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Full text of "Decadas da Asia"

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DA ASIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

Dos FEITOS , QUE OS PoRTüGUEZES FIZERAAÍ 
NA CONQUISTA , E DESCüBRIMENTO DAS 

TÉRRAS) E MARES DO OrIENTE. 



T 



DECADA SÉTIMA v.r/ 



PARTE SEGüNDAé 




L I S B O AV!>nv -> (V 
Na Regía Officina TypoCRAFicíA# 

ANNO M. DGC-LXXXIIL* 
Com Luenga da Real Mena Cenforía , e PrivUegh lUah 



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;/. > . 



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índice 

DOS Capítulos . que sb contém 

NESTA PARTE II. 

DA D E C A D A VIL 



L I V R O VI. 

CAP* í. Dé cómo f Oí eleito pera Vifo* 
Rey da India D. Conjiantinoy filhó 
do Duque de Braganca : e da Ar* 
mada com que partió no amo de Jincoeñ^ 
ta e oitOk Pag. r# 

CAP. II. Dé como o Vifo^^Rey JD. Confian^ 
tino tomou pojfe do EJiado da India , e 
das coufas eni que logo proveo : e da cau* 
fa , por que fe alevantou a guerra em Ca^ 
nanor. 7# 

CAP. IIL Das intelligencias que o Vifo*^ 
Rey D. Conjiantino teVe com o hkimiti-^ 

. can fobre Ihe dar a Cidade de Damao\ 
e Iha concedeo : e do confelbo que tomou 
fobre mandar , ou ir fobre ella : e de co* 
nw defpedio as naos pera irem a Cocbim 
tomar a carga pera o Reyno , e Francifco 
Barre to partió de Goa. 12. 

CAP. IV. De como os Mourós de Cananot 
fe alevantdram de todo : e do que fe& 

. Luiz de Mello da Silva * e dos navios 
que mais Ibt mandou o Vifq-Rey D. Conp 
* ii tanf' 



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I N t> I C E 

fantino : e da grande Armada com que 
partió pera Daniao. 19. 

CAP. V. Da ordem que o Vifa^Rey teve 

na defembarca^do da Cidade de Damáo : 

' e de como Cide Bofatd a dejpejou , e ella 

fot entrada. 26. 

CAP. VI. Das coufas ^ em que o Vifo-Rey 
jD. Conjlantino proveo : e das inauteta^oes 
que os Abexins deram aos nojfos : e de 
como o ViphRey mandou Antonio Moniz 
Barreto a dar nelles : e da grande uito^ 
ria que alcancou : e quem he o Rey do 

, Sarzeta , e que coufa sao Choutos. 34. 

CAP. VIL De como o Vifo-Rej D. ConJ^ 

• tantino mandou D. Pedro de Almeida a 
Balfar , e elle foi ap6s elle , e do que Ihe 

' Id aconteceo: e da Armada que mandou 
ao EJireito , de que foi per Capitao mor 
D. Alvaro da Silveira ; e das coufas ent 

• que mais proveo emDamao até fe partir 
, pera Goa. 46. 

X' 

LJ V R O VIL 

CAP. I. De como Rama Rayo Rey de 
, Bifnagd foi contra os moradores da 
. povoafdo de S.Thom^ y ecativou a todos ^ 
e depois os refgatou. fj. 

CAP. II. Do que aconteceo a Lui% de Mel^ 

k 



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DOS CAPiTirtos. 

- lo úa Silva no Malavar : e de como dej^ 

. truio aCidade deMangalór: e da gran-^ 

de Vitoria que alean fou de huma Arma-- 

Aíi de Malavares , de que era Capitao bum 

Rume, que Je cbamava Odo Rabo. 6u 

CAP. III. De como Luiz de Mello da Sil* 
va cbe^ou a Goa , e o ViphRey oprendeo , 
e depots o mandou invernar a Cananor : 
e da Armada que defpedio pera Maluco : 
e da conjura fao que todos os Mouros do 
Malavar Jizeram contra a nojja fortale^ 
%a de Cananor : e do grande ajjalto que 
Ibe deram : e dos cafos que nelle aconte^- 
eéram. 70. 

CAP. IV. Do que mais aconteceo por todo 
efte verao na Etbiopia , ñas guerras que 
aquelle Emperador tinha com os Mauros , 
e com buns Cafres chamados Gallas : e 
dealgunias prati^s queo Emperador te* 
ve com oBijpofobre as coufas danofJaRe* 
ligiao Cbríjia. 85-. 

CAP. V. Decomodeo huma gravijfima en* 
fermidade nos Turcos , de que morréram 
todos: e de como oBiJpo tratou de fe par* 
tir pera a India pelas poucas efper ancas 
que tinba da conversao daquelle Empera* 
dor : e de como fe deixou ficar a rogo Ms 
Portugueses^ 94. 

CAP. VI. Do que aconteceo a D. Alvaro 
da Siheira noEJireito ; e das cmifas ^ue 

mais 



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Índice 

ntais ficcedéram na Ethhpia : e *daf 
guerras que fe levantar am , em que o Em- 
perador fot morto : e do que mais fuece^ 
de o no Imperio* lOo* 

CAP. VIL Ue como os Turcos f&ram fobre 
a fortaleza de Baharem, e I¿e puzératk 
cerco : e da Armada que D. Antao- de 
Noronha Ihe mandou de foccorro : e^ de 
como avifou D. Alvaro da Silveira pera 
que a foccorrtffe. 109. 

CAP. VIII. Do que acqnteceo a D. Joao 
de Noronha atéBaharem : e de como as 
gales Ibe correr am : e do rifco em que os 
noffos navios fe víram de fer tomados : e 
de como D. Alvaro da Silveira chegou a 
Baharem , e tomou as gales , e cercou os 
Turcos na Ilha. 1 15'. 

CAP. IX. De como o Guazil de Baharem 
fe vio com D. AJva^ da Silveira : e do 
que affentáram fobre o negocio dos Tur- 
eos : e do alvorogo , e motim que houve 
antre os noffos , por nao querer Z). Alva- 
ro da Silveira dar batalha : e de como 
de def confiado fahio aos Turcos : e da mui- 
to grande , e cruel batalha que tiveram , 
em que D. Alvaro da Silveira foi morto , 
e desbaratado. 122. 

CAP. X. De como com as nemas que cbegd* 
ram a Ormus^ , fe fez prejies D. Antao 
de Noronha , e def pedio diante Aleixa 

Car^ 



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J 



DOS-CAPITUtOS. 

^ Carvalbú com recado a Babarem , e file 

- fi partió após elle : e do que aconteceg a 
Aleixo Carvalho : e como Je vio com o Ba^ 
xá, e do éfue ambos tratdram. 17,^. 

CAP. XL De como por ordem deCogeOceni 
Camal j Parfeo , manddram os Turcos os 
Portugueses cativos a D. Antao de No^ 
ronba : e dos recados que pajfdram antre 
Mir Soltdo Alli , e elle : e de como Dé 
Antao de Noronha por ordem fuá man^ 
dou matar Mamede Bec , Capitao de Ca- 
tifa , que foi a Babarem fobre concertos 
de pa%es: e despartidos que osnoffos fi^ 
zeram com os Turcos : e da defcripcao 
da liba Babarem. 145'. 

CAP, XII. Das coufas que mais acontece'- 
ram na Abajfia : e das difputas que o Bif 

?o teve com o Emperador fobre pontos da 
^¿ por efcrito y que os interpretes IbefaU 
JJficdram : e daspaixces que tiveram Por 
¿be oBifpo nao querer entregar dousíra^ 
desJbexinSy que fogíram pera elle. ij:4# 

L I V R o VIII. 

AP. I. Da viagem que fi%eram as 

naos , quepartíram pera o Keyno no 

anm de 1^59. : e de como nao pajpir^m 

tnais ^c a Raiuba , o Tigre , e o Cafi 

tel- 



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Índice 

tello ; e Francifco Barreta , e JcSo Ro-^ 
drigues de Carvalho arribar am a Afo- 
^ambique : e da perdifao da nao N. *$>- 
nhora da Barca , .de que era Capitao niór 
JD. Lui% Fernandes de Vafconcellos : e dé 
como Je falvou no feu batel com fejfenta 
fejfbas : e do que mais Ihe fuccedeo até 
tornar d India. 162. 

CAP. II. De comoElRey D.SebaJliSo fup-^ 
plicou ao Summo Pontífice Paulo 7K fi- 
zejjfe a Sé de Santa Catharina de Goa 
Arcebifpado : e as Igrejas Santa Cruz de 
Cocbim, e N. Senhora da AJfumpcao de 
Malaca , Bijpados : e da Armada que efte 
anno de 15^9. partió do Reyno ^ de que 
era CapitSo mor Pero Faz de Siquei'^ 
ra. 179. 

CAP. III. Ba Armada que o Vifo^Rey Z). 
Confiantino mandou ao Malavar : e dos 
navios que foram defoecorro a Baharem : 
e do que Ibes fuccedeo na viagem : e da 
guerra que Luiz d^ Mello da Silva fez 
por toda a cofia do Malavar. 185'. 

CAP. IV. De comq os Capitaes Abexins 
correr am atéBalfar , e Ibes fabio Alvaro 
Gongalves Pinto > e Ibes deo batalba , em 
que foi morto com a mor parte dos feus : 
e de como o Capitao de Damdo ZX Diogó 
de Noronba mandou foc correr os nofiósy 
que ficdraní de cerco na fortaleza. i^%^ 

' CAP. 



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DOS Capítulos. 

CAP. V. Decanto os Abeocins torndram f^ 
bre Balfar , onde jd ejiava por Capitao 
Affonfo Di as Per eirá : e de corno elle I be 
fabio j efoi morto por defaftre : e D. Dio* 
go de Noronha foccorreo aquella fortalc'- 
%a ^ e a largou por Iho mandar ajjim o 
Vijb Rey D. Conjiantino. 201; 

CAP* VI. De como os Abexins correr am as 
Tanadarias de Damao , S. Gens , e Ta* 
rapor , e do que Ihe nellas Juccedeo. 208. 

CAP. VII. De como D. Diogo de Noronba 
foi bu/car os Abexins^ e Ibes deo bata^ 
Iba ^ em que os desbaratou. 211. 

CAP. VIII. De como o Vifo^Rey D. Conf- 
tantino mandou Cbrijiovao Per eirá Ho* 
meni a lanzar em Mafud o irm¿o Fulgen- 
CÍO Freiré da Companhia de Jefus , com 
recado ao Bifpo : e de como encontrou qua* 
tro gales deTurcos , e o tomar am* 22 j; 

CAP. IX. Do que fuccedeo em todo efte ve* 
rao na Etbiopia depois da marte do Em* 
per ador Claudio , ou Atbena Sagad : e de 
como os Grandes alevantdram por Empe- 
rador feu irmao Adamas Sagad , que per- 
feguio o Bifpo até o prender. ^S^* 

CAr. X. Do que aconteceo a Luis& de Mel- 
lo da Silva na cojia do Malavar todo o 
mais rejio do verao : e de como morreo o 
Veador da fazenda Aleixo de Soufa Cbi» 
(bgrro^ %^o. 

CAP, 



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Índice 

CAP. XI. De como o Btfminaique , Senhor 
de toda a cofia da Pefcaria , veto com 
grande poder fobre a fortaleza de Puni-- 
calle ^ de que eraCapitdo MavoelRodri^ 
gues Coutinho : e de como o desbaratou , 
e tomou aquella fortaleza. 249* 

CAP. XII. De como Francifco Barreto , e 
Joao Rodrigues de Carvalho inverna^ 
ram em Mozambique: e do que Francif 
co Barreto fez todo o tempo da inverna-- 
da : e de como mandou concertar a Jua 
ndo ^ e a de Joao Rodrigues de Carvalho , 
e dahi fe partió pera o Rey no : e da per- 
difdo da ndo Garca , de que era Capitao 
Joao Rodrigues de Carvalho : e de como 
Francifco Barreto Jalvou toda a gente 
della , e tornou arribar a Mo^ambi-^ 
que. i$G. 

CAP. XIII. Que trata de como Francifco 
Barreto^ depois decbegar a Mozambique 
da fegunda arribada , partió pera Qoa 
pela cofia de Melinde : e do que Ibe acon^ 
teceo por ella : e de quando chegou a Goa , 
e de Id partió pera o Reyno na ndo S^ 
Giao : e de como a ndo Patifa fe perdeo 
em Mombaca , indo nella Bafiiao de Sd , 
que acabdra de fer Capitao de Cofalai 

• e de como D. Luiz Fernandes de Vaf 
concellos chegou a Goa , depois de fe per- 

. dtr na ndo Gallega : e de como je foi pe- 
ra 



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DOS Capítulos. 

• ra o Reyno na ndo de Francifco Bar^ 
reto, 273. 

CAP, XIV. Das grandes guerras , que fe 
alevantdram antre ElRey de Cranganar \ 
e o de Cochm : e da caufa porque : e do 
grande temor , e refpeito ^ que todos os 
Malavares tem ao Bemaventurado Jlpof- 
tolo S. Thomé : e das foberbas , e cujiofas 
feftas que Ihe fazem. 285', 

CAP. vXV. De como Bajazeto , filho de So^ 
limao Emperador dos Turcos , fogio peta 
a Perjia : e dos tratos que teve pera ma^ 
tar aquelle Rey: e de como elle o entre^ 
gou afeu irmao Cilim^ ^94. 

L I V R o IX. 

CAP. L Da grande Armada , com que 
o Vifo^Rey D. Conjlantino partió pe^ 
Ta ^afanapatao : e do que Ibe fuccedeo 
até chegar Id. Tpo. 

CAP. II. Do confelbo que o Fifo-Rey D. 
Conjiantino teve [obre o modo da dejem^ 
barca f do : e de comofabio em térra , ega^ 
nbou a Cidade : e das coufas , que na en-' 
trada della pajfdram. 307. 

CAP. III. De como oVifo-Rey D. Confian- 
tino fot contra a fortaleza ^ onde ElRey 
eftav^ i € a acbgu defpejada ^ e mandou 

«I- 



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Índice 

alguns Capí t des emfegumento de ElRfy : 
e do extremo emque opuzeram^ até cbe^ 
gar a commetter partidos. 31& 

CAP. IV. Do alevantamento que houve con- 
tra os nojjbs em Jafanapatao : e do cerco 
que puzeram d fortaleza : e de como o 
Pifo-Rey e/capou da conjurando ^ e Je re-^ 
colheo por mar d Armada : e do foccorra 
que mandou á fortaleza , de que fot por 
Capitao mor D. Antonio de Noronba : r 
do que Ihe aconteceo na jornada. 326. 

CAP. V. Ha Armada que ejle anno de fef^ 
fenta partió do Reyno , de que era Capi- 
tao mor D. Jorge de Soufa : e do priméis 
ro Arcebifpo , e Inquifidores que pajfdram 
d India : e do que aconteceo ds naos defi 
ta Armada na viagem : e de como o Vifo^ 
Rey Z). Conjlantino fez huma fortaleza 
na liba de Manar , e fe foi pera Gj- 
cbim. 334. 

CAP. VI. Das coufas que nejle tempo fuc^ 
ceder am em Ceilao : e da guerra que /). 
Jorge Barocbe fez ao Madune : e dos ra- 
contros que tiveram , e cafos que fuc^ 
ceder am : e de alguns feitos bonrofos » 
que nelles acontecéram a alguns dos nof^ 
Jos. 340. 

CAP. VIL De outro ajfaltoy que D.Jorge 
deo aos inimigos^ em que ejieve de todo 
desbaratado : e de alguns feitos bonrqfos 

que 



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DOS Capítulos. 

" gue nelle Juccedéram a alguns dos hoj^ 
¡os. 346. 

CAP. VIII. De como o Madre Maluco ten^ 
tou deje ir f obre a fortaleza deDamaoi 
e do ejlratagema , de que D. Diogo de 
Noronha ufou pera homiziar o Cédeme^- 
can com o Madre Maluco , por onde o fez 

• matar: e de outras coujas. jyi. 
CAP. IX. De como Cbinguifcan , filbo de 

Madre Maluco , foi contra o Cédeme can , 

, e o cercou : e da Armada que D. Diogo 
de Noronha mandou de foccorro a Surra^ 
te : e do que Ibe Id fuccedeo : e de como 

' faleceo D. Diogo de Noronha : e de fuas 
ptmrtes ^ e quálidades. 361. 

CAP. X. Do que aconteceo ao Vifo-Rey D. 
Conjlantino em Cochim : e de como Je vio 
com o Rey do Chembé ^ e fez com elle pa^ 
zes\ e do foccorro que mandou a Cran^- 
ganor : e de como Luiz de Mello da Sil- 
"va entrou a Ilha do Primialdo , onde ef 
tava todo o poder do Qamorim , e o des- 
baratou , e entregou aquella liba a El- 

. Rey de Cochim : e da fuá cbegada a 

• Goa. • ^70; 
CAP. XI. De alguns Capitaes , que o Vifo- 

Rey D. Conjiantino defpacbou pera fura : 

€ da grande Armada que mandou a Or- 

muz , de que foi por Capitao mor Bajli^o 

, deSdx e de outra^ que foLde foccorro a 

j Sur- 



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Índice 

• Surrate em favor de Cedemecan^ de qué 

. fot por Capitdo mor D. Antonio de No^ 
ronha Catarraz : e do que fuccedeo d 
ejlas Armadas. 378* 

Cap. XIL Do que aconteceo a D. Antonio 
de Noronha em Surrate : e dos recados 
que fajjáram antre elle , e o Cedemecan : 

. e de como ganhou huma ejlancia ao Chin'^ 

fuifcan^ e Ihe tomou a artilheria: e da 
atalha que Ihe deo em campo , em que o 
desbaratou , e Ihe fez alevantar o cerco , 
que tinha pojlo aquella fortalezaé 39 1^ 
CAP. XIII. Dos recados que fe pajfdram 
antre D. Antonio de Noronha , e o Cede-- 
, ntecan : e de como o Capitdo mor a fuá 
peti(do commetteo a Cidade , pera lanzar 
della o Chinguifcan : e de como D. Anto» 
nio de Noronha fe vio com o Cedemecan 
fohre a entrega da fortaleza , e as cau^ 
fas que houve pera a nao entregar : e de 
como a Armada fahio do rio y e D. An^ 
tonio de Noronha fe foi pera Goa , e a 
Vife-Rey D. Conjlantino o mandou pren- 
. der. 40 3« 

GAP. XIV. De como os Mouros , que efia^ 
vam na fortaleza de Surrate , quizerani 
: matar Cedemecan pelos tratos que teve 
com D. Antonio de Noronha , e elle lies 
fogio : e de como foi morto por ordem de 
Chinguifcan^. . 412* 

CAP^ 



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DOS Capítulos. 

CAP. XV. Do que nejie tempo acmteceo 

, em Maluco : e de como aquelle Rey dejif^ 
tio do Reyno ñas maos do Capitao da-- 
quella fortaleza : e de outras coufas que 
mats fuccedéram. 417. 

CAP. XVL Do que aconteceo dnáoS.Rau^ 
¡o : e de como fe fot perder na liba Ca^ 
matra : e do que pajfou a gente della. 42 2. 

CAP. XVII. De comoElRey dePegú man- 
dou prometter huma fomma de ouro ao 
Vifo'Rey D. Contamino pelo dente do Bu^ 
gio , que trouxe de Jafanapatao : e' do 
que os Tbeologos fobre ijfo ajfentdram : e 
de como fe aueimou : e das partes , e qua^ 
lidades dejte Vifo-Rey. 428. 

L I V R o X. 

CAP. I. De como fot ekito pera Vifo- 
Rey da India D. Francifco Coutinbo 
Conde do Redondo : e da Armada , com 
míe partió no anno de i^6x : e do que 
íbe aconteceo até chegar a Goa : e de co* 
mo o Vifo Rey ü. ( onjiantino Ihe entren 
gou a governanga da India , e fe embar^ 
cou na fuá nao pera o Reyno , aonde che* 
gou com muito profpera viagem. 439. 
CAP. II. Decomovieram novas que oCof 
Jaira Cafar era fahido com tres gales 4 



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Índice 

^ efperar as ndos de Ormuz : e ¿e cohíó á 
Conde do Redondo Fífo-Rey mandou a Dd 
Francifco Mafcarenhas com huma grojfd 
Armada bufcallo : e do que Ibe fucce^ 

. dea. 447. 

CAP. III. Do que aconteceo a Jorge de 
Moura no EJireito do mar Roxo : e de 

. como Pero Lapes Rabello pelejou com bu-- 
ma poderofa ndo de Rumes : e de com^ 
ambos fe abrazar am : e de outras cou^ 
fasé 55' 2. 

CAP. I Vé Do que mais fuccedeo ñas guer^ 
ras dantre Abexins , e Mouros : e do 
ffrande foccorro dos Turcos aueentrou em 

, harod : e do que o Emperador pajfou com 
os Portuguezes. 460* 

CAP. V. Ue buma breve relacao das cou^ 
fas do Bemaventurado Apojioló S.Thomé ^ 
de fuá morte ^ e mi I agres: e das grandes 
maravilhas de buma pedra , que fe atbou 
no lugar em que o matdram : e de buns 
padroes , que os Reys daquelle tempo paf 
fdram de rendas pera a Igreja que alli 
fez. ^ 467. 

CAP. VI. Das mais coufas , que acontece-' 
ram na Etbiopia : e de como o Capitao 
Ifac fe ajuntou com o Baxd dos Turcos , 
e alevantáram outro Rey : e do que aquel- 
le Emperador fez fobre ijfo. 48 ?• 

CAP. VII. Da Armada que ejie anno de 



Digiti 



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vos CA?ITtJt09« 

fejjenta e dous partió do Re^no , de que 
era Capitao mor D. Jorge manoel : e das 
coufas etn que o Cande ViforRey proveo c 
€ de como D. Pedro de Soufa joi entrar 

. na Capitanía deOrmuz , e levou camfigo 
Babuxa , que foi fucceder naqudle Rey^ 
tío : e dios paz¿s pte concedió ao (¡amo* 
rim^ 494* 

CAP. VIII. J^íff dd conta dos CdpitaeSy 
gue entrdram pelas térras de Damao : e 
ae como Garda Rodrigues de Tavora , 
Capitao daquelh fortaleza , os fii huf 
car ^ e os desbaraten, 502; 

CAP. IX. Da grande Jrmada ^ eem que o 
Conde do Redondo Vifo-Rey partió pera 
Cocbim : edafahnifa^ifta que dea ao(¡a^ 
morim : e de comojurdram as pa%es : e 
do que Ibe fuceedeó até fe ir pera Goat 
e da viagem que as ndos fizeram até o 
Reyno , efeperdeo a ndo S. Martinto\ em 
que bia o Capitao mér. ' y 12, 

CAP. X. Da origem dos antigos Empera^ 
dores do Mahvar ^ chamados iPerimais i 
e do titulo de Qamorim : e de todos os 
Reynos que ha tfoMalavar: é dóprinci-^ 
pió y e (frígem dél&t. . 5*2 1. 

CAP. XI. Do modo que fe tem nos Jaece f 

sSes de todos ejits Reynos do Malavar : 

• e dosjque sao feus verdadeiros berdeiros : 

*^e do a bufo que ha ñas Nairas ferem com^ 

Quto*Tom.IF.P.ih ** mu<(s 



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I K D I C E 

muas a todos r e dé outras coufas mutto 
novas ^ e curiofas^ y 2 9. 

CAP. XIL De algumas coufas defiesRtys 
de Cocbim , de que noffas hijiorias nao 
tratam , que sao tnui importantes Jaie» 
rem-fe. 534, 

CAP. XIII. De huma breve relaeao das 
libas de Amhoino : e do alevant amento 
que houve os annos paffados contra os 
LbriJláoT : e doperigo , em que fe víram 
até chegar Henrique de Sd , que cajiigou 
os rebeldes ^ e livrou os Chr (fiaos. 54 !• 

CAP. XIV, Da guerra que o Madune man-- 
dou profeguir contra a nojfa fortaleza de 
Columbo , e de Cota , em que eflava EU 
Rey Perla Pandar ; e dos cafos que acon^ 
tecéram. 548. 

CAP. XV, Do grande aperto , em que o 
Rajii poz os noffos r e de como Diogo de 
Mello Capí tao de Manar fot defoccorroi 

. e de outros foccorros que fe Ibe ajuntd^ 
ram. 554. 

CAP. XVI. Da Jrmada que efle anno de 
Jeffenta e tres partió do Reyno , de que 
era Capitao mor D. Jorge de Souja : e 
de como fot ao Malavar D. Francifco 
Mafcarenbasi e da grande batálba-^ que 
JeronymoDias deMenezes tevecomtres 

. Paraos , de que todos fab/ram d^Ji^ofa* 
dos : e de outras coufas ^ 

CAP. 



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DOS Capítulos. 

CAP. XVII. Das coufas em que o Conde 
preveo : e de como mandou uotningos de 
Mgfquita ejperar os paguéis do Mala* 
var^ que vinbam de CambayUy com c6r 
ie alevantado : e da grande deftrui^ao 
que nejles fezi e de como faleceo o Conde 
Fifihtby: e das partes , e quaüdades de 
fus pefba. $66^ 

CAP. XVIII. De como por morte do Conde 
do Redondo -fuccedeo na governanfa da 
India Jodo de Mendoga : e das coujas em 
que logo proveo. 573* 

CAR XIX. De alguns Capitdes que oGo* 
vernador JoSo de Mendoza defpacbou pe* 
r afora : e de algumas coufas emque mais 
proveo até chegar o Fijo-Rey D. AntSa^ 
de Noronha , que entra com aFIIL De* 
cada: e das partes y e quaüdades dapef 
Joa dejie G(rvernador. 58<x 



DE- 



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DECADA SÉTIMA. 

Da Hiftoria da India. 

LIVRO VI. 

C A P I T U L O I. 

De como fot eleito pera VifthRey da India 

D. Conftantino , filbo da Duque de Bra- 

ganfa: e da Armada comquepar-' 

tio noanno defincoentaeoito. 

Al^cido ElRey D. Joáo o 
Terceiro , c entregues do go- 
verno doReyno, e tutoría do 
menino Sebaftiáo , que íicava 
de peito , a Rainha Dona Ca- 
tharina faa avó , e o Cardeai D« Henríque 
feu tio y trataran) , como foi tempo , de pro- 
yerem ñas coufas da India , por haver mais 
de tres annos que a governava Francifco Bar- 
reto. E lanzando os olhos por toda a Cor« 
Cou(o.Tom*ir.P.iL A te, 




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a ASIA DE DioGo de Couto 

te, (porque derejavam de fazer e!eigáo de 
huma peflba, a que todos tiveflem relpeito, 
e que trataíTe mais do que cumpria ao fér- 
vido de Déos , e de ElRey , que do feu par- 
ticular , ) 03 puzeram em dous homens , que 
fe efcufáram, do que a Rainha, e Cardeal 
ficáram rao enfadados, que publieamentc fe 
IheS conheceo. Succedeo nefte tempo éftar 
hum día o Duque de Braganifa D. Thcodo- 
fio praticando com feu irmáo D. Conftanti* 
no fobre eñe negocio , eftrarihando ambos 
muíro engeitarem aquclles homens tamanha 
coüfa , diíTe D. Conftanrino : « Agora que 
» eftes homens engeitáram ifto, fpra eu de 
» multo boa vontadc á India fó por fcrvijo 
% <ie Déos , e de ElRey, )i A ifto nao rei 
fpondeo o Duque couía alguma , nem X). 
Conftantino fez cafo diño, porque nao diíTe 
aquillo fenáo em prárica , por eílranhar aos 
que engeitáram tamanho negocio. Mas q 
Duque , qué era muito zelofo do férvido de 
ElRey , íém dar conta ao irmáo do que hia 
fazer, fe foi áRainha, eao Cardeal, elhes 
diíTe « que Ihes levava hum aJvitre de muito 
31 fervijo de ElRei , e com <|ue efperava de 
n temperar o defgofto , e defcontenramento 
9 com que andavam : )ieentáo ihescomou o 
que paitara com feu irmáo D, Conflantino ^ 
afErmando-lhes « que fe o commetteífem pe- 
% ra a jomada da India ^ que acceitaría , pe* 



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ÜEa VILLiv, VI. Cap. t 3 

% lo ¿elo que tinha do férvido de ElRey « 
oque Ihe eiles agradecéram muito* Eindo» 
ie dalli , foi D. Conftantino logo chamado ^ 
e com palavras de muita obriga^áo o com* 
mettéram pera ir á India , agradecendo-lhe 
muito o zelo que moftrára ao férvido de El* 
Rey naquellas palavras , que paíTára com feu 
irmáo o Duque. D. Conftantino ficou fobre* 
faiteado, porque nunca cuidou que o Duque 
íeu irmáo lan9a(Ie máo do que diíTe , nem 
d^fcubriíle o que antre ambos pafláram em 
converfa^So fecreta; e vendo que o peoho^ 
ravam pela palavra , nio fe quiz eícufar, 
antes Ihes diiie « que iDuito bem íabiam co>» 
» mo ElRejr D. joáo , que Déos tlnfaa em 
» gloria , ihe tinha dado o cargo de Came^ 
s reiro mor, que elle já fervia antes aue el* 
n le faleceíle i que parecia juftiga nao Iho 
» tirarem , pois elle o nao defmerecia ; e 
» tamo que tivcfle o Principe idade , forfa- 
» do havia de ter quem o ferviíTe naquelle 
)» cargou A Rainha Ihe refpondeo , que feu 
n neto era aínda menino de peito , e que 
» ainda fe creava no eolio das amas» ecjue 
» haviam de paíTar aiguns annos primeirp 
» que houreíTe mifter Camereiro : aue o fo& 
» íe elle fervir á India , e quando de lá tor- 
» nafle o ouviriam em feus requerimentos ^ 
» e Ihe fariam jufti^a. » 

Com eftai efperangas gome^oa logo a 
A ii cor- 



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4 ASIA DE DioGO DE Couto 

correr em feus negocios , n^o tendo nelles 
o defpacho muico liberal , ncm as vantagens » 
e mercés , que depois fizeram a muiros , por- 
que o Principe era menino j e os nitores , e 
Governadores nao quizeram logo entrar em 

foverno com coufas extraordinarias ; nem 
). Conñantino as requereo , pera Ihe ficar 
inelhor au^ao pera quando tornaflc reque- 
rer o cargo de Camereiro mor. As naos que 
havia de levar erao quatro, com dous mil 
homens de armas , a que fe foi dando a mor 
preíTa que puderam, E porque D. Conftan- 
tioo era de pouco mais de rrinta annos , fem 
experiencia dos negocios da fazenda , por 
íer fempre creado em Corte y ordena ram a 
Rainha , e o Cardeal de mandarem com el- 
U hum homem ^ o mais grave que fe achaíTe ^ 
pera correr com o cargo de Veador da fa- 
zenda , e de idade , e partes a quem D. 
Conílantino tiveíTe muito refpelto ; e.pera 
ifto elegéram Aleixo de Soufa Chichorro , 
de. que muirás vezes fallamos pelo decurío 
de noíTas Decadas , que já tinha férvido 
aqudle cargo » depois de ter íido Capitao 
de C^ofala , ( como na V. Decada fica dito 
no Capitulo IX. do VIH. Livro , ) que era 
de fetenta annos , de si confciencia ^ muito 
bom confelho ^ e longa experiencia , aílim 
da guetra , como da fazenda. E por accei- 
tar eíta jornada, Ihe fez a Rainha, eoCar* 

deal 



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Dec* VII. Liv- VI. Cap. I., y 

deal tudo oque elle Ihes pedio. E fegundo 
cu vimos dizer em aquelle tempo , vinha 
ifeiito do Vifo-Rey na fazenda , e na pri-> 
meira fuccersáo da governan^a da India. As 
naos pormuito mais preüa que felhesdeo, 
nío fe puderSo fazer á veta fenáo a fete de 
Abril do anno de íincoenta e oito y quinta 
fcira da Paixáo. 

OsCapicáes dellas trio: Da Gar^a^ em 
que hia o Vifo-Rey , ffz elle D. Payo de 
Noronha , que leva va fuá mullier Dona Joan- 
na Fajarda , e fuá filha Dona Guiomar de 
Noronha menina , que depois cafou na India 
duas vezes, a primeira com Alvaro Paes de 
Sotomayor , que foi Capitáo de Chaul , de 
quem teve iilhos , e filhas ; e a fegunda com 
D. Joáo da Coila , que foi Capitao de Dio. 
Levava D. Payo de , Noronha a Capitanía 
de Cananor em vida. Da nao Rainna era 
Capitáo Aleixo de Soufa Chichorro , Via- 
dor da fazenda. Da nao Tigre eraCapijtao 
Pero Peixoto da Silva« Da nao Caftello era 
Jacome de Mello. Hiáo embarcados com o 
Vifo-Rey muitos Fidalgos , e dos que pude- 
mos faber os nomes sao os feguintes. D. 
Diniz íilho doMarichal, Francifco de Meló- 
lo fílho doMonteiro mor, Ayres de Salda- 
iiha filho de Antonio de Saldanh^» D. An«> 
tonio de Vilhena, D. Francifco Lobo, D. 
Luiz de Almeida/ D. Francifco de Almei* 

da j 



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6 ASIA D£ DioGO QE Covto 

da 9 filho de D. Lopo deAImeida, que de^ 
pois foi Capitáo de Tangere ; Fernáo de 
Caftro y filho do Veador do Duque de Bra- 
gan^a , Pero de Mendoza y oue fe chamava 
o Laritn por fer magro , íilho de Triftao 
de Mendop ^ Joáo Gomes de Caítro , mo;o 
Fidalgo que foi do Infante D. Luiz , Pero 
da Silva de Menczes , irmao de Fr. Thomas 
de Soufa , ' Frade da Ordem de S* Domin» 
gos , Jeronymo Días de Menezes , Joáo Lo- 
pes Léltáo , Gil de Goes defpachado com a 
Capitanía de Goa , e outros muitos Fidal* 
gos, e Cavalleiros. 

Foi efta Armada feguindo fuá derrota ^ 
e fem achar cootrafies , chegou a Mogambi^ 
que. entrada dejulho, e alli achou D. Luiz 
Fernandes de Vafconcellos , que deixámos 
invernando no Brazil , donde tinha partido 
a quatorze de Agoño do anno de üncoenta 
e le te , vefpera de noíTa Senhora da á& 
fompgao. E chegando a Mozambique a 
dous de Malo de íincoenta e oito , D. Con& 
tantino Ihe fez muitos gazalhados , por fe* 
r^m muito amigos. Achou tambem alli a 
nioPatifa, de que era Capitáo Joáo Rodri* 
gues de Car val ho , que por chegar tarde 
fiáo pode paíTar á India. E tomando provi<- 
memos, eagua, partíram todos juntos a íin*!- 
co de AgoQo , e aíCm juntos chegáram á 
barra de Goa a tres de Setcmbrot 

CA^ 



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Dec. vil Liv. vl y 

C A P I T U L o IL 

De como o Vifo-Rey D. Conjlantino tomou 
fojfe do EJiado da India , e das coufas . 
em que logo proveo : e da caufa , por que 
Je alevantou a guerra em Canamr. y 

SUrto o Vifo-Rey D. Conftantino na baiv 
ra de Goa , foi logo vificado da Cidade^ 
e Fidalgos , a cujo rogo efperou finco , on 
fm días , em quanto Ibe preparáram íeu re- 
cebimento ; e paflados elles, enrrou na Cir 
dade , onde foi recebído com muirás feftas 9 
e grande aIvoro90 de todos , como iiomem 
[ue era táo conjunto nofangue comosReys 
e^ Portugal. Francifco Barreto Ihe entrego» 
a governan^a , e tirou feus papéis , e inftrur 
mentos y e fe foi pera as cafas de Antonio 
PeíToa, onde eíleve até fe partir pera oRey^ 
no , quefoiavinte de Janeiro doannodemil 
quinhenros fincoenta e nove , e o Vifo-Rey íc 
apofentou na fortaleza , que já efiava defpe^ 
jada , e armada , e come^ou a correr com 
^s coufas de fuá obriga^áo , mettendo de pot 
fe do cargo de Veador da fazenda a Aieixo 
de Soufa Ghichorro , e do de Secretario do 
Eftado ao Licenciado Belchior Serrao , que 
delle hia próvido, homem Fidalgo, velho, 
e de muito boas letras , e partes , por cujo 
refpeito o Infante D. Luiz Ihe foi muito 

. af- 



I 



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t ASIA DE DiOGO DE COVTO 

aflei^oado , e fe íervio delle em coufas tnui 
honrofasV 

A primeira coufa , que o Vifo-Rcy defpa» 
chou pera fóra foi D. Payo de Noronha , pe- 
ra ir entrar na Capitanía deCananor, que foi 
embarcado coaitoda fuá cafa emalguns na- 
vios ligeiros ; e ciiegando aquella fortaleza , 
foniou poífe della, e logo ÉIRey de Cana- 
sor o mandou viíitar ^ como he coflume , e o 
mefmo fez o Guazíl ; e a voltas diífo Ihe 
snandáram alguns prefentes das coufas da tér- 
ra, que D. Payo Ihesnáo quiz acceitar , ném 
refpondeo bem aos recados ; a caufa difto nao 
^ foubemos : mas elles ficáram aíFrontados da- 
quillo, eohouveram portáo grande defcor- 
fézia , que claramente o moftráram. E como 
os Mouros , que vivem por aquelles Rey- 
nos, sao inimigos do nome Chriftáo por na- 
tureza , e dos Portuguezes , pelo muito an- 
tigoodio que Ihescobráram depois quedeí^ 
xubríram a India , e nunca fe liies oíl^receo 
CKcafiao de o moftrarem , que o diffimulaf- 
fem ; vendo agora ElRéy queixofo , tiveram 
ruáis oufadia pera fe alterarera , e haver an* 
tre elles movimentos. Succedeo juntamente 
com ifto hura Mouro por nome Paliata, 
que vivía no rio do Sal , alli perto , armar 
hum paro pera fahir a roubar: o que Tábi- 
do por EIRey , como nao quería romper de 
todo com os Portuguezes ^ mandou avifar a 

D. 



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Déc VIL Liv, VL Cap* IT. p 

D.Payo, edizer-lhe f que mandaíTe tomara 

> boca daquelle rio por aiguma fufta , ou 

> navio , pera que nao fabifle aquelle ladráo 

> á roubar ; ou que Ihe mandaüe empreftar 

> hum par de berros , e aiguma pólvora , 

> Que elle armaría hum navio feu y e o man- 
% daría a iíTo , porque quería atalhar defgoí^ 

> tos » do que D. Payo nao kz cafo : an- 
tes em vez de agradecer a ElRey aqudle 
avífo , Ihe refpondeo mal , com o que El- 
Rey fe acabou de efcandalízan O Mouro 
Paliata , tanto que teve preftcs o feu navio , 
íabio nelle pelo mar a roubar iivrementc ; 
e logo quiz adefaventura que achaíle huma 
fufta y que hia pera Cochím , com dez , ou 
doze Portuguezes , e abordándola , ( pofto 

;[ue os nonos pelejáram valoroiamente ^ em 
ua defensáo , ) foram a mor parte delles 
monos y e a fufta levada chea de fazendas. 
Ifto fe foube logo em Cananor , e o Alcai* 
de mor avífou com muita prefla o Vifo-Rev 
D. Conftantíno y porque tambem a térra le 
comerá va já a alterar , pera que mahdafle 
acudir áquelle negocio. Com efte recado def^ 
pedio o Vifo-Rey com muita diligencia fin- 
co navios , que nos primeiros dias de Se* 
tembro tinham chegado do mefmo Caju- 
ñor, de que foi por Capitáo mor Ruy de 
Mello, homem Fidalgo, e ca&do naquella 
fortaleza com huma íiiha de Duarte Bacbci. 

fa. 



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lo ASIA DE DioGo OB CouTlr 

fa ^ e os mais Capitáes eram Gonzalo Saiin 
ches , Belchior Godinho , Diogo Barbacho , 
Pedralvares , c hum foáo Piroentel. 

Cbegados eftes navios aCananor, achá* 
ram a térra táo alterada » e os Mouros táo 
ibberbos » que já nao havia conimunica9áQ 
antre os noflbs » e os Mouros , nem oufava 
Portuguez algum ir á Cidade , antes eftava 
a fortaleza com grandes vigías , e pelos 
r¡06 fe come^aváo a armar navios de Coflai«* 
ros pera fahirem a roubar. De todas eftas 
coufas tornáram logo a avifar oVifo-Rey, 
que com muita preflía defpedio Luiz de Mei^ 
lo da Silva com mais nove navios de re- 
mo , de que eram Capitáes Cofmo Faya, 
Baftiáo Gon^alves , Alvaro Dias , Domingos 
de Coimbra , Antonio Mouro , Joáo Luiz ^ 
Diogo Lourengo , e o Capitao mor , que 
hia em huma galeota de appellagáo dedous 
liaileos , e levava por regimentó « que ajun- 

> taíTe a (i os navios que foram com Ruy 

> de Mello (que fe tornou pera Coa ) e fr* 

> cade Luiz de Mello correndo a coda com 
B muirás intelligencias nos ríos , em que fe 
» armavam osCoíFairos pera Ihes atalharem 
% fuá fahida , e darem nelles primeiro que 
B fizeífem algum damno. ii A guerra já fefaia 
declarando de todo da parte dos Mouros^ 
ainda que da deElRey eftava a coufa para* 
da; porque acudíram a iífo Coge Cema^a^ 

diiti , 



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Dec, VII. Liv. VI. Cap. II. ii 

dim , e Nicore Garipo , hum Nayre princi- 

Í>al do Reyno de Cananor , e Jangada da 
brtaleza ^ muito amigos dos Ponuguezes ^ 
c grande fervidor de ElRey de Portugal , 
e aílim fempre moftrou ifto por obra nos 
cercos de que adiante daremos razáo , cau- 
lados todos da feqnidáo de D. Payo de No* 
rofiha. Efies ambos acudírao a temperar o 
Aderajao , que era cabera de todos os Mou« 
ros , e Regedor mor de todo o Revno » que 
tinha em iéu peito guardado aquelle grande 
odio , que cobrara aos Portuguezes pela 
morte de feu tio Pocaralle , que Henrique 
de Soufa Ghichorro , em tempo do Gover# 
nador Martim Affbnfo de Soufa , matou na 
praia de Cananor , ibbre Coge Cema^adim ; 
como no Capitulo VIII. do X. Livro da V. 
Decada fica dito ; e por efta razáo tomoii 
aquella occaiiáo pera a guerra , que defeja* 
va fazer aquella fortaleza : e nunca em quan* 
to vi veo deixou demoñrar cfte odio em tO«* 
das as coufas que pode» 



CA- 



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12 ASIA DE Dioao de Couto 

CAPITULO III. 

Das intelligencias que o Vifo-Rey D. Qtmf^ 
. tantino teve com Itbimitican fobre lie 
dar a Cidade de Damao y e Iba concedeo : 
e do confelho que tomou fabre mandar ^ 
cu ir fobre el/a : e de cmno defpedio as 
naos pera irem aCocbim tbmar a sarga 
pera o Reyno , e Francifio Barreto par* 
tio de Goa. 

ÍA demos atrás conta de como D. Diogo 
de Noronha , citando por Capitáo de 
io , fendo Viíb-Rey D. Pedro Mafcare- 
nhas j defejára de haver ás máos a Cidade 
de Damao , fobre o que mandou Diogo 
Pereira por Embaixador a tratar aquelle ne- 
gocio com Madre Maluco , que nao houve 
effeito. Depois fuccedendo-iiie o Governa- 
dor Francilco Barreto , vendo quanto im- 

Eortava pera feguran^a das térras de Ba^aim 
aver a Cidade de Damao , aífim pela me& 
ma razáo aílima , como pela groílidáo , e 
proíperidade de íuas térras , e aldeas , em 
queiepodiam apofentar muiros cavalleiros^ 
e cafados pobres y que tinham férvido El- 
Rey , o Governador mandou (como diífe- 
mos) Chriftováo de Couto , lingua do Efta- 
do, por Embaixador aomefmo Madre Ma- 
luco , tutor de ElRey de Cambaya j e o re- 

que- 



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Dec. vil Liv. vi. Cap. ni. ij 

queríroenro que levava , era pedir-lhe f que 
n Ihe entregaíTe a Cidade de Damáo com 
» todas fuas Tanadarias , e jurdi^o , e que 
9 Ihe largaria ametade do rendimento da 

> Alfandega de Dio, aíGm , e da maneira 
3 que Soltáo Mahamude a poíTuio , quando 
n fez liosos contratos de pazes com o Gof* 

> vcrnador D. EftevSo da Gatna » como na 
V. Decada no Capitulo IV. do VII. Livro 
fica dito : o que tambem fe nao elFeituou 
pelas defaven^as que havia antre os Gover« 
nadores do Reyno , e tutores do Rey ; do 
que D. Diogo de Noronha fe tomou tanto ^ 
como atrás fica dito no Capitulo VIII. do IIL 
Livro. E como elle defejava muito deaccreí* 
ccntar aquellas térras ao Eílado da India ^ 
porque todos os feus fardos , empregos , e 
xnercadorias foram folicitar fempre , e fonhar 
com o férvido de EIRey , e augmentagáo 
de feu ^ftado , como quaíi todos os Fidal* 
gos daquella forte entáo faziam. Pelo que 
nunca deixou de trazer Intelligencias com o 
Ithimitican , em cujo poder entSo eftava 
aquelleRey , ecom osCapitáes do feu con- 
felho , perfuadindo-llie « que melhor Ihe vW 
j nha poíFuir EIRey de Portugal ^aquella 

> Cidade , que nSo o Abexim , oue com el- 
% la eftava alevancado , e le nia fazendo 

> mais poderofo , e que por ventura por 
y^ tempos nao detxaria de afpírar a fefazee 

«Rey.» 



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14 ASIA DE DioGo DE Conro 

» Rey, » E como D. Diogo de Noronhd 
trazia ífto na imagina^áo , tanto aue D« 
Conftantino chegou a Goa ^ logo Ihe dea 
conta do eftado em que aquellas coufa»^ e(la<» 
vam j e do que fobre ellas tinha paflado com 
o Itbimitican , perfuadindo^o a ir fobre 
aquella Cidade , dando-lhe pera iíTo muirás 
raz6es , mui vivas , e urgentes. D. Conftan- 
tino como tinha já noticia do zelo de D« 
Diogo de Noronna , e de fuá prudencia , e 
con¿elho , tomou aquelle de D. Diogo , e 
defpedio recado ao Ithimitican, c aos mais 
do confelho de ElRey fobre aquelle cafo , 
a que tambem efcreveo D. Diogo de Noro- 
nha j a quem todos elles tinham grande rei^ 
peito. Quem foi a ifto , e como correo , nÍo 
achámos informa9So certa ; mas quem quer 
que foíle , elle tratou aquelle negocio por 
caes termos , que concedéram pera o Eftado 
a Cidade de Damáo com todos feus termos , 
e Tanadarias , de que Ihe paíTáram logo 
hura formáo em nome de EIRey de Cam* 
baya , com que fe mandou tomar poíle del* 
la, Aigumas peíToas dizem que já o Ith¡mi« 
tican tinha concedido efteformáo aoGover- 
nador Franclfco Barreto , a quem (fe aflim 
foi) tAo queremos roubar o feu. E efta con- 
fusáo fez nao fe achar efte formáo , e fer 
na India tudo o defta forte perdido pelos 
defcuidos que muitas vezes apontamos. E 

af- 



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Dec vil Liv- VI. Cap. IIL ^jr 

«flim ñas coufas defta qualidadc nÍo tem o 
Eílado loaior direito , que na pofle em que 
efiá« Em ñm como quer que roíTe y depois 
do Vifo-Rey D. Conftaniino tcr recado dos 
Rcgedores de Catnbaya , poz em confelho 
dos Fidalgos, eCapitács velhos aquelle ne- 
gocio, e os mais delles foram de parecer^ 
3ue pois EIRey livremente concedía a Ci- 
ade de Damáo, que baila va pera ir tomar 
pode della Antonio Moniz Éarreto , que 
cftava por Capitáo de Ba9a¡m ^ e que fe ef^ 
cufariam muirás defpezas , que forjado ie 
liaviam de fazer, íe quizeíTe ir em peíFoa. 

Aflentado ifto , efcreveo o Vifo-Rcy a 
Antonio Moniz Barreto' c que ajuntaíle a 
» gente que havia naquella Cidade , e ar« 
» mafle os navios que Ihe parecefle , e aue 
% fofle tomar poíTe de Damáo , mandanao^ 
» Ihe o traslado do formáo juííiíicado. Da^ 
do efte recado a Antonio Moniz Barreta , 
fe come90u a fazer preftes, e lan^ou efpias 
em Damáo , pera faber o modo de como 
aquella Cidade eftava , de quem foi avilado 
» que Cide Bofatá Abexim , que nella efta« 
% va , tinha mais de tres mil homene Abe- 
% xins j e Turcos , e outros homens bran^ 
» eos; e que eftava muito fortificado uaCi» 
}i dade, do que avifou logo ao Vifo^Rey^ 
» e Ihccertificou que pera lanzar dalli oCi« 
9 de Bofatá «ra necesario todo 9 poder da 

iln- 



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26 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

31 India. » Com eñe defengano tornou o Vi^ 
fo-Rey ajuntar confciho, enelle moftrou as 
cartas de Antonio Moniz Barreto, e man- 
dou que fobre ellas votaíTem. D. Diogo de 
Noronha tornou a máo a fallar primeiro que 
todos , e difle f que Ihe parecia muito bem 

> que foíTe em peíToa áquelle negocio » pois 
]i achara táo potente Armada no mar, como 

> era a que o Governador Francifco Barre- 
al to tinha feita preñes , e negociada , e os 

> almazens próvidos de muicos mantimen- 
31 tos , e muni$6es , e que já agora a Cidade 
% de Damáo era de ElRey de Portugal pe- 

> iaoDncefsáo ouedelia Iheíizera odeCam- 

> baya , e oue toreado fe havia de ir tomar 
% poíTe delia , como de coufa propria da 
31 Coroa i e c]ue eftava certo o Cide Bofatá 

> como o vifle fobre aquella barra largar 

> tudo , e defpejar-lhe a Cidade ; ii e dizen- 
do-lhe ibbre ifto tantas outras coufas , que 
n3o táo fomente todos os do confelho Ihas 

grováram , mas fe foram com elle. O Vifo- 
Ley mandou logo fazer paga geral a todos , 
e prover a Armada de mantimentos , e deí- 
pacliou as naos peraírem tomar carga aCo- 
chim , pera onde fe foi tambem embarcar 
D. Luiz Fernandes de Vafconcellos na fuá 
nao Santa Maria da Barca. 

O Governador Francifco Barrero íicou 
an Goai pera dalli fe partir pera o Reiooi 

E 



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Dec. vil Liv. VI. Ca*. Iir- 17 

£ porque a nao Gar^a y etn que viera o Vi« 
fo-Rey Dé Conftantino y era de mil tonela* 
das , a maior que até entáo fe vira na car« 
reirá da India ^ e nao havia em Goa carga 
bailante pera ella , pedio Francifco Barrero 
ao Vifo-Rey que défle aquella a Joáo Ro- 
drigues de ¿arvalho , pera ir tomar a carga 
a Cpcfaim y e Ihe défle a elle a de Joáo Ro^ 
drígúes, que era mais pequeoa, ejá velba^ 
por caufa das muirás vezes que internara 
naquella viagém , antes de chegar á India.. 
O que oVifo-Rey fez com facilidades por 
fer aífim mais proveiio da nao , e dar gofto 
a Franciíco Barreto, que o tioha de partir 
(k Goa. Concertada a nao Águia , ( que 
fambem fe chamava a Pati& , ) come^árani 
de a carregar , e iñetter neiia os mantimen^' 
tos neceíTarios pera a viagem ; íendo vinte! 
de Janeiro do anno de mil qoinhentos ñn^ 
cocnta e nove , fe fez Francifco Barrero i 
vela da barra de Goa , com quem foráo em- 
barcados muitos Fidalgos , e cavalieiros a 
requerer íatisfa^ao dos íervi^os que tinham» 
feíto a EIRey , a quem foi fempre dando 
meza ; e aos que pudcmos faber os nomes , 
sao eftes. 

Jeronymo Barrero Rolim ^ irraáo de Ruy 

Barrero Rolim da Pampullia , primo com ir- 

mao do Governador Francifco Barrero ; D. 

Diogo Lobo , fobrinho de D. Joáo Lobo ; 

aHeo.Túm.IF.P.jL B Ba- 



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t8 ASIA DE t)lOGO DE COUTÓ 

Barád de Alvito ; D. AfEbnfo Henriques ca^ 
fado cm Ba^aim , párente de D. Jorge Hen^ 
riques y Senhor das Aleado vas ; D. FrancKco 
de Moura , irmáo de Ú. Rolim de Santa- 
rem; D.Filippe deCaftro, fílho de D.Ror 
drigo Hombrinhos , deftés do Torráo ; Ma* 
noel de Brho o Lángara ; Pedralvares de 
Mancellos, íilho de Antonio deMahceilos, 
que morreo no fegundo cerco de Dio no 
anno de mil quinhentos quarenta e feis; 
Manoel daNhayaCoutinho, irmáo deDio^ 
go di3L Nhaya Coutinho , naturaes de San- 
tarem , e muito parentes -de Francilco Bar- 
reto ; Bafliío de Rezcnde , filho natural de 
Garcia Je Rezende j Diogo de Vafconcel- 
los , collado do Principe ; Francifco de Gou-^ 
vea y e outros criados de ElRey , a que nád 
foubemos os nomes. Eña nao foi fazendo 
fuá viagem com ventos profperos , e bonao- 
^ofos ; e as outras partíram deCochim no 
meftno tempo , de cuja jornada adiante da^ 
remos razáo, por tirarem agora por nos as 
coufas de Cananor* 






CA^ 



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. Dup, yil. Ltv. VL ■ 99 

•* C ÁFÍTUL O IV. ^ 

Í>r rffW0 (9s Múur$s df Cananp- fe akvawr 
4 tdram de todo : e do que fez Lmíz de MtU 
. . lo da Silva : e das navios aue mais Ibe 
.. piondoíf o ViJihRey D. Conftantino: ed4 
^ grande Jlrmud^. fom q^e porfié per 4 
, .Uamao» 

rrx B^ixámoi as co.uías deCananor em co* 
XJ me^o de rotu/g com a noíTa fortaleza ^ 
e derejoA>s os Motnros de fe declararem dt 
todo 9 e de Ihe hwxexn guerf^ , .por fatis^ 
fazerem a íeus odios. £ como.a coufa em 
eoteodida dos noíTos , táq deixava Luiz de 
Mello ir Toldado algum. da fuá Armada i 
PJ14Ade dosMouroSy nemaindafahírem da$ 
¿ranqueiras pera fóra , e por efta qauía nao 
ie quería, apartar de Cananor , porque \i 
com 0$ Mouros o verem alli , nao fe deíar 
yergophariaai t^nto ; mpstinha mandado tot^ 
mar as bocas dealguns ríos , onde fe arma- 
váo navios de ladri>es , com os navios da 
fuá Armada , pera n^o poderem fahir a rou- 
bar. Eftaodo as coufas nefte efiado, quiz a 
fortuna que fuccedelle chegar 9 Cananor 
huma fufta , que levava fato , e matalotagem 
de D. Luiz Ferpandes de Vafconcellos , que 
hia pera Cochicn , e furgio fóra ; e hum hor 
fniem que iiella hia^ metteo-fe em Jhjiina al? 
. j B H ma- 



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^ ASIA DB DlOGO DE COVTO 

madia , e foi-fe á povpagáo dos Mouros , 
pdrecendo-lbe que a térra eílava de pa2 j a 
ir comprar coufas pefa á'matalotagem. Ú§ 
Mouros tamo que o virio lá , lancirto líiáo 
delle I e o prendéram , do (jue logo rol avifado 
Luíz de Mello, que eftava na fórratela ; e 
embarcando-fe nos navios , que alli tinha , 
fe foi por defronte das cafas do Aderajao ^ 
(que eftavam á vida do mar,) e as esbom* 
bardeou á fuá vontade, fazendo-lhe muito 
damnOy ematando-lhe no bazar muita gémé. 
Os Mouros tanto que.víráo aquillo , ajun-^ 
tando-fe perto de tr^s mil delles , fahiranl 
da Cidade , e foram com grandes gritas 
commetter as tranqueiras de fóra d^ forta- 
leza , que cércam o arrabalde , e com gran- 
de determinadlo tratárara de as cavalgar; 
ao que acudió D. Payo de Noronba coiti 
a gente que havia , e ie poz em fuá defen* 
sao* Luiz de Mello lá aonde eftava esbomr 
bardeando a Cidade , ouvio a grita , e mati« 
nada , e a artilheria da fortaleza , que co:- 
me^ava a esbombardear o campo ; e voltando 
pera a fortaleza , defembarcou na praia com 
ouzentos homens , e remettendo com- os 
Mouros y travou com elles huma muito a& 
pera batalha , em que houve alguns mortos , 
e feridos ; e por fim de raz6es, os noíTos 
apertáram com elles tanto, que os leváram 
de vencida > e os foram feguindo at^ a fuá 
á. - Ci- 



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ÜBa VH. Liv. VI. GakIV. tt 

Cidade , fazendo nelles grande eftrago. E conr 
tentandorfe Luiz de Mello com a vitoria , que 
Ihe Déos tinha dado , fe foi recolhendo a 
ieu falvo pera a fortaleza. Elogo defpedio 
hum navio ligeír<Q com cartas pera o Vifo* 
Rey , dando*ibe conta de tudo o que era 
paflado; e de como a guerra íicava aberta, 
€ declarada ^ ped¡ndo*Ihe mais navios , e 
gente pera Iha poder fazer com mor c^ 
bedal.; 

Partido efi? ideado y logo fobre a tard^ 
{porque foi ifto huma roanhá cedo) chegou 
é fortaleza Coge Cemacadim , « trouxe com^ 
ligo o homem de D. Luiz FcrnandeSi aue 
08 Mouros prendéram , que o Aderajao Ihe 
mandoa dar, e oentregou aoCapitáo; ma« 
üáo pode temperar os Mouros , nem apazi« 
guallos , fobre o que trabalhou bem. Che<^ 
gado o recado a Goa , eftando o Vifo-Rey 
¿á prelles pera fe embarcar , e vendo as carr 
tas , e o eáado em que aquellas coufas eíta<- 
vam, ajuntQQ confelbo, e praticou fobre o 
modo que fe teria naquelie negocio ; e náp 
deixou de parecería algunsc que feria ne- 
^ ceíTario acudir elle com todo aquelie po» 
^ der a Cananor y e ordenar aquellas couías i 
^ e deixar a ¡otmóz de Damáo pera outro 
» tempo ; porque fe logo em principio nao 
i at^íhafle aquella gtierra r poderla vir der 
# pois .dar^grande traballio aoEftado. Ma^ 

ji ou- 



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li ASIA DE DiOGO'Di Cóütlb 

> outros foi-So de parecer qvté nao deixalQ 
% a jornada -de Damáo , que era de muita! 
H importancia , . porque pera as coufas de Ca** 

> nanor baflava Luiz de Mello cMn <)ual-* 

> quer Armada , e mais gente que Ihe- tüan^ 
ji dafle. V ' 

Com efta refolujáo defpedio ftis , oü 
lete navios pera fe irem a}untar com-Lui^ 
de Mello, de que eráo Cap¡fái?s Maood dsi 
Silveira em huma galeota Latina , Gomeá 
Éannes de Freirás , hum Fidalgó das Ilhas 
Térceiras, Ruy Gódirtho de Cananor / Perd 
Godinho , é outros. E defte négcJoio' feei^am 
tulpa ao Vifó-Rey D. Goriftárifibó' doús ^ho- 
xnens y que nSio eram féus amigos , é Iha 
Seram em fuá reíidencíá y de nao deixar á 
jornada de Damáo , ficando Gaháñor dé 
guerra , que foi o mor crime que fe Ihe poz \ 
c em que elle teve menos dulpá , pofqué 
tüdo fez por <:onfelho de Gapif3cs velhosi 
t experimentados» E féguhdo depóis o tem^- 
feo moftrou , mais nñerecía pela jornada dé 
Dam'So fazer-fe-lhe mercé i que dárem^^ltii 
por culpa. EMéixando efe rhaíerfa , torne* 
inós aos navios que hiám dé fóccórró , qué 
em breves diáís cliegáfam a Gahañor r é Luit 
tde Mello y qué andáva já nó mar fazeiid* 
jguerra aos Mouros , os éfpálhóu .pelas bocaá 
tios riós prirtcípaes, aflim pérá defenderé* 
({líe nio lahiflmi coíTairoa a rdubár^i cómft 

pe- 



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Dec. vil tiv. VI. Cap. IV. aj 

pera Ibes tolhcrem os mantímentos > que era 
a i mor guerra que fe Ibes podía fazcr. 
^ Partidos eíles navios de foccorro de Goa , 
defpachou o Vifo-Rey D. Contamino a D. 
Pedro de Aimeida pera ir entrar na Capitán 
2)ía deBa^aim /portér já acabado feu tem- 
po Antonio Moni^ Barrero, E efcrevea 
aquella Cidade , & á de Chaul a jornada ^ 
pera que fe íicava fazendo preíles , pedindo 
40S moradores príncipaes oquizeílem acom«> 
panhar com alguns navios , e mandou aos 
Oíficiaea queláJbedveflfem negociados mui-^ 
tos mantimentos , e outras coufas neceíTarías 
pera a fuá Armada. E juntamente mandoti 
alguns mercadores Gentíos , honrens de con« 
fianza , . pera que foífem efpiar a Cidade dd 
Damáo, e o efperaíTem, em Ba^aim, com o 
avifo da gente que osabexins tinham,;e do 
modo de como eftavam fortifícados. D* Pe^ 
dro cbegou em poneos días a Ba^aim , e to« 
mou poíle daquella fortaleza , e Antonia 
MonüBarreto fe foi pera Goa ^ onde foi 
muí bem recebido .do Vifo-Rey por fuaá 
partes , e qualidades , e com iua cbegada 
come^bu oVifo-Rei a embarcar- fe , eentre- 
gou o governo ao. Capillo da Cidade^ qu6 
era D.Pedro dcMenezés oRuivo, de Can- 
tanhede , porque Aleixo de Sonfa Veador 
dafazehda era ido aCochim ádefpachar a$ 
aáos pera oReyno» £ pelas Oka vas do Nan 

tal 



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Í4 ASIA DE Diodb de Covto 

tal fe fez o Vifo-Rey á vela com huma Ar^* 
mada de mais decem navios, emque leva*^ 
va perro de tres mil homens' y gente muito 
litnpa , e Inftrofa , e os Capitáes delles si.o 
os leguintes. 

O Vifo-Rey no galeáo S. Mattheus , de 

3ue eraCapitáo Pero Fernandes , Cavalleiro' 
a Ordem.de Sant-Iago, Meftre das Ferra- 
rías de Goa , grande Engenheíro ; D. í)iogo 
deNoronha o Coreos no galeáo Sant^Iago;. 
D. Joáo de Taíde no galeáo S. Thomé ; 
Gonzalo Faicáo no galeáo S. Sebaíliáo ; Pan- 
taleáo de Sá no galeáo S. Francifco ; D. 
Alvaro da Silveira no outro galeáo Sant« 
lago Maior ; Pero Barreto Rolim no galeáo 
Santa Cruz ; Jorge da Silva Correa , a qué 
cfaamáo o Choráo j no galeáo S. Boaven-^ 
tura ; Martim AíFonfo de Miranda no ga- 
leáo Roíario; Alvaro Eaes de Sotomaior em 
outro galeáo S, Thomé ; D* Martinbo da 
Cunha^ Manoel de Vafconcellos o Velho, 
Fernáo de Soufa de Caftello-branco , Filippe 
Carneiro de Alcapova , Henrique dé Vaf- 
concellos , Joáo de Mello , Joáo Pcreira , 
Manoel de Mello da Cunha y Fernáo de 
Noronha , Diogo Pereira , c André de Soufa 
em caravellas redondas , e Latinas ; Antonio 
Moniz Barreto emhuma galé, que náoquíz 
o Vifo^Rey levar mais por caufa da chuf- 
sna 'j e nao quiz tomar os efcravos dos mo^ 

ra- 



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ÜEa VII. Liv* VI. Caí. IV. ijr 

radores , ccmio alguns Vifo-Reys fizeiam* 
Tudo o mais foram galeotas y e fuíbs^ de 
que nao fazemos diñin^áo , por efcufarmos 
prolixidade, cujosCapitáeseráo: Inofre do 
Soveral de huma galeota Latina grande de 
dous baíleos , que o Vifo-'Rey levava pera 
fe paíTar a ella , Ayres Telies de Menézes , 
D. Vafeo de Taíde , D. Leoniz Peréira , D* 
Diogo de Taide, D. Lourenpo de S<Hifa^ 
D. Francifco Henriques , D. Joáo GKitínho p 
Alvaro Pires de Tavora , André de Soufa y 
Joáo Lopes Leicáo , Chriftováo Pereira Ho^ 
ineni , Triílao de Soufa dé Gufmáo , Triftáo 
Vas da Veiga , Jow de Mello de Sanv- 
payo , o Pantufo , Triílao de Soufa , íiíhd 
de Martin> Affbnfo de Soufa , Dioso de 
Miranda de Azevedo -, Ruy de Mello Pe- 
reira , Jorge de Mello de Caftro , Diogo 
Juzarté Tijáo, Antonio deAbreu', JoSé dé 
Mello y Jorge de Moura , Pero de Mefqui-, 
ta^ Henrique Jaques Ouvidor geral^ Baltha* 
zar da Cofta , Luiz de Aguiar , Coínio 
Faya , Joáo liiarráo Feitor da Armada j 
Gonzalo Guedes de Reboredo , Manoel 
Travaflbs ^ Antonio de Sá y Manoel Pinto , 
André Godbo , FernSo de Garvalho , Da« 
iniáo Furtadp y Gafpar Pacheco , é loutrqs 
inultos y a que nao acbámos os nome&j 

Com toda eíla Armada foi o Vifo^Rejr 
toinar Chaul. ém poneos dias ^ e fqi éúm 

bem 



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»6 ASIA D^ IXiogo'de Coüt6 

benr recebido da. Cidade, e de García Roí 
drigues de Ta\rora , que eftava allí j>or Ca?^ 
pitáo, eacixou jé alguns navios preftes pera 
o acompanharem. Edepois que allí deo.or« 
dem a algumas couías , paíTou a Bagaitn ^ 
onde proveo em outras ; e tomando alli 
mantimemos , e outras coufas neceíTarias» 
iFoi furgir fobre a Cidade de Datnáo , da 
(>anda de fóra com. toda a Armada , que en*- 
cbeo aquelle mar , e aflbmbrou a Cidade p 
e a todos os que a víram. 

C A P I T U L O V. 

pa ord^m que ' o VifthKey teve na defenir, 
\ barca fao da Cidade dé Damao : e de 
como Cide Bofatd a defpejóUy e 
ella fol entrada. 

JÁ o Vifo^Rey lerava avifo do fitio , e 
fortifica^ao da Cidade , e poder dos Abe- 
xins pelas :efpia9 queadiante tinha mandado , 
que achou em Ba^alm , pelo que tinha de- 
terasinadt) a logo défembarcar , e pera iíTp 
tnandoü a, D. Diogo'de Nofonha que fpfle 
%m álguns eatures ligdros a fotidar a entra^ 
da da^ barra*; o que cite fez, levando com- 
figo o Pairáo mor da ribéira , e o Piloto 
mor da Actnada ; e enerando o rb , efteve 
muíto devagar notando o modo da fortifi- 
ca^fio , e dofs fortesr jque os Abexins. tinham 
uA fei* 



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13 fie. VIL Lir. VL Cap. V^ %y 

ñitó pera dcfenfsáo da barra , qué eftavam de 
feÍ£ráo y que a Armada i&jo ^dería entrar 
fem grande rifco , pofto que< <i> rio 'era ctf pal 
dervaíilbas de trépenlas até quatrocenta^ to« 
Heladas f mas tnuito eftreico ^ eque forjado» 
ó8 navios haviam de fbrgir delútXD dois for^ 
tes ; e da íua anílheria. í 

E primeiro qoe pademos daqoi , daré* 
filos razSo do que hia naCidadeV e da fuá 
fortificado. Efl^vam dentro nelIaCideBo^ 
fáxii CideRana^ e Carnabec /ttet Abexini 
princípaes ^ e'4:abe$:as dertodos^ot que z» 
datam no Reyno de Cambap ^ que cranl 
tnáis de qúatrd mtl; que taoDO que óí Vlfi» 
K^ fe fez pipiles eiti Goa pera aquella jori' 
tüaaa, logo foram avifados diíToi;: :Pelo que 
Irom muita preíFa mandáratn hfer alguns 
fortes na pon» da barra fobre ,a<}anal ^ fe 
t>5 ^^uat^neeéram de muka artilheriv^ 6 m» 
mi;^ ; e a fortaleza*, <}ue era d^e adobes qu» 
tirada ^ renorárám ^yepairáratn ^ ^^provdram 
tie multes maffiicnentos , e- nium^^ , e roí- 
'«<3Íhéram dentro trbsinúl Ahé^ki$,v homena 
%nuito determinadósf^ porque déterminayam 
^é fe defender do Vifo-Rcjl^ ? porqMeíeñte»- 
tiiáih qde aínda queches pu^eíie** cercó ^ s^ 
"pdderia duwr^iwais que tres mezés , e que 
-itn Abtíl foi^dsittienie fe havia' d« rta> 
Iher; e peravo4§ éftetempo eftavaim bafta» 
tetiiefit^J próvidos: do (leceíIario.-Maa agiota 
-f.i ven- 



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%B ASIA tE DiOGO DE CoTTTb 

Tendo a potencia daquella Armada , a grai^"^ 
deza daqufelies gak6es, que pareciam morir 
tanhas fobo& o mar , perdéram o animo d^ 
todO) e tratáram de nao efperar aquelle po^ 
^r, come^ando a deípejar aGidade, ep^aír 
far foas.mu^beres , e joiaa á outra bandaé 
E os lloradores della de fóra » que eram 
tniiifos , é ^prbfperos , e.de muiros ^íiiciaes 
de toda a mecánica, tamb^m fepuzeramemt 
falvo , por nÜo efpexfarem aquella furia. Dt 
Dipgo deNoronha, tanto que vio^ enotoit 
ttido imuito bem , e á fuá vontade, roriiouf 
fc ao Vifo^Rey j e prefentes os Fidalg<)s^ 
é Capitáes/yeifaos , e do confdho» Ihes dea 
relafao do. que vira, e notara, fobre oqu^ 
jbe mandojí o ViforRey que votaíTe fobr«^ 
o. modo qu6 fe teria na defembarca^ao de 
Cídade; oque elle fez largamente com muir 
tas raz^., €£>ncluindo «f|ue.Ibe parecíame 
# Jhor défeoflbarcar na.cofta brava, porque 
91 em tempa de terrenlios eitavá quieta , e 
» manfa y e fe commetteífem a entrada da 
3i barra ,, árrifcava-fe a Ihe metterem alguna 
» gale6¿ no fundo , e ,a Ihe matarem muita 
». gente ; o-que feria caufa^y pofto que fe to?» 
¿ mafic a Gidade ^ de Ibes fícAr a vHori» 
3 menos formofa. » Sobre i&o votáram tor 
dos i eos:maiáconcordáram.Qomelle, aífen- 
tando todos /que o Vifo-Rejr ficafle no mát 
.i»>m;toda'a, Armada; e que tanto que viíTe 
r £o* 



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Dec. vil Liv. VL Ca*. V. 19 

ibbre a fortaleza alevantada hoina bandcira 
tdas noilas , emraíle pelo rio dentro» 

Concluido ifto , ordenen o Vifo^Rejr 
«^e defembarcftíTeni unco Capitáes^ com dous 
niil homenii , e que eftes foíTem D. Diogp 
úc Noronha , que havia de levar a dianteira p 
pera quem fe pafiáram a mor parte dos Fi* 
^^Ig^ 9 e Aventureiros , Antonio Monis 
Barreto , Mariim AiFonfo de Miranda , Panf 
faleao de Sá , e Pero Barreto Rolim. 

