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Full text of "Collecçaõ de livros ineditos de historia portugueza : dos reinados de D. Joaõ I., D. Duarte, D. Affonso V., e D. Joaõ II"



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Presented to the 

USKASLYofthe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 



INÉDITOS 

D E 

HISTORIA PORTUGUEZA. 



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srau .or 




COLLECÇÃO 

DE LIVROS INÉDITOS 

DE HISTORIA PORTUGUEZA, 

DOS REINADOS DE 

D. DINIS , D. AFFONSO IV. 
D. PEDRO I. E D. FERNANDO. 

PUBLICADOS DE ORDEM 

DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 

DE LISBOA. 

PELA COMMISSÃO DE HISTORIA 
DA MESMA Academia. 



Obfcurata diu populo , bónus eruet , atqtte 
Proferet in lucem Hor, 

T O M O IV. 




LISBOA 

NA OFFICINA DA MESMA ACADEMIA. 

ANNO M.DCCC.XVI. 

€<m licença de S. ALTEZA REAL. 



Tm 



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a 



-A X ^. 







PRIVILEGIO. 



E 



fU a RAINHA Faço saber aos que este Alvará virem: 
Que havendo-me representado a Academia das Sciencias esta- 
belecida com Permissão Minha na Cidade de Lisboa , que cora- 
prehendendo entre os objectos , que fórmáo o Plano da sua 
Instituição , o de trabalhar na composição de hum Dicciona- 
rio da Lingoa Portugueza , o mais completo que se possa pro- 
duzir ; o de compilar em boa ordem, e com depurada esco- 
iha os Documentos , que podem illustrar a Historia Nacional , 
para os dar á luz ; o de publicar em separadas GoUecçóes as 
Obras de Litteratura , que ainda não forão publicadas ; o de 
instaurar por meio de novas Edições as Obras de Auctores de 
merecimento , e cujos Exemplares forem muito antigos , ou 
se tiverem feito raros ; o de trabalhar exacta e assiduamente 
sobre a Historia Litteraria destes Reinos; o de publicar as 
Memorias dos seus Sócios, das quaes as que contiverem no- 
vos descobrimentos , ou perfeições importantes ás Sciencias, 
e boas Artes serão publicadas com o titulo de Memorias da 
Academia , ficando as outras para servirem de matéria a se- 

* pa- 



-^3 ^ ti^ 

paradas e distinctas Collecçõ^si y nas (juaes se dê ao Publico 
em Extractos e Traducçocs periodicamente tudo , o que nas 
Obras das outras Academias , e nas de Auctores particulares 
houver mais próprio, ejjigno.da Instfucção Nacional • e fi- 
nalmente o de fazer comf^ôr f e pubHcar hum Mappa Civil 
e Littcrario , que contenha as noticias do nascimento , em- 
pregos , e habitações das Pessoas principaes , de que se com- 
põem os Estados destes Reinos , Tribunaes, ou Juntas, de 
Administração da Justiça , Arrecadação de Fazenda , e outras 
particulares noticias , na conformidade do que se pratica em 
outras Cortes da Europa : E porque havendo de ser summa- 
mente déspendiosas , tantas, e tão numerosas ás Edições das 
sobreditas Obras, seria fácil que a Academia se arriscasse a 
baldar a importante despeza , que determina fazer nellas ; se 
Eu não nr.e dignasse de privilegiar as suas Edições, para que 
se lhe não contrafizessem , nem se lhe reimprimissem contra 
sua vontade , ou mandassem vir de fora impressas , em de- 
trimento irreparável da reputação da mesma Academia , e das 
consideráveis sommas que nellas deverá gastar : Ao que tudo 
Tendo consideração , e ao mais que Me foi presente em Con- 
sulta da Real Meza Censória , á qual Commetti o exame des^ 
ta louvável Empreza ; Querendo animar a sobredita Acade- 
mia , para que reduza a eíFeito os referidos úteis objectos , 
que o estão sendo da sua applicação : Sou servida Ordenar 
aos ditos respeitos o seguinte : 

Hei por bem, e Ordeno, que por tempo de dez dnnos, 
contados desde a publicação das Edições , sejão privilegiadas 
todas as Obras, que a sobredita Academia das Sciencias fizer 
imprimir e publicar j para que nenhuma Pessoa our seja natu- 
ral, 



X 






ral , ou existente , e moradora nestes Reinos as possa mandar 
reimprimir y nem introduzir nelles sendo reimpressas em Pai* 
zes Estrangeiros : debaixo das penas de perdimento de todas 
as Ediç6es que se fizerem , ou introduzirem em contraven- 
ção deste Privilegio , as quaes serão apprehendidas a favor 
da Academia ; e de duzentos mil reis de condemnaçao , que 
se imporá irremissivelmente ao transgressor, e que será appli- 
cada em partes iguaes para o Denunciante , e para o Hospi- 
tal Real de S. José. 

Exceptuo porém da generalidade deste Privilegio aquel- 
les casos, em que as Matérias , que fizerem o objecto das 
Obras que publicar a .Academia j apparcção tratadas com va- 
riação substancial, e importante; ou pelo melhor methodo, 
novos descobrimentos, e perfeições scientificas se achar yijue 
diíFerem das que imprimio a Academia : sendo o exame-re 
confrontação de humas e outras Obras feito na Real Meza 
Censória , ao tempo de se conceder a Licença para a im- 
pressão das que fazem o objecto desta Excepção : Encarre- 
gando muito á mesma Meza o referido exame ^ e confron- 
tação ; para consequentemente conceder , ou negar a Licen* 
ça nos casos occorrentes e circunstancias , acima referidas. 
Nesta Excepção Incluo as Obras particulares de cada hum 
dos Sócios ; porque estas só poderão ser privilegiadas , ou 
quando forem impressas á custa da Academia , ou quando 
os seus próprios Auctores Me supplicarem o Privilegio pa- 
ra ellas. 

Hei outro sim por bem , e Ordeno , que sejaò igual- 
mente privilegiadas pelo referido tempo todas as Edições ^ 
que a referida Academia fizer de Manuscriptos , que haja 

* ii ^d- 



^ 4 C^ 
áiJquirido : com tanto porém que delias nao resulte prejulíò 
ás Pessoas , que primeiro os houverem adquirido , ou lhes 
pertençáo pelos títulos de Herança , ou de Compra, e te- 
idião intenção de os imprimir por sua conta. E para que a 
este respeito haja alguma Regra , que attenda á utilidade 
publica , e á particular : Determino , que a Academia pos- 
sa imprimir os referidos Manuscriptos ) ou logo que mos^ 
trar que seus Donos não querem imprimillos ; ou que ha- 
vendo elles declarado quererem dallos á lu'^ , o nao fize- 
rem no prefixo termo de cinco annos , que neste caso lhes 
serão assignados para os imprimirem. 

Hei outro sim por bem , e Ordeno , que na generali- 
ílade do Privilegio , que a referida Academia Me supplíca y 
e lhe Concedo na sobredita conformidade para a reimpres- 
são das Obras ou antigas , ou raras , ou de Auctorcs exis- 
tentes , fiquem salvas as Obras , que a Universidade de Coim- 
bra mandar imprimir; ou porque scjão concernentes aos Es- 
tudos das Faculdades , que se ensinão nella ; ou porque sen- 
do compostas por Professores delia , as mande imprimir a 
mesma Universidade , como hum testemunho publico dos 
progressos, e da reputação litteraria dos referidos Professo- 
res: E fiquem igualmente salvas as outras Obras, que actual- 
mente estão sendo ou impressas , ou vendidas por algumas 
Corporações , e por Famílias particulares , e que nellas tem 
em certo modo cartstituido ha muitos annos huma boa par- 
te da sua subsistência , e património ; e a cujo beneficio 
Poderei privilegiallas ,, ou prorogar-lhes os Privilégios que 
tiverem. 

Hei por bem finalmente, e Ordeno , que na concessão 

do 

J 



siau 01 



^3 s B^ 

4o Priyilegio , qiíe igualmente Concedo na sobredita con- 
formidade, para a referida Academia publicar o Mappa Ci- 
vil e Litterario na forma acima declarada, fiquem salvos os 
Privilégios seguintes , a saber: o Privilegio concedido aos 
Officiaes da Minha Secretaria d«' Estado dos Negócios Es- 
trangeiros j e da Guerra para a impressão da Gazeta de Lis-^ 
boa: o Privilegio perpetuo da Congregação do Oratório pa- 
ra a impressão do Diário Ecclesiastico , vulgarmente chama- 
do Folhinha : e o Privilegio que Fui servida conceder a Félix 
António Gastrioto para o Jornal Enciclopédico : Para que 
em vista dos referidos Privilégios , e das Edições que fa- 
zem os objectos delles, se haja a Academia de regular por 
tal maneira na composição do referido Mappa Civil e Lit- 
terario , que de nenhum modo fiquem oíFendidos os mesmos 
Privilégios , que devem ficar illesos. 

E este Alvará se cumprirá sem duvida , ou embargo al- 
gum , e tão inteiramente , como nelle se contém. 

E pelo que: Mando á Meza do Desembargo do Paço, 
Real Meza Censória , Conselhos de Minha Real Fazenda , 
e Ultramar , Meza da Consciência e Ordens , Regedor da 
Casa da Supplicação , Governador da Relação e Casa do Por- 
to , Reformador Reitor da Universidade de Coimbra , Se- 
nado da Camará da Cidade de Lisboa, e a todos os Cor- 
regedores , Provedores , Ouvidores , Juizes ) Magistrados , 
e mais Justiças , ás quaeS o conhecimento e cumprimento 
deste Alvará por qualquer modo pertença , oií haja de per- 
tencer ; que o cumprao , guardem , facão cumprir ^ e guar- 
dar inviolavelmçnte , sem Ihç ser posto embargo , impedi- 
mento, duvida y ou opposição alguma, qualquer que ella se- 
ja: 



•H3 <^ S<- 

ja: para que a observância delle seja inteira, e tão litteral, 
como nelle se contem. E Mando outro sim ao Doutor An- 
tónio Freire de Andrade Enserrabodes , do Meu Conselho , 
Desembargador do Paço , eChanceller Mór destes Reinos, 
que o faça publicar na Chancellaria , e que por elia passe : 
ordenando , que nella fique registado , e que se registe em 
todos os lugares , em que deva ficar registado , e convenien- 
te for á sobredita Academia , para a conservação e guarda 
dos Privilégios , que neste Alvará lhe Tenho concedido. 
Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda aos vinte c 
dois de Março de mil setecentos oitenta e hum. 

RAINHA ; 



Visconde de Villanova da Cerveira. 

Ahará pelo qual Vossa Magestade , pelos motivos nelle mefj' 
clonaáos , Tia por bem conceder à Academia das Sciencias , esta- 
belecida com a Sua Real Permissão na Cidade de Lisboa , o Pri' 
"vilegio por tempo de dez amios ; para poder imprimir privativa» 
mente todas as Obras , de que faz menção : com excepções e modifi- 
cações , que vão nelle expressas \ e com as penas contra os trans- 
gressores do referido Privilegio* Tudo na forma acima declarada* 



Para Vossa Magestade ver. 



•^ 7 ç^ 

Recistaclo nesta Secretaria de Estado dos Negócios do Reino eirl d 
LiV. VI. das Cartas, Alvarás, e Patentes a fl. 93 3^. Nossa Senhora da 
Ajuda 7 de Maio de 1781. 

• -^ . Joaquim José Borralho. 



António Freire d' Andrade Ériserrahodei Grátis. 

Foi puBl içado este Alvará na Chancellaria Mor da Corte e Reino j 
pela qual passou. Lisboa de Maio de 1781. 

D. Sebastião Maldonado, 



Piíblique-se ^ « registe-se nos Livros da Chan- 
cellaria Mor do Reino. Lisboa 18 de Maio de 1781. 

António Freife d' Andrade Enserrabodes, 

Registado na Chancellaria Mor da Corte e 
Reino no Liv. das Leis a fl. 34 j^. Lisboa 19 de 
Maio de 1781. 

António José de Mourât 
João Chrysostomo de Faria e Sousa de Yasconctllos de Sá o fez. 



Registado na Chancellaria Mor da Corte e Rei- 
no no Liv. de Officios e Mercês a fl. 68. Lisboa 21 
de Maio de 1781. 

Matheus Kodriguçs Viatina* 

J 



INDEX 

DOS 

ARTIGOS QJJE NESTE VOLUME SE CONTÉM. 

jjlfcurfo Preliminar , e Introducção às Chronicas de 
Fernão Lopes, Pag, vii 

I, ( aliás IX. ) 

Chronica <f ElRey D. Pedro L por Fernão Lopes. - - - - 3 

n. (aliás X.) 

Chronica à^ ElRey D, Fernando ^ pelo mesmo Autor, - - - 123 

III. (aliás XI.) 

Foros antigos d^ alguns Concelhos de Portugal. ?----■ 5*3 1 



• I 



va 



DISCURSO PRELIMINAR, 

E INTRODUCqÃO AS CHRONICAS DE FERNÃO LOPES. 

QUando no anno de 1 8 1 3 se estabeleceo na Aca- 
demia Real das Sciencias huma Commissão per- 
manente de Historia Portugueza , composta dos 
Senhores António Caetano do Amaral, João Pedro 
Ribeiro , Francisco Ribeiro Dosguimaraes , e de mim , 
julgou logo esta Commissão, que devia attender ao 
mesmo tempo adous objectos muito interessantes para 
a illustração da mesma Historia : a saber , a publicação 
dos documentos inéditos , que se achao espalhados pe- 
los principaes Cartórios do Reino, de cujos transum- 
ptos a Academia havia já formado a sua amplissima 
Collecção ; e a continuação da outra Collecção dos Li- 
vros também inéditos de Historia Portugueza. O que a 
Commissão tenha feito acerca do primeiro objecto, e 
que causas tenhão retardado aquella tão desejada publi- 
cação , não he deste lugar declarallo ; mas só tratar do 
que pertence ao segundo objecto, que he a continua- 
ção da impressão dos Livros inéditos de Historia; obra 
emprendida com óptimo conselho pelo nosso illuftre 
Consócio o Snr. José Corrêa da Serra , por elle sabia- 
mente executada nos três primeiros volumes desta Col- 
lecção j, mas interrompida ha não menos de vinte e três 

* I ii an- 



VIII 



annos , com universal sentimento dos Portiiguezes estu- 
diosos, que agradecidos a pátria feliz que lhes deo o 
berço, desejao ver por este modo perpetuada a sua in- 
teressante Historia. *^PÍO 

, , Para a continuação pois deste trabalho , julgou a 
Commissão que devia primeiramente publicar a Chro- 
nica d'ElReiD. Fernando, já de longo tempo promet- 
- tida ao pubhco, e cuja edição fora commettida pela 
Academia ainda nascente a hum Sócio de grandes e pro- 
veitosos estudos , qual era o Síír. Joaquim de Foyos ( i) . 
Comtudo a copia da referida Chronica , que este Só- 
cio havia mandado tirar pelo exemplar do Real Archi- 
vò , foi feita com tão pouca exacção , que não era 
possível tomar-se como fundamento de huma edição 
correcta : o que sem duvida lhe fez então levantar mão 
daquella empresa , e tornou agora inútil a copia por el- 
le offerecida. 

Porém quando a Commissão cuidava em fazer ti- 
rar hum novo traslado da mesma obra, logo lhe oc- 
correo, que a publicação das antigas Chronicas dos 
nossos Soberanos ficaria a pezar disso incompleta , se 
não se imprimisse também a d' El Rei D. Pedro I. que 
no Códice do Real Archivo , e em muitos outros , an- 
da junta com a de seu Filho , e que forma com esta 
hum mesmo corpo de Historia , escrita com hum mes- 
mo estilo , e sem duvida por hum mesmo autor. E na 

ver- 

(i) Discurso Preliminar, no principio do Tom. i. da Collecçâo 
de Livros inéditos. Ada da AíTembléa particular de 7 de Junho de 
1780. 






IX 

verdade , posto que a Chronica d' ElRei D. Pedro se 
nâo repute vulgarmente inédita , depois que no Século 
passado a publicou o Padre José Pereira Bayão , foi 
tão demasiada a liberdade que este Editor tomou na 
publicação daquella obra , que pareceo absolutamente 
necessário consideralla ainda como realmente inédita, 
e fazei la preceder no presente volume á de ElRei 
D. Fernando (i) . 

Qiie Fernão Lopes , o patriarcha dos nossos His- 
toriadores , fosse o verdadeiro e único autor destas 
duas Chronicas , e não Gomes Eanes , nem Rui de Pi- 
na 5 parece provar-se com bastante certeza , pela con- 
frontação das mesmas Chronicas com a d' ElRei D. 
João I. que indubitavelmente he obra da sua penna : 
mas são tão escacas as noticias que da pessoa de Fer- 
não Lopes se achão nos nossos Escritores , e tão diver- 
sos os juizos destes á cerca das Obras que elle com^ 
poz 5 e dos verdadeiros autores das Chronicas dos nos- 
sos Soberanos até ElRei D. Affonso V. que não me pa- 
receo impróprio tratar primeiro destes dous assumptos 
na presente Introducção; declarando no fim delia âi 
maneira , por que a Commissão procedeo na edição 
das duas Chronicas , que agora dá á luz. 

Em quanto ás noticias da pessoa de Fernão Lo- 



pes 



5 



(i) O Padre José Pereira Bayão declara no titulo da Obra , que 
esta Chronica fora copiada fielmente do seu original antigo \ e no 
Prologo novo ao Leitor ( que vem na segunda Edição ) diz , que 
ella só. levava de novo a mudança de alguma syllaba ou letra, A 
actual publicação da mesma Chronica torna inútil o exame, que s6 
poderia fazer á cerca da pouca sinceridade destas expressòcs. 



X 

pesy seguindo o exemplo dado nas Introducçoes, que 
se imprimirão nos antecedentes volumes , deixarei o 
que se acha escrito a este respeito em autores mais 
modernos 5 aproveitando tão somente o que disserão os 
coevos a elle, e o que se pode encontrar nos docu- 
mentos da Torre do Tombo , ou de outros Cartórios. 
iX^Li. E primeiramente o testemunho mais conspicuo a 
cerca de Fernão Lopes , he o que nos deixou escrito Go- 
mes Eanes de Zurara, seu contemporâneo, e succcssor 
no cargo de escrever as Chronicas dos nossos Reis ; 
dizendo 5 que elle fora huma notável pessoa ^ homem de 
communal sciencia e grande autoridade j escrivão da pu- 
ridade do Infante D, Fernando-^ ao qual ElRei D 
Duarte em sendo Infante , cometteo o cargo de apanhar 
os avisamentof que pertencido a todos aquelles feitos (da 
demanda entre o Reino de Gastei la e Portugal ^) e os 
ajuntar e ordenar , segundo pertencia à grandeza delles , 
€ autoridade dos Principes , e outras notáveis pessoas , 
que os fizer do ( i ) . 

Do prim.eiro cargo de Escrivão da puridade do 
líifante D, Fernando, Irmão d' ElRei D. Duarte, fa- 
zem menção alguns documentos públicos daquelle tem- 
po (2) • e d'outros consta , que também fora Secretario 
do mesmo Rei , quando Infante (3); a quem sem du- 

vi- 

(i) Chron. d' ElRei D. João I. Part. ^. cap. 2. 

(2) Liv. 10 da Chancellaria de D. Affonfo V. foi. ;o. 

(3) Certidão de 12 de Dezembro da era de 1456. (an. 141 8.) da 
qual o Snr. João Pedro Ribeiro vio huma copia antiga •, e que por 
ventura íerá a mefma Provisão daquella era , que cita Joíé Soares da 
Silva , no Prologo ás Memorias para a WJloria d^ ElRei D, João I. 



vida por isso erao tão conhecidas as eminentes qualida- 
des delle Fernão Lopes, que não duvidou incumbillo 
do trabalho de escrever as Chronicas dos nossos So- 
beranos. Comtudo muito antes de receber este empre- 
go de Chronista, era Fernão Lopes encarregado de 
outro de muita importância, e confiança, qual era o 
de guardar as Escrituras do tombo , que estavão na 
Torre do Castello da Cidade de Lisboa , e dar os tras- 
lados delias: emprego que ainda hoje he conhecido 
com o nome de Guarda Mor da Torre do Tombo, 
cuja origem vem daquelles tão remotos tempos. 

Daquella Torre do Castello de Lisboa faz men- 
ção Fernão Lopes , nas Chronicas d' ElRei D. Pedro L 
e D. Fernando; e lhe dá o nome de Torre alvarra, 
ou de Torre do aver, por isso que fora construida a 
fim de guardar o Thesouro dos nossos Reisj e acre- 
centa, que delia tinhão as três chaves o Guardião de 
S. Francisco , o Prior de S. Domingos , e hum Bene- 
ficiado da Sé (i). ElRei D. Fernando foi o primeiro 
que mandou guardar nesta Torre o archivo geral do 
Reino, que até então parece não havia lugar perma- 
nente e fixo ; julgando natural e coherente , que as 
Escrituras publicas , as quaes faziâo huma parte do 
Património Real , estivefl^em conservadas no mesmo 
lugar do Thesouro , e commettidas á vigilância dos Of- 
ficiaes da Fazenda , aos quaes já então pertencia a guar- 
da do mesmo Thesouro. Por este novo destino que t^- 

(i) Chron. de D. Pedro I. cap. 12. Chron. de D. Fernando, no 
principio, e cap. 48. 



/ 



XII , 

ve aqiiella Torre , veio também a chamar-se do tom- 
bo , como já pelo primeiro destino se tinha chama- 
do do aver. 

O Snr. João Pedro Ribeiro , na Obra Ms. que 
tem por titulo Memorias authentkas para a Hijloria 
do Real Archivo da Torre do Tomho , produz a serie 
dos primeiros encarregados da guarda daquellas Escri- 
turas 5 começando-a em João Annes , Vedor da Fazen- 
da, que servia pelos annos de 1378 ; e continuando-a 
em Gonçalo Esteves , Contador dos Contos.de Lisboa , 
que no anno de 1403 foi encarregado do serviço da 
Torre 5 vencendo o mantimento e vestir como os mais 
Contadores , ainda que não trabalhasse nos Contos : ao 
qual se seguio seu filho Gonçalo Gonçalves , Conta- 
dor dos Almoxarifados de Setúbal e Óbidos, que no 
anno de 141 4 foi incumbido do mesmo serviço, as- 
sim como fora incumbido seu Pai , então fallecido ; re- 
cebendo igualmente a quantia de mil libras por cada 
escritura que buscasse, e de que desse Carta assinada 
por sua mão. 

Além deste documento que fica substanciado (i), 
existem outros no Real Archivo , por onde consta que 
Gonçalo Gonçalves exercitava aquelle emprego nos an- 
nos de 1417 (2), e 141 8 (3); porem em Novem- 
bro deste ultimo anno já delle estava de posse Fernão 

Lo- 



(i) Carta de 2 de Janeiro da era de i45'2. Livro 5 da Chancella- 
da d'ElRei D. João I. f. 88 % 

(2) Maço 3. de Foraes antigos , N. 14. 

(3) Gay, 15". Majo 22. N. 23. 



xiir 

Lopes 5 a quem em 29 do mesmo mèz 5 e era de 
14565 foi dirigido hum Alvará d' ElRei , pelo qual 
expedio huma certidão a requerimento do Mosteiro 
de Refoios de Basto , em data de 1 2 de Dezembro 
da mesma era , por elle assinada , e seliada com o 
sei lo dos Contos (i). 

Assim, posto que nao tenha até agora appareci- 
do a Carta, pela qual ElRei D João I. encarregou a 
Fernão Lopes da guarda do Archivo Régio ; e por isso 
se ignorem as causas e circunstancias desta nomeação ^ 
sabe-se com certeza , que ella tivera lugar no anno de 
141 8, e ainda em vida de Gonçalo Gonçalves (2); 
donde se pode conjecturar, que aquelle Rei quizera 
tirar inteiramente este cargo aos Officiaes da Fazenda , 
dando-o de propriedade a pessoa de tão relevantes qua- 
lidades , como era Fernão Lopes , já então Secretario 
de seus dous filhos os Infantes D. Duarte, e D. Fer- 
nando. 

Desde o anno de 141 8 até o de 1454 appare- 
cem no Real Archivo da Torre do Tombo , e em ou- 
tros Cartórios , muitas Certidões de documentos , ex- 
pedidas por Fernão Lopes nos três Reinados succes- 
sivos de D.João I. D. Duarte, e D. AíFonso V. (3): 
_ * 2 nes- 

(i) Copia antiga , allegada pelo Snr. João Pedro Ribeiro, na Obra 
citada. 

(2) Em 26 de Fevereiro do anno de 1426 ainda ElRei lhe diri- 
gia huma Carta , acliando-se elle por ordem sua na Cidade do Por- 
to. Liv. A da Camará do Porto , foi. 73 )^. 

(3) Em 8 de Dezembro da era de 1458. (an. 1420.) Gav. 8. 
Maço 3. N. 3. 

Em 18 de Julho do anno de 1425. Gav. 17. Maço 2. N. 8. 



XIV 

nestas Certidões declara-se commummente , que forao 
passadas das Escrituras da Torre do Castello da Cida- 
de de Lisboa por Fernão Lopes , a que desto be dado 
seu espicial encarrego de guardar as chaves das dietas 
escripturas ^ e dar o traslado delias (i). Outras vezes 
porém diz-se o mesmo Fernão Lopes : Vassallo d'ElRei , 
guardador das dietas escripturas (2) : ou também guaj^- 
dador das nossas escripturas do tonbo , que estam no 
Castello da Cidade de Lixboa (3) . Em quanto aos 
próçs deste emprego , só sabemos o que vem no re- 
verso d'huma daqueJlas Certidões , onde se declara 
feito o pagamento de 500 libras (4) ^ emolumento 
que só era metade do que vencião Gonçalo Esteves, 
e Gonçalo Gonçalves ; talvez por isso compensado com 
maior augmento de mantença ou ordenado, ou com 
outros despachos extraordinários : o que faz lembrar , 
que seria este Fernão Lopes o mesmo , a quem ElRei 

D. 



Em 8 de Agosto do mesmo anno. Mace ii de Foraes antigos, 
N. 7. . ' ^ 

Em 8 de Maio do anno de 1433. Hist. Geneal. Tom. 4. pag. 31 , 
e 32. 

Em 6 de Outubro do anno de 1435'. Gav. 8. Maço 3. N. 8. 

Em 8 de Setembro do anno de 1439. Gav. 15'. Maço 8. N. 10. 

Em 4 de Março do anno de 1440. Maço 9. de Fora es antigos-, 
N. 9. 

Em 26 de Maio do anno de I45'0. Cartório da Casa de Sort^ 
iha, na de Abrantes. Maço 15. Letra E. N. 4. 

Em 12 de Maio de 145" i. Gav. 14. Maço 2. N. 12. 

(i) No Documento da era de 145:8. 
• (2) Nos Documentos dos a nnos de 1433, ^439' ^45"^' 

(3) Liv. 10 da Chanceilaria de D. AfFonso V. foi. 30. 

(4) No Documento do anno de 1435". 




XV 



D. João I. por Carta sua fez doação para sempre de 
hiimas casas , que estavâo na ribeira de Faarom do Al- 
garve , e que havião sido de Pêro Rodrigues Castellão , 
o qual as perdera por ser em desserviço destes È.ei- 
iios andando com EiRei de Castella : pois esta doaçSo 
no suramario que conservou Gomes Eanes , se diz 
feita a Fernão Lopes morador em Lisboa (i) . 

Depois de trinta e seis annos de serviço efFectivo 
no archivo da Torre do Tombo , deo Fernão Lopes 
hum notável exemplo de honra, e de desinteresse, 
pedindo a demissão daquelle emprego ^ a qual lhe con- 
cedeo ElRei D. Affonso V. nomeando seu successor a 
Gomes Eanes de Zurara , e declarando na mesma Car- 
ta de nomeação , que por ser o dito Fernão Lopes jd 
tam velho e flaco , que -per fi nao pode bem servir o dl- 
to officio 5 o dava a outrem per feu prazimento , e por 
fazer a elle mercê , como he rafom de fe dar aos hoos 
fervidores (2) . 

Provavelmente interrompeo Fernão Lopes por es- 
te mesmo tempo o trabalho da composição das Chro- 
nicas do Reino , de que vinte annos antes fora encar- 
regado por ElRei D. Duarte; o qual no de 1434, 
primeiro do seu Reinado , por Carta feita em Santa- 
rém a 19 de Março , havia dado carrego a Fernão Lo^ 
pes feu efcripvam , de poer em caronyca as efiorlas dos 

* 2 ii Reys 



(i) Liv. I da Chancellaria de D. João I. foi. 7 5^. Col. 2. . 
(2) Carta de 6 de Junho do anno de I45'4. Liv. lo da Chan* 
cellaria de D. AíFonso V. foi. 30. 



XVI 

Reys que antygamente em Portugal forom ; ejjo mcef- 
mo os grandes feytos e altos do muy vertuojjo , e de 
grandes vertudes elRey feu fenhor e padre , cuja alma 
Deos aja : e por quanto em tal obra elle ha ajfaz tra- 
balho , e ha muyto de trabalhar , porem querendo-lhe 
agallardoar e fazer graça e mercee , manda que el aja 
de teença em cada hm ano em todollos dyas da fua vy- 
da 5 des primeiro dya do mes de janeyro que ora foy da 
\^ era dejla carta em deante , pêra feu mantymento quator^ 
ze mil libras em cada hm ano , pagadas aos quartees 
do ano. A qual Carta vem incliiida e confirmada nou- 
tra de D. AfFonso V. dada em Almadaa com autori- 
dade da fenhor a Raynha fua madre , como fua t et ora , 
e curador que he , e com acordo do Ifante Dom Pêro , 
seu tyo , defensor por el dos dictos Regnos e senhorio ; 
aos 3 de Junho do anno de 1439 (i). 

Não se sabe precisamente o anno em que mor- 
reo Fernão Lopes ^ sabe-se porém que ainda era vivo 
cinco annos depois de ter abdicado o cargo de Guar- 
da do Archivo Régio , já muito provecto na idade , 
e com descendência : o que consta d'huma Carta de 
ElRei D. AfFonso V. em data de 3 de Julho de 1 459 , 
pela qual lhe concede faculdade de dispor livremente 
de seus bens , não obstante a Carta de legitimação , 
que subrepticiamente tinha alcançado Nuno Martins , 
que dizia ser filho bastardo de Mestre Martinho , o 
qual era filho do dito Fernão Lopes (2) . 

Eis- 

(i) Liv. 19 da Chancellaria de D. Afír»rso V. foi. 22. 
(2) Liv. 36 da Chancellaria de D. AíFonso V. foi. 143. 



éiau 01 



xvir 

Eis-aqul o pouco que se sabe â cerca deste His- 
toriador. O tempo , ou a incúria dos que lhe succedè- 
rão consumio as outras noticias da sua vida ; e o mes- 
mo tempo e incúria , ou nao sei se acrecente , a inveja 
dos homens , consumirão também alguns dos seus es- 
critos , e cobrirão a memoria de todos com a nuvem 
da confusão e incerteza. Para desfazer esta nuvem , 
referirei primeiro o que se pode ter como certo á cer- 
ca das Chronicas que elie compoz; e notarei depois, 
quanto se desviarão do caminho da sinceridade , ou da 
veidade, aquelles dos nossos Historiadores , que ou 
omittírão este assumpto , ou o tratarão sem as luzes 
de huma sã critica. 

E primeiramente não se pode duvidar, nem que 
Fernão Lopes escrevesse outras Chronicas, alem da 
d' EIRei D. João I. nem que antes do tempo de Rui 
de Pina , e mesmo de Gomes Eanes , existissem já es- 
critas as Chronicas dos Reis passados , as quaes se não 
podem attribuir a outrem , que não seja Fernão Lopes. 
Com efFeito , já fica dito que ElRei D. Duarte , pos- 
to que lhe encarregasse especialmente a composição da 
Chronica de seu Pai , lhe commetteo ao mesmo tem- 
po pòr em escrito as Chronicas de todos os Reis pas- 
sados ; e devendo-se entender que começara esta obra 
no anno de 1434, consta que não só foi animado pa- 
ra a sua continuação no de 1439? mas ainda dés an- 
nos depois : por quanto EIRei D. AíFonso V. pelos 
grandes trabalhos que elle tinha tomado, e ainda ha- 
via de tomar, em fazer as Chronicas dòs Reis de 

Por- 




xvra 

Portugal 5 lhe assinou 500 reaes de mantimento em ca- 
da mez na Portagem de Lisboa , por Carta de 1 1 de Ja- 
neiro de 1449 (i). De maneira que contando-se vin- 
te annos desde o da nomeação de Chronista até o da 
sua demissão do lugar de Guarda do Archivo, que 
naturalmente seria a época em que cessarão com a sua 
vida publica os trabalhos litterarios, a que se desti- 
nara^ não se pode comprehender como estes trabalhos 
fossem tidos em tanta conta por ElRei D. Affonso V. 
se se limitassem á composição da Chronica d' ElRei 
D. João I. ficando essa mesma incompleta , e tal co- 
mo a achou o seu continuador Gomes Eanes. 

Além disto os trabalhos que reputava grandes 
ElRei D. AíFonso V. não podião ser outros , senão 
os que refere de si mesmo Fernão Lopes , e a elle 
attribue Gomes Eanes ; por quanto o primeiro diz que 
com muito cuidado e diligencia vira grandes volumes 
de livros e desvairadas lingoagens e terras , e isso mes- 
mo publicas escripturas de muitos cartórios e outros lu- 
gares , nas quaes depois de longas vigílias e grandes 
trabalhos , mais certidão aver nao pode do conteúdo em 
esta obra (a) . E Gomes Eanes diz de Fernão Lo- 
pes, que por ter começado a sua Historia tão tarde, 
que muitas pessoas já tinhão morrido , e outras estavão 
espalhadas pelo Reino, lhe fora necessário despender 
muito tempo em andar pelos Mosteiros e Igrejas bus- 

can- 
il) Damião de Góes, Chron. d' ElRei D. Manoel, Part. 4. 
cap. 38. 

(2) Fernão Lopes, Chron. d' ElRei D.João I. Part. i. cap. i. 



XIX 



cando os Cartórios e os letreiros delias , pêra aver fua 
informação ; e não fó em ejie Reino , mas ainda ao Rei^ 
no de Cajlella mandou ElRei D. Duarte bufcar mui- 
tas Efcrituras j que a ejlo pertenci ao (i) . Ora pos:o 
que estes Escritores pareçao applicar o que fica dito 
unicamente á Chronica d' ElRei D. João I. não lie 
crivei que a sna composição exigisse tão grande traba- 
lho 5 sendo feita por hum Autor contemporâneo 5 favo- 
recido daquelle Soberano, e começada hum anno de- 
pois da sua morte : de maneira que absolutamente se 
deve entender , que as diligencias feitas em Portugal e 
Castella erão igualmente encaminhadas a descobrir os 
fundamentos necessários para a composição das Chro- 
nicas de todos os Reis passados 5 que ElRei D. Duar- 
te encarregara a Fernão Lopes. 

E na verdade, não se pode negar pelo que diz 
Gomes Eanes (2) , que já no seu tempo estivesse es- 
crita a Chronica Geral do Reino , que não podia ser 
outra, senão a que começara Fernão Lopes, e conti- 
nuara o mesmo Gomes Eanes : até porque estes dous 
foião os primeiros Chronistas Portuguezes, que por 
obrigação do seu cargo começarão a compor a Histo- 
ria Geral do Reino , segundo a opinião bem provada 
do critico Figueiredo (3) . 

Mas além destes fundamentos , que podemos cha- 
mar 

(i) Gomes Eanes , Chron. d' ElRei D. João L Part. 3. cap. 2* 

(2) Chron. do Conde D. Pedro , cap. 26. no fim. 

(3) Fr. Manoel de Figueiredo , Dissertação Histor. e Crit. para 
apurar o Catalogo dos Chronistas Mores : impressa em 178^» 



^l« C7 




mar extrínsecos e conjeauraes , temos outros que nos 
subministra a lição das mesmas antigas Chronicas , pa- 
ra nos decidirmos a affirmar, que ellas sao obra de 
Fernão Lopes. E tomando como principio certo , que 
elle compozera a Chronica d' ElRei D. João I. até á 
tomada de Ceuta , donde a continuara por ordem de 
ElRei D. Aftbnso V. o Chronista Gomes Eanes , co- 
mo este confessa (i), he fácil de descobrir na parte 
daquella Chronica escrita por Fernão Lopes , noticia 
certa de que elle mesmo compozera as dos Reis D. 
Pedro 5 e D. Fernando ; pois que a ellas se refere em 
muitos lugares , dando-as por suas , e substanciando o 
que ahi escrevera ( 2 ) : e como estas remissões se 

achão 

(i) Chron. de D. João I. Part. 3. cap. 2. 

(2) Darei alguns exemplos. Na Chron. d' ElRei D. João I. 
Part. I. cap. 2. escreve Fernão Lopes : que dissemos ; nas quaes pa- 
lavras se refere á Chron. de D. Fernando, cap. I5'0. 

Ib. cap. 3. como ouvistes, (na Chron. de D. Fernando, cap. i$7.) 

Ib. cap. 30. segundo haveis ouvido. ( na Chron. de D. Fern. cap. 
176.) 

Ib. cap. 36. como ouvistes, (na Chron. de D. Fern. cap. 114,6 seg.) 

Ib. cap. 16. e pois que isto jd tendes ouvido. ( na Chron. de D. 
Fern. cap. 120, 121, 122, 136, 137, T38 , 151.) 

íb. cap. 49. jd vistes no reinado d' ElRei D. Pedro. ( Ciiron. de 
D. Pedro, cap. 12. ) 

Ib. cap. 5'0. segundo he escrito em seu lugar , onde falíamos ^c. 
(na Chron. de D. Fern. cap. 56.) 

Ib. cap. 5'4. jd tendes ouvido é^c. ( na Chron. de D. Fern. cap. 
105-, e 106.) / 

~ Ib. cap. 117. de que em alguns lugares he feito menção. ( na 
Chrohé de D. Pedro, cap. 31. e na Chron. de D. Fern. cap. 81.) 

Ib. cap. 125'. segundo dissemos em seu lugar, se de lio sois açor-, 
dado. (na Chron. de D. Pedro, cap. 20.) 

Chron. de D. João I. Part. 2. cap. 32. como ouvistes. ( na Chron. 
de D. Fern. cap. 153. ) 



XXI 

achão exactamente nas mesmas duas Chronicas que 
agora se imprimem 5 não se pode deixar de crer , que 
ellas e não outras sao as que compoz Fernão Lopes, 
e ás quaes se quiz referir na de ElRei D. João L E 
corrobora-se mais este argumento, observando -se in- 
versamente , que o autor das Chronicas de D. Pedro I. 
e de D. Fernando não podia deixar de ser hum só , e 
o mesmo que depois compoz a de D. João I. pelas 
continuas remissões que ha d'huma á outra daquel- 
las duas primeiras Chronicas , e de ambas á de EIRei 
D. João I. (i) Ajunte-se agora a este acareamento 

*_J e 

Ib. cap. 70. como jd ouvistes , (na Chron. de D. Fernando , cap. 65'.) 

Ib. cap. 71. e se dissemos na sua Historia ^c. (na Chron. de D» 
Pedro, cap. i. ) . . 

Ib. cap. 88. como tendes ouvido^ (na Chron. de D.Pedro cap. 36. 
até 40. e na Chronicâ de D. Fernando, cap. 3,9, 12 , 21 , 23.) 

Ib. cap. 88. como em seu lugar compridamente posemos , (na Chron. 
de D. Fern. cap. 128. e seg. ) ^ 

Ib. cap. 129. segundo dissemos ^ (na Chron. de D. Pedro, cap. i.) 

(i) Darei semelhantemente alguns exemplos destas remissões. Na 
Chron. d' EIRei D. Pedro, cap. i. escreve Fernão Lopes: mas das 
majièas e condi çÔoes e estados de cada huum (dos filhos d' EIRei D. 
Pedro) diremos adiamte mujto brevemente onde conveer f aliar de seus 
feitos : o que se refere ao cap. 98. da Chron. de D. Fernando , onde 
se lê : segundo aquello que prometido teemos , no reinado d* ElRei 
D. Pedro, omde dissemos que fallariamos dos Iffamtes . . . . quam' 
do conveesse razoar de seus feitos. 

Ib. cap. I. Dom Jobam, que foi meestre Davis em Portugal ^e 
depois Rei ycomo adiante ouvir ees , ( na Chron. de D. João I. ) 

Ib. cap. 15". Referido ao cap. 25'. da Chron. de D. Fernando. 

Ib. cap. 41. Referido ao cap. 2. da Chron. de D. Fernando. .,^ 

Ib. cap. 43. a qual beemçom foi em el bem cmnprida (no Mesr 

tre d'Avis ) como adiamte ouvirees. E abaixo : começou de floreçer 

em manhas .... segumdo a historia adiamte dirá ^ contamdo ca^ 

4a huumas em seu logar : ( na Chron. de D. João I.) 



XXII 

e concordância 5 a inteira semelhança de linguagem e 
estilo , que se observa nestas três Chronicas , mui 
diíFerentes da linguagem e estilo dos Chronlstas poste- 
riores Gomes Eanes , e Rui de Pina • ajunte-se tam- 
bém a dependência que todas tem humas das outras 
no seguimento da nossa Historia , e da de Castella , e 
ter-se-ha por indubitável , que todas forao obra do mes- 
mo autor Fernão Lopes. 

Mas se este género de argumento he valido , co- 
mo sem dvida parece ser , com o mesmo se pôde pro- 
var pela lição das Chronicas de D. Pedro 1. D. Fer- 
nando 5 e D. João I. que Fernão Lopes compozera 
hum primeiro volume da Historia de Portugal , que 
continha as Chronicas dos primeiros Reis , o qual era 
precedido por hum Prologo, e que a esse volume se 
seguia o segundo , precedido por outro Prologo , ou es- 
te seja o da Chronica de D.Pedro, ou o daChronica 
de D. João L formando ambos os volumes a Chro- 

ni- 

Chron. de D. Fernando, cap. i. Referido ao c^p. 44. da Chroij. 
de D. Pedro. 

Ib. cap. 3. Referido ao cap. 40. da Chron. de D. Pedro. 

Ib, cap. 13. Referido ao cap. 37. da Chron. de D. Pedro. 

Ib. cap. 37. Referido ao que depois escreveo na Chronica de D. 
Joãol. Part. I. cap. 94 , 97 , 107 , 108 , 109. Part. 2. cap. 26. c 5*7. 

Ib. cap. 55'. Referido ao cap. ii. da Chron. de D. Pedro. 

Ib. caj). 81. Referido ao cap. 30. da Chron. de D. Pedro. 

Ib. cap. 120. de cuja geeraçom (de Nunalvares) e obras mais 
adeamte emtemdemos trautar , quando nos conveer escrepvtr os gram- 
des e altos feitos do meestre Davis , que depois foi Rei de Portu- 
gal ^ em que lhe este Nuno Alvarez foi muy notável e maravilhoso 
companheiro : ( na Chron. de D. João I. ) 

Ib. cap. 15'é. segundo acerca verees adeamte ^ homde f aliarmos 
da morte do Conde ( Andeiro) : (na Chron. de D. João I. Part. i. cap. 2.) 



siau 0^ 




xxiri 

nica geral do Reino, de que acima vimos que fallava 
Gomes Eanes (i). E não só consta isto geralmente 
da dita lição , mas também consta em especial , quô 
elie mesmo compozera as Chronicas do Conde D. Hen- 
rique (2) , e dos Reis D. Sancho II. (3) e D. AfFon- 
so IV. (4) Além disto , como estas Chronicas não es- 
tavão avulsas , mas lançadas em Livro pela serie dos Rei- 
nados , fica evidente que Fernão Lopes em razão do seu 
cargo escrevera todas as dos Reis de Portugal ^ desde o 
Conde D.Henrique até á tomada de Ceuta por ElRei 
D João I. a qual tomada se dispozera a escrever, e 
bem assim as Chronicas de D. Duarte, e de D. Af* 
fonso V. (5) o que comtudo não pôde conseguir. 

Não apparece hoje o primeiro volume dasChrO'- 
nicas dos primeiros Reis de Portugal, tal como o 
deixou escrito Fernão Lopes; o que se manifesta da 
comparação das notas caracteristicas do dito volume 
já indicadas , com o corpo das Chronicas hoje exis- 
* 3 ii ten- 

(i) For seguirmos emteiramente a h ordem do nosso razoado y no 
primeiro Prologo ja tangida. Chron. d' EIRei D. Pedro , no Prologo. 

De guisa que como no cofneço desta obra nomeamos fidalgos al- 
guns ^ que ao Conde D. Anrique ajudarão a ganhar a terra dos 
Mouros ; assim neste segundo volume diremos (l^c. Chron. de D. 
João I. Part. i. cap. 15-9. 

E porque em cometo de cada hum reinado costumamos poer par- 
te das homdades de cada hum Rei , nom desviamdo da ordem pri- 
meira il^c. Chron. de D. João I. Part. 2. no Prologo , e cap. 14^. 

(2) Vej. o segundo passo transcrito na Nota antecedente. 

(3) Vej. Chron. d' EIRei D. Fernando, cap. 81. 

(4) Vej. Chron. de D. Pedro I. cap. i, 2, 27, 30. Chron. de 
EIRei D. Fernando, cap. 37, 

(5) Vej. Chron. de D. Fernando, cap. 5-7, 11 1, 113. Chron. 
d' EIRei D. João I. Part. 2. cap. 148, 204. .r-jilJ 



temes y pois não fallando na difFerença de lingua- 
gem e estilo, nem entre estas se acha a do Conde 
D. Henrique ^ nem o Prologo que as precede , pelo 
assumpto de que trata, pode ser o primeiro Prologo 
a que se refere o da Chronica d'EIRei D. Pedro j 
nem finalmente se observa nellas a ordem de poer em 
começo de cada hum reinado parte das bomdades de ca- 
da hum Rei, E que muito que nao appareçao hoje 
estas Chronicas , se ellas já nao existiao no tem.po de 
ElRei D. Manoel , que por isso este Monarcha encar- 
regou a nova composição delias primeiro a Duarte 
Galvão , e depois a Rui de Pina ? Nem custa a crer 
que no decurso de tão poucos annos se perdessem in- 
teiramente algumas Chronicas de Fernão Lopes, pois 
sendo muito provável que delias ainda se nao tives- 
sem vulgarisado copias, qualquer acaso, ou fosse o 
que refere Damião de Góes (i), ou outro semelhan- 
te , poderia fazer perder humas , ficando salvas até os 
nossos dias as outras. 

Mas se com eíFeito se aniquilarão inteiramente as 
primeiras Chronicas de Fernão Lopes , ou se delias fi- 
carão alguns fragmentos , os quaes servissem de funda- 
mento para as que compozerão aquelles dous Chronis- 
tas , he o que não será fácil de decidir. Duarte Galvão , 

?ue no anno de 1505 escrevia a Chronica d' ElRei 
). AíFonso Henriques , parece ter ignorado tanto a 
existência delias , como a das posteriores , pois que pro- 



met- 



(i) Chron. d' ElRei D. Manoel, Part. 4. cap. 38. 




XXV 

mette escrever a historia de todos os Reis , entre estes a 
deElReiD. Fernando 3 e a cada passo se queixa da fal* 
ta lie noticias que encontrou , e da mingoa de Escrito- 
res (i). Rui de Pina 5 que começou a escrever as suas 
Chronicas em 1513 , diz no Prologo delias (2) dirigido 
a El Rei D. Manoel, que he obra mui difficil e árdua a 
composição das antigas historias dos primeiros Reis de 
Portugal , que de feus tempos devidamente fe nao acbao 
compojlas , ou nos outrçs depois delles por negligencia 
fe perderão. E fallando depois á cerca do principio que 
Duarte Galvão dera áquella obra , acrecenta , que 
d'ElRei D. Jfonfo Henriques até El Rei D. Afon- 
fo IF, inchíjive , que sao fete Reis , nom parece de fias 
vidas 5 nem de feus feytos fe acha nejles Reinos ejloria 
ordenada , e compojla como fora rasao ^ e fe merecia ^ 
mas ha fomente por lugares mui occultos algumas lem- 
hr ancas , cartas confusas , e mui duvidofas &c. Das 
quaes palavras, e d' outras que escreve o mesmo Rui 
de Pina na Chronlca de D. AftbnsoIV. (3) se tira ao 
menos com toda a certeza , que no seu tempo existião 
já escritas as Chronicas de D. Pedro I. e de D. Fer- 
nando , em que elle não tivera parte ; as quaes Chro- 
nicas não podião ser outras, senão as que escrevera 
Fernão Lopes, e neste volume se publicão. 

Porem lá parece demasiada aftectação , nao digo já 

em 



(i) Duarte Galvão, no Prologo a ElRei p. Manoel , e no cap. 

I; 3C>, 5'5'- 

(2) Vem no principio da Chron. de D. Sancho I. 

(3) Chron. de D. AíFonso IV. cap. 6i , 64, 66, 






xxvr 



em Duarte Galvão, que escreveo a sua obra com ex- 
cessiva ligeireza, mas em Rui de Pina, que nesta ma- 
téria procedeo com mais tento, não fazer menção do 
nome do autor das duas Chronicas que ás vezes alle- 
ga; evitar todas as occasiões de fallar em Fernão Lo- 
pes; e até certificar com demasiada segurança huma 
falsidade tão manifesta, como he, que até o tempo 
d'ElRei D.João 11. não fora costumado entre nós es- 
crever-se das bondades e feitos notáveis de alguém ; 
sendo elle próprio o primeiro que inventara hum tão 
santo e tão proveitoso ofticio, na composição da his- 
toria daquelíe grande Monarcha (i). Pois além de 
Fernão Lopes o ter precedido nos cargos de Chronis- 
ta Mór do Reino , e de Guarda Mór da Torre do 
Tombo, que então Rui de Pina occupava; pelo que 
o seu nome lhe devia ser muito familiar; não he cri- 
vei, que ainda que o primeiro volume das antigas 
Chronicas se houvesse inteiramente aniquilado , não ti- 
vesse delle noticia alguma o mesmo Pina , tendo ape- 
nas mediado pouco mais de cincoenta annos entre a 
composição do dito volume , e a da Chronica que hoje 
existe de D. Sancho L Na verdade hum tão estudado 
silencio , como o que se observa em Rui de Pina , tan- 
to á cerca do autor das Chronicas dos Reis D. Pe- 
dro L D. Fernando e D. João L e do volume das 
Chronicas dos outros Reis mais antigos , como á cer- 
<a do primeiro autor das Chronicas de D. Duarte , e 

D. 

(i) Prologo de Rui de Pina na Chron. d' ElRei D. João II. 



XXVII 



D. Affonso V. que elle mesmo diz ter novamente com- 
posto, a pezar de apparecerem nellas muitos vestígios 
da penna de Gomes Eanes (i), pode fazer lembrar, 
que Rui de Pina fora demasiadamente ambicioso de 
gloria; e que talvez occultára os nomes de duas pes- 
soas tâo notáveis , como aquelles seus predecessores, 
para se aproveitar mais a seu salvo dos trabalhos del- 



les. 



E quanto ao silencio a respeito de Fernão Lopes , 
cousas ha pelas quaes se pode conjecturar, que não 
fora Rui de Pina inteiramente inculpado : pois não fa- 
zendo agora comparação dos estilos, que per si só 
não pode fazer prova, pois se o das Chronicas que 
Rui de Pina diz que escrevera , he differente do estilo 
das outras obras do mesmo Escritor, como pareceo a 
Damião de Góes , mais differente me parece elle do 
estilo das três ultimas Chronicas de Fernão Lopes; 
maior fundamento se pode tirar para aquella conjectura , 
daquillo que o mesmo Góes assevera que lhe escrevera 
João Rodrigues de Sá de Menezes , a saber , que Rui 
de Pina obteve no Reinado de D. João IL por man- 
dado deste Rei , humas Chronicas dos Reis antigas ; e 
porque as tinha em seu poder, se offerecèra a ElReí 
D. Manoel para escrever todas as que faltavão ; as quaes 
Chronicas antigas achadas no Porto , serião mui pro- 
vavelmente ou copia , ou extracto das que compozera 
Fernão Lopes , e se havião perdido. O que parecerá ain- 
da 

■■ ' I I. I .11 1 .1 II .1 Hl, I I , 1 I ■ i il ^ ' 1 

<i) Goes, Chron. d'ElRei D. Manoel, Part. 4. cap. 38. 



813^ ©^ 




XXVIII 

da mais verisimil a quem seapplicàr a descobrir nas mes- 
mas Chronicas de Rui de Pina alguns vestígios do an- 
tecedente trabalho de Fernão Lopes ^ principalmente na 
:d' ElRei D. Diniz , que parece assas conforme á ma- 
neira de escrever deste primeiro Historiador , pela maior 
extensão da obra, e pela ordem que segue de escrever 
no principio as bondades daquelle Rei , que já vimos 
ser a ordem primeira que Fernão Lopes seguira no co- 
meço de cada hum Reinado , e da qual Rui de Pina 
se desviara hum pouco nas Chronicas de D Sancho IL 
e D. Affonso III. e se apartara inteiramente nas de D. 
Sancho I. e D. AfFonso lí. E he de notar, que esta 
observação por mim feita a cerca da Chronica d' ElRei 
D. Diniz, pode de certo modo julgar-se apoiada na 
autoridade do nosso gravissimo Escritor Fr. Luis de 
Sousa y o qual na primeira Parte da Historia de S. Do- 
mingos, citando huma vez a Chronica de D. Affon- 
so IL e outra a de D. Diniz, attribue expressamente 
a primeira a Rui de Pina , e a segunda a Fernão Lo- 

Mas deixemos jâ em paz as cinzas de Rui de Pi- 
na: não por affrontar a sua memoria, mas por fazer 
reviver a gloria ha muito tempo escurecida do mais an- 
tigo dos nossos Historiadores , he que eu me vi obri- 
gado a manifestar o seu' descuido , e a espalhar talvez 
-duvidas sobre a sua sinceridade e boa fe. Se elle culpa 
teve, assas foi castigado no destino que experimen- 
tou a unlca obra , que no juizo de Damião de Góes 
«e pode chamar inteiramente sua, qual he a Chroni- 



XXIX 

ca d' ElRei D. João lí. pois sendo nova e original- 
mente composta pelo Chronista Pina , no tempo em 
que reinava EIRei D. Manoel , houve no Reinado se- 
guinte quem soubesse aproveitar-se do trabalho delle, 
produzindo novamente em seu próprio nome a mesma 
obra com pequenas addiçÕes e mudanças , com o que 
logrou ainda a fortuna de ser commummente reputado 
pelo verdadeiro autor delia ; e isto por espaço de dous 
séculos , que tantos mediarão entre a primeira impres- 
são da Chronica de Garcia de Rezende, e a imica 
que hoje temos da de Rui de Pina, impressa ha pouco 
tempo no segundo volume desta Collecção de Livros 
inéditos. 

Entretanto , voltando já ao meu assumpto , o que 
não se pode duvidar he , que o silencio de Rui de 
Pina á cerca do autor das Chronicas dos Reis D. Pe- 
dro I. D. Fernando , e D. João 1. e á cerca das fon- 
tes donde tirara as cousas que elle mesmo escreveo 
nas Chronicas dos primeiros Reis , confundio de tal 
maneira os Escritores, e os Copistas do seu século, e 
do seguinte , que não he possivel , seguindo-os , atinar 
com cousa alguma certa a respeito dos verdadeiros au- 
tores das nossas Chronicas ; o que tornou necessária , 
e por isso desculpável, a longa Introducção, que vou 
escrevendo. 

E quanto aos Escritores , causa assombro que hum 
homem da gravidade, e exacção histórica de João de 
Barros , contemporâneo de Rui de Pina , escrevesse que 
na Chronica d' EIRei D. AíFonso Henriques não tive- 

* 4 ra 



ra outra parte Dr^arte Galvão , senão a de apurar a lin- 
guagem antiga 5 em que estava escrita por autor desco- 
nhecido ( I ) ; e também , que se alguma cousa ha bem 
escrita nas Chronicas deste Reino , he da mão de Go- 
ínes Eanes , assim dos tempos em que elle concorreo ,• 
Como de alguns atraz , de cousas de que não havia es- 
critura (2) . Damião de Góes contemporâneo outro- 
sim de João de Barros, foi o primeiro que vindicou 
a fama de Fernão Lopes , e que pretendeo dar a cada 
hum o que era seu , ainda que muito à custa da repu- 
tação de Rui de Pina (3): mas, posto que o Chro- 
íiista Góes encetasse alguns daquelles argumentos , que 
até agora tem sido seguidos , e ainda m.ais desenvol- 
vidos neste Escrito , e que por isso seja o único capaz 
de guiar os modernos críticos ne^te intrincado laberin- 
to , não mereceo elle este conceito aos Escritores do 
seguinte século 3 os quaes ou por incúria cdeleixamen- 
to 5 ou porque antes quizerão fazer opinião por si , do 
que seguir a dos outros, se apartarão cada vez mais 
do caminho da verdade. De tal maneira que Pedro de 
Mariz , e Duarte Nimes do Leão , ambos os quaes es- 
creverão pelo mesmo tempo , e sobre es Documentos 
da Torre do Tombo , onde linhão fácil accesso , virão 
este negocio por tão diversa face , que o primeiro at- 
tribuio a Rui de Pina todas as Chronicas desde D. San- 
cho 

— ' ■ ' ' ' I ■ I I I ■ I III ■>!■■■ II I II 111 ; I 

(i) Dec. 3. Livr. i. cap. 4. 

(2) Dec. I. Livr. 2. cap. i. 

(3) Chron. d' ElRei D. Manoel, Part. 4. cap. 38. 









xxxiir 

a dos dous Reis precedentes , houve quem a attribuis- 
se já a Rui de Pina (i) ? já a Álvaro do Couto de 
Vasconcellos (2); Chronista inteiramente supposto, e 
que não fez mais que copiar hum Exemplar da Chro- 
nica de D. João I. assim como depois copiou outro 
da de D. Pedro , em ambos os quaes subscreveo o seu 
nome. 

Porém o caso he, que segundo as observações 
feitas pela Commissão nos Códices que examinou ocu- 
larmente , e segundo as que fizerão outros , que tiverão 
presentes outros Códices, póde-se assentar com certe- 
za^ que tantos Exemplares attribuidos a tão differentes 

* 4 iii au- 

' ■ • — — 

de dous volumes j que na numeração da pasta se chamão i.°e 2.° mas 
que são realmente i.° e 3.° pois contém a i.' parte da Chronica es- 
crita por Fer.não Lopes, e a 3.^ escrita por Gomes Eanes: falta pois 
a 2.^ parte, que se acha avulsa no mesmo Archivo, escrita de letra 
coeva , cm hum volume de folha mais pequena , em papel ; no fim do 
qual vem esta Nota : Escrita per Ah ar o do Couto de Vasconcellos 
m anm de myl e quinhentos e trinta e dois. (Assinado) Álvaro 
do Couto de Vasconcellos. O primeiro volume deste exemplar em pa- 
pel , que contém a primeira parte da Chronica de D. João 1. não 
existe no Real Archivo , mas em poder de pessoa particular : parece 
ser escrito pela mesma mão que escreveo tanto o segundo volume, 
como o exemplar da Chronica d' ElRei D. Pedro que possue o Ex.'"*' 
Snr. Marquez de Tancos ; e tem também no fim a seguinte Nota: 
Escrita esta cronyqua per Alvar o do Couto de Vasconcellos. (Assi- 
nado ) Álvaro do Couto de Vasconcellos. 

(i) José Soares da Silva, no Prologo das Memorias para a His- 
toria d' ElRei D. João I. cita dous Códices da Livraria do Conde 
da Ericeira , os quaes contém a Chronica de D. João L tal como a 
escreveo Fernão Lopes , mas attribuida a Rui de Pina. 

(2) Vej. a Biblioth. Lusitana , no art. Álvaro do Couto de Vas- 
concellos. 



XXXIV 

autores, não são mais que difFerentes copias das mes- 
mas Chronicas escritas unicamente por Fernão Lopes , 
com pequena differença de palavras , que só se deve at- 
tribuir ao descuido quasi inevitável dos diversos copis- 
tas. Huma única variedade se acha na Chronica de 
ElRei D. Pedro que pode causar admiração, e vem a 
ser, faltar em todos os Códices do Século xvi. que eu 
vi, ou de que tenho noticia (i), a matéria dos ca- 
pitulos IO. e II. da Chronica impressa pelo Padre 
Bayãoj o qual alias parece ter tirado estes capitulos 
do Exemplar de que se sérvio, por isso que os poe 
no corpo da Obra, e não no supplemento que lhe 
acrecentou. Comtudo como o Editor não declara de 
que Códice se sérvio,* nem avaha a sua authenticidade j 
e como os Códices mais authenticos pela sua antiguida- 
de , e destino , quaes são os que ficão apontados , não 
tem taes capitulos • póde-se concluir com certeza , que 
elles não forão escritos por Fernão Lopes, mas enxe- 
ridos muito posteriormente n' alguma copia do Sécu- 
lo xvii. talvez na fé de Duarte Nunes do Leão (2) , 

da 

(i) Taes sâo, em Lisboa os Códices do R. Archivo, da R. Bi- 
blioth. Publica , do Ex."'' Snr. Marquez de Tancos , e da Livraria 
da R. Casa das Necessidades : em Évora , os do Snr. José Lopes de 
Mira , e da Livraria Publica daqueila Igreja : em Coimbra , o do 
Collegio da Graça : em Alcobaça , os da Livraria daquelle R. Mos- 
teiro. 

(2) Duarte Nunes, na Chron. d* ElRei D. Pedro ,já refere a ma- 
téria daquelles capitulos , a qual comtudo omitte o seu contemporn- 
neo Pedro de Mariz. N'huma copia de letra moderna do Século xvii. 
da Chron. de Fernão Lopes, que se guarda na Livraria da R. Casa 



siTTs: 01 






XXX7 

da qual copia se sérvio o Padre Bayao para a Edição 
que fez. 

Resta informar os I^eitores do modo , por que a 
Commissão procedeo na Edição das duas Chronicas de 
El Rei D Pedro I. e D. Fernando ; no texto das quaes 
seguio com o maior escrúpulo o Exemplar do Real 
Archivo , conservando as lacunas , e até alguns erros 
que nelle se encontrão, e accommodando-se á mesma 
viciosa e inconstante ortografia ; com as únicas liberda- 
des de regular a pontuação , de tirar as letras dobra- 
das, que vem no principio e fim de algumas palavras, 
de fíizer maior uso de letras iniciaes maiúsculas , e de 
escrever por extenso as palavras que muitas vezes es- 
tavão escritas com abreviaturas. Além disto conferirão- 
se as provas da impressão com o Exemplar da Real 
Bibliotheca Publica, e com o do Ex.'"° Snr. Marquez 
de Tancos , que generosamente o emprestou á Acade- 
mia , consentindo que estivesse fora da sua Livraria , 
por todo o tempo que durou esta Edição. De ambos 
os Exemplares se tirarão as lições variantes , que vão 
impressas no fim de cada pagina, designando -se o pri- 
meiro com a letra J5, e o segundo com a letra 2". 
Não se puzerão porém todas as variantes , o que seria 

in- 

das Necessidades , acrecentao-se no fim do ultimo cap. as seguintes 
palavras : Deste Rei D. Pedro contao algumas cousas , e afirmào 
por mui certas , dado caso que o Coronista as nÕ conte , entre as 
quaes dizem ^ que estando ElRei em Évora &c. e segue-se a rela* 
çao dos dous primeiros casos, que refere o P. Bayão naquelles capi- 
tulos. 



i^a^ oi 



XXXVI 



inteiramente supérfluo , mas só aquellas , que por diver- 
sas razoes parecerão então mais dignas de serem nota- 
das. Em todo este trabalho , que não se pode dizer 
pequeno , segundo a forma por que foi dirigido , rece- 
beo a Commissão o opportuno auxilio dos Senhores 
Joaquim José da Costa de Macedo , Sócio da Acade- 
mia 5 e Francisco Nunes Frankhn , Correspondente 
delia; o primeiro dos quaes fez per si só toda a con- 
ferencia das provas da impressão com o Exemplar da 
Real Bibliotheca Publica; e o segundo tirou huma 
nova e exacta copia do Exemplar do Archivo , que 
sérvio de texto para esta Edição; e ajudou a conferir 
as provas da impressão com o original do me^imo 
Exemplar. 

Tal foi a diligencia , com que se procedeo na 
presente Edição : diligencia não digo já superior á do 
Padre Bayão, que por sistema quiz perverter a Edi- 
ção da Chronica d'ElRei D. Pedro I. mas ainda á 
do Editor da Chronica d' EiRei D. João I. a qual es- 
tá tão cheia de erros de palavras , e até de transpo- 
sições de periodos, e de capitulos, que não merece 
menos que a outra huma nova impressão, feita sobre 
os antigos exemplares authenticos , que hoje se con- 
servão. Assim os Portuguezes estudiosos agradecerão 
desde agora á Academia (á qual a Commissão dedi- 
ca todos os seus trabalhos ) a primeira Edição correcta 
de duas Obras compostas por Fernão Lopes , do mes- 
mo modo que já lhe tem agradecido as Edições de 
varias Obras de Gomes Eanes, e de Rui de Pina, im- 

prés- 



N. I. 

CHRONICA 

D O 

SENHOR REI 

D. P E D R O I. 

OITAVO REI DE PORTUGAL. 



PRO- 






3 

PROLOGO. 



LEixados os modos e diffiniçooes da iustiça, que 
per desvairadas guisas, mujtos em seus livros es- 
crevem , soomente daquella pêra que o real poderio 
foi eftabelleçido y que he por seerem os maaos cafti- 
gados e os boons viverem em paz , he nossa emten- 
çon neefte prollogo mujto curtamente fallar, nom co- 
me buscador de novas razooes , per própria invençom 
achadas, mas come aiumtador em huum breve moo- 
lho 5 dos ditos dalguuns que nos prouguerom. A hu- 
ma por espertar os que ouvirem que emtemdam parte 
do que falia a eftoria , a outra por seguirmos emtei- 
ramente a hordem do nosso razoado j no primeiro 
prollogo ja tangida. E por quamto elRei Dom Pedro , 
cujo regnado se segue , husou da iuíliça de que a 
Deos mais praz , que cousa boa que o Rei possa fazer 
segumdo os saaitos escrevem , e alguuns desciam sa- 
ber que virtude he efta , e pois he necessária ao Rei , 
se o he assi ao poboo : nos naquelle stillo que o sim- 
prezmente apanhamos, o podees leer per eíla manei- 
ra. Juíliça he huuma virtude , que he chamada toda 
virtude assi que quallquer que he iufto: efte com- 
pre toda virtude , porque a iuftiça assi como lei de 
Tom. IF. A Deo5 



4 PROLOGO. 

Deos defende que nom fornigiies nem seias gargam- 
tom , e iílo guardamdo : se compre a virtude da caíli- 
dade e da temperamça , e assi podees emtender dos 
outros viçios e virtudes. Eíla virtude he muy necessá- 
ria ao Rei e isso meesmo aos seus sogeitos , por que 
avemdo no Rei virtude de iuftiça , fará leis per que to- 
dos vivam dereitamente e em paz, e os seus sogeitos 
seemdo iuílos , compriram as leis que el poser , e com- 
primdoas , nom faram cousa iniufta comtra nenhuum , 
e tal virtude como efta pode cada huum gaanhar per 
obra de boo entemdimento , e aas vezes naçem algu- 
uns 5 assi naturallmente a ella despoílos , que com gran- 
de zello a executam , pofto que a alguuns vicios seiam 
emclinados. A razom por que eíla virtude , he neces- 
sária nos sobditos , he por comprirem as leis do prin- 
cipe que sempre devem de seer ordenadas pêra todo 
bem e quem taaes leis comprir sempre bem obrara , 
ca as leis som regra do que os sogeitos am de fazer , 
e som chamadas prinçipe nom animado: e o Rei he 
príncipe animado, por que ellas representam com vo- 
zes mortas , o que o Rei diz per sua voz viva , e po- 
rem a iuftiça he mujto necessária , assi no poboo co- 
mo no Rei, por que sem ella nemhuma cidade nem 
Reino pode eílár em assessego. Assi que o Reino on- 
de todo o poboo he maao nom se pode soportar muj- 
to tempo 5 por que como a alma soporta o corpo e 
partindosse delle o corpo se perde , assi a iuftiça su- 
porta os Reinos: e partindosse delles perecem de todo. 
Hora se a virtude da iuftiça he necessária ao poboo : 

muj- 



sia^ff ov 




PROLOGO. 5- 

mujto mais o he ao Rei , porque se alei he regra do 
que se ha de fazer : mujto mais o deve de seer. o Rei 
que a põem , e o iuiz que a ha dencaminhar , por 
que a lei he príncipe sem alma como dissemos , e o 
prinçipe he lei e regra da iuíliça cora alma 3 pois 
quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra 
sem alma : tanto o Rei deve teer exçellençia sobre as 
leis 5 ca o Rei deve de seer de tanta iuítiça e dereito : 
que compridamente de as leis a execuçom , doutra gui- 
sa moftrar se hia seu Regno cheo de boas leis e maaos 
curtumes : que era torpe cousa de veer ; pois duvidar 
se o Rei a de seer iuftiçoso : nom he outra cousa se- 
nam duvidar se a regra ha de seer dereita , a qual se 
em dereitura desfalece , nenhuuma cousa dereita se 
pode per ella fazer. Outra razom por que a iuíliça he 
mujto neçellaria ao Rei aííi he por que a iuíliça noni 
tan soomente afremosenta os Reis de virtude corpo- 
ral mas ainda spritual 5 pois quanto a fremusura do 
spritu tem avantagem da do corpo: tanta á iuíliça 
em no Rei he mais necessária que outra fremosura. A 
terceira razom se mollra da perfeiçom da boondade; 
por que emtom dizemos alguuma cousa seer perfeita, 
quando fazer pode alguma semelhante assi ^'\ epor tan- 
to se chama huuma cousa boa : quanto sua bondade 
se pode eílender a outros , ao menos se quer per ex- 
emplo 5 e entom se moftra per pratica quanto cada 
huum he boom , quando he poílo em senhorio. Porem 
compre aos Reis seer iuíliçosos , por a todos seus so- 

A ii gei- 

(i)afyr. 



C PROLOGO. 

geitos poder vijr bem , e a nenhuum o contrai ro. Tra- 
balhando que a iuftiça seia guardada nom soomente 
aos naturaaes de seu Reino , mas ainda aos de fora 
delle ; por que negada a iuftiça a alguuma pelloa : 
grande injuria he feita ao prinçipe e a toda sua ter- 
ra. Defta virtude da iuftiça , que poucos acha que a 
queiram por hospeda poftoque Rainha, e senhora seia 
das outras virtudes segundo diz Túlio: husou muito 
elRei Dom Pedro , segundo veer podem os que dese- 
jam de o saber leendo parte de sua eftoria. E pois 
queelle com boom deseio por natural enclinaçom , re- 
freou os males, regendo bem seu Reino , ainda que 
outras mingoas per el passassem de que peendença po- 
dia fazer : de cuidar he que ouve ho galardom da ius- 
tiça 5 cuia folha e fruito he, honrrada fama neefte 
mundo , e perdurável folgança no outro. 



CA- 









CAPITULO I. 

Do Remado dei Rei Dom Pedro , oitavo Rei de Portu- 
gal y e das condiçoões que em elle avia. 

Orto elRei Dom AíFonso , como avees 
ouvido , reinou seu filho ho IfíanteDom 
Pedro , avendo eftonçe de fua hidade trin- 
ta e íete anos e huum mes e dezoito 
dias ; e por que dos filhos que ouve , e 
de quem , e per que guifa^ja comprida- 
mente avemos fallado , nom compre aqui 
razoar outra vez ; mas das manhas , e 
comdiçoòes , e eftados de cada huum , diremos adiante muj- 
to brevemente onde conveer fallar de seus feitos. Eíte Rei 
Dom Pedro era mujto gago ; e foi fempre grande caça- 
dor , e monteiro em seendo IfFante , e depois que foi Rei , 
tragendo gram casa de caçadores , e moços de monte , e 
daves , e caaens de todas maneiras que pêra taaes jogos 
eram perteeçentes. El era mujto viandciro , fcm feer co- 
medor mais que outro homem , que fuás falas eram de 
praça em todos logares per onde andava fartas de vianda 
em grande abaftança. EUe foi gram criador de fidalgos de 
linhagem , porque naquel tempo nom fe coftumava feer 
vaíTallo , fe nom filho , e neto ou bifneto de fidallgo de li- 
nhagem ; e por hufança aviam eftonçe a contia que ora cha- 
mam maravidijs darfe no berço , logo que o filho do fidall- 
go naçia , e a outro nenhuum nom, Efte Rei acreçentou 

muj- 



giau ot 




\ 



8- Chronica 

mujto nas comtias dos fidallgos , depois da morte delRci 
feu padre , ca nom embargando que elRei Dom Affonsso 
foíTe comprido dardimento , e muitas bomdades ; tachavam- 
no porem de feer escaíTo , e apertamento de grandeza ; c el- 
Rei Dom Pedro era em dar muj ledo , em tanto que muj- 
tas vezes dizia que IhafroxaíTem a cinta que eftonçe bufa- 
vam nom muj apertada , por que fe lhe alargaíTe o corpo , 
por mais espaçosamente poder dar : dizendo que o dia que 
o Rei nom dava , nom devia seer avudo por Rey. Era ain- 
da de boom desembargo àos que lhe requeriam bem e mer- 
çee , e tal hordenança tijnha em efto , que nenhuum era 
deteudo em fua cafa , por coufa que lhe requerelTe. Ama- 
va mujto de fazer iuftiça com dereito ; e alli comiO quem 
faz corre iço m 5 andava pollo Reino ; e visitada huuma par- 
te nom lhe esquecia de hir veer a outra, em guifa, que 
poucas vezes acabava huum mes em cada logar deitada. 
Foi mujto manteedor de fuás leis e grande executor das 
femtenças iulgadas, e trabalhavaíTe quanto podia de as j en- 
tes nom feerem gaftadas , per aazo de demandas , e perlon- 
gadps preitos; efe a efcriptura afirma, que por o Rei nom 
fazer iuftiça , vem as tempeftades , e tribullaçoões lobre o 
poboo ; nom se pode aífi dizer defte , ca nom achamos 
em quanto reinou , que a nenhuum perdoaíTe morte dal- 
guuma peíToa , nem que a mereçeíFe per outra guifa , nem 
lha mudaíTe em tal pena per que podeíTe efcapar a vida. 
A toda gente era galardoador dos ferviços que lhe fezef- 
fem ; e nom foomente dos que faziam a elle , mas dos que 
aviam feitos a feu padre y e numca tolheo a nenhuum coufa 
que lhe feu padre deíTe , mas mantinhaa , e acreçentava em 
ella. Efte Rei nom quiz mais cafar , depois da morte de 
Dona Enes em feendo líFante , nem depois que reinou , lhe 
prouve receber molher : mas ouve amigas com que dor- 
mio , e de nenhuuma ouve filhos , falvo d'huuma dona natu- 
ral de Galiza que chamarom Dona Tareija , que pario dei 
huum filho que ouve nome Dom loham , que foi mecilre 

Da- 



/ 



d'elReiD. PedroL P 

Davis em Purtugal, e depois Rei como adeante ouvirees; 
o qual naçeo cm Lixboa onze dias do mes dabril , aas três 
horas ' depôs meo dia no primeiro anno do seu reinado ; e 
mandouho elRei criar em quanto foi pequeno , a Louren- 
ço Martijz da praça , huum dos honrrados çidadaaos deíTa 
cidade que morava iunto com a egreia cathedral hu cha- 
mam a praça dos escanos^'^ , e depois o deu que o criasse a 
Dom Nuno Freire Dandradre, meellre da cavalaria da hor- 
dem de Chriftus. 

CAPITULO II. 

Como clRei de Castella mandou por o corpo da Rainha 

Dona Maria sua madre ^ e da carta que emviou 

a elRei de Portugal seu tio. 

EM eíta sazom que elRei Dom Pedro começou de rei*-' 
nar , hordenou elRei de Caftella demviar por o corpo 
da Rainha Dona Maria fua madre que fe finara em Portugal , 
vivendo ainda elRei Dom AffoníTo seu padre , como em al- 
guuns logarcs deite livro faz mençom ; e fez faber per fua 
carta a elRei Dom Pedro feu tio , como avia vontade de a 
trelladar , pêra a poer em Sevilha na capella dos Reis com el*- 
Rei Dom AiFoníTo feu padre ; e hordenou pêra hirem com o 
corpo da Rainha o Arçebifpo de Sevilha , e outros prellados 
de feu Reino , e deíi mandar deante , pêra correger todallas 
coufas que compriam pêra o corpo hir honrradamente , Go- 
mez Perez feu defpenfeiro moor , ao qual o corpo avia de 
seer emtregue , pêra hordcnar todo o que mefter fazia a fua 
trelladaçom , pêra quando os prellados veheífem , que achaf- 
íem todo preftcs , e fe partilTem logo. A elRei Dom Pedra 
prougue defto muito , e efcrepveolhe que mandalfe por elle ^ 
quando por bem teveíFe • e elRei de Caftella emviou logo 

aquel ^ 

(i^ dos canos T. 







jo Chronica 

aquel feu defpenfeiro , e foilhe entregue o corpo , na ci- 
dade Devora hu iazia , pêra hordenar seus corregimentos , 
fegumdo a hordenança que lhe era dada ; e quando o Arce- 
bispo , e os outros prellados , e gentes veherom por o cor- 
po da Rainha , trouverom a elRei Dom Pedro huuma car- 
ta delRei de Caftella feu fobrinho que dizia em efta guifa. 
jj Rei tio : Nos elRei de Caftella, e de Leom vos emviamos 
55 mujto saudar como aquel que mujto preçamos e pêra que 
3> queríamos tanta vida , e saúde com honrra , como pêra nos 
» meefmo. Rei fazemos vos faber que vimos huma carta de 
)j creença , que nos emviaftes per MartimVaasquez , e Gonçalle 
í> Annes de Beia voíTos vaíTallos ; e dilTeromnos da voíHi par- 
3> te a creença que í'^ lhe mandaftes. E Rei tio, nossa tempçom 
99 he de vos amar, e guardar sempre os boons divedos que em 
99 huum avemos , e fazer fempre porvoíTa homrra como por 
?> noífa meefma. E por quanto a noífo ferviço e voíFo com- 
99 pria averem de feer declaradas alguumas coufas contheudas 
9> nas pufturas que antre nos avemos de poer , alli fobre ca- 
:» famentos de volTos <-) filhos com noíTas filhas , nos falíamos 
«> com o dito Martim Vaafquez , e Gonçalle Annes toda noíTa 
í» tençom , e emviamos alio fobrefto Joham Fernandez de Mell- 
39 gareio , chançeller do nolTo feello da puridade ; e rogamos- 
» vos que o creaaes do que vos da noíTa parte diíTer. Outroffi 
99 emviamos pêra trager o corpo da Rainha nolTa madre pêra 
5> a emterrar aqui em Sevilha , o Arcebispo deita cidade , e 
5> outros prellados de noíTos Reinos , e rogamosvos que ef- 
9> fas joyas que ella leixou , que as mandees dar ao dito lo- 
95 ham Fernandez ; e nos gradeçer vo loemos , data &c. j) El- 
Rei Dom Pedro fez outorgar o corpo da Rainha Dona Maria 
fua hirmaã a aquel embaixador delRei de Caftella ; e foi lhe 
feita grande honrra , aífi por elRei come per os prellados 
que por ella vijnham, e muito acompanhada ataa oeftremo, 
e dhi ataa cidade de Sevilha a faiu elRei feu filho a rece- 
ber com muita clerezia , e grandes fenhores , e fidallgos que 

hi 

'» ■ I ■ . 

(O parte e creença ho que T. (z) denoíTos T. 



d'elR E I D. P E D R o I. II 

hi eram com elRei ; e feitas suas exéquias muj honrrada- 
mente , foi pofto o seu corpo na capeella dos Reis a çerqua 
delRei Dom AiFonlTo feu marido onde ora iaz. Sobre os ca- 
famentos dos filhos delRei Dom Pedro com as filhas delRei 
de Caftella , por que loham Fernandez era enviado , forom 
falladas muj tas coufas com elRei de Purtugal : e nom se 
acordando por eftonçe em alguumas delias , depois açertarom 
todas suas aveenças como adeante ouvirees, 

CAPITULO III. 

Das cartas que o Papa , e elRei Daragom emviarom a 
elRei de Purtugal sobre a morte delRei seu padre» 

ELRei Dom Pedro efcrepvera ao Papa , e a elRei Dara- 
gom por novas quando elRei Dom AíFoníTo morreo , 
como feu padre era morto , e elle alçado por Rei em Pur- 
tugal : e teendo cada huum cuidado de lhe respomder , 
chegarom lhe em efta fazom suas repoftas , e a letera do Pa- 
pa dizia assi. í> Innocençio Bispo , fervo dos fervos deDeos, 
99 ao muj to amado em Ghriílo filho Dom Pedro muj nobre 
» Rei de Purtugal , faude e apoftolical beençom. Porquanto, 
99 muj to amado filho , per tuas leteras, e fama fomos çertifi- 
9> cado , como o muj claro de nobre memoria elRei Dom Af- 
99 fonfo teu padre fe finou deite mundo , fua morte foi a nos 
jj e he muj grande noio e trifteza : e nom fem razom o de- 
99 vemos feer , quamdo em noíTo coraçom cuidamos , nas bom- 
5> dades , e virtudes de que fua real alteza era muj to emnobre- 
3> çida: por cuia razom omujto amávamos , defeiandolhe que 
5> antre todoUos prinçipes do mundo , o Senhor o acreçentas- 
5> fe e eftendeíTe feu real eltado : com perlongamento de bem 
>> aventurados dias : nos quaaes acabando fua honrrada velhice , 
í> ati feu primogénito filho , leixafle o regimento e fuçeíFom do 
» reino em firme concórdia com teus vizinhos. E pois alfi he 
Tom, IV, B , y9 que 



j-2 C H R O N I C A 

íi que o Senhor Deos^ em cuia maao he o poderio, de dar a 
í> cada huum vida e morte , lhe prougue de piedofameiíte o 
r> levar defte mundo : nos poemos fim e acabamento a nolTa do- 
5> or, e trifteza , confolandonos em eíTe Senhor, que da , e pri- 
í> ya , e tolhe : quando quer que lhe praz , em o qual avemos 
í) firme efpcrança que nos altos çeeos dará boom galardom e 
j> gloria a alma delRei teu padre , pois em quanto neefte mun- 
í> do viveo fe trabalhou de o fervir com boons merecimentos , 
» e lhe aprougue cora dignas virtudes : e aífi mujto amado fi- 
» lho, piedofamente te confoUamos que te confolles no Senhor 
?> Deos 5 e confijres em tua vomtade , como foçedes no regi- 
» mento de teu padre , o qual per exemplo de vida , fe mof- 
j> trou fenpre feer fiel catholico. Porem requeremos aa tua real 
íj clareza ^'^ que fempre com firme defeio vivas em temor do 
99 Senhor Deos , honrrando a fua fancta egreia , c feendo favo- 
>9 ravel aas ecclefiafticas peíToas : as mantenhas ícmpre em feus 
» dereitos , e liberdades : e que feias amador , e deíFenfor das 
99 viuvas , e dos orfoons, alçando os agravos aos teus fobditos 
i9 que lhe nom feia feita eniuria , e que fem recebimento dal- 
>9 guma peíToa fempre feias honrrador e amador da iuôiça , de 
» guifa que por tuas obras dignamente feias chamado perno- 
« me de Rei que bem rege : efei certo fe o aííifezeres , que 
9,9 íempre em teus dias viveras em paz , e folgança , avendo 
99 Deos em tua aiuda , e a fua santa egreia te avera em fua 
>9 emcomenda feendo preftes pêra toda tua honrra , e compri- 
» mento de iuftas petiçooes , dante em Avinhom &c. ?> Em. 
outra carta delRci Daragom erom contheudas eftas razooens. 
99 Muito alto,emuj nobre Dom Pedro pella graça de Deos j 
5> Rei de Purtugal , e do Algarve , Dom Pedro per efía meefma 
5> graça. Rei Daragom , e de Valença, e de Mayorgas, e de Ser- 
» denha , e de Corçega , e Conde de Barçellona , e de Roçe- 
99 Ihom , faude como a Rei que teemos em logar áç irmaão 
a> que mujto amamos , e prcçamos e de que mujto fiamos , e 
99 pêra que queríamos mujta honrra c boa ventuira , com tanta 
..• :.. : 99 vi- 

^i) e ^alteza T, , 




d'e lReiD. PedroI. 13 

» vida e faude como pêra nos raeesmo. Reilrmaao reçebe- 
>5 mos voíTa letera , pella qual nos fignijfícaftes , a morte do muj 
» alto 5 e muj honrrado elRei dom AíFoníTo de Purtugal voíTo 
99 padre a queDeos perdoe, e per eíTa meefma nos fezeftes 
99 faber, que vos aílí como leu primogénito e herdeiro dos 
» ditos reinos: crades levantado por Rei de Purtugal, das 
» quaaes novas em verdade P^eilrmaao ouvemos defprazer, e 
99 prazer iuntamente , defprazer da morte do dito Rei ,0 qual 
j> fabiamos que nos amava come feu filho , e nos a el come 
5> a noíTo mujto amado padre: mas como da morte nenhuma 
5j peíToa feia ifenta , eo dito Rei feia faido da miferia deíle 
99 mundo , doendonos delia , fe per nos alguma coufa podef- 
99 fe fer feita, mujto preftes éramos de o fazer: porem roga- 
5» mos a Deos em cuia maão he vida , e morte de cada hi4um , 
5> que receba fua alma com os feus fantos no paraifo : fianda 
» em elle queo ha feito. Prazer outrofi ouvemos muj grande 
j> Rei Irmaão , quando foubemos que erades alçado em Rei 
99 de Purtugal , e do Algarve , pella fubçeíTom herdeira , a vos? 
í> per direito perteençente , e creendo fabee , que aííi como 
» nos tijnhamos o dito Rei em conta , e logo de padre : aíli 
99 entendemos de teer a vos cm conta de nolTo irmiáo , e fazer 
5> por vos toda coufa que feia honrra , e prazer voíTo , e pro- 
99 veito de voíFo fenhorio , efperando certamente, de vos, que 
5> farces femelhante por nos , e por noíFos regnos , e terras. E 
99 por quanto hirmaao Rei , fegundo he comthcudo em vof- 
99 fa letera , vo»? defeiaaes faber o boom eítado de noíTa pef- 
5» foa , e da Rainha , e de noífos filhos , a prazer voíFo vos fí- 
íj gnificamos , que fomos todos faãos e em boa defpofiçom de 
99 noífas peíToas merçees a Deos : rogandovos muj caramente , 
5í que de voíTo boom eítado , e real cafa , nos çertifiquees per 
5> voíTa carta , e feede certo que nos farees aífijiiado prazer j 
»> dante em Saragoça &c, 99 



B ii CA^ 



j^ Chronica 

CAPITULO IV. 

Da maneira que elRei Dom Pedro tijnha nos desembar- 
gos de sua casa. 

POis defte Rei achamos efcripto que era mujto amado 
de feu poboo , por os manteer em dereito , e iulliça , de- 
íi boa governança que em feu Reino tijnha: bem he que di- 
gamos de cada coufa huum pouco por veerdes parte dos mo- 
dos antijgos. Na hordenança de todollos defembargos tijnha 
elRei efta maneira : Qiiantas pitiçooes lhe a elle davom , 
hiam amaáo de Gonçallo Vaasquez de Gooes fcripvam da 
puridade , e elle as dava a huum efcripvam qual lhe pra- 
zia , o qual tijnha encarrego de as repartir , e dar cada hu- 
mas aos defembargadores a que perteenciam , e as pitiçooes 
que erom defembargos de comum curfo , aquelles per que 
aviam de paíTar, mandavam logo fazer as cartas a feus ef- 
cripvaaens de guifa que naquel dia ou no outro feguinte eram 
as partes defembargadas , e o efcripvam queo aíli nom fa- 
zia , perdia a merçee delRei por ello. As outras pitiçooes 
que eram de graça e merçee que perteeçiam a fua fazenda y 
faziaas poer huum dos veedores em ementa a feu efcripvam , 
e efte efcripvia per fua maao as pitiçooes que aíll levava , 
cuias eram, e de que coufa, e efte efcripto ficava na maao 
do defembargador , e quamdo as depois defembargava com 
elRei , fe achava mais petiçoôes poftas na ementa , que 
aquellas quelhe el mandara poer vifto o efcripto que em 
feu poder ficava , por tal erro perdia a merçee delRei , e co- 
mo aquella ementa era defembargada com elRei , diziam os 
defembargadores a cada huuma peíToa , a merçee quelhe 
elRei fazia, e mandavam a feus efcripvaaens que lhe fczef- 
fem logo as cartas , e em eíTe dia aviam de feer feitas ou 
no outro a mais tardar , fo apenna que dilTemos. E fe hi avia 
taaes perfiofos , que andavam mais após elRei , afficandoo 

com 




d'elReiD. PedkoI. 15 

com outras petiçooes depois que aviam defembargo de li 
ou de nom , ou moravam mais tempo na corte , fe era honr- 
rado pagava certa pena de dinheiro , e fe peíToa refeçe da- 
vomlhe vinte açoutes na praça , e mandavomno pêra cafa , 
e tragia elRei emculcas que lhe foubeíTem parte de taaes 
liomeens , por fe comprir em elles fua hordenaçom. Por el- 
Rei nom íeer anoiado , de veer duas vezes as merçees que 
fazia 5 huma per ementa , e outra per cartas , e por aqu^lles 
queo requeriam , averem mais tolte feu defembargo , faziaf- 
fe deita guifa. Qtiamdo elRei outorgava algumas merçees 
a alguém , os que lhe aviam de dar defembargo, efcrepviam 
logo na ementa per ante elRei a maneira como lhas dava , 
e em cada huum defenbargo poinha elRei feu íignal , e o 
chamçeler eftava prefente quando podia pêra veer como as 
elRei defembargava : e tanto que os defembargadores tij- 
nham as cartas feitas e aíij nadas mandavamnas ao chance- 
ler com o rool da ementa que elRei aíijnara por nom poer 
duvida em alguma delias: e logo em efle dia aviam de feer 
afeelladas ou no outro ataa iantar. Se elRei hia amonte 
ou a caça , em que duraífe mais de quatro dias y por nenhu- 
uns feerem detheudos porelle, iuntavomíFe os que tijnham 
as petiçooes das graças e vijam aquelo que cada huum pe- 
dia, e fe lhe parecia que nom era bem delho elRei fazer, 
fcrepvialhe pello mehudo por qual razom , e as que viam 
que devia outorgar , poiamlhe ilTo meefmo por que , e alij- 
navom todos a ementa , e levavaa huum delles a elRei , por 
lhe dizer a razom que os movera a fazer ou nom cada hu- 
unia coufa , e defta guifa aviam as gentes boom defembar- 
go 5 e elRei era fora de mujto nojo e aficamento. Se algu- 
uns concelhos aviam de recadar com elle , mandavalhe que 
emviaífem em fcijipto çarrado , e feellado per huum portei- 
ro , todo o que mefter aviam , e logo lhe elRei taxava que 
ouveíFe por dia quatro foldos , e mais nom , e elRei viíto o 
que lhe pediam , livravao logo fem outra deteença como 
achava que era dereito. E fe tal coufa era que compria de 

eífe 



;àl^^ 




i^ Chronica 

eíTe concelho emviar a elle alguuns boons homeens , e eiu- 
tendidos , mandava elRei que nom emviaíTem mais dhuum , 
por fazer o concelho mais pouca defpefa , e mandava que tal 
como elle nom ouveíTe por dia mais que vijnte foUdos. 

CAPITULO V. 

Dalguumas cousas que elReí Dom Pedro hordenou per 
bem de kistiça 5 e prol de seu -pohoo, 

A Si como efte Rei Dom Pedro era amador de trigofa 
iuftiça naquelles que achado era que o mereciam : aíli 
trabalhava que os feitos çivees nom foíTem perlongados , 
guardando a cada huum feu dereito compridamente , e por 
que achou , que os procuradores perlongavam os feitos co- 
mo nom deviam , e davam aazo daver hi maliçiofas de- 
mandas , e o peor , e mujto deftranhar , que levavom dam- 
ballas partes aiudando huum contra o outro , mandou 
que em fua cafa , e todo fcu regno , nom ouveíTe voga- 
dos nenhuuns , e emcomendou aos iuizes , e ouvjdores que 
nom folTem mais em favor dhuma parte que outra nem fe 
moveíTem per nenhuma cobijça a tomar ferviços alguuns 
per que a iuftiça foíTe vendida , mas que fe trabalhaíTem 
cedo de livrar os feitos , de guifa que brevemente e com di- 
reito folTem defembargados como compria : e fabendo que 
eram a ello negligentes , que lho cftranharia nos corpos e 
averes , e lhe faria paguar aas partes toda perda que por 
ello ouveíTem. Eftp aífi hordenado , foube elRei a cabo de 
pouco ('í que huum feu defembargador , de que el mujto fia- 
va , chamado per nome meeftre Gonçallo das degrataaes , 
levara peita dhuma das partes que perante el andavom a 
feito 5 por a qual julgou e deu íentença : e elRei fabendo 
efto, ouve muj grande pefar: e deitouho logo fora de fua 
merçee por fempre , e . degradou el e os filhos a dez legoas 

don- 

(i) de pouco tempo T. 



d' E L R E I D. Pedro I. 17 

donde quer que el foíTc : pêro diziam todollos que efto vi- 
rom que aquel de que elle levara a peita tijnha dcreito em 
aquel preito. Eiitom hordenou elRei ^ e pos deíFcfa em fua 
caía e todo feu fenhorio , que nenhuum que teveíTe pode- 
rio de fazer iuftiça , nom filhaíFe peita neiíhuuma dos que 
ouveíTem preitos perantelles, e fe lhe foíTe provado que a 
tomara, que morreíTe porem , e perdeíTe os beens pêra a co- 
roa do Reino, e fe taaes Juizes e oiííciaes , tomaííem fervi- 
ço^ de quaaesquer outros que perantelles nom ouveíTem fei^ 
tos , que perdeíTem a fua merçee , falvo fe foíTe dhomem 
que nom ouveíTe demanda em todo feu fenhorio , que aa- 
dur poderia fer achado , e mandou ao corregedor da corte 
e ouvidores que nom conheçeíTem de feitos nenhuuns , fal- 
vo fe foíTem antre taaes peflbas, de que os Juizes das terras 
nom podeíTcm fazer direito , fe nom quandolhe veeíTem per 
apellaçom ou agravo. Sabendo outro fi elRei como alguuns 
que eram cafados , leixavam fuás molheres e filhos que tij- 
nham e tomavam barregaans , com que adeparte faziam vi-^ 
venda , e outros taaes que com fuás molheres as tijnham 
em casa. Mandou e pos por lei que qualquer cafado que 
com barregaã viveíTe , ou a teveífe dentro em íua cafa , fe 
foífe fidallgo ou vaíTallo, que delle ou doutrem teveíTe ma- 
ravidijs, que os perdeíTe, e fegundo os eftados das peíToas, 
aífi hordenou as penas do dinheiro e degredo , ataa mandar 
que pubricamente por a terceira vez , elles e ellas por efto 
foíTem açoutados , e quando diziam a elRei , que fe agrava- 
vom mujtos de tal hordenança como efta , refpondia elle que 
aíli o entendia por ferviço de Deos e feu e prol delles to- 
dos , e eíta hordenança meefma e penas pos nas molheres 
que barregaans foíTem de clérigos dordeens facras. Elle de- 
fendeo e mandou em Lixboa , que nenhuma molher de qual 
quer eítado ('^ nom emtraíTe dentro no arravalde dos Mouros de 
dia nem de noite fo pena de feer enforcada. E mandou que 
quallquer Judeu ou Mouro , que depois de foi poílo fofle 

acha- 
_____ 







l8 C H R o N I C A 

achado pela cidade , que com pregom pub ricamente foíTe 
açoutado per ella. Falando elRei huum dia nos feitos da 
juftiça 5 diíTe que voontade era efora fempre, de manteer os 
poboos de feu Reino em ella , e eftremadamente fazer di- 
reito de íi meefmo , e por quanto ellc fentia , queo moor 
agravo cue el e feus filhos , e outros alguuns de feu fenho- 
rio faziam aos poboos de fua terra , aflí em o tomar das vian- 
das por preço mais baixo do que fe vendiam , que porem el 
mandava , que nenhuum de fua cafa , nem dos líFantes , nem 
doutro nenhuum que em fua merçee e Reinos viveífe , que 
carrego teveífe de tomar aves , que nom tomaífe galinhas nem 
patos , nem cabritos , nem leitoões , nem outras nenhuumas 
coufas acoftumadas de tomar , falvo compradas aavoontade 
de feu dono, e fobreíto pos pena de prifom , e dinheiros aas 
honrradas peíFoas, e aos galinheiros e pelToas vijs , açoutados 
pello logar hu as tomaíFem e deitados fora de fua merçee. 
Mandou mais aos eítrabeiros feus e de feus filhos , e a to- 
dollos de fua terra que nom mandaflem a nenhuum logar por 
palha doada , falvo fe a ouveíTe daver de foro , mas que pel- 
lo szamel que folTe por ella , mandaíTe pagar polia carga 
cavallar de palha ou de reftolho empalhado, três foldos , e 
polia carga afnal dous , e o azamel que por ella foíFe , e a 
deita guifa nom pagaíTe , que por a primeira vez foíTe açou- 
tado e talhadas as orelhas , e por a fegunda foífe enforca- 
do , e outra tal pena mandava dar ao lavrador , que nom em- 
palhaíTe toda a palha que ouveífe. E quando lhe diziam que 
poinha muj grandes penas por muj pequenos exçeíFos , dava 
repofta dizendo aíli, que a pena que os homeens mais re- 
ceavam era a morte , e que fe por efta fe nom cavidaíTem de 
mal fazer , que aas outras davom paíTada , e que boa coufa 
era enforcar huum ou dous , por os outros todos feerem 
ca fti gados , e que aílí o entendia por ferviço de Deos e prol 
de feu poboo. El corregeo as medidas de pam de todo Por- 
tugal , e hordenou outras coufas por boo paramento e pro- 
veito de fua terra , das quaaes nom fazemos mais longo pro- 

çef- 



d'k l R e I d. P e d r o I. 19 

çeíTo por nom fabermos quanto prazeriom aos que as ou- 
vilTem. 

CAPITULO VI. 

Como elRei mandou degollar dous seus criados , porque 
roubarom huum Judeu e o matarom» 

ESte Rei Dom Pedro em quanto viveo , hufou mujto de 
juftiça fem afeiçom , teendo tal igualdade em fazer direi- 
to , que a nenhuum perdoava os erros que fazia , por criaçom 
nem bem querença que com el ouveíTe ; e fe dizem que 
aquel he bem aventurado Rei , que per íi efcodrinha os mal- 
les e forças que fazem aos pobres , e bem he efte do con- 
to de taaes 5 ca el era ledo de os ouvir, e folgava em lhes 
fazer direito, de guifa que todos viviam em paz, e era ain- 
da tam zelofo de fazer j uftiça , efpeçiallmente dos que tra- 
veíTos eram , que perante íi os mandava meter a tormento , 
e fe confelTar nom queriam , el fe defveftia de feus reaacs 
panos , e per fua maao açoutava os malfeitores , e pêro que 
dello mujto prafmavom feus confelheiros e outros alguuns, 
anoiavaíFe de os ouvjr , e nom o podiam quitar dello per 
nenhuuma guifa. Nenhuum feito crime mandava que fe de- 
fembargalfe falvo perantelle , e fe ouvia novas dalguum la- 
drom ou malfeitor, alongado mujto donde el folfe, fallava 
com alguum feu de que fe fiava , prometendolhe merçees 
por lho hir bufcar , e mandavalhe que nom veheíFe ante el- 
le , ataa que todavia lho trouveífe aa maão ; e aífi lhos tra- 
giam prefos do cabo do reino , e lhos aprefentavom hu quer 
que eílava ; e da mefa fe levantava , fe chegavom a tempo que 
el comeífe , por os fazer logo meter a tormento ; e el meef- 
mo poinha em elles maao quando vija que confeíTar nom 
queriam firindoos cruellmente ataa que confeíFavam. A to- 
do logar honde elRei hia , fempre achariees preftes com 
huum açoute, o que de taloífiçio tijnha encarrego, em gui- 
Tom, IF, C fa 



30 Chronica 

f^i <\ue como a elRei tragiam alguum malfeitor , e el dizia 
chamemme foaão que traga o açoute , logo elle era preftes 
fem outra tardança. Epois que efcrepvemos que foi iuftiço- 
f o , por fazer dereito em reger fcu poboo, bem he que ou- 
çaacs duas ou três coufas : por veerdcs o geito que em ef- 
to tijnha. Aílí aveo que poufando el nos paaços de Bellas 
que el fezera , dous feus efcudeiros que gram tempo avia que 
com el viviam, feendo ambos parceiros ouverom comfelho 
que foíTem roubar huum Judeu que pelos montes andava 
vendendo fpeçearia, e outras coufas , e foi afli de feito, 
que forom bufcar aquella cuja preá e roubaromno de to- 
do , e o peor defto , foi morto per elles; fua ventura que 
lhe foi contrairá , aazou de tal guifa que forom logo pre- 
fos e tragidos a elRei ali hu poufava. ElRei como os vio 
tomou gram prazer por feerem filhados, e começouhos de 
preguntar como fora aquello , elles penfando que longa 
criaçom e ferviço que lhe feito aviam , o demoveíTe a ter 
alguum geito com elles , nom tal como tijnha com outras 
peíToas, começarom de negar, dizendo que de tal coufa 
nom fabiam parte. El que fabia ia de que guifa fora , diífe 
que Bom aviam por que mais negar , que ou confeíTaíTem. 
como ho matarom , fe nom que a poder de cruees açou- 
tes lhe faria dizer a verdade : elles em negando , virom 
que elRei queria poer em obra o que lhe per pallavra 
dizia , comfeíFarom todo aífi como fora ; e elPvei forrin- 
doíTe difle que fezerom bem , que tomar queriam mef- 
ter de ladroões e matar homeens pellos caminhos , de fe 
enlinarem primeiro nos Judeus , e depois vijnriam aos 
Chriílãos; e em dizendo eílas e outras pallavras paíTeava 
perantelles dhuma parte aa outra , e parece que nenbran- 
dolhe í') a criaçom que em elles fezera e como os queria 
mandar matar, vijnhamlhe as lagrimas aos olhos per vezes; 
depois tornava afperamentc contra elles reprendendoos muj- 
to do que feito aviam , e aíli andou per huum grande efpa- 

ço. 

(i.) lembrandolhe T. 




d'elRei d. Pedro I. 2;i- 

ço. Os que hi citavam que aquefto viam , fofpeitando mal 
de fuás razoóes , aíícavamfe mujto a pedir mcrçee por el- 
les , dizendo que por huum Judeu aílrofo nom era bem 
morrerem taaes homcens , e que bem era de os caftigar per 
de<?redo , ou outra alguuma pena , mas nom moftrar contra 
aauelles que criara pello primeiro erro tam grande crueza. 
ElRei ouvindo todos refpondia fempre que dos Judeos vijn- 
riam depois aos Chriftaaos , en fim deftas e outras razoões, 
mandou que os degolIaíTem , e foi aíli feito. 

CAPITULO VIL 

Como elRei quifera meter huum bispo atormento^ por 
que dormia com huma molher cafada, 

NOm foomente bufava elRei de juftiça contra aquelles 
que razom tijnha , aílí como leigos e femelhantes pef- 
foas : mas aílí ardia o coraçom delle de fazer juftiça dos 
maaos , que nom queria (') fua jurdiçom , aos clérigos tanbem 
dordeens pequenas como de maiores ; e fe lhe pediam que 
o mandaíFe entregar a feu vigairo , dizia que o pofeíTem na 
forca , e que aíli o entregaíTem a Jefus Chrifto que era feu 
Vigairo , que fezeíTe delle direito no outro mundo ; e el per 
feu corpo os queria punir e atormentar , aílí como quizera 
fazer a huum bifpo do Porto , na maneira que vos contare- 
mos. Certo foi e nom ponhaaes duvida, que elRei partin- 
do dantre Doiro e Minho por vijr aa cidade do Porto, foi 
enformado que o bifpo deífe logar , que entom tijnha gram 
fama de fazenda e honrra , dormia com huuma molher dhu- 
um çidadaão dos boons que havia na dita cidade , e que el 
nom era oufado de tornar a ello , com efpanio dameaças de 
morte que lhe o bifpo mandava poer ; elRei quando efto 
ouviojpor faber de que guifa era, nomvijaodia que efte- 

C ii vef- 

(i) que nym queriáo goardar T. 



22, ChRONICA 

veíTe com elle , pêra lho aver de preguntar ; e logo fem muj- 
ta tardança , depois que chegou ao logar e ouve comido , 
mandou dizer ao bifpo que foíTe ao paaço que o avia mef- 
ter por coufas de feu ferviço , e ante que chegaíTe , fallou 
com feus porteiros , que depois que o bifpo emtraíTe na ca- 
niara , lançaíTe todos fora do paaço, tanbem os do bifpo, co- 
mo quaaes quer outros , e que ainda que alguuns do confelho 
veheírem , que nom leixalTem emtrar nenhuum dentro ; mas 
que IhedifeíTem que fe foíTem pêra aspoufadas, ca el tijnha 
de fazer huma coufa , em que nom queria que foíTem pre- 
fentes. O bifpo como veo entrou na camará onde elRei 
eftava , e os porteiros fezerom logo hir todollos feus e 
os outros 5 em guifa que no paaço nom ficou nenhuum , e 
foi livre de toda a gente. ElRei como foi adcparte com 
o bifpo , defveftioíTe logo e ficou em huuma faya dezcar- 
llata , e por fua ma ao tirou ao bifpo todas fuás veftidu- 
ras , e começou de o requerer , que lhe confefiaíFe a ver- 
dade daquel maleficio em que aíli era culpado • e em lhe 
dizendo efto , tijnha na maao huum grande açoute pêra o 
brandir com elle. Os criados do bifpo quando no começo 
vijrom que os deitavom fora , e ifiTo meeimo os outros to- 
dos, eque nenhuum nom oufava la dir í'^ , pollo que fabiam 
que o bifpo fazia , defi iuntando a eito a condiçom delRei 
e a maneira que em taacs feitos tijnha : logo fofpeitarom 
que elRei lhe queria jugar dalguum maao jogo; e forom- 
fle a preíTa ao Conde velho , e ao Meeftre de Chriftus Dom 
Nuno Freire e a outros privados de feu confelho, que acor- 
re íTem afinha ao bifpo ; e logo toftemente veherom a elRei 
e nom oufarom dentrar na camará por a dcfefa que elRei 
tijnha pofta , fe nom fora Gonçallo Vaasquez de Gooes feu 
efcripvam da puridade, que diíle que queria emtrar por lhe 
moftrar cartas que fobreveherom delRei de Caftella a gram 
p relia ; e per tal aazo e fingimento ouverom entrada dentro 
na camará , e acharom elRei com o bispo em razoóes da 



gui- 



ei) Ua de hijr T. 



tíía^ o? 



d' ElReI D. Pe DRO I. t^ 

guifa que aveinos , dito e nom lho podiam ia tirar das ma- 
ãos , e começarom de dizer , que foíTe fua merçee de nom 
poer maão em elle , ca por tal feito, nom lhe guardando 
fua jurdiçom, averia o Papa íanha delle , demais que o feu 
poboo lhe chamava algoz , que per feu corpo juíliçava os 
homeens o que non convijnha a el de fazer por mujto mal 
feitores que foífem. Com cilas e outras taaes razoóes , arre* 
feçeo elRei de fua brava ('^ fanha , e o bifpo fe partio dan- 
telle , com fembrante trifte e torvado coraçom. 

CAPITULO VIIL 

Como elRei mandou capar huum feu efcudeiro por que 
dormio com huuma molher cajada. 

HEra ainda elRei Dom Pedro mujto çeofo , alli de mo- 
Iheres de fua cafa , come de feus ofíiciaaes , e das outras 
todas do poboo ; e fazia grandes juftiças em quaaes quer 
que dormiam com molheres cafadas ou virgeens, e iíFo me- 
efmo com freiras dordem. Onde aqueeçeo que em fua cafa 
avia huum corregedor da corte a que chamavam Lourenço 
Gomçallvez , homem muj entendido e bem razoado compri- 
dor de todallas coufas que lhe elRei mandava fazer , e nom 
conrrompido per nenhuuns falfos offereçimentos que trafmu- 
dam os juizos dos homeens ; e por que o elRei achava leal 
e bem verdadeiro , fiava delle mujto e querialhe grande 
bem ; e era elte corregedor mujto honrrado de fua cafa e 
eftado 5 e mujto praçeiro e de boa converfaçom , e feeria ef- 
tonçe em mea hidade. Sua molher avia nome Tolfe í^^, briofa 
louçaã e mujto apofta : de graciofas manhas e bem acoíbu- 
mada. Em eila fazom vivia com elRei huum boom efcudei- 
ro , e pêra mujto , mancebo , e homem de prol , e em aquel 
tempo eftremado em alij nadas bondades , grande juftador e 

ca- 

(0 mui brava T. CO Caceiina TooíTe 7". 



«Twxi ri*. 



24 Chronica 

cavalgador , grande monteiro e caçador , luitador e travador 
de grandes ligeirjçes , e de todallas manhas que fe aboons 
homeens requerem : chamado per nome AíFoníTo Madeira ; 
por a qual razom o elRei amava mujto e lhe fazia bem 
graadas merçees. Efte efcudeiro fe veo a namorar de Catel- 
lina ToíTe , e mal cuidados os perijgos que lhe avijr pediam 
Ae tal feito, tam ardentemente fe lançou a lhe querer bem: 
que nom podia perder delia viíta e defeio , affi era trafpaíRi- 
do do feu amor : mas por que legar e tempo nom concor- 
riam pêra lhe fallar como el queria , e por teer aazo de ar- 
requerer ameude de feus defoneftos amores , firmou com o 
apoufentador tam grande amizade , que pêra honde quer 
que elRei partia, ora foífe villa ou quallquer aldeã , fempre 
AíFoníFo Madeira avia de feer apoufentado junto ou mujto 
preto do corregedor, e avija ia tempo que durava efte apou- 
íentamento fempre acerca huum do outro , teendo boom 
^eito e converfaçam com feu marido : por carecer de toda 
íofpeita. AffonlTo Madeira tangia e cantava , afora fua apof- 
tura e manhas booas ia recontadas; de guifa que per aazo 
de tal achegamento , com longa afeiçom e falias ameude, 
fe geerou antrelles tal fruito : que veo el a acabamento de 
feus perlongados defeios. E por que femelhante feito , nom 
he da geeraçom das coufas que fe mujto emcobrem , ouve el- 
]R.ei de faber parte de toda fua fazenda , e nom ouve dello 
menos fentido : que fe ella fora fua molher ou filha. E co- 
mo quer que o elPvei mujto amaíTe , mais que fe deve aqui 
de dizer , pofta adeparte toda bem qucrença , mandouho to- 
mar em lua ('^ camará, emandoulhe cortar aquelles menbros , 
<jue os homeens em moor preço tem ; de guifa que nom 
ficou carne ataa os oíFos que todo nom foífe corto ; e penfa- 
rom Dafonfo Madeira e guareçeo e engroíTou em pernas e 
corpo , e viveo alguuns annos emialhado do roftro e fem 
barvas , e morreo depois de fua natural door. (^^ 

^ CA- 

(0 dentro ^^ ^^^ ^« CO natural morte. T, 



d' E L R El D. Pe D R o I. 25: 

CAPITULO IX. 

Como elRei mandou queimar a molher Daffonsso An- 
dré y e doutras justiças que mandou fazer, 

QUem ouvio femelhante iuíliça da que elRei fez na mo- 
lher DaíFoníTo André , mercador honrrado , morador em 
Lixboa ; andando iuítando na rua nova , como era coílume 
quando os Reis vijnham aas cidades , que os mercadores e 
çidadaãos iuftavom com os da corte por feAa. Eílando el- 
Rei prefente e avendo enformaçom certa que fua molher lhe 
fazia maldade , entendeo que entom era tempo de a achar e 
tomar em tal obra, e per enculcas mujto efcufamente foi el- 
la tomada com quem a culpavam , e mandouha queimar e de- 
golar elle (^^, e o marido conthinuando a iuíta, quando çeíTou 
foube difto parte , e foiíTe a elRei por fe queixar do que Ihç 
feito aviaí^^, e elRei como o vio ante que lhe el fallafíe, 
pediolhe a alviíTera do que mandara fazer ; dizendo que ja 
o tijnha vingado da aleivola de fua molher , e do que lhe 
poinha as cornas e que melhor fabia el quem ella era, que 
el. Que diremos de Maria RouíTada , molher cafada com feu 
marido que dormira com ella per força , a que eftonçe cha- 
mavom roufar , por a qual couía el merecia morte ; e teen- 
do ja delia filhos e filhas , viviam ambos em gram bem que- 
rença , e ouvindoa elRei chamar per tal nome , preguntou 
por que lho chamavam , e foube da guifa como todo fora , e 
que fe aveherom que cafaífem ambos por tal feito nomvijr 
mais a praça 5 eelRei por comprir iuftiça mandouho enforcar, 
e hia a molher e os filhos carpindo trás elle. Nora vallea 
eílando elRei em Bragaa rogo de quantos com el andavam 
que podeíTe efcapar a vida Aívoro 0) Rodriguez de Grade 
huum dos boons efcudeiros dantre Doiro e Minho e bem apa- 

• rcn- 

(O a elle 7", (2) feito lhe avyanj J, (5) a Alvorq T". 






2^ Chronica 

renrado , por que cortou os arcos dhuma cuba de vinho a 
liuum pobre lavrador que lhe logo elRei nom mandou cor- 
tar a cabeça tanto que ofoube. E por que huum feu (') efcri- 
pvam do thezouro reçebeo onze livras e mea fem o the Tou- 
reiro , mandouho enforcar , que lhe nom pode valer o Con- 
de, nem Betriz Diaz manceba delRei nem outro nenhuum, 
e foroni aquel dia com eíles dous , onze mortos per juftiça 
antre ladrooens e malfeitores Nom fique por dizer dhuum 
boom efcudeiro , fobrinho de Joham Lourenço Bubal , pri- 
vado delRei e do feu confelho , alcaide moor de Lixboa , o 
qual efcudeiro vivia cm Avis , honrradamente c bem acom- 
panhado , e foi a fua cafa per mandado do juiz huum por- 
teiro pêra o penhorar ; e el por comprir voontade depenou- 
Ihe a barva e deulhe huuma punhada. O porteiro veoíTe a 
Avrantes honde elRei cftava , e contoulhe todo como lhe 
avehera , elRei que o adeparte ouvia , como acabou de fiil- 
lar , começou de dizer contra o corregedor que hi eílava , 
acorreeme aqui Lourenço Gonçallvez , ca huum homem me 
deu huuma punhada no roílro e me depenou a barva : o cor- 
regedor e os que o ouvirom ficarom cfpantados por que o 
dizia 5 e mandou apreífa que lho trouveíFem prefo , e nom 
lhe valefle nenhuuma egreia. E foi aíli feito , e troveromlho 
a Avrantes e alli o mandou degoUar , e diíFe , des que me 
efte homem deu huuma punhada e me depenou a barva , 
fempre me temj delle que me dcíTe huuma cuitellada , mas 
ja agora fom feguro que nunca ma dará. Aífi que bem po- 
dem dizer defte Rei Dom Pedro , que nom fairom em feu 
tempo certos os ditos de Salom filofopho e doutros alguuns , 
os quaaes diíTerom que as leis e juíliça , eram taaes como 
a tea da aranha , na qual os mosquitos pequenos caindo, 
fom reteudos e morrem cm ella ; e as mofcas grandes e que ^^* 
fom mais rijas , iazendo em ella , rompemna e vaanlTe , e 
aífi diziam elles que as leis e iuftiça , fe nom compriaí^^fe 
nom em nos pobres , mas os outros que tijnham ajuda e 

açor- 

(i) o feu T» (2) porque T. (3J compriam T, 



d'elReiD. PedroL 27 

acorro , caindo em ella rompiamna e efcapavam. ElRei Dom 
Pedro era mujto per o contrairo , ca nenhuum per rogo 
nem poderio , avia defcapar da pena merecida , de guifa que 
todos receavam de paíTar feu mandado. 

CAPITULO X. 

Como elRei mandava matar o almirante ^ e da carta que 
lhe emvioii o duque e comuum de Gema rogando 

por elle. 

ELRei Dom Pedro queria gram mal a alcouvetas í^í e feiti* 
çeiras , de guifa que por as juítiças que cm ellas fazia, 
muj poucas hufavom de taaes oifiçios. E feendo el na Beira , 
foube que huuma chamada per nome Ellena alcouvetara ao 
almirante huma molher , com que el dormira , a que diziam 
Violante Vaafquez , e mandou logo elRei queimar a alçou- 
veta ^^\ Ao 0^ almirante Lançarote Peçanho mandava cortar a 
cabeça : e pêro os do feu confelho trabalhaíTem mujto por o li- 
vrar de fua fanha , nunca o poderom com elle poftar , em tan- 
to que o almirante fogio , e foi amoorado , e partio delle per 
longos tempos : perdidas fuás contias e todo feu bem fazer 
e officio. E nom fabendo remédio que fobrefto teer , ouve 
acordo de mandar pedir ao duque e comuum de Genoa que 
efcrepveíTem por el a elRei , que folTe fua merçee de lhe 
perdoar. Os Genoefes veendo o recado do almirante , efcre- 
pverom a elRei que perdeíTe delle fanha , e a carta de Ga- 
briel Adurno duque de Genoa e dos ançiaaos do confelho 
defla cidade , dizia em efta guifa. 5> Príncipe e Senhor muj 
5> claro j de grande e real majeftade : efguardada a benigni- 
?5 dade , muj tas vezes fe tempera per maníidooem o modo e 
í> rigor da juftiça, e a piedofa confijraçom trabalha fempre 
í> de renovar as boas amizades antijgas : e fe boa coufa he tomar 
Tom. IV. D 3> ami- 

(0 alcouvyteiras T. B, (2) a akouvyteira. T. (^) e ao 2". 



2^ C H F. O N I C A 

)» amizades e novas conheçenças , mujto melhor he fegnndo diz 
99 O fabedor , renovar e confervar as velhas ; dizendo que o ami- 
5) go novo nom he igual nem femelhante ao de longo tempo. 
5> As quaaes razooens nos fazem aver feuza , na voíTa grande 
5> alteza, que graçiofamente aja douvir noíTa humildofa ibpli- 
35 caçom 5 a qual he efta , que a nos foi notificado , como o no- 
99 bre cavaleiro Dom Lançarote Peçanho , voflb almirante , filho 
3> em outro tempo do nobre barom , Dom Emanuel Pezanho , 
j> digno de boa m^emoria , noíTo amigo e çidadaão , aia caido en 
5> fanha da voíTa real maieftade , mais per enveia dalguuns que 
5j dei bem nom diíTerom ; que por outras graves maldades que 
39 em el feiam achadas, fegundo corre a comuum fama que per 
99 razom bem parece , ca nom he de creer que faia de regra 
99 de boons feitos quem he geerado e deçende de padres que 
99 fempre forom emnobrecidos per virtuofos e boons coftumes ; 
íj e pofto que erraíTe em alguuma coufa , mujto deve voíTa 
» difcreta manfidooem , temperar o rigor da juftiça , renovando 
» per novos ('^ benefícios a lealdade dos feus anteçeífores : a qual 
99 coufa nos efperando da volTa grande alteza , a ella humiido- 
9> famente pedimos , que poUo que dito he e noíTos aficados 
»> rogos 5 tenhaaes por bem tornar o dito almirante aa graça 
99 primeira de feu boom eílado. E por efto volFa real maieftade , 
5> avera nos e noíTo comuum aparelhados de ledo coraçom a 
3> todallas coufas que lhe forem prazivees: data (^) &c. ?> Nom 
embargando efta carta , nom podiam com elRei que perdefíe 
fanha do almjrante ; porem depois a longos ÍJ) tempos lhe per- 
doou elReij e foi tornado a fua merçee. 



CA- 



(O nobres J. (i) dante. T, (^) alguuns. T. 






d' E L R E I D. P E D R o I, 2^ 

CAPITULO XI. 

Das moedas que elRei Dom Pedro fez ^ e da valia do 
ouro e da prata em aquel tempo, 

NOm fe podem tam temperadamente dizer os louvores 
dalguuma peíToa , que aquelles cuias lingoas fempre tem 
coftume de reprehender , nom acham logares a elles defpos- 
tos , em que ameude bem poíTam prafmar : e nos por que dif- 
fcmos defte Rei Dom Pedro que era graado e ledo em dar , e 
nom dizemos dalguumas graadezas í') que dignas feiam de tan- 
to louvor ; poderá feer que nos prafmaram alguuns , dizen- 
do que nom eítoriamos dereitamente. E efto nom he por nos 
bem nom veermos que pêra autoridade de tam grande ga- 
bo, nom fe acham ditos em íua igualdança ; mas por nom 
defviar daqueles louvores que os antijgos em fuás obras en-. 
comendarom , contamollo da guifa que o elles differomíbem 
achamos que numca fe anoiava por lhe pedirem , e que man- 
dava lavrar ataa çem marcos de prata em taças e copas pê- 
ra dar em janeiras , e davaas cada anno com outras ioyas a 
quem lhe prazia. Acreçentou nas conthias aos fidalgos e 
vaíFallos como diíTemos ; ca o vaífallo nom avia ante de fua 
contia mais de feteenta e çinquo livras , e elRei Dom Pe- 
dro lhe pos cento , que eram quinze dobras cruzadas , dobras 
mourifcas ; e por eíta contia avia de teer o vaíTallo cavalo 
reçebondo e louriga com feu almofre , e aa fua morte ficava 
o cavallo e loriga a elRei de luitofa ; e davao elRei a quem 
fua merçee era ; em guifa que com aquelle cavallo e armas , 
pofta contia a outro vaífallo , ficava fempre o conto dos vaf- 
fallos certo e nom minguado. No tempo defte Rei , valia o 
marco da prata de ligua dez e nove livras, e a dobra mourifca 
três livras e quinze foldos , e o efcudo três livras e dez e fete 

DJi foi- 

(O gramdezas T, 



I 



3 o 



Chronica 
foldos , e o moutom três livras e dez e nove foldos. Efte Rei 
Dom Pedro nom mudou moeda por cobijça de temporal gaa- 
nho , mas lavroulTe em feu tempo muj nobre moeda douro e 
prata fem outra meílura , a faber , dobras de boom ouro íino , 
de tamanho pefo como as dobras cruzadas que faziam em Se- 
vilha , que chamavam de Dona Branca : e eftas dobras que el- 
Rei Dom Pedro mandava lavrar , çinquoenta delias faziam 
huum marco ; e doutras que lavra vom mais pequenas , leva- 
va o marco cento , e dhuuma parte tijnham quinas e da ou* 
tra figura dhomem com barvas nas faces e coroa na cabeça , 
aíTentado em huuma cadeira , com huuma efpada na maão de- 
reita , e avia leteras arredor per latim que em linguagem de- 
ziam , Pedro Rei de Purtugal e do Algarve ; e da outra par- 
te, Deos aiudame e fazeme exçellente vencedor fobre meus 
inmijgos : e a maior dobra deftas valia quatro livras e dous 
íbldos , c a mais pequena , quorenta e huum foldo. Lavra- 
vom outra moeda de prata que chamavam tornefes , que fa- 
feenta e cinquo ('^ faziam huum marco , de liga e pefo dos rea- 
aes delRei Dom Pedro de Caftella ; e outro tornes faziam 
mais pequeno de que o marco levava cento e trinta , e dhuum 
cabo tijnha quinas , e do outro cabeça dhomem com barvas 
grandes e coroa em ella , e as leteras damballas partes , eram 
taaes como as das dobras , e valia o tornes grande fete fol- 
dos , e o pequeno três foldos e meo , e chamavam a eftas 
moedas , dobra e mea dobra e tornes e meo tornes. A ou- 
tra moeda meuda eram dinheiros alfoníijs , da liga e valor 
■que fezera elRei Dom AíFonfo feu padre : e com eftas moe- 
das , era o reino rico e abaftado e pofto em grande avondan- 
ça ; e os Reis faziam grandes tefouros do que lhes fobeiava 
de fuás rendas , e pêra os fazer e acreçentar em elles tijnham 
■efta maneira. 



CA- 



CO Uxb T, 






d' E L R E I D. P E D R o I. 31 

CAPITULO XII. 

Da maneira que os Reis tijnham per a fazer tefouros , e 

acreçentar em elles, 

JA vos ouviftes bem quanto os Reis antijgos fezerom por 
emcurtar nas defpefas fuás e do Reino , poemdo hordena-r 
çooes em li e nos feus : por teerem tefouros e feerem abaí- 
tados. Por que feendo o poboo rico diziam elles que o Rei 
era rico, e o Rei que tefouro tijnha fempre era preftes pê- 
ra defender fcu reino e fazer guerra quando lhe comprilfe, 
fem agravo e dampno de feu poboo , dizendo que nenhu- 
um era tam feguro de paz, que podeíTe carecer de fortuna 
nom efperada. E pêra encaminharem de fazer tefouro , tij- 
nham todos efta maneira : cm cada huum anno eram os Reis 
certificados pellos veedores de fua fazenda, das defpezas to- 
das que feitas aviam , aílí em enbaixadas come em todallas 
outras coufas, que lhe neçeíTariamente convijnha í'^ fazer; e 
diziam! he o que aalem defto fobeiava de fuás rendas e derei* 
tos , aíli em dinheiros come em quaaes quer coufas , e logo 
era hordenado que fe compraífe delles certo ouro e prata pê- 
ra fe poer no caftello de Lixboa em huuma torre , que pêra 
efto fora feita , que chamavam a torre alvarraâ. Efta torre 
era muj forte e nom foi porem acabada , eftava em cima da 
porta do caftello , e alli poinham ho mais do tefouro que os 
Reis juntavom em ouro e prata e moedas, e tijnham as cha*- 
ves delia , huum gardiam de Sam Françifco , e outra o priol 
de Sam Domingos , e a terceira huum beneficiado da See def- 
fa cidade. E pêra juntarem efte ouro e prata , tijnham efte 
modo : em todallas cidades e villas do Reino que pêra efto 
eram aazadas, tijnham os Reis feus cambadores , que compra- 
vam prata e ouro aaquelles que o vender queriam , o qual 

nom 

Cl) coíivijnham T,B, 






2 Chbonica 



3 

nom avia de conprar outrem fe nom elles ; e acabado o an - 

no tragia cada huiim quanto comprara aaquelles logarcs on- 
de avia de leer pofto em tefouro , e aviam eftes cambadores 
certa coufa de cada peça douro que compravam , e o que 
íobeiava cm moeda poinhanno iíTo meeímo em dcpoíito. 
Outra torre avia no caftello de Santarém , em que outríjfli ef- 
tava muj gram tefouro de moeda c doutras coufas , em ta- 
manha cantidade , que ante apontavam fortemente por nom 
cahir com o muj to aver que em ella poinham ; e deíla gui- 
fa eftava no Porto e em Coimbra e em outros logares. E pof- 
to alli em cada huum anno aquel ouro e prata e moedas que 
aíli ficavom,eque os Reis mandavom comprar, quando o Rei 
vijnha a morrer , e preegavom dei e dos beens que fezera , 
dizendo como o reinara tantos annos e mantevera em derei- 
to e juftiça : contavam lhe mais por grande bondade e lou- 
vando© muj to diziam , eJ^e Rei em tantos arinos que reinou, 
pos nas torres do tefouro tanto ouro e prata e moedas ; e 
quanto cada huum Rei em cilas mais poinha , tanto lho con- 
tavom por muj to moor bcmdade. ElRei Dom Pedro como 
Reinou , pareçeo a alguuns que nem tijnha fentido dordenar 
que acreçentaíle no tefouro , que os antijgos com grande cui- 
dado começarom de guardar ; e veendo eito huum feu pri- 
vado, que chamavom Johaneílevez, ouveo por grande mal , e 
propôs de lho dizer, e fallando elRei com elle huumaí^^em 
coufas de fabor, dilFe elle a elRei em efta guifa : Senhor a 
mim parece , fe voíTa merçee fofle , que feeria bem de pro- 
veerdes voíTa fazenda , e veer o que fe defpemder pode , e 
úo que fobeiar , eracaminhardes como acreçentees alguuma 
coufa nos tefouros que vos ficarom de voíTo padre e de vof- 
fos avoos 5 pêra fazerdes o que os outros Reis fezerom , e 
pêra teerdes que defpemder mais avondoíàmente , fe vos al- 
guuma neçellídade veeífe aamaão; ca muj to mais com voíFa 
honrra defpemderees vos acreçentando no tefouro que tem- 
des , que gaftar o que os outros Reis leixaroin , fem poeado (^^ 

em 

^i) huma vez 7. (2) fem poer T. B, 



d'elRei d, Pedro I. ^5 

em elle nenhuuma coufa. A eftas e outras razooes refpomdeo 
elRei que dizia bem , e que lhe pofcíTe em efcripto quanta 
era o que remderiam feus dereitos , e a defpefa que fe dello 
fazia. A poucos dias trouve o privado em efcripto todo aquel- 
lo que lhe eIRei diíTera , e vifto per ambos apartadamente, 
acharom que tiradas as defpefas que os Reis em coitume tij- 
nham de fazer , que foomente no feu tefouro de Lixboa po- 
dia cada ano poer na torre do caílello ataa quimze mil do- 
bras ; e ordenou logo , como fe pofeíFe cada" ano , em ouro , 
e prata , e moedas , todo o que fobeiaíTe de fuás remdas nos 
logares acoílumados onde os Reis poinham feu aver ; po- 
rem que dizia elRei que nom fazia pouco , quem guardava 
o tefouro que lhe ficava doutrem , e fe mantijnha nos derei- 
tos que avia de feu reino , fem fazemdo agravo ao poboo . 
nem lhe tomando do feu nenhuuma coufa ; e aíli o fez elle , 
que dos tefouros que achou nunca defpemdeo nenhuuma cou- 
fa ; e ficarom todos per fua morte a elRei Dom Fernamdo feu 
filho , que os depois gaílou como lhe prougue fegundo adiam-» 
te ouvirees. 

CAPITULO XIII. 

Per que guifa elRei Dom Pedro de Cajlella começou de 

juntar tefouro» 

PEr outra maneira juntou elRei Dom Pedro de Caftelk 
muj gram tefouro , fem mudar moeda , nem lamçar pei- 
tas ao poboo , e veede de que guifa foi , pofto que fallemos 
dos feitos alheos. Aílí aveeo que elRei Dom Pedro eítamdo 
na aldeã deMoralles , que he huuma legoa de Touro, jugava 
huum dia os dados com alguuns de feus cavallciros , e tijnha 
lhe huum feu repofteiro moor acerca delle , huuns hucho- 
tes pequenos com alguuma prata e dobras , que feeriam 
per todo ataa vinte mil ; elRei diíTc que aquelle era todo 
feu tefouro, e que mais nom tijnha. Aquel dia logo aa noite 



íuad o> 



24 Chroniga 

eftamdo cIRei cm fua camará, Dom Samuel Levj leu tefou- 
reiro moor , lhe dilTe prefente todos. Senhor oje foi voíTa 
merçee dizer perante aquelles que aqui eltavam , que vos nom 
tijnhades mais thefouro que vijnte mil dobras , de que ioga- 
vees e com que tomavees fabor ; e efto fenhor entemdo que 
o diíTeftes contra mim por me avergonhar ; pois que fom vof- 
fo thefoureiro moor , e nom ponho melhor recado em voíTa 
fazemda. Porem fenhor vos fabees bem , que pofto que foíTe 
eu voíTo tefoureiro , depois que vos reinaftes ataa ora , que 
pode aver huuns fete anos , fempre em voíTo regno ouve ta- 
aes boliços , por os quaaes os recadadores de voífas remdas 
fe atreveram a fazer algumas coufas que nom deviam ; per 
guifa que eu nom puide tomar dello conta aíTeíTegadamente , 
como era razom : mas ora fe voíTa merçee for de me man- 
dardes emtregar dous caílellos quaaes eu diíFer , eu vos que- 
ro poer em elles ante de mujto tempo tefouro com que bem 
poíTaaes dizer que mais teemdes jumtas de vimte mil dobras. 
A elRei prougue mujto deito, e foromlhe emtregues ho al- 
caçar de Torgilho e o de Fita. Dom Samuel pos logo ali ho- 
meens de que fe fiava , e mandou cartas per todo ho Regno , 
a todollos que forom e eram recadadores das remdas delRei y 
des que el começara de reinar ataa em tom, que veelTe logo 
dar comta , e tomavalha defta guifa. Per elRei eram livrados 
a huum cavalleiro , ou outro qualquer certos mil maravidijs 
de feu poimento (') , ou doutra maneira; e Dom Samuel fazia 
vijr peramte li todos aquelles a que alguuns dinheiros forom 
defembargados pêra quel a que tomava a conta , e dava a 
cada huum juramento aos evamgelhos , quamtos dinheiros re- 
ceberam daquel recadador per cada huma vez ; e quamtos lhe 
leixava (^^ por aver delle defembargo e nom feer detheudo ; 
e aquel a que taaes dinheiros forom livrados , dizia que nom 
òuvera mais de tantos , e que os outros lhe dera de peita 
pollo defembargar ; por que lhe faziam em tender , que dou- 
tra guifa nom poderia aver pagamento. Eftonçe fe o recada- 

dor 

(i) de íeu acoftamento T. (2) leixara T. £<, 



d' EL R El D. Pedro I. 35* 

dor nom moftraíTe logar certo hu lhe todo fora pagado , 
mandava iJjom Samuel , que ameetade de quamto aíE levara 
folTe pêra o tefouro delRci , e ameatade pêra aquelle que re- 
cebera tal emgano ; e todollos que taaes livramentos ouverom , 
erom muj contentos de dizer a verdade , por cobrar o que 
tijnham perdido: eelle juntou per efta guila antedhuuman- 
no naquelles caftellos tam gramde tefouro, que era eítranha 
coufa de veer , e efte foi o começo do muj gram tefouro 
que elRei Dom Pedro depois teve junto , fegundo adeante 
contaremos. 

CAPITULO XIV. 

Como el Rei fez comde e armou cavalleiro Joham Af- 
JonJJo Tello , e da gram fejla que lhe fez. 

EM três coufas aíijnadamente , achamos pella moor par- 
te , que elRei Dom Pedro de Purtugal gaitava feu tem- 
po , a faber , em fazer julliça e defembargos do Reino , 
é em monte e caça de que era muj querençofo , e em dan- 
ças e feftas fegumdo aquel tempo , em que tomava gram- 
de fabor , que aadur he agora pêra feer creudo ; e eítas 
danças eram a foom dhuumas longas que eftonçe hufavom , 
fem curamdo doutro eílormento poílo que o hi ouveíTe ^ e 
fe alguma vez lho queriam tanger , logo fe enfadava del- 
le 5 e dizia que o deíFem 00 demo , e que lhe chamaíTem 
os trom.beiros. Hora leixemos os jogos e feftas que elRei 
hordenava por defemfadamento , nas quaaes de dia e de noi- 
te , andava dançamdo per muj gramde efpaço ; mas veede fe 
era bem faborofo jogo. Vijnha elRei em batees Dalmadaa í*> 
pêra Lixboa , e saiamno a receber os çidadaaos e todollos 
dos meíleres com danças e trebelhos , fegumdo eftomçe hu- 
favom ; e el saía dos batees , e metiaíTe na dança com elles , e 
aíE hla ataa o paaço. Paraaementes fe foi boom fabor : jazia 
elRei em Lixboa huuma noite na cama , e nom lhe vijnha fono 
Tom. IV. E pe- 

. (O L)almada 7". 



25 Chronica 

pêra dormir , e fez levamtar os moços e quamtos dormiam 
no paaço , e mandou chamar Joham Mateus , e Louitenço. Pál- 
ios que trouveíTem as trombas da prata , e fez açcmder 
tochas, e meteoíTe pella villa em damça com os outros: as 
gentes que dormiam, fahiam aas janellas, veer ('^ que feita 
era aquella , ou porque fe fazia *, e quamdo virom daquella 
guifa elRei , tomarom prazer de o veer aíli ledo , e amdou 
elRei aíli gram parte da noite, e tornouíTe ao paaço em 
damça ; e pedio vinho e fruita , e lançouífe a dormir. E nom 
curando mais fallar de taaes jogos ; hordenou clRei de fa- 
zer conde e armar cavalleiro Joham AíFonfo Teilo , irmaão de 
Martim AíFonfo Tello , e fezlhe a moor homrra em fua fef- 
ta , que ataa quel tempo fora vifta , (^) que Rei nenhuum fe- 
'zeíTe a fcmelhante peflba ; ca elRei mandou lavrar féis çem- 
tas arrovas de cera , de que fezerom çimquo mil çirios e 
tochas , e veherom de termo de Lixboa , onde elRei eflonçe 
eilava , çimquo mil homeens das vijntenas pêra teerem os di- 
tos çirios ; e quando o comde ouve de vellar fuás armas no 
moeíleiro de Sam Domimgos delTa cidade , hordenou elRei 
^ue des aquel moefteiro ataa os feus paaços , que (5) aíTaz 
gramde efpaço , eftevelTem quedos aquelles homeens todos ca- 
da huum com feu çirio açefo , que davom todos muj gramde 
lume, e elRei com muj tos fidalgos e cavalleiros andavam per 
amtre elles dançamdo e tomando fabor , e aííi defpemderom 
gram parte da noite. Em outro dia eítavom muj gramdes 
temdas armadas no reífio a cerca da quel moefteiro , em que 
avia gramdes montes de pam cozido e aíTaz de tinas cheas 
de vinho , e logo preftes por que beveflem , e fora eftavom 
ao fogo vacas emteiras em efpetos a aílar ; e quamtos comer 
queriam daquella viamda , tijnhamna muj to preftes e a ne- 
nhuum nom era í'^^ vedada , e aíE eíleverom fempre em quam- 
to durou a fefta , na qual forom armados outros cavalleiros , 
cujos nomes nom curamos dizer. 

CA- 

» » ' ■ .- 

(1) a vec T, (2) fora vifto T. (^) que he T. (4) c a nçrxhuum era T. 






d'elReiD. PedroI. 37 

C A P I T U L O XV. 

Das aveemças que elRei de Cajlella e elRei Dom Pedro 

de Purtugal Jirmarom amtrefi^ e como lhe clRei de 

Purtugal prometeo de fazer ajuda comtra dragam. 

SCrevem alguuns louvando eíle Rei Dom Pedro , dizemdo 
que reinou em paz em quanto viveo , e fortuna nom fez 
íem razom dencaminhar ho começo e meo e fim de feu mun- 
do , de viver em aíTeíTego e folgada paz ; ca el per morte 
delRei feu padre achou o Regno fem nenhuma briga , per que 
ouveíTe daver contenda com nenhuum Rei da Efpanha , nem 
doutra provemçia mais alomgada. Des i (') como el reinou, 
mandou logo Airas Gomez da Sillva, e Gonçalle Annes de Beia , 
â elRei de Gaftella feu fobrinho com recado , e de Gaftella 
veo a elle da parte delRei Dom Pedro huum cavalleiro , que 
chamavom Fernam Lopez Deílunhega ; e trautouíTe em tom 
antre os Reis que foíFem ambos verdadeiros e Icaaes amigos, 
e firmarom daquella vez fuás amizades. Depois defto a cabo 
dhuum anno eílamdo elRei Dom Pedro em Évora, chega- 
rom meífegeiros delRei de Gaftella , a faber , Dom Samuel 
Levj feu tefoureiro moor , e Garcia Goterrez Tello alguazil 
moor de Sevilha , e Gomez Fernamdez de Soira í^^ feu alcaide , 
e trautarom amtre os Reis ambos mujto mais perfeitas ami- 
zades que amte. E foi mais hordenado antrelles , que o líFam- 
te Dom Fernamdo , feu primogénito filho e herdeiro em Pur- 
tugal , cafafíe com Dona Beatriz filha do dito Rei de Gaf- 
tella , e que fe fezeíFcm os efpofoiros per feus procuradores , 
des fevereiro meado feguimte ataa puftumeiro dia í'Me março 
que vijnha, e as vodas logo poftumeiro dia dabril ; e que el- 
Rei de Gaftella defle aa dita fua filha em cafumento outro 
tanto aver , quamto elRei Dom AíFonflb de Purtugal dera 
com fua filha Dona Maria a elRei Dom AffbníTo feu padre ; 

E ii e 

(i) des hy T, (2) de Sorya 7". (5) atee o primeiro dia X. 



-.p Chronica 

e que elRei de Purtugal delTe aa dita Dona Beatriz cm arras 
e doaçom 5 outro tamto quanto feu padre elRei Dom AfFoní- 
fo dera a Dona Coftança , quamdo com ellc cafara : e mais 
que cafaíTe Dona Coftança , filha do dito Rei Dom Pedro de 
Caftclla , com o ííFamtc Dom Joham ; e a outra filha , que cha- 
mavom Dona Ifabel , cafaíTe com o líFamte Dom Denis j e que 
os efpofoiros e cafamentos deftes foffem acabados dhi a féis 
annos ; e que elRei de Cafcella deíTe taaes logares a cada hu- 
uma delias , de que ouveíTem de remda novemta mil mara- 
vidijs, e elRei de Purtugal a cada huum dos líFantes logares 
que lhe remdeíTem cada anno dez mil livras de Purtuguefes ; 
e que elRei de Caftella foíTe feu amigo , e emijgo de emij- 
go, e que fe aiudaíTem huum ao outro per mar e per terra, 
cada vez que requerido foíTe ; e que elRei de Caftella nom 
fezeíTe paz com elRei Daragom , comtra quem lhe elle em- 
tom requeria aiuda , fem lho fazer a faber primeiro , nem 
com outro nenhuum Rei e fenhor. Omde fabee que efta aiu- 
da 5 que elRei de Caftella eftomçe pedio a elRei Dom Pe- 
dro de Purtugal , fora ia amte pedida per elle a elRei Dom 
AffoníTo feu padre, quamdo efte Rei Dom Pedro de Caftella 
começou a guerra comtra elRei Dom Pedro Daragom , que 
foi no puftumeiro (') anno do reinado do dito Rei Dom Afíbnf- 
f o 5 fegumdo adeante vcrees ; a qual aiuda avia de feer, gen- 
tes de cavallo per terra , e certas gallees pello mar. ElRei 
Dom Affbnífo refpomdeo a feu neto , que elle fabia bem e 
era certo das pofturas e firmidooes , que forom feitas amtre 
elRei Dom Denis feu padre , e elRei Dom Fernamdo feu 
avoo , e elRei Dom James Daragom , as quaaes todos três 
firmarom por fi e por todos feus foçeífores ; e ávido acordo 
com todollos boons da cafa de Purtugal , que pêra ello fo- 
rom jumtos em comíTelho , achou elRei Dom AíFoníro , que 
lhe nom podia fazer a dita aiuda , com aguifada razom ; 
e vifta (^) tal repofta per elRei de Caftella, ceifou de lha mais 
requerir. Morto elRei Dom AffonlTo de Purtugal , e come- 

Çanv 

(0 puftrimeiro B. (2) e vifto T. B. 



iua"a Ov 






d'elReiD. PedroI. 39 

çamdo òe reinar efte Rei Dom Pedro feii filho , emvioulhe 
ho dito Rei deCaítella rogar, que lhe quiíeíTe fazer aiuda 
per mar e per terra em aquella guerra que emtom avia con- 
tra elRei Daragom ; ca eíTo medes tijnha el em voomtade 
de fazer a elle quamdo lhe compridoiro foíTe. ElRei de Pur- 
tugal refpondeo a efto , que bem certo devia el de fcer dos 
boons e grandes divedos , que fempre ouvera amtre os Reis 
de Purtugal e Daragom , pollos quaaes el com razom agui- 
fada poderia fer bem efcufado de fazer nem dizer coufa , que 
a el e a fua terra foíTe periuizo ; moormente que amtre el- 
Rei Dom iVíFonlTo feu padre e elRei Dom Pedro Daragom 
que emtom era , forom firmadas pofturas e amizades, pêra 
fe amarem e aiudarem, efpiçiallmente comtra elRei Dom Af- 
foniTo padre delle Rei de Caftella ; e que ilTo meefmo fora 
ia a elle trautado per vezes , depois que amtre elles recre- 
çera aquella discórdia : mas que nom embargamdo eítas ra- 
zoóes todas , que emtemdia que amtrelles ambos , avia tan- 
tos e tam boons divedos , e aíli aguifadas razooes , per que 
cada huum delles devia fazer , por honrra e prol do outro , 
toda coufa que podeíTe ; e que el afli o emtemdia de fazer , 
também em aquel meíler que emtom avia , come em todol- 
los outros. E que pêra acreçemtar na amizade e divedos que 
ambos aviam , que lhe prazia de o aiudar em aquella guer- 
ra que começada tijnha; mas por quamto a Deos giaças, el 
era abaftamte de mujtas gentes , mujto mais que elRei Da- 
ragom , e parte de fuás galees eram perdidas ; que melhor 
podia efcufar a aiuda per terra que a do mar : e como quer 
que lhe efta mais cuítofa foíTe , que lhe prazia de o aiudar 
com dez galees groíTas, pagadas (^) por três mefes, as quaaes 
lhe faria bem preftes quando lhas mandaflc requerir. E foi 
afli de feito , que lhe fez aiuda per mar duas vezes , e duas per 
terra de boons cavaleiros e bem corregidos , duramdo per 
longos tempos gramde guerra e mujto crua amtre elRei 
Dom Pedro de Caftella e elRei Dom Pedro Daragom. Mas 

por 

CO pigas T. 



jiiíil Gí' 



AO ClIRONiCA 

por que alguuns ouvimdo aquefto , defeiarom faber que guer- 
ra foi cfta , ou por que fe começou e durou tamto tempo , 
e nos fallar deito podíamos bem efcufar , por taaes coufas fe- 
erem feitos de Caftella e nom de Purtugal ; pêro nom em- 
bargamdo ifto, por fatisfazer ao defeio deftes , des i í'^por que 
nos parece que nom avemdo alguuma noticia das cruellda- 
des e obras defte Rei Dom Pedro de Caftella , nom podem 
bem vijr em conhecimento , qual foi a razom , por que el 
depois fogio de feu Reino e fe vijnha a .Purtugal bufcar (^> 
aiuda e acorro , e como depois de fua morte mujtos logares 
de Caftella fe deram a elRei dom Fernamdo , e tomarom 
voz por elle ; porem faremos de todo huum breve fallamen- 
to 5 começando primeiro nas coufas que lhe aveherom em 
começo de feu reinado , vivemdo aimda elRei Dom Affbnflb 
de Purtugal feu avoo , com as outras que fe feguirom depois 
que reinou elRei Dom Pedro feu tio; as quaaes ('^nos pare- 
ce 5 que fe em outro logar melhor contar nom podem que 
todas aqui iuntamente , emtremetendo feus feitos com a 
guerra ; e primeiro das coufas que fez amtes que a come* 
çaífe , por faberdes todo em certo de que guifa foi. 

CAPITULO XVI. 

Dalguumas pejfoas que elRei Dom Pedro de Cafiella 

mandou matar , e como ca/ou com a Rainha Dona 

Bramca e a leixou» 

SEgumdo teftemunho dalguuns que feus feitos defte Rei 
de Caftella efcreverom , elle foi mujto compridor de toda 
coufa que lhe fua natural e defordenada vontade requeria ; 
em tanto que dizemdo nos í^) pello mcudo todo o que fea- 
mente fe poderia ouvir de feus feitos, cahiriamos ('^ em repre- 

en- 

(i) des hy 2". (2) pedir T. C^) das quaees T. (4) dizendovos T. (5) acha- 
liamos T, £, 



d' E L R E 1 D. P E D R o T. 4 i 

enfom , que nom éramos efcaílb í'^ de comtar os males alheos, 
inoormente taaes que íbm pregoeiros de maa e vergonhoía 
fama: porem mujto menos daquelics que achamos efcriptos, 
dos prinçipaaes diremos e mais nom. Eíte Rei foi mujto ar- 
redado das manhas e comdiçoóes , que aos boons P^eis com- 
pre daver , ca el dizem que foi muj kixuriofo , de guifa que 
quaaes quer molheres que lhe bem pareciam , pofto que filhas 
daigo e molheres de cavaleiros foííem , e iíTo meefmo donas 
dordem ou doutro eítado , que nom guardava mais huumas 
que outras. Era mujto cobijçofo do alheo por maa e defor- 
denada maneira , e nom. queria homem em feu coníTelho , fal- 
vo que lhe louvafie fua rafooi e quamto fazia. Matou muj- 
tas honrradas pefíbas , delias fem razom por lhe darem, bo- 
om coníTelho, e outras fem porque e por ligeiras fofpeitas, 
em tanto que mujtos boons íe afaílavom delle , mujto ano- 
jados por temor de morte ; ca nenhuum nom era com el fe- 
guro , pofto que o bem ferviíTe , e lhe el muj ta merçee e 
íionrra fezeíTe : e leixados os achaques que a cada huum poi- 
nha por os matar , soomente em breve das mortes digamos, 
c mães nom. No fegumdo amio de feu reinado foi morta 
Dona Lianor Nunez de Gozmam , manceba que fora delRei 
feu padre , e madre do comde Dom Hemrrique que depois 
foi Rei j e pofto que alguuns digam que foi per mandado 
da Rainha Dona Maria fua madre , çeito he que ella nom 
mandaria fazer tal coufa fem confemtimento delRei feu fi- 
lho ; e deu elRei a fua madre todollos beens de Lionor Nu- 
nez. Mandou elRei matar Garcia Lasso da Veiga , huum gram 
fidalgo de Caftella e mujto aparemtado de gemrros e parem- 
tes e amigos , por fofpeita que dei ouve. Mandou matar três 
homeens boons da cidade de Burgos, afaber. Pêro Fernam- 
dez de Medina, ejoham Fernamdez eCcripvam , eAffoníFo 
Garcia de Camargo. Item cercou dom Aftbnfíb Fernamdez 
Coronel na villaDaguillar, e emtrouho per força , e mandou- 
ho matar , e Pêro Coronel feu fobrinho , ejoham Gomçallvez 

de 

• CO efcaíTos T. B» < 



ailííy: OT 



^2 Chronica 

de Deça í'^ e Pomço (^^ Dias de QucíTada , e Rodrigue Annes de 
Bedma ('^ e Joham AíFonlTo Carrilho muj boom cavalleiro. Man- 
dou elRei pedir a elRei de França que lhe delTe por molher 
huuma das filhas do duque de Borbom feu primo ; e de féis 
filhas que elle tijnha, efcolherom os meíTegeiros huuma, que 
chamavom Dona Bramca , moça de dezoito annos e bem fre- 
mofa , e reçeberomna em feu nome : e como elRei Dora Pe- 
dro efto foube , mandou que lha trouveíTem logo , e em- 
viou elRei de França com ella o bizconde de Cardona , e ou- 
tros gramdes cavalleiros de fua terra , que lha trouverom muj 
homrradamente ; e deulhe com ella muj gram cafamento em 
ouro e prata e outras riquezas , e forom emtom feiras as 
dobras que chamarom ('^J de Dona Branca , e os reaaes de Caf- 
tella delRei Dom Pedro. E em quamto os meíFegeiros forom 
trautar efte cafamento , tomou el por manceba Maria de Pa- 
dilha , que amdava por domzella em cafa deDonalfabel de 
jMenefes , filha de Dom Fello de Menefes , molher de Dom 
Joham AffoníTo Dalboquerque , que a criava ; e tal voon- 
tade pos elRei em ella , que ia nom curava de cafar com 
Dona Bramca quamdo veo , teemdo ia da outra huuma fi- 
lha que chamavom Dona Beatriz j e per comflelho de Dom 
Joham AíFonfiTo Dalboquerque , pêro muj to comtra voonta- 
de delRei , hordcnou de fazer fuás vodas em Valhadoli- 
de, e forom feitas huuma fegumda feira ; e logo aa terça 
feguimte como elRei comeo , a cabo dhuuma ora , leixou 
fua molher 5 que nom valeo rogo nem lagrimas da Rainha 
Dona Maria fua madre , nem da Rainha Daragpm fua tia , 
que o podeíFem teer, que fe nom partio , e levou tal am- 
dar 5 que foi elFa noite dormir a aldeã de Paiares , que som 
dez e féis legoas de Valhadolide y e em outro dia chegou a 
Monte alvom , homde eftava Dona Maria de Padiiha : e tij- 
nha elRei quamdo partio e alguuns dos que com el hiam , 
mullas em certos logares , pêro nom chegarom com el mais 
de três , e foi por efto gramde alvoroço amtre os fenhores e 

fi- 

(i) e Joham Qonçalvez DeçaT.^iJe FeroT.(5) de BeermaT". (4) chamâvamT.J?, 



d'elReí d. Pedro I. 43 

fidallgos do reino que ali eram , e alguuns forom logo parti- 
dos delRei* Depois per aficado conlelho , tornou elRei a 
Valhadolide e eíteve com fua molher dous dias , e nunca 
mais poderom com elle que ali aíTeiregaíTe , e partiofle e num- 
ca a mais quis veer; e o bizcomde e cavalleiros que com 
ella veherom , fe partirom fem mais fallar a elRei. Seemdo 
viva eíla Rainha Dona Bramca , nom avemdo mais de hu- 
um anno que elRei com ella cafara , pareçeolhe bem Dona 
Johana de Caftro í'^ , filha de Dom Pedro de Crafto , que cha- 
marom da Guerra , molher que fora de Dom Diego Dalfa- 
ro , e cometeolhe per outrem que cafalTe com elle ; e ella 
nom quercmdo , por que elRei era cafado ; diíTe elle que tij» 
nha razooes por que o nom era : e mandou aos bispos Davil- 
la e de Salamanca que pronumçiaíTem que podia cafar; e el- 
les com medo diíTeromno alli , e forom recebidos na villa de 
Qualhar demtro na egreia folempnemente pello bifpo de Sa- 
lamanca , que os reçebeo ambos : em outro dia partio elRet 
dali , e numca mais vio ella Donajohanna; e ella chamouf- 
fe fempre Rainha , pêro nom prazia a elRei dello. A Rai- 
nha Dona Maria tomou comíigo fua nora , e foiíTe pêra Ou- 
terdefilhas , e des i mandouha elRei levar guardada aRe- 
vollo , que a nom viíTe fua madre nem outro nenhuum ; e 
depois a teve prefa em Medifidonia (^) , e ali a mandou matar , 
feemdo emtom a Rainha em hidade de vinte e cinco annos , 
mujto fefuda e bem acoftumada : e elle teve hordenado de 
mandar matar Alvoro Gomçallvez Moram , e Dom Alvoro Perez 
de Csftro (') , irmaao de Dona Enes , madre de Dom Joham e 
de Dom Denis , filhos delRei Dom Pedro de Purtugal , feemdo 
emtom Iffamte ; e forom percebidos per Dona Maria de Padi- 
lha 5 que lho mandou dizer , e aífi efcaparom de morte. Man- 
dou matar em Medina dei campo huum dia pella feita em 
feu paaço Pêro Rodriguez de Vilhegas , adeamtado moor de 
Caftclla , e Samcho Rodriguez de Roias : e foi morto huum 
efcudciro de Pêro Rodriguez. Mandou matar em Tolledo 
Tom. IV. F vijm- 

\\) Ctafto T. (2J ena Medina Cidonya T. B, (3) de Crafto T. 



