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Full text of "De Angola á contra-costa; descripção de uma viagem atravez do continente africano .."



DE ANGOLA 



Á CONTRA-COSTA 



cav< 



DE ANGOLA 

Á CONTRA- COSTA 

DESCKIPÇiO DE EMA VIAGEM 

ATEAYEZ DO 

CONTINENTE AFRICANO 



COMPREHEXDEXDO 

NARRATIVAS DIVERSAS, AVENTURAS E IMPORTANTES DESCOBERTAS 

EXT RE AS QUAES FIGURAM A DAS ORIGEXS DO EU AL ABA, 

CAMIXHO EXTRE AS DUAS COSTAS, 

VISITA ÁS TERRAS DA GARAXGAXJA, EATAXGA 

E AO CURSO DO LUAPULA. 

BEM COMO A DESCIDA DO ZAMBEZE, DO CHOA AO OCEAXO 

POR 

H. CAPELLO-R. IVENS 

Officiaes da Arruada Real Portugueza 

EDIÇÃO ILLUSTRADA COM MAPPAS E GEATURA5 



Volume I 


LISBOA 

MPRENSA NACIONAL 

1866 



SEP 10W6 

4/g>fA&lt§ 



SUA MAGESTADE EL-REI 



O SENHOR 



BOM LUIZ I 



COM ESPECIAL PERMISSÃO 



RESPEITOSAMENTE DEDICAM ESTE LIVRO 



C/s cuido: «a. 



AO 



POVO PORTUGUEZ 



VINCULAM N'ESTA PAGINA OS AUCTORES A MARCA INDELÉVEL 
DO SEU PROFUNDO RECONHECIMENTO 



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR 



MANUEL PINHEIRO CHAGAS 



MINISTRO DESTADO HONORÁRIO 



A QUEM DEVEM O TER SIDO NOMEADOS PARA TÃO ELEVADO CARGO 

E A EXPEDIÇÃO O SEU BOM ÊXITO 

PELO DECIDIDO INTERESSE COM QUE A PROTEGEU 



CONSAGRAM ESTA PAGINA 



a 



auctota. 



RELAÇÃO DOS INDIVÍDUOS PERDIDOS 


DURANTE A EXPE 


DIÇÃO AO INTERIOR DE AFRICA 


1884-1885 




Nome e naturalidade 


Qualidade da perda 


Logar 
em que se effectuou 


1 


Graranganja, chefe. . . . 


Fugido 


No Croque. 


2 


Cacheque 


Preso para a fortaleza 
de S. Miguel. 


Em Loanda. 


3 


Caioqueza (Mucelli).. . 


Morto de fadiga na fuga 


No Croque. 


4 


Cha-note (Mucelli).. . . 


Morto de fadiga na fuga 


No Croque. 


õ 


Dezesete homens 


Fugidos em massa. . . . 


No Croque. 


6 


Quiari-Ocamba 


Morto de congestão pul- 
monar, por ter caído 
aos rápidos do rio. 


No Croque. 


7 


Gonga 


Morto de tisica 


Em Mossamedes. 


8 


Capenda 


Fugido 


Na Huilla. 


9 


N'Gombo (Cabinda).. . 


Perdido (alienação). . . 


Na Huilla. 


10 


Nambero 


Perdido com carga de 
missanga. 


Chimpiunpunhime . 


11 


Samba (Ganguella) . . . 


Fugido com um fardo 
de riscado. 


No rio Iquebo. 


12 


Chiteta (G-anguella).. . 


Fugido com um fardo 
de fazendas. 


No rio Iquebo. 


13 


Sandéra (Ganguella). . 


Fugido com um fardo 
de algodão. 


No rio Iquebo. 


14 


Mabanda (Ganguella) . 


Fugido com o bote. . . . 


No rio Iquebo. 


lõ 


F. (G-anguella) 


Fugido com o bote. . . . 


No rio Iquebo. 


16 


Guenjo (Ganguella). . . 


Fugido do libambo. . . . 


No rio Iquebo. 


17 


Chandalla 


Fugido do libambo pela 
segunda vez. 


No rio Iquebo. 


18 


F. (Ganguella) 


Fugido do libambo pela 
segunda vez. 


No rio Iquebo. 


19 


Chico (Quinbare) 


Morto de pneumonia. . 


No rio Cuatir. 


20 


Catinga (Lunda) 


Perdido, morto de fome 


No rio Cuatir. 


21 


Somma (Nano) 


Perdido, morto (?)•••• 


No rio Cueio. 


22 


Quinhangana (menor) . 


Morto de pneumonia. . 


No rio Iquebo. 


23 


Bumba 


Morto de dysenteria (?) 


Em Mossamedes. 


24 


Chico 


No hospital 


Em Mossamedes. 



XII 



Relação dos indivíduos perdidos 



Nome e naturalidade 



25 
26 

27 

28 

29 

30 
31 
32 
33 
34 
35 
36 
37 
38 
39 

40 

41 

4i> 
43 

44 

45 

46 
47 

48 

4 ( .t 
50 
51 
52 



Quizenduca 

Jirnbi 

Uamo (Moisumbi) .... 

Benedicto (Mossame- 

des). 
Caxinda (Loballe) . . . 

F. (menor) 

F 

Chiâlla 

Joaquim 

F 

Quilumbo (mulher). . . 

Cahombo 

Jamba 

Bacaiã 

Cha-Cassenda 

Quibanda 

Chico 

Quipeio (mulher) .... 
Catumbo 

Cachipia 

Calei 

Domingos 

Manico 

Fé-Camane 

Caminho 

Humbo (?) 

N'gulo 

Quinbanda 

F 



Qualidade da perda 



Desertou com fome. . . 

Desertou com fome. . . 

Desertou com um cu- 
nhete. 

Morto de epylepsia e 
queda no fogo. 

Morto de tremores ner- 
vosos e idiotismo. 

Morto de enterite 

Morto de anemia 

Morto de fadiga 

Fugido 

Abandonado, morto (?) 

Evadida 

Evadido 

Evadido, morto (?). . . . 

Perdido, morto (?) 

Morto de fadiga 

Morto de fadiga 

Perdido, morto de fa- 
diga (?). 

Evadida 

Morto de fadiga, ane- 
mia e meningite. 

Morto de fadiga, ane- 
mia e meningite. 

Evadido, morto (?)•••• 

Evadido 

Edema e fadiga, morto 

Extraviado com a mala 
dos instrumentos. 

Morto de meningite e 
fadiga. 

Morto de meningite e 
anemia. 

Extraviado, morto (?) 
no mato. 

Morto (?) (bobas) 

Morto de tisica 



Logar 
em que se effectuou 



No rio Luatuta. 
No rio Luatuta. 
Adiante do Luata- 

ta. 
Muene Chindoma. 

Soana Quifoaco. 

No rio Ninda. 
No rio Ninda. 
No rio Cabompo. 
No rio Cabompo. 
No rio Cabompo. 
Muene Caheta. 
Muene Furumana. 
Muene Furumana. 
No rio Mumbeje. 
No rio amuente do 

Luengue. 
No Lu ai aba. 
No Lualaba. 

Muene C anhinga. 
No rio Muana. 

Cha-Malundo. 

Cha-Malundo. 
Cha-Malundo. 
Cha-Malundo. 
Cha-Malundo. 

No Quinguebe. 

No Quinguebe. 

No rio Moachi. 

No rio Chòa. 
Table bay. 



ÍNDICE DAS GRAVURAS 



Pag 

A bordo do paquete 61 

Rapariga Celli 69 

Homem do Nano 73 

Bois-cavallos 85 

Rapaz Coroca (de face) 89 

Rapaz Coroca (de perfil) 93 

Homem Coroca (de face) 97 

Homem Coroca (de perfil) 101 

Fuga de pretos 109 

Um enorme leão approximou-se 129 

Morro Clia-Malundo , 132 

Subindo a encosta 137 

Bambi 144 

Cascata da Huilla opp. a 148 

Um carro de boers 161 

Typo mu-nhaneca lupollo 169 

Senzalla em Quipungo 177 

Os elephantes 185 

Mulheres ban-dimba 193 

Rapariga mun-dimba 197 

Mulher mun-dimba : 201 

Soltando um latido, desapparece 205 

Mulher do Humbe 208 

Hyphoene guinensis 213 

Homem do Humbe 221 

Typos bana-cutuba 225 

Homem do Humbe 229 



xiv índice das gravuras 

Pag. 

As girafas 242 

Mpala (macho) 249 

Mulher da Handa 253 

A steatopygia numa hottentote opp. a 254 

Nas margens do Cueio 265 

Mulher amboella do Cubango 269 

Homem amboella do Cubango 273 

Cabeça de gunga (Eland) 280 

Passagem do Cuatir 289 

Boi do mato 297 

Habitações do Cuito 305 

Natural da Donga 313 

Indigena Ribeirinho do Cuito 321 

Escorregando no lameiro 333 

Typo cam-bunda 337 

Tão grande era a abundância e variedade de animaes opp. a 338 

Capadji (cabra dos pântanos) 341 

Peixe do rio Conjumbia 345 

Muene Caluri 349 

Indigena iáuma 357 

A zebra 365 

E perseguindo uma recua de zebras, fere duas opp. a 368 

Cabeça de palanca 373 

Homem do Lobale 377 

Mupei 385 

Antílope Caama 389 

Indigena do Genji 397 

Mulheres ba-runda 405 

Cabeça de harrisbuck 409 

Typo ca-rótze 413 

Phacochoerus afr 417 

António empoleirado 425 

Mulher amboella 429 

Homem amboella 433 

Quissema iEgoceros ellipsiprimnus (fêmea) 437 

Quissema iEgoceros ellipsiprimnus (macho) 441 

Narguilé gentílico 448 

Mappas (quatro). 



índice dos capítulos 



ESBOÇO HISTÓRICO Pag. 1 a 20 

O CONGO Pag. 21 a 37 

HISTORIA POLITICA DO CONGO Pag. 39 a 57 

CAPITULO I 
NA COSTA OESTE 



Em Angola — Aspecto do cordão litoral e sua vegetação — Terras do interior — Entre 
Cuanza e Bengo, quadro triste — Problemas que nos propúnhamos — Material e pes- 
soal — Considerações — Aj-tigos da expedição — Francisco Ferreira do Amaral — 
Uma noticia histórica — Salvador Correia e a conquista de Loanda — Fortalezas e 
edifícios públicos — Os jardins, os muceques, a vegetação, a salubridade e a ilha — 
Os muxi-loandas e a sua opinião aristocrática — Rendimentos e governo — Tribunaes 
judiciaes — Considerações sobre os deportados e colónias penaes Pag. 59 a 81 



CAPITULO II 
PRIMEIROS PASSOS 



O companheiro negro e a sua ingratidão — A corveta Rainha de Portugal e a abalada — 
Porto Pinda — Os areaes e a primeira noite — Ponto de partida e rasões de sua es- 
colha — O homem põe e Deus dispõe — A primeira marcha e o aspecto do terreno — 
Caracteres geológicos — Os habitantes do Coroca e o dique dental — Numeração — 
Dos trajes e mulheres — O adultério e os funeraes — O boi preto e a circumcisão — 
Terrores gentilicos — Vegetação do Coroca — Fauna ornithologica — Fuga de qua- 
renta e dois homens Pag. 83 a 10G 



xvi Índice dos capitulas 



CAPITULO III 
NA REGIÃO LITORAL 



Mossamedes — Breve noticia sobre a historiada sua fundação — Clima, constituição geo- 
lógica e vegetação — Tribus indígenas — Habitações — Uma marcha vertiginosa — 
Cincoenta e quatro milhas em vinte e cinco horas — Uma necessária refeição e o 
encontro dos fugitivos — De novo no rio Coroca — Noticia sobre este — Suas mar- 
gens — Fadiga da marcha — Uma cheia — A solidão e os animaes silvestres — Re- 
gresso a Mossamedes — Partida definitiva para o sertão — A geologia e os odres — 
O primeiro bao-bab — A aridez do paiz e recuas de zebras — A couag-gha? — De- 
pósitos de agua — Pedra Pequena — Pedras Grande e Maior — Nestor, o caçador de 
leões — Uma morte ridícula e uma visita inesperada — A agricultura no districto e 
a villa de Capangombe — A fortaleza e duas considerações geológicas. . . Pag. 107 a 133 



CAPITULO IV 
CHELLA ARRIBA 



zona litoral e o planalto — O vento sueste e as accumulações de vapor — As portellas 
do Bruço, de Calleba e da Banja — A serra da Chella e as convulsões geológicas ali 

— Antigo aspecto d'esta — A escalada e a vegetação — São 1:829 metros — Pano- 
rama — O terreno, a caça e duas considerações sobre a distribuição zoológica dos 
animaes em Africa — A cobra e o carneiro do Nano — Historias indígenas — Pbeno- 
meno atmospherico notável — A Huilla — Sua salubridade e vegetação — Importân- 
cia agrícola — Plantas úteis — A propaganda e os geographos — Aviação accelerarla 

— Directriz media da linha a estabelecer para o interior — Vantagens d'esta — Colo- 
nisação e considerações sobre ella — Zonas mortíferas Pag. 135 a 158 



CAPITULO V 
NA HUILLA 



Coincidência feliz — António Carlos Maria, o companheiro caçador — O acampamento 
e o soba da Huilla — A feitiçaria — Suas relações com os régulos — A habitação do 
feiticeiro e os instrumentos do officio — Processo de adivinhação — Uma scenapela 
noite — A missão da Huilla e os missionários — Duparquet e a sua obra — Partida 
para Quipungo — As florestas e o pássaro cabra — A fauna da Huilla e as penedias 
de leste — Os ba-nhaneca e os dentistas — Effeitos do tiro entre africanos — A habi- 
tação do soba de Quipungo — Visita ao regulo — Um companheiro apeado e o re- 
gresso pelo sul — Casulo estranho — Considerações. Pag. 159 a 182 



índice cl<>* capitulo* xvn 



CAPITULO VI 
AO SUL 



Consolações de quem viaja — A abalada da Huilla— Uma fuga e o abandono das camas 
— o Chimpumpunhime — O caminho dos Gambos e os espinheiros — O Tongo-tongo 
ou o morro sagrado — Os dias n'esta terra — As florestas e a fauna — Os ban-dimba 
e a sua voracidade — Vestimentas e proceder para com os mortos — Considerações e 
a festa da bela — Iorocuto e uma erupção granítica — Cahama e Xicusse — A mesa 
e suas consolações — Quatro elephantes e a fauna omithologica — O crocodilo e a 
pomba — A floresta que termina — Os ba-cancalla ou bushmen; duas palavras a res- 
peito d'elles — Tatouage, armas envenenadas — Seu caracter — O Humbe e a caça 
considerada pelos ban-cumbi Pag- 183 a 210 



CAPITULO VII 
ENTRE 08 BAN-KUMBI 



O Humbe — Sua posição — Quadro histórico — Os ban-kumbi e os seus costumes — Habi- 
tações e typo — O liamba — Homens e mulheres, seus trabalhos — Chronologia e fes- 
tas — Foneraes— Missões catbolicas — Os bana-cutuba e o Cuanhama — Proezas de 
Xampandi — Riqueza dos cuanhamas e um aperçu geológico — O ronco do leão im- 
pressionando no mtmdo animado — O cacimbo e.as considerações — O Cunene e o 
alagamento marginal — Mupei encontra a mãe — A caonha e o processo da vaccina 
— Os reptis e a vegetação — Zero de graus e a impressão consequente — Um almoço 
de couro Pag. 211 a 231 



CAPITULO vni 

ENTRE CUNENE E CUBANGO 



A reluctancia dos guias e o recurso dos bois — A fome e um quadro do sertão — Disposi- 
ção geológica das terras percorridas — Rochas vulcânicas e minas — A vegetação, o\ 
frio e os lobos — Cobra original — A caça e as pegadas do elephante — A noite e o 
charivari das feras — As matas da Handa — Cachira — Os povoadores d'ali — As mu- 
pandas e aterra sem pedras — A cabra que assobia e os butlimen — A steatopygia — 
A natureza do solo; conversa com um indígena — Os ba-cua-neitunta — Exageros 
gentílicos — O leão e os mabecos — Os macacos e o armadilho — O Cubango — Consi- 
derações sobre o seu curso Pag. 239 a 202 



xviii índice dos capítulos 



CAPITULO IX 
O EIO CUBANGO 



Sete annos depois — O caminho de Moçambique e as caras volvidas ao sul — Muene Ca- 
tiba e a mandioca — Entre os amboellas — A confluência do Cutchi e a doença de 
Muene Mionga — Um trabalho photographico interrompido — Scenas de feitiçaria — 
Tribunaes africanos e uma anecdota sobre o caso — Os ma-chaca — -O rio Cuebe — 
Súbitas deserções e uma noite de angustia — Philosophicas considerações que um 
funeral remata — O rio Cueio e os atoleiros que o marginam — Frios, sedes e fomes 

— O rio Cuatir — Natureza do solo e os pântanos intransponíveis — Aldeias lacustres 

— Ainda um atoleiro e a pobreza das plantações — Um chefe mais humano e a morte 
de um companheiro — A fome — Duas considerações sobre a geologia africana — 
Adeus Cubango Pag. 263 a 2 



CAPITULO X 
A CAMINHO DO ZAMBEZE 



As poéticas impressões da chegada e a consequente desillusão — Soffriínentos que nos 
aguardam — Ainda o Cuatir e a perda de um homem — O rio Luatuta é como o Cua- 
tir — Libatas miseráveis e a situação dos nossos — A caravana torna-se nimbando 
de salteadores — Visita de grupo singular — A mulher soba e a penúria de viveres — 
Considerações e ingenuidade sem igual — A partida e a fuga de dois homens — O 
Longa e a fuga de um outro — Continuam o deserto e as zonas areosas — As mupan- 
das e a altitude — Pouca caça e o rio M'palina — Um acampamento cannibalesco — 
Os caçadores de ratos — Subsiste a fome — Mupei, o esposo infeliz — Curiosidade dos 
man-bunda — Os bois-cavallos e as suas vantagens em viagem — Effeitos de miragem 
e um animal como o gnú — O Cuito e sua noticia Pag. 287 a 309 



CAPITULO XI 
ACERCA DO NEGRO 



O indígena africano — Similhança de caracteres, difficuldade em descriminar typos e fa- 
mílias de origem commum — Traços característicos do negro — Aspecto geral — In- 
dicações scientificas sobre a conformação craneana — O europeu e o ethiope enca- 
rado pelo lado esthetico — Os hamitas e a philanthropia — Uniformidade de ser, sob 
o ponto de vista intellectual — Feitiços — O Otjiruro, os Sanais e o Zambi— Super- 
stições e o terror pelos mortos — Difficil comprehensão — Dados cosmogonicos indí- 
genas — O sentimento moral e as lendas — Diffículdades de estudo — A lingua e os 



Índice dos capítulos xix 

costumes — Traços approximativos de tribus distantes — Dámaras, ban-eumbi, ba- 
cuatir, bayeye, ban-dirico, etc. — Enterramento dos defuntos e pratica da circumei- 
são— Ba-yeye, namácuas e ba-coróca, suas habitações — Os ba-vico os ba-visa e os 
clicks — Tendência nómada — Os ba-cuanaiba e a Cafima — A emigração e a influen- 
cia do pântano — Os ma-tchona e os dámaras — Tribus que originaram — Os ba-nha- 
neca e os ban-cumbi exceptuados — Os dámaras e ainda uma tentativa para atinar 
com a sua proveniência — Opinião de Anderson — A arvore progenitora — Conclu- 
são Pag. 311 a 329 



CAPITULO XII 
LODAÇAES E LAGOAS 



Adeus Cuito — A carne e amorosidade das marchas — Os ba-cuito e os ma-côa — Planu- 
ras monótonas e phenomenos de miragem — Libatas lacustres e timidez dos indíge- 
nas — O bijou africano e um tombo inopinado — Artigos de alimentação e trajo dos 
ba-cuito — A Adenota léchee? — As planuras e a caça— O hopo — Um homem perdido 
— A cobra da areia e as florestas do Conjumbia — Mam-bunda, trajos, funeraes dos 
sobas — Um homem abandonado — As meningites cerebro-rachidianas — O muchito 
de Cajimballe e os elephantes — A terra do Cubango ao Zambeze, e as difficuldades 
do transito — Considerações amargas — O cyclone de 18 de agosto — Modo de attra- 
hir as gazellas pelo som — Muene Quitiaba e os ba-iauma — Os guias e o alagamento 

— Critica posição dos chefes e da caravana entre o arundn das margens do Cuando 

— O rio irá ao Zambeze? — Com o apparecimento do milho esquecem-se as fadigas 

— O rio Cuti e o trilho commercial do Bié — A bacia do Congo e a do Zambeze — 
Considerações consequentes — O paiz é park-like Pag. 331 a 354 



CAPITULO XIII 
XO YALLE DE BARÓTZE 



A lua de agosto e os nossos receios — Idéa geral sobre a distribuição das chuvas na Africa 
tropical do sul — O cloud-ring e o seu movimento para o meio dia — Retardamento 
na mai-cha pelo oriente —O limite sul e as quatro estações — As marchas do Cuti e 
Muene Lionze — Os acampamentos de Silva Porto — Os man-bunda e o elephante — 
Curiosidades — O Ninda e uma sepultura — Aspecto pittoresco do valle — O ôco e o 
seu aroma — A caça e um óbito — Perda de companheiro — Gnú, cabra e n'caca — ■ 
O silencio da noite — Calungo-lungo e os luinas — Typo d'estes, e pouca importância 
das entrevistas africanas — O paiz é um parque; abundância dos animaes n'elle — 
Os cães e seu préstimo na caça do gnú — O alagamento crescente da terra — Ausên- 
cia do tabaco e presença da palmeira — Guia feiticeiro e adivinhação inesperada — 
Os ba-nhengo ladrões — Muene Munda e os seus dotes physicos — Um capote de in- 
testinos de elephante — A musica e um baile de doze horas — Impressão produzida 
pelas beldades da terra nos auetores d'estas linhas — A caça e a quadra da creação 
— O acampamento pela noite — Multiplicam-se as lagoas — A expedição emfim at- 
tinge o Zambeze Pag. 355 a 381 



xx índice dos capítulos 



CAPITULO XIV 
LIBONTA 



Territórios atravessados e outros a percorrer — Q que havia para alem do Zambeze — 
A nossa curiosidade e o que se pensa sobre a Africa — O que é a final o interior do 
continente — As planuras zambezeanas — A verdade sobre ellas— Difficuldades, ven- 
tos e temperatura — É uma d'essas regiões de que falia Stanley e onde Livingstone 
pereceu — Contraste compensador nas scenas de caça — Opiniões de Livingstone e 
nossos juizos antecipados — Abundância de antílopes e o hopo — Libonta — A vege- 
tação ao tempo d'aquelle viajante e agora — Seu aspecto — A terra em redor — Mu- 
cobessa e os habitadores do Genji — Seus trajos e porte das mulheres — Uso imnio- 
derado do rapé e o lenço dos luinas — Profundo abatimento physieo da gente da 
expedição — Dia 13 de setembro — As moscas de Libonta — Caçada ás rolas — Or- 
nithologia do Zambeze — Considerações geraes sobre o valle de Barótze e trilhos (pie 
ali conduzem Pag- 383 a 



CAPITULO XV 
DE LIBONTA AO CABOMPO 



gramma de viagem — A nossa satisfação e o susto que dominava os carregadores — 
Rasões d'esse facto — Meios de querer iinpedil-o — O Liambae e o Cambae — Os ma- 
róze, habitações e trajo — Decepções e roubos curiosos — Inopinada noticia sobre o 
apparecimento da mosca — Palancas, léchees e um leão — A Hyphcene veritricosa e o 
papyrus — Encontro com a tzé-tzé, — Duas quissemas, um Félix jubata e um songo — 
De novo na floresta, vantagens do apparecimento d'esta — Os ataques do leão e as 
nossas ordens por tal motivo — Nos limites do estado da Lunda — O Muata Ianvo e 
o seu prestigio — A liberdade do negro e duas considerações a respeito d'elle — A 
maior das victimas, a mulher — Afastamento d'esta de todos os negociose recepções, 
e condição social do selvagem de hoje — Mantimentos á farta e satisfação conse- 
quente — O typo ca-runda e o ca-róze — Informações sobre o Cabompo e effeito das 
palavras de Muene Chilembi — Os mangoia e o receio da mosca — Pretensão inespe- 
rada de um bando de salteadores — Um dilemma para ponderar — Tentativa de fuga 
de um carregador e o rio Cabompo Pag'- 403 a 42 1 



CAPITULO XVI 
FERA NATURA 

Considerações tristes — O deserto e o silencio — O Cabompo e a noite — O elephante e o 
arvoredo — Limite ao terreno silicioso — Primeiras rochas — A floresta e os animaes 
silvestres — Perda de um companheiro — Homem e cão mortos — Dois elephantes — 
O somno da girafa e óbito de outro homem — Fuga de um carregador — Morte de 
mais um cão — Individuo perdido no bosque — O rhinoceronte curioso e os crocodi- 
los do Cabompo — Os destroços do leão — Vam-Boôé — O leão e uma noite de poleiro 
— Beiços furados è seios pendentes — A primeira tempestade Pag. 423 a 448 



PREFACIO 



Desde a publicação do nosso trabalho denominado 
De Benguella ás terras de lácca, em 1881, não tivemos 
a satisfação de ver livros, nem mappas ou outros im- 
pressos de ordem qualquer, que muito adiantassem 
os conhecimentos africanos do mundo geograpliico da 
Europa. 

Omittiremos, é claro, os esforços relativos á abertura 
do Congo, nos quaes aliás se comprehendem labores 
interessantes, mas que, pelo seu caracter essencial- 
mente pratico, executados n'uma região em grande 
parte conhecida, não devem aqui encorporar-se. 

O livro hoje submettido ao publico encerra a histo- 
ria de uma peregrinação, modelada passo a passo nos 
apontamentos do respectivo diário; e embora não tenha 
a jactância de descrever cousas fora do vulgar, nem 
por isso deixa de longe em longe transluzir a íntima 



xxii Prefacio 

convicção de que algum merecimento teve quanto em 
Africa fizemos. 

Os resultados joraticos que d'ella possam advir não 
compete a nós aprecial-os, pois em geral o homem que 
considera e mais tarde attenta na própria obra, é quem 
d'ella menos se satisfaz; não nos é aprazível, porém, 
suppor que o facto de percorrermos com cuidado 4:500 
milhas de terreno sobre as zonas que mais nos pare- 
ciam próprias se não necessárias de visita, deixe de li- 
sonjear o espirito dos africanistas, ou escape desaper- 
cebido, embora pouco luminoso, nas ignotas e escuras 
manchas da Africa selvagem. 

E mesmo muito provável que a parte do nosso tra- 
balho do Zambeze para o oriente apresente alguma 
cousa de importante, por ser feito em um novo cami- 
nho (o mais curto e melhor talvez), por onde a civili- 
sação e o commercio da costa occiclental podem facil- 
mente attingir a região dos lagos. 

O aspecto árido e inhospito do grande continente, 
o barbarismo dos seus habitantes, os horrores da vida 
selvagem, que outr'ora emmolduravam as idéas sobre 
aquella terra estranha, constituem notas que começam 
a apagar-se no meio do concerto das acclamações vo- 
tadas a quem se empenha na clifficil empreza de lhe 
desvendar os mysterios, são factos que impressionam 
ao presente, um pouco á similhança de quando, apoz 
phantastico sonho, se passa a positiva realidade. 

Hoje já ninguém vê na Africa senão um dos vastos 
quarteirões do mundo, tão próprio á vida como qual- 



Prefacio xxm 

quer cios outros conhecidos, tão digno de desvelo como 
o mais rico dos supracitados, amplo campo de afan 
commercial, cuja primeira base de segura civilisação 
cumpre ou antes é dever do europeu explorar, não só 
no interesse dos seus habitadores, como em proveito 
do trafego commum; emfim, de esquecido e occulto 
que foi, tornar-se-ha dentro em pouco opulento, cubi- 
çavel e assas visitado, transformando-se n'um grande 
centro de consumo para todo o excesso da nossa pro- 
ducção. 

Longe vae a epocha dos terrores que esse Sahara 
originou, como barreira intransponível á curiosidade, 
em que a Abyssinia era por assim dizer um sonho, 
Timbuctu um mysterio, as nascentes do Nilo um pesa- 
delo. 

De vagar se proseguiu, é verdade; não foi porém 
nossa a culpa, ou porque o homem, no irresistível Ím- 
peto de tudo subordinar no planeta terrestre ao domí- 
nio do seu querer, esquecesse esse immenso continente 
que próximo lhe ficava; mas sim proveiu do súbito ap- 
parecimento do outro campo de exploração — a Ame- 
rica, cheio de riquezas e em superiores termos de uti- 
lisar-se, mais consentânea a ser tratada pelos meios de 
que dispúnhamos, a navegação, ligando-se a Europa 
finalmente jDela melhor das estradas — o mar! 

A America deve contar-se como um dos factores que 
muito influíram para a demora na civilisação do conti- 
nente negro, por absorver ahi durante séculos todos 
os esforços da Europa, e, estendendo-se de um ao 



xxiv Prefacio 

outro polo, cingir nos dois hemispherios zonas variá- 
veis, entre as quaes se contavam algumas de tropical 
caracter, onde só o preto podia trabalhar com o pre- 
ciso animo. 

E o branco, procurando introduzil-o alii, teve de o 
buscar e perseguir em Africa, implantando com egois- 
mo n'aquella terra infeliz o maior dos flagellos, e pon- 
do-lhe o mais serio obstáculo ao humano progresso — 
a escravatura. 

Agora, que da America já não trata, arrependido pe- 
nitenceia-se contricto, posto que interessado, e d'esse 
interesse despontou a aurora da liberdade em Africa e 
vae breve raiar com todo o esplendor o sol da sua 
felicidade. 

Continue pois a boa vontade no trabalho, saiba o 
capital aproveitar-se do muito já feito, eis os nossos 
votos, convencidos de que mais duas dúzias de annos 
bastarão para transformar radicalmente as cousas no 
extenso continente. 

Concluidas estas considerações, benévolo leitor, res- 
ta-nos a tarefa pouco fácil, embora menos escabrosa 
que uma travessia, de pegar-vos pela mão, e condu- 
zir-vos passo a passo n'essa tortuosa vereda por nós 
trilhada, desde Angola até Moçambique; de vos guiar 
por meio de serras e planuras, pântanos e desertos; 
de patentear-vos emfim todos os soífrimentos, fadi- 
gas, fomes, chuvas, angustias e mortes que nos ser- 
viram de lúgubre cortejo desde o mar Atlântico até ao 
Indico ! 



Prefacio xxv 

Não conteis com uma muito attrahente companhia, 
porque é sempre um pouco rude o convívio do explo- 
rador, mas em paga ser-vos-ha agradável a certeza de 
que encontraes aqui a inteira verdade e o muito firme 
propósito de vos prestar um serviço que cremos sem 
duvida útil. 

Sendo hoje o desejo de tudo conhecer e averiguar 
a feição predominante do século, no qual a ignorân- 
cia é uma prova de fraqueza, estamos certos de que, 
abrindo nova faxa do continente negro á comprehen- 
são de nacionaes e estrangeiros, e tentando na pre- 
sente narrativa registar quanto ali vimos de mais im- 
portante, teremos jus á maior das recompensas, a de 
bem merecermos dos que se interessam pelo progresso cia 
humanidade. 

Antes de nos adiantarmos, porém, pelas paginas que 
vão seguir-se, cumpre-nos em duas linhas exprimir o 
nosso reconhecimento ás provas de elevada conside- 
ração com que nos honraram ao regressar. 

Não podendo seguramente fazer o que desejávamos, 
isto é, especificar aqui todos esses factos, para nós de 
tão grata memoria, limitar-nos-hemos a registar quan- 
to nos interessa, recebam e comprehendam n'este sin- 
gelo tributo uma prova do alto apreço que nos me- 
recem. 

A Suas Magestades El-Rei e a Rainha, e toda a 
Real Familia, pelos altos favores e distincções que nos 
dispensaram, respeitosamente aqui traçámos a expres- 
são do nosso profundo reconhecimento. 



xx vi Prefacio 

A Sua Magestade o Imperador do Brazil e á Au- 
gusta Princeza sua filha, e a Sua Magestade a Rainha 
regente de Hespanha, a homenagem de respeito, pelas 
provas de deferência que se dignaram conceder-nos* 

A Sociedade de Geographia de Lisboa, e particu- 
larmente ao seu presidente António Augusto de Aguiar 
e secretario Luciano Cordeiro, cumpre-nos em espe- 
cial assignalar um extremo reconhecimento, pela bri- 
lhante recepção que nos preparou como recompensa 
ao êxito das nossas lides exploradoras, conferindo-nos 
ainda a sua medalha de oiro. 

Seguem-se as Associações Commerciaes de Lisboa 
e do Porto, o Atheneu Commercial da mesma cidade 
e a Sociedade de Geographia Commercial, assim como 
a Sociedade Geograj)hica de Paris, que, offerecendo- 
nos espontaneamente medalhas de oiro e diplomas de 
seus membros honorários, nos consentiram figurar ao 
lado de tantos homens distinctos, cuja auctoridade é 
na sciencia e no trabalho um esteio para idéas gene- 
rosas e incentivo para novos commettimentos. 

As populações e auctoridades de Lisboa, de Porto, 
de Coimbra, do Funchal, da Praia, de Loanda e da 
ilha de S. Vicente, á corporação da Armada Real Por- 
tugueza, a que temos a honra de pertencer, e á juven- 
tude Académica de Coimbra, aqui lavramos um affe- 
ctuoso protesto de gratidão. 

As Sociedades de Geographia de Madrid, de Roma 
e do México, pelos diplomas conferidos, ao Centro Mi- 
litar d'aquella cidade, e especialmente a s. ex. a o sr. 



Prefacio xxvn 

Moret, o testemunho de muita sympathia, bem como 
ás sociedades e associações estrangeiras, e a tantos 
cavalheiros illustres que nos significaram, pela sua li- 
sonjeira apreciação, o quanto valiam os serviços que 
acabávamos de prestar, como são o nosso particular 
amigo o ex. mo sr. Francisco Joaquim da Costa e Silva, 
director geral do ultramar, e ainda aos cavalheiros 
do Cabo da Boa Esperança e ao prime minister Upin- 
gton, d" aqui enviamos a nimia expressão do sentimento 
que nos domina. 

Muito particularmente reservamos uma especial re- 
cordação ás terras da nossa naturalidade, pelas subidas 
demonstrações com que nos honraram, bem como aos 
nossos compatriotas no Brazil, e em especial áquelles 
que nos distinguiram com um precioso volume conten- 
do as suas assignaturas, e outros com pennas de oiro. 
enviámos a nimia expressão do nosso grato sentir. 

As Camarás Municipaes do paiz e das colónias, aos 
Clubs que nos honraram com esj^eciaes saudações e 
diplomas, á imprensa periódica que tão delicada e li- 
sonjeiramente apreciou os nossos trabalhos, e a quan- 
tos, enrfhn, possam involuntariamente ser olvidados, 
urn sincero agradecimento. 

E por ultimo cabe-nos aqui vincular o nosso reco- 
nhecimento á administração geral da Imprensa Nacio- 
nal, aos srs. revisores, compositores e estampadores, 
pelo interesse e decidido apoio que nos dispensaram, 
e sem o qual este livro tarde appareceria a publico. 

Lisboa, 30 de setembro de 1886. 



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ESBOÇO HISTÓRICO 



E julgareis qual é mais excellente, 
Se ser do mundo rei, se de tal gente. 
Camões, Lusíadas, canto i. 

L'Afrique intérieure a été découverte et parcou- 
rue par les portugais au xvi e sièele... Les portu- 
gais de cette époque connaissaient mieux 1'intérietir 
de ce continent, la région des lacs, etc, qu'on ne la 
connait aujourd'hui. . . Livingstone a donc retrouvé 
seulement ce que les anciens portugais avaient dé- 
couvert, et encore il sVst servi de renseignements 
portugais sans avoir la loyauté de le dire. 

L'abbk Dorand, de la Société de Géographie 
de Paris, lettre du 1G septembre 1880. 



As tentativas feitas pelos portuguezes para devas- 
sar a Africa e transpor aquelle continente, ligando a 
província de Angola á de Moçambique, são de bem 
velha data. 

Se fôramos escavar no pó das bibliothecas os livros 
e documentos que de similhante assumpto tratam, e 
folheando antigas chronicas transcrevêssemos os capí- 
tulos que lhes dizem respeito, veríamos que volumes 
eram necessários para desenrolar similhante questão, 
que, por vezes estreitamente ligada ás proezas pelos 
nossos antecessores praticadas no oriente, nos levaria 
á narrativa das nossas brilhantes tradições, á exposi- 
ção d'essa epopéa sem igual, de que deixámos o vin- 
culo em gloriosos padrões por todo o globo. 



2 De Angola á contra-costa 

Como, porém, não é nosso intuito demonstrar mais 
uma vez, o que de resto toda a humanidade conhece, 
ser Portugal uma nação que se ufana de com o seu 
génio e com o braço dos seus conquistadores ter tra- 
çado as mais brilhantes paginas dos annaes da civili- 
sação, e se orgulha de ter primeiro que nenhum outro 
povo plantado a cruz e a bandeira nos mais remotos 
confins da terra, deixaremos em socego as velhas chro- 
nicas, para evitar digressões, não abandonando no em- 
tanto a instrucção histórica, pela qual vamos passar 
com a rapidez possível. 

No começo do xv século Portugal, após as gran- 
des convulsões peninsulares, enceta com a tomada de 
Ceuta a grande tarefa de devassar o Negro Continen- 
te. E ali que D. Henrique, o infante sábio e principal 
heroe d'esse assombroso feito de armas, em contacto 
com o torrão africano, e ouvindo as maravilhosas 
narrativas que Edrisi, natural d'essa chave do estrei- 
to, conta do interior, mais uma vez concerta o plano, 
já formulado, de procurar pôr-se em relações com o 
mysterioso Preste João. 

Volve a pátria, e apenas descansado de tamanha 
fadiga, começa os seus emprehendimentos marítimos 
n'esse sentido, ao passo que, como nos conta Azura- 
ra, se empenha também em obter informações do in- 
terior do continente; d'esse continente que fascinara 
o mundo romano e o medieval com as miragens de 
riquezas prodigiosas; d'esse paiz do sol, do oiro, do 
marfim e dos escravos, cujo âmago era um mysterio! 

Assim, á medida que vemos esse manto caliginoso, 
que a superstição e a ignorância haviam lançado sobre 



Esboço Mstoi 



ico 



a vastidão do mar irrequieto, ir sendo rasgado pelo 
argênteo e luminoso sulco das caravelas, vemos tam- 
bém cie par, aventurosos enviados do infante lança- 
rem-se na incerteza dos sertões, para arrancarem ao 
desconhecido os segredos que a natureza parece tão 
avidamente occultar ahi. 

Haviam-se apenas descoberto os Açores e a Ma- 
deira, estava ainda presente no espirito- de todos a 
lembrança da passagem do terrivel Bojador, quando 
em 1445 Portugal lançava no interior do continente o 
primeiro explorador europeu, o primeiro homem que, 
abalado da velha Europa, punha olhos n'essa terra 
mysteriosa. 

João Fernandes, companheiro de Antão Gonçalves, 
que capitaneava uma caravela em viagem para o rio 
do Oiro, e que estivera captivo em Marrocos, conhe- 
cendo por isso a lingua árabe, offerece internar-se 
com os azenegues, e sete mezes divaga pelo inferior, 
penetrando até Tagazza, no paiz dos tuaregs. A sua 
relação, anterior um século a Leão Africano, dá-nos, 
acerca das caravanas, informações em tudo conformes 
com as obtidas por este geographo árabe, bem como 
em acerto com as de Clapperton, Marmol, Jackson, 
Denham e os itinerários do barão Walckenaer, Bur- 
ckardt, Oukney e Pennell. 

No dizer do visconde de Santarém, torna-se sobre- 
tudo notável a analogia que oíferecem as mais sin- 
gelas particularidades de sua narrativa com aquellas 
mais tarde escriptas pelo infeliz Mungo Park. 

Dois annos depois volve ainda João Fernandes á 
provinda de Sus, a fim de vigiar em Messa as cara- 



4 De Angola d contra-costa 

vanas que vinham de Timbuctu, desapparecendo então 
dos domínios da historia. 

D. João II subira ao tlirono portuguez, e, como 
príncipe illustrado e zeloso do engrandecimento do 
seu paiz, toma sobre si a grandiosa herança do in- 
fante D. Henrique, procurando com afan o caminho 
da índia. São seguidas as viagens para conseguir tal 
fim, não tardando que o distincto monarcha tivesse 
um premio a tantos esforços, na descoberta do cabo 
que elle denominou da Boa Esperança; descoberta 
que, legada a seu feliz successor, lhe deixava aberto 
e franco o caminho para este riquíssimo paiz, que 
tornou Portugal, de pequeno reino europeu, a pri- 
meira potencia marítima do mundo. 

A lenda do Preste João das índias, que tanto,vogára 
na idade media, occupando o espirito dos cosmogra- 
phos e dominando as attenções do infante, tinha mu- 
dado agora para um paiz situado nas regiões niloticas. 
D. João, continuando com porfia as investigações de 
D. Henrique, procura atacar o Negro Continente pelo 
occidente e oriente. A insistência do monarcha portu- 
guez dá em resultado a viagem, em 1486, de João 
Aífonso de Aveiro, que explora o delta do Niger e 
penetra no reino de Benim, dizendo muito da Nigricia 
interior. No anno immediato outros viajantes se lhe 
seguem, e Pêro de Évora, Gonçalo Eannes, Mem Ro- 
drigues, Rodrigo Rebello e Rodrigo Reinei recolhem 
informações novas sobre a região percorrida pelo Ni- 
ger desde Timbuctu, e d'essa cidade até ao Senegal. 

Pelo oriente o inabalável rei prepara a celebre 
expedição de Aífonso de Paiva e Pêro da Covilhã. 



Esboço histórico 5 

D. João II pretendia rel'acionar-se a todo o transe com 
o Preste João, e para isso lhe enviava cartas por estes 
emissários, em que lhe significava o grande desejo que 
tinha de saber, se elle possuia cidades no Manicongo 
(costa occidental), porque elle rei de Portugal ahi tra- 
zia suas caravelas. 

Ao Egypto se dirigem seus embaixadores, e depois 
de navegarem pelo mar Roxo até ao Aclen, Aífonso 
de Paiva corta a Su aquém, na costa da Abyssinia, e 
d'ahi volve ao Cairo, onde fallece; emquanto que Pêro 
da Covilhã, depois de correr o golfo Pérsico e visitar 
a costa do Malabar, vem a Sofala, no oriente da Africa, 
sobe ao Cairo, onde recebe a noticia do fali e cimento 
do seu companheiro, e recebendo também ordens do 
rei de Portugal, para se internar na Africa em busca 
do Preste João, dirige-se á Abyssinia. Ahi succumbiu 
o ousado viajante, pois jamais o imperador d'aquelle 
paiz lhe consentiu regressasse á pátria; não deixando 
até a sua morte de incutir com suas informações novo 
fervor nos ânimos dos emprehendedores portuguezes, 
que ao tempo já sulcavam as aguas do Indico. 

Ao passo que pelo oriente isto succedia, Ruy de 
Sousa, no occidente, desembarcava em 1491 na bahia 
de Sonho (foz do Zaire), e, impulsado ainda pelas idéas 
e ordens de seu monarcha, procura internar-se na 
Africa equatorial em cata do Preste João. Ao lado do 
rei do Congo, alliado dos portuguezès, investe com o 
sertão, e coadjuvando-o n'uma campanha contra certas 
tribus revoltosas do alto Zaire, que habitavam as ilhas 
e as margens do lago de onde sáe o grande rio (Stan- 
ley-Pool, sem duvida), Ruy de Sousa toma conheci- 



6 De Angola á contra-costa 

mento com os niimdateque ou anzicos, que não são 
outros senão os ba-teque ou povos de Macoco, recom- 
mendando depois insistentemente aos portuguezes que 
passem para alem do tal lago. 

O venturoso rei D. Manuel completa a obra ini- 
ciada pela escola de Sagres e continuada ^úo Príncipe 
Perfeito. O dominio portuguez estende-se ao extremo 
oriente, todos os príncipes da Ásia nos são tributários; 
e, desde -Suez e Ormuz até Ceylão e Malaca, desde o 
Japão e Clima até ás Molucas, tudo os portuguezes 
commandam, todos os mares elles cruzam. 

O continente africano passa então a occupar uma 
posição secundaria no grande plano de dominar o glo- 
bo, não deixando, porém, de merecer ainda cuidado, 
pois D. Manuel não persiste agora só em relacionar- 
se com o Preste João, e intenta de novo cruzar esse 
paiz, que parece obstinar-se em negar o ingresso á 
expansão europêa. 

Assim, em 1508 Affonso de Albuquerque manda 
pôr em terra no Porto Feliz, perto do cabo Guardafui, 
a Fernão Comes Sardo, João Sanches e Cid Moliamed 
de Tunis com duas cartas para o Preste João. O mouro 
havia afiançado que a sua tornada a Portugal seria 
por Timbuctu, e d'ali a Arguim pelo rio de Çanaga 
(Senegal), caminho que elle já conhecia. 

Em 1521, diz Damião de Coes, envia D. Manuel 
a Gregório de Quadra, homem experimentado e que 
percorrera toda a Arábia, ao rio do Congo, com ordem 
expressa de procurar o caminho d'ali até á Abyssinia. 

A morte súbita do monarcha, que teve logar n'esse 
mesmo anno, tolheu a empreza de ir por diante. Acha- 



Esboço histórico 7 

vam-se comtudo no Congo dois homens emprehende- 
dores, que em ]onga pratica do sertão buscavam o 
projecto de percorrer o curso superior do rio ? e esses 
homens eram Balthazar de Castro e Manuel Pacheco, 
aos quaes o rei defunto havia em 1520 enviado ins- 
trucções para o completo descobrimento do reino de 
Angola. Balthazar permaneceu seis annos no interior, 
afiançando, em carta datada de 1526, a D. João, ser 
navegável o curso superior do rio; Manuel Pacheco 
escrevia em 1536, que o rei cio Congo tinha já la- 
vrada madeira — acima da quebrada que o rio tem 
(Yelalla?) — para dois bergantins, onde elle esperava 
ir fazer o descobrimento do lasfo. 

A 15 de março de 1546, D. João III escrevia aos 
portuguezes que residiam na Abyssinia, para tentarem 
descobrir e explorar o caminho entre aquelle paiz e o 
Congo, ordenando ao governador da índia que lhes 
mandasse instrumentos e lhes desse instrucções acerca 
do modo de determinar os diversos pontos do trajecto 
e os trabalhos a fazer. 

Em 1560 o padre Gonçalo da Silveira percorre a 
Mocaranga, indo morrer no coração da Africa austral, 
na Lunda do Cazembe, ao oriente do Luapula, logar 
onde, dois séculos mais tarde, outro martyr da explo- 
ração africana, o dr. Lacerda, havia também de en- 
contrar a morte. 

Logo em 1565 D. João Bermudes, patriarcha de 
Alexandria e Ethiopia, publica a relação da embaixada 
ao Preste João, divulgando na Europa curiosas infor- 
mações do que vira n'aquelle paiz, onde residiu mais 
de quinze annos. 



8 De Angola á contra-costa 

Cinco annos depois Francisco Barreto, em procura 
das minas do oiro do Monomotapa, penetra até dez 
dias de jornada acima de Sena. Vasco Fernandes Ho- 
mem, que lhe succede, entra por Sofala e vae até alem 
da Chiconga. A estas expedições pela costa oriental 
podemos ainda juntar, no íim d'aquelle século, multi- 
plicadas viagens feitas pelos portuguezes de Angola, 
no intuito de devassar os adustos sertões do Negro 
Continente. 

É assim que n'uma relação coeva, ultimamente pu- 
blicada por Luciano Cordeiro, se allude ás frequentes 
communicações dos portuguezes com os reinos do in- 
terior, no alto Zaire, fallando-se a miúdo no paiz do 
Macoco *, Ibare e Bo-zanga, ainda não lia muito visi- 
tados por Stanley. 

Domingos Abreu de Brito traçou, em 1592, um 
plano definitivo do seguro estabelecimento de corres- 
pondência entre as duas costas, apontando a forma- 
ção de uma linha estratégica de postos militares da 
banda do occidente. 

Findava o século xvi. A situação de Portugal em 
face do império luso-asiatico modificára-se profunda- 
mente, e, sem embargo, a nossa vitalidade ia sempre 
accentuando-se em labores diíferentes, entre os quaes 
se contam muitos no Negro Continente, e em que avul- 
tam tentativas para a sua travessia. A obra do infante 



1 O Macoco ou Micoco, é sem duvida o mesmo de que La pouco nos 
fallou De Brazza. Ibare não atinamos muito bem com o que possa ser. 
Stanley chamou o Cuango, Ibare, e em quiniamezi este termo significa 
sumptuoso, grande. Vide Memorias do ultramar e A questão do Zaire, 
de Luciano Cordeiro. 



Esboço histórico 9 

D. Henrique, ainda hoje por concluir, continuava a 
merecer-lhe as mesmas sympatliias. 

Em 1606 trata-se de novo ao oeste de uma viagem 
de travessia. 

Era então governador de Angola D. Manuel Pereira 
Forjaz, que, ordenando a reunião de todos os elemen- 
tos para uma empreza de tal magnitude, encarregou 
de seu commando a Balthazar Eebello de Aragão, re- 
commendando-lhe especialmente a descoberta de um 
caminho para a contra-costa, o que elle sem duvida 
teria feito, se um ataque dirigido á fortaleza de Cam- 
bambe o não houvesse obrigado a retroceder 1 . 

Penetrou elle muito no interior, segundo presumi- 
mos, pois se refere a um grande lago, do qual até 
indica o logar. Eis o que diz em sua relação: «As 
provindas que encontrei no descobrimento que fazia 
para Monomotapa, por mandado de D. Manuel Pe- 
reira, têem um rei que chamam Chicova; não che- 
guei lá por se levantar o rei de Angola contra a for- 
taleza de Cambambe, a qual vim soccorrer, estando 
80 léguas pela terra dentro e a 140 do mar». E mais 
adiante diz «este lago está em a altura de 16%, o 
que leva a crer fosse o Nyassa, devendo também 
srrppor-se que as sobreditas 80 léguas se contavam 
a partir da fronteira de Angola. 

Dois annos depois Estevão de Athaide dirigia-se 
da costa oriental ás minas de Monomotapa e Chicova, 
ao passo que em 1613 o padre Fernandes vinha da 
Abyssinia a Melinde, por terra. 



1 Vide Memorias do ultramar, de Luciano Cordeiro. 



10 De Angola d contra-costa 

Não decorrem cinco annos que não encontremos 
novas explorações, vindo o padre Pedro Paes, dois sé- 
culos antes de Bruce, Burton, Speke e Grant, encon- 
trar na Ethiopia e no reino de Go-Grojan, território 
de Sacahata, paiz dos agaus, um dos tributários do 
Nilo, o rio Abai ou Nilo Azul. 

Em 1624 sobe o padre Jeronymo Lobo o Jubo, 
á Abyssinia, seguindo-se logo depois o padre Manuel 
de Almeida, que, em pr o seguimento da obra d'aquelle, 
percorre grande parte d'este paiz. A relação de sua 
viagem, publicada pelo padre Balthazar Telles, sob o 
titulo de Historia geral da Ethiopia a Alta, ou Preste 
João, esclarece em muito a geographia e ethnogra- 
pliia d'aquella mysteriosa região, que durante tantos 
séculos fora a espliinge da Europa curiosa; região 
que, quasi cem annos antes, havia sido percorrida por 
D. Christovão da Grama, com quatrocentos portugue- 
zes em expedição militar, de que Miguel de Casta- 
nhoso nos deixou a narrativa. 

Por este tempo António de Oliveira Cadornega, na 
costa occidental, percorre durante muitos annos a pro- 
vinda de Angola, trazendo noticias e informações so- 
bre o Macoco e os anzicos. 

Segue-se em 1648 Salvador Correia de Sá Benevi- 
des, que, depois de restaurar Loanda do poder hollan- 
dez, se dispõe a ir submetter o reino de Patê na Ethio- 
pia oriental, abrindo caminho entre ambas as costas. 

Manuel Godinho, em 1663, publica em Lisboa a 
relação da viagem que fizera da índia a Portugal por 
terra e mar, assignalando um novo e breve caminho 
de Angola á contra-costa. 



Esboço histórico 11 

Ouçamos o que em breves palavras elle diz (Testa 
questão : 

« O caminho de Angola por terra á índia não é ain- 
da descoberto, mas não deixa de ser sabido, e será 
fácil em sendo cursado; porque de Angola á lagoa 
Zachaf l , que fica no sertão da Ethiopia e tem de largo 
15 léguas, sem até agora se lhe saber o comprimento, 
são menos de 250 léguas. Esta lagoa põem os cosmo- 
graphos em 15°. 50', e segundo um mappa que eu 
vi feito por um portuguez, que andou muitos annos 
j)elos reinos de Monomotapa, Manica, Butua e outros 
d'aquella cafraria, fica esta lagoa não muito longe de 
Zembaué, quer dizer, corte do Mesura ou Marabia 
(Maravi?). 

(( Sáe d'ella o rio Aruvi, que por cima do nosso forte 
de Tete se mette no rio Zambeze. 

«E também o rio Chire, que, cortando por muitas 
terras, e ultimamente pelas do Rondo, se vae ajuntar 
com o rio de Cuama, para baixo de Sena. 

«Isto supposto, digo agora: quem pretender fazer 
este caminho de Angola a Moçambique e d'aqui á 
índia, atravessando o sertão da cafraria, deve deman- 
dar a sobredita lagoa Zachaf, e, em a achando, descer 
pelos rios aos nossos fortes de Tete e Sena; d'estes á 
barra de Quelimane, de Quelimane se vae por terra e 
mar a Moçambique, de Moçambique em um mez a 
Groa. )> 



1 Zachaf. Aqui é de suppor haja confusão de escripta ou omissão de 
letra, Zachafi ou Zachavi é o que Godinho quereria dizer, se não Zachevi, 
que seria a lagoa dos a-chevi ou chevas, como lhe chama Gamitto, e que 
nos antigos mappas figura também com o nome de lago Maravi. 



12 De Angola d contra-costa 

Esta lagoa, de que falia Godinho, e de que os por- 
tuguezes ouviam fallar em pontos diversos, pode muito 
bem ser a facha lacustre que sinuosamente se estende 
de norte-sul, comprehendendo Chirua, Nyassa, Hicua 
e Tanganika, que elles por confusão reuniam n'uma 
só. Parece esta talvez a melhor maneira de interpretar 
o texto de Manuel Godinho, e se era n'essa idéa que 
escrevia, este livro mostrará ao diante, que a viagem 
que levámos a cabo é apjDroximadamente aquella de 
que fallava o nosso compatriota ha duzentos e vinte 
annos, e esta coincidência nos escusará, de certo modo 
também, de havermos sobre elle sido um pouco ex- 
tensos. 

Em 1667 Manuel Barreto diz, faltando dos reinos 
de Manicaj Maungo e Butica: «Este conquistou Sise- 
nando Dias Bayão (o Mossuampaca), capitão mór dos 
rios, o mesmo que percorreu a Botonga, Mocaranga 
e Butua; jDara por elle communicar esta conquista 
com a de Angola, que lhe fica nas costas, o que será 
grande utilidade de ambas as conquistas; mas vol- 
tando a Sena a descansar e conduzir soccorros, o ma- 
taram seus emulos com peçonha, invejosos do seu 
grande nome e poder, e da honra que novamente ga- 
nhava com esta conquista. Por sua morte se recolheu 
a gente que deixou nos chuambos da Butica, e ficou 
aquelle reino levantado; mas será fácil a sua con- 
quista depois de conquistada Mocaranga e Manica». 

Passados annos, em 1678, o governador de An- 
gola, Ayres de Saldanha, manda por sua vez uma 
expedição para tentar a travessia, saindo de Massan- 
gano capitaneada por José da Rocha. 



Esboço histórico 13 

No século passado ainda, em 1795, vae a expedi- 
ção commercial de Assumpção e Mello de Benguella 
pelo Bié ao Lovale, e no anno seguinte Manuel Cae- 
tano Pereira tenta passar á contra-costa. 

Fecha o xvin século com a mallograda expedição 
do dr. Lacerda, homem de sciencia e valor, de que 
tanto havia a esperar, e que saindo de Tete para 
Angola, foi infelizmente morrer no Cazembe em 1798. 

O padre João Pinto, companheiro do dr. Lacerda 
e que mais tarde reconduziu a expedição a Tete, fez 
ainda altas tentativas para atravessar do Cazembe 
para a nossa província de oeste. 

Eis o que a propósito diz, na sua entrevista com o 
monarcha da terra : « . . . propuz e fallei sobre a passa- 
gem de Angola e abertura de seu caminho. Logo acu- 
diu o rei com difficuldades de guerras e fomes», etc. 

Frustradas as tentativas do padre João Pinto, com 
a decidida opposição do Cazembe e sua volta a Tete, 
só em 1802 temos noticia de se haverem renovado os 
esforços dos portuguezes durante o governo, ao que 
julgámos, de António Saldanha da Gama, no intuito 
de conseguir a resolução do problema ha tanto ambi- 
cionado. 

E d'esta vez foram elles coroados porconrpleto êxito, 
se bem que os homens em similhante serviço emprega- 
dos, não eram de molde a poder garantir-lhe o mais 
singelo valor scientifico. 

Foi de nove annos essa viagem, certamente cheia 
das mais notáveis peripécias, peripécias que ficaram 
no escuro pela falta cie instrucção dos protogonistas, 
deixando suspeitar soffrimentos que deviam ter sido 



14 De Angola á contra-costa 

extraordinários, a julgar pelo tempo empregado e dis- 
tancia percorrida, e em que em não menor numero 
deviam ser as noções de interesse, que a sciencia a 
final não pôde aproveitar. 

Honorato, tenente coronel estabelecido em Cassan- 
ge, foi ao tempo o iniciador atrevido d'esta empreza 
sympathica. 

Organisando uma expedição de tudo supprida, poz 
á testa d'ella dois dos seus mais hábeis pombeiros, Pe- 
dro Baptista e Amaro José, e soltando-os da margem 
esquerda do Cuango, ordenou-lhes que procurassem 
a todo o transe chegar a Tete. 

Assim o fizeram estes, e havendo abalado de Cas- 
sange em novembro de 1802, só chegaram áquelle 
ponto em 2 de fevereiro de 1811! 

Tinham partido novos, chegavam alija encanecidos. 

Três annos esteve a expedição detida nas terras de 
Mussico, e quatro na d'esse grande descendente dos 
muropues que se chama Cazembe (Muata), exhaurindo 
certamente todos os seus recursos, e passando, Deus 
sabe, quantas provações estupendas! 

Por isso a posteridade, registando este facto, presta 
agora um preito de homenagem a esses homens, que, 
embora obscuros, deram as mais evidentes provas de 
um arrojo e pertinácia sem iguaes, pela perseverança 
com que levaram a cabo o trabalho que lhes havia 
sido commettido. 

Chega o anno de 1831, e Correia Monteiro e Antó- 
nio Pedroso Gramitto emprehendem e levam a cabo 
uma viagem do Zambeze á Lunda do Cazembe, e 
regressando a Tete, o ultimo publica a sua relação. 



Esboço histórico 15 

Joaquim E. Graça, de 1843 a 1847, vae de Loanda 
ás nascentes do Zambeze e visita o paiz da Lunda, 
governada por esse poderoso descendente dos nraro- 
pues, que se denomina Muata-Ianvo. 

Em 1852, cabe a Silva Porto 1 , negociante portu- 
guez estabelecido no Bié, o mesmo que encontrou 



1 Acabando de nos chegar á mão um jornal quinzenal que se pu- 
blica em Bruxellas, sob o titulo de Le mouvement géographique, n.° 18 
de 6 de setembro de 1885, cabe-nos aqui corrigir uma apreciação menos 
justa, feita pelo seu redactor em chefe mr. A. J. Wauters, na segunda 
pagina, quando trata das «Travessias da Africa central» com relação 
a Silva Porto. Essa apreciação, que sem duvida s. ex. a fez, por se ter in- 
formado no livro Missionary Traveis in South Africa, escripto por esse 
celebre escossez, cujo ódio e má fé para com os portuguezes tanto o des- 
mereceu aos olhos do publico em geral, ódio que mais de feição estaria 
n'um mercador de escravos do que em -um homem revestido de tão es- 
pecial caracter e que tantos favores recebeu de nós, é de todo o ponto 
inexacta. 

Silva Porto não é un mêtis de la tribu des mambari (Bié), embora Li- 
vingstone de propósito queira insinuar isso na nota do seu livro a pag. 
217, quando diz: «On asking the headman of the mambari party, named 
Porto, whether he had ever heard ...» 

Silva Porto é um cidadão portuguez, nascido na cidade do Porto. 
Seus pães, também portuguezes, educaram-no de modo, que se acha ha- 
bilitado a redigir todos os seus diários, com uma perfeição maior do que 
se imagina, e sobretudo apontaram-lhe bem qual é o caminho da honra, 
porque Silva Porto, com quem contrahimos relações pessoaes, é um dos 
homens mais probos que temos encontrado. Ignoramos se esteve para ser- 
vir junto da expedição de Serpa Pinto como guia, mas sabemos não ser 
um traficante, e que a sua mercadoria principal nunca foi o homem ! 

As comitivas que envia por vezes ao sertão não lhe pertencem exclusi- 
vamente ; vão a ella aggregados muitos séculos biénos, que fazem negó- 
cios por sua conta, sendo provável que também façam trocas e compras 
de gente, sem que Porto seja responsável. A caravana que o illustre 
Cameron encontrou devia estar n'estas circumstancias. 

Velho, com a sua longa barba branca, alquebrado pelas fadigas serta- 
nejas, não merece este ancião, no ultimo quartel da vida, o indigno epi- 
theto de mulato mercador de escravos. Julgamos assim, rendendo justiça 
a quem a merece, ter sido agradáveis a mr. Wauters. 



16 De Angola á contra-costa 

Livingstone no Zambeze em Naliele, a honra de fazer 
uma nova tentativa, para pôr em communicação as 
duas costas africanas. 

A testa de uma importante expedição commercial, 
por elle mesmo organisada, e que se dirigia para o 
Genji, seguiu o nosso ousado compatriota, e assen- 
tando os seus arraiaes no alto Zambeze, destacou 
d'ahi pombeiros e gente sua, a fim de levarem a Mo- 
çambique dois officios do governo geral de Angola, 
pessoal que attingiu o Ibo. 

Longa foi também essa jornada, onde sem duvida 
não faltaram peripécias e contrariedades, a julgar pelo 
que mais de uma vez temos ouvido sobre ella, e que 
Silva Porto conta em seu roteiro, denominado Uma 
viagem d contra-costa. 

Os enviados, ao volver, haviam feito tão exagerada 
noticia da extensão percorrida, que carteada ella por 
rumos e marchas, atirava a distancia tal, que punha 
Moçambique a meio do Indico! 

Mas, apesar cVisso, não parece que se houvessem 
elles afastado muito da verdade, sendo que tal distan- 
cia, por ser tomada approximadamente em linha se- 
guida, não levava em conta as numerosíssimas voltas 
por elles operadas. 

De então para cá o sertão é diariamente trilhado 
pelos portuguezes mercadores, em todos os sentidos, 
e Gonçalves, João Baptista 1 , etc, são outros tantos 
que por ali divagam como senhores. 



1 Os indivíduos a que nos referimos são portuguezes e europeus; 
não falíamos dos africanos, como Alves, que Cameron encontrou. 



Esboço histórico 17 

Gonçalves explora por vezes o Mucusso; Baptista 
leva as suas explorações commerciaes sem igualavel 
arrojo até ao Cassongo Calombo, para as bandas cie 
Nyangue, atravessando o Lobale, o Moio e Urua pela 
primeira vez em 1872; Silva Porto continua em suas 
viagens para o Genji e outros pontos. 

Pelo oriente Montanha e Teixeira vão em 1855- 
1856 a Zoutpansberg, atravessando os sertões a leste 
do Limpopo; os negociantes do Zumbo percorrem as 
terras ao oriente do rio Aroangoa, aquellas da Manica 
(norte), Clmculumbes, etc, levando as suas excursões 
até ao já citado Genji. 

Em 1877 é organisada uma nova expedição, que 
abalando de Benguella se subdivide no Bié; uma parte, 
sob o cominando do major Serpa Pinto, dirige-se para 
o oriente e após attingir o curso do Zambeze, corta 
para a costa oriental, ao passo que a outra, sob a direc- 
ção dos auctores do presente livro, se dirige para o 
Quióco em busca das cabeceiras do Cuango, e, prolon- 
gando o curso cVeste rio, vae até Iacca, cVoncle volve 
a Lo anda. 

Emíim, em 1884, frequentemente incitado jDela So- 
ciedade de Geographia de Lisboa, ordena o governo 
de Sua Magestade uma outra expedição, de que o pre- 
sente livro vos dará conta. 

Eis resumidamente o que durante quatrocentos e 
quarenta annos fizeram os portuguezes, esse povo por 
vezes tão indelicadamente tratado por estranhos, para 
explorar e conseguir a ligação das duas costas Occi- 
dental e oriental da Africa, o que sempre se lhes afi- 
gurou do maior interesse, a julgar pelos prémios que 



1 8 De Angola á contra-costa 

o governo offerecia áquelle que levasse a cabo tal 
commettimento, e assim devia ser. 

Se considerarmos que ao tempo, ou melhor ainda 
até ha poucos annos, eram os portuguezes os que ex- 
clusivamente percorriam os sertões entre Angola e Mo- 
çambique, traficando e influindo de um modo serio na 
vida dos povos cèntraes do grande continente; se 
attentarmos que de tal circumstancia resultava a in- 
fallivel obrigação de ahi contrahir amisade, creando 
por esse facto pontos de apoio e segurança para as 
suas pacificas transacções ; se notarmos ainda que par- 
tir ao meio a contenda (seja-nos licito dizer) entre as 
duas provindas, no interesse de tal fim, seria a idéa 
dominante, o pensamento fixo d'aquelles no problema 
empenhados; se observarmos, emfim, que a lembran- 
ça de uma efficaz protecção politica ia assim repartir 
pelas duas colónias, como immediata consequência, 
uma preciosa qualidade, qual a da relativa rapidez; 
veremos logo que com a mais sã e boa rasão, governo 
e homens atrevidos se empenhavam em fazer vingar 
essa empreza, que, se já não é hoje um problema, se 
deve muito principalmente aos esforços que o nosso 
paiz empregou sempre pela sua resolução. E termina- 
remos com a seguinte observação justíssima que sal- 
ta dos factos que temos narrado: 

«Ainsi, après avoir ouvert à la science et à la civi- 
lisation chrétienne tout le vaste littoral africain, jus- 
qu'au Zaire et au sud de celui-ci, — après leur avoir 
révélé Texistence et la navigabilité du cours inférieur 
du grand fleuve, nous nous empressions d'initier de 
ce cote, comme nous le faisions pour 1'autre, la rude 



JfcJsboço histórico 1\) 

et glorieuse campagne de 1'exploration intérieure de 
FAfrique équatoriale, ou seulement plusieurs siècles 
plus tard, les autres nations civilisées devaient venir 
nous faire concurrence . . . 

«II convient de bien nous fixer sur ce point. La dé- 
couverte des régions intérieure s était conduite et opé- 
rée en même temps que celle du littoral, 11011 point 
par une simple correlation éventuelle du traíic, ni 
par des circonstances dues au hasard de l'exploratioii 
maritime, mais bien par le désir persistant, manifeste 
et onéreux cpii animait le gouvernement portugais, 
de coimaítre le pays, de pénétrer dans ces régions et 
de les assujettir au commerce, à 1'Evangile, et a la 
domination nationale.» (La question du Zaire, Droits 
du Portugal.) 



O CONGO 



Le roi Jean II de Portugal, peu de temps après, 
ajoute à ses titres officiels celui de seigneur de Gui- 
né : toutes les cotes jusqu^lors reconnues par ses su- 
jets, ainsi que la mer sillonnée par leurs caravelles, 
semblèrent désormais former un seul domaine dont 
une prise de possession solennelle était constatée. 
Avezac, Ency. des gens du monde. 

Por seu reino vão os portuguezes ao reino do Ma- 
eoco a negociar, e assim ao reino de Yb are e ao de 
Bozanga, que é um rei poderoso e se não pôde ir por 
outra parte. . . 

Garcia Mendes Castello Branco, Relação 
sobre o reino do Congo, 1603, publicada por 
Luciano Cordeiro. 



Quatro annos haviam decorrido desde que nós, vol- 
vendo da viagem a Iacca, tínhamos deixado as afri- 
canas costas. 

Tranquillos, despendiamos na Europa o nosso tem- 
po, nos ócios e distracções que a civilisação por toda 
a parte offerece ao homem que, arredado por annos, 
dá n'ella de súbito ingresso, esquecidos e alheios um 
pouco ao movimento africanista, quando um inespe- 
rado facto nos colheu de surpreza. 

Manuel Pinheiro Chagas, o illustre ministro da ma- 
rinha e ultramar, que havia apenas dias assumira taes 
funcções, resolvera enviar uma expedição á Africa, e 



22 De Angola á contra-costa 

collocando á sua frente os auctores (Teste livro, orde- 
nára-lhes que partissem sem perda de tempo, conce- 
dendo só o necessário para a organisação do material. 

Assim, a 6 de janeiro do anno do Senhor de 1884, 
pelas nove horas da manhã, achavamo-nos a bordo do 
vapor S. Thomê, da empreza nacional de navegação, 
promptos a abalar. 

Tangera a sineta pela segunda vez o signal de reti- 
rar, convidando a sair essa multidão, que se agita 
sempre confusa no convez do barco que se apresta a 
partir, que gesticula, commenta e fica, uns porque os 
distrahe o que para elles é novidade, outros porque 
lhes custa o separar-se dos entes queridos, e muitos 
porque não sabem mesmo o que o signal significa, até 
que ao terceiro toque de todo se varreu a tolda. 

Estremecera o casco sob nossos pés, cessara a vi- 
bração incommoda que o vapor produz ao despedir- 
se pelo tubo da descarga, como allívio d'esses pulmões 
monstruosos que respiram atmospheras a setenta e 
cinco libras; redemoinhara a agua na popa, partimos. 

Adeus paixões, e ficando-se de pé com a saudade, 
essa inseparável companheira das recordações affe- 
ctuosas, cada qual se accommodou como pôde, em- 
quanto o navio, approximando-se da barra, arfava 
magestoso, encetando os primeiros galões. 

Era o aviso terrível, para os que enjoam, do soffri- 
mento que os esperava. 

Começam de empallidecer os rostos, aggravou-se 
a tristeza com um ar de vaga apprehensão, um acrés- 
cimo de secreção salivar se adianta, para ceder logo o 
passo a torturas angustiosas e ás primeiras contrac- 



O Congo 23 

coes estomacaes, que um sabor metallico e o cheiro 
dos oleados compromette fortemente, até alíim romper 
a formidável symphonia em urro maior. 

Quão invejável não será n'esses momentos, para 
taes infelizes, a immunidade dos homens do mar? En- 
fada-os a nossa presença, porque nos observam des- 
peitados; no seu vago olhar, quando em nós se fita, 
transparecem por vezes lampejos á guisa de ódio, e na 
contracção dos lábios transluz uma como que paga em 
desprezo, ao nosso ar correntemente zombeteiro. 

Sulcando donairoso pelo oeste dentro, avança o na- 
vio emquanto o sol se occulta, e o cordão da terra 
pela popa começa a esbater-se no azul dos céus. 

Os últimos clarões desapparecerarn, amortalhou-se 
a abobada no funéreo manto da noite, entrou a hora 
das cogitações. 

Junto á amurada, abysmado para o estendal dos 
céus, eil-o, o passageiro que não enjoa, abraçado á 
saudade em pleno cortejo de gratas e pungentes re- 
cordações, jDerpassando-lhe pela mente, em kaleidos- 
copico movimento, quantas idéas estremecidas. 

A esposa e os filhinhos, tudo que na terra tem de 
caro, o lar domestico, esse ninho onde ainda na véspe- 
ra entrara distraindo, sem bem precisar quanto é duro 
o afastar-se d'elle, rodam constantes, apertando-o em 
angustioso scismar. 

E não lhe pode fugir, não pode desviar-se, agonia- 
se e a final apraz-lhe o sacrifício doloroso; ainda que 
o não queira ha de pensar n'elle, j)ercorrer-lhe todos os 
recantos, povoal-o dos seus habitadores estremecidos, 
ouvir-lhe as derradeiras palavras, receber-lhe as ulti- 



24 De Angola á contra-costa 

mas caricias, até que o somno, amerciando-se d'elle, 
o prostre no acanhado esquife do camarote. 

Então socega. 

Não tencionámos, leitor, proseguir, porque não é 
nosso fim o fazer-vos a monótona descripção de uma 
viagem a Angola, d'esses vinte e cinco dias aborreci- 
veis e invariáveis, de somnos alternados com refeições, 
estas baralhadas com palestras banaes e consumindo 
charutos, vindo sempre a achar o remate n'essa pseu- 
do-cogitação, que abysma sem pensar quem, recos- 
tado, contenrpla as vagas que se succedem, e procura 
aborrecido cerrar os ouvidos ao que lhe não interessa. 

E depois uma viagem por mar e em paquete é de to- 
dos conhecida, igual ideias scenas, característica pelo 
enfado, desde o momento de abalar, symbolisada n'esse 
brouhaha de que ha pouco vos falíamos, até ao avistar 
pela proa o cordão azulado da terra, que nos annuncia 
o terminas do nosso percurso. 

Tudo se passa da mesma forma n'esse acanhado re- 
cinto que se chama um navio e se repete diariamente, 
desde a baldeação, até ás confidencias da noite, que 
um jantar, convenientemente regado, sempre provoca. 

Passando pois pelos primeiros dias sem menção es- 
pecial, deixemos os pontos de escala como a Madeira, 
essa graciosa ilha tantas vezes descripta, o archipe- 
lago de Cabo Verde, a Guiné e S. Thomé em silencio, 
para nos approximarmos em linha directa do conti- 
nente. 

A 30 de janeiro de 1884, diz o nosso diário, come- 
çámos a navegar desde o alvorecer nas aguas verde- 
barrentas que, espalhando-se em enorme sector para 



O Congo 25 

o noroeste, se escapam pela embocadura do Zaire; 
manchando na distancia de 3 o a azulada superfície 
do oceano. 

Aqui e alem, vêem-se feixes de hervas a que ainda 
adhere o torrão, e por vezes, emergindo do meio com- 
pletas arvores, evidenceiam os esforços do colosso na 
lucta em abrir o seu caminho para o mar; esforços 
que se vão traduzindo no alargamento do leito na 
parte do curso junto ás costas, e na formação de um 
colossal delta a 15 milhas da embocadura. 

Pouco a pouco approximáino-nos ; uma larga ondu- 
lação que o desnivelamento produz, impelle suave- 
mente o navio. Já ao longe se distinguem no norte 
e no sul as barreiras avermelhadas características da 
costa, que, baixando gradualmente, vem morrer em 
duas orlas verde-escuras de mangue que margina o 
rio, até que ás onze horas se vê distinctamente a en- 
trada, a qual servem de marca pelo sul arvores da 
Mouta Secca, e pelo norte os tectos brancos das fei- 
torias do Banana. 

Rasgando a todo o vapor um sulco lamacento por 
meio d'essa corrente de 6 milhas, fundeámos no porto 
interior, de 2 milhas de comprido a 0,5 de largo, a 
50 metros de terra. 

Confessamos que, apenas chegados, nos impressio- 
nou o socego que ali reinava, e esperando vel-o alvo- 
rotado em virtude do recente apparecimento da ex- 
pedição belga, Associação Internacional (chamada) ou 
ainda Comité cYétudes du haut Congo, que tudo julgámos 
quer dizer a mesma cousa, não volvemos da nossa 
surpreza em meio d'aquelle silencio. 



26 De Angola â contra-costa 

Era o mesmo Banana que conhecemos em 1872, 
quando fazíamos parte da estação naval de Angola, o 
que mostra ter o Zaire ainda muito maior importância 
do que o barulho feito em redor dos trabalhos da asso- 
ciação. 

Ao sulcar as aguas do formidável rio, aqui apenas 
separadas do oceano por delgada linha de areia de 
2,5 milhas de comprido, onde se acham edificadas as 
feitorias de quasi todas as casas commerciaes da costa, 
e ao mirar suas margens de um lado e outro, per- 
correu-nos o corpo um estremeção, por lembrar as 
luctas e difficulclades que deviam ter passado os nossos 
antecessores que se extenuaram no trabalho de sua 
exploração; por lembrar os nomes de Rúy de Sousa, 
de Gregório de Quadra, de Francisco de Gouveia, o 
vencedor dos jaggas, de Duarte Lopes e outros! 

Quantas decepções e quantos soífrimentos não de- 
vem ter marcado ahi os passos d'esses homens, que, 
impellidos pelo dever, no meio das contingências de 
uma vida cheia de durezas, vida que ainda hoje, com 
todos os recursos da moderna sciencia, é um valle de 
miséria! Basta relembrar os sympathicos vultos que 
derradeiramente ali encontraram um termo ás suas 
aspirações; tentaram levar a civilisação ao âmago do 
continente, e a final de tamanho afan, apenas haviam 
ficado os traços n'essa ingrata terra, verdadeira ma- 
drasta do branco, porque então, como hoje também 
está succedendo, se persuadiu o europeu que com a 
sua enérgica força podia desbravar e exercer dominio 
sobre selvas e negraria, sem reflectir que acima de 
tudo dictava a lei o clima, ao qual a constituição phy- 



O Congo 27 

sica era clifficil que resistisse. — Hoje como então, esta 
é a verdade. 

Com o vapor e o telegrapho, essas duas poderosas 
alavancas de progresso, opera actualmente o europeu 
maravilhas, onde, encontrando j)onto de apoio, possa 
o seu braço manejal-as livremente; mas na Africa, 
onde a natureza lhe poz o clima como barreira aos 
esforços, e circumstancias de caracter meteorológico 
e tellurico, primeiro que cousa alguma lhe quebram 
as forças e minam a existência; mal poderão aquelles 
dois elementos produzir aproveitamento, quando ma- 
nejados por sua mão. Na pretensão de se substituir ao 
indigena, enceta uma lucta em que o partido favorá- 
vel é o da morte! 

Mas apesar de tudo, embora assim considerásse- 
mos, assomava-nos ainda um lampejo de sympathia 
por esse curso de agua, por essas terras de monótono 
aspecto, 2^orque constituiam um dos titulos da nossa 
gloria, cuja propriedade muito apreciávamos, e no seu 
progredir tínhamos o maior empenho; era o rio a que 
poz eram o nome de Diogo Cam, como homenagem 
áquelle que conseguiu levar as explorações até Cabo 
Frio, e na volta, narrando taes descobertas, fez com 
que o monarcha juntasse aos seus titulos o de senhor 
da Guine,, facto este, acrescenta o nosso estimável 
amigo e distincto africanista Luciano Cordeiro, no 
seu trabalho intitulado A questão do Zaire, que posi- 
tivamente correspondia n'aquella epocha á afíirmação 
internacional de um direito de soberania e dominio, e, 
acrescentaremos nós, que nunca foi nos remados sub- 
sequentes desmentido nem olvidado. 



28 De Angola â contra-costa 

Tudo mudara em nossos dias. A fingida abertura 
ao commercio da embocadura d'este rio poderoso, 
como lhe chamara Martim de Behaim 1 , ia breve ser 
causa ou pretexto para que se espoliasse Portugal de 
sua posse, e se attribuisse a um monarcha europeu o 
estranho titulo de soberano de um estado livre, que só 
existe no papel, fazendo-se de necessidade o arrancal-o 
a este paiz, para ornar o nome do chefe de uma pe- 
quena nação, a fim de que os pavilhões de todas as 
marinhas do globo podessem livremente tremular ali! 
E fingida, dizemol-o muito de propósito, porque de ha 
muito o mundo o sabe, ou para melhor dizer, o Zaire 
esteve sempre franco ao commercio de todos os pai- 
zes, não podendo ser pois o facto da sua abertura ra- 
são para que se espoliasse Portugal d'aquillo que em 
bom direito e rasão lhe pertencia. 

A tentativa da pesquiza e dependência do seu curso 
superior também não é argumento que se adduza a 
favor da citada espoliação, podendo accommodar-se 
as cousas satisfatoriamente para a Bélgica, e no in- 
teresse de Portugal, tudo em forma de justiça, como 
adiante lembraremos. E não venham com o argumento 
estranho, já empregado, de que, se é insalubre, pesti- 
lencial, inútil emfim, para que o queremos nós; ou 
ainda, se tanto afrmco mostramos na posse de um ter- 
ritório sem provada vantagem, demonstra empenho 
de encobrir um interesse que nos não convém eviden- 



1 Martim de Behaim era cosmographo, dando-se como certo que acom- 
panhou Diogo Cam em sua expedição, sendo elle que fez a celebre es- 
phera de Nuremberg, onde se achavam marcados os descobrimentos dos 
portuguezes durante o século xv. 



O Congo 2 D 

ciar; porque não só concebemos o possível aproveita- 
mento do Zaire (aliás seriamos cegos) pelo emprego 
systematico do incligena, mas compreliendemos igual- 
mente que a ninguém apraz ser espoliado, sirva ou 
não j)reste para alguma cousa. 

Não se julgará de certo que aquelles que tanto se 
têem esforçado em desvendar o desconhecido cora- 
ção do Negro Continente possam achar-se movidos de 
sentimentos, que por serem em favor do seu paiz, po- 
deriam ser contrários ao interesse da abertura dos 
sertões centraes ao commercio europeu; um facto, pa- 
rece-nos, destroe o outro; e é simplesmente a causa 
da justiça aquella que por isso nos leva a cortar esta 
questão. 