Negociadas as coufas neceífarias pera a 
.defembarca^áo ) que havia de fer a dous de 
Fevereiro , dia da Purifica^ de noQa Senhof 
ra , por fer táo aflignalado , paflarani*fe os 
Capitáes , que haviam de defem^arcar , a 
navios pequeños, e aos batéis dos íeus ga* 
leóes , e contmettéram a térra antre a Cida« 
de , e o río de Calaim pera Damáo , huiQ 
tiro de camelo da fortaleza ; e na parte qué 
cada hum^ pode tomar , defembarcou , levan* 
do D. Diogo ordem pera tomar primeiro a 
Cidadc de fóra , por Ihe nao íicar ñas cor- 
tas , e que depois fofle demandar a porta 
da fortaleza, que hia pera a banda do Ser^ 
do , porque fe Ihe havia de abrir , por tee 
o Viío-Rey pera iflb intelligencias com cer- 
ras peflbas de dentro, queeilavam mui bem 
peitadas. O primeiro que poz os pés ent 
térra f<5i Pero Barreto Rplim , e poz logqf 
fuá gente ^m ordem com^ fuá bandeara da(^ 
u ea- 



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JO ASIA DE DioGO Dfi CotrTfé 

enrolada, e aó fóm de tambores, e pifaf^ 
comegou a marchar pera a Cidad^. D. Dior 
gp de Noronha deíembarcóa hum Rouco 
aisaixoi ecomo via que P^ro Jarreto RoUíp 
hia já marchando fem eípe^r por elle , ñr 
(Tou hum. pouca.pejado, e^depoia de por % 
fuá gente em ordem , : foi atraveíTando faur 
shas hortás que alii eílavam^.^qiie.tambeito 
fizeram osmais Capitáes, Pj^ro Barreto Ror 
lim pono que fe adiantou , tanto que paíTófi 
o areal , e deo no caminho corrente , que 
hia pera a Cidade ^ íe fbi detendo., e efp6f 
rando por D. Diogo de Noronha , que ji 
vínha perro delle ; e ante$ de chegarem á 
Cidade , fe ajuntáram todoi ^ .e a entráram 
femacharem pefioaviva; e atraveíTando por 
ella , nao deixando os Toldados de levar air 
gumas coufas ñas máos, doquQ pelas cafas 
acbáram , (poraue com a preifa deixáram 
feus moradores alguma roupa , ) Pero Barre? 
lo foi paíTando até defcubrira^ fortaleza , dori^ 
de Ihe atiráram algumas bojubardadas , que 
deram antre os noífos , fem ibes fazer. da* 
snoo algum. OCide Bofatá, e o^Abexins^ 
^ue com elle eftavam , fempre eftiveram com 
ten^áo de fe defenderem em quanto pudeft 
iem; e quando viíFem o felto mal parado^ 
Teoolberem-fe de noite. Mas quando vio o 
poder do Vifo-Rey fobre fi , e a determir 
aa^o dos noIFos, logo defcoi^ou^ eaindt 



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Dfic. VIL Liv. VI. Caí, V. ji 

ie qc^bou de hsuter por perdido , quando Iht 
^iíTeram que o Vi(o*Key tinha intelligeocia^ 
cotn certas pefloas dentro na fortaleza i e ü^ 
zendo brevemente pefquiza , foube ierem 
huns. finco , ou feis companheiro^ , Puneiat 
de na^áo , Jiomens de cavallo muúo nobres ; 
e bavendo-08 as mSos , Ihes mandou cortar 
gs caberas , e logo defpejou a fortaleza , e 
fe pafiou á outra banda » indo já as ooíTat 
bamleiras jperto da fortaleza. D. Diogo de 
Noronha roi aíOm concertado a deniaadar 9 
porta , que o Vifo-Rey Ibe tinha dito', e 
onde as efpias o hiam encaminhando ; e pour 
co antes de chegar a ella fe adiantou IX 
Manoel Kolim , que hia na companhia de 
Pero Barreto Rolim com alguns ^ompanheir 
TOS , e chegando aporta , a achou aperta ; « 
entendendo que eftava defpejada , entroii 
dentro, e fe fubio a hutn cubello, e arvor 
rou fobre elle hum guiáo que levava. D| 
Diogo de Noronha cbegou á porta da fone. 
taleza ; e vendo-a aberta , e íafaHendo* eftar já 
D, Manoel Rolim dentro , encofipu a fui 
bandeira á porta da banda de fóra , fem que» 
rer entrar dentro pprcortezia doVifo-Rcy^ 

5|ue já vinba entrando pela barra ^ por ver 
obre o cobello o guiáo arvor-ado » e qoé 
Ihe capeaváo cotn elle; efurgir^do de&om» 
da fortaleza ^ a falvou com toda a artilhc^i 
f ia ^ e o xnefmo.fizeram o& gaUdes que.% 

cá* 



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^5t ASIA DE DlO^O DE COUTÓ 

táram fóra. D. Dlogo de Noronba foí de>^ 
mandar a praia por derredor da fortaleza » 
|K>r nao entrar nella primciro que o Vifo- 
Rev , e chegou a temp'o , que já vinha det 
embarcando em eolios de homens : vinha 
armado em humas ricas armas brancas , e 
com huma gorra na cabera com muitas plu-^ 
mas ; e como era homém groflb , vinha 
affrontadO) e pejado« D. Diogo de Noro^ 
nha chegou a elle, e levando-o nos bracos 
com grande coriezia, ogabou degentil-ho- 
mem, dizendo-lhe cqueeftava defcontente, 
su porque aquella Cidade cuítíra táo pouco; 
ii pelo alvoro^o que todos levavam de pnof 

> var a máo noi$ inimigos ^ e á fuá fombra 

> moftrarem p valor coftumado de fuas for- 

> (as y e peíToas ; mas que tudo aqúillo naí« 

> cia da fuá grande ventura, porque fe po- 

> día dizer que fó com fuá fombra vencerá , 
» «desbaratara aquelles Capitács ; eque pois 
%' affim era , fe defarmaíTe , e defafFrontaffe 
» pera ir tomar poíTe daquella fortaleza, i» 
P. Contamino com o roño muito alegre , 
e rizonho Ihe refpondeo com palavras muito 
cortezans , e honradas , nao Ihe faltando 
tambem pera todos os outros Capitaes , e 
Ihe pedio que o deixafle ir aílim armado ^ 
porque levava diífo gofto. E alllm rodeado 
de todos , entrou na fortaleza ao fom de 
grandes íalras de artilheria^ e arcabuz^ria^ 

que 



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Dec; VIL Liv. VI. CaK V. ^) 

que efpantou os inímigos , que eftavam da 
outra bártda vendo áqüellfe terrón Levava 
o Vifo^Rey diáhte de fi a bandeira de Chri^- 
fio j e hum devoto , e fórmoío Crucífixo ar« 
Vorado em huma haftea , que levava uad 
máos o P. Fh Belchior de Lisboa , Cufio* 
dio dos Frades Menbresi O Vifo-Rey tan* 
to que íe vio dentro na fortaleza , poz ain« 
bos os giolhos em térra, edeo muitas gra* 
jas y e louvores a Déos noíTo Senhor por 
aquella itiercé, imitando iiaquillo aoDuqud 
de Bragan^a D« James feu pai^ quando to- 
mou a famofaCidade deAzamor aosMou<« 
ros* Feito ifio , mandou logo benzer a for« 
raleza , e Ihe poz nome N. Sinbcra da Pu» 
rificacaú em louvor daquelle táo celebrado 
dia, em que a tomou, e logo mandou re^ 
colber a anilheria ^ que os inimigos tinham 
ñas tranqueiras > de fobre a barra , que era 
multo formofa ^ e deitou ePpias pera faber 
dos inimigos» Efta noite dormio o Vifo-Re/ 
na fortaleza com grandes vigias , e os Ca- 
pitaes das bandeiras fóra no campo em lu^^ 
gares feparados com tanca ordem, que ain-* 
da que os inimigos os quizeíTem commet*: 
ter^ Ihes nao padefTem fazer dañino* 



Cüuto.Tom.lKP.il C CA- 



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34 ASIA DE DiOQO DE CouTó 

C A P I T U L o VL 

Das eoufas ^emque o ViffhKey D. ConJlafB- 
- tino proveo : e das in(¡uieta§Ses que. os 

jíbexins deram aos nojfos : e de como o 
' FiJb'Rey mandou Antonio Moniz Barre- 
• to á dar nellesi e da grande vitcria que 
" alean fou : e quem be o Rey do Sarzcta , 

e que coufa sao Choutos* 

TAnto que Cide Bofatá fe fahio da for- 
taleza, íepaflbu áoutra banda deCou- 
kca ; e ein Parnel , duas leguas de Damao , 
aflentou feus arraiaes. Daili com dous mil 
de cavallo fahiam todas as noites a inquietar 
os noífos , e mettellos em revoltas , travan* 
do-fe algumas efcaranni^as , em que houve 
ilgumdamno. Tantas wezes continua ram i f- 
to , e afllrn atornientáram ot noílos , que 
tratou o Vifo-Rey de os mandar lanzar í6^ 
ra das térras ; porque além das inquieta^óes 
que Ihes davam , deixavam de acudir os na* 
luraes « povoar afua Cidade , porque Jogo 
o VifO'Rey mandou pelas aldeas lanzar pre- 
goes , c publicar grandes íeguros , e líber- 
dades a todos os que le toroaílem pera fuas 
cafas , e já comegayam a acudir muiros , 
que logo eram roubados , e maltratados dos 
Abexins. E pondo o Vifo-Rey eftas coufag 
em confclho^ fe aífentou «que pera lan^a- 

% recn 



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'1>EG. Vil. Liv. Vi* Caí. VÍ. if 

% retn os inioiigos fóra das ferrad » era ne# 
» ceíTario gente de cavallo } que feria bom 
n mandar chamar D.Pedro deAItneida Ca* 
% pitáó de Ba^aim com toda a gente que 
» houveíTe naquella Cidade , e fuas Tana« 
» darías pera aquélle eíFeito. » Sobre o QUt 
iogo o Vifo-Rey Ihe efcreveo , mandando-' 
lile te que com muita preíTa fe vieíTe pera 
ai elle por via de Manorá , porque todos oa 
» dia^ acharia pelo Caminho avifo do que 
» ha via de fazer, e da parageih em que ot 
» inimigos eftavam. » 

Partido efte recado» porque os Abexins 
andavam multo affbutos ^ e nao defiftiatñ dos 
aíTaltos , determinou o Vifo-Rey de mandar 
dar Délles , fem efperar por D. Pedro de 
Almeida *, porque deixava de prover em mui^ 
tas couías por caufa daquellas ínquieta^ées ^ 
e quafi todos os do confelho aífirmavam 
que fem dous mrl homens fe liáo poderiam 
commetter aquelles Cat>it9es. Vendo Añto* 
nio Moniz Barreto a determinado do con-» 
felho, leTadtoti*fe em pé^ e diíte ao X'iCo* 
Rey « que Ihe défle quinhentos homens 5 
» que elle irla bufcar os Abexins ^ e que 
ai com o favor Divino fe atrevía aos hn* 
]» 9ar fóra das térras fem rifco5 nem perigo 
» algum. » Vendo o Vifo-Rey aquella con- 
fian^ , ( como tinha del le grande opiíliáo 
pela experiencia que de íi tinha dado em 
C ii muí* 



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"56 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

iDüitas coufas, ) Ihe conccdeo a jornada 
com palavras de muirá honra , e logo Ihe 
nomeou os Capitáes que o baviam de acom* 
panhar , que eram os feguintes : D. Louren- 
50 de Soufa , D. Diogo de Soufa feu ir- 
máo , que he Commendador da Ordem de S, 
Joáo , e Balío de Acre ; D. Diogo Pereira , 
filho do Conde da Feira: Joáo Lopes Lei- 
táo , Jorge de Moura , ccllajo do Principe 
D. Joáo , Triftáo Vaz da Veiga , e outros 
muiros Fidalgos , e cavalleiros , que pera 
iíTo fe oflferecéram. 

Preñes Anronio Moniz Barrero , e avia- 
das rodas as coufas neceíTarias pera a jorna* 
do , fe- defpedio do Vifo-Rcy , que Ihc dei- 
tou muirás hendaos y e diííe muirás palavras 
de louvores ; e paíFou-fe da ourra banda fo- 
bre a rarde , e fe apofenrou anres de Coule- 
ca , onde paílou a mor parre da noire , e no 
quarto d' alva comejou a marchar cm muí- 
to boa ordem pera Parnel , onde as efpias 
deixáram os inimigos. E como a noirc era 
muiro efcura , e elles caminhavam ás furdas , 
por nao ferem fenridos , quando foi ao rom* 
per da alva , chegou Anronio Moniz Barrero 
á viña dos inimigos com perro de cenro e 
vinre homens, porque os mais fe perdéram 
pelos caminhos. E vendo que fe os inimigos 
o viiTem com rao pouca genre, eocommer- 
teífem ^ forjado íe havia de perder , diíFe a 

to- 



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Dec. VII. Liv. VI. Cap. Vi: 37 

todos os companheiros : tt Senhores , fegiú-» 
> me , porque na prefla com que dermos nefta 
y gente , eflá noíTa falvagáo ; n e arrancando 
com grandes gritas , appellidando Sant'lago , 
tocando-fe trombetas, e tambores, (que fa-» 
ziam hum grande eñrondo, ) deo eni os 
inimigos táo de fobrefalto , que primeiro 
que fe foubeíTem determinar , perdéram mui-» 
tos as vidas. Cide Bofatá , e os mais Capi-> 
taes ouvindo o eftrondo , e a grita, pare-» 
cendo-lhes que era todo o poder do Vifo-» 
Rey., (porque ainda era o ar pardo j e nao 
terem efpias fobrc os noíTos , ) fem tomarem 
determina^áo aiguma , cavalgáram á mor 
prefla , e fe foram fahindo do exercito , fin 
cando Antonio Moniz Barreto fenhor delle* 
E logo em amanhecendo chegáram todos 
os mais da fuá companhia , que todo aquel-* 
le quarto caminháram apreflados , e com 
grande trabalho pela efcuridáo da noite, 
que ao íom das trombetas, e da arcabuza-» 
ria , parecendo-lhes o que era , foram atinan-» 
do, ecom fuá chegada ficáram todos defa-t 
livados; e Antonio Moniz Barreto mandou 
faquear o exercito, emque ficou toda aba- 
gagem , e ordenou a artÜheria , e a fez lef- 
tes, pera fe os inimigos otornaflem accom- 
metter-, o achaflem fortificado. Os Abexins 
foram-fe recolhendo fem verem de que , e 
puzeram-fe fgbre hum tezo até amanhecer* 

E 



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jS ASIA PE DiOGO DE CoüTO 

E tanto que os raios do Sol defcubríram 
todo o campo , que ellcs víram os noflos 
fenhores do feq exercito, c o pouco poder 
que tinham , arrebentáram pela ferra abaixo 
com grandes alaridos , e roram commetter 
os noflfos y que já eftavam preftes , e fortiíiw 
cados debaíxo de hum Manguelral , onde o 
feu exercito eft^^a ; e defparándo nelles 
aquella carga dé artil hería , como os roma* 
ram apinboados , üzeraní nelles hum grande 
eftrago» E todavía paílando com aquella 
furia adiante , chegáram a travar com os 
HOÍTos huma muito afpera batalha , em que 
a nofla efpingardarla fez grande lavon An- 
tonio Moniz Barreto , e os mais Capitáes , 
apreíentados diante de todos ^ fizeram-fe bem 
conhecer dos inimigos ; e tanto apertáram 
com elles , que os arrancáram do campo 
desbaratados de todo , moftrandobem ogoí* 
to com que pelejavam. Vendo Antonio Mo«- 
niz Barreto a mercé , que Ihe Déos iizera ^ 
quiz feguir a visoria y pera os acabar de 
todo ; e aflim arrebentando após elles , Ihes 
foí íeguindo o alcanzo , em que fe affirma 
perderem-fe mais de quinhentos dos inimi* 
gos, 

Satisfeito Antonio Moniz Barreto da Vi- 
toria , por nao canfar os feus , fe tornou ao 
exercito, queefiava com todo ofeurecheio, 
f n^lle acliQu tria» e feis ^;as de artilheria 

de 



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Dec Vn. Liv. VI. Cap. VL 39 

de campo , e muiros carros carregados de 
moedas de cobre, quechamam JelaJlas, que 
o Cide Bofatá tinha arrecadado dos rendi- 
mcDtos das aldeas , e alguns cavallos pr&r 
zosy que feus donos deixiram com ^a preA 
la , e roda a mais bagagem » que era huma 
fomma grande de coufas , em que os noíTos 
Toldados fe ceváram bem. Vendo Anronio 
Moniz Barrero que nao rinha já allí mais 
que fazer, (por ibeterem aseípias diro que 
os Abexins eram eípalhados , e recolhiaos 
pela rerra dentro , ) fonnou hum formofo 
efquadráo, e recolhendo no meio dellc ro«» 
da a artil hería, e toda a mais bagagem do 
cxerciro, foi marchando em muito boa or* 
dem pera Damáo com alguns feridos , em 

?|ue entrava D. Pedro de Soufa , que depois 
oi Capitáo de Goa, e Cofala. É paíTando 
o rio á outra banda da fortaleza , o efpe- 
rou o Vifo-Rey na praia , onde o recebeo 
com muirás honras , e palavras de muiros 
louvores de rodos. E mandou curar os krí^ 
dos com muiro refguardo, eelle em peíToa 
foi vifitar D. Pedro de Soufa a fuá cafa , 
porque os Vifo-Reys, e Governadores nao 
eram naquelles tempos táo fobre íl , e táo 
fechados, como depois foram , porque fe 
prezavam muiro de Capitáes , e foldados. 

Sabendo o Vifo-Rey que os Abexins 
eram íahidos das térras y come^ou a rratar 

das 



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'40 ASIA DE DiOGQ.DB CoUTD 

das coufas, que cutnpríam á povoayao , a 
fortificado daqueila Cidade , e a come^ou 
a cercar de vallos inuito groíTos , e akos 
com tranqueiras de madeira j e hervas leite*» 
ras , ao que fe deo muíta preíTa , porque 
acudiram das aldeas vizinhas muitos traba-r 
Ihadores pera iíTo ; e o em que fe mais occu^ 
pou , foí em trabaihar com os naturaes aue 
fe tornaflem pera fuas cafas , concedenao^ 
Ihes pera iíTo largos favores, e privilegios, 
e acudiram os de Ca^s das Parganas , que 
$io cabe9as das Comarcas , (que íflb quer 
dizer Pargana , ) e Ihe trouxeram os foraes 
antigos das térras, e aldeas, pera por elles 
faber o que ellas rendiam , pera fe arrecadan 
rem feus rendimentos, 

E fabendo o Vifo-Rey D, Conftantino. 
que o Rey do Sarzeta vivía no Sertáo da-? 
quellas térras , e que ellas Ihe pagavam hum 
certo foro, mandou-lhe feguros, e privile^ 
gios pera os poder arrecadar , aíllm como 
o fazia no tempo dos Gentíos , e Mouros ^ 
pOFJiuma doa9ao muito antiga , que osReys 
de Cambaya diíTo Ihe tinham feíto, 

E porque ferá bom darmos a conhecer 
elle Rey Gentío , e declararmos que foros 
eram eíles , a que elles chamavam Choutos , 
porque nem todos o fabem , o faremos aqui , 
porque nos cabe muito bem. Pelo qué fe ha 
de faber 9 que ha piáis de quatroccucos aiH 

nos 



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DEa VII. Liv. VI. Cap. VI. 41 

nos qae defcéram deíTe Sertáo debaixo dqi 
Norte grandes exercitos de Gentíos , chama* 
dos Resbutos , homens que proíeíTavam as 
armas , e por ellas fe fizeram muitos tempos 
fenhores de todo o Turqueílao , e da mor 
parte do Induftao. Eftes parece que vindo 
fogindo dos Tártaros , e Magores , quandp 
defcéram a conquiftar aquellas Provincias ^ 
como nofim da IV. Decada diflfemos no III « 
Capitulo do X. Livro , e parando naquella 
parte do Guzarate , que acháram povoadsi 
de Gentíos Guzarates , que isáo os mais fra« 
eos , e afeminados de todos os do Oriente , 
houve pouco que fazer em os conquíftar^ 
e fenhorear , e os lavradores de toda aquel* 
la Provincia fe concertáram com elles , qud 
os deixaíTem lavrar , e grangear fuas térras 
pacificamente ^ que ibe pagariam de cada 
quarto (mm : eíle foro em fuá lingua fe cha«! 
ma Choutá , e nos corruptamente Ihe cha* 
mamos óhoutos. £ vindo depois os Mou* 
ros a conquiflar o Reyno de Cambaya , (co^ 
mo ñas noflas Decadas fica dito , ) repartí* 
ram por tempos fuas térras aquelles Reys 
com alguns parentes feus y que Ihe ficáram 
vaíFallos, ehum delles foi efte Rey doSar-r 
zeta , a cujos avós o pai de Soltáo Bahdur 
deo aquellas térras do Sertáo de Damáo^ 
que sao montuofas , feccas , e efcaldadas , 
d; muitos qiatos de bambuaes afperiíEmos ^ 



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41 ASIA DE DíOGO DE COUTO 

e da iñais , e melhor madeira que no murN 
do ha , que. he a teca , a fóra outras muitas 
fortes della , que tem fuftentado a India até 
hoje , e fuftentará fempre ; porque todas as 
raíilhas de naos galeóes, caravellas, gales, 
fuftas, e todas as mais, ailitn de Mouros, 
como de Gentíos , depois que entramos na 
India até agora, tem fahido deftes maros que 
sao infacaveis. £ o que he aínda mais pera 
efpantar, que parte , em que córtáo huma 
arvore de teca , nunca já mais nafce outra , 
porque logo fe^íécca a raíz ; mas arreben- 
tSo outros filhos perro por outras partes, 
donde fe pode inferir a grandeza de feus 
matos. E tornando a eftes Reys do Sarzeta , 
que fempre foram Gentíos , da poiTe dedas 
térras , e deftes foros até Soltáo Bahdur dar 
as térras de Ba^aim ao Gobernador Nuno 
daCunha, com condi^ao que ficaría o Rey 
áo Sarzeta comendo as térras , que Ihe eña* 
vam dadas ^ com feus foros. E nao quercn- 
do o Vifo-Rey innovar coufa alguma nefte 
negocio , concertou-fe com efte Rey , que 
ficafle na poíTe em que eftava ; roas que 
feobrigarja a defender as térras da jürdíjáo 
de Datháo dos ladróes que as vinbam a rou- 
bar. 

Feito efte concertó , comejou o Viíb- 
Rey a querer aíForar as aldeas aos Poriu- 
guezes peraíicarem povoando aquella Cida-» 

de^ 



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t>Ea VIL Liv. VI. Cap. VI. 43 

de 9 entrando nifto com grandes liberdades ; 
tnas como todos haviam que fe nao pode** 
riam aquellas t^ras fuftentar fem grande ru- 
co , e trabalho , peia vizinhan^a que tinham 
com Surrate , donde Ihe poderia cada día 
correr gente , houveram o negocio por du* 
vidofo, e poucos houve que quizeiTem af» 
íbrar as aldeas ; e os que as acceitáraní , foi 
com neceífidade por lerem cafados pobres , 
z quem o Vifo-Rey favoreceo nos fóros ; e 
todavía poz-Ihes obriga^áo de terem cavallos. 
E por ferem poucos os Portuguczes que 
aquí quizeram acceitar aldeas^ as aíForou o 
Vifo-Rey a Abexins Chriftáos, por íicarcm 
;illi pondo-I hesobriga^ao de terem efp¡ngar« 
das. E porque duas Parganas , ou Comarcas 
de Damao chamadas Poari , e Bauticer , que 
eftavam mais chegadas a Bagalm , que eram 
das maiores, e melhores de todas, nao era 
poílivel arrendarem-fe pera EIRey , nao feu- 
do a Villa de Balíar fuá , determinou por 
confelho de alguns de a ir tomar , e fazer 
nella huma fortaleza pera feguranga de to- 
das aquellas térras de DamSo ; e porque tam^ 
bem por tempos fe poderia dalli pallar adt- 
ante , e lanzar máo da fortaleza de Surrate , 
com que íicaírem todas aquellas Comarcas 
debaixo de noífa chave, Com efta imagina- 
ndo andava o Vifo-Rey D. Conñantino, 
quando cbegou D, Pedro de Almeida com 

cen- 



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44 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

pento efincocnta decavallo, que com o re- 
cado que Ihederatn doVifo-Rey, coine9oa 
a negociar fuá partida , e Ipgo fe poz era 
campo com toda efta gente, eem fuá cora- 
pan hia huns Gentíos chamados os Pofagis ^ 
que viviam em humas aldeas pegadas a Ba« 
(aira , que quando ElRey de Cambaya deo 
aquellas térras ao Governador Nuno da Cu-^ 
nha , fe offerecéram a elle por vaflallos , e 
elle Ihes paíTou diíTo carta com obriga^a 
que acudiriara com gente de cavallo todas 
as vezes que foíl'em neceífarios pera defensáo 
das térras de KlRey de Portugal, oque el- 
les fempre cumpríram muito bem. Edes acu- 
díram com doze , ou quinze de cavallo » 
e muitos fervidores de pé com fuas tendas 
de campo » achando-fe fempre nelles muito 
9mor , e lealdade. 

Partido D.Pedro deAlmeida dcBayaioi 
por via de Manorá , foi rccolhendo algu- 
xna gente da térra da que podia pelejar, e 
aüTim levou todos os Portuguezes quCha-f 
via de pé , de que fez Capitao D. Luiz de 
Almeida feu irmáo. Ao paflfar do rio , quQ 
divide as térras de Bagaim das de Damáo » 
que hiam vadeando com a agoa pelo gio- 
Iho , indo diante hum Padre de S. Francifco 
com hum Crucifíxo alevantado em huma 
hadea , fem fe bullir , nem ha ver occaíiáo 
alguma , cahio o Crucifíxo de íima no meio 

do 



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Déc. vil Liv. VI. Cap. VI. 4% 

úo rio , ao que acudió o Capiráo D. Pedro 
de Almeida ; e o Padre inuito alegre II19 
diíTe : « Alegría , Senhor , oue já eftas aguas 

> ficam fantiíicadas pera nellas k poder bau« 

> tizar toda eíta gentilidade. » E aílim foi , 
porque até entao daquelle rio por diante 
jiáo hávia Chriílandade alguma , nem na* 
quellas térras bravias tinha ainda chegado 
o arado de Chriílo ; mas de entao pera'cá 
crefceo pela bondade de Déos tanto eíla fe- 
menceira do grao do Tanto Evangelho , que 
ha hoje por todas aquellas térras mais de 
trinta mil Chriftáos. Aqui em Manorá fe 
foi oíFerccer a D. Pedro de Almeida hum 
irmáo do Rey dos Colles , que vivia na* 
quelle Sertáo de Ba^aim em matos mui £^ 
cbados , e ferras , e paíTos muito eftreitos ^ 
e dífficultofos , (de quem em outra parte 
daremos mais particular razáo») Eftehomem 
traziadez , ou doze de ca vallo, e perto de 
cem piáes y com que fe yin ha offerecer pera 
aquella jornada, ou fofle por temor, ou por 
intereíTe, porque por amor, e bondade n^ 
da difio ha nelles. D. Pedro de Almeida o 
agazalhou muito bem , e o levou comfigp 
até Damáo , e o Vifo-Rey .recebeo bem a 
todos j fazendo-lhes muitas honras , e oa 
mandou agazalhar fóra no campo : o que 
elles fizeram ao longo de hum formofo tan^' 
^ue , onde eftivcram muito bem por cslüíz 

dos 



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4(S ASIA DÉ DioQo DE Covfo 

dos cavallos ^ que tinham allí aguas , e pafidt 
em abaílanja. 

CAPITULO Vil. 

De corno o Vljo-Rey D. Conjiantino mandoit 
D. Pedro de jílmeida a Batfar , e elle 
foi após elle , e do que Ihe Id acofiteceo : 
é da Armada que mandou ao EJlreito^ 
de que foi por Capitdo mor Dé Alvaro 
da Silveira : e das coufas em que mais 
proveo emDamao até fe partir pera Goa* 

COmo oVifo-Rey D* Conílaiitino defe* 
java de engrandecer a Cidade de Da« 
mío , e feguxar todas fuas aldeas , pera qu0 
ié pudeflem arrecadar feus foros pera a fa^ 
zenda deElRéy, harendo (como atrás díí^ 
íemos) que era pera iflb neceflario poffuir 
Balfar , cjue era feis leguas de Damáo , e 
ha ver alli hum forte com guarniyáo * pera 
que os Initnigos íe nao tnetteíTem no tneio ^ 
tratou com os Capitáes do confelho fuá de» 
termina9áo ^ e de alguns foi contrariada ^ 
principalmente de D. Diogo de Noronha^ 
que affirmou c nao fe poder fuftentar; por«^ 
» que a parte , em que os Mouros tinham 
» a iua fortaleza , era mais de huma legua 
» do mar pelo Sertáo dentro ; e que a gen« 
> te que nella ficaíFe fempre efiaria arrifca* 
j da^ por xAq 1er poflivel foccorrer-fe pot 

ji mar y 



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Dec. vil Liv. VI. Cap. VIL 47 

1» mar , neoí por térra ^ e que nao ferviria 
» demais, que deinquictajáo, rifco, ede^ 

> pezas* Que nem todas ascoufas fefaziam 

> logo juntas y que o teinpo as iría difpon* 
^ do y pera que depois fe ian^aíTe tr,zo , nao 
» fó de Balfar , mas ainda de Surrate , e 

> que por entretanto fe tratafle de fuílentar 

> Damáo y e as Tanadarias de fuá jurdi^So , 
]» que era coufa grande. » Mas por firoa dií« 
to , e de outros inconvenientes que íe apon* 
táram , nao deiiftio o Vifo-Rey de fuá opi* 
niam ; e lanzando efpias fobre os Abexins , 
foiavifado queeram efpalhados peloReyno 
deCambaya, eque Balfar ellava com muí* 
to pouca gpnte, Com efte recado defpedio 
D. Pedro de Almcida com regimentó , que 
partiiTe com fuá gente pera Balfar , e íe 
meUeíFe naquella fortaleza ; e que como lá 
cftivcíTe , o avifafle pera logo fer com elle. 
D* Pedro de Almeida íe paíTou i outra ban<4 
da com fó a gente que trouxe de Ba; aim ; 
e efpalhada a nova daquella jornada pelos 
foldados y achando que feria de proveito i 
e honra y pelas prezas que houverara os que 
foram com Antonio Moniz Barreto y come-' 
(áram-fe a paífar poneos e poneos , e fo-^ 
ram-fe pera D. Pedro de Almeida mais do 
quinhentos delles. Como D. Pedro de Al- 
meida nao levava provimentos pera tanta 
gente , mandou recado ao Vifo^Rey ^ que \o^ 

«o 



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48 ASIA DE Diodo dé CovTd 

go fe paíTou da otitra banda , e íe foi ret 
com elle , e.aíTentou que foflem todos ^ tf 
fez feu Capitáo mor D. Luiz de Almeida ^ 
irmáo do meímo D. Pedro de Almeida^ 
mandando-lhes trazer alguns provimentos ; 
)é defpedindo*o logo , foi elle caniinhand6 
com multa regra na boca até chegarem á 
¿alfar ^ fem acharem refifiencia alguma ; 
porque os da Villa , e fortaleza , tanto que 
tiveram as novas dosnoflbs, logo largáram 
tudo , e D. Pedro fe metteo na fortaleza 
fem contradic^ao alguma, e defpedio logo 
recado ao Vifo-Rejr do que era paífado* E 
aquella mefma noitechegou humafufta, quú 
o Vifo-Rey defpedio carregada de manti* 
cientos , que fe repartíram por todos. Tan- 
to que déram ao Vifo-Rey recado de D* 
Pedro de Almeida , logo fe poz ao caminho 
com os Capitaes , e gente que Ihe pareceo 
faaftavam , e no mefmo dia chegou á forta'*^ 
leza , e nomeou por Capitáo della Alvaro 
Gonyalves Pinto , irmáo doCorregedorMa^ 
noel de Almeida y multo bom cavalleiro ^ e 
<]ue tinha dado de (i muirás moftras de fer 
(efte , e Ihe deo cento e vinte foldados y e 
alguns piáes da térra , e perto de vintc de 
cavallo , e deixou-Ihe todas as muni^ées^ 
provímentos , e dinheiro neceíTario pera a 
paga dos foldados ; e mandou renovar a 
fortaleza^ 'que era de adobes^ e gvarnecea 

de 



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Deíg. VII. Liv. Vi. Cap. VIÍ. 49 

de algumas pejüs de artilheria das que Aih 
tonio Moniz Barreto tomou aos Abexinsw 

Feito ¡ño , part¡o-fe o VifoRey pera 
Damáo, e foi pelas Parganas , Bouticer, e 
Poari , onde mandou apregoar feguros 
Reaes, pera que feus naturaes as tornaíTem 
a povoar , e grangear , fem fe Ihes innovar 
coüfa algiima em feus foraes* Chegado o 
Vifo-Rey a Oamao , e ordenadas as coufas 
daquella fortaleza , como llie pareceo pera 
fuá feguran^a , e quietar as térras , e feus 
moradores, (que come^áram acudir as fuasf 
grangearias , ) ordenou demandar huma Ar- 
mada aoEftreiio de Meca, porque Ihe vie- 
ram novas que em Moca fe faziam preíles 
as gales do Cafar pera fahrrem fóra : e ele- 
geo pera efta jornada D. Alvaro da Silvei- 
ra , filho do Conde de Sortelha , e Ihe no- 
meou dous galeóes , e dezoito navios de re- 
mo , e o fez á vela a quinze de Fcvereiro , 
dando-lhe por regimentó « que trabalhaífe 
» por queimar as gales que ellavam era Mo- 
jí cá , e que efperaíTe as naos do Achem ^ 
)i e as tomafíe; e que como íe ihe acabaíTe 
» a mongao , foíTe invernar a Mafcate , e 
^ recolheíTe as naos deOrmuz, que baviam 
» de partir em Outubro , e Ihe vieíTe dando 
n guarda , porque fe recea^a do CoíTairo 
» Cafar. » 

Os Capitaes , que foram nefta jornada^ 
Couío. Tom. IK P. iL D sao 



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5Q ASIA D'E DiOGO DE CoüTO 

sáp os feguíntes. Nos galeóes , cm hum foJ 
o Capitáo mor , e no outro Pero Peixoto 
(ia Silva, Das fuílas foram AÍ\raro Pires de 
Tavora , D, Louren^o de Soufa , Jorge de 
Mello de Sampayo , o Pantufo , Jorge Pe- 
reira Coutinho, üiqgo de Miranda deAze* 
vedo , D. Vafeo de Taíde , irmao de D.^ 
XfUh de Taíde , que depois foi Conde de 
Arouguia , e Vifo-Rey da India , D. Joáo 
Gonjalves , hum Joáo de Mendoza da Ilha 
día Madeira, Ayres Gomes da Silva, irmáo 
de Fernáo Telles deMcnezes, que foi Go- 
Ternadof da India por mor te de D. Luiz 
de Taíde , Baftiáo de Soufa de Abreu , Gil 
4e Goes deLaccrda, Fernáo Parto, Inofre 
do Soveral , e outros , a que nao achámo^ 
os nomes ; e dada i vela , foram feguindo 
fuá jornada , de que adiante daremos razao. 
O Vifo-Rey ficou dando ordem ás coufas 
da fortaleza de Damáo , e nomeou por Ca- 
pitáo dclld a Dr Diogo de Noronha , e Ihe 
aílígnou n)il e duzentos homens coni finco 
Capitáes pera Ilies darem mezas. Eíles foram 
Ruy Gonjalves da Cámara, irmáo do Ca- 
pitáo da Ilha da Madeira, Triíláo Vaz da 
Veiga , André de Soufa de Arronches > Joáa 
Inopes Leitáoj c D. Diogo de Taíde. 

E por fer a térra fronteira , e ganhada 
de novo , fe oíFerecéram muiros Fidalgos a 
^arem nella , o que elle cílimou muito y 

por- 



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Dec. vil Liv. VI. Cap. Vil. ^í 

porque defejava de engrandecer aquella Ci- 
dade , pera nella confervar fuá memoria^ 
E porque pera a guarda das térras era nc- 
ceflaria gente de cavallo , cornprou os mais 
dos cjue foram em coinpanhia de D. Pedro 
de Almeida , e mandou a Ormuz trazer ou- 
tros, com que aperfel^oaíTem o numero de 
¿enro e íincoenta de cavallo , que todos fe 
carregáram em recelta fobre Diogo da Sil- 
va , que nomeou por Feitor , e Alcaide mor , 
hum cavalleiro muito honrado, que depois 
foi fogro de Manoel de Soufa Coutinno, 
Governador que foi da India. Eftes cavallos 
repartió o Vifo-Rejr pelas peíToas que os 
quizeram , e alguns deo em Toldos velhos f 
e em outras dividas ; porque nao pertendeo 
ñeftaprimeira entrada maís quepovoar bém 
éfta Cidade , e ennobrecella. E porque ja 
ftáo tinha neceflidade de D, Pedro de Al- 
meida , Capitáo de Ba^aim , o defpedió pc^ 
ra a fuá fortaleza , e fe foi por mar ení na- 
vios que Ihe deo pera iíTo- E porque íe fa- 
2Ía tempo de fe ir pera Goa a prover ñas 
coufas do Síil , áeo prefla á fortificayáo , c 
coufas pera a povoa^áo da mefma Cidadc 
de Damao , e tra9ou lugares pera os Moftei- 
ros , e Igrejas , e aífignou aos Religiofos 
que allí íicáram fuas ordinarias. 

Feito ¡fto íudo com muita ordem , fe 
crabarcou ]á em fim de Margo , e em pou- 

D ii C09 



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^Z ASIA DE DiOGO DE CoUTi^ 

eos dias chegou a Goa y onde foi mui bent 
recebido , e logo tratou dos provimentos 
das fortalezas de Ceiláo y Malaca , e Ma^ 
luco. E porque achou Pero deTaíde Infer- 
no , que tinha alli vindo do negocio da po- 
voa^áo de S. Thomé , (de que em princi- 
pio defte fetimo Livro que vem daremo© 
relagáo^) fabendo delle o que era fuccedi- 
do , fentio em extremo , e logo o tornou a 
defpedir por Capitáo daquella povoa^ao ; e 
cfcreveo aos moradores della huma carta 
chea de grandes reprehens6es pelo modo 
com que fe houvcram com o Rama Rayo y 
cncommendando-lhes muito a Pero de Taíde 
Inferno, e que trabalhaffem todo o poffivel 
por fe cercarem, efegurarem: e juntamente 
defpedio D. Jorge de Menezes BarocHe pe- 
ra Capitáo de Ceiláo, e mandou virAfFon- 
£q Pereira de Lacerda , e com ifto fe cerroa 
o invernó^ 



DE- 



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:c 



iiJir ^ ^<^ ^^ ^6% ^^ -^ ^í^ %!P^ 4^ «ff 

DECADA SÉTIMA. 
L I V R O VIL 

Da Hiftoria da India. 

CAPITULO !• 

De como Rama Rayo Rey de Bijhagd fot 

contra os moradores da poDoagao de 

S. Tboméj e cativou a todos , é 

depois os refgatou^ 

I'^Okam as coüfas defte veráo tantas, 
1 que nao foi poífivel continuarmos com 
ellas por ordem , e por iíTo deixámos 
cftas, que acontecéram emOutubro paíTado, 
pera eñe lugar pelas nao midurarnios : e aílim 
daremos conta das razóes , por que Rama 
Rayo , Rey de Bifnagá , fe moveo a v¡r em 

SeíToa contra os moradores da povoa^áo de 
. Thomé , que foram eflas. 
Como as coufas da nofla Religiáo Chri- 
ilá hiáo cada. vez em mor crefcimemo pelo 

gran- 



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1*4 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

grande cuidado, e diligehcia, que os Rcysr 
de Portugal tinham de Iba dilatagao , e os 
homens que iüo mais fentiam erain os Bra-^ 
incnes, porque vianí abatidos , e vituperado» 
os feus fallos ídolos ; porque a qualqucií 
parte que os noíTos Religiofos chegavam 
pera pregar o fanio Evangelho , primeiro 
qué levantaíTem Altar pera offereccrem ao 
Altiílimo Déos feus facrificios , dcrribavam , 
c punham por térra os templos que a cega , 
e bruta gentilidade tinha dedicados ao de- 
monio , quebrando , e fazcndo em pedagoj 
as nojentas, abominaveis , e torpes figuras 
dos ¡dolos deBaal. lílo tomáratn todos el les 
tao mal , que fempre Ihes ordenáram traba- 
Ihos > priz6es , mortes , e grandillimos vitupe- 
rios , fendo o que levou díame a banddra 
da Cruz de Ch'il^o o gloriofo, eBemaven- 
turado Apoflolo S, Thomé , neflas panes, 
pnde comejGU coro feu fangue regar efta 
vinlia doSenhor, que por fuá bondade vai 
creíbendo tanto , que mui cedo recolherá 
debaixo de fuá fombra toda efta gentilidade. 
^ como os Padres pobres da Ordem do 
gloriofo Padre S, Francifco tinham tomado 
é iua conta toda aquella coila defde Nega- 
jiatao alé S, Thomé , (por ferem os primei- 
ros que por ella come^áram a femear a Ley 
d© Sagrado Evangelho,) e por toda ella 
tíflham levantado cauitosi Teiuplos , e derriT 

ba- 



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! Dec. vil Liv. vil Cap. L 5-5^ 

htiáo muitos Pagodes , (o que os Bramenes 
fentiam em extremo , ) todos os annos fe 
queixavam diño a Rama Rayo Rey deBif- 
nagá , cujos vaíTalIos eram , pedjndo-lhe que 
acudiíTé por honra de feus Ídolos ; o que 
elle diíTmiuIava , aílim pelo permittir Déos 
noflb Senhor , como pelo proveito que li- 
nba do noíTo trato , e commercio , princi- 
palmente dos cavallos da Pcrfia , e da Ara- 
bia , que n^o podia Iiaver fenáo por maos , 
c trato dos Portuguezes. E como nefte tcm- 
po , em que andamos hia eñe zelo da honra 
de Déos em maior crefcimeiito , por terem 
entrado naquella térra os Padres da Com- 
panbia de Jefus , como outros foldados de 
Gedeon com tochas em huma máo , e trom- 
betas na outra y a cujo fom comegáram a 
cahir os muros de Jcricó , nao confentindo 
Pagode algum era pé , alumiando com a 
vida , e efperiando com fuá prégajáo , 9 
doutrina. O que foi cauía dos Bramenes fe 
accenderem em maior ira , e furor , porque 
de novo fizeram queixas a Rama Rayo, que 
por derradeiro era Gentío , e zelofo da 
honra de fcus ¡dolo?. E juntamente com if- 
to fuccedeo naraefma conjunjao hum certo 
homem cafado na propría térra , Fidalgo 
no fangue, mas peílimo , vil , e máo ñas 
coufas da alma , e confciencia , e indigno 
de fenomear emhiñoria alguma, fenato co- 
mo 



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^6 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

mo outro Heroftrato, que derribou o Tero- 
pío de Diana , fegundo as fábulas contáo^ 
eñe , ou por fuá maldade , ou por vinganja , 
,c\x por cfperar algum galardao do Rama 
Rayo, ( mas o mais ceno he , porque ei>- 
írou o diabo nelle , ) Ihe efcrevco huma car^ 
ta, cm que o perfuadia a vir contra a po- 
voagáo de S. Thomé , que elle Ihe aflegur 
rava mais de dous milhóes de ouro, enea* 
lecendo-lhe muito a riqueza dos moradores 
daquella povoajao. 

Com ^fla carta fe moveo aquellc barbap 
ro, e fe deixou entrar da cubija; e csBar- 
menes, que Iha eniendéram, aíTopráram de 
feijao eüa faifca , que Ihe accendéram no 
torajao huma grande bbareda de odio , 
mifturado com o intcrelTe , com o que logo 
determinou de fe abalar em peflba. E man- 
dou com muirá prefla ajuntar feus excrcitos , 
je com mais de quinhentos mjl homens de 
^rmas , e huma muito grande recovagem , 
comejou a marchar contra aquella povoajao, 
piño tiverf^m logo avifo os fcus morado- 
res i e naquelle tempp fe aphou antre elles 
Pero de Taíde Inferno , ( de quem np Ca- 
pitulo atrás fallámojs , ) que tinha mandado 
fazer hum^ viagem de S. Thomé pera Ma^ 
Jaca 5 e íicára alli pera fe partir pera Goa. 
^ como eñe Fidalgo.era muito cavalleiro, 
p tiph^ mxútfí peíTpM , e grande confclho , 

tan- 



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Dec vil Liv. VIL Cap. L 57 

ianto que foube nova certa , e que o Rama 
Rayo eftava duas jornadas daquella povoa- 
^io , ajuntou-fc em caía do Capitáo , que 
era hum foáo de Goes , e fez chamatnento 
das peflbas principaes do povo, eosperíua- 
dio com huma falla muito grave a fe forti* 
ücarem , e defenderem , offerecendorfe-lhe 
elle pera os ajudar a iíTo , dando*Ihes mul- 
tas razóes pera o poderem fazer: affirman- 
ido-lhes que por muito grande poder que 
írouxefle o inimigo , nao Ihe pqderia fazer 
darono; porque quaefquer tranqueiras bafta- 
vam pera fe defenderem delle , por nao tra- 
zer anilheria , e mais tendo elles o mar por 
feu , por onde podiam fer foccorridos » c 
próvidos do neceflario. 

Os moradores todos Ihe agradecéram 
^quelles oflferecimentos ; mas refumiram*fe 
em fe nao defenderem , antes fahirem ao ca« 
minho a receber o Rama Rayo, e levarem- 
no á pavoa^áo por rúas juncadas, ejanellas 
akatifadas, ecom outros férvidos. Edavam 
por razáo que a térra era fuá , e que nao 
parecía razao deixarem de o receber noque 
^ra feu , porque nem clles tinham poíTe pera 
fe defenderem , aínda que o quizeíFem fa^cr , 
iicm Ihe era lícito fazello : e que bem en- 
iendiam todos , e edavam muí contíados , 
xjue tanto que o fabilTem a receber , logo 
/e havia de agrandar , fe vinba com ajguma 

má 



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58 ASIA DE DidGO DE COÜTO 

nía tenjao. Vendo Pero de Taíde Inferné 
o propofito etn que todos eftavam , difle-Jhes 
uquepois nao queriam tomar feuconfelho, 
9 fe ficaíTem emí)ora , porque elle fe einbar- 
» cava logo, por Ihe nao fer licito efperar 
» que o Rama Rayo o vieíTe levar amarrá- 
» do, como entendía que havia de fazer a 
)• todo6. Y E fahindo-fe dalli , fe foi embar- 
car em huma naveta de hum Gafpar Perei- 
ra , que tinha vindo de Bengala , e nella fe foí 
pera Goa , onde já achou o Vifo-Rey D, 
Conftantino , que tinha vindo dé Damáo, 
como atrás diíTeraos'no fim do VL Livro. 

Os moradores da povoajao , tanto ique 
íe determinaran! no que tifiham dito a Pero 
de Taíde Inferno , aíTentáram de mandar 
feceber aocaminho o Rama Rayo com hum 
prefente , que tiráram por todos , que Vale- 
ria quatro mil cruzados , pouco mais , oa 
menos , e elegéram-fe de antre todos quatro 
peíToas das principaCs , que foram diante ao 
vifitar, e dar-lhe os parabens de fuá vinda , 
que Iho leváram. Eftes homens chegáram 
ao leu cxercito , e Ihe deram da parte de 
todos os moradores os parabens de fuá vin- 
da , certificando-lhé o alvorogo com que o 
efperavam pera o fervirem. Ó Rama Rayo 
os recebeo bem , c os levou comfigo até 
chegar á povoajao de S. Thomé ; e fóra 
della em huns campos muito largos aflcnton 

feu 



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Dec. vil Liv. vil Ca?. L s9 

ieu exercito , e defpedio alguns Capitáes de 
confianza , pera que Ihe trouxeíTem diante 
de íi todos os moradores , mulheres , tnenU 
nos , e efcravos , feíxi Ihes ficar na povoa^ao 
couía viva ; o que logo fe fez , e elle os 
mandou agazalhar em huma parte feparada 
com guardas , e vigias y e mandou trazer 
diante de fi toda a fazenda , que fe Ihes achou 
pelas cafas até os pobres movéis ; o que tu*» 
do fe Ihe apofentou diante, que nao mon^ 
taria cem mil pardaos. Vendo elle quáo en- 
gañado fora naquelle negocio pela opiniáa 
que trazia das riquezas , que aquelle homem 
Ihe eforevéra com mentira , movido por 
Déos , que nao deixa coufa alguma fem caf» 
figo , determinou de o caftigar , pelo fazer 
abalar com falíidades : o que o outro fen« 
tindo , ou arreceando , defappareceo logo , 
do exercito , e fe foi pera Caleturé , feis , 
ou fete leguas daquella povoa^o , donde o 
Rama Rayo o mandou trazer por alguns 
Capitáes ; e diantc de íi ^ e de todos o man- 
dou lan9ar aos Elefantes , que o eípeda^á- 
ram á vifta de todos : o que foi permitsao 
Divina vir acabar daquella maneira por man- 
dudo do inimigo , que elle convocou con- 
tra feus proprios naturaes, eem cu jo poder 
quería entregar os divinos Templos , era 
que Déos noíTo Senhor era. cada dia taqtat 
vezes venerado y pera ncUes tornarem a le- 

van- 



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6o ASIA DE DiOGO DE CotJTO 

vantar feus falfos ídolos. Vendo Rama Rayo 
a bumiidade dos moradores y e o pouco 
que tinham , concertou-fe coni elles que Ihe 
déflem cem.mil pagodes, ametade logo, e 
a outra daJii a hum anno , e por elles -Ihe 
Scariam em refens finco, ou feis dos prin* 
cipaes daquella povoagáo. 

Feitos os concertos , e pagos os finco* 
enta mil pagodes , foltou a todos , deixando 
finco dos que elle efcolheo pera irem com 
elle , e Ihes mandou tornar toda fuá fazen- 
da , o que fe fez com tanta juñiga , e pure- 
za , que antre mais de duzentos moradores 
nao faltou mais que huma colhér de prata , 
fobre queElRey mandou fazer taes diligen- 
cias » que appareceo logo pelo chao , fem 
fe faber quem a tinha í porque fe o foube- 
ra , fora logo efpeda^ado. O Rama Rayo 
alevantou feu campo , e tornou a voltar pe- 
ra feu Reyno. E nefte caminho o fervíram 
aqucUes finco moradores com tanta pruden- 
cia , e amor , que os largou , recebendo fó 
delles feus conheciraentos , por que fe obri- 
gavam a pagar a quantia dos fincoenta mil 
pagodes, como depois Ihe pagáram ; e aín- 
da deíFa Ihes fez huma grande quita. E cer- 
to queduvidamos achar-fe cílahumanidade, 
ejudi^a antre Chriiláos , que tcm mais obri- 
ga^áo pera iílb* 

CA- 



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Dec. VIL Liv. VII. 61 

CAPITULO IL 

Vo que aconteceo a hui% de Mello da Sil» 
^a no Malavar \ e de como deftruio a 
Cidade de Mangalór : e da grande vito- 
ría que alcancou de huma Armada de 
Malavares y deque eraCapitao bumRu» 
me , que fe chamava Odo Rabo. 

DEixámos as coufas de Cananor em 
guerra declarada , e Luiz de Mello da 
Silva, Capitáo mor daquella cofta , fazendo 
por ella todo o damno que podía , impe- 
diodo a navega^áo , e comtnercio aos Mou« 
ros , que era a mor guerra» que fe Ihe podía 
fazer. E depois que Ihe fuccedéram as cou- 
fas em Cananor , como atrás comamos » 
voltou pera a Norte. E chegando a Mai>- 
gálór y ioube que eflava dentro naquelle río 
hum Paguel de Mouros de Cananor varado 
na praia \ e pondo-fe na barra , mandou a 
Antonio Tavares , e a Gonzalo Sanches, 
Capicáes de dous navios , que Ihe foíTen» 
lanjar o Paguel ao mar, e que Ibo trouxeí- 
fem. E andando eftes Capitáes nefta obra , 
ajuntáram-fe os Moi>ros do Paguel com ou* 
tros da térra que appellidáram , e dando 
nelles ,. os fizeram embarcar com alguns eP 
calavrados. Sabendo Luiz de Mello da Sil- 
va acafo^ ¿que os da Cidade com eftarent 

de 



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6% ASIA DK DiOGO DE CoUTO 

de paz favorecératn os Mouros de Cana- 
ñor, entrou pelo rio dentro , e dcfembar- 
cando em térra , coin muito boa Ordem, 
pera fatisfazer , e caftigar aquella defobedi- 
enícía , foi commetter a Cidade , e a entrou 
com grande valor , e esforfo , matando , e 
deítruindo, e pondo á efpada toda a coufa 
viva que achavam , de qualquer fexo , e ¡da- 
de que fofle , fem perdoarem a couía algu- 
ma. E andando os íbldados muito cncarni- 
jados nefta obra , ( que foi aflím neceíTario 
pera terror dos inimigos,) ficou o Capitáo 
mor na entrada de huma rúa com poucos 
dos feus 5 mandando por fogo á Cidade , por- 
que os noflbs le nao defmandaflem com as 
1>rezas. Quando víram arrebentar por aquel- 
a parle lium tropel de Mouros , que vinhant 
fogiñdo do eftrago, edeftruljáo que osnoí- 
fos faziam , e diante de todos vinha hum 
relho defgrenhado , com o cabello folto 
lanzado fobre as cofias , com huma adag^ 
de dous palmos , e huma manopla de ferro y 
que Jhe cubría até meio brago , ( arma de 
que elles muito ufam ) e dando de rofto 
com o Capitáo mor , endireitou com elle y. 
e ihe deo huma adagada por hum bra^o,. 
e juntamente fe liou com elle. Luiz de Mel- 
lo da Silva lanjou-lhe huma máo aos ca- 
bellos , e por eiles o afFaftou de íl , e 6* 
arremeflba pera oefoldados^, dizendo-Ihe^: 

. t To* 



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Dec. VIL Liv. VIL Cap. IL 6.J 

4(Tomai lá eíTe diabo)i que logo foi feiro 
em pedamos , e o meímo fe fez a todos os 
mais que alli foram ter com elle. O fogo 
queoCapitaomór maadou por, foi-fe apo- 
derando da Cidade , que eftava recheada de 
fazendas de todas as fortes , que ardératn 
braviíEmatnente com muí grande eftrondo, 
e terremoto. Abrazou-fe tatnbem huní mul- 
to grande, e fermofo Pagode, cujo tedio, 
e coruchéo era de latao , e cobre , formo- 
fiflümamcnte lavrados , e dourados , de que 
os faldados houveram huma boa quantida- 
de , que embarcáram nos navios. Tanto que 
o Capítáo mor vio a Cidade toda entregue 
ao fogo , tocou a recolher , o que ie fez 
com muito boa ordem ; mas nao fem algu- 
ina perda , porque no meio della Ihe ficou 
morto Gonzalo Sanches , hum dos feus Ca- 
pitáes , com alguns poucos companheiros^ 
que primeiro que perdeíTcm as vidas , as 
tiráram a muitos , e>ao embarcar queimá- 
ram o Paguel da contenda , e alguns outros 
navios, e com aquella vitoria fefahio anof\ 
fa Armada do rio , e fe deixou andar por 
alli efperando os Paguéis que haviam de vir 
de Cambaya. 

Eñava neíle tempo emCalecut humRu- 
me, a que chamavam Odo Rabo , que fe 
tinha vendido aoC^amorim por muito gran- 
de cavalleiro ; e como os Mouros víram o 

que 



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64 ASIA DE DiOGO DE CovT¿ 

que Luiz de Mello da Silva andava fazendo^ 

Í»or acjuella coila , chegáram as novas do 
ucceflo de Mangalór, que rentíram cm eí- 
treoio. E querendo o Rume ganhar térra 
com o CJamorim , fe Ihe fqi oíFerecer pera 
ir pelejar com Luiz de Mello , dando-lhe 
doze , ou trezc navios , promettendo-lhe de 
Iho levar atado, e de Ihe metter na fuá ba- 
hia todos os feus navios. O CJamorim Ihe 
acceítou o offerecimento , c mandou nego- 
ciar fcte navios , porque ó Ade Rayo de 
Cananor tinha outros feis preftes , de que 
tinha feito Capitáo mor hum Mouro cha-- 
mado Cutimujá, feu párente, pera feachar' 
no feito, folicitado pelomefmo Rume Oda- 
Rabo ; e ajuntando-fe ambos com os treze 
navios muito poíTantes , e chelos de multa 
gente , que fe affirma paílarem de dous mü 
homens ; e fabendo eftar a nofla Armada em 
Mangalór, aforambufcar comdeterminafáo 
de pelejarem cora ella : e chegando quaíi 
huma legoa onde os noflbs eftavam, no lu* 
gar onde chamam a Palmerinha , houveram 
os noíFos vida daquella Armada , de que já 
o Capitáo mor tinha avifo por cartas de 
Cananor. Era ifto humdia pela manhá, ef- 
tando a noffa Armada furta a térra , e os 
inimigos vinham de mar em f<4ra demandar 
aquella paragem. O Capitáo mor fe prepa- 
rou pera pelejar com os inrmigos , defpe- 

dinr 



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Dec- vil Liv. vil Cap. IL 6^ 

dindo Pero Godinho , por fer o feu navio 
inuito ligeiro , pera que osfoffe reconhecer; 
e que íendo aquelies os navios deque tinha 
aviío , Ihe fizeíFe íinal com huma bombar^ 
dada. ORume, quevinha de frécha deman* 
dar a térra , tanto que vio ir aquelle navio , 
tomou o remo , e foi-fe a elle , e Pero Go- 
dinho foifempreadiante, até que oreconhe- 
ceo muitobem, equafiabarbado conüelles, 
voltou , e tirou huma bombardada , que era 
o linal que havia de fazer. Tanto que os 
inimigos o víram virar , arrancáram após 
elle , e o foram feguindo tres , ou quatro 
navios de Malavares inulto ligeiros; mas o 
Pero Godinho , que era confiado no remo , 
fe Ihe foi fahindo inulto á íua vontade. 

Em Luiz de Mello da Silva ouvindo a 
bombardada , tirou as velas aos navios , e 
mandou que as eitendeíTem por íima dos 
bancos de poppa a proa, e que as baldeaí- 
fem , e moIhaíTem multo bem com a agua 
do mar ; porque as panelias de pólvora , de 
que os Malavares ufavam multo , Ihes nao 
cahiíTem dentro nos navios , e fe aíFogaíTem 
logo ñas velas. E encadeando todos osfeus ' 
navios huns nos outros , foi bufcar os inimi- 
gos aomar com grande determinajáo; por- 
que nao quiz que cuidaíTem , efperando^os 
á térra, onde eftavam, que ostcmia; cnáo 
tinha áquelle tempo comíigo mais que fece 
Couto.Tom.If^.P.iL E na- 



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66 ASIA DE DioGO DE CauTO 

navios , porque os mais da fuá Armada os 
tinha deípedidos por certas paragens. Hia 
Luiz de Mello na coxia da fuá galeota , ar« 
mado em huma cota de armas y com hum 
montante ñas raaos , e a barba , que era mui- 
to comprida , feita em huma tranca , e na 
ponta hum nó. O Rume com os feus navios 
vinha na mefma ordem ; e chegando a tiro 
de camelete , deixou*fe ficar hum pouco atrás 
o Cutimu^á j Capirao dos feis navios de Ca» 
nanor , porque vio ir os noíTos muito deter-r 
minados. £ vendo Luiz de Mello o» na* 
vios do Rume já perto , brádou ao Conde& 
tabre (aue era Framengo , e grande official) 
que deíparaífe o camelete ; ao que Ihe ette 
refpondeo, ^ue odeixafle fazer feu ofEcio^ 

2ue como viífe tempo , elle teria cuidado. 
) Rume vinha demandando a galeota do 
Capitáo mor em íima do feu baileo , veíUdo 
em humaCabaya de efcarlata, ehüma tou<» 
ca na cabera de muitas voltas , e aos pés 
hum cafco, e hum formofo tregado , e na 
máo huma cana de bengala , com que hia 
ameajdndo os marinheiros, efazendo^os re-* 
man E vindo aífim com ten^áo de inveftir 
a galeota do Capitáo mor pela proa , fendo 
já pouco mais de tiro de pedra y poz o Coa^ 
deftabre de Luiz de Mello fogo a hum ca« 
melete, que Icrava com hum cartuxo defei- 
xos na bocaj e tomando a galeota do Ru« 

me 



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Dec. vil Liv. vil Cap, IL 67 

me de proa apoppa, a foi axorando toda, 
eavirou logo com aquilha pera íiraa, nao 
cfca pando della fenáo muito poucos , que 
os noíTos paflada a fumaba víraiti vivos ape- 
gados á quilha da galeota dos Mouros , cu- 
jo Capitáo devia de acabar de miftura com 
os outros; Os mais Paros paíTáram avante, 
e tres delles enveftíram o Capitáo mor , 
dous pela proa, ehum por huma dasilhar- 
gas , e logo Ihe lan^áram gente dentro com 
tamanho impeto , que fizeram retrahir os 
noflbs, que eftavam na proa , com morte 
de alguns, em que entráram D.Joáo de Li- 
ma , e faum irmáo de D. Braz de Almeida , 
a que deram huma fréchada pela tefta , que 
Ihe pañbu os miólos. 

Vendo Luiz de Mello da Silva os iui- 
migos dentro ha fuá galeota , e apoderados 
ja da proa , acudió a ella com alguns Fidal- 
gos, e cavaüeiros, e deo nos Mouros com 
tamanho impero , que os lanjou fóra , rece* 
bendo elie em ü algumas feridas , que pela 
fortaleza das armas o nao matáram , e tor 
davia fícou ferido em hum pé , que o tratóu' 
mal. Ai&m ficiram os nodos táo animofos 
dacueilc focceflb, que fem recearem amul- 
tidao dos Mouros , fe lan^áram óom elles 
nos feus navios , onde á efpada , e rodclla 
ffeerám nelles tal eftrago , que Ihes nao eí^ 
capáram fenáo os qxie fe lan^áram ao mar , 
E ii fi- 



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«68 ASIA HE DiOGO DE COUTO 

ficando aquelles tres navios , que abordáram 
o Capitáo mor , defpejados de todo. Os 
mais raros abalroáram os ouiros navios , e 
o que ferrou de Manoel da Silva (que tra- 
zia huma galeota Latina) logo foi axorado , 
e rendido ; e pondo a proa em outro , depois 
de grande refería , e muitos feridos , o def- 
baratou de todo. Gomes Eanes de Freitas 
abalroou outro Paró , e com grande valor o 
entrou, e metteo todos os Mouros á efpada , 
e foi foccorrer o navio do Pimentel , que 
hum dos Paros o tinha axorado , e morto 
o feu Capitáo com a mor parte dos folda- 
dos. £ vendo aquelle eftrago , poz4he a 
proa ; e entrando naquelle navio , em que os 
Mouros andavam vitoriofos, fazendo gran- 
de caminaría em os noíTos, teve com elles 
huma muito afpera , e perigofa batalha. O 
Paró dos Mouros , que eftava abordado ao 
navio do Pimentel , que nao tinha em íi mais 
que os marinheiros , vendo aquelle foccorro , 
e o eftrago que os noflbs comefáram a fazer 
nos feus , aleando a vela , foram-fe , deixan- 
do todos OS" Mouros as lans com os noflbs , 
que logo foram mettidos á efpada femefca- 
par hum fó , ficando Gomes Eanes de Frei- 
rás com a mor parte dos feus foldados feri- 
dos, e queimados. 

O Cutimujá Capitáo mor dos feis na- 
vios do Ade Rayo de Cananor, vendo ta- 

ma- 



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Dec. vil Liv. vil Cap. It í)<^ 

manha deftruijáo , deo á vela com todos os 
íeus navios , e fe foi acolhendo com tama- 
nho medo do que vira , que aífim á vela 
foi varar na praia do Bazar de Cananor, 
como fe osnoílos IhefoíTcm dando nascoí^ 
tas* Luiz de Mello da Silva recolheo os 
feis navios , que tomou aos Mouros , e por 
ter muiros feridos na Armada , fe foi reco- 
Ihendo pera Goa y deitando os mortos ao 
mar , que paflaram de trinta. 

Aqui acontecco hum cafo memoravel , 
e que fe notou por maravilhofo; efoi eñe. 
Entre os mortos , que fe lanjáram ao mar 
da galeota de Luiz de Mello da Silva, foi 
o irmao de D. Braz de Almeida , que ma- 
táram da fréchada pela tcfla , que foi amor- 
talhado em huma colcha. Andou eñe corpo 
no mar finco , ou feis diás , e no cabo del- 
les o encaminháram as aguas pelo rio de 
Chale dentro triiita equatro leguas deMan- 
galor , onde foi lanzado ao mar , e com a 
maré fqi parar á porta do Mofteiro dos 
Fradcs de S. Domingos , táo inieiro , e fem 
corrupfao, que parecía morro daquella ho- 
ra; e tal , que foi conhecido de todos. E 
D. Jorge de Caftro , que era Capitáo da- 
quella fortaleza , acudió á praia , e o man- 
dou enterrar muito honradamente , fem fe 
laber coufa alguma do que era paffado, 
porque aínda a nova daquella bátalha náa 

cor- 



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70 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

corría , qne veio após elle , e comcjou a ha- 
ver com ellas em todo o Malavar grandes 
prantos, e defconfola^oes , porque fe per- 
déram naquelie fucceífo perto de quatrocen- 
tos Mouros dos principaes ; e ficou tal o 
mar daqueüe eílrago, que multo tempo nSo 
coméram os noflbs por toda aquella coila 
peixe , nem aínda os Mouros , porque em 
Cananor acháram no bucho de hum cafsao 
os dedos de hum homem ^ que caufou grande 
nojo. 

CAPITULO III. 

De como Luiz de Mello da Silva chegou 
a Goa y e oVifo-Rey oprendeoy e depois 
o mandou invernar a Cananor : e da Ar^ 
mada que defpedio pera Maluco : e da 
conjuracdo que todos os Mouros do Ma- 
lavar jizeram contra a nojfa fortaleza 
de Cananor : e do grande ajfalto que Ihe 
deram : e dos cajos que nelle acontecéram. 

CHegadoLuiz de Mello da Silva á bar- 
ra de Goa , com efta vitoria , alguns 
días andados de Abril , logo o Vifo-Rey 
teve avifo diíTo ; e como tinha cartas frefcas 
de D. Payo de Noronha , CapitSo de Cana- 
nor , em que Ihe pedia foccorro , porque 
todos os Mouros do Malavar eftavam con- 
jurados contra aquella fortaleza , e que fa- 
2¡am grandes preparajóes pera a commette- 

rem, 



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DEa VIL Liv- VII. Cap. III. 71 

rem, tomou muito mal yir^feLuiz de Meló- 
lo da Silva fem fuá licen^a naquelle cempo , 
em que havia tamanba neceíEdade delle. 
Pelo que mandou logo ao Quvidor geral , 
que o foíTe prender no Caílello dePangim, 
e qtie detiveíTe a Armada fóra y porque quo- 
ría logo elcger outro Capillo pera a tornar 
a mandar. E como o negocio importava 
tanto , como era foccorrer logo aquella for- 
taleza j tratou da elei^o do Capitáo que 
havia de mandar , e commetteo alguns Fí- 
dalgos peraüTo, que fe eícuíaram porcau^ 
de Luiz de Mello da Silva , cuja a jornada 
era^ eafüm o diíleram todos aaVifo^Rey, 
e Ihe pedíram que cefTaíTem as paixóes , e 
que fe reconciliaíTe com elle, e otornaíTe a 
mandar , porque era hum Fidalgo multo 
honrado , e mütto neceífario ao lervigo de 
ElRey , que cftc era cntáo o primor , e ver^ 
dade dos Fidalgos daquelie tempo , que 
antes perderiam a vida , que hum peqúeoo 
ponto de fuá opiniáo. E tanto guardavam 
ifto huns com os outrcs , que coufa que foí^ 
fe em damno , ou prejuizo de hum , a náó 
acoeitava outro , ainda queniflb eftivefle to- 
do o ieu remedio ; e táo aprimorada corría 
entío efta praga , que ñas entradas das fot*- 
talezas já mais aoonteceo , ou mutto poucas 
vezes , cfaegarem a juizo ; porque ¿afta va 
antre elles faber-íe qw hum era primeiro 

pro- 



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72 ASIA EE DioGo DE Covrto 

Srovído 5 pera Ihe nao arguiretn defeitos , e 
cfcubrirem infamias , que depois vieram 
allegar huns contra outros. E era táo puro 
eíle negocio , que o Fidalgo que levava a 
fuá Patente ao Vifo-Rey pera Ihe por o 
cumpra-íe , e tomar-Ihe a menagem , e dar- 
Ihe a pofle da fortaleza , em qué pertendia 
entrar, logo era deípachado fertí cartas de 
Editos , fem ciiafóes , e fem apregoarem , 
como em almoeda , fe havia algum que del* 
le quizeffe alguma couía ; nem haver miíler 
aderencias pera Ihe pórem o cumpra-fe. 

E tornando á noífa hiftoria. Vendo o 
Vifo-Rey que todos os Fidalgos , e Capi- 
táes velhos Ihe enjeitavam a jornada , e que 
Ihe eftranhavam a prizáo de Luiz de Mello 
da Silva, metteo-fe em huma manchua, e 
foi-fe a Pangim ver com elle , e alli fe re- 
conciliáram , e Ihe pedio , que tornafle pera 
Canajior , porque cumpria affim ao fervifo 
de ElRey. Luiz de Mello da Silva , dei- 
xando aggravos , acceitou a jornada ; e o 
Vifo-Rey mandou logo pagar quinhentos 
homens, e nomeou feus Capitáes pera Ihes 
darem mezas todo o invernó; e na mefma 
Armada , em que Luiz de Mello da Silva 
veio , o defpcdio , e Ihe deo muitos pro vi- 
mentos , e munijóes , e dinheiro pera as me- 
zas 9 e pagas dos fóldados ^ e fez mercés 
aos Capitáes que aquelle veráo andáram com 

el- 



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Dec. vil Liv. VII. Cap. IIL 75 

elle d'armada. Efta era a razáo , por cjue o 
iervi^o de ElRey entáo luzia tanto , Iibera*- 
lidade da parte dos Vifo-Reys , e da dos 
foldados zeio do feu férvido , e nenhuma 
cubica nelle , porque eftes sao os dous eixos ^ 
fobre que os Imperios do mundo fe fuften* 
lam; e faltando elles , deram comtudo atra* 
vés. 

Partido Luiz de Mello da Silva pera 
Cananor , deípachou o Vifo-Rey os provi- 
mentos pera Maluco , e foi por Opitáo 
daquella fortaleza Manoel deVafconcellos> 
filho de Diogo de Vafconcellos , e de Do- 
na Tareja da Gama , irmá do Conde da 
Vidigueira y que defcubrio a India , e levou 
hum galeao em que foi » e mais duas cara ve- 
las , de que eram Capitáes Henrique de Va(^ 
concellos , e Diogo da Silveira , e alguns 
navios de remo, a cujos Capitáes nao adia- 
mos os nomes , porque quiz o Vifo-Rey 
prover as neceíEdades de Maluco bailante- 
mente. Eefcreveo áquelIeRey cartas muito 
honradas , e cheas de muitos mimos , affir- 
mando-lhe , que D* Duarte Deja feria mui- 
to bem caíligado pelos deíTervijos que Ihe 
fizera ; e na mefma companhia mandou mui« 
tos proviméntos pera Malaca , e Ceiláo. 