44 Chronica 

vijmte e deus homeens boons do comuum , por que forc m 
em comfelho de fe alçar a cidade de Tolledo , por nom mata- 
lem em ella a Rainha Dona Bramca , fegumdo todos daquel- 
la vez cuidarom : amtre os quaacs mandava matar huum ou- 
rivez velho de citeemta annos ; e huum feu filho de dezoi- 
to , teemdoo pêra o matar , diíTe a elRei que lhe pedia por 
merçee que ante mandaíTe matar elle í'^ que feu padre , e 
elRei mandouho aífi fazer : pêro mais prouvera a todos que 
elRei nom mandara matar huum (^^ nem outro. E mandou ma- 
tar quatro cavalleiros boons deíTa Í^J cidade, a faber, Gomçal- 
loMeendez, e Lopo de Vallafco , e Tello Gomçalívez Palo- 
meque , e Lopo Rodriguez feu irmaâo. Quamdo emtrou a 
villa de Touro , homde eftava a Rainha fua madre , faio a 
Rainha a elle do alcácer per feu mandado ; e mandou matar 
Dom Pcrcllevez , que fe chamava meeftre de Calatrava , ali 
hu vijnha jumto com ela , e Rui Gomçallvez de Caftanheda , 
que a tragia de braço , e AfFonfo Tellez Girom , e Martiru 
AíFoníTo Tcllo , todos quatro arredor da Rainha ; e ella quam- 
do os vio matar tam açerqua delH , caio em terra come mor- 
ta ; e levantarom.na braadamdo e maldizemdo feu filho ; e 
a poucos dias lhe pedio que a mandaíTe a Purtugal pêra el- 
Rei feu padre , e aífi o fez ; e hi morreo depois , fegundo 
teemdes ouvido. Mandou elRei mais matar Gomez Manrri- 
que de Hornamella , e outros ; e hordenou huum torneo em 
Outerdefilhas de çimquoenta por çimquoenta , por matar em 
elle ho meeftre de Samtiago Dom Fradarique feu irmaâo , que 
era no torneo ; e elRei nom quiz defcobrir cite fegredo a 
outrem , e porem nom fe fez aquel dia. 



C\- 



Qi) 4ue antes mandaíTe matar a elle T. (2) nem huum T» (,^) nelía T. 



sia^a 0^ 



D*ElR E I D. P E D R o I. 45 

CAPITULO XVII. 

Como fe começou o defvairo antre elRei Dom Pedro de 

Cajlella ^ e o conde Dom Hemrrique feu ir macio 3 

e qual foi o aajo por que fe o comde foi 

fora do Reino» 

POis avemos de fazer meençom ao deante da ^guerra , e 
gramde defvairo que depois ouve antre o comde Dom 
Hemrrique, e elRei Dom Pedro feu irmaao , necessário he 
que comtemos primeiro, como fe começou fua defaveemça , 
e de que guifa fe el partio do Reino ; e eílo amte que em- 
tremos aa guerra de Gaftella com elRei Daragom , em cuja 
aiuda cl depois veo. Omde fabee que morto elRei Dom 
Affonfíb fobre o cerco de Gibaltar í^í , que foi na era de mil 
e trezentos e oiteemta e oito annos no mes de março , e 
tomando todos por feu Rei o líFamte Dom Pedro feu pri- 
mogénito filho , feemdo emtom em hidade de quimze annos 
e fete meses , e eftando na cidade de Sevilha ; partirom do 
arreai com o corpo delRei , pêra o vijnrem foterrar a Caf^ 
tella , mujtos dos fenhores e fidallgos que eram ali com el- 
le , aílí como o líFamte Dom Fernamdo filho delRei Daragom y 
Marques de Tortofa fobrinho do dito Rei Dom AlFonfo , fi- 
lho da Rainha Dona Lionor fua irmaã , e Dom Amrrique 
comde de Traftamara , e Dom Fradarique meeíire de Sam- 
tiago feu irmaão , filhos de Lionor Nunez , e do dito Rei 
Dom AffonlTo ; e Dom Joham AifbníTo Dalboquerque , e 
outros fenhores e meeftres e ricos homeens. E palTamdo o 
corpo delRei peramte a villa de Medina Sidónia , que era de 
Lionor Nunez , ella fe foi demtro ao lugar ; por quamto 
Affonfo Fernamdez Coronel, que a tijnha por ella, lhe dif- 
fe que a nom queria mais teer : e foi por efta emtrada que 

F ii Lio- 

CO Gibraltar^. ^ ,,,,,. ,, 



«é ' C H R o N I G A 

Libiior Nunez fez em aquel logar , muj gramde murmuro 
amtre os fenhores e cavalleiros que levavom o corpo dcl- 
Rei , cuidando que ella le poinha allj em esforço dos filhos 
e paremtes feos que alli vijnham. E Dom Joham Affonío 
Dalboquerque , quamdo vio aquclla ficada, que os filhos e 
paremtes de Lionor Nunez faziam com ella em aquel lo- 
gar, que era bem forre ; trautou com alguuns que o comde 
Dom Henrrique e Dom Fradarique feu, irmaao cfieveíTcm na- 
•quella villa como prcfos; e fouheo Lionor Nunez, e tomou 
itiuj gram medo;- e trautarom com ella feguramdoa Dom Jo- 
ham Nunez de Lara 5 que lijnha fua filha efpofada com Dom 
Tello feu filho delia, cuidando el (') que tal feguramça fo- 
fe firme. E faiolFe do logar cila e feus filhos , e Dom Pedro 
Pomçe de Leom , e Dcm Fernam Perez Pomçe feu irmaao 
jTiecftre Dalcamtara , e Dom Alv^oro Perez deGozmam e ou- 
tros feus paremtes; e ou verom todos acordo de fe apartar del- 
Rei, reçeamdofiTe mujt,) de hirem a Sevilha, homde elRei 
Dom Pedro eftava , e feerem..prefos : e logo em eífe dia que 
partirom de Medina , fe foram a Moram, que he huuma vil- 
la e caftello bem' forte acerca de terra de mouros ; e nom fe- 
gurando aimda deftar alli , foromfle pêra Aliazira que tijnha 
Dom Pêro Pomçe , e Dom Fradarique fe tornou pêra a terra 
da hordem de Samtiago. A Rainha Dona Maria com feu fi- 
lho elRei Dom Pedro , e todollos que eram em Sevilha , fai- 
rom fora da cidade receber o corpo delRei , e. foilhe feito 
muj homrradamente todo aquello que compria , e foterrado 
na egreia de Samta Maria na capella dos Reis. ElRei Dom 
Pedro fabemdo a partida de feus Irmaaos e dos outros fidall- 
gos , e como eftavam em Aliazira , mandou faber fecretaria- 
mente que maneira tijnham , e achou que fe apoderavam 
do logar o mais que podiam ; e mandou la galees armadas , e 
Goterre Fernandez de Toledo por capitam ; e o conde Dom 
Anrrique e os outros veemdo que lhes nom compria ejftar al- 
li , tornaromíTe pêra Moram omde citava Dom Fernam Rod ri- 

gucz 
CO ella Z. 




d'£ L R E I D. P E D R o I. 47 

guez Ponçe. Em efto foiíTe Dona Lionor Nunez a Sevilha , -e 
pofta adepartc a fegurança que lhe feita tijnham ('^, mandoua 
clRei guardar muj bem no alcaçar , e trautarom depois por 
parte de elRei com o comde Dom Amrrique , e com os 
outros fenhores , de guiía que fe veherom todos a Sevilha 
pêra elRei : e o conde hia veer cada dia fua madre , com 
a qual eílava Dona Joana filha de Dom Joham Manuel fua 
efpofa ; e ouverom acordo a madre com o filho que ouvef- 
fe ajumtamento com fua efpofa, por fe nom desfazer o ca-- 
famento fegumdo rogiam ; e fezeo aííí , e pefou defto mujto 
a elRei e aa Rainha fua madre e a outros mujtos, e por ef- 
to defemdeo elRei que a nom foíTe nenhuum mais veer ; e 
Jcvaramna dali pêra Carmona , e o comde Dom Henrrique 
fogio pêra as Efturas , por quamto lhe diíFerom que o man- 
dava elRei premder : depois foi levada Dona Lionor fua ma- 
dre a Tallaveira , e ali mandou (-^ matar a Rainha Dona Maria 
per Affonfo Fernamdez de Ollmedo feu efcripvam , como ia 
teemdes ouvido. O comdeDomHemrrique eftando nas Eftu- 
ras 5 ouvio como elPvei mandara ('' matar fua madre , e depois 
Garcia LaíTo adeamtado de Caftella ; e nom oufou deílar alli, 
e foiíTe a Portugal pêra elRei Dom AíFoníFo : e quamdo el- 
Rei Dom Pedro fez viftas com feu avoo em Cidade Rodri- 
go 5 como diífemos , rogou elRei Dom AíFonfo a feu neto 
que perdoaíTe ao comde , e el perdooulhe , e tornouire o 
comde pêra as Efturas , ca nom oufou de fe hir pefa el- 
P.ei. E elle nas Efturas , foube elRei como bafteçia Gi- 
jom , e foiíTe la , e cercou o logar , omde eftava fua mo- 
Jher Dona Johanna ; ca el nom fe atreveo de o efperar alli , 
e foiíTe em tamto a huuma montanha muj forte que dizem 
moutoyo (-*) : e os deGijom preiteiarom com elRei que per- 
doaíTe ao comde , e que lhe nom faria guerra de nenhuum 
feu logar, e a elRei prougue , e tornouíTe. E quamdo elRei 
ouve de fazer fuás vodas em Valhadolide com Dona Bram- 
ca , fegumdo comtamos , chegou ho conde Dom Hemrrique 

^ e 

(i) cinha T. (O a mandou T. (3} mandava X. (4) montoyo T. B, 




^8 C H R o N I C A 

e Dom Tcllo fcu irmã ao , e tragia o comde féis centos ho- 
meens de cavailo , e mil e quinhentos de pce ; e fcemdo em 
Çijalles duas legoas domde elRei eftava , mandoulhe dizer 
que nom oufaria demtrar na villa , falvo com toda fua gen- 
te ; por quamto fe receava dalguuns que eram na corte : e 
clRei mandouho fegurar ; nom fe fiarom do feguro , e ou- 
verom de pelleiar com clRei , que faio a elles • depois fo- 
rom dacordo com elle , e ficarom em fua merçee, Cafou el- 
Rei com Dona Bramca , e leixoua em outro dia , e foiíTe pê- 
ra Dona Maria de Padilha ; e dcíFa hida foi dcfavijndo delle 
Dom Joham AíFonfo Dalboquerque que governava a cafa dei- 
Rei : e trautouíFe depois que Dom Joham AíFonfo eíleveífe 
em Purtugal fe quifeífe , e que feus caítellos e beens que avia 
em Cafteila foíFem feguros : prometeolho elRei aííi , e de- 
pois que Dom Joham AíFonfo foi em Purtugal , cercoulhe el- 
Rei Medelim , e cobrouo, e fezeo derribar ; e depois cercou 
Alboquerque , e nom o podemdo tomar , partioíFe dalli , e lei- 
:xou por fromteiros em Badalhouçe , ho comde Dom Hemr- 
rique e o meeítre de Samtiago Dom Fradarique feu irmaâo. 
Partido elRei dalli , emviou o comde feu recado a Dom Jo- 
ham AíFonfo, que foíFem todos três amigos, e emtraíFem per 
Cafteila , e a elle prouguc mujto, e íirmarom feu preito de 
feer aífi ; e ouverom Dom Fernamdo de Caftro CO em fua alu- 
da , que eftava em Galliza, e começarem de emtrar per Caf- 
teila fazemdo em ella gramde cftrago. Em iílo mandou el- 
Rei Dom Pedro Joham AíFonfo de Heneftrofa feu camareiro 
moor a Arevollo í^^ homde eftava a Rainha Dona Bramca íua 
molher , que a trouveíTe ao alcaçar de Toledo ; e elle tra- 
gemdoa pella cidade , diíFe ella que queria hir primeiro fa- 
zer oraçom aa egreia de famta Maria , e defque foi dcmtro 
na egreia nom quis mais fahir delia , reçcamdoíTe de feer 
morta ou prefa. Joham AíFonfo nom fe atreveo de a fazer fa- 
hir da egreia comtra fua vomtade , e tornouíFe pêra elRei : 
os moradores de Tolledo fallamdo íbbrefto , ouverom piedade 

__^ da 

CO de Grafto T. (2) a Arevalo B. 



d'ê lReiD. Pedro I. 49 

da Rainha , e acordarom de a nom leixar premder nem ma- 
tar naquella cidade, e determinarem de pocr por ella os cor- 
pos e quamto aviam : e mandarom primeiro por Dom Fra- 
darique meeílre de Santiago , e colheromno demtro com fuás 
companhas , e mais cmviarom fuás cartas ao comde Dom 
Hemrrique e a Dom Joham AíFonfo Dalboqucrquc e a Dom 
Fcrnamdo de Cail:ro ('^, fazemdolhe fabcr fua cmtemçom ; e 
teverom com Tolledo por parte da Rainha a cidade de Cór- 
dova ('^5 e Comca ('^ e o bispado de Geem , eTallaveira. Que 
compre dizer mais , os ííFamtes Dom Fernamdo e Dom Jo- 
ham primos delRei , e mujtos fenhores e cavalleiros , fe par- 
tirom delle por aiudar a teemçom dos outros, em guifa que 
nom ficarom com elRei mais de féis çemtos de cavallo ; e 
todos aquelles fenhores lhe mandavom dizer que preítes 
eram pêra o fervir e fazer feu mandado , com tamto que to- 
maífe fua molher , e viveíTe com ella , e nom regeífe o Remo 
pellos paremtes de Dona Maria de Padilha , nem os fezcf- 
ie feus privados ; e elRei nom quis cair em tal preitiíia. 
Em ello adoeçeo Dom Joham AíFonfo Dalboquerque , e elRei 
mandou emcubertamente trautar com o ("^^ fiíico que penf- 
fava delle , que lhe faria merçees , e que lhe deíTe com que 
niorreffe ; e elle fezeo aílí , fegumdo depois foi fabudo ; e os 
vaíTallos de Dom Joham AiFonfo prometerom de nom em- 
terrar o feu corpo ataa que eíta demanda fofse acabada , e el 
aíli o mandou em feu teítamento : e quando aquelles fenho- 
res hordenavom confelho fobre aquello que lhes comvijnha 
fazer , falia va em logar de Dom Joham Affonífo , Rui Diaz Ca- 
beça de vaca, que fora feu mordomo moor; e eram as gen- 
tes deftes fenhores todos ataa cimquo mil de cavallo , e muj- 
ta gente de pee. Aaçima veemdo elRei como perdia as 
gentes per efta guifa , ouve comfelho de fe poer em poder 
delles , na villa de Touro , e alli partirom elles logo os of- 
fiçios do Reino e da cafa delRei amtre 11, de guifa que a 
elRei nom prougue , e emtom forom emterrar o corpo de 
Dom 

(O àQ Crafto T. (2) de Cardona Z". (3; e Coentjua T, (4) com huum T, 



siavr o^ 



jo Chronica 

Dom Joham Affonfo teemdo que fua demanda era ia aca- 
bada. EIRei femtimdoíTe como prefo , fegumdo a maneira 
que com elle tijnham , fimgeo que queria hir aa caça ; e hu- 
uma gramde manhaa cavalgou , e foilTe pêra Segoiva , e fo- 
romfe oslffamtes pêra elRei per fuás preitiíías , e começouíTe 
de desfazer a companhia que fe amtes jumtara ; eocomde 
Dom Hemrrique , e Dom Tello , e Dom Fradarique feus ir- 
maãos íicarom a huuma parte , e feeriam per todos ataa mil 
e duzemtos de cavallo , e mujtos homeens de pee ; e ouve- 
rom emtrada em Tolledo , e foi elRei aa cidade , e cobrou- 
ha , e elles leixaromna , e foromífe. Depois lhe emviou rogar 
a Rainha Dona Maria que fe foífem pêra Touro onde ella 
eftava , reçeamdolfe delRei feu filho; e foromífe alia, e che- 
gou hi elRei com fuás gentes , e pcUeiarom nas barreiras , e 
nom pode elRei hi aífeífegar permimgua daugua , e partiolfe 
dhi : e depois que fe elRei foi , partioíTe o comde Dom 
Hemrrique pêra Galiza , huuns diziam què pêra fe aiuntar 
com Dom Fernamdo de Callro ('^ , outros afirmavom que o fa- 
zia o comde por nom feer cercado ; e quifera elRei partir 
empos elle , e depois ouve em confelho de tomar primeiro 
a villa de Touro, e çercoua outra vez , e trautou com Dom 
Fradarique feu irmaao e do comde Anrrique í^J , que ficara na 
villa por guarda , que fe folfe pêra elle , e el fezeo aííí : e 
em outro dia cobrou clRei a villa per huuma porta que lhe 
derom , e premdeo Dona Johanna molher do comde Anrri- 
que (J^, efez matar alguiuns do logar , emais aquelles caval- 
leiros que forom mortos acerca da Rainha fua madre, como 
diíTemos. Quamdo o conde Dom Henrrique foubc como elRci 
cobrara a villa de Touro e matara aquelles que tijnham í^^ 
por fua parte , e que o meeílre Dom Fradarique feu irmaSo , 
era ia com elRei dacordo , emtendeo que lhe nom compria 
mais aperfiar na guerra , nem eftar mais tempo no Reino , e 
preiteiou com elRei que lhe deíTe cartas de feguro pêra fe 

hir 

(i) rfeCraftoT. (2) Dom Anrrique T. (O Oom Anrrique T. (4) aquel- 
les cavalleiros que tinha T. 



d'elReiD, PedroI. 51 

hir pêra França , e a elRci prougue defto e deulhas. E fou- 
be o comde como clRci mandara ao liFante Dom Joham , 
e a Diego Pcrez Sarmento feu adeamtado moor , e a todol- 
los outros cavalleiros e officiaaes das comarcas per homde el 
cuidava que o comde fofie , que lhe teveíTem o caminho e 
o mataíTem ; aíll como depois matou todollos fenhores e ho- 
mcens deitado que forom na companhia da demanda que fe 
levamtou comtra elle , por razom da Rainha Dona Bramca. 
E o comde partio de GaUza , e foi pellas Eíluras , por quam- 
to per aquella comarca nom avia mandamento delRei , penf- 
famdo cl pouco que foíTe per alli : e paíTou trigofamente , e 
foiíTc pêra Bizcaia omde eftava Dom Tello feu irmaao , e 
dhi fe paíTou per mar a Arrochella , omde achou elRei de 
França , que avia guerra com os Ingrefes , e tomou dei- 
Je folldo. E deíla guifa foi fua defavecmça com elRei Dom 
Pedro feu irmaão , e partida do Reino de Caftella , duram- 
do em eílas defaveemças todas que ouviftes em efte capitól- 
io j paíTados de fete annos. 

CAPITULO XVIII. 

Como e por qual aazo fe começou a guerra antre CafleU 

la e Aragom. 

ANdamdo em fete annos que elRei Dom Pedro deCaf- 
telia reinava, na era de mil e trezentos e noveemta e 
quatro , citando elRei em Sevilha , mandou armar huuma ga- 
lee , pêra hir folgar e veer a pefcaria que faziam nas co- 
vas das almadravas ; e foi em huuma galee a Sam Lucar de 
Barrameda , e achou hi no porto dez galces de Catellaaens e 
huum lenhom í') de que era capitam huum cavalleiro Aragoes, 
que diziam MoíTe Francês de Emperellores , as quaaes hiam,; 
per mandado delRci Daragom cm aiuda delRei de França, 

Tonu W. G . con- 

(0 lenho T". B, 



ez l^HRONICA 

contra elRci de Ingraterra : e emtramdo efte capitam em 
aquel porto por tomar refrefco , achou hi dous baixees de 
Prazimtijns ('^carregados dazcites , que hiam pêra Lexamdria ; 
e tomouos , dizemdo que eram averes (^^ de Genoefes , com que 
os Catellaáes aviam guerra eftomçc. ElRei lhe mandou dizer, 
que pois aquelles baixees cftavom em feu porto, queosnom 
quizeíTe tomar , ao menos por fua honrra delle pois eftava 
de prefemte ; e el refpomdeo, que aquellas gentes eram in- 
mijgos dclRci Daragom e que os podia tomar de boa guer- 
ra; e clRei lhe mandou dizer outra vez, que foíTe certo fe 
os leixar nom quifeíTe , que mandaria premder em Sevilha to- 
dollos mercadores Catcllaacns que hi eram , e tcmarlhe todos 
feus beens. O capitam das gaJecs por todo ifto nom o quiz 
fazer , e vcmdeo logo alli os baixees por íete çemtas do- 
bras , e foiíTe fcu caminho fem mais fallar a clRci. E eiRei 
ouve deito gramde mcnemcoria , e nem fem razom , mas a 
vimgamça foi defarrazoada ; por que alll como de pequena 
faifca fe acende gramde fogo , achamdo coufa defpoíta em 
que obre , alli elRei Dom Pedro com deílemperada fanha , 
por tomar daquello vimgamça , moveo crua guerra comtra 
Aragom de fangue e fogo permujtos annos , como ora bre- 
vemente ouvirees : ca cl mandou logo prender em Sevilha 
todollos mercadores Catellaáes que bi eram , e efcrepverlhe 
todos feus beens ; e outro úh partioíTe a preíFa per terra , e 
fezeos todos poer em cadeas, e vemder quamto Iheacharom, 
E mandou logo a elRei Daragom fazerlhe queixume de Mof- 
fe Framçes , da pouca homrra ('' que em el achara , mandam- 
dolho rogar per duas vezes , e que porem lhe requeria que 
lho entregalFe í^) pêra dei aver emenda ; e emadeo mais que 
tiralFe huuma comenda que dera a Dom Pedro Moniz de Go- 
doi, que era homem a que bem nom queria; e f vi eíbs cou- 
fas fazer nom qui/eífe, que foíTe certo que lhe faria guerra. 
E elRei Daragom deu fua repofta, que lhe pcfava do nojo 

que 

(t) PJazentinos T. (2) navios T, (3) honrra e cortefia T. Q4) enire 
guaíTem T. 



SI 3)1 Oô 



d'elReiD. PedroI. 53 

que a cIRei fora feito , e que como aquel cavalleiro tonaf- 
íe pêra íeu reino, que el ho ouviria e faria iuítiça, de gui- 
i\\ que elRci de Caíiella foíTc contento ; e que a comenda 
que avia dada a Dom Pedro Moniz , pois a elRci nom pia- 
zia dello , que cataria outra coufa de que lhe fezeíTe mtr- 
çee ; mas que ataa que lhe ai deíFe , que lha nom podia ti- 
rar fem gramde fua mingua : o meíFegeiro que bem fabia a 
voomtade delRei Dom Pedro , nom foi com tento daquefta 
rcpoíla-, e defafiouho logo e feu reino. ElRei Daragom dif- 
fe 5 que elRei de Caíiella nom avia iufta rafom pêra fazer 
cllo , e que o leixava em juizo de Deos , e mandou logo per- 
ceber fua terra. 

CAPITULO XIX. 

Como elRei de Cajlella emtrou per Aragom , e das cou^ 
fas que fez em ejle anno. 

ELRei de Caftella em quamto mandou a Aragom o reca- 
do que avees ouvjdo, ante que a repolb dela veheíTe , 
com defeio de tomar vimgamça , mandou a preíTa armar fe- 
te galees e féis naaos ; e meteoífe elRei em ellas , cuidamdo 
dachar na coita de Purtugal aquel cavalleiro , e chegou ataa 
Tavira , e foube que era palTado , e tornouífe pêra Sevilha ; 
e mandou elRei as galees aa ilha Deviça í'^, e começouíFe a 
guerra per todas partes. Em iífco começouíFe a era de mil 
e trezemtos e novemta e çimquo , em cuja fazom morreo 
elRei Dom AíFonfo de Purtugal , a que eíle Rei Dom Pedro ' 
feu neto mandara pedir aiuda pêra eíta guerra , fegumdo amte 
avemos comtado ; e veendo elRei Daragom a nom boa ma- 
neira que elRei de Caíleila com elle queria teer , fezeo fa- 
ber ao comde Dom Anrique e a alguuns cavalleiros Caílel- 
laãos que andavom em Framça por medo delRei Dom Pe- 
dro , e o comde com elles veheromíTe pêra elle , e elRei os 

G ii rc- 

(O de Ivyça T, 



CA Chronica 

reçebeo muj bem , e deu ao comde certos caftcllos em que 
teveíTe fuás gemtes , e folldo pêra oito çemtos de cavai lo. 
ElRei de Caílella como ifto foube , partio de Sevilha e em- 
trou per Aragom , e tomou alguuns caftellos , e toinouíTe pê- 
ra Deça , huuma fua villa na fromtaria Daragom , e açem- 
diaíTe a guerra cada vez mais. E alli chegou a elle o car- 
deal Dom Guilhem , legado do Papa Inocêncio , pêra poer ave- 
emça amtrelles , e nom podemdo fazer que çeíIiiíFe a guerra 
de todo 5 por as coufas muj graves doutorgar , que elRei 
Dom Pedro requeria a elRci Daragom , fez cm tamto hu- 
uma tregoa de quimze dias ; os quaaes duramdo , tomou el- 
Rei Dom Pedro a cidade deTaraçona, e o cardeal fe agra- 
vou comtra elRei , dizemdo que em quamto el fora fallar a 
elRei Daragom , duramdo aimda os dias da tregoa , tomara 
elle aquella cidade j e elRei dizemdo que ia eram paíTados, 
€ o cardeal dizemdo que nom , ficou o logar por elRci bem 
fornecido de gentes. E dcíla fegumda vez que elRei em- 
trou em Aragom e tomou a cidade de Taraçona , fe vehe- 
rom pêra elle muj tas gentes de feus reinos e alguuns Imgre- 
fes , em guifa que eram fete mil de cavallo e dous mil ge- 
netes e mujta gente de pee. E yeendo o cardeal que nom 
podia amtre os Reis trautar firme paz , hordenou que ouvef- 
fem tregoa por huum anno , e foi apregoada huuma fegum- 
da feira dez dias de maio daquefta era; e elRei veoíFe em- 
tom a Sevilha por mandar fazer galees , e emcaminhar de fa- 
zer armada no anno feguimte , tanto que as tregoas folTem 
faidas. Em eíle comeos í'^ duramdo a tregoa, trautou Pêro 
Carrilho que vivia com o comde Dom Anrrique , fuás avccmças 
com elRei Dom Pedro que o erdafíe em feu reino e que fe 
vijmria pêra elle : a í^^ elRei prougue , e fezeo aííi : e Pêro Car- 
rilho des que fegurou per alguuns dias , guifou como podef- 
fe levar a coradeífa Dona lohana, que eítevera prefa def- 
que elRei tomara a villa de Touro , pêra o comde feu mari- 
do , e foi aífi de feito que a levou ; e defta guifa cobrou o 

cnm- 

'' . • " •• • 

CO commenos T. (2) c a T. 






d' E L R E I D. P E D R o I. Sf 

comde fua molher, epefou mujto a elRei Dom Pedro quam- 
do foube que alll levarom. 

CAPITULO XX. 

Como elRei Dom Pedro fez matar o meejlre de Sam- 
tiago Dom Fraàarlqiie feu irmaao no alcacar 
de Sevilha, 

SE dizem que o que faz nojo a outrem , efcreve o que faz 
no poo , e o enjuriado em pedra marmor , bem fe com- 
prio efto em elRei Dom Pedro , ca el movido per fobeio 
queixume comrra feus irmaaos e outros do Reino , por aazo 
da reemçom que tomaram em favor da Rainha Dona Bram- 
ca e comtra os parentes de Dona Maria de Padilha , fegum- 
do ouviftes 5 que ia em tempo avia mais de três annos , an- 
damdo emtom a era em mil e trezemtos e noveemta e féis , 
hordenou em Sevilha alli omde eílava de matar o meeftre de 
Samtiago Dom Fradarique feu irmaao, e mandouho chamar on- 
de vijnha da guerra que fora tomar a villa dejumiiha í'í , que 
he no reino de Murça , por lhe fazer ferviço ; e no dia que o 
meeftre avia de chegar aa cidade , chamou elRei pela ma- 
nhaã em fua camará o Iffante Dom Joham feu primo , e to- 
ra ou lhe juramento fobre a Cruz e os Evamgelhos , e defco- 
briolhe como o queria matar , rogamdolhe que o aiudaíFe a fa- 
zer tal obra , e teerlhohia em ferviço ; e como foífe morto , 
que logo emtemdia dhir a Bizcaia matar no outro irmaao Dom 
Tello , e darlhe a eile as fuás terras. O líFamte Dom Joham 
refpomdeo que lhe tijnha em gramde merçee querer fiar del- 
le feus fegredos , e que lhe prazia mujto do que tijnha hor- 
denado , e era contento de o fazer affi : em efto chegou Dom 
Fradarique amte de comer huuma terça feira vijmte e nove 
dias de maio , e como chegou de caminho , foi logo veer 

el- 

(O de Gecmylha J". 



s:i[\i cr 



c6 Chronica 

elRei que eftava no alcaçar da cidade jugamdo as tavollas , 
e beijoulhe a maao e mujtos cavalleiros com elle , e elRei 
o reçebeo muj bem moílramdolhe boa voomtade , e pregun- 
toulhe domde partira, e que poiífadas tijnha : o meeítre dif- 
le que partira de Camtilhaiia, que fom dali i çimquo iegoas , 
e que as poufadas cuidava que feeram ('^ boas; e elRei por 
que emtrarom mujtos com o meeftrc , diíTe que fe foíTe apou- 
femtar, e depois fe vijmria pere elle. O mceftre partioíTe , e 
foi veer Dona Maria de Padilha e as fobrinhas, que eftavom 
em outra parte dos paaços , e dalli fe veo ao curral homde 
leixara as beftas , e nom achou hi nenhuuma , ca alli fora man- 
dado aos porteiros. O meeílre nom fabemdo fe tornaíTc a el- 
Rei ou que fezeíTe , dilFelhe huum feu cavalleiro fofpeitam- 
do mal de tal feito , que fe fahifle pelo poftijgo do curral 
que eftava aberto , ca lhe nom mimgoaria befta íe foíTe fora : 
elle cuidamdo fe o faria , veeromlhe dizer que o chamava 
elRei , e el começou de tornar pêra elRei , pêro fpamtado , 
reçeamdoíTe mujto; e como hia emtramdo pellas portas dos 
paaços e das camarás , aílí hia cada vez mais defacompanha- 
do 5 em guifa que quamdo chegou omde elRei eftava , nom 
hia com elle falvo o meeftre de Callatrava ; e efteverom aa por- 
ta ambos , e nom lhes abrirom ; e pêro lhe todas eftas cou- 
fas aprefemtavom raeflagcm de morte , veemdoífe fem cul- 
pa 5 tomava em íi ia quamto de esforço. Em ifto abrirom o 
poftijgo do paaço omde clRei eftava , e elRei dilfe a Pêro 
Lopez de Padilha feu beefteiro moor que premdeíTe o meef- 
tre. Senhor , difle el , qual delles ? o meeftre de Samtiago , 
diíFe elRei : eelle travou delle dizemdo, feedeprefo: o me- 
eftre ficou efpantado, e quamdo ouvijo outra vez que elRei 
deziá aos beefteiros da maça que o mataíTem , defemvolveoíTe 
de Pêro Lopez , que o tijnha prefo , e cuvefíe no curral j e 
quis tirar a efpada que tijnha ao coUo ^^^ ; e foi fua vemtura 
que nom pode , por aazo do tabardo que tijnha veftido ; e am- 
dando muj rijo dhuma parte aa outra , nom o podiam ferir os 
be-_ 

(i) que feriam T. £, (2) que tinha na cimta T. £, 



d' ElReI D. Pe DR o I. 57 

beeftciros com as maças , ataa que o ouverom de ferir e caiu 
em terra por morto. ElRei quamdo vio o meeílre iazer em ter- 
ra , faiu pello alcaçar cuidamdo achar alguuns dos feus pêra 
os matar , e nom os achou , ca eram fogidos e efcomdidos ; 
e achou no paaço hu eftava Maria <'^ de Padilha , Samcho Diaz 
de Vilhegas camareiro moor de (-^ meeítre, que fe colhera Í5) 
aUi quamdo ouvio dizer que o matavom , e tomou Dona Bea- 
triz filha delRei nos braços , cuidamdo per ella efcapar da 
morte , e clRei fezeiha tirar das maaos , e deulhe com hu- 
uma brocha que tragia , e matouho. E tornoulTe omde iazia 
o meeftre , e achou que nom era bem morto , e fezeo matar 
a huum feu moço da camará ; des i foilTe í^) aíTemtar a comer. 
E mandou logo em eíTe dia pello Reino que matalTcm eftas 
peíToas , a faber , em Córdova a Fero Cabreira huum caval- 
leiro que hi morava , e huum jurado que diziam Fernamda- 
fonfo de Gachete , e mandou matar Dom Lopo Samchez de 
Vendano, comendador moor deCaítella, e matarom em Sa- 
lamanca AíFonfoJofre Tenório , e em Touro AffoníToPerez Fre- 
mofinho ('', e matarom cm Mora Gonçallo Meendez de Tolledo. 
E eítes dizia elRei que mandava matar por que forom da par- 
te da Rainha Dona Branca ; e pêro lhes elRei avia ia perdoa- 
do ., nom curamdo do que prometera , mandou a todos cortar 
as cabeças. 

CAPITULO XXI. 

Como elRel partio de Sevilha por tomar Dom Tello feu 

irmaão pêra o matar , e como matou o Ijfante 

Dom yoham feu primo» 

EStamdo elRei ainda comendo , mandou chamar logo o 
líFante Domjoham feu primo, edilfelhe em fegredo co- 
mo tanto que comeíFe queria partir pêra Bizcaia , por hir ma- 
tar 

(O Dona Maria T. (2) do T. B. (?) facolhera T. U) e dhy fc foy T, 
(5) Fermofiíhe T. 






^•S Chronica 

tar Dom Tello feu irmaao ; eque fe foíTe com elle , e dar- 
Ihehia o fenhorio daquella terra. O Iffante nom embargamdo 
que eíteveíTe cafado com Dona Ifabel hirmaa da molher do 
conde Dom Tello , prouguelhe mujto comtaaes novas , e bei- 
jou as maãos a elRei por ello , cuidamdo pouco no que Iheel 
tijnha ordenado ; e elRei partio logo , e o líFante com elle , 
e foi em fete dias em Aguillar do campo, omde Dom Tello 
eftava. E Dom Tello amdava aquel dia ao monte , e huum feu 
efcudeiro quamdo vio elRei , foilho logo dizer toftemente ; 
e elle fogio a preíTa , e chegou a Bermeo huuma fua villa ri- 
beira do mar , e emtrou em pinaças de pefcadores , e foiíTe 
pêra Bayona de Ingraterra ElRei cuidamdo de o tomar , fe- 
guio o caminho per homde el fora ; e aquel dia que Dom 
Tello chegou a Bermeo e emtrou no mar , efle dia che- 
gou elRei y e emtrou em outros navios , cuidamdo de o en- 
calçar (*) : o mar era huum pouco bohçofo , e elRci anojouíTe , 
e leixou de o feguir por que hia muj lomge , e tornouíTe c;n 
terra, e premde t^^ Donajohana fua molher. O IlFamte Dom 
Joham quando vio Dom Tello per efta guifa partido , dilTe a 
elRei que bem fabia a fua (^í merçee como lhe diíTera em Se- 
vilha que queria matar Dom Tello , e darlhe terra (4) de Biz- 
caia que era fua ; e que pois Dom Tello era fora do Reino fem 
fua graça , que foíTe fua merçee de lha dar como lhe pro- 
metera : e elRei diíFe que mandaria aos Bizcainhos que fe 
aiumtaíTem como aviam de coílume , e que el hiria la , e lhe 
mandaria que o tomaíTem por fenhor ; e o Iffamte com leda 
efperamça de cobrar a terra , lhe beijou as maãos por efto , 
teemdolho em gramde merçee : os Bifcainhos himdo pêra 
fe iumtar homde aviam de coftume , fallou elRei com os maio- 
res delles , dizemdolhe em fegredo que refpomdeíTem quam- 
do el propofelTc pêra dar a terra a Dom Joham , que nom que- 
riam outro fenhor falvo elRei , e elles dilTerom que affi o 
fariam. Elles iuratos bem dez mil, propôs elRei mujtas ra- 

zo- 

(i) alcançar T. (2) e premdeo T, (5) fabya fua T. (4) a rerra T. 



d^elRéiD. PedroI. S9 

zoôes por parte do íffiimte feu primo , como a terra de Biz- 
caia lhe pertecçia perdereito, por aazo do cafamcnto de íua 
molher , e que lhes rogava e mandava que o tomaíTem por 
fenhor j e clles refpomderom que numca tomariam outro fe- 
njior falvo elRei de Caílclla , e que nenhuum nom lhes ('> 
fallalTe em outra coufa ; e elRei diíTe eftomçe aoIíFamte, que 
bem vija as voomtades daquelles homeens que o nom qui- 
riam aver por fenhor , porem que el hiria a Bilbaao , e que 
aimda tornaria outra vez a fallar com elles que o tomaíTem 
por fenhor. O Iffante começou demtemder que efto era em- 
cuberta que elRei fazia , e teveífe por mal contente. ElRei 
em Bilbaao , mandou em outro dia chamar o líFante , e elle 
veo , e emtrou foo na camará , e ficarom dous feus aa porta , 
e os que fabiam parte de fua morte , comcçarom de jogue- 
rar com elle por lhe tomarem huum pequeno cuitello que tra- 
gia , e aííí o fezerom ; e Martim Lopez camareiro moor del- 
Rci abraçouíTe emtom com ho líFamte , e huum beeíleiro deu- 
Ihe com huuma maça na cabeça , e desi outros , e caio o If- 
famte morto ; e foi eito huuma terça feira , avemdo quimze 
dias que o meeítre Dom Fradarique fora morto em Sevilha. 
E elRei mandouo deitar na rua per huuma janella da cafa 
homde pousava , e diíTe aos Bizcainhos que eftavom hi muj- 
tos : vedes hi o voíTo senhor de Bizcaia que vos demandava 
por feus. Efto feito , mandou logo elRei Joham Fernamdez 
de Eneftrofa que fe folTe a Roa (^) , onde eftavom a Rainha 
Daragom fua tia madre do dito líFamte , e Dona Ifabel fua mo- 
lher 5 e que as premdeíFe ambas , nom fabemdo parte a ma- 
dre do filho nem a molher do marido ; e forom prefas em hu- 
um dia, e elRei chegou em outro, e fezlhe tomar quamto 
tijnham , e mandouas prefas a Gaftello Exarez ('^ ; e dalli 
partio , e veofle a Burgos , omde eíleve huuns oito dias , e 
alli lhe trouverom as cabeças daquelles que ouviíles que man- 
dara matar pello Reino , quamdo o meellre Dom Fradarique 
foi morto. 

Tom. IV. H CA- 

(i) e que nenhuum lhes 7. CO aJR.ua T. (5) a Caftro Eixarez. 




^Q Chronica 

CAPITULO XXII. 

Cojno foi quebrada a tregoa ãhtmm afino que avia an-- 

tre os Reis , e como elRei Dom Pedro imitou 

armada por fazer guerra a Aragom. 

NOs nom diíTemos a morte domeeftre Dom Fradarique 
e do líFante Domjoham da guifa que ora ouviftes , por 
nos prazer contar crueldades ; mas pofemoUas huum pouco 
aífi compridas mais que dos outros , por que eram notavees 
peíToas , e veerdes o geito que elRei teve em nos matar (O. 
Omde íabee , que por efte aazo nom embargando que aimda 
duraíTe a tregoa dhuum arino , que o cardeal poíera antre 
elRei Dom Pedro e elRei Daragom , que tanto que o comde 
Dom Anrrique foube , como Dom Fradarique feu irmaão (-> 
era morto , e iíTo meefmo dilTerom. ao líFante Dom Fcrnam- 
do marques de Tortofa da morte do líFamte Dom Joham feu 
irmaão, juntarom logo fuás gentes , eemtrarom perCailella ; 
e o comde entrou per terra de Soria ^e chegou aa villa de Sei- 
rom 5 e roubouha (^^^ e combateo o caftello Dalcaçar í*^ cuidam- 
do de o tomar , e tornouíTe pcra Aragom ; e o IlFamte Dom 
Fernando entrou pello reino de Murça , e fez mujto dampno 
em aquella terra. ElRei foube efto em Valhadolide , e pos 
logo fromteiros contra Aragom , e veoíTe a Sevilha , e fez ar- 
mar a preíTa doze galees , e em nas armando chegarom féis 
galees de Genoefes que eítomçe aviam guerra com os Catel- 
laaens , eprougue mujto aelPvei com ellas, e tomouas a fol- 
do , damdo por mes a cada huuma mil dobras cruzadas. E 
com eftas dezoito galees chegou a huma villa que chamam 
Guardamar, que era doiffante Dom Fernamdo , e fez elRei 
huuma manhaã que eram dezafete íj) dias dagofto fair mujta 



gen- 



(l) em matar taecs pefToas T. {i) n.eefire de Sanriaguo , leu irmaão T. 
\jÇ) e a rombou T. (4) e alcaçar T. (j) xbiij.° T. 



5T^H 01 




d*£lReiD. PedroI. 6i 

gente de todallas galees pêra combater a villa ; e pêro foíTe 
bem cercada, tomouha per força, e colheromíTe mujtos aa 
caílello. E eílamdoo combatemdo a ora de meodia, aJçouf- 
fe huum vemto muj forte , que he traveíEa naquella terra, e 
como as galees eftavom fem gente, deu com todas a traves 
aa coita , que nom efcaparom mais de duas que jaziam den- 
tro no mar , huuma delRei e outra dosGenocfes; e aas dez- 
afeis mandou elRei poer o fogo , por que fe nom podiam 
repairar ; e dos remos e outros aparelhos nom fe falvou fe- 
nam muj pouco, que poferom em huuma naao deLaredo que 
hi eftava. E ouve elRei e os patrooes das galees beftas em 
que partirom dalli , das gentes de Goterre Gamez de Tolle^ 
do , que chegara hi el e outros com féis centos ^ 'Me cavallo, 
e foiífe elRei muj trifte com eíte aqueeçi mento , e todollos 
das galees de pee com elle muj nojofos ; e chegou eIRei 
a Murça , e foromíTe os Genoefes pêra fua terra em navios de 
Cartagenia, e elRei mandou logo a Sevilha que fezelTem a 
preíTa galees, e em oito mefes forom feitas doze galees no- 
vas , e repairadas quimze doutras que eftavam nas taraçenas ; 
e fez fazer muj tas armas e gramde almazem , e mandou per- 
ceber todollos navios do Reino que nom fretaíTem pêra ne- 
nhuuma parte. E partio elRei de Murça e foiífe aa fronta- 
ria Daragom, e gaanhou alguuns caftellos, e tomouífe pêra 
Sevilha : e foi efta a quarta vez que elRei Dom Pedro em- 
trou em Aragom. 



H ii CA- 



CO íetecentos TV 



^2 Chronica 

CAPITULO XXIII. 

Como veo o cardeal de BoUonha pêra jazer paz antre 
elRei de Cajlella e elRei Daragom e os nom 
pode poer dacordo. 

EStamdo elRei (^) aíli em Sevilha, foube como DomGui- 
Ihem cardeal de Bollonha era na villa Dalmançom , por 
trautar paz antrelle e elRei Daragom , e fez faber o cardeal 
a elRei fe lhe prazia de hir a Sevilha omde el eftava , ou fe 
aguardaria alli por elle , avendodhir pêra aquella comarca. E 
elRej era ia partido de Sevilha pêra a fromtaria Daragom , 
quamdo lhe chegou efte recado em Villa Real , e dilTe que 
lhe prazia mujto com fuavijmda, e que o aguardaíTe naquel- 
la villa 5 ca el hia dereitamente pêra ella : e foi aíli que che- 
gou hi elRei a poucos dias , e falou o cardeal a elKei pre- 
femte os do feu comfelho , todo o que lhe o papa emviava 
dizer , afll do nojo que tomava por a guerra , em que eram 
clle e elRei Daragom , como do gram prazer que averia fe 
os viffe poftos em paz. ElRei reípondeo que a guerra que 
el avia com elRei Daragom , era mujto per fua culpa , e 
contou ao cardeal o que lhe avehera com o capitam de fuás 
galees no í'^ foz de Barrameda , como (') ouviíles , e como feze- 
ra faber todo a elRei Daragom , e que nunca quizera tornar 
a ello como devia, e demais que mandara a Framça por to- 
dos feus inmijgos pêra lhe fazer com elles guerra. O cardeal 
diíFe que queria hir fallar a eIRei Daragom fobrefto , e el- 
Rei diíTe que lhe prazia , e que de boamente averia com el- 
le paz , fazendo elRei Daragom eftas coufas ; primeiramen- 
te que lhe emtregaíTe aquel cavalleiro , pêra dei fazer iuíH- 
ça omde el quizeífe , e que lamçaíTe fora do reino o lífante 
Dom Fernando marques de Tortofa feu irmaao , e mais Dom 

Anr- 

(0 elRei D. Pedro T, (2; na T. K3) de Sam Lucar , como ja T. 



Sia"a os 



d'£ L Rei D. Pe DR o I. ^3 

Anrrique í^^ , e todoUos outros que veherom em aiuda da 
guerra , e que lhe àeí^Q os caftellos Douriolla e Alicsmte , e 
outros logarcs que forom de Caftella amtijgamente , e mids 
por as dcspefas que fezera na guerra lhe tornaíTe quinhemtos 
mil florijns. O cardeal pêro lhe ifto pareçeíTem coufas defar- 
razoadas , diíTe que lhe prazia de tomar carrego de hir fal- 
lar a elRei Daragom sqbrelio , e chegou a Aragom e com- 
tou a elRei per meudo todallas coufas que lhe elRei diíTcra, 
ElRei (-J refpomdeo dizemdo aíli. ?> Cardeal amigo , bem veedcs 
99 vos que fe el ouveíTe voomtade daver comigo paz , que me 
5> nom demandaria taaes coufas como me emvia requerer ; ca 
55 o cavalleiro nom he dereito que lho emtregue pêra o ma- 
5J tar , pois nom fez por que ; mas ifto quero fazer , mandeo 
j) acufar per dereito , e fe for achado que merece morte , eu lho 
í> quero emtregar prefo , que o mande matar em feu reino. Ao 
>i que diz que emvie (') fora de meu reino Dom Anrrique, Dom 
» Tello , e Dom Samcho feus irmaaos , pois fom feus inmijgos , 
» digo que me praz , fe ficar com elle dacordo ; mas efterrar 
99 fora do reino o IlFante Dom Fernamdo meu legitimo irmaao , 
99 iíto me parece eftranho de pedir. Os logares que me reque • 
?> re que lhe emtregue , nom tenho razom por que , ca forom 
5> iulgados a efte reino per femtemça delRei Dom Denis de 
5> Purtugal , e pelo IfFamte Dom Joham de Caftella , prefemtes 
» mujtos fidallgos de feu reino; e el eeu teemos cartas de co- 
99 mo forom partidos. As defpefas que fez na guerra, nom 
5> fom theudo de lhe pagar , ca fe nom começou per minha 
5> voomtade , ante me pefou mujto e pefa daver amtre mim e 
5J elle tal defvairo ; mas tanto lhe farei fe ouvermos paz , que 
99 avemdo el guerra com elRei de Graada ou de BcUamarim , 
99 que o quero aiudar féis annos com dez galees armadas aa 
5' minha cufta quatro mezes compridos ; e fe mouros paífarem , 
?» e lhe conveher poer a praça , que o aiude com meu corpo 
?> e j entes efeer com elle no dia da batalha: doutra guifa di- 

j> zee 

(i) Dom Anrrique conde de Traftamara T, (2) elRei Daragàin T. (j) 
que envie eu T". 



I 






^A Chronica 

39 zee que lhe requeiro da parte de Deos , que me nom queira 
.» fazer guerra , pois iuíla razom nom tem , e f e o doutra guifa 
39 fezer, leixo todo na ordenança e iuíliça de Deos. ?» Tornou 
o cardeal aelFvei de Caftella , e comtoulhe eílo que ouviíles , 
e elRei começouíTe de queixar dizendo, que elRei Daragom 
nom prezava a guerra , nem fe queria chegar pêra aver ave- 
emça com elle , mas que deíla vez provaria cada huum pêra 
quamto era j porem por elle emtemder que lhe prazia daver 
paz j que el fe partia das outras coufas que demandava , e 
que lhe delTe os cimquo logares que lhe requeria , e que 
lamçalTe de feu reino feus iimaãos e as gentes que eram com 
elles. O cardeal foi dcllo muj ledo, teemdo que pois fe el- 
Rei í^^ dcçia do que aa primeira diflera , que poderia apro- 
veitar neeíte trautamento , e foiíFe a Callataiud onde elRei 
Daragom eftava, e contoulhe como elRei por bem de paz y 
requeria foomente eílas duas coufas. ElRei Daragom ouve 
acordo com os do feu confeiho , e difíe que as gentes todas 
lançaria fora , mas que nenhuuma villa nem caftello nom em- 
temdia de dar de feu reino , e que elRei de Caítella devia 
feer bem com tente da primeira repofta. Quamdo o cardeal 
tornou com eíle recado , foi elRei Dom Pedro muj fanhudo , 
dizemdo que todo eram razooens , pollo torvar da armada 
que fazer queria ', e porem diíFe ao cardeal que lhe perdoaf- 
fe , ca nom entemdia de fallar mais em efto , mas comthi- 
nuar fua guerra o mais que podeífe: ao cardeal pefou muj- 
to de tal repofta, enom podemdo mais fazer, çeÃbu de fal- 
lar em ello. ElRei í-J muj fanhudo , por tomar logo alguma vin- 
gamça , paíFou per femtemça contra o líFamte Dom Fernam- 
do feu primo , e comtra o comde Dom Anrrique , e outros 
cavalleiros muj tos , por a qual razom os perdeo emtom de 
todo ponto i e o peor defto , mandou matar a Rainha Dona 
Lionor fua tia , madre do dito líFante Dom Fernamdo , e Do- 
na Johana de Lara , molher de Dom Tello feu irmaão i nas 
quaaes coufas comprio sa voomtade , e nom fez muj to de 

feu 

CO elKei Dom Pedro T. (2) elRei Dom Pedro T, 



d'e lReiD. PedroI. ^5* 

feu fervi ço : e depois que mandou fazer eílas e outras cou- 
fas , pos feus fromteiros contra Aragem , e partio Dalmaçom , 
e veofíe a Sevilha. 

CAPITULO XXIV. 

Como elRei de Cajlella enviou 'pedir aluda de galees a 

eIRel de Purtugal , e como partio com fua frota 

por fazer guerra a Aragom. 

SEemdo elRei de Caílella em tal defacordo com elRei 
Daragom , e teemdo voontade de fazer grande armada 
comtra feu reino em eíle anno de mil e trezemtos e no- 
ve cm ta c fete , pêro aíTaz de frota teveíTe aíli de naaos como 
de galees , nom foi deílo aimda contemte \ e mandou dizer 
a elRei de Purtugal feu no per JohamFcrnandez de Eneftro- 
fa , feu camareiro moor , que lhe rogava , que as dez galees 
que lhe prometidas avia de dar em ajuda contra Aragom , que 
as mandafíe fazer pfeíles , ca lhe eram mujto compridoiras. 
A elRei prougue mujto dello , e mandou logo armar de boas 
gentes dez galees e huuma galliota , e o feu almiramtc Mi- 
çe Lamçarote em ellas. ElRei como foube que as dez galees 
de Purtugal eram preftes , partio de Sevilha no mes dabril 
meado com toda fua armada iumta , a qual eram oiteemta 
naaos de.caftello davamte, e vijmte eoito galees fuás, e duas 
galliotas e quatro lenhos ('), e mais três galees delRei de 
Graada , que lhe emviara em aiuda a feu requerimento. E ef- 
teve elRei em Aliazira quinze dias aguardamdo por as ga- 
lees de Purtugal , e quando vio que nom vijnham , partio 
pêra Cartagenia , e alli efperou todas fuás naaos ; e foi fo- 
bre Guadamar , e tomou a villa e o caftello , e dalii foi pel- 
la cofta combatemdo alguuns logares que tomar nom pode, 
e chegou ao rio Debro acerca de Tortofa cidade Daragom , 

e 

(i) e quatro fuftas T. 







'56 Chronica 

ealli chegarom as dez gallees de Purtugal , que lhe clRei feu 
tio emviava em aiuda ; e prougue mujto a elRei com ellas 
e a todollos da frota , e tijnha elRei entom per todas quo- 
remta e huma galees , afora as fuftas pequenas. E partio el- 
Rei dalli com toda armada e chegou a Barçellona hiiuma 
vefpora de palcoa , omde eftava elRei Daragom ; e achou doze 
galees armadas , e nom as pode tomar , ca fe poferom todas 
a traves jumto com a cidade , e dalli as defendiam com muj- 
ta beefteria e troons ('^. E eíleve elRci ante Barçellona com 
toda fua frota três dias , e dalli fe foi aa ilha Deviça- , e cer- 
cou huuma boa villa que ha aífi nome ; e teemdoa aíEcada 
com emgenhos e baftidas , foube como elRei Daragom tijnha 
armadas quareenta galees com que eftava na ilha de Maior- 
cas , e queria pelleiar com elle ; e elRei de Caftella como 
ifto foube 5 diíFe que lhe nom compria citar mais em ter- 
ra , nem curar de cerco daquel logar , pois todo o feito 
da guerra avia daver fim per aquella batalha em que os 
Reis aviam de feer per feus corpos ; e fez logo recolher 
toda fua gente aa frota , e meteofe elRei em huuma gram- 
de galee que fora dos mouros, que paíFava quarenta cavai- 
los so fota 5 e mandou fazer em ella trcs caftellos de ma- 
deira , huum na popa e outro na proa , e huum na mea- 
tade , e pos em ella cento e fafeemta homeens darmns e 
cento e vijnte beefteiros : e partio elRei Deviça com to- 
da fua frota , e veoíFe a huum logar que dizem Calpe , c 
alli ancorarom as naaos e galees acerca da terra , trás huma 
alta pena que hi ha j de guifa que fe nom podiam vccr filvo 
de preto í*\ As galees Daragom pareçerom dalli aa vella ataa 
duas legoas pouco mais dentro no mar , e erom quaremta 
fem outros navios , e nom vijnha elRei em ellas , ca os feus 
nom quiferom , e ficou em Maiorcas. Elias nom aviam vifta 
da frota de Caftella por aazo daquella gramde pena que as 
emparava ; e vijnham todas aa vella em efta hordenamça , 
em meo delias eram duas galees grolías com caftellos feitos 



de 



(i) e tiros. 7*. (2) de peerto T. B. 



d'k L R E r D. Pe DR o I. 6'j 

de que pellelâíTem , e em huma vijnha o comde de Cardo- 
na , e em outra Dom Bernal de Cabreira almirante Daragom , 
e duas galees de guarda vijnham deamte per gramde efpaço 
das outras, e mujtas gentes depee, e de cavallo per terra, 
pcra as aiudarem fe meíler fezeíTe. As duas galees que vij- 
nham deamte , como ouverom vilí:a das naaos e frota de Caf- 
tella , calarom as vellas e tomarom os remos ; as outras to- 
das como efto virom, fezerom logo peraquella guifa por fe 
ordenarem aa faa voomtade ; e fabendo parte das naaos que 
hi eram , de que ouverom muj gramde reçeo , nom as oufa- 
rom datemder no mar , e logo elTa tarde a ora de vefpora 
fe meterom todas no rio de Denia. ElRei Dom Pedro fez 
logo fazer todollos feus preftes , cuidamdo outro dia daver 
batalha , e o mar era tam fem vento que fe nom podia apro- 
veitar das naaos , e avudo feu confelho em que eram defvai-. 
rados acordos , determinou que pois a armada dos emmijgos 
iazia em tal rio que por fua eftreitura nom podia pelleiar 
com elles , que fe foífem em tanto pêra Alicante por vcer fe 
quereriam depois pelleiar ; e elRei como dalii partio com 
fua frota e as galees Daragom , veheromífe lamçar em Calpe 
omde afreta de Caílella iouvera ('^ primeiro. 

CAPITULO XXV. 

Como fe partia o almiramte de Purtugal com as de^z ga- 
lees 5 e como elRei Dom Pedro defarmou a frota , 
e doutras coufas. 

AVemdo féis dias que elRei de Caftella eftava em Alicam- 
te , e veemdo que a armada Daragom nom parecia , par- 
tio daquel logar e veoífe pêra Cartagenia : e alli difíe o al- 
miramte de Purtugal a elRei , que feu fenhor elRei de Pur- 
tugal lhe mandara y que efteveíTe com aquellas fuás dez ga- 
Tnm. IF'. I lees 

(O jouve hy T. 



5fj. Ghronica 

kes ti^es mefes omde quer que o el mandalTe ; e que pois 
os três mefes eram ia paíTados , que nom oufaria mais dcftar 
alli 5 nem paíTaria mandado de feu fenhor. ElRei ^'^ quam- 
Go efto ouvio , pefoulhe mujto, ca nom quí fera que tam afi- 
nha partira ; e nom podemdo fazer que fe tevefíe ali mais , 
deulhe liçemça que fe foíTe. E como fe as gallees de Purtu- 
jral partirem , acordou elRei de leixar a frota e hirfe per ter- 
ra pêra Caftèlla , e mandou as gallees todas a Sevilha, e deu 
logar aas naaos que fe partiíTem , e el veolTe pêra Outerdeíi- 
Ihas , hu eftava Dona Maria de Padilha madre de feus liíhos. 
As gallees Daragom como fouberom que elRei de Caílella 
defarmara a frota , dcfarmarom elles trimta gallees fuás , e 
leixarom dez que amdaíTem pelo mar , por fazer dampno a 
alguuns navios de Purtugal ou de Caftella ; e foi aííí que o 
fezerom a alguuns , mas poucos porem, e em pequenos na- 
vios. Em efta fazom no mes de fetembro , o comde Dom 
Anrrique eDomTellofeu irmaao , e alguuns fidallgos e câval- 
leiros Daragom ataa oitoçemtos de cavallo, emtrarom per Caf- 
tella per terra Dagreda (^^ ; e Dom Fernamdo de Caítro e Jo- 
ham Fernamdez de Eneftroía e outros , que eftavom na from- 
taria da comarca Dalmaçom , com huuns mil e quinhemtos 
de cavallo fahirom a elles. E foi de tal guifa que pelleia- 
rom acerca de Moncayo, E foi vemçido Dom Fernando de 
Caftro , e morto Joham Fernamdez deEneftrofa, e outros bo« 
ons fidallgos ; e prefo Inhego Lcpez de Orofco , e outros. A 
elRei Dom Pedro pefou defto mujto , e feus inmijgos co- 
brarom grande esforço : e mandou nefte anno matar em Car- 
mona 5 omde ^avam prefos , Dom Joham e Dom Pedro feus 
irmaãos , filhos delRei Dom Affonfo feu padre e de Lionor 
Nunez de Gozmam ; era Dom Pedro de quatorze annos , c 
Dom Joham de dez e nove , moços innoçentes que numca lhe 
mal mereçerom : e por aazo deitas mortes , e outras muj tas que 
teemdes ouvido , era elRei Dom Pedro tam mal quifte de 
todos, e avemdo delle tamanho medo, que por ligeira cou- 
. ^ 

(i) ElRei Dom Pedro T. (2) per terra de Grada T. 



^TãM vj 



d' E L R E I D. P E D R o T. 6^ 

fa fe partiam delle , e fe hiam a Aragom pêra o conde Dom 
Hemrrique. Aíli como fez Diego Perez Sarmento , e Poro 
Fcrnamdez de Vallafco e outros, com muj tas gentes que com- 
ficro levarom ; em tanto que o comde dilTe a elRei Dara- 
í^om 5 que fe quizelTe hordenar huuma boa companhia de 
crente , que el emtraria com elles per Caftella , e que emtem- 
dia de nom achar quem IhepofeíTe a praça ; e quifera elRei 
de boamente que fe fezera , mas que levara o líFamte Dom 
Fernamdo feu irmaão a capitania delles , e o comde Dom 
Hemrrique nom quis , e por tanto fe nom fez daquella ve- 
í^ada. 

CAPITULO XXVL 

Como o cardeal de BoUonha quifera trautar paz amtre 

os Reis e nom pode , e como as gentes delRei Dom 

Pedro pelleiarom com o comde e o desbaratarom, 

TEemdo o cardeal de BoUonha que amdava em Aragom 
por avijr eftes Reis , como elRei Dom Pedro avia per- 
dida parte de fua gente em aquella batalha que ouvera o 
comde Dom Hemrrique com Dom Fernamdo de Caftro , e co- 
mo fe alguuns cavalleiros partiam delle , e fe hiam pêra Ara- 
gom ; teve que por eftas e outras razoôes , el fe chegaria 
a alguuma boa aveemça pêra aver paz com elRei Daragom , 
e fez faber a ambos os Reis fe lhe prazeria de fallar mais 
em efto , e outorgou cada huum que íi. O cardeal fe veo ef- 
tomçe pêra Tudella que he do reino de Navarra, e chegou 
hi Goterre Fernamdez dé PoUedo por procurador delRei 
de Gaftella , e Dom Bernal de Cabreira procurador d'elRei 
Daragom , e efteverom per dias , e nom fe aveherom. ElRei 
Dom Pedro como ifto foube , partio de Sevilha pêra Leom > 
por quamto lhe difíerom que o comde Dom Hemrrique e 
Dom Tello e outros fenhores Daragom fe iuntavam pcra em- 
trar per Gaftella ; e dalli partio , e veo â Valhadolide , fabem- 

I ii do 



,yQ ChRONICA 

do como ia eram emtradas aquellas gentes em feu reino , e 
matarom os Judeus de Naiara Í^J e doutros logares , e rouba- 
vom. as Judarias : e o comde chegou a Pam curvo , e aíTelTegou 
Iii alguuns dias, e depois fe partio pêra Naiara ("^^ , c elRci 
foi alia com fcu poder, e polTou era huum logar que chamam 
Cofra; e alli chegou a elle huum clérigo de miíTa, natural 
de Sam Domimgos da calçada , e contoulhe que Sam Domin- 
gos lhe diíTera em fonhos , que veheíTe a q\\q e lhe diíTeíTe 
que foíTe certo , que nom fe guardamdo do comde Dom 
Hemrrique, que elle o avia de matar per fua maao ; e elRei 
cuidou que o clérigo lho dizia per emduzimento , pcro o 
clérigo dizia que nom , e mandouho queimar ante íi. E par- 
tio elRei huuma feíla feira pêra Naiara í'^ , omde o comde 
efíava , e el era fora da villa com oito çemtos de cavallo e 
\ dous mil homeens de pee ; e mandara poer ocomde,amte a 
villa em huum outeiro huuma temda e huum pemdom , e 
os delRei que hiam deante pelleiarom com o comde , e ven- 
çeromno , e tomarom a tenda e o pemdom , e morrerom hi par- 
te dos feus : e partiofe elRei aa tarde pêra Cofra , homde ti- 
jnha feu arreai ; e era outro dia vijmdo pêra combater Naia- 
ra , hu ficara o comde , achou no caminho huum efcudeiro 
que vijnha fazemdo plamto por huum fcu tio que lhe ma- 
tarom , e elRei ouveo por forte final c nom quiz la hir , e 
tornoulfe pêra Sam Domingos da calçada ; e dhi a dous dias 
lhe diíTerom que era partido o comde pêra Aragom , levam- 
do caminho de Navarra , e quizerao elRei feguir , e o car- 
deal lhe comfelhoa que o nom fczeflfe , ca aflliz avomdava 
leixaremlhe fuás villas e hiremfe ; e elRei mandou aos feus 
que efteveíTem quedos , e daquel logar hordenou feus from- 
tèiros pêra os logares omde compria , e veoíTe pêra Sevilha. 
Elle alli foube como huum cavalleiro Daragom que chama-, 
vom Mateu Merçedi , arada va no mar com quatro galees fa- 
zemdo dano a Gafl:ellaãos e a Purtuguezes , e fez armar çim- 
quo galees , e mandou em cilas huum fcu beeíteiro que di- 
ziam 

(i) de Navarra T. (2) pêra Navarra T. (5) pêra Navarra T, 



sia"íc o ir 



d'elReiD. PedroI. 71 

iziam Zorzo f') ^ natural de Tartaria , que foíTe em bufca da- 
auel coíTairo ; e foi aíli que o achou na coíla de Berbcllia , 
omde pelleiou com elle , e desbaratouho, e trouve as galecs e 
eile prelo a SeWlha; e elPvei mandouho matar e mujtos dos 
que vijnham com elle. Mas ora leixemos elRei em Sevilha , 
matamdo e premdemdo quaaes vos depois comtaremos , e di- 
gamos alguumas outras coulas , que eíte ano acomteçerom 
em Purtugal , que nos parece que he bem que faibaaes. 

CAPITULO XXVII. 

Como elRei Dom Pedro de Purtugal dijfe por Dona 

Enes que fora Jua molher recebida ^ e da maneira 

que e/lo ^'^ teve. 

JA teemdes ouvido compridamente hu falíamos da morte 
de Dona Enes , a razom por que a elRei Dom AíFoníTo ma- 
tou , e o grande defvairo que amtrelle e efte Rej Dom Pe- 
dro feemdo eftomçe IlFamte ouve por efte aazo. Hosa afilhe 
que em quamto Dona Enes foi viva , nem depois da morte 
delia em quanto elRel feu padre viveo, nem depois que el 
reinou , ataa eíte prefcmte tempo, nunca elRei Dom Pedro 
a nomeou por fua molher ; ante dizem que.mujtas vezes lhe 
emviava elRei Dom Aífonfo pregumtar fe a recebera e homr- 
rallahia como fua molher , e eí refporndia fempre que a nom 
recebera nem o era. E poufamdo elRei em efta lazom no 
logar de Cantanhede 5 no mes de Junho í'^, avemdo ja huuns 
quatro annos que reinava , teendo hordenado de a pubricar 
por molher, eftamdo antelle Dom Joham AlFonflb comde de 
Barccllos feu mordomo moor , e Vaafco Martins de Soufa feu 
chamçeller, e meeftre AíFonfo das leis, e Joham Eílevez pri- 
vados , e Martim Vaafquez fenhor de Gooes , e Gonçallo 
MeemJez de Vaafcomçellos , e Johane Meemdes feu irmaão, 

e 

CO Zoyzo T. C2) qu2 cm ello X. (5) de Julho T. B. 



k 



siau o>Çr 




«2 Chronica 

e Alvoro Pereira , c Gomçallo Pereira , e Diego Gomez , e 
Vaafco Gomez Daavreu , e outros mujros que dizer nom cu- 
ramos, fez elRei chamar huum tabaliaiíi, e prefemte todos 
jurou aos cvamgelhos per el corporalmente tangidos, que 
feemdo ellffamte, vivemdo aimda elRei feu padre , que ci- 
tando el em Bragamça podia aver huuns fete annos , pouco 
mais ou meos , nom fe acordamdo do dia e mez , que el re- 
cebera por fua molher lidema per pallavras de prefemte co- 
mo manda a famta igreia Dona Enes de Caftro , filha que 
foi de Dom Pêro Fernamdez de Caftro, eque eífa Dona Enes 
recebera elle ^^^ por feu marido per femelhavees palavras , e que 
depois do dito recebimento a tevera fempre por fua molher 
ataa o tempo de fua morte, vivemdo ambos de confuum , e 
fazemdoíFe maridança qual deviam. E difíe eftomçe elRei 
Dom Pedro , que por quamto efte recebimento nom fora ex- 
emprado nem claramente fabudo a todollos de feu fenhorio 
em vida do dito feu padre , por temor e reçeo que dcl avia , 
que porem el por defemcarregar fua conçiemçia e dizer ver- 
dade e nom feer duvida a alguuns , que do dito recebimen- 
to tijnham nom boa fofpeita , fe fora aílí ou nom : que el 
dava de fi fe e teftimunho de verdade , que afli fe paíTara de 
feito como dito avia , e mandou aquel (*^ taballiam que pre- 
femte eftava,que deífe dello eftormentos a quaaefquer peíToas 
que lhos requereíFem , e por emtom nom fe fez mais. 

CAPITULO XXVIII. 

Do tejlemunho que alguuns derom no ca/amento de Do- 
na Enes 5 e das razooens que fobrello -propôs o 

comde Dom Joham Âffonjjo, ^ 



p 



AíTados três dias que efto foi , chegarom a Coimbra 
Dom Joham Affonfo comde de Barçellos, e Vaafco Martins 

CO a elle 7. (2) aaquelle T. 



d'elReiD. PedroI. 73 

de Soufa , e meeílre AíFonfo das leis , e no paaço hu emtom 
lijam de degrataaes feemdo o eftudo em elTa cidade , pre- 
lemte huum tabailiam, chamnrom duas teftemunhas , aíaber,' 
Dom Gil que emtom era bifpo da Guarda , e Eílevam Loba- 
to criado dclRei , aos quaaes diíTerom que per iuramenro dos 
evangelhos dilTeííèm a verdade do que fabiam , em feito do 
cafamento delRei Dom Pedro com Dona Enes ; e pregun- 
tado cada huum per fi adcparte , o bifpo diífe primeiramen- 
te , que amdamdo el com o dito Senhor ^ e feemdo emtom 
daiam da Guarda , que em aquel tempo feemdo elReilíFam- 
te , e Dona Enes com cl , poufavom na villa de Bragamça , 
e que elfe fenhor o mandara chamar huum dia a fua camará 
feemdo Dona Enes prcfemte, e que lhe diflera que a queria 
receber por fua molher , e que logo fcm mais deteemça o 
dito fenhor pofera a maao nas fuás maaos delle , e iílb me- 
efmo a dita Dona Enes , e que os recebera ambos per pala- 
vras de prefente como manda a famta egreia (^^ , c que os 
vira viver de comfuum ataa morte deíFa Dona Enes y e que 
cílo podia aver fete annos pouco mais ou menos , mas que 
nom fe acordava do dia e mes em que fora ; e delle feito nom 
diíTe mais. Semelhavelmente foi pregumtado Eftevam Loba- 
to 5 c diífe que feemdo elRei Iftamre e poufamdo cm Bra- 
gamça , que o mandara chamar a fua camará e que lhe dif- 
fera que o mandara, chamar , por que fua voomtade era de 
receber Dona Enes que prefemte eftava , e que quiria que 
foífe dello teftemunha , e que o daiam da Guarda que ia hi 
eftava , e outrem nom , tomara ('^ o dito fenhor per huuma maaó 
e ella per outra , e que emtom os recebera ambos per aqucl- 
las pallavras que fe coftumam dizer em taaes efpofoiros, e 
que os vira viver iumtamente ataa o tempo da morte delia , 
e que efto fora em huum primeiro dia de ianeiro , podia aver 
fete annos pouco mais ou menos. Tanto que eftcs forom pre- 
guntados e efcripto feu dito fegumdo ouviftes , fezerom lo- 
go iumtar , que pêra efto ia eftavam preftes , Dom Lourem- 

Ç2, 

(O igreja de Roma T, e outrem tomara T. B, 



íia.-a. o^ 



74 L^HRONICA 

}o bifpo dcLixboa, e Dom AíFoníb bifpo do Porto, e Dom 
oham bifpo deVifeu, e Dom AíFonfo priol de Samta Cruz 
àtíCQ logar , e todollos fidallgos amte nomeados , com outros 
mujtos que nom dizemos, e os vigairos e clerezia e muito 
outro poboo aíll eccleíiaftico come fecular , que fe pêra eílo 
alli iuntou. E feito íilencio a bem efcuitar , começou a di- 
zer o comde Dom Joham AíFonfo. 5> Amigos devees defabcr, 
99 que elP^ei noílb fenhor que ora he , feemdo llílimte , paííli ia 
íj dhuuns fete annos, eftamdo emtom na villa deBragamça, 
99 feemdo elRei Dom Affonfo feu padre vivo , reçebeo por fua 
99 molher lidima per pallavras de prefente, Dona Enes de Caf- 
5> tro filha que foi deDom PedroFernamdez de Caftro , e ella 
?> iíTo meefmo reçebeo elle('^, e fempre a o dito fenhor teve 
99 depois por fua molher , fazem.doíFe maridamça qual ('''deviam 
» ataa o tempo da fua morte. E por quanto elles reçcbimen- 
9> tos e cafamento nom foi exemplado a todollos do reino , em 
99 vida do dito Rei Dom AíFonfo , por medo e reçeo que feu 
5> £lho dei avia , cafamdo de tal guifa fem feu mandado e com- 
99 femtimento , porem agora eIRei noíTo fenhor por defemcar- 
j> regar fua alma e dizer verdade , e nom feer duvida a algu- 
99 uns , que defte cafamento parte nom fabiam , fe fora alíí ou 
99 nom , fez iuramento fobre os famtos evamgelhos , e deu de 
?> íi (5) fe e teftemunho de verdade , que foi deita guifa que o 
?> eu digo ; fegumdo verees per huum eftormento que defto tem 
3> feito Gonçallo Perez taballiam que aqui efta ; e mais verees 
5> o dito do bifpo da Guarda e de Eftevam Lobato , que aqui 
»> eftam , que forom prefemtes no dito cafamento >?. Emtom 
lhe fez compridamente ieer todo o teílemunho que ambos fo- 
brello derom» » E por que voomtadc delRei noíFo fenhor (diíTe 
5> elle) he , que efto nom feia mais emcuberto , ante lhe prez 
99 que o faibam todos , por feer arredada gramdc duvida , que 
5> fobrello adeamte podia recreçer ; porem me mandou que vos 
99 notificaíFe todo eito, por tirar foípeita de voíFos coraçooes , e 
99 feer a todos claramente fabudo. Mas por que nom embar- 



(i) a elle T. (2) hum ao outro qual T, (5) e deu diíTo T. 



99 gam- 



d*£lRei d. P e d Pv o L 73r 

99 garndo todo o que eu diíTe , e vos ora aqui foi leudo e de- 
99 clarado , alguuns poderam dizer que todo iíto nom abafta- 
» va, fe Iii defpenfaçoiTi nom ouve, por o gram divedo que 
5> amtrelles avia , feemdo ella fobrinha delRei noíTo fenhor , 
>j filha de feu primo com irmaão ; porem me mandou que vos 
55 çertificaíTe de todo , e vos moftraíTe eíla bulia que ouve em 
55 feemdo Ifi^imte , em que o papa defpeníTou com elle , que 
5) podeíFe cafar com toda raoiher , pofto que lhe chegada foíFe 
55 em parentefco , tanto e mais como Dona Enes era a elle. 99 
Emtom pubricarom peramte todos huuma letra do Papa Jo- 
ham viçeífimo fegumdo , que dezia em efta guifa. 55 Johanne 
55 Bifpo , fervo dos fervos de Deos. Ao mujto amado em Chri- 
55 íto filho {'^ Iffamte Dom Pedro, primogénito do mujto ama- 
55 do em Chrillo noíTo filho muj claro Rei de Purtugal e do Al- 
55 garve AiFoníFo , faude e apoftoUical beemçom. Se o rigor 
J5 dos samtos cânones pocm deffefa e intredicto fobre a co- 
55 pulla do matrimonial aiuntamento , queremdo que fe nom 
99 faça amtre aquelles que per alguum divedo de paremtes- 
5» CO fom comjumtos , por guarda da pubrica honeítidade j 
99 aquel porem que he aas vezes bifpo de Roma , de poderia 
5» abfolluto que em logar de Deos, defpcníFiimdo pode per 
5> efpiçial graça poer temperamça fobre tal rigor : è porem 
5> nos demovido acerca de tua peífoa com efpiçial favor, por 
" alguumas razooens , de que ao deamte fperamos paz e fol- 
" gança em efles Reinos , queremdo comdefcender a tuas pre- 
99 zes e delRei Dom AíFonfo teu padre , que per fuás letras 
?> por tj a nos humildofamente foplicou , pêra cafares com 
í> qualquer nobre molher, devota a famta egreia de Roma, 
" aimda que per linha tranfveríFa dhuma parte no fegundo 
5> graao e doutra no terceiro , seiaaes divèdos e paremtes , 
?' e iíTo meefmo aimda que per razom doutras duas linhas col- 
j» lateraaes, feia embargo de paremtesco, ou cunhadia am- 
99 tre vos no quarto graao , licitamente per matrimonio vos 
>» po ielTees aiuntar ; nos per apoftoUica autoridade dcfpicial 
Tom, ly. K 99 gra- 

(i) amado filho T, . 



y^ ChKONICA 

>5 graça todo tiramos e removemos , defpeníTamdo comtigo 
5> e com aquella com que aílí cafares,de noflb apoftoUico po- 
5> derio , que a geeraçom que de vos ambos nafçer , fccr Ic- 
» gitima fem outro impedimento: porem nenhuum homem 
5> seia oufado prefumptuofamente contra efta noíTa deípenf- 
i> façom hir , doutra guifa feia certo na hira e fanha do 
j> todo poderofo Deos , e dos bem aventurados Sam Pedro e 
» Sam Paulo apoftollos emcorrer : dam te em Avinham duo- 
» decimo Kalemdas de março , do nosso pontificado anno no- 
5j no.» Acabada de leer affi elta letera , dilTe emtom o com- 
dc, prefemte elles todos , que el por guarda e em nome dos 
líFamtes Dom Joham , e Dom Denis , e Dona Beatriz filhos 
que eram dos ditos fenhores , queria tomar fenhos eftormen- 
tos pêra cada huum delles , e requeiro í'í ao íaballiam que 
alli lhos defle. Partiromfle emtom todos pêra as poufadas , 
iiom mingoamdo a cada huuns í*) razooens que foíTem antre 
li faliamdo fobre eJla eftoria. 

CAPITULO XXIX. 

Razooens contra efto àalguuns que hl ejtavom duvidam^ 
do mujto em tfle caf amento. 

A Gabadas as razooens que ouviftes , ditas prefcntes f^Me- 
terados e outro mujto poboo , aquelles que de chaão e 
Hmprez emtemder eram , nom efcodrinhamdo bem o teçimen- 
to de taaes cousas , ligeiramente lhe derom fe , outorgamdo 
feer verdade todo aquello que alli ouvirom. Outros mais fo- 
tijs demtemder , leterados e bem difcretos , que os termos 
de tal feito muj delgado inveítigarom , bufcamdo fe aquello 
que ouviam podia feer verdade , ou per o contrairo ; nom re- 
çeberom ifto em feus emtendimentos , pareçemdolhe de todo 
feer mujto contra razom. Ca por que o creer da coufa ouvj- 
^__^^ da 

(i) e requereo T. (2) huum T. (5) prefente T, 




D*E L R E r D. P E D R o I. J7 

da efta na razom e nom na voomtade, poremde o prudemtc 
homem que tal coufa ouve que fua razom nom quer conce- 
ber, logo fe maravilha duvjdamdo mujto. E porem forom 
afaz dos que alli efteverom de tal elloria nom muj conten- 
tes , veemdo que aquello que lhe fora prepofto , nenhuum 
aliçeçe tijnha de razom. E fe alguuns preguntar quizerem 
por que taaes presumiam feer todo fingido , as razooens delles 
que vos í'^ bem claras parecem feiam repofta a fua pregun- 
ta : dizemdo os que tijnham aparte contrairá, contra aquel- 
les que deíFemdiam feer todo verdade , fuás razooens em effca 
maneira. Nom quiferom confemtir osantijgos, que nenhuum 
razoado homem , feemdo em fua faude e emteiro íifo , fe po- 
delTe delle tanto afenhorar í'') o efqueeçimento , que toda cou- 
fa notável paíFada , feinpre delia nom ouveíTe renembramça , 
allegando aquel claro lume da fillofophia Ariftotilles em hu- 
um breve trautado que dillo compôs. E porque todas cou- 
fas prefemtes ou que fom por vijr nom compre aver nenhu- 
uma memoria ; ergo das coufas paíTadas que ia aconteçerom , 
era neçeíTaria ('^ a renembrança : dizemdo que a memoria he 
dita quando a imagem vifta ouvida dalguuma coufa do ho- 
mem , he fempre prefemte na virtude memorativa í^) ; e remi- 
nifçençia he quamdo alguuma coufa feita ou ouvida , fahio 
da virtude memorativa (^^ e depois torna a nembrar , per veer 
outra femelhante coufa : aíli como fe eu cafei , ou me foi fei- 
ta huuma gram merçee , ou fui chamado a huum gram con- 
lelho em huum dia de pafcoa ou janeiro , ou outro dia asij- 
nado do anno , e depois me vem a efqueçer , nom o tecm- 
do fempre prefemte na memoria , veemdo depois outra vo- 
da , ou alguuma das outras coufas que me aveherom em fe- 
melhante dia , nembrarma Í^J eftonçe que cafei em dia de Paf- 
coa , ou outra qualquer coufa que me aveo , fe vejo alguu- 
ma femelhamte , ou ma preguntarem ; por que comvem que 
me nembre ho dia e a coufa , pofto que me efqueeça o conto 

K ii dos 

(i) nos T. (z) afenhorear T. (3) neceíTario X. (4) memQríativa i?, 
(5) lembrarmea T, 



^8 Chronica 

dos anos ou dos dias em que foi. Ou diziam que tornava aim- 
da nembrar (') per outra comtraira maneira , aíli como fe eu 
cafei em dia de pafcoa , e depois dalguuns annos morreo- 
me a molher em outro tal dia ; ou ouve gram prazer em 
dia de natal , e depois gram nojo cm femelhamte dia , ne- 
çcíTario he que me nembre o prazer primeiro , pofto que me 
o comto dos dias esqueeça , por que he coufa que nom cau- 
fa defpoíiçom na memoria. Porem o dia aílijnado em que me 
tal coufa aveo , nunca fc tira de todo pomto que depois 
nom torne a nembrar compridamente , por que tal dia he da 
eífemçia da renem.bramça , e o proçeíTo do tempo nom. E 
porem nom he coufa que poífa feer , eílamdo homem em fua 
íaude j que lhe coufa notável efqueeça , poílo que lhe o com- 
to dos dias efqueeça que he traníirorio e nom da eíFencia do 
nemhramento. Pois como pode cahir em entemdimento dho- 
mem , diziam elles , que huum cafamento tam notável como 
elle 5 *e que timtas razooens tijnha pêra feer nembrado , ou- 
veíTem em tam pequeno efpaço defqueeçer afll aaquelie que 
o fez , como aos que forom prefemtes , nom lhe nembram- 
do o dia nem o mes : certamente bufcnda a verdade defte 
feito,arazom ifl:o nom confemte. Ca leixadas todas asrazo- 
Oens que hi avia , pêra fe elRei nembrar bem quamdo fora , 
aífi como a tomada de Dona Enes , e o gramde defvairo 
que por tal aazo ouve corn feu padre, desi o gramde tem- 
po que tardou amte que o fezeíTe , e a gram deliberaçom 
com que fe moveo ao fazer , e o fegredo em que o pos aaqucl- 
les que dizem que forom prefemtes ; leixando todo efto , foo- 
mente por feer feito em dia de Janeiro , que he primeiro dia 
do anno , fegumdo diíTe Eítevam Lobato , de mais feita tam 
aíijnada , no paaço do líFamte e per todo o reino , ifto foo 
era abaítante afaz pêra feer nembrado o dia em que a rece- 
bera, poftoque lomgo proçéíFo danos ('^ ouveíFe. Outra razom 
notavom aimda a todo o qiie ouvirom jpareçer fimgido , dizem- 
do que fe elRei dava em feu teílimunho , que com temor e 

vc- 

(i) alembrar T. (z) de annos T. 






d'e L R El D. Pe D R o I. 79 

rcçeo de feu padre , nom oufara defcobrir efte cafamento em 
fua vida dellc , quem lhe tolhera depois que elRei morrco , 
que o logo nom notificara , feendo em feu livre poder , pois 
lhe tanto prazia defeer fabudo. Mas í'Miziam que efte feito 
queria parecer fcmelhante a elRei Dom Pedro de Gaílella , 
que pollo que el mandaíTe matar Dona Bramca fua molher, 
em quamto Dona Maria de Padilha foi viva , que elle tijnha 
por fua manceba ; numca lhe nenhuum ouvio dizer que ella 
folTe fua molher. E depois que ella morreo , em humas cor- 
tes que fez em Sevilha , alli declarou peramte todos, que 
primeiro cafara com ella que com Dona Bramca , nomeamdo 
quatro teftemunhas que forom prefemtes, os quaaes per iura- 
mento çertificarom logo que aífi fora como el dizia , e dcs em- 
tom mandou elle que lhe chamalTem Rainha pofto que ia fof- 
fe morta , e aos filhos líFamtes ; e fez logo a todos fazer me- 
nagem a huum filho que delia ouvera , que chamavam Dom 
AffoníTo , que o tomaíTem por Rei depôs fua morte. E porem 
diziam os que ellas , e outras razooens fecretamente amtre 
lifallavam, que a verdade nom bufca cantos, mujto emcu- 
berta andava em taaes feitos. Aflí que por que o entender 
he defpollo fempre pêra obedeeçer aa razom , mujtos que ef- 
tomçe ifto ouvirom , leixarom de creer o que amte crijam 
e apegaromíFe a efte razoado. Mas nos que nom por deter- 
minar fe foi aflí ou nom , como elles difl^erom , mas foomen- 
te por aiumtar em breve o que os antijgos notarom em ef- 
cripto , pofemos aqui parte de feu razoado, leixamdo carre- 
go ao que iíto leer que deitas opiniooens efcolha qual qui- 
fer. 



CA- 



(i) E mais T, 






8o Chronica 

CAPITULO XXX. 

Como os Reis de Purtugal e de Cajlella fezerom amtrejl 

aveemça que emtregajjem hmim ao outro alguuns , 

que amdavom feguros em f eus Reinos. 

POr que o fruito principal da alma que he a verdade, 
pela qual todallas coufas eftam em fua firmeza ; e ella 
ha de feer clara e nom fingida , moormente nos Reis e fe- 
iihores , em que mais resplamdeçe qualquer virtude , ou he 
feo o feu comtrairo : ouverom as gentes por muj gram mal 
huum mujto davorreçer efcambo, que efte ano amtre os Reis 
de Purtugal e de Caftella foi feito ; em tanto que poílo que 
efcripto í'^ achemos delRei de Purtugal que a toda gente 
era manteedor de verdade, noíTa teemçom he nom o louvar 
mais ; pois contra feu juramento foi confemtidor em tam 
fea coufa como efta. Omde aíli aveo fegundo dilTemos , que 
na morte de Dona Enes , que elRei Dom AíFonflb , padre 
delRei Dom Pedro de Purtugal feemdo entom líFamte , man- 
dou matar em Coimbra , forom muj culpados pello liFamte 
Diego Lopez Pacheco.^ e Pêro Coelho , e Alvoro Gomçall- 
vez feu meirinho moor , e outros mujtos que el culpou, mas 
aífijnadamente contra eítes três teve o líFamte muj gramde 
Tancura ; e fallando verdade Alvoro Gomçallvez , e Pêro Coe- 
lho eram em efto afaz deculpados , mas Diego Lopez nom , 
por que mujtas vezes mandara perceber o líFamte per Gom- 
çallo Vaafquez feu privado , que guardaíTe aquella moíher da 
lanha delRei feu padre. Pêro depois de todo efto foi elRei 
dacordo com o Iffamte feu filho , e perdohou o Iffamte a 
eítes e a outros em que fofpeitava ; e iífo meefmo perdohou 
cl Rei aos do Iffamte todo queixume que deli es avia ; e fo- 
rom fobrefto grandes juramentos e promeífas feitas , como 

com- 

(i) per efcripto T. 



d' E lRei D. Pedk o I. í?i 

compridamente teemdes ouvido ; e viviím aíli fegufos Diega 
Lopez , e os outros no Reino , em quamto elRei Dom AíFoní- 
fo viveo, E feemdo elRei doemte emLixboa,de door de que 
fe cítoinçe finou, fez chamar Diego Lopez Pacheco, e ou- 
tros, e diíTelhe que el fabia bem que oIíFamte Dom Pedro 
feu filho lhe tijnha maa voomtade , nom cmbargamdo as ju7 
ras e perdom que fezera , da guifa que elles bem fabiam ; è 
que por quamto le el femtia mais chegado aa morte que aa 
vida, que lhes compria de fe poerem em falvo fora do Rei- 
no , por que el nom eílava ja em tempo de os poder deíFemder 
delle , fe lhe algum nojo quizelTe fazer : e elles fe partirom 
logo de Lixboa , e fe forom pêra Caílella , amdamdo emtom 
oIffamteDom Pedro ao monte aalem do Tejo , em huma ri- 
beira que chamom de Canha , que fom oito legoas da cida- 
de : e elRei de Gaftella os reçebeo de boom geito , e aviam 
delle bem fazer , e merçee , vivemdo em feu reino feguros , 
e fem reçeo. E depois que o líFamte Dom Pedro reinou , deu 
femtemça de traiçom contra elles , dizemdo que fezerom con- 
tra elle e contra feu eftado coufas que nom deviam de fa- 
zer ; e deu os bcens de Pêro Coelho a Vaafco Martins de 
Soufa , ricomem e feu chamçeller moor , e os Dalvoro Gom- 
çalvez , e Diego Lopez a outras pefíbas como lhe prougue. 
E fez elRei em alguuns deites beens tantas e taaes bem fei- 
torias , e outros repartio em tantas partes , que depois que 
el morrefle , numca os mais podeíTem aver aquellcs cujos fo- 
rom , nem tirar aaquelles a que os aífi dava. Semelhavelmente 
fugirom de Caftella neefta fazom com temor delRei que os 
mandava matar , Dom Pedro Nunez de Gozmam adeamtado 
moor da terra de Leom , e Meem Rodriguez Tenoiro , e Fer- 
nam Godiel de Tolledo , e Fernam Sanchez Caldeirom ; e vi- 
viam em Purtugal na merçee delRei Dom Pedro , creemdo 
nom receber dano , também os Purtuguezes , como os Caf- 
tellaáos , porque razoada fe lhes dera oufado acoiatamento 
nas faldras da feguramça ; a qual nom bem guardada pellos 
Reis , fezerom calladameate huuma tal aveeraça , que elRei 

dQ 




^2 ChRONICA 

de Purtngal cmtregafle prefos a elRci de Caftella os íidallgos 
que em feu Reino viviam , e que el outro G. lhe emtregaria 
Diego Lopez Pacheco , e os outros ambos que em Caftella 
amdavom ; e hordenarom que foíTem todos prefos em huum 
dia , por que a prifom dhuuns nom foíTe avifamcnto dos ou- 
tros ; e que aquelles que levaíTem prefos os Caftellaãos ataa 
o eftremo do Reino , reçebelTem os Purtuguefes que trouvef- 
fem de Caftella. 

CAPITULO XXXI. 

Como Diego Lopez Pacheco e/capou de fecr prejo , e forom 
emtregues os outros , e logo mortos cniellmente, 

FEito aquelle trauto defta maneira , forom em Purtugal 
prefos os fidalgos que diíTemos : e na quel dia que o re- 
cado delRei de Caftella chegou ao logar hu Diego Lopez e 
os outros eftavom pêra averem de fcer prefos , aconteçeo 
que elTa manhaa mujto cedo fora Diego Lopez aa caça dos 
perdigoôcs ; e prefos Pêro Coelho e Alvoro Gomçallvez, 
quamdo forom bufcar Diego Lopez , acharom que nom era 
no logar, e que fe fora pella manhaa aa caça: çarrarom ef- 
tomçe as portas da viila , que nenhuum lhe levaíTe recado pê- 
ra o perceber , e atemdiano aíli eftamdo pêra o tomar aa vi- 
jnda. Huum pobre manco que fempre em fua í'^ avia efmol- 
la quamdo Diego Lopez comia, e conj que í^) alguumas vezes 
joguetava , vio eftas coufas como fe pafíarom , e cuidou de o 
avifar no caminho ante que chegaíTe ao logar, e foube ef- 
cufamente contra qual parte Diego Lopez fora , e chegou aas 
guardas da porta que o leixníTcm fahir fora , e elles de tal 
homem nenhuuma ooufa fofpeitamdo , abrimdo aporta leixa- 
romno hir. Amdou el quamto pode per hu emtemdeo qiic 
piego Lopez vijnria, e achou f'^a vijr com feus efcudeiros 

muj 

(O era fua cafa T. B» (2) e com (]uem T. (3) e achouho T, 



d' E L R E I D. P E D R o L 85 

miij defcgurado das novas que lhe el levava; e dizeindo o 
pobre a Diego Lopez que lhe queria fallar , quiferaíTe el 
efcufar de o ouvir , como quem pouco fofpeitava que lhe 
tragia tal recado : aficamdoíTe o pobre que o ouviíTc , com- 
toulhe ('J adeparte como huma guarda delRei de GaftcUa com 
mujras gentes chegarom a feu paaço pêra o premder, de- 
pois que os outros forom prefos, e iflb meefmo de que gui- 
la as portas eram guardadas , por que nenhuum fahiíTe pêra 
o avifar. Diego Lopez como efto ouvio , bem lhe deu a 
voomtade o que era; e medo de morte o fez torvar todo, e 
poer cm gram peníTamento : e o pobre lhe dilTe quamdo o aíS 
vio : ?>• Creedeme de confelho , e feervosha proveitofo : apar- 
»> taacvos dos voíTos , e vaamos a huum valle nom lomge daqui , 
» c alli vos direi a maneira, como vos ponhaaes em falvo. '> 
Emtom diíTe Diego Lopez aos íeus , que amdalTcm per alli a 
preto (') caçamdo , ca el foo quiria hir com aquel pobre a huum 
valle , hu lhe dizia que avia mujtos perdigooens : fezeromna 
afli , e foromíTe ambos aaquel logar ; e alli lhe diíTe o pobre 
fe efcapar quiria , que veftiíTe os feus fayos rotos , e aílí de 
pee amdalTe quamto podeíTe ataa eftrada que hia pêra Ara- 
gom 5 e que com os primeiros almocreves que achaíTe , fe 
meteífe por foldada , e aíli com elles de volta amdaíTe feu 
caminho ; e per efta guifa , ou em huum avito de frade , fe o 
depois aver podeíTe , fe pofeífe em falvo no reino Daragom , 
ca era per força (?) de feer bufcado pella terra. Diego Lopez 
tomou feu comfelho , e foiíTe de pee daquella maneira , e o 
pobre nom tornou logo pêra a villa : o í-*^ feus aguardarom per 
muj gramde efpaço; veemdo que nom vijnha, foromno cataria) 
contra omde el fora , e amdamdo em fua bufca , acharam a (^> 
befta amdar foo , e cuidarom que cairá delia , ou lhe fugi- 
ra , e bufcaromno com moor cuidado. Foi a deteemça em 
efto tam gramde , que fe fazia ia muj to tarde ; e veemdo 
como o achar nom podiam , levarom a befta e foromíTe ao 
Tom, IV. L lo- 

(i) entáo contoulhe T. (2) a peerto 7". (3) ca por força avya 7. C4) OS 7,B^ 
(5) bufcar 7", (6) huma X. 



g4 Chronica 

locrír, nom fabcmdo que cuidaíTem em tal feito: e qur.mdo 
chcgarom e virom de que guifa o aguardavom , e fouberom 
da prifom dos outros , ficarom muj eípantados , e logo cui- 
darem que era fogido : e pregumtados por elle , diíTerom que 
cacamdo foo fe perdera delles , e que bufcandoo , acharom a 
beíla e nom elle í^^, e que em aquelio forom dctheudos ataa- 
quelas oras , e que nom fabiam que cuidaíTem fenom que ia- 
zia em alguum logar morto. Os que cuidado tijnham de o 
prender, foromno bufcar per defvairadas partes; e do que lhe 
aveo no caminho , e como paíTou per Aragom , e fe foi a Fran- 
ça pêra o comde Dom Hemrrique , e de que guifa lhe fez 
roubar os cambos (=^ Davinhom , e doutras (?) que lhe aveherom , 
nom curamos de dizer mais, por nom fair fora de prcpoíito. 
Quamdo elRei de Caftella foube que Diego Lopez nom fo- 
ra tomado , ouve gram queixume , e nom pode mais fazer : 
emtom emviou Alvoro Gomçallvez e Pêro Coelho bem pre- 
fos e arrecadados 5 a elRei dePurtugal feu tio, fegumdo era 
hordenado antrelles ; e quamdo chegarom ao eftremo , acha- 
rom hi Meem Rodriguez Tenoiro , e os outros Caftellaaos , 
que lhe elRei Dom Pedro emviava : e alli dizia depois Die- 
go Lopez fallamdo neella eito ria , que fe. fezera o troco de 
burros por burros. E forom levados a Sevilha , omde elRei 
eftomçe eftava , aquelles fidallgos que ja nomeamos , e alli os 
mandou elRei matar todos. A Purtugal forom tragidos Alvo- 
ro Gomçallvez e Pêro Coelho , c chegarom a Samtarem om- 
de elRei Dom Pedro era ; e elPvci com prazer de fua vijmda , 
porem mal magoado por que Diego Lopez fugira (-♦' , os fahiu 
fora arreçeber , e fanha cruel fcm pie J ide lhos fez per fua 
maão meter a tromento , queremdo que lhe confeflaíTem 
quaaes forom na morte de Dona Enes culpados , e que era 
o que feu padre trautava contrcelle , quamdo amdavom de- 
favijndos por aazo da morte delia ; c nenhuum delles ref- 
pomdeo a taaes preguntas coufa que a elRei prouvefle ; e 
elRei com queixume dizem que deu huum açoute no roftro 

a 

(i) aeile T. (2) campos T. B, (3) e doutros T. (4) fogioT,^, 






d'e lRei d. Peduo I. ti 

a Pêro Coelho , e elle fe foltou emtom cbmtra elRei ' em 
dcfoncftas e feas pallavras , chamamdolhe trjedor , fe pífiu- 
ro 5 algoz e carneçeiro dos homeeiís ; e elRei dizemdo que 
lhe troLixeíTem çebolla e vinagre pera^'^ o coelho , emfadouíTe 
delles e mandoiihos matar. A maneira de fua morte , feemdo 
dita pello meudo , feria muj cítranha e crua de comtar, ca 
mandou tirar o coraçom pellos peitos a Fero Coelho , e a 
Alvoro Gomçalvcs pellas efpadoas ; e quaaesí palavras ouve , e 
íiquel que lho tirava que tal oíEcio avia pouco em coftume, 
feeria bem doorida coufa douvir , emfim mandouhos quei- 
mar; e todo feito ante os paaços omde elpoufava , de gui- 
fa que comendo oolhava quamto mandava fazer. Muito per- 
deo elRei de fua boa fama por tal efcambo como efte , o 
qual foi avudo em Purtugal e em Caftella por muj grande 
mal, dizemdo todoUos boons que o ouviam , que os Reis 
crravom muj muito himdo comtra fuás verdades , pois que 
cites cavalleiros eítavom fobre feguramça acoutados em feus 
reinos. ": •'' 

CAPITULO XXXIL 



De alguumas coufas que elRei Dom Pedro de Caftella 
mandou fazer , e como fez paz com elRei Dara^l ' 
gom emtrando em feu reino. y^ -^^l 



NOs leixamos ante defto elRei Dom Pedro de Caftella 
em Sevilha , premdemdo e matando como lhe vijnha aa 
voomtade , e contamos a morte dalguuns que depois matou , 
com outras cousas que fe em Purtugal em eíta fazom paíTa- 
rom no anno de trezcmtos e novemta e oito : e depois que 
fe fez aquel feo efcambo dos cavalleiros dhuum reino ao ou- 
tro 5 fegumdo ouviftes em feu logar , mandou elRei Dom Pe- 
dro matar de muj cruel morte Dom Pêro Nunez de Goz- 
mam, adeantado moor de terra de Leom , que era huum dcl- 

L ii les; 

— * - 

(i) e azeice pêra T, 




26 C H R o N I C A 

les; e mandou matar Goterre Fernamdez deTolledo, feu ref- 
poteiro í'^ moor , e trouveromlhe a cabeça delle; eGomez Car- 
rilho, filho de Pêro Rodriguez Carrilho , himdo muj ledo cm 
huuma galee , em que elRei fingeo que o mandava pcra 
lhe emtregarem a villa Daliazira , pêra citar hi por fromtei- 
ro 5 e o patrom cortoulhe a cabeça que mandou a elRci , c 
deitoulhe o corpo ao mar , e foi prefa a molher e os filhos 
defte Gomez Carrilho. E mandou matar huum cavallciro de 
Caftella , que chamavom Diego Goterrez de Çavallos ; e dei- 
tou fora do reino Dom Vaafco , arcebifpo de Tolledo , de- 
pois que matou feu irmaao Goterre Fernamdez , e mandoulhe 
tomar quamto tijnha , que soomente huum livro nom levou 
comfigo , nem outra roupa fenom a que tijnha veílida j e foif- 
fe pêra Purtugal , c morreo em Coimbra. Mamdou prcmder 
Dom Samuel Levj , feu thefoureiro moor , e grnm privado 
do feu comfelho , e quamtos paremtes tijnha pello reino em 
huum dia ; e tomou a el e aos outros todos quamta rique- 
za lhe achou , e foromlhe dados grandes tormentos, e nas 
taraçenas de Sevilha prefo morreo. Em elte anno cujdou el- 
Rei Dom Pedro aver guerra com elRei Vermelho de Graada , 
que diziam que tijnha a parte delRei Daragom: efte Rei 
Vermelho lamçara Rei Mafoma fora do reino , mas logo fez 
preitifia com elRei Dom Pedro , que o nom torvaíFe com el- 
Rei Mafoma feu inmijgo , pêro que ouveíTc elRei gram fa- 
nha delle , por que lhe em tal tempo quifcra fazer guerra. 
E efto afefegado no mes de janeiro de treze mtos e noveen- 
ta e nove , foiífe elRei a Almámçom com muj tas companhas 
que comfigo levava , pêra emtrar no reino Daragom , e forom 
deita vez em fua aiuda féis centos Purruguezes , e hia por 
capitam delles o meeítre Davis Dom Martim do Avelaal , 
boom fidallgo e muj to honrrado , e de que fe todos teverom 
por comtentes ; e gaanhou elRei de Caftella em Aragom def- 
ta vez alguuns logares : e o cardeal de Bollonha , legado do 
Papa , fallou com elRei que defíe logar a fe nom efpar- 



ger 



(i) rcpofteiro T. B. 



srg^ir ot 



d' EL R S I D. P E DR o I. S7 

ger tanto fangue como eílava preftes , ca elRei Daragoni 
com todo feu poder eftava defpofto pêra pclleiar com clKei 
de Caftella , ca vija que per guerra guerreada nom podia 
iguallar com elle : e tijnha eIRei de Gaftelia eftomçe féis mil 
de cavallo , e mujta gemte de pee ; e reçeamdoíTe de Rei í'^ 
Vermelho deGraada, que lhe diziam que tijnha feita (^Miga 
com elRei Daragom pêra lhe fazer guerra , fe mais duraíTe 
aquella comtemda , pella qual fe defemcaminhavom mujto 
feus feitos , feze paz com elRei Daragom fimgida e contra 
fua voontade , e foi que elRei Daragom eraviaífe fç)ra do rei- 
no o comde Dom Hemrique , e Dom Tello , e Dom Samcho 
feus irmaãos , e os cavalleiros e efcudeiros de Caftella que 
com elles eftavom em Aragom , e que elRei de Caftella lhe 
tornaíTe todollos logares que lhe tomados tijnha de feu rei- 
no , e dhi em deante folTem amigos : e forom difto feitas ef- 
cripturas e apregoada a paz no arreai , e prougue difto muj- 
to a quantos alli eram , por que a guerra que faziam era muj- 
to comtra fua voomtade. 

CAPITULO XXXIIL 

Dalguumas emtradas que elRei ejle anno fez no reino 

de Graada , e como elRei Vermelho fe veo poer 

em feu poder , cuidamdo defeer feguro , e 

elRei ho mandou matar. 



c 



Omo elRef veo Daragom e chegou a Sevilha, jumtou 
fuás gemtes por fazer guerra a elRei Vermelho de Gra- 
ada , dizemdo que queria aiudar elRei Maffbma , e que por 
feu aazo fezera paz com Aragom comtra fa voomtade : e 
veoíTe pereelle elRei (') MaíFoma com quatroçemtos de cavallo , 
e emtrou em companha delRei , e chegou elRei a Amtcquei- 
ra e nom a pode tomar , e tornouíTe , e mandou emtrar os feus 

na 

(O íie elRei T. (2) feito T, (?) e veyolTe peera elRei 2". 



SI3« OT 



g8 C H R o N I C A 

na veiga de Graada , que eram féis mil de cavallo , e vemçe- 
rom os Chiiftáos duas pelleias , e forom dos Mouros mortos 
e cativos ; e em outra pelleia forom os Chriftãos veemçidos 
e alguuns mortos, e foi prcfo o meeítre de Callatrava , e San- 
cho Perez Dayalla , e outros; e cuidamdo elRci Vermelho que 
faria prazer a elRei Dom Pedro , fez gramde ga falhado ao 
meeftre e aos outros , cuidamdo dámaníTar a voomrade del- 
Rei y e foltou o meeftre e alguuns cavalleiros dos outros , e 
deulhe de fuás ioyas , e emviouhos a elRei. El gradeçeolhe 
muj pouco tam gramde prefemte , mas a poucos dias fez ou- 
tra emtrada , e gaanhou quatro logares de Mouros , e pos re- 
cado em elles, e tornouffe a Sevilha. Os Mouros combateram 
huum deftes logares que chamam Sagra , e furamdo ho mu- 
ro e emtramdoo per força , preiteioufe Fernam Delgadilho, 
que o tijnha , e foi pofto em falvo , e veoíTe pêra elRci ; e el 
mandouho matar. E deu elRei volta outra vez em Graada , 
e gaanhou outros logares , e tornouíTe a Sevilha. Os Mouros 
agravaromíTe todos dizemdo a elRei Vermelho , que por a 
contemda que el avia com Rei Í^^MaíFoma, emtrara ia elRei 
três vezes na terra , e que fe perdia o reino da Graada. El- 
Rei ouve difto reçeo , e veemdo que nom podia levar adeam- 
te aquello que começara , ouve confelho de fe vijr poer em 
poder e merçee delRei de Caftella , e que elRei defque o 
viíTe averia piedade dellc , e teeria com elle alguuma boa 
maneira: e partio logo de Graada com quatro çemtos de ca- 
vallo e duzemtos de pee , e chegarom ao alcaçar de Sevilha , 
omde elRei eftava, e fezeromlhe gramdes reveremças, e el- 
Rei os reçebeo muj bem. Em tom lhe fallou huum mouro 
por elRei de Graada , dizemdo antre as outras coufas , que 
bem fe poderia defemder delRei Maffoma , que era feu con- 
trair© 5 mas delle que era feu Rei e fenhor nom fe podia def- 
-femder ; e que avudo confelho fobrcfto , o melhor acordo 
que achara , era poerfe em fcu poder e merçee , aaqual pe- 
dia que tomalTe aquel feito emfua maão, e que o poinha em 

feu 
____ 



D^ElReI D. P E DRO I. S9 

feu juizo; e que fe fua voomtade era doutra gulfa , foíTe fua 
merçce de mandar pocr el eos feus aalem mar em terra de 
mouros. ElRei refpomdeo ao mouro que lhe prazia mujto 
da vijmda delRei e dos feus, e que fobre a contemda del- 
Rci MalFoma, que elle teeria em ello booa maneira como fe 
livraíTe. ElRei Vermelho e os outros fezerom por ilto gram 
rcvercmça a elRei , teemdo que feu feito eftava bem , e fo- 
romíTe muj allegrcs pêra as poufadas , que lhe elRei mandou 
dar na iudaria da cidade. A cobijça que he raiz de todo 
mal , fez logo faber a eIRei , como Rei Vermelho tragia muj- 
to aver em aliofar e pedras e joyas , e ouve gram defeio de 
cobrar todo , e mandou ao meeftre de Santiago , que o com- 
vidaíTc em outro dia pêra a çca , e os mayores homrrados , 
que com cl vijnham , e forom cear com elle ataa çimquoem- 
ta. Acabada a çea eftamdo feguros e nenhuum ainda levamta- 
do , chegou Martim Lopez com homeens armados e prem- 
deo elRei e todoHos outros ; e foi logo bufcado elRei , e 
acharomlhe três pedras ballaifes muj nobres e muj gramdes , 
c acharom a huum mouro pequeno em huum correo feteçem- 
tas e trimta pedras ballaifes, ea huum feu page çimquoenta 
graãos daliofar tam groíTo í') come avellãas esburgadas , ea ou- 
tro moço tanto aliofar graado come ervamços , em que po- 
deria aver huuma oitava (=^) , e aos outros a quem achavom alio- 
far , a quem pedras , e todo levarom a elRei. E em elfa ora 
forom outros homeens darmas aajudaria e prenderom todol- 
los outros mouros , e todallas dobras e jóias que lhe acha- 
rom todo levarom a elRei. E foi elRei levado prefo e to- 
dollos feus aa taraçena , e dhi a dous dias foi tirado a hu- 
um campo que dizem Tablada , e elle e trimta e fete caval- 
leiros mouros , e alli os mandou elRei matar todos. E foi el- 
Rei Dom Pedro o primeiro que deu huuma lançada a elRei 
Vermelho , que eftava em cima dhuum afno veftido em hu- 
uma faia dezcarllata , e diífe : í>Toma , por que me fezefte fazer 
3> maa preitella com elRei Daragom » : e o mouro refpomdeo per 

fua 

(O grolíos J.B, Çi) Qitava dal^ueire T. 






oo Chronica 

fua aravia dizcmdo : » pequena cavallgada fezeíie 55. E cmviou 
clRei Dom Pedro a cabeça delRci Vermelho , e dos outros 
trimta e lete a elRei Maffoma de Graada , e el emvioulhc al- 
guuns cativos. E poílo que elRei Dom Pedro diíTcíTe muj- 
tas razooes a collorar eíte feito , por moílrar que o fezera 
fem emcarrego de fua conçiemçia , todollos feus o teverom 
por muj gram mal, e lhe prouvera mujto de nom fecr affi. 

CAPITULO XXXIV. 

Das aveenças que elRei de Cajlella fez com elRei Da- 
ragom emtramdo em feu Reino , e como as de- 
pois nom quis guardar, 

ELRei Dom Pedro que voomtade tijnha de tornar outra 
vez aa guerra Darâgom 5 dizendo que a paz que fezera, 
fora comtra fa voomtade , por reçeo delRei Vermelho , fez li- 
ga com elRei de Navarra , que folTem amigos e fe aiudaf- 
fem , e mandou aos feus que fe perçebeíTem , e nenhuum nom 
penlTava que foífe contra Aragom , com que havia paz. E en- 
cubertamente ante que o elRei foubeíTe , por lhe tomar algu- 
umas villas , em tanto emtrou em Aragom , e tomou logo féis í'* 
caftellos 5 e cercou a vilia de Callataiud ; e teemdo o cerco 
fobrella , gaanhou treze caftellos deíTa comarca. ElRei Dara- 
gom que eltava em cabo de leu Reino , quamdo iíto foube , 
ficou efpamtado , e mandou a Proemça (^^, omde amdava o com- 
de Dom Hemrrique e feus irmaãos e os outros fidallgos de Caf- 
tella defterrados do reino fazemdo guerra , que o veheífem 
aiudar, e que lhes daria gramdes folldos e os herdaria em feu 
reino. Em tanto foi aílí aficada a vilIa de Callataiud , que a 
tomou elRei Dom Pedro per preiteíi.i , e leixou recado em 
ella , e tornouíFe a Sevilha. E reçeamdoífe delRei de Framça , 
por a morte da Rainha Dona Bramca fua molhcr,que manda- 
ra 

(O e tomou feus 7". (2) a Provença T. B. 



d'elRei d. Pedro I. pt 

ra matar , fez eftomçe fua muj firme amizade com clRci 
Duarte Dhimgraterra , c com o Príncipe de Gallez feu filho, 
que fe aiudaíTem contra quaaes quer outros. E emtrou logo 
em Aragom 5 e chegou a Callataiud que eftava ia por clle, e 
gaanhou per hi darredor fete logares. E quamdo emtrou per 
forçaCarinana í'^ 5 mandou matar quamtos no Ioga r avia, que 
nom ficou foomente huum ; e a razom por que dizem que os 
aíli mandou todos matar , foi por que el teemdoa cercada e 
nom a podemdo tomar , alçou o cerco defobrella , e os da 
vil la quamdo os virom aííi partir , começarom de braadar do 
muro dizemdo feus doeftos e maldiçoóes , cada huum como 
lhe prazia ; e elRei ouve difto gramde menemcoria , e mandou 
tornar fuás gentes fobre o logar , e tam rijamente lhe deu o 
combato que a emtrou logo per força ; e por efto mandou 
fazer aquella gramde mortijmdade. E cercou mais a cidade 
de Taraçona e tomouha, e teemdoa cercada, chegou o me- 
eftre de Samtiago de Purtugal , Dom Gil Fernamdez de Car^ 
valho , com quinhemtos cavalleiros e efcudeiros muj bem gui- 
fados em fua aiuda , que lhe emviara elRei Dom Pedro leu 
tio. Antre os quaaes hia Martim Vaafquez de Gooes , e Gon^ 
çallo Meemdez de Vaafcomçellos , e Martim Affpnfo de Mel- 
lo , e Alvoro Gomçallvez de Moura , e Nuno^Veegas o ve- 
lho , e Rui Vaafquez Ribeiro , e outros muj tos e boons fidal|l- 
gos ; e dalli partio elRei, e tomou Turiel e omze logares ou^. 
tros , e tomou mais a cidade de Segorbe , e a villa de Mon- 
vedro , e veoífe aa cidade de Valença ; e fabemdp i=) huuns oito 
dias que elFvei eftava ('Kobrella, foube que elRei Daragom , 
e o líFamte Dom Fernando feu irmaâo , e o comde Dom 
Hemrrique , e Dom Tello , e Dom Sanicho , e as outras gen- 
tes por que elRei Daragom mandara , eram todos j um tos pê- 
ra vijr pelleiar com elle , e que fecriam três mil de cavai- 
lo. ElRei Dom Pedro que voomtade nom avia de pelleiar 
com elles , parti ofíe de Valemça , e foiíTe pêra Momvedro , 
e elRei Daragom chegou ataa duas legoas do logar, e pos 
Tom. IF. M fua 

(O Caranynava T. (2) e avemdo T, (3) que elRei veyo T, 



02 ChRONICA 

sua batalha , e nom achou com quem pelleíar, e tornouíTc : e 
da ribeira de Momvedro vio elRei Dom Pedro levar quatro 
galees fuás a féis Daragom que as toiparom , e pefoulhe mui- 
to dello. Alli fe começarom de trautar avecmças antre os 
Reis Daragom e de Caftella , a faber, que cafaíTe elRei Dom 
Pedro com Dona Johanna filha delRei Daragom, eDomJo- 
ham primogénito Daragom com Dona Beatriz filha delRei 
Dom Pedro , e efto com certas comdiçoóes. E alli hu fe iun- 
tarom pêra firmar as aveemças, foi requirido elRei Dom Pe- 
dro, e diíTe que fe nom achava naquella preitefia, e que o 
nom requereíFem mais , e dalli fe veo pêra Sevilha. E dizia 
elRei Dom Pedro que neeíies trautos fora fallado fecreta- 
mente , que pois el cafava com a filha delRci Daragom , e 
tomava com el tal divedo, que matafi^e ou premdelFe primei- 
ro o Iffamte Dom Fernamdo feu irmaão , e o comde Dom 
Hemrrique, que eram feus inmijgos , e que pois o nom feze- 
fa-, '"que nom curava de fuás preitcfias, E bem parece iílo fe- 
êr verdade, por que elRei Daragom a poucos dias manda- 
va premder, depois que comeo, o Iffante Dom Fernando feu 
irmaão , que tevera com vidado eíTe dia , por que diziam que 
fe quiri a hir com as gemtes que tijnha pêra a guerra de Fram- 
ça ; e por que fe nom deu aa prifom , foi logo morto , e 
Luís Manuel , e Diego Perez Sarmento com elle ; e todolios 
do reino lho teverom a muj gram mal por feer feu irmaão , 
e muj nobre fenhor como era. E depois fez falia elRei Da- 
ragom cbm elRei de Navarra que mataíLm o comde Dom 
Hemrrique , e fimgerorh que fallaíTem em huum caftello to- 
dos tres fobre outra coufa , e por que Dom Joham Ramirez 
Darelhano , camareiro deIRci Daragom , que o comde efco- 
Ihera que teveíFe o caftello em quanto elles fallaíTem , nom 
quis comfentir em feer feita tal morte, efcapou o comde 
aquel dia de nom feer morto. 



CA- 




d' E L R E I D. P E D R o I. 9 3 

CAPITULO XXXV. 

Como clRei Dom Pedro emtrou outra vez em Aragom 

com fua frota de fiaaos e galees , e das coufas 

que alio fez. 

PArtio elRei oiitra vez de Sevilha em começo do ano de 
quatrocemtos e dous , aos quimze annos do feu reinado , 
e emtrou em Aragom pello reino de Vallemça , e gaanhou 
Alicamte e outros logares. E chegamdo acerca de Burriona- 
bio (^^ galees e outros navios, que tragiam mantijmento a Val- 
lemça de que eftava muj mimgoada , e tornouíTe do caminho 
por lhes dar torva , e pos feu arreai hu chamom o graao , 
na ribeira do mar , que he mea legoa da cidade , e efperava 
cada dia fua frota e galees de Purtugal que lhe avijam de 
vijr em aiuda , e todas citavam ja em Cartagenia nom avem- 
do tempo com que partir. ElRei Dom Pedro nom fabemdo 
novas delRei Daragom , chegou huum efcudeiro a el e diíTe , 
que eIRei Daragom e o comde Dom Hemrrique , com todol- 
los outros fenhores e gentes , que poderiam feer três mil de 
cavallo afora mujtos homeens de pee , vijnham muj emcu- 
bertamente por pelleiar com elle , ante que dalli partisse , 
e que vijnham pello mar a geito delles doze galees e outros 
navios com mantijmentos, e que três noites avia que nom fa- 
ziam fogo , por nom feerem defcubertos , e que em outro dia 
íeeriam com elle. ElRei ouvimdo ell:o , partio logo dalli e 
foiíTe a Momvedro , que eram quatro legoas : outro dia gram- 
de manhãa chegou elRei Daragom , e poufarom todos ante í'* 
Momvedro e ornar, huuma legoa da villa , e fuás galees e 
naves acerca , e foi acorrida a cidade per mar e per terra , 
e acabo de O) doze dias chegou a frota delRei deCaftella, 
que eram vijmte galees fuás e quaremta naaos , e dez galees de 

M ii Pur- 

(i) de Burrio vyo. vio 7". deButriona vio B, Çi) antre X. (3) e acabado T» 



«4 Chronica 

Purtugal que lhe emviava feu tio em aiuda. A frota Dara- 
gom quaindo vio a de Caílella , ouve reçeo , e meteoíTe no rio 
de Qualhar. ElRei Dom Pedro entrou logo na frota , e foi- 
fe poet na boca do rio, cuidamdo tomar as galees Daragom. 
E eftamdo alli começou de ventar o levante , que he traveílía 
em aquel logar , e moílramdo o mar fua gramde braveza, 
cuidarom todos que quebraflem fuás galees em terra , e el- 
Rei Daragom com todas fuás gentes aguardavom em terra 
por ellas , cremdo todavia , por o vemto que fe esforçava ca- 
da vez mais , que de todo ponto eram perdidas ; e a galee 
delRei perdera ia três caabres com fuás amcoras, e fobre o 
quarto eftava feu feito. Ao foi pofto ceifou a tormenta , e foi 
elRei em muj gram perijgo , e partio dalli leixamdo feus 
fromteiros , e tornouífe pêra Caftella. ElRei Daragom cercou 
Momvedro , nom í'' o pode tomar , e partio dalli , e foilFe amdar 
per feu reino em tanto. E deu outra vez volta elRei de Cas- 
tella , e partio de Sevilha , e emtrou per Aragom , e tomou ai- 
guuns logares ; e os da villa Douriolla cuidamdo de feer cerca- 
dos , fezeromno faber a elRei., e veo elRei Daragom (^^ com 
feu poder a duas legoas domde elRei de Caftella eftava , e 
baíleçeoa de viamdas de que era mimgoada. E elRei Dom 
Pedro nom quife pelleiar com elle, mas eíteve alguuns dias 
per aquella terra , e tornoulTe pêra Sevilha , e achou novas co- 
mo galees fuás (í) que amdavom pello maar, tomarom cinquo 
galees Daragom , e foiíTe logo aCartagenia homde eílavom , 
e mandou matar toda a gente delias , que nom efcapou foo- 
mente huum , falvo os que fabiam fazer remos por que os 
ouve meíter. Dalli partio elRei Dom Pedro pêra Murça , fa- 
bemdo como elRei Daragom cercara Momvedro , e foi cercar 
a villa Douriolla que diíTemos , e gaanhou a villa e o caftello , 
e tornouífe pêra Sevilha, Os de Momvedro aíicados do cer- 
co e feemdo mingoados mujto de viamdas , requeriam mujto 
a meude elRei í^) que lhes acorreíFe; e elRei por que lhes 

nom 

CO e nam T. (2) fezeramno faber a elRei Daragaáo , e veyo lojjuo T» 
(5) as fuás guallees T. (4) a mercê delRei T. 






d'elRei d. Pedro I. p5' 

nom podia acorrer fe nom per batalha , nom era oufado de 
o fazer, ca el nom queria pelleiar com elRei Daragom, re- 
çeamdoíTe dos feus de que mujto nom fiava ; e porem buf- 
cava ourravS maneiras de guerra e nom per batalha , ca elRei 
Dom Pedro por mujtos que mandara matar, des i poUos do reino 
que fabia que eram dei mal comtemtes e odefamavom, nom 
fe atrevia de poer (') o campo. Os de Monvedro mingoados 
de viamdas , em guifa que ia comiam as beftas e ratos , derom 
a eIRei Daragom o logar per preitefia , e eram demtro pêra o 
dcíFemder féis çcratos homeens darmas , afora peoões e bcef- 
teiros , e os mais delles ficarom com o comde Dom Hemrri- 
que , por grande reçeo que aviam dei Rei , nom embargam- 
do o acorrimento que delle aver nom poderom. 

CAPITULO XXXVI. 

Como o comde Dom Hemrrlqtie entrou per Cajlella com 

mujtas companhas , e foi alçado por Rei , e como 

e/Rei Dom Pedro mandou defemparar todol- 

los logarer y que em Aragom tijnha 

filhados. 



ifi/ 



MOnvedro gaanhado per elRei Daragom , foiíTe pêra Bar- 
cellona , e veherom alli alguuns capitaaes das compa- 
nhias por que el mandara , e firmarom com elle de fcer alli 
no fevereiro feguimte pêra entrar em Caílella com o comde 
Dom Hemrrique. ElRei Dom Pedro foube diíto parte , e foif- 
fe a Burgos , hu mandara iuntar fas gentes das companhias 
erom iuntos , e partirom de Saragoça pêra emtrar per Gaftel-» 
la. E vijnham hi capitaaes Daragom, a faber, o comde de 
Denia , e Dom Filippe de Caftro , e outros cavalleiros ; e de 
França MoíTe Beltram de Claquim , e o comde das Marchas (=>, 
e o fenhor de Baim , e o marifcal Dandemar marifcal de Fran- 



(O a poer J, (2) Maarquas T. Marcas^. í i'/ ;^?) 





y6 ChRONICA 

ça , e outros cavalleiros. E de Imgraterra , Mofle Boitro c^e 
Carvabai , MoíTc Eftaçlo , e MoíTe Martim de Gorimai , e MoíTe 
Guilhem Allinante , e MoíTeJoham de Obrcns , e mujtos ou- 
tros cavalleiros e homeeris darmas Dhimgraterra , e de Guiana, 
e de Gafconha , e doutras naçoões. E chcgarom todos aa villa 
Dalfaro , e nom curarom delia, e forom outro dia a Cala- 
forra í'^ cidade nom forte, e preiteiaromífe os do logar com 
o comde , e colheromno dentro com aquellas gentes , as qua- 
aes alli forom certificadas como elRei Dom Pedro eftava em 
Burgos , e que nom avia voomtade de pelleiar com elles (^). E 
ouverom acordo , dizemdo ao comde Dom Hemrrique que pois 
tanta boa gente era contenta de o agardar ('^ em efta cavalga- 
da 9 que fe chamaíTe Rei de Caítella. E elle aa primeira co- 
meçouíFe defcufar de o fazer ; des i como he doce coufa rei- 
nar , ante de mujtas palavras outorgou que Iheprazia, e foi 
alçado emtom por Rei , e pediromlhe os que com el vij- 
nham gramdes merçees e oííiçios no reino , e el muj de gra- 
do lhe outorgava todo , damdo o que gaanhado tijnha , e 
pormetemdo o que era por gaanhar ; ca em tal tempo aíli 
lhe compria de o fazer , e foi ifto no ano da era de í'*^ mil e 
quatroçemtos e quatro. Partio dalli elRei Dom Hemrrique ca- 
minho de Burgos , hu era elRei Dom Pedro , e chegou a Na- 
varrete , o qual fe lhe deu , nom oufamdo defperar combato ; 
e foi combatida Brivefca , e tomoua. ElRei Dom Pedro fa- 
bemdo todo efto, fabado déramos bem pella manhãa , man- 
dou matar Joham Fernamdez de Toar, por queixume que ou- 
ve de feu irmaáo ; e fem dizer coufa nenhuuma aos feus , ca- 
valgou por fe partir logo, e veherom a elle os mayores í'- da 
cidade dizemdo que os nom leixalTe , ca o comde era oito 
legoas dalli; e nom preftamdo nenhuuma coufa fuás razooens, 
quitoulhe a menagem , e partiolfe logo , e forom com elle al- 
guuns cavalleiros, e féis çemtos mouros de cavallo , que am- 
davam na guerra em fua aiuda , que lhe dava ElRei de Graa- 

. ■- ..::,;:.ii^- :.. .: ,. i. ^^ , 

(i) a Callahora T. (2) com elle T. (3) agoardaxX? -5. (4) qo anno de _?!. 
(5) os Mouros T, >,;;... 



d' £ L Rei D, Pe D R o I. 97 

da , e mujtos dos feus ficarom em Burgos, a que prazia de 
todo efto , e quem fe dei partia nom oufava de tornar mais 
a elle. E aquel dia que elRei dalli partio , mandou íiias car- 
tas a todollos que por el tijnham as fortellezas que em Ara- 
gom gaanhara, que as deíemparaíTem e deftruiíTem fe podef- 
lem , e fe veheíTem pereelle ; e elles fezeromno aífi , mas muj- 
tos delles fe forom pêra elRei Dom Hemrrique , e aqui çef- 
fou emtom de todo a guerra Daragom , a qual hia em omze 
anos que durava. Certamente Í'J perderalTe o reino Daragom 
todo , fe fortuna tao cedo nom abreviara os anos da vida def- 
te Rei Dom Pedro , ca omze vezes que el em Aragom fez 
emtrada , gaanhou çinquoenta e dous logares aqui comtheu- 
dos , afora outros mujtos que aqui nom fom nomeados ; e 
chegou elRei Dom Pedro a Tolledo , e pos recado na cida- 
de , e dhi partio pêra Sevilha. Os de Burgos veemdo que fe 
nom poderiam í') defemder delRei Dom Hemrrique , manda- 
romlhe feus recados e reçeberomno na cidade , e corohouíTe 
alli por Rei , e veherom a elle mujtos procuradores das villas 
e cidades do reino e reçeberomno por fenhor (') ; em guifa que 
do dia da coroaçam a vijnte e cimquo dias, foi todo ho rei- 
no a feu mandado , e el recebia todos graçiofamente , e a ne- 
nhuum era negado coufa que pediíTe, E deu elRei Dom Hemr^ 
rique alli mujtas terras aaquelles fenhores e cavalleiros que 
vijnham com elle , aíli eftramgeiros, come feus naturaaes , e 
mandou a Aragom por fua molher e filhos , e foi recebida 
homrradamente. Dalli partio e veoíTe a Tolledo, e foi na ci- 
dade gramde revolta fe o receberiam ou nom , por que a hu- 
uns prazeria í^) que o reçebeíTem , outros eram de todo em 
comtrairo ; pêro finallmente ouverom acordo de o colher em 
ella , e foi recebido com gramde prazer. 



CA- 



CO E certamenre T. (2) podiam B. (3) por Rei e fenhor T. (4) prazia B* 






<^8 Chronica 

CAPITULO XXXVII. 

Como eJRei ^'^ de Caftella emvíava huumafua filha a Pur- 

tugal ^ e como el parti o de Sevilha com temor aue 

ouve dos da cidade. 

ELRei Dom Pedro eftando em Sevilha , foube novas dei- 
tas coufas todas, e poílo em gram penfamento , acordou 
com os feus demviar pedir aiuda a elRei de Purtugal feu 
tio. E por lhe dar moor carrego de" fe mover a lhe fazer tal 
aiuda , emvioulhe dizer que bem fabia como era pofto cafa- 
mento da IlFante Dona Beatriz fa filha com o Iffante Dom Fer- 
namdo feu primogénito filho , e que porem lhe mandava a di- 
ta IlFante e toda a comthia do aver que era pofto de lhe dar 
ao tempo do cafamcnto, e que elfa Dona Beatriz ficalFe her- 
deira dos reinos de Caftella edeLeom: e mandouha logo de 
Sevilha ^ e com ella Martim Lopez de Torgilho , huum ho- 
mem de que el mujto fiava, e mais certa comthia de do- 
bras que Icixara a efta Iffamte Dona Alaria de Padilha fua 
madre , com joyas e aliofar e outras coufas. E partida Dona 
Beatriz de Sevilha pêra Purtugal , ouve elRci Dom Pedro no- 
vas como elRei Dom Hemrrique emcaminhava de Tolledo 
pêra Sevilha , e acordou demviar pello tefouro que tijnha 
no caftello Dalmodouvar , que era todo em moedas de prata e 
douro , e fez armar huuma galee em que o pos com todo o 
aver que tijnha na cidade , e emtregou a galee a Martinhan- 
nes feu tefoureiro , e mandoulhe que fe foífe a Tavira , vil- 
la de Purtugal no reino do Algarve , e que alli atemdelTe a 
galee ataa que el foífe; e também mandou carregar mujtas 
azemellas de feus tefouros , e levou comfigo muj gramde aver 
douro e pedras e aliofar, aífi do que tomara a Rei í^^ Ver- 
melho e aos feus , como doutro muito que tijnha iunto , e 
^ iílb^ 

(i) Cgmo elKei Dom Pedro T. (2) a elRei T, 



d' E lR El D. Pedr o I. 99 

iíTo meefmo da prata toda a que pode levar : e elRei eítam- 
do aíli pêra partir de Sevilha , diíTeromlhe como os da cida- 
de íc alvoraçavom contreelle , e o quiriam roubar alli om- 
de eftava ; e com gram temor que ouve , partioíTe logo pêra 
Purtugal. E levou comíigo Dona Coftamça , e Dona Ifabel 
j>.s filhas, ca Dcna Beatriz a mayor avia ja mandada í'^, como 
diíTemos. E hiam com elRei Dom Pedro , Martim Lopez de 
(Córdova meellre Dalcamtara , e Diego Gomez de Caftanhe- 
da , e Pêro Fernamdez Cabeça de vaca , e outros ; e fegumdo 
alguuns efcreprevem í^^, como elRei partio de Sevilha , taaes 
hi ouve dos que hiam cora as azemellas do aver , que veem- 
do como elRei fogia do reino per aquella guifa , que fe 
tornarom í'^ pêra a cidade com o que levavom , e outros fa- 
hiam do logar e lhe roubarom parte daquel aver. EMiçerGil 
Boca negra feu almirante , que eraGenoes, armou em Sevilha 
huuma galee e outros navios, e foi tomar a galee do aver, 
em que hia Martinhanes pêra Tavira, no rio de Guadalque- 
vir , ca aimda nom era mais arredado ; e era o aver que hia 
em ella trimta e féis quimtaaes douro, e outras mujtasjoyas, 
de que elRei Dom Henrrique depois ouve toda a mayor par- 
te (4). 

CAPITULO XXXVIII. 

Como elRei^^^ de Cajlella fez faher a feu tio que era em 

feu Reino , e como Je elRei efcufou de o veer 

e lhe fazer ajuda, 

ELRei de Purtugal em efta fazom poufava nos paaços de 
Vallada , que fom acerca dhumavilla que chamam Samta- 
rem , e era ifto no mes de mayo ; e quamdo elRei Dom Pedro 
mandou fua filha Dona Beatriz , como anteagora í^) ouviftes , 
pêra cafar com o IfiFamte D. Fernamdo , por aazo daver melhor 
Tom. IV. N aiu- 

(i) mamdado T. (2) escrevem T. (5) guisa , se tornavam X. (4) ouve 
a mayor parte T. (5) ComoelRei D. Pedro T. (6) ateegora J. 



loo Chronica 

aiuda deJRei feu tio, foarom primeiro novas em Vallada , lui 
poufava elRei , que elRei de Caftella lhe mandava duas luas 
filhas que eílavam ia nas Alcaçevas , que fom dalli vijmte le- 
goas , mas nom fabiam dizer certamente por que as mandava 
a elRei ,nem a que ('^ emtençom- ElRei dePurtugal que par- 
te nom fabia que elRei feu fobrinho era em tal prefía pof- 
to , cuidamdo que as Iffamtes vJjnham per outra maneira , po- 
rem que nom era mais que aquella huma , mandava correger 
cafas ecameras em feus paaços, em que ellas bem podeíTem 
poufar, ElRei de CaJftella partio de feu reino , e tam trigo- 
fo amdar pos no caminho , fem fe deteemdo em nenhuum 
logar, que amte que fua filha chegaíTe hu elRei de Purtugal 
eftava , a achou el no caminho omde vijnha ; e chegou el- 
Rei Dom Pedro a Serpa , e dalli a Beia , e des i a Curuche , 
que eram vijmte e huuma legoas domde elRei feu tio eftava , 
e dalli lhe fez faber como vijnha , e a ajuda e acorrimen- 
to que lhe dei compria , e iíTo meefmo o cafamento de fua 
filha com o líFamte Dom Fernamdo feu filho. ElRei de Pur- 
tugal como ifto foube , teve bem afaz em que cuidar , e 
mandoulhe dizer que nom foíFe mais adeamte , mas que ef- 
teveífe alli ataa que viíFe feu recado. E mandou chamar o If- 
fante Dom Fernamdo feu filho , que nom era hi , e com clh 
e com feus privados ouve confelho fobrefte feito , e foi fal- 
lado per alguuns que o viífe e colheíTe em feu reino , e que 
o aiudaíFe a cobrar fua terra : dcs i cuidamdo bem em efto , 
acharom que o nom podia elPvci fazer fem gramdes traba- 
lhos e gafto e muj gram dano de feu reino ; c o peor de 
todo , nom teer nenhuumas aazadas razooes como tal feito 
podeíTe vijra acabamento, queiemdo ^^^ compria ,por que elRei 
Dom Hemrrique feu irmaao tijnha ia toda Caftella a feu man- 
dar , falvo alguuns logares tam poucos , de que nom era de 
fazer conta , e com ifto aviamlhe gramde ódio todollos do 
reino alfi grandes come pequenos , de guifa que bem era 
de cuidar quamto todos fariam por cobrar em elle. Pois 

quem 

(O nem cm que T, (z) quejando T. ^. 






d'£lReiD, PeoroI. lor 

quem ouveíTe de lamçar fora de Caftella elRci Dom Hcmrri- 
que e todollos da fua parte, aíli per batalha, come per guer- 
ra «guerreada , gram poderio lhe comvijnha teer ; e nom fe 
fazcmdo fegumdo feu defeio , ficava ao depois em gramde 
homezio e guerra com elle : reçebemdoo outroffi em ícu rei- 
no , e nom trabalhar de o aiudar , eralhe gramde vergonha e 
prafmo ; des i er vemdoo í'^ e fallamdolhe , nom fe poderia ef- 
cufir delle. Porem acordarom que o mais faao comfelho era , 
que o nom vilíe el nem o líFamte feu filho , bufcamdo algu- 
umas razooens colloradas per que pareceíTe que dereitamente 
fe efcufava. Em tom foi a Curuche o comde Dom Joham Af- 
fomfo Tellojonde elRei de Caftella eftava efperamdo a repof- 
ta de feu tio , cuidamdo de feer apoufentado em Samtarem , 
e diflelhe como elRei vira feu recado , e foubera parte de 
fua vijmda de que guifa era , e que el de boamente o rece- 
bera em leu reino e o aiudara a cobrar fua terra , como era 
razom e dereito , mas que por eftomçe nom eftava em ponto 
de o poder fazer como compria , por que daquellas vezes 
que lhe el fezera aiuda , aíli per mar come per terra , os fi- 
dallgos de feu reino vehercm dei e de fuás gentes muj mal 
comtentos e efcamdalhzados ; e que vijnham em fua compa- 
nha taaes , com que alguuns ouverom razooens , e que era 
per força aver antrelles gramdes bamdos e arroidos , o que 
a ferviço dambos pouco compria : aalem defto que fabia bem 
como o Iftamte Dom Fernamdo feu filho era fobrinho da Rai- 
nha Dona Johanna , que emtom novamente emtrara em Caf- 
tella , irmaã de fua madre Dona Coftamça , filha de Dom Joham 
Manuel , e que nom emtemdia de poftar com elle que lhe 
muj to prouveíTc de tal aiuda; e foi afli certamente , fegumdo 
alguuns efcrevem , que o líFante deu gram torva porem razoa- 
da em efte feito. Com eftas e outras razooens efcufou o com- 
de elRci feu fenhor , que eJ aaquel tempo o nom podia veer , 
nem lhe fazer mais aiuda da que feita avia ; c efpedioíTe del- 
le, e foifle pêra a poufada. 
N ii CA- 

(i) des hy vcmdo X. áçs i vemdoo £, 




/ 



102 C H R O N I G A 

CAPITULO XXXIX. 

Como elRei de Cajlella pm^tio de Ctiruche , e fe foi de 
Purtugal y e quaaes emiíiarom em fua companha. 

NOm embargamdo as razooens que diíTemos , e outras muj- 
tas que falladas forora antre elRei de Caftclla e o com- 
de fobre o feito de feu negocio , bem emtemdeo elRei Dom 
Pedro que o fim de todos feus ditos eram nom aver elRei 
íeu tio voomtade de lhe dar coliiimento em feu reino , nem 
lhe fazer aiuda per nenhuma guifa ; e ouve defto tam gram- 
de queixume , que nom pode com fua voomtade que o logo 
nom defle a emtemder per alguum modo. E depois que o 
comde com elle fallou e fe efpedio e fe foi pêra a poufada , 
ficou elRei trifte e menemcoriofo , e com torvado geefto 
tomou dobras que tijnha na maao e deitouas per cima dliuum 
alpemder das cafas hu poufava : huum cavalleiro de fua com- 
panha veemdo eito que elRei fazia , diíTelhe como forrijm- 
do, porque deitara aíli aquellas dobras, ca melhor fora dai- 
las a alguuns dos feus a que preítaíFem ; e elRei Jhe refpon- 
deo dizemdo : 5>nomcurees diífo , ca quem as fêmea as vijm- 
ra depois colher 5> : damdo a entemder , fe feus anos tam pou- 
cos nom forom , que el lhe fezera de boom tallamte guer- 
ra 5 por nom achar eftomçe em q\\q aiuda nem acolhimento 
nenhuum, E ouve feu acordo de fe hir a Alboquerque e lei- 
Xâr hi as filhas e todas fuás cargas , e chegamdo ao logar 
nom o quiferom em el colher, ante fe lamçarom dentro al- 
guuns dos que hiam em fua companha. E elRci veemdo co- 
mo feus feitos hiam cada vez peor , mandou dizer a eIRei 
de Purtugal feu tio , que pois lhe outra aiuda fazer nom que- 
ria , que lhe emvialFe carta de feguro , per que podeífe paf- 
far per feu reino ; e eito fazia elle tementioíFe do líFamte 
Dom Fernamdo de Purtugal , por feer fobrinho da molher 

del- 






d'£lRei d. Pedro I. 105 

delRci Dom Henrrique , como diíTemos. A elRei de Purtugal 
prougue mujto, e emviou a elle o comde da ^'^ Barçellos que 
ouviftes , e Alvoro Pcrez de Caftro , que fe foíTem com clle 
pello reino , e o pofeíTem em falvo em Galliza ; e elles fe fo- 
rem pereelle , e começarom damdar feu caminho , e quamdo 
chegarom aa Guarda , fegumdo alguuns contam , dlíFerom el- 
les alli a elRei , que fe quiriam tornar, e nom podiam hir 
mais com elle , por quamto fe reçeavom do Iffante Dom Fer- 
iiamdo , que os emviara ameaçar por hirem affi em fua com- 
panha , e que elRei lhe (^^ deu eftomçe féis mil dobras e duas 
cintas de prata e dous eftoques , que fe foíTem com elle ataa 
Galliza : e fe aíll aveo per efta guifa , eito foi fimgido que 
elles diíferom , ca o líFamte nom tijnha razom de lhes tal 
coufa mandar dizer, pois com feu acordo fora hordenado em 
confelho que o acompanhaíTem ataa fora do reino. E dizem 
que chegarom com elle ataa Lamego , e mais nom : e aa parti- 
da lhe furtou o comde huuma filha delRei Dom Hemrriquç 
feu irmaão , que elRei levava prefa comfigo , de hidade de 
quatorze anos , que chamavom Dona Lionor dos Leooens , por 
que elRei Dom Pedro por queixume que de feu padre avia , 
feemdo efta moça em poder de fua ama , nada de muj pou- 
cos mefes , com gram cruelldade a mandou tomar , e esfaima- 
dos leooens (5>que criava ante perhuumdia no curral hu an- 
davom , mandou que lha lamçaífern em camifa , e foi aíIi fei- 
to como el mandou. E os leooens veherom e chegaromíTe a 
ella , e prouve a Deos que lhe nom fezerom nenhuum nojo, 
mas aífi como fc delia ouveífem piedade , fe çhegavom a el- 
la fem lhe fazerem outro mal. Foi efto dito a elRei per al- 
guuns feus , e mandoua elRei tirar dalli e entregar aaquelles 
que a criavom ; e pofe porem em ella tal guarda, que nunca 
feu padre a pode aver ; e levavaa elRei eftomçe comfigo , e 
o comde a trouve a elRei de Purtugal , e depois foi emtre- 
gue a elRei Dom Hemrrique feu padre. 

CA- 

— ~ 

CO de T.B. (2; lhes T, (3) os lioeês 7". 



/ 






104 V^HEONICA 

CAPITULO XL. 

Como elRei Dom Pedro chegou a Galiza , e matou ho ar- 
çebíjpo de Samúaguo , efe foi pêra Imgr aterra» 

PArtio de Lamego elRei de Caftella , afaz defcmparado e 
com muj pouca gente , ca nom hiam com elle mais que 
ataa duzemtos de cavallo , e chegou a Monte rei , huma villa 
de Galliza 5 e dalli efcrepreveo ('^ ao Gronho , e a Soyra , e a 
Çamora , que tijnham fua voz , que fe esforçaíTem , ca cl lhes 
acorreria. Ê fez faber a elRei de Navarra e ao Príncipe de 
Galez como era em Galliza , e queria faber que esforço tijnha 
em elles : e efperou alli o arçebifpo de Santiaguo , e Dom Fer- 
namdo de Callro , feu alferez moor , e adeantado cm terra 
de Leom e dasEíluras, o qual ante defto vehera a Galiza per 
feu mandado ; e fallou com todollos prellados e cavai Iciros e 
efcudeiros e cidades e villas e fortellezas , de guifa que to- 
dos teverom fua voz. E efteverom três domaas avemdo con- 
felho fe ^Xà melhor hirfe a Çamora e dhi caminho do Gro- 
nho, pois elRci Dom Henrrique com fuás companhas eíla- 
va em Sevilha; ou hirfe a Baiona de Ingraterra , catar feus 
acorros com o Príncipe de Galez : e reveíFe elRei ante ao 
confelho da hida de Ingraterra , que tornar outra vez a feu 
reino , por que tam pouco fe liava rios que tijnham voz por 
elle , come nos outros que nom eram da fua parte. E parti o 
de Monte rei , e foi teer oSamJoham aSamtiago deGalliza, 
e alli ouve acordo com osjeus de matar o arçebifpo , e to- 
marlhe as fortellezas : e onde Dom Sueiro vijnha feguro a 
feu mandado dia de Sam Pedro , que lhe mandara elRei di- 
zer que vehelTe ao confelho , emtramdo pella cidade foi mor- 
to aa porta da egreia de Santiago , per Fernam Perez Turri- 
chaão , e Gonçallo Gomez Gallinhato , e dous cavalleiros 

que 

(i) efcieveo T, 



D*£lR El D. P E D R o 1. 105- 

que lhe mal quinam, a que elRei mandara que o mataíTem • e 
mataram mais Pcro Alvarez, dayam de Santiago , homem muj 
leterado e bem íxfudo , e elRei o olhava de cima da egreia 
como fe rodo efto fazia : e tomou elRei quamto aver o 
arçcbifpo tijnha no caftello da rocha , c deu as fortellezas a 
Dom Fcrnamdo de Callro , e fezeo comde de Traftamara e 
de Lemos e de Sarria , domde foya feer comde elRei Dom 
Hemrrique , fazendolhe do dito comdado moorgado pêra fem- 
pre , pêra el e pêra todos feus herdeiros lidemamente naçi- 
dos : e Dom Alvoro Perez feu irmaão , e Andres Sanches de 
Circs , que vijnham veer elRei , quamdo fouberom a morte do 
arçebifpo , tornaromíTe pêra fuás terras com medo , e tomaroni 
voz delRei Dom Hemrrique. ElRei partio dalli , e foilTe pêra 
a Crunha , e naquel logar lhe chegou recado do Prinçipe de 
Guallez , que fe foíTe pêra o fenhorio Dhimgraterra , e que el 
lhe aiudaria a cobrar o reino. E partio elRei da Crunha , c 
levou coníigo vijnte e duas naaos e huma galee e huma car- 
raqua , e leixou Dom Fernamdo de Caítro em Galliza , e co- 
meteolhe todo fcu poderio ; e elRei hia na carraqua com 
fuás filhas todas três e o tefouro todo que configo levava , 
que eram trimta e féis mil dobras em ouro amoedado , por- 
que todo outro í*^ tefouro leixara na galee que Martinhanes 
avia de levar a Tavira , e levava mujtas jóias douro e dalio- 
far e de pedras de gram vàllor. E palFou o mar e chegou a 
Baiona , omde fe ia í^^ corregemdo léus feitos , de que mais 
por ora dizer nom queremos. 



CA- 



CO ho oucro T. (zj onde hia T. gnde íeia B, 



sia« Of 



10^ Chronica 

CAPITULO XLI. 

Como elRei Dom Hemrrique chegou a Sevilha , e da 
liamba que jez com eIRei de Purtugal. 

ELRei Dom Hemrrique partio de Tolledò , fabendo todo 
o que avehera a elRei Dom Pedro em Sevilha, e iíTo 
meefmo em Purtugal , e como fe fora depois a Galliza; e che- 
gou a Córdova omde o reçeberom com gram prazer , e dhi 
levou caminho de Sevilha , fabemdo que tijnha voz por ellc , 
omde foi recebido com tam gram feita , que pêro (^^ elRei che- 
gou pella manhaã acerca do logar , paíTava de meo dia quam- 
do emtrou em feu paaço. E partio elRei com os feus , e com 
aquelJas companhas que com eíle vijnham , em guifa que 
todos forom muj contentes, e mandouhos pêra fuás terras; 
•pêro ficarom com el MoíTe Beltram de Claquim , e outros fe- 
•íihores com alguuns Ingrefes e Bertoòes , que eram todos com- 
panhias , ataa mil e quinhemtas lamças ; e eíleve elRei em Se- 
vilha quatro mcfes , e ante que dalli partilFe , efcrepreveo í^) 
a elRei Dom Pedro de Purtugal , como queria aver paz e 
■amizade com elle , e que el emviaria taaes ao eílremo de 
que fiava por feus procuradores , pêra trautarem aveemça an- 
trelles , e que elRei Dom Pedro mandaíFe hi outros que com 
feus feitos foíFem comcordados. E foi aíli de feito que em- 
viou elRei Dom Hemrique Dom Joham bifpo de Badalhouce , 
e Diego Gomez de ToUedo cavalleiro. , e elRei de Purtugal 
emviou Domjoham bifpo Devora, e Dom Alvoro Gonçalvez 
prior do efprital ; e iuntaromíTe todos na ribeira de Caya no 
eílremo dos reinos. E alli trautarom pollos ditos Reis que 
folTem fiees amigos huum do outro , e ouveíFem paz e con- 
córdia , e que elRei de Caftella trabalhafle a todo feu po- 
der, que elReiDaragom foíFe amigo delRei de Purtugal pe- 
^ k 

(i) que porque T. (z) eícteveo T. 



d'elRei d. Pedro I. 107 

la guifa que o elle era í*', e que elRei Daragom leixalTe vijr pê- 
ra Purtugal a lífante Dona Maria , filha do dito Rei Dom Pedro , 
niolher que fora do Iffamte Dom Fernamdo marques de Tor- 
tola 5 com todo o leu , ou viver na terra qual ella ante qui- 
feíTe ; e louvarom e aprovarom as aveenças que em outro 
tempo forom feitas em Agreda , antre elRei Dom Fernamdo 
e elRei Dom Denis feus avoos. Outro íi Mafomede Rei de 
Grada trautou logo amizade com elRei Dom Hemrrique , e 
ficou porfeu amigo. E partio elRei de Sevilha , e foilTe aGal- 
liza 5 e cercou em Lugo Dom Fernando de Gaílro , que tijnha 
voz delRei Dom Pedro , e nom o pode tomar ; e preiteiou 
com elRei , que fe lhe elRei Dom Pedro nom acorreíTe ataa 
çinquo mefes , que leixaíTe o reino e lhe emtregalTe todallas 
fortellezas 5 e fe quifelTe ficar em fua merçee, que lhe deíTe 
a vijla de Caílro Exarez , domde feu linhagem fe chamava de 
Caftro y e elle comde depois que lha elRei Dom Pedro dera , 
e que em efte tempo nom fe fezeíTe guerra dhuma parte aa 
outra, a qual coufa lhe Dom Fernamdo muj mal teve. A el- 
Rei Dom Hemrrique prougue defto , e tornouíTe pêra Burgos, 
e alli hordenou cortes , nas quaaes forom iuntos os moores 
do reino ; e certos da vijmda que elRei Dom Pedro queria 
fazer , lhe foi prometida aiuda pêra defpefa da guerra , e of- 
fereçidos os corpos a feu ferviço , como bem podia veer ; e 
elRci em tanto mandava por gentes que lhe cada dia vijnham, 
com que partia grandemente , e lhe fazia muj ta honrra. Epor 
que todos feitos (^^ deites Reis ambos mas í^) nom aveo em tem- 
po delRei Dom Pedro de Purtugal , ceifaremos de mais dizer 
delles 5 e em quamto elles juntam fuás gentes pêra a batalha 
que depois ouvirees , comtaremos nos outras coufas , fegum- 
do requere a hordenança defta obra : mas ante que as diga- 
mos , ouvij ifto que achamos efcripto , a faber, que feria 
quimta vijmte e dous dias do mez doutubro defha prefente 
era de Çefar de mil e quatro çemtos e quatro annos , foi 
feito huum movimento no çeeo des a mea noite pêra adean- 
Tom. ir. O te, 

CO que o era B. (2) e porque dos feitos T. (^) mais 7. B. 



Io8 Chrl>nica 

te , o qual foi per eíl:a guifa : correrom todallas elliclks do 
Icvamte pêra o poemte , e depois que todas forom jiimtas , 
começarom de correr huumas ca c outras la ; des i leixaroipr. 
fe eftallar do çeeo tantas e tam efpcíTas, que depois que fo- 
rom baixas no aar , pareciam gramdes fogueiras , e que o çeeo 
e o aar ardia , e que a terra quiria arder ; e o çeeo parecia 
partido por mujtas partes alli omde eilrelías nom éftavom , e 
nom havia homem que efto viíTe , que nam foíFe fortemente 
efpamtado ; e era tamanho o medo , que quamtos efto vijam 
todos cuidavam de feerem mortos , duramdo efto per muj 
grande efpaço : e efto efcreprevemos (*J por nom averdes por 
nova coufa quamdo outra tal acomtcçer , des i por renem- 
bramça das maravilhas que Deos faz. 

CAPITULO XLII. 

Como eIRei de Purtugal emvloufeus embaixadores a ca- 
sa do Principe de Gallez ^por fe defculpar do que 
elRei Dom Pedro dizia. 

AGram menencoria que levou elRei Dom Pedro Í^J do maao 
gafalhado que em Purtugal achara , lhe fez que aas vezes 
nom podia , em fallamdo , que o nom deíTc a em tender com 
fanha ; e alguumas oras eftamdo com o Principe prefente 
mujtos, fazia queixume do maao acolhimento que achara em 
feu tio elRei (5) , efperamdo dei receber ocomtrairo, dizem- 
do que o nom avia tanto poUo feu , como das Iffamtes fuás 
filhas j as quaaes lhe devera, dagafalhar e receber em fua en- 
comenda : e fallando em ello muj to largamente , moftrava 
em ifto geitos e fembrante que de o vimgar tijnha gram de- 
feio. E foi efto aíli fallado e per taaes pallavras , que nom min- 
gou quem o efcreprever a elRei de Purtugal , o qual conhe- 
çemdo fua pervería comdiçom , e preveemdo o que avijnr 

; PQ- 

Ci) escrevemos jT. (O D. Pedro de CalteeU T. (?) elRei de Portugal T. 



sra^i. o o 



d'elRei d. Pedro I. 109 

podia 5 hordenou de fe emviar defculpar , prefemte o Prínci- 
pe , moftrando que a culpa nom fora em clle , aífi em feu 
recebimento , come em agafalhar fuás filhas ; e mandou alia 
o bifpo Devora, e Gomez Louremço do Avelaal , os quaaes 
chegarom a Gafconha , homde elRei e o Prinçipe por eftom- 
çe eítavom. EUes alli , hordenou o Prinçipe o dia e ora pê- 
ra dizerem fua embaxada ; a qual prepofta antelle , feemdo el- 
Rei prefemte , começarom de comtar pello meudo todo o que 
em Purtugal diziam alguuns de que fe elRei Dom Pedro agra- 
vava , fazendo queixume delRei feu tio , e que elles eram 
alli vijmdos pêra o moftrarem fem culpa , como a fua mer- 
çee bem podia veer. ElRei de Caftella refpomdeo a eílo di- 
zemdo , que aíll era como elles diziam , que el fe femtia por 
muj agravado delle , pollo nom receber em feu reino e lhe 
dar acolhimento como era razom , feemdo feu tio irmaao de 
fua madre ; e que moor menencoria avia nom dar gafalha- 
do aas Iffantes fuás filhas , que da afpereza que comtra elle 
moftrara , por que fe as elRei feu tio tomara e lhas tevera em 
fa terra guardadas com alguuns averes que elle levava , omde 
era certo que citariam feguras , que el ficara defempachado 
delias , e eftomçe tornara a recobrar feu reino : dizemdo que 
muj tos fe alçarom comtreelle que o nom fezerom , fe o virom 
prefemte , mas pollo empacho que tijnha das filhas , que lhe 
comvehera de fogir com ellas , nom teemdo logar feguro 
homde as leixaífe ; por que aaquel tempo que as leixar qui- 
fera em alguum caftello de fua terra, em nenhuum avia tan- 
ta feuza per que oufafie de o fazer. Sobrefto correrom tan- 
tas pallavras antre elRei Dom Pedro e os embaxadores , ataa 
que pedirom por merçee ao Prinçipe que fezeífe pregunta a 
elRei , fe aaquel tempo que el efcreprevera ÍO a feu tio que 
era em feu reino , fe lhe fezera faber per fa carta , que lhe 
quiria leixar fuás filhas e o tefouro que comfigo trazia , fe- 
gumdo el razoava prefemtelle ; e o Prinçipe lho preguntou 
eílomçe , e el difle que nom emmentara nenhuuma coufa das. 

O ii . : fi- ; 

(i) efcrevera T, 



lio Chronica 

filhas , nem do aver que levava comíigo : í» pois , diíTe o Prín- 
cipe , nem voíTo tio nom era adevinha do que vos tijnhees na 
voomtade j>. Eftomçe fezerom recontamento ao Prinçipe das 
aiudas que de Purtugal recebera , aíli per mar come per terra , 
e como todollos fenhores e fidallgos que alia forom , vehe- 
rom dei e dos feus muj mal contentes e efcamdallizados , e 
que efta fora huuma das razooes , por que o elRei feu tio 
nom quizera teer em fua terra , por fe nom levantarem antre 
huuns e os outros bamdos e arroidos e mortes. Razoarom 
tanto ataa que fe emfadarom , e o Prinçipe conheçcmdo de 
razom diífe , que o nom avia por culpado como ante ; e na 
parte da naao e averes , que lhe elRei de Purtugal emviava 
dizer que em Ingraterra eram reteudos contra razom , que el- 
le os faria logo defembargar , come feu amigo que era e qui- 
ria leer ; e alíl o fez de feito que em breves dias forom def- 
pachados. 

CAPITULO XLIII. 

Como Dom jfobam afilho dei Rei Dom Pedro de Purtugal , 
foi feito meeflre Davis. 

VOs ouviftes no primeiro capitólio defta eftoria , como 
depois da nwrte de Dona Enes , elRei feemdo líFamte , 
numca mais quis cafar , nem depois que reinou quis receber 
molher , mas ouve huum filho dhuuma dona , a que chama- 
rom Domjoham. Defte moço deu elRei carrego a Dom Nu- 
no Freire , meeftre de GhriÃus , que o criava e tijnha em feu 
poder j e que criamdoo , el aífi feemdo em hidade ataa fete 
anos , veolTe a finar o meeftre Davis Dom Martim do Avelai. 
O meeftre de Chriftus como ifto foube , foifíe logo a elRei 
Dom Pedro , que eftomçe poufava na Chamufca , e pediolhe 
aquel meeftrado pêra o dito feu filho , que levava em fua 
companha , e elRei foi muj ledo do requerimento , e muj- 
to mais ledo de lho outorgar, Emtom tomou o moço o me- 

ef- 






d'elReiD. PedroI. iir 

eftre nos braços, e teemdoo em elles, lhe cimgeo elRei a 
efpada e ho armou cavalleiro , e beijouho na boca lamçam- 
dolhe a beemçom , dizendo que Deos o acreçentaíTe de beiíi 
em melhor , e lhe delTe tanta homrra em feitos de cavalla- 
ria , como dera a feus a voos ; a qual beemçom foi em el bem 
comprida , como adeamte ouvirecs. E dilTe eftomçe elRei com- 
tra o meeftre : 5> Tenha cfte moço ifto por agora , ca fei que 
J9 mais alto hade montar , fe eíte he o meu filho Joane de que 
3> me a mim alguumas vezes fallarom , como quer que eu qui- 
99 ria ante que fe compriffem í'^ noIíFamte Dom Joham meu fi- 
5> lho que neelle; ca a mjm diíTerom que eu tenho huum fi- 
3J lho Joanne , que ade montar mujto alto , e per que o rei- 
5> no de Purtugal adaver muj gramde homra. E por que eu 
3> nom fei qual deíles Johanes hade feer , nem o podem fa- 
99 ber em certo , eu aazarei ^'^ como fempre acompanhem am- 
35 bos eftes meus filhos , pois que ambos fom de huum nome , 
3> e efcolha Deos huum delles pêra ello , qual fua mercee for. 
3J Como quer que muito me fofpeita avoontade que efte ha- 
9> de feer , e outro nenhuum nom , por que eu fonhava huuma 
» noite o mais eftranho fonho que vos viftes : a mim parecia 
33 em dormimdo , que eu vija todo Portugal arder em fogo , de 
33 guifa que todo o reino parecia huuma fugueira ; e eftamdo affi 
33 efpamtado veemdo tal coufa, vijnha efte meu filho Johan- 
33 ne com huuma vara na maão , e com ella apagava aquelle 
33 fogo todo. E eu comtei eito a alguuns (j) que razom tem den- 
33 temder em taaes coufas , e diíTeromme que nom podia feer , 
35 falvo que alguuns gramdes feitos lhe aviam de fahir dantre 
33 as maãos 33, Hora affi aveho depois, como dizemos, que eito 
feito , tornouíTe o meeftre de Ghriftus pêra a villa , e mandou 
feu recado aos comendadores da hordem Davis que vehelTem 
logo alli , pêra aver de fallar com elles coufas que eram de 
ferviço de Deos e prol de fua hordem ^ e efto fazia o dito me- 
eftre por quamto a hordem Davis e a de Ghriftus fom ambas 
^^^ da 

(i) coomprilTe 7". B, (2) mandaiey T* (5) a algumas pefíbas 3". 



gia«^ ô5 



112 LjHRONÍCA 

da bordem de Sam Beemto ; os quaaes per fuás cartas e re- 
querimento veerom logo aaquel logar. O meeftre fallou cm- 
tom com o comendador moor , e com Fernam Soarez , e Va- 
afco Perez , todo o que era voomtade delRei , des i emtrou 
com elles em cabidoo , fegumdo coítume de fua bordem , e 
o comendador propôs ao meeftre em nome feu e dos comen- 
dadores 5 dizemdo que el bem fabia como feu fenhor o me- 
eftre Davis Dom Martim do Avellal era finado , e que elles 
nom tijnham meeftre que os ouveíTc de reger como cumpria 
a ferviço de Deos , fegumdo fua bordem mandava , nem em- 
temdiam de emleger outro , fe nom aquel que Ibes el deíle ; 
e que pois elle era de fua regra c o fazer podia , que lhe 
pediam por merçce, que por ferviço de Deos e bem da di- 
ta bordem , Ibes deíTe meeftre que os ouveíle de reger fe- 
gumdo fua regra mandava. O meeftre refpomdeo , que diziam 
iriuj bem come boons cavalleiros e bem lifudos, e por que 
elle era theudo de fazer e requerer toda coufa que foíTe fer- 
viço de Deos e prol de fua bordem, que porem queria to- 
mar carrego de lhes dar meeftre que os ouveíTe de reger fe- 
gumdo fua regra mandava a e que pêra feer feu meeftre , lhes 
dava Domjoham , filho delRei Dom Pedro, que elle criava , 
que emtemdia que era tal fenhor que os regeria como com- 
pria a ferviço de Deos e prol de fua bordem. O comenda- 
dor moor e os outros diflerom eftomçc , que lhe tijnham em 
gramde merçee de lhes dar tam homrrado fenhor por feu 
meeftre ; e logo o dito Dom Joham foi chamado, e foromlhe 
tirados os veftidos fagraaes , e lançado o avito da ordem Da- 
vis ; e como lhe foi veftido , o comendador moor e os outros 
lhe beijarom a maao por feu meeftre e fenhor; e efto aíli fei- 
to , foi el levado pêra a bordem Davis domde era meeftre , e 
alli fe criou alguuns anos , ataa que veo a tempo que come- 
çou Í*J de floreçer em manhas e bomdades e autos de cavalla- 
ria , fegumdo a eftoria adeamte dirá , contamdo cada buumas 
em feu logar, E fe alguuns quiferem dizer que os poucos anos 

•--- - -- \ de 

(i) ataa que começou J?. " 



^,♦í 



d' E L R E I D. P E D R o I. 1 I 3 

de faa hidadc e nom legitima naçença embargavom de po- 
der ('^ feer meeítre^ a taaes fe rcfponde , que o papa defpen- 
foii com elle , que poíto que prouvchudo foíTe ante do tempo 
e nado de nom legitimo matrimonio, que fcus boons cuftu- 
mes , e homrrofo proveito que dei vijnha aa hordem , corre- 
gia todo eito y e que o confirmava em ellc. 



CAPITULO XLIV. 

Como foi trelladada Dona Enes pêra o moejleiro Dàl^^ 
cohaça ^ e da morte dei Rei Dom Pedro, 



Or que femelhamte amor , qual elRei Dom Pedro ouve 
a Dona Enes , raramente he achado cm alguuma peíToa, 
porem diíTerom osantijgos que nenhuum he tP.m verdadeira- 
mente achado , como aquel cuja morte nom tira da memo- 
ria o gramde efpaço do tempo. E fe alguum diíTer que muj- 
tos forom ja que tanto e mais que el amarom , aíli como 
Adriana è Dido , e outras í^^ que nom nomeamos , fegumdo íe 
lee em fuás epiftolas , refpomdeíTe que nom falíamos em amo- 
res compoftos 5 os quaaes alguuns autores abaítados de elo- 
quemcia, e floreçentes em bem ditar ('), hordenarom fegumdo 
lhes prougue , dizemdo em nome de taaes peíToas , razooes 
que numca nenhuuma delias cuidou ; mas falíamos daquelles 
' amores que fe contam e lêem nas eftorias , que feu fumda-^ 
mento teem fobre verdade, Efte verdadeiro amor ouve elRei 
Dom Pedro a Dona Enes como fe delia namorou , feemdo 
cafado e aimda líFamte , de guifa que pêro delia no come- 
ço perdeíTe viíta e falia , feemdo alomgado , como ouviíles , 
que he o principal aazo de fe perder o amor, numca ceifa- 
va de lhe emviar recados , como em feu logar teemdes ou- 
vido. Quanto depois trabalhou polia aver , e o que fez por 
fua morte , e quaaes juftiças naquelles que em ella forom cul- 

pa- 
ço de náo poder T. (zj afy como a Dyana, a Dydo , € outras Z» (;) em 
ditar T, 






y^/T^ 







1/4 Chronica 

pados , himdo contra feu juramento , bem hc teftimunho do 
que nos dizemos. E feemdo nembrado de í'J homrrar feus of- 
fos , pois Iheja mais fazer nom podia, mandou fazer huum 
muimento dalva pedra , todo muj fotillmente obrado , poem- 
do emlevada fobre a campaa de cima a imagem delia com 
coroa na cabeça , como fe fora Rainha ; e efte muimento man- 
dou poer no moelleiro Dalcobaça , nom aa emtrada hu ja- 
zem os Reis 5 mas demtro na egreia ha maao dereita , acer- 
ca da capella moor. E fez trazer o feu corpo do mofteiro de 
Samta Clara de Coimbra , hu jazia , ho mais homrradamente 
que fe fazer pode , ca ella vijnha em huumas andes , muj to 
bem corregidas pêra tal tempo, as quaaes tragiam gramdes 
cavalleiros , acompanhadas de gramdes fidalgos , e muj ta outra 
gente, e donas , e domzellas , c muj ta creelezia. Pelo cami- 
nho eftavom muj tos homeens com çirios nas maaos , de tal 
guifa hordenados , que fempre o feu corpo foi per todo o 
caminho per antre çirios açefos ; eaffi chegarom ataa o dito 
moefteiro , que eram dalli dezaífete legoas^omde com muj- 
tas milfas e gram folenidade foi pofto (^^ em aquel mujmento: 
e foi elta a mais homrrada trelladaçom , que ataa quel tem- 
po em Purtugal fora viíla. Semelhavelmente mandou elRei 
fazer outro tal mujmento e também obrado pêra íi, e fczeo 
poer acerca do feu delia , pêra quamdo fe aqueeçeíFe de mor- 
rer o deitarem em elle. E eftamdo el em Eftreitioz , adoe- 
çeo de fua poftumeira door , e jazemdo doemte , nembrouíTe 
como depois da morte Dalvoro Gomçallvez e Fero Coelho , 
el fora certo, que Diego Lopes Pachequo nom fora em cul- 
pa da morte de Dona Enes , e perdohoulhe todo queixume que 
dei avia , e mandou que lhe emtregaíTem todos feus beens ; 
e alH o fez depois elRei Dom Fernamdo feu filho , que lhos 
mandou emtregar todos , e lhe alçou a femtemça que elRei 
feu padre comtra elle paíTara , quamto com dereito pode. E 
mandou elRei em feu teftamento , que lhe teveíTem em cada 
huum ano pêra fempre no dito mofteiro féis capellaaens , que 

(i) de lhe T, (2) foy pofto feu corpo T. 



D* ElR E 1 D. P E DR o I. 115' 

cantaíTem porei e lhe diíTeíTem cada dia huuma miíla oficiada, 
e fahirem fobrel í^^ com cruz e augua beemta ^^h e elRei Dom 
Fernamdo feu filho , por fe efto ÍJJ melhor comprir e fe canta- 
rem as ditas miíTas , deu depois ao dito moeíleiro em doa- 
çom por fempre o logar que chamam as Paredes , termo de 
Leirea , com todallas rendas e fenhorio que em el avia. E 
leixou elRei Dom Pedro em feu teftamento certos legados , 
a faber , aa líFamte Dona Beatriz fua filha pêra cafamento 
cem mil livras; e ao líFamteDom Joham feu filho vijmte mil 
livras ; e ao líFamte Dom Denis outras vijmte mil ; e afli a 
outras peíToas. E morreo elRei Dom Pedro huuma fegumda 
feira de madurgada , dezoito dias de janeiro dá era de mil 
e quatro çemtos e cimquo anos , avemdo dez annos e fete 
meies e vijmte dias que reinava , e quaremta e fete anos e 
nove mefes e oito dias de fua hidade , e mandouífe levar 
aaquel moeíteiro que diífemos , e lamçar em feu mujmento , 
que efta jumto com o de Dona Enes. E por quamto o Iffamte 
Dom Fernamdo feu primogénito filho nom era eftomçe hi , 
foi elRei deteudo e nom levado logo , ataa que o líFamte 
veo , e aa quarta feira foi pofto no mujmento. E diziam as 
gentes , que taaes dez annos numca ouve em Purtugal , como 
eftes que reinara elRei Dom Pedro. 



Tom. IF. P TA^ 

(i) íobreella T. (z) cantaíTem cada dia húa miíía offiçiada , e fair cm fo- 
brel com cruz e agua benta B. (5) por cfto T. B. 



117 

T A V O A D A 

DA CRÓNICA DELREI DOM PEDRO, 
OITAVO REI DESTES REGNOS: 

Feita per titoUos apartados cada huum per si. 



c 



APITULO I. Do Eegnado delRei Bom Pedro , oitavo Ret 
dejies Regnos de Rortugiial , e das comdiçoÕes que em elle 
avia» -------^------ P^g, 7 

CAP. II. Como elRei de Cajtella mandou por o corpo da Rainha 
Dona Maria sua madre y e da carta qiie emvtou a elRei de 
Portugiial seu tio, -«--.- _-_---^ 

CAP. III. Das cartas que o Papa e elRei Daragaao emviaram a 
elRei de Portugiial sobre a morte delRci seu padre, - " ix\ 

CAP. IV. Da maneira que elRei Dom Pedro tijnha nos desemhar^ 
guos de sua casa. ------------ 14 

CAP. V. Dalguumas cousas que elRei Dom Pedro hordenou per 
hem de juftiça , e prol de seu povoo. ------ 16 

CAP. VI. Como elRei mamdou degollar dons seus criados , por-» 
que rouharom huum iudeu e o mataram, ----- i^ 

CAP. VII. Como elRei quisera meter huum bispo a tormento y 
porque dormia com huuma molher casada, - - - - 21 

CAP. VIII. Como elRei mandou capar huum seu escudeiro por- 
que dor mio com huma molher casada. ------25 

CAP. IX. Como elRei mandou queimar a molher Daffomsso Am- 
dree ^ e doutras iiiftiças que mandou fazer. - - - - 25' 

CAP. X. Como elRei mandou matar o almiramte , e da carta 
que lhe emviou o duque e commim de Cenoa roguamdo por 
elle. ---------------27 

CAP. XI. Das moedas que elRei Dom Pedro fez y e da vallia. 
do ouro e da prata em, aquelle tempo, ------2^ 

CAP. XII. Da maneira que os Reis tijnham pêra fazer thesou- 
ros ) e acreçemtar em elles. --------- 31 

P ii CA- 



ii8 T A V O A D A. 

CAP. XIIL Per que guisa elRei Dom Pedro de Cafiella come- 
çou dajumtar thesouro. ----------23 

CAP. XIV. Como elRei fez com de e armou c avalie ir o Job um 
Jffomsso Tello , e da gram fejla que lhe fez. - - ~ 35' 

CAP. XV. Das avemças que elRei de Cafiella , e elRci Dom 
Pedro de Portugual firmaram amtre si , e como lhe elRei de 
Portngual prometeo de fazer aiuda comtra Âragaao, - - 37 

CAP. XVI. Dalguumas pessoas que clRei Dom Pedro de Cafiel- 
la mamdou matar , e como casou com a Rainha Dona Brame a e 
a leixou. «-------------40 

CAP. XVII. Como se começou o desvairo amtre elRei Dom Pe- 
dro de Cafiella ^ e o comde Dom Hamrrique seu irmaao \ e 
qual foi ho a azo por que se o comde foi fora do Regno. - 45' 

CAP. XVIII. Como e por qual aazo se começou a guerra am^ 
tre Cafiella e Arcgaão. ---------- 51 

CAP. XIX. Como elRei de Cafiella emtrou per Aragaao , e das 
cousas que fez em efie anno, ------ --5^ 

CAP. XX. Como elRei Dom Pedro fe-z matar o meeftre de Sam- 
tiaguo Dom Padrique seu irmaao no alcácer de Sevilha, - 55' 

CAP. XXI. Como elRei partio de Sevilha por tomar Dom tello 
seu irmaao pêra o matar , e como matou ho Iffamte Dom Jo- 
ham seu primo. ------------ 57 

CAP. XXII. Como foi quebrada a tregoa de huum amio , que 
avia amtre os Reis , e como elRei Dom Pedro jumtou armada 
por fazer guerra a Aragaao. ---- ----60 

CAP. XXIII. Com veo o cardeal de Bollonha per a fazer paz am^^ 
tre elRei de Cafiella e elRei Daragaão , e os nam pode poer 
dacordo, ----•--«------62 

CAP. XXIV. Como elRei de Caftella emviou pedir aiuda de gal- 
lees a elRei de Portugual , e como partio com sua frota , por 
fazer guerra a Ar aguam. --------- 6^ 

CAP. XXV. Como se partio o jalmiramte de Portugual com as 
dez gualees , e como elRei Dom Pedro desarmou a frota , e 
doutras cousas, ------------67 

CAP. XXVI. Como ho cardeal de Bellonha quisera trautar paz 

am- 



sia^a os 



T A V o A D A. 1151 

amtre os Reis e nom pode , e como as gemtes delRei Dom Pc' 
dro pe lie taram com o comde e o desbarataram, - - - 6^ 

CAP. XXVII. Como çlRei Dom Pedro de Portugiial disse por 
Dona Enes que fora sua molher recebida y e da maneira que 
em ello teve, -------------71 

CAP. XXVIII. Do tejlemunho que algimns deram no casamen* 
to de Dona Enes y e das razooens que sobre ello propôs o comde 
Dom Joham Affomsso, ----------71 

CAP. XXIX. Razooens comtra ejio da/gmms que hij ejlavam , 
duvídamdo mujto em efie casamento, ----.--7^ 

CAP. XXX. Como os Reis de Portugual e de Cajlella fezeram 
amtre si avemça , que emtreguassem hmim ao outro alguuns que 
amdavam seguros em seus regnos, -------80 

CAP. XXXI. Como Dieguo Lopez Pacheco escapou de ser preso , 
e foram emtregues os outros , e loguo mortos cruellmente, 8 i 

CAP. XXXII. Dalguumas cousas que elRei Dom Pedro dcCaftel-^ 
la mamdou fazer , e como fez paz com elRei Dar aguam em* 
tramdo em seu regno, ---------- g^ 

CAP. XXXIII. Dalguumas emtradas que elRei efle anno fez no 
regno de Graada , e como elRei Vermelho se veo poer em sett 
poder , cuidamdo de seer seguro , e elRei ho mamdou matar. 8 7 

CAP. XXXIV. Das avemças que elRei de Cajlella fez com elRel 
Daragam emtramdo em seu regno ^ e como as depois nam quis 
guardar, ---.-------, --^o 

CAP. XXXV. Como elRei Dom Pedro emtron outra vez em Ara-» 
gaão com sua frota de naaos e gallees , e das cousas que ala 
fez, -,------..---. -5^5; 

CAP. XXXV I. Como o comde Dom Hamrrique emtrou per Cajlel- 
la com miijtas companhas ^ e foi alçado por Reij e como elRei 
Dom Pedro mamdou desemparar todollos luguares , que em Ara^ 
gam tijnha filhados. - ----------^5;^, 

CAP. XXXVII. Como elRei de Cajlella emviava huuma sua filha 
a Portugual , e como elle partio de Sevilha com temor que oU" 
ve dos da cidade, ------------pS 

CAP. XXXVIII. Como elRei de Ca fie lia fez saber a seu tio 

que 







I20 T A V O A D A. 

que era em seu regno , e ccmo se eiRei escusou de o leer e 
lhe fazer aiuda. -------- ----pp 

CAP. XXXIX. Como elRei de Cajlella par tio de Curuche ^ e se 
foi de Portiigual j e quaaes eniiiaram em sua companha^ - 102 

CAP. XL. Como elRei Dom Pedro chegou a Gualliza , e matou 
ho arcebispo de Samtiaguo y e se foi pêra Im gr aterra» - 104 

CAP. XLI. Como elRei Dom Hamrrique chegou a Sevilha ^ e da 
liam f a que fez com elRei de Portugal, - - - - -106 

CAP. XLIL Como elRei de Portugual emviou seus emhaxadores 
a casa do Primçipe deGallez ^ por se desculpar do que elRei 
Dom Pedro dezia, ,----------108 

CAP. XLIIl. Como Dom ^oham , filho delRei Dom Pedro de Por- 
tugual , foi feito meejire Davis, - - - - - - - -iiq 

CAP. XLIV. Como foi trelladada dona Inês pêra o moefteiro Dal- 
coha^a ^ e da morte delRei Dom Pedro, - - - - -113 



N.II. 



N. n. 
CHRONICA 

DO 

SENHOR REI 

D.FERNANDO. 

NONO REI DE PORTUGAL. 



Rei- 



Siail OT 



12 



* )(>oo;xxx><x>íxxx>cx>r:xxxxx><xxxxxxxxxxx><xx>cxxx><x>o<xxx>: ^ 

* XX XXXXXXXXXXX;'CXXXXXXXXXXXXXX .-tXXXXXXXKXXXXXXXXXxX V 



TO 


É 



Elnou ho liFamte Dom Fernamdo, primo- 
génito filho deJRei Dom Pedro , depois de 
fua morte , avemdo emtom de fua hidade 
vijmte e dous anos e fete mefes e dezoito 
dias : mancebo valiemte , ledo , e namora- 
do , amador de molheres , e achegador a 
ellas. Avia bem compofto corpo e de ra- 
zoada altura , fremofo em parecer e muito viftofo ; tal que ef- 
tando acerca de muitos homeens , pofto que conhecido nom 
foíTe, logo o julgariam ('^ por Rei dos outros. Foi gram cria- 
dor de fidallgos, e muito companheiro com elles ; e era tam 
amaviofo í^^ de todoUos que com elle viviam , que nom cho- 
rava menos por huum feu efcudeiro quamdo morria , come fe 
foíTe feu filho. De nenhuum a que bem quifeíTe podia creer 
mal que lhe delle folTe dito , mas amava el e todas fuás cou- 
fas muito de voontade. Era carallgamte , e torneador , gran- 
de juftador , e lamçador atavollado. Era mujto braçeiro , que 
nom achava homem que o mais foíTe ; cortava mujto com hu- 
uma efpada , e remeíTava bem a cavallo. Amava juftiça , e era 
preftador , e graado mujto liberal a todos , e gramde agafalha- 
dor dos eftramgeiros. Fez mujtas doaçoôes de terras aos fi- 
dallgos de feu reino , tantas e mujtas mais que nenhuum Rei 
que antelle foíTe. Amou muj to feu poboo , e trabalhava de a 
Tom. ir. Q^ bem 



(O ojulgavaáo T. CO mayyoíTo 7". 




124 Chronica 

bem reger ; e todallas coufas que por feu ferviço e defenfom 
do reino mandava fazer , todas eram fundadas em boa ra- 
zom e mujto juftamente hordenadas. Desfalleçeo efto quando 
começou a guerra , e naçeo outro mundo novo mujto contrai- 
ro ao primeiro , paíTados os folgados anos do tempo que rei- 
nou feu padre ; e veherom depois dobradas triftezas com que 
mujtos chorarom fuás defaventuradas mizquimdades : fe fe con- 
temtara viver em paz , abaílado de fuás remdas , com gramdes 
e largos thefouros que lhe de feus avoos ficarom , nenhuum 
no mundo vivera mais ledo, nem gallara feus dias em tanto 
prazer : mas per vemtura nom era hordenado de cima. Era 
ajmda elRei Dom Fernamdo mujto caçador e monteiro, em 
guifa que nenhuum tempo aazado pêra ello leixava que o 
nom hufalTe. A hordenamça como el partia o ano em taacs 
defemfadamentos , contado todo pello meudo feria longo 
douvir ; ca el mandava chamar todos feus monteiros , no 
tempo pêra ello perteemçente , e nom fe partiam de fua cafa 
ataa que os falcoóes fahiam da muda , e emtom defenibarga- 
dos hiamíFe pêra hu viviam , e vijnham os falcoeiros , e ou- 
tros que de fazer aves tijnham cuidado, Elle trazia quaremta 
e cimquo falcoeiros de bcfta , afora outros de pee e moços de 
caça , e dizia que nom avia de follguar ataa que poboalfe em 
Santarém huuma rua, em que ouveíFe çem falcoeiros. Qi-iam- 
do mandava fora da terra por aves , nom lhe tragiam menos 
de çimquoemta antre açores e falcoóes nevris e girofalcos, to- 
dos primas. Com elle amdavom mouros que aprazavom gar- 
ças e outras aves , e eftes nadavom os peegos e apahues , fe 
os falcoóes cabiam em elles. Quamdo elRei hia aa caça , to- 
dallas maneiras daves e caaes , que fc cuidar podem pêra tal 
defemfadamento 5 todas hiam em fa companha; em guifa que 
nenhuuma ave gramde nem pequena fe levam tar podia , pofto 
que foíTe grou e abetarda , ataa o pardal e pequena follofa , 
que ante que fuás ligeiras penas a podeíTem poer em falvo , 
primeiro era prefa do feu comtrairo: nem as jíimprefes poom- 
bas , que a nem huum fazem empeeçimento , em femelhante ca- 

fo 






l>'elRei d. Fernando. 125' 

fo nom eram ifemtas de feus inmijgos. Pêra coelhos , rapofas , 
e lebres e outras lemelhantes falvajcens montefes levava elRei 
tantos caáes de feguir fuás peegadas e cheiro, que nenhuuma 
arte nem multidoem de covas lhe preftar podia que logo nom 
foíTem tomadas. E porem nunca elRei hia vez alguuma aa ca- 
ça , que fempre em ella nom houveíTe gramde fabor e de- 
iemfadamento. Efte Rei Dom Fernamdo começou de rei- 
nar o mais rico Rei que cm Purtugal foi ataa o feu tempo : 
ca elle achou grandes tefouros que feu padre e avoos guar- 
darom , em guifa que soomente na torre do aver do caftello 
de Lixboa forom achadas oito çemtas mil peças douro , e qua- 
tro çemtos mil marcos de prata , afora moedas e outras cou- 
fas de gramde vallor que hi eftavom , e mais todo ho outro 
aver ein gramde camtidade que em certos logares pollo rei- ' 
no era poíto. Aalem defto avia eIRei em cada huum ano de 
feus dereitos reaaes oito çemtas mil livras , que eram duzem- 
tas mil dobras , afora as remdas da alfamdega de Lixboa e do 
Porto, das quaaes elRci avia tanto que aadur he ora decreer: 
•ca ante que ei reinaíTe , foi achado que huuns anos por ou- 
tros a alfamdega de Lixboa remdia de trimta e çimquo mil 
ataa quaremta mil dobras , afora alguumas outras coufas que 
a fua dizima perteeçem. E nom vos maravilhees deito e de 
feer mujto mais , ca os Reis damtelle tijnham tal geito 
com opoboo, íimtimdoo por feu ferviço e proveito , que era 
per forca feerem todos ricos, e os Reis haverem gramdes e 
groífas remdas; ca elles empreftavom fobre fiamça dinheiros aos 
que carregar quiriam , e aviam dizima duas vezes no ano do 
retorno que Ihevijnha; e vifto o que cada huum gaanhava , do 
gaanho leixava logo a dizima em começo de pago ; e allí 
nom fentimdo pagavom pouco e pouco , e elles ficavom ricos , 
e elRei avia todo o feu. Avia outro íi mais em Lixboa eílan- 
tcs de muitas terras nom em huuma foo cafa , mas mujtas ca- 
fas de huma naçom, aílí como Genoefes , e Prazentijns , e Lom- 
bardos, e Catellaães Daragom , e de Maiorgua , e de Millam , 
que chamavom Millanefes , e Corcijns, e Bizcainhos, e aíH 

Q_ii dou- 



I2Ó ChRONICA 

doutras naço6es , a que os Reis davom privillegios c liberdades , 
fentimdoo por feu ferviço e proveito : e eftes faziam vijnr , e 
emyiavom do reino gramdes e groíTas mercadarias , em guiía 
que afcra as outras coufas de que em efla cidade abaftadamente 
carregar podiam , foomente de vinhos foi huum ano achado que 
fe carregarom doze mil tonees , afora os que levarom depois 
os navios na fegumda carregaçom de março. E por tanto vij- 
nham de defvairadas partes mujtos navios a ella , em guifa 
que com aquelles que vijnham de fora , e com os que no rei^ 
no havia, jaziam mujtas vezes ante a cidade quatro centos e 
quinhemtos navios de carregaçom : e eftavom aa carrega no 
rio de Sacavém e aa ponta do Montijo da parte de ribatejo 
lefemta e fateemta navios em cada logar , carregando de sal 
e de vinhos ; e por a gramde efpeíTura de mujtos navios que 
afli jaziam ante a cidade, como dizemos , hiam ante as barcas 
Dalmadaa aportar a Samtos , que he huum grande cfpaço da 
cidade, nompcdemdo marear perantrelles. E receando os vi- 
zinhos de Lixboa , que aimda emtom nom era cercada , que 
gentes de defvairadas mefturas e tantas podiam fazer alguuns 
dampnos e roubos na cidade , hordenarcm que cada noite cer- 
tos homeens de pce c de cavallo guardaíTem as ruas , quamdo 
taaes navios jaziam antella. ElRei Dom Fernamdo nom com- 
prava pêra carregar nenhuuma daqueilas coufas que os mer- 
cadores compram , e per que tem feu coftume de viver , fal- 
vo aquellas que havia de feus dereitos reaaes. E fe alguuns 
mercadores quiriam tomar carrego de lhe trager de fora de 
feus reinos as coufas que mcfter avia pêra fuás taraçenas , 
nom carregava nenhuma coufa delias , dizemdo que feu talan- 
te era , que os mercadores de fua terra foíFem ricos e abaíla- 
dos , e nom lhe fazer coufa que folfe em feu periuizo , e deçi- 
mento de fua homrra. E por tanto mandava que nenhuuns 
eftantes eílrangeiros nom compraíFem per íi nem per outrem 
fora da cidade de Lixboa nenhuum aver de pcíb , nem come- 
íinho , falvo pêra feu mantij mento , afora vinhos e fruita e 
fal : mas nos portos da cidade podiam comprar foltamente 

pe- 






d'elRe i D. Ferna NDo. 127 

pêra carregar quaaes quer mercadarias. Nenhuuns fenhores, 
nem fidalgos , nem crerigos , nem outras peíToas poderoíiis 
comfemtia que compraflem nem huumas mercadarias pêra re- 
vemder , por quamto tiravom a vivenda aos mercadores de fua 
terra ; dizemdo que contra razom parecia que taaes peíToas 
hufaíTem dautos a elles pouco perteeçemtes , moormente 
pois per dereito lhes era defefo ; falvo que compraíTem aquel- 
lo que lhes compriíTe pêra feu mantij mento e guarnimento 
de fuás cafas. E por que I^ixboa he grande cidade de muj- 
tas e defvai radas gentes , e feer purgada de furtos e roubos , 
e doutros maleficios que neella faziam , os quaaes preíumiam 
que eram feitos per homcens que nom viviam com fenhores , 
nem ham beens nem remdas nem outros mefteres , e jogam e 
gaftom em gramde avomdança ; porem mandava elle que em 
cada huuma freeguelia ouveíTc dous homeens boons , que ca- 
da mes emquereiTem e foubeíTem que vivemda faziam os que 
moravom em ella , e os que fe com elles colhiam de que fa- 
ma eram ; e fe achavom alguuns que nom hufavom como 
deviam , faziamno faber em fegredo a Eilevam Vaafquez e a 
Afonfo Furtado feus efcudeiros, a que defto tijnha dado car- 
rego , e elles os mandavom premder per feus homeens , e ea- 
tregavom aa jultiça por fe fazer delles comprimento de derei- 
to ('^; dizemdo que fua voomtade era que peífoas que mefter 
nom ouveífcm, nom (=^ viveflem com fenhores comtinuadamente y 
que taaes como eftes nom moraíTem nas villas e logares de 
feu fenhorio ; e que pois elle era theudo de manteer feus 
poboos em dereito e juftiça , que reçebemdo elles dampno e 
fcm razom , e el hi nom tornalFe , que daria a Deos dello gra- 
ve comta. Nom comfemtia que nenhuum fenhor nem fidall- 
go nem outra peíFoa coutaífe em bairro em que poufalTe ne- 
nhuum malfeitor , mas mandava que os premdeíTem demtro 
nos bairros hu fe coutavom (?) poemdo gramdes penas aaqucl- 
les que os defender quifelTem. Fidallgo nenhuum nem. outra 

pef- 

(i) ^K>f fe faxer dello comprimento de juftiça e dexeyto T. (2) nem J?. 
(3) hu eílevefíem T. ,:. í,,,; 



Slfl? ot 



I2S C H R O N r C A 

peflba mandava que nom poufíilTc (') em Lixboa quamdo cl hi 
nom folTe , falvo com aquelles que quifelTem teer cafas c ef- 
tallageens por poufadias , aos quaacs mandava que paguaíTem 
por as pouíadas rafoados preços; e mandava aas juiliças que 
lhos fczcíTem pagar, porque fuavoomtade era que nom pou- 
faíTem per outra guifa , pofto que bairros hi tcvcíTem. E pê- 
ra fe efto melhor fazer, mandou que todolks hifpos e meef- 
tres e comendadores, e quaaes quer outras pcíToas acue ou- 
veíTem de dar poufadas de poufcmtadaria , que tevcíTcm cafas 
nas villas e logares de feu fenhorio , que as corregeíTem to- 
das ataa certo tempo , de guifa que podeflem em ellas pou- 
far ; e que foíTem logo requeridos feus donos delias , e feus 
procuradores , que as corregeíTem : e fe os fcnhores delias ou 
feus procuradores foflem a ello negligentes , mandava aos jui- 
'y.es que, dos feus beens deíTem mantijmento a taaes que as fe- 
Zeífe correger ; efe os juizes poinham em ello tardança , man- 
'dava ao corregedor da comarca que pellos beens dos juizes 
©s fezeíTe correger ; e se o corregedor era negligente , man- 
dava elRei que fe corregeíTem pellos beens do corregedor : e 
defta guifa eram todos aguço fos a poer em obra o que elRei 
mandava , e os poderofos tijnham cafas em que poufaíTem , re- 
ievamdo o poboo de mujta fem razom que ante deito pade- 
çião. Mujtas hordenaçoões outras fez e mandou comprir por 
boom regimento e prol do feu poboo eíte nobre Rei Dom 
Fernamdo , que razoadas todas per meudo fariam tam gram- 
ada trautado, qual aqui nom compre de feer fcripto. 



CA- 



(i) poufaíTem 7". 



d'elRei d. Fernando. I2p 

CAPITULO I. 

Como elRei Daragom e elRei Dom Hemrrique trau^ 

tarom fuás aveemças com elRei Dom 

Fernamdo. 

LEixamdo eftas coufas que diíTemos , que fe em outro logar 
também dizer nom podem , e tornamdo ao começo do 
reinado defte Rei Dom Fernamdo , devees de faber que par- 
timdo el daquel moefteiro omde feu padre fora tragido , e el 
levantado por Rei , veoíTe a huum caftello que chamam 
Porto de moos, omde efteve alguuns dias; e aíÊ como fe cl 
efperaíTe nova e gramde guerra com alguum Rei feu vizi- 
nho , mandou logo per todo feu reino que foubeífem parte 
quaaes poderiam teer cavallos e armas , e feer beefteiros e ho-» 
meens de pee. E iíTo meefmo fez veer os caftellos de que 
guifa eftavom , e mandouhos repairar de muros e torres e ca- 
vas darredor, e poços e çifternas omde compriam ; e aas por* 
tas paredes traveífas e pontes levadiças e cadafaifes , e forne- 
çellos darmas e cubas e doutras vaíiíhas , fegumdo os logares 
homde cada huuns eram. E deu difto carrego aos correge-» 
dores das comarcas , e aos feus almoxarifes mandou fazer toda 
a defpeza. Dalli partio elRei , e veoíTe a Santarém ; e no mes 
de março eftamdo el em Alcanhaaes termo delfe logar, chega-» 
rom meífegeiros delRei Daragom , a faber , MoníTe Alfonfo 
de Craílo novo , e Frei Guilhelme , meeftre em theoUogia , da 
ordem dos preegadores ; os quaaes vijnham pêra trautar paz c 
amizade antre elRei Daragom feu fenhor e o dito Rei Dom 
Fernando. E foi afli que fallando Monífe AlíFonífo fobrefto a 
elRei , propôs antelle os gramdes e a£i nados divedos que an-* 
tre os Reis Daragom e de Purtugal de lomgos tempos ouvera ; 
por a qual razom com outras mujtas boas, que a feu propoíita 
trouve , veo a comcludir , que yoontade era delRei feu fenhor 

avei: 




I20 ChrOnica 

áver com ellc boa e firme paz pêra fempre , e feer feu verdadei- 
ro amigo e de feus filhos e reinos e gentes a elle fobicitos : a 
elRci prouve de fua embaxada , e deu lhe boa e graciofa re- 
pofta ; e firmarora fuás aveemças o mais firme que fc fazer po- 
de , que foíTem ambos fiellmente amigos ^fem outra ajuda nem 
preitança que fe prometeflÃím fazer contra alguum outro reino 
nem fenhorio 5 pofto que guerra acomteçelTe deaver com elle. 
Semelhavelmente em efta fazom bordenou elRei de Caftella 
dcmviar a el feu certo recado , pêra aver com el paz e ami- 
zade; e eftamdo em Burgos fez feu procurador Diego Lopez 
Pacheco, que em fua merçee eftomçe vivia , pêra vijnr trautar 
efta aveemça : e nom feemdo aimda os embaxadorcs delRei 
Daragom partidos daquel logar Dalcanhaaes, chegou Diego 
Lopez PachecQ ; e devifado o dia pêra fallar a elRei fobre 
aquello por que vijnha, propôs antelíe dizemdo aíli, >> Senhor , 
»> elRei Dom Hemrrique de Caftella , meu fenhor , me etn- 
99 via a vos com fua meíFagem , como aquel que defeia aver 
99 boa paz e amorio comvofco, e feer voíTo verdadeiro ami- 
9> go fem nenhuum engano : e porem ante que eu diga ne- 
99 nhuuma coufa das por que a vos fom emviado, vos peço 
9> por merçee que praza a voíTa gramde alteza de me dizer- 
35 des declaradamente que voomtade teendes em aver paz e 
99 amor com elle , pêra eu com a merçee de Deos e vofla di- 
5> zer aquello que me he mandado , e tornar a el com tal re- 
3j pofta qual compre de fe dar amtre tam nobres Reis co- 
99 mo vos fooes , e que am amtre fi tam gramdes e aílijna- 
5> dos divedos ". A eftas razooes refpomdco elRei dizemdo : 
99 que el bem fabia e era certo dos gramdes e cftrcm.idos 
99 divedos aífi de linhagem , come de boons e compridos 
5> merecimentos , que antrelles fempre ouvera come irmaaos e 
99 amigos 5 os quaaes prazcmdo a Deos el tijnha em voomta- 
99 de levar adeamte ca^n boa e aguifada razom : e pois que 
» Deos emcomendara^aZ; e amor antre os homeens , eftre- 
99 madamente ('J antre os Reis mais que outros ncnhuuns, 

99 por 

(i) e estremadamente T, 



d'e lRei d. Fernando. 131 

>9 por feus reinos feerem guardados de perigoos ; que el por 
í? efto e por o logar que de Deos tijnha fobre a terra , qual 
5> fua merçee fora de lho dar , des i pollos gramdes divedos 
9y que amtre os Reis de Purtugal e de Caftella fempre ouvera 
5» íeerem acreçemtados mais cada vez , que a el prazia de 
55 feer feu verdadeiro amigo , e aver com el paz , e boom 
» amorio ; e que porem el diíTeíTe sobre todo o que lhe era 
5> mandado , e razoado pareceíTe de dizer 55. Em tom firma- 
rom fuás amizades e pofturas , quaaes antre elRei Dom Pe- 
dro feu padre e elRci Dom Hemrrique de Caftella ante defto 
forom firmadas : e feitas fcripturas fobrello , quegemdas í') 
virom que compria , partiolfc Diego Lopez , e foiíFe feu ca- 
minho: e dizem que defta vez faliou Diego Lopez a elRei 
como fe quiria vijnr pêra fua mercee. 

CAPITULOU. 

Das preitejias que elRei Dom Hemrrique fez com eU 

Rei de Navarra» 



c 



Omvem que sigamos os feitos delRei Dom Pedro de 
Caftella com feu irmaãò elRei Dom Hemrrique , no ponto 
que leixamos de faliar delles , e efto por dè todo averdes hu- 
um breve conhecimento, e a hordenamça de noíTa obra nom 
dcfvairar do feu primeiro começo ; moormenté pois delRei 
Dom Fernamdo nenhuuma coufa teemos que comtar ataa mor- 
te defte Rei ^""^ Dom P^^dro. E porem devees de faber , que fei- 
ta efta liamça com elRei Dom Fernamdo de Portugal , e fe- 
emdo certo elRei Dom Hemrrique das muitas gentes que o 
Principe de Gallez jumtava pêra vijnr com elRei Dom Pedro , 
e como nom tijnham outro paífo tam boom como pollos 
portos deRoçavallesíí^j que fom no reino de Navarra , e efto 
compria de feer per grado delRei , e nom doutra guifa ; 
Tom. W. R tra- 

(0 quejamdas 7". (2) atee morte delRei T. (5) Roccfvalles T. 



1^2 ChRONICA 

trabalhou de fe veer com el , e ordenar como nom ouveíTem 
per alli paíTagem. E foi aíli que le virom elRei Dom Henr- 
rique e Dom Carllos Rei de Navarra , em huuma villa do ef- 
tremo que dizem Sancta Cruz de Campaço : e alli fczerom 
feus preitos e menageens , juradas fobre o corpo de Dcos , 
prcfemtes muitos fidallgos , que elRei de Navarra nom def- 
fe paíTagem per aquelles porros ao Príncipe nem a fuás 
gentes ; e que paíTamdo elles per força , o que emtemdia que 
nom podia feer , que el per feu corpo com todo feu poder 
foíTe na batalha em ajuda dei Rei Dom Hemrrique. E por fe- 
guramça deita promeíTa poz elRei de Navarra em arrefccns 
três caftellos de íua terra , a faber, a Guarda , e Sam Viçemte, e o 
caftello de Buradom , os quaaes havia de teer Dom Lopo Fer- 
namdez de Lima arçcbifpo de Saragoça , e MoíTe Bcltram de 
Claquim , huum gram cavaleiro de Framça que ajudava elRei 
Dom Hemrrique , e o outro Joham Ramirez Darelhano : e ha- 
via de dar elRei Dom Hemrrique a elRei de Navarra por ef- 
ta ajuda que lhe prometia , e por defemder os portos a elRei 
Dom Pedro e ao Prinçipe , a villa do Gronho. E eftas aveem- 
ças aífi firmadas , tornouíTe elRei de Navarra pêra Pampolio- 
na 5 e elRei Dom Hemrrique fe veo a Burgos mui ledo , 
creemdo que elRei Dom Pedro nem o Primçipe nom aviam 
poder de paíTar per aquella comaroa desportos deRoçaval- 
les , por quanto elRei de Navarra lho podia mui bem defem- 
der , e avia de feer em fua ajuda. E de Burgos fe veo elRei 
â Alfaro , e alli fe partio dei Monífe Hugo de Garnaboi Ingres 
com quatro ccmtos de cavallo , e foilTe pêra o Prinçipe feu 
fenhor que da outra parte vijnha ; e elRei Dom Hemrrique 
pêro 4|ie muito pefou , e lhe poderá fazer nojo , nom o quis 
fazer , teemdo que fazia dereito em hir fervir o Prinçipe fi- 
lho delRei feu fenhor. 



CA.' 






d'k lRei d. Fernando. 135 

CAPITULO IIL 

Como elRei Dom Pedro fe vio com o Primçipe de Gual- 
lez , e jumtaromfuas gentes pêra emtrar per 

Cajlella, 

TOrnamdo a contar delRei Dom Pedro, omde ficamos quam- 
do paíTou per Purtugal , el chegou a Baiona, fegumdo ou- 
viftes , e nom achou em aquella cidade o Primçipe de Galez ; 
mas a poucos dias fe vio com elle , e fallou com o Primçipe 
quamto avia mefter a ajuda de feu padre e fua. E el lhe ref- 
pomdeo , que elRei de Ingraterra feu fenhor e padre , e el ilTo 
meefmo eftavom muj prelles de o ajudar; e que ja lhe ef- 
cp reverá fobrello e que era bem certo que lhe prazeria. El- 
Rei Dom Pedro muj ledo da repofta , foi em tanto veer a Prim- 
çefa fua molher , em huma villa que dizem Guchefma , e 
deulhe mujtas joyas das que tragia. Em eito veherom cartas 
delRei de Ingraterra a elRci Dom Pedro , em que lhe fez; 
faber como efcprevia ao Primçipe feu filho e ao duque Da^ 
lamcaftro feu irmaão , que per feus corpos com as mais gen- 
tes que aver podeflem , o ajudaíFem a poer em poíTe de feu 
reino. E iíFo meefmo veherom outras cartas ao Primçipe , em. 
que lhe elRei fez faber quamto lhe prazeria de toda ajuda 
que lhe foíFe feita per el e pellos feus , aos quaaes efcprevia 
que fe jumtaflem todos com elle : e dalli adeamte começou 
o Primçipe de mandar por gentes , e jumtaromfiíe mujtas pê- 
ra efta cavallgada. E acordarom elRei Dom Pedro e o Prim- 
çipe o que aviam daver fuás gentes de foUdo ; e fazialhe 
elRei pago em ouro e joyas , afli das dobras que levava, 
come douro amoedado , que lhe o Primçipe empreitava fobre 
pedras de gram vallor. E foi trautado em eítas aveemças , 
que elRei Dom Pedro deíTe ao Primçipe terra de Bizcaya e 
a villa de Caltro Dordialles j e aMoníTe Joham Chantos, com- 

R ii de- 



i^A Chronica 

deeftabre de Guiana ^ que era huum boom e gramde cavallei- 
ro , mujto privado do Primçipe ,' a cidade deSoria: e acorda- 
rom mais que ataa que o Primçipe , e todollos feus ouvcf- 
fcm pagamento do que aviara daver do tempo que fervi íTcm 
e efteveíTem emCaftelIa, que ficaíTcm em tanto em Baina ^'^ 
em maneira darrefeens as fuás trcs filhas delRei. Ejumtus as 
companhas pêra emtrarem em Caftella , fezerom í'^ faber a 
elRei de Navarra que lhe deííe paíTagem pellos portos de 
Roçavi^Ues , e que foíTe com elles per corpo na batalha ; e que 
lhe daria elRci Dom Pedro por eito as villas doGronho e 
de Bitoria : e elRei de Navarra fabemdo como as gentes do 
Primçipe erom mujtas mais que as delRei Dom Hemrrique , 
outrogou de os leixar paíTar , e de fcer com elle í^^ na bata- 
lha per corpo. 

CAPITULO IV. 

Como elRei de Navan^a hordenou de nom feer na bata- 
lha em ajuda delRei Dom Pedro ^^\ 

ELRei de Navarra poíto em grám cuidado por a promef- 
fa que feita avia a elRei Dom Hemrrique , e depois a el- 
Rei Dom Pedro, que era feu comtrairo , fezeo defeito, po- 
íem feamente. E foi aílí que depois que dou logat as gem- 
tes delRei Dom Pedro e do Primçipe , que paíFaíTem pellos 
portos de Roçavalles , avecmdô rcçeo de fcer na batalha, nom 
quis atemder em PampoUona , mas leixou hi Martim Amrri- 
quez feu alferez com trezemtas lanças que fe foíTe com el- 
les , e foiíTe ahuma fua villa que chamam Tudella , que he 
âçerca do reino Daragom , e alli trautou cOm huum cnval- 
leifo primo de MoníTe Beltram de Claquim , que diziam 
MoníTe Oliver de Manar í'^, que eftava na villa de Borja que 
era fua , que fezeíTe defta guifa : que elRei de Navarra am- 

da- 

(i) Bavona T. B, (2) fezeromno T. (^) com elles T. (4) Dom Amrri- 
que T, (5) MoíTe Holiveel de Ma»al T. 



SiSU OT 



d'elRei D. Fernando. 135" 

daria aa caça antre Borja e Tudella , que eram quatro ie- 
goas dhuma aa outra , e que Monfle Oliver fahilTe a elle e 
o prcmdeíTe e levafíe prefo ao caítcllo; e que o icveíTe ai-; 
li prefo em Borja , ataa que a batalha amtre elRei Dom 
Pedro e elRei Dom Hemrrique fcíTe acabada , e defta ma- 
neira teeria boa efcufa , que nom poderá per feu corpo 
feer com elle na batalha ; e que por efto lhe daria elRei de 
Navarra em moradia huuma fua villa que chamam Gabraj ''^ , 
com três mil francos de remda. Hordenado eíbo , e feitas fuás 
juras e prometimentos , foiíTe elRei huum dia aa caça , e faio a 
elle Monfle Oliver , e premdeo , e tcveo preío ataa que a ba- 
talha fofíc feita ; e eítomçe cuidou elRei outra arte per que 
faifle de feu poder fem lhe dar nenhuuma coufa , e trau- 
tou com el que lhe leixaria alli em arrefeens o IníFamte Dom 
Pedro feu filho , c que Monfle Oliver o levafle aa fua villa 
de Tudella , e que alli lhe daria recado de todo o que com 
el pofera. Monfle Oliver difíe que lhe prazia , e trouverom 
o líFamte , e elle foifíe com elRei ; e elles em Tudella , máii- 
dou elRei premder MonflTe Oliver e huum feu irmaao, e o 
irmaão fogimdo per huuns telhados foi morto ; e prefo Monfle 
Oliver , derom o Iffante Dom Pedro por elle. Afli que neefta 
preitefia el perdeo o irmaão , e nenhuma coufa ouve do que 
prometido fora, 

CAPITULO V. 

Das gentes que elRei Dom Hemrrique tijnha pêra fel'- 
kiar 5 e como hordenou de poer fua batalha, 

QUamdo' elRei Dom Hemrrique foube como o Primçipe 
com fuás gentes paflarom í^^ os portos de Roçavalles 
per grado delRei de Navarra , e como fe partira da ci- 
dade de Pampollona e fe fezera premder per arte, ajumtou 

______^__ fuás . 

CO GuabriaT". (2) tallaaváo 7. 



k 






130 Chronica 

fuás companhas e foilTe apouferntar acerca de Sam Domin- 
gos da calçada , em huum azinhal muj gramde que hi eíla ; e 
alli fez allardo , e partio , e paíFou o Ebro , e pos feu ar- 
reai acerca da aldeã de Anaílro ; e alli lhe dilferom como 
huuns féis centos de cavallo dos feus , antre Caftcllaaos e 
genetes , que el mandara por cobrar a villa Dagreda que 
ellava comtra elle , eram paíTados pêra elRei Dom Pedro : 
e elRei Dom Hemrrique nom curou daquello , mas cada 
dia hordenava fuás gentes pêra a batalha. E os eftramgei- 
ros que com el eftavom Daragom eram eíles ('^ , Dom 
Afonfo filho do líFamte Dom Pedro , neto delRei Dom 
James 5 Dom Filipe de Caftro , richomem , cunhado delRei 
Dom Hemrrique , cafado com fua irmaã Dona Johana , Dom 
Joham de Luna , Dora Pedro Boil, Dom Pêro Fernamdez Dixar, 
Dom Pêro Jordam Durres e outros : e de Framça eram hi ef- 
tes cavalleiros , MoníTe Beltram de Claquim , e o mariícal de 
Fram.ça , e o begue í-^ de Vilhenes e outros : e de Caftella e de 
Leom erom hi todollos fenhores e fidallgos , falvo Dom Gomr 
çallo Mexia , e Dom Joham Aífomfo de Gozmam. E por que 
foube que feus inmijgos vijnham a pee, hordenou fua bata- 
lha per efta guifa: na deamtéira pos a pee MoníTe Beltram 
e os outros cavalleiros Framçefes , e com o feu pemdom da 
bamda que levava Pêro Lopez Dayalla , Dom Sancho feu ir- 
maão , e Pêro Manrrique adeamtado moor de Caftella , e Pê- 
ro Fernamdez de Vallafco , e Gomez Gomçallvez de Cafta- 
nheda , e Joham Rodriguez , e Pêro Rodriguez Sarmento , 
e Rui Diaz de Rojas , e doutros cavalleiros ataa mil home- 
ens darmas pee terra. Aa maão ezquerda da batalha , homde 
eftavom os que hiam de pee , pos elRei em huma alia que 
foíTem a cavallo o comde Dom Tello feu irmaao, e Dom 
Gomez Pirez de Porras , prior de Sam Joham,* e outros fi- 
dallgos ataa mil de cavallo , em que hiam muj tos cavallos 
armados. Na outra alia da maâo dereita dos que hiam tam- 
bém de pee , pos elRei a cavallo Dom Affonfo neto del- 
Rei Dom James , e Dom Pêro Moniz meeftre de callatra- 

va, 

(i) eráo eftes , a faber , T. (2) vegue X. 



d' E L R E I D. Fernando. 137 

va , e Dom Fernam Oforez , e Dom Pedro Rodriguez do 
Samdal; e eram em efta batalha outros mil de cavallo , e 
muitos cavallos armados. Na batalha de meo deftas duas ba- 
talhas , hia elRei Dom Hemrrique e o comde Dom AíFomíTo 
feu filho , e o comde Dom Pedro feu fobrinho , filho do me- 
eftre Dom Fradarique , e Inhego Lopez de Orofco , e Pêro 
Gomçallvez de Memdonça , e Dom Fernam Perez Dayíilla , e 
MicerAmbrofio ai miramte , e outros que dizer nom curamos, 
ataa mil e quinhemtos de cavallo : e aílí eram per todos qua- 
tro mil e quinhemtos de cavallo , afora mujtos efcudeiros de 
pee das Efturas e de Bizcaia , que pouco aproveitarom ^ por 
que toda a pelleja foi dos homeens darmas. Em efto emvioii 
elRei de Framça fuás cartas a elRei Dom Hemrrique , em que 
lhe emviava dizer e rogar que efcufaíTe aquella batalha , e fe- 
zeíTe guerra per outra guifa ; ca foíTe certo que com o Prim- 
çipe vijnha a frol da cavallaria do mundo ; e que o Prinçipe 
e aquellas gentes nom eram de comdiçom pêra mujto dura--, 
rem no reino de Caftella , e d'hi a pouco fe tornariam ; e que 
porem defvialTe aquella pelleja a todo feu poder que fe nom 
fezelFe : e efcpreveo aaquelles cavalleiros Françefes que aíS 
lho comfelhaíTem í'> ; os quaaes fallamdo a elRei fobrefto, ref- 
pomdeo el que o fallaria em fegredo com os feus ; e todos 
lhe coníTelharom que todavia pofeíTe a batalha , ca fe foomen- 
te fezeíTe moftramça e pofeíTe duvjda em nom querer pelle- 
jar, que os mais do reino fe partiriam delle , e fe hiriam pê- 
ra t^^ elRei Dom Pedro , e iíTo meefmo fariam as villas e çida* 
des , poUo gram medo que dei aviam ; e fe viflem que el qui- 
ria pelleiar , que todos elperavom a vemtuira da batalha , a qual 
fiavom na merçee de Deos que el vemçeria. E efta repofta 
deu elRei a MoníTe Beltram e aos outros , e terminou ^^^ 
de poer batalha. 



CA- 

(i) aconfelhaíTem^. (2) fe partiriam perai?. (5) e determinou T. B» 



I 



âiaa: ok 



138 Chronica 

CAPITULO VI. 

Como elRei Dom Pedro e o Primçipe hordenarom fua 
batalha^ ejot elRei Dojn Pedro armado c avalie ir o. 



D 



A parte delRei Dom Pedro foi hordenada a batalha em 
efta maneira : elles todos vijnham pee terra , e na avam- 
guarda vijnha o duque Dalamcaftro irmaão do Primçipe , a 
que diziam Domjoham, e MoníTe Joham deChamtos, com- 
deeftabre por o Primçipe em Guiana , eMonfle Ruberte Caul- 
los , e MoníTe Hugo Carvaloi ('), e MonfeOliver fenhor de 
AbíTom , emujtos outros cavalleiros de Ingraterra , que eram 
três mil homcens darmas , afaz de boons e bufados em guer- 
ra. E na alia da maao dereita vijnham o comde Darminha- 
que , e o (^5 fenhor de Lcberte e feus parem tes , e o fenhor 
de Rofam , e outros cavalleiros de Guiana do bamdo do com- 
de de Foix 5 e mujtos capitaães de companhias ataa dous mil 
homeens darmas. Na batalha puftumeira vijnha elRei Dom 
Pedro 5 e elRei de Neapol , e o Primçipe de Guallez ; e o 
pemdom delRei de Navarra com trezemtos homeens darmas, 
e mujtos cavalleiros de Imgraterra ataa três mil lamças. Af- 
fi que eram per todos dez mil homeens darmas , e outros 
tantos frecheiros ; e eftes homeens darmias eram eftomçe a 
frol da cavallaria do mundo , ca era paz amtre Framça e Im- 
graterra , e todo o ducado de Guiana e Arminhaques , e do 
comdado de Foix, e todoUos cavalleiros e ricos homeens de 
Bretanha 5 e toda a cavallaria de Imgraterra; e vijnham com 
elRei Dom Pedro dos feus ataa oito çemtos homeens dar- 
mas de caftellaãos e genetes. E defta maneira forom horde- 
nadas as batalhas de cada huuma parte pêra o dia que fe ou- 
\q,{£q de fazer : e partio elRei Dom Hemrrique daquel logar 
A hu eftava , e foifle contra aquella comarca domde elRei Dom 

Pedro era ; e pos feu arreai em huma ferra alta , que efta fo- 

bre 

(i) Carnaboy T. (i) o comde Darmunha , (jue he o T, 



d'elRei D.Fernando. 139 

bre Alava , omde as gemtcs delRei Dom Pedro nom po- 
diam pelleiar com ellcs pvolla fortelleza do afcemtamento , e 
cobrarom os Imgrefes esforço por eflo , por quanto virom que 
elRei Dom Hemrrique fe pofera em aquella ferra e nom de- 
çia ao campo, omde elles eftavom prcftes pêra lhe dar bata- 
lha : e alli foube elRei Dom Hemrrique como mujtos do 
Primçipe fe eítemdiam pella terra a bufcar viamdas , e man- 
dou Ia alguuns capitaaes com gentes , e acharomnos derrama- 
dos bufcando viamdas , e tomaramnos todos ; e duzemtos ho- 
meens darmas e outros tantos frecheiros colheromíTe ahuum 
outeiro ; e pêro fe bem defemdeíTem , aaçima forom mortos 
delles c os outros tomados. ElRei Dom Pedro e o Primçipe , 
que eílavom aalem da villa deBitoria, quamdo fouberom que 
as gentes delRei Dom Hemrrique alli eram , cuidarem que 
era elle que lhe vijnha poer a batalha ; e poferomíFe todos 
em huum outeiro aalem de Bitoria , que dizem Sam Romam , 
e ali reglarom fua batalha ; e foi elRei Dom Pedro armado 
cavalleiro de maão do Primçipe, e outros mujtos aaquella ora, 
e tornaromíTe os delRei Dom Hemrrique pcra feu arreai, e 
nom fe fez mais aquelle dia, 

CAPITULO VII. 

Como o Primçipe de Gallez emviou a elRei Dom Hemr^ 
rique huuma carta -^ e das razooes comtheudas 

em ella. 

SAbemdo elRei Dom Hemrrique como elRei Dom Pedro 
e o Primçipe de Gallez hiam caminho do Gronho por 
pníTar o rio Debro , partio domde eftava e foilTe pêra Naja- 
ra j e pos fem arreai aaquem da villa , em guifa que o rio 
de Najara eftava o feu arreai , e o caminho per hu elRei 
Dom Pedro avia d'hir. ElRei Dom Pedro e o Primçipe com 
fas gentes partirom do Gronho , e veherom pêra Navarre- 
Tom. IV, S tej 



^ 



140 Ghronica 

te ; e dalli emviou o Príncipe a elRei Dom Hemrrique 
huum feu arauto com huuma carta , que dizia aflí. » Eduar- 
39 te filho primogénito delRei de Imgraterra , Primçipc de 
3> Gallez , e de Guiana , e duque de Cornoalba , e ccmde 
» de Ceílire : Ao nobre e poderoso Primçipe Dom Hemr- 
>j rique comde de Traftamara : Sabee que neltes dias paíTa- 
yy dos O muj alto e muj poderofo Primçipe Dom Pedro , Rei 
» de Caftella e de Leom , noíTo muj caro e muj amado pa- 
99 remte , chegou aas partes de Guiana , omde nos eftavamos , e 
5> fez nos emtemder, que quamdo elRei Dom AffonlTo feu pa- 
39 dre morreo , que todollos poboos dos reinos de Caftella e de 
99 Leom pacificamente ho tomarom por feu Rei e fenhor ; 
99 amtre os quaaes vos foftes huum dos que aflí lhe obedeçe- 
99 rom , e efteveftes gram tempo em fua obediemçia. E diz 
5> que depois deito, pode ora aver huum ano, vos com gem- 
99 tes eítranhas emtraft:es em feu reino e lho teemdes ocupa- 
?> do per força , chamamdovos Rei de Caftella , tomamdolhe 
99 feus tefouros e remdas , dizemdo vos que o deffemderees 
» dei , e daquelles que o ajudar quiferem ; da qual coufa fo- 
» mos muj maravilhado CO^ que huum tão nobre homem como 
>j vos 5 e de mais filho de Rei , fezeíTees coufa vergomçofa í^> 
» comtra volFo Rei e fenhor. E o dito Rei Dom Pedro em- 
99 viou moftrar eftas couías a elRei de Imgraterra , meu fe- 
» nhor e padre , e lhe requerio que pollo gram divedo de 
99 linhagem quç ârmtre as cafas Dingra terra e de Caftella ou- 
99 verom em huum , des i polias ligas e amizades que com o 
5> dito Rei meu fenhor e comigo tijnha feitas , o quifeíFe 
3> ajudar a cobrar feu reino e fenhorio. ElRei meu ienhor 
?> e padre veemdo que elRei Dom Pedro feu paremte lhe 
5> emviava pedir coufa jufta e razoada , a que todo Rei deve 
99 dajudar , prouguelhe fazello afli , e mandounos que com 
» todos feus vaífallos e amigos ho ouveflemos ajudar ,fegum- 
99 do a fua homrra perteemçe ; polia qual razom fomos aqui 
99 chegados , e eftamos em efte logar de Navarrete , que he 

5> nos 

O) maravylhados T» (2) vergonhofa £, 






d'£ L R E I D. Fernando. 141 

s9 nos termos de Caftella. E porque fe voomtade de Deos foíTe 
í» de fe efcufar tam gramde efpargimento de fangue de Ghrif- 
>j taãos , ccmo he per força de hi aver , fe a batalha fe fezer, 
5> de que Deos fabe que a nos pefa mujto: vos rogamos ere- 
j) quirimos da parte de Deos e do mártir Sam Jorge , que fe 
» vos praz que nos feiamos boom medianeiro antre o dito 
í> Rei Dom Pedro e vos , que nollo façaaes faber , e nos tra- 
5) balharemos como vos ajaaes em feus reinos, e em fua boa 
}9 graça e merçee tam gram parte , per que muj abaítadamen- 
jj te poíTaacs manteer voíFo boom e homrrado eftado : e fe 
>9 alguumas outras couílis emtemdees de livrar com elle, com 
5> a merçee de Deos emtendemos de poer hi tal meo , como 
5> vos feiaaes de todo bem com tento. E fe vos difto noni 
5> praz e qucrees í') que fe livre per batalha, fabe Deos que 
35 nos defpraz dello mujto ; pêro nom podemos efcufar de hir 
5> com elRei Dom Pedro nolTo paremte e amigo per feu rei- 
» no : e fe nos alguuns quiferem embargar o caminho , nos 
í> faremos mujto pollo ajudar com aajuda e graça de Deos. 
3> Scripta em Navarrete villa de Gaftella, primeiro dia da- 
5j bril. 39 

CAPITULO VIII. 

Da repojla que elRei Dom Hemrrtque emviou ao Prim- 

çipe per fua carta. 

ELRei Dom Hemrrique veemdo efta carta reçebeo bem o 
arauto , e deulhe panos douro e dobras ; e ouve comfelho 
como refpomderia ao Primçipe , por que alguuns diziam que 
pois lhe nora chamara Rei , que lhe efcprevelfe per outra 
maneira ; des i acordarom que lhe efcprevelTem cortefmente , 
e foi a carta em efta forma. » Dom Hemrrique pella graça 
?> de Deos Rei de Gaftella e de Leom : Ao muj alto , e muj 
» poderofo Primçipe Dom Eduarte , filho primogénito delRei 
55 de Ingraterra , Primçipe de Gallez , e de Guiana , e duque 

S ii 3> de 

(i) feiais B, . ' 



1^2 V^HRONIGA 

>j de Comoalha , e comde de Ceftre : Recebemos per huuin. 
í5 arauto voíTa carta , na qual fe comtijnham mujtas razcoes 
5j que vos forom ditas per eíTe noíTo averfairo que hi he ; e 
5> nom nos parece que foftes bem emformado , como aíH feia 
5> que nos tempos paliados elle regeo eílcs reinos de tal ma- 
55 neira , que todoljos que o fabem e ouvem fe podem mara- 
55 vilhar de tanto tempo feer fofrido no fenhorio que teve. 
55 E todollos dos reinos de Callella e de Leom , com gram 
59 dampno , e trabalho , e mortes , e perigos , e mallezas que 
55 feeriam lomgas de comtar , foportarom ataaqui feus feitos , 
55 os quaaes nom poderam mais emcobrir nem fofrer ; e Deos 
55 por fua merçee avemdo piedade de todollos deftes reinos , 
55 por tam gramde mal nom hir mais adeamte , fem lhe fa- 
55 zemdo nenhuum de fua terra , falvo obediência qual devia. 
5) E ellamdo todos com elle em Burgos pêra o fervir e aju- 
5» dar a deíFemder feus reinos , deu Deos femtemça comtra 
99 elle , e de fua voomtade propia os defemparou e fe foi ; 
5> e todollos de feu fenhorio ouverom muj gramde prazer, te- 
9> emdo que Deos emviara fobrelles a fua mifericordia ,por os 
55 livrar de tam duro e tam perijgofo fenhorio que tijnham: 
?5 e todollos dos ditos reinos , affi prellados come cavalleiros 
55 e fidallgos , e çidadaaos de fua voomtade veherom a nos , e 
9» nos reçeberom por feu R ei e fenhor : aííi que entemdemos 
55 per eftas coufas fobreditas que eílo foi obra de Deos. E por 
99 tanto pois per voomtade de Deos , e de todollos do reino 
99 nos foi dado , vos nom tcemdes razom por que nos ajaacs 
f> deftorvar ; e fe batalha ouver de feer, fabe Deos que nos def- 
3> praz delloí'^, pêro nom (=^ podemos efcufar de poer í') noíFo 
99 corpo por defemder eíbes reinos , a que tam teudos fomos , 
99 aaquel que comtra elles quer ^"^^ feer ; e por emdc vos roga- 
55 mos e requirimos da parte de Deos , e do apoftollo Sam- 
55 tiago , que vos nom queiraaes tremeter aífi poderofamen- 
55 te de emí^^nolTos reinos fazerdes dampno, ca fazemdoo, 

5j nom 

" (i) delfapraz delia T. (2) pêro a nam 7". (3) e poer T. (4) c^uyllcr T. 
(5) de a Z. 






d*£lRei D. Fernando. 143 

í> nom podemos efcufar de os deffemdcr. Scripta no noíTo ar- 
" real acerca de Najara , fegumdo dia dabril >5. I»ioârou o 
Primçipe efta carta a elRei Dom Pedro , e diíTerom que efr 
tas razooes nom eram abaílamtes pêra fe efcufar de nom 
poer logo a batalha; e pois todo era navoomtade de Deos , 
que como lua merçee folTe , que aíTi o livralTe. 

C A P I T U L O IX. 

Como fe fez a h atalha anitre 0^ Kets ambos ^ e foi vem- 
çído elRei Dom Hemrrique. 

JA ouviíles como clRei Dom Hemrrique tijnha feu arreai 
pofto per liomde avia de vijnr elRei Dom Pedro , de guifa 
que o rio de Najara eftava amtre Í^Miuuns e os outros; e ouve 
eftomçe feu comfelho de paíTar o rio , e poer a batalha em hu^ 
uma gramde praça , que he comtra Navarrete , per homde os' 
emmijgos aviam de vijnr ; e deito pefou a mujtos dos feus , 
porque tijnham aa primeira feu arreai pofto com moor avam- 
tagem , do que o depois teverom : mas elRei Dom Hemrrique 
era í^^ homem de gram coraçom e esforço , e diíTe que nom 
quiria poer batalha, falvo em na praça ^'^ chaa fem avamtagera. 
nenhuma. E elRei Dom Pedro e o Primçipe com todas fuás 
companhas partirom de Navarrete fabado pella manhaa , e po- 
fcromiTe todos pee terra ante huuma gram peça que chegafr, 
fem aos t^) delRei Dom Hemrrique , hordenados ern batalha , 
fegumdo avemos comtado. ElRei Dom Hemrrique ilTo meef- 
mo hordenou fua batalha na maneira que diflemos ; e ante que 
as batalhas jumtaíTem alguuns genetes,('^ e o pemdom de SantC' 
ftevam com homeens (6) deíTe logar que eftavom f^) com elRei 
Dom Hemrrique , paíTaromíTe pêra elRei Dom Pedro. Em efto 
moverom as batalhas , e chegarom huuns aos outros ; e o comde 

Dom 

(O antre os B. (2) que era T. (3) em a praaça T. em praça B. (4) os 2",' 
Oj algumas gentes T. (6) com ho meeftre 7", (7) ^ue eftaya T. ^ ' 






144 Chronica 

Dom Samcho irmaao delRei Dom Hemrriqueje MoníTe Beltruii, 
e todolloô cavalleiros que eílavom com o pemdom da bamda , 
forem ferir na avanguarda ('í homde vijnha o Duque Dalimcaí- 
tro , e o comdeeftabre ; e os da parte delRei Dom Pedro e 
do Prim.çipe tragiam todos cruzes vermelhas em campo bram- 
co , e os delRei Dom Hemrrique levavam (^^ cffç dia bamdas : 
eaílí de voomtade jumtarom huuns com os outros , que cahi- 
rom as lamças a todos , e começarom de fe ferir aas efpadas , 
e ochas í'^, e porras , chamando os da parte delRei Dom Pedro , 
Guiana Sam Jorge , e os delRei Dom Hemrrique, Caílella Sam- 
tiago ; e tam rijamente fe ferirom , que os da avamguarda 
do Primçipe fe começarom de retraer quamto feeria huuma 
paíTada , e forom alguuns delles derribados , em guifa que os 
delRei Dom Hemrrique cuidarom que vemçiam , e chegarom- 
fe mais a elles , e começaromíTe outra vez a ferir. Dom Tel- 
lo irmaáo delRei Dom Hemrrique , que eftava de cavallo da 
maão ezquerda da avanguarda delRei Dom Hemrrique , nom 
movia pêra pelleiar , que foihuum gramde aazo de fe perder a 
batalha , e por que lhe elRei Dom Hemrrique depois fempre 
quis mal ; e os dalla dereita da avamguarda do Prinçipe aderem- 
çarom comtraDom Tello , e el e os que com el eftavom nom 
os oufarom datemder , e moverom do campo a todo romper , fe^ 
guindoos os daquella alia que hiam a Dom Tello; e veemdo que 
lhe nom podiam empeencer , tornarom fobre as efpaldas dos 
que eftavom de pee na avamguarda dclRei Dom Hemrrique , 
com o pemdom da bamda que pellciavom com a avamguarda do 
Primçipe , e ferimdoos pellas efpalldas começarom de matar del- 
les ; e iíFo meefmo fez a outra alia da maáo feeftra da a^^an- 
guarda do Primçipe , depois que nom achou gentes de caval- 
lo que pelleiallem com elles : aílí que alli era toda a preíTa 
da batalha , feemdo Dom Samcho e os outros todos cercados 
de cada parte dos emmijgos ; porem o pemdom da bamda 
aimda nom era derribado. E elRei Dom Hemrrique come ar- 
dido cavalleiro , chegou per vezes em cima de feu cavallo , 

ar- 

(i) ferir avamsoarda T, (2) que levavam T, (3) c achas T. B, 



.\ 

d'elRei D. Fernando. 14$' 

armado de loriga , alli hu era a prcíTa tam gramJc , por 
acorrer aosfeus, teemdo que aííi o fariam os outros que efta- 
vom com el de cavallo : e quando vio que os feus nom pel- 
leiavom , nom pode fofrer os emmijgos , e ouve de volver cof- 
tas e í'í todollos de cavallo que com el eram , e dcfta guifa 
fe perdeo a batalha. E afirmaífe , fe he verdade , que fcemdo 
a batalha da fua parte bem pelleiada , era gram duvjda nom 
feer elRei Dom Pedro desbaratado ; e aíH mal como ella foi , 
fe nom fora o gramde esforço e ardideza do Primçipe e do 
duque Dalancaftro , que eram eftrcmados homeens darmas ,aim- 
da o vemçimento delia efteve em gramde avemtuira ; e forom 
mortos dos (^^ de pee que aguarda vom o pemdom da bamda , 
e antre cavalleiros e homeens darmas ataa quatro çemtos , e 
prefos outros mujtos , aíli como Dom Samcho , e MoníTe Bel- 
rram , e o marifcal , e Dom Filipe de Caílro e outros , cujos 
nomes leixamos por nom alomgar. E dos de cavallo forom 
iíTo meefmo prefos o comde deDenja, e o comde Dom Af- 
fonflb , o Í5) comde Dom Pedro , e o meeílre de Callatrava e 
outros que dizer nom curamos : e forom mortos no emcalço 
ataa villa de Najara mujtos delRei Dom Hemrrique , e matou (4> 
elRei Dom Pedro depois per fa maão , teemdo prefo huum 
cavalleiro do Primçipe Inhego Lopez de Orozco ; e fez ma- 
tar Gomez Carrilho de Quimtina , camareiro moor delRei 
Dom Hemrrique , e Sancho Sanchez de Orozco , e Garcia Jo- 
fre Tenoiro , que forom prefos na batalha , e teveromno to- 
dos a mal ; e foi efta batalha vemçida fabado de Lazaro , féis 
dias dabril, da era de Cefar de mil e quatro çemtos e çimr 
quo annos. 



CA- 



(i) a J. (2) dous 7", (5) e o T, (4) Dom Hemrritjue , que matou X", 



I 




146 Chronica 

CAPITULO X. 

, . ■ . . . ■ t 

Como o Prímçipe dijje contra o marifcal deFramça que 

merecia morte , e como Je livrou per juizo 

de cavalleiros. 

NO dia feguimte que era domimgo , trouverom ante o 
Primçipe todollos prefuneiros í'^ que na batalha forom 
tomados , porque dizia elRei Dom Pedro , que alguuns contra 
que el í^^ paíTara per femtemça , lhe deviam feer emtregues, 
pêra delles fazer juftiça ; antre os quaaes veho o marifcal de 
Pramça, homem de fafeemta anos emais, e o Primçipe quam- 
do o vio , chamoulhe treedor e fementido que merecia mor- 
te, e o marifcal refpondeo dizemdo: í> Senhor, vos íooes li- 
,5> lho de Rei, e nom vos refpomdo como poderia em eíle cafo, 
pj mais (5^ eu nom fom treedor, nem fementido j>: e o Prim- 
çipe diíTe que quiria eílar a juizo de cavalleiros, e que lho 
provaria, e el dilFe que íi, e forom juizes doze cavalleiros de 
«defvairadas naçoòes : e diíTe o Primçipe contra elle que na 
Batalha de Pitéus que el vemçera , hu fora prefo elRei de 
Framça , fora elle feu prifoneiro c pofto a remdiçom , e lhe 
fezera preito e menagem fo pena de traiçom e fementido , 
^ue fe nom foíFe em companha delRei de Framça , ou com 
alguum de feu linhagem da frol de lis, que fe nom armaíFe 
•comtra elRei de Ingraterra nem comtra o Primçipe , ataa que 
fua remdiçom foífc paguada , o que aimda nom era : e ora 
nom foi neeíta batalha elRei de Framça nem homem de feu 
linhagem , e vejovos armado contra mim , nom teemdo pa- 
guado o por que ficaftes , e por tanto avees cabido em maao 
Cafo. Mujtos cuidarom ouvimdo aquiílo que o marifcal tij- 
nha mujto maao feito , e que fe nom efcufava de morte 
por ello ; e dilTe o Primçipe ao marifcal que feguramente dil- 
fcf- 

(i) priíoneiros T. B. (2) comtra qual T. (3) mas X. 



d'elRei d. Fernando. 147 

fefíe todo o que emtcmdeíTe por deíFemder fua fama e homr- 
ra , ca efto era feito ^'^ de guerra amtre cavalleiros : e el ref- 
poindeo dízemdo , que verdade era todo o que dizia , » mas 
j> eu 5 fenhor , dilFe elle , nom me armei comtra vos come ' 
5) capitam defta batalha , ca elRei Dom Pedro o he , a cu- 
5) jas gajas come foldadeiro , vos aqui vjmdcs ..... os 
55 nam .... pitam e .... a foldado , eu nom errei em me 
3> armar comtra vos, falvo comtra elRei Dom Pedro , cuja he 
» a rcquefta defta batalha ?> t''^. Os juizes diíFerom aoPrimçipe 
que o marifcal rcfpondia muy bem (-^ com dereito ; e deromno 
por quite da acufaçom que lhe fazia : e foi bem notada ella 
repofta , de guifa que per tal fentemça fe livravom depois 
fcmelhantes cafos , quamdo aconteciam na guerra. 

CAPITULO XI. 

Das razooes que elRei Dom Pedro ouve com o Primçí^^ 
pe fobre a tomada dos prijoneiros. 

NA fegumda feira partlo elRei e o Primçipe do campo 
pêra a cidade d*e Burgos , nom bem contentos por duas 
razoóes ; a primeira , por que o dia da batalha matara elRet 
per fa maao Inhego Lopez de Orofco , teemdoo prefo huum. 
cavalleiro Gafcom ; o qual fe queixou ao Primçipe , como 
lhe fezera perder fcu prifoneiro , e da defomrra que lhe ha- 
via feita: e o Primçipe diíTe a elRei , que bem parecia que 
nom avia voomtade de lhe guardar o que com el pofera^ 
Tom. IV, T pois 

{a) No Códice do Â. arquivo havia huma chamada tio primeiro lugar mar' 
cado com , , , , e d margem eftavão escritas mais palavras , parte das quaes 
forão cortadas quando tia encadernarão se aparou o Códice ; e não se pode let 
senão o que se imprimia no texto. No Códice B. lem-fe dijiinctamente ejias pala' 
vras : vos aqui vijndes i e pois vos nó fooes o eapicam , e vijndes afoldada- 
<io, eu nó errei &c. as quaes fe omittem no Códice T. otide fe lé : vos aquy 
vimdes , e eu náo jrey em me armar &c. 

(i) era em fecco £. (2) que o marifcal dezia muy bem, e refpondia 89 
cafo T. 



i^J) . C H R o N I C A > 

pois cfte que era huum dos primçipaaes capitólios , que nom 
matalTe nenhuum homem de comta fem primeiro f^^emdo 
julgado, el começava de quebramtar; e elRci fe efcufou o 
melhor que pode. A outra razom , por que o domimgo de- 
pois da batalha pedio elRei Dom Pedro ao Primçipc , que 
todoUos eavalleiros e efcudeiros Caftellaãos , que de conta 
eram. , lhe foíTem emtregues por razoados preços , pollos qua- 
áes ficaíTe o Primçipe aaquelles que os tijnham , que el lhe 
faria huuma obrigaçom por o que hi montalTe , e que avem- 
do taaes homeens , que faliaria com elles em tal maneira , 
que fiquaíTem da fua parte; e por eíla coufa fc afícou mujto 
elRei Dom Pedro , dizem do que fe doutra guifa fe livraflem , 
que fempre feeriam em feu ferviço. O Primçipe diíFe , que 
nom pedia razom , ca os prifonciros eram daquelles que os 
tijnham ; e que eram taaes homeens , que por mil tanto do 
que valliam , nom lhe daria nenhuum o que teveíTe , ca lo- 
go cuidariam que os comprava pêra os matar ; e que difto 
nom fe trabalhalTe , ca nom era coufa pêra vijnr a fím. ElRei 
Dom Pedro diíFe , que fe eftas couf;s affi aviam de paíFar , 
que fazia conta que o Primçipe ho nom ajudara, e que mais 
perdido tijnha eftomçe feu reino que da primeira, e que def- 
pemdera feus telouros debalde. O Primçipe ouve menemco- 
ria e difle a elRei : j> Parente fenhor , a mim parece que vos 
-» teemdes agora mais forte maneira pêra perder o reino , do 
3» que teveíles quamdo o regiadcs ; e governaftello de tal gui- 
» fa , que o ouveftes de perder : porem vos confelho que te- 
> nhaaes tal geito com todos , que cobrees os coraçoões dos 
5» grandes e fidallgos de vofía terra ; e fe o fezerdes como 
» da primeira , eftaacs em ponto de perder o reino e voíFa 
» peífoa; e elRei meu fenhor nem eu nom vos poderemos 
% mais acorrer x* 



GA- 









mm. 



©'elR El D. Fer N AN DO. 14? 

CAPITULO xir. 

lyas aveemças que for om feitas antre o Primçipe e eU 
Rei Dom Pedro fobre as coufas que lhe prome- 
tidas tijnha, 

PAíTadas eftas coufas fez o Primçipe requeHr per alguuns 
dos feus a elRei Dom Pedro , como bem fabia que fora 
hordenado antrelles , que aíli a el como aos outros fenhores e 
gentes darmas que alli cram^foíTem pagadas fuás gajas e eíla-» 
dos e folldo ('^ a cada huum fem nenhuuma fauta (=^ que em el- 
lo ouveífem. E como quer que elRei avia pagado em Bayona a 
el e aos outros parte do que aviam daver , que porem el fica- 
va em diveda de gramdes comtias a todos elles , polias qua- 
aes elle fezera juramentos e menageens aos feus com os del- 
Rei , fegumdo bem fabia ; e por tanto foífe fua merçec , pois 
ja eftava em poíTc de feu reino, dehordenar como ouveflem 
pagamento, e el foíFe fora das obrigaçoões que lhe feitas avia: 
aliem deito , pois lhe de feu grado prometera fem lho el re- 
querir , que em todas guifas quiria que ouveíTe alguuma ter- 
ra e remda no reino de Caftella , e lhe outorgara o fenhorio 
de Bizcaya , e a villa de Caftro Dordialles , fegumdo per 
fuás cartas tijnha outorgado , que lhe prougueífe de o com- 
prir aílí , pêra fe tornar cedo pêra fua terra ; ca nom era 
proveito mas perda gramde eftar mujto tempo com tantas 
jemtes em feus reinos , acreçentamdo defpeza. ElRei ouvio 
efto que lhe differom , e mandoulhe refpomder por outros , 
que verdade era o que dito aviam , e que lhe prazia de com- 
prir todo o que prometera ; porem que fobre a paga da dive- 
da quifera elRei poer revolta dizemdo , que pagara gramdes 
folldos e gajas em joyas ÍJJ e pedras, avemdoas d elle por mais 
pouco preço daquello que valliam : e o Primçipe dizemdo , 
que os feus forom agravados em tal paga , damdolhe pedras e 

T ii joi- 

CO e eltàâos de foido Z. {z) falta T, (5) e j[oyas T. 



\ 



i5'o Chronica 
jóias que lhe nom compriam , e nom moeda que meíler aviam 
pêra comprar cavallos e armas pêra o fervirem , sllí que de 
tal coufa nom devia de fazer pallavra : e diíTe mais o Prim- 
çipe , que ao que clRei dizia que lhe leixaíTe mil lanças dos 
léus a fua defpeza e gajas e íolldo , ataa que foíTe bem af- 
íeíTegado no reino , que bem lhe prazia ; rnas que os feus qui- 
riam veer primeiro como pagavom os ^^^homeens darmas, do 
tempo todo que aviam fervido. Sobrefto paíTarom mujtas fal- 
ias c razoces antre elRei Dom Pedro e o Primçipe ; na fim 
acordarom fazer conta das gentes que vcherom , e que ouve- 
rom de folklo, e quamto lhe deviam ; e acharom que monta- 
va em todo muj grande cornthia , polia qual o Primçipe pe- 
dio que IhedeíTe vijnte callellos , quaaes eí nomeaíFe , em arre- 
feens , porfeguramça da paga ; e que a cidade de Soria, que 
pormetida (^^ avia a MoníTe Joham comdeeftabre per fuás cartas , 
que lha fezeíFe entregar. ElRei diíTe , que per ncnhuuma 
guifa nom podia taaes caftellos poer em fielldade , ca diriam 
os do reino que quiria dar a terra a gentes eftranhas , nem 
as mil lanças que lhe requiria , que nom avia por bem de fi- 
carem em feu reino , mas que o fenhorio de Bizcaya , e Craf- 
to Dordialles , e Soria a JVlolFe Joham , que bem lhe prazia 
de o outorgar. E fobre eftas coufas ouve mujtos debates, fal- 
lamdoíTe todo per aquelles de que fiavom , dizemdo o Primçi- 
pe que quiria faber como aviam de fecr pagados os feus , e 
el feer fora de fua obrigacom. ElRei lhe emviou dizer que 
loguo mandava per todo feu reino a pedir ajuda pêra pagua 
deftas divedas , e que a huum dia certo lhe faria paga da mea- 
tade ; e pollo mais teveíTem em arrefeens as fuás três filhas 
que em Bayona ficarom , ataa que foíFe pagado de todo. E 
deulhe cartas per que entregaífem ao Primçipe terra de Biz- 
caya , e a MoníTe (5) Joham terra de Soria ; e ao Primçipe nom 
fe quiferom dar os moradores da terra , pêro ia mandou feu 
recado , por que lhe efcrepveo clRci calladamente doutra 
guifa que fe lhe nom delFem ; e ao comdeeít-ibre pedirom 
dez 

(i) aos T. (2) pormetido B, (3) MoíTe T. B, 




I 



ij'klRei D. Fernando. i^t 

dez mil dobras de chamçellaria da carta , e el nom a quiz 
tomar , dizemdo que lhe nom pediam tanto falvo por lhe 
nom darem a dita cidade. O Prinçipe veemdo como eíluS 
coufas hiam , por dar logar que elRei nom fe tevelTe por mal 
comtente delle , diíTe que lhe prazia atemder alguuns dias 
em Caftella , e que lhe fezeíTe eIRei juramento de lhe com- 
prir todo o que lhe avia prometido , e elRei diíTe que llic 
prazia ; e acordarom que vcQÍTe o Primçipe das olgas de 
Burgos omde poufava , dentro aa cidade aa egreia de Samta 
Maria , e que lhe juraíTe elRci pubricamente peramte todos 
a lhe conprir todiUas coufas que antrelies eram devifadas* 
O Primçipe difle que nom hiria demtro , falvo que lhe def*' 
fem huuma porta da cidade com fua torre , em que pofcífe 
jente darmas por fua feguramça , e elF^ei lha mandou darj e 
forom poftos na torre homeens darmas , e frecheiros ; e a 
fumdo da porta em huuma gram praça que fe fazia demtro y 
comtra a cidade , pos o Primçipe mil homeens darmas, e fo- 
ra da cidade arredor do moelleiro omde el poufava , as mais 
das gentes que comveherom ('^ todos armados. Entrou o Prim*» 
çipe demtro na cidade per aquella porta que era guardada , 
e hiam de beftas el e feu hirmaao , pêro nom armados , e 
arredor delle alguuns capitaaens , e doutros homeens darmas 
ataa quinhemtos , e aíli chegou aa egreia mayor hu aviam 
de fecr os juramentos- ElRei Dom Pedro veo alli , e pubri- 
camente leerom as efcripturas do que elRei Dom Pedro era 
theudo de dar ao Primçipe e aos feus , e como fe obrigava 
de dar a el ou a feus thefoureiros ameatade da comtia dar 
quel dia a quatro mefes demtro em Caftella , e a outra mea* 
tade em Baiona dhi a huum ano , por aqual teveífe em arre^ 
feens fuás filhas que la ficarom , quamdo dhi partira. Outro li 
jurou elRei aquel dia , que faria emtregar o íenhorio de Biz- 
caya e Crafto Dordialles ao Primçipe , e a Monífe Cham- 
tos condecftabre de Guiana a cidade de Soria que lhe prome- 
tido avia : feito efto , foiíTe elRei pêra feu paaço , e o Prim- 

. 9z^ 

(i) <]ue com elie vyeráo T, 






.^^1^ 



15-2 C H R o N I C A 

çipe pêra o moefteiro omde poufava. ElRei Dom Pedro o 
foi depois veer, e diíTe como avia emviado mujtos per feu 
reino por jumtar dinheiros pêra a primeira paga ; e por dar 
aguça mujto moor em ello , que el meefmo quiria hir pella 
terra , por poer em ello melhor recado. O Primçipe diíTe , 
que fazia bem, e lho gradecia, por manteer fua verdade e 
juram^entos que fez era ; e diflelhe mais que a el era dito que 
elle mandava fuás cartas aos de terra de Bizcaya , que o nom 
tomalTem por fenhor , e que iílo nom podia crccr , e que 
lhe rogava que lha fezeíTe emtregar como lhe avia prometi- 
do , e a cidade de Soria ao comdeeílabre. E elRei diíTe, que 
iiumca taaes cartas mrndara , e que de a aver e lhe feer em- 
tregue lhe prazia mujto, e que em todo lhe poeria boo re- 
médio neefte efpaço dos quatro mefes , e aíli fe efpidio del- 
le. 

CAPITULO XIII. 

Quaaes peffoas matou elRei Dom Pedro depois que par- 
tia de Burgos , e como trautou paz com clRei 
Dom Fernamdo de Portugal, 

PArtio elRei Dom Pedro de Burgos e o Primçipe pêra 
huum logar , que dizem Arrufto ; e himdo elRei pcra Tol- 
Jedo 5 ante que chegaíTe aa cidade , mandou matar Rui Pom- 
çePalomeque cavalleiro, e Fernam Martins ^'Uiomem homrra- 
do do logar , por que amdarom com elRei Dom Hemrrique 
depois que emtrara em no reino , e levou arrefeens dos da 
cidade , por feer delles feguro ; e dalli partio , e chegou a 
Córdova, e dhi a dous dias armouíTe de noite, e com outros 
amdou pella cidade per cafas certas , e fez matar dez e féis 
homeens , dos homrrados que em ella avia , dizemdo que ef- 
tes forom os primeiros que forom receber elRei Dom Hemr- 
rique , quamdo alli chegara. Dalli fe partio e foi a Sevilha , e 

; n- 

(0 e Fernám Nunez T. 



d'£lRei d. Fernando. i^^ 

ante que chegaíTe , fez matar Miçer Gil Boca negra , almi- 
rante de Caítella , e Dom Johani fiilio de Djm Pedro Pomçe 
de Leom , e Affonfo Arcas ^'^ de Cadios, e AffoníTo Fernam- 
dez e outros ; e mandou a Martim Lopez de Córdova , me- 
eftre de Callatrava, qiie eftava em QÍCà cidade, que mataíTe 
Dom Gomçallo Fernamdez de Córdova , e Dom AfomíTo Fer- 
namdez fenhor de Monte mayor, e Diego Fernamdez algua- 
zil moor da cidade, e elie nom o quis fazer, emtemdemdo 
que faria mal : e elRei Dom Pedro ouve delle queixume por 
eito , e hordenou que o premdelTem per traiçonn ; e a roga 
delRei de Graada , por reçeo que elRei delle ouve , foltou 
Dom Martim Lopez , e aíli efcapou de morte : e por quei- 
xume que elRei avia de Dom Joham AíFoníTo de Gozmam , 
que depois foi comde de Nebra , por que fe nom fora nem 
chegara a elle , quando outra vez foi o alvoroço de Sevilha , 
que elRei Dom Pedro fugira pêra Purtugal , e o nom achou 
na cidade pêra o prender , mamdou matar Dona Bramca fa 
madre de cruel morte , e tomou todollos beens que ambos 
aviam ; e mandou matar Martinhanes feu thefoureiro moor , st 
que fora tomada a galee do a ver , fegumdo avees ouvjdo. Ef- 
tando elRei aíli em Sevilha , mandou a Portugal a elRei Dom 
Fcrnamdo Mateus Fernamdez , feu chamçeller moor e do feu 
óonfelho , pêra trautar com elle paz e amizade ; o qual che- 
gou a Coimbra , omde elRei Dom Fernamdo era eftonçe , e 
trautou com elle , e diíFe que elRei Dom Pedro queria com 
elle paz e amizade , e feer feu verdadeiro amigo por fempre 
em todallas coufas que comprilTe ; e confirmarom fuás ami- 
zades o mais firmemente que poderom , fazemdo fobrello 
fuás efcripturas quaaes pêra tal feito compriam : e partido a 
embaixador deCaftella, mandou elRei Dom Fernamdo Joham 
Gomçallvez do feu confelho pêra confirmar efte amor e paz , 
que o procurador delRei Dom Pedro com elle trautara ; e 
Joham Gomçallvez chegou a Sevilha , e elRei confirmou to- 
do o que Mateus Fernandcz avia trautado , e veolTe Joham 

G om- 

(0 -Áreas T, 






15'4 Chronica 

Gomçailvez : e clRei Dom Pedro mandou outra vez Joham 
de Cayom feu alcaide moor , que chegafle a elRci Dcm Fcr- 
namdo, e lhe requirilTe que ratifícaíTe ('^ outra vez a amizade , 
que feita aviam í^^; e el chegou a Tentúgal , omde elRei em- 
tom eftava , e requirido per ellc , outorgou elRei Dom Fernan- 
do a paz e amor que ante deíuo feito avia , e reccbeo delle o 
melTegeiro preito c menagem por aquellas aveemças , e efpe- 
dioíTe delRei , e foiíTe caminho de Sevilha. Homde ieixa- 
mos (5) eítar elRei Dom Pedro , e tornemos a comtar delRei 
Dom Henrrique , que fe fez delle depois que fugio da batalha , 
ataa que tornou outra vez a Callella , e iíTo meefmo de fua 
inolher e filhos ; ca pofto que ante queríamos dizer da paga 
que elRei Dom Pedro fez ao Primçipe , e como lhe emtrc- 
gou as terras que lhe de dar avia , e fe efpedio dei e foi 
pêra fa terra , que era razom de dizermos primeiro ; nos iilo 
fazer nom podemos , por que nas obras dos antijgos , que an- 
te de nos fezerom eítorias , taaes coufas nom achamos nas ef- 
cripturas a nos per elles comunicadas ; ante emtemdemos que 
foi pollo contrairo , e que numca lhe mais fez pagamento , 
fegumdo adeamte ouvirees , e que ho Primçipe fe partio fem 
lhe mais fallar , por novas que avia dos Framçefes que come- 
çavam guerra no ducado de Guiana , per maneira de compa- 
nhias ; e porem tornaremos aos feitos delRei Dom Hemrri- 
que, de que mujtos leixamdo alguuns diremos por abreviar, 

CAPITULO XIV. 

Do que aveo a elRei Dom Henrrique depois que fugio 
da batalha , e aa Rainha fua molher. 

FOgio elRei Dom Henrrique como ouviftes , depois que 
vio perdida a batalha , e el amdava aquel dia em huum 
gram cavallo ruço caftellaao todo armado de loriga , e por o 

qram 

CO rataíicaflem T. (i) avia B. (3) leixemos T, B, 



d'elRei D. Fernando. 155' 

gram trabalho que avia paíTado , nom o podia levar o cavallo 
como compria; e huum efcudeiro feu criado, que tijnha hu- 
um boom cavallo genete , quamdo ho vio alli , chegouíTe a el- 
le e diíTe : ?> Senhor , tomaae cite cavallo , ca eíTe voíTo nom 
3» fe pode mover » : e elRci fezeo aííí , e partio da villa de 
Najara , c levou caminho de Soria pêra Aragom , e hiam 
com elle Dom Fernam Sanchez de Thoar , e Dom AíFoníTo 
Perez de Gozmam , e Miçe Ambroíio filho do almirante, e ou- 
tros. E em outro dia fahirom a elles dhuma aldeã de terra de 
Soria alguus de cavallo , por que os virom hir aíli apreíTura- 
dos , e taaes hi ouve que o conheçerom , e quiieromno prem- 
der ou matar , por aver a graça delRei Dom Pedro ; e el que 
os vio eílar aíli duvidando , cometeeos e desbaratouhos , e 
matou aquel que o quifera premder ; e dalli chegou a Ara- 
gom a huum logar que dizem Lucca , e achou hi Dom Pedro 
de Luna , que depois diíTcrom papa Benedito , e foiíTe com 
elle ataa fora Daragom ; e dalli partio, e chegou a Ortes ,hu- 
uma villa do comde de Foix , a que muito pefou por que fo- 
ra vemçido , e aimda por que chegara a íua cafa , por que 
fe receava do Primçipe , que vija emtom huum dos podero- 
fos homeens do mundo, de teer(') achaque comtra elle por 
que o nom premdera , pois que o em fua cafa tijnha. E di- 
zem que preguntou o comde a elRei , como vijnha afli, e 
elle rcfpomdeo e diífe : j» Venho com aquel aqueeçimento 
3j que acomteçe aos cavalleiros : puge o campo e perdio , e 
35 ora venho aíli como veedes 3> *. e o conde o comfortou e re- 
çebeo muj bem , e deulhe cavallos e dinheiros e homeens , que 
forom com elle ataa Tollofa ^-\ onde elteve per alguuns dias. 
E foiíFe a Villa nova acerca Davinhom , omde era eítomçe o 
duque Dangeus irmaao delRei de Framça , no qual achou 
gramde acolhimento , damdolhe de feus dinheiros ; e foilhe 
gramde ajuda em eito ho papa Urbano quinto, que eltava em 
Avinhom , e queria bem a elRei Dom Hemrrique : pêro el- 
Rei nom vio eítomçe o papa , ca todos fe reçeavom do Prim- 
Tom. IV. V çi- 

(O c ter T. (2) ToUooíTa de França X. 



Í7 






/J >/* 



Jt^ 



jr^ ChRONICA 

çipe deGallez, porque o vijam afíl podcrofo. Os aiçcbifpos 
deTolledo e de Saragoça, que íicarom em Burgos com a Rai- 
nha e Iffamtes , em quamto elRei fora aa batalha, como fou- 
berom que era perdida, partirem a í'^ prelTa caminho de Sa- 
ra<J^oça , omde chegarom com mujto medo e gramdcs traba- 
lhos , achamdo comtrairo gafalhado do que cuidavom em 
elRei Daragom; ca el por que vija o Primçipe em Caítella 
muj poderofo , e iíTo meefmo elRei Dom Pedro , reçcamdoíTe 
delJes , dilTe que elRei Dom Hcmrrique como cobrara o rei- 
no de Caítella , nom lhe comprira as coufas que amtrelles fo- 
Tom acordadas , e tomou loguo a ííFamte fua filha , que a Rai- 
jiha Dona Johana tragia por cfpofa do líFamte feu filho , e 
diíTe que nom queria eftar per aquelle cafamento ; e em to- 
do efto nom fabia a Rainha parte que era delRei feu mari- 
do , depois que fugira da batalha. O Primçipe de Galez e el- 
Rei Dom Pedro trautarom loguo fuás amizades com elRei 
^Daragom, e todo fe fazia por elRei Dom Henrrique nom 
aver acolhimento em fua terra. Por aazo defte nom boo aco- 
lhimento, ouve antre os fenhores e fidallgos Daragom gram- 
des bandos perante elRei , dizemdo alguuns a elRei Dara- 
gom , que teveíTe aa parte í^) delRei Dom Hemrrique , o qual 
cm feus mefteres de guerra que ouvera com Caftella , fem- 
pre o achara í^^ boom ajudador c leal amigo , e que em tal 
tempo lho devia dagradecer ; moormentc que fe elRei Dom 
Pedro ficaíFe aíTeíFegado era feu reino , que lhe poderia fazer 
guerra í'^^ como da primeira. Outros diziam que elRei Dom 
Hemrrique nom comprira a elRei Daragom o que lhe pro- 
metera dar , quamdo cobraíTe o reino de Caftella , e que por 
tanto nom era razom de o ajudar, A Rainha veemdo em ef- 
tes feitos que lhe nom compria eftar em Aragom , pois dos 
fenhores hi avia taaes que quiriam mal a feu marido , ouve 
acordo de fe hir pêra elle, ca ja fabia o logar homde eftava, 
e partio de Saragoça caminho de Framça , e achou elRei 
Dom Hemrrique em Servianai que huuma villa em Limgoadoc. 

CA- 

(i) aa T* {í) a parte T, (3) acharão T, (4) nojo e guerra T, 






delRei D. Fernando. 15*7 

CAPITULO XV. 

Como eJRei Dom Hemrríque fe vÍo com o duque Dan^ 

geuí y e do gramde acolhimento que achou em 

elRei de Framça. 

TOrnamdo a contar delReiDom Hemrrique , que fez de- 
pois que foi acerca Davinhom ; el em Villa nova fegum- 
do ouviftes , omde eftomçe era o duque Dangeus , nom em- 
bargamdo que o bem reçebeíFe , e partiíTe com elle de feus 
dinheiros, pefoulhe niujto de fua vijmda , por quamto elRei 
de Framça e elRei de Ingraterra aviam novamente feitas pa- 
zes , e emtregue ao Primçipe o ducado de Guiana í'^; e reçeam- 
doíTe o duque poUo gafalhado que fazia a elRei Dom Hemr- 
rique , que defprazeria a elRei de França feu irmaao , teem- 
do ho Primçipe achaque comtra elle , que outra vez queria Í^I 
avolver guerra , colhemdo em fua terra homeens a que bem 
nom queria , moormente tal como elRei Dom Hemrrique , 
de que fe o Primçipe aimda receava : e quiferaífe efcufar oi 
duque quamto pode de nom veer eftomçe elRei Dom Hemr-: 
rique , pêro quando vio que fe efcufar nom podia , hordenoii 
que lhe dcflem poufada na torre da ponte Davinhom , que 
he contra F"rança , e alli o vio efcomdudamente a primeira 
vez que lhe o duque fallou , e deulhe comfelho que efcre- 
pveífe a elRei feu irmaao , fazemdolhe faber o mefter em 
que era. ElRei Dom Henrrique fezeo afli , e chegarom feus 
meíTegeiros a Paris , homde elRei de França eftava , e conta- 
romlhe o desbarato da batalha , e como a perdera elRei Dom 
Hemrrique ; e pois que a cafa de França era a mayor do rei- 
no dos Chriftaãos , que nom devia falleçer fua ajuda aos que 
em tal cafo ouveííem caido , e que porem lhe pedia que o 
quifeíTe ajudar naquella maneira que vilfe que lhe compria , 

V ii mo- 

(i) Viana T. (2) querirya 2", 



1^8 Chronica 

moormente contra homeens que lhe bem nom queriam , poílo 
que de prefemte com elles ouveíTe paz. ElRei de França 
como vio fuás cartas , efcrepveo logo ao duque fcu irmaao , 
que lhe delTe çimquoemta mil framcos douro , e mais huum 
forte caítello que diziam Pieta pertufa , em que tcveíTe fua 
molher e filhos ; e mais lhe fez tornar o comdado de Sefe- 
no ('^5 que feu anteçeíTor elRei Dom Joham de França dera a 
elRei Dom Henrrique , quamdo o fervira ^^^ na guerra contra 
os Ingrefes , e depois ho ouvera efte Rei Karllos apenhado del- 
le fobre certo ouro : emtom defembargoulho , e foi emtreguc 
de todas eftas coufas , as quaaes lhe o duque fez aver mujto 
defpachadamente. Em efte comeos vijnhamíTe pêra elRei ca- 
da dia cavalleiros e efcudeiros deCaftella, e davamlhe novas 
^omo o Primçipe com elRei Dom Pedro nom eram avijm- 
dos 5 nem em boom acordo , e que os mais da fua parte que 
forom prefos na batalha , eram ja foltos , e eftavom nos cafteU 
los que primeiro tijnham, de que faziam guerra a elRei Dom 
Pedro ; e foube mais como alguumas villas e cidades eftavom 
por elle e toda Bizcaya. E ouve cartas dalguuns feus ami- 
gos cavalleiros IngreíTes , que amdavom com o Prinçipe , e 
forom em feu ferviço quamdo elRei Dom Hemrrique emtra- 
ra em Caftella , que nom tornaíTe ao reino , ataa que o Prim- 
çipe fofíe fora delle , por que elRei Dom Pedro depois que 
partira de Burgos , e fora pêra Sevilha, pêro o Primçipe ef- 
perara os quatro mefes da primeira pagua , que numca mais 
ouvera recado , nem lhe fora emtregue nenhuuma coufa de 
quamtas lhe avia prometidas í') , e que emtemdiam que cedo fe 
partiria pêra fua terra deíavijmdo de 1 Rei Dom Pedro , e que 
o iiom tornaria mais aajudar , nem as gentes que com el vc- 
herom , por todos feerem delle mal contemtos ; e mais que 
o Prinçipe avia novas , que Lemofim , e Perrim de Saboya 
Com outros per modo de companhias lhe faziam guerra no 
ducado de Guiana, que fua eftada nom feeria mujto em Caf- 
tella. Aífi que com eftas novas e outras femelhantes , que a el- 

. ,.,3,.., .. Rei 

Cl) Sefcllo T. (2) fervio B, (5) prometido T, 



^TCílT o, 



d'elRki d. Fernando. ifp 

Rei Dom Hemrrique vijnham cada dia , era muj ledo, e co- 
brava esforço. 

CAPITULO XVI. 

Como elRei Dom Hemrrique hordenou de tornar pêra 

Cajlella , e como e/Rei Daragom embargava ^'^ 

a pajjagem per feu reino» 

QUamto o Primçipe durou em Caftella , e como partio, 
nem de que maneira , nos mais nom fabemos do que te- 
emdes ouvijdo ; mas como elRei Dom Hemrrique foube 
novas certas de fua partida , hordenou de fe tornar a Caftel- 
la, e vioíTe na villa que chamam Auguas mortas com ho du- 
que Damgeus , e Dom Guilhem cardeal de Bollonha , parente, 
delRei de França ; e alli fezerom feus trautos com elReí. 
Dom Hemrrique , em nome delRei de Framça , os mais for- 
tes que poderom , firmados com juramentos , e deu o duque 
a elRei Dom Henrrique foma de dinheiros pêra ajuda de fua' 
vijnda. Dalli partio elRei , e tornouíTe a Pêra pertufa homde 
leixara fua molher e filhos , e tijnha eftomçe ataa duzemtasí 
lamças , e mandou bufcar companhas pêra trazer comfigo , e 
veheromlhe capitaaens com gentes , a faber ,o comde da Ilha, 
c Dom Bernal conde de Oflbna , e o baftardo de Learmen ^ 
e MoníTe Bernj de Villamur , e el begue de Vilhenes ; e par-r 
tio logo caminho de Gaftella com elles , e levou comfigo a- 
Rainha fua molher , e o Iffante Dom Joham , e a líFamte Do- 
na Lionor com outras donas e domzellas leixou no caftella 
de Pêra pertufa. ElRei Daragom , que parte foube de fua tor- 
nada , e como avia de pafíar per feu reino , mandoulhe di- 
zer que el era amigo do Primçipe deGallez, e que lhe nom 
quiria fazer nojo , e que porem lhe requiria que nom paífaf- 
fe per fa terra , e f e o doutra guifa quifeíTe fazer , que nont 

■ -^ p"-. 

(O lhe enbargava T, 




i^^o Chronica 

podia efcufar de lha defemder. ElRei refpomdeo aaquei que 
lhe levou eftas novas, e diíTe : 5> Maravilhome mujto delRei 
5> Daragom emviarme dizer tal coufa como efta ^ ca bem fabc 
3> elle que no tempo que lhe eu fui compridoiro em ília guer- 
5> ra , que numca lhe falleci cada vez que me meftcr ouve , 
5> e por a emtrada que eu fiz em CaíteJla , cobrou cl çemto 
j> e vijmte caftellos que lhe elRei Dom Pedro tijnha toma- 
3> dos , e hora manda me dizer que nem paffe per feu reino. 
3> A mim com vem de hir a CaAella , e nom poiíb efcufar que 
55 nom paíTe per cUq , e fe me el quifer torvar e teer o ca- 
35 minho , fará em ello fua voontade ; mas eu nom polFo efcufar 
yy a quem me torva der , ou quifer embargar , que me nom 
3) defenda dei o melhor que poder jj. Tornoufe o cavalleiro 
com efta repoíla , e elRei hordenou de lhe teer os caminhos. 
Em Aragom avia mujtos que tijnham por parte dclKci Dom 
Hemrrique , e amavom mujto feu ferviço e homra , aíTi co- 
mo o IfFante Dom Pedro comde de Denia , e o comde Dom 
Dampurjas ('^, e Dom Pedro de Luna , e o arçebifpo de Sa- 
ragoça e outros : e o Iffamte Dom Pedro emviou a elRei 
Dom Hemrrique huum feu efcudeiro que o guialTe per terra 
de Ribagorça , e vijnha elRei pello reino Daragom reçe- 
hcmáo gram nojo dos que lhe tijnham os camjnhos , pêro 
nom oufavam de lhe atemder a batalha ; c chegou elRei a 
3huma villa do líFante Dom Pedro que dizem Arrens , e alli 
eíteve dous dias repoufamdo : depois partio dalli , comtinuam- 
do feu caminho , e achouho em outro feu logar que cha- 
mam a Bem a rapa , e o líFante fezlhe dar viamdas e todo 
© que meíter ouve. Moveo elRei per fuás jornadas e chegou 
aEítadilha, e alli ouve novas como elRei Daragom manda- 
va aos feus que fahiíFem de Saragoça ao caminho a pellciar 
com elle, e foi eífa noite dormir aBelvaftro, e alli lhe dif- 
ferom como elRei Daragom era em Çaragoça , e que man- 
dava a todollos feus paíTar a ponte de fobre Ebro , que lhe 
folTem teer o caminho , e elles faziamno de muj maamente , 

ca 

O) c o conde Dampurjas 7*. 



d'elRei D. Fernando. i^i 

ca os mais dcUes quinam bem a elRei Dom Hemrrique ; e fe- 
gumdo ('^ feu caminho , paílbu pello reino de Navarra, e che- 
gou a vifta de Callaforra na fromtaria de Gaftella , e ante que 
chegaíTe aa cidade, preguntou eiRei aos que com el vijnhami 
fe eftavom ja no termo de Caílella , e dilTerom que íi, e el- 
Rei deçeoíTe do cavallo , e ficou os geolhos em terra , e fez o 
final da cruz em huum areal que alli era, e diíTe : 5> Eu ju- 
39 ro a efi:a finificamça de cruz , que nunca em minha vida , por 
3> meíler que m^ avenha , íaya do reino de Gaftella , e que 
39 ante efpere minha morte , ou quallquer ventuira que me 
39 aveher, que ja mais fair delle >5: e efto dizia elRei , por 
que fahira do reino depois da batalha de Najara , achara í^^ 
aíHiz graves todallas coufas que ouve de livrar com feus ami- 
gos em feito de fua ajuda; e armou alguuns cavalleiros an- 
te que chegaíTe a Callaforra , homde foi bem recebido com 
todollos que com el vijnham ; e chegarom alli a elRei Dom 
Joham Aífbmfo Dalfaro , e Dom Joham Ramirez Darelhano, 
e doutros cavalleiros e efcudeiros que amdavom pei Caílella , 
ataa féis centos homeens darmas, e elRei folgou muito com. 
elles 5 e forom delle muj bem recebidos. 

CAPITULO XVII. 

Como elRei Dom Hemrrique emtrou em Burgos , e co^ 
brou o cafiello e ajudaria» 

ESteve elRei alli alguuns dias omde fe muj tos veherom 
pêra elle , e partio caminho de Burgos ; e paflamdo açer- 
,ca da villa doGronho, que tijnha da parte delReiDom Pe- 
dro , nom a pode cobrar , e emcaminhou pêra a cidade ; e an- 
te que la chegafl!e mandou faber a voontade dos do logar , fe 
o colheriam em ella. Aos da cidade prougue muj to com fua 
vijmda, e emviaromlhe feus meíTegeiros que no outro dia em- 

traf- 

(^O feguymdo T. B, (z) e achaxa 7". 
/ 






léi Chronica 

trafíe em ella , ca todos eram preftes de lhe obedecer ; c pof- 
to que o caftello efteveíTc por elRei Dom Pedro, e dentro 
com ho alcaide ataa duzentos homeens darmas , e iíTo meef- 
mo ajudaria teveíTe fuavoz, que nom leixaíTe de hir porem, 
ca todcs fe vijnriam depois a fua merçee. EiRei partio lo- 
go e foilTe a Burgos, e reçeberomno muj homrradamentc to- 
do o poboo ecleerezia, nom embargamdo que do caftello ti- 
ravom feetas e troons. ElRei hordenou de combater o caf- 
tello e ajudaria, e fez fazer cavas, e tirar com emgenhos , 
e os Judeus preitejarom logo de ficarem por feus , e fezerom- 
3he ferviço de huum conto. Aíronfo Fernamdez alcaide do 
caftello perfiou alguuns dias por fe defemder , aacima deu o 
caftello a elRei Dom Hemrrique , e emtregoulhe elRei de 
Neapol que eftava dentro , que vchera em ajuda delRei Dom 
Pedro aa batalha de Najara , e elRei mandouho ao caftello 
de Turiel , e depois ouve delle oitemta mil dobras , que pa- 
gou de remdiçom aa Rainha Dona Johana fua molher. Alli 
ouve novas elRei Dom Hemrrique , como a cidade de Cór- 
dova eftava por elle , e como elRei Dom Pedro eftava em 
Sevilha e bafteçia muito a villa de Carmona , e foi bem 
ledo com eftes recados , e mandou a Rainha fua molher e 
o Iffante feu filho pêra terra deToUedo, ca tijnha em eíTa 
comarca muj tos logares que eftavom por elle ; e forom 
com ella ho arcebispo de Tolledo , e o bifpo de Palcn- 
ça e outros. ElRei depois defto foi cercar a villa de Do- 
nas (^) , por que aquel logar he no caminho de Burgos e de 
Valhadolide , e faziam dalli muj to dampno e eftorvo ; e el- 
Rei Dom Hemrrique depois que hi chegou , fezea cercar e 
tirar com emgenhos. Rui Rodrigues que no logar eftava , 
aprazouíTe ataa certos dias ; e nom avemdo acorro í-^ delRei 
Dom Pedro , paíTado o prazo deu o logar a elRei , e ficarom 
todos em fua merçee. 

CA- 

CO Doenhas T. (z) acordo T. 



d'klRei d. Fernando. i6^ 

; CA PI T U L O XVIII. 

Como elReVDom' Hemrriq^fe cercou a cidade deLeonPy 
e mandou lavrar a moeda dos fejjenes,'^ ^'^^^-^'^^ 

CPmeçauíTç a. eja de quatro centos e fels , e o í'^ terceiro 
'àtiò que reinava- -elRei Dom Hemrrique ■■ e no mes de ja- 
neiro- pardo elR"<^i )da villa de Donas (-^,e foi çercar..íi .cidade 
de Leom ; e a cidade eíl:ava por elFvei Dom Pedro , e os fidallgos 
da terra por elRei Dom Hemrrique : e fez huuma baílida 
no mofteiro de Sám-Domimgos, ■ e pofta "a huuma torre do 
logar , nom a poderom os de demtro defcmder , e deromlhe 
a cidade , e ficarom todos por feus : partio elRei de Leom 
depois que a cobrou , e foi combater Outer de fumos , que 
eítava por elRei Dom Pedro , e deufelhe , e aíli fezerom ou- 
tros logares ; e acordou dhir a Hilhefcas , que fom féis legoas 
de ToUedo , homde eftava a Rainha fua molher , e alli eíleve 
alguuns dias pregumtamdo a todos que lhe parecia que era 
bem dé fazer 5 fe amdaria pelo reino , ou fe cercaria a cida- 
de de Tolledo. Sobreílo ouve mujtos comfelhos , e em fim 
acordarom que a foíTe cercar, polias mujtas viamdas que na- 
quella comarca avia , e pos fcu arreai da parte da veiga aos 
trijnta dias do mes dabril. Com elRei eftavom ataa mil. ho- 
meens darmas , e na cidade avia ataa féis centos de cavallo , 
e mujta" gente de pee ; e por fe elRei mais apoderar fobre 
o cerco da cidade , fez logo cercar todo o arreai , e fazer no 
Tejo huuma ponte de madeira , e certas gentes darmas palTar 
aalem e poufar alli , e mandou liir a Rainha fua molher e o 
lífmte peia a cidade de Burgos , pêra teerem ('^ aazo deitar 
dalTeíTego ; e avia no arreai mujtas viamdas, e gramde acorro 
de dinheiíos dos logares que elRei cobrou jazendo alli , e 
doutros darredor que tijnham fua parte ; e pêra pagua das 

Tom. IV. X ^ gen- 

(i) emho 7", (2) Doenhas T, (3) pêra ter T. 



k 



i6a C h r o n I c a 

gentes que com elRei andavom , ouve acordo de lavrar moe- 
da nova , e fezerom huuns que chamavom felTents , que huuni 
delles vallia féis dinheiros ; e eíla moeda lavrarom (') em Burgos 
e em Tallaveira , e com elja ouve elRei açorrimento pef^ 
"pagua das gentes que comíiguo tijnha. 

CAPITULO XIX. 

Como elRei Dom Pedro fez vijr eIRei de Graúda em 
fua ajuda , e como fe ouvera de perder a ci- 
dade de Córdova. 

LEixemos eftar Tolledo cercada ^-\ e veiamos elRei Dom 
Pedro que fazia em tanto, cllamdo em Sevilha. ElRei Dom 
Pedro Í5) foi certificado de todallas coufajs <jue feu irmaão feze- 
xa 5 defque no reino entrara ataa que cercou a cidade de Tol- 
ledo, e ouve por ello muj gram pefar ; e nom fe trabalha- 
va doutra coufa , fenom de baíteçer a villa de Carmona o 
xnais que podia : e quamdo foube que Tolledo era cercada , 
trautou com elRei de Graada que o veheíTe ajudar com as 
jtiais gentes que podeífe. O Rei mouro foi í^- deito muj ledo , 
|e veo com gram poder , ca trouve comligo nove mil de ca- 
Vallo genetes , e oitenta mil de pee , dos quaaes eram doze 
mil beefteiros , e elRei Dom Pedro avia mil e quinhemtos 
de cavallo , e féis mil homeens de pee , aífi que eram per to- 
dos noveemta e oito mil e quinhentas peíToas ; e com efte 
ajuntamento foi elRei Dom Pedro cercar a cidade de Cór- 
dova , que nom tijnha da fua parte, c era logar de que lhe 
faziam gramde guerra. Na cidade eílavom muj tos e boons 
fidallgos , com gentes aflaz pêra íe deiFemder ; e cuidamdo 
que os mouros pelleiariam com elles nas barreiras , nom fe 
perceberom de poer recado nos muros. Os mouros eram muj- 
tos, e chegarem rijamente (s)aa cidade, em tanto que com a 
muj- 

(i) lavrou T. (2) cercado B. (5) em tanío. Eftando emScvyiiha eiRei 
Pom Pedro T»£, (4) ficou T. (5) muy rijam<jnt« 7, 












Sk 



d'klR£I D. FeR N AN DO. l6^ 

mujta becíbaria foi o combato tam grainde per huuma parte, 
que Abem fallos , capitam mouro que hi vijnha , cobrou a 
coiraça que dizem de Gallaforra , c tomarom o alcaçar velho, 
e fezerom em elle féis portaaes , e fobirom em cima do muro 
alguuns mouros com feus pcmdooens. O defmanho (') foi tam 
gramde em na cidade por eíta razom , que cuidarom que eram 
entrados. As donas e domzellas que eram na cidade , veemdo 
aquefto , fahiam aas ruas e praças , choramdo efcabelladas , pe- 
dindo mercee aaquelles fenhores e cavalleiros , que ouvelTem 
delias doo e piedade , e nom as leixaíTem feer defomrradas 
e poítas em cativeiro de mouros ; e tantas lagrimas e gritos 
e taaes pallavras diziam , que nora avia homem que as ouvif- 
fe , que nom ouveíTe delias compaixom e doo ('^; o qual tanto 
esforço fez cobrar aos que dentro eram , que rijamente ade- 
remçarom pêra aquel logar , em que os mouros eftavom , e 
pelleiarom com eiies aííi de voontade , que per força e maao 
feu grado lhe fezerom defemparar o muro , e os deitarom <>> 
fora da cidade , matamdo delles mujtos e outros cativam- 
do , e ficarom hi os feus pemdooens (4) • e fezerom apreíTa 
correger muj bem aquel rompimento do muro, por que em 
outro (5) dia efperavom femelhante e mujto moor combato ^ 
tomando mujto gram prazer , por que os Deos livrara de 
tamanho perigoo em que forom poftos. Em outro dia torna- 
rom os mouros e a gente delRei ao combato , e acharoiu 
a cidade percibida doutra maneira , e arredaromíTe afora ; e 
prouguera muito a elRei de os mouros cobrarem Córdova e 
adeftruirem , avemdo delia gram fanha , por que eftavom hi 
alguuns taaes que lhe aviam feita mujta guerra; e tornouf- 
fe elRei Dom Pedro a Sevilha , e elRei de Graada pêra 
fua terra. Tornou elRei de Graada outra vez , e cercou 
a cidade de Geem ; os de dentro fairom aas barreiras , e 
aíicados dos mouros ouveromlTe de retraer , e emtrarom os 
mouros com elles de volta, e cobrarom a cidade j e na em- 

X ii tra- 

(n dcfmayo T.£. (2) e dor J". (5) lançarão T. (4) 6 catiyamdQ , fi- 
camdo hy hos pemdoeês T. (5) em ho ouiro T. 



k 



i66 Chronica 

trada foram alguuns dos Chriftaãos mortos e cativos , e os ou- 
tros colheromfle aoalcaçar, e dalli preiteiarom com os mou- 
ros 5 que lhe dariam certa comrhia de dobras e que os dc{- 
çercalTem. Des i partio elRei Dom Pedro de Sevilha , e chc- 
garom a Córdova elle e elRei de Graada , e acharomna per- 
cebida de tal guifa , que nomi provarom de lhe fazer nojo ; e 
tomou elRei de Graada a cidade de Ubeda , que nom era bem 
cercada , e roubouha de todo , e fczea queimar ; e emtrou 
Utreira , e Marchena , e levou delias villas quamtos hi achou 
cativos , e perdeoíFe mujta gente ; ca foi certo que foomente 
do logar de Utreira levarom os mouros onze mil prifoneiros, 
antr e homeens e molheres e moços pequenos ; e cobrou el- 
Rei de Graada os caílellos que elRei Dom Pedro tom.ara , 
quamdo foi em fua ajuda comtra elRei Vermelho , e aimda 
mais alguuns outros , e fezeíTe em efte tempo mujto dano 
na terra dos Chriílaãos por a devifam deftes Reis. Feito efto, 
tornoulTe elRei Dom Pedro a Sevilha , fazemdo todavia baíte- 
çer a villa de Carmona , que he a féis legoas deíFa cidade , 
reçeamdolTe que fe avia de veer em alguum gram perigoo , e 
teer alli acorrimento. 

C A P I T U L O XX. 

Como elRei Dom Henrrique ouvera de cobrar Tolkjo , 

e como juntou fuás gentes pêra pellejar com 

elRei Dom Pedro, 

TOrnamdo a Tolledo que leixamos cercada , elRei Dom 
Hemrrique fez de guifa , que cobrou huuma baftida que 
os da cidade aviam feita em huuma egreia de fobre a pon- 
te , que chamam Sam Servamde ; e alguuns de dentro que 
amavom elRei Dom Hemrrique , tomarom huum dia a torre 
dos abades, que he muj alta e muj forte, e começarom de 
chamar por elRei Dom Hemrrique. Os do arreai poíerom lo- 
go efcaadas aa torre, e fobirom acima bem quarenta home- 
ens. 



«i?r^ oi 



d^elReiD. Fernando. ,i6j 

ens , e poferom cm ella bem çimquo bamdeiras : os da çida^ 
de veemdo aqiieílo , poferom fogo aa torre da parte de den- 
tro que era mais baixa , e os de cima nom o podemdo fof 
frer, ouverom todos de leixar a torre , e deçeromíTe pellas ef- 
caadas. Alguuns outros da cidade que quiferom dar emtrada a 
elRei Dom Hemrrique per vezes , feemdo defcubertos , forom 
mortos por ello. E aveemdo ja dez mefes e meo que Tolle- 
do era cercada , aficamdoa elRei per defvairadas guifas , era 
ja o logar muj minguado de gentes e de mantij mentos , em 
guifa que comiam cavallos emullas, e valia a fanega ('Mo tri^ 
go mil e duzemtos maravidijs. ElRei Dom Pedro que avia 
novas do logar quanto avia mefter feu acorro, e que fenom- 
podiam (^Momgamente teer por aazo dafame quéemel avia, 
mandou chamar toiollos que fua parte tijnham , e trautoii 
com elRei de Graada que lhe deíTe ajuda dalguumas gentes^ 
e ante que partilTc de Sevilha , levou feus filhos e tefouro e 
armas , e pos todo naquella villa de Carmona , que baíleçi? 
da tijnha. Feito eito leixou hi homeens de que fe fiava, e 
partio pêra Alcamtara 5 hu recolheo todallas gentes por quem 
avia emviado , com emtemçom de acorrer a Tolledo. ElRei 
Dom Hemrrique fabendo difto parte, emviou a Córdova a to- 
dollos feus que fe veheíTem pêra elle alli a Tolledo, hu tij- 
nha o cerco , como foubeíTem que elRei Dom Pedro partia de 
Sevilha , por quamto fua voontade era de pelleiar com elle; 
veemdo elles fuás cartas , fezeromno affi , e feeriam per todos 
mil (5) e quinhemtos homeens darmas ; e quamdo elRei Dom 
Pedro chegou a Alcaçar , que he na comarca de Tolledo , eram 
elles em Villa real, dezoito legoas deíTa cidade. ElRei Dom 
Hemrrique em todo efto nom era certo fe elRei Dom Pedro 
vijnha por lhe dar batalha, ou deçercar a cidade , e pois 
a batalha eftava em duvida , ouve acordo de leixar gentes 
fobre a cidade , que nom fe fazemdo que nom perdeíTe o 
tempo e trabalho que pofera em na teer cercada , ca fe re-, 
ceava que elRei Dom Pedro fingeíTe que. lhe quiria dar bata-* 

lha, 

II m 

(O fangua 7". (2) podia Z. (3) e feriáo peerto ide dous myl T. 




tíia^ OT 



1^8 Chroni.ca 

]ha , e el levantado do (') arreai , açaimar a çidcde de gentes c 
darmas e avomdo de viamdas ; e porem leixcu no arreai íeis 
centos homeens darmas e pecocs e beeíleircs com elles ; e 
partimdo de fobre Tolledo , foiíTe pêra huuma villa que clu.- 
Diam Orgas , que fcm çimquo legoas defla cidade , e alli che- 
gan m a elle as gentes que diíTemos que vijnham de Córdo- 
va , e mais chegou alli McníTe ^^^Joham de Claquim , que vij- 
nha de Framça 5 e com aquellcs que vijnham com elle, edou- 
tnos eftramgciros que com elRei amdavom, feeriam ataa feís 
çentas lanças; alli que fe jumtarom alli per todos com elles 
€ com outras gemtes ataa três mil outros homeens de pee , 
Ti.om curou elRci de juntar, falvo aquelles que cada huum 
cuílumava de trazer comíigo , e alli hordenou fua batalha 
per efta guifa: a avamguarda deu a MoníTe Beltram , c aos. 
outros cavalleiros que vcherom de Córdova , e a outra gen- 
te toda que folTem com el cm outra batalha , fem fazer mais 
alias, nem mudar outra hordenamça. E partimdo dalli, foube 
como elRei Dom Pedro paíTara pollo campo de Callatrava , 
e que era acerca dhaum caftello que chamam Montei , que he 
da hordem de Samtiguo''^ e que eram com elle Dom Fer- 
jiamdo de Callro , e Fernamdafonfo de Çamora , e os conce- 
lhos de Sevilha e doutros logares , ataa três mil lanças , e de 
mouros que elRei de Graada mandara em fua ajuda mil e 
ijuinhentos de cavallo. 

CAPITULO XXI. 

Como ouverom batalha elRei Dom Hemrrique c elRei 
Dom Pedro , e foi vencido elRei Dom Pedro, 

ELRei Dom Hemrrique ouve feu confelho de trigofam en- 
te amdar feu caminho, e catar maneira como pelleiaíTe 
com elRei Dom Pedro , ca bem vija que duramdo a guerra 

P^^^^-. 

(i) ho T. (2) MoíTe T, (5) Santiaguo T. £, 



D* E L R £1 Dí F E R N A N D o. I 69 

perlomgadam ente , cobraria elRei Dom Pedro tnujtas avamta- 
geen^ j e por tanro amdoa qiiamto pode por dar aguça a 
poer a batalha , de guifa que chegou acerca de Montei om- 
de eftava elRei Dom Pedro , e alguuns dos que hiam com 
ellc poinham fogo aos matos , por veer o caminho que lhe 
embargava a efcuridom da noite. ElRei Dom Pedro nom ía- 
bia novas delRei Dom Henrrique , nem era certo fe partira 
do arreai de fobrc Tolledo , e tijnha fuás companhas arrama- 
das pellas .aldeãs , a duas e três legoas do logar de Montei. 
Garcia Moram alcaide í'Mo caíiello veemdo taaes fogos, diíTe a 
clRei como pareciam , e que ^^^ viíTe fe eram de feus inmijgos. 
ElRei Dom Pedro diíTe que peníTava que era Dom Gomçallo 
Mexia 5 e os outros que partirom de Córdova, e fe hiam jun» 
tar com aquelles que eftavom em Tolledo ; pêro em eíta du- 
vida mandou elRei fuás cartas a todoUos feus , que poufavom 
pellas aldeãs darredor , que na alva da manhaã fpífem com 
elle no logar de Montei hu eftava. Outro dia gramde manhaã, 
chegou clRei Dom Hemrrique com fas gentes ('^ , que des mca 
poite aviam amdado a viíta do logar de Montei , e alguuns 
delRei Dom Pedro , que elle enviara ao caminho domde pa- 
reciam os fogos , tornaromíTe apreífa , dizemdo que elRei 
Dom Hemrrique com fuás companhas vijnham ja todos miij- 
to preto dalli. ElRei Dom Pedro como efto ouvjo, armouílb 
el e os feus , e poferomfe em batalha acerca do logar d»i 
Montei , e nom eram aimda vijmdos todollos da fua parte, 
que elle mandara chamar aas aldeãs. ElRei Dom Hemrrique 
como chegou , aderemçou com fuás gentes pêra a batalha ; e 
MonlTe Beltram de Claquim , e os mçeftres de Santiago , e de 
Callatrava , com os outros que eram na avamguarda, quamdo 
moverom pêra jumtar com os delRei Dom Pedro , acharom 
huum valle que nom poderom paflar; e elRei Dom Henrri- 
que com os que com elle hiam , que era a fegumda batalha , 
paíTarom per outra parte , e aderemçarom pêra os pemdooens 
delRei Dom Pedro , e tanto que chegarem a elles , forem lo* 



go 

o 



(O alcaide moor B. (2) e que fe T, (3) com aíTaz gente X. 






lyQ Chronica 

PO desbaratados, ca elRei Dom Pedra nem os feus nom fe 
teverom per iienhuum efpaço , e comcçarom de fe hh. Os 
delPvci Dom Hemrrique huuns feguiam os mouros tr.atamdo 
em elles , outros fe deteverom com os déíRei Dora Pedro ^ 
ataa que fe acolheo ao caílello de Montei , e fe emçerrou 
•em ellcj e parte dos feus fe acolherom dentro , outros fugi- 
rem , e delles forom mortos , e delRei Dom Hemrrique nom 
morreo outrem , falvo liuum cavallciro de Córdova que di- 
ziam Joham Xemenez ; e foi cila batalha a hora de prima 
quarta feira quatorze dias de março ^ de mil e quatro çemtos 
^ fete anos. Martim Lopez de Córdova, queelReiDom Pe- 
dro fezera meeftre deCallatrava, vijnha qíCc dia com gentes 
pêra feer com el na batalha , e alguuns daquelles que hiam 
fugimdo , deromlhe novas como era vencido , e el toriíouíTe 
pêra Carmona, hu eílavom os filhos deiRci Dom Pedro, a 
íaber , Dopi Diego , e Dom Sancho e outros , que elRci Dom 
Pedro depois da morte de Dona Maria de Padilha ouvera daU 
guumas outras molheres , e apoderoulTe dos alcaçares da vil- 
lã todos três , e dos tefouros delRei , e de quamto hi achou ; 
e colheromíTe dentro ao logar com elle , ataa oito centos de 
cavallo e mujtos beeíteiros e homeens de pee , ca o logar 
era bafteçido darmas e viamdas em grapde avondança. 

CAPITULO XXII. 

Das razooens que ouve Meem Rodriguez deSeavra com 

Mojfe Beltrmn de Claquim jobre o cerco 

delRei Dom Pedro» 

DEsbaratada aquella batalha , e pofto elRei Dom Pedro 
no callello de Montei , fez logo clRei Dom Hemrrique 
a muj gramde preíTa fazer huuma parede de taipas e de pe- 
dra feca , com que cercou o logar darredor , de guifa que 
^Rei nom fe folTe dalH. Com elRei Dom Pedro eftava no 
^ caf" 



d'£lRei d. Fernando. 171 

caílcllo hiiLim cavallciro de Galliza , que diziam Meem Rodri- 
guez de Seavra , que fora prefo na villa de Brevefca , quamda 
elReiDoniHemrrique entrara novamente no reino; e teemdo 
prefo e remdido huum cavallciro que chamavom MoníTe Bel- 
tram de Deila falia, pagou por elle MoníTe Beltram de Cla- 
quim çimquo mil framcos , por quamto lhe diífe o dito Me- 
em Rodriguez que era natural de terra de Traílamara , que 
Monfle Beltram ouvera eftomçe novamente por comdado , e 
por eíta razom eíleve aquel Meem Rodriguez com MolTe 
Beltram huum tempo , e depois fe foi pêra elRei Dom Pe- 
dro ; e por efte conhecimento que Meem Rodriguez avia 
com MoníTe Beltram , falloulhe huum dia do caftello , e 
diíTe que fe a el prougueíTe , que lhe queria fallar em fe- 
gredo. MoníTe Beltram diíTe que lhe prazia , e devifarom a 
hora quamdo foíTe a falia , e por que a guarda daquella par- 
te era de MoníTe Beltram , veolhe Meem Rodriguez fallar 
de noite , e fuás razooes forom eftas : í> Senhor MoníTe Bel- 
>' tram , elRei Dom Pedro meu fenhor , me mandou que fal- 
V laíTe comvofco , e vos em via dizer aííi , que bem fabe que 
í» vos fooes mui nobre cavallciro, e que fempre vos pagaftes 
» de fazer façanhas de boõs feitos , e por que vos veedes 
» bem o eílado em que elle he ('' pofto, que fevos prouguer 
39 de o livrar daqui e poer em falvo, feemdo com elle e da 
» fua parte , que el vos dará duzemtas (^^ mil dobras caftellaas, 
5> e mais féis villas de jur e derdade íí), pêra vos e voíTos fob- 
55 çeíTores que depôs vos veherem , e peçovos por merçee 
5' que o façaaes , ca gramde homrra cobrarees acorrer a huum, 
í' Rei tal como efte , quamdo todo o mundo fouber , que 
?' por vos cobrou fua vida e reino í>. MoníTe Beltram ref- 
pomdeo a Meem Rodriguez dizemdo : ?> Amigo , vos fabees 
5> bem que cu foom vaíTallo delRei de Framça meu fenhor , 
>9 e natural de fua terra , e foom aqui vijmdo per feu man- 
99 dado a fervir elRei Dom Hemrrique , por que elRei Dom 
» Pedro tem a parte dos Imgrefes e fez liança com elles , 

Tom, ir. Y 5> ef- 

(1) eítaa e he T. elU B. (z) trezeratas X. (5) de juto e de herdade J, 




jy2 ChKONICA 

efpicialmente contra aquelle que eu tenho por fenhor : 
aalem defto eu íirvo elRei Dom Hemrrique , e amdo a fuás 

> gajas e folldo , e nom me compria fazer coufa que contra 

> feu ferviço e homrra foíTe , nem vos nom mo deviecs confe- 
• Ihar ; e rogovos que fe alguum bem ou corteíía em mim 

achaftcs , que mo nom digaaes mais í>. '» Senhor MonlTe 
Beltram , diíTeMcem Rodriguez , eu emtemdo que vos di- 
go coufa que fazemdoo , nom vos he nemhuuma vergonça , 
e peçovos por merçee que cuidees em ello , e avee fobrefto 
boom confelho jj. MoníTe Beltram ouvidas eftas razoôes , dif- 
fe que fe queria avifar fobrelio, pem vcer o que lhe compria 
de fazer em tal cafo. Tornouffe Meem Rodriguez com efte 
recado a elRei í'í, e alguuns diziam depois que el diíFera efto 
com arte a MoníTe Beltram , feemdo em conífelho delRei 
Dom Pedro feer efcarneçido , como depois foi , e que pêro í-> 
elle fora prefo quamdo elRei Dom Pedro foi morto , que to- 
do fora arte do dito Meem Rodriguez , por quamto lhe el- 
Rei Dom Hemrrique depois deu em Galliza dous legares de 
jur e derdade. Outros dizem que efto nom pareçeo íeer aflí , 
por que Meem Rodriguez era muj boom cavalleiro , e nom he 
de creer que fezefle tal coufa comtra feu fenhor , moormen- 
te que depois tomou a parte delRei Doni Pedro , e pelFeve- 
ramdo 0^ em ella , acabou fua vida. 

CAPITULO XXIII. 

Como elRei Dom Pedro fahiu de Montei y e como foi 
morto ^ e em que logar. 

MOnflTe Beltram ficou bem cuidofo por as razooes que lhe 
Meem Rodriguez diíFe , e outro dia chamou feus pa- 
remtes e amigos que alli eram com elle , eípeçiallmente hu- 
um feu primo que diziam MoníFe Oliver de Mani , e diíTelhe 

to- 

(i) ã clRei Dom Pedro 7", (2) e que per T. (5) perflevcramdo 7". 



SI2« Ol 



d'£lRei d. Fernando. 175 

todallas razooes que lhe Meem Pvodriguez avia prepoítas, e 

que lhe deíTem comíTelho como lhe parecia que devia fazer; 

porem que logo lhe notificava , que em nenhuuma maneira da 

mundo elle nom faria tal coufa , feemdo elRei Dom Pedra 

emmijgo delRei de Framça feu fenhor , e de mais delRei 

Dom Hemrrique , a cujas gajas cferviço el amdava; mas que 

lhe pregumtava , fe eíla razòm que lhe Meem Rodrigues. 

cometera , fe a diria a elRei , ou fe faria mais fobrello , pois 

lhe cometia í^^ coufa que fiizemdoa , era deferviço dos ditos (^^ 

fenhores , des i era- cafo de traiçom. Os cavalleiros parentes 

de Monífe Beltram , e alguuns outros com que efto fallou , 

ouvjdas as razoões que amtrelle e Meem Rodi iguez ouvera , 

diíTerom que elles em a-quelle comíTelho ourorgavora , que el 

nom fezelíe coufa que contra í'^ feiTÍço delRei de Framça feu 

fenhor foífe , nem iíTo meefmo delRei Dom Hemrrique a cu-. 

jas gajas eftava , de mais pois fabia que elRei Dom Pedro 

era bem emmijgo dos ditos fenhores ; mas dilTeromlhe que 

lhes parecia bem que o fezeíTe faber a elRei Dom Hemrri- 

que. MoíTe Beltram creemdoos de comflelho, fallou a elRei 

todo o que lhe avehera com Meem Rodriguez de Seavra ^ 

elRei Dom Hemrrique lho gradeçeo mujto , e diíTe que a 

Dcos graças melhor guifado tijnha elle de lhe dar aquel- 

las vi lias e dobras que lhe elRei Dom Pedro prometia , que 

nom el ; e prometeo logo de lhas dar , rogamdolhe que dif- 

feíle a Meem Rodriguez que elRei Dom Pedro veheíTe fe- 

guro a fua temda , e que elle o poeria emfalvo, e como hi 

foíTc 5 que lho fezelTe faber. Monífe Beltram duvjdou de fazer 

cílo , pêro per aficamento de alguuns parentes feos demoveof- 

fe ao fazer , e nom teverom porem os que eíla razom ou-» 

vjrom falvo que fora muj mal feito: ca dizem alguuns que 

quamdo Monífe Beltram tornou a repoíla a Meem Rodri? 

guez , que paíTarom muj gramdes juramentos antrelles que 

poeria elRei Dom Pedro em falvo , de guifa que elRei fe 

teve por feguro d elle • nem- he de cuidar que elRei Dom Pe- 

Y ii dro 

(I) cometera B, (2) dos dous J. (3) coAtra ei 2". 




/ 



174 C H R o K I C A 

dro doutra guifa falra ('Mo caftello , e fe pofera em feu po- 
der ; mas por o grande aficamento em que fe vija , em íe par- 
tirem alguuns dos feus delle , e vijnrenfe pêra elRei Dom 
Hemrrique , des i polia augua que nom tijnham fe nom muj- 
to pouca , e com esforço das juras que lhe feiras aviam , ou- 
veíTe daventuirar huuma noite, avendo ja nove dias que ja- 
zia no caftello ; e veftio huumas folhas , e cavalgou em cima 
d'huum cavallo genete , e com elle Dom Fcrnamdo de Cal- 
tro 5 e Diego Gomçallvez filho do meeftre Dalcantara , e 
Meem Rodriguez e outros , e veoíTe pêra a poufada de MoíTc 
Beltram , e defcavalgou do cavallo , e diíTelhe : » Cavalgaae, 
5> ca tempo he que nos vaamos ?> : e nenhuum rcfpomdco a 
efto, porque fezerom ja faber a elRci Dom Hemrrique como 
elle eftava com MoíTe Beltram. Quamdo cfto vio elRci Dom 
Pedro , pos duvida em fua eftada , e nom ouve ifto por bo- 
om final , e quifera cavallgar em feu cavallo , e huum dos que 
eftavom com MoíTe Beltram , travou delle e difle : >» Efpcraae 
i?> huum pouco, fenhor >> : e deteveo que nom partiífe. Em 
cfto chegou elRei Dom Hemrrique armado de todas armas , 
com o baçinete pofto em na cabeça , como eftava preftes pêra 
ctte feito ; e como entrou na temda de Mofle Beltram , travou 
flelRei Dom Pedro , e nom o conhecia bem por aver gram 
tempo que o nom vira. Mas aqui fom defvairadas oppiniooes, 
pofto que a fim toda feia huuma , ca liuuns dizem que tra- 
vamdo elRei Dom Hemrrique delle, que aimda duvidava fe 
eraelRei, eque huum cavalleiro de Mofle Beltram lhe diflc : 
3> Veede ca cfíe he vofl!b emmijgo»: e que refpondeo logo 
elRei Dom Pedro duas vezes , dizemdo : » Eu fom , eu fom >t : 
c que eftonçe o conheçeo melhor elRei Dom Hemrrique , e lhe 
cleu com huuma daga (^^ pello rofto , e o derribou cm terra , fe- 
rimdoo doutras feridas , foi morto aaquella hora. Outros afir- 
mam efcrepvemdo em feus livros , que elRei Dom Pedro quan- 
do fe vio em poder de feu irmaao , e como era traido daquel- 
la guifa, que fe lançou a el rijaínente dizemdo:" Oo tree- 

dor , 
(i) faycia T. (2) adagua 7. 






d'elRei D. Fernando. ^75' 

39 dor , aqui eftas tu ?> : como í^' homem de gram coraçam qui- 
feralhe dar com huuma daga que lhe ja tomada tijnham , e 
quando a nom achou , que fe emviou a el a braços , e deu com 
el cm terra , c que eftomçe Fernam Samches de Thoar que 
era huum dos cavalleiros que elRei Dom Hemrrique comíi' 
go levava \ tirou elRei Dom Pedro de cima , e voltou elRei 
Dom Hemrrique fohre elle , e que defta guifa foi morto ; em 
outra maneira fe os leixarom ambos , creeíFe todavia que el- 
Rei Dom Pedro matara feu irmaao. Hora nos comcordamdo 
o defvairado razoar deites e doutros autores , dizemos per ef- 
ta maneira: a queeda feia dambos , e elRei Dom Pedro avu- 
do por boom e ardido cavalJeiro , que em tal tempo nom per- 
deo coraçom e esforço; mas el fem nenhuuma ajuda, e el- 
Rei Dom Hemrrique com mujtos matouho per fa maão , e 
aíE acabou fua trabalhofa vida. 

CAPITULO XXIV. 

Como foi fahudo pello reino que elRei Dom Pedro er^ 

morto y e da maneira que elRei Dom Hemrrique 

teve em alguuns logares, 

GRamde arroido foi no arreai quamdo fouberom que el- 
Rei era morto , e forom prefos em eífa ora Dom Fer- 
namdo de Caftro , e Meem Rodriguez de Seavra , e Gom- 
çallo Gomçalvez Davilla , e outros que com elRei fahirom 
do caftello ; e foi fua morte vijmte e três Í^J dias de março de 
mil e quatro çemtos e fete ^^\ avemdo emtom de fua hidade 
trimta e cimquo anos e fete mefes : homem de boom cor- 
po 5 bramco , c ruivo , e çeçeava huum pouco na falia , e vi- 
veo em feu reino ataa que fe Dom Hemrrique chamou Rei 
em Callaforra , dez e féis anos compridos, e reinou três anos 
em contemda com elle : e morto alfi fegumdo ouviítes , de- 
pois 

(i) e como T,B. (2) a xxiu T. (3) e fete annos T, 



tíiaca OT 



17^ Chronica 

pois foi levado a Tolledo , c fcpultado com os outros- Reis. 
Os que no caftello de Montei cftavom, deromlTc todos a el- 
Rei Dom Hemrrique , e çntregaromlhe todallas coufas que 
delRei Dom Pedro forom ; e iflb nieefmo fe lhe deu Tolle- 
do 5 aquella cidade que tijnha cercada. De Montei partio el- 
Rei Dom Hemrrique , c emcaminhou pêra Sevilha , que ja 
tijnha tomada voz por ellc , e dalli mandou todallas gentes 
pêra fuás terras. Outro íi foi certo que Cidade Rodrigo , e 
Çamora , e Carmona, que damte eftavom por elRci Dom Pe- 
dro , nom quiriam tomar fua voz , com alguuns outros logares ; 
e elRei fez cometer a Marti m Lopez de Córdova , meeftre 
que fe chamava de Callatrava , e aos outros que eftavom em 
•Carmona com os filhos delRei Dom Pedro , que elle poeria 
os moços e elles todos com os tefouros e joyas que delRei 
Dom Pedro ficarom , e com todo o feu , demtro em Purtugal , 
ou emGraada, ou em Ingraterra , qual ante quifeíTem, e lei- 
xaífem o logar fem mais contemda ; e elles nom quiferom 
fazer nemhuuma preitefia. Aakm deílo fez cometer a el- 
Rei de Graada tregoas por alguum tempo , e o Rei mouro- 
nom fe outorgou em ello ; e elRei veemdo eito , leixou feus 
fromteiros naquella comarca , e emcaminhou pêra Tolledo, que 
ja tijnha fua voz delle ; e alli ouve comfelho que pofto que 
lançaífe gramde peita pello reino , nom avia poder de che- 
car a comprimento de pagar o folldo que devia , e por nom 
anojar e agravar os poboos, mudou a moeda em mais baixa 
lei ; e efta mudamça prefemte pêra pagua dos eftramgeiros , 
mas dapnou mujto a terra fobimdo as coufas em tam gram- 
des preços , por a moeda que era febre , que vallia huuma do- 
bra trezemtos maravidijs , e huum cavallo fefeemta mil. 



CA- 



!>*£ lRex D. Fernando. 177 

CAPITULO XXV. 

Quaaes logares t ornar om voz por elRei Dom Fernamdo , 
e dalguumas gentes que Je veherom pereele, 

COmo elRei Dom Pedro foi morto, alguuns dos que tij- 
nham os logares por elle , tomarom voz por elRei Dom 
Hemrrique ; outros que lhe obedeeçer nom quizerom , efcre- 
pverotn logo a elRei de Purtugal , que fe fua merçee foíTe de 
os aver por feus , que levamtariam voz por elle , e que co- 
meçalTe emtrar (O per Caftella , e que lhe dariam as villas , e o 
receberiam por fenhor , fazemdolhe delias menagem. ElRei 
Dom Fernamdo muj ledo daquefto , refpomdeo a todos que 
lhe prazia mujto, e que os avia por feus e lhe faria mujtas 
merçees , e lhe acorreria com fuás gentes , e per corpo fe 
cercados foíFem , e lhe mefter fezelfe. E as cidades e villas 
que tomarom fua voz , forom eftas , Carmona , Çamóra j Ci- 
dade Rodrigo , Alcamtara , Vallença Dalcamtara ; e mais de 
Galliza , a cidade de Tuj , Padrom , Arrocha , Acrunha , Sal- 
vaterra , Bayona , Alhariz , Millmanda , Arahujo , a cidade 
Dourenfc , a villa de Ribadaiva , e Lugo , (^^ a cidade de Sarn- 
tiago , que fedeu mais tarde , e com certas comdiçoões. E 
aíFi como eftes logares fe derom a elRei Dom Fernamdo , af- 
íi fe veherom logo pêra elle com fuás gentes todollos íidall- 
gos e cavalleiros que eram da parte delRei Dom Pedro , af- 
íi de Galliza come de Caftella , afora aquelles que eftavom nos 
lagares que tomarom voz por Purtugal ; e os nomes dalgu- 
uns delles fom eftes: Dom Affbnfo , bifpo de Cidade Rodri- 
go , que deu a elRei os caftellos da Feolhofa e de Lumbra- 
]cs , o comde Dom Fernamdo de Caftro , Alvoro Perez de 
Caftro feu irmaao baftardo , que depois foi comde; o meeí- 
trc Dalcamtara Dom Pêro Girom, Femamdafonfo de Çamo- 

. fa> 



(i; a emtrar T. (2) e loguo T. 






178 Chuonica 

ra , Joham AíFonlTo de Becça , Joham AffoníTo âc Mo.^ica , 
Sucire Annes de Parada adeamtado deGalliza, Gomçallo Mar- 
tins de Caçercs , Alvoro Meemdez de Cáceres , AíFoííiíTo 
Fernamdez de Lacerda , Joham Perez de Novoa , Joham Pe- 
rez Daça , Fernam Rodriguez , Alvoro Rodrigucz feus ir- 
maãos 5 AíFoníTo Fernamdez de Burgos , Meem Rodriguez de 
Seavra , AíFoníTo Lopez de Texeda , AíFoníTo Gomez Churi- 
chaão , Diego AíToníFo de Carvalhal , Gomez Garcia de Foyos , 
Martim Garcia Daliazira , Joham Fernamdez Ãmdeiro , Pe- 
drafonfo Girom , Martim Lopez de Cidade , AíFoníTo Vaai- 
quez de Vaamondo,, AffomíTo Gomez de Lira , e Lopo Go- 
mez , Fernam Caminha e feus filhos , Diegafonfo de Proa- 
nho 5 Fernam Goterrez Tello , Diafamchez adeamtado de Ca- 
çolla , Garcia Perez do Campo, Pcro Diaz Pallameque , Die- 
go Diaz de Gayofo , Fernamdallvarez de Qtieiroos , Garcia 
Prego de Montaão , Diego Samchez de Torres, Joham Af- 
foníTo de Çamora , DiegaíFoníTo de Bollanho , Amdree Fer- 
namdez de Vera , Álvaro Diaz Pallagoillo , Gomçallo Fernam- 
dez de Valladares , Bernalde Anes do Campo , Martim Cha- 
morro filho do-meeítre Dalc^mtara. Eítes e outros que norti 
nomeamos fe veherom pêra elRei Dom Fernamdo , delles ('> 
juntos em companhia , e outros per fi com fuás gentes , fa- 
zemdo emtemder a elRei que aífi como aquelles logares to- 
marem fua voz , que aííi fariam outros mujtos , em tanto 
que entemdiam que era pequena maravilha feer Rei de Caf- 
tella , ou da moor parte delia ; e quamdo feer Í-) nom quifcíTe , 
que podia fazer Rei huum dos filhos delRei Dom Pedro 
íeus fobrinhos , que tijnha Martim Lopez em Carmona ; aííí 
que d'huuma guifa ou doutra , nom fe lhe podia deílo fe- 
guir fe nom muj gramde homrra e proveito, des i vimgança 
da morte delRei Dom Pedro feu primo , em que moílraria 
gramde façanha que lhe todo o mundo teeria a bem. ElRei 
diíTe que de Caítella fecria Rei quem Dcos quifeíTe , mas que 
cl fe trabalharia a todo feu poder de vimgar a morte delRei 

Dom 
(i) e ellcs T. (2) o feer £. 



d'elRei d. Fernando. 179 

Dom Pedro feu primo : e dizem alguuns que mandou fazer 
queixume ao Papa , e a eIRei de Ingraterra , e a feus filhos , do 
mal e defomrra, que Dom Henrrique avia feito a elRei Dom 
Pedro feu primo , em no matar daquella quifa , e lhe tomar o 
reino ; e que a efto forom Dom Martim Gil bifpo Devora , e ' 
o almiramte , quamdo os elRei mandou em meíTugem ao Prim- 
çipe e a outros fenhores em duas gallees. 

CAPITULO XXVI. 

Das aveemças que elRei Dom Fernamdo fez com elRei 
de Graada 5 por fazerem guerra a elRei Dom 

Hemrrique, 'ívh 

ELRei Dom Fernamdo era gramdiofo de voontade , e que*» 
remçofo daquello que todollos homeens naturallmente de- 
feiam , que he acreçemtamento de fua boa fama, e homrro- 
íb eftado : e quamdo vio que fem feu requerimento o mun- 
do lhe offerecía caminho aíE aazado pêra cobrar tam gram- 
de homrra, fem mais efguardando contrairos que avijnr po- 
deíTem , determinou em toda maneira de feguir efte feito e 
levar adeamte ; veemdo em fua voomtade tantas ajudas pêra 
ello preftes , que lhe pareçeo ligeira coufa toda Caílella feer 
lua em pouco tempo. E feemdo certo como elRei de Graa- 
da nom quifera fazer tregoas com elReiDomHemrique, por 
aazo da morte delRei Dom Pedro, cujo mujto amigo era, 
por as razooes que ouviíles ; trautou logo com el fuás ave- 
emças , e forom em efta guila : que ambos fezelfem guerra a 
todollos que fua voz tomaíTem e folTem em fua ajuda , e ef- 
ta guerra foífe per mar e per terra, e que elRei de Graada 
nom fezeíTe paz nem tregoa com elRei Dom Hemrrique , mas 
todavia foífe em ajuda delRei Dom Fernamdo , conthinuam- 
do a guerra contra elle , e que quaaes quer villas que tomaf- 
Tom, IV, Z íem 



, igo Chronica 

fem voz por elRei Dom Fernamdo , que foíTem feguras dei- 
Rei de Graada , e iíTo meefmo as que tomaflem voz por el- 
Rei de Graada foíTem feguras delRei Dom Fernamdo : e que 
fe o Rei mouro fezeíTe vijnr gentes deBellamarim , ou dou- 
tros logares 5 em fua ajuda comtra elRei Dom Hcmrrique , que 
el foíTe theudo de pagar o folldo , fem cuftamdo á elRei 
Dom Fernamdo nenhuuma coufa j e per eíFa guifa vijmdo 
gentes eftrangeiras em ajuda delia guerra a requirimento del- 
Rei Dom Fernamdo, que elRei de Graada nom foíTe theu- 
do a lhe pagar parte do folldo que por fua vijmda ouveffem 
daver : e que quaaes quer villas ou logares que tomaflem voz 
por elRei de Graada , depois que as comquerifle ou himdo pê- 
ra as comquerer , que feemdo taaes logares per feu mandado 
deftruidos , que nora fofle porem cila paz quebrada, pois que 
o nom faziam fe nom com medo ; e per efta maneira fezef- 
fe elRei Dom Fernamdo aos que tomaflem fua voz quan- 
do lhe prouguefle de o fazer , fem quebrando porem efl:a 
aveemça , a qual os Reis firmarom antre li por tempo aílína- 
do de çimquoemta anos , com gramdes juramentos , fegum- 
do a creemça de cada huum , feitos da huuma parte aaou- 
tra a nom falleçer dello , por coufa que aveheíTe. 

CAPITULO XXVII. 

Que maneira tijnha elRei Dom Fernamdo com os fidalh 
gos 5 que fe de Cajlella pereelle veherom, 

E Ouvido ante defto quaaes logares tomarom voz por el- 
Rei Dom Fernando, e os nomes dalguuns fidallgos que 
fe pereelle veherom , bem he que faibaaes que geito tijnha 
elRei com elles , e des i fe ufou dalguum fenhorio nas vil- 
las e cidades que eftomçe fua parte teverom:,e dizendo pri- 
meiro da maneira que elRei com elles tijnha , efl:a era muj 

honr- 






/ 

d'elRei D. Fernando. i8i 

hcnrrofa c de gramde gafalhado, ca aalem de elRei feer gra- 
ado e liberal í'^ nom foomente aos feiís , masaimda aoseílram- 
geiros , a eftes aíHjnadamente moftrava elRei gramdes ga fa- 
lhados , c partia com elles mujto graadaiiiente , em tanto 
que era prafmado dos de fua terra , e lho diziam per vezes 
no coníTelho , e el refpomdia aos fidailgos que lhe em ifco 
fallavom , que os fcus aviam cafas e terras em que abaftada- 
mente podeíTem viver , e os que vijnham defacorridos , avijam 
meíter bem apoufemtados e fazerlhes mujtas merçees : emtom 
lhes rogava a todos que fempre deíTem deífi mujta homrra 
aos eftramgeiros , dizemdo que em efto fe moftravom fempre 
os boons fidailgos 5 darem deíJi mujta homrra e acolhimento a 
quaaes quer boons que vijnham defacorridos. Aíli que dizem- 
do per meudo quamtas grairidezas contra elles moftrou , fe- 
cria lomgo proçeíTo douvir : porem queremos que tanto fai- 
baaes , que depois da morte defte Rei Dom Hemrrique, 
eftamdo huuma vez elRei Dom Joham feu filho em huuma 
villa de Caílella , que chamam Medina dei campo , poufava 
alli em huumas pequenas cafas , de guifa que çeamdo el em 
huuma eftreita camará que em ellas avia , eilavom alguuns 
fidailgos fora razoamdo em mujtas coufas , dos quaaes era 
huum Fernam Piriz Damdrade í^), e Alvoro Piriz do Soiro , e 
Garcia Gomçallvez de Grifalva e outros , e começarom de 
fallar nas graadezas dos Reis de Purtugal e de Caftella , qua- 
aes delles forom mais graados , e huuns delles diziam que el- 
Rei Dom Hemriique fora muj graado , e outros nomeavom 
elRei Dom Affonfo, e aífi dos antijgos Reis de Caftella ca- 
da huum fegumdo lhe prazia ; e pêro hi Portuguefes nom ef- 
tevelTem, começarom de louvar mujto elRei Dom Denis de 
Purtugal , dizemdo que amtre os Reis Defpanha que de 
graadezas ufarom , el tevera gramde avamtagem ; e fallamdo 
cm ifto , começarom alguuns de dizer que elRei Dom Fer- 
nando era o mais graado Rei , de que fe os homeens po- 

Z ii diam 

. (i) ser muy gramde, graado e muyio libeeral T. (í) Fernamdo Peeres 
Damecaade T» 



m^ 



i82 Chronica 

diam acordar ; e os que ifto diziam a provar fua emteemçom , 

chamarem Joham AíFoníTo da Moxica , que com outros íi- 

dallgos citava hi acerca deparrimdo em outras coufas , c 

contaromlhe todo feu razoar , e a duvida em que eram fo- 

bre aas graadezas dos Reis que na Efpanha forom , e que por 

que alguuns tomavom bamdo por elRei Dom Fernamdo , di- 

zemdo que elle o fora o mais de todos , e el vchera a Pur- 

tugal depois da morte delRei Dom Pedro , que diíTeíTe que 

graadezas achara em elle 5 e el refpomdeo dizemdo : ?> Eu 

» nom ei razom de faber todallas graadezas que elRei Dom 

5> Fernamdo moftrou 'contra aquelles fenhores e fidallgos que 

5> fe pêra fua terra forom , fei porem que recebiam delle to- 

íj dos mujta homrra e gramdes gafalhados , e a mujtos que 

5> nomear poderia , deu villas e terras de jur e derdade , e 

5> gramdes dadivas de dinheiros e beftas e outras coufas. E 

5? de mim vos digo que eftamdo huuma vez na cidade De- 

55 vora , que el me mandou huum dia trimta cavallos , e trin- 

5> ta mullas, e trimta arnefes , e trinta mil livras em dinhei- 

99 ros 5 que eram mil e cento e tantos marcos de prata , e 

í> quatro azemellas , as duas delias com duas camas, e as ou- 

i9 tras duas com roupa deftrado , e mais me deu de jur e 

» derdade huuma fua villa que chamam Torres vedras ; e per 

?> aqui poderees veer que daria aos outros fenhores e fidall- 

» gos de moor eftado e comdiçom que eu ». Emtom dif- 

ferom todos que nenhuum dos Reis que ante forom , acha- 

vom que tal graadeza moitraíFe contra alguum eítramgeiro, 

que a í*J fua terra vehelTe. 



CA- 



(.1; que cm X. 






d'elRei d. Fernando. 183 

CAPITULO XXVIII. 

Da maneira que e/Rei tijnha nos lugares àeCaflella^ 
que por el tomarom voz, 

FAllamdo outro íi do fenhorio , de que elRei Dom Fernam- 
do hufou nas villas e cidades que fua voz cftomçe to- 
marom , fabee que nom foi levemente aíli tomada ('5 , que el 
nom hufaíTe em ellas de todo poderio , como nos outros lo- 
gares de feu reino ; mas aíli compridamente fe lhe derom e 
obedeeçerom em todallas coufas , como a feu Rei e fenhor na- 
tural y e el tal titullo e nomeaçom tomou dalguuns logarcs , 
iquamdo lhe efcripvia fuás cartas ; aífi como efcrepvemdo a 
Çamora , chamavaíTe Rei de Purtugal e do Algarve , e da muj 
nobre cidade de Çamora ; dizemdo que per morte delRei 
Dom Pedro feu primo , elle era de dereito herdeiro dos rei- 
nos de Caítella e de Leom , e feu fenhor natural. Elle man- 
dou fazer moeda de feus íinaaes douro e prata , e graves e 
barvudas em alguuns logares que fua voz tomarom , aííi co- 
mo em Çamora , e na Crunha , e em Tuy , e em Vallemça , e 
em Miramda • e pofe em ellas feus tefoureiros e officiaaes , 
fegumdo pêra ello compriam , os quaaes defpendiam e da- 
vom per fuás cartas e mandados aquellas moedas , que fe ef- 
tomçe corriam per todo o reino de Purtugal. ElRei deu gram- 
dcs privillegios aa cidade DouremíFe , e de Samtiago , e dos 
outros logares que fua voz por elle tijnham , damdo gram- 
des ofEçios e teenças com elles. Muj tos veherom a elle def- 
fas villas e cidades , e pediamlhe os beens dos que fe hiam 
pêra elRei Dom Hemrrique , e gaanhavom delle graças e pri- 
villegios e oíficios , e todo lhes era dado ledamente ; elle 
dava os beens das egreias e moefteiros , que os em Purtugal 
aviam , e ilTo meefmo nos logares que tomarom fua voz , nom 

foo- 

(2_) tomado B, 



^~>t - - - ■ vir . 



1^4 Chronica 

fccmente aos clérigos, mas aas peíToas leigas, fe lhos pri- 
meiro pediam ; e deu a comenda deToronho, e as vilks c 
legares que lhe perteeçem , a Rui de Meira freire da hordem 
de Sam Joham ; e mandou aas villas e logares da liordcm 
Dalcantara , que ouvcíTem por logoteemte do meeílre deíía 
hordem , Garcia Peres do Campo craveiro. Todallas coufas 
defíezas dhuum reino ao outro corriam eftomce pcra eftes lo- 
gares 5 fegumdo a cada huum prazia de levar ; aíli que nom 
íbomente os avia elRei por feus come fua heramça própria , 
mas aimda efperava daver mujtos mais, fegumdo que lhe ai - 
guuns faziam emtemder. E pella guifa que elRei Dom Fer- 
namdo dava os beens daquellcs que fe hiam, e tijnham por 
parte delRei Dom Hemrrique , aíli per eíTe modo dava el- 
Rei DomHcmrrique as terras e beens dos que tomavom voz 
por Purtugal , e os perfeguia a todo feu poder. 

CAPITULO XXIX. 

Como foi trautado caf amento antrc elRei Dom Fernam- 

do e a Iffante Dona ^'^ Ltonor , filha delRei 

Daragom. 

EM todo eílo elRei Dom Ferrtamdo ouve acordo com os 
do feu confelho , que pêra profeguir a guerra contra el- 
Rei Dom Hemrrique , nom podia teer melhor m.aneira , que 
cometer a elRei Dom Pedro Daragom, que a Iffante Dona 
Lionor fua filha , que fora efpofada com o Iffamte Dom Joham 
filho do dito Rei Dom Hemrrique , que a cafalTe com elle ; 
e per tal cafamento emtemdia elle de levar feu feito mujro 
adeamte, com as outras ajudas que tijnha ; ca elRei dcGra- 
ada dhuuma parte , e elRei Daragom da outra, e elle per 
feu cabo com as gentes e logares que tomarom voz por el- 
le , pareçeolhe mujto aazado pêra mais cedo acabar o que co- 

mc- 

(i) e antre Dona T. 



d' £ L Pv E I D. F E R N A N D o. I 85" 

mcçar quiria. E foi aíli defeito, que lha etnviou pedir, e fo- 
rom alia por meflegeiros Badafal Dcfpinolla , e AíToníTo Fer- 
namdez de Burgos , e Martim Garcia cavalleiros de feu com- 
felho ; e fallamdo a elRei fobrefto , prougue de a cafar com. 
elle; e mandou huum feu cavalleiro que chamavom MonlTe Jo- 
ham de Villaragut ('^ com poder abaftamte pêra firmar cfte ca- 
famento, o qual chegou a Lixboa omde elRei Dom Fernam- 
do eftava ; e feitas fuás aveemças , foi elRei efpofado com 
ella per pallavras de prefemtc , na egreia de Sam Martinho 
da dita cidade , por quamto elRei poufava eítomçe nos paa- 
ços que chamavom dos líFantes , que fom acerca deífa egreia. 
E foi poíto nos trautos huuma condiçom , a faber , que el- 
Rei Daragom o ajudaífe e fezeíFc guerra com todo feu po- 
der contra elRei de Caftella dous anos continuados , e que 
mil e quinhemtas lanças foíTem pagadas aa cufta delReiDom 
Fernamdo ; e por quamto eftas gentes darmas compria daver 
pagamento per moeda que fe coftumaíFe a correr no reino 
Daragom, foi firmado em eíla preitefia, que elRei Dom Fer- 
namdo mandafle alia tanto ouro e prata , de que fe podelTe la- 
vrar moeda de florijns e reaaes que abaftaíFe pêra pagua das 
gentes que ouveíFem de fazer guerra , as quaaes nom comef- 
fem amdando na terra delRei Daragom , depois que a guer- 
ra começaífe de leer. E avia elRei Dom Fernamdo de poer 
certas arrefeens , por feer elRei Daragom feguro do pa- 
gamento que os feus ouveífem daver , em quamto ferviíTem 
em aquella guerra. 



CA- 



(I) Villaracjue T. 



si2'a: o^fr 



i26 Chronica 

CAPITULO XXX. 

Como elRei Dom Fernamdo foi a Galliza , e fe lhe deu 

a Crunha^ 

COmeçou elRei Dom Fernamdo a guerra , e pos feus from- 
teiros pellas comarcas , des i nos logares que fua voz 
tijnham , e mandava que todollos logares foíTem vellados 
de certas peíToas em cada vella , e outras fobre vellas que 
as requeriam ; e como era foi pofto , fechavom as portas 
de cada logar , e abrianas íol levado ; e eftavom aas por- 
tas certos homeens com fuás armas , que nom leixavom enr 
trar peíToa nenhuuma demtro , que conhecida nom foíTe , e 
per cima do muro mujtas pedras e traves pêra deitar aos de 
fora, fe tal coufa compriífe : o pam de todollos covaaes era 
carretado pêra a vilia , e gaados afaílados dos eílremos pcra 
demtro do reino : todallas arvores altas darredor dos Ioga- 
res eram cortas e feitas em traçoões ^^\ por os emmijgos nom 
averem aazo de fazer delias coufa com que lhe empeeçeíTem. 
Eftes avifamentos e outros mandou elRei teer em todollos 
logares; e pofto que alguuns digam, que el nom tomou em 
efta guerra fe nom titulo de vimgador da morte delRei 
Dom Pedro feu primo , efto nom foi defta guifa ; mas fa- 
ziam emtemder a elRei e el aíJi o dczia , que pois elRei 
Dom Pedro era morto , que el ficava erdeiro nos reinos de 
Caftella e de Leom , ca era bifneto legitimo delRci Dom 
Fernamdo de Caftella , neto da Rainha Dona Beatriz filha 
do dito Rei Dom Sancho. Porem el numca fe tremetcra ^^^ de 
começar tal demanda, nem bufcar efta avoemga de tam iom- 
ge , fe nom forom os logares que fe lhe derom de feu gra- 
do , e os mujtos fidallgos que fe veherom pêra elle , que 
lhe efto faziam emtemder. E por que aimda em Galliza al- 
guuns 
CO trancoôes £» (2) aniremetera T. 



d'elRei d. Fernando. i^7 

guuns logares nom tijnham fua voz , liordenou elRei dhir 
alia 5 por receber logares que fe lhe davom , e aíTeíTegar a 
terra que eftava por elle , e cobrar da outra a mais que po- 
dcíTe ; mas fua hida foi de tal guifa , que mais fua homrra 
fora nom hir alia deíTa vegada. E partio elRei per terra , 
himdo com elle Dom Álvaro Perez de Caílro , e Dom Nuna 
Freire meeftre dcChriftus, e outros fenhores e cavalleiros, e 
gentes mujtas , e mandou hir oito gallees per mar aa Cru- 
nha , e por capitam delias Nuno Martins de Gooes , e chegou 
elRei aTuj, e foi hi muj bem recebido DaffoníToGomez de 
Lira alcaide da cidade , e dos moradores todos delia. ElRei 
fallou eftomçc com Lopo Gomez feu filho , que foíTe deante 
aa Crunha , e fe vilTe que os da vil la duvidavom de o re- 
ceber por fenhor 5 que el com aquelles que comíigo levava fe 
pofeíTe no muro de cima da porta da villa , e que dalli de- 
femdeíTe aos do logar que nom çarraíTem a porta , ataa que 
elRei entraíTe , que feeria logo acerca. Lopo Gomez chegou 
aa Crunha , e nenhuuma coufa diíTe aos do logar da enteem- 
çom que levava , falvo que fe hia pêra alli por veer que ma- 
neira os Portuguefes queriam teer. Em ifto chegou elRei 
Dom Fernamdo a vifta do logar , e os da villa o fairom to- 
dos a receber , e amtrelles Joham Fernamdez Amdeiro , que 
era o mais honrrado do logar, por que as outras gentes fom 
delles pefcadores , e outros homeens nom de gram conta : e 
Joham Fernamdez , por que ainda nom vira elRei de Purtugal , 
hia dizemdo alta voz antre os outros todos : ?> Hu vem aqui 
39 meu fenhor elRei Dom Fernamdo ?> : elRei quamdo efto ou- 
vio , deu defporas ao cavallo em que hia , e diíTe : >> Eu fom y 
>9 eu fom 'j : emtom Í'J lhe beijou a maao el , e aquelles todos 
que hiam de companhia ; e por quamto elRei defta guifa foi 
recebido na Crunha , nom fe pos em obra nenhuuma coufa 
do que Lopo Gomez ouvera de fazer. 

Tom. IF. Aa CA- 

(i) entam Joham Fernandez T, 



i88 Chronica 

CAPITULO XXXI. 

Como foi tomado Monte rei. 

TEemdo a villa da Crunha voz por elRei Dom Fernam- 
do , como dizemos , mandou elRei carregar em Lixboa 
navjos de trigo e cevada e vinhos , que levalTcm todo aaquel- 
le logar pêra feer baíteçido, e os outros logares darredor , 
que piingoa ouveíTem de mantijmentos ; e eftamdo huuma 
naao e huuma barcha í'' ante a villa aa defcarga , veherom ou- 
tros navjos dos emmijgos , e tomarom a naao e a barcha , e 
bem çemto e quareemta moyos de trigo e cevada que em 
ellas aimda ellavom , e mais homze tonees de vinho , e le- 
varom todo , e queimarom os navjos 5 e mandou elRei correr 
ger os muros de Tuy , e de Bayona de Minhor (^^ , e doutros 
Jogares , com.e quem os emtendia de poíTuir lomgamcnte. As 
galiees de Purtugal que anidavom pella coita , tomarom ai- 
guumas naaos boyamtes , e huum barco no rio de Ponte ve- 
dra, em que acharom dez marcos de prata, e çimquoemta du- 
zeas de pelles de cabras , e outras coufas de pouco vallor. O 
comde Dom Fernamdo de Caftro foiíTe lamçar fobre Monte 
rei , e levava noveemta efcudeiros feus ; e Vaafco Fernamdcz 
Coutinho fefeemta, ejoham Perez de No voa cento, e Me- 
em Rodriguez de Seavra oitemta , e aíll Fernam Rodriguez 
de Soufa e outros fidallgos , cada huuns com fuás gentes ; e 
eram hi mais alguuns vaíTallos do líFamte Dom Joham , aífí 
como Vaafco Martins Porto Carreiro , e Gil Fernandez de 
Carvalho , e Martim Ferreira , e Fernam Rodrigues do Valle , 
e doutros muj boons efcudeiros ataa cento ; c delles forom 
com o comde fobre o logar , outros ficarom por eíTas fron- 
tarias , fegumdo lhes era hordenado. E pagavom aos que eram 
armados aaguifa , trimta foUdos por dia , e aos bem armados 

que 

(O barca J3, (2) e de Mynhor T. 






«'elRsi D. Fe R N A N DO. 1S9 

que nom eram aaguifa , vijnte , e aos outros quimze folldos j 
e amdava aquel que tijnha carrego de pagar efte folldo , pel- 
los logares homde cada huuns eftavom , e alli lhes fazia pa- 
gamento. E pos o comde arreai fobre Monte rei , combatemr 
doo com emgenhos e baftidas , e pêro bem deífefo foíTe dos 
que dentro eítavom , aaçima foi filhado , e teve voz por Pur- 
tugal. 

CAPITULO XXXII. 

Como elRei Dom Fernamdo partio da Crimha , quamdo 

foube que elRei Dom Hemrrique vijnha pêra 

pelleiar com elle. 

ELRei Dom Hemrrique eftamdo em ToUedo , ouve novas 
que elRei Dom Fernamdo de Purtugal fe fazia preftes 
pêra lhe fazer guerra , e foube quaaes logares tomarom fua 
voz , e quamtos fidallgos fe forom pcreelle , e como tomava 
titullo derdar os reinos de Caftella , por feer bifneto lidemo 
delRei Dom Sancho , como diíFemos : e foi certo como man- 
dava fazer armada de gallees , e que nos logares que toma- 
rom ('^ fua voz, colhiam fuás gentes, e lhes mandava elRei 
Dom Fernamdo foUdo. ElRei Dom Hemrrique fabemdo eftas 
novas , partio logo de Tolledo e foi pêra Çamora , que eftava 
contra elle , e foi eito no mes de julho deite anno de qua- 
tro çemtos e fjte , e pos feu arreai da parte da pornte ; e ja- 
zemdo aífi elRei fobre Çamora , cuidamdo trager com os da 
cidade alguumas preiteíias , per que lhe obedeeçeíTem e folTem 
feus , ouve novas como elRei Dom Fernamdo emtrara eni 
Galliza , e como fe lhe dera a Crunha , e que toda aquella 
terra lhe queria obedeeçer ; e como foube ilto , partio logo 
de fobre Çamora , e foi pêra Galliza com todas fuás gentes , 
com emtcmçom de pelleiar com elReiDom Fernamdo; evij- 
nham com elle Mofíe Beltram de Glaquim e todoUos Bertooes 

Aa ii que 

(O tomavam T. 



B. 



IQO C H R O N 1 C A 

que com elle eram , e quant-os fenhores e gramdes cavallciros 
em í'^ íeu reino avia. ElRei Dom Fernamdo que difto cftava 
dcíTegurado , e nom hia preftes , falvo por receber villas , quam- 
do foube que elRei Dom Hemrrique vijnha com todo feu 
poder com emteénçom de lhe dar batalha , nom ouve cm feu 
confelho de o atemder ; e como foube que era em terra de 
Galliza, leixou feus fronteiros nos logares que porei tijnham 
voz 5 a faber , na Crunha Dom Nuno Freire meeílre de Chri- 
llus 5 natural daquella comarca, com quatro çemtos homeens 
de cavallo , e em Tuj AlFoníTo Gomez de Lira , e em Salvaterra 
e nos outros logares léus capitaaes ; e mandou a Dom Alvo- 
vo Perez de Caftro que acaudellaíTe aquellas gentes que fo- 
rom com elle , e fe veheíTe com ellas per terra ataa Portu- 
gal ; e elRei meteoíTe em huuma das gallees que levara Nu- 
no Martins , e veo em ella ataa cidade do Porto. ElRci Dom 
Hemrrique homde vijnha , foube novas como elRei Dom Fer- 
namdo era partido , e como fe tornara pêra Purtugal , e acor- 
dou com MoíTe Beltram de Claquim e com o comde Dom 
Sancho feu irmaao , e com eíTes fenhores que com el vij- 
nham, que emtraíle per Purtugal pêra veer fe poderia trager í^> 
alguumas preitelias com elRei Dom Fernamdo , que foíTe feu 
amigo e nom ouvelTem guerra. E leixou 0) o caminho da Cru- 
nha que tragia , e veo perantre Tuj e Salvaterra , e paíFou a 
rio do Minho a vaao , por que era em tempo que o podiam 
fazer 5 e como emtrarom per Purtugal , começarom de fazer 
tal guerra , qual homem com maa voomtade faz em terra de 
feus emmijgos , quamdo nom acha quem lho embargue. í"^ 



CA. 



(i) e todollos fenhores e cavalleiros que em T, (2) temtar T. (5) E 
leixou elRei T. 

(^) No Códice T. não acaba aqui o capitulo 3 mas ejle com o seguinte for' 
wão hum só capitulo ; de maneira que o cap. 34 í/o Códice do R, Arquivo vem 
ser o cap, ^ do dito Códice T. 




d'e L Rei d. Fernando. ipt 

CAPITULO XXXIII. 

Como e/Rei Dom Hemrrique cercou Bragaa e a cobrou 

per preitejla. 



CHegou eIRei Dom Hemrrique a Bragaa , t como o logar 
era gramde e mal cercado , lem aver hi mais d'huuma 
torre , em logar aimda que nom preílava , era bem aazado pê- 
ra fe tomar. Lopo Gomez de Lira , fabcmdo como na cida- 
de eílava mujto pouca gente, e aimda eíTes poucos que eram 
mujto mal armados pêra defemder a cidade, lançouíTe dentro 
ante que elRei de Caílella chegaíTe , com huuns dez de ca- 
vallo c trinta peooes. EIRei Dom Hemrrique começou de a 
combater , e pêro o muro fofle baixo , e os de demtro muj 
mal armados , nom a podia elRei tomar ; e jazemdo por dias 
fobrella , hordenou de a combater huuma vefpora de Sam Ber- 
tolameu , e poslhe huuma baftida , e combatheoa de guifa que 
morrerom dos de dentro quareemta e oito homeens , per min- 
goa de nom feerem armados , pêro com todo eito nom a po*- 
de elRei tomar. Eftomçe os da cidade veemdo que a nom 
podiam defender, preiteiaromíTe a certos dias que o fezeíTem 
faber a elRei Dom Fernamdo , que eílava em Coimbra; e Lo- 
po Gomez veemdo eílo , fahiuíTe de noite ante do prazo aca- 
bado , e foiíTe. A cidade nom foi acorrida ao tempo que fe 
preitejou, e deuíTe a elRei Dom Hemrrique , e emtrou den- 
tro em ella com todollos feus : os do logar poferom as coufas 
que levar poderom demtro na fee , omde lhas nom tomavom ; 
e depois que elRei hi efteve huuns féis dias , veemdo como 
era maa de manteer , des i aterra gaftada de mantijmcntos, 
poferomlhe o fogo , e foromfle a Guimaraaens , que fom d'hi 
três legoas, EIRei Dom Fernamdo quamdo íbube como fe 
Bragaa dera , ouve gram queixume dos do logar ; dizcmdo 

que 



;l'vi« OiÇr 



ip2 ChrONICA 

que fe poderom ('^ mais manteer fe quiferom y moormcnte que 
el fe fazia preftes pêra lhe hir acorrer; e culpou mujto em 
cfto Gomçallo Paaez de Bragaa Í-), e Martim Dominguez meef- 
tre efcolla e outros (J)^ dizemdo que elles forom em aazo c 
ajudadores de fe dar a cidade a elRei Dom Hemrique , e da (-^^ 
os beens delles a quem lhos pedia : e depois foube elRei 
quamto elles fezerom por fe defcmder , e que nom eram em 
culpa , e perdohoulhe o erro em que nom cahirom , e ou- 
veos por boons e por leaaes, e mandou que lho nom lançaf- 
fe nemhuum em roftro. 

CAPITULO XXXIV. 

Como elRei Dom Hemrrique cercou Guhnaraaens , e fe 
lançou dentro o comde Dom Fernamdo de Cr afio. 

QUamdo elRei Dom Hemrrique chegou a Guimaraaens , 
achou o logar mais defenfavel e melhor percebido que 
Bragaa , ca fe lançou demtro Gomçallo Paaez de Mei- 
ra, huum boom cavalleiro epera mujto, com feus filhos Fer- 
namGomçalIvez , e EílevamGomçallyez, que depois foi me- 
eftre de Samtiago , e comfigo quarcenta de cavallo 9 e aíli ou- 
tros fidallgos daquella comarca , de guifa que era dentro af- 
fazí^Jboa gente. E elRei pos feu arreai fobrelle í*^) , primeiro 
dia de fetembro , e cercou a vilJa toda darredor com amujta, 
gente que tragia , e os de demtro fahiam í^) fora , aíli de cavai- 
lo come de pee , e efcaramuçavom com elles ; e eílo foi logo 
no começo , em quamto o arreai eílava arredado. Mandou el- 
Rei mais chegar o arreai e armar emgenhos , e começou de 
combater a villa, e os de dentro trabalhavom de a delFem- 
der , de guifa que os de fora nom aproveitavom nada em feu 
combato. ElRei Dom Hemrrique dizem que jurou que fe 
nom alçaíTe dalli a menos de a tomar , e mandavaa comba- 
ter 

' (O fe podeera T. (1) Degrada T. (3) e outros muytos T, (4) e dar Tl 
C5) aíTaz de T, (6) fobrella £, (7) fayram T. 



d'elRei D. Fernando. 193 

ter tam a meude , que dava muj pouca folgança aos da vilia. 
E feemdo aífi afficada per três fomanas de muitas pedras dem- 
genhos que lhe tiravom , prougue a Deos que numca nenhu- 
uma empeeçeo a homem nem a molher nem aanimalia ('^ Os 
de demtro armarom outros emgenhos , c tirarom aos de fora , 
e britaromnos e matarom alguuns homeens, e foi gramde al- 
voroço no arreai ; e ao feiaáo entrou Diego Gomçailvez de 
Caftro , padre de Lopo Diaz Dazevedo , em panos de burel 
demtro na villa , dizemdo que era homem do jullgado que 
hia a vellar ; e os da villa conheçeromno , e foi logo toma- 
do ; e veemdo que nom avia em el fe nom morte , confef- 
fou que antre el e elRei Dom Hemrrique avia tal falia , que 
pofeÃe o fogo aa villa em quatro partes, e que em quanto 
os da villa acorreíTem a apaguar o fogo , que trabalhafle el- 
Rei Dom Henrrique por emtrar a villa ; e elles veendo tal 
treiçom como efta , mataromno , e leixaromno comer aos 
caaens. Outro íi o comde Dom Fernando de Crafto , que 
elRei Dom Hemrrique premdera em Montei , quamdo el- 
Rei Dom Pedro foi morto , vijnha eftomçe alli prefo , nom 
com ferros que fugir nom podeíTe , mas follto fob guarda 
dhuum alguazil delRei que chamavom Ramiro Nunez das 
Covas; e dizem alguuns que diíTe o comde , que queria 
fallar com os da villa que íe deíTem a elRei Dom Hemrri- 
que , e trager com elles alguumas boas preiteíias , e que 
himdo aquel que o guardava com elle pêra veer como falla- 
vom , dcs i por fua guarda , que eftamdo acerqua do muro y 
que fe lamçou demtro na villa. Ramiro Nunez quamdo eito 
vio 5 nom foube que fazer com medo delRei Dom Hemrrique , 
e aventurou íTe a perijgo de morte , e pofeíTe na villa dentro 
com elle , e foi logo prefo. Outros afirmam eíi:e lamçamento 
do comde Dom Fernamdo dentro na villa muj to pello con- 
trairo , ca dizem que huum dia faiu Gomçallo Paaez de Mel* 
ra com feus filhos e gentes , e Gomçallo Garcia da Feira , e 
muj tos dos da villa, e derom no arreai delRei Dom Hemr- 
^^_ ri- 

co nem allymaria T, 




iívs^ o^Sr 



ip4 Chronica 

ri que , ematarom alguuns dos Caftellaãos í^^, e que chcgarom 
aa teemda omde o comde Dom Fernamdo eftava , e que per 
força o tomarom e o trouverom pêra a villa , avemdo ante deão 
falia antrelles que o fezeíTem defta guifa ; e que jazerndo el- 
Rei fobre Bragaa , fe quiíera o comde Dom Fernamdo lançar 
dentro , mas por que vio o logar fraco e nom deíFenflavel , 
nom fe trabalhou de o fazer : mas de quallquer guifa que 
foíTe , o que o guardava fe lamçou com elle dentro na villa 
com medo delRei Dom Henrrique , e culpavamno alguuns 
que foubera dello parte. Em todo eito elRei de Cafteila af- 
feflegava feu cerco fobre a villa , dizemdo que fe nom avia 
dalçar fobrella (*^, ataa que a tomaífe. 

CAPITULO XXXV. 

Como elRei Dom Fernamdo partio de Coimbra por hir 

acorrer a Guimaraaens ^ e do? logar es que elRei 

de Cajlella tomou. 

LEixemos Guimaraaens eftar cercado , e tornemos a con- 
tar omde era elRei Dom Fernamdo , em quanto fe eftas 
coufas faziam : e fabee que elRei Dom Fernamdo , quamdo 
partio da Crunha e fe veo ao Porto , encaminhou logo pêra a 
cidade de Coinbra ^ homdc efteve daífeirego; e alli lhe veo 
recado quamdo Bragaa era cercada , e iíTo meefmo foube cer- 
to como elRei Dom Hemrrique jazia fobre Guimaraaens, c 
hordenou de juntar fuás gentes , e hir acorrer aaquella co- 
marca 5 e poer batalha a elRei de Caítella. E mandou logo 
fuás cartas aa cidade do Porto , que mujto apreíla foíTe feita 
huuma ponte de barcas no rio do Doiro , per que el c toda 
fua hofte podeíTem paíFar em huum dia , por quamto fua vo- 
omtade era em toda guifa hir pelleiar com elRei Dom Hemr- 
rique 5 e que ilfo meefmo fe fezeífem preftes os moradores 

do 

, (i) dos Cavalleiros T. (2) de sobrella T. 



d'elRei d. Fernando. í p^r 

do logar pêra fe hirem em fua companha. Os da cidade muj 
ledos com eíle recado , forom todos poílos em gramde. tri- 
gamça pêra poer eito em obra, huuns aachegar barcas, del- 
les a carretar í'^ madeira, outros a lamçar amcoras e amarrar 
cabres ; de guifa que muj to aginha í^^ foi feita huuma gramde 
c efpaçofa pomte , laftrada de terra e darea , tal per que fol- 
gadamente podiam hir a traves íeis homeens a cavallo : e ef- 
to feito , fezeromíTe preítcs todollos homeens darmas , e de 
pee , e beefteiros com a bamdeira da cidade , pêra hirem em 
companha delRei aa batalha. Partio elRei Dom Fernamdo de 
Coimbra com todas fuás gentes , e dizem que chegou ataa 
o Porto , e elRei Dom Henrrique ouve novas defto , e aim*- 
da afirmam alguuns que clRei Dom Fernamdo lhe efcrepveo 
fuás cartas que o atemdeíTe , e veemdo como nom podia to- 
mar Guimaraaens , partioíTe logo do cerco , e foiíTe pêra (5> 
aquelia comarca , e tomou Vinhaaes , e Bragamça , e Çadavj j^"^^ , 
eo outeiro í'^ deMiramda , em muj poucos dias , ca huuns fo- 
rom tomados por arte , outros por fe nom poderem defem- 
der j aíC como foi tomada Miramda, que ante que elRei Dom 
Hemrrique cheguaíTe a ella , mudaromíTe alguuns feus (^^, e 
fingeromfle que eram recoveiros Portuguefes , e que aviam mef- 
ter viandas da villa por feus dinheiros : os do logar nom fe 
catamdo de tal arte, deromlhe logar que emtraíTem dentro j 
e elles emtramdo , teverom loguo a porta , e em iílo chega • 
rom aprcíTa os que hiam acerca pêra lhe acorrer , e delia 
guifa ouvcrom a villa. Outro li os homeens de Çadavj dc- 
femdiam muj bem o logar, himdo elRei Dom Hemrrique fo- 
brc elle , e ouverom alguuns do arreai falia com Vaafque Ef- 
tevez , e com alguuns outros , que lhe deiTem emtrada na vil- 
la , e que nom receberiam nojo , e lhe faria elRei muj tas 
merçees ; e elles outorgamdo iílo, tomarom as chaves e abri- 
rom as portas , e emtrarom os emmijgos , e foi tomado o lo- 
gar : e os moradores de demtro que difto parte nom fabiam , 
amdamdo fugido eíle Vaafque Eftevez , lançarom depois em- 
ToijK W. Bb cul- 

(i) carregar T. (2) aíinha T, (3) por 2". (4)Cddavy T, (5) e outeiro 2?. 
(6) dos feus 7", 



IQ^ Chronica 

cuíca fcbrelle , e tomaromno , e foi enforcado em huuma amca 
do muro. E todollos montes daquella comarca forom eftom- 
ce cheos de homeens , e molheres , e moços , gaados (0^ e 
viverom na Abadia velha, e em Ventofcllo, e em todallas 
aldeãs dos montes altos ; e todollos monges e abades dos mo- 
elleiros daquella comarca todos fugirom , e foi eílo do mes 
dagollo ataa Samta Maria de fetembro. E Icixou elRei Dom 
Hemrrique recado na villa deBragamça,e foiíTe pêra Gaitei- 
la ; e dizem que o aazo de fua partida tam cedo , e de nom 
atender elRei Dom Fernamdo pêra pelleiar com elle , foi 
novas que lhe veherom fobre Guimaraaens , como a cidade 
Daljazira , pornom feer pofla em boa feguramça , a cobrarom 
os mouros , e deftroirom de todo , e que elRei de Graada 
vehera hi per feu corpo ; e por o gram pefar que eIRei dei- 
to ouve j fe partio affi e fe foi pêra a villa de Touro , e 
dalli repartio fuás gentes aa fromtaria de Graada , c outras 
a Galliza , e delles comtra Çamora , e aos outros logares que 
nom tijnham fua voz, e eítavom por Portugal. 

CAPITULO XXXVI. 

Como fe elRei Dom Fernamdo tomou , e dos fromíeí* 
ros que pos em alguuns logares, 

ELRei Dora Fernamdo quamdo foube que elRei Dom 
Hemrrique era partido de fobre Guimaraaens , nom foi 
mais por deamte , e tornouíTe , e dizem que lhe pefou muj- 
to por que fe elRei de Caílella partira \ e entom mandou as. 
gentes cada huuns pêra fuás terras , e outros aas fromtarias 
das comarcas e logares , fegumdo vio que lhe compria , fa~ 
zemdolhe graadas e gramdes merçees , e pagamdolhe logo o 
folldo por certo tempo : e foi emviado por fromteiro moor 
entre Tejo e Odiana o Iffamte Dom Joham , e o líjàmte Dom 
Denis feu irmaão , e com elles o meeílre de Samtiago , e 

Dom 

(i) e guaados T, 






I 



d'klRei d. Fernando. 197 

Dom frei Alvoro Gonçalvez priol do efpital , e Fernam Ro- 
driguez Daça , e Feriiam Gonçillvez de Meira , e Vaafco 
Gil de Carvalho , e Joham AíFoníTo de Beeça , e Gomçalle 
Annes Pimentel , e Vaafco Martins de Soufa , e outros que 
dizer nom curamos : e pagavom de folldo ao de cavallo ta- 
ri com faca armado aaguifa , trimta folldos por dia , que 
eram oito dobras por mes, e ao genete vijrate , que eram 
por mes çimquo dobras , e ao de cavallo fem faca quim- 
ze folldos. Armado aaguifa cham.avom eftomçe aííí de pee 
come de cavallo , quallquer que era compridamente arma- 
do , fem lhe falleçemdo (^Wienhuuma coufa , e o que o era co- 
munallmente, e nom também , chamavom armado aa mea 
guifa ; e quamdo lhe faziam pagamento do folldo , defcon- 
tavomlhe delle quamto montava nas malfeitorias que cada 
huum fazia : e do almazem de Lixboa levavom pêra cada 
huum logar as armas e coulas que mefter avia pêra fua de- 
feníFom. A Elvas foi emviado por fromteiro Gomçallo Meem- 
dez de Vafcomçellos , e com elle gentes de Lixboa , aíli co. 
mo Alvoro Gil, e Vaafco Eftevez de MoUes , e Eftcve An- 
nes , e Martim AíFoníTo Vallemte , todos cavalleiros. Gomez 
Louremço do Avellaar , e Gomçallo Vaafquez Dazevedo , e 
Gomçallo Gomez da Sillva, e Joham Gomçallvez Teixeira, 
e outros forom emviados em companha do dito Gomez Lou- 
remço a Cidade Rodrigo ; e Johanne Meemdez de Vaafcom- 
çellos a Eílremoz , e Dom Fernando Dolivemça a Olivemça. 
O meftre Dom Martim Lopcz eftavá eítomçe em Carmona , 
e em Monte rei Alvoro Perez , e em Tui AíFoníTo Gomez de 
Lira, e em Millmanda Nuno Viegas o velho, e em Arahujo 
Rodrigue Anncs , e aíG dos outros fidalgos cada huuns em 
feus logares. E ouve elRei Dom Fernamdo muj gramde quei- 
xume dos moradores de Bragamça , e deVinhaaes, e dos ou- 
tros logares que elRei Dom Hemrrique tomou defta vez j di- 
zemdo que per fua culpa lhos derom , podendofe deíFemder 
per major efpaço, e deu os beens dalguuns aaquelles que , lhos 

Bb ii pe- 

(1) fallecet £» 



iq8 Chronica 

pediam , os qiiaaes fe ouverom por muj agravados , dizemdd 
que culpava elles por que, fe davom ('^ tam aginha, nom fe 
podemdo mais deffemder, aos emmijgos, e nom culpava ali 
que lhes nom acorria , podemdoo mais bem fazer. Certamente 
elRei Dom Fernamdo era muj prafmado dos poboos , dizen- 
do que nenhuum Rei podia acabar grandes feitos a que fe 
pofeíTe , fe el per li nom foíFe prcfemte com os feus , pê- 
ra os esforçar e moftrar fua ardideza , e que nenhuuma cou- 
fa lhe preftava fua mancebia e ardimento , pois el efpalhava 
todas fuás gentes , e fe poinha em poder e comíTelho do com- 
de Dom Joham AlFoníFo Tello , e doutros , que por covardo 
emcaminhamento lhe faziam emtenider que fe nom triguaíTe 
a poer batalha , ca omde fe nom percataíFe , toda Caftella lhe 
obedeeçeria ; e per tal aazo como efte , galiava el li e o rei- 
no com mudamça de moedas , por fatisfazer a todos , e perdia 
as gentes e logares que tijnha , aíTenhoramdoíTe dei a covar- 
diçe ; affi que todo feu feito era de Samtarem pêra Coimbra, 
e depois tornar a Lixboa , em guifa que ja as gentes tragiam 
por riffam em efcarnho dizemdo , » exvollo vai , exvoUo vem 
3> de Lixboa pêra Samtarem 55. Em eíte comeos acemdiafle a 
gnerra cada vez mais , e trabalhavomífe os das fromtarias de 
fazer nojo huuns aos outros , fazemdo cavallgadas nas terras 
dos emmijgos, tragemdo roubos de gentes e de gaados, ca- 
da huuns como melhor podiam. 

CAPITULO XXXVII. 

Como Gil Fernamdez entrou a correr per Cajiella , e da 
maneira que teve em trazer Jua cavalgada, 

A Si aveho em ella fazom que em Elvas avia huum efcu- 
deiro bem mancebo , chamado per nome Gil Fernam- 
dez , filho de Fernam Gil , neto de Gil Louremço , priol que 

fo- 

(i) deeráo T, 



fiii-a c- 



d'elRei d. Fernando. 199 
fora de Samta Maria do dito logo , o qual foi homem de 
boo esforço, e pêra majto , feguaido diíTemos na eftoria del- 
Rei Dom AíFon^b o quarto ; e eíte Gil Fernamdez fahimcJo 
a feu avoo nas comdiçoões e ardidcza , fez mujtos e muj 60- 
ons feitos , per que depois foi muj nomeado nas guerras que 
fe feguirom , como adeamte ouvirees ; e o primeiro foi no co- 
meço defta guerra, ante que Gomçallo Meendez de Vaafcom- 
çellos vehcíFe a Elvas por fromteiro : e foi aíli , que el fe 
trabalhou de jumtar de feus parentes e amigos feteemta ho- 
meens darmas , e quatro centos homeens de pee , e paíFou 
per Badalhouçe , e foi correr aterra deMedellim, e apanhou 
-muj gramde cavallgada de gaados e beílas e de prifoneiros ; 
€ o roubo era tam gramde , que aadur ho emtemdiam todos 
de trager a Portugal , moormente avello de deífender a quem 
jho tolher quifeíTe : efto emtemdiam elles de gravemente po- 
der fazer , em tanto que diíTerom mujtos a Gil Fernamdez , 
por quamto era homem novo , e nom aimda hufado em guer- 
ra , que fezera mal de os poer em perigo allongaradoífe tan- 
to per terra de feus inmijgos: GilFernamdez a que nature- 
za proveera de boom esforço e ardimento , foutamente come- 
çou de dizer: » Amigos, esforçaae, e nom ajaaes temor j e 
99 fe alguumas gentes veherem a nos com oufamça e fem re- 
>9 çeo , pellegemos com elles ». Emtom hufou dhuuma ar- 
teira fajaria e boom avifamento em efte modo : por quamto 
o líFamte Dom Joham era fromteiro moor daquella comarca , 
diíTe a huum íeu tio que deziam Martinhaues , que fe cha- 
maíFe Iffante Dom Joham , e que elles em tal comta o trage- 
riom , e fez logo aos prifoneiros que lhe beijaífem a maão 
como a feu fenhor , e elle tal geito lhe moftrava , mandam- 
do foltar delles , por darem fama pella terra que elle era o 
lífamte Dom Joham; e foi aíll de feito, que os prifoneiros 
que leixavom hir , juravom a quaaes quer outros que aquel 
era o lífamte Dom Joham que levava aquella cavallgada , afir- 
mando que lhe beijarom a maão : os Caftellaãos , que o ou- 
viam , reçeamdo feu nome e poder , nom oufavom de fahir 
~"""*~' ' a 






2oO ChRONICA 

a elíes , e dcfta guifa veo aquel roubo a Portugal , fein 
achar quem lhe fezeíTe nojo ; e era a cavalgada tam gramde , 
rfue tragia mais de huuma legoa em lomgo. 

CAPITULO XXXVIII. 

Coffio allguuns fromteiros Portuguefes pelleiarom com os 
Cajlellaaos ^ e do que aveho a cada huuns delles, 

LOgo acerca veo por fromteiro a Elvas Gomçallo Meem- 
dez de Vaafcomçellos , o (^) qual rogou efte Gil Fernam- 
dez que fofíem correr comtra Badalhouçe , e el outorgou de 
o fazer; mas diíTe que entemdia que na cidade eftavora tan- 
tos , que fe nom podia efcufar a pelleia ; e que levalTe el 
comíigo todollos da vi lia bem acaudellados , e el com quarem- 
ta de cavallo hiria correr contra Badalhouçe , ataa huum lo- 
gar que chamom a Torre das palombas; e que os fidallgos 
que no logar eftavom , fahiriam logo a elle , e que affi os 
vijmria tiramdo ataa hu ouveíTe de íeer a pelleja. Hordenado 
per efta guifa , foi Gil Fernamdez correr , e do logar fahiu 
mujta gente , affi homeens de cavallo come de pee , e vij- 
nhamíTe reíFertamdo com clles , por os trazer homde pelleiaf- 
fem ; e quamdo chegou a Gomçallo Meemdez , começou de 
dizer altas vozes que fe esforçaífcm todos , ca aquel era o leu 
boom dia ; e o cavallo de Gil Fernamdez trazia ja na teíla 
huum ferro de lamça com huum traçom dafta , e affi amdou 
depois na pelleja. Chegarom os Caíi:eIlaãos , e jumtarom hu- 
uns com outros , e foi tal fua ventujra dhuum cavalleiro de 
Badalhouçe que chamavom Fernam Samchez, que era o fidall- 
go de moor eítado que hi avia , que huum homem de pee 
carneçeiro de Lixboa , que chamavom Louremçinho , lhe deu 
com huuma almarcova na maao do cavallo , o qual cahiu lo- 
go com elle , e Fernam Samchez em terra , e outro cavalleiro 

de 

CO ao T, 



d'elRei D, Fernando» 201 

de Tolledo , e aíli fezerom outros aíTaz de boons , que licarom 
logo alli mortos. As outras gentes fogirom pcra Badalhouce y 
que era bem preto ; e o emcalço foi feguido ataa hu fe fa- 
zer pode , e tornaromíTe os Portuguefes pcra Elvas muj le- 
dos com efta vitoria. líTo meefmo o líFamte Domjoham , que 
era fromteiro moor daquelía comarca , e Dom frei Alvoro 
Gomçallvez priol do efpital em fua companha ,junrarom fuás, 
gentes , com alguuns outros dos caftellos darredor que fe ef- 
cufar podiam , e partirom Deftremoz hu eftavom , e forom a 
Badalhouce , depois daqucl aqueeçi mento de Fcrnam Sanchez , 
poUo combater e tomar , fe podeííem ; e cometerom ho logar , 
e do primeiro combato entrarom a cerca primeira , e as gen- 
tes do logar acolheromíTe aa cerca velha , e alli fe defende- 
rom , de guifa que nom forom emtrados ; e os Portuguefes 
poferom fogo aas cafas da primeira cerca , e forom delias 
mujtas queimadas, e derribarom parte do muro, e tornouíTe 
o líFamte com fuás gentes , e os outros pêra feus logares. 

CAPITULO XXXIX. 

Dos logares que Gomez Lourenço tomou , e como Jo- 
ham Rodriguez pellejou com os de Ledefmà» 

ELRei Dom Fernamdo 5 como ouviftes, quando tornou da 
hida de Guimaraacns , mandou feus fromteiros aos lo- 
gares que por el tijnham voz , antre os quaaes hordenou de 
mandar Gomez Louremço do Avelaal a Cidade Rodrigo , e 
que fe vehcíTe AíFonífo Gomez da Sillva , que ante dcfto alia 
eftava ; e forom em fua companha AíFonífo Furtado , e Eíle- 
vam Vaafquez Philipe , e Joham Rodriguez Porto Carreiro , e 
outros boons que ja dilfemos , ataa duzemtas lamças \ e man- 
doulhe elRei fazer huma muj fremofa bamdeira de fuás ar- 
mas , que levarom quamdo partirom deLixboa, que era no 
mes dabril. Gomez Louremço chegou a cidade , e depois que 

foi 



i 



ÍI2>I O^ 



203 ChrONICA 

foi daíeíTego , correo a terra darredor , e filhou cftes logares , 
a faber , Sam Feliizes dos Gallegos , e o Reco pardo (0^ ea 
Feolhofa , e Çarralvo ; e pos por fromteiro em Sam Feliizes Jo- 
ham Rodrigucz Porto Carreiro com vijmte e quatro de cavai- 
lo. Joham Rodriguez eltamdo no logar^ veo fubrelle o comçe- 
Iho de Ledefma , que eram bem oiteemta de cavalío , e Jo- 
ham Rodriguez fahio da viila e pelleiou com elles , e forom 
veemçidos os de Ledefma , matamdo e premdemdo mujtos 
delles , e iíTo meefmo dos homeens de pee que ainda vijnham 
aa lonigua , e foi efta pelleia mujto foada , porque os pou- 
cos veeçerom mujtos : e delta guifa que os Portuguefes fa- 
ziam he de cuidar que fariam os Caftcllaãos , mas por que 
nenhuuma coufíl que elles emtom fezeíTem achamos em efcri- 
pto, nom o podemos poer em eíloria ; mas fabee que em efta, 
iazom em Lixboa , huuma terça feira ao feraão , fe alçou fo- 
go í^^ na ferraria da parte do mar , e arderom todallas cafas da- 
quella rua , e muj gram parte da rua nova , e foi grande quei- 
ma, e mujto aver perdido e furtado , e durou o fogo per 
gramde efpaço. Outro fi no anno íeguinte de quatro çemtos 
e oito , vijmte e três dias do mes de fevereiro , des a mea 
noite ataa fahimte de miíTas ÍJ^ , fez muj gramde tormenta ; 
e tijnha elRei no porto de Lixboa certas naaos, que armava 
pêra a guerra que avia com elRei de Caílella , e foi a tor- 
menta tam gramde , que as mais delias fe perderam e que- 
braram em terra, e perdeoíTe muj ta companha delias, e dos 
outros navios que em eíTe porto cftavom j e era o vemto tam 
grande , que as telhas dos telhados , que eram cubertos com 
caal , aflí as levava como fe folTem pena •''^, e o poftijgo da por- 
ta da fee foi arremcado, e a tramqua da porta britada, e if- 
fo meefmo o fecho, e muj tas oliveiras forom arramcadas ; e 
pefou mujto defto a elRei Dom Fernamdo , que eftomçe efta- 
va em eíía cidade. 

CA- 



(i) Reguo pardo T. (2) fe alleyamtou ho foguo T. (3) ata as myflas 
acabadas T, (4) penas J, 



d'elRei d. Fernando. 203 

CAPITULO XL. 

Como elRei Dom Hemrrique cercou Cidade Rodrigo , e 
for que razom fe f ar tio de fohre o cerco. 

PAíTou o anno de quatro çemtos e fete , e começou a era 
de quatro centos e oito , no qual ano eftamdo elRei 
Dom Hemrrique na villa de Touro , ibube como Gomez Lou- 
remço do Avelaal , e as gentes que com el eftavom em Cida- 
de Rodrigo faziam gramdes cavalgadas pella terra darredor , 
e mujta perda e dampno per toda aquella comarca , que voz 
de Portugal nom tijnha ; e teerado elRei deito gramde fem- 
tido , hordenou de a vijnr cercar, e partio da villa de Touro, 
e veo poer arreai fobrella , e fezlhe tirar com emgenhos, 
e combatella de voomtade. Gomez Louremço , e as gentes 
que com el eftavom , des i Martim Lopez de Cidade , que era 
ornais homrrado cavalleiro que hi avia , com PeroMercham, 
e outros do logar , que tomarom voz por elRei Dom Fer- 
namdo , defcmdianíTe todos de guifa , que os do arreai avijam 
bem que fazer. Veemdo elRei Dom Hemrrique que com em- 
genhos , e troons , e força de beeftaria nom lhe podia empeè- 
cer per combatos, hordenou de lhe fazer huuma cavale co- 
mcçarom de a fazer jumto com ho moefteiro de Sam Payo , 
que cita arredado do logar. Gomez Lourenço foubeo per emcul- 
cas que tragia fora , e no dcreito omde emtemdeo que aviam 
de vijnr, derribou cafas demtro na cidade , e fez emcher cu- 
bas de terra e pedra , e gramde baftida de madeira com pei- 
torijs de portas das cafas em ella , perçebemdoífe do dampno 
que lhe recreçer podia. Os de fora acabarom fua cava , e po- 
fcrom gram parte do muro em comtos j e devifado o dia do 
combato , derom fogo aa cava , e começarom combater í^^ o lo- 
gar per quatro partes , por nom emtemderem os de dentro per 
Tom. IV, Ce hom- 

{\) a combater 7", 



2C4 Chronica 

homde levavom a cava , creemdo que per nenhuuma guiía os da 
cidade podellem fofrer a força daquel combato ; o qual du- 
ranido per boom efpaço , e cada huuns moílramdo íuas forças 
huuns por fedelFemder, e outros por emtrar , arderom os contos 
que tijnhani , e cahirom delle bem dezoito braças todo em 
torrooens gramdes huuns fobre outros ; da qual coufa os de 
fora ouverom gram prazer, e mi^jtos da cidade ouve hitaaes, 
que veemdo aquello , cuidarom per força íeerem emtrados. Os 
que combatiam , trabalharom logo por fobir per cima do muro 
que caera ; e poemdoo em obra , virom os de dcmtro afortelle- 
zados daquella parte derribada , de guifa que matavom delles 
e feriam mujtos; e maravilhamdoíTe dafua força, e avifamen- 
to , afaftaromlTe a fora , e foi hi morto huum cavalleiro que 
diziam MoníFe Lemolim , irmaão do fcnhor de Leberth, ElRei 
Dom Hemrrique veemdo que com todo o que lhe feito avia 
nom a podia tomar , des i por as gramdes chuvas que torva- 
vom a vijmda dos mantij mentos de que o arreai era ja mim- 
guado , determinou de partir dalli , aveendo dous mezes c 
nieo que jazia fobrella , e foiíTe pêra Medina dei Campo , no 
mes de março meado , e alli hordenou de fazer pagamento 
a MoíTe Beltram , e aos eítramgeiros de cento e vijmte mil 
dobras , que lhe devia de fuás folldadas , e que fe fbíTem 
pêra fuás terras. E mais emviou Pêro Manrrique , e Pêro 
Ruiz Sarmento a Galliza com gentes , por quamto íbube que 
Dom Fernamdo de Craílo amdava naquella comarca com gram 
poder fazendo dano ncs que fua parte tijnham : e dalli par- 
tio peraTolledo, e veoíTe a Sevilha pêra poer recado na ter- 
ra , que recebia dano dos de Carmona , e iíTo meefmo dos 
mouros que faziam cada dia emtradas , e o peor de todo 
èfto da frota das galecs e naaos de Portugal , que jaziam no 
rio de Guadalquebir ; de guifa que Sevilha nom tijnha o mar 
defembargado pêra delia ('^ aver proveito, como depois do 
feguijnte capitulo ouvirees. 

^ \ CA- 

dellc T. 




d'elRei d. Fernando. 205' 

CAPITULO XLI. 

Como foi cercada Carmona ^'"^pella Rainha Dona Jobana , 
e mortos os filhos Dafonfo Lopez de Texeda, 

TRabalhamdoíTe elRei Dom Hemrrique daver as villas e 
logares que fua voz nom tijnham , e veemdo que per 
nenhuuns cometimentos nem preiteíias , que trouveíTe aos que 
eram alcaides delles, lhe preftava peraosaver por fua parte, 
çercavaos e combatia í^í com todas artes e forças, que pê- 
ra tal feito eram perteeçentes ; e os que tijnham taaes fortel- 
lezas nom trabalhavom menos de fe defemder delle , como fe 
elRei e os feus foíTem mouros emmijgos O) dafe , que os ou- 
veíFem de cobrar e aver a feu poder ; e nom foomente elRei 
com fuás gentes , mas aimda a Rainha fua molher , que pê- 
ra iíto abaftante coraçom avia , iífo meefmo fe trabalhava 
de cercar alguuns delles ; antre os quaaes cercou Çamora , 
que tijnha AíFonlFo Lopez de Texeda com feus irmaáos , e ou- 
tros fidallgos com mujtas gentes, manteemdo voz por elRei 
Dom Fernamdo. E foi o logar per dias alli aíficado , que fe 
preitejou AíFonlTo Lopez com a Rainha , que fe acertos dias 
lhe nom veheífc acorro , que o deífe fem outra contenda, 
A Rainha outorgou a preiteíia , com tal comdiçom que Af- 
fonlFo Lopez lhe emtregalTe em arrefeens por feguramça def- 
to 5 dous feus filhos que tijnha comfigo , os quaaes per gra- 
do do paadre lhe forom emtregues. Paflbu o termo antrel- 
les devifado , e nom lhe veo outro nenhuum acorro , falvo 
fe foi Miçe Gregório de Campo morto , que fe lamçou dem- 
tro no logar com fafeemta homeens darmas , nom embar- 
gamdo que a villa jouveífe aííi cercada ; mas iíto nom pref- 
tou nem huuma coufa , pêra fe ella poder defemder : e foi re- 
querido AffoníFo Lopez que deífe o logar , pois o termo ja 

Ce ii era 

(i) Çamora T. (2) e combatiags T. (3) e imyguos X. 



20Ó Chronica 

era paíTado , e el fe efcufou per taaes pallavras , e com tal 
foom , que de o fazer avia pouca voomtade ; da qual coufa a 
Rainha ouve aílí gramde queixume , que diíTe afirmando per 
juramento , que fe lhe AíFonfo Lopez nom deíTe o logar co- 
mo ficara com ella , pois o termo ja era pafi!ado , que lhe 
mandaria degollar os filhos ante feus olhos, feosí'^ el oolhar 
quifefíe , e aíII lho mandou dizer. AíFomíTo Lopez ouvindo 
aquefto , hufou dhuum modo muj eílranho , o qual nom he 
de louvar come virtude , mas façanha fem proveito , comprida 
de toda cruclldade , e diíTe aaquelles que lhe efto diíTerom , 
que íe a Rainha por efta razom lhe mandaíTe degollar feus 
filhos , que ainda el tijnha a forja e o martello com que fe- 
zera aquelles , e que aífi faria outros. Os que efta repofta ou- 
virom , pofto que Affonfix) Lopez foutamente em ello fallaíTe , 
iiom poderem creer que dous feus filhos aílí aazados pêra 
amar , leixalTe morrer daquella maneira , como aíli feia que 
jia niórte do filho nenhuum pode femtir moor door que o 
padre , moormente de tal geito. E foi aíH que os trouverom 
em vifta do muro, frontamdo e requerimdo a AíFoníTo Lo- 
pez que àeíCc o logar como ficara , fe nom que os matariam 
logo em fua prefença ; e el refpomdeo , que os mataíTem fe 
quifeíTem : braadavom os filhos choramdo ao padre , que os 
nom leixaíTe matar , e fe amerçeaíFe delles , dizemdo : »> Oo 
»> padre , por Deos , e por merçee avec de nos doo , e nom 
Õ9 nos leixees afli matar : oo padre fenhor , daae cíTe logar , 
p9 pois vos nom veo acorro , e nom moiramos aífi fem por 
éf que 99 : eftas e outras dooridas razooens , que nom min- 
^oava quem lhes emfínar dos que prefemtes eram , braadavom 
Os filhos ao padre que lhes acorrelTe ; c nom foomente elles , 
mas todollos que eftavom acerca , ifiTo meefmo braadavom 
que fe amerçeaffe delles. E duramdo cfto per gramde efpaço , 
deteemdoíTe aquelles que de os matar tijnham carrego , aa- 
cima nenhuumas pallavras nem braados dos filhos, nem de 
muj tos que fe chegavom a veer , o demover poderom de 

fua 

(O fe o ^. " 






d' E L R E 1 D. Fernando. 267 

fua emteemçom , e os filhos forom mortos aaquelk ora , por 
falleçer do que prometido tijnha ; e elle nom pode manteer 
o logar 5 e depois ho ouve elRei Dom Hemrrique per prei- 
teíia» 

CAPITULO XLII. 

Da frota das naaos e gakes que eIRei Dom Fernamão 

emviou a Barrameda , e do que as gentes padeciam 

emquamto alli jouverom. 

ELRei Dom Fernamdo no começo defta guerra mandou 
armar gram frota de gallees e naaos, a faber , vijmte e 
oito gallees fuás, e quatro a folldadas de Miçe Reinei de Gui- 
rimaldo , e trinta naaos de feu reino , e das que fe veherom 
pereelle da cofta do mar ; e hia por almiramte nas gallees 
Miçe Lamçarote Peçanho, e por capitam Joham Foçim , hu- 
um daquclies cavalleiros que fe veherom de Caftella pêra el- 
Rei Dom Fernamdo , o qual fe partio primeiro com féis gal- 
lees e duas galliotas aos quimze dias de junho, e depois par- 
tio o almiramte com toda a frota. E a emteemçom delRei 
era que efta frota jouvelfe aa emtrada do rio de Sevilha , pêra 
embargar, que nenhuum navio podeíTe hir nem vijnr com mer- 
cadarias , nem outros mantijmentos pêra adita cidade; e em- 
pachado lomgamemte aquel porto per efta guifa , que Caftel- 
la receberia tam gram perda e dapno por efta razom , que fee* 
ria a cl muj gramde avamtagem pêra comprir fua voomtade. 
Aallem defto , parte das gallees e navios correriam amdamdo 
a cofta , e gaanhando de fcus emmijgos o que aver podeíTem , 
dariam fcmpre volta fobre a foz do rio , e alli jariam daíFef- 
fego com as outras quamdo viffem que compria , e que defto 
íe nom podia feguir falvo muj gramde proveito. Partirom as 
naaos e gallees juntamente no mes de mayo dante o porto de 
Lixboa j com gram parte de gentes do reino , que era fremo- 




208 " C H R o N I C A 

fa companha de veer ; e hiam nas gallees por patroocs Miçe 
Badafal Defpinolla , e Brancalleom Genoes (') , e Joham de 
Mendomça , e Gomçallo Duraaez de Lixboa , e Gomez Lou- 
remço de Carnide , e outros cujos nomes nom fazem mim- 
goa , pofto que fe aqui nom efcrepvam ; e chegarom a huum 
logar que chamam Barrameda , que he aa entrada do rio de 
Sevilha , e aJli ancorarem todas ^^K Os Caftcllaãos quando os 
alli virom, nom lhes prougue de Tua vizinhança je diziam con- 
tra elles per modo defcarnho , que nom forom ajudar elRei 
Dom Pedro em quam.to era vivo , e que eftomçe lhe hiam 
ajudar os ossos depois da morte. Jouve alli a frota per efpa- 
ço de tempo, e deílroyo toda a ilha deCallezí'), e fez muj- 
to dapno per ("^^ aquella comarca aílí no mar como per terra , 
porem que nom achamos que mais tomaíTem logo como che- 
garom primeiro , que huum baixel carregado dazeites , com féis 
quimtaaes dalaacar , e huuraa galee a que poferom nome a 
bem gaanhada ; e gaftavafíe mujto a cidade de Sevilha por 
aazo da fervidom do rio , que deíla guifa eftava embargada. 
PaíTado o veraão , e vijmdo o imverno , começou a gente de 
adoecer, e os mantij mentos demingoar, e morriam alguuns 
€ foterravomnos em terra , e dalli os deflbterravom os lobos 
e comianos j e pofto que lhe elRei mandaíTe navios com biz- 
coito , que fe fazia no Algarve e em Lixboa , e outros man- 
tijmentos e coufas que lhe mefter faziam , nom era a avom- 
ílança tanta que lhe fatisíFazer podeíFe ; em guifa que per frio 
e fame , e comer defacoftumadas viamdas , veherom mui- 
tos a morte e fraqueza e comtinuadas doores , c fe alguuns 
per morte ou fugimento falleçiam da frota , logo era com- 
prido o comto doutros tantos que novamente tragiam a ella , 
e iflb meefmo mudavom os patrooens que ferviam huum tem- 
po, e mandavom outros que ferviífem nas galles. E mandava 
elRei alia mujto burel , e panos de linho e de coor , e vef- 
tires feitos pêra alguuns que amdavom mal veftidos , e def- 
contavomlhos no folldo, quamdo lhe leva vom os dinheiros de 

que 

(i) Genuefes T, (2) todos T. (5) Cadez X. (4) per toda T. 



d'£lRei d. Fernando. 209 

que lhe faziam pagamento. Se clRei por razom dembaxa- 
das 5 ou por outra alguuraa coufa , avia mcíxer deitas naaos e 
galiees pêra emviar a outra parte , tomava aquellas que lhe 
prazia , e mandavaas fornecer , e pagar feu foildo ; c depois 
que vijnham dhu eram emvjadas , tornavomíTe pêra a frota 
dhu ante partirom. Parte das naaos e galiees vijnham ao Al- 
garve e a Lixboa , e em eftes logares lhe pagavom aas vezes 
feu foUdo , e tomavom refrefco e mantijmento, e tornavomf- 
fc logo pêra a outra frota : mas nom embargamdo ifto , ho m.u j 
iomgo tempo que ccnthinuadamente alli jouverom , que foi 
huum anno e omze mefes , paíFamdo mujta fame e ('^ frio e 
outras doores , fez que fe perdeo mujta gsnte delia; ca lhe 
cahiam os dentes , e os dedos dos pees e das maãos , e outras 
tribuUaçooens que palTavom , que feeria Iomgo de dizer. 

CAPITULO XLIII. 

Rãzooens fobre as tregoas que algimns dijjerojn que el-^ 
Rei de Graada fezera com os Cajlellaãos, 

ALguuns que primeiro que nos efcrepverom , afirmam di- 
zemdo em fuás eíiorias, que elRei Dom Hemrrique quam- 
do partio de Medina dei Campo pêra Sevilha , como teemdes 
ja ouvido , que ante que chegafíe aa cidade , foube no ca- 
minho como o meeftre de Samtiaguo Dom Gomçallo Mexia y 
e o mecílre Dalcamtara Dom Pêro Moniz aviam feita tregoa 
com elRei de Graada , de que dizem que lhe mujto prou- 
gue 5 e nom faliam por quamto tempo , nem com que com- 
diçooens efta tregoa foi feita ; e efto nos parece comtradizer 
mujto aa verdade por alguumas certas rãzooens, e leixada a 
primeira que deverom de dizer , a faber , a razom por que 
foi feita 5 e com quaaes preitefias , e por que tempo ; tome- 
mos a fegumda dizcmdo aífi , que o Rei mouro requerido no 

co- 

(1) e muyto T. 



Biau Of- 




210 GhRONICA 

começo defta guerra per elRei Dom Hemrrique que lhe def- 
fe tregoa , per nenhuuma guifa lha quis outorgar , teemdo 
que el emdinamente ocupava os reinos de Caftella, que per 
heramça dereita comvijnham aas filhas delRei Dom Pedro feu 
irmaão , a faber , a Dcna Beatriz , que fe finara em Bayona de 
Gaíconha , e des i a Dona Coílamça cafada com ho duque Da- 
lamcaftro ; e que porem firmou eílomçe elRei de Graada tre- 
goas com elRei Dom Femamdo , e nom com elle ; e huum 
dos capitullos em ellas comtheudo era , fegumdo teendes ouvj- 
do , que elRei de Graada nom fezelTe paz nem tregoa com 
elRei Dom Hemrrique, mas todavia conthinuaíTe guerra com- 
tra elle. E fe alguém diíTer que o mouro nom embargamdo 
ifto , podia quebrar a tregoa , e juramento que feito avia fe- 
gumdo fua creemça , e feer amigo delRei Dom Hemrrique , 
refpomdcfle que efto nom parece doutorgar , ca fe afli fora , 
nom era a tregoa coufa que fe emcobrir podelFe , fegumdo 
as emtradas que os mouros faziam amehude em Caftella , nem 
■elRei de Graada nom emviara pedir em efta fazom a elRei 
Dom Fernamdo que lhe emvialFe de fua terra alguumas cou- 
fas em que lhe faria prazer ;, alli como emviou; ca elRei Dom 
Fernamdo a feu requerimento lhe emviou eftomçe em pre- 
femte féis allaaons e féis fabujos , todos com collares brol- 
lados , e foziis de prata dourados , e as treellas delles dou- 
ro fiado í*J, e trimta azcumas , todas com comtos e anguados 
de prata dourados, que levavom quarccmta e ft-is marcos de 
prata em guarnimcnto ; e levarorolhe eftc prefemte , que apo- 
davom a féis çentas dobras , fete moços do monte delRei 
Dom Fernamdo : o qual prefemte poílo que pequeno fofíe, 
lhe nom fora emviado , fe elRei de Graada quebrantara a 
tregoa que com elle feita tijnha. Nem nos nom achamos , que 
elRei Dom Hemrrique mandaífe vijnr da fromtaria dos mouros 
as gentes que alia tijnha emviadas por guarda da terra : de 
mais que feemdo depois Carmona cercada, omde eftavom os 
filhos delRei Dom Pedro , vijnha clRei de Graada em fua 

(O fraco r. 



d'elRei D. Fernando. 2H 

ajuda com mujtas gentes , como adeamte ouvirees , o que 
nom fezera fe í^í tevera tregoa com elle : e por eftas razooens 
nos parece nom darmos fc aos que fallarom do britamento 
deíla tregoa delRei de Graada. 

CAPITULO XLIV. 

Como as gallees de Caftella quiferom pelleiar com as de 

Portugal , e nom teverom geito • e per que aazo fe par- 

tio a frota dos Portuguefes do rio de Sevilha. 

QUamdo elRei Dom Hemrrique chegou a Sevilha , vio co- 
mo a cidade eílava mui gafta (^^ e apertada , por aazo da 
frota de Portugal que lhe tijnha empachada a emtrada do 
rio .; e dizem alguuns que nom eítavom emtom hi mais de toda 
a frota , que dez e féis gallees, e vijmte e quatro naaos, mas 
nom aíijnam quaaes , nem quaaes nom , nem quem erao os 
patroôes delias. ElRei fez logo lamçar vijmte galees na au- 
gua , mas nom podiam aver remos que as forneçeífe , por 
quamto elRei Dom Pedro fezera levar mujtos remos de Se- 
vilha pêra Carmona , quamdo a fazia bafteçer ; aíli que fe nom 
podiam armar de todo : e porem repartirom çem remos a ca- 
da galee , e mingoavamlhe oiteemta , emtendemdo que eftes 
cento abaftavom foomente pêra chegar aa frota de Portugal , 
e pelleiar com cila ; mas taaes avia hi dos mareantes que 
eram mujto comtrairos a eíl:o , dizemdo que as gallees per 
eíta guifa hiam em mujto gram perijgo , por que quamdo 
veheííe ajufante da maree , lamçallas hia em poder da frota 
de Portugal , que tijnha naaos armadas em fua ajuda , e po- 
diamíFe dcfordenar e fecr desbaratadas. ElRei nom embar- 
gamdo eito , fez em trai* nas galleez mujtos cavalleiros , e ho- 
meens darmas , e beeíteiros , e outras gentes , e partirom pello 
rio afumdo , e elRei per terra com mujtas companhas ; e 

Tom, IV. Dd che- 

(O fe nam T. (2} guaíhada T. B. 



212 ChrONICA 

chegamdo as gallees a Coira fobre Guadalquevir , fouberom 
os Portuguefes como vijnham armadas de mujta boa gente 
pêra pelleiar com elles , e elRei per terra com gramdes 
companhas pêra feu acorrimento , fe lhes mefter foíTe : e ve- 
emdo como todos vijnham gente folgada e frefca, de mais 
em prefemça e vifta delRei, que lhes daria dobrado esforço 
pêra pelleiar, com gramde acorro que tijnham mujto preftes , 
e elles per contrairo caníTados e fracos, e mujtos doemtes, 
ouverom comíTelho de fe lamçar a largo no mar , omde que- 
remdo pelleiar com elles , teeriam avamtagem das gallees de 
Caftella , as quaaes nom poderiam feer acorridas aíli no mar 
como no rio ; e foi alli de feito , que fe poferom as naaos e 
gallees todas demtro no mar. Em outro dia chegarom as ga- 
lees de Caftella aas forcadas , e íouberom como a frota de 
Portugal le lançara no mar largo , e as gallees de Caftella 
chegarom ataa Sam Lucar de Barrameda , e nom oufarom hir 
mais por diamte por os poucos remos que tijnham , e nom 
fe atreviam entrar no mar , efpeçiallmente pollo acorro que 
aver nom podiam. ElRei chegou hi eífe dia com fuás com- 
panhas , e quamdo vio a frota de Portugal amdar na mar 
alta , e que a fua nom podia bem la hir a feu falvo , ouve 
acordo que daquellas vijmte gallees armafle fete pêra emviar 
a Bizcaya por remos, e iífo meefmo armar naaos pêra vijnr 
pelleiar com a frota de Portugal. E forom logo fornecidas 
iete gallees de todo o que lhe compria, e com ella ('^ Mi- 
çer Ambrolio Boca negra , feu almiramte , e partirom de 
noite polias nom veerem a frota de Portugal , e elRei tor- 
nouíFe a Sevilha , e as treze gallees fuás que ficarom ; e 
as naaos e galees dos Portuguefes tornaromíFe a deitar na 
émtrada do rio , omde primeiramente eftavom , e a ifto 
nom pode elRei poer remédio , falvo efperar eftas fete gal- 
lees com as naaos que mandava armar em Santamder , e 
en^ Crafto Dordialles , e outros logares da cofta ; as quaaes 
como forom armadas , emcaminharom logo pêra Sevilha. E 

acon- 

(0 ellas r. £, ' 



STa^í Oí' 



d' £ L R E I D. Fernando.' 213 
aconteçeo que huuma naao delRei Dom Fernamdo , de que 
era meeftre Nicollae Anes Eftorninho , hia pêra Barrameda , e 
levava çem mil livras pêra pagar folldo aa frota de Portugal , 
e a traves do cabo de Samta Maria de Faarom , chegarom a 
cila as gallees de Caítella , e matarom o meeftre com ou- 
tros , e delles cativarom , e queimarom a naao, e tomarom os 
dinheiros. As gallees de Portugal erom emtom todas pello 
rio acima, ca das naaos nom fazem meençom as eftorias ; e 
quamdo as galees derom volta , e tornarom pêra hu ante ja- 
ziam , yirom as naaos e gallees de Caftella hordenadas , de gui- 
fa que tijnham tomada a emtrada da foz , que nenhuum na- 
vio podia peralli palTar fem primeiro aver contemda ; enom 
fe atrevemdo a pelleiar com elles, forom em gram cuidado de 
fua faida : entom poferom fogo a dous navios que tomarom 
carregados dazeite , e leixaromnos hir poUo rio afumdo í^^: 
o fogo era gramde c cada vez mayor , e quamdo chegarom 
ardemdo aas naaos e gallees de Caftella , foilhe forçado de lhe 
dar logar , e defordenaremíFe (^) de como eftavom amarradas O) ^ 
por nom receberem dampno. As gallees de Portugal per hom- 
de os navios do fogo paíTarom , fahirom huumas depôs outras 9 
quanto mais podiam , ante que fe as naaos e gallees de Caf- 
tella tornaíFem a correger como da primeira , e aíli fairom 
todas fem mais pelleiar huumas com as outras : e alguuns em 
fuás eftorias que deftè feito efcrepverom , dizem que íicarom 
em no rio demtro três gallees de Portugal que nom pode- 
rom fair tam aginha í^^ , e que forom tomadas pellas de Caftel- 
la. Outros defvairam defto , os quaaes contam que nom ficou 
nenhuuma , e provamno per huuma forçada razom , dizemdo 
que fe aífi fora que algumas naaos ou gallees de Portugal 
forom eftomçe filhadas , fegumdo eftes autores efcrepverom 
como lhes prougue , que na paz que no íeguinte os Reis , 
depois antre fi (5) poferom , fezera daquefto meençam : ca pois 
huum dos capitullos em ella contheudos he, que os Reis pof- 
fam tirar dos logares que demtregar ouverem , quaaes quer açal- 
Dd ii ma- 

(l) acima T. (2) e defordenarófe B. (5) armadas 7". (4) afmha T, B, 
(5) no feguynce anno os Reis amire fy, 7". 



214 Ghronica 

mamentos que cada huum em ellcs tevcíTe poftos , e iíTo me- 
efmo que fe emtregaíTe quaaes quer prifoneiros que tomados 
forom fem nenhuuma remdiçom ; muito mais razom era fal- 
lar na emtrega de taaes gallecs ou navios í'^, com tantas gentes 
e armas e couías em ellas tomadas , que he mayor coufa que 
o bafteçimento de huum pequeno logar , aílim como Sam Fel- 
lizis, e aFeolhofa e outros femelhamtes; e que pois taaes pa-s 
zes difto nom fallom , que nom devem dar fe a tal efcriptu- 
ra. E rornamdo a fallar nas naaos e gallees dos Portuguefes , 
cuja eftada havia feito mujto dampno , nom foomente a Sevi- 
lha 5 mas aaquella terra toda , depois que as outras de Caf- 
tella veherom ; ellas fe partirom dalli todas da maneira que 
ouviítes , falvo huuma gallee que fe alia perdeo em Samta 
Maria dei porto. E mandou elRei Dom Fernamdo defarmar 
as naaos e gallees, nas quaaes fe perdeo mujta gente, como 
diíTemos , por que teverom dous invernos em ellas ; que taaes 
ouve hi fegumdo diziam , que forom em ellas metidos fem 
barvas , e que aa tornada veheram caãos ; e elRei gaftava 
feus tefouros , e perdia as gentes com pouco acreçemtamen- 
to de feu eltado e homrra. 

CAPITULO XLV. 

Como os de Carmona mandarom dizer a elRei Dom Fer- 
namdo que lhe acorrejje , e da repojia que deu 
ao mejfegeiro, 

AVemdo ja huum anno e nove mcfes que efta guerra du- 
rava , começandolFe a era de quatro centos e nove , ef- 
tavom os de Carmona muj esforçados com pouca voomtade 
de dar a villa a elRei Dom Hemrrique , nem tomar fua voz , 
por ogramde esforço que tijnham cm elReí Dom Fernamdo, 
que lhes prometera que feemdo cercados os foíFe dcçerçar. E 
foi affi que morto elRei Dom Pedro , como diílemos , eftava 

Mar- 

(i) ou ngaos B* 






d'elRei d. Fernando. ^'5' 

Martim Lopez de Córdova meeftre de Callatrava em Car* 
mona com mujtas gentes comíigo , e quamdo os outros lo- 
gares tomarom voz por elRei Dom Fernamdo , foi efta villa 
de Carmona huum delles fegumdo ouviftes ; e fcrepveromlhe 
loguo como eftavom alli jumtos e preftes pêra feu ferviçó, e 
que fe aconteçeíTe que os delRei Dom Hemrrique veheíTcm 
cercar y que lhe pediam por merçee que lhes acorreíTe , co- 
mo aaquelles que de toda voomtad-e queriam íeer feus, ElRei 
foi ledo com aqucftas novas , e diíFe que lho gradeçia mujto , 
e fezlhe faber que folTem bem certos fe tal coufa aveheíTe 
de feerem cercados , que el lhes acorreria em toda guifa ; e 
por moor feguramça defto , mandoulhes huum alvará aíijnado 
per fa maão. Defta repoíla forom elles muj contentes, e tra^ 
balharomíTe daçallmar e bafteçer melhor o logar, que fe lhe 
tal coufa aveheífe , o podeífem bem defemder. Elles eftamdo 
neefta efperamça , fouberom como elRei Dom Hemrrique hor- 
denava de os hir cercar , e emviarom apreíTa huum cavallei- 
ro a elRei Dom Fernamdo , pêra lhe fazerem (^í faber come 
elRei deCaJftella jumtava fuás gentes pêra vijnr fobrelles , <> 
qual chegou a elRei , e difíe : m Senhor , o meeftre Dom Mar- 
5) tim Lopez , e aquelles nobres homeens que eftam na roíla 
» villa de Carmona , emviam muj humildofamente beijar vof- 
>5 fas maâos , e fe emcomendam mujto em voíTa merçee ; aa 
yy qual fazem faber , que elles fom bem certas , que elRei 
3" Dom Hemrrique tem jumtas fuás gentes pêra os vijnr çer- 
5j car 5 e penfo , fenhor , diífe elle , que ja ora fom cerca- 
»> dos; e porem vos emviam pedir por merçee, que vos pra- 
M za de lhes acorrer , de guifa que elles fe nom percam per 
5> mingoa de volTo boom acorrimento ; ca bem devees , fe- 
>y nhor , dentemder que feemdo elles emtrados per força ou 
5» per outro qual quer modo , o gram caj-om e defomrra que 
yy lhes de tal feito podia vijnr ». ElRei o recebeo muj bem ^ 
e diífe que averia fobrello feu ("^^ comfelho ; e depois que o ou- 
ve com! os de fua falia , mandoulhe dar a repofta per huum 

feu 

Qi; íâzec B, Çz) fobre eUo boó T, 






aié Chronica 

feu privado , o qual lhe diíTe em efta guifa: j» Cavaíleiro, 
5> vos dizee aaquelles fenhores que eftam na villa de Carmo- 
» na, que elles trabalhem come muj boons que fom,pcrdcf- 
99 femder muj bem ho logar, aílí por fuás homrras come por 
99 fazerem gramde e boa fliçanha ; que feiam certos, que el- 
99 Rei meu fenhor por agora tem tanto de fazer cm outras 
?> coufas que lhe mujto comprem , que os do feu comfeJho 
9> lhe dizem que per nenhuuma guifa pode f') emcaminhar co- 
5> mo lhes acorrer poíTa por o prefente , e que porem lhes 
3> roga , que lhe perdoem por ora ifto nom poder fazer j mas 
5> como ouver logar e tempo aazado de o poer em obra , que 
99 elle o fará mujto de boamente ». O cavalleiro foi deílo 
muj trifte , e nom diíTe nenhuuma coufa aaquel que lhe efta 
repofta deu ; e aguardou huum dia quamdo elRei fahia de mif- 
fa 5 e ficou (^J os gcolhos antelle , e temdeo o ( '^ alvará da pro- 
meíla que elRei avia mandado aos de Carmona , e diíTe alta 
voz peramte todos : jj Senhor , vos fabees muj bem como pro- 
5> meteítes aaquelles nobres homeens que eftam em Carmona , 
3> e teem voíTa voz , de lhes acorrerdes fe foífem cercados , 
99 tanto que vollo fezeíTem faber , fegumdo he comtheudo em 
99 efte voflb alvará ; e ora elles vollo fezerom faber per mim , 
99 e vos me mandaftes dar em repofta , que os do voíTo comf- 
99 felho vos dizem^ que o nom podces por ora fazer : eu , fe- 
5> nhor, avos que fooes Rei nom digo nada, ca a mim nom 
3> compria de a tam nobre fenhor como vos dizer nenhuuma 
5> coufa fobrefto ; mas digo a qualquer do voíFo comíTelho , 
3> que vos efto diz e comíTelha , que él he treedor, e fallfo , e 
5> vos nom comflelha bem nem verdadeiramente , em vos lei- 
9> xardes perder tal logar como aquelle , com tantos nobres 
3> homeens como em el eftam pêra voflb ferviço ; e demais 
5> quebramtardes voflb prometimento que lhe feiro teemdes , 
5> por nenhuuma outra coufa que vos tenhaaes de fazer : e 
99 porem eu fom preftcs de fazer conhecer a qual quer que 
5» feia , que o que eu digo he verdade , c que elles mal , e 
99 fal- 

(i) podem T. (2) e fincou T, B. (5) em leerra amte elle, e icmdaho X. 



d'elRei d. Fernando. ii7 

> falíTamente vos coníTelham efto ; ca fe elles fouberom que 

> lhe vos nom aviees dacorrer , elles fegurarom fuás vidas per 

> outra guifa , e nom forom poftos em perijgo, como lom 
» ora ; mas elles peníTamdo de feerem per vos deíFefos 
5 como era razom , vos derom a villa , e fe ofereçerom 

> a morrer por voíTo ferviço , nom curamdo das aveemças 

> nem preiteíias , qae lhe elP^ei Dom Hemrrique prome- 

> tia com mujto fua prol e homrra , as quaaes lhe agora 

> de muj maamente faria , por a fanha que ja delles tem f\ 
ElRei refpomdeo , que pois ja determinado era em feu coml- 
felho per aquella guifa , que fe nom podia por emtom mais 
fazer. O cavalleiro fe alçou e partio dantelle , braadamdo e fa- 
zemdo queixume deílo a quamtos o queriam ouvir ; e nom 
quis tornar com eíte recado a Carmona, mas mandou apreífa , 
o mais efcufamente que fe fazer pode , tirar a molher e os 
filhos do logar , ante que fofle cercado ; e depois lhe mandou 
dizer a repofta , a tempo que nom preftou nada j por que ja 
elPvci Dom Hemrrique jazia fobre o logar. 

CAPITULO XLVI. 

Cowo elRei Dom Hemrrique cercou Carmona , e lha deu 
Dom Marttm Lopez per preitefta» 

NOs diíTemos ja em alguuns logares como elRei Dom Pe- 
dro , ante que morreíTc , fe trabalhava mujto de bafte- 
çer e afortellezar Carmona , o mais que fe fazer podia , re- 
çeamdo de fe veer em alguum perijgo e teer alli acorrimen- 
to ; e nom diíFemos por que baíteçia cfte logar , e afortelle- 
zava mais que nenhuum dos outros de feu reino ; e por nom 
feer avudo por mingoa na eftoria , comtalloemos da guifa 
que o alguuns em feus livros efcrepvem : dizemdo que el- 
Rei Dom Pedro ílizia muito por faber de feus ailrollogos a 
çertidom das coufas que lhe aviam de vijmr; e nom foomen- 

te 






2i8 Chronica 

te pellos leterados defua terra, mas almda aGraada mandava 
pregumtar Abenahatim mouro , gramde fabedor e fiUofofo , 
que lhe efcrepveíTe a çertidom das coufas que lhe podiam í'^ 
aqueeçer ; e dizem que per elles foube que avia de leer cer- 
cado em huum logar, que tijnha huma torre, a que chama- 
vom eftrella ; e por que em Carmona ha huuma torre , a que 
chamam per tal nome , pcnfou el í^^ que eíle era o logar : e 
nom embargamdo que forte feia , por efta razom fe traba- 
lhou el de o bafteçer e afortellezar o mais que fe fazer po- 
de , e alli pos feus thefouros e filhos , como ja diíFemos. E 
quandoo elRei Dom Hemrrique cercou em Montei , foube el 
como avia hi huuma torre , que chamavom eftrella , e foi 
muito anojado por ello, e por iíFo e por outras razoões que 
ouviftes 5 fe trabalhou de fahir delle , como teemos ja comta- 
do. Sobre efte logar de Carmona fe veo elRei Dom Hemr- 
rique lamçar com mujtas companhas , e pofto arreai fobrel- 
la , çercouha dhuuma parte , ca fe nom podia cercar de todo , 
e mandou fazer huuma baftida , e de noite efcallarom hu- 
uma vez a villa , e fobirom acima quareemta homeens arma- 
dos , que pêra aquello forom efcolheitos ; e os da villa que 
efto femtirom , acudirom alli rijamente e pelleiarom com el- 
les , de guifa que a alguuns delles comveo per força folta- 
lem mujto comtra feu grado ; e outros que aviam cobrada 
huuma torre , nom podemdo mais fazer , forom em ella to- 
mados per força : e chegou hi Dom Martim Lopez , e fe- 
zeos matar todos que nom ficou nenhuum , de cuja morte 
elRei Dom Hemrrique ouve pefar e gram femti mento , e 
teve grande fanha de Dom Martim Lopez, porque os ma- 
tara daquella maneira , temdoos prefos , c podemdolhe dar 
vida. Aaçima duramdo o cerco per efpaço de tempo , e mim- 
guamdo as viamdas aos da villa , c veemdo como lhe nom 
vijnha acorro de Portugal, nem deGraada, nem de Imgrater- 
ra , pêro foubeflem que eram cercados , foi forçado a Dom 
Martim Lopez de fe preiteiar com elRci ; e foi na conveen- 

Ç^ 

(O poderiam 7. (2) elRei D. Pedro T. 



d' E L R E I D. F £ R N A N 1) o. 2 1 9 

ça que lhe deíTe a villa e todo o que ficara do tefouro dei* 
Rei Dom Pedro , e, que, lhe emtregaíTe prefo Mateus Fernam- 
dez de Cáceres , que fora chamçeller deiRei Dom Pedro , 
que eftava com el no logar ; e que Dom Martim Lopcz fof- 
fe poíto em falvo em outro reino, ou lhe fezeíTe elRci Dom 
Hemrrique merçee , fe com el quifeíTe ficar : e eftas avèem- 
ças trautou o meeítre de Samtiago Dom Fernando OíTorez , 
fazemdo fobrello grandes juramentos que elRei lhe guárd^ãria 
efte feguro. Dom Martim Lopez deu a vilk a clRei , e Gom- 
prio todo o que ficou a fazer , e elRei mandouho logo prem-^ 
der, e levarom el e Mateus Fernamdez a Sevilha , e mandou- 
hos elRei matar; c diziam todos que elRei fezera muy gram- 
de mal em efto , que por queixume que dei ouve íFe por a 
morte de feus criados , nem por outra nenhuuma razom , que- 
bramtalFe a feguramça que lhe proiíietida tijnha ; e pêro fe 
o meeftre de Samtiago mujto queixaíFe a elRei por ello , di- 
zemdo que elle ofegurara de morte per feu mandado , e lhe 
fezera fobrello promelTas e juramentos , nom preftou Teu ra* 
zoado pêra o efcapar de morte. E defta guifa cobrou elRer 
Dom Hemrrique Carmona , e mujtas joyas que ficarom dei-» 
Rei Dom Pedro , è mandou os filhos prefos a Tolledo , 6 cl-* 
le tornoulfe pêra Sevilha. E dizem aqui alguuns , que íabem- 
do elRei de Graada como os filhos delRei Dom Pedro eíta- 
vom aífi cercados 5 que vijnha com mujta gente de pee e de 
cavallo pêra lhes acorrer; e que yijmdo no eftremo , lhe dif- 
ferom como era tomada Carmona , e os filhos delRei Dom 
Pedro prefos, e que eftomce fe tornou pêra Graada, e nom 
fe fez fobrefto mais ; e que o aazo de fua vijmda tam tarde ^ 
foi certos recados que fobrello emviou a elRei Dom Feraam- 
do , cujas repoftas alomgarom tanto e com taaes razoões^ 
que o Rei mouro ouve dentemder , que de poer em tal fei- 
to maão elRei Dom Fernamdo nom avia voomtade , e que 
eftomçe fe fez preítes, e vijnha defta guifa que dizemos. i.> 

Tom. IF. Ee CA^ 



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CAPITULO XLVIL . »aV'-^ 

Das fazooes que alguuns dijferom ^fallamdo docafmntn^ 
tó delRei Dom íernamdo com a Iffante Daragòm. 'd 

Ramde mimgoafoi dalguuns autores , que voomtade.ou- 
verom de fazer eftorias:^' em teerera tal modo deítòriai' , 
qual teverom ; por que coufas neceíTarias de faber , leixarom 
de todo fem delias fazer meençom , outras tocamdo em bre- 
ve ,,fallamento , ficarom . carregadas de gramdes duvjdas : e 
fe •; certo e curto fallarom , alguum louvor mereciam da^* 
ver; mas pouco fallamdo , defviados mujto da verdade , me- 
lhor fora nom dizer taaes coofas , moormente quamdo per 
feu efcrepver fica maa fama dalguumas peíToas , que mujto 
he defquivar em taaes fdlamentos : e por nom cuidardes 
que :. dizemos efto por nollb louvor e fua mimgua delles , 
veiamos primeiro feu defvairado modo defcrepver j. o qual 
bem roubado feeria do fifo quem ho creefle e lhe dfeíTe fe , 
€ digamos logo de Martim AffoníTo de Meello ,' na crónica 
que deftes feitos compôs : o qual fallamdo em efté paíTo do 
cafamento delRei Dom Fernamdo com a Iffamte Dona Lionor 
Daragom , diz que emviou elRei alia o comde Dom Johani 
AíFonflTo Tello , e que levou dezooito quintaaes douro em 
pafta pêra dar a elRei Daragom por efte cafamento, e que 
fe veo fem firmar ho cafamento , e leixou eíte ouro na praya; 
deVallemça , e que alli jouve per gram tempo , e que ^fto- 
fez o conde por cafar elRei depois com. fua fobrinha , mo- 
Iher de Joham Louremço de Cunha , como de feito cafou.' 
Outro gramde eftoriador , que mais largo razohou que efte ,• 
diz em huum livro, que elRei Dom Fernamdo depois que foi 
efpofado com efta lífamte Daragom , mandou alia duas gal- 
lees, huma delias mujto bem corregida í'), em que ella avia 

de_^ 

J^i) ftrmaada T, 






d'elRei D. Fernando. 221 

devijnr, com outras naaos e gallees que elRei fcu padre avia 
de mandar em fua companha , c que em liuuma das galees 
mandou elRei Dom Fernamdo dezooito quintaaes douro , e 
bem feteemta quimtaaes de prata, o qual aver levou ocomde 
Dom Joham AÔoníTo Tcllo , o qual era o moor privado que 
entom elRei avia ; e que em guifamdo elRei Dom Fernam- 
do por mandar efta embaxada , que fe namorou de Dona Lio* 
nor Tellez , fobrinha defte comde , filha de feu irmaao Mar- 
tim AíFoníTo Tello 5 que fora cafada com Joham Louremço de 
Cunha , e era ja quite emtom delle , a qual efte comde tijnha 
em fua cafa fabemdo bem parte do amor que lhe elRei avia ; 
e que o comde chegou com efte aver a Aragom , omde foi 
defcarregado , e bem guardado daquelles que delle levavom 
carrego ; e que vifta a líFamte pello comde , e per aquellcs 
que com elle hiam , que todos diíTerom , que numca tam fea 
coufa virom , e mais que diíTerom alguuns que ante perderiam 
todo aquel aver , e fete tanto mais aalem , que cafar com tal 
molher como aquella. E que o comde fe meteo huuma noite 
na gallee fem fallar a elRei, e amanheçeo tam lomge no mar, 
que perdeo viíla de terra ; e que chegamdo a elRei Dom Fer- 
namdo 5 que lhe diíTe que elRei Daragom o quifera premder , 
dizemdo que lhe tijnha dada húuma fua fobrinha por barre- 
gaã , e que ficalFe alia prefo em arrefeens , ataa que fua fo- 
brinha foíTe levada a Aragom , ou emtregue a feu marido ; e 
que elRei Dom Fernamdo diíTe emtom , que pois aíli era , 
que mais lhe prazia receber Daragom la o aver, que el rece- 
ber ca fua filha com o que lhe prometera , e que aíli fe paf- 
fou efte feito. Eftas e outras razooes emmijgas da verdade 
leixamos defcrepver por nom alomgar , as quaaes melhor 
fora nom feerem efcriptas , que leixar aos homeens vaas opi- 
niooes que cream , e dos finados maa fama por fempre. 



Ec ii CA- 



2 22 ChroNICA 

CAPITULO XLVIII. 

Que moveo elRei Dom Fernamdo ajumtar ho ouro que 
mandou a Aragom , e quamto era per todo. 

POfto que ja fallaíTemos alguuma coufa deftes efpofoiros 
delRei Dom Fernamdo com a líFante Dona Lionor Dara- 
gom 5 comvem que digamos o mais deíle feito que fe depois 
feguio , por que aquello que confufamente he eftoriado , ve- 
nha a praça com mais clara çertidom , des i por defabafarmos 
efta eftoria per alguuns mal recomtada , de tamanhas duvjdas 
como delia naçem. A primeira , que moveo elRei mandar tan- 
to ouro e prata a Aragom , e quamto era per todo. A fegum- 
da 5 a quem foi emtregue em Aragom efte aver , e que fe fez 
la delle. A terceira , por que nom foi tragida a líFamte , e fe 
desfez efte cafamento. A quarta , fe partio o comde fua ('^ graça 
delRei Daragom , e por que veo , e per que guifa (-). A quim- 
ta 5 por que nom tornou la mais o comde , e fe ouve elRei 
Daragom parte defte avej;;^«Gontra voontade delRei Dom Fer- 
namdo. A as quaaes reípomdemdo com mujto trabalho, buf- 
camdo a verdade de cada huuma delias, a çertidom de to- 
das foi per efta guifa. ElRei Dom Fernamdo fegumdo diíTe- 
mos, trautou de cafar com a líFante Dona Lionor Daragom, 
por aver feu padre em ajuda comtra elRei Dom Hemrri- 
que , com que avia guerra ; e foi efpofado elRei com ella 
per MoíFe Joham de Vilaragut , que veo procurador da If- 
famte, como ja teemdes ouvjdo. E leixados os outros capi- 
tuUos das comveemças antrelles devifadas , huum delles foi 
que elRei Daragom fezeíTe guerra a elRei Dom Hemrrique , 
dous anos continuados , na qual guerra elRei Dom Fernam- 
do avia de pagar aa fua cufta mil e quinhemtas lamças ; e 
por quamto eftas gentes darmas compria daver pagamento per 

moe- 



(i) em fua T, (2) e per que guyffa a^uy veyo T. 



813-^ 01? 



d'el Rei D, F ET^ N AN DO. 223 

moeda que fe coftumaíTe no reino Daragom , foi tríjatado 
neeíla preiteíia , que elRei mandaíTe alia ouro e prata , de 
que fe fezelFe moeda pêra paga do folldo que aviam daver : 
e efta foi a razom por que elRei jumtou aquel ouro que 
alia foi emviado , e nom por levar aa noiva em prefemre , 
nem o dar a feu padre por a cafar com elle , fegumdo algu- 
uns rudemente fallarom, O outro/'íque elRei la mandou nom 
foi em pafta , mas todo em moedas das que elle mandara fa- 
zer quamdo novamente começou de reinar, a fabcr, dobras 
das primeiras que chamavom pee terra , e gentijs primeiros e 
fegundos e terceiros ; e de dobras caílellaãs e mourifcas , e 
outras moedas Françefes , nom feeriam mais que ataa cem mar- 
cos. E foi todo jumto ^^^ emLixboa per efta guifa : o tefou- 
reiro da moeda e do feu tefourp derom huumas çem mil pe- 
ças , e mandou elRei tomar do tefouro que eitava na torre do 
caftello da dita çidadé , outras çem mil dobras , daquellas pri- 
meiras que diífemos , que eram de pefo de dobra cruzada : 
aíli que feeiia todo o aver quamto emtom foi jumto , ataa 
quatro mil marcos douro , que eram pouco menos de dezooita 
quimtaaes : prata nenhuuma nom foi la levada , como alguuns 
diíFerom , por que aquella que mefter aviam pêra as moedas 
que depois lavrarom , toda foi comprada em Aragom E efte 
ouro todo mandou elRei que reçebelTe huum homrrado mer- 
cador de Lixboa , que chamavom AffoníTo Dominguez Baraçei- 
ro , ao qual mandou que toda a defpefa que lhe o comde man- 
daíTe fazer delle , que a fezeíTe prefemte o efcripvam que lhe 
era dado , feni poer mais outra duvida ; e foilhe emtregue no 
mes de março da era ja nomeada de quatro çem tos e oito. 



CA. 



(O o ouro r. B, (2) todo ifto T. 



zvrs. o-í' 



124 Chronic;» 

CAPITULO XLIX. 

Como o Comde partio de Lixboa pêra Aragom , e como 
chegou la com todo o aver que levava, 

EStc comde Dom Joham AíFonlTo que diíTemos , era eílom- 
çe o moor privado que elRei ('^ Dom Fernamdo , e de que 
moores coufas fiava por fua difcriçom e faieza , e feeria de 
fafeemta anos, Eíle hordenou elRei de mandar a Aragom , por 
emcaminhar feus feitos da guerra que fe avia de fazer, e tra- 
ger logo a Iffamte , fegumdo emtemder podemos ; por que 
nom embargamdo que alguuns digam , que elRei mandou nom 
mais que duas gallees a Aragom , a verdade he que la forom 
fete ; ca el mandou vijnr de Barrameda a gallee domzella , e 
outras çimquo , e mais a gallee real, que era huuma gramde e 
fremofa gallee , em que avia largas e efpaçofas camarás , a 
qual elRei mandou mui nobremente guarnecer deftemdarte , 
e raujtos pendooes e temda , e aparelhos de cordas de feda, 
omde avia de vijnr a líFamte ; e mandou poer por nobreza , 
mujtos e í^^ gramdes dentes de porcos montefes, emcaftoados 
íio lomgo da coxia damballas partes da galee , e todollos remos 
pimtados, e outros logares por fremofura. Os galliotes eram 
veftidos todos de huma maneira , e hiam em ella quarcenta 
beefteiros , afaz de mancebos e homeens de prol , todos vef- 
tidos doutra livree , e cintos cubertos de velludo preto com 
as armas delRei brolladas. E bem parece de razom que o 
comde ouvera logo de trager a lífamte , ca elRei mandou 
tirar daquella torre do aver , que eftava no caftello da cidade , 
huuma coroa douro feita de machafemeas, obrada com pedras 
de gramde vallor , e groíTos graãos daljof^ir arredor, e reli- 
gairos , e anees douro , e camaíxíus , e outras joyas de gram pre- 
ço , afora fayas , e cotas , e çipres de dona , e outras coufas que 

per- 

(i) privado delRei T. (2) e muy T. 



d'elRei d. Ferhaítdo. Í2f 

perteençiam a guarnimentos de molher , as quaaes levava o 
comde em efta gálee (etn que avig dhír. ^\i0 eIRei mais ou- 
tros léus privados e mujto metidos em eftes feitos, de que 
também -.ifiuj to fiafa , a faber , huiím Çeil,o.es que chama- 
vom Miç^e Badafal DefpinoU^., é ÀffoníTo^ternamdez de Bur- 
gos. E irtaiidou elRèi levar todo aquel ouro per' terra ate a o 
Algarve , e hiam em cdtaipanha delle cimqubemta beefteiros , 
com outra gente que ho guardavom. E foi o conde prcftes 
pêra fe partir, mujto acompanhado de boons £dalIgos e efcun 
deiros ^ eipartio de Lixboa aos quimze-diasrdaquel mez.de 
março , e chegou ao Algarve , omde foi polio tódb aquel pu-^ 
ro na galee em que el hia , e fez o corade^hi armar outra, 
gallee que levou em fua companha. Dalli feguio fua viagem, 
c chegou a Barcellona, cidade Daragom , omde elRei emtom 
eftava ^ de que foi muj bem recebido e todollos que com el- 
hiam ycmandamdo elRei que o apoufentaíFe C*^muj bem , dif4 
íe O' comde que lhe nom compria eílomçe outra pouíada p^ 
fe nom a gallee em que vijnha , por o aver que tragla erai 
elia , ataa que foíTe todo pofto em terra :. entom forora bar-«> 
cos aa gallee, e defcarregarom todallas arcas em que hò^ouroí 
hia , eiibi: levado aos paaços delRei , e pofto e^ huumá ca-í 
mara bem çarrada , e guardado do tefoUreiro que. o levava, c^ 
daquelles que hiam em* fua companha , e doutras gentes afol-> 
dadadas , que comel^eftavom conthinuadamente ;' e defta gui- 
fa foi pofta emelle boa guarda, e nom leixado na praya em, 
defemparo , como alguuns nom bem emformados em oÂo dif-^- 
ferom. . .. .J 






CA- 



(O apcuíTeatalíem T. 



m^-3: Qi^ 



2t6 .C C H R ONI CxAid-n 1 

n ^i r G A P IT U L O L. 

Z)í? 1^/^^ o comdè hordenou que Je fezeffe daquel ouro que 
''^'^levavaj ecomo começarom pagar folldo aa? gen- 

OGomde ám em' Aragom , trautou com elRei per nova 
comveemça outros capitullos da hordenamça da guerra , 
e paga do foldo que avia de^feer feita : a faber , que apaga 
das mil e quinliemtas lanças que elRei Dom Fernamdo avia 
de fazer por féis mcfes , fe tornalFem em pagamento de três 
mil lamças pagadas por três mefes ^ com comdiçom que fe 
elRei Dom Hemrrique ao tempo que fe começalTe a guerra , 
foffe nas fromtarias Daragom , que elRei foífe theudo dhiri 
per peíToa 5 ou jemviar o Duque feu primogénito filho, por caA 
pitam das ditas três mil lamças, e o mais com o feu poderio ; 
eoUtoas femelhamtes coufas que a^nolFo propofito mingua, 
nam fazem , pofto que recomtadas aqui nom feiam, Des i 
trabalhou logo demcaminhár com os fidallgos que maneira 
aviam/ de teer no . profeguiraento da guerra , e por iqué pre- 
ço cada. huumye mais como fe logo lavrafle moeda pêra ave- 
rem paga de fuás folldadas ; e forom feitas efcripturas da- 
veemças e obrigaçoóes como cada huum avia de fervir, e com 
quamtas lamças , equamto lavia daver por mes , a faber , trim- 
ta fiorijns por lamça do dia que começaíTe de fervir. Outro 
íi ouve leçemça e carta delRei pêra fazer moeda douro e 
prata alli em Barçellona , a faber, fiorijns taaes como elRei 
tijnha hufamça de mandar fazer , e reaaes de prata dos fina- 
aes e cunho (') delRei Dom Pedro de Cafi:ella , de quatro 
maravidijs cada huum real. E começarom de lavrar na cafa 
da moeda delRei , e fezerom logo ataa duzemtos mil reaaes 
de prata , e huuns noventa mil fiorijns; fazemdo logo paga- 
_^ n^^"" 

Co e cruunhos T, 



d'elRei d. Fernando. 227 

mento de féis domaas a eíTes capitaaens , de feu folldo , afli 
como a MoíTe Rodrigo de Navarra , e a MoíTe Joham de Sam 
Martim , que aviam de fervir com quatro lamças , e a Dom 
Gil Garcia de Navarra , que avia de fervir com duzemtas , e 
aííi a outros Aragoefes e Caftcllaãos , fegumdo as lamças que 
cada huum tijnha : e aos que nom eram prefemtes , manda- 
vomlhe o folldo aos logares omde eftavom , aíli como a Gar- 
cia Fernamdez de Villa odre , que cllava no reino de Murça , 
que avia de fervir cem quatro çentas lamças , e a Diego Lo- 
pez de Moutoyo , e a outros fidallgos , que feeriam per to- 
dos os que emtom forom paguados ataa duas mil e duzemtas 
lamças. E pagarem mais foldo a mil e quinhemtas lamças, das 
com que elRei Daragom avia de fazer fua guerra , doutras féis 
domaas como aos outros , por que nos trautos era comthcu- 
do, que elRei DomFernamdo lhe empreílaíre o folldo dhuum 
ano pêra ellas , o qual fe avia de comtar do dia que a guerra 
foíFe começada em deante. Desi pagavom mantijmentos a eí- 
fes que o aviam daver , aíli como aaquel comde de Barcel- 
los Dom Joham Affbnflb , omze florijns por dia , e afll a cada 
huum dos outros fegumdo lhe era hordenado : e iífo meef- 
mo fezerom pagamento a vijmte gallees das que eftavom em 
Barrameda , de folldo que lhes era devido dalguuns mefes que 
íijnham fervidos {'^; e mais mandarom fazer pemdooens dos 
íinaaes delRei que aviam de levar na ofte , e mandarom reca- 
dos a Medinaçelli per Lopo Lopez de Gamboa , efcudeiro 
Caftellaão , e a Almançom , e a outros logares , a fallar com 
alguuns cavallciros , e faber parte do eftado da terra , e on- 
de era elRei Dom Henrrique , ou quem eftava pella comar- 
ca de Caítella per omde a olte avia de paíTar. E tornarom 
outra vez a fazer pagamento doutras féis domaas aaquelles 
capitaáes e suas companhas , aíli que também todos elles , co- 
mo as mil e quinhemtas lamças delRei que diífemos , a to- 
dos ja era feita pagua de três mefes. Em efto gaílavaífe o 
tempo , fem fazer coufa que ferviço delRei folFe ; e defpem- 
Tom, IV, Ff dian- 

(i) fervido T. 



228 Chronica 

dianfe os dinheiros em corrigimentos e hordenamças , que 
nunica soomente ouverom começo. 

CAPITULO LI. 

Como o comde Dom Joham Affonjfo fe partia pêra Por- 
tugal ^ e por que nam foy tr agida a Iffamte 
a Portugal. 

Egumdo j-a damte avemos tocado , elRei Daragom avia 
daver feguramça delRei Dom Fernamdo , por razom da 
guerra que avia de começar comtra elRei Dom Hemrrique ; 
de guifa que depois que foíTe coraeçada ataa dous anos fe- 
guijntes, nom desfalleçeíTe foUdo aas lamças que el era theu- 
do de manteer , as quaaes aviam de feer pagadas de dous 
em dous mefes ; e elRei Daragom iíTo meefmo avia de fazer 
feguro elRei Dom Fernamdo de profeguir a guerra , nom 
çeílamdo delia ataa o tempo que deviiado tijnham : e a fe- 
guramça da parte delRei Dom Fernamdo avia de feer, que 
os ditos comdes , e Miçe Badafal , e Martim Garcia aviam 
deitar fempre em Aragom por arrefeens , ataa que a guerra 
foíTc acabada , e feita comprida mente paga a todoUos que 
em ella ouveíTem fervido : e por aazo da innovaçom dos ca- 
pitullos que o comde de Barçellos emnovara com elRei , aífi 
do mudamento das mil e quinhentas lamças, e três miU^^, co- 
me doutras coufas comtheudas nos trautos primeiros , as qua- 
aes elRei Dom Fernamdo avia daprovar , hordenou o com- 
de de vijnr a Portugal fallar a elRei fobrello , e eito por le- 
çemça delRei Daragom ; aífi que fe nom eípedio dei per ne- 
nhuuma defaveemça e defacordo , mas com fua graça e pa- 
gamento , fem outro efcamdalo que hi ouveíTe. Ca fe el parti- 
ra Daragom queixofo per alguuma guifa , defemparamdo to- 
do aquel negocio como coufa fijmda , nom leixara tal manda- 
do a AíFoníFo Dominguez tefoureiro daquel aver, qual lhe lei- 

xou 

(i) e três myl de pee 7". 



.Uí^ «^ 



d^elRei D.Fernando. 22p 

xou per fua carta , nem fe trautara mais nenhuuma coufa fo- 
bre a hordenamça da guerra , como fe depois trautou ; ca el 
leixou mandado a AfiorlTo Domimguez , que do aver que 
lhe emtom ficava em poder , e de todo outro que reçebeíTe 
em quamto per mandado delRei efteveíTe no reino Daragom , 
fezeíTe todíillas dcfpcías que lhe Miçe Badafal mandaíTe , aíE 
como as depois fez que fe o comde delia partio. E aveendo 
ja huuns três mefcs que o comde alia era , na fim do mes de 
Junho partio pêra Portugal , e trouxe comfigo a coroa douro 
e todallas outras joyas que levara pêra dar aalííamte; as qua- 
acs elRei mandou tornar aa torre domde forom tiradas , por| 
que fallamdo el a elRei per vezes no cafamento de fua filha 
com elRei Dom Fernamdo , refpomdia elRei que a nom 
podia mandar por eílomçe , por quamto nom tijnha aim- 
da defpemíTaçom do papa pêra poderem cafar ; mas que el 
fe trabalharia de a aver o mais cedo que podeíTe , e que logo 
lha mandaria fegundo perteemçia a fua homrra : e efta foi a 
arrazomí^^ por que a Iffamte nom veo entom^ e nom per cou- 
fa que o comde nefte feito maliçiofamente obralFe , nem por 
ella feer tal como alguuns eíloriamdo feamente pimtarom , ca 
de corpo e geefto natureza lhe dera tam boa parte , que ne- 
nhuum fenhor fe defcomtentaria de a aver por molher. E fe 
ella tal nom fora , nom fezera elRei Dom Hemrrique tanto 
depois por cafar com ella o Iffamte Dom Joham feu filho , que 
depois foi Rei de Caftella , e ella Rainha com elle , cmviam- 
do muitas vezes dizer a feu padre que lha deíle pêra o Iffan- 
te feu filho , como fora trautato quamdo eram (^) moços , ataa 
mandarlhe rogar que lha deffe todavia , e que nom queria 
que lhe deffe com ella nenhuuma coufa de quâmto lhe aa 
primeira prometera ; a qual coufa nom he de cuidar que fe- 
zera fe ella tam fea imagem fora , como alguuns mal dizem- 
tes differom. Nem elRei Dom Fernamdo em eíta fazom , nem 
depois ainda per tempo , nom tijnha femtido de Dona Lio- 
nor Tellez , de que fe depois namorou , nem lhe vijnha per 

^_____ Ff ii cui- 

(0 a "zoni T, £. (2) cqihq eram J. 



230 C H R o N I C A 

cuido nem peníTo í'), o que fe depois feguio , fegumdo adeam- 
te claramente ^^^ poderees veer. 

CAPITULO LII. 

Como os capítulos da guerra forom outra vez mudados 
e elRei Daragom mandou feu recado a^ elRei 
Dom Fernamdo. 

Artido o comde , como dilTemos , no mes de julho fe- 
guinte aos vijmte e quatro dias na cidade de Barçello* 
na , omde entom elRei eftava , Miçe Badafai Defpmdolla , e 
AíFoniTo Fernamdez de Burgos , procuradores que eram del- 
Rei Dom Fernamdo , ambos juntamente em companha da 
líEimte Dona Maria , molher que fora do marques, e irmaa dei- 
Rei Dom Fernamdo , per cujo comíTelho e acordo fe trauta- 
rom mujtas coufas acerca defte negocio ; chegarom a elRei a 
feus paaços fazemdolhe recomtamento dos capitules e aveem*- 
ças firmadas fobre o profeguimento da guerra , e paga do 
íbildo que aviadefeer feita ; e que foíTe fua merçee 5 que dos 
dinheiros que AíFoníTo Dominguez tefoureiro do aver que al- 
li eílava tijnha em feu poder , lhe leixaíFe receber dinheiros 
pêra folldo de mil e quinhemtas lamças , por quarato erarri 
mujto neçeíTarias pêra fazer logo emtrada pello reino de Caf- 
tella 5 pois que el de prefemte nom podia feer preíles pêra 
começar a dita guerra , per mingoa de feguramça e firmi- 
dooes , que aimda nom recebera da parte delRei Dom Fer- 
namdo, aííí da paga do folldo que íe avia de dár ao deam- 
te , como doutras coufas que fe aviam de fazer. E depois de 
muitas razooens que fobrefto ouverom falladas , acordarom 
que os capitulos que elRei Daragom avia innovados pêra pro- 
feguir a guerra com as três mil lamças que diífemos , fe tor^ 
naíré(5)cm mil e quinhemtas fegumdo primeiro fora devifado , 
com outras comdiçoões que nom curamos de dizer. E man- 
dou 
(O nem por penlío X. (2) largamence X. (3) fe tornaíTcm 7", 




d'elRei D. Fernando. 231 

dou logo elRei Daragom a Portugal por embaxador MoíTe 
Umberte de Fenoial , com poder de firmar com elRei Dom 
Fernando aqucUas aveemças que aífim forom feitas ; e ef- 
peçiallmente pêra fe obrigar , e prometer em nome delRei 
Daragom , que tanto que ouveíTe defpeníTaçom do papa pê- 
ra a Iffamte Dona Lionor fua filha poder caílir com elRei 
DomFernamdo, que fceria mujto cedo, que loguo a emviaf- 
fe a Portuga] como a fua homrra compria ; e que por feguram- 
ça defto , fe elRei em ello alguuma coufa dovidava , lhe da- 
ria em prcmda e arrefeens o caftello DalHcamte , fegumdo 
ante fora fallado. O qual meíFegeiro chegou a Santarém no 
mes doutubro aos paaços de Vallada , omde emtom elRei 
poufava , eftamdo eílomçe hi com eile Dom frei Alvoro Gom- 
çallvez prior do efpital , e Airas Gomez da Sillva , e outros 
fenhores e fidallgos de feu comíTelho ; e aos vijmte e huum 
dias deíTe mes elRei Dom Fernamdo aprovou eouve por bem 
todo aquello que per feus procuradores fora feito e hordena- 
do , das quaaes coufas fezerom fuás efcripturas juradas e fir- 
madas o mais firme que feer pode, fob penna de vijmte mil 
marcos douro que paguaíTe aa outra parte , o que falleçcíTe do 
que antrelles era acordado : e feito efto , partioíTe o embaxador 
caminho Daragom , levamdo bem recadado todo aquello por 



que veherai 



CAPITULO LIII. 



Como foi trautada faz antre elRei Dom Hemrrique e 
elRei Dom Fernamdo , e com que comdiçooes. 

DUramdo a guerra antre PortugaL e Caftella , da maneira 
que ja teemdes ouvjdo , e trautamdoíTe afli ellas coufas 
amtre elRei Daragom e elRei Dom Fernamdo , avia ja tempo 
que o papa Gregório umdeçimo avia emviados í^^ por emba- 
xadores aos Reis de Portugal e de Gaftella , pêra poer am- 

trel- 

» - • 

CO emvyado 2". 






ij^ Chronica 

trcllcs paz , Dom Beltram bifpo de Commerçia , e Dom 
Agapito de Columpna bifpo de Brixa : e aimda que nos an- 
te defto nom ajamos feita meemçom da vijmda deíles prel- 
lados , fabee porem que o anno paíTado ante que Carmona 
foíTe filhada , chegarom elles a Sevilha , omde elRei Dom 
Hemrrique eftava eftomçe , e fallamdo com clle cm razom 
de paz , quamto era neçeíTaria amtre os Reis , moftramdolhe 
os dampnos e malles que fe da guerra feguiam a elles e a 
feus reinos, e como por tal aazo fe emxalçaria a foberva dos 
emmijgos da fanta fe ; outorgou elRei por fua parte de conf- 
femtir na paz , com booas e aguifadas razoôes. Depois vijm- 
do elles a Portugal, e fallamdo a elRei Dom Fernamdo fo- 
brcllo , nom menos razooes das que a elRei Dom Hemrri- 
que aviam ditas fobre efte negocio , mas quamtos boons com- 
felhos e autoridades fe dizer podiam , pêra o ejndu'zer a aver 
com el paz e amorio , lhe forom per elles oíFereçidas e pre- 
poftas ; fobre as quaaes elRei Dom Fernamdo avudo comfe- 
Iho , fem primeiro fe efpedir das aveemças e preitcíias que 
com elRei Daragom avia trautadas , nom fabemos por qual 
razom determinou daver com ^\ paz : e noteficado iílo a el- 
Rei Dom Hemrrique per elles , acordarom os Reis demviar 
ieus procuradores pêra ellas aveemças trautar em feu nome, 
a faber , elRei Dom Hemrrique , Dom AíFoníTo Perez í'^ de 
Gozmam , alguazil moor de Sevilha, e do feu comíTelho; e 
elRei Dom Fernamdo 5 Dom Joham AíFonlTo , comde de Bar- 
^ellos , o qual eftava ja preftes pêra fe tornar outra vez a 
Aragom , e recebidos quatro mil fíorijns pêra o caminho , e 
elRei mandou que çeíFaíTe daquella hida , e foíTe trautar efta 
paz e aveemça antrelle e elRei Dom Hemrrique. E feitas 
Ibbrefto damballas partes firmes e abaftantes procuraçoóes , 
pêra poerem perpetua paz e amor antre os Reis , devifarom 
de feer todos jumtos elles e os mcífcgeiros do papa, em 
huuma villa que dizem Alcoutim , bifpado de Sillve no rei- 
no do Algarve. E jumtos alli peíToallmente, falvo o bifpo de 

Gom- 
_____ _ 



d'elRe1 d. pERNANDOt 233 

Commerçia , que era eftomçe em Aragom , firmarom paz e 
amorio em nome dos Reis , recomtada em efta guifa brevemen- 
te. Que elles foflem boons e verdadeiros amigos pêra fem- 
pre huum do outro , e iíTo meefmo feus filhos e herdeiros , e 
todollos poboos a elles fobj eitos. E que huum Rei nom fof- 
fe theudo dajudar o outro comtra alguuma peíToa , poíto que 
com alguuma ouvcíTe deívairo , mas que elRei de Portugal 
foíTe amigo delRei Dom Karllos de F^ramça , aíli como elRei 
deFramça era delRei Dom Hemrrique ; e que elRei deFram- 
ça emviaíTe feus meíTegeiros , ataa féis m.efes, afirmar efto com 
elRei Dom Fernamdo , afli como depois emviou. E por citas 
pazes feerem mais firmes , e os boons divedos damtre os Reis 
feerem fempre acreçemtados , foi trautado em eílas aveemças , 
que elRei Dom Fernamdo cafaíTe com a Iffamte Dona Lionor 
filha delRei Dom Hemrrique , com a qual ouvelTe per doa- 
çam em cafamento , Cidade Rodrigo , e Vallemça Dalcam ta- 
ra com todos feus termos , e Monte rei , e Alhariz com feus 
alfozes e fortallezas , os quaaes logares fofifem pêra fempre 
da coroa do reino de Portugal ; e alguuns efcrevem que avia 
da ver mais em dinheiro três comtos da moeda de Caítella : 
e que elRei Dom Fernamdo deífe aa dita Iffamte todollos lo- 
gares , que forom dados per elRei Dom Affonffo feu avoo aa 
Rainha Dona Beatriz , em arras de feu cafamento. E avia de 
feer emtregue a Iffamte a elRei pêra a receber e aver por 
molher j no eílremo dos reinos, antre Talleiga , e Figueira, 
do dia d cite trauto firmado a çimquo mefes primeiros ; com 
comdiçom prometida e jurada per elRei , afll como cada hu- 
um dos outros capitullos , que do dia que lhe foffe entregue 
ataa lete mefes , nom ouveffe com ella jumtamento carnal : 
e efto fazia elRei feu padre, porque ella era aimda mujto 
moça , e dezia que lhe quiria em tanto guifar muj honrrada- 
mente todo o que compria pêra a fefta de fuás vodas ; e efta 
comdiçom foi a elRei Dom Fernamdo muj maa doutorgar, 
porem aaçima ouveo de fazer ; e diziamlhe alguuns que ju-^ 
ras de foder nom eram pêra creer, que juraffe el foutamen- 

te 



{) [ 



234 Chronica 

te efte capitullo , ca nom mimguaria quem tomaíTe por elle o 
pecado deite juramento fobre li. E foi por efto avuda defpenf- 
façom , por o divedo que amtrelles avia , e pubricada na cida- 
de de Sevilha per o dito Dom Agapito , meíTegeiro do papa. 
Foi mais firmado amtre os Reis ambos, que elReiDomFer- 
namdo abrille maao e defemparaíTe todollos logares e terras, 
que el e aquelles que fua voz mantijnham , cobrarom do fe- 
nhorio de Caftella , falvo dos que avia daver em cafamento ; 
e iíTo meefmo fezelTe elRei Dom Hemrrique dos que cobrara 
de Portugal , tirados os baftiçimentos e ouro e prata que ca- 
da huum em elles tijnha pofto, E perdoarom dhuuma parte 
aa outra , des o cafo mayor ataa o mehor , a todollos que em 
ferviço dos fenhores andarom , e fe alçarom com villas e caf- 
teljos , e tomarom voz comtra elles ; e ficarom os Reis em- 
tregar í'^ todos feus beens de raiz , falvo fe foi aos de Carmo- 
na que aimda em eíte tempo tijnham voz por Portugal , pof- 
to que ja tenhamos efcripto fua tomada delia, por os quaaes 
elRei Dom Fernamdo fez mujto por emtrarem em eftes trau- 
tos , e numca elRei de Caftella em ello quis comíTemtir, di- 
zemdo por efcufa , que perdoar aos de Carmona , era coufa 
per que fe podia recreçer gram defvairo antielle e elRei Dom 
Fernamdo , mas que a molher do comde Dom Fernamdo de 
Caftro , com feu filho e companha e coufas fuás , fe foíTe a 
Portugal pêra feu marido, ou omde lhe prougueífe. Outro íi 
que todos prifoneiros , que em efta guerra forom filhados , 
foíTem entregues de huuma parte aa outra fem remdiçom ne- 
nhuuma , pofto que aveemça teveífem feita com aquelles que 
os tijnham em feu poder. E aífim poferom outros capitullos , 
que por nom alomgar leixamos de dizer , per que fe parti- 
rom geerallmente de toda comtcmda , que per quallquer gui- 
fa antre os Pveis ataaquel tempo podelTe naçer : os quaaes os 
ditos procuradores jurarom aos famtos evangelhos nas almas 
dos Reis ambos , e fezerom preito e menagem nas maaos do 
dito dellegado , que elles guardem compridamente eftas pa- 
zes , 

(i) a entregar 2". 



d'e lRei d. Fernando. ^35" 

zes 5 e jurem outros taaes juramentos per fuás perfoas, fome- 
temdo os ditos Reis e léus reinos a çenlTura e fentença ec- 
cleliaítica , himdo comtra eito per alguuma guifa. E que fof- 
fcm poftos araa primeiro dia de mayo certos caftellos em ar- 
re feens , a faber, da parte delRei Dom Fernamdo , Olivem- 
ça , e Campo mayor , e Noudal , e Marvom , os quaaes avia 
de reer Dom frei Alvoro Gomçallvez prior do Efpital ; e da 
parte delRei Dom Hemrrique , Alboquerque , e Exarez , e 
Badalhouçe , c a CodeíTeira , que teveíTe AffoníTo Perez de 
Gozmam. E fororn trautadas e juradas eftas pazes com mui- 
tas mais firmezas e comdiçooes no dito logar Dalcoutim , 
poílumeiro dia de março da dita era de quatro centos e no*- 
ve annos , as quaaes elRei Dom Fernamdo dhi a dous dias 
jurou na cidade Devora , fazemdo preito e menagem nas 
maãos do dito deliegado de as teer e guardar compridamen- 
te , o que el depois muj mal fez , fegumdo adeamte ouvi- 
rees. E dalli emviou a Caftella o doutor Gil Dofem , e Af- 
foníTo Gomez da Sillva , pêra receberem delRei Dom Hemrri- 
que femelhavel firmeza e juramento. E depois foi a Caftellsa 
Diego Lopez Pacheco , receber da Rainha Dona Johana , e 
do líFamte Dom Joham , e dalguuns comdes , e prellados , e 
ricos homeens 5 que aimda nom jurarom, outorgamento dos 
ditos trautos ; e na villa de Touro , omde emtom elRei era , 
no moeíleiro de Sam Françifco , alli jurarom todos em maãos 
do dito deliegado , que prefemte eílaya , aos dez dias da- 
goito da dita era. 



Tom. IV. Qg CA- 



2^6 Chronica 

CAPITULO LIV. 

Como elRei Daragom mandou tomar a Affonjjo Domim- 
gtiez Barateiro quamto ouro ttjnha emjeu poder, 

QUarado elRei Daragom foube efta liamça damizade , que 
elRei Dom Fernamdo com elRei de Caftella pêra fem- 
pre trautara í'), e como avia de cafar com fua filha , bem 
he de cuidar quamto lhe defprazeria de fazer tal paz e ami- 
zade com feu emmijgo , que mujto deííimava ; e mandou que 
tomaíTem logo a AíFoníTo Dominguez Barateiro quamto aver 
lhe foíTe achado , e foromlhe tomados dous mil e vijmte e 
quatro marcos douro ^^\ a fora çemto e fete marcos ('^ que lhe 
forom empreitados logo aa primeira , quamdo novamente che- 
garom j aííi que de quamto ouro alia foi emviado , nom ou- 
ve eIRei Dom Fernamdo outro proveito , falvo de dous mil 
paaos de romania que lhe alia comprarom pêra o almazera 
de Lixboa , que cuftarom pouco mais de duzemtos e fefeemta 
gentijs 5 e todo o outro foi defpefo de guifa que numca fe 
delle aproveitou : e elRei Daragom ouve aquelles dous mil e 
cento e trimta marcos mujto comtra fua voomtade, que num- 
ca 'mais cobrou , pêro fe dello trabalhaíTe , como adcante di- 
remos. E mandou elRei Daragom premder o tefoureiro e o 
efcripvam que tijnham aquel aver , e tomar o livro da recepta 
e defpefa , e depois os mandou foltar e dar o trellado do 
livro , mas nom conhecimento , nem recado de como lho to- 
mara (^), e aíli fe tornarom pêra o reino. E nom foomente 
mandou elRei tomar aquel aver , mas aimda huuma arca 
com armas , que a líFante Dona Maria mandava a elRei Dom 
Fernando feu irmaao , todo foi tomado que lhe nom leixa- 
rom trazer nenhuuma coufa. O Miçe Badafal , e AíFonfo Fer- 

nam- 

(i) trautaram T. (2) dous myl e xx marcos de prata T. (3) marcos de 
Prata T. (4) tomarão T, 



eia^ Oi 



^ ' d'elReI D. F E R N ANDO. 237 

iiamdez efcrepverom huuma carta a elRei , de como fora 
tomado aquel ouro a AíFoníTo Domimguez e per que ma- 
neira , e que lhe nom pefalTe mujto , por que lhe nom de- 
rom deilo recadaçom j que fe o de cobrar avia , também 
o cobraria fem carta de conhecimento come com carta , e 
que tal tempo fe vijnha chegando acerca , per que poderia 
cobrar todo aquelio e mujto mais : mas todo foi névoa 
quamto emviarom dizer , ca elRei numca ouve nenhuuma 
parte ; e aíli fe paífarom todallas coufas certamente fobre 
as duvidas que movemos no começo defta eíloria. Miçe Ba- 
dafal nom tornou mais pêra o Reino , e a afeiçom lomga que 
com a líFamte ouve , geerador fempre de femelhamtes frui- 
tos , lhe fez que vemdeo ella quamtas remdas tijnha em Ara- 
gom , e fe foi com elle pêra Genoa , e depois a leixou , e viveo 
mingoadamente , morrendo muj afajftada do que a fua homr- 
la perteecia. 

CAPITULO LV. 

Das moedas que elRei Dom Fernando mudou , e dos 
f recos defvairados que pos a cada huuma. 

Ous gramdes malles reçebeo o reino por efta guerra, 
que elRei Dom Fernamdo com elRei Dom Hemrrique 
começou , de que os poboos depois teverom gramde fen- 
tido 5 o primeiro 5 gaftamento em gramde cantidade dou- 
ro e prata que antijgamente pellos Reis fora eratefourado, 
do qual por aazo delia foi a Aragom levada muj gram fo- 
ma douro , como ja teemdes ouvido ; o fegumdo iíTo meef- 
nio foi gaito de muj ta multidom de prata , por a mudamça 
das moedas que elRei fez , por fatisfazer aas gramdes def- 
pefas dos folldos, e pagas das coufas neceífarias aaguerra;per 
cujo aazo montarom as coufas depois em tamanhos e tam 
deíarrazoados preços , que comveo a elRei e foi forçado de 
poer fobre todas almotaçaria , e mudar o vallor que aa primei- 

Q^ ii ra 




\ 

238 Chronica 

ra pofera em taaes moedas, Omde íabce que no tempo del- 
Rei Dom Denis , feu bifavoo delRei Dom Fernamdo , fe corria 
geerallmente em eftes reinos huuma moeda que chamavom di- 
nheiros velhos , dos quaaes doze delles faziam huum foUdo , e 
vijmte folldos era f'^ huuma livra, e vijnte c fete íoUdos fa- 
ziam huum maravidi velho , que fe coftumava aalem Doiro , 
e quimze daquelles folldos era outro maravidi , que hufavom 
na Eftremadura , e pellas outras partes do reino. E çem mara- 
vidis , deites de quimze folldos , era conthia de huum efcu- 
deiro vaíTallo delRei , os quaaes çem maravidijs valliam fe- 
teemta e çimquo livras , que eram acerca de çimquo marcos e 
meo de prata ; por que em quatorze livras deftes dinheiros 
velhos era achado huum marco de prata de lei domze di- 
nheiros , e tanto vallia emtom de compra ; e vallia daquella 
moeda huum efcudo douro de Framça três livras , e aquel ef- 
cudo he menos que dobra cruzada , e tem avantagem de co- 
roa ; e vallia huum framco douro de Framça duas livras e 
mea , ca por eftomçe nom avia em Framça moeda de coroas 
nem de dobras. E deftes dinheiros velhos, quem quiria fazer 
moeda mais pequena , cortava huum dinheiro pella meatade 
com huuma tefoira , ou o britava com os dentes , e a ameata- 
dedaquel dinheiro chamavom mealha ou pogeja í^), e compra- 
vom com ella huuma mealha de moftarda , ou dalfelloa , ou 
de tramoços , e fcmelhamtes coufas. Aíli que as mealhas nom 
eram moeda cunhada per íi , mas era huum dinheiro partida 
per meo ; e eftes dinheiros fom os que hufam nas beemçooes 
dos cafamentos , pofto que fe com outros fazer poíTam , nom 
leixamdo porem eftes fe os aver poderem , por o coftume 
da egreia, e homrra da antiguidade. Reinando depois elRei 
Dom AíFoníFo , filho defte Rei Dom Denis , requereo os po- 
boos e a creelezia que lhe coníFemtiírem mudar a moeda , a 
faber , que faria dinheiros que nove delles valleíTcm doze 
dos outros ; e feemdolhe outorgado , mandouhos lavrar , e 
chamavom a efta moeda dinheiros novos , em refpeito dos 

ou- 

(1) eram T. (2) ou pague] a 7". 






d'el Rei D. Fernando. ^39 

outros velhos 5 e algiiuns lhe chamavom dinheiros Alfonffijs, 
por que os fezera elRei Dom AíFoníTo ; e nove daquelles fa- 
ziam huum folldo , e vijnte folldos huuma livra, e vijmte e 
fete folldos huum maravidi daalem Doiro , e quimze folldos 
huum maravidi daEftremadura , aíli como dos outros dinhei- 
ros velhos. E em dezooito livras e quatorze folldos dcfta 
moeda era achado huum marco de prata de lei domze di- 
nheiros , e aíli fobio logo per compra ; e iflb meefmo o ef- 
cudo velho douro de PVança vallia três livras e mea , e o 
franco douro três livras: e per tal lavramento , gaanhava el- 
Rei eríi cada marco de prata quatro livras e quatorze folldos, 
e daqui pagavom os cuítos. E dizem que foi emtom conve- 
emça antre elRei e os prellados e o poboo do reino , que 
elRei nunca mais mudaííe moeda , mas que fe manteveíFe 
daquella guifa , fob certas comdiçooens e penas que em as ef- 
cripturas que fobrello forom feitas , fom poftas ; as quaaes po- 
ferom em Bragaa , e em Alcobaça , e em outros logares em. 
guarda : e contam alguuns que dezia elRei Dom AíFoníFo , 
que fe lhe o feu poboo coníFendra outra vez mudar amoeda, 
que elle fora huum dos ricos Reis do mundo. Veo eIRei Dom 
Pedro , filho defte Rei Dom AlFoníFo , e nofoi mudou moeda 
por cobijça ,nem outro gaanho, mas fezea muj boa douro ede 
prata , como diífemos ; mas foi em pouca cantidade. Quamdo 
elRei Dom Fernamdo reinou , e começou guerra com elRei 
Dom Hemrrique , fem prazimento dospoboos do reino, nem o 
fazemdo faber a prellados , nem outro nenhuum coníFentimen- 
to , mudou as moedas todas aíli douro come de prata , e fez 
outras novas quegemdas lhe prougue , a faber, dobras douro 
que chamavom pee terra , as quaaes mandou que valleflem 
féis livras ; e fez outra moeda douro , que chamavom genrijs 
de huum ponto , e mandou que valleíFem quatro livras e mea ; 
e fez depois de dous pontos outros gentijs que eram de mais 
pequeno pefo , e mandou que valleíTem quatro livras a peça ; 
e depois fez outros terceiros , que valliam três livras e mea ; e 
depois deites lavrou gentijs que forom os quartos , que valliam 

três 



,0/ 



240 Chronica 

três livras e cimquo foUdos ; c mandou lavrar himma moeda 
que chamavom barvudas , e poslhe preço de vijnte folldos , e 
eram de lei de três dinheiros , e avia no marco çimquoemta 
e três , e cuftava o marco da prata de lei de omze dinheiros 
em moeda vijmte e fete livrasse faziaíTe em elle çemto e no- 
venta e çimquo livras; e aíli gaanhava elRei cada^') marco cen- 
to e fefeemta e oito livras , e daqui pagava os cuftos. E era 
efpamto da íimprizidade das gentes , nom soomente do po- 
boo meudo , mas dos privados delRei e de feu conselho , que 
mandavom rogar com prata aa moeda que lha compraíTem y 
cmtemdemdo que faziam mujto de feu proveito , por que a 
comprarom a dezooito livras de dinheiros Alfonlijs e davam- 
Ihe por ella vijmte e fete livras que eram vijmte e fete bar- 
vudas , nom paramdo mentes aa fraqueza da moeda , mas aa 
multiplicaçom t^) das livras. E mujtos mercadores que aviam 
dhir ao Algarve e a outras partes do reino , hiam aa moeda , 
e davom vijmte e huum folldo de dinheiros meudos por a 
barvuda , por levar feus dinheiros em mais pequeno logar , 
nom fabemdo nem efguardamdo a gram perda que fe lhe da- 
quello feguia. Mandou elRei mais lavrar outra moeda que 
chamavam graves , e eram de lei de dinheiros , e de cento e 
vijnte no marco , e vallia cada huum quimze folldos de di- 
nheiros Alfonífijs;- e cuftava o marco da prata de lei de om- 
ze dinheiros , vijmte efete livras , e faziamíTe em ella trezem- 
tas e fete livras, e aííi gaanhava elRei duzentas e oiteemta 
livras. Fez lavrar mais outra moeda que chamavom pillartes, 
que eram de dous dinheiros de lei , e avia no marco cento e 
noveemta e oito , e cada pillarte vallia çimquo folldos ; e de 
huum marco de prata de lei domze dinheiros , que cuftava 
vijmte e fete livras, lavravom delle duzemtas e três livras,. 
e aííi gaanhava em cada marco cento e fetcemta e féis , e 
dos gaanhos pagavom os cuftos. Doutras moedas que elRei 
Dom Fernamdo fez , afli como fortes de prata , que valliam 
dez folldos , e outros de vijmte , e tornefes primeiros doito 

foi- 

III ■ II I* 

(i) em cada T. (2) mas a mulcidam T. 



d'elRei d. Febnando. 241 

foUdos 5 e tornefes petites , e dinheiros novos avalliados a 
oito graãos , e doutras leis e preços desvairados nom curamos 
mais de fazer meemçom , por nom alomgarmos , des i por que 
fe lavrou pouca delia, E nom embargamdo as gramdes gaam- 
ças que elRei Dom Fernamdo avia de taaes moedas , fegumdo 
ouviftes compridamente , por aazo da gram defpefa da guerra 
começada aííí per mar como per terra , todo fe gaftava que 
nom ficava nenhuuma coufa ('^ pêra depofito ; e mais todo o 
ouro e prata que clRei achara emtefourado : aílí que el da- 
nou mui to fua terra com as mudamças das moedas , e per- 
deo quamto gaanhou em ellas , e tornaromíFe os logares a 
Caílella cujos eram, e el ficou fem nenhuuma homrra. 

CAPITULO LVI. 

Cofno elRei Dom Fernamdo mudou os preços a alguumas 
moedas , e fos almotaçaria em todallas coufas. 

COrremdo eítas moedas que teemdes ouvjdo , e pofto elRei 
em paz como dilTemos , agravaromíFe os pohoos a elle - 
dizcmdo , que per aazo das mujtas moedas de defvairadas 
leis e preços , que em fua terra avia feitas como lhe prougue- 
ra , eram as coufas poílas em gramdes e defordenados preços , 
muito mais do que aguifadamente^-' deviam valler: aalem defto, 
que as gentes fimprezes eram mujto emganadas com ellas, to- 
mando huumas moedas por outras , e mujtos fe foutavom de 
as falífarem fora de fua terra , e as tragiam depois ao reino , 
e amdavom todas de meftura. ElRei diíTe que pollos gramdes 
mefteres e em carregos , que fe lhe recreçerom por aazo da 
guerra que ouvera com elRei Dom Hemrrique , lhe comve- 
hera mandar fazer moedas de defvairadas leis e preços , por 
melhor poder pagar as comtias e folldos e as outras defpe- 
fas, que lhe pêra tal guerra eram perteeçemtes ; mas porem 

_^_________ que 

(i) não ficava nc mygualha T. (2) aviíTadamente 7". 






24a Ghronica 

que oolhamdo el em cfto ferviço de Deos , e defemcarregamen- 
to de fua conçiençia , e prol de feu poboo , pois a Deos aprou- 
guera de o poer em paz com feus contrairos , que el teeria 
em ello maneira per que o vallor das moedas foíTe corregido , 
e as coufas tornaííem a feus razoados preços. Emtom mandou 
que as moedas que forom feitas em Lixboa , e em Valiemça , 
e no Porto , valleíTem per eíta guifa ; a faber , os dinheiros que 
chamavom graves , que valliam quimze folldos dos dinheiros 
Alfonífijs 5 que nom valleíTem mais de fete ; e as barvudas , que 
valliam vijmte folldos , to rnaíFem a valler quatorze ; e os pil- 
lartes , que valliam çimquo folldos , valleíTem três e meo ; e 
os reaaes de prata oito folldos. E nom embargamdo tal mu- 
damça de vallor como efte , por as gramdcs perdas que os 
poboos aimda recebiam , mandou elRei fazer outro mayor 
abaixamento; afaber, a barvuda que de vijmte folldos torna- 
ra em quatorze , que nom valleíTe mais de dous folldos e qua- 
tro dinheiros ; e o grave , quatorze dinheiros ; e o pillarte , fe- 
te ; e os fortes , dez folldos ; e aíH corregeo as outras moedas 
de Çamora , e de Tuy , e da Crunha , e de Miranda , que eram de 
tal nome como eílas , mas nam de tam boa lei , ataa mandar 
que os dinheiros novos que el mandara fazer duramdo a guer- 
ra , nom valleíTem mais que Tenhas mealhas. E veemdo el- 
Rei que nom embargamdo eíte abaixamento das moedas , por 
o colíume que as gemes tijnham de vemder as coufas por 
preços defaguifados , oolhamdo mais taaes peíToas a própria 
prol y que o bem comunal que todos devem defeiar e que- 
rer , e que tarde ou numca abaixariam delles , hordenou al- 
motaçaria em todallas coufas. E mandou que no reino do Al- 
garve , nom vaileíle o alqueire do trigo mais de eimquo li- 
vras , e o da cevada çimquoemta folldos ; e antre Tejo e 
Odiana , o alqueire do trigo três livras , e a cevada e çenteo 
trimta folldos ; e na Eftremadura , o alqueire do trigo qua- 
reemta folldos, e o da cevada e çenteo vijmte; e na comar- 
ca da Beira , e antre Douro e Minho , o alqueire do trigo 
vijnte folldos 3 e no Porto trimta , e o da cevada e çenteo 

e 



d'£lRei d. Fernando» 243 

e milho dez folldos; e na comarca de Tias os m.ontes , o al- 
queire do trigo trimta folldos , e a cevada e çenteo e milho 
quimze: e alH pos preços í*^ nos vinhos, e carnes , e azeites, 
e panos , e em todallas outras mercada rias ; e iíTo mcefmo nos 
efcripvaaens , e taballiaaens , e nos outros officiaaes. Ê mnndou 
a todallas villas e cidades do feu fenhorio, que logo os jui- 
zes e vereadores pofeílem almotaçaria nas coufas cm que a el 
nom pofera , fcgumdo viíTem que era bem e aguifado , e iíTo 
meefmo os preços que aviam de dar aos ferviçaaes ; e que 
lhe emviaíTem o trellado de todo , pêra vcer fe o ordenarom 
fegum proveito comuum , e lhe dar pena fe o doutra guifa 
fezelTem. E diíTe que por quamto era dereito efcripto , que 
cada huum deve de feer collramgido pêra vemder as coufas 
que tever pêra hufo e mantij mento dos homeens , por preço 
aguifado em tempo de neçeíSdade : que porem mandava que 
todo o pam dos remdeiros e dos outros , que o teveíFem em 
çelleiros e emcovado , folTe vendido primeiramente ; e depois 
que efte falleçeífe , que emtom coftrangeflem os que o tevef- 
fem de fua colheita , fe meíter fezelFe : e fe tal neçeílidade ve- 
heíTe , que compriíTe de fe repartir , que emtom efcolheíTem 
dous homeens boons fem cobijça , huum delles dos melhores 
do logar , e ho outro dos pequenos do poboo , que foíTe homem 
emtemdido e de boa condiçom , que o repartiflem iguallmen- 
te , enom delFem delle parte aaquelles que o teveífem de feu. 
E que pêra efto nom foíle efcufado çelleiro de pam de ne- 
nhuum comde , nem fidalgo , nem darçebifpos , nem abades , 
nem doutra nenhuuma peíFoa ; e quallquer a que deífem jura- 
mento que pam tijnha , e o negaífe todo ou delle , que o per- 
deífe , e mais os beens pêra a coroa do reino. Eftas e outras 
mujtas coufas hordenou emtom elRei por proveito e bem do 
poboo 5 as quaaes mandou aos juizes e corregedores do reino ^ 
que as fezelTem comprir , fem maleçia , fob pena de lhe cuf- 
tar í=^) as cabeças. 

Tom. Ík Hh CA- 
CO Pft^Ço ^» (O àQ lhes cortar T.. . .: .. .,.,:.:- >: 'i) 



10 



244 Chronica 

CAPITULO LVII. 

Como elRei Dom Fernamdo fe namorou de Dona Lio- 
nor Tellez , e cajou com ella ejcomdidamente. 

EM tempo delRei Dom AffoníTo o quarto , e delRei Dom 
Pedro icu filho, nom ayia em Portugal mais que huum 
comde , o qual fe chamava de Barçellos ; e efte comdado deu 
o dito Rei Dom Pedro a Dom Joham AíFoníTo Tello , de que 
ja he em cima feita meençom. Efte Dom Joham AffoníTo ou- 
ve huum filho que foi conde de Viana , e foi cafado com 
huuma filha de Joham Rodrigues Porto carreiro, e ouve del- 
ia huum filho que chamarom i'^ o comde Dom Pedro , que foi 
governador da cidade de Çepta , no tempo do muj nobre Rei 
Dom Joham f^^, como adeamte ouvirees. Efte dito conde Dom 
Joham AffoníTo Tello avia huum irmaâo , a que deziam Mar- 
tim Affonffo Tello , o qual ouve dous filhos e três filhas ; á 
faber , Dom Joham Affonffo Tello , que foi comde de Barçel- 
los , e o conde Dom Gomçallo que foi comde de Veuva ('^ e 
de Faria ; e as filhas , huuma baftarda ouve nome Dona Johana , 
que foi comendadeira de Samtos , e leixou a comenda , como 
o fazer podia fegumdo fila. hordem , e cafou com Joham Af- 
fonfo Pimentel; e a outra foi Dona Maria Tellez cafada com 
Lopo Diaz de Soufa , e a outra chamarom Dona Lionor Tel- 
lez , molher que foi de Joham Louremço da Cunha, filho de 
Martim Louremço da Cunha , fenhor do moorgado de Poom-» 
beiro. Hora aífi aveo em efta fazom , que reinando elRei 
Dom Fernamdo , como diffemos , mamçebo e ledo e homem 
^e prol , tragia fua irmaa Dona Beatriz , filha que fora de Dona 
Enesiy.e delRei Dom Pedro feu padre, gram cafa de donas, 
e de domzellas , filhas dallgo e de linhagem ^ por que hi nom 
avia Rainha nem outra Iffamte por eftomçe , a cuja merçee fe 
/_J_ '^ ou- 

. (i) que chamam T. (i) Dom Joháo^a boa memoria T, (3) de Ncyva T. 






d'e L R E I D. F E R N A N D O. 245' 

ouvefl^em dacoftar : e por afeiçom muj continuada, veo na- 
çer em clle tal defeio de a aver por molher , que determi- 
nou em fua voom.tade de caiar com ella , coufa que ataa 
quel tempo femelhante nom fora vifta. Que compre de dizer 
mais fobreíto , propofto daver deípeníTaçom pêra cafarem am- 
bos , eram os jogos e falias antrelles tam a meude , meftura^ 
dos com beijos, e abraços, e outros defemfadamentos de fe- 
melhamte preço, que fazia a alguuns teer defonella fofpeita 
de fua virgijmdade feer per clle mingoada Em efto vcolTe 
trautar (') cafamento antre elRei Dom Fernamdo , ealíFamte 
Daragom , ho qual nom veo a fim , fegumdo teemos rccomta- 
do. Depois firmou elRei Dom Hemrrique pazes com elje , 
como diíTemos , e foi pofto que cafaíTe elRci Dom Fernam- 
do com fua filha a líFamte Dona Lionor , a qual lhe foíTe em- 
tregue dhi a cimquo mefes,como largamente ja teemdcs oU" 
vjdo : e teemdo elle feito tal trauto com elRei Dom Hemr- 
rique , como coufa que avia de feer , eftamdo elRei Doni 
Fernamdo em Lixboa , aconteçeo de vijnr a fua corte da ter- 
ra da Beira , omde emtom eftava, Dona Lionor Tellez molher 
de Joham Louremço da Cunha , que ja diíTemos , por efpaçar 
alguuns dias com Dona Maria fua irmaã , que amdava em cafa 
da Iffamte , e fua morador. ElRei Dom Fernamdo , como era 
muj to coftumado de hir veer a meude a líFamte fua irmaã^ 
quamdo vio Dona Lionor em fua cafa , louçaã e apofta e de 
boom corpo, pêro que a dante ouveíTe bem conhecida , por 
emtom muj aficadamente efguardou fuás fremofas feíçoóes e 
graça ; em tanto que leixada toda bem queremça e contenta- 
mento que doutra molher poderia aver , defta fe começou 
de namorar maravilhofamente ; e ferido affi do amor delia , em 
que feu coraçom de todo era pofto , de diaí-cfín' dia fe ^cre- 
çcmtava mais fua chagua, nom defcobrimdo poreÃi a nenhuu- 
ma pelfoa efta bem queremça tam gramde , que em feu cora- 
çom novamente morava. Em efto nom tardou mujto que Jo- 
ham Louremço mandou recado a fua molher , que fe foíTe pe- 

Hh ii ra 

(i) a trautar 7*. . i cm^ r.-^ (i) ."t mo^ «iia (, i ,y 



24<$ ChrOnica 

ra elle; da qual ja tijnha huum filho , que chamavom Alvoro 
da Cunha. ElRei Dvom Fernaindo quamdo ouvjo que Joham 
Lpuremço mandava por ella , foi mujto anojado de tal emba- 
xada , como aquel de que fe numca partia defeio de comprir 
feu penfamento ; e feemdo forçado de o defcobrir , fallou em 
gram fegredo com Dona Maria fua irmaa , dizemdolhe que 
aazaíTe de guifa como Dona Lionor nom partiíTe dalii , fim- 
gemdoíTe feer ella mujto doemte , e que com tal recado fe 
tornaíTem a feu marido os que por ella veherom : e fallam- 
do claramente feu defeio com Dona Maria , dilTe que fua 
voomtade era de a aver ante por molher , que quamtas filhas 
de Reis no mundo avia. Dona Maria era íefuda e corda , e 
foi muj torvada quamdo lhe efto ouvio dizer ; veemdo que 
per tal aazo elRei quiria defemcaminhar feu cafamento que 
feito tijnha com a Iffante de Caftella , moormente feemdo 
fua irmaa cafada , e molher de boom fidalgo como era , e fcer 
feu valFallo, começou de lho contradizer aíTaz mujto. ElRei 
refpomdia a todos feus ditos , e em razom do cafamento del- 
ia diífe , que el aazaria como ella foífe quite de feu marido , 
e ella diífe que poilo que defcafada fofle , que nom cuidaíTc 
elle que ella avia de feer fua barregaa : e elRei prefo do 
amor delia, jurou a Dona Maria que ante que dormiífe com 
,ella depois do quitamento , que ante a reçebçíTe por molher. 
Sobrefto correrom mujtas razoôes , de guifa que quanto ella 
trabalhava por lhe desfazer feus amores e mudar de feu pio- 
pafito , nenhuYima coufa aproveitava , ante lhe parecia que ca- 
4a vez creçiam mais : eftomçe fallou com ella ('^ fua irmaa todo 
o que lhe com elRei avehera, e huuma com outra ouverom 
acordo de o fallarem com feu tio ; e depois que ambas fal- 
larom com oqorade, fallou elle fobrefto a elRei , e nenhuum 
boom, iGomífelho que lhe dar podefle em efte feito, veo a 
fiÍTi de o torvai do que em voomtade tijnha de fazer. Defta 
coufa parte ('' a IlFamte a que o todos três diíferom em gram 
fegredo, e per comíTelho de todos por fazerem prazer a el- 

£•<• Rei , 

(^ij ella com 7". (2) per arte T. 



gi3^ O » 









d'elRei d. Fernando. 347 

Rei , aazarom como ella bufcaíTe caminho de feer quite de 
fea marido per aazo de cunhadia , que he ligeira dachar 
antre os fidallgos , como quer que mujtos afirmavam , que 
Joham Louremço ouvera defpeníTaçom do Papa , ante que 
com ella cafaíTe ; mas veemdo que lhe nom compria aperfiar 
mujto em tal feito , deu aa demanda logar que fe veemçeíTe 
cedo , e foiíTe pêra Gaftella por feguramça de fua vida : e çer- 
teficaíTe que ante que elRei dormiíTe com ella , primeiro a re- 
çcbeo por molher , prefente fua irmaã e outros , que eíta cou- 
ík traziam callada. 

CAPITULO LVIII. 

Como eJRei Dom Fernamdo fez faber a elRei de Cajlel^ 
la 5 que nom podia cafar com fua filha 

FEito efto ain efcufamente , pofto que o quitamento foíTe de 
piraça , vio elRei que lhe compria feer partido do que pro- 
metera a elRei Dom Hemrrique , em razom do cafamento de 
fua filha com elle ; e efhamdo elRei de Gaftella em Touro , 
omde por eftomçe fazia cortes , por abaixar os preço« das 
moedas que ante pofera muj altos , por razom da guerra e pa- 
ga dos folldos , com que a t^rra era danada, e mais por hor* 
denar que os Judeus e Mouros de feu reino trouveífem fi- 
naaes devifados , per que foíTem conhecidos; chegarem meífe- 
geiros delRei Dom Fernamdo , per os quaaes lhe fez faber, que 
nom ouveíTe por nojo de el nom poder cafar com fua filha ^ 
por quamto elle era cafado com huuma dona de Portugal, que 
çhamavom Dona Lionor Tellez de Menefes ; mas nom em- 
bargamdo efto , que fua voontadc era de ficar e feer feu ami* 
go , e lhe mandar emtregar as villas (')e iogares que de Gas- 
tella tijnha , fegundo nos trautos era devifado. ElRei Dom 
Hemrrique ouve menencoria, e pefoulhe mujto com eftas nor 



vas 



(1) as vilas e fortalefas T, v/ 30 1 .,;. i,v^ gtir 



.sia^i os 



Çí^^^^ 






i^S Chronica ;'i 

vas , por leixar elRei de cafar com fua filha , aíli como fora 
trautado antrelles , e cafarlTe daquclla guifa com tal molher, 
desfazemdo mujto em fua homrra c eílado : e aimda que por 
efte britamento dos trautos elle poderá tornar a ello per guer- 
ra jufta , ou doutra maneira, pêro tam defeiofo era daver paz 
e alFelTego , que deu logar a efto , por elRei Dom Fernam- 
do ficar feu amigo , e lhe emtregar as villas e logares que 
tomarom fua voz. E refpomdeo aos meíTegeiros que pois alll 
era que a elRei nom prazia de caílir com fua filha , que nom 
fazia dello coníta , ca a ella nom minguaria outro tam homr- 
rado cafamento , e elle que lhe mantevelFe todallas outras 
coufas que nos trautos era comtheudo : e com efta repofta 
fe tornarom pêra Portugal , e efpedirom delle. 

CAPITULO LIX. 

Como elRei Dom Fernamdo e elRei Dom Hemrríque 
emnovarom certos capitullos ^fobre as pazes Dal- 

coutim. 

PArtio elRei de Caftella de Touro depois que as cortes 
forom acabadas , e amdou per feu reino , e veo aa cidade 
de Tui , feemdo cftomçe elRei Dom Fernamdo na fua cida- 
de do Porto , e dalli mandou por embaxadas a elRei Dom 
Hemrrique , huum ricomem de fua cafa mujto feu privado e 
de gramde ellado , e AíFonífo Domimguez cavalleiro de feu 
coníTelho , fobre alguumas duvjdas e contemdas que antrelle 
e elRei de Caítella recreçiam , aíli por razom do cafamento 
da Iffamte Dona Lionor filha delRei defíe Rei deCaítella ('^ , 
com que elRei Dom Fernamdo ouvera de cafar , come dos 
logares de que fe avia de fazer emtrega de huuma parte aa 
outra, e ilFo meefmo das arrefeens que por guarda dos di- 
tos trautos aviam de feer emtregues , fegumdo nas pazes que 
dif- 

;i) filha delRei de Caltella T,£. 



d'elRei d. Fernando. 24^ 

dilTemos f ^^5 feitas na villa Dalcoutim , fora largamente devifa- 
do. E chegamdo elles a elRei de Caítella , e prcpoít.! fua emba- 
xada 5 firmarem outra compoíiçom e aveemça fobre alguumas 
duvjdas e contemdas , que por razom daquellas pazes nova- 
mente recreçiam ; e a primeira coufa que logo acordarom aífi 
foi, que clRei DomFernamdo folTe efcufado de cáfar com a 
líFamte Dona Lionor , e que a doaçom que lhe elRei de Caf- 
tella fezera por razom de tal cafamento com fua filha, de Ci- 
dade Rodrigo , e de Vallemça Dalcamtara, e de Monte rei, 
€ de Alhariz , que a renunçiaífe de todo e qual quer dereito e 
poíTc e propriedade, que em ellas ja avia, e as emtregafíe ao 
dito Rei de Caftella ataa certo tempo , e iíTo meefmo outros 
caftellos que eram feus , que aimda tijnham. voz delRei Dom 
Fernamdo , aífi como Arahujo , e Cabreira , e Alva de liíta, 
e outros ; e que elRei Dom Hemrrique emtregaíTe a elRei 
de Portugal a villa de Bragamça que tijnha Garcia Alvares 
Doforio , e o caftello do outeiro de Miramda , e outros 
quaaes quer que foíTem embargados por a íua parte ,, depois 
que fe a guerra começara antrelles. E aquel ricomem avia de 
receber todollos logares dambos os reinos , e fazer menagem 
por elles pêra os emtregar aos Reis , e dar em arrefeens a el- 
Rei de Caftella dous muj homrrados efcudeiros feus filhos ; 
e elRei Dom Fernamdo avia mais de dar em arrelfeens por 
guarda deftas aveemças Dom Joham comde de Viana , filho 
de Dom Joham Afionífo comde Dourem , e Joham AífonlTo 
Tello , ou Gomçallo Tellez , fobrinhos do dito comde , irmaãos 
de Dona Lionor. Outro fi fobre alguumas penhoras e toma- 
das de averes e navios ,- que fe depois das pazes Dalcoutim 
fezerom dhuum reino ao outro , hôrdenarom certas maneiras 
como foífem emtregues a feus donos. E feito juramento per 
elRei de Caftella por guarda deftas coufa s , e ifiTo meefmo 
pello comde Dom Sancho feu irmaao , e per o comde Doiá 
Pedro feu fobrinho , e per outros fidallgos e prellados que 
dizer nom curamos , partiromlFe os embaxadores pêra Portut 

: g^sv^ 

(i) ^ue di0eeram T. 






1^0 Chronica 

oal : e dhi a oito dias feemdo mes de mayo , inandou elRei 
DomHeiírrique aa cidade do Porto, pêra receber em feu no- 
me femelhantes juras e menageens , Dom Joham Garcia Manr- 
rique bifpo Dourenfe , e Joham Gomçallvez de Baçom caval- 
leiro ; e nos paaços do bifpo , onde elRei Dom Fcrnamdo pou- 
fava , lhe fezerom requerimento per outras taaes juras e pro- 
metimentos , como elRei feu fenhor avia feitos fobre as di- 
tas aveemças. Eftomçe elRei primeiramente , e des i o IlFamte 
Dom Denis feu irmaão , e Dom Joham AíFonflb conde Dou- 
rem , e Dom Affonífo bifpo do Porto , e outros cujos nomes 
aqui nom fazem mingua , fezerom aquellas juras e menageens 
que pollos embaxadores forom requeridas ; e feitas de todo 
abaftamtes efcripturas , efpediromfíe delRei , e foromíFe feu 
caminho. 

CAPITULO LX. 

Como os poboos de Lixhoa fallarom a elRei em feito de 
feu cafamento , e da repojla que lhes elRei deu. 

DA bem querem ça e amores que elRei Dom Fernamdo 
tomou em Lixboa com Dona Lionor Tellez , como ja dif- 
femos , foi loguo fama per todo o reino, afirmamdo que era 
fua molher , com que ja dormira , e que a tijnha recebida a 
furto ; e defprougue mujto a todollos da terra da maneira que 
elRei em efto teve , e nom foomente aos grandes e fidallgos 
que amavom feu ferviço e homrra , mas aimda ao comuum 
poboo que dilto teve gram fentimcnto. E nom preftou ra- 
2o6es que lhe fobreílo fallaíFem os de feu comíTelho , dízem- 
do que nom era bem cafar com tal molher como aquella , 
feemdo molher de feu valFallò , e leixar taaes cafamentos de 
Ilfamtes filhas de Reis como achava , aíli como delRei Dara- 
gom , e delRei de Caítella , com tanto fua homrra e acreçem- 
tamento do reino j e veeindo que feu coníTelho nom aprovei- 

""" ta- 



d'elRei d. Fernando. 251 

tava , çeíTavoni de lhe fallar mais em ello. Os poboos do rei- 
no razoamdo em taaes novas , cada huuns em feus Jogares , 
jumtavomíTe em magotes , como he hufança , culpamdo mujto 
os privados delRei e os gramdes da terra , que lho coníTem- 
tiam ; e que pois lho clles nom diziam , como compria , que 
era bem que fe jumtaíTem os poboos , e que lho foíTem dizer: 
e antre os que fe prinçipallmente deito trabalharom , forom os 
da cidade de Lixboa , omde elRei emtom eftava , os quaaes 
fallamdo em efto , forom tanto per feu feito emdeamte, que 
fe firmarom todos em comíTelho de lho dizer , emlegemdo 
logo por feu capitam e propoedor por elles , huum alfayate 
que chamavom Fernam Vaafquez , homem bem razoado , e gei- 
to fo pêra o dizer ; ejumtaromíTe huum dia bem três mil , an- 
tre meíleiraaes de todos mefteres,e beeltciros , e homeens de 
pee , e todos com armas fe forom aos paaços hu elRei pou- 
fava j fazendo gramde arroido em fallamdo fobrefta coufa. El- 
Rei quamdo foube que aquellas gentes alli eílavom , e a 
razom porque vijnham, mandouhos pregumtar per huum feu 
privado , que era o que lhes prazia , e a que eram alli aíli 
vijmdos , e Fernam Vaafquez refpomdeo em nome de todos 
dizemdo : 55, Que elles eram alli vijmdos, por quamto lhes era 
5> dito que elRei feu fenhor tomava por fua molher Lionor 
j> Tellez 5 molher de Joham Louremço de Cunha feu vaíTallo • 
5> e por quamto iAo nom era fua homrra , mas ante fazia gram 
J5 nojo a Deos e a feus fidallgos , e a todo opoboo, que elles 
j> come verdadeiros Portuguefes lhe vijnham dizer , que to- 
5> maífe molher fiiha de Rei, qual comvijnha a feu eftado; e 
»> que quamdo com filha de Rei cafar nom quifeífe , que to- 
>f malTe huuma filha dhuum fidallgo de feu reino , qual fua 
'í merçee foíTe , de que ouveíFe filhos legítimos , que reinaf- 
>» fem depôs elle , e nom tomaíTe molher alhea , ca era coufa 
»i que lhe nom aviam de conflentir ; nem el nom avia por que 
» lhe teer efto a mal , ca nom quiriam perder huum tam boom 
>5 Rei como cUe , por huuma maa molher que o tijnha emfeiti- 
}y çado ». A gente era muj ta que efto dezia per defvairadas ma- 
Tom, IF, li nei- 



25'2 ChrONICA 

neiras , nom embargamdo que Fernam Vaasquez propoinha 
por todos : e elRei lhes fez reípomder : » Que lhes gradecia 
í> mujto fua vijmdajC as razoôes que por íeu ferviço diziam; 
í> que no cafo emtemdia que faziam come boons e leaaes Por- 
» tuguefes , amadores de fua homrra ; e que ella nom era fua 
í) molher recebida , nem Deos nom quifeífe : mas que por 
?> quamto lhes el por loguo nom podia refpomder como com- 
» p ria 5 a qual repofta avia mefter de feer com boom comífelho, 
j> íegamdo elles viam que era razom ; que em outro dia foíTem 
» todos ao moefteiro de Sam Domimgos deíTa cidade , e que alli 
» lhes fallaria fobre aquello , e averia feu acordo com elles ». 
Fernam Vaafquez diíTe a todos , que aquello era muj bem 
dito , e que aíli o fezeíTcm em outro dia : partiromífe em- 
tom todos contemtes da repofta, juramdo e dizemdo, que fe 
a clRei partir de íi nom quifeífe , que elles lha tomariam per 
força , e fariam de guifa que numca a clRei mais viífe ; e que 
fe mujtos veherom emtom, que mujtos mais vijnriam em ou- 
tro dia armados. 

CAPITULO LXI. 

Como elRei nom quis f aliar aoy pohoos fegumdo lhe pro^ 
metera , e fe partira ^'^ efcufamente da cidade. 

NOm duvidecs , que mujto nom prazia a todollos fidallgos 
e privados delRei defte ajumtamento que o poboo fa- 
zia , por que viam que amando feu ferviço e homrra , fe mo- 
viam a fazer ifto ; e pois elRei nenhuuma coufa curava de 
feu conífelho delles , emtemdiam que per efte caminho lhe 
era per força de a partir í=) de íi. E forom em outro dia muj- 
tas gemtes jumtas no alpemder daquel moefteiro de Sam Do- 
mimgos , omde elRei avia de vijnr ouvir por parte do poboo 
as razoôes que lhe aviam de dizer, a efte cafamento nom feer 
bo- 

(^i) partio T. (2) cie apartar 2". 



iI3U OT 



l>'£lRei d. FernA'NDO. if^ 

boom ; e antre os mujtos que hi veherom , eftavom hi os 
do delembargo dcIRci todos. E Fernam Vaafquez que avia 
de propõe r , em quamto elRei nom vijnha , começou de di- 
zer contra elles : ?> Senhores , a mim derom carrego eftas gen- 
í) tes que aqui fom jumtos í'^, de dizer alguumas coufas a elRei 
39 nofíb fenhor que emtemdem por fua homrra e ferviço ; e 
99 porque he derèito efcripto , que feemdp as partes primçi- 
» paaes prefemtes , que (-) officio do procurador deve de çeíTar ^ 
99 no que elles bem fouberem dizer ; vos outros que fooes- 
99 primçipaaes partes nefle feito , e a que iílo mais tamge que 
5> nos , dcviees dizer efto , e eu nom : porem norii embar- 
>5 gamdo que aíli feia , eu direi aquello de que me derom 
>j carrego , pois vos outros em ello nom querees poer maao , 
?) moítramdo que vos doees pouco da homrra e ferviço del- 
jj Rei noíFo fenhor >?. Aguardamdo elles todos alli , e fiillam- 
do mujtas e defvairadas razoões em eíle feito, foubeo elRei 
em feus paaços omde eftava ; eveemdo como todos eftavom 
alvoraçados , e as razoóes que geerallmente diziam a comtra- 
dizer aquel cafamento , nom quis alia hir, e partiolTe da ci- 
dade com DonaLionor, ornais efcufamente que pode , e hia 
dizemdo pello caminho : 99 Oolhaae aquelles villaaos treedores , 
99 como fe jumtavom : certamente premderme quiferom , fe alia 
99 fora ?\ Os que eftavom no moelleiro aguardando , quamdo 
fouberom que feelRei partira daquella guifa , teveromíFe por 
efcarnidos , cheos de menemcoria e pallavras defoneítas comtra 
efte cafamento. E nom foomente em Lixboa , mas em Samta- 
rem , e em Alamquer , e em Tomar , e Avramtes , e outros ioga- 
res do reino , fallamdo as gentes defte cafamento quamto lhes 
parecia fco e nom pêra feer , Dona Lionor a que deite feito 
mujto pefava , reçeamdoíTe que per aazo de taacs ajumtamen- 
tos e falias, podia (') feer que a leixaria elRei, dizem que 
mandava faber per emculcas , quaaes eram os que em iíto 
mais fallavom comtra ella , razoamdo mal de tal cafamento ^ 
e avia com elRei que os mandalFe premder , e fazer em elles 

li ii ^ juf- 

(i) juntas T. (2) <|ue o £. (3) poderia T, 



2^4 CaRONrcA 

juftlça : e foi alC de feito , que em Lixboa foi prefo depois 
Fernam Vaafquez , aquel alfayate que ouviftes , e outros ; e fo- 
rom decepados e tomados os beens, edelles fugirom , e aíli 
em alguuns logares do reino : e a mujtos que amdavom fo- 
gidos por efta razom , perdohou elRei depois , e nom ouve- 
rom pena, 

CAPITULO LXII. 

Como elRel Dom ternamdo reçebeo de praça Dona Lio- 
nor por molher , e foi chamada Rainha de Portugal, 

ANdou elRei per feu reino folgamdo , tragemdo comligo 
Dona Lionor , ataa que chegou antre Doiro e Minho a 
huum moefteiro que chamam Leça , que he da hordem do 
efpital , e alli determinou elRei de a receber de praça ; e 
em huum dia pêra ifto allijnado , foi a todos prepofto por fua 
parte dizemdo em ella guifa. >» Amigos , bem fabees como 
a hordem do cafamento he huum dos nobres facramentos , 
que Deos em efte mundo hordenou , pêra nom foomente 
os Reis, mas aimda os outros homeens, viverem em cita- 
do de falvaçom , e os Reis averem per lidema linhagem 
quem depôs elies foçeda o reino , e regimento real que lhe 
Deos deu ; porende elRei noíTo fenhor querendo viver em 
efte eftado , fegumdo a el perteeçe , e comíijramdo como 
a muj nobre Dona Lionor íO^ filha de Dom Martim AffoníTo 
Tello 5 e de Dona Aldomça de Vascomçellos , deçemde do 
linhagem dos Reis , des i como todoUos gramdes e moores 
fidallgos deftes reinos tem com ella gramde divedo de pa- 
remtefco , os quaaes recebendo delRei homrra , como he 
aguifado , feiam por ello mais theudos de o ajudar a defem- 
der a terra ; e oolhamdo outro li como a dita Dona Lionor 
he molher muj comvjnhavel pêra elle , por as razoôes fobrc 
ditas : tem trautado com ella feu cafamento , e poremde a 

í> quer 
(i) Dona Lyanor Teellez J. . . 



gI3"i Oí' 



d'elRei d. Fernaíído. if^ 

99 quer receber de praça per pallavras de prefemte j como 
» manda a famta egreia í'í j e lhe emtemde de dar taaes vil* 
í> las e logares de feu fenhorio , per que ella poíTa rtianteer 
99 homrrofo eftado de Rainha , como lhe perreemçe »» Emtom 
a reçebeo eIRei peramte todos , e foi notificado pello reino 
como era fua molher , de que os gramdes e pequenos ouve- 
rom muj gram pefar. E deulhe elRei logo Villa viçofa , e 
Avramtes , e Almadaã , e Simtra , e Torres vedras , e Alamquer , 
e Aatouguia , e Oobidos , e Aaveiro , e os regueemgos dô 
Sacavém, eFrcellas, eUnhos, e terra de Merlles em riba de 
Doiro ; e dalli em deamte foi chamada Rainha de Portugal ^ 
e beijaromlhe a maao per mandado delRei quamtos grandes 
no reino avia , aíli homeens como molheres ; reçebemdoa por 
fenhora todallas villas e cidades de feu fenhorio , afora o If- 
fante DomDenis, pofto que meor foíTe que o lííumte Dom 
Joham , que numca lha quis beijar: por a qual razom elRei 
Dom Fernamdo lhe qui fera dar com huuma diga , fe nom fo- 
ra Gil Vaafquez de Reefemde feu áyo , e Airas Gomez da Sill- 
va ayj delRei Dom Fernamdo , que defviarom elRei de o 
fazer ; dizemdo elRei fanhudamente contra elle : ?> Que nom 
5> avia vergomça nenhuuma , beijarem a maao aa Rainha fua 
9) molher o lífamte Dom Joham , que era moor que elle j e ilTo 
99 meefmo feu irmaão , e todollos outros fidallgos do reino , e 
3> el foomente dizer que lha nom beijaria , mas que lha bei- 
99 jaíTe ella a elle >% E delia guifa andava oIíFamteDom De- 
nis aíli como omeziado da corte , e o líFamte Dom Joham ficou 
com elRei e com a Rainha muj to amado e bem quifto ; pof 
que feemdo o mayor no reino , fe oferecera de boom grado 
de beijar a maao aa Rainha, e fora aazo e caminho a outros 
muj tos de gramde eftado : porem todollos do reino de qual 
quer comdiçom que folTem, eram difto muj mal contentes. 



CA- 



Cu ȉreja de Roma T. 



^'iau 0'^ 



fj^ C H R o N I C A 

CAPITULO LXIIL 

Razooes defvmradas ^que algutim fallavom fohre o cajá- 
\^, _ mento delRei Dom Fernamdo. 

:í , fi- ' • ■..■ • ■ - 

QUamdo foi fabudo pello reino, como elRei recebera de 
praça Dona Lionor por fua molher , e lhe beijarom a 
maão todos por Rainha , foi o poboo (') de tal feito muj 
maravilhado, mujto mais que da primeira; porque ante defto 
nom embargamdo que o alguuns fofpeitafíem , por o gramde 
e honrrofo geito que vijam a elRci teer com ella , nom eram 
porem certos íe era fua molher ou nom ; e mujtos duvidam- 
do,cuidavom que feemfadaria elRei delia, e que depois ca- 
faria fegumdo perteemçia a feu real eftado : e huuns e os ou- 
tros todos fallavom defvairadas razoóes fobrefto , maravilham- 
doíle mujto delRei nom emtemder quamto desfazia em li, 
f)or fe comtemtar de tal cafamento. E delles diziam que me- 
lhor fezera elRei teella por tempo , e des i cafar com outra 
molher ; mas que eílo era coufa que muj poucos ou nenhuum , 
pofio que emtemdeíTem que tal amor lhe era danofo , o leixa- 
vom depois e defemparavom , mocrmente nos mancebos anos. 
E leixadas as falias dalguuns íimprezes , que em favor delle 
ra-zoavom , dizendo que nom era maravilha o que elRei feze- 
ra , e que ja a outros acomteçera femelhavel erro, avemdo 
gramde amor a alguumas molheres ; dos ditos dos emtemdi- 
dos fundados em íifo , alguuma coufa digamos cm breve : os 
quaaes fallamdo em efto o que lhe parecia , diziam que tal 
bem queremça era mujto demgeitar, moormente nos Reis e 
fenhores , que mais que nenhuuns dos outros desfaziam em li 
per liamça de taaes amores. Ca pois que os antijgos derom 
por doutrina , que hoRei na molher que ouveíTe de tomar, 
principalmente devia defguardar nobreza de geeraçom , mais 

que 

(i) o povo iodo T. 



d'elReí d. Fernando. 2S7 

que outra alguuma coufa, que aquel que í'^ o comtrairo defto 
fazia , nom lhe vijnha de boom íiíb , mas de famdiçe , falvo 
fe hufamça dos homeens em tal feito lhe empreftalTe nome de 
fefudó : e pois que elRei Dom Fernamdo leixava filhas de 
tam altos Reis , com que lhe davom gramdes e homrrofos ca- 
famentos , e tomava Dona Lionor , que tamtos comtrairos 
tijnha pêra o nom feer, que bem devia feer (') pofto no conto 
de taaes. Outros diziam , que iíto era aífi como door da qual 
ao homem prazia c nom prazia , dizemdo que todollos fabe- 
dorcs concordavom , que todo homem namorado tem huuma 
efpeçia de famdiçe ; e efto por duas razoôes , a primeira por 
que aquello que em alguuns he caufa intrimfeca das outras 
maneiras de famdiçe , he em eftes caufa de taaes amores : a 
fegumda por que a virtude extimativa , que he emperatiiz 
das outras potemçias da alma acerca das coufas fenífivecs , he 
tam doemte em taaes homeens , que nom julga o ogeito da 
coufa que vee tal qual elle he , mas tal qual a elle parece ; 
ca el jullga a fea por fremofa , e aquella que traz dampno 
feer a elle proveitòfa ; e por tanto todo juizo da razom he 
fovertido acerca de tal ogeito , em tanto que qual quer outra 
coufa que lhe coníTelhem , poderá bem receber ; mas quam- 
to acerca de tal molher a elle prazivel , coufa que lhe di- 
gam de boom comífelho nom recebe , fe o conflelho he que 
a leixe e nom cure delia , ante lhe faz huum acreçentamen- 
to de door, que he fora de todo boom juizo; de guifa que 
fehe tal peífoa o que ocomíFelhou, de que poíTa tomar vim- 
gamça , tomaa aííi como fez elRei Dom Fernamdo , que man- 
dou fazer julliça em alguuns do feu poboo , que o bem comf- 
felhavom em femelhamte cafo , fegundo ja teendes ouvido. 



CA- 



(i) coufa , e quem T. (2) de feer T, 



JBI2U OT 



2^8 Chronica 

CAPITULO LXIV. 

Das razooes que elRei ouve com huum de feu comjjelho 
fobre o caf amento da Rainha Dona Lionor, 



TRagemdo elRei Dom Fernamdo Dona Lionor comfigo , 
ante que a reçebeíTe de praça , como ouviftes ; fallava al- 
guumas vezes com alguuns feus privados, dizemdo como tij- 
nha cm voomtade de a receber por molher, e que diíTeíTem 
o que lhe parecia , por veer fe acharia alguuns que lhe conf- 
felhaíTem que o fczeíTe. E huum dia fallou com dous delks , 
como fua voontade era de a tomar por Rainha, porem ante 
que o pofeíTc em obra , quiria aver com elles comlTelho. >> Se- 
nhor , diflerom elles, a nos nom convém fallar em efto, 
por que vos veemos ja liado com ella em tal maneira , 
que emtendemos que numca outra molher avees daver fe 
nom ella ; e aimda nos certificam alguuns que a teemdes 
ja recebida por molher , e quamto he per noíTo confelho , 
nem doutro nenhuum que voíTo ferviço e homrra defeje, 
nom vos confeíhara tal cafamento pormujtas razooes; mas 
fe teemdes em voomtade de a toda via receber por mo- 
lher, nenhuum boom comlFelho prefta em illo >'. A cabo 
de poucos dias a reçebeo elRei , como diífemos ; e depois lo- 
go acerca , diíTe huum dia a huum de feu confelho , como fe 
repremdia de teer cafado com ella ; o outro reípondendo diíFe : 

> líto foi por voíTa culpa , e por vos averdes voomtade de o 
5 fazer , mas nom por vos nom feerdcs confelhado per muj- 
j tos, que o nom fezeflees ». jj Verdade he , difleelle, que 

> mo difdiíFerom mujtos j mas eu quifera que fezerom elles 

> a mim , aimda que eu voomtade ouveífe , como fezerom os 
j privados delRei Dom AíFonífo meu avoo a elle í>. >> E co- 

> mo foi iíFo , fenhor ?> ? 3> Eu vos direi , diífe clRei. Meu 

J5 avoo 



d'elRei D.Fernando. 2^9 

>j avoo quando começou de reinar, tijnha mais sentido nas cou- 
3> fas em que avia prazer , como homem novo que era , mais 
» que naquello que perteecia a regimento do reino : e eftamdo 
5> todoUos do comíTelho em Lixboa jumtos , fallamdo nas cou- 
5> fas que perteemçiam a regimento do reino , e prol do poboo ; 
55 e elle leixou o comíTellio , e foilTe aa caça a termo de Simtra , 
íj e durou la bem acerca de huum mes. Os do coníTelho quam- 
J9 do virom que elle tam pouco femtido tijnha, em começo de 
yy feu reinado , das coufas que avia dordenar por feu ferviço e 
J9 bem do poboo , ouveromno por maao começo ; e quando el- 
3> Rei vco , c foi ao conífelho , depois que fallarom na caça em 
>> que amdara , diíTelhe huum delles per acordo dos outros : 
5> Senhor , feia volTa merçee nom teerdes tal geito , como 
» efte que ora teveftes , íeixardes voífo comíFclho per tan- 
35 tos dias , homde tam neçeífario he deitardes , e hirdevos 
5j aa caça ha ja huum mes, e nos citarmos aqui fem vos, 
í> com pouco voíTo proveito e ferviço : por merçee teemde 
3) outra maneira em eito daqui em deamte , fe nom. Gomo fe 
3> nom , difle elle ? Alia fe , diíTerom , fe nom bufcaremos nos 
3> outro que reine fobre nos , que tenha cuidado de manteer 
3> o poboo em dereito eemjuítiça, e nom leixe as coufas que 
3> tem de fazer de fua fazemda , por hir ao monte e aa ca- 
5> ça amdar huum mes. ElRei ouve diíto gramde menemco- 
í9 ria 5 e dilFe braadanido : e como os meus me ím a mim 
3> de dizer , fe nom , e elles me ham a mim de fazer CO iíTo. 
j) Os volTos , diíTerom elles , quamdo vos fezerdes o que nom 
5) devees. ElRei fahiuíTe muj queixofo do comíFelho , e foif- 
3) fe ; e depois cuidou em ello , e achou que lho diziam por 
99 feu ferviço , e perdeo queixume delles , e ouveos por boons 
5> fervidores. E eu aíli quifera que vos outros do meu comlfe- 
» lho fezerees a mim : pois que viees que nom era minha 
53 homrra tal cafamento , nom me comíTemtilTees que o fe- 
» zeífe 3>. O privado que emtemdeo , que elRei mais lhe di- 
zia cito por veer que repoíta lhe daria , que por teer em 

Tom. IF. Kk vo- 

CO dizer £, 



26o Chronica 

voomtade o que lhe fallava , refpomdeo ediíTe: «Senhor, vos 
w o dizees agora muj bem ; mas poderá feer , que fe os do 
*> ypffo comllelho vollo comtradiíTerom delTa guifa que vos 
>? dizees , que ouverom de vos peor repofta com obra , da que 
5j ouverom eíTes outros delRei Dom AíFoníTo , voíTo avoo '>. 
]E elRei dizemdo que nom , mas que o ouvera por bem fei- 
to, jeíTarom daqueíto , e fallarom em ai. 

CAPITULO LXV. 

Como a Rainha Dona Lionor cafou alguuns fiàallgos do 

reino ^ e do acreçentamento que fez em outros 

de feu linhagem. 

ESta Rainha Dona Lionor , ao tempo que a elRei tomou 
por molher , era bem manceba em frefca hidade , e igual 
em gramdeza de corpo ; avia louçaao e graçiofo geefto , e to- 
dallas feiçoÔes do roftro quaaes o dereito da fremofura outor- 
ga ; tal que nenhuuma por eílomçe era a ella lemelhavel em 
bem parecer , e dulçidom de falia , fofremdonos porem de a 
prafmar dalguumas coufas, em que nom onefto e muy foi Ira- 
mente : ouve gramde e vivo emtemdimento por afortelle- 
zar feu eílado, tragemdo a feu amor e bem queremça aílí as 
gramdes pelToas como as pequenas , moftramdo a todos leda 
çonverfaçom , com graada preftamça e muitas bemfeiturias, 
E por quamto ella era certa , que nom prazia aas gentes meu- 
das de ella feer Rainha , fegumdo fe moftrara em Lixboa e 
çm outrqs logares , e ainda dalguuns gramdes duvjdava muj- 
to 5 traballiQuíTe de aver da fua parte todoUos moores do rei- 
no per cafamentos , e grandes officios , e fortellezas de logares 
qye Ihçs fez dar , como adeante ouvirees. E fez aimda gram- 
de açreçemtamento, efpiçiallmente nos de feu linhagem ; por 
qqe dous feus jrmaaos , a faber , Dom Joham AffoníTo Tello, 
aazou como folTe almiramte, e Gomçallo Tellez fez comde 

de 



siaH Of 



d'elRei d. Fernando» 261 

de Neuva í') e de Faria , que he antre Doiro e Mjnho : e dous 
filhos do comde Dora Joham AíFoníTo fcu tio , huum fez fazer 
comde de Viana, que chamavom Dom Joham, e outro í^^ foi 
comde de Barçellos , a que diziam Dom AíFoiííTo ; e por que era 
muj moço , deulhe por ayo huum cavalleiro que chamavom 
Vaafco Perez de Caamoões : e fez fazer comde de Sea Dom 
Henrrique Manuel , feu cunhado : e fez como foíTe comde 
Darrayollos Dom Alvoro Pirez de Gaftro : e fez dar o mef- 
trado de Samtiago a Dom Fernamdafonfo Dalboquerque , que 
era irmaâo das molheres defeus irmaãos : e fez darí') o mcef- 
trado de Ghriítus a huum feu fobrinho , filho de fua irmaa Do- 
na Maria , que chamavom Dom Lopo Diaz (4) : e fez poer to- 
dollos caftellos e melhores fortellezas do reino nos que eram 
de feu linhagem. E por que Lixboa he principal logar do 
reino , e quem a tever por fua , emteiide que tem todo o rei- 
no , fez ella dar depois o çaftello deífa cidade ao conde Dom 
Joham Affonífo Tello íeu irmaão ; e fez que quamtos gramdes 
e boons avia na cidade , que todos folTem feus vaíFallos : alE 
como Martim AíFonfo Vallemte , que tijnha o çaftello por el- 
le , Eftevam Vaafquez Philippe , AfíbníFe Anes Nogueira , Af- 
fonífo Furtado Capitam , Affbnfo Eftevez Daazambuja , An- 
tom Vaafquez. Eftes cavalleiros , e outro fi muj tos eícudeiros, 
que na cidade avia muj homrrados e muj boons , aífi como 
Pêro Vaafquez de pedra alçada , e Pedre Anes Lobato , c ou- 
tros que nom curamos de dizer , todos eram vaflallos do com^ 
de. Fez outro fi mujtos e boons çafamentos , ca ella cafou fua 
irmaã Dona Johana , que era bafl:arda e comendadeira de Sam- 
tos , com Joham AífoníTo Pimentel , e fezlhe dar Bragamça 
de jur e derdade : e cafou huuma donzella íua paremta que 
tragia em cafa , que chamavom Enes Diaz Botelha , com Pê- 
ro Rodriguez DafoníTeca , e fezlhe dar o çaftello Dolivem- 
ça. Cafou Martim Gomçallvez Dataide com Meçia Vaafquez 
Coutinha , e fezlhe dar o çaftello de Chaves: e cafou Fer. 

Kk ii nam 

(i) Neyva T, (2) e ho outro J. (5) e fez fazer dar T. (4) I->iaz de 
SouíTa T, 



2Ó2 ChrONICA 

nam Gomçallvez de Soufa com Dona Tareija de Meira , e 
fezlhe dar o caftello de Portel : e cafou Gonçallo Vehegas 
Dataide com Beatriz Nunez , filha de Nuno Martinz de Gooes , 
e de Bramca do Avellal. Cafou Fernam Gomçallvez de Mei- 
ra com huma filha de Dom • arçebifpo de Bragaa , 

a que chamavom í''^ : e cafou Paai Rodriguez Mari- 
nho com a molher que foi de Joham Fernamdez Gogominho. 
Cafou outro fi Gomçallo Vaafquez Coutinho com huuma fi- 
lha de Gomçallo Vaafquez Dazevedo : e cafou huum filho deíle 
Gomçallo Vaafquez , que chamavom Alvoro Gomçallvez , com 
huuma filha de Joham Fernamdez Damdeiro , que foi comde 
Dourem 5 por ella foi poíto em eftado. E fez mujtos outros 
cafamentos e acreçemtamentos em mujtos fidallgos e gramdes 
do reino , por lhe averem todos boom defejo , e nom cahir em 
fua mal queremça ; de guifa que nom era nenhuum que de fua 
bemfeituria e acreçemtamento nom ouvefle parte. Era muj- 
to graada e liberal a quaaes quer que lhe pediam ; em tanto 
que numca a ella chegou pelToa por lhe demandar merçee, 
que dantella partiíTe com vaá efperamça. Era aimda de muj- 
ta efmolla e mujto caridofa a todos , mas quanto fazia todo 
danava , depois que conheçerom nella que era lavrador de 
Vénus , e criada em sua corte : e faliamdo os maldizemtes , 
prafmavomna dizendo , que todallas criadas daquella fenhora 
fe fimgem fempre mujto amaviofas , por tanto que o manto 
da caridade que moítram , feia cobertura de fcus defoneftof? 
feitos. 



CA- 



iã) Os dons nomes que aqui fefaltão em d aro ^ não fo fe onrittem no Exem- 
plar do R. Arquivo , mas também nos Códices T. B. 



gtS^ 01 



d'elRei d. Fernando. 263 

CAPITULO LXVI. 

Como eJRei Dom Hcmrrique mandou faber delRei Dom 

Fernamdo fe lhe prazia de feer jeu amigo , e da re- 

pojia que lhe levou Diego Lopez Pacheco, 

EM efte ano de quatro çemtos e dez í'^ que elRei DomFer* 
namdo reçebeo Dona Lionor por molher , eftamdo elRei 
Dom Hemrrique em Burgos , foube como alguuns cavalleiros 
e efcudeiros de Caltella , que andavom em Portugal , aífi co- 
mo Fernandafonfo deÇamora , e outros , aviam tomado huum 
logar em Galliza de feu reino , que chamavom Viana , e lhe 
faziam guerra delle. Outro íi lhe fezerom faber mareamtes 
da coita de Bizcaya e das Efturias , como elRei Dom Fernam- 
do lhe mandara tomar alguumas naaos no mar , e ifíb meef- 
mo ante o porto de Lixboa , e nom fabiam por que : e mais 
lhe fezerom certo , que elRei Dom Fernamdo fazia liamça 
com os Ingrefes , pêra emtrar em feu reino com elles , e lhe 
fazer guerra, ElRei Dom Hemrrique ouve difto gram quei- 
xume , por quanto tijnha pazes com elRei Dom Fernamdo, 
e dava a emtemder per tal obra que Ihas^ nom quiria guardar 
de todo , aíli em conlTemtir aos que amdavom em feu reino 
que lhe fezeífem guerra , como nas naaos que lhe mandava 
tomar fem razom : e por feer mais certo da amizade e liam- 
ça que com elRei de Portugal tijnha , fe avia voomtade de 
lha guardar ou nom , mandou a el Diego Lopez Pacheco , o 
qual em elta fazom amdava em Caftella , e amdara fempre com 
elRei Dom Hemrrique , defque fugira de Portugal por razom 
da morte de Dona Enes. Diego Lopez chegou a Portugal , 
e fallou a elRei Dom Fernamdo todo o que lhe elRei Dom 
Hemrrique mandara , e ouve delle fua repofta ; e quamdo foi 
fallar ao Iffante Dom Denis , contoulhe o Iffante do caíamen- 
to 

(i) e xii T. 






2^4 ' Chronica 

to dclRei feu irmaão , quanto lhe pefava de o fazer daquel- 
la guifa , e como amdava delle mujto deíavijmdo , por noiíi 
querer beijar a maao aa Rainha. Diego Lopez refpondeo co- 
mo fora fallar a elRei , e que lhe pefara mujto da maneira que 
vira j por que lhe parecia que elRei era de todo ponto em 
poder delia , e que o trazia emfeitiçado , pois que nom fa- 
zia mais que quamto ella quiria : e o líFamte lhe preguntou 
que lhe parecia defte feito : íj Pareçeme , fenhor , diíTe clle , 
5» muj mal , ca emtemdo que feus irmaãos delia montarom 
5J no reino mais que vos , nem voíTo irmaão j e aimda queira 
5) Deos que nom feia peor , por que avemdo delia filhos , po- 
j> deria feer que vos matariam com peçonha , por tirar fofpei- 
5> ta da erança do reino ; e pofto que aííí nçm feia , toda a 
55 privamça e eftado ha de feer em poder de feu linhagem ; 
55 porem me parece íaao comíTelho , que vaades pêra Caftella : 
55 eu fallarei agora a elRei quamdo for , e emtemdo bem 
55 que lhe prazerá comvofco ; e a repofta que em el achar , 
55 vos farei logo faber 55. E aíli o fez Diego Lopez defeito: 
como chegou a elRei Dom Hemrrique , çertificouho que el- 
Rei Dom Fernamdo nom era feu amiguo de voomtadc , nem 
emtendera neelle que lhe prazia guardar as comveemças an- 
trelles firmadas; e dilTelhe mais como elRei nom eftava bem 
avijndo cora os fidallgos e poboos de fua terra , por aazo do 
cafamento de Dona Lionor ; e que os tijnha tam mal preftes 
pêra feu ferviço , e com tam defvairadas voontades , que emtem- 
dia feemtraíre pello reino , que ligeiramente o podia cobrar ; 
e què o líFamte Dom Denis, e outros cavalleiros com elle , fe 
quiriam partir do reino , e vijnr pêra fua merçee. E iíTo meef- 
mo chegou alli a Camora , onde eIRei eftava , huum eicudeiro 
que el mandara a Portugal com recado fobreJfto , o qual lhe 
certificou claramente , que elRei Dom Fernamdo nom era feu 
amjgo , nem quifera defembargar as naaos de Caftella , que 
forom filhadas no porto deLixboa. Outro fi lhe veherom no- 
vas como o comde Dom AffoníTo feu fiUio , que emviara a 

Gal- 



d'elRei d. Fernando. 26^ 

Galliza j avia cobrada a villa de Viana, e premdera alguuns 
dacjuelles que em ella eílavom. 

CAPITULO LXVII. 

Como elRei Dom Fernamdo , e o duque Dallamcajlro 
fezerom liame a contra elRei de Cajiella , e elRei 

Daragom. 

A Si era certo , como contarom a elRei de Caltella , que 
clRci Dom Fernamdo fazia liamça com os Ingrefes com- 
tra elle , nom embargando os trautos e pazes que antrelles 
avia , fegumdo ouviftes ; ca o duque Dallamcaftro , fegumdo 
filho delRei de Ingraterra , que fe chamava Rei de CafteJla , 
por aazo da líFante Dona Coftamça fua molher , filha delRei 
Dom Pedro , fegumdo comtamos , emviara pouco avia feus em- 
baixadores a elRei Dom Fernamdo , a faber , Joham Fernan- 
des Amdeiro cavalleiro, e RogerHoor efcudeiro outro fi do 
duque ; os quaaes chegarom no mes de julho acerca de Bra- 
gaa , omde elRei de Purtugal eftonçe era : e moítrado abaf- 
tamte poder que pêra ello tragiam , firmarom fuás aveenças 
em cila guifa : » Que elRei e o duque foíFem verdadeiros amj- 
^' gos por fempre huum do outro , e que fe ajudaíTem per mar 
5J e per terra contra Dom Hemrrique , Rei que fe chamava de 
5> Caltella , e comtra elRei Dom Pedro Daragom : a faber , que 
?» vijmdo o duque fazer guerra a elRei Dom Hemrrique , ou a 
5» elRei Daragom , e eftamdo no reino de Navarra começamdo 
" de fazer guerra a cada huum delles com as gentes que com- 
í> figuo trouveíTe, que elRei Dom Fernamdo foíFe theudo de 
" lhe fazer logo guerra : e f e o duque emtralTe per feu corpo 
'> em cada huum dos ditos reinos, que elRei de Portugal fof- 
" fe theudo de emtrar com feu corpo per outra parte : e que 
» eítas ajudas e guerra que cada huum fezeífe , foífe aas fuás 

pro- 



.^•íe.r ' ■■■' 



266 Chronica 

3> próprias defpefas : e que toda coufa queelRei DomFernam- 
yy do tomaíTe do reino de Caítella , que nom foíTe villa ou caf- 
39 tello , ou terra , que folTc fua fem outra contcmda ; e que 
í j toda coufa que foíTe tomada do reino Daragom , que tolTe 
» daquel que a tomaíTe >». Eftes e outros capjtulíos, que por 
nom alomgar leixamos defcprever, forom emtoni firmados antre 
elRei e o duque Dalancaftro , fobrc eíla guerra , e ajudas que 
fe aviam de fazer : e o ditado do duque , como fe emtom 
chamava , era cfte : í» Dom Joham pella graça de Dcos Rei de 
í5 Caítella , e de Leom , e de Tolledo , e de Galliza , e de Sc- 
5> vilha , e de Córdova , e de MoUina , e de Geem , e do Al- 
j) garve , e Daliazira , duque Dallamcaftro , e fenhor de Molli- 
99 na 99', e em alguumas efcripturas emhadiam mais em elle , di- 
zendo : 99 reinante nos ditos reinos em huum com a Rainha 
3> Dona Coftamça noíTa molher, filha primeira e herdeira do 
99 muj alto Rei Dom Pedro , que Deos perdoe ». Depois deftcs 
trautos affi firmados , emviou elRei Dom Fernamdo , Vaafco 
Domimguez chamtre de Bragaa , a Ingraterra pêra os o du- 
que firmar e jurar; e forom firmados per elle nos paaços de 
Saboya , terra de Lomdres , ficamdo deita vez elRei e o du- 
que poítos em gramde amizade. 

CAPITULO LXVIIL 

Como elRei Dom Hemrrique emviou reqiierlr a elRei 

Dom Fernamdo , que ouvejje com elle paz j e das 

razooens que o embaxador dijfe. 

ELRei Dom, Hemrrique , nom embargamdo o que lhe Die- 
go Lopez dilTera , e as outras novas que de Portugal ou- 
vera , como diílèmos , nom Iheprazia porem aver guerra com 
elRei Dom Fernamdo , ante lhe pefava muj to de lhe aíli 
quebramtar os trautos e amizade , que com el avia poíta : e 

por 



d' E L R E I D. F E R N A N D o. l6y 

pormoor avomdamça , ante que fe demoveíre a emtríir em Por- 
tugal , emviou por embaxador a elRei Dom Fernamdo huum 
biípo 5 o qual djzem alguuns que era Dom Joham Manrrique, 
bifpo de Segomça (') ; e veo a Portugal, e achou elRei em 
huum logar quatro legoas de Samtarem , que chamom Salva- 
terra de Magos. O biípo era homem emtemdido e bem ra- 
zoado , e depois que deu a elRei as fuás encomendaçooes ^ 
prelemte o comde Dom Joham AíFoníTo Tello , e outros que 
com cl cllavom , lhe diíTe em efta guifa. ?> Senhor, elRei 
í> Dom Hemrrique meu fenhor , veemdo os gramdes divedos 
5) que antre vos e elle ha , e defeiamdo aver paz e amorio 
5? comvofco 5 afli por proveito dos poboos , que cada huum 
í> de vos ha de reger , como por efpicial amor e boa voom- 
5> tade que vos tem , quis que foíTees ambos em tal acordo , 
5> que amtre vos e elle nom podeíTe vijnr, nem recreçer ne- 
5> nhuuma contemda ; e efto o demoveo a fazer paz cpmvos- 
5> CO , a qual foi firmada com certas comdiçooes e juras , fe- 
5> gumdo bem fabem quamtos aqui eftam. E por moor fir- 
3J meza delias , e voífos boons divedos feerem acreçemtados ^ 
í> foi pofto de vos dar fua filha por molher , com alguumas vil- 
5> las e logares de feu reino : e vos fenhor , nom fei por qual 
)> razom , o capitulo que mais deverees de guardar , que era 
5> cafar com fua lidema filha , por feer a vos homrrofo ca- 
i9 famcnto , e acreçemtardes em voíTo reino os logares que 
99 vos com ella dava , e vos quebramtaftello ^^) dhi a poucos 
» dias 5 ieixamdoa de receber , e cafamdovos com outrem , da 
99 qual coufa vos mandaftes efcufar a elRei meu fenhor, co- 
^9 mo aa voíFa merçee prougue : e pofto que el hi poderá 
99 tornar com aguifada rafom e dereito , fofreoífe de o fa- 
5> zer , por dar logar aa paz , que defeia daver comvofco. E 
>9 hora depois defto mandaftes aos do feu reino tomar certas 
99 naaos , aííi na cofta do mar , como ante o porto de Lixboa ; 
99 e pêro vos emviou requerer que lhe mandaíTees í^) de todo 
9> fazer cmtrega , nom foi voflTa merçee de o poer em obra, 
Tom. IV. LI ') an- 

(ij Çigoemça T, (2) quebrantaafteslho J". (^5) mamdafades T. 




2^8 Chronica 

99 ante deftes tal repoíla aaquelles que aca emviou , per que 
99 moílralles que de guardar a paz , que antre vos e elle fci fir* 
5> mada , aviees muj pouca voomtade: aalem defto lhe feze- 
« rom alguuns ctntemder , que vos faziees liga com os Ingrc- 
5> fes , peravinrem a voíTo reino , e feerem em voíia ajuda con- 
j> tra elle. E por que todas eíbs coufas moftram claramente , 
j> que vos nom teemdes voomtade de lhe guardar a paz , que 
i9 antre vos e elle foi firmada ; vos emvia dizer per mim , e 
í9 vos requere da parte de Deos , que vos lhe guardces com- 
» pridamente as pazes , que antre vos ambos fom firmadas , 
99 e mandões fazer emtrega aos feus de todo o dano que am 
>j recebido; e fazemdoo alli , farees em ello razom edereito, 
?> que fooes theudo de fazer , e el gradeçervolloa muj to, e 
?j teera em grande amizade. Doutra guiía , fe voíTa merçee he 
99 britardes as pazes que aíli avees em huum , a el he forçado 
5> que fe defemda de vos , e emtom moftrara a Deos e ao 
5> mundo que nom he mais teudo , que voUo requerer ; e que 
jj Deos que he jufto juiz , teera jufta razom de o ajudar 
99 contra voS », 



CAPITULO LXIX. 

Da repojla que elRei Dom Fernamdo deu ao bifpo , e 
como fe ejpedio delle , e fe fou 



ELRei Dom Fernamdo 5 que bem fofpeitava as razooes que 
lhe o bifpo avia de dizer, e as coufas em que o avia de 
culpar , como aquel que delias era bem fabedor , tijnha ja 
a repofta preftes pêra fe efcufar , e nom pedio efpaço pêra 
aver fobrello comíFelho, mas refpomdeo logo, dizemdo aílí. 
99 Eu todo o que fize , tijnha razom de o fazer ; e que mais 
99 fezera , nenhuum mo deve teer a mal , por que eu nom lhe 
» quebrei as pazes, mas elle as quebramtou a mim primei- 

>> ro; 






d'elRei d. Fernando, 26c 

» ro ; e affi Ího emviei dizer per Martim Perez , doutor em 
»> degredos , chamçeller do Iffamte Dom Joham feu filho , 
?> quamdo a mim fobreílo veo da fua parte : por que depois 
3> das pazes feitas a cabo dhuuns féis mefes , chegou a mim 
í' a Temtugal , omde eu eftonçe eftava , aquel doutor , e 
55 diíTcme e rcquirio , que bem íabia os trautos e aveemças 
55 que por bem de í'^ paz , antre mim e elRei Dom Hemrrique 
jj forom firmadas , e como fe depois perlomgarom aalem do 
?> tempo , por certas razooens da fua prol e minha , as quaaes 
?5 eram emtrega de certos logares e prifoneiros dhuuma par- 
» te aa outra , e mais o cafamento da líFamte Dona Lionor 
5j comigo. E eu lhe refpomdi , que bem fabia elRei de Gaf- 
55 tella , que o que eu ficara por fazer , ja era da minha par- 
íj te comprido , leixamdolhe as villas e logares que tijnha , 
5) e emtregues todollos prifoneiros que em meu reino eram 
5> rcteudos ; e que el numca me quifera emtregar a villa de 
j) Bragança , nem o caftello de Miramda , e outros logares : e 
» porem que me emtregafíe el primeiro os logares todos , 
?j como eu fezera a elle , e que bem prazia (^^ cafar com fua 
55 filha y e lhe comprir mais aimda outra coufa , fe teudo era 
>9 de a comprir ; aíli que eu fiz todo o que devia , e el nom 
99 me teve aquello que me pos : e porem cafei com quem me 
>5 prougue , e fize o que emtemdi por meu ferviço 55. 99 Se- 
99 nhor 5 diíTe o bifpo , no cafamento vos nom fallei , fe nom 
99 por o trazer a meu propofito ; e fe clRei meu fenhor al- 
5> gumas coufas por comprir tem , das que antre vos e elle 
99 forom firmadas , he muj bem que feia requirido que as 
5> compra , e fom certo que o fará de boom tallamte ; dou- 
» tra guifa nom me parece que he bem , hordenardes per hu 
5> antre vps' e elle aja guerra e difcordia i'^ , ca fe os de fua 
5> terra furtarom em volfo reino o caftello de Miramda , pri- 
5> meiro fairom os de voíTa terra a roubar na fua , e lhe fazer 
)? guerra , tomando per força cm Galliza o logar de Viana , 
5j e dalli faziam guerra a toda a comarca darredor , comfen- 

LI ii tim- 

(i) da T. (2) me prazia 7. (3) aja gramde ^ifcordya 7'. 



270 V-iHKONIC A 

» titndoo vos , e nom tornamdo a ello ; em guifa que ouve el 
>j hi de mandar o comde Dom AflFoníTo íeu filho com gentes , 
>j a poer cobro em efto : mas antre vos e elle tatn pequenas 
5> coufas como eílas , ligeiras fom de comcordar, por feerdes 
» em paz eí'^amorio. Porem fenhor, pormerçee efguardaae 
5» bem primeiro o que querees fazer, e conheçee que aquella 
39 he nobre e bem avemturada paz , que he na voontade e nom 
» nas pallavras , e que huum dos cuidados melhores que aver 
5> podees , aííi he daver paz com yoíTos vizinhos ; nem po- 
» de nenhuma coufa mais doce fecr antre os Reis e os po- 
39 boos , que viverem em paz e aíTelTego ; de guifa que omde 
5> he huum domdefe, haja huuma comcordia de vida >». El- 
Rei Dom Fernamdo tijnha mandado VaafcoDomimguez cham- 
tre de Bragaa a Imgratcrra , como ouviftes , por firmar o trau- 
to antrelle e o duque Dalamcaftro , desi por fazer vijnr gen- 
tes darmas ; eouvera ja recado delle , que tijnha oito çentas 
lamças , e outros tantos archeiros preftes ; e quamdo lhe o 
bifpo dizia eftas e outras mujtas razooens , que toda via ou- 
veíTe paz , e elRei refpomdia per taaes pallavras e com tal 
doairo , que bem moítrava que avia dello pouca voomtade. 
E deíTa meefma guifa o dezia o comde Dom Joham Affonfo 
Tello , em tanto que o bifpo lhe veo a dizer. ?> Comde , vos 
99 podees coníTelhar elRei , que aqui ella , como vos prou^ 
99 guer ; mas fe o vos confelhaaes que el aja guerra ante que 
5> paz 5 vos podees dizer o que quiferdes , mas porem fei 
5) que nom avees vos de feer o primeiro , que avees de jugar 
99 as lamçadas antelle ; e fe eu foíTe de feu comfelho, como 
99 vos fooes 5 eu lhe confelharia ante que efcolhelTe a certa 
J5 paz com elRei meu fenhor, que efperar a duvidofa vito- 
5SÍ ria 3>. Sobrefto fe feguirom outras muitas razooens , pellas 
quaaes o bifpo emtemdeo , que elRei nom avia voomtade da- 
ver paz ; e efpediolTe delle , e foilTe feu caminho. 

CA. 

CO e em r. 



É!3ir or 



d'el R El D. FeRN AND o. 271 

CAPITULO LXX. 

Como o hifpo chegou a Cajlella , e como fe elRei Dom 
Hemrrique demoveo a fazer guerra a Portugal. 

TOrnouíTe o bifpo pêra Caftella , e achou elRei Dom 
Henrrique em Çamora ; e pofto elRei adeparte com os 
de feu comlelho , pêra ouvir a repofta que o bifpo trazia, 
e elle as primeiras novas que lhe deu , diíTelhe que fe per- 
çebeíTe de guerra , e comtoulhe todo o que lhe avehera com 
elRei Dom Fernando , como emtemdia neelle que nom avia 
voomtade de feer feu amigo , nem lhe guardar a paz que com 
el pofera , e que aíH lhe parecia que o comíFelhavom alguuns 
fenhores , dos que com elle eram. ElRei Dom Hemrrique ou- 
vijmdo ifto , diíTe emtom peramte todos. 5> Deos fabe , que he 
» fabedor de todallas coufas , que eu nom ei voomtade da- 
» ver com el guerra , ante quiria de muj boamente aver com 
w el paz , e feer feu amigo ; mas pois que aíli he que eu ei 
» daver guerra , eu nom a quero guardar pêra mais lomge , 
55 mas logo em ponto a quero começar; e diga cada huum 
5» de vos o que lhe parece , e como fe pode melhor fazer >». 
Os do confelho , vifta a repoíla que o bifpo tragia, e o dcfeio 
que elRei cm efto moftrava ('^, acordavom todos de fe fazer 
guerra, e que eiPvci emíraífc per Portugal com todo feu po- 
der, mas que efto nom foífe logo , por certas razooens : a 
huuma , por elRei nom reer as fuás gentes preftes , e iíFo meef- 
mo dinheiros pêra paga dos foldos , e corregimentos que lhe 
eram neçeíTarios ', des i por o inverno que fe feguia : aífi que 
por efto , e por outras coufas que cada huum moftrava a fe 
nom fazer , eram todos em acordo , que elRei efpaçaíTc efta 
guerra ataa o veraão que avia devijnr, e que em tanto faria 
elle preftes todo o que pêra ello era compridoiro , e. affi apo- 
de- 

(i) que elRey linha moílraado T. ^íd (»'' 



SISU OT 

«:■'. '■ .,■■•■:> 



i^i V^HRONICA 

deria acabar com mais fua homrra e ferviço. ElRei quando 
vio que todos eram daquelle acordo , e nenhuum deíviava del- 
le , deulhes em repofta dizemdo. í> Ou vos todos eftaaes be- 
» vedosí'^, oufamdeus, ou fooes treedorcs jj. »Nomjaeu, 
i> fenhor , diíTe o bifpo , ca nom fom ruivo ". '5 Aa bifpo, 
5> diíTe elRei , por mim dizees vos ilTo j> : por que elRei era 
bramco e ruivo. ?> Nom fenhor , diíTe elle , mas por efte 
3j que aqui efta a : a faber , Pêro Fernamdez de Vallafco , 
que eftava junto com elle , que era huum pouco come ruivo. 
E rijmdo deitas e doutras razooens , que antremetiam por to- 
mar fabor , tornou elRei a dizer contra elles. jj Aqui nom 
compre mais perlomgas , nem outro comíTelho quamdo fe 
fará ; maà ante que fe numca elRei Dom Fernamdo per- 
ceba , nem lhe venha ajuda Dhimgrefes, nem doutro ne- 
nhuum de fora do reino , ante eu quero que me elle ache 
coníigo ; e ou lhe eu deftruirei toda a terra , ou nos vijn- 
remos a tal aveença , per que fempre feiamos dacordo : e 
efta emtemdo que he bem juíta guerra , pois que a faço por 
aver paz, E logo defte logar emtemdo demcaminhar pêra 
Portugal , fem mais tornar atras ; e quem voomtade tever 
de me fazer ferviço , el me feguira per hu quer que eu for 5>. 
E nefte comfelho dizem que fe firmou mujto Diego Lopez 
Pacheco, dizemdo que emtraíFe logo fupitamente per Portu- 
gal , e que fe foífe logo lamçar fobre Lixboa , nom curan- 
do doutro logar nenhuum, a qual podia tomar ligeiramente; 
e que cobramdo efta cidade , emtemdeíTe que tijnha todo o 
reino cobrado , e fijmda fua guerra. Mandou elRei logo car- 
tas a todos feus vaíTallos , que fe juntaífem aprefía hu quer 
que elle foíTe , ca fua emtemçom era partir fem mais tardan- 
ça , e emtrar em Portugal, e que elle os efperaria aacmtrada 
do reino. Outro ÍI efcrepveo a Miçer Ambrofio Boca negra , 
feu almiramte , que armaíTe logo em Sevilha doze galleez , 
e que tanto que foíTem armadas, que partiífem logo cm el- 
las pêra a cidade de Lixboa. 

CA- 

(i) bêbados T. 



13'elRei d. Fernando* 273 

CAPITULO LXXI. 

Como elRei Dom Hemrrlque entrou em Portugal ^ e do 
recado que ouve do cardeal delle gado ^^^ do Papa. 

PArtio elRci Dom Hemrrique de Çamora , e amdou feu câ^ 
mjnho fem fazer deteemça , com as gentes que o feguif 
pcderom , araa que entrou per Portugal; eefta trigamça trou-» 
ve fem mais efperar nemguem , por os feus teerem aazo e (^) 
fe fazerem preííes de o mais cedo feguir : e foi fua partida 
em feiembro meado, na era que dilFemos , de quatro çemtos 
e dez. E como chegou ao eílremo dos reinos , aguardou alli 
fuás gemtes , e cobrou em tanto eftes logares , Almeida , Pi- 
nhel, Linhares, Çellorico , e a cidade deVifeu, que lhe foi 
bem ligeira daver , come logar fem nenhuuma cerca. E eftam- 
do elRei naquclla comarca , foiífe pêra elle o líFamte Dom 
Denis irmaão delRei Dom Fernamdo , fegumdo fallara com 
DiegoLopez quando vehera a Portugal ; e elRei Dom Hemr- 
rique o reçebeo muj bem , e lhe deu de íi gramde gafalha^ 
do. E ante que elRei dalli partiíTe, foube como Dom Gui- 
do de Bolonha , cardeal e legado (J Mo Papa , era vijmdo em 
Caftella , por trautar aveemça e paz antrelle e elRei de Por- 
tugal ; e reçebeo elRei íua carta , em que lhe fez faber a ra- 
zom por que era chegado a fua terra , e que lhe emviaíTe 
dizer fe vijnria homde el eftava , ou como lhe prazia que 
fezeíTe. E elRei lhe mandou fua repofta , em que lhe rogava 
que fe foíFe em tanto pêra a villa de Guadalfaiara , omde 
eftava a Rainha , e os lífamtes feus filhos í^', e que el Deos 
queremdo , muj aginha livraria o que aviam í'^ de fazer em 
Portugal , e tornaria a Caftella , e fallaria com el. O cardeal 
vifta fua carta , emtemdeo que elRei avia voomtade de profe- 
g^ir 

(1) le^uado T. (2) aazo de 7". (3; e rfellegado T. (4) e as liares íuac 
filhai T. (5) avia T. B, 




274 Chbonica 

cTuir fua guerra , e por tanto lhe emviava dizer cílo , por 
emcaminh..r de o veer mais tarde : e penfamdo cm ello , ouve 
leu tcmfclho , que pois que o Papa o avia enviado pêra poer 
paz e amorio antre os Reis ambos , que lhe nom compria 
poer em eílo deteença , mas trabalharíTe de veer eIRei de Caf- 
tella , ante que fe a guerra mais açemdelTe ; e hordenou de par- 
tir de Cidade Rodrigo , por hir fallar a elRei , homde quer que 
o achaíTe. 

CAPITULO LXXII. 

Como elRei Dom Fernamdo começou de fe perceber de 

guerra , e elKei Dom Hemrrique emtrou pello 

reino'^'\ e do que f obre fio aveo. 

COmo a guerra foi foada em Portugal , e elRei Dom Fer- 
namdo çcrto que elRei Dom Hemrrique quiria emtrar 
em íeu reino, foi pofto em gram peníTamento , porque nom 
cujdou que aífi trigofamente fe trabalhaíTe de fazer tal emtra- 
da, nem que el foíTe o primeiro que começaíTe a guerra : e 
pos logo fuás fromtarias pellas comarcas do reino , e iíTo 
meefmo certos fenhores e fidallgos , nos logares per hu cm- 
temdeo que elRei de Caílella avia de vijnr ElRei Dom Fer- 
namdo eítava eftomçe em Coimbra , e a Rainha Dona Lionor 
com elle, e alguuns fidallgos do reino; e mandou chamar 
mujta gente de riba de Odiana , e iíTo meefmo da Eitre madu- 
ra , pêra lhe teer o caminho em huum grande e efpaçofo cam- 
po , féis legoas de Coimbra comtra Lixboa , omde chamam 
ho Chaão do couce, omde fe todos acordavam que era bem 
de o efperar. Depois acordarom que era melhor efperallo em 
Santarém , e alli pelleiar com elle ; e que quamto mais em- 
traífe pello reino , alçamdolhe os mantij mentos , que tanto viJR- 
riam mais defgarrados , e melhores de desbaratar. Com efta 
emteemçom partio elRei de Coimbra , e leixou fua molher 
• . hi, 

(O pelo reino de Portugual T. 



d' ElRe 1 D. F EUlí AND o. ^75* 

hi , e alguuns fidallgos com ella , e veoíTe a Samtarem , e ai-» 
li Começou de ordenar feu jumtamento ('^ ; e mandou a Lixboay 
e a outros logares , que fezeíTcm fua apuraçom de certos ho-' 
meens darmas , e peooens , e beeftciros , e que fe jumtaíTem 
com elles í^^ todos em Samtarem. Em eito partio elRei Dom 
Hemrrique de Vifeu , depois que chegarom aquellas compa^» 
nhãs , por que avia emviado que fe veheíTem pêra elle ; e fua 
teençom era que elRei Dom Fernamdo lhe avia de poer ba^ 
talha, e veoíTe caminho dereito de Coimbra, e alli fe jum- 
tarom com elle o meeftre de Samtiago , e o meeUre Dalcam- 
tara , e as companhas Daamdaluzia , que aviam emtrado per 
aquella comarca* A Rainha eftamdo em Coimbra , chegou el- 
Rei Dom Henrrique , e poufou em Temtugal , e o comde Dom 
Sancho feu irmaao nos paaços de Samta Clara j e o líFamte 
Dom Denis , c Diego Lopez Pacheco , e Lemollm no moeftei- 
ro de Sam Françifco , e Joham Rodrigues de Caftanheda em 
Samta Ana , e Pêro Fernamdez de Vallafco em Çernache , e 
afll os outros fenhores e capitaaens poUos logares darredor, 
Emtom teverom jeito de cercar a cidade , falvo como quem 
poufa de caminho , como quer que foi feita huuma efcaramu* 
ça na ponte em que forom alguuns Portuguefes : e em aquel- 
les dias que elRei de Caftella peralli efteve , pario a Rainha 
Dona Lionor huuma filha , que chamarom Dona Beatriz , que 
depois foi Rainha de Caftella , como adeamte ouvirees- Dalli 
partio elRei (') fem defviar da eftrada , como fezera depois que 
emtrou em Portugal , e veoíTe caminho de Torres novas , e 
alli foube como elRei Dom Fernamdo eftava em Samtarem ^ 
e que em aquel logar fe aviam de jumtar com elle feus ri* 
cos homeens e fidallgos , e o concelho de Lixboa e doutros 
logares , pêra lhe poer a praça ; e el efteve alli dous dias or- 
denando fua batalha , a qual penílãva que fe nom efcufaíTe : 
e era aíE de feito , que elRei Dom Fernamdo mandara a to- 
dos feus fidallgos e vaíTallos , que efi^evelfem preftes, que tan* 
Tom, IK Mm to 

(i) a hordenar todo seu ajuntamento T. (2) com elle T. (}) elRei 
Dom Anrrjque T. 



27Ó Chronica 

to que viíTem feu recado , fe veheíTem pereclle ; e mu;tos lhe 
efcrepverom fe íe vijnriam logo , como fouberom que elRei 
de Caftella partira de Coimbra , e fe lhe avia de teer o cami- 
nho ; e el lhe refpomdia per fuás cartas que eftcvcíTem que- 
dos , e nom veheíTem a el , ataa que lhes el mandaíTe dizer 
como fezeíTem. E a taaes hi ouve , aíli como Marti m AíFoníTo 
de Mello , e Gomez Louremço do Avellaar , e outros , que dos 
logares hu eftavom por fronteiros , trafnoitarom huuma noite , 
e vieram huuma noite fallart'^ a elRei ; e elle como os vio , 
moftroulhe boom gaíalhado , e pregumtoulhe a que vijnham , e 
elles refpomderom : » que elle lhes diíTera , que alli aguardaria 
39 elRei de Caftella , pêra pelleiar com elle , e que aviam novas 
í> que era ja mujto preto (^\ e que nom compria tardar mais pe- 
)9 ra tal feito ; mas que fahiíTe a tomar o campo, e foíTe lomge 
yy da villa ante que preto ; e que lhe pediam por merçee , que 
99 defemdeíTe feu polleiro , e nom aguardaíTe mais gente , ca af- 
99 faz averia delia j>. ElRei diíTe : » que lho gradeçia muito , e 
3> que deziam muj bem , come boos fidallgos que eram *, mas que 
» fe tornaíTem pêra homde eftavom y/e fe fezeífem bem pref- 
99 tes com as gentes que tijnham , e podeíTem aver ; e que co- 
5> mo vilTem feu recado, que logo fe veheíTem , e per outro 
99 modo nom partiíTem fem feu mandado íj. E defta guifa que 
elRei diíTe a eftes , aííí emviou dizer a alguuns que lhe eílo 
mcefmo mandavom requerir , aílí como ao mecftre Davis feu 
irmaao , que ellava em Torres novas , que cada dia mandava 
faber que fazia elRei , efejumtava alguumas gentes , reçcam- 
doíTe que fcouveíTe daver batalha , que nom curaria delle por 
que era moço , e porem rogava a huum boom cavai lei ro , que 
era feu ayo , que por Deos fezeíTe de guifa , que nom erraíTe 
de feer em ella ; e elle o fegurava que nom tcmeíTe deíiciír, 
fe batalha hi ouveíTe daver j mas que vija elRei emcaminhar 
feus feitos í'^, que duvjdava mujto depoer o campo a elRei de 
Caftella : e daquella guifa aconteçeo , ca el mandou ao con- 
celho deLixboa , que ja eílava na Azambuja , cinquo legoas de 

^ San- 

(i) e vyeram faaliar T. (2) perto T. (3) feus fcytos mal T. 






d'elRei d. Fernando. 277 

Santarém , que fe tornaíTem , e nom foíTem í'J mais por deam- 
te ; e nenhuum dos outros mandou chamar. ElRei de Caftella 9 
quamdo illo foube , moveo com fua gente caminho de Santarém , 
e chegou aaquem do logar a huuns paaços , que dizem Alça- 
nhaaens , e alli foi çcrto que elRei Dom Fernamdo nom qui- 
ria pelieiar com elle. Emtom partio elRei pêra Lixboa , a 
huum fabado dez e nove dias de fevereiro , e foi per cima de 
Samtarem caminho dos feioaaes , e per as avetureiras , fem tor- 
vaçom que de nenhuum reçebeíTe ; pêro que dizem alguuns, 
que elRei Dom Fernamdo quifcra íair a elle , com aquelles 
que coníigo tijnha , veemdo que o comtrairo lhe era gram min- 
goa 5 e que feemdo ja armado em cima do cavallo , com muj- 
tos dos feus que hi emtom erom , que o comde Dom Joham 
AíFoníTo Tello , e o priol do Efpital , o fezerom deçer e def- 
armar , dizemdo : » que nom confentiriam , que fahiíTe fora 
3> a pelieiar com elle , ca o nom podia fazer como perteeçia 
3> a fua homrra , falvo teemdo três ou quatro mil de cavallo 
39 comíiguo , e doutra guifa nom «. E difto forom muj praf- 
jnados o prior e o comde , e iíTo meefmo elRei com elles , di- 
zendo : 3) que covardice de coraçom lho fezera fazer , ca el- 
5> les nom lhe deverom de dar tal comíTelho , e elle fe boa 
39 voomtade tevera pêra pelieiar, e dera defporas ao cavallo, 
39 todollos feus o feguirom aaventuira ^^^ que lhe Deos dar qui- 
39 zcra 99, E amtre os que ifto depois mais larguamente praf- 
mavom , foi Joham Samchez , cavalleiro de- Samta Catelina , 
que era huum dos que fe veherom pêra elRei Dom Fernam- 
do 5 depois da morte delRei Dom Pedro , dizemdo : 39 que el- 
39 Rei moftrara muj to gramde mimgoa , nom fahir a pelieiar 
" com elRci Dom Hcmrrique „ : e fallou em iílo tantas vezes 
e aflí de praça , que o ouve elRei de faber , e diíFe aos que 
hi. eftavom : » que nom curaíTem de feus ditos, ca era huum 
" villaão zombeiro , filho de huum azemel de feu padre >?. 
Joham Samchez era homem de muj boom corpo , e de gram 
íorça , e bem ardido ; e quando lhe comtarom que elRei eito 

^ Mm ii ^ dif- 

\^i) 4ue fe lornaííej e nam foíTe T,£. (2) a avencura £, 



2yS C H R O N I C A 

diíTera , ouve muj gram menemcoria , e huum dia eftamdo 
elRei de praça , lhe dilTe peramte todos : >' Senhor , a mim dif- 
>>* ferom í'^, que vos diziees , que eu fom filho de huum azemel 
3» de voíTo padre : çm verdade fe o el foi em alguum tempo , 
5> eu nom ho fei ; e que o folTe , foiyo de huum muy nobre 
5' Rei : mas porem fei eu tanto que fe vos teverces mil aze- 
» mees taaes como eu , e de tal voontade , que vos nom paf- 
í> fará a vos elRei Dom Hemrrique per ante a porta , como 
í> paíTou , nem levara de vos tal homrra j». ElRei callou , e 
nom refpomdeo aaquello , e os outros diíTerom aJohamSam- 
chez que nom curaíTe daquellas razooens , e rijaníFe do que 
còmtra elRei dizia em modo defcarnho. 

CAPITULO LXXIII. 

Como elRei Dom Hemrrique chegou Johre Lixboa , e da 
maneira que os da cidade teverom em fe recolher* 

NEnhuumas gentes poderom penfar , que eIRei Dom Hemr- 
rique emtralTe pello Reino , da guifa que el emtruu ; 
efpiçiiallmente des Coimbra pêra Lixboa, omde elReiDomFer- 
namdo citava quamdo elle partio de Vifeu , que elle muj ta 
primeiro lhe nom fahiíTe ao caminho a embargar fua vijmda , 
podemdo (^^ muj bem fazer , ca el tijnha gentes aíFaz de feus 
naturaaes pêra lhe poer a praça , e mais a ajuda dos fidallgos 
e fenhores , que fe pêra el veherom de Caílella , per morte del- 
Rei Dom Pedro , fegumdo teemdes ouvjdo : e porem nenhuum 
podia (5) creer , que elRei Dom Fernamdo fofreíTe fua vijm- 
da tam lomge pello reino ; em tanto que pellas villas e Io- 
ga res , per hu elRei Dom Hemrrique vijnha , aíli eftavom as 
gentes defeguradas por efta rafom , que ncnhuuns fe percebiam 
de fe guardar , nem poer o feu em falvo ; de guifa que acha- 
vom os homeens folgamdo Í4) e çeamdo , fem teemdo nenhuu- 

ma 

(i) me diíTeráo T* (z) podemdoo T. B. (5) náo podia T. (4) os ho- 
meens jantando i>. 



siaii Ol 



d'elRei d. Fernando. 279 

ma coufa guardada do feu ; e ja os emmijgos amdavom peí- 
los termos da villa j e aimda o nom crijam , e aílí roubavom 
e cativavom mu j tos delles , fem achamdo tal que lho de todo 
embargar podeíTe. Os de Lixboa , quamdo fouberom como 
elRei Dom Hemrrique paíTara per Santarém , e que elRei Dom 
Fernamdo nom faira a elle , nem lhe mandara embargar fua 
vijmda , forom poftos em mujto cuidado , por a gram perda 
que de receber emtemdiam , por que a cidade era toda de- 
vaíTa e fem nenhuum muro , hu avia mais gente ; e nom tij- 
nha outra guarda nem defeníTom , falvo a cerca velha , que he 
des a porta do ferro ataa porta dalfama , e des o chafariz 
delRei ataa porta de Martim Moniz , e toda a outra cidade 
era devafla , na qual moravam mujtas gentes avomdadas de 
granules riquezas e beens ; e bem emtemdiam que elles e os 
do termo era per força de fe colherem a ella , e que nom 
poderiam caber deintro com todas fuás coufas, fem gramde 
prelTa e amguítura : e porem diziam alguuns , que era bem de 
íe juntarem todos , e hir pelleiar com elRei de Caítella aa pom- 
te de Loiras ^'^ , e alli morrerem ante aíTumados , que efpe- 
rarem. de fofrer tamanho mal , como efperavom receber por 
fua vijmda. Outros diziam , que era bem que pallamcaíTem 
todallas ruas que fahiom ao relfio da cidade , e que per alli a 
■defendeífem que nom entraífem os Callellaaons em ella , e 
que todollos frades e clérigos que na cidade avia , tomaífem 
armas , e aajudaíFem a defender : e tam maao lhe era de creer 
que elRei Dom Hemrrique chegaíTe a Lixboa , que ja fuás 
gentes eram no Lumear , huuma legoa da cidade , e emtravom 
pellos olivaaes e vinhas darredor , e aimda alguuns dovida- 
vom que a elle veheire cercar. E com eíle alvoroço e cuida- 
do começarom clérigos e frades de fe hir ao almazem delRei , 
e armarenfe todos das armas que hi achavom , outros trabalha- 
vom de bufcar madeira pêra pallamcar as ruas , e taaes hi 
avia que defemparamdo o cuidado da defeníTom da cidade , 
nom tijnha í^J fentido fe nom de guardar as coufas que em fal- 

vo 

(O Loures 7". (z) tinham T»B, 



blSCU Ot 



i8o «^'- Ghronica 

vo podiam poer. E feemdo todos aíTi empachados em defvai- 
radas ocupaçooens, e elRei Dom Hemrrique chegou mujto da- 
feíTego com toda fua hofte per cima de Samto Antom (') desi 
perVallverde , pêra hir poufar no moefteiro de Sam Françifco , 
e o Iffantc Dom Denis com elle : como quer que alguuns ef- 
crepvem , que el tragia em voomtade de hir poufar ao moef- 
teiro de Sam-tos, que í^^ arredado da cidade quanto fera huum^J* 
quarto de legoa , e os feus emcaminharom per defvairadas 
partes dereito pêra ella , e emtom ordenou de poufar em Sam 
Framçifco , que he logar alto, de que a toda bem podia vcer. 
Os da cidade veemdo feu grande poderio , nom fe atreverom 
a pelleiar com elle, e leixado o cuidado que tijnham de to- 
mar armas , trabalharom todos de fe poer em falvo ; e colhe- 
romfe aaquella parte da cidade que era cercada , o mais alinha 
que poderom , com as molheres e filhos , e coufas que levar 
podiam ; e era a preíFa tam gramde dos que fe colhiam dem- 
tro aa qerca , aíG criítaãos come judeus , qxie embargava a em- 
trada das portas aefpeíTura da gente, que era mujta: huuns 
defcarregavom feus ombros caníFados das gramdes trouxas 
■que tragiam , achamdo logo mujto preítes quem de as rece- 
ber^ tijnha cuidado; outros com. o chegavom aas portas , lança- 
vomí dentro os carregos (4) que levavom , e leixavomno ^'^ fem 
nenhuuma guarda , com trigança de tornar por outros^^'^. Jaziant 
mujtas coufas defemparadas aalem dos muros , fobrc que de- 
pois aviam contenda , eftremando cada huum quaaes eram 
fuás. A feguramça que os fez tardar de primeiro nom co- 
meçarem tal trabalho , lhe deu aazo de perderem grandes ri- 
quezas : contavom huuns aos outros depois do recolhimento , 
como lhe avehera em poemdo o feu em falvo , e como o 
poftumeiro temor lhe fazia defemparar e efqueeçer mujtas 
coufas. Os Mouros forros do arrevallde foromíTe todos com 
feus gafalhados pêra o curral dos coelhos , jumto com a for- 
jelleza dos paaços delRei , que he em huum alto monte , e 
~'^>> al- 

. (i) Antonyo T, (2) que he T. B, (5) quanto hú T, (4) as carreguas T. 
(5) e deixavánas T. (6) outras T. 



d'elRei D. Fernando. 281 

alli eftavom em temdilhooens acoutados por fua defenlTom. E' 
foi efta vijmda delRei Dom Hemrrique , quamdo chegou fo- 
bre Lixboa , huuma quarta feira a hora de terça , vijmte e três 
dias do mes de fevereiro , da era de quatro çcmtos e omze 
anos. 

CAPITULO LXXIV. 

Como o almirante mm quis que as gallees de Portugal 

pelleiaffem com as de Cajlella ^ e como per feu aazo 

forom tomadas alguumas naaos de Portugal. 

ELRei Dom Fernamdo quamdo vio que elRei de Caftel- 
la paíTava per Santarém , e fe hia lançar fobre Lixboa , 
hordenou de mandar gentes a ella , por ajuda de fua defenf- 
fom ; e por quamto o comde Dom Alvoro Perez de Caítro 
era alcaide da cidade , mandou elRei que fe veheíTe pêra o 
caftello 5 por feguramça e guarda delia , e mandou derribar to- 
dallas cafas que eftavom juntas com o muro, por fe nom co- 
lherem os Cattellaaons demtro em ellas , e receberem per 
alli dampno. E mandou mais o almirante Miçe Lançarote , e 
Vaafco Martins de Mello , e Joham Foçim capitam da frota , 
e alguuns outros cavalleiros , afli dos que eftavom com elle , 
come dos que veherom em companha da Rainha , quando par- 
tira de Coimbra e chegara a Santarém , e veherom em bar- 
cas , e lançaromífe na cidade , por que a frota delRei de Caf- 
tella nom vehera aimda , que os embargaíFe de nom cmtrar 
em ella. E avemdo novas das galees de Caftella que vijnham 
armadas de Sevilha , acordarom que era bem darmar quctro 
galees , que jaziam na agua ante a cidade , e alguumas naaos, 
e que lhe foífem fair ao caminho , e pelleiar com ellas ; e 
foi allí feito que fe fezerom preftes , e partirom dante a cida- 
de : e himdo nom muj lomge delia , ouverom vifta dalguu- 
mas gallees que vijnham deamte, e Joham Foçim capitam 

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2S2 Chronica 

que hia em huuma naao , quifera que aferrarom com ellas, 
çerteficamdo que as veemçeriam , por quamto as naaos e ga- 
lees hiam bem armadas , e as de Gaftella nom vijnham afli. 
O almiramte com gram covardiçe e mingoa de boom esfor- 
ço , pêro tijnha avantagem dos emmijgos , numca em ello 
quis comfemtir , mas diíTe que as vehclTem ladramdo, e que 
ante a cidade pelleiariam com ellas , pêra todos veerem o 
prazer do vemçimcnto. As gallees de Caílella que deamte 
vijnham 5 com gramde reçeo e medo que tragiam , como fo- 
rom a preto da cidade, fezcrom mujto por atraveíHir o rio: 
Joham Foçim quamdo vio que as gallees remavom pêra ter- 
ra 5 e que o almiramte nom curava daferrar com ellas , de- 
feiofo de bem fazer , terreou tanto por dar em huuma gal- 
lee, ante que emfecalTe , que fe ouvera de perder, e nom 
lhe pode fazer nojo ; e as gallees de Gaftella poíerom as 
proas ante as taraçenas da cidade , e as naaos e gallees de 
Portugal aalem huum pequeno efpaço , onde chamom o fura- 
doiro. E como huumas e as outras poufarom , começarom logo 
dobrar per defvairadas voomtades , ca os Caftellaaons apreíTa 
trabalharom de fe meter em fuás gallees , e forneçellas de 
gentes darmas, pêra hir pelleiar com as outras; e o almiram- 
te fahiuíTe logo ('í e mujtos com elle , e foiíTe aa camará da 
cidade pedir coníTelho , que maneira fe teeria em razom da- 
quella armada ; e pêro lhe deziam alguuns , que as vijam , co- 
mo fe emchiam de gentes as galees de Callella , e que vilTe 
o que perteençia fazer em tal feito, nom curava de poer re- 
médio como defendeíTe fuás gallees. Em eílo emcheromíTe as 
gallees de Gaftella de tantos homeens , que as faziam mais 
de pejadas que de ligeiras , e começarom de remar comtra 
as naaos e gallees dos Portuguefes. As naaos e gallees como 
eftavom fem gentes darmas , por que fairom coo almirante , e 
depois coo capitam , cuidamdo muj pouco o que as gallees 
de Gaftella queriam fazer , quamdo as virom vijnr aífi tam po- 
de- 

(1) e o almyramte depois que lhe fogio o coelho , então ouve confelho, 
fayíTe loguo T. 



d'elRei D. Fernando. 283 

derofamente armadas , nom as oufarom datemder, e remarom 
pêra a outra parte daalem contra ribatejo^ e meteromíTe em 
certas rias que hi ha , omde nom podiam receber nojo , aim- 
da que as gallees dos cmmijgos as feguir quiferam As gal- 
lecs de Gaftella veemdo como fe hiam pêra aquella parte , om- 
de lhe empeeçer nom podiam, aferrarom logo com as n?aos ; 
e como em ellas era pouca gente , pelleiamdo cobrarom al- 
guumas , e ficou o mar eftomçe por elles. O almiramte por 
eíla razom foi mujto culpado e maldefdito, e tiroulhe el- 
Rei o almiramtado, e deu ho a Dom Joham AíFoníTo Tello , 
irmaão da Rainha, por quamto por fua culpa e aazo nom 
cobrara as gallees de Gaftella , e mais perdera parte de fuás 
naaos , como quer que foílem das que elRei tomara aos Caf- 
tellaaons. 

CAPITULO LXXV. 

Como os da cidade poferom fofpeita em alguumas pejfoas 
moradores delia , eforom prefos alguuns , e mor- 
tos dons homeens. 

POr quamto era comuum fama , e aíK o afirmavom todos ^ 
que Diego Lopez Pacheco fora o principal aazador que 
fezera elRei Dom Hemrrique vijnr cercar Lixboa , fazemdo- 
Ihe emtemder que na cidade avia peflbas , que por o feu da- 
riam tal aazo per que a el cobraíTe muj cedo ; foi gramde (''ai* 
voroço era na cidade por efta fofpeita , dizemdo o poboo 
contra alguuns moradores delia , que eram da parte delRei 
de Gaftella , por aazo de Diego Lopez , cujos fervidores e 
alliados eram , e que a cidade era vemdida per elles ; dos 
quaaes forom Louremço Martins da Praça , que criara o meef- 
tre Davis Dom Joham, e Martim Taaveira , e AíFomíFo Gol*. 
laço , e AffoníTo Perez , e outros dos boons que na cidade 
avia. E por que alguuns delles tijnham chaves de certas por- 

Tom, IV, Nn tas, 

(i) muy gramde T. 



x84 Chronica 

tas j foromlhe logo tomadas , e elles todos prefos ; e como 
em fcmclhantcs feitos mujto de recear , nom fe efguarda ne- 
nhuuma delculpaçom , nem efpaço de faber a verdade , forom 
íein mais deteemça todos metidos a tormento , e fem con- 
feíTamdo nenhuuma coufa , diíTerom alguuns que huum homem 
de Lourenço Martins merecia de feer arraítrado ; e fem mais 
curamdo de bufcar befta que o ouveíTe de levar , aas maaons 
o arraftrarom pella cidade , e o fezerom em poílas , e aílí 
morreo. Outro tomarom ,e poferomno na fumda dhuum emge- 
nho , que eftava armado ante a porta da fee ; e quando des- 
fechou , lamçou em cima deíTa egreia antre duas torres dos 
íinoá que hi ha , e quamdo cahio , acharomno vivo ; e toma- 
romno outra vez , e poferomno na fumda do engenho , e dei- 
touho comtra o mar , omde elles defeiavom , e aílí acabou fua 
vida : os outros nomeados , que forom prefos e feridos , fol- 
taromnos fem outra pena que ouveíTem , mas nom finrom mais 
delles ; e dhi em diante poferom em 11 gramde guarda e re- 
gimento , vellamdo a cidade de noite e de dia , teemdo cau- 
tella , e avifamento gramde em todos feus feitos e defenífom. 
Em efto foube elRei Dom Hemrrique , como os frades do 
moefteiro deSamFrançifco, omde el poufava , tomarom armas 
pêra hir pelleiar com.tra elle , quando na cidade fora fabudo 
que el vijnha ; e dilTe que pois aífi era , que fe armarom com- 
tra elle , que nom eftava em razom de el poufar antre feus 
inmijgos : emtom mandou tomar duas barcas , e metellos 
frades todos em ellas fem barqueiros , e que fe paíTalTem aa- 
lem do rio ; e os frades remando , poferomfe aalem do rio 
em falvo , por quanto não he mais de huuma legoa. Os feus 
quamdo virom que el efto mandava fazer aos frades , quife- 
rom roubar a famcriftia, e elRei foubeo , e defemdeo qu& o 
nom fezeflem ; e aílí foi guardada em poder dhuum homem 
boom frade , que era famcriftaão daquel moefteiro. 



CA- 



SXíitf oi 



d'e L Rei D. Fe R N A N DO. 285 

CAPITULO LXXVI. 

Como Vaafco Martins de MeJloo , e Goncallo Vaafquez 
feu filho 5 forom prefos em huuma efcaramu^a. 



AS gentes delRei de Caftella poufavom nos moeíleiros e 
pella cidade, como lhes prazia , como aquelles que acha- 
vom todallas couías defemparadas , com mujtos beens e al- 
fayas em ellas ; ca feus donos nom ouverom efpaço , quam- 
do fe colherem aa cerca velha , de todo guardar e levar com- 
ligo , falvo eíTas coufas que mais ligeiramente apanhar pode* 
rom, como dilTemos; e mujtos criftaaons e judeus deitarem 
de feus averes os que levar nom podiam , demtro nos po- 
ços 5 e fabendo os Caftellaaons difto parte , bufcavomnos de- 
pois com fateixas , e cobrarem todo a feu poder , com ou- 
tras mujtas coufas, que depois levarem quamdo fe forom : e 
por que todallas gentes poufavom mujto preto dos muros da 
cidade , efcaramuçavam a mehude huuns com outros , e avia 
hi feridos e prefos aas vezes dhuuma parte e da outra : alS 
como foi prefo Vaafco Martijns de Melloo , cuja era a guar- 
da da porta do mar, que fahiu huum dia a efcaramuçar com 
Joham Duque , que tijnha logo acerca a guarda dos açougues. 
E cuidamdo Vaafco Martins que hiam com el todollos da fua 
parte, falleçeromlhe delles aaquella ora; e Joham Duque fa- 
hiu a el bem acompanhado, e Vaafco Martins em fe defen- 
demdo foi ferido , e derribado em terra. A efto chegou Gom- 
çallo Vaafquez feu filho , por deíFemder que o nom mataflem , 
e efteverom tanto deíFemdemdoíre , que forem ambos feridos 
e prefos , e levouhos Joham Duque por prifoneiros pêra fua 
poufada. Em outro dia veoo veer Diego Lopez Pacheco , e 
ouverom ambos muij maas pallavras , dizemdo Vaafco Mar- 
tins comtra elle , que per feu aazo e emduzimento fazia elRei 

Nn ii Dom 



^26 Chronica 

Dom Hemrrique efta guerra, e fe vehera lançar fobreLixboa; 
e outras definefu radas razooens, que por eftoniçe ouve antrel- 
les. ElRei Dom Fernando fabemdo como Vaaíco Martins , e 
leu filho eram prefos daquella guifa , mandou a Sines por-Pe- 
ro Fernamdes Cabeça de vaca , que fora filhado em aquel lo- 
gar em huuma das gallees de Caftella , que vehera alli aa cof- 
ta per tormenta, quamdo per alli paíTavom í'-* , e deromno por 
Vaafco Martins , e por feu filho , e afli forom livres e foli- 
tos. 

CAPITULO LXXVIl 

Como o comde Dom Ajfonjjo foi fobre Cafcaaes , e como 
foi prefo Garcia Rodriguez em huma efcaramuça» 

SEemdo aífi coílume defcaramuçar os da cidade com os de 
fora, também aa porta do ferro , como aaquella porta do 
mar que diíTemos , fahirom huum dia de demtro da cerca al- 
guuns Portuguefes , por efcaramuçar com osemmijgos, e em 
fe tremetemdo de os cometer , creçeolhe tal força e ardi- 
mento , que derom com elles pella rua nova , bem ataa mee- 
tade da rua. ElRei Dom Hemrrique oolbava do miradoiro 
de Sam Francifco , omde poufava , todo o que fe fazia muj- 
to a feu falvo ; e louvarndo prefemte os fcus , a ardidcza da- 
quelles Portuguefes , que o daquella guifa faziam , recreçerom 
tantos dos feus em ajuda daquella efcaramuça , que per for- 
ça fezerom recolher os da cidade demtro , nom fem gram pe- 
rijgo de que efcaparom : e foi alli prefo Garcia Rodriguez , 
meirinho moor delRei Dom Fernamclo , fem mais prifom dou- 
tra peífoa , nem morte dalguum dhuuma parte nem da ourra ; 
e dos que aílí premdiam , davom huuns por outros , e aas ve- 
zes por remdiçom , como fe acertava. Em efto foi o comde 
Dom AíFomfo , filho delRei Dom Hemrrique , com quatro 
çemtas lamças fobre huum logar cercado , que chamom Caí- 

caaes , 

(i) pafíava T, 



si:rar 01 



d*£lRei d» Fernando» ^87 

caaes, que he mujto jumto com o mar, çinqiio Jegoas da ci- 
dade ; e as poucas gentes delle , que o defiemder npm podiam , 
deromlho logo fem outra pelleia que hi ouveíTe , exiles pren- 
derom os que quiferom , e roubarom o logar de mu) gramde 
roubo, e tornaromfe com elle pêra a cidade: e per elta gui-* 
fã os capitaaens que com elRei Dom Hemrrique vijnham , 
eftendiamlTe pellos termos da cidade a forreiar , fem toiva 
que de nenhuum ouveíTem , e tragiam gramdes roubos de muj- 
tas e defvairadas coufas , e cortavom vinhas , e olivaaes , e ou- 
tras arvores , poemdo fogo a mujtas quintaans , que de todo 
emtom deftroirom ; aíli que . os Caftellaãos dhuum cabo , e as 
gentes delRei Dom Fernamdo do outro , era dobrado fogo , 
que gaitava e deftrohia a terra. E por quanto das cafas que 
eram mais acerca do muro , recebiam os da cidade dampno , ti- 
ramdolhe per vezes de demtro ('^ aas beeítas , hordenarom to- 
dos de lhe poer o fogo, por fe nom efcomderem alli os em- 
mijgos : os Caftellaaons quando ifto virom , começa rom de rou- 
bar toda a cidade , e depois que a teverom roubada , diíTe- 
rom que pois elles começarom de lhe poer o fogo , que el- 
les lha ajudariam a queimar de verdade : emtom lhe poferom 
o fogo em mujtas partes , e ardeo toda a rua nova, e a free- 
gueíia da Madanella , e de Sam Giaão , e toda a judaria, a 
melhor parte da cidade ; e deziam depois os Caftellaaons , que 
fe os Portuguefes nom começarom primeiro de poer o fogo 
da fua parte, que elles numca o poferom da fua. E tomarom 
pêra levar por memoria aa hida (^>, quamdo fe forom , huumas 
muj fremofas portas da alfamdega defla ('^ cidade j e alli quife-* 
rom levar os cavallos darame , per que caae a augua na fonte 
dos cavallos , e forom primeiramente guardados , ante que fe 
perçebelfem de os tomar. 



CA. 



(i) per vezes dentro T. (2) aimda 2". (3; deita T. 






a88 Chronica 

CAPITULO LXXVIII. 

Como Hamrrique Manuel pellejou com Pêro Exarmento , 
e forom vemçidos os Portuguefes, 

JAzemdo Lixboa defta guifa cercada, emtrou antre Doiro e 
Minho Pêro Rodrigues Exarmento , adeamiado em Galliza , 
ejoham Rodriguez de Bema , e outros fidallgos daquella ter- 
ra , e chegarom ataa Barçellos j e gentes de Portugal daquel- 
la comarca fe juntarom pêra pelleiar com elles , aífi como 
Dom Hamrrique Manuel , tio delRei Dom Fernamdo , irmaao 
de Dona Cofiamça , molher que fora delRei Dom Pedro , e 
Joham Louremço Bubal cavalleiro , e Fernam Gomçallvez de 
Meira , e Nuno Veegas o velho , e outros fidallgos , e o com- 
çelho do Porto , e de Guimaraaens. Quamdo os Caftellãcs 
ijfto fouberom , hordenarom de os atemder , e lamçarom huu- 
ma grofía çellada de mujta gente em huum logar efcufo , de 
que os Portuguefes nom fouberom parte ; e começada a pel- 
leia 5 levavom os de Portugal a melhor de feus emmijgos. 
Em ifto fahiu Joham Rodriguez de Berna da çellada hu ja- 
zia 5 e fez grande foom como eram mujtos , e começou logo 
de fugir a cavallo huum efcudeiro com a bamdeira Danrri- 
que Manuel , e os feus começarom de braadar comtra elle , 
dizemdo : 5> Vaife a bamdeira , vaife a bamdeira ?>. ?> Amigos , 
j> diíTe elle , nom curees da bamdeira , que he huum pouco de 
5> pano que fevai, mas curaae do meu corpo que aqui efta, 
3> em que devees teer moor esforço que neella ; porem pel- 
í> leiemos toda via por veemçer , e nom curees da bandeira 5>, 
Emtom pelleiarom ataa que fe veemçerom , c forom de todo 
desbaratados. Nuno Gomçallvez , que tijnha o Caftello de Fa- 
ria , quamdo vio hir os Portuguefes pêra efta pelleia , fahiu 
do lògar com alguuns dos que tijnha , cuidamdo de dar de 
foípeita nos emmijgos , e que huuns dhuuma parte e outros 

da 



d'elRei D. Fernando. 289 

da outra que os colheíTem na meetade ; e os Caftellaaons que 
tijnham ja vemçidos os primeiros , voltarom íobrelle , e foi 
vemçido e prefo. E foi ali i morto Joham Lourenço Bubal , e 
prefo Nuno Veegas , e Fernam Gomçallvez de Meira , e Anr- 
rique Manuel fugio pêra Ponte de Lima ; e forom prefos 
dhomeens darmas e de pee ataa cento , e mais alguuns çida- 
daaons do Porto , antre os quaaes foi prefo Domimgos Perez 
das Eiras , que era huum dos homrrados do logar , e pagou 
per li de remdiçom dez mil framccs douro ; e naquella fo- 
mana que foi follto , chegou huma fua naao de Framdès ^ 
que em frete e mercadarias trouve dez mil framcos pêra feu 
dono: e afli ouverom os Caftellaaons mujtas remdiçooens dou-^ 
tros alguuns, que hi forom prefos. 



CAPITULO LXXIX. 

Como Nuno Gonçallvez de Faria foi morto , por que mm 
quis dar o cajlello a Pêro Rodrigues Sarmento, 



OBoom efcudeiro de Nuno Gomçallvez , que foi prefo 
necfta pelleia que ouviíles , teemdo gram femtido do 
caftello de Faria , que leixara emcomendado a feu filho , cui- 
dou aquelo que razoadamente era de prefumir ; a faber , que 
aquelles que o tomarom o levariam ante o logar , e damdo- 
Ihc alguuns tormentos ou ameaça delles , que o filho veem- 
doo , averia piedade delle , efeeria demovido a lhe dar o caf- 
tello. E por que nom tijnha maneira como o difto podeíFe 
perceber , diíie a Pêro Rodriguez Sarmento que o mandaíFe 
levar ao caftello , e que el diria a leu filho que neelle fica- 
ra , que lho emtregalle : Pêro Rodriguez foi defto rauj ledo , 
e mandou que o levaíTem logo , e elle chcgamdo ao pee do 
Jogar , chamou por o filho , o qual veo aprelFa , e elle em 

vez 



tia« oi 




2pO ChRONICA 

vez de dizer que deíTe o caftello aaquelles que o levavom , 
diíTe ao filho em efta guifa. 3> Filho , bem fabes como eíTe 
>j caftello me foi dado per elRei Dom Fernamdo meu fenhor, 
5> que o teveíTe por elle , e lhe fiz por el menagem ; e por 
íj minha defaventura eu fahi delle , cuidamdo de o fervir , 
99 e fom ora prefo em poder de feus emmijgos , os quaaes 
99 me trazem aquj pêra te mandar que lho emtregues : e por 
5> que efto he coufa que eu fazer nom devo , guardamdo mi- 
5> nha lealldade , porem te mando fopena de minha beemçom, 
99 que o nom faças , nem ho dees a nenhuuma peíToa , fe nom 
5> a elRei meu fenhor que mo deu , ca por te perceber dif- 
» to , me fize aqui trazer ; e por tormentos nem morte que 
3> me vejas dar , nom ho emtregues a outrem , fe nom a el- 
55 Rei meu fenhor , ou a quem to el mandar emtregar per 
5> feu certo recado ?>. Os que o prefo levavom , quamdo aquif- 
to ouvjrom , ficarom efpamtados de fuãs razooens , e prcgum- 
taromlhe fe dezia aquello de jogo , ou fe o tijnha aífi na voom- 
tade ; e el refpomdeo , que pêra o perceber difto fe fezcra al- 
li trazer , e que aílí lho mandava fob pena da fua beemçom. 
Elles teemdofíe por efcarnidos , com queixume defto , cm pre- 
femça do filho o matarom em eífa ora de cruees feridas j e 
nom cobrarom porem o caftello. E por que aquella terra he 
muito poborada, nom podiam todos caber no caftello, e co- 
IhiamíTe delles antre o muro e a barvacaã em choças cuber- 
tas de colimo , que ai li fezerom ; e vemtamdo eftomçe huum 
vemto foaão, tomou huum daqucllcs que eftavom fora, huum 
collmeiro açefo pofto em huuma lamça , e deitouho demtro 
em cima das choças , e começarom darder. Os do caftello muj- 
to anojados por a morte de Nuno Gomçallvez , que lhe aíE 
virom dar , nom teverom mentes no fogo que deitarom , ef- 
tando mujto efpamtados das razooens que diflera ao filho í'\ O 
fogo era gramde per aazo do vemto , a que fe remédio nom 
pode poer , e arderem todallas choças com quamto neellas fija , 
e mujta gente em ellas: e o filho de Nuno Gomçallvez man- 

: te- 

. \i) Nuno Gomçallvez ao filho T, 



d'elRei D. Fernando. 291 

teve o caftello como lhe seu padre mandou , e depois lhe 
deu elRei huum muj homrrado beneficio , por quamto lhe 
prougue efcoiher vida de clérigo. 

CAPITULO LXXX. 

Das razooens que elKei Dom Hemrrique ouve com Dk- 
go Lopez Pacheco , fobre o cerco de Lixboa» 

SEemdo Lixboa cercada , como ouviíles , dizen:> que elRei 
Dom Hemrrique fe começou danojar , por que a tomar 
nom podia em tam pequeno efpaço, como lhe alguuns dif- 
lerom , e como el emtemdia que a tomaíTe ; dos quaaes ef- 
cprevem alguuns autores , que foi o principal Diego Lopez 
Pacheco , e contam que queixamdoíTe elRei contreelle , lhe 
diíTe per efta guifa : íj Diego Lopez , vos me diíTeítes per 
í j vezes , que fe eu veheíTe cercar efta cidade , que em bre- 
5J ves dias a poderia filhar , ca em ella nom avia gente que 
5> a deffemder podeíTe ; e pofto que fe deíFemdeíFc , que 
?> nom avia poder de fe teer muj to tempo ; e que toma- 
55 da eíta cidade , que todoo outro reino ligeiro me feria 
55 daver ; e por ifto foomente me demovj de a vijnr çer- 
" car : e ora me parece fegumdo o começo que vejo , que 
» nom fera afli ligeira de tomar , como vos dizees , pofto que 
5> cercada toda nom feja ; ca nos nom lhe empeeçernos ataa 
5» qui , fe nom no que achamos defemparado fora da cerca , 
5' des i os que dcmtro fom , pareçeme que am voomtade de a 
'j bem deffemder , e ella he forte de muros e torres , em tal 
5» maneira , que noffa eftada per efta guifa fera muj to mais 
5> tempo do que cuidava , no qual nom penffo que lhe muj- 
5> to dampno poífamos fazer j>. Diego Lopez dizem que ref- 
pomdeo e diffe : >» Senhor , eu vos comlTelhei em efto o mais 
>j faãmente que eu puide , e aimda agora alfi vollo coníFelho. 
.»> E maravilhome de vos anojardes por a nom cobrar em tam 
Tom, IV. Oo ?>bre- 



ipz Cheonica 

5> breves dias ; ca vos bem veedes que os teemdes çercadc3s 
jj come ovelhas cm curral , des i fooes feguro que a elKel 
í5 Dom Fernamdo venha deçercar, nem vos dar batalha, ca 
99 nom he pêra ello , nem tem gentes com que o fazer pof- 
» fa, e que as tevelTe , nom he pêra a tanto í'^; pois vos affkz 
99 de mantijmentos que vos nom ha de minguar ^""^ eelles pe- 
» lo contrairo que fe gaftam cada dia , per força he ('^ que lhes 
3> pes , que vos venham bejiar a maão , e vos dem a cidade 
í> ante que morrer de fame ; alH que dhuuma guila ou dou- 
55 tra , he per força de a cobrardes daqui a pouco tempo , e 
5j cobrada Lixboa , teemdes cobrado todo o reino : e porem 
» fobre cfte logar devees primcipallmente trabalhar , doutra 
99 guifa dizervoshiam í^^ que lhe veheftes poer medo , e que 
3> VOS tornsftes cedo pêra cafa ; e porem inverno e veraãa 
» devees continuar fôbrella , ca affi o fezerom os famofos 
>9 guerreiros fobre os cercos dos logares que tomar quiriam , 
» que a perfeveramça lhos deu nas maãos , ca doutra guifa 
3> nunca os cobrarom ??. ElRei Dom Hemrrique ouvjmdo ef- 
tas e outras razooens , que lhe Diego Lopez diíFe , pareçeolhe 
o comlfelho bom , e determinou de alTeiregar no cerco , e hor- 
denou de mandar poer quatro emgenhos , que tiraíTem dem- 
tro a pedra perdida , e por que as gentes eram mujtas dem- 
tro que matariam tantas delias , que com efto e com a min- 
gua dos mantijmentos , que era per força de a tomar cedo: 
e fem duvjda defta guifa fora, fe Deos per outro modo mais 
apreíTa nom dera fim a efta guerra ; ca as gentes eram tan- 
tas demtro , aífi da cidade come do termo , que parecia multi- 
dom de mujto gaado em pequeno curral , de guifa que feca- 
vom da augua o chafariz delRei , que he huuma muj gram- 
de e muj fremofa fomte , abaftada de gramde avondança dau- 
gua , que continuamente corre ; e ante fahiam fora , quamdo 
vijam tempo aazado , a bufcar augua em outras fontes , pofto 
que foífe com grande feu perijgo. 



(i) pêra tanto T. B. (2) aííaz de mantimentos avees , tjue vos nam ham 
de myngoar T. (5) cada dia per força, e T, (4) dyrvoshiam T. 






I 



d' EL Rei d, Fernando. í^j 

CAPITULO LXXXL 

Que homem era Diego Lopez Pacheco , e por que aazo 

fe joi pêra Cajiella. 



NOm famdiamente , mas bem com razom pode demandar 
qualquer avifado , que per efte livro leer , pois que Die- 
go Lopez Pacheco era Portuguez , e tam ('J privado delRei 
Dom Fernamdo , como alguumas eftorias contam , que o de- 
moveo hir pêra Caftella , e fazer vijnr elRei Dom Hemrri- 
que contra ho reino de que natural era , e per cuja vijmda 
tanto mal e dampno ouve recebido. E nom foomente a dif-* 
creta cuidaçom pode efto maginar, mas aimda pode emque- 
rer que homem era , e de que linhagem , e que homrra e ef- 
tado tijnha , pois feu comlTelho em tamanhos feitos aíli era 
creudo 5 e tanto obrava. E tocamdo mujto breve eílas coufas, 
feu linhagem vem de Dom Fernam Geremias , que foi cafa- 
do com Dona Moor Soarez , filha de Sueiro Vehegas , o que 
fez o moeíteiro de Ferreira; e de Dom Rui Perez (^^ de Fer-» 
reira , que era bifneto de Dom Geremias , e de Dona Tarejia 
Perez (5) de Cambar, naçeo o muj boom cavalleiro Fernam, 
Rodriguez Pacheco , que teve o caítello de Çellorico , quam- 
do o comde (**J de Bollonha veo por regedor defte reino (J), 
fegumdo contamos em feu logar , e foi o primeiro que fe 
per efte apellido chamou. E Diego Lopez Pacheco , bifneto 
de Fernam Rodriguez e de Dona Johana Vaafquez , filha dé 
Dom Vaafco Pereira , fua molher , naçeo Lopo Fernamdez Pa- 
checo , que foi ricomem e mujto homrrado no tempo del- 
Rei Dom Afíbnífo o quarto , e defte Lopo Fernamdez , e de 
Dona Maria de Villa lobos fua molher , naçeo efte Diego 

Oo ii Lo- 

(i) e tam grain T. B. (2) Paez T. (5) Paez T. (4) o Ifanre Dom Aíionr 
fo, comde T. (5) deftes reinos T. 




294 C H R o N I C A 

Lopez , de que aqui faz meençom ("^ Sua homrra e eftado foi 
gramde t'^, aílí no tempo daquel Rei Dom AíFoníTo , de cujo 
confelho el ellomçe era , como depois em cafa dos outros 
Reis , em cuja merçee e terra viveo : e amdamdo el aílí em 
Caftellâ , por aazo da morte de Dona Enes , fegumdo ja teem^ 
des ouvjdo , e vivemdo com elRei Dom Hemrrique , com que 
avia gramde afeiçom , por aazo das guerras em que com el am- 
dara , aífi nas companhias de Framça , como na guerra Dara- 
gom com Caftellâ; pofto que mujta merçee e homrra dei re- 
çebeíFe , tanto que elRei Dom Pedro morreo , defejo da ter- 
ra hu naçera , des i avemdo gram feuza em elRei Dom Fer- 
namdo , hordenou como fe veheífe pere elle. E avemdo pou- 
co mais de dous mefes que elRei Dom Fernamdo reinava , 
chegou ei a Samtarem , e fallamdo a elRei , foi dei muj bem 
recebido , e fczlhe gramde gafalhado, A poucos dias fallcu 
Diego Lopez a elRei em feu feito , e propôs eftas razooens , 
dizemdo : 55 Senhor , bem fabees a razom por que eu fui fo- 
j> ra defte reino , no tempo delRei Dom AíFoníTo , voíTo avoo , 
P feemdo vos emtom moço bem pequeno , e iíTo meefmo ho 
» afpero geito, que elRei Dom Pedro voíTo padre contra mim 
?j teve, e como me mandou tomar todos meus beens, fem 
99 razom e fem por que , e aimda me mandava matar , fe po- 
jj dera feer filhado ; por a qual razom eu amdei efterrado ataa 
5> ora , fem ouíar de vijnr a efte reino. E pois que a Deos 
3J prougue de o levar defte mundo , eu vos peço, fenhor, 

" P^^ 

(^) Parece haver confusão na maneira por que se refere uniformemente efla 
genealogia em todos os três Códices: segundo o Nobiliário do Conde D. Pedro 
Pldti. 297. da Ed. de 1640 , e no Mscr. do R. Archivo a jol. 164. col. 2.-^ , e 
vers. Fernão Rodrigues Pacheco foi cafado com Dona Confiança Ajcnfo de 
Cambra , e teve delia ^oão Fernandes Pacheco de Ferreira , de quem foi filho 
Lopo Fernandes Pacheco , Rico Homem no tempo d"* ElRei D. Âffonso IV Fflè 
Lopo Fernandes teve de sua primeira mulher Dona Marta Gomes , filha de 
D. Gomes Lourenço Taveyra , a Diogo Lopes Pacheco , de quem nefie Capitulo 
da Chronica se faz mem^ão i o qual Diogo Lopes foi casado com Dona ^oanna 
Vasques , filha de D. Vasco Pereira. Com o Nobiliário do Coride D. Pedro 
combina o Livro Velho das Linhagens , na Família dos Carvoeiros , a foi. 1 1. 
do Original , e pag. 162. do Tom, L das Provas da Hiftor. Genealog. 

(i) muy grade T. 



*'í3:h oí 



1)'elRei d. Fernando. -t^f 

5> por merçee , que feiaees nembrado dos fervi ços , que eu C 

5» meu padre fezcmos a elRei Dom AíFoníTo volTo avoo , e 

55 aos Reis que ante vos tbrom , e iíTo meefmo dos boons e 

55 gramdes divedos , que na voíTa merçee tijnham aquellcs 

55 donde eu defçcmdo : por que faberees de certo , que el- 

55 Rei voíTo padre ao tempo do feu finamento , por defem- 

55 carregar fua conçiencia , me perdohou todo ramcor e quei- 

55 xume que de mim avia , pofto que o eu merecido nom te- 

j) veíTe ; e mandou que me emtregalTem todos meus beens , 

5^5 alli compridamente como os eu damte avia : e aimda fabe- 

55 rees mais per certa emformaçom daquelles que emtom pre- 

55 femtes hi eram , e am razom de o faber , que veemdo el co- 

55 mo eu nom era culpado naquello em que me el aa primei- 

55 ra mujto culpou, que fua voomtade era, fe o Deos leixara 

55 viver , de fe fervir de mim , e me mandar vijnr pêra fua 

55 terra , alçamdome a femtemça que comtra mim palTou , e 

55 me reftituir a toda minha boa fama e homrra ; e pois que 

55 el eílo tijnha em voomtade de fazer , fe o Deos tam cedo 

55 nom levara, eu vos peço por merçee, que vos o queiraaes 

55 poer aíli em obra, por fazer a mim merçee, e defemcar- 

55 regamento de fua alma >5. ElRei ouvjmdo ifto , e outras ra- 

zoóes que lhe fobre fea feito largamente fallou , diíF^ : 55 que 

55 bem avia emformaçom de todo, e que lhe prazia de o fa- 

55 zer 55. -Entom lhe mandou emtregar todos feus beens , om- 

de quer que os avia , e o reftituio a toda fua boa fama e 

homrra , o mais compridamente que feer podia , damdolhe de 

todo fua firme carta ; e fezeo ricomem , e de feu confelho , 

fiamdo delle mujto, e mandamdoo a Caftella em meíTagem, 

por lhe recadar feus feitos , quamdo compria ; e chamavaíTe em 

feu ditado , Dom Diego Lopez , ricomem , fenhor de Ferreira» 

Ora aqui fom duas openiooens defva iradas , de que o leedor 

efcolha qual lhe mais í'^ prouguer: huuns dizem , que himdo 

el aíli per vezes a Caftella por embaxador , que em vez darre- 

cadar o que lhe emcomendavom , que contou a elRei Dom 

Hem- 

(i) mylhor e mais T. 



Sia^ OT 



2^6 Chronica 

Hemrrique o gram defvairo , em que elRei Dom Fernamdo 
era cóm os poboos , e alguuns outros do reino , por aazo do 
cafamento que com Dona Lionor fezera ; e que com eftas e 
outras razooens , que lhe diíTe , o demoveo , e confelhou a en- 
trar no reino : mas defta non veemos proveito que fe lhe fe- 
guiíTe , ante nos parece fem razoado fumdamento. A outra 
em que fe mais acordam , he efta : que el foi huum dos que 
mujto contradiíTe a elRei Dom Fernamdo, que nom cafaíTe 
com Dona Lionor ; e por que ella era mujto feitofa , e tij- 
nha mortal ódio aaquelles que forom em eftorvo de tal ca- 
famento, que el reçeandoíTe do que lhe avijnr depois podia, 
como homem fages e mujto apreçebido , que emtom fe par- 
tio , e foi pêra Caílella com íeus filhos , por viver com elRei 
Dom Hemrrique feguro , em cuja merçee el ante amdava. 
Ora poisei vivia com elRei de Caílella , e era fcu privado, 
e lhe elRei Dom Fernamdo quebrantava as pazes que pro- 
metidas tijnha, como ja compridamente ouviftes , de o elJe 
confelhar que emtralTe no reino , pois tempo aazado tijnha 
e com fua avamtagem : fe em efto faria bem , ou per com- 
trairo, julgeo voíTa difcriço^n como vos prouguer. 

CAPITULO LXXXII. 

Como forom feitas' pazes antre elRei Dom Hemrrique 
e elRei Dom íernamdo , e com que comdiçooens. 

DOmGuido, cardeal de Bolonha, bifpo do Porto , e dei- 
legado da fee apoílolica , o qual o Papa mandara em 
Efpanha , pêra poer paz antre eftes Reis ambos , fegumdo an- 
te avemos contado , partira de Cidade Rodriguo por vijnr 
fallar a elRei Dom Henrrique , e por quamto elle ja eftava 
fobre Lixboa , nom pode o bifpo entrar per aquella comar- 
ca , que primeiro nom achaífe elRei de Portugal ; e chegou 
a Samtarem huuma terça feira dia demtruido , primeiro dia de 

mar- 



d'elRei d. Fernando. 297 

março , nom avemdo mais de nove dias que elRei Dcjm 
Hemrrique per alli paíTara ; e fallou com elRei Dom Fernam- 
do , dizemdo : » como o Padre famto , teemdo gram femti- 
íí do da guerra edifcordia, que o emmijgo da humanai linha- 
» gem a meude fe trabalhava de poer antre os Reis filhos da 
» egreia , moormente antre aquelles acerca dos quaaes as bar- 
» baras naqooens dos infiees , per aazo de tal ódio e mal que- 
» remça , podeíTem aver emtrada a deftroir a relegiom crif- 
j> ra^: que porem vigiamdo fobrcfto com gram cuidado , lhe 
3? comvijnha trabalhar de poer paz antre aquelles , em que o 
yi maligno fpirito femeava tal departimento. E pois elle e el- 
» Rei Dom Hemrrique eram na Efpanha dous fiees defenf- 
5> fores da fe , que nom quifeíTem tam a meude arder em 
:» guerra , por fegui mento de nom juftas voomtades ; mas 
5j hordcnaíFem antre íi bem queremça e paz , por amor da quel 
5' que atam aficadamente emcomehdara , ante que defte mun- 
?j do partiífe ; des i por feus reinos e gentes nom feerem 
» gaitados , per efpargimento de famgue «. E ditas eítas e 
outras amoeítaçooens , que fagefmente antelle propôs , ref- 
pomdco elRei , que averia feu comlfelho ; e avudo fobrello 
acordo , por quamto tijnha perduda efperamça das gen- 
tes que aviam de vijnr (^^ de Ingraterra , por que fora Vaaf- 
co Domimguez , fegumdo ouviftes , as quaaes avia bem cin- 
quo (^) mefes que eram preftes , e per mingua de tempo nom 
vijnham , des i feu reino nom bem emcaminhado pêra aver 
de profeguir a guerra , outrogou por fua parte conlTemtir na 
paz , como el vilTe que era razom , fem desfalleçimento de fua 
homrra, O cardeal ouvijmdo aquefto , foi mujto ledo de fua 
repofta , e partio em outro dia pêra Lixboa , e fallou a el- 
Rei Dom Hemrrique femelhamtes razooens , das que dilTera a 
elRei Dom Fernamdo, e achou em el voomtade daver paz, 
feemdo acordados em certas comdiçooens , que lhe pello meudo 
feze declarar. Tornoufle eftomçe o cardeal á Santarém, e fal- 
lou a elRei Dom Fcrnamdo a repofta que em elRei Dom 

H-^m»*- 

i^i) qutí avya daver J, (^zj leis T, 



BtsiÊ or 



2^8 Ghronica 

Hcmrrique achara : emtom hordenou elRei í') por feus procu- 
radores Dom AflFoníTo bifpo da Guarda , e Airas Gomcz da 
Sillva cavalleiro , os quaaes partirom pcra Lixboa com o car- 
deal ; e de tal guifa amdou trautamdo antre os Reis ambos, 
que prougue ao muj alto Deos , amador e autor de paz , que 
aos dez e nove dias de março, no caftello de Santarém, pre- 
femte elRei Dom Fernamdo , com acordo dos de feu con- 
felho , forom trautadas pazes e aveemças antrelle e eíRei de 
Gaftella , em efta feguimte maneira ^^K jj Primeiramente que 
J5 antrelles , e feus filhos , e deçemdentes , foíTe fempre boa , c 
3j verdadeira paz , fem nenhuuma maliçia em ella tocada , e 
3) per eíTa meefma guifa o foíFe com elRei de Framça e feus 
3> foçeíTores. E que elRei Dom Fernamdo , e todos feus her- 
?> deiros , foíFem fempre em huuma liamça com os Pveis de 
35 Framça e de Gaftella , contra elRei de Ingraterra , e contra 
3) o duque Dalamcaílro , e fuás gentes. E que elRei Dom Fer- 
33 namdo foífe theudo de o ajudar per três anos com duas gal- 
33 Ices armadas , porem aa cufta delRei de Gaftella ; e efto 
33 quamtas vezes elle armaíTe feisgallees, ou mais , contra os 
33 Imgrefes ; e paíTados os ditos três anos, que fe aviam de 
33 começar no mes de mayo feguimte , que dhi em deamte 
33 elRei Dom Fernamdo nom foíTe mais theudo de lhas fazer 
33 preftes 35. E quem efcpreve que efta ajuda avia de feer çim- 
quo gallces aa cufta delRei Dom Fernamdo , erra muj to em 
feu razoar , ca nom foi pofta tal coufa em feus trautos. » E 
35 aconteçemdo que gentes Dhimgrefes veheífem aos portos 
35 dos reinos de Portugal , que elFvci Dom Fernamdo , nem os 
35 feus lhe nom míniííraíTem viamdas , nem armas , nem lhe 
33 deíTem favor , nem comíTelho , mas que os lamçaíFem de feus 
35 reinos e terras, come feus capitaaes emmijgos, e quamdo o 
33 com feu poderio fazer nom podeflem , que eftomçe foíFe re- 
35 quirido elRei de Gaftella , a vijnr-per peíToa , ou mandar 
33 feu poder , pêra os deitar fora. OutroíII que do dia defta paz 
35 firmada , ataa trimta dias feguimtes , elRei Dom Fernamdo 

. 55 Lim- 

(i) elRei Pom Fernádo T. (2) em efta guyíía e maneyra T. 



\ 



d' elRe I D. Fe K N A N^o. a^íp 

55 lamçaíTe fora defeu reino das^peíToas qtréfe pêra elle ve- 
5» herom de Caftella , eltas ac[m nomeadas ,■ a faber : Dom 
>5 Fernamdo de Caftro , Sueire Anes de Parada ^ Fernamda- 
55 fonfo: de Çamora., os filhos Dalvoro Rodriguez Daça , a 
5? faber , Fcrnam Rodriguez, e Alvoro Rodriguez, e Lopo 
i* Rodriguez ; Fernam Goterrez Tello , Diego AíFoníFo do 
5> Carvalhal , Diego Samchez de Torres, Pedrafonfo Girom , 
5» Joham AffcníTo de Beeça , Goinçallo Martins, e Alvoro 
55 Mecndez de Gaçeres , Garcia Perez do Campo , Garcia 
55 Mal feito, Gregório ,e Fillipote ímgrefes , Paay de Meira , 
55 dayam de Córdova , Martim Garcia Daliazira, Martim Lo- 
55 pes de Cidade , Nuno Garcia feu irmaão , Gomez de Foyos^ 
55 Joham do Campo , Bernalldeanes feu irmaão , Joham Fer- 
55 namdez Dandeiro , Johao Foçim , Fernam Perez, e Afon- 
5) fo Gomez Churrichaãos 55, Eftas vijmte e oito peíToas , 
e mais nom , nomeou elRei de Caftella que foíTem lamçados (O 
fora de Portugal ^ fegurandoos per mar e per terra, ataa fee- 
rem poftos em falvo ; e fe o doutra guifa alguuns. em feus li- 
vros efcprevem , nomdees fe a tal efcriplura. 5>Foi mais outor- 
55 gado;, que elRei Dom Fernamdo perdoalTe ao Ilíamte Dom 
55 Denis feu irmaão , e a Diego Lopez Pacheco , e a quaaes 
55 quer outros , que em graça e favor delRei Dom Hemrrique 
5) eram, toda fanha,epena, e.femtenças per quallquer modo 
55 comtra elles paíTados , e lhe tornaffe feus beens e heramças j 
55 e iflb meefmo perdoaíFe a todallas villas e logares , que o por 
55 fenhox reçeberom. Trautarom mais eftas aveemças , que Do- 
55 na Beatriz , irmaâ delRei Dom Fernamdo , filha delRei Dom 
» Pedro , e de Dona Enes de Caftro , cafafle com Dom Sam- 
55 cho Dalboquerque , irmaão delRei Dom Hemrrique , filho 
55 delRei Dom AíFonfo feu padre , e de Dona Lionor Nunez de 
5» Gozmam fa madre >9 : e quem mais cafamentos em eftes trau-» 
tos aífijna , erra ení feu eftoriar. Outros capitulos que defcpre- 
ver nom curamos, forom devifados antre os Reis, os quaaes 
forom per elles jurados e firmados, e per todollos fcnhoies , e 
Tom. If^. mm ovjiof íriri Pp ';i -jb vji^o ub í-Ilfifir*^* 

I U t -S i II I ■ ■ I li I .mJL^^.m. I t 

CO lançadas T. £. 



JOQ .C CV> H..R o N I C A . 

idallgos , e prèlkdos j e p^r.: .vijmte çidadeé e viUal .,. quâaes 
os Reis quiíerora .nomear :. 5» jE que quallquer delles , per que 
» eôas pa^zcs folTém quebram tadas , pagaíTe trimta mil marcos 
3> jdoiiro , e mais que eile e todos feus cavalleiros caiffem em 
íj taaes penas aíll eccleíiafticas come feculares , quemayores 
5» nom podiam fer poftas ecn efcriptura a vifta de leterados; E 
a> poferom e confemtirom, que quallquer que folTe requerido 
9} pera jurar e fazer as menageens , que fobrefto foram devifadas, 
Hf e o fazer nom qu i feíTe , que perd elTe a merçee do Rei cujo 
V vaíTallo foíTe , e que o deitaíTe do reino come feu emmijgo 
M capital >'. E por que elReiDom Hemrrique nom embargam* 
do as juras e menageens , que elRei Dom Fernamdo e os feus 
por -eíias pazes faziam , aimda dovidava que lhas nom guar- 
daria compridamente , como amtrelles eram firmadas , e efto 
por o que lhe avehera com el nas outras pazes Dalcoutim ; 
pedio em arrefeens certas peíToas e legares por três anos , a 
íaber , Vifeu, e Miramda , Pinhel, e Almeida , e Çellorico, 
e Linhares , e Segura ;;^©. ias peíToas forom Joham AfFoníTo 
Tello , irmaão da Rainha ,' eDom Joham , comde de Viana , 
filho de Dom Joham AíFonfo , comde Dourem , Nuno Frei^ 
re , Rodrigalvarez , filho do prior do Crato , o almirante Mi- 
çe Lamçarote : mas efte dizem que pedio por merçee a el* 
Rei Dom Hemrrique , que o pediíTe em arrefeens com os 
putros , por ho gram queixume que elRei Dom Fernam* 
do delle avia , da mingua que moJftrara na pelleia das gal- 
lees de Caftella , fegumdo ante dlíTemos. Eílas e outras 
peflbas requereo elRei de Caftella que lhe deífem , e mais 
íeis filhos de çidadaaons de Lixboa , quaaes el demandou e ef- 
colheo, e quatro do Porto , e de Samtarem outros quatro, os 
quaaes levou comfigo ; como quer que Joham AffoníTo Tel- 
lo ficou em Portugal per feu prazimento, e foi fora do com- 
to das arrefeens ; e forom poftas em fielldade em maão do 
dellegado as ditas villas , e as peflbas emtregues a elRei 
com certas comdiçooens , que dizer nom curamos, ante que 
gartiíTe do cerco de Lixboa j no £ual jouve trimtá dias com- 

pri- 






d'£lRei D.Fernando. 301 

pridos, e mais nom , comtados do dia que chegou, ataa que 
as pazes forom apregoadas em Sam tarem , quimta feira vijm- 
te e quatro dias de março. 

CAPITULO LXXXIIL 

Como os Reis fallarom amhos no rio ão Tejo ^ e finna-^ 
rom outra vez fuás aveemças. 

Firmadas as pazes , como avees ouvijdo , foi hordeíiado que 
os Reis fe viíTem no rio do Tejo em batees ^ por fallarem 
alguumas coufas , e firmarem outra vez fuás aveemças , fe- 
gumdo ja per elles eram outorgadas* Eftomçe partio elRei ('> 
de Lixboa com toda fua ofte , caminho de Samtarem , porem 
que mujtos feus fe forom nas gallees , em que levarom muj- 
tas alfayas do roubo da cidade , e as portas dalfamdega , que 
diflemos : e quamdo elRei Dom Hemrrique chegou a San- 
tarém , poufou em huuns paaços , que chamam Vallada , enl 
huum efpaçofo campo jumto com o rio, mea legoa do logar. 
E o cardeal fez fazer prelles três barcas pequenas , duas em 
que folfem os Reis, com certos que comfigo aviam de levar, 
fem nenhuumas armas; e outra cm que el folFe, que avia de 
feer fiel antrelles ; e os notaircs pêra darem fe de tcdo o que 
-fe alli palTaíTc. E ante que elRei de Callella vehefle , pêra 
emtrar na barca em que avia dhir , teve comíTelho fe f alia- 
ria primeiro a elRei Dom Fernamdo , como fe viíTem nos ba- 
tees , ou fe atemderia que lhe fallaíTe elRei Dom Fernamdo 
primeiro : c os do comíTelho diíferom , que atemdeíFe que lhe 
fallaífe elRei Dom Fernamdo primeiro , por que elle era mais 
homrrado Rei que elle , por feer. elle Rei de Caítella , e o 
outro de Portugal , de mais por eftar em fua terra com feu 
poderio e ofte ; e que porem nom lhe fallaífe primeiro* El- 
Rei Dom Hemrrique era mujto mefurado , e de boa comdi- 

Pp ii irp ^1 .fc- ÇO^ y 

(i) elRei Dom Anrricjue T. 



461 Chronica 

çom 5 e preguntoii aos do conlTelho fe por el fallar primeiro 
a elRei de Portugal , íe per lii perdia fua homrra , fe a tijnha; 
e cUes diíTcrom que a nom perdia , mas que o nona devia fa- 
zer , por o que dito era. ElRei refpomdeo a efto , e diíTe: 
99 Pois que eu de minha homrra nom perco nada , nom fa- 
99 ço força de lhe fallar primeiro , por hufar de me fura »». Ef- 
tomçe partio elRei dos paaços deVallada, com mujtas gen- 
tes darmas comfigo , em guifa que gram parte do campo era 
cheo , aíli por defeníom e guarda delRei , como por veerem 
como os Reis fallavom. líTo meefmo partio elRci Dom Fer- 
namdo dos paaços de Samtarem , que fom no caftello , acom- 
panhado de mujta gente darmas, e veoíTe aa ribeira hu cha- 
mam Alfamxe ; e antre aquelles que aviam dhir com elle no 
barco , avia de feer huum o líFamte Dom Joham feu irmaáo , 
e o mccftre de Santiago , e Dom Joham AíFoníTo , comde Dou- 
rêiti 5 e Airas Gomez da Sillva , e poucos mais. E o cardeal , 
que tijnha carrego de bufcar aquelles que aviam dhir com 
os Reis , que nom levaíTem armas , achou que o líFamte Dom 
Joham levava huuma daga , e diíTelhe que a nom levaíFe , que 
bem fabia que tal era a hordenamça antre os Reis , e o Iffam- 
tè leixouha eftomçe e nom a levou : e bufcou o cardeal os que 
biám com elRei de Caftella , e nom lhe achou arma nenhuu- 
ma. Em tom moverom os batees com os Reis , em dercito do 
cubello que efta na augua em Alfamxe ; e como forom jum- 
tos , dilTe elRei Dom Hemrrique a elRei Dom Fcrnamdo. 
5> Mantenhavos Deos, fenhor: mujto me praz de vos veer , 
5» por que efta foi huuma das coufas que eu mujto defegei ^ 
>> de vos veer como ora vejo >9 : c elRei Dom Fernamdo ref- 
pomdeo a elRei de Caftella per femelhantes razooens , e bem 
mefuradas. E o batel do cardeal eftava em meo antre os ba- 
tees dos Reis , prazemdolhe muito da boa avcemça que vija 
ttntrelles : e jurados alli os trautos pcllos Reis , os quaaes ja 
teêmdes ouvido , c falladas todallas coufas qu2 lhe compriam , 
tefpediromíle huum do outro, e remarom os batees cada huum 
pêra hu partira. E quamdo «IRei Dom Fernamdo chegou a 

ter- 






d'elRei d. Fernando» ^Qj 

terra antre os feus , diíTe com gcefto ledo comtra elles í 
>y Qjamto eu hanrricado venho m e eílo dezia elle, porque 
a todoUos que tijnham com elRei Dom Hemrrique, chama-.' 
vom hamrricados; e elle achara tantas boas razoocnç e me- 
furas em elle , que quiria dar a emtemder que tijnha da 
fua parte : e forom eftas viílas e falias que o§ Reis fezerom 
aaquella ora , fete dias do mes dabril , da era eiu çiína ^QT 
meada de quatroçemtos e omze. 

CAPITULO LXXXIV, 

Como cafou o comde Dom Sancho com Dona Beatriz y e 
fe e/Rei Dom Hemrrique partio pêra jeu reino* 

ISto aíH feito 5 e os Reis dacordo mujto^ horderiarom áú 
fazer vodas aa líFamte ('^ Dona Beatriz , irmaã delRei Dom 
Fernamdo , com Dom Samcho , irmaao delRei Dom Heríirri^ 
que , iegumdo nos trautos era pofto ; e aos dous dias feguin^ 
tes lhe forom feitas gramdes feitas e juítas , e ella emtre-* 
gue a feu marido; nas quaaes juftou o dito comde Dom Sam* 
cho , com Martim AffjníTo de Melloo , e emcomtrouho Mar* 
tim AlFoníTo , de guifa que deu com elle e com o cavallo em 
teira. Outros emcontros aíTaz fe derom de gramdes em ellas 
per boons cavalleiros , de que porem merçees a Deos , ne^ 
nhuum rcçebeo cajom. Alli fe trautoa em tom outro cafameqi»' 
to , a faber , Dona Ifabel filha baftarda delRei Dom Fernam^ 
do , que ouvera ante que cafaíTe , com q çomde Dom A:ffonff 
fo , filho delRei Dom Hemrrique ; feemdo ella çftomçe dg hi,^ 
dade de oiro anos , e andava em nove , e çl averia ataa de^* 
zoito. E forom efpofados per pallavras de prefemte, em maão$ 
do dito dcUegado , e feita muj gram fefta , qual comvijphg 
a taaes peíToas : mas eíle recebimento que o çorade fez eoíri 
ella , nom foi per feu grado delle , mas com preipa e çoiif- 

tramt^ 
(O a 1 tanta T. 



íjl-ia OV 



204 Ghronica 

tramgiinento que lhe elRei fcu padre fez, mandamdolhe to- 
davia que a rcçebeíTe ; fcgumdo contou alguum em fegredo 
ante que os cfpofaíTem , e diíTe depois de praça y feemdo alom- 
gados de Samtarem. E levou elRei comíigo , quamdo partio 
de Portugal pêra feu reino , eíta Dona Ifabel , c forom com 
ella homrrados cavalleiros , que elRei mandou cm fua compa* 
nha. E chegou elRei de Caftella a huuma fua cidade , que 
chamam Sam Domimgos da calçada , c avemdo ja huun? 
três mefes que eftava alli , teve feu comíTclho com Dom Go- 
mez Manrriquc arçebifpo de ToUedo , e com Dom AffonlTo 
bifpo de Sallamanca , e com Pêro Fernamdez deVallafco, e 
Fernam Sanchez de Thoar , e com outros prelados e caval- 
leiros , que nomear nom curamos y e diíTe prefemte todos : 
5> Que bem íabiam como aos vijmte e dous dias demarco paf- 
5? fado , fora firmada paz e boom amorio antrelle e elRei de 
5? Portugal; e que antre as coufas juradas nos trautos da liam- 
5) ça , fora devi íado huum capitólio, em que elRei Dom Fer- 
5> namdo foífe teudo de lamçar fora de feu fenhorio , depois da 
99 paz firmada ataa trimta dias , aDom Fernamdo deCaftro,e 
3j outros Caftellaons e pelfoas nomeadas; no qual termo o di- 
>> to Dom P'ernamdo , nem os outros noni fairom do reino de 
9í- Portugal , ante efteverom no caftello Dourem outros muitos 
M dias; e aimda depois doutro termo de vijmte dias, que lhe 
íj- forom dados por o bifpo de Coimbra da noífa parte , nom fé 
» 'quiferom partir. E por quamto nos ditos trautos fe contem , 
)» que nom lançamdo elRei dom Fernamdo os fobreditos fora , 
99 ante dos trimta dias, que feu reino feia interdito e efco- 
5> mungado , e caya empena de trimta mil marcos douro, e 
^5 que perca as arrefeens das peíToas , e a cidade de Vifeu , coni 
» os outros fete caftellos dados em arrefeens ; e mais que def- 
4í^'fé o filho de Gomez Louremço do Avellaar ante dos vijmte 
^í^'dias, fe nom que caiíFe em todallas penas fobreditas. E 
ífJ- -por quanto eu fei , que elRei Dom Fernamdo feze todo feu 
'yj poder por os lamçar fora no dito termo , e nom pode , por 
j>'1quámtQ fe elles alçarem na caftello Dourem comtra fua 

91 vo- 



D* £ L R E I D. FERKAKDOt 505* 

» voomrade jaçalmandoíTe quarnto podiam ('^, por fcdefemdef 
>j alli , e o filho deGomezLouremço lhe foi\^ercomdida: porem 
» tcçmos e crecinos , e he aíli , que eilc nom ^^ahiu nas ditas pe- 
» nas , nem em álguuma delias. E pofto que cm ellas cahiíle , 
99 difle elRei , que cl de fua voomtade , por fi e por rodos íeus 
)> foçeflbres 5 lhas quitava todas, per juramento que f(>brello 
» fez, renumçiamdo todo dereito de que fe ajudar podeíTc , 
» rogamdolhe per fuás cartas ao cardeal , que aíTolvefle el e 
» feu reino daiguura cafo defcomunliam ou interdito, fe em 
¥9 ello aviam cuido , ficando em fua firmeza todallas coufas 
í» contheudas nos trautos j» : e o cardeal aífi o fez- E por que 
Gomez Lourenço do Avellaar nom quis dar feu fiiho pêra 
eftar em arrefeens , fegumdo elRei Dom Fernamdo promete-* 
ra a elRei de Caftella fora dos trautos , nem quis jurar a 
paz come os outros , foi lançado fora do reino e avudo por 
emmijgo dos Reis ambos , como no trauto razoava. E deu 
elRei de Caftella leçemça, ante que paíFaflem os trimta dias, 
que ficaíTem em ferviço delRei Dom Fernamdo , Sueireannes 
de Parada , e Gomçallo Martinz ^ e Alvoro Meemdez de Cá- 
ceres j e Nuno Garcia de Cidade , e Martim Garcia Daliazi- 
ra, e Gregório Lombardo, e Garqia Perez do Campo : e de 
todo efto ouve elRei Dom Fernamdo efcripturas , por fua guar- 
da e feguramça. 



CA- 



■ l «ll II ' ' imàmtímiéàm^^^ 



(1) e ^araníTe quanto podeeram T, 






^o6 C H R. avii I :c>kj 3*a 

CAPITULO LXXXV. 

Como el Rei de Navarra fdllou com elRei DomHemr- 
riquc alguumas coufas , em que fe acordar 
mm foderom^ . 

EStamdo elRei Dom Hemrrique em aquella cidade, em^ 
viou dizer a elRei de Navarra , que IhedelTe as villas de 
Vitoria 5 e do Gronho que eram faas , fe nom que lhe faria 
guerra; e elRei de Navarra diíTe , que poinha eíle feito em; 
maão do cardeal de Bollonha , que era eftomçe em Gaftella : -e 
pofto em Jeu juizo , hordenarom que as villas fe tornaíTem a 
clRei Dom Hemrrique , e que o líFante Dom KarlloS ^ filha 
primogénito deiRei de Navarra , cafaíTe com a Iffamte Dona 
Lionor , .filha delRei DomHenrrique , que ouvera de feer mo- 
Jheri;d£lRei Dom Fernamdo , fegumdo nas pazes Dalcoutini 
fora devifaJo antre os Reis.: e violTe elRei de Gaftella com 
elRei -de Navarra emhuumavilla, que chamam Briones, e fica- 
íom mujto amigos. Ecameteulhe ('^ elRei de Navarra , que 
elReide Imgratèrra e ò Primçipe deGallez queriam feer feus 
âra-igos^. com, tanto ._que.fe pardíTe da. .liga de França , e mais 
que ài^ÇÍQ ao Primçipe alguuma foma de dinheiros, em parte 
de pago da diveda que lhe devia elRei Dom Pedro feu ir- 
maão ,♦ das gajas e folldo de quamdo comei amdara na guer- 
ra , com outros fenhores que pagara aa fa cufta ; e que per 
efta guifa fe partira elRei e o Primçipe das outras demandas 
de Gaftella , e iíTo meefmo o duque Dallamcaftro , que era 
caiado com Dona Goftamça , filha delRei Dom Pedro. ElRei 
Dom Hemrrique difl^e a elRei de Navarra , que lhe grade- 
çia fua boa voomtade , mas que per nenhuuma guifa nom 
fe partiria da liga de Framça ; pêro que fazemdoíTe paz 
antre elRei de Framça e elRei de Imgratèrra , que el com- 
temtária o Primçipe e o duque per foma dalguma comtia , 

de 



N 



d'elRei D. Fernando. 307 

de guifa que leixaíTein a demanda , que queriam fazer por par- 
te delRei Dom Pedro. E elRei de Navarra dilTe, que a paz 
de Framça e de Imgraterra eram í'^ aimda por trautar , e que 
avia nella mujtas duvjdas e debates , que nom fabia fe pode- 
ria vijiir a fim. Emtom fe partio elRei Dom Hemrrique pC' 
ra Andaluzia , e elRei de Navarra pêra feu reino , fem mais 
acordo que fobre eílo ouveíFem. Ante le trabalhou elRei . 
Dom Hemrrique darmar logo quimze gallees , em ajuda del- 
Rei de Framça comtra elRei de Imgraterra ; e neefte ano 
lhas emviou , e Fernam Sanchez de Thoar feu almirante com 
ellas , e mais as duas que em ajuda avia daver de Portugal , 
fegumdo nos trautos era pofto. 

CAPITULO LXXXVI. 

Como elRei Dom Fernamdo falou aos fiàallgos que avia 
àemviar fora de feu reino , e como fe partiram 

de Portugalé 

PArtido eIRei Dom Hemrrique da villa de Santarém , co- 
mo diíFemos , ficou elRei Dom Fernando obrigado de 
mandar a certos dias fora de feu reino todoUos fidallgos , que 
elRci de Caítella nomeara nos trautos. E eftamdo em aquel 
logar , mandou chamar o comde Dom Fernamdo de Caftro , e 
nvujtos dos outros que aviam dhir com elle ; e diíTe como 
nas pazes que antrelle e elRei Dom Hemrrique forom firma- 
das , era pofto , que el e certos fidallgos foífem lamçados fo- 
ra do reino : j> E aimda, diíTe elRci , que vos tevefíees teem- 
í» çom de vos defcmder no caftello Dourem ^ a que vos to- 
í> dos colheftes come defeníFom , efto foi coufa feita nom 
" com boom acordo , e que vos manteer nom podiees. Des i 
>» faziees a mim e meu reino cair em grandes penas , aífi def- 
Tom, IF, Qq íj co- 

(0 era T, 



3o8 C H R o N I C A 

comunhom , come de certa comthia douro, por volTa par- 
tida feer tam tarde feita , pofto que per meu grado noni 
foffe : em guifa que ante eu ouve defcprever a elRei 
Dom Hemrrique fobrello, e feemdo el certo que per meu 
comíTemtimento nom era , teve neello acjuel geito , aue 
em tal cafo com razom devia teer. E aimda mais vos di- 
go , que eu nom fui bem avifado em tal feito , nem iíTo 
meefmo os de meu comíTclho , em cometer tal guerra qual 
fui começar: porque feu aa primeira bem cuidara como fe 
o duque Dallamcaíro chamava Rei de Caftella , e fua mo- 
Iher Rainha , dilTera a vos outros que vos forees todos pêra 
elle 5 e que el veheíTe demandar o reino , fe lhe per dereito 
perteemcia : e em ifto fezera melhor íifo , que gaftar meus 
reinos e gente , como gaftei , e comprar omezio de que 
me nom veho proveito, mas mui gramde perda ». A ef- 
tas e outras razooens que lhe elRei diíTe , relpondeo o com* 
de , e alguuns dos outros , o que cada huum por fua homrra 
emtendia : em íím das razooens veendo todos como fe mais 
nom podia fazer , outorgarom de fe partir , e elRei diíTe 
que os mandaria homrradamente , como compria a fuás honr* 
ras , e lhes faria mujtas merçees ; eallí o fez, ca mandou lo- 
go armar duas gallees e certas naaos , as quaaes preftes cm 
Lixboa , fe forom todos meter em ellas ; e mujtos dos outros 
que nomeados nom eram , partirom cftomçe em fua compa- 
nha , femtijmdoo por mais feu proveito que ficar no reino, 
aos quaaes chamavom perjurados , por que tijnham da parte 
delRei Dom Pedro. Partidas as naaos e gallees com eftas 
gentes, chegarora aGibaltar, que eftava emtom cercado del- 
Rej Mafomede deGraada, que fora vaíTallo delRei Dom Pe- 
dro; c a villa era delRei de Bellamarlm , e jaziam quatorze 
gallees fuás. E féis gallees delRei de Graada eftavom emca- 
Ihadas em feco , com medo das de Bellamarim , e ouverom 
conhecimento das naaos que eram de Portugal , per alguumas 
pirraças que hiam deamte , e jumtaromlTe todos, e forom fo- 
bre as gallees de Bellamarim , e fezeramnas tanto emcalhar 

em 



siatt Oí 



d'elRei d. Fet^nando. 309 

em terra , que as defendiam os mouros de cima do muro. 
Des i sairom , e poufarom no arreai com elRei de Graada , 
de que reçeberom mujta liomrra e gafalhado , e efteverom hi 
huuns quimze dias. Depois partirom , e defembarcarom em 
Vallemça , cidade Daragom , e tornaromíTe as naaos e gallees 
pêra Portugal , e trouverom comíTigo Dom Martinho Caftel- 
laáo , que era bifpo do Algarve. 



CAPITULO LXXXVII. 

Das hordenaçooens que elRei Dom Fernamdofez , por re^ 
gimento e bem de feu reino ; e que armas man- 
dou que tevejjem ejiomçe, 

NOm feguio elRei Dom Fernamdo , depois que teve efta 
paz firmada por fempre , o dito do profeta Ifayas na- 
quel logar homde diíTe , que fariam das efpadas fachos , e 
das lamças podadeiras , e que nom alçaria gente contra gen- 
te mais efpada , nem bufariam de lidar : mas come quem 
novamente efpera daver guerra gramde , logo como forom 
defpachadas eftas coufas que avees ouvjdas , eftamdo el em 
na cidade Devora , mandou por todo leu reino fazer novas 
apuraçooens de todollos moradores em elle , c mudar as ar- 
mas que dante tijnham per outra nova maneira, que fe entom 
começou de coltumar. Primeiramente el mandou que nenhuum 
fidallgo , que o ouveíTe de fervircom certas lamças, nom fi- 
IhaíTe por,. feu nenhuum acomthiado dos vezinhos e mora- 
dores do logar ^ por que tomando taaes homeens por feus , 
ficavom poucas gentes do concelho pêra fervir ; e elles eram 
theudos de fervir com outros , que nom foíTem acomtiados. 
Item mandou poer em efcripto quamtos mancebos aazados e 
de boons corpos ouveíTc em cada villa e logar , pofto que vi- 
velTem por folldada com outrem , pêra taaes como eftes pel- 



jio Chkonica 

Lejarcm pee rerra , armados comas armas dos acomtiados pou- 
fados. E fe alguuns acomthiados em armas e cavallos eram 
pciTeencentes pêra pellejar , mas nom fe podiam bem armar 
e emcavallgar lem gram damno de fua fazemda , a eftes taaes 
mandava elRei dar ajuda, eftimando quamto avi ("^ mefter pê- 
ra perfazimento de fe bem armar e emcavallgar , com o que 
el tijnha ; e efta comthia mandava elRei lamçar per todollos 
moradores das villas e logares , hu taaes aconthiados eram 
achados , na qual pagavom vihuvas , e orfoons , e frades da 
terceira bordem, e mancebos de folldada , e jornalleiros , e 
mancebas do mundo , e mouros , e judeus , e beefteiros , e 
quaaes quer outras peíToas previlligiadas , cada huum fegum- 
do merecia de pagar , fallvo clérigos , e homeens e molheres 
fidalgos , e Genoefes , e outros eftamtcs eftrangeiros. E per 
efta guifa , por muj to pouco que eftes pagavom, erom os ou- 
tros bem armados e emcavallgados , fem danamento de fuás 
fazcmdas. E aos que eram fidallgos , e nom tijnham per hu 
aver boas armas e cavallos , a eftes fazia elRei merçee , per 
homde as podcífem aver, e iífo meefmo aaquelles , que fem 
•fua culpa desfalleçerom das comthiasque aviam. E dezia , que 
pois que todollos que aviam beens em fua terra , era razom 
de ajudar a defemderj que os tetores dos horfoons teveíTem 
por elles armas fegumdo os beens de cada huum , mas nom 
cavallos ; e os filhos a que ficavom beens de fuás madres , e 
eftavom em poder dos padres, nom os coftrangiam pêra ne- 
nhuuma coufa. E ordenou , que como el mandaíTe perceber 
fuás gentes pêra alguum mefter , fe lhe avehclTe , que nenhuum 
,, nom fe partifíe daquel com que vivia por fe hir pêra outrem , 
mas vivelTe com el , e o fervifle em aqucUa guerra ; ca defa- 
guifado fecria manteello , e darlhe do feu no tempo da paz , e 
defemparallo depois no tempo do mefter : aífi que fe foíTc 
yillaáo o que tal coufa fezefíe , fofle açoutado , e mais vivef- 
fe com feu amo , e o fidallgo tornaíFe o que lhe dera aquel 
com que vivia, e emtom fe fofle pêra quem quifefle , enom 

'■1** 1 . ., - 

(i) avya T, am B. '' ' 






d'e L R E I D. F E R N A N D o. 311 

fe podeíFe partir ataa que o cmtregalTe. As armas mandou 
elRei mudar a efta guifa : do cambais í'^ mandou que fezcíTcm 
j^que y e da loriga, cota; e da capelina , barvuda com cama- 
Ihom ; e os que eram bem armados , aviam de teer barvuda 
eom feu ca malho , e eftofa , e cota , e jaque , e coxotes , e ca- 
nelleiras Framçefes , e luvas , e cftoque , e grave. Os homeens 
de pee de vijmte anos acima, avia de teer fumda , e lamça , e 
dous dardos , por feer efcufado do paaço , pois tragia azcu- 
ma í'^ ou lamça , de nom trager dardos. Outros homeens de pee 
avia hi fumdeiros , que avia cada huum de teer duas fumdas 
fuftes , que chamavom de mangueila , e outras duas fumdas de 
maáo. Das cavallgadas e do leu quimto , mandava elRei que 
tomaíTem o dizimo , e mais huum dia de folldo de todollos 
que em alguum mefter foíTem , pêra pagua dos cavallos dos 
âcomthiados , que emmaqueçeíTem (5) ou morreíTem, Muitas hor- 
denaçooes outras hordenou elRei em eftc anno , por defenfom 
e perçebimento de feu reino , como fe logo ouveíTe de em- 
trar em guerra ; de que nom fazemos aqui meençom , por nom 
fazer longa efcriptura de femelhantes coufas. 



CAPITULO LXXXVIII. 

Como e/Rei Dom Fernamdo mandou cercar a cidade de 

IJxboa, 



EM ordenamdo elRei eftas coufas que avees ouvijdo, par- 
tio Devora , e veoífe a Lixboa , e começou de cuidar no 
mal e dano , que o poboo da cidade avia recebido per duas 
vezes dos Caftellaáos , e como cfpiçialímente ouverom gnjni 
perda os moradores de fora da cerca , em gramdes e fremo- 
f^ cafas, e mujtas alfayas , e outras riquezas que levar nom 
poderom <:omiEgo , quamdo elRei de Cafiella veo fobie el- 

la; 

(i) canbaces T. (2) azcuna T. B. (5) emmam<jucçeíreni T, 



diaa OT 



? 

^12 ChRONICA 

la; c efto porque mujtas das mais ricas gentes moravom to- 
dos fora , em huum gramde e efpaçofo arravallde que avia ar- 
redor da cidade , des a porta do ferro ataa porta de Samta 
Catellina , e des a torre Dalfama ataa porta da Cruz. E vêem- 
do eiRei como efta foo cidade era a melhor e mais podero- 
fa de lua terra , e que em ella prinçipall mente eftava a per- 
da e dcfeníTom de fcu reino , des i como fora danificada dos 
emmijgos per fogo , e outros malles que avia recebidos ('^ , de 
que el tijnha gramde femtido ; determinou em fua voomta- 
de de a cercar toda arredor , de boa e defemíTavel cerca , 
de guiía que nenhuum Rei lhe podeíTe empeeçer, falvo com 
gramde multidom de gente, e fortes artefiçios de guerra. E 
fallamdo efta coufa com alguuns de leu comíTelho , bem fe 
moftrava que prazia a poucos , achamdo tantas contradiçooens 
a fe nom poder fazer , por a obra feer gramde , des i as gen- 
tes mujto mimguadas da guerra paíFada , que mais parecia 
coufa nom pêra fallar , que aaquel tempo em tal feito poer 
maão : e porem fe geerava na voomtade de todos , pofto que 
gram defeio defto ouveíTem , huuma tal comtradiçom , que ne- 
nhuum peníTava feer coufa pêra acabar , pofto que começada 
foífe 5 e quafi impoífivel de feer : mas por que nom ha coufa 
por gramde e alta que feia , que a voorritade do poderofo 
homem nom traga a a execuçom , íe em ello pofer booa fe- 
mcnça , pareçeo a elRei Dom Fernamdo , que efto com a 
ajuda de Deos e feu boom emcaminhamento, era coufa pêra 
muj cedo vijnr a fim. E aos da cidade bem lhe prazia de a 
cercarem , por o dano que recebido aviam ; nom lhe pefamdo , 
mas maravilhavomfe , por que todallas novas coufas parecem 
muj afperas e duras de fazer , ante do feu primeiro começo. 
Emtom elRei feemdo prefemte , leixamdo todallas contrayras 
razooens que cada huum dizer podia , hordenou per hu ou- 
veílb de feer cercada , devifamdo o modo como foíTe feita y 
e a maneira que fe em todo ouveflfe de teer ; e mandou que 
ferviífem em ella per corpos ou per dinheiro , pêra feer apref- 

fa 

(i) recebido T. , 



t>'E lRei D. Fernando. 313 

fa çefcada , eftes feguimtes logares , a faber : da parte do 
mar , Almadaa , Sezimbra , Palmella , e Setuval, Couna , e Be- 
navemte , e Çamora correa , e todo Ribatejo ; e da parte da 
terra ^ Sintra , Cafcaaes , e Torres vedras , e Alamquer , e a 
Arruda , e a Atouguia , e a Lourinhaa , Tilheiros , e Mafra , 
Poboos , e Coniagaa , e Aldeagallega ; aílí os moradores dos 
logares , come dos termos : e huuns ferviam per adua , e ou- 
tros davom certas fornadas de cal , a qual tragiam aa fua 
cufta aa cidade em barcas. E deu elRei pêra ajuda de taaes 
defpefas , todollos relidoos da cidade e feu termo. E foi logo 
acordado , que começaíTem de cercar primeiramente da porta 
de Martim Moniz vijmdo pêra a porta de Samto Amdre , des i 
per Samto Aguftinho e per Sam Viçemte de fora , e aíli pelr 
la ribeira ataa torre de Sam Pedro : e a razom por que ouve- 
rom acordo de cercar primeiro daquella parte , foi por que 
diíTerom , que a gente daquella comarca era mais pobre que 
a que morava da parte da rua nova , e que em quamto hi avia 
avondo das coufas que pêra ello compriam , e as gentes no 
começo ferviam com prazer e de boamente , que em tanto 
çercaflem aquella parte ; por que depois que fofíe cercada , fe 
as gentes fe emfadalTem , que os que moravam da parte da rua 
nova ^ que eram gentes mujto mais ricas, trabalhariam mujtp 
por fe cercar toda , e nom lhe vijnr per mingua de cerca 
femelhamte perda da que ja ouverom. E começarom de lavrar 
o muro delia , poltumeiro dia de fetembro da era em cima 
efcripta de quatro çemtos e omze anos , e deu elRei carrego 
pêra a mandar fazer a Gomez Martins , corregedor na dita 
cidade. Acerca do logar omde lavravom , avia praças de pam 
e de vinho , e doutros mantijmentos , e alli faziam audiên- 
cia a todollos que amdavom fervimdo , que demandados 
eram por quaaes quer coufas , por nom feerem torvados da 
fervemtia. E per efta guifa , com a ajuda de Deos , foi 
de todo muj cedo cercada , ca ella foi começada em quatro 
çemtos e omze , e acaboufe em quatro çemtos e treze ; afli 
que ainda nom durou três anos em fe cercar. Do a quamtos 

fem- 






314 Chronica 

femtidos e orelhas dhomecns avorrcçeo aa primeira ouvjr que 
Lixboa avia de feer cercada , que depois damdo a Deos muj- 
tas graças , diziam que per aazo de feu cerco , como era ver- 
dade, na feguimte guerra fe gaanhara todo Portugal. Mujtos 
aa primeira malldiziam o Rei que tal obra mandava fazer, 
que depois maravilhamdoíTe como fora feita tam aginha , o lou- 
vavom mujto, teemdolho ('^ em gramde merçee. Muito (-^ bem 
feitor foi efte Rei Dom Fernamdo , allí em repairar villas e 
caftellos , de que fe feguio gram bem ao reino , como em 
mandar cercar outras de novo ; ca el como Lixboa foi cerca- 
da , mandou logo repayrar a Alcaçeva de Samtarem de boa 
e fremofa cerca , com que foi muj delfenfavel , e afli outros 
logares pello reino, que nom curamos de dizer. 

CAPITULO LXXXIX. 

Como, elRei Dom Fernamdo hordenou ^ que as terras de 
Jeu reino fojjem todas lavradas e aproveitadas. 



A 



Inda que elRei viíTe em eíla fazom , que o reino tijnha 
mujtos aazos de feer mingoado de jnantij mentos , e dou- 
tras coufas neçeífarias , por o que dito avemos , pêro tam eí- 
tranho lhe pareçeo fua mingua , em refpeito da avomdança 
que em el fohia daver , que com aficado defeio começou de 
cuidar, como e per que maneira tal mingua de mantijmentos 
podia feer recobrada, e mais nom poder vijnr tal desfalleçi- 
mento ; e pofto que lhe tal coufa pareçeíFe muj to comvinha- 
vel , e de todo em todo determinaíFe de a pocr em obra, 
pêro per que maneira efto poderia vijnr a boa fim , emtem- 
deo que lhe compria tomar comíTelho ; e por que era coufa 
que perteeçia a todo o reino , fez chamar comdes , e prella- 
dos , e meeílres , e outros fidallgos , e çidadaaons de fua terra. 
Efeito huum dia jumtamento de todos, pêra ouvijr porque 



eram 



(i) temdolho todos T. (2) muyco graáo 7". 



d*elRei d. Fernando. ^i^ 

eram chamados , propôs huam por fua parte ('^ dizendo : ,, Qiid 
í> antre todallas obras da polliçia e regimento do mundo , nom 
5> fora achada nenhunma arte melhor , nem mais provei toía pe- 
» ra mantij mento e (^^ vida dos homeens , que era a agricultura : 
5> c nom foomente , diíTe elle , pêra os homeens , e animalias que 
» o fenhor Deos creou pêra ferviço delles , mas ainda pêra gaa- 
í» nhar algo e boa fama fem pecado, eíla he am.ais fegura. 
>•> Hora affi he que elRei nolTo fenhor , que aqui eita , comíij- 
>5 ramdo como per todallas partes de feu reino ha gram falle- 
j' cimento de trigo , e cevada , e outros mantijmentos , de que 
í> iintre todallas terras do mundo , el fohia de feer mais abaf-* 
» tado ; e eíTe pouco mantijmento que hi ha , he pofto em 
3> tanta careília , que aquelles que am de manteer fazenda e 
3> eíl:àdo,nom podem cheguar a aver eíTas coufas , fem gram 
5' desbarato daquelo que am : e veemdo e efguardamdo que 
j> antre as razoões , e per que efte fallamento vem , a mais 
» efpiçial he per mingoa das lavras , que os homeens lei- 
j> xam e defemparom , lamçamdoíTe a outros meíleres , que 
5> nom fom tam proveitofos ao bem comuum , per cujo aazo 
>í as terras que fom comvenhavees pêra dar fruitos , fom lam- 
» çadas em reffios bravos e montes maninhos ; porem el com- 
5> íij ramdo , que feemdo a eito pofto remédio , a terra torna- 
?' ria a feu gramde avomdamento , como fohia , que he huuma 
>y das bemaventuramças que o reino pode aver : propôs de 
>» vos chamar todos , pêra vos noteficar o que neefte feito 
5> emtemde de fazer , e com voíTo boom acordo e comífe- 
>» lho hordenar , com-O melhor e mais provei tofamen te fe pof- 
» fa dar a execuçom ?>. Efto alli propofto , louvarom todos 
feu boom defejo ; e depois de muitas razooens que fobrello 
falladas forom , com feu confelho e acordo delles , horde- 
nou elRei que fe fezeífe per eíla guiía. Mandou que todol- 
los que teveíTem herdades fuás próprias , e emprazadas , ou 
per outro qualquer titullo , que foííem coítramgidos pêra as 
lavrar , e femear ; e fe o fenhor das herdades as nom po- 

Tom. IF. Rr def- 

(i) proopos por lua parte T. (2) mamtimento da T. 



21^ Chronica 

dcíTe lavrar , por feerem .mujras , ou em defvairadas partes, 
que lavralTe per íi as que lhe mais prougueffc , e as outras 
fezeíTe lavrar per outrem , ou deíTe a lavrador por fua par- 
te ; de guifa que todallas herdades que eram pêra dar pam , 
todas foíTem femcadas de trigo , e cevada , e milho. E que fof- 
fem coftramgidos cada huuns que teveífem tantos bois , 
quamtos compriam pêra as herdades que tijnham,com as cou- 
fas que aa lavoira perteeçem. E fe aquelles que ouveíTem de 
teer eftes bois , nom os podeflem aver fe nom por muj gram- 
des preços , mandava que lhos fezeíTcm dar as juíliças por 
razoados preços, fegumdo o eftado da terra j e que foíTe aíij* 
nado tempo aguifado aos que ouveíTem de lavrar , pêra come- 
çarem daproveitar as terras , fo certas penas. E quamdo os do- 
nos das herdades as nom aproveitaíTem , ou deíTem a aproveitar, 
que as juftiças as deffem por certa coufa a quem as lavraíTe 
por Tua raçom ; a qual feu dono nom ouveíTc , mas foíTc del- 
pefa em proveito comuum , homde eíTas herdades foíTem. E 
que todollos que eram ou foyam feer lavradores , e iíCo mcef- 
mo os filhos e netos dos lavradores , e quaaes quer outros que 
em villas e cidades ou fora delias moraífem , hufamdo do 
oficio que nom foíTe tani proveitofo ao bem comuum , como 
era o oficio da lavra , que taaes como eftes foíTem coftram- 
gidos pêra lavrar , falvo fe ouveíTem de feu vallor de qui- 
nhemtas livras , que feriam huumas çem dobras ; e fe nom te- 
veíTem herdades Tuas , que lhe fezeíTem dar das outras pêra 
as aproveitarem , ou viveíTe t'^ por folldadas com os que ou- 
veíTem de lavrar, por foUdada razoada. E por quamto pêra la- 
vrar a terra fom muito neçeíTarios mancebos , que fervam aífí 
em guarda do gaado , come pêra as outras ncçeíCdades da 
lavoira ,osquaaes aver nom poderiam, por fe lamçarem muj- 
tos a pedir , nom queremdo fazer fervi ço , fe nom bufcar 
aazo pêra viver ouçiofos fem affam ; des i , pois que a cfmoi- 
la nom era divida , falvo aaquelles que o gaanhar nom po- 
dem , nem per ferviço de feu corpo podem merecer perene 

vi- 
ço viveíícm T, 






d'elRei D. Fernando. 517 

vivam ; e fegumdo aimda dito dos famtos , mais jufta coufa 
he caftigar o pedinitc fem neçeflidade , que lhe dar efmolla, 
que he devuda a emvergonhados c pobres , que nom podem 
fazer fervi ço ; porem mandou elRei , que quaaes quer homeens 
ou molheres que andaíTem alrrotamdo e pedimdo , e nom hu- 
faíTem de mefter , que taaes como eftes foíTem viftos e cata- 
dos pellas juíliças de cada huum logar ; e fe achaíTem que 
erom de taaes corpos e hidades , que podiam fervir em al- 
guum meíler ou obra de ferviço , pofto que em alguumas par- 
tes do corpo foíTem mimguados, pêro com toda eíTa mimgua 
poderiam fazer alguum ferviço, que foífem coítramgidos pê- 
ra fervir naquellas obras que o podelTem fazer , por fuás foll- 
dadas e mantij mentos , fegumdo lhe foífem taxados, aíTi no 
mefter da lavra , como em outra qual quer coufa. Outro 11 man- 
dava , que quaaes quer que achaíTem amdar vaadios , chaman- 
doíFe efcudeiros e moços delRei,ou da Rainha, e dos líFam- 
tes , e de quaaes quer outros fenhores , e nom foífem noto- 
íiamente conhecidos por feus , ou moítraíFem çertidom como 
andavom por ferviço daquelles cujos fe chamavorn , que foífem 
loguo prefos erecadados pellas juftiças dos logares hu andaíTem , 
e collramgidos pêra fervir na lavoira , ou em outra coufa. Aim- 
da mais mandava , que quaes quer que amdaíTem em avjto der- 
mitaaens pedindo pella terra , fem trabalhamdo per fuás 
maaos em coufa per que viveíTem , que lhes mandaíTem e 
foíTem coftramgidos que hufaíTem de meíter da lavoira , ou fer- 
viíTem \Os lavradores ; e fe o eftes fazer nom quifefem , ou os 
pedintes a que mandado foíTe , e iíTo meefmo os que fe cha- 
maíTem delRei ou da Rainha , e o nom foíTem , que os açou- 
taíicm por a primeira vez , e coftramgeíTemnos toda via que 
JavraíTem ou ferviíTem ; e fe o dhi em deamte fazer nom qui- 
feíTem , que os açoutaíTem outra vez pubricamente com pre- 
gom ('^ , e deitaíTem fora do reino : dizemdo elRei , que nom 
quiri a que nenhuum em feu fenhorio foíTe achado , que vi- 
veíTe íem mefter ou ferviço. Aos fracos , e velhos , e doentes 

• Rr ii que 

CO pregóees T. 



3l8 C H R o N I C A 

qUe neníiuuma coufa podiam fazer , mandava que deíTem al- 
varaaes , per que podeflem feguramente pedir ; e qual quer 
que alvará nom tragia , avia a pena fobre dita : aíS que 
quamtos na terra avia , e os que vehelTem de fora do rei- 
no , todos aviam de feer fabudos pellos vijmteneiros que 
homecns eram , e que geito tijnham de viver, e dito logo aas 
juíiiças , e poílos todos em efcripto ; e qual quer peíToa por 
poderofa que foíTe , que fe trabalhaíTe de defemder alguuns dos 
que aílí foílem coftramgidos , se foíTe fidallgo , que paguaíTe 
quinhemtas livras , e foíTe degradado do logar hu viveíTe , e 
donde elRei esteveíTc , a féis legoas ; e fe fidallgo nom era , pa- 
gaíTe trezemtas , e mais outro tal degredo ; emcarregamdo 
mujto asjuftiças 5 que logo efto delFem aa execuçom. Nos lo- 
gares hu fe coftuma daver gaanhadinheiros ('^ , que fe efcufar 
nom podem , mandava leixar per numero certo os que fe fcu- 
far nom podeíTem , e os outros coftramgiam pêra fervi r :" e 
em cada huuma cidade , e villa , ou logar avj Í^Maverdous ho- 
meens boons , que vilFem as herdades pêra dar pam , e as fe- 
zeíTcm aproveitar í'^ per grado ou coftramgimento , taxamdo an- 
tre o dono delia e o lavrador , o que razoado foíTe de lhe 
dar ; e quamdo o fenhor da herdade nom quifeíTe comvijr em. 
coufa que razoada foífe , que a perdeífe por fempre , e a rem- 
da delia foíTe pêra o comuxim homde jouveíTe. Na criaçom 
c tragimento dos gaados mandava , que nenhuum nom trou- 
veífe gaados feus nem alheos , falvo fe foífe lavrador , ou 
mancebo de lavrador que morafle com elle ; e fe os outrem 
quifeífe trazer, aviaíTe de obrigar de lavrar certa terra, dou- 
tra guifa perdia o gaado pêra proveito comuum dos Ioga- 
res hu era filhado, Elias e outras coufas , por fe manteer efta 
hoidenamça , mandava elRei afli guardar , que nenhuum era 
aííi oufado paíFar feu mandado ; per cujo aazo a terra come- 
çou de feer muj' aproveitada , e creçer em avomdamça de í^) 
mnn ti j mentos. 

C A- 

(i) guanhadeiros T. B. (2) avia T. (3) aproveytaàr e dar paáo T. 
C4) e T. 






d*elRei D. Fernando. 31^ 

CAPITULO XC 

Dos privillegios que elRei Dom Fernamdo deu aos que 
comprajjem ou fezejjem naaos. 

VEemdo o muj nobre Rei Dom Fernamdo , como nom foo^ 
mente defta íamta e proveitofa hordenaçom que aíll fe- 
zera , fe feguia gram proveito a el , e a todoo poboo do rei- 
no , mas aimda das mercadarias muj tas que delie eram leva- 
das , e tragidas outras , avia gramdes e muj groíTas dizimas , 
e que o proveito que aviam dos fretes os navios eftramgei- 
ros , era melhor pêra os feus naturaaes , des i muj to moor 
homrra da terra , avemdo em ella mujtas naves, as quaaes o 
Rei podia teer mais preíi:es,quamdo comprilTem afeuferviço, 
que as das provemçias dei alomgadas ; hordenou , pêra os ho- 
meens haverem moor voomtade de as fazer de novo , ou com- 
prar feitas , qual mais femtilTem por feu proveito , que aquel- 
les que fezelTem naaos de cem tonees a cima , podelTem ta- 
Jhar e trager pêra a cidade , de quaaes quer matas que delRei 
foíTem , quamta madeira e maftos pêra ellas ouVeíTem mefter, 
fem pagamdo nenhuuma coufa por ella;e mais que nom def- 
fem dizima de ferro , nem de fullame , nem doutras coufas ^ 
que de fora do reino trouveíTem pêra ellas : e quitava todo' 
o dereito que avia daver,aos que as compravom e vendiam 
feitas. Outroíli dava aos fenhores dos ditos navios , da primei- 
ra viagem que partiam de feu reino carregados , todollos de- 
reitos das mercadarias que levavom , aíli de fal , come de 
quaaes quer outras coufas , também de portagem , como de íifa , 
come doutras empoliçoôes , aílí das mercadarias que feus donos 
das naaos carregaífem , come dos outros mercadores. Dava mais 
aos donos das naaos ameatade da dizima de todollos panos , 
e de quaaes quer outras mercadarias , que da primeira viagem 
trouveflem de Framdes j ou doutros logares , afli das coufas que 

-- el- 






;0 



320 * Chronica 

elles carregaíTem , come das que outros carregaíTem em el- 
las. Aalem defto mandava que nom teveíTcm cavallos , nem 
ferviíTem per mar nem per terra com comçelho nem fem el- 
le, íalvo com feu corpo ; e que nom paguaíTem em fim tas , 
neiti talhas , nem fifas que foíTem lamçadas pêra elle , nem 
pêra o comçelho , nem em outra nenhuuma coufa,falvo nas 
obras dos muros omde foíTem moradores , e das herdades que 
hi tcvclTem , c doutras nenhuumas nom : e aconteçemdo que 
os navios aílí feitos ou comprados , pereçeíTem da primeira 
viagem , mandava que eftes privillegios duraíTem aos que os 
perdelTem três anos feguimtes , fazemdo ou comprando ou- 
tros, e aíE per quamtas vezes os fezelTem ou compraíTem ; e 
fe dous em companhia faziam ou compravam alguma naao , 
ambos aviam eftas meefmas graças, 

CAPITULO XCI. 

Como e/Rei Dom Fernamdo hordenou companhia das 
naaos , e da maneira que mandou que fe em ello tevejfe. 

TRabalhamdoíTe mujtos de fazerem naaos , e outros de as 
comprarem 5 per aazo de taaes privillegios; eveemdo el- 
Rei como por efta coufa fua terra era melhor mantheuda e 
mais honrradajcos naturaaes delia mais ricos c abaftados , per 
aazo dasmujtas carrcgaçooes que fe faziam ; e queremdo prou- 
veer com alguum remédio de cada vez feer mais acreçemta- 
do o conto de taaes navios , e os defvairados cajooes do mar 
nom deitarem em perdiçom aquelles que fuás naaos de tal 
guifa perdelTem : hordenou com comífelho de huuma compa- 
nhia de todas ^'\ pela qual fe remedialTe todo comtrairo , per que 
feus donos nom caiíFem em afpera pobreza ,pubricando a to- 
dos que foíTe per efta guifa. Mandou que fe efcprevcíFem per 
homeens idóneos e perteeçentes , todollos navios tilhados que 



em 



(i) todos T. 



r)*£ lReiD. pERNANDÕé 32f 

em feu reino ouveíle , des çimquoemta tonees pêra çyna , aílí 
os que hi enitom avia , como os outros que depois ouvef-* 
íe ; e cito em Lixboa , e no Porto , e nos outros logares om- 
de os ouveíTe. E poíto aílí em livros o dia c preço, por que 
forom comprados , ou feitos de novo , e a vallia delles , e quan^ 
do forem deitados a augua , todo aquello que eíTes navios 
gaanhaíTem , foíTe de feus donos e dos mareamtes , como fe íem- 
pre hufou ; e de todo quamto eíTes navios percalçaíTem de 
hidss e vijndas , aíli de fretes come de quaaes quer outras 
coufas 5 pagaíTem pêra a boríTa deíTa compíinhia duas coroas 
por cento ; e que foíTem duas boríTas , huma em Lixboa , e 
outra no Porto , e teerem carrego de tecr eftas boríTas aquel-» 
les a que elRei dava carrego de taaes eftimaçoões e avallia- 
mento , pêra do dinheiro delias fe comprarem outros na- 
vjos em logar daquelles que fe perdeíTem , e pêra outros 
quaaes quer emcarregos que compriíTem pêra prol de todos : e 
quamdo aconteçeífe que alguum ou alguuns navios pereçef- 
fem,per tormenta ou per outro cajom , e efto em portos, ou 
feguimdo fuás viageens , ou feemdo tomados per emijgos , 
imdo ou vijmdo em auto de mercádaria , que efta perda dos di- 
tos navios que afli pereçeíTem , fe repartilTe per todollos fe- 
nhores dos outros navios , per cfta guifa : veeríFe a vallia de to- 
dollos navios que aaquel tempo hi ouveíTe , e outro li o val- 
lor daquel navio ou navios que fe perdcíFem , ou foíTem to- 
mados , e comtarífe todo quamto montaíTe folldo por livra , 
aos milheiros ou cemtos , que cada huum navio valleiTe, e 
tanto pagar cada huum fenhor de cada navio , quamdo na 
borífa nom ouveíTe per que fe podeíFe pagar ; e que aquello 
foíFe viíto e extimado per aquelles homeens boons que per 
el, ou pellos Reis que depôs el veeífem , foífem poftos por 
executores deíla hordenaçom. E mandou que nenhuum podef- 
fe apellar nem agravar do alvidro e extimaçom que elles fe- 
zeíFem , mas que loguo fezeíTem execuçom nos beens daquel- 
les , que paguar nom quifelTem o que lhes montaíFe , pêra cr 
darem aas peíToas que perderom os navios , pêra fazerem ou 

coía- 



siait OT 



222 ChI^ONICA 

comprarem outros. E fe per vcmtujra alguuns navios per for- 
tuna de tormenta , ou per outro alguum cajom , fcguimdo au- 
to de mercddaria , abriíTem ou pejoraíTem chegamdo alogar^ 
hu fe podcíTem correger por meos o terço daquello , que val- 
leria depois que foíTe adubado , que o fenhor do navio fof- 
fe theudo de o adubar aas fuás defpefas , e nom o queremdo 
aíTi tazer , que os outros fenhores dos navios nom foíFem teu- 
dos de lhe adubar, nem paguar outro. E aconteçemdo >que 
foíTe em eíTe navio tamanho dano feito , que fe nom po- 
dcíTe emendar , fe nom por mais do que valleria , depois que 
adubado foííe, ou por tanto; e aconteçemdo efte cajom fem culpa 
dos mareamtes delle , e fem outra maliçia,que emtom os fenho- 
res cohraíTcm delle e dos aparelhos aquello que podeíTem aver 
aa boa fe , e fem maliçia ; e emtom que fe viíTe o que aquel na- 
vio valia ao tempo que lhe acomteçeo aquel cajom , e foífe 
logo pagado a feu dono , pêra comprar ou fazer outro , deícom- 
tandolhe o que ouveífe do navio e aparelhos que faivaíTe ; e os 
adubios,fe fe ouveílem de fazer , foífem viftos per meeftres , 
que ouvelTem dello conhecimento. E fe alguuns meeílres , ou 
senhores dos navios fretalTem pêra terra de emmijgos , lem 
reçebemdo primeiro seguramça , e feemdo tomados per ellcs, 
ou perecendo em taaes viageens ('^ 4^^ ^"^^s donos dos outros 
navios nom folTem theudos de lhos pagar Mandava mais , 
que fe alguuns meeftres , e fenhores de navios fezeílem alguuns 
dampnos , ou erros a alguumas outras naves , ou cm villas e 
logares , ou os culpaífem em elles , c por tal razom lhe fof- 
fe feita penhora e tomada em feu navio , que os outros nom 
foíTem theudos de lho pagar , nem quitar de penhora , nem 
doutra nenhuuma coufa que lhe acomteçeíFe , falvo fe provaíTe 
e fezelFe certo , que aquello de que o culpavom , fczera Ic- 
gumdo viagem de mercidaria, e em feu defcmdimento, ou por 
ferviço delRei , e prol de fua terra, E por que alguuns mecí- 
tres e fenhores dos navios fo (^^ efperamça que lhe aviam de 
feer pagados , aimda que fe perdeíTem , nom curariam de os foí- 

ne- 

(i) loguares T. (2) sob T. 



d'iílRei d. Fernando. 323 

npçer damcoras , e caabres , e outros fullames , e ilTo meefmo 
darmas , e gentes , e doutras coufas que perteeçem pêra defen- 
fom do mar ,6 dos emmijgos; mandava elRei , que os veedo- 
res e efcripvam chegalTem aas naaos , e que fe efcrepveflem 
todoilos aparelhos e gentes que levava , pêra fe veer fe fe 
perdiam per mimgua das coufas , que lhe eram compridoiras 
pêra feguirem fua viagem , e aílí lhe feerem pagadas ou nom# 
E quamdo fe perdiam tantas naaos , que os fenhores dos ou- S 
tros navios nom podiam logo todo pagar fem feu desfazi- 
mento , pagavom loguo ameatade , e por a outra lhe davom 
certo tempo a que pagaíTe todo. E acomteçemdo de elRei 
aver guerra com Reis feus vizinhos, ou com outras gentes, 
e armando cada huuns daquelles navios pêra fua defefa e 
ajuda, e pereçemdo delles em taaes armadas, feemdo feitas 
por prol comunal , que foíFem pagadas dos beens comuúes 
de feu fenhorio , e foíFem primeiro pagadas do feu tefouro , 
pêra feus donos fazerem logo outros , ou os comprarem : e quam- 
do os navios folTem com mercadarias , e ouvelTem alguuns 
percalços , alIí demmijgos , come per outra qual quer guisa , que 
taaes percalços foíFem emtregues aos fenhores e mareantes, 
dos navios , que os aíIi gaanharem , e elles ouveflem feu derei- 
to , como era coilume ; e do que acomteçeífe aos fenhores 
dos navios , ouveífem elles ameatade , e a outra foífe pofta 
na borlFa pêra prol de todos , ficamdo reguardado a elRei feu 
real dereito , que avia daver. E mandou elRei , que as fuás 
naaos que eram doze , entraífem em efta companhia , e que 
nom foíFem de mayor comdiçom que os outros navios de 
feu fenhorio • mas que nos fretamentos , e mareamtes , e nos 
aparelhos , e em todallas outras coufas , foíFem jullgadas- come 
fe todas foílem de peíFoa dhuuma comdiçom ; e nom o que- 
rcmdo elRei aíIi fazer , e himdo comtra ello , que a compa- 
nhia nom vallelFe nada quamto aos navjos delRei, e a com- 
panhia dos outros navios ficaíFe firme pêra todo fempre. E 
outorgou , que todos aquelles que tijnham navios , e cmtraíFem 
neeíta companhia , e os que os dalli adeamte ouveíFem , e em- 
Tom. IV. Ss traf- 



324 Chroniga 

traíTem em ella , que ouvelTcm todos os privillegios e graças ,_ 
que outrogadas tijnha aos que compraíTem navios , ou fezeíTem 
de novo , como ja teemdes ouvjdo ; e quitava a chamçellaria 
aos que tiravam a carta de tal hordenamça. E mandou , que 
os executores defta hordenamça deíTem mareamtes aos navios , 
fegumdo lhe compriíTe í'^ ; e que o que foíTe meeJftrc dhuutn 
navio 5 nom o podeíTe leixar , falvo depois que foíTe tal , que 
nom foíTe pêra fervir. E fez em Lixboa executores delia com- 
panhia , Lopo Martijns , e Gonçallo Perez Canellas , e deu- 
Ihes eícripvam que efcpreveíre a recepta e defpeza , e todallas 
outras coufas que a eito perteeçelTem ; e que teveíTem a boríTa 
em huuma arca de três chaves , de que cada huum teveíTe 
sua í^^ ; e cada ano davom comta , prefemte dous homeens boons 
fem fofpeita , de toda a recepta e defpeza que faziam dos 
ditos dinheiros : e o efcprivam avia daver trijnta livras por 
anno , e os executores cada huum çimquoemta , dos dinhei- 
ros da dita boríTa. Mamdou elRei a todallas juftiças , que trij- 
gofamente deíTem a execuçom toda coufa que per elles fof- 
fe hordenada , poemdo muj gramdes. pennas aos que o com- 
trairo fezelTem : e aífi fe coftumou dhi em deamte em feu 
reino. 

CAPITULO XCIL 

Das aveemças que elRei Dom Henrrique e elRei Dom 
Fernamdo fezerom contra elRci Daragom^ e com 

que comdiçooes, 

CEíTamdo mais de fallar defto , e tornamdo ao feito dos 
Reis ; vos ouviftes em feu logar , leemdo o capitólio da 
fugida delRei Dom Hemrrique , quamdo a batalha de Najara 
foi perdida , como elRei Dom Pedro e o Primçipe de Gaílez 
trautarom fuás amizades com elRei Daragom , por elRei Dom 

Hem- 

. (O compriíTem T. B, (2) a fua T. 



51311 ^^ í 



?fc^ 



d'£lRei d. Fernando. 325' 

Hemrrique nom aver acolhimento em fua terra ; por a qual 
coufa lhe eIRei Daragom emviou depois dizer ^ quamdo hor* 
denava de tornar pêra Caftella , que nom paíTaíTe per seu rei^ 
no , fe nom que era per força de lho embargar ; de que el^ 
Rei Dom Hemrrique ficou muj mal contento , pêro que paf- 
Ibu , fegumdo comtamos ; e des eftomçe ataa efte tempo nom 
achamos aveemças de paz , que antrelles foíTem firmadas , an- 
te nos parece que efteverom fempre em defvairo. Por que 
em efte ano de quatrcçemtos e doze , o líFamte de Mayorcas ^ 
íobrinho delRei Daragom filho de fua irmaã,que era emtom 
Rei de Neapol , por razom da Rainha Dona Johana com que 
cafara , fazia guerra a Aragom por aazo do reinado de Mayor* 
cas , que lhe perteeçia per morte delRei Dom James , que del- 
Je fora Rei , e privado delle per efte Rei Dom Pedro Dara- 
gom , que de presemte reinava. E elRei Dom Hemrrique por* 
queixume que avia delle , fabia que emtravom os feus per ai* 
guumas partes Daragom , em ajuda delRei de Neapol, e noni 
lho eftranhava , dizem do que o faziam de fua voomtade , e nom 
per feu mandado , em que parece (^^ que lhe nom tijnha boom 
defeio ^^K Doutra parte elRei Dom Fernando de Portugal era 
muj queixofo delRei Daragom , pollos danos e fem razoôes 
que dei avia recebidos ataa eftomçes, como quer que clara* 
mente outros nom achemos efcriptos , falvo a tomada do ou- 
ro que lhe per elle foi feita , fegumdo teemdes ouvjdo. E 
poremde eftando elRei Dom Hamrrique em Sevilha y mandou 
Fernamdez ('^ Deftobar a Portugal, pêra firmar novas aveemças 
com elRei Dom Fernamdo , aalem daquellas que nas pazes que 
diíTemos eram comtheudas , e forom defta guifa : que os Reis 
ambos fe ajudaíTem comtra elRei Daragom , e feus herdeiros, 
e ajudadores ; e que elRei de Caftella começaíFe de fazef 
guerra a elRei Daragom per mar e per terra, des o dia que 
quatro gallees delRei de Portugal chegaíTem em ajuda del- 
Rei de Caftella , e emtraífem pelo rio de Guadalquevir , ataa 
trimta dias primeiros feguimtes, nom avemdo elRei Dom Hem- 

____^____^___ Ss ii rri- 

(i) parecia 7". (2) boa vomcade, nem bo6 desejo '/, (.3) Fernam Femandez T.B, 



32^ Chronica 

rrlqiie primeiro feita paz ou tregoa com clRei Daragom ; e 
que nom alçaíTe maão da dita guerra , laivo fe lhe avehcíle 
tal ncçeflidade , per que lhe folTe compridoiro leixar frcmtei- 
ros comtra clTe reino : nas quaaes gallecs elRei Dom Fernam- 
do avia de mandar o feu capitam mayor do mar. E fe ante 
que eftas quatro gallees chegaffem , el nom ouveífe feita paz 
com elRei Daragom , que a nom podeíFe depois fazer , fem 
comíTemtimento delRei Dom Fernamdo ; nem elRei Dom Fer- 
nando 5 fem feu comíTemtimento delle. E que em aquelle primei- 
ro ano que elRei de Caftella começaíTc efta guerra , que el- 
Rei Dom Fernamdo oajudaífecom dezgalleez bem armadas, 
aa fua cufta por três mefes pagadas , des aquel dia que che- 
gaffem ao rio de Sevilha ; e duramdo a guerra mais daquel 
primeiro ano, que eJRei Dom Fernamdo o ajudalfe com féis 
galees bem armadas , aa fua cufta por três mefes ; e palfados os 
três mefes , e avemdoas elRei de Caftella mais mefter , que 
dhi em deamte áeíTQ de folldo a cada huuma gallee por mes , 
mil dobras cruzadas , pagamdoas no começo delle. E no tem- 
po que elRei de Portugal pagaífe as fuás gallees , que qual 
quer coufa que ellas gaanhaíTem fem companhia doutras , foíFe 
todo pêra elle ; e quando em companhia doutras , repartido 
per todas iguaUmente ; e quando foífem pagadas aa cufta del- 
Rei de Caftella, que quamto gaanhaflem fofle delle. E fe el- 
Rei Dom Hemrrique nom quifeífe fazer guerra a elRei Da- 
ragom fe nom per terra , e elRei Dom Fernamdo lha quifef- 
Ce fazer per mar , que elRei de Caftella lhe fezeíFe outra 
tal ajuda de galees com femelhamtes comdiçooes. E arman- 
do elRei Daragom tam gramde frota , que as gallees de Cas- 
tella com as de Portugal nom oufalfem de pelleiar com el- 
la , que emtom cada huum dos Reis, que ouvefíe de ajudar 
o outro , armafle tamanha frota , que com fua melhoria podef- 
fe pelleiar com ella. Eftas e outras comdiçooes , que nom cu- 
ramos de dizer , forom poftas em eftas novas aveemças , que el- 
Rei Dom Hemrrique emviou cometer a elRei Dom Fernamdo. 

C A- 



sia^a oz 



d*elRei D. Fe R N A N Do« 327 

CAPITULO XCIII. 

Do recado que elRei Dom Hemrr/que einviou a elRei 
Dom Fernamdo j e como Iheprometeo ajtida de çim- 

quo gallees, 

ELRei Dom Hemrrique , fegumdo parece , rtom embargam- 
do eítas aveemças que diíTemos , mudou a voomtade de 
fazer guerra a Aragom ; e eito emtemdemos que foi por duas 
razooes , a huuma por gramde armada que efte ano hordenou 
de fazer em ajuda delRei de Framça comtra os Ingrefes , a 
outra por que determinou de mandar dizer a elRei Daragom , 
que lhe átíÍQ fua filha a lífamte Dona Lionor , com que ou* 
vera de cafar elRei Dom Fernamdo , pêra molher do líFamte 
Dom Joham,feu primogénito filho, que ja fora efpofada com 
elle 5 feemdo mais moços. E porem emviou dizer a elRei 
Dom Fernamdo , que lhe rogava e pedia , que em cafo que 
el ouveíFe feira paz ou tregoa com elRei Daragom, ante que 
as fuás gallees chegaíTem ao rio de Sevilha , que elle o nom 
ouveífe por mal , por que feu tallemte era fazer que elRei 
Daragom lhe emmendaíTe alguuns erros , fe os dei avia rece- 
bidos ly e que emviaífe elle a el feus procuradores avomdofos , 
pêra fobrefto poderem firmar o que compridoiro foíTe , ca fua 
teençom era fazer fobrello tanto, como por feu feito próprio j 
e que o ajudalTe comtra os Imgrefes com dez gallees, ou ao 
menos com féis. ElRei Dom Fernamdo quamdo vio eítè re- 
cado , refpomdeo aaquelles que lho trouverom, e diífe : í> Bera 
5> fabe elRei Dom Hemrrique , meu irmaão e amigo, como el* 
?j Rei de Graada tem tomados navios , e averes , e gentes cativas 
?> de minha terra, por a qual razom eu ei com el guerra ; e 
í> duramdo efta difcordia antre mim e elle ,feeriagram perijgo 
5> a meu reino , emviar tam longe minhas gallees , e ficar a cof- 
í> ta de minha terra defemparada : pêro por moftrar o boom 

» de- 



BI3"ff 073 




328 Chronica 

? de feio e Voomtade que lhe teemos, dizee que nos praz de 
>o ajudar com çinquo gallees armadas , por três mefes aa nof- 
? fa cufta , ca as outras averemos meftcr pêra dciFeníTom de nof- 
» fa terra, e guerra dos mouros ; nas quaacs o noíTo capitam do 
j mar hira , e fará todo o que o feu almiramte mandar , fegum- 
3 do nos manda requerer. E qiiamto he ao que nos dizer em- 

> via , que nos praza que daquello que avemos de dar aa líFam- 
5 te Dona Beatriz noíTa irmaa de fua dote , paguemos o folldo 
5 a ellas nolTas çimquo galecs , do tempo que lhe elle he theu- 

> do de paguar , a faber , doito mil e feteçemtas e cimquoemta 
j dobras cruzadas , ou cimquoemta e duas mil e quinhentas livras 

> da noíTa moeda em preço delias , a féis livras por dobra , co- 
) mo ora vallem ; dizee que nos praz por fua homrra de o fa- 
? zermos aífi , e que nos mande quitaçom defto " . PartiromíTe os 

meíFegeiros com efta repofta , e elRei Dom Fernamdo emviou 
logo a Caílella , pêra trautar os feitos Daragom ,Gomçallo Vaaí- 
quez Dazevedo , e Louremçe Anes Fogaça , feus privados. E 
mandou fazer as çimquo gallees preftes , pêra hirem com a 
armada das naaos e galees de Caílella , que era muj gramde , 
de que era almiramte Fernam Samchez de Thoar;e palTarom 
em Imgraterra aa Ilha Doyoche, e fezerom gram dano per to- 
da aquella coita. E a ajuda e armada deitas çimquo gallees , e 
das outras que avees ouvjdo , fez elRei Dom Fernamdo a el- 
Rei de. Caítella na maneira que diíTemos , e nom como al- 
guuns autores ignoramtes da verdade pofcrom em feus livros , 
dizemdo que eram dadas per obrigaçom , a que elRei Dom 
Fernamdo ficara theudo nas pazes , que forom feitas fobre a 
cerco de Lixboa. 



C A^ 



d'elRei D. Fernando. 329 

CAPITULO XCIV. 

Como elRei Dom Hemrrique emviou pedir a elRei Dará- 

gom fua filha , e como cafou com bo Iffamte Dom 

Jobam feu filho, 

A Si como diíTemos em efte capitólio, era defaveemça an- 
tre elPvci Dom Hemrrique e elRei Daragom, per tal 
guifa , que nom embargamdo que lhe elRei Dom Hemrri- 
que emviaíTe requerer per vezes que foíTe feu amigo, numca 
poderom aver delle boa r*epoíta aquelles que fobrello alia 
emviou , mas tijiihalhe tomada a villa de Molliana , e fazia- 
Ihe cercar o caftello de Requena : mas com todo aquefto , eL- 
Rei Dom Hemrrique lhe emviou dizer , que bem fabia que 
eftamdo el em Aragom , quamdo MoíTe Beltram e os outros 
cavalleiros veherom em fua ajuda pêra emtrar em Caftella, 
que forom certos trautos firmados amtrelles ; antre os quaaes 
fora pofto , que o Iffamte Dom Joham feu filho , cafaffe com 
a Iffamte Dona Lionor fua filha, e que a trouvera (') em fua 
cafa per tempo ; e que depois que a batalha de Najara fora 
perdida, que tomara el fua filha, e differa que nom era fua 
voontade que fe fezeffe aquel cafamento ; e que pêro lho de- 
pois emviara per vezes requerir , que nom quifera comffemtir 
em ello ; e que ora novamente lhe rogava , que lhe prouguef- 
fc de fe fazer. ElRei Daragom refpomdeo a efto per mujtas 
razoões que o nom devia de fazer , e ouve por ello mujtos 
debates e fanhas amtre os ambos ^^^ : aaçima acordou elRei 
Daragom de lhe dar fua filha , nom embargamdo que aa Rai- 
nha fua molher , filha delRei de Çezilia , nom prazia que fe 
fezeffe , e torvava em ello quamto podia. Em efto emviou 
elRei Daragom a Almaçom , omde ho Iffamte Dom Joham ef- 
tava , feus embaxadores , e comcordarom com elle o cafamen- 
to feu e da Iffamte , e que elRei Daragom leixaffe os caftel- 

los 

(i) trouvefíe 7*. (2) amtre ambos 2". 






23© Chronica 

los de Molliana , e de Requena , e todallas outras coufas que 
el demandava , e que elRei Dom Hemrrique lhe deíTe por 
as defpelas que el faria em mandar fua filha a Caftella , e por 
alguuns lavores e coufas que mandara fazer nos ditos caftel- 
los, oiteenta mil framcos douro ; e defta guifa ficarom os Reis 
mujto amigos , e poftos em paz e acordo. Os embaxadores tor- 
nados , ordenou clRei Daragom demviar a IfFamte pêra fazer 
fuasvodas, fegumdo tijnham hordenado ; e no anno feguimte 
de quatroçemtos e treze a emviou feu padre muj homrrada- 
mente aa cidade de Soria , homde elRei Dom Hemrrique com 
todollos fenhores do reino forom prefemtes a feu cafamento. 
E mais forom hi feitas as vodas de Dom Karllos , filho del- 
Rei de Navarra , cora a líFamte Dona Lionor , filha dclRei Dom 
Hemrrique , a que ouvera de feer molher delRei Dom Fer- 
namdo de Portugal ; com a qual elRei deu ao dito IfFamte 
çem mil dobras em cafamento , e forom eftas vodas feitas 
çom muj gramdes feftas e allegrias, e durarem todo o mes 
de mayo. 

CAPITULO XCV. 

Como o comde Dom Affonjjo , filho delRei Dom Hem-- 
rrique , fezjuas vodas com Dona Ifabel 5 filha del- 
Rei Dom Fernamdo, 



ONom onello e forçofo poderio faz aas vezes , por com- 
prir voomtade , cafamento dalguumas peíToas , em que 
mujto comdana fua conçiemçia , fazemdolhes outorgar a taaes 
coufa contrairá a feu defeio , quamdo huum no outro , reçe- 
bemdoo per tal modo , livremente numca comíFemte ; aíll 
que quamto a Deos numca som cafados , pofto que ambos lom- 
gamente vivam: e defta guifa aveo ao Comde Dom AíFomíTo, 
filho delRei Dom Hemrrique , com Dona Ifabel , filha delRei 
Dom Fernamdo, a qual reçebeo em Samtarem, como ouvif- 

tes; 



I 



d'elRei D. Fernando. 551 

tes ; porque no começo , e logo deípois , nom lhe prazeaido 
de taaes cfpofoiros , fempre mollroa per geefto e pallavras 
que fua voomtadc nom era comtemta ; ca el pello caminho , e 
depois em (>aíl:ella , numca lhe fallou, nem chamou efpoíli , 
nem lhe deu foomjnte huuma joya ; e aíli amdou ella era 
caía delRei , ataa que comprio os anos pêra poder caiar. Ef- 
tomçe diíTc elRei aocomde,que a recebeíTe pubricamente , e 
fezeíic fuás vodas fegumdo lhe compria , e cl o comtradiíTe , 
e o nom quis fazer ; e por efte aazo fe recreçerom tam af- 
peras palavras antre elRei e o comde feu filho , que el re- 
çeamdoíTe de prifom ou defomrra , fogio do P^eino , e amdou 
em Framça , e em Avinhom , querelamdoíTe a elRei de Fram- 
ça , e ao Papa Gregório , como elRei feu padre o coftram- 
gia que cafaíFe com aquella filha delRei de Portugal , com 
que voomtade numca ouvera. ElRei veemdo o tallamte que 
leu filho em tal feito moftrava , mandoulhe tomar as rendas 
e terras que avia, e deu alguumas delias ao duque feu ir- 
maão : e iíTo meefmo mandou tomar os beens a alguuns dos 
que fe forom com elle fora do reino. A comdeífa veemdo 
todo eito , eftamdo elRei em Valhadolide , no mes de feve- 
reiro huum dia aa tarde , em huum logar que chamam o pa- 
raifo , prefemte a Rainha Dona Johana , e outros mujtos 
que dizer nom curamos, reclamou os efpofoiros e caíamen- 
to que avia feito com o comde , dizemdo que fe lhe a el 
nom prazia de cafar com ella , que tam pouco prazia a ella 
de cafar com elic , e tomou dello aíli eftormentos. ElRei avia 
defto grarade queixume , e depois que ouve feitas eftas vo- 
das que diíTemos , mandou dizer ao comde que veheífe to- 
davia pêra receber fua efpofa , fe nom que o deferdaria de 
todo 5 e leixaria em feu tcftamento maldiçom ao líFamte feu 
filho , se numca ('^ lhe perdoaíTe , nem lhe delFe coufa alguuma 
das que lhe el avia tomadas. Eítomçe veo o comde a Burgos 
no mes de novembro , omde elRei feu padre era , mais com 
receo e temor delle , que com voomtade de cafar com ella : 

Tom. W, IV e__ 

(i) fem nuca B, 



5^2 ^HRONICA 

e foi aílí que o dia que os ouverom de receberão caftcllo daquella 
cidade, eftamdo elRei e a Rainha prefemte , c o líFamtc feu 
filho , e outros mujtos fenhores e fidallgos , o arcebispo de 
Samtiago , que os de receber avia , pregumtou ao comde fe 
queria receber por fua molher Dona Ifabel , que prcfemte ef- 
tava ; e o comde nom refpondeo nada,ataa que lhe cl Rei sa- 
nhudamente mandou que difeíTe fi, e el eftomçe, com reçeo 
do padre , difíe que íi ; pêro que o diíTe de tal guifa , que 
mujtos dos que hi eftavom , emtenderom bem neele , que de 
tal cafamento era pouco comtemte ; porem forom fuás vodas 
feitas muj honrradamente , e iíTo meefmo a Dom Pedro, fi- 
lho do marques de Vilhena , com Dona Johana , filha outro 
fi delRei Dom Hemrrique. Hora sabee fem duvjda nenhuu- 
ma , pofto que vos pareça couía eftranha , que como foi fe- 
raão , o comde fe foi pcra a comdeíTa , por reçeo que ou- 
ve delRei fe o doutra guifa fezera ; e jazemdo ambos em 
huuma cama , hufou el de todo o comtrairo , que a comdefla 
razoadamente devia defperar aaquel tempo, privamdo el ef- 
tomçe afii feus fem tidos , que nenhuum leixou hufar de feu 
offiçio , qual compria j ante lhe forom todos tam efcafos , que 
el num ca a abraçou , nem beijou , nem fe chegou a ella pou- 
co nem muj to , nem a tocou com o pee Í'J, nem com maao ^-\ 
nem lhe fallou tam foi huuma falia naquella noite, nem pella 
manhaã , nem ella a el iíTo meefmo , nem numca lhe cha- 
mou comdeífa em jogo, nem em fifo , nem comco com ella 
a huuma mefa ; mas vijnhafe cada dia ao feraao dormir com 
ella, teemdo tal geito em todallas noites, como tevera na noi- 
te primeira : e efta vida comtinuou com ella , de que elRei 
nom fabia parte , em quamto eftevc em Burgos e cm Pallem- 
ça , que feeriam ataa dous mefes. E depois que elRei par- 
tio daquel logar , o comde nom curou mais delia , mas foiffe 
a outras partes , omde a veer nom podefle ; e aífi amdou, 
ataa que elRei feu padre morreo , e foi delia quite per fem- 
temça , como adiamte diremos, 
^ CA- 

(i) com pee £, (2) a maáo T. 



tíia-ff OST 



d' E L R E I D. F E Tl N A N D o. J^3 J 

Cowo a Jfamre Dona Beatriz de Portugal efpofou com 
Dom Fradarique , filho delRei de Cafiella , e com 

'' ' vfí^n r! V^^ condiçooes, ní^ "^^i 



intrr»!' 



FEitas aífi eftas vodas que diíTemos , logo no ano feguim- 
te de quatrocentos e quatorze , foi trautado outro cafa- 
mento antre elRei Dom Hemrrique , e elRei de Portugal ; 
a faber , que Dom Fradarique, duque de Benavente, íilho 
delRei Dom Hemrrique , e dhuuma dona , que chamavom Da* 
na Beatriz Ponçe, cafaííe com a líFamte Dona Beatriz , filha 
delRei Dom Fernamdo , e da Rainha Dona Lionor. E firma» 
do íobreíto todo o que compria , hordenou elRei: Dom Fer- 
namdo de fazer cortes , por fe fazerem efkes efpofoiros ; e for 
rom feitos na villa de Leirea no mes de novembro , feemdo 
prefemtes ho líFamte Dom Joham , e Dom Joham , meeftre 
da cavallaria da bordem Davis , feus irmaaos , e comdes ^ é 
ricos homeens , e prellados , e cavaileiros , e efcudeiros , jQ, 
rnujta outra gente dos concelhos, todos chamados fpeç'ial^ 
mente pêra eftes cfpoíoiros da líFamte , e pêra receberem por 
Rainha e senhora dos reinos de Portugal e do Algarve, e 
lhe fazerem por ello menagem. As gentes aífi jumtas , horde- 
nou elRei que aos vimte e quatro dias do dito mes fe fe- 
zeíTem os recebimentos ; e foi afli de feito que Fernam Pe- 
rez Damdrade , come procurador delRei Dom Hemrrique , e 
de Dom Fradarique feu filho , reçebeo per palavras de pre- 
femte , como manda a samta (v^ egreia , a dita Iffamte Dona 
Beatriz por molher do dito Dom Fradarique , e ella reçebeo 
elle por feu marido nas maãos defte feu procurador. Em ou- 
tro dia todollos senhores, e gentes que hi eram , a que ello 

Tt ii com- 

(i) a madre santa T. 



3? 4 Chronica 

ccmpria de fazer, fezerom preito e menagem nas maãos de 
Dcm Frei Alvoro Gomçallvez , prior do Qfpitd , e Damrri- 
que Mbuucl de Vilhena , senhor de Cafcaaes , curadores da 
dita Iffamte, e em máaos do dito Fernam Perez ,, que .mor-i 
remdp o dito Rei ^ .e nom leixamdo filho lidemo, que tomaf- 
fem por Rainha a dita líFamte , e por Rei o dito feu ma- 
rido , avendo com ella comprido aquei honefto jumtaraento 
que fe faz antre os cafados ; falvo fe elRei Dom Fernam- 
do morre íFe , ficamdo a Rainha Dona Liorror prenhe ^ ê pa!- 
rindo filho barom : e morremdo elPvei Dom Fernamdo ante 
que elles foíTem de tamanha hidade , que comprir podeíTcm 
o natural divido , que a Rainha Dona Lionor regcíTe em 
tanto o reino , qu quem elRei Dom Fernamdo hordenaíTe 
em feu teftamento : e que des o dia de Sam Joham Bautiíla 
feguimté lhe deíTem cafa em Portugal ; e qual quer dos Reis 
per que eito falleçelTe de feer comprido , pagaíTe ao outrc 
dez mil marcos douro. Feitos os efpofoiros com eftas e ou- 
tras comdiçooes , que leixamos de dizer , eínviou elRei Dom 
Fernamdo a Caftella Dom Pedro Tenoiro, bifpo de Coim- 
bra , e Airas Gomez da Sillva , do feu comlTelho , e feu al- 
ferez moor j e chegarom a elRei Dom Hcmrrique aa cidade 
dfe Córdova , omde emtom eítava , e recomtados todollos ca- 
pitullos , que comtheudos eram nos trautos deftes efpofoiros , 
elle os jurou a comprir e manteer , aos dez e nove dias do 
mes de janeiro de quatro çemtos e quimze anos ; e mais 
que ouveífe defpemfaçom do Papa , por quamto eram parem- 
tes no quarto graao ; e mais que elRei Dom Fernamdo ou- 
veíTe as remdas dos logares de que fezera doaçam aa dita fua 
filha per bem de tal cafamento , ataa que fezelTe fuás vodas, 
e fofle emtregue a feu marido. 



€A- 



:- ■ . ■•-.'> 






^'elReiD. Feknando. 33^ 

C A P. 1 T U L O XCVII;^^^q ^r^^ ^ « 

.qlob a obmu-g'ji "^^ ssmtup oh oJ « 

Das ave em ç as que cíRei Dom Fernamdó fét com ò du-^ 

qiíe D anjo ^ pêra fazer guerra a Ara^om/ [^^'l ^^ 

viidi o ,fíoK'jiÍÊO fZ^hújrj zeíífiboj 3up H «t 

NOs nom achamos que Gomçalío Vaáfquey; Dázevedcv^ 
nem Louremçe Anes Fogaça , qtie forom emviádos a 
Caftella pêra trautar os feitos Daragom ^ como cuviftcSj trau- 
taíTem fobrello nenhuuma coufa de que elRei Dom Fcrnara^ 
do foíTe comtento , ante nos parece que foi per comtrairo<; 
por que tanto que eíles efpofoiros e aveemças , que diíTe- 
mos ) forom ordenadas, teendo clRei gram femtimento do ou- 
ro que lhe tomara elRei Daragom , e a nom boa maneira que 
tevcra em aquel feito , mujto comtraira do quel cuidava, e pê- 
ra avef de todo ememda , trautou amizade com Dom Luis , 
duque Danjo , filho delRei de Ffamça , que folTem ambos 
dhuum acordo em fazer guerra a elRei Daragom. E foi aílí 
que emviou o duque a el feus embaxadores , a faber, Ru- 
berte de Noyers, bacharel em^ leis^^ e Yvo de.Gernal , de fcu 
comfelho ; os quaaes chcgarom a Temtugal no mes dabril , 
omde eftomçe elRei eftava : e comeordadas fuás aveemças 
em mujtas coufas , ficamdo porem certos pomtos por deter- 
minar , os quaaes compria de o duque primeiramente faber; 
hordenou clRei de emviar feu§^ embaxadores a Framça com 
os meíTegeiros do Duque, e forom ala Louremçe Aniles Fo- 
gaça , feu chamçeller moor , e Toham í'í Gomçalvez , feu fecre- 
tario , e do feu comfelho. F, em huuns paaços delRei de Fran- 
ça açerqua de Paris, no mes de junho feguimte , firmarem 
fuás liamças em eíla guifa. << Qiie o duque fezeífe guerra com- 
í> tra elRei Daragom , aíli per maf come per terra; e que a 
5> guerra per terra fe fezeífe aa defpefi do duque , e na guer- 

íj ra 

' I - I ^ 1 I - n - | n-if i l I I I II • > r i r I il -■ ,,^^^j^.tjaa,,,,aiM^ 

(i) e Nuno T. 






33^ G H R o N I C A 

ra que fe fczeíTe per mar , elRei Dom Fernamdo pofeíTe 
a terça parte das fuftes (^^j com tamto que nom paíHiíTe com- 
> to de quimze gallees ; e fegumdo a delpeía que cada huum 
/4v\fe^,efle , ouvelTe proveito dos beens movijs e de raiz , que 
tomados folTcm ao reino Daragom , refervamdo porem feu 
dereito aos capitaaens , fegumdo feu coftume de guerra. 
E que todallas cidades, caftellos, e fortellezas que foífem 
tomadas no reino de Mayorga , e nas ilhas de Menorca , 
e de Eviça , e no comdado de Roçelhom , e terras darre- 
dor, foíTem emtregues ao dito duque. E que fe elRei de 
Calklla quifeífe feer em efta Vig^, fazemdo guerra ao rei- 
no Daragom aífi per mar come per terra , fegumdo ja tij- 
nha outorgado ao duque, que as fortellezas que fe tomaf- 
fem em Murça , e em terra de MoUina , em que elRei 
de Caftella dizia que tijnha dereito , que iíFo meefmo 
lhe foíTem emtregues. E que de quaaes quer outros loga« 
res que folFem tomados , afora eftes que ditos fom , que 
elRei Dom Fernamdo fofle primeiro emtregue fem nenhu- 
ma cufta de duzemtas e cimquoemta mil dobras , em que 
dizia que lhe elRei Daragom era obrigado ; e depois que 
el foíFe pagado , que todollos outros logares foíFem parti- 
dos amtrelles , fegundo a defpefa que cada huum fezeíTe ». 
eJftes e outros capituUos , que dizer nom curamos , forom 
poílos naquelias aveemças , que elRei Dom Fernamdo trau- 
tou com o duque : mas fe efta guerra ouve alguum com.eço , 
ou que fe fez fobrclte negocio, nos per livros, nem efcriptu- 
ras, nenhuuma coufa podemos achar que mais pofeíTemos em 
efcripto 5 mas porem emtemdemos que nom ^^K 



CA- 



(i) fuftas £, (2) que nam fez myngoa. T. 



d'elRei D. Fernando. 337 

CAPITULO XCVIII. 

Das manhas , e comdiçooes do Iffamte Dom ^oham de 

Portugal, 

CEíTamdo dos feitos delRei Dom Fernamdo com elRei 
Dom Hemrrique , e iíTo meclmo com eiRei Daragom , 
pois coufa ncnhuuma mais achar nom podemos , que dello- 
riar neçefíaria leja ; com vem que digamos doutras coufas per- 
teemcemtes a noíTo fallamento , fcgumdo aquello que prome- 
tido teemos, no reinado delRci Dom Pedro, omde diíTemos 
que fallariamos dos Iffamtes Dom Joham , e Dom Denis , 
quamdo comvelieíTe razoar de feus feitos: mas por abreviar, 
leixamdo de todo o líFamte Dom Denis, que ja he cm Caf- 
tella , digamos qual foi o aazo por que fe o líFamte Dom 
Joham depois partio de Portugal , e íe foi pêra la ; e amte 
que difto façamos meemçom, nom fe agravem voífas orelhas 
douvir em breve recomtamento alguum pouco de feus gei- 
tos e manhas , fe quer por homrra de fua peíFoa. Efte Iflfam- 
te Dom Joham era mujto igual homem em corpo e em g^ç-í- 
to , bem compofto em parecer e feiçoóes , e comprido de 
mujtas boas manhas, muito mefurado , e paaçaao, agafalha- 
dor de mujtos fidallgos do reino e eftramgeiros , e mujto 
graado e preftador a qual quer que em elle cataíFe cobro ; 
damdolhes cavallos , e mullas, e armas , e veftidos, e dinhei- 
ros , e aves, e alaaos , c quaaes quer outras coufas que em feu 
poder foíle de dar. Foi mujto amjgo de feu irmaao Dom 
Joham , meeftrc Davis , de guifa que como eiRei Dom Pe- 
dro hordenara , que fempre acompanhaífem ambos quando eram 
na corte , allí numca eram partidos de monte , e de caça , e co- 
mer , e dormir , e das outras comverfaçooes huíadas daquelles 
que fe bem amam : em tanto que feemdo el muj doemte 
huuma vez em Évora , dhuum gramde açidemte que lhe dera , 

teem- 



â53?. O?? 



^^'8 Chronica 

tccmdo el carrego com o meeftre feu irmaáo de mantccr a 
tavolla, em huumas gramdes juílas que elRei Dom Fernamdo 
fazia , a huuma fefta que hordenou do ^'^ comde de Viana , filho 
do comde velho , em huum arroido que fe levamtou em ci- 
las , amtre Vaafco Porcalho , comendador moor Davis , e Fer- 
namdaivarez de Queiroos , que era da parte dos comdes, nom 
podia AíFoníTo Gomez da Sillva , e outros fidallgos , teer o 
lííamte que fe nom levamtaíFe da cama , por hir ajudar feu 
irmaão o mceítre , quando lhe diíTerom, que amdava em ci- 
ma dhuum cavallo 5 com huum traçom de paao na maao, por 
defviar de cajom o Vaafco Porcalho , que nom reçebefle dano 
dos outros : o qual arroido prougue a Deos que foi amaníFa- 
do , fem perda de nenhuum delles. Elle foi homem de toda 
a Efpanha, que melhor e mais apofto defemvolvia huum ca- 
vallo ; de guifa que fuás ^^^ manhas maas , nem braveza lhe 
preftar podia, que o nom amaníTalTe : gramde juftador e tor- 
neador j e lamçava mujto atavolado. Era mujto hufado de fal- 
tar, e correr, e remeílar a cavallo e a pee, fofredor de gram- 
des trabalhos a monte , e a caça , e femelhamtes defemfada- 
mentos; ca el per dias e noites numca perdia afam , levam- 
tamdoífe duas e três horas ante manhaã, aprazamdo de noi- 
te per imvernos e calmas, des i cavalgar, e correr fragas e 
montes efpeflbs , e íaltar regatos e córregos de gramdes ca- 
jooes, caimdo em elles , e os cavallos fobrelle : em tamto era 
queremçoso de montes , que numca receava porco , nem huf- 
fo, com que fe emcomtraíTe a pee, nem a cavallo: e de muj- 
tos perijgos em femelhamtes feitos o quife Deos guardar, que 
comtados per meudo feriam afaz faborofos douvir ; mas re- 
çeamdo de vos fazer faftio , nom oufaremos de comtar mais 
dhuum ou dous de taaes aqueecimentos. 



CA- 



(i) o T. (2) dizia que fuás T. 



d'elRei D. Fernando. 33P 

CAPITULO XCIX. 

Do que aveo ao Iffamte Dom Joham com huum huffo y 
e com huum forco , amdamdo ao monte. 

ELRei Dom Fernamdo era muj queremçofo de caça e 
monte , homde quer que fabia que os havia boons , fi- 
Ihamdo em ello gramde prazer e defemfadamento ; e por que 
o certificarem que em terra da Beira, e per riba de Goa, avia 
boons montes dhuíTos e porcos em gramde a vomdamça , ft-zíTe 
preftes com toda fua cafa , e da Rainha , e muj tos monteiros 
com fabujos e alaaos , e levou caminho daquella comarca. 
E fazemdo em elles gramde matamça, acomteçeo huum dia 
que o Iffamte fe emcomtrou com huum muj gramde huír:> , 
e jumtouffe tamto a elle poUo ferir amamtenente í'^, que o huffo 
firmou bem feus pees , e levamtou os braços por o arreva- 
tar da fella ; e o Iffante quamdo efto vio , empicotouíTe tam- 
to fobre a fella, que foi de todo fobre o arçom deamteiro, 
e o huffo temdemdo as pomtas das maãos pollo filhar , al- 
camçou o arçom derradeiro da fella tavarenha , fegumdo ef- 
tomçes huíavom , e arramcou o arçom com huuma gramde 
aljava da amca do cavallo ; e o Iffamte por todo ifto nom 
o leixou , e alfi fem arçom e com o cavallo ferido , voltou 
fobreile pollo remeffar , e numca fe delle quitou , ataa que 
fobreveherom outros, e lho ajudarom a filhar nas azcumas ^""K 
Outra vez lhe aqueeçeo , que aprazou huum porco muj gram' 
de , o qual achou com gram trabalho , fazemdoo amdar lom- 
ga terra amtre dia e noite , de que ficou muj canffado ; e de- 
pois que o ouve cercado , mandou huum ^^^ feu page , que lhe 
levava a azcuma , que foffe apreffa chamar os de cavallo , e osr 
monteiros , e toda a vozaria , e que lhe trouveffem dous a- 
Tom. IV. Vv la aos ; 

(i) a máo tenente T. (2) azcuna? T. (5) a huú T. 



.< i ' V-# H R o N I C A 



340 

laãos ; os quaaes amava tanto , que os lamçava de noite com- 
íigo na cama, e el em mco delles : huum avia nome bra- 
nor ('^, que lhe dera feu irmaao o meeftre Davis , outro chama- 
vom rábez í-^, que lhe emviara Fernam Perez Damdrade , tio 
de Rui Freire de Galiza. Quamdo acompanha foi toda jum- 
ta , fezeíTe mujto tarrde , por que vijnham de lomge ; e de- 
pois que o Iffamte partio as armadas , íicou el em huuma 
delias, e mandou poer os caães a achar, e poftos nom acha- 
rom nada , por que o porco fe levamtara em tamto , e* nom 
eftava em aquel logar ; e durou ifto tam í^) grande efpaço, que 
o líFamte emfadado de quebramto , nom fe pode fofrer que 
nom dormiíTe. O page feu que tijnha osalaãos, femelhavel- 
mente forçamdoo o fono , teve lhe companha e adormeçeo : 
e ante que adormeçeíTe , por quamto nom femtia vozes de mon- 
teiros , nem ladridos de caaens no monte , cuidou de dormir 
de feu vagar , e atou as treellas dos alaãos huuma na per- 
na , e outra darredor de íl pella çimtura. Em efte córneos 
fobreveo o gram porco feguro , e defacompanhado de fabu- 
jos e dalaãos , exudrado í'*^ por a gram calma que fazia , e veo 
naçer per a bicada de huum monte , jumto com a armada hu 
jazia o líFamte e feu page dormijndo. Hora devees de faber, 
que aquel boom alaão debravor, comprido dardimento c de 
boomdades , fegumdo fua natureza , era aflí acoftumado , que 
fem treella , aguardava com o roftro na eílribeira , quamto 
o cavallo podeBe amdar ; e porco , nem huíTo , nem outra ani- 
inalia com que fe emcomtraíTe , nom avia de travar em ella , a 
menos de lho mandarem fazer, E quamdo o porco aílí naçeo , 
o outro alaão rabez deU huuma arramcada , e o bravor tevelTe 
quedo ; c quamdo rabez vio que. fe o porco fava , e que o nom 
dejfiitreellavom , fez huuma gramde arramcada per huum mtfto 
mato, levamdo após 11 o page, e o outro alaão. Ao íoonx 
difto acordou o Iffamte , e quamdo vio o moço e os alaãos 
hir delia guifa , e o porco que fe poinha em falvo , ouve tam 

í^ram 

(i) bravor T. B. (2) bravez 7". (5) em táo T. (4) enxudraado 7". 






d^elRei D. Fernando. 341 

gram fanha , que mayor feer nom podia , e foilTe rijo com 
huum cuiteilo de caça fora da bainha , e cortou as treellas 
que hiam atadas no page : os alaaos com as treellas cortas , 
fc^rom fí':har o porco em huum efpeflb arvoredo , e chegan- 
do o Iffamte a elle , o porco fe queria efpedir dos alaãos, 
que eram empeçados (') em huumas curtas carvalheiras, e em 
faimdoíTe o porco , nom queremdo aguardar de jufta , o If- 
fiimte o remeflbu ; e emtom foi feita a mais fremofa azcuma- 
da de leu braço , que ataa li fora vifta nem ouvjda amtre 
monteiros , por que as cuitellas da azcuma emtrarom pellos 
polpooes da coxa , e cortarom os oíTos e as jumtas , e fahi- 
rom as cuitellas com toda a afta , pello conto da azcuma da 
outra parte da calluga da efpalda. E mujtas outras boas am- 
damças, e delias comtrairas , lhe aqueeçerom em feus montes, 
que feeriam lomgas de comtar , de que nom curamos fazer 
meençom. E aííi como era gramde monteiro , deíTa guifa era 
caçador de todas (^^ maneiras daves, alIi daçores , come fal- 
coões , e gaviaães , galgos de lebres e rapofas , e podemgos 
de moftra í') • e el meefmo trabalhava com elles a lhes tirar, 
em tanto que todos aviam por mujto o trabalho e affam , 
que em femelhamtes feitos levava. 

CAPITULO C 

Como fe o Iffamte Dom Joham namorou de Dona Ma- 
ria^ irmaã da Rainha^ e como cafoti com ella ef- 

comdidamente, 

Vlvemdo o Iffamte defta guifa, ledo e a feu prazer, 
veo a poer fua voontade em huuma dona , que chama- 
vom Dona Maria , irmaâ da Rainha Dona Lionor : efta Do- 
na Maria fora molher Dalvoro Diaz de Soufa , gram fidallgo 

Vv ii de 

(1) enprazados T. (2) de todallas T. (3) e podemguos , e de moftra T. 



342 Chronica 

de linhagem dos Reis , e boom cavaleiro, e mujto homrra- 
do : e fegumdo alguuns afirmam em fuás eftorias , elRci Dom 
Pedro de Portugal avia afazimento com huuma dona , com 
a qual Alvoro Diaz foi culpado que dormia , e reçeamdoíTe 
que a gram fanha que elRei Dom Pedro por efta razom avia , 
quifeíTc dàr alguuma defomrrada e perijgofa execuçom , foif- 
fe fora do reino , e amdamdo aífi per tempo í'^, morreo de 
fua natural morte; e ficou Dona Maria viuva, afaz em boa 
hidade de mancebia, frcmofa , e apolla , e mujto graçiofa, 
achegador de mujtos fidalgos feus paremtes , e de quaaes 
quer outros que boons foíícm , homrrandoos mujto fegum- 
do cada huum merecia, dando lhe des i gramde gafalhado. 
Era de gram cafa de donas , e domzellas , e camareiras , c ou- 
tra gemte meuda, des i defcudeiros , e mujtos oífiçiaacs , e 
graada e preftador a todos. Avia coraçom e abaitamça pêra 
o fazer, por que o meeftrado de Chriftus lhe fora dado pê- 
ra Dom Lopo Diaz feu filho, e as remdas eram poílas em 
feu poder; afora mujtos herdamentos movijs e de raiz, e 
mujto bem fazer da Rainha fua irmaã. O líFamte que a vija 
a meude , fememçamdo fua fremofura e eftado , e kfli graçio- 
fa , que a juizo de todos enhadia mujto em ella , começou 
de a amar de voomtade ; e revolvemdoíTe a meude em cfte 
pemíTamento , fecretariamente lhe emviou defcobrir feu amor : 
mas a comprir feu defeio como el queria, lhe eram mujtas 
coufas comtrairas , por que a dona era mujto fefuda , c cor- 
da , e difcreta , e bem guardada , e cmviouíTelhe defender com 
booas e mefuradas razooes. O líFamte que fua voomtade gaf- 
tava per comtinuada maginaçom de tal bem queremça , foi 
lhe forçado de a feguir a meude ; em tamto que ella aífica- 
da delle, cuidou de lhe requerir coufa , que em outra guifa 
nom fora oufada de lhe cometer , e emvioulhe dizer per 
huuma Margarida Louremço , fua camareira do líFamte, que 
pois el dizia que a amava tamto, que ella lhe emviaria huum 

tal 

(i) tempos T. 



jji5\I Oí' 



d'e I R e 1 d. F £ k n a n d o. ^43 

tal embaxador , qual convijnha feer ineheiro amtrc elles , e 
que elie o creeííe do que lhe da íua parte diíTeíTe , c aíli 
podia comprir ília voomtade, mas doutra guifa nom. Eftom- 
çc fallou ella com huum boom fidallgo, que chamavom Al- 
voro Pereira , a que o líFamte queria grande bem , e iíTo meef- 
mo era muj chegado a Dona Maria , e comtoulhe todo o 
que lhe o Ifiamte per vezes mandara dizer , e todo o que 
fe ataali paflara em aquel feito ; dizemdo que lhe diíTeíFe da 
íua parte, que pois que a tamto amava de pallavra , que o 
pofclTe aíli em obra: que cafalTe com ella, e a reçebeíTe por 
molher , e que leda era de fazer todo feu m.andado. Ca bem 
íabia elle , que mais em razom eftava de el cafar com ella , 
que elRei Dom Fcrnamdo com fua irmaã ; e que le outro 
modo com ella queria teer, que alhur bufcafle fua vemtuyra , 
nem lhe fallaíTe nenhuum mais em tal eftoria , que lho nom 
confemteria , nem lhe tornaria a ello repofta que boa foíTe : 
e lem mais perlomga dizem alguuns , que ouvijmdo aquilto o 
líFamte , que forom em gram fegredo recebidos efcufamente. 
Mas huum outro autor , cujas razoões nom fom demjeitar , em- 
hade em eílo dizemdo aíH : que Dona Maria feemdo bem 
fefuda pella comum regra , per que os homeens em femelham- 
tes feitos caãe, emtemdeo (') que efcorregaria o líFamte Dom 
Joham , e que emcaminhar (^^ per aquella eftrada, per que el- 
Rei Dom Fernamdo emcaminhara com fua irmaã , era mujto 
aazado e pequena maravilha ; e guifou como huuma noite a 
foíTe veer o líFamte efcomdidamente , nom levando comíigo 
mais dhuum efcudeiro : e aalem de ella feer afaz de fremofa , e 
pêra cobijçar, ella corregeo íi e fua camará aíli nobremente 
pêra tal tempo , que a nenhuum homem feeria ligeiro poílar 
com feu lifo, que fe partiíTe dalli cedo. E aas horas que o If- 
famte veeo , foi recebido per huuma molher de fua cafa , e 
levado efcufamente homde Dona Maria eítava : e el quamdo 
emtrou , vio ella e feus corregimentos aílI defpoftos pêra o re- 

çe- 

(i) entendemdo T, (2) e (jue emcamynharia T. 






^44 G H R o N I C A 

çeber por ofpede, que parecia que cada huum corregímento 
o rogava , que HcaíTe alli aquella noite ; a qual coufa emadco 
aaquella hora dobrado aazo em fua bem queremça e amor : 
e defpois das primeiras razoões , como el chegou , fallou 
cila eftomçe , e diíTe : « Senhor , eu me maravilho mujto de vos 
» mandardesme cometer voíTa bem queremça e amor, do gei- 
yy to que mandaftes ; o qual devera feer pêra cafar comigo, 
39 e doutra guifa nom : que bem veedes vos , que eu íom 
5> irmaã da Rainha de padre e de madre ; e de feermos íi- 
jj lhas dalgo , bem fabees quamto o fomos , tam bem da 
)> parte do padre come da madre , aíli dos Tellos como dos 
5> Menefes , que vem do linhagem dos Reis : des i fabees 
59 que fui calada com Alvoro Diaz de Soufa , que foi muj 
39 homrrado cavalleiro , e do linhagem dos Reis , de que te- 
39 nho huum filho , que he meeftre de Chriftus , como vee- 
39 des , que he huum dos homrrados fenhores de Portugal. 
39 Pois fenhor , razom vos parecia a vos , huuma dona tal 
5> como eu , quererdella vos defomrrar defta guifa , come fe 
99 foííe huuma molher refece : em verdade , fenhor , pareçeme 
5> que foomente pollo divedo que eu ei com a líFamte voíTa 
3> fobrinha , o nom deverees vos de cometer ; e fabee que 
3) eu foom de vos mujto queixofa por iílo. E por tamto vos 
3> fiz aqui vijnr, por voUo dizer aa minha voomtade; ca me 
39 parece fe voUo per outrem mamdara dizer, que nom fora 
» minha voomtade defabafada ; ca afaz dcmpacho ouverees 
>5 vos daver, mamdardesme demandar, come fe eu foíTe huu- 
99 ma dona de muj maa fama j?. E em razoamdo efto , mof- 
trava queixume e que quiria chorar , que aas molheres he li- 
geiro de fazer, dizemdo que fe folTe mujto em boa ora per 
hu vehera , que pêro lhe pareçelTe que eftava foo , que acom- 
panhada fija mais preto do que el cuidava. O líFamte cerca- 
do de querer e voomtade daquel defeio , que todo filo e ef- 
tado pooem adeparte , outorgava quamto ella dizia , efcufam- 
doíTe porem , que demamdada per elle nom era a eila ne- 
nhuuma defomrra ; e querendo com ella emtrar em razoões 

OU' 



d'e L R E I D. Fernando. 345" 

outras mais chegadas a (cu propofito , ella diíTe que mais 
pallavras lhe nom cfcuitaria , mas que lhe pedia por mcrçee 
que fe foíTe a boa vemtuira. A molher que o pofera demtro , 
acabadas eftas razooes , diíTe eftomçe ao líFamte : « Senhor , 
)» bem vos diz minha fenhora , reçebea vos, pois aqui eítaaes , 
5> ca vos nom hc prafmo nenhuum : ca bem veedes vos, 
5> que elRei voíTo irmaíío tomou fua irmaã por molher , e a 
»j fez Rainha , e tem delia filhos que emtemdem de herdar 
» o reino : pois quem vos ha de teer a mal cafardes vos 
j» com ella , que efta bem manceba , e molher de prol , e 
)> vem de tal linhagem como todos fabem. Demais que a 
í) Rainha fua irmaa vos fará tamto acreçentar em terras e 
» eítado , per que podees í'^ viver muj homnadamente : e 
3j voílb padre elRei Dom Pedro delta guifa tomou Dona 
5> Enes voíTa madre, e a reçebeo a furto, e depois de fua 
í> morte jurou que era fua molher , por vos ficardes lidemo 
» e voflb irmaão ; pois nom vejo razom por que o leixees 
99 de fazer, fa Ivo por nom aver voomtade », O Ifí'amte pre- 
fo per maginaçom , e pofto muj firme fo í^^ juizo do amor, 
per comgeitura das coufas que vija , tijnha em gram preço 
e defeiava mujto as que nom pareciam; em tamto que o fo- 
go da bem queremça , açefo em dobrada quantidade , lhe fa- 
zia femelhar aquel pouco defpaço que fallavom , huuma muj 
perlomgada noite, Emtom quercmdo acabar o aazo o que 
a voomtade começara , comcordarom feus prazivees defeios , 
outorgamdo el que a receberia (') e avia por fua molher; e 
foi aíli de feito que a reçebeo logo , prefemte Alvoro Dam- 
tes , e outros de que mujto fiavom ('^^ ; os quaaes fe logo fo- 
rom , e el ficou hi : e fatisfazemdo huum ao defeio do ou- 
tro, el se partio ledo, fem ella ficar trifte , muito cedo am- 
te manhaã , p mais afaftado de fama que fe fazer pode. 



CA- 



CO pofaees T. (2),fob T. (;) recebya T. (4) fiava 7". 






34^ Chronica 

CAPITULO CT. 

Como a Rainha fallou com o comde Dom ^oham Af" 

fomjjo fna fazenda , e das razooes que dijje ao 

Iffante Dom afobam. 

ANdou efta coufa raiijto emcuberta, e o bufo ameude per 
tempo , por que a puridade paíTava de dous , foi for- 
çado que naçeíTe voz e fama , que o Iffamte dormia com Do- 
na Maria, e que era fua molher recebida; a qual fe alargou 
tamto dhuuma peíToa em outra , que o ouve de faber elRei 
e a Rainha , e defprougue mujto dello a ambos , efpiçial- 
mente aa Rainha, dizemdo que amte a quifera veer cafaia 
com huum íimprez cavalleiro , que com elle. E elRei difle, 
que pois fe elles comtcmtavom ambos, que nom pefaíFe a 
ella , ca el pouco lhe pefava. E o aazo por que aa Rainha def- 
prazia defto muito , era por quamto vija fua irmaã bem quif- 
te de todos , e o líFamte Dom Joham amado dos poboos e 
dos íidallgos , tamto como elRei ; e penífava ('^ de fe poder aa- 
zar per tal guifa, que reinaria o Iffamte Dom Joham, c fua 
irmaã feeria Rainha , e ficaria ella fora do fenhorio e reina- 
do : moormente nom feemdo elRei bem faão , e mais geito- 
fo pêra durar pouco , que viver perlomgadamente ; aflí que 
,por eftas e outras razoões , veemdo feu eftado aazado pêra 
montar altamente, nom pode carecer de peçonha daemveja, 
e começou de moftrar aa irmaã peor tallamte do que loya , 
nem o Iffamte nom avia tal gafalhado delRei , como amte tij* 
nha cm coftume de lhe fazer; e nom foomente a elles , mas 
ao meeftre Davis feu irmaao , nom moftrava elRei e a Rainha 
boom fembramte, poUo gramde amor e afeiçom que lhe vijam 
teer com o Iffamte Dom Joham. E duramdo aílí per tempos, 
a Rainha nom perdia cuidado da fazemda do Iffamte , e de 

fua 

(i) e peííavalhe T. 



d*elRei d. Febnando. 347 

fua irmaã : pemíTamdo todavia, que per ral cafamento fe lhe 
poderia feguir dcsfazimento ('Me fua homrra e eítado , e pêra 
defviar ifto de todo pomto , aazou de fazer emtemder ao 
líFamte , que lhe prazeria de o veer cafado com a Iffamte Do- 
na Beatriz fua filha ; e fallou todo feu cuidado com Dom 
Joham AíFonlTo Tello feu irmaão , que lhe era mujto obedien- 
te por mujtas merçees que (^^ delia recebia , que emcaminhaíFe 
como o Iffamte houveffe difto alguum conhecimento. O com- 
de emduzido alli pella Rainha , começou daver moor comver- 
façom com o Iffamte do que foya , e moftrar (5) mujto mais feu 
amjgo do que amte era : e huum dia fallamdo ambos em 
coufas de fegredo , comtoulhe o comde como era certo da 
Rainha, que defeiamdo feu acreçemtamento e homrra , cubij- 
çava mujto de o veer cafado com a Iffamte Dona Beatriz, 
fua filha ; dizemdo que pois a Deos prazia de nom aver fi- 
lho que herdaffe o reino, depois da morte delRei feu fenhor, 
que amte queria a Iffamte fua filha veer cafada com elle , que 
com o duque de Benavemte , que era CafteUaao ; ca mais ra- 
zom era herdarem o reino , que fora de feu padre e de feus 
avoos , os filhos feus e de fua filha a Iffamte , que nom os do 
linhagem delRei Dom Hemrrique , de que Portugal tamto 
mal e dampno havia recebido : mas que lhe pefava mujto da 
torva que em ifto vija , por quamto fe rogia per alguumas 
peffoas , que Dona Maria fua irmaã era cafada com elle, e 
que por tamto fe nom poderia comprir ifto que ella mujto í'*^ 
defciava. Ouvidas as doces pallavras do comde , que larga- 
mente em ifto fallou , defpoftas a geerar danofo fruito , lo- 
go o Iffmte ligeiramente creeo efto que lhe foi muj prazi- 
vel , rcprefemtamdo a feu emtemdimento todallas homrras e 
gramdes avamtageens , que fe lhe de tal feito podiam feguir: 
des i como veedes , que defeio de reinar he couía que nom 
reçea de cometer abras comtra razom e dereito , nom podia 
o Iffamte penffar em outra coufa , falvo como avia de cafar 
Tom. W, Xx com 

(i) gramde desfazimcnto T. (2) que fempre T. (3) e molirar íer X, 
(4) que ella canio T. 



248 C H H o N I C A 

com a Iffamte , e feer quite de Dona Maria per morte. E an- 
dando em efte cuidado , amte que o a outrem dilTeíTe , faíla- 
rom mais a Rainha e o comde com Diegafonfo de Figueire- 
do , veedor do líFamte , e com Garcia AíFoníTo , comemdador 
Delvas 5 que era emtom de feu comíTeiho ; e damtre todos 
nom fe fabe quem , fe da parte do IfFamte , fe da parte dos 
outros , foi levamtada huuma muj falíTa mentira , que feu co- 
raçom delia nunca penfara , dizemdo que bem a poderia ma- 
tar fem prafmo , porque era fama que dormia com outrem j 
feemdo fua molher recebida: e per aazo de taaes comíTelhos, 
ja mais o líFamte nom perdeo cuidado de cafar com fua fo- 
brinha , e defcafarfe de Dona Maiia per morte ; e fe comprio 
aqui o exempro que dizem , que quem feu cam quer matar , 
faiva lhe põem nome ; ca tamto que elles tal teftimunho am- 
tre li levamtarom , logo o Ifíamte determinou em fua voom- 
tade , de cedo a privar da prefemte vida. 

CAPITULO CII. 

Como o Ijfamte chegou Alcanhaaes , omãe elRei ejiava 3 

e do recado , que Dona Alaria ouve de fua 

hida delle. 

PArtio o Iffamte com efte propoíito , firmado de todo em 
feu coraçom , e foi-fe caminho Dalcanhaães , hu elRci e a 
Rainha eram eftomçes com toda fua caía ; e vehcromno re* 
çeber o comde de Barçellos , e outros fcnhores e fidallgos , 
que amdavom na corte , e foi aquel dia comvidado do com- 
de ao jamtar. Em outro dia o comvidou Dona Ifabel fua pri- 
ma com irmaã , filha do comde Dom Alvoro Perez de Caílro , 
e teveo bem viçofo ao jamtar , e pella íefta , em humas ca- 
fas acerca dos paaços hu ella poufava , como morador que era 
da Rainha, Aquella fefta veo o comde de Barçellos muj brio- 
fo , ledo , e namorado , fegumdo fama , deita dona Ifabel de 

Caf- 






d'elRei d. Fernando. 349 

Caftro ; e forom alli jumtos mujtos da corte, e alguuns ef- 
tramgeiros , tanto por mirar a fremofura delia , como por 
acompanhar o Iffamte. Em aquel dia aa tarde , depois que 
damçarom , e ouverom vinho c fruita , mandou o comde por 
huuma cota raujto louçaa , e huum bulhom bem guarnido, a 
guifa de bafalarte , e por huuma faca muj fremofa que lhe 
trouverom de Imgraterra , e deu todo ao líFamte. Des i par- 
tirom pêra o paaço com oIíFamte mujtos cavalleiros e efcu- 
dciros , e com Dona Ifabel mujtas donas e donzellas , e aílí 
chegarom ao paaço , onde elRei e a Rainha eítavom , de que 
forom muj bem recebidos. Aaquella ora forom apartados com 
a Rainha o líFamte e. o comde, todos três fallamdo adeparte 
per muj longo efpaço ; desi efpediromfe delia , e iíTo meefmo 
delRci c dos da corte , e dormio o líFamte aquella noite com o 
comde, pêra partir no feguimte dia. Como foi manhaã, par- 
tio ho líFamte caminho de Tomar , e como quer que o meeílre 
filho de Dona Maria hi nom era, mandou requerer ollFante, 
que foíFe fua merçee de feer feu comvidado , e que logo fe 
vijmria pêra elle. O líFamte que pouco tijnha em voomtade 
de lhe preítar feujamtar, nom quis receber feu comvijte. O 
meeftre , que ja dias avja que tijnha femtido dalguumas ra- 
zoÔcs , que lhe fezerom faber da cafa do líFamte , quando 
vio que nom queria tomar feu comvjte, logo receou aquella 
hida ; e mandou a gram preíFa fazer faber aa madre , co- 
mo o líFamte paíFara per Tomar , e hia comtra aquella terra 
homde ella eftava , e que lhe parecia que nora hia em boa ma- 
neira j por quamto paííara per Tomar , e o requerira de comvi- 
te, e nom quifera feer feu comvidado ; e que porem fe avifafle 
fobrello. Dona Alaria avja ja amte defto ('^ recebidas. novas dal- 
guuns decafa delRei , aíIi paremtes como criados , huuns dou- 
vjda, e outros de profumpçom, do trasfego ^^^ que fe começava 
dordenar amtrella eoIíFamie, perçebemdoa que fe avifaíFe , e 
feemdo torvada por taaes razoões , eftomçe o foi mujtomais, 
quamda; vio o recado do filho : porem nom perdeo boom es- 

■ Xx ii for- 

(i) Dona Mana , (jue jaa ante deílo. tinha T. (2) iresfeguo T. 



jç"© Chronica 

forço , como dona dalta (') linhagem , e de gram cordura e íifo ; 
e deu cm r-epoila a eito que ouvija , que todallas couf:is eram 
em poder de Deos , e que aquello que a el prougueíTe e fof- 
fe fua merçee , que eíTo fceria , e mais nom ; e quamto mon- 
tava aos feitos dcile mundo, que elJa avja tam gram fiamça 
na merçee do IfFamte feu fenhor , que nom comfemtiria em 
nenhuuma guifa fua defomrra , nem desfazimento : e com eíle 
propoíito fe leixou eftar , fem fazer nenhuuma mudamça. 

CAPITULO cm. 

Cojno o Iffamte chegou a Coimbra 5 por matar Dona Ma- 
ria 5 e das razoões que ouve com cila , ante que 

a matajjem 

AQuel dia que o líFante de Tomar fez partida , foi dor- 
mir a huum logar, que chamam o Efpinhal : e como 
foi mea noite, cavalgou com os feus perFerazouçe <'), des i 
a Ahnalagues comarca de Coimbra , e chegou aos ohvaaes da 
cidade , e deçeo ao Momdego aaquem do moeíleiro de Sam- 
ta Ana , que he jumto com a gram pomte ; e em aquei lo- 
gar chamou o líFamte todos aquelles que achou comíigo, e 
fezcos eftar quedos , e apartoufe delles a fallar com Diega- 
fonfo, e Garcia AffonlTo do Sobrado; e acabado de fallar 
com eftes , fez chegar os outros a íi , e começou de lhes di- 
zer : jj Vos todos aílí como eftaaes jumtos , fooes meus vaf- 

> fallos e criados, e iíTo meefmo de meu padre, e hei de 

> vos gram fiamça , por que deçemdees de boa criaçom e 

> linhageens , e nom devo de fazer coufa que vos nom faça 
j primeiro faber : e aimda que ataa hora vos emcobriíTe al- 

> guumas coufas de minha fazemda, nom me devees poer cul- 
;> pa , por que comveo de fe fazer aíTi ; e hora vos faço fa- 
9i ber , que a mim he dito que Dona Maria irmaa da Rainha , 

>j nom 

(i) dako B, (2) pera foz Darouçe T. 



sia^ o^ 



d'e lRei d. Fernando. ^S*! 

5» nom cefla de pubricar e dizer que he minha molher, e eu 
3> feu marido , e que tem efcripturas, e fidallgos por tefti- 
>9 munhas dello ; e efta couía ou he aíS , ou nom ; e pofto 
>> que aíli foíTe , compria feer guardado em gram fegredo, 
» por fua homrra e minha: e ora que por parte fua fe le- 
» vamtou e defcobrio coufa , deque fe a mim recreçia gram 
3> perijgo e cajom , e a ella outro 11 ; eu vou hu ella etta , 
•»9 a fallar e fazer com ella , o que compre a minha hom- 
>5 rra e eftado »>. A efto cada huum e todos refpomderom , 
que eram preftes e aparelhados , nom foo pêra aquello que 
era nada , mas pêra mais alta coufa que lhe avijr podefle ; 
e elle lho gradeçeo raujto. Emtom começarom damdar , e 
paíTada a pomte chegamdo aa coyraça , chamou o líFam- 
te huum dos feus , e dilTe : » Vos fabees efta cidade , e 
99 as emtradas e fahidas delia , melhor que outro que aqui 
5> vaa, por que efteveftes ja aqui no eftudo : Dona Maria 
» poufa nas cafas Dalvoro Fernamdez de Carvalho , emca^» 
« minhaae per tal logar , per hu poíTamos hir a ellas , mais 
» apreíTa e fora de praça que feer poder ». E el refpom- 
deo que aífi o faria : e emtom os levou aa Igreia de Sam 
Bertoiameu , domde naçe huuma eftreita rua , que derei- 
tamente vay fahir aas portas daquellas cafas : e elles alli , 
efteve a guia queda , e dilTe comtra o líFamte : yy Eftas fom 
» as cafas , que vos demamdaaes " : em ifto a alva começava 
defclareçer , e triga vaíTe a manhaa pêra vijnr. Hora aíli aveo 
como fuás triftes fadas mandarom , que o Iffamte com os feus 
aa porta , e huuma molher que avija de lavar roupa , deftram- 
cou as portas , e abrioas de todo ; e aíli como forom abertas , 
logo os do Iffamte fobirom acima a huuma falia , omde ja- 
ziam alguumas molheres dormjndo, e aíTo a emtrada (*í da fal- 
ia hu fe fazia huum virgeu de laramgeiras e outras arvores, 
apartarom o Iffante , Diego Affbnfo , e Garcia Affbmfo , e 
fallamdo com elle o deteverom per efpaço ; e des que falia- 
rom , veheromfe pêra hu eftavom os outros todos , e o Iffam- 
^ te 

(i) e a foo cncraada T, 






^5^2 V^HRONICA 

te pregumtou por Dona Maria , a qual jazia em fua camará 
cerrada , fegumdo lhe moítrarom as que dormiam de fora , e 
em outra camará trás aquella jazia huuma ama e camareiras , 
com huum feu filho. OIíFamte pregumtou eftomçes , íe avja 
aaquellas torres alguuma outra emtrada, e foi lhe refpomdido, 
que nom , e as portas eram mujto fortes e bem tramcadas ; 
e o Iffamte mandou logo , que quem mais podeíTe quebrar , 
mais que braíTe , e cada huum fe trabalhou com paaos é pe- 
dras , de guifa que apreífa forom quebradas. Ella acordam- 
do fopitamente, quando fe vio emtrar per aquella maneira , 
alçoufe do leito tam efpamtada e temerofa , que aadur fe po- 
dia teer em íi : e quamdo fe levamtou , nenhuum veftido nem 
manto teve acordo nem tempo pêra deitar fobre fi , nem quem 
lho deíTe , por que as que eram demtro com ella, de fo o 
leito ('J fe nom podiam compoer de medo e temor ; e feemdo 
a ella cujdado de cobrir as vergomçofas partes , nom teve 
outro acorrimento , fe nom huuma bramca colkha , em que 
emvolveo todo feu corpo , e acoftoulFe aíli a huuma paiede- 
acerca do leilo. E logo afli como emtrou o líFamte , ella o 
conheçeo no roílro e falia; e quamdo o vio, cobrou ja quam- 
to desforço e oufamça , e diífe : » Oofenhor, que vijmda he 
» efta tam defacoftumada >5. » Boa dona , difíe elle , ao ora 
« o faberees : vos amdaftes dizemdo que cu era volTo mari- 
»9 do , e vos minha molher ; e enxempraftes o reino todo , r.taa 
í> que o foube elRei e a Rainha , e toda fua corte ; que era. 
5> aazo de me mandarem matar, ou poer em prifom por fem- 
5? pre j e vos deverees demcobrir tal razom comtra todollos 
j> do mundo: e fe vos minha molher fooes , por tamto me- 
» reçees vos melhor a morte , por me pocrdes as cornas dorri 
» mimdo com outrem » : e em dizemdo efto , lamçou maíío. 
em ella. Dona Maria veemdo taaes razoões , refpomdeo ao If*^ 
famte,e diffe : j) Oo fenhor, eu emtemdo bem >que vos vjiq* 
» des mal comífclhado , e speidooe Deos a quem vos tal comfò 
» felho dey : e fe prougucr aa voífa merçec , de vos apar- 

39 tar- 

(i) de fob leyto T, ;:..., j .;,,"• : ,, 



D* E L R E 1 D, Fernando. 35'j 
9i tardes comigo huum pouco em efta camará , ou fe façam 
>9 eftes afora , eu vos emtemdo de moílrar mais proveitofo 
í> comíTelho , do que vos derom comrra mim ; e por.mer^ 
39 çee vos ouvijme , e tempo teemdes pêra fazer o que vos 
»> prouguer^ ». E el nom lhe quis ouvjr fuás razoões , nem 
lhe dar efpaço pêra fe efcufar do erro que nom fezera , mas 
difle : >9 Nom vim eu aqui pêra eítar comvofco em palla- 
» vras ». Emtom deu huuma gram tirada pella pomra da 
collcha , e derriboua cm terra; e parte do feu muj alvo<, corpo 
foi defcuberto , em viíta dos que eram prefemtes, em tamto 
que os mais delles"» em que raefura e boa vergomça avja , 
fe alomgarom de tal vifta , que lhes era doorofa de veer , e 
nom fe podiam teer de lagrimas , e falluços , como fe folTe 
madre de cada huum delles : e em aquel derribar que o If- 
famte fez , lhe deu com o bulhom que lhe dera feu irmaao 
delia , per amtre ho ombro e os peitos , acerca do coraçom ; e 
ella deu humas altas vozes muj dooridas ,dizemdo : í> Madre 
yi de Deos , acorreme , e ave merçee defta minha alma „ : e 
em tiramdo o bulhom delia , lhe deu outra ferida pellas veri* 
lhas ; e ella levamtou outra voz , e diífe : >? Jefu filho da Vir-» 
99 gem , acurreme » : e efta foi fua poftumeira pallavra , dam-» 
do o fprito , e bofamdo muj to famgue delia. Oo piedade do 
muj alto Dcos , fe emtom fora tua merçee de botares aquel 
cruel cujtello, que nom dampnara o feu alvo corpo , inoç cm-» 
te de tam torpe culpa. Foi a cafa loguo chea de braados e 
choros dhomeens e de molheres , depenamdolTe fobrela , fazem- 
do gramde e doorido planto. O foom dos gritos era ouvjdo 
per toda a cidade , e foi gram torvaçom em muj tos , que nom 
fabiam que coufa era. Ao gramde arroido e volta , veeo 
Gomçallo Meemdez de Vafcomçellos , que era feu paremte 
delia, equamdo achou tal obra feita Í^J, eosfeus faziam por 
ella tal doo , e com tam dooridas pallavras, que o poboo que 
darredor eftava oolhando , nom podiam reteer fuás lagrimas. 
O liFamte como acabou aquello por que vehera , cavallgou 
com ^ 

^0 íeiíâ tlella T. 



FI3^ OP 






354 



C H R o N 



I C A 



com os feus , e tornou pella ponte , e nom quedou damdar 
fem fazer deteemça , ataa que chegou a Sam Paayo , que fom 
dalli .... legoas ^''K E por a jornada que era gramde , e fra- 
queza das beílas , nom chegarom com elle mais de fcis , e 
alli os efperou todos , ataa que forom depois jumtos ; e da- 
quel logar partirom camjnho da Beira , baratando cada huum 
armas o melhor que podia , e nom perdiam o hufo delias 
em monte e em caça ; e aíli durarom per efpaço de tempo , 
per hu quer que amdavom. 

CAPITULO CIV. 

Como o Iffamte Dom Joham foi perdoado , e como veeo 
veer e/Rei e a Rainha. 



FOI efta coufa fabuda pello reino , e pefou a mujtos delia 
morte , moormente quamdo fouberom que fora daquel- 
la guifa j fem fua culpa delia ; e a Rainha quamdo o ouvio , 
moíirou que lhe pefava mujto , poemdo por ella doo; porem 
dezia a elRei ('^ que nom curaífe daquello , nem tomalíe por 
elio nojo, ca coufas eram que acomteçiam pello mundo. E 
depois que efta coufa foi arrefeeçemdo , amdamdo o Iffamte 
na Beira e per riba de Coa , açerqua dos eftremos , fez íliber 
a elRei e aa Rainha , que lhe nom compria viver em fua 
terra fem fua graça , e comtra feu tallante ; e fe fua raer- 
çee folTe de lhe perdoar a elle e aos feus , fe nom que fe 
trabalharia de hir bufcar cobro a outro reino , homde vivef- 
fe fem temor de nenhuum. Em efto nom quedavom emba- 
xadores em hidas e vijmdas, hora lhe tragiam novas de le- 
diçe , hora comtavom outras de trifteza , dizemdo que o 
meeftre de Chriftus , e o comde Dom Joham AffoníTo , e Dom 
Gomçallo , e o comde de Viana todos primos, fe jumtavom 

Pg- 

. C^) o numero das léguas falta-fe cm claro em todos os trcs Códices, 
(O dizia elRei T, 



D* E L R El D. Fe R N A N D0« 35'f ' 

pêra O hir bufcar , elle e os feus ; aíli que de todas partes fô 
temiam , falvo do comde Dom Alvoro Perez feu tio do If* 
famte , que trautava com o comde velho como o liFamte fof- 
fe perdoado. E per elles , e pello priol do efpital Dom frei 
Alvoro Gomçallvez, e per Ayras Gomez da Sillva, a que e'Rci 
queria gram bem , des i pella Rainha , cuja voz valiia mais 
que todos , foi o líFamte perdoado , e todollos que eram com 
elle : e viítas as cartas de perdem que lhe elRei e a Rainha 
fobrefto mandarom , partio o líFamte feguro pêra vijnr aa 
corte , e chegou a Samtarem com çemto e cimquoemta da 
cavallo ;e dalli mamdou dizer a elRei , que era em Salvaterra 
de Maagos , que fom efpaço de quatro legoas , fe o hiria 
ver aílí como hia de caminho , ou com certas pclToas e mais 
nom j e elRei lhe emviou dizer que veheíTe muito em boa 
ora , com quamtos tragia e mais , fe mais quifeíTe trager. 
Eftomçe chegou o líFamte , e foi elle e os feus todos bem 
recebidos deiRei e da Rainha , e dos comdes feus irmaaos , 
que eftavom hi , e o acompanhavom , e o forom receber ataa 
junto de Sam- tarem quamdo veo* O líFante eíleve hi com el- 
Rei huuns dias , amdamdo ao monte e aa caça com elle , e 
aas vezes com os feus , e dalli os mandou cada huum pêra 
fua terra , e ficou el com os que lhe prougue , amdamdo gram 
privado delRei e da Rainha muito a a fua voomtade; e man- 
doulhe elRci pagar as comthias trefpalTadas e as prefemtes , 
c mujtos dinheiros de graça. Ê veemdo elle a boa maneira 
que elRei e a Rainha tijnham com elle, teve mentes de lhe 
feer feito aqueilo , que o comde com elle fallara , em razom 
do cafamento de fua fobrinha , efperando cada dia de fe 
poer em obra ; e a Rainha avia delio muj pouca voomtade, 
nom embargamdo que a irmaã foíFe ja morta, por que a ella 
era gramde empacho viver o Iffamte em Portugal , veemdo 
elRei cada dia mais adoorado , e temialFe que falleçemdo 
per morte , que foíTe o Iffamte logo levantado por Rei , e 
tomar tal molher que feria Rainha , e ella desfeita de fua 
homrra e citado : e por efquivar de todo pomto efte aazo , 
Tom, IK Yy avija 



' "^^6 Ch RO NICA 

avijd defeio de teer fua filha cafada em Callclla , ca gulfa aue 
o era , ou melhor fe feer podeíTe , por ficar ella regedor ('), fe 
elRei Dom Fernamdo morreíTe , como nos trautos do duque 
de Benavemte era comtheudo , e que aífi livremente fe ate- 
nhoraria do reino ; e que o líFante nom bufcaria cobro fe 
nom em Caftella , homde lhe ella depois aazaria prifom ou 
morte , per que ficafíe fegura. Hora em eíte tempo fom ai- 
guuns que efcprevem nom foomente razoóes , de que nenhuu- 
ma coulk nos ajudar podemos , mas aimda feus ditos nos 
defprazem mujto , e de todo em todo fom pêra emgeitar; 
dizemdo que o Iffamte foi efpofado com a líFamte Dona 
Beatriz , como lhe fora prometido , e huuns comtam que foi 
em Vallada ('), feemdo elRei doem te , outros dizem que foi em 
Portallegre (J^ em mujto gramde fegredo, efcprevcmdo ifto per 
largos fallamentos , que refumir nom curamos : e poft;) que 
huurnas pallavras íeiam comtra as outras , e todas em foma 
comtradigam aa verdade , nos porem creemos que fuás erra- 
das razoóes nom foi per maliçia dos autores , mas per ino- 
rançia da verdade , a qual fabee que foi defta guifa. 

CAPITULO CV. 

Como fe o Iffamte partio nojofo da corte y e fe foi peva 
amtre Doiro e Mmho. 

ELRei partio daquel logar hu eftava , e foife pêra terra 
Daalemtejo , e amte que dhi partiíTe e depois , o If- 
famte fallava em feito de feu cafamento com a Rainha , e 
com aquclles com que tijnha razom de o fallar ; e ella como 
quem nom avija voomtade , des i os outros fegumdo fabiam 
feu defeio , faziam emtemder ao líFamte , que ilto fe nom 
podia fazer tam apreíFa como el queria , por quamto com- 

pria 

(i) regeedora T. (2) que íoi engualhada T. (5) que toi em parucui- 
iar, e T, 



d*elReiD. FernAníjO. ^^f 

pria feer a Iffamte primeiro defcafada do duque de Bcnavvm^ 
te , com que o era com tam gramdes firmezas , como el bem 
fabia ; e que depois defto era neçeíTario aver defpemíTaçom ^ 
pêra feu cafamcnto feer firme , e feito como devia ; e que 
eito fe nom podia fazer logo aífi de prefemte, mas per hor* 
denamça e tempo ^ como comvijnha a tal feito. E com eílas 
e outras razoóes forom^he poemdo o feito pella armada , 
humtamdolhe os beiços com doces pallavras de boa efperan^ 
ça , de guifa que el emtemdeo em feus geitos e falias ^ que 
illo era coufa p^ra numca vijnr a fim ou tarde ; c anojado 
com taaes razoões de deteemça , partioíTe da corte ,dhuum lo- 
gar que chamam Vijmeiro ('), elevou caminho do Porto, e foi-* 
fe pêra amtrc Doiro e Minho , e alli amdou per tempo ^ des i 
foiíTe aa Beira , e amdamdo per efta guifa , conheçeo bem que 
era efcarnido , e começou dcmtrifteçer , e amdar mujto nojo^ 
fo : em tamto que aífi como el na morte de Dona Maria fe 
partio prazivel , vimgador da cíilpá nom cometida , aífi depois 
fe apartava a chorar a mehude , fazemdo plamto por fua 
morte, repreemdemdoíTe mujto do mal que fezera. Aífi que 
el vivia nojofa vida , e os feus iíTo meefmo paíTavom muj 
mal , ca delRei lhe vijnham poucos e maaos defembargos de 
fuás teemças e moradias , de guifa que apenhavom as armas 
e os veítidos , eja nom tijnham qué apenhar, fe íiom alaaos 
e fabujos ; e com eíla pobreza fe paíFou o Iflramte arriba de 
Coa , e alli faziam fua gaitada vida : em eito chegaromlhe 
novas que o comde Dom Gomçallo e o meeítre de Chriítus 
hiam fobrelle , pêra vingar a morte da irmaá e da madre , e 
elRei e a Rainha logo acerca, e o comde de Barçellos com 
elles j e era aífi de feito que elles hiam comtra aquella co- 
marca com eita voz , e a teemçom í^^ era mais pollo eíterraí 
que por o matar ; e aífi como fe elles hiam chegamdo , aífi fe 
arredava o líFamte com os feus , ataa que o poferom em huum 
logar.que dizem Villar mayor. Em aquel caítello afefegou o 
Iffamte, creemdo que dhi em deamte o nom feguiffem mais 5 



Yy ii 



e 



(,1) Vjmyeiro T. (2) entençom £, 



35'S Chkonica 

c os feus partirem fe pêra huumas aldeãs , que fom da parte 
de Caftella , e elle ficou com Garcia AíFoníTo , e Diegafon- 
fo ; e aa mea noite chegaromlhe emculcas , e guias que as 
tragiam , que lhe diíTerom que os comdes e mecítre fecriam 
ante da alva com elle , a premdello ou matallo , com gram 
poder que tragiam. O IfFamte quamdo fe aílí vio afficado e 
íoo , demandou comíTelho aaquelies com que le achou , e el- 
les coníTelharomno que fe partiíTe ; e alli dcfacompanhado fe 
partio de noite , e foi amanheeçer em Sam Felizes dos Gal- 
legos , fenhorio de Caftella , que fom dalli oito legoas , fem 
levamdo mais em fua companhia que Garcia AíFoníTo , e Die- 
gafonfo 5 e quatro moços que hiam de befta : e aíli fem mais 
gente chegou a cafa da líFamte Dona Beatriz fua irmaa , 
molher do comde Dom Samcho , aaquel logar de Sam Feli- 
zes , omde foi bern recebido, e feito gramde acorrimento. 

CAPITULO CVI. 

Como fe o Iffamte partio com temor pêra Caftella , e do 
qtie Je feguio em fua hida. 

OS defavemturados dos vaíTallos do líFante , que fe efpa- 
Iharom pellas aldeãs darredor daquel logar hu el ficara , 
por feerem melhor apoufemtados , quamdo veo na alva da 
manhaã começarom de guifar fuás fracas fazemdas , por cm- 
caminhar pêra hu leixarom o líFante ; e elles himdo pello 
caminho , acharom huum Fernam Gallego feu manteheiro , que 
lhes diíTe como o líFante era partido, e de que guifa , o qual 
lhes mamdava dizer , que fe o amavom , que o nom foíFem 
mais buícar , mas que fe tornaíTem todos cada huum pêra hu 
melhor emtemdeíFe , e efto por efpaço dhuum pouco de tem- 
po ; ca nom tardaria mujto que cedo dei nom foubeíFem no- 
vas , e que emtom quem lhe boom defeio teveíFe , que o fe- 
guiíFe homde quer que el foíTe. Eíla meíFagem foi ouvjda 

com 






d*elRei D. Fernando. ^f^ 

com grimde ('' door elaftima, e a repofta dada com taaes ra« 
zoóes e plamto (^^ , que nom avija homem que os í^^ ouvifle , quÊ 
delles nom ouveíTe piedade. Os braados e choro era mujto^^^* 
depenamdoíTe , e damdo gramdes punhadas no roftro ^ e fazem-» 
do fuds faces taaes , que todas eram tornadas em fim/^ue. 
Durou efto per gramde efpaço , como quem nom tijnha que 
os eítorvaíTe ; e caníTaço e mimgoa de falia os fez çeíTar de 
fuás dooridas vo2es: duas grandes preíTas^^? os movia a fazer 
ifto , a primeira fuidade e bem queremça, que aviam de feu 
Icnhor, por lhe feer graado e liberal j e mujto prazivel com* 
panheiro ; a outra , quamdo el fugia com tal reçeo de feef 
prefo ou morto , que he de cuidar que fariam elles , ou que 
cfperamça teeriam de fua vida. Emtom fe comfortarom huuns 
com outros, e forom todos arramados cada huum a lua par- 
te, como a frota das naves no mar , quando he perfeguidi 
de gramde tormenta. O Iffamte elteve com fua irmaã per 
tempo em aquel logar de Sam Fellizes , ataa que per feu boont 
aazo e emcaminhamento ouve recado e feguramça delRei de 
Caftella , que lhe prazia de o filhar em fua guarda e merçee j 
e foiífe pêra elle , de que foi bem recebido , e dos fenhores 
da corte, e poslhe elRei gramde poymento de dinheiros , e 
deulhe terras e fortellezas , e emcaminhoulhe fua vida aJQiz 
homrradamente. Emtom mamdou o lífamte a Portugal reque- 
rer os feus , que fe foflem pêra elle; e delles o fezerom, co- 
mo virom feu recado, outros nom curaram dello, teemdo ja 
acertado í^^ outros modos de viver. 



CA- 



CO muy gramde T. (2) e prantos T. (5) lhos T, (4) € choros erá muy- 
toi T. (5) preefas T. (6) açcytados T. 






3^0 Chronica 

CAPITULO CVII. 

Como morreo o Papa Gregório , e foi emlegido em feu 
logo Dom Bertollameu arçehijpo de Bairre , e cha- 
mado Urbano fext o» 

Ois que ja contamos o aazo da hida do líFamte Dom Jo- 
ham pêra Caftella , ora comvem que trautemos do feito 
da çifma , que fe em eíle tempo levamtou na egreia ; nom 
foomente por neçeííídade da eftoria , que nos coftramge fallar 
dello j fegumdo adeamte poderees veer , mas por nom mof- 
trarmos mimgua em noíTa obra , pois que os famofos eítoria- 
dores em fuás crónicas fazem delia meemçom. Aíli que nos 
em breve razoado (') , mais claro porem que elles, vos comitare- 
mos per bordem feu começo e fim qual foi, e quamto tem- 
po depois durou. Omde fabee , que feu feo naçi mento mujto 
davorreçer , ouve primçipio em efte modo. Seemdo Gregório 
Papa umdeçimo , e eftamdo em Avinhom com fua corte , veo 
per certo recomtamento a fuás orelhas , que alguumas cida- 
des e caftellos- de Itália fogeitos a elle no temporal e fpiri- 
tual , lhe revellavom de todo , de guifa que a feu mandado, 
nem de feus meíTegeiros quiriam obedeeçer. E a caufa defta 
revellaçom , fegumdo diziam , era por que o Papa e todos 
feus cardeaaes , que pella raayor parte eram Framçefes, lhe 
empoinham taaes emcargos e fogeiçoões , que as nom podiam 
mais foportar : por a qual razom o dito fenhor Papa , aos 
quatorze dias do mes de fetembro da era mil e quatro çemtos 
e quimze , partio daquella cidade Davinhom , e foiíTe a Marfc- 
Iha com feus cardeaaes , e dhi embarcou em gallees de Genoa , 
e foiíTe a Roma , pêra fojugar aquelles que lhe aíli revellavom : 
e no mes de março aosvijmte e fete dias , da erafeguimte de 
mil e quatro centos e dez e féis, morreo efte Papa Gregó- 
rio em Roma. Elle morto , ficarom em Roma dez e féis car- 

^___^ denaes 

QO razoado B. 



I 



d*£lRei d. Fernando. ^ ò,Gt 

dedae?;, a fabcr , doze ultramontanos , e os outros Iiallicos, 
aos quaaes perteemçia o dereito emleger. ; e jumtaromlTe ef-^ 
les cardeaaes em alguuns logares fallaiiido apartadamente , e 
aas vezes jumtos , qual delles foçederia em feu logo , e nom 
comcordavom em eleger peíToa ultramontaiia , a faber , de 
Framça , ou de Imgraterra , ou das Eípanhas. E faziam os ul- 
tramontanos de fi duas partes, huuma era dos cardeaaes de 
LemoniçeníTe , que he em Framça , a faber , o bifpo Prenelli-- 
no , e o cardeal de AgrifoUio , e outros ; eftes quiriam aver por 
papa o cardeal de Pictavia , ou fe quer o cardeal de Bivei^ 
/o, que ('J em Framça, que era da fua parte delles. A outra 
parte era dos Eramçefes , da qual era o cardeal de Jenevra ^ 
e o cardeal Pêro de Luna , e o fenhor dos Urííjms, e ou- 
tros : e alguuns Itallicos eílavom em íi meefmos , fem teer 
a huuma parte , nem aa outra. Os Framçefes comtemdiani 
daver por Papa o cardeal de Samto Eftaço , o qual diíTe 
huuma vez ao mayor fenhor de LemoniçemlH : » Eu vos 
>j digo que declarado he defta vez , que nom aja hi Papá 
» de voíTa terra de Lemoniçia , por que dizem que todo 
" o mundo fe agrava de feu fenhorio ?> : e dalli em deamte 
foi fua difcordia mais declarada , pêra trautar fua parte por 
os Itallicos, e creçerom amtrelles mujtas pallavras; por aazo 
da qual devifom fe ofereçeo aos Itallicos a parte dos Fram- 
çefes , dizemdo que amte quiriam Papa Itallico que da na- 
çom de Lemoniçia : e fabemdo efto os de Lemoniçia , logo 
catarom huum caminho de emganar os Framçefes , veendo 
que fuás vozes eram tam poucas , que nom podiam emleger 
Papa Francês, e concordarom amtreíli de emleger Dom Ber- 
tollameu arçebifpo de Bairre , e efto por emtemderem que a 
outra parte feeria em feu favor. E ette fegredo que os car- 
deaaes antre íl tragiam de emleger , nom foi porem tamto 
guardado, que o cardeal deCírifollio amte per dias que em- 
traíFem ao comclavj , nom diíFe huum dia a efte Dom BcrtoUa- 
meu , que cedo poeria fobre feus hombros huum niuj gram- 

de 

I ' i iiii I I m il I !■ I 111 p»»— — ly» 

(i) cjue he T. c[uee £, 



813^ Otí 



5^1 Chronica 

de carrego ; e iíTo mcelmo diíTerom em grnm fegredo os 
cardeaaes procuradores da Rainha da Puliia a Dom Tome , 
feu procurador , que eilomçe era em corte , como quiriam em- 
leger Dom Bertollameu arçebifpo de Bairre , e elle alli o cf- 
cpreveo aa Rainha fua fenhora , amre da emtrada do comclavj. 
Seemdo ja amdados oiro dias dabril , emtrarom es cardeaaes 
pella manhaã , fegumdo forma de dereito , no comclavj pêra 
emlegerem , como he feu coftume ; e o cardeal de Agrifol- 
lio , e o de PiciaviaC^, emquererom depois da emtrada, as 
emteençoocs e defeios do cardeal de Sam Pedro , e doutros , 
e acharom que feu defeio e emteemçom era de emleger o ar- 
çebifpo de Bairre ; e comtamdo as vozes que eram por fua 
parte , acharom que àvja hi que avomdaíTe , pêra o comfirmar 
em Papa, Em ello o poboo Romaao começarom de fe alvo- 
raçar , delles^ armados e outros fem armas , como alguum.as 
vezes fooem de fazer ; e foromfe ao paaço omde eftavom os 
cardeaaes , braadamdo com gramde arroido , que lhes deíTem 
Papa Romaão , ou ao menos Itallico, Eftomçe o cardeal de 
Sabina diíTe aos outros cardeaaes : »> Senhores , fejamos logo , 
5) que creo com a ajuda e graça deDeos, que comcordare- 
99 mos cedo , e emlegeremos Papa 5>. ?> Nom aíli , diíFe o car- 
» deal Durílijns , mas efpaçemos efta emliçom , e emganemos 
5> ettes Romaãos , que pedem Papa natural de Roma , e fim- 
5> gamos que ja emlegemos huum frade de Sam Framçifco , 
?> que vos eu nomearei , e viílamoslhe a capa e a mitra ; e 
í5 depois quamdo quizermos , faremos a emliçom ?>. O cm- 
deal de Preneílina , e outros diíTerom , que efte nom era 
boom comíTelho , por que per tal camjnho trageriam o po- 
boo criftaão a feguirem ydollatria : » mas venhamos aa em- 
3j liçom j diífe elle , em quamto nos nemguem nom torva , e 
j> nom curemos do clamor do poboo , do qual por hora nom 
99 devemos de curar j>. PaíTado efto , começarom de trautar da 
emliçom , e diíTerom que fallaíTe logo o cardeal de Fiorcm- 
ça , que per dereito tijnha a primeira voz ; e fua emteem.çom 

• íoi_ 

(O Preetanya 7. 



d'elRei D. Fernando. 3^3 
foi de guiar os cardeaaes a emleger o cardeal de Sam Pedro ^ 
e lhe deu em tom fua voz : os outros diíTerom que aquel 
cardeal era defaazado , e nom apto pêra os trabalhos do pa- 
pado , pormujtas razooes ; e nom fallarom mais em elle. Efto 
dito, guiarom todollos daquella parte fuás vozes em Dom 
Bertollameu arçebifpo de Bairre , e outros alguuns de Itallia , 
e acharom que concordarom com elle mais que as duas par- 
tes das vozes. Em efto creçemdo o arroido e volta das gera- 
res cada vez mais , cuidamdo os cardeaaes que vijnham pê- 
ra os coftramger que fezeílem Papa comtra fa voomtade , 
apartaromfe na capella do comclavj , e diíTerom que fimgef- 
fem que era emleito o cardeal de Sam Pedro , e lhe fezef- 
fem reveremça e obediemçia come a emleito ; mas mujtos del- 
les nom comíTemtirom em ifto , amtre os quaaes foi o car- 
deal Pêro de Luna , que dilTe que amte quiria morrer, que 
fazer reveremça a nom verdadeiro Papa , dizemdo : *> Nom fa- 
>j rei bezerro que adore o poboo , nem abaixarei os geolhos 
55 ante o idoUo Baal : huum deve feer verdadeiro Papa , e 
>j nom dous ». Pêro com todo ifto diíTerom os cardeaaes ao 
poboo 5 que o cardeal de Sam Pedro era emleito , mas nom 
queria comíTemtir na emliçom : eftomçe os Romaáos foram 
írigofamente a elle, e tomaromno pêra o aíTemtar na feeda, 
e pêro elle dizia e braadava : jj Leixaaime , que nom fom Pa- 
» pa , ca o arçebifpo de Bairre avees por Papa » ; com aquel 
alvoroço em que amdavom , nom curarom deíTo , mas aíTemta- 
ronoí'^ fobre a feeda como Papa, nom lhe fazemdo porem 
reverença , nem mais outra coufa : eftomçe fe partirom dalli 
aquellas gentes , e ficarom os cardeaaes no comclavj. Cele- 
brada efta emliçom do arçebifpo de Bairre , teverom os car- 
deaaes comfelho fe era bem de a pubricarem , e comcludi- 
rom que nom , por quamto nom cuidavom de fatisfazer aa 
poboo per tal emliçom do dito arçebifpo ; e nom a pubri- 
cando per íinal nem per feito , emviarom por elle , e manda- 
romlhe dizer que veheíTe com outros prellados , e fímgeíTe que 
Tom. IV, Zz ns 

(i) afemcarãno 7". 



3^4 Chronica 

os mandavom chamar, pêra aver comelles comíTclho. Veo el- 
le com outros , e eftando aílí , era ja ora de comer , e diíTe- 
rom os cardeaaes que comeíTem , e comerom os cardeaaes a 
huma parte , e os prellados a outra ; e depois que comerom , 
tornarom outra vez aa emliçom , e propoferom alguuns dizetn- 
do : " Senhores , bem fabees como oje pella manhaá cmlege- 
>9 mos o arçebifpo de Bairre , e por que alguuns duvidavom 
3> na emliçom , por razom do arroido dos Romaãos , agora nom 
>j pode nenhuum allegar clamor nem torvaçom , por que todal- 
í> las coufas por o prefente fom em paz ; poremde veiamos o 
í> que qucrees fazer 5>. Eftomçe mais que as duas partes ou- 
tra vez emlegerom o dito arçebifpo de Bairre, dizemdo que 
aquelle foífe verdadeiro Papa. Depois daquel fimgimento e 
emcuberta que fezerom , partiromÂe quatro cardeaaes da ci- 
dade , pêra alguuns logares de que comfiavom , e féis delles 
emtrarom no caftello de Samtamgello , por que era forte , e 
outros féis ficarom em fuás cafas ; os quaaes paífada huuma 
fomana depois da emliçom , chegarom ao paaço , homde efta- 
va o Papa aílí come efcomdido ; e os oíEciaaes da cidade em- 
formarom o poboo , que o cardeal de Sam Pedro nom era 
emleito , por nom feer tal que foportaífe os emcarregos do 
papado , mas que o era o arçebifpo de Bairre , homem de 
boa vida , leterado em theologia , e difcreto , e muj prudcm- 
te nos feitos da corte, e bem aazado pêra feer Papa , como 
outro hi nom avia ; e aílí apaçiíicarom o poboo. E fabcmdo 
eito QS féis cardeaaes que eftavom no caftello de Samtamgel- 
lo , veheromfe pêra o Papa , e aílí todos doze veerom aa ca- 
pclla do paaço , e o chamarom Papa ; e aílí como verdadeira- 
mente emleito , o reçeberom amtreílí , e lhe moftrarom a em- 
liçom , demamdamdolhe que comífemnífe em ella : c el rcçe- 
bcmdo a emliçom , poferom o dito arçebifpo na cadeira , 
chamandolhc Urbano fexto , e aílí o pubricarom ao poboo , 
fazemdolhe gram follempnidade em fuu coroaçom. 



CA- 



sia^ 



-W>^! 



Ol 



I 



d' E L R E I D. F E R N A N D o. S^S 

CAPITULO CVIII. 

Como fe alguuns cardeaaes partlrom do Papa Urbano ^ 
e emlegerom outro , que chamarom Clemente fept imo, 

EStamdo o Papa Urbano em Roma daíTeíTego com feus 
carcieaaes , efcrepveo aos Reis e Príncipes criftaãos , e 
cmviou fcus embaixadores a al^uuns, fazemdolhe faber('í co- 
mo depois da morte do Papa Gregório , el fora emlegido por 
paftor da egreia , e que lho noteficava como era de razom : 
e mais lhe fazia faber,que fua voomtade era trautar quamto 
podeíFe , pêra poer paz antre todollosReis criftaáos , aimda 
que per feu corpo compriíTe , e foíTe neçeíTario de trabalhar 
em ello : e que feu defeio era mais hordenar , que el e os car- 
deaaes feguiíTem boa e honefta vida , naquella maneira que 
os dereitos mandam , e que elles eram theudos de fazer: ou- 
tro ÍI que todollos Reis e Rainhas criftaãos , e feus primogé- 
nitos filhos 5 folTem cada huum anno veftidos de fua livree , 
que era collor vermelha; e logo por começo defto, emviou 
a alguuns (=í certas peças dezcarllata , pêra cada huum fua , di- 
zcmdo em fuás cartas , que efto lhe nom emviava por tal 
coufa feer gramde dom , mas por íinal de gramde amor ; e 
que feu tallamte era de dar as dinidades e benefícios aos na- 
turaacs de cada huum reino ^ e nom aos eftramgeiros. E pê- 
ro eftas coufas foíFem boas e oneftas, que o Papa Urbano 
hordenava , teveromlhe porem gram dampno , por que as 
tam cedo começou de pubricar e poer em obra ; ca el co- 
meçou de feer comtra os cardeaaes rigorofo e afpcro j rcpre- 
hemdemdoos alguumas vezes que viveífem pobres e oneftos , 
como theudos eram ; e elles rcçeamdo , fegumdo afirma a co- 
muum fama, que o Papa ao diamte mais rijo proçedeíTe com» 
tra elles , do que eftomçe começava , paífados quatro mefes e 

Zz ii mais 

(i) fazédolhes a faber T. (í) emviou alguúas B* 




^66 Chronica 

mais que comei eftavom , leirarono ('^ treze cardeaaes , cujos 
nomes e dinidades nom curamos de dizer , e foromííe pêra 
iiuum logar que chamam Anavia í^^ do condado de Fumdis , e 
dalli lhe eícpreverom huuma carta, cuja comclufom era efta: 
39 Que elles em Roma per morte do Papa Gregório , emtran- 
55 do no comclavi pêra emleger, veera fobre elles o poboo ar- 
55 mado 5 dizemdo que emlegelTem PapaRomaao ou Itallico , 
55 fe nom que per fuás maaos avcriam morte ; e que elles per 
55 leu aíicamento , e comtra fua voomtade , por efcapar aa fa- 
55 nha de tamta multidom , de praça o emlegerom : cuidamdo, 
55 fcgumdo prefomiam de fua vida e conçicmçia , que el nom 
55 açeptaria tal homrra e dinidadc , pofto que emlegido folTe^ 
55 e que çeíTamdo o arroido , nom açeptado per elle a alteza 
>5 de tal eftado , que eftomçe emlegeriam quem lhes prouvef- 
99 fe. Masque ora em cima de feus dias, poílo atras feu dcf- 
55 prezamento do mundo que amte moílrava , açeptara a emli- 
T> çom que lhe fora feita , feemdo coroado e follempnizado 
35 por Papa como nom devia , queremdo feguir a vaãgloria do 
55 mumdo , fem curamdo da laude de fua alma , nem do poboo 
55 criílaão : e que porem o amoeftavom , que leixaíTe ahom- 
55 rra e dinidadc , que ocupava como nom devia , e averiani 
99 com el miíericordia ; doutra guifa procederiam comtra elle , 
99 nom avemdo delle depois piedade , poílo que requeriífe per- 
55 dom 55. o Papa quando vio fua fugida delles , e a carta que 
lhe mandavom , fezeos citar per luas leteras , e nenhuum nom 
foi peramtelle ; por a qual razom os efcomungou da mayor 
iefcomunhom , e os privou dos cardcallados , e fez outros car- 
deaaes de novo, damdoos por çifmaticos e membros talhados 
da egreia ; outorgamdo a todos aquelles que lhe fezclFem 
guerra , aquelles privillegios e perdoaniças ('^ , que o dereico 
outorga a todollos que vaao cooitra os emmijgos da fe , em 
ajuda de tomar a cafa famta. Os cardeaaes outro íi privarom 
el dalguum dereito, fe o no papado tijnha, e emlegerom logo 
por Papa Dom Roberte cardeal de Genevra , paremte delRei 

de 

{^i) leixaranino T. Ict-xarono £, (2) Ananya 'Z, (jj pcrdoanças T. B, 






d' E L R E I D, Fernando. 3 (>7 

de Framça, e chamarono ('^ Clemente feptimo : por a qual cou- 
fa , çiffna e gram deviíbm foi geerada na egreia de Deos , per 
cujo aazo mujtas mortes c batalhas , guerras e gramdes dif- 
cordias forom depois geeradas emtre os crillaãos , de que 
nenhuuns dos fobreditos pouco cuidado teverom. Em ifto os 
cardeaaes com aquel Papa que emlegido tijnham , nom feem- 
do feguros do poder dos Romaãos em aquel logar de Anania 
hu eram, partiromlTe pêra a cidade de Neapolli , avemdo pri- 
meiro falvo comducro de Dona Johana , Rainha emtom da- 
quella provemçia ; na qual eílamdo per pouco tempo , Pêro 
Bcrnalldez , coíTairo Daragom , chegou hi ^ com gallees ar- 
madas, c foilhe dada certa comthia , que os trouveíTe aa ci- 
dade Davinhom , homde forom tragidos fem torva de ne- 
iihuuni , e eftevcrom depois per tempo, 

CAPITULO CIX. 

Efcufaçom àejles cardeaaes por que emlegerom Papa^ e 
repojla a duas razooes fnais fortes das fuás. 



D 



E tal devifom e çífma como eíla , forom muj efpamta- 
dos quamtos ho ouvirom ; e fallanido ém ello , ríom feiti 
razom deziam : qual he o chriítaâo que aja fe , pofto que feia 
pequena , que fe nom efpamte de tal feito como efte : ho- 
meens tam leterados c aíli difcretos , perverteerem feu boo 
juizo , de guifa que levamtarom tal error na egreia de Deqs, 
partiromlTe dos outros cardeaaes feus írmaãos , e per feu (oo 
íífo fezerom outra emliçom , criamdo outro Papa aalem do 
primeiro , moftramdolTe fem culpa por duas razooes de fraco 
fumdamento : a huuma , dizemdo que por eícapar de morte , 
emlegerom em Papa efte Dom Bertollameu arçebifpo de Bair- 
rc : a outra , cuidamdo que elle era de tal condiçom , c afli 
devoto , que mais peníTando na morte que feer Papa , nom 



a- 



(i) e chamaráno T, 



6ia\T OT 



3^8 Chronica 

-açcptíiria tal emliçom , qiiamdo lhe notificada foíTe. Mas ne- 
nhuum homem de faão comíTelho era comtento de tacs efcu- 
fas , dizemdo que íc clles com medo e por efcapar de mor- 
te , emlegerom Papa como diziam , emlegeromno depreíTa e 
na voomtade dos Romaãos , natural de Roma ou Itálico, como 
lhe per elles era pedido ; mas emlegerom per proçeíTo de 
gramde eípaço huuma vez , e depois outra j emqueremdo da 
melhor pcíToa, c mais certa nos negócios da corte ; e acharom 
que elte Dom Bertollameu era eftomçe conhecido por mais 
proveitofo pêra a egreia de Deos , que outro nenhuum de to- 
dos elles. De mais que dereitamente medo nom he , falvo 
■quamdo hc feito per tal guifa , que fe nom pode emcobrir 
per nenhuumas razoões; aíH como fe elles forom tomados pel- 
las capas forçofamente , e com prema , e per gram medo os 
trouvcíTem a tal cuidaçom", que nom fazemdo o que lhe re- 
queriam , nom avia em elies ai fe nom morte. E ello foi 
mujto per o comtrairo , ca elles í'^ numca lhe diíTerom , nem 
«rnandarom dizer , pallavra dameaça , nem medrofa ; amte fazem- 
dolhes reverença , emtrarom no comclavj , dizemdo lhe que 
emtemdiam por prol da egreia feer por aquella vez feito Pa- 
pa Pvomaáo , ou Itallico ; e que por quanto lhes diíTerom que 
elles queriam fogir da cidade , e hir emleger a outra parte, 
que por tamto fe jumtara aííí aquel pohoo , e emtrarom da- 
quella guifa pêra lhes dizer, que de todo em todo emlegef- 
iem , e nom partiífem dalli ataa que lhes deíFem Papa. E fe 
por medo fora emlegido , quem os forçou depois a fe vijm- 
rem em outro dia pêra elle, e lhe veílirem veftiduras de Pa- 
pa , fazemdolhe reveremça , e moflramdo obediemçia qual de- 
viam a feu prellado , e efcprevemdo fuás cartas ao Empera- 
dor , e Reis, c Primçipes chriftaaos , como efte Dom Bertola- 
meu aviam emlegido e criado canonicamente em Papa, por 
•verdadeiro paftor da egreia. E fe o por medo emlegerom , e 
nom aviam por verdadeiro Papa, quem os colhangeo a gaa- 

nhar 

Cl) caa a cllcs Tl 



i 



d' E L R E I D. F E R N A N D o. 3 ^p 

nhar delle graças e benefícios , pcra íi , e pêra fcus fervidores e 
amigos ; e lhe aprefem tarem rotullos e foplicaçoóes , impe- 
tramdo delle graças na forma que fe colluma demandar , 
chamamdolhe emolias famtiílímo e muj alto paftor da egreia, 
ofereçemdolhas com aquella hordenada reveremça , que tem 
cm coftume de fazer a feu fenhor , gaanhamdo delle que po- 
deíTem cmlcger comfeíTor , que os compridamente afolveíTe , 
avenido defto leteras bulladas , de que hufarom em foro de 
comçicmçia , himdo ao comíiltorio em fua companhia , e fer- 
vimdoo em feus offiçios quamdo dezia miH^a , comverfamdo 
com elle come verdadeiro Papa , da guifa que fempre foi 
coftume de fe fazer em todallas coufas ; e depois de quatro 
mefes que efto alli fezerom , fe partirom delle , e fe forom 
pêra aquel logar que ouviftes , e emlegerom outro Papa aa 
fua voomtade , leixamdo as comçiemçias dos chriftaaos em 
imfíindas duvjdas e defvairadas cuidaçooes ; pofto que mujtos 
doutores gramdes leterados , per certas e fortes razoóes pro- 
vaíFem afaz claramente em feus trautados , que fobrefto feze- 
rom , efte Urbano feer verdadeiro Papa , e nom outro ; afli 
como Joham de Liniano , e Bertollameu deSaliçeto e outros, 
que lomgamente arguimdo fobrefto , determinarom a verdade: 
das quaaes o modo deftoriar nom comlTemte , nenhuuma del- 
ias feer aqui pofta. \ 

C A P I T U L O CX. 

Da guerra que fe começou amtre Cajiella e Navarra , e 
da morte delRei Dom Hemrrique. 

LEixamdo mais fallar de taaes feitos , cujo proçelTo feeria 
muj longo 5 ao feito dos Reis que leixamos , tornemos 
noíTo razoado : e pofto que amtre elRei de Caftella e elRei 
de Portugal nenhuuma coufa mais avehelTe , do que amtes teem- 
des ouvjdo j da morte delRei Dom Hemrrique queremos di- 
zer 



SI-IH OT 







270 C H R o N I C A 

zer , por faberdes de que guifa foi. Omde aveo (') que elRei de 
Navarra quifera trautar com os Imgrefes de feer em fua aju- 
da comtra elRei de Framça , nom embargamdo o divcdo que 
com el avja , ca eftava elRei de Navarra caiado com fua ir- 
maã; e foubeo elRei de Framça , e perçebeoíTe dello , e em- 
viou rogar a elRei Dom Hemrrique , que em cfta fazom ef- 
tava em Sevilha, que tevcíFe defto fentido por a amizade que 
ambos avjam , e elRei Dom Hemrrique ouve queixume del- 
Rei de Navarra , e propôs logo de lhe fazer guerra. Hora 
foi aílí 5 que amte deílo elRei de Navarra cometia Pêro Manrri- 
que adeamtado moor de Caftella , que lhe delTc a villa do 
Gronho de que era alcaide , e que lhe daria vijnte mil do- 
bras 5 e elRei Dom Hemrrique fabia defto parte ; e quamdo 
vio aquel recado de Framça , mamdou dizer a Pêro Manrri- 
que, que diíTeífe a elRei de Navarra que lhe quiria dar a vil- 
la 5 e que ouvelTe as dobras delle , e que fezelTe mujti por o 
tomar demtro. Pêro Alanrri que fez faber a elRei de Navarra, 
que avia cuidado no que lhe cometer mamdara , e que lhe 
prazia de lhe emtregar a villa , damdolhe alguumas dobras 
das que lhe mandara prometer : a elRei prougue mujto , e 
jumtou quatro çemtas lamças , c chegou com ellas acerca do 
Gronho , e mandoulhe per huum feu parte das dobras que 
lhe prometidas avia. Pêro Manrrique tijnha afaz de gem-- 
tes no logar , e mais féis çemtas lamças que eftavom cm 
Navarrete , duas legoas dhi , de que era capitam Pêro Gom- 
çallvez de Memdomça , fazemdo moftramça que eft-ivora 
comtra Pêro Mamrrique. ElRei de Navarra pêro tijnha gram 
cobijça de cobrar o logar , dovidava fe lhe faziam efto 
por arte , e chegou ataa pomte do Gronho , e fez em ti ar 
íuas gemtes demtro; e Pêro Mamrrique os colheo muj bem, 
e lhe fez dar poufadas , e fahiu fora a elRei , pedimdolhe 
por merçee que emtraífe : elRci de Navarra nom fe íianido 
defta cavalgada , peníFou que pois os feus ja eram dtMntro , 
que logo fe pareceria (^^ fe em eftc feito avia alguuma hulrra ; 

(1) Homde avees de faber T. (2) ^ue ioguo pareçena J. 



D*É lReÍ d. FeRIÍAnDÓ* ^71 

e nom quis eftomçe emtrar , amte fe arredou da poínte ^ di-« 
í/.emdo que em outro dia vijmriam pêra emtrar dentro* Perd 
Mamrrique quamdo vio que elRei duvjdava de emtrar ^ tor-* 
nouíTe apreíTa pêra a villa ; e como emtrou , fez premder e 
roubar todallas gemtes delRei de Navarra ^ e foi a guc rra per 
aqui defcuberta. ElRei Dom Hemrrique mamdou logo o líFam* 
te Dom Joham feu filho , com muitas gemtes , que emtraíTem 
per Navarra , e levava quatro mil lamças j e muita gemte de 
pee e beefteiros í'^; e ouve elRei de Navarra féis çemtas lam- 
ças de Imgrefes a folldo , que emtravom per Cailelia com 
os Navarreíes : e o líFamte Dom Joham depois que tomou ai- 
guuns logares em Navarra y tornouffe por razom do imverno 
que era gramde , ca era efto no mez de dezembro , e chegou 
a Tolledo j homde elRci Dom Hemrrique eftava ; e dalli 
partio elRei , e foilTe pêra Burgos ; e alli fez outra Vegada 
jumtar fuás gentes, pêra o Tflfamte emtrar per Navarra ; e el^ 
Rei foube defto parte , e emvjou di'Zer a elRei Dom Hem- 
rrique , que quiria com el aver paz ; e veherom por embaxa- 
dores Dom Ramiro Sanchez Darelhano ^ e huum prior de Ro- 
çavalles. A elRei Dom Hemrrique prougue com elles, e trâu- 
tarom fuás amizades, ú. faber, que elRei de Navarra emviaf-^ 
fe os capitaães Imgrefes fora de fua terra , e que elRei Dorií 
Hemrrique lhe empreftaíFe vijmte mil dobras, pêra paga do 
folldo que lhes devia , e aílí outras comdiçoóes que nom cu- 
ramos dizer. Dalli fe partio elRei Dom Hemrrique pêra huU* 
ma fua cidade , que chamam Sam Domingos da calçada ^ e 
alli veo ElRei de Navarra , que foi delle bem recebido ^ e 
ratificarom feus trautos e amizades; e eítevê hí féis dias, e 
tornouíTe pêra feu reino. E elRei depois de fua partida , co- 
meçou de fe fcmtir mal • e aficou ho a doof de tal guifá ^ que 
huuma fegumda feira aos vijmte e nove dias de mayo , requi-* 
rio o facramento , e a humçom 5 e depois aíTemtouíTe na canta 
acoitado , veftido em panos douro , e diffè prefemte os que hi 
eftavom : >> Dizee a meu filho o líFamte Dom joham , que en* 
Tom, IV. Aaa »> ra- 

■ ' i- I I ■■ I I ' I I I ll« I I !■ 

(i) e beftaria T* * 



272 t-.HRONlCA 

5j razom da çifma da egreia , qut aja booin ccrr.íTelho como 
99 deve fazer , por quamto he cafo muj p cri j golo. Outro íl 
5> que lhe rogo , que fempré feia amjgo' da cafa deFrar/.ça, 
)> de que eu recebi mujta ajuda: e que lhe in ando , que to^ 
?5 dolios prifoneiros Imgrefes , e Portuguefcs , e doutra cualt- 
» quer naçom , que todos feiam folhos >». Em cfto aficam- 
doíTe a alma pêra partir do corpo , veftirom lhe huum avito 
da hordem de Sam Domimgos ; e seemdo ja duas oras am- 
dadas do dia , acabou fua vida e deu o fprito, avemdo qua- 
remta e féis annos e çimquo meíes de fua hidade , e treze 
annos e dous mefes que fora alçado por Rei em Callaforra , 
e morreo na era de mil e quatroçemtos e dczaseis annos. E 
por quamto neefte mes que el morieo , treze dias amte que 
finaíTe , aos dezafeis do dito mes , foi huum gramde eclipfe 
depois do meo dia , que parecia a todos que era noite , de 
guifa que fogiam as gemtes fora dos muros dos lugares hu 
viviam , diíTeram muj tos que fe fezera por fua morte; mas os 
emtemdidos moftravom , que os eclipfes fe fazem per obra de 
natureza em certos tempos , e^ que aqael eclipfi nóm fora 
feito por aazo de fua morte , mas que el acertara de- fe finar 
naquel tempo , que o eclipfi avija de feer. 

CAPITULO CXI. 

Como reinou elRei Dom^obam de Cajlella ^ e lhe na- 

ceo huum filho , que ouve nome Dom 

Hemrrtque^ 

Finado elRei Dom Hemrrique , foi alçado por Rei na ci- 
dade de Sam Domimgos da calçada o Iffamte Dom Jo- 
ham , feu primogénito filho , naquella íegumda feira que feu 
padre morreo , e foi efte Rei Dom Joham o primeiro que 
ouve aílí nome, dos Reis que reinarom emCaftella; e come- 
çou de reinar em hidade de vijmté e fete annos e dous me- 
fes 



sia^ or 



d'elR>:i d. Fernando. 375 

fes e mco , e no mes de julho feguimte em dia de Samtiago 
se corohou , acerca de Burgos ^ em huum moefíeiro de donas 
que chamem as Olgas ; e fez em cíTe dia coroar a Rainha 
Dona Lionor fua molher, filha delRei Dom Pedro Daragom , 
e armou çem cavalleiros , filhos de ricos homeens e fidallgos 
de feu reino , e forom cíTe dia feitas gramdes feftas demtro 
na cidade de Burgos. Hora fabee , que em efta fazom que 
elRei Dom Hemrrique feu padre morreo , tijnha armadas oi- 
to gallees , e cimquo que lhe elRei Dom Fcrnamdo de Por- 
tugal dava em ajuda, e eftavom todas treze emSamtamder, 
pêra hirem em ajuda delRei Karllos de Framça , que avija ef- 
tomçe defvairo com elRei de Himgraterra , fobre coufas que 
dizer nom curamos. E quamdo as gallees de Portugal soii- 
berom como elRei Dom Hemrrique era morto , partiromíTe 
da companhia das outras, e veheromlTe peraLixboa. O ca- 
pitam das gallees de Caftella quamdo ilio vio , emviou di- 
zer a elRei feu fenhor, como as gallees de Portugal eram 
tornadas , e como era fua merçee de fazer ; e el lhe mam-^ 
dou , que com as fuás oito foíTe em ajuda delRei de Framça : 
e forom alia , e tomarom quatro barchas de Imgrefes , que 
amdavom darmada, e fezerom alguuns outros nojos ; e gra- 
deçeolhe mujto elRei de Framça efta ajuda, e firmarom feus 
preitos e aveenças , ficamdo mujto amigos, e liados em huum» 
E naçeo em efte ano a elReiDomJoham de fua moIher,huum 
filho que ouve nome Dom Hemrrique , o qual natureza apre- 
fcmtou a efte mundo na cidade de Burgos , quatro dias do 
mes doutubro , e foi depois Rei de Caftella , como adeam- 
te ouvirees. 



Aaa ii C A- 




^74 CiHHONICA 

CAPITULO CXII. 

Como fe tr atitou cafamento antre a Iffamte Dona Bea^ 
: triz de Portugal , e o Iffamte Dom Hemrrique , 
Jilho dei Rei ^'^ de Cajlella. 

O ano feguimte de quatro çemros e dezooito , eftando 
elRei de Caftella em Sevilha, depois que ouve arma- 
das vijmrc gallees pêra mamdar em ajuda dclRei de Fram- 
ça , e com ellas por^capitam Fernam Samchez deThoar, 
das quaacs armava elRei de Framça dez aa fua cu lia , fegum- 
do os trautos que avija amtrclles ; partio clRei daquclla ci- 
dade no mes de mayo , e amdamdo per feu reino , chcga- 
rom aa villa de Cáceres do bifpado de Coyra , omde el 
por eftomçe eftava , Domjoham AíFoníTo Tello, comde Dou- 
i^em, e Gomçallo Vaafquez Dazevedo , fenhor daLourinhaã, 
cmbaxadores delRei de Portugal , pêra trautarem cafamento 
amtre a Iffamte Dona Beatriz , filha delRei Dom Fernamdo ^^\ 
e o Iffamte Dom Hemrrique , feu primogénito filho ; dizen- 
do que por ferviço de Deos , e bem de paz e de concórdia , 
que fe desfezeffem os efpofoiros da dita Iffamte com Dom 
Fradarique , Duque de Benavente , feu irmaão , com que 
eftava efpofada , fegumdô amte tecmdcs ou-vido , e que 
cafaffe com efte feu filho ; pois que a Iffamte ainda era 
mcor de hidade , e o podia bem fazer. A elRei de Caftcl- 
b prougue dello , e trautarom fuás aveemças cm razom def- 
tes efpofoiros , e outras coufas , febre as quaacs cffc Rei 
de Caftella emviou logo feus embaxadores a elRei de Portu- 
gal , a faber , Dom Joham Garcia Manrrique , bifpo de Sc- 
gomça , chamceller moor dclRei , c Pcro Gomçallvez de 
Memdomça 5 feu camareiro moor, e Inhcgo Ortiz Dcftunhe- 
ga , fua mayor guarda í^^ E chegarom aa villa dePortallcgrc, 

om- 

(i) delRey Dom Joham T. (2) Dom Fernamdo de l-'ortugal 7. (,5) sua 
goardnmoor T. 






I 



d'klRei d. Fer'nando# 375' 

omde elRei Dom Fernamdo era eftoniçe ^ e trautarom e fir- 
niirom com elle , <|tue quamdo o IfEvmte Dom Hemrrique 
■chegníTe a hidade defere anos, que elRei fen padre fezcíTe 
tie guifa , que efpofaíTe com a líramte fua filha per pallavras 
de prefcmte ; e quando vchcíTe a hidade de quatorze , que 
fezeíTe fuás vodas com ella de praça : e que elReí de Caf- 
tella no mes de fctembro hordenaffe cortes em feu reino , nas 
xjuaaes fezcíTe receber por Rei e por Rainha , depôs fua mor- 
te 5 o dito feu filho c a dita líFante ; ecju-e ouveííe defpemíTa- 
çom do Papa pêra poderem cafar. Eque daria logo ao ííFam- 
te feu filho Lara c Bizcaya , com feus comdados. E a líTamte 
vijmdo a fcer Rainha , avia daver todallas villas e cidades quê 
^as Rainhas de Caftella coftumarom daver ; e acomteçemdo 
morrer o dito lííamte , teemdo ja ávido com cila jumtamento , 
que ella ouveíTe por homrra de feu corpo, Medina dei Cam- 
po , e Calhar, c Madrigal , eOllmedo , e Arevollo E mor- 
rendo o dito Ifamte fem avemdo delia filho, ou nom fe fa- 
zcmdo ocafamenio,, fem aazo e culpa delia, e morremdo el- 
Rei Dom Fernamdo , e nom leixamdo filho herdeiro , que 
elRei de CaftcHa ajudaíTe a cobrar o reino aa dita Iffamte ^ t 
mantcer em fua hana-ra. E por quamto elRei de Caftella e 
felRei de Portugal eram primos, filhos de irmaãos , ca elRei 
Dom Fernamdo era filho de Dona Coftança , moiher que fo- 
ra dei Rei Dom Pedro de Portugal , e elRei Dom Joiíam fi- 
lho da Rainha Dona Johana , moiher que fora delRei Dom 
Hemrrique feu padre , as quaaes forom ambas irmaas , filhas 
de Dom Joham Manuel ; por iíTo hordcnarom os Reis antre 
fi , que pois huum do outro era mais chegado parem te , que 
cada huum avija , feemdo da parte dos padres ivo terceiro 
graao , e da parte das madres primos com irmâaos ; que a- 
vijmdo cafo , que de nenhuum delles fofi;e achado per linha 
dereita deçcmdcmte barom ou fêmea ^lidemamcnte nado , que 
eftomçe elRei de Caftella podeíTe herdar os reinos de Portu- 
gal , ou clPvei de Portugal os reinos de Caftella. E por eftas 
c outras coufas, que amtre os Reis forom devifadas j feercnt 

mais 



oc 




^y6 Chronica 

mais firmes , pofto que abaftamtes efcripturas fobre todo fof- 
lem feitas ; hordenarom , que amte do mes de mayo feguim- 
te fe viíTem ambos peíToalmente , pêra fallar e aprovar mais 
firmemente todallas coufas , que per feus procuradores eram fei- 
tas e determinadas ; poemdo clRei de Portugal em arrefeens , 
por feguramça deitas viftas , o caílello de Portallegre , e o 
Dolivemça , os quaaes tevcíTe o dito comde , e Gomçallo 
Vaafquez ; e elRei de Caltella, Alboquerque, e Vallemça Dal- 
camtara , que teveíTe Pêro Gomçallvez de Memdoça , e Inhe- 
go Ortiz Deftunhega. Defpois dcfto no mes fcguimte dagof- 
to , chegarom aa cidade de Soria Dom Aífonfo , bifpo da 
Guarda , e Hamrrique Manuel de Vilhena , fenhor de Caf- 
caaes , e o doutor Gil DolTem , e Rui Louremço, dayam de 
Coimbra ; e difíerom a elRei de Caftclla , que fegumdo os 
trautos que amtrelle e elRei Dom Fernamdo feu fenhor 
avia , que el devia de fazer cortes ataa primeiro dia de fe- 
tembro , nas. quaaes todollos fenhores , e fidallgos , e cida- 
des, e villas de feu reino í'í aviam de fazer menagem , pê- 
ra guardarem aquelles trautos na maneira que forom devi- 
fados , e que prougueíFe aa fua real alteza de o mamdar 
alli fazer. ElRei diífe logo , que lhe prazia , e que feem- 
do ja defto avifado , o notcficara per todo feu reino , e 
dera por procuradores ao líFamte Dom Hemrrique feu fi- 
lho , pêra em feu nome receberem taaes menageens , Pê- 
ro Gomçallvez de Memdoça , e Pêro Lopez Dayalla , feu al- 
ferez moor. Emtom forom alli feitas cortes , prefemte todol- 
los prelados , e fenhores , e fidallgos , per fi e Í'J per feus pro- 
curadores , e iflb meefmo das villas c cidades de todo o rei- 
no ; e todos fezerom preito e menagem, de guardarem com- 
pridamente todallas coufas em aquel trauto contheudas : e fei- 
tas defto e doutras coufas pubricas e abaftantes efcripturas , 
hordenou elRei de mamdar a Portugal , pêra receberem ou- 
tras taaes menageens em femelhantes cortes , Dom Gomçal- 
lo , bifpo de Callaforra , e o dito Inhego Ortiz Deftunhega , 

e 
(i) de seus reinos T. (2) per fi ou £. 



d'£lRei d. Ferna"tjdo. ^^y^ 

e FernaiTiidafonfo , doutor em degredos. E naçeo a eíRci Dom 
Joham de Caftella outro filho em efte anuo , que chamarom 
o lífliintc Dom Furnamdo , que foi fcnhor de Lara , e Duque 
de Penafiel. 

CAPITULO CXIIL 

Como elRei de Caftella , e elRei de Portugal declararom 
por o PapaClemente ^ e lhe derom a obedíemçia. 

AHcrdenamça de bem eftoríar nos requere tornarmos dar 
fim ao feito da çifma , que começado teemos , poílo que 
brevemente feja comtado , pollo mujto que teemos de dizer 
das feguimtes eftorias. Omde fabee , que feitos no mumdo 
aquelles dous Papas, a faber, Urbano e Clemente , que ou- 
viíles , forom os Reis em fuás provemçias muj comtorvados 
de tal feito , du^'jdando mujto qual parte teeriam ; antre os 
quaaes foi huum elRei Dom Joham de Caftella, e elRei Dom 
Fernamdo de Portugal : e pollo que cada huuns em fuás ter- 
ras e fenhorios fe trabalhaífem com maduro comíFelho faber 
qual daquclles era feu qerto (*^'páftor , liamças e afeiçcróéS 
que levam o dereito a qual d.as partes querem, fezerom de- 
vifom na igreía de Deos t ca elRei de Fram^a , que avíá 
; gram liga com elRei de Caftella, emviou a el feus embàxâ- 
I dores , dizemdo , que o emleito chamado Clemente j era 
' verdadeiro Papa , ho qual alguuns deziam que era feu pàrenl- 
te ; e qus per efta guifa diziam qtie elRei Dom Joharfl 
I mamdarà rogar a clRei Dom Fernamdo , que declaraífe poif 
aquel Papa Clemente. E elRei de Portugal , pofto que pri- 
meiro ouvcíTe acordo com os leteírados de feu reino, com- 
tra voomtade do mais faão comlTelhô , é cpmtrà deféio de 
todo o poboo, fegujndo mais a afeiçom da canK , què 'ôjui- 
zo da razom , declarou na cidade Devora , omde eftomçç ef- 

(i) certo e verdadeiro 7". . '" 




5ia« OT 



578 Chronica 

tava 5 o dito Clemente feer verdadeiro Papa , e nom Urbano 
ícxto em cima nomeado: a qual declaraçom como dizemos, 
cmtemderom a moor parte dos de feu comíTelho , que fora 
per rogo do dito Rei de Caftella , e per comíTelho de Dom 
Martinho Caftellaao , bifpo emtom de Sillves , que era muj- 
to feu privado. Depois défto elRei de Caftella na cidade de 
Sallamanca , femelhavelmente declarou ter^'^ a parte daquel 
Clemente , que fe í^J chamava Papa feptimo , efcprevemdo huu- 
ma muj gramde carta per todos íeus reinos , e a outras partes , 
por quaaes razoôcs fe movera a tal declaraçom : como quer 
que a fama comuum era , que elRei de Caftella nom fezcra 
efto 5 falvo per coniífelho e amor delRei de Framça , por a 
íimizade que ambos aviam contra a cafa de Imgratcrra , que 
tijnha com Urbano fexto. E potto que eftes Reis ambos de 
Portugal e Caftella , fezeíTem taaes declaraçoões moftramdo ao 
poboo fua emteemçom , muj tos ouve hi que lhe prouguera 
o dia que aíli declaravom , que diíferom huumas razoôcs de 
proteftaçom , que elRei de Framça diíTe quamdo declarou 
por o Papa Clemente , dizemdo em efta guifa : í> Nos Karllo 
9> quimto, Rei de Framça , proteftamos , e fomos fempre 
3> preftes deftar obediemte aa declaraçom do comçelho gee- 
ay ral , e de nos nom partir per nenhuum modo da unida- 
?* de da famta e apoftollica egreia ; em pêro paramdo men- 
í> tes aas rellaçooes que nos trouverom alguuns nolTos rneíTe- 
?9 geiros , que emviamos em Itallia , e em outras alomgadas 
3> partes 5 e o juramento feito fobrefte cafo de três cardeaaes, 
jj que a nos veherom , e vifta fobre o dito juramento fua 
» emformaçom das pai lavras que nos diíTerom , por a parte de 
99 cada huum dos ditos emleitos , falva fempre nolTa com- 
39 çiemçia , quamto he de prefemte , nom nos oufamos partir 
5> da obediemçia de noíTo fenhor o Papa Clemente , o qual 
99 teemos por verdadeiro ataa qui ; amte lhe obedeeçeremos 
» come (JÍ verdadeiro paftor , vigairo de Jefu Chrifto, falvo fe 

,i> » for- 

• ■-.i' -irr^- ■ • ■■ 

(O declarou per T. (2) Clemente, e por ella ler , ho Qual íe T, (3) co 
xntíT a T. 



d*elRei D. Fernando. 379^ 

5> formos em outra devida maneira emformado í'^ ». E diziam 
alguuns que eftas pallavras virom , que elRei de Framça , 
fe fua merçee fora , que devera de dizer fazemdo protefta- 
çom efpiçial ; ca aíli o diíTerom outros Reis e Primçipes , que 
teverom com qual quer deitas partes : outros aíirmavom que 
fora mujto melhor nenhuum Rei , nem Primçipe nom decla- 
rar por alguum delles ; ca fe os fenhores todos fe teverom 
fem fazer nenhuuma declaraçom , nom durara tamto a çifma 
na egreia, como ouvjrces que durou : mas cada huuns am- 
dando a efcolher , teverom com Urbano o Emperador , e os 
feus ilTo meefmo , e elRei de Imgra terra , e outros Reis e 
fenhores j e com Clemente , elRei de Framça , e elRei de 
Caftella j e elRei de Portugal , e elRei Daragom : e deíla 
guifa , por nolfos peccados , foi eftomçe o corpo miftico da 
egreia feito com duas cabeças , aíli como corpo momítruu , 
que era fea coufa de veer. 

CAPITULO CXIV. 

Como elRei Dom Fernamdo pedia comjfelho a feus pri- 
vados , de que guifa poderia fazer guerra a elRei de 
Cafiella , e da repofia que lhe fobrello derom, 

Almda que o trabalho e hufamça das armas crie os fi- 
dallgos coraçoões , e lhe de gram. melhoria pêra fopor- 
tar os aíFaaens e afperezas , que lhe avijnr podem ; nom foi a 
emteemçom delRei na feguimte guerra , que fe por eíl:o de* 
moveífe a ella , mas por fe vimgar das emjurias e gramdes 
avamtageens , que elRei Dom Henrrique comtra elle moftrara ^ 
aíIi em lhe queimar Lixboa , como em outras coufas , de que 
mais tocado nom compre aqui feer , pois ja compridamente 
fom efcriptas cada huuma em feu logar ; e porem fempre 
tragia fua falia com os Imgrefes , o mais emcubertamente que 

Tom. W. Bbb po- 

(ij enformados B, 



jSo Chronica 

podia , emtemdemdo que em alguum tempo lhe compria fua 
ajuda : e teemdo el femtido , que mais per fortuna e coftel- 
laçom , que per fua ardideza e esforço , elRei Dom Heinrri- 
que acabava taaes feitos ('^,poíloque afaz deboom, e ardido 
cavaleiro foíTe ; determinou , nom embargando as aveemças 
que com el em fua vida , e depois com elRei Dom Joham 
feu filho fezera , de cometer guerra comtreelle , creemdo que 
per ventuira lhe feeria fortuna ezquerda , e nom em fua ajuda, 
como fora a elRei feu padre. E fez chamar os de feu comf- 
feiho , pêra fallar com elles efta coufa ; e todos jumtos na vil- 
la de Samtarem , homde elRei Dom Fernamdo eftomçe eftava , 
propôs elRei huum dia peramte todos , dizemdo em efta gui- 
fa : » Eu vos fiz aqui vijnr , por fallar com vofco coufas que 
•» em voontade tenho de fazer , por me comífelhardes que 
99 vos fobrefto parece bem. Vos fabees os nojos e dampnos , 
99 que delRei Dom Hemrrique ei recebidos , os quaaes me 
99 nunca fogirom da voomtade , teemdo fempre defeio de os 
5> vimgar , vijmdo me tempo a maão de o bem poder fazer ; 
3> e pofto que com elle paz e aveenças fezefíe , mais foi per 
5> força de defavemtuira , que por tallamte de as eu fazer : 
» por que me parecia , que efte homem mais por coftollaçom 
99 e fortuna , que per avamtageens de cavallaria , naçera em 
» praneta de fe homrrar de todos feus vizinhos: e por que 
» fempre tive coraçom daver difto vimgamça , como viíTe 
í> tempo aazado , agora que me parece que o melhor poíTo 
3j fazer , que em outra fazom , pois que el he morto , tenho 
9) voomtade de o poer em obra ; ca pofto que feu filho her- 
3> de o reino per fua morte ^ nom herdara avemtuira dos 
5> boons aqueeçiraentos que feu padre avia, ca mujtas vezes 
99 de bem avemturado padre acontece de fair muj defavem- 
5> turado filho : e eu avermehia por muj comtemte , fe podef- 
3> fe vimgar em no filho , os nojos e dampnos que me o 
» padre fez; porem lamçamdo de mim todo (^^ empacho das 
5> coufas palFadas , quero logo aver com el guerra ; e rogo- 

» vos 

(a) acabava feus feitos T. (i) todo o T. 






d'elRei D. Fernando. 3S1 

i9 vos que me dees comíTelho , de que guifa vos parece que 
55 fe cfto melhor pode fiizer ?>. Os que eram prefemtes, quam- 
do líto ouvirom , forom muj efpamtados de elRei querer co- 
meter tal coufa , e efto por as gramdes juras e prometimen- 
tos , que nos trautos amtre el e elRei Dom Hemrrique feitos , 
forom firmados , fegumdo ouviftes. Des i por que nom vijam 
geito , como elRei com fua homrra , tal coufa podeíTe come- 
ter 5 e diíTerom : » Senhor, efto que vos dizees he muj gram- 
» de coufa , e tamge a voíFa homrra e eftado , e de todo o 
5j reino ; e aíli como perda comuum , e door em todo o cor- 
í> po , fe deve em ello aver comíFelho : e porem feia voíTa 
3j piierçee , que nos dees efpaço pêra cuidar em ello , e vos 
3> darmos repofta , fegumdo nos parecer >?. ElRei refpom- 
deo , que lhe prazia , dizemdo que tomaíFem defpaço três 
dias : e elles fe jumtarom todos no moefteiro de Sam Do- 
mirngos , e avudo feu comífelho , derom logar ao comde 
velho 5 que dilFeífe a elRei todo o que acordarom , e fua re- 
poíta foi defta maneira : >» Senhor , vos fabees bem como ja 
» per vezes ouveftes guerra com Caftella , e viítos os mal- 
íj les e perdas , que fe de taaes guerras feguirom a vos e a 
jj voíTo reino , por que ella he muj gramde , e avomdada de 
5j mujtas gentes e armas, e do ai todo que lhe faz mefter, 
»» e o voífo reino he pello contrairo : e ora pois a Deos prou- 
y9 gue de vos poer com elRei Dom Hemrrique em paz , e 
>5 el he ja morto , e vofla terra ella daíTeíTego , parece nos 
55 que nom he razom nem dereito , que vos demovaaes a fa- 
>» zer tal guerra , moormente com taaes juramentos e promef- 
" fas, quaaes vos e nos todos fobrello teemos feitas. Quam- 
>» to he aos nojos e defomrras , que feu padre dizees que 
'» vos fez 5 ja outros fenhores mais poderofos que vos , as re- 
y9 çeberom moores dalguuns Reis feus vizinhos , e fezerom 
" paz com elles muito em peor maneira , da que vos fezef- 
>5 tes : e porem nos parece , que devees ceifar de tal coufa , 
J5 pois nenhuum razoado fumdamento tem pêra o averdes de 
5> começar í>, ElRei ouvjmdo efto , filhouíFe de forrijr , e 

Bbb ii 99 dii- 



3S2 • Ghroiíica 

diíTe crmtra o comde : » Pareçeme , comde, que vos outros 

j nom apremdcftes bem a maneira como vos eu efto diffe ; 

9 ca eu nom vos pedia comíTelho , fe era bem daver guerra 

> ou nom , ca eu queroa aver em toda guifa , nom embar- 
5 gamdo todas voíTas razoões , e outras mais que poflaaes 

> dizer; mas demamdavavos comíTelho , de que geito a pode- 

> ria melhor fazer , e mais a meu falvo : mas pois que o 

> vos aíll dizees, eu averei a guerra todavia, e Deos me da- 
9 ra comíTelho e maneira como a poíTa fazer, e acabar com 
9 minha homrra ». 



CAPITULO CXV. 

Comoyoham Fernamdez Amdeiro veo f aliar a elRei fo- 
bre a vijmda dos Imgrefes ^'\ e da maneira que el- 
Rei com elle teve. 



Uamdo elRei íirmou em fua voomtade de mover guer- 
ra comtra elRei de Caítella , amte per tempo que de- 
mànidaíTe elte fimgido comíTelho , que teemdes ouvjdo , logo 
conçebeo em feu emtemdimento , que a maneira como fe eíío 
melhor podia fazer, e com mais fua homrra e avantagem , aífi 
era aver gemtes de Imgrefes em fua ajuda. Hora aíE aveo que 
nos trautos das pazes , que elRei Dom Hemrrique fez feem- 
do vivo, com elRei Dom Fernamdo, quamdo veo cercar Lix- 
boa, foi poílo huum capitólio, que elRei de Portugal lam- 
çaíTe fora de feu reino dos fenhores fidallgos , que fe pereel- 
le veherom depôs da morte delRci Dom Pedro , vijmte coi- 
to peíToas, quaaes elle quis nomear, como largamente ja tee- 
mos comtado ; e deites nomeados , que elRei lamçou fora , 
foi huum delles Joham Fernamdez Damdeiro, natural da Cru- 
nha, que fe vehera pêra elle quando elRei Dom Fernamdo 

fo- 



(i) â elRei Dom Fernamdo fobre os Ingreííes ^ e vinda delles T, 



SIÍU 01 



d'elRei d. Fernando. 383 

fora a Galliza ; e himdolTe aífi do reino , foi pella Crunha , e 
rouboua , e meteoíTe em naves , e foiíTe pêra Imgraterra ; e 
amdamdo alia , foube elRei como el era muj emtrado em 
cafa delRei , e de feus filhos , o duque Dallamcaftro , e o 
comde de Cambrig , e bemquifto delles todos ; e emtom lhe 
efcrepveo fuás cartas fecretaraente , que trautalTe com o duque 
as aveenças , que ja teemdes ouvjdas , como quer que nom 
achamos nenhuuma coufa que delias veheíFe a feito í''; e quam- 
do emtemdeo outra vez de mover efta guerra , lhe efcre- 
pveo que fallaífe com o duque e com feu irmaáo, em tal gui- 
fa , que fe lhe compriíFe fua ajuda , avemdo guerra com Caf- 
tella , que o veheíTe ajudar per feu corpo e gemtes, com 
certas comdiçoôes amtrelles devifadas. Joham Fernamdez foi 
muj ledo de lhe feer requerido per elRei , que tomaífe tal 
emcarrego , aíli da primeira vez como delia ; e fallou com o 
duque , e comde o melhor que fobrefto pode , de guifa que 
acertou taaes aveemças , de que elRei e o comde forom com- 
temtes : e hordenada a maneira como avija de vijnr , e com 
quaaes gemtes , partioíFe Joham Fernamdez de Imgraterra, e 
chegou ao Porto , e defembarcou o mais emcubertamente que 
pode , por nom feer vifto e defcuberto , e feerem per tal 
aazo quebrados os trautos que amtre Portugal e Caftella avia, 
e dalli fe foi a Eftremoz , homde elRei Dom Fernamdo ef- 
tava ; e chegou per tal guifa , e aífi calladamcnte , que ne- 
nhuum por eftomçe foube parte de fua vijmda. E elRei foi 
muj ledo com elle, e muj to mais das novas que lhe trazia ; e 
por razom dos trautos que com Caftella tijnha firmados , nom 
oufava elRei que fua vijmda foíle defcubôrta , nem que Jo- 
ham Fernamdez foífe vifto , e teveo efcondido em huuma ca- 
mará dhuuma gramde torre, que ha no caftello daquelle lo- 
gar , homde elRei coftumava de teer com a Rainha a fefta , 
pêra quamdo alia foíTe de dia , poder com el mais emcuber- 
tamente fallar todo o que lhe prougueíTe ; e depois que fe 
todos hiam , vijnha Joham Fernamdez doutra cafa que ha na 

tor- 
(i) a eíFeyco T. 




€13^ OT 



3S4 GhR ONI ca 

lorie 5 e fallava com el prefemte a Rainha quaaes quer cou- 
fas que lhe compriam : e algumas vezes fe fahia elRei de- 
pois que dormia , e ficava a Rainha foo , e vijnhaíTe Joham 
Fernamdcz pereella , depois que fe elRei partia, e fallavom 
no que lhe mais era prazivel , fabemdoo porem elRei , e 
nom avemdo nenhuuma fofpeita , como homem de faão co- 
raçom : e per taaes falias e eftadas amehude , ouve Joham 
Fcrnamdez com ella tal afeiçom , que alguuns que dello par- 
te fabiam , cuidavom delles nom boa fofpeita , e cada huum 
fe caliava do que profumia , veemdo que de taaes pelToas , 
c em tal coufa nom compria a nenhuum de fallar; e foi ef- 
ta afeiçom dam.bos tam gramde , que todo o que fe depois 
feguio 5 que adeante ouvirees , daqui ouve feu primeiro co- 
meço. Depois que elRei teve fallado com Joham Fernamdez 
todo o que lhe compria , por que fe temeo de lhe feer fabudo 
que vehera a feu reino defta guifa que diífemos , fiezeo tor- 
nar emcubertamente , aíli como vehera , ataa acerca de Lei- 
rea , e fallou com elle que alli fe defcobriíTe e fe moftraíFe , 
como que vijnha de caminho ; e que elle como lhe taaes no- 
vas dilTelTem , fanhudamente o mamdaria premder , por todo 
mais emcubertamente feer feito , e el fezeo aílí. E como el- 
Rei fez que o novamente fabia , mamdou logo a gram pref- 
fa Gomçallo Vaafquez Dazevedo , gramde feu privado , que 
o foíTe premder , fallamdo com el a maneira que teveíTe ; e 
el chegou a Leirea , a horas que o achou na cama , e to- 
mouho prefo , e levouho ao caiíello deíFe logar , e alli o lei- 
xou e tornouíTe ; e quamdo fe dei ouve de partir, deu lhe Jo- 
ham Fernamdez huum agumil de criítal , obrado douro , que 
deífe aa Rainha fua fenhora , e que o emcomemdaíFe mujto 
em fua merçee. A poucos dias fimgeo elRei que o mandava 
foltar , e que logo fe foíTe fora de feu reino , fo pena de 
morrer porem , e el partioíFe , e foiíTe apreíTa , moftramdo que 
fe tornava por aquella razom. E por quamto elRei Dom Fer- 
namdo tijnha ja acertado de aquel comde de Cambrig com 
certos íidallgos e gemtes de Imgrefes yijnrem em fua ajuda 

pe- 



d'kiRei d. Feknando. 38^ 

pêra a guerra , que conitra eIRei Dom Joham queria come- 
ter , por tamto fallòu aflí fouro comtra os do feu comíTelho, 
nom reçebemdo nenhuumas razooes boas , que lhes per elles 
fobrefto foíTem dadas ; ca el nom lhe propôs o que íazer qui- 
ria pêra aver per elles comííelho , mas por lhe nom dize- 
rem depois que cometera tal guerra , fem lho fazemdo faber 
primeiro. 

CAPITULO CXVI. 

Como elRel de Cajlella fouhe que elRci Dom Fernam" 
do queria fazer guerra 5 e da maneira que em 

ello teve, 

ACabamdo aquel comíTelho , que amte deíle capitolo 
avees ouvjdo , começou foar fama poUo reino , que ei- 
Rei Dom Fernamdo queria cometer guerra comtra osCaftel- 
laãos j e fallavaíTe ello per mujras peíToas , nom o firmamdo (') 
porem certamente. E elRei Dom Joham eílava eílomçe em 
Medina dei campo , quamdo fe eito começou de dizer , e el 
chegoufe mais pêra Portugal , e veolTe a Salamanca , e alli 
finou a Rainha Dona Johana fua madre , avemdo de fua hi- 
dade quareemta e dous anos : e logo a pouco tempo lhe che- 
gou recado , como o comde Mofle Aymom fe fazia proíbes 
pêra paíTar a Portugal , em ajuda delRei Dom Fernamdo com- 
tra elie j com mil homeens darmas , e mil frecheiros ; e que 
tragia voz e demanda do duque Dallamcaftro feu irmaao , 
dizemdo , que avia dereito no reino de Caftella , por parte 
de Dona Coftamça fua molher , filha que fora deIRci Dom 
Pedro de Caftella. E fallamdofe efto em fua corte , fobre- 
veheromlhe mais per certas novas , que elRei Dom Fer- 
namdo em toda guifa fe percebia de lhe fazer guerra , fazen- 
doíFe preftes de armar gallees , e pagar foUdo í^\ e perceber 
fuás gemtes , e poer fromteiros pellas comarcas : e era alli de 

fei- 

(i) nam a firmamdo T. (2) foldos T. 









586 Chronica 

feito que elRei Dom Fernamdo fe percebia darmar mujras 
galiees , e tijnha ja poftos fromteiros amtre Tejo e Hodia- 
na 5 a faber , feu irniaao o meeílre Davis em Oiivemça , e 
Arromches , e Campo mayor j e em Elvas o comde Dom Al- 
voro Perez de Caftro ; e em Portallegre o priol do Crato 
Dom Pedro Alvarez í'íj e em Beija o meellre de Samtiago Dom 
Eílevam Gomçailvez ; e em Villa Viçoía o comde de Viana , 
e Fernam Gomçailvez de Soufa ; e aíli nos outros logares da- 
quella comarca , fegumdo compria por guarda da terra. E el- 
Rei de Caílella como defto foi certo , mandou aaquella par- 
te aa cidade de Badalhouçe o meeftre de Samtiago Dom Fer- 
namdazores , com mujtas companhas comíigo , e iflTo meefmo 
mandou logo a Sevilha armar as mais galiees que podeíTem (^^, 
e partiolTe logo de Sallamamca , e foiíTe a Paredes de Nayva , 
que era do comde Dom AffoníTo feu irmaão , por quamto lhe 
dilTerom que eftava alli , e trautava fuás preitelias com elRei 
Dom Fernamdo ; e o comde foi percebido primeiro , e quam- 
do elRei chegou , nom foi achado no logar , ca fe partira 
pêra as Efturas , e dalli trautou fuás aveemças com elRei y 
e veolfe pêra fua merçee : e elRei foiíTe pêra Çamora , feem- 
do ia a guerra pobricada a todos , e apregoada per manda- 
do dos Reis, no mes de mayo defte prefemte anno. 

CAPITULO CXVII. 

Como o meejlre de Samtiago de Cajleila emtrou per Vor^ 
tugal , e levou gram roubo ^ e fe tomou em falvo» 

COmo a guerra foi apregoada , e as gemtes certas que 
nom aviam paz , trabalharomífe todos nas villas e logares 
dos cftremos, de guardare (J) todas fuás coufas, e colherem os 
mamtijmentos pêra as cercas , por nom feerem achados de feus 

e ni- 



co Dom Pedralvarez Pereira T, (2) que podefe 7". (3) de goardar 7". 
de guardarem B, 



d'e L R i I' d. F g R'N Pn d o. S^7 

emmijgos, e com elles fe foportarem em lóítígt) cerco fobrel- 
les ; e tiravom as portas aas cafas , e lamçavom os vinhos a 
lomge , que de nenhuuma coufa fe podeíTem preítar. Evijm- 
do elRei Dom Feunandò a Èvoi-a ,. Vaafco Rodriguez Faça- 
nha, e Lopo Rodriguez í'^ feu irmaão , diíTerom a elRei , que 
lhe parecia bem de mandar derribar a cerca velha , moftrando 
que todoUos que em. ella moravom , tijnham da parte do If- 
fante Dom Joham , que amdava em Caftella ; e que vijmdo 
os emmijgos fobrc a cidade , que acerca velha fe poderia de- 
femder , e a nova nom : e eíle comíTelho lhe davom elles , 
por que moravam fora da cerca Velha. E elRei; cremdoosr, 
mandouha derribar, e durou o derribar delia- bem três anos; 
e todollos do reino lho teverom'j'á mal por derribar tal çer--- 
ca , e aíli afortallezada de muros e"'dè torres, como outra 
tal em fua terra nom avija. Em efto o meéftre de Samtiago 
de Caftella , que eftava por fromteiro em Badalhouçe , como 
diíTemoâ , e Dom Meem Soarez ^ meeftre Dalcantara com eí- 
le, e mujtas gemtes 'eitf ' fua companha, emtrarom per Porf 
tugal^ie eram per todos mujta g^nte de pee e de cavallojí 
e chegárorh a Elvas hiiuma quimta feira , e poferom fuás tem- 
das nos olivaaes , e dalii partirom em outro dia, e foromíTe 
a Veiros , e combaterom a dita villa , de guifa que poferom 
fogo aas portas da barvacaã ; e dormirom hi eíTa noite da 
parte aalem da ribeira , e partirom ao fabado pella manhaã',»^ 
e foromífe per Soufcl e pello Cano ; e correndo per aquella^ 
terra , apanharom mujto gaado que per aquella comarca am- 
dava , e tornaromíTe , e veherom dormir aa Ribeira de Freixeo ^' 
é aífi tornamdo per fuás jornadas , avemdo ja oito dias que* 
amdavom per Portugal , veherom dormir a Rio torto , termoO 
Delvas; e outro dia aa quarta feira mamdarom toda fua pre-'^ 
fa de gaado e prifoneiros pêra Badalhouçe , e os meeítres 
com fua companha partirom pêra as Brocas, por teer o ca- 
minho ao prior do Crato e ao craveiro , que lhes era di- 
to que as tijnham cercadas ; e queimarom o arravalde de 

Tom. ir. Gcc Vai- 

' — 

O) e Lopo Diaz 2". 



jSiS Ç HrB Ó N I C A 

Vallemça , enom os emcontrãrom , e tornaromíTç pêra Ba- 
dalhouçe. 

CA P ITULO CXVIIL 

Como o comde Dom Alvoro Perez fahio a correr com- 
' tra Badalhouçe ^ e do que lhe aveo com os 

do loguar, 

NOm achamos coufa que comtar feia , que os fromteiros 
Portuguefes , que eílavoni naquella comarca , fez eíTem , 
em quamto os meeílres emtrarom per Portugal ; falvo que o 
comde Dom Alvoro Perez de Caftro , que por fromteiro ef- 
tava em Elvas , hordenou de hir correr comtra Badalhouçe , 
e diíFe a Gil Fernamdez , morador em aquel logar , de que 
yà a vemos feita meemçom na guerra delRei Dom Hemrri-" 
que 5 que lhe rogava que foíTe em fua companha , e lhe pro- 
i^netelTe que fe nom partilTe delle , e Gil Fernamdez lho pro- 
meteo : emtom fe fezerom preltes , e forom correr acerca da 
cidade ; e forom os da corredura deamte , e o comde ficou 
çm çillada com Gil Fernamdez, e com parte das gemtes. O 
logar eftava bem fornido (') de defenfores, de que logo fahi- 
rpm , ta m tos após os Portuguefes , que lhe começavom de fazer 
maao jogo. Gil Fernamdez quamdo os daquella guifa vio vijnr , 
diíTe ao comde muj trigofamente : >> Senhor , nom compre 
^ anais foportar aquel dano , que os da corredura vêem fo- 
jfjfremdo ; mas acorrelhe (-^ apreífa , amte que mais feia ». O 
comde começou de poer o feito em vagar , e Gil Fernamdez 
cavailgpu logo com vijmte de cavallo que o feguir quiferom , 
e dilTc comtra huum efcudeiro , que chamavom Gil Vaafquez 
Barbudo, com que ouvera pallavras perante o comde : ?> Am- 
>i daae pêra qui , Gil Vaafquez , ca agora eu quero veer co- 
» ,mo fé ellrema o macho da fêmea '>. E o comde quamdo 
- V cr 



(ij tomeçido 7". (2) acorreylhe 7". 



iíISH OT 



d'e lRei d. Fernando. 389 

efto vio , dilTe comtra Gil Fernamdez : ?> Parece que mal vos 
?5 lembra o que me prometeftes , que difleftes que vos nom 
» partiriees de mim ??. " Senhor , diíTe elle , nom he tem- 
5> po pêra teer tal promeíTa , pois que veemos os noíTos paf- 
>5 íiir mal , e nos eítarmos oolhando ». Emtom fe partio a 
todo correr , e chegou aos corredores esforçamdoos quam- 
to podia ; e de tal guifa o fezerom todos y que derom volta 
os Cailellaáos contra fua voomtade , e per força lhe fezerom 
paíTar o vaao ('Me Odiana , e na palTagem ouve alTaz de muj- 
tos feridos : c aíli os meterom dcmtro pellas portas da villa , 
e tornaromfe pêra Elvas. 

CAPITULO CXIX. 

Como elRei Dom Fernamdo mamdou aos fromteiros dam- 

tre Tejo e Odiana j que fojjem pelleiar com o meef- 

tre de Samtiago de Cajiella. 

ELRei Dom Fernamdo eftava em Santarém efperamdo no- 
vas , quamdo lhe diíTerom que o meeftre de Samtiago de 
Callella quiria emtrar a correr em feu reino , como ouviftes ; 
creemdo o que todos cuidavom , que lhe poeriam a praça 
aquelles fenhores e gemtes , que eltavom pellas fromtarias : 
e dizem aqui alguuns, que o meeftre Dom Fernamdozores , 
que era muj boom cavalleiro , quamdo ouve de fazer aquella 
emtrada , que mamdou dizer a todollos que eftavom por 
fromteiros naquella comarca , que fe perçebeíTem , cà el qui- 
ria emtrar a certo dia ; e que elles todos ouverom feu comf- 
felho , e huuns dilTerom que lhe pofeíTem a praça , e outros 
acordarom que nom ; e em ifto emtrou elle , da guifa que tee- 
mos comtado. E quamdo elRei ouvio que elle emtrara , e 
que os feus corriam aterra e roubavom í^^, pefoulhe muj to de 
os leixarem aífi emtrar , pêro tijnha feuza que aa tornada pel- 

Ccc ii l£~ 

(i) o vaao do rio 7". (2^ e a roubaváo T. 



5^0 Chfonica 

lejaíTem com elle: e quamdo foube que fe o mceftre tornara 
em falvo com tamanho roubo de lua terra , ouve grande no- 
jo por efto 5 e mandou a todollos fenhores e cavalleiros, que 
eitavom naquella fromtaria , que fe juntalTem todos, e foíTem 
comtra Badaihouçe pelleiar com (') o meeftreFernamdozorcs : e 
cmviou Gomçallo Vaafquez Dazevedo , feu gramde privado, 
que fe foíTe pêra elles , e feer de companha em aquella obra : 
e a fama era que o mamdava por capitam de todos , e que 
per elle fe regcíTem , mas efto era mal dizer e nom verda- 
de ; ca nom era razom nem coufa aguifada (^), que tal homem 
como elle , pofto que boom e gramde foíTe , que teveíTe car- 
rego da capitania de taaes fenhores e fidallgos , como alli ef- 
tavom : porem a fama foava aíli daquella coufa , que aquelles 
que ocrijam,eram mujto anojados; pêro fem embargo difto , 
todollos fronteiros forom jumtos (') em Villa Viçofa , e Gom- 
çallo Vaafquez Dazevedo com elles , huum domimgo fete dias 
do mes de julho , e feeriam per todos ataa mil lamças de 
boa gente, e mujtos bcefteiros , e homeens de pee. 

CAPITULO CXX. 

Conío os fromteiros damtre Tejo e Oâlana je jumtarom 
pêra pelkjar com o meefire , e por qual razom 

fe nom fez, 

ANte defte ajumtamcnto , eftamdo allí os fromteiros cada 
huum em feu logar, mandou elRei Dom Fernamdo cha- 
mar Nuno Alvarez , irmaão do prior do efpital , Dom Ped rali- 
varez , que eftava amtre Doiro e Minho, fazemdolhe faber per 
íua carta , que el por feu ferviço hordenara de poer fromteiro í^J 
amtre Tejo eOdiana, e mamdara ellar em Portal legre o prior 
Dom Pedro Alvarez e feus irmaãos ; e que porem lhe manda- 
va , que fe foífe logo pêra elles. Nuno Alvarez tamto que vio 

o 

(i) comtra T. (2) avylTaada T. (5) fe foram ajumrar T, (4) fronteiros B, 






d'elRe1 D» FeR N AN D0# ^p I 

O recado delRei , fem outra târdamça fe guifou do que lhe 
compria, e levou comíigo vijmte e çimquo<'^ homeens darmas , 
e trimta (=í homecns de pee efcudados , todos boons e pêra fei- 
to ; e chegou a Portallcgre, homde foi bem recebido dos ir- 
maãos , e doutros , a que prougue com fua ^'^ vijmda. Eíle 
Nuno Alvarez era filho do prior Dom Alvoro Gumçallvez Pe- 
reira , de cuja geeraçom e obras mais adeante emtemdemos 
trautar, quamdo nos comveher efcrepver os gramdes c altos 
feitos do mecftre Davis , que depois foi Rei de Portugal , 
em que lhe efte Nuno Alvarez foi muj notável e. maravilho- 
fo companheiro. E eftamdo aííi Nuno Alvarez com cites fenho- 
res , hordenarom fua hida em efta guifa : repartirom certos 
capltaães que levaíTem a avamguarda , e com elles Gomçallo 
Vaafquez Dazevedo ; e por que emtemderom que aimda po- 
diam hir fem empacho dos emmijgos ataa Elvas , hordena- 
rom que todollos homeens de pee e carriagem foíTem pello 
caminho dcseito amte a avamguarda , regidos e comçertados 
pêra qual quer coufa que lhes aveheíTe ; e aíli partirom aa fe- 
gumda feira : e himdo aíE pello caminho , chegamdo a huuin 
foveral , que he amtre VillaViçofa e Elvas, aaquem do cam- 
po homde jaz Villa Boim , Nunallvarez fe fahio do caminho 
a cuidar no que lhe prazia , per aquelle foveral : e himdo alE 
cuidamdo , oolhou por deamte pello caminho comtra huu- 
mas aldeãs altas, que fom acerca de Villa Boim , e vio nas 
ladeiras a carriagem e homeens de pee , que hiam hordena- 
dos , como compria ; e o folXihia eítomçe , por que era bem 
pella manhaã , e dava nas lamças aos homeens de pee, de 
guifa quefeu relluzir os fazia parecer, homeens darmas, poftos 
em aazes, come muj ta gemte em batalha. Nunallvarez como 
efto vio de fofpeita , nom fe lembramdo da carriagem que hia 
deamte , leixou o cuidar em que hia pemífamdo , e pollo de- 
feio que levava na batalha , de que avija gram voomtade , 
outorgoufelhe o coraçom que aquel era o meeftre de Samtia- 
go de Gaftclla , que ja vijnha com fuás gemtes prelles , e 

co- 

(^2) XXX T. (2; e XX T. (3) de fua T. 






39^ Chronica 

como efto comçebeo em fua voomtade , voltou a gram preí- 
fa , dizemdo aos que vijnham na avamguarda : » Boas novas , 
5) fenhores " : e elles aballarom pêra elle , dizemdo : ,, li que 
39 novas fom eíTas , Nunallvares ?> ? ?> Senhores , diíTe elle , di- 
» govos que vos teemdes aqui o meeltre de Samtiago de 
í> Caftella , o qual vem preftes pêra vos poer a batalha ; aíli 
39 que efcufado he voíTo trabalho de o mais hirdes bufcar jj : 
e elles todos ledamente refponderom que de taaes novas lhe 
prazia mujto, damdo mujtas graças a Deos , no qual efpc- 
ravom que os ajudaria comtra elle. Nunallvarez como iílo fal- 
lou com elles, fem mais deteemça fe foi rijamente a reguar- 
da omde vijnha Gomçallo VaafquezDazevedo , e deulhc aquel- 
las meefmas novas; e Gomçallo Vaafquez como as aíll ouvio , 
nom pode tam ledo feer , que nom diíTeíIe cilas palavras , 
as quaaes a moor parte dos que eram prefemtes ouvirom : 
99 Bem fabia eu, que mujto era maa ca vehemos , pêro am- 
3> te lho eu dixe j» : e pregumtou a Nunallvarez fe era ver- 
dade o que dizia , e el creemdo que era da guifa que cuida- 
ra , refpomdeo que íi ; pêro que vio que Gomçallo Vaafquez 
de taaes novas era pouco contem te , ouve vergonha , e nom 
lhas quifera teer ditas ('^; e aífi como vehera rijo , aUi fe tor- 
nou pêra a vamguarda homde avija dhir : e himdo todos por 
deamte naquella hordenamça , acharom que nom era nada do 
que Nunallvarez diíFera , da qual coufa a mujtos prougue , e 
chegarem aílí ataa Elvas, E e-iles alli pêra averem comífelho 
da maneira que avijam de teer , veolhe certo recado , co- 
mo o líFamte Dom Joham que amdava em Caftella , vijnha 
com mujta gemte (-Me cavallo e de pce , em ajuda de Dom 
Fernamdoforez , que elles hiam bufcar. Eftonçe ouverom acor- 
do que nom folTem mais por deamte , e que fe tornaíTem pê- 
ra fuás fromtarias , do qual conífelho Nunallvarez foi muj 
anojado , e bem moftrava que fe o poder em el fora , dou- 
tra oruifa hordenarom feu feito : e partidos elles aa quinta 
feira, ao fabado feguinte, que eram treze dias do dito mes, 

che- 
co teer dadas , nem ditas T, (a) geme de Caiteella 7". 



D* E L R E I D. F E R NA 1* D O. 3,93. 

chegou o Iffamte Dom Joham com o meeftre de Samtiago , 
e Dalcamtara , com mujtas gemtes comíigo , e çercarom a 
villaDelvas, ejoiíverom fobrella vijmte e cinquo dias, e le- 
vamtarom feu arreai, e foromíTe. 

CAPITULO CXXI. 

Como Nunallvarez mamdou requejlar Jobam Dazores , 

filho do meefire de Samtiago , e a razom por 

que fe demoveo. 

Uamdo Nunallvarez vio que aquel jumtamento fe desfa- 
^ zia , e que cada huLins capitaaens fe tornavom a fuás 
fromtarias , foi muj anojado , como dilfcmos ; e come ho- 
mem novo de gram coraçom , que mujto defeiava fervir el- 
Rei que o criara , des i feer conhecido e aver nome de boom ; 
cuidou , fem fallamdo com outro nenhuum ,3 gram criaçori que 
elRei em el fezera , e as mujtas merçees que feu linhagem 
avia dei recebidas , e deu aa memoria os deferviços que lhe 
o meeftre Dom Fernamdozores fezera em feu reino : e como 
el nom era poderofo de tamtas gemtes que tornaíFe a ello , 
como lhe feu coraçom mamdava , e peníTou que huum filho 
que o meeftrç mujto amava, que chamavom Joham Dazores , 
que o mamdaire requeftar pêra fc matar com elle dez por dez ; 
teemdo que fe a Dcos prougueífe de o matar , que faria gram 
nojo ao meeftre , pois lho doutra guifa nom podia fazer; e 
acomteçemdo de feer o comtrairo , que el averia por bem 
empregado qualquer avijmento d) que lhe Deos dar quiíeíFe , 
pois era por ferviço de feu fenhor elRei. E logo fem mais 
detecnça pos em obra feu peníTamento , e mamdou requeftar 
Joham Dazores , que eftava em Badalhouçe com feu padre ^^\ 
declaramdolhe em fua carta per pallavras , quaaes em tal cafo 
compriam , que fe queria matar com elle dez por dez. Jo- 
ham 

<^i) aviamciHto T. (2) com feu padre Fernam Ppzotez , meeftre de San- 
tiaguo T. 






3P4 *' ^ H R o N í C A^ 

ham Dazores era boom cavalleiro , e de gram coraçom , e le- 
damente reçebeo fua requefta , moftramdo que de lhe feer fei- 
ta lhe prazia mujto , eícolhemdo logo pêra ello aquelles que 
com el avijam de feer. Nunallvarez tamto que ouve feu re- 
cado que lhe prazia demtrarem em campo, foi dello tam le- 
do , que mais doutra coufa nom í'^ podia leer ; e trabalhouíTe 
logo daver nove companheiros, e com el avijam de feer dez ; 
e ouveos de fua criaçom e yoomtade , a faber , Martinha- 
nes de Barvudo , que emiom era comendador de Pedrofo , e 
depois em Caftella meeftre Dalcantara ; e Gomçalleannes Daa- 
vreu , que emtom era fenhor do C?ftello da Vide ; e Vaaf- 
co Fernamdez , e AíFonfo Perez , e Vaafco Martijns do Ou- 
teiro , e outros , per todos nove ; e com eftes partio el graa- 
damente do que avija , de guiía que forom comtemtos , e 
mujto mais o eram por o gramde amor que lhe avijam. Nu- 
no Alvarez como os teve preftes , queremdo que efta obra noiu. 
fe perlomgaíTe , mamdou logo a Gaftella pedir falvo comdu- 
to , aílí do líFamte Dom Joham , que na comarca eftava , co- 
mo do meeftre Dom Fcrnamdazores , per amte o qual a re-. 
quefta era asijnada ; e damboUos fenhores lhe veo falvo com-J 
duto, qual compria pêra tal feito. 

GAP IT ULO CXXII. 

Como elRei Dom Fernamdo foubè parte da reqtiefla de 

Nunallvares , e mamdou a feu irmaao que lho 

mm comjjemtijje, 

FAzemdoíTe Nunallvarez preftes pêra dar fim a fua requef- 
ta , pareçialhe o dia tarde que avia de feer acabada : e 
teemdo ja pêra ello preftes feus companheiros, e concertado 
todo o que mefter avja , fallou com o priol feu irmaao , di-, 
zemdo em efta guifa : 5> Irmaao fenhor, bem fabees a obra 

3» que - 
(i) ho nam T. 



d'elRei d, Fernando. jpf 

3> que el começada, e como a Deos graças , da quello que me 
?5 faz meftcr, nemhuuma coufa falleçe ; e porem Vos peço por 
5> roerçee, que me dees leçença pêra me com a ajuda de Deos 
í> a ver delia de defembargar ?>. E o priol rijmdo com ledo 
fembramte , lhe refpomdeo dcfta maneira: j>Irmaão,bem veio 
>j voíTa voomtade qae he boa ; mas eu com razom vos poíTo di- 
5' zer aquello que fe coílu ma dizer em exemplo , dizemdo que 
5> ai cuida el bayo , e ai cuida quem o fella; e efto vos digo 
5> por tamto , vos feede certo , que elRei meu fenhor foube 
í> parte da obra em que amdavees , e fegumdo parece pello que 
» me eícrepveo , a el nom praz que tremetaaes dello , e man- 
>•* dou a mim que vos nom delie logar , e em cafo que o fazer 
í» quifclTces , que vo lo nom comíTemtiíTe : porem vos rogo que 
5> difto nom curees mais , e que vos façaaes preítes pêra vos 
í' hir comigo , por que elRei manda que chegue logo hom- 
?' de el efta , e hi remos ambos de companhia >». Nuno Alvarez 
quamdo eílo ouvio , pefoulhe mujto de voomtade, ebem deu 
a emtemder ao priol feu irmaao , que nom cria que lhe el- 
Rei tal recado mamdaífe ; mas que el lho dezia de feu , por 
o defviar do que fazer queria. O prior poUo fazer certo , lhe 
moftrou emtom carta que lhe elRei fobrello mamdara. Nu- 
nallvarez quamdo a vio , creeo o que lhe feu irmaao dezia : 
emtom diíTe , que pois aílí era , que el nom fahiria de man- 
dado delRei , pofto que foíTe mujto comtra fua voomtade, 
e que lhe prazia mujto de fe hir com el a cafa delRei : e 
logo fe o prior fez preíles , e parcirom ambos de compa- 
nhia. 



Tom. IK Ddd CA- 



3^é Chròiíiga 

CAPITULO CXXIII. 

Do que elRei dijje a Nunallvarez em feito defua requef- 
ta^ e das razoões que lhe refpomdeo. 

OPriol e Nunallvarez chegarom a Lixboa omde elRei ef- 
tava , e tamto que elRei vio Nunalvarez , pregumtoulhe 
como eftava fua obra que avia começada comjoham Dazores , 
filho do meeílre de Samtiago de Caftella : 5> Senhor, diíTe 
99 Nunallvares , a voíTa merçee o fabe também e melhor que 
3> eu 99, Emtom fallou elRei , e diíTe : 99 De verdade faziees 
99 ifto que allí começaftes jj ? Par Deos , fenhor , de verdade , 
99 diíTe elle, e com boom defejo >». E elRei lhe preguntou 
qual era a razom , por que fe a ello movia : refpomdeo Nu- 
nallvarez , e diíTe : 3> Senhor , a voíTa merçee íaiba , que por 
»> eu feer voíTo criado, des i por as mujtas merçees que meu 
99 padre , e meu linhagem , e eu iíTo meefmo de vos ave mos 
» recebidas , e emtemdo receber mais ao deamte , ei gram- 
ai de voomtade de vos fervir em coufa, que vos ouveíTees 
99 de mim por bem fervido : e comíijramdo eu como o meef- 
» tre de Samtiago de Caftella vos ha feitos alguuns de fervi- 
>j ços em efta guerra ; e como eu nom fom em eftado de 
99 tamtas gemtes , nem em tal maneira , que lho por ora de 
» prefemte doutra guifa poíTa vedar; e veemdo como Johani 
5j Dazores , feu filho , he muj boom cavalleiro , e quel muj- 
99 to ama , cuidei de o requeftar , como de feiro fiz , pêra 
j> me matar com el dez por dez , como a voífa merçee bem 
» fabe : e efto por duas razoões, a primeira , fc a Deos prou- 
» gucíTe de eu delle levar a melhor, fazer nojo e gram def- 
5j prazer a feu padre , em emenda do dampiío que vos el em 
99 vofla terra fez , pois que por ora meu poder a mais nom 
» abramge ; a fegurnda , pofto que eu hi fallecefíe , emrcm- 
>> do que falleçia bem , pois era com minha homrra e por 

>9 vof- 



sia-a: o i 



d' £ L R E I D.Fernando. 3^7 

» voíTo ferviço. Porem , fenhor , vos peço por merçee , que 
í> todavia vos praza dello , e que aja de vos logar e Icçemça 
5> pêra em eito comprir meu deseio ^'. EIRci efcuitou com 
voomrade as pallavras que lhe Nunailvarez diíTe , e tecmdo- 
Iho a bem, na fim delias refpomdeo alíí: í> Nunailvarez, eu 
5> vejo bem vclTa emteemçom , que foi e he boa , em eito que 
55 fazer quiriees , o que vos eu mujto gradcço , e tenho em 
>» ferviço : e bem fom certo que de tam boom criado , como 
5» eu cm vos fiz, n>m podia fahir fe nam tal obra<^), e outras 
5> melhores ; e efta feuza ouve fcmpre em vos , e hei : mas 
" quero que faibaaes , que a mim nom praz de vos feerdes em 
5' tal feito, por que eu pêra mais vos tenho, e pêra mayor 
>9 coufa de voíFa homrra , que de emtrardes em tal requefta , 
^' de que fe vos podia feguir pcrijgo , c nom muj gramde 
yy homrra , o que eu nom quiria ; ca vos e outros taaes , tem- 
5> po e logar averees , prazemdo a Deos , peramte mjm em 
» huuma batalha , ou em outros gramies feitos, provardes 
yy vofla í*^ ardideza e voomtade , omde fei que nom falleçerees j 
>9 e quamdo ello for, terrei^^eu mais razom e aazo de vos 
yy fazer merçees , e acreçemtar , como he meu defeio : e po- 
yy rem de poerdes maão em tal requefta nom me praz , ante 
9y vos mamdo que o nom façaaes , nem curees mais dello (4) ,,. 
Nunailvarez quamdo vio a teemçom delRei , defprouguelhe 
dello , e ficou muj quebramtado ; e alli ouve fim fua requeíta , 
por que mais nom pode fazer. 



Ddd ii CA- 



(1) íená tam boa obra 7". (z) volTa grande T. (^) terey T* (4) delia T. 



^^8 Chuoniga 

CAPITULO CXXIV. 

Como as gallees de Portugal forom hufcar as de Cajlel- 
la^ e como as achar om no porto de Saltes. 

COmo em cima avemos tocado, cada huum dos Reis no 
começo defta guerra fe trabalhou de fazer armada de 
gallees 5 e forom as mais que cada huum eftomçe podet'^ ar- 
mar ; ca elRei de Caftella armou dez e fete em Sevilha , e 
elRei de Portugal armou vijmte e huuma em Lixboa , chumi 
galliota , e mais quatro naaos que hiam com ellas : e por 
quamto per (^^ eftas gallees que elRei Dom Fernamdo armava, 
nom avija abaftamça de galliotes , mamdava elRei trager dos 
outros logares do reino mujtos homeens prefos pêra eilas , e 
tragiam os baraços cheos delles , e emtregavomnos aos al- 
caides das gallees ; e deíla guifa forom em breve tempo ar- 
madas , como quer que todos avijam por gram mal , tomarem 
os lavradores e as outras pobres gentes , e meteremnas nas 
^allep defta guifa ; porçm foi affi feito como elRei mam- 
dou , ,e ellas preftes de todo o que compria. Almiramte era 
deita frota o comde Dom Joham ÁífoníTo Tello , irmaao da Rai- 
nha , c hia na gallee que chamavom a real , e çimquocmta 
homeens darmas comíigo : por capitam hia Gomçallo Tcmr- 
reiro , em outra gallee muj bem corregida ; e por patroõcs 
cada huum de fua hiam , Stevam Vaaz Philipe , Gonçallo 
Vaafquez de Meloo , Airas Pcrez de Caamooes , Joham Alva- 
rez , comendador, irmaão de Nunallvarez , Aífonífo Eftcvcz 
Daazambuja , AíFonlTe Annes das leis , Gil Efteves Farifeu , 
Rui Freire Damdrade , Alvoro Soarez , Fernam de Meira , e 
outros que nom curamos de dizer. As gallees c naaos pref- 
tes de todo o que lhe compria , partirom. de Reílello no mez 
de junho , omze dias amdados delle , e chegarom ao Algarve , 

cof- 

(i) podia T, (2} peera J. 






d'elRei D. Fernando. ^99 

coila de Portugal , em bufca das gallees de Caílella , que ja 
bem fabiara que amdavom pello mar dias avia. Das gallces 
que em Sevilha forom armadas , era capitam Fernam Samchtz 
de Thoar , e chegou com ellas ataa o Algarve ; e quamdo 
ouve novas que as de Portugal hiam pêra alia , nom embar- 
gando que foíTe aíTaz de boom e ardido caralleiro , pêro re- 
çeamdo, como era razom, a avamtiigem das mais çimquo gal- 
lees e quatro naaos , que as de Portugal levavom comfígo , 
nom quis alli atemder , e tornouíTe. Os Portuguefes quamdo 
chegarom , hiam ja alguamas gallees mimguadas dauga , e por 
que fouberom novas que pouzo tempo avija que as gallees 
de Caílella partirom , por temor que ouverom delias , difíerom 
que fe nom deteveíTem mais cm na tomar , mas quem augua 
levaíTe , partiíTe com as outras que a nom tijnham , e logo 
as feguiíTem fem fazer mais dcteemça : e efto foi aílí trigofa- 
mente feito , que nom curarom de fallar como aviam de fa- 
zer , nem poer avifamento ^'\ nem hordenamça de pelleja , por 
que ja lhes parecia que aas maaos os tijnham tomados , íem 
defeníTom que os outros por H teveíTem ; e efte foi o primei- 
ro aazo da defavemtuira , que aviara daver : e himdo ellas aíli 
aas vellas com mimguado vemto , que todas aviam por for- 
tuna emcamjnhar o que delias hordenado tijnha , deu eftomçe 
tim gram vifta a alguuns pefcadores , que a duas e três legoas 
virom boyas de redes que no mar jaziam , e fem mais fal- 
lar nem pedir leçemça, decerom os trcus tomando os remos, 
e partiromífe da companhia oito gallees , que remarom pêra 
alia : as outras feguimdo viagem com efcaíTo vemto , começa- 
rem de ficar duas que eram pefadas , e muj maas de vclla , a 
faber , a de Gil Louremço do Porto , e a de Gomçallo Vaaf- 
quez de Melloo ; aíTi que as doze hiam foos diamte , fem. 
mais companhia de naaos nem gallees. Himdo elles aíH 
defta guifa , fcemdo ja horas de meo dia , virom os maí^ 
tos das gallees de Caftella , que jaziam lomge arvorados , cm 
huum lugar que chamam Saltes; e diífe AíFoníTe Anes das 

leis 

(O aviíamenio nenhuum T. 




4CO Chronica 

leis que as primeiro vio : >» Senhor , boas novas , ca aquj 
» teemdes a frota de Caftella , que vijmos bufcar »: elle amai- 
nou logo , e todallas outras gallees callarom as vcUas ; as 
isentes começarom de ferver na gallee do comde , trabalham- 
do cada huum de fc armar e fazer preftes : 55 Senhor , diíTe 
í> AíFoníTc Annes , nom vos triguees pêra pellejar , mamdaae 
39 chamar aquellas gallees per efta galliota , e daae de bever 
sy aa companhi ; ca tempo terees pêra vos armar, e gaanhar 
jj homrra , como defejaacs »5. O almiramte nom curam do dif- 
to , armavomíTe todos quamto mais podiam : AíFomíTe An- 
nes e os outros , quamdo aquello virom , trabalharom todos 
de íe armar como el fazia , pefamdolhe mujto porem do 
geito que em tal feito queria teer. 

CAPITULO CXXV. 

Como as gallees de Portugal pellejarom com as de Caf- 
tella^ e jorom vemçidas as de Portugah 

Uamdo as gallees de Caftella virom que eftas doze que 
hiam deamte , faziam moftramça de pellejar com ellas , 
forom muj ledos deosvijr receber; veemdo que a avamtagera 
que os Portuguezes por íi tijnham damte , ficava a elles per 
tal pelleja ; ca homde aa- primeira eram tantas por tamtas c 
mais çimquo de recoíTo , que as de Portugal tijnham, ficarom 
cftomçe todas iguaaes e çinquo de melhoria aos Caftellaáos. 
Mas quem fe nom efpamtara de tal novidade dardideza , a qual 
quer lifudo mujto de prafmar , teer o conde fua melhoria, e 
ajuda tam preftes das outras gallees , e per fouteza deforde- 
nada com cobijça de gaanhar homrra , dar a avamtagem que 
tijnha por fi, em ajuda de feus emmjjgos : e ja nom he de 
negar que pellcjamdo tamtas por tamtas , cada huuns ave- 
riam que fazer por fua homrra, moormente aazar que cobraf- 
fem os outros tal melhoria fobrelles , ifto certamente nom 

foi 



\ 

d'elRei d. Feíinando. 401 

foi fouteza , mas foi famdia profumçom , come homem que 
numca fe em outra tal vira, nem prezava avifamentos , nem 
comíTelho de nenhuum : e defta guifa fem mais hordenamça , 
nem outro regimento boom que teveíTe , remou a gallee do 
comde comtra as de Caftella , dizemdo aas outras que fezef- 
ícm aílí come elle. O almiramte de Caftelia Fernam Samchez , 
mais avifado e fages ern tal obra , como aquel que ja fora 
em femelhamtes feitos , tragia as gallees todas em efcalla , 
iguaaes em batalha, e el na meatade ; ecomo chegarom huu- 
mas aas outras , aferrou cada huuma com fua , eduas de cada 
parte , e afaílaromíTe de recoíTo ; e homde compria , moftra- 
vom fua ajuda , e ferimdoíTe de boamente cada huuns como 
melhor podiam , pella regra de dous a huum , começarom de 
fe vemçer as gallees de Portugal ; porem que taaes ouve hi , 
que três vezes forom emtradas , e três vezes deitarom os em- 
mijgos ; e como huuma era veemçida , leixavamna fobre a am- 
cora , e remavom rijamente contra outra , e aífi as desbarata- 
rem todas. As outras gallees que alçavam as redes , quam- 
do as virom pelleiar defta guifa , remarom comtra ellas por 
as ajudar ; e quamdo chegarom , eram ja as outras acerca to- 
das veemçidas; e forom eftas oito melhores de veemçer , que 
as doze primeiras , com que ja pelleiarom. E começouífe efta 
pelleja a horas de vefpora, e durou ataa cerca da noite , na 
qual forom dhuuma parte e dooutra mujtos feridos e poucos 
mortos , e as gallees de Portugal desbaratadas todas , falvo a 
gallee , em que hia Gil Louremço do Porto , que nom quis 
chegar quamdo efto vio , e fogio pêra Lixboa , damdo no- 
vas aas naaos , que difto parte nom fabiam , que fe tornaflem j 
e nom foliem alia: e foi efta batalha huuma terça feira , dia 
de Samta Jufta, dez e fete dias do dito mes. A frota de Caf- 
telia fez fabcr a Sevilha , como levavom as gallees de Portu- 
gal tomadas , e fahiam as donas e quamtas podiam aver bar- 
cas ebatees, a veer como as levavom , com os pemdoões ar- 
raftamdo pella augoa , como he coftume ; e forom as gentes 
emtregues no curral das taraçenas de Sevilha , lamçamdo a 

to- 



SJ^SM O] 



402- Ghronica 

todos ferros , pofto que mujtos foíTem , falvo ao comde e a 
Gomçalio Temrreiro , que forom levados a cafa delRei. 

CAPITULO CXXVI. 

Como elRei Dom Fernamdo fouhe novas , que afua frota 

era -perdida. 

CHegou a Lixboa a gallee que fogio , e nom fe foi lo- 
go dereito í'^ aa cidade , mas poufou mujto preto Dalma- 
daa 5 lamçamdo a amcora fem fahir fora j e os que a virom 
vijnr daquefta maneira , logo fofpeitarom feu maao aqueeçi- 
mento ; porem aguardavom que gallee poderia feer, ca aim- 
da nom eram bem certos , fe era de Portugal , fe era de Gaf- 
tella : e elles como poufarom , começarem de fe depenar to- 
dos , e com altas vozes faziam gram doo. As gentes da cida- 
de, e quamtos efto virom, bem emtemderom logo , como era 
verdade que a frota era de todo perdida ; e começarom a fa- 
zer gram pranto , aílí homeens como molheres , cada huum 
por aquelles a que bem queriam. Emtom fe meterom em 
barcas e batees , e foram fab.er que novas tragia í^^ , e foilhe 
recomtado pelo meudo, da guifa que fora feu trifte aqueeçi- 
mento. O doo foi muj gramde nom foomente na cidade , mas 
em todoUos logares , donde gemtes em ella forom emvjadas ; 
cuidamdo que quamtos nella hijam , todos eram mortos , pof- 
to que lhos da gallee diireíFem , que nom erão falvo cativos. 
ElRei Dom Fernamdo eftava em Samtarem , quamdo lhe em 
outro dia chegou tal recado j e el que efperava , cftamdo muj 
ledo , que a fua frota lhe avia de 'trager tomadas as gallees 
de Caftella , foube emtom per certas novas , como as fuás 
com as gemtes eram todas filhadas , falvo aquella que fugi- 
ra , que nom fora na pelleja. E ouve elRei por ello tam gram 
nojo , quamto bem podees emtemder que por tal razom de- 
via 
(i) dereita T. (zj traziam 2". 



d*elRei d. Fernando* 403 

via filhar. Muiro tljnha elRei gram razom de tomar deítcfii- 
perado nojo por tal comtrairo aqueeçimento : primeiramente 
por a gram deíbmrra que em tal feito recebia, feemdo el come- 
redor da guerra , creendo aaver vimgamça dos nojos paíTa^ 
dos : aalem ('^ deílo a perda de tamtas gemtes , que lhe faziam 
mingua por a guerra que começada tijnha ; ca eram bem féis 
mil pelToas , amtre cavalleiros , e efcudeiros , e mareamtes , e 
outras gemtes ; des i perda de fereemta mil dobras , que vai- 
liam as gallees com fuás efquipaçooes : aííí que poemdo eftas 
coufas e outras em pefo, era feu nojo cada vez mais dobra- 
do. A Rainha que o aíII vio trifte , como era oufada e mujto 
fallador , dilTe huum dia comtra elRei em efta guifa .* » Pof 
5J que vos anojaaes aíli , fenhor, por a perda de voífa frota, 
I » e como outras novas efperavees vos delia , fe nom eítas que 
I )9 vos veherom? Digo vos, fenhor, que numca eu outras no- 
?> vas efperei delia em minha voomtade , falvo eftas que ago- 
5> ra ouço : por que como eu vj (^^ que vos mandavees trager 
5> os baraços cheos de lavradores e de mefteiraaes , e os mam- 
5> davees meter em ellas, com outros agravos que faziees ao 
5» poboo , fempre eu cuidei em minha voomtade , que tal 
3> mamdado vos avija de vijnr delia , como vos veo 5>. ElRei 
callouíTe nom damdo a efto repofta , e mujtos fallavom am- 
teífi(5) dizemdo , que a Rainha diífera muj bem. 

CAPITULO CXXVII. 

Como o Ijfamte Dom 'Joham foliou com aíguuns Por^ 

tuguefes que lhe dejjem hixhoa , e nom fe comprio 

como el quifera. 

ELRei de Caftella em efte comeòs avia emtrado per Por- 
tugal , e cercara huum caftello que chamam Almeida j 
e teemdo aimda o cerco fobrelle , chegaromlhe novas como 

Tom. IV. Eee a 



CO alem T. £. (2) como ouvy T. (5) antre fy T. B. 



404 Chronica 

a fua frota desbaratara a de Portugal , e que trouverom as gal- 
lees e toda a gemte delias cativos a Sevilha. ElRei ouve 
gram prazer com tal recado , aíli por a homrra e veemcimento 
que ouvera , como emtemdemdo que tijnha o mar por li , e que 
os Imgrefes nom fe atreveriam de vijnr em ajuda delRei 
Dom Fernamdo , pois a frota de Portugal era perdida. O 
Iffamte Dom Joham que eftomçe fazia guerra pella comarqua 
de Riba Dodiana , como foube a perda (') da freta de Por- 
tugal , foiíTe aprcíTa a elRei de Caíklla , dizemdo que o 
leixalTe vijnr a Sevilha , por fallar com alguuns daquelles Por- 
tuguefes que forom tomados j por quamto emtendia que am- 
trelles vijnham alguuns taaes , que lhe dariam Lixboa , fe com 
elles fobreíto fallaíTe ; por que eram naturaaes da cidade , e 
os moores e melhores dos que hi viviam : a elRei prougue 
deito mujto , e deulhe cartas quaaes el demamdou. A poucos 
dias chegou o Tífante a Sevilha , e moftrou cartas per que ar- 
maíTem as gallees que el dilTeíTe , e lhe emtregaÔem os pa- 
troões que el nomeaíTe ; e forom armadas féis gallees a feu 
requerimento , e emtregues dos patrooes das gallees de Por- 
tugal eftes feguimtes , e outros que nomeou , a faber : Ste- 
vam Vaafquez Fillipe , Gomçallo Vaafquez de Melloo , Af- 
fomíTeanes das Leis , Girai Martins , AfFoníTo Eftevez Daazam- 
buja, Gil Eftevez Farifeu, e outros. Com eftes fallou o If- 
famte , dizemdo que bem certo era se elles quifeíTem , que 
per feus criados e amigos el poderia cobrar Lixboa , e que 
defto fe feguiria a cada huum delles gramdes acrcçcmtamen- 
tos e avamtageens, que lhes fazia emtemder per mujtas ra- 
zoõcs proveitofas , com aíTaz de juras fobrefto feitas ; des i 
livramento da prifom em que eram , fem remdiçom ne- 
nhuuma , com outras mujtas prooes que a cada huum per ra- 
zom moftrava , que era per força de fe lhe feguirem. Elles 
diíTerom , que fazer tal coufa nom era em nem huum ^-^ delles , 
yiem aviam poder de o poer em obra, efcufamdoíTe com muj- 
tas razoões , que o líFamte desfazia com outras. Pêro aaçima 

per 

- -I— II iiBiii rr-T-Bii^ii— jB 11 111 I II ■ • 

(i) como foube parte da perda 7. (2) nenhuum T. ^. 



im^X Ou 



i)'tí iRei d. Fernando. 405' 

per feu aificamento emtrarom nas gallees , e veherom com el- 
le. O lílamte com as gallees amte Lixboa , como os da çida* 
dade conheçerom que eram de Caílella , começarom de lhe 
tirar aos troons c viratoões , e quifcram armar fobrellas ; eo 
líFamte quamdo eito vio , tornoufle pêra Sevilha , c levou os 
patrooes comfíigo , falvo AíFoníTeannes das Leis que lhe fu- 
gio em Almadaan , dizendo que o pofeíTem em terra huum 
pouco , por que lhe fazia o mar gram nojo , e el promcteo 
a huum efcudeiro que o levava em guarda, que o cafaria com 
huuma fua irmaâ , e lhe daria tal cafamento , per que viveíTc 
homrradamente ; e el comfemtimdo em efto , fogirom ambos ^ 
e aíE foi livre da prifom. 

CAPITULO CXXVIIL 

Do recado que elRei ouve da frota dos Ingrefes , e co^ 

mo chegou a Lixboa. 



ELRei Dom Fernamdo depois da partida de Joham Fer- 
^ namdezAmdeiro , quando veo a Eftremoz com recado dos 

Ingrefes, fegumdo comtamos em feu logar, mandou a Imgra- 
terra Loureraçe Anncs Fogaça , homem avifado e de boa au- 
toridade 5 feu chançeller moor e do feu comífelho , e eito pê- 
ra emcarainhar e firmar feus trautos , fegumdo o acordo que 
per Joham Fernamdez emviara ; o qual era , que o comde 
veheíle em fua ajuda com as mais gemtes que podeífe jum- 
tar , e que trouvelFe comííígo huum filho que tijnha de fua 
molher, neto delReiDom Pedro de Caftella , o que matarom 
em Momtel , pêra cafar fua filha Dona Beatriz com elle , pêra 
feerem ambos herdeiros c fenhores do regno depois de fua 
morte. E eftamdo elRei aíH anojado , por a gram perda da 
frota que avia recebida , huum efcudeiro que chamavom Rui 
Cravo , que fora em companha de Louremçe Annes a Imgra- 

Eee ii ter- r 



4c6 Chronica 

terra , chegou a Buarcos em huuma barcha ^^\ e fahiu ^^^ em ter- 
ra , por levar novas a çlRei de como os Imgrefes vijnham em 
fua ajuda: porque ram gramde era o prazer que elies emteii- 
diam que elRei averia de fua vijnda, que nom vijam o dia que 
lho fezeíTem faber , por aver delle gramde alviífera , e lhe dar 
boas novas. E foi aíÊ de feito , que chegou Rui Cravo a Sam- 
larem , e deu a elRei novas como a frota dos Imgrefes parti- 
ra de Preamua, e vijnha pello mar, e que muj cedo fceria 
emLixboa; comtamdolhe que gemtes eram, e quaacs fenho- 
res 5 e de que guifa , e como vijnham corregidos , e com que 
voomtade. ElRei ouve gram prazer com eítas novas , nom 
embargamdo o nojo que de prefemte tijnha, por a perda da 
frota ; em guifa que tamto e muj to moor foi o prazer que 
eftomçe tomou , que o nojo que amte ouvera , quamdo lhe 
primeiro veherom novas delia : e nom foomente elRei e os 
de fua cafa , mas todollos do reino foram ledos de fua vijm- 
da , nom embargamdo o nojo que tijnham , fperamdo per 
elles de cobrar ememda do dano que dos Caíleilaaos a vijam 
recebido. Eftamdo elRci eai cíI.í lediçe , chegoulhe ern ou- 
tr() dia recado de Buarcos, que ja afreta parecia no mar, e 
elRei foi com iíto muj to mais ledo. Eftomçe hordenou de se 
partir pêra Lixboa ; e amte que partilTe , como lhe chegou re- 
cado dos moradores do logart'^ que os Imgrefes poufarom am- 
te a cidade , partio logo apreíTa huum ^'^^ batel , e veoíTc a Lix- 
boa j e depois que hordenou as coufas que compriam, foif- 
fe aa naao do/ comde , que eílava muj nobremente apoftada , 
e fallarom ambos no que lhes prougue , moftranidolhc elRei 
Ó-lSí boa graça , e iíTo meefmo aa comdeíTa , e aos íenhores e 
fidallgos que com el vijnham , os quaaes eram eftes. Primei- 
ramente nomeemos efte MoíFe Heimom , comde de Cambrig , 
filho lidemo delRei Eduarte Dhimgraterra , o velho; o qual 
tragia fua molher Dona Ifabel , filha delRei Dom Pedro Rei 
que fora de Caftella , bem acompanhada de donas e domzel- 

las , 

(i) barqua , T. (2) barca sahio £. (3) moradores da cidade T. (4) ^nr» 
huum T. 






D'elRei d. F p: r n a m d o. 407 

las , e huum fcu filho pequeno, que avia nome Eduarte come 
feu avoo , moço de hidade ataa féis annos ; e vijnha hi huum 
filho delRei de Imgraterra baftardo , e MoíTe Guilhem Beocap 
comde eftabre de toda a frota , e o fenhor de Botareeos 5 c 
MoíTe Mau de Gornai , que era marichal , e o fo duque ('^ de 
Latram , e Tomas Simom alferez do duque Dalamcaftro que 
trazia fua bam.deira , e o bifpo Dacres , e MoíTe Canom hor- 
denador das batalhas , e MoíTe Tomas Frechete ^^\ e o Garro, 
e Moíle Joham Deftimgues 5 e Chico Novel , eMaao Bornj , 
e o fenhor de Caílelnovo , que era Gafcom , e outros capi- 
taães , que dizer nom curamos ; e traziam comíigo de gemtcs 
darmas e frecheiros ataa três mil , bem preítes pêra pelleiar , 
aíTaz de frcmofa gente, e bem corregidos. Evijnham hi mais 
alguuns cavalleiros dos que fe partirom de Portugal , quamdo 
elRei Dom Fernamdo trautou as pazes com elRei Dom Hem^ 
rique , aíH como Joham Fernamdez Amdeiro , e Joham Af- 
foníTo de Beeça , e Fernam Rodriguez Daça , e Martim Paulo , 
e Bernaldom , e Joham Samchez cavalleiro de Santa Caterina , 
e outros ; e chegarom eftas gemtes todas a Lixboa em qua- 
remta e oito vellas , amtre naaos e barchas , aos dez e nove 
dias de Julho da era ja em cima efcripta de quatro centos e 
dez c nove annos. 

CAPITULO CXXIX. 

Como o comde e os outros capitaães forom apoufemtados 
na cidade , e da maneira que elRei com elles teve, 

DEpois que elRei acabou de fallar com o conde , dilTe 
que era bem que fahiíTem em terra : e emtrarom nos ba- 
tees o comde e fua molher , e eíTes fenhores , e fidallgos , e 
donas , e domzellas , e mujta doutra gemte que com elles 
vijnham ; e como forom na Ribeira , os da cidade os recebe- 

rom 

(i) e o fob duque T. (2) e Moffe Thomas , e Frechete , T. 



I 






4c8 Chronica 

rom muj homrraclamente , fegumdo elRei leixava hordenado/ 
E tomou clRei a comdeíTa de braço , e forom todos apee ataa 
egreia cathedral , homde jaz o corpo de Sam Viçemte : e como 
fezcrom fua oraçom , e íairom da fee , eftavom ja preRes pê- 
ra o comde e fua molher , e pêra as outras homrradas pcf- 
foas , bcftas bem corregidas , como compria. E levou elRei 
de rédea a comdcfía ataa o moefteiro de Sam Domimgos , om- 
de hordenou que poufaíTem , e o còmde eftabre e o marichal 
em Sam Framçifco , e o fenhor de Botareeos emSamto Agoí- 
tinho ; e os outros fenhores e fidallgos pella cidade , cada 
huum fegumdo compria , falvo na cerca velha. E dizem que 
fallamdo elRei ao comde na perda da fua frota , e da gui- 
fa que avehera , que rcfpomdeo el e diíTe : que par Deos 
nom força por aquella perda ; que quem ouveíTe a terra , 
averia as gallees e o mar. A Rainha Dona Lionor a muj 
poucou dias partio de Snmtarem com a líFamte fua filha , e 
os delRei e lodollos da cidade a fahirom a receber : e ella 
amte que folfe ao paaço , foi fazer oraçom a Samta Maria de 
efcada , que he no moefteiro humde poufava o comde \ e a com- 
deíTa de Gambrig lhe veo fallar , e abraçaromíTe ambas , e ef- 
pedioíTc a Rainha , e foiíTe pêra feus paaços , e a comdeíTa fi- 
cou no moeíteiro hu poufava. Em eílo comvidou eIRei o com- 
de , e todollos capitaáes que com el vijnham , e a Rainha a 
comdeíTa , e as donas e domzellas de fua companha , e eile 
comvite foi nos p.\aços delRei do caítello , homde a todos 
foi feita falia muj homrradamente ; e em fim da mefi foi 
aprefemtado ao comde , e aos outros fenhores, mujtos panos 
de íirgo com ouro de defvairadas maneiras , fegumdo por el- 
Rei era hordenado; e iíTo meefmo deu a Rainha aa comdeíTa, 
e molheres de fua cafa , panos e joyas , de que forom com- 
temtes. E per outras vezes comvjdava elRei o comde c os 
outros capitaães , e ho hija veer omde poulava el e a Rai- 
nha fua molher, partimdo com o c^nide muj graadamente^ 
e com cada huum dos outros , fegumdo feus eirados. E por 
quamto nos capitólios antre elRei e o comde devifados, huum 

dei- 



d'elRei d. Fernando. 409 

delles era , que elRci defle emcavallgaduras a todos , fecmdo 
a cada huum defcomtado do foildo que avia daver , o preço 
da befta que ouvefle ; mandou elRei chamar os fidallgos e 
comçelhos de feu regno , e fez cortes com elles , e acaba^- 
das as cortes , mandou dRei por todoUos cavallos dos acora- 
thiados de feu reino , e por quaaes quer outras beílas que 
folTem achadas , aílí muares come cavallares , pêra dar aos Im- 
grefes ; c per etta guifa forom todos emcavallgados , e toma- 
das a feus donos as melhores que hi avja , fob efperamça de 
feerem pagadas , a qual paga numca depois ouverom. Ao 
comde mamdou elRei huum dia doze mullas pêra a comdef- 
fa , as melhores que fe efcolher poderom , felladas e emfrea- 
das aíFaz nobremente , e doze cavallos pêra elle per efía 
meefma guifa ; amtre os quaaes hia huum gramde e fremofo 
cavallo , que elRei Dom Hemrrique feemdo vivo , mamdara 
em prefente a elRei Dom Fernamdo , que era o milhor que 
eftomçe deziam que avja na Efpanha : e eílas beílas efco- 
Iheitas que derom aos Imgrefes , mujtas delias avia taaes , 
<jue aadur podia huum Imgres levar huuma delias a auga ; e 
como forom em feu poder , trautavomnas de tal guifa , que 
huum levava depois vijmte e trimta amte íi, como manada 
de manífo gaado. 

CAPITULO CXXX. 

Como elRei declarou por o Papa de Roma, e efpofou 
fua filha com o comde de Cambrig. 

SEgumdo ouvjítes em feu logar , elRei Dom Fernamdo 
tijnha declarado por aquel que fe chamava Clemente fe- 
ptimo , cuja parte favorizava elRei de Framça, e elRei de 
Caftella, e alguuns outros fenhores: e quamdo os Imgrefes 
veherom , por quamto tijnham com o Papa de Roma Urba- 
no 






410 Chronica 

no fexto , nom ouvjain miíTa de nenhuum frade nem clérigo 
Portuguez. Ellomçe diíTe o comde a elRei , que el vijnha pê- 
ra o fervir e ajudar em fua guerra comtra elRei de Caftel- 
la , que era çifmatico , teemdo com huum Papa que eftava 
em Avinhom ; e que fc el quiria que o Deos ajudaíTe em fua 
puerra 5 que deíTe a obediemçia ao padre famto de Roma , e 
que defta guifa lho emviava elRei leu fenhor e padre dizer, 
e todo o comffelho de Imgraterra ; por quamto eram certos , 
que aquel era verdadeiro Papa , e outro nom : e el diííe que 
lhe prazia ,. e outorgou de o fazer aíli. E quamdo veo aos 
dez e nove dias do mes dagofto , na feita da degollaçom de 
Sam Joham Baptifta , elRei Dom Fernamdo avemdo maduro 
comírelho com o arçebifpo de Bragaa , e outros leterados ho- 
meens de feu reino , juramentados fobre huuma oftia fagra- 
da na fee cathedral da dita cidade , pubricamente prefemte 
todo o poboo , declarou Urbano fexto feer verdadeiro Pa- 
pa , e outro nom; e ifto prefemte os Imgrefes , e mujto ou- 
tro poboo. E logo em eíTe dia a hora de terça , efpofou el- 
Rei fua filha a lífamte Dona Beatriz , per pallavras de pre- 
femte , com Eduarte, filho do comde de Cambrig , moços 
mujto pequenos ; e forom ambos lamçados em huuma gram- 
de cama e bem corregida , na camará nova dos paaços dei* 
Rei ; e o bifpo Dacres , e o de Lixboa , c outros prelados , 
rezarom fobre elles, fegumdo coftume de Himgraterra , e os 
beemzerom. A cama era bem emparamenrada , e a cubrica- 
ma dhuum tapete preto com duas gramdes figuras de Rei e 
de Rainha na meatade, todas daljofar graado e meaao , fe* 
gumdo requeria homde era pofto : a bordadura darredor era to- 
da darchetes daljofar, e dentro iguaaes feguras daljofar , brol- 
ladas das linhageens de todollos fidallgos de Portugal , com 
fuás armas acerca deflí : e efte corregimento de cama foi 
depois dado a elRei Dom Joham deCaftella, quamdo caiou 
com efta líFam te Dona Beatriz, fegumdo adeamte ouvirees ; ê 
era avuda em Caftella por muj rica obra, qual outra hi noiti 

avija : 



d'elRei D, Fernando, 41 1 

avija : e forom eftes efpofoiros feitos com efta comdiçom y 
que morremdo elRei Dom Fernamdo fem aveemdo filho à(:: 
fua molher, que efte Duarte e fua efpofa fobçedeíTem o re- 
giio depôs fua morte ; outorgando ifto todolios fidallgos , e fa- 
zemdolhe menagem por todallas villas , e cidades , e fortelle- 
zas do regno, E depois defto no mes de fetembro , aos oito 
dias delle , foi pubricada, prefemte elRei e o comde , e muj- 
tos fenhores e prellados , huuma letera do Papa Urbano , em 
que privava de todo bem e homrra eccleliaftica Roberte , que 
fe chamava Clemente feptimo , e iíTo meefmo todolios car^ 
deaaes e pelToas leigas , que lhe davom comíTelho e favor e 
ajuda , aflí pubricamente come em afcomdido ; fcomumgam- 
doos que nom podeífem feer afoUtos fe liom pello ('^ Pa- 
pa 5 falvo fe foíFe em artijgo de morte , damdo feus beens e 
elles por fervos aaquelles que os tomaíTem , outorgamdolhe 
aimda aquelles privillegios , que dam aaquelles que vaão em 
ajuda da terra famta. 

CAPITULO CXXXI. 

Como elRei de Cajlella ouve novas da vijmda dos Im^ 
grefesj e da maneira que em ejlo teve, 

O Comde Dom Álvaro Perez de Caftro eftava em Elvas 
por fromteiro , fegumdo ja teemdes ouvjdo , e o líFam- 
te Dom Joham feu fobrinho , que amdava em Caílella com 
o meeltre de Samtiago Dom Fernamdazores , e o meeltre Dal- 
camtara com mujtas companhas, tijnham cerco fobrelle, avija 
ja dias : e quamdo os Imgrefes chegarom a Lixboa , efcre- 
pveo logo elReiDom Fernamdo ao comde toda fua vijmda, 
e que gemtes eram. O comde muj ledo com eftas novas , 
mamdou dizer ao Iffamte que o tijnha cercado , que fe lhe 
Tom, IV. , Fff com- 

(i) pello verdadeiro 7. 



412' Chponica 

compriíTem algumas mercadarias , ou outras coufas de Tmgra- 
, terra , que mamdaíTe a Lixboa , homde eíl-avom huumas pou- 
cas de naaos de Imgrefes que cftomçe veherom , e que alli 
acharia todo o que meíler ouveíTe. E quamdo ifto foi aífi dito 
efcufamente ao líFamre, começouíTe a rogir pollo arreai par- 
te deílas novas emcubertamente. Alguuns cavalieiros ouvijm- 
doo dizer , pregumtarom a Pêro Fernamdez de Vaiiafco , que 
era na companhia , que novas eram aquellas que le aíTi ru- 
giam. 5> Que novas ham de feer , diíTe el ? Som novas que 
y> elRei Dom Fernamdo ha mais de nove mefes que era pre- 
3> nhe dos Imgrefes , e pariuhos agora em Lixboa , e tem- 
?> nos comíigo ". Eftomçe hordenarom de nom eftar alli 
mais , e partirom Delvas huuma terça feira no mes dagofto , 
aveemdo vijmte e cimquo dias que tijnham o logar cercado. 
E efta partida dizem que foi per mandado delRei de Caílel- 
]a , que tijnha cercada Ahneida , como diíFemos ; e quamdo 
foi certo da vijmda dos Imgrefes, mandou chamar eftas gem- 

. tes que fe vehelFem pereelle : e chegou o líFamte Dom Jo- 
ham , e o comdc de Mayorgas Dom Pedro Nunez de Lara , 
filho baftardo do dito Joham Nunez de Lara , fenhor de Biz- 
caya , e outros cavalieiros , e acharom elRei nom bem faáo 
por eftomçe. Hora alguuns fcrepvem aqui , que feemdo elRei 
de Caftella certo da vijmda dos Imgreles , e que gemtes 

, e capitaães eram , e como nom embargamdo que vijnham em 
ajuda delRei Dom Fernamdo contra feu regno , que aalem 
defto tragiam voz e titullo do duque Dalemcaftro , por aazo 
de Dona Conftamça fua molher , filha que fora delRei Dom 
Pedro ; que el fcrepveo fuás cartas ao comde de Cambrig, 
dizemdo , que fabia per certas novas como el, e mujtos boons 
cavalieiros e homeens darmas aviam chegado a Lixboa , por 
fazer guerra e dano em feu reino , em ajuda delRei Dom 
Fernamdo ; e que fe o elles fezeíTem certo de batalha, 
que el partiria daquel logar , o qual tijnha ja cobrado per 
preitefia , e emtraria pello reino duas ou três jornadas, e 
os efperaria em logar aazado pêra lhe poer a praça. E que 

por 



ç:i?í\T O o 



d'elRei d. Febnando. 413 

por qiiamto em efta fazom os Imgrefcs nom eram aimda em- 
cavallgados , que nom derom repofta a ifto ; amte fezerom 
maao gafalhado ao que lhe levou as cartas. ElRei de Caílel- 
Ja hordenou eftomçe de poer fuás gentes acerca do eftremo 
de Portugal , e mandava por todoUos feus perçebemdolTe de 
batalha , a qual vija que fe nom podia efcufar , queremdo os 
Imgrefes emtrar em feu reino. 

CAPITULO CXXXII. 

Das maas maneiras que os Imgrefes tijnham com os 

moradores do regno^ e como elRei nom tornava''''^ 

a ello 5 por que os avja mejler* 

EStas gemtes dos Imgrefes que dilTemos , como forom apou- 
femtados em Lixboa , nom come homees que vijnham 
pêra ajudar a defemder a terra , mas come fe foflem chama- 
dos pêra a deítruir , e bufcar todo mal e defomrra aos mora- 
dores delia , começarom de fe eftemder pella cidade e termo , 
matamdo e roubamdo , e forçamdo molheres , mollramdo tal 
fenhorio e defprezamento comtra todos , come fe foíFem feus 
mortaaes emmijgos, de que fe novamente ouveíTem dafenho- 
rar ; e nenhuum no começo oufava de tornar a ello , por 
gramde reçeo que aviam delRei , que tijnha mandado que 
nenhuum lhes fezeíTe nojo , polia gram neçeífidade em que 
era pofto de os aver meller ; cuidamdo el aa primeira muj 
pouco , que homeens que vijnham pêra o ajudar, e a que 
efperava de fazer graadas merçees, teveíTem tal geito em 
fua terra : e porem quamdo lhe alguuns faziam queixume 
das grandes fem razoôes , que delles recebiam , fallava el- 
Rei ao comde fobrello , mas em todo fe fazia pouco corre- 

Fff ii gi- 

(1) torvava B* 



^T4 Chronica 

gimeiíto. Que compre dizer mais , em tanta preíTa e foiei- 
çom forom poftos os da cidade e feu termo, avemdo delles 
medo come de feus gramdes cmmijgos , que o oomde hor- 
denou por guarda das quimtaãs e cafaaes , que cada huum 
teveíTe fenhos pemdooes de fua devifa , que era huum hU 
com bramco em campo vermelho ; e a quintaã e cafal hom- 
de os Imgrefes nom achavom aquel pemdom , logo era rou- 
bada de quamto hi avja : e quantas beftas vijnham pêra a ci- 
dade , aíli das quimtaãs , come dos cafaaes e montes darredcr , 
pêra vemderem fuás coufas, cada huum avja de trazer huum 
pemdom daquelles, que cuílava certa coufa , por lhe nom fa- 
zerem mal. Veedc feera boom jogo delles, levamdo aagua as 
beftas delRei , lamçarom maao delias , e tomaromnas per for- 
ça , dizemdo que elRei lhe (') devia folldo, e que o queriam 
penhorar em ellas ; e foi afli de feito que as tomarom , e per 
mamdado do comde forom tornadas. Huuma vez chega rom 
alguuns delles a cafa dhuum homem, que chamavom Joham 
Viçemte jjazemdo de noite na cama , com fua molhcr e huum 
feu filho pequeno , que aimda era de mama , e baterom aa por- 
ta que lhe abriíTe ; e el com temor nom oufou de o fazer , 
e elles britarom aporta, e emtrarom dentro , e começarem de 
ferir o marido : a madre í^' com temor delles , pos a criamça 
amteíli , polia nom ferirem ; e nos braços delia a cortarom per 
meyo com huuma efpada , que era cruel coufa de veer a to • 
dos : e tomarom aquel menino afli morto , e levaromno a el- 
Rei aos paaços em huum tavolleiro , moílramdolhe tal cruell- 
dade como aquel la ; e el nom oufou de tornar a ello , e mam- 
dou que o moftraífem ao comde , que fezefíe dereito daquel- 
les que tal coufa fezerom ; c o comde o mamdou fazer. E 
defta guifa lhe mamdava elRei rogar mujtas vezes , pollos 
gramdes queixumes que lhe vijnham fazer, que pofelFe caf- 
tijgo em fuás gemtes , que nom deftruilTem aíÈ a terra ; e el 
dezia que bem lhe prazia , mas cada vez faziam peor. Outros 

che- 

(O lhes T, (2) e a molher J. ^ 



BTJI^Í OíT 



d'elReí d. Fernando. 415' 

chegarom acima de Loures , por roubar huuma aldeã que he 
lii acerca; e em na roubando, matarom três liomeens : e aíll 
roubavom , e matavom , e deítruhiam mantijmentos , que 
mujras vezes mais era o dano que faziam 5 que aquello que gaC- 
ravom em comer; que tal avija hi , seavija voomtade de co- 
mer^huuma língua de vaca , matava a vaca , e tiravalhe alim- 
gua , e leixava a vaca perder ; e aílí faziam ao vinho , e a ou- 
tras coufas. E elRei por efta razom , como os emcavallgava, 
iTiandavaos arriba Dodiana pêra a frontaria , e elles em vez de 
emtrarem por Caftella a forreiar , davom volta fobrc Ribate- 
jo a roubar quamto achavom , e as gemtes nom os queriam 
colher nas villas, e çerravomlhe as portas , por o gram dano 
que faziam ; aíli como fezerom em Villa Viçofa , quamdo hi 
chegou Maao Bornj com outros Imgrefes j que alçarom volta 
com os do logar , e matarom Gomçalleannes Sam tos , e feri- 
rom outros da villa ; e iíTo meefmo matarom os da villa dos 
Imgrefes , e forom feridos alguuns : elles combaterem Bor- 
va , e MomíTaraz , e efcallarom o Redomdo , e combaterom 
Avis, e quiferom efcallar Évora monte , e nom poderom. Nos 
lugares homde poufavom , ao termo delles hiam aa forragem , 
fazemdo gram dano em paães e vinhos e gaados , e atormen- 
tavom os homeens , ataa que lhe deziara homde tijnham os 
mamtij mentos , e roubavomlhe quamto achavom ; e fe lho 
queriam defemder , matavamnos. As gemtes começarom de 
tornar a eito o mais efcufamente que podiam , e em fojos de 
pam , e per outras maneiras , matavom mujtos delles efcufa- 
mente ; de guifa que per fua maa hordenamça pereçerom 
tamtos , que nom tornarom depois pêra fua terra as duas 
partes delles. 



CA- 



glJTTT^ OZ 



41 6 Chfonica 

CAPITULO CXXXIII. 

Como as gallees deCaJieila chegar om alJxboay e mm 

podemdo fazer nojo aas naaos dos Imgrejes ^ fe 

tornarom pêra Sevilha, 

A Frota das naaos e barchas em que veherom os Imgrefes , 
jaziam todas amte a cidade ; e veherom novas a elRei 
Dom Fernamdo , como a frota das gallees de Caftella vijnhani 
por fazer nojo e dano na cidade , e efpeçiallmente aas naaos 
dos Imgrefes ; e clRei acordou que era bem que aquella fro- 
ta , e outros navios que hi jaziam , que fe foííem todos a Sa- 
cavém 5 que fom duas legoas da cidade , e alli fe lamçaíTem 
todos 5 por jazerem feguros ; e as mayores naaos eftavom deam- 
te todas com as alcaçevas comtra o mar , armadas e apavefa- 
das , percebidas de troões e outros artefiçios , pêra fe defem- 
der ; e mais avijam duas grolTas cadeas , que eftavom deamte 
temdidas dhuuma parte aa outra , que lhe nom podeífem fa- 
zer nenhuum nojo , quaaes quer navjos que comtrairos foíTcm. 
Em terra avija troons eemgenhos, pêra ajuda defua defen- 
fom , com gemtes aífaz, fe lhe tal coufa aveheífe. Jazemdo 
ain a fro*ta defta guifa, veo Fernam Samchez deThoar almi- 
ramte de Caftella , com a armada das gallees com que def- 
baratara as de Portugal , quamdo fora a de Saltes , cuidamdo 
dachar as barchas e naaos dos Imgrefes amte Lixboa , por lhe 
empeeçer em todo o que podeífe ; e quamdo chegarom am- 
te a cidade , acharom o mar defembargado de navjos , e fou- 
berom como todos jaziam em Sacavém ; e quamdo alia forom , 
e virom o rio guardado , e as naaos eftar daquella guifa , tor- 
naromfle, e nom acharom em que fazer dampno , fegumdo 
feu defeio , e foromlTe pêra Sevilha. As naaos dos Imgrefes 
avemdo certas novas , que as gallees de Caftella nom aviam tam 
cedo de tornar , e que lhe nom podiam fazer nojo , feze- 

rom- 



d*elReí D. Fernando. 417 

romíTe preftes, e partirom da cidade, ellas e outros navjos , 
aos treze dias de dezembro da dita era , e delles carre- 
garom de mercadarias , e foromlTe fuás viageens. 

CAPITULO CXXXIV. 

Como elRei e os Imgrefes partirom de Lixboa 3 e chega- 
rom aa cidade Devora, 

ESteve elRei em Lixboa em dar cavallgaduras aos Imgre- 
fes 5 e hordenar as coufas que compriam pêra a guerra ^ 
todo aquel inverno ataa ho veraao feguimte ; e tamto que a 
frota dos Imgrefes partio de Lixboa , logo elRei partio acer- 
ca , caminho de Samtarem , com fuás gemtes , e partio com 
el o comde de Cambrig , e mujtos dos feus com elle , lei- 
xamdo na cidade e termos delia mujtos malles e roubos fei- 
tos ; em tamto que deziam alguuns , que elRei era muj ar- 
reprehemdido porque os mamdara vijnr, por o gramde eílrar 
go que faziam na terra. E nom emtemdaaes que elRei foi 
detehudo , nem partio tam tarde de Lixboa , por aazo da frota 
dos Imgrefes , mas foi aífi per aqueecimento , que naquella 
fomana que as naaos partirom dante a cidade , partio elRei 
e a Rainha , e as gemtes todas que hi eram , e chegarom a 
Santarém ; e mandou elRei fazer huuma pomte de barcas ^ 
pêra poderem paíTar mais tofte , que atraveífava todo o rio ; 
e efteve hi o natal , e depois alguuns í*) dias : e amte que dhi 
partifle , morreo o comdc Dourem Dom Joham Aífonífo Tello , 
e foi per aazo da Rainha dado o comdado a Joham Fernam- 
dez Damdeiro , e dalli em deamte foi chamado o comde 
Dourem Dom Joham Fernamdez. Porem leixamdo de fallar 
huum pouco defta storia , que feguimte trazemos , vejamos ai- 
guuma coufa de fua fazemda, pois aimda do que dizer que- 
remos em outro logar nom ouveftes conhecimento. Omde 

(^ 

(i) dalguns T, 



Cf!T"5T OZ 



41 8 Chuonica 

sabee , que Joham Fernamdez vivemdo na Crunha , morreo 
Fernam Bezerra , huum cavalleiro mujto homrrado deGalliza; 
e fua molher , a que ficara huum filho que chamavom Joham 
Bezerra , cafou com efte Joham Fernamdez , que chamavom 
Damdeiro , pofto que nom foíTe igual pêra cafar com ella ; 
e houve Joham Fernamdez delia quatro filhas , e huum filho: 
huma chamavom , depois que el foi comde , Dona Samcha 
Damdeiro, que foi depois cafada com Aivoro Gomçallvez , fi- 
lho de Gomçallo Vaaíquez Dazevedo ; outra Dona Tareyja , 
que foi molher de Dom Pedro da Guerra , filho do lífamtc 
Dom Joham de Portugal , e cafou com eila per amores , muj- 
to comtra voomtade do IfFamte ; a terceira Dona Ifabel , efta 
cafou depois elRei Dom Joham de Caftella com huum fi- 
lho Dalvoro Perez Dofoyro , que chamavom Fcrnam Dallva- 
rez Dofoyro : outra que chamavom Dona Enes , morreo em 
Galliza , nom feemdo cafada : o filho ouve nome Ruj Dam- 
deiro 5 que foi page moor delRei de Caftella. Sua molher 
do comde avja nome Dona Mayor , molher de prol , e de 
boom corpo. A Rainha depois que femtio fua nom boa 
fama com Joham Fernamdez em alguuma guifa feer defcuber- 
ta , ouve com elle que mamdaífe por a molher , peníFamdo 
ceifar o que delia deziam , pois que el tijnha fua molher na 
terra. Fezeo el aífi , e mandou por ella , e tinhaa per a moor 
parte (*) no caftello Dourem , depois que foi comde ; e quam- 
do ella vijnha aa corte , ante que foífe comdeífa , e depois , 
fazialhe a Rainha gramde gafalhado , damdolhe joyas douro 
e de prata, e gramdes dadivas de dinheiros. A Gallega era 
íifuda , etijnhalho em gramdes merçees , louvamdoa mujto per 
deamte ; e depois que dalli partia , apregoavaa com louvo- 
res , quaaes huuma combooça tem coftume de dizer da outra. 
ElRei partio de Samtarem , e foromlFe caminho Devora , am- 
damdo ja a era em mil e quatro çemtos e vijmte ; e alli mam- 
dou fazer emgenhos , e carros , e bombardas , e outros per- 
çebimentos de guerra. E dallj hordenou os lugares homde 

ou- 

(ij por mayor partp 2". 



» 



D'ELREr D. Fe R N A N DO. 41 p 

ouveíTem deitar os Imgrefes , e cavalleiros certos , que lhe 
fezelTem dar todallas coufas por feus dinheiros ; e poufava 
o comde em Villa Viçofa no moefteiro de Samto Aguftinho , 
e os outros nos arravalldes deBorva,e Eítremoz , e Devo- 
ramonte, e pellas comarcas darredor. 

CAPITULO CXXXV. 

Como a frota de Cajlella chegou a Lixhoa , e do mal e 
dano que fez em alguuns togares, 

QUamdo elRei Dom Fernamdo partio de Lixboa , avemdo 
novas como fe em Caftella armava gramde frota pêra 
vijnr fobre a cidade , leixou por fromteiro em ella Gomçalio 
Meemdez de Vaafcomçellos , e feus filhos , e outros alguuns 
com elles. E eftamdo el afll por fromteiro em Lixboa , che- 
garem fobrella aos fete dias de março da era fobre dita, oi- 
teemta vellas , amtre naaos e barchas , que forom armadas em 
Bizcaya , e em outros logares dos portos do mar ; nas quaaes 
vijnham boons cavalleiros, e efcudeiros, e homeens darmas, 
emujta gemte de pee efcudados , a que chamavom allacayos; 
e chamavamlhe aífi , por que eram das montanhas de Bizcaya, 
e vijnham todos defcallços , e mal corregidos, A frota como 
poufou amte a cidade, lamçarom todos osbatees fora arma- 
dos e pavefados , e forom jumtamente alli fahir amte o moef- 
teiro de Samta Clara , que fera huum tiro de beeíla aalem da 
cidade. As gemtes de demtro quiferom fahir, pêra lhe em- 
bargar o tomar da terra; e Gomçalio Meemdez quererá from- 
teiro , deíFemdia que nom fahiíTe nenhuum fora , ca elRei - 
iiom lhe mamdara outra coufa , fe nom que guardaífe muj bem 
a cidade : pêro nom embargamdo ifto , fahirom alguuns pou- 
cos comtra fa voontade , e forom delles feridos , e morto 
Gomez Louremço Farifeu , que por eftomçe era juiz da çida- 
' Tom, IV, ^gg ^^ j 



420 Chronica 

de ; e os Caftellaaos tomaroin emtom ('J a terra , fem acliamclo 
mais quem lha deíFemaeíTe. E logo a poucos dias , veendo os 
da frota como os da cidade nom fahiam a elles , armarom 
todoilos batecs outra vez de gemte darmas e beeftaria , e fa- 
hirom todos em terra amtre Samtos e a cidade , que he dou- 
tra parte comtra a emtrada do rio , quamto pode feer dous 
tiros de beeíla ; eGomçallo Meemdez embargava toda via os 
da cidade , dizemdo que nom fahiíTem fora , cue elRei nom 
lhe mamdara , falvo guardar a cidade , e que elles aíH o fe- 
zeíTem. Os Bizcainhos quamdo virom que nenhuum nom fahia 
a elles , tornaromlTe a íeus batees , e des i aa frota; e dalli 
em deamte tomarom fouteza de fahirem fora , affi da parte da 
cidade , come *da parte de Ribatejo , homde queimarom muj- 
tas quimtaãs , e fezerom mujto dampno ; e da parte da terra 
queimarom huuns graçiofos paaços delRei , acerca da cidade 
jumto com o mar , hu chamom Exobregas , no começo de huum 
valle de mujtas e prazivees ortas ; e queimarom outros paaços 
delRei , acerca dhuum folaçofo rio , que fom duas legoas da 
cidade , honde chamam Freellas ; e íbrom pollo rio de (^) Tejo 
a cima , e queimarom outros paaços delRei , hu chamam Viíla 
Nova da Rainha , que fom oito legoas da cidade ; e chega- 
rom mujto mais acima aas leziras Daalbaçotim , e Dalcoelha , 
e alli matavom mujtos gaados , e faziam carnagem , e tragiam 
pêra a frota. E tamto fe atreverom , fem achamdo quem lho 
contra dizer, que forom em batees pello rio de Couna aci- 
ma 5 que fom através três legoas da cidade , e alli fahirom 
em terra , e forom queimar o arravallde de Palmella , que fom 
dalj gramdes duas legoas ; e mais queimarom o arravallde 
Dalmadaã, e mujtas cafasí') e quimtaãs per aquella comar- 
qua. 



CA- 



O) por entam J. (2) do T, (5) e muytas coufas e cafas X. 






d'elRei d. Fernando. 421 

CAPITULO CXXXVI. 

Por que razom tirarom de fronteiro Gomçallo MeemdeZ 
de Vaafcomqellos , e foi pojlo o prior do Crato 

em Lixboa, 

FAzemdolTe afli mujto mal pella terra , fem avemdo ne- 
nhuum que lho embargaíTe , forom novas a elRei Dom 
Fernamdo do grande dampno , que os da frota faziam per ter- 
mo de Lixboa muj foltamente , e como Gomçallo Meendez 
nom tornava a ello com alguum remédio , nem leixava fa- 
hir as gentes da cidade , dizemdo que de guardar o logar 
aviam de teer cuidado , e doutra coufa nom. ElRei ouve dei- 
lo gramde menemcoria, e diíTe que lhe parecia que Gomçallo 
Meemdez era em efto tal , como o fervo que diz no Evamge- 
Iho , a que o fenhor deu huum marco douro , com que traba- 
IhaíTe por feu ferviço e proveito , e el efcomdeuho fob terra , 
fem fazemdo com el nenhuuma prol, por a qual razom foi 
jullgado do fenhor por fervo maao e priguiçofo : ?> E Gomçallo 
39 Meemdez, difle elRei , por tal deve feer jullgado : queria 
5j guardar a cidade homde eftava feguro dos emmijgos , e lei- 
5> xar deftroir o termo e logares darredor delia 35. Emtom 
hordenou elRei de o tirar de fromteiro , e mamdar aa cidade 
por guarda e deíFemíTom da terra , ho priol do Efpital Dom 
Pedrallvarez , e feus irmaaos com elle ; a faber , Rodrigalva- 
rez , que chamavom olhinhos , e Nunallvarez , e Diegallva- 
rez ; e Fernam Pereira , e Alvoro Pereira , paremtes do priol , 
e de feus irmaaos ; e Gomçalle Annes de Caílel da Vide , c 
outros boons que vijnham com elle , que feeriam per todos 
ataa duzemtas lanças bem emcavallgados. Hora aveo que 
no dia que o priol avija de chegar aa cidade , vijmdo ca- 
mjnho de Sam tarem, ouve novas como parte das gemtes da 
frota eram a termo de Simtra , roubar e tomar gaados pêra 

Ggg ii tra- 



^13 C H R O N r C A 

trazerem aos navijos. Deftas novas foi o priol muj ledo , e to- 
doilos que vijnham com elie , e emcaminharom pêra aquella 
parte, per hii ouverom recado que os Caftellaãos vijnham; e 
como era muj ta gemte de pee , fahimdo afouto por o acuf- 
tumado hufo que tijnham , hordenou o priol de lhe lamçar 
huuma çcUada ; e elles que vijnham muj to defegurados a feu 
prazer, ledos com gram roubo, fem alguum temor, deu o 
priol com fuás gemtes em elles , e como gemte defperçebi- 
da , nom fe poderom deíFemder de guifa que lhe preUaíTe , 
e começarom de fogir , leixamdo o que tragiam : mas feu trij- 
gofo fogir a muj poucos deu vida , ca os da çellada derom 
em elles , e forom prefos e mortos muj tos , e tomado ho 
roubo que traziam. O priol veho em tom pêra a cidade , hom- 
de foi recebido com gram prazer , e poufou no moeíbeiro de 
Sam Framcifco , e feus irmaaos e outros darredor delle. 
Quamdo os da frota virora , como aquellas gemtes de cavai- 
lo veherom por guarda da cidade , nom oufarom dalli em 
deante fahir tam foltamente como amte faziam ; ca o priol 
tijnha atallaya com elles, que como alguum batel queria fa- 
hir fora , logo os feus cavallgavom , e lhe embarga vom a fa- 
hida , e fe alguuns fahiom fora , que eram viftos , logo os 
da cidade eram alli preftes ; de guifa que ao recolher dos 
batees , com a preíTa gramde fe lamçavom mujto,s das barro- 
cas a fumdo : e defentom começarom os da frota daver dos 
da cidade maa vezinhamça. 



CA- 



STã.n 0| 



d' E L R El D. F ERN A N D o. 4I 3 

CAPITULO CXXXVII. 

Como Nunalharez lamçou htiuma çellada aos da frota , 
e do que lhe ave o com elles, 

A Frota era gramde e de mujtas gemtes , e nom lhe po- 
diam os da cidade per tal guila embargar a lahida da 
terra, que elles per mujtas vezes nom fahilTem aa fua voom- 
tade , em logares nom viftos, e outros arredados da cidade ; 
per cujo aazo fe faziam amtre elles mujtas efcaramuças , das 
quaaes por a Deos aíli prazer , fempre os Portugueses leva- 
vom a melhor delles. Hora aífi aveo em efta fazom , que Nu- 
nallvarez amando mujto ferviço delRei,desi porfeer conhe- 
cido por boom , hordenou fazer huuma efcaramuça per íi , 
fem o fazemdo íaber ao priol , nem a alguum dos outros feus 
irmaãos : e veemdo como os das naaos fahiam a meude , a co- 
lher huvas e fruita , por que era eílomçe tempo delias , fallou 
com huum boom cavaleiro , cafado com huuma fua irmaa , 
que chamavom Pedrafonfo do Cafal , como era fua voomta- 
de de em outro dia lamçar huuma çellada aos da frota , pêra 
fe ajudar delles, fe fahiííem fora como fohiam , e fe lhe pra- 
zeria a elle de fe hir em fua companha ; o qual outorgou que 
de boa voomtade : e per efta guifa ajumtou Nunallvarez dos 
feus 5 e doutros ataa vijmte e quatro de boons homeens de 
cavallo, e feeriam huuns trimta amtre beefteiros e homeens 
de pee. E efto aílí acertado, cavallgou Nunallvarez em outro 
dia bem cedo pella rnanhaã , e foiíTe lamçar em çellada aa 
pomte Dalcamtara , aífo ('^ o moefteiro de Samtos comtra Rcs- 
tello , cobrimdoíTe el e os feus o melhor que podiam amtre as 
vinhas e barrocaaes , que hi avia mujtos , por nom feerem vif- 
tos da frota. Eftamdo aílí Nunallvarez fallamdo com os feus 
a maneira, que ouveíFem de teer em topar com os Caftellaãos, 

íb 

(i) a fob T. 



liiaii^ o» 



424 Chronica 

fe fahiíTem fora , e elles virom vijnr huum batel da frota , 
e em elle ataa vijmte homeens , que vijnham aas vinhas por 
colher huvas : Nunallvarez e os feus,como os virom , efguar- 
darom bem homde fahiam , e hu avjam de recudir aa torna- 
da ; e cavallgarom logo os de cavallo , e os beclleiros e ho- 
meens de pee com elles , e foromíFe aaquel logar per homde 
elles fobiam , que era huum barramco gramde comtra as vi- 
nhas ; e como alli chegarom , Nunallvarez fe dcçeo do caval- 
lo , e outros alguuns com elle , e aderemçarom ^'^ rijo comtra 
os Caftellaãos : e elles quamdo os virom comfigo , mais rijo 
do que fobirom , deçerom a fumdo comtra a praya , e Nu- 
nallvarez e outros de volta com elles; e veemdolTe os Caftel- 
laãos mujto aficados , e por guarecer de morte , que a feus 
olhos vijam mujto preftes , lamçaromíFe todos na agua; e 
delles nadamdo fem armas nenhuumas , outros amergulham- 
do so a (-^ agua , cobrarom feu batel fem mais empeeçimento , 
e foromlFe pêra feus navjos, 

CAPITULO CXXXVIII. 

Das razooes que Nunallvarez dijje aos feus , por os es- 
forçar que pellejajfem -^ e do que lhe a el acomteçeo 
foo em pellejamdo com os Cajlellaaos. 

TEemdo Nunallvarez que por emtom lhe nom podia fa- 
zer mais dampno , recolheo amte íi os que hiam com 
elle , e foiífe poer em huum tefo , amte a porta do moefteiro 
de Samtos , logar domde os bem vijam os da frota ; e co« 
mo correrom em pos os feus , e os fezerom lamçar na agua , 
e com defpeito cobrarom coraçom , e fahirom das naaos ataa 
duzemtos e cimquoemta homeens darmas, com lamças com- 
pridas, e mujtos beelteiros e peooes defeiofos pêra pelleiar, 
legumdo depois pareçeo. Nunallvarez como vio fahir os ba- 

tees, 

CO e foram T. (2) fob T. 



d' El. Rei d. Fernando. 425* 

tees , foi muj ledo com fua vijmda, como aquel que de tal 
jogo nom vijaí'^ menos voomtade que elles, e começou davi- 
var feu cavallo , e diíTe aííí comtra os feus , esíorçamdoos : 
5> Amigos irmaãos , bem fabces a teençom com que fahiftes 
» da cidade , que nom compre de vos feer mais declarado : 
yf hora me parece que teendes preltes o que veheíles buf- 
)f car , do que devees feer muj ledos , ca de mim vos di^ 
" go , que da minha parte ho fom aíFaz ; e rogovos que 
5> pois nos aas maãos vem o que defeiamos , que vos praza 
>í de todos feer nembrados de voíFas homrras , aperfiamdo 
» em pellejar , fem tornamdo coftas por coufa queavenha; e 
íj pêra ifto com a ajuda deDeos eu ferei o primeiro que to- 
» parei em elles , e vos feguijme, fazemdo como eu fezer ; 
?> e feede certos que elles vos nom fofreram , fe em vos feni- 
» tirem esforço , mas logo volverom as coftas , por que da- 
35 corro nom tem efperamça , e aíli vos ajudarecs delles ». 
Eftas e outras boas razo6es que Nuno Alvarez diífe aos feus , 
por os esforçar , nenhuuma coufa aaquella hora preftarom , 
ca elles vijam ja muj ta gente da frota em terra , a qual vij- 
nha pêra elles , e era muj to acerca , e cada vez mais creçem- 
do , temiam de os efperar. Nunallvarez conheçemdo em elles 
medo , trabalhava de os esforçar quanto podia , mas fuás do- 
ces pallavras mefturadas com afperos braados nom os podia 
a efto demover ; mas moftramdo que o nom ouvjam , nem 
tijnham dei conhecimento, arredavomífe a fora , nom querem- 
do atemder , outros fugirom logo de todo , nom podendo 
fofrer a vifta dos Gaftellaãos. Hora aqui he de faber , que pof- 
to que os alheos louvores fejam ouvjdos com iguaaes ore- 
lhas , muj to he grave comífemtir , o que impoíEvel parece 
de feer ; e por que o feguimte razoado , mais parece milla- 
gre que natural aqueeçimento , dizemos primeiro , refpom- 
demdo a taaes , que fem duvjda verdade fcrepvemos , mas 
que o poderofo Deos , que foo aaquella hora o quis livrar dam. 
tre tamtos comtrairos, teemdoo guardado pêra mayores cou^ 

fas , 

(i) nom avija £* 






^ló Chronica 

fas, nom outorgou naquella pelleja que feus emmijgos lhe 
podeíTem dar morte. Nunallvarez veendo que os feus nom 
davom volta , e que os Caílellaãos chegavom acerca domde 
el eftava , aderemçou contra ellès com gram virtude 1'^ caval- 
leirofa , a alguuns impoílivel de creer , e foo fem parceiro fe 
lamçou na moor efpeíTura dos emmijgos, homde eram aquel- 
les duzemtos e çim.quoemta homeens darmas. E como fe aíH 
lamçou amtre eíles , e fez de lamça o primeiro emcomtro , 
perdida a hmça , tornou aa efpada ; e nom ho feguimdo ne- 
nhuum dos feus , dava tam aflljnados golpes a toda parte , 
que pêro os Gaftellaãos foíTem mujtos , aíTaz avja de logar 
amtrelles : mas em todo efto foi elle fervido de lanças e pe- 
dras e viratooes , que era maravilha podello fofrer , e prou- 
gue a Deos que nenhuuma lhe deu em logar , que lhe fazer 
podelTe nojo j ca o corpo era bem armado de huumas aíTaz 
fortes folhas 5 de guiía que os golpes maçavom'o corpo, e 
nenhuum dampno faziam na carne ; pêro el pemíFava que 
era chagado de morte , por os mujtos golpes que em íi fem- 
tia : mas feu cavallo com as mujtas lamçadas pofe asamcas, 
e cahiu em terra , e Nuno Alvarez iíTo meefmo. E em ca*- 
himdo aíli ambos , começou o cavalo bullir rijamente com as 
maãos e com os pees ; e perneamdo aílí rijamente , acertou 
o canello da ferradura da maao , ho tecido dhuuma fivella 
das folhas de Nunallvarez , de guifa que el nom fe podia de- 
fapremder do cavallo , e alli cuidou de fcer logo morto. 
Os feus que eilavom a lomge oolhamdo , veemdo o gram pe- 
rijgo em que Nuno Alvarez era , coftramgidos de doo e ver- 
gonha , corrcrom rijamente cobramdo coraçoóes , e acorrerom- 
Ihe mais tofte que poderom : e huum dos primeiros que a 
el chegou, foi huum clérigo em cuja cafa Nunallvarez pou- 
fava , que hia em fua companha com huuma beefta , e cortou- 
]he apreíTa o tecido per que eftava prefo. Nunallvarez defa- 
lado , fe levarotou rijo, e tomou huuma lança de mujtas que 
jaziam arredor delle j e com esforço e ajuda dos que ja com 
el-^ 

(i) com i^raao vontade T, 



D*elRei d. FernAndó. 427 

elle eftâvcm , começou de feguir os Caítellaaos. E em elio 
chegarom aprefla Diegailvarez e Fernam Pereira seus irmaãos , 
que diíto fouberom parte , que lhe forom aílaz boons compa- 
nheiros ; e todos feguirom os emmijgos^ de guifa que prem- 
diam e matavom mujtos. Aaçima nom podemdo ja mais fo- 
frer tal dano, tornarom coftas , por fe acolher aos batees ; e 
aa emtrada pereçerom mujtos, por emtrar mais aprelTa do que 
avjam em cuftume. Nunallvarez fe tornou com os feus pêra 
a cidade fem morrer nenhuum da fua parte , mas forom dei- 
les mal feridos , e nove cavallos mortos ; e quamdo o priol 
ho vio vijnr com os prifoneiros que comíigo tragia , ouve 
gram prazer com el e com os outros j e forom todos delle 
muj bem recebidos. 

CAPITULO CXXXIX. 

Como fe começou o aazo da prifom do meejlre Davis , e 
de Gomçallo Vaafquez Dazevedo. 

LEixamdo eftar Lixboa cercada , e tornamdo a fallar del- 
Rei Dom Fernamdo , que eftava em Évora fazendoíTe 
preftes pêra a guerra de Caftella , comvem que digamos an- 
te que dhi parta, como mandou premder o meeftre Davis 
Dom Joham feu irmaão , e Gomçallo Vaafquez Dazevedo, 
huum bom fidallgo , e muj to feu privado : e pois efta eítoria 
avemos de trager a praça , nom como alguuns que fezerom 
livrezinhos (') que pubricados em alguumas maãos as coufas 
como paflarom, nom comprehemdem per elles perfeitamente; 
mas guardamdo a regra do Fillofofo que diz que nam po- 
demos faber as coufas como fom , fe da caufa do feu pri- 
meiro começo carecemos de todo pomto y nos o naçimento 
da fua prifom delles vaamos bufcar lomge donde veo. Afli 
Tom. IV. Hhh foi , 



(i) livrQzinhos T. livrizinhos B, 



42 9 Cheonica 

foi , fegumdo ouviíles , que quando Joham Fernamdez Damdei- 
ro veo fallar a elRei Dom Fernamdo em Eítremoz íobre a 
vijnda dos Imgrefes , e que o elRei teve afcomdido per al- 
guuns dias na torre deífe logar , fohou nom onefta fama 
amtrelle e a Rainha ; e pofto que aa primeira foíFe efcura , 
t nom teemdo certos autores , depois per lirme opiniom 
failavom em ello muj largamente ; por a qual razom eram 
ambos avudos em gramde ódio das gemtes , efpiçiallmente 
dos gramdes e, boons que fe dohiam da desomrra deÍRei. Ho- 
ra aíli aveo que eftamdo elRei em Évora como dizemos ^ che- 
garom huum dia pella feita aa camará da Rainha , ho com- 
cíe Dom Gomçallo feu irmaáo , e Joham Fernamdez Damdei- 
ro com elle ; e por a calma que fazia gramde , hiam elles 
fuamdo muj to, e ella quamdo os allí vio vijnr , pregumtou- 
Ihe fe tragiam fudairos com que fe alimpar daquella fuor , e 
elles diíferora que nom ; emtom tomou a Rainha huum veeo y 
e partiho per meo , e deu a cada huum fua parte pêra fe 
alimparem. E amdandoíTe Joham Fernamdez paífeamdo pella 
camará com aquel veeo na maão ^ ficouíTe em goelhos amte 
ella , e diífe com voz baixa muj manífamente : " Senhora , mais 
5> chegado e mais bufado queria eu de vos o pano , quam- 
?j do mo vos ouveífees de dar , que efte que me vos daaes » : 
e a Rainha começou de rijnr defto. E pêro lhe diíTeífe eílas 
pallavras muj manífo , nom as diíFe porem tam paífamentc , 
que as nom ouvjo huuma dona que (') fija acerqua delia , que 
chamavom Enes AíFonfo , molher dhuum gramde privado del- 
Rei e de feu comífelho , que avja nome Gomçallo Vaafquez 
Dazevedo, de que el muj to fiava; e porque lhe pareçeròm 
muj mal ditas , callouire eftomçe por aquella hora , e dilTeo 
depois a feu marido. A cabo de aias seemdo a Rainha fal- 
lamdo em coufas de fabor , louvamdo muj to o coftume dos 
Imgrefes , e daquelles que com elles hufavom ; refpomdeo 
aquel privado delRei , e difle : » Certamente , fenhofa , quam-- 
j> to a mim , feus coftumes em alguumas coufas nom me pa- 

\i) que hy T. 




d'kiRei d. Fernando. 42^ 

>> recém tamto de boons , como os vos louvaaes 5>. >> E quaaes 
>j diíTc ella >?? » Senhora , diíTe el , nom he boom coftume , nem 
>f de louvar a nenhuum , o que mujtos delles hufam , que fc 
yy alguuma dória ou domzella por fua mefura lhe da alguurii 
jí veco ou joya , elles se chegam a ellas aa orelha , e dizem 
» lhe , que mais chegadas e mais husadas queriam elles as 
yj joyas delias , que nom aquellas que lhe ellas dam ". A Rai- 
nha quamdo eito ouvio , fofpeitou logo porque el aquello de- 
zia, e callouíTe por em tom , e nom diíTe nada, damdo a em- 
temder que nom parava em aquello mentes ; e depois cha- 
mouho adeparte e diíTe : » Gomçallo Vaafquez , eu bem fei 
íj que volTa molher vos diíTe aquelo que vos ora amte diíles- 
í5 tes , mas feede certo que vos e ella nom ho lamçaftes em 
55 poço vazio j e prometovos que ambos mo ^paguees muj 
9f bemjí: e el efculamdoíTe que nom fabia dello parte , e ella 
dizemdo que era aífi , leixarom aquello e fallarom em ai. Hom- 
de fabec , que efteGomçallo Vaafquez era fegumdo com ir- 
maáo da Rainha Dona Lionor , e per ella fora feito c poílo 
em gramde eftado ; por que Dona Aldomça de Vafcomçellos , 
molher de Martim Affonflb Tello , madre da Rainha Dona 
Lionor , era prima com irmaã de Tareija Vaafquez Dazeve- 
do , filha de Vaafco Gomez Dazevedo , irmaao de Gonçallo 
Gomez Dazevedo , alferez delRei Dom Affonfo , o que foi 
aos Mouros ; affi que a Iffamte Dona Beatriz , molher que de- 
pois foi delRei de Caítelia , era fobrinha defte Gomçallo Vaaf- 
quez , filha de fua fegumda com irmaã : e por efte divedo que 
el avia com a Rainha , e o acreçemtamento que neelle avja 
feito , teve ella gram fentido das razoóes que delia diíTe- 
raí'), e aazou como depois fofle prefo. 



Hhh ii C A- 

(1) difeeráo T, 



430 Chronica 

CAPITULO CXL. 

Como Vaafco Gomez Daavreu f aliou aa Rxiinha , e das 
razooes que ambos ouverom. 

DEpois dcílo a poucos dias , huum fidallgo que avia no- 
me Vaafco Gomez Daavreu , que fe chamava parcmte da 
Rainha , veemdo como ja tempo avja que lhe nom moftra- 
va boa voomtade como damte avja em coítume , des i por que 
deziam alguuns que lhes parecia que a Rainha lhe nom tij- 
nha boom de feio , chegou huum dia a ella , e diíTe : í? Se- 
?? nhora , vos me fezeíles mujto bem e pofeftes em honir- 
3> ra , de guifa que eu nom fom mais que quamto a voíTa 
»> merçee em mim fez , por a qual razom eu fom muj te- 
>» hudo de vos fervir e amar em quamto viver , e aílí o 
j> emtemdo de fazer fempre j e ora nom fei por que dias 
>j ha, vos ('í moílraaes que me avees hodio, come fe vos eu 
» ouveíTe feito alguum grande erro e deferviço : porem vos 
» peço por merçee , que me digaaes efto por que he , ou 
3> fe vos diíTerom alguma coufa que eu comtra voíFo ferviço 
?> fezelTe ; e fe for verdade o que vos de mim dilFerom , eu 
» vos faço preito e menagem que defte logar me nom par- 
J5 ta , ataa efperar aqui a morte »>. Refpomdeo a Rainha , 
e dilTe : » Nom fem gram razom cu ei de vos muj gramde 
>j queixume , e nom fei pêra que fom eífas pallavras e efla 
?> avomdança de razoar , ca bem fabees vos , que vos me te- 
y) emdes feito huum erro tam gramde , per que vos mere- 
3> çiees de vos eu mamdar cortar a cabeça , e aimda matar 
5> de peor morte que efta ?>. j> Senhora , dilfe el , vos po- 
» dees dizer o que voíFa merçee for, mas outro nenhum nom 
5> me dirá com verdade , que vos eu numca aja feito ne- 
í> hhuum erro , per que eu eíTo mereça j e fe vos alguuma 

_______^__ cou- 

CO que vos T. 






d*elReí D. Fernando. 43 Í 

55 ccufa vos alguém de mim diíTe , peíTovos por merçee 
j> que mo digaaes ??. n Omde me podiees vos moor erro 
3> fazer, diíTc ella , que hirdes vos dizer ao comde Dom Jo- 
yf ham AjffbmíTo meu tio , que eu dormia com Joham Fer- 
55 namdez Damdeiro j5. ?> Senhora , diíTe el , Deos me guarde 
5> de mal que eu tal coufa diíTeíTe , e quem vos cíTo diíTe, 
3) mentivos falíTamente ; e nom ha nenhuum que mo diga , 
39 a que eu nom ponha o corpo, aimda que feia de mujto 
5> moor eftado que eu '>. ?> Para que negaaes vos ello , dií- 
5» fe a Rainha , e o defdizees , ca eu vos darei peíToa a que 
í> o vos diíTeíies »>. j> Senhora , diíTe el , eu nom o defdi- 
yy go , ca pois o eu nom dixe , nom o poíTo defdizer ; mas 
5J nego e digo que numca foi nenhuum , que me tal coufa 
>j ouviíTe y\ »j Certo he , diíTe ella , que vos o diíTeftes , ca 
í) Gomçallo Vaafquez Dazevedo me diíFe que vos lho diffe- 
j> rees jj. j» Nom vos diíTe verdade , diíTe elle , nem Deos 
í5 numca quifeíTe que eu tal coufa dilTeíTe de vos ; mas pois 
55 vos dizees que vollo elle diíTe , a verdade he que eu lho ou- 
9j vj dizer a el , eftamdo prefemtes o comde Dom Joham Af- 
» foníTo voíTo tio, e outros; evos mamdaaeo chamar, e eu 
» lho direi prefemte vos , e fe mo el negar , eu lhe quero 
íj poer o corpo fobrefto , ou lho provarei pellos que hi ef- 
99 tavom , qual amte voíTa merçee for ». Quamdo a Rainha 
ejfto ouvjo , diíTelhe que nom curaífe mais daquello , nem o 
diíTeíTe a nenhuum , e que ella mamdaria huma carta a feu 
tio que lhe eraviaíTe dizer a verdade deito como fe palfara. 



CA- 



firaru ot 



432 G H R o N I C A 

CAPITULO CXLI. 

Como elRei pos em fua voomtade de mamdar fremdet 

o meejlre feu irmano , e Gomçallo Vaafquez Da- 

zevedo , e por que razom, 

A Rainha depois que ouve eftas pallavras comVaafcoGo- 
mez 5 cujdou em efto que lhe el diíTe , e no que amte 
ouvira dizer a Gomçallo Vaafquez , e pefoulhe mujto de co- 
raçom , e emtemdeo que per aquel privado delRei avja de 
feer pubricada fua fama , e defcuberto todo fcu feito ; e que 
feemdo efto fabudo , era a ella muj gramde vergomça e pe- 
rijgo , e iíTo meefmo daquel cavalleiro com que ella era cul- 
pada , cuja morte ella nom defeiava de veer. E pemíTou co- 
mo no Reinj nom avja outro nenhuum do linhagem dclRei 
que efto quifeíTe vimgar, fe nom aquel feu irmaão baftardo , 
que era meefire Davis fegumdo ja dilFemos , e emtemdeo que 
feendo aquel privado delRei e efte feu irmaão mortos , que 
ella feeria de todo fegura , por quamto todoUos outros moo- 
res do Reino eram feus divedos , ou poftos em homrra per 
ella. Emtom cuidou de os fazer culpar em alguuma tal cou- 
fa , per que elRei ouveíTe aazo de os mamdar matar ; e dizem 
alguuns que fez fazer cartas falíTas em nome do irmaão dei- 
Rei, e daquel fcu privado , as quaaes pareciam feer emvia- 
das per elles a Caftella , em deferviço delRei e de todo o 
Reino , e fimgerom eftas cartas feer emviadas e tomadas no 
eftremo caladamente , fegumdo a maneira que fobrello foi 
hordenada. E huuns dizem que foram tragidas a elRei , ou- 
tros comtam que aa Rainha , e que ella as moftrou a elle , 
e que elRei quamdo as vio , foi defto mujto efpamtado , por 
que nom avja delles tal fofpeita ,' nem fabia coufa por que 
fe a efto demoveíFem. Nos porem como ella ifto hordenou 
por fatisfazer a feu defeio , nom fomos em certo conheçi- 

men- 



I 



d'elRei d. Fernando. 435 

mento , falvo que elRei e a Rainha , e aimda prefumem cjuè 
aquel com que ella era culpada , virom taaes cartas ; e fal- 
lamdo que fe devia em ello de fazer , foi per elles acor- 
dado que era bem de feerem prefos , e nom leixar ('^ paíTar 
tam maa coufa como aquella , fem gramde vimgamça , poríeer 
efcarmento a todollos outros , que numca fe nenhuum atre- 
yeíTc a fazer femelhavel coufa, e que a prifom fuíTc logo,e 
que depois averia eIRei acordo fobre a pena que deviam da- 
ver. A elRei pareçeo efte boom comíFelho , e pos em voom- 
tade de o fazer aíli , e cuidou de os mamdar prcmder , de 
guifa que ellés nom podeflem fugir nem feer tomados a aquel 
a que os emtregalTe. 

CAPITULO CXLir. 

Como elRei mamdou premàer o meejire feu irmaao , e 
Gomçallo Vaafquez Dazevedo ^°\ 

EStamdo elReí em outro dia em huum eirado de feug 
paaços , e com elle ho meeftre íeu irmaão , e Gomçallo 
Vaafquez Dazevedo , e alguuns outros fenhores e cavalleiros, 
chegou aa porta do paaço huum fcudeiro que avja nome 
Gomçallo Vaafquez Coutinho , com fuás gemtes e outros , em 
guifa que feeriam ataa duzemtas lamças, todos armados fem 
mimgua de nenhuuma coufa ; e ho logar homde elRei com 
elles eftava , era tal que fe vijam dalli , e poito que o meef- 
tre e Gomçallo Vaafquez as viíTem aíli eftar daquella guifa j 
nom cuidarom nenhuuma coufa fobrello, como homeens que 
fe nom temiam , fpecialmente o meeftre ; des i por que era 
tempo de guerra , nom lhes pareçeo aquello coufa nova. E 
elRei depois que vio alli eftar aquellas gemtes , difíe a to- 
dollos que com él eftavom que fe toíTem pêra as poufadas , 

e 



(i) leixarem T. (2) Comoomecllrc e Cjonçaiio Vaztjuez^Odievedo foram 
preíTos por mamdado delRei T, 



s,Vm O^ 






434 OHnONICA 

e el foilTe logo pêra fua camará , e os outros todos começa- 
rom de fe hir ; e eftamdo aimda alli o meeítre , eGomçallo 
Vaaíquez , tornou a elles Vaafco Martijnz de Merlloo ('^ que 
fe fora com eIRei , e diíTe comtra ho meeftre : >» Senhor , e 
» vos Gomçallo Vaafquez , eu vos irago novas de que me- 
>9 mujto pefa. EIRei meu fenhor vos mamda que feiaaes pre- 
» fos ". " Por que , diíTerom elles »»? " Nom fei, mas ('', diíTe el , 
99 fe nom quamto me mamdou que vos guardaíTe bem , e lhe 
3j delTe de vos boom comto e recado ». >?Hanos de veer el- 
5» Rei, diíTe o meeftre j> ? »»Nom,diíre el , mas vijmdevos 
>j comigo , e vaamonos pêra a poufada ». Em tom fe deçerom , e 
cavallgarcm em cima de fenhas muas (5^, e com cada huum dei- 
les huum dos Efcudeiros de Vaafco Martinz detrás, e aquel- 
las gemtes todas com elles. E himdo aíK pello caminho , 
chegouífe Gomçallo Vaafquez Coutinho a aquel privado del- 
Rei , que era feu fogro , e diíTelhe muj maníTo , em guifa que 
o nom ouvio ho efcudeiro que com el hia : » Parece í^) que vos , 
5> e o meeftre hijs ambos prefos ; efto por que he »> ? » Nom 
99 fei mais , diífe el , que quamto vos veedes ». »> Efto , dif- 
5í fe el , nom pode feer fe nom por gramde coufa ; e pois af- 
35 fi he , pareçeme que he bem , que eu trabalhe em toda 
5» guifa por vos nom hirdes aa prifom , ca mujto me temo 
99 de efta coufa vijnr a mal j». j> E como poderces vos eíTo 
5> fazer , diíTe Gomçallo Vaafquez » ? » Eu darei volta com 
» todollos meus , diíTe el , que aqui vaão j e emtemdo com 
?» a ajuda de Deos de vos poer em falvo , e depois elRei 
9» me perdoara ; e pofto que me nam perdooe , eu nom dou 
5> nada de perder quamto tenho por vos todavia ferdes livre 
99 defte perijgo ». jj Filho amigo , dilTe el , vos dizees muj 
99 bem , e eu voUo gradeço mujto ; mas porem nom vos cu- 
5> rees de trabalhar defto , por que aqui vaao muj tas gemtes 
í' como vos veedes , moormente feer demtro na cidade , efto 
?> era coufa muj grave de fazer , e nom fe acabamdo , vos 
99 feeriees prefo e morto , e eu logo morto comvofco j e moor 

^ , :l££i 

(,i) de MeellQ T, (2) mais J. (3) mullas T. (4) pareçeme T. £, 



i 



d' EL Rei D. Fe RN AN DO. 43 5r 

55 pefar e nojo averia eu, veemdo como vos matavom por me 
3> vos quererdes livrar, que da morte que eu morreíTe , aim- 
5> da que folTe fem meu merecimento : e porem nom vos 
yy trabaihees de nenhuuma coufa , que Deos que fsbe que eu 
3> nom fige per que eu efro mereça , élle me livrara por fua 
yy mcrçee ('^ >y. E pêro lhe el diíTe (^^ que nom tomaíTe daquello 
cuidado , que el em toda guifa o livraria , nunca em ello quis 
coraíTemtir , reçeamdoíTe do gramde perijgo que fe pode- 
ria feguir a ambos ; e aíli chegarom ao caftello da cidade j 
omde aviam de jazer prcfos. E depois que forom demtro e 
defcavallgarom , em quamto as gemtes amdavom dhuuma 
parte pêra a outra , eftamdo aimda as portas abertas , che* 
gouíTe ao meeítre huum efcudeiro que avja nome AíFomíTo 
Furtado , que era anadal moor do Reino , e diíTelhe fe fabia 
por que era prefo , e el diíTe que nom. a? Senhor , diíTe el , 
3> o gramde e boom quamdo he prefo , nom o he fe nom por 
5> gramde coufa ; e poílo que vt .s nom faibaaes por que 
?) fooes prefo, e emtemdaaes que fooes fem porque, pa- 
3? reçeme que nom he bem que vos aguardees affim í'^ deíle 
?j feito. E vos fabees bem como elRei Dom Pedro voíTo 
5> padre me criou e pos em eílado , e me deu quamto eu ei , 
?> e aimda que eu delRei Dom Fernamdo voílb irmaão íe- 
3J çebeíTe mujtas merçees , mujto mais theudo fom a amar as 
j> couías delRei voíTo padre , e poer o corpo e quanto eu 
5> tenho por elías , moormente por vos que fooes feu filho : 
99 e porem em quamto eílas gemtes aífi amdam e a porta ef- 
3> ta aberta , fayamonos logo ambos , e como nos formos 
5> fora , eu vos emtemdo de poer em falvo , aimda que per- 
3) ca quanto tenho í> : e o meeítre diíFe que lhe gradeçia í^) 
mujto, e lhe prazia. Emtom fe tomarom pellas maãos imdo 
fallamdo , e elles que chcgavom acerca da porta , e o por- 
teiro que a acabava de fechar , e elles tornaromíTe emtom 
fem damdo a emtender nada do que fazer quiferom. Em efto 
ipeníTarom cada huuns dos que hi eftavom de fc hir pêra as 
Tom. IV. lii pou - 

(i) myfericordia e íH2fcèe T. {z) diííeíe T. (3) aííim T. B. (4) lho agwdicu T. 



J 



43^ Chronica 

poufadas , e Vaafco Martijnz de poer boa guarda em eiles : 
e forom ambos bem aprifoados com fenhas groíTas adovas e 
cadea pellas pernas , e poftos em huuma tal casa domde nora 
podeíTem fogir. E por o grani temor que ouverom de em 
outro dia feer mortos , emviarom logo apreíTa huum efcudeiro 
ao comde de Cambrig , que eftava em Villa Viçofa , que erom 
dali oito legoas , e mamdaromlhe dizer como os eIRei mam- 
dará premder nom fabiam por que , e que lhe emviavom pe- 
dir por merçee , que os emviaíTe pedir a elRei , e fe lhos 
dar nom quifeíTe, que lhe diíTclTe porque eram prefos. O com- 
de quamdo eito ouvjo , refpomdeo que com aquello nom tij- 
nha que fazer , e que fe elles alguuma coufa fezerom com- 
tra ferviço delRei , que era muj bem de o pagarem ; e que 
fobre aquello nom emtemdia de fazer nenhuuma coufa. Quam- 
do o efcudeiro que alia foi , tornou a elles com efte recado , 
peibulhes muj to , e nom fouberom mais que fazer. E tamto 
que elles forom prefos , logo elRei mamdou premder huum 
veedor do meeftre , que chamavom Louremço Martijnz , que 
eftava dali oito legoas, em huuma villa que chamam ('^ Vei- 
ros , e tomar lhe (2) quanto tijnha ; emtemdemdo que quamto 
o meeftre fezera em mamdar aquellas cartas , que elles cuida- 
Yom que el emviara , que todo fora per feu comíTelho. 

CAPITULO CXLIIL 

Do recado que Vaafco Martijnz ouve per ^'^ que matajjem 
o meejlre e Gomçallo Vaafquez , e como ho nom 

quis fazer. 

Ogo como foi fabudo que o meeftre , e Gomçallo Vaaf- 
quez Dazevedo eram prefos , forom todos maravilhados 
defta coufa ; e foi logo foado per todo o Reino como o fo- 
rom per aazo da Rainha , e a maneira que tevera pêra os fa- 



L 



zer 



(i) chamaváo T. (2) e tomaráolhe T. (3) pêra T. 



s-ia« oe; 



d'elRei d. Fernando. 457 

zer premder , e por que razom fizera efto , e nenhuum num 
podia delles fofpeitar nenhuuma maa coufa , amtc lhe peíava 
a todos mujto de fua prifom , e maravilhavomlTe de o notn 
cmtcmder cíRei ; e bem cuidavom que taaes coufas fc avijam 
de dar a mal , e eram os emtemdimcntos dos homeens ciicos 
de deívairados peníTamentos. Omdc em efte logar departem 
alguumas eftorias , e dizem que logo aquella noite que eilCvS 
forom prefos , a Rainha fez fazer huum alvará falíTo , que 
parecia íijnado per maao delRei , em no qual mandava aaquel 
cavalleiro que os tijnha em feu poder, que tamto que o vif- 
fe , fem outra deteemça os fezelTe logo degollar j e f e o al- 
vará hia muj aíiicado , que mujto mais afficadamente lho dif- 
le ('^o meílegeiro em nome delRei. Quamdo Vaafco Martijnz 
YÍo aquel alvará, maravilhoulTe mujto que podia feer tal cou- 
fa ; e por quamto el emtemdia que elles eram prefos per 
aazo da Rainha, dovidou mUJto no alvafa , por que elle far 
bia que muj tos alvaraaes paffavom pêra outras coufas em no- 
me delRei , feitos per aquella guifa ; pêro diíTe aaquel que 
lho trouxe , que elle o compriria como em el era comtheu- 
do : e que logo a cabo de pouco , veo fgber outro meíFegei- 
ro em nome delRei fe era ja feito o que lhe mandara fazer, 
c el diíTe que nom , e emtom fe foi aquel , e veo outro com 
outro alvará mujto mais aíRcado que o primeiro , em que lhe 
mamdava elRei , que logo lhe fezeíTe cortar as cabeças , di- 
zemdo que elRei era muj queixofo porque ja nom era fei- 
to. E por que fe aficava mujto aquel que o tragia , e Vaafco 
Martinz vijaa coufa muj dovidofa , dilTelhe affi. » Amigo , vos 
» veedes como ja he alta noite, e oras em que fe nom coftu- 
>j ma de fazer juftiça ; e parece que elRei com gram fanha 
>j que agora ha deftes homeens , mamda fazer cfto , e pode 
yy feer que depois fe arrepemderia mujto, como ja acomte- 
3j çeo a alguuns fenhores : e fe foflem homeens doutro cita- 
» do , aimda nom era tamto darreçear ; mas matar eu huum 
5> irmaão delRei , e huum dos gramdes privados que elle 

^ lii ii » tem , 

(1) dilTefe T. 



43^ Chronica 

j> tem , per ella maneira , digovos que o nom cuido de fazer 
5> per nenhuuma guila , ataa de manhaâ que eu com elle falle , 
í> e faiba como he fua merçee de fe tazer ; e fe os elle mam- 
99 dar matar , elles bem guardados eftom , e fera feito feu 
5> mamdado : e eito emtemdo por mais feu ferviço , ca fe 
5> fazer perda , a qual depois nom podia feer cobrada ». Foif- 
fe o mefíegeiro com efte recado , e nom tornou depois mais 
a el : e elle levamtouífe em outro dia pella manhaa bem ce- 
do , e foilFe a elRei , e moftroulhe os Alvaraaes , e comtoulhe 
todo o que fe paíFara aquella noite : e elRei ficou efpamta- 
do 5 dizemdo que de tal coufa nom fabia parte , e que lhe 
gradeçia mujto o que fezera ; e diíTelhe que fe cailaífe , e 
que nom difleíFe a nemguem nem huuma coufa. 

CAPITULO CXLIV. 

Do gram temor em que o meejlre , e Gomçallo Vaafquez 

Dazevedo ejiavom , e como a Rainha bufcava aazo 

pêra matar Gonçallo Vaafquez. 



c 



Om gram temor e cujdado paífarom aquella noite o me- 
eftre e Gomçallo Vaafquez , cuidamdo que o dia feguim- 
te era o poítumeiro de fua vida ; e mujto mayor fora o me- 
do , fe elles fouberom parte do que fe emtamto acomteçia : 
c quamdo veo a manhaã , e o dia começou a creçer , tam 
gramde era o temor que avijam , que como alguém batia aa 
porta do caftello , logo elles cuidavom que era alguum meífe- 
geiro,que tragia recado per que os mataífem. E fallavom am- 
treíC ambos que era aquello por que eram prefos , e o meef- 
tre dezia que nom achava em íi coufa per que mereçeíTe de 
o feer , e Gonçallo Vaafquez dezia que bem fabia por que o 
era , aimda que deífem a emtemder que por ai o premdiam ; 
e que moor pefar averia quamdo o levaífem a juíliçar, por 



nom 



^'3M ej 



d'el Rei D. Fe R N A N DO. 439 

nam oufar a dizer o por que o matavom , que da morte que 
lhe deíTem fem por que. E foromnos veer cm aquel dia to- 
dollos fenhores da corte , dizemdo que lhe í'' pefava mujto de 
fua prifom , a qual nom fabiam porque era, e que toda cou- 
fa que por elles podeíTem fazer , que o fariam muj de gra- 
do , nom feemdo comtra ferviço delRei feu fenhor : mas nom 
foi alia Joham Fernamdez Amdeiro. Gramde guarda poinha 
Vaafco Martijnz em elles , nom embargamdo o que lhe cl- 
Rei diíTera , ca el comia e dojrmia fempre com elles , e eram 
guardados de dia, e vellados de noite de vijmte fcudeiros , 
que dormiam fempre armados aa porta da cafa homde elles 
jaziam. Em efto partioíTe elRei daquella cidade omde efta- 
va , e foiíTe a huum logar que chamam o Vijmeiroí^^, e a 
Rainha ficou alli. Quamdo elles virom que fe elRei partia 9 
e a Rainha ficava , teverom que era por feu mal , ca mujto 
íe temiam delia , e que nom avja em elles fe nom morte , 
e em efte temor stavom cada dia , fem avemdo fperamça de 
poder fugir , nem fecr livres per nenhuuma outra guifa ; em 
tamto que o meeftre fez voto e promèteo a Deos , que fe o 
livraíTe daquella prifom a feu falvo , que folTe a Jerufalem 
viíitar o famto fepulcro. A Rainha quamdo vio que feu defejo 
nom fora acabado fobre a morte delles , affi como avees ou- 
vjdo , cuidou que o poderia feer per outra guifa , e efcrepveo 
huuma carta ao comde Dom Joham AjfFomíTo feu tio, que ef- 
tava em Samtarem , recomtamdo lhe em ella todo o que lhe 
avehera com Vaafco Gomez Daavreu , e como lhe diíTera que 
el eítava prefemte , quamdo Gomçallo Vaafquez Dazevedo dif- 
fera delia as pallavras que dilTemos ; e que lhe rogava que 
lhe emviafle dizer per fua carta , a verdade daquel feito co- 
mo fe paífara. O comde Dom Joham AffomíFo quamdo vio a 
carta , como era homem fifudo , emtemdeo a voomtade delia 

quegemda era , e trabalhou de bufcar taaes razoôes per que 
os defculpaífe ambos ; e huuns dizem que lhe nom fcrepveo 
repolla , mas que chegou aaquella cidade omde ella eftava , 

^ e 

(1) lhes 7". (2) oViniyeiro T. 






44° Chronica 

e que lhe comtou quamto daquello fabia , per guífa que ne- 
nhuum delles nom ficou em culpa , e que fe tornou pêra 
Samtarem ; outros dizem que lho fcrepveo per carta per ci- 
ta meefma guifa. Emtom cuidou ella que era bem de traba- 
lhar que ellcs foíTem loltos , por dar a emtemder que eila 
nom fora em culpa de fua prifom ; e ouve com o comde 
de Cambrig que os pediíTe a elRei : mas de que guifa 
efto foi , nos nom ho fabemos em certo ; falvo tamto que , 
avcmdo ja vijmte dias que eiies eram prefos , emviou a Rai- 
nha chamar aquel cavaleiro que os tijnha em feu poder, e 
mamdou que lhe tiraíTe os ferros , e el fezeo aíli. E o 
niceftre quamdo ifto vio , pregumtou a Gomçallo Vaafquez 
que lhe parecia daquello ? 55 Senhor , diíTe el , pareçeme 
» boom íinal , e eyo por boom começo de meu feito, e em- 
5> temdo merçees a Deos que fom feguro de morte. Mas de 
5> vos me pefa mujto, porque quamdo tal homem come vos 
>j he prefo , nom ho he por pequeno feito ; pêro pois vos 
í> tirarom os ferros, deveello aaverí'^ por começo de bem ". 
99 E a mim, diífe o meeftre , mujto me praz de vos feerdes 
5> livre ; e Deos que fabe que eu fom fem culpa deita pri- 
» fom , elle emcamiinhe meus feitos como fua merçce for ; e 
» vos depois que fordes livre c folto , e fordes no voíFo Re- 
j> gno , rogovos que vos nembrees de mim ?>. 

CAPITULO CXLV. 

Como o meejlre teve hordenado pêra fugir , e da guifa 

que ouvera de feer, 

DEpois que o meeftre e Gomçallo Vaafquezl forom folhos 
dos ferros em que jaziam , tiraromnos d aquel la cafa om- 
de jouverom prefos todo aquel tempo, e deromlhe logar que 
anidaíFem follgamdo pello curral do caftello , e homeens com 

el-^ 

(ij aveyllo aver Z. deveeiio daver JB, 



d'elRei D. Fernando. 441 

elles que os guardaíTem fempre. E o meeítre depois que le 
vio lem ferros , pêro que o teve a booiíi final , cuidou em 
aqucllo que lhe Gomçailo Vaafquez diíTera, e peníTou cm co- 
nio podeíTe fugir. E huum dia pella manhaa que fazia frio j 
diíTe o mecftre a huum filho daquel cavalkiro que o tijnha 
em feu poder : j) Martinho , fubamos aaquel muro , e aqueem- 
99 tarnosemos aaquel foi que alli faz ?> : e o moço fe foi com 
elle , e os fcudeiros que oguardayom. E amdamdo follgamdo 
pello muro do caftello , oolhava el com gram femença , fe 
veeria alguum logar aazado per que depois podeíTc fugir , e 
vio huum que lhe pareçeo gcitofo pêra fe poer per elle em 
falvo , mais baixo da terra que nenhuum dos outros, e pos 
logo em fua voomtade de fugir peralli , o mais çedò que ou- 
veíTe geito de o poder fazer : e depois que es a claridade do 
foi ouve efqueentados a feu prazer , deceromlTe do muro fem 
avemdo nenhuum delle tal fofpeita. Em outro dia foi o meef- 
tre foUgar aaquel logar meefmo homde amte fora , e levou 
comfigo huum feu page , a que era dada leçemça com que 
fallafie apartado , e moftroulhe aquel logar per que emtem- 
dia de fugir , e diíTe afii : j» Johanne , tragermeas o meu ar- 
í> CO dos pellouros com huuma corda bem rija , e outras 
99 duas cordas no feo ; e depois que me ifto deres , hiras fel- 
99 lar o meu cavallo , e trazermoas alli prefies , fazendo que 
99 vaas pêra a agua , e huuma vara na maão , e huum par des- 
99 porás no íeo , que fe mas tam aginha nom poderes poer, 
?» que com a vara as efcufe ; e eu amdarei peraqui tiramdo 
99 aas poombas , e chegarmehei aaquel logar, e atarei as cor- 
>? das no arco , e deçermei per clhs 99. Emtom lhe divifou 
o dia e hora a que efto fezefle , e que o tevcflTe em gramde 
fegredo, e el diflie que afil ho faria, e efpedioíFe dei , e foif- 
fe : emtom fe deçeo do muro , com aquelles que o guarda- 
vom, , fem defcobrimdo fua puridade a outro nenhuum. 



CA- 



òVá\\ OÇ 



442' Chrokica 

CAPITULO CXLVI. 

Como o meejlre foi folto , e comeo aquel dia com a Rai- 
nha^ e das razoÕes que com ella ouve. 

TEemdo ho meeftre hordenado pêra fugir da guífa que 
avees ouvido , a huum dia certo , chegou a elle Vaarco 
Martijnz , amte daquel dia que a fligida avja de feer , e diíTe a 
ele a Gomçallo Vaafquez : í> Senhor, eu vos trago muj boas 
5> novas j>. j> Quegemdas , difíerom elies jj? >> A Rainha mi- 
» nha fenhora , difle el , vem de manhaá ouvir miíTa aa See, 
í> e mamdavos foltar , e que vaadcs ouvir miíTa com ella ?>. 
E elles forom muj to ledos com eito , e diíTerom que lho tij- 
nham em gramde merçee. Em outro dia veo a Rainha ouvir 
miíTa aa See , e eftamdo aa miíla , chegou Vaafco Marti inz 
com elk^s ambos homde a Rainha eftava , e elles beijarom- 
lhe as maãos , e fallarom aos outros fenhores que hi cftavom , 
e ao comde Joham Fcrnamdez com elles, E depois que fa* 
hirom de (■' miíTa , tomou o comde Joham Fernamdez a Rai- 
nha pollo braço , e o meeftre a ííFamte Dona Beatriz fua fi- 
lha , e veherom aílí ataa porta da fee : emtom emtrou a Rai- 
nha em nas amdes (=) em que fora, porque amdava prenhe, e 
o comde hia a par das amdes fallamdo com cila , e o meef- 
tre levava a lifamte de rédea. E quamdo chegirom aa porta 
do paaço , quiferaíTe o meeftre e Gomçallo Vaafquez efpedir 
deíla , pêra fe hirem pêra as pouladas , e ella lhe diíTe que 
fe nom foífem , mas que veheíTem comer com ella ; e o 
meeftre foi muj fofpeitofo defte comvjte , cuidamdo que o 
queriam matar com peçonha , e bem o leixara por aquella 
hora , fe fe poderá fcufar dello. Emtom fe aíTcmtarom a co- 
mer na camará da Rainha , e ella íiia aa fua mefa , e o meef- 
tre em cabeceira doutra mefa, eo comde Joham Fernamdez 

jum- 

(i) da T. (2) em as andas B, 



d'elRei d. Fernando. 443 

jumto com elle, e Gomçallo Vaafquez a fumdo delles ambos, 
e o meeílre comia com gramde medo , reçeamdo oqueja dií- 
femos. Acabado ojamtar , trouverom a fruita , e a Rainha co- 
meçou de fallar nasjoyasque tijnha , e quaiiito lhe cuftarom , 
gabamdoas mujto ; e o conde alçouíTe da mefa íicamdo os ou- 
tros aífeemtados , e chegoufle a par da cama homde a Rai- 
nha eílava aa mefa , e eíla tirou huum anel que tijnha no 
dedo, dhuum rubi que dezia que era de gram preço , e tem- 
deo a maáo com elle , e dilTe ao comde , em guifa que o ou- 
virem todos : » Johane , toma efte anel ». » Nom tomarei , 
3> diíTe el ». ?> Por que , dice ella »> ? ?> Senhora , difle el , 
3> porque ei medo que digam dambos >\ » Toma tu o que 
5> te eu dou , diíTe ella , e diga cada huum o que quifer : >je 
elle tomouho , e pofeo no dedo ; e o CO meeílre e aos ^^^ outros 
que hi eftavom , nom lhes pareçeo bem eíta coufa , e tcve- 
rom aquellas por muj maas razoões. Emtom fe levamtarom 
de comer, e o meeftre ficouíTe em joelhos (') amte a Rainha, 
e diíTe : ?> Senhora , bem viftes como elRei meu fenhor me 
» mamdou premder , e o defeio que comtra mim teve em 
?> quamto fui prefo ; e pêro' eu per muj tas vezes cuidaíTe 
?> em minha voomtade, em quanto jouve na prifom , que o 
5> demoveria a me aíH mamdar premder , numca pude achar 
99 em mim coufa , nem deferviço que lhe eu fezeífc , per que 
5> mereçeíTe de o feer ; pêro nom embargamdo efto , eu te- 
99 nho a el e a vos em gramde merçee , por me mandardes 
» foltar. Mas por que eu emtemdo que vos faberees (^) o por 
3> que o eu fuj , porem vos peço por merçee que mo di- 
99 guaaes , pêra me eu avifar de outra hora nom fazer ou dizer 
?> coufa, per que anoje elRei meu fenhor, e aja de mim ou- 
99 tra tal fanha como efta 3». 5> Irmaão amigo , diífe ella , 
99 bem fabees que i^os mal dizemtes , nunca lhes mimgua que 
99 digam , e alguuns cavaleiros de volTa hordem que comvofco 
3i> amdam , efpiçiallmente o comendador moor Vaafco Porca - 
' Tom. ir. Kkk yy lho 

(i) e ao T. (2) e os B. (^) fincgulíe de gyolhos em teerra T. (4) ía- 
;rees bem T. 



444 Chkonica 

99 lho , fez emtender a elRei meu fenhor , que vos vos quiriees 
» hir pêra Caftella pêra o IfFante Dom Joham , em defcrviço 
3> deíle Reino ; dizemdo certamente que era aílí , porque 
99 VOS tomarees gaados de duas albergarias que ha em Avis, 
99 e os mamdarees vemder ». » Senhora , diíTe el , eíTe era 
55 muj maao cuido , que elles cuidavom , que por dez e fe- 
» te cabeças de gaado , que eu mamdei tomar pêra alguumas 
99 coufas que me compriam , nom deveram -elles a dizer de 
5» mim tam maa coufa ; mas Deos dará a elles feu gallar- 
5> dom, e a mim ajuda e graça como ferva ('^ elRei meu fe- 
j» nhor , fegumdo meu defeio foi fempre de o bem fervir ». 
E nom podendo delia mais íaber , alçouíFe, e pediolhe leçem- 
ça pêra hir veer elRei. 

CAPITULO CXLVIl. 

Como o meejlre foi veer elRei , e das pallavras que com 

el oííve ; e das razooes que o meejlre dijje em 

cafa do comde de Cambrig, 

QUamdo ò meeftre vio , que mais nom podia faber da 
Rainha em feito de fua prifom , efpedioíTe delia, e foif- 
fe logo ao Vijmeiro (^) omde elRei eftava ; e chegou am- 
te a cama , omde el jazia doemte , e beijoulhe as maaos , 
99 e diíFe : Senhor , vos me mamdaftes premder , e eu vos 
?> tenho em gramde merçee por me mandardes foltar , fe 
í> eu alguma coufa fige per que mereçcífe de o feer , c 
j» aimda que o nom fezeífe : e vos , fenhor , fabees bem 
« como me creaftes , e a honrra em que voíTa merçee foi 
5> de me poer ; e amtre as outras muj tas merçees que eu 
» de vos recebi ataa o dia doje , agora vos peço por merçee 
5> què me façaaes huuma , a qual he cfta : que me digaacís 
99 qual foi a razão , por que me mamdaftes premder. Ca aim- 
99 da que vos eu com boom defeio ferviíTe , e tenha em voom- 

99 ta- 
Ci) fitva T. B. (2) Vymyeiro T. 



i;m 01 






d'elRei d. Fernando. 445* 

>9 táde de vos fervir, pêro pode feer que alguumas daquel- 
» las coufas , em que eu cuido que vos faço ferviço e voon- 
í9 tade , feram a vos nojo e defprazer; e nom feemdo eu 
3> percebido deílo- , fervirvos hia como ataa qui fige , efperam- 
3> do de vos bem e merçee por gallardom de meu íerviço , 
5» feguiríTehia o comtrairo defto : e porem vos peço por mer- 
5> çee , que me queiraaes dizer quegemda he voíTa voomta- 
5> de 5>, Refpomdeo eljiilei, e diíTe : jjVos dizees muj bem, 
?> e eu emtemdo voíTo boom defeio: mas vosfeede certo, que 
?> eu nom vos mamdei premder , fe nom por vos moftrar 
5' quamto o meu poderio era de grande fobre vos , e nom 
?> por outra coufa 99. a Senhor, diíTe omeeílre, des aquel 
5' tempo que me Deos chegou a hidade de vos eu conhe- 
í' çer por meu Rei e fenhor , fempre eu foube , e f cj o gram 
5> poderio que vos fobre mim avees , e fobre todos os ou- 
í> tros de voíTo reino: e fe por ai nom foi fe nom por ef- 
5» fo 5 pareçeme que per outra guifa poderees faber , fe avia 
J5 em mim tal conhecimento como eííe ; e fe per outra ra- 
?' zom he em que vos eu nom ferva a voíTo prazer , como 
í> ja dixe , peçovos por merçee que mo digaaes ?> : e elRei, 
diíTe que nom fora por outra coufa , fe nom por aquello : em^ 
tom lhe beijou as maãos , e efpediofle delle. E por que ao 
meeftre era dito, que o comde de Cambrig fora em ajuda 
de el feer foi to , porem fe foi aos paaços hondç o comde 
poufava , e fezlhe fua reveremça , e diíTe : » Senhor , bem ía- 
í5 bees como elRei meu fenhor me mamdou prender , e hora 
?> por fua merçee me mamdou foltar ; e pêro eu em toda 
í> minha prifom numca puide faber por que fui prefo , nem 
>j o fei aimda agora , eu vos tenho em gramde merçee o 
» que por mim fezeítes , em trabalhardes por eu feer folto. 
5> Aallem defto , fenhor , por quamto a mim he dito , que al- 
3> guuns diíTerom de mim coufas , quaaes nom deviam , eu di- 
í5 go aqui peramte vos , que fe hi ha alguum que me diga 
99 que eu errei , ou fiz alguuma çoufa comtra ferviço delRei 
5> meu fenhor, que eu lhe farei conhecer que nom dilTe , nem 

Kkk ii $({% 



44^ C H K o N I C A 

íj diz verdade ; mas que fempre me trabalhei de o fervir o 
5» melhor que eu puide , fem lhe fazemdo nenhuum erro , por 
5> que me efto deveíTe feer feito '? : e efto dííTe o meeftre , 
por que hi eftavom com o com.de mujtos cavalleiros e efcu- 
deiros dos que amdavom com elRei ; mas nom ouve hi nem 
huum que lhe a efto refpomdeíTe. Emtom diíTe ao comde 
Vaafco Martinz da Cunha o moço , que hia com o meeftre : 
yy Aimda , fenhor , que o meeftre diíTeíTe o que era iheudo 
5> de dizer por fua homrra , pêro por que pode íeer , que por 
>j que elle he tam gramde homem , nenhuum queira Í'J refpom- 
5J der a efto ; porem eu que foom cavalleiro de mais peque- 
5> no eftado , a que de melhor mente refpomderam , digo 
?? que eu fom preftes pêra fazer conhecer que nom he ver- 
5j dade , a qualquer que diíTer que o meeftre fez , nem difíe 
?) nenhuuma coufa comtra ferviço delRei , per que mereçefte 
3) de feer prefo ?> : e efta meefma razom diíTerom alguuns 
outros dos que hi eftavam , e o comde difíe que bem crija 
que aílí era. Emtom fe foi o comde pêra homde elRei pou- 
fava , e o- meeftre com elle ataa os paaços j e efpediofíe del- 
le, e tornoufíe a Évora. 

CAPITULO CXLVIII. 

Como Louremço Martijnz quifera matar Vaafco Porca- 
lho y e lhe o meejlre dijje que o nom matajje. 

TAmto que o meeftre chegou a Évora , efpediofíe logo 
da Rainha pêra fe hir aa terra doordem (^^, e foifle de pee 
em romaria a Samta Maria de Benavilla , que prometera quam- 
do fora prefo ; e dhi fe partio, e foi a Veiros , e achou hi 
ja foko Louremço Martijnz , aquel feu veedor que damte dif- 
femos , mas nom lhe foi emtregue o que lhe tomarom : e 
comtoulhe o meeftre todo o que lhe avehera em fua prifom , 

e 

(^0 (juereraa J. (2) da hordem T. B, 



sr-ui ot 



i^if^,«! fc 'k^kíM 



d'£lRei d. Fernando. 447 

e as razooes que ouvera com a Rainha depois que fora foll- 
to , e o que lhe diíTera de Vaafco Porcalho. ?> Senhor , diíTe 
í5 elle , e vos bem fabees como eu fuj prefo quamdo o vos 
yy foftcs y e como me foi tomado quamto me acharom : e fe- 
5> gumdo parece ('^ todo o que avos e a mim foi feito, veo 
5> per aazo das coufas que elle treedor amdou dizendo ; e 
3j porem he bem que el aja galardom de fua malldade , e 
?j nom efcape de morte, por tam maa coufa como efta que 
5> diíTc : e vos leixaae a mim o emcarrego deite feito , e 
í> fem vos em ello poer maao , eu o emtemdo de matar 
5> muj cedo »?: e o meeílre dilTe que lho gradeçia mujto , 
e lho tijnha em gramde ferviço. Aquella noite feguimte cui- 
dou o meeftre em efta coufa , e em outro dia chamouho ade- 
parte , e diíTe : 5> Louremço Martijnz , cuidei em aquello 
5' que ootem falíamos , e nom me parece que he bem que 
?' matees efte homem, por duas razooes. A primeira , vos fa- 
>9 beés bem, como efta molher he fages em mujto mal, e 
?j fabedor de gramdes artes ; e por que vio que nom pode 
yf acabar feu maao defeio comtra mim , em quamto fui pre- 
py fo , pode íeer que cuidou de me dizer efta coufa , per tal 
?> que eu com menemcoria , pemíTamdo que a fem razom cue 
3> me foi feita , foi per léu aazo defte homem , me demovef- 
í> fe ao matar • e matamdoo , elle morreria fem por que , 
3> com gram pecado de minha alma , e eu era per força lei- 
yy xar o Reino , e me hiria fora delle , e per efta guifa feeria 
yy ella defempachada de mim. A fegumda , pofto que allí fof- 
yy fe que o elle dilfeiTe , a mim nom vem gramde homrra de 
3> eu matar huum homem tal como efte (^^ ; e aimda que o 
yy vos matees , dando a emtemder que eu nom fei defto parte , 
yy logo a Rainha cuidaria que eu vtollo mandara matar , por o 
5» que me diíTe ; e poderia feer que averia elRei de mim 
99 tam gramde (?) queixume , per que eu poderia vijnr a prifom 
yy e perijgo de morte, ou perderia aterra de todo pomto, o 
" que a mim nom compria , moormente em tempo de guer- 

'> ra , 

(i) me parece T. (2) huum homem decai guyíTa T. (^) tamanho T. 






44^ Chronica 

» ra , como ora eílamos : porem me parece que he bem, que 
39 na duvjda deftas couías, efcolhamos ho mais feguro,enom 
J5 curemos deíto ; e elle fe mal fez ou diíTe, Deos lhe dará 
J5 feu guallardom í» » Senhor, diíTeLouremço Martijnz , a 
5J mim parecem eftas booas razooes , e como voíTa merçee 
j> for , eu aílí o farei ?» : e o meeftre diíTe que nom curaíTe 
delle ('^5 e el aílí o fez. 

CAPITULO CXLIX. 

Como os Imgrefes e o meejlre com elles emtrarom per 
Caftella , e tomar om os cajhllos de Lobom e do 

Corujo, 

A Poucos dias que o meeftre foi foi to , eftamdo el em Vei- 
ros , como diíTemos , ouverom comífelho alguuns capi- 
taães dos Imgrefes , de fazerem huuma emtrada per Caftel- 
la ; e devifarom logo amtre íi o dia , a que fe todos jumtaf- 
fem com fuás gemtes , em huuma villa que chamam Arrom- 
ches , que era duas Icgoas do reino de feus immijgos ; e os 
capitaães eram eftes : huum í^') filho baft.irdo delRei de Imgra- 

terra que avia nome (''^ o cano m (?) de Rabi Sallas , 

o foduc delia Trava , MolTe Joham Falconeth , e outros : e 
himdo pêra aquel logar, hu aviam de feer jumtos, huum ca- 
valleiro Imgres que avia nome Moífe Rogel Othiquiniemte, 
chegou per homde o meeftre eftava , e em fallamdo com el , 
diíTe aílí : í> Sabees vos , fenhor , parte do que fe faz em efta 
5j terra , omde nos eftamos » ? » Nom , diíTe o meeftre j>. 
5> Seede certo , diíTe o cavaíleiro Imgres , que nos queremos 
?> fazer huuma cavallgada , e emtrar per Caftella , em na qual 

?j fe 

(i) dello T. B. (2) a faber , huum T. (O Hocanaáo T. 

{a) No Códice do K. Archivo ha hum semelhante espaço em claro ; o que pare- 
ce ser motivado ou pelo respan^amento , ou pela mancha do pergaminho : he certo 
que nos outros Códices continuão as palavras seguintes immediatamente depois da 
alavra nome, sem haver intervallo algum entre ellas. 



d'elRei d. Fernando. 449 

5> fe vos quiferdes feer , podees fazer mujto de voíTa homr- 
99 ra 5>: e dilTelhe logo o dia em ^e todos aviam de feer 
jumtos , e quamdo fe aviam de partir, a Muito me praz ^ 
» diíTe omeeftre, e foom dello mujledo, egradcçovos muj- 
>3 to efto que me avees dito ; e eu me farei logo preftes, 
í) em guifa que feia com eíFes fenhores , em eíTe dia que vos 
5> dizees >j. Emtom fe efpedio delle , e o meeftre nom ha 
pos mais em tardamça , e jumtou fuás gemtes apreíT.i , e 
outras da comarca , as mais que aver pode , e com el Vaaf- 
co Periz de Caamooes , e levou comíigo amtre lamças e cor- 
redores duzemtos de cavallo , e quatro mil homeens de pee ; 
e chegou a Arromches homde os Imgrefes eftavom , e foi 
delles bem recebido , e fezeromífe preftes pêra emtrar , e 
eram per todos oito çemtas lamças, e quinhemtos archeiros, 
e féis mil homeens de pee. Emtom fe partirom dalJi , e le- 
varom caminho Douguella , e chegarom aquella noite a huu- 
ma ribeira , omde efta huuma irmida que chamam Sam Sal- 
vador da matamça. AUi dormirom alguuns em caías que fa- 
ziam de ramos darvores , e os mais delles fobre a erva da 
terra ; o çeeo era cobertura a todos , ca alli nom avia outras 
temdas , que os emparaíTe de tempo comtrairo. O dia feguim^ 
te chegarom a huum caftello que chamom Lobom , em que 
eftavom ataa fafeemta homeens ; e aquel filho baftardo del- 
Rei de Imgraterra , que diíFemos , foi o primeiro que o come- 
çou de combater , e des i os outros ; e os que eram dcmtro 
deíFendiamíTe quamto podiam , e deramlhe de cima huuma 
gram pedrada , em guifa que cahiu logo em terra , e todos 
cuidarom que era morto , e el alçouíFe , e cobrou lua força , e 
nom com menos esforço que da primeira , tornou outra vez 
a combater. E polia fraqueza do logar , e pollo fogo que lhe 
poferom aas portas, forom logo emtrados ('^per força, e foi 
el o primeiro que emtrou demtro , e matarom delles , e outros 
fogirom, e alguuns levarom cativos , ederribarom o logar to- 
do. PartiromíTe emtom dalli , e chegarom a huum caftello que 

eh a- 
(i) entradas T. 



svdu 01 



45'o Chuonica 

chamom ho Cortijo , e alli eftavom duzemtos homeens de 
pee , e trimta ícudeiros , amtre os quaaes eftavom fctc que 
eram alcaides de fenhbs caftellos , homeens de gramde esfor- 
ço , que em fe deíFemdemdo , bem moftravom pêra quamto 
eram. E como chegarom ao logar, começarem de o comba- 
ter muj rijamente , poemdo o fogo aas portas , e picamdo o 
muro ('^ per outra parte : e os de demtro em fe deíFemdemdo 
com toda fa força , matarom dous fcudeiros , huum Português , 
e outro Imgres , efcudeiro de MoíTe Joham Falconet ; mas 
nom lhe preftou nada fua deíFemíTom , ca a multidom das gem- 
tes de fora lhe fez perder toda fua virtude , em guifa que 
defefperarom de fe poder deffemder, e prcitejavomfle que os 
leixaíTem a vida , e que lhes dariam o logar ; e os Imgrefes 
cobrarom tam gram fanha pella morte daquelle efcudeiro Im- 
gres , que o nom quiferom comíTemtir , mas cada vez fe es- 
forçavam mais pêra o emtrar. Quando os de demtro virom 
ello j ouverom muj gram medo , e bem emtemderom que fe 
os emtraíTem per força , que nom avia em elles fe nom mor- 
te ; e reveftiromíTe os sacerdotes, e fobiromíTe ao muro, e 
moftraromlhe o corpo de Deos , rogamdoos que por amor 
daquel fenhor fe quifeíTem amerçear delles ; e os Imgrefes 
com gram fanha que fe em elles mais açemdia , nom cura- 
vom daquello , e braadavomlhe altas vozes que fe deiFemdef- 
fem toda via ; e o arroido gramde de huuma e da outra par- 
te , fazia que aadur fuás prezes podiam feer ouvjdas : e eram 
as frechas tam tas alli homde o corpo de Deos eftava , e pel- 
los outros logares darredor , que temor gramde os fazia dal- 
li partir. Em efto foi o combato tam aficado , que pêro í^) o 
muro foíFe muj forte , com alta cava ('^ , e bem deffeníTavel , to- 
do nom aproveitou nada , e durarom des a manhaã ataa hora de 
terça em no combater ; e roto o muro , emtrarom demtro per 
força , e depois pellas portas que forom ardudas , e começa- 
rom de matar quamtos homeens acharom , em guifa que ou- 
tra nenhuuma pelToa nom ficou ávida, falvo molheres e mo-* 

ÇQS 

'CO ^ picamdoo muycoT. (2) c^ue per que T. ^3) com alcáçova 7". 



d'elReiD. Feknando. 45 1 

ços pequenos ; e derribarom todo o logar o mais que pode- 
rom , e roubaromno de quamto em el acharom , e tomaromire 
pêra Portugal. 

CAPITULO CL. 

Como elRei Dom Femamdo e os Imgrefes chegarom a 

Ellvas y e pario a Rainha Dona Lionor hlj 

huumjllho, 

A Rainha , como avees ouvjdo , depois que aazou que o 
meeftre e Gonçallo Vaafquez folTem foltos , por dar a 
emtemder que nom era em culpa , hordenou como caíaíTemí'* 
huum filho de Gomçallo Vaafquez , que avia nome Alvoro 
Gomçallvez , com huuma filha de Joham Fernamdez Dandeiro , 
que chamavom Dona Samcha Damdeiro; creemdo que por tal 
cafamemto çelTaria Gomçallo Vaafquez de fallar mais em feus 
feitos, e feeria da parte delia. Em efto hordenou elRei de to- 
dos fazerem mudamça , por hir mais adeamte ; e fcpreveo ao 
comde que partiíTe de Villa Viçofa , e el partio logo huuma 
fegunda feira poftumeiro dia de junho , com fua molher e 
gemtes , e foi poufar feu arreai em Odiana a par de Jerume- 
nha. E elRei e a Rainha partirom Deftremoz , omde ja efta- 
vom , aa quarta feira feguimte com todas fuás gemtes , e vehe- 
romfl^e a Borva , e aa fefta feira chegarom a Villa Boim , ao fa- 
bado forom poufar aEllvas, que eram féis dias domes de ju- 
lho, omde depois fe jumtarom todos; e poufava elRei em ci- 
ma na villa velha , e o comde em Sam Domimgos , e a hoíle 
delRei pos feu arreai nas ortas arredor da villa , e os Imgre- 
fes nos ollivaaes caminho de Badalhouçe , e começarom de 
correr a terra huuns aos í^í outros. A Rainha que amdava 
prenhe , avemdo treze dias que allj eftava , pario huum filho , 
e moftrou elRei muj gram prazer , e aqueíles que da parte 

Tom. IV. LU <^^ 

CO caíaíTe 7. B, {i) e os T. 



45*1 Chronica 

da Rainha eram; e acabados quatro dias, niorreo : e por fuá 
morte tomarom todollos gramdes que com elRei eftavom , capas 
de burel por doo , mais por feguirem voomtade delRei, x^ue 
por emtemderem que era feu fillio , ca mujtos prefumiam que 
era filho do comde Joham Fernamdez , dizemdo que elRei 
por feer adoorado , avija tempos que nom dormia com a Rai- 
nha ; e outros que fe mais eftemdiam a murmurar , deziam 
que elRei por eíla razom ho afogara no collo de fua ama. 
Onde fabee que neefte tempo e em efta hida , fe começarom 
dous offiçios em Portugal novamente , que ataa ellomçe em 
el nom avja , a faber, Comdeeíbabre , e Marichal ; e tomado 
tal coílume dos Imgrefes que emtom veherom , fez elRei 
comde eílabre o comde DarrayoUos Dom Alvoro Perez de 
Caftro , e marichal Gomçallo Vaafquez Dazevedo. E fe al- 
guém difler , quem hufava ante das coufas que a eftes caval- 
leirofos offiçios perteemçe , dizeelhe que fazia todo o Alfe- 
rez moor ; e o offiçio que agora he do Camareiro moor , fu- 
hia de feer do Repofteiro moor. 

CAPITULO CU. 

Como Nunallvarez pedio leçença ao priol , pêra feer na 

batalha com elRei ; e que maneira teve de fe 

partir ^ porque lha nom deu, 

EStamdo affi elRei Dom Fernamdo com todo feu ajumta- 
mento em EUvas , era a todos comuum fama per recom- 
tamento verdadeiro , como elRei de Caftella jumtava fuás 
gemtes pêra fe vijnr a Badalhouçe , e lhe poer a praça a el- 
Rei Dom Fernamdo , e que fe nom efcufava batalha amtre os 
Reis. Nuno AHvarez que eílava com o priol na fromtaria de 
Lixboa , como diíTemos , efperamdo cada dia que elRei man- 
daíTe chamar feu irmaâo , e os outros , pêra feerem com el na 
batalha j e o priol reçebeo fua carta , que nom fc trabalhaf- 

fe 



IPI^TIT ot 



d'elRei D. Fernando. 45*3 

fe de hir alia , mas que toda via efteveíTe em Lixboa com 
os feuSj como eílava , ca aílí oemremdia por Teu ferviço. Ao 
prioi peíou mujto de tal recado , por que fua voomtade era 
feer todavia na batalha com elRei ; pêro foilhe forç^ido fa- 
zer o que lhe mamdavom , e nom partir da fromtaria , e fal- 
lou efto com feus irmaaos e com os outros , fegundo lhe el- 
Rei fcrepvera. Nunallvarez ouve gram trifteza por eílo , e por 
os mujtos que eftomçe hi eítavom , nom refpomdeo nenhu- 
ma coufa ao priol ; e como íe os outros partirom , foiíTe o 
priol pêra fua camará , e Nunallvarez com elle , e tanto que 
ambos forom demtro , Nunallvarez diíTe ao irmaao em efta 
guifa: 5> Senhor irmaão , por determinado avees vos todavia 
3> nom partir daqui pêra feer com elRei na batalha , por mer- 
.?» çee declaraaeme fobrefto voíTa voomtade'). O priol ouvjm- 
do eíl:o, começou de rijrj e refpomdeo defta guifa, dizem- 
do jj : Irmaão , bem veedes vos que eu nom poíTo hi ai fazer , 
3i fe nom comprir o que me elRei meu fenhor manda , e fa- 
» zemdo o contrairo nom mo comtariam por ferviço ; mas 
)> efpero em Deos que el fera veemçedor da batalha , e a 
5> nos emcaminhara com as gentes defta frota , que o fervi- 
y> remos de tam boom ferviço , como lhe la podiamos firzer : 
»> e porem , irmaão y a vos nom feia efto empacho , nem vos 
" anogees por ello ». Nunallvarez muj cuidofo , por todavia 
feer na batalha , pareçiamlhe eftas razoões compridas , por que 
fe o priol efcufava de todo; e como as acabou, mujto me* 
furadamente diíTe : jj Senhor irmaão, a mim (') femclha que 
:» todallas coufas vos avees de leixar esqueeçer , por todavia 
yy feer na batalha com voíTo fenhor elRei , de que voíTo pa- 
?> dre , e vos , e toda voífa linhagem , tamtas merçees avees 
í» recebidas; pêro porque ja per vezes ouvj dizer a alguuns , 
^' que melhor he obediemçia que o facrifiçio, pareçeme que 
'» he bem de lhe feerdes obediemte, e comprirdes feu man- 
» dado. Mas porque eu emtemdo que em cfta fromtaria , om- 
>y de ha tamtos boons como comvofco eftam , eu ei de fa- 

LU ii » zer 

(O a mym íc me 7". 



45'4 Cht^onica 

5J zer pequena mimgua , des i por que me parece que eu fa- 
>9 ria a moor maldade do mumdo , fe em eília batalha nom 
?> foíTe ; vos peço por merçee , que me dees logar pêra feer 
» em ella , e eu leixarei aqui todollos meus , que nom que- 
j> ro levar fe nom çimquo ou féis companheiros com noíTas 
>5 armas jj. O priol reípomdeo eítomçe , ja quamto de fanhu- 
do , que tal logar lhe nom daria , amte lhe rogava e mam- 
dava , que de tal coufa fe nom trabalhaíTe. Nunallvarez ou- 
vjmdo a repofta de feu irmaao , partioíTe damtelle nom muj 
ledo , e foiíTe pêra fua poufada ; e logo mais em fegredo que 
pode , começou de comçertar fua hida , e nom o pode fazer 
iam calladamente , que o priol dello parte nom foubeíTe ; e 
tamto que o ouvio , por que lhe conhecia bem a voomtade , 
que pois que o começava , que o avia dacabar , mandou logo 
perceber as portas da cidade , e poer em ellas ral guarda que 
nom leixaíTem per ellas fahir nenhuuma gemte darmas , ef- 
peçiallmente aa porta de Sam Viçemte , per hu el emtemdeo 
que avia dhir. Nunallvarez por aquel dia e noite feguimte, 
ataa mea noite , nom fe trabalhou de nenhuuma coufa , e 
aaquellas horas el , e çimquo efcudeiros que levou comíigo , 
começarom de fe correger elles e feus pages , fem outras aze- 
mellas ,e cavallgarom nom muj to manhaa , e chegarom aaquel- 
la porta ; e os homeens darmas que hi eftavom por guardas , 
abriam ja as portas aas gemtes ferviçaaes , que fahiam pêra fo- 
ra : e como Nunallvarez e os feus chegarom , as guardas os 
quiferom torvar que nom íahiíTem , e elles moftrarom que qui- 
nam fahir per força , e deromlhe logar, e foKomífe feu cami- 
nho. Nunallvarez quamdo chegou a Ellvas , elRei o reçebeo 
muj bem 5 louvamdoo mujto peramte todos; e mujto mais o 
louvou depois , quamdo foube o que lhe avehera com feu ir- 
maao , e como fe partira da cidade fem fua leçença , e com- 
tra fa voontade. 



CA- 



sia\r oi 



d'elRei d. Ferííando. 45: 5^ 

CAPITULO CLII. 

Como elRei de Caftella juntou fuás gemtes , e fe vco pê- 
ra Badalhouçe com ellas. 

TOrnamdo a fallar delRei de Caílella , que hordenava em 
feu Reino, em quamto eltas coufas todas paíTarom ; he 
de faber, que depois que elRei tomou o caílello Dalmeida 
per preiteíia , e mamdou a carta ao comde de Cambrig , de 
que nom ouve repofta , fegumdo ouviíles , tornouíTe pêra Caf- 
tella : e por quanto fabia , que tamto que os Imgrefes folTem 
emcavallgados , fe trabalhariam todos demtrar em feu Reino , 
porem nom quis fuás gemtes afaftar deífi , mas hordenou de 
as poer acerca do eítremo de Portugal , e alli avijam paga- 
inento de feu foi Ido ; e el em tamto jumtava as mais compa- 
nhas que podia , eftamdo na cidade Davilla , e per aquclla co- 
marca darredor. Dalli partio elRei , e veoíFe pêra Outer de 
íilhas , e efteve hi alguuns dias, edesi veolfe aSimamxas, e 
efteve allj huum mes : e fabemdo el como o conde Dom Af- 
foníTo eftava em Bragamça trautamdo fuás aveemças com el- 
Rei Dom Fernamdo , fcrepveolhe fuás cartas por o torvar 
dello, e trager pêra fuamerçee; e defque vio que lhe o com- 
de nom reípomdeo como el queria , partio de Simamcas , c 
foiíTe pêra Çamora , e alli ajumtou fuás gemtes, por que o 
çertificarom que elRei de Portugal com os Imgrefes quiriam 
emtrar per Caftella ; e fcrepveo outra vez ao comde per 
cartas e meíFegeiros , e a todoUos que com cl eftavom , que 
por a natureza que com el aviam , fe velicíFem logo pêra fa 
merçee, ca fua voomtade era partir dalli apreífa , porhir pel- 
leiar com elRei Dom Fernamdo. O comde refpomdeo bem a 
fuás cartas , pêro demandava arrefeens de peíToas e caftellos 
certos, que lhe foflem dados : elRei nom quis comíTemtir cm 
ello, ca lhe demamdava o Iffamte Dom Fernamdo feu íiilio , 

e 






45^ Chronica 

e fcis filhos de cavalleiros quaaes elle nomeaíTe. Aaçlma vê- 
em do o comde como todollos feus fe partiam delle , e fe 
hiam pêra elRei , trautou fuás preitefias com elle , e veoíTe 
pêra fua merçee. Eftomçe fez eiRei alli em Çamora comde 
eHabre de Caftella Dom Aífonfíb , marques de Vilhena , e 
comde de Denia , e fez marifcai da holle Fernamdallvarcz de 
Toliedo, e eítes offiçios numca foram dados em Caftella ataa 
quel tempo : e des i partio elRei de Çamora com todas fuás 
gemtes , que eram çimqiio mil homeens darmas , e mil e qui- 
nhemtos genetes , e mujta gemte de pee , e beefteiros , e 
chegou a Badalhouçe huuma quimta feira pella manhaa, puf- 
tumeiro dia de julho da dita era. 

CAPITULO CLIII. 

Como elRei Dom Fernamdo pos fua batalha , e efperou no 
campo 5 e e/Rei de Cejiella mm quis pelkjar. 

ANte huura dia que elRei chegaíTe a Badalhouçe , que 
eram trimta dias do mes de julho, fahirom os Imgre- 
fes de feu arreai , e forom a Caya comtra Badalhouçe , veer ho 
campo hu avia de feer a batalha. E amdamdo alia em Caya , 
diíTerom a elRei Dom Fernamdo que gemtes dos Caftcilaaos 
pelieiavom com os Im.grcfes ; e el tamto que o ouvjo , par- 
tio logoDellvas com toda fa gemte, e quamdo la foi, achou 
que nom era nada , e tornouíTe pêra a villa. Em outro dia 
quamdo elRei de Caftella chegou a Badalhouçe , como dif- 
femos , armarom os feus huuma temda naquel logar de Caya , 
e veherom dizer a elRei Dom Fernamdo como os Caftellaaos 
armavom fuás temdas, e poinham fuás aazes pêra pelleiar , e 
nom era aííí, ElRei e o comde partirom logo com todas fuás 
gemtes , e foromíFe aaquel logar de Caya , e os Caftellaaos 
como os virom hir,alçarom a temda , e tornaromíFc pêra Bada- 
lhouçe. Emtom cortarom os Portugueefes as pomtas dos ca- 
pa- 



d'e 1 R e I D. Fernando. 45-7 

patos, que hufavom em aquel tempo mujto compriJas , e dei- 
tadas todas em huum logar , era fabor de veer tal momte de 
pomtas ; ca por Judeu aviam eílomçe , que ('^ nom tragia as 
pomtas compridas. EiRei tijnha bem féis mil lamças , amtre 
fuás e dos Imgrefes , e mujtos beefteiros , e h;)mecns de pee ; 
aííí que os Reis aviam aíTaz de gemte cada huum por fua par- 
te pêra pelleiar , e hordenarom logo fua batalha pe,r eíla gui- 
fa : o comde de Cambrig eftava na avamguarda , e elPvci 
Dom Fernamdo na reguarda , e poftas suas alias como com- 
pria. E teendo fuás aazes poftas atemdemdo a batalha , co- 
meçou elRei de fazer cavalleiros aíli Imgrefes come Portu- 
gueefes , e tomarom de fua maão homrra de cavallaria Moífe 
Ganom , e outros Imgrefes ; e dos Portuguefes , o comde Domr 
Gomçallo , e Fernam Gomçallvez de Soufa , e Fernam Gom- 
çalvez de Meira , e Gomçallo Veegas Dataide , e doutros ef- 
cudeiros fidallgos ataa huuns vijmte e quatro. E avemdo ja 
elRei feitos alguuns cavalleiros , diíTerom a elRei que os nom 
podia fazer , pois el aimda nom era cavalleiro j ca pofto que 
Rei foíFe , nom avja poder darmar cavalleiros , pois aimda o 
el nom era. Eftomçe o armou cavalleiro o comde de Cam- 
brig , e feito elRei cavalleiro , tornou a fazer os que amte 
avia feitos , e outros alguuns. E com os Imgrefes vijnha o 
alferez do duque Dallamcaftro , que fe chamava Rei de Caf- 
tella por aazo de fua molher Dona Coftança , filha dei Rei Dom 
Pedro , que tragia fua baradeira ; a qual temdida na batalha , 
braadavom os Imgrefes todos , Caftella e Leom por elRei 
Dom Joham de Caftella , filho delRei Eduarte de Imgraterra. 
E tragiam outro pemdom da cruzada contra elRei de Caftel- 
la, porque eram çifmaticos nom teemdo com o Papa de Ro- 
ma. E aífi com as aazes preftes , e fuás bamdeiras temdidas , 
efteverom per gramde efpaço ataa depois de meo dia ; e 
veemdo que elRei de Caftella nom quiria vijnr aa batalha , 
tornaromlTe os Imgrefes pêra feu arreai , e elRei pêra EUvas 
com toda fua companha. 

CA- 

(0 <3uem T. B, 




458 Ghronica 

CAPITULO CLIV. 

Como forom pazes trautaãas amtre elRei Dom Fernam- 
do , e elRei Domjoham deCaJlella^ e com que 

comdiçooes» 



SOm alguumas coufas calladas nas eltorias , nom fabemos 
por qual raiom, que mujtos que as lêem defeiam de fa- 
ber 5 outras acerca de mudas , nom fallom como devem , 
aquello de que homem queria feer certo ; aíli como em efte 
capitullo , fallamdo daaveemça deftes Reis , qual delles foi o 
primeiro que a mamdou trautar , nem huum autor o efcrepve 
claramente ; e por que nos parece razoado fallar em ello , pof- 
to que a çcrtidom diíto bem nom faibamos , diremos as opc- 
niooes que cada huuns tem. Huuns dizem que vemdoíTe el- 
Rei Dom Fernamdo eibado de doorcs, que j a tempo avja , e 
que fuás guerras fe lhe perlomgavom ; des i por que os Im- 
grefes fom homeens de forte comdiçom, e lhe faziam mujtos 
nojos em feu reino , como ja ouviftes, avemdo tanto tempo 
que eilavom em elle ; aallem defto , por quamto elRci de Caf- 
tella nom quifera logo vijnr aa batalha , teemdolhe a praça 
pofta tão preto de feu arreai, que per vemtuira queria teer 
o^rra hordenamça de perlomgada guerra, que aelmujto def- 
l^razia ; que porem lhe mamdou cometer muj efcufamente , 
que ouveíFe com elle paz , e efto poUo nom faberem os Im- 
grefes , de que era certo que lhe nom prazia outra coufa fe 
nom guerra. Outros razoam muj to pello comtrairo , dizemdo 
que elRei de Caltella quamdo foube que amte huum dia que 
elle chegaíFe , que elRei Dom Fernamdo chegara ao campo 
com toda fua gemte , cuidamdoque pelleiavom ja os feus com 
os Imgrefes , des i no dia que el chegou , que logo fe ve- 
herom Portuguefes e Imgrefes todos ao campo , e hordena- 

rom 



D'elRei d. Fernando. 4^9 

lom fua batalha, moftramdo gramde voonuade de pelleiar , 
c que veeaido eítas foutezas ^ lembramdolhe fobre todo co- 
mo fcLi padre fora veemçido dos Imgrefes na batalha deNa- 
jara , que receou mujto de lhe poer o campo, e que el foi 
o que primeiro requereo a paz. Aiguans outros autores nom 
fcrepvem a primeira , neín títa fcgumda razom ; mas dizem , 
que cuve hi taaes pellbas , que defeiavom paz e amor amtie 
ellcs Reis , por quamto eram primos com iimaãos , e cuc 
trautarom amtrelíes alguumas maneiras de bem e daíTeíIego ; 
e que elRej de Caftella emviou a elle fccretamente feus em-^ 
baxadores , e elRti Dom Fernamdo iíTo meefmo a elle* Mas de 
qualquer guiía que íeia , elRei de Caíleila foi emtom nuij 
prafmado por nom pelleiar com elRei Dom Fernamdo , moor- 
mente por a ardideza que el e os feus moflravom aa vijnda quam- 
do chegarom , dizemdo huuns comtra os outros per modo 
deícarnho : » E omde vos hijs compadre ?» ? 55 Voume 
99 apreíTa , dezia ho outro , defender a minha quimtaã de tal 
5> logar , que logo em Portugal nomeava , que ma nom to- 
í> mem os Imgrefes jj. >? E eu também vou deífemder a mi- 
í5 nha j refpcndia j>. Nem defemderom a quimtaã, nem os 
cafaaes mais pequenos. E depois que forom iio campo , em- 
viou elRei de Gaftella trautar fuás aveenças a Portugal , huu- 
ma v^ez per Peio Sarmento , e outra per Pêro Fernamdcz de 
Vallafco , gramde feu privado ; e elRei Dom Fernamdo em- 
viava a elle o comde d'Arrayollos Dom Alvoro Perez de Caf- 
tro , e Gomçallo Vaafquez d'Azevedo : e eíles hiam femprc 
de noite emcubertamente ao arrayal delRei de Gaftella, que 
eftava amtre Ellvas e Badalhouçe , com fenhos efcudeiros , nom 
mais , por nom averem aazo os Imgrefes de faberem diilo 
parte : e forom per tantas vezes os embaxadores dhuuma c da 
outra parte , e vcherom , que foi amtre os Reis pofta aveem- 
ça per efta feguimte maneira. Primeiramxente foi pofto am- 
tre as outras coufas huum capitullo , de que os Imgreies nomt 
fouberom parte , a íaber , que a Iffamte Dona Beatriz filha 
delRei Dom Fernamdo , que fora primeiro efpofada com 
Tom. IF, Mmm Dom 



4^0 Chronica 

Dom Hemrrique primogcnito filho delRei de Caftella , e de- 
pois que os Imgreres veherom , com Eduarte filho do comde 
de Cambrig , que fe defataíTem eílcs cípoloiros , e que caraíTe 
com ella o líFamte Dom Fernamdo filho fegumdo deiRei de 
Caftella : e difto prazia mais a elRei Dom Fernamdo , que do 
cafamento do Iffamte Dom Hemrrique ; por que o líFamte 
Dom Fernamdo pois era fegumdo filho , cafamdo com lua fi- 
lha , ficava Rei de Portugal , fem fe mefturamdo o reino com 
o de Caftella; o que era per força de fe mefturar, cafamdo 
com o Iffamte Dom Hemrrique , que era herdeiro do reino. Ou- 
tro fi que elRei de Caftella deíle e emtregaíTe a elRei Dom 
Fernamdo os luguarcs Dalmeida e de Miranda , c todallas 
gallees que tomadas forom na pellcia de Saltes , com todas 
fuás armas e efquipaçoõcs : e que foltaíTe Dom [oham Affbnf- 
fo Tcllo, irmaão da Rainha í'^, almiramte de Portugal , com 
todollos outros que forom prefos na frota, fem remdiçom ne- 
nhuuma , falvo aquellas que pagadas folTem. E mais que el- 
Rei de Caftella deíFe tamtos navjos da fua frota , que jazia 
em Lixboa , em que o comde com todas fuás gemtes po- 
delTem hir íeguros em paz e em fdvo pêra fua terra , fem 
lhe pagamdo nenhuum frete por fua partida ; e que por fe- 
guramça defto , fe pofefíem certas arrefeens da huma parte 
aa outra. 

CAPITULO CLV. 

Como o comde e Gomcallo Vaafquez levaram os trautos 
das pazes , e das razooes que ouverom amte que 

as ajjlnajfe ^"^ 

ESto affi acordado , e os trautos efcriptos ''' , parti romfiTe o 
comde e Gonçallo Vaafquez mujto cedo alta madrugada , 
huum domingo dez dias do mes dagofto , e chegarom ao real t^) 

dei - 

(i) da Raynha Dona Lyanor T. (2) arviiaflem 7". (5) feyros e cfcrytos T. 
(4) arayal T. ' 



álHH OT 



d'elFvE1 d. Fernando. 461 

clelRci clc Caitcila ^ e moftrarom a elRci os trautos que le- 
vavom aílij nados na maneira que avees ouvjdo , e torom dei- 
k bem recebidos: e elRei lem mais leer os trautos, ainte 
que os aírynaíTe , manidou Íogo tamger iiuuma trombeta , pê- 
ra fe jumcar a gcmie , e ouvir o pregam , fegumdo hecoílume 
quamdo apregoam pazes ; e comcçamdo de as apregoar , as 
gemres do arreai aviam tam gram prazer , que mu j tos fica- 
voiTi os joelhos em terra e a beijavao , e taaes avia hi que a 
comiam. Aquel dia forom com vidados o comde Dom Alvo- 
ro Perez , e Gomçallo Vaafquez , de Dom Fernamdazcres 
meeftre de Samtiago , e deulhes de comer muj hom iradamen- 
te e com gram prazer ; em tamto que el nom quife feer , 
por os melhor fazer fervir : e pregumtava aaquelles efcudeiros 
que hiam com o comde e com Gomçallo Vaafquez , que lhe 
parecia daquella obra que fora feita , em razom das pazes am- 
tre aquelles Reis , que eram em tão grani defvairo ; e elles 
differom que lhe parecia que fora feita per Deos*. >y Nom 
?í foomente per Deos , diíTe elle , mais aimda per todolios 
5> amjos do çeeo »> : e aíli acabarom feu jamtar com mujta 
follgamça. O comer acabado, folgarom alli huum pouco, des i 
partiromfe com outros cavalleiros pêra homde elReí eltava , 
e o meeftre ficou em fua tcmda. ElRei quamdo os vio , re- 
çebeos muj bem , e apartaromíTe com el , pedimdolhe por mer- 
çce que aíKjnaííe os trautos , e elRei dilTe que lhe prazia ; e 
fez chamar o feu fcripvam da poridade, e mandoulhe que os 
icefe : e quamdo chegou aaquel iogar omde era comtheu- 
do , que el emtregaíFe todallas gallees com fuás efquipaçoões , 
diíTe que tal coufa nom outorgara , nem o faria por coufa 
que foffe ; que bem lhe prazia dar ho almiramte com a gemte 
toda , de quaaes quer comdiçoões que foífem , mas que dar 
as gallees que o nom f^ria per nenhuuma guifa. O comde e 
Gomçallo Vaafquez quamdo iíro ouvirom , ficarom èfpamtadcs, 
e diíFerom : » Quamto nos, fenhor , fomos mujto maravilha- 
?> dos de tal coufa : mamdardes vos apregoar as pazes , fe 
» vos em voomtade nom tinhees de allijnar os trautos , fe- 

Mmm ii >9 gum- 



4^2 Chronica 

ji gumdo per vos foi outorgado ?> : e eIRei diíTc que Icef- 
fe mais adeamte , e fobre todo o que duviJaíFc queria avcr 
íeu comíTelho. O efcripvam tornou a ieer , e quamdo che- 
gou aaquel capitólio , hu fazia meemçom que elRei ò^Ke: de 
fua frota tamta , em que os Imgrefes foíTcm , e iílo fem fre- 
te nenhuum , diíTe que eílo nom faria por coufa que foíFe no 
mumdo ; ca nom era razom de el dar fuás naaos em poder 
de íeus immijgos , pêra fazerem delias o que quifeficm , c pof- 
to que feguras foíTcm , hirem fem frete nenhuum. Quando if- 
to ouvirom os embaxadores , emtom forom mujio mais ma- 
ravilhados , e diíTcrom que lhe pediam por merçee , que qui- 
{qíÍ^q outorgar eftas couías fegumdo per elle fora acordado , 
fe nom que a paz que apregoada era , que todo fe tornaria 
em nenhuuma coufa : e elRei diífe , que amte queria aver guer- 
ra como quer que foíle , que aver doutorgar taaes coufas. Ou- 
vjmdo Gomçallo Vaafquez , que elRei per nenhuuma guifa 
nom queria aílíjnar os trautos , por quantas boas razoóes lhe 
dizer podiam ; emtom diíTe ao comde , que lhe pedia por mer- 
çee , que difeíTe a elRei de Caílella o que lhe feu fcnhor em* 
viava dizer ; e o comde refpomdeo que lhe dava logar que 
o diíTeíTe, e que o efcufaíle por emtom daquel trabalho. E 
efto dezia o comde porque nom tijnha a voz bem clara , por 
aazo de huum cerco em que comera ratos í'', e outras taaes cou- 
fas. » Pois mo vos mamdaaes , diífe Gomçailo Vaafquez, eu o 
?> direi da guifa que o elRei meu íenhor diíTe j>, Emtom diíTe 
a elRei em efta guifa : n Senhor , pois voíL merçee he de cf- 
55 tas coufas nom querer outorgar , fegumdo bem fabecs que 
3» foi devifado ; elRei meu fenhor vos mamda dizer, que vos 
55 aílijnees huum logar, qual vos mais prouguer , homde vos 
55 ei venha poer a praça; e que aaquel dia que per vos for 
55 devifado , el he muj ledo de vijnr pelleiar comvofco 55. 55 Af- 
5» íi diíTe clRei em rijndo , e fooes pêra tamto 55 ? »j Certamen- 
55 te, diíTe Gomçallo Vaafquez , eu nom digo elRei meu fe- 
>» nhor , que he aíTaz de poderofo Rei pêra iíto fazer , mas 

5» o 

(i) guatos T. 






d'e L R E I D. Fernando. 4<Í3 

55 o comde de Cambrig foo com as gemtes que comílgo 
>5 traz , he abaftamre pêra volía poer ?5. Eitamdo elRei cm 
eílas pallavras , chegou o meeítrc de Samtiago Doai Feraam- 
iioforez, e quamdo os vio em eile desvairo, difle comtra el- 
Rei pregumtamdo : ?> Qiie he eito , Senhor , em que eftaaes jj ? 
>i Em que eílamos , diífe Gomçallo Vaafquez , eílamos na 
55 mais vergonhofa couía , que numca eu vj acomteçer am- 
35 ire dous Reis tam nobres como eítes : feerem ja as pazes 
>5 apregoadas , como ouviftes , e hora elRei nom quer áííij- 
3> nar os trautos da guifa que em elles he comtheudo ; por 
>5 a qual razom he per força que a paz fe desfaça , e iílo 
35 fique em memoria vergonhofa pêra os que depois vehe- 
?> rem í>. >5 Samta Maria vai , dilfe o meefcre , em que os 
yy dovida elRei dafijnar35? E foi lhe refpomdido quaaes eram , 
e el fezeos leer outra vez ; e quamdo vio que elRei dovida- 
va naquellas coufas , e nom em outras , diíTe comtra elRci : 
35 E como 5 fenhor , por vijmte e duas fuftas podres que nom 
3> vallem nada , e por empreitar quatro ou cimquo naaos fem 
35 dinheiro , dovidaaes vos daílíjnar os trautos? Certamen- 
35 te tal coufa como efta nom he pêra vijnr a praça ; e fe 
35 o avees por cufta e defpeza , eu quero que a cafa de Sam- 
3í tiago pague efto , e toda a defpefa que fe em ello fezer >5, 
Emtom rijmdo filhou a maão a elRei come per força, e dif* 
fe : 55 Hora fenhor , eu quero todavia , que vos que os aííij* 
3> nees, e tal mimgua como efta nom paíTe per vos 55. Em- 
tom elRei iífo meefmo rijmdo , tomou a pena e aílíjnouhos: 
forom eftomçe todos muj ledos , e tornaromíFe ho comde , e 
Gomçallo Vaafquez pêra a villa Dellvas , homde elRei Dom 
Fernamdo eftava. 



CA- 









464 Chronica 

CAPITULO CLVI. 

Como os Im gr efes fouherom que as pazes eram trauta- 

das 5 e que as arrejeens jorom pojias dbuuma 

farte aa outra. 

CHcgarom a Ellvas o comde eGomçalIo Vaafqucz , e com- 
tarom a elRei todo o que lhes avehera com elRei de 
Caítella: e elRei rijmdo , diíTe que emtcmdia que todo aquello 
fora fimgido, por moftrar que outorgava taaes coufas com- 
tra fua voomtade , por quamro nom eram (') mujto fua honr- 
ra : e logo em eíTe dia mamdou apregoar as pazes. Os Im- 
grefes quamdo as ouvirom apregoar , ouverom tam gram me- 
nemcoria , que mayor nom podia feer , e deitavom os baçi- 
netes em terra , e davomlhe com as fachas , dizemdo que el- 
Rei os traera e emganara , fazemdoos vijnr de fua terra pêra 
pelleiar com feus immijgos , e agora fazia paz com eiles com- 
rra fua voomtade : e dezia o comde de Cambrig fauhuda^ 
iiiente 5 quamdo as vio apregoar, que fe elRei trautara paz 
com. os Caftellaãos , que elle nom a fezera ; e que fe elle 
tevera jumtas fuás gemtes , como as tijnha quando chegara a 
Lixboa , que nom embargamdo o apregoar das pazes que el- 
Rei mandava fazer , que el pofera a batalha a eiRei de Cas- 
telia. Sobrefto recreçcrom tamtas razooes , que alguuns fe 
foltarom em defmcluradas pallavras comtra eIRei , a que Pê- 
ro Louremço de Távora reípomdeo como compria. ElRci dif- 
fe que nom curaíie de fuás razoóes , nem ouveiTem arroido , 
dizemdo comtra elles , que elle os comtemtaria , e os mam- 
daria pcra fua terra homrradamente , como veherom : e aíli o 
fez depois y mas nom a todos ; ca rauj gram parte delles fi- 
carom mortos em efte reino. Em tom hordenarom emtregar 
as arrefeens dhuuma parte aa outra , fegurado era devi fido 

nos 
-(i) nam era T. 



d' EL Rei d. Fernando. 4^5* 

nos trautos : e forom emtregjes a GaReili da paite de Por- 
tugal feis('), huuma filha do coindc de Birçellos ; e huuirja 
filha do comde Dom Gomçallo , que depois chamarom Dona 
Enes 5 que (^^ foi cafada com Joham Fcrnamdez Pacheco ; e ou- 
tra filha do comde Dom Hamrrique , que havia nome Dona 
Bramca, que depois foi cafada com Rui Vaafquez Coutinho , 
filho de Beatriz Gomçallvez de Moura e de Vaafco Fernamdcz 
Coutinho ; e Martinho , filho de Gomçallo Vaafquez Dazevc- 
do; e Vaafco, fiiho de Joham Gomçallves Teixeira ; e huum 
filho Dalvoro Gomçallvcz de Moura , que chamavom Lopo. 
E da parte de Caftella forom emtregues a Portugal quatro^ 
afaber, huum filho de Pêro Fcrnandez deVallafco, que cha- 
mavom Diego P^urtado de Memdomça , que depois foi almi- 
ramte de Caftella ; e outro de Pêro Rodriguez Sarmento ; c 
outro de Pêro Gomçallvez de Memdomça ; e huum filho do 
meeftre de Samtiago Dom Fernam Oforez , que chamarom 
Diego Fernamdez Daguillar. Forom aallem defto feitos prei- 
tos e menageens , per alguuns corades e cavalleiros e fidail- 
gos de Portugal ede Caftella, por certas villas ecaftellos, por 
guarda e firmeza daqueftas pazes. Efto acabado , tornoufl"e qI- 
Rei Dom Fernamdo pêra demtro do reino , e mamdou as gem- 
tes cada huuns pêra feus logares , e trouve a eftrada de Rio 
mayor , pêra vijnr aSamtarem: e no caminho fe espedio dcl 
o comde de Cambrig , e chegou a Almadaa com fua molher 
e filho e gemtes , primeiro dia de fetembro , pêra embarcar 
nos navios de Caftella. Aos Caftellaãos pefou mujto defto , 
por receber os Imgrefes em fuás naaos , que eram feus em- 
J^Ugos, porem foilhe forçado comprir mamdado de fcu Rei ; 
e ouverom boom tempo , e partirom logo : e das outras naaos , 
que per bem de paz amte a cidade feguras ficarom , del- 
ias tomarom carrega , e outras nom , e foromfie cada huu- 
mas pêra hu lhes prougue. Em efto veoíTe elRei a Rio 
niayor, e eftamdo alli per fpaço de dias , chegou a el o car- 
deal Dom Pedro de Luna , da parte daquel que.fe chamiv 

, va 

(i) féis, a faber-, T. (2) tjue chamaram Dona Inês, ^ue tlepois T. 






4^6 C H R o N I C A 

va Clemente , a pedir (') que Ihedefíe a obedicmçia , c teveíTe 
por fua parte, aíli como amre que vchcíTem os Imgreíes. El- 
Rei mamdou chamar a Lixboa alguucs leterados , aíli como o 
Doutor Gil DoíTem , e Rui Lourenço dayam de Coimbra , e 
outros, e o Doutor Joham das Regras com elies, que pouco 
avia que vehera do eíludo de Bojlonha : e depois dalguuns 
ciias que elRei teve feu comíTelho , tornou a obedicmçia 
aaquel Papa Clemente , com que amte tevera ; niujto porem 
comtra voomtade dalguuns , e efpcçiallmente do Doutor Jo- 
ham das Regras , o qual dezia a elRei , que mottraria per 
dereito que nom era verdadeiro Papa : e emtom fe partio 
Dom Pedro de Luna pêra Avinhom , e mamdou elRei Jo- 
ham Gomçallvez feu privado, e o bifpo de Lixboa Dom Mar- 
tinho em duas galiees , dar a obedicmçia aaquei Papa Cle- 
mente. Em eíle comeos , avia elRei mamdado a Sevilha por 
fuás gallees e gemtes , que forom tomadas na pelíeia de Sal- 
tes , íegundo nas pazes era outorgado ; e fora alia Miçe 
Lamçarote , com tamtos que as podeífem trager ; as quaaes 
emtregues , e as gemtes todas , que jouverom prefas dez e oi- 
to mezes , veo o comde Dom Joham AíFoníTo Tello , que cm 
ellas fora tomado , himdo eitomçe por almiramte: e quamdo 
a Lixboa chegou , foube que a nom boa fama que a Rainha 
fua irmaá avija com o comde Joham Fernamdez , era cada vez 
mujto peor , c de maa guifa pobricada a todos ; em tamto 
que pos em fua voomtade de o matar , fegunido acerca ve~ 
rees adeamte , homde fallarmos da morte do comde. 



CA- 

(i) a pedirlhe T. 



d'£lRei d. Fernando. 4^)7 

CAPITULO CLVII. 

Como morreo a Rainha de Cajlella , e foi cometido a 
elRei que cafajfe com a Iffamte de PortugaL 

DEpois das pazes feitas , como ouviiles ^ partio elRci de 
Gaítella de Badalhouçe , e foiíTe pêra terra de Toiiedo , 
homde adoeçeo alguuns dias, cjouve em Madride ; e eílamdo 
alli , chegarem novas como a Rainha Dona Lionor fua mo- 
jher , que eftava na villa de Qualhar , depois do parto de 
huuma filha , que logo a poucos dias morreo , fe finou de tris* 
te morte , e gramde doo que todos delia ouverom , por mor- 
rer de tal cajom ; e eIRei ouve muj gram nojo por ella, aífi 
por feer nobre fenhora e bem acoftumada , como por teer ja 
delia dous filhos , a faber , ho IflFamte Dom Hemrrique , e 
Dom Fernamdo : e mandou trager o feu corpo aa cidade de 
Tolledo , homde emterrada com gramde homrra , foi pofta 
na egreia de Samta Maria , na capella que elRei Dom Hemr- 
rique fezera. ElRei Dom Fernamdo , como ouvio dizer que 
efta Rainha era finada , e elRéi de Caftella viuvo , determi- 
nou em feu comlTelho de desfazer o cafamento da Iffamte 
Dona Beatriz fua filha , que avija de feer molher do Iffamte 
Dom Fernamdo , fegumdo fora poílo nas aveemças dos trau- 
tos Delivas , e cafalla com elRei Dom Joham , prazemdo a 
el de tal cafamento. E hordenou logo de emviar a el por em- 
baxador ho comde Dourem Dom Joham Fernamdez , o qual foi 
muj to bem corregido , e acompanhado de muj tos fidallgos , aífi 
cavalleiros como escudeiros , em guifa que eram com elle 
bem çemto de mullas ; dos quaaes era huum Martim Gom- 
fallves Dataide , e Gomçallo Rodriguez de Soufa , e Pêro 
.odriguez Daffomffeca , e Alvoro Gonçallvez Dazevcdo , e 
'aafco Perez de Caamoôes , e outros ; e deites os mais homr- 
rados ferviam amte elle de copa , e de toalha , e de ta- 
Tom, IF* Nnn lho : 



408 Chronica 

lho ('': e deziam os Caílellaaos que tal cufta , qual elle trazia, que 
sceria mujto pêra a íoportar elRei de Caítella , moormcnte 
elRei de Portugal. E chegou o comde a Caílella , a liuum lo- 
gar que dizem Pimto , acerca da comarca de Tolíedo , hoinde 
elRei eílomçe eílava ; e bem recebido delle , propôs fua em- 
baxada , notcficamdolhe quamto a elRei Dom Fernamdo praze- 
ria de el cafar com fua filha, por aver antrelles moor amorio 
e paz e aíTcíTego ; aallem defto , avemdoa por molher , feemdo 
herdeira depois de feu padre , que tal calamemto lhe era aazo 
muj gramde pêra cobrar o Reino , e feer Rei delle ^^K ElRei 
folgou mujto com efte recado , e diíTe que averia seu comf- 
felho , e lhe daria a repofta: a qual foi, que lhe prazia dei- 
lo , nom embargamdo que foíTe efpofada com feu filho , creem- 
do per tal jumtamento aver ho regno de Portugal por feu. 
E filiadas todallas coufas per meudo , que a feito deite ca- 
famento perteem.çiam , partiuíFe o conde Dourem pêra Por- 
tugal , ficamdo elRei em Outer de filhas ; e alli hordenou de 
cmviar por feu embaxador fobreílo , Dom Joham arçebifpo 
de Samtiago , feu chamçcller moor : e por que aquel cafamento 
que amte era acertado, do lôamteDom Fernamdo feu filho, 
com eíla líFamte Dona Beatriz , foflTe defatado de todo , fe* 
zeo actor ('^e curador defle líFamte , pêra quitar quaaes quer 
preitos e menageens , a que elRei e a Pvainha e outros fidall- 
gos eram tcudo^ , per razom de taaes efpofoiros , e coufas a 
elles perteemçemtes. 



CA- 



(0 taalha T. (2) delle , e fenhor T. C^) autor T. 



ífia^i 07 



i?'elRei d, Fernando. 465^ 

CAPITULO CLVIII. 

Como foi trautaào cafamento amtre elRei ãe Cajlella e 
a Iffamte'''^ de Portugal^ e com que condi çoões, 

ELReiDomFernamdo ellando em Salvaterra , huum feulo- 
gar acerca do Tejo , começou de fe femtir mal , e nom 
era bem saão ; e ouvimdo novas como ho arçebiípo de Sam- 
tiago vijnha a el por embaxador da parte cielRei de Caf- 
tclía , fobre o cafamento de fua filha com elle , mamdouho re- 
ceber ao eítremo per Dom Martinho , bifpo de Lixboa ; e 
chegarom ambos aaquel logar no mes de março , amdamdo 
ja a era em quatroçemtos e vijmte e huum ^^K E depois do 
boom recebimento que lhe elRei fez , falladas per dias to- 
dallas coufas que perteemçiam a eito , aífi em razom do ca- 
famento , come da fuceífom do Reino , morremdo elRei Dom 
Fernamdo fem filho ; foi noteficado huum dia a todos , pre- 
femte elRei , que as comdiçoões do cafamento eram per ef- 
ta maneira , a faber : Qiie o arçebifpo reçebeíTe a dita Iffliin- 
te em nome delRei feu fenhor , quamdo ouvcífe de partir pê- 
ra a levarem a feu marido, e que clRei de Caftella chegaf- 
fe amtre EUvas e Badalhouçe pêra a receber pormolher, am- 
te que lhe foíTe emtregue , moilramdo defpemllaçom que*qui- 
taíTe o embargo do devido, que amtre elles avia : e pofto que 
ella foíFe de hidade meor de doze anos compridos , que fof- 
íe pronumçiado per quem houvelTe poder , que ella era per- 
teecemte pêra acabamento de matrimonio : e que dalíi a le- 
vaíFe elRei de Caftella pêra Badalhouçe , homde fezeíTe íuas 
vodas e fefta homrradamente , reçebemdoa outra vez per pal- 
Livras de prefemte. E que elRei Dom Fernamdo deite a el- 
Rei de Caftella em dinheiros outro tamto , quamto fora dado 
cm dote a elRei Dom AíFoníFo, avoo deíTe Rei Dom Joham , 

Nnn ii com 

(1) a Iffamre Dona Breatiz T, (2) quatrocentos e vijnte^. 



470 Chronica 

com a Rainha Dona Maria , tia delllei Dom Fernamdo , pa- 
gado todo em três anos : e que elRei de Cailclla deíTe a el- 
la todallas villas e logares , que a Rainha Dona Joana lua ma- 
dre avia ao tempo de feu paíTamento , declaramdo logo cer- 
tas comdiçoões qucimdo huum delles morreíTe primeiro com 
claufullas , que por abreviamento dizer nom curamos. A fuçef- 
fom do Reino , em que pèmdem as Leis e os Prophetas , lei- 
xadas todallas openioões e ditos deftorjadorcs , que a eílo 
comtradizem , efta foo tirada dautemtica fcriptura , creede 
fem mais duvidar : primeiramente foi pofto , que falleçemdo 
clRei Dom Fernamdo , e avemdo filho barom , nado ou por 
naçer , da Rainha Dona Lionor , ou doutra qualquer molher 
lidema , que a eramça de Portugal foíTe de tal filho livre e 
defembargadamente. E morremdo elRei Dom Fernamdo fem 
leixamdo filho em eíta maneira , ou fe o leixaífe , falleçeíTe 
fem lidemos filhos ou netos defcendemtes , aííí que a derei- 
ta linha da eramça fofle de todo deílimta ; que eftomçe o 
Regno ficalTe defembargado aa líFamte Dona Beatriz , e que 
os naturaaes do Regno fezeífem todos menagem , que em 
tal cafo ouveíTem ella por fua Rainha e fenhora. E morren- 
do ella primeiro que feu marido , nom ficando em Portugal 
.filho ou neto delRei Dom Fernamdo , níli que a eramça fof- 
fe deílimta fem. herdeiro dei oudcfta líFamtc , que eftomçe os 
poboos do Regno rcçcbeífem elRei de CaftclJa por feu Rei 
e fenhor , e que cl Ic podeíFe chamar Rei de Portugal , de- 
pois da morte delRci Dom Fernamdo, f.Ucçemdo fem ne- 
nhuum herdeiro. E acomteçemdo que a ííFamte Dona Bea- 
triz morreíTe fem filho ou filha que dei Rei ouveíTe , ou ou- 
tros ligitimos deçemtcs í') de linha dereita , que os Regnos de 
Portugal fe tornraTem. a alguuma outra filha , fe aelRei Dom 
Fernamdo ouveíTc, da Rainha Dona Lionor , ou doutra fua li- 
dema molher, E nom avemdo hi tal filha , nem outro herdeiro 
nenhuum dos que ditos fom , que eílomçe morto elRei Dom 
Fernamdo e a IflFamte Dona Beatriz fem taaes herdeiros , que 

os 

(i) desçemdentes T. 






d' E L R E I D. F £ R N A N D o. 47 I 

OS Regnos de Portugal ficaíTca-i a elRei Dam. Joham íeu ala- 
rido ; e per efta guifa herdaíTe elRci Dom Fernamdo nos 
Regnos de Cafteila , morrcmdo elRei Dom Joham e a ííFam- 
te faa irmaá fcm lidemos herdeiros de linha dercita. P^ fe 
elRei Dom Fernamdo ouvejffe outra filha , e a liFamte Dona 
Beatriz regnaíTe em Portugal , ou filho ou filha íeu e de feu 
marido , que em tal caio eiRei daCãfbclIa foíTe theudo tor- 
nar todo o preço que ouveíTe com fua molher, a efta fegum- 
da fiiha p"era íeu cafamento. Outro fi por que voomtade dei- 
Rei Dom Fernamdo era que os Regnos de Portugal , em 
quamto feer podeíTe , numca foíTem j um tos aos Pvegnos de 
Caíl:ella , mas fempre regnos per íi , como os poíToirom feus 
amtijgos avoos , o que era gram duvjda , fe elRei Dora Jo- 
ham e a líílimte Dona Beatriz ouveíTem o Regimento del- 
les, moormente que pêra ral governamça compria daver pef- 
foas que foubeíTem as comdiçooes dos poboos ; porem foi ou- 
torgado 5 que em quamto elRei de Caítella vivelTe , ataa que 
a Iffamte ouveíTe filho , e foíTe de hidade paíTados de quator- 
'ze anos, que o Regimento dos ditos Regnos aífi na juftiça, 
come em todallas outras coufas da mayor ataa mais peque- 
na , que a Regimento dhuum Regno perteemçe , todo foíTe 
feito pella Rainha DonaLionor madre da dita líFamte , e per 
aquelles que ella hordenaíTe pêra feu comíTelho , aífi corno 
Governador dos ditos Regnos. E falleçemdo em tamto a Rai- 
nha , que eílomçe a governamça ficaíTe todo aaquel tempo 
aaquelles , que elRei D. Fernamdo ou a Rainha Dona Lionor 
hordenaíTem em feus teítamentos: e que aditalífamte íecin^ 
do Rainha de Caítella , duramdo o matrimonio com o dito 
feu marido , ouvefi^em todallas remdas e frui tos dos ditos 
Regnos 5 pagadas primeiro as temças dos caílellos , e com- 
thias dos JÈdallgos , e todallas outras coufas,' que fe acoftu- 
inavom de pagar em tempo delRei Dom Fernamdo. Foi 
mais poílo , que em cafo que a dita líFamte ouveíTe derdar 
os ditos Regnos , que quamtos filhos pariíie de feu marido , 
do dia que naçeífem ataa três mefes , que todos foíTcra tra- 






47 i Chronica^ 

gidos aos Regnos de Portugal , pêra fe criarem fob poderio 
deiRei feu avoo , e da Rainha Dona Lionor fua avoo , ou 
daquelles que leixalTem hordenados em feus teftamentos. Ou- 
tro íi que o primogénito barom ou fêmea, que delRei Dom 
Joham e da dita Iffamte naçeíTem , ou qual quer outro lide- 
mo herdeiro , que tamto que a dita ÍjEimte , eílomçe Rai- 
nha , morreíTe , pofto que elRei de Caftella ficaíTe vivo , 
que logo fe chamaíTe Rei ou Rainha de Portugal , e que el- 
Rei de Caftella daili em deamte nom fe chamaíTe mais Rei 
de Portugal , e fazemdoo , que perdeíTe o dereito que avia 
em eíTes Regnos per qual quer guifa que foíTe : e deziam al- 
guuns fidallgos de G.iílella jpguetamdo , que amte faberiara 
capar elRei feu fenhor , por numca a ver filho nem filha , e 
jumtar o Regno de Portugal ao de Caftella , e fee^ Rei del- 
]e , que aver filho ou filha que delle foíTe fenhor , e ficar 
Regno fobreífi. Avia mais de feer defembargado em eíle Re- 
gno, poíto que ja a Iffante Dona Beatriz regnaíTe , toda a jus- 
tiça çivel e crime , alçadas , e apellaçoões , ataa o poftumeiro 
defembargo , e eílo per ofíiçiaaes Portugueefes , poftos per 
a Rainha Dona Lionor , e nom daquelles que forom comtra 
o Regno no tempo da guerra ; os quaaes nom aviam demtrar 
em Portugal , nem aver em elle homrra , nem offiçio , nem 
herdade. Os retos iíTo meefmo amtre quaaes ^'^ peíToas , aviam 
de feer livres , peramte a Rainha Dona Lionor e fua corte : e 
que elRei de Caíteiia nom podeíTe fazer moeda em Portugal , 
falvo quamdo ella hordiíiiaíTem í^^ com feu còmíFelho , pocmdo 
em ella os d:reitos fignaaes de Portugal e nom outros. Ne- 
nhuuns Portugueefes nom aviam de feer chamados por eíRei 
de Caítella a fuás Corres ; e fe foíTe neçeíTario de as fazer , 
que fe (?) fezeíTem em Portugal fob governamça da Rainha Do- 
na Lionor e de feu comlTelho. Eftes e outros capitólios que 
dizer nom curamos, forom firmados neefte cafamcnto , quam- 
do fe trautou amtre elRei de Caftella , e a ííFamte Dona 
Beatriz , fegumdo emiom largamente forom pubricados. 

:-a ;^;... ÇA^ 

(i) quaees ^uer X. (2) hordenaíTe T. B, (?) H"® *^ •^* 



D* EL R El D. Fe R N A N D o. 47 3 

CAPITULO CLIX. 

Dos juranmitos que forom feitor amtre os Reis ^ por 
guarda das coufas comtbeudas nas aveemças, 

POis teemdes ouvjdo alguiimas comdiçooes , que forom pof- 
tas neeíle cafarr.ento , bem he que ouçaaes parte da fe- 
guramça , que por guarda delias foi outorgada amtre os Reis. 
Omde labee , que quamdo eílas coufas forom pubricadas na 
camará delRei demtro em íeus paaços , eram preíemtes Dcm 
Martinho bifpo de Lixboa , e Dom Joham biípo de Coim- 
bra , e Dom Affonfo biípo da Guarda , e Fcrnam Perez Cal- 
vilho dayam de Tarçona í^^, e Gomçallo Rodriguez arçcdiaago 
de Touro , e Dom Joham Fernamdez comde Dourem , e Gom- 
çallo Vaafquez Dazevedo , e outros fidallgos eefcudeiros, aíS 
Portugueefes come Caftellaaos : e noteficado pcramte todos eí« 
tcs capitólios , e outros que aqui nom fom poftos , diíFe aquel 
arçebifpo meíTegeiro delRei de Caftella , que el come ftu 
embaxador , per poder de huuma procuraçom pêra ifto mujto 
abaílamte , prometia , como logo prometeo , na fee Real do 
dito fenhor Rei , juramdo em fua alma dellc aos evamge- 
Kios corporallmente tamgidos , que elle guardaíTe e compní- 
fe todas eftas coufas , e cada huuma delias ; e que numca ve- 
licíTe comtra ellas , em parte nem em todo, per íi nem per ou- 
trem , em pubrico nem em afcomdido , nem per feito , nem 
per dito , nem per outra nenhuuma maneira. E vijmdo comtra 
todas ou cada huuma delias , razoamdo ou fallamdo em parte , 
ou em todo , dcreitamente ou nora dereitamcnte , em pubri- 
co ou adepartc , pojfto que o leixaíTe em feu teUamciuo e 
poílumeira voomtade , que nom valleíTe nemhuuma coufa , e 
que ficaíFe logo fe perjuro , e mais que pvaguaíTe por pena 
çem mil marcos douro. E cahimdo elRei feu fenhor em tal 

pc- 

(i) Taraçona T. 




474 C H R o N I C A 

pena , que el em feu nome dava poder a clRei Dom Fer- 
namdo e aa Rainha Dona Lionor , e aaquelJes que foíTcm 
hordenados em feus teílamentos que regeíTem o regno , e a 
todollos de feu fenhorio , que per fua autoridade fc emtre- 
gaílem nas villas ç cidades, e beens de feus Regnos, fazem* 
do por efto guerra a el e a todos feus naturaacs , ataa que 
foíTe emtregue dos ditos çem mil marcos douro ; por a qual 
guerra eIRei nom podeífe fazer premda nas rcrjas e beens 
dos Portugueefes. Mas que quamtas vezes veheíTe comtra os 
ditos trautos , em parte ou em todo , que tamtas vezes pagaf- 
fe a dita pena ; prometemdo de numca allegar nemhuuma ex- 
çepçom per íi nem per outrem , nem outra legitima razom , 
nem foro , nem degratal , nem lei , nem coftume , nem faça- 
nha , nem outro nemhuum dereito , fometemdoiTe a pena de 
efcomunhom e dimterdito , pofta fobrelle e em feus Regnos , 
vijmdo comtra os ditos capitólios ou cada huum delles, Qui- 
tamdo mais a elRei Dom Fernamdo e aa Rainha Dona Lio- 
nor , e a quaaes quer de feus Regnos , todallas juras e pro- 
meífas e penas e menageens , que feitas aviam a elRei de 
Caftella , e ao líFante Dom Fernamdo feu filho , fegumdo era 
contheudo nos trautos das pazes feitos amtre Ellvas e Bada- 
Ihouçe, E feitos eftes e outros juramentos mujto mais com- 
pridamente pello dito arÇebifpo , logo elRei Dom Fernam- 
do , e a Rainha Dona Lionor fezerom outros taaes , per eíTa 
meefma forma e comdiçoões j e nom fe fez mais por aquel 
dia. 



CA- 



d'elRei D. Fernando. 475' 

CAPITULO CLX. 

Como a Iffamte de Portugal ^'^ desdijje os cfpof oiros que 
feitos avia ^^\ e reçebeo elRei ^^^ de Cajiella por ma- 
rido y em pejjba de feu procurador» 

NO dia feguimte que eram três dabril , huuma fefta feira ^ 
feemdo elRei em fua camará depois que ouvio miíTa , 
eftamdo Dom AíFomlTo bifpo da Guarda reveftido em pomte- 
ficai , tecmdo o corpo de Deos fagrado cm huuma patena 
que nas maãos tijnha; adita Iffamte Dona Beatriz , que pre^ 
femte eftava , pedio leçemça a elRei e aa Rainha pêra fe par- 
tir , e defdizer todollos efpofoiros e cafamentos , que forom 
quatro , como ouviftes , pofto que de dereito nemhuuma cou- 
fa valieffem , em que ataa quel tempo ella foffe obrigada : e 
feemdolhe pêra ello dada , diffe que os avia todos por nem 
huuns , ajmda que foíTem feitos per ella ,ou per outrem em feu 
nome , renumçiamdo quaaesquer juramentos e obrigaçoôes , 
que feitos avia a alguumas peíroas , ou outrem a ella , por ra- 
zom de taaes efpofoiros. E eftomçe diíFe outra vez aos ditos 
fenhores padre e madre feus delia , que por quamto fua voom- 
tade era de cafar com elRei Dom Joham de Caítella , que lhe 
pedia por merçee, que lhe deffem leçemça e autoridade que 
podeffe fazer juramento, e prometer defpoíar e cafar com el- 
le ; e elles differom que lhe prazia , e foilhe outorgada pê- 
ra ello leçemça: e logo a Iffan te Dona Beatriz jurou no cor* 
po de Deos comfagrado , tamgido per ella , que eftava nas 
maaos daquel bifpo da Guarda , que ella cafaíTe com o dito 
Rei de Gaftella , e ho ouvcíTe por efpofo e marido , e aíll 
ho jurarom aaquella hora elRei e a Rainha , c todollos fenho- 
res e fidallgos que eram prefemtes ; e iffo meefmo ho arce- 
Tom. IV. Ooo bif- 

(i) de Portug<iI DonaBreaciz T. (2) avya com o Ifamte Dom Fernando 
de Caftella T. (5) elRei Dom Joham T. 



47^ Chronica 

bifpo de Santiago por parte delRei feu fenhor. Qiiamdo 
veo aa quimta feira na feita da aíTumpçom do Senhor, que 
eram trimta dias deíTe mes , feemdo prefemtes na camará df^l- 
Rei os fenhores e fidallgos em cima nomeados , e mais Dom 
Pedro cardeal Daragom , e Dom frei AíFomíTo bifpo de Coy- 
ra, e Dom Joham AffoníTo Tello comde de Barçellos , e o 
comde DomGomçallo, e Dom Hamrrique Manuel de Vilhe- 
na comde de Sea , e Joham AlfoníTo Pimentel, e Joham Ro- 
drigues Porto carreiro, e Gomçallo Gomez da Sillva , eLou- 
remçe Anes Fogaça , e Airas Gomçallvez de Figueiredo , e Al- 
voro Gomçallvez veedor da Fazemda delRei , e mujtos ou- 
tros, que dizer nom curamos; o dito arçebifpo de Samtia- 
ago em nome delRei feu fenhor, por confirmaçom do jura- 
mento que fezera pêra fe acabar efte cafamento , diíFe aa If- 
famte que prefemte eftava , eftas feguimtes razoÓes : ?> Eu 
» Dom Joham arçebifpo de Samtiago , procurador que fom do 
>j muj alto primcipe Dom Joham, Rei deCaftella e de Leom , 
>y em feu nome , e per poder efpiçial que delle pêra ifto ei , 
í? recebo por efpofa e por molher lidema do dito Dom Jo- 
3> ham Rei de Caftella a vos fenhora líFamte Dona Beatriz 
í> de Portugal , filha lidema e herdeira do muj alto primçi- 
í> pe Dom Fernamdo , Rei de Portugal e do Algarve , e da 
» muj nobre fenhora Dona Lionor , Rainha dos ditos Re- 
5> gnos , fegumdo manda a famra Egreia de Roma ". Efton- 
çe a fenhora Iffarate de leçemça delRei feu padre e madre , 
diíTe eílas pallavras : » E eu Dona Beatriz ííFante de Portu- 
5> gal , filha lidema herdeira do muj alto primcipe Dom Fer- 
>j namdo , Rei de Portugal e do Algarve , e da muj nobre fe- 
j> nhora Dona Lionor Rainha dos ditos regnos , de comf- 
>5 fentimento dos ditos Rei e Rainha , padre e madre meus , 
» que prefemtes eítam , recebo por efpofo e por marido 11- 
yy demo o dito Dom Joham Rei de Caftella, em peíToa de vos 
5? Dom Joham arçebifpo de Samtiago , fegumdo mamda a 
» famta Egreia de Roma jj. Efto aííi acabado , forom feitas 
efcripturas de todallas coufas que ouviíies , as mais firmes que 

f^ 




d'elRei d. Fernando. 477 

fe fazer poderom , e foi chamada a Iffamte Dona Beatriz des 
aquel dia em á^amte Rainha de Caftella. 

CAPITULO CLXL 

Como a Rainha partio com fua filha caminho Dellvas , e 
dalgmimas pejfoas que forom em fua companha» 

POr quamto nos trautos era comtheudo , que do dia defte 
recebimento a doze feguimtes do mes de mayo , a If- 
famte foíTe emtregue antre Ellvas e Badalhouçe a elRei feu 
marido 5 e elRei Dom Fernamdo por fraqueza de fua door nom 
podia alio ^'^ hir; forom jumtos pêra partir com a Rainha em 
companha da íífamte os mais dos fidallgos e prellados , que 
,;ivia em Portugal. E pregumtarom a elRei , quaaes era fua 
merçee de ficarem com elle , e el diíTe que nom queria ou- 
tro nenhuum falvo Louremçe Anes Fogaça , feu chamçcller 
moor, que tijnha a cruz de Sam Jorge fcripta no coraçom co- 
mo elle ; e efto dezia elRei , por que Lourençe Anes fora a Im- 
graterra em mcífagem , quamdo veherom os Imgrefes , como 
ouviftes. Emtom hordenou elRei offiçiaaes a fua filha , e deulhe 
por moordomo moor o comde Joham Fernamdez Damdeiro j 
e por copeiro moor Vaafco iVIartijnz de Melloo , e que fervif- 
fe de toalha Vaafco Marrijnz de Melloo o moço , e que cor-- 
taíFe amte ella Eítevam Leitom , e por efcripvam da porida- 
de Joham AífoníTo; e deulhe por aya VioUamte AíFonlTo , mo- 
Iher que foi de Diego Gomez Daavreu, e por fua camarei- 
ra moor Maria AíFoníFo , molher de Vaafco Martijnz de Mel- 
loo ; e por fua covilheira Eirea Gomçallvez , madre de Nuno 
Alvarez , e por domzellas as filhas do comde Dom Alvoro Pl- 
rez , a faber , Dona Ifabeí , e Dona Beatriz , c outras. Partio 
emtom daquel logar a Rainha com a íífamte huuma fegum- 
da feira , e hiam com ella gramdes prellados do Reino , e 

Ooo ii Dom 

(x) a ello B, 



4/3 C H R o N I C A 

Dom Joham meeftre Davis , irmaão delRei Dom Femamdo , 
e Dom Alvoro Perez de Caftro , e Dom Joham Fernamdez 
comde Dourem, e Dom Gomçallo comde deNeuva, e Dom 
Joham comde de Viana , e Dom frei Pedro Alvarez Pereira 
priol do efpital , e Dom Fernamdafonfo Dalboquerque meeftre 
de Samtiago , e Dom Lopo Diaz meeftre de Ghriftus , e Miçe 
Manuel ('^ almiramte , e Fernam Gomçallvez de Soufa , e Gom- 
çallo Vaafquez Dazevedo , e Gomçallo Meemdez , e Johane 
Meemdez de Vafcomçellos , e Alvoro Gomçallvez de Moura , 
e Alvoro Vaafquez de Gooes , e mujtos outros fidallgos, que 
íeeria lomguo defcrepver. E chegou ha Rainha com ha If- 
famte ha Eftremoz, e efteve hi alguuns dias. 

CAPITULO CLXII. 

Como fe elRei mamdou defcuUpar a elRei de Himgrater'^ 
ra 5 folio caf amento defua filha que avija feito. 

PArtida a Rainha per efta maneira, ouve elRei DomFer- 
namdo femtido do cafamento , que havia feito de fua fi- 
lha com Eduarte filho do comde de Gambrig , e que feemdo 
fabudo em Imgra terra como a el cafara com elRei de Caftel- 
la , que o averiam por efcarnho , e teeriam que lhe que- 
bram tara os trautos e amizades amtrelles firmadas ; e cuidou 
que era bem de fe emviar defculpar , amtc que fobrello lhe 
emviafle recado. E himdo a Rainha com fuás gemtes pouco 
mais dhuuma legoa , mamdou elRei chamar huum efcudeiro 
que havia nome Rui Gravo , que hia em companha da Rai- 
nha , que logo apreíTa fe tornalTe ; e el como chegou a elRei , 
chamouho adeparte, edifle(=-^: >? Greo que vos fabees bem, 
» parte per ouvida , como eu tenho meus trautos feitos com 
» os Imgrefes , e hora por efte cafamento de minha filha que 
» feito ei , nom queria que elRei de Imgraterra cuidaíTe 

» que 

(I) Manuel Peçanha T. (2) e diííelhe T, 



Sia\í OT 



d'elRei d, Fernando. 479 

» que êu lhe falleçj í'^, ou quero falleçer , no que amtre elle 
?> e mim he pofto. Porem fazecvos prefces pêra vos hir logo 
5> a Imgraterra , e dizce a meu primo elRei , e ao duque Dal- 
» lamcaftro , que lhe rogo todavia quamto poflb , que fe nom 
» anojem defta coufa que feita he ; ca eu efto que fige foi 
5> muito comtra minha voomtade , e por que nom puide mais 
99 fazer ; mas que os trautos e a amizade que eu com elles avia , 
99 que os ei por boons e firmes. E que nom embargamdo ef- 
99 to que a/n foi , que cada vez que elles quiferem vijnr a 
»> elle Reino , e fe preftar delle , que a mim praz de boa 
5í voomtade de fazer toda coufa que comprir por fuás homr- 
99 ras ; e que feiam bem certos , que aimda que eu foubeíTe 
5í que por efta razom a degoUariam peramte meus olhos , 
99 que eu nom faria dello mais comta , come fe numca foífe 
5> minha filha; nem lhes falleçerei per nenhuuma guifade cou- 
99 fa , que amtre mim e elles foíTe firmada ». Mamdoulhe 
<^' emtom fazer fuás cartas de creemça , e partiofe logo , e 
foiíTe emhuum navio, e chegou a Imgraterra , cachou elRei 
cm Lomdres , e deu as cartas que levava a el , e ao comde , e 
diíFelhe fua embaxada. ElRei quamdo ho ouvio , filhoufe de 
forrjjr em modo defcarnho , e nom refpomdeo nada ao que lhe 
diíFe ; mas mamdoulhe fazer fuás cartas de repofta , e emviouho. 
O comde ^5' difto gramde menemcoria ; e em quamto aquel ef- 
cudeiro alio eíleve , nom o queria o comde veer , nem lhe fal- 
lar , efpiçiallmente o feu filho que fora efpofado com a If- 
famte , quamdo o padre vehera a Portugal , pêro que nom era 
de hidade mais que ataa fete anos. E o eícudeiro partio , e 
chegou a Portugal , e comtou a elRei e aa Rainha todo o 
que lhe alio avehera. 



CA- 



CO fallcfia T, (2) Mamdoulhe elRei T, (5) Ho comde ouve 7". 



sian or 




480 Chronica 

CAPITULO CLXIII. 

Como elRei de CaJieUa partio de [eu Regno , efe veo fe- 
ra Badalhouçe. 

TRautado efte cafamento com as aveemças que avees ou- 
vidas , e recebida a Iffamte , como diífemos , pelio arçe- 
bifpo ; efcrepveo logo a elRei de Caftella como tijnha todo 
firmado , e o dia e o logar hu fe aviam de fazer as vodas , e 
que elRei Dom Fernamdo pQ|t fraqueza de fua door nom po- 
dia hir a ellas , mas que a Kamha fa madre , com todollos 
prellados e fidallgos do Reino , aviam de feer aquel dia com 
a Iffamte em Ellvas. A elRei prougue mujto delias novas, e 
mamdou fazer preftes todallas coufas que compriam pêra fuás 
vodas ; e fez chamar os prellados e fenhores , que aviam 
dhir com elle , e iíTo meefmo mujtas e nobres (') donas pê- 
ra acompanhar a Rainha Dona Beatriz , fua molher que ha- 
via de feer. E partio elRei pêra Badalhouçe , cidade de feu 
Regno açcrqua do eílremo , muj to acompanhado de prellados 
e fidallgos, e vijnha hi o Iffamte Dom Fernamdo feu filho, 
c Dom Karllos Iffamte de Navarra feu cunhado , e Dom Pe- 
dro arcebifpo de Sevilha , e Dom Diego bifpo Davilla , e 
Dom frei Affonffo bifpo de Coyra , e Dom Fernamdo bifpo 
de Badalhouçe , e Domjoham bifpo de Calbphorra , e Dom 
Pêro Fernamdez meellre de Samtiago , e Dom Diego Martijnz 
meeftre Dalcamtara , e Dom Pedro comde de Traftamara , 
e Dom Pêro Nunez comde de Mayorgas , eDom Joham Sam- 
chez Manuel comde de Carriom , e Dom Joham filho do com- 
de Dom Tello , e Dom Gomçallo Fernamdez fenhor Daguil- 
lar , e Dom Affonffo Fernamdez de Monte mayor , e Pêro 
Lopez Dayalla , c Diego Gomez Sarmento , e Affonffo Fer- 
namdez Porto carreiro , e Lopo Fernamdez de Padiiha , e ou- 
tros 

(i) e muy nobres J. 



D* IS L R E I D. F £ R N A N D Oé 48 I 

tros mujtos aíTaz de nobres homeens. A Rainha Donajoha- 
na madre delRei deCaftella , que hi vijnha , tragia comíigo 
fua filha Dona Lionor molher do liFamte de Navarra, e com- 
deíTas , e mujtas donas e domzellas : e como elRei com fuás 
companhas chegou a Badalhouçe , partio logo a Rainha muj- 
to acompanhada , e veoíTe a Eftremoz , homàe a Rainha Dona 
Lionor eítava com a líFamte ; e dalli partio em fua companha , 
e veheromíTe todos pcra a villa Dellvas , honde jaosfidallgos 
de Portugal tijnham hordenadas juítas , e alçado tavollado 
pêra bafordar , e fazer outros jogos pêra tal feíla perteeçem- 
tes. 

/ 

CAPITULO CLXIV. 

Como elRei de Caftella aprovou os tr autos , amte que re-^ 
çebeje ha Iffamte Jua molher. 

SEeemdo defta guifa elRei em Badalhouçe , e a Rainha Do- 
na Lionor em EUvas , comveo primeiro de feerem per el- 
le firmados os trautos , amte que reçebeíTe alíTamte por mo- 
lher ; e partfrom o meeílre de Samtiago , e alguuns fidallgos 
de Portugal pêra Badalhouçe , homde elRei eftava , pêra vee- 
rem a aprovaçam que fazia das coufas que forom hordena- 
das per feu procurador : e aa quarta feira treze dias de mayo , 
eftamdo elRei na egreia cathedral defía cidade, e mujtos fi- 
dallgos Caftellaãos e Portugueefes, prefemte Dom Fernamdo 
bifpo do dito logar , reveílido em pontefical , teemdo ho 
corpo de Deos comfagrado em huma patena que nas maaos 
íijnha , forom moftrados e leudos a elRei todollos capitól- 
ios de verbo a verbo , que o arçebifpo em feu nome com 
elRei Dom Fernamdo firmara , aíH em razom de feu cafamen- 
to , come das comdiçooes da eramça do Regno, E depois que 
acabarem todo de leer , refpomdeo elRei , e diífe que to- 
do aquello que o arçebifpo trautara , fora per feu dito e 

comf- 




482 Chronica 

comlTemtimento , e que primeiramente forom viílús e exami- 
nadas per el aquellas coufas , avemdo íbbre todas e cada huu- 
ma delias aíTaz de lomgo e maduro comíTeiho : emtom as 
aprovou comíTemtimdo cm todas , obrigamdoíTe cm fua pef- 
foa de as teer e guardar , e nom vijnr comtra ellas. E por 
moor firmeza e avomdamento , jurou ao corpo de Deos com- 
fagrado , por el corporallmente tamgido , que o bifpo tijnha 
em fas maaos , que el compriíTe todalías coufas per feu pro- 
curador trautadas , na forma e maneira que o forom , fem ne- 
nhuma arte nem emgano alguum ; e que nunca veheíTe com- 
tra ellas em parte nem em todo , per íi nem per outrem , 
em pobrico nem em efcomdido. E aíli jurarom aaquel corpo 
de Deos, tamgido per fuás maaos , mujtos dos fidalgos que 
hi eram, prometemdo que elRei feu fenhor guardaria bem e 
fielmente todalías coufas comtheudas nos trautos. E todos , 
de leçemça que lhe elRei feu fenhor pêra efto deu , fczerom 
logo preito e menagem nas maãos de Gomçallo Meemdez de 
Vafcomçellos , vaíTallo delRei de Portugal ; e jurarom aaquel 
corpo de Deos , que nom guardamdo elRei de Caftella os 
trautos na forma e maneira que amtre os Reis fora poílo , ou 
foíTe comtra alguuma coufa em elles comtheuda , que elles 
fe defnaturaíTem em tal cafo delle , e teveíTem com elRei de 
Portugal , e lhe fezeflem guerra ; e nom o fazemdo aífi , 
que cahiíFem naquel cafo , que caaem aquelles que rraaem caf- 
tello , ou matam fenhor. E per efta meefma guifa o jurarom, 
prefemte elRei , depois mujtos fidallgos de Portugal. E iflb 
meefmo jurou e prometeo de guardar os ditos trautos a Rai- 
nha Dona Beatriz , depois que foi em poder de feu marido , 
per fua leçemça e outorgameemto delle. 



CA- 



d'£lRei D. Fernando. 483 

CAPITULO CLXV. 

Como elRei de Cajiella partio pêra Ellvas , e como reçe- 
beo a 1 ff ante de Portugal por molber. 

Firmados os trautos em efta maneira , partio elRei de Caf- 
tella em outro dia , e veoíTe caminho Deilvas , homde tij - 
nha ja pofto huum gramde arreai de temdas, no valle das or- 
tas , que chamam a Ribeira de Chimches , mujto preto das 
temdas dos fenhores e fidallgos de Portugal. A Rainha pou- 
fava na viiía com a líFante ; e amte que partiíTe , pêra irazer 
fua filha a huuma gramde e muj frcmofa temda delRei Dom 
Fernamdo feu padre , foilhe primeiro emtregue o líFamte 
Dom Fernamdo , moço pequeno pouco mais de dous anos , pê- 
ra o teer em arrefeens : por que nos trautos era comtheudo , 
que elRei Dom Fernamdo o tevefle comfigo , ataa que a If- 
famte fa filha ouvefíc hidade domze anos compridos, e em- 
traíTe por os doze, em que o cafamcnto podia íeer firme ; e 
que eítomçe foíTe aqucl Iffimte emtregue em Caftella , cafam- 
do elRei primeiro outra vez com a Rainha fui molhcr per 
pallavras de prefemte. Emtom partio a dita líFamte da villa 
pêra o arreai dos Portugueefes , bem corregida e acompanha- 
da de meeitres , e ricos homeens , e cavalleiros , e outras muj tas 
gemtes que com ella hiam : e himdo affi todos muj aíleífega- 
damente , acharom no caminho elRei de Caftella , que outro 
ílvijnha com mujtas companhas comíligo ; e quamdo chegou 
em dereito da IlFante , emclinou a cabeça , e fezlhe reverença , 
e paífou ; e himdo mais adeamte , foi receber a Rainha Dona 
Lionor ia fogra , aa porta da cerca velha , que efta acerca do 
nioefteiro, caminho de Badalhouçe ; e émclinamdolle , fezlhe 
reveremça , e tomou a rédea da mua em que hia , e começarom 
dhir pêra a temda hu levavom a líFamte, A Rainha Dona 
Lionor hia veftida em huuns panos douro muj fre moios ; e 
fua comtenença e rofto e olhos era alfi todo graciofo , que 
Tom, IV. Ppp quam- 



484 Chronic'A 

quantos fenhores e cavalleiros hi vijnham de Cnfiella , todos 
louvavom fua fremofura e graça. Tamto que elRei chegou 
com a Rainha aa temda , homde avia de feer recebido com 
fua molher, foi moílrada huuma defpemílaçom aíTaz ahaftam- 
te pêra efto , de Dom Pedro cardeal Daragom , que hi eftava 
de prefemte ; o qual tomou pellas maaos eIRei e a líFante , di- 
zemdo eílas palia vras : >» Vos fenhor Dom Joham, Rei de Caftella 
>5 e de Leom , que prefemte eítaaes , reçebees vos a lífamte Do- 
>5 na Beatriz , filha primogénita e herdeira dos ditos Rei e Rai- 
5> nha de Portugal 5 que líTo meefmo aqui efta prefemte, per 
?j voíTa efpofa e molher lidema , per palla^ras de prefemte , 
>9 fegumdo mamda a famta egreia de Roma , e vos outorgaaes 
5) por feu marido y\ E elRei de Caftella diíFe , que a recebia 
por fua efpofa e molher lidema , e fe outorgava por feu marido. 
Eftomçe diíTe o Cardeal aa líFante : » E vos fenhora Dona 
3> Beatriz , líFante de Portugal , reçebees vos Dom Joham Rei 
?j de Caftella e de Leom , que prefente efta , por voífo efpofo 
yy e marido lidemo, per pallavras de prefemte, fegundo mamda 
55 a famta egreia de Roma , e vos outorgaaes por fua molher ». 
E ella diíTc , que aííí o recebia por feu efpofo e marido lí- 
dimo , e fe outorgava por fua molher. Efto afll feito, diíTe 
elRei de Caftella , que pois fora merçee de Dcos de tam 
gram divido aver amtre elle e elRei de Portugal , per que as 
pazes que per elles forom feitas , feeriam melhor guardadas 
dalli em deamte por aazo deftc caAmiento ; que porem cl 
quitava pêra todo fempre todallas menageens , e juras , e pro- 
metimentos que por aazo delias , e do cafamento do Ifíamte 
Dora" Fernamdo feu filho forom feitas : e mamdou emtregar 
todallas arrefecns , que diíTemos , que por efta razom tijnham , 
que fe veheíFem livremente pêra Portugal. E per efta guifa 
femelhavellmente forom eftas coufas logo hi quites da parte 
de Portugal a Caftella ,e que lhe foíTem emtregues fuás í'^ ar- 
refeens per aquelles , que delRei Dom Fernamdo pcra ifto tra- 
giam poder abaftamte. 

^ C A- 

(i) todas fuás T. 






I 



d'elRei d. Fernando. 485" 

CAPITULO CLXVI. 

Do que aveo a Nunallvarez , ajjcmtamdojje elRei a co- 
mer y e das pallavras que a Rainha dijje a elRei , 
quamdo fe delia ouve de efpedir, 

EM efte dia era ordenada a falia , em que elRei e fua mo- 
Iher aviam de comer , e gram parte dos fidallgos de 
Caftella e de Portugal: em ella avia mujtas mefas bem cor- 
regidas , e três delias eram prinçipaaes , a delRei que era tra- 
veíTa , e bem levamtada , como compria , e huuma da parte 
dereita , e outra da parte feeftra ; e amtre aquelles que eram 
aífijnados pêra comer em eftas mefas com outros fidallgos^ 
forom Nunallvarez ^ e Fernam Pereira feu irmaao : e quamdo 
foi tempo pêra fe aífemtarem ^ elles com mefura nom fe tri- 
garom mujto; e a mefa em que elles aviam de feer,foi rauj 
apreíTa chea de Portugueefes e de Gaftellaaos, e elles ficarom 
por aííeemtar , fem fazemdo os outros delles comta , pofto 
que foíTem aífaz conhecidos, e efteveíFem corregidos de fefta* 
Nunallvarez veemdo a mefa chea , e que nom tijnham homde 
fe aíTeemtar , diífe ja quamto de fanhudo comtra feu irmaãú : 
55 Nos nom teemos homrra de mais eftar aqui , mas parece* 
5? me que he bem que nos vaamos pêra as poufadas : pêro 
>j amte que nos vaamos , eu quero fazer que eftes que nos 
pouco prezarom , e rijrom de nos , que riamos nos delles y 
í5 e fiquem efcarnidos y\ Eftomçe paífeamdo muj maníTo , che- 
gouífe ao cabo da mefa , veemdoo elRei dhu fija aíTeemta^ 
do , e com os geolhos derribou o pee da mefa , e deu com 
ella em terra. Os que a ella fijam , ficarom efpamtados , e el 
com feu irmaão fe partirom da falia tam alFeiregados ^ come 
•fe nom fezeflem L^enhuuma coufa. ElRei que efto bem vio , 
pregumtou que homeens eram aquelles ; e diíferomlhe como 
forom comvidados , e ouverom de comer naquella mefa , e que 

Ppp ii os 



48Ó Chronica 

os que íljam , nom fezerom delles comta , nem lhe derom 
logar em que fe afíeemtaíTem. » Sei que fe vimgarom bem , 
3> diíTe elRei; e quem tal coufa comcteo em cite logar, fem- 
5> timdo efto que lhe foi feito , pêra mujto mais fera feu 
5j coraçom ". Porem elRei nom tornou mais aaquello , por 
que eram Portugueefes ; ca fe forom Caftellaáos , poderá feer 
que tornara doutra guifa. ElRei acabado ho jamtar, tornou 
com a Rainha Dona Lionor pêra a villa , levamdoa de rédea 
ataaquel logar dhu a primeiramente trouvera ; e ficou na teen- 
da com a Rainha Dona Beatriz , a Rainha de Caftella fua 
fogra , e fua filha Dona Lionor molher do líFamte de Na- 
varr;^ , e mujtas donas e domzellas do Regno de Caftella. 
E quando fe elRei ouve de efpedir aa porta da villa da Rai- 
nha Dona Lionor, diífe ella em efta guifa: j) Filho fenhor , 
í> emcomemdo a Deos e a vos minha filha , e iíFo meefmo 
jj vos digo da parte delRei meu fenhor feu padre , por que 
íj nom teemos outro filho nem filha , nem efperamos ja de 
j) o aver ; que feia de vos homrrada , e lhe façaaes boa com- 
5> panhia , qual deve de fazer boom marido a fua molher ; 
» e eu rogarei a Deos por vos , e por voíTa vida e homrra , 
5> que Deos vos dê frui to de beençom , que venha herdar 
99 o Reino de feu padre e de feus avoos »». E em dizemda 
eHo , feus gr^çiofos olhos erom lavados daugua , moftramdo 
gram fuidudc <'^ da filha. >» Madre fenhora , diíFe elRei , eu 
» lhe emtcmdo de fazer tal companhia, a fcrviço de Deos , 
>f e fua homrra e minha , que feia a voíTo prazer , affi como o 
5j pi^ometi (^) >j. Emtom fe partio elRei delia , e efteve cm feu 
arreai ataa tarde, que levamtarom todas fuás tendas; e foi 
elRei eífe dia dormir a Badalhouçe com todas fuás compa- 
nhas , còm gramdes allegrias e trebelhos , que hiam fazemdo 
pello caminho ; ficando o IlFamte Dom Fernamdo feu filho em 
Ellvas com a Rainha , como amtrelles era pofto : e foromlTe 
com a Rainha Dona Beatriz , o meeftre Davis Dom Joham 
feu tio , e todoUos prellados e fidallgos de Portugal , /alvo 

''> 

(1) granide faudade X. (z) afy como hc promeiido J. 




d'e lRei d. Fernando. 4S7 

o comde Dourem , que diíTe que fe femtia mal , e nom po- 
dia alio hir. 



\ 



CAPITULO CLXVIL 

Como elRci fez fuás vodas em Bada/houçe , e tornou de^ 
pois a Elhas , efe efpedio da Rainha fua fogra» 

Uamdo veo ao domingo , que eram dez e fete dias da- 
quel mes , hordenou elRei como reçcbelTe outra vez a 
líFamte , em prefença da egreia , fazemdolhe fuás beemçoóes 
e offiçio follepnemente , como nos trautos era pofto ; e foi 
defta guifa. Aa porta da egreia cathedral eílavom reveftidos 
em capas ^ com bagoos e mitras , Dom Pedro arçebifpo de Se- 
vilha , e Dom AífbníTo bifpo da Guarda , e Dom Martinho 
bifpo de Lixboa , e Dom Joham bifpo de Coimbra , e Dom 
Diego bifpo Davilla , e Dom Joham bifpo de Galla forra , e 
Dom frei AíF3níro bifpo de Coyra , e Dom Fernamdo bifpo de 
Badalhouçe , e com cites oito bifpos mujta outra creelezia 
alTaz de bem corregidos (^^ : o altar era guarnido de nobres 
hornamentos erelliquias, e toda a egreia apoftada como com- 
pria. E eftamdo aUí todos preftes , chegou elRei em cima de 
huum cavallo bramco , vcftido muj reallmente , e huuma co- 
roa douro na cabeça muj to guarnida de pedras ; e tragiam 
quatro homrrados fenhores huum pano douro temdido em 
aftas, que cobria elle e o cavallo. A Rainha iíTo meefmo vij- 
nha logo jumto em outro muj guarnido cavallo , alvo come 
huma bramca poomba , e huum pano douro temdido per ci- 
ma ; e levavaa dhuma parte huum Rei Darmenia que hi che- 
gara , que chamavom Leom quimto , e Dom Joham meeftre 
Davis em Portugal irmaao delRei Dom Fernamdo , e da outra 
Dom Karllos líFamte de Navarra cunhado delRei , e outro 
gram fenhor de Caftella. Alli eram prefemtes mujtos comdes 
^ e 

(i) corregida 2". 






488 Chronica 

e fenhores, fegumdo podees emtemder que fe aaquella hora 
jumtariam , e meeftres , e cavalleiros , e outros mujtos fidall- 
gos , cujos nomes mais repetidos nom compre de feer. Eram 
hi outrofli gramdes fenhoras , e comdeíTas , e donas , edomzel- 
las , e mujta outra gemtc. Eftomçe o arçebifpo de Sevilha lhe 
fez fuás beemçoões aa porta da egrcia , e emtrarom demtro , 
e diíTe milTa , feemdo em joelhos cIRei e a Rainha ambos 
em huum rico eílrado ; e acabado todo feu oífiçio , tornouíTe 
elRei e a Rainha como veherom , pêra as poufadas ; e depois 
de comer jjuftarom , e tornearom , e lidarom touros ('^; e elRei 
deu cavallos , e panos douro e de laã , e outras joyas aos fenho- 
res e fidallgos de Portugal ; e todo aquel dia fe defpemdeo em 
feitas 5 e coufas que a vodas perteeçiam , dhuuma parte e da 
outra. Aa terça feira feguimte veo elRei jamtar aas ortas 
Dellvas , homde amte tevera fuás temdas , com todollos com- 
des e meeftres e ricos homeens , aíli de Portugal come de Gaf- 
tella 5 e mujta outra gemte com elles. E depois que come- 
rom , levarom a Rainha Dona Lionor ao arreai fora da villa , 
ca elRei de Gaftella numca emtrou demtro i^^ ; e efteve fallam- 
do com elRei gram parte do dia : e depois que foi tarde , 
tornouíTe elRei pêra Badalhouçe com todollos que com el 
veherom , e a Rainha pêra a villa. Aa quimta feira partio el- 
Rei dhu poufava pêra a fee , homde ja eftava preíbes ho ar- 
çebifpo de Sevilha , reveftido em pomtifical , teemdo ho corpo 
de Deos comfagrado em fuás maãos : e per leçemça e mamda- 
dodelRei , Dom Jcham Affomfíb comde de Ncuva íj), e Dom 
Pêro Nunez com Je de Mayorga , e Dom Joham bifpo de Cór- 
dova , e Alvoro Gomçallvez Dalbernoz , e Pêro Soarez alcaide 
de Tollcdo , e Joham Rodriguez de Bedma , e outros, fe- 
zerom juramento fobre ho corpo de Deos comfagrado , e prei- 
to e menagem , nas maãos de Gomçallo Meendez de Vaaf- 
comçellos vaíTallo delRei de Portugal , que elRei feu fenhor 

guar- 



(i) e lidarão todos , e correrão todos T. (i) na viiU dentro T. (3) com- 
de Denya T. 



d'elRei d. Fernando. 4S9 

guardalTe os trautos , com todallas coufas em elles comtheu- 
das , na forma e comdiçoocs queja teemdcs cuvjdo, E outro 
tal juramento e menagem fezerom nas maaos de Dom Pcro 
Fernamdez meeftre de Samtiago deCaftella, DomAlvoroPe- 
rez de Caliro comde Darrayollos , e Dom Gomçallo comde 
de Neuva 5 e todollos outros comdes e meeftres e fcnhores ja 
em cima nomeados , per mamdado e leçemça delRei Dom 
Fernamdo , que pêra ello pubricamente foi moftrada. Na fe- 
gumda feira da outra* domaa tornou elRei jamtar aas ortas 
Delvas , iiomde amte vehera comer; e depois que ouve co- 
mido , foi por a Rainha Dona Lionor acerca da villa , e le- 
vouha pêra a temda hujamtara ('^; e teemdo fallado gram par- 
te do dia , tornou com ella ataaquel logar domde a levara 
de rédea , e alli fe efpedirom ambos de todo : e levou cílom- 
çe a Rainha demtro pêra a villa a feus paaços , Dom Pedro 
cardeal Daragom , e foilhe emtregue o Iffamte Dom Fernam- 
do , que eftava em arreffeens , que o levafíe pêra feu padre , 
fegumdo depois foi acordado , aalem do que ncs trautos era 
comtheudo. Alli fe defpedirom delRei todollos fenhores , e 
fidallgos Portugueefes , e el tornoufle pêra Badalhouçe , e el- 
les ficarom com a Rainha em Ellvas. 



CAPITULO CLXVIII. 

Como elRei partio de Badalhouçe , e foi cercar o comde 
Dom Affomjjo j e doutras coufas que fe feguirom, 

Artio elRei de Badalhouçe com fua molher , e foi dem- 
tro per feu regno ataa Leom ; e per todollos logares per 
homde hiam , alII cercados come terras chaas , lhe faziam gram- 
de fefta , e os melhores quatro que hi ouveífe , tragiam huum 
pano douro em quatro aftas fobre a Rainha , des fora do lo- 

i ^ g^r 

(1) jantaaram T. 




i 

4f^o Chronica 

gar ataa que chegava hoinde avia de paufar : e eílando el- 
Rei em Leom , foilhe noreficado como o comdc Dom AíFonf- 
fo feu irmaão baíteçia Gijom , e toda.; fuás fortcllezas. ElRei 
mamdou logo Pêro Fernamdez de Valiafco teu camareiro moor, 
e Pêro Rodriguez Sarmento feu adeamtado em Galliza , que 
fe foíTem com certas gemtes aas Eítaras , e chegarom acerca 
de Gijom omde eftava o comde. ElRei foi pêra alia a pou- 
cos dias , e cercou o comde em aqucl caílello ; e o comde 
e os que eftavom com elle , fe veherom pereelRei ; e perdó- 
hou elRei a el e aos feus , e firmarem fuás avecmças , que 
o comde o ferviíTe fempre bem e leall mente , e el que lhe 
fezeíTe merçee , e tomou elRei o corpo de Deos com elle 
por firmidom de fuás poíturas. Partio eílomçe elRei , e veoíTe 
a Valhadolide , e des i a Segoiva , e em eíles logarcs fez cor- 
tes pêra o que adeamte ouvirees ; porem que em ellas horde- 
nou outras coufas , e pos leis de que fe poucas guardarom j 
falvo fe foi huuma em que mamdou , que dalli em deamte nom 
fe pofeíTe nas fcripturas a era deCefar, que fe ata alli coftu- 
mara de poer em Caítella e em Leom , mas que fe efcrepvcíTe 
des primeiro dia de natal feguimte , anno da naçemça de 
noíTo fenhor Jefu Chrifto , que era aquel primeiro anno de 
mil e trezemtos e oiteemta e quatro. 

CAPITULO CLXIX. 

Como elRei Dom Fernamdo mandou a Cajielh receber 

as menageens , por razom dos tr autos , e quaaes 

pejjoas forom as que as fezerom. 



A Rainha Dona Lionor efteve emEllvas, depois da quimta 
ft:ira que a líFamte fua filha foi recebida e levada a Ba- 
dalhouçe , como diíFemos , ataa homze dias ; e aos trimta da- 
quel mes de mavo, huuma terça feira pella manhaa , partio da 

di- 



D*E L R E I D. F E B N A N D O. 4f} Í 

dita villa mujto acompanhada, aíli como fora , como quer que 
mujtos fidailgos mamdou dalli que fe foíTem pêra fuás terras* 
e veo eíTe dia comer a Borva , e dormio hi. E himdo pello 
caminho , tragiaa o meeílre Davis de rédea ; e fallamdo em 
aicruumas coufas , pregumtou ella ao meeílre ^ dizemdo : >» Dl- 
3> zeeme , irmaao , que vos pareçeo delRei de Caftelia , em feus 
?j geitos ('í , e maneiras que teve jj. 39 Pareçeme boom cavai- 
5> ieiro , dilfe o meeftre , e bem mefurado , e lifudo em feus 
» feitos ». » Bem dizees , irmaão , diíTe ella; mas porem de 
5? mim vos digo, que o homem queria eu que foíTe mais ho- 
5> mem ». Dalli partio a Rainha, e veoíTe a Almadaa , hom- 
de ja fabia que eftava eiRei , mais doemte do que o leixara ; 
ca em quamto ella levou fua filha a Ellvas , femtimdoíTe elle 
cada vez peor, mamdou que o trouveíTem de Salvaterra aaquel 
logar , e nom fahia ja fora , nem cavallgava ; e como a Rai- 
nha chegou das vodas , partiromíTe logo pêra fuás terras os 
que com ella vijnham, falvo o comde Dourem, e o comdc 
Dom Gomçallo , e Gomçallo Vaafquez Dazevedo e outros al- 
guuns que eram moradores» E por quanto nas aveemças firma^ 
das amtre os Reis , quamdo foi feito eíle caíamento , horde- 
narom de feer feitas outras juras e prometimentos , per certas 
villas e cidades , e iíTo meefmo prellados e fidailgos de Caf- 
telia , aallem daquellas que diíTemos que forom feitas em 
Badalhouçe , quamdo elRei aprovou os trautos , amte que 
pariilTe pêra Ellvas por receber fua molher , e iílo em cortes 
Cjue elRei pêra ello avia de fazer j hordenou logo elRei Dom 
Fernamdo de mamdar feu procurador a Caflella , que reçebef- 
fe aquellas juras e menageens , em feu nome e da Rainha 
fua molher. E foy alia emviado o comde Joham Fernamdez 
Damdeiro , mujto acompanhado e bem corrcgido , aflí coma 
fora da primeira ; e chegou a Gaílella a Valhadolide homde 
timtom elRei era , teendo ja hi jumtas fuás cortes efpeçial- 
inente pêra ifto. E quamdo veo aos oito dias dagofto , ef- 
íámdo elRei em feus paaços , hu era armada huuma capella 
Tom. IV, Qqq P' 

(i) fcytos T, 



>r- 



^p2 GhRONICA 

pêra fazerem taaes juramentos , reveltioíTe pêra dizer miíTa 
AívoníTearies coonigo de Lixboa , capei Iam moor da Rainha 
Dona Beatriz , e reemdo o corpo de Deos comlagrado em 
huuma patena, que em fuás maãos tijnha , diíTe o comdejo- 
ham Fernamdez a elRei de Gaftella : que bem fabia como 
por razom dos trautos que amtre elle e elRei Dom Fernam- 
do e a Rainha Dona Lionor fua molher per aazo de feu ca-^ 
fa mento forom firmados , aífi era que el ataa certo tempo fe- 
zefle cortes em feu regno , em que foíFem jumtos os fidall- 
gos e prellados de fua terra, e iftb meefmo os procuradores 
das villas e cidades , pêra per feu mamdado e leçemça faze- 
rem preitos e menagccns aos fcnhores Rei e Rainha de Por- 
tugal , por firmeza e guarda dos trautos e coufas em elles 
comthcudas ; e que pois que alli eram jumtas gram parte 
das peíToas que os aviam de fazer, que foífe fua mcrçee de 
lhes dar leçemça e mamdado , per que as fezeíTem na for- 
ma que deviam. ElRei diíTe que lhe prazia dello , e outor- 
gada a leçemça e mamdado a todos per peíToa que a lezef- 
Tem , foram eRes os prellados que as fezerom : Dom Pe- 
dro arçebifpo de ToUedo , Dom Gomçallo bifpo de Bur- 
gos , Dom Hugo bifpo de Segoiva , Dom Garcia bifpo 
Dovedo , Dom Joham bifpo de Pallemça , Dom Lopo bif- 
po de Segomça , Dom frei Pedro Moniz raeeftre de Cal- 
latrava , Dom frei Pêro Diaz priol de Sam Joham. Seme- 
Ihavellmente os fidallgos forom eílcs aqui nomeados : o com- 
de Dom Aííbmfo irmaíío delRei , Dom Fradarique duque 
de Benavemte 5 Dom Fernam Samchez de Thoar almiramre 
moor de Gaílella , Dom Pedro Pomçe de Leom , Pêro Ro- 
driguez Sarmento adeamtado em Galliza , Pêro Fernamdez de 
Vallafco camareiro moor delRei , Pêro Soarez Davinhone 
adeamtado de Leom , Joham Furtado de Memdomça alferez 
moor delRei , Pêro Gomçallvez de Memdonça feu moordomo 
inoor^ Joham Rodriguez de Gaftanheda , Alvoro Perez do 
Soiro fenhor de Villalobos, D^ego Gomez Manrrique adeam- 
tado moor de Gaftella, Joham AffoníTo de I/açerda , RamirD 

Nu- 






D'tLREi D. Fernando. 493 

Nunez de Gozmam , Fernamdallvarez de Tolledo , GomcZ 
Meemdez de Benavides , Fernam Perez Damdrade , Pêro 
Gomçallvez de Baçam , Samcho Fernamdez de Thoar , Die- 
go Furtado filho de Pêro Gomçallvez de Memdoniça , Pêro 
Diaz de Samdoval , Joham Rodriguez de Villalobos , Joham 
Fernamdez de Thoar filho de Fernam Samchez , Joham Nu- 
nez de Tolledo , Gomçallo Nunez de Gozmam , Fernam Diaz 
de Memdomça , Rui Uíaz cabeça de vaca , Pêro Nunez de 
Tolledo, Pedrallvarez do Soiro , Joham Furtado de Mcmdom- 
ça. Eftes trimta fidallgos , e outros de que mais lomga ladai- 
nha nom compre fazer , fezerom os juramentos adeamte ef- 
criptos. As cidades outro fi forom eftas feguimtes : a faber, 
a cidade de Burgos , a cidade de Leom , a cidade de Tolle- 
do , a cidade de Sevilha , a cidade de Córdova , a cidade de 
Murça , a cidade de Geem , Cidade Rodrigo, a cidade Dove- 
do , a cidade de Çamora , a cidade Davilla , a cidade de 
Comca 5 a cidade cie Pallemça , a cidade de Prazemça , a ci- 
dade de Segoiva , a cidade de Soria , a cidade de Coyra , a 
cidade de Beeça , a cidade de Sallamamca , a cidade de Car- 
tagenia , a cidade de Lugo , a cidade de Callaforra , a cida- 
de de Ubeda , a cidade deSam Domimgos da calçada , a cida- 
de de Badalhouçe ("). Eftas vimte e çimco cidades, e Touro , 
c Madride , e P'xares , e Cáceres, e outras mujtas villas que 
feeria lomgo de dizer , fezerom emtom per seus procurado- 
res preitos , e menageens , e defnaturamentos por guarda das 
liamças amtre os Reis poftas , as quaaes em cima ja teemdes 
cuvjdas. 



Qqq ii CA- 



C^) No Códice B. a Cidade de Coyra , e a Cidade de Bee^a vem no fim d^ 
todas. " '' 



4^4 Chronica 

CAPITULO CLXX. 

/ 

Per que maneira fezerom os juramentos e menageens os 
prellados e fidallgos de Cajlella, 

VIftas as peíToas e logares que juramento fezerom , por 
guarda dos trautos amtre os Reis devifados, aquelles a 
que prouguer ouvir a maneira como forom feitos, faibam que 
forom deita guifa. Revcftido o Sacerdote dizemdo miíTa , e 
teemdo nas maaos o corpo de Deos comfagrado cm huuma 
patena , os ditos prellados , fenhores , e ricos homeens , e 
fillios dallgo j cavalleiros , e efcudeiros , e iíTo mecfmo os pro- 
curadores das villas e cidades , que prefemtes íijani , cada 
huum delles per 11, per mamdado e leçemça do dito fenhor 
Rei 5 cuios valTallos eram ^ jurarom e prometeram aaquel 
corpo de Deos comfagrado que eftava amtelles, tamgemdoo 
cada huum com fuás maaos, de comíTerotir , fazer, e pro- 
curar a todo feu poder , que os prometimentos, juras, e 
obrigaçoões feitas pello dito fenhor Rei , em razom de feu 
cafamento com a Rainha fua molher , e dos trautos e aveem- 
ças fobrello feitas e firmadas , que fe teveífem e duraílem 
e foíTem firmes , afli por elle , come por a Rainha fua mo- 
lher ; e que nom feeriam eftomçe nem em nenhuum tem- 
po em dito , nem em feito , nem em comíTelho , nem em 
outra maneira alguma , per que o dito cafamento foíTe em- 
bargado , nem fe defatalTe. E o dito fenhor Rei que prefem- 
te eftava , por moor firmeza de teer e guardar e comprir to- 
doUos capitólios nos trautos comtheudos , deu leçemça aos 
fobreditos prellados, fenhores, e ricos homeens , cavalleiros, 
e efcudeiros , filhos dallgo , e outro fi aos procuradores das vil- 
las e cidades , e de certas peíFoas que prefemtes nom eram , 
que fe per vemtura elle nom teveíFe e guardaíTe todollos ca- 
pitólios nos trautos , que amtre cUe e os ditos Rei c Rainha 

de 






d' E L R E I D. F E R N A N D o. 49 f 

de P^)rtugal forom firmados per juramento, e cada huuma das 
coufas em elies comtheudas , na forma e maneira e com as 
comdiçoôes e aos tempos que le em elles comtijnha , que os 
lobreditos em efte cafo fe podeíicm defnaturar , e defnaturaf- 
fem delle dito R?i de Gaílella , e tevelTem com os fenhores 
Rei e Rainha de Portugal , e quamto a elia perteemçeíTe de 
lhe feer compridos e guardados os ditos trautos e capitólios, 
e cada huuma coufa em clles comtheuda. Eltomçe os ditos 
prellados , e todollos outros que diíTcmos , cada huum dellcs 
per íi , com aquella leçemça que lhe pêra efto deu o dito fe- 
nhor Rei , fezcrom preito e menagem huuma e duas e três 
vezes nas maãos do dito comde Dourem ; e jurarom e pro- 
meterom ao corpo de Deos comfagrado que ante elles efta- 
va , que elles fariam a todo feu poder que o dito fenhor Rei 
de Caftella teveíTe e guardaíTe aos ditos fenhores Rei e Rai- 
nha de Portugal , e a todollos outros que a efto perteençia , 
ou podeíTe perteemçer , per qual quer guifa que foíTe, todol- 
los capitólios dos trautos e coufas em elles comtheudas ; os 
quaaes lhe logo forom leudos , e feita de cada huum exprefHi 
memçom , na forma e maneira que forom jurados e prometi- 
dos. E mais que elies e cada huum delles guardaíTem e compri- 
Ifem todollos capitólios e coufas em elles comtheíidas , quam- 
to a elles perteemçia de comprir e guardar, fegumdo em el- 
les era comtheudo , aííi em razom da fuçeíTom dos Regnos, 
como em todallas outras coufas. Outro fi os procuradores das 
villas e cidades , cujas procuraçoões pêra ifto mujto abaílamtes 
tragiam , jurarom aaquel corpo de Deos comfagrado , que os 
Comçelhos e peíToas cujos procuradores eram , que todos e 
cada huum dos moradores e vezinhos dos ditos logares , fe- 
'zeíTem a todo feu poder, que o dito fenhor Rei de Caftel- 
la teveíTe e guardaíTe aos ditos Rei e Rainha de Portugal 
os ditos trautos , e quant:> a ella perteemçia de feerem guar- 
dados , c a todollos outros a que perteemçeíTe ou podeíTe 
perteemçer , per qual quer guifa. que foíTe : dos quaaes trau- 
tos e coufas em elles comtheudas , como forom jurados , 



49^ Chronica 

e com que comdiçoócs, lhe era logo feita expreíTa meem- 
çom 5 juramdo elles que aquelles concelhos e cada huum dos 
vezinhos moradores ('^ delles , guardaíTem e compriíTcm 
08 ditos capitólios e coufas em eiies contheudas , quamto 
a elles perteemçia de comprir , aíli em na fuçeíTom do 
Regno , come em cada huuma das outras coufas, E acomte- 
çemdo que elRci Dom Fernamdo e a Rainha Dona Lionor 
guardaíTem a elRei feu fcnhor os trautos, e elle nom tevef- 
fe e guardaíTe os ditos capitólios e coufas em elles deviía- 
das , ou paíFaífe comtra alguuma delias , que os ditos prel- 
lados , fenhores , e fidallgos , cavalleiros , e efcudeiros , cada 
huum per li, e ilTo mcefmo os procuradores em nome daquel- 
les comçelhos cujos procuradores eram, que elles fedefnatu- 
ravom e defnaturariam do dito fenhor Rei em eíl:e cafo , e 
que cada huum delles lhe faria guerra , e feeriam comtreelle 
e comtra feus Regnos , tcemdo com os ditos fenhores Reis e 
Rainha de Portugal ; e fe o aílí nom guardaíTem e comprif- 
fem , que cahiíTèm naquel cafo que caaem aquelles que traa- 
hem caílello , ou matam fenhor. Feitas eílas juras e prometi- 
mentos, e recebidas taaes menageens , como ouviíles , efpedio 
fe ho comde delRei , e vehoíTe pêra Portugal. 

CAPITULO CLXXI. 

Como veberom receber de Caftella a Portugal outros 
taaes juramentos , for razom dos trautos. 

DEfembargamdonos das razooes deftes trautos , por del- 
les nom fazer mais lomgo proçelTo , devees de faber , 
que aífi como o comde Dourem foi a Caftella receber as ju- 
ras e menageens ja brevemente comtadas , que aíli mamdou 
elRei de Caftella a Portugal huum arçebifpo , e huum caval- 
leiro , pêra em feu nome receber outras taaes : e forom em 

Sam- 
(i) e moradores 7". 



D'£ L R E I D. F E R N. A N D o. ^t)'j 

Saiiitarem jiimtos toiolios fenliores e fidallgos, e procurado- 
res das villas e cidades , que citas juras aviam de fazer ; c 
no moefteiro de Sam Domimgos das donas , aquêl arçebifpo 
reveftido , teenido ho corpo de Deos comfugrado cm huuma 
patena , que em íuas maãos tijnha, forom ftiros períodos fe- 
jiielhamtes juramentos e menageens , na forma que ouviftes os 
outros. E depois que todo foi feito , e leixadas as procura- 
çooes que cada huuns tragiam , diíTe aquel arçebilpo comtra 
os feus : » Qiiamto agora vos digo , que eílaa ifto muito 
3j bem pêra Caitella , ca mujto dano nos vijnha deite rcm-. 
3> com de Portugal ■>•* : e eílo dezia el oufadamente , emtem- 
demdo que fegumdo os trautos , e a doemça ('^ que elRei 
Dom Fernando avia , que Portugal nom fe efcufava defta vez de 
todo pomto feer (^^ de Caílella ; e aimda fe el foubera quam 
pouca voomtade elRei feu fenhor avia de guardar os trautos , 
mais largamente poderá em ello fallar. E pefava mujto a to- 
dollos Portugueefes , aílí fidallgos , come comuum poboo , com 
taaes comveenças da fuçeíTom do Regno , por aazo da doem- 
ça delRei , teemdo que per taaes trautos fe Portugal vemdia ; 
jnas nom podiam ai fazer , por obedeeçer a mamdado de feu 
fenhor. PartioíTe o arçebiípo pêra Caftella , e foube elRei 
novas como elRei Dom Fernamdo feu f ogro era cada vez 
mais adoorado , e que fua vida nom podia feer mujta ; e 
como aquel que pouco tijnha em voomtade d^ guardar os 
trautJS que amrrelles forom firmados, fallou logo com taaes 
de que fiava, e mamdouhos a Portugal, por veer o eílado do 
Regno em que pomto eítava , e que fallaíTjm com alguuns 
Portugueefes que lhe logo nomeou , que acomteçemdo que el- 
Pvci Dom Fernamdo morreíFe , fe acharia elle o Regno a feu 
mamdar , queremdo vijnr a elle pêra o aver. ElRei partio de 
^>egoiva , e foi pêra terra de Toiledo , a huum logar que di- 
7.em Torrijos , com^ emteemçom de fe hir depois aa cidade de 
Sevilha. 

CA- 
CO e a hordenança T, (2) de fer T. 



^jiaur Cl 



45>S Chronica 

CAPITULO CLXXII. 

Como elRei e a Rainha partir om Dalmadaa -, e fe vehe- 
rom a Lixboa , e morreo hi elKei Dom Fernamdo, 

SEemclo elRci Dom Fernatndo mais aíicado cada vez de fua 
door, mamdou que o trouveíTem daquella villa Dalmadaa, 
homde eítava, pêra a cidade de Lixboa , e foíTe de noite por 
nom feer villo; e foi aílí que o trouverom ao feraao , e ne- 
nhuum nom abria a porta , nem tirava camdea aajanella, por 
que tal pregom fora lamçado ; e aflí efcufamente o levarom 
a feus paaços. A Rainha a poucos dias depois deito pario 
huuma filha ,^ que naçeo vijmte e fete dias de feteihbro , e 
morreo logo; e as gentes fofpeitavom que nom era delRei, 
e nom fem razom , ca el tempo avia que nom dormia com 
ella , fegumdo fama , e ella paria e emprenhava , e diziam 
todos que taaes filhos nom eram delRei. Alli jouve elRei 
per dias doemte , muj defafemelhado de quamdo el começou 
de reinar ; ca el eítomçe parecia Rei amtre todollos ho- 
meens aimda que conhecido nom foíTe , e agora era aíli mu- 
dado , que de todo pomto nom parecia aquelle. E femtim- 
do fua morte muj to açerqua , feemdo ja mcmfeftado , requerio 
que lhe deíTem ho facramento ; e quamdo lhe foi aprefemta- 
do , e comtarom os artijgoos da fe , como he coftume , 
dizemdolhe fe crija aíli todo , e aquel famto facramento 
que avia de receber , refpomdeo el e diffe : ?> Todo eíTo 
?j creo come. fiel chriítaâo , e creo mais que elle me deu 
» eftes Regnos pêra os mamteer em dereito e juftiça ; e 
5> eu por meus pecados o fiz de tal guifa , que lhe darei 
5» delles muj maao comto 5> : e em dizemdo efto , chora- 
va muj de voomtade , rogamdo a Deos que lhe perdoaíTe , 
e choravom com piedade, delle , todollos que prefemtcs 
eram : e aífi com gram reveremça e devaçom reçebeo o fam- 
to 



d'elRei D. Fernando. 499 

to facramento , jazemdo veftido no avito de Sam Framçiíco. 
E quamdo veo aos vijmte e dous dias doutubro da era ja ef- 
cripta de mil e quatroçemtos e vijmte c huum , em huuma 
quimta feira aa noite, começou el de le aííicar ; e lidamdo 
ho fpritu com a carne naquella afpera hora , por fe partir 
delia , em breve eipaço defemparou o corpo , e el deu a al- 
ma a Deos , a que por fua merçee praza de a fazer regnar 
com os feus famtos. E viveo elRei Dom Fernamdo çim- 
quoemta e três anos e dez mefes e dezooito dias, e reinou 
dez e féis anos e nove mefes, com gram trabalho de íí , e de 
feu poboo. Em outro dia foi poíbo em huumas amdes cuber- 
tas de pano preto , e levado em collos de frades ao moefteiro 
de Sam Framçiico (0^ e foi com elle pouca gemte e (^^ do.o ; 
e nom foi a Rainha a feu foterramento , dizemdo que fe fem- 
tia mal , e nom podia lahir; outros dizem que o fez reçeam- 
do mormuro í?^ das gemtes ; e fua nom hida fez mais failar em 
ello {+; j do que per vemtuira fallarom fe aacuella hora fora 
prcfemtc ; e forom fuás exéquias e fopoltura mujto íimprez- 
mente feitas , fegumdo pcrteemçia a eftado de Rei. 

CAPITULO CLXXIII. 

Como a Rainha Dona Lionor ficou por Regedor ^^^ do Re- 
gno ^ e das razooes que lhe dijferom os de Lixboa. 

MOrto elRei Dom Fernamdo , ficou ha Rainha por Re- 
gedor , e Governador (^J do Reino , como nos trautos era 
comtheudo; hufamdo de toda jurdiçom c fenhorio , em quitar 
menageens , e aprefemtar egreias , comfirmamdo feus boons bu- 
fos e coftumes aas viíJas e cidades , que lho requcrir emviavom , 
como tem hufamça de fazer huum Rei , quamdo novamente 
Tom. IV. Rrr co- 

(i) de Sam Francisquo de Santarém T. (2) de T. (5) o mormuro T. 
(4) ella T. (5) Regedora T, (6) Regedora e Governadora T, 



Afoo Chronica 

começa de regnar ; obedeeçemdolhe os fidallgos e comuum^ 
poboo , como a fua Rainha e fenhora , em todallas coufas. Seu 
ditado nas cartas , em vida delRei Dom Fernamdo , era eiie : 
?5 Dona Lionor pella graça deSamta Maria , Rainha de Porm- 
5j gal e doAIgarve ?? : e eliomçe per acordo dos fenhores , e le- 
terados de feu comíTclho , fe começou de chamar: » Dona Lio- 
?> nor pella graça de Deos , Rainha , Governador , e Regedor 
M dos Regnos de Portugal e do Algarve >»: e em alguumas fe 
acomteçia nomear fua filha, chamavaa Rainha de Portugal. E 
osTaballiaães nas efcripturas puinhão : » Eu foaáo taballiom 
3> de tal logar , per autoridade da Rainha Dona Lionor , Gover- 
>5 nador, e Regedor dos Regnos de Portugal e do Algarve , 
35 efto aqui efcrepvj , e meu ílnal ííz , que tal he jj. Tamto que 
fe elRei Dom Fernamdo finou , partio ella dos paaços hom- 
de poufava , e veoíFe a outros mais demtro na cidade , açerqua 
dhuuma egreia que chamom fam Martinho ; e alli eftava em 
huuma camará cuberta de doo , a que nenhuum emtrava fem 
lhe primeiro feer pregumtado ; e fe novamente chegavora 
alguuns , pofto adeparte todo fimgimento , fazia feu plamto 
com elles , moftrandolhe a horphaimdade do marido que per- 
dera 5 com falluços e gramdes lagrimas ; nas quaaes depois de 
farta de chorar , damdo a emtemder feu coraçom feer fem- 
pre em door , nom perdiam as gemtes porem renembrança 
daquella maa fama , que em vida delRei cobrara. Os boons 
da cidade chegarem eiiomçe a ella , e diíTerom que lhe pe- 
diam por merçee , que os quifeífe ouvir dalguiimas coufas que 
lhe por feu ferviço- e boom regimento edefemíTom do Rei- 
no dizer queriam : a cila prougue de ouvir feu razoado , e 
foilhe propoílo em ella guifa. jj Senhora , nos veemdo co-. 
?) mo vos teemdes carrego de correger e emmemdar os da- 
?> nos e malles , que os deftes Regnos ham recebidos ataa o 
5> tempo dora , de que Deos por fua piedade fe queira doer , 
?5 fperamdo em el que vos dará tanta graça que poerees em 
-> ello remédio , como per nos he defeiado , propofemos de 
>•> o notcficar aa voíTa merçee. AíG he , fenhora , que vos vif- 

» tes 



'í/v-r 



d' E L R E I D. F E R N A N D o. jO í 

99 tes bem como des o tempo que eIRci noíTo fenhor, cuja 
?> alma Deos aja, teve o regimento deites Regnos ataa ora, 
99 fe feguirom neelles miijtos dampnos e mortes e falleçi- 
99 mentos dhomeens ; e que per mujtas defordenadas deípe- 
99 fas feitas como nom deviam , fom poftas as gemtes em 
j> gramdes provezas , e todo per mimgua de boom comíTe- 
» lho, fizemdo feus feitos fem acordo dos de fcu Regno , 
5) e per comfíelho dos cftramgeiros , que mais o con.lTelha- 
« vom em todallas coufas por íeu gaanho e proveito , que 
3> por acreçemtamento de fua homrra e eílado ; per cujo aazo 
j> forom gaitados quantos thefouros e joyas ficarom dos ou- 
5j tros Reis , pêra defemdimento e guarda deftes Regnos , e 
9) aimda nom lhe avomdou todo iílo , mas forom feitas e fe- 
99 meadas neíles Regnos moedas nom hufavees , de tamtas 
»> maneiras , per que as gemtes perderom a moor parte da 
»> riqueza que tijnham ; como todo efto e outras coufas 
5> que feeria lomgo de dizer , he bem nembrado aa voíTa 
5> memoria. Poremde, fenhora , fe querees feer guardada de 
5> femelhamtes malles, pareçenos que he bem, que fallees vof- 
j> fos feitos com os boons e naturaaes do Regno , amte que 
99 fe ponham as coufas em obra , os quaaes ham de foportar 
?> a moor parte do encarrego quamdo tal coufa í'^ aveher ; g 
>j pois vos Deos fez Regedor delles , e vos deu fenhorio fo- 
» bre nos , nom ajaaes por mal de vos dizer toda coufa que 
99 por voíFo ferviço , e bem da terra em que vivemos , poder- 
5> mos emtemdcr »>. A Rainha que femtido lijnha daver bem 
queremça e graça do poboo , refpomdeo que o avija por bem 
feito , e que diÔeírem em boa hora todo o que lhes bem pa- 
leçeíTe fobrello. j» Senhora , dilferom elles , por que o thefou- 
?» ro e fortelleza per que eíles Regnos forom fempre dete* 
?> fos c amparados do que lhe avijnr podia , foi boom regi- 
?» mento e comífclho , fegumdo Deos e comçiemçia , e per 
?> mimgua deito nos tempos que ora paíFarom fe feguio 
99 mujto o comtrairo ; he bem que ajaaes em voíTo comíTe- 

Rrr ii » 111 o 

(i) cafo T. 



5*02 Chronica 

5> lho alguuns preliados que feiam naturaaes d.íles Reo-nos, 
» e nom Gallegos nem Caílellaãos , e dous homeens bvoons çi- 
99 dadaãos e emtemdidos da comarca dantre Tejo e Odiana , e 
3) da Eftremadura e comarca da Beira, e de Trás os montes , 
55 e damtre Doiro e Minho , e do Algarve , dous de cada 
35 huuma comarca ; e eftes com os do voíT) comíTeiho ajam 
55 carrego do regimento do Reino em todallas coufas que 
55 comprir : e p jdees tomar alFeemta mento em Samtarem , ou 
55 em Coimbra , ou partir o ano per ambos os hígares com 
55 as peíToas que diíTemos , e feerdes huum dia ou dous na 
55 domaa com elles em rollaçom , pcra vos dizerem o que fc- 
55 zerom e acordarom nos outros dias , e com elles livrardes 
55 todollos feitos e demamdas do Reino ; e fazemdoo defta 
55 guifa , nenhuuma coufa poderees hordenar , de que depois 
55 feiaaes prafmada. Outro íi , fenhora , fabera a voíTa merçee, 
55 que os dereitos canónicos e çivees , e iíTo meelmo as leis 
55 do Regno, defcmdem mujto , que Judeus nem Mouros nom 
55 ajam offiçios fobre os Chriftaáos ; e nom fem razom , por 
55 que forom e fom criados , cfpeçiallmente os Judeus , em ódio 
55 e defcreemça de Jefu Chrifto , cuja lei e crcemça mam- 
55 teemos ; c aíli o fezerom os Reis que amtijgamente forom 
55 em eftes Regnos , e por noíTos pecados prougue a elRei , 
55 cuja alma Deos haja, de lhe dar olliçios pubricos, em que 
55 eftava amor lielídade e fuftamçia de fua fazem Ja, fiamdof- 
5» fe delles mais que dos Chriftaáos; c porem vos pedimos 
55 por merçee , que guirdees os dereitos e leis que efto de- 
55 femdem , tiramdolhe taaes oíEçios , e nom feiam em vof- 
55 fos Regnos remdeiros , nem colhedores de nenhuuns de- 
55 reitos , n"em amdem em voíTa caía por oíHçiaaes. Aallem 
•5> defto , fenhora , por quamto nos diíTerom que voíTa teem- 
•55 çom he de corregcr os malles e danos , que os poboos do 
55 Reino ataaqui rcçeberom, e ora avemos de fazer comvofco 
» vida nova , feia voífa merçee nom feer com efte efcamdal' 
» lo que dizer queremos. Aííi he , fenhora , que huum dos 
» gramdes malles que eftes Regnos recebem, hu fado per tam- 

y» to 



SI3^ OT 



d'e l R e I d. F e r n a n d o. cõ ^ 

>í to tempo , que os fazedores delle ho nom liam ja por 
yi mal , nem fiizem dcllo comçicmçia , aííl he a pouíada- 
» ria , que os íídallgos e as outras gemtes íazem nas pou- 
» fadas alheas , hufanidcíFc dos becns e roupas que tcem per 
99 tamto tempo, que mujtas vezes fe gaílam de todo pomto , 
5> reçebemdo aquclles com que affi poufam , outros danos de 
39 maycr graveza , comtra dereito , e nom pcra dizer ; e poílo 
» que per vezes foíFe dito a elRei a que Deos perdi e, po- 
>5 fe fobrcllo fuás temperamças , que pouco ou nada prcít.rom : 
?> porem vos pedimos por merçee que mnmdecs que fe ra^ 
99 çam eftallngeens , tamtas que avomdcm , em que poiífem 
99 taaes pcíPoas , fem tomamdo nenhumia coufa comtra voom- 
99 tade de feus donos. E fe hi nem ouver quem as queira 
99 fazer, os voífos almoxarifes as façam e mamtenham , de 
» guifa que vos gaanhees e nom percaaes nada ; e fe cito 
99 fazer nom quiferdes , mamdaae que as façam e mantenham 
99 os comçelhos e logares , que o poderem fofrer. E fe aos 
3> fenhpres per vemtuira for graveza poufarem em cilas , por 
99 que o nom ham em hufo , poufem nos moefteíros , e em 
9) nos paaços dos outros fenhores , quando efteverem vazios , 
99 e fuás gemtes nas eítallageens ; e fe tam gram mal como 
53 efte emtemderdes que per efta guifa fe vedar nom pode^ 
5> bufcaae outro qual voíTa merçee for , que tarnta malldade 
»> nom dure mais tempo 5% 

CAPITULO CLXXIV. 

Da repojla que a Rainha deu aas razooes , que pellos de 

Lisboa forom ditas, 

LEixadas outras coufas e fuás repoílas , que por aquella 
hora forom alli falladas , foomente o que a Rainha a 
eílas que ouviftes refpondeo , queremos dizer , e mais nom. 
Aa primeira refpomdeo a Rainha , e diíTe : 3 > Eu bem vejo 

3J que 



siaH 01 



5*04 Chronica 

» que voiTa teemçom he boa , e que por ferviço de Deos 
» e meu e prol deftes Regiios , vos dcmovees a dizer eito ; 
» e pois me Deos deu regimento deiles, minha teençom he 
5» de tomar pêra ifto dous prellados , quaaes emtemder que 
>9 fom de melhor vida e comdiçom , que feiam naturaaes do 
3? Regno , e nom eílramgeiros ; e mais efcolher de rodailas 
» comarcas do Regno os melhores homeens que hi ouver, e 
» de melhor condiçom pêra o que dizees , e eílo com acordo 
» dos comçelhos , quamtos virem que he aguifado. Quamto 
jj perteemçe aa minha eftada , a mim nom compre amdar pel- 
3> la terra a montes e a caças , como tem em coftume de fa- 
3> zer os Reis ; mas tenho voomtade tomar aíTcílcgo nos lu- 
5j gares que diíTeítes , e neefta cidade , e defpemder meu tem- 
>5 po com meus offiçiaaes , e reger e affeíTegar o Regno em 
>9 verdadeira e dereita juftiça ; e tomarei trabalho pêra eítar 
>9 em rollaçom os dias que vir que compre, e farei que to- 
5) dálias coufas que fe ouverem de livrar , feiam vittas e 
5> acordadas per todos ou a moor parte delles. Em razom do 
» que diíTeftes dos offiçiaaes Judeus , digo vos , que minha 
ii teemçom foi fempre de os Judeus nom averem offiçios neef- 
5> tesRegnos, e trabalhei mujto em tempo delRci meu fe- 
5> nhor de os nom aver hi ; e por que em fua vida nom pui- 
» de fazello , logo como elRei morreo , tirei o thefoureiro 
3j e almoxarife da alfamdega deíla cidade , e todollos faca- 
3» dores e offiçiaaes Judeus , como bem viftes , e nom lhe em- 
» temdo tornar feus offiçios , nem lhe dar outros , nem mi- 
3» nhãs remdas , como quer que me por ellas mais dem que os 
33 Chriílaãos ; caamte quero aver perda em ellas , que as dar 
33 a elles , e hir contra dereito e boons coftumes. O que me 
33 dizees em razom das poufadarias , que bem he de fe fazerem 
33 eftallageens , em que todos poíTam poufar , digo que me praz 
33 mujto, e emtemdo que he^^^bem e ferviço de Deos, com 
35 tamto que os comçelhos façam eftallageens , em que os 
33 boons com fuás gemtes poflam poufar; mas nos lugares hu 

3) fc 

(i) he muyto T, 



d'elRei D. Fernando. 505* 

í5 fe fazer nom podem, nom fe poderia efto guardar 5>. FaJ- 
iarom emtoni mujto em eílo , e em outras coufas que dizer 
nom curamos ; des i partiromíTe pagados de fua repofta , e el- 
la comtemre do que lhe diíTerom. 

CAPITULO CLXXV. 

Como foi alçado pemdom em Lixhoa por a Rainha de 
Cajlella , e do que fobrello aveho. 



ELRei de Gaftella como foube que elRei Dom Fernamdo 
era finado, efcrepveo logo el e a Rainh^i fua moiher aa 
Rainha Dona Lionor fa madre , que fezeíTe tomar voz por 
ella , como nos trautos era comtheudo ; a qual logo ella mam- 
dou filhar a todollos comdes , e meeftres , e ricos homecns , 
que de prefemte eram , quamdo efte recado chegou ; e elles 
fezeromno aíli. E nom foomente efcrepverom elRei e a Rai- 
nha de Gaftella aa Rainha Dona Lionor que fezeíTe tomar 
voz , mas aimda mamdarom feu recado per ho arçediagoo 
de Sea , e per outros, a mujtos alcaides dos logares de Por- 
tugal , que tomaíTem voz por ella , pois era fua fenhora ; e 
taaes hi ouve que o fezerom logo , outros efcrepverom pri- 
ir.eiro aa Rainha , amte que lhe emviaíTem a repofta. A Rai- 
nha viftas fuás cartas , mamdava que tomaíTem vos por fua fi- 
lha , e que trouveíTerq huum pemdom cada huuns em feu lo- 
gar com os dereitos fignaaes de Portugal , que eram os derei- 
tos da Rainha Dona Beatriz ; cavallgamdo todos pella viila 
com aquel pemdom ,dizemdo : » Arrayal , arrayal , por a Rai- 
5? nha Dona Beatriz de Portugal , noíTa fenhora ?> : fegumdo fe 
coftuma de fazer , quando Rei morre , por feu filho herdeiro 
que leixa. E mamdava a Rainha aos ditos alcaides, que ef- 
crepveíTem a elRei de Gaftella , que lhes prazia de tomar voz 
por a Rainha Dona Beatriz fua fenhora, fegumdo eram theu- 

dos 



^o6 Chronica 

dos de o fazer , guardamdoíTe toda via o tempo da fua go- 
vernamça , fegumdo nos trautos era comchcudo; c que no fo- 
brefcripro da carta da Rainha efcrepveíTem : »» Aa Rainha Dona 
99 Beatriz de Portugal e de Caftella , noíTa fenhora ». Hora aveo 
que huum dos primçipaaes logares , em que a Rainha niani' 
dou alçar pemdom e tomar voz por fua filha, foi a cidade 
de Lixboa j e foi hordeiiado pella Rainha e fidallgos que hi 
cftavom , que huum dia certo cavallgaíTem todos, e o trou- 
veíTem pella vi Ha. Os da cidade quamdo eíl:o ouvirom , nom 
lhes foi mais faberem que aviam dapregoar arrayal por a Rai- 
nha de Caílella fua fenhora, ca ouvirem que os aviam todos 
de lamçar