Nem se deverá pensar mesmo, como de resto nos 
parece já se fez, que quanto dissemos em nossas con- 
ferencias sobre a bacia do Congo, ao aprecial-a de- 
baixo do ponto de vista da salubridade, jDodia ter o 
menor viso a uma propaganda contra os trabalhos da 
Internacional ali. Muito ao contrario, as palavras que 
de novo vamos aqui transcrever foram traçadas sob o 
sentimento da obrigação que nos assiste de dizer a 
verdade, e no interesse do mesmo trabalho da Inter- 
nacional, pois que, levando pelo seu caracter especial 
á ponderação, poderiam por vezes servir de freio a 
quaesquer impulsos menos meditados. 

E não somos só nós que sobre o clima do Congo te- 
mos fallado. O cônsul americano W. P. Tisdel, no seu 
relatório de julho de 1885, diz: 

cc A questão do clima é extremamente seria. Húmido 
e enervante para brancos da Europa e America, resul- 



30 De Angola á contra-costa 

ta que são innumeras as doenças. No primeiro aimo 
de residência torna-se aos incautos necessária grande 
precaução, para não serem logo victimas da perniciosa 
influencia da malária espalhada por todo o paiz. » 

Eis o que nos acudiu dizer sobre o viver europeu 
no Congo: 

« Em Africa deve o europeu residir em ponto alto . . . 
Viver no cordão litoral, na zona perto do mar, estabe- 
lecer-se no Comptoir em meio d'essas planuras onde o 
bao-bab e o espinheiro vegetam e as aguas dos planal- 
tos se espraiam, formando por toda a parte pântanos; 
procurar depressões gigantescas como a do Congo, 
para ahi aggremiar europeus, suppondo que basta fun- 
dar-lhes estabelecimentos nas eminências marginaes 
para os salvar da nefasta influencia climatérica, emi- 
nências que, quando escalvadas e nuas, batidas pelos 
ventos, são ainda as mais perigosas, como jDÓde servir 
de exemplo Vivi, e outras estações do Congo inferior, 
é um ludibrio, de que só será victima a inexperiência 
ou a pertinácia em não querer ver e acceitar. 

« Como quereis, senhores, phantasiar um futuro de 
prosperidades para o Congo, sonhar para as margens 
d'esse rio Ninives e Babvlonias, crear ahi centros de 
vida e movimento a europêa, se só a simples inspecção 
da carta vos mostra que a 1:500 milhas da embocadu- 
ra, approximadamente, tem esse curso de agua 600 
metros de cota? 

«Ao fundo d'essa gigante depressão onde se accu- 
mulam todas as aguas que derivam do sul, desde o 
Quioco até Babisa, e pelo norte, desde o Tanganika 
até aos afíluentes que entestam com o Ogowai, que 



O Congo ol 

collocada mesmo sob o equador está em permanente 
crue pelo movimento alternado das chuvas no norte e 
no sul, despejando para as zonas lateraes as aguas su- 
perabundantes, onde as calmas e um sol de fogo lu- 
ctam de esforço para aniquilar as organisações, e tri- 
bus selvagens pullulam por toda a parte, não espereis 
ver estabelecer-se com facilidade o europeu, nem tirar 
outros resultados senão a morte e o desolamento. 

«De sobejo conheceis factos comprovativos, assas 
é notório que muitos jovens cheios de vida acabam 
nos últimos tempos de dar com sua morte remate a 
esperançosos futuros, para que adduzamos mais pro- 
vas sobre similhante assumpto.» Sem embargo mais 
duas palavras. «Não julgamos ter-nos, em todas estas 
considerações, afastado muito d'aquelles que desinte- 
ressadamente tratam da questão, ao dizer que não só 
o clima, como a selvageria dos naturaes, seria obstá- 
culo ao estabelecimento do europeu». 

É ainda Tisdel que nol-o diz, ao fallar dos traços 
característicos dos negros: 

«Com excepção das tribus de Loango e Cabin- 
da, as gentes do Congo, são ferozes, selvagens e 
cruéis.» 

Asserto este, que bem evidencia a causa do retar- 
damento na assimilação 'd'aquellas tribus pelo esforço 
civilisador portuguez. 

E proseguindo, ao fallar da facilidade com que um 
preto, mediocremente conhecedor de linguas, por ali 
transita, acrescenta: 

«Este facto prova-me claramente, que um preto 
industrioso, com um mediocre conhecimento da lin- 



32 De Angola á contra-costa 

gua íiote, será mais capaz de exercer uma maior e 
melhor influencia sobre estes povos, do que nunca 
será capaz homem branco. » 

Estamos d'aqui mesmo a ouvir a exclamação im- 
mediata de muitos dos cavalheiros na questão inte- 
ressados : 

— E precisamente pela rasão de serem selvagens 
e bravos que urge primeiro que tudo pensar em sub- 
mettel-os. 

Muito verdade, sem duvida; nós porém, que escre- 
vemos n'este momento, não só no interesse do indí- 
gena, mas muito particularmente no interesse cios 
capitães europeus, perguntaremos áquelles que o des- 
embolsam: 

— Tendo forçosamente de ver-se na obra da Inter- 
nacional duas phases differentes de trabalho, e que 
devem fatalmente preceder-se uma á outra: o de 
submetter os habitadores do Congo e civilisal-os — a 
que andam ligados vastos problemas sobre a viação — 
e o de explorar depois o commercio; estaes dispos- 
tos a arriscar os vossos capitães na primeira para, 
depois de exhaustos, procederdes pacificamente á se- 
gunda? 

Volvamos á nossa questão, aquella de se haver 
na conferencia de Bruxellas preparado a perda do 
Congo para Portugal *. 

Sendo o direito a arma dos fracos, não foi, nos pa- 
rece, de boa politica o afastar-se d'este axioma; e não 



1 Keferimo-nos sempre ao Congo inferior, é claro, aquelle que daria 
accesso por Noqui e S. Salvador para a bacia do Cuango. 



O Congo 33 

é para admirar que estranhemos ser aquelles que se 
acham em taes circumstancias justamente os primeiros 
a fornecer armas, que mais tarde se podem voltar 
contra elles. 

O desejo cie plantar definitivamente o estandarte da 
civilisação no solo da Africa central, palavras da aren- 
ga real na conferencia de Bruxellas, se era o pensa- 
mento da Bélgica, era também o anceio de ha muito 
em Portugal; que melhor exemplo, pois, podiamos dar 
ao mundo, que concertar-nos, e, fortes pela união, pro- 
ceder á grande obra? 

Não urgia seguramente para isso isolar-se a Bél- 
gica primeiro, e procurando depois alheia protecção, 
ferir os interesses dos portuguezes que tão boa von- 
tade têem mostrado no empenho de que tratámos, e 
tão dispostos se achavam a fazer quantas concessões 
se lhes pedissem. 

E triste, e sentimos bem, que o subsequente pro- 
cedimento nos confunda por modo a tornal-o difficil 
de coadunar com as palavras que o illustre príncipe 
proferiu por occasião da conferencia de Bruxellas em 
1876, relativamente á obra que se dispunha a patro- 
cinar : 

«II m'a paru que la Belgique, etat central et neu- 
tre, serait un t erram bien choisi pour une semblable 
réunion, et c'est ce qui m'a enhardi à vous appeler 
tous, ici, chez moi, clans la petite conférence que j'ai 
la grande satisfaction d'ouvrir aujourd'hui: Ai-je be- 
soin de dire qu'en vous conviant à Bruxelles, je n'ai 
pas été guidé par des vues égoistes? Non, messieurs, 
si la Belgique est petite elle», etc. 



34 De Angola d contra-costa 

Converteram-se em realidade, lia pouco consum- 
mada n'uin congresso, onde se faziam representar 
algumas nações completamente estranhas á questão 
africana, as nossas suspeitas em 1884, quando escre- 
víamos o que se segue em nosso diário: 

«E já bastante falíamos da questão do Congo; 
deixemos aqui agora registado e.em remate o que 
pensamos d'aquella que confiou aos delegados da com- 
missão reunida em Bruxellas, em junho de 1877, a 
missão de fundar na sua bacia estações scientificas e 
hospitaleiras. 

«Civilisar a Africa central, somente impulsado por 
um pouco vulgar affecto humanitário, somente mo- 
vido pelo original desejo de fazer a felicidade do ne- 
gro, como se deprehende das palavras de Stanley 
perante o club do seu nome, em Paris, que excla- 
mou: ... o capital entregue á communidade cios bran- 
cos era para se applicar do modo mais conveniente ao 
bem estar dos naturaes da sua área; era para se repartir 
como beneficio . . . etc. ; e logo mais adiante acrescen- 
tou : O nosso intuito . . . ê plantar e semear para o negro 
colher. . . etc; enviar, como diziamos, para aqui ho- 
mens e milhões, no elevado e santo intuito de lhe 
preparar o futuro, ou melhor, dotal-os com um bem 
estar assas problemático; sacrificando vidas e traba- 
lho a uma tão arrojada quanto imprudente empreza, 
que. muitos entendidos consideram como inexequível, 
guiando-se só pelas vagas informações existentes; pôr 
em pratica um problema, por assim dizer, não estu- 
dado e superior sem duvida á força e intelligencia de 
um só homem, só porque esse homem afiançava que 



O Congo 35 

com duas dúzias de infelizes mancebos inexperientes 
o podia resolver; emfim disfarçar perante a Europa 
todo este proceder, com um. fácies de decidida vontade 
e evangélica resignação, mais própria de missionários 
do que de homens afeitos ao manejo da espada; e pôr 
como cúpula d'este estranho edifício um homem, cuja 
bravura e temeridade não podem contestar-se, mas a 
quem os conselhos da prudência devem por vezes 
quadrar de geito para soffrear as suas impetuosas 
paixões, os seus estranhos impulsos, para nos servir- 
mos de uin termo por elle empregado, ao referir-se á 
sua própria pessoa e ao descrever de certa maneira o 
seu modo de ser e de obrar; em que debutou assim: 
Well you know! I am a very im/pulsive man; parece-nos, 
acima de tudo, uma suspeitosa mystificação, encobrin- 
do pretensão ambiciosa!)) 

Isto escrevíamos nós quando ainda se não fallava 
na conferencia de Berlim, mas quando já muito cer- 
tamente se machinava contra a integridade do nosso 
território. 

Se a abertura dos sertões centraes á civilisação e 
ao commercio era uma necessidade, repetimos, porque 
não se tratou com aquelles que melhor podiam auxiliar 
tal empreza, e se preferiu deslealmente a intriga? 

Porque, se não fossem estranhas ma china ções, ter- 
se-ía a Bélgica entendido muito bem comnosco, na 
tão meritória obra de nos coadjuvar no interesse es- 
pecial da abertura d'aquelle sertão, e no geral de be- 
neficiar o negro. Mas então, infelizmente, faltaria o 
titulo em tal caso! — verdadeira nota grave n'esta 
grande questão! 



36 De Angola a contra-costa 

Aqui j)omos a corda ao pescoço pelo nosso governo 
(e cVisto está a Bélgica bem convencida), de que se 
empenharia elle com todas as suas forças para auxi- 
liar tal empreza, não como está sendo posta em pra- 
tica, á louca, na bacia pestilencial do Congo, com 
centos de europeus inexperientes que com a vida dia- 
riamente pagam a sua audácia; mas na justa medida 
do bom senso e do menor risco, pelo emprego racio- 
nal do indigena, de cuja coadjuvação e trabalho, única 
e exclusivamente, se pode conseguir aproveitamento. 

E ainda lhe afiançámos, que ao lado dos illustres 
officiaes belgas que ali em tão grande numero têem 
encontrado a morte, havia cá muitos homens capazes 
de encontrar no sacrifício do dever o mesmo fim, e 
que aquelles que ainda ha pouco penetravam na 
Quimpata de Bunqueia com quatorze homens, e ahi 
encontrando Musiri, que dias antes fora visitado por 
um explorador europeu, lhe passavam um documen- 
to para sua salvaguarda, no caso da Europa .o ac- 
cusar da morte forçada de um companheiro do ci- 
tado europeu, e isto porque o sobredito Musiri assim 
o rogara, seriam os primeiros a apoiar dentro do seu 
paiz o movimento em questão, pela mais enérgica das 
propagandas. 

Infelizmente resta-lhes só o lamentar o rumo que 
as cousas tomaram, e fazer um sincero voto para que, 
com o aniquilamento do vigésimo milhão, não vacille a 
coragem d'aquelles ainda em desembolso; e este voto, 
que de certo não quadrará de geito aos olhos de mui- 
tos, pelo espirito que anima as vistas ã'esta nação de 
esclavagistas, a primeira a iniciar o nefando trafico, e a 



O Congo 37 

ultima a acahal-o, na phrase, ineptamente calumniosa, 
de uni dos agentes da Internacional, potencia cujos 
súbditos em Africa ligados por laços de sangue á afri- 
cana gente, se não pejam de sentar pretos e pardos á 
sua mesa logo que d'isso sejam dignos; este voto, re- 
petimos, fica aqui registado com a mais inteira sin- 
ceridade. 

Antes de partir para o sul, porém, permitti ainda 
duas palavras, leitor, no interesse da vulgarisação so- 
bre o vasto paiz que este rio banha, palavras que vos 
farão comprehender quão justo é o resentimento dos 
portuguezes em face do proceder ultimamente havido 
com elles, e quão numerosos foram os trabalhos e as 
convulsões por que passou o nosso dominio e politica 
ali. 



HISTORIA POLITICA DO CONGO 



Deux choses sont à remarquei-: la première c 1 est 
que depuis 1512 le roi du Congo est le vassal du Por- 
tugal ; la seconde, qu'autemps del'établissement des 
portugais au Congo et à Angola le premier royaume 
s'étandait beaucoup plus au S. e à l'E. 

Luciano Cordeiro, L'7iyãrograj?Me africaine. 



A importância e extensão do estado do Congo era 
tal, ao tempo da chegada dos portuguezes ali, as lu- 
ctas com os povos circumvizinhos, a snccessão repe- 
tida dos seus monarclias e as estreitas relações com 
Portugal tão frisantes ao depois, que entendemos nao 
deixar fugir este ensejo, sem com dois traços darmos 
uma idéa da sua historia politica. 

Sabido é que Diogo Cam, encarregado por carta 
regia de 14 de abril de 1484 de descobrir novos terri- 
tórios na costa, entrou no Zaire e ahi estabeleceu um 
padrão na ponta sul da foz do rio, que denominou 
de S. Jorge, como marca ou signal de haver tomado 
posse d'aquellas terras em nome do seu rei. 

O navegador portuguez estabeleceu logo relações 
com o rei do Sonho (tio ■ do Muene), as quaes com 
o decorrer do tempo se estenderam ao Muene Congo, 



40 De Angola á contra-costa 

senhor cio estado, conhecido também pelo nome de 
Manicongo; poderoso potentado que dominava dire- 
ctamente ou por suzerania sobre um vastíssimo impé- 
rio, que constava ir desde o Loango ate ao Cabo Ne- 
gro pelo litoral, e, comprehendenclo ao nordeste o 
Macoco ou Anzicana, se estendia até ao Muene Muezi, 
no Uniamezi! 

Diz-nos Duarte Lopes, que esse importante monar- 
cha reunia ao titulo de rei do Congo o de senhor dos 
ambundos, da Matamba, da Quissama, de Angola e do 
Cacongo, sem contar os sete reinos de Congere-Amu- 
lalla, o dos ban-guelungos, o senhorio do rio Zaire, 
dos anzicos e o do Loango! 

Dapper, geographo hollandez, e o seu traductor 
Ogilby, também de seus titulos nos faliam, e se em 
verdade omittem alguns, trazem a lume outros novos. 
Assim dizem que ao de senhor do Congo, juntava o 
de Angola, Macomba, Ocanga, Cumba, Lula, Zenza, 
bem como o senhorio dos ducados de Batta, Sunda, 
Bamba, Ambuilla e territórios dependentes, e ainda 
aquelle dos condados do Songo, Angoy, Cacongo, da 
monarchia dos ambundos e do grande e maravilhoso 
rio Zaire 1 . 

Em todos os casos, bastam as singelas enumerações 
precedentes para darem uma idéa do poderio dos mo- 
narchas do Congo ao tempo; esses descendentes de 



1 É de todo o ponto acceitavel, que aos historiadores portuguezes seja 
devida a designação ducado e condado, applicada á zona territorial que 
tinha sem duvida nome especial, como também é para notar que, esten- 
dendo-se os estados do Congo até ao Uniamezi, não figure entre os titulos 
a zona ou terra do interior encravada no curso do rio. 



Historia politica do Congo 41 

Luqueni, ou Nimia-Luqueni, que, tendo vindo, con- 
forme parece, do oriente, investiram com as terras de 
que tratamos, e desbaratando os tclienus ou ba-tchenu, 
seus habitadores, avassallaram os grupos dispersos, 
fundando o estado do Congo. 

Mas volvamos ao assumpto que nos interessa. A 
primeira expedição portugueza dirigida ao Zaire saiu 
do porto de Lisboa a 19 de dezembro de 1490. Ex- 
pressamente enviada pelo governo da metrópole para 
explorar aquellas regiões, partiu, commandada por 
Gonçalo de Sousa, que, morrendo em viagem, legou 
a sua direcção a Ruy de Sousa, seu irmão, e era com- 
posta de missionários, operários e colonos, que espe- 
ravam levar a luz e a arte aquellas terras. 

Um mez depois de ali chegar, a expedição entrava 
na Banza Real (hoje S. Salvador), cedendo ás instan- 
cias do mesmo Muene Congo, que dizia querer ini- 
ciar-se na religião dos brancos, estreitar assim a sua 
amisade e estabelecer relações commerciaes com elles. 

Remava então Xguiga-o-cúum, a quem Ruy de Sousa 
auxiliou n'uma expedição contra os povos que se ti- 
nham revoltado no Alto Zaire, conhecidos por munda- 
quetes ou anzicos, no intuito de os submetter á vassal- 
lagem. E d'esta epocha que data o descobrimento dos 
povos do Macoco, descriptos em 1505 por Duarte 
Pacheco, e mais largamente depois por Duarte Lopes 
(ReJatione dei Yeame di Congo, Roma; 1591). 

Estabelecida a amisade com os portuguezes, foi Jovi, 
em 1493, o primeiro dos monarchas do Congo que 
ao rei de Portugal prestou vassallagem, enviando para 
esse fim a D. João II o seu embaixador Pêro Mani- 



42 De Angola d contra-costa 

congo, que tempos depois volveu ao império acompa- 
nhado do residente portuguez João Soares. 

Tomou então o monarcha africano o nome de João, 
e sua mulher Mani Mombada o de Leonor, em honra 
dos lusitanos reis. 

Vacillou mais tarde a fé religiosa d'este príncipe, 
e, esquecendo os sábios princípios da doutrina enrista, 
entregou-se de novo ao grosseiro fetichismo, commet- 
tendo barbaridades só próprias de selvagem. 

Affonso I (Mani Sundi), ou melhor N'pamba-cá- 
N'Gringa, que lhe suecedeu em 1509, foi um dos pri- 
meiros príncipes firmes na fé, e desviando-se do 
trilho do seu antecessor, manifestou em carta que 
escreveu a el-rei de Portugal em 1512, por via de 
seu embaixador Rodrigo Zacuteu, o desejo de conti- 
nuar sendo seu fiel vassallo. 

N'ella accentuava o reconhecimento pelo auxilio 
que lhe fora prestado na guerra que teve com seu 
irmão Mani Pango ou Pansa Aquitimó, que indo sub- 
metter os muzumbis 1 , com elles se alliâra por occasião 
de o elegerem, vindo atacar S. Salvador com cem mil 
pretos. 

Era tal a amisade e consideração que pelos por- 
tuguezes tinha este príncipe, que, partindo para fazer 
a guerra aos ambundos sublevados no sul, deixou por 
capitão no Congo, com todo o seu poder, Álvaro Lopes, 
feitor do rei de Portugal, como elle mesmo D. Affonso 
communicou em carta datada de 4 de março de 1516. 



i Muzunibo significa homem branco na linguâ bunda, nâo sendo por 
isso fácil compreliender tal indicação. 



Historia politica do Congo 43 

Foi um verdadeiro apostolo da fé n'aquellas terras 
este príncipe, cujo zelo o levou a dirigir-se ao papa 
Paulo III, rogando-lhe enviasse para o seu estado 
missionários, de que lá muito carecia. No reinado d'elle 
edificaram-se as igrejas de S. Salvador, Nossa Senhora 
do Soccorro e de S. Tliiago, terminando por enviar 
seu filho primogénito para Lisboa, a quem desejava 
proporcionar uma educação christã, e a altura da po- 
sição que lhe estava destinada no paiz natal. 

Este, que em 1521o substituiu no throno, tomando 
o nome de D. Pedro I, imitou o zelo e piedade do 
pae. 

Seu irmão, D. Francisco, succedeu-lhe em 1530, 
não esquecendo o justo proceder do predecessor. In- 
felizmente só cingiu a coroa por dois annos, legando-a 
i:>or sua morte a um primo D. Diogo. 

O fervor religioso não abrandava então, e segundo 
Mérolla nos conta, foram três dominicanos os primei- 
ros missionários que Portugal enviou áquellas terras; 
três martyres que breve succurnbiram, dois sob a 
acção do clima, e o terceiro assassinado pelos jaggas, 
capitaneados por Zimbo. Logo depois conduziu Diogo 
Cara, em sua terceira viagem, doze franciscanos para 
áquellas desconhecidas paragens, sendo jDor esta epo- 
cha, a 3 de outubro de 1534, creado o bispado de 
S. Thomé e Congo. 

D. Diogo tornou-se notável por grande coragem, 
prudência, espirito liberal e fervoroso zelo pelo chris- 
tianismo. Em poucos annos o génio militar levou-o á 
conquista de paizes vizinhos, e, alargando os seus es- 
tados, distinguiu-se sempre por sua aífeição aos por- 



44 De Angola â contra-costa 

tuguezes, de quem adoptara os costumes, abandonan- 
do os hábitos indígenas. 

A sua magnificência excedia tudo quanto até ali se 
tinha visto, manifestando-se, quer na ornamentação do 
seu palácio, quer no modo de trajar. Uma fazenda 
boa nunca lhe parecia cara, pois as cousas raras, di- 
zia elle, devem encontrar-se nas mãos dos reis. 

Levara o requinte do luxo a usar apenas uma ou 
duas vezes o mesmo traje, offerecendo-o depois á gente 
do seu séquito. As tapeçarias, os brocados de oiro, de 
seda e as fazendas mais ricas do reino começaram no 
seu tempo a ter voga na terra do Congo. 

Ensanguentou-se então n'esta epocha o sólio, pelas 
rivalidades que se levantaram entre pretendentes di- 
versos, discórdias que baniram a dynastia reinante e 
a raça dos reis do Congo. 

Morrera D. Diogo. Três foram os individuos que 
appareceram pleiteando os seus direitos á coroa ; o 
primeiro era filho do rei, mas embora destinado a 
succeder por direito de nascimento, era em geral tão 
detestado, que a morte violenta lhe arrebatou súbito 
as esperanças. 

Os dois outros eram também de sangue real, um 
porém favorecia-o o povo, emquanto que o outro pro- 
tegiam-no os jDortuguezes e muitos dos poderosos se- 
nhores do reino. 

Como os chefes dos dois partidos repellissem qual- 
quer tentativa de accordo, pretenderam os do derra- 
deiro impor-se ao povo por um attentado, e decidindo 
a morte do principe junto do altar, ao assistir á cele- 
bração dos officios divinos, ahi o assassinaram. O par- 



Historia politica do Congo 45 

tido opposto vingou-o, matando aquelle que os nobres 
propunham. 

Havendo assim desapparecido os últimos preten- 
dentes ao throno, insurgiu-se o povo contra os por- 
tuguezes, a quem attribuiu as desgraças nacionaes, 
trucidando muitos d'estes que ali residiam. 

Foi então eleito D. Henrique, tio do rei defunto, 
em 1540. Logo depois teve este monarcha de decla- 
rar a guerra aos anzicos, deixando regente D. Álvaro. 

N'uma batalha foi-lhe a sorte adversa, e, morrendo, 
extinguiu-se n'elle a raça dos antigos reis do Congo. 
D. Álvaro tinha vinte e seis annos quando foi elevado 
ao throno pelo consenso unanime da nação, em 1542. 

No seu reinado teve logar um inquérito, com res- 
peito ao trafico da escravatura pelo rio Zaire, orde- 
nado por Simão da Motta (7 de maio de 1548), caval- 
leiro da casa de el-rei de Portugal e ouvidor e 
provedor com poder de alçada no reino e senhorios 
do Congo, que deu como resultado solicitar o Muene, 
do monarcha portuguez, que continuasse a manter a 
prohibição d'esse trafico nos portos do sul. 

Seu successor, D. Álvaro II, teve um reinado infeliz, 
por isso que os jaggas, que haviam assolado a maior 
parte dos paizes vizinhos, invadiram o reino pela pro- 
vinda de Batta. Não podendo o exercito enviado con- 
tra elles suster-lhes o Ímpeto, avançaram acto con- 
tínuo sobre a capital. O rei ainda quiz oppor-se-lhes 
á testa de algumas tropas, mas, não se suppondo em 
força para dar batalha, recolheu precipitadamente á 
capital, passando d'ahi com o clero portuguez e a prin- 
cipal nobreza do paiz para uma ilha do Zaire. 



46 De Angola ã contra-costa 

• Os jaggas, a quem Lopes dá também o nome de 
jindes, habitavam o Monemuji (Uniamezi?) a leste de 
Angola, na região dos lagos d'onde sáe o Nilo *. 

D. Álvaro II enviou seu primo, D. Sebastião Al- 
vares, a pedir auxilio ao rei de Portugal, o qual lhe 
mandou soceorro por Franeiseo de Gouveia, que, per- 
manecendo por quatro annos no Congo, o restabele- 
ceu no throno. 

D'este tempo data a cessão feita pelo Muene aos 
portuguezes do litoral, desde Pinda até Loanda. Teve 
este príncipe largas relações com os monarchas lusi- 
tanos, enviando cartas ao cardeal D. Henrique, bem 
como a D. Fillippe II por vários embaixadores, e nos 
últimos tempos jDelo próprio Duarte Lopes, auctor da 
relação de Pigafetta. 

Foi elle também que em 1578 mandou o seu lo- 
gar-tenente D. Sebastião, duque de Bamba, acompa- 
nhado de cento e vinte portuguezes e cincoenta mil 
conguezes, auxiliar a Paulo Dias de Novaes na cele- 
bre batalha de Anzelle, bem como em 1583 enviou 
numerosos ba-xicon^o a Cambambe, com o fim de 
coadjuvarem os quinhentos portuguezes que se acha- 
vam em defeza d'aquella praça. 



1 Battel, na collecção de Purchas, affirma que os jaggas, com quem 
elle serviu dezeseis mezes, e no tempo d'elle assolaram o Congo, tinham 
vindo da Serra Leoa. Elles mesmos lhe disseram que os portuguezes 
lhes davam o nome de jaggas ; mas que entre si se denominavam im- 
bangollas. Eram doze mil commandados por Elembe. Parece-nos mais 
acceitavel a indicação de Lopes, podendo comtudo admittir-se, sendo tão 
numerosas as hordas de jaggas que se espalharam por todo o oecidente, 
que esta confusão provenha do apparecimento de um troço que, tendo ido 
primeiro pelo norte até á Mina, volvesse depois para o sul. 



Historia politica do Congo 47 

No reinado cTeste monarcha effeituou-se, por bulia 
de 20 de maio de 1595, a separação do bispado do 
Conax) do de S. Tliomé, ficando a sede ern S. Sal- 
vador. 

Emfim, fechou es.te príncipe o seu reinado menos 
sympathicamente do que era de esperar dos seus al- 
liados, pois, indo em 1610 António Gonçalves Pitta 
tratar com elle da construcção do forte de Pinda, a 
fim de sacudir os hollandezes d'ali, elle, que ao tempo 
começara por inclinar-se ao partido d'estes, procedeu 
com evasivas e falsas desculpas, escrevendo ao mesmo 
tempo ao Mani Sonho, para que lhe enviasse uma 
carta sua ao conde Maurício de Nassau, carta que 
sem duvida não era traçada em nosso interesse. 

A D. Álvaro II succedeu seu irmão D. Bernardo, 
em 1614. Lavravam então graves discórdias entre o 
Mani-Bamba e os aífeiçoados do rei, o que deu em 
resultado, poucos mezes depois de subir ao throno, 
ser este príncipe morto na ermida de Santo António 
pelo próprio duque de Bamba, que collocou em seu 
lo^ar a um sobrinho do defunto e filho de D. Álvaro. 

Pouco sóbrio e assaz turbulento, o novo rei, logo 
que assumiu o governo em 1615, com o nome de 
D. Álvaro III, começou em disputas com seus vas- 
sallos, e em 1619 declarava a guerra ao mesmo Mani- 
Bamba D. João da Silva, seu sogro, vindo só a con- 
seguir-se a paz/ pela sensata intervenção dos padres 
Duarte Vaz e Matheus Cardoso. 

Dois annos depois d'esta lucta succumbiu, e os reis 
que lhe succederam, D. Pedro II (1622), D. Garcia I 
(1624), D. Ambrozio (1625), D. Álvaro IV (1631), 



48 De Angola á contra-costa 

e D. Álvaro V (1637), remaram entre todos quinze 
annos, não havendo durante todo este tempo facto 
digno de noticia, excepto no reinado de D. Ambro- 
zio a transferencia da sé do Congo para Loanda, e 
n'aquelle do feroz Álvaro V guerras intestinas que lhe 
mereceram a desgraça de precipital-o do throno ao 
tumulo na flor da idade. 

Principiara a questão por suspeitas mal fundadas 
sobre o duque de Bamba e o marquez de Chiona, 
contra os quaes elle levantou um exercito. 

Não foi a guerra favorável ao rei, e desbaratadas 
as suas forças, caiu prisioneiro em poder d'elles, que, 
em vez de abusarem da victoria, o trataram com a 
consideração devida â sua elevada categoria, recon- 
duzindo-o á capital, de que lhe fizeram entrega. 

Vexado 2^>or dever a coroa e a vida a seus vassal- 
los, o feroz Álvaro, logo que se viu livre, organisou 
novo exercito, e, marchando contra os seus vencedo- 
res, foi derrotado e morto. 

Com o nome de Álvaro VI foi o Mani-Bamba pro- 
clamado rei, e pouco depois morto pelo marquez de 
Chiona, seu irmão, que se fez acclamar em 1638 com 
o titulo de D. Garcia II. 

Posto que houvesse subido ao throno por um acto 
criminoso, D. Garcia deu a principio grandes espe- 
ranças, pela sua capacidade no governo, rigorosa jus- 
tiça e fervor religioso. A fatal ambição, porém, tudo 
veiu obscurecer, e o malfadado principe, pretendendo 
fazer passar a coroa sem eleição, e contra as leis, a 
D. AfTonso seu filho primogénito, começou a tramar 
o exterminio dos príncipes da familia real, que antes 



Historia politica do Congo 49 

do duque de Bamba e d'elle haviam direito ao logar 
que elle usurpara. 

Perseguindo-os, pois, D. Garcia não poupou ne- 
nhum dos desventurados príncipes que pôde descobrir, 
e como os padres catholicos lhe censuraram severa- 
mente tal ijroceder, o selvagem monarcha lançou-se 
nos braços dos feiticeiros. 

Estes apoiaram D. Garcia, espirito crédulo e super- 
sticioso, mas conhecendo que D. Affonso, seu filho, por 
muito affeiçoado ao christianismo, detestava os ritos 
idolatras, começaram a malquistar o pae com o filho, 
dando logar este facto a que o primeiro, que tanta 
crueldade commettêra por causa do segundo, o accu- 
sasse perante os estados reunidos de o ter querido 
elle envenenar, declarando-o indigno do throno, e fa- 
zendo coroar em sua presença D. António, seu filho 
segundo. 

Foi em seu reinado e no anno de 1645 que chega- 
ram ao Congo os primeiros capuchinhos italianos, com 
bulias de Urbano VIII, remessa que em 1647 se re- 
novou com mais quatorze frades d'esta ordem. 

Como muitos dos seus antecessores, D. Garcia era 
faustoso, e d'isso nos falia Dapper ao descrever a ma- 
gnificência da sua corte, quando recebeu a embai- 
xada que os hollandezes lhe enviaram em 1642, de- 
pois da tomada de Loanda por Cornelius Cornelison 
Jol Houtebeen. 

Morto D. Garcia, succedeu-lhe no throno D. Antó- 
nio em 1658. 

O primeiro acto do seu governo, ao subir ao thro- 
no, foi mandar matar o irmão mais velho. D. Garcia 

4 



50 De Angola d contra-costa 

na hora do passamento parece lhe havia recomnien- 
daclo isso muito expressamente, bem como lhe lem- 
brara a conveniência de não poupar nenhum dos prín- 
cipes de sangue real; indicações que elle facilmente 
executou, levando o cuidado ao ponto de se desfaz ei- 
do irmão mais novo. 

A maior parte dos príncipes que poderam escapar 
ao cutello ou punhal de D. Garcia haviam-se refu- 
giado no reino de Angola; D. António até ahi se sup- 
põe os foi buscar, assassinando todos sem piedade. 

Não lhe aproveitavam as constantes admoestações 
dos missionários, para impedirem taes crueldades, e 
como novamente fosse por estes censurado, por haver 
contraindo um casamento incestuoso, tão indignado 
ficou, que retirou todos os bens ao clero, e promul- 
gando éditos contra a religião, declarou que faria cair 
a sua ira sobre todos os portuguezes. 

O seu successor D. Álvaro VII (1662), incitado pe- 
los feiticeiros, levantou contra os portuguezes um exer- 
cito numeroso, disposto a esmagal-os. N'essa epocha 
o absoluto poder que o rei do Congo exercia sobre os 
povos vizinhos era tal, que d'elles dispunha a seu 
bel-prazer. Ao minimo signal levantava exércitos in- 
numeraveis, pondo-se de súbito em campo. Carli e 
outros viajantes contam que elle marchou contra os 
portuguezes á testa de novecentos mil homens, cifra 
estupenda, pouco acceitavel mesmo, a não querermos 
suppor que o audaz monarcha se dispunha a conquis- 
tar o mundo. 

Os seus n ganga lhe haviam predito a victoria, bem 
como uma entrada triumphal em Loanda, capital do 



Historia politica do Congo 51 

reino que ia invadir, conduzido pelos principaes se- 
nhores portuguezes. 

Álvaro, entontecido com similhantes ideas, avançou 
sobre Angola em 1663. 

Governava então aquelle reino André Vidal de Ne- 
greiros, que enviou ao encontro da estranha multidão 
Luiz Lopes de Sequeira com duas peças, quatrocen- 
tos espingardeiros portuguezes e quatro mil pretos, 
commandados por Manuel Rebello de Brito, Diogo 
Rodrigues de Sá e Simão de Matos. 

Quando se avistaram os belligerantes nas terras do 
dembo Ambuilla, o cauteloso D. António retirou-se 
para urna eminência, a fim de observar a acção. 

Travou-se a lucta, e empenhando-se seriamente 
n'ella os portuguezes, desbarataram ao cabo de pou- 
cas horas as forças do rei negro, caindo Luiz Lopes 
de Sequeira com sua columna sobre a eminência onde 
estava D. António, que pagou com a cabeça a audá- 
cia de arremetter com Angola. Essa cabeça foi levada 
em triumpho para Loanda, terminando assim a ques- 
tão por um desfecho bem differente d'aquelle que lhe 
haviam prophetisado os ngangas. Carli diz que Se- 
queira lhe amrmára que todas as guarnições das ar- 
mas e adereços do rei eram de puro oiro batido. Em 
acção de graças pela victoria de Ambuilla foi fundada 
na capital a igreja da Nazareth. 

Assim terminou este infeliz monarcha, a quem o 
orgulho e a cegueira fizeram esquecer os favores nu- 
merosos recebidos dos seus alliados, levando-os contra 
vontade a inflingir-lhe um serio castigo. 

Succedeu-lhe então Álvaro VIII, que, fazendo as 



52 De Angola á contra-costa 

pazes com o governo de Angola, permittiu que se 
procedesse á exploração das suppostas minas de oiro 
do Congo. 

Depois d'elle, Mérolla falla-nos de D. João Simão 
Tamba e de D. Sebastião Grilho, até que em 1671 
Luiz Lopes de Sequeira aniquila o poder do ultimo 
rei do Congo, D. João Haiy. 

Em 1680 os portuguezes conquistam o condado 
do Sonho, e logo o Mani, despeitado, escreveu ao 
núncio de Bruxellas, para lhe mandar outros missio- 
nários em substituição dos capuchinhos, facto a que 
este não accedeu, e se lhe enviou em verdade três 
franciscanos, foi isso com a condição de continuar 
a obedecer ao superior dos capuchinhos, que era en- 
tão o padre Thomaz de Sistula. 

Havia no tempo de Mérolla dezoito igrejas no So- 
nho, e Dapper diz que o mesmo paiz tinha muitas 
escolas, onde os naturaes aprendiam a religião christã 
e a ler e escrever o portuguez, facto que, digamos 
aqui, não se limitava só áquelle ponto da costa, pois 
em 1684, ao tempo em que era governador Luiz Lobo 
da Silva, fundou-se em Loanda um seminário para a 
educação dos indigenas. 

Em vista dos últimos successos e da extincção da 
dynastia reinante, achava-se o reino do Congo sem 
governo autónomo, quando el-rei de Portugal, D. Pe- 
dro II, se lembrou de remediar este grave estado de 
cousas, ordenando ao governador de Angola, por car- 
tas de 17 de março (1690), 29 de abril (1691), e 24 
de janeiro (1693) que fizesse proceder a eleição de 
novo rei. 



Historia politica do Congo 53 

Preparou-se tudo, e por carta de 5 de março de 1700 
é mandada reunir uma commissão composta dos vul- 
tos principaes d'ali, como o conde do Sonho, o duque 
de Bamba e o marquez de Pemba, para que, auxiliado 
pelo padre Francisco de Pavia, superior dos capuchi- 
nhos, procedesse á dita eleição. 

Foi indigitado e eleito D. Pedro de Agua Rosada, 
que em 1702 recebeu a confirmação do governo de 
Portugal. 

Continuaram os capuchinhos a obra dos seus pre- 
decessores no Congo, chegando mesmo em seus tra- 
balhos para o sul a fundar em 1703 um hospicio 
em Loanda. D'ahi para cá, começou de afrouxar o 
trabalho dos missionários por muitas rasões, entre 
as quaes figura a extraordinária mortalidade entre 
os padres que se dedicavam a tão nobre fim, de mo- 
do que em 20 de março de 1814 D. Garcia V se 
queixava a el-rei de Portugal do abandono em que se 
encontrava o Congo, solicitando a remessa de novos 
missionários. 

Em 1859 dissensões intestinas attrahem para ali de 
novo a attenção do governo portuguez. 

Um pretendente á coroa empolga a capital, S. Sal- 
vador, fazendo com que o rei legitimo reclame o auxi- 
lio de Portugal. O capitão Zacharias da Silva parte 
do Bembe e entra em S. Salvador a 25 de junho, ao 
mesmo tempo que outras forças, sob o cominando do 
capitão de fragata José Baptista de Andrade, coadju- 
vado por Theotonio M. Coelho Borges e pelo major 
Roberto dos Santos, investem com o Bembe. Derro- 
tando o inimigo, avançam para o norte e desbara- 



54 De Angola â contra-costa 

tando o Dongo rebelde na capital, restituem a coroa 
ao Muene Totella, D. Pedro V, deixando alii o major 
Ventura José com trezentos homens. 

Eis muito summariamente exposta a resenha do 
movimento politico no estado do Congo, durante um 
lapso de trezentos e setenta annos, em que teve sempre 
acção activa Portugal, até ao dia em que, entendendo 
de necessidade, para evitar luctas, a annexação a An- 
gola, o encorporou em seus domínios. 

Decaído do seu velho esplendor, transformado suc- 
cessivamente em districto e depois concelho da nossa 
província africana, esse antigo império não conserva 
da passada grandeza outros vestígios senão nos tem- 
plos, nas ruínas e nos padrões que por todo elle dei- 
xaram os portuguezes. 

Para aquelles que pelos olhos passarem estas pagi- 
nas deve similhante facto impressionar profundamente, 
levando-os a considerar como foi possível apagar-se 
da superfície da terra, ou afogar-se no meio das sel- 
vas, o potente trabalho de tantas gerações. 

Deve ter sido a incúria governativa, dirão muitos ; 
o afrouxamento do zelo religioso, dirão outros; a in- 
fluencia nefasta da escravatura, dirão os mais atila- 
dos, a causa da desorganisação d'esse estado, que mui 
próximo do curso de um grande rio, e portanto em 
fáceis communicações com a Europa, natural seria 
que prosperasse. 

Não suppomos ter sido, nem a incúria, nem o afrou- 
xamento, mas sim outro o motivo. 

A enxada do progresso não entra com igual facili- 
dade em todos as glebas, e assim como o arado do 



Historia politica do Congo 55 



lavrador em chão batido de argilla e semeado de rocha 
o rasga a custo, e partindo-se no choque de encontro 
as arestas d'esta, não deixa sulco que abrigue a se- 
mente, que então, exposta ás intempéries, se decompõe 
e perde; assim a energia e os capitães das nações, 
poderosos instrumentos a empregar na obra da civili- 
sação e colonisação do mundo, se embotam e perdem 
muitas vezes, por não encontrarem meio próprio onde 
possam implantar e fazer vingar essa preciosa semente, 
d'onde brotam as sociedades, o trabalho e o progresso, 
e se denomina o colono. 

A bacia do Congo parece-nos ser uma d'essas nu- 
merosas zonas que se acha no caso citado, e como a 
costa da Mina, o ardente Sahara, a terra Caliente do 
México e tantas outras, ha de zombar sempre dos esfor- 
ços do europeu, e constituindo, por assim dizer, os der- 
radeiros reductos onde a raça negra só poderá vingar 
e aquartelar-se, ha de também e infelizmente consti- 
tuir uma protecção á barbárie, envolvendo-a nas sel- 
vas e n'um meio onde o europeu succumbirá sempre. 

Quantas não foram, se compulsarmos a historia, as 
tentativas feitas por Portugal para colonisar definitiva- 
mente aquella zona e introduzir ali os benefícios da ci- 
vilisação, e quantos, se os contarmos, os revezes sof- 
fridos? 

Por centenas foram para ali os missionários, por de- 
zenas as colónias, por dúzias se contam as expedições 
militares, e, sem embargo, essa nação que de um fô- 
lego fez o grande império do Brazil, apertada aqui 
no férreo circulo da insalubridade em combate com 
o impossivel, viu desfazerem-se em pó todas as suas 



56 De Angola á contra-costa 

esperanças, derribadas pela mortífera fouce que lhe 
ceifava as vidas de quantos filhos lá mandava. E uma 
hecatombe a historia d'essas tentativas, a sua enume- 
ração uma a uma seria o De profundis entoado em 
louvor de victimas, pois outra cousa não ha por ali 
a assignalar. 

Attentemos no que se vê hoje, lembremos no meio 
da grande labutação que por lá vae (e sem embargo 
dos poderosos recursos da sciencia medica moderna), 
as numerosas victimas que vão marcando cada passo 
do progresso; escutemos os constantes conselhos que 
os homens mais conhecedores a todo o momento dão 
sobre a hygiene a observar; lembremos as declara- 
ções como a de Tisdel sobre a impossibilidade da ma- 
nutenção do europeu ali; e quando, reunindo todos 
esses factos, os sobraçarmos, abalando para os tem- 
pos remotos, veremos que, se hoje a lucta é enorme 
e gigante, talvez impossível, n'aquellas ejDOchas devia 
ter ido mais longe, devia ser insupportavelJ 

Quanto fica dito não é mais do que a expressão da 
verdade; o clima é sempre o factor mais valioso, se 
não o preponderante no retardamento da obra da civi- 
lisação em todas as terras tropicaes, muito principal- 
mente ali; e se os portuguezes que em todo o tempo 
se abalançaram ás emprezas mais atrevidas, recua- 
ram ou antes não proseguiram no Congo, apesar da 
attrahente cobiça de devassar os grandes sertões do 
norte, é porque alguma causa fora do commum os im- 
pediu, e essa causa de certo foi o clima. 

Saneemos o Congo, se tal empreza é praticável, e 
então ver-se-ha para ali correr a torrente colonisado- 



Historia politica do Congo 57 

ra; nas circumstancias actuaes digamos outra vez com 
Tisdel: «Um preto com certa instrucção e medíocre 
conhecimento da lingua fioti, pode fazer entre os natu- 
raes o que o branco nunca fará » ; acrescentando de 
nossa casa: «e esse preto, que nós prepararemos nos 
logares salubres, será o único colono capaz de ada- 
ptar-se n'aquelle ponto, o único capaz de ter predo- 
mínio no Congo». 



CAPITULO I 



NA COSTA OESTE 



Em Angola — Aspecto do cordão litoral e sua vegetação — Terras 
do interior — Entre Cuanza e Bengo, quadro triste — Problemas que nos 
propúnhamos — Material e pessoal — Considerações — Artigos da expedi- 
ção — Francisco Ferreira do Amaral — Uma noticia histórica — Salvador 
Correia e a conquista de Loanda — Fortalezas e edifícios públicos — Os 
jardins, os muceques, a vegetação, a salubridade e a ilha — Os muxi-loan- 
das e a sua opinião aristocrática — Rendimentos e governo — Tribunaes 
judiciaes— Considerações sobre os deportados e colónias penaes. 



_ 




A zona litoral 
das possessões 
portuguezas na 
costa oeste tem 
um aspecto uni- 
forme e n'alguns 
pontos árido, que 
contrasta com as 
terras do norte 
debaixo do equa- 
dor. 

viajante por 
toda a parte vê 
um longo cordão 
franjado n'um ou 
n'outro ponto por pequenas bailias areosas, ao fundo 
das quaes a mancha escura do mangue verde accusa 
a existência de agua, e extensas barreiras aprumadas 



62 De Angola d contra-costa 

e vermelhas entreligam, projectaiiclo-se sobre um fun- 
do longínquo de morros e serras elevadas. A vegeta- 
ção, de triste aspecto em geral, accentua-se pelo bao- 
bab, esse gigantesco vegetal, cujos troncos medem ás 
vezes 20 e 30 metros de circumferencia, por euphor- 
bias como a cassoneira, outra á similhança de um can- 
delabro, e que é suppomos a JEuphorbia hermentiâna (?), 
algumas Hyphcenes, leguminosas rasteiras, bosques de 
jasmineiros, aloés e sycomoros. 

Junto ao mar, nas praias, arrastam-se tristes Con- 
volvulus, a fava do Calabar, etc. 

No sul e nos areiaes safaros a Wehcitschia miràbilis 
e ennegrecidas Bauhinias caracterisam a flora. 

Logo para o interior o paiz é frequentemente park- 
like, e a scena a 8 ou 10 milhas do mar modificasse 
para dar logar a pittorescos golpes de vista, por meio 
de verdes campinas, onde avermelhados Convolvuli , 
amarellas Orcfãdeas e brancos Commeleynce rivalisam 
de brilho, atapetando o terra d'onde emergem Erythe- 
rinas de flores rutilantes e mais avultados exemplares 
do reino vegetal. 

A disposição, de mais em mais elevada, das terras 
opera notáveis mudanças na vegetação, e ao quadro 
que acabamos de descrever succede-se, á medida que 
vamos para o interior, outro de mais risonho aspecto, 
pelas arvores gigantes que tudo cobrem com a sua fo- 
lhagem, elevadas gramíneas e numerosas palmeiras 
oleosas. 

No parallelo de Loanda as grandes florestas appro- 
ximam-se muito do litoral, vendo-se em Cazengo e Gro- 
lungo os mais formidáveis exemplares africanos. 



Na costa oeste 63 

Junto ao mar, emfim, e entre os rios Bengo e Quan- 
za, é triste o quadro que se revela na nudez das bar- 
reiras avermelhadas do Cacuaco, Dande, etc, e nas 
ondulações interiores de Caculo-Cassongo e outros 
pontos, como adiante veremos. 

Foi em março de 1884 que alii começou os seus 
trabalhos a nossa expedição, esperançada em resolver 
vários problemas, nos quaes figurava o de encontrar 
um caminho commercial entre as provindas portu- 
guezas de Angola e Moçambique; inquirir nas regiões 
centraes as relações das bacias hydrographicas do 
Zaire e Zambeze; e atravessar emfim pelo meio as 
zonas branqueadas que na carta existiam, taes como 
a terra ao oeste do valle de Barotze, aquella que se 
estira para o nordeste do Cabompo até á região dos 
lagos, e emfim toda a que do sul do Bangueolo vae 
até ao Zambeze. 

Ligavam-se a este triplo problema outros de im- 
portância secundaria, que deixávamos ao acaso o cui- 
dado de nos fazer conhecidos; mas o nosso plano era 
principalmente estudar e esclarecer em definitivo toda 
a zona central da nossa provincia angolo-moçambi- 
cana, calculando até que ponto os férteis sertões que 
a constituem poderiam encontrar no Zambeze uma 
saída para os seus productos. 

Como facilmente se pode deprehender, tão grave 
assumpto representava para os nossos interesses uma 
questão de summa importância, e carecia de attento 
estudo, bem como reclamava uma apropriada escolha 
de itinerário, que melhor podesse decidir em matéria 
de aproveitamento. 



64 De Angola á contra-costa 

Escusado é acrescentar que não foi sem séria he- 
sitação que tomámos sobre os hombros esta empreza 
que tão longe nos iria arrastar pelos matos; rude ta- 
refa, quiçá um pouco superior aos recursos de que dis- 
púnhamos, apesar de ter o governo de Sua Magestade 
ordenado que se nos entregasse tudo quanto para tal 
fim requisitássemos. 

Contando porém com os conhecimentos na primeira 
viagem adquiridos, preparámo-nos como podemos, 
não devendo por isso causar estranheza o modo por 
que a ageitámos, e sobretudo a exiguidade dos ar- 
tigos de que nos fornecemos, factos sobre que vamos 
dizer duas palavras. 

Devia contar o nosso pessoal o limitado numero de 
cento vinte e quatro pessoas, numero sem duvida res- 
tricto, mas que não convinha exceder, embora grande 
fosse o commettimento. 

A pratica que temos do sertão ha muito nos evi- 
denciou que, quanto mais numerosa é a caravana, 
maiores são os embaraços e mais graves as complica- 
ções que por toda a parte se lhe deparam; bem como 
é obvio que, para maior numero de cargas, mais cres- 
cido deve ser o numero de carregadores, e que, em 
igualdade de circumstancias, tudo quanto excede uma 
centena de homens vae muito alem das necessidades 
de uma viagem ao mato, excedendo sobretudo em 
muito a cifra para que em geral se podem encontrar 
recursos ali. 

Não é só sob este ponto de vista que deve encarar- 
se a organisação de uma comitiva preparada para lon- 
gos emprehendimentos, bem o sabemos ; da sua segu- 



Na costa oeste 65 

rança atravez dos bosques africanos pode depender o 
êxito dos trabalhos a executar, segurança que princi- 
palmente se baseia no numero, e d'este é consequência 
também a maior ou menor somma de confortos de que 
precisa cercar-se o europeu quando percorre aquellas 
regiões. 

Como, porém, a gente deve habituar-se um pouco a 
andar á mercê da sua boa estrella, e convencer-se de 
que n'este inundo nada resiste a uma força de vontade 
determinada, e que o principal é ter saúde, lançámos 
de banda receios, prescindindo de tudo que podesse 
embaraçar a nossa marcha, circumstancia da qual de- 
pendia, a nosso ver, o problema que nos propúnhamos. 

Considerando isto, em logar de uma centena de far- 
dos de fazenda, dispozemos e organisámos vinte e sete 
de algodão e riscado; em vez de uma profusão de 
cargas de missanga, somente uma dúzia de saccos de 
cincoenta libras; para miudezas, instrumentos e raros 
presentes três caixas; quatro ditas para o que cha- 
mávamos rancho, isto é, chá, café, sal, assucar e adu- 
bos ou temperos; e, finalmente, uma para artigos de 
mesa *. 

Duas grandes canoas, uma pharmacia, seis cunhe- 
tes de cartuchame Snider e dois de nossas armas, duas 
tendas, um fardo de arame de latão, dois saccos de 
lona pintada, contendo fatos de flanella, e uma mu- 
hamba com artigos de cozinha, compunham por assim 
dizer todo o material da expedição. 



1 As caixas eram forradas e de dimensões próprias a poderem ser 
conduzidas ao hombro. 

5 



66 De Angola á contra-costa 

Ageitado este, ficava a parte mais aborrecida e en- 
fadonha; a do engajamento do pessoal, tarefa sempre 
cheia de decepções e duro soffrer para quem a sorte 
aprouve lançar em taes commettimentos, e a que só 
paciência de aço e desusada pertinácia, envelhecida 
no seu conhecimento, pode fazer frente. 

Que o digam aquelles que, como nós, ali têem tra- 
balhado, se alguma cousa ha que desafie ao desespero, 
como essas scenas repetidas de fugas, enganos e per- 
fídias que acompanham sempre os preliminares de 
uma expedição africana. 

Nenhum explorador pôde isentar-se d'elles, nem um 
só deixou de relatar as angustias d'esses primeiros dias 
de mato, da desesperação causada pelas fugas, receios 
e conluios de carregadores e chefes, sem exprimir pro- 
funda tristeza. 

Entretanto, nada aproveitam as suas sentidas des- 
cripções e os seus numerosos esclarecimentos; aquelle 
que infelizmente lá volte, tem de passar pelos mes- 
mos dissabores, ficando-lhe somente dos camaradas a 
recordação de os haver tido por companheiros no sof- 
frer. 

Felizmente para nós, deu-se uma circumstancia que 
minorou todos estes obstáculos, a qual de bom grado 
aqui registámos, como tributo de serio reconhecimento 
ao homem que em Angola nos dispensou a mais apre- 
ciável protecção. 

Achava-se á testa do governo da província Fran- 
cisco Ferreira do Amaral, um dos mais sympatlncos 
officiaes da marinha real portugueza, e foi elle que, por 
habituado ás lides africanas e de intelligencia a com- 



Na costa oeste 67 

prehencler estes obstáculos, nos aplanou com o seu 
auxilio e conselho bastantes dificuldades. Tudo se fez 
com ordem e por maneira tal, que nos primeiros dias 
de março íamos a caminho de Mossamedes, onde uma 
corveta de guerra nos devia receber e transportar, 
acto contínuo, a Porto Pinda, ponto indicado como 
inicio para a partida. 

Alegres e contentes se achavam prestes a largar 
Loanda cento e duas pessoas do Celli, da Quisanga, 
de Novo Redondo e do Nano, que iam encontrar com- 
panheiros em Benguella, e satisfeitos nós também de- 
sejaríamos abalar; não o faremos, todavia, sem dizer 
duas palavras acerca da posição geographica, aspecto 
e importância da primeira cidade da província de 
Angola e sede do seu governo. 

Com grande receio vamos lançar-nos ainda nos 
domínios da historia, pois tememos que por abuso 
d'ella se melindre a benevolência do leitor; mas se na 
verdade é aborrecivel relembrar factos e datas que 
pela maior parte deviam existir na memoria de todos, 
nada ha tao agradável como restabelecel-os. 

Acontece que, se de muitos é conhecida a historia 
e seus geraes detalhes com referencia ás nossas pos- 
sessões mais importantes, outros parecem completa- 
mente ignoral-os, e não figuram pelo menor numero 
os estrangeiros, que de resto, tendo estado n'ellas, as 
amesquinham e deturpam nos seus -escriptos, espa- 
lhados com profusão, produzindo nos espíritos idéas 
erróneas a nosso respeito! 

Está n'este caso a nossa cidade de Loanda, capital 
da província, que, por desleixo incomprehensivel de 



68 De Angola á contra-costa 

um escriptor, se não por má fé, ainda ha bem pouco 
foi alvo de uma injustíssima descripção feita em volu- 
moso livro, que a arrastava pelo nivel da mais sórdida 
das senzalas. 

Urge pois, sem pretender eleval-a, dar á sobredita 
descripção, em uma singela noticia, o cunho verda- 
deiro de que carece. 

A historia da conquista de Angola e fundação de 
Loanda seria longa tarefa, que os limites impostos a 
este capitulo não permittem. Afastando-nos pois da 
narrativa das nossas descobertas na costa, e da expo- 
sição minuciosa dos trabalhos ali operados por Paulo 
Dias de Novaes, seu primeiro governador, tão distincto 
diplomata quanto intelligente general, assignemos a 
primeira data notável. 

E a de 1641, anno da conquista de Loanda pelos 
hollandezes, que assim se achavam dominando na 
Africa occidental, depois de possuirem uma grande 
parte do Brazil. 

Salvador Correia de Sá Benevides, que partira de 
Portugal com uma frota para limpar as costas da 
America do sul, aportando ali pouco depois, trava 
lucta, e batendo os hollandezes no Recife e logo na 
Bahia, prosegue para leste, incumbido pelo monarcha 
D. João IV de erigir uma fortaleza na feitoria e porto 
de Quicombo, se infelizmente não podesse tomar posse 
de Loanda. 

Foi a 12 de março de 1648 que elle, capitaneando 
a referida frota, composta de quinze navios, quatro 
dos quaes adquirira e equipara á sua própria custa, 
soltou vela do Rio de Janeiro. 



Na costa oeste 



69 



Chegado a Quicombo em agosto com cerca de no- 
vecentos homens, Salvador Correia reuniu acto contí- 
nuo conselho de officiaes, e explicando-lhes a necessi- 
dade de livrar a villa interior de Massangano das mãos 




RAPARIGA CELLI 



Tirado de uma photograpfiiã 



dos inimigos, convidou-os a que o acompanhassem na 
empreza. Com tanta arte soube actuar no coração dos 
audazes companheiros, por tal modo lhes fallou nas 
esperanças da pátria, na grandiosidade dos feitos de 
outr'ora, e na honra e gloria que os esperava, que, 



70 De Angola á eontra-costa 

concluído o conselho, tudo se dispoz da melhor von- 
tade para a partida. 

Sendo indubitavelmente a cidade de Loanda chave 
da conquista, para ali se fez a esquadra de vela, e em 
12 de agosto surgia no seu porto. 

Não se demorou Salvador Correia com planos e 
delongas, e enviando um official a terra, intimou a 
guarnição da fortaleza a que se rendesse, conceden- 
do-lhe dois dias para dar resposta. 

Ao cabo de quarenta e oito horas, como se recu- 
sassem os hollandezes a responder, fez um tiro o na- 
vio chefe, desembarcando da esquadra toda a força 
disponivel. 

A principio quizeram os indígenas oppor tenaz re- 
sistência, mas vendo o numero dos nossos fugiram 
aterrados, ao passo que Salvador Correia, rompendo 
com a sua artilheria um vivo fogo, dava no dia 15 
assalto geral á fortaleza. 

Abandonados pelos naturaes seus alliados, começa- 
ram os hollandezes de se arreceiar, até que pela tarde 
d'esse dia propozeram a capitulação, que foi ])elo ge- 
neral immediatamente acceita. 

Entregando assim as armas, saíram ao todo mil e 
quatrocentos individuos, segundo parece, dos quaes 
trezentos andavam juntos á rainha Ginga, e, sendo 
mettidos em três navios, foram enviados sem demora 
para a Europa. 

No curto espaço de dois dias, pois, e impellidos pelo 
génio de Salvador Correia, conquistaram os portu- 
guezes de novo a capital da sua provincia, que sete 
annos estivera na posse dos hollandezes. 



Na costa oeste 71 

É na latitude 8°.47' sul e longitude 13°.7'.30" oeste 
de Greenwich ao fundo de formosa bahia, que está 
edificada a cidade de Loanda ; dividida em dois bairros 
distinctos, respectivamente denominados alto e baixo; 
sendo o primeiro o bairro elegante e onde se acham 
os edifícios mais importantes, e o segundo aquelle 
propriamente commercial. 

Defendem-na ao presente quatro fortalezas, que 
se denominam S. Miguel, S. Francisco do Penedo, 
S. Pedro do Morro de Cassamdama e Nossa Senhora 
da Conceição 1 . 

A primeira, construida pelo systema Yauban, com 
a forma de um polygono irregular, adaptada á con- 
figuração do morro de S. Miguel, é de todas a mais 
importante. 

Começada em 1638 pelo governador Francisco de 
Vasconcellos da Cunha, foi concluida em 1689 por 
D. João de Lencastre, juntando-lhe em 1770 o go 
vernador D. Francisco de Sousa Coutinho a bateria, 
que ainda hoje se conhece pela do Cavaileiro, com 
dezeseis peças. 

Para o lado do mar uma cortina com quatorze fa- 
ces pode montar setenta e oito bocas de fogo, sem 
contar uma pequena bateria de seis peças, ao passo 
que pelo lado da terra dois valentes baluartes, com 
dez canhões cada um, cruzam os seus fogos com a 
bateria do Cavaileiro. 



1 Xa ponta norte da ilha existiu em outro tempo, no começo do século 
xvin, o forte de Nossa Senhora da Flor da Rosa, de que hoje resta ape- 
nas a memoria, e na barra de Corimba o forte de S. Fernando. 



72 De Angola á contra-costa 

No seu vasto recinto ha residência para o governa- 
dor, quartéis, paioes, e cisternas para mais de mil e 
quinhentas }DÍpas de agua, como também capella, pri- 
sões, etc. 

Foi aqui que em 15 de agosto de 1648, sete an- 
nos depois de terem conquistado a cidade, como dis- 
semos, os hollandezes capitularam. 

Vem em segundo logar a do Penedo, svstema Vau- 
ban, cujos fundamentos foram lançados em 1687 pelo 
governador Luiz Lobo da Silva, e que D. Francisco 
de Sousa Coutinho completou em 1765, unindo uma 
rocha isolada no mar ás penedias da terra firme, no 
curto espaço de dezoito mezes. 

Tem a bateria superior vinte e quatro peças, e a 
inferior trinta e sete d'estas machinas de guerra, fa- 
zendo com que o forte domine por connoleto a entrada 
do porto, bem como o caminho do Cacuâco para Loan- 
da. No seu paiol armazenam-se 128:000 libras de pól- 
vora. 

Successivamente encontra-se o forte de S. Pedro, 
obra do governador D. António Alvares da Cunha, 
que o começou em 1703, acabando em 1705. Para o 
lado do mar duas baterias se sobrepõem, a de cima 
com dez bocas de fogo e a de baixo oito, ao mesmo 
tempo que dois baluartes, cada um tendo nove peças, 
a defendem dos ataques de terra. 

O governador possue ahi residência, bem como 
quartéis, depósitos e cisterna para cincoenta pipas de 
agua. 

Emfim, tem a de Nossa Senhora da Conceição, de 
menos importância, com quatro bocas de fogo. 



Na costa oeste 



73 



Loanda é uma cidade ampla, limpa e pittoresca. 
Graciosamente reclinada na encosta das terras que 
miram ao noroeste, ostenta, quando vista do lado do 
mar, o aspecto de uma cidade europêa, com os seus 
renques de asseiadas e bem dispostas casarias, que, 




HOMEM DO NANO 
Segundo uma pholorjraplna 



sobrepondo-se garridas umas ás outras, se ligam por 
extensas calçadas. 

Po s sue muitos edifícios e seria longo aqui enumerar 
todos. Citaremos, entre os principaes, o hospital perto 
de Ponta Negra, verdadeiro sanatorium, que não tem 
igual em Africa; o palácio do governador, obra im- 



74 De Angola á contra-costa 

portante; o palácio do bispo, a escola de artes e ofíi- 
cios, o tribunal da relação, a casa da camará, a alfan- 
dega, officinas de fundição, etc, sem contar muitos 
templos e grande numero de edifícios particulares. 

Existem vários jardins, públicos, entre os quaes 
figura o da Ponta de Izabel, com quinhentas arvores 
de fructo, dividido em cinco avenidas, de que a cen- 
tral tem nove terraços com uma pyramide em cada 
extremidade, cortando direita por um lado á casa de 
recreio do governador, construida em 1817 pelo vice- 
almirante Mota Feo, e á igreja da Nazareth; o jardim 
do largo de Salvador Correia, etc. 

Nas terras altas, que pelo nordeste a dominam, 
são numerosas as casas de campo denominadas muce- 
quês, onde os abastados de Loanda passam em ócios 
os seus dias de ferias. 

A cidade alta é indubitavelmente considerada a 
mais saudável, e onde reside uma grande parte da 
população branca. 

A vegetação é constituida em geral por euphorbias, 
bao-babs e aloés. 

Conrpletamente livre de pântanos, que tanto' con- 
correm, como é sabido, pc\ra a insalubridade de qual- 
quer região, Loanda soffre um pouco de falta de agua, 
problema que não seria difíicil resolver, e está mesmo 
em via de solução, fazendo-se o seu abastecimento de 
agria do rio Beng-o. 

As ruas são bem calçadas, mas depois de termina- 
rem as chuvas é necessário desobstruil-as das areias 
que se accumulam, em consequência da desaggrega- 
ção, nas encostas das terras altas. 



Na costa oeste 75 

Dá este facto logar a que o recemchegado n'aquella 
epocha supponlia não calçada a cidade baixa, sendo 
este um defeito irremediável até agora. 

Fronteira â cidade está a ilha,' espécie de quebra- 
ntar de areia, que, estirando-se do sul ao norte, abriga 
dos movimentos do oceano o porto interior, que se 
pôde considerar um verdadeiro tanque. 

Numerosos coqueiros vestem essa longa facha are- 
nosa, outr'ora importante pela colheita do cauri 1 . Por 
meio do palmar, brancas casas de campo constituem 
o recreio de muitos senhores de Loanda, e á sua som- 
bra vive uma população de talvez mil e quinhentas 
almas, compondo-se a terça parte de pescadores. 

Os habitantes da referida ilha são os muxi-loan- 
das, aristocráticos e directos descendentes dos mani- 
congo (em sua opinião), povos que ali tiveram o seu 
ultimo asylo, fazendo de suas pessoas icléa muito li- 
sonjeira 2 . 

Em resumo, a capital da provincia de Angola, tem 
hoje uma população de dezeseis mil almas, um movi- 
mento de iurportação e exportação de vulto e um ren- 
dimento }3ara o thesouro assas considerável. 

A sua força publica monta em caso de guerra a 
vinte mil homens, quinze mil dos quaes são de segunda 
linha, guerra preta e empacaceiros, e os restantes de 
primeira. 



1 Cauri, zimbo, búzio. ISTesta ilha residia, nos tempos da grandeza do 
Congo, um logar tenente do rei para apanhar o cauri. 

2 Xo tempo de Merola e outros, havia n'esta ilha sete povoações (li- 
batas), sendo a principal a do Espirito Santo, com sua capella. 



76 De Angola d contra-costa 

A instituição da sua camará municipal data do anno 
de 1648, e compõe-se de um presidente e seis mem- 
bros gratuitos, percebendo salário apenas o secretario 
d'aquelle corpo collectivo. 

De longa data desappareceu a escravatura ali, e 
quando pelo decreto de 10 de dezembro de 1836 se 
prohibiu a entrada nas colónias de todos os escravos 
por mar, e em 14 de dezembro de 1854 a sua intro- 
ducção pela via terrestre, já na cidade capital da pro- 
vinda se não pensava sequer no homem n'estas con- 
dições. 

A sede do governo geral é n'esta cidade, e está in- 
vestido na pessoa de um governador militar, official 
que logra as honras dos antigos capitães generaes, 
supremo administrador, que faz todas as nomeações 
civis e militares com a conveniente sancção do gover- 
no da metrópole, e preside á junta governativa, com- 
posta das principaes summidades ecclesiasticas, civis 
e militares, assim como sancciona todos os negócios de 
fazenda. 

Nos tempos da conquista os negócios judiciaes de 
Loanda e dos districtos em redor eram dirigidos pelo 
ouvidor geral, jurisconsulto para esse fim nomeado, 
com a assistência de dois magistrados, um em Loanda, 
outro em Massangano. 

Em todos os presidios a magistratura era investida 
nos commandantes militares. 

Em 1721 nomeou-se para ali o primeiro juiz de 
fora, e em 1837 foram creadas as comarcas de Angola 
e Benguella; hoje são numerosas na provincia e todas 
têem seus juizes e delegados. 



Na costa oeste 77 

Ha um tribunal judiciário com as varas respectivas 
do crime e eivei, e uma relação; um procurador régio, 
um guarda mor ou ajudante completam o quadro, e 
alem d'estes um curador geral dos indigenas na costa. 

Uma das grandes catastrophes que durante annos 
victimou a cidade capital de Angola, e quiçá os dis- 
trictos do sul, causando-lhe na metrópole uma repu- 
tação aterradora, foi a proveniente da remessa dos 
degradados para ali, facto que, occasionado por sen- 
tenças condemnatorias de deportação e degredo, espa- 
lhou entre as populações provinciaes de Portugal as 
mais negras suspeitas a propósito d'aquella parte da 
monarchia. Muitas seriam as mães que consentissem 
a emigração de seus filhos para o Brazil, com espe- 
ranças no seu bom futuro; mas raro quem, ao ouvir 
dizer «o teu filho vae partir para Angola», podesse 
conter as lagrimas. 

Felizmente as cousas têem mudado com as sabias 
medidas do governo; e como em capitulo adiante te- 
remos de fallar das zonas saudáveis da nossa colónia 
occidental africana, e do interesse da sua povoação, 
digamos alguma cousa sobre o modo de prover ás 
menos salubres. 

Se os trabalhos públicos podem nas terras sãs en- 
contrar nos agrupamentos de degradados um precioso 
recurso para o seu desenvolvimento, não menos apro- 
veitam as zonas pouco saudáveis com a applicação re- 
grada dos esforços d'estes. 

As grandes derrubadas, as multiplices drenagens e 
outros elementos de saneamento podiam ter no, traba- 
lho do degredado um precioso auxiliar, e não menos 



78 De Angola a contra-costa 

ganharia a moral pelo emprego oVelle n'esta zona, pois 
a febre intermittente para o criminoso deve conside- 
rar-se a melhor das medidas sanitárias, debaixo d'este 
ponto de vista. 

O criminoso de boa constituição physica é em geral 
um ente de instinctos brutaes, rebelde a quaesquer 
sentimentos humanitários; logo, porém, que a doença 
o domina, o seu modo de ver modifica-se e sob a 
suave pressão da morbidez o espirito como que se pu- 
rifica ! 

Não é necessário ir longe para encontrar demon- 
strações a este facto (aos olhos da philanthropia talvez 
condemnavel por monstruoso); está elle no animo de 
muitos governadores, cujas opiniões aqui podiamos 
facilmente citar, e diz-nol-o, emfim, um celebre via- 
jante, que em suas peregrinações passou por Angola, 
homem insuspeito, attento o caracter religioso que o 
revestia. 

«E um facto notável, diz elle, que durante a noite 
quasi todas as armas de Loanda estão sem perigo nas 
mãos de homens enviados para ali por degredo. Mui- 
tas são as rasões apresentadas a favor d'este suave 
procedimento por parte das auctoridades ; mas nenhu- 
ma d'ellas, quando comparada com o que sobre o caso 
conhecemos na Austrália, nos parece valiosa. A reli- 
gião não cremos que se relacione com a mudança ope- 
rada no europeu. O clima provavelmente tem influen- 
cia em dominar as suas turbulentas disposições ; para 
os habitantes, etc. Se nós inglezes devemos ter coló- 
nias penaes, parece-nos que um serio estudo acerca 
do clima deve ter vantagens na selecção. » 



Na costa oeste 79 

Isto dizia um liomeni tão conhecedor do assumpto 
como nós da nossa casa; e isto, repetimos, é um facto 
que merece muita attenção, ao qual se não deve jogar 
a humanitária pedrada de assassinar quem possue di- 
reito á vida. 

Nao queremos de certo a morte do degradado, mas 
o que desejamos é aproveitar d'elle o mais possivel, e 
concorrer efíicazmente para regeneral-o em beneficio 
próprio e da pátria. 

Diminua-se, pois, o tempo do degredo a doze, sete 
e cinco annos; revogue-se de uma vez para sempre 
a reclusão em masmorras, que é a morte n'aquellas 
regiões; organisem-se colónias penaes agricolas em 
Ambaca, Malange, Duque, Cassanje e Cuango, e dis- 
tribuam-se por ellas os individuos condemnados a de- 
gredo que a metrópole envia periodicamente para 
cumprirem sentença. 

Sejam arejadas as residências, substancial a alimen- 
tação, bem distribuido o trabalho. Estradas, edifícios, 
arroteamentos de terras mandem-se fazer por elles, e 
em horas especiaes, das seis ás dez da manhã e das 
três ás seis da tarde. A ninguém se conceda isenção, 
excepto no caso de moléstia, nem se permitta licença 
para afastar-se do recinto da colónia senão após qua- 
tro annos de exemplar comportamento. 

Prohiba-se toda a espécie de transacção monetária 
no primeiro espaço de dois annos, ajDroveitando inva- 
riavelmente os esforços d'essa gente reunida, no bem 
da colónia e saneamento da zona. As febres virão sem 
duvida, mas para essas temos o quinino e as indica- 
ções de individuo conhecedor do mester, que só aucto- 



80 De Angola â contra-costa 

risará o regresso á capital dado o caso de perigo de 
vida. 

Do seu enervante influxo conseguir-se-ha a corres- 
pondente depressão de espirito, sendo o primeiro passo 
para o saneamento moral, como que o sulco onde se 
lança a semente da regeneração, que o trabalho mo- 
derado e a fagueira esperança do indulto depois com- 
pletam. 

E se infelizmente por systema tal não se poderem 
obter os desejados fins, legisle-se de modo a crear 
mais enérgicos meios repressivos. 

E deixemo-nos de ternuras, repetimos, com a lem- 
brança dos effeitos do clima. Não ha motivo plausivel 
para nos enternecermos mais por degradados do que 
pelos nossos ofhciaes, membros de magistratura e ou- 
tros que por lá andam, e diariamente se empregam no 
serviço do seu paiz. 

Acima de tudo está o que propomos, sendo questão 
secundaria o meio de o conseguir. 

Trata-se de evitar a liberdade contraproducente de 
que desfructa o deportado na colónia, liberdade que, 
dando largas ao vicio, aggrava a desmoralisação, es- 
perdiçando homens que aproveitados j)oderiam pro- 
duzir muitissimo; portanto tome-se uma resolução; 
e aquella que apresentamos, modificada ou desenvol- 
vida por individuos mais conhecedores do assumpto, 
é de todas a que nos parece mais acceitavel. 

E uma tentativa, e quando nada mais se consiga, 
ter-se-ha ao menos ganho a certeza de que tarde ou 
nunca serão colonisaveis as zonas assim trabalhadas 
e que o europeu difficihnente ali poderá viver. 



Na costa oeste 81 

A philanthropia quando vae alem de certos limites 
descamba na loucura. 

Eis em breves traços um esboço da cidade de Loan- 
da, que só aguarda os benefícios da moderna viação 
para attingir a prosperidade que merece, bem como o 
nosso parecer sobre a questão dos deportados; e agora 
que o tempo urge, abandonemol-a para, seguindo 
Atlântico afora, ir até ao porto de Mossamedes. 



CAPITULO II 



PRIMEIROS PASSOS 



O companheiro negro e a sua ingratidão — A corveta Rainha de Por- 
tugal e a abalada — Porto Pinda — Os areaes e a primeira noite — Ponto 
de partida e rasões de sua escolha — O homem põe e Deus dispõe — A 
primeira marcha e o aspecto do terreno — Caracteres geológicos — Os 
habitantes do Coroca e o dique dental — Numeração — Dos trajes e mu- 
lheres — O adultério e os funeraes — O boi preto e a circumcisão — Ter- 
rores gentílicos — Vegetação do Coroca — Fauna ornithologica — Fuga 
de quarenta e dois homens. 




me; 
Jp%V- 



■•■'. 



'." : 




O dia tinha 
apenas a cla- 
reado ; os pri- 
meiros alvo- 
res da manhã, 
.^f invadindo com a 
/ :J ~ sua luz ténue o es- 
paço, começavam de 
deixar perceber os contornos cia vasta bahia, que em 
escuro cordão nos rodeava; as fulgurantes constella- 
ções do sul, desvanecendo-se, desappareciam no fun- 
do cerúleo, quando nós preoccupados nos erguemos. 



86 De Angola ã contra-costa 

Chegara a hora de partir, hora sempre cheia de cui- 
dados para quem se propõe a qualquer empreza arro- 
jada. 

O facto de organisar uma expedição africana, e espe- 
cialmente o momento da sua partida, embora a muitos 
pareçam objectos de pequena monta, estão bem longe 
de o ser, repetimol-o mais ama vez. 

O companheiro negro, verdadeira gazella volúvel, 
espirito irrequieto e vicioso, caracter frouxo e em 
extremo tímido, diíflcilmente comprehendendo as ne- 
cessárias obrigações a que o liga um contrato, e não 
acreditando de modo algum nos altos interesses de 
questões d'esta ordem, prepara a todo o momento, 
com uma inconsciência, pueril, a sua perda nos mais 
singelos actos. 

Nada lhe importa depois de engajado e cie recebi- 
dos os adiantamentos; o mesmo volumoso material, 
cuja organisação auxiliou durante dias, tem para elle 
um valor secundário, assim como o interesse e o afan 
que os chefes manifestam pelo lote de artigos que cui- 
dadosamente jDrepararam; sendo o seu sonho único, 
feitos os avanços, burlar quem lh'os concedeu, e para 
isso põe em pratica todos os meios imagináveis! 

E nós, que os conhecemos, tremíamos de antemão. 

Engajae a vossa gente em toda a costa, e dae-lhe 
adiantado quanto exigirem; reuni-os em torno de vós, 
dispondo tudo para a partida; na véspera d'esta abri 
três ou quatro fardos de algodão, e, rasgando á direita 
e á esquerda, distribui por todos gratuitamente, a fim 
de os affeiçoardes e prenderdes a vossa pessoa; fazei 
mais, chamae os chefes, e presenteae-os com um fato 



Primeiros passos 87 

completo, dinheiro, etc; pois bem, no momento de 
abalar, desertar-vos-hão em massa metade d'aquelles 
a quem generosamente recompensastes! 

A ingratidão e a perficlia, essas torpes faculdades 
tão communs nas intelligèncias rudimentares, formam 
o traço característico do negro. 

E não se imagine que jeremiamos aqui para mais 
avultar a nossa obra, ou crearmos maior sympathia a 
esta ordem de trabalhos; de modo algum é essa a idéa, 
e, sob o ponto de vista da verdade, julgâmo-nos tão 
felizes e afoitos como todos os nossos predecessores. 

Ouçamos sobre o caso Stanley, a quem no Tanga- 
nika fugiram de uma vez meia centena de homens : 

«E á infidelidade dos seus carregadores que se de- 
vem attribuir os longos rodeios a que Livingstone foi 
obrigado em sua ultima viagem. Cameron, por sua 
vez, igualmente perdeu um grande numero de homens, 
primeiro no Unyaniembê e depois em Udjiji. Eu por 
minha parte sabia, pela experiência adquirida na pri- 
meira viagem na Africa central, que os ba-nguana 
aproveitariam todas as occasiões para desertar, espe- 
cialmente na vizinhança dos depósitos árabes. 

«Foi para restringir o numero d'estas occasiões 
que eu deixei o caminho », etc. 

Carece assim o explorador de toda a energia e boa 
vontade para supportar os primeiros revezes e os fre- 
quentes golpes, e se em tirocínio anterior não conse- 
guiu dominar de algum modo o indigena n'esta qua- 
dra dos seus trabalhos, pode convencer-se de que 
pouco fará, não lhe sendo também possivel a convi- 
vência com elles. 



88 De Angola á contra-costa 

Preoccupados, como dissemos, e com rasão, ergue- 
mo-nos. 

Estávamos a bordo da corveta Rainha de Portu- 
gal, do cominando do capitão tenente Guilherme Au- 
gusto de Brito Capello 1 , que, surta no porto de Mos- 
samedes, se aprestava a transportar a expedição por 
nós capitaneada para Porto Pinda. 

Por cima da tolda, em confuso borborinho, agitam- 
se todos os nossos companheiros de cor, ora escan- 
carando os últimos bocejos, ora espreguiçando os 
membros envolvidos em pannos multicores, com ar de 
despreoccupados, quando o toque da corneta para a 
ração da aguardente os arrancou á inconsciente ta- 
refa. 

Podando a celha, começavam de aquecer os estôma- 
gos, emquanto no navio as cousas se dispunham, e 
tão regularmente tudo se fez que, escapando o vapor 
pelo tubo da descarga ás cinco horas e meia, momen- 
tos depois estava a amarra guarnecida ao cabrestan- 
te, e, achando-se de seguida postados ao leme e á pru- 
mada os marinheiros especiaes d'esse serviço, subia o 
commandante a j)onte trinta minutos depois. 

Vira; está a pique; arranca; está a olho; engata o 
turco, vira ao apparelho; avante devagar; a estibordo o 
leme, foram as phrases que se seguiram no meio do 
silencio de uma manobra de bordo; e, n'um volver 
de olhos, a elegante corveta, fazendo cabeça para o 
mar, seguia donairosa a bahia de Mossamedes afora, 
e dando a popa a essas areias de monótono aspecto, 



1 Irmão de um dos auctores d'este livro. 



Primeiros passos 



89 



botava ao susudoeste paraUelamente á costa, cujo cor- 
dão se distinguia até morrer no sul em ponta avan- 
çada. 

Uma brisa fagueira soprava no mar, que, plano e 
como que ainda adormecido, mal embalava o navio. 



E v,v( N|y/D£ 




rapaz coiióca (de face) 
Seyundo photixjrapliia 



Subimos. 

Era a nossa derradeira viagem pelo oceano n'esta 
epoclia; e, na qualidade de marinheiros, queriamos 
desfruetar o prazer de nos suppor na ponte, encarre- 
gados de um quarto d'alva. 



90 De Angola á contra-costa 

E que, apesar de tudo, embora seja duro o viver 
do homem do mar, mal vae a quem, ao apartar-se por 
annos d'aquelles paus ao alto, não sente coiifranger- 
se-lhe o coração. 

O navio é tudo para o marinheiro. Ninho, lar, com- 
panheiro inseparável, espécie de jDedaço solto do paiz 
natal; lembra-lhe a todo o momento este, acariciaii- 
do-o com a idéa de que talvez um dia, arrastado nas 
azas do vento, para lá o conduza. 

Duas longas horas passámos, respirando a largos 
tragos as frescas brisas d'esse oceano que portanto 
tempo íamos esquecer, e do qual nunca suspeitámos 
afastar-nos tão contristados, soltando voos com o pen- 
samento. 

Ao cabo despertámos; iam já dobradas duas pon- 
tas, e transposta mais uma bailia, Cabo Negro appa- 
receu, e logo depois demos vista de Porto Pinda, onde 
pelas doze horas e meia. surgimos no ancoradouro. 

Ao avistar os extensos areiaes que o formam e as 
soltas dunas que para o interior se alongam, sem o 
mais singelo signal de vegetação, se exceptuarmos 
uma lagoa que escoado o rio ali fica e que grupos de 
Borassus demarcam, pensámos achar-nos abeirados 
de um S aliara. Comprimiu-se-nos o coração á vista 
de tanta nudez, e embora habituados ao viver do 
mato, um sentimento desagradável nos dominou, ao 
lembrar as fadigas que nos esperavam por meio des- 
ses areiaes estéreis. 

Como, porém, não vínhamos a Pinda para fazer a 
singela experiência de se — sim ou não — nos agra- 
ciava o panorama que em redor da bahia se desdobra 



Primeiros passos 91 

aos olhos do viajante, lançámos para longe impressões, 
e no curto espaço cie três horas mandávamos para a 
terra uma centena de homens e todo o material que 
nos pertencia. 

Estávamos decididamente no Continente Negro, ur- 
gia proceder á moda do mato. 

Foi o que se fez. 

Depois de se construir o acampamento n'uma emi- 
nência e de nos certificar que na próxima lagoa havia 
agua, embora sulphurosa, pozemos tudo em ordem, e 
bebendo um copo de vinho á saúde de Capello, que 
n'esse dia completava o seu quadragésimo terceiro 
anuo, despedimo-nos dos sympathicos offlciaes da cor- 
veta, que, voltando para o mundo que pensa, nos lan- 
çavam um ultimo olhar de amigável interesse. 

Entrara a noite, e recolhendo-nos ás pequenas ten- 
das fomos buscar mo somno um allívio para as fadigas 
do dia, emquanto a corveta, fazendo-se ao rumo do 
norte, clesapparecia nas brumas escurecidas. 

Profundo socego envolvera o acampamento. Esta 
sombria região, destituída de habitadores humanos e 
apenas visitada pelos corvos, que com o seu grasnar 
quebram pelo dia o encanto do mutismo natural, e de 
noite pela hyena e outras feras, cujos hábitos se ac- 
commodam com a solidão perturbando o silencio, tem 
o quer que seja de tétrica e jDavorosa. 

Pelo immenso areal afora nem a brisa encontrava 
onde rumorejar, e, fugindo pressurosa em meio das 
planuras, ia talvez para as arvores longínquas ciciar 
nas ramagens, em pungentes queixumes, a aridez do 
deserto ! 



92 De Angola á contra-costa 

E a nossa imaginação, dominada por esta scena, es- 
candecida pelos calores do dia e cuidados do amanhã, 
fugia buliçosa ao somno, atirando-nos irrequieta ás 
mais estranhas considerações. 

Ali estávamos, sós, separados de tudo e todos, es- 
tranhos aos ruiclos do inundo, para dar começo a uma 
empreza, que ninguém podia dizer onde nos levaria. 

Quando, sem querer o pensamento, como que para 
nos castigar, fugia até ao Indico, e, perpassando sobre 
os vastos territórios africanos, lembrava a sua gran- 
deza, as convulsões que lhe atormentam a superfície, 
os rios, os lagos, as luctas emfim que nos esperavam, 
nós, erguendo meio corpo na bragata, e mirando tudo 
em redor, sentíamos uma espécie de desalento, e cal- 
culávamos a pequenez das nossas forças. 

É que apesar de tudo o homem é um pygmeu, e, 
embora saiba que pequenos esforços reunidos podem 
produzir uma grande força, amarga-lhe sempre, a no- 
ção do tenrpo, aterra-o o convivio d'essa fatal compa- 
nheira em todas as emprezas — a incerteza. 

Mas iDrosigamos no que importa. 

Por numerosas rasões havíamos escolhido para pon- 
to de partida Pinda, logar meridional da provincia, e 
d'ellas vamos dar aqui rápida idéa. 

l. a Sendo de ha muito costume transportar-se a 
Benguella todo aquelle que deseja transitar para o 
interior, acontece que as grandes zonas e caminhos 
do sul têem sido esquecidos, e os sertões por onde 
elles cortam mais ou menos ignorados. 

2. a Succedendo, em geral, serem os individuos que 
o viajante comsigo leva engajados no norte, o facto 



Primeiros passos 



93 



cie transportal-os para o sul parece que devia evitar 
deserções. 

3. a A suavidade do clima era uma garantia do suc- 
cesso, porque, sendo mais gradual a adaptação do eu- 
ropeu, lhe consente ir mais longe sem o castigo da 
febre. 




rapaz coroca (perfil) 
Seijundo photograpliia 

4. a Interessando-nos correr diagonalmente o gran- 
de districto de Mossamecles, e visitando o Humbe 
conliecer do grau de facilidade do percurso até ao 
Zambeze, ainda Pincla ou qualquer ponto no sul nos 
punha em melhor medida de o fazer. 



94 De Angola á contra-costa 

5. a Emfim, o reconhecimento cio curso do Coroca, 
e o acertar se este rio tinha ligação com o Cunene, 
como suppunhamos e se verá pela cleseripção adian- 
te, era ainda uma rasâo a additar. 

Eis o que se acha em nosso diário: 

«Muitas informações nos levam a crer que o rio 
Coroca tem pelo sueste uma communicação com algum 
rio, por damba 1 ou valia, que em outros tempos clava 
talvez regular vasão ás aguas, e agora se tornou perió- 
dica por estar em parte obstruída, só dando passagem 
a esta nas cheias exageradas. 

((E se attentarmos em que toda a zona entre a 
bahia dos Tigres e o Cunene é constituída por areias 
soltas, e que os ventos ali predominantes são do susu- 
doeste, facilmente poderemos comprehender que, jun- 
tando-se aquellas conduzidas pelo ar ao constante tra- 
balho das aguas, conseguiriam ao fim de um tempo 
qualquer embaraçar o curso que primitivamente li- 
gava o Cunene (?) ao Coroca, fazendo com que este 
fosse uma cias suas embocaduras. Assim se explica- 
riam as extraordinárias cheias do ultimo e a falta cie 
aguas na barra cio primeiro. » 

Por todos estes motivos escolhemos Pincla como 
ponto inicial cia partida, convictos de que ahi, melhor 
podendo dominar a gente, e resolver os problemas que 
primeiro interessavam, maior somma de garantia de 
êxito teriamos para os trabalhos a effectuar-se. 

Mas o homem poe e Deus dispõe, diz o popular rifão, 
e bem verdadeiro é elle por vezes, pois breve vamos 



1 Damba, rio cujo curso se conserva secco na estiagem. 



Primeiros passos 95 

ver, como, apesar de toda a doçura e perseverança 
empregadas com o fim de persuadir os nossos com- 
panheiros a essa submissão que elles desconheciam, 
mas fatalmente necessária; apesar de todo o esforço 
para, sem rigor ou prej)otencia, tornal-os de selva- 
gens em homens, elles, enganando-nos, tudo iam com- 
promettendo, como expozenios no começo do presente 
capitulo. 

Erguendo-nos com a aurora do dia seguinte, reco- 
lhemo-nos com o occaso, despendendo o espaço de 
tempo que mediou entre os dois phenomenos, com 
uma serie de observações astronómicas, magnéticas e 
meteorológicas, a que acrescentámos uma excursão 
geologico-botanica e um exercício geral de tiro ao 
alvo. 

Ao terceiro dia abalámos areiaes afora, em procura 
da fazenda de S. Bento cio Sul, e escorrendo em suor 
por causa do excessivo calor, ali chegámos ao anoi- 
tecer, depois de percorridas 17 longas milhas, pelo leito 
do rio Coroca, n'esta quadra completamente secco. 

O aspecto do paiz conservou-se o mesmo. Eis o 
que d'elle podemos dizer: 

Imagine o leitor urn vasto terreno pouco alto e for- 
mado por soltas e dispersas dunas, tendo pelo norte e 
a partir da costa em 10 milhas de extensão, uma fa- 
cha arenosa e lisa, que, correndo a leste, constitue o 
leito de um rio sem gota de agua; acompanhe a banda 
opposta por mais elevado cordão em todo o dito per- 
curso, árido e secco como a bacia de que vos falía- 
mos; volva, ao cabo das milhas indicadas, esta ordem 
de cousas ao rumo de sul; pare no fim de 5 ou G mi- 



96 De Angola a contra-costa 

lhas junto de umas edificações quadrangulares de ado- 
be, algumas vermelhas, outras caiadas, assentes como 
ao acaso sobre o plano estéril que constitue esta re- 
gião, e terá idéa approximada da terra vista por nós 
da costa até S. Bento. 

Os caracteres geológicos da zona foram ligeiramen- 
te estudados. Antigo fundo do mar, esta região, co- 
berta por inteiro, emergiu formando a linha litoral. 

Tudo indica ser uma formação terciária que a des- 
coberto se acha na linha da costa n'este parallelo. A 
superfície encontra-se um calcareo silicioso, compacto 
e cinzento, cortado de vínculos de quartzo e silex cin- 
zento atravessado por estes sub-parallelamente, que, 
representando certos accidentes do mesmo calcareo, se 
acha disperso em calhaus a superfície do solo e n'uma 
altitude de 40 e 50 metros acima do mar. 

Este é constituído por grés muito fino argillo-calca- 
rifero, de cor amarellada (molassa?) e por um calcareo 
argillo-arenoso compacto, enchendo moldes de Car- 
dium do typo de Cáhians, Brocclú, etc. 

Encontra-se um outro duro concrecionado stalacti- 
tico, com fragmentos de quartzo e pequenos calhaus 
rolados de quartzite avermelhada; para o interior é 
mais amarello e terroso, achando-se empregnado de 
crystaes de talcite, onde conchas petrificadas foram 
substituídas por esta, e são dos géneros Natica, Nassa, 
Buceinum ou Eburna e Ostveas, todas de pequena es- 
tatura; e mais uma outra recente do género Acliatina; 
e eis quanto sobre o caso podemos dizer. 

Os habitantes d'esta pobre zona denominam-se, 
segundo nos informam, ba-ximba, ba-coróca e ba- 



vimeiros passos 



97 



coanhóca, parecendo que estes são descendentes de 
cubaes, em outro tempo vindos dos Gambos. 

A sua simples inspecção e linguagem evidenciam 
logo estarmos entre gente que próximas relações de 
parentesco deve ter com as tribus do sul, isto é, entre 




homem coroca (de fac e) 

Segundo photorjraphia 



indivíduos d'essa grande família que alguns auctores 
designam genericamente por a-bantu, e que compre- 
hende no sul os dámara e os ovambo; tem jDerto os 
ba-tclmana, e para o oriente o grande grupo ama-zulo 
e ama-xoza, assim como a infinidade de tribus do sul 



98 De Angola á contra-costa 

e margens do Zambeze, conhecidas por ba-nhungue 
(Tete), ban-sua (Zumbo), ma-bzite (Landim), ba-tonga, 
ba-nhiai, ba-zizulo, ba-tóca, ma-eliona, ba-senga, ba- 
rara, ba-rengue, ma-cololo, ba-romida, ba-gôa, etc. 

Um facto muito digno de notar-se n'estes povos 
é o celebrado dique dental, que eivando-lhes a lin- 
guagem, estala em todas as suas phrases, ferindo o 
ouvido do viajante e levando a crer que, embora não 
seja esta uma variante da língua nama ou cora dos 
habitadores de Namaqua e terras do sul, tem sem em- 
bargo muitos termos d'ella. A numeração diífere tanto 
das linguas do norte, que devemos pol-a aqui para dar 
uma idea '. 

Singelos pastores, raras vezes caçando, fazem con- 
stituir a sua fortuna em algumas dúzias de cabeças de 
gado. Um sórdido panno na cinta, um bordão ou za- 
gaia na destra, e um molho de amuletos, paus e bú- 
zios ao pescoço, juntos a fiadas de missanga, consti- 
tuem a suprema distincção. 

A sua pelle é extremamente retinta, untam com 
manteiga os cabellos, como os ban-dombe do norte, 
amassando-os por maneira que o penteado parece 
uma verdadeira cabaça! 

As mulheres, em geral, são horrorosas, aggravando 
este desfavor da natureza com enfeites de missanga 



1 Um (Tz\\í). Dois (TVana). Três (Dato). Quatro (Na). Cinco (Ta- 
no). Seis (JVuinho). Sete (TV aio). Oito (Sebereto). Nove (Moia). Dez 
(Mola). Onze (TVui-sôfa). Doze (TVui-ana). Treze (Datui'a). Quatorze 
(Nei'a). Quinze (TamucTa). Dezeseis (NemoFa). Dezesete (TVai-nhoba 
ou Tuai-nhoba). Dezoito (TVui-munho ou Sebereto). Dezenove (Mola- 
moia). Vinte (IVui-mola). 



Primeiros passos 9 9 

em redor do pescoço e rins, o que lhes dâ grotesco 
aspecto. 

Pouca estima parece terem os homens por ellas, ou 
melhor estão n'estes inteiramente adormecidos os mais 
elementares sentimentos de dignidade, pois conside- 
ram o adultério como um negocio que, se o esposo sus- 
peita ou tem provas cabaes, não pensa em castigar, 
mas ao contrario faz volver em seu proveito. 

Assim, ao ter noticia do facto, é quem primeiro 
dá rebate, accusando perante a tribu o individuo que 
pretende espoliar, o qual, provando-se o crime, paga 
pelo menos um boi. 

O curioso, porém, é que a circumstancia de haver 
satisfeito esta imposição confere de futuro ao espolia- 
do o direito de se introduzir em casa da sua adorada 
quantas vezes quizer. De maneira que se apontam 
esposos, possuindo manadas de gado que as pequeni- 
nas faltas das levianas companheiras augmentam dia 
a dia, o qual dariam de bom grado para poderem um 
momento ter ingresso no próprio domicilio! 

Os ba-coróca não sepultam os mortos, contentan- 
do-se em lançal-os nos vallados, onde as feras têem 
pela noite o cuidado de os fazer desapparecer. 

Logo que um infeliz está para morrer prepara-se 
tudo na habitação, escolhendo-se dez homens dos mais 
possantes da tribu, para serem empregados na obra do 
seu afastamento. Estes aguardam o instante em que 
elle exhale o ultimo suspiro, e quando d'isso se con- 
vencem, envolvem-no n'um panno, que ajustam e 
amarram, pegando-lhe um dos dez, e abalam por 
determinado caminho. 



100 De Angola á contra-costa 

Seguem-no em linha os restantes. 

Percorrido um certo espaço de caminho, faz o da 
frente signal, e o que se lhe segue approxima-se, re- 
cebendo d'elle o cadáver, e quem se libertou do fardo, 
volvendo-lhe as costas, parte a correr desordenada- 
mente para a retaguarda, não devendo uma só vez 
voltar os olhos! 

Por seu turno o segundo, ao cabo de alguns pas- 
sos, faz signal ao terceiro, e assim vão successiva- 
mente até ao ultimo, que, completo o seu caminho, 
joga á terra o corpo, safando-se! 

Quando o defunto é pessoa de consideração, como, 
por exemplo, soba, segue-se processo em quasi tudo 
análogo, differindo só na circumstancia de ser este 
envolvido n'uma pelle de boi preto, morto para a oc- 
casião, cuja carne não pode ser comida por pessoa 
alguma, devendo por isso lançar-se fora. 

E notável a coincidência d'este proceder com o que 
diz sir J. Lubbock no Homme avant Vhistoire, quando 
falia do tumulo de Treenhoi, na Jutlandia, e que diz: 
(( onde o guerreiro, envolvido nos seus pannos, se acha 
encerrado n'uma pelle de boi». 

Ao inquirirmos por que devia o boi ser preto, res- 
ponderam-nos: porque ê como o soba; rasão extraordi- 
nária que nada explica, e nós julgamos ser preferido 
por se tornar mais fácil adquirir para o rebanho bois 
d'aquella cor. 

Huca ou Suca é também designação por elles dada 
quando inquiridos de como chamam a Deus. Zuaria, 
que era o mu-coróca interrogado, riu-se quando quize- 
mos sobre o caso adiantar mais alguma cousa, fazendo 



arneiros passos 



101 



logo confusão com o sol, demonstrando claramente que 
a similhante termo não andava ligada idéa alguma so- 
bre o Creador. 

Praticam os ba-coróca a circumcisão, e o que se tor- 
na notável é que a fazem quando já próximos da vi- 




homem cokóca (perfil) 
Segundo nliotogrnphia 



rilidade. Emquanto adolescente conhece-se o não cir- 
cumciso por uma facha de cabello no alto da cabeça, 
cia nuca á testa, sendo o resto rapado, forma extrava- 
gante que só abandonam depois do dia da operação 
para deixarem inteira a trunfa, que, invariavelmente 



102 De Angola á contra-costa 

untada com aja referida manteiga, umas vezes aper- 
tam com estreita correia por cima das orelhas, outras 
mettem inteira na pança, limpa e preparada de um 
boi! 

E apto o terreno d'aqui para a cultura do algodão, 
batata, milho, sorgho, etc, sendo para lamentar que 
as prolongadas estiagens aniquilem em certos annos 
os esforços dos agricultores. 

Estudo attento das lagoas existentes, assim como 
um trabalho de reprezas e poços, poderia talvez obviar 
a parte d'estes males. 

A nossa chegada a este logar foi saudada dois dias 
depois por uma deserção em massa de todos os co- 
rocas da localidade, e isto pela singela causa de que, 
solicitando do soba uns vinte carregadores para nos 
levarem mantimentos até ao Cunene, este declarou 
que, nós iriamos certamente morrer, pois nunca pes- 
soa alguma ali fora. 

Isto foi suficiente, com uns a cldit amentos que a 
imaginação gentílica costuma condimentar facilmente 
com pavores, para que os espiritos dos nossos come- 
çassem a incitar-se. 

Era infallivel a morte, a seu ver, e radicando-se-lhes 
no espirito esta convicção, todos viam já o respectivo 
esqueleto branqueado, marcando no areal uma agonia 
de mais e uma vida de menos! 

Comprehendendo com muito boas rasões que qual- 
quer demora podia ser-nos nociva, aggravando uma 
situação já de si tão séria, dêmos aos nossos o signal 
de leva-arriba, e, coadjuvados por alguns homens do 
estimável proprietário d' ali, o sr. Emygdio de Figuei- 



Primeiros passos 103 

redo, abalámos rio acima, escrevendo o que se segue 
em nosso diário: 

«O terreno, ao principio plano, torna-se a 3 mi- 
lhas adiante fragoso, embrenliando-nos por entre pe- 
nedias recortadas em sentidos diversos e que devem 
nas chuvas originar uma damba. 

«O seu aspecto indica serem constituidas pelo gneiss 
e schisto amphibolico; wehvit chias e euphorbias con- 
stituem a vegetação da terra mais elevada, de envolta 
com toros de resequido capim, traçado pelo dente dos 
antílopes, o qual reverdece ás primeiras aguas. 

«Na margem do rio uma graminea mais elevada, 
similhando o Arundo, e uma leguminosa arborescente, 
Acácia cabida, á mistura com esse supposto cedro Ta- 
marix arúculata, entrelaçam os seus ramos á beira da 
agua, que as depressões represaram, d'onde emergem 
Hfjhjxenes. Leões, gazellas como uma de barriga e 
lombo branco, A. euchore; antik^es como o galengue, 
Oryx gazella i ; o unjiri, Sterp. cudu, cuja fêmea des- 
provida de hastes, tem longas orelhas como o burro, 
percorrem esta zona á procura de alimento e agua. 

«Um macaco, cuja pegada não tem menos de 12 
centimetros, de grande cauda e pello fulvo, que sup- 
pomos ser um cynocephalo, j:>or causa de arremetter, 
segundo disseram, encontra-se aqui. 

<(Um pequeno quadrúpede, a que os indigenas cha- 
mam maboque, talvez uma genetta, vive nos penedos, 
em abundância. 



1 E o galengue na forma tal como o gemsbok ; somente julgâmol-o 
differir um pouco na cor, que é castanha clara. 



104 De Angola d contra-costa 

«Aves são numerosas, sendo para notar o grande 
numero e variedade de patos. 

«O pato ferrão, Plectropterus gambensis; o pato com- 
mum, Poecilonetta erythrorhyncha; o Spatidata capen- 
sis; o Querquedula hottentota; o Thalassiornis leuconotaí 
o Deudorocygna viduata; são outras tantas espécies de 
que nos occorre fallar. 

«Vê-se ainda o flamingo, Phoenicopterus erythrocus; 
o pelicano, que os pretos chamam quicúa, Pel. rufes- 
cens, com a sua poupa, e a bolsa gutural amarella; 
pernaltas, espécie de garças, Herodias alba e Herodias 
intermédia, que associadas andam n'esta epoclia; o 
gallo das pedras, a que os naturaes chamam tiatra, 
Saxicola leucomelaena-monticola, talvez não conhecido 
scientificamente n'esta zona; uma pequena rolla de 
longa cauda e peito preto, chamada tondul-lo, Oena 
capensis; um milharuco, Merops superciliosus , de com- 
prido bico e verde plumagem; emíim, voam também 
aqui os corvos e as pintadas, de que ha duas varieda- 
des, bem como na costa um corvo marinho, Gracidus 
lucidus. » 

Emquanto nós socegados no acampamento, onde ti- 
nhamos chegado ás cinco horas, escrevendo estas linhas 
e fechando de manso o diário, nos preparávamos des- 
cuidosos para a refeição improvisada em curto espaço 
de tempo, um facto bem grave se dava no couce da co- 
mitiva, que ainda atrazada pelo tempo não recolhera. 

E, inconscientes, sem de leve suspeitarmos o com- 
promettimento por que estavam passando nossos inte- 
resses, ao anoitecer, pelas oito horas, acrescentávamos 
no diário: 



Primeiros passos 105 

« É singular, faltam quarenta e dois homens com as 
respectivas cargas, que embora se tivessem atrazado 
pelas horas de maior calor, já tinham tempo de sobra 
para chegar. Cansados, não tiveram forças para arras- 
tar-se até aqui, e, acampando no primeiro logar apro- 
priado que encontraram, só pela manhã apparecerão.» 

Cerrou-se a noite. Estirados, tendo a abobada ce- 
leste por tecto e uma fogueira por manta, pois as tendas 
vinham na retaguarda, adormecemos n'aquelle somno 
consequente da fadiga, e próprio de uma saúde sã e 
robusta, levando de um fôlego todas as horas do escu- 
ro. E só quando o sol, com a sua aureola gloriosa, 
começou de espargir pelos espaços torrentes de luz, 
animando e enchendo de mil ruidos o âmbito enrege- 
lado, é que nós, descerrando as pálpebras, compre- 
hendemos que urgia levantar. 

Durante três longas horas esperámos a gente que 
atraz ficara, dominados por aquelle anceio que ator- 
menta e mortifica quem espera; até que a final resol- 
vemos mandar em sua procura o chefe e dois homens 
de mais confiança, ordenando-lhes que sem perda de 
tempo obrigassem taes mandriões a caminhar. 

Bem pouco haviam elles mandriado, ao que parece! 

Mais duas horas ainda decorreram; já o sol, abei- 
rando-se do zenith, escaldava a tudo e a todos com os 
seus frementes raios, e o natural quebramento nos 
convidava a repousar á sombra de um próximo espi- 
nheiro, quando súbito ruido entre os nossos nos cha- 
mou a attenção para as bandas do norte. 

Três vultos ao longe avançavam azafamados por 
meio do areal. 



106 De Angola á contra-costa 

As duvidas que nas ultimas horas tinham domina- 
do o nosso espirito começavam a fortalecer-se, e um 
presentimento qualquer nos dizia que se iam tornar 
em certeza; es.perámos ainda um momento, approxi- 
mam-se; já se lhe vêem as caras, todos lhe miram o 
olhar, com o intuito de por elle poderem alguma cousa 
concluir ; chegaram . 

— Então? onde está a gente? 

Fugiu tudo, senhores! No meio do campo jazem os 
fardos abertos, tendo parte do conteúdo roubado de 
mistura com caixas partidas, sextantes e theodolitos 
dispersos. É uma confusão tal, que só á vista podem 
apreciar. 



CAPITULO III 



NA REGIÃO LITORAL 



Mossamedes — Breve noticia sobre a historia da sua fundação — Clima, 
constituição geológica e vegetação — Tribus indigenas — Habitações — 
Uma marcha vertiginosa— Cincoenta e quatro milhas em vinte e cinco 
horas — Uma necessária refeição e o encontro dos fugitivos — De novo no 
rio Coroca — Noticia sobre este — Suas margens — Fadiga da marcha — 
Uma cheia — A solidão e os animaes silvestres — Eegresso a Mossame- 
des — Partida definitiva para o sertão — A geologia e os odres O pri- 
meiro bao-bab — A aridez do paiz e recuas de zebras — A couag-gha? — 
Depósitos de agua — Pedra Pequena — Pedras Grande e Maior — Nestor, 
o caçador de leões — Uma morte ridícula e uma visita inesperada — A 
agricultura no districto e a villa de Capangombe — A fortaleza e duas 
considerações geológicas. 




Em 1785, sendo 
governador geral de 
Angola José de Almeida 
Vasconcellos, barão de Mossa- 
medes, organisaram-se na capital 
da província duas expedições, com o propósito de es- 
tudarem as terras que do districto de Benguella se 
estendiam para o sul. 

A primeira, devendo ser intentada por mar, foi 
commettida ao coronel Luiz Cândido Cordeiro Pinhei- 
ro Furtado, que para esse fim recebeu n'um navio 
equipado e prompto tudo o que podia necessitar. 

A segunda, cujo fim era pro seguir para as terras 
do interior e ahi fazer o reconhecimento conrpleto 
dos sertões do sul, foi confiada a Gregório José Men- 



110 De Angola á contrà-costa 

des, homem assas conhecido e respeitado na provin- 
da. 

Partindo em desempenho do serviço que lhes havia 
sido commettido, proseguiram por mar e terra respe- 
ctivamente para o sul, indo encontrar-se na ampla 
bahia que ao tempo era conhecida pela denominação 
de Angra do Negro. 

Ahi installados, e depois de a haverem baptisado 
com o nome de bahia de Mossamecles, em honra do 
governador geral, começaram de entabolar relações 
com os indígenas, no intuito de os trazer â submissão 
e reconhecimento da nossa soberania. 

Não julgamos que tivessem completo êxito os tra- 
balhos d'esta expedição, aliás tão bem organisada, 
a qual se assignalou pela lamentável perda do tenente 
Sepúlveda, do cirurgião do navio de Pinheiro Furtado, 
e mais dois marinheiros assassinados pelos indígenas, 
rasão por que se deu ao rio Bero o nome de rio dos 
Mortos. 

Em todo o caso, desde essa epoclia para cá, os so- 
bas do Dombe, do Giraul, do Quipolla e Coroca fica- 
ram conhecendo os novos senhores da vasta região 
onde habitavam, e iniciados na forçosa necessidade 
de se considerarem vassallos do rei de Portugal. 

Passaram depois largos annos sem mais se pensar 
na Angra do Negro, que apenas era visitada por algum 
baleeiro desgarrado que vinha ali fazer a aguada, ate 
que em 1839, sendo governador de Angola D. António 
de Noronha, enviou duas novas expedições a Mossa- 
mecles, uma por mar na escuna Izahel Maria, sob o 
cominando do primeiro tenente Pedro Alexandrino da 



Na região litoral 111 

Cunha, que mais tarde também governou aquella pro- 
víncia, e outra por terra, sob a direcção do major 
Garcia. 

Datam d'este tempo os verdadeiros trabalhos para 
a colonisação e domínio d'aquella região, que, pela 
sua distancia da capital e árido asj^ecto talvez, a tinha 
feito tanto tempo esquecer. 

Em L840 decidiu-se construir o forte de Ponta Ne- 
gra, assim como se assentaram os fundamentos de 
uma villa, estabelecendo-se ahi uma feitoria dirigida 
por dois negociantes Jacomo Filrppe Torres e António 
Joaquim Guimarães, e pouco depois foi esta terra colo- 
nisada por gente vinda da Madeira e do Brazil, que 
a 4 de agosto do anuo de 1845 n'ella se installou 
definitivam ent e . 

D'ahi para cá Mossamedes tem progredido por ma- 
neira, que é hoje um dos logares mais pittorescos e im- 
portantes da costa do oeste. 

O seu clima suave e temperado; as brisas que a 
refrigeram, devidas á influencia da corrente oceânica 
que vinda do cabo da Boa Esperança parallelamente 
á costa sob ellas passa; as viçosas hortas que a cir- 
cumdam, contrastando com a aspereza das encostas 
e planícies em redor, attrahem ali quantos indivíduos 
pretendem restabelecer a saúde deteriorada j^elos ca- 
lores do norte, e mostra bem quanto tem podido a 
vontade d'esse punhado de homens, que, ao entrarem 
em tal terreno, o encontraram quasi deserto e percor- 
rido de quando em quando por salteadores. Raras são 
as febres de grave caracter, apenas as intermitten- 
tes, quando inunda o Bero, atacam a um ou outro, e 



112 De Angola â contra-costa 

ainda as cephalalgias e conjimctivites são frequentes, 
como as ophthalmias, derivadas do reverbero da luz 
nas areias. 

Acerca da constituição geológica de Mossamedes 
pouco diremos por se terem perdido parte dos exem- 
plares que alcançámos n'aquella região, dando isto 
logar a que ao nosso sábio amigo e distincto geólo- 
go o sr. Neiy Delgado se tornasse impossivel fazer 
qualquer trabalho profícuo a respeito d'ella. 

Eis os únicos elementos que encontrou relativa- 
mente á bailia de Mossamedes, á costa do sul da 
j^onta do Noronha e â bahia dos Elephantes no norte. 

Mossamedes : 

Grés calcarifero amarello (molassa), com moldes de 
bi valvas, provavelmente da epoclia terciária, eviden- 
ciando o mesmo deposito que nas margens do Coroca, 
bem como um silex pyromaco. 

Ao sul da ponta do Noronha, 150 metros de altitude: 

Grés grosseiro amarello de cimento calcareo, pro- 
vavelmente terciário. Conchas recentes dos géneros 
Lespula, Conus ou Erato, Purpura ou Cancellaria, 
Fusus? Purpura (subgenero Thalessa), Patella, Caly- 
ptraca (próxima de C. trochiformis, Grat.), Arca senilis. 
Nota-se serem as espécies iguaes ás da bahia dos Ele- 
phantes. 

Bahia dos Elephantes, 170 metros de altitude: 

Conchas recentes dos géneros Phorus, Triton (T. 
succintum, Lank.J Patella, (duas espécies de P. Lusi- 
tanica, Gmchin e P. ccerulea Linn,), Calyptrcea (simi- 
lhante a C. trochiformis, Grat.), Área senilis, Linn, 
(Senilia senilis, Gray) e Lespula sps. 



Na região litoral 113 

De tudo isto se infere a existência a descoberto 
aqui, como no Coroca e na bahia dos Elephantes, da 
formação terciária, sem que comtudo seja fácil precisar 
a qual das sub-divisões pertence a facha sub-alluvial, 
onde também se encontra uma rocha empregada na 
construcção, constituída por numerosas bivalvas ci- 
mentadas por um calcareo, conchas que nos parece- 
ram ser a Cyrena Cuneiformis, e outra no grés calca- 
rifero uma Cerithittm? 

Ao norte da bahia dos Elephantes no Dombe está 
a descoberto o terreno cretáceo, que se estende até 
Novo Redondo, onde parece existir a hulha e abun- 
dantes minas de chumbo. 

O que porém se nota de original é o grande nume- 
ro de calhaus rolados que encontramos a 150 e 160 
metros de altura, por toda a parte, uns de calcareo 
silicioso, outros de textura porphirica, etc, e que, 
recentemente trabalhados, parecem evidenciar, ou um 
sublevamento assas recente, ou uma lenta elevação 
de toda a facha da costa, que de resto os colonos d'ali 
testemunham, mostrando o logar onde outr'ora desem- 
barcaram, e que hoje está a 15 metros das maiores 
marés. 

Outra circumstancia digna de toda a attenção é a 
seguinte. Trabalhando-se na perfuração de um poço 
em Mossamedes, encontrou-se, á profundidade de 3 
metros, um dente. Trazido para a Europa, este pare- 
ceu fora de toda a duvida ter pertencido a um hippo- 
pótamo pequeno. 

A presença de tal quadrúpede em similhante lo- 
gar, onde não existe rio de vulto, e só a 180 milhas 



114 De Angola â contra-costa 

se encontra o Cnnene, parece indicar que n'uma epo- 
cha não mui distante desaguava na bailia um grande 
rio, que mais tarde desappareceu por circumstancias 
quaesquer. 

Não ousamos aventar theorias sobre o caso; mas, 
segundo presumimos, similhante facto confirma, até 
certo ponto, o sublevamento da terra, que pode ter 
originado um desvio, se não desseccamento do refe- 
rido leito, do mesmo modo que vae tornando agora 
apenas torrencial o curso dos existentes como o Co- 
roca, etc. 

Ficam expostas estas indicações, para que mais 
tarde alguém trate de aproveital-as, não abandonan- 
do nós a idéa de que a costa oeste da Africa, como 
a occidental da America, estão lentamente emergindo 
do seio do oceano que as banha. 

A vegetação n'esta zona é extremamente rachitica 
e feia, fazendo em tudo lembrar a parte septentrional 
do deserto de Kalahari, essa extensa região que, vindo 
encontrar o mar na costa da terra de Namaqua e no 
paiz dos clamaras, se prolonga para o norte a for- 
mar parte do districto de Mossamedes, como diz o 
illustre botânico o sr. conde de Ficalho. 

Assim como da Dangoena e do Solle para o mar, 
atravessa o rio Cunene areias ou fachas rochosas 
áridas, despidas de fértil vegetação, e ainda para o 
norte, como vimos em nossa viagem, o Coroca, es- 
trebuxando no apertado leito cavado nas ravinas das 
rochas gneissicas, sempre cobertas de franzina ver- 
dura, vem espraiar-se abaixo nos areaes e desertos de 
Pinda; assim estas terras correm para o norte, entre 



Na região litoral 115 

o mar e a serra de Chella, até as alturas do Bum- 
bo, com idêntico aspecto. 

Adiante, funde-se gradualmente na vegetação mais 
rica do districto de Benguella, emquanto pelo lado do 
oriente, e á medida que a altitude vae augmentando, 
se transforma na flora variadissima da Humpata e da 
Huilla. 

Este caracter phytographico, acrescenta ainda o dis- 
tincto botânico, manifesta-se claramente na presença 
de algumas formas typicas, como são a Wehcitschia 
mirabilis, a Copaifera mopanê, e espécies espinhosas 
de acácia, a Hórrida e outras, etc. 

Xos Montes Xegros, nos primeiros contrafortes da 
Chella e mesmo na Huilla, subindo para ali pelo lado 
do rio Caculovar, os espinheiros são frequentes e va- 
riados, formando florestas baixas ou matos mais ou me- 
nos raros, attestando a evidencia de uma zona árida, 
que por aquella altura vem terminar. 

Uma rasteira euphorbia abunda nas planuras em 
redor, que os habitantes colhem para com ella alimen 
tarem o fogo, bem como uma acácia minúscula. 

Acclimam-se todos os vegetaes da Europa, como 
hoje é sabido, e desde a oliveira até á videira tudo 
ali progride. 

Ha quatro tribus indigenas que povoam esta região, 
a saber: os quipóllas (mini-quipóllas, assim chamados), 
que residem pelo Yalle dos Cavalleiros; os giraues, 
que se acham estabelecidos nas margens do rio d'este 
nome; os corocas, com quem já fizemos conhecimento 
no rio assim designado, e os ba-cuisso nas rochas do 
litoral. 



116 De Angola â contra-costa 

Duas (Testas são sem duvida descendentes da gran- 
de família dos cubaes, que se acha estabelecida n'este 
parallelo desde o mar até aos socalcos da Chella, e 
mesmo acima para o sul do Hoque; as duas outras, 
ba-coróca e ba-cuisso, provém certamente das terras 
meridionaes, por terem grandes traços de similhança 
com os novos d'ali, etc, até mesmo no seu clique espe- 
cial e em outras affinidades, como jâ dissemos. 

Pendem para a vida pastoril, alimentam-se muito 
de leite, que, quando cugulado e azedo, denominam 
n'gunde. 

As suas habitações são miseráveis e sórdidas, bas- 
tando-lhes o tronco de uma espécie de carrapateiro com 
os seus pequenos ramos, para que construam uma cu- 
bata. 

Espetada a prumo no solo, curvam os ramos meno- 
res em roda, e, prendendo-os ao chão, cobrem-os com 
um pouco de capim, revestindo o todo com o excre- 
mento de boi. 

Um pequeno buraco dâ passagem para esses recin- 
tos, mais parecendo a forma de forno do que habita- 
ção de gente. 

Supersticiosos em extremo, fallando também do 
celebre Huco (ente supremo ?), têem o conhecido pavor 
pela lembrança dos mortos, e uma grande veneração 
pelo gado vaccum. 

Achámo-nos em Mossamedes *, após as peripécias 
narradas no capitulo antecedente, onde nos trouxe 



i Esta viagem foi feita por um de nós, Ivens, emquanto o outro, Ca- 
pello, ficou com a comitiva e material. 



Na região litoral 117 

unia marcha forçada de 54 milhas, percorridas em 
vinte e cinco horas, quanta era a distancia que me- 
deava entre o ultimo acampamento do Coroca e esta 
villa, cuja cifra, mais eloquentemente que uma des- 
cripçâo extensa, dará a medida da nossa angustia e 
soífrimentos. 

Felizmente para nós achava-se o governador geral 
ali, e ao ver-nos entrar pela residência, estafado, sujo, 
com ar mais de salteador do que de pacato peoneiro 
da sciencia, não pôde conter uma exclamação de es- 
panto: 

— Que foi, que ventos contrários o trazem por aqui, 
onde não tencionava volver? 

— O adiantarrno-nos a quarenta e dois homens nos- 
sos que fugiram, e devem a esta hora vir a caminho 
d ? este logar, respondemos com voz cavernosa. 

E como nos dispozessemos a encetar a descripção 
do revez que nos acontecera, elle cortou rápido, dizen- 
do: «Deixe-se d'isso; como o negocio é só de gente, 
tem bom remédio » ; e insinuando-nos graciosamente 
que para os males moraes a sciencia recommenda ás 
vezes as consolações physicas, ordenou que nos des- 
sem de comer, principal necessidade no momento. 

E bem verdade era ! Desde as nove horas da vés- 
pera o nosso estômago recebera apenas a visita de 
umas tristes sardinhas de Nantes; que se ajuize pois 
o prazer experimentado após a ingestão da primeira 
travessa de bifes, porque ... foi mais de uma que nós 
com certeza devorámos; e julgue-se da grandeza do 
nosso reconhecimento, ou melhor o do estômago, para 
com tal bemfeitor! 



118 De Angola â contra-costa 

Apenas nos achámos installados em Mossamedes, 
realisaram-se as nossas previsões, apparecendo no dia 
immediato o primeiro grupo de fugitivos. 

Errando pelas áridas campinas do sul, vinham es- 
faimados e sequiosos os miseráveis, e tanto soffreram 
no pouco tempo decorrido, que lá haviam marcado o 
rastro da sua passagem com os cadáveres de dois 
companheiros mortos pela fadiga. 

Prevenidos do seu apparecimento n'uma praia pró- 
xima, tivemos de pôr em execução mais um rasgo 
audacioso, qual foi o de montar um macho folgado, 
para lhes sair ao encontro, facto que, para péssimos 
cavalleiros como nós, não deixou de nos embaraçar 
seriamente. 

Balouçando-nos como se estivéramos em plena tol- 
da de navio sob o impulso de tempestuoso mar, para 
lá nos dirigimos, e pouco a pouco, reunindo os que 
em redor appareciam, conseguimos alcançar metade 
d'elles, tendo os restantes desapparecido. 

A idéa de fazer caminho pelo rio Coroca com a 
nossa gente estava demonstrada impraticável, urgindo 
procurar outro qualquer trilho, que lhes não inspirasse 
tão graves receios. 

Após diversas considerações de chã philosophiar, de- 
cidimos pelo da Huilla, não abrindo comtudo mão da 
idéa de pelo menos fazer um pequeno reconhecimento 
áquelle rio. 

Volvendo de novo a S. Bento, preparou-se para 
isso uma pequena expedição, com poucos dos nossos 
de mais confiança, a fim de ver até que ponto seria 
possivel a fallada ligação do Coroca com o Cunene, 



Na região litoral 119 

expedição que em seis dias de pesquizas volveu, ha- 
vendo concluído e visto o seguinte: 

O Coroca é um rio torrencial, intermittente, impe- 
tuoso nas grandes cheias, cujas origens estão nas ver- 
tentes da Chella, e cujo curso nada de commum pode 
ter com o Cunene, que lhe fica para o sul. 

O seu leito, de 50 a 60 metros como media, ergue- 
se rapidamente, sendo curioso na parte mais inferior 
o contraste das terras que o marginam, pois é a mar- 
gem esquerda formada por dunas de areia solta, e a 
do norte por terras elevadas, archaicas, de feio aspe- 
cto, constituídas em geral pelo gneiss e schisto am- 
phibolico. 

A 30 milhas acima da embocadura cessa a areia 
da margem meridional, junto ao curso de uma damba, 
denominada dos Carneiros, cujo leito sirperior ao do 
rio só recebe d'elle agua por trasbordo em grandes 
enchentes, agua que, demorada em poços, deixa por 
evaporação coberto o lodo de efHorescencias de nitrato 
de soda. 

O seu curso e de encontro á corrente do rio, o que 
evidenceia um canal de derivação d'este e nunca um 
amuente que ali trouxesse as aguas do Cunene. 

A montante do ponto citado, começam as margens 
a accidentar-se de mais em mais, e, erguendo-se e 
caindo, formam depois ravinas em todos os sentidos. 

Torna-se então a marcha para o viajante n'uma 
fadiga permanente, pois, obrigado a caminhar pelas 
encostas que deitam sobre o rio, tropeça e resvala a 
todo o instante, quebrando-se-lhe o corpo com os es- 
forços de equilíbrio. 



120 De Angola á contra-costa 

Que diga o meu companheiro Guilherme Capello, 
distincto commandante da corveta que a Mossamedes 
nos transportou, quão amargo lhe foi aquelle primeiro 
tirocínio de explorador pelas encostas das serranias 
do Coroca sob um sol de escaldar, a despeito de toda 
a sua boa vontade! 

Como fossemos avançando dia a dia pelo curso do 
rio, antegostando a idéa de fazer um quasi completo 
reconhecimento do seu serpear, aprouve ao acaso im- 
pedir-nos o caminho com um embaraço, que nos dissi- 
pou totalmente a satisfação de tal conseguir. 

Era ao alvorecer do terceiro dia. A aurora, desdo- 
brando o seu luminoso manto, começara de aclarar 
as terras em redor; uma brisa fresca, rociando-nos, re- 
temperava o animo, convidando a marchar; acabava 
de se erguer o acampamento, íamos partir, quando de 
súbito, um ruido inesperado atroa os ares, rola o quer 
que seja perto de nós, um rumorejar estranho adianta- 
se em meio d ? esta balbúrdia, uma exclamação unanime 
saúda emíim a causa originaria do inesperado pheno- 
meno! 

N'uma curva do rio e a montante de nós, uma vaga 
espumante barra-lhe o curso de lado a lado, e galgan- 
do enfurecida por meio de penhascos e accidentes 7 es- 
padana aqui, salta acolá, espraiando-se ligeira pelo 
leito abaixo. 

E um phenomeno curioso o d'essas enchentes tor- 
renciaes aqui, onde a agua com a sua presença anima 
e vivifica tudo em poucos instantes. 

Até então, um silencio sepulchral nos envolvia, e o 
curso do rio secco e emmaranhado entre as rochas nuas 



Na região litoral 121 

e tisnadas que o apertam, mal deixa suspeitar ao via- 
jante a sua existência. 

Agora, cheio, entumecido, elevando-se a olhos vistos 
pelas margens que se alongam, absorvendo penhascos 
e ravinas, palpita a formidável artéria, engrossada e 
resplandecente á luz do sol, e lá vae como longa fita 
a caminho do oceano, murmurando em todo o traje- 
cto. Foi como que magica operação, esse súbito trans- 
formar de uma zona nua, secca e calada, em fresca, 
vivificante e ruidosa. 

Penedias e accidentes do fundo, tudo desappareceu, 
o húmido lençol estira-se-lhes por cima; e nós, que até 
então, descendo por vezes para o seu leito, evitáva- 
mos trabalhos e marcha pelas encostas, somos agora 
forçados a caminhar sempre por ellas. 

Não foram muito longe os nossos esforços, porque, 
estreitando-se pouco a pouco as margens, que pro- 
gressivamente iam também subindo, chegámos a uma 
garganta apertada, cujas paredes talhadas a pique 
formam um vórtice onde o rio redemoinha furioso, 
e que foi impossivel transpor. 

Forçados a jrôr ponto na excursão, volvemos, dando 
ao sexto dia entrada em S. Bento. 

Pouco temos a acrescentar sobre esta região, quasi 
estéril e alheia a factos de scientifico aproveitamento. 
Uma das fácies sem duvida mais características d'ella, 
e que não tem seguramente outra comparável na pro- 
vinda, é o estado de isolamento em que se acha. 

Entrando, após meia dúzia de léguas de marcha, 
parece que o viajante se afastou para os mais recôn- 
ditos sertões do Negro Continente. 



122 De Angola â contra-costa 

Nem ser humano, nem a marca da passagem do 
homem n'uma cabana ou em singela canoa de casca. 

Apenas alguns ba-ximba nómadas por ahi ás vezes 
se aventuram, como deprehendemos de um tronco 
queimado que encontrámos e por uns círculos de pe- 
dras, talvez sepulturas, dispostas á feição dos cromh- 
chs, nas proximidades da garganta de que falíamos; 
onde, sem embargo de muitas excavações, não en- 
contrámos despojos, e isto nos levou a crer que, se para 
tal fim ali foram collocadas, era circumdando o cadá- 
ver que as aves e feras devoraram, se não ao lado 
que o depunham, segundo o nascente ou poente, como 
já no Senegal se encontrou. 

Em compensação, e em virtude d'este isolamento, 
abundam os animaes silvestres, tendo encontrado a 
expedição constantes indícios da passagem de nume- 
rosos elephaiites, de rhinocerontes, de leões, de leo- 
pardos, de galengues e de ungiris; e, facto notável, 
acham-se estes animaes distribuídos nas margens com 
rigorosa precisão. Assim nos areaes vê-se o Oryx ga- 
zdla, esse antílope que tanto resiste á sede, e outros, 
percorrendo-os em todos os sentidos; emquanto que 
nas serranias têem guarida o leão e as outras feras de 
que falíamos. 

Só basta que o rei das selvas transponha o rio 
para encontrar fartos recursos entre os infelizes rumi- 
nantes que por lá divagam, e cujas brancas ossadas 
evidenceiam a miúdo ao viajante uma agonia muda e 
uma lucta pela vida. 

E tempo de terminar a descripção d'essa triste zona 
do silencio, a fim de volver para o caminho sertanejo. 



Na região litoral 123 

Reunidos todos os elementos dispersos da expedi- 
ção, assentámos de novo os nossos arraia es em Mos- 
samedes, e, tendo tudo prompto, preparámos a mar- 
cha, repetindo-se as mesmas fastidiosas scenas por 
que haviamos passado no norte. 

Estávamos decididamente agarrados ao oceano, e 
elle, de que com tanta saudade nos tinhamos separado, 
começava agora com a sua presença a impressionar- 
nos de modo desagradável, fazendo nascer em nosso 
espirito suspeitas de que estaria escripto no livro do 
destino o nosso impossivel apartamento. 

Os prejuizos que, impondo-se ao espirito, o domi- 
nam ás vezes, de sorte que se torna dirncil libertal-o, 
são sempre causas attendiveis que urge prevenir. 

Procedemos com urgência aos arranjos indispensá- 
veis, preparando tudo no curto espaço de uma semana. 

A nossa partida teve logar a 24 de abril. 

Depois de invariáveis peripécias, eis-nos de novo 
a caminho do interior, e, bifurcados nos bois-cavallos, 
despedimo-nos do oceano pela segunda vez. 

Transpostas as hortas e jardins dependência da 
villa, entrámos na estrada de Capangombe, que, ele- 
vando-se gradualmente, se desenrola sinuosa para o 
interior, atravez dos terrenos terciários formados de 
rochas inconsistentes, como o molasso que afHoreia 
o terreno, o marne, etc, para logo encontrar como 
succedaneos e interpostos entre elles e os primordiaes, 
os secundários do quaderstein, terminados no plano 
inferior pela formação laurenciana do gneiss amphi- 
bolico, que aqui é ainda separado das formações se- 
dimentares por uma facha de schisto primitivo. 



124 De Angola á contra-costa 

Impressionam de modo desagradável as primeiras 
jornadas atravez d'essas terras áridas, onde apenas 
vegetam rachiticas acácias ou euphorbias, que, entris- 
tecidas sob um sol abrazador, parecem esperar uma 
trovoada que lhes desembarace os estomatos da poeira 
accumulada, e lhes restabeleça a respiração, trazen- 
do-lhes á seiva a vivificante agua. 

Por toda a parte, a perder de vista, emergem da 
terra morros de gneiss, que os musgos e o tempo 
têem manchado com negras tintas, e os raios do sol 
fenderam com profundos sulcos. 

Entre os factos de digna menção, figura sem du- 
vida o que se refere a uma original planta, conhecida 
pelos odres. 

Depois de transposto o curso do rio Giraul, sobe-se 
uma rampa da estrada, e adiante, no planalto supe- 
rior de schistos primitivos, entra-se na planura, onde 
aquelles em silencio aguardam do viajante as excla- 
mações de espanto. 

A um tronco rasteiro e tortuoso de folhas largas, 
duras e resistentes prende-se o celebrado fructo, cuja 
forma e aspecto é inteiramente como o de um odre 
de pelle de cabrito. O mais atilado odreiro tomal- 
os-ía, quando suspensos entre outros, j^ 01 ' obra de 
mão de mestre, e só se desenganaria ao apreciar-lhe 
o peso. 

Encontrámos aqui o primeiro bao-bab a uma alti- 
tude proximamente de 500 metros, e como n'um local 
chamado Pedra Maior não houvesse suíficiente agua, 
pr o seguimos a caminho de outro chamada Pedra Pe- 
quena. 



Na região litoral 125 

Tem tão medíocre interesse esta parte da viagem, 
que vamos pr o seguir, transcrevendo na integra o que 
em nosso diário se acha exarado. 

«Dia 25 de abril. 

« Prosegue o trilho pela mesma maneira e aspecto, 
só com a singela variante ao apparecimento de um gé- 
nero de cogumelo branco volumoso, que, aqui e alem, 
corta a árida monotonia. 

«Desappareceram os odres; leguminosas de espinho 
arborescentes, com a copa á feição de uma umbella, 
acompanham o viajante ao longo do trilho. 

«Facto notável e digno de menção! A vida vertebra- 
da minúscula (se isso se pode dizer para o caso) é por 
aqui escassa ou raramente representada. As mesmas 
aves quasi desappareceram, e os reptis, esses atrevi- 
dos habitadores de quantas penedias e tractos áridos 
de terreno existem no mundo, também ali se não ob- 
servam. 

«Ao cair do dia acampámos na Pedra Pequena, bloc 
de gneiss cavado a meio, onde a agua existente era 
em tão pouca quantidade, que a nossa gente a es- 
gotou ao anoitecer. 

« Grandes bandos ou recuas de zebras foram obser- 
vadas, bem como nos affirmam que algumas eram bran- 
cas, o que nos levou a suppor seriam couagghas. 

«Defronta-nos a leste uma região inteiramente se- 
meada de morros. » 

«Dia 26 de abril. 

«Ao alvorecer poz-se a caravana a caminho; 3 
milhas adiante o trilho enfia por entre os cerros de 
que hontem falíamos, verdadeiras massas, ou de grés 



126 De Angola â contra-costa 

ou de gneiss, á mistura com penedias de schistos mi- 
caceos, etc. 

«Vae variando o reino vegetal, que pouco a pouco 
se torna mais opulento, fazendo lembrar uma zona 
por nós atravessada em a nossa primeira viagem do 
Dombe para Quillengues. Falham os espinheiros, ap- 
parecem acácias differentes, papilionaceas, algumas 
erythrinas de vermelhos cachos e outras. 

« O reino animal vae guardando similhante propor- 
ção, sendo já numerosas as espécies de aves que nos 
distrahem com alegres gorgeios. 

«Ás nove horas da manhã chegámos a Pedra Gran- 
de, que, como as anteriores, não passa de ser um aflo- 
ramento de gneiss com amplas depressões ou vasios a 
meio, onde se accumula a agua da chuva, coberta lit- 
teralmente pela alfacinha, que julgamos ser a Psistia 

r 

stratiotes. E o recurso dos ban-dombe e viajantes em 
transito para o interior, bem como das feras e antí- 
lopes. 

«Abunda o leão n'esta terra, observando-se por toda 
a parte restos de suas presas. 

« Começa precisamente aqui a apparecer essa arvore 
denominada mutiate, uma Bauhinia, segundo pensa- 
mos, ao passo que vão desapparecendo as legumino- 
sas de espinho. 

«Gazellas numerosas percorrem a planura, assim 
como bastos reptis habitam quantos buracos se en- 
contram nos penedos circumvizinhos, e um cágado 
minúsculo, na agua. 

« Desappareceu o galengue, apparecem em bandos 
os ungiris. Montados nos bois proseguimos em nossa 



Na região literal 127 

viagem para a Pedra Providencia, aonde chegámos 
pelas duas horas da tarde. 

«Agrada já o aspecto do paiz. Um manto de ver- 
dura cobre ao longe a terra, dando-lhe um ar de ale- 
gria e vida.» 

«Dia 27 de abril. 

«Percorremos durante esta jornada toda a distan- 
cia que vae da Pedra Providencia á fazenda Nas- 
cente, na margem do rio Muninho. 

« E seu proprietário um cavalheiro chamado Nestor, 
afamado caçador de leões, que até á presente data tem, 
ao que se diz, livrado a zona que habita de vinte e seis 
d'estes ferozes animaes. 

«Entre varias peripécias suecedidas a este senhor 
(que têem sido muitas, pondo por vezes em risco a vida 
d'esse segundo Grerard), ouvimos narrar uma, que pelo 
ridiculo merece apontar-se. 

«Versa sobre uma partida de caça ao leão. 

« Succedeu um dia Nestor ser atacado em sua pró- 
pria casa por atrevido leão que lhe farejava o curral. 
Saindo ao cercado, attrahido pelo barulho da gente, 
topou de frente com o animal, que, vendo-o, investiu. 

«O recurso do bravo homem foi ir recuando para 
o compartimento que servia de casa de jantar, cuja 
porta se achava aberta, e onde sabia ter as suas ar- 
mas. Tendo por felicidade um candieiro acceso, sal- 
vou-o na surpreza, pois, batendo de frente no leão ao 
atirar-se, o fez estacar. 

«Lançando mão da carabina, apontou e fez fogo. 
O animal, ao sentir-se ferido, saltou desnorteado, pe- 
netrando ao acaso pela porta da cozinha, cujas caça- 



128 De Angola â contra-costa 

rolas e panellas n'um momento poz na mais comple- 
ta confusão! 

«Revolvendo tudo, saltava em todas as direcções, até 
que de uma vez com grande arranco enfiou a cabeça 
por entre as travessas de uma mesa de cozinha, e ahi 
acabou entalado, mais vilmente que o seu congénere 
da fabula ! 

(( Esta accidentada região é dividida do noroeste ao 
sueste pelo rio Muninlio, em cujas margens se acham 
as plantações, compostas exclusivamente de algodoei- 
ros, único artigo de exportação, e milho, que se apro- 
veita só como mantimento, segundo nos informaram, 
para os trabalhadores. 

«E notável que os agricultores de Mossamedes, os 
quaes com tanto afan buscam engajar gente e tão 
caro a pagam, estejam hoje quasi reduzidos a plantar 
mantimentos para essa gente. 

« Com a baixa do algodão abalaram-se as suas espe- 
ranças, e ainda se o mantimento podesse ser enviado á 
costa, para lá ser vendido, bom seria, mas, na opinião 
d'elles, sendo isso impossivel (e nós o acreditámos), 
em virtude da exagerada despeza nos carretos, não é 
fácil perceber o que esperam. 

«Assim, essas grandes propriedades do interior do 
districto estão hoje quasi só produzindo milho, que 
os serviçaes cultivam, e elles mesmo comem, e isto 
quando as chuvas são regulares, aliás o agricultor 
tem de cair na mão dos especuladores do litoral. 

«A situação agrícola n'esta parte da provincia é 
pouco prospera, e um estudo no sentido de conseguir 
agua permanente n'esta terra é de urgência fazer-se, 






Na região litoral 



129 



estudo que não parece muito difficil, pois por muitos 
logares n'esta importante terra nos forneceram escla- 




UM ENORME LEÃO APPHOXIMOU-SE 



recimentos da provável existência de agua, e de nume- 
rosas nascentes que poderiam talvez aproveitar-se.» 



130 De Angola â contra-costa 

«Dia 28 de abril. 

« Considera-se hoje dia de descanso para a gente. 
Fizeram-se variadas observações. Deu-se pela noite 
um facto original. 

«Como estivéssemos exhauridos de mantimentos, 
abatemos um boi, que veiu para junto das nossas ten- 
das, e ahi foi esfolado. 

«Ficara, como é natural, uma basta porção de san- 
gue, que, pelo adiantado da hora, se não pensou em 
limpar. Entra o escuro, socega a gente. 

« Seriam jDerto das duas horas, dormia tudo a somno 
solto e no mais sepulchral silencio, quando visita ines- 
perada penetrou no campo. 

«Um enorme leão approximou-se, deu ingresso, e 
dirigindo-se ás poças de sangue, lambeu-o com toda a 
placidez. 

«O mais notável, porém, foi um dos moleques, que 
dormia junto ás nossas barracas, despertou, mas teve 
tamanho terror, que se conservou immovel, não dando 
o menor signal. 

«Era muito grande, senhor, dizia elle, e ao abalar 
ia atirando com a tenda a terra, porque tropeçou nas 
cordas que pelos lados a seguram! 

«Estranha crise devia ser a nossa, se no momento 
de retirar-se tal visita nos cáe a habitação, deixando- 
nos entontecidos e abraçados com um animal d'aquella 
laia ! )> 

Abandonando o diário, pr o sigamos. 

No intuito de nos internarmos rapidamente, partimos 
com o findar do mez de abril a caminho de Capan- 
gombe, por meio de uma floresta de espinheiros que 



Na região litoral 131 

logo adiante se nos deparou, dardejados por sol de 40° 
centígrados. 

Ao longe via-se, entre os socalcos da Cliella, er- 
gner-se um morro colossal denominado Cha-Malundo, 
do qual nos pretendíamos approximar, cortando por 
meio das plantações. 

Capangombe, logar chefe do concelho do Bumbo, 
está assente n'uma jDlanicie pouco pittoresca, que en- 
costando por leste ao socalco das ásperas serranias, 
recebe em baixo quanta agua espadana pelas ravinas 
d'aquellas. 

A meio está a vasta fortaleza, protectora d'este lo- 
gar, a cuja escolha não presidiu o bom senso. 

Existem varias plantações, sendo apenas recommen- 
davel o algodão, de que já se exportam cerca de trinta 
mil arrobas. 

Terminam aqui as terras inferiores com uma alti- 
tude media de 535 metros no sopé das aprumadas en- 
costas do planalto, cuja altura e vertical rasgado, ou 
viveza das testas das cumiadas do gneiss (como diz o 
nosso ilhistre naturalista Anchieta), bem evidenceiam 
a rapidez com que se produziu essa grande depressão 
do solo primordial, constituído nas mais profundas ca- 
madas da crusta terrestre por elementos que do gneiss 
ou do granito devem pelo menos ter a analogia com- 
ponente e igual resistência, e que só uma retracção do 
globo ou grandes vácuos na profundidade podem ex- 
plicar. 

Deu talvez origem a esses terrenos inferiores o fundo 
do mar cretáceo, que em lucta se quebrou de encontro 
aos rochedos hoje visiveis, formando as costas do con- 



132 



De Angola á contra-costa 



tinente por aquelle lado, e de cujo sublevamento mais 
tarde veiu a fazer-se a zona litoral. 

A petrographia, acrescenta ainda o nosso illustre 
compatriota e notabilissimo homem de sciencia, de- 
nota ter sido profunda junto da costa a dita depressão ; 
isto é, considerável a differença de nivel entre o fundo 
e a linha das rochas; parecendo que o movimento su- 




Jj: jrú n JV S-vW^W 



MORRO CHA-MALUNDO 



blevador que este derradeiro phenomeno originou, o 
concernente á formação da zona litoral, se estendeu 
ao solo primitivo, porquanto nenhuma das variadas re- 
giões ali se acham isentas d'elle, visto estarem as mes- 
mas rochas inferiores ás superfícies do terreno sedi- 
mentar, emergindo quasi sempre d'este nas cumiadas. 



Na região litoral 133 

Em resumo, a verdade é que, embora não seja fácil 
ao explorador, n'um singelo golpe de vista e no resu- 
mido tempo da sua passagem, poder dar conta ou ap- 
proximada indicação das convulsões de que esta terra 
foi theatro nas epochas geológicas, nem por isso elle 
deixa de as suspeitar e presentir ao encaral-as, obser- 
vando a grandeza e amplitude d'esses rasgados de ter- 
reno, que pela sua soberba altura hão de ser sempre 
um obstáculo ao accesso cia onda civilisadora para o 
interior. 



CAPITULO IT 



CHELLA ARRIBA 



O explorador é o percursor do colono ; e o co- 
lono o humano instrumento empregado messa fa- 
brica — a maior e mais difficil das emprezas — a 
de civilisar o mundo. 

S. W. Bakee. 



A zona litoral e o planalto — O vento sueste e as accumulações de 
vapor — As portellas do Bruço, de Calleba e da Banja — A serra da 
Chella e as convulsões geológicas ali — Antigo aspecto d'esta — A esca- 
lada e a vegetação — São 1:829 metros — Panorama — O terreno, a caça e 
duas considerações sobre a distribuição zoológica dos animaes em Afri- 
ca — A cobra e o carneiro do Nano — Historias indigenas — Phenomeno 
atmospherieo notável — A Huilla — Sua salubridade e vegetação — Im- 
portância agricola — Plantas úteis — A propaganda e os geograplios — A 
viação accelerada — Directriz media da linlia a estabelecer para o inte- 
rior — Vantagens d'esta — Colonisaçâo e considerações sobre ella — Zonas 
mortíferas. 




O viajante que 
efiectua a parti- 
da da costa Occi- 
dental da Africa 
e na zona junto 
ao oceano experi- 
menta os primei- 
ros rigores do cli- 
ma, transudando 
sob um sol de es- 
caldar, sofírendo 
as cruéis impres- 
sões do tirocinio, 
n'essa espécie de 
adaptação económica que lhe perturba as funcções e o 
volve como que em indolente e constante mau estar, 
considera o azul cordão das serras ao longe o seu per- 
manente anlielo ; a idea de se guindar ás grandes alti- 
tudes o seu mais querido pensamento. 



138 De Angola â contra-costa 

E tem rasão, porque ahi tudo muda. calor, as 
bonanças, os miasmas, o constrangimento emfim, que 
tanto o agoniaram nas primeiras semanas, modifi- 
cam-se, porque nas terras elevadas o ar fresco e os 
ventos reinantes o refrigeram e tornam á vida, cons- 
tituindo-lhe, por assim dizer, um meio mais normal ou 
próximo do que existe pela Europa. 

E a segunda vez em nossas viagens que passamos 
por esta transição, transportando-nos do terreno do 
bao-bab para o da acácia no curto espaço de algumas 
horas; e pela segunda vez também podemos apreciar 
o consolo que essa libertação súbita de um clima em 
extremo tropical traz para o corpo e espirito d'aquelle 
que, apenas chegado da Europa, se viu inopinada- 
mente sob a sua influencia. 

E uma sensação similhante talvez á experimentada 
pelo homem que, preso durante tempos em escura 
masmorra, emerge para a claridade. 

Esse banho de luz e de ar deve desembaraçar-lhe 
o esjúrito, varrer-lhe os tétricos pensamentos que uma 
reclusão forçosamente origina, rociando-o com o bál- 
samo consolador do allivio. 

Assim também succedeu ao vermo-nos no cimo da 
serra. 

Sopra ali em maio o vento de sueste. A atmosphera, 
até então forrada de nimbos e grossos cúmulos carre- 
gados de electricidade, que os ares atroam permanen- 
temente com o ribombar do trovão, despedindo em to- 
dos os sentidos linhas de fogo, principia de limpar-se. 

Só pela banda do noroeste se vêem as mais amea- 
çadoras accumulações de vapor, só para essa banda 



Chella arriba 139 

fuzila, e no quadrante, por onde começaram as trovoa- 
das, vão agora também terminar. 

Soltos novellos como flocos de algodão correm pelo 
azul dos céus, impellidos por uma brisa fresca que tudo 
varre, isto é, o vento geral de sueste sopra no planalto, 
do mesmo modo que no oceano. 

Apenas no 1.° de maio começaram os alvores da 
manhã a esbater as sombras da noite, que nós de pé 
nos aprestámos para a partida. 

Urgia aproveitar para a escalada a frescura matu- 
tina, a fim de, quando colhidos pelo sol, já em alto nos 
acharmos. 

Depois espertava-nos o desejo de continuar a fugir 
a essa zona que atraz deixávamos, feia e estéril, cuja 
paizagem solitária e desoladora nos imprimira no es- 
pirito as mais tristes recordações, e onde as penedias, 
escalvadas e ennegrecidas, como que nos ameaçavam 
a todo o momento com a morte pela sede. 

Podem escolher-se três caminhos para de Capan- 
gombe subir á Chella, todos elles de muito mau aspe- 
cto, attento o aprumado declive das encostas. 

O primeiro é o da portella do Bruço (buraco tal- 
vez?), mais frequentemente trilhado; o segundo o da 
portella de Calleba, que fica um pouco mais ao norte 
d'aquelle; e o terceiro, emfim, o da Baiija, que, des- 
viando-se para o sul, é jírincipalmente escolhido por 
quem se dirige para as zonas meridionaes. 

Foi o Bruço por nós preferido, e, logo que terminou 
a refeição matutina, entestámos com a profunda que- 
brada, começando a ascensão pelas oito horas da ma- 
nhã. 



140 De Angola â contra-costa 

Um trilho em zig-zags debuta por entre as rochas 
e o arvoredo, seguindo approximadamente o curso de 
um ribeiro que se despenha das alturas, semeado em 
toda a extensão de calhaus, ora soltos, ora meio enter- 
rados, e que com difíiculdadede consente ao viajante 
o escalamente da formidável quebrada, cuja altitude, 
em relação á planície de Capangombe, não é menor 
de 1:200 metros. 

A ascensão da serra da Chella divide-se na zona 
por que vamos caminhando em dois quartéis, se por- 
ventura é permittido exprimirmo-nos d'esta maneira: 
a subida do Bruço e depois a da Chella propriamente 
dita. 

Tudo, caro leitor, se encontra no grande continente 
feito em exagerada escala, proporções taes, que exce- 
dem quanto de vulgar conhecemos, parecendo ter a 
natureza, ao cuidar d'elle, caprichado em produzir tudo 
gigantesco. 

Basta que consideremos no reino vegetal, para nos 
persuadirmos d'isto, vendo quanto ella pode, vigorada 
pelo calor, desdobrar de magnificência e surprezas por 
essas terras afora; e se no reino animal admiramos 
ainda os mais crescidos exemplares da fauna actual, 
lá estão os phenomenos meteóricos para exceder pelo 
seu apparato retumbante quanto d'esses factos conhe- 
cemos; e não menos as convulsões geológicas, pelo 
geral de monta também a exigirem crescido respeito; 
pois rios, quebradas e serranias, tudo e enorme, só 
assenhoreavel por lucta porfiada. 

A serra onde agora nos achámos, e que se estende 
numa linha de quasi 400 milhas do Cuanza á terra 



Chella arriba 141 

de Namáqua, é um dos mais frisantes exemplos d'esses 
exagerados movimentos de terras. 

Barreira gigante feita e ageitada durante as epochas 
geológicas remotas no gneiss e na quartrite, abrange 
longa linha de terrenos, formando pelo oeste um som- 
brio paredão que foi por espaço de séculos sentinella 
ao continente e protecção ao movimento convulsio- 
nado do mar, defendendo com a sua gneissica testada 
a acção erosiva d'este na terra continental. 

Outr'ora seu aspecto devia ser muito diíferente. 
Batidas pelos ventos marinhos, lavadas a miúdo pelas 
aguas espumantes, essas penedias erguiam-se certa- 
mente áridas e ennegrecidas, contrastando pela tris- 
teza com a jmizagero. mais suave de hoje. 

O afastar do oceano, do ruido e da sua varia in- 
fluencia, desviou d'ali a causa originaria da pertinaz 
lucta entre o viver vegetal e a acção triumphante das 
brisas do mar, e então, em vez das salgadas aguas 
que lhe lavavam os sopés, vieram ou continuaram os 
doces arroios do alto a sua obra benéfica em favor do 
mundo vegetal. 

E logo á aridez de uma costa marítima, só visitada 
pela gaivota, pelo corvo marinho e outras aves do 
mar, que entre os seccos ramos das euphorbias e nas 
anfractuosidades do rochedo construiam seus ninhos, 
succedeu o verde manto da vegetação tropical, que, 
recolhendo e enlaçando com suas raizes e cypós os 
desaggregos e os húmus vindos de cima, a tornaram 
de nua em fértil e viçosa. 

Pela encosta arriba sente-se o viajante extasiado em 
meio da variabilidade de scenario que aos seus olhos 



142 De Angola â contra-costa 

se desdobra, e das profusas e variadas transições que 
uma vegetação exuberante em roda lhe prepara. 

Pouco depois de se erguer, desapparecem-lhe as le- 
guminosas de espinho, as euphorbias, as acácias ras- 
teiras, para ceder o logar ás Bajuhinias, mutiates, que 
por sua vez, alentando-se, se afastam a 800 metros, 
para as substituir o bao-bab, esse elephante do reino 
vegetal, que attinge aqui proporções colossaes, aos 
Combretum lepidoptreum , verdadeiro carvalho no aspe- 
cto, ás musassas esguias, etc. Está-se a meia encosta; 
em redor a atmosphera embalsama-se com o aroma 
das jasmineas, das papileonaceas odoriferas, de uma 
espécie de malva com o cheiro adocicado d'essa myrta- 
cea a que chamam jambo, entrelaçando seus ramos com 
uma arvore similhante á palmeira rasteira Phenix (?), 
com hyphcenes, limoeiros, cidreiras, laranjeiras, ali 
disjoostas pela mão do homem. 

Entre as rochas serpeia a agua em todos os senti- 
dos, e dez ou quinze variedades de fetos revestem lit- 
teralmente o terreno, formando um verde tapete ás 
arvores gigantescas que saem do seu seio, e cuja 
abundante seiva é animada por innumeras raizes ad- 
ventícias. 

Estamos a 1:000 metros de altitude. N'uma cla- 
reira a vista estende-se por cima dos copados macis- 
sos d'esse oceano de verdura, e então um panorama 
pouco frequente se espraia aos olhos do viajante. 

A direita e esquerda destacam-se as vivas arestas 
das rochas, que se elevam muito acima de nossas 
cabeças, e são n'essa altitude limite forçado ao desen- 
volvimento do arvoredo. D'ahi até ao cume a barreira 



Chella arriba 143 

manchada de pedra não consente um pé do mais sin- 
gelo arbusto; e dominando senhoril o verde macisso 
onde assenta, parece não consentir que tão alto ouse 
acompanhal-a. 

Pela abertura media alongam-se, a perder de vista, 
as planuras de Capangombé, indo confundir-se des- 
maiadas no cordão azul dos morros longínquos, em- 
quanto o viajante, sentado n'um penedo, descansa e 
prepara a derradeira avançada, aguardando a gente 
que se aprazou. 

Uma brisa fresca lhe rocia por estas alturas o afo- 
gueado rosto e, rumorejando por entre o folhedo, des- 
pede para o chão as gotas crystallinas do orvalho que 
os raios solares ainda não poderam evaporar. 

Continua o tortuoso atalho por funda ravina, serras 
acima, de mais em mais inclinado. 

Já são 1:200 metros, depois 1:400; a agua salta 
por todos os lados, atolam-se os pés. no húmus balofo; 
a atmosphera húmida carrega o pulmão, o suor es- 
corre, vergam as pernas, parece quebrarem os joelhos; 
ainda supremo esforço; n'um lacete horisontal a 1:600 
metros resfolega-se, toma-se alento, está-se quasi no 
cimo, não se respira, assobia-se; a seccura extrema 
aggrava por vezes a situação, os pés pesam duas ar- 
robas, o bordão vae a escapar-se das mãos; uf. . . eis 
o plateau. 

São 1:829 metros! 

Milha e meia adiante acampámos n'um logar deno- 
minado o arraial de Caionda, extenuados de forças e 
tendo pago caro o anceio de nos vermos em cima, sof- 
frimento que foi de prompto esquecido por mesa bem 



144 De Angola á contra-costa 

fornecida e o subsequente doce considerar perante 
uma chávena de café e um cachimbo carregado. 

O aspecto do terreno e da vegetação na aba do pla- 
teau variou agora. 

As rochas vivas de alem, succederam-se tractos 
argillosos coloridos pelo oxido de ferro; a vigorosa 
vegetação da encosta, um mato franzino e rachitico, 
que por vezes desapparece totalmente, para substi- 
tuir-se por anharas, largas campinas cobertas de ca- 
pim, como nas margens da lagoa Inite, onde tivemos 




de empregar sérios cuidados para precaver os nossos 
cães dos ataques do crocodillo. 

Pouquíssima caça vimos, só matando um bambi, 
Cephalophus mergens, e a esse respeito acode-nos agora 
uma breve consideração, em que já no Coroca pensá- 
ramos. 

E facto por nós mais de uma vez notado, que os 
grandes antílopes da Africa, embora pareça deverem 
procurar as regiões mais férteis e que maior pasto 
oíferecem, fogem a ellas, preferindo encurrallar-se es- 



Chella arriba 145 

faimados em tractos de terreno inculto, sem agua, 
quando não povoados por feras. 

Assim o galengue, Oryx gazella, cuja falta já no- 
táramos em baixo, não se encontra também aqui, posto 
que o separe um único grau de distancia do rio Coro- 
ca, onde, abundando pelas margens, embora desnu- 
dadas e estéreis, divaga aterrado por meio dos leões, 
que ali vivem em numero extraordinário. 

E difficil comprehender-se a causa da distribuição 
zoológica dos animaes n'esta parte da Africa, que, de- 
vendo estar principalmente subordinada ao alimento, 
sem contarmos as variantes que a ella podem trazer 
determinados perigos, como a proximidade do liomeni, 
a presença de animaes de presa, aqui faz completa ex- 
cepção a taes principios. 

Ha por aqui alguns reptis, entre os quaes figura 
certa cobra, que, existindo próximo dos rios, é por essa 
rasão denominada cobra de agua, e se arremessa como 
dardo, picando e matando em pouco tempo um cavallo, 
segundo nos afiançaram. 

Não tivemos opportunidade de vel-a, pondo sempre 
de prevenção o exagero da morte do cavallo em poucos 
minutos, facto que a final pode ter origem muito dif- 
ferente. 

Os indígenas propendem, mais decididamente ainda 
que os viajantes, para amplificar as suas narrativas, 
levando-se pela imaginação até ao inverosimil com 
extrema naturalidade. 

Assim, ao informarmo-nos do reptil acima alludido, 
tivemos ensejo de ouvir historias de cobras de duas 
cabeças, de cobras voadoras, etc. 

10 



146 De Angola á contra-costa 

Um dos creados, cabinda ladino que nos acompa- 
nhará já na primeira viagem, narrou a propósito factos 
estupendos succedidos na sua terra com esta espécie 
de reptis, asseverando que ao entrarem nos curraes 
similhavam o balir do bezerro, a fim de mammar nas 
vaccas; outras vezes, penetrando de noite nas cuba- 
tas, afastavam os filhos dos seios maternos para em 
seu logar sugarem o leite! 

Entre as diversas historietas ouvimos uma que, 
alem de enunciar a audácia da cobra, dava a medida 
do pesado somno da embriaguez dos conterrâneos do 
nosso creado. 

Certo compatriota do cabinda, assistindo pela noite 
a um batuque, deixou-se arrastar no meio das dansas 
pelos bacchicos deleites, a ponto de, ao concluir da 
festa, achar-se nas mais criticas circumstancias. 

A caminho de casa o infeliz, cambaleando, approxi- 
mou-se da porta da habitação, mas, faltando-lhe as 
forças, caiu adormecido. 

Ao alvorecer o estonteado acordou, quiz mexer-se, 
mas não pôde; gritou, bracejando; era impossivél le- 
vantar-se: immobilidade estranha o dominava, tinha 
as duas pernas mettidas no esophago de uma python 
enorme! 

A propósito de cobras ainda occorre dizermos o se- 
guinte. 

Existe por aqui um typo de carneiro (indigena, ao 
que parece, pois nos afiançam ser oriundo do Nano)} 
de pequenos chifres retorcidos, grande juba que lhe 
desce até ao peito, e é considerado como o mais ter- 
rivel inimigo da cobra. 



Chella arriba 147 

Quando pressente algum reptil cTaquella espécie, 
põe-se cie guarda á toca dias inteiros, até que o en- 
contra, e n'uma lucta de poucos momentos victima-o 
inva ria velment e . 

E notável este animal por gostar muito da cerveja 
indígena, que nos asseguraram beber sôfrega e em 
abundância, sobretudo quando este liquido está fer- 
mentando. 

Em seguida o seu maior prazer é deitar-se ao sol, 
notando, quem o observa n'essa occasião, uma grande 
quantidade de vapor que lhe sae da pelle e se dissipa 
no ar! 

A 2 de maio terminaram as chuvas no plateau da 
Huilla, caindo n'essa mesma noite pela primeira vez 
copioso cacimbo 1 . 

Pela tarde assistimos a um singular pheiíomeno 
atmospherico. 

O céu, que durante o dia se conservara coberto de 
cúmulos minúsculos, com aquelle aspecto que o vulgo 
designa por pedrento, começou a limpar-se do lado 
do poente. 

A corrente de ar, porém, que tal pheiíomeno ope- 
rava, fazia-o com tanta regularidade, que ao appro- 
ximar-se do occaso o astro rei, formara das 'nuvens 
um regular e gracioso arco, com 45° de altura, que 
irisado com todas as cores do espectro, tinha a mais 
original e bella apparencia, emmoldurado de raios 
brilhantes e divergentes. 



1 Cacimbo é a quadra secca das ventanias do sueste, que se esten- 
de desde maio a agosto n'esta região. 



148 De Angola â contra-costa 

Schweinfurth parece ter observado alguma cousa 
similhante no paiz dos bongos, e é notável a coinci- 
dência do mez da observação, pois foi a 18 de maio 
que em sua viagem viu o phenomeno. 

Do arraial de Caionda pro seguiu a expedição por- 
tugueza atravez dos virentes plateaux que a defron- 
tam a caminho directo da Huilla, onde chegou a 3 
de maio. 

A villa apresenta um aspecto agradável, embora 
muito deixe ainda a desejar, com as suas casas bem 
situadas, tendo no meio a ampla fortaleza, mas que 
carece de reparos. 

A frente estão as plantações e aos pés o rio Lupollo, 
correndo leste a oeste n'um risonho e pittoresco valle, 
depois de derivar de uma cascata formosa de que da- 
mos o desenho. 

Meia dúzia de morros, dispersos em vasto semi-cir- 
culo de este pelo norte, animam o panorama com os 
seus vultos gigantescos. 

A importância agrícola da Huilla j)óde tornar-se 
grande, por emquanto não o é. Cada qual semeia para 
si trigo, centeio, milho, couves, batatas, e com isso se 
contenta. A distancia que a separa do litoral tem-lhe 
impedido o desenvolvimento, pois é impossivel enviar 
para a costa qualquer artigo, estando sobrecarregado 
o carreto na rasão de 20 libras esterlinas por 100 ar- 
robas. 

A expedição portugueza demorou-se n'esta terra até 
29 de maio, a fim de refaz er-se de alguns artigos que 
precisava, e sobretudo esperar por vinte carregadores 
que da costa vinham em caminho. 



Chella arriba 149 

Entre diversos estudos diurnos, ócios da tarde e 
uma viagem a Quipungo, na intenção de visitar o Cu- 
nene, passaram-se esses vinte e seis dias n'um dos mais 
salubres logares da nossa Africa occidental. 

O clima da Huilla não carece de encómios. A sua 
altitude, temperatura moderada, brisa fresca, regula- 
ridade de estações, tem-lhe valido justa reputação. 

Ahi vivem os europeus como em plena Europa, 
tendo só a queixar-se de alguma bronchite ou pneu- 
monia, doenças frequentes; pouco visitados pela febre, 
fortes e robustos, apresentam frequentemente estra- 
nhos exemplos de longevidade. 

A terra fértil d'esse paiz produz quanto se lembra- 
rem de lançar-lhe ; desde o pecego e o trigo até á gin- 
guba ou mendobi, vimos que tudo vingava com igual 
facilidade. 

As bastas florestas d'esta pittoresca região abun- 
dam em numerosas esj3ecies úteis, hoje bem conheci- 
das, as quaes os indigenas com muito proveito appli- 
cam a diversos usos. 

Assim se vêem promiscuamente de um lado as fru- 
ctiferas Diospyros mespiliformis, arvore de boa madeira 
e fructo comestível, que os indigenas denominam mu- 
lande, juntas com as erguidas nocheiras, Par. mabola, 
de folhas verde escuras de um lado e claras do outro, 
como o plátano, arvore que mais tarde nos foi tão pro- 
veitosa nas inatas do Lualaba; e logo perto a Euclea 
lanceolata, cujo fructo vermelho muito appetecivel é 
conhecido por n'boto; e a ucha ou uxa, também ver- 
melha, maior que uma cereja, e que já havíamos en- 
contrado em Caconda; e ainda o gongo, d'onde se 



150 De Angola á contra-costa 

extralie do fructo amarello uma bebida inebriante, a 
par da Strichnos sps., laranja do mato, de que existem 
variedades de um cinzento claro, que são venenosas 
e os indígenas chamam mabóca; e outras á mistura, 
como as combretaceas e a Terminalia angolensis; de 
formosas proteaceas; a Trichos speciosa, de espigas 
floridas; de gigantes leguminosas, como Pierocarpus 
erinaceus, cujo tronco exsuda vermelha resina; de ru- 
beaceas, etc. 

Ali se encontra o pau camphora, t'chicongo, scien- 
tiíicamente conhecido pelo Tarchonanthus eamphoratus, 
que em certos logares constitue parte dos bosques; o 
pau sândalo, Pterocarpus (?), muito estimado pelos 
indígenas, e que, quando arde na fogueira, exhala 
aroma similhante ao da madeira da China, servindo 
para aquecer os quartos dos sobas e muitos outros usos. 

Tiradas encomiásticas com respeito a esta região, 
por todos conhecida e apreciada, tornam-se em ver- 
dade supérfluas. 

Ali acham-se reunidas as condições jDara uma vasta 
colonisação europêa, e em circumstancias pouco fáceis 
de encontrar na Africa; é pois urgente tornal-a o alvo 
de todos os nossos esforços e attenções, envidar todos 
os recursos para que prospere, formando o grande cen- 
tro de movimento que breve irradiará para as terras 
do norte e nordeste. 

Deixemo-nos de mais considerações; capital é que 
se deseja, projDaganda fazemol-a nós aqui, recordando 
que n'uma terra que tão generosamente secunda os es- 
forços do colono nada pode resistir a força de von- 
tade bem determinada; e sirva de exemplo esse pu- 



Chella arriba 151 

nliaclo de colonos que, tendo ido para ali em 1840, 
pela maior parte com os bolsos vasios, levantaram a 
esplendida villa de Mossamedes, e sao hoje pelo geral 
proprietários. 

Os geographos pela sua parte teem feito o que lhes 
incumbe; continue o governo a empenhar-se com se- 
riedade na obra; venham para o interior o missioná- 
rio, o mercador e o colono, e breve veremos operar-se 
a mais radical transformação. 

A primeira cousa precisa é crear meios de transpor- 
te; de outra forma todo o successo será impossível. 

O recemchegado, negociante, mercador ou lavra- 
dor, por melhor que seja a sua vontade, nada pode no 
interesse de um paiz falto de bons caminhos e vias 
de communicação. 

Que importa o facto da Huilla produzir muito tri- 
go, se cada carro bóer, por exenrplo, leva o excessivo 
preço de meia libra esterlina por arroba para o trans- 
portar á costa? 

Para que vos serve saber que cias vertentes da 
Chella até á bacia de Quillengues pode colher-se todo 
o milho preciso para o consumo da província, e ainda 
para abastecer a colónia do Cabo, se nem uma espiga 
podeis trazer atravez das serranias do Munda? 

A viação é o objecto capital, e isto em detrimento 
de todas as outras obras, como hospitaes sumptuosos, 
residências, quartéis, etc, de que de resto temos abu- 
sado muito. 

Abrir caminhos, porém, atravez das terras áridas e 
em seguida dos matos interiores para se servirem com 
carros de bois, é um erro sem nenhuma vantagem. 



152 De Angola á contra-costa 

Grande capital seria necessário para uma obra de 
que apenas ha a esperar resultado medíocre, sem com- 
prehender tenrpo, trabalho e outros factores, como 
morte de gados, etc. 

Procuremos, portanto, na viação accelerada resol- 
ver este problema, e vamos ao caminho de ferro ou ao 
tramway a vapor, como único recurso para transfor- 
mar tudo aquillo. Tomemos Mossamedes como ponto 
de partida, prosigâmos, por exemplo, pelo valle do Gi- 
raul ou do Bero. 

Ganhando o interior, essa linha attingirá a região 
próxima de Capangonibe, procurando a directriz mais 
conveniente para vencer as alturas da Chella. 

Está aqui sem duvida a pedra angular do edifício, 
mas com estudo e trabalho pode conseguir-se. 

Podendo proseguir pelo valle do Muninho, teriamos 
talvez a vantagem de a levar para o nordeste, isto é, na 
direcção dos centros mais productores; no caso con- 
trario dirigir-se-ía para o sul do Hoque. 

Das duas direcções porém a mais proveitosa, posto 
que a julgámos mais clifficil para o caso da subida, é 
a do sul, porque havendo de bifurcar-se no planalto, 
a fim de lançar o ramal do Humbe, ficava assim dimi- 
nuido este, e o ramo directo iria a caminho da Huilla 
e Handa para Caconda. 

Escusado será dizer que esta direcção media da li- 
nha, por nós apresentada pelo nordeste, não se funda 
simplesmente na necessidade de servir aquelle presi- 
dio, pois, pela exigua importância que tem o forte, po- 
dia ella desviar-se mais ao sul ou ao norte; mas por- 
que toda a tentativa ulterior de prolongamento para 



Chella arriba 153 

o sertão lia de ir approximar-se do Bié, a fim de 
buscar a linha divisória das aguas no interior, na terra 
alterosa. 

Assim, em pouco tempo veríamos nós Mossamedes 
ligada a Caconda por uma linha directa, que atraves- 
sando as terras elevadas teria, n'uma zona lateral de 
20 kilometros, a área de 18:000 kilometros quadrados 
de terrenos férteis. 

Qualquer companhia que podesse dispor do capital 
necessário para o estabelecimento de uma tal empreza, 
toparia n'aquella região vantagens muito especiaes e 
em circumstancias raro encontráveis. 

Primeiro, a sua construcção seria relativamente pra- 
ticável na zona litoral, não só pela facilidade em obter 
braços, como também, por não oflerecer exagerados 
obstáculos, estando alem d'isso próxima do mar e em 
vantajosa posição. 

Protegida por todos os agricultores e negociantes, 
tendo infallivelmente o transito de todas as mercado- 
rias sem competência, pois a tonelada de algodão que 
de Capangombe pagava 33$000 reis, jDagaria agora, 
pela tarifa de 50 réis o kilometro, 5$000 réis; teria 
esta linha como poucas outras a immediata exploração 
de toda a salubre zona marginal, onde breve appare- 
ceriam aldeias e villas. 

Não podemos seguramente calcular a cifra que a 
producção agrícola desde logo attingiria, mas por certo 
seria enorme. Os trigos, os milhos, os algodões, os le- 
gumes, sem contar desde o principio com a saída de 
productos naturaes, que, desviados dos trilhos do nor- 
te, viriam ali buscar o terminus da mesma linha; ai- 



154 De Angola á contra-costa 

ternária sem duvida com o transporte de gados, tam- 
bém representado por uma verba importante, e muitas 
producções novas. 

O caminho de ferro por modo nenhum pode ser 
um desastre nesta região, pelo simples motivo do seu 
traçado fazer-se n'uma zona em que o indigena não 
predomina exclusivamente, e porque estamos conven- 
cidos de que procreará vastos centros de população 
branca, cujas necessidades, bem differentes das do ne- 
gro, dependerão das relações exteriores. 

Attentemos na situação actual das cousas, e logo 
veremos, á luz do bom senso, as grandes vantagens 
a advir do seu estabelecimento n'esta região quasi 
inexplorada, e quanto d'ella tem a esjDerar o europeu, 
e o negro especialmente. 

O commercio na costa occidental da Africa está, por 
assim dizer, no estado primitivo. 

Raras são as explorações agrícolas de vulto, raros 
os estabelecimentos fundados no intuito de arrancar á 
terra tudo quanto pócle. 

A exploração dos productos naturaes é o grande 
problema que a todos fascina, como fascinou recen- 
temente ainda estrangeiros nos seus cálculos relati- 
vos ao commercio do Congo, e a final é um recurso 
mais variável do que se suppõe, e meio pouco projDrio 
a conseguir alguma cousa na questão do progresso 
dos naturaes. 

O marfim, a cera, o oiro, a borracha, etc, artigos 
que este facilmente encontra, são nos mercados cen- 
traes permutados pelos cafuses ignorantes, que os tra- 
zem a costa, sem que o indigena sequer ganhe as van- 



C i hella arriba 155 

tagens provenientes de uma viagem á mesma costa 
ou das relações com o europeu. 

O negro recolhe uma bola de borracha, espera o 
mercador, vende-lh'a por uma jarda de fazenda, e 
quem a compra vae-se, ficando elle como até ali estava, 
ignorando tudo. 

Não é assim que se civilisam j30vos, não é por meio 
de um tal trafico (erradamente chamado commercio) 
que a civilisação tem a ganhar n'aquellas regiões, e 
apenas -pôde aproveitar d'elle a rábula mercantil do 
cafuz e até certo ponto a correspondência ainda pouco 
fácil com o interior. 

Urge estabelecer-se entre os africanos, claro é que 
nos referimos ás zonas onde o europeu pôde viver; mos- 
trar-lhes as vantagens a advir da cultura da terra, fa- 
zer-lhes, pelo gostoso exemplo da posse, crèar affinco ao 
trabalho; infundir-lhes, pela amostra progressiva do 
bem estar, o desejo do ganho e a noção da proprie- 
dade; ligar com taes princípios a idéa da familia, da 
successão, da garantia do trabalho na descendência; 
constituir sociedades cujo modo de ser se affeiçoem ao 
que conhecemos n'esse sentido, com princípios e ne- 
cessidades idênticas aos nossos, e só assim teremos 
conseguido em Africa dar um grande passo na senda 
civilisadora ; só então travará com ella a Europa um 
commercio verdadeiro e reomlar. 

o 

Quando ao marfim se substituir a ginguba, á gomma 
as toneladas de assucar, ao oiro os carregamentos de 
algodão, vereis em Africa pullular uma população in- 
dustriosa e activa, branca e de cor, capaz de fazer muito 
mais do que se pensa; emquanto o commercio se ba- 



156 De Angola d contra costa 

sear nas contingências da caça ao elephante, em zonas 
ásperas e insalubres, só observareis bandos de saltea- 
dores negros e a barbárie polygamica espalhada por 
sobre o continente. 

Attente-se na questão principal, a salubridade, e fu- 
jamos um pouco do norte. 

Determinemo-nos a proceder com bom senso e a 
cessar de uma vez com essa dispersão irreflectida pela 
província, de dinheiro e vidas, que em muitos casos 
não tem feito mais do que continuar uma terrível re- 
putação para todos os districtos da colónia, e quando 
muitos tal não merecem, sem vantagem alguma di- 
recta para a mesma colónia. 

Querer adaptar o europeu .recemvindo e não de- 
portado a um meio como o que se encontra no Bengo 
ou nas margens do Cuanza, em Ambaca ou Malanje; 
constrangel-o a estabelecer-se ahi com a mulher e fi- 
lhinhos que o acompanham, e a empregar-se como 
colono no amanho da terra; exigir que ahi edifique, 
crie, prosj)ere e consiga ao cabo de annos converter 
n'um paraizo aquellas terras, é desconhecer a Africa, 
é positivamente matal-o! 

Com alguns traços de penna já Livingstone nos ar- 
guiu — e d'essa vez teve bastante rasão, — dizendo 
que nós não fazíamos muitas vezes mais do que estra- 
gar força e perder riqueza, sacrificando improficua- 
mente as vidas de tantos milhares de homens que para 
ali enviamos, os quaes podiam occupar-se nas zonas 
salubres, para resolver problemas de muito interesse. 

Estude-se com seriedade este assumpto, attente-se 
bem no que deixamos dito na epigraphe do presente 



Chella arriba 157 

capitulo sobre o colono, conceituosamente como o hu- 
mano instrumento da magna empreza de civilisar o 
mundo; considere-se que sem elle todo o progresso 
em Africa é uma chimera, porque só elle ha de assen- 
tar as verdadeiras bases de um commercio regular, 
activando a exploração do paiz, como contrabalanço 
ás necessidades que a industria europêa satisfaz; que 
só com elle pode radicar-se o elemento social, a famí- 
lia, e constituir vastos centros civilisados, cVonde o 
indigena ha de approximar-se, seguindo-lhe as leis 
fataes; que emíim elle, levando para ahi a noção exa- 
cta do direito da vida e da propriedade, ha de iniciar 
o negro na sublime obra da comprehensão d'esses no- 
bres sentimentos, que, principiando no respeito pelos 
progenitores, se alargam ao lar pela constituição da 
familia, e estendendo-se suavemente á prole, acabam 
no homem a tendência animal e egoista de apenas em 
si pensar, tornando-o bom filho, marido extremoso, 
terno e solícito pae, e depois, quando ajustarmos nas 
precedentes considerações, veremos que a principal 
cousa a fazer para a colonisação é crear ao colono, 
nas terras por onde elle se dirige, todos os confortos 
possiveis para resistir aos primeiros embaraços, todas 
as garantias para que do seu trabalho derive um suc- 
cesso. 

E não é seguramente, repetimos, no valle do Bengo, 
do Cuanza, no Congo em Cabinda ou outro jDonto de 
condições similhantes, que elle ha de prosperar, dire- 
mos mesmo, vivei 



.1 



Attentae infelizes, que, levados pela cobiça de ad- 
quirir riqueza, vos illudis com palavras fallazes e 



158 De Angola á contra-costa 

enganadoras de quem não sabe ou pretende á vossa 
custa fazer fortuna. 

Fugi com vossas famílias da zona da costa até ao pa-' 
rallelo do Ambriz Adindo do norte, e para o interior, do 
valle dos rios na região litoral e mesmo montanhosa 
n'esse parallelo; caminhae para o sul, e encontrareis 
no districto de Benguella e sobretudo de Mossamedes, 
vastos tractos de terreno, onde o vosso trabalho se po- 
derá desenvolver e a saúde correrá sem risco no meio 
dos labores incessantes da mais rude das vidas — o 
arrancar á terra o sustento de cada dia. 

Tudo o que fizerdes em contrario das informações 
que vos fornecemos aqui, será o resvalar para a beira 
do abysmo, um passo inconsciente para esse termo fa- 
tal, que se chama o tumulo! 

E se estas indicações servirem áquelles que gover- 
nam, já apoiando-vos com o seu inigualável patrocí- 
nio, já auxiliando a organisação de companhias que 
vos possam coadjuvar na lucta dos primeiros tempos 
em terras novas, nós d'aqui, afiançando o rápido pros- 
perar da região sobre que ora escrevemos, agourâmo- 
vos um futuro de felicidade. 



CAPITULO V 



NA HUILLA 



Coincidência feliz — António Carlos Maria, o companheiro caçador — 
O acampamento e o soba da Huilla — A feitiçaria — -Suas relações com 
os régulos — A habitação do feiticeiro e os instrumentos do offieio — Pro- 
cesso de adivinhação — Uma scena pela noite — A missão da Huilla e os 
missionários — Duparquet e a sua obra — Partida para Quipungo— As 
florestas e o pássaro cabra — A fauna da Huilla e as penedias de leste — 
Os ba-nhaneca e os dentistas — Effeitos do tiro entre africanos — A ha- 
bitação do soba de Quipungo — -Visita ao regulo — Um companheiro apeado 
e o regresso pelo sul — Casulo estranho — Considerações. 




Desde o dia 3 de 
maio até 29 do mes- 
mo mez, dissemos no 
precedente capitulo, 
demorou-se a expe- 
diçãoportuguezanas 
terras da Huilla, or- 
ganisando, conforme 
era sempre sen cos- 
tume, um' acampa- 
mento no mato. 

Nada ha melhor, 
para evitar as repe- 
tidas visitas de im- 
portunos e prevenir desgostos provenientes de que- 
relas e complicações, frequentíssimas entre africanos, 
do que isolar-se o explorador e a sua gente em acam- 
pamento afastado das aldeias. 



162 De Angola á contra-costa 

Só assim descansa e pode disciplinar os seus, bem 
como se faz trabalho aproveitável, e tal é a nossa con- 
vicção a este respeito, que, embora tivéssemos uma 
fortaleza e a residência da auctoridade á nossa dis- 
posição, preferimos conservar-nos de longe no socego 
do bosque. 

A intenção ora aproveitarmos aquella demora para 
visitar as terras do Quipungo, onde se dirigiria um de 
nós, avançando, se porventura podesse, até á margem 
do rio Cunene. 

Por acaso o chefe do concelho precisava ir ali em 
objecto de serviço do governo; uma tal circumstancia 
nos proporcionou o ensejo de ter por companheiro 
um individuo conhecedor do paiz e prompto a auxi- 
liar-nos com a melhor vontade. 

Esta eventualidade feliz teve ainda um outro re- 
sultado, que foi travarmos relações com um joven 
africano, António Carlos Maria, que depois fez com- 
nosco a travessia á contra-costa ná qualidade de ca- 
çador, e, seja dito sem rebuço, pela sua audácia e 
energia nas correrias cynegeticas, dez vezes salvou a 
expedição de um dos mais desgraçados fins — a morte 
pela fome! 

Como houvéssemos solicitado do sr. Chaves o obse- 
quio de nos procurar um homem, conhecedor da lín- 
gua do paiz, para n'esta digressão auxiliar-nos com 
as informações gentílicas que precisássemos, apresen- 
tou-nos o mancebo já citado, com quem bastaram três 
dias de convivio para reconhecermos um estimável ca- 
valheiro de não vulgar caracter; e decidimo-nos a todo 
o transe a contratal-o para a viagem. 



Na Huilla 163 

António Carlos Maria é a pérola dos rapazes afri- 
canos; sen pae, a quem corriam as lagrimas ao entre- 
gar-nol-o, conta já oitenta e dois annos, e deve exul- 
tar, julgando-se pago dos sacrifícios que por elle fez, 
quando ler estas breves linhas. 

Terminada a construcção do grande acampamento 
fronteiro á villa, abrimos um parenthesis de descanso, 
para em seguida nos lançarmos aos labores que nos 
esperavam. 

E foram dias agradáveis esses, passados á sombra 
de gigantesco sycomoro, no centro de paizagem sorri- 
dente, entregues a miúdo aos prazeres de uma mesa 
bem servida, o que na Huilla é fácil conseguir. Durante 
elles recebemos numerosas visitas, umas por curiosi- 
dade ou passatempo, outras por dever de delicadeza, 
muitas para conseguir algum beneficio em fazenda ou 
aguardente, etc, mediante artigos de negocio, que se- 
ria longo enumerar. 

Entre os visitantes figurava sempre um velhote que 
se considera regulo ali, e que nas suas entrevistas 
pedia apenas aguardente. 

Era o seu pensamento fixo, desde que saíra do nosso 
campo e cremos que toda a noite, o inventar a ma- 
neira de no dia seguinte nos extorquir mais copos do 
enèbriante liquido. 

Ultimamente, para assegurar o êxito, trazia comsigo 
uma macota, creatura feia e de repellente aspecto, 
mas em cujo olhar transluziam os coriscos de velha- 
caria, e que se dizia ser um n ganga! 

E um terrível feiticeiro, afiançou alguém em aparte; 
possue o segredo de todos os ingredientes que podem 



164 De Angola â contra-costa 

matar; adivinho formidável que tudo sabe; bastanclo- 
lhe olhar qualquer pessoa para que os Sanais se ape- 
guem com ella 1 . 

Capaz até de adivinhar onde estava a aguardente, 
considerámos nós! 

Toda a cautela é pouca, foi a conclusão, e tal crea- 
tura nada aqui pôde vir fazer de bom. 

E nós, olhando para o rí ganga, e logo para os inter- 
locutores, pasmávamos do quanto pode a superstição e 
a ignorância n'um cérebro mal alumiado pelo juizo. 

Entre as crenças estranhas, arreigadas no espirito 
do negro, existe aquella — sabem-no todos — de que 
certos individuos têem o poder de adivinhar, e esta 
triste convicção faz com que nas diversas tribus exista 
um ou mais d'esses individuos, n gangas ou adivinhos, 
que, valendo-se da cegueira dos seus conterrâneos, 
commettem toda a casta de extorsões e de infâmias! 
E para lastimar, porém, que, estreitamente ligados á 
tribu onde residem pelos laços da necessidade e do 
respeito, estes heroes, embora odiados, sejam sempre 
um grande recurso para os chefes no processo de espo- 
liarem os vassallos, tornando-se por vezes instrumen- 
tos de oppressão e tyrannia, quando por conta própria 
os seus perversos corações não os levam, arrastados 
pela cobiça ou vingança, a commetter actos da mais 
requintada barbaridade. 



1 Sandis, segundo Magyar, é entre os binbundo o feitiço do bem; 
segundo nós é uma designação genérica de feitiço e alma de mortos, ou 
o seu vulto, como quizerem. No nosso primeiro livro, De Benguella ás ter- 
ras de Iacca, falíamos do Quilulo N'Sandi, como o grande feitiço bieno, 
assim como entre os dámaras é o Otjiruro, absolutamente o mesmo. 



NaHuilla 165 

O indigena africano, em tudo que seja menos vul- 
gar, encontra a explicação na feitiçaria, e para isso 
torna-se-llie necessária a presença do adivinhador! 

A morte de qualquer parente, a fractura de um 
membro, a mais simples doença, ou a perda de uma 
cabeça de gado, são questões que não passam sem 
elle ser chamado e ouvido. 

Accumulando alem d'isso o conhecimento das her- 
vas do mato, e mezinhas a empregar em sua grosseira 
therapeutica, d'onde propriamente lhe deriva o nome 
de 11 ganga, é considerado como verdadeiro salvador, 
único capaz de evitar esses grandes infortúnios. 

Os adivinhos são pelo geral homens feios, mesmo 
defeituosos, e quasi sempre indivíduos a quem a de- 
cepção e sérias contrariedades tornaram biliosamente 
perversos e inimigos do seu similhante. 

Vivem sós, em uma pequena cubata, no logar mais 
escuso da aldeia e afastados do rumor. 

O interior da habitação, e frequentes vezes uma 
pequena gaiola fronteira, espécie de miniatura da vul- 
gar casa africana, impressionam o viajante. Ahi se 
observam em pequenas hasteas craneos de diversos 
animaes desde o boi até ao macaco, panellas meio en- 
terradas, contendo chifres de antilope cheios de uma 
massa preta e outros minúsculos de gazella, caudas 
de boi e de leopardo, unhas de leão, bicos de papa- 
gaio e cabeças de morcego, á mistura com cascas de 
kagado, pés de pato, emfim quantos objectos pelo seu 
estranho aspecto possam impressionar a imaginação! 

Usam invariavelmente um adorno de cabeça com 
plumas, uma vara com sementes cheias de cascalho, 



166 De Angola d contra-costa 

ruidosa ao agitar-se, bem como determinados ingre- 
dientes para a pintura pessoal, isto é, pós brancos, 
outros vermelhos ou amarellos, etc. 

Estas creaturas exercem o seu maléfico orneio por 
diversos modos : dão a engulir aos aceusados o jura- 
mento (prova da bebida), preparam ciladas a qualquer, 
de quem os parentes pretendam desfazer-se, minis- 
trando a estes beberagens vomitivas, em panellas que 
depois se encontram com os ingredientes em casa do 
suspeito réu, por alii haverem sido postas clandesti- 
namente; n'outras conjuncturas roubam e trocam ob- 
jectos, e, enterrando-os defronte das portas, resultam 
por causaes coincidências revelações do criminoso. 

Os processos que se empregam na adivinhação va- 
riam conforme as tribus e os ariolos, mas constam 
sempre, ê claro, de scenas de magia mais ou menos 
phantasticas. 

Umas vezes é mediante paus e pedras redondas que 
conseguem conhecer os criminosos; outras lêem nas 
convulsões de uma gallinha ou cabra moribunda as 
scenas do futuro, e pelos gritos nocturnos da coruja 
ou da hyena, animaes em cujo corpo, pelo geral, sup- 
põem residir o espirito dos mortos; n'algumas, emflm, 
empregam fingidos extasis, etc. 

Torna-se hoje quasi importuno repetir similhantes 
factos, por isso limitar-nos-hemos, só para o ultimo 
dos ditos casos, a narrar quanto nos foi descrrpto. 

Logo que por qualquer circumstancia, como rou- 
bo, assassinio ou doença, o adivinhador é chamado por 
uma tribu, tudo ali se prepara para a ceremonia, que 
quasi sempre é depois do accaso do sol, escolhendo-se 



Na Huilla 167 

noites escuras, e parece que ás vezes na lua nova, a 
fim do feiticeiro poder tirar maior vantagem, impres- 
sionando a imaginação do publico com o contraste das 
trevas e do fogo, que para esse effeito ateiam em di- 
versos pontos. 

Reunidos todos os indivíduos da terra em vasto cir- 
culo, dentro do qual crepitam, como dissemos, foguei- 
ras que pela sua luz tremulante dão á scena phantas- 
tico aspecto, colloca-se a meio o rí ganga, prompto e 
paramentado, a face riscada com traços de cores, um 
enorme pennaeho, a cabeça ornada de chifres de anti- 
lope, um bilboquet na mão e ás vezes caudas de ani- 
maes á cinta. Junto a elle, em pequena esteira, vê-se 
uma panella de barro contendo certo liquido especial, 
pequenos paus dispersos, e uma cabaça cortada em 
forma de bacia, com vários objectos, cuja vista causa 
espanto, e que seria difficil descrever. 

Bagos de missanga, búzios, pequenas imagens de 
pau, arremedando um homem ou uma mulher, pedras, 
bicos de aves, garras, pés resequidos de corujas, etc, 
que ahi o visitante pode notar boquiaberto. 

De súbito o adivinho solta um silvo, e agitando o 
bilboquet enceta uma dansa grotesca. 

As mulheres cantam em coro ao compasso das pal- 
mas, emquanto elle, aos saltos, percorre os grupos e 
observa attentamente os circumstantes. 

Aqui pergunta, acolá responde; finge afastar-se, de 
súbito volve, mira, affirma-se, e como esperto e obser- 
vador, espera a todo o momento ver transparecer no 
rosto ou nos movimentos inquietos de alguém as pro- 
vas do crime. 



M 



168 De Angola á contra-costa 

Por vezes sáe do circulo, acocora-se, confunde-se 
com a multidão, e raro será que, no caso de roubo, o 
supersticioso auctor, estando presente, não se tráliia 
por algum signal. 

AjDenas iniciado volve, e, em pulos estranhos, appro- 
xima-se da esteira. 

Acocorou-se. Eil-o de joelho em terra, cabaça de 
feitiços na destra, a mão esquerda estendida horison- 
talmente, a cabeça curvada, acenando a compasso. 

Ligeiros impulsos dados no sentido vertical deixam 
ver os objectos contidos no interior, ate que, repetin- 
do o movimento com mais energia, um d'elles cáe no 
terreno . 

Largando a cabaça apodera-se d'elle, mira com ar 
bestial por momentos, firme, emmudecido; depois co- 
meça com esgares e momices, que pouco a j^ouco exa- 
gera, escancara a boca, e arregalando os olhos inje- 
ctados de sangue, eil-o que se levanta, e em saltos 
vertiginosos percorre a arena como um louco! 

A luz pallida dos madeiros que ardem, esse homem 
sarapintado, agitando-se no meio das mais estranhas 
convulsões, narinas entreabertas, lábios espumantes, 
parece um verdadeiro demónio, revestido de todos os 
attributos com que a imaginação adorna esta casta de 
creações! 

Apoz a estranha lucta, cáe emfim extenuado e, es- 
trebuxando, profere o nome da victima, que, cheia de 
espanto, pretende fugir, mas é acto contínuo agarrada. 

Poderiamos ainda relatar factos curiosos, principal- 
mente acerca da cura de doenças, por meio de en- 
cantamentos e scenas de feitiçaria; isso porém levar- 



Na Huilla 



169 



nos-ia longe, em repetição de certo pouco proveitosa, 
pois raro é o viajante que a elles não tenha alludido. 
Alem de que entre os ba-nhaneca têem cessado simi- 
lhantes costumes, o que se deve a vigilância exercida 
pela auctoridade local. 

Entre os cavalheiros com quem nos relacionámos na 
Huilla, e nos deixaram grata impressão pelo affectuoso 




TYPO MU-NHANECA LUPOLLO 

Segundo photographia 



recebimento que nos fizeram, figuram sem duvida os 
missionários, á frente dos quaes se acha um sacer- 
dote de muito merecimento e alto valor intellectual, 
o reverendo Duparquet, hoje vice-prefeito apostólico. 
Esse homem, a cuja persistência e firmeza se deve 
em grande parte o estabelecimento da missão e o seu 
estado prospero, cujos trabalhos, quer no interesse da 



170 De Angola a contra-costa 

propaganda religiosa, quer no da geographia, são 
conhecidos em todas as publicações, desde o jornal 
das missões até aos boletins das sociedades geogra- 
phicas, cuja vida tem sido uma constante lucta no 
serviço da religião, ora em Zanzibar, Kimberly, no 
Dámara ou no Ovampo, ora na Huilla; esse homem, 
dizemos, é bem digno que Deus lhe conceda saúde e 
prolongue a vida, para completo êxito do piedoso e 
relevantíssimo serviço em que está empenhado. 

A missão, que está collocada em risonho valle por 
onde* serpeia pittoresco rio, compõe-se de vastos es- 
tabelecimentos bem construídos, cercados de jardins, 
hortas e terras de semeadura, devido tudo a grande 
esforço e trabalho, tendo que drenar as terras em gran- 
de extensão, e dirigir as aguas do rio; é n'esse aprazí- 
vel sitio onde mais agradavelmente se passa na Huilla, 
e o recemchegado se sente satisfeito ao entrar no ga- 
binete de leitura. 

Exultámos ao ver o sentido pratico que a missão dá 
aos seus trabalhos, a par d'aquelles da catechese, der- 
ramando na areà da sua acção o gosto pelos labores 
de toda a ordem, princijDalmente agrícolas. 

Lembra-nos o que escrevemos ao concluir da nossa 
obra De Benguella ás terras de Iaec%, quando falíamos 
do missionário, e apraz-nos notar que a missão da 
Huilla, embora não tenha sido guiada pela singeleza 
das indicações, de resto sem a menor pretensão, vae 
casualmente em linha parallela com o nosso pensa- 
mento. 

Dizíamos nós então: «O negro, desde o primeiro dia 
que avistar o missionário, deve ver n'elle, não uma 



NaHuilla 171 

creatura suspeita, revestida de caracter mais ou menos 
mysterioso; mas um bom guia, todo carinho, juiz recto, 
de cujo contacto só lhe resulte a felicidade. 

«Deve successivamente encontrar um mestre, não 
disposto a indicar-lhe com alambicado mysticismo o 
caminho da bemaventurança, mas sim a ensinar-lhe 
o modo de regenerar-se, deixando os hábitos indolen- 
tes pelo trabalho, fugindo do crime pela constante 
pratica da virtude, e pondo-o á altura, sobretudo, de 
exercer qualquer industria útil para si e para os seus 
similhantes. 

«Ensinar o indígena a fazer a charrua e extrahir o 
ferro pelo modo mais aproveitável, a combinal-o com 
o carbone para produzir o aço; incutir-lhe a primeira 
noção do moinho, revelar-lhe o modo de aproveitar a 
força das aguas e as vantagens cio amanho da terra, 
eis em resumo o fim serio da missão ali.» 

Taes eram as nossas palavras ao tempo, e que feliz- 
mente vamos vendo realisadas na Huilla. 

Fazemos votos pela prosperidade da missão, con- 
vencidos de que o negro ha de sentir em curto espaço 
de tempo os seus benéficos eífeitos, acabando por modo 
gradual com essas repugnantes e torpes scenas de fei- 
tiçaria, cuja descripção, para bem frisante se tornar 
ao leitor, intencionalmente pozemos antes d'estas con- 
siderações. 

Apenas nos sentimos refeitos do cansaço da via- 
gem, preparámos tudo para abalar. Dez dias levámos 
n'uma digressão para o nascente, de que pouco se co- 
lheu, por causa de embaraços imprevistos, não conse- 
guindo a final ver o Cunene. 



172 De Angola d contra-costa 

Eis o que se -encontra no diário, a propósito: 

«A 6 partimos ao romper da aurora, acompanhados 
de trinta homens, o chefe do concelho e o nosso joven 
caçador, montando aquelle uma soberba égua, compra- 
da a Erikson, negociante inglez do Cabo, e nós em 
bois-cavallos ou typoia. 

«Uma manhã radiante e um tempo esplendido con- 
vida- nos a marchar. A estrada é de carro. 

«O caminho segue para leste, marginando pelo norte 
dois morros, Catalla e Nandumboe, por meio de es- 
pesso arvoredo, tendo na perpendicular depressões 
que accusam pequenos riachos na epocha chuvosa. 

«Mupandas, n'dumbiros, mutontos, mumóes e acá- 
cias pouco elevadas emergem do meio do tapete de 
fofo capim, protegendo-nos com a sombra de sua ra- 
magem. 

«Quatro horas successivas a andar nos levam atra- 
vez dos bosques, que j^ela sua invariabilidade come- 
çam a tornar-se monótonos. Aqui e alem uma rola foge 
espantada diante de nós, emquanto que o Schizorhis 
concolor, Smith., com o seu corpo cinzento, comprida 
cauda e popa elegante, nos acompanha pulando de 
ramo em ramo, e com ar de curiosidade solta de 
espaço a espaço um balido similhante ao da cabra. 

«António conta-nos em caminho historias das suas 
caçadas, de como matou o primeiro leopardo, e o des- 
dém que o leão lhe inspira, esforçando-se por mostrar 
ser inunerecido o titulo de rei das selvas. 

«Falla-nos da inveja que tem das armas dos boers, 
das caçadas ao elephante, e ao referir-se a estes, exal- 
ta-lhe a intelligencia, a ponto de nos afiançar que o 



Na Huilla 173 

elephante fêmea corrige o irregular proceder dos fi- 
lhos, arrancando pequenas arvores ]Dara lhes inflingir 
o necessário castigo! 

«Pela tarde acampámos, e, emquanto se preparava 
a comida, entretivemo-nos a desenhar alguns typos 
lupollos. Estávamos no limite das terras entre Huilla 
e Quipungo dos banhaneca. 

«Durante o dia 7 fez-se marcha extensa, por meio 
de um panorama similhante ao do dia anterior. O ter- 
reno continua horisontal, sendo deserto de habitações 
humanas.» 

E abundante a caça n'este districto, tendo nós occa- 
sião de saber da existência de m'pallas, JEpyceros me- 
lampus; cie gungas, Boselephus oreas (?); de nuimas, de 
unjiris, Sterpsiceros cudu; de quihunos, de bambis, Ce^ 
phalophus mergens; de gazellas, Cervicapra bohor; sem 
contar zebras, elephantes, leões, leopardos, chacaes, 
hyenas, etc, nas florestas do sul. 

A terra em todo o caminho tinha pittoresco aspe- 
cto; a natureza do solo é quasi geralmente constituída 
por tractos argillosos, com massas concretas, coradas 
pelo hydroxydo de ferro, assim como por affloramen- 
tos de grés. 

Sopra uma brisa do sueste, que mitiga extraordina- 
riamente os ardores do sol, alentando quem viaja. 
Durante o dia 8 pr o seguimos a principio por terra 
deshabitada, encontrando só as primeiras habitações 
pela tarde. 

A circumstancia mais notável e que logo de manhã 
começou o solo a apparecer semeado de negras pene- 
dias de gneiss, sobre as quaes se ergue uma planta ori- 



174 De Angola á contra-costa 

ginal, cujo caule, negro, erecto e desnudado, termina 
por delgadas folhas, planta que entre os indígenas é 
conhecida por cachinde e a sciencia designa com o 
nome de Myrothamnus flabellifoUa. 

Este facto, o do terreno começar em declive rápido 
para leste, e ainda o cias penedias continuarem na li- 
nha norte-sul, indica claramente que o sublevamento 
que teve logar para o gneiss do subsolo vir á super- 
fície, originou que se formasse a bacia do Cunene. 

A vegetação por sua parte varia ao oriente da zona 
pedregosa, desapparecendo as espécies do género Ber- 
linia, as mupandas, Bachystegia spiceformis, etc, para 
ceder logar ás leguminosas de espinho e de gomma, 
como a Acácia albida, Acácia pennata (?) e outras. Caso 
notável, topámos aqui com um rachitico bao-bab, que 
n'estas altitudes se atreveu a vingar! 

Durante o dia 9 proseguimos ligeiros para a em- 
balla do soba, atravez de enormes arimos de milho e 
sorgho, plantações a que sem duvida a terra onde nos 
achamos, Quipungo, deve o seu nome, derivado de 
Epungo, milho. 

Numerosos lameiros e pântanos embaraçam o cami- 
nho, levando-nos a suppor que as penedias ao oeste 
traçam um como que limite á vegetação da Huilla 
e marcam também o extremo da facha, alem da qual a 
salubridade poderá talvez soffrer alguma modificação. 

Habitam esta zona os ba-nhaneca, clistinguindo-se 
dos ban-dimba no sul, por partirem os dois incisivos 
médios de cima, emquanto estes j)artem os dois de bai- 
xo, e dos cubaes no oeste, que arrancam uns e outros 
dentes. 



Na Huilla 175 

Assim, no plateau da Huilla, bastava-nos a simples 
inspecção da dentadura do primeiro indígena encon- 
trado, para sabermos a que familia pertencia. 

O processo de ablação dos dentes, empregado pelos 
dentistas da terra, é curioso e de uma simplicidade in- 
comparável. Apenas um paciente a isso se propõe, o 
operador pega dos ferros de duas machadinhas, e in- 
troduzindo um na boca, encosta-o no rebordo da gen- 
giva de dentro para fora, emquanto com o outro, fa- 
zendo de martello, extrahe á terceira pancada o mais 
seguro dente. Rebenta, pelo geral, o sangue em abun- 
dância, e então um pau quasi em braza se introduz 
entre as gengivas do operado, que, apertando-o com 
força de encontro ao logar contendido, estanca a he- 
morrhagia ! 

O original é que este processo se emprega também 
para os queixaes, não deixando nenhum a terceira 
pancada de ficar com as raizes ao ar! 

Os ba-nhaneca são em geral de boa presença e sym- 
pathicos. Dividem-se em numerosas tribus com os 
nomes de ban-gambue, ban-jau, ban-pata, ba-pungo, 
ba-polló, ba-liae e ba-quihita, occupando uma grande 
parte da terra em que nos achamos, de que se consi- 
deram exclusivos habitantes. 

Empregam-se na agricultura e principalmente no 
mester de pastores, possuindo grandes manadas de ga- 
do. Dóceis e laboriosos, é fácil aproveital-os em muitos 
géneros de trabalho. D'elles ainda volveremos a fallar. 

Ás duas horas demos vista da residência do soba; 
approximámo-nos, escolhemos logar apropriado, e em 
seguida mandámos arriar as cargas. 



176 De Angola d contra-costa 

Pouco depois estávamos cercados de uma multidão 
de indigenas, typos variadíssimos, apertando-se para 
observar o branco que vinha visitar o soba. 

Era a segunda vez que nos achávamos entre es- 
tes povos, pois já com os do norte havíamos em nossa 
primeira viagem feito conhecimento, quando de Quil- 
lengues fomos para Caconda. 

Emquanto á sombra de uma arvore repousávamos, 
e esperando que terminasse o arranjo do acampamen- 
to, exhibiamos a nossa humilde pessoa á ávida curiosi- 
dade dos indigenas, que commentarios faziam a nosso 
respeito, fomos esboçando alguns dos seus typos mais 
notáveis, facto que lhes causou grande surpreza. Pas- 
sado algum tempo recebíamos um boi que o regulo 
nos enviava e um tiro certeiro prostrou immediata- 
mente, acrescentando mais o geral espanto. 

Que impressão causa ao africano a rapidez e cer- 
teza do tiro feito por mão de europeu! 

Ao pegar da carabina, observa-se sempre uma dis- 
posição em todos para fugirem ao mínimo movimento 
suspeito; depois, ao verem apontar ao animal, appro- 
ximam-se, apertam-se, miram ora o atirador, ora o bi- 
cho, e quando de súbito o tiro parte e a victima tomba, 
grande é a celeuma que se levanta, começando todos 
aos saltos. 

E ai d'aquelle que em scenas d'estas tenha a infe- 
licidade de errar o tiro. seu prestigio entre os sel- 
vagens perderá logo metade da grandeza. 

Duas horas depois, preparámo-nos, partindo com o 
chefe da Huilla, e o novo companheiro de viagem, An- 
tónio, para a banza do regulo no intuito de o visitar. 



Na Huilla 



177 



A residência de um chefe por estas terras conhece- 
se sempre pelos meios de defeza que a circumdam. Vi- 
etimas muitas vezes de incursões de inimigos saltea- 
dores, e tendo de defender os povos das vizinhanças, 
teem forçosamente de lhes dar amplas porporções e 





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SENZALLA EM QUIPUXGO 
Segundo photograpbia 

collocal-as em estado de não serem facilmente surpre- 
hendidas. 

Por isso a banza de Cunde-M'bumba, embora mo- 
desta e composta de casas distribuídas sem ordem, 
n'um vasto recinto quadrangular, com o mesmo aspe- 
cto que todas as communs habitações dos africanos 
do oeste, é defendida por uma forte paliçada fixa até 
ao meio na accumulação de terra alta, que a abertura 



178 De Angola a contra-costa 

de um fosso por fora originou. No interior ainda cor- 
rem linhas de estacaria em direcção diversa, e que 
pelas respectivas portas dão accesso para quintaes ou 
recintos fechados, formando uma espécie de labyrin- 
tho, ao meio do qual se acha a vivenda particular do 
soba, dos seus guardas, mulheres, creanças, etc. 

Sentado o encontrámos nós a um canto do quintal, 
cercando-o uma dúzia de seus vassallos mais impor- 
tantes, entre os quaes figurava o calei, espécie de ge- 
neral, que se distingue por um peniiacho amarrado 
no alto da cabeça e pendendo para a testa, o cal/ele, e 
um cavalheiro, que julgámos ser o quissongo grande, 
ou fallador mor da corte; singelamente vestido, com 
um panno a cinta, sem armas, nem insígnia alguma 
emfim, que denotasse a sua alta posição. 

Um pote de pombé veiu cortar a monotonia d'esta 
scena serio-grotesca, e emquanto os nossos compa- 
nheiros se regalavam com copos successivos, diverti- 
mo-nos a observar o calei, jjersonagem que nos pare 
ceu para tudo ter geito, menos para general. 

Terminadas as libações, vestiu o regulo uma farda 
que lhe demos, permittindo-se então proferir algumas 
palavras, que a turbamulta se encarregava de abafar, 
por exclamarem, mal elle abria a boca, Quieto! Quieto! 
Tate-Culo! Calunga! espécie de agradecimento e baju- 
lação banal. 

Dando-lhe as costas, voltámos para o nosso campo, 
e, philosophando sobre a misera vida que em pleno 
século xix passa esta gente, entre o pirão de milho e 
a ociosidade, uns com os cabellos untados, outros com 
singela pelle de gato bravo pendente da cinta, a nós 



NaHuilla 179 

mesmo mentalmente perguntávamos se elles estariam 
eondenmados a viver sempre. assim, e em tal caso que 
satisfação lhes offerece a vida! 

Metteu-se a noite, e, envolvendo-nos n'uma manta, 
adormecemos sobre a terra, para logo ao alvorecer 
nos mettermos de novo a caminho. 

Muene Muanja, soba que adiante encontrámos, deu- 
nos seis caçadores para guias, porque, dizia elle, as 
matas até ao Cunene eram bravas. 

Andámos até ao declinar da tarde, quando duas 
cncumstancias imprevistas nos impediram de ir mais 
longe. 

A primeira foi um accesso febril que nos sobrevem, 
proveniente da ingestão de agua leitosa, única que 
encontrámos n'uma poça em Quipungo; a segunda 
consistiu na fuga para a retaguarda da égua em que 
um dos nossos companheiros vinha montado. 

Rebentara a corda que a segurava, e o animal, se- 
guindo velhos hábitos, talvez causa da sua venda por 
Erikson, partiu florestas a dentro, deixando o seu pos- 
suidor apeado, e sendo inúteis quantos esforços se fi- 
zeram para a alcançar. 

Perdido o dia 11 na faina de a procurar, resolvemos 
retroceder, e passando de novo por Quipungo, cortá- 
mos pelo sul em direcção á Quihita, conduzindo como 
despojo uma gazella que matámos. 

A zona percorrida no sul é inteiramente similhante, 
como era de presumir, á do norte, óptima para trilha- 
do de carro do systema bóer. Pela mesma longitude 
encontrámos a zona pedregosa, bem como idêntica 
variante na vegetação. 



180 De Angola â contra-costa 

Grandes plainos se alongam pelo oriente do rio Cu- 
culo-bale, onde observámos bandos de zebras, e al- 
guns macacos pulando de arvore em arvore, dos quaes 
matámos um da espécie denominada Cercopithecus 
Werneri. 

Notámos frequentes vezes entre as folhas do capim 
uma substancia branca em tudo similhante á secreção 
salivar. Inquirindo da sua proveniência, soubemos que 
um insecto, Bombyx (?), fazia aquella espécie de casulo, 
que mais tarde, sob a acção dos raios solares, endure- 
cia, servindo para alii collocar uma larva. O insecto 
não o podemos ver. 

Grandes morros se erguem mais adiante no terreno, 
por entre os quaes dois dias inteiros levámos a cami- 
nhar até que, topando com o Cuculo-bale, o transpo- 
zemos no dia 15, e a 16 entrámos de novo no acampa- 
mento. 

A digressão feita durante estes dias, se por um lado 
não teve grande alcance scientifico, oífereceu por outro 
suas vantagens, pois nos veiu evidenciar mais uma vez 
quanto é própria á colonisação esta terra, cujo salu- 
bre clima e feracidade resaltam aos olhos do mais in- 
diíferente. 

Os mesmos lameiros que encontrámos na trilhada 
do norte estão circumscriptos a uma pequena zona, 
desapparecendo totalmente no sul para dar logar a 
um paiz aberto, fresco, saudável e apto a variadissimas 
culturas. 

O que urge é arroteal-a, crear centros de colonisa- 
ção, como já dissemos, promover a immigração, offe- 
recendo todas as garantias de que carece o inicio de 



Na Huilla 181 

uma tão importante obra, e, digamos agora também a 
verdade, providenciar de um modo pratico ao traba- 
lho do indígena. 

Isto de reger colónias em tão especial situação, letra 
a letra pelo nosso código fundamental, de collocar o 
negro ao abrigo das leis benéficas n'elle outorgadas, 
de crear-lhe mesmo curadorias por toda a província, 
trazendo juizes e seus subalternos em constantes cor- 
reições, no intuito de vigiar e impedir as exigências 
do branco para com o preto; e deixar este na ociosi- 
dade, levando uma vida licenciosa, e quiçá tendo sen- 
zallas e banzas, ás quaes elles se arrogam o direito 
de senhorio e governança dentro da mesma província; 
parece-nos que, se por um lado se pode considerar 
louvável no intuito tocante á protecção, é assas repre- 
hensivel sobre o ponto de vista moral e económico. 

A protecção e a liberdade bem consideradas não 
devem consistir n'esse amplo consentimento, que hoje 
damos ao indígena africano de trabalhar só quando 
quer, com grave detrimento de quantas industrias ali 
se iniciam e prejuízo do commercio e da propriedade 
rural. 

Se a lavoura, por exemplo, em Africa não dispensa 
o preto, e este no sertão, feito soba e encurralado na 
banza, despreza qualquer trabalho, como pode fazer-se 
prosperar a terra? E impossível! 

Ora, sendo de todos conhecido este facto, não jul- 
gamos conveniente conservar no centro dos mais ri- 
cos districtos o negro n'um estado de liberdade que 
nem na Europa conhecemos, só porque alguns igno- 
rantes, interessados pela situação d'esse chamado in- 



182 De Angola â contra-costa 

feliz das selvas, clamam ao menor principio de repres- 
são que lhe diz respeito. 

Permittir-lhe a vadiagem é deixal-o contrahir na 
ociosidade repugnantes vicios, que pouco a pouco ori- 
ginam crimes ; e querer depois castigal-o com a appli- 
cação do código penal do reino, que elle não com- 
prehende, nem sente, nem o molesta, garantindo-lhe, 
por exemplo, o alimento no caso de prisão (seu sonho 
dourado, comer sem trabalhar), torna-se uma verda- 
deira calamidade. 

E digno de estudo este assumpto, que nos suscitou 
a visita pelas terras onde nos achámos, objecto que 
fatalmente carece de leis e regulamentos especiaes, 
fundados em grandes recenseamentos e na ampla 
alçada da auctoridade administrativa para extinguir 
a vadiagem do preto e submettel-o ao trabalho ; preci- 
sando também de penas adequadas para os crimes que 
pratica, a fim de afastal-o da directa intervenção da 
tutela ainda hoje existente. 

Se o negro é cidadão portuguez, regendo-se pelos 
principios do código politico, que nos impõe determi- 
nados deveres, mas nos concede j)reciosos direitos, não 
carece de tutela judicial. 

Esta é a verdade. 



CAPITULO VI 



AO SUL 



Consolações de quem viaja — A abalada da Huilla — Uma fuga e o 
abandono das camas — O Chimpumpunhime — O caminho dos Gambos e 
os espinheiros — O Tongo-tongo ou o morro sagrado — Os dias n'esta 
terra — As florestas e a fauna — Os ban-dimba e a sua voracidade — Ves- 
timentas e proceder para com os mortos — Considerações e a festa da 
lida — Iorocuto e uma erupção granitica — Cahama e Xicusse — A mesa 
e suas consolações — Quatro elephantes e a fauna ornithologica — O cro- 
codilo e a pomba — A floresta que termina — Os ba-cancalla ou bítshmen, 
duas palavras a respeito d'elles — Tatouage, armas envenenadas — Seu 
caracter — O Humbe e a caça considerada pelos ban-cumbi. 




Entre os diversos 
consolos que experi- 
mentámos n'essa tri- 
lhada de esperanças 
e decepções, angus- 
tias e labores de uma 
á outra costa, figu- 
ram sem duvida os 
da manhã do dia 29 
de maio. 

Contornados em 
todos os sentidos pe- 
los numerosos con- 
celhos da provincia, 
centros agradáveis para o indigena, e de cujo remanso 
lhe é tão custoso afastar-se, assentes com a nossa ca- 
ravana n'um acampamento aberto, cVonde era fácil 
evadir, não foi sem grande commoção que, depois de 



186 De Angola â contra-costa 

tantos dias de anceio, nos erguemos, e ao fazer a cha- 
mada vimos que nenhum homem, nem apenas uma 
carga faltavam. 

Deu-nos alento este facto, pois, evidenciando que 
necessariamente uma óptima disposição continha agora 
os espiritos, mostrava também que os receios eram 
infundados, e a final a nossa gente estava disposta a 
seguir-nos. 

E persuadiu-nos ainda de que, se o goso da liber- 
dade no campo concorrera em muito para bem os 
dispor, sobretudo havia servido o systema de os des- 
embaraçar de idéas sinistras, e que o processo agora 
seguido, de calar os nossos intuitos, referindo-nos, 
quando interrogados sobre o fim da viagem, a sim- 
ples digressões no districto, era o único para dar bom 
resultado. 

A idéa de uma travessia, se para nós era o supremo 
anhelo, para elles seria o signal de debandada geral; 
e a declaração de uma viagem ate meio do continente, 
bastaria para nos limpar o quilombo de metade dos 
companheiros. 

O segredo, pois, era a alma do negocio, urgindo 
evitar a todo o transe confidencias e expansões, para 
não ver reproduzir a estranha scena que as notas so- 
noras da trombeta de Jerichó provocaram, isto é, o 
desabamento completo do nosso edifício a mais pe- 
quena phrase de revelação! 

Continuando a narrativa da nossa peregrinação, 
que o leitor por vezes desculpará em seus cândidos e 
pouco românticos detalhes, que a final não deixam de 
approximar ali as nossas impressões, dêmos a voz de 



Ao sul 187 

leva arriba, e, voltando as costas para a Huilla, parta- 
mos ao sul. 

Eis o que no diário se acha em referencia a essa 
retirada, prova bem evidente da nossa disposição ao 
effeitual-a : 

«Ás sete horas largámos. Em extensa linha desdo- 
brou-se a caravana para a banda do sueste, e serpean- 
do por entre os verdes capins, breve desappareceu por 
detraz dos morros. 

«Estava uma manha linda, havia geada, calma, tí- 
nhamos frio; os passarinhos gorgeiavam, sentiamo-nos 
bem, os membros entorpecidos animavam-se, cavalgá- 
mos os bois. Era tempo.» 

E, na verdade, enfada muito o estar parado f quando 
se pensa no que ha a percorrer. 

Em Africa sobretudo, longe do bulicio do mundo 
civilisado, e dos milhares de scenas attrahentes e con- 
stantes, a immobilidade n'um d'esses ângulos socega- 
dos do mato faz frémitos, como que frisa a nossa in- 
significância, jmrece uma amostra do descanso final! 

A primeira etape era até ao rio Chimpumpunhime, 
que recolhe as aguas derivantes ao oeste da serra da 
Neiva, e as envia pelo Caculovar para o Cunene; ali 
chegámos pela tarde. 

São as margens d'este rio constituidas por um dos 
mais férteis tractos do planalto ; bem dispostas, pitto- 
rescas, em tudo próprias para estabelecimento de co- 
lonos. 

O clima ali é como na Europa, podendo o braço do 
habitante do norte entrar como factor assas valioso 
no amanho da terra. 



188 De Angola á contra-costa 

Muito acertadamente diz o rifão portuguez, não ha 
bem que não acabe, etc, e d'isso tivemos nós a eviden- 
cia, pois a satisfação da manhã acabou de se annuviar 
na entrada da noite, com um novo successo infeliz. 

A caminho um dos carregadores, cogitando sobre as 
vicissitudes d'este género de vida, e crendo que o me- 
lhor que tinha a fazer era alliviar-nos do exagerado 
carrego, partiu, roubando a carga de missanga que 
transportava. 

Ao amanhecer do dia seguinte, tendo adoecido um 
homem, começámos a reducção da bagagem, e cortan- 
do pelos confortos, aquelles que se propunham ir até 
Moçambique tiveram de abandonar sem demora as 
respectivas camas de campanha. 

Enfiando resolutos pelos matos, proseguimos até 
Maionje, onde um velho século, que veiu espontanea- 
mente oíferecer carregadores, nos ludibriou de modo 
vergonhoso. Ao cabo attingimos o Hai. 

Largas planuras arborisadas constituem este tracto 
de terra, semeada de um sem numero de aldeias, que 
lhe dão pittoresco aspecto; desprovidas porém de agua 
corrente, vêem-se os seus habitantes obrigados a tirar 
esta de cacimbas, facto lamentável, e que por certo 
tem impedido o desenvolvimento da população n'este 
aprazivel logar. 

A caminho dos Gambos, o trilho, que até então cor- 
tava por adustas florestas, entra de novo na zona do 
espinho, o que mostra ir baixando para o leito do Ca- 
culovar; ali o nosso fato e pelle ficaram em misero 
estado, por ser difficil sofrear o impeto dos bois na 
carreira. Por vezes a terra enxuga, e as Bauhinias, 



Ao sul 189 

que havíamos encontrado nas faldas da serra da Cliel- 
la, apparecem de novo, com a sua folha bipartida. 

Enormes penedos gneissicos emergem do terreno, 
observando-se fendas verticaes de fresca data, ao que 
parece. Notam-se com frequência schistos amphiboli- 
cos e micaceos, ao passo que por toda a parte se vêem 
vestígios do leopardo, da hyena e do chacal, bem 
como abundam perdizes e rolas, de que matámos três, 
elevando a cincoenta o numero dos exemplares d'esta 
espécie colhidos desde a costa. 

As cubatas ficam longe do trilho, e por isso pouco 
podemos dizer dos habitantes. O caminho apresenta-se 
áspero e tortuoso, visto approximar-se do cordão oro- 
graphico, cujo ponto culminante é o morro Tongo- 
tongo. 

As temperaturas minimas, pela noite, chegaram a 
descer a 2 o centígrados e mesmo a I o , 5, enregelando 
os membros dos indigenas, que ninguém pela manhã 
conseguia arrancar de junto do fogo. 

Pela tarde observava-se a leste para o sertão uma 
negra barra de cacimbo, e logo em seguida amainava 
o vento do sueste. 

Adiante passámos em Nauéoa, proseguindo para a 
margem do Caculovar, que transpozemos no sitio 
onde se divide em dois braços. 

Abunda por aqui o sesqui-oxido de ferro magnético, 
encontrando-se grandes massas de magnetite, que pro- 
duzem sobre a agulha os mais extraordinários desvios. 

Logo ao amanhecer avistámos o morro Tongo-ton- 
go, de que já falíamos, conhecido também por morro 
Sagrado, onde os indigenas da localidade celebram an- 



190 De Angola á contra-costa 

nualmente uma festa; ao meio dia acampámos na 
Chibemba, logar chefe do concelho dos Gambos, de- 
terminando acto contínuo a posição geographica. 

D'aqui a vista espraia-se em grande distancia, ob- 
servando-se a todos os rumos numerosos morros e 
azuladas serranias ao longe, sobretudo para a banda 
dos Cubaes. 

Fustigados toda a noite por vento rijo do sueste, 
que ameaçava levar as tendas pelos ares, almejávamos 
pelo dia, e assim que este assomou, pozemo-nos a ca- 
minho. 

Tudo nos era favorável. 

Uma bella estrada carreteira, que, vindo da Huilla, 
continua aqui a principio por alluvião areosa e depois 
pelos tractos argillosos que o oxido de ferro coloriu, 
vestidos de Baalúnias, de muitos sycomoros e de um 
ou outro rachitico bao-bab. 

Bellos são também os dias n'esta epocha. Illumina- 
dos pelo sol, que em todo o seu brilho esparge em 
atmosphera limpida como o crystal milhares de fulgu- 
rantes raios, lembram ao viajante quão feliz será quem 
de futuro ahi residir, quando, pela frescura matutina, 
contemplar das varandas dos pequenos chalets os seus 
campos dourados pelo amadurecido trigo, os frondo- 
sos pomares vergando com os fructos, as longas ave- 
nidas ladeadas de sycomoros; quando, emíim, ao rosto 
negro do indigena, e ao seu vulto desnudado, se sub- 
stituir a rubicunda face, os louros cabellos, a figura 
graciosa da joven européa, que o viajante surprehen- 
derá fugindo envolta na sua matinêe e sobraçada de 
ramos de rosas! 



Ao sul íyi 

Considerando na possível realisação d'este devaneio 
que a natura em redor parecia condemnar pela sua 
fereza, proseguiram os auctores d'estas linhas a mar- 
cha, e, tangendo os bois-cavallos, lá se iam distrahindo 
na apanha de mineraes para a sua colleeção; perse- 
guidos pelas saudades e recordações da Europa, dili- 
genciando afastar do pensamento certas idéas que por 
Vezes lhes assaltavam o espirito! 

E bem tristes eram ellas! 

Ao passar por Mucope, onde uma enorme mulolla 
deriva durante a epocha das chuvas a agua do Cacu- 
lovar, e o caminho para Quiteve se aparta para ir por 
Ielobanda, apertámos a marcha, a fim de chegarmos 
ao acampamento de Munguri antes de anoitecer. 

As cinco horas acampámos. 

D'este logar para o sul terminam as habitações e 
começa uma longa floresta, que nos levou três dias a 
atravessar. Constitue ella n'esta zona a orla da mata 
com que defrontam pelo occidente o Quipungo, Quila- 
ta, Grambos, ete., e que o Cunene delimita pelo oriente: 
valhacouto de quanto bicho bravio existe, pois, quasi 
impenetrável pela espessura do arvoredo, é composta 
na maior parte de espinheiros. 

Por lá divagam elephantes, rhinocerontes, búfalos 
e leopardos, a coberto de qualquer aggravo do rei da 
creaçâo, pastando e entredevorando-se placidamente, 
sem que pessoa alguma pense em perturbal-os. 

Atravessando as matas illuminadas pelos benéficos 
raios de um sol matutino, ladeados por duas muralhas 
de verdura, onde a vista se perde n'um labyrintho de 
troncos, e o sentimento da dor por vezes acorda, em 



192 De Angola â contra-costa 

consequência de um ou outro ramo mais saliente de 
espinhosa, que gracioso se balouça no caminho, lá fo- 
mos proseguindo, ora philosophando no caracter pri-. 
mitivo do viver africano, ora deslumbrados ante as sce- 
nas da natureza, até que pelas onze horas o astro do 
dia, aprumando-se, começava a chamar á pelle uma 
das suas mais importantes funcções — a transpiração. 

Abafados pelo crescente calor e arvoredo que nos 
cercava, arquejávamos de fadiga, até que, impotentes 
em pr o seguir, suspendíamos. 

Os poéticos pensamentos que a rociante manhã e as 
frescas auras nos inspirara, dando-nos força e vigor, 
confundidos por seu turno ou extinctos, levaram-nos 
a considerar que, embora o brilhante sol anime o orbe 
e faça n'elle manifestar a vida por mil modos, não é 
este astro precisamente aquelle sob cujo influxo, quan- 
do no apogeu de sua gloria, os mimosos sentimentos 
de enlevo pela obra da natureza se inspiram com fa- 
cilidade. 

A sombra da arvore mais próxima, estendidos sobre 
a relva os quebrados corpos, aguardávamos a chegada 
dos nossos companheiros, que, arcando sob uma carga 
de sessenta libras, bem mostravam pelo suor, que lhes 
escorria pelos dorsos espaduados, a fadiga que os do- 
minava, e emquanto descansavam ou dormiam, nós 
fumávamos, deixando deslisar em socego essas horas 
de impossivel aproveitamento. 

E como brevemente vamos entrar no Humbe, diga- 
mos alguma cousa dos povos que atraz ficaram. 

Os povoadores d'esta parte percorrida dos Gam- 
bos denominam-se ban-dimba, e, como os ban-dombe 



Ao sul 



193 



e ba-coróca, occupam sórdidas habitações e alimen- 
tam-se de leite. 

Custa a comprehender na verdade como esta gente 
vive, fazendo consistir a alimentação em tal artigo 




MULHERES BAK-DlilBA 



e pequena porção de massa de milho uma vez ao dia, 
isto é, ao anoitecer, só ingerindo a intervallos a cele- 
bre borlunga, garapa, feita também de milho. 



13 



194 De Angola d contra-costa 

A negra fome deve apoquental-os muito, a julgar 
pelo seu proceder, pois ao receberem carne ou outro 
qualquer artigo em abundância, devoram-no sofrega- 
mente! O ventre distende-se-llies, o estômago (avolu- 
mado em consequência da introducção diária de fari- 
nhas e vegetaes, que por conterem poucos elementos 
nutrientes precisam ser ingeridos em quantidades exa- 
geradas), recolhe a carne em tal proporção, que deixa 
o observador abysmado. 

As vestimentas d'estes indígenas são de extrema 
singeleza, reduzindo-se a pelles de animaes bravios, 
ou de boi preto, cor por elles muito estimada; a que 
juntam adornos com basta contaria. 

Uma rapariga vimos nós, e a estampa pode dar 
idéa, com o cabello dividido em tranças carregadas de 
missanga, e que, não contente com isso, trazia ao pes- 
coço monumental collar do mesmo artigo, addicionan- 
do, para aggravar este peso, um cinto de grossas con- 
tas, e tudo untado e a escorrer em manteiga de vacca! 

Entre os amuletos que esta joven, de rosto galante, 
trazia ao pescoço, notámos uma fechadura de bahú e 
uma unha de porco, sem contar outros artigos miúdos 
de dúbia proveniência! 

As mulheres são em geral formosas, mas sórdidas, o 
que e aggravado ainda pela alludida untura de man- 
teiga. 

Limam ou iDartem os incisivos médios de cima; uma 
espiral de ferro de 30 centímetros de altura, perfei- 
tamente polida, enfeita-lhes as pernas e braços, bem 
como usam de infinidade de bocados de latão, chapas 
de cobre, enfiadas de sementes, etc. 



Ao sul 195 

Os homens trazem habitualmente suspensa do pes- 
coço uma pequena tenaz de ferro, ou melhor pinça, 
com que se divertem a arrancar um a um os raros 
pellos da barba. 

O sexo forte, e sobretudo os velhos, usam do rapé, 
as mulheres não vimos que d'elle fizessem emprego. 

Os ban-dimba, como os ba-nhaneca, são extrema- 
mente supersticiosos, e, se não têem a crença da outra 
vida, pelo menos mostram por vezes uma suspeita, 
fácil de acreditar, na immortalidade da alma. 

A rude ou grosseira metempsycose do sertão appa- 
rece aqui, sendo para elles como certo o espirito dos 
mortos andar depois do apartamento, pelo geral, no 
corpo de animaes (cães, hyenas, etc), e ás vezes no 
do homem. E todo aquelle a quem esse espirito, Qui- 
luluy apparecer e perseguir n'este ultimo estado, consi- 
deram homem prestes a morrer! 

Em resumo, os jdovos d'esta terra mostram recor- 
dar-se dos amigos fallecidos, observando-se nas occa- 
siões de suecessos nefastos, attribuidos á influencia 
dos mortos, trazerem provisões para junto dos túmu- 
los, onde são collocadas, no intuito de os apaziguarem. 

Entre os factos relativos ao modo como procedem 
com aquelles que partiram para nunca mais voltarem, 
existe um que, por original, e nos ter creado uma 
pequena decepção, aqui transcrevemos approximada- 
mente do nosso diário. 

A 7 de junho mettemo-nos a caminho ao alvorecer, 
de Munguri para o sul. Chegados a uma volta do tri- 
lho observámos próximos dois circulo s de pedras, a 
meio dos quaes se viam numerosos ramos resequidos^ 



196 De Angola á contra-costa 

sem duvida ali collocados pela mão do homem. Um 
d'elles estava cortado de fresco, e posto certamente 
pouco antes. 

Inquirindo da significação do que viamos, soubemos 
que é de uso entre estes povos, quando algum dos 
companheiros morre em viagem, marcar com os mon- 
tículos de pedra o sitio onde caiu, e, afastando-o, en- 
terral-o logo na floresta próxima. 

Volvendo então ao logar do óbito, cada companheiro 
corta um raminho da arvore mais próxima, e, acercan- 
do-se das pedras, depõe-no cuidadoso em cima, reti- 
rando-se. 

Não se limita porém só a isto, pois de futuro, sem- 
pre que qualquer conhecido ou amigo do defunto lá 
passa, afasta-se respeitoso a cortar um ramo, voltando 
delicadamente a depol-o. 

Escusado será descrever a impressão que similhante 
narrativa nos causou. 

Passar ali o indigena, apoderar-se do ramo, deixal-o 
respeitosamente no local do apartamento do amigo, 
que quererá isto dizer, reflectíamos nós? 

E logo acudia-nos a idéa de que os raminhos eram 
postos como marca de affeição por quem estimaram 
na vida, e, sem querer, pensávamos na velha Europa, 
na viuva e na filhinha orphã, que nos tristes anniver- 
sarios do fallecimento d'aquelle que tanto estimaram 
na terra, sempre encontram em seu jardim perpetuas 
e goivos, para entretecer coroas com que vão adornar 
a sepultura, regada por lagrimas aferventadas pela 
cruciante saudade. Então penitenciavamo-nos, repe- 
sos de termos por vezes condemnado o preto por in- 



Ao sul 



197 



differente e pouco caritativo, quando aliás é accessivel 
a sentimentos superiores. 

António, porém, cortou rápido a esta ordem de sen- 
sações, contando-nos em breves palavras a veridica 
historia. 

Informou-nos elle que, sobre estes montes e na sua 




RAPARIGA MUN-DIMBA 

Segundo um croquis 



proximidade, se suppoe existirem sempre espíritos tre- 
mendos, cuja animadversão tem as mais sérias conse- 
quências. Por isso, acrescentou, natural algum do paiz 
ali passa sem expor religiosamente sobre o morro um 
dos ditos raminhos e proferir uma formula só cVelles 
conhecida, pelo estranho motivo de que, se o nâo fizer, 



198 De Angola á contra-costa 

será, quando menos, victima de permanentes caimbras 
nas pernas ! 

Um horrível episodio se conta mesmo de certo ho- 
mem que seguiu caminho sem praticar as invariáveis 
ceremonias, e esse infeliz foi atacado de paralysia, que 
o prostrou para sempre! Claro é (pie muito commen- 
támos isto, e como occasionalmente passasse toda a 
caravana sem lançar sobre os montículos os necessá- 
rios raminhos, chegou-se á fácil conclusão de que ta es 
factos tinham um caracter especial referentes a indi- 
víduos isolados, nunca applicaveis ás caravanas em 
marcha para Moçambique. 

É o prosaico receio de que lhes dêem caimbras nas 
pernas, que os leva a proceder d'esse modo; e assim 
por terra ficou aquelle poético castello de cartas! 

Existem ainda factos mencionáveis na vida d'estes 
indígenas; taes sao as festas celebradas em epochas 
certas, como na de lançar o mantimento á terra, na da 
colheita, etc. 

D 7 esta ultima vamos em poucos traços dar uma rá- 
pida ide a. 

Denomina-se a festa da hela\ e é celebrada em ju- 



1 No seu interessante livro intitulado A raça negra falla-nos o sr. A. 
F. Nogueira de uma festa feita n'esta epoclia proximamente, pelos ba-nha- 
neca do norte, e que tem por fim celebrar o estado de paz e abundância 
da terra, cujo symbolo é um boi a que dão o nome de Géroa, acompa- 
nhado de outro a que chamam Xicaca e um vitello Tembo-Onjuo. 

Pela epocha da lua nova esses bois percorrem processionalmente em 
cortejo de donzellas enfeitadas e homens sarapintados até a residência 
do regulo, e ahi lhe chegam á boca o pó amargo da casca do bungurullo, 
que, conforme é lambido ou não, assim constitue um presagio feliz ou 
agourento de revez. No caso afiirmativo fecha a ceremonia uma arenga 
do regulo, e nos dias subsequentes ha dansas em honra das mulheres cVelle. 



Ao sul 199 

nlio, epoclia em que termina por estas regiões a co- 
lheita. 

Assim que a lua cheia se approxima, começam as 
mulheres de todas as aldeias a fazer a hela, espécie 
de cerveja confeccionada com o sorgho, que depois de 
humedecido, secco e triturado, é mettido n'um funil 
de capim para dirigir a agua coada atravez da massa, 
que mais tarde, fermentando, constitue a bebida. 

Dois indivíduos dos mais importantes de qualquer 
aldeia saem após, bem sarapintados, para, na quali- 
dade de festeiros, prepararem as cousas, e ao primeiro 
rebate acodem todos com armas e grotescos traços 
pelo rosto, etc. 

Attingido que seja um determinado numero, começa 
a sceiía, e de senzalla em senzalla prosegue a festa, 
tocando e cantando, recebendo aqui um boi, alem fa- 
rinha, mais longe bebida, em inferneira contínua, que 
por dias se prolonga. 

Ai do habitante encontrado em caminho, pois, vi- 
ctima d'estes energúmenos que a solta percorrem os 
campos, o roubam e mesmo espancam, escaj)ando-lhes 
das mãos a muito custo. 

O mesmo viajante estranho á terra, embora o con- 
siderem mais, nao deixa por isso de ser roubado, fi- 
cando invariavelmente em plena campina como Adão 
andava no jDaraizo! 

O notável, porem, é que o regulo, chefe supremo da 
terra, perde durante o primeiro dia todas as regalias e 
superioridade de que gosa em seus dominios. Assim, 
quando lhe chega a noticia dos festeiros terem partido 
para percorrer os primeiros logares, elle esconde-se. 



200 De Angola d contra-costa 

A multidão avança então no sentido da sua residência 
e pára a grande distancia. 

Três latagões armados e tintos de cores extrava- 
gantes partem na direcção da emballa, e chegando ahi 
cautelosos, fazem um giro em redor. 

Nem alma viva apparece! Escondidos, os habitantes 
tremem de susto; o soba, recluso no quarto, nem res- 
pira: a sua presença então acarretar-lhe-ía immediato 
termo á existência. 

De uma das portas feitas na paliçada saem inopina- 
damente três typos. São mulheres. A da frente, peque- 
nita, quando muito de oito annos, traz ao pescoço um 
amuleto, similhante a pá de ferro minúscula; a se- 
gunda, já idosa, é a esposa mais velha do soba; a ter- 
ceira, espécie de creada, conduz com todo o cuidado 
uma cabaça de lida. 

Ao vel-as, os espiões afastam-se, depõem as armas e 
prostram-se por terra, emquanto a princeza donairosa 
caminha para o sitio onde se acha o grosso da gente, e 
entregando a cabaça da lida magica e a pequena pá 
que a ha de mexer, deixa-os feiticeiros que a esgotam, 
levantando o interdicto ao regulo. 

Livre este, pode logo sair. 

Não atinamos bem com a significação d'esta masca- 
rada, que finalisa por contínuas dansas, parecendo 
intencionalmente mostrar uma como que supremacia 
eventual do povo sobre o chefe supremo. Occorre-nos 
se isto terá alguma ligação com o celebrado muquixê 
do Quiôco, que também nas povoações faz tudo quanto 
quer, aterrando todos, ou será apenas reminiscência 
dos jaggas devastadores, que, correndo na epocha da 



Ao sul 



201 



maturação do mantimento as terras, para roubarem, 
só se evitariam as suas tyrannias pelas offertas e con- 
cessões! 

Logo depois d'esta festa faz-se outra, cujo fim é con- 
sagrar por uma ceremonia a idade núbil das donzellas, 
até ahi não consideradas aptas para casar, abatendo 
bois, de que ellas vestem a pelle, dansando, etc. 




■■■■ >c^WW*. 

MULHER MUN-DIMBA 

Tirado de um croquis 



Iorocuto, Caliama, Xicusse, foram pontos por que 
successivamente fomos acampando na grande mata, 
repetindo-se de modo invariável as extravagantes sce- 
nas já descriptas. 

No primeiro d'estes pontos temos a assignalar o in- 
opinado apparecimento do granito, que em natural 
erupção por meio das rochas laurencianas aínoreia o 
terreno, erguendo-se de todos os lados. 



202 De Angola d contra-costa 

A marcha pelo bosque ía-se tornando de todo o 
ponto enfadonha; avalie-se pelo que encontramos exa- 
rado em nosso diário. 

Nada mais banal, diz-se ali, do que viajar por uma 
deserta e longa floresta. 

Depois de vinte e quatro horas nada attralie e cousa 
alguma diverte; assim como em liorisonte immenso, 
recortado por azulados montes, a vista se espraia por 
vastas campinas, onde se destacam pelas differentes 
gradações do verde os valles que se succedem e os 
brancos pennachos aqui e alem das senzallas occultas 
pelo arvoredo, dando margem para divagações descri- 
ptivas e assumpto para distraliir quem viaja; do mes- 
mo modo a monótona repetição dos troncos que nos 
ladeiam, no meio de silencioso bosque, apenas convida 
a um triste mutismo. Tudo se resume a erguer de ma- 
nhã, marchar durante o dia, acampando pela tarde em 
sitio onde se encontre agua. 

Inspeccionados invariavelmente os novos dominios, 
installavamo-nos na primeira clareira de chão batido e 
plano que se nos oflerecia, e onde Mupei, acto contí- 
nuo, ageitando três pedras, dava começo á culinária 
tarefa, essa mais seria das nossas preoccupações, ver- 
dadeira questão importante do dia. 

Difficilmente se pode comprehender os desejos e a 
satisfação que a vista dos fumegantes pratos inspira 
ao viajante africano, e como contribuem para adoçar 
as agruras do mato, esses bocados de carne assada na 
braza ou nadando em um molho que pode ter por ori- 
gem todos os ingredientes, desde o azeite de palma até 
ao tutano de elephante! 



Ao sul 203 

Nunca na Europa, diante de bem servido jantar, nos 
sentimos com mais appetite do que em frente da nossa 
caixa arvorada em mesa, com um guizado singelo em 
cima. 

Activadas as funcções vitaes por um exercício exa- 
gerado que a temperatura, as aguas, etc, exaltam, 
anda o viajante sempre sob a impressão de uma amea- 
ça de fome, que lhe orvalha a boca de agua ao ante- 
gostar na imaginação um prato, que a necessidade lhe 
pinta como muito saboroso. A mingua de distracções 
de espirito, torna-se mais imperativo o goso material 
de encher o estômago, aprecia mais essa idéa, domi- 
na-o grosseiramente o desejo sensual de ingerir o que 
vê, trazendo sempre interessado o receio constante das 
faltas frequentes. 

Muitas vezes pensámos n'este facto, que de certa 
maneira explica as inclinações sôfregas do preto, e 
ahi, melhor que em parte alguma, comprehendemos 
que nada iguala n'este pequeno torrão a alegria de 
uma boa mesa, e serenamente aj)reciámos em sua gas- 
tronómica grandeza os Hortensius, Apicius e Lucul- 
lus, a quem a posteridade deve, pelo menos, conside- 
rar como homens de bom gosto. 

Então a sós considerávamos também quanto neces- 
sários são os convivas, para tornar completo o suave 
consolo de encher pausadamente o estômago; apre- 
ciávamos em devida escala as rasões que deviam ter 
levado Pharaó Menes, esse sybarita da velha antigui- 
dade, a fazer da mesa quasi uma questão de estado; 
que arrastaram Sólon, o celebre legislador atheniense, 
a sustentar que menos de trinta era numero inadmis- 



204 De Angola â contra-costa 

sivel em um jantar de tom, e que finalmente obrigou 
Vitellius a ter dentro do palácio todos os cozinheiros 
do império! 

Assim muitas vezes se passava o tempo, que mais 
bem aproveitado podia ser, e, prolongando depois a 
conversação até ao entrar da noite, almejávamos no 
regresso para as tendas pelo alimento da tarde seguin- 
te, porque sabiamos que durante ella se passariam as 
melhores horas do dia. 

Adiante de Cahama tivemos pela primeira vez a 
agradável surpreza de ver quatro elephantes, que, ao 
avistar-nos, partiram floresta a dentro. 

Não ousando perseguir tão grossa caça, por não es- 
tarmos ainda affeitos a ella, e porque a floresta, fecha- 
da completamente pelos espinheiros, apenas pôde ser 
transitavel por animaes cuja pelle, como a do elephan- 
te, só dá rasão de si a machado, abalámos, consolan- 
do-nos com o registar em nosso diário o seu appare- 
cimento. 

Pela nossa direita corre o Caculovar, e a presença 
da agua basta para que encham os ares os gorgeios 
de alados cantores. 

Aves de bella plumagem avistávamos por toda a 
parte e a começar na Vidua paradisea, notámos uma 
outra preta avelludada, bem como terceira vermelha 
e azul de longa cauda, e ainda uma espécie de popa 
de pintas brancas, cauda extensa e longo bico encar- 
nado, não contando milhares de pintadas, da espécie 
gallinacea. 

Havendo pegado nas armas, seguimos até á margem 
do rio em busca de caça. Duas rollas, cinco gallinhas 



Ao sul 



205 



e uma gazella, Cephalophus mergens, eis o fructo cio 
nosso passeio. 

Pela tarde cVeste dia deu-se a primeira morte entre 
os nossos cães, que foi miseravelmente colhido pelo 
crocodilo. 

Ao atirarmos á ultima pintada, as companheiras, 
levantando voo para atravessar o curso da agua, attra- 
hiram a attenção de uma cadella, a Pomba, que, ven- 
do-as, se lançou com denodo ao rio. 




. SOLTAXDO DM LATIDO, DESAPPARECE 



Apenas tinha entrado na agua, uma cabeça hor- 
renda apparece á superfície, duas queixadas defendidas 
por aguçados dentes se abrem, mostrando escancara- 
da guela vermelhenta; grande redemoinho se segue, 
e o infeliz animal, soltando um ultimo latido, desappa- 
rece para sempre. 

A estrada continua a prolongar com o rio, que tem 
aqui 30 a 40 metros de largo, 2 milhas ou menos de 
velocidade, agua barrenta, margens alagadas cobertas 
de gramineas, que vão morrer junto ás acácias, que 



206 De Angola d contra-costa 

na força das chuvas devem ficar cobertas, não abo- 
nando por isso a salubridade d'esta zona. 

A altitude diminuiu, achando-nos por aqui mais bai- 
xos que na Huilla, consequência de começar a floresta 
a rarear e a apparecer por toda a parte o bao-bab. 

Adiante encontram-se vestígios do laborioso traba- 
lho do homem e pouco depois vêem-se as primeiras 
habitações. 

Quando estas appareceram, tivemos ensejo de ver 
e apalpar, pela primeira vez em nossa vida, um dos 
mais estranhos typos do continente africano, o mu- 
cuancalla ou hushman, a leste conhecido por ba-che- 
quelle *, cujas pegadas nos caminhos os pretos distin- 
guem com a maior facilidade. 

o 

Nada ha mais abjecto e repugnante do que esse ar- 
remedo de homem, que hoje vagabundeia pelos bos- 
ques e campinas do grande continente, em lucta per- 
tinaz para se poder alimentar. 

Tão revoltante é esta raridade do humano género, 
tão mesquinho o seu ar, apoucado o vulto e estranho 
o modo, que degrada e amige ter que descrevel-o. 

E como se defronte de nós se erguera um cadáver, 
e parando nos fitasse envolto em miséria e frio. 

A sua altura media é de l m ,4 approximadamente, 
havendo muitos, porém, que não chegam a esta cra- 
veira. 

A pelle é amarellada, as arcadas zygomaticas pro- 
eminentes, a face triangular e terminada em bico no 
queixo, deprimida a meio, nariz chato, beiços grossos, 



São os mu-cussequére de que nos falia Serpa Pinto. 



Ao sul 207 

olhos oblíquos, pequenos, distantes, dispostos á feição 
dos chinas: o seu aspecto é repellente. 

Uma espécie de tatouage no rosto, resultado de pe- 
quenos golpes parallelos feitos com instrumento cor- 
tante, aggrava estes traços geraes, que se podem 
rematar inferiormente, dizendo que o tronco é des- 
carnado, e os braços e pernas resequidos são longos 
e nodosos nas juntas! 

A descripção das mulheres seria tal, que nol-a im- 
pede um respeito delicado pelo sexo amável. 

A vestimenta (Telles e, quando muito, uma pelle de 
geneta ou de antílope; as suas armas o arco e a flecha, 
muitas vezes envenenada com o sueco de uma euphor- 
bia, que suppomos ser a Amaryllis toxicaria, e outras 
com o veneno da buta, Ediidna arietans, que extrahem 
das vesículas alveolares. 

Vivem nos recônditos dos bosques, em míseras cu- 
batas; a sua alimentação consiste no mel e na carne; 
o seu maior prazer é o isolamento! Eis as informações 
sobre essa degradada casta, de que encontrámos um 
grupo perto de Chipálongo, do qual conservamos triste 
recordarão. 

Muitos viajantes faliam do bushman e respectivo ca- 
racter, nos termos menos lisonjeiros. 

Parece que a perfidia e a crueldade são apanágio 
& essas mesquinhas creaturas, transparecendo nota- 
velmente exageradas no coração da mulher. 

Assim se conta de mães que abandonam em plena 
floresta os filhos, por não quererem carregar com elles, 
ou que os atiram ás feras, para fugirem á morte ine- 
vitável, de preferencia ás pobres creanças ; de velhos, 



208 



De Angola á contra-costa 



emfim, deixados nas selvas ao desamparo, por lhes 
faltarem já forças para acompanhar a caravana em 
viagem. 

O pouco tempo que com elles nos demorámos não 
nos consente garantir nenhuma d'estas asserções, as 
quaes de resto podem ser muito verdadeiras. 




MULHER DO HUMBE 
Tirado de um croquis 



Continuando a marcha por meio de aldeias e cam- 
pos cultivados, transpozemos a fronteira de Humbe 
perto de um logar denominado Belavella, achando-nos 
n'uma tribu de usos diíferentes, a avaliarmos pelo 
novo e original penteado das mulheres, que parece 
terem ido buscar o modelo na configuração da cabeça 
do elephante! 



Ao sul 209 

Numerosos bao-bab vegetam na campina, para de 
súbito desapparecerem ao entrarmos n'uma zona pan- 
tanosa. 

Um typo de periquito ruidoso esvoaça por aqui em 
bandos, atroando os ares com seus gritos, e deixan- 
do-se levar á mercê do vento do sueste, que n'esta 
quadra sopra rijo e forte. 

Debaixo do ponto de vista cynegetico, é esta uma 
região altamente interessante, que jielo oeste os boers 
da Humpata já começaram nos últimos annos a per- 
correr. 

O próprio Erikson, esse audaz caçador que trilha 
com seus carros muitos sertões do sul, também dei- 
tou ate aqui em suas caçadoras pesquizas, no intuito 
de os atulhar de marfim. 

São numerosos os elephantes a leste e oeste da es- 
trada, encontrando nós em muitas partes bem visiveis 
traços da sua passagem; assim como abundam ali os 
rhinocerontes, búfalos e vários antilopes de grande 
tamanho. 

A causa d'esta frisante multiplicação de animaes de 
vulto, tão próximos da residência do homem, consiste 
em dois factos especiaes: a natureza das florestas, 
exclusivamente compostas em grandes zonas do espi- 
nheiro, o que as torna impenetráveis, e a abundância 
dos gados, fazendo com que o indigena pouco ou 
nada pense em caçar. 

Assim, raro se vê um bando de ban-cumbi partir 
para a caça, e quando se lhes falia (Visso, respondem 
sempre indiíferentes, com ar de quem pouco pensa ou 
se emprega em tal. 



210 De Angola á contra-costa 

O ponto referido dista 12 milhas da sede do conce- 
lho do Humbe. 

Erguendo-nos com a aurora, bifurcámo-nos em 
nossos bois-cavallos, e, entestando com o trilho por 
uma manhã primaveral, seguimos pelas plantações e 
propriedades dos europeus e africanos ali residentes, 
até que alfim, transpondo o Caculovar, acampámos 
á sombra de duas copadas arvores. 

Estávamos a 600 milhas do jDonto da partida, pois 
tal era a distancia pelo caminho por nós percorrido; 
e quando, ao pensar na região dos lagos, desdobrámos 
cautelosos a carta sobre o joelho, emmudecemos ante 
a zona que se alongava, e que passo a j3asso tínhamos 
de visitar. 



CAPITULO VII 



ENTRE OS BAN-KUMBI 



O Huiube — Sua posição — Quadro histórico — Os ban-kumbi e os seus 
costumes — Habitações e typo — O liamba — Homens e mulheres, seus tra- 
balhos — Chronologia e festas — Funeraes — Missões catholicas — Os ba- 
na-cutuba e o Cuanhama — Proezas de Nampandi — Riqueza dos cuanha- 
mas e um aperçu geológico — ronco do leão impressionando no mundo 
animado — O cacimbo e as considerações — O Cunene e o alagamento 
marginal — Mupei encontra a mãe — A caonha e o processo da vaccina — 
Os reptis e a vegetação — Zero de graus e a- impressão consequente — 
Um almoço de couro. 




MSmm 



WMA 






A villa do Huin- 



; íl\iv|f;' De acha-se situada 



^n 



^ 



<,TÍ 



na confluência do 
Caculovar 1 e do 
Cunene, sob o pa- 
rallelo 16°.42'.00" 
e o meridiano de 
15°.00'.24", a leste 

de Greenwich; altitude proximamente de 1:067 metros. 
Este ponto da nossa provinda obriga-nos, antes de 

proseguir na viagem, objecto cVeste livro, a um deva- 



•<- 



HYPHCEXE GUlNKNSl-, 



1 Caculovar, corrupção do Caculo-Bale. 



214 De Angola á contra-costa 

neio histórico, que, embora nos afaste do principal 
fim proposto, nem por isso deixa de ter um determi- 
nado valor para os que se interessam pela Africa. 

Parece fora de duvida que ao tempo da conquista de 
Angola pelos portuguezes, um vasto distrieto ou pro- 
víncia se estendia desde o Bié até para alem do Cu- 
nhama, e era governado por um chefe conhecido pelo 
nome de Humbi-Inéné '. Este chefe, alliado dos reis 
de Angola, preparou-se para correr em seu soccorro. 
quando rebentou a. guerra contra os conquistadores; 
tal auxilio, porém, não pôde ter logar, em vista da 
opposição de um dos seus vassallos no norte, o soba 
do Bié, que n'isso não consentiu. 

D'este facto deriva a independência do Bié, pois, 
querendo o Humbi castigar o soba d'esta região, par- 
tilhou com elle os azares de uma guerra civil, em que 
foi vencido e obrigado a pedir a paz, voltando para a 
sua cidade. 

Não é bem certo o logar d'esta então importante ca- 
pital, onde reinava como déspota o senhor de tão vastos 
dominios; tudo, porém, leva a crer que fosse approxi- 
madamente no ponto em que hoje se acha o moderno 
Humbe, não só pela coincidência do nome, como tam- 
bém pela posição estratégica que occupa, pois achan- 
do-se assente n'essa nesga de terra encravada entre 
os dois rios Caculovar e Cunene, naturalmente devia 
agradar ao homem, cujo género de vida o trazia sem- 
pre em lucta com estranhos. 



1 Inêné significa grande. Humbi seria talvez um vassallo do grande 
chefe dos mataman. 



Entre os ban-kumbi 215 

São curiosas as informações acerca da conquista 
ou primeira occupação conhecida por parte dos indí- 
genas (Vesta ampla zona, quando se compulsa a his- 
toria . 

Xo meio de uma confusão de factos estranhos ou 
exagerados, encontram-se alguns, que em duas pala- 
vras vamos frisar, e que deixarão ver para o caso apro- 
veitamento immediato. 

Dissemos que o Humbe podia muito bem ter sido o 
centro ou capital de um grande império, de que hoje 
nem restam as sombras, pois de velha data outras 
indicações existiam, não menos aproveitáveis e con- 
ducentes ao mesmo evidenciar. 

Segundo Cavazzi, Lopes, etc, os jaggas ou çumbis 
appareceram no Congo pelo meado do século xvi, ca- 
pitaneados pelo jagga Zimbo ', que, invadindo aquelle 
reino, o limpou dos seus habitadores, e queimando a 
cidade de S. Salvador, obrigou o rei a refugiar-se 
n'uma ilha do Zaire com todo o pessoal importante da 
sua corte. 

Xão contente com as vantagens obtidas, esse verda- 
deiro Attila africano, percebendo a impossibilidade de 
conservar quietas as hordas de seus guerreiros habi- 
tuados a vencer, dividiu o exercito em grupos, que 
enviou á conquista para pontos differentes. 



1 Zimbo ou Ximbo, conforme o modo de pronunciar. É de crer que 
estas numerosíssimas hordas fossem formadas de tribus differentes, toman- 
do umas vezes para a collectividade o nome do chefe, outras tomando 
este para si o nome da tribu ou terra d'onde haviam saído. Assim os jag- 
gas seriam os má-iácca, os çumbi eram os ban-cumbi, os ximbo os ba- 
ximba de hoje talvez. 



216 De Angola â contra-costa 

Uma das colunmas, capitaneada, ao que parece, pela 
própria esposa do monarcha, a feroz Temba-Ndumba, 
dirigiu-se pela Mina e costa da Malagueta até á serra 
Leoa; outra enviou Zimbo para a conquista da Abys- 
sinia (?) e Moçambique, dando o cominando d'ella ao 
seu logar-tenente Quizuva. 

Este, investindo com o oriente, levou as suas con- 
quistas até perto do mar, e sendo batido pelos portu- 
guezes em Tete ! , recuou suspendendo. 

Zimbo, conhecedor do facto, prestou-lhe auxilio, e 
após uma serie de victorias, investindo com o reino 
de Melinde, ahi foi completamente derrotado, conse- 
guindo escapar-se com pequeno numero de compa- 
nheiros. 

Tomando então pelo sul, transpoz o Zambeze, e, se- 
guindo talvez pelo norte do Calahari, veiu estabelecer- 
se nas margens do rio Cunene, avassallando os seus 



1 Eis a rasão por que Duarte Lopes tanto falia das temerosas bata- 
lhas travadas entre os jaggas pelo lado do Monemueji, e as amazonas 
que defendiam o Monomotapa. 

E d'estas amazonas está mais que provada a sua existência, pois 
entre os jaggas as mulheres eram temiveis. 

Temba-Ndumba, de que falíamos, era mulher cruel, ardente e apaixo- 
nada que mal desprendia os amantes dos braços, os sacrificava, no meio 
das maiores torturas. 

Foi ella que se proclamou rainha dos jaggas, decretando que todas 
as creanças do sexo masculino a quem nascessem primeiro os dentes de 
cima que os de baixo, fossem estranguladas pelas próprias mães, para 
se lhes transformarem os corpos n'um óleo especial; ordenou, emfirn, que 
os prisioneiros machos, depois de servirem na perpetuação da raça, fossem 
mortos e devorados, e mil outras monstruosidades. 

Não menos notável foi sua mãe Mussassa, mulher de um dos capitães 
mais famosos d'aquelle tempo, Donji, que governou largo tempo em Ma- 
tamba e cuja educação feroz produziu a filha de que falíamos. 



Entre os ban-kumbi 217 

habitadores. O ponto por elle escolhido não está bem 
averiguado, porém pode tomar-se como acceitavel que 
soffrendo derrota pouco antes, a experiência lhe pro- 
vocasse a idéa de assentar os seus arraiaes em logar 
naturalmente defendido, e sobre o Cunene nenhum 
melhor havia que aquelle onde se acha o Humbe 4 . 

E se assim fez, se construiu o primeiro quilombo, 
porque não seria elle o fundador do império de Hum- 
bi-Inêne? Demais, vemos que entre os companheiros 
de Zimbo ou Ximbo deviam vir ban-ximba, bem como 
çumbis ou ban-kumbi, nomes que ainda hoje desi- 
gnam aquellas tribus, cujos costumes nos parece rela- 
cionarem por modo frisante com os dos habitadores do 
norte. 

É fora de duvida, porém, que os ban-kumbi con- 
trastam com tudo quanto os cerca, assim como nos 
}Darece assente ser o paiz d'onde procedem muito dis- 
tante do que occupam agora, acreditar no que por 
mais de uma vez nos disseram, isto é, serem prove- 
nientes do norte. 

E já que falíamos da impressão causada pelos cos- 
tumes e o modo de vida dos ban-kumbi, dêmos n'um 
momento a palavra ao sr. A. F. Nogueira, o illustre 
auctor da Raça negra, que viveu muito tempo entre 



1 De todas as informações que podemos colher no Humbe, resultou 
chegarmos ao conhecimento da existência outr'ora de um povo que 
habitou este paiz largo tempo, conhecido pela designação de ba-cua-naiba. 
Fronteiro a Quiteve vimos mais tarde um morro, onde parece tiveram uma 
grande libata, que se denomina Punda-ia-Cave. Não podemos, porém, 
acertar se eram elles os representantes dos primeiros habitadores d'esta 
zona, se tribus dispersas dos companheiros dos jaggas, ou emfim, o que 
é a mesma cousa, descendentes dos dámaras do sul. 



218 De Angola á contra-costa 

elles, tendo largo conhecimento dos seus hábitos, e 
veremos talvez mais uma comprovação do que avan- 
çámos. 

Eis o que elle nos diz n'uma memoria apresentada 
á sociedade de geographia de Lisboa, sobre o dialecto 
hm-kumbi: 

«Os costumes dos ban-kumbi têem uma notável 
analogia com os dos árabes. Como estes, elles rapam 
a cabeça, deixando no occiput uma ou mais tranças 
de 8 a 10 centímetros de comprido; repetem as sau- 
dações, descalçam-se quando entram em casa de al- 
guém, e isto em signal de respeito, cantam pelas ruas, 
têem uma forma de casamento, cuja base é a polyga- 
mia; quando morre alguém, os parentes e amigos do 
defunto despojam-se dos seus adornos mais vistosos, 
substituem por outros de cor preta, e celebram, can- 
tando com uma triste melopca e gestos doloridos, as 
qualidades e feitos do finado, e finalmente usam a cir- 
cumcisão, que, se não é de origem árabe, foi desde 
tempos remotos adoptada por estes. 

«As habitações ma-lmmbo consistem n'um conjun- 
cto de vivendas particulares, em cada uma cias quaes 
reside determinada família, só differindo das dos ára- 
bes no emprego de cabanas em vez de tendas circum- 
dando o curral e de correrem j^arallelamente na dis- 
tancia de 10 metros. 

«Como nos duars árabes, etc. 

«O chefe de cada um d'estes aggregados de habi- 
tações, que se denomina ê-umbo, é, como os árabes, o 
chefe da povoação mu-cnnda, que governa em nome 
do liamba (príncipe ou soberano), etc. 



Entre os ban-kumbi 219 

«É notável, diz o sr. Nogueira, a coincidência de 
servir aqui o nome mu-cunda para designar a mesma 
cousa que entre os fullas; assim, fulla-cunda significa, 
entre estes, aldeia ou povoação dos fullas.» 

Todas estas considerações vem de certo modo ar- 
reigar em nosso espirito a idea da probabilidade de 
antigas relações dos ban-kumbi com os jaggas, o que 
nem de longe podemos garantir; mas esmiuçadas por 
mão hábil poderão alguma cousa dar, e emfim, postas 
aqui, deixam assumpto interessante para a ethnogra- 
phia africana, fazendo mais tarde dissipar as discre- 
pâncias entre Duarte Lopes e Alvares de Almada, 
quando aquelle falia do apparecimento dos jaggas no 
oriente. 

Os ban-kumbi são reforçados, robustos e retintos; 
o aspecto d'elles não é menos bello e sympatliico do 
que o cios ba-nano. 

Trajam pelles de boi preto e nunca de cor, usando 
pelo geral uma collocada posteriormente, e, caso sin- 
gular, cortando-a em meia lua com a concavidade 
para cima e suspendendo-a nos quadris pelas pontas, 
de pouco ou nada serve, sobretudo quando estes se- 
nhores se curvam. 

Como os ban-dimba, as mulheres por aqui são bas- 
tante immoraes, usam os mais exquisitos penteados, 
addicionando-lhes, como se disse, junto aos temporaes 
dois enfeites tecidos de cabello á feição de orelhas, que 
lhes imprimem um ar muito estranho. 

Carregam-se de contaria no pescoço e nos rins, e, 
do mesmo modo que todas as tribus pastoris, têem o 
repugnante costume de se untar com manteiga. 



220 De Angola â contra-costa 

Os homens empregam-se em apascentar os reba- 
nhos, cortam madeiras e desbastam matas; os rapazes 
mugem as vaccas e preparam a manteiga e o leite 
coalhado, seu principal se não único alimento, com a 
massa de sorgho; as mulheres amanham as terras, e 
nas epochas convenientes fazem as sementeiras, etc. 

O boi é para esta gente tudo, riqueza, distracção, 
base do seu sustento e causa de quantas pendências 
entre elles se levantam. 

E notável que os ban-kumbi não usam para vestir 
fazenda de cores vistosas, sobretudo da encarnada. 

Por cousa alguma vestiria qualquer d'elles panno 
vermelho, contentando-se de preferencia com o couro 
de boi preto, de que, é preciso dizer, só se servem, 
não podendo fazel-o o liamba ou chefe, para quem são 
reservadas as pelles de cabra preta. 

Os penteados variam desde o rapado, com rabicho 
no occiput (mais geral), até aos mais caprichosos da 
arte. Os pastores divergem, usando sempre uma gran- 
de trunfa repuxada para traz, ligando-a por dois ou 
três atilhos. 

Segundo diversas narrações, os ban-kumbi têem 
uma chronologia rudimentar que se reduz a fazer co- 
meçar o annô em outubro e concluir em setembro, divi- 
dindo-o em lunações ; para cada uma d'estas ha festas 
particulares, de duas ou três das quaes daremos rápi- 
da idéa. 

Fevereiro, festa do Gongo. 

E n'este mez que termina a preparação da bebida 
feita com o fructo do gongo, que depois de fermentada 
é extremamente inebriante. 



Entre os ban-kuml 



221 



A festa reduz-se simplesmente ao seguinte: 

É de praxe guardar uma panella da primeira bebida 

feita, que no anno seguinte lia de ser substituida por 

outra com liquido novo. 

Logo, pois, que se conclue esta, junta-se o povo em 

grande algazarra em redor de alguns homens sarapin- 




HOMEil DO HCMBE 

Tirado de um croquis 



tados e vestidos com estranhos artigos, que tomam a 
direcção da festa, dirigindo-se, com a nova panella, ao 
logar onde está guardada a antiga. 

Quando chegam ahi, trocam-n'as, e partindo para 
a residência do hamba, entre musicas e dansas, entre- 
gam-lh'a, ao que elle retribue com um boi ou outro 
animal, começando então o consumo da bebida por 
toda a terra. 



222 De Angola â contra-costa 

Setembro, festa do mantimento. 

E d'esta especialmente encarregada a mulher mais 
velha do hamba, apesar de elle abrilhantar a scena 
com a sua presença. 

Pelo minguante da lua de setembro, reunem-se to- 
das as mulheres em circulo, junto da residência do 
chefe. No centro está a esposa citada, tendo junto a 
si uma quinda ou cesta de sementes, para a qual pas- 
sados momentos se dirige o feiticeiro da terra, todo 
emplumado, praticando determinadas scenas de en- 
cantação em volta da cesta; depois d'isso, a extremosa 
cara metade do chefe começa a distribuir sementes 
por quantos d'ella se approximam, e quando vê a quin- 
da quasi a esgotar-se, ergue-se, partindo com o resto 
para o melhor arimo do regulo. Seguindo-a todos, ro- 
deiam novamente a princeza, que tem junto a si uma 
moleca conduzindo porção de cré, com o qual aquella 
se sarapinta, misturando o remanescente com as se- 
mentes de virtude. Acto contínuo cada qual deita al- 
gumas em pequena cova, e reserva para si o restante, 
principiando depois as dansas, que se prolongam por 
alguns dias. 

A festa da chuva segue-se a esta, cercada de scenas 
de feitiçaria, pela maior parte similhantes ás que mui- 
tos auctores têem já descripto. 

Os ban-kumbi, ao contrario dos ba-coróca, enter- 
ram os mortos. Os seus funeraes são ruidosos, como 
por toda a Africa, tendo porém alguns traços origi- 
naes. 

Assim, logo depois do passamento, quebram ao de- 
funto os ossos principaes com um pau de pilão e, fa- 



Entre os ban-kumbi 22o 

zendo-o n'um feixe, embrulham-no seguidamente em 
panno. 

E de uso só participarem a sua morte passados 
dias, na intenção naturalmente de haver tempo para 
prepararem as festas, e logo que as cousas se acham 
dispostas, collocam-no a meio da casa onde falleceu, 
dando então a noticia. 

Começa invariavelmente a matança dos bois, as 
dansas e as bebedeiras, cortadas por intervallos de 
ridiculo choro caramunhado pelas esposas do fallecido. 

A medida que os dias passam, aA^ança a decomposi- 
ção cadavérica, formigando os vermes por toda a par- 
te, até chegar o dia em que, cansados da fadigosa ta- 
refa, se decidem ao funeral. 

Abre-se o recinto em que está o cadáver, e pene- 
trando ali os membros da familia, reduzem este a uma 
bola, que é cuidadosamente cozida num couro de boi 
preto. Acto contínuo é este volume mettido em colos- 
sal panella, e pegando nella os coveiros (familia es- 
pecial a quem cumpre tanto este serviço, como o de 
executores de alta justiça), transportam-n'a para o lo- 
ffar onde deve realisar-se a inhumacão. 

Um boi preto é então immolado sobre a sepultura, 
e regada esta com o seu sangue, sendo a carne comi- 
da por aquelles que acima citámos. 

Existe no Humbe uma succursal da missão catholica 
da Huilla, onde os reverendos padres buscam reunir 
quantos adeptos conseguem, j)ara os trazerem ao gré- 
mio da religião e do sentimento. Aquelle pequeno re- 
cinto, não sendo assas confortável, é comtudo muito 
limpo, com as janellas alinhadas, o jardim próximo 



224 De Angola d contra-costa 

cuidadosamente cultivado, tendo uma pequena sala de 
estudo, em que o viajante pode encontrar vários livros 
e onde se vêem faces radiantes de bonhomia e reina 
aquelle sorriso de suave consolação, que só illumina 
as consciências propensas ao bem; esparge-se d'ali 
um perfume de micção; circumda-o uma como que 
atmosphera de virtude, que attrahe e captiva o ho- 
mem aífeito durante mezes ao viver com negros. 

Uma vez assistimos ao sacrifício da missa, e ao per- 
correr o reverendo Campana as teclas do liarmonium 
no momento da consagração, nós, tão afastados do 
mundo que pensa, sentimos uma ineffavel doçura em 
recordal-o, imaginando-iios de súbito immersos n'elle. 

Ali encontrámos também os reverendos Ogan, Del- 
pueche, e outros, luctando com hinumeras dificulda- 
des para continuarem a meritória obra em que por- 
fiam, e que praza á Providencia levem a cabo. 

Para alem do Cunene habitam os bana-cutuba, as- 
sim denominados pelo uso de um cinto, d'onde pende 
posteriormente uma pequena rodella de sola, da qual 
o desenho junto dará idéa; comprehendendo princi- 
palmente Cuanhama, a que nos vamos referir, homens 
do valle, etc. 

O Cuanhama é hoje um estado de que se falia, não 
pela sua extensão, mas pelo jiavor que os seus habi- 
tadores têem sabido incutir aos povos circumvizinhos, 
sobretudo no sul, e que ultimamente deveria ter pro- 
gredido muito se as luctas, em que seu chefe Nam- 
pandi anda sempre, a isso não obstassem. 

Este homem vae longe, dizia-nos um inglez com 
quem estivemos no Humbe, fallando d'elle; é um 



Entre os ban-kumbi 



225 



vulto estranho entre os seus similhantes, capaz de 
emprehender grandes cousas e de as pôr mais tarde 




TYPOS BANA-CUTUBA 



em pratica. Alliando a vontade de ferro e a energia 
de vinte e cinco annos, determinadas qualidades que 



15 



226 De Angola á contra-costa 

constituem o traço dos heroes, como, por exemplo, o 
desprezo da vida, a arte de remunerar e o segredo de 
se impor, esse homem, que hoje manda n'um pequeno 
estado, que possue apenas trinta cavallos e três mil 
homens armados de Martinis e Richards, pode n'um 
tempo muito próximo dominar grandes extensões em 
redor! 

Effectivamente assim poderia ser. Nampandi é um 
ente que se extrema entre todos os seus similhantes; 
comtudo a todas as grandes qualidades acima enun- 
ciadas reúne uma, que basta para destruir as outras. 

Nampandi é feroz, bestialmente tyranno e sangui- 
nário. 

Eis o que em nosso diário escrevemos a respeito 
d' es se mancebo: 

«O soba do Cuanhama, Nampandi, primo direito de 
Chipandeca (Otjipandeca), seu antecessor, pois é filho 
de uma irmã mais nova da mãe cVaquelle, entrou no 
estado ha cinco annos approxima dam ente. 

«Bem parecido, cheio de vida e vigor, dotado tam- 
bém da mais desmedida ambição, com uma natural 
tendência para abusar do poder e tyrannisar, esse ho- 
mem é hoje a leste do Cunene, no território portuguez, 
o terror dos seus e de quantos indigenas ali appare- 
cem, exigindo que a auctoridade portugueza lhe dê já 
uma seria lição, ou o faça banir 1 . 

«Traja sempre a europêa, possuindo uma bem ar- 
mada guarda com carabinas modernas, que elle mes- 



1 Á data em que escrevemos estas linhas, Nampandi já não é d'este 
mundo. 



Entre os ban-kumbi 227 

mo ensina a atirar ao alvo, no qne é artista consum- 
mado, a ponto de matar á bala pássaros no voo; de- 
safia ao alvo quantos brancos por ali passam, de quem 
zomba logo que errem o mais simples tiro; possue 
soberbos cavallos em que habitualmente anda mon- 
tado, e que ora lança á solta na carreira, galgando 
de um salto acima d'elles, ora, partindo direito á 
porta da paliçada, que cerca em Toquero a sua resi- 
dência, desmonta de súbito, por maneira que só o ca- 
vallo entra, ficando elle de pé junto cia mesma porta. 
Pelo singelo entornar de um copo de agua que um 
infeliz vassallo lhe vinha servir em presença de euro- 
peus, deu-lhe em castigo a morte, disparando uma bala 
da própria carabina, e tendo igual correcção o facto 
de, achando-se presente no acampamento dos euro- 
peus 1 , apparecerem ahi homens com quindas de fari- 
nha para negocio. A mais grata cias suas distracções 
é espetar na sua zagaia ou fazer com que se espetem 
as suas mais galantes mulheres, para o que se colloca 
pela noite em escuro corredor da residência, cie lança 
em riste, clamando por ellas de modo imperativo. A 
única boa qualidade que possue, é receber hospitaleira 
e galhardamente quantos europeus o visitam, presen- 
teando-os com generosidade. Nampancli, pelo que aca- 
bámos de dizer, é um monstro que está precisando da 
mais séria e severa cias correcções.» 

Felizmente para o mundo civilisaclo, e sobretudo 
para nós portuguezes, esse maléfico tyraimo já não 
existe, como indicámos em nota, evitando-nos com o 



Eram dois inglezes. 



228 De Angola â contra-costa 

seu desapparecimento o incomnioclo de o subjugarmos 
pela força, já que não queria ceder aos repetidos con- 
selhos. 

Os ba-cuanhama, com quem não travámos conheci- 
mento, parece serem mais audazes e bellicosos que os 
ban-kumbi, percorrendo a miúdo os sertões que lhes 
ficam próximos com guerras devastadoras. O paiz terá, 
quando muito, 5:000 milhas quadradas de superfície; 
a capital, que elles denominam emballa do Toquero 
ou do poente, acha-se situada em Grhiva, no meio de 
extensas planuras alagadiças, despidas na sua maior 
parte de vegetação, seccas durante a estiagem. 

A riqueza d'elles consiste nas grandes manadas de 
gado, que facilmente augmentam com a rapina. 

Similha-se muito nos costumes e hábitos aos dá- 
maras. 

O tracto do terreno em que nos achávamos acam- 
pados differe do anterior. 

Constituido pelas rochas primitivas, onde não pode- 
mos fazer especial estudo, é semeado de espinheiros, 
Bauhinias, Mopanes, bao-babs, e de uma arvore que 
os indigenas muito apreciam, cujo fructo, quando ma- 
duro, com dois caroços negros, é comestivel. Encon- 
tram-se alem d'isso ali sy cômoros, hyphcenes e outras 
arvores. 

O aspecto local differe muito do planalto de Huilla, 
sendo pelos seus habitadores europeus considerado 
salubre. 

A uma milha do Caculovar o terreno eleva-se al- 
gum tanto, achando-se ali edificadas todas as habita- 
ções, livres assim das grandes cheias no tempo inver- 



Entre os ban-kumbi 229 

noso, epocha em que os crocodilos vem quasi junto 
das casas visitar seus moradores. 

Desde que nos approximámos do Humbe, começou 
a acalentar-nos a idéa de fazer uma exploração a esse 
mysterioso curso do Cunene inferior, sobre o qual 
ainda hoje não ha idéa precisa. A cataracta, subdi- 




HOMEM DO HUMBE 
Tirado de um croquis 



vidida em braços variados, e as grandes perdas por 
evaporação ou infiltração, eram outros tantos proble- 
mas que nos attrahiam ali antes de pr o seguirmos de- 
finitivamente para leste. 

A nossa gente, porém, não possuindo pelo Cunene 
a mesma admiração e interesse que nós, mal suspei- 
taram do caso, tocaram a rebate aos receios! 

— Eil-os que tornam para a tal região, exclamaram 
todos amedrontados. 



230 De Angola á contra-costa 

— E eil-os de novo em debandada, volvemos por 
nosso turno, antevendo outras fugas e decepções. 

Convencidos de que qualquer tentativa no sentido 
de explorar o rio só podia acarretar-iios desgostos e 
comprometter a nossa situação, entendemos necessá- 
rio abandonar o projecto para sempre, deixando a 
outros o gosto de resolvel-o, e a 16 de julho, logo que 
alvorecesse, voltar as costas ao Humbe, fazendo-lhe 
as nossas despedidas. 

Eram duas horas da noite quando terminámos estas 
considerações, e havíamos apenas adormecido, quando 
fomos acordados de sobresalto. Um rumor estupendo 
nos despertara; julgávamos talvez uma debandada dos 
nossos, quando de súbito um ronco estranho estron- 
deou na floresta e repercutindo-se nas quebradas se 
perdeu ao longe, chamando-iios á realidade. 

A claridade da lua, que suave illuminava a terra 
em redor, o rei das selvas passeava j)roximo, demons- 
trando com seus rugidos o espanto que lhe causava 
a nossa presença. 

Que impressão estranha causa no mundo animado 
o urro tremendo d'esse feroz quadrúpede! Os próprios 
grillos e rallos emmudecem, os bois aconchegam-se, 
as gallinhas acocoram-se: é como se todos receiassem, 
com o menor movimento, provocar as iras tremendas 
do bicho! 

A final, despontando a preguiçosa aurora, dissipa- 
ram-se os sustos, e lançando-nos aos bois-cavallos, 
fomos a caminho de Quiteve. 

O primeiro acampamento foi na mu-cunda de Caon- 
go, o segundo na de £ Quima. 



Entre os ban-kumbi 231 

Este paiz ê park-like, frisando-se a vegetação por 
adansonias e elegantes hyphoenes. 

O terreno é silicioso, alternando por vezes com ar- 
gillas; o caminho corre ao norte. 

A viagem ía-se fazendo alegremente; as manhãs ca- 
cimbadas e frescas, e o sol um pouco encoberto, da- 
vam á paizagem um tom de meia luz, que fazia lem- 
brar o romper de manhã primaveral na nossa querida 
pátria. Parece pueril, mas é verdade; que influencia 
tem no espirito do viajante uma circumstancia como 
esta! Que de idéas e recordações nos acudiam, ao 
olhar para aquelle aspecto da natureza, tão differente 
do commum entre trópicos! 

Poucas vezes a lembrança da terra natal nos cavou 
tão rápido e fundo o soffrer, como nestes dias aqui. 

Tinhamos saudade, sem a final comprehendermos 
muito bem a rasão; lembranças estranhas do céu, da 
brisa, do lar, que se nos afiguravam mais bellos do que 
nunca, achando espelho na paizagem de agora, refle- 
ctiam-se ahi, e volvendo sobre nosso espirito, ao que 
parece, desenrolavam aos olhos da alma todo um pa- 
norama de recordações e suave cogitar, que a labuta- 
ção dos últimos tempos havia amortalhado no manto 
do olvido, e que a saudade num momento despeda- 
çava com tyranna mão. 

Felizmente, quando era mais intensa a dor, o sol, 
verdadeiro acoite de quantos sentimentos ca}3azes de 
fazer titubear o viajante, descobria, dardejando-nos de 
prumo, e, varrendo idéas e emoções, transformava esse 
montão de confuso experimentar, em muda fadiga e 
catadupas do suor. 



232 De Angola á contra-costa 

Adiante o aspecto da terra mudou mais uma vez, e, 
fechando-se em mata para a esquerda, demos entrada 
n'uma zona charcosa, coberta pelo Arundo phragmites. 

Era nada menos que o leito do rio Cunene na epo- 
cha das chuvas, e que estava agora a 3 milhas de nós. 

Em roda viam-se, suspensos aos ramos dos espi- 
nheiros e dobrados no sentido da corrente a l m ,5 e 
mais de altura, feixes de grammineas, que, arrastadas 
pelas aguas, ali tinham ficado detidas. 

Calcule-se o aspecto imponente d'esse rio por aqui 
em tal epocha, a ajuizar por este volume de agua, e 
ter-se-ha a explicação d'essas informações que muitos 
viajantes d'elle têem trazido, e que mais de uma vez 
se julgaram como exageradas. 

E fácil será também comprehender como o Cunene, 
drenando todo o plateau de Gralangue, chega ao mar 
com pouca agua; basta para isso considerarmos que 
pelo lado do valle as suas margens têem o mesmo as- 
pecto, e portanto, n'este colossal alagamento, vae elle 
em seu curso médio, perdendo parte das aguas por in- 
filtração e estagnação, sobre centenas de kilometros 
quadrados. 

A salubridade d'esta zona poderia ainda considerar- 
se hypothetica, se toda a gente não fosse unanime em 
declaral-a assas saudável. 

Um objecto que nos prende a attenção é a abun- 
dância e variedade de aves, que esvoaçam, mergulham 
e vageiam pelas lagoas e suas margens. 

Cegonhas, patos, garças, gaivotas pardas do inte- 
rior, pelicanos, pernaltas exóticas, como se fosse um 
jardim de acclimação, vivem feliz nas lagoas. 



Entre os ban-kumbi 233 

Uma ave azul ferrete e que suppomos ser o Cliava- 
drius caruncula, pouco menor que a rola, attrahe-nos 
a vista pela sua pouca timidez, saltando de ramo em 
ramo, para nos mirar curiosa. 

Todos os rebanhos do sul para aqui vem n'esta 
epocha, pois os pastores sabem que por todo o leito do 
rio existem bellas pastagens. 

Com mais uma marcha penetrámos no districto da 
Camba, domínios do liamba N'gonga, sem ter ensejo 
de com elle fallarmos, e proseguindo no trilho, parallelo 
ao qual se estiram muitas lagoas em que hippopotamos 
e crocodilos vivem na mais perfeita communidade, fi- 
zemos ponto n'um logar chamado Peonga. 

Accorreu aqui uma scena, que em dois traços es- 
boçaremos, por se referir a um rapaz africano, Au- 
gusto Mupei, que hoje passeia contente nas ruas da 
Europa, e já por duas vezes foi comnosco á Africa, 
tendo todo o direito a figurar n'este livro. 

Ao chegarmos a Peonga, e depois de acamparmos, 
dis se-nos elle: 

— Esta é a minha terra, eis o logar em que passei 
os meus primeiros annos, e d' onde fui afastado aos dez, 
pelos guerreiros do Nano, que, vindo aqui n'uma raz- 
zia, me roubaram á mãe. Aqui residia por esse tempo 
toda a minha familia. 

Mediocremente indifferentes a esta súbita revelação, 
não achámos melhor para lhe responder: 

— Procura-os e vae cumprir com as tuas obrigações 
de bom filho, isto é, vel-os e abraçal-os. 

Mal acabávamos de formular o nosso conselho ao 
filho extraviado, quando de súbito entra no acampa- 



234 De Angola â contra-costa 

mento um indígena, e, topando com Mupei de chapéu 
e paletot, reconheceu-o e começou a rir como louco. 

Findo tal exórdio, encetaram-se explicações, d'onde 
se concluiu o seguinte: 

Mupei tinha perdido o pae havia pouco tempo. 

E como? Devorado ali mesmo por um leão! Mupei 
ouviu a narrativa sem pestanejar! 

Um irmão succumbíra também. E de que modo? 
Colhido na lagoa fronteira por enorme crocodilo. 

Sua mãe, emíim, conservava-se viva; mas, excla- 
mou o informador, parece que longe d' aqui. 

Estavam as cousas n'este pé quando acto contínuo 
ouviu-se clamar: «Mupei, olha a mãe cie Mupei!» 

Saímos das barracas. Fora achava-se acocorada, 
uma velha com uma quincla de farinha defronte, duas 
bolas de tabaco, e um tarro de borhinga (vaso de cer- 
veja de massambala), mirando tudo com espanto. 

«E a mãe de Mupei», repetia a gente em coro; e a 
velhinha, circumvagando com o olhar os que a rodea- 
vam, aconchegava de si os ditos artigos, receiosa que 
toda aquella scena fosse feita no intuito de lhe rouba- 
rem quanto possuia. 

«Então, Mupei, não vaes comprimentar tua mãe?» 
exclamámos nós. 

Erguendo-se, marchou direito a ella, e observando-a 
de frente balbuciou: «Adeus minha mãe, então não me 
conhece?» 

Um súbito estremecimento percorreu o corpo da 
velhota; dez minutos decorreram sem ella proferir 
palavra, conservanclo-se espantada a miral-o sem se 
lembrar de tudo que a cercava. 



Entre os ban-kambi 235 

Era um quadro original, a pose dos dois, causando 
interesse reflectir nos sentimentos que deviam n'esse 
momento animar quem, apesar de tudo, era mãe. 

A final a pobre creatura resolveu-se, e, pegando de 
quanto tinha defronte de si, objectos que eram talvez 
o seu único pensamento quando veiu ao quilombo, e 
com que jDretendia a compra de objectos de seus con- 
stantes sonhos, entregou-os ao filho! 

Assim lhe mostrava todo o affecto; não sabendo 
dar-lhe n'um osculo ou n'um abraço a prova da sua 
maternal satisfação em vel-o junto a si, offerecia-lhe 
o capital com que vinha negociar. 

Duas horas depois saía ella, coberta de fazendas 
de todas as cores e estampas. 

Emquanto estas scenas se passavam, António, o dex- 
tro caçador, mais disposto a espreitar a caça do que 
os sentimentos que dominavam a mãe de Mupei em 
presença do filho, mimoseou-nos com cinco pintadas 
e dois patos reaes, óptimo recurso para quem só ti- 
nha carne de um boi que succumbíra de caonha { . 



1 É a caonha um dos maiores flagellos do gado no plateau da Huilla, 
e para a qual as tentativas de cura sao quasi infructiferas. O melhor 
meio é afastar da manada o boi achacado. Um dos processos, de que ou- 
vimos fallar como talvez efficaz, é o da vaccina : logo que se pretende 
tornar immune um boi, amarra-se e, abrindo-lhe a cauda abaixo da ulti- 
ma vértebra, introduz- se ahi uma tira de fazenda que se empregnou de 
massa pulmonar de boi morto com a tuberculose, ligando tudo com longa 
percinta. Ao cabo de duas ou três semanas cáe a ligadura, cicatriza a 
ferida, e diz-se que o animal pode viver indemne entre similhantes com 
caonha. Outras vezes a inflammação propaga-se para a parte superior e 
o animal succmnbe. É esta doença extremamente contagiosa. Diz-se que 
um touro procedente da Hollanda infficionára com ella o Cabo e terras 
do norte, e Chapmann na primeira viagem a trouxera para N'gami. 



236 De Angola â contra-costa 

São muito numerosas as cobras por aqui, havendo 
nós encontrado durante o trajecto para Peonga três, 
uma das quaes saltou defronte de nós; também na 
agua existe uma assas perigosa. 

A vegetação pela linha por que vamos correndo en- 
contra-se distribuída em três zonas distinctas. Na alta, 
caracterisa-a o bao-bab, o svcomoro, e algumas acá- 
cias de espinho, na baixa as Bauhinias, junto ao rio 
o espinheiro e o arundo; habitadas, na parte superior, 
pelos antílopes, na media pelo javali, espécie que jul- 
gamos ser o Cochon à vermes, e a toupeira; perto da 
agua pelos hippopotamos e aves aquáticas. 

Um frio extraordinário enregela n'esta quadra os 
membros, baixando á hora da minima o thermometro 
a zero de graus centígrados, facto que talvez de certo 
modo tenda a explicar a salubridade d'esta zona, tão 
coberta de pântanos, por impedir o desenvolvimento 
do gérmen miasmatico. 

No acampamento seguinte, em Tchinguembe, ficá- 
mos detidos na barraca e junto do fogo, como se esti- 
véssemos na Sibéria! Ás cinco horas da manhã ainda 
o thermometro marcava próximo do zero, e um prato 
conservado com agua, continha um disco de gelo. Nu- 
merosas hyenas rodeavam esfaimadas o recinto, inci- 
tando-se-lhe o appetite por este frio apperitivo. 

Ninguém imagina a impressão que uma tal tempe- 
ratura produz no europeu em Africa, quando pelo dia 
sobe a 28° e 30°. 

Não é comparável este frio com o da Europa, natu- 
ralmente pelo contraste da noite com o dia; e na ver- 
dade torna-se doloroso e insupportavel. Ao metter as 



Entre os ban-kumbi 237 

mãos em agua, parece que nos arrancam as unhas, ao 
molhar a cabeça afigura-se-nos que nol-a esfregam 
com uma escova esbraseada! 

Quando a final nos erguemos, topámos com uma 
scena estranha, para devaneio. 

Quatro carregadores da terra que comnosco vinham, 
tendo recebido na véspera uma porção de couro de 
boi, para fazer alpercatas, entretinham-se junto do 
fogo n'aquelle trabalho; o notável, porém, é que, com 
todo o engenho próprio de um africano, tinham estes 
heroes achado outra applicação para o couro, não me- 
nos útil, e mais agradável talvez. 

A medida que procediam á feitura das alpercatas, 
iam almoçando as aparas! 

O processo é em tudo singelo. 

Apenas reunidos uns poucos de bocados, púnham- 
os ao fogo, e logo que começavam a encarquilhar- 
se, deitavam-os para o chão, e, assentando-lhes qua- 
tro ou seis pancadas para amollecerem, mesmo cheios 
de terra, os ingeriam. 

Nem na retirada da Rússia! 

Emfim, a 22 de junho, abandonando a várzea ala- 
gada do rio e, seguindo por terra mais alta, atravez de 
densos bosques, entrámos em Quiteve, onde tem vas- 
ta residência um portuguez ha annos ali estabelecido, 
n'uma das mais bellas posições da margem do rio Cu- 
nene, e que a simples vista basta para reconhecer como 
excellente e própria para uma colónia. 



CAPITULO VIII 



ENTRE CUNENE E CUBANGO 



A reluctancia dos guias e o recurso dos bois — A fome e um quadro 
do sertão — Disposição geológica das terras percorridas — Bochas vulcâ- 
nicas e minas — A vegetação, o frio e os lobos — Cobra original- — A caça 
e as pegadas do elephante — A noite e o charivari das feras — As matas 
da Handa — Cachira — Os povoadores d'ali — As mupandas e a terra sem 
pedras — A cabra que assobia e os bvshmen — A steatopygia — A natureza 
do solo ; conversa com um indigena — Os ba-cua-neitunta — Exageros gen- 
tilicos — O leão e os mabecos — Os macacos e o armadilho — O Cubango — 
Considerações sobre o seu curso. 






1 




•-- I í 



<J.S. tl ,„. 




H Pergnntae ao in- 
p digeria africano em 
} ( . sua terra a que dis- 
,? tancia fica determi- 
^ nada região, qual o 
/ caracter dos habi- 
n tadores, qual a na- 
. tureza dos alimen- 
tos ali encontrados, 
e vel-o-heis prestes 
^Ç; erguer-se, estender 
o braço esquerdo na 
,\^\ direcção de que se 
trata, e, dando com a mão direita pequenos estalos, 
responder: «E longe, senhor; má gente a de lá; po- 
bre, não tem para si de comer!)) 

E se acrescentardes que, sem embargo, quereis ali 
ir, que tendes interesse em os visitar, e o convidaes 

16 



■*ro\rç 



242 De Angola á contra-costa 

a acompanliar-vos como guia, elle retorquirá ainda: 
«Isso para mais tarde, depois fallaremos, agora tenho 
que beber o meu pombé!» E não insistir, não procurar 
convencel-o, porque todas as diligencias n'esse sentido 
serão frustradas, se não perigosas aos olhos dos vossos 
companheiros, quando escutarem attentos as narrações 
extraordinárias dos perigos a correr, que o informador 
irá exagerando sem duvida, na justa medida da insis- 
tência. 

Durante a nossa demora em Quiteve dez vezes fi- 
zemos tentativas cVeste género, no intuito de arranjar 
um guia que nos conduzisse á habitação do regulo 
portuguez da Handa, e outras tantas cortámos de sú- 
bito as negociações, ao ver e ouvir os exageros dos 
indigenas, que os nossos, ajíproximando-se, começa- 
vam a commentar. 

A idéa de que o interior do continente africano é em 
vastas zonas ermo e coberto de areias, em outras po- 
voado de feras e cannibaes, se de ha muito se dissi- 
pou do espirito do europeu, pelas pesquizas de intel- 
ligentes e audaciosos viajantes, que lhe trouxeram a 
certeza da fertilidade e riqueza do solo, e da densa 
população dos districtos, conserva-se, caso estranho, 
ainda arreigada na imaginação do negro, repleta de 
brumas e cheia de perigos. 

Ninguém o demove do seu propósito, e se seguindo 
uma linha qualquer de trajecto encontra sempre popu- 
lações pacificas que bem o recebam, resta-lhe o recurso 
de considerar que se n'esse rumo não existe o caso sus- 
peito, mais para um lado ou outro será fácil achar a 
prova de quanto aífirmà. 



Entre Cu nené e Cubango 243 

Assim, pois, o melhor ê valer-se dos próprios recur- 
sos para conseguir os seus fins, abstendo-.se de fallar 

acerca do caminho por onde se dirige. 

Tal era a impressão que nos dominava ao tempo da 
partida para a Handa, e, preparando as nossas duas 
grandes canoas, a 2(3 de junho transpozemos o Cune- 
ne. acampando na sua margem esquerda. 

Tem elle aqui 100 a 150 metros de largo e 2"', 5 de 
profundidade, margens elevadas e cobertas de arvore- 
do, e é livre de cachoeiras desde o Mulondo para baixo 
da Dangoena. 

Até agora, a parte do paiz percorrida, frequentada 
de europeus, apresenta-se ao leitor pittoresca e limpa 
de obstáculos, por onde o viajante despreoceupado 
pôde transitar de luva e badine. 

Sujeitos aos trabalhos agricolas e commerciaes, os 
indigenas, sob a suave pressão da auetoridade, perde- 
ram a sua ferocidade nativa, entregando-se a uma vida 
de certo modo laboriosa, que proporciona ao viajante 
o modesto bem-estar de que carece. 

Não tanto assim para o diante. 

Avançando para as raias da nossa provincia, as cou- 
sa^ começam a variar, e embora não tenhamos que 
referir grandes obstáculos originados pelos indígenas, 
nem por isso deixaremos breve de entrar em lueta com 
dificuldades d'esta e outra natureza. 

Os grandes rios, as planuras alagadas, os pântanos, 
•a escassez dos mantimentos, e emhm a fome, são cir- 
cumstancias graves que representam o mais impor- 
tante factor n estas viagens, sendo a ultima merece- 
dora de toda a attenção. 



244 De Angola á contra-costa 

Com receio de cairmos victimas de similhante fla- 
gello, mettemos em Quiteve mais vinte bois, que jun- 
tos aos já possuidos perfaziam a cifra de trinta e dois, 
precioso recurso que muito concorreu para a nossa 
salvação. 

E assim dizemos, porque em verdade, quando saí- 
mos d'essa terra, mal pensariamos que d'ali até ao 
grande Zambeze só em dois ou três logares se encon- 
traria mantimento em abundância, caso estranho, que 
raras vezes em Africa o viajante terá topado, e nos 
proporcionou angustiosos dias, apertados por este ter- 
rivel mal. 

A fome, eis o terror do sertão. 

Chuvas, frios, feras, salteadores; nada perturba e 
apavora, como essa terrivel idéa, que ao assomar logo 
desmoralisa. 

Nao ha meio nem phrase para conter e animar o 
homem faminto! 

Quereis vel-o, errante e desvairado, os membros 
nus e emmagrecidos, a pelle do ventre rugada, depri- 
mida em concavidade, divagando com o olhar empar- 
vecido por entre a floresta em procura de qualquer 
cousa que lhe mitigue a fome, volvendo-se ao menor 
rumor onde suppõe existir um reptil, mirando attento 
onde pensou ver uma abelha, indiíferente aos vossos 
clamores, abandonando carga e companheiros, para 
vaguear em matos onde fatalmente tem de perder-se; 
ide á Africa, e embrenhae-vos por essas florestas onde 
só o elephante e o rhinoceronte vivem ! 

Ahi, quando ao acaso aprouver collocar-vos n'uma 
das muitas e tristes situações em que nos achámos, 



Entre Cunene e Cuhango 245 

apreciareis bem, leitor; tudo quanto a penna aqui não 
pode descrever-vos ! 

Antes de partir não vem fora de propósito algumas 
resumidas considerações sobre os traços pliysicos ge- 
raes das terras atravessadas. 

A vasta cordilheira, que corta de norte a sul o Fendi 
e determina n'esta altura pelo oriente a bacia do Cu- 
nene, desvia-se a caminho do meio dia para leste, vin- 
do gradualmente transformar-se nas vastas ondulações 
do plateau da Handa. 

Assim nivelada, deprime-se para a banda do occi- 
dente, concorrendo de novo para a delimitação ao 
poente da mesma bacia. 

É ella, pode dizer-se, o limite leste do enorme cordão 
orographico, que, correndo parallelamente á costa a 
200 kilometros de distancia, começa para alem dos 
contrafortes da Chella, no limite dos schistos paleozói- 
cos de que falíamos, e vem morrer n'esta longitude, 
com o apparecimento da formação laurenciana que a 
constitue, profundando para o nascente, sob um tra- 
cto de terrenos primários pouco extensos e caracte- 
rísticos. 

E notável porém a disposição das terras sedimen- 
tares de uma banda e outra da imponente massa gneis- 
sica. 

Para alem passámos successivamente pelas forma- 
ções terciárias, com o seu grés grosseiro de cimento 
calcareo, grés calcariferos amarellos, como a molas- 
sa, etc, para em seguida entrarmos nas secundarias 
com os seus calcareos argillosos, marnes, e, transpondo 
um plateau schistoso, encontrar a laurenciana, 



246 De Angola á contra-costa 

Aqui largâmol-a agora, entre schistos micaceos, que 
breve desapparecem, para dar logar aos grés em ex- 
tremo impregnados de oxido de ferro, fendidos abru- 
ptamente e cheios de ravinas pela acção das aguas, que, 
desaggregando-os com rapidez, lhes consentem affe- 
ctar as mais estranhas formas; logo adiante se divisa 
o quer que seja, como calcareos, e, segundo suppomos, 
continuam muito ainda para o oriente. 

A estratificação do gneiss, por toda a parte onde a 
temos observado, é* plana e horisontal, por vezes ligei- 
ramente curva, prova de que quando o sublevamento 
primitivo se operou ainda aquelle permanecia no es- 
tado plástico, circumstancia que nos induz a suspei- 
tar um trabalho orogenico, de caracter assas primor- 
dial. 

Até á presente data só uma vez tivemos occasião 
de observar rochas eruptivas de origem ignea, encon- 
trando, como já dissemos, exemplares graniticos em 
Iorocuto, promiscuamente com gneiss. 

De rochas vulcânicas nada sabemos, e embora nos 
tenham dito que para o oeste, entre Mossamedes e 
Chella, se encontra uma rangi basáltica, não dêmos 
noticia, posto que para essa região dizem existir a 
phonolite. 

E de crer que toda a zona atravessada seja mineira, 
abundando os jazigos metalliferos, como ha noticia na 
Pedra Grande, na Chella, nos Grambos, no Humbe e 
no Hambo, e até no planalto, na limonite dos pânta- 
nos, d'onde os indigenas extrahem o minério; como, 
porém, é ponto melindroso a que diííicilmente se pode 
attender em viagem de exploração geographica, abste- 



Entre Cunene e Cubango 247 

mo-nos de n'elle entrar, deixando a pessoas mais com- 
petentes similhante tarefa ! . 

A vegetação falta fácies especial n'este sitio; densa 
na margem do rio, começa a rarear nas zonas do grés, 
mostrando leguminosas de espinho e plantas de triste 
aspecto, que para o oriente são substituídas por espé- 
cies de maior vulto. 

Emfim, o frio que n'esta terra temos sentido impel- 
le-nos amiudadas vezes a pensar que a sua origem não 
é devida â altitude, pois sendo certo estarmos n'um 
plano inferior ao da Huilla (onde não observámos ta- 
manhas baixas de temperatura), talvez que a causa 
principal esteja na rápida evaporação ou em qualquer 
circumstancia similhante. 

Abundam no rio os hippopotamos e os crocodilos, 
bem como julgamos existirem duas variedades de ba- 
gres Ciarias capensis, e outra de que não conservamos 
noticia, emquanto que na terra divagam leões e ele- 
phantes (muito numerosos), rhinocerontes, leopardos e 
lobos, que nos mimosearam com uma serenata na der- 
radeira noite ali passada, e no acampamento teve o seu 
echo no permanente latido dos nossos cães. 

O apparecimento dos elephantes n'esta zona, que em 
redor é bastante povoada, foi um facto que nos cau- 
sou estranheza, pois o colossal pachyclerme procura 
sempre os logares mais sombrios e retirados, parecen- 



1 "\ ariam as indicações mineralógicas com relação ao tracto de terra 
por nós atravessado, sendo conhecido na costa o ferro magnético dos 
Grambos, oligisto de Mossamedcs, como carvão de pedra da mesma proce- 
dência, e ainda a malachite, e também o cobre nativo, o sal-gcmma, etc. 



248 De Angola á contra-costa 

do-nos ver a explicação d/este facto, nas recentes e re- 
petidas perseguições que lhe movem no norte do Ca- 
lahari, no Betchuana Land, etc. 

Existe na terra que vamos atravessar certa cobra 
venenosa, de 3 a 4 metros de comprido, manchada 
no dorso, ventre branqueado, levando-nos primeiro a 
suppor ser mus, python, que denominam toca, cujo há- 
lito ou cheiro perturba o viandante quando próximo 
passa! 

O modo por que se alimenta, é, segundo dizem os 
indigenas, extremamente original. 

Enrolada durante dias n'uma arvore, espera pacien- 
temente qualquer animal, e, logo que o colhe em seus 
poderosos anneis, acaba-lhe a vida, para em seguida 
o abandonar, subindo de novo para o seu posto de 
observação. 

Ahi permanece impassivel á espera que a fermenta- 
ção pútrida comece, e quando os vermes afnuem já em 
tão grande numero que cobrem inteiramente o bicho, 
ella, mirando-os cubiçosa, lança-se sôfrega para devo- 
ral-os ! 

Nos curraes, aflançaram-nos ainda, penetra de ordi- 
nário sem aggredir o gado, e só no intuito de procurar 
os vermes que se agitam nas matérias e dejectos em 
decomposição ! 

Este estranho caso é digno de ser apontado, embora 
não possamos garantir a sua veracidade, por falta de 
ensejo para o observar. 

Como a frescura do tempo convidasse á marcha, 
e não menos a idéa de que, se as chuvas sobreviessem 
antes de attingirmos o Lobale, ahi ficaríamos presos 



Entre Cunene e Cubango 



249 



sem conseguir transpol-o para alcançar o Zambeze, 
partimos logo para o nascente, prolongando um rio 
denominado C alonga, amuente do Cunene, cujas mar- 




íi'pala (macho) 

gens são extremamente pantanosas e cobertas de gra- 
míneas . 

No parai] elo onde o íamos marginando, não consen- 
tindo vau, tivemos no segundo dia de marcha de sus- 
pender, para construirmos uma ponte, trabalho que 
nos absorveu dez horas, vencendo-se o obstáculo na 
manhã do terceiro dia. 



250 De Angola á contra-costa 

Contra toda a expectativa, porem, ao tentarem a 
passagem os primeiros, descobriram mais rio do lado 
opposto! 

E que uma longa ilha nos havia illudido, pela terra 
firme da outra extremidade, e, dividindo-se o curso da 
agua em dois braços, tivemos de fazer segunda ponte. 

Ao norte corre outro, o Cachitanda, que vem da 
terra dos amboellas e nhembas, cujo deslisar, com o 
d'este, forma uma cunha de terras alagadas impossível 
de percorrer, e na margem do qual se acha hoje esta- 
belecida uma delegação da missão catholica, Notável 
doença acommette n'esta terra os europeus, queixan- 
do-se d'ella os reverendos padres: é o apparecimento 
de numerosas feridas nas pernas, acompanhado de in- 
ílammação ou sorte de edema. 

Apenas haviamos caminhado 3 ou 4 milhas, demos 
com o quilombo de uma guerra qne na véspera ali 
passara, e devia conter muitas centenas de pessoas, a 
julgar pelos numerosos fogos dispersos, e ainda crepi- 
tantes. 

Tal encontro ter-nos-ía sido fatal, pois estas enor- 
mes cohortes, vindas ás vezes de longe, percorrem ás 
soltas os sertões sem rei nem lei; e, dominadas apenas 
pela rapina e anciã de pilhar, desviam-se, respeitando 
só a força, sem attenderem jamais a reclamações de 
quem quer que seja. 

E frequente a caça, matando nós logo no começo 
da viagem uma m'pala, jEpyceros melampus, de cuja 
cabeça damos um mau desenho; assim como as j)éga- 
das do elephante no terreno amollecido eram tantas, 
que difficilmente os bois-cavallos podiam transitar. 



Entre Cunene e Cubango 251 

Uma manada, superior a cincoenta, havia pouco 
tempo antes trilhado o caminho por onde nos dirigía- 
mos, creando em fundas covas verdadeiros obstáculos 
á marcha regular. Por toda a floresta se viam arvores 
esgarçadas, umas fendidas pelos impulsos da tromba 
do formidável paehyderme, outras de raizes para o ar 
pelo trabalho das possantes defensas. 

Foi aqui onde pela primeira vez também António 
caiu sobre a trilhada de umas girafas, que rápidas se 
escapavam por entre as selvas. 

E uma verdadeira arca esta zona deserta de habi- 
tadores humanos, pacifica de dia, ruidosa pela noite, 
tamanho é o charivari de uivos e roncos que se esca- 
pam d'essas guelas esfaimadas, de que o triste via- 
jante apenas está separado por um circulo de foguei- 
ras ! 

A hyena, sobretudo a denominada crocuta, de re- 
dondas manchas pretas, única habitadora da Africa 
austral, e digna descendente da H. Spcele, e de um 
atrevimento sem igual, levando as suas avançadas a 
rastejar silenciosa com o quilombo. 

O próprio crocodilo, pouco acostumado á visita do 
homem, mostra-se a miúdo, chegando nós a querer 
pescar um com o osso de boi, tantas foram as tenta- 
tivas por elle feitas, para colher qualquer dos nossos 
quando ia na agua! 

A terra que medeia entre esta zona e o districto de 
Handa é coberta por uma mata impenetrável de espi- 
nheiros, entre os quaes figura a Acácia caffra (?), deno- 
minada unha de gato, a mupct com suas varas elásticas 
e outras, que nos deixaram num miserável estado: 



252 De Angola á contra-costa 

Começam então a sumir-se as Bauliinias, substituin- 
do-as gigantes Rubiaceas, typos do género Berlinia e 
outras que não podemos reconhecer. Antes de chegar 
á residência do soba da Handa, topámos com o curso 
do Cuelai (Cuerrai), rio que, correndo direito ao sul, 
se divide junto aoValle em dois braços (umbaas), um 
dos quaes passa no Cuanhama, originando n'essa se- 
paração a celebre lagoa, designada nas cartas com o 
nome de Evalle, e que não passa de um vasto pân- 
tano. 

E por elle que derivam todas as aguas do elevado 
plateau dos amboellas ao norte, e que continuando o 
seu percurso pelos dois braços acima citados, vae um 
entrar na lagoa salgada da Donga (Etoclia) e outra 
na dos Ganjellas. 

Depois de uma visita de Cachira, o chefe d'aqui, e 
de lhe transmittirmos as ordens que levávamos, apres- 
támos a partida da caravana para a região dos am- 
boellas. 

O planalto da Handa é extremamente fértil e salu- 
bre. 

A disposição das terras em largas ondulações, in- 
tervalladas de ravinas, faz com que os rios tenham os 
seus leitos bem definidos, evitando assim os perigosos 
pântanos. Os ventos frescos aqui predominantes puri- 
ficam a atmosphera, tornando-a uma terra muito pró- 
pria para residir. 

Os habitadores, apesar do pouco tempo que entre 
elles nos demorámos, pareceram-nos similhantes aos 
de Cuanhama e gente do Valle, o que suppomos de 
resto estar certificado. 



Entre Cunene e Cubango 



253 




MULHER DA HANDA 



Usam alguns a en- 
tuba, as mulheres en- 
feitam-se com missan- 
gas, correias, búzios e 
manilhas, conforme a 
figura junta represen- 
ta, uns e outros culti- 
vam pouco, têem hábi- 
tos pastoris e abusam 
do rapé. 

trilho para diante 
tomou ao norte, e com 
elle tudo começou a 
mostrar o aspecto de 
verdadeiro sertão. 



254 De Angola á contra-costa 

Vieram as mupandas que nos haviam cie acompa- 
nhar á contra-costa, como também, facto notável, ap- 
pareceram rochas afftoreando o terreno, resultado sem 
duvida de uma ramificação da serra dos amboellas 
que }3ara aqui deriva; e isto, que parece uma circum- 
stancia de nenhuma monta, teve para a nossa gente 
muito valor, pois precisando cozinhar no chão, assente 
a panella em três pedras, andavam desde Quiteve a 
clamar: «N'esta terra, nem á pedrada se podem per- 
seguir os inimigos; não se encontra sequer um calhau 
para lhes atirar! » 

São raras as aves, emquanto que abunda a caça 
grossa, encontrando-se frequentemente palancas, Hyp- 
potragtis equinus, zebras e uma cabra de agua, conhe- 
cida na Huilla por N'dughi, quem sabe se a Adenota 
Lechee (?), cujo assobio característico se assimilha ás 
vezes ao ])io de certas aves nocturnas. 

Estávamos então no limite da terra dos amboellas, 
e foi aqui que novamente tivemos ensejo de ver uma 
trowpe d'esses infelizes de que já falíamos e que diva- 
gam pelos bosques africanos, conhecidos por bnshmen. 
Tendo-nos avistado, abalaram para o interior da flo- 
resta, dando porém o tempo necessário para notar um 
facto, para nós duvidoso, e que supp unhamos existir 
particularmente entre os hottentotes. 

E a stéatopygia. Não podendo aqui representar a 
mulher por nós observada de relance, damos ao leitor 
um exemplar hottentote na gravura junta, copia fiel 
de uma photographia. 

De todos é hoje conhecida essa particularidade phy- 
sica da gente hottentote, que com outras rasões esteve 




A STEATOPVGU N'UKA HOTTENTOTE 



Entre Cunene e Cubango 255 

para a collocar em grupo especial, constituindo unia 
raça única, homo africanus ou homo hottentotus! 

Originada por um desenvolvimento adiposo na re- 
gião glutica, que se exagera pela parte posterior em 
pr_gas da derme, esta protuberância, á medida que a 
mulher avança em idade, tende a enrugar-se, e por 
vezes parece não fazer parte integrante do corpo, ou, 
pelo menos, ser uma deformidade de doença estranha! 

A cor amarellenta da pelle (igual á da folha de taba- 
co secca), a sua pequena estatura, os traços repellen- 
tes do rosto, o aspecto de decrepitude prematura, a 
fatal e constante miséria, tornam ainda a mulher bus- 
hmen victima d'esta deformidade, mais hedionda, se- 
gundo julgamos, que a hottentote. 

Vis arremedos da espécie humana, esses indescri- 
ptiveis seres parece que foram muito de propósito ar- 
chitectados para permanente insulto á plástica! 

Os bushmen habitam também nos povoados, ao que 
presumimos, e no sul, entre os ovampos, vivem em 
paz e n'uma espécie de servidão. Estas rachiticas crea- 
turas não suscitam muito dó como á primeira vista 
poderia julgar-se, e o ódio que em geral lhes têem as 
tribus africanas é a consequência dos seus actos ruins. 
Assim nos afiançaram que muitos casos se têem dado 
de assassinios por elles commettidos, com a mira no 
roubo, ou por outro qualquer motivo, sendo as victi- 
mas preferidas quasi sempre as mulheres. 

A grande mololla Mué marca pelo norte o limite 
da Handa. 

Caminhando 3 milhas encontra-se uma serie de col- 
imas, erguendo-se gradualmente até se transformarem 



256 De Angola â contra-costa 

em altos morros, que desenham os arredondados dor- 
sos no azul dos céus e quebram de vez a monotonia das 
terras percorridas. 

As densas matas d'aqui são o retiro favorito da caça, 
matando nós ao chegar ao campo uma enorme cutun- 
gué ou quissema fêmea, Aigoceros ellipsiprimnus. 

O aspecto do terreno, porém, é assas tristonho n'esta 
epocha. O solo tisnado pelas recentes queimadas, as 
folhas resequidas pela severa geada, indicam que o 
sopro da morte passou por ali, pesando tal panorama 
melancolicamente no espirito do viajante. 

O leão faz também seus destroços, encontrando nós 
a evidencia d'elles junto ao rio Quimpolo, no esqueleto 
de uma girafa. 

E deserta toda a região atravessada desde a Handa, 
e só aqui começámos a avistar os arimos de Moi Cam- 
pullo. As marchas continuam em permanente excursão 
venatoria, tão numerosos se apresentam os animaes 
desde as toupeiras, furões e lontras até ás zebras e gi- 
rafas! O solo, porém, difficulta bastante este exercicio, 
por ser constituido por uma rocha quartzosa dura e 
branca, que, amoreando-o, contrasta com a sua enne- 
grecida cor. 

De um amboella soubemos que o Cubango estava 
a três marchas adiante, circumstancia esta, que nos 
obrigou a alargar as jornadas, a fim de mais depressa 
ahi chegarmos. 

Deu-se aqui um facto curioso, que mostra o exa- 
gero dos naturaes nas suas informações. Tendo per- 
guntado ao mesmo indigena qual a direcção do Cu- 
bango e onde ia este confluir, respondeu-nos : para 



Entre Cunene e Cubango 257 

um grande rio filho do mar, acrescentando que os ha- 
bitantes d'esse sitio são os ba-qua-neitunta — anões 1 . 

E tão volumosa a cabeça d'estes indígenas, que, 
deitando-a, se torna difficil depois levantal-a; por isso 
durante a noite, emquanto o homem dorme, vela junto 
d'elle a mulher, para o ajudar a erguer quando des- 
perta, serviço que retribue a cara metade por forma 
similhante ! 

A noite acampámos junto de uma grande aldeia, 
d'onde nos fugiu um dos carregadores com um fardo 
de fazenda. 

Cortando de novo a leste estivemos em Cabandje, 
sitio em que felizmente encontrámos algum mantimen- 
to, facto consolador, pois nos últimos tempos quasi se 
vivia de carne. 

Ao sueste avistámos outro acampamento de btish- 
men, em meio de uma d'essas largas ondulações que 
constituem o plateau. 

A 9 de julho podemos evitar a fuga de alguns com- 
panheiros ganguellas, o que nos trouxe muitos dias 
em sobresalto, sendo necessário conduzil-os debaixo 
de escolta. 

Ha também por aqui numerosos leões; avistámos 
dois ao terceiro dia de marcha, passando um perto 
de nós perseguido joelos mabecos, Canis mesomelus, 



1 Parece que entre os dámaras as tribus se dividem em castas, a fim 
de cada qual encontrar a sua origem n'aquillo que mais lhe appetece, de 
modo que uns descendem de arvores, outros de bichos, etc. Os ba-qua-iu- 
ba vem do sol, os ba-qua-nombula da chuva, os ba-qua-neitunta ou tunda 
dos bosques. Estas indicações do amboella poderiam referir-se a alguns 
dámara-bushmen, que tivessem adoptado para si similhante designação. 

17 



258 De Angola á contra-costa 

como se poderia facilmente inferir cias pegadas que 
analysámos. 

É curioso este pequeno animal, que tamanho ódio 
vota ao rei cias selvas. 

Diz-se serem destros caçadores, e, caso estranho, 
. marchando sempre em grandes matilhas, ao aperce- 
berem a caça, separam-se logo cVellas dois para a per- 
seguirem directamente e sem ruido, emquanto que os 
outros, ílanqueando-a, tentam cercal-a. 

Na forma do costume choveram a este respeito in- 
formações e anecdotas, havendo quem afiançasse ser 
tal o respeito mutuo, que quando está a matilha a de- 
vorar uma rez e apparece outro mabeco a saltar-lhe 
em cima, é isto motivo para, todos os mais abandona- 
rem o repasto! 

Antes de acampar, fomos cie súbito surpreliendidos 
pelo grande rumor que fazia um bando de mais de 
cem macacos, pulando de arvore em arvore. A rapi- 
dez com que se precipita este animal é tanta, que no 
primeiro momento similham uma nuvem de pássaros. 
Meia dúzia de tiros, ao acaso, não tiraram cVelles o 
menor partido. 

Ao anoitecer apanhámos próximo do rio um animal 
pouco vulgar, a que os indígenas chamam n'caca e 
scientincameiite se denomina Manis multiscutatum ou 
Temmincki (?), similhante ao armadilho. Os naturaes 
consideram a caça cVelle como indicio cie felicidade, 
sendo obrigado o soba da terra onde é colhido a matar 
um boi, cuja carne cozem com a do n'caca e as esca- 
mas d'este distribuem para amuleto entre os caçadores 
da senzalla. 



Entre Cunene e Cubango 259 

Coincidência notável: era o dia 10 de julho, e fo- 
lheando um calendário fraiicez que levávamos, encon- 
trámos: «Dia de Santa Felicidade!» 

Na manhã seguinte chegávamos ás margens do rio 
Cubango, já nosso conhecido da viagem de 1878, cujo 
curso transpuzemos para a margem esquerda. Tem 
n'este logar 110 metros de largo sobre 3 de profun- 
didade media e corrente de 1,5 milha. 

As orlas são regularmente cortadas e muito pittores- 
cas, ora vestidas do arundo, ora de densos arvoredos. 

Sobre a direita a terra é deserta até á Cafima, falta 
de agua para o sul e como tal intransitável, excepto 
na direcção da mololla Ombongo, que vem do valle 
para o Cubango ao norte de Dirico; para o oriente, 
povoam-na as tribus amboellas, de que falíamos, acom- 
panhando o seu curso em grande distancia. 

Xa beira de alem acampou a expedição para tomar 
fôlego, planeando com conhecimento de causa a con- 
tinuação dos nossos trabalhos. 

Estavam percorridas até ali muitas milhas geogra- 
phicas, fixadas numerosas posições, estudada a zona 
que explorámos tanto quanto consentiam os recursos 
e o tempo de que dispúnhamos. 

( ) que urgia agora fazer? 

Prolongando o curso do rio pelo menos até ao Mu- 
cusso (Bucusso), poderia a expedição a nosso cargo 
resolver problemas importantes, e, descobrindo defini- 
tivamente o mysterioso destino cVeste, volver ao nor- 
deste. Era longo o trajecto, e o receio das chuvas no 
norte íizeram-nos a principio hesitar, até que alfim de- 
cidimos seguir pelo sul, dispondo tudo para a viagem. 



260 De Angola á contra-costa 

E o Cubango iria ao Zambeze? 

Ao contemplar a sua largueza, e attentando no vo- 
lume de aguas que leva por esta latitude, mal pode o 
viajante acceitar a idéa de similhante caudal ir per- 
der-se nas terras austraes *. 

A quantidade de agua. que n'este parallelo deriva 
para as regiões meridionaes, embora esteja por deter- 
minar, é considerável. 

As informações de que deslisa todo para o sul, per- 
dendo-se ali em parte, por infiltração ou evaporação, 
julgâmol-as inacceitaveis, tamanho é o fluido volume 
que corre pelo seu leito. 

Depois, alem dos numerosos tributários que conduz 
do norte, vae agora sobre elle o Cuito, á beira do qual 
breve nos achariamos, cuja drenagem não lhe é muito 
inferior, formando na estação pluviosa um alagamen- 
to que inunda immenso território, e os indígenas desi- 
gnam por lagoa Mamo. Então recebe outros afnuentes 
orientaes, indo, segundo dizem os indígenas, entrar 
n'um grande rio. Tamanha accumulação de aguas, que 
vae perder-se no N'gami, traria forçosamente a neces- 
sidade de ser este um lago de maior amplitude. 

O Cubango é sem duvida um dos mais poderosos 
afnuentes do Zambeze, deixando correr em epochas 
parte das suas aguas para o sul, como vamos explicar; 
e se porventura ha conservado a sua direcção media 
desconhecida para os geographos, é isso devido a que, 



1 É escusado produzir aqui argumentos tendentes a demonstrar que 
não foi Anderson o descobridor do Cubango, pois dezenas de portugue- 
zes de ha muito por elle transitavam, como Candimba, Gonçalves, etc. 



Entre Cunene e Cubango 261 

na parte inferior da carreira, tendo de atravessar ex- 
tensas planicies cobertas de bastas gramineas, serpeia, 
alarga, subdivide-se, para adiante de novo se unir, e 
por maneira tão complicada, que com difficuldade se 
pode dar conta d'ella n'uma só viagem. 

E isto, repetimos, foi corroborado em toda a parte 
pelas informações dos indígenas, e assim nol-o affir- 
maram também aquelles que comnosco aqui fallaram 
sobre o caso. 

Eis pois quanto acerca d'elle pensamos. 

Se attentarmos sobre o modo por que no plateau 
central se faz o movimento das aguas, veremos serem 
três as espécies de cursos (se assim pode dizer-se) que 
alii se apresentam, e poderíamos mesmo designar rios 
correntes todo o anno, outros que deslisam só na epo- 
cha das chuvas, seccando na estiagem, denominados 
(lambas, e emíim as molollas, ou cursos de movimento 
alternado, conforme a elevação das aguas nos grandes 
leitos que as originam. 

A mololla é uma depressão lateral de terreno, que 
estando pouco superior ao nivel médio da extrema 
estiagem das aguas no rio, fica muito inferior ao nivel 
no tempo das chuvas e se liga com o rio pelos extre- 
mos ou por um só ponto. 

Claro é pois que, na epocha da cheia, a agua, pene- 
trando ali, caminha mui vagarosa e parallela ao rio, ate 
estabelecer-se o nivel; mas logo que este baixa ou 
despeja rapidamente, vê-se então a agua da mololla no 
seu rumo superior retrogradar, ageitando-se ao nivel, 
emquanto que no rumo inferior caminha na mesma 
direcção. 



262 De Angola á contra-costa 

Este facto succede quando está a mololla ligada 
pelos dois extremos ao rio. Se porém considerássemos 
o seu extremo inferior ou meridional para o caso des- 
ligado, e terminando, por exemplo, n'uma depressão, 
veríamos que o dito movimento retrogrado se não 
operaria só na metade superior, mas sim em todo o 
comprimento, e que a agua viria assim a reentrar em 
parte no curso originário. 

E este o caso que se dá com o Cubango e as molollas 
Tonque e Dzo, etc, que d'elle derivam para o N'gami, 
e onde, segundo as epoclias do anuo, a agua tem mo- 
vimento directo ou retrogrado, conforme indicámos. 

O Macaricari completa este svstema repositório no 
sul pelo Zouga com o N'gami, e quando no norte 
baixa de nivel a agua nos rios, refine d'aquelle inune- 
diatamente para ali. 

Tal é a idéa que fazemos do curso do Cubango, em 
cuja margem nos achámos, e ao longo do qual deter- 
minámos novas marchas. 



CAPITULO IX 



O RIO CUBANGO 



Sete annos depois — O caminho de Moçambique e as caras volvidas 
ao sul — Muene Catiba e a mandioca — Entre os amboellas — A confluên- 
cia do Cutchi e a doença de Muene Mionga — Um trabalho photographico 
interrompido — Scenas de feitiçaria — Tribunaes africanos e uma anecdo- 
ta sobre o caso — Os ma-chaca — O rio Cuebe — Súbitas deserções e uma 
noite de angustia — Philosophicas considerações que um funeral remata 
— O rio Cueio e os atoleiros que o marginam — Frios, sedes e fomes — 
O rio Cuatir — Natureza do solo e os pântanos intransponíveis — Aldeias 
lacustres — Ainda um atoleiro e a pobreza das plantações — Um chefe 
mais humano e a morte de um companheiro — A fome — Duas considera- 
ções sobre a geologia africana — Adeus Cubango. 




NAS MARGENS DO CUEIO 



Sete annos tinham decorrido desde que pela pri- 
meira vez havíamos visitado o Cubango no parallelo 
do Bié. 

Attentando no limpido lençol de suas aguas, que 
serenas derivavam a caminho do sul, recordávamos 
tão precisamente as impressões então experimentadas, 
que nos parecia ter desapparecido o lapso de tempo 
que mediara entre ambos os factos, que esta viagem, 
emfim, era como sequencia da outra! 

E, sem embargo, no limbo do olvido iam elles já 
abysmados, a sexta parte da vida de um homem em 
completo vigor; annos que passaram de mocidade e 
despreoccupação para jamais volverem. 



266 De Angola á contra-costa 

Então era a nossa primeira viagem, cheia de attra- 
ctivos e poéticos sonhos, tendo como norte a aventu- 
ra, por caminho aquelle que primeiro se deparasse, e a 
uma saúde de ferro respondia sempre vigor inque- 
brantável, que tudo afigurava dourado. 

Agora era uma missão reflectida e subordinada a 
determinados fins, peregrinação sem duvida longa, 
para que carecia poupar as forças; era a reputação e a 
pratica de dois homens já com tirocínio, as quaes, pos- 
tas em acção, tinham fatalmente de corresponder ao 
que d'ellas se esperava. 

Urgia pois marchar cautelosos, e, meditando seria- 
mente os mais singelos devaneios, considerar de contí- 
nuo no equilíbrio das forças de que se dispunha, nos ho- 
mens que possuíamos, nos recursos existentes, pondo, 
como Argus infatigável d'esta ordem de cousas, o dever 
e a lembrança da contra-costa. 

Por isso, tendo de volver as frontes ao sul, visto 
como o objectivo da expedição consistia no reconheci- 
mento do curso do rio a cuja beira nos achávamos, não 
podíamos deixar de ver no caso um fácies desagradá- 
vel, para affrontar o qual tivemos de revestir-nos de 
toda a boa vontade, pois não é o caminho do meio dia 
precisamente aquelle que nos levaria a Moçambique. 

A obrigação porém venceu os nossos receios, e em- 
bora 11'essa marcha pouco fizéssemos de aproveitável, 
em vista dos obstáculos que se nos depararam, nem 
por isso mostrámos menos insistência e energia, de que 
nos resta a consolação n'estas cândidas declarações. 

Muene Catiba, o regulo cVali, homem velho, cie feio 
aspecto, coxo e sordidamente vestido, fez a sua visita 



O rio Cubango 267 

ao acampamento e presenteou-nos com um porco, ver- 
dadeiro recurso inesperado para a nossa exhaurida co- 
zinha. 

Foi em sua terra que primeiro vimos a mandioca, 
artigo não existente para oeste, facto que de per si só 
explica, a depressão em que nos achávamos, e que ef- 
fecti vãmente era de 1:160 metros; também abundava 
o milho e a batata, géneros naturalmente importados 
do Bie pelos mercadores portuguezes, que ao longo 
do Cubango transitam para o Mucusso. 

O trilho que seguimos, contornando rigorosamente 
a margem do rio, era traçado em terreno que para 
diante se torna áspero, deixando ver pelas ravinas um 
subsolo de rocha quartzosa, de que resultam os ca- 
lhaus dispersos pelas duas margens. 

Chamam-se amboellas os habitantes da zona que 
vamos percorrendo, e são os pretos de melhor appa- 
rencia que temos encontrado. 

Os seus penteados, entretecidos de tranças e conta- 
ria, distinguem-os logo, assim como o uso de pannos, 
ao contrario dos congéneres do oeste, que se cobrem 
com pelles. 

As habitações circulares de tecto ponteagudo são 
barradas de argilla e postas com ordem. 

A distancia media de um dia de jornada e rumo 
que nesta latitude corre approximadamente ao sueste, 
acham-se estabelecidas, á beira do rio, as libatas dos 
régulos mais importantes, que em acto suecessivo fo- 
mos visitando. 

E notável o contraste das duas margens tao próxi- 
mas, pela sua animação, flora e accidentes. 



268 De Angola â contra-costa 

D'aquem eleva-se o terreno, formando uma encos- 
ta, veste-o frondosa vegetação, cobrem-no as aldeias e 
outras povoações, affluem numerosos rios; para alem é 
plano e coberto de gramineas, deserto até á Caíima, no 
dizer dos naturaes, não possuindo, sequer, um só tri- 
butário. 

Encontram-se bastas florestas de mupandas, moton- 
tos e rídumbiros, por onde numerosas aves esvoaçam e 
no meio das quaes se observam habitações, em que 
pela tarde e noite lia ruidosos batuques para entrete- 
nimento dos indígenas. 

Os amboellas são grandes músicos, dextros ferreiros 
e babeis pescadores das lagoas, aventurando-se raras 
vezes a pescar no leito do rio. 

Ao terceiro dia transpozemos o Cutclii, de 70 me- 
tros de largo, e com o qual já haviamos feito conhe- 
cimento no norte, sendo as nossas canoas o objecto 
da mais embasbacada admiração. 

Entre os amboellas, que se distinguem pelas cabeças 
rapadas com pequenas tranças no alto, vêem-se ho- 
mens do sul, bana-catuba da Caíima e do Cuanhama, 
com o seu pittoresco trajo e a tez menos retinta que 
a d'aquelles. 

Raros são os gados por esta parte, onde escasseia de 
novo a mandioca, assim como o sorghum, cultivando- 
se exclusivamente o milho. O rio deslisa formidável, 
sendo para lamentar o seu abandono pelos indigenas, 
que só possuem canoas para o transpor. 

Um barco do molde da Lady Alice de Stanley, pres- 
taria um alto serviço na rápida exploração d'esse vasto 
lençol de agua. 



O rio Cubango 



269 



Na libata cie Muene Mionga, onde chegámos, acha- 
va-se a população azafamacla com um negocio impor- 
tante. O regulo estava doente. 

Dentro d'ella e n'um terreiro a meio, Muene Mion- 
ga via-se sentado, envolto em amplo cobertor, tendo 
a cajinga (barrete) na cabeça; á direita e esquerda 




MULHER AMBOELLA DO CUBANGO 
Segundo um croquis 



collocados quatro quinbandas, de frontes ornadas de 
grinaldas de pennas, dois com cabaças na mão con- 
tendo pedaços de pau, ferro, etc, e os outros dois 
com ferrinhos que tangiam; em frente do soba, esten- 
dida no solo, uma cauda de elephante. 

Procedem os quinbandas a encantações, que nos di- 
zem tendentes a adivinhar a causa da doença do re- 



270 De Angola á contra-costa 

guio, ou melhor a conhecer quem por maléfica influen- 
cia o enfeitiçou. 

De roda a multidão canta monotonamente, emqu au- 
to uma espécie de arauto, enfeitado dos mais estranhos 
ornamentos, pega por vezes do rabo do elephante, 
começando em saltos pelo terreiro. 

Não tendo o menor interesse em conhecer a enfeiti- 
çada causa de que o soba fora victima, voltámos as 
costas a esta scena banal e assas conhecida, prose- 
guindo impávidos para leste. 

Ao cabo de umas poucas de horas de marcha, che- 
gámos á aldeia de Muene Molomo, situada n'uma emi- 
nência que o rio contorna, e que pelo seu aspecto 
pittoresco nos levou a preparar um cliché. 

Estes trabalhos no mato são, porém, muito differen- 
tes dos operados no remanso de um atelier da Europa. 
e, quando satisfeitos acabávamos de tapar a objectiva, 
por estar feita a exposição, eis que machina, tripé e 
artigos relativos, se derrubam, caindo cada objecto 
para seu lado. 

Uma cobra havia saltado junto de nós, e na anciã 
de evitar o seu contacto, cada qual se escapou como 
pôde, esquecendo a machina, que, victima dos emba- 
tes do reptil, foi cair entre as hervas, do que resultou, 
na volta ao velho mundo, esse cliché não dar cousa al- 
guma, por ter apanhado luz, segundo parece. 

Estava-se em plena phase de adivinhações e sorti- 
légios. 

Na libata d'este regulo tangiam também os ferri- 
nhos e prpcedia-se a similhantes sceuas de feitiçaria 
com estranho bambaré. 



O rio Cubango 271 

Era o caso (aliás pouco frequente em Africa), ter 
certo rapaz cravado uma faca em pleno abdómen de 
outro; o réu negava, declarando haver aquelle sido 
ferido no mato joor um animal qualquer. 

Tratava-se de adivinhar a verdade d'este protesto, 
por isso era grande a confusão. 

Tencionavam no seguinte dia matar um boi, para 
d'elle extrahirem o milongo (remédio) apropriado para 
tal adivinhação, esperando deduzir por cabalísticas ar- 
timanhas e pelas contracções das visceras a causa do 
crime. 

Não soubemos as consequências de todo este longo 
processo, que devia ser curioso, a julgar pelo negocio 
em questão; pois occasionam frequentemente debates, 
cuja originalidade e finura deixam não poucas vezes 
o europeu admirado. 

Eis, como exemplo frisante, uma anecdota que le- 
mos ou ouvimos algures a propósito da deliberação 
tomada ínim tribunal indígena. 

Aconteceu que um individuo possuidor de grande 
manada accusava outro de lhe haver morto um boi 
com uma zagaia, queixa de que elle se defendia, re- 
plicando não ter sido elle, mas sim outro boi, que em 
lucta o prostrara com uma chifrada. 

tribunal, a que fora sujeito o caso, após muita dis- 
cussão, ia decidir-se alfim a favor do accusado, quando 
um Arelho da tribu, erguendo-se, ordenou que suspen- 
dessem o veredictum. 

— Ouçam! exclamou elle em tom imperioso, vol- 
tando-se para a victima da accusação. Onde têem os 
bois o rabo? 



272 De Angola á contra-costa 

A esta pergunta o criminoso mirou-o com espanto 
e respondeu, indicando com a mão direita o respectivo 
logar : 

— Aqui. 

— E como anda o rabo: caído para baixo, erguido 
para cima ou pendente do lado? 

— Para baixo. 

— E onde têem os bois as armas? 

— Na cabeça. 

— E sao para baixo, para cima ou para o lado que 
ellas se acham dispostas? 

— Para cima. 

— Bem; se um boi então ferir outro, a ferida deve 
ser de baixo para cima ou vice-versa? proseguiu elle, 
virando-se para o tribunal. 

— De baixo para cima, disseram todos. 

— Vamos pois ver o boi, replicou o ladino velho, e 
se assim estiver disposta a ferida, fica livre este ho- 
mem, e é falsa a accusação que lhe fazem! 

Infelizmente a ferida, feita com uma zagaia por mão 
de homem, era de cima para baixo, e o accusado sof- 
freu portanto penalidade! 

Mu ene Mionga era extremamente velho; os vassal- 
los d'elle constituem uma tribu um pouco differente 
dos amboellas, denominam-se ma-chaca, têem as faces 
angulosas e são mais feios no todo do que os já cita- 
dos. 

Para leste íicava-nos o Cuebe, rio caudaloso e que 
na forma dos anteriores leva as aguas ao Cubango, a 
par do Cuatir e outros. Como os indigenas nos afian- 
çaram que na confluência havia grande accumulação 



O rio Cubango 



273 



de pântanos difficilmente transitáveis, decidimo-nos, 
por conselho sen, a transpor os dois, e, seguindo o 
curso d'este para o sul, ganhar de novo o d'aquelle 
rio. 




AMBOELLA DO CUBANGO 
Tirado de um croquis 



Densos bosques cobrem para alem do Cuebe toda 
a zona que medeia entre elle e o Cuatir, desprovidos 
de agua em muitos logares, cujo solo, constituido por 
ondulações de grés e cortado por fundos sulcos, afie- 
cta aqui e alem as mais estranhas formas. 

Junto do rio Mabanda acampámos n'uma encosta, 
onde precisamente começam os tractos siliciosos. A 



18 



274 De Angola á contra-costa 

areia branca impede a marcha e fatiga os viajantes; 
ahi começaram para a expedição novas fatalidades, 
pois ao chegar o terceiro dia de jornada desertaram 
uns poucos dos nossos em caminho, continuando as 
tentativas nos seguintes, como succedeu perto do rio 
Iquebo, onde com desespero procuraram evadir-se em 
massa, abalando á toa pelos matos, muitos companhei- 
ros nas noites de 20 e 23 de julho. 

N'esta ultima, sobretudo, a nossa angustia cresceu 
de maneira, que ficámos convictos de ser abandona- 
dos em pleno sertão. 

António partiu para a retaguarda em cata dos pri- 
meiros, que tinham fugido com três fardos de fazenda 
e uma das canoas de desarmar; nós, prevenidos de 
que se preparavam outras fugas, haviamos amarrado 
os ganguellas suspeitos de chefes do movimento, dei- 
xando-os pelas horas do somno com sentinellas á vista. 
Inútil empenho; pois, quando mais socegados e segu- 
ros nos julgávamos, elles de súbito, desprendendo-se, 
abalaram em bom numero, não tornando mais a appa- 
recer. 

Noite terrível foi essa, em que tivemos de largar 
fogo a uma enorme floresta, na esperança de ver ou 
cercar aquelles que n'ella suspeitávamos escondidos, 
e em que de carabina em punho com os restantes que 
se conservaram fieis, percorremos em caça da diabó- 
lica turma por meio de matas em chammas e troncos 
esbrazeados, jogando como loucos uma cartada de 
vida ou morte ! 

Morrer ou avante, era o dilemma formidável que se 
levantava espectral ali a europeus e africanos! 



O rio Cubango 275 

Tal procedimento da parte de homens a quem nós 
déramos exuberantes provas de affeição era indescul- 
pável, e o tratamento sempre bondoso e indulgente 
pagava-nos essa cohorte de ingratos com a perfídia, 
se não com o roubo. Quebrando sem consciência os 
contratos que comnosco haviam feito, abanclonavam- 
110 s, levando o que nos pertencia! 

Nem um sequer se queixara até ali, pela simples 
rasa o de faltar motivo para isso. 

Nos dias mais aziagos, nos dias de fome, para o 
homem do mato sempre de mui serio caracter, elles 
sabiam bem que quando da caça morta houvesse para 
nós duas rações, havia também para elles, e que um 
punhado de farinha que no acampamento apparecesse 
era por todos igualmente dividido, embora a cada qual 
coubesse apenas um simples bago. 

Mas, leitor, o negro e a expressão embryonaria do 
sentimento, e na sua rude incompreliensão do dever e 
da dignidade, faz parenthesis em quasi todos os prin- 
cípios da nobilitação humana. 

Com isto não queremos afiançar que elle pende por 
indole para o mal; somente suppomos que exercita 
este por ignorância ou por desconhecer a sublimidade 
da pratica do bem. 

E não se imagine que também isto é philosophia, 
e muito menos pretendem as nossas palavras fazer 
doutrina em matéria nova; somente miram a tornar 
comprehensivel um facto em que todos erram, ten- 
tando porventura achar n'elle uma cousa que precisa- 
mente não podem ver, por imaginarem n'essa creatura 
um como espelho onde se reproduzem directamente 



276 De Angola â contra-costa 

as imagens, quando não passa de um arremedo enga- 
nador, em cujo cérebro o principio do bem é difficil 
de fixar-se, se não refractado pelo prisma da manha, 
se dispersa, e mesmo inverte, produzindo phenomenos 
similhantes áquelles da miragem para o viajante do 
deserto, isto é, o contrario do que deve ser! 

Inconscientemente e sem o notar, os europeus tra- 
tam o negro como de igual a igual, exigem d'elle uma 
declaração, empenham a sua palavra, consideram o 
contrato feito inquebrantável, por ser baseado na obri- 
gação e no dever, e eis que de súbito foge, deixando-os 
a pique de uma perda e quiçá da morte; é então que 
levados pela ira o condemnam, pensam em castigal-o! 

E a final os verdadeiros culpados somos nós, que o 
julgámos pela amplificadora lente da ingenuidade e 
da boa fé. 

Pois que são a dignidade e a honra senão virtudes 
provenientes do contacto do homem sociável, que, co- 
nhecendo a sua superioridade intellectual, lhe servem 
de penhor á demonstração de que, alem dos singelos 
instinctos naturaes, alguma cousa mais sublime existe 
n'elle? 

E se isto assim é, acaso o negro no estado da mo- 
ralidade inicial em que se acha, elle que tem para o 
evidenciar por companheira uma mulher que desco- 
nhece o pudor, esse delicadíssimo sentimento que pri- 
meiro que nenhum nos parece deve ter assomado ru- 
bro ás faces das nossas selvagens antecessoras; sujeito 
á egoista necessidade de prover á subsistência, presos 
a quantas materialidades, que, por obcecarem o espi- 
rito, o forçam a rodar n'um circulo restricto de satis- 



O rio Cubango 277 

facões mal remediadas; acaso, repetimos, pode elle 
compreliender o que seja o dever, a honra empenhada? 

Não precisámos responder, os factos estão por nós, 
e a verdade é que em todos os assumptos importantes 
com negros, tanto mais duvidávamos d'elles quanto 
mais afinco e boa fé pretendiam mostrar-nos. 

Se um negro se vos mostrar recalcitrante ou mesmo 
indiíferente, excitae-lhe a cubica, e tereis d'elle alguma 
cousa; ao contrario, se o virdes fazer protestos de de- 
dicação á vossa causa e generoso afiançar-vos o seu 
apoio, abandonae-o, porque de certo sereis breve en- 
ganado ! 

Apraz-lhe o ludibrio, e no exercício d'essa Ínfima 
faculdade intellectual — a astúcia, pareceu-nos perce- 
ber por vezes, no preparar de trama velhaco, um ine- 
vitável antegosto na idéa maléfica. 

Entretanto para o homem selvagem assim deve ser. 
Elle, que na escola da natureza aprende na lucta de 
cada dia só a defender-se dos inales que lhe amea- 
çam a triste existência, acaba por identificar-se com 
este estado de cousas, e, vendo n'aquella a imagem 
da grandeza, trata, quando pensa engrandecer-se, em 
praticar o mal, que de resto mais facilmente inspira a 
admiração que o bem! 

Consternados por este estado de cousas, conservá- 
mo-nos no Iquebo até á volta de António, ora ageitan- 
do cargas e desistindo de artigos de conforto por falta 
de portador, ora vigiando pela noite aquelles dos nos- 
sos que mais suspeitas inspiravam. Pela manhã voltou 
António com a triste nova de que nem um sequer fora 
possível encontrar; esta noticia chegava precisamente 



278 De Angola d contra-costa 

na tétrica occasião em que era inhumada uma rapa- 
riga que suecumbíra pela noite a dupla pneumonia. 

Concluída a fúnebre ceremonia, pozémo-nos pelas 
oito horas da tarde a caminho, tamanha era a anciã 
que nos dominava de deixar aquelle logar de nefasta 
recordação. 

Começara a noite, e quem visse n'esse momento a 
expedição portugueza, triste, oppressa, avançando em 
linha por meio das inatas e areiaes que a defrontavam, 
dizimada pelas ultimas fugas e perseguida pelo frio, 
carregando com agua pela incerteza de a encontrar 
adiante, e pensasse também que esse bando de homens 
se destinava a atravessar todo o continente africano, 
não garantiria tal empenho com a mais singela phra- 
se de consolo! 

Pelo escuro acampámos, esperando a todo o mo- 
mento ser surprehendidos pelo grito de alarme das 
sentinellas, que annunciavam alguma nova evasão. 

Um silencio sepulchral envolvia o campo, só inter- 
rompido ao longe pelos gritos das hyenas. Tristonhos 
presentimentos dominavam o espirito de todos com a 
lembrança de que se consumira a maior parte dos 
mantimentos na demora junto ao rio Iquebo. 

A terra é deserta pelo caminho que levámos; ao 
cabo de um dia de marcha avistámos a agua do rio 
Cueio, que para o meio dia deslisa ligeiro. 

Nos terrenos pantanosos que o marginam gastámos 
as forças no aturado labor de obrigar os bois a trans- 
pôl-o, pois os míseros animaes, caminhando pelos pân- 
tanos, atolavam-se por maneira que apenas a cabeça 
e o dorso lhes ficavam de fora. 



O rio Cubango 279 

Ramos de arvores e até os próprios troncos lançados 
para o lamaçal, tudo era insufficiente para tornal-o viá- 
vel; os pobres chefes e mais pessoal da expedição, of- 
fegantes, escorrendo agua, ainda pelas nove horas da 
noite, á claridade da lua que parecia carpil-os, traba- 
lhavam na suspensão dos bois e seu transporte para 
a margem opposta. 

Duras scenas eram essas. 

Do Cueio para o nascente continuam as inatas es- 
pessas, intervalladas por valles desnudados, entre as 
quaes proseguimos á toa, esperando a toda a hora en- 
contrar agua; baldado empenho, que sempre j)repa- 
rou uma decepção ! 

Pouco a pouco o trilho quasi imperceptível cortou ao 
sueste, no meio de uma terra cujo silencio era como 
sepulchral. 

A gente, desanimada, seguia emmudecida, como se 
a levássemos para o cadafalso, imprimindo com esta 
disposição um ar estranhamente tétrico a tudo quanto 
nos cercava. 

EmfTm, após dois dias de caminhar, encontrámos o 
leito do rio Cuatir. 

Eis algumas linhas do nosso diário a propósito d'esse 
facto. 

«Logo ao romper do dia agitou-se o acampamento 
com uma desagradável noticia. Somma, rapaz do Nano, 
evadíra-se pela noite com armas e respectiva baga- 
gem, deixando-nos perplexos pela sua audácia, e im- 
pressionados pelo fim que o aguardava, isolado em 
meio doestas matas. 

E o medo da fome que os afugenta! 



280 



De Angola á contra-costa 



O frio, que tem crescido, ameaça os nossos com- 
panheiros africanos com doenças dos órgãos respi- 
ratórios. 

Chico, natural de Benguella, está a braços com uma 
pneumonia dupla, de que não escapa certamente. 




CABEÇA DE GUNGA (Eland) 
Tirado de um croquis 

Pelas dez horas topámos de súbito com agua, onde 
todos se dessedentaram, proseguindo avante atravez 
das terras onduladas. 

Quando pela tarde, extenuados e cheios de fadigas, 
já desesperávamos de novo encontrar bebida, aprouve 
á Providencia abeirar-nos de uma vasta planicie, a 
meio da qual serpeia um rio de alguma importância. 
Era o Cuatir, segundo nos disse de longe um negro que 



O rio Cubango 281 

veiu espreitar-nos, primeiro vulto humano, de quem 
demos vista depois dos últimos dias, que tão attribu- 
lados nos foram. 

Antilopes numerosos vagueiavam, entre os quaes 
vimos gungas, de que damos o desenho. 

Duas milhas de terra alagadiça nos separam do cur- 
so d'este tributário do Cubango. 

O solo nas margens é bastante variável, tornando- 
se, á medida que avançámos para o sul, de mais em 
mais silicioso. 

Ao norte é composto de tractos argillosos, mistura- 
dos á superfície com fina areia branca, sendo o subsolo 
constitui do por um tufo calcarifero corado pelo oxido 
de ferro, vendo-se apparecer em abundância em todos 
os pântanos, avermelhando-os a limonite, cuja base 
movediça os transforma em perigosos atoleiros capa- 
zes de abysmar completamente os bois. 

Os poucos habitadores cVesta terra têem as suas cu- 
batas a meio do curso do rio sobre estacarias, consti- 
tuindo verdadeiras aldeias lacustres, defendidas pelos 
lodaçaes que as cercam. 

De longe em longe vêem-se cúpulas cónicas emer- 
gindo do meio do canniço, evidenciando a residência 
do homem. 

Parece que reiteradas perseguições, quer dos man- 
buncla, quer da gente do sul, que denominam ma-cúas, 
os têem levado a esta precaução, tornando-os por isso 
em extremo suspeitosos. 

Infelizmente para nós, logo a jusante encontrámos 
um braço, que d'elle deriva, chamado mololla, onde 
quasi todos os bois de súbito se atolaram. 



282 De Angola á contra-costa 

Não é fácil descrever as angustias aqui experimen- 
tadas, nem convém repetil-as para nâo cansar o leitor. 

Calcule-as quem quizer, e quando tenha esboçado 
em mente o quadro, enfeite-o com a fadiga do dia, o 
frio da noite, e emmoldure-o por fim com a fome, pois 
a esta data haviam-se acabado os mantimentos. 

Apenas conseguimos ver-nos para alem da mololla, 
espraiando a vista pela longa bacia do Cuatir, litteral- 
mente coberta pelo Arundo phragmites., pozemo-nqs de 
novo a caminho. 

Do meio do canniçal somos vigiados pelos naturaes, 
que o binóculo nos deixa descortinar envolvidos no ca- 
pim. N'um ponto ou outro suspende-se, clama-se, ace- 
na-se, movem-se uns vultos ao redor das casas; n'um 
instante suppomos que alguém vem; triste anceio, cles- 
apparecerani, caiu tudo em lúgubre silencio. 

As únicas plantações que existem são de Penisetum, 
massango, e essas, embora pelo direito da fome nos 
achássemos dispostos a pilhal-as, se porventura caís- 
sem em nossa trilhada, estão longe e feitas nas ilhas. 

Supplicio de Tântalo este que nos acompanhou até 
ao limite meridional da nossa excursão, onde emfim 
um chefe mais humano nos soccorreu, indicando o ca- 
minho que para traz ficava. 

Tomando ao norte, desalentados por tanta contra- 
riedade, abandonámos a idéa de attingir o Cubango, 
e prevendo que quanto mais para o sul, mais se aggra- 
varia a nossa situação, deixámo-nos guiar pelo regulo, 
que ao cabo de dois dias nos mostrou um sitio onde 
as canoas poderam vogar, embora com difficuldade, 
pois ali também os pântanos se acoitavam traiçoeiros. 



O rio Cubango 283 

Imagine-se a alegria quasi infantil que de nós se 
apoderou, ao vermo-nos livres d'esses labyrinthos fei- 
tos para embranquecer os mais negros cabellos. 

Era como se tivéssemos sido lançados por largo 
tempo em negra prisão, e, encontrando de súbito a 
porta aberta, nos escapássemos. 

Tão pouco basta para contentar um espirito oppri- 
mido! Apenas acampados celebrou-se gentilicamente 
a ventura do dia, abatendo um boi. 

Não terminou, porém, sem registarmos um fúnebre 
acontecimento, e havendo ordenado a uns rapazes que 
fossem em procura do infeliz Chico, que para traz fi- 
cara, voltaram trazendo-nos a noticia de que era já 
cadáver! 

Para nos entristecer também, indo os bois a diminuir 
rapidamente, a negra imagem da fome começava a er- 
guer-se ante nós, facto gravissimo, que não sabiamos 
como remediar, tào pobres eram as terras que íamos 
atravessando. O triste secúlo que nos acompanhara 
havia-nos vendido unicamente um quimballa (cesta) de 
feijão, e esse misérrimo recurso, dividido por cento 
e tantos esfaimados, desappareeêra líiim momento; o 
nosso desanimo ainda augmentava ao presencearmos 
a aridez do solo que pela sua natureza estéril pouco 
nos poderia fornecer. Às mesmas plantações do Peni- 
setum eram rachiticas n este chão ingrato de que já 
falíamos. 

Enristemos duas considerações ainda. 

Todos os factos até á presente data nos arreigam 
a convicção, de resto hoje geralmente acceita, de que 
a Africa central nunca soffreu uma d'essas completas 



284 De Angola á contra-costa 

submersões por que passaram os grandes continentes, 
como a Europa, Ásia e America, nas epochas secun- 
daria, terciária e mesmo recente. 

E, a nosso ver, o mais velho de todos elles, haven- 
do-se durante os periodos geológicos conservado tal- 
vez erguido, todo ou pelo menos parte, em meio das 
ondas revoltas dos mares que o circumdam. 

Sempre que tivemos ensejo d'esta banda, já em ravi- 
nas profundas, já em cortes abruptos, de ver a desco- 
berto terrenos inferiores, remexemos e escavámos no 
sentido de encontrar algum calcareo com fosseis ma- 
rinhos, que provasse que esta terra, como em outros 
pontos, estivera em condições de submersão, e nem 
uma só vez podemos obter prova que nos servisse. 

Para áquem da barreira do granito 1 e entre as ro- 
chas ígneas, do gneiss e outras metamorphicas, temos 
encontrado formações schistosas, ondulações de grés 
mais ou menos silicios, tractos argillosos, em meio dos 
quaes se acham massas concrecionadas de hydroxido 
de ferro, rochas quartzosas, etc, todas em partes 
cobertas pelo desaggrego devido ás condições atmos- 
phericas ordinárias. 

Mais para dentro, nas grandes depressões, como 
n'aquella em que ora nos achámos na bacia do Zam- 
beze, o solo, ou mais propriamente o subsolo, que é 
formado por um tufo calcarifero de mistura com de- 
pósitos ferruginosos, é todo recoberto de areias, accu- 
mulação consequente dos alagamentos prolongados. 



1 Esta expressão não é correcta, pois entre a rocha fundamental, o 
gneiss, é onde se vê ás vezes aquelle affloreando o terreno. 



O rio Cubango 285 

A antiga e especial condição em que se tem conser- 
vado a sirperficie do continente, apenas actuada por 
influencias aéreas e lacustres, é a causa d'essa estra- 
nheza de quasi todos os viajantes, pelo caracter de 
uniformidade que em toda a parte lhe observam. 

A falta frequente de rochas eruptivas e de massas 
vulcânicas, companheiras das grandes convulsões sub- 
terrâneas, pode até certo ponto corroborar os factos in- 
dicados, que fazem da Africa um continente de aspecto 
singular, pela immutabilidade das suas condições ter- 
restres atravez de um longo período, a par das mu- 
danças operadas em todas as outras partes do mundo. 

D'este concurso de circumstancias de permanente 
caracter resalta logo a idéa de que, admittido o tra- 
balho regular das aguas atravez da successâo dos 
séculos, nas vertentes das linhas orographicas, occi- 
dentaes e orientaes, quer para o oceano, quer para a 
depressão central, devem hoje ser mais fundos os leitos 
dos rios, e portanto em igualdade de tempo e chuva, 
mais rápida a drenagem para aquelle, ao passo que 
idêntico facto dando-se para esta, os desaggregos na 
bacia central elevam-se de nivel, e portanto tornam 
maior o desnivelamento, que abreviará com sua parte 
a mencionada drenagem. 

D 'aqui o fatal saneamento do sertão pelo esgoto 
rápido das aguas, que para diante deve talvez come- 
çar a manifestar-se em zonas que se esterilisem, a que 
não faltará o concurso do homem com a derrubada 
das matas, diminuindo assim as causas cia humidade. 

E se considerarmos ainda que a elevação de nivel 
na depressão central é feita á custa do desaggrego 



286 De Angola á contra-costa 

de rochas, que por sua especial natureza produzem em 
alto grau a areia, que está parte do aimo submersa, po- 
deremos também assentar que nas profundezas d'este 
valle é mais difficil a vida para o homem, em conse- 
quência da exígua cultura, pois a semente fermenta e 
perde-se por afogada durante mezes, ou pouco produz, 
visto crear raiz em terra sem a precisa substancia, e 
conrprehender a rasão das nossas anteriores phrases, 
bem como o receio de para diante e longe continuarem 
as cousas por maneira idêntica, se não aggravaclas. 

Assim, pois, a idéa de ter cortado para leste, a fim 
de evitar os alagamentos da confluência do Cuatir, se 
por um lado nos havia lançado nas suas pantanosas 
margens, inhibindo-nos de proseguir, por outro sal- 
vara a expedição de gravíssimos embaraços, se acaso 
ella, prolongando pelo oeste o Cubango (como ainda 
pensámos i^rimeiro), o tivesse transposto no Cuangar, 
proseguindo diagonalmente para Libonta. 

E portanto a parte do curso do Cubango que medeia 
entre os Machaca e o Cuangar, continuou inexplorada, 
porque forçoso nos foi desistir d'essa empreza no inte- 
resse de salvar as nossas vidas. 

E como Anderson no sul, nós diremos também: 

Uma retirada immediata tornava-se imperativa; não 
foi sem lueta séria entre o bom senso e o desejo de 
ser úteis que nós tomámos esta resolução, e obede- 
cendo aos impulsos da consciência, dirigimos um olhar 
de despedida para esse trilho interessante que nos le- 
varia de certo á determinação de um problema valioso. 

Por tal modo concluiu a nossa memorável visita ao 
Cubango. 



CAPITULO X 



A CAMINHO DO ZAMBEZE 



As poéticas impressões cia chegada e a consequente desillusao — Sof- 
frimentos que nos aguardam — Ainda o Cuatir e a perda de um homem 
— O rio Luatuta é como o Cuatir — Libatas miseráveis e a situação dos 
nossos — A caravana torna-se n'um bando de salteadores — Visita de grupo 
singular — A mulher soba e a penúria de viveres — Considerações e in- 
genuidade sem igual — A partida e a fuga de dois homens — O Longa 
e a fuga de um outro — Continuam o deserto e as zonas areosas — As 
mupandas e a altitude — Pouca caça e o rio Mpalina — Um acampa- 
mento cannibalesco — Os caçadores de ratos — Subsiste a fome — Mupei, 
o esposo infeliz — Curiosidade dos man-bunda — Os bois-cavallos e as 
suas vantagens em viagem — Efíeitos de miragem e um animal como o gnú 
— O Cuito e sua noticia. 




PASSAGEM DO CUATIR 



Viajando Africa a dentro, por meio dos desertos ser- 
tões d'aquelle continente, deixando após de si, sepa- 
rados por centenas de milhas, os buliçosos centros da 
civilisação, o explorador mal suspeita, a principio, os 
soffrimentos que o esperam. 

Prepara-lhe a natureza, por toda a parte, é verdade, 
n'uma vegetação exuberante, as mais pittorescas pai- 
zagens; mostra-llie nos extensos azues da distancia 
golpes de vista soberbos, que o cobalto não imitaria; 
dardeja com os raios de um glorioso sol quadros in- 
imitáveis de colorido e oiro, que pincel algum seria 
capaz de reproduzir; bafeja-o emfim pela tarde com 
aromáticas e tépidas auras, que o incitam ao repouso; 



19 



290 De Angola á contra-costa 

mas quando o viajante, dominado por toda esta prodi- 
galidade, ergue os olhos ao céu, como para agradecer 
tamanhos favores, ella, que ao fundo de cada consolo 
esconde um espinho, sem se desmascarar, desillude! 
O sol, esse agente inexhaurivel de todos os bens, 
torna-se ali o principal dos males ; com os raios escan- 
decentes, que tudo ferem, ameaça de morte o europeu, 
e, robustecendo a vegetação por uma seiva excessiva, 
que constantemente se substitue, cria no húmus orga- 
nismos que, fermentando, envenenam a pouco e pouco 
aquelle que pôde resistir á primeira lueta. 

As aromáticas aragens rápido se tornam em tempes- 
tades medonhas, e os agentes meteorológicos, juntos 
com a malária, breve extenuam o organismo humano. 
A paizagem, ao principio attrahente, já não prende 
a attençào de quem a observa; o suave gosto de bem- 
estar em face de um mundo sorridente cedeu á inquie- 
tação nervosa de um cérebro escandecido; a vontade 
irrequieta pousa variável no mais singelo facto: quer 
e logo hesita, apraz-lhe a incoherencia! 

A par d'isto augmenta a secreção sudoral, que as 
influencias depressivas aggravam de mais em mais, e 
o elevado calor exige como contrabalanço a sua acção, 
que se traduz por vezes em permanente fome e em es- 
tranho activar do órgão digestivo. 

Depois os phenomenos da sede e da fome exage- 
rada desapparecem gradualmente, para seguirem-se 
morosas digestões, preguiça de intestino, pouca flui- 
dez segregaticia, constipação rebelde. 

Começam a perturbar-se as funcções e apparecem 
os primeiros symptomas da febre, que o tempo torna 



A caminho do Zambeze. 291 

lenta e em pouco se denuncia pelo auginento de vo- 
lume do fígado ou pelo excesso de bilis. 

estado oppresso do peito accelera a respiração do 
ar morno e rarefeito pelo calor, a fadiga permanente 
convida ao descanso, que um aborrecimento indefiní- 
vel como (pie repulsa; o caracter do individuo perver- 
te-se; na anciã de questionar de tudo e com todos, a 
gente desconhece-se, á menor contrariedade irrita-se; 
o homem emfim é outro! 

Estranha-se, quer reprimir-se; porem um prurido 
nervoso, um como que vácuo de senso moral, um in- 
quieto mal-estar impelle-o; deixa-se dominar pela ira, 
encolerisa-se, grita, ameaça, o cansaço emfim pros- 
tra-o, cáe, arrepende-se e adormece! 

E um meio desmoralisador onde o individuo pouco 
a pouco se despe da soberania dos seus mais nobres 
sentimentos, onde a doença physiea arrasta e desnor- 
teia a consciência, e, calando o vibrar das mais sensi- 
veis fibras do coração humano, deixa só campo para 
as impulsões animaes se expandirem sem freio. 

O seu somno, a principio pesado e morbigeno, en- 
trecorta-se breve d'esses pesadelos e tremores sempre 
companheiros da perturbação funccional; o suor es- 
corre-lhe lentamente do tronco fatigado, e pelos lábios 
resequidos escapa sibilante o ar cálido da respiração 
opprimida. 

Quando desperta, devoradora sede o domina e um 
quebramento geral o prostra; quer erguer-se, cáe, a 
comida repugna-lhe, bebe, amarga-lhe! 

A percepção dos objectos que o cercam é lenta; mo- 
mentos se passam antes de relacionar-se com o mundo 



292 De Angola á contra-costa 

que o rodeia; boceja, senta-se, apraz-lhe espreguiçar- 
se; o pulso é lento e filiforme; uma vaga oppressâo 
epigastrica o agonia; pesa-lhe a cabeça, apoiando-a 
no punho cerrado; fica abstracto. 

Eis que está prestes a febre, pouco demorada em 
manifestar-se, só esperando singelo desequilíbrio de 
temperatura ou o primeiro desgosto. 

E se por acertadas medidas }:>rophylacticas o infeliz 
consegue evital-a, e, repetindo-as, obsta ao desfecho 
final; então dizemos-lhe n'este logar: attente nas indi- 
cações hygienicas que lhe houverem sido fornecidas, 
e evite sobretudo os desgostos profundos, para que na 
repetição dos phenomenos já enumerados lhe nao suc- 
cecla aquillo de que foram victimas Capello e Ivens; 
isto, é, andar sob a influencia do receio de inopinada 
febre, por se verem a braços com decepções cruéis! 

E bem verdade é o que acabamos de dizer. 

Poucas vezes, leitor, terá o chefe de uma expe- 
dição soffrido privações physicas e torturas moraes, 
como aquellas por nós experimentadas durante os pri- 
meiros mezes que vamos descrevendo, porque também 
poucas vezes mais estranho concurso de circumstan- 
cias se pode reunir, para contrariar quaesquer desí- 
gnios. 

Fomes, sedes, desertos alternavam-se systematica- 
mente, para produzirem o seu máximo effeito no espi- 
rito da desnorteada caravana; era como se muito de 
propósito as cousas se houvessem disposto para ani- 
quilar todos os nossos esforços. Mas prosigamos. 

Do lado esquerdo corria agora lamacento o Cuatir, 
emquanto nós, deixando o velho regulo, cuja cubica 



A caminho do Zambeze 293 

não conseguimos excitar a fim de o ter por guia, nos 
dirigíamos para o norte, no intuito de achar o trilho, 
que, segundo elle, deslisava a leste. 

Pelas duas horas entrámos n'este, e proseguindo por 
meio de terras areosas esse dia e o seguinte, viemos 
alfim ás margens do rio Luatuta, depois de nos atolar- 
mos um cento de vezes nos riachos, mollolas e várzeas 
alagadas que cobrem aquella região, e havermos per- 
dido um rapaz que transportava os encerados, facto 
que breve nos ia pôr as cargas á mercê das chuvas. 

Aqui esperavam-nos iguaes difficuldades, e se ao 
apartarmo-nos do Cuatir tínhamos soltado um sus- 
piro de allivio, ao avistar o Luatuta proferimos tre- 
menda imprecação! 

Feito á imagem e similhança do antecedente, de que 
é tributário, o Luatuta corre n'um valle, que em outras 
circumstancias poderíamos descrever ao leitor como 
risonho; largo, coberto de gramineas, mas marginado 
por uma facha lodosa de 1 milha, em que nos atas- 
cámos até á cintura. 

O lodo silicioso, avermelhado superiormente pelos 
depósitos da limonite, desloca-se ao menor impulso, e, 
cedendo ao mais pequeno peso, como que absorve o 
que n'elle se encrava! Sob as indicações dos indigenas 
conseguimos alfim transpol-o, não sem haver um a 
um atolado todos os bois! 

Depois, nas libatas miseráveis do meio do rio, diziam 
não haver nada para comer! 

Imagine-se um bando de homens oppressos pelo ca- 
lor, abatidos pelo cansaço, gemendo semanas e mezes 
sob a carga de 60 libras; famintos, vendo nos compa- 



294 De Angola â contra-costa 

nheiros desanimados a prova da gravidade dos factos 
que os assediavam, e nas misérias que os perseguiam 
uma como fatal sentença de morte; colloquem-se aqui 
em planura ardente onde a sede os devora, alem n'um 
lameiro difficil onde cada passo é objecto de lucta, 
obriguem-os a percorrer d'este modo a distancia de 
15 milhas, e digam-nos com que coragem, depois de 
tudo isto, havíamos de obrigal-os a arrastar duas dú- 
zias de bois immersos no lodo?! 

António, que fora em missão á aldeia próxima, vol- 
tou pelas seis horas com os saccos vasios e a consola- 
dora noticia de que o dono da libata não era ho- 
mem, mas sim uma mulher de provecta idade! 

Acrescentou ainda que no dia seguinte recebería- 
mos a sua visita, pois a nobre senhora, nada tendo 
que nos desse, nem mesmo vendesse, estava na me- 
lhor disposição de tudo acceitar! 

A caravana tornára-se agora n'um bando de saltea- 
dores, e pela noite, abalando pelo escuro, lá foram 
n'uma razzia roubar quanto encontrassem, sem que 
nós tivéssemos a coragem de os impedir. 

Logo ao alvorecer recebemos a visita annunciada; 
eis em breves palavras o quadro que d'ella se encontra 
em nosso diário: 

Socegaclos á porta das cubatas, aguardávamos o 
regresso dos nossos, quando deu entrada no acam- 
pamento uma velha esguia, rugosa e sórdida, seguida 
de outra creatura cujo sexo não podemos determinar, 
tão anguloso, reintrante, antigeometrico e pouco com- 
mum era o seu contorno, de três cavalheiros hedion- 
dos e desdentados, e de uma entidade, verdadeira tou- 



A caminho do Zambeze 295 

peirà humana, pelo feitio e pequenez dos olhos impos- 
síveis de aperceber. 

Que casal escaparia da arca, para originar este ga- 
lante grupo/ pensámos, mirando os recemvindos, e so- 
bretudo os cabellos da velha, que, escorrendo gordura 
e enfeitados com cânulas de porco espinho, lhe davam 
o aspecto de um ouriço; emquanto no pescoço emma- 
grecido um formidável kisto sebaceo, aneurisma ou o 
que fosse, se movia á mercê do musculo mais próximo, 
atropellando um collar de contas e chifres de antílope, 
e os seios, estirados na direcção dos graves, oscillavam 
pendentes e graciosos em busca da normal! 

— São ba-qua-tir, disse António íleugmaticamente, 
e miseráveis como não ha outros. 

A repellente velha, approximando-se de nós, acoco- 
rou-se . 

Um trapo immundo, como defeza do casto pudor 
d'esta diva, caía por diante ate aos nodosos joelhos, 
que, cansados de supportar (ao que parecia) tanta sor- 
didez, estavam dispostos a fugir de entre femurs e 
tibias! 

Encetada a invariável pasmaceira, conservámo-nos 
em exhibição, ate que demasiadamente enfastiados ex- 
clamámos. 

— Mas a final que veiu isto cá fazer? 

— Nem mais nem menos, retorquiu o interprete, do 
que ver os brancos, receber d'elles um brinde e apre- 
sentar um guia (apontando para o toupeira), ao passo 
que aquelle senhor vem propor certo negocio, termi- 
nou elle, indicando um dos velhos desdentados, que 
tinha na mão uma imllinha. 



296 De Angola á contra-costa 

Trazer-nos o toupeira para guia, um individuo sem 
olhos ou pelo menos com elles invisíveis, era um cu- 
mulo, era a mais atrevida das zombarias! 

— E de comer? tornámos. 

— Nem nada, respondeu elle ainda. 

— Esta terra não tem bois, nem porcos, nem milho, 
nem mandioca, nem. . . cousa alguma, acrescentou a 
illustre dama; e á medida que isto dizia, cruzava os 
braços sobre o peito, batendo palmadas nos hombros, 
perante as nossas pessoas perplexas! 

— E ella o que faz, perguntámos espantados; como 
vive ? 

— E viuva, responde zombeteiramente o interprete! 

— Não e isso que se deseja saber, dissemos; o que 
come para subsistir, é a pergunta. 

— Ah! raizes, additou elle com ar mysterioso! 

Enviuvara, aborrecia os homens, gostava do fogo, 
tendo por alimento raizes; taes eram as qualidades e 
affeições d'esta triste creatura, segundo as informa- 
ções obtidas. 

E quando, ao olhar attentos para tão infeliz arre- 
medo da humana espécie, começámos a reflectir fran- 
camente, sentimo-nos amesquinhados e rebatidos ao 
nivel da animalidade. 

A final era um ente da nossa espécie, uma creatura 
similhante a nós, cujos dotes physieos nos podiam ter 
pertencido, se acaso a natureza se houvesse lembrado 
de atirar para a Africa, em vez de pôr na Europa, 
os nossos respeitáveis progenitores! 

Dêmos graças á Providencia, leitor, porque a posse 
de um tal envolucro em vida, seria para o espirito edu- 



A caminho do Zambeze 



297 



cado ou a imposição do suicídio, ou a fatalidade de 
uma reclusão perpetua! 

E para desopilar-uos d'esta deprimente obsessão 
mental, houvemos por melhor apenas pensar na velha 
Europa, e buscando aquellas cujos fins eram na terra 
os mesmos, aprouve-nos trazel-as dos poios oppostos, 
e juxtapol-as em nossa escaldada imaginação. 




r\r.%\ r,' ..:,.T v ;aV>> 



Era uma cVessas jovens graciosas e bellas, cujos 
olhos coruscantes zombam da castidade, ao passo que 
o alabastrino collo, de louras madeixas inundado, Ra- 
phael e Angelo, pincel e cinzéis jamais reproduziram; 
boca que diz enigmas, formas que recordam myste- 



298 De Angola á contra-costa 

rios e accendem febricitantes arripios; pé ligeiro como 
a fímbria que o encobre, mais de geito para aéreo 
caminho, cie que para pisar a terrena superfície: mu- 
lher magica, scentelha divinal, que só ousaria approxi- 
mar-se de nós para nos tocar no espirito com o rocio 
dos céus, e que nós mentalmente púnhamos em con- 
fronto com o vulto tétrico da nossa interlocutora! Com- 
parae! 

Gloria in excelsis, et in terram pax hominibus! O 
que nós tínhamos era fome! 

E a final acrescentámos: 

— O que deseja aquelle senhor que traz a galliuha? 

— Este cavalheiro quer fazer negocio, retorquiu o 
interprete, pois é caçador, e deseja possuir um pol- 
vorinho. 

— Não temos polvorinhos jmra vender, foi a res- 
posta; e íamos a levantar a sessão, quando o velho, 
adiantando-se, insistiu : 

— E falso, têem aqui muitos! 

— Aonde? volvemos nós. 

— Ali, disse elle, apontando para as cabeças dos 
bois. 

— E então? 

— E então, arranquem o chifre de um boi, que eu 
dou por elle esta gallinha! 

Parallelamente ao Luatuta, e a 12 milhas de distan- 
cia, corre o rio Lunga, o mais importante afiluente do 
Cuito, cujo curso veloz desliza por entre terrenos al- 
cantilados e inttorescos, a que não faltam todavia as 
margens pantanosas, e para onde nos dirigimos logo 
ao alvorecer. 



A caminho do Zambeze 299 

Mal o dia assomara, e o radiante sol, erguendo-se, 
dourava os encimados ramos da floresta, que resoou 
aos nossos ouvidos, despertando-nos, o grito: ((Fugi- 
ram mais dois homens! Urge diminuir as cargas». 

Queimando meio quartel de uma das canoas, e lan- 
çando ao rio um cunliete inteiro de Snider, assim nos 
fomos alliviando, e pela tarde ao acampar junto do 
Longa, retumbou de novo a exclamação: «Mais um 
homem fugiu em viagem!» 

Era estupendo como em plena Africa central, tão 
longe de sua terra, estes miseráveis abandonavam o 
campo, e, impellidos pela fome, iam buscar talvez a 
escravidão entre estranhos. 

A terra é agora deserta, e uma libata encontrada 
d'alem á beira rio, fora sem duvida, pela desordem em 
que estava, assaltada pelos man-bunda, em alguma 
das suas guerras. 

Faltam-nos informações acerca dos seus habitantes, 
porque andámos sós, mas é de crer que sejam muito 
similhantes aos do Luatuta, gente misera, só compa- 
rável ao estéril e arenoso torrão onde vivem, cujas se- 
menteiras apenas se fazem nos limos do rio. 

Pouco ha a dizer da natureza geológica do terreno, 
podendo apenas affirmar-se que a superfície é coberta 
de areia, e o subsolo constituido por grés silicioso que 
naturalmente a origina. 

Vamos caminhando n'uma altitude tal, que é inte- 
ressante notar as variantes da vegetação. Assim, na 
linha divisória do Cubango-Cuito, apenas deixámos a 
bacia do primeiro, vimos as verdejantes mupandas, 
que tanto alegram a vista, desapparecendo estas logo 



300 De Angola á contra-costa 

que se fez a descida para a segunda, ficando em seu 
logar os tortuosos n'jangos e mucaratis. 

Seguindo pelas terras areosas e desertas que nos 
defrontavam, ora em inatas lavradas pelas ultimas 
queimas, ora em planícies nuas e despidas, levando 
o coração denegrido como ellas, lá fomos sobresalta- 
dos, ora pela fome, ora pelo receio das deserções. 

Era uma nevrose, uma verdadeira loucura a idéa 
de fugir, e ajDenas qualquer se lembrava de tal, logo 
dois e três o imitavam, não se recordando que por estas 
matas, sem norte nem bússola, nenhum d'elles, como 
nós, saberia aonde dirigir-se, e succumbiria forçosa- 
mente á sua audácia. 

Depois, muito ao contrario do que ao diante succe- 
deu nas florestas do Luapula, olhavam-nos como igno- 
rantes, homens desaffeitos ao mato, não acreditando 
que íamos de rumo para o Liambae, onde lhes asse- 
gurávamos que se encontraria mantimento, e só con- 
vencidos de que os impelliamos a uma perda certa. 

A caça encontrada nos campos é pouca, sendo notá- 
vel também a ausência de caça do ar, talvez devida á 
falta de arimos, ou a outra circumstancia por nós des- 
conhecida. 

Ao fundo de uma encosta acampámos ao anoitecer 
na margem do M'palina, afíluente do Cuito. 

Ao longre viam-se as cubatas de uma antiga aldeia 
agora deserta, e emquanto abatidos considerávamos a 
nossa misera situação, a braços com a fome desde o 
Cubango, á luz das fogueiras esfolava-se um boi, que 
mandáramos matar para distribuir pelos estômagos o 
conveniente consolo, desannuviando sombrios rostos. 



A caminho do Zambeze 301 

Durante a noite estalaram permanentemente os os- 
sos sob o pesado ferro cios machados, emquanto a com- 
passo as maxillas rangiam, triturando nervosas os en- 
durecidos músculos. 

O aspecto do acampamento, a ferocidade dos rostos, 
a anciã na ingestão e a magreza dos extenuados corpos 
faziam lembrar ao observador uma scena de campo 
cannibalesco, onde ávido e suspeitoso o homem devo- 
rasse o seu similhante! 

Nós mesmo não podiamos eximir-nos a um precipi- 
tado agarrar do alimento que nos apresentavam, e ao 
ver exsudando sangue a carne assada nas brazas, que 
o cozinheiro nos enviava, sentíamos vontade de nos 
arrojarmos a ella, devorando-a por inteiro. 

E se ao acaso pensávamos no longo trajecto que já 
ia feito, no meio da estranha escassez de recursos, e 
considerávamos que os bois tinham sido a nossa sal- 
vação, sem os quaes já haveriamos todos perecido 
miseravelmente, não podiamos deixar de pensar que 
ao comprál-os na costa, a Providencia velava por nós. 

Assim caminhando fomos ao longo do rio, ora em 
várzeas, ora pelas matas que o orlam de espaço a 
espaço, sobresaltados com o apparecimento de habi- 
tações, que depois se reconheciam desertas, até que 
pelas onze horas suspendemos. 

Achavamo-nos á sombra de uma arvore, descan- 
sando das fadigas da marcha, e fazendo planos com 
relação ao nosso destino e ao caminho a seguir, em- 
quanto os bois pastavam tranquillos, esse recurso que 
dia a dia minguava, quando de repente fomos sur- 
prehendidos pelos acenos de muitos dos nossos. 



302 De Angola á contra-costa 

Convictos de que alguma cousa importante succedè- 
ra, ergueino-nos, deparando logo com dois indivíduos, 
que pela sua nudez e complicada cabelleira differiam 
da gente que nos acompanhava. 

Eram man-bunda, caçadores de ratos, de cujos ani- 
maes traziam uma enfiada de trinta e tantos. 

Informados por elles de que próximo havia libatas 
e arimos, resolvemos acampar ali, e comprando-lhes 
os ratos, que os nossos miravam sofrregos, enviámos 
os dois man-bunda ao regulo, com o convite de nos 
visitar e trazer mantimentos. 

Até ao cair da noite conseguimos alcançar trinta 
espigas de milho e quarenta raizes de mandioca, arti- 
gos que só reproduzindo a scena milagrosa da multi- 
plicação, operada pelo Redemptor, poderiam ajjrovei- 
tar á caravana. 

No emtanto, ratos a uns, milho e mandioca a outros, 
lá se conseguiu um relativo contentamento, adorme- 
cendo todos confiados na fartura do dia seguinte. 

O typo negro d'aqui é sympathico, intelligente e 
bem apessoado. 

Apresentamos ao leitor um specimen, o qual, me- 
lhor que descripções, lhe dará idéa d'elles. 

Mupei, o chefe de cozinha, que na costa, obtida a 
necessária licença, se enlaçara matrimonialmente com 
uma das graciosas beldades vindas de Novo Redondo, 
andava agora desgostoso, por modo que esquecia ás 
vezes o exercicio do mester, com grave prejuizo dos 
nossos estornados. Pela noite fizera grande barulho, 
dando-nos parte das suas suspeitas. A esposa, contra 
toda a espectativa, havendo adormecido a seu lado, 



A caminho do Zambeze 303 

acordara pela manhã nos braços de um outro, pheno- 
meno estranho para que elle no primeiro momento 
não pôde achar explicação acceitavel! Mais tarde, 
após prolongada meditação, traduziu-se-lhe o sofírer 
em grave explosão de despeito, a que se succederam 
cruéis ameaças de matar a culpada! 

Com grande espanto nosso, porém, dez horas bas- 
taram para tudo harmonisar; pela tarde, junto do 
fogo, os dois conversavam tranquillainente ! 

O amor é como esse fabuloso pássaro, de cujo nome 
tantas companhias de seguro se têem apropriado; ape- 
nas reduzido a cinzas, renasce bello como d'antes! 

Supérfluo será aqui acrescentar que todo o dia se- 
guinte se esperou em vão por mantimentos, e que de- 
pois da visita de Muene Guando, havendo comprado 
tanto como na véspera, partimos apenas com dois com- 
panheiros para indicarem a trilhada. 

Vamos no prolongamento do rio M'palina, procu- 
rando entre as chatas campinas o caminho a seguir, e 
sendo em cada libata objecto da indígena curiosidade. 

Os man-b uncla são assas curiosos e ingénuos. Ulti- 
mamente, pela tarde e nas horas do ócio, temos des- 
pendido o nosso tempo em notar os seus actos e as 
suas conversas, como distracção ás fadigas do dia. 

Assim, hontem, 5 de agosto, chegámos ao acampa- 
mento de Muene Cuando antes do meio dia, esbafo- 
ridos e correndo suor. Despindo-nos quasi totalmente, 
pozemos o instrumento em estação, e tomando uma 
altura meridiana, sentámo-nos á porta da cubata, a 
hm de termos o scientiíico lenitivo de determinar o 
parallelo em que estávamos. 



304 De Angola á contra-costa 

Perante nós agachavam-se em grupo umas velhas 
damas, a quem um cavalheiro acocorado explicava 
todos os nossos actos. 

Um dos casos que mais as interessava, conforme 
parece, consistia em saber se o nosso corpo era branco 
como a cara, e sendo impossível resolver-se isto sem 
conveniente exhibição, o mesmo sujeito pediu-nos por 
acenos que puxássemos a camisa, a fim de convencer 
aquellas senhoras do que debalde lhes afiançava. 

Feito isto, deixámos um quadril a descoberto, facto 
que causou verdadeiro assombro, se não receio pouco 
lisonjeiro para o exemplar. 

Não se restringiu ainda assim a curiosidade femi- 
nil, e arengando com o interlocutor, pretendiam, ao 
que suppômos, saber mais alguma cousa! 

Inquirindo-o, pois, disse-nos que ellas desejavam 
saber a rasâo de sermos brancos; respondendo-lhe o 
cavalheiro, muito atiladamente, «porque não éramos 
pretos», argumento que, por inacceitavel, foi exposto 
da seguinte estranha maneira, para se tornar mais 
comprehensivel. 

«Os homens são brancos por fora, porque são pretos 
por dentro ». E, não sendo fácil verificar esta circum- 
stancia, ficou tudo exjjlicado a contento! 

Os guias que Muene Cuando nos forneceu levavam- 
nos a caminho, sempre com pouco de comer, deixan- 
do-nos convencidos de que, apesar das informações dos 
naturaes, só encontraríamos mantimento no Zambeze. 

Já não baixa o thermometro a zero, consentindo 
que comecemos cedo as jornadas, as quaes d'este modo 
se ampliam sensivelmente. 



A caminho do Zambeze 



305 



O emprego dos bois-cavallos é o mais precioso re- 
curso que se conhece no mato, sendo difficilimo de 
outra forma poder resistir ás nossas marchas força- 
das, as quaes ainda assim, feitas n'estas circumstan- 
cias relativamente favoráveis, fatigam muito, pois só 
do Cunene até aqui andámos cerca de 500 milhas. 




HABITAÇÕES DO CUITO 
Segundo um croquis 



Pela manhã, e depois de nos habituarmos ao choito 
especial do boi e ao movimento da pelle que faz com 
que o apparelho role com o cavalleiro, lembrando os 
balanços de um navio em mar suavemente ondulado, 
este género de transporte tem o seu tanto de agradá- 
vel. 



306 De Angola á contra-costa 

O viajante, depois de singela refeição. bifurca-se, e 
dissipados os tétricos pensamentos da noite, lá vae, 
rociado pela aura matutina, poupando forças que a 
marcha a pé rápido gastaria. 

Esta disposição de espirito nas i)rimeiras horas é 
recurso precioso para o resto do dia, evitando mais 
tarde, pelo calor e pela fadiga, a despropositada ten- 
dência para o humorismo. 

Muitas vezes considerámos n'isto, e frequentemente 
nos convencemos de que, se de principio tivéssemos 
caminhado a pé, marcaríamos hoje com a ossada al- 
guma clareira no mato, não tendo a alegria de chegar 
a Moçambique. 

Os males moraes são taes e tantos que bem deve- 
mos a salvação a um cuidadoso poupar de forças, que 
contrabalançou em grande parte os sonrhnentos do 
espirito. 

E mais tarde, quando, sob as picadas da mosca, nos 
caíram todos os bois, então em marcha sob o açoite 
das chuvas a amarga experiência bem nol-o eviden- 
ciou. 

A terra onde corre o M'palina é por tal maneira j3la- 
na, que por toda a parte de manhã se observavam ex- 
traordinários phenomenos de miragem. Foi aqui que 
pela primeira vez encontrámos um animal, que Antó- 
nio designava por gallengtie, nome na costa applicado 
ao Oryx gazdla, e que assimilhando-se ao gnú, não é 
propriamente este, segundo parece, pela differente dis- 
posição das defensas. 

A sua longa cauda de cavallo, a juba felpuda e a cor 
escura, dão-lhe um aspecto nobre entre os outros ani- 



A caminho do Zambeze 307 

mães, sendo notável que, como o Oryx, quando aper- 
tado pelos cães, não foge; ao contrario, pára a fim de 
investir com elles, dando ao caçador tempo de se' ap- 
proximar. 

Aqui matámos um, do qual damos o desenlio ao 
leitor. Mais adiante, depois de uma marcha de 18 mi- 
lhas, transpozemos o Cuito. 

Rio formidável e caudaloso, diz o nosso diário. 

De mais de 100 metros de largo em muitos pontos, 
serpeia a ampla facha de agua em leito extremamente 
sinuoso, deixando derivar muitos braços, que, aqui 
saindo e alem entrando, lhe semeiam o curso de ilhas, 
não cedendo na apparencia ao Cubango. 

Uma várzea de 2 a 3 milhas consente o voltear des- 
embaraçado, sendo que pela margem direita o terre- 
no mais alto se approxima do leito, permittindo ao 
viajante em caminho pela beira gosar de pontos de 
vista pittorescos. 

O Cuito é navegável em grande extensão. Eis quanto 
cVelle disse Muene Mussongo, soba do sul, e que em 
sua canoa viera para nos ver. 

O rio é largo e sem embaraços até ao Cubango, 
onde entra n'um sitio chamado Cangungo, formando 
com este uma grande lagoa denominada Mamo com 
uma ilha arborisada a meio, terra em que está a li- 
bata do sobaMabanja, chefe do Bucusso. 

D'ahi deslisam os dois na direcção sueste, deixando 
para o sul derivar parte da sua agua, por grandes mo- 
lollas, seguindo depois em voltas caprichosas através 
de planicies cobertas de Avundo, até que por fim lan- 
çam as aguas restantes no Chobe. 



308 De Angola â contra-costa 

A jusante cie Cangungo, cerca de 15 a 20 milhas, 
deriva um primeiro lençol de agua, a mololla Chindon- 
ga (Omaramba Ondonga), que cortando para o oeste 
vae direita ao Cuanhama, e devia ser, quando aprovei- 
tada, um óptimo caminho para ligar esses dois pontos. 

Mais abaixo fica o Dirico, e adiante uma cachoeira 
que quasi se cobre na força da chuva. 

Os habitadores são os ba-n'dirico e os cangungo 
próximo da lagoa, povos que entretêem relações com- 
merciaes com a Caíima e o Vale, assim como frequen- 
tes vezes com o Bié e os bin-bundo, que em viagem 
com os portuguezes para os ba-vico por lá transitam. 

O Guangar está da banda de lá e próximo do Di- 
rico; a terra, emíim é plana e alagada, conforme nos 
disse Muene Mussongo. 

Para alem do Dirico ficam, como é sabido, os ba-vico, 
cuja capital é Libebe, paiz que pelo meio dia defronta 
com as tribus ma-tzanhama, que por sua parte confi- 
nam com os ba-yeye, povoadores da mololla Teoge 
e outras. O aspecto d'estas terras, d'aqui para o sul, 
é* sempre monótono. Extensas planuras se alongam a 
perder de vista, cobertas de gramíneas, semeadas aqui 
e alem de manchas escuras de mais densa vegetação. 
Entre os ba-yeye avultam Hyphcenes elegantes para 
cortar a monotonia da paizagem. Todos os viajantes 
dão noticia de zonas alagadas, o que, como já disse- 
mos, tem concorrido para tornar difficil discriminar o 
leito do Cubango e a complicada distribuição de suas 
aguas. 

O que todavia nos parece (repetimos ainda) comple- 
tamente assente, é que as mais distantes cabeceiras 



A caminho do Zambeze 309 

do Zambeze estão no planalto do Bié, junto aos morros 
Manso e Chinbango, d'onde originalmente deriva o 
Cubango, cujo curso imponente drena toda a depressão 
central que do Cunene vae ao Barótze. 

O mesmo systema do Cuerrai nos parece ligar-se a 
elle pela grande mololla Chindonga, notando-se como 
também dissemos a particularidade de estar a lagoa 
Etocha para o curso d'esta, como o N'gami para o Cu- 
bango, ambos reservatórios que recolhem aguas super- 
abundantes. 

Assim o colosso que a Quelimane vae desaguar, tri- 
buta ao Indico aguas originarias do Bié e de Babisa, 
n'uma distancia media de 1:500 milhas geographicas. 



CAPITULO XI 



ACERCA DO NEGRO 



De todos os factos enumerados, vê-se que a es- 
tructura do negro approxima-se inequivocamente 
d'aquella do macaco. Não differe simplesmente do 
t}>-po caucasico, mas distingue-se d^lle em dois res- 
peitos: reducção de caracteres intellectuaes e fá- 
cies animal ampliado em exagero. 

Lawrexce, Ethiopian Variety. 



O indígena africano — Similhança de caracteres, difficnldade em dis- 
criminar typos e famílias de origem commum — Traços caracteriscos 
do negro — Aspecto geral — Indicações scientificas sobre a conformação 
craneana — O europeu e o ethiope encarado pelo lado esthetico — Os ha- 
mitas e a pliilanthropia — Uniformidade de ser, sob o ponto de vista 
intellectual— Feitiços — O Otjiruro, os Sanais e o Zamhi — Supersti- 
ções e o terror pelos mortos — Difficil comprehensão — Dados cosmogo- 
nicos indigenas — O sentimento moral e as lendas — Difficuldades de estu- 
do — A lingua e os costumes — Traços approximativos de tribus distantes 
— Dámaras, ban-cmnbi, ba-qua-tir, ba-yeye, ban-dirico, etc. — Enterra- 
mento dos defuntos e pratica da cireumcisão — Ba-yeye, namácuas e ba- 
coróca, suas habitações — Os ba-vico os ba-visa e os clicks — Tendência 
nómada — Os ba-qua-naiba e a Cafima — A emigração e a influencia do 
pântano — -Os ma-tcliona e os dámaras — Tribus que originaram — Os ba- 
nbaneca e os ban-cumbi exceptuados — Os dámaras e ainda uma tenta- 
tiva para atinar com a sua proveniência — Opinião de Anderson — A ar- 
vore progenitora — Conclusão. 




No intuito de variar a 
monótona narrativa da 
nossa marcha por entre 
lameiros e pântanos, lu- 
ctando com fomes e se- 
des, façamos uma pausa 
por momentos, a fim de 
distrahir o leitor com 
algumas considerações 
^eraes sobre o indígena 
africano e particularmente o da zona por nós percor- 
rida. 

Não é por certo assumpto fácil, mas quando traça 
as grandes linhas geographicas do continente, esbo- 
çando os seus traços physicos, deve o viajante por 
vezes tentar reunir o que viu acerca dos respecti- 
vos habitantes. 



NATURAL DA DONGA 
Tirado de um croquis 



314 De Angola á contra-costa 

Collecti vãmente os negros, talvez sujeitos a um cli- 
ma pouco variável, apresentam uma tal uniformidade 
de caracteres physicos e mentaes, mostram-se tão con- 
stantes em seu modo de ser e operar, têem norma de 
vida tão primitiva e organisação de sociedade tão sin- 
gela e geral, que clifficil mente, quando dispersos por 
tribus distantes, se acha o fio originário que entreliga 
membros da mesma família. 

Porque, a final, quaes são os traços que distinguem 
o negro? 

Todos têem a pelle preta, excepto nas palmas das 
mãos e sola dos pés, onde o pigmento foi naturalmente 
removido pela prolongada fricção; assim como toda 
ella é mais ou menos fina, afora os logares menciona- 
dos, vendo-se por isso, em geral, o africano, pegar no 
carvão em brasa e depol-o no cachimbo sem a menor 
impressão! 

O negro typico tem sempre basta carapinha, espessa 
como a lã, e raras vezes barba ou bigode. 

A sua estatura é mediana, angular, mais grosseira 
que a do branco. O craneo fortemente ligado, depri- 
mida a fronte, proeminente o occiput, bem como as 
queixadas e arcadas zygomaticas, adiantando-se-lhe, 
do mesmo modo que nos quadrúpedes glutões, a boca, 
guarnecida de largos e grossos lábios. 

O nariz é achatado, estreito o pescoço, ao passo 
que a columna vertebral extremamente curva para a 
frente, logo acima da bacia, parecendo tal conforma- 
ção prestar-se mais á marcha sobre quatro pés! 

Os membros locomotores afastam-se do parallelis- 
mo, curvando-se externamente, as rotulas são proemi- 



Acerca cio negro 315 

nentes, os calcanhares excedem a linha vertical do 
tendão de Achilles, as mãos, quando caídas ao longo 
do corpo, tocam quasi nos joelhos. 

Mais scientiíicamente acrescentaremos: 

A capacidade do craneo acha-se reduzida quando 
comparada com a do europeu, sobretudo na região 
anterior. 

A face, porém, avulta. 

O osso frontal e os parietaes são curtos e menos 
escavados, tendo aqnelle menos capacidade que estes. 

A frente do craneo acha-se comprimida e elevada 
n'uma como que nervura entre os poderosos músculos 
temporaes. que nascem próximo da parte mais elevada 
da cabeça, avultando assim, em consequência da gros- 
sura dos mesmos músculos. 

A substancia óssea é* mais resistente e densa, os 
rochedos extremamente grossos, o peso do craneo 
considerável. 

O foramen magnum é maior, collocado muito atrâz, 
e maiores são também todas as outras aberturas para 
a passagem dos nervos. 

Tanto o apparelho ósseo da mastigação com as 
cavidades-receptaculos para os órgãos dos sentidos, 
dentes, etc, são grandes, sólidos, e mais poderosa- 
mente construídos no negro, mais aptos a satisfazerem 
as exigências animaes do que nas raças civilisadas, 
onde certas funcções se attenuam pelo extensivo uso 
da rasão e da experiência. 

A fossa temporal é grande, o seu limite pela parte 
superior está collocado mais alto no craneo do negro 
do que no do europeu. 



316 De Angola â contra-costa 

As orbitas e zygomas são enormes, bem como as 
narinas, ampla a cavidade nazal e os cornetos do 
ethmoide, mais extensa a lamina cribiforme. 

maxillar superior prolonga-se notavelmente em 
frente, e a porção alveolar vê-se obliqua como no ma- 
caco. 

A espinha nazal é reduzida, a abobada palatina lon- 
ga e mais elliptica, o queixo, em logar de vir á verti- 
cal dos dentes, recolhe de modo sensivel. 

O angulo facial é em media de 65°, a distancia 
da base das narinas á parte proeminente do occiput 
exagerada, o perfil de um prognatismo frisante. 

Comparado com as formas, proporções e cores, que 
todos admiramos nas bellas figuras da Grécia, o la- 
nudo cabello, o achatado nariz, os grossos beiços, a 
deprimida fronte, as maxillas avançadas, a pelle tis- 
nada, e o rude vulto do negro, fazem um contraste 
esrtanho ! 

Não acrescentaremos a estes caracteres physicos 
externos outros especiaes que a sciencia se tem encar- 
regado de estudar na comparação da raça negra com 
a aryana, taes como differenças de pigmento, de bilis, 
de manchas escuras da pia-mater, porque não é nosso 
intuito aqui expor essa comparação, nem discutir se 
nos excedem ou são inferiores, deixando em completo 
socego a philanthropia meticulosa, que facilmente se 
consideraria insultada com o aventar de similhante tes- 
temunho. 

Debaixo do ponto de vista intellectual, também cus- 
ta a diíferençal-os (referimo-nos sempre aos negros do 
sertão). 



Acerca do negro 317 

Em matéria de religião, por exemplo, ainda forma- 
mos o mesmo juizo que emittimos ao escrever o nosso 
primeiro livro sobre Africa, isto é, que o negro não a 
professa ou tem a do feitiço, que é completa negativa 
d'ella, em que todos procedem por igual forma, com 
idênticos preceitos, tornando-se difficil distinguil-os. 

Assim o dámara tem o Otjiruro, o mu-nhaneca os 
Sanais, como os quiocos o Zambi, e os niam-niam l 
o muquisso, sendo para elles o feitiço uma idea tétrica, 
aterradora, com influencia nefasta, que elles tratam 
de conjurar por todos os modos possiveis. 

O bieno diz : é feitiçaria, pregou-lhe um jinvungi, o 
que quer exprimir: pol-o sob a acção do feitiço, de que 
tem de se livrar por qualquer medicina, se não quizer 
ser victima. 

O mu-nhaneca exclama : olha não se apeguem os San- 
ais comtigo, querendo significar que jDara tãò grande 
mal faltará remédio. E se lhes perguntardes: mas o 
que é isto que tanto mal me faz? Elles apenas attri- 
buirão ao terror inspirado pelo possivel apparecimento 
do morto! 

Nem mesmo é uma transmigração á guisa de me- 
tempsicose, porque, quando os gritos da hyena lhe 
suggerem a idéa de qualquer que desapjDareceu, não 
é o espirito que imaginam incubado no corpo do ani- 
mal, porquanto carecem de similhante noção, mas sim 
o homem transformado em hyena, com o mesmo cor- 
po, os mesmos olhos, somente coberto de pellos e com 
quatro patas! 



Niam-niam ou melhor Xham-nhamos. 



318 De Angola á contra-costa 

A coHiprekensão de tudo que os cerca é difficil, se 
não errónea e impossível, nivelada pela mesma forma 
em quasi todas as tribus. 

Assim vereis o indígena africano facilmente suppor, 
como muitos acreditam, que o sol nascente differe do 
visto no dia anterior, do que explicar na rotação com- 
pleta o reapparecimento do mesmo astro! 

Verdade é que ás vezes os seus argumentos têem a 
força de deixar boquiaberto o viajante. 

Assim um dia, assentados á porta de nossa tenda, 
satisfeitos por ter achado um preto esperto, a quem 
íamos arrancar noções de cosmogonia, perguntámos- 
llie, apontando para a abobada celeste, o que é o céu? 
inquirição em verdade estranha a que muito camponez 
na Europa deixaria de responder, elle disse: «O céu 
é de pedra, ou melhor, uma serra enorme que está por 
cima das nossas cabeças!» E como lhe obtemperásse- 
mos, tomando uma pedra do chão, que nos não pare- 
cia o céu ter pontos de contacto com aquillo, pois lhe 
bastava a cor, replicou: «E boa; vê-se azul porque 
está longe, assim como as serranias quando vistas a 
distancia ! » 

O sentimento moral, a consciência do bem e do 
mal, embryonarios, também diversificam tão pouco 
entre todas as tribus, que é difficil por essa circum- 
stancia encontrar fácies por onde possa operar-se a 
menor discriminação. 

Emfim, as lendas, tornam-se tão confusas, que mal 
se pode aproveitar indicios d'ellas, e sobretudo encon- 
trar tribus que, embora da mesma origem, conseguis- 
sem conserval-as immaculadas. 



Acerca do negro 319 

Passando de uns a outros povos, alteradas pela fa- 
culdade mais ou menos imaginativa do narrador, que 
as adapta muito naturalmente ás circumstaneias de lo- 
gar e impressão de momento, exaltadas na boca dos 
homens por tendências arrogantes, pervertidas nos 
contos da mãe ao filho pelo sentimento do medo, mu- 
dam de geração em geração e perdem-se phantasistas 
de tribu em trilm. 

De que lançar mão, pois, para fazer um estudo su- 
perficialmente ethnograpliico dos povos por onde se 
decorre? Da lingua e de alguns usos e costumes mais 
ou menos tradicionaes, espalhados entre elles, é a res- 
posta. Acontece porém que ao explorador é senrpre 
dimcil assenhorear-se da primeira, pelo pouco espaço 
de tempo de que dispõe, e do seu desconhecimento 
vem o embaraço de poder aproveitar-se das deseri- 
pções sobre o modo de proceder do indigena, ficando 
assim á mercê de interpretes, que tudo confundem e 
alteram. 

Xáo deve admirar, pois, que todo o trabalho n'esse 
sentido e feito por homens que rapidamente atravessa- 
ram as tribus de que pretendem tratar, seja deficiente 
e incapaz de satisfazer á natural exigência de quem 
deseja informar-se. 

Desde a costa occidental até á bacia do Cuito per- 
corremos varias zonas povoadas de negraria, onde. 
pelo menos sob o ponto de vista dos caracteres phy- 
sicos, notámos algumas dirferenças, que exultaríamos 
em poder apresentar ao leitor. 

Ao baralharmo-nos, porém, agora entre as notas 
multiplicadas do diário, vemo-nos por tal modo con- 



320 De Angola á contra-costa 

fusos, achámos entre ellas tão estranhas indicações, 
que se torna quasi impôs sivel delimitar tribus e expor 
casualmente a sua proveniência. 

Assim o coroca, para exemplificar, parece-se com 
esses aborígenes do sul do Cáoco, hill-dámaras cha- 
mados, e mais longe com os ba-qua-tir. 

As mulheres dámara, ban-cumbi, ban-dirico e ba- 
yeye ou ba-cóca vestem do mesmo modo a pelle de 
boi, enfeitando-se com missanga, emquanto as do 
Ovampo empregam, como as doValle, uma espécie de 
cutuba, ou melhor uma pelle cortada em triangulo, 
ageitando-a posteriormente { . 

Os bana-cutuba, os ba-tchuana os dámaras e a 
gente do Cuangar enterram os mortos pela mesma 
maneira, quebrando-lhes a columna vertebral, e envol- 
vendo-os n'uma pelle para os collocarem com a cara 
para o norte, ao passo que os ba-qua-róca e ba-ximba 
os deixam insepultos ou marcam o logar em que os 
abandonaram com circulos de penedos. 

Os bana-cutuba, os ba-qua-róca, os dámara, e sup- 
pomos que os habitadores do sul do Cubango, circum- 
cisam-se á feição dos ban-galla de Cassange, jaggas, 
etc, emquanto que os lupollo, ba-nhaneca chamados, 
os amboellas e outros do norte não o fazem. 

Os dámaras, os ovampos e os corocas tiram as san- 
dálias ao entrar na residência do europeu, emquanto 
que biénos e amboellas não os imitam; as suas dansas 
representam quasi sempre, em mimica, acções do boi, 



1 É notável esta espécie de cauda usada pelos qua-nhama e pelos 
nham-nhamos. 



Acerca do negro 



321 



da cabra e de outros animaes, ao passo que as d'estes 
têem logar em vastos circules, onde por cada vez sáe 
um figurante que se meneia isolado. 

Os ba-yeye, segundo a affirmativa de Anderson, 
construem habitações redondas como os namáqua. 




IXDIGENA RIBEIRINHO DO CUITO 
Tirado de um croquis 



Os ba-qua-róca e ban-dombe fazem-nas idênticas, á 
medida que os handas, caninas, ban-dirico, ba-qua-tir, 
as formam altas e cónicas. 

Os ba-vico, ao sul do ponto onde nos achámos, ves- 
tem, diz um escriptor, como os ba-visa de Moçambi- 
que, emquanto que o dialecto lu-yeye como o lu-erero, 
o dámara e o coroca parecem assimilhar-se ás linguas 
da mesma costa oriental, apesar dos elidis, que mos- 
tram intervenção hottentotica. 



_'j 



322 De Angola d contra-costa 

O mesmo dámara, inteiramente similhante ao mu- 
erero e ao mu-qua-róca, tem o typo dos ma-limansi, 
tribu da costa de leste. 

De tudo isto não vamos concluir que as tribus em 
questão se estendem n'uma facha de território atra- 
vez da Africa de uma a outra costa, nem acertar com 
a sua proveniência e especial distribuição; mas ver se 
dos pontos de contacto indicados se pode lançar algu- 
ma luz. 

Uma parte das tribus que povoam as planuras do 
sul teem decidida tendência para a vida nómada, de 
resto um tanto concomitante com a pastoril quando 
escasseiam os pastos, e grande facilidade em emigra- 
rem, ou porque as terras siliciosas, cansando rapida- 
mente, os obriguem a procurar novos campos para a 
semeadura, ou por outra qualquer rasão que desco- 
nhecemos. 

Assim, ao transpor o Quiteve, disseram-nos que 
existira ali em tempo (cincoenta ou setenta annos) o 
poderoso estado dos ba-qua-naiba, que de súbito des- 
apparecera l . 

A Handa era um deserto, que gente de proveniência 
desconhecida povoara, também de data não muito re- 
mota, conforme se suppõe. 



1 Parece que anteriormente a esta epocha existia no plateau, que me- 
deia entre o Cunene e a serra da Chella, uma densa população, consti- 
tuindo um reino sob a designação de Mataman. Os habitantes eram sem 
duvida dámaras, pois que ainda entre elles ha a tradição, que, forçados por 
povos invasores, tiveram de ceder a sua terra, transpondo o rio na Quia- 
bicua, como em outros tempos elles haviam por sua vez derrotado os que 
lá residiam, talvez partidários do celebre Humbi-Iénene. 



Acerca do negro 323 

A Cafiina, lia poucos annos ainda uma terra assas 
povoada, está hoje quasi em abandono, devido, se- 
gundo afiançavam pessoas d'ali, a escassez das aguas; 
emfim as margens do Cubango, que de Massaca até á 
Bunja eram bastante povoadas, estáo presentemente 
quasi desertas. 

Estas tendências migratórias, se não encontrarem 
só causa no próprio solo e n'uma disposição natural 
dos indigenas para a instabilidade, o que explicaria 
talvez a existência em suas veias de sangue bushnen, 
devem ter a origem nas invasões de território e na 
natural hesitação de quem está habituado a retirar-se 
em presença de outros mais fortes; d'onde se infere 
que a menos guerreira, menos forte e quiçá menos 
nobre é de crer fosse a raça que povoava as planuras 
que occupam a depressão central da Africa. 

E se o não foram ao tempo d'esses movimentos, 
são hoje, porque é facto conhecido que os indigenas 
que residem permanentemente nas regiões pantanosas 
soarem profundas modificações physicas e mentaes 
por inhalação sob a constante influencia deletéria. 

Os homens da beira dos pântanos, os habitadores 
das aldeias lacustres, avelhantam-se com rapidez, são 
prematuramente senis, assim como os descendentes 
fracos, rachiticos, pallidos, tendo o abdómen proemi- 
nente, a figura curvada e- os caracteres moraes e intel- 
lectuaes deprimidos e degradados. 

Raras vezes attingem uma idade avançada, e tanto 
na bacia do Nilo, na Virgínia, como aqui, o limite da 
vida regula entre quarenta e cincoenta annos appro- 
xima da mente. 



324 De Angola á contra-costa 

Das presentes considerações podemos já concluir 
que todos os habitantes da grande depressão central 
norte do Calahari apresenta, em seus traços geraes, 
uma inferioridade manifesta, quando se comparam 
com os robustos ba-bie, os elegantes mam-boella e 
outros povoadores do norte, e que portanto este facto 
característico nos leva a isolal-os, considerando-os 
mais ou menos originários da mesma tribu, e a accei- 
tar emflm que, se não provieram do sul, não derivam 
pelo menos directamente das gentes do norte. 

Mas quem foram os seus progenitores? Quaes os 
povos originários d'essas tribus dispersas desde a ba- 
cia do Cunene, com o nome de ba-qua-róca e ba-xim- 
ba, e mais a leste ovampos e ba-qua-nhama, e ainda 
adiante com a designação de cafima, de ba-rongo, de 
ba-qua-tir, de ba-qua-n'gar, ba-yeye, etc? 

Eis a resposta: 

Parece que n'uma epoclia muito remota existia por 
toda a zona que se estende entre o Ovampo e o curso 
inferior do Cubango um poderoso estado, que se de- 
nominava dos ma-tchona 4 . 

Este povo, que, segundo se presume, vivia pacifica- 
mente ao longo do curso dos rios mais importantes, 
alimentando-se naturalmente da caça e da pesca, foi 
um dia surprehendido pelo inopinado apparecimento 



1 É notável a coincidência dos ma-tchona com os ma-tcheno, de que nos 
falia Bastian como povoadores do Congo, ao tempo da chegada dos jaggas. 
Esta circumstancia pelo menos lembra, para não dizer corrobora, o que 
dissemos n'outro capitulo sobre o jagga Ximbo, e mostra a probabilidade 
de haver trazido comsigo tribus avassalladas de ma-tcheno, quando inves- 
tiu com Moçambique, tribus que depois na retirada se estabeleceram ali. 



Acerca do negro 325 

de tribus numerosas que se chamavam dámaras, bem 
como o foram também os povos do sul que com elles 
tinham relações, isto é, bushmen e talvez as tribus hot- 
tentotes. 

Derrotados e vencidos, dispersaram-se em todas as 
direcções, e aquelles que escaparam ao cutello ou á 
escravidão, foram procurar guarida em logares reti- 
rados, mais ou menos accessiveis. 

Diffundido por elles em grande abundância o sangue 
bushmen, veiu agora pouco a pouco fazer sua entrada 
o dos dámaras, e separando-se em todos os sentidos 
para fugir á aridez das terras primeiro conquistadas, 
ficaram os propriamente dámaras na terra; entre o 
Cunene e Chella, d'onde depois saíram como já disse- 
mos, acossados pelos nano ou por quem fosse, distri- 
buindo-se os outros, como os vemos desde a emboca- 
dura do Cunene até a altura do Cuatir e do Cuito, e 
incursando a pouco e pouco entre man-bunda, mam- 
boella, bienos, gente do Nano, ban-cumbi e quantos 
appareceram a íinal, com os nomes de ba-qua-róca 
ao norte do Cunene, bana-qua-tuba e ba-nhemba a 
leste d'este rio, ao longo da Chella com o de ba-qua- 
balle, para alem de Cuanhama com os de Canma, ba- 
qua-n'gar, ba-qua-tir, etc. 

Uma única circumstancia nos confunde em meio 
d'esta discriminação, e vem a ser que, suppondo nós 
os ba-nhaneca e os ban-cumbi oriundos muito do 
norte, e talvez directos descendentes dos jaggas, como 
já dissemos, vemos entre elles e em parte dos povos 
de que acima tratámos, a permanente pratica da cir- 
cumcisão, assim como entre os ban-cumbi seguir-se 



326 De Angola d contra-costa 

na inhumação dos mortos um processo idêntico ao 
d'aquelles. 

Esta circumstancia, porem, poderá explicar-se, ad- 
mitindo que os ban-cumbi, por muito próximos e em 
contacto com elles, tendo de modificar os seus hábitos 
e talvez passado da agricultura á vida pastoril, ado- 
ptassem os costumes dos povos com quem tivessem re- 
lações e sobretudo aqu elles que por muito estranhos 
mais os impressionavam. 

Assim foi que, fundidos os ma-tchona com os dáma- 
ras e dosado o seu sangue com uma boa porção do da 
raça bushmen, se estabeleceram por toda a região de 
que temos f aliado, e, tomando ao principio designações 
como aquellas a que já nos referimos, a saber: ba- 
qua-naiba, ou ba-qua-naiúba, descendentes do sol; ba- 
qua-numbula, da chuva; ba-qua-naitunta ou ba-qua- 
naitunda, da floresta 1 , etc, modificaram-nas pouco a 
pouco, substituinclo-as pelas das terras que habitavam, 
ou por appellativos designando a sua occupação ou 
modo de ser, taes como ba-qua-ito, ba-qua-tir, ba-qua- 
n'gar, ba-qua-niama, ba-qua-vauja, ba-qua-bicua, etc. 

Curioso seria aqui, embora se referisse esse traba- 
lho a tribus que ficaram distantes do nosso caminho, 
acertar com a proveniência dos clamaras, os verdadei- 
ros povos originários de todas estas tribus. 

Apenas Anderson diz alguma cousa, e isso mesmo 

e pouco para chegar a qualquer conclusão. Ouçamol-o: 

«Que os dámaras não residem de longa data no paiz 

que ora habitam, e muito de crer, comquanto seja du- 



1 Estes mais caracteristicamente bushmen. 



Acerca cio negro 327 

vidoso o logar cVoncle elles vieram. Apontam alguns 
para o norte como pátria original, outros afiançam 
que vieram do nordeste, e descendem de uma arvore 
que denominam ra'borambonga, collocada n'um logar 
chamado Mararu 1 . 

« Ora como elles não são agricultores, pois nem 
termo tèem em sua linguagem }3ara designar cereal, 
e as tribus do norte o são, é de crer que fossem vindos 
das terras do nordeste ou leste, onde existem povos 
pastores. 

«Mas, seja como for, o que parece é que, ha setenta 
ou oitenta annos, nem um clamara se achava ao sul 
do Caôco, mas que por essa epocha elles invadiram o 
paiz, habitado por bushnen e hill-dámaras, sendo os 
derradeiros naturalmente os aborigenes. 

«Os dámaras formavam uma grande nação, que 
mais tarde se desmembrou, subdividindo-se. 

«Depois da conquista estenderam-se ate ao lago 
N'gami, quando então os namaqua-hottentote os guer- 
rearam ajudados por outros do sul, e se tornaram de 
opprimidos em opjDressores.» 

Mais adiante diz elle ainda: 

«A divindade principal dos dámaras denomina-se 
Omukuru. 

«A sua influencia parece residir muito no norte, e 
difficil seria especificar os seus attributos. Cada tribu 
tem o seu omujcuru, com seus sirpersticiosos hábitos 



1 Maruru ou malulu parece-nos o plural de quilulu, designação Ijiena 

de feitiço (o quilulu-risandi), que mais se deve dirigirá ar core feiticeira 
do que ao logar. 



328 De Angola á contra-costa 

e costumes, peculiaridades, etc, e cada uma d'ellas 
se divide em castas «canelas». 

Mukuru ou mukurru é um termo muito empregado 
no interior, sobretudo n'esta região, para designar um 
curso de agua, ou mais correntemente exprimir rio ; e 
como uma tal lembrança para homens que vivem em 
terra árida e falta de agua deve ser grata, não admira 
que elles vissem em qualquer curso de agua um ele- 
mento de prosperidade, e portanto o deificassem (se 
isso se pode dizer)! 

Mas também isto faria lembrar que se teem tal idéa 
a respeito de um rio, é porque alguma tradição correu 
entre elles de tempos felizes ali passados, implicando 
a consequente deducção de que originariamente resi- 
diram nas suas margens. 

Qual seria elle, o Cunene? 

É mais provável que assim fosse, que os dámaras, 
como vimos, habitassem a sua margem norte, havendo 
d'ali saído por causas que não é fácil conhecer, mas 
muito frequentes ali em consequência do natural de- 
sejo das tribus poderosas em dominar junto da agua. 

Assim as asserções de Anderson coincidem de certo 
modo com as nossas; a idéa de terem os dámaras sido 
uma grande nação, bem como o seu movimento de 
leste, também encontra n'ellas confirmação, e ainda se 
nota n'elle disposição a acceitar que desde o Ovampo 
até ba-yeye 1 todas as tribus centraes tiveram uma 
próxima proveniência. 



Cooly suppõe que os ba-yeye vieram também do oeste. 



Acerca do negro 329 

Em resumo, parte dos povos que deram logar a estas 
considerações são parentes, e espalhados n'uma linha 
obliqua, que desde o parallelo de 15° na Handa vae 
até á embocadura do Chobé, representando elementos 
dispersos de tribus originarias, mas sobretudo dáma- 
ra, hoje cruzados com bushmen e hottentote, que quanto 
mais para o interior, tanto mais deprimido lhes tornam 
o typo. 

Estabeleceram-se nos limites impostos pela gente do 
Nano, que quanto a nós comprehende bienos, ganguel- 
las e outros, e se acham estabelecidos nas regiões supe- 
riores, em posse de terras férteis e abundantes, que 
singularmente frizam com a aridez e j)obreza das do 
sul, contrastando também no corpo avultado e robus- 
tez, natural com o rachitismo e fealdade dos habita- 
dores da Canma, Cuatir, baixo Cuito, etc. 

Remataremos por aqui as considerações que nos 
propozemos sobre assumpto tão obscuro, quanto cu- 
rioso, convencidos de que, sendo sempre matéria diffi- 
cil explicar satisfatoriamente a proveniência, causas 
de transformação, etc, de muitos povos da Africa cen- 
tral, só poderá conseguir-se isso }3or uma longa serie 
de observações e cuidadoso estudo philologico. 

Sem embargo, e se o tempo nol-o permittir, volve- 
remos no volume n d'esta obra a entrar em tão inte- 
ressante quão espinhoso estudo. 



CAPITULO XII 



LODACAES E LAGOAS 



Les ombres de la nuit ont fait placo an malin, 
Chacun est à son poste, on so met en cbemin. 
La terre sèche et dure, et 1'eau dans les ornièrcs, 
On passe des ruisseaux, on franchit des rivières; 
Les pieds sont dans la fangc et les frouts ruisselants, 
Se courbent barassés sous dos rayons bríilants. 

J. 1!. Mesnier — Capello e Ivexs, etc. 



Adeus Guito — A carne e a morosidade das marchas — Os ba-cuito e os 
ma-côa — Planuras monótonas e phenomenos de miragem — Labatas lacus- 
tres e timidez dos indígenas — O bijou africano e um tombo inopinado — 
Artigos de alimentação e trajo dos ba-cuito — A Adenota lécheef — As pla- 
nuras e a caça — O hopo — Um homem perdido — A cobra da areia e as 
florestas do Conjumbia — Mam-bunda, trajos, funcraes dos sobas— Um 
homem abandonado — As meningites cerebro-rachidianas — O muchito de 
Cajimballe e os elephantes — A terra do Cubango ao Zambeze, e as dif- 
fieuldades do transito — Considerações amargas — O cyclone de 18 de 
agosto — Modo de attrahir as gazcllas pelo som — Muene Quitiaba e as 
ba-iauma — Os guias e o alagamento — Critica posição dos chefes e da 
caravana entre o arundo das margens do Guando — O rio irá ao Zambe- 
ze? — Com o apparecimento do milho esquecem-se a.-; fadigas — O rio Cu- 
ti e o trilho commercial do Bié — A bacia do Congo e a do Zambeze — 
Considerações consequentes — O paiz é parl-like. 



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ESCORREGANDO NO LAMKIHO 



Deixando atraz a várzea do Cuito, entrámos em ter- 
reno ligeiramente ondulado, de meio grau talvez de 
extensão, onde nem um só riacho se encontra. E a 
terra elevada, que separa a bacia d'este rio d'aquella 
do Cuando, e onde começa o dominio dos man-bunda. 

Depois de muito tempo que a alimentação da cara- 
vana era exclusivamente constituida pela carne. Por 
esse motivo começávamos a notar entre a gente phe- 
nomenos estranhos de fraqueza, cuja causa a principio 
desconhecíamos. Já não supportavam as marchas lon- 
gas e regulares de outr'ora, pois mal partiam do acam- 
pamento, viam-se-lhe signaes evidentes de fadiga e de 
cansaço, e eram forçados frequentemente a arrear as 
cargas pelo caminho. 



334 De Angola á contra-costa 

Os vultos esqueléticos dos carregadores inspiravam 
compaixão tal, que não ousávamos insistir para pro- 
seguirem, e descansando a miúdo no trajecto de uma 
jornada, viamos tristemente decorrer o tempo sem o 
podermos aproveitar. 

Desde este ponto, o trilho dirige-se a les-nordeste, 
conservando esta direcção até á margem do Cuando, 
único logar onde este é facilmente transponível: Nas 
primeiras aldeias que attingimos, os habitantes raianos 
receberam-nos desconfiados, por julgarem, segundo 
suppomos, que eram ma-côa os recemchegados. 

Já em capitulo anterior fizemos notar ao leitor a 
desconfiança d'estes (que ao principio julgámos ma-co- 
lolos) serem brancos, caso certo no dizer dos indíge- 
nas, e que vivem para as bandas da confluência do 
Chobe, onde fabricam pannos e facas, inspirando aos 
ribeirinhos da bacia do Zambeze um permanente re- 
ceio. 

Tal facto tem forçosamente alguma explicação, que 
nós não aventuramos, por falta de seguras indicações 
para a basear; comtudo aqui fica registada, a fim de 
que outros a procurem. 

Os exploradores são hoje os Argus sertanejos, e se 
lhes cumpre informar-se do modo de proceder dos in- 
dividuos estabelecidos no interior, torna-se também 
obrigatório a exploradores portuguezes fazel-o, não só 
para alijar suspeitas, destruindo as accusações tantas 
vezes assacadas aos seus compatriotas, mas para co- 
hibir (visto serem os que com mais frequência lá an- 
dam), no interesse da humanidade, scenas repellentes 
de pilhagem. 



Lodaçaes e lagoas 335 

O solo vae seguindo areento, ondulado, denegrido 
em parte pelas ultimas queimadas, e a sua vegetação 
consiste apenas em algumas mup andas, tortuosos niii- 
caratis e n'jangos. 

Sopra um vento fresco do sueste, que refrigera os 
calores do dia. Ao cabo de duas marchas encontrámos 
o rio Cuma, derradeiro amuente do Cuito. 

Transpostas as ultimas collinas que delimitam a 
sua bacia, alongam-se planuras monótonas a perder 
de vista, e onde os effeitos da miragem pela manhã 
nos levavam a crer na existência de lagoas por toda a 
parte. 

Numerosas libatas de man-bunda se vêem, sempre 
no centro de estacaria, e dispostas de modo a ficarem 
cercadas de agua, o que lhes dá o aspecto, observan- 
do-as a distancia, de grandes monitores couraçados. 

Os naturaes são timidos ou de nós se arreceiavam, 
pois nas recentes marchas nem uma mulher lográmos 
ver, apparecendo no acampamento só os representan- 
tes do sexo forte. 

Abunda a caça, e n'este logar pela primeira vez 
tivemos ensejo de observar de perto um gnú 1 ou bison 
africano. 

António, que saíra ao acaso, apertou com um bando 
cVestes quadrúpedes, um dos quaes, tresmalhando-se, 
veiu passar junto ao acampamento. 

Ao vel-o approximar-se, partiu um de nós de arma 
em punho ao seu encontro; em tão má hora porem o 



1 Assimilha-se do corpo ao gnú de que falia Livingstone, Catoplebas 
Gnu, mas tem as defensas n'uma posição inteiramente differente. 



336 De Angola á contra-costa 

fez, que, escorregando no lameiro do rio, estendeu-se 
horisontalmente e desfechou a arma na direcção do 
quilombo ! 

Com grande felicidade encontrámos mantimentos 
na região de que estamos tratando, e embora não fosse 
em grande abundância, sempre mitigou por vezes o 
fastio da carne. 

Muene Caluri, soba ratão de uma tribu de ba-cuito, 
e cujo retrato apresentamos, offereceu-nos massango, 
Penisetum, e mandioca de suas lavras, allegando não 
trazer milho por haver pouco na terra. 

Tabaco não possuem, e o sal de Quitengue é uma 
mistura ennegrecida de chloreto, azotato de soda e 
outras impurezas, que só a necessidade obriga a apro- 
veitar. 

Larga correia â cinta, pelles, ampla patrona collo- 
cada posteriormente, e uma faca com o cabo mettido 
entre o ventre e a correia, a folha em linha vertical 
de ponta para cima, eis a suprema distincção na terra. 

O uso das transinhas é commum. 

Foi por estes plainos, e sempre próximo de lagoas 
ou regiões alagadiças, que demos vista de um antilope 
elegante, á feição do JEpiceros melampus ou m'palla, 
cujos chifres têem a graciosa curva d'aquelles da quis- 
sema, cor amarello torrado, peito e barriga brancos, 
vivendo em bandos numerosos; julgamos ser o mesmo 
que a Adenota léchee. 

Extremamente timidos, fogem rápidos como o vento 
ao mais pequeno ruiclo, acompanhando as fêmeas, que, 
desprovidas de hastes, pulam ligeiras em seu segui- 
mento. 



Lodaçaes e lagoas 337 

E um quadro interessante e pittoresco ver milhares 
de elegantes animaes cobrindo inteiramente uma cam- 
pina e abalando agitados ao menor rumor. Quem pela 
primeira vez como nós os observar, não deixará de 
sentir uma admiração natural, considerando a super- 
abundância de vida espalhada n'aquelles logares. 




TYPO CAMBUNDA 

Tirado de um croquis 



Por estas extensas planuras cobertas de fina relva, 
verdadeiro paraizo de herbivoros, encontram elles 
muitas espécies do seu normal sustento, por isso ahi 
divagam em grande numero, podendo qualquer via- 
jante certiíicar-se d'este facto, pela observação das 
milhares de pegadas que existem sobre o solo, circum- 
stancia ponderosa que também denuncia a proximida- 



de da agua. 



22 



338 De Angola â contra-costa 

Nas margens do Lomba estivemos durante uma 
hora boquiabertos, tão grande era a abundância e va- 
riedade de animaes que perante nós se agitavam. 

Consistiam em zebras, que a galope com as peque- 
nas crias se collocam a distancia em observação; bi- 
sons, que se differençam pelo ennegrecido vulto e pelos 
vagarosos movimentos; capadjis; graciosas cabras dos 
pântanos, que assobiam muito caracteristicamente, e 
cujo correr intervallado por saltos, em que levantam as 
ancas similhando o movimento do couce, impressiona 
de prompto o viajante; e outros animaes de que não 
nos recordamos. 

Que esplendido campo para uma excursão cynege- 
tica, como essas feitas no sul do Zambeze, de que nos 
falia Livingstone sob a designação de liopo, e que con- 
siste n'uma colossal armadilha em forma de V, tendo 
no vértice uma estreita passagem adiante da qual um 
precipicio recolhe os animaes acossados pelas correrias 
dos negros! 

No rio Conjumbia perdeu a expedição mais um ho- 
mem, que, soffrendo de epylepsia, caiu no fogo, ficando 
em estado deplorável. O mais notável, porém, foi que 
preparava a ceia com um companheiro, e ao succe- 
der-lhe similhante fatalidade, este, contemplando por 
momentos o infeliz que estrebuchava, ergueu-se alfim 
serenamente, pegou da arma e partiu para junto de 
outro gnrpo, sem se lembrar de prevenir ninguém. 

Tinha feitiço do fogo, foi a resposta do imbecil ao 
inquiril-o sobre a causa da sua deshumanidade! 

São frequentes aqui as cobras brancas chamadas da 
areia, tornando-se necessária toda a cautela ao fazer 



Lodaçaes e lagoas 339 

o acampamento. Havendo-a observado com attenção, 
achámos ser idêntica áquella nossa conhecida de Mos- 
samedes no oeste. 

O aspecto do paiz modincára-se, parecendo até aqui 
feito por quarteirões, que se repetiam com enfadonha 
constância, pois deixava-se uma encosta, vestida de 
mupandas, mumôes, n'jangos e mucaratis para entrar 
em intensissima anhara de capim, e logo n'outra zona 
arborisada, a que se seguia nova anhara, para volver 
a caminho coberto por densa floresta. 

Achâmo-nos próximos do limite das terras dos man- 
bunda, que por este lado acaba no rio Cuchó. 

Pelo geral estes povos, de que em breve nos vamos 
afastar, não são inferiores aos amboellas, e se em seu 
todo ha o quer que seja de asselvajado, concorre para 
isso o modo como se adornam e penteam. 

Pelles de cobra enroladas ao jDescoço, d'onde pen- 
dem dentes e garras de leão; grossas tranças disjoersas 
na cabeça em todos os sentidos, dando-lhes por vezes 
aspecto de medusas ; enorme faca á cintura e uma cau- 
da de gnú pendente do lado, não podem formar um 
conjuncto que os torne attrahentes. 

Pobres em extremo, vivem divididos sob a direcção 
de séculos, isolados nas matas e margens dos rios, ali- 
mentando-se de massango. Não possuem gados, mas 
caçam com frequência o elephante. 

As mulheres são mais feias que as suas congéneres 
amboellas. 

Tendo morrido ha pouco um soba d'esta terra, ouvi- 
mos narrar scenas, pelas quaes concluimos serem elles 
muito deshumanos. 



340 De Angola á contra-costa 

Contava-se que, quando este adoeceu, se tratou de 
inquirir a causa da moléstia, e havendo-se numerosos 
quimbandas empregado na operação, chegaram ao co- 
nhecimento de que o espirito de um certo fulano, que 
o regulo mandara matar em tempos remotos, era, pelo 
seu constante sobresalto, a verdadeira causa de taes 
perturbações. 

Mortas algumas cabras e aspergido com o sangue o 
logar onde habitava, conseguiu-se uma como que sus- 
pensão de hostilidades; breve porém, exasperado, vol- 
tou o espirito á carga, não havendo cabras e gallinhas 
que, enchendo o estômago dos quimbandas, apaziguas- 
sem as formidáveis iras. 

O remédio único foi passar o soba para melhor exis- 
tência, e enterral-o, para o que se faz uma grande cova 
no recinto da residência do defunto, e juntando fazen- 
das, estrangulam-se duas pobres creanças, uma de cada 
sexo, para lhe servirem no outro mundo o cachimbo e 
o tabaco; envolvidos depois com elle nas fazendas, um 
pela frente e a outra por traz, lá vão para a cova, que 
nunca é coberta de terra. 

O que se tornou notável, porém, foi que inquirindo 
sobre o desagradável cheiro que na libata haviam de 
exhalar os cadáveres em putrefacção, só cobertos de fa- 
zendas, fétido que sem duvida devia incommodar os 
habitantes, obtivemos a seguinte lacónica resposta: 

«A libata e terra é d'elle, está no seu direito de chei- 
rar mal!» 

Muene Mungamba, o soba da localidade, tendo de- 
clarado que as margens do Cueio eram por tal forma 
lodosas que seria impossivel transpol-as sem indica- 



Lodaçaes e lagoas 



41 



ção, decidiu-se vir em pessoa (depois de avultado pre- 
sente, é claro), mostrar-nos a passagem mais conve- 
niente. 

Nada mais foi preciso para que, apenas transposto 
o rio, nos atolássemos todos, gente e gado, sendo ne- 










CAPADjrfcabra dos pântanos) 



cessario puxar com corda a um e um os bois totalmente 
enlodados! 

Abandonámos n'este logar um outro homem, por 
incapaz de caminhar. 



342 De Angola á contra-costa 

Foi por esta epoclia que começou a apparecer, como 
se disse, uma doença terrível, que mais tarde havia de 
arremessar muita gente para o sepulchro. 

Começava por uns symptomas de cansaço, a que 
logo se seguia magreza esquelética, ligeiros tremores 
e tendência }3ara a abstracção. 

Chegados que eram ao acampamento os atacados, 
sentavam-se e, indifferentes a tudo, ali passavam mui- 
tas horas absortos. 

Primeiro comiam, depois era-lhes isso difficil, a fa- 
diga crescia, augmentavam os tremores nervosos, a 
posição vertical tornava-se intolerável, sobrevinham 
dejecções alvinas, logo suores frios, e no curto espaço 
de cinco ou seis dias succumbiam! 

Diverso foi o tratamento que lhes fizemos, mas a 
tudo resistia a terrível doença, que por vezes se mani- 
festava, momentos antes da morte, por uma clesorga- 
nisação nervosa, que levava o individuo a ver os obje- 
ctos, e querendo d'elles apoderar-se, errar o sitio onde 
estavam. 

Attribuimos este estado de cousas a uma sorte de 
meningite cerebro-rachidiana, que teria a sua origem 
na insolação, na fadiga, mau alimento e sobretudo no 
habito de muitas das victimas trazerem a carga com 
frequência á cabeça, a ponto de lhes tirar o cabello, em 
vez de a levarem alternadamente nos hombros para 
melhor descanso. 

Para alem do Cueio, o plateau alonga-se mais plano 
e monótono, sem a menor depressão, como um mar 
de areia resplandecente sob a acção do sol, algumas 
vezes coberto de rasteiros capins, d'onde emergiam 



Lodaçaes e lagoas 343 

arvores nodosas e ennegrecidas pelo fumo das recentes 
queimadas. 

Próximo do rio Doncfa Abengne entrámos em co- 
lossal floresta, deserta, sombria e enorme, cujo aspe- 
cto fazia frio, apesar do intenso calor que nos darde- 
java. 

Era o muchito de Cajimballe, selvagem, bravio, pri- 
mitivo, cujo âmago emmaranliado nos suscitou, quando 
espraiámos a vista por meio d'esses troncos, tétricos 
pensamentos de fraqueza e isolamento. 

Só o elephante consegue abrir passagem por entre 
esses macissos arvoredos e espessos matagaes, e ali 
vive isolado dos plainos que o circumdam, zombando 
dos esforços do homem, que náo se atreve a transpor 
os seus limites. 

Pela tarde saímos d'elle, seguindo as pegadas de 
dois elephantes, e viemos acampar junto de um rio. 

Deixando as florestas, entrámos em planuras alaga- 
das, onde serpeavam alguns riachos, cobertas de in- 
tenso capim, e num ou outro ponto de bouquets de pe- 
quenas arvores. 

Aconteceu muitas vezes tomarmos de um salto ba- 
nhos involuntários, embora fossem constantes as pre- 
cauções. 

Por mais attento que se caminhe, guiando cuidado- 
samente o boi-cavallo sobre o tapete extenso de relva, 
a travessia das margens lodosas dos rios e sempre 
perigosa, pois onde a agua é mais baixa e o terreno 
parece mais duro, o animal, atolando-se de súbito, 
projecta o cavalleiro, após um salto de acrobata, de 
costas em plena lama! 



344 De Angola á contra-costa 

Pode imaginar-se quão penoso deveria ser o traba- 
lho de desatolar um cavalleiro, em solo escorregadio, 
debaixo de sol tropical. 

Um vento de les-sueste soprou rigissimo durante o 
dia 18 de agosto 1 , e similhando o simoun cobriu a 
atmosphera de poeira e cinza. Grossos cúmulos ao 
mesmo tempo appareceram dos quadrantes meridio- 
naes, e pela primeira vez, depois de quatro mezes, nos 
achámos á sombra de uma nuvem. 

As difficuldades encontradas pela expedição em 
todo o trajecto desde o Cubango até este ponto, foram 
taes, que de forma alguma convém deixar de aqui no- 
tar a impossibilidade de poder de futuro, em similhante 
facha de terra, traçar-se caminho commercial entre 
costas. 

A zona plana que se comprehende entre o Cubango 
e o Zambeze, e que o Lobale delimita pelo norte, fi- 
cando pelo sul o Chobe, parece-nos de todo o ponto 
imprópria, se não quasi impossivel, em parte do anno, 
de ser cruzada de leste a oeste, com carregadores ou 
animaes de qualquer género. 

O viajante que a ella se aventurar conte com mezes 
de dissabor, no meio de embaraços de todo o género; e 
se, caminhando vagaroso, o surprehenderem as aguas, 
fique na certeza que, embora longe do Zambeze, po- 
derá muito bem deixar com a ossada a única marca 
da sua passagem ali! 



1 É facto curioso e digno de notar-se, que a 20 de agosto de 1878 
encontrou o major Serpa Pinto no Ninda, a leste d'este logar, um phcno- 
meno em tudo similhante ao que citamos. 



Lodaçaes e lagoas 345 

Não é fácil descrever com precisão, sem enfastiar o 
leitor, as tremendas difíiculdades que devem deparar- 
se a quem a estação pluviosa ahi surpreliender. 

Na companhia de numerosa comitiva, oppresso pela 
fome que por toda essa terra reina, circumdado de agua 
nas planuras, ou entre lodaçaes na proximidade dos 
rios, envolto nas gramineas, batido pelas chuvas e ven- 
tos da quadra das trovoadas, immerso emíim n'uma 
atmosphera pestilencial, sem um palmo de terreno en- 
xuto ]Dara abrigo, quem em tal meio estrvesse, deve- 
ria considerar-se feliz, se conseguisse escapar a tão 
estranho curso de contratempos. 




PEIXE DO RIO CONJUMBIA 



Nós — que tudo haviamos calculado para transpor 
esta região na melhor quadra, e, levando caçadores e 
bois, íamos de certo modo prevenidos contra o maior 
dos perigos, a fome, — ainda hoje recordámos com 
terror essa travessia angustiosa, onde cada jornada 
nos deixou uma decepção, e cada anoitecer uma que- 
bra de animo. 

Ah! scenas d'estas experimentam-se, não se julgam, 
e quando o auctor insiste em descrevel-as, obtém como 
recompensa quasi sempre um inopinado cerrar de pál- 
pebras, preambulo de gostoso somno! 

Depois o isolamento, a separação dos seres civilisa- 
dos é como um açoite que traz a campo tétricos pen- 



346 De Angola á contra-costa 

samentos, e com elles vera o desanimo pouco de feição 
com a audácia de que fatalmente deve achar-se reves- 
tido quem joga a taes emprezas. Ha muita gente que 
diz não existir mais aborrecida solidão do que a das 
grandes cidades, e similhante asserto só pode ter ori- 
gem no facto de nunca se haverem achado n'uma zona 
toda deserta do grande continente africano. 

Na monótona Africa, nem os mesmos olhos podem 
muitas vezes alliviar o espirito do triste considerar, 
tão invariável é o que nos cerca; e no aborrecimento 
profundo que envolve a mente como um véu, apenas 
a dor consegue rasgar de longe em longe pequenís- 
sima fenda por onde a luz da realidade penetra, fe- 
rindo o intellecto. 

N'esta terra de tédio, á medida que o corpo enfra- 
quece, o pensar, tendo na robustez d'este a garantia, 
vae por gradações fraquejando também, e, alterada 
a necessária coordenação de seu vibrar, modifica as 
imagens e noções que nós temos de tudo, por uma 
maneira singularissima. 

Perde-se ou esquece-se, ao cabo de tanta injuria, o 
amor á vida, desprende-se de nós a noção cia própria 
conservação, porque lá abandonados olvicla-se o seu 
próprio valor; a par d'isto afiguram-se-nos ridiculos 
os mais nobres sentimentos, e, duvidando por fim do 
successo da empreza em que nos achámos empenha- 
dos, cremo-nos illudidos, por todos ludibriados, con- 
siderando com mágua n'aquillo que antes houvéramos 
de fazer. 

A monomania suicida acha aqui elementos para se 
aggravar, e aquelle que infelizmente d'ella se possuir, 



Lodaçaes e lagoas 347 

com facilidade topará argumento convincente para lhe 
dar execução. 

Açoitados pelo cy clone, percorremos rápidos como 
a imaginação, pelas reflexões expendidas; e atraves- 
sando a direito a extensa planura, entrámos em outra 
floresta também deserta. 

N'essa espécie de labyrintho teve a expedição que 
deter-se largo tempo, a fim de metter em frente ho- 
mens que de machado em punho abrissem uma vereda 
á caravana. 

António, incansável perseguidor de quanto antilope 
pastava em socego, nao se detinha, e no desespero de 
os não encontrar ao alcance da espingarda, preferia o 
partido de attrahil-os. 

Assim, momentos depois de termos alcançado a orla 
oriental da mata, quando, estirados á sombra de um 
arvore, fumávamos em comprido cachimbo, contem- 
plando reflexivos o céu africano, um estranho som nos 
chegou aos ouvidos, fazendo lembrar uma gazella, que, 
transviada, procurasse a mãe. 

Não mediou muito tempo sem que uma denotação se 
ouvisse e o clamor dos nossos evidenciasse presa re- 
cente. 

Dirigindo-nos para o logar da acção, vimos uma ga- 
zella, que António acabava de traiçoeiramente ludi- 
briar e ferir, e que, mirando-nos com seus grandes c 
ternos olhos, no supremo arranco da agonia, parecia 
lançar-nos uma derradeira censura portão torpe pro- 
ceder. 

Simples tubo de canniço fendido de um lado, para 
dar entrada a pedaço de folha de qualquer arvore, eis 



348 De Angola á contra-costa 

o instrumento de que António se servia para attrahir 
esses timidos animaes. 

Em seguida a uma marcha da floresta entrámos fe- 
lizmente nos domínios e residência de Mu ene Quitiaba, 
regulo de uma tribu ba-iauma, que assim se chamam 
os povos ribeirinhos do Cuando, apesar de confundidos 
pelo norte com os amboellas, de quem se distinguem 
no uso dos comprimentos, acompanhados de ruidosas 
palmas, conforme o costume d'estes. 

Differindo no aspecto dos homens do sul, é, con- 
forme julgámos, gente próxima ainda dos ba-nano. 

Estávamos abeirados do caudaloso Cuando, cujas 
várzeas alagadas, de 2 milhas por banda, só podem 
transpor-se na confluência do Quembo. 

Mu ene Quitiaba, que d'isto nos preveniu, offereceu, 
após um avultado presente, guias para nos conduzi- 
rem ao ponto de passagem, prestando ]Dara isso as suas 
canoas. 

O disco do sol nascente, rubro, em meio de uma 
atmosphera cacimbada, encontrou-nos, ao erguer-se, 
já em aprestos de partida. 

A caminho, e mal nos approximámos do curso do 
rio, comprehendemos o trabalho que nos estava des- 
tinado. 

De alem a terra eleva-se, e o Cuando, escostando-se 
a ella, deslisa, mal consentindo várzea. Do nosso lado, 
porém, um lençol de canniço se estendia até onde a 
vista alcançava, não permittindo distinguir o limite da 
margem. 

Montando os bois-cavallos, entestámos sob a direc- 
ção dos guias com a campina, sumindo-nos em breve 



Lodaçaes e lagoas 



349 



por meio do emmaranhado arando. Pouco a pouco o 
terreno amollece, logo depois surge a agua, onde os 
bois patinham. A meia milha já dava pelos joelhos 
aos animaes, a três quartos pelo ventre, mais avante 
cobria-lhes os peitos, fazendo nós e elles curso no hú- 
mido fluido, rompendo a custo pelo denso cannavial. 




^H\ 



MUEXE CALURI 
Tirado de um croquis 



Por vezes uma depressão ou outra obriga os ani- 
maes a movimentos irregulares, que ameaçam o equi- 
librio dos cavalleiros; a agua dá-nos pelos joelhos, e, 
esfriando os membros inferiores, prosegue vagarosa 
pelo effeito da osmose sobre a nanella. 

O terreno baixa, a agua já chega á garupa; de sú- 
bito os bois começam a nadar, e, desequilibrando os 
cavalleiros, atiram com elles em sentidos diversos! 



350 De Angola â contra-costa 

Uf! um banho inesperado, a que os guias respon- 
dem erguendo os pannos á altura da cabeça e mos- 
trando graciosamente duas fiadas de dentes brancos 
como o jaspe! 

Proseguindo com agua pelos peitos, fomos andando 
na extensão de 2 milhas, até que, abeirando-nos de 
uma pequena ilha, apenas elevada 2 palmos acima do 
nivel, ahi suspendemos, por nos acharmos na con- 
fluência dos rios. 

O Quembo reúne n'este logar as suas aguas ás do 
Cuando, e olhando em redor mal poderíamos dizer 
se estávamos na confluência ou no meio de qualquer 
d'elles. 

Era um mar em volta da caravana, extenso e co- 
berto de canniço, onde o leito do Chiando só se eviden- 
ciava pelo movimento da agua para o sul. 

O rio propriamente tem agora 70 a 80 metros de 
largo; na quadra das chuvas o seu curso deverá ser 
de o milhas, ou pouco menos, tornando-se então só 
navegável por canoas de grande tamanho. 

Extenuados e tiritando, ali passámos três eternas 
horas, assistindo cuidadosos ao transporte do material, 
á espera a todo o momento de ver abysmar-se para 
senrpre o êxito dos nossos esforços, confiado aos es- 
treitos esquifes de que os indígenas se servem. 

Depois chegou a vez do transporte do gado, que, 
derivando rio abaixo, esteve em perigo cie j3erder-se 
por não poderem alguns escalar a encosta fronteira, 
até que alfim se seguiram os tristes chefes, os quaes, 
ensopados e famintos, transpozeram pelas três horas 
d'este memorável dia o rio Cuando! 



Lodaçaes e lagoas 351 

Não podemos rigorosamente concluir se este rio 
amue ao Zambeze 1 ou ao Chobe; o que nos afiança- 
ram, porém, os naturaes foi que o Cuando, antes de 
amuir ao grande rio, estreita para passar debaixo (ou 
entre?) grandes rochas, e alarga depois até ir desa- 
guar n'elle. 

Para o sul, alongam-se a perder de vista piamos 
immensos, que nós almejávamos abandonar. Arvorada 
a bandeira das quinas, acampou em redor a expedi- 
ção n'esse sitio, onde nunca europeu estivera, e como 
tivéssemos comprado mantimentos, passou-se a noite 
em galhofa junto das fogueiras. Uma densa floresta de 
espinheiros veste as 20 milhas que distam do Cuando 
ao rio Muesse, que a caravana atravessou sem descan- 
sar, deixando n'ella o fato e uma parte da pelle. 

Encontrámos aqui milho, de que nos refizemos para 
as marchas futuras, pois que mais longe nos assegura- 
ram não haver abundância. O massango tende a des- 
apparecer, porque a fraqueza das terras é tal que nem 
tabaco dão, produzindo mantimento só nas várzeas dos 
rios. As diíferenças de longitude por nós encontradas 
já montam a 24 milhas n'este meridiano, levando-nos 
a crer que grandes differenças- existem para o diante. 

Abalando do Muesse cortámos por meio de terras 
áridas, ou mal arborisadas para les-nordeste, topando 
ao cabo de 12 milhas com um rio. 



1 De numerosos azimutlis tomados d'este logar, segundo a direcção 
indicada pelos indígenas, devia deprehender-se estar a confluência no 
Zambeze, e mesmo próximo de Litofe-, não é esta, porém, uma indicação que 
mereça confiança. 



352 De Angola â contra-costa 

Era o Cuti, conhecido no Nano por Cussibi. 

O grande trilho commercial do Bié sobre que estáva- 
mos prolonga-se pelo lado norte do dito rio, para n'esta 
altura o cortar, dirigindo-se ao valle do Ninda. 

Traçaram-no assim os bienos por saber a impossi- 
bilidade em que se achariam, no tempo das aguas, de 
transpor com cargas o curso alagado do Cuando e as 
várzeas lamacentas do Cuti. 

Agora mesmo, no tempo da estiagem, o solo tremia 
sob os nossos pés. 

Apenas estariamos 3 o ao sul de Quioco, e sem embar- 
go, quão grande era a differença entre esta terra e 
aquella onde ora nos achávamos, assim como entre a 
região drenada pelo Congo e a alagada do Zambeze. 

O Quioco — esse paiz magnifico, coberto de bos- 
ques, sulcado de limpidos regatos, varrido por ventos 
frescos; abundante em ferro, que por toda a parte se 
encontra em limonite e pepitas, no qual os indigenas 
trabalham com muita habilidade; com uma flora que 
sustenta milhões de republicas de abelhas, origem da 
principal riqueza do paiz, a cera e o mel; cujos habi- 
tantes, altos e esbeltos, nos haviam recebido affavel- 
mente — era aqui substituido por uma campina rasa, 
alagada, triste, onde os homens suspeitosos nada ti- 
nham que nos oíferecer, e a natureza, como zombando 
d'aquelles para quem a comida e a aguardente consti- 
tuia o thema único dos seus pensamentos e sonhos, lhes 
mostra invejáveis volumes de carne, sobre as rápidas 
pernas das zebras e gazellas. 

Existe ainda hoje no vulgo, e mesmo entre pessoas 
distinctas, que mais òu menos conhecem a Africa por 



Lodaçaes e lagoas 353 

d'ella ouvirem fallar, a idéa de que é em grande parte 
constituída por um paiz plaino, árido, areioso e monó- 
tono, onde o viajante, escorrendo sob um sol abraza- 
dor, se afadiga a marchar em terreno movediço. 

E esta idéa, quando apurada para comparar com 
as descripções feitas por muitos viajantes do aspecto 
das terras por elles percorridas, onde figuram zonas 
montanhosas, cordilheiras correndo parallelamente aos 
meridianos, serras como Kilimandjaro e o Kenia, con- 
trasta por tal maneira com ellas, que tem sido em 
geral condemnada. 

Ora é isso que inteiramente se não pode fazer em 
rigor, e esses senhores, que desgostosos devem ter fi- 
cado ao dissipar-se-lhes uma idéa querida, que tinham 
phantasiado acerca das luctas e soífrimentos experi- 
mentados pelos viajantes em Africa, elevem saber que 
alguma cousa ha com effeito de verdade, pelo menos 
quanto aos piamos e areias, e que é no Lobale onde 
elles podem dar-se o prazer de encontrar a realisação 
dos seus pensamentos. 

Este enorme continente, de 60.000:000 kilometros 
quadrados de superfície, guarda cuidadoso um variado 
menu de paizagem, onde golpes de vista pittorescos se 
alternam com a decepção inopinada cie quadros de 
tristeza, próprios a satisfazer todos os gostos de touris- 
te, e onde, se é fácil encontrar a montanha de impossí- 
vel accesso, não menos o é descobrir a planura, que 
estéril umas vezes, alagada outras, confirma as idéas 
citadas.' 

Foi por estas rasões que a bacia do alto Zambeze 
muito nos impressionou ao descer das vertentes dos 

23 



354 De Angola á contra-costa 

plateaus do oeste, e que n'essa terra sem pedras (no 
dizer dos nossos companheiros) todos os soffrimentos 
augmentaram . 

Paiz de franzina vegetação a principio, torna-se para 
alem do Cuti, como é de uso modernamente dizer, 
park-like. 



CAPITULO XIII 



NO VALLE DE BAEOTZE 



Lobale, is a land of morasses and dangerous bogs 
in which incautious wayfarers ofteu perish. 
COOLEY. — Ianer Africa Laid open. 



A lua.de agosto e os nossos receios — Icléa geral sobre a distribuição 
das chuvas na Africa tropical do sul — O cloud-ring e o seu movimento 
para o meio dia — Eetardamento na marcha pelo oriente — O limite sul e 
as quatro estações — As marchas do Cuti e Muene Lionze — Os acampa- 
mentos de Silva Porto — Os man-bunda e o elephante — Curiosidades — 
O Xinda e uma sepultura — Aspecto pittoresco do valle — O oco e o seu 
aroma — A caça e um óbito Perda de companheiro — Grnú, cabra e ricaça 
— O silencio da noite — Calmigo-lungo e os luinas — Typo d'estes, e 
pouca importância das entrevistas africanas — O paiz é um parque ; abun- 
dância dos animaes n"clle — Os cães e seu préstimo na caça do gnú — O 
alagamento crescente da terra — Ausência do tabaco e presença da pal- 
meira — Guia feiticeiro e adivinhação inesperada — Os ba-nhengo ladrões 
— Muene Munda e os seus dotes physicos — Um capote de intestinos de 
elephante — A musica e um baile de doze horas — Impressão produzida 
pelas beldades da terra nos auetores d'estas linhas — A caça e a quadra 
da creação — O acampamento pela noite — Multijjlicam-se as lagoas — A 
expedição enifim attinge o Zambeze. 




INDÍGENA IAtJMA 
Segundo photographia 



A lua nova cie agosto passara sem chuva e os nos- 
sos receios diminuir am, pela certeza de, pelo menos, 
termos mais um mez de estiagem por aquellas terras; 
circumstancia esta de alta importância na execução 
do nosso plano, pois, desejando cortar 11'uma diagonal 
do Cuando para a confluência do Lungué-Bungo com 
o Liambae, pensávamos (casu nos surprehendesse) fi- 
car envolvidos no Lobale em meio de lagoas e pânta- 
nos, que talvez inhíbissem a caravana de proseguir. 



358 De Angola d contra-costa 

E a final eram precipitados os nossos receios, longe 
ainda vinha a quadra em que fariam o seu appareci- 
mento. 

Desconhecendo a epocha em que principiam as tro- 
voadas por aquella região, ou melhor, faltando-nos so- 
bre isso informações exactas, andavam nossas suspei- 
tas á revelia, e, aggravando-se agora pela lembrança 
da immobilidade, traziam-nos em constante sobresalto, 
á espera das primeiras tempestades n'uma epocha em 
que nunca ali se realisain. 

Poucos são ainda hoje os logares em Africa onde 
se tenham feito exactas observações sobre esta ordem 
de jDhenomenos. Ha apenas indicios vagos aqui e alem, 
provenientes do trabalho de viajantes, que, pelo cara- 
cter de mobilidade de suas missões, mal podem para 
determinado ponto coordenar d'ellas uma ou duas dú- 
zias. E por esse motivo é também difficil ao que se 
aventura pelo interior, corrigir jDequenas differenças 
nas epochas mais aproveitáveis para a travessia d'esta 
ou d'aquella zona. 

Achando-nos nas mesmas circumstancias, torna-se 
impossivel sobre o assumpto e em limitadas linhas lan- 
çar segura luz; todavia, podendo a este respeito dizer 
alguma cousa em face da nossa pratica, é justo que o 
consignemos aqui. 

Convém primeiro lembrar que a Africa tropical do 
sul, cercada ao oeste, leste e meio dia por oceanos 
que pela evaporação lhe devem fornecer copiosíssimas 
chuvas, é varrida por ventos que, embora no mar te- 
nham uma directriz fixa, como o sueste do Indico e o 
su-sudoeste do golfo de Grume, variam um pouco na 



No Valle de Barótze 359 

terra firme, com o movimento do sol entre o equador 
e o trópico, resultando que aquelles princípios, em vez 
de seguirem leis geraes e invariáveis como era de es- 
perar, se modifiquem ás vezes frisantemente e escapem 
á rigorosa subordinação que tínhamos na idéa impor- 
lhes. 

Às chuvas da Africa intertropical do sul regulam 
pelo movimento pendular da verticalidade do sol so- 
bre os diversos pontos do continente, subordinadas 
ainda ao sopro constante das monções de um e outro 
lado. D'estes dois factores combinados, porem, procede 
a nosso ver. para a zona nublosa equatorial (cloud- 
ring), um movimento especialíssimo, cuja noção alii 

fica esboçada. 

■> 

Se. compulsando as narrativas dos viajantes africa- 
nos, in'ocedessemos a compilação rigorosa, aliás in- 
admissível nos limites de um capitulo, acliariamos que 
no Chinchonxo e no Congo começa a chuva em princí- 
pios de setembro; que no Cuango as tivemos em nossa 
primitiva viagem em fins de agosto; que na costa de 
Angola começaram ellas nos primeiros dias do dito 
mez de setembro; que no Manuyema são em outubro, 
bem como no Bangueolo e nos fins d'este mez no alto 
Zambeze, no Àroang-ua, e ainda em Zanzibar, para em 
novembro apparecerem peia terra que medeia entre o 
Nyassa e a costa, caindo também mesta mesma qua- 
dra em Moçambique. 

De tudo isto parece inferir-se que a linha que de- 
limita pelo sul (se assim nos é licito exprimir) a facha 
nublada da Africa tropico-meridional, e que nos me- 
zes de junho, julho e agosto se conserva estacionaria 



360 De Angola d contra-costa 

á beira do parallelo de 4 o sul, só começa a mover-se 
com a proximidade do equinócio do outono a cami- 
nho do meio dia, não conservando a perpendiculari- 
dade ao meridiano, mas inclinando-se e proseguindo 
parallelamente áquella que vae de Benguella á ilha 
de Zanzibar. 

Esta direcção faz adiantar a parte occidental, do 
que resulta o caso notado em toda a metade de oeste 
do continente, se não na oriental também, de virem 
pelo noroeste as primeiras trovoadas de setembro, cor- 
roborando um facto assas conhecido, e que observámos 
nas indicações dos viajantes, a saber: que para iguaes 
latitudes n'uma e outra costa da terra africana, as chu- 
vas apparecem mais tarde a leste do que no oeste, e 
do mesmo modo a meio do continente ellas se verifi- 
cam n'uma epocha intermédia ou próxima, onde pre- 
cisamente a igualdade da declinação e latitude marca 
o começo das primeiras tempestades, e grandes quedas 
de agua. 

Este retardamento de marcha pelo oriente, segundo 
vemos, se pode ter origem nos caracteres physicos do 
continente, não deixa comtudo de ir buscar uma causa 
no rumo dos ventos reinantes e sua influencia, encon- 
trando muito natural exjDlicação no esforço opposto do 
sueste do Indico, que, invadindo a superfície da terra 
negra, se lhe oppõe ao caminhar, impellindo-a para o 
quadrante do occaso do sol, bem como na abundância 
de vapor que os ventos do sul do Atlântico lhe enviam 
de ponto próximo, preparando-lhe ao mesmo tempo a 
condensação pela baixa da temperatura nas terras ele- 
vadas. 



No Valle de Barótze 361 

Então desencadeiam-se os elementos, constituindo 
a pequena estação chuvosa, que segue ininterrupta- 
mente até começos de dezembro, e pouco a pouco a 
facha nublosa, alastrando por toda a parte, desde o 
occidente até ao oriente, desfaz-se em catadupas, que 
a principio sempre trovoadas do noroeste produzem e 
depois formam pela banda do sueste, d'onde nas gran- 
des chuvas sopraram constantemente as mais terríveis 
tempestades. 

Não é fácil acertar aqui, nem ha mesmo elementos 
suíflcientes para isso, com a latitude attingida em seu 
movimento para o meio dia pela zona nublosa equato- 
rial atravez do continente, sob a influencia do sol ; tudo 
leva a crer porém que, ao menos na costa de oeste, ella 
não vae muito longe do parallelo austral de 12° ou 13°, 
pois, como de sobra está conhecido, as chuvas são ir- 
regulares ou raras pela latitude de Mossamedes, muito 
para o sul mesmo, e até para o interior no Cubango 
por 16° e 18°. 

Em resumo, pode dizer-se, a fim de terminar sob 
ponto de vista um pouco genérico, porquanto para o 
oriente as cousas se retardam de algum modo, que, 
sendo quatro as estações por aqui, duas de estiagem e 
duas de chuva, se acham approximadamente distribuí- 
das da seguinte forma: 

l. a Pequena estação das chuvas, aquella que come- 
ça com a passagem do sol no zenith, quando este vem 
do trópico de câncer. 

2. a Pequena estação de estiagem, a que tem logar 
quando o astro do dia descreve o trópico de capricór- 
nio. 



362 De Angola á contra-costa 

o. a Grande estação das chuvas, que principia com 
a passagem do sol no zenith, quando se dirige do tró- 
pico de capricórnio. 

4. a Grande estação da seçca, a que tem logar quan- 
do o sol se avizinha do trópico de câncer. 

E aqui se poderá também acrescentar, que, se mais 
cuidadosamente houvéramos meditado todas estas cir- 
cumstancias, não só pouparíamos o tempo que levá- 
mos a reflectir n'esse problema de importância pra- 
tica, mas teríamos evitado os estranhos sobresaltos de 
que fomos victimas, esperando logo em agosto as chu- 
vas no Zambeze e terras adjacentes. 

O rio Cuti é aproveitado pelos indígenas para a na- 
vegação, vendo-se constantemente numerosas canoas 
subindo e descendo carregadas de géneros e de gente, 
de proveniências diversas. 

Os ba-iáuma são hábeis marinheiros, assim como 
as mulheres, que por vezes observámos de vara na 
mão, dirigindo as embarcações. 

As várzeas d'este curso de agua, embora seccas 
e endurecidas pela superfície, acham-se inferiormente 
n'um tal estado de lodosa consistência, oscillando sob 
os nossos passos, que só conseguimos que o gado trans- 
pozesse o rio com o auxilio dos indígenas. O sobeto da 
localidade, um d'esses transfugas que, para descrédito 
nosso, se apresentam não raras vezes como j)ortu- 
guezes aos viajantes, intitulava-se Muene Lionze, e 
era mais nem menos de que um desertor, o onze 
de qualquer companhia de caçadores, que, evadin- 
do-se de Benguella com a própria arma, para ali 
viera estabelecer-se. Exigia cartuchame Snider com 



Nb Valle de Barótze 368 

tal atrevimento, que houvemos por melhor offerecer- 
lhe com uma cabaça de pombê na physionomia, a fim 

de o conter nos limites do respeito que se obstinava 
em esquecer, lamentando que não fosse o nosso cami- 
nho para a costa de oeste, a fim de o levar de presente 
á auetoridade. 

Allegava em defeza da sua insistência o facto de 
lhe ter Serpa Pinto dado muito cartuchame, do que 
também duvidámos, por sabermos quanto elle é cioso 
e económico de similhante venero de artigos; tão ra- 
ros no mato. 

Depois de atravessarmos unia longa floresta, onde 
a natureza siliciosa do terreno se accentua em tractos 
de areia, transpozemos o Chicolui no meio de uma nu- 
vem de lepiclopteros de variegadas cores, encontrando 
n'este local um recente acampamento de Silva Porto. 
O ousado sertanejo devia mez e meio antes ter passado 
por ali, em viagem do Lui para o Eié. 

Estivemos um dia todo junto ao rio, em consequên- 
cia dos esforços empregados para o atravessar com o 
gado. 

Uma comitiva de man-bunda (caçadores) appareceu 
ali, carregada de carne secca de elephante, e peia 
primeira vez em nossa vida tivemos occasião de ver 
a descoberto os músculos do enorme paehy derme, que 
em verdade se os houvéramos encontrado dispersos 
peio chão, mais depressa tomaríamos por pedaços de 
madeira ennegrecida pelo fumo, do que parte inte- 
grante de qualquer organismo animal. 

Divagavam estes homens havia mezes pelas selvas, 
comendo mel ou carne, e tão nédios e luzidios se acha 



364 De Angola á contra-costa 

vam, que começámos soffregos a appetecer essa cho- 
ruda alimentação! 

Contaram elles que, tempo antes, um dos seus com- 
panheiros fora atacado por grande elephante, cujo, col- 
locando-o cuidadosamente sob uma das patas, o havia 
reduzido ali ás tristes proporções de enorme pastelão! 
O mais notável, porém, foi que o cruel proboscida, 
depois de finda a triste tarefa, não querendo que o 
infeliz corresse os perigos talvez da insolação, cliri- 
giu-se cauteloso á arvore próxima, e, esgalhando os 
ramos que lhe aprouve, cobriu delicadamente os restos 
informes da victima. 

«São muito curiosos os elephantes ! » replicou logo 
um interlocutor, descrevendo enthusiasmado como um 
d'estes animaes, em sua presença, colhera um homem 
com a tromba, e o entalara de ventre para o ar, em 
grosso tronco previamente rachado, abalando no meio 
da mais galhofeira alegria! 

Que original ! . . . 

O Combulé, rio que adiante deslisa no meio de 
branca e solta areia, é o divisório das terras dos ba- 
iáuma e dos ba-róze, pelos bienos denominados lui- 
nas. 

E deserto aqui o terreno, coberto de matas, onde 
ha muito mel n'esta quadra, vendo-se por toda a parte 
gente a chupar nos dedos. 

Para attingir as nascentes do Ninda, tivemos de 
atravessar nova floresta fechada, em que uma sub- 
vegetação de mupas, agora despidas de folhas, nos 
fustigava constantemente com as rígidas varas, dei- 
xando-nos em deplorável estado. 



No Valle cie Barótze 



365 



Quando chegámos áquelle rio, cleparou-se-nos um 
espectáculo commovente, espécie de visào inesperada 
em meio do deserto, que nos levou o espirito a consi- 
derações de ordem triste, entibiando-nos o animo por 
alguns momentos, e recordando-nos como podem ter- 
minar as mais arrojadas emprezas humanas. 




Era a cruz symbolica erguida na cabeceira de uma 
modesta sepultura, marcando o logar de descanso de 
compatriota nosso, que fora victima de mal ferido bú- 
falo. 

O valle do Ninda é extremamente pittoresco e odo- 
rifero n'esta epocha, pois abunda ii'elle uma arvore 
que os naturaes chamam oco, cujas flores, espalhadas 
pelo vento, atapetam o solo, rescendendo d'ellas deli- 
cioso aroma. 



366 De Angola á contra-costa 

Serpeando em larga várzea de capim, na qual se 
apascentam búfalos, gniis e zebras, ladeado por dois 
renques de fechada mata, onde o elephante e o leão 
se acoutam, o alegre valle, com seu risonho aspecto, 
desannuviára tristezas, 23arecendo levar-iios para a 
terra da promissão. 

Ao acampar do primeiro dia demos em terra com 
uma formosa palanca, Hypp. equinus., cujo desenho 
apresentamos. 

Sepultámos ahi uma pequenita que morreu ao nas- 
cer, succumbindo também na segunda marcha um car- 
regador âquella sorte de meningite de que já tivemos 
ensejo de fallar. 

Continuando a caravana em j^erseguição da caça, 
caíram um gnú e uma cabra de agua, bem como uma 
espécie de tartaruga, Emydes? e um n'caca, Manis trm- 
mincki. 

Continuam as matas desertas, domínio só de ele- 
phantes, macacos, hyenas e girafas, de que julgámos 
ter visto pegadas. 

Silencio sepulchral envolve pela noite a extensa 
zona, onde vagueiam cautelosos e esfaimados todos 
esses habitadores dos bosques em procura de alimen- 
to. Apenas de quando em quando o pio de desconhe- 
cida ave nocturna, com dois assobios e um trilo final, 
quebra o profundo socego d'estas solidões, a que por 
vezes respondem os gritos do maçarico, ao elevar-se 
estremunhado da margem do rio, provando sem du- 
vida que algum quadrúpede se approximára da agua. 
O vento abrandou, e apenas como lenitivo d'este som- 
brio quadro, se não para entristecer com joenosas re- 



No Valle de Barótze 367 

cordações, tudo branqueia de prata a brilhante lua 
de agosto. 

Luctam de esforços o silencio e a solidão, e em- 
quanto a sombra da meia noite de pé e aprumada no 
ponto mais distante do dia caminha peia superfície da 
terra á cata de uma luz que jamais logra encontrar, 
a imaginação assombreada por tétricos j^ensamentos 
assalta o inquieto espirito, revolve-o, escurecendo-o 
também. 

E nós, erguendo-nos, mirávamos em volta os vultos 
tisnados dos nossos companheiros de infortúnio, e ao 
vel-os pacificamente adormecidos, tendo apenas no cre- 
pitar das fogueiras uma barreira ás famintas guelas 

lo o 

que de longe os appetecem, reílectiamos na miséria da 
nossa situação, para depois, contemplando o astro da 
noite, dirigirmos pungente saudade para a distancia 
ainda a percorrer. 

O trilho é feito ao longo do rio; a caravana, anciosa 
por chegar ao Zambeze, caminha rápida por elle. 

Nem um ser humano se encontrou em todo o traje- 
cto do Xinda, a não ser na proximidade da confluên- 
cia com o Xhengo, onde vimos as primeiras habita- 
ções. 

Muene Calungo-lungo era regulo n'esses sitios, cu- 
jos povoadores nos pareceram um mixto de man-bun- 
da e barótze, de mais feia catadura que os encontra- 
dos ate ali, clifferindo muito os seus comprimentos, 
feitos num aperto reciproco cias duas mãos, dos que 
usam os ba-iáuma, que se limitam a um punhado de 
terra arremettido ao peito, a que se seguem palmas 
compassadas. 



368 De Angola á contra-costa 

Pela tarde passou um bando de luinas pelo nosso 
campo, com as suas pelles ao hombro, penteados de 
tranças com contarias e pennas, manilhas de cobre, 
longas zagaias de madeira e ponta de ferro, amplos 
escudos, lembrando os dos landins, cor escura, aspe- 
cto robusto, o todo emíim attrahente. Embora nasci- 
dos e creados em região plana e pantanosa, onde, por 
varias vezes temos dito, o homem deve fatalmente 
soífrer pela influencia miasmatica, perdendo em vigor 
a sua constituição physica e mental pelo envenena- 
mento palustre; os que observámos constituíam uma 
perfeita excepção. 

Viam-se homens velhos e moços, e em nenhuns 
d'elles notámos essa pallidez, depressão corpórea, ru- 
gas e traços de prematura velhice, que formam o fácies 
typico das organisações arruinadas; ao contrario, via- 
mol-os todos robustos, denotando excepcional audácia 
e decisão. 

Calungo-lungo visitou-nos; abstemo-nos de descre- 
ver essa scena, porque as entrevistas africanas têem 
tal similhança, que a historia de uma basta para toda 
a vida de homem curioso. 

Sempre o mesmo quadro! 

E ainda é tão ridícula a gravidade d'esses encon- 
tros, que ás vezes o mais absurdo incidente quebra 
de modo pueril; são tão stultas as ceremonias e inter- 
mináveis os speeches, em que os negros, propensos para 
os circumloquios, exibem a sua altiloquencia em esti- 
radas orações, tratando em geral de todos os assum- 
ptos, menos d'aquelle para cujo fim se reuniram, que 
estremecemos com a idéa de ter agora de as explicar. 



No Valle de Barótzè 369 

cansados, como estamos das vezes que fomos constran- 
gidos a supportal-as. 

Aguardemos a nossa chegada á Garanganja, onde 
o leitor ficará ao facto do que se passa n'essas aborre- 
cidas visitas. 

Partindo de Cubango-lungo, demos ingresso nova- 
mente n'uma zona deserta, e, passada uma noite junto 
ao rio Colombeu, deixámos no dia immediato o trilho 
commercial do Genji, 3 milhas adiante d'aquelle rio, 
seguindo ao nordeste pela immensa campina, que, aqui 
como em parte alguma, se assimilha a um longo par- 
que. 

Difficil nos é agora caminhar desembaraçados, por 
causa dos numerosos desvios a que constantemente 
obriga a busca da caça. Em roda da caravana saltam 
os gnús, as zebras e antílopes em tal quantidade, que 
a muito custo conseguimos ficar indiffer entes. As pe- 
ripécias succedem-se. Aqui António dá em terra com 
elegante Adenota lecliee, e perseguindo uma recua de 
zebras, fere duas, emquanto da parte opposta um de 
nós vara grande gnú, e o outro, exasperado, solta al- 
luvião de imprecações por lhe ter a arma feito chap 
quando deu ao gatilho! 

Os cães prestam excellente serviço, sendo conve- 
niente a sua companhia a todos os viajantes n'estas 
paragens, sobretudo para a caça e perseguição do 
ultimo dos bichos citados. 

Quando ouve o latido do cão junto a si, este animal, 
embora levado pela mais vertiginosa das carreiras, 
suspende, e virando-se para elle, esforça-se em ata- 
cal-o, esquecendo a presença do caçador, que em taes 

24 



370 De Angola á contra-costa 

circumstancias pode perfeitamente atirar-lhe a queima 
roupa. 

Com frequência tivemos occasião de assistir a sce- 
nas d'estas, e raras vezes, quando era pequena a dis- 
tancia que nos separava, deixou António de abater um 
dos ditos quadrúpedes. 

O terreno torna-se progressivamente alagadiço, an- 
dando a caravana em marcha por agua desde a mar- 
gem direita do Lia-Mucussi, onde se enloda a cada 
passo. Junto a este rio encontrámos umas miseráveis 
senzallas de ba-nhengo, que, ao avistarem-nos, abala- 
ram. As mulheres sobretudo, ao presentir-nos, fugiam, 
parecendo uma nuvem de pássaros, só deixando si- 
gnaes da sua presença pelas pegadas no movediço la- 
maçal. 

O solo é tão pouco próprio para a cultura, que se 
vêem os naturaes na necessidade de cavar grandes 
valias em volta do recinto da 23lantação, accumulando 
a terra na altura de 50 centimetros, para que a semen- 
te não apodreça mergulhada n'agua. Apenas produz 
o Pinisetum e nunca o tabaco, que não se encontra 
d'esta banda do valle do Zambeze, onde por contraste 
começámos a notar desde o Ninda numerosas Hyphoe- 
nes e uma palmeira rasteira, sorte de Raphia, dispersa 
pela campina. Por causa da fraqueza da terra que 
duas ou três sementeiras seguidas deixam extenuada, 
são os indigenas obrigados a mudar com frequência o 
logar das suas habitações, procurando no solo virgem 
a riqueza de que jDrecisam. 

Dois man-bunda, um dos quaes é feiticeiro, nos ser- 
vem de guias por meio d'esses atoleiros, até á libata 



Nb Yalle de Barôtze 871 

do regulo Muene Munda; o nosso guia entrega-se a 
sortilégios, passando longas horas da noite em encan- 
tamentos e adivinhações com a sua cabaça de artigos 
a isso apropriados. 

N'um logar chamado Quiúla deu-se com elle certo 
caso que nos deixou vexados aos olhos dos nossos, ar- 
reigando-se ainda uma vez em seu espirito a ide a de 
que os n gangas possuem o segredo de poder adivinhar. 

Eis o facto. 

Quando proseguiamos por meio das planuras, pas- 
sando próximos de plantações ou senzallas desertas de 
ba-nhengo, avisou-nos ao segundo dia o rí ganga, de 
que urgia tomar toda a cautela com os povoadores, 
porque, sendo pelo geral hostis, como quasi todos os 
ba-lobale, eram sobretudo e muito especialmente con- 
summados ladrões! 

Esta declaração na boca de um preto do mato não 
nos mereceu grande confiança, pois o gentio, por andar 
sempre fugido, parecia extremamente timido, e pouco 
disposto a qualquer tentativa audaciosa. 

Desprezando assim as suas indicações, alvitrámos- 
lhe um outro modo de ganhar a vida, pela improficui- 
dade d'aquelle; recommendação que ouviu attento, e 
depois afastou-se para o mato, procedendo de cabaça 
na mão a outras adivinhações, ás quaes de longe as- 
sistíamos, quando por vezes nos dávamos ao trabalho 
de observal-o. 

Approximava-se o sol do horisonte, è tínhamos aca- 
bado de jantar, quando o nosso homem de novo se 
apresentou, encontrando-nos então em melhor dispo- 
sição que de manhã. 



372 De Angola á contra-costa 

Vinha satisfeito e com ar de quem decidira questão 
importante, após as profundas locubrações a que se 
entregara. 

Chamado o interprete Pedro, rapaz da nossa comi- 
tiva, acocoraram-se os dois, começando o n ganga a fal- 
lar. A complicada oração prolongou-se por um bom 
quarto de hora. 

— Então, que disse elle? inquirimos nós a Pedro, 
esperando alguma revelação estupenda. 

— Por ora, respondeu este muito fleugmaticamente, 
ainda não disse nada! 

Escusado será descrever aqui o nosso espanto pe- 
rante similhante facto, que só julgávamos apanágio 
dos tribunos da velha Europa, e, silenciosos, esperá- 
mos se dignasse proferir alguma cousa. 

Então? 

Tornando a tomar a palavra, arengou longo tem- 
po o quer que fosse. Pedro nos explicou ser uma es- 
pécie de fabula, relativa a scenas passadas entre cor- 
pulento elephante que se não arreceara das ameaças de 
um grupo de bissonde (formigas guerreiras), as quaes, 
colhendo-o a dormir pela noite, se lhe enfiaram pela 
tromba, levando o animal no desespero a suicidar-se, 
batendo com ella pelas arvores. 

Additou outra, concernente á entrada dos ratos pela 
noite nos celleiros, etc, que, por mal interpretada, fi- 
cámos sem comprehender o que elle desejava e se nos 
eram applicaveis similhantes narrativas, até que dis- 
postos a deixar de escutal-o, íamos levantar a sessão, 
quando o mysterioso interlocutor se decidiu por fim 
a explicar-se. 



No Valle de Barótze 373 

Queria primeiro que tudo quatro jardas de fazenda, 
como pagamento do serviço que se propunha fazer- 
nos; logo depois de recebidas, declarou que acabava 
de adivinhar que dentro de limitadíssimo espaço, quan- 
do muito de dois soes, seriamos infallivelmente rou- 
bados pelos naturaes da terra onde estávamos. 




mm^ 



CABEÇA DE PALANCA 

Seyundo um croquis 



Até aqui não offerece originalidade a historia, nem 
credito deviam valer as indicações cio negro; o certo, 
porém, é que n'essa noite ás duas horas éramos effe- 
ctivamente roubados, sendo para lamentar que elle 
n ganga não tivesse aproveitado para si a parte que 
lhe cabia da revelação, pois foi também uma das vi- 
ctimas, perdendo o próprio machado! 



374 De Angola d contra-costa 

Introduzindo-se de súbito no acampamento, os ba- 
nhengo furtaram-nos uma arma, uma espada, os pan- 
nos de um homem e o machado ; caso estupendo, e que 
jamais em nossa viagem se tornou a repetir, pois não 
ousam os indígenas penetrar nos acampamentos pela 
noite, ficando os nossos convencidos que nada ha como 
um ríganga para adivinhar, sendo também certo não 
haver quem como elle fique tão tranquillo ([liando o 
expoliam ! 

Proseguindo em cynegetica excursão caminhava a 
comitiva despreoccupada das tenebrosas idéas da fome 
entre alluviões de antílopes, esperando a todo o mo- 
mento soborear a carne que por todos os lados se of- 
ferecia como estimulo appetitoso, até que chegámos á 
habitação de Muene Munda, sobeto man-bunda, que 
outr'ora residiu em Colombeu, d'onde se retirou por 
serem fracas e pouco productivas as terras que lhe 
circumdavam a aldeia. 

Muene Munda é em extremo feio. Physieamente des- 
favorecido pela natureza, possue, entre vários defeitos 
que o tornam repellente, uma bronchite chronica, com 
a qual anda em permanente lucta, e que o leva a in- 
terromper a conversação com repetidos ataques de 
tosse! 

— Já vos esperava, disse-nos elle radiante de ale- 
gria e dispersando perdigotos em todos os sentidos ; 
ao mesmo tempo contemplava os nossos fardos de fa- 
zenda e o seu original capote de intestino de elephante 
surrado e batido, com ar de quem pensava que emfim 
se ia emancipar da suja companhia do sórdido manto, 
curioso sobretudo pelos numerosos exemplares d'essa 



No Valle de Barótze . 375 

fauna minúscula e cosmopolita, que se apostou em ser 
companheira do homem, logo que esqueça ou desco- 
nheça a hwienica necessidade da ablucão! 

í J O i 

As mulheres d'esta aldeia gostam muito da musica, 
mas principalmente da dansa. Possuem um talento es- 
tranho na apreciação da harmonia, executando coros 
com proficiência notável, e sobretudo desusada ex- 
tensão. 

Os seus instrumentos musicaes são em absoluto ru- 
dimentares, reduzindo-se a marimba e tambor, mas 
os trechos de canto agradáveis e suaves, inspirando, 
quando ouvidos pelo socego da noite, uma emoção, a 
que estávamos longe de nos suppor accessiveis no 
âmago dos sertões africanos. 

No furioso afan com que se entregam aos exerci- 
dos choreographicos, excedem porém toda a expecta- 
tiva. 

Pelas sete horas da noite deram ingresso no acam- 
pamento as beldades da terra, para dansar em nossa 
honra, e ás sete e meia os primeiros rufos annuncia- 
ram o começo da scena, em vasto circulo junto das 
tendas. 

Os traços geraes das mulheres d'ali não imprimem 
repulsa, e o seu aspecto, embora isento de encantos e 
pouco digno de aturada contemplação, perturba a paz 
dos sentidos, quando vivificado pelas formas da joven- 
tude ! 

Ao vel-as menear-se com donaire ao compasso das 
palmas e do canto, lançando por momentos para os 
brancos um olhar de maravilhada e suspeitosa curiosi- 
dade, os tristes auctores d'estas linhas, acocorados 



376 De Angola d contra-costa 

junto das tendas, esqueceram por mais de uma vez 
o rumo a que lhe ficava Moçambique! 

Pelas sete e meia, dissemos nós, começou a dansa, 
a qual só concluiu ás sete da manhã. 

Durante doze horas consecutivas cantaram e dan- 
saram essas filhas de Eva, com o intuito de dar uma 
prova da sua alta consideração pelas nossas humildes 
pessoas, prova que, por demasiado extensa, não po- 
demos acolher acordados, mas a que nem por isso 
fomos menos sensiveis depois, reflectindo na pertiná- 
cia e resistência que e mister j^ra supportar uma 
noite inteira de tal exercicio. 

Traduzido o nosso reconhecimento em lenços de 
cores e contarias ás gentis da terra, envolvemos o 
catarrho de Muene Munda n'um panno, promettendo- 
lhe que na volta seriamos mais generosos, e tomando 
de novo o caminho das campinas alagadas, deixámol-o 
pavonear-se entre os seus. 

Por meio dos canniçaes tivemos durante o dia de 
fazer as mais estranhas voltas, para tornear os gran- 
des alagamentos que cobriam a superfície do solo, to- 
mando por vezes banhos involuntários; e atolando-nos 
aqui para mais adiante nos levantarmos, fomos assim 
dirigindo a nossa comitiva ideias tristes terras dos ba- 
lobale. 

Junto á lagoa Lissale-ia-Muringa vimos abundância 
de caça, fazendo-se larga colheita de vários animaes, 
figurando entre elles duas formosas zebras, que foram 
acto contínuo devoradas. 

r 

E esta a quadra da creação, principalmente para 
gnús, palancas e outros antilopes, andando as fêmeas 



No Valle de Barôtze 



377 



com os filhinhos ou próximo a tel-os, de maneira 
que são ellas quasi sempre as victimas da persegui- 
ção dos caçadores. 

Quem observasse pela noite n'esse acampamento, 
illuminados pela luz avermelhada das fogueiras, de- 
zenas de homens de facas em punho e de aspecto pa- 




HOMEM DO LOBALE 
Segundo um croquis 



tibular, rodando as peças de caça, extrahindo aqui as 
visceras de uma zebra, e esvasiando-as por movimen- 
tos de braço, á moda de quem mede fitas, esfolando 
alem um gnii, cuja carcassa pouco a pouco emerge do 
negro envolucro, disputando entre si a cauda ou as 
mãos, e quasi esfaqueando-se na divisão da peRe; mais 
julgaria estar entre cannibaes, do que entre homens 
ao serviço da causa da sciencia e dirigidos por euro- 



peus 



:! 



378 De Angola á contra-costa 

Nós mesmos, de ha muito habituados a estas scenas, 
quando a meio d'este movimento attentavamos nos 
actos dos nossos companheiros, e éramos testemunhas 
da anciã selvagem com que estes esbrugavam a apo- 
physe de um fémur, e aquelle devorava sôfrego os 
tendões agarrados a uma tibia, não podiamos deixar de 
reflectir quanto o homem se rebaixa ao nivel da ani- 
malidade sempre que a falta de recursos o obriga á 
lucta para alimentar-se; e quanto o infeliz perde da 
superioridade, e se apresenta aos olhos do investiga- 
dor como o mais vil e despresivel dos irracionaes. 

A medida que do Zambeze nos íamos approximan- 
do, as cousas peoravam. 

Não era já o simples alagamento do solo n'um ou 
n'outro ponto, mas lagoas que se alongavam em todos 
os rumos da agulha, e que tínhamos de atravessar com 
agua pela cintura. 

A caravana, opjn-essa de cansaço e sob um sol de 
queimar, que esses atoleiros recoze, e dos quaes ao me- 
nor movimento se exhalam gazes envenenadores para 
as mais robustas organisações, continuou ainda assim 
para o nordeste, e transpondo lamas, derribando gra- 
mineas, propunha-se attingir o grande rio na sua con- 
fluência com o Lungué-Bungo. 

Pouco a pouco, porém, tudo se aggravou, e adiante 
do Malauca fechou-nos pelo oriente a passagem uma 
linha de pântanos a começar na lagoa Icanhocando, 
que se tornou impenetrável. 

Arquejantes e esbaforidos no meio d'esses matagaes, 
e dando a Satanaz tão rude trabalho, ora desatolava- 
mos os bois, ora tinhamos de safar dois homens enter- 



No Vatle cie Barótze 379 

rados com as respectivas cargas, ora inopinadamente, 
faltando o pé aos bois-cavallos, batíamos com o corpo 
em cheio na agua ! D'ahi para diante foi mister cortar. 
ao norte, e volvendo mais longe ao oeste, por se mul- 
tiplicarem os embaraços, tivemos que voltar para o 
sul após dois dias de marcha, e passando de novo por 
Icanliocanclo, seguir direitos a Libonta. 

De dia para dia se emaranham os matagaes, unem- 
se os ribeiros, alastram-se as lagoas, fazendo d'este 
paiz o labyrintho de mais estranho caracter que temos 
visto. 

Era um martyrio o avanço de uma milha em tal 
solo, tão numerosos e repetidos foram os fracassos 
succedidos, assim como enfadonho o procurar cami- 
nho direito. 

Houve mesmo occasiões em que desesperámos da 
empreza de attingir o Zambeze, acreditando que a ex- 
pedição a nosso cargo não proseguiria na linha itine- 
rária que projectara, e ao contrario tinha de volver ao 
norte, se não para a retaguarda, e assim, enfurecidos, 
desesperados, rodando oppressos pelos lameiros em 
busca de saída, como a fera em apertada jaula, per- 
díamos a noção da serenidade, desentranhando-nos em 
imprecações. 

No rio Loanguinga, estirada e ennegrecida faxa de 
agua, que deslisando n'um leito lodoso, intransitável, 
draina as regiões superiores do Lobale e que de súbito 
se nos atravessou no caminho, estivemos a ponto de 
perder a rasão em face de tanto obstáculo. 

Parecia que a lama, o capim, as contrariedades dos 
nossos e a perfídia gentílica se haviam colligado trai- 



380 De Angola á contra-costa 

çoeiramente para nos derrotar o animo e impedir a 
passagem. 

Foi aqui que recebemos os primeiros emissários de 
Luanhica, o chefe maior do Genji, com que o major 
Serpa Pinto estivera em viagem para o Natal, e de sua 
parte nos vinham convidar a que o visitássemos em 
Li alui. 

Aquelles mesmos que encontrámos, tinham conhe- 
cido e fallado com o nosso compatriota, cujo porte e 
trajo descreviam. 

Tal visita, porém, só podia ser feita por canoas no lo- 
gar em que estávamos, e não tendo os indigenas as suf- 
icientes para conduzir Loanguinga abaixo toda a co- 
mitiva a nosso cargo, declinámos similhante convite, 
enviando ao regulo os nossos emboras. 

E extremamente abundante o peixe no Valle de Ba- 
róze, tendo nós occasião de ver e provar o Mugil afri- 
canas, o Glanis silnris, o Ciarias capensis e outros cujos 
nomes não nos occorrem n'este momento. 

Do solo também pouco podemos dizer, tão difficil 
era o seu estudo e principalmente a conservação de 
qualquer exemplar. Pareceu-nos porém ser constituido 
inferiormente por um sandstone em desaggrego, co- 
berto de um tuff ou quer que seja de caracter alluvial, 
semeado de uma sorte de conglomerados ferruginosos, 
alternando com tractos de areia mais ou menos longos. 

É pobre, como já mais de uma vez o dissemos, de 
todo impróprio para as culturas que carecem cuidado, 
e a nossos olhos incapaz de melhoramento. 

Apenas produz uma colheita, urgindo depois aban- 
donal-o á influencia dos depósitos da quadra pluviosa. 



No Valle de Barótze 381 

Transposto o Luanguinga, após as mais enfadonhas 
scenas, entestámos com a linha de leste, atufando-nos 
de novo nos lameiros e pântanos. 

Os carregadores mais possantes haviam quebrado 
nos últimos tempos, e na lucta do transporte de um 
pesado volume e do constante esforço de se desenter- 
rarem, caíam por terra, abafados pela fadiga. 

Urgia suspender ou procurar terra onde as circuni- 
stancias fossem outras, aliás em pouco tudo se perde- 
ria. 

Fazendo uma ultima diligencia avançámos. 

A 11 de setembro, pelo meio dia, deu a expedição 
vista do Zambeze, e, soltando um hurrah de alegria,, 
acampou na sua margem. 



CAPITULO XIV 



LIBOXTA 



. . . mas fui informado que em parte alguma esta 
região é saudável. Quando as aguas começam a re- 
tirar do valle. taes e tamanhas são as massas vege- 
taes em decomposição, e expostas a um tórrido sol. 
que os indígenas soffrem de febre. 

Livixgstoxe — Missionary traveis. 



Territórios atravessados e outros a percorrer — que havia para alem 
do Zambeze — A uossa curiosidade e o cpie se pensa sobre a Africa — 
rpie é a final o interior do continente — As planaras zambezeanas — A 
verdade sobre ellas — Dificuldades, ventos e temperatura — E uma d'essas 
regiões de que falia Stanley e onde Livingstone pereceu — Contraste com- 
pensador nas scenas de caça — Opiniões de Livingstone e nossos juizos 
antecipados — Abundância de antilopes e ohopo — Libonta — A vegetação 
ao tempo d"aquelle viajante e agora — -Seu aspecto — A terra em redor — 
Mucobessa e os habitadores do G-enji — Seus trajos e porte das mulheres 
— Uso immoderado do rapé e o lenço dos luinas — Profundo abatimento 
physico da gente da expedição — Dia 13 de setembro — As moscas de 
Libonta — Caçada ás rollas — Ornithologia do Zambeze — Considerações 
geraes sobre p valle de Barótze e trilhos que ali conduzem. 



^ttftt 




* A -& 



Os territórios que acabávamos 
de atravessar, embora d'elles hou- 
vesse uma noção mais ou menos 
vaga, pelas grandes linhas na car- 
ta traçadas, nem por isso deixa- 
vam de ter um caracter de novi- 
dade, de que evitamos abrir mão. 
O curso do Cubango a montante 
r> " do Bucusso (Mucusso), bem como 
o de todos os seus grandes affluen- 
tes, estava por visitar, e ainda hoje reclama desvelada 
attenção. 

O aspecto das terras e a natureza do solo das duas 
margens d'este rio também era em grande parte igno- 
rado, pois viajante algum por lá se aventurara, para 
poder dizer-nos em livro quanto vira, e apenas Dufour 
n'uma correspondência deu indicações muito confusas 
acerca dos amboellas. 

25 



386 De Angola á contra-costa 

Uma mancha branca estendia-se no mappa, que o 
nosso itinerário, cortando pelo meio, de certo modo 
illuminou agora. 

Mas se até aqui era necesario um estudo interes- 
sante, e n'elle alguma cousa se fez, adiante havia mais 
e melhor. 

Ahi principiava a parte mais seria da nossa viagem 
de exploração atravez do continente africano, assim 
como iam ter começo os soffrimentos da caravana, os 
quaes até tão longe a tinham de acompanhar, ceifando 
a vida de tantos dos nossos companheiros. 

Para alem do Zambeze estendia-se uma região 
enorme coberta de florestas, onde tudo era novidade, 
tudo estava por descobrir e fazer; fácies que muito 
naturalmente, como deve suppor-se, nos attrahia cu- 
riosos, sem embargo dos receios que os indigenas com 
suas informações terríveis tinham derramado no ani- 
mo de todos. 

A Africa, verdadeiro nadir da civilisação, quando 
se considere a Europa como zenith, continua a ser o 
ultimo refugio do maravilhoso e do romanesco. E uma 
terra estranha, pensa-se geralmente, muito elevada di- 
zem os que a conhecem, e como tal salubre na opinião 
dos que julgam saber, pela necessária invenção de 
grandes correntes aéreas por essas altitudes,* mas in- 
felizmente cercada de uma zona baixa, onde a malá- 
ria, a insolação e muitas outras causas impedem o seu 
regular accesso. No centro d'ella presume-se que exis- 
tem as mais extraordinárias cousas desconhecidas de 
nós, e, se não é completo mysterio, como nos tempos 
de Heródoto e de Plinio, esse vasto território, ora se- 



oo- 



Libonta 38 

meado de serranias, ora dividido por extensos e areno- 
sos valles, conserva pontos fora do alcance da inves- 
tigação. 

Quem se não recorda ainda do homem cynoceplialo 
do primeiro dos historiadores acima alludidos, dos in- 
divíduos com cauda, dos navegadores do oriente, de 
quem Castelnau nos falia, como muitos outros, refe- 
rindo-se espantados a essa peculiaridade orgânica, que 
a tradição conservava; do unicórnio fabuloso que os 
primitivos colonos hollandezes do sul viram, e no sécu- 
lo xvi os nossos compatriotas testemunharam a existên- 
cia, aggravando a original descoberta com um movi- 
mento especial da defensa; de milhares, emíim, de 
outras creações da humana concepção, que caem sem- 
pre no absurdo? 

Xinguem, certamente; e a verdade é que no meio 
de tão interessantes e attrahentes casos, faz pena, que 
appareçam os singelos pioneiros da epocha actual, e 
largando o bordão para calçar a luva, e, acto succes- 
sivo, descalçando esta para pegar da penna, venham 
com dois rabiscos dissipar tão phantasiosas idéas, var- 
rer com as illusoes desde o unicórnio fabuloso, até as 
serranias tremendas, cujas cabeças branqueadas pelas 
neves perpetuas contrastavam com os pés immersos 
nas areias ardentes! 

Lamentamos, e mais somos do officio, pela dupla 
rasão de que, se tal existisse, seria mais vasto o campo 
que teriamos a explorar em nossas narrativas, e por 
havermos sido victimas da mais cruel das desillusões 
no mesmo coração da Africa, quando nos preparáva- 
mos para ver e notar tanta cousa extraordinária. 



388 De Angola á contra-costa 

O interior do continente não passa, é certo, de ser 
em muitos logares, como todas as regiões centraes das 
differentes partes do mundo, uma terra na generalidade 
mais elevada, vegetante e salubre do que o cordão li- 
toral, tendo lá dentro, para mostrar ao viajante, muita 
cousa que elle de resto pode ver no exterior. 

Esta é a verdade, e por isso foi triste a impressão, 
ao abeirarmo-nos do curso do grande Zambeze. 

Intenso desanimo experimentámos ao chegar a essa 
região desolada j)elos ardores de um sol de chumbo, 
onde nem sequer um arbusto nos salvaguardava da 
sua perniciosa influencia! Bem- phantasiavamos nós o 
rio caudaloso, espadanando por meio de penedias em 
escumados lençoes, e que trazendo em seu caminho 
ameaças de destruição e mina, cavava persistente as 
rochas e raizes encravadas no argilloso leito; assom- 
breado o imaginávamos por frondosos arvoredos, nos 
quaes m'bafus, taculas, mupandas e mutontos erguiam 
á porfia os ramos em desafio com a .elegante hyphcene 
e outras plantas dos trópicos, onde a tempestade desfe- 
riria como nas cordas de uma harpa numerosas notas 
tétricas dos seus coros dissonantes, para depois estalar 
medonha, echoando ao longe nas encostas das serra- 
nias ; e ao cabo viemos bater em cheio n'um areal, por 
onde deslisa prateada fita, de quando muito 400 me- 
tros de largo, tendo nas margens d'aqui e d'alem zonas 
de 150 metros que nas chuvas o rio cobre, sem mon- 
tes, sem arvores, sem attractivos emfim. 

Era um Zambeze chato, árido de descrever. 

Perplexos á sua beira, os auctores da narrativa que 
vae seguindo, apoz a inspecção do barómetro, obser- 



Libonta 



389 



vando cuidadosamente quanto os cercava, chegaram a 
concluir que entre muitas cousas pela Europa ainda 
ignoradas, figura a do interior da Africa, e isto pelo 
simples motivo de que aos viajantes apraz, segundo 
parece, deturpar com muita frequência as notas sin- 
gelas que nos seus diários devem conter-se. 




antílope caama 

Segundo um croquis 



Porque, em sumiria, qual é a rasão de occultarmos 
a verdade, e pelo contrario exagerar quanto observá- 
mos, incitando futuros infelizes viandantes a que to- 
mem sobre si a empreza de curtir illusões e façam des- 
cambar para a realidade phantasias mais ou menos 
gratas sobre o assumpto?! 

Dizer que o valle do Zambeze é uma maravilha de 
riqueza, um prodigio de scenario, um éden emíim, 



390 De Angola á contra-costa 

idea que então nos dominava como a muitos, importa 
substituir o ludibrio á verdade, pois o valle do grande 
rio (pelo menos n'este parallelo) é um pântano, verde 
como panno de bilhar, menos liso do que este, depri- 
mido, triste, cercado de uma atmosphera dé estufa! 

Aquelle que de lá se abeirar, depois de transpor 
terras altas e arejadas, lia de fatalmente sentir-se do- 
minado pela mesma impressão desagradável que nós 
experimentámos, imaginando-se como que submerso 
no fundo de uma ravina, d'onde anceia por sair. 

E ainda esta bacia, lavrada em chão plano, não e 
isenta de obstáculos. Escondida nos grossos e bastos 
capins que por toda a banda a cobrem, cheias de la- 
goas e atoleiros, que os espinhos e altas gramineas 
guardam cuidadosos, impedindo todo o trilho regular, 
oíferece-se ao que viaja como um vasto campo, onde a 
cada momento se perde ofiegante, sem mira ou ponto 
de referencia que sirva de guia. 

Os ventos, de uma variabilidade extrema, augmen- 
tam as diííiculdades pelas alternativas de calmas e ven- 
davaes, que na epocha pluviosa devem ser grande em- 
baraço n'esta terra, onde tudo cansa e aborrece. 

O thermometro sobe com frequência e extraordina- 
riamente, como se pode ver das temperaturas observa- 
das, de forma que no meio dos espessos macissos das 
gramineas, sobre o terreno molhado e balofo, em plena 
calma, nós abafávamos, não sabendo a que recorrer 
para nos refrigerar. 

É uma d'essas regiões húmidas, perigosas, indescri- 
ptiveis, onde os viajantes atormentados pela tempera- 
tura e humidade de um lado, e pelos reptis e insectos 



Libonta 391 

do outro, enfraquecidos quasi sempre pela febre após 
dias de lueta, sofírem cruelmente, e do que, se teem a 
felicidade de escapar, se lembrarão com horror! 

Muitos, no curso das suas aventurosas expedições, 
d'ellas faliam, e alfim alii veiu também Livingstone a 
succuinbir, enterrado durante semanas na margem sul 
do Bangueolo. 

Os animaes ferozes pareceu-nos não se arriscarem 
muito pelo Lobale, difficilmente trilliavel para aquelles 
de maior vulto, sem embargo de nos dizer o dito explo- 
rador que ao tempo da sua passagem muitos leões an- 
davam de roda de Libonta. 

Em compensação nunca em paiz algum estivemos 
tão ricos de caça como n'este, porque a Africa do oeste, 
e sobretudo o norte de Angola, são pobres a este res- 
peito, tendo pouco ou nada visto em nossa primeira 
viagem. 

Parece mesmo que muito de propósito o acaso nos 
preparou scenas maravilhosas, para que, presencian- 
do-as, nos penitenciássemos das primitivas idéas. 

Foi aqui que vimos primeiro o Ant. Caama de que 
damos desenho. 

Eífectivamente quando em outro tempo nos veiu á 
mão o livro de Livingstone, traduzido e illustrado no 
jornal francez o Tour du monde, impressionaram-nos 
de todo o ponto as gravuras relativas a caçadas. 

As armadilhas gigantes de que o explorador inglez 
falia no Zambeze, as hecatombes estupendas de não sei 
quantos animaes caídos n'ellas, pareceram aos nossos 
olhos tão exageradas, que (sinceramente aqui confes- 
samos) não soffremos deixal-as passar 'sem as ter con- 



392 De Angola á contra-costa 

demnado como devaneio, pelo menos, do artista que 
fizera os desenhos! 

Assim, empoleirados em nossos aliás pretenciosos 
conhecimentos sobre cousas de Africa, estranhámos o 
que dizia o dito explorador, com a aggravante de ter 
consentido que taes gravuras saíssem á luz, sem sus- 
peitarmos que poucos annos depois teríamos de cor- 
roborar quanto elle dissera, assistindo a scenas simi- 
lhantes e em circumstancias que só a cegueira poderia 
oppor-se á nossa inteira convicção. 

E na verdade, podemol-o exprimir, é estupendo! 

Toda a terra que pelo oeste do Zambeze se estende 
até ás margens do Cubango, e para o norte constitue 
na epocha pluviosa a alagada e não transitavel planura 
de Lobale é, como dissemos, pela sua especial natu- 
reza, magnificas pastagens, desembaraçados horison- 
tes, etc, procurada por quantos herbívoros as flores- 
tas distantes acoutaram em suas densas ramagens. 

Similhando um immenso jardim como que batido 
e relvado por mão de homem, esse á primeira vista 
attrahente paiz completa tal illusão, por ser semeado 
de numerosas placas de terra, que por mais altas dei- 
xam vegetar arvores e plantas diversas, afigurando 
com exactidão os irregulares canteiros de um parque 
inglez. 

Pelos fins do mez de agosto, na força da sécca, como 
dizem os caçadores portuguezes, é, ao que nos parece, 
a epocha mais favorável para as excursões venatorias, 
pois que na das chuvas só se fossem feitas em canoas. 
Ahi chegámos cheios de fome, e bem dispostos a dizi- 
mar n'esses infelizes antilopes, cuja existência está su- 



Libonta 393 

jeita a uma constante lucta para escapar dos perigos 
que os ameaçam. 

Foi com effeito aqui que assistimos á maior diver- 
são cynegetica de que temos memoria, matando deze- 
nas d'esses tímidos quadrúpedes, não proseguindo na 
árdua tarefa, por nos faltarem litteralmente as forças, 
sobretudo a António, que andava desorientado. 

A todo o momento achavamo-nos entre nuvens de 
animaes, que, debandando em varias direcções, nos 
deixavam estupefactos, como que presos de uma mys- 
tincação. 

Os indigenas, cônscios d'este precioso recurso, de- 
dicam-se com afan aos cynegeticos devaneios, e pre- 
parando em epochas próprias essas formidáveis arma- 
dilhas já citadas sob a designação de hopo, apanham 
em verdadeiras hecatombes dúzias de infelizes e timo- 
ratos antilopes. 

Não se nos proporcionou ensejo de assistir a algu- 
ma d'estas extraordinárias scenas, que devem ter para 
o recemchegado muito interesse, assimilhando-se tal- 
vez ao que em nossa primeira viagem testemunhámos 
no Quioco. 

Estávamos acampados junto a Libonta, ultima po- 
voação dos ma-cololo ao tempo da passagem de Li- 
vingstone, e hoje habitada por uma população mixta 
de ba-lui e ma-róze, sob a direcção de Mucobessa, vas- 
sallo de Luanhica, soba do Grenji. 

A julgar pelo que o viajante inglez diz d'este sitio, 
deve ter progredido muito desde a morte das duas 
viuvas de Sebituane, assim como variou de aspecto o 
terreno e a natureza em redor. 



394 De Angola á contra-costa 

«Libonta, diz-nos elle, está collocada em um outeiro 1 
como o resto das aldeias do valle de Barótze; e so- 
mente n'este as zonas cobertas de arvoredo se appro- 
ximam aqui mais da margem do rio.» 

Ora como os bosques desappareceram na região em 
que se acha estabelecida, é de crer que no citado lapso 
de tempo fossem as florestas derribadas pelos indíge- 
nas da localidade, do que resulta serpear o Zambeze 
ali entre terras cujo aspecto já descrevemos, onde só 
vegeta a marianga. 

Vista em distancia pela banda do noroeste, qua- 
drante d'onde primeiro a observámos, tem esta povoa- 
ção uma apparencia original e mesmo imponente, que 
contrasta com a aridez das terras em que assenta. 

Sobre a eminência que, a distancia de 1,5 milha, 
acompanha o curso do rio, ergue-se, ou melhor empo- 
leira-se, a populosa villa, que já trasborda na planície. 

Eriçada de centenas de agudas cúpulas de colmo, 
ameaçando os ares com as suas vivas arestas, similha, 
quando vista de longe, estampada no limpido azul dos 
céus, o extenso cerro cuja pouco resistente estructura 
houvesse cedido ao lavor prolongado das chuvas dos 
trópicos. 

A meio levanta-se isolada, como que para escarne- 
cer dos capins circum vi zinhos, uma única arvore, um 
espinheiro, esguio, debruçado para o nascente, pare- 



1 As villas c aldeias no valle de Barótze são por toda aparte estabe- 
lecidas em morros e cerros. Por vezes são estes artificiaes, como aconte- 
ceu com a que outr'ora Santuru edificou ao sul de Naliele, antiga capital 
do districto. 



Libonta o 95 

cendo espreitar o curso do rio, que o observador vê 
marcado na planura por tortuosa fita de alvacenta 
areia. 

Em roda estira-se adormecida a campina em meio 
da calma, coberta por um céu anilado, e cortando-se 
ao longe em circulo bem definido como de liorisonte 
marítimo. 

Pelo dia tudo convida ao somno, e emquanto o rei 
da creação dentro da cubata deixa descuidado correi- 
as horas, sacudindo na ociosidade as moscas importu- 
nas, os antilopes retiram, o crocodilo na várzea amos- 
tra o áspero lombo ao sol, espreitando com toda a sua 
paciência a preza que d'elle se abeira pouco cautelosa, 
o hyppopotamo emerge a miúdo bufando, as aves e 
os insectos percorrem azafamados o ar e a praia em 
busca de alimento. 

Ilhas se destacam pela face do rio, cujo desnivela- 
mento no tempo das chuvas vae l m ,5 do nivel actual, 
drainando todas as aguas da enorme planura do no- 
roeste. 

Libonta tem um chefe supremo, como dissemos, que 
se denomina Mucobessa, sorte de mytho, a suppor pelas 
contradictorias informações que nos foram fornecidas 
sobre o seu modo de existir e acerca do logar onde ao 
presente habita. 

A verdade é que nunca o podemos ver, apesar de 
dois dias o esperarmos. 

Os habitadores luinas ou ba-genji, pelo geral altos, 
esbeltos, usam pelles ou pannos; sendo que as primei- 
ras muito compridas os cobrem elegantemente, amar- 
radas com garbo em redor do pescoço. 



396 De Angola â contra-costa 

As damas podem dizer-se galantes, trajam com 
gosto, como se vê pelo desenho, usando quasi sempre 
pelles de boi preto. 

Ostentam-se assas senhoris, e parece pelo seu ar 
que a metade mais forte não propõe e dispõe d'ellas, 
como de resto é de uso em muitos logares do sertão 
africano. 

São vivas, e a final, á guisa do que é frequente, em 
jovens divertem-se; em adultas pervertem-se, ás vezes; 
em velhas, eu sei. . . convertem-se , talvez! 

Os ba-genji fazem uso immoderado do rapé, tendo 
suspensa do pescoço uma pequena espátula de ferro, 
que á laia de lenço empregam na limpeza do lábio su- 
perior. 

Dois dias nos demorámos ali, alentados pela espe- 
rança de comprar mantimento que nos chegasse para 
longe; mas foi frustrada, attenta a carestia e a falta 
d'elle. 

Desde a partida do Cunene, não lográmos comprar 
um dia de farinha para toda a gente, havendo vivido, 
como fica dito, da caça e do gado, que comnosco trans- 
portávamos, mercê de Deus, recurso sem o qual teria- 
mos certamente succumbido. 

Acresce não ser esta a alimentação mais conveniente 
a quem trabalha com ardor, notando-se portanto em 
todos profundo abatimento physico. Nós mesmo não 
escapámos a elle, e se é verdade que á força de riscos 
e soífrimentos temos vivido no meio de tantos obstá- 
culos, com a indiíferença bemfazeja que constitue o 
apanágio de quem a miúdo aífronta o perigo, nem por 
isso deixávamos de estar apprehensivos sobre a futura 



Libonta 



397 



sorte, em frente da árdua empreza que nos propúnha- 



mos. 



Eis o que se encontra como remate nas paginas 
derradeiras do nosso diário: 

A 13 de setembro dispozemo-nos a transpor o Zam- 
beze, cortando por tal forma na perpendicular a der- 
rota do velho Livingstone para Lobale. 




IXDIGEXA DO GEXJI 
Tirailo de um croquis 



Tendo-se porém levantado vento rijo, as ondas que- 
bravam com tal fúria na praia, que só pelas três ho- 
ras pôde começar a faina. 

Foi, porém, vantajosa essa delonga, attenta a diffi- 
culdade em conseguir que os naturaes nos coadju- 
vassem com as suas rápidas pirogas, auxilio que só 
prestaram depois de aguçada a cubica por um bom 



398 De Angola á contra-costa 

pagamento, e mediante ainda dois ou três discursos 
suasórios. 

Assim n'uma hora estava a expedição portugueza 
dirigida por Capello e Ivens do outro lado do Liam- 
bae, tendo terminado a primeira parte de sua viagem 
para o oriente. 

Se a animalidade de grande vulto está muito espa- 
lhada por toda esta terra, como já notámos, não me- 
nos abundante é a minúscula, esvoaçando aos milhões 
pelos ares moscas e mosquitos, o que julgámos devido 
aos amplos pântanos que marginam o rio. 

Emquanto estivemos em Libohta tornou-se um mar- 
tyrio a presença dos dypteros no acampamento. Era 
impossivel socegar um instante, e dentro da tenda ou 
fora, escorrendo agua a temperatura elevada, achava- 
mo-nos sempre cobertos d'elles. 

Importunos e vorazes, atiravam-se acima de tudo, 
cobrindo cargas e barracas como um negro sudário, 
não ousando pessoa alguma sair de sua casa, sem mu- 
nir-se com pennacho feito de cauda de boi ou de gnii, 
que constantemente precisava agitar. 

A ornithologia tem aqui largo estudo para fazer, 
pois são numerosíssimas as espécies de aves que ha- 
bitam por estas terras. 

Só nas margens do rio existem aquellas por muitas 
dezenas. 

N'um pequenissimo espinheiro, junto ao nosso cam- 
po, ponto escolhido pelas rolas para descanso da noi- 
te, matámos duas dúzias na primeira tarde. 

Os indígenas jamais atiram ás aves, só as perse- 
guem nos ninhos ou nas armadilhas, de maneira que 



Libonta o 9 9 

os innocentes animaes, não se arreceiando dos tiros, 
eram victimas de todas as descargas. 

Ao longo do Liarnbae vêem-se pelicanos ibis, n'esta 
epocha pouco frequentes, patos j)retos, outros mergu- 
lhadores, gaivotins, bicos de tesoura, com a mandibula 
inferior meia pollegada mais longa, uma espécie de 
pequena garça de bico curvo para cima, Recurvirostra 
avocetta, a Farra africana , maçaricos, passeando á su- 
perfície da agua, e quantas aves um tão importante 
lençol com seus alagamentos pode attraliir. 

Em terra percorrem os ares as rolas cinzentas, os 
pombos verdes, as ríduas de typos diversos, os Textor 
eryihr. e a ardetta, Herodias bubulcus, que pousam nos 
bois e nos elepliantes, e ainda outras aves, como o 
pássaro do mel C. indicator, o ferreiro, ou campainha, 
Pluvianus armatus, o pássaro que espreita, Charadrius 
carn neula, ave original, cuja curiosidade attrahe as at- 
tenções do viajante, a quem elle acompanha de ramo 
em ramo; e ainda a Numida mele grés, e muitos outros. 

Libonta é necessariamente insalubre. Collocada no 
fundo da depressão onde corre o Zambeze, a j)equena 
altitude, cercada de pântanos pela frente e por detraz, 
deve ser nociva á saúde dos europeus. 

Pela pouca riqueza do solo extremamente silicioso, 
abundância de pântanos, temperatura exagerada, pe- 
quena elevação, etc, este districto da Africa central, 
onde ainda de súbito apparece a tzé-tzé, está condem- 
nado a um permanente abandono por parte dos euro- 
peus. 

Xinguem n'elle pensará, jDorque não se presta a 
cousa alguma, só escolhendo-o, quando muito, como 



400 De Angola â contra-costa 

terra de passagem para alcançar os sertões orientaes. 
Em parte nenhuma, como aqui, o viajante que partir 
de qualquer das costas encontrará embaraços, sobre- 
tudo se for pesada a sua caravana e levar animaes 
de carga. 

Do Bié, os trilhos para attingir o valle são indubi- 
tavelmente aquelles de Silva Porto ; o logar para trans- 
por o Cuando, este onde nós o cortámos. Não pense 
ninguém em se aventurar, sobretudo na quadra das 
chuvas, mais para o meio dia ao longo d'elle; encon- 
trará apenas ahi obstáculos sempre crescentes; não 
imagine qualquer buscar variantes para um lado ou 
outro, porque será fatalmente victima dos seus atre- 
vidos devaneios. 

Cuatir, Luatuta, Longa e Cuito serão caminhos tanto 
peiores, quanto mais próximos do Zambeze se fizerem, 
e que nem mesmo para os ba-vico darão fácil accesso ; 
assim como é justo avisar, que não pensem os viageiros 
do sul vir do N'gami ou de outro qualquer ponto com 
carros ao longo d'esses rios, porque os perderão entre 
os lodaçaes dos parallelos de 15° e 18°; ou para es- 
capar serão forçados a retroceder. 

O terreno movediço, marginando sempre os rios, e 
estes correndo uns sobre os outros, formam uma rede 
complicada, cujos cruzamentos é impossivel evitar. 
Mais aqui ou mais alem aquelle que transita encontra 
uma confluência, d'onde sáe só ao cabo de innumeras 
fadigas. 

O mesmo caminho do Bié para o Mucusso, ao longo 
do Cubango, único trilhavel em boas circumstancias, 
começa a modiíicar-se do Dirico e Sambio em diante, 



Libonta 401 

vindo nas planuras de Sulatebele, onde derivam as 
grandes mollolas do sul, a alagar-se por modo tal, que 
é perigoso aventurar-se n'elle. 

— Nós, disseram-nos uns rapazes viajantes do Bie, 
na primeira excursão, proseguimos uma vez do Mu- 
cusso para o sul, no intuito de tentar negocio com os 
ba-cóca e outros povos que habitam aquellas terras, e 
conseguir orientar-nos sobre a bifurcação do rio, que 
nos diziam ser em Sulatebele ou Clmlatebele. A medida 
porem que avançávamos, as cousas offereciam peior 
aspecto, e após oito ou dez dias de viagem, tivemos 
de suspender, emmaranliados entre a marianga e o 
mabú, que tudo cobria, e os numerosos braços de agua 
que recortavam a terra em todos os sentidos. Era um 
immenso lodaçal, que provavelmente na epocha das 
chuvas se ha de tornar n'um lago. 

Estas indicações, que nós rejDutâmos verdadeiras, 
confirmam as nossas suspeitas quanto ao valle de Ba- 
rótze, e podem aproveitar áquelles que, propondo-se 
seguir por estas paragens, se derem ao incommodo de 
ler as presentes linhas. 

E deixando aos mais ousados o verificar se sim ou 
não é exacto aquillo que assertâmos, abalemos á aven- 
tura, dando graças á Providencia por nos ter consen- 
tido sair illesos d'essa terra de triste recordação. 



26 



CAPITULO XV 



DE LIBONTA AO CABOMPO 



Programma de viagem — A nossa satisfação e o susto que dominava 
os carregadores — Rasões d'esse facto — Meios de querer impedil-o — O 
Liambae e o Cambae — Os ma-róze, habitações e trajo — Decepções e 
roubos curiosos — Inopinada noticia sobre o apparecimento da mosca — 
Palancas, léchees e um leão — A Hyphoene ventricosa e o pa/pyrus — En- 
contro com a tzé-tzé — Duas quissemas, um Félix jubata e um songo — 
De novo na floresta, vantagens do apparecimento d'esta — Os ataques do 
leão e as nossas ordens por tal motivo — Nos limites do estado da Lunda 
— O Muata Ianvo e o seu prestigio — A liberdade do negro e duas consi- 
derações a respeito d'elle — A maior das victimas, a mulher — Afasta- 
mento d'esta de todos os negócios e recepções, e condição social do sel- 
vagem de hoje — Mantimentos á farta e satisfação consequente — O typo 
ca-runda e o ca-róze — Informações sobre o Cabompo e effeito das pala- 
vras de Muene Chilembi — Os mangoia e o receio da mosca — Pretensão 
inesperada de um bando de salteadores — Um dilemma para ponderar — ■ 
Tentativa de fuga de um carregador e o rio Cabompo. 




MULHERES BA-EUSDA 



Concluídos m 
os preparati- 
vos de jorna- T 
da e depois de 
havermos sof- 
frido com in- 
crivel pacien- $ 
cia as contra- 
riedades e vexames que acompanham sempre a par- 
tida de grande caravana de qualquer povoação impor- 
tante, eis-nos a 14 de setembro a caminho do norte 
ao longo do Liambae. 

O nosso programma de viagem fora feito junto a 
este rio, e, depois de discutido termo a termo, adopta- 
do definitivamente. Baseava-se elle na escolha de um 
itinerário que, atravessando pelo meio as zonas bran- 
queadas da carta, ligasse os mercados centraes mais 






406 De Angola â contra-costa 

importantes, accommodando-se tanto quanto possível 
a resolver se o Cabompo era ou não o Zambeze, se 
acaso derivava do lago Bangueolo, e podesse ao mes- 
mo tempo interpretar as relações das bacias hydrogra- 
phicas do Zaire e o dito rio. Escusado será considerar 
sobre o que a carta mostra com evidencia, bem como 
dizer que a linha de Libonta ao lago Moero era aquella 
que, prolongada para o nascente, resolveria por in- 
teiro o problema. 

Assim, ao partir do Liambae, a expedição portu- 
gueza destinava-se a transpor as florestas do nor- 
deste, e, visitando o Musiri e o Cazembe, tornear o 
Bangueolo, para depois seguir por Ulalla a caminho 
de Moçambique. 

Grande era a alegria que nos animava por essas 
chanas alagadas, afora a idéa dos problemas que breve 
se nos podiam dejDarar; mas, se havia exagero em a 
nossa satisfação, tremendo era o receio e o susto de 
quem nos acompanhava. 

Internados no âmago do continente, esses homens 
que apenas conheciam Angola, e quando muito ti- 
nham ouvido fallar dos ma-quioco, consideravam-se 
envolvidos na mais estupenda das emprezas, olhando- 
nos como uns loucos a correr a morte certa! Vagos 
rumores corriam entre a caravana sobre os nossos in- 
tuitos, chegando a afiançar-se que procurávamos cami- 
nho para Portugal }Dor meio das matas africanas, não 
deixando os mais imaginosos de acrescentar de sua 
casa historias sobre os obstáculos que nos esperavam. 

Eram cannibaes a cortar-nos o caminho, anões de 
cabeças disformes que nos aterrorizariam, desertos 



De Libonta ao Cábompo 407 

sem agua a percorrer, feras, cobras a debellar, emfim 
soffrimentos, cujo remate seria a fome e a morte! 

Comprehende-se facilmente quanto melindrosa era 
esta conjunctura, não dando nós, apesar de interessa- 
dos, o valor de uma carga de missanga pelo êxito do 
trabalho. A duvida pungente assoberbava-nos a inter- 
vallos o animo, sumindo no tédio a satisfação que nos 
animara ao relembrar descobertas e estudos scientificos 
pelos sertões; e como o espectador retardatário, apoz 
um quadro final de gloria em magica de vulto, trope- 
ça, ao ténue brilho dos últimos lumes, com os bancos, 
remirando triste o panno que o separa da attrahente 
visão, nós, escurecida a alegria das conquistas neces- 
sárias para a sciencia, pelo súbito fenecer da esperan- 
ça, topávamos irritados nos receios dos nossos compa- 
nheiros, como barreira que nos separava dos sonhos 
de cada instante. 

— Sabem ou não sabem para onde se dirigem? Dizia 
um mais atilado. Se sabem, porque o occultam? Se 
ignoram, para que proseguem? 

E nós, calando as explosões communicativas, con- 
servavamo-nos n'um silencio impertinente, que os tra- 
zia na mais completa perplexidade. 

O negro tem uma antipathia especial ou mesmo 
desconfiança por tudo que desconhece, e no receio cie 
se perder, assim como no desejo de conjurar o perigo, 
procura esclarecer-se, ou então fugir. 

Regularmente conhecedores d'esta circumstancia, 
tremiamos a todo o instante pelo desfecho, e redobran- 
do de vigilância, pensávamos no modo de evital-o. 
Dansava-se pela noite, apesar das misérias que nos 



408 De Angola d contra-costa 

rodeavam, e isso porque o ordenávamos; comprava-se 
quanto pombé apparecia, abatiam-se bois, distribuia-se 
fazenda aos mais ladinos; mas, apenas passada qual- 
quer d'estas distracções, recaía o acampamento no té- 
trico silencio do costume. 

Era uma caravana de crentes ao approximar-se re- 
ligiosa da Caaba! 

O Liambae divide-se, na região em que nos achá- 
mos, n'um braço formidável denominado Cambae, que 
entra no grande rio, logo a jusante de Libonta, margi- 
nado ao nascente por grandes lagoas e pântanos. 

Nas ondulações da terra á direita ficavam as ca- 
banas dos ma-róze, pescadores na maior parte e per- 
feitos marinheiros. Em suas longas pirogas, munidos 
sempre de fisga e zagaia, operam prodígios de evolu- 
ção e rapidez, deixando-nos maravilhados com taes 
exercidos. 

As suas miseráveis habitações mudam, ao que pa- 
rece, conforme as estações, da zona alagada para 
aquella mais firme. O seu trajo é singelo; a pelle de 
leopardo, o lenço metallico e a cabaça de rapé, ou pe- 
quenas espheras de marfim lavrado, são objectos in- 
dispensáveis para quantos se prezam. 

De catadura feroz, o seu moclo de fallar é curioso, 
guttural, semeado por uns constantes Euh! Euh! que 
similhando ao recemchegado traduzir o espanto, não 
passam de uma banalidade interjectiva. A rapina é a 
sua occupação mais predilecta. 

Seria ocioso aqui contar a serie de decepções que 
nos primeiros dias de marcha nos succederam, origi- 
nadas pela perfídia do negro. Basta dizer, para ava- 



De Libonta ao Cabompo 



409 



liar-se o caracter cTestes indígenas, que no pequeno 
período de quatro dias, seis d'elles, que serviam de 
guias, fugiram, roubando-nos. 

Eis ainda um facto comprovativo: 

Em Libonta appareceram no campo três senhoras 
de aspecto juvenil e recatado, a quem um cavalheiro 




CABEÇA DE HARKISBUCK 

Segundo croquis 



introduziu, dizendo que eram três das mais dilectas 
esposas de Mucubessa, que nos vinham visitar em no- 
me d'elle. 

Attrahidos pelo seu ar de honestidade e de candura, 
e para sermos agradáveis ao famoso regulo, que a fi- 
nal não conhecíamos, houvemos por melhor abrir um 
fardo, preparando a cada uma volumoso regalo. 



410 De Angola â contra-costa 

Infelizmente fomos ludibriados, pois ao quarto dia 
de marcha para o norte encontrámos o citado cava- 
lheiro envergando os paimos que tínhamos offerecido 
ás beldades, indo estas atraz d'elle, quasi mias, carre- 
gadas como uns camellos com artigos da casa do dito 
senhor, o qual n'este momento se mudava. 

Ao avistar-nos veiu á falia, sorrindo-nos com appa- 
rencia de victoria! 

Entre todas as decepções a mais cruel e inopinada, 
porém, foi a produzida pela noticia da proximidade 
da tzé-tzé. Quando ouvimos assim fallar da mosca, que 
presumíamos acoitada muito paia o oriente, todos os 
planos se confundiram, todas as suspeitas se aggrava- 
ram, temendo a cada instante perder os bois e cães que 
levávamos. 

A expedição, tendo transposto o alagado circulo dos 
lameiros, que a extenuara, mas sã e salva proseguíra, 
ia agora entrar n'aquella região mortífera da mosca, 
onde lhe estavam certamente preparadas grandes per- 
das. Assim nos achávamos por um lado cercados de 
pântanos, por outro de florestas infestadas pelo mais 
terrível diptero, ao qual adiante dedicaremos capitu- 
lo especial. A caça ali abunda, matando nós nos pri- 
meiros dias algumas palancas e léchees. No dia 17 
caímos sobre a trilhada de um leão que se acoitou nas 
gramíneas, evidenciando-nos a existência n'estas pa- 
ragens de grandes animaes silvestres, de que até ahi 
duvidávamos. 

O aspecto do paiz é ainda o mesmo, notando-se o 
apparecimento do Papyrus e de numerosas Hyphoenes 
com uma intumescência a meio da hastea, que julga- 



De Libonta ao Cabompo 411 

mos ser a Hyphoene ventricom, bem como de uma eu- 
phorbia elevada. Abunda por aqui a caça avistando 
nós por esta occasião o harrisbuck, que ainda não tí- 
nhamos visto. 

Foi nas margens do Lueti, onde primeiro se nos 
deparou a tze-tzé, vendo-nos obrigados a partir com o 
gado ás três horas da madrugada, a fim de pelo escuro 
transpormos a orla de uma grande floresta por ella in- 
vadida. 

N'esta viagem matámos duas quissemas, um felino 
conhecido y>oy felix jubata e um songo. 

A terra eleva-se gradualmente, bastas florestas co- 
meçam a vestil-a, consolando-nos com a amenidade da 
sombra e a idéa da sua existência, para nós já quasi 
esquecida e tão preciosa; pois vivendo em cubatas fei- 
tas á moda indigena, haviamos, por falta de arvores, 
nos últimos tempos, quasi dormido à Ia belle êtoile, ou 
em míseras choças feitas de canniço, que pela noite ao 
menor movimento ameaçavam desabar. 

Depois o cercado de ramos no acampamento é uma 
questão importante em zonas onde vive o leão, e so- 
bretudo quando se levam bois. Defendido o quilombo 
apenas por fogueiras, que pela noite amortecem, está 
o viajante e o gado um pouco á mercê das incursões 
do formidável felino, que de súbito com a sua presença 
tudo pôde comprometter. 

Raro é, bem o sabemos, atacar o leão na África me- 
ridional um acampamento, e isto j)elo muito natural 
motivo de que não anda esfaimado como o seu congé- 
nere do Atlas; mas, como uma vez pôde fazer exce- 
pção, convém mais prevenir do que lamentar. 



412 De Angola á contra-costa 

A queda de similhante quadrúpede sobre uma co- 
mitiva só pode trazer desgraças, que convém impedir 
por todos os meios. Basta lembrar o numero de mu- 
lheres e creanças que nos acompanhavam, para calcu- 
larmos quantas não seriam as victimas, caso se lem- 
brasse de nos acommetter. 

Para evitarmos quanto possivel um tal accidente, 
haviamos ordenado aos nossos carregadores que nun- 
ca fizessem fogo sobre o leão, ameaçando mesmo com 
um tiro quem se atrevesse a transgredir as nossas or- 
dens. 

Com o apparecimento das florestas conhecemos que 
nos approximavamos do limite da terra do Genji, ter- 
ra dos llanos e campinas alagadas, que confinam com 
os estados da Lunda. 

Esse immenso paiz, que só no parallelo de 10° tem 
540 milhas de largo, é governado pelo omnipotente 
Muata-Ianvo d , tendo muitos dos seus vassallos disse- 
minados por esta latitude, a uma distancia de 400 mi- 
lhas da capital. 

E sem embargo regulo algum do sertão é mais res- 
peitado do que esse homem, o qual reside no interior 
da Africa, ao nascente do rio Lulua. Todos os habi- 
tantes de seus vastos dominios são tributados, e ne- 
nhum, embora morando nos confins, deixa de pagar 
integralmente o devido imposto. E ai d'aquelle que se 
lembrar de fugir ao pagamento, que em breve o Muene 
Cutapa ou qualquer cáaiata, virá sem delonga tirar- 
lhe rasão da cabeça! 



1 Muata-Ianvo, ou Mata-Iafa são corrupções de Muato-Nvo. 



De Libonta ao Cabompo 



413 



Muene Chilembi foi o regulo ca-runda ou ca-lunda 
que primeiro encontrámos ali, informando-nos de que 
pouco tempo antes tinham partido da terra os envia- 
dos do Muata, que por sua ordem cobram impostos na 
zona do sueste. 

Xão causa estranheza o modo preciso por que se 
tratam estas questões fazendarias n'um domínio bar- 




TTPO CA-ROTZE 
Tirado de um croquis 



baresco, encravado entre outros não menos selvagens 
também? 

E a historia de todos os povos na infância: a vio- 
lência fazendo o seu papel na formação dos estados, 
a força brutal dispondo da sua considerável influencia 
para manter princípios e um tanto direitos contestá- 
veis. 

Um homem a quem só o prestigio do terror pôde 
conservar sobranceiro ao nivel dos seus conterrâneos, 



414 De Angola á contra-costa 

acerca-se ou rocleia-se de um grupo de sequazes, e 
comprehendeiido aquella necessidade, espalha-os de 
cutello na mão, derribando com as cabeças os protes- 
tos que em caminho se lhe erguem. 

Iniciada a obra de devastação, o terror apodera-se 
das massas, cada qual treme por si e pelo que tem de 
caro, e tanto basta para conservar milhões de homens 
acorrentados a uma só vontade! 

Quão menos livre é o selvagem ao presente do que 
o homem da civilisada Europa! 

Esses filhos das selvas — que na phrase dos poetas 
apparecem livremente pintados como a veloz gazella 
ou a graciosa ave dos bosques, e, irrequietos como as 
brisas, os ditos vates põem buliçosos por matagaes e 
florestas, impellidos pelos Ímpetos da própria vontade, 
sem norte nem peias que lhes restrinjam os desejos, 
levando uma vida a seus olhos invejosa — são as mais 
infelizes e escravisadas creaturas da terra, a quem uma 
infinidade de costumes bárbaros e absurdas leis re- 
pressivas apertam em férreo circulo no viver quoti- 
diano ! 

Em vez de uma completa liberdade pessoal, como 
á primeira vista se poderia presumir, o negro tem su- 
perior a si o regulo, que estuda constantemente o me- 
lhor modo de aproveitar- se d'elle, envolvendo-o n'um 
sem numero de preceitos e imposições que lhe tolhem 
todo o meio de acção. 

Mesmo dentro da própria casa o triste não gosa pre- 
rogativas sobre os seus, porque o chefe n'um momento 
pode tudo aniquilar, tirando-lhe mulher e filhos. Fora, 
no arimo e na terra que a familia agricultou, nada pos- 



De Libonta ao Cabompo 415 

sue também, porque, sendo o torrão propriedade do 
regulo, cVelle dispõe a seu belprazer. Mais longe, se, 
afastando-se, o misero, após ]3rolongacla fadiga, con- 
segue abater um animal em terra de vizinhos, eis que o 
chefe d' ali, acercando-se, lhe exige o melhor producto 
do seu trabalho, ficando o remanescente á mercê do 
outro. 

Emfim, se, transitando em campo alheio, occasio- 
nalmente ultrapassou praxes por elle ignoradas, ou 
oífendeu interesses de alguém, eil-o perseguido como 
uma fera, tendo de pagar cara a sua ignorância ou 
imprevidência, n'um chamado mucano! 

E um código de tyrannias que vigora no interior do 
continente africano, contendo disposições espantosas 
que nada têem de similhante no inundo civilisado, ten- 
dentes a sujeitar não só a vontade, mas ainda os ha- 
veres, os interesses e a vida do fraco á ordem do mais 
forte. 

Os privilégios são exclusivo apanágio do regulo. 
Os melhores animaes e alimentos, os mais excellentes 
objectos emfim, são interdictos a todos e para elle ex- 
clusivamente reservados. 

E não ousamos entrar aqui na mais grave das ques- 
tões, apontando a maior das victimas — a mulher. 

Para essa infeliz ha na terra apenas os labores, as 
prohibições e o esquecimento, ou antes o desprezo na 
velhice! E se é verdade que por vezes o preto parece 
estimar sua mulher emquanto joven, é isso antes a 
expressão de egoismo, porque tem n'ella a garanti a 
de uma relativa somma de bem-estar, do que a evi- 
dencia de sentimento aífectuoso. O desgraçado, victi- 



416 De Angola á contra-costa 

ma da repressão por parte do chefe, torna-se também, 
emquanto pode, um pequeno tyranno entre os seus, 
impondo-lhes a sua vontade com determinações op- 
pressivas. 

Assim isola-se para comer, devora os melhores bo- 
cados que a mulher preparou, prohibindo-lhe o tocar 
ou separar para si um quinhão, aproveita as carnes, os 
mais superiores vegetaes, e deixa-lhe, como a um cão, 
o que lhe não appetece ou apraz! 

E uma vida de misérias e prepotências, onde a fra- 
queza caminha, subjugada, sem murmúrio, á mercê da 
vontade do forte; onde nem sequer a consolação do 
convivio é consentida áquella que a natureza deu ao 
homem para sua companheira. 

Quem viu jamais, n'essas recepções publicas, cheias 
de formalidades fastidiosas, onde a par das palmas a 
compasso o negro introduz uma serie de saudações e 
respostas apropriadas, que pr o seguem em arengas in- 
termináveis, apparecer uma mulher? Ninguém, e in- 
feliz d'aquella que tal ousasse. 

De longe, escondida e timida, ella, naturalmente cu- 
riosa, observa quantas scenas se passam, desejosa de 
approximar-se, ver e fallar, mas, lá estão os olhos do 
chefe ou do conrpanheiro para lhe conter os Ímpetos, 
lá está o uso feito lei, que a inhibe de intervir na mais 
singela controvérsia. Como o cão, ou qualquer outro 
animal domestico, o seu logar é quasi sempre junto á 
palhota! 

Comparando a condição das populações que se agi- 
tam pela superfície do nosso pequeno planeta, o esta- 
do social do selvagem abre, na tendência humana de 



De Libonta ao Cabompo 



417 



caminhar para a perfectibilidade, um parenthese, que 
confunde todos os cálculos, tornando o indígena de 
hoje a personificação immutavel, a expressão fiel de 
uma das primeiras phases por que passou a raça hu- 
mana ! 

Volvamos ao assumpto. 

Durante o dia passado com Muene Chilembi, en- 
cheu-se a caravana, fazendo pela vez primeira depois 




PIIACOCIICERUS AFK. 

Segundo um croquis 



da partida de oeste um fornecimento completo de fa- 
rinhas e cereaes, gallinhas, etc. ; e tamanho era o con- 
tentamento, que nós mesmos, possuidos de uma infan- 
til alegria, riamos e galhofávamos de tudo, como se 
da memoria se nos houvera varrido a lembrança dos 
antigos soffrimentos e a idéa do futuro que nos espe- 
rava ! 



418 De Angola á contra-costa 

Á gallinha, essa eterna « gallinlia » cia Africa inte- 
rior, rara avis que acabávamos cie encontrar, tornava- 
se agora para nós um enlevo, sonho das semanas an- 
teriores, na anciã de substituir a monotonia da carne 
fumada. 

Bem pouco é preciso para mitigar desalentos e con- 
solar desejos! 

O typo ca-runda é diíferente do ca-róze. Pelo geral 
aquelles são mais altos, esbeltos e sympathicos do que 
estes, recorclanclo-nos os ma-quiôco, com quem con- 
trahimos relações em nossa primeira viagem. 

O trajo das mulheres é assas original e constituído 
por uma espécie de panno feito do entrecasco de certa 
arvore, que, depois de puxado e batido, ellas lançam 
sobre o corpo, como a gravura do principio d'este ca- 
pitulo indica. 

Muene Chilembi informou-nos minuciosamente so- 
bre a existência e direcção do Cabompo, bem como 
refutou todas as nossas icléas relativas a possibilidade 
de ser aquelle rio o Liambae. 

— Este rio nasce em Quissenga, disse-nos elle, onde 
o vi sair com menos porção cie agua cio que a contida 
n'uma cabaça; recebe a caminho do Grenji muitos tri- 
butários, dos quaes um é o Cabompo. Por seu lado 
este deriva cio sertão cio nordeste ; onde nasce, porém, 
não o sei, porque as terras para essa banda são deser- 
tas, não ousando os mesmos caçadores aventurar-se 
por ellas ; elephantes e moscas é o que por lá se encon- 
tra, habitantes nenhuns! 

Calcule-se o effeito cVestas palavras, que, como uma 
bomba arremessada aos nossos já pouco animosos com- 



De Libonta ao Cabompo 419 

panheiros, nada mais ia fazer do que descoroçoal-os 
completamente, e avaliem-se também as alternativas 
de alegria e tristeza em que andavam os chefes da 
expedição! 

Ás largas chaiias do Liambae terminaram, e logo 
ao sair da libata entrámos em densa mata, domínio do 
rliinoceronte de dois chifres, de que vimos um bello 
exemplar, e do porco de que damos desenho. 

A estreita nesga das terras do Ianvo é apertada a 
leste pela zona que umas tribus de horrendo aspecto 
occupam, sem armas de fogo e apenas zagaias e arcos, 
e nos disseram chamarem-se mangoia, por aonde cor- 
támos no intuito de apanhar o Cabompo a montante 
da longitude de Chilembi, evitando com a maior rapi- 
dez a mosca tzé-tzé e a alluvião de outras que, em- 
bora não perigosas como esta, affligem o gado por 
maneira tal, que nem mesmo junto ás fogueiras con- 
segue comer. 

Adiante de Muene Chingongochella, a 22 de setem- 
bro, caminhávamos socegadamente por uma campina, 
quando António, que ia na testa da caravana, deu vista 
ao longe de muitos vultos negros, que suppoz serem 
gnús. 

Partindo a correr, eil-o que de súbito estaca, e, 
volvendo-se apressado, retrocede. Os gnús haviam-se 
transformado n'um bando de homens, não inspirando 
pelo seu aspecto confiança alguma. Avançavam em 
linha, tendo na vanguarda uma banda de músicos com 
marimbas e bombos, e deixando ver a meio um in- 
dividuo, que, por envolvido em pannos de cor e vir 
acompanhado de um servo de umbella, para o abrigar 



420 De Angola á contra-costa 

dos ardores do sol, nós julgámos ser creatura impor- 
tante. 

Assim que se acharam em frente de nós acocora- 
ram-se para parlamentar; e foram tão infelizes as ne- 
gociações, que, ao cabo de meia hora, erguendo-nos 
e carregando armas, cobriamos a retirada da carava- 
na contra esse bando de salteadores, pois outra cousa 
não eram aquelles cuja presença nos surprehendêra, 
nem o seu chefe, Mu ene Oianda, irmão do Lobossi do 
Genji. 

Ao que suppomos, era tão grande a insaciedade do 
tal sujeito, que só se contentaria com toda a nossa 
fazenda; e como o facto tinha contra si a muito natu- 
ral circumstancia da impossibilidade, entendemos por 
bem e mesmo para contrastar, dar-lhe apenas seis len- 
ços de pintado para seu uso; collocando todas as suas 
pretensões perante o formidável dilemma de nada mais 
receber e retirar-se em paz, ou tomar a fazenda por 
inteiro, levando ao mesmo tempo um tiro de revolver 
na cabeça! 

Hesitou o heroe por momentos, mas, convencido al- 
íim que feitiço de branco pode mais que o de preto, 
ficou-se quedo, emquanto os exploradores, seguindo 
prestes a caravana, volviam graciosamente as costas 
a tão antipathica creatura. 

Assim nos descartámos sem mais ceremonias dos 
importunos rapinantes, que não passavam de uns pu- 
sillanimes. 

Em Moi Cafuta achavamo-nos a 8 milhas do Ca- 
bompo, e tomando dois guias para nos mostrarem o 
logar da passagem, para lá nos dirigimos a 24 de se- 



De Libonta ao Cabompo 421 

tembro, depois de submettido um homem que se eva- 
dira e de termos notado a altitude de uma cachoeira 
no rio, que embaraça a navegação, lamentando mais 
uma vez a jDroximidade das chuvas, pois numerosos 
e grossos cúmulos semeavam a abobada celeste em 
todos os quadrantes, prognostico desagradável dos ba- 
nhos que se nos estavam preparando. 

As onze horas chegámos á beira do Cabompo, rio 
que tem n'este local 150 a 200 metros de largo, agua 
verdenegra e as margens occultas em frondoso arvo- 
redo. 



CAPITULO XVI 



FERA NATURA 



Et devant oux s'élève une immense forèt, 
Dont tout homme nouveau ignore le secret. 
Impériétrable. . . 

J. R. Mesnier — Capello e Ivens, etc. 



Considerações tristes — O deserto e o silencio — O Cabompo e a. noite 
— O elephante e o arvoredo — Limite ao terreno silicioso — Primeiras ro- 
chas — A floresta e os animaes silvestres — Perda de um companheiro — 
Homem e cão mortos — Dois elephantes — O somno da girafa e óbito de 
outro homem — Fuga de um carregador — Morte de mais um cão — Indi- 
viduo perdido no bosque — O rhinoceronte curioso e os crocodilos do 
Cabompo — Os destroços do leio — Vam-Boôé — O leão e uma noite de 
poleiro — Beiços furados e seios pendentes — A primeira tempestade. 




Entre os va- 
s riadissimos ía- 
foctos que podem 
distinguir o our- 
ílkjso médio de um 
rio dos seus af- 
fluentes, figuram 
a nosso ver, co- 
mo principaes, 
os que se refe- 
rem á disposi- 
ção orographi- 
ca dos terrenos 
por elle drena- 
dos, á sua lar- 
gura média, á cor mais ou menos constante da agua, 
á velocidade, a que ainda se podem juntar outros, como, 
por exemplo, indicação indígena sobre o modo de de- 
signar tal braço, o calculo do volume de fluido, etc. 



426 De Angola â contra-costa 

Apenas installados á beira do Cabompo, começámos, 
depois de attentar bem nos seus traços mais salientes, 
a comparal-o com o rio Zambeze, e, approximando da 
nossa observação pessoal o que os naturaes diziam a 
esse respeito, viemos á conclusão de que o Cabompo é 
indiscutivelmente um afnuente do Zambeze e nunca o 
seu ramo médio. A agua d'este é verde um tanto claro 
e por vezes pendendo para azulada, a d'aquelle verde- 
negra, como se saíra de vasto lago. 

A sua largura, no sitio em que nos achamos, oscillará 
entre 100 e 150 metros, ao passo que o Zambeze tem 
o00 ou mais, e uma corrente de 3 milhas de velocida- 
de, emquanto, n'esta quadra, pelo menos, o Cabompo 
será de 0,5 milha, se tanto. 

As terras que para o norte se alongam pelas do lunda 
Shinte extremam pelo oeste uma vasta chana i , que, 
acompanhando a parte superior do Zambeze, lhe dão 
em tudo o aspecto do curso médio; e o Cabompo, logo 
a montante da, cachoeira Lumupa, corre entre terrenos 
alcantilados, que, erguendo-se, vão até ganhar o pla- 
teau elevado que divide os systemas Congo-Zambeze. 

O valle de Barótze é ainda, geologicamente f alian- 
do, constituido nos seus traços mais geraes por tuff 
calcarifero, assente sobre um deposito de grés mais ou 
menos endurecido, amarello ou um tanto vermelho, 
perfurado em zonas por molluscos lithophagos, trans- 
formando-se, quando limpo e separado da parte menos 
densa, em tractos arenosos estéreis ou fracos, ao passo 
que subindo o Cabompo, vê o viajante apparecerem-lhe 



Chana, planura coberta de gramineaí 



Fera natura 427 

as terras argillosas vermelho sangue, de envolta com 
um conglomerado ferruginoso, cobrindo rochas, como 
o gneiss, outras de grés, etc, muito férteis e cobertas 
de arvoredo. 

Em resumo, a quantos indígenas e guias inquirimos, 
todos invariavelmente nos responderam no mesmo sen- 
tido do que nós imaginávamos, isto é, que o Cabompo 
é um aínuente do Liambae e não o mesmo Liamba e, 
como se poderia acreditar. 

O notável, porém, é que jamais ouvimos fallar em 
Liba, esse rio que Livingstone cita, como percorrido 
em viagem para Loanda, e por elle pittorescamente 
descripto, facto que nos leva a crer na sua existência, 
trocado o nome em Liambae, ou seja uma confusão do 
mesmo termo. 

E não tem isto muito de extraordinário, se conside- 
rarmos nas numerosíssimas transformações ou mesmo 
na corrupção de nomes que por toda a parte se notam 
em Africa e cada viajante emprega a seu bel-prazer. 

Assim o rio Aruangôa, que afnue ao Zambeze, é por 
uns chamado Luangôa, por outros Luanga e até Ruan- 
ga, ao passo que vemos no norte estabelecida a con- 
fusão no paiz de Lunda e seus povoadores ba-lunda, 
onde promiscuamente se encontram Lunda, Runda, 
Urunda com o prefixo U designativo da terra, Urua e 
Lua, e os povoadores ba-lunda, ca-lunda, mu-lua e 
ba-lua, ca-runda, etc, citados no mesmo documento. 

Não admira, pois, que o viajante inglez, fallando 
uma língua tão estranha, embora percorresse tantos 
paizes, tivesse dificuldade em pronunciar correcta- 
mente os dialectos africanos, e transformasse o Liam- 



428 De Angola á contra-costa 

badji dos ba-lunda no Liambae dos ma-róze e no Liba 
de qualquer que por ahi lhe fosse guia. 

A verdade é que tal rio para nós ficou letra morta. 

Transposto o Cabompo, acampámos na outra mar- 
gem, depois de passarmos as mais cruéis angustias na 
tarefa do transporte de nossos bois, pois era a riba 
direita talhada quasi a pique, não podendo os animaes, 
ao abordar a terra, firmar-se de modo que podessem 
vencer o seu áspero declive. 

Achavamo-nos na mais estranha perplexidade, la- 
çando aqui um, clamando por outro, que embaraçado 
nos ramos do arvoredo pendente ameaçava asphixiar- 
se, sem saber que partido tomar, quando um indige- 
na, que até ao rio acompanhara a caravana, nos deu o 
mais intelligente quinau, e revelou a nossa triste igno- 
rância ou pouco senso pratico. 

Gritávamos, remexiamos, serviamo-nos de cordas, 
sem nada conseguirmos; de súbito, a jusante, os bois 
começam a subir a encosta com a maior naturalidade. 
Approximando-nos do logar, vimos então operado com 
a maior esperteza um trabalho que mais cedo nos de- 
vera ter occorrido, e que uni negro do mato, a sós, ti- 
nha posto em pratica. 

Empregando a machadinha como enxada, havia elle 
rapidamente feito um carreiro em lacetes até ao nivel 
da agua, por onde os animaes trepavam á vontade. 

O aspecto selvagem de tudo quanto nos cercava, as 
numerosas pegadas de elephante, os cipós e as urzel- 
las, tudo emfim evidenciava que tínhamos dado entra- 
da numa terra erma, onde os trabalhos e as difiiculda- 
des corriam naturalmente parelhas com a sua braveza. 



Fera natura 429 

António, logo ao entrar n'ella, abatera duas formo- 
sas quissemas e uma gazella, que pela noite se prepa- 
raram e mesmo desappareceram em parte, emquanto 
uma manada de elephantes se approximou do acampa- 
mento, atroando tudo; eram dez horas da noite. Eis o 
que nos diz o diário, rubricado sob a impressão do 
momento : 




MULHER AMBOELLA 
Tirado de um cruquis 



«... scenas estranhas são aquellas a que assisti- 
mos agora, e bem dignas de penna melhor maneja- 
da. Imagine-se uma noite muito escura, envolvendo 
tudo. . . 

«Densíssima mata debruça-se sobre o curso do rio, 
e alastrando para leste, abre a 100 metros d'este uma 
pequena clareira, ao meio da qual um espinheiro gi- 
gante se copa á feição de pára-sol. Dois europeus estão 
sentados em caixas e, fumando socegados em longo 
cachimbo, contemplam tudo que os cerca. Em vasto 



4o0 De Angola a contra-costa 

circulo uma centena de homens, á luz de numerosas 
fogueiras, se agita em faina de interesse, correndo pres- 
surosos n'um e n'outro sentido. Ao clarão cambiante 
dos brazeiros os vultos tisnados, gesticulando e brace- 
jando por meio dos troncos e línguas de fogo, similham 
uma caterva de demónios na tremenda tarefa que os 
espiritos timidos e apprehensivos lhes apraz imaginar. 
Três antílopes mortos, já despidos da pelle e conve- 
nientemente abertos, estão prestes a serem esquarteja- 
dos, emquanto alguns indivíduos aproveitam o sangue, 
outros os intestinos, disputando-se as mais pequenas 
parcellas. 

«Diligentes, as mulheres buscam os utensílios de 
cozinha que os companheiros lhes pedem, ao passo que 
os filhos, por momentos abandonados, tiritam de frio, 
rompendo n'um charivari de guinchos. 

«Estourada medonha atroa os ares em roda, an- 
nunciando que uma manada de elephantes entregues 
á gostosa tarefa de procurar repasto, esgarçam e que- 
bram quantas arvores e ramos encontram no caminho. 

«Ladram os cães, ronca no rio o hyppopotamo, ru- 
moreja tristonho o vento na folhagem, rangem os ossos 
sob as poderosas maxillas dos nossos companheiros, 
chiam as carnes no brazeiro, e, despedindo a gordura 
para o fogo, alentam de súbito as labaredas, que, so- 
brepujando os grupos, como que ameaçam o arvoredo; 
trocam-se os gritos e as phrases asselvajadas, emfim 
vae uma noite prehistorica!» 

Como primeiro debute defrontava-nos floresta de- 
serta, que oito dias nos levaria a passar sem trilhos 
nem indícios. 



Fera natura 4o 1 

A narrativa dos soffrimentos experimentados pela 
expedição n'esses bosques que se alongam pela mar- 
gem do Cabompo, é difficil de apreciar 110 remanso 
do nosso gabinete na Europa, e por isso pedimos vé- 
nia ao leitor para transcrever na integra quanto em 
nosso diário se acha exarado, convictos de que assim 
obedecemos mais á necessária obrigação de sermos 
fieis. 

Foi uma como que marcha fúnebre por esses sertões, 
dissemos nós em nossa conferencia de Madrid, e assim 
exprimimos a singela verdade. 

Espécie de marcha fúnebre, repetimos, em que a 
suspeita da morte imminente arrastava a caravana em 
tétrico silencio, o medo cio deserto abalava os ânimos 
mais firmes, a anciã de se alimentar fazia de cada 
homem um egoista terrível, prompto a sacrificar o seu 
companheiro para salvar a própria vida; em que, em- 
fim, a idéa da própria conservação havia varrido todo 
o sentimento de caridade, e uma provação mais basta- 
ria talvez para iniciar as hediondas scenas de desen- 
freado cannibalismo ! 

Que triste espectáculo! 

Quantos homens marcaram na terra com seus cor- 
pos a trilhada da comitiva por essas sombrias flo- 
restas, onde o elephante em bandos numerosos tudo 
devasta, o rhinoceroiite divaga solitário, a mosca cam- 
peia voraz, ameaçando de morte quantos animaes do- 
mésticos d'ali se approximem; onde, finalmente, pás* 
seia como senhor o rei das selvas, atroando pela noite 
os ares com a sua voz formidável, e espavorindo o 
mundo animal com o seu rugir tremendo! 



432 De Angola á contra-costa 

Bem nefastos dias e duras scenas foram essas que 
ainda hoje, ao lançar mão da penna para as descrever, 
nos sentimos dominados pelas mais lúgubres e tétri- 
cas recordações. 

Nem um vulto humano sequer por esses sombrios 
bosques, para nos dizer: «Por ali é o caminho!» Nem 
uma indicação que nos servisse, no meio d'esse intrin- 
cado dédalo de soífrimentos e ameaças, de norte ou 
guia, para nos livrar do desfecho a todo o momento 
esperado, a morte! 

Sempre o silencio da floresta, apenas cortado por 
esses ruídos originaes e inexplicáveis, que são o se- 
gredo da natureza selvagem, como um murmúrio de 
mysterios que só despertam terror; sempre a igno- 
rância do nosso fim, o angustioso lembrar das misérias 
que nos esperavam, excruciando-nos a alma, repu- 
gnando á consciência o facto de havermos provocado 
tamanho soffrer! 

E quando pela noite toda essa agglomeração de 
homens nus, famintos, entristecidos, uns estirados em 
redor das fogueiras, outros divagando absortos á luz 
das labaredas, caíam alfim sob o império do somno, 
gemendo aqui, resonando acolá; nós, dominados pelos 
negros pensamentos do dia seguinte, apprehensivos 
com a idéa do risco imminente em que se achava a 
missão que nos era tanto cara, contemplávamos taci- 
turnos similhante scena; e escutando esse coro, que nos 
parecia um lamento de condemnados pedindo a sua 
redempção, marejavam- se-nos os olhos de lagrimas, 
convictos de sermos os únicos culpados de tão grandes 
desgraças. 



Fera natura 433 

Diário : 

«Dia 24 de setembro. 

« Estamos • acampados na margem direita do Ca- 
bompo, tendo-o transposto com graves difficulclades. 

«O rio tem aqui 150 a 200 metros de largo, com a 
profundidade media de 3 metros, agua esverdeada, 




HOMEM AMBOELLA 

Segundo um croquis 



margens fechadas de frondosissima vegetação, cor- 
rente fraca. 

«Logo ao amanhecer desertou-nos um homem, que 
mais tarde, batida a floresta, pôde ser colhido ás mãos. 

«Para esta banda os matos fecham de mais em mais, 
tornando-se extremamente selvagem o aspecto da na- 
tureza. 

«Longe estão as habitações humanas, fúnebre silen- 
cio domina por aqui; um presentimento nos diz que 
adiante nos esperam duros soífrimentos. 



434 De Angola á contra-costa 

«Nos plateaux ao lado encontram-se por toda a par- 
te numerosas pegadas de elephante, signal evidente de 
região deserta. 

«Assalta-nos de novo a idéa de que o Cabompo jdo- 
desse vir do lago Bangueòlo. 

«A sua agua, um tanto escura, a pequena velocida- 
de, a direcção do curso, quem sabe? 

«Depois lembrou-nos hoje a declaração de Jacob 
Wainright, o fiel servidor de Livingstone. 

« O Luapula, disse elle, corre para o pôr do sol. 

«A nossa gente está bem disposta, apesar das deser- 
ções dos últimos dias, e das affiriíiativas dos indígenas, 
de que para esta banda ha apenas elephantes e moscas. 

«Dia 25 de setembro. 

«Ao amanhecer pozemo-nos a caminho. Estamos in- 
fatigáveis e decididos a concluir a empreza que pro- 
jectámos, custe o que custar. 

«São longas as matas que nos defrontam; muito em- 
bora, hão de transpor-se. Adiante é o caminho, e que 
a Providencia se amercie de nós. Para as regiões des- 
conhecidas é que tem mérito o avançar, pois por ca- 
minhos trilhados toda a gente o faz. 

«Aqui o norte é a bússola, a indicação, o palpite, o 
apoio, a vontade; retroceder é impossível! 

«Caminhámos até ao meio dia ao longo do rio, por 
valles e serras do mais pittoresco asjíecto, atravessando 
zonas extensas, densamente vestidas, somente habita- 
das pelo elephante. 

«O terreno accidenta-se de todo o ponto, appare- 
cendo a affloreal-o rochas variadas, e tendendo a des- 
apparecer as terras arenosas do valle de Barótzc. 



Fera natura 485 

«Vae-se elevando gradualmente; o rio serpeia tor- 
tuoso em silencio, com a mesma largura e as margens 
a pique. 

«Por toda a parte se encontram arvores recente- 
mente derribadas, outras fendidas e com as raizes a 
descoberto, como prova do trabalho do maior dos ani- 
maes terrestres conhecidos. 

« espinheiro é sobretudo o mais procurado, por 
gostar o elephante muito das pontas dos ramos. 

«No caso de sermos atacados por um (Testes ani- 
maes, não poderia servir de defeza o empoleirarmo-nos 
íuima arvore, porque, segundo affirmou um dos nossos 
homens, embora o elephante não consiga derribal-a, 
atira com paus a quem pretende assim escapar-se-lhe! 

«E uma estranha habilidade, que carece de confir- 
mação. 

« Redobra o calor, castigando severamente pelas ho- 
ras em que é mais intenso. 

«Alguns homens cansam rapidamente, atrazando-se 
na marcha. 

«O aspecto bravo da natureza testemunha as indica- 
ções que nos deram. 

«Suspeitamos haver já por aqui a tzé-tzé. 

«Dia 26 de setembro. 

«Estamos junto á margem do Cabompo, coberta 
aqui dos espinheiros da gomma. 

«A marcha operou-se por uma densa floresta, muito 
abundante em caça; abatemos hoje três quissemas for- 
midáveis. 

«Extremamente emmaranhada por cipós e ramos 
que se cruzam e entrelaçam, e nos dificultam a mar- 



436 De Angola d contra-costa 

cha, tornou-se necessário levar gente na vanguarda, 
que de machados em punho foi desembaraçando o 
caminho. 

«Por vezes a mata está intransitável, tão grandes, 
numerosas e fundas são as pegadas dos elephantes que 
se atolaram no terreno argilloso. 

«Temos a registar um fúnebre successo, que muito 
nos impressionou. • 

«Um dos nossos rapazes, que, andando ao bote, ha 
dias se queixava de fadiga, hoje, logo depois de sair 
do acampamento, caiu por terra, morrendo em poucos 
momentos. É singular! Emmagrecem rapidamente, 
perturbam-se-lhe as idéas e os movimentos. Esten- 
dem a mão, querendo colher cousas que não existem 
no logar a que se dirigem, suspiram, cobrem-se de suo- 
res frios, o pulso fraqueja, succumbem. 

«Infeliz! Continuamos a suspeitar ser a moléstia 
uma meningite. A insolação, a carga á cabeça, o can- 
saço, a estranha perturbação, tudo indica a causa ori- 
ginaria do rápido desfecho. 

« Silencio lúgubre reina por essas matas afora, só in- 
terrompido durante a noite pelos rugidos dos animaes 
silvestres. 

«O rio segue socegado, limpo de cachoeiras, occulto 
na vegetação das margens. 

«Dia 27 de setembro. 

«A jornada de hoje foi longa pelas campinas que 
marginam aqui o Cabompo. 

«Parecia um jardim zoológico a terra atravessada, 
tão numerosas e diíferentes são as espécies animaes 
que observámos. 



Fera natura 



437 



«Gazellas, zebras, elephantes, quissemas, palancas, 
rhinocerontes, javardos, etc, fugiam espavoridos ante 
nós. 

«D'estes matámos dois, pretos, inteiramente á feição 
dos nossos da Europa. 




QUISSEMA -SGOCEROS ELLIPSIPRIMXUS (fêmea) 
Tirado de um croquis 



«Ainda um facto triste a registar. Um dos nossos 
cães (o Pombo), o melhor sem duvida que possuiamos, 
desappareceu de súbito no rio, colhido por grande cro- 
codilo, quando perseguia uma peça de caça. 

«O numero d'estes animaes no Cabompo é extraor- 
dinário, assim como assombrosa a devastação que fa- 
zem nos antílopes. 

«Ainda hoje tivemos occasião observar isso. 



438 De Angola á contra-costa 

«Havendo apertado com um cabra assobiadòra, fe- 
rimol-a levemente. O animal, atordoado, fugia, como 
sempre fazem os seus similhantes, para o rio, no intuito 
de se metter á agua; mal porém havia caído, que um 
vulto enorme redemoinha, um dorso eriçado de aspe- 
rezas encurva-se, escancara-se uma guella, defendida 
por agudos dentes, n'um relâmpago abysma-se tudo, 
ficando só a superfície o revoltear da agua após uma 
submersão. 

« Começa a dar-nos serio cuidado a falta de farinhas. 

« Alguns dos nossos homens comeram tâo precipita- 
damente a matalotagem, que pouco ou nada têem, e a 
carne parece não ser para elles alimento sufficiente, 
ou pela rápida digestão, ou por outro qualquer motivo. 

«Emmagrecem muitos com rapidez, domina-os com 
frequência a fadiga. 

«Dias 28 e 29 de setembro. 

« Continuam a aggravar-se os padecimentos de mui- 
tos dos nossos homens. São taes as difficuldades da 
marcha, onde a todo o instante urge arriar cargas, cor- 
tando os matos, e succedendo-se os accidentes e ob- 
stáculos, que vae tudo em caminho, aterrado, cheio de 
cansaço, avançando por esses desertos afora. 

« O fogo em vários pontos devastou as selvas, tis- 
nando com negros residuos vastas extensões de terra, 
onde um ou outro esqueleto marca o logar de pungente 
angustia, envolvendo em sombrios pensamentos os der- 
rotados ânimos. 

«Uma triste admiração se apodera do mesmo via- 
jante em face de taes scenas, fazendo anceiar pelo bu- 
licio da gente. A tzé-tzé e outros dipteros infestam as 



Fera natura 439 

matas limitrophes do rio, perseguindo os bois impla- 
cavelmente. 

«Hoje 29, pelas dez horas, morreu outro homem, 
denominado Chialla, um dos nossos melhores compa- 
nheiros. 

<( Ha poucos dias, ainda alegre e contente proseguia 
de carga ás costas na vanguarda da comitiva. Victim a 
foi sem duvida de doença idêntica, perecendo em pou- 
cos momentos. 

«Dois homens, andando ao mel, depararam ao sues- 
te com igual numero de elephantes enormes fugindo 
espavoridos. Proseguiu-se-lhes na pista, não sendo 
possível tornar a encontral-os. Um grande quadru- 
íiiano vive n'estes sitios, de que observámos as pega- 
das, bem como vimos ao oeste do campo as do leão, 
(pie próximo deve residir, a julgar pelos destroços que 
se notam dispersos. 

«Dia 30 de setembro. 

«A primeira cousa a fazer é registar mais um óbito. 

«Logo de manhã tivemos que abandonar um rapaz 
do Celli, completamente perdido, prestes a expirar. 

«A rapidez da doença, que ha dias lhe minava a exis- 
tência, aggravou-se com a necessidade de farinha, ou 
o exclusivo regimen animal, que lhe repugnava ao ex- 
tremo. 

«Os symptomas eram em tudo os mesmos que nos 
precedentes casos, apparecendo como variante a abun- 
dância de dejectos alvinos. 

r 

«E notável a fome com que toda a gente anda, ape- 
sar da abundância de caça que se tem morto. Apenas 
suspendem, eil-os a assar na braza quanta carne po- 



440 De Angola d contra-costa 

dem, e a devoral-a sôfregos, accusando na depressão 
abdominal a necessidade que os opprime. 

«Em caminho, pela sombria mata que vem sobre o 
rio Maninga, e cujo nome acaso soubemos pela rasão 
adiante exposta, encontrámos os ossos de uma girafa, 
que ha pouco fora devorada pelas bestas de preza. 
Ouvimos que este animal, cujo habitat não suppunha- 
mos vir até aqui, se colloca junto ás arvores para dor- 
mir, mettendo a cabeça entre dois galhos. 

«Foi a meio do trajecto de hoje que tivemos a estra- 
nha surpreza de encontrar cinco homens, caçadores, 
segundo nos disseram, de Muene Chinhama, e que, 
vindos do noroeste, se aventuraram por estes desertos 
para chegar ao Grenji. 

«A muito custo conseguimos trazel-os á falia, afian- 
çando-nos que, seguindo sempre Cabompo arriba, en- 
contrariamos gente d'aqui a cinco dias no ponto de 
encontro de um afluente, o Lunga. 

«Praza a Deus que assim seja, pois a nossa gente 
vae em progressivo desalento. 

«Dia 1 de outubro. 

«Temos que lastimar ainda hoje a perda de outro 
homem. Chamava-se Joaquim, e no intuito de seguir 
talvez a trilhada dos caçadores de hontem para se sal- 
var, fugiu, vindo a ser victima das feras ou da fome 
por esses desertos. 

«Um dos melhores cães, o Atrevido, desappareceu 
também no rio, quando ahi saltou atraz de uma ga- 
zella. 

«Os crocodilos têem tido largo repasto com a nossa 
passagem. 



Fera natura 



441 



«Graças á Providencia, carne não falta, abatendo 
António ainda hoje duas quissemas. Ninguém já possue 
um punhado de farinha, e apenas nós conservamos 
para amanhã um pouco de feijão. Ao sueste uma ra- 
vina corta o rio perpendicularmente, formando ca- 
choeira. 




QUISSEMA ^EGOCEROS ELLIPSIPRIMNUS (macho) 
Segundo croquis 

«A vegetação em tudo idêntica. Junto á margem a 
Acácia albida, cuja gomma os nossos devoram em ca- 
minho. Para longe as mupandas, os mutontos, etc. 

«Dia 2 de outubro. 

«Hoje em viagem perdeu-se outro homem, Mazom- 
bo, que se extraviou com a carga, sem que se podesse 



442 De Angola á contra-costa 

compreliender a causa, e que lá vae condemnado a 
servir de pasto ás liyeuas. 

«Largas campinas por vezes se acham entre o arvo- 
redo, e então pode ver-se a infinidade de animaes que 
divagam ]3or esta terra. A meio da jornada ferimos 
uma quissema, que, saltando ao rio, foi colhida por um 
crocodilo, ao passo que adiante tivemos occasião de 
ver a ossada de um elephante mettida no extremo de 
gigante armadilha. Era uma cova circular de fundo 
mais largo, feita junto a arvore de tronco derruído, 
que estes animaes escolhem para se coçar, e onde o 
colosso caíra! 

«António teve hoje um encontro perigoso. Havíamos 
acampado pelas duas horas, quando elle, pegando da 
caçadeira, abalou pelo campo, em procura de galli- 
nhas do mato. 

«Pouco dejDois ouviram-se tiros, e muito natural- 
mente suppozemos que andava elle em faina, não 
dando a isso attençâo. Declinava o sol, apropinquan- 
do-se mesmo do occaso, quando, suspeitosos pelo si- 
lencio de tantas horas, mandámos bater mato e pro- 
cural-o. O audaz caçador, perseguido por um rhinoce- 
ronte, e tendo em mão uma carabina com chumbo, 
nada encontrara de melhor de que largar a arma, tre- 
pando para uma arvore á espera que o livrassem. 
notável, porém, é que o animal não o abandonava, e 
rodando como que enfurecido, fazia sentinella ao po- 
leiro, só fugindo á approximação da gente. 

«Estranho quadrúpede este, que por vezes parece 
andar acommettido de vertigens ou accessos de lou- 
cura. 



Fera natura 443 

«António, para se vingar, logo que chegou ao qui- 
lombo, feriu de morte um hyppopotamò, o qual lá foi 
rio abaixo. Choveu hoje pela primeira vez. 

«Dia o de outubro. 

«De entre os flagellos que nos perseguem n'estas 
matas intermináveis, não figura por menos esse até 
agora para nós desconhecido, a tzé-tzé! Bois, cães, 
tudo anda furioso, não escapando os próprios homens, 
que sào victimas dos seus ataques. Os magros doentes, 
com andrajos em redor da cinta, seguem na retaguar- 
da da caravana, em fúnebre fileira, similhando um 
bando de resurrectos erguidos no momento do tumu- 
lo, e luctando em vão contra os assaltos da terrível 
(/los si na. 

« Estamos acampados ao nordeste de um quilombo 
de caçadores Vam-Booé, provavelmente luinas, que 
para aqui vieram do sul no intuito de se estabelecer. 
Extremamente miseráveis, têem repellente aspecto, li- 
mam em ponta os dentes, e fumam de contínuo por 
narguilés feitos de pequenas convolvulaceas. Só pos- 
suiam para vender pilhas de um endurecido tabaco, 
que ainda assim comprámos, pois e o único de que 
nos servimos. D'este logar ás origens do Lualaba se- 
rão uns doze dias, segundo elles, e a terra para essa 
banda é deserta. Dizem-nos que amanhã, no Lunga, 
talvez arranjemos guias para duas ou três jornadas. O 
solo, j)ela zona que vamos percorrendo, e em geral 
constituido por uma rocha de grés abundante em con- 
creções siliciosas com aíHoreamento de quartzo hya- 
lino, etc. Encontram-se tractos argillosos, vé-se com 
frequência a limonite, ferro pisolitico, quartzites, ou- 



444 De Angola á contra-costa 

tros mineraes como lascas de silex pyromacho, e al- 
guns que não reconhecemos. A vegetação é densa, po- 
rém de pequeno vulto. 

«Dia 4 de outubro. 

«O dia de hoje foi empregado em transpor o Lunga, 
importante affluente do Cabompo, a fim de nos abeirar- 
mos da residência de Mu ene Caheta. Tornou-se neces- 
sário abater um boi, um d'esses infelizes companheiros, 
cuja presença na comitiva serve de grande auxilio para 
consolar estômagos, visto não se ter caçado nos últi- 
mos dois dias. O nosso regimen agora é puramente 
animal. A carne assada na braza, sem condimento nem 
sal, que já ha muito acabou, constitue o prato inva- 
riável. 

«O tempo continua ameaçador, o que nos contraria 
seriamente. Grossos cúmulos forram em todos os sen- 
tidos o céu, ribombando a curtos intervallos o trovão. 

«Atufada nas florestas e envolvida pelas chuvas, a 
caravana vae sem duvida atravessar uma seria qua- 
dra. Quando acampávamos ajDpareceu-nos um homem 
que suppunhamos extraviado, a quem um leão conteve 
suspenso n'uma arvore toda a noite de hontem. 

«Dia 5 de outubro. 

«Acampámos alfim entre gente. Muene Caheta é o 
regulo luina d'aqui. Velho e descortez teve comnosco 
uma questão logo ao chegar, o que impediu por algum 
tempo a compra de mantimentos, que só tarde appare- 
cerani. Loucos, os nossos dão tudo por um punhado de 
feijão da terra, e sem reflectirem que se desarmam, 
largam pela mais pequena cesta unia dúzia de cartu- 
chos Snider! 



Fera natura 445 

«As mulheres d/ aqui furam o lábio superior, intro- 
duzindo irelle um grosso coral, e téem o depravado 
costume desde jovens de amarrar os seios, de maneira 
que se prolongam até o abdómen. 

«Pouco mantimento lia. Desertou uma mulher, não 
podendo saber-se noticias da infeliz. 

«Dia 6 de outubro. 

«A jornada de hoje foi longa e feita ao rumo do nor- 
te, por terreno coberto de calhaus e rochas quartzpsas 
fragmentadas. Acampámos n'uma densa mata para 
nos defendermos de trovoada imminente, fechando o 
campo e cobrindo cargas. Dois homens acabam de de- 
sertar em direcção desconhecida. Ennegreceu o céu. 
Calma muito abafadora domina o ambiente, transu- 
dando nós. Eil-as as primeiras aragens. Começou a 
tempestade.» 

Transportae-vos, leitores, pela imaginação, para o 
meio de floresta espessa e sombria, em que arvores 
gigantes, que jamais despem sua folhagem, entrela- 
çam ramos e fecham o espaço com uma rede de cipós. 

Assentae-a em suave encosta, que uma sub-vegeta- 
ção forra completamente, cercando-a pelo longe das 
ondulações de altas terras. 

A meio vae um curso de agua escura e rápida, que 
murmura em lodoso leito, cavando entre podres tron- 
cos e nodosas raizes a lama que lhe tinge a transpa- 
rência. 

Aos lados largas orlas lamacentas vem bater de 
encontro a terras mais elevadas de húmus enneoTeci- 
do, que uma cobertura de fetos esconde com suas fo- 
lhas rendilhadas. 



446 De Angola â contra-costa 

N'este sombrio retiro, impede em larga volta a vista 
o complicado macisso dos troncos e ramos do arvo- 
redo. 

Envolvei este todo no negro manto da noite, a que 
o caliginoso escuro da imminente tempestade dá um 
aspecto sinistro e funerário. 

Accommodae a esta scena o tremendo ronco do rei 
das selvas, que por vezes o assobiar do vento acompa- 
nha rijo e tétrico. Emmoldurae este estranho quadro 
com o exagerado calor que no ambiente reina, fazendo 
transudar em suor homens e animaes entristecidos; 
lembrae-vos que nem um habitante existe nas terras 
próximas, que não ha alimentação a esperar, excepto 
se o acaso a pozer ao alcance da vossa carabina; con- 
siderae que uma dezena de feras vos espiam iresse 
momento, completando este todo com a agonia e os 
repuxões da fome; accommodae. emfim, ao meio de tão 
extraordinário quadro o sentido gemer de um compa- 
nheiro moribundo. 

Crepitam as fogueiras a intervallos e, amortecendo 
a pouco e pouco, enviam com seus lampejos uma ténue 
animação em derredor. 

Por vezes um tronco, a que faltou o necessário apoio, 
despede-se e, estourando com fragor, rola para o ter- 
reno ao lado. 

Já uns últimos vultos qne se haviam conservado de 
cócoras, observando melancólicos os tições fronteiros, 
abandonaram a statica contemplação, e estirando-se 
parallelos roncam pausadamente. 

Por vezes um urro, grito angustioso ou pio sinistro 
quebram esta monotonia, como annuncio de que o cha- 



Fera natura 447 

cal descontente ou ave nocturna, encontrando o acam- 
pamento, se desvia d'elle pressuroso. 

Seguiu-se silencio profundo, precursor das gigantes 
convulsões da natureza. 

Todos esses murmúrios e ruidos estranhos, que se 
escapam de bosques e valles, notas tristes e agourei- 
ras, similhando sorriso de demónios, estertor de ago- 
nisantes, eu sei que mais — para imaginações exalta- 
das — acabam de suspender, como que escutando 
quanto vae pelo espaço! 

Coberta de negro a abobada celeste, e apenas lis- 
trada a intervallos pelas faíscas, que ora distantes 
franjam o horisonte, ora próximas parecem cair sobre 
nós, lembra um grande manto de ataúde, que, propin- 
quo ás nossas cabeças, quizesse envolver-nos. 

As fogueiras oscillam, alumiando com a sua luz 
amarellada corpos magros, a quem a fome concede na 
fraqueza alguma hora de allivio. 

De súbito, illuminando de alto a baixo, o relâmpago 
deslumbra o ambiente, para repercutir medonho e ras- 
gar com scintillante faisca o fundo retinto dos céus. 

Grossos pingos fustigam as fracas tendas, que, 
açoitadas pelos rijos repellÕes do vento crescente, 
ameaçam fugir á tempestade, escapando-se pelo mato. 

Ribomba o trovão incessante, succedem-se ininter- 
ruptas as descargas eléctricas, sopra furioso o vento 
por entre os troncos das arvores vizinhas e dos cipós 
que as entrelaçam, abalando-as como simples arbus- 
tos, assobiando terrível, como se n'um momento gran- 
de numero de serpentes houvesse penetrado n'aquejle 
recinto. 



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De Angola d contra-costa 



Os velhos colossos da floresta gemem sobre as no- 
dosas raízes, similharido despedir-se da terra, que por 
tanto tempo as alimentou; as escarpadas penedias, as 
cavernas distantes roncam e urram com ruidos sinis- 
tros de monstros desconhecidos! 

Sombriamente illuminada pelos relâmpagos, a flo- 
resta braceja com os numerosos ramos, trahindo o 
mysterio de tantos horrores, por um charivari de gri- 
tos, de lamentos, de gemidos, de suspiros; convulsões 
que são um protesto enorme contra as iras dos ventos 
desencadeados. 

Era urna tarde da creação, ou melhor uma noite do 
chãos ! 




NARGUILE GENTÍLICO 



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