Partida efta Armada , defpachou o Vifo- 
Rey alguns navios pera Dámáo , e Dio^ 
com Capitáes , e foldados^ que foram in- 

ver- 



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74 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

vernar aquellas fortalezas peradarem nsezas 
aos foldados ; porque naquelle tempo , e 
muiros annos depois, fedavatn mezas a mil 
e duzentos foldados em cada fortaleza fron* 
teira , e a fóra iíFo Ihes paga^am feus quar- 
teis geraes , dous a cada Toldado , fem fe 
Ihes fícar devendo coufa alguma ; e o mef^ 
mo fe fazia na Cidade de Goa , e nao ren- 
dia a India entáo mais que fetecéntos mil 
pardaos. E depois difto velo tudo tanto a 
menos , que com creícer o rendímento tanto 
em dobro , cortáram aos pobres dos foldados 
tanto a ra^ao , que Ihes tiráram as mezas , e 
Ihes nao pagáram mais que hum quartel em 
todo o verao , e no invernó , aos que efta- 
vam afrentados no rol dos ordenados , e li* 
mitados ás fortalezas* Sendo dantes tudo 
táo liberal, que todos os que invernavam, 
tinhara certos feus dous quarteis , fem apre- 
fentarem certidóes de tirulos correntcs, co- 
mo hoje fazem ; fem havcr mezas , nem ou- 
tras liberalidades , com que fe os foldados 
faflentcm. E efta he a razao , por qu^ ha já 
táo poucos , que queiram ir a invernar ás 
fortalezas de ElRey , e tantos que fe fazem 
chati ns , e íe vam quaíl a morar aos Rey- 
nos de Pegú, e Bengala pera ajudarem aquel- 
les Reys , que tem guerra huns contra ou- 
tros. E deixando ifto , tornemos a Luiz de 
Mello da Silva , que deixámos partido de 

Goa, 



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De a VIL Lrv. VIL Cap* IIL 7f 

Goa , porque com eftas Armadas cerramos 
o veráo. 

Chegado eíle Capido a Cananor , achoú 
D. Payo de Noronha muito enfadado por 
ter novas certas que o Ade Rajao tinha con- 
vocados todos os Mouros daquella cofta, 
pera Ibe por hum muito rijo , e apertado 
cerco ; porque de tudo o avifava hum Naire 
dos principaes da cafa de ElRey , chamado 
Nicore Guaripo , Jangada da fortaleza ; que 
era táo bom homem de fuá natureza , e tao 

frande amigo dos Portuguezes , que com 
ilRey ( que entrava nefta conjuragao , e o 
Ade Rajao) trazerem oolho nelle, náodei- 
xava de avifar o Capitáo , e de prover a 
fortaleza de noite de tudo o que tinha ne- 
ceflidade , com grande rifco feu : no que o 
favorecía , e ajudava o Coge Cemajadim , 
de quem muitas vezes temos fallado ñas ou- 
tras Decadas , que neíle tempo eílava muito 
enfermo , c veio a morrer , e o feu thefouro 
fe Ihe fumio , porque ElRey , e os Naires 
]ho foram confumindo pouco a pouco. E 
iíTo que entáo poderia ter , Ihe tomou a mu- 
Iher , que eftava amancebada com hum gen- 
ro feu , cafado com huma filha da outra mu- 
Iher, queeftando elle doente, fogíram com 
tudo o que puderam haver ás mSos , que ain- 
da fói huma boa quantidade deouro» e pe- 
draria. 

Tan- 



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7^ ASIA DE DiOGO DE CotTTÓ 

l'anto que Luiz de Mello da Silva che- 
gou á fortaleza, como diziamos, foi rece* 
bido com grande alvorojo , porque eftavatn 
todos multo attribulados com a nova da li- 
ga , e mandou varar a Armada á porta da 
fortaleza , e cubrilla por caufa da inverna- 
da , e tomoq poíl'e das tranqueiras , que cer- 
cavam a povoa^ao de fóra , que eram de 
taipas muito fracas, com alguns andaimos, 
e gaaritas , e repartió por ellas todas os Ca- 
pitáes de fuá companhia, e que haviam de 
dar mezas aos foldados , que eram quatro. 
D. Antonio de Vilhena Manoel , Jeronymo 
de Sá, filho de Gafpar Gonjalves de Riba 
fria , Porteiro da Cámara de ElRey , Ma- 
noel TravaíTos , e outro , a que nao adia- 
mos o nome. Eftes fe agazalháram em cafas 
pegadas ás fuas eílaocias , e guaritas, pera 
pellas darem mezas a feus foldados , e Luiz 
de Mello da Silva ficou de fóra com feflen- 
ta foldados pera acudir aonde foíTe neceíTa- 
rio. E mandou logo reformar , e repairar 
as tranqueiras o melhor que pode fer , fican- 
do D. Payo de Noronha na fortaleza com 
alguns criados , e cafados velhos. Nicore 
Guaripo , tanto que foube da chegada de 
Luiz de Mello da Silva , logo o mandou 
avifar , que eñiveíTe preparado , porque mui- 
to cedo o haviam de comraetter de noite , 
mandando-lhe offerecer tudo o de que tiveC- 

fe 



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Dec. vil Liv. vil Cap. IIL 77 

íe neceffidade. E affim de noíte á formíga 
niettíam ñas tranqueiras tudo o que Ihe pe- 
diam , o que Ihe Luiz de Mello da Silva 
foube mui bem agradecer , e pagar. O Ade 
Rajao cabera defta liga , depois que fentio 
ElRey defgoftofo , e quafí aíFrontado do 
ruim modo que D. Payo de Noronha teve 
fempre* com elle , nao perdendo a occafiáo , 
o foi accender mais em ira contra os noC- 
fos , promettendo-lhe de Ihe entregar ñas 
maos aquella fortaleza com toda a artilhe* 
ria, homens, mulheres , e meninos, orna- 
mentos , e prata dos Templos 5 e com a cu- 
bija deílas couf^s fe offereceo a entrar na 
l^g^ > já Ru^ ^ ^^^ Rajao tinha mettido 
nella o Camorim y e quaíl todos os Reys 
do Malavar, a quem peitou pera iflb grof- 
famente , porque efiava muito rico ; e aíEm 
Ihe mandáram todos muita gente, e o aju* 
dáram com petrechos , municdes , e tudo o 
mais que Ihe foi neceíTario pera aefcala da* 
quella fortaleza , porque determinava elle 
de levar por aíTalto as tranqueiras , pera de- 
pois baterem á fortaleza i fuá vóntade. 

Eftando já preñes de tudo , fendo quin- 
ze dias do mez de Maio, no quarto d'al- 
va fahio da íua Cidade o Ade Rajao com 
toda a potencia dos Mouros , eMalavares, 
(que fe afiirma ferem mais de cem mil Mou- 
ros , e Nayrcs , em que entravam dez mil 

cf- 



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7? ASÍA DE DiOGO DE COXTTO 

efpingardas , ) e cotn todo aquellé poder ro* 
deáram as tranqueiras defdo mar até o Moí^- 
teiro deS. Francifco, e arremettéram todos 
de tropel a ellas coro tao efpantolos gritos , 
huivos , e alaridos , que parecía a térra fe 
fundía , arvorando por toda ella nauitas eP* 
cadas , por onde os mais atrevidos fubíram , 
e fe puzeram em ílma y e as entravatn pela 
parte em que pouíava D. Antonio de Vilhe- 
na Manoel , e deram logo comfigo no quin- 
tal das fuas caías pera fuá deftrui^o. Os 
noflbs , que já eftavam fobre avifo em íilen- 
cio , ao terror daquellas vozes leváram as 
máos ás armas , e acudíram a fuas eftancias , 
onde acháram já os inimigos apoíTados del- 
las : o que tiveram por tamanha affronta , 
que fem recearem o poder, nem Ihescaufar 
efpanto os grandes terremotos que ouyiam, 
remettéram a elies, etraváram numa afpera 
batalha em íima das tranqueiras. Luiz de 
Mello da Silva acudió logo com a bandei- 
ra de Chrifto, e com a doRume, que ha- 
▼ía pouco tinha tomado , e desbaratado, 
( que era de tafetá verde muito grande , ) c 
3s mandou por ambas em hum cubello , a 
de Chrifto arvorada, e a outra abatida , e 
lanzada pera fóra pera quebrantar com ella 
os ánimos dos inimigosr E deixando aquel* 
le cubello feguro , foi correr todas as tran- 
queiras , chamando ^ e comeando os Capí* 



taes. 



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Dec. vil Liv. VII. Cap. III. 79 

táes , e animando os Toldados y que achou to« 
dos com lamanho furor, que muiros delles 
efiavam detrás dos que pelejavam pelas fe- 
teiras , por nao caberem. E como aquelles 
defparavam fuas efpingardas no cardume dos 
Mouros ) os outros Ihes pediam por amor 
de Déos y que em quanto elles tornavam a 
carregar , Ihes deixaíTem matar alguns da- 
queJles inimigos. Mas cfiavam os outros táo 
íoíFregos , que nem eíTe pequeño tempo Ibes 
queriam dar y jporque nao faziam mais que 
carregar , e delcarregar pelas feteiras j e co- 
mo davam na multidáo dos Mouros , nSo 
havia pera que apontar ; porque pera onde 
quer que foíle o pdouro , dava nos Mouros y 
c os hia derribando y e fazendo nelles gran- 
de eflrago. D* Amonio de Vilhena Manoel , 
que ao primeiro rebate acudió á fuá efian- 
cia y e deo com os feus quintaes cheios de 
Mouros y remettendo a elles com íincoenta 
Toldados que tinha , travou huma muito 
cruel , « arriícada batalha , em que elle , e 
todos os feus foldados pelejáram com tanto 
valor, eesfor^, que paíTáram pelas efpadas 
os mais. dos inimigos, enáo Ihes efcapáram 
íenáo poucos , que fe lan^áram das traoquei- 
ras abaixo. C^ Mouros , que efiaram derre* 
dor das taipas , eram tantos , e ellas toes y 
que em partes Ihes puzeram os hombros, 
e deram. com ellas dentro y como fizeram na 

ef- 



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8o ASIA DE DiOGO DE COUTO 

eñancía de Manoel TravaíTos , onde fícáram 
pelejando de barba a barba huns com os 
outros , fazendo os nodos fa^anhas muito 
pera notar, e invejar, e que nos nao atre^ 
vemos a contar , nem engrandecer como 
merecem. E outras partes houve , em que 
os Mouros varara m as tranqueiras com as 
fuas langas y que eram compridas , e tezas ; 
de mancira , que fe pode dizer , que antro 
os noíTos quinhentos Toldados , e cem mil 
dos Mouros, nao havia coufa alguma, por- 
que todos pelejavam á efpada , e muitas ve^ 
zes vinham a bracos huns com os outros. 
A grita era tamanha , os alaridos taes , o 
terremoto das armas táo temerofo, o enroña- 
do da efpingardaría táo efpantofo , que pa- 
recía que fe acaba va o mundo. E juntamen- 
te com ido as chammas , e labaredas das 
panellas de pólvora de huma , e da outra 
parte táo grandes , e táo medonhas , que fu- 
biam ao Ceb , e aífim alumiavam as tran- 
queiras , e dentro na fortaleza , como fe fo- 
ra claro dia. O que tudo caufava tamanho 
medo , e efpanto , que andavam as mulheres 
pelas rúas defcabelladas , e defcal$:as , de 
Igreja emlgreja ,pedindo a Déos mifericor- 
dia , com os olhos feitos humas fontes de 
Ja^rimas. E os Religiofos de S. Francifco 
poílos em ora^áo diante do Santiílimo , e 
Divino Sacramento com muitas lagrimas en- 

com- 



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Deg. vil Liv. vn. Ca>. IIL* 2t 

tfomtnendavam a Déos aquelle negoeio i • 
affirma-fe que huiti delles vira em o tirante 
da Igreja o Efpirito Santo em figura de 
iPomba^ mui luzente, e refplandecente » ^ 
que aquella visáo alevantára a voz, e cha« 
mára pelos Religiofos que a viflem. E dan* 
fio com ifto hum npvo fervor a todos ^ roo? 
vidos do Divino Efpirito , alevantáram hum 
Crucifixo em huma haftea alta ; e fahindo 
da fortaleza ^ fe foram metter no meló dft 
batalba , come^ando a esforzar ^ e animar oa 
ooíTos , affirmando-ihes que o Efpirito Saihf 
to andava antre elles em fcu favor , e ajuda^ 
Vendo os foldados a figura de Chrifto 
crucificado alevantada no ar » e ouvindo to« 
dos oque os Religiofos diziam, dando*! hes 
huma, nova furia 5 foram»fe alguns ao Ca^ 

Í)itáo mor , e pediram*lhe , que Ihes défle 
iceiifa pera fahiretti das tranqueiras ^ e irem 
pelejar com os inimigos ao campo largo.^ 
pera mais á fuá vontade , e fem impedimen* 
to fe. fatisfazerem delles^ poistinham aDeo$ 
por fi. Luiz de Mello da Silva Ihes louvott 
tnuito aquelle animo com mui honradas p»f 
lavras ; mas pedio-lhes que fe quietaflem 
com as mercés de Déos ^ e com o grande 
eftrago ^ q«ie tinham feito nos Mouros. S 
tornando^fe todos ás tranqueiras ^ puzeramr 
fe ao encontró dos inimigos , em quem fize* 
ram tamas crueldades y que quafi elles me& 
Cmo.Tm.lF.P.it. t, mos 



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Si A5IA DE DiOQO DE COUTO 

11106 íe cofKpadedílin delles ; porque fubi^ 
dos muiros em íima das taipas , deícubertos 
ás nuvens de frécbas , fettas , e pelouros, 
lan^avam íbbre aquella multidáo de Mouros 
nmco fogo , tamas pedras , e tantos outros 
iü^uKíentos de mane que era efpanco , abra* 
zdfido , derribando , e efpedagando tantos » 
«fue tinfaam feito hum entulho de corpos 
múnos , quaíi tac airo como as taipas* An- 
iré rodos efles fe aíTinalou iríais hum Fran- 
eifco Rucado , que fem temor de quantos 
titti^ eabiam fobre os noflfos , andou fempre 
correñdo por íima da taipa, appellidando o 
A^ftolo Santiago; e abra2ando os Mou* 
rOs coffl fogo de multas panellas de polvo* 
ttk , que fobre elles lan^ou , cujas labaredas 
feeraiff nelles muito grandes eftragos , e in- 
ceadiod.. 

Luiz de Melló da Silva moftrou bem 
iiefte din os quilates de feu esforzó , e o 
toque de fuá grande prudencia ; porque quan^* 
do Ibe era Becefiario pelejar , o fez como 
llttmCeBir; equando Ihe coflviiiha mandar^ 
e gotetñut ) o fazia com tanta ordem , e quie^ 
fS^ib, que ftada o petturbava, e nada fal- 
taba. Em ñm por n^ contarmos tantos go^ 
ípes , e fMids parricularidtfdei» , e cafog pera 
netút, queflite ntiof^emo» engrandecer co^ 
mo mcrtcem^ paflemos por todo» ^ di^endo 
fámtm ^n» a^ imga dtirotí d«fde üs Mari* 



MS, 



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DEa VIL Liv. VIL Cap. IIL gj 

ñas , que era is quatro horas de pela ma* 
fihá , até as quatro dá tarde 5 cm que ot 
Mouros fe recolhéram por iá nSb poderem 
com tamanho ettrago , e dcftrui^áo ^ deixan* 
do o campo todo aladrado , íemeado , t 
cheio de corpos efpeda^ados ^ e abrazados , 
a fóra muiros que leváraiñ j e tinham reco^ 
Ihidos. Affirma-fe perderem-fe nefta bacalha 
quinze mil Mduros ; e nSo podiam íer tne^ 
nos , pelo eftrago oue feiscemas efpingardas 
])odiam fazer em aoze horas , que íediprd 
tiráram em roda vif a , fem nunca perderem 
tiro ; e muiros houve ^ eih que St derriba^ 
ram dous , e tres de hum fó , a fóra oíais de 
quinhentas panelias de pólvora , e outrna 
muitos géneros demdrtes^ que todos fént» 
pregáram niuiro bem^ 

Kecolhidos os MourOs , e defaíTombr»» 
dos OS nodos , (que ficáram íoám bánhados 
em fangue , e fuor y e abrazados de m^ ^ 
pés , e roílos , de maneira que pareciaiñ alar^ 
▼es , ) ordenou o Capitulo mor com os Pa* 
dres de S. Francifco , que alli eftaraiti troiti 
o Crucifixo arvorado , huma Prociísáo , em 

2ue fe achiram todos , aíGiii como fahíram 
a batalha, fem íe quererem ir cufar osfe* 
ridos, e foram a noíTa Senbora dá Vitoria 
a dar-lhe grabas por aquella tamaDha, etáo 
admiravel , que Inés feu preciofo Filbo deo. 
£ entrando ^ela fortaleza , acudíram asmo* 
V F ii Ihc- 



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$4 ASIA DE DlOGODk COUTO 

Iheres affim defcal^as , e deicabeiladas como 
andavam , e os velhos , e meninos ; e os 
prantos que faziam , e as lagrimas que até 
entáo derramáram y com que pediam miferi- 
cordia ao Senhor , as convertéram em La* 
dainhas, e em louvores detamanba mercé, 
com tantas mais lagrimas , e folu^ por fe 
verem liares, que quaíi interrompiam , eper- 
vertiam a ordem das Ladainhas. 

Paflado ifto y fe tornou o Capitáo mor 
ás tranqueiras , e mandou enterrar alguns 
mortos dos noflbs , que nao paflaram de 
vinte e finco , e fez logo renovar , e repai* 
xar as taipas , e guaritas o mais depreíTa que 
pode ícr, fem defpirem as armas ; porque 
Je osinimigos os tomaíTem accommetter , os 
nao achaflíem táo desbaratados como (icá<^ 
ram y porque quafi rudo eftava razo. Mas 
elles pelo grande eftrago que viram em os 
feus, íicáram táo cortados demedo donol^ 
fo ferro , que desfizeram logo a liga , e os 
lioípedes íe foram pera fuas térras , choran^ 
do fuá trifle forte y e deláventura ; porque 
nao houve aldea em todo o Malavar , em 
aue nSo houveífe prantos , e lagrimas do 
íentimento daquella perda. E tanto quehum 
Mouro da poroa9ao de Chomomba , que 
tinha viudo aquella guerra com quatro & 
Ihos , todos perdeo naquelle combate ; e pri-» 
metro^ que fe. embarcaUe. fol ter com Ade 

Sla. 



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Dec. VII. Liv. VIL Cap. ÍII. 8y 

Rajao, e Ihefez huma breve falla, em quQ 
o perfuadio a ter fempre paz com os Por« 
tuguezes , apontando*lhe muitos bens que 
della refiíltavam , e os grandes damnos que 
da guerra com elles fuccediam ; de que Iho 
nao dava mais exempio, queemíi proprio, 
porque ehegára alli de fuá térra com qua- 
tro filhos , e fe rccolhia fem nenhttm dek 
les, porque todos Ihematáram os Portugués 
zes, e que viíTe bcm o que feria nos mais* 
Todavía a térra ficou aflim de guerra , que 
o Ade Rajao foi fuftentando todo o inver^ 
Bo ; mas nao houve em todo elle coufa no« 
tavel , de que podamos fazer memoria , pa& 
fando todo em analtos de pouco momento* 

C A P I T U L O IV. 

Do que mais aconteceo por todo ejle veraa 
na Etbiopia , ñas guerras que aquelle Ent" 
per ador tinha com os Mouros , e com hun}s 
Cafres chamados Gaitas : e de algumas 
pr áticas que o Emperador teve com ó 
Bifpo [obre as coufas da wjfa Reügiao 
Ckrijia^ 

POucos dias depois dos noílos chegados^ 
á Corte , fem o Bifpo ter entrado em 
negocio alguníi , chegáram novas , que a 
Baxá do Turco com cento de cavallo , e 
quatrocei)tos de pé.^ que deix^mps em Ma« 
< *. juá, 



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86 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

fuá , fora caminhando pera Baroá ; e qué 
em hutn paíTo tivera huma bataliía com o 
Barnagais, em que o Turco Ihe matara muw 
fa gente , e hum irmáo do Capitao Ifaac 
chamado Agaba , (que fora muitos annos Bar* 
pagáis , ) e que com ella vitoría chegára o 
Turco a Baroá , e fe Ihe defpcjára a terra« 
Juntamente com efias novas cbegáram ou-^ 
tras , que os Cafres Gallas eram entrados 
pelas Provincias do Emperador , prilicipai* 
mente pela de Balé, e que andavam fazen* 
do grandes damnos » e deftrui^des. ( Nefta 
Provbcia Balé tem os Abexins por fuas eí* 
erituras , que o Apodólo , e Evangelííla S« 
Mattheus andám pregando o Evangelho) 
Todas eflas novas entriñecéram muíto a to- 
dos, e logo tratpu o Emperador de acudir 
em peíToa aos Gallas , defpedindo com mula- 
ta prefla o Capitao Ifaac, dando-lhe bandei- 
ra de General da empresa contra os Tur- 
cos , e Ihe mandou que foíle fazendo toda 
a g^n^^ que pudeífe pelas térras por onde 
paflaffe , a fóra a que Ihe elle deo, 

E porque o Emperador tratava de íe 
partir logo pera a Provincia de Balé, e era 
CBtf ada oe Jünho , em que o invernó come- 
fa naqufllas partes , aílentou c que foííe a 
9 Rainha fuá mulher , e o Bifpo com os 
1 Porcugu^es , invernar na Provincia cha- 
1 mada Hojié^ por jfer fertilUCma , e onde 

> o 



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Dec. vil Liv- vil Cap. IV. «7 

» o Bifpo tinha bon$ Pa^os , e jardins frcí^ 
» quíílimos ; mandando a hum dos feus pria* 
> cipaes , que fe chamava Adiaes ( que axi^ 
» dára com a Rainiía velha no campo de 
» D. Chriftováo da Gama) pera que cornea 
» fe com o Bifpo, e mais Poituguezes em 
}í fuas defpezas , e ordinarias , e pera Ihet 
» fazerem apofento^ , como fizeram « e ñd* 
}i ram alli grande parte do invernó , mui 
^ quietos, e bem próvidos de todas iscoii'* 
» las. » 

Partida a Rainha , e o Bífpo , logo o 
Emperador fe poz a caminho com todo fea 
campo , levando em fuá companhia £bs eAes 
Portuguezes : Gafpar de Soufa de Li^na, 
Gonzalo Soares Cardim , Antonio de S^oi«- 

Íaío, Joáo Gon^alves , Diogo da F^Hifeoí 
.eite do Porto , Francifco Nogueira , Joáo 
Alonfo, natural de Toledo, cLopb ác Al- 
manta Gallego. E aíHm foi casiid^ndo por 
humas campiñas larguillimas , e chcgár^un a 
hum lago de ^ua lalobra de íe¿s teguas 
em circuito , que tem em fi hunsa liba ^ eojí 
que eílá hum Modeiro de Frades , onde eT- 
tam enterrados muitos do^Eiaperadonespaf- 
fados. Dalli foi o Emperador eaminhaodo 
pera a Provincia Hadiau , que era ée M 011^ 
ros , que eftavam rebelados. Sao eftas ffs» 
res barbariflimas , e cavalgam em cavalios^ 
comp Gallegos em oSa > c txaz cada hom 
, . fin^ 



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8B ASIA DE DfOdO DE COUTO 

finco , feis jargunchos , ou azagaias , com 
oue tiraoi de arremeíTo , e fazem tamaohos 
tiros que efpantáram os noíTos» 

O Emperador entrou por eíla Provincia , 
e fez nos Mouros grandes cruezas > e de& 
truicées , e dalli fe paíTou a huma térra , que 
ie cnama Gazé, mais pera o Sertáo, onde 
affirmam os que tí foram , aue havia huma 
eftrada muito corrente pera Melinde. Aqui 
l^aíTou o Emperador tres mezes do invernó , 
muito temperado , e em Agofto fe levanta 
fou, e tornou a voltar pera fuá cafa , por 
ferem já os Cafres Gallas recolhidos , e al^ 
guns que acbou foram efpe^ados , e mor* 
xos f e de paflfagem foram dar em outro h^ 

So , que ferá de tres leguas , que traz gran* 
e quantidade de peixes ; e dia da Pegolla* 
^o de S. Joáo Baptjíla chegáram á Provin* 
cia de Hojé, onde eftavam a Rainha, e o 
Bifpo f que com todos os Portuguezes os 
fáhio a receber com grandj^ feftas , e elle 
fe recolheo em feus Pagos ^ onde «Heve al* 

f;uns dias encerrado i defcangando do traba* 
ho da jornada, E podo que o Bifpo fora 
fempre bem próvido , mandouElRey, de* 
póis que velo , que Ihe deíTem hqm marco 
de ouro cada mez pera fuá pefiba , e pera 
cada foldado , e criado feu huma onga , por^ 
^p muito bailante pera a barateza da térra , 
fftx que correm pqrmoeda buiQ^s barras de 



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Dec VIL'Liv. Vn. Cap. IV. 89 

ferra de hum palmo e meio de cooiprido ; 
e dous dedos e meio de largo , c turadas 
por huma cabega , por onde fe penduram y 
e fete deftas vaiem hum pardao de ouro , e 
fó nefta Provincia correm. Mas a moeda 
mais corrente , com quie fe compra tudo ñas 
mais das Provincias do Sertáo , he o fal , 
que todo he em pedra , e huma ^e hum pal- 
mo de comprido , e tres dedos de largo , 
val bum Drimi , e por duas deftas compra 
hum Toldado trigo , que Ihe bafta pera hum 
mez , e por huma , cevada pera a muía y e 
por outra , carne , que o fuftenta huma fema-^ 
na , e quatro , íinco , feis galHnhas por ou^ 
tras , e os ovos oitenta , noventa , e huma 

{grande quantidade de manteiga , e muhos 
imóes, peixe , choupas , e vinho o mais 
caro , oito cañadas a pedra y e aílim todas 
as mais coufas defta forte. 

E tornando ao Emperador. Depois de 
defcan^ar alguns días , mandou chamar o 
Bifpo , que toi acompanhado dos Padres , e 
dos Portuguezes ; e depois de alguma pe* 
quena converfa^áo , mandou o Emperador 
defpejar todos , até os Padres ; e iicando fó 
com o Bifpo , tratáram fobre coufas da Eí* 
critura , em que o EmperadQr era muito li« 
do, c o que paíTáram nao fe foube , mais 
que fahir-fe o Bifpo mui apaixonado , edi^ 
wr contra os Padres : Grande ber€ge k^ tfi^ 



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5K) ASIA DE DiOGO DE COUTO 

tff bamem , e aíOoi fe recolhéram , e em ca^ 
fa daría o Bifpo relagáo de tudo oque pa& 
fáram* Dcpoís difto mandou o Emperador 
convidar o Bifpo pera ver a fuá MiíTa , e 
cftar a fuas ceremonias ; o que elle fez , le- 
vando codos os Portuguezes comíigo , e foi 
i Igrcja, (que era doOrago de S. Jorge,) 
onde eftiveram ao Oíficio , o Bifpo fempre 
de giolhofi , e os Portuguezes fempre em pé ^ 
por Iho elle mandar aiBm , e defender que 
nao fizeíT^m adorá^áo alguma , nem mofiras 
de devo^ao. O Emperador difle a Epiílola , 
fendo fepíipre huma cortina diante, porque 
o nao yittem i do que o Bifpo ficou trifte » 
c defcontente , por entender que teria traba- 
Iho em o trazer aos coílumes da Igreja Ro- 
mana ; nem o Emperador eftava fatisfeito 
do Bifpo por fuá liberdade ; e aílim pouco ^ 
e pouco veio a tomar algum aborrecimento 
aos Portuguezes, lem quem nao podia dar 
hum paíTo. 

Aqui eftiveram até á entrada de Outu^p 
bro , fazendo o Bifpo niuito bcm feu offi» 
ció , e apertando com o Emperador fobre 
as coufas da Religiáo Chriílá, defenganan^ 
do*o que vivia errado , c herege. 

Vendo todavía o Bifpo a contumacia do 
Emperador , mandou publicar huma carta 
de excommunháo contra todos os Portugue-* 
zes que o fervií£?m, pelo ha ver por fciíma* 

ti- 



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^ _. i 



Dec. vil Liv. vil Caí. IV. pr 

tico , e maldito : do que fe elle indignou 
tanto , que logo alevantou o campo , dizetn 
do, que hia bufcar os Turcos, íicando alli 
o Bifpo com os que vieram com elle da In-* 
dia« O Emperador fe pafibu ao lugar de 
Como , onde a Rainha fuá mái fe foi ver 
com elle , que havia muiros tempos que an*» 
da va arrufada dofílho por humas térras , que 
elle tinha tomado a hum Senhor chamado 
Xumo Cafalou , cafado com huma irmá da 
Rainha chamada Ithiezama, Senhora muito 
formofa , e que fe prezava de fallar bem 
Portuguez , que andou fempre na compa« 
nhia da Irma , no exercito de D. Chriftováo 
da Gama. Trazia a Rainha comílgo oútro 
íilho mais mo^o que o Emperador , chama- 
do Minas, que havia de íucceder no Rey- 
no, por feu irmao nao ter iilhos. E toda- 
via pofto que o Emperador fez grande rece- 
bimento á mái , ella ie nao quiz reconciliar 
cora elle. 

Aqui chegáram novas , que o Ifaac , que 
o Emperador tinha defpedido contra os 
Turcos , que eflava em Baroá , alcangára 
huma grande vitoria de huma 3enhora Mou- 
ra chamada Gahoa. Efte Ifaac , depois que 
o Emperador o defpedio contra os Turcos , 
foi ajuntando agente que Iheparsceo neceP- 
faria ; e antes de chegar a Baroá , teve por 
non$, qu? l^um fobrinbo deübSenborA cha?» 

ma- 



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92 ASIA DE DiOGO DE CoVTÓ 

mado Habem Dilabo Ihe entrara por fuaisi 
térras com duzentos cavallos ém companhis 
de alguns Turcos ^ que Ihe oBaxá mandou, 
pelo que Ihe fo¡ neceflario acudir lá ; e en- 
contrando-fe com os inimigos , que traziam 
grande prcza ¡unto de hum formofo rio cha- 
mado Tagaze , e fcntindo turvajáo era o^ 
feus , e que mofiravam inedo , defceo-fe da 
cavallo , e tomando huma adarga , e dou9 
dardos , difle aos feus c que quem o quizef- 
» fe feguir o podia fazer , porque elle fe 
» hia metter antre os inimigos. » E aflim 
endireitou pera elles ; e alguns Portuguezes , 
que foram em fuá companhia, o foram fe- 
guindo, e o mefmo fizeram todos os Abe- 
xins. Ecbegando olfaac aos inimigos, dií- 
fe aos Turcos que biam diante : c Ah per- 
» ros , boje he dia , em que bei de tomar 
}í fatisfa^ao da morte de meu írmáo que ma^ 

> taftes y ou tambera o haveis de razer i 

> mira ; mas fabei que vos hei de cufiar ca-^ 
» ro ; » e defpedindo os dardos , atraveílou 
alguns , e os noflbs , que biam a cavalio , rom-^ 
péram era os Turcos, acompanhados deal«- 
guns Abexins , e daquelle primeiro encontró 
derribáram dezoito de cavalio , em que ean 
trou Habem Dilabo , Capitáo da gente dai 
Moura, de que atrás fallamos , e os mais 
fe puzeram em desbarato , deixando a pre^ 
2a ñas maos do Ifaac , que logo vircu aa 

ban^ 



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Dec. YIL Liv. vil C a?. IV. 93 

bandeiras contra as térras da Moura , que o 
efperou < cpm muita gente. Mas como os 
Abexins hiam já com o medo perdido y lo* 
£o a desbarataran! com morte da mor parte 
dos feus, eclla ie foi fogindo pera Baroá^ 
onde o Baxá a recebeo bem , e Ihe promet^ 
teo ajuda, e vingan^a. Olíaac ficou fenho^ 
reando as térras , em que o delxaremos por 
tornarmos ao Bifpo. 

Vendo elle o modo daquelle Empera- 
dor, determinou demandar recado á India , 
pera o que fe Ihe ofFereceo hum Mícer Bar- 
tholomeu Neapolitano , grande Medico , pe* 
ra fazer aquella jornada porZeilá, e levoú 
por guia hum Mouro , que rinha alli fuá 
mulher , e filhos , e por elle efcreveo o BiC» 

E> ao Govemador , e Patriarca tudo o que 
e tinha fuccedido. Chegado eñe homem a 
Zeilá , o deCcubrio o mefmo Mouro áquelle 
Rey , que o mandou levar diante de fi , e o 
perfuadio que fe fizefle Mouro , oíIere,cendo« 
Ihe grandes partidos de térras , e honras^ 
que elle engeitou como Catholico Chriftáa 
que era : pelo que Ihe mandou ElRey cor-^ 
lar a cabera , fazendo fuá ditofa alma outra 
tnui differente viagem , da que elle commet-« 
tia , que foi ir*fe aprefentar díame de Déos g 
banhada no frefco fangue, final , e prenda 
de feu gloriofo martyrio. O Mouro depoi© 
que comnietteo efla n}ai4ad«i tornou-fe pe^ 

^ ra 



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94 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

ra onde o Bifpo eñava ; e tomando a mu* 
Iber y e filhos cm muito fegredo ^ os levou 
pera Zeilá. 

CAPITULO V. 

De contó deo huma gravijjfima effermidade 
nos Turcos , de que morréram todos : e 
de como o Bifpo tratou de Je partir pera 
a India pelas poucas ejperancas que ti^ 
nba dá conversao daquelle Emperadora 
e de como fe deixou ficar a rogo dos Por-^ 
tuguezes. 

DEixánios atrás no ultimo Capitulo do 
V« Litro a9 coufas da Ethiopia no 
cunhado do fiaxá do Turco , defembarcado 
em Macuá , com aquelle foccorro $ com que 
ÍQ foí logo ajumar ao cunhado , que deixá-* 
mos em ^oá , com aquella vitoria que al-- 
canf ott do Barnagais , com que ficou táo fo«* 
berbo^ que determinou de paíTar adiante a 
bufcar o Emperador ; e' fe o fizera , fem 
dúvida fe íenhoreára de todo aquelle Impe^ 
rio 9 e que íe acabáram os noíTos que li zn* 
davam , e as efperan^as daquelta Cfariílan* 
dade. Mas como Déos noílo Senhor pare* 
ce que á tem guardada pera ainda a metter 
debaíxo do gremio de fuá IgrejaCatholica^ 
e que 09 tenros filbos dos Portuguezes (qiu3 
paflavam de mil e duzemos) nao vieílem a 

fer 



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Dec. vil Liv. vil Ca?. V. ^f 

Arjaniflaros do Turco, antes fefoíTem ítt& 
tentando com o leke da Fé , permlttio que 
u foberba , c intentos do Baxá fe acabaílem 
de todo ; e foi defla maneira. 

Atrás demos coma no Capitulo VIL do 
IV. Livro j como aquella Senbora Moura 
chamada Gahoa , que o Barnagais desbara- 
tou y ficou de todo quebrada , e fem reme- 
dio , pelo que bouve feu confelho a ie va- 
ler do Baxá do Turco , e pedir-lhe favor ^ 
e ajuda , como fez y promettendo-lhe ella 
grandes theíouros , affirmando-Ibe y que em 
huma Villa fuá tinha enterrado huma gran*» 
de fomma de ouro y com que fe podía fa<» 
2er a defpeza da conquisa daquelle Imperio. 
O Baxá movido , e levado da cubica de tan* 
to ouro , fe Ihe oíFereceo a mettelfa de pa^ 
fe das fuas terrais y pera onde logo fe fea; 
preíles , e Ihe pedio peíToas y que labiam do 
thefouro, pera o encaminharem -y porque por 
íe nao fiar della y a deixou na fortaleza ent 
guarda de quinhentos Turcos , e elle com 
toda a mais gente fe poz a cáminho. £ por^ 
que havia depaífar pelas térras de hunsCa^ 
fres muito bellicofos , Ibes mandou diante 
recado , que Ibe nSo impediiTem a paítagei» ^ 
porque tÁo queria com elles íen&o paz , d 
amizade , o que Utes elles acCeitáram; ecbe^ 
gando it térras da Moura ,. achou o Baxá 
a thefoitfo que hia buibar. £ como Uio era 

cm 



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^6 AISIA üE ETioGo Dfc Coufb 

ém Abril , que o Sol hia pera o Tropied 
de Cancro , e os raios cómecáram a eícalf 
dar a térra , e com iíTo os Turcos por na% 
tureza comiI6es, e defarraojados eni tudo^ 
fñettéram«*fe naquellas carnes , e leites , de 
que a térra era muito abañada , e abundan^ 
te, de forte que deram nelles as febres tao 
fijas , que em tres días os mata va , e em 
poucos morréram mais de quinhentos del» 
íes , com o que o Baxá fe vio táo aíFom^ 
brado , que fe poz em fogida , indo já to« 
cado de mal contagiofo , e todos os feus , 
que pelos caminhos Ihe foram íicandp^pou* 
eos , e poucos ás fombras das arvores , oii* 
de fe defciam , e afpiravam , e os ca vatios 
hiam fogindo por eíTes defertos , como de& 
atinados. £ chegou o mal a tamo, que de 
todos nao ficáram com oBaxá mais decem 
Turcos , e eíTes taes que pareciam. mortos; 
Pelo que receando-fe que fe tornaíTe pela 
térra dos Cafres , o mataíTem pelo roubar » 
deovoltapera ocaminho deSuaquem, aon* 
de chegou mal , e com muito poucos.. Eftas 
novas chegáram a Baroá ao cunhado do Ba^ 
xá , que Ihas deo hum peáo , que pera lá 
foi fogindo; e poz-lhe ifto táo grande me*» 
do , que largando tudo , fe acolhéram todos 
com o que puderam levar de máo , deixan? 
do toda a artilheria, muni^Óes, e thefourqs 
que tinham ^ que eram mnitos > e como liiam 
: >; fem 



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Dkc. VII. Liv. VIL Caí. V. 97 

iem ordem , deram nelles os da térra , e 
fneccéram todos á cfpada , iem eícapar maig 
que o Capitáo em hum cavallo ru(Q inuito 
formofo; e foi o defpojo^ e riqueza tanca, 
que fe aSirnia paíTar de tres inilhóes de ou^ 
ro ; e dizem que huma mulher Abexim , in* 
do por hum caminho > achara huma azema«* 
la íolta , que ficou da companhia ú,o$ Tur* 
eos , e tinha dous alforges grandes | hum 
cheJo de ouro » e outro de prata , e huma 
Caba^ra carmefim forrada de martas ^ e hu*^ 
ma elpada com toda fuá guarni^áo de pra- 
ta i e que aíüm como eílava a dera a num 
peregrino , que a levou ao Barnagais ^ e que 
tomara ella o ouro ^ e as pegas , e a prata 
toda dera ao peregrino. Os da térra acháram 
muito ouro pelas cintas dosmortos, queha« 
via pelos campos ; e hum Frade Abexim 
paíTando hum rio peque^io a váo ^ deo com 
os pés em hum caldciráo , que efiava cheio 
de ouro , quanto eiie podia alevántar. 

Com efta mcrcé de Déos táo grande totv 
náram as coufas daquelle Reyno a melhoc 
efiado : e efta era a gente fem nome , que 
os Aurifpices diíFeram ao Emperador que 
harta de desbaratar os Turcos ; mas na ver* 
dade nao foi fenao a poderofa máo de Déos , 
que pelas orajóes do Bifpo , e mais Reli- 
giofos quiz elle atalhar a tantos damnos^ 
cuantos fe efperavam. 
Couto.TonuIF.EiI. G Ef- 



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yS ASIA DB DioGO DE Coüto 

Eftas novas chegáram á Corre , com o 
que houve grandes feftas , e o Bifpo , e Pa^ 
dres offcrecéram ao altiíTimo Déos folemnes 
íacrifícios, e ora^Ses por tao grande mercé. 
E como o Biípo andava muito defcontente 
do Emperador , vendo agora os caminhos 
deíimpedidos , e o pouco fruito que fazia 
naquella térra , trarou de fe partir pera a Iq* 
dia , porque havia que fem düvida Ihe man* 
daría o Governador navios , como ihe tinha 
promectido : queixando-fe publicamente de 
Gafpar de Soula , Capitao dos Portugue/es , 
entendendo que por fuá culpa deixava o£m« 
perador de íe fazer Catholico ; ou ao menos 
le Iho nSo eftorvava , nao achava o Bifpo 
nelle a ajuda que quería. E querendo por 
em eíFeico efta íua ida , acudirá m os princi* 
paes Porruguezes de todos , e eftes foram 
Gon9aIo Ferreira , Simáo do Soveral y 
Chriftováo Nunes , Antonio Vaz , Juzarte 
Madeira , Joáo Gonfalves , Jorge Nogueira , 
PeroLeao, e todos fe Ihelan^áram aospés^ 
e Ihc pcdíram com muitas lagrimas que os 
nao defamparaíTe , porque eftavam com fuas 
mulheres , e filhos, e fuas familias , e fica- 
riam todos (fe fe elle foíTe) arrifcados aper- 
derem as almas , e apoñatarem ; e que aínda 
que nao íizera naquella térra mais , que fuf* 
tentar aquella pequeña ChriSandade , havia 
de haver por bem empregado feu trabalho. 

Tan- 



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Déc. vil Liv* Vil. Cap. V. 99 

Tantas coufas IhediíTeram fobre ifto, etan* 
tos proteftos Ihc fizeram , que o movéram a 
compaixao^ edeíittio dajornada« Ainda que 
todavía de enfadada do Emperador , deter-^ 
minou de fe apartar del le , e fe foi pera o 
lugar do Decomo ^ onde PelT> LeSo o le^ 
vou ) e fez i fuá cufia huma devota Igreja 
em huma rocha viva^ que oBifpo benzeo, 
e dedicou ao Apoftolo S. Pedro ^ onde con* 
cbrriam todos os Catholicos aos Domingos ^ 
e Santos a ouvir MiíTa , e á doutritia ^ e de 
muito longe vinham alguns íiaturdes Catho* 
lieos com feus prefentes aoBifpO) que pclz 
devo^áo) quevianelles, havia porbem em"* 
pregada fuá eSada ; e andava com iílo táa 
conibiado que eftava determinado de fe dei-< 
xar allí iicar toda fuá vidat pelo que come«^ 
fou a ordenar cafas pera feu recolhimento f 
e nao andar mais inquieto* Aqui o deixarC'^ 
IROS por hum pouco. 



G ií CA- 



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JOO ASIA DE DiOGO DE CoUTO 

CAPITULO VI. 

Do que acottteceo a D. Alvaro da SUveira 
noEJlreitoi e das coufas que mais Jucce^ 
diram naEthiopia^x e das guerras que fe 
levantdram , em que o Emperador foimor-^ 
to : e do que mais fuccedeo no Imperio. 

HE neceíTario contlnuarmos com D. AU 
varo da Silreira , que deixámos partí* 
do d^ DstíOíáo j no Capitulo VIL do VL 
Livro , porque parece que nos hiamos já 
deícuidanda delle ; mas nao pode fer menos 
pelas muítas coufas que fuccedéram. Partí* 
do cfte Capitáo de Daniáo , (como atrás le^ 
mos dito , ) foi atraveíTando o golfo com 
tempo táo rijo, que fe abrió a fuña de S&* 
I^aíliáo de Soufa de Abreu , a quem D. AU 
varo acudió , e Ihe tomou a gente , e a fuí^- 
ta com os márinheiros tornou a voltar pera 
Goa. A mais Armada foi feguindo feu ca- 
minho até haver vifta da coda de Arabia , 
e de longo della foi demandar a boca do 
Eftreito , por onde entrou ; e de algumas 

Í^elvas y que os navios de remo tomáram y 
bube o Capitáo mor que no porto de Mo- 
ca íicavam quatro gales , que eram as que 
o Cafar tinha pera fahir fóra do EOreito is 
prezas , e que eftavam já em o Canal préC- 
tes^ e negociadas pera fazer viagem. 
'^-~*i •'' Sa- 



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Decí. VII. Liv. VII. Cap. VL iol 

Sabidas eñas novas, niandou D.Alvaro 
da Silveira chamar os Capicáes a confelho^ 
c Ihcs moftrou o regimentó do Vifo-Rey, 
em que Ibe mandava , que trabalhafle jpof 
queimar aquellas gales , aínda que eftiveífem 
varadas , e que foíTe neceflario entrar naqueU 
Je porto. E depois de fe praticar fobre iflo , 
eíéapontarem os inconvenientes que havia^ 
fe aílcntou , que fe cumpriíTe ó regimentó y 
e que entraífem apelejar com ásgales; por-^ 
que fegundo a inrorma^ao dos das gelvás ^ 
o poderiam fazer muito fácilmente, porque 
traziam Pilotos daquelles Canaes. E aindá 
foram alguns de parecer , que tomando á$ 
gales , foíTem defembarcar naquella Cidade ^ 
e Ihe puzeíTem fogo , porque pela informa^ 
^io quedella tinham, náohavia nella poder 
pera Iho defenderem. 

Afiéntado ifto , fizeram-fe todos preftes j 
c foram demandar o porto de Moca, aonde 
chegáram com alguns navios menos , por fe 
apartarem . com temporaes ^ que ordinaria- 
mcfite fe acham dentro naquelle Eftreito ; e 
fem embargo <lÜTo , determinóu D. Alvaro dá 
Silveira de entrar logó os Canaes , e pera 
iflb fe mudou coili toda ia gente dos galeóes 
aos navios de remo^ e batéis , e-fói paflah- 
do por todas -aquellas voltas, baixos, ereí^ 
tingas.' E indo já no meio 'á vifta das ga« 
les, que eftavan» bem dentro > flhd atiráranl 

el- 



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%e% ASIA DE Dioao de Coutro 

ellas algutnas bombardadas , com que fhes 
^fapparelháram alguna navios, enofeu Ihe 
feríram alguns honiens , e matáram finco , 
ou feis marjnbeiros, E vendo D.Alvaro da 
^ilveira o modo em que as gales eílavafn , 
e que nio podiam fer commettidas fenao 
pela proa , e com os navios a fio pela eílrei- 
teza dos Canaes , receando-fe que o desba* 
racaiTem de todo , primeiro que cbegaíTe a 
ellas 1 tornou a voltar pera fóra , e foi fur* 
gir junco dos galeées. E vendo que alli nao 
tif^ba que fazer , determinou de ir efperar as 
naos de Meca fóra das portas do Éñreito, 
porque andar por dentro delle era perigofo ,^ 
f levou logo ancora, c foi-fe fahindo pera 
9 boca do Edreito , e defpedio os navios dq 
Alvaro Pires de Tavora , FernSo Farto , e 
Gil deGoes, elhesdeo a cada hum feu Abe- 
jcim , que Ibe o Vifo-Rey D, Conftamino 
entregan em Damao , pera que os deitaíTcm 
^m Magua com cartas pera o Bifpo , e pera 
o Emperador, dp Pr^fte, e Ibes deo por re» 

Íjimento, qae fetornaíTem aajutóar com elr 
c fóra das. portas do Eüceito , onde bavia 
de eftar .até. todo a ínez de MarjOt 

PaFtídos eíles navios, labiorfe a Armada 
pera fóra do.Eftreito, eellies foram airavefc 
¿ndo até .a doíla do ^ Abe^bü. , e cb^áram 
a Magua >;oxi4e ftm. impedimento deitáraní 
i>s Abeíios , e tpruá?«:«^: » voltar pera, O* 

Al- 



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Dec. VII. Liv. VIL Cap. VI. 103 

Alvaro da Silveíra, que efteve naquelk pa^ 
ragem aré auinze de Abril , íem Ihe ir nao 
alguma cahir ñas máos ; c fendo o lempo 
ganado , deram i vela pera Mafcatc ; e aii« 
tes de chegarem ao Cabo deRofaJgate Ihed 
deo hum rexnpo táa rijo , qae Ihes foi íor«» 
fado correretn em poppa coui muito rifco ^ 
c perigo: e o navio de Alvaro Pire© deTa* 
vora, ou foffe por culpa do feu Pilota, ott 
por mais nao poder, foi correndo táo largo 
cotn o vento , ( que era Ponente , ) qué em 
poucos dias foi ha ver viQa da cc^a da 1» 
dia antee Chaul, eDabul, já meado Maio, 
e dalli foi tomar Goa* Os maís. navios fcfam 
íoíFrendo mais os mares , e correndo com 
menos vela ; e depois que a tormenta ceí* 
fou, acháram-fe do Cabo deRofalgate peca 
dentro, eforam* tomar Mafcate, onde aAr- 
mada fe defapparelhon , e oCapítáor mar ftf 
apofentou em térra.,, e ordenou mezas aos 
Ibldados , e Ihes fez pagas , porque pera tu^ 
do Ihe mandou D. Antao d^ Noronha ,. que 
eftava por Capitio tai Ormuz , muito di^ 
nheiro. 

Agora daremos ra:^ das coufas fmnp» 
didas naAbailia, pop nos nao fafainmos del- 
las , já qoe as temos amre maxx. Ncfte Ca* 
pirulo atrás deixámos Bifpo na térra do 
DecomOy na fuá qniieta^o, que' Ihe nao du« 
TOtt muito tempo ,' p09q[ue Ipff} chegácam 

no- 



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104 ASIA DE DiOQO DE CoüTÓ 

novas mui aprefladas , que o Rey dos Má^ 
lafaes (Mouro , que vizinhava com as térras 
do Emperador) tinha mandado hum bom 
exercito com hum Capitáo feu a Ihé conquiC» 
tar as térras de fuas rromeiras , e que vinha 
comten^áo devir bufcar o Emperador, que 
eftava na Provincia de Hojé , e dar«lbe Da«^ 
talha; o que mctteo os nolTos em ramanha 
revoha , que acudirá m ao Bifpo , e o levá^ 
ram pera lugares feguros ^ e depois foram 
bufcar o Emperador ^ que eftava na Provin-^ 
cia de Hojé pera o acompanharem , porque 
fouberam que fe fazia preftes pera ir bufcar 
os Mouros. £ vendo os noíTos o pouco po^ 
der que tinha, pelo ter efpalhado pelas Pro<» 
vincias, Ihe aconfelháram , que fe recolheA 
fe a algumas ferras fortes , até ihe acudirem 
feus vaíTaljos , o que elle nao quiz fazer, 
antes com o poder que fe Ihe ajuntou , foi 
bufcar os inimigos , de quem daremos ago« 
ra reIa9áo. 

£)fle Rey de Malafaes , que era Mouro , 
fempre foi inimigo dos Abe^^ins, efeus an^ 
tepaíTados tiveram com aquelles Emperadores 
continua guerra; e vendo agora elle aquelle 
Imperio táo perdido , e fraco por cauía das 
guerras táo continuas , que havia tantos an* 
nos tinha , determinou de o mandar conquií^ 
tar» £ pera iílo defpedio os exercitos , que 
atrás dificmo$ ^ que cntfáram pelas froitfeira« 

da- 



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Dec. VII. Liv. VIL Cap, VL ioy 

daquelle Imperio , onde o Emperador tinha 
Abiticon Malahamal com muita gente de 
cavallo , que vendo o groflb poder do inf* 
migo , íe Ihe defriou , por fe nao atrever a 
pegar com elle , e os inimigos foram entran^ 
do pelas rerras, efenhoreandotudó femcon* 
tradic^áo alguma. 

O Abiticon como era fagaz , e grande 
cavalleiro , tanto que vio os Capitáes dos 
Malafaes entrados pelas Provincias com ta« 
manho poder , entendendo que aquelle Rev 
íicava no Reyno com pouco poder, e del- 
cuidado de Ihe poder fucceder defgra^ aK 
ffimz , ajuntando a mais gente que pode^ 
entrou como hum ralo pelo Revno do ini- 
migo , e o foi bufcar á fuá Cidade ; e to« 
mandólo de fobrefalto , o houve ás mSos^ 
e o matoti » e fez nos íeus grandes cruezas , 
oiettendo a térra a ferro, eafogo, e. a/Iim 
íe rccolheo carregado de defpojos, E como 
ifto era muito diftante , nao puderam chegar 
eftas novas ao Emperador, antes de fe ver 
com os inimigos ; porque como hia coiíl 
aquelle impeto , chegou á vifta delies ^ e 
aíientou feu campo no melhor fitio que 
acbou , e come^ou a haver amre elles eíca^ 
ramudas ^ em que fe aílinaláram os noflc^s 
Portuguezes de cavallo , que eram Gonzalo 
Ferreira , Simáo do Soveral , Aflfbnfo de 
Franca Moniz^ LuizParda, Diogo Ptimíip 

ta. 



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I06 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

ta , Antonio Vaz , Alvaro Fernandes , Chrif- 
tcváo Nuncs , Juzarte Madeira , Alvaro da 
Coila de Coviihá , Pero Lcao , Galpar de 
Soufa. E os de pé foram Luiz Cuftodio, 
Cofmo Correa , Fernáo Sangane , Fidalgo 
GaJlego., Jorge Nogueira , Diogo Rodri- 
gues , Gafpar Fernandes , Antonio Pires , 
Maooel Pereira , Antonio de Sampaio , Gon- 
galo de Moraes, Antonio Marrins, Alvaro 
Días , Jorge Capado , Mathias de Saiaman» 
ca 9 e Gafpar Bautifta. 

Os Capitáes principaes , que eftavam com 
o Emperador, eram Xumo Cafalou , Gra- 
delio Cafo, Honáo, Hobidilifai, Mochael 
Afe y Jorges Afe , Ahaique Coló , e Choge 
Cata , cunhado do. Emperador , que como 
eftava determinado de dar batatha aos ini* 
iBÍgoS) enáo gaihr o tempo em efcaramu- 
^as , mandou fazer todos preiles , e tomou 
os Portuguezes apar deít. E quinta feira de 
Endoenps pela luanbá , que foi aos vinte 
€ tres de Mar^a da era de mil quinhentos 
íincoenta e nove , fahio de feus exercitos 
cooi ibas bandearas defenrolndas , e foi de- 
mandar osinimigos, quetambem já eftavam 
eml campo ; e o primeiro que rorapco nelles 
fot Gongalo de Moraes , que fe adiantou 
comJiüma Janea defogo, com que fe met- 
teo antre bs inimigos , onde fe desfez , e 
«faraaou' a rmiifos^j^ mas elle foi derribado 

com 



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D«c. VIL Liv. VIL Cap. VL 107 

cotn hum tiro de arretneflb. O Emperadof 
tambera rompeo em os MoUros , nos dian^ 
teiros, cercado dos noflbs. 

Mas quiz a defaventora que cotn os ef« 
touros das eípingardas fe elpantaíTe o íeu 
cavallo de feijao, que fcm dar pelo freio,- 
fe foi mettcr no meio dos Mouros , onde o 
Emperador foi alanceado, emorto. Osnof^ 
fos oforam ieguJndo até femiflurarem com 
os Mouros , onde iizeram máravilhas ñas ar<» 
mas , matando , e efpeda^ando a quantos 
acháram diante, como fe foram leóes fero<» 
zes; mas como as novas da.morte do Em* 
perador feerpalháram peloexercitó, defcorr 
(oando os Abcxins, ie puzeram logo em 
desbarato, ¿cando íó os Portuguezes bara*» 
ihados com os inimigos em huma batalba 
rouito cruel , acompanhados tatinbem de ai« 
guns dos Capitáes Ábexins , que como vir 
ram o feu Emperador moito , nSo fe, qoize^ 
rain falvar. Mas como os noíTos eram tao 
poneos , e os .inimigos andavam' já fenhores 
do campo , e com a máo folgada com a 
morte do Emperador , (^arregáram fobre el* 
les , e com perda da mor pane ficaram le* 
chores docamjio; eaJguns dos polTesí, qué 
puderam eícapar , fe acolhéram pera onde 
«flava o Biípo , e com elle íe £bram^ a par^ 
tes feguras» Alcanzada a vitocia , pera liíais 
íe gloriarem os ^uros deiia y cwtáram a 

ca* 



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io8 ASIA DE DioGo de: Covto 

cabera ao Emperador, e aos ndíTos , e as 
mandáram ao feu Rey , nao fabendo que 
tambem eñava já fem ella. E feni fazerem 
detenga alguma , foram paíTando pera a Pro- 
vincia de nojé , onde a Rainha eílava com 
íeu íilho Minas , pera os haverem ás tbáos ; 
mas ella tendo primeiro atrífte nova, fere- 
colheo a huma ferra forte , e os inimigos 
chegáram aos íeus Pa^os , os derriba ram, 
flbrazáram , e deftruíram a térra , deixando* 
fe íicar nella devagar , como fenhores de tu* 
do. OsAbexins, queefcapáram dabatalha, 
fabendo logo como os inimigos eram paíTa- 
dos pera Hojé , ajuntando-i'e hum corpo del- 
les , acudíram ao campo , e leváram o cor- 
po do Emperador , e Ihe foram dar fepul* 
tura. Os corpos dos noflbs íicáram nocam* 
po , e dalli a tres mezes os acháram hum 
Alvaro Fernandes , e Antonio de Goes , in- 
teiros , e fem corrupfáo alguma , fomente 
Ihes faltava o membro genital , que Ihes cor* 
táram os Mouros, ou Cafres. ___ 

Nefte témpo eftava o Padre Reitor da 
Companhia quatro jornadas de Baroá , e o 
Padre Gualtamas , e com elles Francifco Dias 
Machado , Antonio Lopes da Siiveira , e 
Pero Dorta de Oliveira , que foram efperar 
o Patriarca , cuidando que viefie pera o re* 
ceberem, e acompanharem , ealli foram ter 
jQom eile&.os tres Abexins , que atrás diñe* 
• . / mos * 



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Dec. vil Liv. vil Cap. VI. to^ 

tnos , que os navios deitáram em Ma^oá , e 
Ihes deram as cartas do Vifo-Rey D» Conf» 
tantino pera o Bifpo , e fouberam todas as 
novas da India ^ e de como o Patriarca fh 
cava em Goa. Com eftas novas voltáram 
pera o Bifpo , que acháram em cafa de bum 
Portuguez natural do Grato , que fe chaman 
va Vafeo Pires do Grato , (aue foi da Con- 
deíTa velha , muiher do Conde da Vidigueira 
D. Francifco da Gama , que o recolheo , indo 
elle fogindo do desbarato do Emperador ,) 
que os agazalbou. E fabendo o Bifpo nSo vir 
o Patriarca, ficou muito defconfolado , edei« 
xou-íe iicar naqueUa parte até ver em que pa*- 
ravam as coufas daquelle Imperio. 

CAPITULO VIL 

De como osTurcos foram fohre afortales^d 
de Baharem , e Ihe puzeram cerco : e da 
Armada que D. Antao de Noronha Ihe 
niandou de foccorro : e de como avijbu D. 
Alvaro da Siheira pera que afoccorrejje^ 

MUitas vezes temos dito pelo decurfa 
de noífas Decadas , do muito que o 
Turco defejava de fe fazer Senhor de todos 
os portos da Arabia da banda do Eftreiro^ 
Perfico ; e como os feus Ihe entendiam efte 
deíejo , huns*fe Ihe oflfereciam pera huma 
coufa, eoutros peraoutra; ^nas tudo fe Ihe: 

def- 



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no ASIA DB DiOQO DB COUTO 

defarmava etn váo ; porque das emprezas 
que commettéram , fempre fahiram e(calavra« 
dos das noflasmáos* Agora eíle veráo, em 
que andamos i, k Ihe foi oíFerecer hum Ca« 
pitáo, que foi de Laca » Turco de na^áo^ 
pera Ihe tomar a fortaleza deBaharem^ que 
era a principal da coila da Arabia, tirando 
Ba^orá , e a quem elles deíejavam mais que 
todas , por ficar mais vi^inha á liba de Or'* 
muz , em que elle tinha os olhos. E fez-lhd 
eíle Turco acouía úo fácil, que Ihe accei<* 
tou o Turco os oíFerecimemos , e mandón 
ao Baxá de Ba^orá que Ihe negociaíle as 
coufas neceíFarias pera aquella jornada : o 
que elle fez muito bem, elhedco duas ga-^ 
lés , e fetenta terradas , e terranquins , e hum 
bargantim de dcz. bancos, em cujas vafilhas 
emharcou mil e duzentos Turcos , e JaniíTa- 
ros, e muitos mantimentos, e munl96es, e 
petrechos de guerra ; e fe Ihe ajuntou mais 
pera o acompanhar neda jornada Mir Solt^o 
Ali , Parfeo de najáo , Capitáo que foi de 
Catifa , que efcandalizado de alguns aggra- 
vos que tevc do Xá , cujo vaflallo era , le 
paíTou í)era o Turco , e pelo deffervir fe 
quiz achar neíle feico, porque tambem era 
em damno do Eftado da Feríia , tudo o que 
por aquelle Keyno fe conquiftaílie* 
i Chegada eila Armada a Baharem. , lan^ 
Sáram os Turcos toda a gente em térra, & 

plan- 



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Dec. vil Liv. vil Ca?. vil iii 

planta ram fuas eftancias ao redor da fortale- 
za , e as guarnecéram de artilberia muito 
grofla pera a batería , que determina vam dar. 
Era Guazil de Baharem Rax Morado , (ca* 
fado com huma íilha de Rax Nbrdin Gua« 
zil de Ormuz,) faomem Parfeo muito pru- 
dente, grande Capitáo , e o melhor homem 
de cavallo que havia em toda Perfia , que 
tanto que teve vida da Armada , recolheo 
dentro na fortaleza todos os mantimentos 
que na térra havia , e quatrocentos homens 
eicolhidos, com quatro, ou finco Portugue- 
zes criados de D. Antáo de Noronha Ca- 
pitáo de Ormuz , que allí eftavam fazéndo 
feus negocios : antre eíles entrava Henrique 
de Mello, que hoje vive, e he Capitáo do 
Caftello dePangim, e Antonio de Campos, 
neto da boa velha de Dio y Ifabel Fernán-» 
des ; e aíllm defpedio logo o Guazil huma 
terrada muito ligeira com cartas pera ElRey 
de Ormuz , e pera o Capitao , em que Ihes 
dava conta do negocio , e Ihcs pedia o foc- 
correOfem , ficando-fe fortificando o melhor 
que pode: pera o que teve pouco tempo, 
porque os Turcos logo coraejáram a dar 
grandes baterías , com que fizemm algumas 
ruinas petos altos dos muros, que logo fo-* 
ram repairados dos de dentro, que tambem 
Ibes relpondéram com fuas faivas , de que 
ellcs recebéram bem de danuio. 

Ven. 



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llt ASIA D£ DiOGO DB COUTO 

Vendo os Turcos que os muros eram 
fortes , e que os de dentro fe defendiam úo 
bem , e os tratavam mal , tratáram de entu<* 
Ihar a cava , que cerca va a fortaleza , pera 
a commetterem por aíTalto , pera o que co* 
megáram a fazer rúas por baixa do chao , 
pera os oificiaes poderem trabalhar , o que 
Ihes cuftou muito caro , e muito trabalho, 

})orque era toda aquella parte de aréa , que 
he rogia , eacudiam-lhe com grandes repai-* 
ros pera íuftentar as paredes da rúa, porque 
nao arrunhaíTem. E em quanto eíláo occu- 
pados nena obra , daremos razao do recado 
que chegou a Ormuz , e do que fez o Ca« 
pítáo. 

Dadas as cartas a ElRey, e ao Capitáo 
D. Antáo de Noronha , logo come9áram a 
preparar gente, e a armar navios, que logo 
fe puzeram dez no mar, algUns dos da com* 

Í)anhia de D. Alvaro da Silveíra , que allí 
bram invernar , de que eram Capitáes Gil 
de Goes , Diogo Ferreira , Collado do Prin- 
cipe D. Jpáo , e hum foáo de Mello , e os 
mais que allí havia da obriga^áo da fórrale- 
za , e de todos fez Capitáo mor D« Joáo de 
Noronha ieu fobrinho , irmío de D. Anto« 
nio de Noronha Capitao de Cochim. Os 
mais eram Joáo de Quadros , e hum mance- 
bo Fidalgo do appellido dos Mellos , irmáo 
do outro aíEma 9 ejeronjmo deSoufa, comp 

quem 



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t)i<J. VIL LfV. VII. Gá*. VIÍ. tí| 

€ftxtm fe embarciram ^r pareiites¿ Alexan* 
dre de Sóufá 5 que foi Gapido de Chaul ^ 
eFrancifco deS^nifa Tavares oitianco, qu<t 
hoje vive éiii Aveiro $ e outroc ^ que D. A» 
ño de Nototiha defpedio ñiauo apreíTada^ 
mente y mui bem apercebidos decente, itiu^ 
iii95es ^ e tnantimentos. E ad deípedir d IX 
Joáo feu fóbrinho ^ que hiá por Capitád 
món, o apartou ^ e Ihe diílb K qué fe léim 
ji braflíe que era íilho de hum Clérigo ', e 
% que nao tinhá mais honra que acuella ^ 
% Que pot íea bra;o ganhafle} que elle Ihtf 
9 dará, pera iflo aquella empresa ^ que era 
9 das-hooradas da Ihdiá} que fdfle^ e Ihe 
% totnairej cu queimaíTe aquellas gales, oa 
% 0iorrefle5 eperdeíTe fobre iíTo todos aquel^ 
% les narios^ porque riaquillo efiavafermuH 
ji to honrado ^ oa ojuito abatido ; e que 
ji queittiando as gales j fe deizáífe ficar omxi 
31 os navios guardando a Ilha , porque os 
^ Turcos fe nao fahiíTem della , porque lo» 
m go apás elfó feria lá D« Alvaro da Silvei^ 
ji ra com toda fuá Armada. 1 

Embarcado D. JoSo de Ndrdñhá , de& 
pedio D« AiitSa de Noronha huma embaió 
¿a^So ligeira com huma carta pera D. AU 
yaro da Silveira , em que Ihe dava cdntaí 
daquelle ne^pcio ^ e Ihe pedia c ie apreO 
» Me , e acudÜfe áquelle feito , porque Si* 
» fia grande perda, e quebra dóEftado g¡a^ 



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» nhaitm o$ Turcos aqudla forcaleza ; equtr 
31 fe viera a.biufcar galé^, alli as tinha, ^m 
» parte que: Ihe nao podiaun e&apar ; « que 
31 fe fe pejaíTe de vir aOrrouzv (porque eC- 
a tavam quebrados, ) ou oáo ti veíTe gofio 
» diflb , que foíTe á Ilha de Angáo , « que 
31 Já Ihe mandaría todos os provimeutos » e 
H dinbeiro que Ihe fofle neceíFarío pera a 
» Armada. » D, Alvaro da Silveira entenden» 
do a importancia do negocio , Ihe refpondeo 
fcque logo fe partía pera Angáo , por lh§^ 
» parecer aflim melhor ; porque fe tomaíT^ 
i Ormuz, feria :muíto grande: trabaiko tor* 
» nar a recolher os foldadas , éque ihandafr 
» fe os proYÍmentcs .pera : a Armada , porque 
II fenáodetivefle emefperar poj ^les. » Com 
€fte recado defpedk) logo D. Aatáo deNo? 
ronha a Francifco Jacome, jE&riváOi da fat 
zenda , com dinheiro , arroja , maateigas , bilt 
couco , peix? , m'unijóes , plouros , e todas 
as: mais coufas ém abafian^a. £ náotardou 
fiíirito que náothégafleD. Alvaro da Sil» 
veira com os mais navios de.- remo, e acá» 
ravela dePero.Peixoto daSUvá^ e tomando 
os provimentos , deo á vela pera Baharem; 
e em quanto tí nao cbega) tornemos a Dé 
Joáo deNoronha, quedeixámoá partido de 
Ormuz, pcradarmoscontí doque Jfae acoa<<^ 
teceo nefta jornada^ --^.. . 



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rr Dé CACA Vil: 3^1 V. Vít '. 4lf 

■ ' CAP í TU L O .^rní, " : 

í)d que a€(mt£icto^aDi Jcáé de Nmrmthá, 
' atéBétharem : e de'conw> as ptlés ihe cüt^ 
réram^. tdorijia em que ós wffos-nuvioi 
^.:j€ DÍram de fer tomadoT t ede cmm IX 
. Jívara da Siheira cbegou a Babar$m\ 
- ' e tornea asgaiéi ^j e cercou os Tunas na 
- Ilba^:' ' • .:,••<: 

Tj Artido D4 JoSo' de Noronha de Otnññz \ 
ML ioi feguindo fuá jornada até ^í liba Sa« 
tnaini duas leguas é^ Baharem , .onde ?fedei» 
xou:^cair efperando -pcrr hum^ nai^io ., qu^ 
Ihefkavsi atrás , qttr^em de hom daqueltes 
dous ir<d[^08, os Melli)s, que^aitia depois 
^He«/ e ao cutre diá foi decnandar ^^Baha»^ 
i'em 7 cuidando que^ a noila Artíiada 4sílava 
já láj (f)orque quiz^fpouca dita deD^Jcno 
<}ue affim fucceddíe pera perder humatán 
-saaifilá'JiPDru^a) >eí cheg^ á TlQa da;Hha^ 
^endo os> que edavaiti-nas' gales 8<qpetle na« 
vio fó , fa^íram apds elle coono fauín trofáQ ^ 
>9 éite thes foi fcígiitdio pera a banida^ da liba 
<Satmímy onde os^n^íTo^ jeílavam -caáicr ecn 
ictnbófcada: R-^ofó deNoronba'y iqoé^eftaé- 
iitíi com ^)s mais nia^io^ (ttf^to da outrk han^ 
'da> da Üba , Vetido' por ííma da Uhá os peti« 
^tícsfdas duas ¿ales , boiií grande iahroropí 
^e tO(los lomár^m as ar:{n;a«^ e Ibesi^timoi 
ir. H ii ao 



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%l6 ASIA DE DtOfiO DE COUTO 

Qo encontró com o remo em punho ^ mui 
furiofa , e determinadamente. Os Turcos 
dando de rofto com os navios ^ e como v¿- 
jiham determinados com aquella preíTa » e 
de parte y deque k elles nao temiam, vira- 
ram^ e fóram-fe recolbendo pera Baharem, 
c os noíTos após elies atropelando*08 bem. 
Mas como ellas levavam a vantagem de queoí 
foge, eeram muito ligeiras , fabiram-fe del« 
les , e chegando a Baharem , furgíram no 
feu porto, O que vifto por D.Joáo de No* 
ronha , furgio Jium pouco affaftado , e allí 
tomou confelho com os Capitáes fobre o 
que faría ; e foram a mor parte delles de 
parecer , que erperaíTem pela manba , ( por- 
que hia ja anojtecendo, ) e que as foíTera 
commetter ; o que elle fez , deixando-fe fi- 
car alli toda a noite : no que fe perdeo co- 
mo mancebo fem experiencia y porque fe 
quando foi feguindo as gales as abalroára 
logo em ellas furgindo, iem dúvida as to- 
mara; porque levavam os Turcos tamanbo 
jnedo i cfuc em íurgindo , fe baldeáram em 
térra, deixando as gales como perdidas. £ 
á perda de huma tSo honrada occafiao nao 
fe pode lanzar á conta da fortuna , fenáo ao 
que ella diíTe naquella fábula , que fe della 
conta, quando acordou bum menino » que 
dormía fobre a borda . de hum po$:o y que 
mo quería quecahiírQ cmbaixo; porque Ihe 



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Dec VII. Liv. VIL Cap. VIH. 117 

nio pozeíTem a ella a culpa , fendo toda da 
ignorancia do menino. Ém ñm , tornando 
aos noíTos^, que deixámos furtos efpcranda 
pela manhá , que tanto que veio moftranda 
íeus dourados raios , víram vir as gales a 
ellesv porque oBaxá vendo o termo que os 
noflbs íizeram em fe deixarem íicar, entena 
dendo fer recelo , mandou metter em cada 
galé cento e fincoenta Turcos, e Ihes man-» 
dou que foiFem pelejar com os noflbs na- 
vios. D.Joao deNoronha em vendo as ga- 
les , eftando }i em armas , perguntou aos Ca- 
pitaes o que (aria ? Alguns Ibe dlíferam , que 
o bom feria irem-fe retrahindo> porque as 
gales na prelTa que traziam^ moftravam vir 
muí guarnecidas. E outros foram de pare- 
cer, que fe Ihes foíTem fahindo, como que 
fogiam dellas ; e que como as tiveíTem alon« 
gadas de Baharcm , pelejaflem com ellas , 
onde nSo foíTem viílas da térra , por nao 
ferem foccorridas pelas terradas* Efte pareccc 
acceitou mais D^Joáo de Noronba, eaíEm 
fe foi recolhendo com todos os feus navios 
juntos , e etles muí preñes pera pelejarem, 
qtiando foífe tempo.. 

As gales vendo ir os navios daauella 
9)aneira , apertáram mais o remo , e os foram 
£?guindo, e esbombardeando pera embarazar 
os marinheiros ; e nao Ihes fahio em vSa 
efie defenho ^ porque como as pe^as de proa 

crám 



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riS ASIA UE DiÓGO DÉ Co'UTd *^ 

eram Efperas, e Salvagens, hiam'M peloú^ 
ros dar antre os nofíbs navios ; o que foi 
em alguns coofa de tamanho medo , que co^ 
me^ram a dar á vela , e a deliRandar-fe; O 
que vifio pelos mais, que hiam alii muiros 
amigos de gatihar honra, vendo-fe fós, ram^ 
bem fe foram recolhendo por onde cada hufw 
xnais pode. E fá Joao de Quadros , cómo 
homem prático naquelle Eílreiro , fe foi def-* 
viando dos mais navios ; c romando outro ru- 
mo , fe lancou pera a banda de Catifa. As 
gales foram feguindo as mars fuftas táo rija-^ 
mente, que foi forjado aosiiófrosalijarem ao 
mar rudo o que puderam , pera (icarem mais 
leves , e ligeiros. E todavia a galé Capita- 
nía, que era riiuiro ligelfa , foi alcanzando 
a fufta de Diogo Ferreira Vellez , que era 
mais pezada que as outras , com quem hia 
embarcado por foldado D.Joáo deCaftello-i 
branco; e tanto a entrou , que Ihe ficou de- 
baixó da appellajáo. Os Turcos com o de- 
fejo de os tomarem vivos a todos, nao os 
qüizeram metter no fundo, e Ihes diíleram 
f m Italiano , qpe nao houveíTem medo , e 
que fe entregaíí'em , que o'á tratariam muíto 
bem, É dizendo-Híe elles que íi , le foi á 
g^lé , defviando j5cla nío metter ne fundo.' 
Diogo Ferreirj, eD. Joáo deGafteMo-bran^ 
to, que eram homens de mais animó, e^eí- 
tavam CQiu as armas ñas máos^ pera pelejar ^^ 
..... vei^ 



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Dkc VII.LIV. VII. Caíp^VIIL ují 

Tehdo defviar ^galé^ foram iisettendo de Id 
por ella Jhe& íi^rar '^ gilavenco y e como k^* 
vavam polla- huma varredcira por baixo da 
▼ók^'^peraandarernmais, afi^eram niolhar^ 
prometiendo^ aos marinheiros muico dinhew 
TO , que trabalbáram muito bem ; e indo*íef. 
jfl íalundo da. galé^, . e tornando ella a ptCM. 
parar após elks , quehiam niiilnegociado^V 
Yendo pela proa hum baixo , por le delvia** 
x^em da galé , endireítáranv eom elle , e fo^ 
ráni aíEpí) á vék varando por íima. B quid 
Déos nollb Senhor' que' aquella parte por 
ende tomárain fofle o mais aJío delle , e da 
aréa; ero9ando ainda aquilha por elle, foi 
paíTando ú ouera parte até darem em fundo ^' 
ficando muito alongados da gáié y que cóm<y 
hia com aquella furia ^ fbi eaHibim ro^añda 
pelo baixo após a fulla , e efe ve de todo» 
perdida nclle , e tornotí -a virar com multo 
trabalho, íicando4he a fulla da óUtra pa^rte 
táo jonge , que pera^ a ir bufcar Ihe era ne- 
ceffario rodear todo ó baixo ,' qiae era níuí 
grande , pelq ^ue foi vóltahdo peta a coft» 
de Catifa , . onde encontrón com á fufta de 
Joáo dé^Quadros , que cuidava cftar já livre 
das gales ; e em a vendo ^ deo á ^éla , e Ihe 
foi fogindo tudo o que pode ; mas como 
a galé (que era a Capitáflia) era muito Jigei-* . 
ra , a foi entrando , e catóánltáiido tanto / 
que Ihe» foi' forjado alijar ao mar tudo oi 
*f- ¿ que 



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'fto ASIAde Diogo dé Cqvtq^^ 

Hfie levava , até os bercos , e falcáo : e ai ih 
^a aí&m nao pudera eicapar^ fefenao reco-r 
Ihéra a outra reftinga y como fez Diogo Fer^ 
reirá Vellez , porque aquelle £(lreito he to^ 
do cheio dellas , e de baixos y e aflim efca<« 
pou á galé , que com medo de dar em fecco 
le foi defviandOf Durou efta preíTa até a noi«4 
te y em que as gales fe recplnéram pera Ba^ 
harem , e os no^os foram até a I)ba de Caes , 
onde fe ajuntáram ^ e deixáram íicar acé vir 
lecado de Qrmuz , que como iá chegou deípv 
te fucceíTo , ücou D, Antáo de Noronha cm 
extremo apaixonado contra Dtjoao de No^ 
yonha feu fobrinho por perder as gales por. 
feu defcuido. E eílando ellcs aqui em Caes ^ 
foi ter com elles D, Alvaro da Silveira ; e 
fabendo o fqcceflb das gales, o fcnúo mui-r 
to pelo crédito do Eftado ; mas por outra 

rrte nao Ihe pezou , porque havia queaquei^ 
boa ventura fe guardava pera elle, 
E! tomando tpdos os navios comflgo, 
Ibi furgir na Ilha das Romans ^ que eílá do-i 
fronte de Catifa hum tiro de efpingarda, lí^ 
lo foi ardil feu , porque em Angao foi avi* 
lado , que ps Turcos efperavam por mais 
ferradas , e gente de Bagorá. Pelo que Ihe 
pareceo melhpr tomar tanto dentro , que 
vendp-o os Turcos vir da banda de Ba^orá , 
icuidafletn que eram as embarcantes que eJPf 
Mravílip > <? QS tomaría aflim defcuidados. 



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Dmc Vil. Liv. VIL Ca?. VIIL ni 

Daqui da liba das Romans íe fez D. Alva* 
ro da Silveira á vela , hum dia de grande 
ferrado , e foi demandar Bafaarem , fem fe^ 
rem viftos y por razáó do nevoeiro ; e che* 
gando ás gales , que eílavaai bem defcuida<* 
das , logo Ibe ppz as proas com todos os 
navios ; e o primeiro oue fe lan^ou em hu- 
ma das gales foi Ratael Gomes Viegas» 
filho de Galváo Viegas , Alcaide mor da Ci- 
dade de Goa. Entrados os noíTos , acháram 
poucos ñas gales, que foram logo mortos» 
c ellas tomadas , e D. Alvaro da Silveira 
as mandou logo tirar pera fóra , e com ellas 
foi furgir deironte da fortaleza^ que falvou 
^om toda a artilheria y e depois o fez ao 
9rraial dos Turcos , onde lan^áram muiros 

Elouros I que Ihes fizeram muito damno. O 
xá conhecendQ as gales , e vendo-as per« 
didas j ^sbravejava de pezar de feu defcuido » 
^ logo íe houve por perdido, porque bem. 
entendía que aquella Armada Ihes havia de 
impedir y e tomar todos o$ íoccorros que Ihe 
vieíTem, eos havia de por em grande aper- 
to y e lieceflidade y porque na II ha nao tinhanv 
mantimentos ; e por Ihe nao íicar já outro 
remedio , fenáo a fortaleza , em que fe po^ 
deriam falvar y determinou de amiudar a ba- 
tería, ever fea podía tomar por hum aflal- 
te f pera o qqe f^ conie^QU logo a preparar^ 



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121 ASIA DE DlOGO DÉ CoUTOfc ^" 

C A P I T U L p IX. 

De como o Guas&il de Babsrem fe vio com 
D. Alvar4í da SÜveira) edo^que affin^^ 
táram fobre o negocio dos Turcjos : e da 
alvoro(o , e motim que hon^e antre o 3 mp 
Jbs^ for nao querer D. Alvaro daSilvei^ 
ra dar batalba : e de como de defconfiado 
Jahio aos Turcos \ e da muito grande , e 
cruel batalba que tiveram , em que D. 

. Alvaro da Silveira foi mor ti , e desia^^ 
ratado. 

SUrta a Armada defronte da fortaleza , 
logo fe embarcou o Guazíl de Baharém 
cm hum terranquim , e fe foi ver com a 
Capitáo mor , que o recebeo com muitás 
honras, eagazalhados. Logo allí foram cha* 
mados osCapitáes aconfeJho fobre a guerra 
ijue fe havia de fazer aos Turcos ; e fenda 
o Guazil o primeiro que fallou , diíTe « que 

> a maior que fe Ihe podía fazer , era cer- 
» car a Ilha toda com todos os navios , e 

> íe Ihe defendeíTe a entrada , e fahida , por- 

> que fe nao pudeííem prover de mantimen- 
>f tos , nem mandarem pedir focGorro a Ba- 
» forá ; e que aífim os poriam em tanta 
31 aperto, e neceffidadc, que on fe entrega-^ 

> riam , pu iDpFreriam á fome ; ,e que ft Ih© 
}i nao délTe batalha^ porque nenhuma outra 

• jl cou- 



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l>Ex:. VII. Lrv. VII. Cap. IX. laj 

» coufa elks oíais deíejavam. 9 Defte parecer 
foijoao deQuffdros, como homem que en* 
tendía bem a térra , aífirmando , que os Tuiw 
eos fe dcsbaraftariam pórii^ fem rifco algum 
noíTo ; e aíCm o tiveram outros Capitaes 
pera fi, aínda que alguns foram dostro pa<* 
recer. 

A D. Alvaro da Silveira , parecendo-lhc 
melhor t> primeiro , repartió logo os navios 
ao derredor da liba ^ que traziani tamanha 
vigia , que nem huma pequeña almadia pu*^ 
deram os Turcos lanzar de nenhuma parte 
pera Ihes levar novas a Ba^orá , o que os 
Turcos (entíram moito , e o Baxá acabou 
com ifto de ver fuá perdi^áo. E por nao 
fíiofirarem covardia , tornáram a-bater afor* 
taie2¿ com grande importunando , e de den- 
tro tambem Ihe refpondiatn ao mefmo fom , 
fazendo-lhes mais damno do que recebíam ^ 
porque a batería nao fazia mais que derri- 
bar-llíés alguns, altos do muro , que logó 
eram repairados, ainda qoe comtrabalho^ 
e canfn^o dos corpos ^ porque toda a noite 
gaftatam nílTo. Era já ifto no mez de Se* 
tetribró, é osnoíTos fe enfadavam deefperar 
tanto 3 porque rweávam que os tomaffem 
alli aquellas febres' malignas , que fempre 
entram cotn os Levanten , que ordinariamen- 
te comejam a curiar na entrada deOutubroi 
^m (como ja algumas Y@?€S diflemos) sao 
*' • hum 



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124 ASIA DE DiOGO DE CoVTd 

hütn terror, e efpanto a todos pela grande 
deftrui^áo que tem feito em noíTas Arma* 
das , com o que fe come^áram a motínar , 
c a requerer a D, Alvaro da Silveira « que 
% déíTe batalha aos Turcos , porque antes 
H queriam raorrer pelejando com as efpadas 

> ñas máos , que das febres que fe e^Jera- 

> vam , de que poucos hamm de eícapar, 

> fe Ihes deflem. » E como quaíi todos os 
da Armada entravam nefte alvorofo, e gri- 
tavam por batalha , dando a D. Alvaro da 
Silveira a defconíian9a , Ihés diíTe « que fe 

> quietaíFem , que elle os fatisfaria , ainda 
)) que contra feu parecer , e obrigafáo , e 

> que fe fizeíTem preñes pera o outro dia 

> feguinte , e que permittiífe Déos fe nao 
» arrependcíFem » dando tambem recado ao 
Guazil, que ordenaíTe fuá gente, e que em 
peíToa fe achaífe compile na batalha. Tudo 
o que reftou do dia, e a mor parte da noi- 
te gañáram em fe preparar, € alimpar fuas 
armas , e fazer pelouros y e a volcas diflb 
deram grandes matracas ajoáo deQuadros, 
chamando-lhe fraco , e covarde , porque fo- 
ra de parecer que fe nao déíTe a batalha^ 
e ao Guazil, que era hum Mouro falfo, e 
traidor, equequeria tirar aquella honra das 
máos dos Portuguezes , e dalia aos Mouros 
como elle , e ourros defatinos como eftes. 

Ao QUttQ dia pola manba fe ajuntáraia^ 

tOh 



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Dec. vil Liv. VII, Ca?. IX. laj 

todos poftos etn armas y e comefáram a gri* 
far por batalha , o que D. Alvaro da Sil^ 
veira nao pode remediar ; e contra feu p»» 
recer, emuito pejadamente fe poz no cann 
po junto da fortaleza y c efperou peloGua* 
zil que fahiflfe de dentro , que logo veio com 
trezentos Perfas mui bem armados , em que 
entravam muiros de cavallo, e mandou dar 
alguns muito formofos a D. Alvaro da Sil^ 
veira , de que tomou dous pera fuá peíToa , 
e os maís repartió por Fidalgos y que Ihe 
parecéram mais pera iíTo ; e poílo em hum 
formofo efquadráo , e o Guazil com toda a 
fuá gente a huma parte delle , foi abalando 
em bufca dos Turcos, que fe tinham reco<- 
Ihido pera hum palmar perto da fortaleza , 
onde o Baxá efperou os noíTos , e toda a fuá 
gente decavallo tinha lanzada em filiada no 
cabo do campo detrás de huns cardaes , pe- 
ra tomarem os noflbs . no meio. Chegando 
a dianteira dos noíTos aosinimigos, deícar* 
regou nelles aquella primeira falva de arca* 
buzaría , com que derribáram alguns Turcos , 
e depois deo Snnt^Iago* £ como os noífos 
hiam com aquelle furor , . e defejo , de tal 
ntaneira- apertáram com elles, que oslan^á- 
ram fóra do Palmar , que de induftria fe dj^i* 
3Íram levar, por todo aquelle campo , até 
tnetterem os noflbs na ílUada , e todavía 
juataitdo odies iSvA yiontadc. Os decaval^ 
4. lo, 



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«í ASIA DE DíoGolDÉ Go^Td 

lo I t^ac^avam detrás do cardal^ trata quC 
os víratn eftesididos pelo campo $ arrebentá^ 
ram^com grande funa, e deram nelles.com 
táo grande impeto ^ que logo os* deibrdená»- 
ram , e os foram Jevando até os tornar a 
mecter pelo palmar , íicando no campo j¿ 
alguns atropellados* ^ 

D, Alvaro da Silvelra, vendo taitianho 
^lefarranjo / ajuntou x>s de cavallo , qne fem^* 
píc o acompanháram ; e o Guazií cooi OB 
ácus, que nunca o deixou , foi fuftentando 
o pezo da batalha , e tendo o encontró aoa 
inimigos, porque onáo/acabaíTem-dedesbai- 
ffatar de todo; eneftas vdtas te ve com elles 
Jiuma muito arriícada batalha , eoi que os 
^e a íeguiáo moftráram bem feu esforzó i» 
e o mefmo fez o Guazil , queft- mofirou 
fuais leal, do que osíbidados 1 he chama ram 
na: matraca. Aquí. 6coa a batalha ^fafpenfa ^ 
porque os noíTos. tomáram a volcar pera on'«- 
de YÍram D. Alvaro da Silveira, ^.o$Mou<^ 
ros fe tornáram a refrear daquelle impeto 
jcom que vinham , cuidando que levavam ji 
a :vitoria ñas maos.- £ fegundo D^ Alvaro 
da fiilveira. aquí fe mollrou Capital» , e cal»* 
-valleíro, e todos osi.maís que Ihe acudíram 
esforzados, femdüvídaqueosTuhcd^ fepefi»- 
deram^ Mas quizad defaventura .que deíTem 
a D. Alvaro da Silveira huma efpingardada 
por'ixuma virilba> de que iaieatía multo» ^ 
^ : mas 



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Pec YIL Ldv. VH. GaKDC itf 

frtas nem por iflb.deíxou* o furor com qw 
f^lejava , nem cpaat que os ieiis* foklados eti^ 
^endeflem que dbva ferida , |>or oao acoib- 
tecer aigum deiaftre. Mas. coxxib elle tinha 
^1. feu. cenrio acabado,, andando no niór 
conflicto da batáüía, Ihe derahí outra efpifi* 
gardada pelo pefcofo y de que logo cahio 
nioctal ; e os que andavam juhtxr delle pele* 
Jando :coih muito. valor, qoe cramJIuyBar^ 
reto , filho* mak velho de Nuoo Rodrigues 
Barrete i AlcaidQ'Oior de Faráo , e;de Dona 
Ixonor de Müáo ^ Ayres Goaics da Silva ^ 
Df Joáoi Gon^al^és de.Taide, Franeifco de 
Xoar y FrandfcoiárSoufaTavares , Alexan* 
df» de Soufa, EK Vafeo de Taide, BaftiSó 
de Soufii de Abiieu , FrancifcO' de Faría^ 
iuim- homem Fidaígo. muiro conhecido em 
Portugal, Antonio. Lniz o Mulato da Rait 
nba ,■ Ayres de JMirahda , Franeifco de Mel<* 
lo >.iraiáo do.Monieiro mor , D« Joáo de 
Cailella'branca, Diego de Miranda, Jorge 
Péreira Coutinho., Joáo de Quadtos j e ou* 
tros, muicos Fidalgos; e caraildros, vendo 
pabido ofeüGa^káo^ trabaii^ram' pelo fal- 
irar.i fobre quem carregáram todos os Tur- 
cos y e t antre todos • fe renovou outrá: batalha 
mmta cruel ^cm q^e Jiouve muitas mortes, 
edantnop de amj^as :as pártela ; e os noíTos 
€0n9O tourasaciofQd^^efénd^t^im D; Alvard 
é| uBilviifii' da^ieUa^ m«ttid0(» 46* Tufcó# 
^ mui- 



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^28 ASIA DE Dioa« «b Coü^a 

tnuito efpsp , que Ruy Barreto , D« J<^(9 
Gon^alves de Taíde , e Baftiáo de Souík de 
Abreu , que eftavatn xnais chegados a D. Al* 
varo da Silveira ^ pegáram delle pera o le« 
varetn , e falvárem , e aífim fobra^ado o fb* 
ram levando hum pouco efpa^o já mortal : 
nías como era homem muito grande ^ e pe* 
zado , e 05 Mouros vinham ji de tropel 
carregando fobre elle, cabio D. Alvaro; < 
os Turcos , que traziam o olho nelle , o ro^ 
deáram logo , e alanceáram a mor parte dos 
que o defendíam , fazendo elles tambem muí« 
to bem feu ofEcío , e fatisfazendo^fe das 
feridas que traziam muito honradamente. 
Mas como a mais gente era pofta em des- 
))arato,*e os Mouros andavam fenhores da 
campo » foram-ie recolhendo o melhor que 
puderam , porque fe x&} acabailem de pec^ 
der todos¿ Aqui cabio D. Vafeo de Taíde ^ 
arraveíTado de huma lanzada ; e hum folda* 
do filho da India » por nome Jorge Dias o 
Fedinte , Ihe acudió , e o.falvou com muito 
trabalho. Francifco de Fafia , e o Mulato 
da Rainha foram aqui cercados dos Turcos ^ 
e como dous leóes bravos famintos fizeram 
nelles tal eftrago , que nao ouíavam a Ibe 
chegar, tendo aefte tempo já o Mulato hu« 
ma perna cortada ; e porfíe i¿o poder tes 
nella , fe poz de giolhos^ e aílkn fe fez te* 
mer de fei^So ^ que com yifw de anemesQ 



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Dec. vil Liv* Vn. Gap. IX- lay 

o acabiram de matar , e o mefmo fízeram a 
Francifco de Faria ^ deixando elie primciro 
fuá morte bem vingada« 

Ruy Barreto , e D. Joáo Gon^alves de 
Taíde , e Bafliáo de Soufa ^ que efiavam per 
lejando fobre D. Alvaro da Silveira , depots 
4e ihe cahir, vendo tudo perdido y e eilev 
fós y c feridos y e que os Turcos recrefciam y 
foram*íe recolhendo y depois de terem feito 
coufas multo pera ferem invejadas de todos; 
e porque os íeguiam alguns Turcos , nunca 
jhes viráram as coftas , e fempre foram pe- 
lejando valororamente. £ indo nefie tranfe, 
cm que bum muito bom cavalleiro nao po- 
dia ter mais tenco que em ü y vio D. Joáo 
Gon^alves de Taíde que os Turcos corta» 
vam a cabera a D. Alvaro da Silveira y c 
i be tiravam huma cadeia dopefco^o; edan* 
do-lhe os eftimulos da honra y olbando pera 
Baíliáo deSouía, e Ruy Barreto, IhesdííTe: 
» Ah fenbores, pera que he viver vida táo 
» deshonrada y como he ver matar diante de 
» nos , e cortar a cabera ao noíTo Capitao y 
» e nao Ihe valermos ? Vamos a morrer coca 
» elle , porque o morrer defta forte faz toda 
» a vida gloriofa.» Ruy Barrero, e Bafliáo 
de Soufa, que eram Fidalgos valoro fes, e 
mancebos, defejofos de honra, voltdram pe- 
ra onde efiava D. Alvaro da Silveira^ ^ d^ 
xendo : c V^mos , ,e ^icabemos^eo) npíTo q^ 
Couto.Tom.ir/P.iL I » cío.b 



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IJO ASIA DE DiOQO DE COUTÓ 

y cío. » E com efte animo , e furor arremettd- 
ram todos tres pera aquella parte ; e antes 
de chegarem ao corpo do feuCapitáo mór^ 
deram a Baftiáo de Soufa huma eCpiogarda- 
da por huma perna , de que fe fentio tal^ 
tjue nao pode paflar avante , e tornou-fe a 
recolher omelhor que pode. £ fentindo en* 
fraauecer-ie«lhe a perna demaneira, quenco 
|)oaia dar paíTo , recolheo-fe a huma cafa de 
palha j onde vio entrar alguns dos noflbs ^ 
que hiam já em desbarato. D.JoáoGon^al* 
ves de Taíde , e Ruy Barrero pafláram adían* 
te por meló dos Turcos até cliegarem a D. 
Alvaro da Sílveíra , em quem os Mouros 
eftavam iazendb aquella notomía ; e dando 
itelles , matáram alguns , e íizeram terreiro 
até fe pórem em cima daquelle corpo já fem 
cabera y e allí pelejáram como huns leóes 
bravos y até que matáram D. Joáo Gon^al* 
ves de Taíde , depois de ter feito por feu 
bra^o muíto grande eftraso nos Turcos^ 
accreícentando ao feu illuítriílimo appellido 
huma fama , que fempre durará antre elies. 
(Foi efte Fídalgo filho natural de D. Mar* 
tim Gon^alves de Taide , Senhor da Cafa 
de Atouguia , que o houve em huma mulher 
nobre.) E deram a Ruy Barrera quatorze 
ferídas y de que tres foram muí perigofas , 
e mortaes , porque Ihe deratn em hum hom* 
bro com huma mafia de ferro ^ com que Ihe 



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Dec. vil L IV. Vil- CAf* Dt. 131 

impedíram poder ufar daqwlle braco , O 
feriram na máo direita ^ de que aitdott fnoi* 
los tempes aleijado deUa , fem poder endí^ 
reitar os dedos , nem ainda com rrazer pera 
iflb hucn pezo de chumbo; e a outra^ óu6 
o tratou pdor que rodas , foi , cifareohlfae 
com hum zarguncho de arremdToi que Iht 
acraveíTou bunsa perna , donde minea o po^ 
de tirar por fer ae fiirp|b ; e com of moirw 
meatos que fez na peieja , ü Ibe iahio por 
ü , rafgandoi^lhc , e csfarrapaodo^Uie a per-» 
na i e todas as mais Ibc dcram em ieo cor-^ 
pó, lendo bem moftrado o valor , teifor^ 
do fangue donde procedía* 

OGitazfl dcBahanno, qoe eftedia moC^ 
trou bem os ottilatet de fuá peflba ^ e esfor- 
zó , e fídetfdade , i^ndo ji coda párdido ^ er 
desbaratado, £í>í recolhendo oe nofloB, qoo 
andavam pdo paloiar deiarranjados ^ e OT' 
foi emparando, e guardando, edefendendo 
dos Turcos até os metter na á>naleza« Oi 
Turcos que os fegaiam , alguns delles qua 
TÍram recoifaer^fe Baftiao de Soufa naqueila 
cafa, onde tambem o íizeram ouCrot , c^ 
gáram a ella pera a entrarem ; c fcntiodo 
dentro mnicos dos noflbs , nao a oofaQdo 
accommecrer, bradáratrr por fogo } ttxth 
ando^fe of noflbs que oyabrazaSem^ b tn* 
tregáram aos Torcos* 

^orréraftt dos noíToa Üsteilta , em qaa 
I ii en* 



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13* ASIA DE DiOQO DE CoüTO 

entráratn aquelles dous valorofos mancebos , 
D. Joao Gonjalves de Taide , e Baftiáo de 
Soufa y Antonio Luiz o Mulato da Rainba , 
Francifco de Faria , e o Capitáo mor D. 
Alvaro da Siiveíra , que era hum Fídalgo 
nuito valorofo, etinha já acabado feus fer* 
v¡9os , pelo que eílava défpachado com a 
Capitanía de Ormuz. Foram cativos perto 
de trinta ; e aos que pudemos faber os no- 
mes ) sao os feguintes : Ayres Gomes da 
Silva , que logo morreo das feridas , que 
Ihe deram na batalha ; Jeronymo de Soufa y 
que tambem tnorreo no cativeiro , Gil de 
Goes deLacerda y D. Joáo de Caftello-bran- 
có y e outros , que nos nao lembram. 

Desbaratada a batalba , abrió Pero Pci- 
xoto hum regimentó do Vifo-Rey , em que 
vinha elle nomeado por Capitáo mor da* 

3uella Armada y em defeito de D. Alvaro 
a Silveira , de que tomou logo pofle por 
confelho dos Capitáes , e Guazil , e aíTentou y 

2ue D. Joáo de Noronha com a gente de 
)rmuz fe metteífe na fortaleza , e que os 
navios da Armada de D. Alvaro da Silveira 
continuaíFem na guarda da Ilha , como dan« 
tes y pera que nao pudeíFem entrar provi- 
mentos, nem foccorro aos Turcos : e que 
os navios da obriga9áo de Ormuz com as 
gales fe foffem pera D. Antáo de Noronha >^ 
pera fe elle quizeue vir em peífoa , ou xnandac 
• ' mais 



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Dec. vil Liv. vil Ca?. IX. ijj 

inais foccorro , tiveíTe pera iflb embarca^Óes ; 
e heftes navios fe fo¡ ü. Vafeo de Taíde , 
c alguns ferldos pera fe curarem em Ormuz. 

Feito ifto , foi Pero Peixoto continuando 
na guarda da Ilha , e de tal maneira lliesf 
defendeo as entradas , e fahidas , que poz oá 
Turcos em grande defeípera^So pela falta 
dos mantímentos ; e cnegáram a tanto ex- 
tremo , que já antre elles valia huma mSo 
de arroz (que sSo quatro arrates) quarentaí 
Xaes , que sao oito cruzados , e á falta del^ 
les deixáram de bater a fortaleza , e anda-^ 
vam todos efpalhados pela Ilha , bufcandd 
hervas , e raizes pera comerera^ que os co- 
^egáram a corromper, e matar. Mir Sol* 
tao Alii , Capitáo que foi de Catifa , que 
os alli trouxe , vendo o miferavel eftado em 
que aquelle negocio eñava , entendendo que 
o Capitáo de Ormuz havia de acudir , c que 
os Turcos fe perderiam , lá teve modo comí 
que houve huma mui pequeña embarcafáo, 
em que fe paflbú á térra firme, com muito 
traba! ho , e rifco de fuá peíToa , e íe foi pe- 
ra Catifa a efperar ofim daquelle negocio. 

Vendo-fe os Turcos era táo grande aper* 
to , comefáram á correr com recados a Pe- 
ra Peixoto fobre pazes , a que Ihes elle deo 
orelhas, c Ihes roandou dízet*, que Ihe en- 
víaífem hum dos cativos pera aflTentarem an- 
tre elles os partidos. O Turco Ihe mandoi^ 

Gil 



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IJ4 ASIA t>E Oíoao dx Covto 

CU de Gofs de Laccrda , por qticni todos 
08 mais cativos /icáram , que veio a Pero 
l^eixoto 9 c tornotí ao Basa multas ve^es « 
ar4 amre ellea fe concluir , que Ihea défle 
tmbdrca$6ea pera fe paflarem a Garifa y e 
que deixariam a Ilha, e entregariam todos 
9s cativos» Aflentado iflo , como Pero Pei* 
xoto sra Gallego > e eflava magoado dos 
Turcos I e fabia fuá pouca fé, determinou 
de tanto que fe cmbarcaífem j i^andar dar 
Dellcs lá junto de Catifa , e metter todos á 
efpada, aínda que nifío arrifcaífe a fé Por» 
tugueza» filando aflim efperando embarca^ 
góes pera os paílar » chegou aquella Ilha hum 
uaviD de Ormus com recado de D» Ant$o ^ 
caoio.^iantf fe terát 

CAPITULO X. 

De com^ com as novas aue cbegdram a Or-^ 
muz , fe fez preftes D. Ant&o de Noro'- 
pha^ e atfpeah diante AUixo Carvallo 

* ftm recado a Bahareni , e elle fe partió 

apSs elle : e do que aconteceo a AUixo 

'^arvalho: e como fe vio com o Baxdj e 

' do que ambos tratdratn, 

EM poucos. días cbegáram as ñoras da 
d^faventura de Baharem a Ormuz » quo 
fi^eraiQ em todos muí grande abalo , e D» 
Aatao ds ISÍofonh» o featío cm extremo v 



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Dec vil Liv. vil Cap. X. Ijjr 

e foi defembarcar D. Vafeo de Taíde , e 
es mais Fidalgos que hiam feridos ^ e os 
levou comfigo , mandando os mais repartir 

rr cafas , e curar com rouito refguardo* 
vendo cue o remedio de Baharem nao 
eftava em lentimento , fenáo na preíTa ; nem 
em lagrimas « fenSo no foccorro , defpedia 
logo com muita preíTa AleixoCanrallu) em 
hum Catur ligeiro cheio de maDi;6es , elhet 
deo carras pera Pero Peixmo , em que ihe 
aifirmava, qoeapós elle chegaria, elhe en^ 
commendava muico ihe tornaíTe a enviar lo^ 
go Aleixo Carvalho com recado do modo 
em que as coufas efiavam^ pera ir advertida 
de algumas , qnándo lá chegafle. Defpedido 
efte horoem , mandou D. AntSo de Nonv 
nha com muirá prdfa concenar huma das 
gales dos Turcos pera fuá peíToa , e piepa* 
rar os navios de remo , que Ibe foiam , e 
embarcar muiros mantimentos , e muni^6es> 
porque determina va de nao tomar fem to- 
mar vinganga da morte de tantos Fidalgos. 
E porque aquelle negocio recava tanto 
a EIRey de Onmus , aíTenroQ com elie , que 
fbíTe em fuá companfaia' Rax ikordiñ Gua« 
iú , e que de caminbo üzefle gente Paríeaí 
pela cofta do Verdeftan , e VidicaW; e man- 
dou pera iffo negckriar muifosterrariquins; 
é mantimentos em abundancia' pera ro^ a 
jornada^ £ fendo tudo preft^^ íet^krcou 

D. 



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1^6 ASIA DE DioGo DE CotrTó 

D. Antáo de Noronha, em alguns dias de^ 
Setembro já andados , e com elle D. Vafeo 
de Taide ainda ferido, porque nao quiz ñ^ 
car em Ormuz , por fe achar na vingan^ar 
que fe efperava tomar de tantos Fidalgos 
mortos , parentee , e amigos ; e deixou en* 
tregüe aquella fortaleza ao Alcaide mór^ 
com alguns cafados , porque toda a mais 
gente ie embarcou ¿quelle foccorro ; e che- 
gando á coila do Verdeñan, fedeteve nella 
alguns dias , em quanto o Guazil fazia a 
gente. E aqui o deíxaremos por continuar- 
mos com Aleixo Carvallio , que deixámoa 
partido pera fiaharem. 

Chegado efte homem aquella 1 1 ha em 
poucos dias , deo as cartas :que levava de 
ElRey , e Capitáo pera o Guazil , e pera 
Pero PeixDio , em que Ihe pedia D. Antáo 
de Noronha , que fe deixaíle eftar aífim na 
guarda da liba até elle chegar , e que Ihe 
tornaíFe a mandar Aleixo Carvalho com a 
informajjSo do que Ihe pedia ; e ero quanto 
Q nao díefpacháram pera fe tornar, defejou 
de ir ao arraial dos Turcos ,. e pedio ao Gua*» 
zil que Ibe houvefle licenja pera iíFo; por-^ 
^ue como era muito pratico em todas, a^ 
coufas, efalJava melhor alingua Perfa, po*- 
derla muito hem notar a eftado em que os 
'jTurcoa pflava^ , e faber dos cativos, edos^ 
que eraíR vív.o$ fwa ágt^vmm^o.. Q Gna^^ 

. zil 



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Dec. VII. Liv. VII. C A?. X. 137 

sil por parecer aflím bem a todos r «tandoi^ 
pedir licenja , e feguro ao Baxá pera poder 
ir hum Portuguez a viíitar os cativos que lá 
eñavam , e pera Jhes levar alguinas coufas 
de que eftariam faltos , o que q Baxá Ihe 
concedeo ; € Aleixo Carvaiho fpí íogo ao 
ejercito coiQ inuitas couias » que antre todos 
ieajuntáram pera os cativos, aílins pera vef- 
tirem , corop pera comereip ^ pela neceffida-, 
de em que haviam d^ eftar. O Baxá recebea 
bem efte homem , e o deixou fallar com os 
cativos , com quem efteye multo de vagar j 
€e0>algumg$. praticaa queteve com o Baxá y 
Uie fez grandes promeíTas , e, oÉerecimenio» 
pera em Ormus: metter a mao antre elle , e 
o Capicao fobre concertó de pazes , e que 
deterinínava de íe partir logo , e fazer corix 
o Capitao que fe nao abaiaíTe de Orm]uz> 
pois elle eílava^ já fobre coiM?ertos com Pera 
reinóte. O^B^xá Ihe dep hupia formofa ca-* 
baia , e dizem que Ihe promettéfa huma 
pancada dedinheiro, felhe troi;ixene recado 
do coqc^rto que tinha fejto com Pero Pei* 
ipoto , e fe eflprvaíTe ao Gapitao a jornada*. 
E defpedindo-íe do Ba;xá , íe tornou pera. a 
fortaleza ; e tpmando ^^ttas do Guazil , e 
fero Peixoto, fc-embaiícou pera Ormuz, e 
^aquella preíTa deo muito; que fufpeitar a 
todos , pqrqüe Ihes pareceo que fora pera 
tpmar a¿¿i.a-.o Capijáft ^ primeiro qu^ parr 

tif. 



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138 ASIA DE pioGo DE CorTo 

riñe , pera o embarazan E fendo tanto ávaí^ 
te como a Ilha de Angao , encontrou toda 
a Armada, que já vinha fuá derrota , fov* 
que com os terranquins do Guazil (em que 
trazia quatrocentos Parfeos , que fez ,por 
aquella cofta) fazia huma arrezoada frota. 
E indo demandar a galé do Capitao , Ihe 
deo conta de tudo o que tinha paflado com 
o Guazil , e do eftado em que as coufas ef» 
tavam , e do aperto , e defefpera^áo que 
havia antre os Turcos por falta de manti<» 
mentos* D. Antáo de Noronha eftimou mui^ 
to as novas, e muito mais efiarem os cati-^ 
vos saos , e bem dífpoftos ; e que com o 
pouco que Aleixo Carvalho Ihes tinha leva^ 
do fe poderiam remediar alguns dias ; e apréf* 
fando-fe o mais que pode , foi furgir defron* 
te daquella fortaleza com huma frota , que 
efpantou os Turcos. E logo cbegáram á «• 
lé do Capitáo o Guazil , e D. Joáo de No- 
ronha, de quem foube muico devagar oeí^ 
tado das coufas , e mandou recado a Pera 
Pcixoto , que fe nSo bullifie donde eftava , 
e profeguiíTe na guarda da Ilha com grande 
cuidado, c vigilancia. 

Ao outro dür» cbamou os Guazis ambos y 
e as peíToas principaes da Armírda , e tratou 
fobre o modo que fe feria naquetla guerra ,/ 
e o que feria bom fazer-fe , porque elle nÍo 
vinha alli fenao pera tomar fatkfa^o de 

tan- 



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Dfic. VII. Liv. VIL Cap. X. 139 

tanta morte , e aíFronta. E debatida a cauía 
aotre todos , aíFentáratn « que fe continuafle 
» na guarda da Ilha, pera que nao fahiflre, 
» nem IheentraíTe couía alguma , eque de(- 
» ta maneira fe mataíTeni os Turcos a pura 
> fome , fem fe arrifcar huma fó peUoa , 
)» porque totalofrente Ihes hia faltando tudo ; 
1» e que nSo traraííem de ihes dar batalha , 
I porque iíTo era o que eiles defejavam , pe« 
» la defefpera^áo em que eftav^sm de foc- 
» corro ; e que chegando a commetterem 
B partidos , fe ihes fizeíTem de maneira que 
n ihes pareceíTe , e que foíle mais crédito , 
)i e honra do Eitado.» Ailentado iflo, tor- 
nou D. Antáo de Noronha a encommcndar 
a guarda da liha ao Capitáo mor Pero Pei« 
%oiQ , e Ihe deo todas as embarca^Óes iigei- 
ras até os terranquins , porque de todo Ihes 
íoipediflem a ferventia, como k fez. 

Vendo os Turcos o Capitao de Oj^muz 
com tanto poder, e que nao tratava de os^ 
commetter por batalha , fenáo fazer-ihes 
guerra com fome , defendenda-lhes tudo , 
e que efiavam em eílado que comiant hervas 
pe^onhentas , de que morriain muitos , fem 
íe faberem dar a confelho , e .andavam em 
magotes , dlzeodo que aquillo era defefpera* 
^áo , ver que morriam todos fem os matar 
alguem y culpavam o Baxá de< já nao m^ítiP' 
dar commetter todos os partidos ., que 09 

Por- 



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140 ASIA DE DiOGO DE COÜTÓ 

Portugueies quizeíTcm pera íalvaretn b$ vi- 
das , nem o Baxá cftava longe diíTo ; mas 
nao oufava a fer oprimeiro que fallafle nif« 
fo com medo dosJaniíTaros. MirSoltáoAIi 
Capitáo de Catifa , que foi defejando de fe 
ianear com ElRey de Ormuz , e com oa 
Portuguezes, pela culpa emque lioha cabi- 
do, mandou viíítar D. AntSo deNoronha, 
e fazer-lhe grandes offerccimentos. Era a 
ede tempo Capitáo em Califa Mamede Bec, 
Turco de najáo , e grande inimigo dos Por- 
tuguezes y que fabendo das peífoas que Mir 
Soltáo Ali mandava a D. Antáo de Noro- 
nha , efcreveo por huma dellas em mnito fe^ 
gredo huma carta ao Baxá dos Turcos, em 
que Hie lembrava , que eram vaíTallos da 
grao Senhor , e que eftivelTc forte , e con^ 
fiado, porque o foccorro deBa^ora náopo^ 
dia tardar. Eftes Inviados deMirSoltáo re-» 
cebeo D, Antáo bem , e os defpedio com 
refpofta de grandes agradecimentos ; e antes 
que fe partiííem , teve o que levava a carta 
de Mamede Bec , modo pera fe dar ao Ba-« 
xá , efoi por via dos Parfeos mefmos , por 
alguma coufa queihesdeo. Com efta carta ¿ 
que o Baxá modrou aos Turcos , fe anima- 
ram todos , e ceíTáram alguns recados , que 
já andavatiT em fegredo antre elles , e os 
aioiTos , do que D. Antáo de Noronha fe 
comeyou a enfadar , porque era já entrada 

de 



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Dkc. vil Liv. vil Cap. X. 141 

<ie Outubro , em que os Levantes cometa- 
Tam naquelle EQreito , e com elles entravam 
de continuo aquellas febres malignas , de 
que ningueni eícapa. E vendo que os Tur- 
cos, fem Ihes entrar coufa alguma de fóra, 
ie fuílentavam tanto , e que nao fallavam 
impartidos, quaíi que Ihe entravam defcon* 
fianzas daquelle negocio , que entendidas pe- 
los Guazis de Ormuz , e Babarem , aconfe- 
Iháram a D. Antáo deNoronha que delem* 
barcaíTe em térra ; porque os Turcos , fe- 
gundo eftavam deíefperados pela falta que 
tinham de tudo , deixavam de íe Ihe entre- 
gar por elle eftar no mar , e cuidarem que 
le poderia enfadar , e tornar. Com ifto def- 
embarcou elle , e poz fuas eílancias ao re- 
dor da fortaleza , e os Guazis com os Par- 
iéos a huma parte feparada. ' 

E como eftes eram Mouros , como os 
outros ,. e vencidos tambem do grande inte- 
Teíle , li tinham maneira com que de noite 
Ules vendiam alguns mantimentos , que elies 
compravam mui bem, com o que come^á^ 
ram a cobrar mais algum alentó. D* Antáo 
de Noronha , como era fagaz , e prudente , 
nao deixou de fe recear daquelle negocio ; 
e deitando muitas guardas , e vigías , hou* 
veram ásmaos alguns defies, que logo man- 
dou enforcar á vifta do erqrcito. E todavía 
vendo D« Antáo deNoropha que íehia gaf- 

taa* 



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T42 ASIA DE DíOGO D£ COUTÓ 

lando o tempo , e que os Turcos nao dá« 
vam coufa aíguma de íi, nem commetriam 
partidos , determinou de Ihes dar batalba^ 
pera 6 que mandou fazer prepara^óes i e hum 
Inofre de Carvalho Portuguez, grande Ar* 
quiteélo (gue ElRey D. Sebaíliáo tinha man* 
dado a reformar a fortaleza de Ormuz) or- 
denou huma máquina de madeira fobrc ro- 
das altas , pera de íima pelejarem alguns ho- 
mens , e Ihe poz algumas pe^as de artilhe- 
fia , porque deferminava D. Antáo de No- 
ronha de levar diante eíla máquina , pera 
nella quebrarem os Turcos a primeira turia 
de fuá arcabuzaria. E andando occupado 
nefta obra, morreo oBaxá dos Turcos das 
feridas , que ihe deram na batalha de D, 
Alvaro da Silveira , e os Turcos eiegéramr 
outrp mais esforzado , e de nielhor enten«< 
dioténto que o morto , que era hum San* 
giaco 9 que fe chama va Mahamede» Com 
eíla mudanza a comegou tambem de faaver 
nos Turcos, e alguns fe carteáram com os 
Parfcos da noífa parte, que parece que de 
medo dos que víram enforcar, foram loga 
dar conta a D» Antáo de Noronha que Ihes 
difle: tQue ihes refpondeflem , que enten«: 
» diam delle que fe ihe pediíTem mifericor- 
» tiia , a uíaria com elies. » E tornando 09 
Turcos a fegundar, (oque havia deferpor 
efdeoí do fea Baxá^ ) tornáram^liic os Par^ 
-i .- feos 



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Deg. vil Liv/VII. Cap. X. 143 

icos a refponder, como já tinham feito; e 
declarando*Ibes oíais : « Que Ihes parecia que 
n Ihes nao concedería o Capitáo partidos , 
9 fem primeiro Ihe ferem entregues os cati- 
9 vos 9 e as armas. » Do que fe alteráram 
fnuito os que niño cndavam, dizendo «que 
31 ñas armas nao haviam de fallar aos Janii^ 
» faros , que Ihas foíTem os noíTos lá pedir ^ 
n porque elles Ihas dariam pelo pre^o com 
ü que o coílumavam a fazer 9 e com ülo 
paráram alguns dias os recados. 

Succedeo nefta conjungao atraveíFar-fe 
Mir Soltáo Ali a metter máo ñeñe negocio y 
t efcreveo eña fuá ten^áo a D. Antáo de 
Noronha ; e pelas peíToas que a iÜp man^ 
dou , efcreveo huma carta ao Baxá do Turco 
« em que Ihe dava o peza-me deJeus tra- 

> balbos ; e á volta de outras coufas Ihe 
% aconfeihava que entralTe em algum partí* 

> do honefto com os Portuguezes , porque 
II eram homens , que nao deíiñiam do que 
» coraefavam , e. que vingavam bem fuas 
» affrontas; e que aínda, que todo o Eñado 
» da India fe arrifcaíTe naquelie negocio , o 
» baviam de levar avante , e que fe nao ha- 
» viam de apartar de fobre aquella Ilha fem 
» os matarem a todos. » Efla carta abalou 
muito o Baxá; e por confelho de poucos^ 
de quem íe fiou , mandou vifitar D. Atíúq 
de Noronha com bum foimofo Ginetc de 

pre« 



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144 ASIA DE DiOGO DE CovTo 

^reíentCy.mas nao Ihemandou tocar emotf- 
tra coufa alguma. D. Antáo de Noronba Ihe 
refpondeo á ?iíiía muito bccn i mas nao Ihe 
acceitou o cavallo , porque na guerra nao 
era licito acceitar prefentes dos ioimigos. 
Eftando as coufas nefte edado , offercceo-fe 
Aleixo Carvalho pera fe ir ver com o Ba- 
xá y de quem íicára grande amigo daquelía 
ida que lá fez , pera a voitas de o viíitar, 
ver , e notar o que fe praticava antre os 
Turcos ; e D. Antáo de Noronha Ihe deo 
huma inftruc^o das coufas , ' que havia de 
tratar com oBaxá. Foi efte homem lá mui- 
to bem recebido , e íicou no exercito dous 
dias , em que fallou algumas vezes em íe- 
gredo com o Baxá fobre partidos , fem con- 
cluirem coufa alguma ; porque parece que 
]he nao chegava ás condi^Óes , que levava* 
por apontamento , com o que fe tornou. B 
como os JaniíTaros andavam ciofos do Ba* 
xá , e fouberam que fallara em fegredo com 
Aleixo Carvalho , imaginando que os que- 
ría trahir, a troco de fe elle falvar, deram 
todos na fuá renda, e o prendéram, e Ihe 
puzeram grandes guardas, mas nao o defa* 
poflfáram , antes Ihe diíleram « que correífe 
> com feu cargo , porque todos Ihe obede- 
cí ceriam ñas coufas juftas , pois nao que- 
% rjam mais que fegurallojieaíCm íicou o 
Baxá reteudo ^ fem ^os Janiílaros deixaren^ 

ea- 



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Dbc. Vlí. Liy. Vil- Cap. Xt í4f 

(rtitrar com elle peíToa alguma de rufpeita ^ 
e por efta razáo cefiaram os recados , e náo^ 
houve inais fallar-fe em coufa aigiima^ 

e A P I T Ü L O XL 

De como pot órderrí de Co^ Ocem Carnal^ 
P arfeo , mandar am os turcos os Portu^ 
gueíaes tatitos a D. AntSo de Noronba : 
e dos recados que pdffHram antre Mif 
Soltao Alt , e elle : e de como D. Antao 
de Nóronha per ordem fuá mandou tna* 
tar Mamede Bec , Capttao de Catifa , 
que foi a Babarem fobre coñcertús depa^ 
zes : e dos partidos que os noffos fizerant 
com os Turcos : e da defcrip¡ao da liba 
Baharenu 

Flcando as coufa^ aí&m patadas algum 
dias 9 como todos eftavam com o receiq 
das febres ^ e dcfejavam de concluir aquella 
negocio depreíTa , quiz mecter máo nelle hum^ 
Parfeo, que ttnha vi¡ido em companhia do 
Guazil de Ortnuz y chamado Coge Ocem 
Camal , hooiem mui prudeme , e de grande 
coiireiho, e muito conbecido dosJaniíTaros. 
Eíte pedio licenga a D; Amáo de Noronha 
pera fe ir ver com o Baxá , porque elle ef*^ 
perava em Déos fereíla fuá ida lá de mui- 
to eíFeito ; c dañdo^lha, fe foi ao eKec(;uQ, 
dos Turcos , que o tecd^féram bem > e íicott 
Coata. Tom. IK P. iL K to- 



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146 ASIA Ó^L.DlOQO DE COUTO 

todo aquelle dia com o Bnxi ^ praticando 
íempre diante dos que o guardavam , cx>m 
muitas honras ; e nefta converfa^ao nÍo pra* 
ticáram emcoufa alguma, fenao diante dos 
JaniíTaros, E eftando todos aíSm era conver- 
fa^áo fallando daquella guerra , Ihes eftra- 
nhou multo Coge Ocem o máp modo que 
tinha levado em fuas coufas , e no remedio 
de fuá falvagao : no que bem parecía que 
1330 tinha conheclmento da condÍ9áo, e na- 
tureza dos Portuguezcs , nem do modo de 
negociar com elles « que Ihe afiírmava que 
» todos eram táo robuftos por naiureza , c 

> de ánimos táo determinados , e táo defe- 
^ jofos , e folícitos de vlngar funs aíFrontas , 

> que imaginava que fe nao haviam de apar- 

> tar daquella Ilha , aínda que todos mor« 
^reflem, íém concluir aquelle negocio: que 

> nao efperaíTem remirem-fe por armas , por* 
» que o Que os Portuguezes podiam íazer 
» a feu falvo , o nao haviam de commetter 

> com perigo , fenáo quando já nao tlveíkn^ 
9 outro remedio ; porque Jtambem le fabia 
)i delles que nunca engeltiram batalha , quan* 
^ do Ihes foi neccflario: mz9 que elles h^ 
>i viam por. ora deefcular de a dar, porque 
)i fabiam multo bem o eftado em que elles 
^ éftavam, eque náocratavam demais, que 
n de os confumir á fome- Que fe efpantava 
» muíto delle^ e dos Jamílkros, fendo vaf* 

ji fal- 



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Dec. VII. Liv. Vil. Cap. XI. 147 

» fallos do grao Senhor , mandar vifitar o 
i Capitáo de Ormuz com bum ca vallo de 
» {>rercote , que era coufa , que fe dava aos 
% Toldados : que houvera díe ter naqurllo ou- 
» tro modo.» E perguntando-lbe o Baxá^ 
qual ? Ihe diffe « que Ihc houvera de mait- 
3» dar de prefcnte todos os Portuguezes ca* 
» tivos , e duas , ou tres pejas de artilheria , 
ji que na batalba tomara , porque iflb nao 
9 Ihe montava coufa alguma, e o Capitáo 
3» o eftimára muito ;, e nzera muito ao caíb 
)i pera fua^ coufas pararem em bem. y Oih 
▼indo o Baxá , e os Janiílaros aquellas pa- 
lavras , e levados da razáo dellas ;, Iiouven 
ram que era confelho de amigo , e que falr 
iava como homem prudente j e logo Ihe pe* 
dtram « que quizefle elle fer o que ievaílc 
» a vifíra^áo , entregando-lhe logo todos os 
» Portuguezes ca'tivos , e a artilheria com 
% muitos fervidores pera a levarem. » Com 
ludo ifto chegou Coge Ocem Camal a D, 
Antáo de Noronha , e Iho aprefentou da 
parte do Baxá , contando^lhe o modo que 
fivera naquelle negocio. D. Amío de No- 
ronha eñimou muito os cativos, porque en^ 
travam nelles Fidalgos muito honrados , e 
deiles tomou alguns por hofpedesr; osoutrós 
leváram comíigo oiHros parentes , e amigos j 
€ aos fervidores , que vierám íalhando a ap- 
lilheria , fez militas mercés > e m^ndou -ao 
£ii Bar 



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14^ ASIA ÜE DiOQO DE COÜTO 

Baxá os agradecimentos daquellc preíente^ 
miílurados cooi muitas pe^as , « brincos ri^ 
eos , e curiofos 9 e o Coge Ocem Camal 
nao ficou defcontciue de fazer aquello fer?» 
VÍ90 a D. Antáo de Noronha , e a todos oí 
xnais. Daqui ücou o caaiinho aberro pera 
tratarem de "Concertos , e come^ou de líaver 
praticas fobre iflb de parte a parre y e fenv- 
pre fe concluíram , íenáo fora MamedeBec, 
Capitáo deCatifa , que fe carteava a miude^ 
com o Baxá , requerendo*lhe nao fizeíTe cou- 
fa alguma de ü , aré Ihe nao vir íoccorro 
de Ba^orá , que nao rardaria multo» O Mir 
Soliáo Ali, que era fagaz , e prudente , e 
entendía o odio que o Mamede Bec tinha 
aos Portuguezes , defejando de ficar defta jor- 
nada acredicado com elles , cendo algumas 
^praticas com. o Mamede Bec fobre os Tur- 
<:o$ y ihe aconfelhou « que foíTe a Bahareca 
^ a ,tratal; com o Capitaa de Ormuz conr 
;i cerío. com os Turcos , por eftarcm fem 
ji remedio , e que elle efcreveria ao Capi* 
» táo , e ao Baxá por elle y e que coníiava 
}» com iño acabarem as coufas cm bem.^ » 
O Mamede Bec parecendo-llie aquillo bem y 
embarcüu-le logo em rerranquins , levando 
cartas deMir SoltaoAIi, em que perfuadia 
ao Baxá a fazer todos, os concertos , de ma« 
Beira que poupaíTem todos as vidas , porque 
tudo o mais fe remediaria com ellas. E lem 

fuá 



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Dec. VII. Liv. VII. Cap. XÍ. 149 

fuá companhia mandou hum criado feü, ho 
mem de grande oonfianja , por quem efcrc- 
veo em niuito fegredo a D. Antáo de No- 
ronha a maldade , e malicia do Matnede 
Bec , affirmando-lhe « que elle era occafiáo 
íi de os Turcos fe nao terem já entregues , 
31 e que o mor inimigo que os Portuguezes 
» tinham, era elle: queahi Ihefkava tempo 
31 pera Iho pagar. » D. Antáo de Noronha 
fez muirás honras aMamedeBec, e 1 he dea 
licen^a pera ir ao exercito dos Turcos a fallar 
com o Baxá , porque elle mefrao fe oíFereceo 
acabar aquellas coufas multo d f^u gofto. 

Aqueile día efteve aquelle Mouro com 
t) Baxá ; e o que ambos praticáram nao fe 
fabe, fomente tornar ao outro dia,e tratar 
com D. Antáo de Noronha fobre concentos 
de pazcs^ e commctter-lhe muiros partidos 
da parte do Baxá , no em que fe Ihe elle 
moftrou fácil ; mas dilTe-lhe « que era necef- 
» fario tornar- fe aCatifa com humas cartas 
» pera MirSoltaoAli, e que com a refpoí- 
» ta del las fe refumiria n mandando-o logo 
embarcar em hum terranquim ligeiro, ecoiñ 
elle Aleixo Carvalho , e dous ¡Toldados va- 
Jentes homens , chamados Manoel Coelho , 
( que depois foi muiros annos Alcaide etn 
Goa,) e Sagramor Gonjalves , natural do 
Algarve , que hiam já enfaiados do que ha- 
viam de fazer. 

Par- 



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f5'0 ASIA DE DiOQO DE COUTÓ 

Parddos cites hoaiens , e affaílados de 
Baharem meia legua y dco Aleixo Carvalho 
de olho aos outros , com o que ambois á 
hum mefmq tempo orremettéram ao Mame- 
de Bec , cada hum delles com feu golpe, 
pera o matarem ; mas nao pode fer Uto rao 
deprefla , que elle o nao fentifle , e tiveífe 
tempo pera fe defviar, E abalando-fe a Im^ 
ma banda , (como era homem muito groíTo , 
e o terranquim pequeño , ) tanto que aquel- 
Je pezo ficou iodo fobre ella., logo fe vi- 
rou, e ficáram todos no mar, c acertou de 
fer fobre hum baíxo, quedava pelos peitos. 
Manoel CóeMio , que teve tentó noMouro, 
arremeneo a elle aílim dentro na agua , e 
deo*ihe huma eftocada , que o varou logo 
de parte a parte ; e o mefmo fizeram a dous , 
ou tres criados que levava , porque fe nao 
dcfcubrilTe o cafo. 

Feito ifto , endireitáram o terranquim, 
c fe tornáram pera Baharem. Efte negorio 
nao pode fer feito com tanto fegredo , que 
os Turcos o nao víeflem logo a faber, (que 
devia de fer por algum marinheiro do ter- 
ranquim,) do que el!es ficáram táo efcanda- 
lizados , que tornáram a ceíTar os recados, 
E como os Levantes já eram entrados , dco 
o mal em os noflbs tio fortemente , que de 
humater^a feira até afefta fcguinte cahíram 
duzentos horneas daquellas febres, que ficá- 
ram 



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Dec. vil Liv. vil Cap- XL lyi 

ram cotno mortaes , e edirados pela aréa , 
fem fe poderem mover. £ como o mal era 
geral , nao ticáram os Turcos fóra delle , qub 
tambem cahíram a mor parre delles ; e como 
Ihes falta vam todos os remedios, e regimen- 
tó que nellcs nao ha, come^áram a morrer 
muiros , e dos nolíos boa parte ; e foi i(lo 
em tanto crefcimemo, que em todo o nof- 
íó exercito nao ficáram mais de quarenta 
saos , c íiinda eíles com tamanbo medo de 
Ibes dar o mal , que andavam como pafma- 
dos. D. Antáo de Norpnha fentio muiro 
aquella defaventura , e receou que 1 he mor- 
reíTcm todos, e que ainda elle nao efcapaf- 
le , porque andava já muito iachacofo , e qua- 
í¡ com amea^os do mal. Os Turcos vendo- 
fe tambem naquelle eñado , e faltos de ru- 
do , tornáram a puxar por concertos rijamen- 
te. £ como da nofla parte nao era menor 
a neceflidade , viera m-fe a concluir aquellas 
coufas com eftas condijóes : 

« Que elles entregaíTem as armas, eca- 
1» valles , e doze mil cruzados pera as de(^ 
» pezas daquella Armada , c que íe foífem 
» pera Ba^orá coni íuas peíToas , pera o que 
» Ihes dariam embarca^oes bailantes pera os 
> pórem da outra banda » o que fe logo 
fez, e D. Amáo de Noronha fe embarcou 
logo depois de tomar entrega de tudo , c 
deizou o Guazil, eGil de Goes de Lacef- 

da^ 



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íp ASIA DE DiOQO DÉiCoüTO 

|]a , e Inofre do Soveral^ com os fcus navios 
pera darem ordem á paHagem dos Turcos, 
que íe fez nos terranquins do Guazil , em 
que os paflaratn á outra banda da térra fie- 
me, e por via de Califa fe foram pera Bar 
^orá , táo coitados , desbaratados , e enfe^* 
mos, que nao efcapáram de todos mais de 
duzentos. E os noííbs fe nao foram louvanr 
do , porque os mais dos que adoecéram , 
morréram ; e os que emBaharem' efcapáram 
.ás fiebres , adoecéram em Qrmuz , e ainda 
d^íTes morr^ram algunst - 

Vefcnp¡ao da liba de Baharentp 

He eña Ilha de Baharem de doze leguas , 
multo profpera de palmares , e de criajáo 
de gados : tcm no meio huma ferra com 
aJgumas fontes de agua multo boa , donde 
procedem algumas ribeiras , que defceni aos 
vaJies , e os rgtalham todos ; e efta agua 
eomodefce abaixo, vaicorrendo porhervas 
táo roins , que a fazem maliflima , c pego- 
nhenta. Cria eíla lilia multo boa cada de 
gineies , e formólas eguas : ha por toda ella 
-muitas romans , e figos de Portugal. Pefcáo- 
fe ao redor deíla as mais forniofas, e ricjas 
perolas , que ha em todo o mundo , e a ef- 
tas chamam as verdadeiras Orientaes; por- 
que pofto que em muitas partes as ha , co- 
mo no mar do Pégu ,. n^ Pefcaria :, antie 

Ma- 



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Dec vil L IV. Vil. Cap. XI. ifj 

Manar , c a térra firme , na grande , e mili- 
to formofa Ilha de Aihao, nn llha deCei* 
láo , e a tcrra firme , e em muirás partes da 
China , todavía nao fe podcm comparar com 
aquellas. Ao derredor defta llha , no mar 
falgado y dentro nelle arrebentáo muitos 
olhos de agua excellentiíCma , que íahem 
debaixo da mefma aréa , com tamanho im- 
peto , que faz hum rugido táo grande que 
fe ouve fóra. Aquí neíles olhos , e borbo^ 
toes de agua fazem os noflbs navios íua agua- 
tía deda maneira. 

Váo dous mergulhadores , e hum delles 
leva hum grande odre , e hum cano de bar- 
ro de grolTura que poíTa caber no pemil ; e 
como chegáo abaixo , mectem ede cano nó 
olho de agua até o enterrarem na aréa , e 
a boca de íima a encaixáo no pernii do 
odre ; e como efta agua em baixo arrebenta 
com furia , vai pelo cano aifima até encher 
o odre em pouco efpa^o. E porque tanto 
que o odre fe comega a encher , cometa a 
íuípender pera írma o que o tém , ferve o 
A:ompanhe¡ro , que com elle val , de fe Ihc 
por ñas codas por pezo, pera o odre o nao 
alcvantar ; e como eftá cheio , alarga , e o 
mefmo odre o traz aifima. E ha mergulha- 
dores deftes táo deftros , e exercitados neftas 
aguadas, que enchem muitos odres , femlhes 
entrar gotta de agua falguda. He eíla llha 

mui- 



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154 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

milito doenria , como diílemos , por cauía dos 
roíns vapores , de que fempre eflá cuberta ; 
c o homcm a que fuas febres tocao *, roda 
a vida Ihc 6cao os finaes deltas, fe efcapá. 

CAPITULO XII. 

Das coufas que mais acontecer cm na Abaf- 
Jia : e das dijputas que o Bijpo teve com 
o Emperador fobre pontos da Fé por ef^ 
crito 5 que os interpretes Ihefalftficdram : 
e daspaixSes que tiveram por Ihe oBif 
po nao querer entregar dous Frades Jbe^ 
icins , que fogíram pera elle. 

DEixámos atrás o Emperador apartado 
do Bifpo na térra doDecomo > com 
ten^o de fe deixar eftar devagar ; mas logo 
o inquietáram humas novas queJhe chegá- 
ram , que íhe tornáram os Cafres Gallas a 
entrar pelas cerras , e oue andavam fazendo 
ouira mor deftruijáo. Pelo que mandou ao 
Belamal k\\ primo com irmao, que acudif- 
fe áquelle negocio , e Ihe deo muirá gente 
da fuá ordinaria; e diíTe a Gafpar de Soufa 
que o acompanhaíTe naquella jornada com 
todos os Portuguezes: do que fe elle efcu- 
Ibu com Ihedizer, que elies náohaviam de 
acompanhar fenao fuá propria peíToa; eque 
íeelle queria que foílem, qué vAo mandaíle 
o Belamal , porque elle fó cora os Portu- 

gue- 



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Dec. vil Liv, vil Cap. XIL js^ 

guezes Ihc iriam deitar os Cafres fóra das 
térras km outro algum cabedal; ao que íc 
o Emperador calou , c defpedio o BelamaL 
Alguns dosnoflbs, que foram comoBifpo, 
deíejando de feacharem em alguma coufa, 
de fuá propria vontade fe foram com elle; 
e chegando ás térras , onde os Cafres anda* 
vam , fouberam que depois de fe fenhorearem 
de tudo y fe dívidíram em magotes , e que 
andavam levando boa vida. Pelo que entran- 
do apreíTadamente pelas térras , primeiro que 
íe tornaíTem a ajuntar , foram dando em 
huns , e outros , e fizeram nelles grandes car- 
nifarias; e os que efcapáram fe foram fóra 
^as térras , deíxando as prezas que tinham 
feito. 

Concluido íílo , rornou-fe o Beiaraal a 
recolher; e em fahindo das térras , encon- 
tráram cora o Emperador, que hía de foc* 
corro , fó por obrigar aos noflbs a fe acha- 
rem naquella jornada , porque pela experi» 
encia que delles tinlia , havia que fem el^es 
nada fe faria ; e fabendo elle a vitoria que 
tinham alcanzado , feílejou multo ao Beia« 
mal , e fez multas honras aos noíTos que le 
acháram com elle , que foram Francifco Ja- 
come, Diogode AFvelIos, Antonio deSam- 
palo y e Gon^Io Soares Cardim , que a ca* 
vallo fizeram coufas muito notaveis. 

O Emperador com efte alvorogo fe tor« 

nou 



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1^6 ASIA DE DioGo DE Cauro 

«ou pera onde ficou a Rainha fuá mSi com 
o Bifpo, com quem fe reconciliou, e tor* 
nárana a correr em amizade, eoBiipo com 
fuá obrigajáo , trabalhando nido quanro pe- 
dia pelo tirar das herefias em que vivia ; 
porque fabia mui bem que como Ihe défle 
fl elle a conhecer a vcrdade , nos feus havia 
pouco que fazer ; porque ñas praticas que 
leve com muitos , eniendeo que de mcdo 
deixavam de confeíTar , e obedecer á Igreja 
Romana. E como o Emperador fe prezava 
de Letrado, e de muito.viflo na Efcritura, 
queria fuftentar fuas opinióes com authori- 
dades fem fundamento , fobre o que teve com 
o Bifpo grandes difputas por eícrito , por* 
que fogia de fe ver com elle o mais que 
podia , o que elle entendia mui bem , mas 
diílimulava, E porque hum dos feus princi^ 
paes erros , e que elle trabalhava por fuG- 
tentar, era , que a humanidade de Chriílo 
era igual á fuá Divindade , fobre o que man* 
dou ao Bifpo hum grande arrezoado ;-e que- 
rendo-lhe o Bifpo refponder tarobem poref- 
crito , nem elle , nem feus companheiros fa- 
biam a fuá lingua Latina , nem os Portu* 
guezes , que lá andavam , tinham della al- 

§um conJiecimento , fenao hum AíFonfo de 
ranja , que por certos deudos foi»pofto 
em huma Ilha , que eilava no meio de hum 
lago , que fe chamava Ohay, que ferá de 

hu- 



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Dec. vil Liv. vil Cap. XIL fy/ 

huma legua em roda , onde eftara hum mui*^ 
to frefco Mofieiro de Frades , com quem 
elle aprenderá as letras Abexins , e a cfcri* 
tura ; porque coftumSo elles , tanto que paí- 
sáo o A , B , C , enfinarem-lha logo a 1er. 
Pelo que fabendo o Bifpo que efte ASbnfo 
de Franca tinha diiTo alguní conbecimento ^ 
o chamou pera rcfponder á queftáo doEm-r 
peradorj e querendo fazer outro arrezoado 
lAmefino Latim dos Abexins , nao o fou« 
be efcrever aAflFonfo de Franja: pelo que 
chamou pera iflb hum Frade muito grande 
feu amigo pera efcrever o arrezoado doBíf* 
po, que Ihe foi lendo , e o Franja decla- 
rando na lingua Abexim , e o Frade efcre-* 
vendo. E como elle tambera era hercge, 
foi faifificando a opiniáo do Bifpo , e con- 
cedendo a igualdade de ambas as naturezas 
emChrido, aífim como o Emperador afuf- 
tentava. E levando os efcritos ao Empera- 
dor, que vio o que o Bifpo Ihe concedía , 
fez grandes feftas, e rauitas mercés ao Fra- 
de, elogo fez' trasladar os efcritos pormui- 
tas vias, eos mandón repartir por todos os 
Mofteiros de feus Eftados , jaélando-fe qué 
vencerá o Bifpo dos Portuguezes : o que 
elle logo veio a faber , e ficou muito apai- 
sonado contra AíFonfo de Franja , que nao 
teve culpa na velhacaria do Frade, e logo 
Ibe mamlou que foíTe dizer ao Emperador' 

que 



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lyS ASIA DE DioGO DE CovTa 

que o Frade falüficára o que Ihe mandara 
efcrever , e-que negava a fuá propoiigao*. 
Mas como o Emperador era herege , c af-<' 
ferrado á fuá opiniáo , refpondeo que já na- 
quillo nao havia que fazer , com entender 
muiro bem que a falfídade nafcéra do feu 
Frade, do que o Bilpo , e Padres ficárara 
mui defconfolados , e trabalháram logo dal- 
li em dianie por aprender a 1er, e efcrever 
a letra da térra , que o P. Gonzalo Galla* 
iras cm breve tempo velo a fabcr , o que 
baftava pera fe declaran 

Pelo que com iiíais affoiteza efcre»véram 
contra aquella opiniáo multo doutamente ^ 
c efpalháram os efcritos pelos Frades Letra- 
dos , e ainda fizeram livros contra todos os 
erros dos Absrxins, que fundíram a muitos, 
que de medo nao ouláram de fe retrasar. É 
aííim fizeram mais outros livrinhos devotos y 
fiuns dos ditos dos Padres antigos fobre a 
Fé Catholica , e outros da vida y emilagres 
de noíla Senbora , que os grandes trazem 
comfigo, e éftimam muito , e dlie chaniam 
Mji/ier Mariam , que he o mefmo que mi- 
lagres j ou Myfterios de María. Com ifto 
lornoii a falfidade do Frade a ficar clara , e 
vituperada , do que p ezou muito ao Empe- 
rador , que andava aíTombrado com o Bit 
po , e Padres^ E como elk coftumava a ca- 
Vulgar i% vezes , e as mais dellas mandar 

mu- 



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Dec. vil Liv* vil Cak XIL 15-9 

imilas ao Bifpo , e Padres pera o acompa- 
nharem , hutn d¡a , depois de terem argu- 
mentos íbbre a Circumcisao, a reprovou o 
Bifpo com multas auchoridades da Éfcritura , 
de que fe o Emperador refentio tanto , que 
indo aooutro dia pera o campo, virou pe- 
ra o Bifpo , que hia hum pouco atrás , e 
Ihe difle : t( Sabes , Bifpo , porque me cír- 
n cumcifo ? por limpeza. » Ao que o Bifpo 
refpondep: « Pois com eíTa limpeza te has 
n de ir. do inferno. » 

Diílo ücou o Emperador tomado do Bif- 

fo , e táo aborrecido dalli em diante dos 
ortuguezcs todos , que mandou prender 
huns leóes as portas dos feus pateos , pera 
que Ihe nao cnegaíTem a elles , como cof« 
tumavam. Mas com tudo o Bifpo nao dei- 
xa va de o reprender em público , e em fe- 
creto ; e ñas préga$6es perfuadia aos Portu- 
guezes a que nao ferviíTem aquelle Empe- 
rador , que era herege , e pertinaz , ( o que 
elle logo fabia , porque alguns dos Portu* 
guezeS) que de quando em quaiido manda- 
va chamar y Ihe coma vam tudo,) o que o 
acabou de efcandalizar , e indignar mais con- 
tra o Bifpo. 

Succedeo nefte tempo fogirem dous Fra- 
des de hum Mofteiro , e íe foram lanzar 
aos pés do Bifpo , dizendo , ^que queriara 
íer Catholicos^ e falvar Atas almas ^ e cito 

QS 



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l6o ASIA DÉ DiÓGO Dfe CcíUTO ' 

os recebeo , e ag&zalhou com muita caridades 
Mas em o iabendo o feu Maioral , llios man-' 
dou pedir : o Bifpo Ihe mandou dizer a que 
TU fe todos quanros tinha no feuMoíleiro fe 
» vieflem pera elle, todos feceberia de muí 
% boa vontade , e com muita alegría. » Da 

2ue indignado o Maioral , fe foi queixar aa 
imperador , que logo mandou chamar a 
Bifpó , que foi acorapanhado de trinta Porr 
tiiguezes. E em chegando , Ihe pedio os 
Frades feccamente. O Bifpo Ihc refpondeQ 
« que elle nao viera a feu Rey no pera deí^ 
n fervir a Déos, fenáo pera Ihe fazer muito» 
iBi férvidos: que os Frades eftavam Catholi- 
» eos, porque fabiam que pera fe falvarem 
» Ihes era aífim neccíTario , que fe deixaffe 
» diíTo , porque Ihos nao havia de dar. » Ven- 
do o Emperador aquella ifen^ao do Bifpo y> 
conie9ou a esbravejar , e paflear pela cafa ; e 
depoás de dar alguma^ volcas , tornou-fe a 
virar ao Bifpo, e Ihe pedio os Frades; ao 
que o Bifpo refpondeo, que Ihos nao havia 
de dar. Nao ? diflje o Emperador ; e tornan-^ 
do a virar compaíFeio muito inquieto , e 
indignado , fez querena de arremetter aa 
Bifpo. O que vifto por elle , entendendo-^ 
Ihe p animo , defpio a loba , e poz-fe de 
giolhos com grande animo pera rcceber ó 
inartyrio > cuidando que o queria o Empe-^. 
íador matar* Q^.ooílos, qiievíram aquilÍQ,? 

co- 



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ÜÉc. Víí. Liv. Vlí. Cap. XlL t6t 

éomej'aram-fe a revolver , e a concertar as 
^rmas com tenjáo de o defenderem. E ven- 
do o Emperador o Bifpo daquella maneira ^ 
deo algumas palmadas com ira ; e virando- 
fe pera eJIe , Jhedifle: « Cuidas que has dd 
n morrer martyr ás minhas mSos ? ora nao 
)i te quero dar eíTa gloria : vai-te, e leva 
1» os Frades , dá-lhe ovos á fefta feira , e 
n /eras Bifdo de dous Frades» E defenga- 
y^ no-te , que nao digo eu , mas todos os 
n que me fucíccderem , te háo háo de dar 
» a obediencia ^ nem mudar feus coílumes. n 
E virando-fe pera os Portuguezes , Ihes diíle : 
» Ide-vos : vos vedes o homem que me cá 
» mandou EIRey de Portugal meu ifrtiáo ? 
» faltava-ihe lá hum Portuguez ? » O Bifpo 
com os Poríuguezes fe foram fahindo pera 
fóra, e o leváram á füa poufada. E rece- 
ando-fe que o Emperador Ihe mandaíTe to- 
mar os Frades , os mandou em fegredo a 
Gonzalo Ferreira, (que era muito boro ho- 
mem , pera que Ihos tiveíTe fem o ninguem 
faber , como fez-) PaíTado ifto , dahi a pou- 
€0 mais de hum mez foi o Bifpo vifitar o 
Emperador; e depois de algumas praticas, 
Ihe pedio licenga pera mandar fazer huma 
Igreja na Provincia Mará ; o que elle fácil- 
mente Ihe Goncedeo , que o BHpo logO/ de- 
terminou de mandar levantar ptu os Chri- 
ftáos Catholicos que alli havia. 
C0UN.T$m.IF.P.iL L DE- 



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T6a 




DECADA SÉTIMA. 
L I V R O VIH. 

Da Hiftoria da India. 

CAPITULO I. 

Da viagem quefizeram as ndos , quepartí- 
ram pera o Rey no tto anno de i$^^: e de 
como ndo pcjfáram mais que a Rainba , 
o Tigre , e o Cajlello i e Francifco Bar- 
reto , e Jodo Rodrigues de Carvalho ar^ 
ribáram a Mozambique : e da perdicdo 
da udo N. Senbora da Barca , de que era 
Capitao mor D. Luiz Fernafides de Vaf* 
^onceüos : e de como fe fahou no feu ¿a* 
tej CQmJeffenta pejfoas : e do que mais Ibe 
fuccedea até tornar 4 India. 

NO Cap. III. do VI. Livro cjefta VIÍ. 
Decada d^ixámos FrancifcQ Barreto 
partida ^eGoa na nao Aguia pera o 
Reyno a vigíe ág JaBciio , e D. l#uiz Fer- 
^. 1 , naii- 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. L i6j 

nandes de Vafconcellos de Cochim na Gal* 
lega , com as mais naos da merma confer*- 
va , que partíram quafi no fim de Janeiro. 
Agora he neceíTario continuarmos com ellas i 
e darnios conta do que Ihes aconteceo nz 
viagem. Todas eílas naos , aílim a de D« 
Luiz Fernañdes de Vafconcellos , como a 
em que hia Francifco Barrero , e as mais^ 
que partíram de Cochim , foram feguindo 
fuá derrota com tempos Levantes até dobra- 
rem a Ilha de S. Lourenjo, e irem deman- 
dar a térra do Natal. E chegando á primei- 
ra poma delta , que eftá em trinta e hunti 
graos da banda do Sul , duzentas e trinta 
leguas do Cabo de Boa Efperanja , pouco 
mais , ou menos , Ihes deo huma tormenta 
geral , e mui rija , que as abrangeo a todas , 
e as tratou de maneira , que foi a total cau- 
fa de as mais deltas fe perderem , humas 
mais de preíTa , outras mais de vagar » con- 
« forme ao menor , ou maior impeto com que 
as alcan^ou , fem eílarem á villa humas das 
curras. Ficárara defta lempeftade (que difle- 
nios) os ventos táo rijos , e contrarios ^ e 
os mares táo groíTos , empolados , e cruza- 
dos , que as fez andar ás voltas com grande 
trabalho , e perigo ; e o que as tratou peior 
foram os muiros dias de pairo aue tiveram, 
que as deixou aberras , e deigovernadas , 
com curvas quebradas , cavilhas torcidas , c 
L ü en* 



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164 ASIA DE DioGo DÉ Couro 

cntremíchas arrebentadas , como acontecea 
á nao de Francifco Barreto , de qucni logo 
trataremos/ Gaftáram eílas naos cm deman- 
da do Cabo de Boa Elperanca todo o mez 
de Marjo. 

As naos Tigre , Caftello , e Rainba , que 
eram daconferva de DrConftantino, parece 
que fe fouberam feus Pilotos niclhor gover- 
nar ; ou foram táo bem aíFortunados , que 
Ibes deo Déos tempo , cora que dobráram 
o Cabo de Boa Elperanja , e foram a Por- 
tugal ; mas as outras « que eram do anno 
atrás da Armada de D. Luiz Fernandes de 
Vafconcell-os , que todas invernáram , todas 
fe vieram a perder em difFerentes paragens» 
A nao Framenga, de que era Capiíao An- 
tonio Mendes de Cañro , ainda que paíTou 
o Cabo de Boa Efpcranja, ficou úo deftro- 
jada , que fe foí perder em S. Tbotné. A 
Graja , que era da Armada do Vifo-Re/ 
D» Conftantino , de que era Capitáo Joáa, 
Rodrigues de Carvalho , te ve muitos con- 
traftes,. c muitos dias de pairo , em que fe 
Ihc palTou o tempo de dobrar o Cabo ; e 

{)or fazer muita agua , e Jhes faltar a que 
laviam de beber os que hiam nella , foi for- 
jado arribar a Mozambique, camo fez. 

A Patifa , em que hia o Governador 
Francifco Barreto , teve muitos ventos con- 
trarios , com que efieve a arvore fecca dc- 

20Í- 



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Dec VII. Liv. VIH. Cat- i. 1^5^ 

«cito dias , antre humas ondas de maie$ cru- 
zados, que pareciam altiílímos montes, de 
cujos ciimes a nao fe yia cahir multas vezes 
em huns valles , que parecía nao poder mais 
apparecer ; e com os grandes balanjos que 
dava de huma parte a outra , Ihe arrebentá* 
ram trinta e feis curvas pelas gargantas, e 
trocéram mais dequarenta cavilhas táogroC* 
fas , como o eolio de hum brajo , que pren- 
dia as curvas á nao , e quebráram dezoiro 
entremichas , que cingiam as curvas , que 
junto tudo ifto á velhice , e podridáo da 
nao, a fez abrir por tantas partes , que íe 
fora muito fácilmente ao fundo , fe faltara 
o valor , e diligencia com que Francifco Bar- 
reto fazia acudir ás bombas , e Janear fóra 
agua , que entrava nella por muitas partes , 
^ue ettavam abertas. A eftes trabalhos.acu- 
díram com muita vigilancia, e diligencia os 
Fidalgos que nella vinham, fendo Francif- 
co Barreto o primeiro , com cuja prefenja , 
e exeraplo andavam todos táo animados , 
que parecia que nao eílimavam hum traba- 
Iho , que fó Portuguezes puderam aturar, 
pera remedio do mal que foíFriam , fem lar- 
garem os aldropes das bombas das maos, 
,de dia, ñera de noitc ; e foi neceíTario ac- 
crefcentar-fe outro, de baldearem a pimen- 
ta de huns paioes em outros , pera íe tomar 
a agua que a nao fazia por elles , porque 

fe 



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i66 ASIA DE DioGd de Couto 

fe receava outro , que fora a total perdijáo 
da nao , que era ir a pimenta as bombas, 
cficarem comifto entupidas demaneira, que 
jiáo pudefl'em laborar , nem tirar fruto defte 
tío exceffivo trabalho , e tudo fofle era váo , 
por fe nao poder lanzar a agua fóra , que 
crefcia de maneira que com darem continua- 
mente a ellas , a nao podiam acabar de ve* 
dar , e feccar ; antes era tanta a agua , que 
entrava pelas aberras da nao , que hum mul- 
to pequeño efpafo , que deixavam de dar 
á bomba , achavam nella mais de tres , e qua- 
tro palmos de agua de vantagem da coftu- 
mada. Nefle trabalho paíTou a nao quatro 
dias continuos, fem fe largarem osaldropes^ 
das maos de dia , nem de noite ; e porque 
Iho ficava fazendo maior o fumo doíogáo, 
que. os ccgava , por ainJa naquelle tempo 
vir debaixo do convés , houveram osFidal- 
gos 5 e criados de ElRey , que davam á bom- 
ba , por menos mal náocomerem coufa , que 
houvefle de fer feita ao fogo, que fazer-fe 
de comer com rao grande contrapezo, co- 
mo era o do fumo, pera o que pcdíram a 
Francifco Barreto mandaílc prover naquillo 
doutro modo, porque íenao atrevinm a dar 
i bomba , com o Fogáo eñar accezo. O que 
elle fez com mandar ferrar duas pipas pelo 
meio , de que fe fizeram quatro ceibas , que 
fe puzeram no convés da nao , cheias de 

vi- 



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Dec. VII. Liv. VIII. Cap. L 167 

vinho, agua, ebifcouto, ealgumas conferí 
vas , de que fe fudentáram tres días , em qué 
fe nao comeo coufa , que fe houveffe dé 
fazer com Fogo* Achadas as aguas que a nio 
fazia, que foram íincoenta e quatro, trata* 
ram os ofliciaes della , calafates carpinteiros » 
de as tomarem por dentro da nao , que pot 
fóra nao era poflível , e áffim as foram to*- 
mando com fe cortarem algumas curvas , 
liamos , e entremichas ; que ainda que deSá 
maneira ficou a nao fazendo menos agua , 
iicava todavía mais fraca , por caufa doÉ 
liames que Ihe cortárarn ; e affim qualquer 
balando que dava , a fazia jogar toda táó 
defengon^ad'a , que cuidáram os que hianh 
nella , fer cada hora a derríideira em que fe 
liavia de abrir , e elles acabarem todos mi- 
lera ve! mente. Pelo que foi neceflario darem- 
Ihe hum cabo de proa , e outro de poppa > 
virados , e apertados com o cabreílante , pe- 
ra que nao abrifle de todo , e fe dividiíTe 
em militas parles ; e como a nao com todas 
eftas ajudas , e remedios nao deixava de fa- 
zer tanta agua , que nao faziam outra coufa 
todos os Fidalgos , e cavalleiros , que hiaiil 
TiCUa , fenao dar continuamente a ambas ás 
bombas, fem a poderem vencer, eefgctar, 
mandou Francifco Barre to por confelho dos 
officiaes della juramentados , alijar ao mar 
multas fazeadas de mercadores ^ como eram 

be- 



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i68 ASIA DE Dioao de Couto 

bejuim , de que fe lan^áram ao mar muitos 
quincaes , e muitos fardos de añil , e algu^ 
mas caixas de fedas , ^ muirás coufas da Chii* 
jia muito ricas , c curiq/as. 

Aconteceo nefte mefmo rompo, em que 
fe langáram ao mar edas fazendas, irem dar 
os trabalhadores com huns fardos de añil 
de hum alvirre, de que ElRey D^ Joao ía-p 
zia cada anno efmola , e mercé pera as obras 
da Igreja do Convenro de N, Senhora da 
Graja de Lisboa; e perguntando aFranciG»' 
co Barrero fe havia tambem aquelle añil de 
íer lanzado ao mar , como foram as mais 
fazendas a que o rinham fciro , refpondeo 
^ que nao , que quando nao houveíle outro 
^ remedio pera le falvar , fenáo lanfar-fe 
> a fuá propria delle, que eíl'a fe langafTe, 
3» porque ás coflas hayia de falvar a fazen*' 
ji da de N, Senhora , em cujo favor conr 
» íiava eílar o remedio , e falva^áo daquelia 
9 nao. )) 

Indo o trabalbo da agua , que a nao fa» 
zia, por dianre , enao bailando dar-fe con* 
tinuamente a ambas as bombas, pera deixar 
de fer raaior a quaniidade da que entrava , 
que a da que deiravam fóra com as bombas ; 
e aiTcceando-fe o Piloro (que fe charaava 
André Lopes ) que quando menos cuidaf- 
fem , fe Ihe fofle a nao ao fundo , por quáo 
rora , e aberra hia , ordenou pom conienrimen- 

ro 



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Dec. vil Liv. VIH. Cap. L 169 

lo de Francifco Barrero , encaminhar a nao 
n demandar a primeira térra que pudeflem 
^fferrar , que era pouco mais , ou menos a 
do Natal , (onde fe perderá Manoel de Sou- 
fa de Sepulveda no galeao S. Joao a vinte 
^ quatro de Junho do anno de 15'52 , cm 
Uiiua e hum graos da banda do Sul , ) ha» 
vendo por mclhor forte acabarem em térra 
as vidas , que comerem-nos os peixes no 
mar. E indo aílim coni a proa em térra , de 
que eílariam ílncocnta leguas , pouco mais , 
ou menos , chamou Francifco Barreto a con- 
felho o Piloto , Meftre , Contra-meílre , Sota* 
piloto , e todos os mais Officiaes da nao; 
e dando-lhes juramento fobre hum Miflal , 
e hum Crucifixo, em que todos puzeram a 
mao, Ihesmandou que cada hum delles díí^ 
feíTe pelo juramento que tomara , o que en- 
tendiam do eílado em que a nao eftava , e 
o que Ihes parecia bem que le fizelTe. Ao 
que o Pilotó , como peíToa principal , re- 
fpondeo primeiro , dizendo « que elle havia 
ji lincoenta annos' que andava no mar , e 
)» tinha paíTado aquella carreira muitas ve-* 
> zcs , onde fe vira em grandes perigos ; 
]» mas que nunca fe vira em algum tamanho 
p como aquelle , em que entao fe via , pelo 
m edado em que a nao eftava de podre , e 
}» muita agua que por eílar aberta fazia ; e 
)) que fe noíTo S^nhor por fuá mifericordia 

» os 



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I70 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

» os levaíTe a haver vifta de térra , que hiam 
» demandar, era a mor mercé que podiam 
» defejar homens , que andaflem no mar, 
i> e fe viíTem em tamanhos perigos , como 
» eram os em que íe elles viam. » O niefmo 
voto foi o do Meñre , e de todos os mais 
Officiaes, fem difcreparem huns dos outros. 

Vendo Francifco Barreto o eftado em 
que cñavam , fez a todos os da nao huma 
breve falla, nafcida de hum animo, a quem 
nem írabalhos canfavam , nem perigos atc- 
niorizavam , pera perder hum muito peque- 
no ponto deJle, (como a ouira que Eneas 
fez a feus companheiros , quando efcapáram 
da deílruifáo de Troia , andando pelo mar 
Mediterráneo , bufcando alguma parte de 
Italia, onde fundarte povoacáo , pelos ver 
trilles , e defcorajoados , como Virgilio con- 
ta no feu primeiro livro das Eneidas , ) di- 
zendo : 

« SenhoresFidaIgos,eCavalleiros, ami- 
» gos , e companheiros , nao de veis de vos 
» entriftecer, e melancolizar com irmos de- 

* mandar a térra , aonde levamos porta a 
» proa , porque pode fcr que nos leve Déos 
» a térra , onde portamos conquiftar outro 
» novo mundo , defcubrir outra India maior , 
31 que a que cftá dcfcuberca , pois levo aquí 
^ ridalgos , e Cavalleiros por companhei- 

* ros , com quem me atrevo a commetter 

Tfi to- 



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Dec. vil Liv. VIIL Cap. I. 171 

9 todas as conquiftas, e emprezas do mun« 
» do, por arduas, e diíHcuitofas que fójáo; 
)i porque o que a experiencia de inuicos que 
> aqui váo nena companliia me tem inof- 
» trado, me aííe^ura , e dá confían^a pera 
» nao ha ver couia no mundo , que poffa 
» temer , ñera recear. » 

Eñas palavras diíTe Francífco Barrete 
com o roño rao alegre , e defaflbmbrado , 
como fe fe eñivera recreando ñas hortas do 
valle de Enxobregas , c nao poflo a varar 
na térra da mais bruta , é barbara gente , 
que o mundo tem, É todavia accrefcentou 
com ellas a todos os daquella companhia 
novas forfas , e deo-lhes novos efpiriros pe- 
ra poderem continuar , e levar avante o pe- 
zo do trabalho , com que hiam , que era 
afiás grande. 

Indo alUm determinados a varar na térra 
do Natal , como as mercés que Déos coftu- 
ma fazer aos neccllltados do remedio , sao 
moftrar-lhes que na mor forga da defefpe- 
rafáo delle ahí Iho concede , aífim o uíbu 
com efles trabalhados, eaffiigidos navegan- 
tes, fazendo-lhes mercé delhes abrandar os 
ventos , e abonanzar os mares , (que até en- 
táo eram muito groíTos , eempolados,) que 
foi caufa de a nao ficar com menos traba- 
lho, dando menos balanjos, edefazer me- 
nos agua« Vendo o Piloto , e mais Oíficiaes 

da 



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172 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

¿a nao fer menor o perigo, foram de pa- 
recer , que mudaíTem o rumo , e fizeflem 
feu caminho pera Mozambique , onde efpe- 
ravam em Déos os havía de levar a falva* 
mentó. E affim foi, quecom ostempos ga* 
Jernos, ebrandos, quedalli por diante fem- 
pre tiveram , foi a nao fazendo fuá viagem. 
Mas osFidalgos, e paflageiros foram fgm- 
pre com os aldropes das bombas ñas maos , 
íem os tirarem dellas hum fó momento ; por* 
t}ue por breve que foíFe o ¡ntervallo que 
houveíTe de fe deixar de dar a avnbas as 
bombas , logo a agua crefcia muitos pal* 
mos , e os vencía ; e porque nao folTem ven- 
cidos della , hiam dando a ambas as bom* 
bas continuamente. 

E querendo Francifco Barrero alliviar 
efte táo grande , e continuo trabalho aos 
Fidalgos , chamou hum Capitáo dos Ca- 
fres, que vinha na nao , que os fazia tra- 
balhar , e era feu preíídente , e Ihe promet* 
teo cem cruzados , fe elle com feus compa- 
nheiros efgottaflem as bombas ; o que elles 
acceitáram. E pondo os peitos no trabalho, 
e o olho no que fe Ihe tinha promettido, 
em hum dia que trabalháram cfgottáram as 
bombas. Foi tamanho o contenta mentó de 
todos , que fe deo boa viagem pela nao, 
como fe paíTáram o Cabo de Boa Efperan- 
(a , ou eiuráram pela barra de Lisboa : e 

af- 



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Dec. VII. Liv. VIIL Cap. I. 17J 

aflim foram até Mozambique , aonde chegá- 
rara na entrada de Abril doanno de iSS9f 
e acharan! a nao Gar^a de JoSo Rodrigues 
de Carvalho , que chegára o dia dantes det 
trocada, pera invernar alli. £ aqui odeixa^ 
remos , até tornarmos a elles , por tratar-^ 
mos do que aconteceo á nao de D. Luiz 
Fernandes de Vafconcellos , que deixámos 
partida de Cocliim no ñm de Janeiro do 
mefmo anno. 

Efia nao , que (como ja diíTemos) fe 
chamava N. Stnhora da Barca , paflbu limi- 
to maior trabalho que todas , porque pare« 
ce que a tomou a tormenta mais em dcicu- 
berto , e mais perto , e a abrangeo com mor 
furia : te ve tantos contrates , os ventos táo 
rijos, e os mares táo groíTos, e cruzados^ 
que com o pairar, e trapear, abrió pormui- 
tas partes, ecomejou afazer grandes aguas ^ 
pelo que foram íempre dando ás bombas, 
iem nunca as largarem das maos de dia, 
nem de noite , nem ella íe poder eftancar , 
nem vencer com ellas \ antes foi a agua cres- 
cendo tanto , que I he cubrió a primeira cu- 
berta adima do poráo , o que cauÍQU em 10^ 
dos os da nao grande temor , e defconfíanga. 
Os Oíficiaes acudífam todos a trabalhar per 
la lanzar fóra com muitos barrís , que vafa- 
vam de dous em dous ^ por andaimes que 
fizeram ñas efcoiilhas , a que todos os da 

nao 



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174 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

nao fe foram rerezando, fendo D. Lulz o 
primeiro , que acudía a todo trabaiho , fem 
defcanjarem hum momento , nem comcrem 
fenao com os aldropes , e cordas ñas máos , 
mal , e pouco ; e foi tamanfao o trabaiho , 
que vcncia já a todos de maneira , que quaíi 
nao tinham máos , nem bracos pera o atu- 
rarem* Vendo-fe os OíEciaes naquelle raife- 
ravel eftado , houveram porfeuconfelho ar- 
ribarem , e irem varar aonde melhor pudef- 
fem ; e aílim viráram a poppa com aquelle 
trabaiho, edefconfolajáo, havendo-fe todos 
por perdidos , fazendo conta com Déos , e 
com fuas almas. Aquí fuppríram alguns Re- 
ligiofos quealli hiam daOrdcm dogloriofo 
Padre S¿ Francifco, que naquelle tranfe con- 
feflaram , e confoláram a todos com muita 
caridade , obrigando-os em confciencia a tra- 
balharem por le falvar ^ e a nao fe deixa- 
rem vencer do trabaiho. 

D. Luiz Fernandes moftrou nefte perigo 
multo grande animo, efoi a principal occa- 
ííáo de todos fe animarem j porque ao que 
canfava acudía logo cora alguma refeijáo, 
e Ibe tomava o aldrope , com que trabalhá- 
va até o ourro tomar alentó. E aílim por 
eftc modo corria todos os andaimes , tenda 
elle fó igual o trabaiho com todos; e aílim 
fe moftrou efte Fidalgo alegre, e confiado, 
e aí&m alegraba , e fazia confiar a todos y 

que 



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Dec, vil Liv. VIII. Cap. I. 175: 

que já trabalhavam com mais alegria que 
trifteza , rendo elle femprc próvido o convés 
da nao de celhas de agua, vlnlio , de bif* 
couto, e doces pera refei^ao dos que traba- 
Ihavam, nao dando algum hum ai , a que 
elle logo nao acudííTe , e confolaíTe , fem 
em todo eñe tempo entrar na cámara , nem 
faltar amre todos elles hum pequeño mc^ 
mentó. 

O Piloto da nao foi demandar a Ilha 
de S. Louren^o por mais perto , indo Já a 
nao quaíi adornada , com mais de vinte pal- 
mos de agua , e em tal eftado y que nem go- 
vernava , nem da va pelo leme coufa algu* 
ma y pelo pezo da agua que cada vez cref- 
cia mais. Vendo* fe os Officiaes perdidos , 
difleram cm fegredo a D. Luiz remandes 
]» que já nao havia remedio , que elles fe fa- 
n ziam doze , ou quinze leguas da térra da 
)» primcira ponta da Ilha de S. Louren^o 
n da banda do Ponente , que o t^om feria 
j tratarem de fe falvar no batel, os que 
> pudeíTem , que a nao já nao podía com* 
» figo. » 

Eftas novas ouvio D. Luiz Fernandes 
com multo grande animo ; e fem moílrar 
triñeza alguma , fez logo lanzar o batel ao 
mar , e metter-lhe mafto , verga , vél^ , e re- 
mos ; e foi tanta a preífa que a nao Ihe deo , 
(porque fe Ihe hia fogindo debaixo dos pés ,) 

que 



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176 ASIA DE DiOQO DE COVTÓ 

que nao tiveram mais tempo que pera htf^ 
$rar dentro feis peíToas com hum barril def 
agua , e hum íacco de bifcouto , e duas , ou 
tres caixas de marnielada. D. Luiz Fernan- 
des de Vafconcellos , depois de fér no batel , 
fez eleicSo das peíloas que liavia de reco- 
Jher , eftando aífañado da nao , porque fe 
Ihc nao langaíTem todos dentro , porque fe- 
ria caufa de fuá perdicáo ; e tendo já fef-* 
fenta , Ihe rcqueréram os Officiaes que nao 
tomaflc mais , porque o batel já nao podía 
comfígo , pelo que Ihe foi forjado aiFa{lar*fe<r 
E vendo que Ihe ficava o Padre Fr. Fernan- 
do de Caftro , de nobre gera^ao , confeflan-* 
do a gente , fe foi chegai>dó á nao pera o 
recolher , mandando-lhe dizer que fe nao 
havia de ir fem elle. 

Mas o Padre movido mais da caridade 
dos próximos , que do defejo da vida , Ihe 
refpondeo « que fe foíTe á paz de Déos, 

> que elle havia de ficar náquella nao con-» 
X feífando, e coniolando todos aquelles ir- 
)i máos ; porque mais importava a faiva^áa 

> das almas de duzentas peíToas, ou mais^ 

> que na nao íicavam , que a da fuá vidd 
» delle* )i Vendo D; Luiz remandes aquella- 
táo grande caridade, eamor dos próximos ,« 
Ihe pedio que os cncommendaíTe a Déos j 
e aíFaftandO'lé , deo á vela , deixando a to- 
dos os da n¿o em prantos ^ lagrimas y e gri^ 

tos. 



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t)Ec. vil. Liv. VIIL Caí. Í. iü 

tos , que feriam etTes ares ^ pedindo mife-^ 
hcordia , de que entáo fó Déos podía ufar. 
E indo ainda á vida da náü ^ yíram todos; 
forvella o mar, é recolhella em fuas entra-* 
nhas t que foi hum efpeélaculo de gravilli- 
ma dor, e itiágoa. 

Encommendando-fc a- Déos j forant feü 
caminho pera oude o Piloto melhor Ihe pa-^ 
receo, eadoutro día houvcram vifta de tér- 
ra em vinte graos e meio efeaflbs adiante 
da Bahia de Sant-íága pera o Ponente , e de 
longo da coila pela banda de fóra da Ilha 
a foram rodeando , fuftentando-fe coni o 
pouco que no batel fe nietteo , que fe llies 
dava por tanta regra, quanto bañava muito 
piedoíamente pera fe fuílentarem , fem D. 
Luiz Fcrnandes de Vafconcellos tomar pera 
íl niais coufi alguma , do que fe dava aos. 
üutros , moftrando-fe em toda efta viagem 
táo familiar , e humano a todos , que htami 
confolados^ e animados com o verem.- 

Por efta cofta foraiti tomando alguns pofi* 
tos , e Bahías ^ a que acudíram alguns da! 
térra , e fem defembarcarem refgatavam al- 
gumas gallinhas , que D. Luiz Fernandes 
jnandou guardar pera alguns enfermos , fem' 
elle querer comer hunta fó , rDgando-llro , e 
pedindo-lho todos. O principal de que fe 
foram fuftentando foi de marifeo, e peixe, 
que hiam tomando pelas^praias aquechega- 
Couto. Tom. ir. P. iL M vam , 



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178 ASIA üE DioGo DE Covró 

vam , ainda que alguns comiam cobras de 
agua, eoutras coulas nojentas. Por alguma^ 
Bahías dellas acháram algiimas peíToas que 
pareciam Jáos : por onde vieram a cuidar 
que já fora aquella cofia pela banda defóra 

f)ovoada de Jáos , porque fallavam a fuá 
ingua ; mas quanto a nos nefie panicular, 
por ñiais certo temos que fícáram eftas pel^ 
loas y que foranv encontrando , * de algumas 
naos que fe allí perdéram , ou que nafcéra 
deftas ; porque fe fora do tempo dos Jáos , 
já fe Ihestiáo houvera de entender alingua, 
nem os que delles procedem táo baíTos, 
porque rudo fe havia de perder com a com* 
munica^áo, e ajuntamenro dosnaturaes: nao 
negando porém que efia cofia deixafie de 
fer conquifiada , e povoad)a dos Jáos , fegun- 
do a opiniáo de muitos. 

Aflim foram os do batel até o Cabo da 
Xlha da banda do Levante ; e em huma en- 
feada , oue eftá em altura de treze graos , 
acháram num galeoto , que tinha partido da 
India pera Mozambique , que por ter os 
tempos contrarios foi tomar aquella Babia , 
que he muito grande , e formofa ; e fendo 
¿levifio dos do batel , foi pera todos hu« 
ma coufa de grande alegría , e alvoro^o , e 
o foram demandar. O Capitáo delle, que 
era htmi homem Fidalgo , (a quem nao pu« 
dtmos faber o iiome>) vendo os do batel, 
, . . e 



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ÜEc. Vlt Liv. VIIL Caf, i. 179 

€ conhecendo D. Luiz Fernandes de Val* 
concellos, foitambem feualvoro^o grande, 
e o recebeo a elle, e a todos muí bem , é 
delles foube fuá perdi^áo, e trabalhos, aue 
fentio em extremo. Alli os recolheo a toaos 
comdgo , e fícáram invernando naquella eng- 
ibada, efperando pelos Ponentes, com que 
haviam de ir pera Mozambique , tomando 
D. Luiz Fernandes as fazendas , e roupas 
que Ihé parecéram bailantes pera veftir , c 
iuftentar os da fuá companhia , o que fez 
lodoaquelle tempo até chegar aGoa, refga* 
tando conv os da térra todos os mantimentos 
que Ihes eram necelTarios : e aqui os deixare*» 
mos atétornarmos aelles, poreontinuarmofi 
com outras coufas , que cftáo puxando por 
ños. 

CAPITULO U. 

pe tomo E/Rey D. Sebajlido fuppUcou ao 
Summo Pontífice Paulo IK fizejfe a Sé 
de Santa Cat harina deGoaArcebifpado: 
e as Igrejas Santa Cruz de Cochim , e 
N. Senhora da Affumpfao de Maíaat , 
Bifpados : e da Armada que efte anno de 
1 5*^9 partió do Rey no , ae que era Capi- 
tao mor Pero Vaz de Siqueird. 

QUerendo a Rainha Dona Catharina d¿ 
gíoriofa memoria , e o Cardeal Dom 
Heiirique , tutores do Rey menino Sebaf- 
M ii tiáo« 



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i8o ASIA DÉ DioGó DÉ Couf o 

tiáo, que elle ImitaíTe ao bomRey D.Joáo 
fcu avó no zelo da honra , e gloria de üeoa 
noíTo Sehhor , e na dilata^ao de íua Tanca Fé i 
yendo que nedas partes da India liia ens ta- 
manha aiultípUca^áo ^ pareceo-lhes bcm aju-*. 
darem ^ e favorecerem ifto com Prelados 
Evangélicos, aínda que foíTe acuña de gran- 
des defpezas de íua fazenda , porque nao 
faltaíTeni miniílros pera obra táo Tanta; E 
coníiderando quáo cílendido era o Eñado da 
India , e quáo diñantes muicas partes delld 
da Metropolitana de Goa , e que hum fá 
Bifpo nao podia viíitar , e coníblar todoa 
os Chhftáos, íupplicáram ao Summo Pon^ 
tificc j que entáo prefidia na Igreja de Déos , 
que era Paulo IV. ce Ihes quizeffe conceder 
» fazer Santa Catharina de Goa Arcebifpa-* 
9 do, (que atéentao era Bifpado annexo ao 
n Arcebifpado do Funchal , ) e que as Igre- 
3) jas Santa Cruz de CoChim , e N. Scnho- 
)i ra da AÍTurnpgáo da Cidadé de Míílaca 
)i foíTem feítás Bífpados , ñifFraganeos ao 
n Arcebifpado de Goa, appücando-lhes lo- 
^ go de fuaá rendas feus dotes , e ordinarias 
"» pera todas as Dignidades , Conegos , Be- 
)i neficiados, Curas, Vigairos , e que eftes 
3» Bifpados folTem anñexos ao direito da 
» Metropolitana de Gpa , conftituindo-Ihes 
» termos , e limites , e os diílriílos delles. % 
Commetteo o Papa ao. Arcebifpo de Lisboa 

D* 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. 11- i8i 

D. Fernando de Menezes de Vafconcellos , 
que tomando niflb relolujáo , limitou ao Ar« 
cebifpo de Goa , defdo Cabo de Boa Efpe-» 
ranga atéOrmuz, c dahi até Cananor, com 
todas as Ilhas adjacentes a ellas , em que 
houveíTe Chriftáos. EaoBifpado deCochim 
aífinou defde Cananor até Bengala , e Pcgú , 
com toda a coña da Pefcaria , Negapatáo , 
eS. Thomé, pom a grande, e formofallha 
de Ceiláo , com todas as mais ciFcumvizinhas 
a ellas , e a toda a cofia , feparando-Ihe a 
grande , e eílendida Chrifiandade que jaz no 
Sertao de Cochim , Cranganor , e Couláo , 
e pelas ferras do Malavar , que era regida , 
^ governada por Arcebifpos , e Bifpos Ar-^ 
menios, que íeguiam a faifa fetta doHere^ 
(larca Neftor, (como no principio deftaDe^ 
cada fica dito , ) que a fazia feguir com tor 
dos aquelles fubdítos , debaixo de cuja jur* 
dígao andava toda aquella Chrifiandade. Ef- 
A€s Bifpos eram próvidos pelo Patriarca d« 
Babylonia , caheja dos Neftorianos : e affim 
durou eft^i feita naquella Chriñandade até 
c anno de 15*99, em que D. Fr,AIe¡xo de 
Menezes , Religiofo da Ordem de Santo 
•Agoítinho , Arcebifpo de Goa , por ordem 
'do Papa Clemente VIH, que pera iíro''lhe 
xtiandou grandes Breves , por morte do der- 
-radeiro Arcebifpo Armenio , antes de vir 
rjQUtrQ 4? Babilonia , fgi om peffoa vifitar 

to- 



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iRa ASIA É)E DfoQo db Covrd 

toda aquella Cliriñandade com grande zelo ^ 
e caridade ; e depois de palTar muitos , e 
muí varios perigos , e trabalhos , por elJes 
no principio nao quererem obedecer, com 
tudo prégando-Ihes por todas fuas Igrejas, 
os rendeo , e ajuntou Synodo Dieccfano com 
todos feus Sacerdotes ) (a que elles chambo 
Caflanares y ) onde elles , e todos os póvos 
derám a ol3cdiencia á Santa Igreja Romana^ 
e abjuráram todas as hercfías de Keílor ^ 
dando oArcebifpo ordem a todas ascoufas 
daquella Igreja , de qiíe tctnos dado de tudo 
ifto relajáo copiofa nó principio defta Vil, 
Decada no 11. Cap. do I. Liv. (c a dare^ 
mos muito mais particularmente , quando 
efcrevernios o tempo do Conde da Vidi- 
gueira Almirante) por fer huma das mais 
heroicas obras , que em materia de ChriC- 
tandáde fe fizeram nefte Eftado. 

E tornando ao fío de noflfa hiftoria. Ao 
de Malaca conftituio feus limites defdé Pe- 
ga até a grande Régiáo China , com todos 
áquelles Archipelagos de Solor , Tinwr , 
Amboino, Banda , Moro ^ e Maluco , em 
que incluem grande multidáo de Ilhas , em 
t|ué ha mais de trezentos mil Chriftáos na- 
tutaes , e depois pelo tempo em diante fe 
fiwratfi Bifpados diftintos á China, eJapSo, 
tórnto em feds lempos fe dirá. Iño tudo con- 
tedeo o Summo Pontifíce {)or fuas BuUas 

Apof- 



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Deg. Vil. Liv. VIII. <:ap. IL i8^ 

Apoílolicas , com privilegio pera os Reis de 
Portugal poderem aprefentar os Arcebifpos, é 
£iípos , e todas as tnais dignidades, conio 
MeQres que eram da Ordem da Cavallaria 
de noíTo Senhor Jefus Chrifto. Por virtudc 
defias Bullas aprefentou ElRey pera Arcé«- 
bifpo de Goa ao Padre MeftreGafpar, (que 
foi Conego , e depois huma das principaes 
Dignidades da Sé de Evora , ) varSo douto 
em Theologia , e de vida muito approvada , 
e por tal tao amado , e querido do Cardeal ^ 
e Rey D. Henrique* E pera Bifpos de Co^ 
chim , e Malaca aprefentou ElRey a D. Jop- 
ge de Santa Lu¿ia, e a D.Jorge Themudo» 
daOrdcm de S.Domingos, yaróes doutos^i 
e de vida Apoftolica , e que depois vieram 
z morrer com finaes de fantidade, 

Edas Dignidades foram fagradas em Lis- 
boa com grandes ceremonias , e ordenáram 
os tutores de ElRey aue os Bifpos foffem 
pera a India na Armaaa, que le negociava 
efle anno de íincoema e nove , que era d$ 
íeis naos , cuja Capitanía mor levava Pero 
Vaz de Siqueira , hum Fidalgo vellio , mui- 
to honrado , de que algumas vezes temos 
fallado ñas noíTas Dccadias; e o Arccbifpp 
<]uizeram qu^ fii^afle pera o amio íeguiACe de 
1560. 

Prcftes efta Armada , deo toda junta á 
^la ipm Mai^o á^ anoo. di^ áncoema e 

no- 



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Ií84 ASIA DE DlO<30 DE COUTO 

nove , evn que andamos , onde foraní emv 
barcados perro de tres mil homcns de armas, 
gente mui luílrofa , e efcolhida , em que enr 
travam muiros , e muí honrados Fidaigos^ 
e Cavalleiros, Ó Capitáo nijór Pero Vaz dé 
Siqueira efcolheo pera fi a nao Flor de la 
mar , em que le erabarcou o Bifpo D. Fu 
Jorge Themudo , que hia por Biípo de Co- 
chim , com quem eu paíTei lambem á India y 
ií\o^o de quinze annos , tendo deíles gaílado 
.dous era férvido de ElRey D, joáo o 111^ 
de íeu mo^o da Cámara ; e todos os mais 
^té efta era de feiscenros e tres , em que eC- 
creveroos cíla Década , em outros férvidos 
de mais rífeos, e perigos , e nefto de tanto 
trabalho, e inquLeta^ao pera a velhice com 
tao poneos favores ñeñe eftado , que muitas 
vezes me cahia a penna da mao com deír 
gofio; e fe a erguí, foi por mefazerem for?- 
ja as muirás inftancias , com queElRey D. 
Filippe de gloriofa memoria , e depois EIr 
Rey noíTo Senhor feu iilho , me mandavam 
todos os annos por fuas cartas (como fe ve- 
rao impreíTas nos principios de noflas De- 
cadas) profeguifl'e , e continuafle efta obra , 
com pala vr?s de Principes mui Catholicos, 
e que dcfcjavam de nao ficarem eui efque- 
cimento os feitos dos Portuguezes noíTos na- 
turaes , potto que os defte tep^ipo tanto fe 
efqucceíTcm diífo em muitas couías. Os Ca* 

pi- 



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Dec. vil Liv. VIII. Caí. IL iSy 

pitaes das mais naos eram Franciico de Sou** 
isí , da Algara via aonde hia embarcado D. Fr. 
Jorge de Santa Luzia Bifpo de Malaca , Pero 
de Goes em Santo Antonio, Luiz Alvares 
úc Soufa ein S. Giáo , Lifuaríe Peres de 
Andrade na Conccijáo , Ruy de Mello da 
Cámara em S. Paulo. DeftasVeis naos a d? 
S. Paulo por má navegajáo foi haver vifta 
da térra do Brazil , ^e dahi tornou a arribar 
ao Reyno. Todas as mais foram á India* 
Só a Concei^ao , por chegar tarde a Mor 
^mbique, fe deixou ahi ficar, 

CAPITULÓ IIL 

Pa Jrmada que o Vifo-Rey D, Conjlajitino 
mandou ao Malavar : e dos navios que 
foram de fpccorro a Baharem : e do que 
Ihes fuccedeo naviagemr e da guerra que 
Luiz de Mello da Silva fez por toda a 
fofta do Malavar. 

COm a viada das naos do Reyno íicou 
á India profpera , e. rica , pela muita 
gente, dinheiro., e fazendas quenellas vieram; 
e porque a foldadefca era muita , e enchia 
a Cídade de Goa, ordenou o Vifo-Rey D. 
Conftantino huma boa Armada, pera mandar 
ao Malavar a Luiz de Mello da Silva , 
que já tinha íahido de Cananor na entrada 
4e Sctemb^o com os navios, y que lá inv^xi^ 

ná- 



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l86 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

náram , pera continuar na guerra dos Mou^ 
ros j e mandou o Yiíb-Rey pagar feiscentót 
horneas , que mandou embarcar em tres ca- 
ravelas , duas gales , e alguns navios de re* 
mo , pera lá poder tomar as bocas dos rios ; 
üílim pera os inimigos fe nao proverem de 
mantimentos , como pera os CoíTairos nací 
íahirem a roubar , por ter o Vifo-Rey avi* 
fo que no invernó fe armáram muiros Paros 
em diferentes partes : e eftava aíTentado em 
confelho por todos os Ca pitaes vellios y e 
de muita experiencia c que fe nao fizeífe aos 
)> Mouros daquella coda outra guerra , mais 
)» que tomar^Ihes os porcos ; e que quando 
n a houvefle com os Mouros de Cahanor> 
)» a fizeflem tambem ao C^amorim , pera af- 
)) fim (e nao poderem prover huns aos ou- 
n tros por feus rios » o que coftumavam a 
fazer , e por iífo Ihes dava pouco de que- 
brarem as pazes, por muito pequeña occa- 
fiáo que fe ofFereceÁe , porque nao deixSvam 
de mandar íi^as fazendas pera Meca , nem 
partirem fuas nios , porque as mandavam 
embarcar no Reyno , que eílava de paz , e 
nelle fe tornavam a recolher , e por feus ríos 
íe proviam de arroz , e aníiao , que he o 
íeu principal mantimento, fem quem nao po- 
diam viver : e aífim engroíTavam no trata 
por rios alheios , e pelos feus ñas prezas^ 
i|qe faziam com fuas Armadas ^ que eram 

muir 



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Dec. vil Liv. VITL tÁv. III. 187 

muiro prejudiciaes , e faziam muiros dam- 
nos. 

Pelo que o Vifo-Rey D* Conftantino man- 
dou por regimentó a Luiz de Mello da SiU 
va, que nao fízeíTe guerra de ootra tnaneira 
a todos os Rev6 do Malavar ; JM)rque com 
Ihes tomar as barras , e nao Ihes deixar fa* 
hit íuas naos pera Meca , nem Ibeseñtrarcm 
mantimenros de fóra , os podiam . por em 
tanto apeno em dous annos, que chegaíTcm 
os Naires a tanta deíefpera^áo , por cauní 
da fome , que fe levantaíTem contra os Mou* 
ros , e os metteflem á efpada , como já aU 
gumas veze.<Le(liveram pera ofezer, porque 
cftes nem fe embarcáo , nem negocc|im pelo 
mar , e fó da íubftancia que na tcrra tem , 
íe fuílentam pobremente , e a vendem ao$ 
mercadores que vam a feus ríos , pera que 
Iha commutcm em arroz , que naqnelles 
Reynos nao ha. E andando o Vifo-Rey D. 
Coi9(lantino defpachando efta Armada , che« 

fáram de Ormuz as ñoras do desbarato de. 
>. Alraro da Silveira , e de como D. An- 
táo deNordnha era partido áqueile negocio 
pera Baharem ; o que o Vifo-Rey lentio 
muito , e logo fe foi p6r na ribeira das Ar« 
tnadas , e mandou deitar ao mar treze , oa 
x)uatorze navios de remo , pera defpedir de 
foccorro , em quanto fe preparava outrá 
jnaior Armada, que fe determina va mandar^ 

com 



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'Í8S AiSIA DE DiOQO DE COUTO 

com o primeiro recado que Ihe chegafle , de 
D. AntSo de Nof onha , fe Ihe foíTe necelTario, 
Eílas novas fe cfpalháram logo pelaCi- 
dade, que toda fe irettco em revolta, por 
ferem os inais dos Fid algos que nella ella- 
Yam párenles de D. Alvaro da Silveira ^ e 
de D. Antáo de Noronha , e dos mor tos y 
e cativos , e com umita preña acudiram a fe 
oiFerecerem aaVifo*Rey, etomáram navios 
pera fe partirem, £ foi tamanha a brevidade 
com. que fe negociáram , e táo grande a von^ 
cade que tinham de fe acharem naquelle fei« 
•lo , que aíüm como hum fe aviava , dava á 
vela j km efperar por companbia ; e o pri- 
meiro Que fe partió foi Vicente Dias de Vil-r 
]aIobos , tío de D. Antao de Noronha , irr 
máo de fuá mái , que ao terceiro dia das 
novas fahie pela barra fóra em hum formo- 
fo navio com trintaFidalgos, ecavalleiros, 
e foldados principaes : e logo após elle pouir 
eos dias fe íizeram á vela os mais nArios 
cheios da meíhor foldadefca que entáo ha« 
via , que folgáram de acompanhar aqueiles 
Capitáes naqueila jornada. Edos que nos 
lembrara os nomes sao os feguintes : D. Pedro 
de Caftro> filho de D. Diogo de Caflro de 
Evora ; Ruy Gon^alves da Cámara , íilho 
doCapitao da liha da Madeira ; TriÁáo da 
Soufa,.iilho natural de Martim AíFonfo de 
§Qufa i Baithaz^r da CqíI^ ^availeirQ honra« 

doj 



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D^c. VIL Lív- VIIL Ca^. nL i8(^ 

éo, e o melhorCatureiro que na India ha-% 
via,^e outros muitos. 

Deo Déos a eíles todos táo boa viagem , 
que em breves días chegáram a Ormuz ^ 
depois de D. Añtáo de Noronha ter já che», 
gado aquella fortaleza com a Vitoria deBa«^ 
harem: e o primeiro que chegou foi Vicen- 
te Dias de Villalobos ^ que fe apreíTou taiv». 
to , que paflbu por Ormuz , antes que D- 
Antáo de Noronha vieíTe de Baharem ; e 
fjm fe deter ^ o foi bufcar , e no caminho fe 
dcfencontráram hum do outro , porque ao 
paflar da Ilha de Lara , hum foi por den- 
tro , e outro velo por fóra ; e chegando a 
Baharem , tanto que foube fer partido , tor- 
nou a voltar , e foi ter a Ormuz , quáíi com 
os que partíram de Goa : D. Antáo de No- 
ronha recebeo a todos com muitas honras. 
E porque alli nao tinhara já que fazer , to- 
máram feus provimentos, e fetornáram pe- 
ra Goa todos juntos , elegendo por Capitáo 
de toda aquella Armada aBalthazar daCof- 
ta , a que feguíram até aquella Cidadc , on- 
de já havia dias eram chegadas as novas da 
Vitoria. O Vifo-Rey recebeo aquelles Capi- 
táes muito bem, eíhes fez mercés pelo ze- 
lo , e prelleza com que acudíram ao férvido 
de EIRey , e aos foldados mandou pagar 
feus quarteis. Demos aíllm brevemente rcla- 
$áo deíla jornada y porque nao houve nella 

que 



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rpo ASIA DE DioGO de Couro 

que contar , mais que a preíleza com que 
eftes navios partíram, chegáram , e torna* 
ram , pera que fe faiba o zelo , amor , e fi- 
delidade « con> que nefte tempo fe acudia 
aos trabalhos do eílado. O que depois íe 
veío a perder tanto , que chegáraoi os pee- 
cados da India a mandarem homens forja- 
dos aos foccorros das fortalezas em alguns 
trabalhos, emque nvcramneceílidadedelles. 
Defpedídos eíles navios de Goa, deo o 
Vifo-Rey D. Conftantino preíT^ á Armada 
do Malavar , e a deitou fóra por fim de 
Outubro , e chea de muita , e luftrofa folda- 
deica ; e os Capitaes , que foram neíla jor- 
nada, sáoosfeguintes : D. Filippe deMene- 
zes, innáo de D.JoaoTello, em huma ga- 
lé; D Paulo de Lima, em outra; Gon9alo 
Pires de Alvellos, Alvaro Reinel , e Mi- 
guel Rodrigues Coutinho Fios Seceos. Tres 
Cidadóes principaes , e ricos ñas tres cara- 
vellas. As fuftas eram oito , ou dez , de cu- 
jos Capitaes nos nao lembram os nomes. 

' Chegada eíla Armada ao Malavar , a 
repartió Luiz de Mello da Silva pelos rios, 
por efta ^maneira. D. Filippe de Meneze^ 
com a fuá galé , e duas , ou tres fuílas , no^ 
rio de Marabia , do Reyno de Cananor^ 
onde ElRey relídia ; D. Paulo de Lima ^ 
com outras tantas em outro rio ; Gonjalá 
Bires de Alvellos , com a íua caravella , e* 

duas 



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Deg. vil Liv- VIII. Ca?. III. 191 

duas fuílas , no rio de Maim ; Alvaro ReP 
nel coin outras düa$ pera o i^rvigo de fu^ 
caravella^ no rio Canharoto ; Miguel Ro« 
drigues Coutinho Fios Seceos; com o mefmo , 
no de Pudepatáo ; Manoel da Silva em hu^ 
ma galeota Latina , e tres fuílas, no Ilheo 
de Tremapatáo : e o Capitáo mor com os 
mais navios ligciros , que feriam perro de 
vinte , ficou folto pera correr toda a cofta 
do Malavar , pera huma , e outra parte, 
pera ver , e prover no que Ihe foíTe necel* 
^rio. 

Defta maneira andou fazendo toda a guer* 
ra que pode , dando de íupito ñas povoa^óes 
daquella cofta , queimando-as , abrazando-as , 
edeftruindo-as de todo; cortando-lhes mui* 
tos palmares , e matando- ihes muitos dos 
feu^ moradores, tomando*lhes todas as fuas 
embarca^Óes , pondo toda aquella cofta ém 
temores , efpantos ^ prantos , e neceilidades , 
por Ihes terem todos os portos láo fecha- 
dos, que nao podia fahir, nem entrar huma 
pequeña almadia* £ tal ordem tinha , que 
hoje amanhecia defronte de hum lugar , e 
ao outro dia delle afinco feís leguas; eon« 
de menos fe temiam , alli da va de fobrefaI-> 
to , deftruindo , e abrazando tudo » é á noi* 
te eftava já dalli a finco leguas , e a feis e 
fete t e de tal maneira os trazia inquietos ^ 
iem mes valer a grande vigia que traziam 



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1^2 ASIA DE DioGt>DB Cofrrrf 

Cobre a Armada, e os muiros fogos que t<K 
da a ooite faziam por toda a coila , pera por 
elles darem avifo onde ella ellava , e pera 
onde íe fazia á iréla ; mas nenhuma coufa deP* 
tas Ihes aprovekava* 

Cornelia ordein curfou todo e(!e veráoy 
que foi o com que mais atormentou toda 
eílc Malavar , que todos os daqueHes tenn 
pos; porque nao houve povoa^a, que nao 
Icntiflc a ira , e o agoute Poriuguez , c aly 
ílm os necGÍTKou de tudo , que íe determina- 
ram de arrifcar a morrer, e ir bufcar pro-' 
vimentos ^ antes que perecerem em térra á 
míngua: pera o que fe carteáram todos os 
que havia pelos rios, pera em huma noitey 
e maré certa fahirera petes ríos , onde 09 
noíTos navios eílavam , arnda que foíTe a to-^ 
do o riico, e perigo, como fizeram. Masr 
coíno os noíTos , que eílavam fobre os ríos ^ 
por onde dies haviam de fehir , trazianr 
muito grande vigia , nao deixáram de fer 
fenridos ao fabir , ao menos no rm de Maim y 
onde eftava Goncalo Pires de Alvellos con» 
a fuá caravella furto perro da térra, (conr 
quem eu eílava embarcado , fendo mo9o ^ 
que coíUimava mandar todas as noites os 
navios de remo a vigiar a boca do rio , pe- 
ra nao fahirem os ladroes , ) e neíle coor 
quem fe tinham carteado todos , eílavam 
preíles oito Paraos , que deíemmafteados cooi 

a 



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Dílc. Vn. Liv. VIH. Cap. Ilf. ^ 

ft vafánte da maré a voga furdaí^ faram fabin*' 
do de longo da aréa. \ 

E pera fazerem affañar ós noflbs navios f 
puzeram em térra algu mas bombardas , com: 
qnc come^áram a esbombardear , o que os 
efpertou mais ; porque entendendo o queí 
podia fer., tomáram armas, e leváram an* 
cora , c com o remo na mSo eftiveram ef- 
perando y ( que tSo animados , e contenten 
andavam entáo os homens , que com dou9 
navios nSo receavam de commetter feis, e 
fete Paraos táo grandes , c poflantes , com& 
depois houve*) Cuidando os Paraos que ti- 
nham embarazados os nofTos navios com z§ 
bombardadas , apoma ddo- na boca da barril , 
aperiáram o remo , e foram paffando por 
antre os noflbs conio hum trovao. 

E todavía como os noflbs eftavam efper-^ 
tos , femindo-os logo ao fahir , delparáram^ 
nelíes os falc¿es ; e tomando hum de proa 
a poppa , o axoráram todo , e elle anhoto 
foi dar á cofta, e os mais prepaflando por 
antre os noflbs navios Ihes lan^áram dentro 
huma fomma de panellas de pólvora, e os 
fioflbs íizeram o mefmo , com que Ihtí abra-' 
zara m muiros Malavares. Mas quiz a defa-! 
ventura que na fuftd , de. que era Capitáo 
hum foáo Leitáo , cahio da máo a hum fol- 
dado huma pandla de fK>}vora em íima de 
oatras , que quebráram logo j e Tornando to- 
CoutOfTomjr.P.iL N das 



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194 ASIA OE DxoQO de Couto 

das fogo , refináraiD por eífes ares a todot 
os que eftavam na fufta , « o balleo em cía* 
fo cQRi todas as armas que nelle eftavam y 
f o navio íicou ardendo em cbammas. O 
Capitáo do oytro y que fe nos nao lembra 
mal , era hum Antonio Tavares ^ vendo af- 
üm o navio , deo-lbe buma toa , e fe foi 
recojhendo pera a caravella , que tinha já 
kvado a amarra , e dado o tráquete pera 
Ibe acudir , deípedindo o batel com vinte 
Ibl dados , que foram recolJieodo pelo mar 
a BK^r parte dos ijueimados. 

Os Paraos táo fe quizeram embarazar 
com couía alguma , antes em fe aíFaftando 
9rver4ram mmos y e deram as velas á fuá 
yontade , 6cando a noíTa caravella recolheni- 
do a fuÁa ^ e os abrazados , de que morré» 
Y4m muitos , que ella com todos os mala 
pandou pera Cana ñor em compa;nfaia do ou<^ 
tfo n^io» A caravera fe fez á vela apóa^ 
w Paraos y e 90 outro día pela manbá eor 
eentrémp^ a caravella de Alvaro Reinel, de 
quesn fe fciube qi^c^ taoibeqi do fea rio fa* 
iiira^ QiUtro$ Pa^raos , após qu^m tambem 
dera ú vela ; e haveÁdo amboa por lempo 
perdido aiidarefti etn fua ca^a y fe tornáram 
pera f^gs poufoa, e ipandáram avifar o Ca» 
pit^o mor do que paíl^va. E aüm os dei* 
xaromos jbrnn pouco , por contiauatmos com 
a9 cQvX^s de t>amáou 

CA- 



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Decada VIL Liv* VIII. ípjf 

C A P I T U L O IV. 

Di como osCapitaes Abexins corriram até 
Balfar , e Ibes fabio Aharo Gongalves 
Pinto , e Ibes aeo batalha , em que fot 
morto com a mor parte dos feus : e de 
co^no o Capitáo de Damao D. Diogo de 
Noronba mandou Jbccorrer os nojfos ^ que 
ficdram de cerco na fortaleza. 

DEpoís que os CapítSes Abexins Cide 
Bofatá, e Cide Rana viram recolhido 
pera Goa o Vifo-Rey D. Conftantino , tor* 
niram avoltar fobre as térras de Balfar com 
feiscentos de cavallo , e muita peonagem y e 
andáram por ellas fazendo muito damno , e 
comendo aquellas aldeas ; e tanto que o ve- 
ráo eiitrou , e que as aguas do invernó Ihe 
deratn lugar , determináram de ir commetter 
a fortaleza de Balfar , e tomarem-na pera 
nella fe fortificarem , e comerem todas aquel* 
Jas Pargánas : e aflim ajuntando toda a gexi* 
te que tinham, a/fim depé, como decaval- 
lo, a foram demandar ; e Alvaro Gon^al- 
▼es Pinto Capitáo de Balfar foi logo avifa- 
do de fuá vinda, e logo fe iez preces pera 
os ir efperar no campo , porque nao quis^ 
que o tomaíTem encurralado : e affim os ef* 
perou fóra com cento e vinte Portugueses , 
cmque entra vam quinze, ou yinte de cavad- 
Nü lo. 



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196 ASIA DE D1O6O DE CaUTOf 

lo, e quinkentos peoes da térra , deixando 
jia fortaíeza hum Capitáo chamado Joáa 
Gomes da Silva , bomem de humilde geráh 
$áo , mas muito bom foldado , e com elle 
dez companbeiros ; e vindo-fe os inimigos 
chegando , os foi demandar pera Ihes dar 
baxatha , cuidando que eram menos , e cbe- 
gou á vifta delles , que eftavam em huma 
aldea chamada as Ferrarías y duas leguas da 
fortaleza , e os achou em campo , porque 
jíeftavam avifadós da fuá ida^ Alvaro Gón- 
jalves Pinto vendo o grande poder que t¡- 
Hham , pofto que era muko bom cavalleiro y 
duvidou commctteJloí , e quizerafe recolheF ^ 
porque opudera fazer fem defcredito defeu 
esforzó ; mas os feus foldados comejáram 
a alterar- fe , e a fe defcompór , querendo 
arremetter ,. e dar Imcalba fem ordem do íeu 
Capitáo , e ainda foltando»fe em palavras» 
Vendo Alvaro Gonjalvcs Pinto aguelk qua- 
ü moum, edeíattento, virando^íe pera to- 
dos , diflfe-Ihes : « Ora já que a/Ikn queréis , 
» Safft'Iago\yk e arremedando o cavalio^ 
ibi ferir ^m os inimigos com tama forja > 
que daquelle eiKontro derribou a em que 
pez a. lanja , e logo outro. £ os foldados 
daquella primeira carga da efpingardaria Ihe 
derr¡bái;9m mais de fincoenta , íicando todos 
baral hados em batalha, que foi afpera , e 
cruel,, em q^ue Alvaro Gonjalves Pinto, e 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. IV. 197 

lodos os noíTos pelejáram mui valorofamcn- 
te. Mas como os inimigos erara feiscentos 
de cávallo, e o campo grande, rodeáram os 
noflbs por todas as partes , que logo fe pii- 
zeram em desbarato , e ás Jangadas os foram 
matando , tendo-o já feko a Alvaro Goncal- 
ves Pinto , que primeiro que o matalfem 
vcndeo a vida a troco de multas , que tirou 
a muiros , pelejando em meio de toaos , co- 
mo hum Icáo bravo , fem querer virar as 
codas. Dos noíTos , que hiam em desbarato , 
cfcapáram poucos , e aínda eíTes fe efpalhá- 
ram, enáo foram demandar a fortaleza fe- 
náo finco, ou feis , ficando mortos fetenta 
e dous , e cento e fincoenta peóes , e os mais 
como fabiam a térra , efcapáram pelas al- 
deas. 

Vendo os inimigos a vitoria , que tinliana 
^Icangado dos noíTos , foram com aquella 
furia commctter a fortaleza , cuidando que 
a levaíTem logo ñas máos , e cercáram-na á 
roda , comiñettendo-a por todas as partes com 
grande determinafáo. Mas Joao Gomes da 
Silva, que nella ficou com oscompanheiros 
que diffemos , fe poz á defensao com fuas 
efpingardas , com que fizeram em os inimi- 
gos mui grande deftruijao ; porque como 
davam no cardume delles, que eftavara ao 
redor dos muros , nenhum tiro fe perdia, 
levando as efpingardas de dous em dous 

pe* 



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198 ASIA DE DiOGO DÉ CoüTO 

pelouros , ccíTando nunca de tirar , nem o 
leu Capítáo de os esforzar , e animar , e por 
huma parte pelejar com a fuá efpingarda ^ 
c por outra com muitas panellas de pólvo- 
ra , que fe hiam desfazer fobre os inimigos , 
correndo elle o muro (que era pequeño) 
todo á roda pera ver os que pelejavam ñas 
partes, que Ihes tinha^encommendadas , e 
em todas os inimigos o viam de cuando em 

3uando bein em teu damno. Alguns peóes 
os que efcapáram . da batalha tomáram o 
caminbo muí apreíTadamente pera Damao , 
aonde chegáram a horas de meio dia , por* 
que a batalha foi ás oito de pela manhá, c 
deram a D. Diogo de Noronha as novas 
do que paíTava , affirmando-Ihe , que fe a for« 
raleza nao fofle já perdida , eftaria em gran- 
de trabalho , e rifcó. O Capitáo D. Diogo 
de Noronha íenrio aquella perda em extre^ 
mo, e logo fe foi por na ribeira, eem eA 
pa^o de huma hora negociou dez navios 
chelos demuito luftrofa íoldadcfca, quedef* 
pedio em foccorro , e nao achámos a certe- 
ra de quem foi por Capitao mor. Sómente 
temos por informa^áo que hia naqueila con> 
pánfaia Triftáo Vaz da Veiga pera ficar por 
Capitao naqueila fortaleza até elle a pro ver , 
ordenando-Ihe cem homens , que havia de 
tomar da Armada. 

Efki lUvlos chegáram á boca da barril 

de 



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Dec. vil Liv- VIH. Caf. IV. i^ 

de Bailar ás quatro horas da tarde , fendo 
meia maré. chea ^ e porque nao fabiam o que 
hia na fortaleza, deitou oCapitáo mor mi« 
ma efpia fóra , que logo tornou , e aflirmou ^ 
que a fortaleza eílava por nos i mas que os 
inimigos eram muitos , e que a tinham de 
cerco. E logo após eña efpia chegou hurtí 
peáo muito apreflado com hum efcrito de 
Joáo Gomes daSilvir, em que elle, e todos 
os companhciros vinbam aíiitiados , em que 
Ihe pedia os foccorreíTe logo , porque cfta* 
vam em grande trabalho , e aperto i porque 
parece que tiveram avifo da Armada« Com 
efte efcrito ajuntoa o Capitáo mor os Capí* 
taes dos navios a confelho, e pracicou com 
elles fobre o modo que teriam em os foc« 
correr: fobre o que houre diflPerenles pare- 
ceres ; porque huns diíferam , que era necef-^ 
fario foccorrellos logo; outros, que parecía 
aquiilo eflratagema dosinimieos, que teriam 
ganhada a fortaleza , e os rortuguezes em 
ícu poder, e que Ihe fariam efcrever aqiiel-» 
le efcrito pelos colher lá. Vendo elle qud 
os mais dos Capitacs eram os que apontavam 
os inconvenientes , refumio-fe em foccorrer 
a fortaleza , e mandou-os pera os feus na- 
vios , efez levar a amarra ao feu, efoi en- 
trando o rio , dizendo , que quem o quí- 
zeflfe feguir o fizefle , o que todos fizcrat» 
negociados, e podas em armas. 

Sa- 



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apo ASIA DE DioGO de Couto 

Sabendo o^ Abexins que a Armada hia 
entrando o rio , que era eílreito , acudirara 
a Ihe defender a paíl'agem com algumas es- 
pingardas , e grandes nuvens de fréclias , de 
que Ihe empenáram iodos os navios , e al- 
guna companheiros ; mas tambem eiles fo* 
ram mui bem hofpedados com a artiliieria 
dos navios , e com a arcabuzaria de feijao , 
ijue depois demuito efcalavrados ferecolhé- 
ram , e fe paííáram da outra banda do rio» 
Os noflbs chegáram i fortaleza , e defem- 
barcáram nella poítos em armas ; e entrando 
dentro , acháram aquelles poucos homens 
abrazados em fogo , tifnados da polvera , e 
banhados em feu proprio fangue , cjue todo 
aquelle dia nao coméram , nem bebéram , 
fenáo coufa multo pouca , e com as armas 
ñas máos , com que tinham feito nos Mou- 
ros grande cftrago. E cqm terem paíTado 
tanto, e rao immenfo trabalho , e eftarera 
todos empeñados das fettas dos inimigos , 
os acháram os que hiam de foccorro táo in- 
teiros , táo esforzados , e táo animofos , co» 
mo fe nao tiveram feito nada. 

OCapitáo mor levou nos brayos ajoáo 
Gomes da Silva, elhe diíTe muirás palavras 
dignas de feu animo , e affim abrajou a to-^ 
dos os mais companheiros , e os foldados 
da Armada osleváram multas vezes nos ares 
com o alvorofo de os verem daquella ma-r. 

nei* 



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Dec. VII. Liv. VIII. Cap. IV. 201 

ncira : e nos tambem o tiveramos bem gran- 
de de Ihes faber os nomes , pera os feñejar- 
mos com osdeixarmos nomeados nefla nof- 
fa hiíloria ; mas o tempo , e o dcfcuido Porr 
tugaez os deixou ein eíquecimento , rendo 
elles feito obras merecedoras de ferem eter- 
nizadas. O Capitáo mor deteve-lé na for- 
taleza dous , ou tres dias , mandando curar 
os feridos com grande refguardo ; e paíTados 
elles , ^ntregou a fortaleza a Triftáo Vaz 
da Veiga , c deo*lhe cem homens pera quem 
D. Diogo deNoronha mandóu muiros pro- 
vimentos ; e nao rendo alli que fazer , vol- 
tou pera Damáo. Os Abexins deixáram-fs 
andar por aquellas térras, comendo fuas al- 
deas, e inquietando os noflbs, que íempre 
trouxcram íobre elles grandes vigias. 

CAPITULO V. 

De como os Abexins tornar am fobre Balfar , 
onde ja eJJava por Capitao Jffonfo Dias 
Ver eirá : e de como elle Ihe Jahio , e foi 
morto por defajire : e D. Diogo de No- 
ronha foccorreo aquella fortaleza , e a 
largou por Iho mandar ajjim o Vi Jo- Rey 
D. Conjiantino. 

HAvendo perto de dous mezes que Trif- 
táo Vaz da Veiga eftava em Balfar, 
mandou pedir licen^ a D. Diogo de No- 

ro- 



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102 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

ronha Capitáo de Damáo pera íe ir , que 
Ihe elle deo , e mandou em íeu lugar Affbn*^ 
lo Dias Pereira , hum cavalleiro honrado de 
fuá obrigagao. Efte havendo poucos dias 

2ue eflava naquella fortaleza , tornáram os 
la pitaes Abexins a entrar por aquellas ter^» 
ras com tengáo de accommerterem outra vez 
a fortaleza , c nao fe alevantarem de fobre 
ella fem a tomarem. AíFonfo Dias Peréira 
teve logo rebate de fuá entrada ; e fabendo 
que fe vinhatn chegando , mandou dous ho-* 
mens em cavallos ligeiros (e fe fez preíles 
pera os cfperar) pera defcubrirem o campo i 
enotarem a gente que osinimigos traziam ¿ 
€ hum deftes fe chamava Diogo Pereira, 
(que depois cegou , ) e o outro era hura 
Africano , a que nao achámos o nome. Efles 
homens fe alongdram tanto da fortaleza , 
que chegáram os Abexins á vifta deila, fera 
clles os vcrem. Affonfo Dias Pereira tanto 
que vio os inimigos , fahio-fe fóra da for-^ 
raleza , e os efperou com trinta de cavallo , 
e feíTenta efpingardas, deixando dentro nel- 
la Vicente Carvalho com alguns companhei- 
ros. E vendo os inimigos táo perto, como 
eñava eotn as coñas na fortaleza , com que 
Ihe ficavam feguras , remetteo de tropel a 
elles , appellidando Sanulago , rom pendo 
nos dianteiros com tanta furia , e forga que 
os fez virar ^ fícaíido*lhes alguns no campo 

eí- 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. V. 203 

cftírados ; e como foram com aquelle impe- 
to, ficáram os nofTos , e os Mouros todos 
baralhados emhuma afpera batalha; epodo 
que da noíTa parte era o numero úo infe- 
rior , todavia pelejáram com tanto valor, 
que fizeram muito os Abexins em fe livra- 
rem das fuas maos. 

Andando aílim todos miíhirados neRa 
preíFa , chegáram os dous companheiros , 
que foram eipiar osinimigos; e vendo aaf« 
pereza da baialha , e a revolta de todos , 
como nao podiam paíTar pera a fortale2te, 
fenáo por mcio dos inimigos , determináram* 
fe ambos cora as langas nos rifles , e puze- 
ram as pernas aos cavallos com tamanha fu« 
ría , quG foram rorapendo pelo meio dos 
Mouros , derribando alguns ; e foi fuá ven- 
tura tal , que paflaram por lodos , até che- 
garem onde os noflbs andavam accezos em 
batalha, mas com feis, oufete feridas mui« 
to grandes cada hum , • de que nao perigá- 
ram ; e hum delles , fendo já deftoutra par- 
te , perdeo o cavallo , porque por hum de* 
faftre cahio delle; mas falvou-fe na fortale- 
za, onde fe recolheo pera o curarem. 

AíFonfo Dias Percira , Capitáo que an- 
dava na forga da batalha pelejando como 
hum tduro bravo , quiz a defa ventura que 
fe Ihe empinafle o cavallo com o eftrondd 
da arcabuzdria de feigáo > que deo com elle 

no 



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ao4vASIA DE DioQo de Couto 

no chao. O que vifto pelos Mouros, carre- 
gáram fobre elle , e o lanceáram fem Ihe 
poderem valer; e vendo-o morto, foram-fe 
recolhendo pera a fortaleza , e os Abexing 
após elles , e tao perto , que ao entrar da 
porta foram todos miílurados; e foi tanta a 
prelFa , que alguns dos nofibs nao puderatn 
tomar a fortaleza , e varáram adiante , e a 
efpora fifta foram caminhando peraDamáo, 
aonde chegáram eai menos de tres horas , 
e deram rebate a D. Diogo de Noronha do 
qúc era acontecido , que com muita preíTa 
niandou negociar dez navios, quclogo deC- 
pedio emfeu foccorro com muita gente. Os 
noflbs, que fe recolhéram á fortaleza , foi 
com tanta prelTa , que deixáram no pateo 
os cavallos ^ e fubíram aílima , deixando as 
portas aberras pelas nao poderem fechar, 
porque osinimigos (como hiamos dizendo) 
entráram miílurados com elles. Vicente Car- 
valho , que ficou na- fortaleza , acudió com 
os companlieiros as efcadas , huns , e outros 
acerca pera defendcrem afubida aos muros, 
e a entrada da porta , o que já nao pode 
fer, porque ficáram fenhores dos baixos, c 
de todos os cavallos , que logo foram to- 
mados. 

OsAbexins trabalháram tudo que pude- 
ram por fubircm as efcadas , que Ihes foram 
defendidas dos noíTos com muito valor , e 

ef. 



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Dec; vil Liv. VIIL Cap. V. loy 

esforzó, ecom grande perda, e damno dos 
inimigos , que defeGganados de entrarem á 
for^a de armas, ajuntárain muita palha , e 
lenha , e mectéram tudo debaixo de huma 
guarita pera Ihes darcm fogo , e qucimarem 
os noíTos , que eftavam em ítma pelejando 
pera fóra com os inimigos , fem fabcrem ó 
perigo que felhesordenava. Mas quiz Déos 
que lan^afle hum Toldado o corpo por huma 
janelia , que hia cahir fobre o pateo , e vio 
andarem os Mouros muí íbiícitos em ajun- 
tar aqueiies materiaes pera o fogo ; e tomi^n- 
do huma panella de pólvora , a lancou an* 
tre elles; equíz fuá boa fortuna quefeque- 
braíTe emomeio dosMpuros; edandoUies 
as labaredas , os abrazou de fei^ao , que dei- 
xáram o que faziam , e foram fogindo pela 
porta fóra* 

Os nóflbs , que pelejavam de fima na- 
quella revolca , íizeram em os Mouros huma 
cruel carnijacia , aflim com a artilheria ,. co* 
Hio com a arcabuzaria» Senáo quanto fe añir« 
ma que Cal liño deSiqueira o Mulato,- meia 
jrmáo de Franclfco de Siqueira , Efcriváo 
da coffnha que foi de EIRey D^Joao, der- 
ribara á íua parte com fud^ efpingarda mais 
de vinte , porque ^ra o ratór efpingardeiro 
que Iiavia na India* Os Mouros fícáram to- 
do aijuelle dia derredor da fortaleza porcat>- 
farem aos noílbs^ e aílim oscombarian^ de*- 

bai- 



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io6 ASIA DE DioGo DI Coirro 

baixo com táo grande numero de fréchas, 
que as portas , janellas , ameas y e aínda as 
paredes eílava tudo empeñado , apenando 
tanto comosnoíTos, que Ihesnáoderam va- 
gar pera tomarem maís refei^ao , que algu- 
ma agua pera matarem a feccura do grande 
traba I lio , que codo o día paíláram. 

Eílando já fobre a tarde em hum grande 
extremo, emuitas defconfianjas , porjá nao 
poderem com figo , ouvíram muirás bombar- 
dadas pelo rio' adima , que era a Armada y 
que D. Diogo de Noronha tinha mandado , 
que tama que foi fentida dos inimigos , lar- 
gáram tudo , e paíTárani-fe da outra banda 
do rio. O Capitáo mor, que era Luiz Al- 
vares dcTavora, filho deBcrnaldim deTa- 
vora , poz a proa junto da fortaleza , e deA 
embarcou em térra com todos os feus pof- 
tos em armas, e foi demandar a fortaleza; 
c vendo de fóra aqaelíe eí'peélaculo da en- 
cravadura dos muros, e portas, damultidao 
das fréchas, e os noflbs das ameas appelli- 
dando vitaría , vitoria , foi fuá alegría ta- 
manha , ou ( pera mclhor dizer ) fuá inveja 
tal, que qualquer delles trocara porfeacha- 
rem alli todos os thefouros do mundo , fe 
os tivera em feu poder ; e fubindo aflima , 
acháram aquelles poucos horaens táo encar- 
voicados da pólvora , e taes do canfajo do 
día y que pareciam alar ves y e homens do 

flia- 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. V. 107 

mato; e levando-os todos nos bracos, rof* 
fáram-fe por eiles , pera que íe Ihes pega (Te 
aigama coufa das muitas que nelles invejá** 
raqi. OCapitáo mor os fez defarmar, e cu- 
rar alguns feridos , e Ihes mandou dar de 
comer do que leva va. Alli íicáram edes na- 
vios aquella noite, lanzando oCapítSo mor 
efpias fobre os inimigos , que já eram reco- 
lindos pera longe; e ao outro dia recolheo 
o Capitáo mar toda a gente , artilheria , mu« 
ni^é^y e mais coufas da fortaleza , e dei* 
xando-a defpejada de tudo pelo mandar a/Uní 
o Vifo-Rey a D. Diogo de Noronha , que 
pera iíTo deo regimentó ao Capitao mor: e 
aquelle mefmo dia chegáram a Damao , e 
leváram a cabera de Aífionfo Dias Pereira , 
a quem deram muito honrada fepultura. Os 
Abexins foram logo avifados do defpejo da 
fortaleza ; ^ voltando , a acháram fó : e nao 
k querendp pejar com ella , a dcrríbáram 
por térra , deixandofe andar no campo ^ 
comendo as aldeas, e faiteando as térras de 
Damáo» 



CA- 



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tZ08 ASIA DE DiOQO DE COÜTO 

C A P I T U L o VI. 

Be como os Abexins correr am as Tañada-^ 

rias de Damao , S. Gens , e Tarapor , 

e do que Ibe nellas fuccedeo. 

PAÍTadas eftas coufas , entriram os Capi- 
táes Abexins pelas térras de Damao, é 
foram fazendo por fuas aldeas todos os da«* 
annos que puderam , e pníTáram até á fortaleza 
deS. G^ns, e Ihe deram huma formofa vif- 
ta , e aíTalto , de que Ikliíram tambem efca- 
lavrados , porque os de dentro os foftigáratn 
bem cora fuá arcabuzaria , com que os fi- 
zeram aíFaftar , e forara de paíTagem dcfiruin-^ 
do fuas aldeas , e roubando tudo o que achá- 
ram. Daqui fe paíTáram ás térras deDanü, 
em que tambem fizeram aflas de damno. Va- 
deando o rio a ou^ra banda \ dormíram 
aquella noite emalgumas aldeas, enoquar- 
to dalva fe alevantáram com tengao deireni 
dar de fupito na tranqueira de Tarapor , e 
ver fe a podiam levar ñas máos. 

Eílava efta tranqueira fobrehum rio , que 
debaxa mar fe paila a partes apé enxuro, 
e era feita de palmeiras bravas , mettidas 
multo na térra , e muito juntas , forradas 
por dentro com feus efteiróes de bambús 
groíTos , com alguns andaimes , e guarirás j 
c tinha D. Diogo poíto netla por Capitáo 

Mar- 



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l>Ba VII. Liv. VIII. Cap. VI. 207 

Martlm Lopes deFaria, cavalleiro muí hcm« 
fado , de íua obriga^áo , com quarenta íoU 
dados pera guarda daquella Pargana , qae he 
das memores, e mais profperas de todas as 
daquella jurdi^áo. E eilando os nollbs bem 
deícuidados de tal fobrefalto ^ dormindo bem 
deican^adamente , iem fe temerem de coufa 
alguma y a meío quarto dalva chegáram OB 
Abexins á tranqueira , e logo arrimáram a 
ella algumas efcadas , por onde comegáran» 
a fubir. Mas quiz noíTo Senhor oue ao iiieí«* 
xno tempo fe alevantaíTe huin foídado a aU 

fuma neceíSdade , e fentindo o reboUi^o ^ 
rádou alto Mauros , Mauros. A efta vos 
acudió o Capitáo Martim Lopes de Faria ^ 
e brádando por armas , as tomáram logo to" 
dos os feus Toldados, e acúdíram ás guari-^ 
tas , e andaimes a tempo que já os Abexin» 
os hiam cavalgando; e dando nelles y lan** 
^ram abako alguns mortos, e outros mal- 
tratados. £ coipo os inimigos eílavam apn 
nhoados ao pé da tranqueira , e pegados ás 
palmeíras , nao faziam mais os noíTos Tolda- 
dos , que metter as langas por antre os paos y 
e enfopar nelles á fuá vontade } e outros , 
que de íima nao faziam mais que botar-lhes 
muitas panellas de pólvora , com que fize«' 
ram nelles tal lavor , que parecia que ardia 
em baixo algum forno de caL 

E conta*fe de hum Toldado Reino! da<- 
Coiáto.Tom.IF.F.iL O quel- 



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«o ASIA DE DiOGO DB COUTO 

qoeile anuo , que inettendo a fuá ]an;a por 
atitre os paos pera tambetn matar o feu ^ 
Ule pegira della hum Abexioi , e trabalhársl 
por Iha arrancar da mao ; e o foldado fem 
a foltar gritara alto , dizendo : « Cao ^ perro ^ 
9 larga-ine a minha lan^a » em 6m elle de* 
fendeo a fuá lan^a, e offendea alguns 9 (]ue 
xnatou com ella. A briga durou até que ama- 
ftheceo , em que os Abexins fe aiFaftáram táo 
efcaiat rados 4 que nao paráram dálli a duaa 
kguas , o que nSo foi tanto a feu falvo » 
f|tie Ibes nao mataíTem o feu CapítSo Mar- 
um Lopes de Faria de huma efpingardada ^ 
«que nao ficaffem muitos feridos. Osfolda- 
dos das tranqueiras elegéram logo por feu 
Capitáo a Antonio de Sampaio , nomeni 
muito honrado , e muito bom cavalleiro^ 
que naquelle dia ian^ou fuas efpias fobre os 
kímigos, que fe recolhéram per:l hum tan- 
. que gramle > onde enterráram muitos mor- 
tos , que leváram comíigo , e fe curáram 
itíuitos ^ que hiam feridos. 

E porque fe receou que tornaffem á com* 
metter as tranqu^iras y as guarnecer) mui bem ^ 
e com muita preíTa ^ c toda a noite feguinte 
tftere com grande vigia y e com as armas 
Bas máos. Ao oatno dio na maré da tarde 
«ntrou por aquelle rio hum navio ligeiro, 
de que era Capitáo Diogo Nunes Pedrofo y 
que traaia tríma bons toldados > e multas 

mu- 



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I>fic. VIL Liv. VIH. Cap. Vil. iií 

ftaunijóes , que D. Diogo de Noronhá riián- 
dava de fck:corro , (porque logo tevé avifo 
do aíTdlto que os Abexms deram haquella 
trancjueira.) Cortí efte foccorro , de que os 
inimigos tireram logo avifo , fe alevantá-» 
l-am , e fe mettéram pela térra dentro a rou- 
bar, edeftruír as aldeas por onde paífavám, 
e o navio fe tornou logo peraDamáo, ele- 
vou comfigo Martira Lopes de Faria, que 
aínda eftava vivo ; hias cliegando a Daiifao ^ 
logo morreo em cafa do Capitáo , que o 
amava muilo , e o fentio em extremo. 

CAPITULO VIL 

J)e Cómo í>. Diogo de Noronba foi hufcúr 

05 Jbexins , e thes deo^ batalba ^ tm que 

os desbaratou. 

DEpois que os Abexins andáram pofí 
aquellas tefras deftrüindo, e roubaíido 
o que acháram , paíTártin-fe ás dé Damáo , 
onde fe veio ajuncar com elles Carfiabec 
Turco , hontem foberbo , e arrogante , dtí 
que já outra vezí fallamos , e todos aíténtá- 
íam de ir cercar a Cidade de Damao, pera 
onde logo partíraniv fazéndo fuas prepara- 
$6es , e fe foram póír da oürra[ banda ná al- 
dea de Conloes , onde ajuntiram todas ai 
ínais gentes que puderam* D. Diogo de No- 
fonha^ quetra^ia antre elles ftfas vigías, fóí' 
Oii lo- 



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2IZ ASIA DE DroGO de CouTa 

logo avifado de fuá dctermioa^o : e com9 
era íagaz , e prerenido » tratou de os emba- 
razar y porque Ihe nao chegaíTem a por cer- 
co , porque eílava a Cidade aberta , e Ihe 
poderiam dar trabalho. £ aífim o dia que 
Ihe deram recado , que eram chegados a 
Couleca , fe fez logo preftes com toda a 
gente, aÁim de pé, como de ca vallo, deir 
tando' fama que quería ir bufcar os inimw 
gos , fem deícubrir a peííoa viva iua deter- 
mina^ao, porque fabia que dentro na Cida- 
de ándavam efpias fuas , que logo os haviam 
deavifar; etodo aquelle dia gaílou em.pre- 
para^Óes pera ir bufcar os Abexins , e cm 
mandar ter preftes embarcajóes pera paflar 
í gente á oatra banda» E no quarto da prí* 
ma rendido , fe partió da Cidade com fuas 
bandeiras defenroladas, com grandes eftron- 
dos, e carrancas, dando a entender queque^ 
rFa paífar em buíca dos inimigos y> do que 
logo os Abexins foram avifados pelas efpias y 
que traziam antre os noflbs , que Ihes certir 
ficáram que o Capiráo comedia va a paflar 
em bufca delles , o que os metteo em gran- 
de revolta y e confusao , pondo-fe logo eov 
armas , e fortificando-fe o melhor que pude- 
ram , ficando toda a noite defvelados , fem. 
dormirem , ncm repoufarem,. D. Diogo de 
Noronha eíleve em campo até o quarto da 
modorra y e fem dizer a alguem o que de*^ 

tcr- 



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Deo Vn. Liv- Vm. Cap. VII. aij 

ierminava , tornou a voltar pera a Cidade > 
e repouíou o que reftava da noite até pela 
manhá : e ao outro dia á tarde fe tornou a 
por em campo da tnefma maneira , pondo 
em parecer dos Capitaes fe feria mclhor pat 
far o rio á outra parte em embarcajóes , ou 
irem bufcar aváo: eaífentou-fe que mclhor 
era paflaflem todos juntos pelo váo por fer 
menos trabalho. E aíCm como foi noite, 
comejou a marchar pera onde haviam de 
paíTar^ do que tambem os Mouros tiveram 
rebate , e fe tornáram a metter em revolfa ^ 
nao deixando de haver antre os feus muito 

frandes recelos. Mas como D. Diogo de 
7oronha nao tinha por entáo penfamento 
de paíTar , tanto que o quarto da modorra 
cntrou , tornou a voltar pera a fortaleza ; e 
o mefmo fez outras duas , ou tres noites , 
com o que os noíTos andavam táo embara- 
zados, íem entenderem aquellas arremettidas 
do Capitáo , que nao fe fabiam determinar : 
e o mefmb fizeram os inimigos , que anda- 
vam quebrantados de tancas noites nao def- 
pirem as armas , e tambem nao fe fabiam 
dar a confelho , porque bem entendiam que 
nao deixava D. Diogo de Noronha de paP 
far por recelo que tiveífe delles , mas nao 
fabiam o fim pera que íizera aquellas fahi* 
das tantas vezes. E como D. Diogo de No- 
ronha nao teve outro intento naquellas idas , 

e 



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«4 ASIA DE DioGO nE Couto : 

e vindas mnis que nao Ihes dar bico pera 
ell^s o vircm cercar , e com iíTo os que^ 
bramar comaquelles rebates, como foi av¡T 
fado que já o edavaní de fei^áo , que uap 
podían) comfígo , fez entao a paíTagein d^ 
verdade ^ e fe poz da outra banda íobre a 
tarde , onde fez alardo da gente que levava ^ 
e achqu trezeutos e íincoenra Toldados de 
pé , e delles a noór parte de efpingardas , e 
cento c ílc^coenta de cavallo bem armados « 
f(n qu^ enciravam muitos , e muí honrados 
Fidalgos ^ e cavalleiros ^ e dos que pudemo^ 
fabcr os nomes, sao osfeguintcs. André d^ 
Soufa de Arronches , D. Francifco Henrir 
ques , Jeronymo da Veiga , D. Triftáo de 
]\Iene:(esv Ayres de Saldanha , que levava 
dous cávanos , e eñe invernó deo mezas á 
fuá culla a fe/Tcnta , oü ícrenta Toldados, 
Luiz Alvares d^ Tavora y Joáo Lopes Lei"? 
lio , D, Alvaro de Taíde , Jorge Percira 
CoutinliQ, e outr-Qs muitos Fidalgos, e ca-> 
valieiros» 

Feito aJardo , kz D. Diogo de Noro* 
Viha da gente d^ pé tres bainkiras de cento 
e dezef^te cada huma., de que deo asCapKr 
tai3x^& a André de Spuía <¡le Arronches , 9 
P. Francifco ííenriques , e a Jcronyuvo 4a 
Yifiga , íicando elle com (oda 9 geiit^ d$ 
cavallo i e tanto que anoir^ceo , te paflbv 
d« otttR ^and4 p^l^ paflb de ílma « « «• 

mui<* 



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Dec VII. Liv- VIH. Cap. VII. axj 

muíto boa ordem com^ou a marchar pera 
a ald^a V^^ipim » onde tinha avifo cílaregfi 
os Abcxinsi e defpedio diante Coge Abra- 
háo Jvdep y e Maooel Di<is Picoto em ca- 
vallos ligeiros pera ircm defcubrir o campo , 
indo D. Diogo de Noronba ícmpre ipuíto 
ordenado ^ porque efperav^ de encontrar lo-' 
go os injinigo^. 

Chegando a Couleca , que he huma le- 
gua de Damao , Ihe fabio ^ caminhp buoi 
Patel (que be como Juiz , e cabera da$ ají- 
deas) e deo a P, Diogo deNorpnha Huma 
carta etu Paríeo , que os Abexins Ihe deíxá* 
ram. pera elle ; porque tatito que D. Diogo 
de Noronha fe paflou da outra banda , eir 
tavam todos naquella ¿Idea j e tendo rebate 
que os hia bufcar, fe fahiram della 9 e íe 
foraní pera a de Vaipim , deixando aquella 
carta na máo daquelle Patel , pera que ijia 
déffe tanto que aíli chegaííe^ D. Diogo d*; 
Noronha a abrió, e achou efcrita em Pair- 
íeo , e a deo a Coge Abraháo , pera que IJia 
leíTe, e nella diziam os Capitaes Abexir\s 
» que bem fabiam que os hia bu&ar , que 
» o nao cíperayam naquella aldea , porque 
» o campo della nao era botp perabaialha» 
31 que adiante em outra os acharia. » D. Dio- 
go de Noronha bem entendeo que aquiilo 
^ram roncas do Carnabec , que era Turco , 
p foberbo i e diíle p^ra os que hiam pega- 
dos 



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«6 ASIA DE DioGO DE Couro 

dos com elle : « Vamos adiante , e enfaque^ 
» mos efta foberba , por'que nem onde dízem 

> os havemos de acbar. » 

E paflando na mefma ordem , em que 
hiam , chegáram á outra aldea chamada Pi* 
rao , onde deram a D. Diogo de Noronhá 
outra carta do roefmo tbeor , em que Ibé 
afErmavam , que adiante no canfipo da aldea 
Vaipira os acharia. Do que fe D. Diogo de 
Noronba rio , tí difle : « Nem alli ferá , por 

> iíTo defcancemos lium pouco n e aífim o 
fizeram porirem candados. Enoquarto daí- 
va tornáram a marchar até chegarem aos 
campos de Vaipim ; e em rómpendo a luz 
damanhá, que osdefcubridores do campo, 
que hiam diante , voltáram a D. Diogo de 
Noronba , e Ihe differam que alli os tinham, 
E virando-fe D. Diogo pera os feus , Ibes 
diíTe: « Ab Senhores, aqui os temos, por 
3» iíTo vinguemo»-nos do trabalho que nos 
9 deram de os vir bufcar tio longe. » E 

Í)ondo logo a fuá gente em ordem de bata- 
ha , dco a dianteira a André de Soufa , e 
fez de toda a de pé hum efquadrSo muito 
formofo , e ü-^s fileiras antre pique e pique 
huma efpingarda. E a gente de cavallo re- 
partió ^m duas partes pelas ilhargas do eC- 
quadráo depé: bumadellas tomou pera fi, 
e a outra deo a Duarte Palm de Mello , e 
»Manoel DÍ43Picoto, Nena ordem chcgou 

D. 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. VIL 117 

D. Diogo de Noronha ao campo, onde os 
inimigos o eftavam eíperando no cabo delle , 
c parou pera notar a ordem cm que eftavam , 
que o numero bem fabia que eram feiscen- 
tos decavallo, edoiis mil dcpé. Evio qu^ 
eftavam com as coftas em hum formofo tan- 
que de agua , e por íima delle fe alevantava 
o Sol tSo formofo , que alegrou a todos. 
D. Diogo de Noronha , depoís que vio , c 
notou bem tudo , ajuntou os feus a fi , e 
pondo- fe no meio delles , Ihes fez efta breve 
feUa: 

« A quitemos, valorofos companheiros , 
» Senhores , Fidalgos , Capitáes , e Caval- 
n leiros, os inimigos, que com tanto nlvo- 
)» rofo bufcavaraos , ponde os olbos nelles, 
5> eemvoflb valor, e esforjo, e veréis quáo 
31 poucos sao pera o que o corado de cada 
% hum defejava. Tudo boje vos favorece , 
J» e promette huma grande vitoria. Ponde-os 
» primeiro que tudo em Déos noflb Senhor , 
» por cuja fé, elei fomos obrigados amor- 
» rer : que parece que na formofura daquel- 
% le Sol , que lá fe val alevantando , nos 
]» dá hum feguro final de terdes certa a vi- 

> tória ; porque parece que vejo naquelía 

> diverfidade deraios, queja vem fcintilan- 

> do fettas contra voflbs inimigos. Por iíTo , 

> corajao em Déos , confianza em voíTos 
W yalorofos bracos ^ olho ñas obrigag6es de 

» Chri- 



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ai8 ASIA DE DioQo de Covtó* 

3» Chrifiao , e amor no férvido de voíTo Rey » 
» e demos nelles com o favor doBemaven- 
> turado Apoflolo Sant*Iago , que a vUoria 
n eílá certa. » 

Acabada a falla , comegou a marchar^ 
levando diante hum ReÜgiofo da Ordeip de 
S« Domingos hum devoto Crucifixo arvora«- 
do no ar, e foram cingindo o campo com 
ten^ao de ir tomar o Sol nos inimigos , oa 
ao menos a nao Ihes íicar tanto pelos olhos > 
mandando aos feus que fe nao defcrdeaaf*- 
fem y nem deímandaífem. Mas como o fu^ 
ror dos noíTos era grande , e já defcjavam 
de fe ver ás maos com os inimigos , adían*- 
táram-íe quatro , ou finco Fidalgos , a qte 
nao foubemos os nomes , mais que Ayreí 
de Saldanha , que fendo viílos por D. Dio* 
go de Noronba , mandou dous criados feus 
de cavallo^ que foíTem a elles; e como o$ 
vio juntos , remetteo a elles com a lan^a 
fobra^ada pera Ihes dar, dizcndo-Ihes pala* 
vras agalladas , com que os fez logo reco- 
Iher, mas fem os efcayidalizan 

Os Abexins vendo a determinadlo de D. 
Diogo de Noronha , arrebentáram donde eí^- 
tavam , e com grandes gritos , e alaridos fo*- 
ram commetter os noíTos y defparando pri- 
meiro nelles humafomma de bombas defo* 
go mui furiofas, que milagrofamente lefo-* 
ram desEsizer no nieio dos nóílbs^ fem Ihep 

fa- 



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Dec. VII. Liv. VIII. Cap. VIL 219 

fazer damno algum. Ehuma quetomoujoao 
Lopes Leitao pelo ar^áo dianteiro , dando 
nelle a pancada , reívelou pera a outra parte 
fem ooíFender. D. Diogo deNoronha, que 
vio aquillo , cuidando que Joáo Lopes Lei-^ 
tao ficava ferido , renietteo a elle y e Ihe per* 
guntou o que era ; ao que elle muito rifo* 
nho refpondco : « Senhor , nao be nada. > 
Difle entáo D. Diogo de Noronha : Pois 
Sant'Iago* E pondo as pernas ao ca vallo , 
remetteo aos inimigos , e daquelle primeiro 
encontró, e carga derribáraní os nonos mais 
defeflenta, íicando todos baralhados em hu- 
ma afpera batalha , em que D. Diogo de 
Ncronha fez oofiicio de bom Capitáo, ro- 
deando os feus , e animándolos com pala- 
vra^ de muita honra; e quando Ihe era ne- 
ceíTario , fazia tanibem o de bom cavalleiro ; 
e onde punha a lan^a , levava tudo a térra , 
trabalhando muito por fe encontrar com al- 
giins des Capitaes , do que fe cHes defvia* 
vam , e tambem faziam íeu dever muito ar- 
Tezoadamente. 

£ andando a coufa afllm baralhada , pa** 
rece que hi^m Abexim cocheceo oCapitáo, 
que andava eoxa a lan^a toda enfanguentada , 
e o vio derribar alguon com ella : enrizando 
a faa , rompeo nelle o encontró por detrás ; 
inas cqmo as armas eram fortfs , refvdou 
Np encQü^rp 9 1 foi parar juoto de iium Diogo 

Nu- 



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aao ASIA DE DíOGo de Coüto 

Nunes Pedrofo , da obriga^o do mermo 
D. Diogo de Noronha , e táo perto , que 
tere o Díogo Nunes tempo pera ferrar del- 
le; e liando* fe ambos, cahiram doscavallos 
no chao, onde íiciram perneando. D. Al« 
varo de Taíde , e D. Triftáo de Menezes , 
e outros , oue fe acháram perro , acudiram 
a falvar o Diogo Nunes , porque cbegavam 
já outros Mouros a favorecer o com que 
die andava a bracos ; e fot aqui tal a refer- 
ía , que acudiram de parre a parte muiros : mas 
por fim Diogo Nunes foi faivo , e o Mouro 
morro com alguns companheiros , o oue nao 
foi tambem fem cufto de aigumas reridas , 
que os noflbs recebéram , principalmente D. 
Triftáo de Menezes , que ievou huma entilada 
por huma mao , de que ficou fempre aleijado. 
A noíTa efpingardaria ( que era muita ) fez 
tal eftrago nos inimigos, quehouveram por 
ieu partido Jargarem o campo , e irem-fe 
recolhendo pera as aldeas , ao que Ihe D. 
Diogo de Noronha nao deo lugar; poroue 
em os entendendo , apertou com elles derei- 
^o, que os fez deíordenar , e por em fo- 

§ida , deixando o arraial com a mor parte 
as muiheres, e todo o recheio , (que era 
huma coufa muito grofla , ) porque Iheíicou 
toda aroupa, muitos cavallos, armas, pro- 
vimentos , munigoes , e mantimentos , muita 
inoeda de cobre , e alguma de prata , de 

que 



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Dec. vil Liv. Vin. Cap. VIL aii 

que os noflfos Toldados de pé fe apoderáram , 
e leváram á vontade , porque os de cavallo 
foram ieguindo o alcance aos Mouros, em 
quem íizeram grande eftrago , até chegarem 
a huma ribeira , que logo paíTáram ,. e aínda 
naquella prefla fe perdéram bem delles. E 
J)avendo*fe D. Diogo deNoronha por con« 
tente da vitoria , fe tornáram pera o tanque ^ 
onde os Abexins tinbam feu exercito , e nel* 
le fe aporentáram , e defcan^áram do traba- 
Iho panado. Nao acbámos que da noíTa par* 
te houveíTe mortos ; mas fe os bouve , fo- 
ram táo poucos , que nem lembráram , por 
lerem fem nome (porque be tal noíTa mife- 
ría, que eftes por muicas fa^anbas, ecavat» 
krias que fa;áo , com a nK)rte fe Ibes aca- 
ba tudo ; e aílim fe pafla por fuas coufas , 
como fe o esforzó nao tivera merecimenta 
flíiais que nos illuílres.) 

Feridos hpuve antre os noíSos muitos, 
e alguns , a que matáram os caballos» A D. 
Diogo de Noronba matáram dous ^ que Ihe» 
bnceáram debaixo das pernas , de que tanw 
bem elle pelas armas fabio bem ^naladow 
A Jorge Pefeíra Coucinbo , a Gonzalo Ro^ 
drigues de Araujo , a Adriao Fernandes y a 
Jfóáo Ferráo , a Diogo Pereira , a Duarte 
Pinto , a Chriftováo da Cofta ', a Diogo Ma*- 
sao , e a Coge Abraháo Judeo matáram dous 
cavaUos >^ que o Vifo-Rey D. Conftantáao 

de- 



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22a ASIA DE DlOG^ DE COUTO 

depois Ihe mandou pagar y fegundo yímo§ 
peía conta de Simáo Yaz Tello , que íuc- 
cedeo na Feitoria de Damág a Diogo dá 
Silra. 

Aquellc dia , e o outro fe deteve D. Dio- 
go de Noronha naquelle lugar em mandar 
recolher os defpojos , e em ib efpíarefn otf 
inimigos , que k deixáran) ficar da outra 

{)arte do rio. E nao hacendó alli oíais que 
azer , alerantou o campo , e foi marchan- 
do pera Damáo na meíma ordem que leva- 
ra , deixando Duarte Paim de Mello , e Ma- 
noel Días Picoto , e com o feu efquadráo 
de gente de cavallo na retaguarda. Os Abc- 
xios fendo ayifados que os nolTos biam já 
caminhando, torndram a paíTar a ribeira, e 
vieram ladrando após elles, pera verfelhes 
podiam tomar a bagagem , em que as fuas 
mulheres vinham , que cativáram. D. Diogo 
de Noronha, receando^^fe dealgumdefarran- 
jo, mandou dizer aos da retaguarda y qué 
nao buUííTem comügo , nem fe defordenaf* 
fem , por muico que 09 inimigos os perfe- 
gUifTem y porque quando fofle tempo elle 
voltaria a eJks* O Carnabec , que aqui go- 
vernara efte dia rudo , vendo o íbíFrimeñto , 
e confianza de D. Diogo de Noronha , bemi. 
«ntendeo que hia efperando conjunto pera 
pegar com elle; e nao oufaiido ao efperar, 
delparou de longe algumas bombas ae fo- 



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Déc. VII. LiY. VIH Cap. VIL 113 

fo, e fe foi recolhendo pera 09 matos. D« 
)iogo deNoronha füizendo poucocafo dif- 
to , fe deixoü ir , lan^ando-lhes efplas , e ao 
outro dia chegou a Damáó , onde foi rece- 
bido com procifsio , e muitas feftas. 

CAPITULO VIIL 

De como o Vifo-Rey D. Conjlantino mandau 
Chrijlováo Pereira Homem a lancar em 
Macuá o irmao Fulgencio Freiré da Com- 
panbia de Jefus , com recado ao Bijpoy 
e de como encontrou quatro gales de^ur^ 
eos , e o tomáram. 

TEndo o Vifo-Rey D. Conftantino pelaa 
carras do Bifpo , queeftava naEthiopia, 
novas das poucas efperanfíis que havia da- 
quelle Emperador dar a obedieacia á Igreja 
Romana , aflentou em confelha geral de to* 
dos c aue fe nSo mandaíle o Patriarca , pois 
% fe eíperava xío pouco fruto de fuá ida , e 
» das muirás defpezas que nella fe haviam 
31 de fazer ; mas que todavia fe mandaíTe 
» huma peflba com certas coufas , que o 
> Bifpo , e Padres mandavam pedir pera o 
» culto Divino , como era vinho pera as 
% Miífas , pedras de Ara , Cálices , MiíTaes , 
1 eourras muitas coufas femelhantes aeSas.» 
Pera ido elegéram os Padres da Companhiá 
te irmao Fulgencio Freiré , que já lá tiiiba 

an- 



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224 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

andado » por fer peflba de muita virtude , a 
confianza , e o Vifo-Rey mandou armar tres 
navios pera efta jornada , de que deo a Ca- 
pitanía a Chriftováo Pereira Homem , Fidal- 
go honrado, e mui bom cavalleiro. 

Emquanto edes navios fefaziain preftes, 
defpachou o Vifo-Rey as naos do Reyno 
pera ireoí tomar a carga a Cochim , e todas 
chegáram a faivamento a Lisboa. No mei« 
mo tempo defpachou tambem á Pantale^o 
de Sá pera ir entrar ñas Capitanías de Co- 
fala , e Mocambique , por acabar feu tempo 
Baftiáo de^Sá feu irraáo que lá eftava , por- 
que ambos foram defpachados hum apos o 
outro. Dcfpachadas eftas coufas , o fez o 
Vifo-Rey tambem a Chriftováo Pereira Ho- 
mem , já na entrada de Fevereiro deíle anno 
de feíTenta , com os tres navios que diíTe- 
mos , de que a fóra elle eram Capitáes Ro* 

?¡ue Pinheiro , e Luiz Caftanho , e com os 
.evantes foram fuá derrota até haverem vií^ 
ta da coda de Arabia , e delia atraveífáram 
a Sacotorá , onde fe provéram de alguma» 
coufas , e alimpáram os navios. Dalli foram 
demandar a boca do Eftreito da banda do 
Abexim , por onde eniráram , e chegáran\ 
á villa de Ma^uá; e pera tomarem falla cJq' 
que hia na térra , andáram bordeando , eJt 
perando por recado , porque fe receavam 
que ñouveíTe Turcos. O Baxa., que eftava, cm 

JVÍa- 



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Dbc. vn. Liv. VIH. Cap. VIII. ttf 

Magua , vendo os navios, defpedio humar 
cmbarcagáo pequeña com hum Mouro , pof 
queai mandou dizer ao Capitáo mor «que 
% elle era amigo dos Portuguezes; que fe 
» quería agua , ou mantimentos , que tudo 
> Ihe mandaría dar , e de muito boa von- 
» rade y e aífim tudo o mais de que rivefle 
)» neceáidade. » ClirMlováo Pereira Ihe re* 
ípondeo com outros ofterecimentos ^ n^ Ihe 
acceitando os feus ; e commetteo ao Mouro 
que Ihe trouxe o recado , fe Ihe quería levar 
huma carta fuá em fegredo pera no porto 
de Arquicó a dar a atgum Portuguez , ou 
Chriíláo , ( que forjado ha vía de haver alli 
algum ,) e por iílo ihe deo nao fei quantos 
cruzados ; e efcrevéram ao Bifpo , elle , e o 
irmáo Fulgencio Freiré , novas de tudo o 
que era paílado , e ao que vinha com aquel- 
ks navios. Eítas cartas levou o Mouro com 
snuito fegredo na touca i e depoís de dar 
o recado ao Baxá , fe paíTou a Arquicó , e 
deo a carta aalguns mogos de Portuguezes , 
que alli cftavam efperando por novas dar 
India. 

Chriftovao Pereira Homem , vendo o 
porto occupado dos Turcos , deterroinou de 
fe paflar állha deCamarao a fazer aguada ^ 
e tomar falla de gales , fem querer lancar 
em térra o irmáo Fulgencio Freiré, (que Ihe 
Tequereo , dizendo « que pela neceflidade que 
Cmo.Tom.ir.P.iL P * har 



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Í26 ASIA I^fi DiOGO D£ CODTO 

» ha? ia na Ethiopia das couras que levara , 
n íe quería arrifcar a rudo, ) porque nao 
n levara ordem do Vifo-Rey pera iflb ; ai>> 
n tes o feu regimentó Ihe dízia y que nao 
> entregafle o irmáo , fenáo a gente do Baiy 
n nagais.» E apartando-fe de térra pera aira* 
veflfar o Caniaráo , deo-lhe hum tempo muW 
lo groíTo» cotn que corrérain todo aquel le 
dia, e a.noite feguinte; e ao outro feachá* 
ram antre humas Ilhas , que chamam Mal* 
fadadas , onde furgíram já com o tcmpo 
brando. Efíando aqui , houveram vida de 
]mma embarcado, que Ibe pareceo ter ga- 
vea , e aílim o aífírmáram os Gajeiros » com 
o que todos fe alvorogáram , cuidando feria 
alguma do Achem , por.haverem que tinham 
sella as prezas certas ; e tomando o remo , 
a fbram demandar poflos em armas i e indo* 
fe chegando^ víram mais outros tres maílos 
muito longe , fem poderem fazer diíFerenfa 
do que feria. Eflas velas eram as quatro ga- 
les no Cafar , com que tinlia fallido de Mo- 
ca , pera ir efper ar as naos de Ormuz , que 
por ter já avilo daquelles navios, eftava alli 
lanzado em ciliada : e por nao fer conhecida 
a fuá galé, Ihetinlia alevamadas grandes ar* 
combadas de efteiras , e fobre o maftó feiio 
huma gavea pera parecer nao y e as outras 
tres gales tinha mandado aíFadar de íi ; e co^ 
mo andava em grande rigia , vio vir as fu& 

tas^ 



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Dec. vil Liv. VIIL Cap. VIIL ^^T 

tas , e a tiro de camello deo com as arro^«»^ 
badas ao mar j e tomando o remo em ptt* 
nho^ arrancóu como hum trováo a deman* 
dallas. Os noíTos tanto que viram a galé, 
e conbecéram as outras tres , que tambctn 
oeram, viráram cm outro bordo; e largan- 
do as velas , foram corrcndo pera a banda 
do Abexim , por Ibes 1er pera lá o v«nto 
profpero. Cafar tambem metteo ó baílardo ^ 
e o mefmo fizerani as mais gales , e os fo» 
ram feguindo muito apertadamente , indo a 
galé Capítaina atropelando afuíla doPinhei-^ 
ro ) que Ifae ficou fó a huma parte de fei- 
$áo y que a faouveram os noíTos por perdi- 
da , de que Chriftováo Pereira bia muita 
magoadb. Vicente Carvalho , que era Capi^ 
táo do feu navio , homem orático , experto 
ñas couías do mar , Ihe dille « que era de 
Tk parecer, que elle com outro navio fizeíTem 
» volta aquella galé , ( porque as mais vi- 
)i nliam longe ,) e que a embara^aíTem , por- 
]» que fabiam a muita vantagem que Ihe ti- 
» nham na véla^ e que com iflb teria oPi- 
1 nheiro tempo de fe fazer em outra volta , 
» e Ihe poder efcapar. )i Parecendo bem a- 

2uelle confelho a ChriflovSo Pereira, odif- 
) ao outro CapitSo do navio ; e tomando 
as armas , viráram fobre a galé aíOm á vela » 
e o Vicente Carvalho por checar a ella foi 
liiettendo tanto de 16 , que fez do penSo 
P ii gocs ; 



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laS ASIA DE DioGo de Covto 

gees : o ^ue vifto pelo Cafar , deixou o na* 
vio que ieguia^, evoltou aelles, com oque 
o Pinheiro teve tempo de fe fezer noutra 
volta ) e de Ihe efcapar» Os oucros dous na- 
vios chegáram á gafó a tiro de falcáo , e 
defparou nella algumas falcoadas , e torná- 
ram avoltar como ginetes, efeforam aifaf- 
tando della á fuá yontade y € o Cafar os 
feguio até anoiiecer , que Ihe furtáram o 
rumo , e foram feu caminho até defembo- 
carem as portas do Eüreito pela banda do 
Abexim ; e como fe víram fóra , havendo-fc 
por feguros , deram folga aos marinheiros , 
e- deixáram-fe ficar defcanfando o que refta- 
va da noite: e em amanhecendo, houveram 
vifta de huma vela , que Jogo conhecéram 
fer a fufta do Pinheiro , do que huns , e ou- 
tros fe alegráram muito, e aflim mui con- 
tentes foram demandar a cofta de Arabia ^ 
cuidando que hiara muito feguros. 

Mas como nao ha fugir á máo de Déos , 
quando cuidavam que hiam mais fóra do 
perigo , e cx)ntentes , entáo fe Ihes mudou 
tudo em dobrada dor , e trifteza , porque 
víram a galédo Cafar apparecer-lhe por proa; 
porque como era Coflairo , entendeo que os 
noíTos haviam de fahir o Eftreito fóra ; e fem 
tomar defcan^o de noite , o defembocou 
tambem pela banda de Arabia , e fóra delle 
fe deixou andar ás voltas ; e canto que foi* 

de 



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De€. VII. Liv. VIIL Caf. VIII. 2^9 

de día , haveiido vida dos noíTos navios.^ 
logo os foi demandar. Chriñovao Pereira 
fallando com os outros Capitáes , aíTentá- 
ram , que Ihe fugiíTem á vela , porque já 
fabiam que nella Ihe tinhain yantagem , e 
aífim o fizeram ; mas logo Ihes acalmou o 
vento , pelo que Ihes foi forjado tomar o 
remo , e com elle fe Ihes foram efcoando 
muito bem. £ certo que fe fe aquelle Ca- 
pitáo determinara , e fiara dos outros compa- 
nheiros , que fe entende que fe todos voltá- 
ram fobre a galé ^ que a rendéram y porque 
nos tres navios hiam perto de oitenca ho* 
mens , em que entravam muiros Fidalgos , 
e Cavalleiros amigos de honra , porque a 
determinado he cometo da vitoria. O Cafar 
vendo acalmar o vento , tomou tambem o 
fema , e foi feguindo os navios com toda 
a furia que pode , e elles alongando-fe*Ihes , 
principalmente odoCaftanho, que hia mais 
leve , e levava menos gente, e o que hia 
mais pezado do remo era o do Capitáo mor ^ 
que levava o navio mui carregado ; pelo que 
vendo- fe tÍo arrifcado , aíTentou com os feus, 
que fe mudaíFem alguns ao navio doCafta- 
nho quebia teve, eque aíSm íicariam com* 
paflfados ; e capeando-Ihe , efperoü até elles 
chegarem y e logo fe baldeou nelle o Ciapi- 
táo mor , porque eftava aflentado que elle 
com fete^ ou oito mais íe p^íTaiTcm a elte«. 

Mu 



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ajo ASIA DE DioGo de Couto 

Mas 08 mais fem terem refpeito a coufa al- 
guma 9 íé arreme^áram tambem ao navio 
com tanta preíTa , e defordem , que foi es- 
panto, e allí onde cuidavatn que hiam buf- 
car remedio , le Ihes occaíionou fuá perdi- 
do; porque como o navio teve em fi tanta 
fente, e o pezo Ifae ficou por urna , foi-fe 
aldeando a hum, e a outro bordo; e to- 
davía como era ligeiro éo remo , fe foi fa- 
hindo. E vendo aquillo hum daquelles íbl- 
dados , (e nao cuido que foi dos melhores , 
que fempre ha alguns , que querem ganhar 
térra , ) vendo a preflfa com que o navio fe 
hía fahindo , diflfe alto y como por galantería , 
muito fugimos ; oqueouvido por Chriílovao 
Pereira Momem , dando-Ihe a defconfianca , 
tnandou ao do }eme que voltaíTe i galé , e 
poz a elle hum homem de fuá obrigajao , 

> e v6s y fenbores , dererminai-vos , que 

> dentro naquella galé bavemos de ir bufcdr 

> noíTa faIva9áo , por iíTo cada hum fe en- 

> commende a Déos , e a feu brap. » E 
fazendo voltar o navio , como a galé hia 
pera elle com furia, na volta que fez feen- 
conDráram ; e pondo a nofla fufta a proa na 
galé , pelo primeiro remo fe lan^ou logo 
dentro Chriftováo Pereira com quatorze , óu 
quinze homens mais , que o acompanháram , 
€ como leoes famintos remettéram com os 
'Turcos 9 e tiveram oa coxia huma muito aí- 

pc- 



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T)EC Vn. Liv- VIIL Cap. VIIL 2ji 

eira batalha , em que o Chrifiováo Pereira 
omem , e lliomaz Botelho , irmáo de 
Diogo Botelho , e Henrique da Gama , pá- 
rente da cafa da Vidigueira , foracn matan- 
do y e efpedagando muitos dos Turcos ; e 
como homens determinados a roorrer , ou 
fe íalvarem por feus bracos , fizeram tal es- 
trago nos inimigos , que pafmou o Cafar, 
e deiejou de os cativar pera os levar de 
prefente ao Grao Turco , o que elles ntto 

Íjueriam fenáo morrer , e vingar primeiro 
ua morte. E como os Turcos eram mais 
de cento e (¡ncoenta , e os noflbs trinta ^ qua- 
ít ataíTalhados cahíram os mais delles já fenn 
vida , fem fe quererem dar á prizáo , deixan*' 
do de ii huma aífiíialada memoria antre ot 
Turcos , e affim a devem de ter no Ceo ^ 
pois morréram por honra de feu Déos , é 
de feu Rey. O irmáo Fulgencio Freiré foi 
cativo com alguns , que fícáram na fuña , e 
levados ao Cairo. Depois foi o irn^o ref> 
gatado por ordem dos Padres da Companhia 
por via de Italia. Os dous navios de Vicen- 
te Carvalho , e o de Roque Pinheiro víram 
ludo de fóra fem oufarem de os foccorrer , 
antes foram feguindo feu caminho , e che- 
gáram a Goa ño fim de Abril ; e fabendo 
o Vifo«Rey D. Conftantino a defaventura , 
os mandou prender no tronco ^ e os caftigoa 
mui benu 

CA- 



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0^2 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

C A P I T U L O IX. 

Do quefuccedeo em todo ejie verao na Etbia* 
pia aepois da marte do Emperador Clau* 
dio , ou Atbena Sagad : e de como os Gran^ 
des alevantdram por Emperador feu ir^ 
mao Adamas Sagad ^ que perfeguio o Bif- 
po até o prender* 

DEixámos o defaventurado , e herege 
Emperador Claudio, eporoutro come 
Athena Sagad , morto naquella batalha , que 
leve com os Capitács do Rey dos Malafais , 
que fdram logo á Provincia de Hojé pera 
tomarem a Rainha , e feu filho ás ipáos; 
mas nao puderam. £ andando com ten^ao 
de fe apoderarem do Imperio , Ihes cbegá- 
•ram novas de como o Abincon Maiahamal 
enrrára porfeuReyno, c matara o feu Rey; 
e que depois de fe elle recolher , entráram 
por aquellas térras os Cafres Gallas , c as 
andavam aflblando, e dellruindo; e largan* 
do tudo , acudíram logo lá , deixando as 
(joufas daEthiopia com algum folego, pera 
poderem tratar da elei^ao do Emperador. 
E pera iíTo fe ajuntárara todos os Grandes j 
e foram bufcar a Rainha ^ que eílava reco- 
Ihida em huma ferra forte com o filho na 
Provincia Gorame , e junto alli choráram a 
morte do Emperador ^ e Ihe fizeram fuas 

exe- 



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Dbc. vil Liv- VIII. Cap. IX. ajj 

exequias , pera o que atié cntáo nao tlveram 
lugar, rapando*íé todos por dó, e com el- 
les os Portuguezes, por íer aflim o coílume 
ÚQS Abexins em feus nojos« Feiro illo y ale- 
vanráram por Emperador ó ircnáo do mor- 
to. Adamas Sagad 9 com fuas pompas acof- 
tumadas : e a primeíra coula que fez foi fa- 
zer logo Capítáo dos Portuguezes a Fran- 
cifco Jacome , contra vontade de todos , e 
defpedio logo feu primo Abicicon Malaha- 
xaai com hum arrazoado exercito pera ir 
tomar vingan^ da morte do Emperador feu 
irmáo ; e elle com outro exercito , e todo» 
os Portuguezes foi contra a ierra dojudeo» 
epor vezes accommetteo entrar; mas como 
os Judeos edavam muito fortificados > de to- 
das ellas fahio fempre desbaratado , e que- 
brado : pelo que houve por feu confelho tor- 
nar-íe pera a térra de Garagará , onde co 
me;ou a ufar de fuá má natureza, e desfez 
a mor parte dos Grandes do Reyno , e fez 
outros de novo, com que fe fez odiado, e 
aborrecido de todos. 

Dalli mandou hum dos Grandes que fof- 
fe bufcar o Bifpo , que fe foi com elle re- 
ceofo , porque já fabia fuá má inclina^ao ; 
e chegando a elle , a primeira coufa que 
Ihe diíFe em o vendo foi t que nao prégaí^ 

> fe roais em feus Reynos , nem inquietafle 

> os íeus vallallos. ]i Mas o Bifpo muito 

conf- 



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^34 ASIA DE DiOQO D£ COVTO 

conftante, e intciro Ihe rcfpondeo t que if- 
^ ib nao havia elle dedeixar defazer^ por^ 
31 que feu officio «ra pregar a Lei de Chrir 

Y fto antre os Mouros , e Judcos , até morrer 
7» por ella ; e quie em quanto tivefle lingua ^ 
n o havia de fazer allr, íc^m temor de cou- 

Y fa alguma, naquelle Reyno em que ham 
7) tantos. » Ó Emperador vendo aquella li-^ 
4>erdade, Ihe diíTe «que Ihe entregaíTe logo 
n as mulheres Abexins, que tinha convertid 
» das. » Ao que Ihe elle reípondeo «c que 
)» ellas eílavam em poder de feus pais , e 
% maridos , que com elles fe avieíTe. )i 

Vendo o Emperador aquella liberdade , 
mandou que Ihas levaíTem logo todas , o 
que os feus íizeram , e apertou com días 
muito que fe tornaíTem ao antigo coñome 
dos Abexins , e que deixaíTem as ceremonias 
que o Bifpo Ihes eniínava. Ao que huma 
(que era cafada com Alvaro da Cofta) re- 
ípondeo « que elle era Senhor do íeu corpo , 
)» mas nao de fuá alma ; que ella , e todas 
» aquellas fuas companheiras eñavam muito 
3» contentes de terem deixado os roins cof- 
» tu mes dos Abexins, e de viverem confor- 
» me aos Santos, e bons da Igreja Cacho- 
m lica Romana, n Ouvindo o Emperador 
aquella táofanta, echriílá refpofta, IhediC- 
íe com muito grande ira k que a mandaría 
» lanzar gos leoes Ji ao que ella muito fe» 

gu- 



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Dec. vil Liv. VIIL Cap. IX. 2jy 

gura Ihe refpondeo « qae elle podía fazer 
)) o que quizefle , que leria pera todas a 
n mor mercé do mundo , porque alcanga* 
» rjam aílim a florión coroa do martyrio , 
j pera o que eftavam muito preftes , e alvo* 
» robadas, j» Vendo elle aquella conftancia, 
as mandou todas prezas pera cafa de huai 
ieu criado y a quem encommeodou as tratai^ 
fe mal , como elle fez ; mas ellas foffréram 
tudo com grande animo , e cora^ao , fem 
nunca fornarem atrás do que tinham dito. 

Vendo a mü do Emperador tamanha 
íémrazáo do íilho ^ Ihe foi á máo aquellas 
coufas , lembrando-lhe « que os Portuguezes 
n Ihe deram, edefendéram aquelle Imperio 

> aos Mouros por multas vezes ; e que em 
% quanto os tiveíTe comíigo , podía vi ver fe- 

> guro , por iíTo que Ihes fizcíTe mercés , e 

> mimos, e nao affrontas , e efcandalo&» 
Com ido deilftio elle de fuá furia, e man- 
dou foltar aquellas boas mulheres , dignas 
de íerem multo invejadas de todas as da Eu- 
ropa* Mas ao Bifpo mandou levar prezo 
com o P. Francifco Lopes pera huma ter*- 
Ta, que (e chama o Age ^ e o entregoo ahum 
filho do Capitáo Rabel , que fe acfaou na 
companhia de D. Chriftováo da Gama, que 
os te ve fem ferros, eof tratou muito bem , 
por fer mais humano que o feu Rey. DaUi 
4sfcre?eo o Bifpo aos Padses Reitor^ e our 

tros. 



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ají AStA DE DioGo de Coüto 

tros, defuas con fas, e Ihes pedio eftiveíTem 
confolados , e o encommendaíTem a Déos ; 
porque podo que eftav^ rcteudo y todavía 
xnuito bem tratado , e confolado coro Déos» 
Eftando neíle eftado , ihederam as cartas^ 

?ue Chriftováo Pereira Homem , e o irmáo 
Fulgencio Freiré Ihe efcrevéram do mar por 
aquelle Mouro , que Ihe levou o recado do 
Baxá , como atrás diíTemos , por quem fou* 
beram os Padres como chegáram alli y c que 
nao oufáram a defembarcar por caufa dos 
Turcos y e que o Patriarca ficava em Goa , 
e nao hia áquelle Imperio pelas poucas ef- 
peran^as que tinha daquelle Emperador íe 
converter. O que elles fentíram muito , e man* 
dáfam o traslado das cartas ao Bifpo y que 
ficou defconfolado do eílorvo que o demo* 
nio punha pera a conversáo daqucile Impe«> 
rio : e ficou aífim em fuá derconlbla^áo , até 
ver em que as coufas paravam. Os grandes 
que o Emperador tinha lanzados fóra , ajun« 
tando^fe antre íi , por algumas vezes trata- 
ram de como fe fatisfariam do Emperador 
da aíFronta , e juíli^a que Ihes fizcra y ( que 
iílo ganham os tyrannos , e crueis , ferem 
aborrecidos de todos , e tratarem contra el- 
les trai^Óes , como eftes fizeram , ) que aíTen*^ 
táram de o mandar matar , pera o que tive- 
ram praticas com hum feu privado chamada 
Bellorada ¿ e tantas promeíras Ihe fizeram^» 

qua 



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Dec- vil Liv. VIII. Cap. IX. 137 

que fe Ihes oíFcreceo ao matar denoite, e& 
tando dormindo ; o que cbmmetteo ternera* 
riamente , e fem coníidera^So ; porque a noi- 
te que determinava de o fazer , entrou na 
cámara , e indo pera Ihe dar , com o aíTo* 
damento errou o golpe , e deo na cama ; ao 

5 me acordando o Emperador brádou alto^ 
em faber o que era , e o Bellorada foi fo- 
gindo pera fóra. 

O Emperador foi-fe alevantando , e cha- 
mando por Bellorada , fem faber , nem po- 
der cuidar que era elle oauthor daquelle ma- 
leficio ; e acudindo-lhe alguns criados , man* 
4ou-lhe tomar todas as portas , e que todo 
o que fahiíTe pera fóra Iho trouxeíTem , e 
que fe fizefle com muito fegredo , e quieta- 
^áo. E mandou efpiar as portas dos Portu- 
guezes pera ver fe ouviam antre elles algum 
rebullido ; é acháram todos tao quietos , co- 
mt) homens , que fe nao temiam de coufa 
alguma. E dando bufca aos Pa^os , acháram 
menos o Bellorada , que deo roim fufpeiía; 
j>elo que mandou o Emperador que logo íé 
Dufcaííe com multa diligencia , e Iho levaC- 
fem , e ao x)Uiro dia Ihe foi trazido ; e fd- 
tas perguntas do cafo ^ confeíTou que era 
verdade que hia pera o matar, mas nao deí- 
cubrió algum dos da conjura^áo, pelo que 
o Emperador o mandou matar. E por ex-' 
perimeatax a lealdade dos Portugueses ^ qua»-^ 

do 



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1&j8 ASIA DE DiOQO DE COUTÓ 

do Ibe trouxeram o Bellorada prezo , man^ 
dou dizer a todotf , que já tinha feu initnH 
go em feu poder , do que elles inofiráram 
tamanho alvoro^o , que ajuntáram pe^as» 
()ue deram de alvi^aras a quem Ihes levxnt 
o recado , o que o Emperador eflimou mul- 
to, quando o foube. 

Todavía os da conjuragáo receando*íe 
que em algum tempo pudeílem vir a íer deí- 
cubertos, apartáram*íe da Corte, e üzeram 
cabera daquelle bando ao Capitao Ifac. £ 
vendo que o Emperador procedía em fuá 
má natureza , confultáram antre í¡ de fazerem 
outro Rey , e aíiím alevantiram a Goya Me- 
nagaia primo com irmao do Emperador , a 
quem acudió muíta parte das gentes das Pro-" 
Tíñelas. E o Ifac grangeou algiins Portugués 
zes pera aquelle negocio , de que era cabera 
Francifco Jacome ; e o Bifpo , e Padres fa vore- 
cíam efia parte tudo o que podiam , mat em 
muito fegrcdo* O Emperador teve logo avifo 
daquelle negocio ; e vendo que I he era ne- 
ceíTarlo acudir a elle primeíro, que os con- 
jurados adquiriírem maior poder , fe fahio 
de fuá Corte com toda^ as gentes que pode 
ajuntar, e foi buícar os inimigos pera Ihes^ 
dar batalha. E deixando cafos , que fuccedé- 
ram antes de chegarem a ella , depois dos 
exercltos eftarem á víftá hum do outro , rom-» 
péram batalha , levando de huma , c outra» 

par- 



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Dbc. vil Liv, VIIL CAt». IX. 23^ 

parte os Fortuguezes a dianteira , ( que nao 
ic quizeram encontrar huns com os outros ^) 
roas rompendo nos Abexins , fízeram todo» 
nelles grandes eftragos , e crueldades. E co-^ 
mo o poder do Emperador era maior , e a 
juíli^ fuá, os tyrannos foram desbaratados 
de rodo , e o Ifac fe foi acolhendo com ^U 
guns a unha de cavallo , fícando cativos o 
Goya Menagais , que fe intitulava Rey , e 
o Infante D. Joáo feu primo , e o Xumo 
Cafalou , a quem o Emperador mandou lo- 
go cortar a cabera , e aos mais que foffcm 
mettidos em ferras muito afperas y donde 
nunca fahiííem. Da parte dos conjurados fo- 
ram fete Fortuguezes mortos , c dezenove 
cativos I que o Emperador dava a AíFonfo 
de Franca , e elle os nSo quiz acceitar por 
Ihe nao íicar fufpeitofo , e foram levados a 
outra ferra, onde os tratáram mal : e nao 
houve Portuguez algum daquelles, que fe- 
guiram a parte do Emperador, que quizeíTe 
agazalhar muiheres , filhos , nem coufa ou^ 
ira alguma dos que feguíram a parte con- 
traria , pelos haverem por traidores. Com 
«fla Vitoria ficou o Emperador profpero^ e 
defalivado , e mandou follar o Büpo , e o 
trouxe dalli por diante comílgo nfo exercito ^ 
muito bem tratado , porque por alU quis 
^anhar a vontade aos Fortuguezes , pela 
multo que ¡hsa vio fazer em fiía defensáo^ 

c 



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140 ASIA DE D1060 DB Covro 

t nód deizaremos agora ellas couías no ef* 
tado emque eílam por bum pouco, porque 
nos chamam outras , com que he neceíTario 
continuar até fer tempo de tornarmos a ellas» 

CAPITULO X- 

Do que aconteceo a Luiz de Mello da Silva 

na cofta do Malavar todo o mais ref^ 

to do verao : e de como morreo o 

Veador dafazenda Aleixo de 

Soufa Chicborro. 

DEizámos Luiz de Mello da Silva no 
Cap. III. defte VIIL Liv. na cofta da 
Malavar , fem mais podermos tornar a elle , 
pelas muirás coufas que nefte verao fucce- 
déram ; agora concluiremos nefte Capitulo 
com todas as mais que no refto delle llie 
acontecéram. Deixámos atrás no mefmo Cap.. 
IIL fallidos os Paraos dos ríos , em que ef- 
tavam as caravelas de Gongalo Pires de Al* 
velos , e Alvaro Reinel , que fe lanfáram 
pera ocaboComorim abufcar prezas, por* 
que até entao fe nao apartáram da fuá cofta ^ 
nem fe defavergonhavam a paflar á do Ñor* 
te, como depois fizeram por noífo defcuido , 
onde tem feitos os mores damnos ^ e rouboa 
oue íe podem imaginar. Deftes , andando 
lineo delles ao mar defde Galeciit até Cor 
chim y deram de noite com dous navios ,. qur 

hiam 



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DÉd VII. Liv. VIIL Ca?. X. 241 

liianí pera aquella Cidade ; hum de que era 
Capitao huttí foáo Manhoz , ou Manhans » 
que levava mais de vinte mil cruzados pera 
a carga da pimenta das náosdo Reyno; e 
ooutro era hum fuftarráo grande, cheio de 
fazendas de partes pera as mefmas naos , que 
eftavam em Cochim ; e íendo viílos por ef- 
les Paraos , os foram commctter com gran- 
de determina^ao. O Manhoz , que era muí*- 
to bom cavalleiro, atracou-fe ao ñiftarrao; 
e como em ambos havia mais de (incoentá 
homens , defendéram-fe dos Mourps com 
muico valor , e esForgo y deitando-lhes em 
os navios muicas panellas de pólvora , com 
que abrazáram muiros Mouros. A noite era 
efcura , e as panellas ao quebrar alevantárank 
tSo grandes chammas , e labaredas , que fo- 
ram viílüs de hum navio da Armada , de 
que era Capitáo Antonio Tavares , (em qué 
nos andavamos entáo embarcados , ) e logo 
ie entendeo que aquelle fogo era briga ao 
mar; e dando á vela, e tomando as armas ^ 
foram demandar as chammas ; e chegando 
perto y com a claridade dellas vimos os fint- 
eo navios abordados aos dous , e os Mala- 
vares trabalharem pelos entrar , e os Portu* 
guezes por Ihes defender a entrada com gran- 
de animo , tendo fobre iflb morros muiros 
Mouros ; ainda que tambem elles tinhani 
perdidos alguns companheiros ^ eantre dleá 



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^Z42 ASIA DElpIOaQ.DE CoiFTQt 

p Capicáo no navio grande. Amonio Tavdr 
res ven^o-fe alli , diíTe aos companheiros 
'p que Ibe parecía bem foccorrer aquelles na*^ 
3 vlos^ e chegar a elles com grande eftron- 
% do , porque como a noite era eícura , po-r 
3 (jicriam cuidar que o foccorro era de tQai$ 
ji navios , e que pela ventura os largariam ; 
> e quando o nao físeíTem ^ ajudariam aos 
ji defender*» E parecendo bem a todos i to« 
xnpu cada Toldado huniap^nella de pólvora; 
e cbegando por huma, quadra , por onde 
.cílavam tres dos navios, iem os el(es vercm 
pela efcuridáo, lan^áranwlhe dentro a hum 
jtempo as panellas de pólvora com que abra* 
2áram muitos , e depois com grandes gritas 
come^áram a appelUdar JVir/r/iig^ , pera que 
os dos putros navios os ouviíTem* Os Ma<^ 
lavares , que eftavam embebidos na preza , 
^ue cuidavam ter nasmáos, vendo*fe abra* 
zadQs, e por outra parte ouvindo a voza^ 
;ria , cuidando que dava fobre elles toda a 
Armada I aíFaftáramTfe pera fóra ; e dando 
já vela y íe foram acoihendo pera o mar, 

?uafi deílrpgados y e com muirá gente morta* 
. )s noíTos vendo-fe livres , deram tambem 
4 vela, e onoífo navio os acompanhou to« 
da a noitp até o ourro dia, que faouveram 
yifla de Cochira ,. onde entráram , levando 
elle muitos feridos, e aiguns mortos , em 
gue^entrava o Capitáo do fuftarráo. E cer* 



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Dec. vil liiVi VIIL Cap. X. »4f 

to que. nao fel que animo dará D^ entád 
aos Toldados da India , que com fó irmós 
naqudie navio dezoito homens , táo (eguros 5' 
é affbutos cooiniettenios finca Paf^o$, cómoj 
íe nos foramosL outros tantos* Devia de fet 
alguma coufa, de que Deosem^ fe fatis^ 
zeíTe dos Portuguezes , e efta liáa podía fer 
fenao averdade^te jufti^a que -entSSo haría; 
que como íe foi dimii^uindo nefté Eftado^ 
íoi logo faltando tamo o animo aos-homens ^ 
que muito duvídofaménte vieram a íe com>- 
Bietter com igual partido. £i he abuslo di-^ 
zer-fe, que osinímigos eotaonáo eram tádr 
esforzados , nem andarani rao adeítrados , 
Dem os navios erám táo poíTántes , porqué 
tudp tinh^m canto, emelhor quehoje; iñai 
lAó temos' nos o que os :hoinens daquélle 
lempo tinham. £ tornando -á jioiTo fio ^ deir* 
xados os nartosiein Gochim'^'^TiH'námb^nos^ 
pera a Armada , que achiámos a Monte Deli^^ 
por caufa dbs glandes Norocíbd. - 

Pouco depois chegou allio g^Ieáo, etii^ 
que Aleiio de Soufa Chichorro vinha de Co- 
chiifi de í^zer a carga ás naos; e fUrgindo, 
tiróu algumas -bómbaniadás , a <)u^ Linz de' 
Mello da Silva jnandou acudir hum návio^^ 
pera faber o que quería , é achou que áquéí^ 
la hora SLczbita, de falecer Aleixlxlé Soufa^ 
Ghichorro j qtie fe embarcou dpente ; e 09' 
üüós^ que fe dobráram na fcu áal^iüíent^;;' 
Ctü fo- 



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^44 A^SIAde Piocia^Dá^CovTd 

feraní aqodlias .l>oiDbardadas. E Luis d€ 
Mdló acudkr. logo ao galdb y e mandou 
^ipbarcar feu cor po em huiti oá?io ligeiro 
pera p^l^yareiki a enterrar: sao nos letnbra 
Iftia Goa, fe aCaoanor, que era inais per« 
t& Por fuai tnorte pro^o o Vifo-Rey D* 
Conibímñio do cargo de Veedor da fazenda 
a Belchior. Serráo , que era Secretario j e o 
¿U.'Oftido deo ajBártfaoiomeuChanoca, que 
^Yift o cargo.idé.Efcrlvaotdá matricula ge-^ 
laL Luiz. de: Mello da Silva fe deixou allí 
fitar t Momel Dfeli v coro dez , ou doze na* 
VÍO$ 9 onde foi aviíado par ola» de hum Nai^ 
i^e de hum daqiielles rios-, que oCamorim,' 
^•/O Rey de Cananor tníhaní preftcs huma 
ikrÍBada demais de feflenta navios pera man« 
4dtem pelejaricoinelle, por ferem ariíados 
qU€f.tlni)a:ruarArma(k eíjpalliada:^; e que os^ 
j|avio¿ íejarm^Yain. éiíi rdilferentes rios , e' 
Qi}^;€ft«va^Eil. eípeiumd^ por alguits , que an« 
davam por ,fóra és prezas y pera fe ihe virem, 
t^mbem ajitmar«. . 

.t .Cóm efias '.novas fe alvoro^ou Lulz de 
]^e|lo da Silva > e inaadou chamar algons^ 
i^yi08 dosque üoha divididos;, porque de- 
tpminou de pelejar com elles^ ; e eftandó 
aiiim i^fperando pela ihais Armada , viram: 
])pm dia.eW iacháñhecendo de íiraa domado 
4% A>a. galeota vir huma grande Armada de 
ipar em.fán ist]dcmmáus % tena naquella;. 
-<-l ^:..>' par- 



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i^Etr. TIL L IV. VIH. C'A 9i' t. '34^ 

'parte. E parecendo4he a LuÍ2 de'M^lloohi 
Silva qoe aquella era a Armada de que e(^ 
€ava avifado , chamou osCapkáes áíua g^ 
leota, e Ihes perguntou o que fafiá; eantr* 
todos houve differentes pareceres: huns-dí»' 
ziam , que haviam de dar á vela pera Cá^ 
naoor, (por ventar Noroeft^ ,) porque a Aro- 
mada que apparecia era grar^e , e- elles náó 
«ftavam alli tnm que doze navios , é <]u¿ 
Ihe attribuiriam atemeridade querer cf peraU 
los ; outros , que fe foíTcm pera o rio dé 
Marabia, onde-eílava agalé de D. Filippé 
de Menezes , que era. grande , e tinha, itiuii 
ta gente, eque com ella fe podía defender; 
outros diziam üutras coufas. Más Luiz dé 
Mello da Silva , porque via vir-fc já che- 
gando aquella. Armada , e a toda a mudan- 
za que dalli fe lizefle Ihe haviam de p6i 
nome de fogida , e mais tanto á vifta dc^ 
inimigos , Ihes diíTe k que fe negóciáífem J 
» e fizeíTem prefles , porque aquella bandei- 
» ra da milicia de Chriflo ,. que tinha fi^lá 
9 quadra , nao havia de fogir a cóüfa algu^ 
» ma : e que nao fó Ihes nao havia de fo- 
» gir, mas que aijida os havia de ir recebéf 
» fóra , pera Ihes moftrar . o pouco qué ói 
> receava » e coni ifto tomou as armas, d 
cncadeoíi os navios a fi , ficando elle ^ení 
meio de todos; e com a anilheria preftes:¿ 
e Cevada, íoi oom oreoio ^nipuoh^ iab^n^ 

ido 



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44^ ASIA DE DiOGO D^ COUTO 

do fóra da enfeada , porque os navios , que 
viam , traziam nella a proa ; e indo os noí^ 
ios com efta deterinina9ao » chegáracn-fe huns 
navios aos outros , e conhecéram logo que 
eram paguéis do Reyno deTanor y que hiam 
CATTOffi/ios de coph 9 areca , cardamomo , 
cocos,, e outras fazendas peraCambaya, e 
}eyavam. cartazes doCapitáo da fortaleza de 
(Zksík i e. paflando por elles Luiz de Mello 
da Silva , fem fazerem cafo ^ foi correndo 
a coila úo Malavar , pera que os inimigos 
viflem que andava por ella , e que o acha- 
riam, fe o bufcaHem: eaflim foi ajuntando 
alguns navios mais; porque fe os inimigos 
delle quizeíTem alguma coufa » o nao tomaf- 
fem defapercebido. 

Os inimigos houveram feu confclho, c 
desíizeram a liga , porque receáram multo 
osnoíTos, queneíle tempo traziam rao per- 
dido o medo aos Mala vares , que qualquer 
navio da Armada nao receava commetter 
dous , tres féus ,, que muito fácilmente des- 
barata vam : e com tudo nao negamos qu« 
andavam' entáo menos exercitados que hoje , 
porque a continuado da guerra os tem tcH 
tp muito. deílros , e afFoutos. E por nia párr 
tjcularizarmos as miudezas deíle verao , Luiz 
¿e. Mello fez- por toda aquella coila a mor 
guerra que podia. fer ; porque além de Ihe 
tolher af:nayf£a$áo> Ihes queimou quafi to^ 

j ' das 



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Dec. vil Liv. VÍlL Cap. X Í4f 

das as povoa^Óes de longo di a^ua, e Ihef 
cortou feus palmares , edeftruio íeusportos^ 
e navios , com que os poz em excrema ne-** 
ceffidade , e por fkn de Margo defpédío as^ 
cara vcllas pera Goa, por íer já tarde, efeUe 
com os navios de remo ficoü guardando a* 
cofia , até recolbef a (i as naos da China ^ 
Maluco , Malaca ^ Bengala , S. Tlioiiié,' 
NegaparSo, e de todas as mais partes, cora 
o<jue ferecólhéo peraGoa nofim de Abril," 
deixando em Canaaor , e Chale navios , e 
Capitáes pera darem no invernó mezas aos. 
foldados ; e chegando a Goa , de í pedio lo-' 
go o Viíb-Rev a D. Antonio <le Vilhena, 
a Fernáo de Caítro , e a Manoel Travafloi 
com tre^entos homens pera invernaren) eni' 
Cananor , por caufa da guerra , que áinda* 
ficava em aberto, e proveo aquella fortalc-. 
za , e a de Chale de muitos mantimentós,^ 
municócs , e dinheiro pera as mezas , e pagas 
dos foldados. 

E cerrando-fe o invernó , gaftou-o em 
reformar a matricula geral , e fazer buíra 
de novo, pera tirar dellá todos os ofBciaes 
mecánicos;, que vencíám Toldo de ElRey,. 
que era huma grande quantidade , no que 
aproveitou ao Eftado huma boa fomma de 
dinheiro, e atalhou huma exceíliva quanti« 
dade defoldos velhos, que fempre fepaga- 
yam cu por adherencias , ou por peitas} 
- .'' ^ e 



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%4^ ASIA DE DioQO DE CoutO" 

e juncamente mandou concertdr toda a Aiw 
inada , e ajuntar muitos tnantimentos , e mu» 
siróes, porqpe deterroinava de paíTar aCei«r 
]^o contra o Rey de Jaíanapatao , que íica 
na poma da Uha da banda do Norte; por-* 
que Ihe encommendava ElRey inuito (ens 
liuoia inftruc^áo) x)ue trabalhaííe pelo deA 
trulr , e tomar o Réyno , porque eftava allí 
feito hum coflairo , e manda va faitear as 
naos 9 e embarca^Óes dos Portuguezes , que 
paflavam por fuá coila y e ufava de ardís 
pera as fazer dar i coila, eroubaUas, nian* 
cando^lhes de. noite cortar as amarras , com 
o que tinha feito grandes roubos » e deñrui* 
$6es : e que trabalhaíTe todo o poíEvel por 
mudar pera aquella parte os moradoreV^dá 
povoa^ao S, Thomé , por nao eflarem fu-^ 
jeitos ás injurias , e aflProntas , que Ihes qui- 
zefle fazer o Rey de Bifnagá , porque já El- 
Rey tinha novas das que ihes fez , quando 
cativou a todos : e eílas inílruc^des nao pu-> 
demos acfaar em todo eíle Eílado , por fer 
tudo perdido, de que muitas vezes nos te- 
mos queixado ; mas achámos eílas informa^ 
$6es nos homens velhos ^ e antigos* 



CA. 



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Década VII. Liv. VIH. a;^ 

C A P I T U L O XI. 

De como o Bifminaique ^ Senhor de toda a 

cofia da Pefcaria , ^eio com grande po^ 

^ der fobre a fortaleza de Punicalle , dé 

. que era Capitao Manoel Rodrigues Cou* 

tinbox e de como o desbaratou y e tomoU 

aquella fortaleza. 

JA no Cap. IX. do X. Livro da VI. De* 
cada demos conta de como o Bifminai^ 
que Senhor daquella cofia da Pefcaria cati- 
vou ManocI Rodrigues Coutinho , e depois 
o refgatou por huma quantidade de dinhei* 
XQ , de que Ihe ficou a dever huns tantos 
mil fanóes* E como efie Gentio era muitó 
cubicofo , e os Chrifiaos , e pefcadores da- 
quella coda Jhe davam de pareas hum dia 
de Chipo , que he hum dia de peícaria do 
aljófar , e tudo o que fe pefcafle aquelle dia 
foíTe pera elle , que ordinariamente montaría 
oíto , dez mil pardaos , fegundo fuá fortu« 
na j e querendo alterar iflo , mandou commet- 
ter osChriftáos, e pefcadores, que Ihe déf- 
fem dous dias daquelles y do que fe elles 
fempre efcufáram. Vendo elle quelhenega- 
vam aquillo , determinou de Iho fazer dar 
por for^a ^ e vingar-fe delles , pelo nao te- 
i¡cm férvido como elle queria. 
« £ tomando occaíláo do dinheiro > qii^ 
*; i Ma* 



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«5'0 ASIA DE DiOGO DE Co'üTO 

Manoel Rodrigues Coutinho llie fierra a de» 
ver doíeu refgare, lanzando fama aue ohia 
arrecadar, fe partió com dez mil iioaiens, 
cooi ten^ao de dar ero Punicalle , e roubar 
todos aquelles moradores , e pefcadores' do 
aljófar, e por-lhes os tributos que quizeíTe. 
S hiKn día de madrugada deo na povoa^áo 
snuito defupito, mandando diante hum Ca- 
pitáo Decanij , chamado Melrao , que entrou 
oueimando , e aíTolando rudo por onde pai^ 
íou. Succedeo eftar nefte tempo hum Fidal- 
go chamado D. Duarte de Menezes , de ai- 
cunha o Narigáo , da caía de Penella , *que 
tinha alli chegado com huma fuíla chea de 
muitos foldados , que vinha a favorecer a 
pefcaria , pelo mandar a iíTo o Vifo-Rey D* 
Conílantino , porque pagavam por iíTo a EI« 
Rey de Portugal huns tantos mil pardaos de 
pareas , de que adiante diremos mais em par-¿ 
ticular. E eftando eñe Fidalgo na fuá fufla 
com a proa em térra , fentindo o rebollijo 
na povoa^áo, faltou em térra com quarenta 
foldados que tinha , e quiz Déos que fe en- 
contraíTe logo com o Melrao , com quera 
travou huma muito afpera batalha , e o de- 
tcve tanto, que tiveram os moradores tem- 
po de ie acolherem com fuds mulheres , e 
filhos pera hum forte de térra , que eftavk 
fobre o rio , fó com fuas peffoas , e alguma» 
¿oias de máo: o que nao pudera íer, feD. 



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Dec- vil Liv. VIII. Cap. XI. ift 

Duarte de Mehezes fe nao encontrara aauel» 
la hora com o Meirao , antes todos íicárain 
cativos , e roubados. Manoel Rodrigues Cou- 
finho , que era o Capitao , acudió fóra acom^ 

J)anhado de Antonio Pereira de Vafconcel- 
os , e Vafeo Rodrigues de Mógemes , e de 
outros cavalleiros niuito honrados ; e encon- 
trando*fe com hum efquadrao dos inimigos ^ 
pelejáram muito yalorofamente , atéqueama^ 
nheceo. D. Duarte de Menezes na parte em 
que pelejava com o Meirao ellere cercado , 
earrifcado a fe perder de todo, porque car- 
regou allí a mor for^ dos inimigos ; e fem^ 
pre fe perdéram , fe Déos nao ordenara que 
deflem huma efpingardada no Meirao , de 
que cahio ; e D. Duarte de Menezes, que 
eíle dia pelejou muí bem , o acabou de ma-» 
tar ás lanfadas. E porque já vinha chegan- 
do o poder de Bífminaique , que tanto qua 
amanheceo, entrou pela povoajáo , fe foi 
D. Duarte recolhendo pera a fuá fufta , mul- 
to pcrfeguido dos inimigos , e com alguns 
companheiros já mortos , e os mais quaít 
lodos feridos. Manoel Rodrigues Coutinho ^ 
que pelejava fóra do forte , com muito va-» 
lor, c esforfo, tendo avifo que oBifminai-* 
^e era já entrado , íe foi recolhendo com 
trabalho por carregarem os inimigos fobre 
elle ; e ñas voitas qup fez pera os deter , Ihe 
deram humaeípingardada^ que Ihe atravef^ 
, fon 



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^yi ASIA i)E DíoGO DH CauTo 

/ou as pernas » e ficára alli , fe nao Fora I& 
^ado pelos cotnpanheiros , que fearrircáram 
ao lalvar; e o Bifminaique ficou fenhor da 
povoa^áo , em que fez grandes roubos , e 
ceñrui^óés. 

Vendo-fe Manoel Rodrigues Coutinho 
na fortaleza , com tanta gente ^ cnulheres^ 
p meninos, fem agua , fem mantimentos , e 
o Bifminaique com todo o poder fobre elle , 
fez embarcar todas as mulneres , meninos , 
e homens velhos em champañas , e com el- 
las fua^^nulher , e filhos ; o que pode fazer 
com a maré ciiea , por fícar o forte fobre 
o rio ; e depois de defpejado difto , tomou 

{)arecer fobre o que fariam , e aífentáram que 
argaíTe o forte , que era hum curral de tai- 
pas, porque nao navia com que odefendeí- 
le. E eftas cafas (ou nao fei como liies cha- 
memos, a que alguns p6em nome de forra» 
leza) deshonram muitas vezes o Efiado , e 
abatetp muito na reputado delle ; porqué 
largando-fe hum curral, como efte , fe diz 
logo por todo o Oriente antre os Reys M*oo-¡^ 
TOS , e Gentios , que tomáram huma fórrale^ 
za aos Portuguezes , com o que todos co- 
bram bico , e alevantam cabera : por onde , 
quanto menos difto houver, mais ieguraf e 
engrandecida eftá noiTa reputa^áo; edeixan- 
do eíla materia , pofto que nao he de pe«^ 
quena conlldera^áp ^ tornemos a noíTo 6o. : 

AC- 



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DiETc VIL Liv. VIII. Cap. XI. iyj 

AíTentado antre rodos que fe largafle 
aquelle forte , preparou-fe o Capitáo pertf 
iflb; e porque a gente que eftava embarca^ 
da nas champañas era muita , e nao tinham 
arro2^ , nem agua , e os gritos , e prantos das 
mulberes , e meninos chegavam ao Ceo^' 
mandou ^^anoel Rodrigues Coutinho reque-* 
rer á hüm Pero Tavares , que allí era che-^ 

fado de Cochim y e bia pera Bengala enl 
utna naveta fuá , que recolheflíe aquella gen-' 
te toda , c a levaffe pera Cochim , fob pena 
de perdimento da fazenda. O Pero Fernán-^ 
des como era homem nobre, compadecidos 
m'ais das miferias que vio paflkr aquellas 
gentes , (que eram pera commover , e enter-' 
pecer as pedras,) que do medo das penaaí 
Qotn que o amea^áram, recolheo todos, os' 
que efiavam nas champañas , na fuá naveta ^ 
que antre homens , mülheres , e meninos fe-^ 
riam perto de quinhencos , e fe fot pera á 
das lihas das Lebres , onde efperou a mon«« 
jiórpera fe ir pera Cochim, padecendo to-"^ 
4a eua gente nefta jornada infinitos trabalhos 
de fomes , fedes , e outras muitas neceílida- 
des: e chegou a coufa a tanto , que houvef 
daretn a meninos de coló , a falta de agua ,- 
a beber ouritia ; é ainda hoje nefta Cidadé 
de Goa eíhm duas irmans mülheres bem^ 
konriadas Portuguezas , e nobres de pai , e 
de isái a quejn aderam. Manoel&odiiguesf 

Cou- 



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^54 ASIA OE DioQO DE CouTó' 

Coutinho , depois que embarcou toda a gen- 
te , largou o forte » e fe embarcou em huma 
fuíla i e houve niño tal d/ren^a , que vafou 
liiaré, e ficou o navio em fecco. O Biimi«- 
naique , que eílava já íobre o forte com to* 
do o poder, acudió asidla parte; e vendo 
o navio encaihado , o rodeou ; e podo que 
08 noíTos fe defendéram mui bem , todavía 
foram rodos tomados ás máos , e cativos ^ 
e o forte , e a povoajáo entrada , e rouba* 
da de tudo o que nella ficou , em que to- 
máram a mor parte da fubílancia daquelles 
moradores* 

Manod Rodrigues Coutinho , depois de 
eílar prezo quin^^e dias , tratou de ieu re& 
gare , e de todos os que com elle eftavam^ 
^ aílentáram de Ihe darem cem mü fanóes^ 

3ue Jhe mandariam deTutucorí, pera onde 
eterminavam de fe ir , e deixariara em re- 
fens hum Padre d^ Companhia , chamado 
Joáo de Mefquita , que fe pera iíTo offere- 
c^o , e foi tambem alli cativo, homem víp-^ 
tuofo , e de bom exemplo. Aflentado ifto ^ 
largara m a todos , e le forartí pera Tatú- 
cori, onde ^ía noel Rodrigues Goutinho co- 
niegou a. ajuntar o refgate , que quiz tirar 
pelos Chrifiáos, fobre o que os come^ou.a 
vexar , -e tratar mal ; e fbi a coufa de feí-^ 
jao , que fabendoi-o p Padre Joad de Mef-í 
^uita, (que eílava ejn refens^) Iheefcreveoí 



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Dec vil Lit. VIII. Cap. XI. i^S 

huma c^u-ta , cm que Ibe pedia muito que 
nao avexaíie aquelles homens^e que felem- 
bráíTe que eram Chríftáos5 e pobres, e qüo^ 
Ihenao deíTe coufa alguma de feu cative)ro9 
porque elle efiavanclie muí confolado , (on- 
de deo mui grandes mofiras deíua virtude, 
na paciencia, e foíFrimento delle;) mas fi- 
cou com poucas efperan^as de fahir táo ce- 
¿Q do poder daquelles gentíos. Mas cotno 
Déos noíTo Senhor nao defampara feus fer- 
vos, le IteoíFereceo ao Padre hum Chriftáo 
pera o tirar dalli , fe Ibe déflc qulnhentos 
fanóes , o que elle acccjiou , e Ihe deo k>* 
go alguns que tinha , e outros que ne^ociou y 
e íomandb-o huma noite com os trajes mu- 
dados , (porque eftava foko , efem ferros ,y 
o levou por caminhos efcufos, ecomí tanta 
preíTa , <jue ao outro dia chegáraní a Con-' 
düturé, que eram doze feguás dePunicalle, 
e alli comáram hum cbaratone , em que fe 
paíTáram a Tutucori , onde os noíTos eíla- 
vam , que feílejár am muito o Padre ; e loga 
negocia ram ós fanóes , que iicou de vendo aof 
que o trouxe^ de que logo fbi pago« 



CA^ 



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%^6 A^IAl b-E DiOQO DE COVTO 

: C A P I T U L o XIÍ. 

De como Francifco Barreta , e Joáo Rodri^ 

fufs de Carvalho itrverndram em Aiófam» 
ique: e do que Francifio Barrtto fez tor 
. do ótempo da invernada : e de come man^ 
* dou iconcertar a fuá nao ^ e a de Joao 

Rodrigues de Carvalbo , e dabi fe partió 
K pera o Rey no : e da per di f So da ndoGar* 

fa ^ de que era Capitao Joáo Rodrigues 
' de Carvalbo : e de como Francifco Barre^ 
' to falvou toda agente della ^ e tornou ar* 

ribar a Mozambique. 

T^Orque Capitulos inuito grandes fazem 
JL faftlo a quem os lé , faremos dous , e 
neíle daremos coma do que fuccedeo aFran« 
cilcQ Barrero em todo o tempo qae inver- 
]}ou em Mozambique , até que tornou a elle 
•da fecunda arribada. No primeiro Capitulo 
dcíle Liv. VIII. deixámos Francifco Barreto 
embarcado na nao Patifa , e JoSo Rodrigues 
4fi, Carvallio na Garga , e arribados a Mo- 
^mbique , por achajem os tempos contra* 
rios , e as naos fe ircm ao fundo com a agua , 
como fica dito no Cap. IIL do VI. Livro* 
Agora nos cabe darmos conta do que Fran- 
cifco Barreto fez o tempo que efteve inver- 
nando em Mozambique , onde tanto que 
chegou tratou do concertó da fuá nao y e da 
A ) de 



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Dec. VII. Liv. VIII. Cap. XH. 25:? 

de Joáó Rodrigues de Car valho ; o que ki 
com muito cuidado , e diligencia , e coní 
muito grande defpeza de fuá fazenda y (cou-^ 
fa , que ja ñera os Capitáes , nem os GoveN 
Dadores , e Vifo-Reys querem fazer nos tem-^ 
pos prefenteSé) O cuidado do concertó das( 
naos nao foi caufa de o deixar de ter mui 
particular dos Fidalgos , que hiam em fuá 
cooipanhia , e dos mais paíTageiros ^ e gen«* 
te do mar de ambas as naos ; porque todo 
o tempo que eíleve em Mozambique (que 
foram mais de fete mezes e raeio) proveo ^ 
e acudió a todos mui liberaimente com o 
dinheiro neceíTario, conforme á qualidade, 
e gados de cada hum , por Iho pedir aífim 
fuá condi^áo , e fer hum dos mais liberaeíí 
Fidalgos daquelie tempo* £ por ver que fe 
o nao fizeíTe aífim , baviam todos aquelles 
homens de paHar muitos trabalhos ^ e neceP - 
íidades , por efiarem em parte que nao ti-* 
nham quem Ihas remediaííe, nem de quenii 
fepudeíFcm valer, fenáo desbaratando a po- 
breza que traziam , que fora pera elles oih 
tro fegundo naufragio , por quem tantas vé«« 
zes os navegantes arrifcam as vidas. E com 
eftá líberdade, e largueza, deque ufou com 
eña gente , fez dous bens , remedialla a ella y 
e a fi proprio ; porque dé tal maneira Ihe» 
grangeou as vontades com os remediar , que 
lempre os achou comíigo nos mores traban 
CQiío.Tm.lF.P.iL R Ihot 



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9^8 ASIA DB DiOGO DE COVTO 

)hos em x\ne íe vio , que foram muiros , e 

mui grandes, com cuja ajuda olivrou noíTo 

Senhor de todos os perigos que teve em ro« 

da efia viagem* E aílim gailou nella , no con* 

certo das i^áos , e ñas invernadas , mais de 

dezóito mil cruzados , como nos diíTeram 

peíToas muito verdadeiras, e dignas demui- 

ta fé , que fe acháram prefentes em todas 

eílas coufas , e nos deram todas eftas infor«* 

ma^óes. De maneira y que querendo Fran- 

^ifco Barrero concertar as naos, emque ha- 

yia de vir pera o Reyno , comejou a dar 

ordem , e dinheiro pera iííb , com ajuda de 

^aftiáo de Sá ^ (que entáo era C^pitao de 

C^ofala , e edava em Mozambique,) que 

mandou logo muiros officiaes , carpinreiros y 

e marinheiros a rerra firme a cortar a ma- 

deira neceíTaria pera o concerro deltas, don* 

de a rrouxeram muiro boa , e no río Ihes 

deram pendor muiro grande, e foram mui 

bem concertadas, quanro humanamente po- 

dia fer , fem virem a monte ; o que ram- 

bem fe Ihes fizera , fe o lugar fora capaz 

diíTo. 

Depois das naos efiarem muito bem con^* 
erradas , e apparelhadas , foram fazendo fuá 
aguada , e mettendo os mantlmcntos neceífa* 
rios pera a jornada que haviam de fazer. E 
«}peg¿ind0-fe o tcmpo de partir , fe fizeran:i 
«BiDas á vela com a mon^o dos Levantes 
n hu* 



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Dec vil Liv. VIIL Cap. XIÍ- if^ 

huma fegunda feira aos dezefete de Notciq-* 
bro do anno de iS'^p*, ficaado os Capitáes 
ambos concertados de irem fempre hum á 
villa dooutro, e nunca feapartaitm, peraíe 
ajudarem em qualquer traoalho ^ e perígo 
que Ibes acontecefle. Aoterceiro dia depoit 
de partidos da barra , donde poderíam eftat 
obra de fincoenta leguas , pouco mais , ou 
menos, come9ou a nao de Ffancífco Bárre- 
lo a fazer muita agua , e por caufa dclla 
deram aquelle dia finco vezes a ambas as 
bombas , e de noite outras tantas ; e ao ou^ 
tro dia fazia já a nao tanta , que a nao pG« 
diam efgottar , com darem continuamente a 
ellas : pelo que mandou Francifco Barrero 
por fogo a hum falcáo , e fazer final a ou^ 
tra nao , pera que arribaíTe fofare elle* B 
chegados á Falla , mandou dizef por huot 
xnarinhetro ao Capitáo da t^utrá nao it que 

> elle hia com muito trabaiho , por fazáo 

> da fuá n4o fazer muita agua , que Ihe pe» 

> dia muito por mercé o nao defamparafle ^ 

> pordue hia arribando na voka das Ilhat 
X do Bazaruto , qtie eftam junto á cofia dt 

> Oofala^ e com rentos efcaíTos bíam fbt» 

> ^ando a nao , por t^o poder tornar a to« 

> mar Mo9ambique , por fer já enti-ada n 
9 mcd^áo dos Letames com que de lá pan» 

> tiram. 9 

Indo affim a aáo tnSük Taita ^ fin^ih* 
R ii Dcoí 



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Í6Ó A^A DE DiOGÓ DÉ COUTO 

Déos mercé de vencerem a agua da bomba f 
cota o que pareceo bem a todos tornarem 
á volrar , e tazerem fuá viagem pera o Ca- 
bo de Boa Efperan^. Conrinuáram com e& 
te trabalfao dous , ou tres dias , eni que che* 
gáram tanto avante ^ como oGabo das cor-^ 
rentes , defronte da derradeíra ponta da Ilha 
de S, Lourenco, que eftá em vinte e finco 
graos da banda do Sul , quafi duzentas le^ 
güas dé Mozambique : foi a nao fazendo 
tanta agua , que havia já nella tres , ou qua^ 
tro palmos della, fem fe poder vencer. Pe* 
lo que forcado Francifco Barreto da neccC- 
fidade prelente , e receoío do perigo futu- 
ro, mandou por fogo a hum falcáo, e fa- 
zer final á outra nao dejoao Rodrigues de 
Carvalho , pera que arribafle fobre elle y que 
hia já outra vez na voita das libas do Ba- 
zaruto. O que ouvido pelo CapitSo dclla ,- 
mandou ao Piloto , e Medre « que feguiflem 

> aquella bandeira deElRey noíTo Senhor, 

> pois aquella nao era fuá , e hia era táo 
%' grande trabalho , e perigo táo evidente , 
1i pois nao havia mais que oito dias que 

> eram partidos , e já arribara duas vezes. » 

A eíte mandado doCapitaoJoáoRodrí* 
gues de Carvalho nao quizeram o Piloto^ 
nem o Meftre , c niais Officiaes obedecer, 
antes Ihe fizcram grandes proteftos , e reque^v 
Irlmemos ( que fizeffe fuá Tiageoi'pera^ro»- 
. í n tu- 



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D^c, VIL Liv. VIH. Cap. XIL %6x 

.% tugal y porque aqueJIoutra nao: ie hj> a 
91 perder ) e queja nao tinha remedio } eque 
51 nio era razáo que tambem elles fe per- 
« deíTem com ella , que menor mal era pet- 
» der-íe huma nao , que ambas, i E como 
o Capitáo era íiS , e os outros muitos , ven- 
•ceo a for^a i razáo. E íeguindo elles a fuá , 
íem darem pelo que Ihes oCapitáo manda- 
va , fe foram caminho do Reyno , deíxando 
^ outra nao y em que hia Frandfco Barreto » 
com ten^So de fe nao tornarem mais a ven 
Ao oucro día feguinte tornáram os da 
nao de Francifco Barrero a vencer a agua ; 
e com efta melhoria , que íentíram na nao , 
fez volta , e tornáram accommetter a jorna« 
da do Cabo de Boa Efperan^a , tendo-a pof- 
ta fó em Déos, com confianza que Ihes fa* 
ria mercé de continuar com aauella y que 
Ihe come^ára a fazer. E fabenao que na* 

2ueIIa mon^o sao os ventos brandos no 
!abo , e os tempos menos tempeíluofos , 
iriam (aínda que com trabalho) dando fem<* 
pre á bomba até os Dees levar á liba de 
Santa Helena , onde efperariam as naos da 
vingem , e ahi tomariam huma , ou duas , 
< em que fe metteíTem <rom a fazenda que pu« 
deffem falvar nellas, e a artilheria da nao, 
e ella fazer allí a oífada. Indo eda nao de 
. Francifco Barreto com efles intentos , feguin* 
do o xumo da Gar^ , que a tloha dci^^do 

com 



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a6i ASIA PE DioGo de Gguto ' 

com tanta deshumánidade , fem culpa do 
Capitáoy COSÍO a nao Patifa era tnuito ve<» 
kira y foi alcanzado a outra ; que com tam- 
hem o fer muko , ordenou Déos cjue a al- 
can^aíTe a náó de Franciíco Barreco , pois 
havia de fer o aieio , e p infirumento da fal- 
vaf io dos que híam na Gar^a , que fe ha« 
via de perder. 

Tanto que anáoGar^a teve vifta da ou- 
tra nao , amainou os traquetinhos , e foi ef« 
perando por ella até chegarem á falla , que 
jeria alli ás tres horas depois do meio dia. 
£ chegando á nao, mandou Franciíco fiar* 
reto fazer hmn requeriniento ao Capicáo, e. 
EOS mais CNficiaes « em que Ihes requería da 

> parte deElRey noíToSenhor, que feguiC» 
B lem aquella nio\ e a nao defamparaflem'; 
% fob, pena de os baver por trédos , e ala^ 

> yantados contra ElRey , e Ihes encampa«! 
» va toda a fazenda , que hia nella pera EI^ 

> Rey haver a fuá pela delleCapitáo, e d« 
n todos os mais OíHciaes , deque logo nian«r 
'^ dou fazer humauto. » Aifto refpondéram 
os da nao Garga, qúeelles feguiriam anáo» 
e nao fariam outra eoufa. 

Indo aíllm ^s naos ambas á vida humt 
da outra , logo ao outro día depois de fei« 
to a protefto , quafi a horas de vefpera , ti-f 
rou anáoGarga hum tiro.;} fazendo final que 
Ibe aeodiSem^ o que Francisco Barreto io» 

. S9 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. XIL 26j 

go fez , mandando lanzar huma manchua 
aomar; e por elle nao eftar pera poder acw 
dir em peíToa , (por eftar fangrado daquella 
manhá , ) mandou Jeronymo Barreto Rolini 
em feu lugar , a quem deo poderes , pera aue 
fe houvelFe algumas controveríias , ou dii^ 
fensóes antre o Piloto , ou Meftre c'o Ca-f 
pitáo , elle com fuá prudencia os compuze& 
fe ; e fendo outra coufa , a remediaífe cotm 
forme o negocio o pedifie , e requereíTe» 
Chegadp Jeronymo Barreto RoKm á nao y 
tío a todos muito attribulados , e trabalha-i 
dos ) e aíTás defgoflofos , revolvendo os paioe» 
da pimenta em bufca de huma agua ^ que a 
nao fazia , de que eftavam todos mui inquie* 
tos , por temerem que foíTe má de tornar^ 
e que Ihes déíTe ao diante muito trabalho, 
como deo , pois ella foi a cauía rotal de fe. 
perder a nao. Com efta nova fe tornou Je- 
ronymo Barreto Rolim pera a nao de Fran- 
cifco Barreto , a quem deo conta do que pa& 
fava na Gar^ a , que toda a noíte paíTou com 
grande vigia , fem nunca deixarem de dar 
a ambas as bombas. Tanto que foi; manhá ^ 
langou a nao Gar^a huma manchua ao mar 
com quatro marinheiros , e o Efcriváo da 
nao, que fe chama va Joáo Rodrigues Paes > 
e veio á nao de Francifco Barreto com hum 
ef(;rito -do Capitáo pera elle , que dlzia aí^ 
fim: 

t Se- 



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^¿4 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

« Senhor , cumpre muito ao fervico de 
% Déos , e de ElRev noflb Senhor chegar 

> V. S. cá , e pela Drevidadc deña veja o 

> que cá vaL Beijo as máos a V, S. i 

Vifto o efcrito por Francifco Barrero , 
metreoffe logo na fuá manchua com alguns 
Fidalgos da fuá nio , e foi á outra , que já 
eftava multo trabalhada, por caufa da multa 
agua que fazia , andando os Oíiiclaes , e ma-* 
riohelros baldeando a pimenta dos paioes de 
}iuma parte pera a outra em bufca da agua» 
no que fe gaílou todo aquelle dia , e Fran^ 
clfco Barreto fe tornou pera a fuá nao com 
os Fidalgos que com elle foram, todos mui- 
to trlftes por verem o mlferavel eftado, em 
que a outra fícavat E em entrando Franclf«^ 
^o Barreto na fuá , dlíTe a todos os Fldal** 
gos , e Cavallelros , que nella eftavam : « Se- 

> nhores, aquella nao eftá em muito traba* 

> Iho , e corre muito perigo de fe perder , 

> encommendemo-la a noíTo Senhor , que 
>» por fuá míferlcordia a queira falvan » £ 
aílim paíTáram todos aquella nolce fem dor* 
uiirem, pelo eílado , e perigo em que am* 
bas as naos eftavam ^ pela muita agua que 
tambem a de Francifco Barreto fazla , que 
ijaobaftava pera I ha diminuir, lanjarem del- 
Ja ao mar muita fazenda de partes , pimen- 
ta de ElRey , e dous mil qulntaes de pao* 
pr^tp ^ QQm qiie vlaba aíTás carregada da 



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Dec. vil Liv. VIII. Cap. XII. 26^ 

Mozambique , (que he a total deftruicáo das 
naos , que allí invernain , o que fe hourerá 
de atalnar cotn grandes defezas.) Ao outró 
dia pela manhá fizeram final da Gar^a com 
hum tiro pera ihe acudircm , o que Fran- 
cifco Barrero nao efperou; porque quando 
atiráram , já elle faia betn anFaftado da fuá 
nao acudir á outra com alguns Fidalgos , e 
ibldados , que pudeílem ajudar aos da nao , 

5|ue já 08 de la eftavam feq) efperan^as de 
alvagáo , por fazer muita agua por parte 
que fe Ihe nao podia tomar , nem vedar , 
porque era pelo delgado de poppa , a que 
chamam picas, lugar irremediaveL 

Vendo Francifco Barrero com oCapitáo 
da nao, e todos os mais Officiaes o eftado 
cm que ella eílava , e que ncnhum remedio 
tinha fenSo deixalla , aíTentáram « que fe re« 

> colheíFem á outra as mulheres , meninos , 

> e toda a mais gente , que nao foíTe pera 

> poder trabaihar , primeiro que tudo ^ e 
» após iflb os mantimentos, que na nao há« 
9 via pera remedio dos perdidos ; porque 

> os que vinham na de Francifco Barreta 
y nao podiam aballar pera tanta gente. » Pe* 
ra iíTo lan^áram logo o batel grande fóra^ 
pera que com asduas manchuas, queja ai> 
davam no mar , fe defp^afle a nao mais dé 
preflfa y aílim da gente , como dos mantimen« 
1999 que logo cóme^árara a levar ^ bifcQuto j 



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a66 ASIA DE DiÓGO DE COÜTO 

arroz , carnes , e alguns barrís de vinho , o 
que fe fez em tres dias, que fempre Fran« 
cifco Barreto eft<ve na nao Gar^a , por ata- 
Ibar aconfusio que fempre ha em caíbs fe-» 
melhantes, e dar ordem a fe trabalhar nel* 
la , porque fe nSo foíFe ao fundo , até que 
íe tiraíFe della o que foíTe oeceíTario pera a 
viagem , que havianfi de fazer; E em quanto 
fe defpejava , efteve fempre Francifco Barre-» 
to no convés della com huma efpada nua 
jia máo , fem confentir paífageiro algum le-^ - 
var pera aoucra mais, que oque cada hum 
pudeife metter na manga , ou algibeira , pela 
nao carregar, quetambem feeftava indo ao 
fundo com a muita agua que fazia. E pera 
ifto fe poder fazer com afacilídade com que 
fe fez , ufou Déos com efia gente de huma 
grande mifericordia , que foi em todo eAe 
tempo eftar ornar táo brando, como fe fo- 
ta hum río de agua doce fem ondas ; que 
a nao fer aíEm , ou todos fe pcrdéram , ou 
os que fe &lváram , o fizeram com multa dif« 
ficuldade. 

Affim que defpejada a nao dos mantl« 
menios ncccíTarios, mandou Francifco Bar- 
reto recolher toda agente, tícando elle ain* 
da na Gar^a pera fe ir na derradeira bate- 
lada , em que foi a gente do mar, que fe- 
riam oitenta homens y por eftar quaíi cheia 
¿e agua até acuberta do cabceftante. E fcnr* 

do 



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Dec¿ VII. Liv. VIH. GAf. Xlt 26y 

do já apartados della hum tir^ de pedra , 
viram do batel vir hum bogio' , que todo 
aquelle tempo em que íe a cao defpejou^ 
efteve nagavea femvir abaixo, fenao qüan* 
do fe vio fó , emáo fe defceo pela enxaicea ^ . 
e fe foi a bordo, como que pedia aos que 
hiam no batel, que o tomaíTem. Oque veu« 
do Francifco Barreto , nao pode acabar coin* 
ligo apartar-fe da nao íémfalvar rudo oqu« 
tiveíFe vida; e logo diífe aos que hiam re- 
mando o batel duas vezes « que tornaiTeiii 

> i nao, etomaflem aquelle bogío, porque 
3 fe diga cm Portugal , e onde qtter que fe 
» fallar deíle naufragio , que nao ficou couík 
n vlTa nella , que nao faivaíTemos. n Ao que 
todos refpondéram <( que Ihe requeriam da 
3 parle de ElRey noflb Scnhor , qué nao 
51 quizefle chegap á nao , porque eftava já 

> ouafi nñettida no fundo ; e que quanáo (e 
• íobincrgifle , com o redemuinho que feef* 
» fe levarla ^ batel comítgo;]» o qoe pare* 
ceo béni a todos , e affim fe affaíláram da, 
nao , fícando fó o bogio ñella. Quando fe 
apirfáramde todo della pera a deixarem , 
poderiaiíer ástreslioras depois démelo dia, 
pouco mais, ou menos, e aínda á boca da 
peWfe vk» fem fe ter ido ao fundo. Re* 
coludo Francifco Barreto com eíles homéns 
do niar , é o Capitío da Gar^ Jqáo Ro* 
drices de Carvalüo^ com amita tr^Seza) « 

la* 



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l68 ASIA DE DioGó DE Coirrb 

lagrimas de verem perder-fe aífim huma nao 
iem tormenta , fenao a maior , e maís rica 

3ue até aquelle tempo houvera na carreira 
a India; e tanto foi o feu pezar, etrifteza 
pela perda da fazenda daquella gente , que 
foi neceflario confolarem-no , como fe a per- 
da toda fora fó delle. Depois de recolhida 
a gente della , fez Francifco jarreto hum 
efcrito , em que dizia efias palavras : 

c A nao Gar^a fe perdeo tanto arante., 
)i como o cabo das correntes, em altura de 
)i yinte e fincó graos da banda do Sul , e 

> foi-fe ao fundo por fazer muita agua. Eu 
» com os Fidalgos , e mais gente que levava 

> na minba nao, Ihe falvei a fuá toda , e 
)i irnos fazendo noífa viagem pera Portugal 
]» comomefmotrábalho. Pedimos por amor 

> de Déos a todos os fiéis Chridáos ; que 
y^ difto tivercm noticia , indo tefefte batel 
% aonde houver Portuguezes , que nos en- 

> commendem a nodo Senhor em fuas ora- 

> cóes , nos dé boa viagem , e nosT leve a 

> íalvamento a Portugal, i 

Efte efcrito fe mectéo em hum canudo, 
e o tapáram , e breáram muito bem/'e fi- 
2eram huma cruzeta alta no batel , aonde 
o atáram, porque Ihe nao chegaíTe a agua, 
e deixáram o batel , que o levaíTem as aguas 
aonde quizeílem. Foi Déos férvido que fo& 
íe t^r de;itfo a Cjofala , onde efiava BaíH^ 

de 



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Dec VII. Liv. VIIL Cap, XII. i6f 

de Sá por Capitáo , como depois fe foube , 
quando Francifco Barreto tornou a inverna* 
a fegunda vez a Mozambique. 

Depois diílo feiro , e recolhida a gente 
da nao Gar^a , quiz Francifco Barreto fazer 
alardo da que tinha na fuá pera a accommor 
dar , e Ihes ordenar como foíle melhor aga« 
zalbada ; e achou antre Fidalgos , foldados , 
gente do mar , efcravos , mulheres , e me^ 
niños , mil e cento e trinta e fete almas , e 
com toda eíla gente commetteo o caminbo 
do Cabo de Boa Efperan^a , por ventarem 
os Levantes , que fó fervem pera ir a Por<p 
tugal. Indo a nao fazendo muita agua , 9 
navegando , como digo, pera o Cabo de 
Boa Éfperanja , com tempo brando , e ven? 
tos galernos y Ihc deo fupitamente pela proa 
bum Ponente táo rijo , e furiófo , que Ihe 
rompeo a vela grande por muitas partes ; pelo 
que foi neceflario dar com a verga em bai^ 
xo , pera a cozerem , e remendarem , e ficar a 
nao arvore fecca ao pairo , de que os Pilotos ^ 
e mais Officiaes dambas as naos fe efpantá- 
ram muito, por verem queem mongáo de 
Levantes ventáram Ponentes , o que Ihes pa- 
receo nao duraría mais que aquelle fó día ^ 
mas enganáram-íe , porque ventáram outros 
dous mais. Viílo ifio pelos Pilotos, e mais 
Officiaes das duas naos , fe foram a Francis- 
co Barreto , e Jbe fizeram hqma, falla , ei{a 
que Ihe diíTeram : » Q^e 



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%70 ASIA DB DlOGO DE COUTO 

^ « Que elles hada muiros annos que cur« 
n favam aquella carreira, (principalmente 
Ayrcs Fernandes , que era o Piloto da nao 
Qar^a , que D. Conñantino trouxe comíigo , 
coin Ihefazerem muitas honras , e vantagens ^ 
por fer já muito velho, eeftar apofencado, 
o tinha paíTado o Cabo de Boa Efperan^a 
íjinta e quatro vezes) «equc fe nao lembra- 
n vain em tempo de Levantes ventarem tres 
)i dias continuos Ponentes , que aquillo pa- 
n recia mais permifsáo Divina , que curio 
m natural : que parece que queria noflb Se* 

> ohor moftrar-lhes que nao era férvido de 
y f(^ perder aquella nao , e tantas almas quan- 

> tas levava, E que commetterem aquella 
9 viagem da mancira que a nao hia , era 
y temeridade , e que parcela mais tentar a 
» Déos j que efperar nelle. Pelo que reque- 
rí riam a. fuá Senhoria da parte de noflb Se- 
n nhor^ que quizeííe arribar a Mozambique, 
>. e dahi Ihe daria por fuá mifericordia re* 
9 medio pera fe faJvarem , ou faria o de que 

> elle fofle mais férvido, n O que vino pqr 
Francifco Barrero , e ouvidos os pareceres 
de todos ) le ibi com elles; emandou fazer 
hum auto difto , que fe aflentou , aílinado por 
todos os Officiaes de ambas as naos. E aflim 
fez Yoita ^ c foi noATo Senhor férvido de os 
kvar a Mozambique ; mas fempre com as 
siaos, n9s bcoobas. y . e com multo trabalho , 

. que 



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Dfc vil Liv. Vm. Cap. XIL ^^^ 

ÍuenácKÍora poffivel poder-fe aturar ^fenáa 
[)ra tanta a gente por quem fe repartia* 

Indo a nao já perto de Mozambique, 
>he aconteceo outro defaílre , nSo menos pe* 
rigofo que o da agua que fazia : e íoip 
que eñando lincoenta leguas de Mozambi- 
que, pouco mais, ou menos , e dez , ou 
doze da térra , cofteando-a com vento de to- 
das as velas , indo hum (¡Iho do Piloto pef- 
cando do chapiteo de poppa y deo hum gran- 
de grito , repctindo duas vezes : c Pai , bra- 
> ;a e meia., bra^a e mcia.i A efte tempo 
eftava Francifco Barrero na fuá varanda, 
donde ouvio oque difiera oíiibo do Piloto: 
fahio muito depr^íTa pera a tolda , e achoa 
huma revolta , e traquinada , que havia eoi 
toda a nao , fem ninguem fe faber dar a con- 
felho , nem fabiam o que fizeíTem , por náa 
faberem a caufa de tSo grande confusSo , e 
borborinho como havia. Nefta conjunto 
deo a nao huma pancada , com que tremeo 
toda , e com ella ficou a gente em táo gran- 
de filencio , como fe nao eftivera nella pet 
foa viva. Vendo o Piloto ¡fio , fubio muito 
depreífa á gayea pera de lá mandar a via , 
e por ver fe via diante da nao algum baixo ^ 
de que fe defviafle , ( o que nSo podia fa* 
zer da cadeira por razao das velas , que to- 
das hiam dadas , ) e afiíni mandou ir a nao 
i or^a por fe affaílar da cerra ^ que logo foi 

per- 



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272 ASIA DE DiOGO DB COVTO 

perdcndo de vifta. A cauík da pancada que 
a nao deo , he que naqucUa coila de Mo«: 
cambiquc , dez , quinze , vintc^eguas ao mar 
ha huns penedos , que o mar cobre , coni 
bra^a e meia , duas , e tres de agua , que 
fe nao vem , que fe chamam Alfaques : pa** 
rece que prepaíTando a nao por junto de al* 
gum deftes y tocou com alguma das illiar* 
gas, efoi caufa daquelle abalo que fez, que 
ie acertara de dar com a proa , ou com a 

5|uilha , alli fizera a oíTada , e a gente toda 
e aíFogára fem remedio algum. Perdida a 
térra de vida , foram demandar a de Mo- 
zambique , onde entráram a dezeíete de De* 
zembro de iSS9* y ^ ^^^ puzeram neíla 
viagem hum mez des do dia que partíraai 
daquelle porto até que tornáram a entrar, 
nelle. 



CA^ 



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ÜÉcÁOA Vil Li^i vni. tr^ 

CAPITULO XIIL 

^e trata de cútno Francifco Barreta , á!f- 
pQts de cbegdr á Mozambique da fegut^ 
da arribada , partió pera Gea pela eojid 
de Melinde : e do que Ihe aconteceo pot 
ella \ e áe quando úbegou a Goa ^ e de Id 
partió pera o keyno na ndo Sé Giao : c 
de como a ndoPatifa fe pardeo em Morn^ 
ba^a y indo neíla Bajlido de Sd , que aca^ 
bar a de fer Capitao de (¡oíala : e de como 
D* Lui¡8 Fernandes dé Fafconcellos che^ 
gou a Goa , depois de fi perder na ndo 
vlallega : e de como fe foi pera o Rey na 

. na ndo de Francifco Barreta^ 



T.Anto que Francifco fiafreto chegoil a 
Mo9ambique da fegunda arribada, de«* 
ferminou logd de fe ir caminho da India a 
invernar em Goa ^ por nao eftar alli outros 
tantos mezes, como efleve da primeira in- 
vernada ; ú por eftar muito delpezo^ e tef 
gallado milito de fuá fazenda , e nao ter di- 
nlieiro pera cumprir com as obriga96es de 
quem era , e cOm o que Ihe pedia a nobre^ 
za de fuá cotidi^áo 5 que era muito largo ^ 
.e liberal ^ o que em Goa poderia fazer com 
mais facilidades e a menos cufto de fuá fa* 
zenda. Ecomo nádliavia naquella fortaleza 
.itiais embarca^ócs ^ em que íe pudeífe it, 
Couto.tomAF.P.iL S que 



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ft74 ASIA OE DioQo de Couto 

que huma fufta velha de ElRey , e defcon* 
certada , fól avifado que na coda deMelin- 
'de tinha hum homem Chatim huma fufta 
4)oa , a mandou logo com muita preíTa com* 

1)rar a cuja era. Chegada a fulla , a mandou 
ogo varar,. cifar, e concertar , mandando 
fazer o mefmo á velha , que allí eílava de 
ElRey. Depois de eflarem já as fuftas con- 
certadas j tomou huma pera íi , e a outra 
•deo a Jeronymo Barreto Rolim feu primo , 
^era irem nellas pela cofta de Melinde , e 
atravefTarem a Goa da Ilha de Sacotorá^ o 
que nao levé eíFeiio , porque o fez de Pate. 
Embarcados ñas fuftas os mantimentos, 
eandando-íe fazendo aguada pera partircm » 
parece que defejando Joao Rodrigues de Car* 
valho (Capitáo que fora da náoGar^a, que 
fe perdeo) de paflar á India naquella com- 
ípanhia , pedio a Jeronymo Barrero Rolim 
o quizeíTe levar na (ba fuda. Imaginou-fe 
o Jeronymo Barreto já perdido, por fe af* 
•Ibmbrar com Joáo Rodrigues deCarvalho, 
por fer muito mal efcan9ado no mar, etao 
pouco ditofo nelle , que nao fe fabe embar- 
car-fe vez alguma , que nao fe perdeífe a 
.-embarca^áo , em que elle foíTe. Refpondeo- 
Ihe Jeronymo Barreto Rolim , que o nao? 
podia levar. Parece que Ihe difle algumas 

{lalavras, de que Joáo Rodrigues de Carva- 
ho infertp que q deixava de levar em fuía 

COI»- 



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Dba Vn. Liv. Vllt. Cap. XIIÍ. 17^ 

companliia por füa tñi fortuna , e pouca di* 
ta« Cuidando JoSo Rodrigues de Carvalhá 
nido , fez lidie tanta impref^o o ñío o que^* 
retem levar por aquelle refpeito, due difto 
íe Ihe gerou a morce; porque aquella noita 
feguinte, e&ando elle na cama enfi cafa de 
Pero Mendes Moreira , ( que era Feitor , a 
Alcaide móf de Mozambique ^ com qoem 
poufaira,) comegou a gemer, e dar muito^ 
aisé Dífferam-Ibe dou« fílhinho^ de Pero 
Mendes Moreira ^ que linha comíígo na ca« 
itia meninos ^ hum de tres y outro de quatro 
annos : « Tio , (porqué aífim Ihe chamavam 
» os meninos ,) vos nao dormís y e gemeis » 
n porque perdeftes a voffa nao ? » De tai 
maneira fentio 3 e o entráram as lembran^as f 
que os innocentes Ihe fizeram ^ que fbi a cau* 
iá de fuá morte, porque amanheceo morto 
na cama , fem haver outra caufa , a que a 
mortefe IhepudeíTe aiiribuir* Tanta forfa, 
e eíficacia tem a paixáo y e trifteza , que foi 
hadante pera fe Ine ecrrarem osefpiritos vi» 
tacs í e morrer* 

Acabada de fazer a aguada das fuñas ^ 
fe embarcou Francifco Barrero na fuá , e 
Jeroñymo Barreto Rolim na outra , e na 
entrada de Margo de 15' 60. fe pariíram de 
Mo^mbique caminho da cofta de Melinde , 
«a mongao pequeña , (chamam-lhe pequeña , 
por rasiáo das muitas caímari^a c^e- emáo 
S ii ha.) 



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47^ ASIA DE DioGo DE Cotro 

ha. ) Os Fidalgos , que Francifco Barrete 
levava na fuá fufta , eram Mdnoel de Aohaia 
Coutinho , Pedralvares de Mancellos ^ Fran*- 
cifco Alvares Provedor mor dos defuntos , 
Francifco de Gouvea , e hum foáo de Arau^ 
jo y a fóra outros niuitos homens , que eram 
da obriga^áo de Francifco Barrero, porque 
os mais Fidalgos íicáram enn Mo^aínbique 
pera fe vireoí na mon9áo grande , que he 
em AgOfto 9 na nao Patifa* Foi Francifco 
Barreco tomando os portos que havia pela 
cofta de Melinde , onde fe refazia de agua j 
e mantimentos. O primeiro que tomou foi 
Qiiiloa ) que eftá em feis graos da banda do 
Sul , cento e fincoenta leguas de Mozambi- 
que. Nena iCidade (que moílrava nos edifi* 
cios que tinha fer maior , e mais habitada 
do que entáo era) efleve quatro dias furto, 
com quem o Rey dcila nunca fe quiz ver. 
Xeve Francifco Barreto noticia de huns dous 
monllros que alli havia , iilhos de hum bogio , 
e. de huma negra , que fe dizia kr mulher 
de hum Xeque. Trabalhou Francifco Barre- 
to todo ó póílivel pelos haver , e lev^ar a 
ElRey D. Sebaftiáo ; mas como eram de 
ElRey de Quiloa , nao os quiz refgatan De- 
cerminou entáo Francifco Barreto de os man* 
dar furtar ; mas como ifto nao efteve tanto 
^m fegredo , que fe nao aventaflfe , faben- 
4ü-a Q RejF, mandou que os puzeÜTem em 

co- ' 



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Dbc* vil Liv. VIII. Ca?. XIII. 177 

cobro y até que Francifco Barreto fe fof- 
fe. 

Partido daqui defta Cidade , foi tomar 
a de Momba^a , onde eíleve oito días efpal* 
tnando , e concertando as fullas» Aquí foi 
(quando logo chegou) viíitado do Rey com 
hum grande prefente de refrefco de vacas , 
carneiros, gallinhas, mel, manteiga, tanfia- 
ras , limóes , cidras , e laranjas , de que a 
Ilha ( que ferá de fete leguas em roda ) he 
muí abaftada, e fértil. Refpondeo-lhe Fran- 
cifco Barreto com outro de muitos brincos , 
c pecas ricas, ecuriofas, queja levava pe- 
ra iífo , em que moftrava quSo liberal , e 
grandiofo era ; porque, como já diflemos^ 
era o mais liberal Fidalgo que havia naquel- 
le tempo. Tanto , que bem fe verificava nelle 
aquellc dito deD. Antáo de Noronha, que 
foi Vifo-Rey da India , que dizia , « que 
% nao fe podia fuflentar a India com prof- 
)i peridade , fenao havendo nella Capitáes 
^ doudos , que fahiíTem ricos de fuas forta- 
3» lezas , e tornaflfem a gaftar com foldados 
>i tudo o que dellas tiraflem. % O que acón- 
teceo a Francifco Barreto , que tirando da 
fortaleza de Ba^aim (de que foi CapitSo) 
oitenta mil pardaos , aílim os gaftou em fér- 
vido de EÍRey com foldados, que quando 
cntrou na governan^a da India já devia vin- 
ote e oito mil pardaos. Daqui podemos muí^ 

to 



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*78 ASIA DE DroGO de Couto 

to bem infprir , e do eftado em que a India 
agora eftá , quantos fezudos tem. 

£ tornando a continuar com a viagem 
de Francifco Barrero, depois que parrio de 
Momba^a, foi comando todos osmais pop- 
tos , e Ilhas , que havia pela cofia de Melin- 
de , donde fe vio com ElRey , que por fer 
muito amigo do de Ponugal , e dos Portu* 
jguezcs , o foi vifírar a térra , e Jhe mandou 
Jium muito rico prefente. Partido daqui , foi 
ter á Ilha de Paie, onde achou iium navio 
de huma gavea , que era de hum Cbatim , 
e eflava carregado pera fe partir pera CliauU 
JE como Francifco Barreto hia na fuíla mui^ 
to aperlado por razao da muita gente que 
Jevava, fretou o navio a cujo era, efepat 
fou a elle com a mor parte da gente que 
levava na fuá fuña , e dalli ( que efiá efta 
Cidade em tres graos da banda do Norte, 
jt feiscentas leguas da barra de Goa) fe fez 
á vela , «e po? na viagem quarcnta dias , fen« 
^o eJla de vinte e fínco , donde paíTou mui* 
to trabalho nefte golfo , de íédes por razáo 
das muitas ^ e grandes calmarías que teve; 
<¡uc íé tardáram dous dias mais , fem toma» 
rem a coda da India , todos houveram de 
perecer i fede , .por nSo levareai já hum a¿ 
vude de agua , e haver muiros dias que ie 
jiao comia. arroz, por nao haver agua com 
que Q co?er| nem bifcoutoj ío comi^im. t^ 

ma» 



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Dec vil Liv. VIII. Cap. XIIL 279 

niaras , e cocos , c dlgumas poucas veze$ car* 
(le aíTada de huns poucos de carneiros, qucr 
vínliam if) batel do navio. 

Indo aíCm neftetrabalho, bouveFam hut 
ma manhá viíla de tcrra da coda da India ^ 
e naquella tarde íahio de hum rio daquell^ 
coña ocatur deRqque Pinheiro, que vinh^ 
do Eftreito de Meca , onde o Vifp-Rey D, 
Conftantino o mandara , em companhia de 
Chriílováo Pereira Homem , a lanzar eoi 
M^fuá o innáo Fulgencio Freiré da Com- 
panhia de Jefus com recado ao Bifpo qu^ 
^ava na AbaíIIa , como diíTeaios^ no Cap, 
yill. defte VÍII. Livro. ^ 

Vendo Roque Pinheiro aquelle navio ^ 
fe ípi a file; e fabendo que hia nellefran- 
cifco Barreto , entrou nelle , lan^ando^íc 
a feus pés«com muirás lagrimas , pelo ver 
naquellas partes emogtro eftado haviapou*^ 
€o bem diSerepte daquelle em que o entáq 
vio. Depoi^ de Ihe dar cqnta de como p 
GoíTairo Cafar tomara octavio deChriílováp 
Pereira l^omem , proveo o navio de Fraiv- 
cifco Barreto d^agua, dando-lhe toda a que 
ira^a , e tprnou a térra com muita preíTa ^ 
bufcar mais , com que acabou de dar vid^ 
aos pobres, que já a nao traziam ; que fe 
acertáram de nao topar aquelle navio entáo^ 
jxSde muito bera fer que aquelle fora o derr 
(adeiro día de feys trabdlhos. Ao o^tro pol^ 

ma* 



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48© ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

iñanhá , que foi huma feíla felra dezefeto 
de Maio de quinhentos e fefl'enta , chegou 
abarra deGoa ja com as maos nos cabellos^ 
bem ternero fo , e receofo das primeiras ámea^ 
yas do invernó , que entra mui furiofo na^ 
quella cofta , e com a* eípada na máo , eo* 
mo logo acontece. Aooutro día feguinte^ 
que -foi fabbado , depois de todos eftaretn 
já delembarcados , e Francifco Barreto no 
Moíleiro dos Reys Magos da Ordem deS^ 
Francifco , que eM em Bardes na barra de 
Goa , fez huma tao grande' tempeflade de 
chuya , e vento , que parecja acabar*fe o 
mundo, e foverter-fe a térra cpm outfo fe* 
gundo diluviot 

Tanto que fe foube em Goa da chegada 
de Francifco Barreto á barra, foi logo vi» 
litado de todos os Fidalgos , e*cafados dé 
Goa^ é elle fe embarcou em hum catur li- 
geiro j e fe foi caminho d? Cidade vititar 
b Vifo-Rey D. Conftantinó, acoippanhado 
de rpda a fidalguia , e Cidadaos , e tanta 
mais gente , que enchia diefdo caes até á for« 
tale^a, e'todo o feu terreiro. E rompendo 
por aquella multidao de gente , chegou a 
elle , que o eftaya já efperando , com muito 
grande alvorojo ,' e cortezias , e fe foram 
pera dentro; onde depois de defcanjar , e 
dar conta do que Ihe acontecerá na jornada-, 
(9 fpf 9fD 9?^^ ^om alguns FidaI|;o$ parentes 



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Dkc. VIL Ltv. VIII. Cap: XIH. 281 

de ambos , e allí dormio aquella noite. Ao 
outro dia pela manhá fe tornou Francifco 
Barreto a embarcar pera ir aosReys Magos 
a cumprir huma Novena , que linha pro* 
mettido nofeu naufragio; efoi acompanha- 
do de tanta íidaiguia; e nobreta, que pare- 
cía defpejar-fe aCídade. Vendo oVífo-Rey 
D. Conftantino o grande concurfo dos Fi- 
dalgos, e cafados de Goa, que o acotnpa^ 
nhavam , diíTe aos que edavam prefentes: 
» Quantas grabas deve dar Francilco Barreto 
> a Déos pelo fazer rao bem quifto. )» 

Depois de Francifco Barreto eftar na 
MoReiro dos Reys Magos cumprindo fuá 
Novena, o mandou vifitar o Viíb-Rey , e 
Ihe mandou quarro mil pardaos , de que Ihe 
fazia metcé em norae de ElRey pera ajuda 
das defpezas do invernó. Acabada a Novena 
da romaria , fe foi Francifco Barreto apo^ 
íentar além de Santa Luzia ñas cafas de hum 
cafadi) de Coa , que fe chamava Fernao 
Nunes , onde eñe ve até meado Dezembro , 
correndo fempre cora o Vifo*Rejr muito bem , 
que o tornou a mandar vlfítár , e Ihe man*^ 
dou dous muito formofos ginetes , que elle 
logo deo , lium a LuÍ2 de Mello da Silva , 
feu párente , e outro a D* Filippe de Me* 
nezes íeu fobrinho, fllho de fuá irmá Dona 
Brites de Vilhena , por fobrenome a Perigo- 
Í9pt á^ D. Hcarique. deJVlenezi^s.. £ como 
•- Fran- 



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tiz .ASIA DB DíOGO DE COUTO 

Francifco Barrero nao finha nao , em que 
fe.vieíTe pera oRelyno, Ihe deo oVifo-Rey 
a nao S. Giáo » qu« invernara em Goa , e 
eftava varada etn Panelim, onde fe concer* 
tou rouito bero pera elJe vir nella » fatisfa- 
ssendo a Amonio de Souía de I^mego a 
Capitanía da nao. 

Em quanto elle inverna , e a nao em 

3ue ha de partir pera o Reyno fe concerta , 
aremos razáo da Patifa , aue ficou em Mo« 
fambique, invernando da iegunda arribada ^ 
que por vir muito deñro^ada , a mando;;^ 
Bafiiao de Si , Capitáo que acaba va de fer 
de (Roíala, concertar muito bem, pera fe ir 
nella pera Goa na mon^áo grande, que he 
a deAgofto, emcompanhia das que haviam 
de vir do Reyno. E como cfteve concerta- 
da y mandou Bafiiáo de Sá embarcar nella 
agua , e mantimentos , e toda fuá fazenda ; 
c como foi tempo , embarcou-fe nella com 
rodos feus criados , e os Fidalgos , que vifr- 
ram nelU em companhia de Francifco Bar- 
reto , que ücáram, invernando em Mozam- 
bique > donde fe fez.á vela aonze deAgoC- 
to. Ao dia íeguinte come^ou a fazer tanta 
9gua , que fe hia ao fundo ; e como nao 
podia tornar a arribar a Mof ainbique , foi 
forado ir demandar a barra de Momba^a , 
onde varou em térra , e fe desfe:? , íalvando- 
& tudo o quftikvava, alBm d^ElRey, co^ 

mo 



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De€, VII. Liv. VIII. Ca?. XIII. 1S3 

mo de paites ; e Bafliáo de Si fe emb^rcoii 
em huní navio, em que foi á India, e nao 
me íouberam di^er fe a invernar > fe depoisi 
^ni Setenibro. 

Tornemos a Francifco Bárrelo , que eC» 
cava invernando em Goa , e concertando a 
fíio S. Giao, em que fehavia de embarcar; 

3ue depois de a ter concertada , e cometan* 
o de acarregar, chegáram á barra de Goa 
ínco naos do Rtyno : em huma dellas vi- 
nha D. Luiz Fernandes de Vafconcellos , que 
veio ter a Mozambique , depois de fe perder 
o anno paífado na nao Gallega , e ficar in« 
vernando na Ilha de S. Louren^o , aonde foi 
ter no batel da nao , em que fe tinha falva- 
úo com feflenta peílbas. 

Tanto que o Vifo-Rey foube de fuá 
chegada , logo o mandou vifitar com dous 
mil pardaos , e hum cayallo , e Hum quar* 
iáo , correndo muito bem alguns días que 
^fleve emGoa com o Vifo-Rey, até fe em^ 
•barcar pera o Rcyno na nao de Francifcó 
Barreto , por 1er cafado com Dona Branca 
de Vilhena , fuá fobrinha , íilha de Diogo 
Lopes de Siqueira , que foi Governador da 
Jndia y e de Dona Maria de Vilhena fuá irmá. 
Eftando já a nao S. Giáo preñes , appa- 
relhada , e carregada , e com os maniimen- 
tos, c agua embarcados , fe fez Francifcó 
Barreto á vela a vinte de Dezembro, tendo 
- . mui* 



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084 ASIA DE D10G6 DE Covro 

Iftuito profpera viagetn , e dando em toda 
ella meza aos Fidalgós , que foram em fuá 
companhia , que eram D. Luiz Fernandes 
de Vafconcellos , D. Joao Pereira , írmáo 
do Conde da Feira 1 D. Duarte de Men^ 
ees , o Narigáo , que era dos da cafa de 
Penella , de quem já fallamos no Cap. XL 
defte VIII. Liv. , que fe achou em Punicale , 

Suando o Bifminaique tomóu a Manoel Ro« 
rigues Coutinho a fortaleza da Pefcaria , e 
a dedruio ; Garcia Moniz Barreto , natural 
da Ilha da Madeira , Manoel de Anhaia 
Coutinho, e outros , a que nSo foubemos 
os nomes. Chegou a Lisboa hum Domingo 
a treze de Junho de 1^61. , onde foi rece- 
bido de toda a íidalguia com muito alv^oro* 
50 , e contentamento , pelo terem por mor- 
to , por havcr tres annos que partirá da In- 
dia a primeira vez ; e acompanhado de toda 
ella , o leváram a beijar a n\Ío á Rainha Do- 
na Catharina , que entáo governava o Reynó 
por ElRey D. Sebaftiáo feu neto, que feria 
de fete annos de idade. Foi recebido del la 
CQm muitas honras , aíHm pela qualidade , 
e valor de fuá peíToa , como pelos muitos 
Icrvijos que tinna feito aos Reys de Poriii- 
gdi na India , e em África. 



CA- 



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Década VIL Liv. VIH. a8f 

CAPITULO XIV. 

Das grandes guerras ^ que fe akvantdram 
antre ElRey de Cranganor ^ e ó de Co* 
cbim : e da caufa porque : e do grande 
temor ^ e refpeito^ que todos osMalava* 
res tem a^ Bemaventurado Apojlolo Sé 
Tbomé: e das foberbas y e cujiojas fejias 
que lbefa%enu 

NO principio da V. Decada no Cap. L 
temos dado larga rela9áo dos grandes 
odios , c bandos , que fe ateáram antre todos 
os Reys Malavares , e dos appellidos que 
tomiram os Reys de Coclüm , e Calecur» 
que eram cabe9as delles , chamando-fe os de 
huma parte Jogerecuros , e os da outra Pai-^ 
dericuros , pera por eiles íerem conhecidos» 
£ deíles o Rey de Cranganor foi lanzado 
' a parte do C^amorim ; porque por hum mui* 
to amigo coftume, ou lei, eram obrigados 
os Camorins , e Emperadores do Maiavar 
a cafar com as Princezas de Cranganor , por 
cuja razáo íicavam havidps por pais dos 
Reys de Calecut , o que nunca fe quebrou ^ 
c aílim elles os favoreciam em tudo como 
efles. Ora aílim poreñe antigo odio, como 
poroutros biquinhos, o Rey de Cranganor, 
que nefte tempo reinava , fez muito cruel 
guerra 9 em quanto viveo ^ ao de Cochim^ 

que 



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a86 ASIA os Dioeio dé Coiría 

que foí continuando muiros annos ^ com pfon 
poííto de o deftruir de todo , porque era 
rico, etinha muitas rendas porCaufa dehum 
Pagode chamado Parui , que eftava em fuas 
ierras , da mais antiga , e continuada foma- 

fem de todas as do Malavar, que Ibe ren<« 
¡a cada anno huma muito grande Comma 
de ouro, porque de todas as partes da In- 
dia concorria toda a genrilidada delta a íe 
oíFcrecer a efte Pagode» E toda eíla renda 
gaftara nena guerra, e emfolicitaf, epeitár 
os Senhores do Malavar, e ainda osyaíTal- 
los de ElRey de Cochim, (por cuja caufa 
fe Ihe rebelláram muitos , e fe paífáram á 
parte de Cranganor^) nía achando nunca 
aquelle Rey , fenáo os Portuguezcs , e os 
Capitáes de Cochim , que fempre o acom- 
panháram ñas guerras ; e com leu brajo , e 
poder ihe entrou muitas vezes por fuas tér- 
ras, e Ihas deñruio , e queimou , e a elle 
po2 em tal eftado , que Ihe foi neceíTario 
mandar a Portugal offerecer-fe por vaíTalIo 
de ElRey D- Joáo, a fim de os Portugue- 
ses o nao perfeguirem* ElRey Ihe mandou 
paflar huma larga carta de vaíiallagem , que 
alguns míoradores antigos de Cochim nos? 
difleram que víram , de que hoje nos parece 
que nao ha já memoria; porque nem naSe¡J 
cretaria , nem em algunJa outfa parte a pu- 
jemos achar pva kncar o traslado della ti% 

Tor- 



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Dec. vil Liv* VIH- Cap* XIV. 287 

Torr€ do Tombo , de que temos cuidado y 
e fomos Guarda mor'; porque eftas coufas , 
eoutras muitns defia qualidade sao perdidas » 
e acabadas pela pouca conta que néíleEftah 
Áo fe faz de tudo o que nao sSo drogas , e 
fazendas. 

E profeguindo efte Rey ñas guerras, e 
tedios contra o de Cochim , e querendo o 
de Cochim por algumas yezes deftruillo de 
todo , falciram*lhe as ajudas que os Portu- 
guezes Ihe coftumavam a dar, por fer con- 
tra vaíTallo de EIRey de Portugal; e aí&m 
ficáram neutraes, fem favorecerem a hum^ 
Dcm a outro , fazendo-fe elles todos os dam- 
nos que podiam ; mas fempre o Rey de 
Cranganor o recebia maior , porque o de 
Cochim era o mais poderofo. E como o 
odio era por natureza , e entranhavel , an- 
dou o Rey de Cranganor trabando, e fati- 
taziando todos os modos , e ardís que pode 
pera deftruir eftoutro , até dar em hum , que 
JFoiomais prejudicial alfim áquelleRey, co- 
mo ao Eftado da India , que todos os que 
o demonio Ihc podia offerecer , e foi. 

Tinha efte Rey de Cranganor dous fo- 
brinhos fílhos de iua irmá , que faaviam de 
,fer herdeiros do Reyno , (porque coftuma- 
Tam eftesReys doMalavar crearem fempre 
•dous Principes pera efta heranja , e trazerem* 
oíos ém Corte , pera verem , e fabeienxo 

mo- 



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i88 ASIA DÉ Diófto DÉ Cóüto 

modo do gorerno-; porque fe morreíTe huirí f 

EuzeíTem logo o outro em feu lugar ^ e af^ 
íliam nosconfelhos pera fe eníinarem.) DeP* 
tes dous, que efteRey deCranganor tinha^ 
o fegundo fe chamava o Principe Branco^ 
que era muito aífei^oado aos Portiiguezes ^ 
e grande amigo do Rey de Cocbim , com 
quem fe communicava por recados* Succe*» 
deo agora neñeanno em que andamos , ftior- 
rer o Principe mais velho , e ficar fejido o 
Branco o principal ^ e verdadeiro herdeira 
do Reyno ; o que aquelie Rey fentio ena 
extremo , pela grande a m ¡zade que tinha 
com o de Cochim feu inimigo^ E andando 
fantaziando, e trabando oque faria naqueL- 
le negocio , cabio em hum ardil do maior 
prejuizo que podia fer, quefoi concertar- fe 
com o C^amorim , que mandaíTe crear em 
Cranganor os fobrinhos , que Ihe haviam de 
herdar o Reyno , e que elle mandaría crear 
aCalecut os feus berdeiros; e aflim^fizeram 
logo eíta troca , e o de Cranganor mandón 
peraCalecut outros dous fobrinbos filhos de 
outra irmá ^ pera lá fe crearem ^ com téngaos 
de deslierdar o Principe BrancOy pelo fentir 
aíFei^oado aos Portuguezes. Efia incltna^ao, 
c maldade foi entendida de todos ; c Joáo 

•Pereira, que era Capitáo de Cranganor,. o 
fentio muito , porque bem vio cfue Ihe ba- 

•i viam a(}uelias coufas de dar muic^ traUalW, 

e 



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Deo Vn. Liv. VIII. Cap* XIV. i«^ 

e que fe I he hía ordenando homa gaetta | 
que poderla fer em grande damno, e rifco 
daquella fortaleza. Pelo que logo mandou 
fazer ao redor della vallos « e tranqueiras 
xnuko fortes , e cortar os matos , que por 
alli havia ao derredor , o que eocarregou a 
Joáo Alvares Pereira feu genro, mandando- 
Ihc que nao travafle guerra com a gente dé 
Crangánor , iem de la primeiro a nao faze^^ 
xcm. £ andando elle nefia obra , acudió a 
gente daquelIeRey a Iha defender, e o co^ 
me^ou a efpingardear^ fem o Joáo Al varea 
Pereira bulir comíigo ; ames Ibes mandoú 
requerer c que íe affaftaíTem , porque nao 
» queriam romper com os vaflallos de EU 
1 Rey de Portugal ; e que antes haviam de 
n favorecer em tudo o Rey de Crangánor^ 
» porque o manda va ailim o Vifo»Rey da 
» India.» O que nao baftou pera elles dei«> 
zarem de continuar em feus intentos. Vendo 
ifto Joáo Pereira, mandou pedir gente aCo* 
chim , e com a que tinba deo na de El« 
Rey deCrañganor, queeftava daoutraban* 
da do rio , e desbaratou , e lanjou fóra dallL 
Por aqui ficou a guerra declarada y e come* 
fou a haver entradas de parte a parte ^ 9 
ajuntarem aquelles Reys feu poder^ e o de 
Cochim acudió , e traba Ihou muito por toí^ 
mar o Pagode Parui , aíBm por enfraquecet 
o inimigo jia renda , como pera t¡l^ ficair 
Cmo.TomJF.F.iI. t íc- 



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a^b ASIA DB DiOQO D£ COVTO 

frohúr daquella romagem , que elle em ex* 
""^tremo fejitia eftar em poder daquelie Rey ; 
^Be como fe ciatra delle, tinhatn múi bem 
torrificado, e próvido de guarda. 

E porque na fefta defte Pagode fuccede 
tambem huma , que elles fazem ao Berna* 
venturado Apodólo S. Thomé, nos pareceo 
bem darmos aqui rela^ao della , poríer em 
muito louvor, e gloria fuá, e que pela ven* 
tura aocre Chriftáos fe ihe nao faz outra xÍo 
íolemne : pelo que íe ha de faber que eíle 
Pagode « que aíüma diflemos, que fe chama 
Parui y he tao antigo , que já muiro antes da 
vinda de Chrifto era hum dos de maior ro* 
magem , e concurfo de gente , que todos 
os deftas partes , a quem coftumam fazer 
fuas feftas na Lúa de Mar^o, a que acode 
a mor parte dos Gentíos dos Reynos vizi* 
nhos; e ñamaré danoite daconjun^áo hiam 
por aquelle rio aífima tantas embarcagoes , 
que o entulhavam* , carregadas de Rpmeiros ; 
€ chegando ao Pagode , ( que he pelo rio 
de Cran^anor aflima , perto de quatro le* 
guas , ) razem fuas feftas , e ceremonias , e 
oíierecem^ fuas oíFertas , que rendem tanto , 
que pelo que montavam aquelle Rey fe te* 
iré fempre pelo mais rico de todos os do 
Malavar, E depoís que o Bemaventurado 
ApoftoloS« Thomé paíTou a eftas partes da 
India y andando por ella pregando a Leí da 

€»• 



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Dbc vil Liv- VIIL Cap. XIV. 19Í 

Gra^a , a otie converteo tanto namero dd 
Gencios » cnegoa tambem a efie BLeyno de 
Cranganor , onde fez mui grande fruto » e 
bapcizou a oKSr parte dos Gentíos y de que 
aínda ho]e ha mima boa quantidade y. ^ue 
procederán! delles» e fundou naquella pon« 
ta ( onde depois a tantas centenas db asnos 
fe fez a noíía fortaleza) hum Templo ^ que 
hoje fe vé dentro della : que tanto que allí 
fbi alevanudo , paíTando os Romeiros por 
allí o día da fuá fefta , ero emparelhando 
com a Igreja y lerantara-ie fupitamente Jmm 
vento , e aldga\ra»lhes a mor parte das em^ 
barca^^ , e Inés aiFogava muíta g^nte ; por« 
que parece que o permittia Déos aífim , por<« 
que nao paíTaíIem pela porta do íeu Templo 
as oíFertas pera o aemonio y e quería que íe 
proftraíTem diante da Arca do Teílamento 
os ídolos de Baal : o que fuccedeo muito» 
annos arreío , pera Déos moftrar que a obra 
era mais fuá , que acontecida acato. 

Vendo aquella bruta gentilídade aquellea 
naufragios tSo continuos daquelles annos pe^ 
ra cá , nio Ihes fuccedendo tantas centenas 
de annos atrás algum y nem perí^ndo ña-^ 
quella paflagem embarca^ a^uma y hou« 
teram que era caftigo do ^Santo Apoftdíp ^ 

3ue eflava irado contra elles d^affiut^ti por 
efronte da fuá cafa pera fe m||sr ü&reoer 
ao íétt Pagode ^ e miereodcHO t^Qir^ biv* 
Tii de- 



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api Asía de Diogo d¿ Couto 

déniram fobre grandes torres formofos caF- 
talos de madeira mui bem lavrados , de 
dous ^ quatró , fei$ > oito até onze fobrados ^ 
deque le já víram alguns^fegundo a pofle 
dos que os iazem ¿ e do primeiro fobfado 
até odérradeiro, cercados em roda , echeios 
de muicas luminarias; e os A.om¡eiros, que 
ram dentro » vellidos de roupás no^s ^ elim» 
pas , com muiros tangeres , e bailos. AíEmi 
defta maneira vam peto rio aíEma todos ca- 
lados ; e em emparelhando com a Igreja do 
Santo Apoftolo , accendem as luminarias to« 
das y e cometo os tangeres , e bailos com 
tanto alvoro^o, fefta , eeftrondo^.que pare- 
ce que fe desfaz orio^ e arerra em gritos; 
e tanto que dobram a ponta , em que dan- 
tes perigavam , ceflfam os tangeres , e bailos , 
e fe apagam as luminarias , e nao querem 
chegar com ellas accezas ao Pagode por nao 
oíFenderem o Santo Apoftolo. E fe acerta 
algum de nao poder paitar naquella maré da 
Hoíte , ( como já aconteceo , ) ao outro día 
ao fahir do Sol commette a paíTagem , e no 
cume do caftello vai hum homem em pé com 
huma faca namáo, eem emparelhando coníi 
a Igreja do Bemaventurado Apoftolo , faz 
huma ferida no dedo , e |)romette ao Santo 
de pera o anho Ihe Ázer outro caftello de 
mais vamagem, fe o deixar paflfár;^ aíIiíA 
a fazem > e moftram nelle foór inageftade^ 



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D«c.,VII. Lir.. VIIL Cah. XIV. .293 

c grandaza , porqu? jQzlmeiide .crem que o 
Santo os nao deixou paíTár com os outros 
por efiar deUes oiFendidp.. . . i 

E como os Reys de Cochim defejáram 
fempre . de mudar eíla rom^igem^ pera, fuas 
térras , pelo prav.eko que dillb cfper^vam , 
trabalháram todos. milito míTo, até fucceder 
EIRey Ramará , que fallando- fe com os Bra* 
manes em fegredo , ibes fez crer. que oidolji» 
Parui Ihe apparecéra , e Ihe difiera que elle 
^ftavft niuito enfadado das guerras de Cran- 
^ ganor , e que Ihe niandava mudaffe fuá ro^ 
magem pera o lugar de Palurte , (que era 
hum Pagode , que eítava adiante de Cochim 
de lima., junto dos fornos da cal.) E logo 
mandou fazer.ao. derredor do. Pagode hum 
forniofo tanque pera os Roraeiros fe lava^ 
rem ; e come90i| no mefmo día , que em 
Cranganor fe faziam as feftas , a celebrar 
outras muito folemnes , em que mandou pu** 
{>Iícar pelos feus Bramanes o apparecimento 
do Ídolo Parui, E como aqueile Rey na Ref 
Ugiao h^ havido por cabera de todo oMa^ 
lavar, como Bramane mor , todos Ihe de^ 
ram crédito ; e comegou-fe aquella romagem 
a fe paitar pouco , e poucp pera Cochim ; 
^ a creícerem as rendas d aquello Rey , e ireoi 
falcando muito ao de Cranganor , com o que 
?eio a cahir em pobreza^ : ^ 

.,;.■..'. •■ ■.. ; V ^ . ...-. .--; . ■-) 



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^^4 ASIA 0t DlOGO BB COUTO 

c A> iTU LO xy, 

De ewiú Bajazetofilh dtSoliniáo Encera- 

ior diks Turcos fogU pera ^ Perjia : e 

4os tratps que tev0 fera matar a^ 

fueüe Riy : e de como tlh pen^ 

tng^ afeu irmao Cilim^ 

S%mvrt feguires efia ordem de contar as 
couías y que fuccederem na Perfia , por* 
^ttie todas pnrjudicáram á nófla fonaleza de 
Ormuz, e Ibederam milito tcabalbo; como 
tambem o farei das que fuccederem a codos 
os mais RejB vizinhos a^ todas as mais for« 
talezas , e agora eftas tomareí a coufa de feu 

riricipio pera fe entender melhor. Pelo que 
ba^ de laber que Solimáo filho de Cilinn » 
eilándo ]i em idade decrepita , tinha em íeu 
animo de deixar nomeado em feus Imperios 
a Cilim feu íilho fegundo , tendo o mais ve- 
Iho chamado Bajazeto de mais parres , e mais 
.^ pera govémar tamanfao Imperio , que o 
^ y> entro y e í<Ss eftes dous Ihe íicáráo de muiros 
«píe teve. E como he coftume da cafaOio* 
Qianai tinha Solimáo eftes dous filhos fepa« 
rados , Cilim ^ a quem elle quería dar o Reí- 
lio em Ada menor na Cidade deManencia; 
m 90 Bajazeto erii^ucea tambem em Afía 
menor, mas apartado, algumas jornadas don*, 
de o outrg «ÍUva, e refidia* £ como o ve* 

Ibo 



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Dbc vil Liv, VIÜ. Ca>. XV. ^ff 

Iho 4o pai o tinba cegó a affdsSo^ eamot 
áo fiifao fegundo , parece que difle algumat 
lyezes que elle herdára ác^uelle Imperio dt 
Cilioi , e aue o havia de deixar a outro Ciliau 
Oiegou iíto ás orelhas do Bajazeto , que ^or 
con^Iho de Receflan Baxá , que o favorecía ^ 
eicreveo ao pai huma carta coro grande fub* 
mifsáo , em que Ihe pedia b que nSo quizeíft 
» tirar4be o fcu direito , pois em idade , e 
)i partes precedía a feu irmSo ; e que nSo 
» roíTe occafiáo de chegarem ambos os ir» 
» maos a efiado de averiguar fuá juftija pe* 
» las armas , porque ficaría no mundo conti 
» aquella infamia de injufto , e daria conta 
1 a Déos dos damnos que diílo refultaíTem. » 
Coffl efta carta ficou o Turco mui apaíxo- 
nado , e Ihe refpondeo mal ; com o que de^ 
terminou logo de por o direito ñas armas » 
e ajuntou a mais gente que pode pera ir 
bukar o irmSo , de que o irmáo foi logo 
avifado , e fez feus ajuntamentos , e o pai 
o mefmo pera o ajudar. E entenderido o 
Bajazeto que na diligencia efiava a vitoria, 
determínou de dar no Cilim , primeiro que 
ajuntaíTe o poder, porque o feu havia deíer 
maíor pelo favor que tinha no pai ; e aíüm 
partió contra elle com dezoito mil cavallos ^ 
c huma tarde appareceo nos campos dcAtl* 
gona , onde o Cilim eftava , e alojou fetí 
ejercito em campo largo , e aberto^ onde 

Ihe 



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%^6 ASIA ¿E DíÓGO DE CbüTO' 

ihe fahíram alguns dk cavallo, que oirmící 
nandou y pera que o nao deixaíTem alojar 
á fuá vontade» O Bajazeto deípedio hum de 
cavallo com recado ao irrnáo, que tamfeem 
cftava fóra em campo , em que Ihe dizia^ 
^ que pera que era defaccommodallo , etra«* 

> tar de efcaramu^as , que o deixaíTe alojar , 

> e que ao outro dia emraíTem os exercitof 

> ambos em batalha ; e que dos damnos que 

> della refultaíTem daría feu pal conta, pois 

> por fuá maldade chegou feus íUhos áquelle 

> eíladOy e Ihe quería tirar oReyno tao in^ 

> juñamente contra todas as leis naturaes. » 
Cilim Ihe mandou dizer que eratnuito con« 
tiE:nte , e que. ao outro dia fe veriáo ^ porque 
eílava confiado no poder que tinba , por ter 
comfígo a mor parte dos Janiyaros. 

Ao outro dia em rom pendo a manhá fe 
preparáráo pera a batalha , jpondo a de Ci^ 
lim^m. ordem Muilafa Baxa, que opai Ihe 
deo por confelheiro , e o de Bajazeto Muf^ 
lam Baxá » e íizeram de fuá gente dous ef» 
quadríJes na melhor ordem que fouberáo, 
levando diante fuá artilheria , que ao tempo 
de romper fez f^u oíBcio com tftnto eñron^ 
^p , tierremoto ^ ^ damno, que dambas aa 
partes ficáráo muitos efpedajados, elogo as 
oatalhas íe travárao ; e Bajazeto fabendo 
que no icofno efquerdo de Cilim hia toda ai 
|eqtf i)Qy?i, q«e fe ajujitpu pdos póvos de 



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Dfics VIL Liv* Vm. Caí. XV. 297 

derredor , pouco exercitada , o foi inveftir ^ 
e o desbaratou logo y e rompeo , e o po2 
cm fúgida ; e ind<>o íbccprrer o corno di« 
reito de Cilim /onde eUe nao eftava ^ foi 
commettido do efquerdo do Bajazeto, e ana- 
fre cUes fetravou huma afpera batalha, em 
que o Bajazeto fez tambem tanta deftruigSo ^ 
que o obrigou a fe récolher até onde Cilim 
ettava com a mor for^a do exercito fem fó 
bulir : o que viilo por MuQafa Baxá , Ihe 
requereo que entraíTe na batalha , fenao que 
tudo fe pierderia. E podo que outros Ihe acon« 
felháram que fe recolfae^ , que tudo er^ 
perdido, todavia elle rompeo com a fuá ba« 
talha , e inveftio os inimigos com tanta for^ 
(a y que Ihe fez perder térra y com o qua 
foi neceíTario a Bajazeto acudir com fuaba-» 
fallía y e aílim femifturáráo todos comgran-i 
de crueldade , durando o conflido della quaíi 
nove horas. £ qiiiz a pouca ventura deBa« 
jazeto que Ihe déíTem nefte tempo ( em que 
a coufa eílava fuíjpenfa) huma efpingardada 
por hum bra^o , que o obrigou a fe fahir 
da bataiha y com o que o feu exercito fe per« 
deo de todo , e dos feus ficárara mais de dea 
aiil mortos y e da parte de Cilim mais do 
quinzemil. Bajazeto fe recolfaeo a Licáonia j 
e alii recolheo as reliquias do exercito , e 
ie Ihe ajuntáram outros de novo \ e todavia 
defconñado . de fuá . v^ntu^a y fe paflbu á Fer« 



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9^Z ASIA DB DiOGO DE CoVTO . 

fia com tres filhos , o inaior de dezoito an» 
nos , deixando a onilher prenhe com algu- 
mas filhas , e naquelle Reyno foi rccebido 
nao com boa graga , porque fe receou de 
fe quebramn as pazes com o Turco por 
aquelle refpeíto : e todavía mandou-o aga^ 
ssalhar , e ao fea exercito , que eta de mais 
de vinte mil homens. I>Í2em algims que em 
latisfafáodefiaiioipedaría cíaconfelhára hum 
Baxi dos íeus ^ t^ nao fei fe foi Raitan , 
oiiehimi4ia diiltfflttladamente mataflfe aquel* 
le Rey , e que pela ventura Ihe abriría fuá 
fortuna caminho pera fer Rey da Perita , do 
que aquelle Rey tora aviíado ; e dando con« 
ta dlílo a feus Soltóes , Ihe aconfelbáram 
que o mataíTe elle primeiro : o que nao quiz 
confentir, dizendo que iíTo nao entrava ñas 
leis da hofpedagem ; mas por fe nao íicar 
temendo delle , o prendera a elle , e aos íh» 
Ihos y e todos os Turcos que com elle fb* 
ram ^ e poucos , e poucos os líiandára matar* 
Cilim , o que iicava já com direlto do Reyno 
adquirido , aflim por vontade do pal , como 
pelas armas , mandou Embalxadores ao Per* 
la, porquem Ihe manda va pedir feu irmáo, 
ofierecendo<»lhe por iflb huma grande fom« 
ma de ouro: ao que o Perfa nao dco ore* 
Ihas t porque foi a embaixada da parte do 
paí Solimáo. Tanto , que o Soliroáo defpe* 
4io Embalxadores 3^ e por cUes Ihe mandou 

pe- 



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•^ 



Dec. vil Liv. VIIJ. Cap. XV. 299 

pedir feu fiiho , e que íe ]ho nSo déíTe » pro- 
tefiava de Ihe fazer cruelifllnia guerra a fo^ 

§0 ) e a fangue : e após os Embaixadores 
efpedio Portan Baxácom hum inuiro groÍ^ 
fo , e poderofo exereito pera entrar pelos 
confins da Perfia. A eltes Énibaixadores re- 
fpQudeo logo o Perfa melhor ^ e Ihe entre- 
£ou o Principe Bajazeto , e feus filhos por 
Jiuma grande fomnia de dinheiro com voz 
de pagar .0 Turco o que o Perfa gafiára com 
feu íilho, e netos íiinos do Bajazeto. Entre* 
gues os pobres Principes aos Embaixadores , 
os foram aíFpgando , ou atofllgando pelo ca<* 
minho , e o mefmo mandou o Turco Solí- 
mao que fefízeífe ásfilhas, que IheScáram^ 
eainda áque parió amuJhsf: pelo que com 
razáo fe pode dizer , que he melhór íer por* 
co do Turco , que feu íilho. Em quanto e& 
tas coufas duráram , a nofla fortaleza de Or<« 
muz p fentio , porque Ihe faltáram Cáfilas p 
(|ue he o remedio daquella fortaleza. 



DE- 



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50O 

DECADA SÉTIMA. 
L I V R O IX. 

Pa Hiftoria da India. 

•■■' ' n 

C A P I T U L O I. 

Da grande Armada , com que o Vifo-Rey. 
, A Cmfiantim partió peta Jafanapataa : 
e do que ¡be fuccedeq até cbegar ¡d. 

TOdo o invernó gaftou o Vifo-Rey D, 
Conftantino em concertar a Armada ^ 
ique havia de levar a Jafanapatap , e 
em ajuntar os petrechos pera aquella jorna- 
da ; e na entrada de Agoflo poz no mar to« 
dos os navios preñes , e apparelhados , e os 
proveo de mantimentos , e muni^óes , e co- 
xne^ou afazerpaga geral a todos. Ejáquan» 
do entrou Setembro eftava tudo táo preftes , 
que fe embarcou o Vifo-Rey; e entregando 
primeiro o governo a D. Pedro de Menezes 
O Ruivo> que era Capítao de Goa^ deixou 
. í re- 



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• Dec. vil Liv. IX. Ca*. i/ 3ot 

fegtmentd aó Licenciado Belchior Serrad i 
Veador da fazenda , pera ir fazer a carga' 
das naos a Cochim , e Ihe deixou todos 09 
poderes na fazenda pera nido o ()ue fe ofte* 
receíTeb 

E porque a Cidade de Damáo era ga« 
nhada de pouco , e elle hia pera longe , re- 
ceando»fe que os Abexins j como o viflem 
aparcado, a quizeíTcm commetter ^ e inquie* 
tar, defpachou alguns Capitáes com folda- 
dos pera irem reiidir naquella fortaleza. E 
dos que pudemos faber os noroes foram » 
D.Joáo daCofta, Luiz Alvares deTavora; 
Alvaro Dias de Soufa de Arronches , Joao^ 
Nunes , EftevSo Fernandes , e outros , que 
fícáram negociando pera com feus foldado^ 
fe irem inetter naquella fortaleza. 

Efiando o Vifo*Rey já na barra defpa*^ 
cbando as derradeiras coufas pera dar á vé- 
la y fendó quatro de Setembro , chegou a 
nao Conceigáo , que o anno paíTado fícou 
invernando em Mo^aitablque ^ elogo ao ou* 
tro dia chegáram dez , ou doze navios de 
Chaul, eBa^aim pera o acompanharem na^ 

3uella jornada. Antre efles vinfaa D. Pedrd 
e Almeidá Capitao de Ba$alm y que deixou 
a fortaleza entregue a Manoel da Veigá, 
Feicor, e Alcaide món Vinha mais D.Luiz 
de Almeida feu irmáo , e Ayres de Salda- 
s|]á^< otttros Fidalgof^ E fabe&do oVif¿^ 

Rey 



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joi ASIA BE Dioao pe Covto 

Rey vir allí D» Pedro de Alroeida , e que 
úei%irz a fuá fortaleza , (fobre outros bicos , 

2ue eratn pa(íado3, de que o Vifo-Rej D. 
lonftantino eftava arrufado , ) o nao quiz 
ver , antes Ihe maodou tomar a menagem 
pelo Ouvidor geral > e que le fbíle prezo 
pera hum dos Pa^os da Ilha ;. e os navios , 
que tinham viodo nefta companhia , mandou 
armar de novo , e os repartió por Ayres de 
Saldanha , e outros. E velpera de noíTa Se* 
nhora a fete de Setembro íc íez á vela com 
huma íbrmofa Armada dedo¿e gales ycdez 

Í galeotas , e feíenta navios de remo , antro 
uftas, e catures. 

OsCapítáes das gales eram, oVifo-Rey 
da galé Real ; D. Antonio de Noronha Ca- 
tarraz , da galé Sant-Iago ; Baftiáo de Sá ^ 
da galé S. Luíz i Martim AflFonfo de Mi- 
randa, da galé S» Miguel i André deSoufa^ 
íiiho do Veador do Cardeal D. Henrique, 
da galé Vitoria ; Fernáo de Soufa de Caf- 
tcllo-branco , da galé Concet^áo ; Gonzalo 
Falcáo , da galé Chagas ; Leonel de Soufa , 
da galé Monferrate ; D. Leoniz Pereira , e 
Ayres FalcSo em outras duas. 

Os das galeotas eram , Ouarte do So- 
veral ^ que o Vifo-Rey levava pera fe paífar 
a ella » fendo oeceflario ; D, Antonio Manoel y 
Franc'rÍGo de Mello irmáo do Monteiro mor y 
P* Jorge de Menczes y que dcpok foi Al^ 

fe- 



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Dec. VIL Liv. IX. Cap- I. 303 

feres mór do Reyno ; Ayres de Saldanha , 
Martim AiFonfo de Mello , de alcunha Hom- 
brinhos ; Jorge de Moura , Fernao Ootnes 
Cordovil , Louren^o Pimentel , em huma ga« 
koca , que foi de Rumes , e cutres. 

Das fuftas eram Capitaes , D. Joáo de 
Caftello-branco , filho de D. Pedro de Caf- 
tello-branco , que foi Capitáo dé Ormuz , e 
irmáo do Conde de Viila*nova , Henrique- 
de Sá , Francifco de Soufa Tavares o Coacor^ 
García Rodrigues de Tavora , D* Fi^SBCÍÍca 
de Almeida , que depois foiC^íi^ de Tan* ' 
gere , D» Filippe de MeiW»^ irmáo de D. 
Joáo Tello 9 que depo» foi hum dos Gover-» 
nadores do Reyflm» » Alvaro de Mendoza , 
Pero de Meíquíta , Pero Pelxoto da Silva ,i 
Nuno de Mendoza , D. Paulo de Lima , 
Nuna PüTtado de Mendo9a , D. Payo de 
Norortlia , Fernao de Caftro , Triftáo de 
Soufa, filho doGovernador Martim AiFon- 
fo de Soufa , Fernao de Miranda de Aze* 
vedo , filho de Antonio de Miranda , que 
foi Capitáo mór do mar da India no tempe 
das diíFeren9as de Pero Mafcarenhas com 
Lopo Vaz de Sampaio , D. Pedro de Caftio ,• 
filho de D. Diogo de Caftro, Alcaide mór 
de Evora , Joáo Lopes Leitao , Manoel de 
Mendaoha, AfiPonfo Pereira de Lacerda , GU 
de Goes, Martim Affbnfo de Soufa ^ Pera 
^ Mendoza , a quem chamavam Larim y 

por 



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304 ASIA.'DE DiOGÓ DE COUTO 

por' fer muico magro , íilho de Trifiáo de 
Mendb^a, BaAlao de Rezende, filbo natu* 
ral de García deRezende^ o que fez aChro- 
«ica de ElRey D. Joáo o II. Antonio Fer- 
rao cafado com huma íiiha baítarda de Ñu- 
ño da Cuniía , Agoílinho Nunes , íUho de 
Leonardo Nunes, Fyfico mor de ElRey D. 
Joiojf Bartholomeu Chanoca , Secre^río do 
Eftado , Vicente Carvalho , Fraocifco da Cu- 
nha , Luiz de Aguiar, PoUinario de Val- 
darrama , Eftribeiro do Vilo-Rey , que le- 
Vvava os feus cavallos, Mancel da Silveira, 
Andfé de Villalobos, Antonio Nunes deCa- 
nanor, Cluiftováo de Faria , Pero Semxe- 
ijios , Duárte Ferreira , Diogo Madeira , Je^ 
tonymo de Magalháes, e outros muitos, a 
quem nao achámos os nomes. 
• E feguindo o Vifo-Rey fuá viagem coin 
toda efta frota , fendo tanto avante como 
os Ilheos de Onor , Ihe deo hum tempo da 
banda do Suduefte tío rijo , que foi forja- 
do a toda a Armada virar- Ihe as pqppas; 
ecommuito tradalho foram ferrar os Uneos 
de Angediva , oDde fe detiveram quatro, 
cu finco días , até cellar o vento , que tor* 
mram: a íeu caminho , e em poneos dias 
chegdram a Cochim , onde o Vifo*Rey en- 
trón pera dar ordem a muitas coufas , e a 
Cidade Jhe fez hum muito grande recehi- 
^lento^ oías nao quiz tomar caías ^ ena.fua 



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c Dbc VIL Liv. IX. Chf.h 30f 

galé eíleve deípachando inuitos negocios , e 
defpedio Fernao Gomes Cordovil pera ir á 
povoa^áo de S« Thom^ , e fazer paílar aquel- 
Jes moradores pera Jafanapatáo , a quem eP* 
creveo carcas muito honradas , em que os 
perfuadia aiíTo; porque nem ao crédito Por- 
tuguez j nem a elles Ihes convinha íicareai 
naquella po\roacáo , oíFerecidos ásaflrontas^ 
e injurias, que cada vez que os Cañarás quir 
zeíTem , ihes poderiam fazer. E que o Rey- 
no de Jafanapatáo era de muitos y e hon$ 
porros y onde poderiam ter por mar íeus tra- 
tos , e mercadorias ; e que a térra era mul- 
to fértil y e abaílada de tudo i e que elle par- 
tiría com todos de fei^áo , que íicaíTem vi^ 
vendo nella mais abañados , e com menos 
fobrefaltos ; e qye eftiveílem preñes pera 
quando Ihes elle mandaíTe embarca^ÓQs pera 
le paíTarem nellas. E ordenou íicar Bafliáo 
deSá na coda do Malavar com a fuá galé, 
e (eis navios mais , de que eram Capitáes 
Luiz Freiré de Andrade , que foi CapitSo 
de Chaul, naquelle memoravel, e admira- 
vel cerco , que Ihe poz o Nizamoxá , fendo 
Vifo-Rey da India D, Luiz deTaíde; Go- 
mes Eannes de Freitas, Gonjalo Lopes de 
-Carvalho, Luiz Ta vares deCarvalho, Do- 
mingos de Coimbra , e Diego Lourenfo. 

Dada ordem a todas as coufas , fe fahio 
o Vifo-Rey pera fóra , e em fuá companhia 
jQg&o.TomdF.P.il. V o 



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3o6 Asia de Diogo de Couto 

ó Bifpo deCochim D. Jorge Themudo etn 
huma galeota , que o quiz acompanhar na- 
quella jornada 9 poi* íer da fuá jurdÍ9áo aquel- 
la Ilha , e ímto , ou feis navios mais , que 
fe armáram naqu^lla Cidade. Com toda ef» 
(a Armada paflbu o Cabo Comorim , e foi 
até os baixos de Chilao i e pelos nao po* 
derem paíTar as gales , as defpedio pera Co- 
thim, entregues a Vicente Correa , Patráo 
mor da India , e o Vifo-Rey fe paíTou á 
galeota de Inofre do Sovéral , e os Cápitaes 
das outras gales a outros navios de remo , 
t fó Ayres Falcáo foi paíTando na fuá ga- 
leota ; e indo todos no meio dos baixos, 
fó elle encaihou nelles á vela; e dando-lhé 
hura mar por poppa mui grande , que vi- 
nha ehcapellando , a tornou á alevaiitar , e 
com aquella furia os paíTou da outra baíida 
fem perigar, e dalli foi com toda a Arma- 
da furgir íbbre JafanapatSo. 



CA- 



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, D£CAD4 Vn. LlV. IX. 307 

^C A P IT Ü LO 11. 

Do confelho que o Vifo-Rey D. Conjlantin^ 

teve fobre q modo da defembarcacao : e 

de como fahio em terr^ > e ganhou a 

Cidade : e das coufas , que na entrá-^ 

da della pajjáram. 

SUrto ó Vifo-Rey Ibbre a Cidade deja- 
fanapatáo > fe deteve dous dias em tornar 
confelho no modo que fe teria na defem- 
barca^ao » fobre o que houve antre os Ca?- 
pitáes diferentes pareceres, ,e todos votáram 
confornie as informacdes , que tinham toma- 
ndo de honiens que fabiam a térra c que aífir- 
}» mavam nao ter a Cidade oíais que duas 
> partes por onde fe podia defembarcar* 
3» A primeíra., emais commua, que fe ch^ 
31 ma o caes dos Elefantes , que fica na eiv 
^ trada da Cidade, aífim como eílá o caes 
3 da pedrar em Lisboa , ou .0 caes , da Air 
}) fandega em Goa , que aquelle Rey tinh^ 
^ muí tortííicada com tranquearas , e ajtilhe- 
» ría. A outra era dalii a meia legua aíFaf* 
31 rada da Cidade , que ainda que fofle de 
ji mor trabalho , que feria de menos rífcp , 
ik porque nao fe receava della aciuelle Rey. ü 
Por efta parte vocáram os mais do confe- 
lho, que fe havla de defembarcan 

Auentado.epifer por efta pSfte^ 4ep 9 
Vii Vi- 



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^308 ASIA DE DioGo dé Couto 

Vifo-Rey ordem á defembarca^ao , e fez 
alardo de toda a gente, e nao achou mais 
tjue mil e duzentos homens , recebendo fol- 
do em Goa mais de guarro mil , (por fer cot 
turne , quando os Viío-Reys fe embarcavatn , 

?agarem geralmente a todos até, os Officiaes 
órtuguezes , e cafados, e embarcarem-fe 
os que quizeíTem ; porque com ella largue- 
ra, e liberalidade íe engrandeceo, efullen- 
tou fempre eAe Eftado.) De toda eíla gente 
fez o Vifo-Rey D, Conftantino lineo ban- 
deiras de duzentos homens cada huma , de 
<]ue fez Capitáes Luiz de Mello da Silva , 
a que tinha dado a dianteira daquella jor- 
nada , D. Antonio de Noronha o Catarraz , 
Martim AfFonfo de Miranda , Gonjaló Fai- 
cáo, eFernao de Soufa de Callello-branco , 
c o Vifo-Rey ficou pera ir na reta-guarda 
com a bandeira de Cnriílo , com todos os 
Fidalgos aventureiros , e gente da fuá <or« 
dinaria , que fazia hum muito arrezoado 
^orpo. ^ 

Portó tudo em ordem , mandou o Vifo- 
Key armar hum Altar em humallheta, que 
alli eílava , em que fe dilTe huma mui de- 
vota Mifla a noffa Senhora , em que elle , 
e a mor parte dos Fidalgos , ^e gente da Ar^ 
máda commungáram com muita devo^áo, 
e oBifpo deCochim osabfoiveo geralmen- 
te^ e Gonce(}eo os grandes ,^ plenarios ju« 
-ir i bi- 



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Dec. vil Liv. IX. Cai>. II. 309 

büeos , qoe os Summos Pontifíces paíTáram 
á infancia deEIRey D. Manoel f^ra todo^ 
os que na India fofleni mortos na guerra , pe- 
lejando pela Fé de Chrifto. * Acabado ?fte 
fanto , e divino adío , jantáram , e das duas 
horas por diante commettéram'a defembar- 
cajáo; e aopór dos pés em térra,, Ihes veio 
o Principe herdeiro doReyno darvifta cora 
dous mil homens , e elle le conheceo diante 
com hum efcudo todo branco , fazendo fuas 
algazaras , e roncas , cotno homens , que fe 
punháo em fom de defender a defembarca- 
$áo. Mas em os navios pondo as proas era 
térra , os varejáram com os falcóes de fei- 
5ao , que largáram .0 campo , e fe foram re- 
col hendo pera os matos , fem apparecer mais 
hum fó , e os noíTos tiveram tempo de fe 
pórem em térra muito á fuá vontade ; e o 
primeiro Capitáo , que faltou nella , foi Gon- 
jalo Falcáo , por huma defconfianyíi com que 
ficou de certas palavras , que no confelho te- 
ve com o Vifo'Rey fobre a defembarcagáo. 
Poftos todos os noflbs em térra , orde- 
náram fiias bandeiras, e diante de todas íjb 
alevantou no ar a de Chrifto crucificado, 
que hum Padre de S. Domingos levava era 
huma comprida haftea , pera que foíTe vifta 
de todos os que á fombra della haviam de 
.pelejar, e alli foi adorado de todos, e ac- 
clamadp com geraes vozes. Logo comegou 

Luiz 



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JIO ASIA DE DiOGO DE CoUtO 

Luiz de Mello da Silva , que tinha a dian- 
teird , á marchar pera a Cidade , guiado da 
gente que íabia o caminho y e logo após elle 
D. Antonio de Noronha o Catarfaz , que 
íe foi defviando y e atraveíTando huns ma- 
tos ; de maneira y que quando tornou a fahir 
ao campo , fe achou diante de Luiz de Mello 
da Silva ; e parando , Ihe mandou dizer « que 

> paflaíTe avante , porque elle fe hia deten* 

> do pera o acompanhar: » e aílim foram 
até haver vifla da Cidade , que tinha pera 
aquella parte huma íormofa rúa , e no meio 
della eftavam duas pe^as de artilheria groí^ 
fas 9 cübertas com folhas de palmeira pera 
os ndíTos as nao verem. 

E commettendo Luiz de Mello da Silva 
a tua , Ihe diíTe Di Fernando de Menczes o 
Narigáo (que hia diante) « que vifle como 
n hia y poique aquillo que apparecia , era ar- 

> tilheha. » E aínda nao tinha acabado de 
o dizer , quaildb fe defparou huma das pe- 
jas : é quiz noíTo Senhor que fobrelevaííe , 
porque Ihe puzeram o ponto alto , e foi paf- 
lando por íima , fem fazer damno. Vendo 
Luiz de Mello da Silva aquillo , mandou 
dizer a todos que fe encoftaíTem ás cafas de 
íuma , e outra banda , que todas tinham 
grandes alpendres kñjados pera fóra, ede- 
baixo delles /eforam acolhendó, oque niú 
pode fer táo apreífado y que nao viefle pela 

rúa 



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Díc VII. Liv. IX. Ca?í II. 311 

jiia abaixo o outro pelouro com grande e^ 
trondo , e terrequoto ; e como vinha mais 
j-adeiro , tomou o Alferes da band^ira de 
Luíz de Mello da Silva (que era hum foáo 
Sardinha ) pelas pernas j e Ihas quebrou , 
cahindo logo allí morto ^ e de paíTagem 
levou outras duas peíloas , em que enirava 
hum Cañelhano ; e parece que alguma pe- 
quena de ferrqgem alcancou a L41ÍZ de 
Mello da Silva pela ma^a do rodo y que 
]he fez huma pequeña ferida , de que Ihe 
corria multo fangue pelas formofas , ecom- 
pridas barbas , que o fazla mais formofo, 
c geniil-bomem. Ao mefmo tempo qjue o 
Alferes cahio com a band^íra , acudió JoSo 
PeíToa, íilho de Antonio PeíToa , que hia allí 
perto , e alevantou logo a bandeira no ar , 
e comecou a marchar pela rúa adiante , até 
a por iobre as pegas da artilheria; e toda- 
vía primeiro veio o outro pelouro , que I9- 
vou quatro , ou ilnco homens da cotnpanhia 
de Ayres de Saldanha , que hia nefla de Lulz 
de Mello da Silva. 

Ganhada a artilheria, mandou Luiz de 
Mello da Silva recado ao Vifo-Rey, eelle 
paflbu adiante , rompendo por nuvens de 
trechas , e pelouros , de que alguQs íicáram 
efcalavradps. A D. Filippe de Menezes deo 
hum pelouro no nó da garganta ; e foi táo 
yenturofo, querefvelou, fem lliefazer mais 
I ' *d^- 



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311 ASIA DB DiOGO DE COUTO 

damno, que deíxar-lhe na cabera donó hl^> 
xna nodoa muiro vermelha , e formofa. 

O Principe dejafanapatáo acudió aquel- 
la rúa por onde os noflos hiam , e teve com 
elles huma briga , que durou pouco , porque 
ás lanzadas o foram levando até o cabo da 
Tua, efemetteo por oucra, que vinha fahir 
aquella , por onde tomou Gonzalo Falcáo 
com a fuá bandeira , e deo com a gente do 
Principe , com quem teve huma arrezoada 
batalha , e com muito rifco ; porque de íi- 
xna dos telhados , e dos quintaes das cafas 
íréchavam os noflos á fuá vontade. 

O Vifo-Rey vinha ja entrando a rúa gran- 
de em fima de hum formofo cavallo á eftar- 
diota, armado de boal^ armas, com oguiao 
de Chrifto diante , e cercado de muitos Fi- 
dalgos , e Cavalleiros ; e chegando-lhe no- 
vas que Gonjalo Falcáo eftava em áperto, 
diíTe áquelles Fidalgos , e Capitáes que o 
foccorreflem , e foi a tempo que chegava a 
elle D. Antonio de Noronha o Catarraz com 
fuá bandeira ; e ouvindo , Ihe diíTe : Eu , Se- 
nhor, bafto pera iflb ; e virando , foi pela rúa 
adiante, até chegar á parte, onde Gonjalo 
Falcao eftava apertado , e com fuá chegada 
fe largou logo a rúa , onde eftava huma pe- 
^a de artilheria , que os noflos viráram pela 
rúa abaixo, quehia pera o caes dos Elefan- 
tes , onde eftava ElKcy com todo o poder ; 

e 



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' Dec vil Liv. IX. CAP. n. 313 

edando-Ihe fogo, foifazer antreelles gran» 
de deftruijáo. 

ElRey vendo as coufas tao mal paradas , 
e que a Cidade eítava entrada dos noflbs , 
fe foi recolhendo com todo o poder pera 
os feus Pafps (que era huma fortaleza arre- 
zoada) com ten^áo de íe defender nella. 
Luiz de Mello da Silva foi entrando por 
huma rúa muito larga , que hia ter ao ter- 
reiro dos Pa^os , e no cabo della fe deteve , 
e mandou recado ao Vifo-Rev pera fabcr 
o que queria que fizeíTe , e elle fe abalou 
aílim a cavallo , até chcgar a Luiz de Mello 
da Silva, a quem diíTe palavras muito hon- 
radas. E por fer já ¡(lo ¿obre a tarde , aíTen* 
tou com os Capitaes , que paíTalTem alli 
aquella noite, e que ao outro día commet- 
terlam as cafas deElRey, onde jáfabia que 
ellava fortificado. E logo ordenou o modo 
que fe teña na guarda da rúa, e da noite, 
e repartió as rúas , que hiam fahir ao ter- 
reiro , pelos Capitaes das bandeiras , pera 
ñas bocas deltas fe fortificarem , como co- 
me^ram a fazer , derribando pera iíTo algu- 
xnas cafas ; e todas as mais , que havia por 
aquellas rúas, que eram cubertas de palha, 
as mandáram defcubrir , porque os inimigos 
Ihes nao puzeflem o fbgo pelos nao emba- 
razar. O Vifo-Rey ficou na boca da rúa 
grande fobre hum baileo | onde Ihe lanpl- 



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314 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

rain huma alcatifa com algumas almofada^ 
em que paflbu toda a noite armado , e daiU 
defpedio hum Capitáo á Armada pera Ihe 
trazerem mantimentos , e muni^Óes; o que 
fe fez commuita preiTa, fem acharem quem 
Iho eftorvaíTe. Allí paíTáram os noíTos toda 
a noite com grande vigia , e com as armas 
fempre ñas máos , e o Vií<>Rey lan^ou al- 
gumas efpias fóra pera faber o que EIRey 
razia , e fe bullía comfigo. 

O Principe nao fe quiz recolher com o 
pal na fortaleza , antes íicou de fóra com 
toda lúa gente ; e tanto que vio os noíTos 
fortificados ñas bocas das rúas, determinou 
logo delhes dar pelas coilas noquarto dan* 
te alva , pera o que lan^ou tambem aJgumas 
efpias , pera verem o modo de como os nof- 
fos eftavam. E defias , íiuma dellas foí pera 
huma rúa , onde D. Antonio de Nororíha eí^ 
tava com fuá companhia , e de íongo das 
paredes multo encubertameníe fe foi alegan- 
do pera as eftancias ; e quiz Déos que an- 
daíTe vigiando na mefma rúa , paíTeando affaf- 
tado da gente , hum foldado , que fe chama- 
va Francifco da Cofta , (que ainda hoje vive > 
cafado nefta Cidade de Goa , rico , e hon^^ 
rado , ) e acertou de enxergar huma peífoa; 
e indo-fe chegando pera ella , a efpia que o 
vio y pera mor dillímulafáo , fe poz em c<S- 
caras ^ como que fazia A^as ne^eíHdade^^ 

pei 



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Dkc. vil Liv. IX. Cap. U. 315' 

pera que cuidaíTe na feguranja com que e& 
tava y que era mogo da coinpanhia. E che* 
gando Prancifco da Cofta a elle , Ihe per- 
guntou quem era , e aínda Ibe lan^ou a máo 
a hum bra^o ; ao que o negro quiz efcapu« 
lir, mas nao pode, porque o Francifco da 
Coila fe liou logo com elle , e nos^ imifos 
o levou a D*. Antonio de Nofohh^ , e Ihe 
deo conta do eftado em que o adiara ; e 
elle ihe dlíTe, que o levaíTe ao Vifo-Rey, 
pois o tomara , pera que elle Iho agrade* 
cefle ; e aíHm o fez, O Vifo-Rey o mandou 
amarrar, epór a tratos, e no primeiro con- 
feflbu « que o Principe mandara por elle 
5> efpiar o modo de como eftava , porque 
^ determina va de dar -nelle no quarto danta 
» alva , que tinha lanzadas outras oito , ou 
> dez efpias , e que ÉlRey eftava forre nos 
y^ feus Pagos, e que o Príncipe eftava com 
» dous , ou tres mil homens efperando reca- 
ní do das efpias pera dar nos noflbs. » 

O Vifo-Rey depois de íer informado 
do que quiz , mandou avifar todos os Ca- 
pitaes , pera que eftiveflem prefles , e nao 
houveífe defcuido. Com o que todos fe pu- 
zeram em pé , e com as armas ñas m^os^ 
aguardando a hora , e aflim eftiveram até 
amanhecer femhaver rebate algum; porque 
parece que ao recolher das eípias , que o 
Principe tinha lanado fóra^ faltou efta ; c 

ima- 



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^i6 ASIA DE DioGo DE Corro 

imaginando qae poderla fer tomada , e que 
os noflbs eftariam fobre avifo , definió da 
üja determinadlo , e foi-fe pera ElRey , que 
com as novas , que Ihe elle deo « aíTentou 
de nao efperar alli o Vifo-Rey. E mandan- 
do tirar dalli com multa preíla ascoufas de 
mor importancia , tanto que o quarto dalva 
entrou , deo fogo aos Payos , e fe foi reco- 
Ihendo pera huma fortaleza ^ que eftava dalli 
legua e meia , toda de adobes , com feus 
baluartes , e cubellos y muí bem felta , e arre- 
zoadamente forte. 

O Vifo-Rey vendo aquelle fogo, logo 
Ihe pareceo o que podia fer y e nao quiz 
que fe bulllfle em coufa alguma até ama- 
nhecer de todo , que vio o incendio dos 
Pajjos, e logo teve avifo de tudo oque era 
paitado; e ordenando fuas bandeiras na for- 
ma em que até alli foram, foi entrando a 
Cidade , que era grande , e a acliáram des- 
pejada , porque íeus moradores fe recolhé- 
ram ás aldeas vizinhas , e aílim ficáram os 
noflbs fenhores della, e do caes dosEkfaii- 
tes , onde eílava a mor parte da fuá artilhe- 
ría , e de algumas coufas , que os foldados 
aínda acháram. E de hum feu principal Pa- 
gode Jeváram ao Vifo-Rey hura dente en- 
cafloado , a quecommummente chamavam de 
bugio , que era havido antfe aquelles Gen- 
tíos todos pela mais religlofa coufa de (o^ 

4a9 



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Dec vil Liv. IX. Cap. II. 317 

das as de fuá adora^áo; do que oVifo^Rejr 
foi logo avifado , e Ihe aíSrmáram que era 
o mor tliefouro que podía haver , porque 
Ihe haviam de dar por elle grande fomma 
de ouro. 

Haviam aquelles Gentíos que aquelle den- 
te era do feu Budao , (que he aquelle fea 
grande Santo , de que já demos conta ñas 
entras Decadas , quando fallamos na pegada 
do pico de Adáo , e na povoagáo da Cida- 
de de Pegii. ) Efte Budáo tem elles em íua 
lenda , que dcpoís que fe foi de Ceiláo an- 
dou pelas partes de regúj e por todos aquel- 
Íes Reynos , convertendo Gentíos , e fazen- 
do mííagres ; e que quando quíz morrer, 
arrancou da boca aquelle dente , e o man- 
dou a Ceiláo por muí grande reliquia fua« 
E aínm era havida por tao grande antre el<- 
les, e antre toda a gentilidade dos Reinos 
de Pegü, que nao havia couia , que íobre 
todas mais eftimaíTem ; e tanto , que achan- 
do-fe El Rey D. Joáo da Cota cm neccífida- 
de, fingió hum dente falfo, eoengaftou em 
ouro y e Ihe mandou fazer huma charola 
muito cuftofa em que o mettco y e o mandou 
muito efcondido dos Portuguezes a ElRey 
de Pegú , que o recebeo com as mores fet 
tas , que fe podem imaginar , de que adían* 
te com o favor Divino na VIH. Decada 
ilaremos mais Jarga rel^^ao.^ e aquelle Rey 

Ihe 



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3l8 ASIA DE DlOQt) DE COVTO 

Ibe mandou huma formóla nao carregada 
de mandmentos , e de outras coufas de pre* 
fente com a nao , e tudo o que nella vinha : 
e aílim affirmáram ao Vifo^Rey que aquella 
Rey Ihe daría por aquelle dente hum the- 
fouro grande. 

CAPITULO III. 

Be como oVifo'Rjty D. Conjlantino foi con^ 
tra a fortaleza , onde ElRey ejlava , e 
a achou defpejada , e mandou alguns Ca- 
pitaes em feguimento de ElRey : e do eX" 
tremo em que o puzeram , até chegar a 
commetter partidos. 

VEndo-fe o Vifo-Rey D. Conftantino 
fenhor da Cidade , e fabendo por ct 
pias que ElRev fe tinha acolhido a huma 
fortaleza dalli legua e meia , determinou de 
ir fobre elle , e primeiro deo ordem a al- 
gumas ccufas. E antre ellas foi mandar, ás 
aldeas vizinhas feguros reaes , e lanjar pre* 
góes , pera que os nattiraes Ihe levaíTem os 
mantimentos que tíveíTem , que Ihos pagaría 
jnuito bem \ e que os moradores da Cidade 
fe vieíTem morar em fuas cafas , ^ Ihes fa- 
riam todos os favores y e ^dariam tod^s as 
libcrdades que quizeíTem ; cóm o que come- 
jfáram a vir , e os Aldeaos a trázer gallinhas , 
frangáos^ manídga^ figos ^ e outras coufas 

muir 



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Dec. VIL Liv. IX. Cap. III. 319 

muirás em grande abundancia. E pocque fal- 
tava arroz , defpedio logo huma embarcado 
com cartas pera Joáo Fernandes Correa ^ 
Capitáo de Negapatáo , eoi que Ihe rogava 
que o foccorreíTe com todo o arroz que pu- 
¿effc : e deo ordem pera fe ajuntarem todas 
as embarca^Óes que havia na térra , e por 
aquella coda , que foi huma mui grande fom- 
ma , e as maildou a S. Thonié pera fe em- 
barcarem nellas os moradores daquella po- 
voa^áo , a quem de novo efcreveo cartas 
muito honradas, em que Ihes pedia, e ro* 
gava fe paflaílem pera aquelle Reyno, on- 
de viveriam fartos , ricos , e fem fobrefaltos ^ 
como lá tinham cada dia ; e que com todos 
partirla as térras ; e aldeas , que eram multo 
profperas, e abundantes as que Ihes quería 
entregar. 

Defpachadas eftas coufas , e outras , traf , 
tou o Vifo-Rey de ir em peflba contra aquel*- 
le Rey , e de o acabar de deñruir de todo 
pera mais feguran^a daquellas térras ; porqué 
era táo máo , e cruel , que á porta dos í'eus 
Pa^os acháram os noÁbs hum cepo mui fa*- 
^anhofo , em que mandava cada dia degollar 
muiros dos-feus vaíTallos: epera ofazer nao 
eram neceflarios muitos proceíTos , nem pro- 
vas de crimes , porque baítava pera iíTo hum 
muito pequeño mexericó,e aínda humafuf- 
peira ^ imaginado ^ ou fonho. Depois de ter 

pref- 



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gao ASIA de Dioqo de Couto 

preftes todas ascoufas, que ihe eram neceír 
jarías pera a jornada , deixou alguns Capí- 
taes de navios em guarda da Cidade , e do 
Bifpo de Cochim , que allí íicou com o CuP* 
todío de S. Francifco, e alguns Religíoíos 
de fuá Ordem, que coni acuelle zelo., que 

, fempre civeram pera as coulas de no(Ta Re^ 
ligiao , e augmento de noíTa Santa Fé Ca-t 
tholica , comegáram a converter alguns na« 
turaes , e bautizar com grande amor , e ca« 
ridade. O Vifo-Rey foi marchando pera a 
fortaleza na méfma ordem.com que entrón 
na Cidade , levando Luiz de Mello da Silva 
^ dianteira , e no meló toda a bagagem , e 
artilheria, com que fe havia debater afor-^ 
taleza i e chegando á vida della y Ihe fahí- 
ram as efpias, que tinha lanzado diante, que 
IhediíTeram, que aquella hora fe partirá El- 

^Rey dalli, porque nao oufava aocfperar, e 
que a fortaleza eAava defpejada. 

Com efte alvorojo entrou o Vifo-Rey 
D* Conftantino na fortaleza com grandes fet 
tas, e falvas de arcabuzaria, emandou arr* 
yorár a bandeira das armas . de Portugal 
fobre ásamelas, tomando paci6camente poi^ 
fe della, .como. já o Duque D. Gemes feu 
pai íizera . á fannofa Cidade de Azamor em 
África,. Aquello dia feapofeniou na fortale- 
za; e ao outro otdenou por confelho gerai 
que'feXeguiíFeElRey:, poishia desbaratado, 

alé" 



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Dec. vil Liv. IX, Cap. IIL 311 

até o haverem ás míos , e que fodkm a iíTo 
quatro Capitles , Luiz de Mello da Silva , 
Marcim AíFonfo de Miranda , Gonzalo Fal<» 
cao, eFernáo de Soufa de Caftella^ranco. 
E porque fobre o mando , e governo come* 
90U antre elleá baVerdu vidas, e difFeren^as , 
Jhesentrcgou oViío-Rcy tres dados, clhes 
mandou, que corda dia lan^aíTem fortes ; e 
ao que Ihc cahiíTe maior , eíTe governaíTe 
eíTe dia , com o que fe aquietáram , levando 
aquelle primeiro Luiz de Mello da Silva a 
dianteira, e o governo fem forte, poraíliiti 
o coníentircm todos» 

Aílim foram caminhando , guiados de 
algumas efpias, que os foram defviando do 
caminho , que ElRey levava , de pura ma- 
licia i e de volta em volta Ihes fizeram ga& 
tar tres dias , até chegarem a hum río , que 
divide as térras dejatanapatáo das do Reyu- 
no de Trinquínimalle , que feria caminho 
de oito leguas da fortaleza. Allí acháram 
novaá fer ElRey paíTado i outra banda, o 
que eiles tambem fízeram logo , e da outra 
parte acháram perto de quarenta homens dcP» 
cabe^ados, que pareciam Chingallas mortos 
daquelle dia, porque parece que hia ElRey 
perto , e nao fe foube o que aquillo feria ; 
mas como era cruel , e máo, prefumio*íe 
que tomaría deÜQs alguma fufpeita , e por 
iflb mandaria fazer neiles aquella carnipria. 
Couto.Tomjr.P.fL X ^ 



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32-2 ASÍA DE DiOGO DE CoiTtO 

<E ^a outra banda do rio deram em hum 
caitiwho largo , por onde marcháram até 
dafem em curros edreitoá , que acháram en- 
tupidos <bm grandes arvores , que os inimir 
.gos foram cortando; de huma , e outra par- 
te pera entreterem os noflbs , e. por olles 
jpaíTáram -com grande trabalho. E tanto que 
anoitecia , aíTentavam o íéu arraíal na par- 
te que Ihes melhor parecía , onde paíTavam 
toda anoitc com grandes vigías, Defta ma- 
neira cajminháram lineo días , achando por 
tcdo^fiquelle caminho niuitas aldeas , onde 
compravam vacas, leite, gallinbas ^ e ou- 
tras coufas. 

No cabp deítes dias a horas de jantar 
houveram vifta duarraial deElRey , queef- 
tava no cabo de humas varzeas » com as cof- 
ias em ^hum grande , e efpeiTo mato ; e táo 
de fupito o tomáraní , que nao teve mais 
lempo que de fe por em hum Elefante , 9 
camiobar , e após elle todos os feus , d&ixarí- 
do no lugar onde «ftavam as panellais com 
.0 comer ao fogo. Os, noíTos Capitaes, que 
Iiiim com aquelle dcfejo de fe encontrarem 
-C)m elle^ tanto que víram o arraiál , cui- 
«dando queElRey os efperaíTe, o foram d^ 
mandar poílos em ordem de batalha ; e che- 
.gando áquelle lugar , acharara tudo o que 
^lies tinbam pera jantar , e o arroz aínda 
quente ^ <iub >os noíTps eftimáram muíto. 

. E 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. III. 31J 

E porque era o Sol grande, repoufáram 
aili , e delcan9áram do crabalho do cany^ 
tiho \ e tomando confellio fobre o que fa- 
riam, aíTentáram, que fe fortificaHem muito 
bem allí , e fe deitaíTem ficar , e mandaifem 
recado ao Vifo-Rey de tudo o que paíTava , 
e que jo que eile determinafle , fe faria , por* 
que allí fícavam feguros , e pelas aldeas que 
eflavam perto havia vacas , e outras coufas , 
de que fe poderiam fuftentar até o Vifo-Rey 
os prover. E alfím o íizeram , defpedindo 
logo o iecado apreíTadc , que tamo que o 
Vifo*Re7 o teve, logo mandou por todos 
os nvarínlieiros da Armada multo arro2| nm« 
ni96es , e outras: coufas , e Ihes efcreveo que 
fedeixaflem alii eílar até feu recado, eelles 
aíEm o fizeram; 

Vendo-fe aqueUe Rey com o Reyno per- 
4ido, e elle perfeguido dos noflbs , até o 
lan^arem fóra das fuas rerras-, houyc. pof 
xnelhor confelho mandar pedir pazes aoVi* 
ib-Rey , e conceder-Jhe o que pedifle , antes 
que perder tudo, e affim defpedio feusEm<* 
baixadores logo , que o Vifo-Rey ouvio } e 
vindos a concerros , aíFentáram-íe as pazes 
com 9s condi^óes , e apontamentos feguintes« 

a Que elle Rey ficaffe no feu Reyno cor 

n mo dantes , e Jurafíe a feu modo va(lalla« 

» gcm a ElRey de Portugal , com certas 

31 pareas ^ de que nao acháaios iembranya ^ 

X ü » q 



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3x4 ASIA bE DioQo de CouTb 

» e que Ihe entregarla logo todo o thefou* 
» ro que lomou a Tribulli Pandar , e íua 
» ñora mulher de ElRey da Cota ; e que 
n em refens de cumprir iílo , entregaría o 
» Principe herdeiro. » Aflentados , e aílina* 
dos os concertos , en^regou logo o Princi- 
pe , que o Vifo-Rey niandou pera a Arma- 
da abom recado. Émquanto ifto fetratou^ 
que foram mais de quinze dias , paíTáram os 
DOÍTos Capitáes , que ''foram no alcance de 
ElRey > tamanhas fomes , e neceílidades , 
por ié liles ter gañido o arroz que Uies man- 
dáram, e deípovoado as aldeas com medo, 
que foi neceíTario aos Capitáes efpal harem 
os Toldados em magotes pera irem pelas al- 
deas bufc^r algumas couias pera comerem ; 
e aílim da fome , como do tr^ibalho adoe«> 
céram a mor parte delles , e nao efcapárara 
a eíles trabaliios os que íicáram na Cidade, 
»em os d4 companhia do Vifo*Rcy , que 
niílb. proveo q mqlhor que pode , e mandou 
íecoiher todos os^ enfermosL na fortaleza , 
onde morréram muitos, e os mais convale- 
céraoi muito devagar , por Ihes. íaltarem os 
remedios. *s 

Entregue . o Vifo-Rey . do Principe , fe 
pafibu pera o rio no cabo das térras , e man- 
dón recolher os Capitáes , que eílavam da 
putra parte , e elle fe deteve alH mais de 
quinze dias ^ em que Ihe foram fazcsdo a 
* ■ en- 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. III. 325: 

entrega das coufas , que por contrato de pa- 
ses prometiera aquelle Rey^ que poderiam 
montar perto de oitenta mil cruzados; ea& 
ñm entregou algumas olas , em que eííavam 
podas lembran^as das partes , em aiie na Co» 
fa tinha enterrados os thefouros ae TribuIIi 
pandar. Nefte tempo foi ter com o Vifo- 
Rey Joáo Fernandas Correa , Capitáo de 
Negapatáo , que depois que lá teve as car- 
tas do Vifo-Rey , Ihe mandou logo multas 
embarcagóes carregadas de arroz , de que a 
Armada fe proveo , e após iño partió elle 
em alguns navios pera fe adiar naquella jor- 
nada , que o Vifo-Rey recebeo bem, e Ihe 
fez honras, e mercés. 

Quafi no mefmo lempo chegáram tres 
moradores da povoacSo de S. Thomé dos 
mais honrados , e anrigos com a refpofta das 
cartas, que Ihes o Vifo-Rey efcrcveo fobre 
a mudanga pera c Reyno de Jafanapatao , 
J)or quem Ihemandavam todos grandes def- 
culpas de nao fazerem o que Ibes mandava 
pedir ; porque quando tratáram últimamente 
de fe embarcárem, foi muito duro a todos 
de deixar fuas cafas , horras , ch^os , e quin- 
tas, que foram de íeus antepalíados , e que 
elles tjnham grangeado de tantos anoos a 
efta parte : « E que tambem nao era jufto 
» fe defpovoafle aquella térra , onde eftava 
>.o corpo da Bemavénturado: ApQÍloIo'.S. 

> Tho- 



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326 ASIA OE DióGÓ i5e Couto 

> Thomé , que cada dia refplandecia com 

> miiagres novos , com o que ellas viviatn 
]i comentes, é confolados, pedindo-ihe dií^ 
]i fo grandes perdóes. % E como o Vifo-Rey 
eílava já avifado detudo por cartas de Fer- 
nao Gomes Cordovil , nao quiz ver , nem 
fallar a enes homens , e no cabo de muitos 
días os defpachou maL 

CAPITULO IV. 

Do akvantamento que houve contra os nof- 

Jos em Jafanapatao : e do cerco que pu* 

zeram á fortaleza : e de como o J^ifo-Rey 

efcápou da conjura (ao , e fe rccolheo por 

mar d Armada : e do foccorro que man" 

. dou d fortaleza y de que foi por Capitao 
mor D. Antonio de Ñorénha : € ao que 
Ihe acontece o na jornada. 

Estando as coufas nefle eftadd , efpefáñ- 
do o Vifo-Rey que acuelle Rey Ihe acá- 
bafle de fazer entrega dos tbefouros doTri- 
bullí Pandar, (porque pela informacáo que 
tinha , efperava de haver maís de trezentos 
thil cruzados , ) ordenáram os naturacs de 
todo oReyno huma conjurajSo geral contra 
os noíTos : é a caufa , nem o author deUa fe 
íbufae nunca ; mas foi defta maneira. Eftan- 
do todóá bem defcuidados , deram dé fupi- 
40 tm hum meímo dia > e tempo em todag 
; as 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. IV. 3:^7 

as partes em que osooíTos eftaTam> e todos 
os qu^ acháraxn forain metcidcs á cfpada^ 
fem perdoarem a alguni. O Bifpo D. Jorge 
Themudo , que eftava na Cidade , milagro-? 
famente efcapou de fer tomado ás odSos , e^ 
com grande trahalho, e rifco de fuá peíToa 
fe recolhco aos navios, ficando todayia allí 
alguns dos noflbs morros , ,e ñas aldeas vizi- 
nhas todos os que por hi acbiram, (fendO 
a mor parte Chrifiaos da térra rno^o» de 
Portuguezes, e compradores.) Osqueforam 
dar na fortaleza , e ñas aldeas-, ^ue por alli 
havia, acháram o Cuílodio de S. Francifco 
com alguns Rcligiofos companhciros y. que 
andavam fazendo Chiidáos , e todos foram 
mettidos á efpada , padecendo gloriofo mar- 
tyrio pelaFé deChriño noílo Senlior; por- 
que táo foíFrego andava o Bifpo nefla con- 
versáo , que nao confentia tocarem-lhe nos 
catecúmenos ; e fe rlguem Ihes fazia algum 
nojo, ou aggravo, pekjava , e agaftava-fe 
muito, dizendo quelIienaotocaíTem emfeu^ 
Anginhos ; o que Jhe elles pagiram táo mal^ 
que trabalháram muito pelo haverem ás n)áos. 
Depois que eftes conjurados deraní em 
todas as partes , e fizeram os dattijios que 
temos dito , ajuntáram-fe todos , e foram 
por cerco á fortaleza , onde já eítava Fernap: 
de Soufa de Caftello-branco , que o Vifor*. 
Rey D. Cooflaotúu) tinha oíaadado porC^r. 

pi- 



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328 ASIA DE DioGb DE Covro 

pitácKdelIa , que tatnbem foi docnte , e Ihe 
come^áram a dar muitos aíTalros. Os que fí- 
cáram pera dar jio Jugar , onde eftava o 
Vifo-Rey D. Conftantino , tiveram tal ardil , 
que Ihe lan^áram alguns negros , poucos diás 
antes que fe tiniíam feito domefticos , no feu 
arraiai; ecomo fabiam que era oVifo-Rey 
D. Conílantino aíTeí^oado i cafa , por ter 
alguns dias ido a ella ahi á roda, odia da 
conjuragáo geral Ihe fizeram crer que alli 
em hum mato perto eñavam alguns veados , 

£elo leyarem pera aquella parte , onde Jhe 
avia de arrcbentar a ciliada ; e como o 
Vifo-Rey era muito curiofo diño , foi-fe com 
poucos a bufcar os veados , onde andou a 
mor parte do dia , e fe recolheo fobre a tar- 
de, íem Ihe acontecer defaflre algum ; ede- 
poís que fouberam da conjurajiao geral , fe 
entendeo que efcapára o Vifo-Rey n<íq»iella 
ida que fez fóra , ou por nao o oufarem 
accommetter de niedo , ou pelas efpias er- 
járem o dia. Mas o mais ceno he , que Deoí 
ndíTo Se:nhor os cegou , e livrou o Vifo- 
Rey ; porque fe deram nelle , tudo fe per- 
derá j c nenhum dos noíTos efcapára , de 
quantos eftavam naquelle Reyno , como ram- 
bem nao efcapáram os tres moradores de 
S, Thomé, que atrás diflemos , que o Vi- 
fo-Rey D. Conftantino defpachou mal , e 
aquelle mefmo dia fe apartáram delle y e 

no 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. IV. 32^ 

no caiDinho £oram monos com toda fuá fa- 
milia. 

De tudo ifto eftava o Vifo*Rey bem des- 
cuidado, quando ao outro dia pela manhá 
foube a verdade , e certeza da defaventura 
fuccedida; e receando-fe deoutras traí^óes, 
defpedio os Capitaes das bandeiras pera fe 
irem de longo ao rio , caminho defviado do 
ordinario , e elle fe embarcou em algumas 
manchuas, quealli fempre rinha pera o fér- 
vido , por Ihe ficar dalli a ferventia da Ar- 
mada mais perto, porque naquella parte fe 
hia encolhendo a tena pera dentro, e fnzia 
buma enfeada , com o que ])ie ficava o mar 
cm menos diftancia que por térra. 

Edepois de chegar á Cidade, que fou- 
be o que era paflado , e como a fortaleza 
eílava cercada , ecm muito apeno , defpedio 
logo D. Antonio de Noronha o Catarraz 
com quatrocentos homens repartidos em ban- 
deiras , de que cram Capitaes Joáo Fernan- 
des Correa , Capitáo de Negapatáo , e An- 
dré de Villalobos pera irem foccorrer a for- 
taleza , dando-lhes por regimentó it que re- 
> colheflfem tudo o que neíla havia , e a def- 
9 pejaflem , porqueieaflentou emconfelho, 
» que já que os moradores de S. Thomé 
n nao queriam vir povoar aquella Cidade , 
9 que nao havia pera que fe penhoraflem em 
» coufa ^ que depois défle trabalho ao Eílado.» 

E 



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J3<> ASIA DE DiOGO DE COUTO 

E pera recolher tudo oque aa fortaleza 
eftava , levava D. Antonio de Noronha to- 
dos os marinbeiros , fervidores , e cfcravos 
da Armada, (porque havia na fortaleza oíais 
de duzentos doentes , que fe nao podiam re- 
colher por feus pesó É em quanto D» Aa- 
tonio de Noronha caminha , daremos conta 
dasconfas, que fuccedéram na fortaleza neí^ 
te tempo. 

Cercada ella por todos os aleyantados , 
determináram de a tomar á efcala vifta y por- 
que bem cntendéram que o Vifo-Rey a ha- 
via de mandar foccorrer ; e primeíro que o 
fizeíle , quizerara averiguar efte negocio , pe- 
ra o que ordenáram cicadas muí compridas 
de arequeiras; e em quanto asíaziam., che- 
fiáram alguns de noite á falla com os noí^ 
los , e Ihes difleram « que o Vifo-Rey era 
» morto com todos os que com elle efia- 
n vám , que por iffo nao efperaflem foccor- 
n ro , e que le entregaíTem , que Ihes dariatn 
n as vidas , fen^ que fcubeíTem oue a todos 
n haviam de efpedapir.^i De íima Ihes refpon* 
déram c que mentiam pera perros , caes , 
n que elles tinham já novas do Vifo-Rey, 
> (o que nao era , nem fabiam o que lá hia ,) 
» e que elles eram os que haviam de pagar 
)i aquelte atrevimento multo cedo, n E por* 
queeftes, que failáram cotn osnoíTos^ eram 
os que efiayam na obra das efcadas ^ que fe 

fa- 



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D«6. VIL Liv. IX. Cap. IV. ^^i 

faziam humpouco defviado donde oarraial 
«flava, ordenou Fernáo deSoufa huma noi- 
te feíTenta homens encarnizados pera fe co- 
fjhccerem huris aos outros , que no quarto 
dalva fahíram em muito lilencio ; e dando 
de fupito nelles , os cortáram á fuá vonta- 
de, com tanta prefteza , que primeiro elles 
fentíram a morte que os noíTos , e Ihes to- 
Ináram as efcadas, com que fe recoihéram 
a feu falvo. 

D. Antonio de Noronha , que os hia 
foccorrer , foi caminhando , levando a dian- 
reirá Joáo Fernandes Correa , e por todo o 
caminho foram pelejando com os inimigos ^ 
qué Ihe fahíram de embofcadas ; e levou tal 
ordem, que nao deixou defviar foldado al- 
gum, até haver vhla da fortaleza, (que foi 
ao outro dia que elles amanhecéram com a 
Vitoria das efcadas.) Os inimigos vendo o 
foccorro , fe aflpaftáram. Aquelle dia , e noi- 
te paíTou D. Antonio de Noronha em dar 
ordem -ao defpejo da fortaleza ñas coufas 
que fe haviam de levar, que eram muitas, 
pera conforme os fervidores que havia as 
haver de repartir, 

Ao outro dia pela manhá entregou os 
doenies aos marinheiros que pera iíFo efco* 
Iheo, e tirou fóra toda a artilheria que ha^ 
TÍa ^ tirando fomente huma pe^a de ferro 
grande^. que .nio íbi poiüvel lcvar*fe , que 

man* 



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332' ASIA DE D1O6O DÉ CCüTO 

mandoii encher de pólvora até bocd , a qud 
fe deo fogo v « porque nao arrebentou , a 
niandou lanzar em hum po^o fundo , por fe 
nao fervirem delJa os inimigos* E antre as 
coufas , que D. Antonio de Noronha achou 
na fortaleza , foi hum cftrado iraperial , que 
fervia áquellesRcys nasfuas mais folemnes 
feftas , que era de muitos dcgráos y e todos 
lavradosy e marchetados de marfim , e de 
táo cüftofa , e curiofa obra , que o tinha o 
Vifo-Rey mandado guardar a muito bom 
recado pera o trazer a ElRey D. Sebaftiaó 
pera o dia que tomaíle o Sceptro , por fer 
aíTenco imperial , e de muita mageftade, e 
como tal o encommendou muito a D. An- 
tonio de Noronha , que trabalhou tudo o 
que pode pelo trazer inteiro ; mas nao foi 
poíQvel , por fer huma máquina muito gran- 
de, E por trazer alguma coufa della pera 
final de fuá grandeza , mandou tirar o alto 
de fima, (que era o mais cuftofo, ) e oen- 
tregou a peífoas de confianza que o-tfouxe- 
ram. 

Repartidas cftas coufas pelos fervidores » 
comevjou D, Antonio de Noronha a marchar 
nefta ordem. Fernáo de Soufa de Caftello- 
branco na vanguarda com fuá bandeira , e 
D. Antonio de Noronha na reta-guarda , e 
nó meio toda a bagagem , e doentes , e mais 
atrás Joáo Ferhandes Correa , Capitáo de 

■ Ne.' 



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Dec. vil. Liv. XI. Ca?. IV. 333 

Niegapatáo , que foi com elle Ayres FaIcSo , 
e de fóra oOuvidor geral Henrique Jaques 
com hutna copia de efcravos pera ajudarem 
aos que canfalTem. AíTim foram caminhan- 
do , e os inunigos detrás ladrando , defpa- 
rando muirás bombas de fogo , e efpingap- 
dadas, e grandes almazcns de fréchas, nao 
deixando os noflbs o feu compaíTo , pofto 
que alguns Toldados trabalháram por pegar 
com elles. \ 

E atraveflando huma formofa varzea , por 
onde fempre o? inimigos os foram perfe- 
güindo, nocabodella, onde fcfaziam huns 
vallos , fe deixáram da outra banda ficar 
trinta, ouquarentafoldados amparados com 
elles : e como os inimigos viram paíTar a« 
bandeiras adisirlte na ordem que levavam y 
nao fe remendó dos vallos , foram após elies ; 
e chegando aos vallos , come^ando-os a pal* 
far , deram os embofcados nelles táo de fu- 
pito, que tem fe poderem revolver, matá- 
ram mais de íincocnta ; e acndindo Ayres 
Falcao , que hia detrás como manquejando , 
por ver ficar os noíTos , deo neües , e os 
acabou de por em desbarato , e dallí por 
diante nSo apparecéram maís, O Vifo-R^y 
recebeo muito bem D. Antonio de Noronha , 
e a todos os roais , e logo tratou de fe em* 
barcar, mandando lanzar ao Principe deja- 
£inapatáo/que^Aava em refeiur^ huns for- 

mo- 



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334 ASIA DE DioGO dk Cquto 

mofos grilh^s forrados de yeludo carme- 
fien , pera o ter mais feguro , e o deo em 
Ciiftodia a bum Capkáo de hum navio. 

C A P I T U L O V. 

Da Armada que efteanno de feffenta partió- 
do Rey no , de que era Capitao mér /)• Jor^ 
ge de Soufa : e do primeiro Arcebifpo , e 
ínquifidores que pajfáram á India : e do 
que aconte^eo ás ndos defta Armada na 
'üiagem : e de como o Fifi Rey D. Conf- 
tantino feí2^ huma fortaleza na liba de 
Manar , e Ji foi pera Cochim. 

ESt^ndo o Vifo'Rey últimamente pera 
fe embarcar, pornao ter já alü quefa- 
jzer , por a térra eftar alterada , víram da tér- 
ra vir duas naos myito formofas com todas 
as velas dadas , huma díame da outra , e lor 
go as víram amainar de romania , e furgi* 
rem , fem faber^m que n^Qs eram. E pri- 
meiro que tratemos deftas naos, (que eram 
doReyno,) daremos conta da Armada, que 
,cfte anno defeíTenra ElRey mgndou á In- 
dia , e das coufas em que mandou prover. 
iPelo que fe ha du faber, que feudo tempo 
de ElRey entrar em defpíicbo dis coufas da 
India, na entrada delle anno defeíTenta em 
.que andamos, deixou todas asmáis porea- 
t.ender.ueli^^e mandou dar mui^a prefla ás 



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Dec. vil Liv. IX* Cap. V. jjy 

naos , que havia de mandar , que eram feis ^ 
de que deo a Capitanía mor a D. Jorge de 
Souia , e defpachou o Árccbifpo , o Meftre 
D. Gaípar pera ir nellas , porque já o anno 
atrás paíTado deixára de fe embarcar por íal* 
ta de tempo , e aflim a dous Inquilidores 
Apoílulicos , que rínfaa ordenado irem á In* 
dia; porque por carras quetivera deftas par- 
tes fora avilado y que havia nellas muiros 
Chriílaos novos^ que judaizavam, etinham 
íynagogas feparadas , de quem Ihe manda* 
ram o anno atrá:- paflfado alguns dos prin- 
cipaes , com os ñutos de fuas culpas , por 
nao haver quem nella os fentencialTe ; e com 
iíTo havia outras muirás coufas contra a hon- 
ra de Déos , e bons coftumjes Ch ríñaos , a 
que era neceíTário acudir-íe com diligeiuria , 
porque nao foffem por diant^ , pera o que 
houve logo rcfcrito do Summo Pontificé pe- 
ra mandar a fanta Inquííi^ao n eitas partes ; 
eelegeo pera prímeiros Inquifidores Apofto- 
licos dous Letrados leigos , Cn non idas , cha- 
mados , hum Alerxo Dias* Falcao , outro 
Francífco Marques Botelho , e aífirñ pode- 
mos contar eíte anno antre osnotaveis, pqr 
nelle paíTarem a eftas partes o prin>oiroAr- 
Cebifpo, e Inquifidores , matidados por hum 
Rey táo Catholico, e táo zelofo da honra 
dé Déos noflb Senhor , e em tempo de hum 
Vifo-Rey táo bom Chridaoi-e^tao Cdmcnie 
a Déos. Dcf- 



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33^ ASIA DE DiOGO Dtf COVTO 

Defpachadas eftas coufas , e preftes af 
nios , por ibes faltar o teoipo pera fahirem 
pera fóra , o fizeram já em quinze de Abril , 
e as. naos eram edas. A nao Caftello , eoi 
que hia embarcado D. Jorge de Soufa Ca- 
pitao mor. A nao S« