córdova , pêra que podef- 
fem enviar a Princefa , com a qual logo fe partiram , e per 
fuás pequenas jornadas chegaram ao lugar de Coftantina a 
dez dias de Novembro, acompanhados do Princepe feu filho , 
c dVutros muitos , e Grandes homens de feus Regnos ; e 

da- 



120 Chuonica 

dali fe defpediram da Princcfa , e nam fem muitas lagrimas 
d 3 húa parte , e da outra , com que a Princefa lhes beijou as 
mãos , e elles lhe deram fua bençam ; e d'hi fe tornaram 
a Córdova ; e a Princefa feguio fcu caminho ateé a Cidade 
de Badalhouce , onde chegou fefta feira dezanove dias do 
dicto mes. E de todalas jornadas que ella fazia, EIRey de 
Portugal era por troteiros fempre avifado ; e defpois de faber 
o dia que a Princefa avia de fer entregue em Portugal , or- 
denou , que a feu recebimento , e entrega que fe avia de fazer 
no eítremo dos Regnos , folie como foy em nome do Prin- 
cepe , e com feu poder efpicial o Duque de Beja feu tio , e 
com elle os Bifpo d'Evora , e de Coimbra , e os Condes 
de Monfanto , e Cantenhede y os quaes acompanhados de 
muitos Fidalgos , e Cavaleiros principaaes da Corte , che- 
garam a Elvas o dia , que a Princefa chegou a Badalhouce , 
todos com grande riqueza , e perfeiçam de corregimentos 
de fuás peífoas , e cafas , e íervidores. E fegunda feira 
vinte e doos dias do di&o mes de Novembro ? a Princefa 
partio de Badalhouce , e com ella o Cardeal Dom Pêro Gon- 
çalvez de Mendoça , e o Meftre d'Alcantara , e o Conde 
de Benavente , e o Conde de Feria , e Dom Pedro Portocarrei- 
ro, e o Bifpo de Jahem , e Rodrigo d'Ulhoa , Contador 
Mayor, que era ordenado Embaixador , e aífy outros mui- 
tos Cavaleiros muy ricamente aparelhados ; e com a Prince- 
fa vinham nove Damas , filhas de Grandes , e nobres homes 
de Caftella , e d'Aragam , e por fua Aya , e Camareira Moor 
Dona Yfabel de Soufa , Portuguefa ? molhei* muy Fidalga , 
prudente aíTaz , e de muy honefta vida. E o Duque faio 
d'Elvas eíTe dia , e ainda dentro em Caftella fe foy pêra a 
Princefas que ho recebeo com aquella honra , e amor que me- 
recia , por ferem primos co irmãos , e hir em nome do 
Princepe feu fobrinho como hia : e aífi vieram atee a Ribei- 
ra de Caya , que he marco de Regno a Regno ; e defpois 
de fefta ali húa arengua polo Do&or Vafco Fernandez , 
Chanceler na Cafa do Civel , aderençada aa Princefa em no- 
me 



d' elRey D. João II. 121 

me d'ElRey de Portugal , e do Regno , algus Senhores de 
Caítella , e os mais principaes fe defpediram delia , e do 
Duque, e outros muitos; leguiram logo a via d'Elvas , on- 
de a Princefa foy grandemente recebida , e apoufentada no 
Mocíteiro de Sam Domingos, onde per ordenança d'ElRey 
Dom Joham , as falias , e camarás , e camas eram todas cubertas 
de ricos brocados , e muy finas tapeçarias ; e ali foram fe- 
elos, e dados grandes prefentes de viandas aa Princefa. E 
ao outro dia terça feira vinte, e três do diclo mes, a Prin- 
cefa foy dormir a Eftremoz , onde chegou ja de nocle, e foy 
outro fi recebida , com outra arenga , e grande triumfo de 
feftas , que de muitos dias a efperavam , e afll grandes pre- 
fentes : e cm todolos lugares era levada aa Igreja logo , e 
defpois a feus apoufentamentos , com ricos paleos de broca- 
do que os Regedores, e pefíbas mais principaes ricamente 
veftidos levavam em fuás mãos , e polas torres , muros , e 
mais altos lugares das Villas eram polias muitas Bandeiras 
roxas , e brancas , que eram fuás coores , e aíli muitos tiros 
de fogo , que em entrando todos defparavam. Aqui em E£ 
tremoz foy a Princefa logo decer aa Igreja de Saneia Maria 
junto com ho Caftello , onde ho Bifpo de Vifeu Dom Fer- 
nando Gonçalvez a recebeo com folêpne prociíTam, e d'hi 
fe foy a pee com tochas a feu apoufentamento , que era a ci- 
ma da Porta do Sol , aparelhado em todo com muy ri- 
co , e alto comprimento. 

CAPITULO XLVI. 

Vinda d'ElRey , e do Princepe a Eftremoz , e do rece- 
bimento per palavras de prefente que fe fez. 

SEendo EIRey certefkado em Évora defte dia em que a 
Princefa avia de vyr a Eftremoz , porque era ja mui de- 
fçj.ofo de fua Yifta, que ainda nunca vira, detriminou deef- 
,SM II. Ct íc 



121 C.HRONICA 

fe mefmo dia a vyr ali veer aforrado, e fecreto , e trazer 
configo o Princepe , e os mais principaes homés do Regno , 
e a elles mais aceptos. Vieram todos veftidos de caminho , 
e pêra o tempo; e porem nam fem muitos brocados, chapa- 
dos, e com infindo ouro, e pedraria, e ricos forros, e tu- 
do com muita gentileza. E chegaram a Eítremoz aa ora que 
a Princefa entrava , e foramfe decer a cafa do Duque , com 
que aquclla no&e poufaram ; e dali foy logo a Princefa avi-* 
fada, que elles a queriam logo hyr ver, que por iífo ceou 
aprefíadamente , e ella com fuás Damas , e cafa , fe veftio 
como compria. E como foy tempo ERey fe foy pêra ella , 
que em pee a elle , e ao Princepe veeo eíperar no topo d'húa 
efcaada ; e em EIRey feendo cm cima , ella fe pos em giolhos , 
pêra lhe beijar as mãos ; mas EIRey com muita corteíia , e 
muita mais alegria , e amor lhas nom quis dar, e a levantou , 
e deu lugar ao Princepe , que ambos com os giolhos muy in- 
crinados , hú ao outro fe abraçaram , e fe&o efto EIRey pof- 
to aa mão ezquerda da Princefa , e o Princepe aa mão de- 
reita fe alTcntaram no Eftrado, onde EIRey teendo a Prince- 
fa per húa mão , e os olhos , e coraçam em ambos de doos , 
lhe diíTe com muita graça , deferipçam e amor , as primei- 
ras palavras que cabiam na primeira vifta de coufa em que 
tanta gloria , e contentamento recebia , e que nom menos a 
procurara , que defejara. E a Princefa que em tudo era ef- 
pelho de deferipçam , prudência , e honeítidade lhe refpon- 
deo de maneira , que acerca d'ElRey , fua Real prefença na- 
quella ora nom minguou em nada fua excellente fama paira- 
da. Acabadas eítas falias, EIRey ouve por bem , que aalem 
da folenidade do recebimento , que per Procuraçam do Prin- 
cepe fe fizera ja em Sevilha , elle em peíToa a tornalTe ali 
receber por fua molher ,como logo recebeo nas mãos de Dom 
Jorge da Cofta , Arcebifpo de Bragaa , fegundo forma, e 
Mandamento da Saneia Igreja de Roma , e fob^iflb ouve a- 
quella nocle muitas danças , e feftas ; acabadas as quaaes fe 
defpediram, e recolheram. E ao outro dia quarta feira El- 

Rey, 



d' e lR e y D. J o a 6 II. 123 

Rey , e o Princepe fe foram diante a Evorá , e a Princefa 
ja de notte com o Duque , e Rodrigo d'Ulhoa , que era Em- 
baixador , fe foram apoufcntar ao Moefteiro de Saneia Ma- 
ria do Efpinheiro, que na Igreja , e no ápoufentamento pê- 
ra todos eftava tudo. concertado em gram perfeiçam. E aa 
quinta feira logo feguinte , ElRey , e a Rainha , e o Prin- 
cepe poftos todos com toda a Corte em todo triumfo , fe foram 
ao di&o Moefteiro : e defpois de a Rainha ir veer a Prin- 
cefa que ainda nom vira , fe vieram todos aa porta do di- 
clo Moefteiro , onde per o diclo Árcebifpo lhe foram fedias 
as benções pola Igreja ordenadas ; e diffe MilTa folemne ; 
acabada a qual a Princefa fe recolheo aas cafas d'onde fai- 
ra , e ElRey , a Raynha , e Princepe fe tornaram aa Cida- 
de. E a fefta feira , e o fabado efteve ali a Princefa , que 
d'ElRcy , e do Princepe foy fempre per fuás peíToas viílta- 
da , onde ( fegundo fama ) antes de ella entrar na Cidade 
jouveram ambos , e nam fem eftranhamento d'algum pecado , 
por fer contra a honeftidade , e acatamento , que fe devia f 
e nom fe guardou aa Igreja. 

CAPITULO XLVIL 

Entrada da Princefa em Évora. 

AO Domingo vinte , e fete dias de Novembro , dia or-» 
denado pêra a entrada j e recebimento da Cidade , El- 
Rey defpois de comer acompanhado de todolos Grandes y 
e Senhores de fua Corte, e com a gente mais rica , e me- 
lhor veftida , que atee efte tempo neftes Regnos nunca fe 
vio , fe foy fem o Princepe ao diclo Moefteiro , do qual atee 
a Cidade eram muitos entremefes de Judeus , e Mouros, e 
d'outra gente popular com muitas danças , e foliaães. A Prin j 
cefa faio veftida com muita riqueza , e grande galantaria , e 
aíli todas fuás Damas , e ella pofta em húa mulla de muitos 
arreos guarnecida y ElRey fe poz aa fua mão ezquerda , e 

Q^ii affy 



124 Chkonica 

afíy guiaram caminho da Cidade. E a Princefa em caio que 
a EIRey nom levaíTe pola mão , porem porque ella em todo 
nom era menos difcreta , que cortez , tirou a luva , e da- 
quella parte. d'onde hia EIRey , fempre levou a mão dcfcu- 
berta , o que naquella ora fe julgou por louvado acatamen- 
to , e muy avifado primor. E aíH chegaram aa porta d'Avis , 
onde fe fez hua arenga , e eram poftos muitos entremefes , 
e reprefentaçòes , que reprefentavam certas fadas , e o Pa- 
raifo , e outras muitas coufas ; fecto tudo antre as portas em 
grani perfeiçam , c com muita defpefa, e maravilhozo eftron- 
do de muy fuave muíica de Cantores , e inftrumentos que 
tangiam. Ali per mandado d'E!Rey fe deceram todos , falvo 
elle , e a Princefa , e fuás Damas , e com cada húa hú Ca- 
valeiro Caftelhano : e o Duque , e o Senhor Dom Torge 
poftos a pee , cada hú de feu cabo levaram a Princefa polas 
rédeas , e aas eftribeiras hiam Condes , e grandes Senhores , 
e EIRey atou ho cordam rico , e honrado da Garrotea , aas. 
rédeas da mulla da Princefa , e per elle por mayor honra, 
também a levava. E poftos de baixo d'hú rico paleo , que 
levavam os Regedores da Cidade mais honrados , feguiram 
pola rua , que atee a See , e atee os Paços , era toda por 
cima toldada de finos panos de coores , e polas janellas , e 
portas eram poftas joyas , e tapeçarias com muitas ramas de 
louros , e larangeiras ; e na praça , e em outras partes polas 
ruas ouve muitos , e bem naturaes entremefes , e reprefenta- 
çòes ; e aíli chegaram com grande vagar aa See , onde dect* 
dos , e recebidos com folemne procilíam , defpois de faze- 
rem Oraçam , e a Princefa beijar o Lenho da Vera Cruz , 
que lhe foy oferecido , tornaram a cavalgar , e naquella orde- 
nança primeira , chegaram aos Paços ja de no£te , e aas to- 
chas. EIRey , c a Princefa fobiram logo ao apoufentamen- 
to da Princefa, onde na falia eftava ja a Rainha, e o Prin- 
cepe, e muitas Donas, e Donzellas grandes Senhoras, e tu- 
do em tanta ordem , e tam ricamente aparelhado , como 
eram todalas outras coufas , que nom podiam mais fer. Ou?- 

ve 



D' ELREY D. JoAÓ II. I2f 

ve aquella no&e ante da cea , e dcfpois grandes feitas , e 
danças , em que todalas outras coufas eram mui perfeita- 
mente ordenadas , e em que todalas peíToas Reaes , e ou- 
tros muitos dançaram com muito prazer, e alegria. E foram 
aquelle dia dozentos homens nobres veítidos de opas roça- 
gantes , de que as cento eram de ricos brocados , e chapa- 
dos , todas também ricamente forradas, e as outras cento de 
feda , outro li com ricos forros. E aa terça feira aa nocte 
ouve banquete de cea na falia da madeira , em que EIRey , 
e a Rainha , e o Princepe , e Princefa comeram em húa mefa 
do Eftrado , e nas meias dos lados , comeo na primeira da mão 
dereita o Duque , e o Senhor Dom Jorge , e o Marques , c 
a baixo delles as Donas , e Donzellas ; e na primeira da mão 
ezquerda , comeo ho Arcebifpo, e Bifpos , e Condes, e pef- 
foas principaes do Confelho , em cujo ferviço ouve afinadas 
cerimonias, e muitas, e diverfas iguarias com todo o outro 
refplandor de ricos veítidos, e baixellas , e maniítrees altos, 
e baixos. Em fim daquella cea ouve danças , e feitas que 
quafi toda a no£te duraram. E aífi fe continoaram, atee do- 
mingo cinquo dias de Dezembro , em que ouve outro fe- 
gundo banquete de muitas mais envençóes , entremefes , 
abaftanças , e gentilezas , e ainda muito melhor fervido , e 
mais rico que o primeiro, em que defpois de acabado ouve 
momos renovados, e cada vez mais ricos, e de moor gen- 
tileza , e fingulares envençóes. E nefte tempo atee o Natal 
em quanto os Juftadores s'enfaiavam , e aparelhavam as cou- 
fas pêra a Tuíta , ouve na praça da Cidade , e ante os Pa- 
ços d'ElRey, per muitas vezes muitos touros, e jogos de 
canas , momos , muficas , e feftas fem nunca ceifarem. E fe- 
gunda feira primeiro dia das Oitavas , fe pos a tea na pra- 
ça cuberta de panos roxos , e verdes , que eram as coores 
cfElRey , e nos cabos delia em maltos mui altos , fe pofe- 
ram Bandeiras muy grandes, e mui ricas das Armas de Por- 
tugal , e Caltella juntamente , que eram as da Princefa. Fez- 
fe a tavolla da madeira com grande novidade pêra o cafo na 

rua 



12 6 Chronica 

rua dos Mercadores, em forma de Fortaleza de guerra com 
feus cubos , e torres, apendoada em todo de muitas veletas de 
latam com facho cuberto de brocado , pofto muy alto pêra fe 
derribar aa entrada , e vynda dos Ventureiros, com hú ílno 
também pêra repique como em frontaria de guerreiros contrai- 
ros. E aa terça feira logo feguinte , ouve na falia da madeira, 
excellentes , e mui ricos momos , antre os quaes EIRey pêra 
defafiar a Jufta , que avia de manteer , veeo primeiro momo , 
envencionado Cavaleiro do Cirne com muita riqueza , graça , 
e gentileza , porque entrou pelas portas da falia com húa gran- 
de frota de grandes naaos, metidas em panos pintados de bra- 
vas , e naturaes ondas do mar , com grande eftrondo d'artelha- 
rias que jogavam, e trombetas , e ataballes , e maniftrees que 
tangiam , com defvairadas gritas , e alvoroços d^apitos , de fen- 
didos Meftres , Pillotos , e Mareantes veítidos de brocados , e 
fedas , e verdadeiros , e ricos trajos d'Alemães. Os toldos das 
naaos eram de brocado, e as vellas de tafetá branco, e ro- 
xo , e a cordoalha d'ouro , e feda , povoado , e cheo tudo de 
vellas f e candeas douradas acefas. As bandeiras quadradas 
<le baixo , e os Efíandartes das Gáveas eram das Armas d'EI- 
Rey , e da Princefa ; vynha diante da frota fobre agoa hú 
grande , e fermofo Cirne com as penas brancas , e doura- 
das , e após ellé na proa da primeira naao vynha o feu Ca- 
valeiro guiado delle , que em nome d'ElRey armado faio 
com fua falia , e deu a Princefa hú Breve comforme a fua 
tençam de a querer fervir nas feitas de feu cafamento ; em 
que fobre certas concrusoes d'amores , em que fe afirmou re- 
tou , e defaííou pêra jufta d'armas com o£lo manteedores , a 
todolos que o contrairo quifeíTem combater. E após iíTo per 
Reys d'Armas , trombetas , e oíRciaes ordenados pêra ilíb , 
fe pobricou em alta voz o Breve , e o defafio , e condições 
das juftas , e grados delias ; aíli pêra quem mães gentil-ho- 
mem vieíTe aa tea , como pêra quem melhor juítalfe. E após 
ifto fayo EIRey com feus momos mui ricos, e dançou com 
a Princefa , e aíli os outros feus com Damas. E logo vie- 
ram 



d'elRey D. João II. 127 

ram outros momos do Duque , e d'outros muitos Fidalgos , 
cm que com palavras , e envençam de muita ardideza , e ga- 
lantaria , com as meímas condições , accptaram , e per feus 
Breves emp renderam o defafio da juíta , e dançaram aquella 
nofte , em que ouve muitos entremeies , e feitas. E aa quar- 
ta feira o Princepe , e a Princefa com muita pompa, e gran- 
de eitado fe foram apoufentar no meo da praça , e também 
a Rainha que era mal-fentida , pêra d'hi veerem as juítas. 
E fobre a tarde partio EIRey de feus Paços , e foy tomar 
a tea com tanta Realeza , e com tantas novidades , e enven- 
ções de grandeza como nunca outrem fe vio tomar. E EI- 
Rey com feus manteedores fe foy decer aa tavola ja de no- 
éte onde cearam com elle, em mefas juntas, e apartadas. E 
aa quinta feira fez EIRey fua moítra com feus oyto mantee- 
dores , e após elle a fezeram os Ventureiros , que palTaram 
de cinquoenta , nos quaes todos em cavallos , arnefes , pa- 
ramentos , cimeiras , lanças , leteras , pages , e outras coufas 
de juíta , ouve tanta riqueza , e pêra o auto envençòes aíi 
novas, e de tanto louvor, que muitos Juftadores velhos de 
muitas Nações que hy eram , e que ja viram outras muitas 
Juítas Reaes , foram da riqueza , e envençam deitas fobre to- 
das maravilhados. E nefte dia ouve algú* começo de Juíta , e 
nom foy mais, porque fobreveeo a noite , na qual, e em 
todalas outras , a teea , e a praça com faroes , e fogareeos 
acefos foy adi crara , e alumeada , que aííi poderam fempre 
juítar como de dia. Co elte dia jultaram quatro dias conti- 
nos atee o domingo ; nos quaes ouve muitos frios , c gran- 
des neves; e porem a Juíta foy em tudo muy Real, e bem 
juítada , em que fe fezeram muitos , e maravilhozos encon- 
tros. E ao domingo por no£te fe desfez atavolla, e juítas, 
e as peíToas Reaaes fe tornaram a feus Paços, onde aquel- 
le dia ouve grandes feitas ; e pelos Juizes das Juítas fe pu- 
bricaram , c julgaram a EIRey ambos os grados , que por 
Gentil homem era hú anel com hú muy riquo diamante, e 
por melhor Juítador hum grande colar d'ouro ; c tal Senten- 
ça 



128 ÍJ C H R O N I C A 

ça nom foy injufta 3 porque aalem de EIRey vyr aa tea muy 
gentil-homem , e em maravilhofa contcncnça , elle por fer 
aquella a primeira vez que juílara , rompeeo com grande 
deeftreza as primeiras quatro lanças , que pêra o ganhar eram 
ordenadas. Mas EIRey tomou foomente pêra fy a honra , e 
o proveito dos grados repartio logo per aquclles que após 
elle entendeo que o mereciam. Após eftas Juftas eram outras 
nom menos Reaaes ordenadas na praça , e na falia da ma- 
deira ; mas por fofpeita , e -rebates de peftenença que fobre- 
vieram aa Cidade polo danofo ajuntamento de gentes que 
nella fe fazia , por perygofas fe eicufaram ; polo qual os mui- 
tos Eftrangeiros que a efte cafamento , e feitas vieram fo- 
ram defpedidos d'ElRey , com muita honra ? e grandes mer- 
eces , que a todos fegundo fuás qualidades , fez com muita 
nobreza y de que todos partiram muy alegres , e contentes. 

CAPITULO XLVIII. 

Partida d' EIRey a primeira defpois das feflas. 

EPor nom eftarem na Cidade ho antre-lunho que fobre- 
vynha , EIRey fe partio , e faio delia pêra a Erdade 
que dizem Fonte-Cuberta ; e o Princepe , e Princefa pêra 
Saneia Maria do Efpinheiro ; e a Rainha por fer doente fi- 
cou com grandes guardas na Cidade. EIRey feendo fora 
fentiofe tam mal , e d'acidentes tam mortaaes , que maginando 
fer de peftenença , ou peçonha , fem o Princepe , e Princefa 
fe tornou vefpera dos Reys aa Cidade , onde em breve foy 
logo remedeado , e fora de femelhantes maginaçóes por 
entam. Mas porque d'hi a poucos dias defpois da morte do 
Princepe , EIRey tornou logo a adoecer de mal de que ao 
diante morreo , e ouve fofpeita que fora de peçonha , ficou 
húa geeral prefunçam que nefta Fònte-Cuberta no beber lhe 
fora dada. A qual fofpeiçam nom confirmou pouco a morte 

de 



d'el j Rey D. João IÍ. jfcfjp 

de Femam de Lima feu Copeiro moor, e d'Eftevam de Se- 
queira Copeiro pequeno , que inchados , e refolutos como 
EIRey ante delle falleceram. E mais EIRey por húa molher , 
ou Religiofa de fancla vida foy avifado que fe guardaíFe 
bem de peçonha, que lhe ordenavam; e por entam defpre- 
zou EIRey feu avifo atribuindoo? a truania ; e defpois que 
fentio em fy movimentos de mal, mandou chamar a mefma 
molher; e querendo delia faber todo o particolar do que lhe 
tinha revellado , ella com muita trifteza lhe diíTe: » Que pois 
)> na primeira lhe nom dera f e , que ja entam em mais nom 
» aproveitava , que pêra fer como folTe certo , que ja tinha 
» recebida a mefma peçonha. » Polo qual EIRey fecretamente 
lhe mandou fazer mercee , e lhe defendeo que a algúa peíToa 
o nom revelaíTe : e a caufa de querer que efte fegredo fe 
guardaífe foy , que por a defconíiança , que tynha de nom fer 
tam temido , e obedecido como compria , nunca pubricamente 
o deu a entender, creendo , que pola efperança, e certidam 
de fua morte , que o povoo por iíTo averia , nom feria no> 
Regno aíí obedecido, e acatado como queria. E aos dez dias 
de Janeiro de mil quatrocentos , e noventa ehu, EIRey com 
todalas outras peíToas Reaaes, fe foy a Viana d' Alvito ; nor 
qual dia o Conde de Marialva Dom Francifco Coutinho) 
entrou na Corte , vyndo entam aas feitas que paliaram. E 
porem como Senhor, em que havia grandeza, e boa vontade 
pêra fervir , com refpe&os de mais fua honra , aa tornada; 
d'ElRey, e da Raynha a Évora, manteeve defpois na mef- 
ma Cidade ante os Paços , com. muita fua defpefa , húas hon- 
radas, e ricas Juftas , em que por nobreza ganhou entam ho; 
louvor y que por remilTam do pafíado tynha perdido. 



Tom. Ih R CA* 



i3© Cbkon IC A 

CAPITULO XL1X. 

Tornada d'EIRey a Évora com a fegunia partida ihl 

pêra Santarém. 

TOrnoufe EIRey ante do Entruido com toda a Cor- 
te aa di£ta Cidade , onde eíteveram a Corefma , e 
afli a Pafcoa , e Oitavas com momos , feitas , e grandes 
prazeres , pafíadas as quaaes , receofos da maa e enferma dcf- 
poíiçam da Cidade no Veraaõ , fe parti rom logo no May o 
pêra Santarém ; e fizeram o caminho per Monte Moor o No- 
vo , honde ouve feitas , e recebimentos de propolito. E d'hi 
correndo Montes Reaaes , e vyndo polo campo em tendas ,. 
e ramadas , e com muita manificencia e abaftança per arra- 
yaaes em que poios montes , e arvores , fempre de noite ar- 
diam muitos faroes ; e chegaram o Pinticolte a Coruche. 
Onde ie nom fezeram as feitas que eram ordenadas , por a 
morte da Marquefa de Villa Real , de que EIRey foy ali 
certeficado. E de Coruche foram a Almeirim , onde todos 
com muito prazer , e grandes defenfadamentos repoufaram 
alguns dias ; nos quaes em tanto fe fez em Santarém ho a- 
poufentamento da Corte, e fe perceberam as coufas pêra o. 
recebimento do Princepe , e Princefa , que EIRey quiz que 
fe fezeíTe , como fez , em grande perfeiçam aos quatorze dias 
do mes de Junho : no qual dia o Princepe , e Princefa fo- 
ram recebidos , e entraram na dieta Villa primeiro , que EI- 
Rey, e a Raynha. E ao palTar do Tejo ouve logo hú íingu- 
lar recebimento d'albetocas , barcas , batees , e outros navios 
muitos que pêra a dicla paíTagem foram ali vyndos, tolda- 
dos , e concertados com muita perfeiçam e riqueza : e ao fair 
d'agoa , lhes foy fecla húa arenga em nome da Vifla , aca- 
bada a qual o Princepe, e Princefa fe poferam de baixo d'hú 
rico paleo , que tynham os Regedores da Villa ^ e com gran- 

II de 



d' e l R e y D. J o a 6 II. 1 3 i 

de eftrondo de baftardas , e choromellas, e muitos tiros de 
foao , que eram poílos no muro d'Alcaçova , que por efta 
vynda foi todo apendoado , e branqueado ; e aíli todalas ca- 
fas da Villa, íinaaes todos, qne pareciam de muito prazer, 
c alegria , íeguiram pela calçada , e foram decer , e fazer 
Oraçam a Sancha Maria de Marvilla , e d J hi cavalgaram , e 
fe foram aos Paços. E appselles ao outro dia entrou El- 
Rcy , e a Raynha fem paleo , porque defpois de regnarerii 
ja nella foram com elle recebidos. E neftes primeiros dias 
ouve feitas , e pelos oficiaes da Villa , e pelos Judeus , e 
Mouros delia , fe ofFereceram aa Princefa grandes prefentes 
de vacas , carneiros , galinhas , e caças ; levado tudo em mui- 
tos carros ante o Paço com grande aparato. 

CAPITULO L. 

Morte do Princepe* 

COntinoaram em Santarém hos Senhores Reaaes em muw 
tas feitas , e grandes prazeres atee fegunda feira onze 
dias de Julho , em que EIRey , e o Princepe palTaram a Al- 
meirim a correr montes, e fe tornaram ; e aa terça logo fe- 
guinte doze dias do di&o mes , o Princepe fora de fua euf- 
tumada ordenança , ouvio MiíTa , e comeo muy familiarmen- 
te com a Princefa , e fobre repoufo d'ambos feendo ja tarde , 
EIRey mandou convidar o Princepe , fe queria hir folgar ao 
Tejo } onde polas grandes quenturas do tempo , aas vezes 
cuftumava banha rfe. Mas o Princepe polo caníTaço do dia 
paíTado dos montes , íe efeufou , pedindolhe por iflb per- 
dam com muita reverença , e acatamento , como fempre erai 
feu cuftumc. E em cavalgando EIRey dentro do Terreiro dos 
Paços , perguntando aas portas do Princepe , e Princefa por 
elles, fe deteve hú pouco, a que o Princepe deceo , ernof- 
trandofe ainda defveltido , foy honefta efeufa de o nom po- 
der acompanhar. E feendo ja EIRey no Terreiro de fora, 

R ii a 



ggjg C H ft O N I G A 

o olhou pêra trás contra os Paços , e vio ja o Princepe , e 
Princeía juntamente a húa janella ; de cuja vifta , porque fem- 
pre era mui alegre , ryndofe lhe fez fua mefura , e aballou 
adiante pêra o Tejo , caminho d'Alfanxe. E parecendo ao 
Princepe , que aquellas aprefadas moltranças d'ElRey eram 
íinaaes do defejo que tynha , de ho elle hir acompanhar, 
por lhe em tudo obedecer , e o fervir como fempre fezera , 
deceo logo , e nom achando ainda húa mulla , que mandara 
trazer, cavalgou em hu cavallo que hi tynha o feu Eftrabei- 
ro, e com pouca companhia alcançou EIRey , com que fo^ 
atee a Ribeira. Onde o Princepe apartado , porque achou 
o cavallo ligeiro , e de bom tento , começou d'andar cor- 
rendo , e efearamuçando ; e no cabo diíTo cometeo de cor- 
rer o páreo com Dom Joham de "Meneies , Comendador 
d'Aljafur. E por fer ja muito tarde , feendo pêra ifíb de to- 
dos eftorvado, prazialhe ja nom correr, e em fe mudando do 
cavallo pêra h(ia mulla em que queria cavalgar , quebraram 
os loros de hú eftribo: polo qual foy neceíTareo tornaríe ao 
mefmo cavallo, nom efquecido de toda via correr ho perfio- 
fo , e defaventurado páreo , que tynha cometido : e forçan*- 
do Dom Joham o tomou pela mão , e correndo ambos , o 
cavallo do Princepe cayndo , ho levou de baixo , de que lo- 
go , e pêra fempre ficou fem falia. E muitos Fidalgos que 
logo fobre elle ocorreram , aíTy ho ale van taram , e meteram 
hi na primeira cafa d'hú pobre Pefcador , que a trilte for- 
tuna quiz entam fazer novo Paço ; a que EIRey avifado do 
mortal defaftre , logo acodio. Sobio logo a trifte nova aa 
Raynha primeiro , a qual acompanhada foomente do Senhor 
Dom Jorge , com muita torvaçam , e defmayo fez também 
delia fabedor a Princefa ; e ambas feridas da mortal door , 
com grande defacordo , e fem ho refguardo que a fuás Reaaes 
peflbas fe devia , foos cometeram ho caminho do Tejo, a 
que acabaram de chegar em mullas alheas, que no caminho 
por cafo toparam. E afli chegaram honde jazia o Princepe, 
eme por doces, e amorofas palavras d'húa, e da outra, lo- 
go 



d' e l R e y D. J o a 6 II. 133 

go nem deípois nom fez de íi algú fentimento , eítando em 
todo quaíi amortecido. E quanta door padeceriam por tal vif- 
ta os corações Reaaes que eram prefentes , podefe muy mal di- 
zer ; pois por fua grande defaventura nom fe pode cuidar. E 
aíTy eípcrando que os vidaaes fpritos retornaíTem ao Princepe, 
eíleveram aquclla nocle em hú muy trifte íilencio , em que nom 
ouve fono , nem fome , nem outras falias , fenam de continos 
fofpiros mortacs : no leixando os Meítres de fazer todalas cu- 
ras , e remédios , em que nunca ouve remédio. E como a nova 
fe eítendeo na Villa , e em toda a Corte , que o Princepe em 
que era a vida , e a foo eíperança do Regno morria , affi efque- 
cidos , e defgoftados das cafas , e fazendas pelo veerem, fe 
ajuntaram todos onde eftava ; e veendo que os remédios dos 
homés ja lhe nom aproveitavam , focorreramfe aos de Deos , 
pedindolhe a vida pêra remédio de tantas neceflidades : para 
o que com todalas Ordeés , e Clerezia, e com Cruzes, e 
Reliquias fe fez de no&e nua muy folepne , e devota pro- 
cilTam , em que todos defcalços , e muitos nuus , com muy 
piedofas lagrimas , andaram per todalas Igrejas , e Moefteiros 
da Villa , em que continoada , e devotamente com os giolhos 
em terra , e com vozes que rompiam o Céo , deziam todos 
braadando : Senhor Deos mifericordia. E aa Ladainha que 
chorando cantavam , e por elle fe dezia , com lagrimas , e 
faluços , refpondiam todos homés , e molheres , velhos , e 
moços , e mininos : Ora pro eo. Aquella nocl:e e ao outro dia 
quarta feira , EIRey , e a Raynha , e a Princefa naquella 
pobre cafa efteveram com o Princepe trafportados todos em 
fua Angélica , e muy mudada fegura , efperando que a mi- 
fericordia de Deos retornafíe a vifta a feus olhos , ou a falia 
a fua lingoa com efperança de vida. Era ali EIRey com la- 
grimas , e palavras tam laftimador dos que o vifitavam , que 
na door , e trifteza , parecia foo , e fem companheiro ; e nom 
o podendo fofrer os que o ouviam , pelo mais nom magoa- 
rem , chorando fe defpediam delle. E feendo ja paíTadas nove 
oras defpois do meo dia, veendo os Fiíicos. que a morte 

fe 



134 C H R O N I C A 

ie apre flava a exuqutar feu officio na vida do Princepe , que 
todos velavam, e temiam- com fentença tam cruel diíFeran- 
no a EIRey , pêra que de tam trifte , e mortal nova foffe ioo 
Embaixador , e confolador da Rainha, e Princefa, pêra que 
todos três leixaíTem o Corpo do Princepe em poder do Con- 
feflbr, e Capelães que avia mefter pêra Miniftros d 5 alma. To- 
mou EIRey a Rainha pola mão , e dandolhe a trifte , e deía- 
venturada embaixada , fe foram onde em húa cama baixa o 
Princepe jazia, acompanhado da Princefa , que mui efperta- 
dos os fentidos , e muito mais do verdadeiro amor que lhe ty- 
nha , nom afaftando nunca delle os olhos , fempre ho acompa- 
nhou. E poftos EIRey e a Rainha em giolhos , e cada híí de 
fua parte , com grande anguftia de tam mortal defpedida , lhe 
tomaram , e apertaram coníigo meímo os braços , ja de todo 
caidos ; e EIRey defpois de ho beijar na face, lhe deu tam- 
bém a beijar fua mão dereita , com que pêra fempre lhe lan- 
çou fua bençam , veendolhe ja fair a alma da carne ; e a Rai- 
nha defpois de também lhe dar a fua , com muita door , e 
amor lhe deícobrio os peitos , e fobre o coraçam , que ja bem 
nom pulfava , fem fe faber, nem poder defpedir , o beijou 
muitas vezes : e aíli ambos alevantaram a Princefa, e em fe 
faindo EIRey da cafa , volvendo ainda os olhos pêra o Prin- 
cepe, e coelles cheos de muy doorofas lagrimas, diífe fem 
poder mais dizer : Hi vos fica o vqffò Princepe , meu filho. E 
ço ifto fe allevantou per todos hú muy doorofo , e defeuberto 
pranto , fem fe achar nenguem que confortaíTe. Ali fe depe- 
naram entam cabeças de muito ôfo , e arrencaram barbas de 
muita autoridade; ali nom ficou roftro de molher , que com 
as próprias mãos , e unhas cruees nom foífe esbofetado , e 
feito em fangue : em que nom ajudou com menos laítimas , 
e fentimento o Duque de Beja, que de Tomar onde eftava , 
acodio ali com tanta prelTa , como trifteza ; e de muito lhe 
doer íua morte nom era fem caufa ; porque ambos de miny- 
nos , em muito amor, e concórdia foram juntamente criados, 
tratados ,.$ fervidos como próprios irmãos. No que mui claro 

pare- 



d* elRe y D. João II. 1 35- 

pareceo , que com quanto na morte do Princepe ho Duque 
ficava foo , e legitimo erdeiro da Cafa Real de Portugal ^ 
com efpc rança de foceder tantos Regnos , e Senhorios , porem 
lua muy agardecida , leal , e humana condiçam era tal , què 
a gloria de tamanha, e tam certa íbceíTam , aquella ora lhe 
nom temperava a pena da foidofa pri vacam d'hú tam excel- 
Jcnte Princepe , e tam amado fobrinho. E logo EIRey , dali 
foy levado a pee , e a Raynha , e Princefa como mortas atra- 
veíTadas em mullas , pêra as cafas de Vafco Palha , que fam 
na mefma Ribeira , feguindo. todos nua muy efcura procif- 
fam , entoada per todos de muy doorofos gritos , e muy 
triftes lamentações. E em acabando todos de fe recolher , 
veeo a EIRey a mortal nova , que ja tynha por certa, que 
a alma do Princepe íeu filho acabando de receber a derra- 
deira unçam de todo fe defpedira da carne, E alTy acabou o 
Princepe em hidade de dezafeis annos , e vinte dias , de que 
foomente efteve cafado os fete mefes e vinte e dous dias* 
E porque a Princefa foubeffe d'ElRey efta nova primeiro -, 
bufcando elle aquella ora , em feu muy esforçado , e pru- 
dente coraçam os confortos , que fua carne * e humanidade 
avorreciam , a foy viíltar , e alevantar do chaao onde jazia , 
querendolhe dar na morte do filho , que lhe defcobrio , as- 
coníTolações de que elle tynha a maior neceífidade t mas co- 
mo em tudo era Rey , e Senhor de perfeiçam , quislhe mof- 
trar ho esforço, e defcanfo de Rey, e efconderlhe a door, 
e trifteza do Padre. E acabada efta viíitaçam da Princefa , 
com que ficou mães defconfortada , EIRey foy logo fazer 
outra tal aa Raynha , a qual polo grande amor que lhe ty- 
nha, e porque em tudo era vertuoía , Real, prudente, e 
amiga de Deos , por nom veer a fegunda , e maior perda da 
vida do Pay , pois na do filho ja nom tynha remédio , quis com 
empreitado defpejo , nom foomente darfe por confortada j 
mas muito mais por confortadora da paixam , e trifteza d'El- 
Rey , e coos olhos enxutos das lagrimas , que o defigual 
padecimento do coraçam ja fecara , dava com tudo muitas 

gra- 



$gê G H R O N I C A 

graças a Deos , e co ifto queria , mas nom acabava de' con- 
fortar EIRey. Deufe após ifto ordem como o corpo do Prin- 
cepe , foi logo metido em hu ataúde , e levado com grande 
honra , e cerimonia d'homés honrados , mas muito mais era 
a trifteza lua , e de quantos ho viam, e topavam pelos cami- 
nhos. E ali chegou ao Mocfteiro da Batalha , onde na Cala do 
Gabydo junto com EIRey D. Affõm feu Avoo foy enterra- 
do. E por linal de doo por efta perda fem comparaçam , EI- 
Rey fe trosquiou, e elle, e a Raynha veftiram os corpos de 
negro luto ? e os corações de mortal door ? e triftura. E 
a Princefa cortou os cabellos dourados que tynha , e fe 
veftiõ de trifte vafo , e almafega; e defta defaventurada li- 
vree per ordenança , e mandado d'ElRey fe cobrio todo ho 
Regno , onde em geeral , e particular polo Princepe fe fe- 
zeram faimentos com prantos públicos , e de muito fentimen- 
to ; porque verdadeiramente os moços , e mininos ho chora- 
vam por perda de Padre, e Senhor muy neceíTario , e os ve- 
lhos com verdadeiro amor de próprio filho. » Oo defejado 
» Princepe , honra , e gloria dos Regnos em que viviees , e 
» porque efpcravees , em que foidade , e door nos leixaftes 
» todos ; ca , o que de vos mais fe efquece fe lembra bem , 
» que por a Real condiçam , e perfeitas vertudes que tynhees , 
;» de bom , e legitimo herdeiro nofíb que erees, nunca ouve- 
» rees d'aver por voíTa gloria , o que a nos dera pena ; nem 
3> eftimarees por voíTo prazer , o que nos caufara trifteza ; nem 
;» procurarees de fer rico com noílas provezas ; e finalmente , 

> que nunca quiferees fer falvo fem nofla faude ; e por ifto 
5> na lembrança deites benefícios 3 que muy certos tynhamos 

> èm voíTa vida , e de que voíTa morte nos deíefperou ; fen- 
y> timos a perda de voíTo corpo, que vos ja amávamos co efta 
■» neceflídade ! Mas agora com quanto nos leixaftes defta efpe-, 
» rança gejus , amamos muito mais com fe , e amor voíTa al- 
» ma , e vofía memoria ! E vos gloriofo Rey feu Padre ja 
)» teerees bem fabido , quam vaã , quam incerta , echea d'en- 
aganos lie noffa mundana çfperança, e que hus fam noíTos 

» pro* 



D' E L R E Y D. J O A 6 II. f$f 

)> propofitos , e confclhos , e outro he o Juizo , e defpoíi- 
» çam Divina ! Híía deferença averia em vofíb coraçam na 
» Villa d'Eitremoz , quando no cabo daquelle defejado cafa- 
» mento do Princepe volTo filho, beijandovos as mãos, vos 
» pedio a bençam , e lha deites com efperança de fua vida ; e 
y> outra leria neita defaventura de Santarém , quando fem 
» vola poder pedir, lha deites pêra fempre vendolhe ja fair a 
» alma da carne : onde a gloria do dia primeiro , em vos era 
» tamanha, que pela verdes vos nom fartavees da vida; e a 
» door do fegundo de tam mortal tormento j que avorrecido 
» de viver , acufavees voíTa alma por crua , e ingrata , por 
» vos ficar no corpo , e nom fe partir com a fua ! Oo glo- 
» riofo Rey , que faltentamento tam doorofo , e pêra volTo 
» Real coraçam fobre todos tam mortal , foi verdesvos ficar 
» por erdeiro daquelle , que com tanta razam aviees por vof- 
» íb foceflor ! Outro gofto , e alegria era a voíTa , quando em 
» voíTos Regnos davees ao Princepe voflb filho as Cidades , 
» Villas , e Caítellos com rendas , e riquezas fem conto : ou- 
» tra paixam e triíteza fentiítes quando defpois recebiees a 
» trifte dote de feu cafamento ! Oo morte muy cruel , certo na 
» exuquçam deita vida natural , tu fobre todas fofte apetito- 
» fa , e de muy torto juizo , e claro pareceo ! Pois na entra- 
» da da vida acabaíte aquelle , que per vertudes excellentes 
» devera viver pêra fempre ! Oo imyga de piedade, e juíti- 
» ça ; porque ao inocente davas a pena de noíTas culpas , e 
» a nos porque matavas com fua morte ? Ao menos defpen- 
» farás algú tempo com tua crueza , pêra efperança , e reme- 
» dio de noífas neceífidades ; leixarasnos primeiro lograr , e 
» fervir aquelle , em que avia bondades tam conhecidas , que 
» em fua gloriofa , e doce efperança os homés folgavam de 
» geerar , e as molheres de conceber , mui contentes de pa- 
» rir VaíTallos pêra tal Rey , e Cavaleiros pêra tal Prince- 
» pe ! E os mortos creemos que defejavam fer vivos , e os 
» vivos que nunca morreífem , por que em fuás nobrezas , e 
» excellencias , os pequenos efperavam fer grandes , eos gran- 
ia. II. S »des 



1 3 S C H R O N I C A 

» des muy maiores. » Nem era fem razam , porque nun- 
ca algum Princepe foy hú dia em vertudes aíli acaba- 
do , como efte o foy em toda íua vida ; e por iíTo no fe de- 
ve tanto de fentir a morte d'hu Princepe , pois avia de mor- 
rer ; como he razam que fe chore a regra de bem viver de 
todolos Princepes , que nelle pareceo que fe perdeo , e aca- 
bou. A efta preíTa , e neceííidade em que no avia remédio , 
nem focorro , focorreo com muita trigança a Senhora Dona 
Ifabél Duquefa de Bragança , que a eftas triftes mudanças lo- 
go acodio : e nõ bufeando de defaventuras , e perfeguiçóes 
emxempros empreitados , nem alheos , mas com os léus pró- 
prios , e com muitas bondades , e vertudes que nella avia , 
esforçara , e confortava fempre com muito cuidado a El- 
Rey , e aa Raynha, e Princefa ; a que em fuás afriçóes mui- 
to aproveitou. Eíteveram aíi quinze dias nas cafas da Ribei- 
ra ; e d'hy húa nocle efeura , fem tochas , nem algúa clari- 
dade , fe mudaram a cima aas cafas que foram de Fernam 
Telles , aonde retraidos , e acompanhados cada vez mais de 
mais vivas doores, e paixões , foram logo vilitados dos Se- 
nhores , e Cidades principaes do Regno. E aífi d'ElRey , e 
da Rainha de Caftella , que entam eram fobre Graada , a que 
veeo Dom Anrique Anriques feu tio , e Mordomo Moor ; 
e aífi o rezeram todolos Grandes , e princepaaes daquelle 
Regno , onde também tomaram doo ; e nas Igrejas pola mor- 
te do Princepe fezeram folepnes exéquias. E requerido , e 
aconfelhado EIRey dos do feu Confelho , e por Religiofos , 
que pêra repairo de fua vida , que do Regno todo era ja 
foo , e verdadeira vida , leixaíTe ençarramentos tam aturados , 
e triftes, prouvelhe fair , e ouvir MiíTa fora. E defpois de 
cavalgar em húa mulla guarnecida , e cuberta de panno ne- 
gro groíTeiro , efteve quedo fem fe mudar , e feendo pergun- 
tado, porque efperava , elle coos olhos cheos de piedofas 
lagrimas, e com grandes faluços refpondeo : Efpero polo Prin- 
cepe meu filho , chamemno qite cavalgue comigo. E co ifto abal- 
lou renovando em fy , e em toda a Corte outro pranto maior , 

e 



d' elReyD. João II. I39 

c mais doorido. E no farto ainda de trifteza > atee que de 
trifteza morreíTe ; outro dia que logo cavalgou feendo no Ter- 
reiro de Sam Francifco , adiantoufe hú pouco , e volveo o 
roftro fobre a muita , e nobre gente que o acompanhava , e 
fem dizer nada , também íbbrefeve ; e perguntandolhe que 
queria , elle refpondeo : Queria ver o que nom vejo , que he o 
Princepe meu filho ; porque era ho meu efpelho em que me via y 
que por meus pecados me quebrou. E co iíto , e com outras pa- 
lavras laftimeiras d'ElRey nom fe achava nenguem , que atee 
com algum fengido defpejo o confortaíTe ? porque o que mais 
era dormente na door, efle parecia que com door e paixam 
morria de todo. 

CAPITULO LI. 

Mudança do Senhor Dom Jorge. 

ELRey. pola morte do Princepe , deu logo cargo do 
Senhor Dom Jorge feu filho a Dom Joham d'Almeida, 
Conde d' Abrantes \ e por fe nom efpertar mais door aa Ray- 
nha fua molher com a vifta do diclro Senhor Dom Jorge lem- 
brandolhe a morte do filho , ouve ElRey por bem , que por 
entam nom vieíTe a fua Cafa , e em cafo que ElRey com 
fundamento honefto , e vertuofo , como mais he de creer, 
ho fezeíTe ; porem a Raynha enterpretando , que por fofpeitas 
contra ella fe fezera , foy em. feu recolhimento , que El- 
Rey defpois muito procurou , tam dura , e tam contrairá , 
que recebendo d'ElRey muitos que pareciam agravos , e 
desfavores , nunca em vida d'ElRey o quis recolher , nem 
veer. O que ElRey com grande eficácia , e muito defejo 
procurava , com algúa maginaçam , e defejo que logo , e 
defpois moílrou de per confentimento de todos aquelles a 
que a reíiftencia , e contradiçam pertencia , abilitar o Senhor 
Dom Jorge pêra fua Soceífam , em prejuizo do Duque , a 
quem dereitamente pertencia. O qual como quer que por a 

S ii mui- 



I40 C H R O N 1 O A 

muita lealdade , amor , e grande obedienca , que mais que 
próprio filho a EIRey tynha , e fempre teve , foíTe de 
creer que confentiria nino , e em qualquer outra maior coufa 
que fora da vontade d'ElRey ; porem a foo e principal co- 
luna , que por bondade , e conciencia cm tantas alterações 
de tempos fempre fofteve a honra , e a vida , e eíperança 
do Duque , foy foomente a Raynha fua irmaa , que por maao 
trato , e pubricos agravos , que d'E!Rey na denegaçam de 
feus requerimentos ella receb elTe , fentindoos por fuás ver- 
tudes , mais que a morte ? nunca porem fe mudou de feu 
primeiro propoíito , cuja tamanha conftancia claramente pa- 
receo , que nom foy fem efpecial graça ? e permiíTam de 
Deos y pois ella foy caufa, que a vida do irmão, foíTe def- 
pois com titolo de Rey, e de poderofo Senhor muito fe- 
gura, e honrada, e a morte do marido com inteira, e per- 
feita falvaçam de fu'alma, como adiante fe dirá. 

CAPITULO LII. 

Say mento do Princepe. 

Cheguado o tempo do faimento do Princepe , que avia 
de fer no Moefteiro da Batalha aos vinte e cinquo dias 
d'Agofto pêra que ho Regno todo era percebido , EIRey , 
e o Duque partiram de Santarém ; e por fe evitar aa Raynha , 
e aa Princefa hum manifefto perygo , em que polo nojo , e 
trifteza palfada , e futura podiam cair , hindo ao Saimento , 
ouvefe por boo confelho , contra o defejo , e confelho del- 
ias , que ao dic"k> Saymento nom folTem ; e em lugar delias 
foram a Senhora Dona Felipa irmaa da Ifante Dona Breatiz , 
e a Duquefa de Bragança , com muitas CondeíTas 3 e Donas 
de Linhagem , e Senhoras do Regno , que foram pêra iífo 
chamadas. E de Caftella a elte Saimento veeo o Bifpo de Cór- 
dova , e ho Prior de Guadalupe. Chegou EIRey befpera do 

Sam 



d' el Re y D. Jo a 6 II. 141 

Sam Bertolameu aa Ermida de Sam Jorge , donde o Moefteiro 
da Batalha parece ; e ali começaram logo de ho receber, nam 
os entremeies d'alegria em outros tempos , nas entradas dos 
lugares acuftumados , mas com envenções de grande fentimen- 
to , e trifteza ; porque logo via o Moefteiro cuberto de gran- 
des pendões de luto , e íe lhe aprefentou mais híía alta , e 
negra Bandeira coma Cruz, e Marteiros de Noíib Senhor, 
e aalem delia , per todolos caminhos muitas Bandeiras da 
mefma coor fem armas , cuja vifta comovia a todos pêra con- 
tinoas lagrimas: E afli chegou ao Moefteiro, que d'hua Ef- 
fa muy triunfante , e de negras tapeçarias , e de todalas ou- 
tras coufas que a tal auto, e pêra taaes peflbas fe deve, era 
em todo bem guarnecido. Onde aquella tarde com efpanto- 
fos prantos, e dooridas lamentações d'ElRey , e do Duque , 
e de todolos do Regno , que ali foram juntos ( coufa que 
feria mui dcficil d'efcrepver ) , fe diferam as befperas , e ao 
outro dia MiíTa folepne , e outras infindas , e aíTy hú Sermão 
com lembranças , e rasões tam exortativas pêra choro , e pran- 
to ; que muitas cabeças que eram cheas de lifo pareciam na- 
quella ora delle vazias , vendolhas tam cruamente quebrar 
na Eira, e tumba do Princepe. E aa MiíTa maior deram em 
oíferta por fua alma EIRey , e a Raynha , e a Princefa , e 
o Duque muitas, e muy ricas coufas d'ouro e de prata, e 
ornamentos de brocado , e feda pêra a Capella. 

CAPITULO LIII. 

Partida da Princefa pêra Caftella. 

COmprida afi efta trifte , e necelTaria romaria , EIRey 
vyndo per Cafas Sandias , e devotas , fazendo pola alma 
do Princepe muitas , e muy grandes efmollas , fe tornou a 
Santarém , onde fe logo acordou , e detriminou a hida da 
Princefa pêra Caftella , pêra que Dom Anrique tio d'El- 
Rey , e o Bifpo de Córdova foram hi vindos , porque per 

con- 



142 Chroniga 

condiçam do trato do cafamento , ella em tal cafo livremente 
o podia fazer. E defpedida a Princefa da Raynha em que 
a door da morte do filho pêra hua , e do marido pêra a 
outra, mais e mais -antr'ellas fe renovou; EIRey no Setem- 
bro partio co ella , que foo hia metida em huãs andas cuber- 
tas de burel ; e chegaram a Abrantes , onde a Princeía , pro- 
veendo a coufas fuás , que ficavam em Portugal , cfteve três 
dias; e dali partio EIRey com ella ; e a duas legoas d\Abran- 
tes pelo caminho da Ponte do Soor, com muitas lagrimas , 
e poucas palavras ambos fe defpidiram : donde EIRey apar- 
tado foo per hú Soveral deu a todolos que o viam , craros 
íinaaes de dobrada trifteza. A Princefa fby dormir a Avis 
acompanhada de muitos Senhores Portuguefes , e d'hi a Oli- 
vença , onde no eftremo dos Regnos , pelo Arcebifpo de 
Bragaa , com húa breve , e prudente falia , e ao tempo con- 
forme , que primeiro fez , entregou a Princefa ao Meftre de 
Santiago, e a outros Senhores de Caftelia , que a ja efpera- 
vam. E os Portuguefes fe tornaram , falvo Dom joham de 
Menefes , Guovernador da Cafa do Princepe , que com mui- 
tos Fidalgos atee a Corte dos Reys feus Padres , per orde- 
nança d'ElRey fempre a fervio, e acompanhou. 

CAPITULO LIV. 

Hida d'ElRej/ , e da Raynha a Lixboa , logo defpois 
da morte do Princepe. 

COmo a Princefa fe foy de Santarém , logo a Raynha 
partio pêra o Moefteiro das Vertudes , e d*hi pêra 
Alanquer onde EIRey chegou ; e ambos fe foram ao Moe- 
fteiro de Varatojo ,onde em devações cfteveram algtís dias,e 
d'hy ao lugar de Colares junto com Sintra; donde EIRey 
mandou fazer em Lixboa o apoufentamento da Corte pêra 
fe la hir. E no mes d'Ott,ubro fe vieram aa Cidade pêra nella 
tirarem o burel ? que ainda todos traziam. Nom foram recebi- 
dos 



d'elRe Y D. foAO II. I43 

dos de Judeus nem Mouros , nem com trombetas ; porque 
as coufas íemeLhantes de pompa , eftado , e alegria , pola 
morte do Princepe todas ceíTaram. Tomaram o caminho da 
Mouraria , e per elle foram logo decer , e fazer Oraçam a 
Sandia Maria da Graça ; e aas Portas da Cidade , junto de San- 
eio André , por onde entraram , citavam a pee todolos ofi- 
ciaes , e Cidadaaos delia veftidos de burel com as cabeças 
cubertas ; e per hú delles lhe foy fecla huma breve falia , 
de confortos 5 e oferecimentos , cuja repofta d'hua parte , e 
da outra foram muitas lagrimas , e faluços fem algúa outra 
palavra. E apoufentandofe ambos no Paço d' Alcáçova , a Ray- 
nha foy logo veer a Camará onde parira o Princepe, e hin- 
do ja cortada de door difíe : Filho aqui onde vos naceftes , 
aqui feria razam , que eu agora morrejfe j e co efie titolo de 
Raynha tam defaventurada acabajfe ; pois perdi o nome de vojfa 
May , porque me eu avia por mais bemaventurada. E co ifto em 
fegura de morta fe leixou cair no chaão , a que EIRey , tam 
perfeguido de paixões como andava , logo acodio : e com 
remédios pêra o corpo , e muy doces palavras , e confortos 
pêra a alma a retornou. 

CAPITULO LV. 

Provifam dos Mejlrados de Santiago , e d' Avis pêra o 

Senhor D. Jorge. 

E Porque como o Princepe faleceo , logo EIRey fopricou 
ao Papa Innocencio pola Governança , e Adminiftraçam 
perpetua dos Meítrados d' Avis , e Santiago pêra o Senhor 
Dom Jorge feu filho ; eftando EIRey em Lixboa , vieram as 
Bulias pêra iflb. E foylhe dada obediência pelos Comenda- 
dores , e Cavaleiros das di&as Ordeés no Mocfteiro de Sam 
Domingos a doze dias d' Abril de mil quatrocentos , e no- 
venta e dous , onde ouvio MiíTa d'Eftado aquelle dia. Deu- 
lhe EIRey porAyo, e Governador de fua Cafa a Dom Die- 



244 Chrgnica 

go d'Almeyda , que d'hi a poucos dias per falecimento do 
Prior Dom Vafco d' Ataíde , logo foy Prior do Crato. 

CAPITULO LVI. 

Fundamento do Efprital grande de Lixboa. 

NEfte anno a quinze dias de Maio , mandou EIRey pre- 
fente fy , principiar , e fundar os primeiros aliceces 
do Eíprital grande de Lixboa na Orta de Sam Domingos, 
da avocaçam e nome de Todolos Sanótos , de baixo dos quaaes 
elle por fua mão , por honra de tam fanclo , tam grande , e 
tam piedofo Edifício, lançou muitas moedas d'ouro. Nefte 
mefmo anno EIRey Dom Fernando , e a Raynha Dona Ifa- 
bel de Caftella tomaram per Real cerco a própria Cidade 
de Graada , em que muy profperamente acabaram tam lou- 
vada y tam neceffarea, e tam gloriofa Conquiíla. 

CAPITULO LVII. 

Defcohrimento do Regno de Manicongo, e de como foy 

feSlo Chriflao. 

NEfte mefmo anno de mil quatrocentos , e noventa e 
doos , eftando EIRey em Lixboa , lhe veeo certo reca- 
do , como ho Rey de Manicongo em Guinee muito aalem 
da Mina era fe&o Chriftão ; e de como fe fez , e feu Regno , 
e Terra fe defcobrio, foy como fe fegue. Primeiramente no 
anno de mil quatrocentos , e oitenta , e cinquo , EIRey Dom 
Joham o fegundo de Portugal , cuja he a pre fente Memo- 
ria , como gram Católico , e muy folicito inveftigador dos 
fecretos do mundo , defejando profeguir o defcobrimento da 
Coita do Mar Oceano contra o Meo dia , e Oriente , que 
feus Anteceflbres de gloriofa memoria , com muita lembran- 
ça do fsrviço de Deos ? e por honra , e moor exalç amento de 

fua 



d'elRey D. João II. 145- 

fua Saneia Fe , e por acrecentamento de feus Regnos , e Se- 
nhorios , primeiro que nenhus do Mundo emprenderam , e 
começaram ; emviou fua frota o difto anno aa di£la Coita , 
armada , e provida por muito tempo , como pêra tal auto , e 
tam longua viagem compria ; e por Capitam Moor delia Die- 
go Caão feu Cavaleiro , que outra vez ja la fora também por 
feu defcobridor. O qual defeorrendo pola di£ta Cofta com 
aíTaz perygo , e dificuldade , aportou com a di&a armada ao 
diclo Regno , e Terra de Congo , que he afaHado dos Regnos 
de Portugal mais de mil , e fetecentas legoas : onde por a 
diftancia ler ja grande aalem da outra terra de Guinee , que 
ja era defeuberta , e fabida , fe nom poderam entender com 
as gentes do di£lo Regno , que acharam fem conto j com 
quanto foflem de Lingoas , e Intrepretes defvairados muy bem 
providos. O qual Capitam de induftria , e ordenança d'ElRey 
por fegurar as di&as gentes , e lhes ganhar fuás vontades, 
enviou ao didlo Rey de Congo , que era bem polo Sertaao , 
per MeíTegeiros Chriftaos hú rico prefente de coufas def- 
vairadas , noteficandolhe os homens da di£la armada ferem 
d'ElRey de Portugal, que com todo o Mundo tynha paz, 
e amizade , e aíTy mandava bufear a fua , por lhe dizerem o 
Rey que era , defejando teer com elle , e com feu Regno , 
e gentes dclle todo bòo trato , e preftança. Apontandolhe fo- 
mariamente os beés que a todos diflb fe podiam feguir. Os 
quaes MeíTegeiros foram do Rey muy honradamente tratados , 
e recebidos com tanta , e nova alegria 5 que com o prazer , 
que com lua vifta, e preguntas recebia nom os deixava par- 
tir, E creendo ja o Capitam pola grande tardança que fa- 
ziam , que deviam fer rcteudos , ou mortos , e veendo que 
os Negros da Terra fe fiavam delle , e feguramente entravam 
ja nos Navios , detriminou nom efperar os MeíTegeiros , e 
partiremfe com algús daquelles Negros ; e a£H o fez ; porque 
aquelies que fobr'ifto delle primeiro fe fiaram , e vieram aa 
frota , nom os leixou mais fair em terra , e fe veeo com elles 
pêra Portugal , nom os trazendo como cativos , mas com fun- 
Tom. II. T da- 



146 Chronica 

damento, e efperança , que defpois de aprenderem a lingoa , 
cuftumes , e tençam d'ElRey , e do Regno de Portugal , toi% 
nariam em fuás terras, e per feu rneo as coufas d'híia parte ^ 
e da outra fe podiam bem comunicar ; porque d'outra maneira , 
fegundo a diveríldade da Lingoa nora era poífivel. E porem 
ante que do di&o porto o Capitam fe partiíTe , aífi o noteficou 
aas gentes da Terra , e prometeo que ante de paflarem quinze 
Luuas , que he o modo per que antrc clles fe contam os tem- 
pos , tornaria com a Graça de Deos os que levava , ali 
donde os tomara vivos , e com muita honra , e riqueza. E 
co ifto fegurou todo aquelle tempo as vidas dos Meffegeiros 
Chriftãos , que aífi ficavam em terra. Mas com tudo o dicto 
Rey de Congo recebeo por ilTo algfi fentimento , e crecndo 
queaquillo poderia nom fer verdade , e que acabado o tem- 
po da efperança prometida , avia de mandar matar os diclos 
Çhriítãos , poÃo que d 5 antes folgava muito coelles , nom 
0s quis defpois mais veer. E com quanto os dictos Negros 
foram affi tomados pelo Capitam fora da ordenança d'ElRey, 
elle com tudo veendoos neftes Regnos folgou muito co el- 
Jes , efpecialmente porque alguíís delles acertaram de fer hc- 
■mes Fidalgos antr'elles, e principacs da Cafa do Rey , e 
de muy boa, e natural defcripçam : aos quaes mandou logo 
veftir de panos muy finos , e aífi os tratar , e honrar de to- 
dos os de feu Regno , e da Corte em muito comprimento ; 
e aífi mefmo o foram do Capitam em toda a viagem do Mar. 
E defpois de ferem per algús dias muy bem enformados de 
fan&a tençam d'ElRey pêra ferem Chriftãos, queeraolbo, 
e principal fim pêra que foram tomados , e aífi defpois de 
com toda pofibilidade lhe ferem moílradas , e reveladas as 
coufas do Regno, e a maneira de noíTa Fe, e creença , El- 
Rey ouve por bem que fe tornaflem em o dito feu Regno 
di Congo. E pêra ilfo mandou armar fua frota , pcra que 
fegundo fua ordenança ouveíTe de profeguir ho diclo defeo- 
brimento de mais terras novas , e nella fe foíTem, como fo- 
ram j e os deípedio de fy com muito gafalhado , e lhes fez 
' - : mer- 



D' E L R E Y D. J O A O II. í 47» 

mercec muy liberalmente daquellas coufas deíles Regnos ; 
em que elles tomaram mais prazer , e contentamento. E aííi 
enviou per elles ao di&o Rey de Congo fua Embaixada com 
hú prefente muy rico , e de muitas coufas boas , e finas , 
e de muita valia , e lhe enviou oferecer fua amizade , e def- 
cobrir feu defejo , que era defejar fua falvaçam, por fer dei- 
le certeficado que era Rey nobre , vertuofo , e de grande po- 
der , convidandoo com razoes , e amoeítaçóes muy fan&as, 
e de gram devaçam pêra a Fe de NoíTo Senhor ; encomen- 
dandolhe que arrenegaíTe os Idollos , e feitiçarias em que 
adoravam , e criam , e que nom creeife , nem confentiíTe a al- 
gum feu nelles creer , dandolhe pêra iílo aquellas razoens 
que chaam , e pofitivamente podeílem creer, e fe deviam dar 
pêra as elle em alguma maneira melhor entender , e fentir. 
E tudo di&o per termos aífi brandos , que elle fe nõ efcan- 
dalizaíTe per a rudeza , e idolatria em que vivia , canilTo te-; 
ve grande refguardo , e temperança. 

CAPITULO LVIII. 

Chegada dos Negros a fua Terra. 

EHo di£to Rey di Congo , e toda fua Corte , que hc 
alTaz grande , e honrada , com a viíta dos feus Fidal- 
gos , que pêra fempre aviam ja por perdidos , e cativos fem 
efperança de os veer , vendoos em abetos tam honrados, e 
retornados em tanta paz , faude , e fegurança , ouveram pri- 
meiramente todos muito prazer ? e alegria , como fe de bai- 
xo da terra os viram refufcitar. E com a nova de fua torna- 
da , de que todos defefperavam , e que logo com grande ef- 
panto fe efpalhou pelo Regno , fobrevinha tanta gente aa 
Corte , que fe nõ podia eítimar , porque eftes eram ho- 
mens nobres , e muy conhecidos. E o dicto Rey com a 
dicla embaixada , e prefente fe avia por tam bem aven- 

T ii tu- 




148 Chronica 

furado , que fe nom conhecia , e mandava chamar os gran-* 
des Senhores feus ValTallos pêra lhes dar parte de tanta glo- 
ria , fazendo aaquelles feus Fidalgos , que de Portugal foram , 
que muy amiúde em publico , e a mui altas vozes difeíTem 
das vertudes , bondades , e grandezas d'ElRey , e de feus 
Regnos de Portugal ; e a honra , e humanidade com que os 
tratava ; e as muitas , e mui grandes mercees com que os 
defpedira ; e aífi o prezente que lhe mandara : e a todos ro- 
gava em conclufam que por amor delle fe alegraífem com 
tanta fua honra , e fe fezeíTem como logo fezeram por reve- 
rença d'ElRey de Portugal muitas feitas , e prazeres fegundo 
feus cuftumes. E as palavras , e amoeftaçoes primeiras pêra 
a Fe de Jefus Chrifto Noífo Senhor, que em feu coraçam 
logo recebeo , foram acerca delle de tanta razam , devaçam , 
e eftima que aalem do publico em que folgava de as ouvir , 
ainda defpois em fecreto goftava muito de lhas dizerem mais 
largamente , e com mais circunJrancias , as quaaes per graça 
Divina lhe fezeram n'alma tamanha empreífam , que com o 
prazer que niflò levava, fofpirando ja por fua falvaçam, nom 
dava lugar que o Embaixador de Portugal , nem fua frota 
fe partiíTe , por teer razam de fempre os ouvir. E defpois 
de com muita graça, e fervor, moftrar defejo de querer fer 
Chriftam , defpidio o Capitam , e Navios , e nelles tornou a 
enviar a EIRey com fua embaixada , e prezente , Caçuta , que 
primeiro a efte Regno viera , homem muy principal , e a clle 
âcepto , que defpois de feer Chriftam ouve nome Dom Jo- 
ham da Silva , peífoa de boo natural , bóo Católico , e amigo 
de Deos. O prezente do di&o Rey de Congo pêra EIRey , 
era de dentes d'Alifantes , e coufas de marfim lavradas , e 
muitos panos de palma bem tecidos , e com finas coores. A 
fuftancia de fua embaixada foy : beijarlhe as mãos polo cui- 
dado que tevera , nom foomente de lhe honrar o corpo cm 
fua vida , mas inda por lhe coníelhar , e procurar defpois da 
morte a falvaçam pêra' alma ; e que elle em fua vontade , 
avia EIRey por tam bem aventurado , e de tanto coraçam , e 

fa- 



d'elRey D. Joaó II. 14^ 

faber , que elle avia por fua boa ventura regeríe por fuás 
Leys , e fobre fua fe fe falvar ; porque aquella , e nom outra 
devia fer a verdadeira , pois Deos nella , e pêra ella o criara ; 
e que nom podia fer, que o Criador criara coufa tam grande, 
tam boa, e tam perfeita, como elle era, pêra a condenar: 
e que por tanto nom foomente queria , por razam o dizia , 
mas que de vontade o defejava ; polo qual lhe pedia por 
merece, e requeria da parte de Deos, que com aquillo pê- 
ra que com tanto amor , e devaçam o convidara , que era 
a faneca Agoa , nom lhe tardaíTe mais ; e que pêra iíTo , pois 
a diftancia d'antr'elles era tamanha, que em pelToas fe nom 
podiam veer , e elle nom devia leixar feus Regnos em de- 
iemparo , lhe envia/Te Frades , e Clérigos , e outros Miniftros 
dos Oficias Divinos , pêra de fuás mãos elle , e os de feus 
Regnos receberem com a Graça de Deos fua Agoa de fau- 
de. E alfi lhe mandaíTe Meítres de Carpentaria, e Pedraria 
pêra fazerem Igrejas , e outras Cafas d'Oraçam , alli como 
as avia neítes Regnos : e também lhe enviaíTe Lavradores 
pêra amanfirem bois , e lhe enlinarem o proveito > e culto da 
terra. E aíu* lhe mandaíTe algíías molheres pêra enlinarem aas 
de feu Regno amaíTar pam, porque folgaria, que com toda 
pollibilidade , feus Regnos , e coufas delles fe pareceíTem por 
/ amor delle com as dos Regnos de Portugal. E aíE enviou 
dizer a EIRey outras coufas , como homem de muy natural 
prudência , e pêra auto da Chriítandade muy necellareas ; 
antre as quaes foy , que elle lhe mandava , como mandou , 
certos moços pequenos de feu Regno, os quaes lhe pedia 
por mercee , que mandaíTe logo fazer Chriftáos , e eníinar 
a leer, e efcrepver, e aprender com todo cuidado as coufas de 
nolTa Fe , por tal que efies tornando em feu Regno , per meo 
d^mbalas lingoas , e cuftumes que faberiam, poderiam a 
Deos , e a elle Rey muito fervir , e afly aproveitar a to- 
dolos de feu Regno. Com a qual Embaixada o di&o Em- 
baixador chegou a ElRey eítando em Beja no começo do anno 
de mil quatrocentos oitenta e nove y e com os requerimentos f 



ten- 



/ 



IJ© C H R O N I C A 

tençam , e propofito do dicto Rey de Congo , EIRey fúy 
tam ledo , como aquelle que começava de veer com tanta 
profperidade , e louvor de Deos , ho principal galardam de 
lua trabalhofa Conquifta , e o efeclo da efperança , que íbbre 
todo efperava. E como Rey Católico , e zelofo no amor de 
Deos, com muita devaçam lhe deu por iflb muitas graças; 
e propôs logo com fua ajuda nom defiítir de começos tam 
vertuofos , e tam meritórios , como aquelles pareciam , antes 
chegualos com fuás forças ao feu faneco , e defejado fim. E 
pêra iflb o di£to Embaixador, que ouve nome Dom Joham 
da Silva, e os de fua companhia , per fuás vontades, e com 
muita fua inítancia , foram baptizados com grande folenidade , 
e devaçam em Beja, dos quaes EIRey , e a Raynha foram 
Padrinhos , e aíli outros Senhores de Titolo. E defpois de 
feclos Chriftaos , ouve EIRey por bem que eíteveíTem , como 
efteveram , em feu Regno atee fim do anno de mil quatro- 
centos e noventa , por tal que nefte tempo nom foomente 
tomaífem melhor a Lingoa Português ; mas aprendeífem , e 
foubeílem , como fouberam perfeitamente , os Artiigos da Fe , 
e os Preceptos , e Mandamentos Divinos , e tudo o mais que 
pêra hua geeral inftituiçam compria. E chegandofeja o tem- 
po pêra que fua frota fe aparelhava , ordenou de enviar nella 
ao di&o Rey de Congo fua embaixada per Gonçalo de Soufa 
Fidalgo de fua Cafa , e Capitam Moor da frota , que era 
ajuda do dicto Rey também enviava , e com elle o di£to Dom 
Joham da Silva Embaixador ; e em fua companhia muitos Fra- 
des da Ordem de Sam Francifco, algús delles de MiíTa , e 
Leterados na Sacra Efcriptura , e homés pêra o tal auto efeo- 
lhidos, e muy pertencentes : e com elles mandou muitos, 
emuy ricos ornamentos d'Altares , de Cruzes , galhetas , caf- 
tiçaes , finos , campaynhas , capas , veíHmentas , órgãos , e to- 
dolos outros comprimentos , que fe requeriam em huma Igre- 
ja Catedral. E fobr'iíTo ante de fe partirem, EIRey teve con- 
celho com Teolegos , e Leterados , e com os mefmos Frades 
acerca da maneira, que teriam na converfam do di&o Rey, 



d'elRey D. Joaq II. 15- 1 

e nos de fcu Regno , e que princípios lhe dariam primeiro 
de noíTa Fe, porque tudo fe fezeíTe com muita temperança ; 
íbbre o qual fe formou hua grande, devota, e muy Católica 
Iníiruçam , que foy aos dí£k>s Frades entregue. E tudo pof- 
to em conclufam, e ordenado o prezente pêra o Rey , e os 
Navios preíles , partiram de Lixboa fegunda feira dezanove 
dias de Dezembro de mil quatrocentos , e noventa. E feendo 
navegados em mar junto com as Ilhas do Cabo Verde , o 
diclo Gonçalo de Soufa , Capitam , morreo de peftenença , 
porque ao tempo que partio de Lixboa, era delia trabalhada; 
e após o didlo Capitam morreo o difto Dom Joham da Silva , 
e outro moço negro ja Chriftão. As quaaes mortes por muitos 
refpeitos caufaram em todos tamanho defmaio , e confufam , 
que a gente nom fabia o que fezeíTe , porque fe viam fem 
Capitam , e fem a principal guia , e ajuda de fua viagem, 
que era o difto Dom Joham Embaixador, que das coufas de 
Portugal hia muy eníinado , e amigo , e fobrtfTo era mui bõo 
Chriftão , e tal em que fe fazia o principal fundamento da 
di&a emprefa. Mas os outros Capitães , e Meftres , e Pilotos, 
e toda a outra gente eftando fobre ancora na Ilha do Cabo 
Verde , onde vieram aportar , defpois de fobre tudo averem 
feu Confelho, conformandofe com a fan&a tençam d'ElRey, 
que era hirem toda via ao diílo Rey de Congo , efquecidos 
dos rifcos , e perygos , que no mar , e na terra em tam longa 
viagem fe lhes ofereçeífem , e encomendandoíe a Deos , dc- 
triminaram íeguir avante : e fezeram Capitam Moor da Ar- 
mada Ruy de Soufa, homem Fidalgo , e primo com irmão 
do outro Capitam. E feguindo fua Viagem , aportaram com 
muitos perygos, e trabalhos ao Rio do Padram , que he ja 
no Regno de Monicongo , e perque aviam d'hir a fua Corte. 
Efte Rio fe chama deite nome , porque fobr'elle efta pofto 
hum padram de pedra alto com húa Cruz em cima , que El- 
Rey mandava poej d'ordenança , com fuás armas , e leterei- 
ros, per todalas terras novas, que feus Capitães defcobriam , 
por tal , que íempre fe foubeíTe , que as gentes , que tal 

em- 



I£2 C H R O N I C A 

emprefa feguiam eram Portuguefcs , e da Fe de Jhefus Chrif- 
to : tudo a fim d'aver conhecimento do Prefte Joham , que 
lhe deziam fer Chriftao. E deita terra , a que aíi aportaram a 
vinte c nove dias de Março de mil quatrocentos , e noventa 
e hú , era fenhor hú Gram Senhor tio d'ElRey , e feu fogei- 
to , que fe chamava Mani-Sonho , homem de cinquoenta an- 
nos , e de boa humanidade , e faber ; o qual eftava duas legoas 
do porto , onde foy avifado da frota , e pedido que deíTe avia- 
mento como EIRey foubeíTe da fua vynda. E o diclo Moni- 
Sonho com moftranças , e finaaes de muita lcdice , veendo 
as coufas d'ElRey de Portugal , em fua lembrança , e por 
fua reverença tocou ambas as mãos no chão , e as pos fo- 
bre feu roftro ? que he final de moor acatamento que fe po- 
de fazer aos feus Reys. E defpois de faber da morte de Dom 
Joham da Silva , de que maneira , e em que lugar fora , e 
como morrera Chriftao; diíTe, que pois a morte ca, e la, 
lhe nem avia de perdoar ? que bem aventurado foíTe por tam- 
bém acabar , pois fora em ferviço de Deos , e de taes dous 
Reys : e que por fervir a memoria de tam vertuofo , e tam po- 
derofo Rey , e tam verdadeiro amigo , elle queria fazer fef- 
tas y e moftrar com fua peífoa , e de todolos feus o que mof- 
traria EIRey feu Senhor fe foíTe prefente. E pêra iífo fe ajun- 
tou logo muita gente com arcos , e frechas , e com ataba- 
ques , e trombetas de marfim , e com violas ; tudo fegundo 
íeu cuftume , muy acordado , parecia bem : vynham todos 
nuus da cinta pêra cima , e tintos na carne de branco , e 
d'outras cores , em final de gram prazer , e alegria , veftidos 
de panos de palma ricos da cinta pêra fundo , e com pe- 
nachos na cabeça feclos de penas de papagayos , e d'outras 
aves diverfas, que fazem , e lhes dam por emprefas as gentiis 
molheres. E ò Senhor trazia na cabeça htía carapuça , em que 
andava húa ferpe mui bem lavrada d'agulha , e muy natural. 
Eram prefentes as molheres dos Fidalgos , que feftejavam , 
favorecendo com grandes vozes , e prafeer feus maridos , di- 
zendo cada húa ? que o feu o fazia melhor por feryiço d'El- 

Rey 



D' ÊlReyD. JoAoII. 15:3 

Rey de Portugal , a que elles chamam Zambem-apongo , que 
antr'elles quer dizer Senhor do Mundo. E feendo Many-fonho 
requerido pêra breve defpacho dos MeíTcgeiros , lhes diíTe 
No7ti vos agajlees , porque o recado que de mini efperaaes eu 
o quero levar ao Capitam , ca n:m foomente quero veer o que 
nunca vi , nem vio homem de minha geraçam ; mas fobrè tudo 
quero feer Chrijião ; porque o Rey em que Deos pos tantas ver- 
tudes , e lhe deu tanta grandeza de coraçam , razam he , que 
eu adore no que elle adorar , e crea no que elle crer, E def- 
pois de defpedir co ifto os MelTegeiros Chriftaos fe pos no 
caminho do porto , onde eftavam os navios , acompanhado 
com três mil Archeiros , e com outro muito eíhondo de tan- 
geres , e com muitas gentes carregadas de muitos manti- 
mentos , porque naquella terra nom ha befta , nerri alimária 
que íirva de carga, falvo os horriés que fervem em tudo. E 
o Capitam fabeendo quem o diclo Many-fonho era j o faio 
a receber fora dos navios , acompanhado de boa gente dos 
Chriftãos bem armados de beeftas , lanças , e efpingardas , 
e com trombetas diante como compria ; e Many-íbnho o rece- 
beo com muita alegria , e gafalhado, e nom fe podia far- 
tar de os veer , e fallar co elles , á que mandou dar muita 
abaftança de mantimentos , e fez per ÍI muita honra. Aquel- 
la no&e foram lançados pregoes pela terra , que todos aífi 
homés como molheres , e moços rieíTem ali fob pena de mor- 
te pêra fervirem , e feftcjarcm o nome , e memoria d'ElRey 
de Portugal. E ao outro dia o Capitam lhe foy fallar , em 
que o Senhor lhe tocou muitas coufas de louvor d'ElRey , 
aquellas , que dos MelTegeiros que ouvira , tynha aprendi- 
das ; e o diclo Capitam lhe pedio , que deffem ordem como 
elle , e as coufas que trazia , foíTem levadas feguramente , e 
em breve a EIRey de Congo feu Senhor. E elle lhe refpon- 
deo : Capitam pêra fe ejlas coufas aqui mais nom deteerem fa- 
zeeme tanto bem , que primeiro me façaaes Chriftao j porque fo- 
br y iffo logo ordenar ey como fe cumpra o que requerees. E o Ca- 
pitam lhe refpondeo , que era mui contente , ç lhe Jouvava 
lom. II V mui- 



I5'4 C H R O N I C A 

minto fua tençam. E defpois de fallar coos Frades , acordaram 
de fazer, como logo fezeram com grande diligencia húa boa 
cafa de madeira cuberta de palha pêra Igreja, que per dentro 
foy concertada , e aparelhada rica , e devotamente com os pa- 
nos , e ornamentos que levavam , em que íe alevantaram três 
Altares, e Many-fonho , defpois de toda fua gente fer junta , 
que era infinda , lhes diíTe : Amigos , eu tenho por certo , que 
nom ha outros homens bem aventurados , nem mais fabederes no 
Mundo que os brancos , e na perfeiçam de fuás coufas o verees : e 
tudo i/lo teem , porque cemo cr cem no Deos verdadeiro , aj]l lhes 
da el/e fuás coufas perfeitas , e de verdade ', polo qual eu vos fa- 
ço faber que de menhaa eu me. quero tornar Chriflao , e nom me 
da , que por iffo me queiraes mal , nem bem. Ao qual todos 
refponderam : Senhor , nom vos avemos por iffo de querer mal , 
mas muito moor bem , pois fazees o que devees ; mas fazeenos 
tanto bem , que pois vos querees fer Chriflao , confintaaes que 
também o fejamos todos com vofco , porque ho Deos que vos ado- 
rardes e creerdes , effe adoraremos e creremos nos. E Many-fonho 
lhes refpondeo : Bemfey que por voffas lealdades , minha vontade 
teem muita parte nas voffas , e as voffas na minha , efpecialmen- 
te neflas coufas , em que ha tanto bem. Mas pqy agora outrem 
nom ha de fer Chriflao fenam eu , e meu filho ; ( dizendo por 
hú pequeno que hi tynha ) porque eu ainda nom fey , como El- 
Rey meu Senhor tomara , fazerme primeiro Chriflao que elle , 
ainda que creo , que a mym por feer feu tio , e mais velho , e 
por eftas coufas f anti as vyrem teer primeiro a minha cafa , o nom 
avera por mal , nem a meu filho , e fe outros mais o foffem he 
razam que o aja por mal. E hu feu filho maior , e herdeiro , 
que hi citava levantoufe , e diíTe : Senhor , e como nom fom eu 
voffo filho primeiro ? E porque nom erdarey também primeiro ef- 
fe bem , pois he maior , que o das voffas terras : pe covos que me 
leixees feer também Chriflao com vofco. E o Pay lhe refpon- 
deo , e diíTe : Filho , nom recebas pena por iffo , porque como 
EÍRey meu Senhor for Chriflao , e o Princepe feu filho , elle por 
te fazer mercee , e aos outros , a todos dará pêra iffo licença. 

É 



r>* e l R è y D. J o a o II. 15-5^ 

E todos com grandes gritas lhe bateram as palmas em final 
de .orande agardecimento , dizendo: Senhor, lembrate de nos « 
<? ^<7/ muitos fervi f os que te teemos feclos , ? /w/V í/í 7/0J* criaj- 
te , ;/í7;« 80J /í/tf/ niflo por eftr anhos ; £ cf colhendo tu feer Chrif- 
tao , por fcr o maior bem , que podias receber , nom mojlres 
denegandoo ? ^f/c w0j dejejas mal, por quanto no vi merecemos ; 
jíwx y^zto £//#/# y^/7/ 77/^0 , e com quam boas vontades , quando 
te compre ? himos por ti morref nas batalhas : por galar dam ha 
por bem , que na ley , e crença em que tu morreres , mouramos 
nos, E ajji to pedimos. E o Senhor aííl lho promcteo ; e nef- 
ta efperança todos ficaram contentes , e alegres , c todalas as 
coufas fe fezeram preftes pêra o diclo Mani-íbnho receber a 
agoa do baptifmo , dia de Pafcoa da Refurreiçam três dias 
d* Abril de mil quatrocentos , e noventa , e hum. O qual ef- 
tava aquelle dia em fua cafa acompanhado com mais de vin- 
te e cinquo mil homés , e os Frades reveftidos em todo o 
concerto , e aíli muitos outros Chriftãos , que pêra iíTo eram 
fora dos navios , fe foram da Igreja com folene , e muy de- 
vota prociíTam a cafa do diclo Senhor , e delia o levaram aa 
Igreja muy devotamente , dizendo todos mui de coraçam, 
e com muitas lagrimas de prazer : Te Deum Lauda mus, 
te Dominum confitemur. O qual veeo , e fe aífentou com 
muita gravidade , e repoufo , em hum eftrado , e com elle 
feu filho pequeno , e d'ali o levaram ao Altar Maior que 
citava com Imagês , e arreos muy devoto , e com muitas to- 
chas , e vellas acefas. E Frey Joham Miniftro dos Frades , 
reveftido de todo como pêra dizer Miífa 3 começou o oficio : 
e foy preguntado ao diclo Senhor como queria aver noitic , 
e diífe ? que Dom Manuel ; porque aíli lhe diífcram que 
havia nome o irmão da Raynha de Portugal , que era Du- 
que ; porque também elle era Duque y e fora irmão da Ray- 
nha. E ao filho chamaram Dom António. E foram feus Pa- 
drinhos o Capitam , e outros principaaes da frota. E aca- 
bado o oficio que fe fez em todo comprimento , e a que o di&o 
Dom Manoel efteve muy atento , logo lhes poferam ho óleo „ 

V ii e 



iç6 Ghroniga 

e capellos , c a tudo per meo das lingoas lhe davam as ra- 
zoes que chaamente. lhe deviam dar, iegundo cada ceufa II- 
niíicava ? de que ellc gomava , e fe avia cada vez por mais 
contente. E dentro na Igreja nom entravam os Fidalgos de íua 
Cafa , por principaes que íòflem , a qual andavam cercan- 
do, receofos do que fe fazia a feu Senhor. O qual defpois 
de fair fora da Igreja , com ho roir.ro muy alegre , e feguro 
lhes diíTc : Amigos , com quantos prazeres , e boas venturas vos 
outros fabees , que eu tenho levados em taacs , e taaes nojfas 
fejias do armo , e em taaes , e taaes vitorias de meus imigos 
que venci , que he prazer , que parece fobre todos , afrmovos , 
que com tudo nunca me achei tam ledo , nem tam moço no pra- 
zer ? como nejia ora me fento ; e louvado Jeja o Deos verdadei- 
ro a que oge me dei, pois tam afinha me paga o defejo que ja 
tenho de feer Jeu j ainda que na fua Ley nunca o JervzJJe , fe- 
nam agora com a vontade- E porque os feus olhavam os Al- 
tares , e ornamentos da Igreja , diíTelhes : Hyvos d 9 bi que atee 
nom ferdes Chrifiaos , nom merecees de verdes tam janelas cou- 
fas. E elles em voz deziam todos : Senhor lembrate de 
nos ; e pois ejte bem , que recebejle he tal que torna com pra- 
zer hos home 's moços ? como dizes, danos parte de lie. Aos quaes 
dezia : ja vos refpondi , que agora nom pojfo , nem he razam. 
E acabado iíto os diclos Frades fe tornaram em procifTam 
com o difto Dom Manuel pêra fua Cafa , dizendo todos 
Benedictus Dominus Deus Israel &c. E em a Cruz fe 
volvendo pêra a Igreja os diclos Pay ? e filho , poferam os 
giolhos em terra , e com as mãos juntas , e alevantadas ao 
Ceeo, e as cabeças defeubertas, a acataram fempre com mui- 
ta reverença atee fe recolher, e a nom viram. As quaaes cou- 
ias como paliaram , e como ja era Chriftão o di&o D. Ma- 
nuel noteficou loguo a EIRey íeu Senhor , que citava d'ali cin- 
quoenta legoas ; e EIRey lhe refpondeo logo por hú grande 
Senhor , e primo co'irmaão do Príncipe , agardecendolhe a hon- 
ra que tynha fe£ta aos Chriílaos d'ElRey de Portugal feu 
irmão , e amigo , e que fe alegrava , e folgava muito elle 

fer 






D' E L R E Y D. J O A 6 II. 15-7 

ferChiiftao, nífí como elle efperava d'ho fer, e que polo aíli 
lazer, que elle e (limava por grande, e aílínado fervi ço , lhe 
fazia como fez merece de trinta legoas de terra ao longo do 
mar, e dez d'ancho pêra o Sertaao , com todolos vaífallos , 
e rendas delia : encomendandolhe a frota, e gente delia pois 
eram de tal Senhor, a que tanto devia, e queria, e que de 
graça foiTem de todo providos , e abaftados como fe foílem 
ícus filhos. E Dom Manuel ja d'antes aíTy o fazia bem, mas / 
defpois o fez muito melhor. E no mefmo dia de Pafcoa em 
que foy Chrifíão fe fezeram grandes feitas ao íeu modo, e 
aa tarde o diclo D. Manuel fe apartou com os Frades, e 
lhe requereo que lh'enfinalTem toda a maneira que avia de 
tecr , e elle era obrigado de guardar pêra merecer fua falva- 
çam ; os quaes folgaram muito com tal confirmaçam de Fe , 
e fobr'iíFo lhe diíTeram muitas coufas da potencia de Deos , 
porque devia fer amado fobre todalas coufas, e aíli dos Ar- 
tiigos da Fe , e principalmente ho amoeilaram , que nom 
adoralTe , nem confentiífe que os Idollos em fuás terras mais 
fe adoraíTem , dandolhe pêra iflb boas , e Católicas razoes : 
nas quaes elle confentindo , e crendo , mandou , que logo 
foífem , como foram , per todolos ídolos da terra aos Alta- 
res , e Oratórios cm que os tvnham , e perante fy , e os di- 
clios Frades os fez todos queimar com grande rigor , e vi- 
toperio. E aíli compria , e guardava inteiramente todo o que 
d'hi em diante lhe diziam , que como Chriftao era obriga- 
gado a manteer. E atee entam nom lhe tynham diclo Mif- 
fa , porque as Pedras d'Ara ficavam em hu navio que nom 
chegara ainda , e como chegou , ordenaram de lha dizer mui 
folepne. E aa vefpera do dia em que havia de fer a MiíTa, 
lhe fezeram hir ouvir befperas aa Igreja, que fe concertou 
muy devotamente , e lhe diíTeram de quantas vertudes eram , 
e os louvores que fe nellas davam a Deos , com que elle 
muito folgava, e lhes agardecia muito lembraremfe do bem 
de fua alma , e lho enílnarem ; e cfteve a ellas muy pron- 
to , e foram cantadas , e com orgaaos , de que elle muito 

gof- 



I?8 C H R O N I C Á 

goítou , efpecialmente porque via que os Chriítáos efta varri 
a ellas muy devotos. E ao outro dia neíta mefma maneira 
lhe diíTeram Mifla com toda cerimonia , e citado d'oferta , 
cnçenço , e paz , e Avangclho , c com todalas outras ade- 
rências de finos, campainhas, tochas, vellas, e orgaaos , e 
tudo em tanta perfaçam , que nom foomente cm terra tam 
barbara , mas na Capella d'hu outro gram . Princepe Chrif* 
tão pareceram muy bem. E eíteve elle , e feu filho aa Mif- 
ía com muito repoufo , c pronto ; e ofereceram Reaacs de 
prata que hos Chriítáos lhe deram. E por lhe dizerem que 
era coufa que davam a Deos , a que éramos obrigados , dif- 
fe , que folgava muito de o faber , porque de todo o que 
lhe Deos defTe de fuás rendas , e tributos elle d'hi em dian- 
te , nas Igrejas que mandaria fazer lhe ofereceria. E dos 
Ofícios Divinos era aíli devoto , e contente , que a quantos 
o vinham ver , nunca em ai fallava , e rogava aos Frades 
que cada dia lhe diíTeíTem MiíTa. E no dia em que a ouvio , 
o Capitam Moor, e os outros Capitães, o convidaram pê- 
ra hú banquete de mefa alta , fervido , e abaítado , e dos 
concertos d'Efpanha ; e elle o aceptou com feu filho ho Chri- 
ítão com muito prazer ; e foy nelle bem fervido de todolos 
©ficiaes na mefa , e cafa neceíTareos , e com toda outra pom- 
pa de trombetas, Porteiros, Vecdor, e toda outra ceremo- 
nia de falvas, porque tudo olhava com grande tento, e de 
todo comeo muy bem , e com grande defpejo. E porem de 
tudo nom moftrou receber tanto contentamento , como da 
bertçam primeira da mefa , e o dar das graças a Deos na der- 
radeira que os Frades fezeram , defpois que foube o fim pê- 
ra que fe fazia , fobre que dezia coufas tam íanctas , e tam- 
bém dietas pêra noíTa Fe , como fe nella nacera , o que acre- 
centava muita devaçam nos Chriítãos. Aos quaes em fe ale- 
vantando da mefa, diffe : que da vianda que lhes ficara, e 
os Chriítáos fezeram , nom deíTem algúa a nenhú Negro por 
principal que foíTe , nem feu filho , íalvo aos Portuguefes , 
e aos Negros que de Portugal hiam ja Chriítáos. E os oflbs 

man- 



d' E L R E Y D. J O A Õ IL jfn 

mandou ajuntar, c como coufas fanctas por ferem tocadas 
de Chriitãos , mandou lançar em hum rio , avendo por gran- 
de defacatamento ferem trilhadas dos pees , pois tocaram as 
bocas dos Chriitãos. E o dia deite convite por honra, e me- 
moria da primeira MiíTa que fe nelle diíTe , mandou que d' 
hi em diante pêra fempre fob pena de morte fe guardaífe 
por dia de gram feita. 

CAPITULO LIX. 

Hida do Capitam , e Frades a E/Rey de Congo. 

DEfpois deitas coufas aíli fedias , e acabadas com muito 
ferviço de Deos , muita honra , e grande louvor d'El- 
Rey de Portugal, ordenou o dicto Dom Manuel, como o 
Capitam , e os Frades , e a outra gente foflem com fua em- 
baixada , e coufas a EIRey feu Senhor. As quaes fe fezeram 
logo preítes com muita trigança , e bõo aviamento : e defpois 
de o Capitam leixar os Navios a bõo recado , partio per terra 
com dozentos negros j que ferviam de levar as coufas , a fora 
outra muita gente pêra fegurança delias , e em que levavam 
muitos mantymentos. E fendo em caminho lhe veeo hú Fi- 
dalgo d'ElRey com feu recado , alegrandofe com fua vynda , 
e com mandado geeral , que aos Chriitãos em feu Regno 
fobpena de morte , fe deífe. de graça , quanto quifeíTem ; e 
aíli fe comprio inteiramente ; porque eíte he o Rey daquel- 
las terras mais temido , e aífy mais amado , e obedecido. E 
co cita licença os negros da companhia faziam aos outros das 
terras muito mal , tomandolhe muitas coufas demaíladas , e 
com tudo nom avia quem fe agravaíTe , nem foomente mof- 
trar roítro de defcontentamento. E feendo ja juntos com a 
Corte d'ElRey veeo a elles outro Senhor , feu grande pri- 
vado com muitos mil zímbos , que he fua moeda, os quaes 
fam cafcas pequenas , e alvas de marifco , que fe acham no 
mar fectos como caramujos , e fam delles , e de todolos da 

ter- 



i6o Chronioa 

terra tam eftimados , como moeda d'ouro , ou prata; de que 
naquella Terra nom ha ufo, nem conhecimento: e aíli lhes 
fez trazer muitos carneiros , cabras , farinha de milho , gali- 
nhas , mel , vinho de palma , e fruitas , e outras coufas pêra 
feus mantiimentos ; e do porto atee a Corte fe dereveram 
vinte e três dias , em que ha jornada cinquoenta legoas como 
fe diíTe. 

CAPITULO LX. 

Entrada dos Chrijíaos na Corte d'E/Rey Moní-Congo. 

HO dia que os Chriftaos entraram na Corte , foram de 
gentes fem conto recebidos, e com grandes eítrondos, 
e foram logo apoufentados em húas caías grandes honradas , 
e novas providas em tudo , do que pêra elles compria. E o 
modo do recebimento foy , que ElRey enviou pêra o Capi- 
tam , e Frades muitos ge.entiishomés cortesãos feclos momos 
em muy defvairadas maneiras , c após elles infindos Archeiros , 
e dcfpois Lanceiros , e afy outros com outras bifarmas de 
guerra , e aíTy molheres fem conto todas repartidas em bata- 
lhas , e com muitas trombetas de marfim , e atabaques , e ou- 
tros muitos eílormentos , cantando todos muitos louvores d* 
ElRey de Portugal , e reprefentando fuás grandezas com mui- 
ta alegria. E nefta ordenança chegaram ante ElRey, que el- 
tava em hú Terreiro de feus Paços , acompanhado de gentes 
fem conto , e pofto em hú eftrado rico ao feu modo , nuu da 
cinta pêra cima, com húa carapuça de pano de palma lavrada, 
e muito alta poíta na cabeça , e ao hombro hú rabo de cavallo 
guarnecido de prata, e da cinta pêra baixo cuberto com hús 
panos de damafeo, que lhe ElRey tynha mandados , e no braço 
czquerdo hú barcelete de marfim. E o Capitam de Portugal 
chegou a elle , c lhe beijou a mão , e lhe fez as cerimo- 
nias d'Efpanha , e lhe deu as encomendas d'ElRey , e aíTy 

lhe 



I)' E L R E Y D. J O A Ó II. I 6 1 

lhe diíTe : de fua parte outras coufas , com que Moni-congo 
moArava receber grande alegria. E em íinal d'agardecimen- 
to , tomou terra nas mãos , e a correo pelos peitos do Ca- 
pitam , e defpois pelo feus delie mefmo Rey , que he ho 
moor acatamento , que o Rey fegundo feu Eftado , e coítu- 
me pode fazer. E fobr'iíto todolos de fua Corte andavam 
em grandes feitas , alevantando todos as mãos contr'o mar, 
como que moítravam Portugal , dizendo com grandes gritas : 
Viva o Rey , e Senhor do Mundo ; e Deos ha acrecente , pois 
he tam boo , e tam amigo à* EIRey nojfo bem e Senhor. E def- 
pois de muitas feitas paífadas , o diclo Rey defpedio o 
Capitam com grandes honras , dizendo , que por entam a- 
quella viíta abaitava , porque defpois ho ouviria em fecreto , 
e mais compridamente. Como o Capitam , e Chrifíaos def- 
canfaram do caminho , tornaram per prazer d 3 E]Rey com 
fuás coufas a elle, poftas todas em limpeza , e boa ordenan- 
ça ; e aíTy as poferam em húa cafa dos Paços grande , fer- 
mofa , e toda lavrada , e tecida de laços defvairados de pal- 
mas de muitas coores , a que EIRey logo veeo acompanha- 
do de certos , e poucos Fidalgos feus privados , e Grandes 
Senhores , e homés , que fegundo a certidam que fe dava po- 
dia cada hú fervir EIRey com cem mil homens. Foramlhe 
logo moítrados os ornamentos, e coufas da Igreja, e cada 
hú por fy , com que moftrava receber tanta alegria , e pra- 
zer, que muitas vezes fe alevantava do eítrado , e abraçan- 
do o Capitam o alevantava nos braços , fazendo moítranças 
de o querer em nome d'ElRey meter n'alma ; dizendo íb- 
br^íTo coufas , com que craramente parecia , que fe avia por 
o mais bem aventurado Rey do Mundo. E com quanto elle 
tynha feus Regnos , e Senhorios pelos maiores de que nun- 
ca ouvira fallar, que entam lhe pareciam muito pequenos pê- 
ra pagar , e fervir a EIRey de Portugal tamanha mercee y 
e honra como delle recebia. E defpois de bem moítradas as 
coufas da Igreja , o di&o Capitam lhe ofereceo todolas ou- 
tras , que EIRey a feu requerimento lh'enviava .f* logo os 
Tom. IL X pe- 




162 Chronica 

pedreiros , e carpinteiros , e defpois as molheres Chriítãas , 
e des y os lavradores , com todos feus aparelhos , e ferramen- 
tas , e defpois hú cavallo fellado , e enfreado ; e aíli lhe fo- 
ram logo oferecidas , e dadas as coufas do prefente , que lhe 
EIRey enviava pêra fua peíToa .f brocado em peça rico de 
pelo , e rafo , e muitos panos de feda , e velludos cremeíiins , 
e d'outras muitas coores , e çatiis y e damafcos , e efcarla- 
ta , e olanda em peças , e aíli rabos de cavalo guarnecidos 
de prata, que elle fobre tudo eftimava , em efpecial hús que 
hiam hi ruços , e afli chocalhos grandes , e outras muitas cou- 
fas delta calidade. E o Capitam lhe dilTe : Senhor , eftas cou- 
fas te manda EIRey meu Senhor , teu amigo , que fam as de 
que ha muitas em feus Regnos , e cem que entendeo que averias 
prazer. E mais lhe deu veftidos feclos ricos , e muy bem 
lavrados , dizendolhe : Eftes veftidos te manda também , que 
fam os de que fe vefte , pêra que os tragas por feu amor , ain- 
da que eftas coufas lhe nom mandajfes pedir. E EIRey efpan- 
tado da riqueza , e novidade delias refpondeo : Eu nom pof- 
fo receber coufa de tal Rey , que nom mereça d? andar dentro 
nos meus olhos , e no meu coraçam , quanto mais fobre meu cor- 
po , que ateegora cuido que foy fempre morto. E fobre tudo o 
dicío Capitam lhe ofereceo a fy mefmo , com toda a frota 
d'ElRey , e gente delia , pêra que de todos fe ferviíTe , e 
em todo o que foíTe honra fua, e ferviço, atee todos mor- 
rerem , porque aifi o trazia por mandado. E o diclo Rey 
a cada coufa que o dicto Capitam lhe oferecia em nome 
cPElRey , com muito prazer , e alegria fe abaixava , e to- 
cava a terra com as mãos , c as punha fobre feus peitos. 
E defpois de tudo recebido , dizia contra feus Fidalgos : 
Certamente o Rey , em que tanta nobreza , tanta bondade , e 
tanta vertude ha y efte fio he o Senhor do Mundo , e merece 
d'ho fer j e neftas coufas o começarees de ver ; porque a mim 
que fom Rey de tam longas terras , e que elle nom ha mefler 
pêra nada , foomente porque hua foo vez fe deu por meu ami- 
go , fem lho teer merecido P nem poder nunca merecer , me focor- 

reo * 



D* E LRE Y D. Jo AO II. l6 f 

reo , e mandou todo o que lhe mandei -pedir \ e tudo tam intei- 
ramente como veedes \ que fará a outros que o mais Jervem , e 
poderem fervir ? E os Fidalgos lhe deziam : Certo Senhor , tu 
lhe deves muito , e fuás obras que veemos ante no ff os olhos o mof- 
tram , e te obrigam , e nom [oomente a ti , mas a nos todos os 
de teu Regno que amamos a ti , e a tua honra. E feclo ifto o 
à'i£io Rey mandou chamar fora muitos Fidalgos , e outra mui- 
ta gente de fua Corte , a que per íi mefmo moítrou as di&as 
coufas, de que todos nom recebiam menos prazer, que efpan- 
to, dizendo o diclo Rey fobr'iíTo muitas coufas, e bem di- 
etas , conformes aas de cima , de nom faber com que pagaíTe 
tanta boa vontade com tantas mercees. E o Capitam perante 
todos lhe tornou a dizer: Senhor, eftas que EIRey meu Senhor 
por mym te envia , com quanto vêem aqui com infindas Juas def 
pefas , e com grande rifeo , mortes , e perdas de muitos [eus vaf- 
fallos , e naturaaes , porem por tua boa fama , e vertudes , de 
que he certeficado , as ha em ti por muy bem empregadas , ainda 
que muito mais lhe cuftajfem. E EIRey lhe diíTe : Capitam , pra- 
za a De os , que ainda em minha vida me leixe pagar eftas tam 
toas obras com tam boa vontade , que d? EIRey tanto meu amigo 
recebo , e defte nome d? amizade tam Real , e de tanta eftima 9 
pois mo elle da , eu me honrarei delle em meus dias , e o leixarei 
por erança mais principal a meus filhos , e netos pêra fempre ; e 
elle Jaiba que todolos meus Regnos , e gentes delles fam feus , e 
feram fempre a feu fervi ço , e eu por Capitam delles ; e por tan- 
to , Capitam , todas as coufas que virdes , e entendaaes que fejam 
a feu prazer , tomayas todas de graça , e levailhas porque nom 
oufara ninguém de isolas contradizer. E coifto por entam fc 
defpediram. 



X ii CA- 



164 Chronica 

CAPITULO LXI. 

Fazimento da Igreja primeira. 

ELogo EIRey por lembranças que o Capitam , e Frades 
lhe faziam , deu cargo a certos Fidalgos feus , que man- 
daíTem trazer a pedra pêra a Igreja , os quaes ordenaram lo- 
go mil negros , que com muita trigança , e grande diligen- 
cia a traziam aas coitas de duas , e três legoas , e com tan- 
tas cantigas de prazer , e alegria , e em vozes tam altas , 
que os ouviam a lida legoa ; e faziamno com tam boas von- 
tades , que muitos a que o nom mandavam , fe convidavam 
pêra iíTo. E a Igreja com muita trigança fe começou a íeis 
dias de Maio de mil quatrocentos e noventa e hú , e acabou- 
fe a primeiro dia de Junho logo feguinte 5 a qual ficou gran- 
de , e de muita devaçam , e comprida de muitos ornamen- 
tos , e Imagés muy devotas , e a avocaçam delia he de San- 
eia Maria NoíTa Senhora. E em fe lavrando a di&a Igreja , 
ante de fer acabada , os Frades falaram muitas vezes a EI- 
Rey nas coufas da Fe , convidandoo cada dia pêra ella com 
aquellas fanecas amoeíhções > e confelhos , que pêra ho ca- 
ío compriam , e elle mui contente de fer Chriftão ? efperava 
pelo acabamento da Igreja. E hú dia aa tarde antes de a Igre- 
ja fe acabar , EIRey mandou chamar os Frades , e diíTelhes : 
amigos 7 eu por 'ventura pojfo fer Chriftão em outra parte , 
fora daquella Igreja ? E elles refpondendo que íi , diíTe : Pois 
meu erro fem ijfo fe pode remeàear , eu nom quero viver mais 
nelle , e de menhaã em toda maneira eu quero fer Chriftão , 
porque affi mo diz meu coraçam ? fem mais tardar \ e por ijfo 
daae ordem ao que niffo compre a vos , e a mim o nom alon- 
guees mais ; porque minha molher , e meus filhos , e os mais 
de meu Regno de/pois fe faram Chriftãos. E os Frades mui 
alegres , e contentes de fua tençam , de que nom dovi- 
davam , lhe diíTeram : Senhor ajfi fe fará , e porque ijfo heja 

Gra- 




d'elRey D. João II. 165 

Graça de Deos com que te vijlta , e efpéra , dalhe -por ijjo 
muitas graças-) e louvores. 

CAPITULO LXII. 

Como EIRey foy feSlo Chriflao. 

O outro dia os Frades aparelharam húa Cafa , qual 
nos Paços d'ElRey acharam mais rica , e pêra o auto 
do Baptifmo mais conveniente , na qual ergueram Altares , 
e concertaram tudo em gram perfeiçam , e com tochas , e 
vcllas acefas , e oferta , e com bacias d 5 agoa grandes cheas 
d'agoa , poftas em mefas , e tudo em muito íingular ordem. 
E como tudo foy concertado , mandaram dizer a EIRey , 
que poderia vyr quando quifeíTe i o qual veeo logo aa dieta 
Cafa com muita gravidade, e fynaaes de grande devaçam, 
acompanhado de féis grandes Fidalgos de feus Regnos , pê- 
ra com elle feerem logo Chriftãos. E pofto EIRey em pee 
ante o Altar Maior , com os feus , Frey Joham começou ho 
oficio , e acabou com muita devaçam. E EIRey avia nome 
Monymolyanymy , è por amor d'EHRey efeolheo feu nome 
de Johane , e chamoufe Dom Joham , e os outros Fidalgos 
feendo no começo do oficio perguntados de que nomes fe 
queriam chamar, diíferam, que o cargo diíTo leixavam a feus 
Padrinhos , que lhes deíTem os nomes , fegundo os tinham 
os Fidalgos da Cafa d'ElRey de Portugal. E o primeiro 
ouve nome Dom Francifco , e o fegundo Dom Gonçalo , e 
o terceiro Dom Jorge, e o quarto Dom Lopo , e o quinto 
Dom Dicgo e ò fexto Dom Rodrigo. Os quaaes Fidalgos 
com EIRéy receberam agoa do fanclo Baptiimo com muita 
devaçam , e boas vontades ; e logo diíferam Mifíli ao dieta 
Rey , novo Rey Dom Joham , a que guardaram , e fezeram 
todalas cerimonias de Rey , de que elle muito fentia , e 
moftrava que fe alegrava. E foy iílo feclo com muito louvor , 

e 



166 Chrokica 

e ferviço de Deos ? e grande exalçamento da íua Saneia Fee: 
e por honra , memoria ? e merecimentos d'ElRey Dom Jo- 
ham o Segundo de Portugal , em dia de Saneia Cruz , três 
dias de Mayo de mil quatrocentos , e noventa , e hú. Nefte 
dia defpois de Comer ouve nos Terreiros dos Paços grandes 
feitas , com gentes inumeravees , e EIRey pedio hú Teu arco , 
e frechas , dizendo : Eu quero oge por mym mejmo feflejar 
efle dia por honra , e ferviço da Fe , e crença de NoJJò 'ver- 
dadeiro Deos , que efla nos Ceos , e por louvor daquelle ver- 
tuofo Se?ibor de Portugal , que nola ca mandou. E co ifto faio 
ao Terreiro com feu arco na mão muy lavrado , e por re- 
verença fua , as muitas gentes que hi eram davam gritas 
em feu louvor, e tangiam , e faziam feus eftrondos. E diante 
d'ElRey , e de trás , e pelas ilhargas andavam bem vinte 
Fidalgos , todos de giolhos alimpandolhe por acatamento as 
pedrinhas , e palhas do chão , em que avia de poer os pees. 
E defpois d'andar hú pedaço volteando a húa parte , e aa 
outra com boa defenvoltura , fe tornou a afentar bem canfado. 
E logo vieram ant'elle muitos daquelles Fidalgos que nora 
foram ChriMos , e lhe diíTeram : Senhor qué es nojfo Rey , 
e nojfo hem , em que dejferviços , ou traições nos achafle tu , 
pêra te nom lembrares de nos , como dos que ouve fie por hem y 
que contigo fojfem Chrijlaos ? E fe algú de nos te te em def- 
fervido , e nom es delle contente , mandalhe cortar a cabeça ; 
mas os outros , que na guerra te fervem com as armas , e na 
paz com os tributos , porque lhes nega fie , e nom fazes ejfe 
hem ; ca tu nos criafle , e todos fomos de grande linhagem , e 
te merecemos mais honra , que de/prezo : e por ijfo te pedimos 
que nos mandes também baptizar. E neíles refertameritos ef- 
teveram grande pedaço , porque como hú acabava , logo ou- 
tro neíta tençam começava , e EIRey mandou calar a gente' 
per pregões a que fe bem obedecia, e lhes refpondeo , di- 
zendo : Vos outros agravaaefvos de mim , porque vos nom efeo- 
Ihi pêra ferdes Chrijlaos , como efles Fidalgos que o foram , e 
pira ijfo me alegaaes vojfos merecimentos de linhages ? e fervi- 

£QS\ 



d' e l R e y D. J o a 6 II. x6y 

ços ; os quaaes todos fam verdadeiros , e porque o fam vos te* 
riba fecia muita merece , e vos quero grande bem : mas eu fom ^ 

maravilhado ? aver em vos tam pouco juizo , que primeiro quei- 
racs fer -' Chriftaos , que a Raynba 9 que be minha molber 9 e todo 
meu bem 9 e ajfi meu filho , e meu irmaao 9 os quaes por todo/os 
re [peites te em mais 9 e valem mais que vos 9 e ante de elles ho 
ferem bem deve es confirar 9 que nom be razam que bo fejaaes 9 
nem mo requeiraaes : e fe eu a eftes que alegaaes dei lugar que 
fojjem comigo Chriftaos , eu o fiz por meu E/lado , mas em hon* 
tar a elles 9 nom abati a vos , nem vos minguey em nada. E 
porem comtudo eu louvo muito vojfos requerimentos 9 ca fe pê- 
ra coufa tam fanBa 9 e tam necejfarea , mos nom fezejfees 9 eu 
volo julgaria por mal 9 e por ijfio vos prometo por a verdadei- 
ra Fe 9 e caminho de falvaçam que oge recebi 9 que como a 
Raynha 9 e meu filho 9 e meu irmão forem Chriftaos 9 que vos 
outros também o fejaaes 9 pois em dia tam bom 9 e de tanta 
bem aventurança pêra mym , mo pediis 9 e requerees. E os 
Fidalgos , e gentes em íinal de íingular remerceamento , 
tocavam todos a terra com as mãos , e as/punham fobre feus 
roftros , e co ifto entraram em fuás danças , e feitas. Acaba- 
das as quaes fe lançou pregam em nome d'ElRey , que to- 
do o que aos Chriftaos cVElRey de Portugal feu irmão , em 
feus Regnos , e terras bem pareceíTe , e o quifeíTem tomar , 
que lho deíTem de graça fob pena de morte , e que elle a 
feus donos mandaria tudo pagar per feu credito aa fua von- 
tade , e aíll que fe queimaíTem todolos ídolos , e logo fe com- 
prio , e deu a perfeita exuquçam. Aa quinta feira logo fe- 
guinte , cinquo dias de Maio , os Frades , e Capitam torna- 
ram a EIRey pêra tirarem a elle, e aos Fidalgos Chriftaos os 
capellos do Olio ; e defpois de tirados como a Igreja man- 
da , e taaes pefíbas mereciam , afentoufe EIRey , e os Fra- 
des , e Capitam junto com elle : e começando de fallar , hú 
dos Fidalgos , que fe chamava Dom Jorge , com grande re- 
poufo diffe : Verdadeiramente agora creo eu , Senhor 9 quan- 
ta mercee tu 9 e nos comtigo teemos recebida de Deos 9 e ja. 

ago- 



i 68 Chronica 

agora fei que nom ha outro bem , nem outra verdade Je n<im 
fer Cbrifião ; porque toda ejla notle mi?ica me leixou hutna n:o- 
Iher muita fermofa 5 que com muito prazer n:e dezia ^ que te 
dijfejfe que agora eras tu com teu liegno guanhado ; *e detmti 
por ijfo tanto esforço , que agora foo me matarei cem cento , 
e nom lhe averey medo : e por ijjo , Senhor , faze Chrifaos 
teus Fidalgos , e Vaffalos , e co elles fale certo que dobraras 
em tudo teu grande poder. E em acabado eílc , e nam fera 
muitas graças que fe deram a Deos , e aa Bem aventu- 
rada Virgem Maria fua Madre , começou outro Fidalgo que 
fe chamava Dom Diego , irmão de Dom Joham da Silva , o 
que morreo no mar : Senhor , por aquella mefma maneira me 
acontsceo a mym também com aquella mejma molher , e ja ty- 
nha em cuidado de to contar como fonho ; mas agora creo que 
he verdade , porque nom podíamos ambos fonhar juntamente hua 
coufa : e mais em faindo pela menhaa de cafa achei hua cou- 
fa fancla de pedra , que eu nunca vy , he fecla como aquella 
que os Frades tynham quando fomos Chriflaos , e deziam po- 
la Cruz. E ElRey lhe mandou que foíTe logo por ella, 
e elle em peíToa a trouxe cuberta , e com muito acata- 
mento a deu a ElRey. E era hua Cruz de pedra de doos pal- 
mos muito beem fecla , e os braços delia redondos , e tam 
lifos, e concertados , como que com grande induílria foram 
lavrados , e a pedra era de coor preta ? e fem algua feme- 
lhança das da terra. ElRey a tomou primeiramente nas mãos , 
e diffe contra os ChriMos : Que vos parece que he ifto ? E elles 
vendoa com os olhos cheos de lagrimas devotas , e com as 
mãos alevantadas ao Ceeo lhe diíTeram : Senhor . eflas coufas 
fam finaaes de Graça , e jalvaçam que Deos envia a ti , e a 
teus Regnos , e por ijfo lhe damos , e tu tambeem da infin- 
das graças , porque per efles milagres , e revelações , que a 
tuas gentes fe defcobrem , te deves agora aver per o mais bem 
aventurado Rey do Mundo , pois fobre tam poderofo cemo es 
nejla vida , Deos fe lembra de ti , e te quer na morte dar 
outra per» fempre j e elle por fua grande mifericordia ta 

nom 



d'elRey D. João II. 169 

nom negara , fe tu nefle propofito de feu fervi ç o continuares , 
como nelle efperamos que farás. E ElRey nas lagrimas , 
e devaçam dos Frades que vio , foy tam ledo , e tam con- 
fortado , que fe alevantou , e começou andar abraçando 
os Chriftãos , e alevantallos pelos braços , que Iam fynaaes 
do moor prazer que antr'elles fe pode afegurar. E defpois de 
ElRey, e os Frades, e Capitam paíTarem fobre o cafo, pa- 
lavras , e coufas de muita devaçam , acordaram de levar , como 
logo levaram a Cruz com folépne prociífam aa Igreja honde 
eíta por húa grande relíquia , e notável milagre ; por honra 
da qual ElRey teve pubricas feitas. 

CAPITULO LXIII. 

Jubmo a Raynha foi feSia Chriflãa. 

PAíTados algús dias ante de a Igreja fer acabada , a Ray- 
nha em pubrico fe veeo agravar a ElRey , porque nom 
dava lugar , que foíTe Chriftãa , trazendolhe pêra iífo muitas 
razoes todas bem di&as , e fundadas em muita razam , confian- 
ça , e amor: e ElRey fe efcufava por a Igreja nom fer ain- 
da acabada , e tambeem porque o Princepe feu filho era lon- 
ge em fuás terras , e que efperava por elle , porque ja ho 
mandara chamar ; mas fobr'iíTo lhe dava muitos confortos , 
e grande efperança. E nefte temço íe finou de doença Frey 
Joham , o principal dos Frades , homem de bem , e com fua 
morte ElRey foy muito anojado , porque cria muito neUe. 
E defejando jade a Raynha per qualquer maneira feer Chrif- 
tãa, receofo de os Frades morrerem, porque os principaaes 
eram todos doentes , preguntou a Frey António a quem ficou 
o cargo fobr'os outros , que fe com toda fua doença , e in- 
defpoílçam poderia fazer íoomente a Raynha Chriftãa , porque 
elle eftava de caminho pêra a guerra, e folgaria ante de fua 
partida a veer , e leixar Chriftãa ; ca lhe parecia y que fc o nom 
Tom. II. Y fof- 



IJO C H R O N I G A 

foife, que nunca venceria, nem tornaria da guerra. E Frey 
António lhe diíTe , que com toda fua fraqueza , por ferviço 
de Deos , c feu o faria. E concertadas todalas coufas pêra 
ifíb , na mefma cafa honde ho EIRey foy, e per aquella mef- 
ma maneira, Sábado quatro dias do mez de Junho do diclo 
anno de mil quatrocentos noventa e hu , a Raynha com a gra- 
ça de Deos , fendo EIRey prefente , foy fedia Chriftaa com 
grande devaçam , e muito acatamento que logo moftrou aas 
coufas da Igreja , e ouve nome Dona Líanor , por amor da 
Raynha Dona Lianor molher d'EiRey Dom Joham , e o feu 
nome porque antes fe chamava era Mogingaalemza. E no mef- 
mo dia que a Raynha foy Chriítaa , porque EIRey ja orde- 
nava de fe hir aa guerra, lhe entregaram os Frades, e Ca- 
pitam a Bandeira de Chriftus , que lhe EIRey mandou dar , 
e ante de lha entregarem , Frey António per mfeâ # de Lingoa 
que era prefente lhe diífe : Senhor , efla Bandeira , com ejle 
[mal da Cruz que nella vees , mandou EIRey de Portugal Dom 
Joham meu Senhor , por^fer a coufa do Mundo mais preciofa , 
e mais e/limada , na qual te roga , e eu peço , e requeiro da par* 
te de Deos , que creas firmemente , porque fe ajji o fezeres , c o* 
mo ja es obrigado , nom foomente mereceras por ifjo a gloria dor 
Ceeos , de/pois da morte que nom podes efeufar ; mas ainda ení 
tua 'lida , teem por mui certo , que por ella de teus vajjallos fe- 
ras fempre ar,iado , e fervido , e com ella de teus imigos fempre 
vencedor , e nunca vencido ' ; porque efla he final de paz , e em 
que fe ganhou nojfa verdadeira falvaçam \ e faude j e com efla 
os poucos que nella teem firme crença , vencem os muitos que 
nella no crêem. E com eftas palavras o didlo Rey co os gio- 
lhos no chão, e a cabeça defeuberta, a recebeo com muito 
acatamento , e de fua mão a entregou logo a Dom Gonça- 
lo homem muy principal , e feu Alferes Moor. E EIRey , e to- 
dolos outros Fidalgos fe foram com ella atee fua cafa , e por 
moor reverença delia hiam algtís Grandes Senhores dos que 
foram Chriítãos avanandoa com huns avanos Reaacs , por- 
que lhe nom tocaífe poo , nem outra çugidade , porque efta 

he 



d'elRey D, Joaõ II. 171 

he hua grande cerimonia , e acatamento que fe faz aos Reys; 
E aa fegunda feira logo feguinte , féis dias de Junho, o di- 
clo Capitam , e os Frades foram ao Paço da Raynha per feu 
mandado pêra lhe tirarem o capelo do Olio , e folgou mui- 
to com elles agafalhandoos muy humanamente ; e com grande 
tento lhes preguntou pelas coufas da Fe , rogandolhe , que 
lhas diíTeíTem mui declaradas pêra as comprir fem errar. E 
os Frades lhe louvaram muito fua tençam , c devaçam , com 
aquelhs palavras , que tam faneco fundamento merecia ; dan- 
dolhe por iíTo certa efperança de fua falvaçam. E fobr'iíTo lhe 
diíTeram aquellas coufas da Fe , que por entam mais com- 
priam , e de que entendiam, que fe ella melhor poderia lem- 
brar ; as quaes aíli como elles as deziam , aífí as punha no eífcra- 
do per tentos de pedrinhas , que he a lua arte memorativa , di- 
zendo , que per ali lhe nom efqueceriam. E alfi lhes eíteve 
preguntando com muita prudência , e repoufo pelas cou- 
fas deites Regnos , e por EIRey , e pola Raynha , e por 
feus Eítados ; e defpois de lhe fatisfazerem a tudo com a 
verdade do que fabiam, fe defpediram delia, que lhes man- 
dou fazer mercee de muita foma de fua moeda , e de mui- 
tas coufas de mantiimentos ; e tudo enviava com muita gra- 
ça , e nobreza. E fettas , ; e acabadas aíTy as difras coufas , 
o dicto Capitam diífe a EIRey : que pois tynha mandado a- 
juntar fuás gentes pêra a guerra , que lhe pedia , que por 
quanto a frota , e gentes delia , nom ho ferviam , e adoe- 
ciam , e morriam fem proveito no porto , fe ferviífe de tudo 
com tempo. E EIRey folgou muito com fua lembrança , e 
apreíTou fua partida , pêra hir fazer guerra a hus Senhores 
feus VaíTalos que lhe revelaram , e defobedeciam em huas 
Ilhas grandes lituadas no Ryo do Padram. Partio EIRey 
para a di&a guerra , e levava diante a Bandeira de Chriftos 
em mãos do Alferes Moor, e EIRey, e todolos feus hiam 
a pee , e defcalços ; porque a terra fie de tal calidade , que 
os pees nom confentem calçados , nem os corpos vcílidos. 
E o Capitam fe defpedio delle , e foy dar ordem ao porto 

Y ii co- 



lji Chronica 

como os Navios , e gente delles o vielTem fervir , como vie- 
ram; polo qual defpois de algíías grandes , e cruas pelejas 
que ouveram com os di£tos Revees das Ilhas imygos d'El- 
Rey , em que morreo muita gente , e boa parte dos Chrif- 
taos , finalmente o Senhor principal das Ilhas vendofe fem 
remédio , conveeolhe pedir piedade a EIRey , e poeríe em 
fuás mãos , e obediência ; e EIRey o recebeo , e lhe deu a 
vida tirandolhe toda a honra , rendas , e terras que delle ty- 
nha , e o desfez de Fidalgo , de maneira , que com a aju- 
da , e favor d'ElRey de Portugal , e por o diclo Rey de 
Congo feer fempre favorecido do eftendarte da Cruz que le- 
vava elle ouve defejada vitoria de feus imiigos. E a gente 
do feu arraial foy eítimada em oitocentos mil homés ? e fe- 
gundo o parecer dos que a viram tomava em torno de terra 
cinquo, ou féis legoas , e d'ali defpedio EIRey o Capitam , 
e gentes de Portugal , com muita honra , e mercees que a 
todos fez. E ficaram co elle quatro Frades , e algus outros 
Chriftãos com todolos ornamentos da Igreja pêra lhe dize- 
rem MilTa , e fazerem Chriftãos feus filhos , e os de fua Cor- 
te. E alfi ficou hú negro Chriftão natural da terra , que fa- 
bia leer, e efcrepver, que começava ja de eníinar os moços 
da Corte , filhos dos Grandes , que he hú grande numero. 
E aífi ficaram outras peífoas de defcripçam ordenados pêra 
hirem per terra defcobrir outras defvairadas terras , com fun- 
damento da índia , e Prefte Joham. E o Capitam e Frota , 
fe tornou a elt.es Regnos , e acharam EIRey em Lixboa. 

CAPITULO LXIV. 

Principio da doença d' EIRey em Lixboa. 

DEfpois do falecimento do Princepe , EIRey ou por a 
fobeja trifteza, e mortal door, que nelle padeceo (co- 
mo he mais de creer ) , ou por peçonha que lhe deram , co- 
mo algus fem muita certidam fofpei taram , nunca foy em 

dcf- 



d'elReyD. JOÃO II. I73 

defpoflçam de perfeita faude. E nefte anno eftando em Lixboa 
no mes de Maio lhe vieram novos acidentes , e defmaios > 
de que em cafa da Raynha fua molher , conhecidamente ef- 
teve aa morte; peia a qual atee que arecebeo, nunca def- 
pois acabou de melhorar, como ao diante fe dirá. E porque 
aree entam , em que elle avia trinta e fete annos nunca be- 
bera vinho, foylhe com muita iníhncia pedido pelos Fiíicos, 
que por quanto fuás paixões eram maléconizadas , e triit.es ^ 
que medicinalmente o bebeíTe ; c elle o começou de beber a 
dezafete dias do di&o mes. E defpois muy temperadamente 
fempre o bebeo. 

CAPITULO LXV. 

Entrada dos Judeus de Caflella em Portugal. 

NEfte mefmo anno EIRey de Cafteila Dom Fernando , 
e a Raynha Dona Ifabel fua molher , como Princepes 
mui Católicos , e verdadeiros Capitaaes , e Defenfores da 
Chriftindade , porque a Fe nom minguaíTe em feus Regnos , 
e Senhorios, tendoos tam fartos de paz, e juftiça , lançaram 
delles fora todolos Judeus , pêra que fobpena de mortes lhes 
aífinou certo , e conveniente termo , dandolhes licença , que 
em mercadorias tiralTem de feus Regnos fuás fazendas , nom 
feendo ouro , nem prata , nem em algúa das coufas do Regno 
a Regno defefas. Os quaes veendofe defacorridos , nom que- 
rendo com fua danada dureza converterfe aa Fe , e receber 
agoa do San&o Baptifmo , fe focorreram a EIRey Dom Jo- 
ham , pêra que com efperança de muito dinheiro que lhe pro- 
meteram , em feus Regnos os acolheíTe logo , e delles pêra 
outros nos feus portos do mar também lhes deíTe paíTagcm. 
Sobre o qual EIRey com Leterados , e Senhores do Regno 
teve em Syntra confelho , no qual ante de algú dar fua voz , 
elle pêra húa coufa , e pêra outra , fez , c alegou taaes razoes , 
€ moítranças , em que claramente deícobrio fua vontade , e 

defe- 



174 . .II G H K O K I C A 

defejo fer de os recolher por dinheiro , com fundamento de 
com elle paíTar em Africa com menos oprcíTam , e defpefa de 
feu povoo. A que os mais veendo ja fua detriminaçam hir 
diante do confelho , pofpofto ho inteiro conhecimento da 
verdade, foomente por lhe comprazer fe inclinaram , e a apro* 
varam. E porem efte erro antre os diferetos , e prudentes .es- 
pecialmente nas coufas graves , fempre aos Reys , e Princepes 
fe eitranhou , e julgou por certa queeda de Regnos , e Se- 
nhorios ] porque menos erro he , e menos reprenfam merece 
o que as coufas faz fem confelho , que contra confelho. E 
porem algús em que avia juizo limpo , e d'algíía paixarn nom 
corruto , defprezando lijonjaria , ou temor , que a outros 
guiavam , fuftancialmente o contradiíTeram , dizendo : » Se- 
5>nhor, duas excelentes, e muy louvadas coufas ouve fempre 
3> neftes Regnos de Portugal , porque os Reys , e naturaes 
» delles , em todo o Mundo fobre todos , foram honrados , 
» e eítimados : A primeira foy húa firme lealdade dos Por- 
3) tuguefes pêra feu Rey ; e a fegunda , inteira fc , e verdadei- 
3> ro amor , que os Reys delles , como muy Catholicos , a Deos , 
3> e a fua fancla Fe fempre teveram , e guardaram. A primei- 
3> ra , ou por culpas alheas , ou por pecados próprios voífos , 
3) ja em voífos dias , e no tempo de volTo regnado por dcsleal- 
3) dades primeiramente fe corrompeo ; e que Deos por fua pie- 
» dade , e volTa inocência ! delias , com tam fegura juíliça , e 
3> vingança vos livraíTe ; porem ifto fora melhor , que nom fora ; 
D) ca por nom gozardes da tranquilidade , e fegurança que 
» voífos anteceíTores fempre poíToiram , mais o devees re- 
3> portar a defaventura , que a bem aventurança volla. E 
3) pois a perda deita primeira em voíTo tempo , começou ti- 
» rar renome de tanto louvor a voífos vaífalos ; a fegunda 
3) que he a Fe Chriftãa, e que ja foo fica, nom devees que- 
3> rer , que por dinheiro , em que parece , que entra vitupe- 
3> rada cobyça , fe apague , e conrompa primeiro em vos. 
3> E pois nos Regnos de Caltella, e Aragam voíTos Comar- 
>) quáos ; nom teendo tam antigo privilegio deita limpeza , 



» os 



d'elRey D. João II. 175- 

» os excelentes Reys dellcs como Católicos Chriftaos , pof- 

» pofta a natural criaçam que eftes inflees , e hereges em feus 

» Regnos teveram , e dcfprczando tam ricos ferviços , tribu- 

» tos , e fervidam que lhes deviam, e fempre fezeram , foo 

» por bóo exempro , e grande pureza da Fe , como a imii- 

» gos os defterram , e lançam de fuás terras ; a razam , ho- 

)> neftidadc , nem conciencia voíTa nom confente , que vos os 

» emparees , e recolhaaes nas voíTas , a que em tudo mais 

» contradiz. E nom fabemos com que efeufa , e jufto titolo , 

» vos poderees chamar Defenfor da Fe , fazendo de voflbs 

» Rcgnos Couto , e feguro porto aos tam imiigos delia. Polo 

» qual noíTo confelho feria, fc voíTa detriminaçam ho permi- 

» nílc, que de tam vergonhofo proveito , e falfa piedade vos 

» eícuíaífees : ao menos com voíTa efeufa , c denegaçam pode 

» feer que eftes Judeus perfeguidos de fuás naturezas , e defef- 

» perados ja de falvaçam pêra os corpos , a poderam receber, 

» e requereram pêra as almas. E que feu duro callo , de fua 

» antyga, e errada perfia , com agoa do baptifmo nos velhos 

» inteiramente nom amoleça , nom he de dovidar que nos mo- 

» ços , e mininos feus filhos , em que a carne , e incrinaçam 

» he molle , aproveitara de todo. E a converfam dos infín- 

» dos Judeus de França , e Ingraterra , em que agora flore- 

» çe a Saneia Fe , e perfe&a Religiam , vos fera pêra iflb 

» claro exempro. Porque em cafo que eftes fejam arvores ve- 

» lhas, e de mao fruto, porem feendo por morte cortadas, 

» nom leixaram de produzir ramos novos , em que outra boa 

» fruta , que feram feus filhos , e netos , fe enxerte , como 

» fe fez nos Regnos que diíTemos. E pêra coorardes a Deos 

y> efte erro , com efperança de o fervirdes na guerra da Afri- 

» ca , fabee que efte he ja tam certo deíTerviço feu , como 

» bo outro ferviço da Conquifta dos Mouros , he muy duvido- 

» íb , feendo principalmemte com oferta tam torpe » . Mas 

EiRey pofpoftas eftas contradições , deu com tudo lugar , 

que todolos Judeus Eftrangeiros , com empoíiçam de certos 

cruzados por cabeça, podcílcm vi i r a eftes Regnos, enelles 

et 



I76 C H R O N I C A 

eftar atcc oito mefes , dentro dos quaaes lhes mandaria dnr 
por feus fretes embarcações abaftantes pêra quaaesqucr par- 
tes do Mundo que quifeíTem. E lhes aílinou logo portos nas' 
Comarcas do Regno , per que entraílem ; e pos Oficiaaes , 
e Recebedores pêra delles receberem per recadações a dic1:a 
impoliçam , e tributo. De que com quanto EIRey ouve mui- 
ta loma d'ouro , e prata, nom leixou de fer com muitos praf- 
mos do povoo contra elle , polo grande dano , perdas , e 
perygo , que o Regno todo por fua vinda recebeo. Porque 
co elles aalem d'outros males , entrou crua peftenença , por 
cuja caufa em muitas partes morreo muita gente natural. 
Nem elles ficaram íem hú piedofo eftrago ; porque nom 
foomente infindos delles per caminhos , montes , e defpovo- 
rados , com grande defemparo foram neftes Regnos mortos , 
e foterrados, mas inda os que delles per mar a terra de Mou- 
ros pagavam , nom poderam fogir outras perfeguições mais 
cruas , mais danofas , e de moor vitupério ; porque aalem de 
os bárbaros, e Mouros, a cujas terras paliavam, lhe rouba- 
rem fuás roupas , e fazendas , ainda por maior leu tormen- 
to , e doeílo lhe tomavam fuás molhares, e filhos, e a to- 
dos fem deferença de machos nem fêmeas traziam , e davam 
a húa pubrica , e abominável deflbluçam de luxuria, encur- 
tando com ferro as vidas de muitos fe lio contradeziam. E 
certamente nunca fe vio dcíterro , nem defaventura de al- 
gúa gente, que tantas maneiras de perfeguições, e por tan- 
tos tempos , e em tam defvairadas terras padeceíTe , como 
eftes Judeus , de que muitos nom podendo lofrer a afpereza 
de tantos males, com forças, que pareciam de neceífidade, 
mais que de Fe fe converteram a ella , e pobres , e deson- 
rados fe tornavam pêra Caftella, porque dos que hiam ricos 
de merecimentos pêra fua falvaçam foo Deos era o fabedor. 
E no mes de Julho deite anno de quatrocentos noventa e 
doos faleceo em Roma o Papa Innoccncio Oclavo , e foo- 
cedeo em feu logar o Papa Alexandre Sexto , por Naçam 
Valenciano , cem Cardeal era Vice-Canceler, e chamavafe 

Dom 



d'elRey D. João II. 177 

Dom Rodrigo Borja , de que EIRey foy em Syntra cerceíi^ 
cado a dezaieis dias d'Agofto , a que depois enviou fua em- 
baixada por Dom Pedro da Silva , Comendador Moor d' Avis , 
que ao dar delia fe ajuntou em Corte de Roma com Dom 
Fernando d' Almeida , Bifpo de Cepta feu irmão , e com Dom 
Dicgo de Soufa Bifpo do Porto , que ja la eram hidos. E 
porem ante de darem a dicla embaixada fobrefeveram de in- 
duftria , e por avifo d'ElRey na Cidade de Sena muitos dias , 
efperando peia entrada d'ElRey de França em Itália , a cuja 
parte , e favor , EIRey Dom Joham fengidamente moftrava i 
que fe enclinava , porque era contrairo a EIRey de Caftel- 
la , avendofe delle por enganado no contrato da entrega de 
Pcrpinham , em que ficara d'ho nom impedir , e impedia na 
requefta do Regno de Nápoles , que o diíto Rey de França 
emprendia , ajudando , e favorecendo o di&o Rey de Nápo- 
les ; porque nefte tempo antre os Reys de Caftella , e de 
Portugal ouve caufas, e fundamentos , que pareciam de ro- 
tura ; pêra que EIRey aalem das inteligências de França , 
que fe moftrava por fua parte pêra feu favor, mandou no Re- 
gno , e fora delle fazer grandes , e dellímulados percebimen- 
tos , que pêra fe fegurar da guerra , que nefte tempo por fua 
doença muito temia , muito também lhe aproveitaram. 

CAPITULO LXVI. 

Defcubrimento das Ilhas de Cajlella per Collombo. 

NO anno feguinte de mil quatrocentos , e noventa e três , 
eftando EIRey no lugar do Vai do Paraifo, que he a- 
cima do Moefteiro de Saneia Maria das Vertudes , por cau- 
fa das grandes peftenenças , que nos lugares principaes da- 
quella Comarca avia , a féis dias de Março arribou arreftel- 
lo em Lixboa Chriftovam Colombo Italiano, que vynha do 
defcobrimento das Ilhas de Cipango , e d'Antilia , que per 
mandado dos Reys de Caftella tynha feclo ? da qual terra 
Tom, IL Z tra- 



17% , C H R O N I C A 

trazia comíígo as primeiras moftras da gente , o ouro , e aU 
gfías outras coufas que nellas avia ; e foy delias intitqlado 
almirante. E feendo EIRey logo diffe avifado, ho mandou hir 
ante H , e moftrou por iflb receber nojo , e fentimento , aíTy por 
creer que o di&o defcobrimento cru fcclo dentro dos mares , 
ç termos de feu Senhorio de Guinec , em que fe oferecia di- 
fenfam, como porque o di£lo Almirante, por fer de Ília con- 
diçam hú pouco alevantado, e no recontamento de fuás cou- 
fas , excedia fempre es termos da verdade , fez eíb coufa , 
em ouro , prata , e riquezas muito maior do que era. Efpe- 
cialmcnte acufavafe EIRey de negrigente , por fe efeufar d el- 
le por mingoa de credito, e autoridade, acerca dcftc defco- 
brimento pêra que primeiro o viera requerer. E com quan- 
to EIRey foy cometido , que ouvefe por bem d'ho ali ma- 
tarem ; porque com fua morte o profeguimento deita, empre- 
fa , acerca dos Reys de Caftella , por falecimento de defeo- 
bridor ceifaria j e que fe poderia fazer , fem fofpeita , de feu 
confentimento , e mandado; por quanto por elle feer defeor- 
tes , e alvoraçado , podiam co elle travar per maneira , que 
cada hú deites feus defectos, pareceíTe a verdadeira caufa de 
fua morte. Mas EIRey como era Princepe muy temente a 
Deos , nom foomente o defendeo , mas antes lhe fez honra, 
e muita mercee , e co cila o defpedio. E porem perfeguido 
EIRey em íua memoria deite cuidado, e teendo fobr'iíTo pri- 
meiro confelho junto com AJdea-Gavinha , fe foy a Torres 
Vedras, onde defpois de Pafcoa teve fobre o cafo outros eon- 
felhos, em que foy detriminado que armalTc contra aqucllas 
partes , como logo armou, e grolTamente : e da Armada fez 
Capitam Moor Dom Francifco d'Almeida , que feendo ja 
preftes , chegou a EIRey hú chamado Ferreira, MeíTegeiro 
dos Reys de Caftella , que por ferem certeíicados do funda- 
mento da di&a Armada, que era contra outra fua, que lo- 
go avia de tornar, lhe requereo que nella fobrefevelfc atee 
fe ver per dereito , em cujos mares , e conquifta , o ditto 
xlefcob ri mento cabia. Pêra o qual enviaíTe a elles feus Em- 
* *■•• ' bai- 



D 5 E L R E Y D. Jo A O II. I79 

-baixadores , e Procuradores com todalas coufas que fezeffem 
por feu ti tolo , e juftiça , fegundo a qual elles fe. juftifica- 
riam / deíiftindo , ou fe concordando como razam , e dereito 
lhes parecefle. Polo qual ElRey deíiftio do enviar da di&a 
armada ; e fobr'iífo ordenou logo por feus Embaixadores , 
e Procuradores ao Doctor Pêro Diiz , e Ruy de Pyna , que 
da verdade bem avifados , e inftrutos foram aos di&os Reysí 
que eram em Barcelona ao tempo que por ElRey de Fran- 
ça Carlos fe fez a fegunda concórdia, e verdadeira entrega 
de Perpinham , e do Condado de RoíTolham em Catalonha. 
E os di&os Procuradores nom tomaram deita vez com Oá 
di&os Reys aífento algtí ; e a caufa foy por focederém aflí 
profperamente fuás coufas com França ; e principalmente 
porque ante de finalmente fobre a dicía Conquifta , e Ilhaá , 
e Terras fe concordarem quiferam fegundariamente fer cer- 
teficados da inteira verdade das dietas Ilhas , e Terras que 
ja eram defeubertas , e das coufas que nellas avia , pêra que 
tinham ja enviados feus Navios , que ainda nom eram torna- 
dos : porque fegundo foíTe a eftima delias, afli fe concorda- 
riam, iníiftindo , ou deíiftindo. E porem pêra dilatarem o 
negocio fem conclufam atee efte tempo , tomaram por acha- 
que d' enviar , como enviaram , a ElRey a repofta de fua 
embaixada per Dom Pedro d'Ayalla , e per Garcia Lopez 
4e Carvajal feus Embaixadores , e Procuradores pêra o cafo. 
Os quaes acharam ElRey em Lixboa , e taaes meos e apon- 
tamentos fezeram , e tam imygos de razam, que a teençant 
que os; di&os Reys teveram pêra dilatar , pareceo bem crara , 
e manifeíta. Aos quaaes Reys de Caftella , defpois de ferem 
da fuftancia , e poíiçam das diclas Ilhas , e Terras , e cou- 
fas delias , per os fegundos feus navios bem avifados , e 
certeficados , ElRey tornou a enviar por feua Embaixadores 
e Procuradores , fobre a concórdia da dicla Conquifta , Ruy 
de Soufa , e ho Licenciado Aires d'Almadaa , e Eftevarrí 
Vaaz por Efcripvam, pelToas no Reyno de bõo faber, gran- 
de fiança , e muita autoridade. Os quaaes em home d'El- 

Z ii Rey 



l8o C H R O N I C A 

Rey fe concordaram com os di&os Rcys fobre a demarca- 
çam , e partiçam dos di&os mares , per certos rumos , e li- 
nhas de pollo a pollo , perque as di&as Ilhas , e terras def- 
cubertas ficaram com os dittos Reys com outra muita parte 
do mar , e da terra , fem prejuizo da Coita , e Ilhas da 
Conquifta de Guinee. De que fe fezeram Contratos firma- 
dos, e jurados pelos di&os Reys, de que todos moftraram 
receber defcanfo , e contentamento , por fe efcufarem antr'- 
elles debates, e difcordias que ja fe revolviam contrairás a 
fua paz , e amizade. E com efte alTento concordado tornaram 
os di&os Embaixadores a Setuvel no mes de Julho do anno 
que vinha , onde El Rey eítava fem algú melhoramento de 
lua doença, antes com acrecentamento de inchaços , e aci- 
dentes mortaaes , que fua vida cada dia ameaçavam. 

CAPITULO LXVII. 

Vynda do Monfeor de Liam Francês que EIRey fez 

Conde de Gazana. 

■ 

[7^ A Torres Vedras no mes de Junho de mil quatrocentos, 
XjJ e noventa , e três chegou híí Monfeor de Liam d'Am- 
jos Francês, home de grande maneira : feu motivo foy viir 
ajudar EIRey na guerra dos Mouros, pêra que algúas vezes 
fe tynha convidado. Foy d'ElRey recebido como compria a 
taal peflba , e que tal tençam trazia ; e de fua tençam e de- 
vaçam fez a EIRey húa fala pubrica de muito louvor : a que 
EIRey refpondeo como Princepe em todo agardecido , e per- 
feito j e defpois de lhe fazer muitas honras, finalmente com 
grandes cerimonias o fez Conde de Gazana villa em terra de 
Mouros do Regno de Feez com duas mil dobras ordinárias 
d'afentamento cad'anno , que fempre em vida d'ElRey lhe 
foram bem pagas ; e mais ao defpedir lhe deu grandes dadi- 
vas , e fez mercee de ginetes , jaezes , e outras coufas de 
muito preço. 

CA- 



d'elRey D. João II. 1 8 * 

CAPITULO LXVIII. 

Hyda dos Moços , que foram Judeus , aa Ilha de 

Sam Tome. 

NEfte anno de mil quatrocentos , e noventa e três em 
Torres Vedras deu EIRey a Arvoro de Caminha , a 
Capitania da Ilha de Sam Tome de juro , e herdade ; e por- 
que aos Judeus Caftelhanos , que em léus Regnos dentro do 
termo limitado fe nom fairam, mandou tomar por cativos, 
fegundo a condiçam da entrada , todolos mininos , e moçcs , 
e moças pequenas que tynham ; defpois de os mandar tor- 
nar todos Chriftãos , os enviou aa di&a Ilha com ho di&o 
Alvoro de Caminha , por tal que feendo apartados , teerem 
razam de ferem melhores Chriftãos 3 e^aver por iifo caufa de 
a Ilha feer melhor povorada , como por efte refpeito ho foy 
em grande crecimento. 

CAPITULO LXIX. 

Doença da Raynha D. Lianor em Setuvel. 

- ■ 

ENo anno de mil quatrocentos, e noventa, e quatro no 
mes de Maio , em chegando EIRey a Alcouchete , que 
yynha de Santarém , foy aviíado que a Raynha fua molher , 
em Setuvel onde citava , acidentalmente cairá em húa muy 
perygofa doença ; de cujo remédio feendo EIRey mais lem- 
brado , que do grande rifco em que a fua própria andava , 
com grande prelTa , e mui aforrado a foy veer , e achou fe- 
gundo feus grandes acidentes com pouca efperança de vida. 
A que o Duque, e a Duquefa feus irmãos eftando em Beja 
logo acodiram, e foram com EIRey em fua viíitaçam, e cu- 
ra 



j2z Chuontcà 

ra muy continos , e diligentes. E de fua doença foy todo 
o Regno muito anojado, receando a grande perda, que por 
feu falecimento receberiam , e por fua faude , como pela pró- 
pria de todos , fezeram a Deos , que lha deu , muitas roma- 
rias , devações, e muy folenes procifsões. E certamente teen- 
do a Raynha tanta defconfiança de fua vida , e tamanha cer- 
tidam da morte, que a apertava, nos provymentos , que com 
muito lifo , e acordo fez em todo o que a fua alma , c hon- 
ra compria , muy craramente fe moítrou , ella fer em tudo 
a que era, Real, esforçada, nobre, e muy vertuofa , e em 
todo boa. E porem Deos Nofíb Senhor como mifericordiofo 
que he , ainda que ao defpois nom foíTe com inteira faude , 
lhe deu entam a vida , em que muy honeita , e vertuofamen- 
te viveo , pêra vida, empaaro , e focorro de muitos , que a 
cila como a perenal fonte de nobreza, pedindo, e receben- 
do mercees , cafamentos , e efmolas , fempre fe focorreram. 
Porque a Raynha Dona Lianor antre as excelentes Princefas 
de feu tempo , foy em tudo Princefa muy excelente , confer- 
vando afi fempre com honeítidade, evertudes, a honra d'El- 
Rey , e a fua , como a acrecentou com grandeza , e Real na- 
cimento ; e certamente pêra EIRey Dom Joham aver molher 
da mão de Deos , como tam alto , e bem aventurado Rey 
merecia , bem pareçeo , que lhe nom podia dar fe nam a el- 
la, que lhe deu, ou algua outra que muito a pareceíle. No- 
bre , e clara em Sangue Real , em porporçam do corpo fobre 
todas fermofa, mui honeíta na vida , mui humana fem quebra 
de feu Eftado , prudente , devota , e em tudo mui amiga de 
Deos , e d'ElRey ; porque em tanta concordança foy compof- 
ta per Deos , que verdadeiramente as perfeiçoens do corpo , 
e as vertudes d'alma infindas que tynha , fempre pareciam 
fer nella htías por caufa das outras ; nunca parecia honefta fe 
nam porque era fermofa ; nem fermofa falvo por fer devota , 
e amiga de Deos ; nem amiga de Deos , fenam polo grande 
amor que a EIRey tynha , polo qual fua vida , e defpois fua 
lembrança fera pêra fempre hú craro original de muytas bon- 
da- 



D' £ L R I Y D. J O A 6 II. I 83 

dades , de que as que boas quiferem fer , ou viver enconta 
de boas podem fempre tomar muy proveitofos trelados , que 
fua muy Real Senhoria, craramente foy fempre tal como to- 
dalas boas prometem que fejam , nom menos gloria das pal- 
iadas , que louvor das prefentes , e bõo exempro aas que ham 
de viir. 

CAPITULO LXX. 

Hyda d'ElRey a Évora. 

NEftc anuo porque no veraão a doença d'ElRey termi^ 
nou em crara , e mortal idropeíla , de que feus incha- 
ços , c outras paixões davam verdadeiro teítemunho , e a Villa 
de Setuvel , onde eftava por fuás humidades , era a fua faude 
muy contrairá , elle , com a Raynha , na entrada do inverno 
fe foram a Évora. Donde porque a morte , que ja receava, 
lhe mordia em muitas coufas a conciencia , mandou pelo Re- 
gno Alvoro Pacheco , e com elle Eftevam Barradas bem pro- 
vydos de dinheiro , pêra pagarem algúa parte da prata das 
Igrejas , e dinheiro d'Orfaaos , que EIRey Dom AfFôni feu 
Padre pêra a guerra de Caftella mandara tomar. 

CAPITULO LXXL 

Ordenou Oficiaaes de defpacho. 

17^ Porque EIRey aalem de em fua faude , com muita pe- 
lá na , e grande força entender no defpacho , e negócios 
das partes , ainda por efta fua tamanha doença lhe era mui- 
to mais grave, e danofo; pelo qual, porque era Rey jufto j 
e bõo, doendofe dos requerentes a que nom podia, como 
era obrigado fatisfazer, por foprir o defeito , e indifpoíiçam. 
de fua Real peíToa , ordenou certos Leterados , que com ai- 

gus 



184 Chronioa 

gús do Confelho entendeifem em todalas coufas do Regno , 
e comjuftiça as defpachaíTcm , refervando foomcnte pêra fy 
algúas , cuja qualidade , e pelo o requeriam. E porque o aíll- 
nar de fua maão lhe danava muito , e em alguas couías era 
muy necelTareo } mandou fazer hú de forma entalhado em 
ouro y com o qual banhado em tinta d^mpremer em fua pre^ 
fença per qualquer que era prefente , ellas fe aífinavam. 

CAPITULO LXXII. 
Hyda d'ElRey aas Alcáçovas. 

ESteve EIRey com fua Corte atee o mes de Julho do 
anno de mil quatrocentos , e noventa , e cinquo cm 
Évora ; da qual por fe corromper de peílenença , fe partio 
com a Raynha muito aforrados pêra as Alcáçovas com certos 
efcolhidos , e logo nomeados pêra feu ferviço. Onde a doença 
d'ElRey foy em grande crecimento pêra mal ; porque foy 
ali era mortal perygo ; ca fe refolvia todo , e debelitava ja 
muito , com total perdiçam de gofto , e apetito pêra comer , 
e era tam malemconizado , que avorrecialhe ver gente , c 
fempre procurava de eftar íòo. 

CAPITULO LXX1IL 

Detriminoufe entrar EIRey em banhos. 

A Li na fim de Setembro , os Meftres , e Fiíicos que eram 
muitos, teveram mui altercados confelhos, fobre a cura 
d'ElRey; em que por final remédio , e efperimento , pelos v 
mais fe acordou que entraíle nos banhos , e foífe nas caldas 
d'Obidos , ou nas de Monchique no Algarve. E porque nas 
agoas delias avia muitas diverfidades , foy acordado que fc 

buf- 



d'el Re y D. Jo A ô IL 18^ 

1c bufcaíTcm doentes da doença d'ElRey , com que ante de elle 
entrar , ambas as caldas primeiro fe efperimentaíTem ; e ef- 
ta dcligencia nom ficou por fazer, porque logo fe bufcarant 
idropicos , que aas diclas caldas com grandes avifos foram 
enviados. 

CAPITULO LXXIV. 

Detriminaçatri da b/da de Santarém 7 a qiie nom foy. 

E^ Tcendo EIRey detriminado ir a invernar á Santarém , 
4 pêra onde muita parte de fua frafca era ja emviada , 
ElRcy na fim de Setembro fe foy a Villa Nova d'Alvito , o 
dia em que a Raynha fe foy ver em Viana com a Ifante fua 
Madre , e com a Duquefa fua irmaã \ que por comprazer a 
EIRey procuravam que a Raynha quijcíTe ver o Senhor Dom 
Jorge , e fervirfe delle ; ca polo nom querer fazer, por as 
caufas que atras apontey , foy EIRey ali com ella em gran- 
de defacordo : e porem efperoufe , que defta volta da Raynha 
aas Alcáçovas , a que todos aviam de tornar , o Senhor Dom 
Jorge faiífe recebela , e beijarlhe as mãos; mas ifto por en- 
tam nom fe comprio , porque ántre ellas ouve dilaçam pêra 
a concórdia , que tynham praticada. 

CAPITULO LXXV. 






Detriminacam d'bir aas caldas do Algarve. 



EEfte dia aa no&e eílando EIRey ceando , chegou ante 
elle hú moqo do Doclor Pêro Dias , que ja vynha das 
caldas do Algarve, a que feendo idropico fora por efperi- 
mento enviado. E porque^ veeo faáo , e de perfeÉla faudc , 
fez fua faude em EIRey tamanha empreíTam , que logo cef- 
fado todo outro fundamento , e muita contradiçam d'aJgíís 
Fiíicos, por feer ja tarde , detriminou hir aas dietas caldas 
Tom. II. Aa do 



i$6 Chronica 

de Monchique. E ao outro dia volveeo aas Alcáçovas, don- 
de logo enviou a Monchique Joham Fogaça , Veedor de ília 
Cafa, aparelhar feu apoufentamento , e o que compria pêra 
eílar nos banhos 

CAPITULO LXXVI. 
Fez EIRey feu Te/lamento. 

E Porque EIRey fempre foy , e era mui Católico , devo- 
to , e muito amigo de Deos , aíi Deos nefte tempo em 
que fabia que fua morte fe chegava, como juíro , e piedofo 
que he , quislhe dar perfeita Graça pêra as couías neceíTareas 
a falvaçam de fu'alma : Capareceoque EIRcy nefta detrimi- 
naçam que tomou de arrifcar nas caldas fua vida ? e faude , 
defpio de feu corpo hú homem entodo humano , e veftio fu* 
alma d'outro entodo Divino. Porque fez logo ali viir Frey 
Joham da Povoa , da Obfervancia de Sam Francifco feu Con- 
feíTor , que era Religiofo muy fprituai , e a elle fe confef- 
fou muitas vezes , e de fuás mãos recebeo ho Saneio Sacra- 
mento , e co elle fez feu derradeiro , e verdadeiro Teftamen- 
to ; e per feu meo com grande arrependimento do paíTado 
ceííbu dos defacordos , e defvairos , em que andava com a 
Raynha fua molher , e foram ali com muito amor , e concór- 
dia reconciliados ; e fora das maginaçoes , e fanteíías , em que 
deípois da morte do Princepe andava pêra o fim que atras 
toquey. E a caufa principal de tanto bem , e aíTeíTego foy 
porque EIRey nefte Teftamento que fez , leixou , e decrarou 
fecretamente o Duque de Beja feu primo por foo , e legiti- 
mo herdeiro doRegno, e lhe leixou ho Senhor Dom Jorge 
feu filho encomendado por feuvalTallo; e certamente ifto que 
todo ho Regno ja defejava , que EIRey como bóo fezeííe , 
elle como muito melhor com prazer , e gloria de todos , o 
comprio. Nem podia fer que ifto prouveeíle a todos , fe pri- 
mei- 



D 5 ELREYD. JOÃO II. 187 

melro a Dcos nom prouvera ; de que EIRey claramente quia 
feer nom íbomente verdadeiro Padre do Duque , mas de todos 
fcus naturaaes , evaífallos, Rey muy piedofo. E porque ef- 
ta foy fentença acordada na providencia Divina , nella tam- 
bém fe detrirninou , que a'lma d'ElRey por galardam , e ter- 
mo de feus grandes merecimentos , fofíe per morte aos Ceos 
logo arrebatado , por tal que íbbr'eíta obra fan&a , e tam in^ 
mortal , nom podeíTe mais em fua vida fazer outra mortal , 
e danofa como fe dirá. 

CAPITULO LXXVII. 

Partida d 9 EIRey para o Algarve. 

ELRey detrirninou hir ao Algarve muy aforrado , e le^ 
var comílgo o Senhor Dom Jorge feu filho ; e que a 
Raynha , e o Duque atee fua tornada , ho efperaíTem em 
Alcácer do Sal , pêra d'ali a Raynha por fua doença , hir 
per agoa , e elle a Santarém per terra correndo Montas. 

CAPITULO LXXVIII. 

Approvacam do Teflamento. 

EO dia que EIRey das Alcáçovas partio , que foy (a 
na entrada d'0£t,ubro aprovou pubricamente o didio 
teítamento , em que aílinaram as fete peífoas mais princi- 
paaes , que fe ali acharam , antre as quaaes foy o Duque , 
e o Senhor Dom Jorge. E foy aquelle dia que era quarta 
feira dormir a Ferreira, hindo alegre, e em boa defpoliçam. 
E fazendo íuas jornadas, foy ao fabado a dormir a Mon- 
chique , onde efteve o Domingo , ja com tempos frios , e 
ouve luta , e feitas de Vaqueiros da Serra , que EIRey vio 
com muito prazer , e defpejo. E aa fegunda feira , porque 
a frieldade crecia cada vez mais , em efpecial naquella ter- 

Aa ii ra, 



1 88 Chão nica 

ra , que he muy alta , foi EIRey aconfclhado , que nom en- 
traíTe , e efcufalTe os banhos. E confiado algú tanto em íua 
melhor defpofiçaiii , toda via os tomou aquelle dia , e ao ou* 
tro terça feira , em que dos aares fe nom guardou como 
compria , e d'agoa das mefmas caldas bebeo mais da que 
devera ; e aa quarta feira , porque junto dos banhos , s'empra- 
zou monte de porcos , fayo dos banhos , pêra os ver , e cor- 
rer , feendo dia muito frio , e chuvofo : e que hús Fiíicos 
o contradiíTeílem , outros ouve que o favoreceram. Donde 
logo tornou trefpaíTado do frio , e com grande , e contino 
fruxo fem nunca mais lhe tancar. E com neceífidade difto cf- 
teve ali a quinta , e feita , e cada vez pior. 

CAPITULO LXXIX. 

Partida das Caldas pcra Alvor. 

EAo fabado pela menhaã partio , e foy dormir a Alvor 
muito trabalhado , e poufou nas cafas d'Alvoro d'Ataide. 
E o Senhor Dom Jorge com muita gente d'ElRey fe apou- 
fentou em Villa Nova de Portimam. Conquem Dom Marti- 
nho de Caftclbranco , Senhor da dieta Villa comprio com os 
grandes, e proviidos banquetes, e feitas, que a EIRey tynha 
aparelhadas. E durando a doença d'ElRey , que do mefmo 
fruxo , e refoluçam cada vez peiorava , nom ho veeo veer o 
Senhor Dom Jorge , falvo duas vezes , e por muy pouco tem- 
po. E porque parecia desfavor contrairo aos panados , logo 
muitos congeituraram , que ja EIRey era fora das maginações 
de fua focelTam , que procurava, e que a tinha ja declarada 
ao Duque de Beja feu primo , a quem dereitamente perten- 
cia ; pêra cuja prefunçam ajudou muito leixalo tam livre- 
mente EIRey , com a Raynha , no Regno. Os quaes ho cf- 
peravam em Alcácer do Sal , donde tinham paradas d'homés , 
per que da defpoliçam d'ElRey, eram com preíTa , c diligen- 
cia 



d' elRe y D. Jo ao II. 18? 

cia cada dia avi fados. Efteve aíl EIRey em Alvor fem detri- 
minaçam algús dias, nos quaes defejou muito de veer a Ray- 
nha lua molher , e o Duque , e o failava muitas vezes. E 
porque fabia que aa Raynha por fua doença que tynha , feria 
grande trabalho , e perygo , rogou ao Duque per fua Carta 
que o vieífe veer. O qual , como fobre todos lhe foy fempre 
mais leal , e obediente , feendo ja em caminho pêra Alvor, 
e ettando nos Colos , porque achou recado que EIRey era 
falecido, ou de todo ja fem efperança de vida, foy aconfe- 
Ihado que nom foíTe mais adiante , e fe tornaíTe como logo 
fe tornou com recados , e cartas que fingio receber da Ray- 
nha : aífi pêra em tamanho nojo , e perda a confortar , e acom- 
panhar, porque ficava foo , como principalmente pêra em tem- 
po de tam dovidofas alterações , e mudanças como as que ja 
vira cuja verdade ainda a elle era fecreta , como prudente fe- 
gurar fua vida , honra , e Eftado. E aa quinta feira vinte e 
doos d'Ocl:ubro foy EIRey defacordado , e em todo , e per 
todos detriminado mortal. E pêra o que compria pêra feu en- 
terramento, os de feu Confelho , que eram prefentes , fem ho 
elle faber mandaram per hua Caravella vi i r de Lixboa di- 
nheiro , e panos de doo , e tochas. E efta nova que logo faio , 
e correo , foy a com que o Duque fe tornou , e com que em 
todo o Regno ouve alvoroços , como de verdadeira morte, 
e nom declarado Socefíbr. E aa feita feira retomou EIRey , e 
aliviou , e fem teer os acidentes que tynha , ficou alegre , e 
com moftranças de faao : polo qual aquelle dia fe fezeram 
grandes feitas , e alegrias , que EIRey riindo vio d'húa ja- 
nella. E porque foube per Fernam Martinz Mazcarenhas , Ca- 
pitam dos Ginetes , a cauía porque ho Duque fe tornara do 
caminho , fez logo efcrepver Cartas pêra ha Raynha , e pêra 
elle , e pêra todo o Regno , as quaes per fy afinou , notefi- 
cando feu acidente paíTado , de que eftevera mal , mas que 
ja citava bem, e com efperança de vida, encomendando a to- 
dos , que rogaíTem a Deos por ella , e ceíTaíTem de nenhíis 
alevantamentos , nem alvoroços. As quaes Cartas com muita 

pref- 



19© Chronica 

prefla foram dadas em todo hoRegno, e muitos , principal*, 
mente os da Gafa do Duque avendoas por cauteloias , e nom 
verdadeiras, lhe nom davam muita fe. 

CAPITULO LXXX. 

Como fqy o falecimento d'ElRey. 

I~\ Steve aíl EIRey efta feita feira com algíí melhoram cn- 
^ to; e logo ao fabado tornou a recair , e dobrouie o 
fruxo , com que lhe fobrevieram deftnaios , e acidentes mor- 
taaes , porque EIRey craramente conheceo fua morte. Da 
qual pelos Fiíicos , e Senhores que heram prefentes , quis 
como prudente , e bòo Chriftão , fer bem defenganado , a- 
pontandolhes com muito tento , e esforço as caufas , e íinaaes 
per que lhe parecia , e fe julgava fer mortal. Mas porque 
poderia fer maginaçam fua , queria delles faber a verdade , 
que por algúa maneira , ou caufa lha nom emcobriíTem ; pot v 
que pêra o corpo , e principalmente pêra a alma lhe era muy 
neceÔarea. Dos quaaes defpois de fe recolherem pêra prati- 
car, no que ja viam, e tynham por certo, foram efcolhi- 
dos pêra darem a EIRey fio trifte e mortal defengano , ho 
Prior do Crato , e o Bifpo de Tanger Dom Diego Ortiz , 
que com muitas lagrimas , nom o podendo dizer lhe diífe- 
ram , que fe por grande milagre de Deos nom foíTe , fou- 
belTe que fua morte nom fe efeufava. Sobre o qual o Bifpo pê- 
ra a alma , como grande Leterado , e o Prior pêra o esforço 
como lingular Cavaleiro lhe diíTeram o que ental ora pêra 
hua coufa , e pêra a outra convynha. E EIRey com a cara 
fegura lhes refpondeo : Effd embaixada que me daaes be af- 
faz trijle , e amargofa ; mas co ella dou muitas graças a Deos , 
porque pêra mym he muy necejfarea. Polo qual mandou logo 
defarmar as mezinhas , ja efeufadas pêra o corpo , e fez ar- 
mar outras com outros cordiaaes pêra a alma , que era Al- 
tar, e Cruz, e imagem de NoíTa Senhora. Confeífoufe lo- 
go 7 



d' £ L R E Y D. J O A 6 IL ip I 

go , c comungou ; e fez mais ali húa Cédula aalem do Tef- 
tamento, que em poder dentam de Faria leixara nas Alcá- 
çovas; eerajaali trazido. E aíi começou d^ntender nas cou- 
fas de feu defcargo. E porque o nom importunaflem em tal 
tempo com defordenados requerimentos , quifera que ordena- 
damente pelos livros de feus Moradores , fe apontaram logo 
aqucllas peíToas a que devia acrecentar , fatisfazer, e fazer 
mercee , e aílí também perdoar. Mas a prelTa das importu- 
nações y e neceílidades particulares nom deu a iíTo lugar. E 
porque Ayres da Silva Camareyro Moor d'ElRey tynha ja 
delle fencido t como tynha decrarado o Duque por feu So- 
ceíTor , pediolhe que com a noteficaçam , e certeza diflb ho 
enviaíTe a elle , e também Dom Alvoro de Crafto feu cunha- 
do ; porque com certidam de tam alegre e bem aventurada no- 
va , efperariam delle mercee , e acrecentamento ; e mais elles 
melhor que outrem procurariam , e fegurariam as coufas do 
Senhor Dom Jorge feu filho , que EIRey na mefma notefica- 
çam , aalem do Teítamento muito lhe encomendou. E EIRey 
fatisfez em tudo a Ayres da Silva ? como a pelToa a que ti* 
nha boa vontade. 

CAPITULO LXXXL 

Perdoes que EIRey pedio , e mercees y e fatisfaçoes 

que fez, 

NEfte dia revolvendo EIRey em fua memoria as coufas 
que mais fua conciencia gravavam , pedio perdam por 
eferipto ao Cardeal Dom Jorge, e aa Raynha fua molher , 
e aa Ifante Dona Briatiz , com palavras de muito arrependi- 
mento , e húa devota contriçam , e com húa pubrica , e lou- 
vada acufaçam de feus pecados. E aíi em viva voz, pedio 
com muita humildade outros perdões aa Clerezia , e Cava- 
leiros , e Povoo de Portugal , acufandofe com muita fe , e 

efpe- 




Ip2 CHRONICA 

efpecencado conhecimento d'erros , em todo o que a cada hú 
errara , e poderá errar. Fez a muitos com grande temperan- 
ça muitas mercees de teenças , ofícios , e benefícios fegundo 
cada hum o merecia , e as Provisões com a alma na boca af- 
íinava per li , e os comprimentos delias encomendava ao Du- 
que feu primo , como a filho , e Soceííbr. Teendo nefipa Gra 
a candea na mão tam certa pera morrer , como era jufta a 
balança na outra , pera nom outorgar fenam o que per juík> 
pefo devia. E neftc tempo, e de tam poucas oras devida, a 
muitas pefloas denegou EIRcy, efe eicufou na conceíTam de 
muitos requerimentos , com tanta razam , e honeftidade , e 
com tam vivas lembranças de fatisfações , e coufas paíTadas , 
que certamente pola denegaçam delias, mereceo muito mais 
louvor , que polas muitas que outrogou. As quaacs repartia . 
e dava com tanta proviíam, e temperança , que nom pare- 
cia que a alma lhe fajp. da carne pera logo acabar, masque 
lhe entrava no corpo , nova vida com que começava de rc- 
gnar novamente. E temendo rebates da carne , que neíla ora 
muitas vezes , e muy fantamente acufava , nom quis que nefte 
ponto de feu falecimento efteveíTe co elle o Senhor Dom 
Jorge feu filho , nem o quis veer. E mandou que o feu Tef- 
tamento grande como elle faleceííe logo íe abriíTe , porque 
nelle fe acharia o que defpois de fua morte aviam de fazer; 
e que defpois de vilto logo ho levaíTem três do Confelho 
d'E!Rey ao Duque. E porque tynha mandado que o lançaíTem 
na Igreja de Lagos , onde logo fora foterrado ho Ifante Dom 
Anrique feu Tio quando em Sagres faleceo , tornou a mudar 
feu enterramento, aa Se da Cidade de Silves, donde mandou 
que feus oíTos foífem defpois treladados ao Moefteiro da Ba- 
talha; e aífi ho foram defpois por EIRey Dom Manuel noílb 
Senhor, com muita honra, e grande follenidade , como em 
fua Crónica , onde mais^ pertence fará mençam. E na cafa 
donde a alma d'ElRey fe apreífava ia fair de feu mui defa- 
figurado corpo, eram eftas pcíToas principaes : o Conde de 
Pendia .Dom Fernando de Vaasquoncellos , em cujas mãos 

El- 



d' elRe y D. J o a 6 II. 1^3 

EIRey quis tcer as fuás com a derradeira candea accfa. E 
Dom Jorge d'Almeyda Bifpo. de Coimbra , íobre quem EI- 
Rey criando cmcofíado , lhe tynha diante a Cruz , dizendolhe 
palavras de grande esforço, e pêra aquella ora de boa efpe- 
rança. E o Bifpo de Tanger , que com ho Vulto de NoíTo 
Senhor efpertandoo com lembranças fa nelas , devotas, e mui 
confortofas pêra nellas morrer. E o Bifpo do Algarve Dom 
Joham com agoa benta , e outros Capellaaes que por elle re- 
zavam o Credo , e Quictmqiie vult ; e outras muitas devações , 
cum muitas mais lagrimas , que nelles , e em todos fe nom 
podiam efeufar. E dos do Confclho , era ho Prior do Crato , 
Dom Martinho de Caftelbranco , Fernam Martinz Mazcare- 
nhas , Lopo da Cunha, Dom Francifco d'Eça, Dom Joham 
de Soufa, Dom Diego Lobo , Joham Fogaça, Dom Pedro de 
Crafto , AíFõm Femandez do Mont'Arroyo , e Alvoro d'Atai- 
de , e Nuno Fernandez feu filho ; e afíí outros honrados ho- 
mens. E ao Domingo vinte , e cinquo dias d'Outubro do an- 
no do nacimento de noíTo Senhor Jhefu Chriíto de mil quatro- 
centos , e noventa e cinquo , em fe querendo o Sol poer, 
EIRey eftando fempre em fua falia , e acordo com ho Nome 
de Jhefu, que foy a derradeira pallavra que diíTe , efpirou , 
e deu fua alma a elle , que he foo , e Deos verdadeiro. E 
certo poios íinaaes , e obras de fua contriçam , e íingular ar- 
rependimento daquellas oras , piedofamente aífi fe deve ef- 
perar. 

CAPITULO LXXXII. 

Feições , Vertuàes , cu/lumes , e manhas d' EIRey 

Dom Joham. 

FOy EIRey Dom Joham homem de corpo , mais grande, 
que pequeno , muy bem fe&o , e em todos feus membros 
mui proporcionado \ teve ho roftro mais comprido , que redon- 
Tom. II. Bb do , 




i£4 Chronica 

do, e de barba em boa conveniência povoado. Teve os ca- 
bellos da cabeça caftanhos , c corredios ; e porem em hidade 
de trinta e fete annos , na cabeça , e na barba era ja mui caáo ., 
de que moftrava receber grande contentamento, pola muita 
autoridade que a fua Dinidade Real fuás caas acrecentavam : 
e os olhos de perfeita vifta , e aas vezes moftrava nos bran- 
cos delles húas veas , e magoas de fangue , com que nas cou- 
fas de fanha, quando era delia tocado , lhe faziam o afpei- 
to mui temeroíò. E porem nas coufas d'honra , prazer, e 
gafalhado , mui alegre , e de mui Real , c excelente gra- 
ça : ho nariz teve hu pouco comprido , e derribado algu 
tanto fem fealdade. Era em todo mui alvo , falvo no rof- 
tro que era coorado em boa maneira. E atee hidade de trin- 
ta annos foy muy emxuto das carnes , e defpois foy neilas 
mais revolto. Foy Princepe de maravilhofo engenho, e fu- 
bida agudeza , e mui mixtico pêra todalas coufas ; e a con- 
fiança grande que diíTo tynha , muitas vezes lhe fazia confiar 
mais de feu íaber , e creo confelhos d'outrem menos do que 
devia. Foy de mui viva, e efperta memoria, e teve ho juí- 
zo craro , e profundo : e porem fuás Sentenças , e falias que 
inventava , e dezia , tinham fempre na envençam mais de 
verdade, agudeza, e autoridade, que de doçura, nem elle- 
gancia nas palavras, cuja pronunciaçam foy vagarofa , en- 
toda aigú tanto pelos narizes , que lhe tirava algua graça. 
Foy Rey de mui alto , esforçado , e fofrido coraçam , que 
lhe fazia fofpirar por grandes , e eftranhas emprefas ; polo 
qual com quanto feu corpo peíToalmente em feus Regnos an- 
daífe poios bem reger como fazia , porem feu efprito fem- 
pre andara fora delles , com defejo de os acrecentar. Foy 
Princepe mui jufto , e mui amigo de juftiça , e nas exuqu- 
çoes delia mais rigurofo , e fevero , que piedofo ; porque 
fem algua exçepçam de peíToas de baixa , e alta condiçam , 
foy delia mui inteiro exuqutor : cuja vara , e leys nunca ti- 
rou de fua própria feeda , por afentar nella fua vontade , nem 
apetitos ; porque as leys que a feus vaíTallos condanavam , 

nun- 



d'elReí D. Joaó II. jn^ 

nunca quis que a íi mêfmo afolveíTem ; ca feendo Senhor daâ 
leys , fe fazia logo fervo delias , pois lhe primeiro obede- 
cia. É porem de fua condiçam com pena , e dificuldade en- 
tendia nas petições , e defpachos das partes , o que pareceo 
fer em feu tempo com muito bem de feus Regnos , e vaíTal- 
los ; porque co iíTo dava caufa , ceifarem antr'elles demandas , 
e grandes litígios , e principalmente defordenados , e cobi- 
çofos requerimentos , pêra que a facilidade do defpacho mui- 
tas vezes convida ; porque aquillo , que nos homens cubica , 
e perfia cfpertavam pêra requererem, e litigarem , a tardan- 
ça do defpacho que efperavam , lho fazia com paciente af- 
íeíTego , e honefto contentamento repremer , e efcufar. Foy 
o Princepe de feu tempo mais privado de privados , e nora 
devidos familiares , de que fe efperaífe , que contra razam , 
honeftidade , e juftiça, e com quebra de fua honra , eftima, 
e Eftado fe governaSe , e regeífe ; porque como mui perfeito 
Rey , aífi ordenou fua vida , e nefte paíTo tam livre de re- 
prenfam , que feendo Senhor de Senhores nunca quis fer, 
nem parecer fervo dos fervidores : e difto principalmente pro- 
cedia , que em fua vida foy ávido por fecco de condiçam , e 
nom humano , nem pareceo em vivendo de todos aÔi ama- 
do , e eftimado , como ho foy defpois de fua morte. Mas 
efte novo , tam grande , e tam geral amor , que a elle , e a 
fua memoria per todos defpois fobreveeo , nom naçeo tan- 
to dos merecimentos de feu corpo , em que ouve muitos, 
e de grande louvor , como da gloriofa falvaçam , e bem aven- 
turança de fua alma , a que efte privilegio de graça foo 
Deos por fua mifericordia defpois de fua morte quis conce- 
der. Foy Princepe fobre todos em fuás detriminaçóes tam 
confiante , e nas palavras tam verdadeiro , que em fua foo 
palavra, quando a dava, hiam os homens mais contentes, 
e feguros , do que poderiam hir nos aflinados , e feelos de 
muitos. Foy Rey de tam grande , e tam geeraí nobreza , 
fem magoa, nem vicio de pródigo, que nunca pode, nem 
foube dar pouco , nem a poucos , mas muito , ca muitos : 

Bb ii e 



iy6 Chronica 

e nam das coufas da Coroa de feus Regnos , de que fem- 
pre foy tam amigo , que polas confervar deu delias mui pou- 
cas , e ainda deltas que dava que eram foomente rendas fem 
Jurdiçôes , nem Senhorios , mais pareciam emprcftidos , que 
doações , porque nunca palTavam de vida : e porem d'ouro , 
e prata , e dinheiro , e outras femelhantes coufas foy fem- 
pre, e per muitas maneiras tam folicito aquiridor, como li- 
beral , e mui manifico gaftador ; porque nom ouve Regno 7 
nem Provinda de Chriftãos , e Infiees , amigos , e imygos 
de nos fabida , e praticada , em que a nobreza de fua von- 
tade , mais que a grandeza de feus Thcfouros nom parecef- 
fe : porque nom foomente em feus Regnos , c nos de Caf- 
tella , e Aragam feos Comarquaos , muitas , e grandes pef- 
foas em cada hum anno recebiam de fua fazenda grandes 
teenças , e mercees, mas ainda em muitas outras partes de 
feus Regnos muy alongadas , affi Chriftãos , e Rcligiofos , 
como Bárbaros, e Infiees, todos com refpeitos de fervi ço de 
Deos, e feu, e por honra, e acrecentamento maior de fua 
Coroa , recebiam delle continoadamente mercees , e com 
grande certeza. Foy manhofo, e defen volto em todalas boas 
manhas , que a hú alto Princepe convém ; foy íingular ca- 
valgador , efpecialmente da gineta , deeflro , braceiro , bôo 
dançador , e com graciofo defpejo , bem defenvolto em to- 
dalas danças. Foy grande Monteiro , mas muito maior caça- 
dor d'altanaria , a que era mui incrinado , e pêra que fem- 
pre teve muitas , e mui íingulares aves , e bóos caçadores. 
De fua pefíba quando alguns tempos devidos , e acidentes 
o nom contradiziam , fempre íe prezou d'andar bem , e ri- 
camente veftido; porque foy Rey tamefmerado, e tam exce- 
lente , que nom foomente as coufas de fua Real pefíba , mas 
todalas outras que foliem pêra feu fervi ço , e teveíTem nome 
de fuás , quis que pareceíTem Reaes , e fobre todas teveíTem 
perfeiçam , e deferença. Foy homem que comeo bem , e po- 
rem nunca mais de duas vezes por dia , e atee hidade de trin- 
ta efete annos em que adoeceo, fempre bebeo agoa, e nunca 

vi- 



d' EL Re Y D. J O A ô II. I97 

vinho. E comia com tanto vagar, e detença , que a elle fazia 
dano , e a todoios que fua meia aguardavam , era de tanto no- 
jo , e canfaço , que fem muita pena, toda a nom podiam fo- 
frer, nem aturar. Foy Princepe muy cerimonial ; polo qual 
as coufas de fua honra , e Eítado , quis que em todoios tem- 
pos fempre a elle foíTem fectas , e guardadas com grande ve- 
neraçam , e muito acatamento , de maneira , que em todas 
parecia fempre lhe efquecer que era homem , e nunca lhe 
leixava de lembrar que era Rey , e grande Senhor. Foy em 
todas fuás palavras muy honeílo , e temperado , e no auto da 
carne acerqua de molheres , defpois de fer Rey , foi fobre 
todos mais continente. Foy fobre tudo Princepe mui devoto, 
e amigo de Deos , e nunca o Nome de JESUS chegou a 
fuás orelhas , que o nom recebeíTe no coraçam co os giolhos 
cm terra : nem fe paíTou dia em que com muita devaçam nom 
ouviíTe MilTa , e os Officios Divinos ; nem noéle que em feu 
Oratório fecreto nom rezaíTe , e s^encomendafTe a Deos. E 
com tanto fervor, e afli aturadamente o fazia, que parecen- 
do em algúa maneira fer contra feu oficio , muitos como nom 
«deviam lho reportavam , nam aa limpa fe , e grande contri- 
çam com que o fazia , mas a fingida devaçam , e verdadei- 
ra ypocriíia , de que pêra encuberta de muitas coufas pare- 
cia que queria ufar. E pêra fe o Culto Divino celebrar , e 
fazer perfeitamente , e com muita folepnidade , trouxe fem- 
pre em fua Capella muitos Capcllaães , e íingulares Canto- 
res. E deites Regnos foy o primeiro Rey , que em fua Ca- 
pella fez continoadamente rezar as Oras , como em Igreja 
Cathedral ; e pêra fe fazer em maior comprimento , ordenou 
algtías rendas , de que todos fegundo ferviíTem , ouveíTem 
cotidianas deftribuiçôes. E afli fez , e ordenou outras muitas , 
« boas coufas , e de muito bem , proveito , e boa governan- 
ça de feus Regnos , vaflailos , e naturaaes delles , em que pa- 
receo mui claro , que era próprio , e verdadeiro coraçam da 
Repubrica. Acabou fua vida em hidade de quorenta annos , 
e féis mefes , de que os vinte , e cinquo annos foy cafado 

com 



/ 



1^8 Chrônica 

com a Rainha Dona Lianorfua £00. molher , e delles os qua- 
torze annos , e doos mezes regnou , que pcra elle nefte Mun- 
do abaftaram , pêra no outro merecer de regnar na Gloria % 
que he pêra fempre. 

CAPITULO LXXXIII. 

O que fe fez defpois da morte d* EIRey. 

JOuve EIRey aífi finado , a vifta de todos atee que de todo 
arrefeceo ; e em quanto ho aparelharam , e metiam na 
tumba , os do Confelho tiraram d 5 hu Cofre o feu Telhm en- 
tro que Ruy de Pina logo abrio , e leeo todo pubricamen- 
te , em que aalem de muitas outras coufas que leixou por 
defcargo de fua conciencia , fe achou que EIRey declarou 
ho Duque de Beja , fer o que de dereito era legitimo her- 
deiro , e SoceíTor de feus Regnos , encomendandolhe com pa- 
lavras de grande amor , e maior obrigaçam o Senhor Dom 
Torge feu filho r a quem também leixou feito Duque de Coim- 
bra, e Senhor de Monte Moor o Velho com todalas Villas, 
e terras que tynha o Ifante Dom Pedro feu bifavoo ; e mais 
encomendava ao Duque , que lhe deíTe todalas coufas que el- 
le em Duque tynha , em que entrava ho Meftrado de Chrif- 
tos , e a Ilha da Madeira. E porem o titolo de Duque com 
muitas deitas coufas lhe deu EIRey Dom Manuel noíTo Se- 
nhor defpois de regnar, e d'algúas s'efcufou , e creefe que 
nom feria por mingoa d'amor , e boa vontade que lhe tevef- 
fe ; mas porque a eftreiteza do Regno , e as grandes necef- 
íidades da Coroa Real , e a efperança d'aver filhos por ven- 
tura aífi o requeriam. E acabado de leer o diér.0 Teftamento , 
os Senhores do Confelho fezeram fua cerimonia devida , e 
acuftumada , em que logo declararam , e ouveram o dicto Du- 
que por Rey ; e aífi lhe efcrepveram , e enviaram logo o di- 
cio Teftamento per três honradas pefibas do Confelho. E aa 
<nea notte foy ho corpo d'E!Rey levado em huma Azem ala 



i 



d'eL R E Y D. J O A 6 II. jpp 

a Silves , com grande pranto , e muita trifteza dos povoos 
que ali eram , e ho acompanhavam. E foy fo terrado na Igre- 
ja Maior onde jouve com efperiencia de milagres que noflb 
Senhor em ÍInal de fua bem aventurança por elle fazia ; e d'hi 
foy defpois treladado pêra o Moefteiro da Batalha per EI- 
Rey Dom Manuel noílb Senhor , ao tempo , e com a honra , 
e cerimonias, que em fua Crónica fará mençam. A certidam 
de feu falecimento foy dada aa Raynha , e ao Duque em Al- 
cácer do Sal , logo aa fegunda feira. E aa terça logo feguin- 
te ho Duque foy folepnemente alevantado , e obedecido por 
Rey , e aífy logo per todo o Regno fem algúa contradiçam. 
E acabado o enterramento do corpo d'ElRey , os que ho 
acompanharam , fe volveram pêra o Senhor Dom Jorge que 
ficava em Villa Nova , e principalmente o Prior do Crato , 
que era feu Ayo. E d'hi vieram teer dia de Todolos Santos 
a Mefíegena no Campo d'Ourique , onde chegou ao Senhor 
Dom Jorge , Anrique Corrêa com as primeiras Cartas de con- 
fortos , e muita efperança , eferiptas da própria maao d'El- 
Rey , o qual d' Alcácer do Sal , logo foy a Monte Moor ho 
Novo , onde o Senhor Dom Jorge chegou , e lhe foy logo 
beijar as mãos , cuberto de burel com todolos que o acom- 
panhavam. E EIRey o recebeo com grande gafalhado , c 
moítranças de muito amor , e com a lembrança da morte d'El- 
Rey , que fe ali reprefentou em muitos com alTaz de lagrimas , 
e íinaaes de muita triíleza. E o Prior feu Ayo , por comprir o 
que EIRey feu Padre lhe mandou , co os giolhos d'ambos em 
terra , ho entregou a EIRey feu Tio ; e fobr'iíTo fez hua fal- 
ia , em que a EIRey com palavras de muita prudência , e 
craras obrigações, pedio emparo , mercee , e acrecentamento 
pêra o Senhor Dom Jorge ; e a elle com outras de nom me- 
nos eficácia aconfelhou , pêra que fempre , e lealmente fer- 
viíTe , e amalTe fobre todos o difto Senhor. E por entam EI- 
Rey o recolheo em feu apoufentamento , e d'hi em diante 
ho tratou , e honrou como era razam. 

Fim da Crónica d? EIRey D. Joham II. 

IN, 



p 



2ÔÍ 

INDEX 

D A 

CRÓNICA D'ELREI DOM JOHAM. 



Rollogo d Crónica d? ElRey Dom Joham o fegundo - 3* 
CAP. I. Começo da dita Crónica. - - - - ---9* 

CAP. II. Fundamento do Caftello e Cidade de Sam Jorge na 

Mina. ------- ------ _ IIt 

CAP. III. Cortes devora pêra obediemçia , e menagees , e Ca- 
pitólios. - - - ----------- 17. 

CAP. IV. Principio do cafo do Duque de Bargamça. - 18. 
CAP. V. Forma das Menagees que fe fazem pellas fortelle- 

zas. ---------- -_.-_.. j^. 

CAP. VI. Difcordia amtre o Marques , e o Arcebpo Dom Johant 

Galvaao. --------------23. 

CAP. VIL Embaixada que ElRey emviou a Cajlella , e Im- 

graterra. -------------- 2^. 

CAP. VIII. Embaixada a Cajlella. - - ~ - ^ - - 26. 
CAP. IX. Falia d'' ElRey ao Duque de Bragança. - - 31* 
CAP. X. Repofla do Duque a ElRey. - - - - - 33. 

CAP. XI. Defcobrimento que Guafpar Jufarte , e Pêro Jufarte 
fizeram a ElRey contra o~ Duque de Braguança e feus ir- 
mãos. ---------------36; 

CAP. XII. Desfazimento das Terçarias 5 e entregua dos In^ 
fantes. --------------- 40. 

CAP. XIII. Entrada do Príncipe na Corte em Évora. - 41* 
CAP. XIV. P rifão do Duque de Braguança. - - * - 42. 
CAP. XV. Partida d'' ElRey d' Évora pêra Abrantes , e d'hi a 

outras Comarcas do Regno. - - - - - * - - - 5-3. 
CAP. XVI. Hida d* ElRey , e da Raynha a Sam Domingos da 

Queimada, e ao Porto. - - - - -- - - - 5-4, 

CAP. XVII. Principio da fegunda def aventura em que foy contra 

ElRey o Duque de Vifeu com outros. - - - . - - 5*5-* 
CAP. XVIII. De como foi a morte do Duque de Fifeu. - 5-7, 
CAP. XIX. Mudança que ElRey fez no Efcudo Real y efazu 

Tom. II. Ce men- 



202 I N D E X. 

mento de novas moedas. - - - - - - - - - 64. 

CAP. XX. Embaixada ? e obediência ao Papa Innocencio Oèla- 

vo. --------------- 66. 

CAP. XXI. Tomada das Galees de Veneza pelos Francezes. &j* 
CAP. XXII. Grifam de Bom Álvaro de Souto Mayor com fof 

peita de traiçam. - - - - - - - - - - - 72. 

CAP. XXIII. Defefa das fedas , e brocados , érc. - - 73. 
CAP, XXIV. Defcobrimento de Beny. ------ 74. 

CAP. XXV. Canos d*agoa de Setuvel. ----- y$ t 

CAP. XXVI. Como EIRey defijlio das Leteras das pobricações 

que Je davam aas Leteras Apoftolicas. ----- lbid. 
CAP. XXVII. Hida de Dom Diogo d? Almeida aos Aduares em 

Africa. - ------------- 76. 

CAP. XXVIII. Desbarato , e prifam de Barraxa Mouro per 

Dom Joham de Menefes Capitam de Tanger. - - - 78. 
CAP. XXIX. Como EIRey per autoridade Apoflolica mandou em- 

querer febre os confeffos que de C afie lia eram neftes Regnos 

lançados. - - - - - - - - - - - - -79. 

CAP. XXX. Repairo nas Fortalezas dos efiremos. - - 80. 
CAP. XXXL Prifam , e Refgate do Alcaide £ Ale acere- Quebir 

polo Conde de Borba Capitam d?Arzilla. - - - - 81. 
CAP. XXXII. Prijam d' EIRey dos Romanos , e fua foltura. 82, 
CAP. XXXIII. Confelho fbre o cafamento do Princepe. - 84. 
CAP. XXXIV. Prifam do Conde de Penamacor em Ingr ater- 
ra. ---------- 85-. 

CAP. XXXV. Prifam de Dom António filho fegtmdo do Conde 

de Villa Real que era Capitam em Cep ta. - - - - 86. 
CAP. XXXVI. Armada que fe fez pêra alem mar , de que Fer- 

nam Martyns Mazcarenhas foy Capitam , e o feão que fez 

em Alcacer-Ouibir. -----------87. 

CAP. XXXVII. Como Bemoy foi feBo Chrifiaõ - - - 89. 
CAP. XXXVIII. Fundamento, e fim da Craciofa. - - 96. 
CAP. XXXIX. Cortes Cobre o cafamento do Príncipe. - 10 1. 
CAP. XL. Nova Juftiça que EIRey mandou fazer. - 102. 
CAP. XLl. Tomada de Targa , e Çanjçe. - - - - 103. 

CA- 



Index. 203 

CAP. XLII. TreladaçaÕ do Moefieiro de Santos. - - 106. 

CAP. XLIII. Vinda primeira do Senhor Bom Jorge , filho £El- 
Rey , aa Corte. ._--------- 107» 

CAP. XLIV. O fundamento , e principio do cafamento do Prin- 
cepe Dom Ajfom com a Princeja Dona Ifabel , e feflas que fe 
por elle fizeram , foy e je feguio jumaria y e verdadeiramente 
nefta maneira. - - - - - - - - - -- - .108. 

CAP. XLV. Finda da Princefa. - - - - - - - 109. 

CAP. XLVI. Vinda tfelRey , e do Príncipe de Eftremoz , e do 
recebimento per palavras de prefente que fe fez. - - 121» 

CAP. XLVII. Entrada da Princefa em Eu ra. - - - 123. 

CAP. XLVIII. Partida d 3 ElRey a primeira defpois das fef- 
tas. ---------------128. 

CAP. XLIX. Tomada tfElRey a Évora com a fegunda partida 
d^hi para Santarém. --------..- 130. 

CAP. L. Morte do Príncipe. - - - - - - - - 131. 

CAP. LI. Mudança do Senhor Dom Jorge. - - - - 139. 

CAP. LIL Saymento do Princepe. -_---.. 140. 

CAP. LIII. Partida da Princefa para Caflella. - - 141. 

CAP. LIV. Hida d'ElRey , e da Raynha a Lixboa ^ logo def- 
pois da morte do Princepe. - - - - - - - - 142: 

CAP. LV. Provifam dos Meflrados de Santiago , e d? Avis pê- 
ra o Senhor D. Jorge. - - - - - - - - - 143- 

CAP. LVI. Fundamento do Efprital grande de Lixboa. J44. 

CAP. LVII. Defcobrimento do Regno de Manicongo , e de co- 
mo foy feflo Cbriflao. --------- Ibid. 

CAP. LVIII. Chegada dos Negros afua Terra. - - 147. 

CAP. LIX. Hida do Capitam , e Frades a EIRey de Congo. i$g. 

CAP. LX. Entrada dos Chrifiaos na Corte d y ElRey Mani- 
Congo. -------------- 160. 

CAP. LXI. Fazimento da Igreja primeira. - - - - 1 64. 

CAP. LXII. Como FJRey foy fetfo Chriflão. - - - 165. 

CAP. LXIII. Como a Raynha foi feB a Chriflaa. - - 169. 

CAP. LXIV. Principio da doença d? FJRey em Lixboa. - 172. 

CAP. LXV. Entrada dos Judeus de Caflella em Portugal. 173. 
TH3 Ce ii CA- 



ac>4 Index, 

CAP. LXVI. Defcubrimento das Ilhas de Cajiella per Collom- 
bo. --------------- 177. 

CAP. LXVII. Vynda de Monfeor de Liam Francês que ElRey 
fez Conde de Gazana. --- ------ 180. 

CAP. LXVIII. Rida dos Moços , que foram Judeus , aa Ilha 
de Sam Tome. ------------ 181. 

CAP. LXIX. Doença da Raynha D. Lianor em Setuvel. Ibid. 

CAP. LXX. Hyda d? ElRey a Évora. - - - - - - 183. 

CAP. LXXI. Ordenou Oficiaaes de defpacho. - - - - Ibid. 

CAP. LXXII. Hyda d? ElRey aas Alcáçovas. - - ^ 184. 

CAP. LXXIII. Detriminoufe entrar ElRey em banhos. - Ibid. 

CAP. LXXIV. Detriminaçam da hida de Santarém , a que nom 

fiy. --------- - l85 -. 

CAP. LXXV. Detriminaçam d'hir aas caldas do Algarve. Ibid. 

CAP. LXXVI. Fez ElRey jeuTeft amento. - - - - 18 tf. 

CAP. LXXVII. Partida d 3 ElRey para o Algarve. - - 187. 

CAP. LXXVIII. Approvaçam do Te/lamento. - - - Ibid. 

CAP. LXXIX. Partida das Caldas pêra Alvor. - - 188. 

CAP. LXXX. Como foy o falecimento d' ElRey. - - - 190. 

CAP. LXXXI. Perdões que ElRey pedio , e mercees , e fatis fa- 
cões que fez. ------------j^i. 

CAP. LXXXI I. Feições , Vertudes , cuftumes , e manhas d y El- 
Rey Dom Joham. ----------- 1^3. 

CAP. LXXXIII. O que fe fez defpois da morte d' ElRey. 198. 



CHRO- 



N. V. 

CHRONICA 

DO CONDE 



DO 




PEDRO 



DE MENEZES, 

ESCRITA 

POR GOMES EANNES DE ZURARA 

ClíRONISTA MOR DE PORTUGAL , E GlTARDA MÓR. 

da Torre do tombo. 



Ce iil 



IN- 



20? 

INTRODUCÇAÕ 
ÀS CHRONICAS 

D E 

GOMES EANNES DE ZURARA. 

G Ornes Eannes de Zurara , Guarda mór da Torre do Tombo i 
e Chronifla mór defte Reino , tal > diz João de Barros , qué 
bem mereceo o nome do officio , e digno dos cargos que 
teve aífi pelo eftilo , como diligencia das coufas que tratou $ 
naceo em alguma das duas villas do feu nome a fer certa ã 
conjeãura de João Soares de Brito y e do Autor da Bibliothecá 
Lujitana. 

Deixando porem as conjeãuras , diremos âelle fegundo o noffo 
coflume , fá o que em Autores mui vizinhos á Jua idade , ou ent 
autênticos documentos achámos recordado. Foi elle filho de Jo- 
hanne Eannes de Zurara Cónego $ Évora e de Coimbra , como 
fe collige de huma efcritura da Torre do Tombo , nr livro 3 . ° de 
Guadiana a f. 5-7. Entrou na fua mocidade em a ordem de 
Chriflo , porque ao depois foi nella Commendador , o que então fe 
nao alcançava j Jenao por hum fervi ço regular fia ordem 5 e por 
ancianidade , como ainda em nofjos dias continua a fer na ordem 
de Malta. Quaes forao eftes fervi cos , e o adiantamento que p^r 
elles alcançou Gomes Eannes , nao foi pojjivel achar no Cartório 
da Ordem em Thomar , aonde as noticias particulares , e regis- 
tro dos Cavalleiros , nao vao mais atraz , que o principio do XVI, 
feculo. Confia porem por huma efcritura da Torre do Tg-ubo do 
livro X. de D. Affonfo V. a f. 113, que em 14^4 era jd Com- 
mendador de Alcains , e por outra do livro 7 de Eftremadiiva 
a f. 2$ç. v. fe vê que em Agoflo de 145*9, tinha jd largada 
efta Commenàa ? e poffuia as do Pinheiro Grande e da Granja 
de Ulmeiro. 

O exer» 



soS Introditcça6. 

O exercido das armas ocupou toda a fua mocidade , [em ef 
tudo algum e applicaçao ás letras. Ainda que o autor da Bi- 
bliotheca Lufitana nos ajfegure o contrario , Matteos de Pifanojeu 
contemporâneo , e que pejfoalmente o devia conhecer , diz clara- 
mente que Gomes Eannes , dum maturas jam astatis eíTet& nul- 
lam littcram didiciíTet adeo ícientiac cupiditate flagravit quod 
confeftim efFe&um eft , ut bónus Grammaticus nobilis Aítro- 
logus ? & magnus hiftoriographus evaíuTet. 

A reputação que efies infperaãos progrejfos lhe grangea- 
rao , fez com que ElRei D. Affonfo V. apofentanão ao Guarda 
môr da Torre do Tombo , Fernão Lopes por fer já taõ velho e 
flaco , que perfy nom pode bem fervir o dito ofício , o dejfe 
com confentimento de lie a Gomes Eannes em 6 de Junho de 145*4. 

Havia fido Fernão Lopes o primeiro Guarda môr da Torre 
do Tombo , e até a feus dias tinha pertencido a Guarda e ad- 
minijlraçao do Arquivo Real aos Officiaes da Fazenda , como fe 
•vê de hum Alvar d d^ElRey D. João I. de 22 de Dezembro de 
141 1 , que fe acha a folhas 82 do livro 5 da Chance liaria dcf- 
te Rey. Ainda em nojfos dias tantos fe calos defpois exiflem vef- 
ttgios defta original adminijlraçao , fendo os Officiaes do Ár* 
quivo , providos e pagos pelo Confelho da Fazenda. 

NaÕ fi pojjlvel achar documento por onde conflajfe dos an- 
nos , que Gomes Eannes ocupou efle cargo, nem de qual foi feu 
immeàiato fuccejfor. Sabe-Je fomente que em 1472 ainda o exer- 
citava , e que em 1497 ? o deixou Vafco Fernandes de Lucena, 
para nelle entrar Ruy de Pina. Segundo a opinião de JoaÕ de 
Barros foi Gomes Eannes hum luminar do Arquivo Real , digno 
de todo o louvor pelos livros de regiflros que nelle fez , reco- 
pilando as forças das efcrituras dos Reinados de D. Fedro I. 
D. Fernando D. Joaõ. I. , a verdade porem requer que fe di- 
ga que ejles informes e fecos borrões de Gomes Eannes que 
ainda exiflem na Torre do Tombo , fraquijftma luz dao por fi 
mefmos , e for ao califa de fe perderem de vi/la os criginaes , 
dos quaes fomente podíamos efperar , huma cabal informação ? e 
jujla idêa dos períodos a que pertencerão. 

Mat- 




Introducçaõ. 209 

Matteos de Pifano nos informa que alem de Guarda mór 
da Torre do Tombo , fora Gomes Eannes Bibliotecário da Livra- 
ria do Senhor D. Ajfonfo V. , a qual nao fomente guardava , 
mas dij punha liberalmente delia , empre fiando os livros , às peffoas 
Letradas que delles precifavao para os feus trabalhos. Ifio faz 
juppor a grande autoridade , e reputação do nojfo autor > e o apre- 
ço e efiimaçao que o Soberano delle fazia. 

Com ejfeito fao muitas as provas que ainda exifiem dos be* 
neficios que d*ElRey recebeo. No livro 31 da Chance liaria af. 76 
fe encontra hnm alvará datado em Sintra a 7 de Agofto de 1459 
em que lhe faz mercê de huma tença de doze mil reaes bran- 
cos , os quaes dinheiros elle de nos ataagora houve. Does dias 
depois lhe concedeo EIRey faculdade de g afiar dez mil reis nas 
cafas em que elle morava d porta do Paço de Lisboa , que cr ao 
d?ElRey e de abrir nellas huma cifierna , deixandolhe o livre e 
inteiro ufo das me finas para Jl , e para os feus , até que dá fa- 
zenda Real fe lhe fatisfizejfem os gaftos da cifierna , e os dez 
mil reis. Em 1467 a 26 de Julho lhe fez mercê de huma Ca- 
pella que vagara para a Coroa , mercê mui ajjlgnalaàa para a- 
quelles tempos , em que efte género de bens era muito menos 
commum do que em nojfos dias. Deolhe também humas cafas 
em Lisboa de que fe acha memoria no livro 3. dos Mi/licos. 

Devia Gomes Eannes fer bem provido de fazendas herda- 
das , pois que antes de todas efias mercês d? EIRey , tinha ef- 
te Senhor concedido em 14^4 a Garcia Annes e Ajfonço Gar- 
cia moradores de Cafiello-Branco , procuradores de Gomes Eannes 
de Zurara , meu Guarda da Livraria e Cartório da Torre do 
Tombo , ficaffem privilegiados e ifentos de todas as fervido es e 
encargos tanto para Jerviço d'ElRey e Infantes como de to- 
dos as outros quaesquer , em quanto porem e/livejjem noferviço 
de Gomes Eannes , cujas rendas naquella Comarca arrecadavao. 
Ifio faz fupor que a Zurara donde feu pai , e elle tomarão o 
appe Ilido era a Zurara da Beira e nao a do Minho. 

Alem dos bens herdados , das Comendas da fua ordem, e 
das mercês d? EIRey , outros bens adquirio o nojfo autor por hum 

mo~ 



210 I-K T R O D V C Ç A Ô. 

modo nao cr dinar 'io. Em 146 1 , huma Pil liteira viuva , que 
morava em Lisboa na Freguezia de S. Julião , chamada Ma- 
ria Eannes o adoptou p»r Jeu filho , conflituindio herdeiro 
de todos os /eus bens , e fazendo lhe doaçaÔ inter vivos de hu- 
ma quinta em Valbom do Ribatejo , que pela efcritura mefma 
de adopção parece ter fido confideravel , e de humas cajás em 
Lisboa. Quem refletlir nas ideas do XV. feculo , na enorme dif- 
ferença que então havia , entre a gente do commercio , e a no- 
breza , fobretudo a ordem da Cavai laria , deve achar ejla adop- 
ção de hum Patrício , por huma Plebea tao pouco natural co- 
mo a de Clodio na antiga Poma , e faz fof peitar que Gomes 
Eannes era daquellas pejfoas para as quaes o dinbeiro , e a ri- 
queza tudo defcuJpaÕ. (i) 

Qtialquer porem que fojfe o feu caracler como homem , co- 
mo hijlorico merece a maior efiimaçao. João de Barros aprova 
até ao feu eflilo , contra elle fe declara Damião de Góes , por 
caufa da fuperflua abundância , e ccpia de palavras poéticas 
e metaphoricas que uíbu em todas as couías que efcreveo. 
Ambos podem ter rezaÕ , porque o eflilo de Gomes Eannes nao 
loe uniforme , parecem duas diverfas vozes. A fua narração 
ordinária he fingella , cheia de bom fenfo , e nao falta de ele- 
gância , mas de tempo em tempo lembralhe a agrejte rethorica 5 
q'ie tao tarde tinha efludaco e o {lenta , fejame licito dizer af- 
fim , hum eflilo de falfete. O primeiro era o que a natureza 
lhe tinha dado , o ultimo era fruto dos feus mal fazonados es- 
tudos. Com tu o , ejles mefnus defeitos fao agora inter eff antes 
para nos dar huma idéa do faber e do goflo daquelle feculo , e das 
fuás frazes polem os ejludiofos da noffa língua tirar informa- 
ção do paffado e algum proveito para o futuro. 

Se acerca do feu eflilo houve diver /idade de opiniões , ajua 

finceridade hijl. tem fido igualmente bem avaliada por todos , 

e das fuás mefmas obras fe pode colligir. Os defeitos dos feus 

he- 



(1) Ejla adopção confirmada por EIRcy , he bem fmgular pelas formulas 
e qr*s nella fe Jaz ufo, e acha fe no Arquivo Kcal livro $.° de Guadia> 
a foi 57. , 



InTRÒDUCÇAO. 2I£ 

heroes fao trazidos a campo , com a mefma clareza que as fuás 
'virtudes , as intrigas fao declaradas fem refpeito a pejfoa al- 
guma , e ajunta a ejla rara qualidade , para lhe darmos credi- 
to , o fer contemporâneo do que efcreve , e o nao ter poupado à 
meios de inflruirfe para conhecer o que efcrevia. Fez larga 
demora em Africa , fó para ver os lugares que erao teatro 
da hijloria que emprendeo , e tomar miúdas e exaãas infirma- 
ções do acontecido. A carta que EIRei lhe efcreveo quando ellé 
eflava em Alcácer Ceguer , para o animar ao /eu trabalho , faz 
igual honra ao Monarca , e ao efcritor ? e ainda que já publi- 
cada , hird no feguinte volume defles inéditos d frente da Chro- 
nica do Conde D. Duarte d qual mais propriamente pertence 
e ferve de natural introducçao. 

As obras que compoz fao I. a Chronica da tomada de Ceu- 
ta , que por diligencia de D. Rodrigo da Cunha fe imprimio eni 
Lisboa em 164.4. fervindo de 3- a parte d Chrcnica de D. João 
I. por Fernão Lopes. II. a Chronica do Conde D. Pedro de Me- 
nezes , que EIRey D. Affonfo V. mandou verter em Latim por 
Matteos de Pifano , e III. A Chronica do Conde D. Duarte dé q q QptA 

Menezes Capitão de Alcácer. Fjlas duas ultimas nunca virão a, 
luz publica , e fao às que agora aqui fe publicaõ. sf$ 

A do Conde D. Pedro de Menezes , vai impreffa fegundo o 
mais antigo dos poucos exemplares MJf. que delia fe conhecem. 
Pertence o d Cafa de Távora , e faz agora parte da rica Co lie c- 
çao de MJf. do Jlluflrijfimo e Rever endiffimo Monfenhor Hajfe i 
Sócio da Academia Real das S ciências. A letra hé do fim do XV. 
feculo , ou princípios do feguinte , e achafe ajfaz bem conferva- 
do. A do Conde D. Duarte , mais rara ainda , vai impreffa fe- 
gund) hum mui ejlimavel Ms., e único antigo exiflente , o quat 
fe acha em poder do Excellentifjimo Conde de S. Lourenço Dom 
JoaÕ de Noronha , Sócio também da Academia Real das Scien- 
cias. Tudo inculca autoridade nefle Codego , mas he para lamen- 
tar que haja tantas lacunas nelle , que devemos fupor irre- 
paráveis , pois que nao fomente faltao nos dois exemplares mais 
modernos que de fia obra podemos alcançar ? mas jd faltavao 

no 




2 12 INTRODUCÇAÓ. 

no Reinado d'ElRey D. SehafliaÕ , quando teve licença para 
fe imprimir o Ms. que ora tios fervio de guia, Fr. Bartho- 
lomeu Ferreira que o reveo , requer na fua aprovação , que fe 
por ventura efles fragmentos aparecejfem , bcuvejfem de vir d 
cenfura. 

O que falta he o feguinte. Defde o meio do cap. 17 até ao 
meio do cap. 21. Defde o meio do cap. 27 até ao meio do cap. 
33. Farte do cap. 49. Defde o principio do cap. 62. Parte do 
cap. 63 , e os feguintes até ao meio do 67. Parte do 70 , e o 
71 e 72 o cap. 77. Parte do 89 , e os feguintes até ao meio 
do cap. 107. Parte do cap. 109 , e os feguintes até ao meio 
do iii. Parte do 122, e os feguintes até quafi ao fim de 125'. 
Parte de 136. Parte do 137 , e os feguintes até ao meio do 
141. Defde o -principio de 147 até ao meio de 151, e fim 
do ultimo capitulo. Que em tudo fao mais da terceira parte def- 
ta hiftoria, que provavelmente nunca teremos completa. 



CHRO- 



2I 3 



V íy »^~ »v* *v* "V" "V *V "V* *V* *V "V *V "V* *V "V *V* "V* "V* *V *V *V* *V* "V* "V "V *V^*\ ?t. 
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CHRONICA 



D O 



CONDE D-PEDRO 

CONTINUADA AA TOMADA DE CEPTA \ 

a qual mandou EIRey D. Affonfo V* dejle nome , e 
dos Reys de Portugal XII. efcrepver. 

LIVRO L 



CAPITULO I. 



i Orque a principal parte do meu encarre- 
guo he daar comta , e razaõ das coufas > 
que pafam nos tempos de minha hyda- 
de , ou daquellas , que pafaram tam a cer- 
ca , de que eu poíTo aver verdadeiro co- 
nhecimento ; ca fegundo os antigos ef- 
crepveram efte nome , a faber , Chronka 
principalmente ouve o feu origem , e 
fundamento de Saturno , que quer dizer Tempo , efto por- 
que em Grego fe chama efte Planeta Cbrono , ou Chronos , 
que íinifica Tempo , aíTy como no Latim efte nome quer di- 
Tom» II» Dd zer 















ffll 






^WxlJoB 


?%V!f&&l&£g2fí& 





V 



■214 ChUonica 

zer Tempus , c <Phy fe deriva Chranica , que quer dizer 
Iftoria , em que fe efcrepvem os feitos temporaes. Chama-fe 
cite Planeta no Latim Saturntts , cuja verdadeira interpreta- 
ção , quer dizer cafy Saturannis , afaber, comprido , ou cheio 
d'annos. Porem he minha intençom com ajuda da Santa Trin- 
dade efcrepver em efte volume os feitos , que fe fezeram na 
Cidade de Cepta , depois que primeiramente foi tomada 
aos Mouros por aquelle Magnânimo Príncipe EIRey Dom 
Joham. E porque o Filofofo diz , que toda coufa , que mo- 
ve outra, move em virtude do primeiro movedor, nom fi- 
cará aquelle tam excellente Rey apartado de todo da glo- 
ria , e louvor , que aquelle Conde , e os outros nobres Ca- 
valleiros per força de íeus corpos , e fortaleza de feus co- 
rações naquella Cidade ganharom , nem averá pequena par- 
te defte honrozo louvor , efte Rey Dom Aífonfo o Quinto em 
o nome , e duodécimo dos Reys , que foram em Portugal , 
quando coníirar como aquelle auto he melhor em beneficio , 
perque as coufas fam feitas mais nobres , e as pofíilToens du- 
ram em mayor fegurança. E porque os poíTuidores fam mais 
honrados , e de mayor fama ; e porque as propriedades vir- 
tuozas , e os poderios dos obradores faó conhecidos per as 
perfeiçoens dos autos, que delles procedem : por certo o 
auto defte Príncipe deve fer pêra fempre de grande louvor, 
tanto mayor, quanto fe coníirar , que elle antepôz o louvor 
dos outros á fua própria fama , porque quando elle efta If- 
toria mandou efcrepver , jaa eram paflados a cerca de vinte 
annos , que regnava , nos quaes fe paífaram muy grandes , 
e notáveis feitos , aíTy acabados por fua própria Peíoa , co- 
mo por feus fèrvidores , e naturaes por fua ordenança , e 
mandado: e como quer que eu mais quiz era fer, mais ocu- 
pado em dar razão de feus feitos , que dos alheios , princi- 
palmente pelas muitas virtudes , que fempre relle conheci , 
e por fer mais obrigado a elle, que a outra alguma peíToa 
terreal , elle nunca me em ello quiz leixar obrar fegundo 
meu dezejo , ante per muitas vezefi me requereo , e enco- 

men- 



DO C O N í) E D. P É D R O. 2 l<* 

mendou, que me trabalhaíTe d'ajuntar, e efcrepver os ditos 
feitos principalmente por louvor, e gloria daquelle Conde , 
e dos outros nobres , e virtuofos vâroens , que com elle por 
défenfaõ da Santa Fee, e honra da Coroa de Portugal , ;na- 
qucila Cidade tam virtuofamente trabalharam. E aíly que ô 
bom dezejo , e vontade deite Rey D. AíFonfo foi a princi- 
pal caufa de fé cita obra começar , e acabar ; e des y reque- 
rimento de huma Filha daquelle Conde , que fe chamava Do*» 
na Leanor de Mçnezes mulher por certo virtuofa , e de gran- 
de faber , a qual foi cafada com Dom Fernando Bifneto d'- 
EIRey Dom Joham , e Filho primogénito do Illuftre , e Vir- 
tuofo Principe Dom Fernando , que foi Duque de Bragan- 
ça , e Marquez de Villa Viçofa , Conde de Arrayólos , e 
â'Ourem , e de Barcellos , e de Neiva , e Senhor de Cha- 
ves, e de Monforte. E porque fegundo o Filofofo o recom- 
peníamento do ganho deve fer dado a aquelle , que he mif- 
teirofo, e o recompenfamento da honra a aquelle, que he 
muito nobre , e excellente ; devem por certo todos os que 
vierem de geraçom deite Conde , afly por via direita , co- 
mo colateral , fer muito obrigados a efte Rey , porque naó 
foomente íe contentou de os fazer efcrepver em noíTo pró- 
prio vulgar Portuguez , mas ainda os fez traduzir aa Lín- 
gua Latina, porque nom foomente os feUs naturaes ouvef- 
fem conhecimento, e faber das grandes Cavallarias daquelle 
Conde , e dos outros que com elle concorrerom j mas que 
ainda foíTem manifeftos a todo conhecimento de toda a No- 
breza da Chriftandade , per Meftre Matheus de Pifano , que 
foi Meftre d efte Rey Dom AíFonfo ^ o qual foi Poeta Lau- 
reado , e hum dos fuficientes Filofofos , e Oradores , que 
em feus dias concorreram na Chriftandade. E como Micè 
Chino de Piftoya em huma fua Cançó Moral diga , que fe 
nom pode dar herdade de mayor riqueza , nem joya de 
mayor valor a qualquer nobre, e excellente, que a imagem 
fua pintada de virtudes , na qual como em efpelho , fe poíla 
fcfguardar o lume de feus feitos ante a prefença de todo-los 

Dd ii ou- 



ti6 Chronica^ 

outros , que depois vierem nos tempos da futura idade , nom 
fe devem os da linhagem defte Conde , c de todo-los ou- 
tios , que nos virtuofos trabalhos Cavalleiroíbs , de que ef- 
te Livro reconta, alguma parte teverem , fentir pouco obri- 
gados aa bondade deite Rey , como jaa diíTe : certamente fe 
elle naó fora , todo pafTára em efquecimento , e nao foomen- 
te lhe devem fer obrigados aqueftes, por elle com tanto cui- 
dado mandar fazer efta Obra , mas ainda todo-los Principes ^ 
que depois da fua idade vierem a poíluir fua herança com 
todo-los três Eftados , que a governam , e mantém ; primei- 
ramente o Eftado Efpiritual pelo grande enzalçamento da 
Santa Fee , que fe pelos trabalhos daquelles virtuofos Va- 
rões naquella Cidade recreceo , e por demoftraçam de muy 
grandes milagres , que o Senhor Deos por muitas vezes an- 
te os olhos humanos quiz aprefentar , cm corroboraçam , e 
confirmaçara da fua Santa Fee Catholica ; e os Reys , e Prin- 
cipes , afly pela muy grande honra , que per todo o Mundo 
receberão , como per o Judicial ajuntamento , que podem 
aver y avendo conhecimento de taes coufas , em como os feitos 9 
e obras dos palTados , fejam regra , e ordenança pêra os que 
ham de vir ; caa vendo-íe homens como aquelles , por vergo- 
nha poderão contar , uzarem de menos virtude que os ou- 
tros ; e o Eftado Comum , porque pêra fempre fera gloria , 
e louvor antre as outras Naçoens ferem polTuidores da Cida- 
de , em que tanta honra per tantos tempos per feus antecef- 
fores fe adquirio, e ganhou; caa como fejam membros de 
Eftado Real , nom podem os Grandes , e Nobres poíTuir hon- 
ra , de que a elles nom venha fua parte , pois todos junta- 
mente fazem corpo , e o todo nom pofla verdadeiramente 
pofluir perfeição , fem fuás partes ; caa por qualquer peque- 
na, que falleça, desfallece de feu verdadeiro comprimento. 



CA- 



b O C O N D E D. P K D R O. Si 7 

CAPITULO II. 

Em o qual profegue o Autor , fera melhor declaraçâm 

dejla Obra. 

DEpois que eu ', Muito Alto Príncipe , per voflb mandado 
ajuntei , e efcrepvi a entençom , que EIRey Dom Jo- 
ham volTo Avô ouve de filhar a Cidade de Cepta , e des y 
como fe alTenhorou delia , eu me quizera efcuzar per 
duas razoes de continuar mais na dita Obra ; a primeira , 
porque parece , fegundo diz Sam Jerónimo , que fe eu fezera 
empreita d'efparto , ou efteiras de junco , pêro que o ganho 
fora pouco, ao menos me poderá efcuzar de reprenfaó , da 
qual fom certo , que nenhum Autor de novo Livro poiTa fer 
efcuzo , caa David tam Santo Propheta. tanto clamava ao 
Senhor Deos pedindo-lhe , que o guardalTe das linguas re- 
prenforas i e mordazes j (como elle tantas vezes o refere em 
lua Obra a Paula , e Euftochio , Saluftio , e Fulgencio , e cafy 
todo-los outros Autores, ) que penfa VolTa Senhoria, que eii 
de mim poflb fazer fendo homem cafy todo inorante , e fera 
nenhuma fcicncia , quanto mais , que eu achei os feitos pe- 
la mayor parte taríl maravilhofos , que fe foomente os ouvera 
de eícrepver per enformaçom d^alguns , que o fouberam per 
ouvida d'outros , eu duvidará certamente de os efcrepver, 
nem os efcrepvcra fe na boca de dous , ou de três achara o 
conhecimento delias coufas , porque entendera , que o dizia 
por engrandecer feu nome , e fama ; mas porque alem do 
que achei per efcripto nas Cartas , que os OíEciaes , que os 
Reys tinham naquella Cidade pêra governança dos morado- 
res delia , a efte Regno efcrepviam fali ando nas coufas a 
aquelles , que nellas foram , fe acordavam na verdade ; e o 
que mais era , porque departidamente perguntava , e no que 
fe todos acordavam , procedia em minha Iftoria : e por cer- 
to 



ii* C H I O N I C A ■ 

to que em efte Livro tive eu muito contrairo cuidado , dé 
que alguns Iftorfaes em fuás Obras teveram , efpecialmente 
os Gregos , os quaes fupriam com formofas palavras , o que 
Ga grandeza dos feitos mingoava ; ea mim foi neceífario for- 
necer a mingoa das palavras com grandeza dos feitos ; ja 
feja que antre muitas gentes fe paífaô muitas embaixadas, e 
recados , antes que os feitos venham a rompimento , dando 
lugar ao tempo , que paíTe fem efpargimento de fangue , o 
que antre a Naçaó dos Portuguezes, e aquella barbara gen- 
te he pelo contrario , porque aili naó ha Arautos , nem Paf- 
favarttes > nem outros Officiaes d' Armas , nem Meítres Theo- 
logos , nem -outros Santos Doutores , que poíTaò per con- 
ciencia , ou per Direito Divino , ou Humano abranger as 
amizades , que cafy per hum milheiro d'annos d'amballas par- 
tes jazem reigadas, e foomenteo vencimento de cada huma 
das partes he o principal azo de fe as pelejas partirem. 
Creaó os que eíta Iftoria lerem, que fe na fuítancia algum 
erro ha, que he mais por fe dizer menos , do que a grande- 
za dos feitos requeria , que por eu convidar as orelhas dos 
ouvintes e acrecentar de mim mefmo algumas coufas na ma- 
téria. Eu creio porem, que eftas. efçuzas nom fejam necefía- 
rias pêra as gentes d'Efpanha , que comunalmente em algu- 
mas partes comunicaó com os Mouros , como feraõ pêra as 
outras gentes Eítrangeiras , que nom ham conhecimento de 
fuás maneiras de peleja, deixo os da Ilha de Rodes , que 
cafy fempre guerreaó com os Turcos , pêro huns , nem os 
outros nom ouveram tam continuadas pelejas com os infiéis ^ 
como aquellas que os noflbs naturaes com elles ouveram , de- 
pois que aquella Cidade foi trazida ao feu Senhorio , nem 
creio j que antre os Ghriftaos fe ache Regno , que continua- 
mente tenha cafy três mil homens na guerra dos infiéis pe- 
lejando , ou per mar , ou per terra, e ás vezes juntamente i 
como o noflb Rey continuadamente mantém ; nunca queren- 
do receber paz , nem tregoa , como quer que lhe per vezes 
foíTe cometida. A fegunda razaõ , Muito Alto Principe, era$ 

por- 



DO CoNDÍ D. P.E DRO. 3LTy 

porque pofto que os feitos de Cepta pareçam volTos , pois 
a Cidade he voíTa , nom fe podem direitamente apropiar a 
vós , lenaó aaquelles , que fe per voíTo propio mandado fe- 
deram , e depois que per graça de Deos ouveítes o Cetro da 
Coroa Real de VoíTos Reynos , em que nom foram menos 
acaecimentos , que os primeiros , que eu com melhor von- 
tade efcrepvêra juntamente com os outros VolTos feitos , que 
fam açaz dinos de grande memoria , fe quer por vos moftrar 
algum conhecimento da longa criaçorh , e muita bemfeito- 
ria , que per voíTa mercê , ufando de volTa acoftumada virtu- 
de de vós recebi ; caa fe algum faber em mim ha , pofto 
que feja pequeno , com as voíTas migalhas o aprendi. Po- 
rem cumprindo voíTo mandado me difpuz aa dita Obra , pe- 
dindo aaquelle Deos , que em li meímo com eternal orde- 
nança , em pefíbal ternário fem deligualeza , e fua ElTencia 
em toda fphera , cujo centro , fegundo dizemos , he em 
todo lugar per modo infindo , e a circumferencia nom he em 
algum , o qual diz Sam Gregório , que he dentro em todo , 
fem ençarramento , e fora de todo , nom fendo apartado , 
e fem baixeza o Mundo foftem , e fobre todo fe enxalça fem 
perlongança , nom ha coufa , em que todo nom feja, e to- 
do cercado de fy nom faz termo , que dê alguma parte dos 
átomos de fua Graça , perque poíTa efcrepver efta Obra a feti 
Santo louvor, e honra, e bom nome dos feus Fieis Cathô- 
licos , e pelo feu amor , e enxalçamento da Sua Santa 
Fee tam fielmente fatis fazendo a VoíTo Santo propofito 9 co- 
mo fom theudo , e obrigado. 



CA- 



220 C H R O N I A 

CAPITULO III. 

No qual o Autor defla Obra declara as Avoengas , de 
que decende o Conde Dom Pedro , e as vir- 
tudes ? s bons cojlumes , que nclle ouve. 

FOi efte Conde Dom Pedro , filho do Conde Dom Ja» 
ham AíFonfo Tello de Menezes , Conde de Vianna , e 
da CondeíTa Dona Mayor de Portocarreiro , e neto do Con» 
de d'Ourem ^ a que também chamarão Dom "foliam AíFon- 
fo Tello de Menezes i e de Dona Guiomar de Villa-Lobos , 
o qual Conde d'Ourem foi filho de Dom Joham AíFonfo 
Tello de Menezes Rico-homem direito , que foi o primeiro 
homem deita Linhagem de Menezes, que vêo a efta terra , 
de Gaftella donde partio per ódio , que EIRey Dom Pe- 
dro , filho d'E!Rey Dom AíFonfo , ganhou contra feu filho 
Martim AíFonfo Tello, irmaò daquelle Conde d'Ourem de 
que decendeo depois a Rainha Dona Leanor mulher d'El- 
Rey Dom Fernando, e a CondeíTa Dona Guiomar, que foi 
filha de Lopo Fernandes Pacheco , que jaz na Sée de Lis- 
boa , e de Dona Maria de Villa-lobos neta d'ElRey Dom 
-Sancho de Caftella. Ficou efte Conde Dom Pedro moço pe- 
queno per morte de feu Padre , e foi homem em que ouve 
meãa eftatura , corpo largo, e fortes membros, homem de 
grande gazaíhado , e acolhimento , de honrozo e grande 
coração , liberal e preftador de fuás riquezas , afli a natu- 
raes , como a eftrangeiros , homem Catholico , e amigo de 
Deos , grande remidor de cativos , pêra a falvaçaõ dos quaes 
nom tinha em conta nenhuma riqueza nem thezouro, nem 
receava de dar hum Mouro de grande redinçaõ , por hum 
muito pobre Chriftaó , como lhe foíTe requerido , em tanto 
que fe naô achará , que em feus dias nenhum Chriftaó , que 
eftevçíTe em cativeiro deixaíTe a Santa Fée com defefperan- 

Ça , 



do Conde D. Pedro, hí 

ça , que ouveíTe de fer remido ; caa pela vontade que lhe 
acerca daquillo fentiaõ fe mantinhaò em efperança , até que 
lhe Deos dava d'azo , pêra os tirar: todas fuás dadivas eram 
feitas com grande manificencia ; ca defpois- da efperança de 
fua falvaçaó , todos feus feitos $ e obras eraõ por aquiric 
honra. Foi cazado a primeira vez com Dona Margarida , fi-» 
lha do Arcebifpo de Braga ^ a que ehama'raó Dom Marti- 
nho , com que ouve grande riqueza $ e foi efta GondelTa Do- 
na Margarida mulher de grande aultinencia , e muito amiga 
de Deos , e aíTy acabou em fantidade , avendo efte Conde 
delia duas filhas a huma , que chamarão Dona Breatiz j que 
foi CondelTa de Villa Real, cazada com Dom Fernando de 
Noronha , da qual faltaremos adiante $ onde contaremos os 
feitos , que fe feguiraó depois da morte defte Conde Dom 
Pedro feu Padre , e começarmos os do Conde Dom Fernan- 
do , que logo após elle foi Capitão naquella Cidade : e a 
outra filha foi aquella Dona Leanor, que jaa nomeámos no 
paíTado capitulo : e depois foi cazado duas vezes j huma com 
Dona Breatiz Coutinha filha do Marechal Gonçalo Vaz Cou- 
tinho , da qual ouve outra filha , a que chamarom Dona 
Breatiz , que depois foi cazada com Dom Fernando , filho 
que foi de Dom Aífonfo Senhor de Cafcaes , filho do In- 
fante Dom Joham , neto d'E!Rey Dom Pedro : a terceira 
vez foi cazado com huma filha do Almirante Micer Manoel 
Paçanha , de que naõ ouve filho , nem filhas ; ouve outras 
duas filhas naturaes , nonv fendo cazado, a faber Dona Al- 
donça , que foi cazada com Ruy Nogueira , e depois com 
Luiz d' Azevedo , e Dona Izabel , que foi mulher de Ruy 
Gomes da Silva , Alcaide que foi de Campo Maior • e 
ouve também hum filho , a que chamarão Dom Duarte , que 
depois foi Conde de Viana de Caminha , e Capitão da Vil- 
la de Alcácer, o qual nos feitos da Cavallaria moítrou bem 
a hondade do fangue , que trazia do Padre ; e foi efte Con- 
de Dom Pedro o primeiro Capitão , que ficou em Cepta^ 
e crêo que ouve em toda Africa , que a Fée Chriftã 
Tom, Ih Ee marn 



222 Chronica 

manteveíTe , depois da morte do Conde Dom Juliaõ : duran- 
do em fua governança, e fenhorio vinte e dous annos , e pou- 
co mais de hum mez , avendo muitas pelejas com os Mou- 
ros , e fendo duas vezes cercado per maar , e per terra , ven- 
cendo , fem nunca fer vencido , fo frente muito trabalho por 
defenfaõ daquella Cidade , em tanto que eu achei , que de- 
zafeis annos trouxe huma cota veftida continuadamente , até 
que a rompeo per alguns lugares , como fe fora fayo de pa- 
no, porque muitas vezes fe acertava pelejar duas vezes no 
dia , e alTy porque roldava cafy todailas noites a Cidade , 
e aíTy acabou em ella com grande honra. E por quanto efte 
volume he principalmente ordenado a fim de fc contarem os 
feitos , e obras daqueíle Conde , fegundo mandado d'ElRey 
Dom AíFonfo , queremos fazer começo no azo , que aquelle 
Conde ouve pêra ficar naquella Cidade, e a maneira , que 
/ EIRey teve em lha entregar; e pofto que já fique eferipto 

no outro Livro , onde falíamos de como primeiramente fo- 
ra filhada , ainda que aqui nefte volume achem algumas cou- 
zas defvairadas , ou mingoadas da Crónica Geral , he por 
naõ fer defta calidade ; e a elle ha de fer principalmente 
enderençada. E como quer que às couzas, que aqui quanto 
tanger aos feitos da Cavallaria da outra Crónica , nao 
feraó eferiptos na ordenança , que aqui faõ : e avecs aqui de 
faber, que o Conde Dom Pedro de Menezes fervio EI- 
Rey neíta Cidade muy grandemente difpendendo muito 
de fua fazenda , e achei que levara fete Navios com 
muitas viandas , trabalhando-fe muito d'aver homens nobres , 
que o ajudaífem a fervir , e aíTy fe fez muy nobre ; e conhe- 
ceo EIRey, que elle era homem dino de honra. Outro fy 
foi efte Conde Alferes do Infante Eduarte primogénito , e 
fempre amado delle , e honrado , ante que foíTe Capitão , e 
muito mais depois que o foi : e pêro que elle foíTe Conde feito 
em Caftella , EIRey nunca lhe quiz dar femelhante autorida- 
de , nem o chamou Conde , fenaó depois que por algum 
tempo regeo aquella Capitania, que fentio , que era dino 

da- 



do Coiíde D; Peúro; 223 

claque lia honra , e o acrecentou em todo , como ao diante 
ouvireis. E porque nós ' eícrepyemos efta Iftoria primeiro 
duas vezes , que foíTe trazida a Teu propío lugar , emendando 
fempre no que conhecíamos errado , como íe coftuma de 
fazer nas couzas , erii que muitos ham de julgar, poftoque 
os em algúas partes ouçais defviando alguma couza , do que 
aqui achardes efcripto , entendee , que fe faz por íe mais 
apurar a verdade , e temos que do que realmente pertence 
á íuftancia , naõ pode em outra parte fer mais verdadeira- 
mente efcripta, que aqui, leixando as particularidades, em 
que nunca fe pode achar verdadeira certidão , o que de 
necelíidade , per muitos ha de fer fabido ; e efto pode 
cada hum meter em experiência fe lhe prouver , allinando al- 
guma couza , que de muitos feja vifta , perguntando a cada 
híi per fy , pêro que todos foliem prefentes , em cada hum 
ha cfachar feu defvairo , pofto qUe fe todos acordem na ver- 
dadeira fuftancia da obra ; ifto dizemos , forque pôde fer , 
que aalem do que nós efcrepvemos , outros efcrepveriam ca- 
da hum o que viíTe, e que a fua tençom foffe efcrepver ver- 
dade , e nom a poderiam tam compridarhente faber como nós , 
que efte cuidado por efpecial carreguo temos , ou per ven- 
tura fam taes, que teram alguma parte no que efcrepvererfi 
per fy , ou per outrem , que lhes pertença ; e he coufa natu- 
ral , que fegundo amor , ou ódio alTy fe inclinam as vonta- 
des , pofto que da razaò fejam conftrangidos pêra o con- 
trario. Que nunca a aquelles , que bem fazem pôde parecer 
pêro que fe delles muito diga , que fe diz todo o que elles me- 
recem ; e aos que nada naó obram , fempre parece muito 
aquillo , que dos outros dizem , e fe delles mefmos contam 
algum falíecimento , pofto que verdadeiro íeja, fempre lhes 
parece, que he muito mais, do que em feu erro verdadei- 
ramente pode caber. 



Ee ii CA~ 



224 Chrokica 

CAPITULO IV. 

Como EIRey teve Confelbo , do que faria da Cidade: 

Oi aquella grande Cidade de Cepta filhada aos Mou- 
ros por EIRey Dom Joham aos vinte e hum dias do 
mez d'Agofto no anno do Nacimento de Noflb Senhor Je- 
sus Chrifto de mil quatrocentos e quinze , como no outro 
Volume tendes ouvido. Teve Confelho geral pêra efcolher , 
o que fe mais com ferviço de Deos , e com fua honra , da- 
quella Cidade devia fazer : Parece-me , diíTe elle , que ouvif 
fe já em algumas dep ar tições , que Letrados faziam ante mim , 
que primeiro devemos fdber da coufa fe loe , e então nos certi- 
ficarmos daquello que he ; o que me parece , que ora faz a 
ejle cafo , em que vos aqui de prefente fiz juntar , porque fai- 
iais j como antes de filharmos efla Cidade , logo no primeiro co~ 
meço de nojfos confelhos , buma das caufas por mim allegadas, 
pêra entom determinar foi , que fendo efla Cidade per graça de 
Deos filhada % que era o que faríamos delia , dizendo huns , 
que fe dejlruida fojfe , que nojfa vinda , trabalho , e vitoria fe- 
riam de pouca nembvança , e de menos louvor ; caa parecem aos 
gerais mais obra de roubo , que auto de Cavallaria ; certo he , 
jqne tanto que daqui partijfe-mos , os Mouros em breve refariam 
todo o danno , que lhe fizemos ; outros diziam o contrario ; e 
ficou por entom aquelle fallamento , afirmando-nos , que toda via 
nos difpofejfemos de afilhar , e que depois que a tevejfe-mos em 
poder y que entom poderia-mos aver confelho , o que delia faría- 
mos ; ora fomos per graça de Deos em ponto de nos fobr^ello 
confelhar , veja cada hum , o que lhe parece , e fegundo lho 
Deos aprefentar , affy o diga logo , pêra de todo darmos fim a 
nojfo começo, E finalmente depois de muitos razoa mentos , foi 
pofto o Confelho em duas entençóes : Senhor , diíTeram os 
da primeira tenção , Vojfa mercê deve bem confirar a força de 

. ■;■: r»f- 



do Conde D. Pedro. 225: 

Vojfo s Reynos y e o que elles podem foportar y e notn lhes dardes 
moor carrega daquella , que a elles for pofitvel de confentir , 
c amanho Vojfo Regno he ? e o que nelle ha de gente , e de ri- 
queza y 'vós , Senhor , o/abeis melhor , que cada hum de nós : ce r- 
to he y que o reter defta Cidade ao feu derradeiro fim y nao he 
outra coufa , fe nao fama , e nome , ca de proveito , que fe â 
Coroa Real pojfa feguir , nom fe pôde pelo prefente conhecer ; 
pois he viflo , que nom he tal , em que fe pojfao fazer lavou- 
ras , nem c azares , nem outras coufas , que fe na terra criam 
pêra uzo dos homes 9 pelo qual he necejfario , que todolos que 
ouvere de fofler feu encarrego ? fejam governados de voffas ren- 
das ; e compre , que tal , e tamanha Cidade nom eftê vazia , 
mas bem fornecida , e acompanhada de gente , e ainda de tal 
maneira , que fe per ventura os bnigos fobre ella vierem y achem 
quem lhes empache o danno , que lhe podem fazer ; e ijlo con- 
vém y que feja em tamanho numero , que pofto que lhe tan afi- 
nha nao venha fpcorro , que fe poffa manter ; ca pois a ferven- 
tia de Vojfo Regno nao pode fer , fenao per agua , he de enten- 
der y que nao haveis de ter o vento a vojfo mandado , mas cui- 
dai y que fe pode feguir tal azo y que eftaráo os Navios em 
Voffos Regnos três y e quatro mezes y e nom averem tempo de 
viagem , outras vezes podem perigar no maar ? que he coufa 
comum y e que cafy todolos dias aconteece 3 011 os filharem Cofa- 
rios y e ladrões y como vedes y que fazem cada dia'y affy que por 
eftas razoes , avendo-fe a Cidade de manter , compre fer bem 
hajiecida , affy de gentes , como de mantimentos r affy cumprida- 
mente como Je cada dia ejperajje por novo cerco , e que foubef- 
feis y que avia de durar grande efpaço , caa noni cuideis , que 
a vinda dos Mouros fer d de tarde em tarde , mas que cada dia 
aqui ham de vir , nom foomente os da terra y mas os de todalas 
Comarcas úefla terra ; porque deveis confirar , quefe a vós hum 
tal lugar fora filhado em alguma parte de vojfo Regno , que 
mal vos poderia a vontade manter ajfocego , até que o tir afieis 
de fujeiçao alhéa y affy que a noffa guerra nao foomente he com 
os moradores y que foram de fia Cidade , mas com todolos outros } 

que 



ii6 Cmrònicá 

que nejla parte ? e fora delia mantém fua danada feyta ; ord 
vojfo Regno he pequeno , e mingo ado ^ como poderá foportar ta- 
manha carrega | a riqueza do Regno he gaflada nas guerras 
paffadasj as gentes mingoadas pelos muitos mudamentos que 
fe fezeraÕ nas moedas , des y gaftos de fazendas de longos tem- 
pos , que as azou EIRey Bom Fernando em feus mal confirados 
movimentos , que andou fazendo , com outras defpezas caj andas 
fabeis , e logo acerca os voffos trabalhos , em que as gentes fer- 
•viram tam de vontade , como a fua própria necejjidade requeria , 
em que gaflaram o vojfo , e o feu \ e ajfy , que de huma manei- 
ra , ou de outra hy nao ha duvida y fenao que a gente he gaf- 
tada ; e pêra defpeza de cada dia avia mifter gratide aba/lança 
de riquezas , ajfy vojfas , como daquelles , que vos em ejlo ou- 
vejfem de fervir ; quanto mais y que vós nom fabeis como ejlais 
com Cajlella ; caa pofto que vos eflas pazes ajfy dejfem , foram 
dadas per ElRey Dom Fernando , que as deu como Tutor , e no 
tempo que nom podia fazer ai , por aazo d* Aragão y de que que- 
ria fer Rey , como foi , mas vindo o Rey daquelle Regno d fua 
perfeita idade , que lhe nom fallecerd , quem lhe efperte os ome<- 
zios pajfados : e fendo vós com aquelle Regno poflo em traba- 
lho , feria efta Cidade muy trabalhofa\de defender com outros 
muitos inconvenientes , que fe adiante podem feguir , em que o 
entendimento por agora nom pode tocar ; ajjy que por eflas cou- 
fas , nojfa tençom he , que pois vos Deos deu a vicloria , que 
dezejaveis , que vos contenteis acabardes o porque vie fies , cnde 
tanto fizefles ferviço a Deos , e de vojfa honra quanto compria , 
e que abajla por agora dejlruirdes efta Cidade pelo fundamen- 
to , e como coufa dejlruida a leixardes aos imigos y os quaes 
poflo que depois , ; a correjao ou repairem , a vós , nem d vojjd hon- 
ra nom empece nenhúa coufa ; pois jd por vós he feito todo o 
que devíeis ; caa hy feria ella Com arcam de vojjo Regno , e 
leixallahieis por nao dardes caufa a vojfos naturaes de gajla- 
rem o feu , juntamente com o voffo ? com vojfa perda , e peri± 
go ; quanto mais huma coufa , que a todos he tao manifefla y 
que per vós fe nom pôde manter fem defiruiçao de vojfa terra 

pou- 



K 



t> o C o k d e D. Pedro* 32,7 

pouco ) e pouco', e ponhamos , diíTeraô elles, que vós tendes ejia 
Cidade por algum tempos , e feguefe fortuna contraria , que 
fe vem a perder ? por quanto quereríeis o nojo , que fe vos dei lo 
feguiria ? e vergonha dos Ejlrangeiros , a que nom podeis dar 
ejcuza , pojlo que a boa tenhais ; por mercê efcuzai feu encar- 
rego y e tornemos em paz pêra vojfa terra , nom vos metais cm 
coufa 5 quê vos adiante pojfa trazer arrependimento. Nom he 
duvida , diíferaó os outros , que mantinham a tenção contra- 
ria 5 que o confelho de fies Senhores nom pareça razoado aaquel- 
les , què antepõem as coufas proveitozas ás honrozas , o que 
Deos nom quizejfe , que fe tal dezejo e vontade allojajfe nas 
Cazas dos Príncipes , e Senhores : ora , Senhor , nós confiramos 
bem vojfa tençom , como cotiza em que tanto jaz apegada vojfa 
honra \ e vi/lo muy bem todo , e confirado noffo entendimento , 
que vojfa Senhoria dja de deftruir efla Cidade j mas que a de~ 
vees guardar , e manter , como coufa de que fe vos feguçm as 
principaes duas coufas , que fao como fins , e acabamentos de 
todolos bons feitos , a faber , fervi ç o de Deos $ e muy grande 
fama de vojfa honra : que fervi ç o de Deos fe podia feguir de 
vojfa vinda y defpeza , e trabalho , fe vós leixajfeis logo ajfy à 
Cidade , e vos tomaffeis pêra vojfo Regno ; quanto por matar' 
des hnns poucos de Mouros vilhacos y que aqui mat afies , ferd 
contado por pouco fervi ço de Deos , a re [peito de tam grandes 
trabalhos ? e defpezas ; caa fe mais nom ouveffe de fer com 
quatro , ou cinco mil dobras , podereis fazer maior fervi f o a 
Deos , ao menos em tirardes outros tantos Chrifiaos de poder 
doy infiéis : e per ventura que fe vós leixajfeis ejia Cidade , e 
es Mouros a tornajfem a reedificar , que elles averiam em bre- 
ve tempo boa emenda de todo feu danno j caa poderiam muy bem 
cm cada hum anno vifitar o Algarve , e fazer cm çlle o que 
jaa muitas vezes fezerao ; mas agora o fariam com maior fen- 
tido ? quanto lhe mais lembrajfe a magoa de tamanha perda : 
por certo vojfo feito , nom pareceria de Rey , mas d^iUgum po~ 
derofo Cofario fe vós ejia Cidade nom tevejfeis , e defendejfeis 
muy poderofamente , fazendo nellas cazas devotas , em que je 

Uu- 



228 Chronica 

louvajfe j e adorajfe o Nome de Nojfo Senhor ; e que ajfy com9 
por muitos annos foi blasfemado \ e arrenegado y ajjy feja pêra 
Jempre louvado per virtude de vojfa força : dizem , Senhor y que 
nom vos convirá de fazerdes defpezas , e efpalhamento de gentes y 
porque vojfo Regno pffde receber fali èciment o , e mingoapera o tem~ . 
po da neceffidade ; a iflo y Senhor 3 fe pode bem refponder , que 
quanto ás gentes he muito melhor y e mais provei tófo Jêr efla 
Cidade mantheuâa. y que nao \ caa antre as coifas y que á Ca- 
vallaria mais aproveita aj/y he o exercido das armas y no que 
os homens , nom fóme?ite afortale%am feus membros y mas ainda 
s corações y e fe em fi nom ha difciplina y e regra do ojficio 
Qavalleirofo y como diz naquelle Livro y que compoz Vegecio d*- 
Arte Militar , pois como muitas vezes acontece y que vojfos Re- 
gnos por alguns annos eftam em affocego feguir-fe hia de necef* 
fidade y que os bons perdejfem o uzo y e difciplina da mais nobre 
coufa , que a feu Ojficio pertence y onde pêra taes autos as mais 
das vezes he mais proveitofa a pratica y que a theorica ; e qual- 
quer coufa , que fobreviejfe d? arrebate em contra do Regno , 
fendo todos per annos adormecidos na folgança y feria necejfario 
nom fer também contrariada logo pelo primeiro começo fe quer y 
até que tomajfem hum pequeno de uzo y o que tendo vós efla Ci- 
dade y feria pelo contrario y ca todos vojfos naturaes averiam ra- 
zão de vos vir aqui fervir y efpecialmente os Fidalgos dezejo- 
fos de bem fazer y que andam em vojfa Corte eciofos y gaflan-* 
do tempo fem nenhum bem y nem virtude ; aqui teriam tempo y 
e azo de cobrar por exercido , e fazer taes ferviços y per que 
cuidajfem y que tinham merecimento pêra com maior razão vos 
requererem mercê : e ainda , Senhor y vós vedes como os nobres 
mancebos de vojfos Regnos vos pedem licença , ora pêra Fran- 
ça y ora pêra Ingr aterra y e pêra outras partes > a fim de fa- 
zer de fuás honras y e vos he necejfario y que os corre gais , e 
mandeis como pertence a . vojfa honra y por ferem vojfos criados y 
e naturais y e emfim vao fervir outros Senhores y com o que lhe 
vós dais y e com muito menos podem vir a efla Cidade y e fer- 
vir-vos em ella y e vós fazer de s-lhe meree y como fazes pelos fer^ 



do Conde D. Pedro.' 



229 



viços alhêos , e ainda que vos alguma honra traga ? ellesferatf 
muito mais contentes- de o fazer a vós , que a outro nenhum Prín- 
cipe , pois fam vojfos , e de vós efperao o principal gàllardaÕ 
de feus bos feitos ; e ajfy que vós jereis delles fervido , e elles 
faraó de fuás honras , onde principalmente ham de Jer alumea~ 
das , e gallar doadas : e quanto he á outra gente mais miúda 
melhor he ? que os que vós mandais pêra Cajlella com degre- 
dos , venham aqui fervir , e ejlar ? que Inos Regnos alhêos , on- 
de fe dejnaturam da terra , e que taes hy ha , e andam os mais v 
que nunca a ella tomam ; ê ajfy com eftes , como com a outra 
gente , que anda em vojfo Paço , e de vojfos Filhos , vós pode- 
reis bem fornecer ejla Cidade de guifa , que fempre nella tereis 
gente em abaflança , que vos nao fará mingoa pêra as outras 
coufas , que vos forem neceJJ árias , quando tal caufa vier \ e fi- 
nalmente , quanto a nojfo confelho pertence , nojfa tenção feria 
dp guardar , e manter por Jerviço de Deos , e honra nojfa^ ca 
tos nom f alie cera gente , nem dinheiro , e com ijlo falvareis vof- 
fa alma , e vojfo nome fera grande por todas as partes do Mun- 
do , e leix areis aos Reys vojfos Sobcejfores honra , porque ajam 
razão de muito mais averem em rever ença vojja memoria , e o 
Nome de Jefu Chriflo fera cada dia fervido , e adorado, 

capitulo v. 

Como EIRey teve confelho , quem leix ária naquella Ci- 
dade por Capitão 

COm cite fegundo razoado fe teve EIRey , porque aquel- 
la era de todo fua tençom , fegundo pareceo a aquel- 
les , que alli erarrí , per alguns congeitos de fora ^ dizendo 
ante todos : » Que conhecido eftava , que a Deos prazia de 
» alTy fer , pois fua mercê fora de lhe dar aquell-a Cidade 
> com tam pouco trabalho ? que alTy lhe prazeria de a de- 
» fender ? e guardar com a fua ajuda, e poder ; porem que 
Tom. II. Ff » lhe 



230 Chronica 

s> lhes rogava , que coníiraílem , quem lhes pnrecia pertenceria 
» te pêra a reger, e defender. Senhor , diíTeram os outros, 
vojfa mercê deve d? apontar alguns , que vos- mais azados paritf. 
cerem , e nós diremos , em qual nos parece , que melhor pôde 
caber femelh ante carreguo. E EIRey toda via diífe : » Que que- 
» ria , que elles diíTeíTem primeiro. Senhor, diíTeram cafy to- 
dos ; parece-nos , que pêra tam grande coufa , e em que tanto 
ha de depender a honra de vojfa Coroa , nós nom fentir.ics , quem 
o melhor poffa fazer , qne he o Condejlahre. Effa feria , diííe 
aquelle Conde , huma das maiores mercês , que me Deos , e 
EIRey meu Senhor podiam fazer , fendo eu em tal idade pcra 
o foportar ; mas a natureza, como vós vedes me temjaa tra- 
zido a tanta fraqueza , que por nenhum modo poch ria foportar 
femelhante trabalho ; caa ejla Cidade he muy grande , e quem 
quer que a ha de ter , nom lhe compre dormir feu fono chêo , 
nemfe fiar Jempre de todos , efpecialmeiíte agora no começo , que 
lhe os Mouros nunca ham de fair da porta ; porem eu farei o 
que EIRey meti Senhor mandar. E EIRey alem de conhecer, 
que era verdade o que o Conde allegava , fabia , que clle 
tinha tençom de fe apartar pêra ferviço de Deos no Moftci- 
ro de Santa Maria do Carmo, que elle mandara fundarem 
Lisboa ; e porem diíTe , » Que bem conhecia a boa vontade 
» do Conde , e a fua neceffidade , a qual elles viam bem 
» quanto era legitima , porem que lhe nomeaílem outro : af- 
» íinando-lhes logo Gonçalo Vaz Coutinho , dizendo-lhes , co- 
/ » mo era bom Cavalleiro , e homem Fidalgo , e de muita 

» gente , e fabedor de guerra , que poderia bem foportar fe- 
» melhante encarrego ; caa nom foomente era neceíTario ho- 
» mem ardido , e forte , mas ainda , prudente , e avifado 
> no auto da guerra. Gonçalo Vazques dilTe : Que a fy por 
» fua idade , como por outras coufas , que o impidiam , que 
» o nom podia fazer ; do que alguns tiveram , que EIRey 
nom fora contente : porem fez chamar Martim AfFonfo de 
Mello, e lhe.difle aífy em prefença de todos: Que a elle 
» prazia, que fícaíle alli por Capitão, e Regedor, que Ih 

» fa-e 



too GotfDE D. Pedro. 231 

afaria grande ferviço , e afly mefmo honra, e louvor, co- 
}> nhecendo delle , que era bom Gavalleiro , e que o ferviria 
» bem em aquello, como o jaa fervira nas outras coufa*, que 
y> lhe encomendara nos tempos das guerras paíTadas ; e que 
5) feria azo de o acrecentar , e honrar , como fempre tivera 
» vontade. Martim AíFortfo refpondeo : Que lho tinha muito 
)> em mcrce ; pêro que Jhe pedia , que lhe deíTe tempo pe- 
)> ra o fallar com os feus , caa pois os mais delles eraó feus 
» Criados , e os que o principalmente aviam de fervir , que 
» lhe parecia razaó de lho dizer; os quaes parece, que lhe 
confelharam , que por nenhuma guifa o fizelTe, allegando- 
lhe fuás razões , per que de todo lhe fizeram menofpre- 
çar aquella honra; e tornando elle a EIRey com efte reca- 
do , lhe tornou a dizer apartadamente : » Que lhe encomen- 
» dava , que aceptaíTe tam bom , e tam honrado carrego > 
y> caa lho naò dava fenaõ por grande amor, que lhe tinha: 
E finalmente Martim AíFonfo nunca pôde fazer com os feus, 
que quizeíTem com elle ficar ; caa eram os rriais delles ca* 
zados , e homens de fua criaçom taes-, que com áfeiçaô que 
lhes tinha , focegou em aquelle cazo , efpecialmente por 
dito de dous, que elle tinha, com que fe confelhava em to- 
dos feus feitos : creemos , que hum fe chamava Joham Go- 
mes Orvalho , e o outro Álvaro Vaazques Tifnado : e como 
quer que Martim AíFonfo por efte aazo , recebeífe prafmo , 
certo he, que elle o naõ fez por mingoa de coração, nem 
de boa vontade , mas cegamente d'afeiçaõ daquelles , que 
o confelhavao ; e EIRey com defprazer que ouve , faben- 
do como aquelles foram azo de Martim AíFonfo nom ficar, 
mandou-lhe , que os deixaíTe alli. O Conde Dom Pedro de 
Menezes como andava dezejôfo de fe alevantar naquello, 
que lhe feu nobre , e grande fangue requeria , como vio , 
qne o Condeftabre nom avia de ficar , fallou logo com o 
Meftre de Chriftos , que era feu Tio , e com o Phol do E£» 
prital, pedindo-lhes por mercê, que lhe azalfem como ou* 
yqSç aquella honra ; os quaes como viram , que Martim A£* 
D Ff ii fon- 



Í32 Chronica 

fonfo fe efpedia , e que lhe era neceíTario bufcar outro, 
levantaraõ-fe ambos em pée , tomando-o antre íi , e difTeraó : 
Senhor , pois nom tendes determinado , quem vos nijio aja de fer~ 
vir , nós vos offerecemos aqui o Conde Dom Pedro , o qual vos 
■pede por mercê , que vos firvais delle naquejie Ojficio , e vos 
promete aquella fée , que homem de tal linhagem como elle he , 
deve a Rey com que vive , e que o criou ; e elle , Senhor , he 
homem em quem cabe femelhante encarrego ; pedindo por mer- 
cê aos Infantes , que os quizelTem ajudar naquclle feito : 
]evantando-fe logo o Infante Duarte , e pedindo por mercê 
a feu Padre , que lho outorgaíTe ; EIRey efguardando como 
tal requerimento em tal tempo nom procedia , fe naõ de 
grandeza de coração , e des y porque o vira aífy honrozá- 
mente vir em fua companha , teve-lho a grande bem : Cer- 
tamente , diíTe elle , Eu por tal conheço Dom Pedro , como vós 
dizeis , e lhe tenho em muy affinado fervi ço , feu bom requeri- 
mento , pelo qnal o acrecentarei com muita honra , e mercê , e 
me praz de lho outorgar ; metendo-lhe logo hum páo na maó , 
dizendo» Que o tomalTe em hora, que lhe deífe Deos mui- 
» ta honra com vitoria dos infleis ; pelo qual o Meítre, e o 
Priol foram beijar as mãos , aíTy a EIRey, como a feus Fi- 
lhos , des y o Conde com alguns feus parentes , e amigos , 
que alli de prezente eram ; ainda que dalguns depois foi 
reprendido , avendo, que era coufa, que fe nao podia man- 
ter. E por certo, que fe nom moltrou de pequeno conhe- 
cimento efte Conde Dom Pedro contra aquelle Meítre , que 
lhe aquella honra requereo , aíTy por aquello , como por ou- 
tros bens , que ante delle recebera ; caa em todos fèus dias 
moítrou per obras a feus filhos , e netos , que lhe nom era 
por ello ingrato, de que era muy louvado de todolos bons, 
que o fabiarn. 



C A- 



bo Conde D. Pbdrò. 



P$4 



CAPITULO VL 



• 






upab 

Como EIRey teve confelho fobre a gente , que avia de 

ficar na Cidade. 



J 



rEmos , diíTe EIRey, avião o Capitão , ora nos cumpre 
cuidar fobre o numero da gente , que lhe avemos de dei- 
xar. E tendo huns huma parte , e outros outra , vieraó a 
concludir , que lhe podiam abaítar dous mil e quinhentos 
homens de defeza , e que porque pêra tal começo nom cum- 
pria de ficarem fenaõ homens cfpeciaes , acordaram , que fi- 
caíTe logo alli Lopo Vaz de Caftel-b ranço , que era Montei- 
ro Moor d'ElRey com trezentos Efcudeiros , todos morado- 
res da Caza daquelle Príncipe : e por certo , que fe nom 
enganava EIRey em confiar da bondade daquelle Fidalgo ; 
caa aíTy o fervio naquella Cidade, como homem de grande 
valor ; e fe a bondade da arvore péla doçura do fruito mais 
perfeitamente fe conhece ; em dous filhos varoens, que eíte 
Fidalgo ao diante ouve , fe pode bem veer , qual fora o Pa- 
dre, que os gerara: a hum chamaram Nuno Vazques , que 
foi Monteiro Mor , como feu Padre , e outro Gonçalo Vaz- 
ques , que foi homem a que efte Rey Dom AíFonfo , que 
efta Iftoria mandou efcrepver , per fuás virtudes teve grande 
afeiçnõ , avendo-o em feus coníelhos per efpecial , como de- 
pois contaremos , nos outros feitos vindouros : e o Infante 
Dom Duarte leixou alli outros trezentos , dizendo » Que naó 
» queria outro Capitão , fenaõ aquelle Conde ; caa como quer 
» que a lua Capitania foíTe geral , diíTe , que pois elle era feu , 
que nad queria , que outrem teveíTe cuidado das fuás cou- 
fas ícnaó elle. O Infante Dom Pedro leixou alli Gonçalo 
Nunes Barreto , hum nobre Fidalgo do Regno do Algarve 
muito chegado em devido ao íangue deite Conde , leixando 
aquelle Infante em fua companha duzentos e cincoenta dos 



âí$4 C H R O N I C A I 

melhores Efcudeiros , que comíigo trazia , ao qual Gonçalo 
Nunes foi logo entregue a maior Torre , que eftá no muro 
daquella Cidade , que fe chama de Fez. Joaõ Pereira a que 
por alcunha , chamavaô Agoftinho , ficou por Capitão de tre- 
zentos Efcudeiros , que alli leixou o Infante Dom Anrique 
ao qual foi encomendada a guarda de Santa Maria d* Africa \ 
ficou ainda hy Álvaro Mendes Cerveira por Capitão dos Ef- 
cudeiros d'Evora , e de Beja, donde elle era morador, ao 
qual foi encomendada outra Torre , que efta junto com a 
outra de Féz , e d'ambas eftaõ contra a terra dos Mouros 
da parte da Algezira ; a qual Torre entaó era chamada de 
Madraba; e pela muita continuação , que aquelle Fidalgo 
alli continuou , onde fez açaz honrozos feitos em armas , 
chamarom aaquella Torre d' Al varo Mendes , como fe inda 
hoje chama. Alvare Annes , que per alcunha fe chamava de 
Cernache , e per próprio apellido de Vieira , que era Ana- 
del Moor dos Befteiros de Cavallo , ficou alli com feiscen- 
tos Befteiros , alTy de Cavallo , como de Garrucha , e de 
<I!onto , ao qual aíTy foi encomendada a guarda da Coura- 
ça, como da Taracena: E ficou hy Ruy Gomes da Silva, 
«que depois foi genro daquélle Conde $ e Luiz Vazques da 
Cunha , e Lopo Vazques feu Irma6 , e Pêro Gonçalves , a 
•que per alcunha chamarão Mallafaya , que ao diante foi Vea- 
dor da Fazenda d'ElRey, e do feu Confelho; Luiz Alvares 
da Cunha , Pêro Lopes de Azevedo , e Ruy de Souza , Al- 
caide que ao diante foi do Caftello de Marvom , o qual por- 
que teve huma guarda, em quefe continha hum poftigo, lhe 
chamarão ao diante o Poftigo de Ruy de Souza , como inda 
oje chamaÓ , do qual poftigo ataa Almina ficou por guarda 
hum , que fe chamava ÁíFonfo Domingues Amado ; e a Ber- 
tollameu AfFonfo foi dada a guarda d'ElRey j a Fernam Bar- 
reto ficou a guarda da Almina , com a qual ficarão os Arne- 
zados de Lisboa, que paíTáraó de cento, afora gente de pee; 
e na guarda do Cefto ficou Álvaro Aífonfo de Negrellos , e 
do Cefto até Santa Maria ficou a Johaó Rodrigues Godinho 

com 



tio Conde D. Pedbo. 235: 

com certa companhia de Beefteiros, e o Conde com fua gen^ 
te ficou dentro no Caítello , onde tinha mil homens , o qual 
lhe foi entregue por EIRey y dizendo-lhe eftas palavras. 

CAPITULO VIL 

Das palavras , que EIRey dijje ao Conde Dom Pedro , 
ante que partijje da Cidade em prefença de todos. 

COmo quer, diíTe elle , que vos até agora conhecejfe por 
tal , que nom pode certamente em vós receber doejto o no- 
bre fangue , de que decendeis de todas voffas quatro Avoengas : 
em pêro nao efperava , que me tam afinha chegajfe tempo , em 
que me tam efpecialmente podejfe de vós fervir , o qual tanto 
mais finto , e recebo por efpecial , quanto vos a ello movefles 
com melhor vontade ; e muito mais porque ofizefles , Jem reque- 
rimento meu , nem d* outra pejfoa , que o de minha parte fentif- 
fe ; e tenho qiie por efte movimento , que ajfy de vojfa boa von- 
tade fizeftes , me quiz Deos moflrar , que lhe prouve de vos en- 
caminhar a e/lo ajfy por vós dar azoo , e esforço pêra me vós 
fervirdes muy bem em efle carrego , como pêra me trazer ao co- 
nhecimento de vojfa boa vontade , e vos acrecentar naquella hon- 
ra , que vojfos antecejforês teverao em efles Regnos d^Efpanha , 
e ainda muito mais ; caa por certo nao he menos meu dezejo. 
Ora , diíTe elle , Dom Pedro amigo eu fom em ponto de me tor- 
nar pêra meu Regno , e de vos leixar em efla Cidade , em quê 
fica muy grande parte de minha honra , e vos tenho ordenados 
pêra vo? ajudarem a f opor t ar vojfo encarrego , aquelles Fidal- 
gos, e gentes, que fenti , que vos compria , dos quaes Eu con- 
fio tanto, que me fervir ao com tanta boa vontade como elle s po- 
derem : dos mantimentos , e coufas , que vos comprirempera vof- 
fa governança , Eu vós leixar ei , ante que defta Cidade parta ; 
e daqui ení diante vos proverei , que com a graça de Deos natf 

vos 



y 



136 Chronica 1 

*vos falleçao nenhumas daquellas coufas , que Eu fentir , que 
pêra voffa governança feram necejfarias ; e fobre todo teerei ef- 
pecial cuidado de vos acorrer a qualquer prejfa , e trabalho , 
que vos fobrevenha ; e pois Deos ouve , e ha por feu fervi ç o , 
que Eu efta Cidade mantenha , a elle praza de me fenpre aju- 
dar , como a pojja guardar , e manter para feu fervi ço , e a, 
vós dar entendimento , e esforço , que per voffa mingoa nom 
falleça do que a meu fervi ço , e honra compre : nom penfees , 
que nom conheço com quanto trabalho ajfy do efpirito , como 
do corpo fe iflo ha de comprir , e de manter ; pois quaes Jè- 
rao vojfos gallardoes nom ey pêra que o dizer , porque a obra 
com a graça de Deos mojlrará em muy breve feu efeito, fíuma 
coufa vos encomendo ? a qual vos feja como por principal man- 
damento : que primeiramente o ferviço de Deos 5 que outra 
alguma coufa feja em começo de toda voffa ordenança. Leixo- 
*vos mais , diíTe elle , todo meu comprido poder , per que 
poffais mandar em efla Cidade como Eu propiamente faria fe , 
prefente foffe , com o qual poder ees poer Officiaes affy de Juf- 
tiça , como de Fazenda , e fegundo voffa conciencia podeis 
executar qualquer coufa , que fentir de s por bem do comum 
delia ; nem vos tomo Menagem do Cajlello , nem da Cidade , 
porque nom foomente aquefla ? mas outras , fe mas Deos neÇ- 
ta parte dér y entendo confiar de vós • e mais pelo prefente vos 
nao encarrego , porque finto , que tao entendido vos fez Deos , 
que vos nom fallecerá por corre ger , e emendar , o que a mim 
fallecer por vos dizer , e avizar* 



C A- 



b o Co N p E D. P £ D * o. *37 

CAPITULO VIII. 

Como EIRey fallou aos Fidalgos <> que alli aviam 

de pear, 

COmo EIRey Dom Johaó era homem de grande entendi- 
mento , e que a maior parte de fua vida trabalhara em 
guerras , conhecia bem , que aqueíla gente , que aili ficava 
avia grande duvida em fua ficada , como quer que o com boas 
vontades fezeíTem pela razoes , que ao diante ouvireis ; e fez 
ajuntar todos aqueíTes Capitães ^ e gente nobre, que alli ha- 
viam de ficar , e com cara muito graciofa lhes começou de di- 
zer : Servidores , e amigos Eu vos e/colhi antre tantos ? e tam 
leais Vajfallos , como vedes que aqui de prefente tenho , p era me 
fervir de vós na guarda dejla Cidade ; e quanto efta feja de 
minha honra , e Jerviço vós o podeis hem conhecer , e por ellv 
feria efeuzado fazer Eu fobre fua guarda mais longo fermao- 
Quanto em vos dizer o cuidado , que vós delia aveis de ter ^ 
fomente vos digo , que fe ponha ante vojfos olhos , quando por 
ella pelejardes y que pelejais pela maior parte de minha honra y 
e vojfa j cad pojloque a mim , como a vojfa cabeça , efta honra 
feja atribuída , vós outros nom ficais jem muy grande parte ; 
porque como bem fabees ajjy fe ham os Vajfallos com o Senhor , 
como os membros com o corpo \ pois como poder d a cabeça fer 
ferida , que os membros nom ajam fua parte do fentimento ? e 
tanto mais , quanto fao chegados ao coração : certamente a mim 
nom convém difpender palavras , e vos amoeftar , que fej ais for- 
tes nas pelejas , que com ejles infiéis ouverdes ; ca ajjy , que 
ainda que quifeffeis no poderíeis fazer o contrario , do que com 
yofco nacêo dos ventres de vojfas Madres , que foi ardimento , 
e fortaleza ; foomente vos amoefto , e requeiro , que todos vof 
fos feitos fempre fejam com todo bom regimento , que fam cou > 
Tom. Ih Gg fasy 



23** C H K O « I C A 

fas , que no auto das guerras muitas vezes aproveita , e o con- 
trario dana muito, e empece ; caa jd ouvir ie is , ou per vent ti- 
tã ver ieis muy grandes experiências de femelh antes feitos , epor 
ello deveis de tomar muy grande cuidado > de vos fempre muy 
cautelosamente meterdes nos perigos , confirando , que Eu nom' 
vos leixo aqui tanto por ojfender , como pêra dejfender bem ; e 
que quando fe fazer poder com bom ref guardo y nom me def- 
prazerá de fazerdes aos infiéis qualquer danno , que fer peder , 
e de fairdes a elles , avendo primeiro boa fegtirança , que vos 
pojfais j com vojfo Jalvo , de lies- aproveitar *, e porque dês que 
o Mundo foi creado nom foomente antre os homens ? que fao 
creaturas raçoaveis , mas antre as brutas animalias , fempre 
ha nus grandes ajuntamentos cabeça , e fuperior ; caa £ outra 
guifa pereceria todolos que fe ajuntaffem , como achareis no 
Regimento de Príncipes > que muitas vezes em minha Camará 
ledes ? e ouvis ? onâe diz , allegando Ipodonio Philofofo , que 
nunca muitas coufas poderiam fazer huma , fe antr^ellas nao 
ouvejfe huma fio y a que principalmente toda-las outras nomfof- 
fem enderençadas y como fe vê na muy deleitofa ordenança da 
Muzica y que toda-las vozes defacor 'dariam fenom fojfe huma 
antr'ellas ordenada , a que toda-las as outras aguardajfem ; e 
efla necejfidade conloecida por aquelle , que toda-las coufas co- 
nhece y e fabe , lhe fez caufa pêra yoer Príncipes na terra , a 
fy como Reys , é Duques , e Condes com todo-los outros , que 
■pêra boa governança , e regimento do Mundo pertencem ; por- 
que a congregação dos Povos nom perecejfe , e ajfy foi eflo , e 
he necejfario , que nom fomente antre muitos , mas ainda antre 
poucos fe requer e fempre algum , que tenha carrego , e regi- 
mento dos outros. Quereis ainda que vos diga mais : dentro nos 
infernos , onde nom he ai fenao trevas y e aborrecimento , fe- 
gundo os Santos Doutores dizem , alli ha Príncipes decendentes 
per dejvairadas efpecias de grãos tfOjjicios , com que fe rege 
aquella infernal miferia , e a cuja fujeiçaS todo-los outros guar- 
dao obediência , e fenhorio. Porem conhecendo Eu quanto ijto era 
necejfario antre vós outros , confirei de vos leixar aqui talpef 

foa. 



do Conde t). Pedrou ±39 

fia , de que me entendeffe nifto melhor fervir , e que gúardaffè 
minha honra , e voffd com todo bom refguardo , que em taes ca- 
fos he devido affy a mim , como a vós , conhecendo-o por tal ^ 
affy por linhagem , como per virtudes ? que fará todo como com- 
pre a meu fervi ç o , e bem de vós outros , e efte he Dom Pedro 
de Menezes filho do Conde de Viana , o qual alem de Jer o que 
.diffe , tem parte em toda-las boas gerações de meu Regho ; e 
porque pelos tempos vindouros aqui he neceffario , que venham 
iodo-los bons de minha terra , affy por fazer a mim ferviço y 
como por bufcar honra ajfy mefmos , e ainda Eftrangeiros ; me 
praz muito leixar aquefle y porque faberd conhecer cada hum , 
o que merece , e affy lhe dará a honra , que entenda , que lhe 
pertence , quanto mais , como jaa diffe , fendo feus próprios pa- 
rentes ; e por certo que Eu nom me quero gabar defla confira- 
çao , antes digo , que confirava muito pelo contrair o , avendtr 
em meu efcolhimento maior afeição do que devia \ mas Deos , 
que tinha o verdadeiro conhecimento também do que Eu fazia , 
como do que devia fazer , ordenou , que Dom Pedro me pediffe 
efte encarrego , onde pelos outros era refufado : callarei por 
agora o que defto fenti , e o que fobr'ello entendo de fazer em 
fua honra 7 e acrécent amento , porque a obra o demoftrard an- 
te a prefença de todos ; ca fe fe diz , que o beneficio tanto he 
melhor quando fe daa em mais convinhavel tempo , e lugar 7 
efte mefmo ref peito me parece , que fe deve ter no ferviço , e 
ainda muito maior : e porque os Sabedores dijferam y que toda- 
las comparações fom odiofas , quero agora c ali ar algumas , que 
a efte propofito muito po deram ajudar , e faço fim de meu ra- 
zoado , encomendando-vos todo o que dito tenho , e mais fe a 
mim fie a por dizer , fe vós fent irdes , que vos ao diante ferd ne- 
cejfario pêra me bem , e proveitofamente fervir ; e como quer 
que nofjo Senhor Deos diffe ao Povo , com que antigamente f al- 
iava , como lhe encomendava alguma coufa , o premio que por el- 
lo averiam : Eu nao quero a vós dizer , quaes ferao voffbs gai- 
tar do es depois de tamanho ferviço ; porque vos deve ab afiar o co- 
nhecimento 7 que de mim avees\ e pelo que fiz a voffbs Padres ^ 

Gg ii quan* 



240 Chronica 

quando me fer viram nas outras guerras , vereis o que farei a vós , 
fe me bem fervirdes naquefla. 

C A P I T U L O IX. 
Como EIRey determinou fua partida fera o Rcgno. 

EStas razoes afly acabadas EIRey mandou logo lançar 
• pregão, que todo-los mantimentos , que eram na frota 
foíTem poítos em terra, leixando os que foíTem neceffarios pe- 
ia três , ou quatro dias pêra fua tornada , os quaes foram tan- 
tos , que efteveram muitos dias na praça , fem os ninguém le- 
var pêra caza , dando carrego a hum homem, que andalTe pe- 
las Náos , que os fizeíTe lançar fora fem alguma malícia , nem 
engano; e mais mandou EIRey, que tirallem alli huma Vil- 
la de madeira, que levava naquella frota , a qual mandou, 
que ficalTe pêra repairo dos Caramanchões, e das Torres, em 
que as vellas aviam de fer polias ; e também mandou, que 
ficaíTem todo-los almazens , e artelharias , que levava com 
toda-las outras coufas, que fentio , que poderiam aproveitar 
pêra defenfaô da Cidade ; e entaõ diífe ao Conde » Como el- 
» le com ajuda de Deos logo no Março feguinte tornaria aaqucl- 
» la Cidade , porque aquello que aífy fezera nom avia por Con- 
» quifta, mas por começo delia; e alli íe efpedio de todos pê- 
ra fe meter nos Navios , primeiramente do Conde , ao qual 
tornou a repetir , o que lhe ante diíTera , encomendando-lhe 
os Fidalgos, que fob fua governação íicavaõ, que os trataífe 
com toda honra , e favor , de guifa que fe aíTenhoriaíTc de 
fuás vontades, dizendo-lhe » Que nunca poderia fer temido, 
» fe naò foíTe amado , dando-lhe porem caítigo , onde comprif- 
» fe, com aquelle refguardo , que elle bem conheceria fer ra- 
» zaõ ; e afly lhe encomendou , que teveíle bom cui lado da ou- 
tra gente mais pequena, aos quaes fempremoítraíTedc fy bom 
gafalhado, e os animaíTe, efpetialmente logo pelo primeira 

co- 



too Conde D» Pedro* frAf 

começo , até que fe folTem fazendo a feu fenhorio ; caa fe os 
aífy trautafTe , que fe acharia com elles muito melhor , que 
d'outra guifa ; caa nom foomentelhes faria coração, para lhe 
muito melhor obedecer, mas ainda lhe faria foportar quaes- 
quermingoas, e trabalhos, que lhe vieífem : Porque, diffe 
elle , o Senhorio per força nunca he muito feguro ; e ejle moda 
tive Eu no começo de meus feitos , e com a graça de De os achei- 
me com elles , como todos fabees : e des y tornou aos Fidalgos 
a nembrar-lhes , o que lhe ante diíTera , como outras muitas 
razoes, com que todos foram muito ledos, dizendo » Que 
» por elles nom falleceria, fe Deos nom ordenaíTe o contrario, 
» do que fuás vontades dezejavam, e que inda então a morte 
» feria manifeíto final do grande dezejo , que lhes ficava pêra 
» o fervir. O Conde trouxe logo a Ordenança , que tinha fei- 
ta pêra guardar a Cidade , com que EIRey muito folgou , 
porque fentio aquillo por bom começo do regimento , enten- 
dendo , que ao diante o faria inda muito melhor ; ca aíTy 
como diíTe Tito Livio na Iftoria Romana, mais vezes daõ as 
coufas confelho aos homens , do que os homens daó confelho 
ás coufas ; e alli fe efpedio de todos geralmente , e meteu- 
fe em feus Navios. 

CAPITULO X. 

De como fe as gentes defpediam de feus amigos ; e do 
grande fentimento , que recebiam aquelles , que fi- 
cavam na Cidade. 

POr certo ainda que eu quizeíTe , eu nom poderia eferep- 
ver fem lagrimas a efpediçaõ , que eftas gentes fizeram 
humas das outras ; caa quando foi a hora daquella partida j 
foi antre elles hum efpedimento taó doorofo , que naô fomen- 
te comovia os corações dos naturaes , e daquelles que eraõ 
prefentes , mas ainda d'alguns alongados a que fe depois con- 
ta- 



242 C H R O N I C A 

tava per antremêas peíToas ; caa os que ficavao , efpecial* 
mente os populares penfavaó , que ja mais nunca aviam de 
tornar ao Regno ; caa fe viam nas partes d'Africa > de hu- 
ma parte cercados do maar , e da outra dos imigos , e nom 
fomente conílravaó , que aquella terra, onde elles chavão > 
era dezejada dos naturaes , mas de todalas gerações , que 
adoravaõ Mafamede , e aíTy o deziam razoando a feus ami- 
gos , quando fe delles efpediam , os quaes com reprefenta- 
çaò de muitas lagrimas faziaõ fentir o trabalho de fua gran- 
de trifteza ; e como quer que confortados foliem per aquel- 
les , que os amavam , nom podiam receber coufa , que lhes 
folTe dita por ^rernedio ? nem confolaçaó , antes o tomavam 
pelo contrario : Aá Deos , deziam elles , quanto as coufas 
triftes fam menores d? ouvir , que de fentir ? bemaventurados vós 
outros y que tornais a vijitar vojfas cazas 7 mulheres , e filhos 9 
e viver , e acabar antre as coufas que amais , de cuja dor , e 
trabalho vojfos vizinhos , e amigos hao de fentir aquella parte , 
a que coflrangidos forem por divido , e amizade , e que depois 
de vojfos dias , vojfos corpos hao de acompanhar feus Padres , e 
Avós , cujas fepulturas hao de fer molhadas das lagrimas pia- 
dojas daquelles , que vos amarem ; mas nós outros ? que aqui 
ficamos fomos feitos como defterrados 5 a que os merecimentos 
dos maleficios trouverao caufa de morte corporal , e com algu- 
ma temperança de piadade os lança em meio d"* algumas alimá- 
rias , que em mais largo tempo os pojjam gafar ; ou fomos da- 
dos como por facrificio nas mãos defles infiéis , aos quaes gra- 
vemente avemos de pagar ajfy a perda da Cidade , como das 
cazas , e fazendas , porque fe nom abafar o poderio defles que 
parecem , toda Africa lhes dará f ocorro ; caa efla injuria nom 
fomente he daquefles vizinhos , e Naturaes defta Cidade , mas 
de toda a linhagem dos filhos d?Agaar , que fam muitos mais 
em nojfa pequena comparação , que as arêas dos dezertos de 
Libia\ os quaes ouvindo os gemidos da' gente de fua feyta acu- 
dirão fobr 'elles ? e virão, tomar aquella crua vingança , que os 
íaes imigos fiem de dezejar daquelles , que os defapoderam de 

fua 



/ 



5» é O C O ND t D. P E D R Ó. 243 

/#£ propriÀ terra , í* //&w matam , e tomam aquellas coufas y 
que amam ; vede , #«e ejperança tao forte , # Cidade , #«e 7/0'x 
tomamos ein duas horas , /£^0 homens , que de feu fitio mm 
aviamos perfeito conhecimento 5 que faraó os que aqui naceram , 
e viveram ioda fua vida , que [abem a fraqueza dos muros , è 
as entradas fecretas per onde tornem a cobrar , o que tam li* 
geiramente , e com tanto > efpargimento de feu fatigue perderam , 
e por certa , que lhes nom fera muy grave d? acabar ; caã fe an* 
dando o ti(*jfo Rey nas fuás guerras primeiras tomava os luga- 
res alheios per continuação de cercos , e fortaleza de engenhos 
na Comarca dos naturaes dàqueJles cercados , que ejperança 
deve fer a nojja , que poftoque nos queiramos defender per força 
de nojfo fangue , o temor do grande poderio , e ejperança de 
continnaçom com a mingoa da necejfidade he necejfario , que fa~ 
ça embrãde-cer tioffos membros , e enfr aquentar nojfas forças , 
tirando de nóf toda virtude , que aos taes algúas vezes deu cau- 
fa de mais longa defeza \ e por certo que o nojfo Rey nom fer d 
pouco obrigado de dar conta de nós ante a prefença daquelle Se~ 
4ihor de cuja mao recebeo ú Real poderio , onde lhe fera cara- 
mente dem andado nojfo fanguè , e por ventura nojfos pecados ; 
pois por elle foomente acrecentar em Jy mais honra , nos leixa em 
tanto defamparo. Alli encomendavaò fuás coufas aos paren- 
tes , e amigos , fazendo Teftamentos , e Cédulas de fuás fa- 
zendas com aquellas repartições , que por mais feu defcar- 
rego fentiam. He verdade , diz aqui o Autor defta lftoria , 
que poftoque a natureza humana naturalmente feja temero- 
ía , os penfamentos daqueftes em alguma parte nom eram 
vaãos ; caa elles ficavaõ em aquelía Cidade , que era naquel- 
]e tempo cafy a frol daquella terra d' Africa i cuja perda de 
rczaò avia de fer dos Mouros muito fentida > nom foomen- 
te dos naturaes, e vizinhos, mas ainda de todolos outros, 
que mantinham fua Seyta , a qual ficando tam azada pêra a 
tornarem a tomar , de crer era , que fariam fobr'ella quan- 
to podeíTem , pois do focorro , que os noíTos naturaes efpe- 
rariam , o alongamento do Regno , e a pouca fegurança do 

maar , 



244 Chrônicà »* 

jnaar , que muitas vezes he contrario ao querer dos homens j 
era neceíTario , que fizelTe naquelles , nom aincla populares , 
mas nos outros mais nobres , muito defvaíradas cuidaçóes ; 
empero aquelle que daa vida , e morte , quando , e como 
lhe praz , com feu infindo poderio ordenou as cuidaçoes da- 
quelles , muito pelo contrario ; caa por fua infinda piadade 
até oje j que fam paíTados corenta«e cinco annos , fempre 
aquella Cidade foi muy valentemente defendida pelos noíTos 
naturaes , e focorridas nas grandes neceílidades , affy perEl- 
Rey D. Joham, e per EIRey D. Eduarte , Reys que primei- 
ramente começarão a pofíuir delia novo Titulo , como do 
Infante Dom Pedro regendo o Regno , e nom menos pelo 
muy nobre Rey Dom AfFonfo, em cujo tempo efta Iítoria 
foi eferipta , como fe ao diante contará naquelles lugares > 
onde fe o cazo offerecer. 

CAPITULO XI. 

Gomo a frota foi prejies pêra partir ? e como os da Ci* 

dade ficavom* 

OUtro muito contrario cuidado traziam os Governado- 
res daquella Frota i os quaes avendo certo mandado co- 
mo no outro dia aviam de partir, como homens alegres da 
vitoria , a qual lhes parecia tanto menos ^ quanto tardava 
de fe contar per elles a feus parentes ; e amigos , pelo qual 
fe lhes o tempo fazia longo pêra chegar á fuás cazas , e fe 
alegrarem com as coufas que aniavaõ , recontando os traba- 
lhos daquella vitoria ^ que nom feria a elles menos defean- 
ço : e porem toda aquella noite paíTada trabalharom em con- 
certar feus aparelhos , de guifa que como foi manhã tinham 
luas vellas ligadas em fuás vergas ficando fobre a ancora 
derradeira; e tanto que virara, que o Navio d'ElRey come- 
çava de fraldar fua vella , e as trombetas faziam final de par- 
ti- 



do Gonde D, Pedro. 24^ 

tidas , toda-las outras começaram de a feguir , onde cada 
hum fazia fahir fobre o bordo do feu Navio o eftromento i 
que levava , com que alegrava os corações daquelles , que 
os podiam ouvir, cuja doçura do fom era muy contrariarias 
vontades da maior parte daquelles , que alli ficavao , os 
quaes lançados fobre os muros com as faces fobre fuás pal- 
mas , banhavaó feus roftos com lagrimas , outros gemendo 
efguardavaó o Ceo pedindo ás Geleítiaes Virtudes , que fe 
lembraíTem de feu tamanho trabalho : e os Navios feguindo 
fua viagem começarão de fe efconder huns ante os outros > 
ata que os da Cidade ouverom de todo em todo de perder 
fua viíta , onde os leixaremos tornar pêra o Regno por dar- 
mos lugar aaquelles da Cidade i que ouçam as palavras, que 
lhes começa de dizer aquclle feu novo Gapitaó. 

CAPITULO XII. 

~Das palavras , que o Conde diffe aaquelles , que com el-< 
le ficarom , reprendendo-os da t rifle za que tinham. 

NOm diremos por certo , que o Conde Dom Pedro ef- 
tava olhando o movimento das vellas , que faziam fua 
viagem , nem atendia ao cuidado , que aquelles populares 
aviam , mas como muito esforçado Cavalleiro , e muy dino 
de tal encarrego , andava pelos muros com eíTes Fidalgos 
que hy ficáraõ , olhando aos lugares per onde devia poer fuás 
guardas , e onde compria mais ^ ou menos força de gente , 
de guifa que por mingoa de bom avifamento , nom recebef- 
fe alguma perda-: e vendo aíTy aquelles triíles , e chorofos 
fez os chamar todos em o meyo da praça pêra os reprender 
de fua trifteza r e também pêra os confortar , onde vilTe , 
que compria. Eu , diífe elle , Senhores , Irmãos ^ e Amigos , ey 
grande de/prazer vendo affy vojfos rojlos molhados , e vojfas ca- 
ras t rifles como gente temerofa , e defejperada , em que nom ha 
Tom. IL Hh ' vir- 



t^6 Chronica 

virtude , fiem fortaleza , o que por certo a mim fera grande pe- 
na , e trabalho , continuar o que começado tenho com gente ajfy 
trifle , e chêa de temor ; caa nom as forças dos corpos , mas as 
fortalezas dos corações fao as que acabam os feitos das bata- 
lhas ? e fe eu me atrevi requerer , e aceptar efte Carrego , que 
vós tam perigofo fazeis , nom foi por cuidar ? que tal gente avia 
de mandar ? nem reger , mas penfei , que a virtude de vojfos an- 
tecejfores era em vós ajfy nobre y e grande , como foi em elles • 
caa me lembrei , que decendeir daquella muy nobre linhagem 
dos Godos, os quaes nom tam foomente fe contentarem dos Ter- 
mos de Efpanha ? mas ainda França ? e Itália por muitos tem- 
pos fenhorearao ; e depois tomados a jua terra ? naS como gente 
vencida , nem fugida , mas como quem leioea a terra , que lhes 
nom praz , com taes Preitefias , e Pojluras , como elles quife- 
rao , fe tornaram a pojfuir o Senhorio , que diante aviam : fois 
ainda filhos daquelles , que fendo toda Efpanha perdida j e os 
Mouros apoderados delia , fe ajuntaram com aquelle Catholico 
Príncipe Dom Pelagio j e per força de feu fangue empuxarão 
os imigos até que os fizeram retear naquelle pequeno recanto , 
que he o Regno de Grada ; e poftoque fe diga , qne nom tam 
foomente os de Portugal ? mas tvda-los tfEJpanha fe ajuntarão 
nefle feito , eu digo , que do nojfo Regno f i a maior parte , co- 
mo fe p"de cnhecer per aquelles , que ao prefente pagão votos , 
que ficarão em renembrança daquella vit ma : e tanta foi Jua 
nobreza , e virtude , que fe nom contentarão de pojfuir Senhorio 
fobre fy , que levajfe nome tf outra Nação , fenaõí da fua, ep.r 
tilo fe ajuntarão com aquelle nobre e esforçado Varão Dom 
Aff^nfo Henriques primeiro Rey defle Regno , e ajfy poucos co- 
mo erao nao foomente teverao coração pêra enleger , e manter 
novo Rey ? mas ainda tomar aÔ aos Mouros Antre Tejo y e Oáia- 
na , e todo o Regno do Algarve , cum a maior parte da Ejlre- 
madura ; pois qual foi fua virtude em aquella grande batalha 
do S alado todos ouviftes , e f abeis , e ajfy das guerras , que cu* 
ver ao com as outras Nações j aquella antiga virtude devia fer 
fempre na vojfa renembrança. O* Companha pujilanima de coroa- 
ções 



do Conde D. Pedro. 247 

coes muíbarigos ? e afeminados , dizei-me y porque chorades? 
Se por 'ventura com temor daquelles Mouros 5 que alli ejlaõ 'fo- 
ra amedorentados , e efp amados , que mal , nem que dapno nos 
podem fazer aquelles , que tao fracamente Je ouverom na âe- 
fenfao de fua Cidade , aquelles que nom poder am danar , nem 
tornar os que os lançavao de fuás cazas , que faram agora 
eftando vós dentro daqueftes muros , onde fuás armas , nem po- 
der , vos nom podem fazer dapno , foomente que vos moflreis y 
que eftais alli por vos defender , mas nom fera fe Deos quizer 
per ejfa guifa \ ca nós nom foomente lhes defenderemos a Cida- 
de , mas ainda lhes tomaremos toda a outra terra , que injufta- 
mente pojfuem , em quê os Chriftaos jaa te ver ao Senhorio, E 
€omo per ventura feremos nós menos que aquelles , que ajuda- 
rom ao Mejlre Dom Payo Corrêa , o qual fend» hum flmples 
Cavalleiro , natural de nojfo Regno , com muy poucas compa- 
nhas y tomou todo o Regno do Algarve , e ajfy muitos outros 
Lugares na Comarca $ Andaluzia. Nom ha hy muros , nem tor- 
res j que fe tenhao ao poder de Deos , e fe nojfa tençom fôr fir- 
mada em lhe fazer aquelle fervi ç o , que lhe per nós , como feus 
fieis j e verdadeiros Chrifiaos he devido , elle fera com fiofco , 
como fempre foi com aquelles , que fe á tal trabalho direita- 
mente oferecerão '; e ifto que vos ora taS grave parece per aquel- 
le refpeito , que todolos começos fam mais fortes , do que depois 
fam os meios , nem os fins ? nom pajfaráo muitos dias y que to- 
do nom ajais por ligeiro , e hom de fofrer ; pelo qual eu e/pe- 
ro de ter maior trabalho com vofca recufando-vos , do que cen- 
tra minha vontade em f dapno deftes Mouros quizer des fazer y 
que fentido de vos amoeflar , nem rogar , que fejais fortes tia 
defenfao da Cidade. Porem Senhores , Irmãos , e Amigos , pen- 
fai de vos alojar confortando vojfas vontades , e poendo ante 
vojfos olhos y como aquelle que vos aqui leixou ter d cuidado de 
'vos prover , e ajudar , e nao ainda como a naturaes , mas co- 
mo a criados , e fervidores , e que a vojfa honra ferd pêra fem- 
pre muito maior , que de quantos aqui vierom , nem ao diante vir do • 
porque com a graça de Deos nós faremos tanto , que defp achemos a 

Hh ii w- 



"248 Chronica 

terra a toão-los outros , que ao diante 'vierem âes y , e tendes 
cutro muy grande ccnforto , pcrqtie Deos querendo , pêra ejie 
Março feguinte EIRey Nojfo Senhor fera nejla Cidade , e man- 
dará vós outros pêra voffds cazas com muita hcnra , e mercês 
e dos outros fe fervird nos trabalhos em que cuver de fer. 

CAPITULO XIII. 

Em que o Autor diz a maneira , em que os Mouros Ia- 
mentavao a perdição de Jua Cidade. 

ERa o Gonde Dom Pedro de graciofa palavra , e ho- 
mem que fallava fabedormente , como aquelle que em 
fua mocidade aprendeo muito das Artes Liberaes ; e a fly to- 
marão aquellas gentes temerofas oufyo daquellas razoes , 
que lhes alTy diíTe, e também d'outras, que lhes os Fidalgos 
deziam , cada hu em fua parte ; e tanto que veio a noite , 
que foi a primeira em que o Conde começou de ufar de feu 
OfEc^o , foraõ fuás vellas , e roídas ordenadas com grande 
deferiçaó , em cujo começo fe moftrou o que adiante avia 
de fer. Mas porque ainda naÓ diífemos a maneira , que os 
Mouros teverom , depois que fe partiram da Cidade , que- 
remo-la neíte Capitulo efcrepver por vos dar-mos aquella 
conta , que fe em taes cazos requere ; os quaes fegundo fou- 
bemos por alguns, que aodiante a efte Regno vierom cati- 
vos, naquelle primeiro dia, que leixaraõ a Cidade fe efpar- 
geraô por huns Valles , que alli ha nas faldras daquella fer- 
ra , em que entaõ avia muitas arvores frutiferas , em que el- 
les tinhaó fuás Quintas, porque penfavaõ , que como fe EI- 
Rey partiíTe , que lhes deixaria a Cidade livre , e foomente 
fe contentaíTe daquella primeira vitoria. E porque ao tempo 
da fahida cada hum tinha mais cuidado da fua própria vida , 
que d'outro nenhum ; depois que foi noite andando por 
aquelles. bofeos era piadofa coufa de ouvir os gemidos del- 

Ics , 



do Conde D. Pedro. ' 240 

les , poftoque folTem infiéis ; caa depois que forao afaftadoè 
da íbmbra dos muros da Cidade , começarão de fe apartar 
per antre as efpelTuras dos arvoredos de fuás Ortas , e Pu- 
mares, e nom avia hy tal , que logo á primeira chegada 
podeíTe ter fegurança por muito efcufo , que o lugar foíTe ; 
caa afly vinham amedorentados da grande mortindàde , que 
virom fazer em feu.s Padres , filhos , e parentes, e naturaes, 
que o íoom que o vento fazia nas arvores lhes gerava temor ; 
mas depois que a noite começou de vir cobrarom elles jaa 
quanto quer de mor atrevimento : e aíTy começarão de fe 
fahir daquelles matos , cada hum per fua parte , e chamar-fe 
huns aos outros per feus propios nomes, as madres chama- 
vaó os filhos , os maridos as mulheres , e aquelles que fe 
acertavaó de fe acharem , cobravaò algum pequeno remédio 
pêra feu conforto , ainda que lhes muito nom podelTe durar ; 
porque a nembrança da fua perda geral nom fe podia ef- 
quecer , por outra nenhuma coufa de melhoria por grande 
que foíTe , e fobre todo nom avia hy algum , que nao te- 
veíTe , que chorar , porque a alguns falleceraó filhos , e a 
outros mulheres , e a outros parentes , e amigos ; e per ven- 
tura que taes hy avia a que falleceriam todos , e aíTy co- 
meçavam de fazer feu pranto mui dorido , chorando fua 
perdição , aprefentando-fe-lhes ante a nembrança as coufas , 
que perderão , as quaes eram tantas , e tam grandes , que 
a cada hum per fy traziam mui dorofo íentimento; caa en- 
tom lhes pareciam muito mais nobres em vallor, do que lhes 
pareciam no tempo , que as poíTuiam. Ha no Mundo , deziaò 
elles , intendimento humanai , em que poderá caber , que huma 
tao nobre , e tao Real Cidade em hum fio dia fe podejfe per~ 
der , e nao ainda em hum dia , mas em huma ora ; por certo 
nao foram ejles homens viventes , mas foram os poderios do in- 
ferno , que chegarão fobre nós \ caa femelhante obra mal fe po- 
der d creer , que foi tam brevemente acabada por nenhuma for* 
ça , nem poderio terreal : efcrepvao , deziam elles , os Autores 
das Ijlorias , que nunca foi nenhuma companha tam pai aven- 

tU"> 



i^o Chroniga 

turaàa , como foi aquefla nojfa\ caa ainda que nós efúveramos 
em meio ãe hum campo com humas poucas de palhas por cerra» 
duras , nom poderíamos tam ligeiramente Jer vencidos \ e fe quer 
ao menos a nojfa ventura contrairá nos leixdra tanto bem , que 
teveramos algum e/paço , em que poderamos conhecer nojfo ven- 
cimento , o qual por certo nem nos poder a pouco aproveitar , fe 
quer ao menos por nom perdermos de todo aquillo , que por tan- 
tos tempos aviamos ganhado : e alli começavam a contar huns 
aos outros todolos aquecimentos de fua partida , e quaes 
eram os que morrerão logo na primeira entrada , que os 
Chriftãos com elles fezerom , e quaes ao depois; e conta- 
vam outro íy a grande multidão dos corpos fem almas , que 
jaziam tendidos per aquellas praças ; e os velhos deziam , 
como virom a feus Padres , e Avós fallar daquella perdi- 
ção, dizendo, que dias aviam de vir, que àquella Cidade 
avia de fer regada com fangue de feus filhos , a faber , de 
feus moradores : outros contavaò fonhos , que fonharom , 
em que lhes parecerom coufas maravilhofas , que bem decla- 
ravaó aquelle dapno : A mim mandou meu Padre , diíTe hum 
daquelles velhos, quando era moço pêra Tunes , pêra hum meu 
Tio , que lá morava , o qual me deu a enjlnar a hum Almoa- 
dao da Mef quita maior ; e e fiando eu hum dia j aliando com el- 
le , contava-lhe as bondades dejla Cidade , e elle em fim de mi- 
nhas palavras , pôs as mãos febre os olhos , e começou de fof- 
pirar muy fortemente , e algumas vezes lhe pareciam as lagri- 
mas por de fob a maao , então me ãijfe : Filho meu rogo -te , 
que nom me digas mais das bondades de tua Cidade ; caa me 
nom podes tu dizer tanto , que eu muito mais nom faiba , pêro 
tanto te digo , que fe os Mouros da terra d? Africa foubejfem , 
o que eu fei , jaa em ella nom eflaria húa pedra fohre outra , 
que nom fojje derribada toda pelo chão ; caa a fua formo/ura , 
e bondade , ainda ha de fer caufa de nojfo grande mal , o qual 
Jentirdo primeiro , os que nella morarem , e depois o fentirdo os 
outros , que morarem af afiados , e por ventura poucos ficarão em 
efla parte d? Africa , que nom tenham fua parte defla perda \ e 

ejlo 



f 

do Conde D. Pedro. 2çi 

ejlo que te eu agora digo , fei eu muy bem , porque li fobfeU 
lo muitas Profecias y e vi muitas coufas , porque fui de lio bem 
certo j e ainda porque nom ha muitos annos , que eu jazia dor- 
mindo em efta Mefquita , e fonhava y que via huma mulher com 
muitos filhos derredor de jy , e que avia huma ponte , que fe 
começava dacerca de feus pees , e chegava até o Regno do Al- 
garve , que he em Portugal , pela qual vinham da terra dos 
Chrijlaos grandes manadas de moços , os quaes peléjavaõ com 
os filhos daquella mulher , até que os matavam todos y e mama- 
vao fuás tetas \ e porque ijlo me pareceo mais vizao , que ou- 
tra nenhuma figura vaa ? contei-o a Mouros Sabedores , e todos 
acordámos , que aquella mulher reprefentava a terra d? Africa , 
e os primeiros filhos fomos nós outros , os quaes empuxarão os 
Chrijlaos de fuás tetas , a faber , de fua terra , e tudo ijlo ha 
de caufar cobiça da formosura de vojfa Cidade : e porque , dif 
fe aquelle Mouro, eu nunca em fonhos teve fermença , nom cu- 
rei muito de ef guardar fobre ello , fenao agora que vejo f eu efei- 
to. E aíGm contavaò huns aos outros quantas abusões fonha- 
raõ , e ouvirão de cent'anos até aquelle dia , aas quaes na- 
quella ora todos davam o entendimento da perda prefente 9 
e aíTy efteveram aquella noite em fuás triftes departiçòes , 
cada hum contando fua parte até que os o fono forçava, 
onde lhes paíTavaô pelos fentidos coufas muito defvairadas, 
fegundo fe faz comunalmente aaquelles j que vigiando faó 
carregados de penfamentos. Muitos hy ouve , que dilTeraõ , 
que virom aíTy dormindo muitas almas daquelles , que foraò 
mortos no dia paífado ; e a outros parecia , que fallavaõ com 
feus parentes , e amigos finados , e principalmente com 
aquelles, que no dia d'ante falleceraô. Muitos eraô os que 
fe hiaõ pêra as Herdades , e Quintas , onde tinham fuás ca- 
zas em que eítavaó no tempo de feu Allacir , fegundo ve- 
des, que os Mouros acoílumam quando paíTaó fuás fruitas , 
e alli fe lançavaó fobre os montes de palha , que tinham pê- 
ra fuás camas ; caa aquelle he o tempo , em que elles mais 
aturam femelhantes lugares , porque entrando o Sol no íl? 

gno 



1<)1 Chronica 

gno da Virgem , he naquella crima a força do Eílío , onde 
toda-las fruitas tem fua principal fazaõ ; e alli fe começa- 
vam de nembrar de quanto proveito ouveram nos tempos 
paíTados daquellas Herdades, e das arvores frutíferas, que 
nellas poferom , e com quanta defpeza fezerom aquelles edi- 
fícios , e como todo em tam breve tempo aviam de leixar a 
feus imigos : outros hy avia , que fe lançavaó a chorar pe- 
los comaros dos vallados de fuás Ortas > em fim daquelle 
trifte penfamento : a outros fobrevinha tamanha braveza , 
que com aquella laftima fe enviavam ás vergontias de feus 
enxertos , e começavaó de os britar ; e aíTy andavaõ de húa 
parte a outra como homens fora de lízo , querendo em al- 
gúa coufa parecer aquella Sacerdotifa Edonis , que morava 
nas Tavernas do monte Pindo , onde em cada hum anno fa- 
crificavao a Libero Padre , como diz Meftre Gonfredo , pa- 
recendo-lhes , que fe fartavaó em fazer aquelle eftrago , até 
que com a força do canfanço faziam fim : outros que tinham 
fuás ferramentas naquellas Quintas decepavaõ as arvores , que 
com tanto trabalho crearom : em pêro outros muitos hy* 
avia , que uzavaõ de fua fanha mais temperadamente , efpe- 
rando , que ainda poderiam cobrar fua Cidade , onde lhes 
aquellas coufas poderiam aproveitar j trazendo alguns da- 
quelles mais Sabedores á fua memoria, algumas efcripturas ^ 
que lêraó nos tempos paíTados , nos quaes achavaõ muitos 
acontecimentos d'outras Cidades , e Villas , que depois tor- 
narão a cobrar feus próprios moradores , onde fe tornavaõ a 
lograr das fuás principaes coufas. Ora pois , deziam elles , 
porque quebrantaremos nós , o que com tanto trabalho ganha- 
mos j caa pode fer , que Deos obrará em nós com a fua rnife** 
ricoràia , e tornar ~nos-h a a pojfe de nojfa Cidade , a qual indo- 
que ai nom fojfe , he tao longe do Regno de Portugal , que ejles 
Chri/lãos a nao poderão largamente manter. 



CA- 



bo Conde D. Pedro. 2fz 

CAPITULO XIV. 

Que falia da primeira Efcaramuça , que os Mouros ou~ 

verom com os Chriflaos , e como hum daquelles 

infiéis foi morto. 

NOm tinhaõ os Mouros pequena efperança de cobrar 
aquella Cidade pelas razoes , que acima dilTemos ; e 
porem fe naõ quiferom partir daquelles valles , onde tinha6 
íuas Quintas ; efpecialmente fe confirmarão em efta efperan- 
ça , quando virom partir a Frota d'ante os muros da Cida- 
de: Como diziam elles, gente averá no Mundo , que nos de- 
fenda nojfa Cidade per continua fom de tempo , por certo feria 
eflranha coufa , falvo Je elles nunca comerem , nem beberem y e 
cuverem as coufas necejjarias do Cêo ; mais azada eftava a Ci- 
dade d?Aljazira pêra a manter EIRey Dom 4ffonjo de Caftella % 
que a tomou , e nem pôde foportarfe , que a nao filhajfem os 
Mouros , e a tornajfem outra vez a feu Senhoriê , efta he huma 
eflranha fuberba de gente , partir-fe feu Rey com todo feu po- 
der , e terem elles coração pêra ficar aqui, E com eftes razoa- 
dos fe andavaó confortando , vilítando os lugares donde a 
Frota podia parecer, até que viraõ, que de todo fahia do 
Eftreito , o que a elles nom foi pequena folgança , penfan- 
do, que todo feu dezejo em breve podia fer acabado , e 
no outro dia pela manha fe ajuntarão todos os Mouros, 
em que avia alguma força , e chegárom aos muros da Ci- 
dade , e os fracos per velhice , ou infermidade leixarom a 
guarda das mulheres , e creaturas pequenas , porque da fa- 
zenda naõ tinham cuidado , porque a maior parte delia ficara 
em poder de feus imigos ; e áquelles que em fy força fenti- 
am pareceo , que fe lhes dobrava , quando forom acerca da 
Cidade, e fentirom a pouca gente, que eftava fobre os mu- 
ros , porque a maior parte dos Chriftãos andavaõ corregendo 
Tom. II. li feus 



2Ç4- Chronica 

feus alojamentos , e arrumando fuás fardagens , xomo ho- 
mens , que êfperavam alli manter aflbcego : pêro des que 
íouberaõ, que os Mouros alli eftavaõ correrão pêra aquella 
parte , e a maior força dos imigos correo pêra aquella porta , 
que fe entom chamava de Madrabaxabe , e ao depois d'Al- 
varo Mendes ; e porque acerca deita porta eftá íiuma coiraça, 
onde eftavam alguns Navios em fecco , forom os Mouros con- 
tra ella , e poferom-lhe o fogo ; mas os nolíbs , que eftavaó 
fobre o muro vendo tal atrevimento , nom quiferaô efperar 
licença , nem mandado do Capitão , mas aíTy como poderom 
tomáraó fuás armas , e mui oufadamente fahirom a elles , 
onde fe volveo huma forte, e grande efearamuça : antre eftes 
Mouros andava hum naõ menos grande em linhagem, que 
cm alteza de corpo , homem de formofa cara , e de grande 
coraçom ; e aíTy como muito valente, e esforçado era fem- 
pre ante os outros, como homem, que naô queria fazer vil 
a nobreza do fangue , que tinha ; porem hum homem de pee 
de hum daquelles Efcudeiros , que alli leixára o Infante Dom 
Anrique , que fe chamava Martim do Algarve lhe arremeçou 
huma lança com que o ferio de mortal chaga ; porem o Mou- 
ro como esforçado tirou â lança de fy , e remeçou-a per tal 
força , que trancou còm ella hum efeudo no braço a hum da^ 
quelles Efcudeiros , que alli andavaó na peleja ; mas naô lhe 
podendo a força mais durar, cahio morto no chaõ, de cuja 
dôr os outfos Mouros tomarom tamanho fentido , que caly 
per vingança fe envolverom muy rijamente com os Chriftãos ; 
em pêro aíTy fe achara6 efearmentados das feridas, que lhes 
os nofíbs deraõ , que per força lhes fizeraõ volver as coitas. 
E porque o Conde Dom Pedro era longe dalli , na outra 
parte da Cidade contra a Almina, ouve razaó de faber tarde 
as novas daquelle rebate , e principalmente porque aquelles , 
que defejavaò fer na peleja nom oufavam de lhas hir dizer, 
temendo-fe , que os contrariaíTe da fahida ; pêro o rumor 
correo pela Cidade , e chegou onde elle eftava , o qual tri- 
go famente acudio pêra aquella parte , e nom quis dar lugar , 

que 



do Conde D. Pedro. 25^ 

que íe os Chriíhòs alongaíTem do muro , porque era todo 
cercado d'arvoredos , como jaa diíTemos , e temeo , que por 
ventura efteveíTem os outros Mouros encubertos com tenção 
de lhes fazer algum engano : e porem fez recolher todo-los 
Chriltãos, e ficárom os Mouros muito eípantados de tal atre- 
vimento , o qual lhe deu caufa pêra cuidarem, que o que ante 
penfavaõ nom lhes feria tam ligeiro d'acabar. 

C A P I T U L O XV. 

Como os Mouros tornarão diante da Cidade * e como 
dons nobres Maris requererão os nojfos de peleja. 

POr aquella fahida, que os Chriftãos taó oufadamente fe- 
zeraõ , ouveraô os Mouros maior razaõ de faber feu ardi- 
mento ; e porem fe juntaram os principaes , e teveram con- 
felho , da maneira que dalli em diante haviaõ de teer em fua 
ordenança, porque a gente da plebe nom fahilTe d'Aljazira 
fem ordenança de Capitão : Nós , differom elles , Hom podemos 
melhor cobrar efta Cidade , que pela maneira , que a -perdemos ; 
ejles Chriftãos ficaram ajfy orgulho/os do bom aquecimento , que 
ouverom , que ajfy como fem trabalho cobrarom , ajfy o querem 
perder de ligeiro , e pêra os nós enganarmos , ligeiramente vamos 
cada dia fobre a Cidade , e como gente temer of a , e amedrentada 
travemos com elles ; e por pequeno movimento , que ante nós fa- 
çam fujamos d? ante fuás armas , e elles tomarão ifto ajfy por 
começo de vitoria , pelo qual averáo atrevimento de nos feguir 
cada vez mais , e tanto lhes façamos ifto , que os vamos tirando 
longe da Cidade , e então averemos tempo de nos aconfelhar , na 
maneira que teremos em entrar com elles de volta , ou lhes lançar 
cilada , como nos melhor parecer ; no qual confelho todos acor- 
darão : e aífim tomarom por coftume de chegar cada dia tam 
perto dos muros , que podiam fer bem viftos dos Chriftãos, 
e alli faziam fuás arremetidas por alvoroçarem os noíTos , e 

li ii os 



nç6 Chronica 

os tirarem pêra onde elles defejavam ; mas o Conde tinha 
aíTy todos avifados , que nenhum nom movia da barreira pêra 
fora: pêro porque vio que os Fidalgos fe anojavaõ de cita- 
rem affy ociofos dava-lhes alguma licença, que eícaramuçaf-^ 
fem com os Mouros , pêro que fe nao alongaffem da Cidade 
com elles , e aíTy o fezerom per alguns dias , até que o Con- 
de teve fua Cidade concertada , e conheceo a maneira , que 
os Mouros queriaó ter ; e hum dia fez chamar os Fidalgos , 
e Capitães pêra aver confelho com elles , e ordenar fua íahi- 
da como foííe razão : Senhores Irmãos , Parentes , e Amigos 
verdade he , que antre as cousas , que me EIRey principalmente 
encomendou ajfy foi , que me trabalhajfe de nom fakir fora defta 
Cidade , fe nao por muy grande ref guardo , e que ainda nao fojfc 
fe nao por coufa muy necejfaria ; porem em confirando quem vós 
outros fois , e a vontade , que fim certo , que tendes de acre- 
centar em voffo nome , penfei de bufe ar maneira pêra fahir mos 
a efles Mouros com Jerviço de Deos , e d'ElRey nojfo Senhor , 
e guardada nojfa honra \ e como quer que cavai los nom tinha- 
mos , vamos de pee , e fe quer ao menos nom poderemos fahir 
longe da Cidade , e feja ajfy que todos ejieis percebidos , pêra 
quando virmos tempo , que fahiâmos por tal modo , que af afie- 
mos efles infiéis da cerca de fies muros , e crêo , que fe nos Deos 
com elles dér vitoria , que os huma vez bem efe ar ment aremos , 
elles fe hirdo af afiando , e nos dardo lugar pêra fahirmos per 
fua terra, como per nojfa própria herdade ; porque d y outra guifa 
nunca ai fariamos todo o dia , fe nao eflarmos com elles em 
Tebates , e fe vos iflo bem nom pnrece pddermoeis dizer ; caa 
fem o voff o confelho nao entendo fazer nenhuma coufa. Todos 
dhTeraõ, que o confelho era muito bom, e que menos d a- 
quillo nom era honra , nem fegurança ; e ficando affy eile 
acordo, nom tardou muito , que os Mouros vi era ó d'a vante 
a Cidade pela guifa , que fohiam ". e hum dia muito cedo 
começaram de fe vir chegando huns poucos de Mouros con- 
tra a Porta d' Álvaro Mendes, e os Chriftãos andavam per 
antre o muro, e a barreira, e começarão de lhes tirar com 

as 



do Conde D. Pedro. 2^7 

as beeftas , e os Mouros começarom de crecer cada vez mais ? 
e em ifto chegou- fe Joham Pereira , que era Capitão , dos 
que alli leixára o Infante Dom Anrique , contra a porta , e 
com elle fetenta Efcudeiros daquelles , de que elle era Ca- 
pitão ; e porque virom os Mouros defejoíbs de peleja , abri- 
rão as portas da barreira , e emburilharom-fe com elles ; e 
depois que aíli hum pouco andarão efcaramuçando , porque 
os contrários recebiam danno das beeftas de cima dos muros , 
afaftáraõ-fe afora , e os Chriftãos aífi mefmo tornarom pêra 
acerca da Cidade; e em efto feriam jaa os Mouros numero 
de mil , e os noífos até trezentos ao mais , fendo antre os 
infiéis dous gentis homens de cavallo , os quaes alTy em con- 
tenenças , como geito de corpo , como nos trajos , e arreios 
dos cavallos , bem pareciam homens de grande caza ; eftes 
tanto que forom a tiro de beefta dos Chriftãos , leixáraõ os 
cavallos , e ficarão a pee fazendo final de feguro , e chegan- 
do-fe muito cerca de hum poço , muito perto dos noíTos , de 
guifa que fallando fem alta voz , os podiam entender , e co- 
meçarão a dizer pella Aravia ; Se avia hy dous pêra dous ; as 
quaes palavras entendidas , logo defpachadamente dous d'antre 
os noflbs fahiraô, ejuntaraõ-fe com aquelles dous remeçando- 
fe primeiro huns aos outros, e des y vierom ás outras armas , 
a faber , efpadas , e agumias , e fobre a volta deites quatro 
acudirão os Mouros , e os Chriftãos , e começarão de fe em- 
burilhar , e em ifto chegou o Conde acerca da porta , e como 
homem que avia vontade de moftrar aos contrários a £m por- 
que alli ficara , pôs fuás guardas aíTy na Villa , como nas 
portas , e foi fobre os Mouros , com a maior parte deíTes bons 
homens , que alli eram : e como quer que andaíTem nobres 
homens , e Fidalgos de valor , nom eram ainda a cavallo fe 
naô o Conde , e Joham Pereira , e Álvaro Mendes Cerveira. 
Eraô alli cerca daquella Cidade huns Paços , que alli man- 
darão fazer os Reys antigos de Fez , em que pouzavaó quan- 
do vinham alli , e ifto porque todo-los moradores da Cidade 
pela maior parte eram mercadores 7 e officiaes , e mareantes } 

por- 



15% ChronicA 

porque a gente Cortesaa nom ouveíTe caufa de lhes fazer nojo 
alTy nas mulheres , como nas fazendas ; porque os Mouros 
antre as Nações dos homens fam os mais daninhos , como jaa 
ouviftes, onde falíamos na tomada da Cidade ; eftes Paços 
eram fortallezados de muro, e Torres, e chamavaõ-fe Alja- 
zira , os quaes inda duravaó em o tempo da feitura deite 
Livro, e depois, pêro já danificados; antre eftes Paços , e 
a Cidade eftavam grandes Ortas , e Pumares acompanhados 
de muitos arvoredos ; e porque os Mouros virom , que aquel- 
les Paços eram alTy fortes de muros, e Torres, pareceo-lhes 
que teriam alli como Caftello pêra guerrearem dalli aos Chrif- 
tãos. E em efte dia como coufa , que elles de longe traziam 
cuidada , puferaõ naquellas Ortas até mil Mouros em cillada , 
e quando fentirom , que o Conde com aquelles , que o fe- 
guiam eram jaa fora da Cidade , começarão de fe retraher, 
como gente temerofa , moftrando , que fe retrahia peia acha- 
rem fegurança, e alTy foram hindo , até que os noflbs paíla^ 
raó a cillada ; e em ifto fahirom do cerco dos Paços hum 
grande tropel delles a fim de fe emburilharem com os 
nolTos , e os retraherem com fua força , até que os da 
cillada ouveíTem razom de filharem as portas da Cida- 
de , e que entom tornariaõ fobre os outros , e filha ri ao 
os noflbs n'ametade ; o qual era açaz de bom confelho fe o 
elles ouveram com gente fraca , e defavifada ; e feito efto , 
foi a peleja muy grande , a qual os Mouros nom podendo 
fofrer , os da cillada que já forom cerca dos muros com a 
primeira tençom, forom muito alinha afaftados por razão da 
beefteria , que eftava nos andaimos , de que foram muitos 
feridos. Tornarão entam contra os outros penfando d'acolher 
os nolTos em meio , onde a peleja foi muito mais grande , 
que da primeira : porem os Chriííaos vendo como os Mou- 
ros fobrevinhaõ cada vez mais , começárom de fe retraher 
com bom avifamento , tanto maior , quanto o perigo era 
mais grande, onde o Conde Dom Pedro andava como va- 
lente , e esforçado Cavalleiro avivando aquella gente Por- 

tu- 



do Conde D. Pedro. i^^ 

tuguez , lembrando-lhes a miude a antiga virtude de léus 
ante ceífores ; e de tal guifa feriam os Mouros , que per for- 
ça romperom a cillada , e os fizeram ficar atraz , nom fem 
grande efpargimento de fangue daquelles infiéis ; e dos Chrif- 
táos alguns foram feridos efpecialmente Joham Ferreira , que 
era Efcudeiro Fidalgo da Gaza do Infante Dom Pedro , que 
depois foi Thefoureiro da See de Coimbra, que pelejando 
como bom homem foi derribado , e ouve huma azagayada 
pelo pefcoço, que lhe atravelTou as guellas , de |juifa que fi- 
cou aleijado na falia, a qual fempre ao diante teve pejada^ 
e morreo hum Judeo , que era com os noflbs ^ porque fe de- 
fordenou dos outros com que andava ; e dos Mouros morre- 
rão trinta e cinco, afora outros muitos, ^ue forom feridos, 
que ao diante morrerão ; e afly fe tornou o Conde com fua 
gente muy acaudeiadamente , até que os trouxe dentro aa 
Cidade. É por certo, que eira foi huma boa novidade pêra 
os noflos , a qual lhes deu muito grande oufio pêra as cou- 
fas, que aviam de vir. Alli era Gonçalo Nunes Barreto, e 
Pedro Gonçalves Mallafaya , Lopo Vazques de Caftel^-b ran- 
ço , Gil Lourenço d^lvas , Fernam Furtado , Luiz d' Ataí- 
de, Joham Pereira, Álvaro Mendes, Ruy Gomes da Silva, 
Luiz Alvares da Cunha, Joham Barreto, Mem de Seabra, 
é Diogo de Seabra , com outros bons Efcudeiros , e homens 
de Cavallo ; os quaes trabalharão eíte dia com tal força , 

que hum nom tinha, que reprochar ao outro. 

i 

CAPITULO XVI. 

Como o Conde fahio da Cidade , e como t aliou as Or- 
taSy e fez achaar o campo. 

COmo diíTe aquelle grande Iítorial Romano , a que cha- 
marão Tito Livio : » Que muitas mais vezes dam as cou- 
» fas confelho aos homens , do que os homens dam confelho 

ás 




i6o Chkonica 

3i ás coufas. E porem o trabalho daquella fahida naõ foomen- 
te fez honra ao Conde, e aaquelles, que o feguiraó, mas 
ainda proveito ; porque aprendeo pêra ao diante fe avifar 
melhor dos enganos de feus imigos , efpecialmente das cri- 
ladas ; e porque fentio , que íua hida fempre feria peri- 
gofa em quanto aquelles vallados , e arvoredos alli eíte- 
velfem, ouve confelho com aquelles Fidalgos , e acharão , 
que era neceíTario tallarem as arvores , e derribarem os 
vallados : e eftando fobre efta determinação começarom 
de vir cavallos de Caftella porque os Fidalgos manda- 
rão , em tanto que eraõ* na Cidade até quatorze ; e afly 
com elles , como com toda a outra gente fahio o Conde da 
Cidade, e pôs fuás guardas , que fofteveíTem algum perigo 
fe fobrevieífe d'Aljazira , ou d'outra parte , e a gente de 
pee mandou, que cortaflem naquellas arvores , em quanto 
lhes o dia durafle , e des y pedreiros , e homens , que fa- 
biam daquelle mefter, que derribaffem as cerraduras, e pa- 
redes das Ortas , e Pumares , e alTy os vallados , de guifa que 
em breve foi todo achaado , nom fem grande trabalho da- 
quelles , que o faziaõ. O' quem nom averia piadade de ver 
a deftruiçaô de tanta nobreza ; porque alli cahiaõ Torres for- 
radas d'oliveis pintados , e craftas ladrilhadas de mármores, 
e ladrilhos vidrados , em que avia diveríos lavores ; tantas 
arvores frutiferas , e odorofas , que aquelles mefmos , que as 
cortavaõ vinha piadade : ora que fariam os Mouros , que ef* 
tavaõ nos muros , e Torres d'Aljazira , os quaeá chorando 
per fuás barbas , gemiaõ aquella perda. 



CA- 



do Conde D. Pedíro. l£* 

CAPITULO XVII. 

Como vêo a Cepta hum Marim a que chamavao Aabu y 
e da primeira peleja, que cometeo. 

DE grande proluxidade pareceria noíta efcriptura fe pelo 
miúdo quifeíTemos contar quantas efcaramuças os Ghrifc 
taos ouveram com os contrários , em quanto efteveram cerca 
da Cidade ; caa vinte dias continuados nunca ceflarom de vir 
requerer os noflos de peleja, da qual nunca huns, e outros 
eram partidos ; porem per graça de Deos , fempre o campo 
ficava por aquelles , que defendiam a Cidade ; e tanto que 
os Mouros foraó conhecendo , que feu primeiro penfamento 
nom era tam ligeiro d'acabar , como elles ante cuidavaõ ; e 
porem foram-fe afaftando da Cidade cada vez mais ; e co- 
nhecendo como lhes era neceíTario aturarem aquella guerra , 
por ver fe a fortuna lhes feria alguma hora mais favorável , a 
qual coufa naó podiaó fazer fem Capitão , que os acaudalaf- 
fe , mandaram por hum Marim que hy era Comarcão , que 
fe chamava Aabu , Senhor de huma terra , que fe chamava 
Morequeci , homem efperto , e de grande coração , o qual 
ouve por muy grande honra de o rogarem pêra femelhante 
cuidado ; e logo de começo fe foi direitamente á Cidade com 
féis , ou fete de Cavailo , e pareceo ally fobre a carreira , 
que fe fazia antre as portas , que fahiam da Cidade pêra o 
fertam , afaber, antre a d'Alvaro Mendes , e a de Féz ; al- 
li pareceo aquelle Aabu, com aquelles de Cavailo, que dif- 
femos , e trazia dous negros apee veftidos de vermelho , e 
cada hum daquelles trazia feu galgo per fua trella, com muy 
tícos , e formofos collares. Ao recebimento defte Mouro fa- 
hiraó Joham Pereira , e Luiz Vazques da Cunha , Ruy Go- 
mes da Silva , e Pêro Lopes d' Azevedo , Pêro Gonçalves 
Mallafaya , e Gil Lourenço d'Elvas , e Johane Annes Ra*. 
Tom. II. Kk po- 



2^2 ,c C H H Ó N I C A 

pozo, e Al vare Annes de Cernache', e Álvaro Mendes de 
Beja fem outra companha , porque jaa todos tinham cavai- 
los ; pêro tanto que elles foraó fora , fahiraó após elles ou- 
tros bons Eícudeiros apee , porque lhes parecia , que rece- 
beriam abatimento ficarem aa fombra dos muros: es Fidal- 
gos entenderão bem , que o Mouro vinha aíTy cautellofa- 
mente por fingir algum engano, em pêro forom a elle por 
fentirem o que queria fazer , o qual em feu retrahimento fe 
xnoftrou mais temerofo j do que o cazo requeria , fahindo-fe 
afTy como fugindo , por aver aazo de tirar os nofíbs contra 
huma cillada , que deixara detrás de fy : Joaõ Pereira , que 
hia diante alcançou primeiro hum daquelles negros , e pen- 
fando de o ferir com a lança foi em trabalho com elle ; caa 
o negro era valente , e ganhou a lança nas mãos , ante que 
chegaíTe a elle , de que Joham Pereira nom ficava feguro fe 
a força do Mouro fobrepujafTe a fua : e cm ifto chegou Jo- 
hane Annes Rapofo , trigozo por dar remédio á neceífidade 
de feu Companheiro ; e deu huma lançada ao Mouro com 
que o atravefíbu de huma parte a outra , de que logo ca- 
hio morto : Luiz Alvares da Cunha alcançou o outro negro , 
e querendo-o ferir , bradou por fua Aravia Aabu , que lhe 
acudilTe , o qual ouvindo a dorofa voz de feu eferavo voltou 
rijamente fob^elle , e embraçando primeiro muy bem fua 
adarga endereçou contra Luiz Alvares , o qual vendo feu con- 
trario deu lugar ao negro , e teve tento em Aabu , alegran- 
do-fe porque lhe a fortuna aprefentava o Senhor em lugar 
do fervo, o qual fe muito alinha recolheo á fombra do Se- 
nhor , que o bufeava : retrahido foi Luiz Alvares ao diante , 
porque nap acabara o Mouro , pois que o tinha azado pêra 
o fazer; caa deziam, que temor do Senhor lhe fezera leixar 
o fervo, ca hy lhe ficara depois fazer aquelle mefmo dapno 
ao Senhor, que entom penfava, e ainda com maior feguran- 
ça; caa menos trabalho lhe fora pelejar com hum, que com 
dous : e por verdade , que vos nom podemos contar aquefte 
feito mingoando alguma coufa na bondade daquelle Caval- 

lci- 



do Conde D. Pedro, ^jfà 

leiro; cáa elle ante , e depois foi ávido por hum dos ardi- 
dos , que naquella frontaria eíteveraõ , e que per fy mefmo 
ao diante fez muitas , e muy aílinadas coufas, até que a mor- 
te o levou de peftenença. Aabu como vio feu efcravo livre 
começou de fe retrazer, como ante começara , e os Fidalgos 
começarom de o feguir, e o Conde fahio rijamente fora, e 
fez recolher, afTy os Fidalgos, como os outros, conhecen- 
do bem a fahida , que o Mouro fazia ; na qual coufa fe norri 
enganava , porque foi ao diante fabido , como aquelle Aabu 
leixára trezentos Mouros em cillada, onde agora chamam a 
T?onte-Quehrada. 

CAPITULO XVIII. 

Como o Conde pós primeiramente as Atallaias , e em 
que lugar -j e como os Mouros vieram , e da efea- 
ramuça, que hy ouve. 

ANtre as coufas , que o Conde ordenou pêra guardar 
a Cidade aíFy forom as Atallaias, as quaes foraò poí- 
tas logo primeiramente fobre Barbaçote em hum outeiro , 
que hy eftá; e no dia feguinte ao que fe ordenarão , mandou 
o Conde hum de cavallo , que foffe pôr os homens em el- 
las , o qual andando cercando a Cidade pêra defcobrir al- 
guns Mouros fe os hy avia, fahiram a elle huma foma del- 
les , que jaziam efeondidos , e começaram de o feguir; em 
pêro porque o efpaço era pequeno ouve razaõ de fe falvar; 
a qual coufa vifta por outra Atallaia , que eítava fobre a 
Torre de Fez , começou de repicar hum lino , que alli 
citava de dous , que alli foram achados , que os Mouros em 
outro tempo levarom de Lagos : o Conde foi logo preftes 
a cavallo , e fahio logo fora acompanhado daquellas boas gen- 
tes , que o com boa vontade feguiam , e alcançarão os Mouros 

Kk ii jun- 



2^4 Ckronica 

junto com a Atallaia; e por ferem muitos a alguns daquelles 
noíTos pareceo razão de fe tornarem , parecendo-lhes o perigo 
maior do que fuás forças podiaõ foportar ; mas o Conde 
teve , que feria vergonhofa coufa tornarem afly , como gente 
menos oufada , do que elle\ queria , que dos contrários foíTe 
fentida , penfando , que lhes dava ouíio pêra as outras coufas : 
e porem fallou muy rijamente a aquelles que o feguiam , 
que todavia folTem avante , ferindo feu cavallo rijamente das 
efporas , fe guindo os Mouros com grande ardimento , e com 
tal força chegarão os noíTos a elles , que logo cahiraó qua- 
tro mortos antre os outros , pelo qual os contrários fe atro- 
pelaram todos em hum , e nom podendo foportar as feridas 
dos imigos , começaram de fe retrazer , o que aos noíTos deu 
caufa de maior esforço , começando como de novo de os fe- 
guir com muito maior viveza ; ouveraõ os Mouros então 
acordo de fe terem de roíto com os noíTos rctraendo-fe po- 
rem, porque lhes parecia, que o perigo feria menos; mas 
efte ardimento nom lhes pôde muito durar ; caa vendo-fe mor- 
tos , e feridos poferam a derradeira efperança na ligeirice 
de feus pees , e aíTy os foram levando caminho do cannaveal , 
onde morrerão trinta Mouros , e foram féis prezos : e o Con- 
de conhecendo jáa alguma coufa de fuás maneiras , e como 
eram homens , que muito fabiam de cilladas , a qual coufa 
naó era nova antr'elles ; porque Anibal , que foi no tempo 
dos Gentios , e que foi natural daquella terra , as uzou 
muito em feus dias ; e per ventura que dalli ficou o cníino , 
aos que depois vieraõ , temeo-fe de lhe terem alguma em tal 
lugar, que lhe fofle perigofa ; fez enttõ recolher fua gente, 
c tornou-fe pêra a Cidade , onde foram recebidos em procif- 
faõ per toda-las peíToas Religiofas , que alli eftavaõ ; caa 
quanto as coufas entaô eram mais temerofas , tanto a devaçaò 
era maior, do que depois muito afroxou ; em tanto que fe 
lhes alguns trabalhos ao diante vieram foi pelo efquecimento , 
que teverom do Senhor : e como os Mouros eram defarmados , 
foube depois o Conde , que forom muitos, feridos , dos quaes 

ai- 



do Conde D. Pedroí ié<f 

alguns dclles morrerão; e foube mais do grande prazer 3 que 
ouvcram , quando os o Conde leixou ; caa fegundo o ponto 
cm que jaa andavaò , todos cuidavaò perecer: fe nefta peleja 
era Aabu , ou naó , os nolTos naõ o íbuberaó , antes lhes foi 
dito , que era hido em fua terra por coufas , que lhe cum- 
priam pêra fua eíbada naquella Frontaria, onde entendia man- 
ter alTccego. 

CAPITULO XIX. 

Como Aabu véo fobre a Cidade j e da aliada , que lan^ 
çou ; e como Martim Gomes foi morto. 

NOm pôs aquelle Mouro grande tardança em fua torna- 
da , e logo como chegou de fua terra naó quiz dar 
grande aflecego aos feus , ante fe foi logo fobre a Cidade, 
e com aquelles de cavailo , que ante trouxera pareceo fobre 
a carreira , que ora chamam dos Namorados , pela guifa que 
ante fizera , leixando huma cillada bem fornida de gente trás 
hum cabeço, que fe agora chama das Paredes Ruivas , com 
entençaõ de levar os Chriftaos contra lá ; o qual nora parecia 
grave d'acabar, fegundo elle via, que fe elles trigavaõ avir 
fora dos muros. E como Aabu pareceo , logo os noíTos fe 
trigarom a fahir fem licença , nem refguardo , porque fe acer- 
tara entaó de as portas ferem abertas : e como chegarão aas 
Atalaias os Mouros , enganofamente fe fizerom temerofos por 
acabarem o que tinham começado , hindo-fe alTy retraende 
por ver fe podiaó levar os contrairos , onde eítava a fim do 
feu dezejo ; e tanto que fe forom affy hindo , até que foraó 
fobre a ponte , onde os Mouros volverom como gente oufada 
por caufa da melhoria , que fentiam na cillada , que tinham 
acerca ; e em efto chegou Álvaro Mendes de Beja , e Ruy 
Mendes feu filho , os quaes fe poferaõ fobre hum cabeço, 
a que agora chamam o Outeiro de Martim Gomes ; e com 

aquel- 



-2.66 *° ChRONICA 

aquelles que primeiro fahirao andavam a cavallo Luiz Vaz- 
ques da Cunha , e Pêro Gonçalves com outros ata féis , ou 
fete ; e por feu bom esforço fe naõ fez tanto danno , como 
o prefente negocio requeria ; caa fahirom da cillada os Mou- 
ros , que fe nella cfconderaõ , onde os noíTos eram taó juntos 
com ella , que cafy parecia , que eram todos de huma com- 
panha \ cuja fahida era açaz temerofa pêra quem bem efguar- 
daíTe fua grande multidão ; a qual os noíTos nom podendo 
fofrer , penfáraó de fe acolher aaquelle Outeiro, que jaa dil- 
femos ; e conhecendo Aabu , que os noíTos eram poftos em 
temor , começou de caudalar os feus muy vivamente amoef- 
tando-os , que feriíTem os imigos com a maior força , que po- 
deíTem ; Agora , dezia elle , per fuás Arábicas palavras , esfor- 
çai Senhores , e Amigos j caa tempo he jaa de tomardes vingan- 
ça dejles àefereúdos. E em efta volta matárom Martim Gomes , 
e Joham Soaio , e outros dous Moços de Monte do Infante 
Dom Anrique ; e aíTy forom os noíTos com efta preíTa , até 
que cobrarão o Outeiro, onde fe defenderão muito rijamen- 
te , ainda que poucos foíTem , até que lhes começou de vir 
focorro da gente , que vinha com o Conde ; a qual os Mou- 
ros naÒ quiferom efperar , antes fe recolherão aas Quintãas , 
que tinham acerca ; as quaes eram tam cubertas d'arvoredos , 
que era muy perigofa coufa aos noíTos quererem com os con- 
trairos entrar em ellas ; porem ainda os encalçárao , e fe- 
rirão alguns, antre os quaes matarão hum Cavalleiro velho 
fenhor de muita gente, por cuja morte todo-los Mouros da 
terra d'Anjara tomáraõ grande doo ; e principalmente hum 
feu filho , o qual fe logo foi pêra o Alcaide de Alcácer , e 
tornou com certos Almogavares que fe lançarão acerca das 
Quintãas, onde chamaõ a Boca da Afiia\ e os que fahirao 
a defcobrir a terra toparom com elles , e hy remeçáraó os 
Mouros a hum daquelles defcobridores , e feriraõ-lhe o ca- 
vallo ? de tal guifa que ficou apee acolhendo-fe a huma Quiri* 
taa , onde fe defendeo como nobre homem , até que lhe 
acorrerom da Cidade. E tornando ánoífa Iftoria morreo inda 

ai- 



do Conde D. Pedro,' 267 

alli o outro negro d'Aabu, e matdraõ o cavallo a Luiz Vaz- 
quês da Cunha, elle foi ferido pêro ligeiramente; e mata- 
rão huma egoa a Johane Annes Rapofo ; e afly outro c; vai- 
lo a hum Eícudeiro, que fe chamava Joham Barrozo : e por 
aqui fez fim a peleja daquelle dia. Por certo bem mofírou 
aquelle Mouro mancebo a grande força do amor , que ha 
entre o Padre , e o filho ; caa quanto nélle foi , nunca ceifou 
de trabalhar por vingar a morte daquelle , que o gerou, 
requerendo feus amigos , que tom arfem parte daquelle feri' 
timento ajudando-o aaquella vingança ; em pêro todo o feu 
trabalho teve pouca força ; caa o mais que pôde fazer foi 
ajuntamento de Almogavares , com os quais fe lançou huma 
noite em hum lugar , que fe chama o Porto-Franco , e á ma- 
drugada topáraó com outros Almogavares de Cepta , onde 
pelejarão açaz ; e foi alli morto hum Bifcaynho , que fora 
achado no Caftello , quando primeiramente a Cidade foi en- 
trada; e os Chriftaos nom lentindo fua avantagem, efpedi- 
rarri-fe dos Mouros o melhor que poderom ; e o mancebo 
Mouro tomou a cabeça daquelle Chriítaó , e levando-a a feus 
parentes fe moftrava fatisfeito da primeira perda. 

CAPITULO XX. 

Como vêo outra vez Aabu , e como Almançor feu fo~ 

brinho foi morto. 

NOm efteve Aabu em repoufo muitos dias depois da- 
quelle primeiro aquecimento ; e des y fua gente , que 
ficara dalli muy orgulhofa, requeriaó rijamente, que tornaíTe 
a tentar os Chriftaos pêra ver fe os podia acolher em tal 
maneira , que ouveíTem delles aquella vingança , que defeja- 
vaõ : Que mais nomfeja, deziam elles, fe nom gafta-los ajfy 
poucos e poucos , aproveitaremos muito em nojfo defejo ; caa nom 
podem Jer , que tantos fejam , que fe cada dia nelles 1 matar- 
mos % 



2Ó8 CftRÕNICA 

mos ., que nom minguem de fita primeira força ; caa efles , que 
aqui ficar om nom fom fenao gentes julgadas pêra dejierro , e 
morte cruel , os quaes aventuram ajjy fuás vidas de ligeiro j 
entendendo , que fe morrerem , que acabam fua derradeira pena 
nefle Mundo ^ e que fe viverem , que o f eu Rey lhes averá mer~ 
ce , e os tirará, de trabalho , em que pêra fempre fao julgados, 
E com eftas razões , e outras femelhantes alvoroçavaõ muito 
o coração daquelle Marim, que aviam por feu Capitão, e 
fobre todo lhes dava oulio o bom aquecimento , que cuve- 
ram , onde matárom a Martim Gomes , e os outros três , que 
com el.le morrerão. E porem tornarão outra vez a lançar fuás 
cilladas , a faber, huma na Boca d\Afna , e outra dentro em 
Aijazira ; as quaes foram fentidas pelas Efcuitas , e aíTy o 
diíTerom logo ao Conde pêra avifar a Cidade como cum- 
pria; e aíTy foraõ logo avifados os que tinhaó cavallos , e 
como foi manhãa fahiraó fora da Cidade , e aíTy aquelles 
bons Efcudeiros de pee , e Beíteiros , e outra gente miúda, 
com os quaes o Conde Jogo mandou defcobrir a Aijazira " y 
mas os Mouros nom quiferom fahir , nem o Conde nom quiz 
que os nofíbs folTem mais longe por fegurar os noflbs de 
perigo : mas os Mouros depois que viram , que naò qucriaõ 
hir defcobrir a cillada das Quintaas, onde Aabu jazia com a 
principal foma de fua gente, fahiraó d'AIjazira, e quiferom 
dar de rebato fobre a Porta de Álvaro Mendes , e o Conde , 
que fe lançara em- cillada acerca da Cidade , onde inda ja- 
zia encoberto nas Carcovas , que fao no caminho do lio- 
mal, fahio a elles em tal guifa , que quando fe os Mouros 
quiferom acolher caminho da outra cillada , tolheraõ-lhc o 
caminho, que levavam, e foi-lhes forçado paliarem pela pon- 
te , que efiá cerca do Outeiro , em que matáraõ a Martim 
Gomes, onde fe os Chriftaos envolveram com elles per tal 
força , que derribarão hum fobrinho daquelle Aabu , homem 
grande , e de apoíta eftatura ; o qual logo alli foi morto , 
de cuja queda naceo debate antre Pêro Vazques Pinto , e 
Rodrigo Affonfo Girão t qual delles o derrubara : e tamanho 

foi 



bo Conde D. Pedro. i£pf 

foi o trabalho , que huns , e outros teveraó , que nom ouve 
hy, quem por iílo bem efguardaíTe; e eíte Mouro, que dif- 
femos avia nome Almançor , fobre cuja queda os Mouros £-• 
zeraò huma grande volta ; mas Pêro Gonçalves como muy 
ardido , e valente Fidalgo , que era a defpeito de tanta mul- 
tidão de Mouros que alli era , eftremou hum daquelles no- 
bres Marís, que era Alcaide cT Alcácer , ao qual deu huma 
muy grande lançada , e huma ferida no roíto , querendo-o 
derribar á fegunda vez com a lança , e em eífca volta aperta- 
rão os Mouros hum Pedr'Aífbnfo criado d'ElRey , o qual fe 
defendia o melhor que podia, em pêro jaa fracamente pelo 
grande trabalho, que jaa levara; e quiz a fua boa ventura, 
que o virom Joham Pereira , e Luiz Vazques da Cunha, é 
forom a elie, e o tiráraó per força de fuás lanças, onde ca- 
hirom mortos quatro Mouros de cavallo ; e certamente , que 
nom fora o danno dos contrários tam pequeno , fe Aabu nom 
fora avifado de trazer a gente da outra cillada, por dar fo- 
corro aaquella , fazendo moftrança de peleja; mas comovio^ 
que os noíTos lhe tinham o roftro , reteve fua gente : o Con- 
de da outra parte , temendo , que no Romal ouvefíe outra 
algúa cillada , porque lhe os Efcuitas tinham dito , que 
fentiraò em aquella noite muita gente de pee , e de ca- 
vallo em aquella parte , como de feito era ; caa certamente 
fe o Conde afly nom recolhera fua gente, que alli pereceram 
todos , fegundo a grande multidão , que a Atalaya da Por- 
ta de Féz vio fobre o Romal , os quaes eftavam alli com 
entençaõ de fe lançar de falto dentro na Cidade : em pêro 
o Conde fe recolheo, nom como homem temerofo , mas co- 
mo quem acaba fua vitoria , e traz fua gente acaudalada , com 
aquelle refguardo, que compre a todo bom Duque, e prin- 
cipal Capitaót 



Tom. 11. U ÇA< 



<%jÒ Chronica 

CAPITULO. XXL 

Do Conjelbo , que os Mouros ouveram pêra fe af afiar 

da Cidade. 

AIndaque antre toda-las Nações ája gentes de toda ma- 
neira , a faber, huns fracos, outros ardidos, e aíTy 
nos entendimentos em todo-los lugares fe acha menos , e 
mais , e muito mais ; em pêro os Mouros naturalmente faô en* 
tendidos , nom porque Deos partiíTe o entendimento mais 
com elles , que com os outros homens , foomente porque faó 
gentes de pouca vianda , e que os mais delles naõ uzaõ vi- 
nho, trazem os entendimentos mais puros, e mais difpoftos, 
que os outros , que fe regem pelo contrairo , e por ello ham 
razão de melhor conhecer as coufas , do que fariam fe dou- 
tra guifa uzalTem. E porem antre aquelles , que viviam na- 
quella efperança de tornar a cobrar a Cidade , fe ajuntarão 
alguns , e falláraó antre fy fobre aquella demanda , que 
queriam tomar pêra fe confelharem do que fobr^ello deviam 
de fazer; e pêra efte confelho huns chamarão a outros, de 
guifa que foraô muitos naquelle ajuntamento , antre os quaes 
era hum Mouro antigo , que cafy fempre tevera Officio na 
Cidade de governar, e reger a Reepublica : Nó s , diíTe el- 
le , fomos em tempo , que nom foomente nos pertence confelho 
como dos males poffamos paffar aos bees , ante nos convém con-' 
felharnos , per que maneira poderemos efcufar , que nom receba- 
mos mais ãannos dos que temos recebidos : Nós , diíTe elle , fe 
aqui eflamos por cobrar a Cidade , que per nojfa def aventura 
perdemos , be coufa contrairá a todo natural juizo , porque o 
Rey , que a tomou be Rey CbriflaÕ , e poderofo , e aparentado 
com outros muitos Príncipes da Chriflandade ; e como natural- 
mente os nobres , quanto mais Chriftãos , fobre toda-las coufas 
dejla vida defejam honra , pela qual nom foomente as fazendas , 

mas 



do Conde D. Pedro. 271 

mas as vidas tnuy ligeiramente of recém ; pois que penfais de hum 
Rey fobre Jemelbante titulo , fenao difpender toda fua fazenda y 
e então morrer fe comprir : Ora acrecentai jobr^ejlo afaude das 
almas , que elles entendem , que ganham fobre ejta emprefa , e 
des y y que todo-los outros Chriflaos quererão parte daquefta 
gloria : nós nao tevemos força ? nem faber pêra nos defender 
dentro daquelles muros , e telloemos agora pêra empecer a ncf 
fos contrários em humas fracas cazas antre huns poucos $ ar- 
voredos y onde nos virdo huma noite queimar como coelhos em 
ejtebal ; e -pêra verdes o que digo , vede como nos vem afafkan- 
do pouco , e pinico da cerca da Cidade , e tomando tamanho ou- 
fw como vedes , que dez , ou doze delles correm apôs cento de 
nós outros ; por ijlo me parece , que he bem ? que ajamos o con- 
felho , que ouuerao os Mouros de Toledo , quando a ouve ElRey 
Dom Affbnfo , filho do grande Rey Dom Fernando , o qual ouve 
a Cidade por tal preitefia , que nom tivejfe em ella fenao Al-* 
caide , e Alçada , mas que os Mouros vivejfem em toda fua an- 
tiga liberd,ade , como vivem em poder do mais franco Rey ? que 
teverom ) e como quer que fe todos contentajfem de tal preite* 
(la , ouve hy hum Mouro d* antiga idade y . que conheceo melhor 
a fim a que aquelle feito avia $ acudir 5 que aquelles > que á 
julgavao ; e fem declarar fua vontade a nenhum , pouco a pou- 
co foi tirando da caza o que tinha , até que lhe nao ficou fenao 
huma pobre cama , em que jazia , e huma noite , fem algum 
dello faber parte , fe foi pêra o Regno de Murcia , que inda 
então era de Mouros : e penfando os vizinhos ? que elle feria ne- 
gociando em outra coufa , nom entenderão em fua partida ; e 
depois que virom pajfar três , ou quatro dias , porque as mais 
das fechaduras dos Mouros d 9 EJpanha fe fecham ajfy de dentro , 
como de fora ; Nao pode fer , differom os vizinhos , que fe fe 
ejie homem alguma parte fora alongado dejia Cidade , que a 
algum de nós outros o nao differa : e des y com iflo chegdrom 
feus parentes ? e differao : Por certo como efte homem era de 
grande ilade morreo alguma noite, e jaz ajfy morto fem nojfa 
fabedoria, E então tentarom a porta 7 e ouverao maneira como 

LI ii foi 



iyi Chronica 

foi aberta , e des y entrarom pela caza muito maravilhados y 
porque nella nao virão coufa algúa ; caa fomente acharão hum a 
pouca de palha , e hum alquicê velho em que fe emburilhara 
algumas noites antes que partijfe ; e abrindo huma Jane lia fa- 
hio huma pomba voando com toda Jua penna , e elles em olhando 
virão Jahir outra , que nao levava Jenao as penna s d' "azas , e 
do cabo , em eflo virom debater outra , que andava pela caza 
depennada de todo , no que todos conhecerão , que aquelle Mou- 
ro era de todo partido , e que leixára ajfy aquellas pombas por 
algum fegredo efcondido a elles : e fallando-fe muito na Cidade 
fobre aquillo , véo outro Mouro daquelle Regno de Murcia , e 
contou como o vira naquetla terra como homem , que alli tinha 
jaa de todo feu ajfecego ; e como a natureza httmana defeja fa- 
her , çfcrepverao-lhe alguns daquelle s feus parentes, e amigos, 
que lhe rogavam antre as outras coufas , que lhe efcrepviam , 
que lhes enviajfe dizer a fim de Jua partida , e o que finifi- 
cavao aquellas pombas , que ajfy ficarão : "Eu me parti dejfa 
Cidade ? refpondeo elje , e deixei ejfas pombas , como dizeis 5 a 
faber , huma toda coberta de penna per daar a entender , que 
quem fe agora logo quizejje partir , que poderia trazer toda 
fua fazenda , e quem mais tardajfe algum tempo y que fe par- 
tiria , mas nom fem perda da maior parte do que tevejfe , o que 
moftrei pela pomba fegunda ; a terceira , que ficou de todo de^ 
pennada , mofira , que quem de todo hy retardar , que perderá ten 
do o feu , e emfim nunca fe poderá partir. Agora amigos , dif- 
fe elle , nós ja nafi podemos fazer a comparação da primeira 
pomba , que nos vamos com todo o nojfo , pois além da perda 
da nojfa Cidade , perdemos toda nefja fazenda : nom avemos 
aqui pêra que eftar perdendo mais tempo y onde cada dia vemos 
morrer mortes nojfes parentes , e amigos \ e per ventura , que 
fegundo as coufas eftao r verão outros as nojfas ; caa jogos 
fao em que fefemelh antes coufas acontecem', eu diria , ! que nós 
tomajfemos confelho de viver , que cada hum bufcajfe fua vida , 
onde melhor entendejfe ; e que ao depois o nojfo Rey , e os ou- 
tras grandes Senhores podem aqui vir com feu grande poderio , 



do Conde D. Pedro. 275 

e tomarem tomar a Cidade ; taa d 9 outra guifa nunca fera to- 
mada fegttndo vemos o grande atrevimento dejies homens com 
que nos cada dia mais afaftao de fy. Os outros todos que al- 
]i eítavaò começarão de razoar fobre aquello, cada hum fe- 
gundo lhe parecia : Hu quereis , deziam elles , que nós va- 
mos , onde acharemos jaa femelh ante Cidade , quando faremos 
jaa outras femelhantes cazas , e ortas , tarde feria jaa de co- 
meçar havermos alojamento novo , e nos reformarmos em outra 
vida ; certamente vergonha , e âoefio feriamos entre toda-las gen- 
tes de nojfa Nação. Porem o que devemos de fazer , diíTe hum 
daquelles , ajfy he ajfentarmo-nos em aqueftas Alàêas , e dif- 
pendermos nojfos dias aqui ; caa ejles danados nao ham de ou- 
far de fe vir meter antre nós fe os nom formos cometer , por-» 
que recearão o que he de temer ; e iflo he , que nós podemos 
ter antre ejles arvoredos gentes com que lhes podemos empecer , 
e certo he que fua principal tençom nom he outra , fe nom guar- 
darem aquella Cidade ; e por tanto nao fe oufao d 9 af afiar lon- 
ge dos muros delia , e porém nós aqui podemos repairar nojfa 
vida , até que nos Deos leve de fie Mundo , o que quanto mais 
cedo for , tanto fera mais nojfa prol , fe a nojja Cidade nom ou*' 
vermos de cobrar , nojfos filhos , e filhas c azaremos d? aqui fora , 
por começarem fuás vidas alem da Serra \ porque fe por ven- 
tura nós aqui fallecermos , que elles tenhaÕ jaa onde vivam. 
Pois fe ajfy he , difíe aquelle Mouro antigo , eu me quero hir 
pêra Alcaçar Ceguer , que he terra de meus Avós , ca de mim 
pouco fervi ço podees aver ; pêro tanto vos digo , que ponhais Jo- 
bre vós bom avifamento ; caa eu vejo , que efle Capitão , que 
ElRey de Portugal aqui leixou com efia gente , que comfigo tem , 
nom ham de eflar trás os muros , como vós dizeis , antes fey 
bem , que ham de provar vojfas forças ; caa fe elles cuveffem 
et eflar trás os muros da Cidade , como vós dizeis , nom aviam 
porque ter cavallos , os quaes cada dia crecem , no que pare- 
ce , que quem os manda nao difpende o dinheiro de balde. Entaó 
ordenarão todos antre fy , que fe ajuntaíTem nas principaes 
Aldeãs, onde tevelTem fuás guardas de noite, e de dia, co- 
mo 



274 Chronica 

mo naó podeíTem fer enganados dos imigos , e des y , que 
fe taipaíTem muy bem , e fe cercalTem de vallos , onde com- 
priíTe ; porque os achaíTem fempre percebidos , quando quer 
que os quifelTem cometter , e que Aabu teveíTe carrego de 
fazer fua guerra , na qual podeíle levar todos os que cum- 
priíTem , alem daquelles , que jaa tinha ordenados pera o 
fervir naquelle auto, e que cada dia viriam de toda-las par- 
tes, e que os Lavradores , e Officiaes , que fizeíTem feus 
feitos pera proveito comum; e alTy acabárom por entom fua 
determinação. 

CAPITULO XXII. 

Como o Conde mandou as Zavras a Cojla de Mouros , 
e os Almogavares por terra ; e o que fezerom. 

MUitas coufas deixamos de efcrepver em efta Iftoria, 
que fe paíTárom antre os Chriftãos , e os Mouros em 
quanto viverão acerca da Cidade , ainda que o tempo naò 
foíTe muito, porque cada dia pelejavam, e faziam luas ef- 
x:aramuças , nas quaes fe faziam açaz boas coufas , de que 
outros Iftoriadores fe poderão aproveitar pera fornimento de 
feus Livros , que nom teverem tantas coufas notáveis pera 
efcrepver. E porem aveis de faber , que depois deite ajun- 
tamento, que os Mouros alTy teverom , como jaa temos con- 
tado , fe recolherão naquelles mais principaes lugares , em 
que fentiraõ, que fe melhor podiam alojar , onde ordena- 
rão fuás cavas , e taipas , vallos , e paredes , com quaefquer 
outras maneiras de çarraduras , que podiam achar peia fua 
fegurança. Mas o nobre Conde Dom Pedro nom tinha voiv 
tade de os leixar naquelle aífecego , que elles per fuás or- 
denanças penfavam de aver ; e tanto que elle fentio , que 
fe alTy partiam , no proítimeiro de Novembro daquella Era , 
em que a Cidade foi tomada y mandou chamar hum feu Ef- 

cu- 



do Conde D. Pedro. 27c 

cudeiro , que chamavaó Affonfo Bugalho , e o Almocadem, 
çom os quaes mandou cincocnta homens de pee : Amigcs , 
diíTe elle, porque fam certo , que cada dia vem ás Ortas , que 
eflam no Cannaveal hum , e dous de cavallo com outra muita 
gente de pee , p:r verem fe acharão em algum de nós tanto de- 
favifamento , que alguns corrao pêra alli , vós vos hy lançar 
de noite Job a Cabeça- Ruiva , que eflá em cima do valle , e pon- 
de vojfa Atalaya em humas montas , que ejlam logo em cima ; 
e por coufa nom vos akalees , até que os nao vejais paffar con- 
tra a ribeira , pêra os que efleverem nas Zavras , e no már , 
€i que eu mando , que ponham a gente fora , fe aproveitarem 
de lies como fentir em , que melhor poderem, Affonfo Bugalho com 
os outros , que o aviam de feguir tomarom tento em fazer , 
o que lhes o Conde mandara , o qual como foi manhãa fez 
armar duas Zavras, nas quaes fez meter peça de Béíteiros, 
€ mandou-lhes , que como chegaíTem alli , que poíto que os 
Mouros eftiveffem na praya, que fezeíTem todavia fembrante 
de fahir pêra os avivar mais , porque quando os outros , que 
jaziam com Affonfo Bugalho os viffem andar nefte cuidado , 
que entonce fahiffem a elles , e que os do már diffo mefmo 
foffem avifados , que faltaffem em terra , quando quer que 
viffem os da companha do Almocadem envoltos com os Mou- 
ros , e que affy os feririam d'ambalas partes , e que fe per 
algum cazo outros mais Mouros recreceffem , que elle lhes 
acorreria : avifando-os , que fe tal coufa fobrevieffe , que to- 
maffem o caminho da ribeira , porque pêra alli lhes enten- 
dia enviar o acorro , que per aquella parte eftava mais fegu- 
ro. E tanto que as Zavras achegarom junto com o lugar, 
onde os outros jaziam, alguns daquelles Almogavares com 
maior arguiho do que naquelle cazo compria , levantaraó-fe 
primeiro do tempo , que lhes fpra mandado , meterom-fe 
com os contrários , prendendo hum logo dos que vinham 
diante , e matarão outro , e outro ferirom de três lançadas 
muy grandes , de que a pouco tempo fez fua fim ; e hum 
de cavallo andou embeleçado antre os de pee , e bem pov 

dé- 



íj6 Chuonica 

dera fêr em aquelle dia prêfo , fe lhe quiféram ferir o ca- 
valio; mas penfarom , que o poderiam av"er vivo , vendo a 
mingoa dos cavallos , que na Cidade avia : peroo a fim ven- 
do como fe começava de fahir lhe dérom duas lançadas no 
cavalio , pêro fahio-fe todavia , e acaudcllou os outros 3 até 
que os fez acolher a cima da Cabeça Ruiva , que eítá contra. 
o Caftello , e os noíTos fe tornarom contra a Cidade , onde 
acharão Álvaro Mendes , e feu filho , e Lopo Vazques de 
-Caftel-b ranço com todo-los outros Fidalgos , e nobre gente , 
que na Cidade eítava : e em efte dia matou hum Efcudeiro 
do Infante Dom Anrique , que fe chamava Álvaro Guifado 
o primeiro porco montez , que morreo em aquella Terra , 
depois que foi defta vez em poder de Chriítãos , o qual fe 
levantou em aquelle valle , onde os de cavalio eftavaõ ; e 
fegundo aquelle Conde depois foube , aquelle Mouro de 
cavalio , que antre os noíTos fora embeleçado , era aquelle 
grande Mouro d'Aabu , que entaô era Juiz anrVelles, o me- 
lhor homem, que entaõ avia em toda aquella Comarca , a 
qual tinha bem dous mil Gomeires , a faber , Mouros natu- 
i-aes daquella Serra de Gomeira , que lhe preitavao , e obe- 
deciaô em todo o que elle mandava ; e como o cavalio , 
que aquelle Marim trazia era efpecial , fegundo requeria fua 
peíToa y os noíTos refguardarom de o nom ferir , penfando 
que o poderiaó aver , e por ello efeapou Aabu naquelle dia , 
que foi grande perda ; caa elles nom fouberom , que perdiam 
tamanha perda em Mouro de tanta rendição , como aquelle 
era , caa aquelle tempo bem poderá dar por fy vinte mil do- 
bras, de que os noíTos ficárom muito magoados y porque naò 
fouberomj quem aquelle Mouro era. 



CA- 



do Conde D. Pedro. ijj 

CAPITULO XXIII. 

Como forao ao Vai de Laranjo ; e do roubo , que 

trouverao. 

O Cuidado do Conde naó era outro fenaÓ afaftar os 
Mouros quanto podeíTe da cerca da Cidade , e guer- 
realos por tal guifa , que deixaíTem fua vizinhança : e porém 
mandou fuás efcuitas , que ioíTem ver hum lugar, que cha- 
mavaõ Vai de Laranjo , e que efguardaíTem bem a gente 
que era , e quanta de peleja \ os quaes comprindo o que lhes 
foi mandado, efguardáraõ bem aquelle lugar, no qual nom 
acháraõ mais , que vinte Mouros , que foíTem pêra tomar ar- 
mas, fobre os quaes o Conde ordenou de enviar; mas ante 
teve confelho como faria , porque eram hy algumas peíToas , 
fem cujo acordo a elle nom pareceo , que devia fazer fe- 
melhante coufa ; ca poífco que aquelles foílem tam poucos , 
eram porém d'arredor outros muitos , que alli podiam acu- 
dir ; porque o feito feria muito maior , de que o elles pe- 
lo prefente podiam penfar: Vós diíTe elle, Senhores , e Ami- 
gos fabees bem como aqui ficámos , e a fim. pêra que , ao que 
nos devemos de efguardar , e principalmente ás nojfas honras , 
a que nós fomos mais teúàos , e obrigados , que a outra coufa : 
bem Jê , que ElRey nojfo Senhor nos leixou aqui pêra lhe guar- 
darmos ejla Cidade , mas eu crêo , que fe nós além dello mais 
fizermos , tanto fera mais jeu ferviço , e honra fua , e nojfa : 
a tenção de fies Mouros , fegundo me parece ^ e fegundo me ain- 
da certificou efle Mouro , que aqui tenho , que outro dia foi to- 
tna o per AJfonfj Bugalho meu Efe u de ir o , e pelo Almocadem , 
Toe viverem per eflas Aldêas tanto tempo , até que ElRey de Féz 
venha fobre efla Cidade; caa fua pre função he , que ainda ham 
de tornar a ter pojfe de fuás cazas , como ante tinhao , e fe 
el/es ajfy aqui eflevejfem nós receberíamos ditas } ou três per- 
Tom. II. Mm das 



%*J% C H R Ó N I C A 

das muy grandes : huma , que nós nao poderíamos nunca eflar 
fem repiques de pouca fuftancia ; caa como três , ou quatro pa- 
recejfem em hum daquelles outeiros logo nojfa gente toda era 
alvoroçada ; e per ventura , que tantas vezes fahiriamos , que 
alguma vez nos nao poderíamos também guardar , que nos nao 
acolhejjem em alguma tal , onde nos perdejfemos todos : a outra , 
que vindo aqui outras gentes de fora achariam em ejles manti- 
mentos y e esforço , que feria azo de eflar mais tempo , e nos 
darem mais trabalho ; ca certo he , que nom achando elles aqui 
ejles outros , e a terra fendo defpovorada , que nom podiam tra- 
zer per ejla ferra fenao pouca coufa , e com que eftevejfem pou- 
co tempo : a outra , que fè ejles aqui vivejfem , nós nunca aqui 
poderíamos crear cabra , nem porco , nem outra animalia de 
que ds vezes pojfamos aver algum repairo , efpecialmente cabras , 
que nos aqui fao mais necejfarias pêra os doentes aver em man- 
timento dos cabritos , e os sãos algum leite \ ca nao podemos 
fempre ter carne , nem as outras coufas em abaflança , e quan- 
do tcvermos do leite , e dos ovos hiremos paffanào nejfa vida 
com mais pouca pena : ajfy que per ejlas razoes he minha en- 
tençom afaflar daqui ejles infiéis ; e por vos mais ainda decla- 
rar vos' digo , que de todo jam dijpofto de os lançar além da- 
quella ferra. O' nobre Cavalleiro , diz o Autor , e animo 
de muy grande varão ; por certo bem digno deve fer o feu 
nome de tal encarrego, ao qual nao abaftava querer-fe de- 
fender dos inimigos, fendo em mêo de fua terra, mas ain- 
da ofende-los defterrando-os per fua força fem algum temor, 
nem efpanto de força , nem poder , que teveíTem : per cer- 
to nom poderá Vallerio achar em fua Suprema algum outro , 
que na virtude de fortaleza , nem magnanimidade a efte pof- 
fa fazer excellencia : Ora diíTe o Conde , Amigos , e Senho- 
res , eu ey ja boa enformaçao da vida defles Mouros , e da ten- 
pm , que tem , como jaa dijfe , efoube como no Vai de Lar an- 
jo fam até vinte Mouros de peleja , e tenho tençam mandar 
fobre elles : e porque minha vontade fie , nom foomente vos tèr 
aqui como defev fores defla Cidade , mas como particip adores de 






to- 



D O Co N D E D. P E D fc O. 27a 

todos meus confelhos , caa pois aveis de fer companheiros nos pe- 
rigos j ajfy he razão , que fejais participadores nos confelhos ; 
quanto mais , que aqui nao eftd nenhum tal, que nom feja muy 
dino , nom foomente pêra confelhar a mini , mas a EIRey nojfo 
Senhor , ou a outro qualquer Príncipe de Jua vallia : ora ve- 
de , que gente mandarei lá , fe muita , fe pouca , ou fe de noi- 
te , ou de dia. Hum Fidalgo avia antre aquelles , que avia 
mais antiga idade , que todo-los outros , que alli eram , a 
<jue chamavaó Gonçalo Nunes Barreto , que ao diante foi 
hum dos Confelheiros d'ElRey , o qual ficara alli por Ca- 
pitão das gentes do Infante Dom Pedro , como jaa tendes 
ouvido y e por certo que elle era bem dino de fer chama- 
do , pêra qualquer grande confelho ; caa era homem de gran- 
de íizo , e de grande esforço : Senhor , diíTe Gonçalo Nu- 
nes , nom devereis fazer conta de numero de gente , que ha nos 
lugares , mas da que fe em breve pode ajuntar ; caa certo he , 
que effès vinte y que ajfy hi ejlao , que nom ejlariam fenao te- 
'vejfem as cofias quentes ; caa fahem , que pelo brado , que hum 
der , todo-los outros fe ham d } ajuntar : e porem compre , que 
'vos avifeis quando taes coufas ouverdes de fazer , que feja com 
tal ref guardo , que fe outros recrecerem , que nom foomente fe 
lhes pojfam os noffos defender , mas ainda empecer : porem meu 
€onfelho he , que onde elles fao vinte , quo vós envieis cento y 
e que vao de noite , e que fejao homens ? que faibam fazer tal 
feito com toda boa temperança , caa poderá fer , que fe forem 
taes , que vejam á primeira face a coufa ligeira y que fe que- 
rerão atrever em ella , e nom fe guardarão do que fe lhes po- 
de feguir. Todo-los outros Fidalgos acordarão no que Gon- 
çalo Nunes dilTera, e determinarão, que todavia foíTe pof- 
to em obra : Nós diíTeraõ elles , nom avemos , que dizer fen ao 
fazer per obra todo o que a ferviço d? EIRey nojfo Senhor com- 
prir , e a nojfas honras pertencer y e muito nos praz de nos p^r 
vos vir tal avifamento , vós ordenai o que per bem teverdes ; 
€aa nao ha aqui tal y que nom ofereça de boamente a vida por 
fua honra , e ferviço do Senhor. E aííy fe efpediraõ todos del- 

Mm ii lej 



q,2o ■ChronicX 

lc ; e diz aqui aquelle Commendador , que efcrepveo efta 
Iftoria , que o Conde fez aqui eíta ceremonia , como quer 
que o feito nom eíperaíTe que foíTe grande fe outros Mou- 
ros da terra nom aeudiffem , porque era a primeira vez, 
que queria mandar gentes fora da Cidade , porque os que 
ante mandara eraõ foomente Almogavares 5 e efta avia de fer 
gente mais nobre. E porem tanto que fe os Fidalgos delle 
partirão , mandou avifar aaquelles , que aviam de hir na- 
quelle feito , aos quaes deu avifamento , que foífem muy 
encubertamente pelo Valle de S. Gees , dizendo-lhes toda 
a maneira , que lhe prazia , que naqnelle feito tevelTem ; 
cujas palavras nom forom em vaõ nas orelhas daquelles ; caa 
todo avifamento , que lhes fora dado guardarão como com- 
pria , de guifa que ante manhaa forom dar fobre as cazas 
começando de bradar huns aos outros por moftrarem , que 
era muitos mais , do que fe com verdade podiaô achar : pe- 
roo os Mouros nom eram em aquella parte defavifados , mas 
como coufa efperada tinham fuás maneiras , de guifa que 
nom dormiaõ fenom com refguardo ; e aíTy forom muito aíl- 
nha percebidos, e preftes de peleja, nom penfando que os 
imigos tantos eram ; peroo depois que foram antre os nof- 
fos , e conhecendo que eram muitos mais que elles , per- 
derão efperança de fe poder defender, e começarão de fu- 
gir ? onde alguns delles forom chegados aa morte , e ou- 
tros aa prizaõ ; e porque era noite , e lugar cercado de ar- 
voredos nom ouverom azo de os todos matar , nem pren- 
der : peroo eHes poucos , que efcapáraô começarão de apel- 
lidar a terra , de guifa que em muy breve foraó alli mui- 
tos ajuntados , mas os ChriMos , dês que roubarão quanto 
avia no Lugar , começárom de fe recolher pela parte da ri- 
beira : e em efto eram jaa os Mouros tantos com elles , que 
lhes davaô açaz que fazer. A alva comeqava jaa de rom- 
per , e os noflbs virom , que os Mouros recreciam , e que 
lhe nom cumpria íahir-fe delles como gente temerofa ; caa 
fentiam ? que oa contrários cobravaó grandes corações con- 
tra 



do Conde D. Pedro. 281 

tra elles , porque os viam tam poucos a refpeitò de fua gran- 
de multidão ; ordenárom porem , que os Beefteiros , em que 
eítava a fua principal defeza , que em huns tirando , os ou- 
tros começaíTem d'armar, e affy os traziam afaftados de íy ; 
caa d'outra guifa foram perdidos. O Conde d'outra parte 
tendo cuidado delles , como foi manhãa ouvio fuás Mif- 
fas , e cavalgou , e fazendo foar íuas trombetas fahio pelas 
portas da Cidade: Hi, diíTe elle contra Gil Lourenço d'El- 
vas , e chamai quatro de c avalio , e Jegui com elles peh Por- 
to da Madeira fazendo muito por chegar aaquelles , e dês y 
vinde^os ajfy retendo , ataque eu vaa pella parte da Serra , e 
verei fe poderemos em ave/ar ejles infiéis. Mas por certo , fe- 
gundo as coufas jaa eítavao, nom compria , que aquellefo- 
corro mais tardara ; caa jaa quando Gil Lourenço chegou 
aalem do Porto da Madeira, jaa hum daquelles , que trazia 
a cavalgada, vinha a muy grande preíTa recontar ao Conde 
fua fadiga , o qual vinha todo cheio de fangue : Es tu, dif- 
fe Gil Lourenço , da companha, que foi ao Vai de Laran- 
ja ? Sy fom , diíTe elle , e fe lhe algum bem avees de fazer 
nao tendes , que tardar , caa elles fao além da Torre Verme- 
lha , e tem alli o porto aos Mouros , os quaes fe pajfaffem Je- 
ria necejfario , que os nojfos perecejfem todos ; caa fao tantos , 
que ha cincoenta pêra hum , e por ijfo vou ajfi trigo fo chamar 
o Conde , que lhes acorra. Vai tu , diíTe Gil Lourenço , e cu- 
ra de tua chaga , que eu terei dijfo cuidado. Mandando logo 
hum daquelles de cavallo tornaíle a grande preíTa dizer ao 
donde a neceílidade em que os outros eítavao , avifando que 
tomaíTe a Serra ; caa os Mouros eftavaõ fobre o porto muy- 
acerca de desbaratar os Chriftâos, e que elle com aquelles 
três, que lhe ficavaõ hiria por focorrer entre tanto aaquel- 
les , a que tam neceíTario era , por lhes daar alguma efpe- 
rança : e como quer que o Conde fe trigaíTe açaz; jaa po- 
rem nom achou os Mouros ; caa como elles viraô Gil Lou- 
renço entenderão, que aquelle nom podia vir fem outra mui. 
ta companhia j e porem defemparáraó o porto, e fe recolhei. 

rom 



282 ' Chronica 

rom o mais que poderão pêra Bulhões , de guifa que vindo 
o Conde pela ferra de Sam Gées , vio eftar os Mouros fo- 
bre huma pena ; alli fez elie endereçar aquella Cavalgada , 
que os outros traziam , na qual achou cincoenta vacas , e 
bois, e trinta almas, e foram mortos na peleja outo Mou- 
ros, e dos Chriítãos foraõ feridos cinco de feridas ligeiras, 
de que a poucos dias guarecêraò , e foube depois o Conde 
o grande danno , que os Beefteiros fezeram naquelles in- 
fiéis ; caa de leve fe fazia tiro com emprego. E aíTy fe tor- 
nou o Conde com fua gente pêra a Cidade , hindo logo to- 
dos juntamente dar graças a Deos , fazendo repartir fua ca- 
valgada , a faber , duas partes pêra os que a tomáraõ , e 
huma pêra os outros, que lhes derom foccorro ; porque no 
esforço daqueftes lhes derom os Mouros lugar : e acabo da 
hi a poucos dias mandou o Conde a alguns de cavallo a ata- 
lhar a terra pêra andar o gado feguro ; e íahirom os Mou- 
ros de trás do Outeiro de Martim Gomes , e ferirão hum 
Efcudeiro , a que chamavaó Gomes Martins , e também elle 
com o feu cavallo efcapáraõ das feridas , como quer que 
muitas folTem. 

CAPITULO XXIV. 

Como foram a Bulhões , e das coufas , que fezerom. 

ANtre os lugares , que os Mouros tinham acerca da 
Cidade de Cepta afTy eram dous Valles , a faber , hum 
que fe chamava o Valle de Bulhões , e outro o Valle de 
Barheche , os quaes fe departem com húa faldra daquella 
Serra da Ximeira , a que ora chamam a Serra de Sam Gées ; 
e porque o Valle de Bulhões he mais nobre , que o outro 
allojarom-fe alli muitos Mouros, e cada dia os Fidalgos da 
Cidade fallavam antre fy , como feria nobre cavalgada po- 
dendo lá hir de falto dando fobr'elles com defapercebimen- 

to; 



do Conde D. Pedro. 283 

to ; Álvaro Mendes pedia mil homens , e Joham Pereira feis- 
centos ; porque eit.es dous eram os que fe a eito mais mo- 
viam ; e eram entom na Cidade alguns homens mancebos , 
que íe trabalhavam de andar de noite em eícuita dos Mou- 
jos , leixando a AíFonfo Munhoz , que era Almocadem , o 
qual Officio ha lugar nas guerras depois doAdail, antre os 
quaes era aquelle Efcudeiro , que jaa diíTemos , que matara 
o porco montez , a que chamavaó Álvaro Guifado homem 
efperto , e dezejador d'onra , cujo oííicio era mais por fe- 
guir fua vontade , que por lhe fer dado encarrego de andar de 
noite com os Almogavares ; porque era coufa em que lhe 
nom fallecia continuamente contenda com os imigos , e fe 
ajuntou hum dia aaquelle Almocadem, e Gomes Fernandes, 
e Lourenço Camalho , e hum Joham Fernandes , porque to- 
dos eram de huma Companhia , e diffe-lhes : Eu nom fei fe 
•vòs outros efguarâais em hum erro , que nós levamos com eftes 
Fidalgos. Que gendo he , perguntarão os outros. Eu volo direi , 
dilTe elle , como elles querem fazer alguma coufa de fua hon- 
ra , logo nos mandão e/piar os lugares , e nós trabalhamos em 
ello como vedes , e tornamos com elles , e fofremos aquelle mef- 
mo trabalho , medo , e perigo tanto , e mais quelles , e emfim 
nunca dizem , que fe as coufas acabao , fenao por elles , e de 
nós outros nunca fe falia ? fenao muito menos , do que nojfo gran- 
de merecimento requere : e porem confirei fe vos bem parecer , 
que façamos huma coufa , que fe comece , e acabe por nós mef 
mos , per que nojfo grande trabalho dja razão de fer conhecido ; 
ca d? outra guifa fempre eftes Senhores quererão comer o rabão 
com os nojfos dentes. Vejamos , diíTeraò os outros , o que nijfo 
fazees ; caa certo he , que fe tal coufa for , que nos virá mui- 
to bem , fe hi nom metermos outra miflura. Vós outros , dilTe 
Álvaro Guifado , já f abeis que lugar hé Bulhões , e a gente , 
que nelle mora , vejamos fe o podemos huma noite barretar , de 
guifa que façamos nelles huma muy boa falfa ; caa o podemos 
mui bem fazer , tomando gente razoada , e tanta com que pof- 
famos fahir a falvo , do que começarmos : e porque melhor fa- 
ça- 



284 Chronica 

cantos noffb feito vamos primeiro contra lá alguma noite , e fen- 
tiremos o percebimento da gente , que tanto he , e em qne pon- 
to , e quantos JaÕ. Todo-los outros diíTerom , que Álvaro Gui- 
íado dezia muito bem ; e des y avifarom-fe , que o fegredo 
nom foíTe menos guardado dos amigos , que dos imigos , 
e em breve ouverom noticia do que dezejavam ; caa elles 
cada noite andavaõ por aquelles Valles , e o lugar nao he 
mais, que duas legoas da Cidade. Ora , diíTeraò elles antre 
{y , nós nom avemos porque tardar mais , naquefle feito , no 
lugar nom feráo mais de cento , até cento e cincoenta Mouros 
' âe peleja , nós vamos duzentos , que pêra tal feito , e de noite 
valleremos por trezentos : o feito nao fera âefcuberto a todos , 
fenao Jobre o lugar , e levemos tal gente , que nos tire de ver- 
gonha. Alli fe tomárom feus juramentos, aíTy acerca da fiel- 
dade do fegredo , como de fe ajudarem huns aos outros com 
toda lealdade ; e des y fallaraõ com os Moços de Monte d'- 
ElRey , e dos Infantes , que hy eram , porque uzavaõ muitas 
vezes com elles; ealTy ajuntarão duzentos com outros, que 
também pêra ifto convidarão , nao lhes dizendo nada , foomen- 
te , que queriam hir ver cada hum daquelles Valles , fe eram 
pêra tirar delles cavalgada : e fobre todo fallaraõ ao Conde 
aquillo mefmo , que aos outros diíferom , o qual lhes outor- 
gou de boamente a licença, porque naõ era aaquelles coufa 
mova hirem aíTy de noite fora , foomente quanto avia de fer 
fempre com fabedoria do Conde ; caa d'outra guifa nom 
lhes aviaó de abrir as portas : a noite vinda aaquellas ho- 
ras , que antre fy tinham determinadas , fahirom fora , e 
cjuando fe contarão nao fe acharão mais , que cento e nove 
homens ; porque os outros parece , que ou fe arrependerão , 
ou teveraõ outra neceflidade , pela qual coufa duvidarão de 
fua viagem. Pêra que he mais , difle Álvaro Guifado , ttósjd 
aqui fomos , tornando atrds feria noffd grande vergonha , tome- 
mos per parceiros San? lago , e Sam Jorge , e figamos nojfa 
caminho ; caa o Senhor Deos nos ajudara com a pua virtude» 
Seguirom entgg avante 3 e chegando á Serra de Sam Gecs, 

que 



b o CondeD; P e b R O. 2§^ 

que fera huma legoa do lugar , leixárom alli nove homens 
em três lugares afaftados huns dos outros ? e alli declararão 
o feito a todos: Vós ficai aqui, diíTeram os principais , e ten- 
de avif amento > que quando nos virdes vir , que ef guardeis fe 
vem com nofco tantos Mouros , com que nós nom ajamos razaÕ 
de poder ; t logo hum dos primeiros vaa aos fegundos ? e ajfy 
entro dos fegundos aos terceiros 5 que enviem dUantre fy hum ^ 
que o vaa jazer faber ao Conde , que nos acorra , e os outros 
todos fe vao a nós com contenenças fe goras , porque os Mt.uros 
entendao ? que he começo de focorro , o que nos vem. E aíTy fo- 
ram feu caminho até que chegarão fobre o lugar ; e porque 
era ainda muito de noite fobreefte verão aíTy hum pedaço 4 
porque fe temerom , que na volta nom fe conheceíTem huns 
com os outros ; e tanto que começou de aparecer íinal de luz 
forom daar no Lugar com o maior arruido , que podiam , e 
como quer que eftavaó as ruas taipadas , em breve ouveraó 
lugar pêra entrar 5 e os Mouros ouvindo aquelle tam grande 
arruido começarão de fahir; e como quer que em numero fo- 
brepujaíTem os noíTos , tam grande foi feu defacordo , que 
nom teveraõ o fentido em ai ^ fenaó em fugir > e foraó alli 
mortos trinta e fete Mouros , e cativaram cinco , e trouve- 
rom pêra a Cidade vinte e huma cabeças de gado grande y 
e quarenta e duas cabras > e dous a frios : e foi bem, por* 
que os nove , que ficarom departidòs pela ferra ouvirão o 
arruido , que os Chriftãos , e os Mouros faziam na volta y 
e penfáraõ , que era com dapno de feus companheiros , e 
meterão huma muy grande prelfa , que foíTe por focorro a 
Cidade , dizendo como lhes era muito mifter ; e tamanha foi 
fua preíTa por levar trigofamente aquelle recado j que chegou 
aíTy afrontado , que por muy grande efpaço , nom pôde fal- 
Jar : porem aíTy diíTe , mal como pôde , o trabalho em que lhe 
parecera , que os Chriftãos ficavaó , e nom era fem razaó de 
.0 elle , e os outros , que eftavaô na Serra aíTy cuidarem ; caa 
o Valle he profundo , e cuberto d'arvoredos , e em tal ora , 
que ainda toda-las coufas tinham repoufo : os Mouros , que 
Tom* IL Nn áal- 



a86 CtíRONICA 

dalli efcapáraõ, , começarão logo a apellidar a terra por tal 
guifa, que logo Aabu foi fobre a Serra com trezentos Mou- 
ros de pee , e cinco de cavallo ; e os noíTos em partindo 
com fua cavalgada tomáraõ o caminho do maar , porque era 
mais feguro. Os Mouros hiam efcaramuçando com elles , 
nom tanto por lhes empecer , como porque os foffem deten- 
do em tal guifa , que lhe podeíTem os outros atalhar diante ; 
e affy andáraô huma gram peça. O Conde d'outra parte co- 
meçava de fahir com fuás gentes : e em cito a Atalaya vio 
como Aabu mandava decer algumas de fuás gentes a fundo , 
pêra darem mais torva aos Chnítãos , e porem começou de 
repicar: nom eram os que traziam a cavalgada cm conheci- 
mento , que lhes o focorro pudeífe vir , porque nom fabiam 
ainda ? que o outro feu companheiro era na Cidade , ante 
aviam cuidado de fe remediar contra a grande multidão dos 
Mouros j que viam na Serra 5 alem daquelles com que de 
prefente pelejavaò; e por certo , que elles paflarom aquelle 
caminho com grande trabalho. O Conde mandara Gonçalo 
Nunes Barreto , que fahiíTe pela porta de Féz ? e que levaf* 
fe o caminho da ribeira ^ de guifa que quando os Mouros de- 
cefiem da Serra , fobre o AlmoCadem e feus companheiros 5 
que em breve podeíTem receber eftorvo : e mandou outro fy 
Pêro Gonçalves caminho do Porto da Madeira , e des y á Ser- 
ra de Sain Gees , e o Conde aballou mais paífo , levando po- 
rem Pêro Gonçalves ao olho. Gonçalo Nunes andou aíTy tri- 
golb, que chegou á vifta dos que traziam a cavalgada ; os 
quaes com aquella chegada foraÓ em muito moor trabalho , 
que da primeira , porque a manhãa parecera hum pouco tor- 
vada , e o Sol nom fahia inda longe do bafo da terra ; de 
guifa que per vifta nom podiam conhecer longe de fy. Efte 
he o nojfo derradeiro dia , diílerom elles ; caa ante que na Ci- 
dade jpojfam Jaber nqffb trabalho , antes nós feremos todos mor* 
tos, de tantas partes fomos cercados. Porem, diíleraô alguns, 
pois nos a efto metemos , monramos como home* es , de guifa que 
o nojfo exemplo feja tejtemunha da nojfa virtude , e per nenhu- 
ma 



do Gonde D. Pedro. 287 

ma pui/â nom mojiremos contenmça de temor aos imigos. E eí- 
les aíTy todos com efte propoíito , tomarão dous delles húa 
lança , c fezerom paíTar per de fob ella todo-los outros pêra 
Yerem fe mingôava algum , do conto daquelles cento , que fo- 
raõ no roubo da Aldeã : e em eito chegárom os outros oito , 
que ficarão na Serra , e contarão como enviárom á Cidade a 
pedir focorro pelo arruido , que ouvirão ao entrar do lugar : 
o dia era jaa claro , e os Mouros viraó como elles eram tan- 
tos , que bem fe podiam aproveitar dos imigos , fem muito 
efpargimento de feu fangue ; e porem foraó rijamente ferir 
em elles ; mas os noíTos tinhaõ fuás beeftas aparelhadas , de 
guifa que do primeiro tiro ferirom delles muitos ; e quando 
os Mouros viraó tal recebimento , afaftaraó-fe afora ; e em 
quanto elles começarão de atar feus feridos , os nonos derad 
fahida por diante , fazendo andar fua cavalgada : e em eito 
chegou Johane Annes Rapozo , porque aquella duvida , que 
aquelles tinham , elTa tinham os outros , que vinham da Ci- 
dade , cuidando huns , que os outros eram Mouros : e quan- 
do Johane Annes chegou , que fe conhecerão , ouve d'am- 
balas partes muy grande prazer : o Conde d'outra parte che- 
gou ao encontro dos Mouros, e acertaraô-fe em hum arrife 
de pedras muy afpero : e Pêro Gonçalves chegou d'outra 
parte, e alli fe começou a peleja muy grande, efôra aquel- 
le dia de muy grande mortindade nos infiéis , fe o lugar nom 
fora tam afpero , e montanhofo , em que fe ligeiramente po- 
derom acolher ; em pêro morrerão nove , e foram outros mui- 
tos feridos , alguns de feridas mortaes ; e dos noíTos alguns 
hy ouve feridos , pêro todos guarecêraô ; e o Conde recolheo 
fua gente , e tornou-fe pêra a Cidade dando louvores a Deos 7 
que lhe taes começos moftrava pêra feus feitos. 



Nn ii CA- 



288 C H R O N I C A 

CAPITULO XXV. 

Como os Mouros forom fobre a Cidade ^ e como foroM 

corridos-, e como depois os Chrijl aos for ao fobre 

os que moravam no RomaL 

POr quanto nas coufas palTadas os Chriítãos foraó tra~; 
balhados , aíTy os Almogavares , como os Fidalgos , com 
toda a outra gente miúda , mandou o Conde , que repou- 
faíTem aíTy per huns dias , e que nom tomalTem outro traba- 
lho , fenaó guardar fua Cidade ; e bem quifera o Conde , 
que elles eíteveram alTy hum mez ao menos ; mas como fe 
diz , que o uzo faz natureza , e desy as boas vontades , que 
nelles avia, fezeos tirar daquelle propoíito , efpecialmente 
os Almogavares , que mais continuadamente andavam fora ; 
<e forom- fe ao Conde , que todavia lhes deíTe lugar , que uzaf* 
lem de feu Orneio : Como querees , diffe elle , que vos dê tal 
licença eflanda cfta gente tam trabalhada , como eftá \ caa cer- 
to hé , que como vós fordes fora , que logo avees agachar com 
que vos alvoroceis ; e quem fe poderá então defender de feus re- 
querimentos y efpecialmente dos de cavallo , que tem fuás bef- 
tas magras , e trabalhadas ^ e em taes lugares nom deve homem 
dar lugar a quanto a vontade quizer m 7 caa nom fabemos , o que 
nos pôde acontecer com efes infiéis , e fe per ventura virão hum 
dia de fupito dar nefta Cidade , onde a homem cumprirá ter fuás 
bejlas em boa força pêra lhes fazer aquelle danno , que á hott- 
ra de noffo Senhor , e nojfa convier. Elles refponderaÓ: » Que 
y> o feu OíEcio era aquelle , que elle bem fabia ; e que aíTy 
» em elle , como em toda-las outras coufas a mingoa de uzo 
» trazia dapno á perfeiçom da obra. » E com eftas razoes , 
e outras muitas , que lhe diíTeraó , ouveraó d'aver licença 
pêra hirem hum daquelles dias fora : porem diíTe o Conde , 
que efteveflem aíTy, até o outro dia, que queria cuidar on- 
de 



do Conde D. Pedro. 280 

de os mandaria. E parece que os Mouros naquelles dias paf- 
fados requererão aaquelle Aabu > que era feu Capitão , que 
foíTe lanhar huma cillada acerca da Cidade , como de feito 
fez ; ca fe foi lançar ao Canaveal com vinte de cavai lo , e 
fetecentos de pee , com entençom de filhar os defcubrido- 
res ; e feguio-fe , que o Conde mandou outro dia defcubrir $ 
como tinha de coftume ; e o defcubridor foy defcubrir o Por- 
to dos Aliamos , e as Quintaas ; e porque os Mouros virom , 
que era foo , naõ quizeraõ contender pêra elle ; nem elle 
parece , que nom efcubrio como devia ; pois dos Mouros nom 
ouve fentimento. O Conde vendo , que a terra era defcu- 
bcrta , mandou lançar feu gado fora pêra pafcer, tendo que 
tinha fegurança , pelo que lhe o Efcudeiro dilfera , o qual 
andou afly até horas de meio dia , em que os Mouros fen- 
tiraõ , que os Chriftãos eftariam comendo j onde fahiraó da 
cillada , e correrão até á cerca da Villa , mas a Atalaya co- 
meçou de repicar, o que os Mouros recearão, e nom oufá- 
xom chegar á Cidade , como traziam dezejo , efpecialmente* 
pêra tomar o gado : o Conde ouvindo o repique muy em bre- 
ve foi prcftes , e aíTy todo-los de cavallo , e de pee que na 
Cidade eram , e forom aíTy todos juntamente até o Chaõ da 
Figueira , e dalli mandou a três daquelles a que pareceo , que 
traziam melhores cavallos , que foíTem defcubrir a cillada do 
Cannaveal : e bem he verdade , que o Conde foi alli reque- 
rido de muitos Fidalgos, que os leixalTe lá hir, o que lhes 
foi negado , por naó quebrar a ordenança ; mas quando os 
defcubridores foraõ fobre a cillada do Canaveal , jaa os 
Mouros pareciam fobre o Porto do Lião da outra parte , que 
fe hiam caminho do Cafíellejo , cujo recado ávido pelo Con- 
de fez recolher fua gente pêra a Cidade , onde cada hum 
fallava no que lhe parecia daquella vinda ; mas o Conde hia 
penfando , per que maneira lhes faria perder aquella oufadia ; 
e logo naquella noite o Conde mandou chamar Martim de 
Çamora , e Lourenço Carvalho , e Álvaro Guifado , e Af- 
fonfo Marques com todo-los outros , e diíTe-lhes : Pareceme y 

que 



lyo Chronica' 

que Deos quer , que o voffo bom dezejo aja lugar de fe com- 
prir com mais vojfa honra , do que vós dezejais : jaa rifles e fi- 
tes Mouros como nos oje vierom bufcar com moor atrevimento , 
do que efles outros dias teverao ; ora fe lhes logo homem nom 
tnoflra ? o que fente com boa vingança , nefles repiques nos tra- 
zer do cada dia ; porem vós , diíTe elle , hy efla noite contra 
o Caflello y e fenti com femença , que lugar he ? e a gente , que 
fe hy aloja , e como eftá percebida , e affy me trazei o recado. 
Os Almogavares como andavaó defeioíbs de fua prêa, com. 
boa vontade aceptáraó o cuidado , e forom logo no começo 
da noite fobre aquelle lugar , e nom íentirom coufa daquel- 
lo , que o Conde queria ; e tornando fobre o Romal fenti- 
rao , que averia hy huns quinze Mouros , que alli moravaõ 
em húas poucas de cafas ? que hy entam avia , e por fua 
maior fegurança , forom-fe muy junto com a Povoraçaõ , e 
na6 fentiraõ outra coufa , que os na filhada daquelles podef- 
fe eftorvar, e pouco mais de meia noite tornarão ao Conde 
com efte recado ; o qual fez logo aparelhar aaquelles mef- 
mos ? de guifa que ante manhaa forom acerca das cafas , c 
fem nenhum perigo , nem trabalho forom dar fobre elles ; 
mas ora foíTe per fentimento y que os Mouros ouverom dos 
primeiros , ou fegundos , jaa os contrários eram fora de fuás 
moradas , de guifa que nom tomarão fenaõ três Mouros pe- 
quenos , e quatro Mouras , e dez vacas , e algumas cabras , 
com o qual roubo fe começarão a recolher o mais , que po- 
derão : começarão os Mouros porem de os feguir, nom que 
fe muito chegaífem a elles. O Conde como foi manhaa fez 
fahir muita gente , e foi os receber ao caminho temendo , 
que per ventura fe juntariaõ outros Mouros , e lhes poderiaô) 
fazer algum empecimento ; e tanto que chegarão a Cidade 
com fua pequena prêfa , o Conde fez apartar huma das Mou-: 
ras , pêra faber per ella fe avia hy outra Povoraçaõ , em 
que alguns Mouros ouvelTe : Eu , diíTe ella , fõ pofia fob teu. 
Senhorio , e nom me convém de te mentir , onde tu tam em bre~ 
ye podias faber o contrario 3 porem fabe certo y que em efla ter» 

ra. 



uo Conde D. Pedro. i^r 

ra onde nos morávamos , nom ha jaa outra Povoraçaõ , fenao 
ò Qajlellejo ) e efto fei eu por alguns parentes de meti mari- 
do , que alli moram , acharás hy , dilTe ella , até cento e qua- 
renta homens de peleja com alguns vepnhos tfalguas Aldeãs \ 
que alli J ao acerca. O Conde por fe certificar melhor, apar- 
tou cada húa per íy i e cafy todas concertarão em huma ra- 
zão ; e com efte avifamento fe leixou eftar quatro, ou cinco 
dias pêra fentir alguma coufa dos Mouros , porque cuidava , 
o que em taes lugares j e tempos he pêra confirar ; mas nom 
tardou muito quando lhe chegarão novas como os Mouros 
do Vai de Barbeche deixarão a terra , e fe foraõ morar alem 
da Serra , porque bem fentiraô , que pouco podiam alli vi- 
ver fem morte , ou cativeiro. 

CAPITULO XXVI. 

Como o Conde foi fobre as Âldeas do Valle do Cajlelle- 
jo ; e da prefa , que trouve. 

A Vendo o Conde certa enformaçaõ em como os Mou- 
ros de Barbeche fe paíTarom aalem da Serra , diíTe aos 
Almogavares : Amigos , jaa me parece , que os noffos imigos 
vao tomando temor , pois nos lèixaS a terra , e Je vao alongan- 
do de nós ; porem eu fom muito certo , que o Valle do Caftelle* 
jo efld povorado de quatro , ou cinco Aldeãs acompanhadas de 
muito gado , Jem tanta , nem tal gente , que ante nós fe pojfa 
defender ; porem hy vós laa efla noite com entençao de me mui- 
to bem faberdes todo , e me tomardes cvm o recado , pêra aver 
confelho fobre a maneira , que nello devo ter ; e ante retardai 
mais algum tempo , que vos virdes fem certa fabedoria. Os Al- 
mogavares tomáraó fuás talleigas pêra andarem laa, quanto 
bem podefíem , ata virem com certa determinação ; e Ioga 
á primeira noite efpiáraõ bem o lugar repartindo-fe por ef- 
fas Aldeãs > e fobre a manhãa tomáraõ fua Atalaya fobre hurri 

ca- 



âpa Ckronica 

cabeço, de que bem podiam ver a gente , que fahia do lu- 
gar , e aíTy das outras Aldeãs ; e porque penfáraó , que os 
Mouros nó feriam alli todos , e des y por verem melhor to- 
da-las coufas , leixáraò-fe alli eftar três dias , tendo tençom 
de ver a gente , e o gado como fahia fora a bufcar feu paf- 
to , e como fe agafalhava fobre a noite ; e com efto tornarão 
ao Conde afirmando-fe muy bem em todo aquello , que lhe 
deziam : Ora , diíTe elle , amigos , aqui nom compre mais tar- 
dança , vós vos tomai logo , ajfy como viefles , foomente que me 
fique hum de vós pêra hir comigo , 'e me guiar ? e vós outros 
efiai fobre aquellas Aldeãs , com todo bom avifamento. O que 
jelles com grande diligencia fezeraõ , porque aíTy como lhes 
o Conde fabia bem galardoar fer ferviço, aíTy lhe dava caf- 
tigo fobre as coufas , que faziam erradas. O Conde fez logo 
chamar a Álvaro Nunes Cerveira, e a Gonçalo Nunes Bar- 
reto , porque eram os mais anciãos , que alli eftavaõ , nem 
que mais fabiam do feito da guerra , e difTe-lhes : Porque ef- 
tes Mouros recebam de nós aquella vingança , que os imigos 
foem receber de feus contr atros , quero que faibais como he mi~ 
nha vontade , que vamos ao Caflellejo , porque fao certo pelas 
efpias y que laa mandei , que moram hy peça de Mouros ? e que 
trazem galo em boa cantidade : ora vós me dizei como vos pa- 
rece j que hiremos melhor , porque as Efcuitas fao jaa laa ef- 
perando per nojfa hida. O que a nós parece , Senhor , dilTeraò 
jelles , he que vós fallees com efles Fidalgos dizendo-lhes vojfa 
tenção '; caa pois ham de fer percebidos , melhor ojerao per ef- 
ta guifa y que per outra , e des y que leveis todo-los de cavai- 
lo j que pêra taes lugares compre muito os cavallos pêra acau- 
dallarem os de pee 7 quaes he bem que leveis até [eifcentos com 
es Beefleiros • e ajfy poderees feguir vojfa viagem. Bem me praz 
de vcjfo confelho y diíTe o Conde , foomente que me parece , 
que fera bem , que a gente de peè vaa dar nas cazas , levando 
comfigo dous bons Capitães ardidos , e bem encavalgados , que 
&jam conhecimento dos feitos da guerra , pêra trazerem a gen- 
te em boa ordenança) e eu ficarei corn os de c avalio em tal lu« 



do Conde Dí Pedro. 293 

■gar , que fe os Mouros quizerem empachar a cavalgada > qiie 
ihe pojfa dar focorro. E fobre efta Capitania da gente de pee 
fallaremos hum pouco duvidoíò y porque achamos fobre ella 
defvairadas opiniões ; porque huns diflerom , que hum daquef* 
tes fora Ruy Gomes da Silva -, e Joham Pereira , outros dif < 
ferom , que fora Lopo Vafques de Portocarreiro , e o outro 
Pêro Vafques Pinto: porem fejam quaes quizerem , abalta 
que foram dous bôos homens ; porque pêra tal feito a outros 
nom compria. A eftes fallou o Conde a maneira, que tevef- 
fem com aquella gente de pee j e principalmente lhes enco- 
mendou , que os trouxeíTem fempre fob tal ordenança , que 
os Mouros nom ouveffem razão de damnarem a algum delles. 
Os Almogavares partirão a noite do Domingo , e o Conde 
partio á Quarta feira feguinte , que eram oito dias do mez de 
Fevereiro , e andáraõ afly palio e palio , por nom averem razaô 
de ferem fentidos , e chegaram ao Caftello duas horas ante ma- 
nhãa ; e porque ainda era cedo pêra começar femelhante fei- 
to , porque lhes compriam taes horas , em que fe podelTe ef- 
tremar o amigo do contrairo , mandoia o Conde , que efte- 
veíTem alTy quedos , e que os de cavallo deíTem entanto ce- 
vada , e que os de pee repoufaíTem , e que penfaflem desy^ 
porque ao depois por ventura nom averiam tal vagar; e ja- 
zendo jaa d'alTecego fe levantou tal rumor antr'elles , per 
que fe ouvera de perder todo o trabalho daquella noite; caa 
fe levantou huma cobra grande em meio da gente , péla qual 
fe levantárom per tal guifa , que o Conde terrieo muito de 
ferem ouvidos , efpecialmente porque era muito acerca das 
Aldêas. As efcuitas vierom logo ao Conde a darlhe novas 
do affecego, que os Mouros tinham , com que elie muito 
folgou i pela fofpeita , que lhe o rumor d'antes fezera ; c 
fendo jaa acerca da manhaa o Conde chamou aaquelles dous 
Capitães , e mandou-lhes , que fe apartaffem em duas par- 
tes ,, e que a húa folie a húa Aldeã , que efiava da maó di- 
reita ; e a outra folTe a Aldêa , que eftava dentro no Valle 2 
E avifai~vos , dilTe elle ? que nom perdoeis a grande y nem à 
Tom. lí t Oo pe- 



294 Chronica 

pequeno ; tanto quefe queiram poer em alguma femelhança de de- 
fenfaS '■> e os que entrarem a roubar as cazas ajam em Jy todo 
bom reguardo , e affy como forem roubando 7 affy vao tirando 
o roubo pêra fora , e tanto que todo for tirado , leixai a béf- 
teria de trás y e vós vinde-vos recolhendo vojfo pajfo e pajjo , a 
melhor , que poderdes , e eu com eftes de cavallo jazeremos n& 
aliada. Se Mouros vierem trás vós , fazei muito por os tirar- 
des o ptais longe , que poderdes ; de guifa que pajfem a cilla- 
da pêra nos ajudarmos delles com nojfa melhoria : e fe per ven- 
tura forem tantos , que vós bem nom pojfais , eu vos J ocorrerei 
a tempo , que vos tire de trabalho. E porque no cabo daquel- 
lc Valle eram algumas cazas, mandou laaoConde , Martim 
de Çamora , e Álvaro Guiíado com alguma gente de lua 
companhia. A manhãa começava jaa d' aparecer , quando o 
Conde acabou de dar feus avifamentos , e os Capitães fe re- 
partirão fegundo tinham ordenado , e derom de fupito fobre 
as cazas ; e os Mouros quando fentirom o arruido , conhece* 
ràõ logo o trabalho , que tinham , e aquellcs que fe fentiam 
difpoftos pêra defenfom, tomavam fuás armas , e faltavam 
per telhados , e per portas traveíTas. As mulheres , e moços 
pequenos bufeavam maneira pêra fe efeonder ; mas todo lhes 
preftava pouco : ally fe poderiam ouvir dorofos gritos , e 
gemidos mortaes , cada hú fegundo a parte da paixão , que 
fentiâ. E qual podia fer o coração , que nom ouveíTe pia- 
dâde daquellas creaturas , em quanto lhe lembraffe , que eram 
racionaes! Maldito feja o pecado de Caym , que primeira- 
mente gerou imizade antre os homens , que tal difeordia pôz 
antre as creaturas humanaes ; e desy , a maldita feita do abo- 
minável Mafamede , que tantas almas apartou da noíTa San- 
ta Ley ; caa melhor fora ? que as almas daquellcs viram os 
ctemaes prazeres , e os corpos inda que trabalhados foíTem 7 
ora em guerras , como faó muitos Cforiftaos huns com os ou- 
tros , ora por outros muitos padecimentos , que a infertili- 
dade da natureza trás , ao menos naó fora tanto. AíTy tra- 
fcalhirao aqueljas gentes no roubo daquelles lugares , ena 

mor- 



do Conde D. Pedro." 29^ 

morte de feus imigos , que jaa era a mor parte do dia pafc 
fado , quando de todo déraó fim ao feu primeiro cuidado ; 
porque hum daquelles Capitães , ouve empacho em fua che- 
gada ? porque achou hum grande Valle , ante que chegafle 
aas cazas , o qual parece , que os Mouros fezerom per fua 
defenfaó , em cuja paflagem foi algum pedaço d'empacho. 
Ora tendo jaa os Chriftáos feu roubo apanhado, Aabu acu- 
dio alli com peça de Mouros , e como forte , e ardido Ca- 
valleiro trabalhava por empachar feus imigos , em tanto que 
foi neceífario a Lopo Vazques mandar recado ao Conde , que 
lhe acorreíTe , o qual lhe refpondeo , que arrancaíTe a caval- 
gada d'antre as efpeíTuras das arvores , e dos lugares frago- 
fos, porque os de cavallo nom lhe poderiam alli fazer tam 
grande ajuda , que maior empecimento naó ouveíTem : e 
porem apartou elle cincoenta Beeíteiros , e os pôs de trás 
•com os roftos pêra os imigos , e des y a melhor gente lei- 
xou acerca delles , e a outra mandou , que feguilTe com a 
cavalgada : e alTy fe forom fahindo pouco , e pouco , fazen- 
do elle alli fuás voltas fobr'elle , aíTy como bom, e esforça- 
do Capitão ; porem porque o Conde fentio , que elle nom 
poderia também fahir , pelo recrecimento dos Mouros , che- 
gou elle alli , per tal guifa que nunca os contrários ouveraá 
delle fentido , fenaò quando o viram coníigo , onde da pri- 
meira chegada derribaram fete : o lugar todavia era frago- 
lo , porque he nas abas da ferra , onde morrerom três ca- 
vallos ; e vendo o Conde, que quanto mais alli efteveíTem, 
tanto feu perigo feria maior, fez aballar rijamente os de ca- 
vallo pêra fora , mas tanto que forom todos poftos no chão 
os Mouros naó quiferom mais feguir , e o Conde meteo a 
cavalgada toda diante , e a gente de pee em meio , e elle 
com os de cavallo detrás , hindo dando graças a Deos de 
fua boa vitoria ; e alTy forom logo a Santa Máfia d' Africa 
a ofrecer parte daquellas coufas , que traziam , e des y a 
Sam Tiago ; e foi. achado , que matarão aquelle dia cento e 
yinte Mouros , e cativárom oitenta antre machos , e fêmeas / 

Oo ii eran- 



ày6 Chronica 

grandes , e pequenos , e trouveraõ muitos bois , e vacas , e 
cabras , e afnos , e roupas , e outras coufas taes , como vos 
a razão ditará , que fe achariam em taes lugares, onde fe to- 
mavam tam fem piadade dos contrários. 

CAPITULO. XXVII. 

Como os Mouros vierom fobre Cepta ; e como o Conde 
foi primeiro avifado ; e como mandou lã Ruy Gomes , 
Pêro Gonçalves , e outros ', e como fe Luiz Vaz de- 
cêo do cavallo. 

OS Mouros daquella parte d' Africa , que viílnham com 
a Cidade de Cepta , tem em coftume chamar aos feus 
Caudeis , Velhos , e áquelles que fam Capitães nas Comar- 
cas chamam Juizes , aos ajuntamentos , ou companhas cha- 
mam Alcabellas ; e feguio-fe , que naquelles dias fe ajunta- 
rão muitos daquelles Juizes , e vierom fobre a Cidade lan- 
çando de noite fuás cilladas , pêra ver fe podiam tomar al- 
guns dos noíTos defcubridores , ou dos que fahiam á erva ; 
os quaes foram fentidos pelas Efcuitas da Cidade , e pelos 
Àlmogavares , que andavam de fora ; e logo aíTy de noite 
como os fentiraò , vieram com recado ao Conde , dizendo , 
como fentirom grande numero de Mouros , os quaes íe lan- 
çavaó acerca da Cidade per aquellas Quintaas , e Ortas , 
onde fentiam as efpeffuras maiores. O Conde fez logo avifar 
todo-los principaes da Cidade , e como foi manhaa ouvio fua 
MiíTa , e fez fazer preftes toda a gente , que era pêra pele- 
jar, e ordenou, que Ruy Gomes da Silva fe lançalTe antre 
as Atalayas , e a Cidade em huma cillada , na qual man- 
dou , que jouvelTem duzentos homens antre Efcudeiros , e 
outra gente , e cem Beeíteiros , e mandou a Alvare Annes 
de Ccrnache , e Pêro Gonçalves , e outros , que tinhaõ ca- 
vallos , que foflem a defcobrir os Mouros , ficando o Conde 

na 



do Conde D. Pedro. 207 

na Cidade pêra ter fua gente ordenada pelos muros , e outra 
pêra dar focorro fe comprifle : e os defcobridores fezerom 
aíTy como lhes era mandado ; e tanto que parecerão á vifta 
dos Mouros , os de cavallo fe defcobrirom logo , e forom a 
elles pêra travarem efcaramuça , pêra ver fe os poderiam tra- 
zer a fobgeiçao das cilladas ; mas os nofTos, que jaa eram 
dello avifados tinham aquelia mefma tençom de trazerem os 
Mouros comíigo até paíTar a cillada , onde os Mouros jaziam ; 
mas como os Mouros fentiraó ,• que os Chriftãos nom que- 
riam decer, defcobriram-fe toda-las cilladas, em que averia 
de Mouros antre huns , e outros até vinte mil , e derom fo- 
bre os noíTos per tal força, que os fezerom arrancar donde 
eftavam ; e os Chriftãos traziaó-nos o melhor , que podiam , 
a fim de os meterem antre a cillada , e a Cidade ; mas Ruy 
Gomes da Silva , porque lhe pareceo , que nom vinham tãá 
azinha como elle quizera , penfou , que os Almogavares fo- 
rom enganados , e tirou-fe da cillada , e começou de hir contra 
os defcobridores , os quaes hiam antre os Mouros fofrendo 
muy grande trabalho , eem efto chegarom onde jaa eftava 
Ruy Gomes preftes pêra os ajudar : alli chegou Luiz Vaz- 
ques da Cunha nobre Fidalgo , que ante , e depois fez mui- 
tas , e grandes coufas por fua mao naquella Cidade , o qual 
vinha em hú nobre cavallo, que pêra tal tempo era muito 
mefter , a quem quizelTe falvar fua vida , e quando vio Ruy 
Gomes com os outros , que lhe foraó dados pêra eftar na 
cillada , diffelhes , » fe lhes prazeria de o receberem alli 
» pêra companheiro daquelle trabalho. » O' nobre Fidalgo , 
diíferom elles , o tempo nom he tal , que a vojfa ajuda feja 
pêra menos prezar ; mas trazemos determinado morrer aqui 
todos , ou fazer aqui oje huma coufa , que feja pêra fempre tef- 
temunha de noffa virtude \ vós tendes vojfo cavallo bom , e li- 
geiro , em que podeis bem falvar vojfa vida , fegui vojfa com- 
panhia , e nós ficaremos fob aquelia ventura , que Deos de nós 
quizer ordenar. Pois , diíTe Luiz Vaz quês , nem eu nom faberia 
bufe ar mais vida , onde vós outros com tal vontade requerejfeis 

a 



298 Chron icA 

a morte. E então fe deceo de feu cavallo , e ficou comos 
outros apee ; c logo acerca veio Pêro Lopes d' Azevedo , e 
vendo como fe Luiz Vazqucs decêra , e a tençam com que 
o fezera , fez per femelhante maneira , e afíy fczerom todo- 
los outros afora Gil Lourenço d'Elvas , que nunca fe quiz 
decer de feu cavallo , e os Chriftãos juntaraõ-fe todos , e 
vinham-fe recolhendo o melhor, que podiam, até que che- 
garão a humas taipas , que alli foraó poftas em outro tem- 
po , pêra fazer impedimento aos de cavallo , e alli matou 
Gil Lourenço hum Mouro com fua lança a guifa de bom , 
c ardido cavalleiro , e Affoníb Vazques Corte Real fez 
huma arremetida com os contrairos , que os fez afaftar d'an- 
te fua lança ,, como d' ante pelToa de que recebiam temor; 
em pêro a multidão grande empuxava d'ante fy a pequena \ 
e dalli enviarom recado ao Conde, que lhes deíTe focorro, 
o qual muy em breve chegou alli , e como homem , que fa- 
bia , o que os nofíbs aviaó mefter , deo-lhes quatrocentos Beeí- 
teiros, que ajuntarom com os cento , que jaa tinham, os 
quaes meterão antre fy , e os imigos , ordenando , que feús 
tiros foíTem partidos per meio , de guifa que os Mouros 
fempre teveíTem novidade em fuás chagas ; e aíTy fe forom 
eípedindo per três vezes. Porem fempre os Mouros torna* 
vaó fobr'elles , mas em fim foram mortos tantos , que ou- 
verom por feu proveito leixarem os nofíbs tornar pêra fua 
Cidade ; elles ficárom no campo apanhando os corpos fem 
almas, e penfando dos feridos, dos quaes muitos morrêrom 
per aquelles valles ; caa fegundo ao diante diíTeraó os Al- 
fa queques , que paliou o numero dos mortos de oitocentas 
almas ; e afly fe tornarão pêra fuás terras chorando feus 
amigos, e parentes. 



CA* 



b o Co hde D. Pedro. %$$ 

CAPITULO XXVIIt 

Como Vieram Mouros a Cepta ; e como o Conde jabio a 
elles j e como foi ferido. 

ANtre as efpeciaes coufas , que no Conde avia , aíTy era 
grande avífamento ; ca depois que foi naquella Cida- 
de , fempre teve maneira de faber quanto fe fazia em todas 
aquellas partes d'Africa , c efto trautava per tal maneira , 
que nunca feus imigos fe podiaó delle guardar , e fobr'eíto 
difpendia açaz de fua fazenda ; e depois que foi ao Valle 
do Gaftellejo, como jaa tendes ouvido, fobr'efteve bem hum 
mez > que naô quiz fahir fora em bufca de feus imigos , por 
quanto elle fabia certo , que elles fe ajuntavaò per fuás Al- 
deãs pêra o virem a aguardar fe alguma vez fahiíTe a fazer 
alguma cavalgada: e no mez de Abril dia de Sant^Ambro- 
zio fahiraõ vinte de cavallo da Cidade, e fahirom dar erra 
ao Cannavcal ; e andando os moços , e gente de pee a fe- 
gar , fahiraó de dentro dò Romal até quinhentos Mouros , 
cuidando que os nonos de cavallo eraó a pee ; mas os Chrif- 
taos eram jaa avifados , pelo que lhes o Conde diflera , e 
eftava6 fobre feus cavallos preftes com fúas armas , e quan- 
do alTy os Mouros derom em elles $ hom fe torvarão , ante 
efperáraõ feus imigos com roftos direitos ; cã como quer que 
tantos foíTem teverom-fe com elíes por tal , que aquelles que 
fegavao a erva ouveíTem razaó de fe fahir , como de feito fe- 
zeraó ; e durando aíTy algum efpaço os Mouros ferirom dous 
cavallos dos Chriltãos , per cuja razaÕ fe os noffos começa- 
rom de fahir , paíTando pelo Porto dos Moinhos caminho d'- 
Alagoa j com entençom de hirem retendo aos Mouros; mas 
o efpaço fora jaa tal , que os de pee ouverom razaó de che- 
gar aa Cidade , e dar aquellas novas , aos que aviam de re- 
picar, os quaes muy cm breve avifáraô' toda a Cidade 9 por 

feu 



300 C h e o n i t: a 

feu acoftutnado íinal : o Conde foi muito alinha fobre feu 
cavallo , e alguns poucos com elle , e.foube das Atalayas 
a via , que os Mouros levavam : Os nojfos de € avalio , Senhor , 
dilTeram elles, ç fiam fobre a Alagoa \ e os Mouros fegv.em 
contra o Porto do LiaÕ. Chegou o Conde onde os noíTos ef- 
tavaõ , e certificou-fe da viagem , que os Mouros levavam : 
e certo he ? que a grande ardideza lhe fez em aquelia hora 
efquecer. o bom confelho ; ca nom efguardando a peíToa , 
que era ,eo dapno que lhe podia vir fe lançou aos Mouros 
como hum pobre Efcudeiro , a que o nome daquella faça- 
nha ouveíTe de fazer poerem vallia , e tam rijo os cometeo , 
aíTy elle , como aquelles , que o feguiam , que nos primei- 
ros golpes derribaram fete ; e os Mouros vendo como os 
Chriftãos eraõ tam poucos voltárom fobr'elles , e como o 
Conde andava mais chegado a elles , derom-lhe duas aza* 
gayadas em huma perna , e matarom-lhe o cavallo , e fe naó 
fora Luiz Vazques da Cunha, e feu IrmaÕ, e Ruy Gomes 
da Silva , que fobrechegáram , e lhe acorreram como Fi- 
dalgos , em que avia muita virtude , alli foram os feus der- 
radeiros dias. O Conde ouve logo outro cavallo , e tornou 
outra vez , com aquelles Fidalgos a ferir em os Mouros , de 
guifa que em breve cahirom muitos delles ; e foi alli em pe- 
queno efpaço huma áfpera , e fera peleja com açaz danno dos 
contrários ; caa porque os noíTos viam o Conde ferido , e 
elle acêfo, faziam muito, porque elle podeífe fentir , que 
elles nom eram fem parte do dezejo daquella vingança. Os 
Mouros vendo tantas mortes de feus parceiros antre fy , vol- 
tarão fobre o Porto , de guifa que os noíTos nom podiam 
palTar alem , pelo grande perigo , que avia na eftreitura do 
lugar: o Conde fez fembrante, que mandava aos de cavai- 
lo atalhar pelo Porto de fundo acerca do maar , o que aos 
Mouros nom ficou por conhecer , e leixárom logo o Porto , 
e meterom-fe pelo monte , que era muy efpeíFo , e de gran- 
des cavas d'agua , em tal guifa , que ainda que os de cavai- 
lo quiferaõ, nom lhes poderam empecer ? fenaõ com muy to 

feu 



do Conde D. Pedro. 301 

feu dapno. O Conde fez logo recolher ÍUa gente ± e muy 
acaudelladamente fe tornou caminho da Cidade. E aqui aveis 
de faber, que Fernand* Alvares Cabral adoeeeo de peítenen- 
ça na Galee do Infante Dom Anrique , onde vinha , cujo 
Veador era j e foi pofto fora em terra , e prouve a Deos de 
]he dar faude pêra lhe fazer adiante muito ferviço; e tanta 
que Cepta foi tomada , e eile guando , fe foi aaquella Ci- 
dade , e eífceve nella por alguns annos , e efteve nos cercos 
ambos ? fempre como bom Fidalgo , e foi o primeiro , quê 
matou Mouro de c avalio em aquella Cidade , fazendo fem- 
pre coufas dinas de muita honra , e alTy acabou ao diante, 
em defendendo feu Senhor fobre o cerco de Tange re , cuja 
morte foi a elle muito honroza , por acabar em ferviço de 
Dcos , edo Senhor que o criara : e como quer que deite 
Fidalgo até ora nom fezemos mençom, dizemo-lo aqui em 
foma , por naõ ficar leu louvor , fem aquella memoria que 
deve. 

CAPITULO XXIX. 

Como Gonçalo Nunes , e Álvaro Mendes falíarbm aó 
Conde reprendendo feu ardimento. 

GRande vontade tinha Gonçalo Nunes Barreto de re- 
prender ao Conde feu Primo aqueile atrevimento , que 
tomara de feguir os Mouros 3 e nom lho quiz logo aíTy di- 
zer , uzando daquelle exemplo que fe diz , que a hum afri- 
to nom fe deve dar mais afriçaÕ ; e porem tanto que o 
Conde foi mingoando de fua primeira dor, Gonçalo Nunes 
fallou com Álvaro Mendes Cerveira , que lhe ajudaíTe a fal- 
ia r a feu Primo , e lhe rep render aquella oufadia , que to- 
mara , e determinárom de fe hir laa ambos , moftrando que 
hum , nom fabia parte do outro ; e Gonçalo Nunes foi pri- 
meiro , e des y Álvaro Mendes , e fobr/eftando primeiro hum 
Tom. IL Pp pou- 



302 C H R O N I C A > 

pouco, fallando em outras coufas, a afim fezeraó afaftar to- 
dos a fora : Senhor y diffe Gonçalo Nunes , vós nom avereis 
por mal de vos eu dizer aquelh que fentvr per vojfa honra y e 
proveito ; caa fom vojfo Primo tam chegado ao vojfo fangue 7 
como vós fabees y mais velho que vós , e homem que vos amo y 
e ejpero , q m per femelhante digais vós a mim y quando fentir* 
des , que por mim pajfa alguma coufa dina de corre gimetfto y e 
digovo~lo perante Álvaro Mendes y porque fey y que elle per fy 
vo-lo quizera dizer y e he homem que vos quer bem y e que 
vio jaa muitas coufas. Eu nao fey y Senhor y diffe Gonçalo Nu- 
nes , fe vós penfaftes bem no aquecimento de fias voffas feridas , 
e a perigo em que vos fojles meter , com o qual pendia toda 
vojfa vida , e honra y e ainda perda dejla Cidade y e de quantos 
em ella eftamos y e fe o bem penfajles achar ees y que errajles 
m«y muito y e que deveis de fer muito theúdo a Deos y de fe 
nom feguir mais do que fe feguio y e que vos deveis muito d r - 
avifar pêra o diante y caa deveis de confirar y que o carrego que 
tendes requere y que primeiro fejaes bom Capitão y e depois bom 
Cavalleiro y e que pois V9? EIRey efcoíheo pêra tal encarrego , 
avendo tantos y e tam bons no Regno y como vos bem vedes 9 e 
J [abeis y que vós deveis de trabalhar, que todos voffos feitos fe 
façam com grande ref guardo y e avif amento y ca diz Vegecio 
no Livro da Arte da Cavalhria: Qtie aos Príncipes, e Rege- 
dores da Ofte pertence mais a prudência y que a cada hum dos 
outros Cmallêkos y porquê naõ Joomente o feu exemplo y e dou- 
trina hd d? aproveitar a tode-los outros y mas ainda o feu danno 
páde empecer a muitos. E por tanto dizem laa effes Sabedores : 
Que nom devem efcolher os moços pêra guiadores dos Exércitos 
giterre adores , porque nomfabem y nem hamvifto experiências das 
coufas. E vós f Senhor y pois ejle cargo tendes y por mercê nom 
queirae-s cometter as coufas y fenao com aquelle reguardo y que 
deveis y caa fe poderia feguir y que em húa hora perderiais a 
vida y e ainda quanta honra tendes ganhada ; caa vos diriam y 
que cometiais as coufas fandiamente y e des y como vedes y que 
fe diz . aquelle s y a que a foi" tuna desfalkce y e quanto os fei*> 
-. .:. tos 



t> o Conde D» Pedro. 

tos dás pelejas fao mais duvidofos 3 tanto fe devem tratar com 
maior refguardo , e avifamento : e por ijfo dizem , que os Ro- 
manos nunca podiam fer vencidos , porque nunca por bom aque- 
cimento y nem contrario que ouvejfem , leixavam fua virtuofa 
ordenança , em tanto que hum Conful ouve hy , que matou feu 
filho , porque pajfou o mandado pelejando , como quer que vencef- 
fe ; € vês Senhor , vedes como vo-lo EIRey affl mandou. Ál- 
varo Mendes em fua parte diíTe outras muitas , e boas pa- 
lavras j que faziam a efte propofito , as quaes lhe o Conde 
muito agradeceo , dizendo a Gonçalo Nunes : Primo , bem 
vejo o zelo com que me confelhais , e agrade ço -vo-lo tanto , co- 
mo he razão ; porem efte lugar, nem a guerra, que fe em elle 
ha de fazer , nom he da forma das outras guerras ; caa fe ho* 
mem cada vez ouvejfe de pefar com tanto te guardo as coufas , 
nunca faria nenhuma coufa boa ; ca quando homem cuida , que 
uao faõ fenao dez , ou vinte Mouros , feguem-fe ferem dous mil , 
e ajfy pelo contrairo ; e a minha tençom nom he outra , fenaS 
fazer o mandado £ EIRey meu Senhor ; e porque fey , que fe efles 
Mouros forem ajfy caftigados pouco , e pouco , que hirào lei- 
ceando a terra , caa a* outra guifa fempre viveríamos em ctú- 
dado. 

CAPITULO XXX. 

Como hum Chrijlao jugto de Cepta , e como deo novas 
aos Mouros , que o Conde ejlava muy ferido , e co- 
mo vierom fob~e a Cidade , e forom primeiro fenti- 
dos y e do danno , que receberão. 

NOm pode certamente o muy nobre Conde Dom Pedro 
de Menezes com razaô fer reprendido em nenhum de 
feus autos Cavalleirofos , porque os feitos daquella guerra 
nom fe podiam trautar per outra guifa ; caa os Mouros faô 
gente , que de fempre uzarom fuás guerras em rebates , e 

Pp ii mo- 



304 .- Chrônica 

movimentos ligeiros , fem outra nenhuma ordenança, nem 
difciplina Cavalleirofa. E tornando á nofla Iftoria os Mouros 
vendo como o Conde nao mandava fuás gentes contra elles , 
prefumiam , que algum novo trabalho lhe era vindo : e el- 
tando elles nefte penfamento , feguio-fe , que hum máo ho- 
mem fe partio de Cepta, o qual vivia com hum Fidalgo j 
a que chamavaó Joham Marfalla , creemos , que era Catal- 
laõ ; e porque em fua nova chegada foíle melhor recebido , 
diíTe aos Mouros , que o Conde citava ferido muito mais do 
que o elle com verdade era , fazendo-lhes faber , que o tem- 
po convinhavel feria aquelle , pêra elles darem fobre a Ci- 
dade; as quaes novas a elles forom ligeiras de crer , pela 
prefunçaõ em que ante eftavaó , e muy trigofamente foi to- 
do notificado a Áabu aquelle Senhor de Moxequeci , que alli 
era por fronteiro, como jaa, falíamos em outro lugar; e des 
y efcrepveraò a Xeber outro Mouro poderofo , que alli co- 
marcava com elles requerendo-o , que fe quifelTe ajuntar com 
elles, pêra. virem fobre a Cidade: o qual foi muy ledo da- 
quellas novas efcrepvendo ambos, a faber, elle, e Aabu a 
toda a^ terra de Lufmara , e de Benaioz , e aífy a toda-las 
outras Comarcas derrador, onde fentiraõ, que avia Mouros 
de cavallo , que fe fezeíTem logo preftes com a mais gente, 
que podeíTem , pêra fe ajuntarem com elles , e lurem fobre 
Cepta ; e aífy ajuntárom per toda a gente dezaífeis mil e 
quinhentos, a faber, mil e quinhentos de cavallo , e os quin- 
ze mil de pee , fegundo ao depois foi fabido por feus Al- 
faqueqiies; e como Deos queria aparelhar a vitoria, orde- 
nou, que naquella noite , que era hum dia de Santa Cruz 
de Mayo , fendo os Mouros fobre a Cidade , naquelles ar- 
voredos pêra tomarem fuás cilladas ; o Conde mandou fem 
fabér , nem prefumir nada da vinda dos Mouros a hum Ir- 
mão cT AfFonfo Munhoz , que folTe a efcuitar a terra, por- 
que no outro dia queria hir dar lenha , a qual avia dias nom 
dera por razão de fuás fendas. O Almocadem era homem 
bem deítro em feu Officio, e prefumio y que poderia fer, 



do Conde D. Pedro, ^o? 

que as novas das fendas do Conde podiam fer ázo da vinda 
dos Mouros , e des-y como muitas vezes aquece , que 
as vontades duvidofas prcfumem as coufas primeiro , que as 
vejam, o Almocadem teve grande femença no que avia de 
fazer , e aíTy tomou lugar convinhavel em feu propoílto , e 
jazendo em fua efcuita. fobre a cillada do Ganaveal, fendo 
jaa a mêa noite paíTada fentio os Mouros como vinham pêra 
lançarem fuás cil ladas , e ordenarem íua fazenda , como fen- 
tilfem por mais fua aventagem : o Almocadem avifou fua 
companhia , que olhaflem em fua parte , porque a gente 
era muita; e tanto que as gentes pafTárom, elles fe vierom 
pêra arredor de Barbaçote , onde falláraõ aaquelles , que 
vellavam , dizendo , como lhes compria muito fallar logo ao 
Conde : Jaa vós fabeis , refponderao os outros , o mandado , 
que nós temos acerca dijfo , pelo qual nos convém de hirmos 
Caber como quer que fe faça. Pois , diíTerom as Efcuitas , com* 
pre , que vades trigofamente , porque a manhaa vir d cedo , e 
efte feito nom ha mejler vagar. E entaõ fe apartou hum da^ 
cmelles féis , que alli vellavaó fobre hua coiraça , que alli 
eítaa , e com paíTos trigofos fe foi ao Conde , e difle : Se- 
nhor , chegou alli o Almocadem , e pareceme , que diz , que lhe 
Jje neceffdrio de vos fallar logo, ante que amanheça. O qual 
o Conde mandou , que vielfe. Senhor , diífe elle , muita gen- 
te he entrada nejla noite , e vim ajfy trigofamente por vos 
avifar. E que gente te parece , que fera ? Senhor , dif- 
fe o Almocadem , pareceme , que paffam de mil de cavallo , 
e nos de pee nom pude poer efmo por razão da noite : peró , 
Senhor, afirmo ferem muy muitos, e jazem jaa em cil ladas , 
porque em vindo nós pêra caa , afora os que laa lei x amos , fen- 
timos outros , que aqui cerca ejlao. O Conde mandou logo 
dar ao fino , fazendo feu repique , fegundo feu coftume , e 
elle fe foi á Igreja , onde ouvio fuás MiíTas ; e em eito que- 
ria jaa vir a manhaa; os Fidalgos forom-fe logo pêra onde 
feu Capitão cftava , e perguntaraõ-lhe , que novas avia , por- 
que fe tam cedo movera mandar fazer aquelle final. O nojfo 

cu- 



3o"6 Ch^onica 

cafo , diíTc elle, he | gw* au* «b^aí Efcuitús me trouverom re* 
caólo j que jazendo fobre o Canaveal fentirom pajfar de gente 
de cavallo , e de pee , aç az muita , fegundo elles dizem , e tal 
deve fer\ caa tiles , qua affy vêem , Algum novo Jentido tra- 
cem : ora pois elles fao lançados em fuás filiadas , e nos que- 
vem enganar , enganemos nós a elles ; e tenho confirado per eflà 
guifa , que vos direi ; vós e/guardai o melhor , e fe vos pare* 
cer , que compre emenda , affy mo dizei , pêra meu avifamento ? 
Tanto que ora de todo for manhaa nós partamos logo , e faça- 
mos de nós três cilladas , das quaes poremos huma abaixo dà 
Carreira dos Namorados , em que eu jarei com a gente de mi- 
nha caza , porque efla , que he a primeira , fe tornara depois 
derradeira , fe fe acertar , que as primeiras duas nao poffaofo- 
frer a força dos imigos y onde eu acudirei com tal força , que 
os Mouros nom pajfem a Cidade \ e na outra jard Joham Pe- 
reira eom todo- los que aqui fao -do Senhor Infante Dom Anri- 
-que ; e Ruy Vazqms , e - Murtim de Cr afio com os que <?qui 
fao do Conde de Barcellos , jard em outra : Ora , difle elle , 
fe vos parece bem minha ordenança , fenaÕ efcolhamos a melhor* 
Todos diíFeraÒ, que eftava muy bem ordenado, e que nom 
ayia mais , que lhe dizer , Ora , difle elle , aos que aviam 
de eftar nas cilladas , eu vos encomendo , e mando , que per 
nenhuma guifa vos nao fayais donde vos ordeno 5 até que os 
Mouros nao pajfem pela Carreira dos Namorados , e vós Ruy 
Vazques levai com vofco trinta âeftes meus Efcudeiros , e tra- 
cei com vofco tal fentido , que como eu differ , Volta 9 que 
vojfos fentidos nom fejam em-alheados em entender em outra 
eoufa. Todos dííTerao' , que fariam , o que elle mandava , 
tanto como elles melhor podellem. E eito alTy acabado , cha- 
mou o Conde Ruy Velho , e Diogo Gil feu Eftribeiro , e 
outros Efcudeiros y que fentio , que tinham os cavallos mais 
ligeiros ; e a eftes mandou , que foífem defcobrir com aquel- 
le melhor avifamento , que podelTem : E nom vades , diífe 
elle , mais longe , que até ds Quintas , e fazei de guifa , que 
fe es Mouros vierem após vós ? que nao enderenceis vojfa tor- 
na- 



do Conde D. Pedro. 3&7 

nada pêra a porta de Fez ; mas correi a carreira de longa con- 
tra a porta de Álvaro Mendes f e nom temais nada , fegmndo 
porem vojfa carreira , como gente pofta no derradeiro perigo. As 
c ilíadas dos Mouros eram quatro , huma , que jazia no Can~ 
naveal, em que eram trezentos de cavallo ; e a outra ao 
Porto dos Alamos , em que jaziaõ outros trezentos ; & do- 
zentos, que eram no Outeiro de Martim Gonçalves ; e tre- 
zentos, que jaziaõ no Valle da Fonte, qute eítá á mas© feftra 
da Atalaya de cima ; e duzentos jaziam nas Torres r que? for- 
ram de Joham Efteves o Gago Efcudeiro do Imfante Dom 
Anrique, e os mais de cavallo eram nas Quintas cora toda 
a gente de pee. O Conde mandou , que fofeai prefíes cksh 
coenta Beefteiros , os quaes cftevefiem fobre as covas com 
fuás beeftas armadas , pêra quando os Mouros vieííem de 
golpe , que achalTem outro novo dapno pêra fy , ou pêra 
feus cavallos : Ora % diíTe elle aos descobridores y By r e fa- 
^zee o que vos dijfe , e mais vos avifo r que pcfto que nao vejais 
jenao dous , ou ires , que vos mofiram que fe acovardam y q&e 
todavia nao pelejeis , nem figais trás elles , ante os tra&ei 
após vós. Os defcobridotes chegarão ao pee da Atalaya de 
cima , e forom té á porta d*Aljazira j e nao vkam nada, e 
foraõ mais adiante contra o chão da Figueira , e os de húa 
cillada , que jaziam no Valle da Fonte lhes começarão de feguir 
de través ; e os que jaziam nas Torres fahiam de rofto : e 
bem he verdade , que os Mouros fe trigúraõ mais do qwe 
deviam ; mas os Chriftaos , que foraõ" a defcobrir fezeraâ 
cm aquelle dia fim , fenaõ fora a boa ligeirice de feus ca- 
vallos , e tam avivadamente os começarão de feguir , que de 
volta entrárom com elles pela porta d* Atalaya; peío qual 
foi neceíTario aos noíTos de deixarem a carreira dos Namora- 
dos , e correrão á porta de Féz; os imigos hiam tam atentos- 
fobre elles, que íem outro nenhum efguardor foram dar no 
meio das derradeiras cilladas. Alii vio o Conde a ora y que 
elle em tal diadezejava, e fez Iog& dar às- trombetas , a cu* 
jo fom as outras e-iUadas fahir-om doade eftapaá r e foi alli 

hum 



308 CfcRONICA 

hum ajuntamento muy ledo pêra os Chriftâos , e trifte pêra 
os contrairos; caa em muy breve foi o campo todo cheio 
delles ; caa pêro que os noflbs nom foiTem mais , que no- 
venta de cavallo , eos contrários aquelles ^ que jaa ouviftes j 
rnatarom delles muy muitos , e ferirão outros muitos mais > 
c afly os levárom matando , e ferindo até ó pee da Atalaya : 
e como quer que o Conde quizera feguir avante empecendo 
os contrários , fobrechegou a gente de pee , e alguns de ca- 
vallo , e recolherão antre fy os que vinham , e puferom rof- 
to contra os noflbs , e com açaz de viva fortaleza : o Conde 
vio bem , que a mais profia feria manifefto dapno feu , e da^ 
qúelles que com elle eram , começou de recolher fua gente , 
e fazer volta com muy ardida contenença , fendo elle o mais 
acerca dos Mouros. E por certo , que fe naõ pôde contar por 
pequena vitoria o recolhimento daquella gente, a qual toda 
chegou inteira , e faã donde partirom , afora cinco que mor- 
lêrom por fua inorancia; ca leixáraõ de feguir os Mouros 
do primeiro golpe , que os levavaõ pêra Atalaya , e teveraõ 
mais fentido no ganho que efperavaò , que na honra, e fe- 
gurança da vida , decendo de feus cavallos pêra defpojar aos 
contrários , que jaziam mortos no chaó ; e quando fe o Con- 
de tornava recolhendo com aquella trigança , que o tempo 
requeria , nenhum daquelles naõ teve outro remédio , fenaõ 
foportar amargofamente o caiiz da fua poftrimeira fim ; caa 
os Mouros tam fentidos do primeiro danno , nao foomente 
fobre os corpos vivos , mas ainda frios da natural quentura ^ 
aviam por vingança de òs ferir > quanto mais quando viam 
tanto numero d'amigos , e parentes efpargidos per aquelle 
campo. Pêro Gil avia nome hum deftes Efcudeiros , que alli 
acabáraÓ, e vivia com Lopo Vazques de CalM-branco', fi- 
caó os nomes dos outros, pois nom vierom a noflb conheci- 
mento per culpa daquelles, que fe primeiro trabalharom de 
ajuntar efta Iftoria ; e nos cheguemos com o Conde até á 
porta de Féz , a qual nom comprira , per aquella vez fer mais 
alongada d'ante os pees de feus cavallos , fegundo a eftreitura 

de 



do Conde D. Pedro. god 

de fua neceflidade , onde os Mouros eraô bem acompanha- 
dos de gente, e acerca da porta muita beefteria, cuja Vif- 
ta fez aos Mouros poer em alTecego, em refpeito do trigo- 
íb movimento ^ que traziam: O Conde fez recolher fua gen- 
te, e elle ficou alli efpaço de húa hora; e os Mouros efte- 
veraõ fempre a rofto da Vilía, fazendo ítias maneiras, pêra- 
ver fe podiam tirar o Conde fora daquella fègurânça , em 
que eftava : e quando virom , que o no podiam enganar, co- 
meçarão de fe tornar , e em paflando por onde fora a pri- 
meira peleja , efguardáraó fobre aquelles mortos , que alli 
jaziam , que eram de feu fangue , e feita , e viram como en- 
chiam aquelle campo, antre os quaes nom eram mais de cin- 
co dos contrairos , mazellando-fe em feus corações , tornarão) 
outra vez fobre aquelles corpos frios, e defmenbrarãnos to- 
dos , e os feus apanharão o melhor ^ que poderom , e leva- 
ranos comíigo ; e fegundo o que ao depoiá diíferom os Al- 
faqueques, afora os que morrerão , muitos foraõ aleijados j 
e feridos, de que em todas fuás vidas, rio oaverom perfei*: 
ta faude; mas o conto certo dos Mouros nom fouberom. di- 
zer, ou por ventura nom quizerom, por nom fazer a vito^ 
ria tamanha, como os nofíbs penfavam. 

CAPITULO XXXI. 

Como o Autor falia dos feitos do màr , e primeiramen- 
te do aquecimento de Ajfonfo Garcia. 

T Antas coufas fe ajuntarão fobre mim dos aquecimentos 
da terra , que naô tive tempo d'acudir aos feitos do 
mar; mas porque me tanto apreílam aquelles mareantes, he 
necelTario , que acuda a efcrepver alguma Coufa da fua for- 
tuna , e ponho logo por começo Miceytom Irmaõ do Almi- 
rante Micer Lançarote , o qual ficou por Capitão de duas 
Gallés por mandado d'ElRey; e pêro elle guardafie bem a 
Tom. Ih Qq Efc 



\ 



3io Ckronica 

Eftreito, e trabalhajfle quanto convinha a ram nobre homem, 
como elle era , ou porque as Gallés faô Navios grandes , ou 
por naô fer fua dita em efta parte melhor , nora achamos 
coufa notável, que fezeíTem. E porem he neceílario , que 
façamos começo naquella nobre Fufta, que o Conde primei- 
ramente mandou fazer , a que chamarão Santiago Pee de 
Prata; onde fabee , que tanto que EIRey partio , logo o 
Conde confirou, que nom foomente lhe convinha ter bons 
carallos, pêra fe ajudar dos imigos da terra ; mas ainda Na- 
vios pêra fojugar aquella parte do maar, que lhe era viílnha : 
e porem mandou fazer aquella Fufta, que já diíTemos , a qual 
era de déz bancos , e quiz a boa dita do Conde, que fahio 
muito ligeira aíTy de remos , como de vellas ; e foi hum bom 
final dos aquecimentos vindouros : e a primeira vez , que 
aquella Fufta foi armada , mandou o Conde por Patrão del- 
ia hum AfFonfo Garcia de Queirós, que era homem Fidalgo , 
e esforçado , e muy uzado na guerra dos Mouros , aos quaes 
defamava , alem da primeira razaõ , por caufa do máo tra» 
to , que delles ouvera hum tempo , que fora cativo : e na 
primeira viagem , que fez partio de Cepta a tal tempo , que 
ouve de ter a noite á Ilha de Calliz : e jazendo aíTy na 
primeira gaita , fobrechega hum Carrebo mareado per catorze 
Mouros, os quaes fentindo a Fufta fobre fy , fe quizeraó 
poer em alguma defeza , mas porque eram homens mais uza- 
dos no trauto da mercadoria , que no exercicio das armas, 
e fobre todo com Fufta armada , teverom , que feria traba- 
lho defpefo com perigo de fuás vidas : e porem leixaraò feu 
começo , e cruzarom fuás mãos , em final de vencimento ; e 
aíTy ouve AfFonfo Garcia aquello começo , no qual achou 
muito trigo, e cevada, e legumes , com féis cavallos : a 
qual carrega tomárom em Alcaçar, pêra paíTar á outra parte 
do Regno de Graada. 



CA- 



. 



DO Cfl tf D É D* V Ê t * O* j! i 

CAPITULO XXXIL 

Como Affonfo Garcia tomou outra prèfa muito rica. 



POrque eftas coúfas querem a boa vontade dos homens i 
o Conde contentou muy bem aquelles que o ferviraõ 
naquelle trabalho , porque alem do feu premio j fegundo 
uzanfa de fuás armações > elle lhes fez outras avantagens.com 
que alegrou fuás vontades , e os fez logo tornar dizendo : » 
Que pois a boa fortuna era com elles, que a naó quifelTem 
menospreçar. » E des y fez logo aparelhar fua Fufta , e com 
boa viagem partirão daquella Cidade , e em aquella mefma 
noite , que partirão fe forom lançar ao Fornilho , hum lu- 
gar, que he junto com Almarça, o vento era levante ^ co- 
mo quer que pouco foíTe , e elles leixarom feu Navio de 
mar em roda , tendo fuás vellas ordenadas per tal guifa , que 
por mingoa de avifa mento nom perdeíTem alguma prêfa , fe 
lha Deos quizelTe ofrecer : e fendo jaa fobre o quarto da al- 
va fentiram voga de Navio , que feguia per acerca delles , 
cujo nom foi pouco prazivel em fuás orelhas , e fazendo-fe 
logo preftes de peleja conhecerom que era Albetoça , a qual 
nom poderom encalçar , fenaõ tam perto da terra , que os 
Mouros ouveraõ razaó de leixarem fua fazenda , e porem feus 
corpos em fegurança de morte , ou de cativeiro ; porem to- 
marão duas Mouras , perque fouberao a viagem do Navio , 
e o Senhorio , de que era , e fegundo aprènderom , que era 
de Málaga, e que paíTava pêra Tangere; mas quem poderá 
contar a ledice d'AíFonfo Garcia, e daquelles que com elle 
eram , quando virom a formofura daquella prêfa , porque alli 
nom avia cevada , nem feijões , nem outra efpecie de legu- 
mes ; mas muitos panos d'ouro , e de feda , e d'outra roupa 
talhada , cujo valor fubio a dez mil coroas , contando as 

Q^ ii cou- 



5 i* c^ChKONÍCA 

coufas ao menospreço, em muito mais baixo valor, do que 
com razão deviam fer vendidas. 

CAPITULO XXXIII. 

Como Affonfo Garcia tomou huma Barca de Mouros fo- 
bre o Porto de Gibraltar» 

MUi alegre foi o Conde com tam boas novas como lhe 
vinham , e tam fem perigo de fua gente ; e porem 
deo algum repoufo a feus mareantes, por entrarem com maior 
viveza na feguinte viagem : porem Aifbnfo Garcia nom que 
dava de perguntar por novas do que a feu Orneio pertencia , 
e ouvindo como hda Barca eftavana Abra de Gibraltar, car- 
regada de muita mercadoria, fez preftes fua Fuíta, e reno- 
vou-a de gente, tal como cumpria pêra homens, que efpe- 
ravam peleja com Navio de muito maior avantágem, que o 
feu, e aquella noite, que partirom de Cepta , forom jazer 
alem d'Algezira , e foraô ter de hy a Torre de Garcia Ça+ 
marra, lugar donde fe bem podia ver aquella Barca , que 
elles efperavaÔ , a qual virom , que eftava fora do Arrife; 
mas nom podiam faber quantos Mouros eram os que a guar- 
davam : bem he , que viam hir os barcos pêra ella com algu- 
ma fardagefn , que os mercadores queriam levar pêra fua 
viagem ; outros hiam com fuás emmentas aaquelles , que 
aviam de palTar ; de guifa que Affonfo Garcia nom podia fer 
em certo conhecimenro da gente , que a guardava de noite , 
ainda que prefumia fer pouca , porque eftavaó em lugar , que 
nom deviam receber temor : e porque vio , que tinham a ver- 
ga alta entendeo , que eftava preftes pêra partir ; e porem 
foi laa de noite por fentir a gente , que era dentro , e ver a 
altura do bordo, donde avia de fazer fua peleja : no outro 
dia muito cedo fez Affonfo Garcia vir fua gente fobre a cuber- 
ta : Eu creio , dilTe elle , que aqui nom eftd nenhum 3 que nao 



Do Conde D. Pedro. 



*í 



feja jaa uzado no Officio das armas per grande efpaço d % annos $ 
per cuja razão eu fui movido de vos trazer aqui , antes què 
outros , que fe pira efte cazo bem ofreciam , pois de vos dizer 
a fim pêra que aqui viemos he fobejo de vo-lo agora contar : orá 
nós fomos acerca de moflrar a nojfos imigos a melhoria dè nojfà 
Fee ? efta noite Deos querendo , eu determino , que vamos fobré 
aquella Barca ; e logo vos digo , que o avemos d 9 aver com gen- 
te efperta , e tal , que fe nom ha de leixar vencer do primeiro 
combate , pêro avelo emos com infiéis , e com gente defpercebida : 
per Deos a nenhum efqueça fua virtude > e des y ponha antefy , 
qual fera J eu galardão depois da vitoria % pois da pena què 
averdo , os que cayrem em poder daque lia gente deferida, eu volo 
pojfo bem contar , porque o padeci , caa nom fei coufa tam tra- 
balho fa em efta vida, com que lhe pojfa fazer comparação. Al- 
li ordenou AíFonfo Garcia feus lugares , que cada hum aviam 
de ter depois do aferramento do Navio , e des y fez levar 
fuás amarras , e feguir fua viagem ; e como a Lua foi pofta 
em torno de mêa noite , foi direitamente pêra a Barca fazen-< 
do levar todo-los outros remos , afora quatro , que leixou 
pêra guiar a Fufta, porque os mais fentio , que fariam ar- 
ruido , e o mais manfo , que pôde , foi aferrar no meio da 
Barca ; mas por certo , que elle nom achou em ella gente 
preguiçofa , nem covarda ; mas homens preftes , e de muy 
esforçados corações ; caa ainda bem nom aferravam , como 
quer que tal hora fofle , jaa os bordos eram todos cheios de 
gente , fazendo começo nos Chriftãos com grande multidão 
de pedras ; e como quer que os imigos teveíTem muito maior; 
avantagem aíTy no numero da gente r como na grandeza , e 
altura do Navio , ouverom porem de deixar o bordo , com 
a prema das muitas feridas , que receberom dos noíTos : allt 
foraõ as vozes tam grandes dos Mouros , a faber , daquel- 
les , a que as chagas mortais coftrangiam leixar efta vida , que 
ouverom de fer ouvidos pelos moradores da Vil la , os quaes 
em mui breve forom preftes , pêra lhes dar ajuda fe nom fo- 
ra , que alguns dos mais antigos coníirárom, que podia fet 

azo 



'314 , C B R O K I C 1 

azo de faltarem com elles de volta, e meterem em periga 
íua vida ; e porque huns diziam huma coufa , e outros ou- 
tra , era o arruido grande antr'elles ; mas AíFonfo Garcia nom 
quedava d'avivar lua gente nembrando-lhes o carrego que 
tinham de fer bons em femelhante tempo ; e durou afly a 
peleja acerca de huma hora , em que a força dos Mouros co- 
meçou a abrandar , e a dos contrários a esforçar cada vez 
mais , em tanto que faltarão com elles dentro na Barca , nom 
porem fem perigo , e danno dos noíTos ; caa matarom alli 
hum nobre Efcudeiro , que o Conde creára de moço peque- 
no , que fe chamava Pay Gonçalves, o qual por certo deo 
aquella fim de fua vida, que qualquer nobre homem de fua 
condiçom poderá dar ; hum Bifcainho foi chagado ao derra- 
deiro perigo , de huma grande lançada , que ouve nas coitas , 
com a qual lhe cortarão duas das principaes ; nem o bom 
d'Affonfo Garcia ficou fem parte daquella devifa ; caa açaz 
de feridas ouve por íeu corpo , e taes per que com razaô le 
devera fazer afora ; mas elie porem nunca perdeo fembrante 
de bom Capitão , ante foi avante dando esforço aos feus, 
cuja voz lhes fazia renovar a força de fuás bondades ; e foi 
cfta entrada mui trabalhofa ; caa os Mouros eram homens de 
força , e pelêjavaô por fua própria fazenda ; pêro a fim ou- 
verom de perder fua efperança , e lançarão- fe a agua pen- 
fando , que porque era cerca da terra fe podiam falvar : e 
como quer que alguns efcapaffem, Affonfo Garcia fez tomar 
vinte e quatro , e os outros efcapáraó naó fem muitas feri- 
das , taes que alguns ao depois fezeraô fallecer : cinco po- 
rem morrerom ante de o Navio fer entrado , cuja morte foi 
azo de fe aquella entrada aver com menos perigo dos noíTos : 
alli fezerom apanhar fuás ancoras, e alevantar fuás vellas , e 
feguir viagem de Cepta, de guiía que fobre a manhãa pare- 
cerão fobre o porto da Cidade , onde lhes o Conde foi a 
agradecer fua virtude , e bondade ; e des y fez curar dos fe- 
ridos , com aquella melhor diligencia , que fe em tal feito 
podia ter j mas a defcarrega deite Navio , era muy alegre 

de 



do Conde D. Pedro. ,jji^ 

de ver ao Conde , e afly a aquelles , qne do feu proveito 
attendiam parte ; caa forom alli achadas muitas coufas de 
grande valor , efpecialmente feda fina , e roupa talhada , e 
muita moeda d'ouro , e de prata , afora fruita de que leva- 
vao a maior parte do laítro ; caa paíTava dalli pêra Nafee a 
carregar de trigo , de que os de Gibraltar eram mingoados. 
E efte AíFonfo Garcia foi o que desbaratou Boboramonte, 
hum Mouro grande coíTairo , que morava em Tânger, e Be- 
-mirgáo filho do Efnarigado , e lhe tomou as Fuftas , cada 
huma per fua vez , e as trouxe a Cepta ; e foi o que levou 
as novas ao Infante Dom Anrique dos Mouros , que eram 
fobre Cepta , quando foi o grande cerco. 

CAPITULO XXXIV. 

Como o Conde foi a Aldeã d'Aíbega!- y e como foi morta 
Pêro Lopes d' Azevedo. 

HE bem que leixemos aíTy eílar aquelles mareantes , cu- 
rando de fuás chagas i efpalmando feu Navio, e que 
vamos dar fim aaquclle nobre Cavalleiro Pêro Lopes d'Aze~ 
vedo , a qual por certo nom feria trifte , nem chorofa aaquel- 
les , que foubererri tanta bondade de varaó ; caa os bons , e 
virtuofos efeolherom fempre por fepultura os campos , que 
eftam ante as armas dos imigos : e fe ifto era de tanto lou- 
vor aos Gentios infiéis , que foomente pelejavaõ pela gloria 
defte Mundo , que deve fer dos fieis Chriftaos , a que nom 
foomente fica a gloria $ e louvor do Mundo ; mas ainda fol- 
gança perpetua pêra fempre no outro. Ora avees de faber , 
que avendo jaa dez mezes , que Cepta era de Chrifiãos , foi 
dito ao Conde pelas Efcuitas $ como naõ muy longe dalli 
avia huma Aldeã , que chamavam â?AlbegaÍ , em que avia 
boa povoraçaó de Mouros abaftados de gado j c que avia an- 
tr'elles alguns, que por dinheiro efcuitavaò, e guardarão d 

ter- 



316 -Ghronicá 

terra, e que foomente naquelle atrevimento viviam fem te- 
rem outro Capitão , em que pofeíTem a efperança de fua guar- 
da; des y contáraò-lhe toda a maneira da terra acerca dos 
caminhos , e lugares empidofos pêra aquelles de cavallo , 
que lá ouveíTem de hir: Ora, diíTe o Conde, nom aba/ta, 
qiie vós ejto conteis a mim foo ; mas quero , que o àigaes ajfy 
prezente todos eftes Fidalgos , que aqui fom '. os quaes forom 
muy contentes do que lhes as Efcuitas diíTeraõ , pedindo muy 
de vontade ao Conde , que naó efcufaffe femelhante cavalga- 
da ; pois a Deos graças , na Cidade avia com que honrofa- 
mente podia tirar fua prefa ; e por dizer verdade nom man- 
dara o Conde contar aíTy aquellas coufas prefente elles fe- 
naó , porque fabia , o que elles aviam de requerer ; porque 
fe fe a coufa ao diante delTe ao revés, do que elle queria , 
que nom ouveíTem elles achaque de o prafmar ; e tam defe- 
jofos os fentia elle pêra fahir, que as coufas, que lhe nom 
pareciam muy feguras, defendia ao Adail, que lhas nom dif- 
íeíTe , e aíTy todo-los outros , que viviam fob Capitania da- 
quelle ; caa tanto que as os Fidalgos fabiam , nunca o leixa- 
vaô, fenaó que lhes deíTe licença pêra as acabar, poíto que 
muy duvido fas foíTem , como já difle , e f e lho nom queria 
comprir, como elles defejavaõ , murmuravam antre fy , cul- 
pando feu Capitão por mais cautelofo , do que os cazos re- 
queriam. E porem mandou logo o Conde ás Efcuitas efguar- 
dar bem aquella terra , por fe certificarem melhor , do que 
lhe compria fer avifado , e des y que pofeíTem boa femença 
aíTy nos caminhos, como na entrada do lugar; os quaes tor- 
nados de fua viagem , certificando aquello mefmo , que ante 
dilTerom , ordenou logo de partir levando comíigo cento e 
cincoenta de cavallo , e duzentos de pee , e fobre a noite 
partio da Cidade , metendo fuás Efcuitas diante , os quaes 
Martim de Çamora avia de guiar com outros Almogavares , 
que lhe eram ordenados , e hindo dar cevada ao Caftello , 
onde repoufáraó algum pouco , até que o Conde vio horas 
pêra partir y em tal guifa que ainda naó era de todo manhãa , 

quan- t 



\ 



do Conde D. Pedro. 517 

quando fe acháraò lobre a Aldeã , onde logo topáraõ corri 
Cem Mouros de pee , que aviam cuidado da guarda dos ou- 
tros, os quaes vendo- fe junto com os nolTos de cavallo , naò 
teveram esforço pêra os contrariar, antes poferom toda fua 
efperança de guarecer , na efpeíTura de hum monte , que hy 
tinham acerca; mas os nofíbs de cavallo entendendo , que 
aquella feria a mor força de fua defefa , ouverom confelho 
de os cercar , e des y começarão fua peleja , na qual fe me- 
xiam muitas lançadas, e pedradas, e azagayadas , porque 
nom eram tam acerca , em que as armas mais curtas podef- 
fem fervir ; e em eito fezeraõ os Mouros huma volta com 
os de cavallo , porque os de pee nom chega'raó ainda , por 
jazaò da trigança , que os de cavallo meterom em feu an- 
dar. Pêro Lopes d'Azevedo foi o primeiro , que faltou na 
metade da efpeíTura daquelles imigos , e des y alguns ou- 
tros, que o feguirom, em pêro poucos; e parece que dentro 
no mato avia hum tremedal , em que o cavallo de Pêro Lo- 
pes atollou, onde os Mouros muy rijamenre acudirom , e 
começarão de o remeíTar , onde lhe em breve fezerom com- 
prar caramente a honra daquelle dia ; e logo alli acerca dei- 
le morreo hum Efcudeiro de Pêro Gomes d'Abreu , que fe 
chamava Vafco de Rijocaldo , o qual era ávido por homem 
de boa fegurança nos perigos; e por certo que elle deve fer 
contente da fua alma fer companheira de íeguir hum tam no- 
bre Cavalleiro, como foi Pêro Lopes. Foi eíte Fidalgo fi- 
lho de Lopo Dias d' Azevedo, Fidalgo nobre, e que fervíra 
bem EIRey Dom Joham nas primeiras guerras , o qual ou- 
ve fete , ou oito filhos , dos quaes eu , que efta Iftoria efere- 
pvi , primeiramente conheci quatro homens de grande auto- 
ridade , efpéciaimènte Fernam Lopes , que foi Comendador 
Mor de Chriftos , e Luiz d' Azevedo , que foi Veador da 
Fazenda, ambos do Coníelho cl/ElRey , e que forom Envia- 
dos em grandes Embaixadas , aíTy de Mouros , como de 
Chriftaos ., fegundo acharees eferipto nos feitos , que fe fe- 
zerao Reinando EIRey Dom Eduarte , e EIRey Dom Af- 
Tom. II. Rr fon- 






318 Chronica 

fonfo , que efta Iftoria mandou efcrepver. O Conde quando 
vio , que Pêro Lopes era morto , mandou afíy aos de ca- 
vallo , como aos de pee , que jaa hy eram , que cercaíTem 
bem o monte , de guifa que nenhum Mouro nom efcapaíTe , 
como de feito o fezeraó , e com tanta vontade os comete- 
rão , que matarão noventa e oito , e fomente dous efcapá- 
raõ y que o Conde mandou leixar pêra aver por elles lin- 
goa do feito dos outros feus Comarcãos : alli mandou a vin- 
te de cavallo , que folTem ver , o que achavam na Aldeã , 
os quaes tornados em breve diflerom , que todo era deferto ; 
e eito porque fegundo aquelles diífera6 , naõ avia mais de 
quatro dias , que fe todos dalli partirão pêra outro lugar , 
que fe chama Alboazem : alli mandou o Conde , que fe gui- 
faíTem d'andar , mandando levar o corpo daquelle Fidalgo , 
e aíTy o de Vafco de Rijocaldo ; mas quem poderia fem laf- 
tima ouvir o pranto , que fazia Martim Lopes levando ante 
fy o corpo de feu Irmão : foi aquelle corpo fepultado com 
grande honra afly do Conde , como de todo-los bons , que 
avia na Cidade , porque aalem daquelle Fidalgo fer nobre , 
e bem aparentado , elle per fy mefmo com fua própria bon- 
dade ajuntava grandes amizades. 



capitulo xxxv. 






Como vinte e fete Juizes vierom fobre a Cidade ; e 
como lhe matarão hu Capitão ; e da outra gente , 

que morreo. 

JAa diíTemos como aquelle nobre Capitão' cheio de toda 
fabedoria , que a tal encarrego pertencia , trazia fempre 
fuás efpias antre os Mouros 7 de guifa que fe nom podia fa- 
zer coufa antre elles , de que elle nom ouvelTe fentimento ; 
e fendo jaa entrados no mez d' Abril ouve novas, como fe 
percebiam os Mouros, peta virem fobr'elIe, pelo qual fuás 

I H gen- 



DO GONDE D. PEDROi gi^ 

gentes foram avifadas , e elle atento do que lhe pertencia 
pêra tal auto , e porque era corefma conlirou , que os Mou- 
ros guardavam aquella vinda, pêra aquella Seita feira San- 
ta , em que nofíb Senhor Jefu Chrifto padeceo , coníírando , 
que em tal tempo os Chriftãos feriaò acupados no Gfficio de 
lua Ley, pelo qual perderiam cuidado das coufas da Cida- 
de : e porem como homem prudente , e avifado mandou y 
que fe diUeíTe a Pregação' daquelle dia fora da Igreja : e 
que como quer que o dia foíTe tal , que todos efteveíTem po- 
rem avifados ; mas nom foi o avifamento do Conde em vaó ; 
caa em querendo amanhecer, eftando todos atentos na Pre- 
gação, de que ainda a terça parte nom era paíTada , pare- 
cerom davante a Cidade grande foma de Mouros alTy de ca- 
vallo , como de pee , e fegundo fe foube depois , íeria o feu 
numero até vinte e fete mil, a faber ^ os vinte e cinco mil 
de pee , e os outros de cavallo : e como quer que aíTy tan- 
tos folTem , nom fe quizerom logo defcobrir todos , princi- 
palmente os de cavallo , fe nom os mais poucos que pode- 
rão , como quer que lhes fua cautella pouco preftaffc ; caa o 
Conde trazia fuás Fuftas no mar por aver razaõ de ver me- 
lhor a fazenda de feus imigos : e porem mandou logo meter 
peça de gente d'armas, e Beefteiros antre o muro, e a bar- 
reira , e também pelos caramanchões do muro , guarnecen- 
do-os como cumpria pêra tal tempo ; é des y mandou a Fer- 
nam Barreto , que pofeífe outras Atalayas na ponta d'Almi- 
na por fe avifar de Fuftas fe ouveíTem de vir pelo mar, di- 
zendo- lhe : Primo fe por ventura nom ouverdes vifta de Fuftas 
leixai ametade da gente na voffd coadrilha , e com a outra me' 
tade , vós vinde logo pêra mim onde quer que eu eftever. E 
per efta mefma guifa mandou a Álvaro Affonfo de Negrel- 
los , e a Ruy de Souza , e aos da coadrilha de Gil Louren- 
ço ; e des y fez fuás repartições aíTy pelo muro , como pe- 
las Torres, de guifa que em todo os imigos achaíTem em- 
bargo; e como o Sol de todo pareceo fobre a terra , man- 
-dou o Conde a alguns , que fahiíTem pela porta de Madra- 

Rr ii ba- 



320 C H R O N I C A 

baxabe , e que travaíTem efcaramuça com os Mouros , os 
quaes faltando na praya ouveram muito alinha comprimento , 
do que dezejavaô ; caa os imigos vierom fobr'elles tantos , 
que bem avia hy cincoenta pêra hum , e envoltos huns com 
os outros , morrerão logo dos Mouros quatro , afora outros 
muitos , que forom feridos das beeílas , que eram muitas , e 
boas , e morreo alli hum Chriftaó , que era Almocadem , o 
qual alli trouvera Ruy Mendes Cerveira, de cuja morte ao 
Conde pefou muito , por fer homem efpecial em feu Ofíicio ; 
e porque naó he- bem , que os bons fiquem fem aquello , 
que lhes de noíTo Ofíicio he devido , avees aqui de faber , 
que efte Ruy Mendes era Irmaõ d' Álvaro Mendes de que 
jaa ouviftes em efta Iftoria , o qual por certo nom defacorda- 
va na grandeza do coração com a eftatura do corpo : e por- 
que elle logo no começo de lua mancebia fe paliara em In- 
graterra dezejando faber aquelle nome, que os Fidalgos, e 
Nobres dezejam por principal galardão deite Mundo , onde 
certamente fua paíTagem nom foi ouciofa ; caa em todo-los 
feitos que fe lá ofrecerom Ruy Mendes foi participador , 
efpecialmente fe acertou de fer na batalha d'Ajancurta , a 
qual foi antre ElRey de França, e de Ingraterra , batalha 
por certo muy afamada , e de que os Ingrefes tirarão grande 
honra com o feu Rey, que fe chamava Dom Anrique, filho 
que fora do Duque d\Alencaftro , e Irmão da Raynha Dona 
Filippa. Neíte desbarato dos Francefes obrou Ruy Mendes 
como nobre Cavalleiro , e aíTy em todas outras coufas em 
que fe acertou de fer, que foraó muitas, e áçaz dinas de 
grande honra; e como quer que elie aíTy naquelles Regnos 
trabalhalTe, fabendo como o feu natural Rey filhara aquella 
Cidade aos Mouros , onde elle fallecêra com feu ferviço , 
pofto que aquella culpa teveíTe açaz direita efeufa , elle fe 
veio de Ingraterra , e fem fahir do Navio , nem fazer devifa 
em nenhum lugar defte Regno , fe foi a efta Cidade de Cep- 
ta, cujos feitos efcrepvemos , onde nom falleceo daquelle 
louvor, que dos Regnos alheios trazia ganhado, continuan- 
do 



do Conde D. Pedro» 321 

do aquella còruquifta com oito Efcudeiros bem corregidos tan- 
to tempo, até que lhe cónveio tornar em França, pêra ih 
combater em campo com hum grande Barão daquelle Regno , 
que tempos avia, qiie o tinha retado* de que Ruy Mendes 
tornou vencedor ; onde fique efperando aquelle doroZo , e 
trifte ajuntamento da Alfarrobeira , onde faremos fim aíTy de 
feus feitos , como de fua vida. E por agora tornemos ao fei- 
to dos Mouros, que temos antre mãaos , os quaes andarão 
alTy em fuás voltas , fem fazendo coufa certa , ataa que o 
Sol permeyou o dia > em que fezeraô infinta de quererem tor 
dos juntamente vir fobre a Cidade : Aabu , aquelle feu no-* 
bre Marim , que jaa tanto conhecia da bondade dos Chrif- 
tãos, vinha diante em cima de hum cavallo i alvo como hu- 
ma pomba , eftremado entre todo-los outros em feu corregi*» 
mento; defavifado porem pêra homem, que jaa tantas vezes 
fe combatera com os imigos , porque fe chegou tanto á por- 
ta de Fez , que hum Beefteiro , que o conhecia ouve razão 
de lhe tirar com huma féta , com a qual lhe paliou huma, 
coixa ; mas ainda efta nom acabava de fazer fua chegada $ 
quando outro Beeíteiro^ que eiiava junto com aquelle , en- 
viou outra com que lhe ferio o cavallo em huma ilharga , 
o qual com a dôr da ferida começou de lançar muy grandes 
pernadas , e afly com ellas i como com o trabalho , que to- 
mava com o fentimento da dôr , fez ao Mouro perder as ef- 
tribeiras , e alli fora naquelle dia acabada fua força , fe lhe 
outros Mouros nom acudiram , dos quaes alguns comprárom 
caramente a ajuda , que lhe fezerom ; caa afly como chega- 
rão de golpe , aíTy deceraó muitas fetas íbbr'elles , de cujas 
chagas alguns corpos ficarão fem almas, e outros forom fe-» 
ridos , que paíTárao adiante pela fòmbra da morte : alli fe 
poferom os Mouros todos em haz , de guifa que tomárom dês 
o outeiro, que eftá em cima do maar da parte de Barbaço- 
te , ata o outro maar , que corre pêra o Eftreito ^ onde lhe 
os tróos fezeraõ grande dapno ; caa matiraõ muitos delles, 
c outros deímembrárom , de que fuás vidas paflarom com 

alei-» 



'J 22 C H ft O N I C A 

aleijão; caa os Meftres daquellas Artelherias tinhaõ os Mou- 
ros em tal geito , que fe podiam nelles bem aproveitar : e 
quando foi a horas de Vefpera juntou-fe hum grande tropel 
delles , e endereçarom caminho da porta de Madrabaxabe ; mas 
o feu Alferes , que vinha diante com a Bandeira acertou em 
feu quinhão huma grolTa vira empuxada de huma beefta de 
torno , que lhe deo per meyo dos peitos , de cuja chaga ca- 
hio morto , fobre a afte de fua lina ; e fe na vida elle fora 
acompanhado por razão do Officio , que tinha , nem na mor^ 
te nom partio foo pêra aquella infernal companhia , pêra 
que o a fua maa ventura dês o começo de fua nacença tinha 
guardado ; caa muy em breve foi cercado d'outros muitos 
Mouros , afora outros , que foram feridos caaíi fem conto : 
e era pêra osnoflbs açaz alegre coufa de ver, caa taes vinham 
por tirar os outros fobraçados , que cahiam mortos fobr'ei- 
les , ou os levavam muito feridos; e com efta tamanha per- 
da fe afaftáraõ afora pêra aver razaõ de curar feus enfermos ; 
e mandarom hum Mouro , que chamavam Almoxarife , que 
foi natural do Regno do Algarve , donde fe partira por cau- 
fa de hum omezio , que ouvera , que foíTe fallar em refgate 
4e hum Mouro , que tinha Álvaro Mendes Cerveira , ao 
qual o Conde deo lugar, que entraíTe na barreira, princi- 
palmente porque fentio , que fora nado em efta terra ; per 
«fte foube o Conde o numero da gente, que alli eftava , fe* 
gundojaa diíTemos : de boa vontade quifera o Mouro fer 
Alfaqueque , fegundo feu requerimento , dizendo , que pela 
natureza, que ouvera nefta terra dezejava todo o bem del- 
ia , ainda que conhecia , que errava contra fua Ley ; por- 
que , dizia elle , que fe foffe Alfaqueque averia caufa de vir 
ú Cidade pêra dar novas do que os Mouros trautaíTem em 
contra daquelles , que a guardalTem ; e levando a Carta do 
«:onfentimento , que o Conde a ello dava , com efperança de 
grande galardão , tornando-fe ao arrayal efpedaçarãno os ou- 
tros Mouros, fufpeitando, quefe ouvera enganofamente na- 
quella falia , o que prefumirom principalmente pela nature- 
za, 



bo Conde D. Pedro. 323 

za , que fabiam , que tinha nefta terra , e des y pela tar- 
dança que fezera. Nom quiferaó os Mouros em aquelle dia 
fazer outra coufa , foomente quanto fe forom a alojar huns 
nos Paços d'Aljazira , e outros per eíTes valles. O Conde 
poz fuás guardas como fentio , que compria , pêra fua me- 
lhor fegurança ; e fendo jaa huma hora depois da meia noi- 
te , o Conde fe levantou d'algum pequeno repoufo , que 
tomara , o qual era bem mefter , fegundo a grandeza do tra- 
balho do dia paíTado , e eftando pêra cavalgar , com enten- 
çom de hir mandar desfazer dous caravos , que eftavaó acer- 
ca do muro , que fe metiam alii os Beefteiros dos imigos , 
e com o emparo , que nelles recebiam tiravam aos noflbs^ 
começarão a repicar, porque os Mouros fezeraõ fembrante 
de vir fobre a Cidade , em pêro nunca o poferom em obra , 
até que a manhãa de todo nom moftrou os rayos de 
fua alva claridade , onde começarom de fe chegar contra 
a Cidade com portas , e madeira , e a poer todo no Outei- 
ro , que eftá acima das covas , que entaõ eftavam á porta 
de Fez , e aífy acarretavam rama miúda ; outros andavam 
efcaramuçando com os Chriftaos , onde forom mortos dous 
Mouros , e outros feridos , e dos noíTos naõ foi ferido fe- 
naó hum homem de pee de huma ferida leve ; e afly anda- 
rão até hora de Terça , que fezerom fembrante de fe que- 
rerem todos juntamente chegar ao muro per toda-las par- 
tes , e acertou-fe , que per cima da porta de Féz vinha hú 
Mouro de pee, que trazia huma Bandeira, ante outra mui^- 
ta companha , que o feguia , e hum Beelíeiro teve o pofto 
nelle , e deo-lhe com hú virotám per meio do peito , com 
que o logo fez acabar , e tal recebimento fezerom a mui- 
tos dos outros, que o feguiam, em tál guifa que fe gran- 
de preífa traziam por chegar , muito maior a tomarom pê- 
ra fe tornar ; e des y os troos , que nom eftavaõ ociofos , 
delles matavaô , e outros efpedaçavaõ , e aleijavaó ; caa 
eftas eram as menos feridas , que podiam receber : e por- 
que pelo outeiro, que eftá em cima da parte de Barbaçote 

fe 



^24 C H fc O N I C À\ 

fe ajuntavao peça de Mouros , mandou o Conde pôr hum 
trom em hum caramanchão, que fezera junto com o cubei- 
lo , que eílá fobre a couraça , porque vio , que dalli po- 
deria tirar ao longo do outeiro , e nom foi feu penfamento 
em vaõ ; caa do primeiro tiro matou dous delles , e aos 
outros poz tal efpanto , que naõ oufáraò tornar pelos mor- 
tos dalli a hum grande pedaço , e com todas eftas perdas, 
e dannos , que os nolTos em elles faziam , nom quedava 6 
porem d'acarretar fuás portas , e lenha com grande efpe- 
jança d'acabar o primeiro dezejo , com que alli chegárom , 
c fendo jaa horas de Noa fahio hum Efcudeiro do Conde , 
que fe chamava Pedro Annes Catallaõ com dez homens de 
pee , e começou de travar efcaramuça com os contrairos ; mas 
os Mouros nao foraõ preguiçofos de os virem bufcar , e 
andando aíTy fazendo fuás voltas a fô cubello , que eftá a 
fundo da porta de Fez, em breve forom cinco, ou féis da- 
quelles Mouros feridos , e Pedre Annes foi ferido de huma 
íétada, em pêro pequena, feze-o porem o Conde recolher 
antre o muro, e a barreira , e aconteceo acerca depois de 
Vefpera ; e querendo aquelle , que tirava com hum trom 
fazer hum tiro, faltou-lhe o fogo em os facos , que tinha 
chêos de pólvora, e fe nom fora , que lhe acudirão cedo 
com agoa , e com vinho , fora muy grande danno ; mas os 
Mouros penfáraó , que aquelle aquecimento lhes aprefentava 
certidão da vitoria , e com muy grande alando começarão 
de correr contra os muros ; mas os trõos , e as beeftas fe- 
zeraó em elles tal dapno , que chorando tornarão atras , 
e os noíTos começarão de lhes apupar, e bradar como gente 
alegre do trabalho de feus contrairos , quando lhes virom 
apanhar os mortos : e elles afly arredados poferom-fe em 
magotes , como eftavam da primeira , nom ceflando porem 
de achegar fuás portas, e moftrando contenença de tornar, 
o que nas vontades nom eíbava tam certo , como fuás con- 
tenenças faziam final. E eítando aíTy em cima de hum pequeno 
cabeço os trõos fezeram tiro, com que matarão dous daquel- 

les 



do Conde D. Pedro. 32$ 

les contrairos : outros começarão de decer contra a porta 
de Madraxabe , efpecialmente vinham alli quatro Marins a ca- 
vallo antre a outra gente , e bem fe podia conhecer fua va- 
lia pela nobreza de feu corregimento ; caa traziam fuás co- 
tas bem limpas , e barretas guarnecidas d'ouro , e de feda , 
com bons cavallos , veítidos de roupa fina ; e eftes por mof- 
trarem a nobreza, que tinham antre os outros y que os fe- 
guiãm fe poferom a pee ; mas o que vinha diante pagou muy 
aíinha aquella divida , que a natureza depois do primeiro 
iPadre ordenou a toda creatura fenfetiva ; caa lhe derom de 
través com hum virotaô pelas coitas , de cujo golpe o cor- 
po fem alma ficou tendido no meio do chaõ : e ao fegundo 
daquelles quatro deraò pelos cuadris , cuja alma em breve 
conheceo o erro de fua danada feita ; os corpos daqueftes 
foraõ logo tirados afora. E tanto que os Mouros forom de 
trás de huma trafpofta , começarão a fazer muy dorofo can- 
to , porque parece , que hum daquelles dous Marins era o 
principal Capitão de toda aquella companhia ; e des y po-«. 
lerom fogo ao juntamento da lenha, que tinhaô apanhada, 
em pêro a gente de pee > que eftava na Cidade conhecendo 
como fe os contrários queriam partir fahirom fora , e trou- 
xeram a efeada , que os Mouros alli trouxerom , ao que os . 
outros acudirão , e volverom-fe hum pouco em efearamuça ; 
mas em breve foraõ tirados per féis , ou fete de cavallo 
daquelles infiéis , que os coftrangêraó , que fe foífem a outra 
companhia ; e aíTy fe partirom com aquelles foliares 7 cad£ 
hum pêra fua parte. 



Tom. II. Ss CAJ 



326 Chronica 

CAPITULO XXXVI. 

Como o Conde no outro dia fahio fora ; e das cou~ 

fas que fez, 

POrque fe o Conde achara muito bem ajudado daquel- 
las gentes , pareceolhe que feria erro nom lho agrade- 
cer j porque outra vez ouveífem vontade de o fazer muito 
melhor fe fe o cazo ofreceíTe : Eu , diíTe elle , bem cuidava y 
que per vojfas forças nao avia de fallecer a ajuda , que a mim 
em tal cazo fojje compridoura j mas porque ainda me nom vi 
em tanta necejjidade ? depois que aqui fomos , como agora , fui 
tal como o homem , que quanto mais cojlrangido he da fome , 
tanto lhe a boa vianda fabe melhor : he verdade , diíTe elie , 
que vós nom eflaes aqui foomente pelo que a mim pertence ; mas 
pela honra da Coroa de vojfo Rey , e pela vojfa própria : pêro 
porque fobre mim pende tanto o carrego defta Cidade , como vós 
bem conheceis , certamente eu vos agradeço muy muito vojfo 
grande trabalho , e boas vontades ; e porque eu per mim nom 
poffo fâtisfazer ao grande galardão , que vós per ejlo mereceis , 
efcrepvello-ey a aquelle que he poderofo de vollo dar 5 notifican- 
do-lbs vojfo merecimento quanto he grande ant*elle , e des y do 
que eu tenho fe a algum comprir alguma parte , feja muito 
certo ? que lho nao ey de negar', e eu vos rogo , difle elle , que 
pois vis Deos quiz dar tam boa fefla , que de manhãa fejaes 
meus convidados , pêra nos alegrarmos todos com a Pafcoa Fh- 
rida, que nos Deos aprefentou. E porque elle era homem de 
grande gafalhado , e que folgava muito de ter fempre fua 
mêfa acompanhada , todos eíTes Fidalgos lho outorgarão , e 
aíiy outros bons^ Efcudeiros , nom fe negando a vianda a 
quaefquer outros por de pequena condição , que foíTem , fe 
a queriam filhar: e comoquer que a fefta foíTe tam grande, 
como he o dia da nembrança da Refurreiçam do Senhor , o 

Gon- 



do Conde D. Pedro. fr^jf 

Conde cavalgou com todo-los , que tinham cavallos, e afly 
mandou , que o feguiíTem os Beelteiros , e gente de pee , e 
fez trazer toda a madeira , que os Mouros tinham na Al- 
jazira, da qual a principal fbma eram trancas , e portas, que 
depois fervirom fobre os muros ; e forom alli achadas quatro 
efcadas de maõ : e porque outra vez os Mouros nom achaf- 
fem colheita naquella cerca , no outro dia foraó todo-los da 
Cidade a derribar algumas cazas , que ficáraõ da outra vez , 
e atupiraó , e danarão quantos poços, e cifternas hy acharão: 
ainda que da morte daquelle Marim , porque os Mouros 
tanto lamentavam , os nonos outro conhecimento nom ouvef* 
fem , foomente parecerlhes , que devia fer grande homem 
antre elles , pois de tantos era chorado, pelo defacordo que 
fe antre elles íeguio , ( o qual foi tam grande , que os fez 
•efquecer da madeira , que alli trouxerom , a qual ao menos 
ouveraò de queimar por naò dar ajuda aos imigos contra fy 
•aneímos, ) foi conhecido , que aquelle devia fero principal 
Senhor, que os regia. 

CAPITULO XXXVII. 

Como o Conde mandou correr Almarca , e Agoa de Rameh 

COmo diz Vegecio , que os cavallos j que continuam 
as guerras fe fazem mais ferozes, e por tempo tornaó 
a fer bravos , e máos de reger : aíTy as gentes , que ficáraó 
€m aquella Cidade , depois que uzárom aquellas pelejas , ano- 
javam-fe muito quando eftavaõ alguns dias , em que naá 
podiaó obrar em feu exercicio ; e afly afadigavam ao Conde 
por ello, comoquer que a elle muito prazia de lhes.fentir 
aquellas vontades , e porem trabalhava fempre de bufcar azo , 
porque feus bons dezejos ouvelTem efeito : e logo acerca da 
partida deites derradeiros Mouros, ordenou de os mandar â cor- 
rer a Almarça , e a Agoa* de Ramel , que eraõ Aldeãs açâz 
afaítadas da Cidade j mandando lá primeiramente os Almo- 

Ss ii ga* 



3*8 C H K O N I € A 

gavares pcra faber da terra , e da ordenança , que os Mou- 
ros tinham em fua guarda ; apartando logo pêra aquelle feito 
Álvaro Mendes Cerveira 3 Ruy de Souza , e Fernam Barreto 5 
Gil Lourenço d'Elvas, e Pêro Vazques Pinto , Joane Annes 
Rapozo , Joham Ferreira , com os quaes mandou , que fof- 
fem feiscentos e trinta homens de pee , e onze de cavallo; 
e porque Álvaro Mendes era mais antigo , e homem , que 
fabia muito nos autos da guerra , a elle foomente cometeo 
a Capitania de todo-los outros : Ora , diíTe elle , vós hy com 
Deos j caa eu ferei muito fedo com efia gente de cavallo , que 
fica , fobre aquelle porto , que ejld em cima da ferra naquelle ca- 
minho , que vem da terra d y Aabu , e de Zaem -pêra vos dar 
ajuda fe vos comprir ; porque pode fer , diíTe elle, que Aabu 7 
eu Zaem quererão acorrer aos me r adores daquellas Aldeãs, o 
que ligeiramente podem faber , ou per fuás fumaças , ou per 
algum dos que efe aparem , ou per ventura ter do fuás Atalayas y 
per que fe ligeiramente pcjfam avifar ; e como fao Capitães em- 
pertos , e avifados , e fabem que nos nunca em ai efludamos fe- 
nao em lhes fazer dapno , bem podem prefumir , que a maneira 
que temos com outros Lugares , teremos com aquelles ; e porem 
acertando de virem contra vós nom poderiam empe cervos , que 
o primeiro nom ouvejfem com nofco ; caa lhes teremos o porto per 
onde elles ham de pajfar , pêra vos hir fazer dapno. E eito 
aíTy ordenado , tanto que foi noite , fahio o Conde da Cida- 
de , e foi com aquellas gentes até em direito d'Aljazira^ 
onde os fez hum pouco deter , como fentio , que cumpria 
pêra feu avifamento ; e des y tornou-fe aa Cidade , e depois 
que proveo fuás vellas , e roídas retraçou-fe pêra filhar algum 
repoufo ; e fendo jaa pedaço da noite paíTada , juntáraõ-fe 
alguns daquelles Fidalgos , que ally eftavaõ dos Infantes , e 
parecendo-lhes , que nom ficavaô como deviam , pois os ou- 
tros aíTy eram enviados fora da Cidade a lugares , em que 
fe efperava , que recebeíTem honra : e porem armáraó-fe muy 
alinha , e forom-fe a huma porta , que eítava nas Taracenas , 
que o maar derribara , a qual nom tinha ainda aquella cer- 
ra- 



bo Comde D, Pedsò. 32o 

fadura , que lhe compria ; e comoquer que lho as guardas 
quifelfem contrariar, em fim nom oufáraó de comprir fobr'el- 
Ío todo o mandado , que tinhaó do Conde , o qual era , que 
naõ menos aos de dentro , que àos de fora defendefíem 
aquella entrada , ou fahida. E certamente que o Conde fe 
ouve fracamente no caftigo daquelle feito principalmente por 
ferem dos Infantes , temendo-fe que chegando com o cafti- 
go até hu devia , que como elles eram mancebos , poíto que 
virtuofos e bons foliem , que os poderia cegar a afeição 5 
e que encorreria em fanha de todos , ou dalgum delles, 
o que lhe ao diante podia trazer dapno ; e des y ajuntou a 
eito a obediência , em que fe aquelles Fidalgos poferom , 
conhecendo feu erro , e pondo-fe em fuás maãos , que uzaf- 
fe nelles daquella juftiça , que lhe mais prouveíTe ; caa por 
fua fahida daquella maneira , os que primeiro eram ordena- 
dos ouverom perigozo aquecimento ; e ainda a vitoria foi 
mais pequena , do que fora , fe aquelles primeiro ouveram 
lugar de feguir fem torva , o que primeiro traziam ordenado : 
efte atrevimento reprehendeo depois EIRey com moftrança de 
grande fanha , no qual procedera com áfpera juftiça , fe o 
Conde nom mingoára per fuás Cartas nas circumftancias do 
erro. Ora tornando ao conto dos primeiros : elles aíTy parti- 
dos da Cidade, comojaa dilTemos , andarão quanto poderom 
em aquella noite ; mas a grande afpereza da terra , e a bren- 
feda da noite naõ confentio , que chegaíTem fobre as Aldêas , 
fenaô parte do dia pairado , que o gado era jaa fora dos cur- 
raes quando elles chegarão ; porem aíTy como jaa era efpa- 
lhado , ouvéraó trezentas cabeças de gado grande , e qui- 
nhentas cabeças d'outro gado miúdo, e aíTy afnos, e egoas 
poucas : os Mouros da terra quizerom empachar aos Chrif- 
tãos por lhe ficarem fuás coufas , e em fim nom poderom; 
no qual cometimento morreriam até vinte daquelles pagãos , 
afora outros muitos , que ficarom feridos ; e aíTy outros que 
trouxeraò cativos , a que a natureza mais negara da ligei- 
rice dos pees : alli acharão muito paó , e vinho ^ e legu- 
mes 4 



33° - C ft R O K I CA 

mes , -e roupa em grande abaftança , as quaes coufas todas 
forom gaitadas per fogo ; e aíly fe tornarão fem outro im- 
pedimento, comoquer que do gado fe lhes quizera perder 
alguma parte pelagraveza da fraga, per que aviam de paf- 
far , pêro acharão por remédio matar aquelle , que fe que- 
ria afaftar da companhia , e alTy morto o levar pêra a Ci* 
dade. 

CAPITULO XXXVIII. 

Como Luiz de Tayde foi fobre huas Aldêas , e da ca- 
valgada 5 que trouve. 

ASy hiremos per nolTa Iftoria pouco , e pouco , até que 
ajuntemos aquelle grande poderio dos Mouros fobre 
a nolla Cidade , e contaremos aqui nefte prefente Capitulo 
a maneira , que teve Luiz de Tayde , hum Fidalgo , que 
era do Infante Dom Pedro , e Pêro Gomes d' Abreu , que 
aaquella Cidade fora com eípecial corregimento aíTy de gen- 
te , como das outras coufas. Onde avees de faber , que aven- 
do o Conde D. Pedro enformaçaô de duas Aldeãs , que 
eram na faldra daquella ferra contra o vai de NegraÔ , orde- 
nou mandar lá feus Almogavares pêra fe certificar do pro- 
veito, que fe nellas podia fazer - y os quaes fendo tornados 
daquella viagem , porque o Conde vio , que fe nom acorda* 
vaó na enformaçaõ , que aviam de dar do lugar , tornou a 
mandar lá outra vez hum AíFonfo Marques , que era homem, 
a cujo dito elle dava grande fee , homem , que jaa vivera 
com EIRey de Fez por continuado tempo , e avia bem ra- 
zão de faber aquellas Aldeãs , porque andara jaa nellas ti- 
rando os Direitos d'ElRey ; e porem levou comíigo alguns 
outrqs de feu miíter , a faber , hú a que chamavaó AíFonfo 
Munhoz , e outro Joham d* Avela j os quaes partidos da 
Cidade forom aquella noite antre as Aldeãs , e viraõ pela 

gui- 



do Conde D. Pedro, 3?t 

guifa , que eram povoradas : e como quer que a tenção dos 
outros foíTe de fe tornarem > Joham d 5 Avela diíTe, que lhe 
nom parecia bem ; porque , diíTe elle , fe tevermos o dia fo- 
br' ellas, poderemos bem avifar quantos fao os moradores del- 
ias , e o dapno , que podem receber , e os gados , que aqui há , 
e per onde fe poderão melhor tirar i o que os outros naõ qui- 
zeraõ outorgar, e tornarom-fe pêra a Cidade ; mas Joham 
d'Avela manteve fua tenção , e repoufou o dia fobre as Al- 
deãs com três homens , que lhe fezerom companhia : e quan- 
do foi depois do meyo dia virom vir três Mouros com trcs 
alhos carregados de paõj e quizero-nos faltear ; mas por- 
que era antre as Aldeãs temerom-fe de cair em perigo , ef- 
capando algum delles , e avifando os outros , de guifa que 
a fim nom podeíTem íahir , como lhes cumpria á fua fegurança : 
e porque logo pela manhãa elle vira fahir de huma das Al- 
deãs hum fato de vaccas , e duas mulheres com ellas , as 
quaes paíTárom alem delles pêra contra a Cidade , dês que 
foraõ horas de vefpera , elles fe meterom pelo mato , em 
que jaziam f e forom onde as Mouras andavaõ , e filharão- 
nas com pequeno trabalho ; pelas quaes o Conde foi avifa- 
do de todo , o que lhe naquelle feito compria faber , em 
pêro logo foi per ellas avifado , que a tenção dos Mouros 
era de fe partirem dalli , o que fariam mais aíinha , faben- 
do que ellas eram tomadas 9 porque creriam , que feria fa- 
bido feu modo de viver , e afíy a cantidade da fazenda : o 
Conde porem mandou lá outra vez \ e porque lhe trouve- 
raó novas , que inda alli os Mouros eftavaõ , determinou de 
enviar fobr'elles todavia, e em fim fez chamar Luiz de Tay- 
de , e diíTw-lhe : Tio Amigo , porque ha dias , que fim per vós 
requerido , que vos leixe fazer alguma coufa per vojfa honra , 
e eu tenho razão de vo-la dezejar per muitas maneiras , orde- 
no , que vades por Capitão d' alguma gente , que quero enviar 
fobre humas Aldeãs , que fao no Valle de Negrai , e hirâo 
com vofco Pêro Gomes d? Abreu , e Mose Martyz de Pomar , é 
Martim Gil Alberte de Rixeca ( eftes eram dous Fidalgos da 

Ca- 



332. Chronica 

Caza d*Aragaõ homens dezejofos de merecer honra , e ho- 
mens de grande linhagem antre os feus naturaes. ) E aíTy 
foy alli Ruy de Souza com amor parte dos de cavallo, que 
avia na Cidade , e com elles trezentos homens de pee ; mas 
a fortuna quizera naquella noite fer favorável aaquella rufti- 
ca gente daquelles infiéis ; caa fobrevierom tantas , e tam 
grandes aguas mefturadas com trovões , e relâmpados, que logo 
no começo diíleraó , que alguns refufárom a hida ; porem 
Luiz de Tayde , com todo-los outfos nobres , todavia de- 
terminarão de feguirfua viagem, e feguirom com elles qua- 
renta e nove de cavallo , e duzentos e vinte de pee ; e quiz 
Deos, que elles partidos , antes que alva fahilfe , ccíTárom 
as chuvas , e o tempo alTecegou , e logo a'cerca fobrevêo a 
claridade, daquella lumieira noturna , que lhes fez muy gran- 
de ajuda ; e andando aíTy per fua viagem ,, chegarão ante 
manhaa fobre a primeira Aldeã , que avia nome Cayde Car- 
ream , mas nom achárom jaa nella nenhuma coufa ; Luiz de 
Tayde encaminhou pêra a outra , porque aíTy fora primeira- 
"mente acordado antre elles , a faber , que Pêro Gomes , e 
os Fidalgos Cathelães foíTem fobre aquella primeira , e Luiz 
de Tayde paíTaíTe trigoíamente á outra, porque per alguns 
dos que fugiíTem nom podeíTem os fegundos receber avifa- 
inento ; aa fegunda daquellas Aldeãs chamavaõ Benaberdaó ; 
mas porque o dia fobreviera jaa, foraõ primeiro viítos , que 
chegaflem ao lugar , pelo qual os Mouros em breve forao 
na Serra tirando feu gado , e o mais que podiam , pêra o fal- 
varem na fragura daquella montanha: porem Gil Vazques.de 
Portocarreiro , e Lopo Vazques , e Diogo Vazques feus Ir- 
mãos , e Gonçalo, Vazques de Ferreira , e Joham de Beeça , 
e Mem Soares , e Pêro AíFonfo , e Lourenço Annes de Mo- 
raes eram diante dos outros hum bom pedaço , trigárom fua 
hida , com a qual encalçáraõ os Mouros , e filharom-lhe o 
gado , e Ôs outros meteraÓ-fe pella Aldeã , e roubarana to- 
da, e aíTy tirárom o outro gado meudo , que ainda eftava 
nas cortes , e filharão hy húa Moura com hum filho peque- 
u no , 






do Conde D. Pedro. 333 

no, e trcs moços pequenos , outros muitos mntárom pelo 
mato, e porque os nom podiam filhar remeíTavaõ-os com as 
lanças , e tiraram daquella cavalgada quatrocentas e dezafeis 
cabeças de todo gado , e de movei boa cantidade. Luiz de 
Tayde ordenou muy bem lua cavalgada , mandando diante 
dous Eícudeiros do Conde , a faber , hum que fe chamara 
'Joham Rodrigues Godinho , e outro Nunes Martins com ou- 
tros dous de cavallo , os quaes chegando aalem do Caftello 
viraó huma foma de Mouros , que lhe pareciam em numero 
de duzentos e cincoenta , ou atá trezentos , e porque lhes 
pareceo , que lhes queriam filhar a dianteira , Nuno Martins 
fe poz íobre hum outeiro , donde bem podia fer vifto da 
Cidade, e começou de fazer hum final , que lhes o Conde 
difíera , ante que partiíTem ; e o outro Efcudeiro tornou a 
avifar Luiz de Tayde, o qual logo fez meter fua cavalgada 
pela praya , e com ella certos homens de pee > e elle com 
todo-los outros afly de pee , como de cavallo meterom-fe em 
ordenança antre os Mouros , e a preza ; e aíTy foram feti 
palio a pafíb, até que chegarão a hum outeiro chaô , quehe 
cm cima do Caftello , e ai li virom , que os Mouros faziam 
fembrante de vir a elles , e Luiz de Tayde muy vivamente 
fez contenença de os efperar, volvendo o rofto contra elles, 
com fua gente muy bem oídenada ; mas os contrários nao 
oufáraô de cometer tal peleja , e deixaraó-fe eftar fobrelo 
lugar, onde ante eram. O Conde d'outra parte era jaa na 
Atalaya com trinta de cavallo , e com elle Gonçalo Annes 
Barreto , e Álvaro Mendes Cerveira , e Ruy Mendes feu 
Irmão , e Joham Pereira ; e quando virom , que Luiz de 
Tayde aíTy ordenava fua gente , entenderom , que lhes com* 
pria fua ajuda : e porem o Conde mandou aos de cavallo , 
que efteveíTem quedos ; e elle com aquelles Fidalgos hiria 
contra onde eftava feu Tio , os quaes achou jaa decendo 
contra a praya aaquella parte , onde o Conde feguia, o qual 
viftp fua boa ordenança mandou , que feguiíTem fua viagem 
e o Conde ficou detrás , até que elles paflaraõ pelo canna- 
7om. ÍL Tt yealj 



334 C H R O N I C A 

veal , os Mouros recrefceraó mais , e chegarom-fe vindo pêra 
humas relvas , que alli eram empero fracamente ; caa nom 
oufarom dalli partir, ainda que açaz eram, e cem boa me- 
lhoria pêra pelejar com os nofíbs , ante fe tornarem cada 
hum pêra fuás Aldeãs ; e aíTy acabou Luiz de Taydc com 
aquelles Fidalgos honrofamente fua cavalgada. 

CAPITULO XXXIX. 

Como os nojjos Almogavares fahiromfóra; e como for om 
dejeobertos dos Mouros ; e da peleja , que antre 

Jy ouverao. 

COmo o Conde cada dia avia novas do que os imigos 
faziam , foube como aquelle grande Marim , que fora 
Senhor daquella Cidade , fe trabalhava de requerer aos Reys 
Mouros, que ouvelTem fentimento de fua tamanha perda , e 
grande deshonra delles mefmos ; e porem queria o Conde ter 
avifamento pêra faber , fe quer cada dia , o que os feus con- 
trários faziam : e porque fe fezerom alguns dias , que naõ 
ouvera nenhua preza , nem foubera muito certo a maneira 
que Çalabemçalla tinha ; mandou a hum Patraó de huma fua 
Fuíla , que fe chamava Bento Sanches , quejaatevera aquel- 
le mefmo carrego em outra Fufta de Cartagenia , que foíTe 
em hum feu Bragantim poer os Almogavares, a faber, a Af- 
fonfo Munhoz , e os outros a hum íalto , que he antre Tar- 
ga , e o Julgado de Benigem , que era no Senhorio de Be- 
tieiçayde todo na Serra da Gomeira ; o qual fazendo o que 
lhe o Conde mandara, tomarão o falto hum pouco ante ma- 
nhaa, poendo homens em terra em guarda do caminho , e 
tomáraõ a atalaya , que era fobre a calla , e dês que foi foi 
levado , acertou-fe de vir hum Mouro á ribeira per outro 
caminho , o qual foi logo filhado ; pêro aos brados , que elle 
dava forom outros avifados , que vinham pêra aquelle mefmo 

offi- 



»o G O N DE D. Pê DR Õ. 33^ 

effido, os quaes vendo de hum têfo o Brágantim conhece- 
rom o que era, e eomeçarom de fe tornar; os quaes Viftos 
dos nofíbs fentiraó , que lhes nom compria alli maior eftada ^ 
c tornados em Cepta , quizera o Conde faber todo , òu par- 
te , do que dezejava: Eu , diíTe o Mouro fao dd Alcabila de 
Bcneçaide , o qual contende com a Alcabila de Beheigem por cali- 
fa de huma moça , que foi tomada do Taymbo , fobre a qual fe le- 
vantou tanto arruido , que fam jaa mortos Cambaias partes bem 
feiscentos Mouros : bem he , diíTe elle , que eu ouvi dizer , que 
fe juntavam Mouros em Fez , e que ham de vir a tanger e ,' 
mais nom Jei pêra que , nem fei outro ceufa , que dizer ; caafe 
a foubejfe , nom ta negaria ; caa pois teu cativo fao ^ e me po- 
des trazer até o derradeiro tormento , nom me vem proveito de 
to negar. Ora , diíTe o Conde contra hum feu Efcudeiro ,' 
que fe chamava Benito Fernandes , que era homem, que fe 
trabalhava de fervir naquelle officio , chamai Álvaro Guifado + 
e trabalhai de me aver outro Mouro ; caa ejle nom me parece j 
que diz coufa , que me faça proveito. Faremos Senhor , dhTerorrt 
elles , o que vós mandais : pêro compre , que nos mandeis dar 
féis , ou fete homens , que faibam dejla fazenda , e que nos mafa 
deis poer ao Cajlello de Metene a hum ribeiro , que nós afjl- 
naremos , e dalli nós hiremos contra Angera aguardar hum ca- 
minho , que f abemos ; e creemos , que dalli vos podereis fervir 
mo que dezejais. E bem he verdade , que fua tençom , e de-* 
iZejo erá bõò fe a fortuna lhes nom dera contrairo aqueci- 
mento ; e feguio-fe , que eíTa noite tomárom a cima da Ser- 
ra de Beneydao , e teverom hy o dia ; e a noite feguinte 
foraó tomar hum cabeço , que eftá fobre hua AldéV, que 
he no começo d' Angera , e fegundo parece , que junto com 
3 fonte, que he no caminho , onde foraô tomar agua , ja- 
ziam as Efcuítas dos Mouros , e ouveraó fentimento del- 
les , e forom logo dar recado a Aldêa, que era tam perto , ; 
que os noíTos ouvirom o ladrido dos cães, quando as Efcui- 
tas dos Mouros chegarom a ella , e aíFy jouveraó naquelle 
cabeço até Vefpera, que virom vir obra de cincoenta Mou- 

Tt ii ros 



33^ .'■■ C H HO NICA 

ros pelo caminho, e chegárom até á fonte ^ e aíli lhe mbí* 
tráram o rofto : Bem he , diíTe Álvaro Guifado contra Johant 
Fernandes , que nos vamos \ caa parece , que fomos def cobertos, 
Nom curees , refpondeo o outro , ca gente he , que pajfa fua 
viagem , dos quaes em perpajfando poderemos aver algum, E ef- 
tando aíFy hum pouco meterom-fe os Mouros per de trás de 
hum cabeço , e vieram nacer , onde os nofíbs eftavao , que 
naó avia jaa outra coufa fenaò lançarem-fe ao mato > e por 
quanto era jaa fobre tarde > andáraó afly per aquella efpefíura 
efcondendo-fe o melhor > que podiam , parecendo-lhes em 
aqUella hora a grandeza do dia muito mayor do que o a na- 
tureza ordenara ; e aíTy andarão efcondendo-fe per aquelle 
mato , até que matarão Joham Fernandes , e dos féis que 
ficaram nom tornárom a Cepta mais que três, a faber , Ál- 
varo Guifado , e outros dous , os quaes fe lançarom pelo ma- 
to mais efpeíTo , que acharom ; e porque fentirao , que lhes 
poderiam tomar os portos , lançarão- fe ao Sertaõ , e hum du» 
rou lá fete dias , e outro treze , eos outros fe cree , que 
morrerão de fame , ou de ferro , pois mortos > nem vivos > 
nunca mais parecerão, 

CAPITULO XL 

Como hum Infante Mouro véo a Cepta ; e do que Je fe~ 

guio per fua vinda, 

A Os nove dias do mez de Mayo mandou o Conde a 
Joham Munhoz com doze homens de feu officio , que 
guardaíTem quatro caminhos , que vinham pêra a Cidade i 
a faber , três homens em cada caminho , e elles por repou- 
farem mais a feu prazer deixarão os caminhos , que lhes fora 
mandado, e lançarom-fe em hum barranco logo junto com a 
Cidade , e jazendo aíTy cerca da alva , virom vir fete , ou oito 
homens de pee , e cuidarom que eram aquelles que foraé 

com 



bo Condi D. Peoroí §37 

com joham Fernandes , e quizerom-lhe fallar ; pêro qurz 
Deós , que conhecerão , que eram Mouros , e abaixaraó-fe 
antre as ervas, e a barroca , em que jaziam $ e leixáraó-os 
pairar, e virom como vinham trás elles até cento e oitenta 
de cavallo ; e como quer que noite foíTe j parece ^ que era 
clara ; caa logo teftemunharom a bondade de feu corregimen- 
to , e tanto que Joham Munho r i vio , que os Mouros paíTavaó 
meteo-fe com os outros per fob a barroca , que eftá na 
praya, e forom fahir á Coiraça , que eftá da parte de Bar- 
baçote , e alli falláraô aos das vellas , que jaa era manham , 
e como contarão $ que virom Mouros logo o rumor foi tam 
grande per todo o muro , até que chegou á porta d' Álvaro 
Mendes , pelo qual começarão de fazer feu acoftumado re- 
pique no fyriOj que eftava na torre i e por confeguinte fe- 
zeraô na outra torre j que eftá no Caftello , e o Gonde co- 
mo trabalhava parte da noite , jazia inda na cama , e cont 
elle MicerMartim de Pomar $ aquelle Fidalgo Catallam, que 
jaa outras vezes nomeamos , e efpertou o Conde aaquelle 
fom com aquella trigança j que cumpria a homem , que tal 
cuidado tinha , e foi logo corregido á preíTa , e acudio fora : 
€ quando chegou a guarda de Lopo Vazques achou hy aquel- 
le Joham Munhoz do qual fabido todo o feito como era , 
mandou logo perceber toda a gente , alTy de pee , como de 
cavallo avifando-os que fè corregelfem o mais fem rumor, 
que elles podelTem , e acabada ília MiíTa , efperou a gente , 
e como teve cento de cavallo partio logo , e dos de peé 
deixou aquelles , que fentio , que poderiam bem guardar o 
muro, e os outros levou; e alli mandou elle a Mosé Mar- 
fim , é a Gonçalo Vazques de Ferreira , e a Lopo Vazques 
de Portocarreiro , e a Diogo Vazques $ e a Fernam Rodri- 
gues de Buarcos , e a Ruy Vazques Alcoforado , e a Diogo 
Gil feu Eftribeiro > que foliem defcubrir ; mas que riom def- 
çubriífem mais , que até Atalaya ; e poftoque riada nom vif- 
fem , que tornaíTem a elle, porque entendia de eftar junto 
com acima do outeiro : mandando outro fy hum barco pelo 

mar 



•338 GhRONICÀ 

mar da parte de Barbaçote pêra ver fe defcubririam os de 
cavallo, que daquella parte jaziam; e em efto fe ajuntárom 
todo-los da Cidade, e o Conde chamou os Fidalgos, e os 
outros , que eom elle aviam de hir , e os outros mandou 
cada hum a fua guarda , e des y partio pêra fora onde tinha 
ordenado , e rèpartio os de cavallo como entendeo , que cum- 
pria , chamando logo Joham Lopes d'Azevedo , e Ruy Vaz- 
ques Pereira, e Martim de Crafto , e com elles até vinte e 
féis Efcudeiros de fua Caza , e meteos trás hum valle, avi- 
fandoos ^ da maneira que aviam de ter : E vós, diíTe elle, 
Martim Vicente ( que era Contador d'ElRey em aquella Ci- 
dade ) eflai jòbr^eftes por Atalaya pêra avifardes aaquejles que 
fayam avifados pêra fazer àapno aos contrairos. E em efto fa- 
hio o Conde per cima per huma lomba j e Joham Lopes 
com elle , e a efte ponto lhe fezerom os defeubridores linal 
como viam os Mouros , e o Conde acenou , que vielTem a 
elle pêra faber como eftavam , e de que guifa ; e em efto 
chegou outro homem , que o Conde mandara eftar fobre hu- 
ma barroca , e dilTelhe como vira dous homens com dous 
capuzes vermelhos : Ora vay , e trna , diíTe o Conde , e tan* 
to que os vires mover dá recado aaquelles , que jazem na cil~ 
lada. Senhor , diíTe outro, que fora na barca , os de cavallo, 
que parecerão me parece , que Jèrao até mil , afora a gente de 
pee , que nos pareceo /em conto. Aili foi o Conde a fallar a 
Mosé Martim , e aos outros , que jaziam na cillada , e dif- 
felhes, que por quanto a gente lhe parecia , que era muita, 
que elles nom fahiíTem dalli , até que os noífos de cavallo 
rom paíTaíTem por elles , e eíTo mefmo os Mouros j e que 
aaquelle tempo fahiíTem, e que per elTa guifa faria elle com 
os outros, que eram do outro cabo, e que a fahida foíTe a 
roais rija , e a mais junta, que elles podelTem , e que dando 
aíTy rijamente fobr'elles , que entendia , que per muitos > qiie 
foliem , que fe lhes nom poderiam ter , fendo Deos em fua 
ajuda, e que per força volveriam as coitas. E avifai-vos , dif- 
ie elle , que a hiua feja até pajfar a Atalaya , e mais nom , e 

dal- 



do Conde D. Pedro. 339 

dalíi soltai ; e fe por ventura os Mouros tomarem após vós , 
fareis entra volta com elles em cima do chão ^ que ejlaa fobre 
a porta de Fez. E avifados afTy aqueftes , diíTe o Conde a 
Diogo Gil , e aos outros , que primeiramente mandara def- 
cobrir , que foíTem cada hum a fua cillada , e cada hum def- 
cubra fua ; ca os c avalio s , que trazees fao taes , que vos ti- 
rarão de perigo : e vós outros , diíTe elle , ficai arredados ajfy 
como foftes da primeira , pêra os recolherdes a vós fe o reque- 
rer fua fortuna ; e trabalhai , que cemo os Mouros fahir em , que 
vós fayaes tam a prejfa , que os Mouros nom pojfam vir fenao a 
rédea folta trás vós. E entam fe partio dalli pêra onde efta- 
vam os outros de cavallo , dando-lhes aquelle mefmo avifa- 
mento , que dera aos outros : e em efto começárom os Mou- 
ros de fahir , conhecendo como eram defeubertos , e tanto 
que forom direito donde eram os outros noflbs de cavallo , 
fahiraõ afíy de hum cabo , como de outro , e elles volverom 
as coitas , e aíTy os leváraó os Chriftãos , até que paíTáraõ 
a Atalaya ; porem alli nom eram jaa mais dos noflbs , que 
quinze , ou dezaíTeis de cavallo , e de neceífidade foi alli a 
volta muy grande , e tam mefturados hús com os outros , que 
fe filhavaó a braços , e em efto começou á cillada dos Mouros 
a vir per hum chaó , que alli ha , e feriam , fegundo per todos 
foi julgado, até quatrocentos e cincoenta de cavallo , ou qui- 
nhentos ao mais , toda gente eftremada em feus corregimen- 
tos, em tanto que pareceo a quantos alli eftavaò , que nun- 
ca inda virão gente aíTy corregida. Os noflbs vendo como 
o feu conto era deíigual pêra fofter tamanha foma fezeraó 
a volta, e quando chegarão a humas paredes, donde ouve- 
raô de volver , nom fe teverom ally mais de três ou qua- 
tro ; porem aquelles aíTy poucos como eraõ , tornarão a el- 
les e fezeraò voltar atras hum pedaço ; mas os Mouros co- 
nhecendo como eram empuxados de tam pequena foma , vol- 
tarão outra vez muy rijamente, e correrom com os Chriftãos 
até onde chamam as Covas , onde tinham os Beefteiros , e 
dalli fezerom outra volta fobre os imigos com tal força , que 

05 



34° Chronicà 

os fezeraõ tornar atrás muy grande efpaço até onde vinha lua 
gente de pee, nom fem danno delles: e porque aaquella fa- 
zaô nom era ferragem em Cepta , alguns de cavallo ficárom 
na Cidade , e nom eram fora mais , que cento , e três , pelo 
qual falleceo naquelle dia de os Mouros ferem desbaratados , 
como quer que açaz levarão de danno; caa lhe matáraó alli 
o feu principal Capitão , que era Infante com outros muitos , 
que o fe guiam d' a cavallo , o que trouve pouco proveito a al- 
guns noífos; ca de cinco Chriftãos , que alli forao mortos 
aquelle dia , os dous forom mortos com cobiça do bom cor- 
regimento dos Mouros , que jaziam no campo , e foy aíly ; 
que daquella tornada , que os imigos fezeraõ , quando encon- 
trarão os de pee , hum daquelles de cavallo fe adiantou , ho- 
mem experto , e bem corregido , e começou de bradar dizen- 
do : (*) Amozallamim Amozallamim , que quer dizer Mafoma 
Mafoma ; e fez aballar os feus per tal força , que os nolTos 
fe virarão outra vez recolhendo até ás covas : alli morreo 
hum Efcudeiro de Malhorca6 , que o Conde alli fezera Ca- 
valleiro, o qual morreo ao pee da Atalaya , porque cahio 
do cavallo : outro Efcudeiro do Conde morreo alli , que avia 
nome Rodrigo Annes , e em efta derradeira volta matárom 
outro, cujo nome efqueceo aaquelles de que recebemos avi- 
famento pêra efcrepvermos aquefte Livro ; pêro tanto fou- 
bemos , que todos eftes três morrerão como homens de gran- 
de fee , e de nobre coração; mas os outros dous acabarão 
vilmente , porque cobiçofos do corregimento , que viam aos 
Mouros , deciam-fe dos cavallos , nom tendo ainda os imi- 
gos afaftados da Cidade. Andarão afíy os Mouros efeara- 
muçando ate meyo dia, que fe começarom a recolher, e par- 
tir muy calados como homées muy fentidos de fua perda. 
Quizeraó os de pee tallar alguns páes , que citavam acerca 
da Cidade , mas os de cavallo lho naó quizeraó confentir , 
ante os afaftáraó com moftrança de grande lanha; e afly fe 
partirom chorando feus mortos , que levavam atraveíTados nos 

ca- 

(*) Almoslemin quer dizer Maometanos* 



do Gònde D. Pedro. 341 

cavallos ; e porque a fortuna ufaíTe de feus movimentos co- 
mo tem coftumado , em efte mefmo dia pedirom a Johani 
Pereira nove homens licença pêra hirem a Bulhões , e fahi- 
raó a elles dous Bragantins , e filharãnos todos ; e também 
fe veio a Gepta hum Gavalleiro Mouro , com hum feu ler- 
vidor, pêra ficar com EIRey, e foi roubado acerca da Alcu- 
dia , e a caufa de fua vinda era , por quanto elle paflara de 
Graada pêra Bellamarim com Mulley Aaco , a que alguns da- 
quelles principaes tinham pofto em efperança de conítituir em 
Dinidade Real , e entaÒ* matarãno outros , que mais pode™ 
raõ y que aquelles , e a que mais prazia de fazer outro Rey ; 
e efte vendo a crueldade , que fezerom em feu Senhor , fol- 
ie a Cepta , tomando por Vingança em ajuda aos Chriftãos á 
guerrear aaquelles Africanos ; pêro pouco tempo efteve alli , 
porque de feu Reyno o vierom chamar, e elle efpedido corri 
mercê, e graça do Conde,, fe tomou pêra donde viera* 

CAPITULO XU 

Como os Mouros vier ao acerca da Alminay e dos ho~ 
mens que filharão? e do que o Conde fobf ello fez. 

LOgo nefte mefmo mez o Conde mandou Diogo Vaz- 
ques de Portocarreiro em hum feu Bragantim a avifar 
hum Aduar , que era em terra de Benyçaide , pêra ter hum 
caminho junto com huma calla, a qual eftada era bem fegu- 
ra y f e a Atalaya primeiro podeíTe fer filhada ; e por moftrar 
alguma côr a fua hida mandou o Conde , que levaffe hum 
feu Mouro , que era daquella mefma terra , e ganhada a cai- 
la , lançarão fora onze homés , os quaes filharão primei- 
ramente a Atalaya, e lançados no caminho , jouveraó alli 
todo o dia , que nunca fe acertou palTar por alli nenhum ho- 
mem , foomente que virom paíTar per outro caminho até Vin* 
te Mouros , e Mouras m y e porque o caminho era afaftado dal- 
Tom. 11. Vv li 



34* C H R O N I C A 

U nom os oufaraó de faltear , nem hir a elles , e afly jouve^ 
rom todo o dia, e avifárom muito bem o Aduar, a que en~ 
tendiam de fazer tornada ; e eftando jaa pêra partir viraô 
largo ao maar pêra contra onde elles eftavam huma vella la- 
tina , a qual reconhecendo , que era Caravo vogarão a elle ; 
mas tanto que os Mouros conhecerão o que era , qujzeraó 
vir a terra , e os noflbs vendo fua tenção meterom-fe antr'el- 
les e a praya , e iguaraó o Caravo , e filharãno alli , no qual 
acharam oito Mouros , com outras coufas de boa valia ; e 
filhada alTy efta preza tornaram-fe acerca de terra , onde a 
praya nom eítava vazia de contrairos , antre os quaes anda- 
va o Alcayde de Benaçaydete com quatro de cavallo , alli 
fez Diogo Vazques tirar o Mouro , que levava pêra refga- 
tar , o qual chamou hum feu filho , que citava antre os ou- 
tros , requerendo , que aceptalTe de ficar em arrefés , até 
que elle podeíTe ajuntar fua rendição , o que o filho de boa 
vontade confentio dizendo ; » que poítaíTe fuás coufas a feu 
prazer , que elle nom podia foportar trabalho , que nom ou- 
veíTe por gloria , penfando que o fazia por tam maviofo Pa- 
dre , como fempre fora pêra elle : neo Mouro tanto que te> 
ve o filho poíto por fy, foi logo fallar ao Velho daquella 
terfa , o qual como foube , que alli era Diogo Vazques foi 
logo á praya , rogando , que lhe prouveíTe vir no batel a 
lugar, que fe podelTem fallar, o que Diogo Vazques fez de 
boa vontade ; avifando-fe porem , do que lhe pareceo , que 
era razap. Nobre Fidalgo , diíTe aquelle Mouro , eu Vos rogo i 
que por vojfa gentileza vos praza , que digais ao Conde , qii9 
eu lhe peço por mercê , que elle me haja em fua encomenda , c o- 
mo coufa fua\ e que fegure mim , e meus portos ; caa vivemos em 
grande trabalho com a continuada guerra , que nos faz , e que 
eu o quero fervir , com o que tever , e farei todo o que me elle 
mandar. Diogo Vazques diíTe : » Que lhe prazia muito de 
cumprir todo o que lhe elle rogava, » Quizera o Conde , 
que elle ficara por VaíTallo d'ElRey de Portugal , e lhe re- 
conhecera aquelle Senhorio , que fazia ao feu Rey : O 

Mou- 



DO GONDÊ D, P E D fc &. 343 

Mouro diíTe : Que ilTo faria de boa vontade ; mas que 
ientia, que o Conde o naó poderia livrar do danno , que 
lhe EIRey de Fez por ilTo poderia fazer , nem lhe avia de 
conhecer razaô , que lhe nom tomaíTe a terra , e que por el- 
lo o deixava de fazer : comoquer que açaz dapno recebeo 
o Mouro depois em fua terra , e em fua fazenda. E aca- 
bo de dous dias que efte Caravo foi em Cepta , mandárom 
os Mouros fuás Fuftas , a faber , húa de quinze bancos , em 
que hia hum valente Cofairo Mouro ^ a que chamavaó o Ef- 
narigado , e outra de treze , em que andava outro Cofairo , 
e afíy outra de doze bancos , as quaes ante manhãa derao 
efcalla em terra, onde fe acaba o muro d'Almina em huma 
calla, que he da parte do levante ; e acertou-fe , que as 
Efcuitas , que alli eram adormecerom ; caa era jaa contra a 
vella da manhãa , onde o fono mais carrega aos homens ; e 
os Mouros jouveraó afíy até que foi dia claro , que as Ef- 
cuitas fe forom a pefcar fora do muro , e outros quatro ho- 
mens , que vinham a tirar covos , forom-fe aaquella mefma 
parte , onde os outros eítavam , e os Mouros vieraó de trás 
elles , e filharanos , e dous homens , que guardavaô a outra 
ealla de contra a Cidade ouvirão delles , e olharão com feu 
régua rd o , e quando vixom os contrai ros ^ começárom a fu- 
gir, e a bradar ; e os Mouros, que ouveraõ delles vifta co- 
meçárom de o feguir , e em efto fobrechegarom outros ho- 
mens , que hiam ver fuás fearas > e teverom-fe todos , e os 
Mouros nom oufárom chegar a elles : forom eftas novas a 
Fernam Barreto , em que cahira a forte daquella guarda , o 
qual muy em breve foi pofto a cavallo , e com elle açaz d'- 
Efcudeiros , e Beefteiros , com que pêra tal tempo hia bem 
acompanhado ; e des y mandou logo recado ao Conde : e 
quando Fernam Barreto chegou ás Fuftas eram jaa largas da 
terra , e citavam a remo levado fobre a ponta , começando 
as noíFas de vogar d'arredor. O Conde era jaa levantado , e 
tanto que lhe o recado chegou , afly foi logo pofto a cavallo ^ 
e com elle muitos dos feus , a que fora encomendada a guar-à 

Vv ii da 



344 C H R O N I C À 

da da erra o dia paíTado , comoquer que o Conde nom quiz i 
que elles leixaíTem fua ordenança , e des-y-er acudirom os 
outros , que eftavaó na Cidade ; e quando o Conde fahía pe- 
la porta d'Almina fez-lhe hum homem final da cima , como 
as Fuftas jaa eram de parte de Barbaçote ; e fendo o Con- 
de no foíTario dos Mouros vio as Fuftas dos contrairos , e 
foube per hum Gonçalo Godinho d'ElRey, que huma del- 
ias pofera homens a hum poftigo junto com huma Mefqui- 
ta , que he no primeiro Vallc , e que quando o virom , aífy 
vir , que i*e tornarão outra vez á fua Fufta. E entom p afluin- 
do aífy eftas coufas Diogo Vazques Portocarreiro , aquclle 
nobre homem, e que tanto ferviço fez em aquella Cidade, 
muy trigofamente aparelhou feu Bragantim; e em chegando 
o Conde a Barbaçote junto com a coiraça topou com elle : 
Como fora bom , diíTe o Conde , fe poder ais trigofamente ar- 
mar vojfo Bragantim pêra empachardes andando eflas Fuftas , 
ata que fe armem outros Navios maiores. Senhor , diíTe Diogo 
Vazques , preftes eftaa , e jaa nao efperava outra ccufa , fenaõ 
aver vojfo recado, E porque as Fuftas trefpontavao jaa pe- 
los penedos , que eftam na primeira vifta : Hy , diffe o Con- 
de , e vogai a elles , e tanto que fordes acerca delles dai-lhe a 
poupa , e reconhecee o Bragantim do remo , e tirai- lhe com 9 
trom , e com as beeftas , e fe virdes que o vojfo Bragantim he 
mais leve de remo , que alguma delias , andai fempre a par das 
Fuftas empachando-as por fe nom hirem , e eu hirei em tanto fa- 
zer armar as outras. Diogo Vazques era homem bem deftro 
naquelle mefter , e abaftavalhe o coração pêra fazer qualquer 
coufa trabalhofa , por muito perigofa , que foíTe : o Conde 
mandou logo fazer preftes duas Fuftas , que Joham Pereira 
hy tinha , e mandou aos Alcaides , que as aparelhafTem , e 
que diíTeíTem logo a feu Senhor , que fe meteíTe em huma 
delias : e em efto chegarom Fernam Gonçalves d' Arca , c 
Martim de Crafto , pedindo ao Conde , que os leixalTe hir 
em ellas , o que lhes de boa vontade foi outorgado , man- 
dando armar outra Fufta , que hy eftava de Mosé Martim : 

Ora, 



i>o Conde D.Pedro. 34? 

Orã.j diíTe elle, vós hy affy o mais acaroados com à terra , 
que poderdes , e eu mandarei a dous de c avalio , que vos façam 
final de cima do monte. Partio-fe o Conde dalli , e foi da ou- 
tra parte de Barbaçote , e mandou a Mosé Joham , e a Jo- 
ham da Veiga , que botaíTem logo outro feu Bragantim , 
que eftava varado em terra , o qualem breve foi preftes , e 
quatro Barcas pequenas, nas quaes mandou Beefteiros , fe- 
gundo a grandeza de cada huma , e des y que efteveíTem 
affy preftes , até que chegaíTem as outras Fuftas. E Diogo 
Vaz entre tanto nom fazia fe nom empachar os contrários , 
huma vez chegando-fe a elles , e outra vez lhe fugindo; e 
quiz Deos, que os Mouros ouverom vifta de duas Barcas, 
que andavam a pefcar contra o Cannaveal , e vogarão a ellas ; 
peroo com toda fua trigança nom lhe poderom fazer nojo j 
porque a huma foi de todo a terra , e a outra ficou arrom- 
bada em huns penedos per aquelles , que a traziam: e por- 
que os de cavallo feguiraó pêra lá pêra lhes dar focorro , 
acertou-fe que em correndo dous cada hum per fua vez ca- 
hirom , e os Mouros tendo néllo fentido paíTarom as noíTas 
Fuftas per Barbaçote, e Diogo Vaz vêo fora per pólvora ao 
almazem, e des y poer hum homem, que trazia ferido em 
terra ; e o Conde mandou aos de cavallo , que ficaíTem alli , 
e elle foi dar avifamento atas Fuftas: Ora, diíTe elle, aqui 
nom compre tardança , vós Joham Pereira , e Mofe Joham de 
Salla-Nova envefti a Fujla maior , e vaa com vofco duas Bar- 
cas , que andam a recofo , e vos ajudem como comprir \ Mofe 
Martim vaa a enveftir a outra Fu/la per outra banda , ou lhe 
tirem de través ; e Diogo Vazques envifta a outra , (fue he a 
mais pequena ; e de tanto vos avifai , diíTe elle , que todos en- 
*viftais juntamente. As Fuftas dos Mouros forom-fe lançar ao 
Caftello de Metene em huma angra , que alli eftaa , e tan- 
to que Diogo Vazques , que hia diante chegou , deteve-fe , 
e aguardou as outras Fuftas, e Barcas, e como forom jun- 
tas , parece que os Mouros fentiraó- fua vinda , e hum 
delles quizera arvorar; mas aquelle feu principal Capitão, 

que 



34^ Chronicá 

que fe chamava o Efnarigado bradou per tal guifa , que à 
ouvio e entendeo AíFonfo Munhoz, onde eftava com Nuno 
de Góes na praya do Caftellejo , dizendo aos outros , que 
» efteveíTem quedos , e que nao temeíTem os Chriftãos ; caa 
y> homens eram como elles , e que os leixalTem chegar , e 
» achariam quem lhes moftrafTe , quanto havia de bom Mou- 
» ro a bom Çhriftaó. lEem efto chegarom as Fuftas , e 
começarão de as feguir , e andando jaa hum Barincl de re- 
guardo , porque fe lhe compriíTe ajuda , que lhe podeíTe 
aproveitar, e finalmente os Mouros nom curarão das pala- 
vras , que o Eíharigado dizia , porque fe virom tam apref- 
fados , que leixárom as duas Fuftas , e faltárom em terra , e 
em huma delias matáraõ os Chriftãos , que levavam , e na 
outra foi a fortuna mais favorável pêra elles ; porque quan- 
do lhe quizeraó fazer dapno , chegarom as noffas Fuftas 
tam acerca , que lhe nom derom vagar pêra ello , e afly 
efcapáraò per aquella vez ; e eftes Chriftãos eram aquelles , 
que os Mouros tomaram na Almina , como jaa diffemos : a 
terceira Fufta fe lançou no «Rio de Benamadem , a qual bem 
fora filhada , fenaó porque Diogo Vazques nom levava 
tanta gente como da primeira , porque leixára da fua com- 
panha alguns nas Fuftas , que tomárom , e des-y-er os outros 
cançavam; e fobre todo , porque Diogo Vazques vio mui- 
tos Mouros na praya , e conheceo , que fe foliem dentro y 
que o Bragantim nom poderia girar. Huma deftas Fuftas fi- 
lhadas ficava arrombada , e foi o Conde depois por ella ; 
caa eram efpeciaes dous Navios , e com que os Mouros aa 
diante receberão grande danno. 



CÁ- 



bo Gonde D. Pedro, 

CAPITULO XLII. 

Como o Conde mandou armar as Fuftas ; e das coufas £ 

que tomàrom. 

O Conde muy ledo com aquellas Fuítas^ que lhe Deoâ 
alTy trouvera , coníirou que naó era bem r que alli ef- 
teveíTem ouciofas , e porem fallou com Joham Pereira j por- 
que alem de fer honiem efpecial em feito d'armas , avia o 
principal Senhorio de duas Fuítas , confelhando-fe com elle , 
da maneira que lhe parecia , que teria em fua armação : e 
porem Gonçalo Vazques de Ferreira foi logo chamado , ao 
qual o Gonde contou a tenção , que tinha , as quaes novas 
fabidas per Martim de Crafto pedio ao Gonde , que o lei- 
xaffe hir naquella companha ^ o que lhe graciofamente foi 
outorgado , e Diogo Vazques de Portocarreiro foi avifado j 
que fe fezeíle preftes ; e com eftes fé ajuntarão Lourenço 
Annes de Pádua , e Joham Martins ^ que eram Capitães de 
fenhos Barinees , e feita a conferva de fua partilha , o Con- 
de lhes dilTe : amigos , minha tençom he , que como ó tempo 
tornar ao Ponente ? que vós vades fobre o Porto de Mallaga ; 
caa , a Deos graças , hys bem pojf antes pêra qualquer acaeci- 
mento , que vos avenhà , ajjy de Fuftas , como de Capitães ; caa 
vai aqui Joham Pereira meu Compadre em fua Fufia , que hé 
homem de nobre linhagem , e de grande esforço ? e ardimento ; 
e vai Gonçalo Vazques , que he tal como fabeis , e leva a Fuf- 
ta que foi dós Mouros ; e ajjy Joham da Veiga , que leva 
fua própria Fufia , o qual fom certo , que tem tanto dezejo de 
fervir a EIRey , que por elle nom pajfarâ coufa , que nao con- 
venha a bom homem ; pois de Diogo Vazques averia eu por ef- 
cufado de vos contar a nobreza de feus feitos , pois os vedes ca* 
da dia por olho , efle leva aquelle pequeno Navio , em que lhe 
Deos deo tantos , e tam bons aquecimentos como fabeis : Sento 

San- 



•O CHRONICA 

Sanches vai no outro meu Bragantim , que nao he menos de bom , 
que o de Diogo Vazques \ pois da bondade de feu Capitão eu te* 
ria bem que dizer , e vós que ouvir , fe o vós nao tevejfeis 
conhecido. Os Barinees , e os Capitães delles conhecidos os ten- 
des j pois cada diâ ca/y com o Olho vedes feus feitos: ora , dif* 
fe elle podeis ver qual fera o Navio , ou Navios de Mouros , 
que fe vos pojfam defender : hy com Deos , diíTe elle , e fe em 
Màllaga nao achardes nenhuma coufa , correi de longo pela cof- 
ia , até o cabo de Gata , e da hy tomai a volta da Berbéria , 
ou da huma parte , ou da outra fera necejfario achardes algu- 
ma preya. Alli fe acordárom os Capitães , que pofto que as 
Fuítas foíTem partidas per tempo contrairo huma das outras , 
que até que tornaíTem aaquelle mefmo Porto , que a qual- 
quer bom aviamento , que lhes Deos délTe , que todo foíTe 
comum , falvo fe algum tornalTe , e fe abitalhaíTe de novo , 
e quizelTe hir bufcar íeu percalço, que tal como efta , nao 
entraffe mais na partilha dos percalços das outras , nem as 
outras com ella. E aquella noite ouverom logo de partir ; 
mas porque era tarde diíTeraó alguns , que o deixaíTem pê- 
ra Domingo a noite : em peroo naquelle mefmo feraÕ Joham 
Martins requereo licença ao Conde , e diíTe i que queria hir 
fobre a coixa do monte de Gibraltar ; eaa poderia fer que 
viria algum Navio ; e o Conde lhe deo licença pêra ello , 
e lhe mandou , que fe tornar nao podelTe , que todavia ou- 
vcíCq a Bahia de Gibraltar, porque as Fuftas o hiriam buf- 
car : partio todavia Joham Martins com feu Barinel efla noi- 
te , e foi aamainar aalem a fobcoixa do monte ; e fobre o 
quarto d'alva conhecerom vella , que vinha contra elles , e 
nao quizeraõ guindar por nao ferem viftos dos contrairos , 
e quando jaa chegou acerca do Barinel , Joham Martins ti- 
nha lançada fua barca fora ; caa o reconhecêrom por Cara- 
vo , e entenderom , que fe lançariam em terra , como de fei- 
to provárom ; caa quando Joham Martins mandou desfaldrar 
fuás vellas , os Mouros ouverom vifta delles , e quizeraõ vo- 
gai em terra 3 mas o tempo acalmou ^ e Joham Martins fez 

me- 



do Conde D* Pedr o. 



349 



meter remos ao Barinel , e em breve foroni fobr s elles. Mas 
por certo, os Mouros nom quizerom afíy preguiçofamente fer 
vencidos , nem como homés , em que naó havia alguma par- 
te de nobreza; caa de quinze que eram nom ficou algum, 
que naó fofíe fobre cubcrtâ ? moftrando aos Griítãos , que 
naó aviam alTy ligeiramente de fojugar feus. corpos , e ave- 
res ; em pêro fua fortaleza lhes nom aproveitou nada ; ca o 
Navio foi logo fobr'elles , e fenr muita peleja foraó filha- 
dos : hum daqúelles Mouros faltou na agoa , remeflado , 
e ferido , e em fim o filharom com a barca , o qual depois 
guarecèo em Cepta, oríde o levàráó corri os outros: è jáa 
efte Caravo efcapára a Diogo Vazques duas vezes ; caa an- 
dava a trafego de mercadoria. Naquelle Domingo fobre á 
noite partirão as Fuftas , e Barinees j e fezerom via de Gi- 
braltar j e os das Fuftas do Conde oúveraó a coixa do mon- 
te , e as outras correrom contra Mallaga : e jazendo eftas> 
duas largas ao mar , viraó vir contra Mallega hum Caravo £ 
que vinha carregado de louça j e tanto que o viraó , forom 
irás elle até a coixa do monte , onde o fezerom encalhar em 
terra , os noflbs eíTo mefmo faltarom logo com elles , e co- 
mo quer que jaaalli foíTerri quinze de cavallo , e até quaren- 
ta de pee : ferirom porem hum daqúelles de cavallo , e dos 
outros quatro , trouxerom o Caravo com toda fua carrega ^ 
e acertou-fe , que naquella fazaó paíTavaó as Galléz de Ve- 
neza pêra Frandes , e oúveraó muito prazer quando viraó 
como traziam aquella preza , fazendo muita cortezia aos Ca- 
pitães das Fuftas , louvando muito a EIRey de Portugal pe- 
la continuação da guerra $ que fazia contra os infiéis. Do 
que eítas fullas , que aíTy partirom de Cepta mais fezerom, 
nom avemos que efcrepver $ foomente que foraó fobre o 
Porto de Tanger , e naó achárom nenhuma coufa , fenaó hum 
Caravo > que fezeraó encalhar fobre huns penedos j onde fe 
perdco com toda fua mercadoria : é foraó a Alcácer pêra 
fallar fobre refgate de Mouros , e quizerom os daquella Vil- 
ela filha-los alli por arte ^ armando d'outra parte duas Fuf- 
fom. II. Xx tasj 



gy$ Chkoiíica 

tas ; emperoo Diogo Vazques drflera a Joham da Veiga ^ 
que fazia com elle conferva , que ficaíTe de largo, e acer- 
tou-fe , que aquelle vio como fahiam as Fuftas d'outro ca- 
bo , e fez íinai a feu companheiro , o qual fe efpedio em 
breve , e por pouco que o naò filharão as Fuftas dos Mou- 
ros , e aífy fe tornarão pêra a fua Cidade* 

CA PITULO XLIII. 

Como Diogo Vazques , e Fernam Guterres foram a Ta^ 
gacete ; e das coufas que fezerom. 

POrque Diogo Vazques era homem deliro em feiis fei- 
tos , fempre o Conde o acupava em ferviço de Deos , 
e do Regno ; e porque hum daquelles cativos , que o Con- 
de tinha lhe dilTera, que lhe daria hú bom lugar pêra fal- 
tear Mouros fe o forrafíe, mandou o Conde a Diogo Vaz- 
ques , e a outro Efcudeiro a que chamavaó Fernam Guter- 
res , que foífem em feus Bragantins provar aquelle falto , o 
qual era em Tagacete : e partindo aqueítes de Cepta , por- 
que o vento era efcaflb , ora fe ajudavam dos remos , ora 
das vellas , foi-lhes neceíTario amanhecer muito áquem de don- 
de aviam de tomar o falto , efpaço de quatro legoas : e por- 
que logo forom defcobertos , diffe Diogo Vazques contra 
feus parceiros, foífem a Targa, que jazia arite elles , e que 
alli f aliariam fobre alguns Mouros , que o Conde tinha feus , 
que hiriam refgatar. Chegarão ao lugar á hora da Terça , 
e os Mouros vierom logo á ribeira , e começárom de fallar 
com elles, dos quaes três vieraõ a Fufta de Diogo Vazques, 
e aceitárom o convite $ que lhes foi dado *. e falláraò no ref- 
gate dos Mouros , fobre o qual ficarão avindos , e efteve- 
rom aífy até hora de Vefpera, e em fe efpedindo dos Mou- 
ros , vio Diogo Vazques como dous vinham correndo de 
contra onde elles ouverom de tomar o falto : Certamente , dif^ 

fe 



C 



tro Conde D. Pedro. 35-2 

fe elle } eftes Mouros , que ajfy vem aprej/ados , naS pôde fer 
outra coufa fenao , que tem algum Caravo caa acima contra o 
levante em alguma calla : e os Mouros , que eftavam com el- 
le pcrguntáraó4he j que via queria levar; e elle diíTelhes , 
que via de Gepta. E porque Fernam Guterres fe vinha jaa 
pcra a Cidade fez-lhe Diogo Vazques final , e feze-o tor- 
nar, contando-lhe a prefunçaò , que tinha j e movêo-o que 
foífem contra aquella parte; e hindo aíTy fuá viagem, naò 
muy longe , paliando Diogo Vazques huma ponta , porque 
hia diante, vio jazer muitos panos de linho eftendidos , é 
huns déz Mouros ; que os andavam apanhando , è Diogo 
Vazques foi logo de popa com o Bragantim a terra , c fal- 
tou com fua gente fora , e jaa quando o outro Bragantim 
chegou, jaa òsí homens cie Diogo Vazques tinham mais de 
cem peças no Navio ; e des y os outros como chegárom co- 
meçarão d'apanhar por fua parte : e aíTy recolherom a feus 
Navios duzentas e vinte c fete peças de pano \ e em tanto 
fe o pano apanhava, dous homens de Diogo VáZques pele- 
jarão com os Mouros , e matarom hum delles com hum vi- 
rotaò > e iílb mefmo hum dos Chriftãos recebeo huma ferida 
em hum braço , peroo fem perigo, nem aleijão. Diogo Vaz- 
ques fez recolher fua gente i porque vio què os Mouros re- 
creciam das Aldeãs , pêra a ribeira ; e des y fezerom viagem 
contra Tagacete , pêra o avifarerh fe poderiam alli depois 
fazer algum falto , e efteveraó ante a Villa ^ até que foi 
noite cerrada , por tal que os Mouros hom ouveíTerh vifta 
delles pêra onde hiam ; e des y fezeraõ via de Geptá fem- 
pre ao longo da coita : e porque Diogo Vazques jaa anda- 
ra por alli i e fabia hu falto onde fempre foya d'andar ga- 
do a pacer , paíTou a diante tanto acaroado com a terra , que 
nunca foi vifto , e quando achegou ao lugar onde fabia , que O 
gado podia fer achado j lançou fora oito homens mojtran- 
do-lhes o lugar onde fe lançaíTem : porque ± diíTe elle , fey £ 
que tanto que eftes Mouros ouvejjem vifta de mim , que ham 
de decer contra a ribeira y e nom tem per onde vir , fenao pet 

Xx ii oti- 



352 Chronica 

■onde vós ave es tfeftar^ alli podereis tomar alguns: emperoo 
os Mouros nom vieram , e Diogo Vazques como chegou , 
Femam Guterres fez vogar fua Fufta recolhendo primeiro 
feus homens ; e em fendo jaa dalli afaftados quanto podia 
fer hum lanço de beefta , virom andar o gado logo acerca 
da praya; e fendo a gente fora, parece que os paítores ja- 
ziam dormindo fab huma carrafquería , que nunca os noffos 
delles ouverom vifta , fenaô depois, que os virom levantar., 
£ fugir , porque os naò poderão encalçar , e alli matáraó to- 
da-las vacas, e bois, e trouxerom o que poderom , empero. 
poucas ficarão ; caa de quinze que eram trouxeraó as tre- 
ze , e afTy fe tornárom pêra fua Cidade. 

CAPITULO XLIV. 

Como Femam Gomes de Lemos , que depois foi Senhor 
de Góes > foi fora y edos Mouros , que recrecêrao. 

EStando aíTy as coufas naquella Cidade avêo , que hum 
dia era a guarda da erva de Gonçalo Nunes Barreto, 
e de Fernam Gomes de Lemos, que ao depois foi Senhor 
de Góes , e de Joham Pereira , e iífo mefmo o defcobrir com 
trinta de cavallo , que lhe eram aílinados , os quaes fendo 
preftes aaquellas horas acoftumadas forom fora , e mandarom 
defcobrir íbb a Aljazira, e des y duas cilladas, que hi ha 
aflinadas a par da ponte , a faber , huma alem delia , e outra 
áquem ; e hum Efcudeiro de Fernam Gomes foi contra as 
Quintãas , que eftavam a par da ferra, pêra defcobrir huma 
cillada, que lá avia, e parece, que era homem menos avi- 
fado , do que pêra tal auto compria , ou per ventura nom 
fe informou bem dos lugares per donde ouvera de fazer feu 
officio: quiz a fua ventura, que cahira em meyo da cilla- 
da , e quando fe quiz volver foi filhado dos Mouros , e os 
Capitães, que eito virom, trigarom^ quanto poderão por 

re- 



do Conde D. Pedro. 3^3 

recolher os outros , que andavam fegando , e des y a Ata- 
laya fez feu acoítumado final , fobre o qual o repique alvoro- 
çou a Cidade : o Conde era em íua MiíTa naquelle ponto , 
que o Sacerdote começava de confagrar , e tanto que o Cor- 
po do Senhor foi levantado , foi fora , e cavalgou , e foji 
contra a porta d' Álvaro Mendes : Chamai , diíTe elle , vojfô 
Irmão Ruy Mendes, e recolhei quanta gente àe c avalio per aqui 
quizer fahir , e tanto vos avifai , que a nenhum confintais , que 
faya fora , e Je algum quizer fazer o contrair o fera cajligãdo 
per guifa , que outro nom tenha oufio- de o fazer , e des y fe- 
gui contra onde he Gonçalo Nunes meu Primo , e fe virdes , que 
vem alguma gente groffa , nom vos embaracees com elles • mas 
recolhei-vos aaquelle chão , que efld acerca da- vojfa porta , e 
eu hirmeey d porta de Fez , e poerei fora aaquelles de cavai- 
lo , que vir , que me compre. E feguindo aíTy o Conde pêra 
lá achou Ruy Gomes da Silva , e Luiz Vazques da Cunha , 
e Lopo Vazques de Caltel-branco , e afly peça d'outros , que 
alli chegarão, e des y pofe-os fora guarnecendo feus muros 
daquella gente d'armas,. que vio , que lhes compria , e aíTy 
Beefteiros , e gente de pee , e mandou , que fe fechaíTem as 
portas da Cidade, foomente as da Ribeira, que mandou ^ 
que ficaíTem abertas : e porque vio aalguns daquelles , que 
aviam de hir á erva , aíli como moços , e gentes de pee , 
que andavam contra as covas em hum chão % que alli eftaa, 
foi o Conde contra lá , e feze-os tecolher todos \ e fendo 
em cima vio todo-los Mouros , que jaziam na cillada defco- 
bertos de toda-las partes j os quaes , fegundo feu eímar, 
lhe parecerom de dez até doze mil homens de pee , e até 
trezentos de cavallo , e entaó mandou aos que eram diante , 
que fe tornaíTem recolhendo feu paífo , e paíTo , e elle tor- 
nou-fe á porta d'Alvaro Mendes pêra recolher a gente de 
pee, que fahira pela coiraça , e pêra fazer meter o gado, 
que ainda era fora fob a coiraça de Ruy Mendes entenden- 
do , que tam feguro eítaria alli , como dentro na Cidade : e 
em efto corregeo fua Barreira de gentes d'armas , e Beeftei- 
ros « 



3^4 C H R O N I C A 

Vos , efpecialmenté fobre a porta , e aíTy os muros com to- 
do o ai, que vio , que compria. Masjaa fe os noíTos então 
vinhaõ recolhendo ; caa a multidão dos Mouros começava de 
os apertar em tal guifa , que quando paíTárom hum outeiro ^ 
«que alli ha entrando a hum valle, jaa lhes os contrários vi- 
nhaõ remeflfando fuás azagayas , onde Álvaro Mendes , como 
nobre Cavalleiro , que era , ficava detrás , o qual vendo o 
ouíio , que os imigos traziam , e o temor , que era nos nof- 
fos, volveo com muy grande esforço , bradando contra os 
noíTos, que voltaíTem , porque nom fentiíTem aquelles arre- 
negados melhoria delles , e bem como fe faz antre a banda 
das Aves miúdas , que fe acoftumam ajuntar nos tempos frios j 
pêra hirem buícar feu governo ás arvores frutiferas , que 
quando alguma das Aves , que vivem de rapina entram an- 
tr'ellas -, e as fazem efpalhar ; aíTy fezerom os Mouros na- 
quella hora com a tornada de Álvaro Mendes , e dos outros 
que com elle eram : e logo naquella Volta cahiraõ quatro 
Mouros mortos, e prenderão dous, pelo qual todo-los ou- 
tros em breve volverão as coitas , e os noíTos após elles 
atá áquem da Atalayâ derribando , e matando em elles ; e 
fegundo final daquelles , que o melhor fentirom , feriam alli 
mortos de vinte e cinco até trinta Mouros de pee , e dous 
de cavallo: matarom alli o cavallo era aquelle dia a hum Ef- 
cudeiro, que fe chamava Fernam Gralho, o qual trabalhou 
muito naquelle dia por fua honra , e ferviço daquelle , que 
o alli enviara ; e com efte matarão outros dous cavallos , a 
faber , hum a Fernam Rodrigues Efcudeiro d'ElRey , e ou- 
tro a Gonçalo Fernandes Efcudeiro do Infante Eduarte j e 
aíTy outro a hum Efcudeiro de Fernam Gonçalves ; eftes fe 
ajuntárom todos , e fezerom afaftar os Mouros , des y mof- 
trando-lhes a bondade de fuás forças ^ e fortaleza de feus co- 
raçõs , e foi em efte dia feito muy grande dapno nos Mou- 
ros , fegundo depois pareçeo naquelles Valles , e Quintaas , 
onde os achavam jazer mortos , alem dos que ficavam no 
campo. E porque a força delles era muita , os noíTos fe co- 
me- 



do Conde D. Pedro. 35^ 

meçáraò a retrazer o melhor que poderão, e o Conde foi 
pêra elles, penfando, que pela gente , que era, que quizef- 
fem fazer mais ; empero vendo- fe aíTy danificados , óuyeroni 
por feu proveito leixar por então, aquella contenda , e de$ 
y porque os noíTos nom conheceífem de todo quanta era fua 
perda; e huns encaminharam pelo Valie de Bulhões; e ou- 
tros contra Barbeche; outros per hum caminho , que vai âf 
humas Aldeãs > que eftavam aaquelle tempo acima do Caf- 
tello ; outros pela Ribeira , fegUndo cada hum pêra donde 
eram ; e como a mais delia era gente ruftica , e popular , 
aily poferom a vingança de fua fanha em pequena preza ; caa 
da tornada * que fezeraó , matarom aquelle Efcudeiro de Fer- 
nam Gomes , que primeiramente tomárom ^ levando cada 
hum fua peça , a qual nom podia fer fenaÕ pequena , fegun- 
do fua grande multidão , em tanto que nom acharão delle 
cafy nada : e fe os corpos na proltimeira refurrciçaõ ham de 
fer ajuntados, fegundo a primeira forma de feu nacimentoj 
fe o enfindo poder de noíTo Senhor naõ folTe , trabalho feria 
de fe ajuntar aquefte. Em efta efcaramuça foi ferido hum Fi- 
dalgo da Cafa d'ElRey , que fe chamava Mem Soares de 
hú Mouro , que tinha prêfo , ao qual norri refguardou muy 
bem pelas armas , que tinha , e ficou-lhe huma agomia , com 
que o depois ferio , empero gUareceo ao diante : e muitos 
dias fe fezerom depois que cada dia achavam Mouros mor- 
tos pelos poços , e pelos Valles j e Quintas : e foube de- 
pois o Conde pelos Álfaqueques , que eram em aquelle ajun- 
tamento trezentos Mouros de cavallo j e quinze mil de pee , 
e que eram delles d s Arzila , e outros de Tanger , e da Ser- 
ra da Mazmuda ; e que era alli Aabu com feus Sobrinhos , 
os quaes todos traziam tençam de filharem os que fòíTem á 
erva ; e daquella vez foube o Conde j como fe afrota d'El- 
Rey de Graada corregia , pêra virem cercar a Cidade ; ca o 
iabiam eftes pelos meífageiros^ que cada dia paíTavam a fa- 
zer feus rutos de hum Rey pêra outro i o que fe claramen- 
te moftrou nós feitos, que fe feguirom adiante. 

G A* 



%$& G H R O N I c K 

CAPITULO XLV. 

Como o Conde mandou Pêro Bugalho com cento e vin- 
te homens aalem da Serra da Ximeira, e do que 
fe dello feguio. 

OUve o Conde novas como âalem daquella grande Ser- 
ra, que fe chama da Ximeira y a qual eftaa acerca da- 
quella Cidade , avia humas Aldeãs , em que poderiam mo- 
rar até cem pelToas em três Povorações , as quaes eram n'- 
achaada da Serra : e porem mandou lá Pêro Bugalho com 
cento e vinte homens antre de pee , e Beefteiros , avifando 
logo, que deixaíTe cincoenta em hum porto , que he em 
cima , porque fabendo os Mouros , que elles eram paliados 
nao lho filhaflem primeiro , e des y que foliem aaquellas Al- 
deãs , e que devifaíTem bem a terra pêra ver, quejanda era, 
pêra os de cavallo fe lá foliem , porque jaa o Conde avia 
por certo , que em todo Bulhões , e per hy até Almaça 9 
que faõ quatro legoas de Cepta , nom morava jaa nenhum , 
nem da outra parte até Alalez , que faó outras quatro legoas , 
pelo qual o Conde entendeo , que lhe nom podia recrecer 
gente dos imigos , que lhes elle mais cedo naõ acudiíTe , fe- 
gundo os íinaes , que lhes o Conde mandava , que fezeílem , 
mandando no outro dia Pêro Vazques , Johane Annes Rapo- 
fo , e Vafco Domingues com três homens de pee pêra fica- 
rem na Atalaya , mandando-lhes , que defcobriffem primeira- 
mente a terra. Mas a dita per aquella vez foi boa dos Mou- 
ros , porque nao havia mais de hum dia ? que fe dalli par- 
tirom , e em muitos lugares achavam ainda o fogo nos la- 
res das cafas ; e porem fe tornarom parte daquelles homens , 
e ficou Pêro Bugalho com outros pêra virem per outro ca*- 
minho : e eftando o Conde o outro cUa ouvindo as novas do 

aque- 



do CõtfrfE D; Pedkó. 357 

aquecimento , qúe ouvérom , dizendo-lhe aquelles Como Pê- 
ro Bugalho feria logo alli. Hum Efcudeiro fallou contra o 
Conde , e diíTe , como via a Atalaya capear : o Conde man- 
dou poer logo fua cillada , e diíTe aos outros , que fe fezef- 
fem preftes pêra o feguirem ; e forom logo com elle Gon- 
çalo Nunes Barreto, e Gil Lourenço d'Elvas , eJohaneAn- 
nes Rapofo. O Conde chegou a Atalaya , e perguntou-lhe j 
porque capeara. Porque , Senhor , diíTe elle , vi vir muitos 
Mouros de trás de Pêro Bugalho , e affy dos cutros , que vós 
oje manàaftes cedo -pêra lhe /ocorrer quando comprijfe ; e vereis 
como Pêro Vazques jaa chega ao Outeiro , Onde os nojfos jaa 
eftam recolhidos em cima do Valle do Cannaveal da parte ddquem. 
E o Conde olhou pêra lá , e vio aífy como o Atalaya de- 
vi fava ; e vio, que como Pêro Vazques chegou aos outros, 
que logo enderençarom pelo outeiro a fundo , ainda que pe- 
ça de homens de pee ficárom em cima do cabeço : e nifta 
chegárom Luiz Vazques , e Luiz Alvares da Cunha , Ruy 
Gomes , e Pêro Gonçalves. E o Conde lhe diíTe , » que lhe 
y> parecia , que aquelles homens moviam come gente , que 
*» queria pelejar : » Ser d bem , diíTe elle , que tomemos o ca- 
minho da Ribeira , e creio , que fe fe elles algum pouco dete- 
verem em fua peleja , que nós os poderemos atalhar d ejlrada , 
que vai do Cannaveal pêra Fez , e fe nós formos em cima pri- 
meiro que elles , colhelos-hemos entre nós , e os outros , e fa- 
remos em elles , o que quizermos. E efto acabado de dizer, 
encaminharom pêra lá , e quando paíTárom pelo Valle do Can- 
naveal , tomárom pela eftrada , e cobrárom a cabeça em ci- 
ma , onde achárom comíigo mais que as duas partes dos 
Mouros , e os outros recolhiam-fe quanto podiam pêra elles. 
Em efto chegou Gonçalo Nunes , e Gil Lourenço , e o Con- 
de bradou a Pêro Vazques, que moveíTem trás elles, como 
de feito fezerom , e o Conde , e os outros da outra parte 
chegárom aos Mouros , e fezerom-lhes leixar a cabeça em 
que eftavaó , e començando de os feguir encalçárom em hum 
pequeno de bom chaõ , que fe faz antre hum cabeço , e 6 
Tom. II. Yy ou- 




358 C H R O « I C A 

outro , e logo da primeira chegada morrerom delles dousj 
e des y feguirom avante , até que chegárom a huma fraga f 
onde eram outros Mouros , e deteverom-fe com elles ; e em 
efto chegárom Joham Pereira , e Álvaro Mendes , e Lopo 
Vazques de Caftello-b ranço , e Álvaro Affonfo , e Luiz Ean- 
nes Efcudeiro de Gonçalo Nunes , e Joham Ferreira , e Jo- 
ham Marfalla fem outra gente de pee , e forom a ellcs ou- 
tra vez, fazendo-lhes leixar o Outeiro, e hiam-fe quanto po- 
diam , e ao paliar de hum máo caminho forom encalçados 
dos nolTos , onde hum daquelles Mouros defviou per hum fo 
pee a fundo á maõ efquerda, e Pêro Vazques Pinto, que 
hia perto do Conde defviou-fe trás elle , e em o remeffan- 
do errou-o , e avifando-fe logo da efpada , deo-lhe huma 
grande ferida pela cabeça , e outra pelo ombro ; e a efto 
chegou Ruy Mendes filho de Álvaro Mendes, e remeílan- 
do per eíTa guifa o errou como Pêro Vazques , porem fal- 
tou logo a pee , e foi com elle a braços , e nom o pôde alTy 
derribar ; ca o Mouro alTy como tinha grande corpo , alTy 
tinha grande força , e o coração naõ lhe fallecia ; e em ef- 
to chegou Álvaro Mendes por acorrer a feu filho , e remef- 
fou o Mouro , e naõ o pôde acertar , e aos brados deite 
Mouro , que eram grandes , e de grande fentimento volve- 
rom todo-los outros Mouros , que hiam juntos com animo 
forte , e ardido , no que moftrárom fua bondade , começando 
huma nova peleja com os noíTos , onde de huma parte , e 
da outra os golfes naõ hiaõ em vaõ. Bem he , que a prin- 
cipal perda dos Chriílãos foi os cavallos ; caa Joham Perei- 
ra perdeo alli o feu , e fenaõ fora bem acorrido alli fezera 
fua fim , e também matárom o d'Alvaro Mendes , e o de 
feu filho , e o de Pêro Vazques ; caa eftavam em tal lugar , 
que fe nom podiam revolver. A Luiz Vazques da Cunha de- 
rom huma ferida pelos peitos do cavallo , empero guareceo ; 
mas o outro Mouro , que de tantas lançadas efeapou cobrou 
huma azeuma , e endereçou a Álvaro Mendes , e deo-lhe três 
feridas ao cavallo ; pêro o Mouro fez alli fua fim , naõ por 

cer- 



do Conde D. Pedro. ^q 

certo come homem villaó , nem què avia o coração fraco ; 
nem femenil , porque todas fuás feridas forom por diante , 
e jaa lhe a força de todo desfallecia ,. jazendo no chaó , e 
ainda com tenença de contender pêra os contrairos; Nom fi- 
cou o cavallo do Conde fora deite danno ; caa de três aza- 
gayadas foi ferido , e fempre fe manteve em fua força até á 
Cidade , em que foi acabar. O Conde foi ferido em huma 
perna per aquellé mefmo Mouro, que lhe ferira Ò cavallo; 
mas a vingança nom ficou pêra outra vez , porque álli cahio 
logo morto ant'elle , banhando-fe no fangue , que efpalhára 
do cavallo , e do Senhor. Os Mouros vendo como desfalle- 
ciam cada vez mais ^ e que a eftreitura } e fragofidade da 
terra nom lhes podia tanto aproveitar, como elles cuidárom , 
começárom de fe fahir per huma fraga, onde-lheS os de ca- 
vallo nom podiam correr. O Conde fentindo o fangue, que 
fe efpargia do feu cavallo , mandou , que aballaíTem , e em 
fe tornando virom como os Mouros andavaó pelo mato, e 
foram a elles, e ainda matárom dous , e prenderom hum; 
pelo qual o Conde foube , que Aabu mandara pedir ajuda a 
Lalez , outro Juiz , que hy eftava em Almarça , e em Agua 
de Ramel , o qual lhe enviou duzentos homens por oito dias; 
€ efta maneira queria Aabu ter com todo-los outros Trizes 
«Parredor , e que eíta gente queriam aíTy fempre ter junta 
até aver recado d'ElRey , e que fe lhes quizeíTe acorrer j que 
hiriam fobre Cepta eomella, fenaô, que fua vontade era fe- 
rem d'ElRey de Portugal j dando-lhe aquelle mefmo tribu- 
to, que davam a elle mefmo j que era feu Senhor natural. 
Em efte mefmo dia toda a companhia , que andava com Lou- 
renço Annes de Pádua em huma Galliota fugirom de Cepta , 
e filhárom hum Caravo em direito de Tanger, e paflarom-íe 
da outra parte de Tarifa , e filharão duas Barcas do Conde de 
Nebra , e meterom no Caravo de huma das Barcas féis gal- 
leotas , os quaes nom podendo pairar á tormenta , que fobre- 
veio , coftrangidos da neceífidade tornárom a Cepta a fazei 
pendença da fua ouíada malícia per fyj e pelos outros. 

Yyii CA- 



í 



360 C H R O N I G A 

CAPITULO XLVI. 

Como Diogo Vazques , e Joham Requelme filháront 
três Navios no maar. 

COmo a Cidade de Cepta feja cafy huma chave do mar 
Médio terreno , quaefquer Navios , que fe armavaó con- 
tra os infiéis , vinham alli fazer devifa. E feguio-fe , que che- 
gou alli hum homem de Cartagenia , a que chamavaó Joham 
Requelme, que trazia huma Galliota bem armada , ainda- 
que era de gente coftrangida , o qual pedio ao Conde , que 
lhe deífe algum Navio , com que fezeffe conferva ? cujo re^ 
querimento foi poíto em obra : e porem foi logo preítes Dio- 
go Vazques com feu Bragantim , e a primeira noite , que 
partirom , chegarprn a hum lugar a que chamam os Jljafares^ 
e alli concordarom de correr a cpfta de longo , fegundo lhes 
per o Conde fora mandado, por faberem fe avia hy algúas 
Fuítas : e á fahida das Ilhas ouverom vifta de hum Bragan- 
tim, e pen fando , que era Fuíta de Mouros derao-Ihe ca- 
ça ; caa o Bragantim efpedia-fe delles quanto podia , porem 
foi encalçado , e quando conhecerão , que eram Çhriítãos 
derap-lhe falva , e fezerom alli fua conferva , feguindo direi- 
tamente aas Ilhas tiAlfabibci) onde efteverom três dias aguar- 
dando fe atraveiTariam Navios dos contrairos , e quando vi- 
ram , que nao, orden^rom de fe partir, comoquer que fua 
partida nao foífe alli de todo ouciofa ; caa em todos aquelles 
três dias nao fezerap , fenao apanhar ovos das muitas áves ? 
que alli criam , e eozellos , ê lançallos nas Fuftas , que lhe 
foi bom refrefco pêra huns dias, e des y correrão ao Cabo 
de Farconim; e quando chegaram fobre a ponta, o que ti- 
nha a Atalaya parece , que fora bufear de comer a Maçar 
Quebir, e des que virom , que nom eram defcobertos, do- 
brarão a ponta, e forpm direitamente ao lugar, onde virom 

ja- 



bo Conde D. Pedro, 361 

jazer a praya chêa de lenços , que jaziam a curar, e do lu* 
gar fahiram até vinte Mouros , pelo qual Diogo Vaz- 
quês, e outros do Navio i que achárom no mar fahirom, fo- 
ra ; caa Joham Raquelme afíy como trazia á gente coítran- 
gida , aíTy fe nom 'fiava em ella : os panos forom apanhados 
em breve , fem alguma contradição , nem foomente moftran- 
ça delia ; e efteverom alli gram pedaço fem empacho dos vi- 
zinhos , comoquer que a multidão de fuás fumaças coítran- 
giam muito a viíta dos outros , pelo qual fobre a tarde acu- 
dirom atá cento j oU cento e cincoenta Mouros da terra ; mas 
era jaa tal hora, que os nolTos .fe aparelharam pêra partir^ 
e como pattirom dalli correrom a coita de longo ; e quando 
foraó tanto avante como beejla j me,terom-fe em huma cai- 
la , que hum delles fabia j e nom palTárao muitas horas em 
repoufo j quando virom vir hum caravo , que vinha de Ca- 
delez, o qual vinha largo ao mar ^ e fahio o Bragantim do 
Conde a elle , e filhou-o com quatorze Mouros , com outra 
âçaz de boa mercodaria : e bem he , que fe quizerom os con- 
trários defender, fobre cuja contenda alguns delles forom fé- 
tidos , em tanto que foi neceííario aos Chriftãos refgatarerrí 
logo alli , porque lhes parecia as feridas i que tinham du- 
vidozas. E eftando partindo fua preza virom vir largo aò 
mar hu Bragantim , o qual parece , que viriha ante hum Ca- 
ravo de mercadores , pêra deícobrir as pontas duvidozas , e 
nom fe pôde Diogo Vazques tam em breve correger , que 
jaa o Bragantim dos imigos nom foíTe tam perto da terra , 
que quando chegarom a elle era jaa encalhado em fecco ^ de 
guifa que jaa nom poderom tomar mais de hum Mouro, e 
numa Moura com huma fua filha pequena , e os outros fe 
fahirom per huma fraga , a qual foi feguro remédio pêra feu 
manifefto perigo , e alli tirarão o Bragantim afora com íua 
mercodaria ; e começando outra vez fua partilha aífy daquel* 
la , em que ante eftavam , como da outra , que lhe fobrevie^ 
ra , virom vir o Caravo de cuja guarda era o Bragantim, 
que tinham filhado, o qual virom largo, mas naõ lhe derom 

o 



362 Ch S ÕN IC A 

o vagar > que derom ao outro ; caa logo erh breve Diogo 
Vazques foi com elle , onde acharão leis Mouros com fua 
mercadoria : e dalli voltarão a Tunes , onde venderom os 
Navios , e mercadaria , e refgatáraó os Mouros feridos , e 
ouveraó tempo , e paíTáraõ da outra banda , e vierom a bordar 
a Alicante , e dahy trouxerom a coita de longo até Gibral- 
tar: porem em Bolox , aquelle outro companheiro ficara jaa 
com entençao de hir tomar foldo , que o Antipapa tinha 
apregoado. 

CAPITULO XLVII. 

Como vieráo os Gazulks a Cepta , e Como foront 

de/cobertos. 

HEra em o mêz de Junho aos quatorze diaá delle , ent 
que a guarda da erva pertencia a Lopo Vazques de 
Caftel-branco , e elle diíTera jaa ao Conde , que queria hir 
moftrar o Caftello de Metene a Gonçalo Efteves Tavares , 
que morava em Tarifa , e paíTára entaõ lá por fallar ao Con-* 
de; e aíTy hera também com elle hum filho de Joham Ro- 
drigues Comitre : o Conde diíTe , » que lhe prazia , com 
» tanto que elle primeiramente mandaíTe defcobrir a terra, 
» como compria pêra fua fegurança ; » e feguio-fe , que nef- 
ta noite andando o Conde provendo fua roída , á vella da 
modorra chegando a huma poufada d' Álvaro Affonfo de Ne- 
grellos , vio huma Almenara muy grande em cima da Serra 
do Negrão , a qual teveraõ aíTy hum grande pedaço , e per 
confeguinte fezeraó duas vezes : o Conde foi logo em co- 
nhecimento , que aquelle íinal requeria ajuntamento de Mou- 
ros ; e porem fez logo avifar Lopo Vazques , que nom fa- 
hiíTe fora quanto aquello , que tinha ordenado de fazer, 
fomente que fezeíTe atalhar a terra , e fazer o ai que cum- 
pria pêra guarda da Cidade , o que Lopo Vazques com to- 
da 



do Conde D. PEbiiò; 363 

tia boa diligencia pôz em obra ; e os que aviam de defco- 
brir em direito das Quintaas, onde mais vezes foem jazer as 
tilladas , paíTaraó-fe alem a defcobrir o Valle do Cannaveal , 
e Mem Soares levou o caminho de Barbechete ^ e quando 
foi junto com hum Oitéiro , que he cerca de hum caminho ^ 
que vem de Barbeche peta a Cidade ^ acertou-fe , que hia 
ant'elle hum galgo de Lopo Vazques , e parece , que fentio 
os Mouros , e começou de fe emouriçar j e Mem Soares 
teve quedo , e os Mouros deícobrirom-íe logo , e matárom 
aquelle galgo , entendendo , que a fua vinda lhe feZera per- 
der , o que elles tanto dezejavam > e como quer que o dap- 
no fofle pequeno , em breve foi porem pagado. Tornou-fé 
Mem Soares com efte recado a Lopo Vazques ^ o qual fez 
logo recolher os que hiam á erva , e des y mandou logo re- 
cado de todo á Cidade. O Conde era a vêr como íe corre- 
gia huma fua Galliota , e tanto que vio o recado fez-fe pref- 
tes , e des y o que eftava na Torre d' Álvaro Mendes , tan- 
to que vio o final ? que lhe fez o de cavallo , começou dé 
repicar. Gonçalo Gomes foi logo avifado , que naõ deixaf- 
fe fahir fora fenaó os de cavallo ^ onde o Conde foi muita 
aíinha , e tanto que vio aalguns de cavallo juntos j mandou- 
lhes , que fe foíTem pêra Lopo Vazques , avifando-os como 
fezeflem ; e dês que teve o muro , e a barreira fornecidos 
de gente j tomou até quinhentos homens de pee , e foi-fe 
aatálá, porque fé alguma coufa aos outros fobrevieíTe, que 
os podeífe recolher alli ; e Lopo Vazques com os outros te- 
verom confelho fe hiriam aaquelles Mouros , ou naó 7 e açor- 
dárom de fe partir de hum cabeço donde eftavam , e de fé 
hirem a hum chaó $ que eftá alem da ponte , porque fe os 
Mouros foíTem tantos , com que elles bem podelfem pele- 
jar , que alli feria bom lugar pêra ello. E elles eftando nef- 
to virom, como da parte d' alem jaa eftavam fobre hum por- 
to , que vai pêra o Canaveal , Ruy de Souza com quinze de 
cavallo , e ainda alem daquelles em cima de Barbeche virom 
hir três, dos quaes hum era Lopo Vazques de Portocarrei- 

ro„ 



364 Curonica 

ro , e Gonçalo Vazques de Ferreira , e Gomes Dias Efcif- 
deiro do Infante Dom Enrique , e tanto que eir.es chegarão 
á garganta do Valle , virom eftar na lomba em cima de hum 
cabeço pequeno razo até oito , ou dez Mouros arredados dos 
outros , e acordarão todos três de hirem a elles , como de 
feito forom, e os Mouros leixaraõ o cabeço , e forom-fe 
pêra os outros > juntando-fe mais , e fezerom logo aos nofíbs 
deixar a poíTe daquelie cabeço , e a mayor parte fe torna- 
rão pêra os outros y e os noíTos outra vez forom a elles em- 
correndo-os pêra a outra companhia. Ally vierom os Mouros 
a elles com huma Bandeira diante , e fezeronos outra vez 
volver pêra fundo , e com todo efto nom eraõ acorridos. 
Ruy Gomes que ellava com os outros , que ficavam , diíTe , 
que nom era bem feito de nom hirem pelejar com os in- 
fiéis : Como quereis Ruy Gomes 5 diíTerom alguns dos outros , 
que vamos a cometter tal peleja ; caa fomos mtiy poucos pêra 
tantos Mouros. Vamos todavia , diíTe Ruy Gomes , caa he de- 
fonra pêra taes homens , cemo aqui ejlamos 3 nom fazermos fen- 
tir aaquelles infiéis a melhoria de nojfa crença , e a bondade de 
nojfa força. Ora pois que affy he ? diíTerom os outros , nós que- 
remos feguir vojfo confelho , com tanto que fefeo feito de to- 
do der a bem , que vós foo ajais a honra , e fe pelo contrairo , 
recebais doejlo. Eu fom ledo , diíTe elle , de fer como vós di+ 
zeis ; acordando logo , que ametade fe paíTaíTe aalem , e a 
outra metade fícaíTe da outra parte , por quanto daquelie ca- 
beço donde elles eftavam , podiam hir de huma parte aa 
outra a elles ; pallando-fe logo da outra parte Gonçalo Nu- 
nes , e Fernam Barreto , e Álvaro Mendes , e Joham Perei- 
ra , e Luiz de Tayde , e Lopo Vazques , e Fernam Gomes , 
e com elles alguns Efcudeiros , e do outro cabo hia Luiz 
Vazques da Cunha , Ruy Gomes , e Luiz Alvares , e Joham 
da Veiga , e affy outros Efcudeiros , e dês que foraõ juntos 
huns , e os outros em direito delles , aalem dos que pri- 
meiro diffemos , que com elles efearamuçavaó , era hy Díeg'- 
Alvares filho d' Álvaro Rodrigues, e Diogo Vazques, e afly 

co- 



do Conde D; Pedro. %úç 

como eítavaò aquelles cinco dianteiros , aíly v forom de gol- 
pe ferir em os imigos , e aíTy fezerom logo os outros , que 
vinham do outro cabo j caa jaa fe apartaram alguns da par- 
te donde era Ruy Gomes ; caa elle , e Luiz Vazques , c 
Ruy Mendes , e Luiz Aívares , e Artur Vazques ferirão pri- 
meiro , e pelo outro cabo ferio AfFonfo Vazques da Coita , 
e. Gonçalo AfFonfo d*Alarim , e Diogo Fernandes Homem, 
c Gonçalo Annes Efcudeiro de Luiz de Tayde , e aíTy os 
outros trás elles ; caa todos ferirão de boa vontade , mas 
naó tinham todos os cavallos de huma ligeirice , e foi a 
força tam grande , que poferom fobre os infiéis , que logo 
do primeiro golpe volverom as coitas , e feguirom-lhe o en- 
calço , até que os cavallos mais nom poderom de canfaço , 
matando , e ferindo nelles quanto mais podiam : em eito 
aballou o Conde com a outra gente , que tinha comfígo , e 
meterom-fe pelo monte , onde viraó , que fe efeondiam, 
e prenderão alli cincoenta e fete, outros diflerom, que fo- 
rom mais. Os mortos forom tantos , e em tantas partes , que 
naô poderão fer contados : o dapno dos Chriítãos todo na- 
quelle dia foi nos cavallos ; caa matarão delles nove , fem 
outro nenhum cajaô. Eftes Mouros eram d'alem da Gazul- 
la , e nom traziaõ mais que doze , ou treze de cavallo , os 
quaes diíTeraó , que forom alli vindos por falvar fuás al- 
mas. Todos eítes , ou a mayor parte eram vindos per reque- 
rimento daquelle grande Juiz Aabu, de que jaa tantas vezes 
ouviítes falia r. 



Tem. II. Zz CA- 



J 



$66 tUHRONICA 

CAPITULO XLVIII. 

Como o Conde ouve recado de duzentos Mouros , que 

vinham [altear a Cepta , e da maneira que com el- 

les teve ; e do que Benito Sanches fez no mar. 

O Conde tinha pofto nas Atalayas certos Beefteiros de 
Monte , e por Capitão delles hum v a que charnavaó 
Joham d' Alvarenga , e hum dia, que eram vinte do mez d'- 
Agofto veio hum delles ao Conde, e diíTe-lhe : Senhor , Jo- 
ham d? Alvarenga vos envia a dizer , que ejia manhãa ejiando 
elle com feus companheiros na Atalaya a Sam Gees , que vio 
d } oitenta até cem Mouros de pee entrar antre huma cabeça grof- 
fa , que ejld em cima de Barbeche , e que poferom fua Atalaya 
fobre o Valle das Quintaas , que de/cobre todo o chão , até d 
Cidade» O Conde ordenou-lhes logo fua gente com entençom 
de os filhar; mas porque o feito nom veio aaquella fim , que 
era ordenado, naõ curamos de o mais efpranar , fomente que 
matarão dous Mouros, hum delles foi morto fem defenfaó , 
e outro matou Martim Lopes d' Azevedo rofto per rofto : bem 
he que antes fora remeífado por hum Efcudeiro de Luiz Vaz- 
quês da Cunha , mas nom lhe fez danno nenhum , e a fim 
fe veio a combater com aquelle .Fidalgo , o qual lhe fez 
fentir aquello , que os nobres homens tem de melhoria fo- 
bre a gente , que a natureza nom proveo de melhor fangue : 
os outros efeapáraó , pela graveza do caminho , e aíTy a fra- 
gofidade da terra , que naó confentio , que elles mayor dan- 
no recebeíTem. Outro fy naquelles dias . mandou o Conde 
Benito Fernandes , que era Patrão de híía Barca de Mosc Jo- 
ham de Salla-nova , que foíTc tomar hum falto , que lhe hum 
Mouro diíTera , que moítraria , a fim que o forraífem ; e aquel- 
la fegunda feira , que partirom de Cepta forom a Cabo-mon- 
te, onde tomando fua Atalaya jouverom todo o dia, e á noi- 

Al tc • 



b o Conde ; D;Ped r*o.' 1 67 

te , partirão de hy •, e forom poer pofta arítre Targa , e Ti^. 
tuao a huma calla , onde fe chama o Ninho da Águia , on- 
de ha, hum bom falto.; e tendo jaa pofta fua Atalaya em ter- 
ra , virom vir huma.vdla que vinha de Targa / e em que- 
rendo partir forom defcobertos de dous Mouros, que tinham 
aguarda, os quaes fezeraô , finai ao Garavo j que vinha aas 
yéllas , e girou, e foi em terra , e os, Mouros fora delle.^ 
porem foi filhado; e em efto acudirom Mouros á ribeira, e 
foi levantada huma bandeira na Barca pêra vir á falia; e os 
Mouros 1 perguntarão , o que os noíTos queriam. Ha trinta 
dias , difte Benito Fernandes , que prendemos trinta Mouros 
em hum Caravo , os quaes me differam , que fam . âefla Comar- 
ca ; e porque lhes prometi de vir aqui , venho agora a fazer- 
vo-lo faber , que fe per ventura tem parentes , ou pejfoas , que 
je delles doyam , que tornem fohrefeu c -ativer io , é quero logo 
faber de vós y fe vos prazerá ', que os tire fora \ ou a maneira, 
que -em \ello quereis ter , porque eu nom venho fenao até qui pê- 
ra comprir minha verdade , e em breve me quero tornar* Os 
Mouros dilTerom , que lho agradeciam muito , e que certa- 
mente elle fazia, como bom \ Ghriftaô : * alli cpmeçárom fuás 
avenças , até que ficarão em acordo , e dia^aílinado , até que 
tornaiTe com os cativos. O Patrão eíleve alli , até que foi 
fôbre a rióite , que fez, que vinha direitamente pêra Cep- 
ta ; e tanto que fentio que era perdido de vifta , volveo pê- 
ra onde avia de hir ao falto , que era antre Tagaça , e Be- 
diz , e íahirom em terra, e quando chegarom ao Adtiar , 
.achárdm 9 que naõ eftava hy ninguém , porque a gente hia 
dormir á ferra ; caa nom oufavam de dormir alli , e parece^ 
que lá onde dormiam faziam fogo por caufa do frio: ora 
vede , que eítranha- pena, todo-los dias ferem peregrins em 
fuás próprias cazas: os noíTos cuidarem , que eram defco- 
bertos , e que faziam almenara, . e tornaraó-fe á ribeira por 
ello , e meterom-fe no Navio y! e. dobrando hua ponta , to- 
marão outro porto , onde jouveraò até pela manhaa , c no 
outro dia em tornando pêra Cepta , quanto podia fer huma 

Zz ii mi- 




368 C H R O K I C A 

milha apartados donde partirom, toparom com duas Zavras 
de pefcadores , os quaes vendo vifta dos contrários, voga* 
raõ pêra terra , e os noflbs trás elles , e os Mouros quize- 
raò varar feus Navios , mas Benito Fernandes poz as popas 
dos feus em terra , e começarão tirar-lhes aas beeílas , e os 
Mouros per femelhante a elles , até que fé a peleja acendeo 
tanto , que morrerom alli íete Mouros , e vinte e quatro fe- 
ridos de feridas duvidofas , e dos noíTos nom foi ferido fe- 
naó hum , a que acertarom com hum virotaõ , de que a pou- 
co tempo guareceo ; e efíe dia chegárom a Tagaça , onde 
forom agazalhados dos moradores da terra , dando-lhes d'- 
agoa , e fruita , e a cabo de pedaço começárom de parecer 
os mortos, e os feridos, que feus parentes traziam em bêf» 
tas ; alli começárom os outros a fazer feu doo , volvendo-fe 
contra os Navios , começando de doeítar os noíTos, e tiran- 
do-lhes com fétas, avendo eíTe mefmo retorno, até que vi- 
rão , que nom aproveitavam alli mais , e tornaraõ-fe pêra 
a Cidade. 

CAPITULO XLIX. 

Como forúm tomados vinte Mouros em dons Ca- 

ravos. 

OUve o Conde fabedoria como fc em Tanger armava 
huma Galleota , e porque recebeffe primeiro o dapno f 
que tentafle de o fazer , mandou armar outra , e dous Bra- 
gantins, os quaes partidos da Cidade naquella mefma noi- 
te, jazendo em mêa broa do mar em roda virom como vi- 
nha hum Caravo de contra Gibraltar , e feguia pêra Tange- 
re , e vogando contra elle , fem muita contradição foi filha- 
do com dezaíTeis Mouros, o qual parece, que fora carre- 
gado a Mallega de trigo , donde trazia paíTa : per eftes 
Mouros foube o Conde como Mulley Abnalle Rey de Mar- 
ro- 



do Conde D. Pedro. 36» 

roços partira de fua terra com entençaõ de vir a Cepta, e 
que no caminho fora contralhado de feus confelheiros , os 
quaes o fezerom partir daquella viagem , e hir fobre a terra 
de feu Irmaó Mulley Buçayde , que entaõ era Rey de Féz , 
ao qual filhou Azamor , e Anaíe^ e Çallé , e des j enca- 
minhou pêra o hir cercar a Féz , onde eftava ; e muitos 
Mouros , que eftavam preftes em Tangere pêra vir fobre Cep- 
ta , ouvindo eftas novas tornarom-fe pêra fuás terras. Nefte 
mefmo mez mandou o Conde bufcar aquella Galleota , ar- 
mando húa fua , e hum lenho , que alli era de hum Genoês , 
a que chamavaó Pêro Palláo , as quaes mandou , quevfe lan- 
çaffem de largo no porto em guarda , onde jouverom afly 
até acerca da manhaa , e porque nom viraô coufa nenhuma , 
a que fe deveíTem de endereçar, tornou-fe a Galleota; e o 
Lenho foi a Tarifa por coufas , que lhe compriam , e da 
tornada jazendo de noite de mar em través de mêa broa, 
virom como vinha hum Caravo a elles , e filharom nelle cin- 
co Mouros , afora hum que fe afogou , e o Caravo iflb mef- 
mo fe foi ao fundo com trigo , que levava. 

CAPITULO l: 

Como o Conde mandou a Aldêa èAlvergal , e o qne 

lá fezerao. 

COmo paliavam alguns dias , que o Conde naô avia lin- 
goa de feus contrários , ou per cartas de eftantes Ge- 
noefes , ou per Mouros , a que o Conde dava de feus di- 
nheiros por terem cuidado de o avizar de femelhantes cou- 
fas , ou pelo Alfaqueque , tinha cuidado d'aver fua lingoa o 
melhor, que podia. E porque avia dias, que efperava por 
aquelle Alfaqueque , e vio , que nom vinha , ordenou de 
mandar Pêro Vazques Pinto , e Johaó Rodrigues Godinho 
com vinte e três Efcudeiros , os quaes partidos da Cidade , 

paf- 



4 
370 C H R O N I C A D Cl 

paíTarom. o Vai. de NegraÕ na primeira parte da noite , e 
poendo alli cevada a luas beftas repoufarom , até que lhe pa-« 
receo , fegundo o coftume , que na Cidade tinham , que fe^ 
ria fobre a vella da manhãa , onde moverão indo a tomar 
Atalaya fobre a Aldeã d'AH3ergal , e dês de que o dia foi 
claro, virom lançar aos Aldeãos o gado fora , e outros fo- 
rom cortar a tábua em hú Paul , que ha cerca do lugar: e 
eftando alTy em fua vella , virom vir hum Mouro mancebo > 
que feria de ■ vinte e dous até vinte e três annos , e trazia 
huma foma de vaccas ante fy , o qual defviando feu gado 
contra huns palmitaes , Diogo Vazques de Portocarreiro , 
que alli era encaminhou a elle , e o filhou , e os outros en- 
caminharão ás vacas, e íilharãnas , as quaes trazendo ante 
fy encaminharão pêra a Cidade. Mas quem poderia ouvir 
com os apellidos dos Mouros des que viram feu gado filha- 
do , e naõ tardou muito quando acudirom vinte e hum de 
cavallo, e oitenta de,pee, e os noflos tanto que forom ar- 
redados pela Charneca , mandárom três de cavallo com as 
vaccas, e com oMouro, e, os outros ficárom em cima do 
cabeço, e tanto que os Mouros os virom deter, eíteverom 
quedados hum pedaço , ê em efto cónfifarOm os noílbs, que 
o gado hiria jaa longe começarom d'andar o mais palTo , 
que podiam , e os Mouros trás elles fempre porem afafta- 
dós. Os hoíTos chegarom ao Rio de Negrão, o qual pafla- 
rom em breve , onde fobfefteyeraô por ver fe os Mouros de 
cavallo queriam paliar o Rio , os quaes conhecêrom , que 
fua palTagem lhes nom trazia proveito , e deixaraõ-fe citar 
quedos - , até que os noílbs paífárom pelo Caftello de Mete- 
ne , e dalli fe tornarão pêra luas cazas chorando fua perda* 
O Conde quifera faber de&e Mouro alguma coufa , do que 
dezejava ; mas elle aíTy como era creado ein vida ruftica , 
aífy nom avia nenhum faber das coufas de fora ; fomente 
quanto lhe contou das Aldeãs derrador como fe guardavam , 
e a gente , que cada huma podia ter , e tanto aprendeo o 
Conde -delle ,. que dahy a poucos dias partio da Cidade pê- 
ra 



bò Conde í), Pedko. xjí 

ra trazerem cavalgada : e huma noite que eram nove dé 
Dezembro pardo caminho daquellas Aldeãs , que faõ alem 
d' Agua de Ramel , e huns encaminhava pêra hum lugar, a 
que chamam o Allacir , e outros ás Garrobas , que he na me- 
tade d'antre hum lugar , e outro i mandando ante hú dia $ 
que dalli partiíTe , dez Almogavares a ter ás Atalayas , e ou- 
tras Efcuitas acima do Porto da Calçada , avifando-os , que 
lhe mandaíTem dous homens á noite , e os outros que ficaflem. 
Os dous homens vierom , e o Conde mandou a gente de 
pce , e com cila Mosé Martim de Pumar , e Joham Rodri- 
gues Godinho com íeis de cavallo ; pêro Mosé Martim naô 
quiz hir fenao a pee , e nom com mingoa de cavallos , caa 
fempre alli eftcve bem fornecido aíTy delles , como de todo 
outro corregimento , que pêra bom homem compria , e os 
feus Efcudeiros hiam fobre os cavallos , e elle a pee, por 
mais moftrar fua força ; e foi efte Fidalgo nobre homem na- 
quella Cidade , leixando nella bom nome. Quando partio o 
Conde mandou , que o aguardaíTem era cima do Porto erri 
huma fellada , que fe alli faz , e que mandalTcm eftar além 
de fy os Almogavaies i e dês que entendeo $ que teriam paf- 
fado o máo caminho , de guifa que a miftura dos cavallos nom 
podeíTem empecer aos de pee i partio da Cidade , e tanto 
que foi fora começou de chover, e fazer tormenta , e vento 
frio tam defordenado , que as gentes fe nom fabiam dar a 
confelho , e fendo em cima do Cannaveal achou muita gente 
eílar queda no caminho aguardando por elle ; caa pelo gran- 
de efcuro , que fazia , naó fabiam fe hiam errados dos ou- 
tros ; alli mandou o Conde dous de cavallo com elles , e de- 
teve-fe hum pouco i até que entendeo , que poderiam hir 
huma boa peça, e então encaminhou trás elles, os quaes al- 
cançou em cima do Porto em huma covoada , que alli ha , 
onde fez fazer final a todos , que decelTem , e que deíTem ce- 
vada a feus cavallos ; caa lhe diíTerom os Almogavares , que 
fe mais foíTe adiante , que poderiam fer fentidos , e depois 
que alli jouvêraõ huma boa peça tornou o Conde acavai- 



r 



37* Chronica 

gar, e começou a feguir os outros , e fendo em cima da 
ferra, a guia errou o caminho, e trazia a gente de hum ca- 
bo pêra outro , até que foi acerca da manhãa : o Conde ven- 
do o enlheamento de fua guia fez citar quedos os de cavai- 
lo , e aíTy os de pee , e fez chamar alguns , que perante el- 
le na Cidade fingirão muito , que fabiam a terra , e pergun- 
tou-lhes pelo caminho, e brevemente todos fe acháraó enlhea- 
dos em elle , e aíTy efteverom hum grande pedaço , e com 
efto o vento , e a chuva , e o frio cada vez era maior , em 
tanto que todo-los de cava 1 lo , e de pee lhe dilTerom, que 
lhe pediam por mercê, que fe tornaíTe : Vós ^ Senhor, diffe- 
ro m elles , bem vedes o perigo em que fomos , caa ejle tempo 
he abajlante pêra nos eftruir , aindaque outro perigo naÕ onvef- 
femos , quanto mais fer jaa tam perto da manhãa , , e as Al- 
deãs muy longe , que nós nao podemos laa chegar , fenao alto 
dia , e bem deve Voffa mercê de cuidar , que quando-nos os Mou- 
ros virem o que avemos d y achar , hefua terra alvoroçada , e a gen- 
te pofta tm falvo. E tanto aperfiaraô em efto , que mandou , 
que fe tornaíTe a gente de pee , e dês que forom hidos , 
chamou o Conde pelos Fidalgos , que com elle partirão , c 
achou menos Ruy Gomes da Silva , e Luiz Yazques da Cu- 
nha , e Lopo Vazques de Caítello-branco , e perguntou , 
<]ue era delles , e nenhum naõ lho foube dizer , íoomente 
quanto lhe hum dilTe, que Lopo Vazques fora jaa por aquel- 
le caminho quando outra vez elle, e Joham Pereira forom 
ver aquellas Aldeãs, e que poderia fer, que o acertarão; e 
O Conde começava jaa de entriftecer, nom fabendo qual ca- 
zo lhe fobreviera , ex que chegou hum Efcudeiro , que lhe 
diíTe , » que elles eftavam alli acerca , e entendia, que aquel- 
le era o caminho, e que alem delles eftava jaa Joham Ro- 
drigues Godinho com dez, ou doze Efcudeiros de fua caza , 
c com oitenta homens de pee: Hy , diíTe o Conde, e di- 
z ei-lhes como a outra gente he toda partida , e que me pare- 
ce , que elles fe turnem , e que eu os efperarei ao Porto. Mas 
jaa quando elle recado chegou elles eram cerca do Allaçir, 

em 






DoGoNDeD. PfiDko. 37.3 

em tal guifa que nom podiam fazer volta, que os nom vifc 
fem os da Áldêa : e porem forom a ella , mas com aquel- 
las detenças quando elles jaa chegárom, achárom os Mouros 
apanhando feu gado, e o levavaõ pêra a ferra, de guifa que 
elles nom achárom jaa na Aldeã nenhúa coufa , fenaõ quan* 
to tiráraò d'alem delia contra o pee da ferra , onde apanha- 
rom até quarenta vacas, e fete afnos , e duas Mouras velhas , 
e morrerão três Mouros , e huma Moura , e aíTy fe torna- 
rom pêra a Cidade. 

CAPITULO LI. 

Como Ruy Vazques de Cajlello-branco , e Eflevam Soa- 
res de Mello requererom licença ao Conde j e do 

que fezerom. 

ERam naquelles dias naquellâ Cidade de Cepta dous no- 
bres homens , a faber , Eftevam Soares de Mello , e Ruy 
Vazques de Caftel-b ranço homens ardidos , e dezejofos d'- 
acrecentar em fuás honras , os quaes chegárom hum dia jun- 
tamente ao Conde, e lhe diflerom : Senhor vós fabees como 
nós n ao fomos vindos a efta Cidade a outra fim , fénao de fer- 
'uir Deos , e EIRey nojfo Senhor , e de fazermos tanto de nojfas 
honras , perque recebamos alguma melhoria em nojfo valor ? é 
como até qtú nom temos feita nenhuma coufa, em que pojfamos f 
nem perque devamos fer prezados , o que nos vós muito bem po- 
deis azar , querendo-nos dar ajuda. Pois nem por mim , diíTe o 
Conde , noffl$ aveis vós de perder , ante vos ajudarei , e enca- 
minharei quanto em mim for ; empero vós faber eis , que EIRey 
meu Senhor me tem defefo , que eu nao dee licença de vinte de 
cavallo até trinta ; ora vede fe os averd hy , que lhes praza de 
hir com vofco , e logo me praz de vos dar a dita licença. Se- 
nhor , differaõ elles , bem vedes vós , que com tam pouca gen- 
te nom podemos nós fazer coufa , qne muito valha , nem que" 
grande nome traga d noffa honra ; certo he , que fe vós tendes' 
Tom, II. Aaa vsn* 



374 Chronica 

vontade de nos encaminhar , que o podereis fazer , e nós fomos 
taes , que vo-lo faberemos fervir , como for razão. Leixaime , 
diíTe o Conde , per hoje cuidar fobr'ello , e d manhaa vireis a 
mim , e avereis minha repojla. Os Fidalgos naò forom pre- 
guiçofos de hir a elle no dia feguinte, requerendo outra vez 
por outras mais cortefes palavras , o que lhe requerido ti- 
nham. Ora , diíTe elle , eu vejo bem vojfas boas vontades , e 
por ello quero ajudar vojfo bom propofito : eu fei , que a Aldêa. 
d'Albagar he açaz de perto da agua da Alago a, que he alem 
do Negrão , nao ha mais de dous dias , que eu» mandei provar 
a agua , que fahe da Alago a fe poderia hir por ella acima , e 
achdrom , que podiam per vila nadar alguns bateis ; e porque 
vós melhor pojjais fazer vojfo feito , eu mandarei cinco , ou féis 
barcas , que levem cincoenta , ou fejfenta homens , que ponham 
logo fora , por quanto a Aldêa efld perto da agua da Alagôa y 
e a vós darei quarenta e cinco de cavallo , como quer que na$ 
faço o que devo pela defefa , que tenho d^ElRey meu Senhor ; 
porem ante quero por agora errar contra mim , que leixar da 
fazer vojfa vontade, Elles diíTerom : » Que lho agradeciam 
)> muito , e que aíTy lho conheceriam fempre ; pêro que tanto 
» lhe pediam, que eíTes , que lhes ouveíTe de dar, que folTem 
» de fua caza, efpecialmente daquelles , que jaa forom outra 
» vez em aquella Aldêa , porque a faberiaô melhor , e que ain- 
» da eram melhor encavalgados , e que teriam mais tento em 
» cumprir , o que lhes o Conde mandaíTe. » Pois que o jaa co- 
. mecei , diíTe elle , de vos fazer prazer , de todo vo-lo hei d'~ 
acabar , como quer que finto , que alguns dejles bons , que aqui 
fom nom o averdÔ por bem , por nao tomardes fu& companhia ; 
mas o encargo^ diíTe elle , fique J obre vós , nem ajais outra vezi 
por mal , fe vos os outros outra tal fezerem. Os que aviam de 
hir forom logo chamados, de guifa^ , que a Quarta feira, que 
eram dous dias de Fevereiro partirom de Cepta fobre a boca do> 
feraò , e com elles vinte e féis Efcudeiros do Conde , e oito do 
Infante D. Eduarte , e Ruy Mendes de Brito , que era do Infan- 
te Dom Pedro , e Gomes Dias do Infante Dom Enrique , e aíTy 

Dieg'Ai~ 



DO COSDE Di PfiDRO. 37^ 

Dieg'Alvares , e Álvaro Triftaó , e Fernam Carvalho , e ou- 
tros , com que refezerom cincoenta de cavallo ; nas Barcas 
entrarão Mosé Martim de Pumar , e Joham de Queirós , que 
o muito requererom ao Conde. Ora , diíie elle , hy com Deos , 
e fazei vojfas coufas Jeguramente ; caa eu Jerei ante manhaa 
em tal lugar , que vos pojfa fazer proveito fe vos fbrevier ne- 
cejjidade , que o requeira , qtie pofto que vos gente venha a 
atalhar , nós teremos primeiro de fazer com elles , que vós , 
falvo fe forem os da Aldeã , ou d? outra junto com ella , quefe- 
rao tao poucos* , que pouco vos fera mifter foccorro alheio , fal- 
vo o de Deos , que em todo tempo he mi/ler. Des y fezerom 
fua viagem , e quando forom onde aviam de tomar caminho 
pêra a Aldêa , diíTerom-lhes os Efcudeiros do Conde , que 
per alli era o caminho ; mas Affonfo Marques , que elles le- 
vavam por guia diíTe ? que o leixaíTem , que elle fabia outro 
melhor caminho pêra aquella Aldeã , ou pêra outra , fe el- 
les a ella ante quizeíTem hir: e como quer que os Efcudei- 
ros todavia aporfiaífem fobre a certidão do caminho , nunca 
fôrom creúdos, e então paíTáraõ a agua, que fahe da Ala- 
gôa , porque jaa as Barcas alli eítãvam aguardando , e dês 
que palTarao AíFonfo Marques tomou feu caminho pela praya 
até o Caítello d'Alminhacar , e dalli os levou acima do lom- 
bo da ferra pequena, e errou o caminho, e de outeiro em 
outeiro, e de valle em valle os trouxe, até que era jaa muy 
alto dia , em guifa que quando forom perto da Aldêa fo- 
rom logo defcobertos , pelo qual os moradores delia fugi- 
rom todos , de guifa que quando os noffos chegárom jaa 
nom poderão alcançar fenad féis Mouros , os quaes ante qui- 
zerom fofrer morte , que perder fua liberdade , e tomarom 
cento e oitenta e três cabeqas de gado vacaril , e fete amos 
com humas poucas de cabras ; mas o principal perigo ouve- 
ra de fer ao paliar da ribeira , a qual parece , que eftava 
chêa , de guifa que a naó podiam paíTar , fenaó a nado : Af* 
fonfo Marques foi perguntado fe fabia o porto , o qual ref- 
pondeo , que nom. Pois , diíTerom alguns daquelles Efcu- 

Aaa ii dei- 



\ 



37^ Chéônica 

deiros do Conde, que outra vez forom aaquella Aldêa , fé 
nós quizermos hir per onde outra vez pajffamos , he muito aci- 
ma , e os Mouros fao na ferra , e logo éramos embargados , ou 
ao menos o roubo. Ora , difíe Lopo Vazques de Portocarrei- 
ro , eu quero vér efte porto que jando he ; e deu d'efporas a 
feu cavallo , e meteo-fe per entre as vaccas , e filhou huma 
ante fy , e tangeo caminho da ribeira , e quando chegou á 
V~) agua , bem moftrou aquella vacca , que ufava aquella paíTa- 

gem ; mas o porto nom era como elles peníavaõ, ante co- 
meçava em fundo , e fubia pêra cima ao vieis , e era po- 
rem alto , e no cabo jazia muita madeira , com que os Mou- 
ros tinham brancado aquelle porto : Lopo Vazques chamou 
os outros f e des y paflbu primeiro , e tanto qiie foi fora da 
agua poz-fe a pee , c chamou os outros , e defpejárom o 
porto muito alinha, e afly palTaraõ todo-los de cavallo, caa 
os de pee paliavam pelas minhoteiras , que hy avia muitas 9 
e detrás de todos ficou hum Efcudeiro do Conde , que fe 
chamava Fernam Guterres , e os Mouros erom jaa acerca do 
porto , e Fernam Guterres fentindo o empacho , que lhe 
em tal lugar podiam fazer , volveo a cabeça ao cavallo , e 
moveo pêra elles , e os Mouros tornárom atras , e o Efcu- 
deiro tornou muito aíinha pêra bufcar a palTagem, porque 
entendeo , que em tal tempo lhe nom compria detença , co- 
mo quer que aquelle ouvéra de fer o feu poftrimeiro dia ; 
caa o cavallo errou o porto , e foi topar com huma riba , e 
o Efcudeiro quando fentio, que o cavallo queria traftornar- 
fe , aífy como hia armado fe lançou fora delle , e pêro fou* 
beire nadar , duas vezes foi ao fundo , e duas furdio acima , 
na qual vifta os outros eram em grande trabalho , e a der- 
radeira vez tenderom huma lança , e quiz Deos , que o Ef- 
cudeiro nom fe defacordára nenhuma coufa, e filhou logo a 
lança, e com ella fahio fora ; e os Mouros vendo aquelle 
empacho acudirom alli muito aíinha, e penfavam, que ti- 
nham tempo pêra fua vingança , como quer que feu cuida- 
do fe feguifle muito coatrario do que elles cuidavaõ ; caa 

os 



do Comde D. Pedro. 377 

os Beefteiros eram bons , e tinham os tiros perto; pelo 
qual fezerom em elles açaz grande dapno, em tanto que jaã 
fe chorava mais a derradeira perda , que a primeira ; e afly 
ouverom por feu proveito leixar o porto , eos noíTos abai- 
larom com fua cavalgada j mas tanto que forom algum pou- 
co afaftados , os Mouros palTáraõ logo , e ajuntárom-fe a el- 
les outros muitos mais , a faber , huns paíTáraô per cima , e 
outros acudirom d'outras partes > antre os quaes eram cinco 
de cavallo , empero antes que fe de todo ajuntalTem ouve- 
rom os noííbs acordo de os cometerem , e como fezerom 
moftrança de os querer ferir , os contrários nom teverom co- 
raçam pêra fe ter , eos nofíòs vendo feu temor feguirónos , 
onde matárom féis , e feriram outros muitos ; e per efta gui- 
fa ficarom , que nunca mais ouverom acordo , nem esforço de 
tornar, e os noíTos feguiam avante com fua preá. Outro fy 
em efte tempo pelêjarom certos Marins, antre os quaes era 
grande divizaõ , porque queriam fazer dous Reys em Fez$ 
a faber , hum a que chamavam Mulley Buçayde , e outro Mul- 
ley Açoo , que pertendia fobre aquelle Regno , e ouverom 
os de Mulley Açoo a vitoria , e matarom muitos dos outros , 
e prenderam, o que fazia grande ajuda á defenfaó da noíTá 
Cidade ^ porque as guerras delles traziam paz a nós. 

CAPITULO LII. 

Como naquelle niaar Jobrevêo grande tormenta ; e dos 
dapnos , que fe por fua caufa feguirom ; e d 9 outras 
coujas y que nao cabem per fy em efpecial Capi- 
tulo. 



NOm foomente nos obriga a razaô efcrepver as coufas 
cavalleirofas , e humanas , mas outras de que fe fe- 
gue alguma proveitofa , ou maravilhofa lembrança. E foi 

aíTy, 



378 Chronica 

afíy , que naquelles dias fobrevêo naquclle maar Médio ter- 
reno , tanta ^ e tam grande tormenta em huma noite , que 
lançou o maar fora quebrada húa Galleota , e hum Bragan- 
tim , e a gente fe falvarom por milagre , que Deos por el- 
les quiz fazer. Quebrou também huma Barca grande de trin* 
ta toneis , e duas pequenas todas do Conde ; e dos mora- 
dores da Cidade quebrarão treze barcas : e quebrou huma 
grande Naao de hum mercador do Porto ; e húa Barca de 
Viana , que vinha pêra eíte Reyno de Portugal , quebrou hu- 
ma legoa d'aler contra Cepta , onde morrerom dez peífoas 
antre homens, c mulheres , delles de frio, e delles no mar; 
e perdeo-fe acerca de Tarifa huma Galleota de Cartagenia , 
em que morrerom felTenta homens mancebos , e valentes , e 
efeaparom trinta e cinco ; e efeapou huma Furta daquella 
mefma Viila , que lhe nom quebrou fenaó a banda de hum 
cabo , e o Job da proa. Em Gibraltar fe perderom quatro 
Caravos grandes , e muitas Zavras , e muitas Barcas peque- 
nas , e fete Barcas de Caflella , que eftavaõ carregadas. Era 
Mallaga quebrou huma Galleota baftarda; e nos portos de 
Caftella , a faber , era Santi Petri , e em Calles fe perderom 
muitas Barcas , que eftavam carregadas pêra Berbéria ; de 
Tangere quebrou huma Galleota , e hum Bragantim , que 
avia de hir com mercadoria pêra Mallaga , onde morrerom 
vinte e fete Mouros , e quebrarão treze Barcas de Caítet- 
lãos , e efta tormenta deu grande perda aos Mouros de Cep- 
ta , porque da parte da ribeira cahio huma grande peça del- 
les. O tempo que efta tormenta foi , nom achámos em ef- 
cripto , nem memoria de homées, que no-lo podeíTem tef- 
temunhar , pêro que alguns fe afírmavaó fer em fim do mez 
d*Outubro. E em eftes dias chegou a Cepta Mosé Reymaõ 
de Corelhas com duas Gallés , o qual partira de França, 
onde anda'ra a foldo , e alli ofreceo feu ferviço ao Conde , 
o qual lhe fez por ello mercê , e o mandou pêra fua terra. 
Outro fy mandou em efte tempoElRey.de Fez fobre Cepta 
hum grande Capitão P que era filho de hum Alcaide 7 . que: 

fe 



do Conde D. Pedro. 379 

fe chamava Audalle Taryfa com muita gente', aífy de Ma- 
rins , como d' Alarves , ecomofaó gente alevantada toda, no 
caminho fe defavierom , e matarão feu Capitão , de que 
aquelle feu Rey ouve .grande fanha , e quizera logo vir fo- 
bre a Cidade, fenaó , que lhe diíTerom , que EIRey de Por- 
tugal fazia grande armada , aindaque lhe faifamente foíTe di- 
to. E Mosé Martim , e outros quizerom fazer huma caval- 
gada a huas Aldeãs , e naó acharão em ellas nada. O Con- 
de mandou , que lhe fezeífem chamar o Adail , e a AíFonfo 
' Marques pêra lhe avifarem de humas Aldeãs , que eram ío- 
bre Agua de Ramel , e forom-fe logo em aquella noite lan- 
çar alem do Porto da Calçada contra as Aldeãs , e dês que 
no outro dia foi manhãa , e o foi jaa alevantado virom vir tre- 
xe Mouros pelo caminho , e vinham-fe direitos ao caminho 
da Calçada , e os noflbs cuidárom , que era mais companha , 
e tornarom-fe per outro caminho pêra a Cidade ; e porque 
eftes Almogavares nom poderom acabar fua tenção, parrio 
AíFonfo Munhoz pêra ver fe poderia emendar o que os ou- 
tros naó acertárom , e como a fortuna he trigofa aaquelles a 
que quer danar , ou aproveitar , acertou-fe , que em queren- 
do AíFonfo Munhoz tomar a Atalaya fobre hum outeiro , vi- 
nham féis Mouros pêra aquelle meímo lugar , e quando fen- 
tirom os contrairos começárom d^iToviar, e paíTamente quize- 
rom-fe tornar, e os Chriílaos vendo como fe tornavam en- 
caminhárom a elles , e os Mouros começárom de fugir , e 
foi hum delles ferido de huma lança de Gomes Fernandes , 
e filharom-lhe dous efeudos , e huma adarga , e em eito 
achegárom os outros feus parceiros , e differaó , que pois 
erom defcobertos , que feria bem , que fe tornalTem pêra a 
Cidade , que em quanto os Mouros foíTem a Aldeã , e ao 
apellido vieíTem trás elles jaa feriam poftos na Calçada , e 
que dalli em breve teriam carreira fegura : AíFonfo Mar- 
ques , dilTe , que naó curaíTem , que elle fabia huma boa 
vereda per onde fe em breve falvariam ; e brevemente elle 
nunca acertou o caminho . nem vereda , e alFy andárom pe- 
la 



3&0 C.HfiONICA 

la cfpeíTaríi ào mato , que naõ podiam romper , até que oá 
contrairos achegarom , e alli quizeraó fazer huma azervada , 
em que penfavaó de fe falvar , mas os Mouros recreciam 
cada vez muito mais, onde os noíTos perderom toda efpe- 
rança de fua falvaçam , e cada hum entendeo em guarecer 
por fua parte , dos quaes emfim efcapárom fete , a faber , 
AíFonfo Marques , que tornou a Cepta a cabo de dez dias , 
e AíFonfo Fernandes , que tornou a féis , e os outros delles 
a dous , e deites a três ; AíFonfo Munhoz , e outros féis fo- 
rom prefos , mas dês que os Mouros fouberom como clle 
era Adail quizerano matar , fenaõ fora o Alcayde d^Alcacer, 
a que chamaõ Azaem , que por fazer prazer ao Conde o 
naõ quiz leixar matar , e muitas vezes foi aaquelle nobre 
Marim requerido, que o deixalíe juftiçar ao comum, dan- 
do-lhe cada hum fua dobra , que fubia em valor de mil e 
quinhentas dobras fegundo o numero dos moradores da 
terra, e elle nunca o quiz outorgar , dizendo: » Que o 
* Adail naò avia culpa em fervir feu Officio , e que pela 
» morte daquelle fe poderia feguir mais danno aos Mouros , 
» que proveito ; caa bem fabiam elles quantos depois podiam 
» matar por aquelle. » .E aíTy o falvou , até que o Conde tra- 
balhou pelo tirar aíTy elle , como os outros. E por certo , 
que antre as muitas virtudes , que Deos pofera naquelle Con- 
de aíTy era , que trabalhava muito por falvaçaõ dos Chrif- 
taos, e nunca refgua rd ando nenhum intereíFe de dinheiro, 
nem d'outra coufa pelos tirar de cativeiro , e creemos , que 
nunca ficou algum em feus dias , que naquella Cidade foíTe 
cativo , que por dinheiro , ou troca d'outro Mouro , ou Mou- 
íos nom foíTe fora de cativeiro. 



C A- 



do Conde D. Pedeo. 581 

CAPITULO XLV. 

Como Álvaro Ajfonfo cunhado de Gonçalo Nunes Bar- 
reto foi dar feno contra vontade do Conde , e do 
que fe dello feguio. 



SEguio-fe que toi neceíTario a Gonçalo Nunes Barreto de 
vir a efte Regno de Portugal arrecadar feus feitos ; e 
porque a guarda , que elle tinha eíteveíTe de fua maò pêra 
quando elle tornaíTe , foi encomendada pelo Conde a Álva- 
ro Affonfo de Negrellos feu cunhado , ao qual a dita guar- 
da foi dada com todos aquelles , que eraó ordenados ao di- 
to Gonçalo Nunes , penfando o Conde , que por quanto o 
Efcudeiro era bom , que nom paliaria leu mandado , o que 
elle fez muito pelo contrario , aindaque com fua perda. Em 
hum Domingo do mez de Julho o Conde por dar folgança 
á gente propoz de hir fora com todo-los de cavallo , dando 
lugar a quantos quizeíTem trazer frui ta, que foliem por el- 
la , e dês y teve tençaô de mandar pôr fogo a três legoas , 
por tal que aindaque alguns quizeíTem hir cercar a Cida- 
de , que lhe falleceíTe o mantimento pêra as beftas ; e jun- 
to com o Caítello de Metene contra a agua eftava hum pou- 
co de feno: Por mercê , diíTerom aquelles, que hiam como 
Conde , nom deis lugar , que fe efte feno queime , ca he bom , 
e perto da agua , pelo qual ligeiramente podem vir nas Barcas 
por elle. Ao Conde pareceo bem , o que lhe os outros re- 
queriam; e porem mandou aíTy leixar o feno , e no outro 
dia leixou-fe vir levante , pelo qual nenhuma Barca pôde hir 
fora , e quando foi a terça feira , dês que a terra foi ata- 
lhada foi-le o Conde a Almina pêra fazer acarretar lenha 
pêra o forno da cal , e Álvaro Affonfo mais cobiçofo de buf- 
car mantimento pêra fuás beftas , que fegurança pêra fua vi- 
Tom. II. Bbb da, 



3^2 Chronica 

da, trabalhou de hir por aquelle feno , e mandou os ho- 
mens em huma Barca , e elle , e outro Efcudeiro do Infan- 
te Dom Enrique , que fora criado de Vafco Fernandes de 
Tayde ambos a cavallo per terra , o que ligeiramente podiam 
fazer , pois o Álvaro Aífonfo tinha a chave da porta : e em 
eito ouve Luiz Vazques da Cunha fentido como elles lá 
hiam, e mandou huma fua Barca com certos homens feus 
pêra lhe trazerem feno , que jaa lá tinha fegado : e pofto na 
ribeira , e fendo jaa todos no lugar , onde aviam d'apanhar 
feu feno , e a mayor parte dos homens fora , começando de 
tomar fua carrega derom fobr'elles quinze Mouros de ca- 
vallo , e cento e cincoenta , ou pouco mais de pee , e tan- 
to foi o defacordo da gente , que nunca fouberom dizer don- 
de fahirom , e foi bem pêra aquelle Gonçalo Vazques , que 
hia de cavallo , que foi defpachado em fe lançar fobre as 
ondas do mar , e os Mouros em filhando aquella pequena 
preá , que era fua beira , acolheo-fe a huma Barca ; mas Ál- 
varo Aífonfo , que era com outro Efcudeiro , e com três mo- 
ços afaílados a fegar feno em hum çarrado , quando ouvio 
a volta tornou pêra onde os outros ficarom ; e quando vio 
o numero dos contrairos tam defigual volveo a rédea a feu 
cavallo , e foi-fe pêra terra de Mouros , porque pêra Cepta 
nom podia tornar pelos outros, que eram em meyo, pen- 
fando , que per noite poderia efcapar , e depois tornar per 
algumas veredas; mas feu penfamento naô lhe trouxe aquel- 
le efeito , que elle dezejava ; caa foi vifto dos imigos, e 
feguido até que o matárom ; e dos quatro , que forom com 
elle , os três fe efconderom na efpefíura de hum cannaveal , 
e o quarto quizera feguir a Álvaro Aífonfo, onde fez a mef- 
ma fim , que o outro fizera , e por femelhante matárom ou- 
tro daquelles , que fe accolhiam na Barca. O Conde como 
foube as novas , mandou logo até noventa de cavallo pêra 
ver fe ficavam alguns efcondidos , como fe muitas vezes fo- 
hia aquecer , e recolherom aaquelles , que achárom , e ain- 
da no outro dia o Conde foi fora pêra ver íe acudiria alli 

Al- 



do CosiJe D, PeÍ)RO. %$i 

Álvaro AíFonfo, e também na noite feguinte rríancíòu a Af^ 
fonfo Marques com doze homens fobre o Porto da Calçada 
efperando fe vivo foíTe , que poderia por alli acudir; e eftan- 
do AíFonfo Marques aíTy fentio como entravam Mouros , e 
olhou como punham fuás aliadas , feze-o faber ao Conde , o 
qual teve aquelle acoftumado avifamento , que fohia, e qui- 
zerom filhar a alguns em hua cillada , e virom , que eram 
tantos , que naó fora razaó tentar peleja tam deligual , ainda 
que alguns Fidalgos quizcrom o contrairo , os quaes eram 
fob a Capitania d' Álvaro Mendes ; mas o Conde foi fora ^ 
e feze-os recolher : e os Mouros fentindo , que como penfa- 
vaõ naó podiam enganar aos Chriftãos , vierom á viíta da Ci- 
dade , e como os tróos começárom de fazer os primeiros ti- 
ros, como gente temerofa do dapno , que podiam receber, 
começárom de fe tornar. E logo nefta femana o Conde man- 
dou armar fuás Fuftas , em as quaes mandou certos preíio- 
tieiros , que tirafTem a AíFonfo Munhoz , e aíTy aos outros y 
que com elle forom cativos ; mas os Patrões ouvetom con- 
felho de hirem bufcar alguma preza , e da tornada fizelFeni 
o refgate ; e alli acordarom antre fy a maneira , que tevef- 
fem , e feguirom direitamente a Mamora , e fendo fobre a 
barra foi o tempo tanto , que naó oufárom aprovar a entra- 
da , e teverom-fe largos ao maar , e forom porem em peri- 
go , os que hiam na Fufta do Conde , porque nao hia ef- 
quipada ; caa naô levava mais de cincòenta e três remeiros , 
e aíTy jouverom fobre ancora antro Larache j e a Mamora 
acerca de duas legoas hum dia , e huma noite largos ao maar , 
c no outro dia feguinte ouverom acordo de fe alargar ao maar, 
e andarem repairando , e fe lhes o tempo tevelTe , de fe hi- 
rem á Ilha de Fadella j e hy tomarem agua : mas fallando co- 
mo Gentios , Neptuno Deos das aguas nom quiz , que feií 
penfamento ouveíTe aquelle efeito, que elles dezejavaõ, por-' 
que na noite feguinte a tormenta foi tanta, que os fez apar- 
tar huns dos outros , de guifa que a cada hum conveio bulcar 
fua guarida : e huma Galleota com hum Bragantim do Con- 

Bbb ii de, 



3$4 ChKONICÀ 

de , corrt outra de hum , que fe chamava Lourenço Efcu- 
deiro correrom a Tavilla , nom porem juntamente; e a GàU 
leota de Johaó Barrofo com outro Bragantim do Conde , e 
outro de Pêro Xamenes correrom até huma Ilha pequena , 
que he acerca de Çallé , que fe chama Jazira : e porque eram 
homens , que fabiam a terra , diíTerom antre fy , que feria 
bom de tomarem hum falto , que eítava no caminho , que 
vem pêra Anafe , o qual de feito tomárom , onde a preá nao 
pode muito tardar , fobrechegando logo vinte e dous Mou- 
ros , e dez Mouras : no íalto eram quarenta homens , os 
quaes como forom avifados pelas Atalayas , começárom de 
fe correger , e naó fe poderom tanto efconder , que nom fof- 
fem viftos dos Mouros , fendo jaa acerca do falto ; e como 
aquelles Africanos faó gente ligeira efpedirom-fe em tal gui- 
fa , que todo o dapno daquella preza , ficou fobre o dapno> 
das Mouras. E bem he , que correrom melhoria de duas le- 

foas depôs os outros , e nunca lhes poderom fazer mayor 
apno , que matar-lhes hum parceiro , e vendo como fua ef- 
tada jaa nao aproveitava naquella terra acordárom de fe par- 
tir, e fe tornar ao Rio da Mamora pêra roubarem hum Aduar f 
que alli eílava , em que podia aver quarenta , ou cincoenta 
vizinhos , o qual era três legoas dentro pelo Rio : e porque 
o foi era jaa pofto , quando chegárom a barra, e era fobre 
a jufante naô oufárom entrar , porque nao levavam peífoa % 
que foubelTe a fonda do porto ; porem tanto , que foi ma- 
nhaa , e que veio a maré. forom demandar a barra , a qual 
nom podiam acertar , o que lhe era grande nojo , porque 
fe vinha a clareza do dia , pelo qual poferom dous homens 
em terra , que foíTem bufcar o Rio, e que fe o achaíTem, 
que lhes fezeíTem final com fogo de fuzil ; o qual muito em 
breve foi feito , porque muito acerca acharom o que bufca- 
vaó , e tanto que forom dentro pelo Rio acima poferom qua- 
renta homens em terra , os quaes em breve conhecerom a 
erro de fua viagem porque acharom o rafto de hum Mouro y 
que feguia quanto podia diante delles, pêra dar avifamentot 

aos 



DO C O N D E D, P E 1) R O. ^$< 

aos naturaes , como de feito fez , e em hindo aífy as Fuíhs 
vogando topárom com huma Zavra ^ que feguia pêra Çallé 
carregada de cevada , e de cera , da qual os mareantes del- 
ia em breve perderom o frete ; caa pela vifta dos Chriftãos 
alagarom o Navio com a mercadoria ; e elles em terra. Os 
noflos forom direitamente ao Aduar , mas quando chegárom 
jaa hy nom acharom nenhum ; caa todos eram paíTados da 
outra parte^ porém poferom-lhe fogo, e queimarom huma 
parte delle , e des y poferom-fe da outra parte , donde os 
imigos eftavam , e alli começárom fua peleja, na qual pof- 
toque o numero foíTe deíigual em grandeza , e multidão dos 
nofíbs , ouvérom porém dous delles de receber morte , e os 
outros temendo aquelle mefmo perigo fugindo , íe afaftarom 
dos contrários , os quaes tornárom a feus Navios , vierom-ie 
pelo Rio a fundo , e na barra delie tornárom feu repoufo 
todo aquelle dia, fem avendo nenhuma contrariedade, e fo~ 
bre a noite fahirom da barra , e chegando ao Gabo d'Efpar- 
tel acharom hum Caravo , que vinha d'Arzilla pêra Tange- 
re , e tanto o feguirom , que o fezerom encalhar em terra ; 
porém foi filhado , e tomada fua mercadoria ; e feguindo 
mais per fua viagem ouverom vifta de duas vellas , que par- 
tirom de Tangere , e levavam Embaixadores d'ElRey de 
Graada com fuás encavalgaduras ^ e feguindo humas delias, 
que era Barca fezerom-a encalhar em terra , onde os contrá- 
rios naõ ouuerom tempo de tirar nenhuma coufa , foomente 
feus corpos , e ficarão alli os cavallos com todo o ai; e co- 
meçou-íe alli huma peleja dannofa pêra hum Efcudeiro da- 
quelle Joham Barrofo , o qual fallecco alli , e dos Mouros 
muitos forom feridos , cujas mortes forom aos noíTos enco- 
bertas aíTy pela efcureza da noite , como de feu coltume , o 
qual he afaftarem os mortos da vifta dos Chriftãos : e na ou- 
tra vella hiam feíTenta Mouros , e feflenta e dous cavallos , 
à qual efcapou pela noite , que veio cerca : e porque o Con- 
de foube , que aquella Barca era de Caftella , e que coftran- 
gidamente fora alli trazida , o que fe moftrou bem ao tem- 
po 



386 Chronicà 

po que os Mouros faltarom em terra, que a quizerom aliar 
fora por huma corda , o Arraes lha cortou com boa vonta- 
de j e lhe aprouve de ficar com gente de fua Ley ; e porém 
lha leixarom livremente com todo o que nella trazia : e em 
efta Barca forom achadas Cartas per que EIRey de Portugal 
foi certo da vinda dos Mouros ao cerco ; caa eítes Embai- 
xadores de Graada naõ palTáraõ a outra fim em aquellas par- 
tes Africanas. 

CAPITULO LIV. 

Como Fernam Barreto filho de Gonçalo Nunes foi mor* 
to , e Ruy Gomes da Silva prefo, 

OS fegredos Divinos trazem comfigo tanta efcureza , que 
debalde fe trabalha nenhum humanai entendimento de 
os querer enveftigar , nem comprehender , e bem o difle 
aquelle Summo Sacerdote Thezoureiro da infinda fabedoria 
Christo noíTo Senhor, alli onde fallou aos Apoftolos dizen- 
do : » Que naô quizeÍTem faber os tempos , nem os momen- 
tos , que Deos pufera em feu poderio. » E pois áquelles , 
que tam chegados eram á Sua Mageftade femelhante íilencio 
foi pofto ; que fera de nós outros , que tam afaftados anda- 
mos do lume de fua graça , cujas palavras apricamos ao aque- 
cimento , que no prefente Capitulo queremos contar , afíy da 
morte de Fernam Barreto , como da prifaò de Ruy Gomes 
da Silva, onde haveis de faber, que eftando eftes Fidalgos 
em Cepta , aquelle filho de Gonçalo Nunes aíTy como era 
nobre no fangue , afly avia nobres condições , e coftumes ; 
e porque avia dias , que nom fahira fora da Cidade, cha- 
mando-o aquella , a que fe nenhuma creatura vivente pode 
efconder , pareceo-lhe , que aquelle dia eftava enfadado , e 
querendo hir folgar com dous galgos , que tinha pêra ácern 
ca da Cidade, porque a terra pela manhaa fora atalhada, 

e 



do Conde D. Pedro. 387 

e as Atalayas naõ fezerom nenhum final da entrada de Mou- 
ros pareceo-lhe , que tinha fegurança pêra feu defenfadamen- 
to : e andando aíTy bufcando ília caça com pouca gente foi 
efcorre^ando de outeiro em outeiro , até que foi cahir antre 
os Mouros ; e pêro que o tomaíTem aíTy defpercebido , to- 
davia o Fidalgo fe poz em eíperança de defenfa , a qual 
lhe jaa naó preftava pêra outra coufa , fenaó pêra acabar com 
fua nobreza , e hum daquelles , que o feguiam * correo rija- 
mente pêra lhe bufcar focorro , e como quer que em muy 
breve chegaíTem alli alguns , elle tinha jaa porem dado aquel- 
le nobre efpirito nas mãos daquelle, que o creara ; e antre 
os que fe mais trigárom pêra lhe accorrer foi Ruy Gomes da 
Silva , o qual , ou porque os Mouros eram muitos , e os 
Chriftaos poucos , ou per outra alguma cajam foi prefo dos 
imigos , c foi coufá maravilhofa do llfo deite Cavalleiro , 
que porque os Mouros trabalhaíTem pelo conhecer, elle te- 
ve tanta prudência, e fortaleza, que fempre moftrou fer pef- 
foa miferavel , porque fendo fabido como elle era efpofado 
com a filha do Conde , e peflba nobre poferam feu refgate 
em tanta valia , que fe nom podéra tam cedo tirar ; em tan- 
to que aquelle , que o tinha nunca o conheceo , íenaô depois 
que o teve entregue ao Conde ; e quando vio o feu rece- 
bimento , e a condição de quem era , maldizia fy mefmo , e 
o dia em que nacêra , porque lhe o refpeito de tal peflba 
fora denegado , como quer que lhe Ruy Gomes fezeíTe bem , 
alem do que per fua avença devia : e acaeceo-fe ao diante 
como a fortuna gira feus aquecimentos, que aquelle Mouro 
mefmo foi cativo de Ruy Gomes , e recebeo delle tal fa- 
vor , que ainda que lhe o Mouro bom cativeiro fezera , pe- 
fava-lhe porque lho nao fezera muito melhor. 



CA- 



388 Chronica 

CAPITULO LV. 

Como Diogo Vazques de Portocarreiro tomou certos 
Navios no mar > e daquelles que forom em [tia 

companha. 

COmo o Conde jaa fabia , que os Reys fe carteavam 
pêra fe acordarem de vir ao cerco da Cidade , pelo 
qual punha grande avifamento no mar , de guifa que poucas 
Embaixadas podiam paíTar , que o elle nom íbubeíTe : e co- 
mo por guerrear aos infiéis trazia fempre feus Navios apa- 
relhados , que cafy cada femana avia preza grande , ou pe- 
quena; e por quanto lhe fora efcripto de Tarifa , que hum 
lenho d'Alcaçar era paíTado a Gibraltar pêra levar meíTagei- 
ros , e que dous caravos eftavaõ carregados com beftas , e 
outras coufas , que levavaò pêra EIRey de Féz de prefente , 
mandou fazer preftes dous Lenhos , afaber, hum feu , e ou- 
tro de Joham Pereira , e fallou com Diogo Vazques de Por- 
tocarreiro, e com Lourenço Annes de Pádua, que era Ca- 
pitão do outro Lenho contando-lhes o recado , que lhe vie- 
ra , porem que fe fezeíTem logo p refles pêra efla noite paira- 
rem alem , e ver íe podiam filhar aíTy os caravos , como o le- 
nho , dando-lhes a maneira, que em ello teveílem ; e logo 
aquella noite atraveífaraõ até junto com Agua de Ranque. 
Ora , diíTe Diogo Vazques amim parece , que he bem , que 
vós fiqueis detrás , porque o meu Lenho he mais pequen o , e 
ajfy mais ligeiro , e eu hirei diante , porque naÕ ferei tam a(i- 
nha jentido , e com qualquer Fufla , que toparmos , que achar- 
mos larga , pagaremos per ella , e h iremos a terra , e como vós 
nos virdes aferrados com ella acorremos ; caa a que ficar detrás 
na mao a teremos. E com efte acordo forom viagem do por- 
to , e a Fuíta , e hum Caravo eftavam largos , e outro jazia 
em terra , e Diogo Vazques vogou a elle , e enveílio , des 

v fal- 



do Gonde D. Pedro. 389 

y faltarom dentro , e cortaraõ-lhe as palomeiras , e os Mou- 
ros naõ teverom outro acordo, fenaõ faltar fora; pcro ante 
que íe defpediíTem lhes matarom os noíTos hum , e ferirom 
outros , e alTy tirou Diogo Vazques logo aquelle Caravo fo- 
ra , e parece que Lourenço Annes , e outra Fufta , que era 
com elles, porque ouvirom duas Fuftas, e ouvirom o arroi- 
do grande, nom fe atreverom a cometer a peleja com as ou- 
tras , e derom-lhes a poupa , de que Diogo Vazques foi mui- 
to anojado quando chegou, e deixando-lhes o Caravo nas 
mãos tornou trigofamente, mas jaa quando elle foi, jaa as 
Fuftas eram em terra , de guifa que lhes nom pôde fazer na- 
da. Em efte Caravo forom achadas três azemalas muy gran- 
des , e muy formofas, e dez podengos , e o ai todo era far- 
ei inha , e pafla, e tanto que efte Caravo foi defpachado, 
logo o Conde mandou atraveíTar as Fuftas aalem , que fe fof- 
fem lançar á Ponta do Carneiro , porque ventava levante ; 
e entendeo , que o lenho, e o Caravo fahirom, mas nom 
acharom nada ; e eftando afly ao meio dia virom vir duas 
vellas pela coixa do monte , as quaes entrarom dentro no 
porto de Gibraltar. Mosé Martim foi logo avifado , que 
apareihalTe fua Fufta , que tinha armada , e Diogo Vazques 
com elle, e que aquella noite foíTem fobre aquellas vellas, 
as quaes acharom fobre o porto cafy defpercebidas , e bre- 
vemente elles partirom logo , e ouverom aquelle mefmo acor- 
do , que teverom da outra vez ; e quando chegarom ao por- 
to Diogo Vazques foi fobre hum Caravo, que jazia bem' 
fob a Torre da Couraça, e os Mouros, que nelles jaziam 
cuidarom , que era o Lenho d'Alcaccr , e começou hum dei* 
les a dizer Agomer , Agomer , que quer dizer em noíTa Lin- 
goagem Arraes , Arraes ; e porque na Fufta naó avia , quem 
foubeíTe fallar Aravia foi-lhes neceífario de fe calarem ; o que 
os Mouros teverao por dannofo íilencio : e porém faltarom 
logo a agua, e os noíTos faltarom na Fufta, e filharaò-na cor- 
tando-lhe muy em breve os proyzes , que tinha cm terra i 
e tiraraó-na fora. Mosé Martim foi ao outro, e diíTe, que 
- Tom. II. Ccc lhe 



390 Chronica 

lhe parecera Barca de Caftella , porque lhe fallarom ladi- 
no , porem tirarom-lhe com pedras. O Caravo , que Dio* 
go Vazques tomou era carregado de muita roupa feita , e 
boa, e cToutros panos em peça , e aíTy de boasjoyas Mou- 
rifcas , e cordas d'Efparto , e Malega , e gram foma de chum- 
bo, que traziam por laltro. Em eíte encejo chegou a Cep- 
ta hum lenho d'Alicante de dezoito remos , que deícorrcra 
alli com força de tempo ; e outro de hum Comitre de El- 
Rey d\Aragaõ , que chamavaô Empalomir , o qual vendeo 
a Mosé Joham de Salla-nova ; e porque o Conde vio , que 
tinha aíTy alli aquelles Navios com os feus , feze-os fazer pref- 
tes , e partir. E porque era noite , e Diogo Vazques nom 
pôde logo fahir com os outros , mandou perguntar ao Con- 
de a viagem , que avia de fazer ; ca parece , que elle nom 
fabia da falia dos outros , e acertára-fe , que no dia d*ante 
ouvira fallar de hum falto , que he junto com EJlapona , por- 
que lhe o Conde mandara, que feguiíTe os outros, e elle 
nom pode acertar a rota , que levavam , fez viagem daquel- 
le falto, c os outros forom ao cabo do Carneiro, e Diogo 
Vazques com a cerração , que era grande , naó acertou o fal- 
to , e correo via de Marbella , e em fahindo o Sol topou com 
hum Caravo grande , que vinha de Mallega , o qual come- 
çarom de combater , e derom-lhe três combates , que durá- 
rom do Sol fahido , até meio dia , antre o que punham em pe- 
lejar, e em tomar defcanço, e ferirom dez homens da Fuf- 
ta , e dos Mouros nom fouberom quantos forom feridos , po- 
rem que virom cahir três mortos : e tanto pelejarom os nof- 
fos , que nom teverom foomente hum efcudo , de que fe 
aproveitar, ante tomavam as efcotilhas , que punham ante 
fy, as quaes per femelhante forom quebradas , e por ello 
fe partirom cada hum pêra fua parte. 



C A- 



do Conde D. Pedro. 391 

CAPITULO LVI. 

domo Jóham Alvares Pereira foi a Almarça • e do 

que fe laa fez. 

BEm he que tremetamos antre os feitos do mar > algu- 
ma coufa da terra , porque noflbs ouvidos nom tomem 
faftio de ouvir fempre as coufas de huma calidade , ainda~ 
que o corregimento defte Capitulo nom fera de todo alegre 
á noíla gente. E porem fabee que aos vinte e íeis dias do mez 
de Junho daquella era , chegou a Cepta hum Jurado de Ta- 
rifa , o qual difíe ao Conde , que elle lançara em Almarça 
oito Almogavares , e que lhe diíTerom , que fe vieíle elle , 
e que elles ficariam pêra ver fe poderiam tomar alguma lin- 
goa , como de feito fezerom ; e foube o Conde deiles , que 
fe lhes deíTem cento homens , mandando huma Fuíta ao por- 
to daquelle Valle , que poderiam bem prender , ou matar 
todo-los moradores daquelle lugar; e o Conde coníirou, e 
vio , que a coufa era rafoada , e determinou de mandar lá : 
e feguira-fe , que no outro dia d'ante chegara alli hum Jo- 
ham Alvares Pereira donde andava d'armada correndo ácof- 
ta , e com elle Nuno de Góes , e húa Galleota de Carta- 
genia , e pedirom-lhe , que osmandaíTe lá. O Conde dilTe, 
que lhe prazia , porque lhe pareceo , que o feito poderia 
muito melhor vir a fim ; e des y fallou com elles, e acor- 
dárom de fe fazer logo ; e porque a Galleota de Cartagenia 
vinha aberta , mandou o Conde armar huma fua , mandando 
em ella aquelle mefmo Patraô , que andava na de Cartage- 
nia , encommendando a todos , que fezeíTem o que Joham Al- 
vares mandaffe : e des y mandou per terra duzentos homens 
antre Efcudeiros , e homens de pee , c Beefteiros ; e porque 
os Almogavares nom eram acordados huns , com os outros 
mandou com elles Gonçalo Vazques de Ferreira por Capi- 
Tom, II. Ccc ii taõ , 



3$2 CtfRÔNICA 

taó , e diffe-lhe : Vós hy , e lançaivos ejla noite em cima do 
Valle d?Almarça , e Jobam Alvares mandara cento homens de 
pee das Fujlas acima de hum a ferra , que he contra Ale a ç ar , 
onde fe jaa acolher om outros tutra vez y quando a eu mandei 
roubar , e tanto que for manhãa Joham Alvares mande poer fua 
prancha fora , e faya em terra ? e fam certo , que tantoque fa- 
h irdes , que a gente do Valle logo vira a vós , e como os da c ti- 
lada efto tirem acudirão logo , e dalli podereis fazer ferviço 
a Deos , e a EIRey nojfo Senhor , e honra de vós mejmos ; e 
tantoque teverdes algtia cottfa feita , o fogo feja logo pofto pela 
terra de toda-las partes , efpecialmente aos pães , que ejleverem 
pelas medas , e alh vos recolhei todos ás Fujlas ajfy huns , co- 
mo os outros. Todos differom , que fe faria todo pela guifa , 
que elle mandava. E acertára-fe , que de Zaram , que hc alem 
de Tafillete partirom dous Cavalleiros Alarves com dez de 
cavallo , e com cento e cincoenta homens de pec , e forom- 
fe direitos â Fés após a fama , que corria , que aquelle Rey 
fe avia de hir lançar fobre a Cidade de Cepta , e quando 
fouberom , que o cafo nom eftava tam trigofo como elles 
queriam , efpedirom-fe delle , e hiam-fe direitos aaquella Ci- 
dade tendo 5 que recebiam aquella Indulgência , que os 
Chriftaos ganham na vifitaçaó do Santo Sepulcro , e acertou-fe 
de chegarem a Almarça naquella mefma noite , e tinham acor- 
dado de fe hirem a Bulhões , pêra tentar fe poderiaò alli 
tomar alguns Chriftãos, e pêra averem refrefeo de frui ta, e 
depois fe juntar com Aabu; mas o feu cuidado foi muy lon- 
ge do que elles penfavam , porque jazendo elles naquelle val- 
le , quando foi manhãa pareceo Joham Alvares em cima de 
huma ribeira com fua gente , e tantoque os aquellcs Mou- 
ros eftrangeiros virom , encaminhárom a elles penfando , que 
a fua boa ventura fe lhes trigava mais do que elles cuidavam , 
é os de cavallo forom diante pêra travar a peleja : em efto 
fahiraõ os da cillada , que jaziam contra Alcaçar , cuja vif- 
ta fez aos Mouros volver as cofias , nom os querendo por 
fua vontade efperar , e encaminhando de fugir forom dar na 

ou- 



do Conde D. Pedro. 393 

outra cillada , e vendo-íc cercados de todas as partes , cada 
hum teve o pofto de fe leixar hir , pêra onde a ventura o 
quize guiar, e aíTy , que de dez, que eram de cavallo os 
três forom prelos , e os fete morrerom , e dos de pee até 
vinte ; em cujo esbulho acharom três azemalas , e peça dê 
afnos com fuás carregas , e bem parecia em o corregimento , 
que aquelles de cavallo traziam naquellas bêftas , qual era 
fua nobreza ; caa todo feu arrêo era de homens de nobre li- 
nhagem aíTy nas armas , como na guarnição das bêftas. Gon- 
çalo Vazques , e os outros Efcudeiros do Conde requererão 
á outra companha , que fe foíTem as Fuftas , e que metelTem 
o esbulho dentro , e elles nunca o quizerom fazer , e toda 
fua tenção foi levaras azemalas, e os cavallos , eo ai pen- 
fando , que fe o meteíTem dentro , que lho tomariam : po- 
rem taes ouve hy aquelle dia , que nom foomente leixarom o 
esbulho , mas a vida ; caa nom bailou nom quererem fazer 
o mandado do Capitão no que lhes requeria , mas ainda to- 
márom o caminho muy de vagar lançando-fe hu quer que 
achavam agua , e fombras , nom embargando lhes que muitas 
vezes foíTe requerido, que andaíTem ; caa bem viam a terra 
onde eftavam ; e os Mouros , que efeapárom do desbarata 
acolherom-fe á ferra , e virom como vinham defarranjados , 
e teverom-lhes o porto ; e quando os virom vir mandou Gon- 
çalo Vazques os cavallos , e preíioneiros diante , e peça de 
homens com elles , até paíTar huma rachada pequena , que 
eftava ao fundo do porto contra Bulhões ; ally mandou , que 
o aguardaíTem , e aíTy encaminharom pêra o fundo , e elles 
teverom-fe no porto, que fe vinhaó com elles ladeando, e 
voltando a elles , onde matárom alguns dos contrários , le- 
vando-os grande efpaço pêra fundo ; e em efto volverom ou- 
tra vez ao porto , e aos Mouros recreceo mais gente , e vie- 
rom outra vez aos noíTos , os quaes fe nom quizerom mais 
ter ao mandamento do Capitão, nem guardar ordenança , em 
que os poíeíTe , e cuidárom per força ganhar a rachada do 
porto, onde Gonçalo Vazques mandara os outros, movendo 

pe- 



394 C H R O N I C A 

pêra lá a mor parte delles , e em chegando alli deteve-fe 
Gonçalo Vazques , e peça deíles Efcudeiros , e homens de 
pee , que feriam até vinte e féis , e os outros começarom a 
fugir, e os Mouros quando os aífy virom , "meterom-íe com 
elles ; e a terra era tam maa , que como hum topava no ou- 
tro logo o derribava , de guifa tjue antre mortos , e prefos 
perderom-fe alli quarenta e dous homens : e quando Gonça- 
lo Vazques vio , que fe aíTy venciam , mandou matar todo- 
los prelos, e decepar os cavallos , e azemalas, que nom fi- 
cou nenhum, fora dous, que hiam muito diante, dos quaes 
hum era o maior Capitão delles , e o outro de pee ; e entaõ 
recolheo-fe á ponta do arrife da ferra com aquellcs , que ti- 
nha , e mandou hum homem a Joham Alvares , que vinha 
pelo mar , que lhe capeaíTe , que lhe acorreíFe ; mas quiz 
Deos , que ante que aquelle Fidalgo viífe nenhum final do 
que Gonçalo Vazques mandava fazer do mar, donde anda- 
va vio a gente como andava bulida , e pareceo-lhe mal , e 
acudio com a Gallé a Atalaya , que eftá a fundo de Bulhões , 
e poz hy gente fora , e recolheo toda a maior parte da gen , 
te daquella , que fe ante defordenára : e em eito tornárom 
os Mouros a Gonçalo Vazques onde citava , e combaterom-no 
por três vezes ; em eite combate forom peça de Mouros 
mortos , e mal feridos , e nunca poderão entrar os Chrif- 
taos ; e veio alli hum Elche a elles requerendo-os , que fe 
delTem a prifaõ , e que fe tornaífem pêra ElRey de Fez , e 
que lhes faria muita honra , e mercê. O'o arrenegado , diíTe 
Gonçalo Vazques , nom te bafta a tua dannaçao , mas ainda 
querias , que nós outros fojfemos perdidos comtigo : cree , que 
fe nós outros ouvermos de morrer , que nom fefd fem grande 
dapno de vojfo fangue. E em eito começarom os Mouros ou- 
tra vez de os combater ; e aquelle máo arrenegado vinha 
diante , e hum homem de pee do Conde , que eítava em 
híí portal remeíTou-o com huma lança, e deu com elle mor- 
to em terra , e da morte daqueíte tomarom os outros tal cf- 
panto , que fe afaítárom afora , e começarom d'apanhar feus 

mor- 



do Conde D. Pedro. 3p£ 

mortos , e feridos , e forom-fe dalli ; e Gonçalo Vazqués 
com os outros vinte e cinco , que com elle eram , encami- 
nharom pêra onde eftava Joham Alvares i e meterom-fe nas 
Fuftas. No outro dia feguinte chegou alli hum Mouro com 
hum pendão branco em huma vara , e veio a Atalaya ^ e da- 
hy o trouxeraõ á Cidade ; e Álvaro Mendes como era ho- 
mem antigo , e que vira jaa muitas coufas , teve-o aíTy , até 
que mandou avifar o Conde ^ o qual fez logo chamar toda 
a boa gente , que alli avia , e mandou , que peças delles ef- 
teveflem per onde o Mouro avia de vir , e que eftevelTem 
fallando, e jugando, como gente , que nom eftava alli acin- 
te: e por femelhante mandou fazer a porta do Caítello, e 
na Praça , e fez vir hum homem , que fabia bem fallar Ara- 
via, e feze-o veftir em húa aljuba de Mouro, e lançar-lhe 
huns ferros , e avifou-o , que em todo cafo fezeíle por fe 
fingir, que era Mouro, eque era de Graada, e que fora fi- 
lhado em huma Barca , pêra aver razaô de fallar com o Mou- 
ro, que vinha. E em efto veio o outro , o Conde vio, que 
elle fabia bem fallar o Portuguez : Como , diíTe o Conde, 
jilhaftes oufadia -pêra vir a efla Cidade fem meu feguro. Eu , 
Senhor , refpondeo elle , fom em vojfo poder pêra fazerdes dè 
mim , o que vos prouver ; mas Vojfa Mercê faiba , que Aàbu 
me dijje , que eu vieffe a vós feguro , ca elle me fegurava , di- 
zendo-me , que vós fois tal, que pois eu com feu recado venho ^ 
que vós nom me farees nenhum mal , nem fem razão : quanto 
mais ^ Senhor , diíTe o Mouro , porque venho com recado de vof- 
fos Chriftaos , que Jam cativos em noffo poder. Por tua Ley , 
difle o Conde , que Aabu te manda caa ? E o Mouro afirmou , 
que fy. Ora , diíTe elle , podes dizer , ò que te prouver ; cá 
pois Aahu me tem nejfa pojfe , eu nom quero fahir delia , e té 
ey por feguro per honra daquelle , que te ca enviou. Senhor , 
diíTe o Mouro , fam vindo a faber fe algum daquelle s Cavallei- 
ros , que vierom de terra de Zaram he prefo , ou algum dos ou- 
tros , que lhe logo alli nomeou , e quero faber fé os quereis ref- 
gatar. Verdade he , diíTe o Conde , que aqui he hum dejfes Ca* 

vah 



396 C H R O N I C A 

valleiros , e affy os outros Mouros y porque me perguntas ; e 
pois que vós lã prezioneiros tendes fede certos , que vos nom ey 
abarrancar nenhum a dinheiro , JenaÕ huns per outros \ e os que 
mais valerem , que tornem dinheiro : porem tu te vai embora , 
e dize a Aabu , e a aquelles , que te ca enviar om , que me man- 
dem por efcripto os nomes dos que ontem forom prêfos , e à? al- 
gum outro fe o tu fabes , que lá Jeja prêfo , com tanto que nom 
fejam daquelles ? que Je lançarom per fuás vontades , porque taes 
nom tomaria fenao pêra os cannavear. Senhor, tornou aquelle 
Mouro , eu tomarei dello bom cuidado ; e quando ouver de vir , 
farei certos finaes , que logo alli mofirou. Ante que te vas y 
diíTe o Conde , queria , que fali ajf es com hum Mouro , que aqui 
tenho de Graada pêra me faberes delle fe fe quererá arrançoar. 
Venha , diííe elle , caa em poucas palavras faberei fua fazenda. 
Ex vem o Chriftaó em forma de cativo , com fua braga de 
ferro , c com feu alquicé velho veftido , e comtenença trif- 
te, e faz fuás mefuras ? fegundo a ufança daquella gente, 
e aíTentarom-fe a fallar. O'o , diíTe aquelle Chriftaó , que eí- 
tava em auto de cativo , como tu podias aproveitar a minha 
vida fe quizejfes ; caa fom pobre , e jafo nefte cativeiro , ejwm 
ey remédio algum , fe te prouvejfe pelo amor de Deos , e do nojfo 
Santo Profeta pedires lá per ejjas Aldeãs ,pera me tirares daqui , 
ãverás grande mercê , ou fe hy ouveffe algum Chriflao , que 
àejfem por mim , feria coufa per que mais ligeiramente podia 
fahir j caa muitas vezes fom difpofto leixar a noffa Santa Ley. 
Bem me praz , diíTe o outro , mas affy te Deos tire defla tri- 
bulação , em que jazes , que gente te parece , que pode aqui 
aver ? O numero delia certo eu nom to faberei certificar , pêro 
fei , que he muita. Affy me parece , diíTe o Mouro , ca defle 
a porta de Madraxabe até qui ? eu vi mais de dous mil ho- 
mens , e fom maravilhado , qual diabo dos infernos pôde fartar 
tantos lobos ? que comem vianda , que fartaria dez tanta gente 
de noffa companha : e também te rogo , que me digas fe fabes y 
porque mandou o Conde derribar as cazas ? que ejlavam junto 
com efle Cajlello. Porque a praça era pequena , refpondeo o 

ou- 



do Conde D. Pedro. 397 

outro , e nom podiam nella caber os que compram , e vendem : 
Ora me dize j diíTe o Cnriíraõ , he verdade efto , que fe ca 
diz , que ElRey de Fez hade vir f obre efla Cidade. Ainda naÕ 
agora , refpondeo o Mouro , mas manda aqui gente pêra a guer- 
riar. Ora , quem vos daa de comer aaquelles que aqtii ejlais 
acerca por fronteiros. Os nojfos Juizes nos põem pelas Aldeãs , 
e os Alfaqueques andam pregando 3 e pedindo efmola pêra nós , 
mas com todo efto jomos jaa tao gafiados y e Aabu tam po- 
bre , que n m tem hum paão pêra comer , fe o nom toma por 
f.rça aos Lavradores. E aíTy acabárom fuás palavras , as 
quaes aqui efcrepvemos aíTy pêra avifamento , do que per 
ventura fe em tal cafo pode feguir , e aíTy por vos notifi- 
carmos a grande prudência , que ouve naquelle muy nobre 
Capitão, ao qual aquelle Mouro diíTe , que aquelle outro 
com que fallára , nom era homem de fazenda , ante era 
muito pobre , e que levava cuidado de tirar alguma efmo- 
la pêra o tirar. O Conde mandou , que defíem aquelle 
Mouro muy bem de comer, e em fim lhe fez encher hum 
dobrei , que trazia , de bom paõ alvo , que clle muito 
preçou ? e afly fe tornou com fua embaixada , louvando 
muito aquella corteíia , que achara no Conde , e parece ,■ 
que aquelle Mouro fora jaa cativo em tal Villa acerca de 
dez annos ? e por ello fabia aíTy a noíTa lingoagem> 



Tom. II. Ddd C Á- 






398 Chronica 

CAPITULO. LVIL 

Como o Conde mandou bua Gallé , e Fuftas a Ta- 
gaça ; e como pelêjárom com os Mouros • e como 
vierom outros Mouros a Cepta , e nom fezerao , 
nenhuma coufa , fomente que matárom bum Efcu- 
deiro. 

POr ventura alguns dos que lerem efta nolTa Iftoria ave- 
rám por fobêjo contarmos algumas coufas miúdas, ou 
taes , 'que nom trouxerom efeito : e porem faibam , que fe 
nom fez por ajuntar foma de palavras, fomente nos pareceo 
exemplares pêra alguns outros feitos , que fe ao diante po- 
deráò acontecer , aíTy como efte .prefente Capitulo , pelo 
qual podeis faber , que eftando huma Barca de hum mora- 
dor , que fe chamava Álvaro Pires fobre o porto daquella 
Cidade , vierom de noite alguns Mouros , e filharãna , de 
que o Conde tomou cuidado , mais pelo atrevimento dos imi- 
gos , que pela perda do Navio , e porem teve taes enculcas 
com ella , que íbube como eftava em Tagaça carregando pê- 
ra Malega , e mandou lá huma Gallé com certas Fuítas , que 
foliem roubar hum Aduar , que era ante Bilez da Gomei- 
ra , e Tagaça , e também pêra filharem a Barca fe a podef* 
fem aver ; e partindo ao Domingo , que eram quatro dias 
de Setembro , andarom a fegunda feira 5 de mar em roda fo- 
bre o lugar , e á terça pela manhãa forom-no bufcar de 
ponta ; mas o Piloto parece , que errou a marca da terra , e 
fahio em direito de Tagaça , onde a Barca eftava , e quando 
conhecerom feu erro, e virom a Barca encaminharom a ella; 
e porque o mar he alli todo per alto , era tal guifa que a 
Gallé podia bem dar efcalla em terra , e eftar em foto ; a 
Barca tinha as proyzes fora ; duas per poupa , e huma per 

proa y 



do Conde D» Pedro. 399 

proa, e eftava de longo da terra bem acompanhada de Mou- 
ros , afora outra gente , que eftava de fora bem armada , com 
peça de Beefteiros, e hum Mouro , que eftava nas arcas. Em 
quanto a Gallé girou pêra hir deça voga fobre a Barca , as 
Fuftas pequenas forotn logo direitamente a ella , e começá- 
rom de a combater, onde os noíTos achárom valente defeza 
aíTy do mar, como da terra j em tal guifa , que elles ouve- 
rom por feu barato de fe arredar afora , e em eito achegou 
a Gallé , e os Mouros como virom , que fe hia a Gallé ache- 
gando , começarom de defcarregar a mercadoria , e lançala 
em terra , e cortárom o proiz , que tinha ao mar lançando- 
fe fora, e tira'rom tam rijamente pelos outros proyzes , que 
fezerom tocar a Barca em terra , e quebrar em muitos peda-^ 
ços , do qual os noíTos Navios teverom lenha , que lhes abaf- 
tou em fua cozinha muitos dias : e em efta peleja forom 
mortos fete Mouros , com hum , que morreo de huma pedra 
de trom , e forom feridos muitos delles , fegundo pareceo 
aos das Fuftas , como quer que hum Mouro depois diíTeíTe , 
que nom forom feridos mais de vinte e cinco , até vinte e» 
íeis ; e dalli fe arredárom da Gallé , e das Fuftas tanto como 
fentirom , que lhes feus tiros nom podiam empecer ; e dos 
nofíbs forom feridos féis de taes feridas , de que a pouco 
tempo guarecêrom ; e alli poferom hum pendão em huma 
barqueta pêra tomarem feguro , refgatando logo três Mouros 
de Bento Fernandes. Partirom da Fufta de Cartagena, e á 
partida , que dalli fezerom , trouxerom a cofta de longo , ama- 
nhecerom em Teguidez , e alli faltárom os da barqueta do 
Conde em terra , e tirárom hum Caravo , que hy eftava , an- 
te que lhe os Mouros podeíTem acorrer, o qual trouxerom a 
Targa , onde o venderom a feu prazer. Em efte mefmo en- 
fejo vierom Mouros a Cep ta , onde nom achamos, que fe- 
zeíTem nenhuma coufa , que de contar feja , foomente que ma- 
tarão hum Efcudeiro do infante Dom Henrique, por cajam 
de feu cavallo, que entrepeçando o derribou , porem nom 
curamos de efcrepver a miudeza de feus feitos. 

Ddd ii C A- 



400 C h l e k i c a 

CAPITULO LVIII. 

Como Affonfo Martins Calado , e outros forom barre- 

jar Larache , e como Pêro Ximenes foi a Qallé, 

onde tomou quatro Mouros , e hum Judeu. 

SE eu no paíTado Capitulo dei razaó , porque profeguia em 
minha Iftoria com algumas coufas de menos fuftancia , 
que outras , que nos Capítulos n que ante forom ; e em ou- 
tros que ham de vir fe pode achar efcriptos , por certo nom 
direi , que naqueíte prefente fe poífa femelhante comprehen- 
der; porque certamente por grande, e maravilhofa obra fe 
pode contar aquefta , que AíFonfo Martins Caiado com os 
outros , que o feguirom fezerom antre os imigos. E fendo 
o mez de Julho começado , pêra aviamento achegou a Cepta 
hum Caítellaõ , que era o Comitre d'ElRey de Caftella ; e 
fabendo o Conde como era homem , que cafy continuada- 
mente andava per aquelle maar , e que fabia bem todo-los 
lugares daquella parte , chamou-o em grande fegredo , e dif- 
fe-lhe quanto dezejava mandar fobre Larache , que he hum 
lugar daquella parte das prayas , pêra o queimar , e dcftruir , 
porque avia nova , que era muy difpofto pêra fe poder bem 
fazer , e que porem , que lhe rogava , que lhe difíeíTe , o que 
lhe dello parecia. Pareceme , diífe o Caftellao , que he coufa , 
que podeis 1 bem mandar pôr em obra , que eu fui lá em ejie ati- 
no três vezes com mercadorias , e entendo , que fe eftas nojfas 
Fuftas lá forem com boa gente , que o poder áo bem filhar , e 
roubar , ou fazer delle o que quizerdes , que àws pedaços do 
muro da Villa cahirom , pouco tempo ha , e forom levantados com 
pedra em foffa , per tal guifa , que com pequena força faÕ logo 
no chão. Ora , diífe o Conde , fe vós quizerdes filhar encarre- 
go defia pilotagem , e entrar com húa nojfa Barca de mercado- 
ria de dia no porto 7 pois conhecido fois , as minhas Fuftas p&~ 

de- 



do Conde D. Pedro. 401 

derdo ficar de fora largas ao mar , e vós de noite furtardes as 
guardas , que eftam aaponta , e fazerdes hy final de fogo , ao 
qual as minhas Fujlas acudirão per tal modo , que nao fejam 
ouvidas, nem vijlas : o galardão de vojfo trabalho fera aquelle , 
que vós quizerdes. Senhor , refpondeo o Comitre , eu nom di- 
go ao Larache , mas ao cabo do Mundo hiria por vos fazer fer- 
viço ; mas vós fabeis como eu fao Vajfallo d'ElRey de Cajlella , 
e as pazes , que fao de huma parte a outra , nom oufarei de 
o fazer , caa perderia por ello a terra , e a mercê d'ElRey ; 
mas tanto farei por vojfo fervi f o , dilTe elle , que fe vós tever- 
des algum , que aquelle lugar faiba , eu o avifarei de todo o 
que compre pêra fe fazer o que vós quereis. O Conde fez lo- 
go chamar a Affonfo Martins Caiado , que era Sota-Patraõ 
da fua Galleota , contou-lhe todo o que paíTára com o Caf- 
tellaõ , e alTy o que elle dezejava. Efe eu ijfo foubera , dif- 
fe Affonfo Martins , nom f aliar ais a pejfoa nenhuma em eftè 
feito fenao a mim ; ca eu fui jaa muitas vezes em ejfe lugar , 
e fei bem quanto compre de faber , pêra fe comprir quanto vós 
dejfe feito quereis. Bem era > ( diz aqui o Autor ) Affonfo 
Martins digno daquelle encarrego, e d'outro muito maior, 
que era homem de grande , e nobre coração , tal , que fora 
em muitos , e grandes perigos , efpecialmente de mar ; e 
fc Salamaô diíTe , » que o varam fe conhecia per feus filhos , » 
de féis que elle teve , bem amoftrarom a virtude do Pa- 
dre, perque cafy todos acabarão em pelejas de Mouros, 
tendo primeiramente feitas per fy coufas dinas de honro- 
fo louvor. O Conde fez logo chamar Diogo Vazques de 
Portocarreiro , ediíTe-lhe, » que paíTaíTe logo a elle, e que 
» levaífe três Bragantins comligo , e que fallaífe com Joham 
» Barrofo , e com Álvaro Pires , e com Lourenço Annes de 
» Pádua, porque eftavaô daquella parte com feus Navios, e 
» que fe fe acordaífem de hir aaquelie lugar, que os avifaíTe 
» pcra ello; » e Diogo Vazques partio logo aquella noite , 
e tanto que os teve todos juntos diífe-lhes : Amigos , o Conde 
meu Senhír vos envia dizer , como Jua entençao he mandar rou- 
bar 



402 Chronicà 

har Larache , e deftruilo com fogo , porque ha certas novas $ 
que he ccufa , que fe pode bem acabar , foomente , que vojfas 
boas vontades nom falleçam , mandou-me a vós a faber parte 
de v:Jfo dezejo , porque fois peffòas , a quefe tal feito deve co- 
meter. Como fabe o Conde , differom os outros , que o lugar 
ejld difpojlo pêra tal feito em elle poder acabar , que nós ou- 
vimos a pejfoas , que ham razão de o faber , que he lugar bem 
povoraJo , e bem murado , e fe elle tal he , nom foomente feria 
nojfo trabalho de balde , mas ainda noffas vidas ficariam no der- 
radeiro perigo. Nom cureis dijfo , diffe Affoníb Martins , que 
era com Diogo Vazques , caa todojaa efld fabido , e nom vos 
avia o Conde de mandar fobre coufa duvidqfa \ crede , que temos 
a vitoria na mao , que eu fei bem quejando o lugar ejld : va- 
mos com Deis , ca me nom pêfa , fe nom porque nom levamos 
em que trazer tanta mercadoria , e outras coufas de rez-jadô 
valor , que em elle acharemos. Pois que ajfy he , diíTerom os 
outros, que jaa f abeis o lugar , e tendes o feito praticado com 
c Conde , vamos com Deos quando fentirdes , que fera melhor. 
Alli partirem acordados na maneira , que aviam de ter, foo^ 
mente Pêro Ximenes , he que fe apartou daquella companhia i 
porque diíTe , que fe queria hir a hum falto , que fabia em 
hum lugar ermo , onde fe chama Mançora , que he antre Ivz- 
dellar, e Anafee, e os outros todos forom-íe a Bolonha, e 
tanto que foi tarde vogarom pêra alem , e ante que entraf- 
fem ao porto minguou-lhes o tempo em tanto , que ouve a 
Galleota do Conde de dar cabo ao Barinel do Infante Dom 
Pedro , até que ancorou em doze braças fora da barra > e 
dalli mandárom o mais pequeno Bragantim a filhar a guar- 
da , e quando forom dentro acharão granfolla , pelo qual 
nom oufárom de fahir fora , e alli acordárom , que as Ftoft 
tas , e Galleotas , e Bragantins tomaffem a gente do Bari- 
nel , e que entralTem a barra , e como fentirom , que eraõ 
junto com o lugar derom as proas em terra , e faltarom fo- 
ra ; mas nom poderão tam paíTo fahir , que nom foífem fen- 
tidos da outra guarda , o qual muy rijamente começou de 

bra- 



DO CONDE D. PEDKO. 4°3 

bradar hindo correndo contra a Villa , dizendo por feu Ara- 
vigo : Fuflas de Chriflaos , Fuflas de Chriflaos. Os nonos norri 
curarom de feus brados , mas adereçárom após Affonfo Mar- 
tins , o qual feguia contra aquelle lugar , que fabia , que 
era derribado : e bem como a natureza , quando fempre fe 
achega a guardar a parte mais fraca ; afly os Mouros acu- 
dirom aaquelle mefmo lugar , de guifa que quando os noíTos 
alli chegárom , jaa alli erâ híía grande peça delles aparelha- 
dos pêra defender a fraqueza de fua muralha ; e como quer 
que açaz trabalhaíTem , fua força preito u pouco , ca os nof- 
fos os combaterom tam fortemente j que per força os feze- 
rom afaftar, e como faltarão dentro com elles , nom avia 
hy Mouro , que oufaffe atender os golpes de fuás armas : 
alli fe poderiam ouvir brados , e gemidos doròfos , que da- 
vam aquelles , que os golpes recebiam , e des y o fangue 
corria per cada parte , per cuja mingoa os corpos frios dá 
natural quentura cahiam tendidos por aquellas ruas ; e como 
quer que a mortindade foífe grande , ainda fora muito maior ^ 
£e os Mouros nom ouveram acordo de fe recolher ao Caf- 
tello , e des y fugir logo por huma porta de traição, que 
aquella Fortaleza tinha : alli entenderom os noíTos no roubo 
do lugar i depois que viromi, que nom tinham nas cazas em- 
bargo, que os podeíTe pejar; e como o lugar eftava faó, e 
alli acudiam muitas mercadarias das outras partes do fartaó , 
achárom muy grolTo roubo, de que carregárom feus Navios, 
efcolhendo ò que lhes parecia ,melhor; caa íe os Capitães 
quizerom fatisfazer ao dezejo da gente popular , nom lhes 
abaftarom aquelles Navios pêra tornar , nem outros tantos ; 
caa elles como achavam as coufas muitas e boas , acendia- 
fe-lhes a cobiça , e queriam todo levar : e acertuva-fe , que 
levando huas coufas ao pefcoço pareciam-lhes outras melhor, 
e com cobiça das que achavam , leixavam as que traziam; 
Dos Mouros tomarom vinte e quatro entre grandes , e pe- 
quenos. Os Capitães como virom que as Fuítas eram carre- 
gadas , poferom-fe a bordo cada hum em feu Navio , c nom 

qui- 



404 C»R0NICA 

quizerom confentir, que mais entraífem , indaque jaa tinham 
maior carga da que lhes compria , Diogo Vazques encami- 
nhou ao Caftello , e porque as portas eram groíTas , e for^ 
radas nom as poderom quebrar , e entaõ fezerom hum bura- 
co per junto com huma das Coiraças , e por alli entrou aí- 
fy elle , como os outros, que comíigo levava , e depois abri- 
rom as portas, e entrarom todo-los outros. Alguns Mouros, 
que ainda alli ficarom , forom-fe per aquella porta per onde 
os Mouros fahirom , a qual Diogo Vazques fe acertou de 
cerrar , porque per ventura os contrairos nom deíTem d'arre- 
bato fobre elles ; e fe as coufas da Villa eram boas , muito 
melhores eram aquellas , que acharom no Caftello ; caa por 
ventura receando aquello , em que fe viram tinham eíTes me- 
lhores, algumas coufas , que aviam por mais efpeciaes poftas 
naquella Fortaleza , as quaes forom tantas , de que ainda 
carregarom o Barinel. Alli mandarom a Lourenço Annes de 
Pádua , que íe pofefíe em hum outeiro fobre o lugar com 
Efcudeiros , e gente de pee , e Beefteiros - y e Diogo Vaz- 
ques , e Álvaro Pires a poer fogo ao lugar , porque Affonfo 
Martins era em guarda dos Navios, fazendo arrumar aquel- 
las coufas , que vinham , e defendendo , que fe naõ meteí- 
fem outras , por fe naõ poerem ao perigo do maar : a Vil- 
la , e o Caftello forom metidas* a fogo , e porque alli avia 
muito gaado matarãno todo , e fornecerom feus Navios do 
que fentirom, que poderiam levar, e o outro leixárom; e 
aíTy matárom todo-los cavallos , que achárom. Contra hora 
de Terça acudirom da parte d'Arzilla peça de Mouros a ca- 
vallo , e a pee , e quiz Deós , que a maré era chêa , pelo 
qual lhe foi neceíTario de fe retraher , e da parte do lugar 
vierom huns cinco de cavallo , e ata cincoenta , ou feíTenta 
de pee, e hum trom defparou da Galleota , e acertou a hum 
daquellesde cavallo, e lançou-o morto fora da fella : os Pa- 
trões fezerom recolher toda a gente com aquella ordenan- 
ça , e focego , que deviam , porque aos imigos pareceífe , 
que per fua vinda em elles nom avia torvaçam , os quaes ef- 

ta- 



» o Conde D. Pedro. 40^ 

tavao com muita triftèza vendo arder huma taõ boa Villa co- 
mo era Larache, na qual de toda-las partes pareciam as cha- 
mas de fogo. O } o inteligências Divinas , diziam alguns daquel- 
les velhos, até quando durará a vojfa crueza J obre nós , de- 
vera d' aba fiar por vingança dos pecados de nojfos Padres a per- 
dição da caza de Cepta com todo o fatigue , que dos filhos d^Agar 
fobr^ella he efpargido, Larache Villa antiga ? e formo/a , Alfan- 
dega de grande parte de Berbéria , efíds ardendo em chamas de 
fogo , e os teus vizinhos , e naturais huns efpedaçados pelo chão ^ 
e os outros pelas montanhas como heflas jelvagens , e quando fe 
repairarã jaa pelos Mouros tamanha perda. Santo Profeta , que 
ejids aa defira de Deos Padre , onde fabes as coufas paJjaÀas ; 
prefentes , e por vir , nembrate defte mejquinho Povo , que vive 
na tua Santa Ley. Com taes departições eftavam aquelles an- 
tigos dando punhadas em fuás cabeças , com dor de tamanha 
perda , e certamente , que nom fem caufa choravam aqueftes \ 
caa por certo grande defaventura foi a dos Mouros daquelle 
lugar; caa elles aviam Villa bem afortalezada , com bom mu- 
ro , e boas Torres , e bom Caftello \ e a fua preguiça os fez 
retardar de nom cerrarem aquelle portal como deviam , co- 
mo quer que temos , que fegundo a bondade daquelles Ca- 
pitães , elles fe naõ efeufáram de trabalho , ainda que retar- 
dara algum tempo mais , e por ventura que nom fora tanto. 
Os noflos Navios começarom de fahir como a agua foi com- 
plente , com fuás contenenças muy contrarias do que os Mou- 
ros ficavam , onde logo acerca chegou Pêro Ximenes com 
hum Caravo , que filhara , no qual tomara quatro Mouros y 
c dous Judeos , que paífavam de Çallé pêra Azamor ; con- 
tando como quando chegara aaqueíle lugar, onde avia de ter 
o falto pofera vinte e cinco homens fora , e que eílando af- 
fy, que víraõ vir gente da parte de Çallé, na qual lhe pa- 
recerom q.iatorze de cavallo , e trinta de pee , e que ouverom 
receio de hir a elles , eftando jaa de propoílto pêra fe tor- 
nar ; empero que Pêro Ximenes aguardou hum pouco , e vio 
que era gente nom bem corregida , e fem armas ? e que nom 
Tom. II. Eee eram 



4p£ C h r o N I C A 

eram mais oV quatro de cavallo , e que os mais eraÒ azeme- 
las , e afeos; nias que quandp jaa quizerorn tornar com os 
outros ., a que o fora dizer ? os Mouros ouverom viria del- 
Jes , e alguns, daquelles mais fracos fe quizerorn efpedir ; mas 
os de cavallo os. fiz-crom- reter , de guifa que todos junta- 
mente fe poferom em efperança de defefa ; e porém matá- 
rom. tres. dellcs , e prenderom quatro, e huma Moura* e ef- 
te que afly vinha era, o. Aicayde de Çallé , e. hia pêra Anafe. 

e APIIULO LIX. 

Como Andres Martim, , & Pêro Ximenes tomar om hum. 

Cavalkiro Mouro com outro Mburo., e como Pt>- 

ro Ximenes foi morto. 

f Uitas vezes os, aquecimento^,- profpero«,>, Qr bçrnaven cu- 
rados fam caufo <íq grades djapn#s , aiTy como ? { qxo 
Ximenes a que a fua. fortuna dera ttejfc, ou q^ajtro prezas? niç-, 
licores do que elle dezejava r o qual Sando-fe.' fobr-§ CQufo, 
nom certa > pouco lhe pareci*?, o que jaa, t^nha cobrado , pê- 
ra o qHje_- efperava d-aver , querendo, fegu.ir a vjagem daquel- 
la> efquecido: da razaõ" achou fua fim, r*a qua>f por- certo fe 
ouve como homem de nobre çoraçaò f, e como elle fabia mui- 
to nos feitos domar, e ainda da terra % quanto acerca daquel- 
la coita, pelo qual lhe o Çoocte fazãa muita honra ; , e mer- 
cê : huma vez lhe dijffe , que foíTcm elle, e Andres Mar ; fcirnr t 
ver alguns faltos, que elle bem Cabia confira as prayas , pe-, 
ra lhe tomarem alguma lin.goa-, o que ledamente fe poz.ejtt, 
obra; porque aalcm da honra,, fempre fe lhes feguia- provei- 
to, quando fe lhes. os feitos tra,çavaõ como elies queriam-: 
partindo dalii foram a Bolonha , onde tomaram fua agua, 
repoufando o Domingo , e partindo dalli forom ter huma le- 
goa avante de Jaz ira, cinco legoas aalcm deÇallé, onde Fer- 
ro Ximenes fabia hum falto,, a<> qual chegado poferom. os 

ho- 




do Conde D. P e d S o. 407 

homens em elle, e eftando aíTy até horas de Vefpera , virord 
como vinham contra elles cinco Mouros , que parti rom de 
Çallé, e tanto que chegárom ao falto forom tomados todos 
cinco , e hum alho carregado de roupa , e des hy fe torna- 
rom aas Fuílas , leixando porem o falto acompanhado com 
féis homens por efcuitas , que guardaíTem o caminho íe paf- 
faíTe gente , ou vieíTe pêra fe lançar no falto ; eaa os Alar- 
ves muitas vezes fe lançavam alli , pêra guardarem os Mou- 
ros : e porque tinham duvida enri fua eftada , perguntarão 
aaquelles Mouros que tinham , fe avia de vir gente de Çal- 
lé , os quaes differom , » que avia de vir hum Alcayde d'Ana- 
O) fé com quatro de cavallo ^ e com quinze de pee, o qual 
^> ouvera jaa de vir aquelle mefmo dia, que elles vierom, 
0) mas que ouve rom vifta das Fuftas no mar , e que por ello 
> ceíTárom de feu caminho ; mas que outros Mouros forom 
-» d'Anafé pêra Çallé , que differom , que eftava o caminho 
-» feguro , e nom avia hy Fuftas; caa os Navios , que pare- 
ci ciam eram barcas de pefcar , ou que hiam d'Anafé pêra 
-» Çallé : » os outros no outro dia feguinte aguardarom feu 
falto poendo trinta homens em terra aguardando per aquelle 
Alcayde, que avia de vir, o qual a horas de meio dia pa- 
receo com feus quatro de cavallo , e doze de pee , e leixa- 
rom-os aíTy vir , até que chegárom ao falto , os quaes em 
chegando derom fobr'elles ; e os Mouros vendo os imigos 
comíigo volverom as coftas , e os noíTos correrom com elles 
acerca de huma legoa , onde lhes filharom féis homens de 
pee , e ferirom-lhes hum cavallo de três lançadas : e porque 
antre eftes de cavallo vinham dous Archeiros , nom foi a vi- 
toria dos noíTos fem algum efpargi mento de fangue , ca vol- 
viam ás vezes tirando com fuás frechas , com as quaes fe- 
rirom hum Chriftaò em huma perna : e dês que os noíTos 
virom , que feu trabalho lhes nom podia jaa trazer proveito , 
tornarom-fe ao falto pêra ver fe vinha alguma gente d* Ana- 
fe ; e eftando aíTy naquella efperança por certificarem do que 
dezejavam , perguntarom a eftes Mouros que tinham , fe 

Eee ii avia 



408 Chronica 

avia inda hy outra gente pêra vir , os quaes lhes difTe- 
rom , » que avia hy hum Cavalleiro Alarve , e que trazia 
» comíigo hum de cavallo , e dous homens de pee , e hum 
» Genoês, que trazia huns poucos de panos de cor de Çal- 
» lé pêra Anafe: » N,m he coufa^ que pojfa fer , diflerom al- 
guns dos noíTos ; caa eftes , que fugirom pêra Anafe diriam nof~ 
fa eflacla , pelo qual os outros nom virão. E bem he verdade , 
queaquello era pêra prefumir , mas a obra feguio em contrario ; 
caa os Mouros , que fugiram , ou nom levarom a eílrada direi- 
ta , ou per algum outro azo, nom fe encontrárom , de guifa que 
logo a cabo de hum hora alTomarom os Mouros. Ou ejia gente , 
que aqui vem , diíTcrom os noíTos , vem fobre nós , ou per ven- 
tura fe temem da pajfagem. Mas quando nom viro m mais, que 
o Cavalleiro , e o Genoês , e os dous homens de pee , éf- 
perarom por elles , aindaque depois fobrevêo outro de cavai- 
lo , e tomarom alTy o Cavalleiro , como o Genoês , e hum 
dos de pee ; e o outro com o de cavallo fugirom , e como 
quer que após elles correlTem em cima dos cavallos , que to-| 
márom ao Cavalleiro , e ao Genoês nunca os poderom encal- 
çar ; e porem fe tornarom a fuás Fuftas , e havendo nellas 
confelho , onde hiriam tomar agua , acordaram , que feria bom 
de hirem a Mançor, e como partiram, lançaram logo dez 
homens fora , que levaíTem os cavallos , e duas azemelas , 
que tinham, aaquelle lugar, que era quatro legoas d' Anafe, 
e em hindo aíTy as Fuftas de noite encalhou o Bragantim de 
Pêro Ximenes em hum penedo , e arrombou-fe em tal gui- 
fa , que colhia muita agua , pelo qual lhe foi forçado de poer 
os homens aíTy Chriftãos , como Mouros no Navio d'Andres 
Martim , levando porem aíTy o Bragantim arrombado até Man- 
çor , em cuja cala demoftrárom de noite a carrega , e eftan- 
cárom fua Fufta , e des y tomada fua agua , diíTe Andres Mar- 
tim contra feu parceiro: Irmão , rogote que nos vamos daqui , 
caa fornis de f cobertos , e deves faber per a fugida daquelles , 
que nos efeaparom , os quaes alguma coufa f aliariam. E em ef- 
tando em efto as Atalayas virom vir Mouros , e forom-no lo- 
go 



do Conde D. Pedro* 409 

go dizer aos Capitães, os quaes fobre aquelles cavallos , que 
tinham fe forom a defcobrir, aonde virom como vinham até 
trinta de cavallo, e dez de pee , em maneira de cillada , e 
diíTerom : Que faremos a efta gente , qiie he muita. Matemos 
os cavallos , diíTe Andres Martim , e as azemelas , e acolha- 
monos a nojfas Fuflas. Nom , diíTe Pêro Ximenes , mas efpe- 
remo4os , e veremos , que gente he. E em efto derom os Mou- 
ros fobr'elles , e os noffos começarom de fe recolher pêra 
as Fuftas , nom fem muitas lançadas de huma parte , e da 
outra ; porem ouverom-fe recolhidos , e os Mouros quando 
aquelio virom lançárom huma cillada, e Pêro Ximenes nom 
contente da fegurança em que eftava , como aquelle , a quem 
a morte queria tragar os pálios , quiz fahir fora com dez ho- 
mens da fua companha , a eícaramuçar com quatro da Fufta 
d' Andres Martim , e os Mouros como eftavam pêra ello , de- 
rom fobre ello ; e porque a cala era eftreita cercárom as Fuf- 
tas , e Andres Martim fazia jugar fuás beeftas , e alTy com 
feus tiros fe foi fahindo o melhor , que pôde , e a gente de 
Pêro Ximenes virom , que mingoava o mar , e a Fufta , que 
ficou em feco , de guiía que quebrou toda em pedaços , lan- 
çárom- fe a nado aa outra Fufta , e em fe recolhendo aífy ma- 
tárom delles féis , e Andres Martim recolheo os outros com 
hum Mouro , que tinha Pêro Ximenes pêra fe fazer Chrif- 
taó , o qual em aquella hora moftrou bem qual feria a firme- 
za de fua fee pêra o diante. Alli acabou Pêro Ximenes nom 
por certo fem contenença , e feito de nobre homem , inda 
que defavifado naquella hora ; ca de trinta e cinco , que com 
elle morrerom , elle foi o derradeiro, e fempre com nobre 
contenença , nunca fe moftrando vencido ; e fe o feu corpo 
foi bem acompanhado dos amigos , nom menos foi dos imi- 
gos ; caa paífavam de trinta, os que jaziam aíTy arredor del- 
le , como dos outros ; aja Deos a fua alma como de fua crea- 
tura , martirizada em louvor de fua Santa Fee : e por ora 
nom curamos de efcrepver as novas , que os Mouros conta- 
vam das contendas , que aviam antre fy , porque nom faô da 

ef- 



/ 



4io Chronica 

eflencia de noíTa matéria. E em efte encejo mandou o Conde 
armar hum feu Bragantim , e outro de Pêro Palhaõ pêra hi- 
rem a Alcácer, por quanto lhe diíTera o Alfaqueque , que 
alli entom era , que ficavam naquelle lugar duas Zavras pêra 
partir pêra Gibraltar, e huma pêra Tanger, e que entendia , 
que partiriam , tanto que teveflem tempo. E porque ao Con- 
de pareceo , que o tempo voltava de Ponente , mandou aos 
Bragantins , que jouvelTem de mar em roda toda a noite , e 
que pela manhãa foíTem failar a Alcácer , e fobre a tarde , 
que fezelTem que fe vinham , e que fe lançallem ilTo mef- 
mo de mar em roda , como de feito o fezerom , pêro aquella 
noite nom acharão nada , e no outro dia pela manhãa forom. 
failar, e pelo mar que era grande lhe veio failar hum bar- 
co , e ficarom d'acordo de fallarem o primeiro dia que tempo 
tevelTem em feus refgates , e que fe tornariam pêra Cepta : 
e por quanto no Bragantim eítava o Alfaqueque nom o po- 
derom filhar ; caa eítava afaftado , e como veio a tarde ar- 
redarom-fe vogando contra Cepta ; e tanto que foi noite me- 
terom-fe em direito da cala , des y elles de maar em roda , 
onde fendo a noite meada virom vir huma vella direito a 
fy, a qual logo enveftirom , e fem nenhuma d efe fa foi filha- 
da , e de quinze Mouros , que nella vinham , os oito forom 
filhados, e os outros morrerom na agua; e eíta Batca vinha 
carregada de trigo , e de farinha , a qual era do Alcayde de 
Gibraltar , e per efte Alfaqueque , e pelos Mouros , que to- 
marom na Barca , foube o Conde , que tanto que paíTaíTe a 
Pafcoa do Carneiro, logo fe os Mouros aviam d'ajuntar pêra 
virem cercar a noíTa Cidade, como fe de feito íeguio. 



CA^ 



\ 

no Conde D. Pedro. 4.1 i 

CAPITULO IX 

Como alguns Fidalgos- de Cepta, contra a vontade da 
Conde forom ao Vai dç Negrão. 

TEmpo nos parece que he fallarmos com alguma cou. 
fa dos feitos da terra, pois jaa ha muito , que fa}lámos 
nas coufas do maar. Onde haveis de faber , que por quan- 
to avia dias , que o Conde nom ouvera novas dos feitos 
de Aabu , e daquelles feus vizinhos , quizera riir fazer huma 
cavalgada contra aquella parte, e eílando fobr'ello virom os 
do muro fahir hum homem pela porta das coiraças y e çq- 
rno quer que lhe bradalTe , nunca íe porem quiz tornar ; e 
porque o Conde avia novas , que hua enculca de Gibraltar 
era dentro na Cidade , que era hurn Mouro natural deites 
Reynos , o qual fallava muito bem aíTy a noíTa Lingoagem , 
como o Cafel.ha.no , e penfou que podia fer aquelle , in4a 
que era pelo contrario , porque era hum Beeíteiro , que hia 
kufear fararnagos, e verga pêra covôos, ç parece , que pelo 
grande arruido , que faz alli o mar , nom pode ouvir coufa , 
que lhe de cima bradaíTem 5 porém o Conde cavalgou logo , 
e {Jonçalo Nunes com elle , e Mosê Martim , e afly todo- 
los Fidalgos, que alli eram; e porque a hyda fora da parte 
de Ba.íbaçote , atalharom-lhe contra o Cannaveal , e acertou- 
fe que Álvaro Mendes , e Ruy Mendes feu Irmaõ , e Joham 
P-ereira, e outros d.e cavallo com elles , virom dous , que Q 
Conde mandava ao Cannaveal , cuidarão que hiam inda pe- 
lo rafto , e forom pe*a la , e des que os achárorn fallárom 
antçeiy, que foíTem ver o Caftello. Dês que chegarom ao 
chão , que eítá junto com elle diffe-rom , que era bem hir ver 
a vereda , que citava na várzea de Negrão por ver fe acha- 
riam alli algum homem pêra o Conde a,ver lingoa per elle. 
Como quereis vós iffb fiv&er , difíe hum Efeudeiro do Conde > 

que 






412 Chronica 

que fe chamava Vaz , fe vos nom trazeis licença peva ello : jaa 
vós J abeis quem o Conde he , e quanto cui.ado tem na guar a 
áefta Ci 'a de , e quanto lhe convém de o fazer ajfy ; e Je vós que 
fAs os principaes Fidalgos , que aqui ejlais , quizerdes fazer co- 
meço na defobediencia , que exempro ficará aos outros , quanto 
mais que fabeis como elle tem vontade de vir fora , e fazer ca- 
valga la , a qual lhe vós empachareis com vojfo atrevimento , e 
fendo vós os principaes , a que elle ejio tem f aliado , e eu em feu 
nome vo-Ij requeiro , a que vos nom entremetais a tal feito , caa 
nom he bom. E bem he que os Fidalgos fallárom fobr'cllo, 
e huns diziam aífy , e outros aíTy , de guifa que afiai ouve- 
rom todavia de hir, e prouve a Deos , que fobreveio huma 
névoa groíTa , e após ella começou de chover , com o qual 
O tempo efeureceo , de guifa que elles nunca forom viftos , 
nem fentidos, aíTy forom dar comíigo na metade da várzea, 
onde achárom hum fato de vaccas , e hum Mouro com ellas, 
o qual vendo os contrários quizera fugir, e forom a elle Dio- 
go Alvares , e Martim d' Abreu hum Efcudeiro do Infante 
Dom Pedro, que depois viveo em Eftremoz , e mata rano por- 
que fe nom queria dar á prifaõ, antes fe defendia ferindo- 
lhes os cavallos , e Ruy Mendes , e aíTy outro Ruy Mendes 
de Brito, e Diogo Gil hum Efcudeiro do Infante Dom En- 
rique , ejoham Sodré virom hir aalem da ribeira três Mouros 
em fenhos afnos , endreqaraó trás elles , até que os encal- 
çárao ; caa os Mouros nunca os virom, nem fentirom , aíTy 
hiam encarapuçados por caufa da chuiva , e Ruy Mendes de 
Brito encalçou o primeiro, e deu-lhe huma lançada , que me- 
teo o ferro nelle , e cahio , e em cahindo chegou ao outro Ruy 
Mendes , e deu-lhe outra , e paíTou per elíe , e alcançou o 
outro , e derribou-o ; e em quanto elles andavam com eftes 
hum Mouro moço , que era da companhia dos três lançou- 
fe per hum filvado , e como quer que foíTem trás elle , nunca 
porém pôde fer achado , e Álvaro Mendes , c Joham Perei- 
ra , e os outros tirárom em tanto a cavalgada , e foi acha* 
çlo, que arranca rom dalli noventa cabeças de gado /vacara 1 

en- 



do CoiídeD. Pedro. 4^ 

entre grande , e pequeno , com o qual fe tornarom pêra a 
Cidade fem impedimento, e quando chegárom eram jaa an- 
dadas bem duas horas da noite; e o Conde tinha mandado 
a Gonçalo Nunes , que lhes abriíTe , e que como de feu lhes 
diíTcíTe , o que lhe parecia , de guifa que o conheceílem ; 
pero o outro dia lhes foi dito com mor fiúza; caa o Conde 
era homem grave , e de grande autoridade , e íoube-lho di- 
zer per taes palavras, que fem injuria lhes ficou em caitigo , 
pêra nunca outra tal fazerem. E logo á lêfta feira feguinte 
o Conde ordenou todavia de hir correr humas Aldeãs, que 
eram no pee da ferra , e des y pôs feus feitos em ordenan- 
ça , e partio de noite ; mas porque hy nom ouve peleja , nem 
coufa dina de memoria , nom curamos de os eicrepver por 
mais largas palavras : foomente he razaõ , que faibais , que o 
Conde foi bem cinco legoas per terra de Mouros, e nunca 
achou com quem pelejar : bem he , que achava nas ca- 
zas gallinhas , e gatos , e outras coufas femelhantes , mas 
nom achava gentes , nem gados groífos , e os Melros an- 
davam per cima da fraga do monte daquella grande Serra da 
Ximeira , que he muy fragoza , mais nunca quizerom decer 
ao Conde ; aíTy fe tornou o Conde pêra fua Cidade : outro 
fy em efte encejo mandou húa Caravella a Tarifa , a qual ja- 
zendo acerca delia em hum lugar , que fe chama o Rio das 
Vinhas , vierom Fuftas de Gibraltar , e filharãna , que nom 
efeaparom mais de três homens ; pero todo logo foi entre- 
gue por caufa das pazes , que os Mouros tinham com Caf- 
tella , porque fora tomada no Termo de Tarifa. Chegou iíTo 
mefmo a Cepta hum grande Duque de Alemanha , que era 
Tio do Emperador Sagifmundo , e d'ElRey de Bohemia, e 
o Conde recebeo muito bem , e lhe fez muita corteíla , e 
des y requereo ao Conde , que lhe deíTe vinte , ou trinta de 
cavallo , caa queria hir fazer dous Cavalleiros ; e o Conde 
lhe refpondeo , que fe elle quizefle hir mais avante per ter- 
ra de Mouros , que elle , e aquelles Fidalgos hiriam com el- 
le ; o qual deu em repoíta, que aquello abaliava por entaó: 
Tom. IL Fff eaf- 




414 Chronica 

e aíTy cavalgou o Conde com elle, e os outros Fidalgos, e 
levarom-no alem do Caftello de Metene , e alli fez feus pa- 
rentes Cavalleiros , bemdizendo ao Rey , que tam honrofa 
Cidade ganhara , e mantinha ; e aíTy fe efpedio muy conten- 
te do Conde , e daquelles Senhores , e Fidalgos , que alli 
eram. O'o y diíTe elle em fe efpedindo de todos, nobre gen- 
te , e nobre Cav aliaria , per boa fee vós fois dignos de muita 
honra , e em toda- las partes do Mnndo vojfo n:me he grande , e 
de muy honro/o louvor. E foi outro fy em efte tempo filhado 
hum Caravo com oito Mouros, per Benito Fernandes Capi- 
tão da Galleota de Cartagenia. 

CAPITULO LXI. 

'Como Gonçalo Vàz tomou hum Navio j e d* outras cou~ 
[as , que fe fezerom no mar. 

ANte que metamos a noíTa gente aos trabalhos daquel- 
le grande cerco , que veeo fobre a Cidade de Ce- 
t pta , digamos algumas coufas do mar , porque por ventura 
2l grandeza dos feitos da terra nom nos ponha aaqueftes em 
.efqueci mento , e digamos logo como Gonçalo Vazques de 
Ferreira , Efcudeiro do Conde , foi por Capitão de huma 
Galleota bufcar fua ventura , o qual vindo a travees d'Al- 
maria vio hum Navio largo ao mar , o qual a feu efmar fe- 
ria afaftado delles obra de quatro legoas , e tanto que Gon- 
çalo Vazques , e os que com elle eram , delle ouverom viíta , 
mandou , que vogalTem a elle , ainda que folie muito contraria 
opinião de todos , caalhe diíTerom , que era coufa muy peri- 
gofa por a vella fer grande , e tal com que elle de boa ra- 
zão nom devia de embaratar : Gonçalo Vazques todavia fez 
vogar ao Navio , até que chegou cerca de outro ; os quaes 
vendo como os a Galleota hia lá demandar , e como hia 
defarmada meterom-fe todos baixos, que nom parecerão em 

ci- 



\ 



do Conde D. Pedro. 4X$r 

Cima , fenom féis ou fete , e hum que eítava fobre as ar-* 
cas ; e quando a Galleota chegou enveftio o outro Navio 
por proa : como forom juntos , fahirom todo-los Mouros fo- 
bre tilhado , e começarom d'acompanhar o bordo do feu 
Navio , cá eram fetenta e fete Mouros rijos , e valentes , 
e aíTy pelejarom muy fortemente ; caa as fétas , e dardos 
eram tao bailas , que nom paredão fenom nuvens carregadas 
d'agua no tempo invernofo j e porque Gonçalo Vaz traba- 
lhava como cumpria a tal homem , tanta foi a força da pe- 
leja , que cahio fobre o tilhado , onde muito afínha fora 
morto fe lhe hum Beefteiro nom lançara hum pavês com 
que o cobrio : e quando a companha vio fen Capitão derri- 
bado refufou atrás ; mas Gonçalo Vazques fendo fora da- 
quelle eftorgimento , que recebera aíTy da queda , como dos 
golpes das pedras levantou-fe com grande esforço , e foi-fc 
á poupa, e emendou fuás armas , e aíTy o fez , que o fe- 
zellem alguns Efcudeiros , que hy hiaõ com elle , e fez 
logo virar outra vez a Galleota : a gloria dos Mouros era 
taò grande , que todo o mar d*arredor do feu Navio retenia 
com fuás vozes , dizendo , que fe chegaíTe ; caa elles lhes en- 
llnariam a pelejar : a companha da Galleota bradava rija- 
mente contra Gonçalo Vazques, que nom folTe homicida de 
fy mefmo , e de quantos alli eraõ , cá bem via a deííguale- 
za camanha era: Oo gente cuitada^ dizia Gonçalo Vazques , 
feria muito fe vós nom ouveffeis uzado pelejas de Mouros , que 
efpanto he efte tao defarrazoado , que vos toma , parece , que 
vós nom faheis pelejar fenom com hum Caravo podre , que leva. 
três , ou quatro Mouros ; efta he peleja pêra bons homens , e) 
de vergonha , caa nom aquella , que vos dezejais , a faber 9 
Navios em que os homens jouveffem dormindo , ora vede fe queb- 
reis pelejar , que , ou oje morrereis todos , e eu com vofco , ou 
eftes infiéis nom levarão de nós a honra da vitoria. E então 
fez enveftir a Galleota de longo , e começarom a peleja d© 
popa a proa, a qual durou melhoria de huma grande hora^ 
e affi da huma parte , como da outra era o trabalho muy 

FíF ii g r an- 



416 Chkowica 

grande , eem fim com as lanças d'armas fezerom os nofíba 
leixar a alcaceva aos Mouros , e faltarom dentro com elles , 
onde matárom quinze , e os outros prenderom , e des y fo- 
rom-fe com aquella preza viagem da Cidade ; e foi efta hu- 
ma rica , e honrada preza , ganhada com honra , e louvor da- 
quelles , que a filharão , efpccialmente daquelle nobre Efcu- 
deiro , per cujo esforço, e virtude fe começou, e acabou. E 
logo no mez feguinte acertou de fugirem homens em huma 
barca , em que andavam pefcando , e o Conde mandou a 
hum Patrão , que alli era de Cartagenia , que fe chamava Jo- 
ham de Córdova , que folTe após ella , a qual hindo tanto 
avante como Bulhões , em defcobrindo a ponta primeira fahi- 
rom-lhe três Fuftas de Mouros , e elle deu-lhes a proa , e fez 
via da Cidade dando-lhes caça , até direito da Atalaya , que 
eftá mais achegada á Cidade ; e quando virom , que a naó 
podiam entrar , levárom remo , e os noflbs ifíb mefmo per 
femelhante fezerom , onde efteverom aíTy hum pouco rece- 
bendo feu defcanço; e des y porque era jaa cerca da manhãa, 
tornarom-fe as Fuftas dos Mouros 9 e o outro veio-fe pêra a 
Cidade : e porque , ou aquelles Mouros , ou outros fezerom 
jaa alli outra tal, quize o Conde caftigallos como compria; 
e porem mandou logo armar as Fuftas, que mais preftes ef- 
tavam , a faber , hum Bragantim , a que chamavam o Rapo- 
zo, em que era Capitão Andres Martim , e mandou meter 
em elle Fernam Barreto , e Joham Rodrigues Godinho , e 
outros Efcudeiros de fua Caza, e outro Lenho Mo urifco, de 
que era Patrão Aftbnfo Garcia , no qual mandou meter Pêro 
Vazques Pinto; e em outra Barqueta pequena mandou Joham 
das Águias , avifando-os , que afly o Rapozo , como o outro 
Lenho pequeno fícaííem áquem do porto do Laranjo , e que 
o Lenho de Joham de Córdova folie defcobrir a ponta; e 
fe viíTe , que nom eram mais , que aquellas , e quizelTem vir a 
elle , que fingilTe , que lhes fugia , como na outra noite fe- 
zera , e que fe per ventura vielTem a elle , e viíTe , que eram 
tantas pêra pelejar com ellas, que pelejalTem , fenaó que fe 

tor- 






tjo Conde D. Pébro. 41 f 

torriaífem acaroados com a terra , e que o Conde fahiria con- 
tra Larache , e lhes daria focorro fe lhes compriíTe. As Fuftas 
partirão como lhes era mandado , e quando a dos Caftellãos 
entrou em direito da calla do Vai do Laranjo efteve queda , 
porque parece , que lhe ficara algum aparelho , e nom oufa- 
rom entrar pêra defcobrir : e Pêro Vazques mandou Vogar , 
e foi defcobrir a ponta de Bulhões , onde virom as Fuftas 
todas três jazer largas contra a ponta d'álem , nom tendo 
ainda bem defcoberta a outra d'áquem; e huma das Fuftas 
Vogou d'antr'ellas direitamente pêra a Fufta dos Chriftaos, 
mas a nolTa vogou de largo , e os Mouros feguindo trás el- 
la : parece , que ouverom vifta do RapoZo j e das outras don- 
de jaziam , e começou logo de vogar pêra fe acolher aa com- 
panhia; mas Pêro Vazques mandou rijamente abalaras outras 
da fua conferva , porque entendeo , que fe queriam efpedir ; 
e forom aíTy dando-lhes caça > até que eram junto com hum 
Caftello velho, que eftá áquem d\Alcaçar, e hy ficou huma 
das Fuftas , que fe fentio acalçada , e foi encalhar em ter- 
ra, e as outras duas fe acolherom em Alcaçan Os Mouros 
quizerom de boamente arrombar a Fufta fe lhes os noflbs de- 
ram tal vagar, porque inda bem elles nom eram fora , jaa 
os noflbs eram dentro. Fora aquella Fufta daquelle grande 
coíTairo, que fe chamava o Efnarigado, a qual trazia entom 
hum feu filho, o qual nos autos da guerra bem parecia ao 
Padre, que o gerara. Mandou o Conde logo acerca deftas 
coufas Mosé Martim de Pumar em hum feu Alaúde , e Jo- 
ham das Águias em huma Barca de bandas i e outra Barque- 
ta de Mosé Joham de Villa-nova ^ que fe foíTem a Cabo- 
monte , pêra ver fe poderiam tomar alguma Zavra das dé 
Tituaó , que fahiam a pefcar , ou pêra furtar huma Atalaya , 
que eftava fempre em cima da ponta do Cabo-monte , onde 
chegarom de noite pêra tomar a Atalaya , que he alem da 
ponta , e poferom doze homens em terra , onde jouveroiri 
aíTy até cerca de horas de Prima; e huma Zavra fahio fora 
do rio , e lançou huns três malhos, e começarem a bater, e 

os 






4I§ C H R O N I G A 

os que eftavam em cima na Atalaya vierom-fe á praya o mais 
efcondidamente , que poderom , em tal guifa que os Mouros 
nom ouverom delles fentimento. , e forom-fe onde jaziam as 
Fuftas : e o Alaúde de Mosé Martim jazia na ponta, e ti- 
nham acordado de lhe tomar a terra , e as outras Barquetas , 
que ficaíTem largas: que fe per ventura a Zavra quizelTe hir 
Cabo-lamar , que a filhaíTem ; e como a Zavra ouve vifta 
da ponta do Alaúde vogou a terra ; mas quando virom os 
homens , que já a tinham diante nom teverom outro remédio > 
fenao lançar-fe á agua ; porém íilharom todos cinco , e trou- 
veranos com o Navio a Cepta ; e também per eftes foube o 
Conde como fe o cerco ordenava , e mais que os Mouros da 
cofta queriam armar , pêra vir correr a coita do Algarve , da 
qual coufa o Almirante , que era a mor peíToa daquelle Re- 
gno , logo foi avifado pêra dar avifamento a toda a cofta : 
e bem he , que os Mouros vierom , mas nom poderom fazer, 
o que queriam , antes fe tornarão menos dos que de fua ter- 
ra partirom. 

CAPITULO LXII. 

Como os Monros fe ajuntarão no cerco de Cepta ; edas 
coufas y que fe fezerom no -primeiro dia. 

TRes annos , ou poucos dias menos durou a Cidade , e 
os Fronteiros delia obrando eiras coufas , que até qui 
temos contadas, no qual tempo, poftoque os Mouros nom 
vieíTem realmente cercar a Cidade , nom creais , que foíTe 
por mingoa de vontade , nem fentido que perdeíTem de fua 
perda , e deshonra ; mas feguio , c[ue fempre depois antre el- 
íes ouve muy grandes guerras ; caa Mulley Buçayde conten- 
deo com Mulley Aaço feu Irmaó íobre o Real Senhorio de 
Féz ; e alTy Mulley Bualley Rev de Marrocos com outro 
grande Marim , que fe chamava Fare j de guifa que fempre 

te- 



do Conde D. Pedro. 41^ 

teverom , que fazer antre fy tanto , per que nom poderom 
vir fobre a Cidade ; mas EIRey de Graada , que alem da des- 
honra, que recebia daquella perda, em quanto era Mouro, 
fentia muito o dapno que recebia , porque a íua principal 
governança toda era daquelle Regno de Bellamarim ; e co- 
mo jaa ouviftes cada dia lhe tomavaõ os Navios, e gentes: 
e porém mandava a meude feus Embaixadores aaquelles Reys 
requerendo-os , que acabaíTem , ou apacificaíTem fuás conten- 
das , pêra fe ajuntarem todos, e virem fobre o cerco da Ci- 
dade : e tanto que EIRey Bualley teve morto feu Irmaó ; 
aquelle Rey de Graada fez convir os outros, e tratou com el- 
les, que lhe deíTem o Senhorio da Cidade de Cepta, o qual 
ficaíTe pêra fempre aa Coroa dos Reys, que vieíTem a Graa- 
da , e que elle viria com toda fua gente , e frota fobre a 
noíTa gente , porque manif^efto era , que fem frota , elles nom 
podiam fazer coufa , de que tiraíTem vitoria , ante manifeílo 
dapno ; e tanto tratou EIRey em efto , até que fe ouverorrt 
d'a juntar: e feguio-fe , que hum Domingo, que eram treze 
dias do mez d'Agofto a horas de Prima , as Atalayas fezerom 
linal , que aviam vifta de gente , e repicarom logo , ao qual 
repique o Conde cavalgou , e como foi fora mandou a três 
de cavallo , que foíTem faber parte das Atalayas, que era o 
que avia , pois eftavam quedas , e nom fe abalavam : Dizee 
ao Conde, diiferom elles, que vimos gente contra Bulhões, co- 
mo quer que nos carece pouca. O Conde tinha jaa recado , co- 
mo temos dito, que os Mouros aviam de vir, e nom havia 
muitos dias , que hum Gonçalo Efteves Tavares , que eítava 
em Tarifa lho viera a dizer, e mandou logo dar avifo aas 
portas , que nom deixaíTem fahir nenhuma gente de pee ; e 
partio dalli com aquelles de cavallo , que alli eram , e foi 
pêra cima contra a Atalaya, e vio até duzentos homens, que 
vinham contra aquella parte , que o da Atalaya diíTera , e 
prefumio , que feriam Almogavares , porque fohiam alli de 
andar ; e jaa elle na outra femana paíTada mandara Joham 
Rodrigues Godinho com cento e trinta homens , que foíTe 

ver 



/ 



420 C H "R O N I C A 

ver fe os poderia acuitellar , e porque ouverom de lie vifta, 
nora veio .aa fim que começara ; e por tanto penfava o 
Conde , que os outros foram per aquelles , e que vinham buí* 
car os noílbs ; mas efta duvida nora efteve muito por deter- 
minar ; caa em fe querendo o Conde partir , vio vir per ci- 
ma do Caftello de Metene gente de cavallo, e de pee, pe- 
lo qual fe deteve hum pouco. Alli conheceo , que aquella era 
a gente , que vinha pêra o cerco ; caa vio como vinham to- 
da-las eftradas chêas de toda-las partes direitamente caminho 
da Cidade , onde fe deixou eftar alli , até que grande parte 
da gente era jaa fobre as Quintas : e porem fez logo deter 
as Atalayas , e veio-fe contra a porta de Fez , donde efteve 
fobre hum outeiro vendo como vinham , até que os Mouros 
de cavallo chegarom , onde eftava Martim de Crafto com 
outros dous de cavallo por Atalaya , aos quaes o Conde man- 
dou , que fe vieíTem logo , e tanto que forom juntos , que 
feriam até dez enderençáraò contra os Mouros , os quaes pe- 
roo tantos foíTem nom oufarom efperar ; e como o Conde 
vio que trefp unham , volveo-fe pêra a Cidade , e ainda efte- 
ve hum pedaço, que nom entrou dentro, olhando como vi- 
nham feus imigos ; e porque vio que alguns , que vinham* 
com elle começárom de murmurar pela multidão de gente , 
que vinha , o Conde com fua contenença muy fegura , e ale-, 
gre rindo , diífe contra elles : Como efta ciútaàa gente nom 
fabe a má proftimeira , que tem aparelhada , porque fey com a 
graça âe Deos , fe elles vem com enteuçom de nos combater , que 
nós mandaremos oje , ou quando quer que o elles cometerem tan~ 
tas almas ao inferno , que os Príncipes Jejam enfadados de as re~ 
ceber. Alli partio o Conde pêra a Cidade , e com grande re- 
poufo , e fegura contenença fez ordenar gente pêra o muro , e 
barreira , como tinha acoftumado ; mandando , que todos fe- 
zclfem trazer de comer aos Caramachóes , onde eftavam , 
mandando elle per íemelhante fazer pêra fy. Hy , diífe elle 
contra Diogo Vazques de Portocarreiro , e armai aquelle Bra- 
gantim , e fegui via do Caftello de Metene , e vede que gente 

U 



do Conde D, Pedro. 421 

la jaz , ou fe por ventura nem he mais que efta , que parece 
defta parte. Diogo Vazques era homem preftes , e de bom 
-coração , e muy em breve fez , o que lhe feu Senhor man- 
dava ; e des y tornou com feu recado. O numero da gente , que 
Senhor lã jaz me parece ca/y enfinào , e com tudo ijlo tem ago- 
ra ainda , que nom quedam , e tanto que nos virom , logo forom 
na praya , mas do gafalhado , que receber om de nojfas beeftas 
fei , que v ao pouco contentes , e alem difto difparamos três trons , 
com que os fizemos de todo ponto leixar a praya. Ora , diíTe 
o Conde , venhao aqui Beefleiros , e gente de pee , e dardo al- 
gum de [enfadamento a eftes nojfos amigos , que por fuás bonda- 
des nos vem vifitar : mandando , que andaíTem efearamuçando 
com elles , como de feito andarom até á tarde , que ]oham 
Lopes d'Azevedo com dez Efcudeiros hia pêra os recolher ; 
mas tanto andavaõ jaa encarnados na peleja, que fe o Con- 
de nom fora per peíToa , nom leixaram tam cedo fua efeara- 
muça ; e eito era jaa foi pofto, e porem os Mouros enca- 
minharom pêra feus alojamentos. E mandando o Conde fa- 
ber o caminho que levavam , achou , que hiam delles pêra 
o Caftéllejo , e outros pêra o Cannaveal. Ora , diíTe elle , 
amigos , contra os Almogavares , vós me atravejjai efta terra 
de mar a mar , poendo-vos em tal guija , que efteis fèguros ; e 
des y mandou logo dobrar toda-las vellas , e roídas da Ci- 
dade , e diíTe a ÀíFonfo Marques , » que filhaíTe todo-los ho- 
» mens , que tinha na Atalaya , e que fe foífe a Almina , e 
y> mais vinte e quatro Beefteiros, que jaa lá tinham a guar- 
» da , e que tomaíTem toda-las callas , » e des y andou o 
Conde a Cidade toda arrededor , e tanto que foi no Caftel- 
lo , mandou , que dez Efcudeiros de fua caza tomaíTem en- 
carrego d'andar a cavallo a vella da madorra , porque a da ma- 
nhãa jaa ficava encarregada a outros : os Efcudeiros fezerom 
o que lhe feu Senhor mandara , e quando aquella vella paf- 
fou , os Mouros quizerom ver o muro ; e huns a cavallo , e 
outros a pee vinham-fe chegando contra a Cidade, e os Al- 
mogavares ouveraõ delles fentido , e o mefmo os Mouros 
Tom. II. Ggg dos 



422 Chronica 

dos noíTos, e quizerom de boamente pelejar ; mas a noíTa 
gente nom avia aquelle confelho , ante encaminharom via da 
Cidade , dando rumor , que vinha gente , pelo qual derom 
ao íino na Torre d' Álvaro Mendes. O Conde , que ainda 
nom dormia foi logo pofto a cavallo , no qual efteve até que 
foi manhaa , que os Mouros começarom de vir ; e veio tam- 
bém recado da Almina daquelles , que lá tinham a Atalaya , 
e da outra d'Alvaro AíFonfo , que os Mouros começavaó a 
poer arrayal , e fazer choças , e aíTentar tendas defde as Quin- 
tas pêra o mar, e que lhes parecia, que traziam muitas bef- 
tas de carrega , e o gado em manadas , comoque queriam 
manter alTocego. Tornai , diíTe o Conde , e vede fe verees al- 
gumas Fujlas , e vmde-me logo com recado trigofamente. 

CAPITULO LXIII. 

Em que fe contam as coufas , que fe pajfarom no fe~ 
gundo dia do cerco. 

EStas coufas, diz o Commendador , que primeiramen- 
te eíta Iíloria ajuntou, e efcrepveo, vaõ aíTy eferiptas 
pela mais chaa maneira, que elle pôde, ainda que muitas 
leixou , de que fe outros feitos menores , que aqueítes po- 
deram fornecer : jaa feja , que muitos Autores cobiçofos d'al- 
largar fuás obras , forneciam feus Livros recontando tempos , 
que os Principes paíTavam em convites , e aíTy de feitas , e 
jogos , e tempos allegres, de que fe nom feguia outra cou- 
fa , fe nom a deleitação delles mefmos , aíTy como fom os 
primeiros feitos de Ingraterra , que fe chamava Gram Bre- 
tanha , e aíTy o Livro d'Amadis , como quer que foomente 
eíle folfe feito a prazer de hum homem , que fe chamava 
Vafco Lobeira em tempo d'ElRey Dom Fernando , fendo 
toda-las coufas do dito Livro fingidas do Autor: porém eu 
rogo a todo-los que ella Iítoria lerem , que me nom ajarrç 

por 



do Conde D. Pedro» 41 5; 

por proluxo cm meu efcrepver, tendo , que o fundamenta 
foi tomado a boa fim. Ora ouvi as coufas , que fe palTarao 
nefte fegundo dia , no qual o Conde mandou, que lhe cha- 
maílem Joham Lopes d'Azevedo , e Ruy Vazques Pereira , 
e Martim de Crafto , e Johaò da Coita: Eu vos encomen* 
do , diíTe elle , que tomeis ejfes de cavallo , que teverdes , e 
que vos ajunteis com meu Sobrinho Feruam Barreto , que tem 
ã guarda d?Almina , ao qual ordenei fejfenta de cavallo de mi- 
nha Caza , e com vofco ferd Ajfonfo Marques com vinte e qua- 
tro Bejleiros y os quaes jaa alli ante a guardavam cem trinta e 
cinco , que o dito Fefnam Barreto tem ; e levai hum Pendam de 
minha devifa eflando naquellas partes d'Almina , e por coufa 
que vejais , que as Fujlas fazem , nom leixeis a dita guarda , 
Calvo fe virdes , que querem dar efcala , onde os Mouros foni 
derribados ; caa acontecendo tal Coufa , entam vos encomendo , 
que acuda alli ametacle de vós , e a outra ametade fique todavia 
com meu Pendam ; e quando vierdes , feja o mais efeufamente y 
que poderdes , porque os Mauros nom pojfam entender , que ne~ 
nhuns fe movem de donde eftao. Todos refponderam , que lhes 
prazia muito , dizendo , que a vida lhes cultaria primeiro f 
que dalli partiflem , falvo fe folTe ao focorro , que elle di- 
zia. E des y fez o Conde chamar vinte e cineo antre Beef- 
teiros , e homens de pee , os quaes mandou , que folTem fo- 
ra , e que travalTem efearamuça com os Mouros , os quaes 
inda bem nom fahiam , jaa os contrários eram com elles* 
Avi fados eram porém aquelles , que andavam na efearamuça , 
que trouvelTem os contrários , quanto mais podelTem pêra a 
fombra dos muros , onde lhes as beeftas podeíTetn fazer da- 
pno , como de feito fezeraõ ; caa vierom com elles tam cer- 
ca , que as beeftas de cima do muro derribarom dez , ou do- 
ze j e per femelhante mandou fazer a huma coiraça , que he- 
cerca das Taracenas : e des y como o Conde via , que an- 
davam hum pedaço , mandava-os logo tirar faZendoos alli fer- 
vir de mantimento cm abaftança , e fe via , que alguns nom 
andavam aa fua vontade, fazia- os tirar, e meter outros, ds 

Ggg ii gui- 



424 Ckronica / 

guifa que a efcaramuça durou aíTy até á noite. Alguns da- 
quelles Mouros , que fabiam fallar ladino , nom bradavam 
outra coufa contra os nolTos , fenom que aguardaífem , que 
tanto que as Fuftas vieíTem logo todos aviam de fer juntos 
com os muros , onde per força os Chriftâos feriam entra- 
dos , e que entam faberiam , que diferença avia de Chrifto 
a Mafamede , e todos aviam de fer degolados. E em efto 
paíTarom aíli aquelle dia, que fe os Mouros acolherom a feus 
arrayaes. 

CAPITULO LXIV. 

Em que fim contheudas as coufas > que fe fezeram no 

dia terceiro. 



Vinda a noite fentio o Conde , que as Fuftas todavia 
era neceíTario que vieíTem, pois aquelles Mouros ai 
nom queriam fazer , e mandou , que aquelles mefmos , que a 
outra noite guardarom a Almina , eífes a guardalTem aquella. 
E mais , diíTe elle ? porque he certo , que fe as Fujlas owverem 
âe provar de tomar terra , nom ha de fer fenom na Almina ; an- 
dem ainda lá dez de cavallo , que guardem defda Ciftema até 
d ponta , a fàber , dês o começo da noite até ametade , e outros 
cinco até pela manhaa , e fe alguma coufa virdes fazei-me logo 
final. Mandando ainda , que em todo-los Caramanchões dor- 
miíTem aquelles , que a elles eram ordenados de vellar , e 
roldar, acrecentando hy certos Efcudeiros, aos quaes man- 
dou , que fe nom partiílem dalli até que aquelle feito ouvef« 
fe fim ; e na barreira mandou , que dormilfem os Almogava- 
res , avifando-os , que eftevelfem calados , como Efcuitas , e 
fobre as portas da barreira mandou dormir certos Efcudeiros , 
e Bèefteiros. Johaò Lopes d*Azevedo chegou ao Conde , e 
lhe diíTe : Que fefua mercê fojfe , que a elle prazer ia muito dt 
dormir na barreira , fentindo , que faria alli mais ferviço a Ei- 

Rey , 



do Conde D. Pedro. 42 f 

Rey , e a elle. Sobrinho , refpondeo o Conde , eu vejo bem vof 
fa boa vontade , porem vós fazee , o que vos eu tenho encomen* 
dado ; caa eflo he mais ferviço de quem vos cá enviou , e vojfa 
honra, que o que me vós requer ees. IJfb feja , diíTeJoham Lo- 
pes como vojfa mercê mandar , caa eu prefles fom a cumprir to* 
do ; mas tanto vos peço , que pois que aqui fam \ e Fidalgo , e 
ainda do vojfo fatigue , que fempre me azeis como faça , o que de* 
vo, O que lhe o Conde teve a muy grande bem , e o fez af- 
fy efcrepvcr per fua nobre memoria. No Caftello mandou o 
Conde , que eftevefíe Gil Vazques pêra requerer as vellas , e 
roídas , e elle ficou naquella guarda que Lopo Vazques fohia 
de ter, na qual eftava Joham Soares feulrmaõ, até que paf- 
fou a meia vella , que foi ver toda a Cidade , e dalli fe tor- 
nou a hum Caramanchão , ondo dormio. Peró os Mouros nun- 
ca derom em toda a noite lugar aos noíTos de filhar repoufo , 
andando fempre acerca do muro , em tanto que as pedras lan- 
çavam nos Caramanchões, pofto que lhes caro cuftalTe, caa 
os feriam , e matavam os que guardavam o muro ; e per efta 
guifa paíTarom o dia paíTado , e a noite, e quando foi ma- 
nhãa o Conde proveo todas íuas coufas ; e eftando á MiíTa 
lhe forom a dizer, que as Fuftas começavam de vir, e que 
lhes parecia, que vinham contra Bulhões; mais porque avia 
cerraçam no mar nom as podiam ver : alli fez o Conde cha- 
mar todo-los bons , que alli eram , e outra gente que nom era 
por entom ocupada , mas porque ainda era cedo , e os Mouros 
eftavam em feus negócios , e davam vagar aos noíTos : o Conde 
era dentro na Igreja, e fahio pêra fora, e tomou hum lu- 
gar alto convinhavel pêra fer viftode todos; e desy alegrou 
fua cara , e ante que fallaíTe , começou muy graciofamente 
de lançar os olhos per todos , duas ou três vezes , fobrefen- 
do hum pouco fem fallar palavra , porque as gentes recebef- 
fem melhor o entento de fuás razões , e alli abrio fua boca 9 
e diíTe, 



C A- 



42 6 CUBOKICA 

CAPITULO LXV. 

Como o Conde f aliou ás gentes de Cepta , quando enten- 
ãeo , que avia de receber combate. 

Ç\ Oem os grandes Príncipes , Duques , Capitães Senhores das 
)\ Ojlès , têr grande eftuâo nos razòamentos , que ham defa- 
&er a feus Cavalleiros , Plebeyos > e Comues ò e per ventura , 
que muitos delles bufCam Reitores > t Oradores , que lhes ornem , 
e aformojentem fuás palavras j o que fazem tanto com mais efiu- 
diofo cuidado , quanto das gentes a que faliam , tem menos fe-* 
gurança , porque os taes pela mayor parte fam gentes alugadas 
nom de huma própria Naçatí , mas de muitas gentes , que nope* 
%o do ouro ^ e da prata \ e na multidão da moeda põem a prin* 
cipal fim de fua efperança , em tanto que aquelles Senhores ef- 
peram mais certa vitoria , cujas arcas fam chêas de mais avon- 
dança de riquezas. Mas pêra vós oo Nobre gente , e Nação 
Portuguez , que prefuafaS de palavras , que ajuntamento de co- 
lores retóricos ^ que ornamento de razões fe podem bufcar pêra, 
vos amoejlar a Jeguir aquello , que a vojfa nobre N a çao por tan- 
tos círculos de annos folares trafprantado tem nos voffos corações ; 
eaa a vojfa lealdade he dada , affy como por exempro , a ioda-- 
las gentes do Mundo , e voffo esforço , e vojfa fortalleza : epor cer- 
to y que as almas dos voffos Anteceffores , efpecialmente daquelles 
bemaventurados Cavalleiros , que com os primeiros Reys forom 
nos primeiros vencimentos dos Mouros , que per muitos annos jaa 
efieverom em pojfe dos Reynos de Portugal g e do Algarve , do- 
bram agora fua perpetua folgança , vendo como vós eftais apa~ 
relhados Jobre tanta dejlruiçao de voffos imigos ; caa dirdm , que 
nom foomente vos contentafies de defender , o que elles deixdrom 
ganhado, mas ainda quizefles bufcar eftas partes tf Africa , e 
apoderar-vos da terra , affy como elles antes faziam nas partes 
da Europa* Ora honrados Senhores Cavalleiros , e Amigos , vin~ 

da 



do Conde D. Pedro. 427 

da he a hora em que vós podereis moflrar quanto fois fortes , ou 
fracos no fervi ço de Deos , e de vojfo Rey. Aqui tendes a coroa 
de vojja gloria , vede fe a quereis tomar , ou lei x ar : eu nomfey 
fe por ventura averd hy antre vós algum, quefeja tam pufila- 
nimo , que vendo efla multidão de contrários , receba em fi al- 
gum terror. Certamente fe hy tal ha , cuide emjl me fino , que nom 
he verdadeiro Portuguez , nem decende daquella Gótica linhagem , 
cuja nobreza nunca em fua companhia quiz vileza de temor \ e 
como quer que efla Nação habitajfe per toda Efpanha , eu di- 
ria , fegunão a nobreza dos feitos pajfados , que dos quatro Re- 
gnos Chriftaos induzo s nefta efph eriça redondeza , no nojfo fi- 
cou mais perfeitamente fua fuccejfao ; e efto poderá bem ver 
qualquer entendido , que dos feitos pajfados quizer tomar conhe- 
cimento. Co por Deos , diíTe elle , vaa longe de nós toda cou- 
fa , porque nojfo nome feja menos do que ncjfos Anteceffores co- 
brárom : e eu me alegro bem porque tenho ejperimentadas v.jfas 
nobrezas per muitos feitos notáveis , em que com vofco per tan- 
tos dias fui participador ; e nom creais , que fe eu outra gente 
aqui tevera , de que taõ conhecida efperiencia nom fentira , que 
femelhante vinda me nom fora mais trabalhofa ; mas quando 
me lembra quantas vezes vos vi ante os pees de vojfos cavai- 
los , tantos imigos derribados , e tantas vezes empuxados , nom 
foomente das pontas de vojfas lanças , mas efpalhando-os , fu- 
gindo per vali es , e outeiros ante a fombra de voffa vifla , elles 
ca/y fem conto , e vós tam poucos como fabees. Porém honra- 
dos Senhores , e Amigos , vós jaa conheceis , que a fim da vin- 
da defla multidão , e ajuntamento , que vedes , nom he porque 
elles tragam determinada certidão de nos danar ; caa jaa os 
principaes de fies fabem , os corações que vós outros aveis nos 
trabalhos da Cavallaria ; mas ajuntarom efla multidão pêra 
ver fe vos poderiam efpantar , e véloeis pelo movimento de feu 
ardil y que dês que aqui chegarom nunca fe moverom a fazer 
coufa , que pareça de homens , em que ha for t alie za , nem en- 
genho , os quaes fe andam ajuntando per a que lies outeiros , ma~ 
ravilhando-fe mais de nojfa fortaleza , que prometendo a fy 

mef- 



428 Chfonica 

rnefmos e/per anca de cohrar a Cidade , que per der om. Porém 
tu vos rogo , que muy preftefmente vos aparelheis aaquellas 
coufas j que per mim vos forem encomendadas > as quaes com a 
graça do Senhor Deos iodas jeráÕ falv amento de voffds vidas , 
e honra de vojfas pejfoas. Cada hum , diíTe elle , ponha ante 
fy ã fim a que aqui eftd , e nom queira tizar dos tempos , fe- 
nao fegundo o auto da coufa aprefenta a neceffidade ; e por 
Deos todavia endereçai-vos em vojfas obras a feguirdes aquel- 
lo j que vos por mim for ordenado , poftoque o cmitrario pa- 
reça, Nom tolho aaquelles , que antre vós tem autoridade , 
antes lhes rogo , e encomendo , que me confelhem em aquello 
que lhes bem parecer ; mas a outra gente , nom queira enten- 
der em ai , fena6 fazer o que lhe mandarem 5 porque crede , 
que tanto o perigo he mayor , tanto a pena fera dada com 
mayor rigor aaquelle 3 que per contumácia , ou negrigencia fal~ 
lecer do que lhe per mim for ordenado , ou mandado : e eu. 
confio na grande mifericordia de nojfo Senhor Deos , que fe ef- 
tes Mouros começam combate , que elles teráo ajjy aparelhada 
fua deftruiçao , que pêra fempre fera efcarmento. ElRey meu 
Senhor he jaa avifado per Gonçalo Ffleves , e pelo Alcayde 
de Tarifa meu Primo ^ e fe nos focorro for necejfario , fei que 
nos nao pode muito tardar , e que necejfario nom feja , toda- 
via fei , que ha de vir ; nos façamos em tanto de guifa que 
a honra nom feja toda dos que vierem 3 mas que parle fe- 
ja nojfa* 



CA- 



bo Gonoe D. Pedro. ^ * 

CAPITULO LXVI. 

Conío à Torre dê Bulhões foi filhada ; e quaes tom&- 
rom em tila \ e das outras coufas y que fe jezerom 

ém aquelle dia. 

TÔdos rbroiri mui contentes das razões , que lhes o Con- 
de diíTe , bradando a alta voz : » Que mandalTe todo 5 
aquello f que viíTe , que era ferviço de Deos j e d'ElRey feii 
Senhor , e falvaçaõ de fuás vidas , e horiras ; caa elles pref- 
tes , e aparelhados eram de o fazer. » E aconteceo neíte 
dia , que huma Torre , que citava no Valle de Bulhões foi 
tomada dos Mouros , e os que nella eftavam foraô cativos j 
e áVees aqui de faber , que eite Valle de Bulhões he hum 
Valle acerca de Cepta contra Alcácer , cafy no meio do Ef. 
tréito, em huma faldra da ferra , alTy como cai pêra o mar^ 
em o qual tinhaó os Mouros fuás Quintaas com muitos pu- 
mares ,■ e jardins deleitofos , acompanhados de Torres , e 
CaZarias formofas y e pintadas pefa acrecentamento de fua 
deleitação y e tam baftas eram em aquelle Válle , que cafy 
parecia huma Vil la y antre s^ quaes elíava huma Torre gran- 
de ,' e formofa fobre hum penedo y em que batia o mar ; e 
fendo Joham Pereira em aquella Cidade ^ enviara a pedir 
aquelle Valle a ElRey , do qual recebeo fua Carta firmada , 
e alTy o tinha por feu , ainda que o trabalhofamente poíTuif- 
fe ; caa foomente tinha aquella Torre, porque era de melhor 
defefa y que outra alguma , principalmente pelo focorro , que 
lhe podia vir por agua , porque pofFuindo aquella y lhe pa- 
recia , que tinha poíTe das outras ; e era aífy , que fempre 
Joham Pereira tinha ai li gentes , e mantimento , e muitas 
vezes elle eítava ally per pefFoa, per efpaço de dias; e em 
efta fazaõ viera elle ao Regno livrar fuás coufas ally corri 
Tnn U TL HKK Èl- 



/ 



43° Chronica 

ElRey , como com o Infante Dom Enrique , com que vivia ; 
e leixára porém aquella Torre encomendada a Fernam Gon- 
çalves d'Arca, hum Cavalleiro natural da Cidade d'Evora, 
Alcayde Mor , que era de Tavila , o qual eftava na dita Tor- 
re ao tempo , que os Mouros vieraõ a eíte cerco. E paíTa- 
dos eit.es dias, que jaa temos efcriptos , fe juntárom muitos 
Mouros , e forom fobre a dita Torre , onde filharom aaquel- 
le Fernam Gonçalves com nove Elcudeiros , que com elle 
eram , a qual filhada fe departio per duas guifas ; ca os que 
eítavam na Torre diíTerom , que os filharom pelejando , on- 
de forom primeiro Vencidos de cançaço, que das armas dos 
imigos ; caa eram tam poucos, e os contrários tantos, que 
nom podiam de fy fazer nenhuma repartição ; e des y o lu- 
gar eftreito , e o Almazem pouco , dizem , que fe derom 
por derradeiro por lalvarem fuás vidas ; caa per outra guifa 
nom podiam efcufar de ferem poftos a fogo, fe as portas 
nom quifeíTem abrir. Mas os Mouros contarom pelo contra- 
rio, dizendo , que filharom algumas bandeiras de alguns Na- 
vios , que os feus coílairos tomárom no maar , ou que per 
ventura elles fezerom per acabar aquelle engano, e huma 
cabeça de hum Mouro , que os do muro da Cidade mata- 
^roíri , a qual levavam alTy alta em huma lança , e as ban- 
deiras arraítando , dando voz , qUe o Conde era morto , e 
que aquella era fua cabeça , e as bandeiras d'ElRey de Por- 
tugal , requerendo-os , que fe deíTem de fua vontade , pois o 
contrario lhes nom preftava: e dizem, que penfando os nof- 
fos , que eito era verdade , outorgarom de fe darem fem ou- 
tra moftrança de defeZa ; e de huma , e outra guifa certo, 
he , que as bandeiras foraô afly fingídamente moftradas , e' 
elles prefos, e a Torre filhada. Peró de crer he, que tal 
Cavalleiro como Fernam Gonçalves d' Arca nom fe enganaria 
com femelhante moftrança. Com eíte Cavalleiro forom prefos 
Joham Eíteves Cerrabodes, e outros. E tornando aos feitos 
da Cidade , mandou o Conde Joham Lopes d'Azevedo , e 
Ruy Vazques Pereira, que fe folTcm a Almina, como lhes 

an- 



do Conde D. Pedro. 4 3 f 

antes tinha mandado ; mas porque as Fuftas entrárom em híía 
angra, que he junto com Aljazira, os de cavallo nom ouve- 
taó razão de as ver ; e porem tornarom-fe pêra o Conde. E 
em eito chegarom alguns Mouros de cavallo acerca do mu- 
ro , antre os quaes era hum , que fe chamava Jufez Juiz d'- 
Angera requerendo , que queria fallar ao Conde , o qual fe 
lhe logo demoítrou , porque eítava prefente : e depois que 
fallou fobre cativos , que fe aviam de refgatar per outros 
noíTos diffe , como a vontade de todo-los outros Mouros era 
aturarem alli até que a Cidade foífe filhada. Pois que fazees , 
dilTe o Conde , que nao começais vojfo combate. Porque efpe- 
ramos por as Fuftas , refpondeo o Mouro. E pêra que he iffb 9 
refpondeo o Conde , ca jaa eu fei , que as Fujlas vierorn 7 e 
vós nem fazees nada. Porque efperamos inda per outras , 
tornou o Mouro. E em eito lhe chegou recado de feu Ca- 
pitão , que fe tiraíTe dalli , avendo fufpeita daquella falia , 
porque fe alongava. O Conde mandou logo , que pozeíTetn 
dez homens fora pela porta da Barreira ? a faber , féis Beeí- 
teiros , e quatro homens de pee , pêra efearamuçarem com 
os Mouros , e fobre a porta mandou poer Gil Vazques Alj. 
moxarife do Almazem com féis Efcudeiros de fua Caza , 
que eram homens , que fabiam bem tirar com beeítas , as 
quaes alli tinham muyboas, e todas de garrucha ; e alTy avi- 
fou Joham da Veiga , que era fobre a Torre , e per confe- 
guinte Fernam Rodrigues de Buarcos , que eítava fobre o 
Cubelo, que he contra Aljazira , que nom tiralTem fenom 
com as beeítas de torno , falvo fe os Mouros fe chegaíTem 
tam perto , que os entendefíem de encalçar com as outras. 
Os noíTos começarom fua efearamuça , e os Mouros nom bem 
avifados do dapno , que tinham aparelhado , quando os noí- 
fos fe começarom a retrazer chegarom-fe tanto fob a fombra 
dos Muros , que forom derribados muitos delles com as beef- 
tas , que tinham aquelles Efcudeiros ; e foi ainda o feu dap- 
no muito mayor ; caa elles , ou per mandado do feu Alço- 
ram, ou per algum outro refpeito , trabalham-fe muito de 

Hhh ii afaf. 



43* Chronica 

afaftar feus mortos da face dos imigos , o que a eftes fez 
em aquelle dia muito mayor dapno ; porque per hum , que 
queriam levar , morriam fobr'elle fete , e oito. D'outra par- 
te elles acupados aíTy no levar dos mortos , como em volver 
as coitas , os Beefteiros , que eram de fora empregavam feus 
tiros com muy grande danno dos contrairos ; e porque os 
Mouros eram muitos , depois que fe alvoroçavam nom fe po- 
diam tam alinha fazer afora , e cafy todo o dia andarão em 
eíta perfia ; mas depois que o Conde vio , que fem embar- 
go de tanta perda elles nom queriam fenaõ vir cada vez 
mais, e que eram jaa muitos acercada barreira, mandou fa- 
zer íinal aos trõos , que difparalTem , os quaes fezerom em 
muy breve muy grande danno; caa aííy como o ajuntamento 
era muito grande , aíTy recebiam os contrários mayor per- 
da , pelo qual le afaftavam tam longe , que mais parecia , 
que queriam fugir, que moftrança de fe chegar outra vez ai* 
li. Mandou o Conde alli trazer muita vianda , e odres de 
vinho , de que todos forom proveudos , comendo alli de com- 
panha com todos por lhes dar caufa de fe nom alongarem , 
donde fuás prefenças per eftonce eram tanto neceíTarias. E 
porem que as memorias dos bons aja feu direito louvor , di- 
zemos , que antre os que eíle dia andárom fora dos muros 
era Diogo Vazques de Portocarreiro , o qual andava a cavai- 
lo afly por acaudellar a gente de pee , como por avivar a 
efcaramuça ; ca por fer a cavallo podia mais ligeiramente fa- 
zer as achegadas , que os outros de pee. Alli era Gomes 
Fernandes Almocadem , e Aífonfo Pego por Capitão da ou- 
tra gente de pee ; e cada hum delles matou feu Mouro afaf- 
tados dos outros , fem ajuda d'outra companhia. Mandou 
inda o Conde a Diogo Gil íeu Eftribeiro , que fahilTe fora , 
a ajudar Diogo Vazques , e aíTy andárom juntamente , até 
que o primeiro ouve huma pedrada na cabeça , que fe nom 
fora huma carapuça , que trazia muito revolta , alli fezera 
fim de fua vida. E o Conde fahio fora com três , ou quatro 
de cavallo, onde hum Mouro acenou contra elles , como 

quem 



do Conde D. Pedro. 433 

quem demandava contrario pêra provar fua força. O Conde 
foi aquelle , que fe adiantou bom efpaço antre os outros j 
mas o Mouro foi covardo , e tornou-fe pêra os parceiros. 
Álvaro Mendes , e feu Irmaó , hum da Torre , e outro da 
Couraça fezerom naquelle dia muy gram danno nos con- 
trários. 

CAPITULO LXVIL 

Como as Fuftas dor Mouros fahirom da enfeada ; e co- 
mo provaram pêra filhar terra - y e como os outros 
Mouros começárom a combater a Cidade. 

AS Fuftas que na manhãa forom fentidas, fobre a tar- 
de fahirom donde jaziam , cuja fahida fez muito gran- 
de rumor antre os Chriftãos , pelo qual o Conde mandou 
logo a Ruy Vazques , e a Joham Lopes Martim de Crafto , 
que fe foíTem a Almina. Joham Soares de Pavia , que alii 
era , requereo licença , porque lhe pareceo , que em compa- 
nhia daquelles Fidalgos poderia fazer mais de fua honra. O 
rumor da gente começava de crecer , pelas Fuftas , que viam , 
e o Conde acudio alli por lhe parecer necelTario , e diíTe á 
gente , que nom temeíTe , caa na Almina achariam , quem 
lhes defenderia a fahida. Huma fio coufa , diíTe elle , vos en- 
comendo por agora , que nom difpendais vojfo Almazem , fenaõ 
depois que virdes , que os Mouros fam em tal lugar , em que 
vojfos tiros nom podem fer em vao. Muito ledo foi o Conde , 
quando vio a gente aíTy difpofta pêra feguir , o que per ef- 
tonce era neceílario ; caa todos a huma voz diUeraô , que el- 
le folTe embora a avifar fuás coufas ; caa per elles nom falle- 
ceria , em quanto lhes a força duraíTe. E em efto as Fuftas 
vogarom via da Almina , e a mayor de todas hia de trás, 
e dês que forom junto com terra juntarom-fe todas , e fe- 
zerom fembrante de querer filhar a praya j mas os Beeftei- 

ros* 



434 C H R O N I c a/ 

ros , que alli eítavaõ , nom lhe quizerom dar aquelle vagar , 
que lhes compria pêra acabar, o que defejavam ; caa fe po- 
ferom em haz, e começárom de tirar , de que os Mouros 
tomarom receio , e em eito voltarom pêra trás , e parece , 
que forom tomar confelho , e mais gente da que traziam : e a 
cabo de grande pedaço volverom outra vez mais povoadas de 
companha , que da primeira ; e como as Fuftas forom junto 
com Almina , e que fezerom íembrante de hir em terra , todo- 
los Mouros , que eítavam no fertaõ fe leixarom correr contra os 
Mouros, epor confeguinte o mefmo fezerom os que eítavam 
na praya contra as couraças ; porem no combate da Torre de 
Fez era toda a mor foma dos contrários , dos quaes era Ca- 
pitão Beneaadu Atmyty Velho Cabeceira de Bemcaruz , que 
he em cima de Cacer Quebir j eram hy também Huicet Bem- 
rauque que era Cabeceira de gram parte da Alcàbella de Xoem, 
e Jufez Juiz d'Angera com todo-los daquella Comarca , e 
Aabu nom foomente tinha os de Megeice , que era feu pró- 
prio Senhorio , mas ainda os de Beneigem , e de Benama* 
gim , e de Bene Algorfoc , com todo-los daquella banda da 
Gomeira , que he via do Ponente ; e dalli pêra fundo , até 
em direito da guarda d'Alvaro Mendes , avia de combater 
Xeber com todo-los outros Velhos da ferra, e com elle os 
que vinham em romaria, que eraõ de muy longas terras; 
caa taes eram alli fegundo fe adiante foube , que avia mez, 
e meio , que partirom de fua terra , nunca ceifando d'andar, 
fenaó pêra ferem naquelle feito , crendo , que todos feus pe- 
cados alli eram perdoados, afirmando aquelles , que andavam 
pregando per profecias , que lhes allegavam , qae era per for- 
ça entrarem a Cidade em aquelles dous dias , que forom af . 
finados , a faber , vefpera da Virgem Maria , e o dia , que 
era aos quatorze , e aos quinze daquelle mez d'Agoíto : e 
dalli até o maar combatia hum Mouro , que vinha por Ca- 
beceira de Xoya , que avia nome Bubeçar , e com elle todo- 
los de Luzmara , e de Gibel-fabibe , e os de Arzila , e de 
Tanger, e d' Alcácer, e os de Mafmuda y todos bem orde- 
na- 



do Conde D. Pedro. 425- 

nados em batalhas fe leixárom correr : onde íe poderá ver 
huma eítranha mortindade , porque as coufas eítavarn aíTy or- 
denadas , e elles eram tantos , « aíTy baítos , que fe nom po- 
dia perder tiro. Por certo os Principes infernaes deverom na- 
quelle dia fer canfados no carreto de tantas almas malaven- 
turadas. Oo ! e como ficarão enganados os que vinham per 
cima da porta de Fez com efcada pêra fubirem no muro j 
porque eftava alli hú Efcudeiro com huma beefta de torno , 
e quando os aíTy vio vir dous que eram , pôz pofto em hurri 
delles , e per cima de huma porta , lhe deu com hum grolTo 
virataó que traziaó j de que logo cahio morto em terra; e 
em quanto fe o outro abaixava pêra alevantar aquelle , ar- 
mou o Efcudeiro outra vez , e pregou-lhe huma adarga nos 
peitos, e cahio par de feu parceiro fem nenhum efpirito de 
vida ; e daquelle Cubelo donde Fernam Rodrigues de Buar- 
cos eftava , matárom Beneaadu Atmyty Velho Cabeceira de 
Bemcaruz , e Fernam Rodrigues per fy mefmo matou Jufez 
Cabeceira da parte da Alcabella de Xoem ; caa lhe deu duas . / 

fétadas 110 cavallo , que lho derribou , e em cahindo ouve o 
Mouro huma , de que logo morreo : per aquelle mefmo lu- 
gar veio Aabu , e ouve outras duas fetadas em hum cavallo 
ruço, que trazia^ o qual fentindo-fe aíTanhado das feridas 
começou de fe revolver , e Fernam Rodrigues poz o pofto 
em Aabu , e paíTou-lhe o braço com hum virataó pelas ca- 
nas , e pelo mufgo , de guifa que lho pregou pelas coitas. 
Da parte do muro de fundo fe fezerom muitos tiros princi- 
palmente aas coiraças contra o mar , onde fe os Mouros mui- 
to mais chegarom ; caa alli tinham elles toda fua femença , 
mas o Conde nom perdeo avifamento daquelle lugar ; caa 
porque fentio , que os Mouros alli viriaô , acompanhou-o de 
boa gente: e porem fe fez alli muy grande danno nos con- 
trários. Nom he razaô , que deixemos fora deite regifto hum 
nobre Fidalgo , que era criado do Infante Dom Enrique , e 
que ao diante foi Comendador das Ilhas dos Açores, e de 
Santa Maria , que fam no mar Oceano , e do Caítelio d'Al- 

mou- 



\ 



43 6 C è r o n i c À 

mourol , que he da Ordem de Chriftos , ao qual chamarom 
Gonçalo Velho ; e efte eftava na Goiraça , que vai pêra Bar- 
baçote com oito Beefteirós , e hum feu Efcudeiro , que o 
bem acompanhou : os Mouros , que por alli começarom a 
combater vierom contra os noflbs > tantos e tam dezejozos 
da vitoria , que per força lhes paílarom a coiraça , nom fem 
grande dapno , e mortindade dos infleis. Mas a voz foi lo- 
go rijamente ao Conde , o qual nom pôde tan alinha dar 
íocorro, que nom achaííe dentro até trinta Mouros , e na 
couraça jaa nom era ninguém , fenaò aquelle Efcudeiro, e 
hum Beefteiro ^ que eftava bem á porta da Couraça ; e co- 
mo quer que elles açaz trabalhafíem como bons homens , 
lançando muitas pedras de cima , todavia os Mouros nom lei- 
xavam de paliar : o Gonde correo muito alinha mandando 
alli Efcudeiros feus , e outros que mais preftes achou , e af- 
fy alguns Beefteirós pêra tomarem a porta, porque Gonça- 
lo VeJho , e os outros, que com elle ficárom eram jaa fora 
em huma ladeira , nom podendo foportar tanta foma de gen- 
te ; e porque a praya nom era defendida, mandou o Con- 
de tomar hum penedo , de que fe podia bem guardar: e tan- 
to que os Mouros virom tantos contrários a feu propoílto , 
leixarom muito aífinha a fua primeira tenção ; caa a nolTa 
gente recorria de cima pêra alli ; e delles a nado , e delles 
arredor da Coiraça $ começarom a bufcar maneira como fe 
falvaíTem , ainda que todos o naò poderom fazer ; caa mui- 
tos perecerão primeiro. Gonçalo Velho como vio , que era 
focorrido , tornou logo á Coiraça , onde achou jaa hum Mou- 
ro fobre o eípigaõ do muro , ao qual muy em breve fez lei- 
xar nom foomente a parede , mas a vida. Era alli hum pe- 
nedo em que os Mouros aviam abrigo , de que faziam dap- 
no aos nonos, ca dalii foi ferido Gonçalo Velho, e outros 
com elle. Da parte da Almina os das Fuftas quizerom filhar 
terra , e quando virom a gente como eftava aparelhada pêra 
os receberem , nom quizerom tentar femelhante fahida , foo- 
mente huma delias ? que poz hum Pendão por fua feguran- 

9 a > 



do Conde D. Pedro. 437 

ça, e diíTe, como alli tinham os cativos, [que íílharom em 
Bulhões. Martim de Crafto lhe refpondeo , que fe foíTem em- 
bora, ca lhe nom fallariam fem licença do Conde ; e affy 
fe tornarom pêra a calla , onde ante jouverom; e os outros 
da terra per confeguinte , como virom as Fuftas tornar , vol- 
verom pêra feus alojamentos ; e os da Almina fe correrom 
ao Conde, pêra faber o que lhe prazia , que fezelTem. Hy , 
.diíTe elle , logo cear , e tornaivos d vojfa guarda ; caa jaafa- 
beis , que grande -parte daquefles Mouros nacêrom aqui , e que 
porém fabem os lugares per onde podem entrar fe lho nao em- 
bargarem ; e ponde vojfas guardas como vos jaa tenho ordena- 
do , tendo fobre ello grande avif amento ; caa fe efles Mouros 
huma vez em efla parte entrao , ferám muy trabalho/os de afaf^ 
tar depois , e eu vos loirei vêr , tanto que a noite vier. Todos 
refponderom , que nom aquello , mais outra qualquer coufa 
foííe fequer muito mais perigofa ; caa elles aparelhados eíta- 
vam. Na Coiraça onde Gonçalo Velho eftava , mandou o 
Conde acrecentar mais gente , ás quaes fez alli trazer man- 
timento , e todo o neceíTario pêra o outro dia ; e aíTy an- 
dou dando repairo a feus feitos , como nobre , e grande ho- 
mem , e muy digno de tal encarrego. Mas como quer que o 
eftado feminil feja daquella flaqueza , que a Deos prouve 9 
que foífe, tanto merece mayor louvor , quanto fe esforça 
com mayor vontade a feguir, o que lhe a natureza repunha : e 
porem fabee , que as mulheres daquella Cidade fe ouverom em 
aquelles dias , em todo-los trabalhos muito virtuofamente ; caa 
continuadamente andarom alli acarretando pedras , e almazem, 
com toda-las outras coufas , que aos homens eram neceíTarias , 
de guifa que algum delles nom teve caufa de fe afaftar do 
lugar, que lhe fora aííinado , nem os muros nunca perderom 
companha , que os defendeíTe : e quando fe os Mouros che- 
garom , ellas mudarão fuás roupas em abitos varóis , e com 
lanças, e efcudos eftavam pelos portaes do muro de companha 
com os homens , o que aos contrários nom era conhecido : e aí- 
fy ajamos por acabados os feitos, e obras daquelle dia. 
Tom. II. Iii GA^ 



43 & C H R O N I C A 

CAPITULO LXVIII. 

Como Caçome Berne ane , que fora Arraes Cabil de Cep- 
ta fugio da Cidade ; e das coufas , que fe fezeraõ 

em aquelle dia. 

COnta o Autor , que efcrepveo os feitos , que fe paf- 
fárom em eíte cerco , que á Quarta feira como foi ma- 
nhaa , que os Mouros feguindo feu uzado coftume , fe fo- 
rom poer per cima dos outeiros ; e o Conde vendo , que lhe 
davam lugar, mandou fazer hum caramanchão fobre hum Cu- 
belo , pêra os noílos averem melhor azo de defender a praya 
aos que vielTem á coiraça, e tirarem dalli aos que fe acou- 
tavam de fob o penedo no outro dia , que era paífado ; e 
des y encomendou-o , a quem o guardaíTe , e foi-íe dar or- 
dem aas outras coufas ; e porque as Fuftas nom vinham , 
mandou fora a AíFonfo Prego , e joham Moreno com outros 
Almogavares, pêra travarem efearamuça com os Mouros, 
os quaes tardarom muito de fe chegar á peleja , porem a fim 
ouverom de vir , e tanto andarom aífy fazendo fuás voltas , 
que os ouverom de carretar aa fombra dos muros , onde as 
beeftas começarom de jugar, e os Mouros a cahir huns fo- 
bre os outros ; e o Conde raefmo era alli tirando com fua 
beeíta , como cada hum dos fervidores : e brevemente , que 
alli morrerom açaz delles, até que ouverom por feu barato 
leixar os corpos mortos , e a efearamuça ; ficando alli hum 
monte delles pregados huns com outros , com grande laftima 
dos outros Mouros, que os viam e nom podiam ai fazer; caa 
efta obra piadoza he muito encomendada antr'elles , a faber , 
a fepultura dos mortos , efpecialmente aquelles que morrem 
antre os Chriftãos , os quaes elles tem afly por Santos , co- 
mo a Santa Igreja tem , os que morrem pela íua Santa Fee. 
E em efto diílerom ao Conde como as Fuftas começavaò de 

vir: 



d o Conde D. Pedro* 4^ a 

vir: e por contarmos nolTa Iftoria em nofía direita ordenan- 
ça , diremos aqui ^ como hum Mouro , que fe chamava Ga- 
come Bemcarte, que fora Arraes Cabil daquella Cidade fu- 
gi o de noite per hum cano : e Arraes Cabil antre os Mou- 
ros he aíTy como Almirante antre os Chriftãos , o qual fora 
cativo per Nuno de Góes , e efte Mouro era Velho , e fezu- 
do, e tal de que os outros Mouros ouveram grandes avifa- 
mentos , dês que foi antr'elles : as Fuftas forom via d'Almi~ 
ria , onde fezerom moftrança , que queriam tomar terra ; mas 
tanto que virom os Beefteiros eftar preftes pêra os receber^ 
nom oufarom d'acabar o que tinham vontade i antes fe tor- 
narom atras , onde hum co pano fez final de falia , e Ruy 
Vazques lhe refpondeo^ que fe foíTe onde ò Conde eftava^ 
e que alli poderia faliar com entençam de aver repofta. Lou- 
renço AlFonfo hum vizinho daquella Cidade requereo licen- 
ça ao Conde pêra hir em Ma fua Zavra tirar aas Fuftas 5 e 
como quer que ante de lhe aquella licença fer dada > elle fof- 
fe bem avifado , tanto fezerom os Mouros com aquelle Cer- 1 
rabodes , que fiiharom na Torre de Bulhões , que lhe mof- 
traíTe fegurança , que ouverom de filhar a dita Zavra , nom 
com pequena alegria fua , de que os nofíbs tomarom fenti- 
do. Leixai , diíTe o Conde, caa fam coufas ordenadas de ci- 
ma , as quaes nom fam feitas fenao por bem ; caa por azo da~ 
quelles homens ferem tomados fe -proveram algumas ? que pof 
ventura fe nao foram filhados , fe nao fezeram* Nds , Senhor ^ 
dilTerom alguns , nom temos outro mayor cuidado , que dáquel- 
les buracos ? que fam feitos no muro , ca fe elles corre gidos fof- 
fem , com a graça de Deos , pouco temor temos de feus alari- 
dos, Qiianto por ijfo , diíTe o Conde , vós nom deixeis dê fer 
alegres , e obrar nas outras coufas ; caa eu vo-los darei efla noi- 
te corregidos per tal guifa , que com ajuda de Deos pouca gen- 
te os pojfa defender contra muita y poflo que venha. Pêra a tal 
coufa o Conde mandou logo perceber os Officiaes, que pe* 
ia ello compriam , dizendo , que penfafíem de fy , e dormif-í 
fem > que na noite feguinte aviam de trabalhar. E em efte; 

Iii ii dia 



44° ChRONICA 

dia fe lançou hum Elche na Cidade per engano , que fez 
aos Mouros , como quer que elle era homem açaz de fim* 
prez , prouve a Deos de lhe abrir caminho como fe naó per- 
deíTe , mas a principal perda foi daquelles , que o traziaõ j 
caa os outros Mouros vierom a elles , e os fezerom em mui- 
tos pedaços , pelo máo avifamento , que pozerom em o guar* 
dar. Efte Elche diíTe muitas coufas ao Conde acerca da fa- 
zenda dos contrairos , e como a gente era cafy infinda, es- 
pecialmente a de pee , que a de cavallo nom era tanta , que 
per todos nom feriam até dous mil e feiscentos antre os de 
Xoem , eos outros que vinham comXeber, afora os naturaes 
da terra. Perguntou-lhe o Conde , porque nom combaterom 
aquelle dia, diíTe , que porque efperavam por mais Fuftas 
d' alem de Graada : porem , difle e\le , fe efta noite nom vie~ 
rem , de manhãa quererão combater , e como fe acharem ajfy 
faraó, E tanto que foi noite o Conde mandou obrar naquel- 
les portaes , e lugares perigofos , e tal aviamento fe deu a 
todo , que pela manhãa eftavam todo-los buracos tapados , 
como fe fe obraram de dia, e em outro tempo, de que to- 
dos eram muito maravilhados , louvando muito tanta bonda- 
de de Capitão. 

CAPITULO LXIX. 

Como os Mouros começarão o fegundo combate. 

OUvio o Conde fua MilTa a taes horas , que quando 
foi manhaã andava por cerca dos muros ; mas nom 
tardou muito depois que os meíTagciros do Sol denunciarão 
fua vinda , que as Fuftas dos Mouros começarom de vir a terra. 
Joham Lopes d* Azevedo era alli por faber do Conde , o 
que lhe ordenava , que fizelTe : Toda via Sobrinho , diíTe el- 
le , vós eftai aqui , atâ que vejais a via , que as Fuftas querem 
fazer 9 e fe virdes que vam fera Almina trigaivos quanto po~ 

der- 



do Conde D. P e d r o. 44! 

derdes , que as vades empachar ; e fe pêra aqui vierem per 
Semelhante fazei. Senhor , diíTe Joham Lopes , hy dar remédio 
és outras coufas ; caa defla eu terei tal cuidado de que vós nom 
fejais de/contente. Aaquellas Fuítas acrecentárom jaa os Mou- 
ros outras Zavras j e aíTy as húas , como as outras eram 
muy carregadas de gente ; e como foraó avifados daquellc 
Arraes vinham ertderençados aos portelos , que o Mouro 
nom leixára cerrados. Os outros Mouros , que eítavam em 
terra como virom as Fuítas vogar , e que fe enderençavam 
pêra dar efcála deixárom-fe correr muy rijamente pêra os 
muros , aily de cavallo , como de pee i trazendo muitas ef- 
cadas, e lenha ; como quer que da parte da porta de Féz 
nom cometiam com tanta força ; e aíTy como fezerom huma 
vinda , e as beeftas começarão de jugar nom ficárom os pri- 
meiros fem grande arrependimento j efpecialmente depois 
que virom o erro de fua danada crença; caa lhes fezerom 
cahir os corpos atraveffados no meio da praça , a fora ou- 
tros muitos , que receberom graves feridas 5 taes que pêra 
fempre ficaram em aleijam ; mas dalli pêra fundo até acer- 
ca do mar acudio mais gente , e com mayor força ; e po- 
rém avendo aquellé mefmo recebimento , que os outros ou- 
verom , afaítáraó-fe a fora , e como huma alcabella tinha fua 
falfa , afly vinha logo a outra receber fua parte. Vio o Con- 
de , que os Mouros acudiam mais fobre a Torre d'Alvaro 
Mendes , e como a barreira nom era taó boa como cum- 
pria , mandou Lopo Vazques de Portocarreiro , que com 
quatro , ou cinco Eícudeiros armados eítevefem alli pêra 
ajudarem afazer defenfaõ : a Coifaça de Barbaçote foi mui- 
to combatida , até morrerem os Mouros dos cantos , que lan- 
çavam de cima ; taõ acaroados eltavam com o muro : e aju- 
dou muito a fer aquella Coiraça defefa humas lumieiras , 
que eftavam acerca do chaõ per onde os Bcefteiros tiravam , 
de guifa que foraÔ muitos feridos pelos peitos , e pelos 
ventres de que açaz delles perecerom per morte , até que 
elles mefmos conhecendo feu danno , e nom o podendo fo- 

frer 



44* C H R O N I C A 

frer fe afaftiraõ afora. Os das Fuftas derom efcala em ter-i 
ra , de proa bem junto com muro, onde faltarom logo fora 
obra de duzentos Mouros muy bem corregídos , os quaes 
fe forom direitamente ao portal , e delles ao cano per onde 
o Arraes fahira , o qual era taõ alto per que hum homem 
podia hir alçado , e taó largo , que bem podiam hir dous 
a par ; e João Lopes , e aquelles que com elle eftavam fal- 
tarão pelo poftigo fora , cuidando que os Mouros queriam 
hir aaquelle lugar ; e dês que virom, que feguiam mais lon- 
ge tornaraõ-fe , e enderençarom per dentro da Cidade ; e 
como Joham Lopes chegou, onde os Mouros eram, poze-fe 
a pee íbbre o muro , e per femelhante fczerom os que os 
feguiam: e por certo que aquelles Mouros , que alli falta- 
rom , nom podiam fer fenom gente eftremada pêra tal fei- 
to ; caa com muy* grande viveza fe chegarom ao muro , e o 
combatiam afaftados de todo temor , e como a mayor par- 
te dos Beefteiros foíTe gente popular, quando virom os con- 
trários tam avivados penfárom lua deírruiçaô defemparando 
o lugar , em que eftavam aífinados com tanto temor , que 
deixavam as beeftas , e almazem que tinham , pêro chega- 
rom alli logo Efcudeiros , os quaes pofto que o nom tevef- 
fem por OrEcio , fervirom alli melhor do que os outros co- 
vardos fezerom ; caa avendo fortaleza em feus corações nom 
perdiam o pofto com temor dos contrairos , o que os pri- 
meiros faziam muito pelo contrario ; e aíTy fe ouverom aquel- 
les bons homens em feus tiros , que em breve derribárom 
parte daquelles Mouros , os quaes vendo como lhes o muro 
era também defezo , começárom de fe alongar do combate , 
moftrando porém que o queriam continuar , e derom azo a 
outros , que fe foífem ao cano ; e fendo jaa alguns dentro 
per elle , quiz Deos , hum Aífonfo Pires Efcudeiro do Con- 
de vio aparecer hum , que era jaa cafy fora do cano , e de- 
ceo-fe de hum cavallo , e deu-lhe com huma lança d'armas 
pelos peitos, que o paflbu da outra parte; e bem elle nom 
ficara fem parte daquelle dapno , fe nom fora focorrido , ca 

lhe 



do Conde D. Pedro. 443 

lhe tomarom os outros Mouros a lança , de que elle era açaz 
trabalhado ; mas em efto chegou alli hum homem , a que 
fallecia huma maõ , pêro na outra trazia lança , com que fe- 
rio hum daquelles Mouros de chaga mortal , pelo qual os 
outros derom lugar á lança d'Affoníb Pires, que tinham pe- 
jada , e começárom de fe tornar , em pêro com todo efto 
os das Fuftas tornárom a feu primeiro combate , e que huns 
morreíTem vinham outros muitos mais : e Martim de Crafto 
vendo aquelle perigo leixou o cavalk>j e faltou no muro y 
onde lhe nom falleceo coração fidalgo , e nobre , com o qual 
empuxava os contrários com oufada fortaleza ; a gente , que 
eftava efpalhada per aquellas partes do muro , fentio que 
alli era o perigo ; e fabendo como os imigos nom podiam 
fer empachados ao filhar da terra entenderom , que menos 
os poderiam empachar á entrada do muro , pelo qual fa- 
bee , que muitos delles concebiam novos penfamentos em 
íuas vontades cheios de grande temor , mas o Conde aíTy 
como era difcreto entendeo o feito , e mandou a alguns Et- 
cudeiros feus , que fe foíTem pêra lá, e que fe viíTem a cou- 
fa em tal perigo , que lho fczelTem logo faber. F i grande 
mal , diflerom alguns dos que eftavam acerca delle , porque 
ajjy leixarom a aquelle s Mouros filhar pojfe da terra. Lei x ai , 
diife o Conde , caa ajfy compre de os enganar ; caa eu man* 
dei, que lha deixajfem filhar acinte pêra fe ca/ligarem alli , 
porque outra vez receem de fazer outra tal , caa fe huma' ne- 
gada forem hem efcarmentados , os que ofouherem nom oujárâm 
aceptar ajfy ligeiramente o carrego. E com a crença , que os 
noffos derom a eftas palavras , pozerom fuás vontades em 
melhor focego. Eftas razões, que o Conde aíTy diíTe , quiz 
que as foubeíTem per toda-las partes : e porem mandou a Jo- 
ham Soares, que as foíTe aíTy a notificar como de feu pró- 
prio movimento, per todo-los outros lugares, crendo, que 
nom menos feria o receio nos outros , que naquelles : Joham 
Soares era homem de boa prefença , e linhagem , e aalem de 
lua antiga fidalguia, e ardida natureza , a boa vontade, qu e 

avia 



^-44 Chrônica 

avia a huma Donzella, o fazia bufcar coufas avantajadas j e 
eítender fuás forças a mayores trabalhos , como certamente 
em aquelles dias deite primeiro cerco, e no outro fegundo ; 
e alTy em quanto alli eíteve fempre íe difpoz a muy gran- 
des trabalhos , avendo-le em ello como valente Cavalleiro , 
ainda que na fim de feus dias lhe falleceo o galardão aíTy 
deites ferviços , como d'outros muitos , que tinha feitos : e 
por ag°ra ajamos , que Joham Soares íeguio com boa dili- 
gencia o mandado do Conde , e aíTocegou os alvoraçados co- 
rações , que muitos tinham. E em eito chegou Martirn Vi- 
cente , e diíTe-lhe , que curaíTe das coufas que tinha prefen- 
tes , que as outras bem remediadas eítavam ; e por dizer ver- 
dade , que a prefença do Conde nom era alli tam neceíTaria 
pêra contrariar os imigos , como era pêra confortar os ami* 
gos : caa, fabee , que grande temor era em elles pela fahida 
daquelles Mouros efpecialmente , porque fabiam a fraqueza 
do lugar. Senhor , diíTe Martim Vicente , o que per agora là 
mais compre aj/y he bee fiaria; caafeos mandardes f aram grani 
dapno nos contrairos. Senhor , dilTerom os outros , nom cureis 
de mais , caa jaa lá vai Gil Ajfonfo com quatro Bee/leiros , que 
abajlardm pêra lá. Ora pois , diíTe o Conde, contra Gonçalo 
Vaz quês , vede-me a maré , em que ponto he , e fe virdes que 
loe tal , cavalgai , e dizei a ejfes Fidalgos , que aquelles que po- 
derem fer efcuzados , que fayam fora , caa fei que grande dap- 
no fareis nos contrários. E como quer que a maré algum tan- 
to folTe groíTa todavia Ruy Vazques Pereira, e Joham Lopes 
d' Azevedo , e efte Gonçalo Vazques com outros forom fora ; 
€ porque o poftigo per onde elles aviam de fahir era longe , 
e a agua nom de todo vazia, pelo qual nom podiam paífar 
aos Mouros fenaó cafy anado , nom acabárom de todo de 
os matar ; empero todavia chegárom a elles , e como mui- 
tos delles eram jaa mortos, e feridos, tanto que virom os 
noíTos leixáraó a praya, em cujo recolhimento fe acrecentou 
muito mais fua perda , caa elles tinham as proas em terra 
fem ferro fora } e parte das Fuftas tocavam nas pedras , e 

nom 



do Conde D. Peduo. 44 j 

nom podiam fahir , e como tinham os tiros em cheio tira- 
vam-lhes aa lua vontade , de guifa que antre mortos , e mal 
feridos poucos ficaram. 

CAPITULO LXX. 

Como fe os Mouros recolherom ás Fujlas , e como to- 
dos Je começavao de partir. 

ERa couía muy alegre de ver aos noíTos , como as ondas 
andavam tintas do fangue daquelles infiéis , porque ca- 
fy toda aquella ribeira jazia acompanhada dos corpos delles , 
e d'outra parte os Mouros nom podiam meter fuás Fuftas 
em nado , pelo que jaa dillemos , e nom podiam parecer 
abordo, que logo nom fofTem dez, e doze fetas fobre hu- 
ma cabeça. Gil AfFonfo Almoxarife , e outro Official d'Et-« 
Rey forom em aquelle dia de grande louvor , acerca do que 
fe fez em aquelle lugar ; caa fe pozerom alli com duas beef- 
tas cada hum , e fenhos homens , que lhas armavam , com 
que derribaram bem grande numero daquelles infiéis. Nem 
da parte do fertaõ nom eftavam os campos vazios, do que 
a praya era tam acompanhada ; caa ainda que os Mouros 
muitos daquelles mortos levaffem , todavia ficarom alli tan- 
tos , que ao depois , que começaram aapodrecer faziam nojo 
aos noíTos , antes creemos , que os mandarão queimar. E 
porque as mulheres nom fiquem fem fua parte defte louvor 
dizemos , que nom como fua natureza requeria , trabalharam 
nefte negocio , mas como peíToas de grande virtude , caa fe- 
gundo a neceífidade do tempo , aíTy mudaram fua natureza , 
e com as armas nas mãos fem abitos mudados em alguns lu- 
gares efcufavam os homens. Foi certo , que huma Leanor 
AfFonfo cazada com Lopo Martins , mulher boa , e onefta em 
feu viver matou em efte derradeiro dia per fy hum Mouro : 
e outra mulher folteira , que fe chamava Gatharina de Sant- 
Tom. II. Kkk Ia- 



44^ C H RtO M I C A 

lago matou outro , c 'ferio aalguns : e que diremos á mu- 
lher de "Ruy Gomes , que eítava junto de feu marido no por- 
tal do muro ajudando-o muy valentemente , e ambos alli fo- 
rom feridos. Peroo eftes , nem outros muitos , que feridas 
ouverom neíte cerco , per graça do Senhor Deos , todos co- 
brárom faude. E por nos efpedirmos deite primeiro cerco 
fabee r que a Fuíta grande efteve em ponto de fer perdida, 
porque tocava em cima de huma pedra , pelo qual fe a gen- 
te quizera lançar na agua pêra fe hir aas outras Fuftas ; pe- 
roo em fim ouve de fahir , nom fem fua grande perda , aíTy 
da gente , como dos aparelhos , e bem fe podia conhecer 
nos remos , quaes aquellas Fuftas dalli partiam ; caa tal avia 
hy , que era de vinte e cinco, vinte e féis bancos , e nom 
remava oito remos , e os outros todos varados ; tanto que as 
Fuftas forom largas , e moverom pêra fahir , logo os Mou- 
ros da terra começarom d'afroxar de feu combate , e huns , 
e huns fe partiam; çaa os mais delles faô homens de pou- 
ca fazenda , fenao hum faquinho de paíTas , e de farinha , 
e aíTy lhes fica pouco cuidado da fardagem ; em tanto que 
em menos de duas horas fe partirom delles a mayor parte. 
Aquelles que fe acertarom a levar as efcadas eram jaa tam. 
perto do muro , que lhes foi neceflario de as leixar , e del- 
les ficarom hy mortos a par delias; e tanto que começarom 
de mover , aífy começarão de poer o fogo á lenha , que trou- 
xerem , de guifa que foi de todo queimada , ante que da- 
quelle lugar foíTem partidos : e as Fuftas fe forom poer na 
enfeada onde sntes jaziam , onde fobre-fteveraô hum grande 
pedaço chorando fua perda , e o Conde mandou , que lhe 
trouxeíTem as efcadas : e como quer que alguns Mouros de 
cavallo alli acudiíTem , trabalhando por embargar os noíTos , 
nom lhes preftou nada , porque a muito feu pezar foi o man- 
dado do Conde comprido : e bem pareceo , que o Meítre , 
que eftas efcadas fizera , avia bom conhecimento do muro , 
ou aquelles que lhas mandarom fazer; caa eram iguaes com 
a altura daquella muralha. Huma vella fe moftrou contra Gi- 

bral^ 



do CotfDE D. Pedro. 447 

braltar, contra a qual o Conde logo fez armar huma Fufta, 
cuja Capitania foi dada a Joham Soares 5 e porque os ma*- 
reantes nom a fouberom governar como cumpria , nom fez 
Joham Soares o que quizera ; e o Navio dos Mouros tor- 
nou-fe a feu porto , quando fentio , que o hiam bufcar. Ou- 
tro fy diíTerom ao Conde comovirom duas Zavras trás os 
penedos , e mandou logo a Diogo Vazques em hum Bragan- 
tim , que as fo He bufcar ; mas nom forom aíTy os officiaes 
daquelle Navio errados , como os de Joham Soares ; caa nom 
foomente achárom aquella , mas ainda outra tamanha , as 
quaes vendo o Bragantim acerca de fy emproárom em terra 
e trouxerom-nas pêra a Cidade carregadas d'alcavallas , e 
de trigo , e de uvas : e eítas faô as coufas que fe paflaraó 
naquelles cinco dias , que os Mouros deita vez eíteverom 
fobre a Cidade. 

C A P I T U L O LXXI. 

Como v Conde foube , que ainda os Mouros aviam de 

tornar Jobrelh. 

Ainda que as gentes foíTem trabalhadas nos dias palTa* 
dos , nom fe efqueceo o Conde dáquello , que lhe cum- 
pria : e porem nom quiz, que fe deíTeni a reppufo ; caa lo- 
go no outro dia, que fe os Mourosf parti roííi y mandou cor- 
reger os muros naquelles lugares , onde avi^ fallecimento ; 
e efto foi feito muito bem , e muito alinha ' , de guifa que 
todo foi repairado, como fe o Conde foubera^ que os imi- 
gos no outro dia aviam de tornar fobr'elle : e logo á Terça 
feira feguinte lhe chegárom quatro Cartas de Tarifa , em 
que lhe notificaram como hum vizinho daquelle lugar che- 
gara poucos dias avia de Mallaga , e lhe certificara , que El- 
Rey de Graada armava toda fua frota pêra virem fobre aquel- 
la Cidade ; caa ^lRey de Bellamarim lhe dava per trato r 

Kkk u- que 



448 C fi k o k í c a 

que a foíTe ganhar , e que de hy em diante ficafTe fempre 
aos Reys de Graada, com certas coufas, que lhe mais dava 
pêra melhor fullimento delia: e logo a pôs efto chegou hy 
huma Zavra , que os Mouros d' Alcácer filharom ao Conde , 
eftando fobre refgate acerca do dito porto , a qual lhe en- 
viou Focem Alcayde daquella Villa , com todo-los homens , 
que em ella forom filhados , e mais dous Mouros , que lhe 
levarom Cartas fuás , e de hum feu Sobrinho defculpando- 
fe o hum , e o outro do que fora feito : A qual ccufa , di- 
ziam eiles , bem podees faber per efles mefmos , que forom fi- 
lhados , que virom lançar o Sobrinho do Velho aagua , porque 
os queríamos mandar tornar, nem forom caareteúdos , fenao com 
receio dos Alarves, que então eram em efla parte ; pedindo 
perdão por fe mais nom poder fazer: e alli fallarom em ref- 
gate de cativos efpecialmente de Ruy Gomes da Silva. A 
eftes Mouros , que afly hiam com aquelles Chriltãos fez o 
Conde muita honra, como tinha coftume de fazer fempre a 
todos os que a elle vinham por Embaixadores , efpecialmen- 
te aaquelles , que eram daquelle Alcayde , que antre os Mou- 
ros daquella parte lhe mofirava melhor dezejo ; e parece que 
ambos bebiam vinho , de que aalem das outras coufas forom 
bem proveudos. E no dia feguinte de fua chegada vio o Con- 
de como fe fazia hum fogo em Gibraltar na ponta do mon- 
te , e fubio logo a hum eirado , e vio bem , que aquello era 
final , e fez hy vir hum dos Mouros , fazendo-lhe grandes 
promeíTas , aíTy de lhe guardar o fegredo , como de lhe fa- 
zer por ello mercê , que lhe diíTelTe , o que fabia daquella 
vinda , e tanto lhe rogou fobr'ello , até que o Mouro antre 
a efperança do ganho , e a quentura do vinho , diffe quanto 
fabia , efpecialmente afirmou o trauto , que era antre ÊlRey 
de Graada , e EIRey de Fez , pela guifa que jaa lhe efcrep- 
verom de Tarifa : e aquelle fogo he final , diíTe o Mouro , 
que as Fuftas, e frota fom jaa de todo preftes , e que fe per- 
cebam. porem os da terra; e também vam pelo Embaixador, 
que foi a Graada ; e eito , Senhor, dilTeelle, avee por mui- 
to 



do Conde D. Pedbo. 449 

to certo. O Conde por fe certificar melhor fez inda vir o ou- 
tro em ília parte , o qual lhe afirmou todo , o que lhe o ou- 
tro diflcra , nom defviando nenhuma coufa ; e per aquella 
mcfma guifa o. efcrepveo Ruy Gomes de lá donde eftava ca- 
tivo , acrecentando mais , que os Mouros fe trabalhavam de 
bufcar erva, pêra tirarem com ella. Soube inda o Conde per 
eítes Mouros , como os que vierom fobre a Cidade , era por 
toda gente cento e vinte e dous mil , afora mulheres , e mo- 
ços pequenos , e que os mortos , que íe achárom menos no 
Arrayal paíTavam de três mil, afora os que nom fabiam , e 
outros que morriam cada dia, e os feridos, que eram cafy 
fem conto. 

CAPITULO LXXII. 

Como o Conde efcrepveo a EIRey ; e das outras no* 

vasy que ouve. 

O Conde vendo quanto lhe compria , d'ElRey fer avifado 
de femelhante feito , efcrepveo logo trigofamente , 
mandando com aquellas Cartas dous feus criados , homens 
de que elle avia boa efperança , que fepercafo, algum adoe^ 
ceife , que o outro podeífe feguir a viagem : e porque eftes 
meífageiros podelTem mais preftefmente fer levados , mandou 
o Conde a Diogo Vazques , que armaíle o Bragantim , e que 
os pozeíTe em Tarifa ; mandando outro fy a Fernam Gomes , 
que armaíTe huma Zavra , em que pozeíTe os Mouros , que 
Focem enviara , em Alcácer. E porque efta tarde quando par- 
tirom , nom poderom aver fenaó a calla de Cilees, e lançá- 
rom-fe hum acerca do outro ; e jazendo aífy veio huma Fufta , 
que paífava de Graada com o Embaixador pêra Fez , e nom 
fe poderom tam alinha perceber , que os Mouros primeiro nom 
faltaram em terra ; tomáraô porem a Fufta na qual acháraÓ 
muitas alcavallas , e figos, e amêndoas : e per três fellas , e 

freios , 



45*0 Chronica 

freios ^ e efporas , que acharom , foube o Conde , que era 
alli hum Embaixador, a qual coufa le certificou pelas Car- 
tas , que acharom depois; caa pêro muitas lançaíTem ao mar, 
ainda ficarom algumas } per que o Conde foube a certidão da 
Embaixada ; empero quizeíTe ainda melhor ccrtificar-fe , man- 
dou a Diogo Vazques , que armaíTe outra vez , e que fe paf- 
faííe da parte de Graada a filhar algum falto , onde podefíe 
tomar alguma lingoa. Diogo Vazques era homem , que fa- 
bia muy bem aquella terra , e foi-fe lançar antre Eftapona , 
e Gibraltar , onde filhou cinco Mouros almocreves , que le- 
vavam farinha , e efpecearia , e tomarom ainda em aquella 
noite duas Zavras, que os Mouros pozerom em terra quan- 
do ouvirom o rugido da agua , que o Bragantim fazia com 
os remos. De hum deftes Mouros foube o Conde muy per- 
feitamente como fe ElRey de Graada aparelhava pêra paliar 
em Cepta , e que aquelle meílageiro , que avia nome Adur 
Raphamem Abemquevira levava o trato todo aceitado ; e 
como Çalla bem Çalla fe fazia vaíTallo d'E'Rey de Graada , 
e lhe queria fazer aquelle tributo , que fazia a ElRey de 
Féz. E o Conde coníirando como efte feito fe aparelhava 
pêra fer de verdade , pois per tantas teftemunhas era prova- 
do, e que alem daqueftes lho efcrepveram homens, que El- 
Rey tinha pêra efto em Sevilha , e em Tarifa avifados pêra 
taes coufas , enviou logo outros meflageiros a ElRey : e co- 
mo Deos queria bem encaminhar eftas coufas , e nom min* 
goar daquelle Santo Sacrifício , que fe fazia naquella Cida- 
de de Cepta em renembrança de fua morte , e paixão ; c 
acertara-fe , que pouco tempo avia , que vierom novas a 
ElRey Dom Joham como os Caftellãos queriam entrar pe- 
lo Regno , por cuja razaô elle mandara o Infante Dom Pe- 
dro por Fronteiro a Villa Real , e o Infante Dom Enrique 
a Vifeu , e o Conde de Barcellos a Bragança. E porque fe 
naò feguira mais , nem de Caftella nom vieram mais novas , 
feguio-fe d'ElRey adoecer , as quaes novas em breve foraõ 
levadas aos Infantes, e Conde, e foi coufa maravilhofa , 

que 



do Conde D. Pedro. 45-1 

que o Infante Dom Enrique veio de Vifeu aos Paços da 
Serra em hum dia , e em huma noite , que fam quaren- 
ta legoas. 

CAPITULO LXXIII. 

Como o Infante Dom Eduarte fe foi a Lisboa a dar 

aviamento à frota ; e como o Infante Dom Enrique 

pedio licença 3 e da gente , que foi enviada. 

POuco efpaço eíteverom os Infantes com feu Padre na- 
quelles Paços da Serra , onde o acharom doente , quan- 
do achegarom as Cartas dos primeiros Mouros , que eram em 
Cepta, as quaes lhe enviarom de Tarifa , porque ainda o 
Conde nom tevera vagar de o efcrepver. E porque jaa dias 
avia que ElRey fabia , que os Mouros aviam de vir pelos 
recados , que lhe o Conde enviara , como jaa ouviftes , man- 
dou logo ao Infante Eduarte , que fe foíTe a Lisboa , e que 
fezelTe aviar a frota , de guifa que efteveffe preir.es , que fe 
o Conde efcrepvefTe , ou elle foubeíTe , que os Mouros atu- 
ravam feu cerco , que logo partiíTem pêra o focorro. Senhor , 
diíTe o Infante Dom Enrique , eu vos peço por mercê , que 
me deis licença pêra vos fervir nefie feito. Meu filho , refpon- 
deo ElRey , vós ejlai aj/y , até que vejamos fe fereis lá com- 
•pridouro , hy-vos porem com vojfo Irmão , e ajudai-o a aviar nof- 
fa frota o melhor , que poderdes ; e entre tanto algum outro 
recado vir d , que nos avife do que nos convenha fazer. Os In- 
fantes partirom logo aquelle feraõ , e andáraó toda a noite f 
de guifa que pouco mais de foi fahido chegarom a Lisboa 9 
que fam treze legoâs , onde com muy grande trigança co- 
meçarom d'aviar fua frota ; e em efto chegarom as primeiras 
Cartas do Conde Dom Pedro como eftava cercado , que lhe 
fo ITe focorro , as quaes forom feitas logo no fegundo dia f 
eme os Mouros achegarom. O Infante Dom Enrique partio 

lo- 



45> C H R O N 1 O A 

logo caminho da Serra pedir a feu Padre licença , a qual lhe 
com boa vontade foi outorgada. Mas fe nos maravilhamos 
do andar que fez de Vifeu , muito mais o devemos de fa- 
zer defte caminho , caa em pouco mais de quinze horas an- 
dou vinte e féis legoas , contando aqui a detença que fez 
em faltar a feu Padre, e dar lugar aos feus , que comeíTem 
algúa coufa. Antre aquelles que ElRey ordenou, que folTem 
com o Infante feu Filho, forom o Conde de Barcellos com 
outros Senhores , e Fidalgos , e fendo o Infante Dom En- 
rique tornado a Lisboa com intenção de fe logo partir, che- 
garão as Cartas ; do Conde , nas quaes recontava como os 
Mouros , que d f tinham cercado eram jaa partidos ; e des y 
de todo o que foubera de fua tornada , como temos eferipto. 
Ora IrmaÕ , diíTe o Infante Eduarte , pareceme que he bem , 
que pois as coufas ajjy eflaõ , que mandemos entre tanto algu- 
ma gente , e que efperemos per outro recado. Ordenando logo 
que Dom Joham de Noronha foíTe Capitão de feiscentos ho- 
mens , que logo mandarom que folTem , antre os quaes eram 
eir.es Capitães, a íaber, Dom Fernando, que depois foi 
Conde de Vil la Real , e Capitão daquella Cidade , Pêro 
Vazques , e Joham Vazques d' Almada , filhos de Joham Vaz- 
ques , que naquelle ancejo fezeraíua fim, vindo de Inglater- 
ra , e Toham Pereira , que fe chamava da Maó. Ruy Borges 
de Souza , Luiz Gonçalves , que ao diante foi Rico-homem , 
e Veador da Fazenda em Lisboa , e Vafco Martins d 5 Alber- 
garia , e Joham d' Almeida com outros muitos bons Efcu- 
deiros , e gente eítremada. Os quaes ouverom tam boa via- 
gem , que em três dias forom na Cidade de Cepta sãos , e 
alegres, e alem deites feiscentos, que o Infante Eduarte or- 
denou , que parthTem de Lisboa , partirom ainda do Porto 
Fernam de Saa Alcayde Mor daquella Cidade , e Diogo 
Soares de Paiva , que antes eftavam prelles pêra partir per 
degredo. E do Reino do Algarve partirom Micer Carlos fi- 
lho do Almirante , e AíFonfo Vazques da Cofta , os quaes fe 
iorom logo ouvindo o primeiro recado , com quanta gente po- 
de- 



òoCondeD;Pedão. 45^ 

derom aver , c certamente , que depois , que aquella Cidade 
foi tomada aos Mouros , os daquelle Reino trabalharom em 
ello muito ; caa como eftavam mais acerca , aíTy aviam as no- 
vas primeiro , porque muitas vezes os Navios chegando 
aaquella Coita , lhes he necelTario outro vento pêra dobrar o 
cabo de Sam Vicente , e feguir viagem pêra Lisboa , e alTy 
de Lisboa pêra Cepta. Os moradores daquelle Reino pela 
mayor parte fam homens audaces , e fortes efpecialmente fo- 
bre mar. Quando alTy eftes Senhores chegarom a Cepta j 
nom forom muy contentes , porque hy nom acharom os Mou- 
ros ; caa tamanha vontade aviam de fe combater com elles ^ 
que receavam, que o medo do primeiro cerco os faria cobrar 
temor, porque nom vieíTem ao fegundo. Porem o Conde lhes 
contou os recados , que avia , pelos quaes fe elle regera pê- 
ra efcrepver a EIRey. Dom Joham , e feu Irmaõ , e aíTy os 
outros Fidalgos efteverom aíTy bem hum mez , que nunca ou- 
verom recado de Mouros, enojarom-fe muito por ello, pe- 
lo qual a gente miúda andava razoando mal do Conde di- 
zendo , que ficara taõ efpantado dos primeiros Mouros , que 
fingira aíTy aquelles recados por' lhe a gente fer enviada , e 
ter com elles ouíio : e brevemente diíTerom a mayor parte 
delles a Dom Joham , que fe queriam partir , o qual vendo 
fuás vontades , e des y como hy nom avia recado de Mou- 
ros, difle , que lhe parecia, que pediam razom ; e porem 
que fe aparelhaífem com fuás fazendas , e fe meteífem nos 
Navios pêra quando Deos deíTe tempo de viagem , que en- 
tendia , que os Mouros nom viriam pelo Inverno , que era 
tam acerca , no qual toda-las gentes pela mayor parte deze- 
jam aíTocego , e nom foomente as creaturas razoavees dezejam 
aíTocego em aquelles dias , mas as brutas alimárias o deze- 
jam , e bufeam. Como a gente da Plebe fempre he dezejo- 
fa de fua natureza , muy alegremente trabalharão de fe re- 
colhei : peroo quiz Deos ordenar melhor fua viagem , do 
que a elles dezejavam ; e foi , que depois que forom nos 
Navios , o vento , que era levante , quando elles começavam 
Tom. Ih LU de 



4^4 Chronica 

de embarcar, que era pêra fazer direita viagem pêra Portu- 
gal , volveo logo ao contrario , que he ao Ponente , e alTy 
lhes foi neceíTario efperar , até que o vento tornaíTe ao lu- 
gar , que lhes podeíTe aproveitar : caa poíto que em outros 
portos os Navios polTam navegar comdous, ou três ventos, 
ou mais , aaquelle Eftreito foomente dous ventos fam necef- 
farios a faber Levante , e Ponente. Eftando aíTy os Navios com 
as vellas altas efperando , que lhes volvelTe o vento , como 
jaa diíTemos , hum Domingo á noite pareceo fobre o mais 
alto monte da Ximeira hum grande fogo , o qual durou por 
eípaço de quatro horas, a qual coufa vifta pelo Conde, e 
pelos outros Senhores , que tal íinal nom era fenaô avifa- 
mento pêra os Mouros de Graada : e porem teverom logo 
confelho eíta. mefma noite , de fe perceber ; mas quem pode- 
ria meter em cabeça á gente , que era nos Navios , que fe 
tornalTem outra vez em terra. Agora cremos nós , diziam el- 
les , o trabalho em que EIRey he com efte homem , o qual 
como vee hum pouco de fogo , que alguns paftores fazem pê- 
ra fe aquentar, ou pêra fazerem de comer, logo mete em 
alvoroço todo o Regno de Portugal , tam amederontados fi- 
cárom daquelles Mouros , que as fombras das arvores lhes fa- 
zem efpanto : fobre tal , diziam elles , vieíTe agora tempo 
de viagem ; caa nós os leixariamos ficar em feu medo. O 
Conde como foi manhaa mandou poer as Atalayas pêra o avi- 
farem da frota , quando fahiíTe do porto de Gibraltar ; caa 
elle bem conhecia , que femelhante íinal nom podia íinificar 
fenaó grande ajuntamento, quanto mais pelo que jaa d'antes 
fabia : e porem nom quedava de baftecer feu muro , e baf- 
tecello de pedras, e de traves, e de todo outro fornimen- 
to , que lhe parecia, que era neceíTario. E fendo pouco mais 
de horas de Terça, começarom as Fuftas de fahir primeiro 
da bahia de Gibraltar, e des y as Gallés , e outra frota miú- 
da, a qual em muy breve foi ajuntada fobre o porto da nof- 
fa Cidade , e eram per todas felTenta e quatro vellas , e aâ 
Gallés foraó vogando dês a porta d'Almina per davante a 

Ci- 



i> o Conde D. Pêbéo. 45$ 

Cidade , e feguirom pêra Bulhões ; e em aquellas Gallés era 
toda a nobreza , e principal força dos Mouros , porque toda 
fua efperança fe achava , no filhar de terra da Almina ; càa per 
alli tinham , que era grande parte do feu feito acabado : é 
como aquclla gente toda era do Reyno de Graada , que faó> 
homens uzados em guerra , pelas contendas , em que comunal- 
mente fam com o Regno de Caítella, ouverom alli muy gran- 
des debates aíTy de como fe azaria a primeira fahida : e era 
alli por Capitão hum valente , e ardido Mouro , e muy avi- 
fado nos autos da Cavallaria j peroo que mancebo foíTe , que 
fe chamava Moley Çaide , o qual diíTe , que elles foíTem nu- 
ma vez de rofto a Almina, e que fezeífem moíhança de que- 
rer filhar terra per força, e que os Chriftãos acudiriam alli ^ 
nom fe avifando das outras partes, e que em tanto fe fahi- 
ria elle com alguns Navios pequenos , e hiria filhar terra da 
outra parte de Barbaçote. 

CAPITULO LXXIV, 

Como as Gallés partir oni de Bulhões , e for orna AlmU 
na , e como filharom terra. 

O Conde tanto que vio a frota dos Mouros começou dè 
repartir fuás guardas. Senhor , dilTe elle contra D. Jo* 
ham , quero Jaber de vós , onde vos prazerá ter carrego de ef- 
tar , pêra eu perder o cuidado dejfa parte , onde vós eftever* 
des ; caa pêro efte cuidado principal Jej a meu , vifla voffa gran- 
deza , nom vos ey em ejle cajo de ter JenaÕ por parceiro. Dom 
Joham como era homem de grande fangue , caa era neto de 
dous Reys , a faber , d'ElRey D. Joham de Caítella o Pri- 
meiro, e d'ElRey D. Fernando de Portugal, aíTy era ho- 
mem de grande mefura, e refpondeo ao Conde, » que ef- 

> tava alli pêra obedecer , e nom pêra mandar ; porem queí 

> filharia aquelle lugar , em que fentiíle , que faria mais fer- 

Lll 11 TH 



45 6 C h r o n r c a 

» viça a Daos, e a EIRey fca Senhor, e honra fua. » O 
voffo lugar , refpondeo o Conde, me parece , que deve fer a 
Almina , porque a mor parte da peleja por agora me parece que 
ha de fer em aquelle cerco ; caa certo he , que os Mouros dej- 
ta parte do Sertão nom ham de fazer nada , em quanto virem 
as Gallés acompanhadas de gente', e porem me parece , que fe- 
ra bem , que vós vjs vades pêra lã com effa gente , que trou- 
veftes , e guardees todo ejfe cerco. Dom Joham chamou fua 
gente , e foi tomar fua guarda , com o qual eram Pêro Vaz- 
ques d'Almada , e feu Irmaô Luiz Vazques da Cunha , e 
Aífbnfo Pereira,. Joham Pereira Agoftinho, Luiz Gonçalves 
Mallafaya , Micé Carlos , Álvaro Barreto , Martim de Craf- 
to , Pêro Lopes d' Azevedo , porque alem dos que elle trou- 
xera fe chegarom outros pêra elle, por fer Fidalgo nobre , 
e de grande gafalhado : e elles poftos na Almina, os Mouros 
das Gallés começarom de vogar ao longo daquella Cidade^ 
c maniarom os Navios pequenos , que foíTem tomar a frota 
dos Chriítãos , que jazia junto com as coiraças ; e pêro que 
em ello pozerom toda fua diligencia , nunca o poderom aca- 
bar, caa os Chriftãos fe dcfenderom muy bem , e ouve hy 
muitos "delles feridos , pêro per graça de Deos nenhum fal- 
leceo , e dos Mouros morrerão alguns aííy logo de prefen- 
te , e ao depois muitos mais. As Gallés fe forom a Almi- 
na com aquelle confelho , que ouverom em Bulhões > onde 
forom recebidos como compria , a quem queria defender 
fua terra, e começou-fe ally huma afpera peleja, da qual 
fe Moley Çayde efpedio o melhor que pôde , leixando os 
outros naquelle trabalho , e foi-fe arredor do monte com duas 
Gallés , e filhou terra , de guifa que quando fe os noífos 
dello avifarom jaa andavaó de fora obra de mil e quinhen- 
tos Mouros , dos quaes peça delles eram jaa fobre o mon- 
te. Alli fe apartou Luiz Gonçalves d J Albergaria , e Joham 
das Águias , e Aífbnfo Pereira , e Nuno de Barros , que 
antre os outros eram a cavallo , e começarom a pelejar com 
os contrários, dos quaes alli foraô mortos quatro , e os 

ou- 



do Conde D. Pedro* , ^^ 

outros fe começarom a recolher pelo fopee contra as Gal- 
lés ; mas quando jaa os noflbs fezerom a volta , jaa erá 
grande foma de contrários antre elles, e a Cidade ; e D. 
Johaò, e os outros ChriMos eftavam recolhidos junto com 
a porta da Cidade , pelo qual aquelles de cavallo , que 
diíTe, eram poftos em grande cuidado ; caa lhes nom fica- 
va por entaõ remédio j fenaõ poer-fe á ventura da morte; 
porem determinarom de fe ajuntarem todos i e com as lan- 
ças nos reftes , e os cavallos correndo .paíTarem per meio 
dos imigos, caa os Mouros todos eram de pee. E bem he 
verdade , que feu confelho era por entaõ o derradeiro , que 
elles tinham i e firmando-fe bem fobre feus eítribos en- 
dereçarom feus cavallos contra os imigos derribando ca- 
da hum feu Mouro ; e porem foi alli morto Joham das 
Águias , e Affonfo Pereira ferido > e a Nuno de Barros ma- 
tarão o cavallo ; e vendo Dom Joham como aquelles vinhaò* 
trabalhados, volveo-fe com os Mouros, onde matarom lo- 
go fete , e dos noíTos morreo hum ; e afly de huma parte , 
corno da outra forom muitos feridos $ efpecialmente Dom 
Joham, que recebeo huma ferida, de que ao diante morreo 
em Aimodouvar: a força dos Mouros era grande, é os nof- 
fos nom a poderom fofrer^ e foi-lhes neceíTario recolher-fé 
á Cidade , caa os Mouros creciam cada vez mais , ca como 
tinham a fahida defpachada, em muy breve forom em terra 
mais de cinco mil. 

CAPITULO LXXV. 

Como os Mouros da terra começarom de combater dá 

parte do Sertão^ 

XEber, e Mafamede Augelim eram dos mayores Capi- 
tães , que os Mouros do Sertão alli traziam ; e tanto 
que Yirom os outros Mouros de Graadade polFe da Almina^ 

eo- 



4?8 C H K O M I C A 

começarom de efpertar os outros ao combate , o qual foi em 
aquelle dia muy grande , e muy perfeverado ; e como quer 
que o principal danno fofle dos imigos , todavia os noflbs 
forom muy trabalhados , e muitos delles mais do efpirito , 
que do corpo ; caa efpantados daquella tamanha multidão , 
perdiam efperança de fua falvaçao : mas o Conde andava 
per toda-las partes avivando as gentes , e dando-lhes esfor- 
ço com fua cara muy alegre , com que todos recebiam con- 
forto , porque cafy a todos nomeava per feu nome , pergun- 
tando a cada hum per fy, fe lhe era alguma coufa miíter, e 
onde via que cumpria gentes , ou armas , ou outra coufa ne- 
ceifaria logo lhas fazia trazer. Ora quem efcreverá os mor- 
tos , e feridos , que ouve antre os Mouros ; caa dês hora 
de MiíTas até Vefpera , que o combate durou , fem nunca 
ceifar , vede que danno fe faria em gente defarmada , e en- 
tre tanta multidão, e que fem piadade de fy mefmos che- 
gavam aos muros. E nom feja algum que penfe , que eu 
per alguma afeição , ou nom devido efcrever , moiiro fempre 
menos danno na gente de minha Ley , que na contraria ; 
caa leixando a ajuda deDeos, que fempre he pelos que di- 
reitamente pelejam per fua Santa Fee , x fe elles direitamen- 
te fe querem aver em feu ferviço ; mas ainda per razão de- 
vem de crer , que gente fem armas nunca pode per igual 
fazer peleja com gente armada , e uzada de fofrer o pezo , 
e trabalho das armas ; caa poftoque alguns antr'elles fe ef- 
forcem a querer trazelas , eííes faó daquelles Marins que he 
pouca genie^ e a menos parte , aíTy como nós avemos os Fi- 
dalgos antre nós , nem ainda eftes nom fam de todo arma- 
dos, nem podem com ellas aver aquella deftreza , que com 
a mayor parte dos Chrillãos naceo per antiga fuceífaó. Ora 
fabee , que aíTy contra Aljazira , como da outra parte da 
Almina forom cafy infindos Mouros mortos , e feridos ; e os 
que da nolfa parte morrerom , forom aquelles que nomea- 
mos , e mais dous outros deíTa gente miúda , e eito princi- 
r-1 mente porcaufa da erva, que traziam aquelles de Graada : 

po* 



bo Conde D. Pedro. 45^ 

porém todo eito foi nefte primeiro dia , pelo avifamento que 
nom tinham , pelo qual norri curavam de fe achegar aos re- 
médios , como ao diante fezerom. Dom Joham de fua parte 
como quer que ferido foíTe , trabalhava açaz como nobre , e 
ardido , e por aquelle dia nom achamos coufa de que mais 
eíprelTa menção devamos fazer. E como quer que em aquel- 
les quatorze dias, que a Cidade foi cercada, muitas e muy 
notaveis coufas fe paíTaíTem em ella, nós abreviamos noíTo 
fallar , o mais que o a efcriptura pode fofrer, mais a conten- 
tamento das vontades alhêas , que per efcufar nofíb próprio 
trabalho ; caa bem nos prouvera correr mais largamente pe- 
las coufas , fe o temor da reprenfaõ nom fuítivera nolTa penna. 

CAPITULO LXXVI. 

/ 

Como os Mouros mandarão pelas bombardas , e do re- 
médio que o Conde a e/lo poz. 

SEntio o Conde , que a filha da terra , que os Mouros 
fezerom na Almina , nom era de tanto dapno pêra a Ci- 
dade j como feria fe fahiíTem pelas outras partes da praya ; 
e porém teve fobr'ello muy bom avifamento ; caa mandou, 
que cincoenta de cavallo , e c^nto de pee nom teveíTem ou- 
tro cuidado , fenom guardar todalas partes pef onde os Mou- 
ros podeíTem tomar alguma poífe da terra , aalem daquella , 
que jaa tinham filhada , fobre a qual coufa os contrários tra- 
balharom com toda fua força , mas nom podiam elles taõ ri- 
jamente fazer vogar feus Navios a longo da Cidade , ou de 
huma parte, ou da outra, que jaa nom achaíTem os nolFos 
ante fy com as armas nos punhos enderençadas pêra elles ; 
e porque viam , que lhes nom aproveitava trabalho , que fo- 
bre ello fezeíTem , ca nunca tantas vezes poderom fazer con- 
tenença pêra filhar terra em nenhuma parte da praya , que 
fe nom achaíTem contrariados , tornarão fua efperança em 

der- 



460 C H R Ò N I C A 

derribar o muro á força de pedras ; e porém mandarom per 
duas bombardas muy groíTas , as quaes muy trigoíamente 
fezerom alTentar : pêro antes que começalTem de fazer obra, 
conheceo o Conde fua tenção ; e efguardou a parte per on- 
de o queriam cometer , e mandou logo aparelhar dous en- 
genhos , que tiraíTem pêra contra onde as bombardas efta- 
vaó ; nem preftou aos Mouros huma grande pavefada , que 
em fua defenfom ordenarom ; caa o Meftre dos engenhos do 
Conde , como homem eníinado naquelle Officio , efguardou 
bem o geito per onde as pedras começarom de fazer tiro, e 
mandou que o avtíaffem do tempo em que fe os Mouros a- 
parelhavam pêra tirar, e tanto que a Atalaya vio como fe 
ajuntavam pêra poer o fogo a bombarda , avifou o Meftre 
do engenho , o qual enderençou aífy feu artificio , que ao 
tempo que a bombarda eftava pêra desfechar , fez carregar 
o engenho de mais pedra, e foi dar no meio da bombarda, 
á qual afora fer quebrada em muitos pedaços , matou o 
Meftre delia, e três daquèlles Sergentes, que lhe miniftra- 
vam as coufas , porque fofle acompanhado pêra aquelle lago 
infernal, pêra o que a fua maa ventura tinha guardado, de 
que os Mouros ouverom geralmente grande trifteza , aífy 
pela grande efperança , que naquellas bombardas tinham , 
como pela perda daqueile Meftre , que antre fy aviam por 
efpecial : e a outra bombarda, que ficou, ou nom oufáraõ, 
ou nom fouberaò por mingoa do Meftre fazer com ella* ti- 
ro. Tornavaó a combater aífy da huma parte , como da ou- 
tra , mas fempre era com feu dapno. Os Mouros de Graada , 
que eram da parte d'Almina com prefunçaô de melhores 
guerreiros , continuavaõ muito feus combates , como quer que 
fe fempre afaftaíTem com fua perda ; caa eram alli nobres Fi- 
dalgos , e outra gente de boa nação , e criação ; nem da par- 
te dos Mouros nom era de todo gente viilam , caa aquelle 
Sobrinho d'ElRey era dos melhores do Regno , e afly fe- 
nhoreava muita gente nobre , e fora outra da Corte , que 
fe com elle viera ; e des y geralmente cafy a melhor par- 
te 



t> o Conde D. Pedro. 461 

te do Reyno , como jaa dilTemos , e ainda antre as outras 
gentes de fua Ley por mais audaz, porque além de fu a for- 
taleza , a continuação das guerras , que ham com os Chrif- 
tãos lhes daa grande ajuda : pêro depois que a Cidade de 
Cepta foy tomada , mais razaó teverom os íeus Comarcãos 
no auto das armas, que os moradores do Reyno de Graada, 
porque continuadamente teverom guerra , fem nenhum an- 
trepoimento de paz , o que os de Graada fam pelo con- 
trairo, caa muito mais tempo tem pazes , e tregoas , que 
guerra com feus Comarcãos. Efto vimos alTy em noflbs dias 
paflar , e dos Reys paffados , fegundo teemos ( ou por ou- 
tras Conquiítas , ou neceífídades do Regno ) muitos annos de- 
pois daquella paflada , que EIRey Allé Abofacem fez 
em Eípanha , donde fe feguio a grande batalha do Salla- 
do , cafy pela mayor parte efleverom os Mouros em afíbcego ; 
emperoo todavia faó ávidos antre elles por gente efpecial , 
e aíTy trabalharom em aquelle cerco nom fem grande cfpe- 
rança de cobrarem a Cidade. 

CAPITULO LXXVII. 

Como EIRey de Portugal foube as novas do cerco da 
Cidade ; e como o Infante Dom Enriqne foi ao 

focorro. 

COmo aquella Villa de Tarifa he vizinha do Regno de 
Graada efpecialmente de Gibraltar , como fe os Mou- 
ros começarão de correger pêra hir cercar a Cidade , logo 
o Alcayde daquella Villa teve cuidado de efcrepver a EI- 
Rey , avifando-o , que fe queria defender a fua Cidade , que 
lhe enviaífe trigofamente focorro. EIRey eítava inda nos Pa- 
ços da Serra, como jaa dilTemos, e tanto que o recado paf- 
fou per Lisboa , logo os Infantes forom com EIRey. E por 
Tom. II. Mmm quan- 



4^ C H K O N I C A 

quanto naquelle encejo fe finara Breatis Gonçalves de Mou- 
ra , que fora mulher de grandes parentes , e criados , cafy 
a mayor parte da Corte forom com ella , até que a poze- 
rom no Moefleiro das Sarzedas , onde tem fua fepultura. 
Tornando-fe pêra a Corte ouverom as novas no caminho , tri- 
garom-fe o mais que poderom , de guifa que em breve fo- 
rom em Lisboa , e quiz Deos , que forom todos juntos em 
eíte encejo , em que feu ferviço tanto era neceíTario. Era iíTo 
mefmo o Infante Dom Pedro em fuás Terras , que fam no 
meio da Eítremadura per efpaço de trinta legoas de Lisboa , 
e correndo eíTes recados pelas eftradas, fabendo como o In- 
fante Dom Enrique feu Irmaõ tinha jaa licença de feu Pa- 
dre, temendo-fe, que peroque a pediíTe , que lhe no m fe- 
ria dada, dezejando per qualquer maneira ler em aquelle fei- 
to, o mais efcufamente , que pôde íe veio á Cidade de Lis- 
boa , com entençaõ de fe meter em algum dos Navios , com 
fingimento de fervidor d'algum outro Capitão , com que feu 
fegredo tinha fallado ; em peroo como Príncipe Catholico , 
quiz primeiro fazer autos de Chriftao, e foi-fe confelfar a 
hum Frade ,, ao qual parece , que conveio de dizer per ne- 
ceílldade o eftado de quem era , nom prefumindo , que fe- 
gredo afTy dito , em tal tempo , e lugar per algum modo fof- 
fe revelado^ mas o Frade, ou per leu defavifamento , ou 
gloria vaa , ou por lhe parecer neceíTario , ouve-ò de notifi- 
car, o qual pregando ante o Povo, quando foi emfim de feu 
Sermão , encomendando o' Eftado do Regno antre os Prín- 
cipes da terra , que diíTe , que encomendaíTem a Deos , que 
os guardaífe dos perigos do maar, e dos imigos , foi hum 
o Infante D. Pedro dizendo, que elle fabia, que avia lá de 
hir j e que eífcava naquella Cidade ; pelo qual foi neceíTario 
ler de todo fua vinda declarada: entam juntamente com o 
fnfante Eduarte feu IrmaÕ requererom a feu Padre licença , 
a qual lhe de todo foi denegada , mandando, que todavia 
o Infante Dom Enrique partiíTe Jogo com a frota , como 
ante tinha determinado ; e que o Infante Eduarte , e o In- 

£an 






bo Conde D. Pedro. 463 

fante Dom Pedro fe foíTem ambos ao Algarve, e hy ouvef- 
fem leu confelho , e o que lhes bem pareceíTe , pozeíTem em 
obra. O Infante Dom Joham criava leu Irmão o Infante Eduar- 
te , o qual entaõ era de idade de vinte e oito , ou vinte e 
nove annos , e trazendo fen Irmão comíigo mandou , que fe 
foíTe na frota com o Infante Dom Enrique , e como a frota 
citava percebida, brevemente fez fua viagem, pela qual fe- 
guindo chegarão ao Cabo de Sam Vicente , onde acharom 
Navios carregados de trigo , e vinhos , e ora foíTe por ferem 
imigos , ou por caufa da neceffidade , forom logo filhados , 
o qual mantimento ao diante fez grande proveito ; e como 
a frota chegou a Lagos , logo os Capitães quizerom , que o 
Infante partira ; mas elle fabendo como feus Irmãos aviam 
de hir , quife-os efperar , os quaes fe forom a Faraó , e a 
frota per eíTa guifa , onde lhes chegou recado d'ElRey , 
que logo deffem aviamento á frota, que feguiífe fua viagem 
pêra Cepta , e que os Infantes ficaíTem alli efperando qual- 
quer recado que vieíTe ; e que fe per ventura elles viíTem , 
que cumpria, que lhes ficava tempo pêra hirem , caa em 
breve o podiam fazer, e que elle cfCo mefmo faria , ainda 
que eftava mais afaftado ; de que os Infantes nom forom con- 
tentes , pêro obedecerom a feu Padre , como geralmente 
eram acoftumados^ caa taes cinco filhos cremos , que nunca 
teve Príncipe , que tanta obediência , e reverencia guardaf- 
fem a feu Padre, e aíTy mefmos huns aos outros. 



Mmm ii GA- 



J> 



464 Chronica 

CAPITULO LXXVIII. 

Como o Conde Dom Pedro , e Dom Joham , e Dom 
Fernando [eu Irmão acordarom de notificar a EIRey 
o trabalho , em que efiavam ; e como o mej/ageiro 
achou a frota no maar* 

O Conde Dom Pedro como homem prudente, e avifado 
vio como os Mouros cada vez recreciam aíTy da par- 
jte do maar , como da terra , e fobre todo , que lhe efcrep- 
yeraõ de Tarifa , como EIRey de Graada queria paílar , faU 
lou com Dom Joham , e com Dom Fernando feu Irmão , fe 
lhes parecia razaó de fe notificar aquelle feito a EIRey , o 
que os outros dilTerpm , que lhes parecia muito bem, c aíTy 
juntamente foi logo a Carta feita , e allinada , e o Conde 
fez logo chamara Affonfo Garcia de Queirós. Ora, diíTe 
çlle , amigo , cumpre que vós armeis logo hitma minha Fufia 
da melhor gente 5 que aqui ouver ajfy tios Navios , como fora y 
e que logo efla noite vos enderenceis de partir o mais efcufa^ 
mente , que poderdes , de guifa que EIRey meu Senhor em bre- 
ve poffa per vós Jer avifado do ponto em que fomos , e mais do 
em que efperamos de fer ; e vós bem vedes o cafo , quejando he , 
nom cumpre , que vos diga , quanto vos deveis a eflo trigar. Af- 
fonfo Garcia era homem prcítes , e de bom coração , e en- 
derençou-fe muito aíinha , de guifa que fobre a boca do fe- 
raõ começou de fazer fua viagem , dês y fez vogar fua Fuf- 
ta com fuás vogas largas , e manfas , perque os Mouros nom 
ouveíTem razão de conhecer , que a Fufta era de Chriftãos , 
fomente que entendelTem , que era da companhia ; e aíTy íe 
foi fahindo Affonfo Garcia, até que foi alongado dos Na- 
vios dos contraiios , que esforçou fua voga , e meteo fua 
Fufta em ordenança de fazer mais trigofamente viagem , e 
" . paf- 






do Conde D. P e d n o. ^$ç 

pagando per Tarifa , que faó fete legoas , forom amanhecer 
ao Cabo da Prata , e aíTy fe forom fahindo aquelle dia , até 
que chegarom a Pena Furada , que he junto com o Cabo de 
Trafelgar ; e porque Affonfo Garcia fentio , que a gente 
era trabalhada , folgou alli até o quarto da alva , que come- 
çou de dobrar o Cabo , mas tanto que a alva começou de 
moítrar ília alegre craridade , em dobrando elles o Cabo ou- 
veraò viíta da frota , que andava com calma , que nom po- 
dia ganhar a boca do Eílreito : Ora Senhores , difle Aífonfo 
Garcia , nojfa viagem nom pôde melhor fêr , caa me parece , 
que vejo a frota de Portugal, Os outros efguardarom contra 
aquella parte , e viraõ ifíb mefmo como a frota andava tra- 
balhada pela mingoa do vento : e porém muy alegres feze- 
rom vogar fua Fufta contra lá , e no primeiro Navio foube- 
raô , como o principal Capitão era o Infante Dom Enrique, 
pêra cujo Navio fe enderençarom logo ; mas quando os In- 
fantes virom a Fufta, e lhes foi contado o cerco da Cida- 
de , e como os Mouros eftavam azados pêra fe poder em 
elles fazer grande dapno , ouverom muy grande prazer, per- 
guntando-lhes per toda-las couías, que naquelles dias forom 
pairadas. Alli fez o Infante ajuntar todo-los Capitães , e te- 
ve com elles confelho , e cafy todos acordarom , que nom 
era bem , que ordenafíem fua chegada fenaó de dia. O In- 
fante mandou logo avifar todos da maneira que deviam de 
ter em fua fahida, e dês y que nenhum nom tomaíTeaven- 
tagem da fua Náo , por velleira que foíTe. E como quer que 
o vento foíTe pouco , fenam quanto a infante os levava , pai- 
farom aquelle dia per Tarifa fem lhes o vento fazer nenhu- 
ma melhoria ; e porque a Bahia de Gibraltar jaz a rofto de 
Cepta , pêro aíTy como os que vem da parte do Levante 
defcobrem primeiro a noíTa Cidade , afíy os que vaò da parte 
do Ponente faõ viftos primeiro de Gibraltar : e dês y porque 
EIRey de Grada eítava jaa alli corregendo-fe pêra fazer fua 
paíTagem , a gente que andava metendo fua frafea, começa- 
rom de ver os Navios poucos e poucos , afíy como hiam def- 

cubrin- 



466 Chronica 

cubrindo aquella ponta do Carneiro: Oo Senhcr , diíTerao os 
primeiros , que forom com eftas novas a EIRey , a nojfa tar~ 
dança nos dá perda nom foomente da Cidade de Cep ta , mas 
ninda da melhor parte de vojfa gente 7 vedes ai li a frota de 
Portugal , veede que fareis d nobreza de vcjfa Cavallaria. E 
aíTy como os Mouros começavam mais efguardar , aíTy hiam 
os Navios mais defcobrindo ; e alli começaram a fazer muy 
grandes fumaças contra os Mouros , que eftavam lob re o 
cerco , mas que feria , caa elles cuidavam , que lhes davam 
esforço notificando-lhes a vinda d'ElRey de Graada , e por 
cllo nom leixavam d'obrar , no que de ante tinham come- 
çado. 

CAPITULO LXXIX. 

Como a frota pareceo davante da Cidade de Cepta 5 e 
da maneira que os cercados tiver aõ. 

C^y Orno as vontades humanas muitas vezes , as coufas vin- 
_^ douras per hum calado fegredo aos mortaes aprefen- 
tam , como aquelle famofo Poeta Dante na fua primeira 
Gantica reza , ou fe vos mais praz Valério Máximo naquel- 
le Livro , em que abreviou as quatorze Décadas de Tito-Li- 
vio achareis , como as almas per hum intrinfico íegredo , vem 
muitas coufas , que ham de vir ; e eito principalmente quan- 
do os efpi ritos eftam repoufados no fono , e os eítamagos nom 
tem tanta fuperíluidade de humores , ou enchimento de vian- 
da , ou mingoamento delia , perque o celebro per falias fu- 
moíidades feja dannado , o que bem podemos fazer próprio 
ao contecimento deites Mouros , e ainda dos ChriMos ; caa 
duas , ou três vezes avia , ante que os Navios chegaíTem , 
que fe lhes aprefentavam defvairados linaes de fua deitrui- 
çao', e quanto fe lhes o tempo mais chegava, tanto fe lhes 
o fentido mais carregava daquelle temor; e quando foi em 
aquelle dia , como quer que os huns ; nem os outros da vin^ 

da 



do Conde D. Peíjro. 4^ 

da da frota pouca parte foubefletti , porem antre õs Mouros 
avia duas maneiras de contenenças , e pêro que fe esforçavam 
a pelejar, nom podiam poftar com os membros , que íe de- 
fcnvolveflcm com aquella leveza , que ante fohiam , e como 
faó homens diferetos , e de grande % e fentida cuidaçaô , di- 
ziam antre fy mefmos , por certo efto nom he final de nóífa 
conhecida vitoria : outros avia hy , que andavam tam vivos , 
e efpertos no combate , que lhes parecia , que queriam voar 
fentindo hum fobrepuj amento de ledice , qual em fuás vidai 
nunca teverom ; e eft.es eram os que naquelle dia aviam d'- 
acabar; caa a natureza pela maior parte fe conforta comfigo 
mefma , ajuntando fuás partes, quando de todo eftá pêra fal* 
lecer , bem como a candêa , que quando quer acabar,- entom 
esforça muito mais fua claridade. Os noflbs em fua parte fè 
achavam tam defpejados, que nem aqúelles Mouros, que al^- 
li eram , nem todo-los do Mundo , nom lhes podiam fazer; 
fombra de temor. E aíTy foi hum forte combate em aquella 
manhaa , ante que os Navios pareceífem : emperoo fendo jaã 
o dia em bom crecimento , aqúelles que tinham officio de 
foterraros mortos, eftando-lhes abrindo as fepulturas daquel- 
la parte da Almina ouverom conhecimento das grandes fu* 
madas , que fe per toda-las partes daquella cofta antre feus 
amigos faziam , e fufpeitando , que nom era fem algum gran- 
de mifterio de alguma manifefta contrariedade , mandarom 
hum homem ao Caftellô d'Almina avifando-o , que efguar- 
dafle contra a fahida do Eftreito fe veria coufa, que os em 
alguma guifa podeíTe torvar , e tanto que aquelle foi em ch 
ma vio como hum Navio fe encoftava contra a ponta de Bu- 
lhões , e aíTy fez hú fogo, e logo ápos aquelle vio outro 
Navio , e por femelhante fez outro fogo ; e a efto atendia6 
jaa também os Mouros d'Aljazira, como os da Almina, pe- 
las grandes fumadas , que avia peça que viam , e quando 
huns, e os outros virom aqúelles dous fogos fentirom, que 
eram Navíoá , que vinham a focorro , e começarão logo de 
fe torvar , e fioxar algum tanto de feu combate , mas nom 

tar- 



468 Chronica 

tardou muito quando o Mouro fez dez, ou doze fogos ajun- 
tadamente , e depois efpalhou o fogo per toda-las partes em 
iinal , que os Navios eram tantos , que os nom podia jaa 
contar. Alli ficarom os Mouros tam torvados , efpecialmente 
os que eftavam na Almina , que fe nom fabiam dar a confe- 
Iho , e as Gallés eram todas da outra parte de Barbaçote ; 
e Moley Çayde como homem experto, e ardido mandou tri- 
gofamente aiTy aas Gallés , como aos outros Navios , que 
dobraíTem trigofamcnte o cabo do monte , e que rccebeíTem 
aíTy de huma parte , como d'outra quantos Mouros podeíTem , 
empero nom foi mais de huma , que fe quizeífe atrever a 
cumprir aquelle mandado , porque as outras , ou por fe fen- 
tirem menos ligeiras, ou por verem o tempo mais convinha- 
vel pêra falvar fy mefmos , que de fe poerem em duvida com 
a falvaçáõ alhêa , nom quizerom dalli abalar pêra onde os 
mandavaô , ante fe aparelharão pêra logo partir pêra Gi- 
braltar. O Conde como fentio aquelle alvoroço , e conheceo 
que tinha focorro , entaõ fe percebeo melhor , e mandou aos 
que guardavam o muro , que per nenhum cafo fe partiíTem 
delle, caa íe poderia feguir, que os que tinham as guar- 
das vendo os Mouros alvoroçados quereriam fah ir a elles, e 
nom fe faberiam reger como convinha, pêra gente de tam 
pouca foma , antre tamanha multidão : e poz ainda hy ou- 
tras guardas fobre aquellas, que fufteveíTem a gente fe al- 
gum movimento quizeífe fazer, e enviou dizer a Dom Jo- 
ham , que lhe rogava , que o efperaíTe , caa em breve feria 
com elle ; mas o feito nom eílava jaa neífes termos , caa os 
Fidalgos , que naquella parte guardavam , fem regra , nem 
ordem queriam cometer fua peleja , ao que Dom Joham foi 
neceífario dar confentimento , e ainda a elle mefmo pareceo , 
que convinha de fe fazer aify , por reter aos imigos , que 
fe nom podeíTem aíTy recolher. Mas aquelle Capitão dos 
Mouros quiz bem moftrar, que era digno daquelle Oíficio ; 
caa tanto que vio aos noífos fahir , logo recolheo fua gente , 
e nom foomente os efperou , mas com grande ardideza os 

foi 



do Conde D. Pedro. 469 

foi receber ao caminho, onde vinham. Agora , diffe elle per 
feu Ara vigo , fe ajfy he , que nós avemos aqui de fallecer , n m 
feja no[fa morte fem grande memoria de noffa fama. Alli co- 
meçaram de pelejar tam rijamente, que osnoífos nom o po- 
derom fofrer , antes fe recolheram o melhor , que poderom 
pêra a fombra das portas da Cidade ; tornando porem outra 
vez a cometelos com mayor força , e todavia ouverom de 
k-ixar o campo. O Conde como teve da outra parte fuás 
coufas concertadas, chegou aa porta d^lmina, e quando vio 
a gente eftar aíTy aífocegada , perguntou onde era Dom Jo- 
ham , o qual vifto per elle como eftava ante os outros , che- 
gou a elle. Ora , Senhor, diífe o Conde , cometamos ejíes 
Mouros , caa jaa vedes como fe começam a recolher ; e os de 
cavallo fejam avifados , que fe apartem da gente de pee por nom 
torvarem , ou per ventura dannarem huns aos outros , e dês y 
Senhores Amigos , nom vos efqueçam vojfas forças , e antiga 
virtude , em que foftes gerados , jaa vedes o que vos ejles da- 
nados quizerom fazer ; pois Deos nos trás tempo , em que pof- 
fais tomar a vingança , nom efpereis , que fe agora a perdeis , 
que a pojfais mais cobrar \ comendaivos a Jefu Chrifto , arman- 
do vojfos corações defua Santa Cruz , e cometei-os per toda par- 
te , e nem perdoeis a grande , nem pequeno. E em eito deu das 
efporas a feu cavallo , e derribou fua lança , e foi faltar no 
meio dos imigos , bradando aos feus per muitas vezes : Es- 
forçai -vos Senhores , caa efia he noffa , nom temais fua mul- 
tidão ; caa melhor he a Fee de Jefu Chriflo , em cujo nome tra- 
balhais. Os Mouros d'outra parte quando fentirom os con- 
traíras comíigo , volveram os roftos , e começarão fua pe- 
leja , na qual os huns , e os outros trabalhavam com grande 
força ; e fe os Mouros em outros tempos fohiam tirar os 
mortos , e feridos d'antre os faõs , muy afaftados andavam 
per aquella vez de femelhante cuidado ; caa pois os mais faós 
nom efperavam de viver, que carrego podiam ter dos cor- 
pos fem almas, a que jaa nom podiam aproveitar. Moley 
Çayde, aquelle Sobrinho d'ElRey de Graada , acaudellou 
Tom. II. Nnn fua 



4?o Ch.ronica 

fua gente muy grande peça , a qual cada vez fe lhe fazia 
menos afTy daquelles , que morriam , como d'outros , que 
fugiam pêra os Navios com efperança , que fe poderiam re- 
colher : a lança do Conde era jaa quebrada , e o cavallo mor- 
to , e elle açaz trabalhado ; pêro íeus criados lhe acorrerom 
em breve com outro cavallo , no qual pofto , começou de 
bradar aos feus , que tomalTem o monte ; e como quer que 
trabalhofo foíTe d'acabar, ouverom-fe porem em cima, e os 
Mouros , que o tinham começarom de fugir : o Conde ou- 
ve huma pedrada tam grande fobre a barreta , que lhe fez 
perder o lume dos olhos , e hum pouco foi fora de feu co- 
nhecimento. Alli matarom Ferriam Rodrigues de Buarcos , 
nobre homem , e que muito ferviço fezera em aquella Ci- 
dade , e Diogo Vazques de Portocarreiro , que tam grandes 
trabalhos ouvera por defenfaõ daquella Cidade , foi per fe- 
melhante ferido , e Fernam Rodrigues do Cadaval , de que 
-a poucas horas fezerom fua fim ; porque aquella maldita , e 
excomungada gente trazia mortal peçonha em fuás armas 
.de ferir, efpecialmente no almazem. Vafco Martins d' Alber- 
garia foi alli ferido pelejando, como valente e ardido Ca- 
vallciro ; e bem he que elle nom morreo logo , ante viveo 
depois acerca de vinte annos , empero avifado, que daquel- 
la ferida avia de morrer como defeito foi; e nomherazaõ, 
que a nobreza de Sueiro da Cofia hum Efcudeiro Fidalgo , 
<jue vivia com o Infante Eduarte aja de ficar fora daquefie 
regiftro , caa elle foomente fe achou com três Mouros Alar- 
ves grandes , e fortes , com os quaes pelejou per grande ef- 
paço , até que matou os dous , e ferio o hum , do qual re- 
cebeo huma ferida com a agumia per huma maõ , de que 
a pouco tempo ficou de todo fem ella : e efie Sueiro da Cof- 
ta foi ao diante Alcayde de Lagos , e ainda com aquella 
maõ , que lhe ficou , pelejou com os Mouros da Terra de 
Guinee , onde aíTy pela bondade paflada , como pela prefen- 
te foi feito Cavalleiro. Outros muitos Chriftaos forom feri- 
dos naquella peleja da Almina , cujos nomes aqui expre fia- 

men- 



doCondeD. Pedro. '47 x - 

mente nomeando faríamos longa Iftoria ; porem os mais del- 
les ouverom em breve faude j e alguns que morrerom mais 
foi pela peçonha j que as armas traziam $ qUe pela grandeza 
das chagas : e os outros que no dito feito férvirom , fejairi 
contentes da honra i que por entaõ receberom , e muita mer- 
cê ao diante afíy d'ElRey i como de feus Filhos ; e nós paf- 
femos noflb razoado ao outro Capitulo, no qual ponhamos 
em foma a grande eftruiçaõ ^ que foi feita nos Mouros aquel- 
le dia. 

CAPITULO. LXXX. 

Como os Infantes fahirao ao Porto d'EIRey , e da 

grande foma dos Mouros , que em aquelle 

dia falkcêrao* 



O Ra vejamos , que faziam as Gallés ^ e Fuftas dos Mou- 
ros , depois que avinda da frota foi per todas as par- 
tes notificada : onde fabee , que de onze Gallés grolTas , que 
os Mouros trouxeraõ , nom dobrou o Cabo da Almina fe- 
naó huma foo , áqual recorrerom tantos Mouros , que a ou- 
veram d'alagar, mas o Patraõ delia com huma agumia, e 
outros Ofíiciaes , que o ajudavam cortavam braços , e mãos 
a todos aquelles , que viam travar nas bordas pêra poyar a 
cima, ou per outra qualquer parte contra fua ordenança, de 
guifa que com pouco mais de cincoenta fobrefalentes come- 
çou de vogar o mais a prefla que pôde, e fazer via de Gi- 
braltar. As outras Gallés , e Navios , que eílavam da outra 
parte de Barbaçote , como virom que os Mouros aíTy hiarrí 
ile roldam , teverom , que fe os efperaíTem , que fe pode- 
riam perder ; e fenaõ alguns , que chegarão nadando , erri 
quanto elles corregiam feus aparelhos , todo-los outros fica- 
tom ao longo daquella praya, delles fe afogavam nas ondas 

Nnn ii écf 



472 Chronica 

do maar bradando aos outros dos Navios , que os efperaf- 
fem : Oo , diziam ellcs com a derradeira laftima , nembrai- 
vos , que fomos homens , que guardamos como vos obediência a 
hum Rey , e a huma Ley , nom nos deixeis ajfy defemparados , 
pois nos trouxe ftes a efta terra , e a ejle porto de tanta triflu- 
ra. Os mareantes nom curavam de fuás palavras , mas com 
muy grande força '.tiravam pelos remos , temendo a vinda 
dos contrairos , cuja chegada muito acerca fentiam: e por- 
que aquelle monte da Almina entra bem huma legoa pelo 
maar, e daquella parte vai outra Cofta de Mouros , em que 
ha grandes Povorações , teveram alguns daquelles Navios 
pouco trabalho de guarecér , porque acharom logo acerca 
os portos , em que pozeraó feus Navios ; caa pofto que fof- 
iem naturaes da outra parte de Graada , cuidavam que podiam 
alli efperar, até que viíTem tempo em que podeflem tornar 
com maior fegurança , ainda que alguns delles , efpecialmen- 
te os dos Navios mais pequenos , fe enganarão naquella cui- 
daçaò , porque ao depois querendo tornar pêra fua terra , 
filhavãnos os Navios dos Chrifíãos. O Capitão , que era So- 
brinho de EIRey de Graada , nunca fez roftro pêra fugir , 
ante morreo alli pelejando como homem esforçado , e de 
grande coração ; e com elle cahirom cafy todos os melhores , 
que alli eram aíTy dos Marins como dos outros : e em eito 
chegarom os Navios aaquelle porto , que fe chama d*ElRey , 
e avifarom o Conde como os Ifantes queriam fahir , o qual 
muito a preíTa fez ajuntar todos os de cavallo , que alli eram 
pêra hir receber os Infantes , mandando-lhes levar beeftas , 
em que cavalgaíTem até o lugar onde aviam de poufar : e 
quando fe o Conde poz em giolhos pêra beijar as mãos 
aaquelles Senhores , elles nom lhas quizerom dar per nenhu- 
ma maneira, avendo muy grande prazer quando o virom af- 
fy com lua efpada nua nas mãos , toda banhada em fangue , 
é as arrrías tintas per muitas partes ; e aíTy Dom Joham , e 
Dom Fernando feu Irmaò com todo-los nobres Fidalgos , 
que alli eram , e aíTy cavalgando forom pelo lugar per onde 

fô- 



do Conde D. PédkO. 473 

fora aquella peleja , no qual jaa andaram judeus , e mulhe- 
res , c outra gente a roubar , e ríom fem caufa , caa forom 
alli ávidas muitas , e muy boas coufas de grande valor. E 
quando os Infantes virom a grande multidão dos Mouros , que 
jazia per aquelle campo , louvarão muito o Conde > e aííy 
aaquelles Fidalgos , e Senhores , que com elíe eram : alli vi- 
rom como jazia tendido rtaquelle campo aquelle nobre Cau- 
del Moley Çayde , caa pofto que elle foíte infiel , nom lei- 
xaremos de louvar fua virtude fe quer por feu galardão deite 
Mundo , pois no outro por feus pecados fua gloria lie per- 
dida : elle avia o corpo de boa grandura , com nembros cor- 
refpondentes á fua grandeza, e avia a cara grande , e alva $ 
e os cabêllos louros i e amaçarocados ; e bem parecia elle 
jazendo, Capitão daquella gente. E por certo que outras mui* 
tas pelejas fe poderom efcrever ^ em que mayores fomas de 
Mouros podeíTem fallecer 5 mas gente aíTy eftremada , pela 
mayor parte cobiçofa de honrada fim , nom creio que até ef- 
te tempo fe poíTa efcrepveí i nem achar. E fe aquelle bar- 
queiro do Lago infernal (diz o Autor), que ha porofHcio 
paíTar as almas a mayor perdição > em algum tempo teve tra- 
balho , por certo feria naquelle dia ; caa fe o ítey de Caf~ 
tella em aquelles dias tevera idade , e força pêra conquiftar 
o Regno de Graada , elle o poderá bem fazer i porque todo 
o Regno teve parte em aquella perda ; e quem feria aquel- 
le tam fem humanidade , que pofto que foífe de imigos i de- 
Í>ois de tamanha vitoria nom ouveíle alguma piâdade ; caa 
eixando a grande foma dos corpos fem almas , que jaziam 
naquelle ajuntamento j que eram dos nobres , e daquelles que 
morrerom pelejando > cafy enfmdos jaziam ao longo daquella 
praya , huns fem braços i e outros fem mãos ^ que ferirão 
aquelles das Gaílés por nom perecerem com elíes ; outros^ 
andavaó nas ondas do mar , que fe afogavam com raiva de 
chegar a feus Navios ; outros tinham inda vida , e andavam 
nadando com tanto defacordo $ que nom fabiam eftremar^ 
a qual parte fe deixariam fahir ; outros fe vinham com os 

bfa^ 



4?4 C ft it o n i c à 

traços cruzados lançar aos pees dos Chriítaos ; outros anda- 
vam correndo por aquelles matos , avendo inda alguma ef- 
perança de 'fugir , mas quando de toda- las partes fe viam 
cercados de maar , maldiziam fy meímos , e por fraca peíTja 
contraria , que viíTem , com miferavel contenença fe lançavam 
ant'elle , caa huma mulher foi vifta , que levava três Mou- 
ros ante fy , que ella per confentimento delles mefmos ata- 
ra ; nem os Judeus nom ficavam fem parte daquella gloria , 
caa como elles fom gentes , cujo animo fe esforça muito 
fobre as coufas Vencidas, andavam tam ferozes em aquelle 
dia , que aquello foomente ficava por defcanço aos vencedo- 
res , vêllos poftos naquelle ardimento contra lua antiga natu- 
reza ; e finalmente que dos cativos , que fe poderom con- 
tar , entrarom aquelle dia na Cidade novecentos e oitenta e 
féis; outros muitos forom dentro, que a eíle conto nom vie- 
raõ , porque aquelles , que os tinham efcondiam-nos do Con- 
de , por lhes nom demandarem o quinto , ainda que cremos , 
que por aquella vez livremente poífuio cada hum aquello , 
que tomou ; outros muitos ficarom efcondidos per aquelles 
inatos , que pelos outros dias achavaõ , ou elles mefmos cof- 
trangidos de fome fe vinham á Cidade. E nom feja algum ^ 
que queira prefumir , que nos fingimos efta foma fer mayor 
por engrandecermos noífa Iftoria ; caa devem ter, que onde 
eram onze Gallés grolfas > e vinte Galleotas , e outros Na- 
vios de remos , que poeriam muita gente em terra , quanto 
mais paífando duas> ou três vezes. Dos mortos nom pode- 
mos fazer certa foma , porque forom tantos , e em tantas par- 
tes , que fe nom poderom eífcimar» Os que* eíhvao no Ser- 
tão , tanto que virom a frota na Almina , e as Gallés dos 
Mouros partidas bem fentirom , o que avia de fer ; e porém 
começarom logo de fe partir cada hum pêra fuás terras : 
porém avees de faber, que alli ficarom os principaes Capi- 
tães , que alli vierom , foomente Xeber que fe paíTára a Al- 
mina , onde foi cativo de hum Efcudeiro de Joham Perei- 
ra } a que fe elle mefmo oíreceo por efcuzar o outro mayor 

darw 



do Conde D. Pejjro. qyç 

danno, -o qual vifto de ]oham Pereira fageefmente fez troca com 
o Efcudeiro, e cobrou aquelle outro , e apartando-o lhe con- 
feflbu como era aquel : Õo , diíFe elle, nobre Fidalgo , pêra 
vós uzardes de vojpi nobreza vós me deveis foltar livremente , 
jem outra rendição , fe quer por nom perderdes A exercido dà 
Cavallaria j caa pois Aabu , e des y Zuem , e os outros melho* 
res daqui derrador Jaó mortos , jaa nom averd hy , quem vos 
venha guerrear , e Ce vós me J ok ais jaa J abeis , que me tendes 
■aqui cada mez. Se foffes ChriJlaÕ , diffe Joham Pereira, cree 
que logo te ejfa graça faria ; mas pois hes infiel ^ be neceffdPifi 
que fayas per tua rendição. Duas mil dobras dava o Mouro 
per fy , e depois morreo ; creemos que por Joham Pereira 
fe nom trigar a mandar requerer feu refgate por caufa de íua 
vinda em eíte Regno. Aqui morreo o Senhor de Beneigim , 
que era hum grande Senhor , o qual matou Gonçalo Velho > 
que depois foi Comendador de Chriftos. 

CAPITULO LXXXL 

Como os Infantes efteverom em Cepta ; e como fe o In* 

fante Dom Enrique trabalhava de filhar 

Gibraltar. 

OS Infantes foram logo direitamente a See , ofrecer-fe a 
Deos como Catholicos Príncipes , que eram , e em fa- 
hindo delia o Conde Dom Pedro fe poz de giolhos tendo 
as chaves do Caítello na maô pêra as entregar ao Infante 
Dom Enrique , o qual lhe refpondeo , que lhas nom toma- 
ria ; mas que elle guardalTe com boa ventura feu Caftello, 
aíTy como lhe per feu Padre fora mandado , caa a elles 
lhes nom falleceria poufada: Pois Senhores , diíTe elle, nont 
he tempo de me vós denegardes louma mercê , a qual he , que 
em qiíanto aqui efleverães fejais meus convidados. Os Infantes 

affy 



\ 



476 Chronica 

aíTy por entenderem , que aviam alli pouco de eftar , como 
por conhecerem a grande nobreza do Conde outorgaram-lhe , 
o que lhes tam aficadamente pedia. E por certo que nom he 
razaÒ , que tanta franqueza de Senhor aja de ficar fem per- 
petua nembrança ; caa em três mezes , que os Infantes alli 
efteveram , afly no gafto da vianda , como nas dadivas , que 
deu , nós achamos per feus Livros , depois de fua morte , 
que fubio a defpeza a féis mil e fetecentas e cincoenta e féis 
dobras, as quaes forom defpezas com tanta franqueza, e cóm 
tanta liberalidade , que todos fallarom de fua grande mani- 
ficencia ; e^ por certo que aíTy como Deos quiz dar honrada 
fim a EIRey Dom Joham em lhe dando tam grande , e tam 
nobre Cidade , aíTy lhe deu logo hum dos honrados Caval- 
leiros do Mundo pêra feu Capitão. E porque a alguns pelos 
tempos, que ham de vir poderá parecer eíla foma grande, 
faibao , que os Infantes eíteverom alli acerca de três -mezes; 
e bem devem de conlirar, Cidade que duas vezes fora cer- 
cada , ainda que muito nom foíTe , que nom poderia ter as 
coufas em tal abaftança como compria pêra taes dous Prin- 
cipes , e pêra os Senhores , que alli eram ; caa poíloque o 
Conde aos outros ordenadamente nom delTe de comer , ora 
huns , ora outros cafy cada dia comiam com elle , de guifa 
que raramente fe podia achar dia , em que fua mêfa nom foíTe 
chêa de Fidalgos , e Nobres homens ; e achamos , que em 
aquelles dias , que os Infantes alli eíleverom , chegarão o va- 
lor das gallinhas a oitenta reis , e a canada do vinho a qua- 
renta , fendo naquelle tempo o valor da Coroa velha do cu- 
nho de França cem reis , e noventa , e as Valedias , que era 
moeda Mourifca oitenta , noventa , e comunalmente efta era 
a moeda do ouro , que fe mais corria neítes Regnos ; e efto 
era por quanto cafy em todo-los tempos dos Reys paliados , 
fempre os Mouros d'alem trautarom em eftes Reynos de mer- 
cadaria comprando pela mayor parte todo-los annos a fruita 
do Algarve , a qual nom pagavam fenaõ em ouro , e a mayor 
parte daquellas dobras eram feitas em Tunes , e eram treze 

qui- 



do Conde D. Pedro. 477 

quilates , e terço de pefo : outras dobras traziaõ aquelles in- 
fiéis , a faber , dobras de Prazida , e de Sagilmença , e de 
Marrocos , de que efte Regno foi açaz fornido , elpecial- 
mente os Thezoureiros dos Reys , como nos começos dos 
feitos deite Rey fica contado , e fe contará mais adiante , 
onde fallarmos na mudaçom , que fez efte Rey Dom Affon- 
fo , que efte Livro mandou efcrepver , deftes reaes brancos 
em outra moeda mais baixa, a que chamarom Efpadins. Ora 
tornando a principal effencia de nofla Iftoria dizemos , que 
o Conde Dom Pedro mandava , que fe repartiíTe aquelle es- 
bulho , que fora ganhado aos Mouros igualmente, o que ao 
Infante Dom Enrique nom pareceo razaÓ , ante diíTe , que 
cada hum devia de polTuir aquello com que o a fua boa for- 
tuna encontrara, de cujo mandado muitos forom alegres. E 
porquanto efte grande , e èxcellente Principe , que viera 
por Capitão daquella frota era magnânimo , pareceo-lhe , 
que porquanto fe aíTy os Mouros vencerom , ante que elle 
chegaíTe , que nom fezera nada : e porem tentou de querer 
filhar a Villa de Gibraltar , pêra a qual mandou ordenar ar- 
telharias , e outros engenhos , de guifa que em breve foi to- 
do aparelhado ; e querendo elle fobre a obra fer coníelha- 
do , os mais contrariaram lua vontade , aíTy por fer lugar da 
Conquifta de Caftella , como por íer Inverno , em que fe 
podiam feguir defvairados perigos. Pêro como quer que fof- 
fe ordenou o Infante de hir lá por peíToa pêra ver o perigo 
quanto era : e feguio-fe que aquella noite recreceo tanta tor- 
menta de vento, que lançou asGallés ao Cabo de Gata, on- . 
de depois efteverom bem quinze dias , que nom podiam aver 
vento pêra tornar; porem ouve o tempo d'amanfar , as Gal- 
lés aballarom por aquella Cofta de Graada , até que chega- 
rom aCepta, onde jaa eftavam Cartas d'EÍRey pêra os In- 
fantes , que fe tornaíTem logo pêra o Regno ; caa bem pre- 
fumia elle fegundo a grandeza de feus corações, efpecial- 
mente do Infante Dom Enrique , que queriam tentar algu- 
ma grande coufa , a que o tempo , e o numero da gente 
Tom. II. Ooo nom 



478 Chroh ica 

nom dariam lugar. E porem jaa diíTemos em outros lugares 
da grande obediência dos Filhos deite Rey , ajamos agora 
por determinada fua tomada , caa fobre tal mandado nom 
ouve outra detença fenaõ o tempo , que per huns dias foi 
muy contrairc pêra fe fazer viagem pêra Portugal , e ainda 
quando partirom ouverom muy grande tormenta com a qual 
correrom alguns Navios a Aljazira , onde porque lhe foi ne- 
ceíTario lançárom ancora , fobre a qual efteverom em grande 
perigo, Quizera Ruy Gomes d'Azevedo , Alcayde que era 
d'Alanquer fahir no batel , e com piadade , que avia da gen- 
te deu lugar, que fe carregaíTe tanto, que foi neceífario , 
que fe perdelTem todos. Outro Navio em que era Álvaro 
Vazques d'Almeida com alguns outros Fidalgos eftava naquel- 
le mefmo perigo, e fahirom-fe no batel, mas teverom me- 
lhor avifamento , que os outros , porque com as efpadas fo- 
ra nom tomarom , fenaó aquelles princípaes , e ainda corn 
aquelles nom hiam fem grande perigo. E por certo que era 
coufa piadofa de ouvir os brados daquelles, que ficavam ; 
caa vendo a morte tam acerca dorofamente pediam focorro, 
com que laftimavaó ai orelhas dos que os ouviam , porem 
foi neceíTario de fazerem alli fim, caa a tormenta nom deu 
lugar, que o batel mais tornaíTe , e o Navio entretanto cor- 
reo fobre as pedras, onde íe perdeo com toda a gente, que 
em elle era. Hum Navio em que era Diogo Soares d'Alber- 
garia , e outro em que era o Comendador d'Almada fe falva- 
rom per grande ventura : e Álvaro Vazques , e os outros 
Fidalgos , que o feguirom , nom paflarom fem outro trabalho ; 
Caa fahirom em terra de Mouros , e o frio foi grande , e 
tanto, que hum da companhia falleceo com fobegidaõ daquel- 
la frialdade ; e efto porque elles nom oufavam de fazer fo- 
go , nem bufear povoado com temor dos contrários , e an- 
dando aíTy de noite guiando-fe a efmo contra Tarifa forom 
fentidos dos Almogavares, e como os corpos poltos em te- 
mor nas coufas duvidofas fempre fe encolho á peor parte , 
penfáraô ? que eram os Almogavares dos Mouros ; mas quan- 
do 



do Conde D, Pedro. 479 

do conhecerom , que eram Chriftãos perderem alguma par* 
te do fentimento do trabalho paliado , e nom fem caufa ; 
caa em Tarifa eftava aquelle Portocarreiro , que viera a efta 
terra , donde tornara com muita honra , e mercê , como jaa 
diíTemos no filhamento deita Cidade de Cepta , e aíTy fez 
aaquelles Fidalgos muito gazalhado , e honrofo acolhimen- 
to. Os Infantes com outros muitos Navios correrom aas prayas ; 
outros a Caftella; outros ouverom a coita do Algarve, em 
tanto que penfáraõ , que os Infantes eram perdidos : hum 
Navio em que era Belendim de Barbudo parece , que ouve 
melhor viagem , e foi portar a Lisboa ; e quando lhe EIRey 
perguntou por feus Filhos , e lhe o outro contou , que nom 
avia delles novas , culpou-o muito porque fe viera fem elles 
ao Regno , e gram tempo fe lhe moftrou por ello fentido* 

CAPITULO LXXXII. 

Como o Conde Dom Pedro ouve novas , que EIRey de 

Graada , que fe chamava Rey Ef quer do ? queria 

vir [obre Cepta. 

O Rey que em eftes dias Regnava em Graada chamava-fe 
por nome Rey Efquerdo , e era homem de honrofo 
coração , e quando foube tam grande desbarato como os feus 
receberom na Almina , foi muito anojado, pelo qual fe par- 
tio logo pêra Málaga, onde fez ajuntar toda-las nobres peí- 
foas do Reyno i e fallou com elles fobre tam grande , e 
dannofo aquecimento , tomando com elles coníelho de como 
fe poderia vingar ; caa humá tam grande perda , diíTe elle 
contra aquelles , que alli ajuntara , como a Caza de Graada tem 
recebida , fe pajfajfe fem vingança , qual pertence a tamanho 
feito , feria vergonha nom foomente minha , mas de toda a no- 
breza de vós outros meus naturaes , e por ello vos fiz aqui 
chamar , porque além da honra , que he geral a todos , nom ha 

Ooo ii nê* 



480 Chronica 

nenhum , que nom perdes fe parente , ou amigo : e porém que- 
ria bufcar maneira como podejfe tomar ejla vingança , a qual 
foffe tal, e tam grande , que foffe fenti la por to d a- las partes 
do Mundo , e verees o que tenho anfirado , e então me dizee y 
o que vos melhor parecer. Os Infantes , e toda a outra frota , 
que veio a efte focorro , em cujo esforço efles Chriflaos , que 
eflam em Cep ta fezerom efla tam grande oufadia , fam jau tor- 
nado/ pêra o Regno , e nom tam Joomente os que vierom com os 
Infantes , mas es outros que forom primeiro , e ainda dos que 
jaa hy de muito tempo ejtavam , e os que hy ficaõ Jei muito cer- 
to , que nom tem que comer , e o Inverno he grande \ fel quê fe 
agora fojfem fobr^elles , que com pouco trabalho os podiam to- 
mar : eu tenho aqui frota , t gente rezoada , fe ElRey de Féz 
me quer ajudar ? eu quero pajfar per mim ; e ainda que meu 
Sobrinho ardido foffe , era porém mui mancebo , e fiava- fe em 
fua valentia , e nom foube preçar a artelharia , que Ibc eu da- 
va , que lhe fora grande ajuda , nem teve feus Navios ordena- 
dos como pode ff e recolher a gente no tempo da neceffidade ; mas 
eu levarei de outro modo efta gente defereuda , que com tanta fo- 
berba eflam agera groriando-fe nas mortes de meus naturaes , 
efcrepverei a ElRey de Tunes , que me envie fuás Gallés , que 
de cote trás armadas , e farei andar hum Navio bem armado 
na boca do Ejlreito , porque os de Cepta nom tenham azo de 
mandar a Tarifa , caa efte he o feu principal remédio como fe 
vem na apertada , e que ainda que em Portugal ajam as novas , 
primeiro eu tomarei a Cidade , que fe a gente pojfa ajuntar \ caa 
elles como agora forem na terra fe efpalharáo como ovelhas ca- 
da huns pêra fuás cazas : vós Vede , diffe elle , o que vos pa- 
rece de meu penf amento. Bem feria , diífe hum Alcayde Ve- 
lho , que alli eftava , que era Regedor por ElRey em Alme- 
ria , fefe vo-las coufas azajfem como vos dizeis , e nom ouvef- 
feis outros contrários : queria faber , diíTe elle ,, quem vos dif- 
fe a vós , que os de Cepta nom tinham , que comer , e que a 
gente fe fora de hy , caa bem deveis vós cuidar , que o Rey , 
que tal Cidade ganhou , que ajfy como elle teve fifo pêra a ga- 
nhar y 



do Conde D. Pedro. 4&1 

nhar , ajfy o terá pêra a defender ; e fabee ainda , que tal Ca- 
valleiro como o Conde Dom Pedro , que mm fera ajfy ligeiro de 
filhar • e que fe elle vianda mm tem , que apode muito bem 
aver , caa tem Caflella muito acerca , onde tem muitos paren- 
tes , e amigos , de que poderá muito ajinha fer focorrido , e que 
elle ai nom faça fenom mandar dejfes cativos , que tem , por 
elles lhe dardo açaimo com que fe pojfa manter : e quanto he 
d gente , bom he de prefumir , que os Infantes nom partijfem 
pêra Regno donde fam naturaes , que nom leixaffem a Gidade 
fornida do que lhe compria ; caa bem cuidariam , o que vós 
agora cuidais ; e efle he hum muy grande erro antre os homens 
fezudos cuidarem , que feus imigos nom ham nembrança do que 
elles cuidao ; e do que , Senhor , dizeis , que he Inverno , ejfe 
fará a vós tanto nojo , como a elles , ou per ventura mais , caà 
elles eflardo em terra firme , e os ncjfos Navios he necejfario y 
que efiêm no mar , e fe vier huma tormenta , como he razão , 
que em taes tempos fe deva efperar , ou quebrarão em peda- 
ços , ou fe partirão daqui pêra lugar , donde virão quando 
Deos quizer , e entam ficareis vós como tomado em huma rede ; 
mas he pêra rir do que Vojfa Senhoria diz , que mandar ees an- 
dar Navio na boca do Eftreito pêra reter algum recado fe o 
Conde quizer enviar ao Alcayde de Tarifa : e mm fabee s vós , 
que o Alcayde de Tarifa he parente muito chegado do Conde , 
e que he ChriftaÕ como elle , e que efle Alcayde foi em Portu- 
gal , onde lhe foi feita muita honra , e grande mercê , fegundo 
foubefies per vojfos Alfaqueques , o qual trás aqui ccntinuada- 
mente enculcas antre nós , as quaes lhe vós nom podeis tolher 
com quanto poder tendes , caa fam vojfos propios naturaes , e 
tem fuás maneiras com elles , por ijfo , que lhes elle daa dojeu , 
de guifa que inda vós nom bullis com hum remo em voffo Rey- 
no , quando jaa he fabido em Tarifa , è nom fem rázao , caa 
ajfy fazeis vós antr* elles , que nom podem fazer coufa de que 
nom fejais primeiro avifado : e em Tarifa efiá hum Efcudeiró 
d?ElRey de Portugal com muitos homens de pee , per que logo 
efcrepve ao feu Rey j e ajfy , Senhor , que mm ponhais funda- 

meti- 




482 CfiRONICA 

mento neffds coufas , caa podeis por ell as ficar muito enganado. 
Qiie gente perdejfees , pêra ijfo naceo ; Rey jois , nom vos ha de 
fallecer outra : bem he , que vos nom vos leixeis ajfy e/lar como 
homem preguiçoso , mas que efcrepvais logo vojfas Cartas a ejfes 
Senhores d 1 Alem , e aaquelles , que alli nom vierom podeis- lhes 
notificar vojfa tençom , pedinão-lhes confelho , e ajuda principal- 
mente das pejjbas , e des y ordenardes per bom efpaço como lá 
vades com entençam de morrer , ott vencer ; caa jaa vedes eftes 
Chrijlaos como fam cu fados em fuás pelejas. Com eíta razaò 
cahirom alguns daquelles Confelheiros , que EIRey alíi ajun- 
tara ; outros , ou pelo aíTy entenderem , ou per íentirem a 
vontade de feu Senhor diflerom, » que toda via EIRey de- 
y> via logo encaminhar fua hida , » poendo muitas razões con- 
tra as que o Velho diíTera , o que EIRey todavia determi- 
nou de feguir , reprendendo o outro do confelho , que lhe 
dava, o qual rindo lhe refpondeo : Eu , Senhor, diffe o que 
me parace , e vós podeis fazer , o que quizerdes , e ajfy vos ey 
de fervir como os outros meus iguaes , pêro fei , que fe o feito 
agora começais, que nom menos , fe nao mais, aveis de achar 
as coufas \aazadas em contrario do que vós dezejais. Porem EI- 
Rey todavia fe começou de corréger com alguma diílimula- 
çam , que lhe pouco preftou ; caa o Conde como*penfava 
toda-las coufas cuidou, o que EIRey podia cuidar; e por 
fe certificar dello mandou em aquella coita hum Bragantim 
pêra lhe tomarem huma lingoa , a qual de feito foi filhada, 
per onde elle foube todo-los movimentos d'ElRey ; e porém 
muy trigofamente mandou repairar todo-los lugares duvido- 
fos , e tam grande aguça trazia em ello , que todo o dia lá 
andava , onde lhe levavaó o comer , e no chaõ comia em 
companhia das outras gentes , e como os nobres homens viaò , 
que elle punha a maõ no que via, que fazia mifter, nom 
foomente trabalhavam como ajudadores , mas como principaes 
obreiros , e tal aviamento deu o Conde Dom Pedro a todo , 
que em muy breve , nom foomente foi a Cidade repairada 
nos fallecimcntos principaes , mas ainda muitas boas coufas 

fei- 



do Conde D. Pedro. 483 

feitas de novo ; caa mandou fazer adegas , e celleiros pêra 
os mantimentos que vicíTem , ferem alojados, onde fe notn 
perdeíTem , como ante faziam , e aíTy logeas , e cazas pêra 
mercadores derredor da Praça , e correger a Aduana com as 
outras apofentadorias pêra as nobres gentes , que vinham aa 
Cidade ; e cafy cada femana era avifado do que feus contra^ 
rios faziam. Porem ElRey Efquerdo nom poz em obra, o 
que diíTera , porque em eftes dias matou Alubebe , que era 
hum grande homem , e muy poderofo na Caza de Féz , o 
Rey daquelle Regno com quantos filhos lhe achou , pelo qual 
forom grandes divisões antre os Mouros, de que fe lhes fe- 
guirom tantas guerras Civis , per que o feu próprio dapno 
lhes nom deu lugar tam largamente de chegar ao alheio ; e 
aíTy ouve o Conde repoufo per alguns dias , ainda que muitos 
nom foífem ; caa logo a cabo de pouco tempo vierom Mou- 
ros da terra de Gazulla , e cPoutras partes , como ao dian- 
te fera contado. 



L Ir 



484 

*H* ^ & *H* *H* *H* *H* *X* *H* <M* *H* *H* *H* <M* «H* 

LIVRO 11. 

Z)^ grandes , ? notáveis feitos , ^yè fezerom na Ci- 
dade de Cepta em dias do Conde Dom Pedro. 



CAPITULO. I. 

Que he o Prologo dejle fegundo Livro. 

Orno os começos das coufas , fegundo 
diz o Filofofo , fejam mais que ame- 
tadc dos feitos , que fe delias podem 
feguir ; aíTy forom as guerras , que os 
noífos naturaes ouverom com aquella cif- 
matica, gente , mais brandas , e de me- 
nos temor , depois deites grandes cer- 
cos em diante, porque os noífos vendo- 
fe aíTy vencedores dos contrários , com tantos milhares delles 
efpedaçados ante fua viíta , lavando tantas vezes os braços 
em feu fangue, começarom a tomar muito mayor oulio con- 
tra elles , do que até alli teveraõ ; e bem diz Vegecio no 
feu Livro de Re Militari , que os Carniceiros pelo uzo , que 
ham de continuadamente efpalhar fangue , devem fer poftos 
nos encontros primeiros das batalhas , pela audácia que ham 
de ferir as animalias , pelo qual nom teráÔ efpanto do fan- 
gue , que virem efparger dos contrários , porque o uzo mu- 
da natureza ; aífy as nolfas gentes uzarom tanto as pelejas 
dos Mouros, achando-fe cafy fempre vencedores , que jaa 
muito poucos nom tomavam efpanto de muitos , o que fe 
mais deve atrib uir aa graça de Deos y que aas forças huma- 
Jk Ê naes ; 




. 



< 



po Conde D. Pedro. 48^ 

naes ; porque, fegundo o Apoftolo, Deos he o que obra 
em nós ; e o feu comprimento fegundo as coufas , que fe an- 
te , e depois feguirom , aíTy emefta Cidade, como em Alcá- 
cer , dês que o EIRey Dom Afíbnfo filhou aos Mouros , ma- 
nifeítas forom as maravilhas , que fez o Senhor Deos pelo 
feu Povo Chriftao ; caa temos , que fe algumas vezes os aque- 
cimentos lhe vinham contrários mais era , porque fe fiavam 
em fuás forças, e nom na Graça daquelle de cujo feyo faem 
todo-los bens deite Mundo , que nom per outro humanai im- 
pedimento. Tal foi o desbarato deite defcerco , e alTy foi fen- 
tido antre os Mouros, que depois delle até á feitura defte 
Livro , que eram quarenta e cinco annos , nunca fezerom ou- 
tro femelhante ; bem he, que muitas vezes vieraô hy foma 
de Mouros, mas nunca tantos, nem aíTy corregidos, nem 
poderom ajuntar alli os Mouros de Graada , nem frota mui* 
ta , nem pouca : e f e o Conde Dom Pedro d* ante tinha gran- 
de louvor, depois defte cerco o teve muito mayor ; caa fe 
conheceo em elle a perfeiçam que tinha na prudência , e for- 
taleza , porque nunca feu fembrante foi mudado , mas fem- 
pre muy alegre, e todas fuás coufas feitas muy aíTocegada- 
mente fem nenhuma torvação. Alguns diíTerom , que elle man- 
dara tirar as portas ao Caftello , porque lhe diíTerom , que 
o Povo punha alli a mor parte de fua efperança ; mas efto 
nom o achamos verdadeiro , caa pofto que ouveíTe grande 
temor, como o cafo aprefentava á razaó , os Fidalgos, e a 
outra boa gente nunca perderom aquella efperança, que os 
grandes , e bons corações em taes tempos devem de ter. E 
porque ncfte cerco foi morto Aabu , aquelle valente, e es- 
forçado Capitão dos Mouros , e Zaem , e a Cabeceira de 
Laaroz , e de Benabroz , e o Senhor de Beneigem , e Xeber 
foi preío , e depois morto em cativeiro , ficou aquella terra 
deferta , que comarcava com a Cidade , grandes dias fem Ca- 
pitães , em tanto que os Comarcãos fe naó eram empuxados 
d'outros , que vinham aaquella Conquifta , cafy fempre eram 
cometidos , e nunca cometedores ; os das outras partes acu- 
Tom. II Ppp diam 



$26 C H R O N I C A 

diam alli , como pella Iftoria podereis ver , mais com enten- 
çaó de ganharem fuás almas, como aquelles , a que elles 
chamavam Santos faziam crer, que por efperança , que te- 
velTem de muito dapno , que podelTcm fazer aos contrários. 
Alguns daquelles Marins , que andavam na Corte fe treme- 
tiam de virem alli a mover os Comarcãos de íe poerem em 
alvoroço de guerra , mas todo fe acabava em huma chegada , 
-ou em hum dia, ou dous ; peroo per graça de Deos , iem- 
.pre tornavam chorando o dapno , que recebiam , e mais ve- 
zes fe achavam carregados de mortos , que do esbulho da- 
quelles , que penfavam dannar. 

CAPITULO II. 

Como os Mouros da terra da Gazulla vkrom a Cepta, 
e como o Conde teve o campo a dous Cavalleiros. 

MUitos dias durarão os Mouros chorando aquella granr 
de perda , que receberom nos cercos , em tanto que 
nom avia lugar em toda aquella Comarca, a faber , dês o 
maar até à Cidade de Fez , em que fe cada dia nom fezef- 
fem novos chantos , a qual coufa era muito amargofa d'ou- 
yir aaquelles , a que os Mouros antre fy aviam por Santos , 
e nunca quedavam de pregar , andando pela terra reprenden- 
do fua triíleza , dizendo-lhes , que fe esforçaífem de tornar 
outra vez, que nom podia fer, que a fanha do Céo contra 
elles tantp pudefle durar : porem eftas coufas eram a elles 
mais ligeiras de ouvir, que de obrar, em tanto que nom 
quve hy nenhum Capitão , que por grandes dias quizef- 
fe aceptar aquella empreza , e vendo aquelles idolatras , 
que fe as coufas alfy efteveíTem em alTocego , que fuás hy- 
pocrefías , nem fingida Santidade lhe nom podia muito pref- 
tar , alevantou-fe hum d'antre elles, a que chamavaó Aude- 
rame , e paíTou-fe nas terras de Gazulla , que fam muy alon- 
ga- 



do Conde D. Ped'r'0. 
gadas daquella Comarca , onde começou de pregai" : Agora] 
diíTe elle , he tempo , que os fieis fervidores da Caza de Meca 
ajam de refurgir do efpoegerio da preguiça 5 em que jazem en- 
voltos , e que vam armados dê fee fobre aqtielles cães , que com 
tanta foberba fe eftam gloriando nas chagas de nojfos Irmãos $ 
os quàes certamente morrerão mais por fe fiarem em fuás for» 
fas me f mas , efquecendo-fe do poder Divinal , que per força , 
nem poder , que os contrários contra elles tevejfèm. Agora , dif- 
fe elle , que elles èftam repoufadòs gloriando-fe na vitoria , 
vamo-nos fobr > elles , e fei que os acharemos andar folgando per 
valles , e per outeiros , com as portas abertas muy dejfegurados 
do dann) , que lhes nós podemos fazer ; e em taês tempos foem 
as virtudes do Céó moflrar feli enfindo poder , quando nao nas 
valentias dos corpos grandes , nem na fortaleza dos Capitães os 
homens foem de efperar , mas no foo poder Divinal acabam to- 
do feu esforço» Com eítas palavras ^ e outras femelhantes mo- 
vêo Auderame aquella ruftica gente * de guifa que fe ajun- 
tarom hum cento de cavallo ^ e hum milheiro de pee , e 
partirom caminho de Cepta , e o Mouro ante elles pregan- 
do-lhes , e prometendo-lhes íalvaçaó perpetua aaquelles , que 
o quizeíTem feguir, mas quando fe mais chegava á Cidade 
de Cepta , tanto menos ajudas achava. Vaa , diziam elles , 
efle nojfo Pregador ao outro Mundo por huma daquellas almas + 
que lá fim , e entom veremos como fe acham , e por alli pode- 
remos ver a melhoria, que a huma vida tem da outra. E fe- 
guio-fe , que huma noite mandara o Conde fuás Efcuitas fo- 
ra com entençom do outro dia dar lenha aos Moradores da 
Cidade, e jazendo huns fobre a volta do Romal , e outros 
fobre hum porto i que fe chama dos Alemos^ ao quarto d'- 
alva fentirom Mouros de cavallo , e outra muita gente de 
pee 5 e querendo aquelles trazer as rtovas ao Conde topárom 
com as Efcuitas dos contrários , as quaes erarri em muito 
mayor numero , que elles • porem os noíTos fezerom aquel- 
lo , que os fefudos fazem , quando nom vem fua prol , caa: 
nom eram mais de três , os quaes fugindo o mais que pov 

Ppp ii de- 



48B Chrónica 

derom , vendo como a efperança de fua falvaçaõ eftava tam 
duvidofa , e que pêra fe aver na Cidade era coufa impoflivel 
fem efpecial graça de Deos > acolherom-fe a huma Torre den- 
tro nas Quintaas , onde logo forom cercados dos imigos com 
muy grande defejo de os chegar ao derradeiro perigo ; mas 
elies por certo nom fezeraô como villaos , caa pelejando for- 
temente fe defenderom até o Outro dia , que os Mouros po- 
feraõ fogo á porta da Torre , e fendo jaa horas, que as Ata- 
layas eftavam em feu lugar ouverom vifta do trabalho , em 
que os noíTos eram , o qual recado trigofamente forom dar 
ao Conde : e nom eram certamente as palavras de Auderame 
ée todo vaãs ; caa nom avia entom per toda gente de cavai- 
lo na Cidade mais que trinta e cinco , os quaes em breve 
forom preftes, ca o fino repicava dês que vira as Atalayas 
capear- , e forom logo juntos aquelles de cavallo , e cento 
Efcudeiros de pee , com os quaes o Conde chegou aas Quin- 
taas , o qual vendo como fe os Mouros nom queriam partir 
da Torre , mandou aos de cavallo , que foíTem travar efca- 
ramuça com elles , cuja prefença os Mouros nom refufarom , 
mas como gente dezejofa de vingança vierom ao encontro 
dos noflos , e aífy fe leixarom correr huns aos outros fem 
moftrar parte , em que ouveíTe fraqueza , onde fe fezerom 
três voltas , em que cahiraô cinco Mouros de cavallo , e dos 
noíTos matarão hum bom Efcudeiro > que chamavam Álvaro 
Pinto o Moço , e quando voltarom a quarta vez pozerom os 
Chriftaos tal força contra os contrários , que os arrancarom do 
campo, e começarom de os feguir pela ferra arriba, matan- 
do , e derribando como em gente vencida. O Conde , que 
eftevera em vifta daquelles , quando vio, que os de cavallo 
fugiam , endereçou contra os de pee ^ que eram muitos , os 
quaes fe teverom bem huma peça , porem ouverom de fer 
vencidos , durando porém a peleja quatro horas , na qual mor- 
reram dos Mouros palfante de duzentos, e forom prefos qua- 
renta e cinco , e dos noíTos morrerom três , a faber , aquelle 
Álvaro Pinto , que jaa nomeamos , e outros dous : e certa* 

men- 



do Conde D. P è b r ò. 4§£ 

mente que quando o Conde chegou á Cidade, que bem pa- 
recia fua lança > que nom eftevéra ociofa ; caa muy grande 
parte da afte contra o ferro era toda chêa de fangue. Pou- 
cos dias antes deite desbarato fora Ruy Gomes tirado de ca- 
tivo , e jaa foi em efta peleja, onde trabalhou como quem 
fe queria vingar nó íangue dos contrários do trabalho de feu 
cativeiro. Outro fy neíte tempo chegarom cartas ao Conde 
d'ElRey de Caftella , em que lhe rogava , que tevefle cam- 
po entre hum feu Cavalleiro * que fe chamava Lopo AíFonfo 
de Monte Molim , e outro Cavalleiro da Caza d'ElRey d'- 
Aragaò , que fe chamava Mofem Fiiippe Buir : o Conde ven- 
do como taes dous Cavalleiros eram mais dados pêra fervi- 
ço de Deos , que pêra fe combaterem fobre pequeno câfo , 
trabalhou muito per fy , e per outrem de os avir , o que 
nunca per nenhum modo pôde acabar ; porem ouve-lhes dé 
mandar ordenar feu campo , como he de coftume , onde aó 
remeíTar das lanças o Cavalleiro Caftellaõ errou feu lanço , 
no que o Catalão foi mais certo ^ e paliando o arnez de Mi- 
lão ferio feu contrario em hum quadril ; e querendo vir ás 
fachas o Conde mandou aos Fiéis , que os tiraílem do cam- 
po per bóos , e por leaes , o que elíes nòm queriam de boa- 
mente confentir ; porem vendo como citavam fob o poderio 
do Conde , ouverom de confentir j ao que elle queria , e 
por feu regimento fororn amigos , e partio o Conde muito 
com elles fazendo-lhes muita honra aquelles dias , que alli 
forom , e per femelhante fezerom os outros Fidalgos corte- 
sãos , que eítavam em Cepta , de que aquelles Cavalleiro» 
forom muito contentes , louvando muito tanta nobreza dé 
Capitão , e daquelles que tal Cidade defendiam , efpedin- 
do-fe delles com muy grande ofrecimentoi 



CA- 



^ 



49° 



H R O N I C A 



CAPITULO III. 

Como Ruy Gomes da Silva foi cercado , e do [ocorro * 

que ouve. 

FOi hum dia em que a forte da guarda cahio !em Ruy 
Gomes , em que era ordenado de fe dar erva : e po- 
rém foi elle com vinte de cavallo fora da Cidade , e man- 
dou logo defcobrir a cillada do Canaveal , [onde nom foi 
achada nenhuma coufa contraria , e com aquella fegurança 
fe foi Ruy Gomes com aquelles , que o feguiam poer fo- 
bre o Outeiro dos Gazulles ; e eftando aíTy guardando os 
que apanhavam fua erva , fahiram até cem Mouros de ca- 
vallo da volta do Romal , com os quaes feriam até mil ho- 
mens de pee , que nunca foraò viftos , fe nom quando jaa 
eram fobre o porto dos Alemos ; e porque os Mouros eram 
antre os noíTos , e a Villa , nom pôde Ruy Gomes fazer a 
volta pêra a Cidade , porém como homem ardido , e pru- 
dente ouve confelho de fe retrazer a huma Torre , em que 
eftava hum Eicudeiro , a que chamavam Johaõ Preto , o qual 
a pedira a ElRey com entençaó de a manter , e avifar a 
Cidade de qualquer novidade, que hyfobrevieífe , e que a 
tenção de Johaõ Preto em outra coufa nom aproveitara fe- 
nom aquelle dia , deve a fua obra de todos fer louvada ; al- 
li fe acolherão Ruy Gomes com aquelles vinte de cavallo , 
metendo as beílas em hum cerco , que alli eftava , des y co- 
meçarão de fe defender , onde lhes foi grande ajuda as armas , 
que alli tinha Johaõ Preto ; caa poflo que os Mouros mui- 
to trabalhaíTem , nunca lhe poderam fazer outro danno, fe 
nom matar-lhe quatro cavallos ; e em efto chegarom as no- 
vas ao Conde como Ruy Gemes era cercado, o qual foi em 
muy grande trabalho por lhe dar focorro ; caa fe temeo de 
lhe terem algumas cilladas , porém ouve todavia d'hir avan- 
te , 



DO Co NDE D. PeDBO. ~4yj 

te , mandando primeiro defcobrir a parte do Canaveal , por- 
que alli eítava por entaõ a duvida principal , e tanto que vio 
que nom tinha cillada , juntou aquelles de cavallo , que hy efta- 
vam , e quinhentos de pee , amoeftando huns , e outros, que 
foíTem fortes , caa elle per todo cafo livraria em aquelle dia 
Ruy Gomes ; e com eito caudellou muy bem fua gente y que 
he das boas coufas , que podem fazer os Capitães , efpe- 
cialmente antre os Mouros, porque elles como vem daquel- 
la antiga geração dos Numklanos , afly todas fuás pelejas fe 
paliam per efcaramuças ; e os Mouros vendo como o Conde 
hia direitamente a elles , pêro tam gram numero foíle , norh 
oufáraõ de o efperar, ante fe forom caminho da ferra; mas 
quando os que hiam da Cidade chegarão onde eftava Ruy 
Gomes bem virom no campo , que nom efteverom fuás mãos 
ociofas , caa todo jazia cheio de fangue , e afly as armas, 
que elles tinham , bem davam final de quejando fora o tra- 
balho , em que elles andarom , o qual fé nom podia paflar 
fem grande dapno dos contrários ; caa muitos morrerom ai- 
ly , e outros forom feridos , como fe em taes feitos fôe a- 
contecer , efpecialmente antre gente defarmada , e que com 
tanta vontade fe chegam a dannificar os contraíres ; caa fe- 
gundo fe os Mouros viam muitos , e os noíTos tam poucos . 
e aíTy afaftados da Cidade , a efperança , que tinham de fe 
vingar de tamanhos dapnos como ante receberom , os fazia 
chegar mais ao perigo , onde cobrarão per galardão de feu 
trabalho muito pelo contrario do que antes efperavam , e 
aíTy fe forom mazelados da morte de feus parentes , e amigos. 



CA- 



402 V>HR0NICA 

CAPITULO IV. 

No qual o Autor , que efcrepveo efta Ifloria diz , quaes 

forom os nobres homens , que fervirom em 

Cepta até ejle tempo. 

TEvémos que feria razaõ efcrepver nefte prefente Ca- 
pitulo os nomes daquelles nobres homens , que fervi- 
rom na Cidade de Cepta, dês que foi tomada até o prefen- 
te; caa pofto que fe hy depois, e muitas, e grandes cou- 
fas fezeílem açaz dinas de grande honra , nom leixaremos 
porem de dar grande honra aaquelles que hy primeira- 
mente ferviraó ; caa como fe eícrepve no Livro do Filo- 
fofo , o começo , he mais que ametade da coufa , e nom 
menos o reza Valério Máximo abreviador de Tito Livio, 
e como quer que nós em muitas partes fallaíTemos naquelles 
nobres varões , onde fe o cafo oífereceo , pareceo-nos razão 
de os aíTomarmos aqui , alTy como a Santa Igreja faz aos 
Santos , que pêro pelos dias do anno , de cada hum faça 
memoria , hum foo dia tem apartado pêra lhes fazer geral 
folennidade : e porque toda-las outras coufas trafpaífam deite 
Mundo fe nom as boas obras , que os homens fazem , feria 
fem razaõ de fe nom pôr em regiítro a memoria dos bons 
homens , que por ferviço de Deos , e honra do Regno em 
eftes feitos virtuofamente trabalharão. Porem leixando aquel- 
le illuftre , e eftremado em virtudes antre os mortaes dino 
de grande honra o Conde Dom Pedro a e aquelles que jaa 
juntamente nomeámos, que hy ficarão ao tempo , que El- 
Rey partio , contemos aqui Ruy Gomes da Silva , que per 
muitos annos fervio em aquella Cidade ; des y Pêro Gon- 
çalves filho de Gonçalo Pires , que foi açaz nomeado per 
bom Cavalleiro aíTy neíte Rgno , como fora delle , e Luiz 
Gonçalves feu Irmão , e Pêro Gomes d' Abreu ; Joham Lo- 

P es i 



do Conde D. Pedro. 403 

pes , e Pêro Lopes , e Martim Lopes todos três Irmãos , e 
filhos de Lopo Dias d'Azevedo ; Gonçalo Velho , que de- 
pois foi Comendador da Ordem de Chriftos , Gil Lourenço 
d'Elvas , e AíFonfo Vaz da Cofta , Luiz Alvares da Cunha , 
Lopo Vaz , e Luiz Vaz feus Irmãos , os quaes cremos , que 
todos lá fallecerom ; Joham da Veiga, e feus Irmãos Lopo 
Alvares, de Moura, Luiz d'Atayde , Álvaro Mendes Cervei- 
ra , Ruy Mendes feu Irmaõ , Joham Vaz da Cofta , Álvaro 
Affbnfo de Negreiros , Ruy de Souza , Dieg' Al vares Co- 
mendador d'Algezur ; Dieg'Alvares Cabral , Fernam Gralho , 
Poro Vaz de Caftel-branco , Eftevam Soares de Mello , Ruy 
Vaz de Caftel-branco , Ruy Vaz Pereira , Fernand\Alvares , 
que matou o primeiro Mouro de cavallo , que morreo em 
Cepta , Fernam de Saa , Martim de Crafto , Fernam Gomes 
de Lemos , Fernam Gonçalvos da Arca , Diogo Soares de 
Paiva , Mosé Joham de Salla-nova , Mosê Martim de Pumar 
Cavalleiros Catalães ; e os outros que áiem daqueftes , que aqui 
nomeamos , em aquelle tempo ferviraó , pela Crónica feráó 
achados , ou fe per efquecimento paífarom , a culpa feja da- 
quelles, que eftes feitos primeiramente pozerom em lembrança. 

CAPITULO V. 

C oino morreo EIRey de Graada , e d' algumas coufas 5 

que fe jezerom em aquelle tempo na Cidade 

de Cepta. 

COmo melhor podemos aprender alTy pelos efcriptos da- 
quelles , que primeiramente tomarom cuidado de poe- 
rem eftes feitos em nembrança , como pelas Cartas , que o 
Conde efcrepvia a efte Regno , e também per aquelles , que 
lá efteveraó , achamos , que Cepta foi tomada em mez d' 
Agofto no Anno do Nafcimento de noflb Senhor Jesu Chrif- 
to de mil quatrocentos e quinze annos j e foi cercada em 
Tom. II. Qcjq em 



494 Chronica 

em outro mez d'Agofto de mil quatrocentos e dezanove an- 
nos , e aíTy que correrom quatro annos antre a tomada , e 
o cerco ; e depois durarom quatro annos , que EIRey de Graa- 
da trouxe feus trautos com Çallabemçalla , e com o Alcay- 
de de Fere , que era entam hum dos primeiros Marins , que 
avia na Caza de Fez , porque EIRey Efquerdo eia homem 
de grande animo , e dezejava muito alargar a Coroa de feu 
Senhorio , e des y porque as coufas e fiavam muy aazadas pê- 
ra o clle bem poder fazer; caa pela morte , que Alubebe 
Alguazil Mor d'ElRey fezera em feu Senhor, fe feguio gran- 
de difcordia antre todos os daquella Caza , caa fe levanta- 
rão dous Reys , hum dentro em Féz , a faber, Mulley Ma- 
famede ; e em Çallé , e outras partes outro , que fe chama- 
va Mulley Buzacri , pela qual divifaõ EIRey de Graada fa- 
zia feu partido como lhe prazia , e durou em cites trautos 
bem quatro annos , e cremos , que aindaque per fua peflba 
paíTou em Africa por fazer fua firmeza de mais. perfeita du- 
raçom : porem Deos nom quiz , que fua ordenança fe aca- 
baíTe como elle queria ; caa eílando em Málaga com as vel- 
las muy chêas de efperança de fe fazer muy grande , e po- 
derofo antre as gentes de fua crença , fobreveio a morte , 
que o levou- E porque o Reyno de Féz era afly divifo , 
como jaa diíTemos , ceifarão per huns dias as coufas da ter- 
ra , foomente algumas que fe paíTarom no maar, alTy como 
âconteceo a Andres Martim , e a AíFonfo Garcia , que forom 
provar o rio de Tutuam por mandado do Conde , onde to- 
marom huma Barca com Mouros ; os quaes poftoque menos 
foíTem , que os contrários , nom quizerom , que os imigos 
de todo foliem fenhores da vitoria ; caa todos fe pozerom 
em defenfaõ , mais com entençaó d'acabarem pelejando , que 
com efperança de nenhuma falvaçaó , e foomente hum del- 
les nom ficou vivo , e os noíTos levarom a Barca vazia ; e lo- 
go acerca fe feguio , que huma Barca de Caftella partindo 
de Cepta foi levada da corrente , com a qual fe hia direi- 
tamente á Coxa de Gibraltar , e o Conde querendo-lhe dar 

fo- 



/ 

/ 

do Gónde D. Pedro. i$f 

fbcorro mandou a Andres Martim , e a Martim VaZqués Pef- 
tana , que armaflem duas Fuftas , e lhe foíTem dar cabo ^ 
porque aquelle nobre Capitão aíTy tinha preftes , que eirí di- 
zendo, que fe fizeíTe j era de todo acabado ; rhaá nom ouve- 
ra de fer aquella hida muy proVeitofa pêra aquelles armado- 
res , caa nom fendo avifados de nove Fuftas de Mouros , que 
jaziam detrás da ponta de Bulhões , ouverom de fér filha- 
dos , pêro elles come homens de bom confelho juntarom-fe 
ambos, e diíTeraò , que íe trabalhaflém de fe fahir, pois a 
peleja eftava tam deíigual ; e que quando mais nom podef- 
fem , que efteveíTem ambos aaventura , que Deos hy qtii- 
zeíTe dar. Nós , diíTe Martim Vaz , trabalhemonos quanto po- 
dermos por nos fahir , e fe mais noní podermos , eflas que vem 
dianteiras enviftamo-las logo , e fe as desbaratarmos , nom fica- 
rá a peleja tam deflgúal , e fe por ventura nos todos alcança* 
rem , abalroemos huma com a outra , e atemo-las ambas , e pe- 
lejemos de huma banda , e da outra aaquella aventura , que 
Deos hy quizer dar. E aíTy íe forom achegando quanto po- 
dia fer legoa e mêa da ponta da Almina ^ onde fe duas 
Fuftas dos Mouros começarom de iguar com as noíTas , mas 
nom foi o feu recebimento , quejando elles penfavam ; caa 
daquelle Navio , que fe chamava a Rapoza começarom as 
beeftas de júgar, e derribarão logo de topo féis Mouros em 
huma Fufta , e quatro na outra , o qual elles poderom bem 
contar pelos remos , que fe logo foltarom ao longo das Fuf- 
tas j o que fez tam grande empacho , que nom podéraõ mais 
iguar as noíTas , porque áalem de lhe os remos^ ficarem va- 
gos , elles quizerom apavezar feus Navios , o que lhe deii 
azo de fe deter ; e como quer que depois muito trabalhaf- 4 
fem , nunca fe poderom chegar a ellas ^ ainda que per duas 
vezes os noíTos levaíTem remo , eftando-lhes apupando $ como 
quem via , que lhes podiam empecer pouco. Outro fy em 
cfte tempo mandou o Conde armar três Fuftas , a faber , hu- 
ma em que era Andres Martim, e outra em que era Affon- 
fo Garcia , e na terceira era Gomes Fernandes , e antre i 

Qgq ii Ci- 



496 Chkonicá 

Cidade de Cepta , e a Villa de Gibraltar em huma noite fe 
acertarão em meio daquelle maar com quatro Navios de 
Mouros, e foi antre elles grande peleja, porem os Mouros 
forom desbaratados , e dous Navios filhados com trinta e 
dous cativos 5 afora os que morrerom , que nom poderom fer 
viftos; e como quer que dos noflbs forom muitos feridos, 
per graça de Deos , nom foi algum de ferida mortal , e fe 
a noite nom fora efcura , nom ppdéra efcapar nenhum, fe- 
gundo a vitoria eftava pela parte dos Chriftãos. 

CAPITULO VI. 

Como o Conde Dom Pedro cazou a fegunda vez com a 
filha do Marechal Gonçalo Vazques Coutinho. 



p 



Or afaftarmos noíla Iftoria algum pouco das coufas Ca- 
valleirofas , contemos em efte prefente Capitulo , como 
o Conde foi cazado primeiramente com Dona Margarida , 
filha que foi do Arcebifpo de Braga Dom Martinho , que 
foi mulher muito virtuofa , e com que aquelle Conde ouve 
muita riqueza , a qual per fuás continuadas enfermidades ef- 
/ teve fempre neítes Regnos, depois que o Conde feu mari- 

do foi em Cepta , até que veio a fallecer , vivendo fempre 
muy virtuofamente , no qual eftado acabou feus dias : e lo- 
go depois daquelle cerco, de que jaa falíamos , EIRey trau- 
tou cazamento ao Conde , com a filha de Gonçalo Vazques 
Coutinho , que entaó era Marechal : e dos filhos , e filhas , 
que eíre Conde ouve , nom avemos aqui porque dar ra- 
zão, porque o lcixamos jaa contado no terceiro Capitulo do 
primeiro Livro ; e fendo o cazamento acertado , como diíTe- 
mos , mandou o Conde pedir por mercê a EIRey , que lhe 
mandaíTe levar as filhas naturaes ao tempo , que lhe folie le- 
vada fua mulher, o que EIRey fez de boa vontade; e acer- 
tou-fe que aqueila Donzella , que levavam ao Conde falle- 

ceo 



do Conde D. Pedro. 407 

ceo per morte , fendo afaftada pouco efpaço da cofta do Al- 
garve : porem Vaíco Fernandes Coutinho , que depois toí 
Conde de Marialva feguio avante com lua viagem , e levou 
os filhos aaquelle Conde* E porque Ruy Gomes da Silva era 
aquelle , qne diíTemos , cazou o Conde com elle fua filha 
Dona Izabel , e no dia que ouve de tomar íua caza fendo to- 
dos na Igreja, eram em aquello encejo dous Barinees no por- 
to, e como gente defcanfada , com dezejo de ver novidade dé 
cazamento , e des y er por fer Domingo i deíxarom os Na- 
vios defacompanhados , e fobrevierom pêra os filhar quatro 
.Fuftas de Mouros , as quaes fentidas na Cidade , começarão 
de repicar muy rijamente , e com toda a feita da vôda Ruy 
Gomes quizera deixar o taimbo , e fero primeiro, que fa- 
hira da Igreja fe lhe o Conde quizera confentir ; e breve- 
mente em hum daquelles Navios era hum foo homem , a 
qual vendo os contrários tam acerca , forneceo íuas arcas de 
pedras , e como valente homem fe poz em cima , e aíTy co- 
meçou de lançar aquellas pedras , que os contrários nom ou- 
fáraó chegar aas bordas do Navio , e querendo filhar a Náo ^ 
alguns poucos , qne hy eftavam , nembrarom-fe dos trons i 
que tinham, e começarom de lhe pôr fogo, de guifa que! 
antre o dapno , e o efpanto , que recebiam nom fe oufaraõ 
chegar a ella ; e emfim filha rom o outro Navio , porque era 
boyante , e fem nenhuma peíToa : e bem he , que elle pode- 
rá fer filhado das Barcas , que o Conde mandou armar , fe 
o temor da gente nom fora , que nom oufavam chegar ; e 
des y o tempo que fe esforçou de Ponente > que lhe nom con- 
fentio , que feguiíTem as Fuftas , pelo qual lhe foi neceíTario 
de fe tornarem : e logo a poucos dias eftes mefmos ColTarios 
tornarom a tomar hum falto na Almina , onde filharom dous 
moços , e hum homem , e f e o Conde fe nom aviía'ra tomaram 
as Barcas., que eram a pefcar ; mas alguns homens, que fo, 
rom fugindo, avifarom feu Capitão , o qual lembrado daquellag 
Barcas , que andavam a pefcar , mandou fazer huma fumaça fo_ 
bre o cefto , per que forom avifados ? aindaque fe já trabalho., 
famente podeíTem falvar* C A- 



H R 6 N t G A 



CAPITULO VIL 

Como os Gazulles vieram a terceira vez a Cepta ; e da 

peleja que os nojjos com elles ouverom ; e como 

Dom Fernando de Noronha foi a Cepta. 

FOrom naquellc tempo no Regno de Caftella dous gran- 
des CoíTarios antre outros muitos , que hy avia , a fa- 
ber, hum que fe chamava Gonçalo Corrêa , e outro Bartho- 
lomeu , e tanto andarom em fua ventura , que ouverom íb- 
ma de Navios , com que fe apoderarom rto maar : e porque 
era coufa certa , que cafy cada dia hiam Navios a Cepta com 
aquellas batalhas , e gente , que de neceflidade pêra a go-* 
vernança daquella Cidade pertencia ; aquelles CoíTarios fa- 
ziam em ello grande empacho , em tanto que foi neceflario 
a EIRey dar a ello provifam : e porque como diíTemos os 
CoíTarios andavam poíTantes convinha , que foíTem contra 
elles peíToas , que os podelTem fogigar : e porem mandou 
ElRcy armar alguns Navios , os quaes forom fornecidos de 
boa gente , da qual ordenou , que foíTe Capitão Dom Fer- 
nando de Noronha, e nom penfees, que alli era gente pie- 
bea, nem comum, mas toda gente cortefam , de bom fan-^ 
gue , e criaçom ; e depois daquelle que levava a principal 
Capitania , era hy hum Dom Fernando de Crafto Governa- 
dor da. Caza do infante Dom Enrique , que foi homem gran- 
de , e nobre em eítes Regnos : os Navios aíTy armados, paf- 
fáraõ* o Cabo de Sam Vicente , e chegarão fobre a Coíh 
de Caftella ; e porque nom acharom os contrários , forom-fe 
direitamente a Cepta , onde bem agafalhados , e recebidos 
do Conde repoufarom alguns dias , e chegando hy aos de- 
zoito de Junho , aos vinte e quatro chegou hum Mouro á 
Cidade , que fe chamava Jufez , a que o Conde fazia mer- 
cê , pelo avifar d 5 alguns contrários quando vieíTem , o qual 

noti- 



do Conde D, Pedro. 499 

notificou como eram vindos Mouros da Gazulla , os quaes 
feriam alli no dia fcguinte. O Conde mandou logo avifar 
aaquelles Senhores, que alli eram, os quaes como andavam 
enfadados do maar % e anojados por nom encontrarem os Cof- 
farios , ouverom com aquellas novas grande prazer. No ou- 
tro dia mandou o Conde a Fernam Soares d' Albergaria , e 
a Fernam Camelo % que foíTe feguir fua guarda , como he 
coítume naquella Cidade , aviíados porem das novas , que 
ante ouvera ; mas nom fe alongarão aqueiles Fidalgos mui- 
to das Atalayas , quando encontraram com os Mouros , e nom 
foomente os Gazujles eram alli , mas todo-los outros da ter- 
ra , que acharão em difpoíiçaõ de peleja. Os da guarda co- 
mo os Mouros iahirom a ejlles , recolherom-fe como gente fem 
temor , do que a Atalaya ouve fentido , e avifou logo a Ci- 
dade, des y começando de repicar, o Conde como era avi- 
fado jaa foi logo preftes , e os outros com elle , e forom-fe 
a hum Cabeço, onde le ajuntarão aqueiles da guarda. Hun} 
pouco fe deteve o Conde, porque Dom Fernando de No- 
ronha nom chegava inda , pêro nom tardou muito , que o 
vio comíigo , e vendo os Mouros , que eftavam em hum Ca- 
beço obra de mil e quinhentos , ou de mil e feiícentos de 
pee , e oitenta e cinco de cavallo , enderençarom logo a el- 
les , e quiz a fua forte , que os encalçáraô naquelle meímo 
lugar , onda no outro tempo forom desbaratados os outros 
Gazujles ; e antre os bons homens, que alli eram foi hum, 
que fe chamava Qil Eannes de Freitas homem Fidalgo , e 
de bom coração, p qual fendo junto com os imigos , fem 
nenhuma ordenança faltou antr'elles , onde fua fim fora ce- 
do conhecida, fe nom fora a bondade de hum feu Efcudei- 
ro , que o feguia , o qual vendo feu Senhor em tal perigo , 
com roíto feguro , e vontade difpoíta a fajvar aquelle , que 
o criara , ou na morte lhe fazer companhia , me.teo a lança, 
fob feu braço, e foi rijamente aos contrários, e tal volta 
fez antr'elles per que derom algum lugar aaquelle Fidalgo, 
que tam cerca eftava de fazer fua fim; .0 Conde nom quize- 

ra 



500 Chronica 

ra tam de ligeiro aballar , avendo fanha de Gil Eannes , por- 
que fahira da ordenança ; mas quando vio , que eítava tam 
acerca d'acabar, diíTc contra os outros: Amigos outro tempo 
nos cumpre que bu fanemos , pêra cafligar o erro daquelle nojfò 
companheiro, Entam ferio feu cavallo rijamente das efporas, 
e com elle noventa e cinco , que eram de cavallo : e bem 
he verdade, que os Mouros le volverom bem com os nof- 
fos , e peleja'raô grande pedaço ; caa pêro ouveram-fe de ven- 
cer , eípecialmente porque os de cavallo falleciam cada vez , 
caa logo do primeiro golpe matarom quatorze , e alTy fe- 
guindo forom matando em elles ; caa eram alli efpeciaes Ca- 
valleiros, e Fidalgos, e cafy todos, que nom avia hy tal, 
que nom dezejaíTe fazer avantagem a feu companheiro. Fer- 
nam Soares d'Albergaria foi alli ferido em huma maõ , de 
que ouvera de receber cajam , porem guareceo depois : os 
Mouros vendo-fe cahir cada vez mais, começarão de fugir, 
e porque os de pee virom como fe os de cavallo começa- 
vam de vencer afaítarom-fe afora , e fugirom pêra as Quin~ 
taas , onde o Conde avifando-fe da terra , que era fragofa 
trabalhou de os carregar da parte da Serra, e feze-os come- 
ter per duas partes : Lopo ^'Albuquerque , que era homem 
mancebo ardido feguio os infiéis aíTy avivadamente , que nom 
efguardou de quanto era acompanhado , e os Mouros torna- 
rom fobr'elle , e matarom-lhe o cavallo , e elle fem efperan- 
rança de focorro penfou de fazer fim onrada ; mas NoíTo Se- 
nhor , que o queria guardar pêra outro tempo , trouve por 
alli a Ruy Gomes da Silva, e alTy elle, como dous , que o 
feguiraõ tirarom dalli por força Lopo d'Albuquerque com hu- 
ma ferida n'huma perna , nom fem morte d'alguns daquelles 
contrários : Ruy Gomes foi alTy hindo per aquella parte ma- 
tando , e derribando aquelles , que com fua lança podia per- 
calçar : o Conde , e os que com elle eram da outra parte fo- 
rom dando nos Mouros , e deítruindo em elles quanto po- 
diam. Oo que grande prazer era aaquella nobre gente, que 
alli novamente viera ver aíTy aquelle vencimento. E bem aíTy 

co- 



do Conde D. Pedro. 5-01 

como os velhos Leões levam os filhos aas entunas das ani- 
malias por lhes fazerem perder o temor , afly parecia o Con- 
de Dom Pedro , que andava com alguns daquelles nobres 
homens, moftrando-lhes como fe dannavam os imigos. Os Mou- 
ros moftráraõ huma vez contenença de rer coração , e vol- 
ver íbbre os noflbs , mas o Conde voltou rijamente fobre 
clíes , e fez-lhes com muito feu danno voltar os roitos , e fu- 
gir com muito mayor trigança que da primeira , levando-os pela 
Serra do Salto , atee que os meteram no Valle de Barbeche , 
huns matando , e outros prendendo , e a noíTa gente de pee 
com prazer da vitoria , nom efguardando o dapnp y que fe 
lhes podia feguir , meterom-fe com os Mouros no mato ; mas 
o Conde , que conhecia melhor a fim , a que podiam che- 
gar , que elles , que o faziam , feze os trigofamente fahir, 
e des y vifto como o mais feguimento era perigofa vitoria , 
fez recolher a gente, e nom quiz, que os mais feguiíTem, 
perguntando quaes, e quantos morrerom dos noíTos : Senhor, 
diíTe hum Efcudeiro vinte Jam feridos , e ?ienhum per graça 
de Deos de chaga mortal , e dos Mouros achoufe que erad 
prêfos quarenta e cinco , e mortos duzentos e oitenta e qua- 
tro , afora outros , que hiam morrendo per elTes matos , e 
caminhos , e achamos , que da Cidade fahirom em efte dia 
noventa e cinco de cavallo , e trezentos e feíTenta de pee. 
E porque o C3nde vira bem como Pêro Gonçalves fezera 
tam eftremados feitos per fy , fezeo chamar , e em prefen- 
ça de todos lhe diíTe : Honrado Fidalgo , ainda que quantos 
bons aqui fam oje muito trabalharem , por certo a vrjfa virtu- 
de foi eflremada antre todos nos outros ; e como quer que & 
mim nom feja novo qual coração vós aveis nos perigofos tra- 
balhos , como aquelle que vos militas vezes vi fazer feitos di- 
gnos de grande honra , porém por tejlemunho de vojfa virtude , 
eu quero, que vós fejais Cavai leiro: e peço, e rogo a efte s Se- 
nhores , que aqui fam , que aalem do que eu ejcrepver , digam 
a ElRey meu Senhor e/las palavras , que me aqui ouvirem 
porque fei , que elles com feus cuidados , nom entenderão no 
Tom. II. Rrr vof- 



502 Chronica 

vojfo ; mas eu como Capitão o efgaardei , e ainda porque me 
acertei de feguir aaquella parte. Pêro Gonçalves nom qui- 
zera receber aquella honra por aquella vez , peroo vendo 
como lho o Conde requeria com boa vontade , ouveo de con- 
fentir , ainda que bem moftrava , que coítrangido. Como 
quer , diz o Autor , que nos Regnos de Portugal ouveffe 
muitos eftremados Cavalleiros , hum foi Pêro Gonçalves an- 
tr'elles ; caa aíTy naquella Cidade , como nos Regnos de 
Caftella , e quando EIRey Dom Joham o Segundo foi fobre 
os Mouros , fez cite nobre Cavalleiro coufas dinas de gran- 
de louvor , como parte delias fallaremos ao diante profe- 
guindo o proceíTo de noíTa Iftoria , onde fallarmos no aca- 
bamento , que ouverom as guerras d'antre eítes Regnos , e 
os de Caftella. E efta foi a derradeira vez que os Gazulles 
vierom a Cepta em tempo do Conde Dom Pedro ; e bem 
he razaõ , que elles recebeíTem temor de tornarem alli tam 
cedo , onde per três vezes receberom tam grandes perdas. 
E da tornada , que Dom Fernando fez pêra o Regno , pele- 
jou no maar com a Carraca daquelle CoíTario , que fe cha- 
mava Bartholomeu, a qual andava muy bem armada, e aíll 
foi muy trabalhofa de tomar aos noíTos , porem foi filhada 
per força , de que Dom Fernando recebeo grande louvor , 
e affy aquelles , que o ajudarão naquelle trabalho , e per 
confeguinte filharom todo-los outros Navios daquelles Col- 
farios , de guifa que fempre ao diante os Navios deites Re- 
gnos forom feguros pêra Cepta. 



CA- 



do Gondb D. Pedro. £o $ 

CAPITULO VIII. 

Como Pêro Gonçalves 5 e [eu Irmão , é Ruy Gomes 
da Silva forom f aliar a Çallabemçalla ^ e do reca- 
do > que lhe levarem. 

EStando aíTy aquelles Senhores em Cepta j chegarem hy 
novas como EIRey de Fez tinha cercado aaquele gram 
Marim Çallabemçalla , a qual coufa Pêro Gonçalves fallou ao 
Conde dizendo , que pois aquelle Mouro eílava tam apreíTa- 
do 5 que feria bem de lhe fer cometido , que deixaíTe a Vil- 
la pêra EIRey, e que o Gonde fe obrigaíTe de o hir aaju- 
dar a defender daquelle perigo , em que eítava ; o que pa- 
íeceo muy bem aíTy ao Conde , como aos outros Senhores ; 
e failando fobr'ello acordarom , que feria proveitofo , que 
Pêro Gonçalves , e feu Irmão , e Ruy Gomes foíTem em hu- 
ma Gallé como Embaixadores aaquelle grande Marim , e que 
IcvaíTem fua Carta de crença, e lhe fezelTem o dito come- 
timento , e que per femelhante levaíTem outra a EIRey de 
Fez dizendo-lhe , que elies lhe ajudariam a filhar aquelle lu- 
gar , com tanto que elle deite pêra a Coroa d'ElRey de Por- 
tugal a Villa d'Alcacer com certa fomá d'ouro. E feguindo 
alíy aquelles Cavalleiros fua viagem j chegárom no outro dia. 
fobre a Villa d'Arzila > e tanto que forom viítos , e conhe- 
cidos , que hiam por paz , mandaraõ-lhe logo huma Zavra t 
pela qual enviarom a carta a Çallabemçalla ^ e alli íoube- 
rom como fe EIRey partira avia dia e meio , porque pare- 
ce , que achara a parte contraria mais forte do que penfá- 
ra , o qual nom foomente teve poder pêra fe defender^ mas 
ainda lhe fez grande dapno , pelo qual EIRey teve por feu 
barato de fe partir; Çallabemçalla era da melhor linhagem $ 
que entam avia entre os Marins , e aíTy era nobre em todos 
íeus feitos j e porem uzando de fua nobreza , mandou logo 

Rrr ii mui- 



504 Chronica 

muitos carneiros, e gallinhas , e fruitas aos Embaixadores i 
rogando-Ihes , que lkes prouveífe fobre-ferem até o outro 
dia , onde mandou a elles hum feu Sobrinho rogar-lhes , que 
fahiíTem , e que todavia foíTe Ruy Gomes , porque dezejava 
muito de o ver : e tendo aquelles Fidalgos confelho deter- 
minarom, que ficaíTe Pêro Gonçalves no Navio, e que foíTe 
feu Irmaõ, e Ruy Gomes. Çallabemçalla errava ante a por- 
ta da Taracena , e com elle açaz de boa gente , e tanto que 
vio , que a Zavra queria chegar a terra , chegou até o bor- 
do da agua , e recebeo muy bem aaquelles Embaixadores, 
levando-os aíTy ata onde eftava aílentado , alli mandou arre- 
dar todos afora , ficando foomente aquelles com que fe elle 
podia aconfelhar. Os noíTos Embaixadores como fouberom , 
que elle era defcercado , mudarão a Embaixada. Senhor , dif- 
íerom elles , o Conde Dom Pedro foube como vós erais pojlo em 
cerco ; e porque a fama corria , que vos tratava ElRey mal , 
xonfirando o Conde , e alguns Senhores , e Cavalleiros , que com 
tile fom , quanta bondade em vós ha , determinar om de vos dar 
ajuda corporalmente ; caa certamente a fama , que de vós corre 
he tal , que obriga quaefquer bons a vos amarem , e ajudarem 
a defen ler voffa honra : ora que vos Deos livrou queremonos tor- 
nar ; caa nos nom pareceo razão , ainda que fubejfemos como 
ElR.ey era partido , de vos nom notificarmos o bom dezejo do 
Conde, e affy daquelles Senhores , que com elle J ao. Eu, diíTe 
Çallabemçalla, fam b em cer to da grande bondade de Jfe vojfo Ca- 
pitão , e foomente pelo bem , que ouvia aos outros me prazia del- 
le ; mas agora que me elle tal dezejo mo/Ira , fom-lhe por elle 
muy mais theulo ; e faiba elle, que o que lhe de mim comprir , 
que o terá tam prefles como elle nom pode penfar , e vós affy 
lho dizei de minha parte , e que de mantimentos , ou d? outras 
coufas , que lhe necejf árias fejam , que elle me efcrepva , que 
eu lhos mandarei em meus Navios : e quanto he ao cerco , que 
me ElRey poz , vós fab éreis , que eu fuy mait poder o fo pêra 
dannar a elle , que elle a mim , e affy creio eu , que o elle , e 
os feus fentirao fequer na morte dos fervidores , parentes , e 

ami- 



bo Conde D. Pedro. £oc 

amigos , que aqui leixdrao foterrados ; e nom creio , que de boà 
vontade elles aqui tomem tam cedo. E alli fallarom fobre ou- 
tras coufas > e com. bom agradecimento fe tornarom a feii 
Navio ; e fouberom per hum Chriítaó , que vivia forro com 
Çallabemçalla , que a elles por aquelle Marim fora enviado 
com recados , que a Cidade eftava fegura de cerco por en- 
tão , nem ainda pêra gram tempo , pelas grandes guerras , 
que avia antr'elles , e aíTy fe tornarão eit.es Fidalgos a 
Cepta. 

CAPITULO li 

Como Gonçalo Velho Comendador > qúe foi ao diante dá 

Ordem de Chriflos , armou contra os Mouros • e 

do que fez na parte de Graada. 

AQueíle nobre Fidalgo ^ que fe chamava Gonçalo Ve- 
lho , que adiante foi Comendador da Ordem de Chrif- 
tus , dezejando fervir a Deos , e a EIRey { e acrecentar fua 
honra , armou huma Gallé na Cidade do Porto ; peroo por- 
que lhe nom foi dado o que cumpria pêra fua armação , ou- 
ve outro Navio de remos mais pequeno , o qual ferido em 
Lagos fez chegar ao bordo da Gallé , e meteo todo dentro 
cm ella ; e leguindo fua vingem chegou a Cepta, donde 
partio pêra Belléz ( a refgatai certos Mouros , que tomara em 
hum Caravo ) , onde eftava entaõ por Senhor hum Mouro j que 
chamavam Almançor, do qual Gonçalo Velho recebeo mui- 
ta honra, requerendo -o , que fahiífe em terra ^ dizendo, que 
lhe queria fazer aquella honra , que elle merecia ; e eito 
principalmente lhe fazia aíTy aquelle Mouro , porque fabia co- 
mo Gonçalo Velho matara no cerco aquelle Senhor de Be- 
negoim com que elle avia contenda, e que lhe fazia muito 
dapno , porque era mais poderofo , que aquelle Almançor; 
€ efeufou-fe Gonçalo Velho dizendo j que prometera de nom 

fa- 



Ço6 G H R O N I C A 

fahir fenaõ em Cepta , e que por ello efcufava a fahida pof 
aquella vez: mandou-lhe Almançor muita vianda. Gonçalo 
Velho partio dalli conímingoa de bitualha, e tanto eílava a 
Cidade de Cepta em mingoa de mantimento , que lhe con- 
veio dar quinhentos reis por cinco facos de boroas, e hindo 
aíTy dalli pêra Callis tomou hum Carevo com treze cavallos , 
e com outra muita bitualha , nom fem peleja dos contrários : 
e fabendo Joham de Saavedra , e Gonçalo de Saavédra feu 
Irmaõ , que eftavam em Caftella , como alli eftava Gonçalo 
Velho , com o qual jaa fezera conferva hum Lenho d' Alican- 
te , mandarom-lhe rogar , que lhe prouveíTe fahir em terra 
pêra fallarem com elle algumas coufas por ferviço de Deos , 
« acrecentamento de fuás honras : Gonçalo Velho diíTe , que. 
lhe prazia muito, convidando-os pêra em outro dia comerem 
com elle na Aljazira, e nom foomente deu a elles muy abaf- 
tadamente mantimento , mas a quantos com elle hiam , dan- 
do lugar a todos, que tomaíTem quanta cevada lhes prouvef- 
fe pêra levarem pêra fuás cazas , daquella que elle achara 
no Carevo , que filhara , e aos Fidalgos encavalgou cada hum 
de feu cavallo. Ora , diíTerom aquelles Irmãos , Gonçalo Ve- 
lho , Senhor , e Amigo , nós temos ordenado de filhar aquella Vil- 
la de Gibraltar , pêra a qual coufa temos alli dons Navios apa- 
relhados pêra poer gente em terra , e de noite hirem per efl a par- 
te do monte , : e nós da outra , acordando-nos , que a huma hora 
certa dêmos cada hnm per fua parte fobre o lugar , e com a 
graça de Deos efperamos , que filhemos , o que dezejamos ; caa 
dentro temos , quem nos ajudará : e porque alli nom ejlà tal 
Capitão em que nós tenhamos tal fiança , queríamos , que vós 
tornajjeis parte de fia empreza , e nom duvideis de vos fer gran- 
demente galardoado ; caa nós temos aqui Cartas d^ElRey nojjb 
Senhor finadas em branco , pelas quaes vos daremos logo , o que 
vos qitizerdes , o qual vos fera muy bem pagado % tanto que 
vir voffb recado. Eu , diíTe Gonçalo Velho, vos agradeço mui- 
to vojjo reqnerimento ; mas eu nom tomarei mercê , nem bem- 
feitoria de nenhum outro Príncipe , fenao d'ElRey de Portugal , 

cu- 



do Conde D. Pedro. £07 

cujo natural fim , e do Senhor Infante Dom Enrique meu Se- 
nhor y o que fezer fazelo-ey por fervi ço de Deos , e do Senhor 
Rey meu Senhor , e por acrecentar em minha honra , e na vcjfa , 
que me efto requerees , porque fois Fidalgos nobres , e de gran- 
de merecimento. Pêra que he mais, diíTe hum Adail , que hy 
citava , vós vede fe quereis ficar com EIRey de Cajlella ; caa 
fegundo a fama que elle de vós ha , fei que vos f ar d o moor homem 
de vojfa linhagem , efpecialmente fe fe vos der a bem efto , que 
começar queremos. Olhou Gonçalo Velho pêra o Adail , e 
liado contra elle lhe diíTe : Tu nom fahes pelo prefènte , o que 
dizes ; caa fe EIRey de Ca fie lia fezejfe a mim mayor de minha 
linhagem faria gran:!e de j prazer a muitos grandes de [eus Re- 
gnos , a que eu com tal ajuda poderia ligeiramente fchrepujar y 
porque nom f aliando nos pajfados , ainda jam vivos muitos gran- 
des em aquelles Regnos , onde eu naci , com que eu ey muy che- 
gada liança de fatigue , e cree , que eu nom venho defavindo do 
Senhor com que vivo , nem fiz na terra , porque eu nom ouvejfe 
de tomar a ella , nem efpero tam pouco galardão de meus fer- 
viços , per que aja vontade de tomar novo Senhorio. Que eflra* 
nha coufa y diíTe depois hum Fidalgo da Caza da Rainha, 
que ai li eltava , he aquefta defta nação Portuguez , que affy 
tem prefles palavras honrofas , com que acabam de refponder nos 
lugares onde compre ferem louvados. E tendo elles eito aíTy 
ordenado nos outros Navios fe parti rom dalli , que nom qui- 
zerom poer a gente em terra , e Gonçalo Velho com os feus , 
e do Lenho forom aaquelle lugar , onde tinhao ordenado pe* 
ra tomar o monte , e eram per todos cento e cincoenta ho- 
mens de peleja ; e certamente que fe o Adail nom errara a 
vereda , o monte fora tomado , de que Gonçalo Velho foy 
anojado, e quizera matar o Adail, fenaô fora per alguns re- 
querido pêra o contrario dizendo , que fe anojariam aquelles 
Fidalgos por ello ; porem mandou-lho prefo , que o caítigaf. 
fem : e ficando aíTy aquelle feito eftorvado , tornarom aquek 
les Fidalgos a fallar outra vez , e acordarão de hir a huma 
Aldeã , que eftava contra Marbella ? a qual diziaõ 7 que era 

ri- 



508 Chronica 

rica , e de boa gente , acordando-fe , que Gonçalo Velho 
folTe de noite , e que deíTe em huma parte da Aldeã , e que 
elles viriam da outra, e que aíTy poderiam eftruir os contrá- 
rios. Como qkerees , diíTe hum daquelles Caftelhanos , que fe 
pojfa cometer tal coufa ; caa em efte mejmo lugar foi jaa des- 
baratado o efcol aElKey nojjo Senhor , onde forom mortos mui- 
tos homens , e mtiitas armas perdidas , quefoomente naquellas , 
que acharom pelos caminhos fezerom os Mouros bem três mil 
floris ; e como quer que a Aldêa nom Jeja de muita gente tem 
acerca de fy Marbella , e da outra parte do monte moram oh 
tocentos Beefteiros , homens pêra grande feito , e crede que nom 
eftá alli aquella Aldeã , fenao com a fegurança , que tem do 
focorro. Nom força , diíTe Gonçalo Velho , caa fe nós formos 
de noite , e dermos fobre elles em amanhecendo , ante que lhe o 
focorro 'venha , antes os dejlruiremos todos. E eftando em efto 
departindo hum daquelles Caftellãos ouvio alguma couía , 
que lhe quiz parecer agouro , e nom quizera , que foram , 
cuja tençom Gonçalo Velho começou de reprender fazendo- 
os todavia determinar fua primeira tençaó ; e na noite do ou- 
tro dia feguinte fahirom os nolfos em terra , os quaes eram 
per todos noventa e fete , e a Aldeã feria huma lcgoa da 
praya , e fendo pouco avante afaftados do maar forom fcn- 
tidos dos contrários, o que nom ficou por conhecer a Gon- 
çalo Velho , pêro folgou , porque efperava que os outros vieí- 
lem da outra parte , e que lhes dariam nas cofias , quando an- 
daíTem na peleja , o que lhe feria grande avantagem ; mas 
nom foi aíTy como elle penfava , antes conveio a elle , e aos 
feus foomente fufter aquelle encarrego; caa fendo jaa cerca 
da Aldêa pêra onde forom guiados per hum Adail , que lhe 
derom aquelles Fidalgos, o qual fora jaa Mouro, e morador 
daquella mefma terra. Como fera, diíTe Gonçalo Velho, que 
efte , que he daqui natural aja de bufcar danno a feus paren- 
tes, e d terra de fua natureza. Nom cureis, diíTerom aquel- 
les Fidalgos , vós hy fob fua guarda , caa elle tem jaa aqui 
feitas tantas, e taes coufas em danno daque/les , que a mais- 

fe- 



n o Gonde D. Pedro. j q ç 

pequena parte da 'vingança feria a elles a morte. E feguindò 
íua viagem, o Adail fez final como eftavaô cerca da Povô- 
raçaó : e pêra Jent irdes , diíTe elle , quanto fois de perto 5 affo~ 
cegai vojfos fentidos , e ouvireis o remor , que fazem ; e como 
elles jaa forom avifados dos imigos , que vinham fobre elles j 
poferom muy grande trigança em fe aparelhar mais pêra poe- 
rem fuás mulheres , e filhos com as melhores coufas , que ti- 
nham de fua fazenda em falvo , que pêra outra peleja; e a 
Aldêa eftá em hum chão , e tem acerca de fy a tiro de beef- 
ta hum monte alto , e fragofo , que tem em cima huma chaa- 
da, pêra cuja entrada nom ha fenaó certos portais muy ef- 
treitos , e muy agros de fubir , os quaes os Mouros confi- 
ravam defender com tal força, que por muitos , que os con^ 
trarios foíTem nom lhes podelTem fazer danno : e bem he ver- 
dade que os Mouros nom fe enganavam naquelle penfamento fe 
o ouveram com gente de menor fortaleza. Conhecido per 
todos como os Mouros forom avifados , e como eram tam 
acerca 4 Gonçalo Velho fez ajuntar aquelles homens , que 
comfigo levava , e diíTe-lhes : Amigos , eu nomfei fe vós eftais 
em bom conhecimento do lugar em que fois , e da força da gen* 
te com que aveis d'aver contenda ; vós , diíTe elle , nom penfeis y 
que por ouvirdes , que aviais de vir coíiquiftar a Aldêa , quê 
porem o avees d'avef com aldeãos , ou com gente ruftica , oupre- 
guiçoza nas pelejas , ante vos avifo j que eftes fom tais , quê 

Icom pouca ajuda de feus vizinhos dcsharatarom jáa o efcol d El- 
Rey de Caftella , onde forom mortos nobres homens , nom ferit 
grande perda d* outra gente comum , e o peor que foi a vergo- 
nha dos Chriftãos : eftes Mouros eftam aqui tam acerca do maar j 
e da terra dos contrários , que cajy cada dicl provam os peri- 
gos , e como elles fam gente oufada , e mtre às Nações das cr e a- 
turas razoavees , que melhor Je of recém a morrer, quanto maiè 
fera daquelles , que cada dia pelejam , e tem por coftumè de ef 
palhar fangue , des y as vitorias , que os tem poftos ém argu* 
lhos , como Je foem de fazer aaquelles , quê muitas vezes fani 
vencedores 7 e febre todo lhes acrecenta a fortaleza o focorro doi 
Tom. II Sss ami- 



jio Chronica 

amigos , que tem mny acerca , ejpecialmente taes como fam os 
Beefteiros , que jazem dejia outra parte da Serra , os quaes eu 
creio , que em breve fejam aqui ; e porque nós ajamos vitoria 
convém . que nos triguemos a pelejar , porque a manhã a começa 
jaa de vir como vós vedes , e Gonçalo de Saavedra , e Jeu 7r- 
mao nom podem muito tardar ; duas coufas faremos fe nos tri* 
garmos a efte cometimento : a primeira , a Jegurança de nojfas 
vidas , que fera quando ejtes tevermos desbaratados ; caa os que 
fugirem hirdo dar novas aos amigos , e fardo as coufas mais 
perigo fa r do que fam , e metelos ham em temor , o qual por ven- 
tura os fará ceffar de nom vir : a outra , que a honra fera to- 
da nojfa fe quando os outros vierem , acharem o feito acabado ; 
porem ajuntai voffos fentidos , e dijponde vojfos corações , porque 
ajudem vojfos membros ; e ponde ante vós como toda vofja boa 
andança , ejld na fortaleza de voffas mãos : huma coufa vos nem- 
br o , diííe elle , que a condi çam dos Mouros he , que < dez mil 
quando tomam cabeça , fugirão a dez contrários , e pelo con- 
trario quando correm após feus imigos , ainda que lhes cem mil 
fujam , e elles nom fejam mais de cento , nom recearão de os 
feguir'. ora me parece , que a hraje chega , vós farees ajfy , cc- 
7no ouvirdes feu alarido , fareis logo outro femelhante , porque 
vojfos contrários nom fintam , que vós tendes menos esforço de os 
dannar , que elles de fe defender ; avi fluido também os Beeíiei- 
ros , que nom armaíFem juntamente , mas que fe repartiíTem , 
de guifa que quando os huns tiraíTem , os outros começaíTem. 
E em eito era a alva de todo deícoberta , e os Mouros pref- 
tes de peleja, começando d'alevantar feu alarido, do que os 
nofíbs nom forom efe a fios , e começou-fe alli huma fera , e 
afpera peleja, como quer que nom foífe de muita gente, e 
como os Mouros eram uzados na guerra, fabiam-fe bem apro- 
veitar de fuás armas, com as quaes logo ferirom alguns dos 
noífos :. Gonçalo Velho aífy como era de grande coração , aífy 
avondava em fortaleza corporal , e com hum efeudo , que 
trazia no braço , fazia, chegar fuás companhas ao danno dos 
contrários , de guifa que logo no primeiro encontro derriba- 
ram 



do Conde D, PiDkò. ^ii 

rom féis Mouros ferri efperança de vida , nom ficando porerri 
o campo dczerto dos infiéis , antes como por vingança 
dos que virom cahir, fezeraò outro cometimento com mui- 
to -mayor viveza ^ achando os contrários aíTy fortes, que com 
outra mayor perda fe tornarão atrás , caa morrerom outros 
mais, e andaròm fazendo fuás voltas, até qUe o campo co- 
meçou de parecer femeado dos corpos ferti alma daquelles in- 
fiéis ; caa poílo que nom foíTem mais de vinte e cinco pofe- 
rom tal efpanto aos outros , que fe começarom de retraer con- 
tra o monte : e bem he verdade , que elles nom fezerom aíTy 
tamanha tardança pelejando com os nofíbs , fena6 fora por 
dar lugar aas mulheres , e filhos , e homens fracos ,- que fe 
podeífem pôr em fegurança , e alli começarom de fe reco- 
lher de todo aaquella Fortaleza ^ empero pelejando muy es- 
forçadamente , até que fe ouverom na cabeça daquelle mon- 
te, a qual nom tinha fen ao certas entradas, como jaa diíTe- 
mos , per huma das quaes Gonçalo Velho acompanhado dal- 
guns daquelles quifera fubir^ onde recebeo huma' ferida por 
acerca do olho , per que lhe ao diante conveio perder gram 
parte da vifta , e foi derribado com hum penedo fobre nu- 
mas daroeiras , onde lhe fez grande proveito a defenfom de 
feu efeudo, em que recebia a multidão das feetas , e pedras, 
que lhe de cima eram lançadas , nom fendo menos ajudado 
da baítura dos , ramos da arvore $ que o fufteve , que nom 
cayo a fundo , como quer que com a queda quebraíTe três 
ramos açáz grolTos , e fortes ; e era hy cerca hum Efcudei- 
ro , que fe chamava Joham d* Almeida homem de boa for « 
taleza , e ardido coração i o qual fe acertou com hum Mou- 
ro á volta de hum penedo i onde fe ambos acertarom roíto 
per rofto ^ e Joham d' Almeida levantou o braço com feu cui- 
tello fazendo eontenença pêra ferir feu contrario , e o Mou- 
ro tendo tento em receber o golpe ^ o Efcudeiro virou a pon- 
ta do cuitello fobre o rofto f e deu-lhe híía muy grande fe- 
rida per cima das trincheiras ; o Mouro era mancebo, e de 
grande força, e juntando o dezejo da vingança com o temoi: 

Sss ii èà 



5"i2 Chronica 

da morte , que via muy acerca de fy , levantou feu terçado 
querendo danar o mais que podefle a feu imigo , e o outro 
tomou-lhe o golpe na efpada , e revolveo-a nas mãos , e de- 
cendo fobr'elle com tam grande força, que lhe derribou hum 
braço com grande parte de huma das eípadoas , de cuja fe- 
rida o Mouro fez fim, nom foomente daquella peleja, mas 
da vida. Gonçalo Velho levantou-fe o melhor que pôde , e 
porque vio , que fua gente nom podia feguir avante , pela 
agrura do monte , donde fe achavam muy dannados de feri- 
das , tornaraó-fe ao campo*, e os Mouros penfando , que o 
faziam com temor deceraó-fe a fundo , começando como de 
novo outra vez a peleja , na qual dobrarom fuás forças aíTy 
por fe vingarem do dapno de feus parceiros , cujos corpos 
traziam antre os pees , como por fe verem aíTy trilhados de 
tam pouca foma de contrários ; e pêro fua força foffe gran- 
de , aíTy prouve a Deos , que em pouco efpaço morre rom de- 
zafete , mas efto nom foi fem grande canfaço dos noíTos , pe- 
lo qual começavam d'afracar, efpecialmente quando confín- 
vaõ , que a força dos contrários feria cada vez muito mayor; 
caa aíTy como o dia creceíTe , aíTy lhes creceriam as ajudas , 
como jaa começavam de ver per obra , porque olhando per 
huma parte da ferra contra Marbella virom vir alguns de ca- 
vallo , pelo qual começárom de volver as coitas , ao que Gon- 
çalo Velho nom podia per alguma guifa reliítir , atá que lhe 
conveio de os ameaçar ferindo-os , como quem lhe queria 
moftrar, que fe a obediência lhe nom guardaífem , que lhes 
faria quanto dapno pudefle : e porem coftrangidos mais do te- 
mor, que da vergonha ouverom-fe de reteer. Co gente fra- 
ca em que nom ha nenhnma efperança de fee , nem de virtude , 
diífe clle, e que temor he ejle , que vos abate , porque tam 
mesquinhamente quereis acabar * ca fe per ventura vos podereis 
f alvar fugindo , certamente eu nom vos poria tanta culpa, mas 
vós vedes , que daqui ao maar ha huma legoa , e como efles de 
cavallo começam de recrecer • e que fegundo vojfo canfaço vós 
nom podereis fahir , que vos primeiro nom matajfem fugindo co* 

mo 



do Conde D. Pedro* ? i 3 

ino ovelhas derramadas , e nom digo ainda que nom poderíeis fu~ 
vir aos encavalgados , más aos outros de pèe ; ca vós per de fies 
tmfono , e andafies ejle caminho armados pelejando tanto e/paço ± 
que ligeirice penfais , que vojfos pees poffdm cobrar , per que pof- 
Jais aver voffas vidas em fegurança \ pois tornemos alli antre 
aquelles vallados , onde poderemos comprar nojfas mortes como 
homens , em que ha verdadeira Fee Chriflaa , e nobreza de co~ 
rações : O* o que vitupério feria , vós outros , que tantas vezes 
pelêjaftes em maar , e em terra , averdes ajfy villãamente d'- 
acabar vojfos derradeiros dias. Os Mouros entretanto alegres 
com efperança da vitoria, que efperavam receber, davam 
bem lugar ao repouzo dos Chriítios , aíTy pelo canfaço , 
que tinham , como porque penfavam , que a tardança lhes 
nom era dapnofa pelas ajudas , que lhes cada vez mais aviam 
de crecer , o que prefumiam ? que aos noflbs feria pelo contra- 
rio nom fabendo , que da parte de Caftella lhes podia vir 
ejuda: e eftando Gonçalo 'Velho naquelías razões começan- 
do d'acaudellar fua gente peta comprir , o que antes razoa- 
va , nom porém fem grande trifteza dá mayor parte daquel- 
les j que o aviam de feguir , penfando , que aqiielle era o 
feu derradeiro dia , virom alguns vir gente de cacallo a rof- 
to de f y : O 9 o , diíferom aquelles como fe o nójfo dapno Je quer 
anticipar , vede onde vêem os enxecutores de nojfa jujliça tem~ 
peral ; no que todo-los outros ouverom d'entender ; e Gon- 
çalo Velho conhecendo , que aquelles eram os Chriftãos , co- 
meçou de fe vir contra aquelles , que tinha acerca de fy. 
Tanto fora , diíTe elle , fe vos outros jeguir ais voffo temor, on- 
de vos a ajuda dos amigos nom poderá aproveitar , vede por qual 
éfpaço fie ar ais em tamanha mingo d , ora vos alegrai , pois alli 
tendes a fegurança do danno , qué tanto r et e avais. Os feus pê- 
ro lhe aqucllo ouvi (Tem tanto lhes era de bem , que o naõ 
eriaò. Vede, diíTe Gonçalo Velho, como alli vêem Pendões y 
que trazem pontas , o que nenhuns Mouros uzam trazer : e 
fehdo todos certificados da verdade àvivarom-fe tanto , que 
começaroma terceira peleja com os contrários , em que mor- 
re- 



£14 C H R Ò N t C A 

rerom quinze, e forom cafy todos feridos, e aíTy chagados 
fe tornarom outra vez a acolher á fua altura. E tanto que 
os de Caítella chegarom , e virom aífy as ervas do campo 
regadas de fatigue , e os corpos dos imigos efpedaçados de 
cada parte, e os noíTos cafy todos feridos , huns que deínua- 
vam feus corpos por tirarem as camizas , com que faziam 
fuás ligaduras , outros que fe alimpavaò alTy do feu fangue , 
como do alheio , nom podendo por entom aver outra me- 
zinha , fenaó aquella , que lhes a natureza quizeíTe trazer; e 
como quer que tantos foíTem feridos , prouve a Deos , que 
todo o dapno fe tornou em hum , que ouve ventura de mor- 
rer , o qual parece , que quiz Deos , que fe pafíaífe ao ou- 
tro Mundo , pêra ver como íe aquelias tantas almas dos in- 
fiéis hiam á derradeira pena efpiritual. Ora , diíTe Gonçalo 
Velho contra aquelles Fidalgos , e gente , que com elles vi- 
nha , vamos logo a eftes Mouros , ca nom he tempo de lhes dar? 
mos vagar ajfy pelo canfaço , em que eftam , como pelo focor^ 
ro , que lhes nom pode tardar. Hé necejfario , refponderom el- 
les , que ajamos de dar folga a nojfas heftas , que fao muito 
trabalhadas da grande jornada , que andamos ; caa dês onte ao 
ferao mm ouvemos alguma folga, caajom daqui a nojfas forta- 
lezas dez legoas grande: , e pêra [ermos aqui cedo era necejfa- 
rio trigarmos o andar : decendo-fe logo per dar cevada a íeus 
cavallos ; e Gonçalo Velho antretanto rcpartio fua gente , e 
ametade poz antre os Mouros , e os Gaftellaos , e com a ou- 
tra metade fez poer fogo aaquella Aldeã , na qual avia até 
trezentos Mouros , e pêra feu dapno fer mayor ? acertárom 
alli muito linho , com que o fogo mais ligeiramente fubia 
aas outras coufas : e parece que ao fahir d'Aldea , que os 
Mouros fezerao , alguns moços , e velhos fe cfcpndiam an- 
tre os montes daquelle linho, ou nas cazas em alguns lu- 
gares efcuzos ; e quando fe *o fogo começou d'atear , afo- 
garom-fe alli todos , bradando porem primeiro muy dorida- 
mente : e como quer que aquillo foíle Aldca , avia alli po^ 
rem muy nobres cazas ; caa eram aquelles Mouros homens , 

que 



do Conde D. Pedro. ^i? 

que tratavam com gente nobre , e que aviam riqueza , corti 
a qual viviam em razoada policia , efpecialmente avia a me- 
lhor Mefquita , que íe fabia em toda aquella terra, a qual 
com toda a outra nobreza das cazas , em aquelle dia pere- 
ceo per fogo. Oo com quantas lagrimas parlavam aquelles 
Mouros á vifta de tamanha perdição , ca viam tamanhas cha- 
mas accefas , fobre o que elles em tanto tempo corregerom ; 
e emfim vendo como a Aldeã era toda queimada, e quejaa 
mais alli nom podiam aproveitar , ante fazer dapho fe o fo- 
corro vieíTe , efpedio-fe Gonçalo Velho daquelles Fidalgos $ 
e os feus começarão de carregar daquellas trouxas , que acha- 
vam pelo campo, de que hy avia grande avondança , porquê 
a fraíca , que os Mouros levavaó , cafy toda ficou alli , pêro 
muitosj levarão aquella roupa debalde, porque muita lhe con- 
veio leixar na ribeira, porque os Governadores nom oufa- 
rom de a tomar toda por naó fazer balanço , fe tromenta fo- 
brevieíTe , ou lhe convieíTe feguir algum Navio , que fe qui- 
zeífe efpedir per vellas, como naó tardou muito, que lhes 
aconteceo ; porque partindo dalli de noite encontrou com 
hum Carracaõ de Mouros , que hia carregado de trigo , o 
qual Gonçalo Velho mandou enveftir ; e pêro que fe os Mou- 
ros açaz defendeíTem , ouverom de fer filhados , o qual Gon- 
çalo Velho levou a Cepta , em tempo que a neceffidade era 
grande de mantimento em aquella Cidade ^ onde Gonçalo 
Velho , como nobre Gavalleiro que era , deu aaquelles min- 
goados toda fua direita parte ; e os outros da companha ven- 
derom a fua a menos preço , como os taes homens foem de 
fazer de femelhantes ganhos ; e aíTy forom abaftados , até 
que lhes levarom o mantimento deftes Regnos* 



CA* 



$16 Chêonica 

> 

CAPITULO X 

Como Álvaro Fernandes Pallenço, e Marfim Vazqaes 
Pejlana pelêjarom no maar. 

POr eítes dapnos , que os Mouros continuadamente re- 
cebiam no mar , vendo como lhes era neceffario paíTar 
de huma parte a outra, ouverom de fazer Navios efpeciaes ; 
e eito fe fez muito mais em Tanger , que em outro Lugar 
daquella Cofta , entre os quaes foraó feitas três Fuftas , que 
armarom da melhor gente , qua antre fy acharom \ e o pri- 
meiro Capitão delias era aquelle valente Corfario , que fe 
chamava o Efnarigado ; e em outra hia Abenzagaõ ; e em a 
terceira hia outro Mouro, que fe chamava Bocar Caudil. E 
feguio-fe que neíte tempo ouve o Conde Dom Pedro novas 
como fe carregavaô em Málaga huma Fufta , e alguns Ca- 
revos de grafia mercadaria • e por quanto Andres Marti m , 
e AfFonfo Garcia eram enfermos , mandou correger fuás Fuf- 
tas , nas quaes mandou por Capitão hum feu criado , que 
chamavam Martim Vazques Peílana homem oufado ilos pe- 
rigos ; e outro que fe chamava Álvaro Fernandes Palenço 
grande homem em pelejas de mar; e na terceira foi Álva- 
ro Fernandes do Cadaval : a eit.es três Capitães chamou o 
Conde , e amoeftou-os , que teveíTem tal avifamento , que 
per fua mingoa nora fe recreceíle algum perigo á outra com- 
panhia , avifando-os da maneira , que teveíTem em fua via 
gem , os quaes bem eníinados do que lhes compria , como 
fobreveio a noite partirom da Cidade, e fendo tanto avan- 
te como Bulhões , hum daquelles Navios , a que chamavam 
o Rapozo hia largo ao mar, e as outras feguiam atras, e 
pouco ante fy virom fuzilar : Certamente , diíTe hum , efto 

Cof- 



do Conde D. Pedro. ^ \j 

Cofiar tos fao, no que fe acordarão dous delles , mas ao ter- 
ceiro pareceo , que feriam ondas do maar, que quebravam 
ai li. As Fuftas dos Mouros norn fomente eram aqueilas três , 
que jaa nomeámos , mas ainda outras três , que fe a ellas 
ajuntarom , pêro todas de Tanger, as quaes tanto que fcn- 
tirom os nofíbs Navios , e conhecerom a grandeza de cada 
hum , repartiram-fe como fentiraô , que compria , a faber , 
as mayores aa mayor , e as mais pequenas aas mais peque- 
nas : e brevemente quando as nofías ouverom conhecimento 
das Fuftas dos contrários levarom remo , pêro quando as vi- 
rom vir avivadas contra fy , e virom que fe chegavam a el- 
les vogarom por diante, e duas aferrarom per proa, e hu- 
ma ao quarto banco ; e fendo aíly aferrados dous Navios a 
hum , porque o Rapozo era ainda ao largo , como fentio a 
peleja voltou fobr'elles , e enveftio huma das Fuftas aífy ri- 
jo , que meteo os efporões todos em ella , em tal guifa que 
a mayor parte da gente foi ao maar ; e como era noite , e 
a outra gente pelejava , nom poderom entender na falvaçuó 
daquella , de guifa que todos aquelles morrerom afogados: 
e quando fe o Rapozo perlongou iguou-fe com a outra Fufta 
lua parceira , e penfando que era de Mouros começarão de 
pelejar; mas quando fe reconhecerom jaa muitos eram feri- 
dos , e foi bem pêra a Fufta pequena , porque fe muito tar- 
dara de fe conhecerem fora de todo perdida. A Fufta gran- 
de dos Mouros foi enveftir o Rapozo per popa , e a outra 
Fufta veio da outra banda , pêro como o conheceo nom quiz 
meter-fe com elle , fabendo , que faria com feu dapno , e acu- 
dia logo alli outra mais grande , e Abenzagam penfando ter 
avantagem lançou hum arpéo de ferro , e outro de páo na 
Fufta , e foi alli huma peleja muy grande, ainda que muito 
nom duraíTe. Os noíTos faltarão em huma das Fuftas, e en- 
xorarom-na toda antre os que matarão , e os que fezerom faltar 
ao maar , que nom ficáraó fenom três , que ainda depois 
do vencimento forom achados efeondidos , e aífy ficava a pe- 
leja cafy igual: peroo os Navios, que inda nom eram ven- 
Tom. II. Ttt ci- 



5Ti8 Chronica 

eidos eram os principaes ; e em que eftavarn aquelles que 
mais fabiam da guerra, e começou-fe alli a peleja como de 
novo ; e por certo que aíTy de huma parte , como da outra 
fe partiam as armas fem doo: o arruido era tam grande, e 
os golpes tam empregados , que nom parecia fe nem ferra- 
ria , que na rua d'alguma Cidade faz defvairado fom : po- 
rem aquelles bons Capitães com alguns , que fe eftrcmáraó 
antre os outros Chriftaos íaltarom em huma Fufta dos Mou- 
ros , e enxorarom-na toda , que nom ficou nenhum homem 
vivo fobre a coberta , e em efto os outros Chriftaos , que ci- 
tavam na proa enxoraram as outras , até cerca d'ametade : e 
parece que nenhuma das Fuftas nem lançou arpéo ; c por- 
que huma jazia empachada da outra benda com o Rapozo, 
e com a outra Fufta pequena , nom fe pôde tam aíinha fahir 
pêra hir aas outras , e em efto enveftio outra Fufta grande 
o Rapozo per popa, e ally começarom como de novo a pe- 
lejar , e faltou logo dentro hum Efcudeiro , a que chama- 
vam Pêro Affbnfo , e afly outro Efcudeiro aposelle, os quaes 
eftavarn na popa do Rapozo , e aíTy trabalharom ambos , que 
enxoráraõ a Fufta até o mafto , e parece , que parte d'alguns 
bons homens , que eftavarn acudirom aa proa , antes que os 
efta Fufta enveftiíTe pelas outras , que eram de proa , e acer- 
tou-fe , que nom faltarom com os outros , e os Mouros co- 
mo virom , que de tam poucos eram vencidos , acudirem ri- 
jamente , e matarom a Pêro Aífonfo , e o outro faltou fora , 
e efeapou : e em efto a Fufta dos Mouros refufou atras , e 
refufando o remo começou de fe fahir : e por certo que fe 
os que hiam no Rapozo foram uzados em peleja do maar , 
que f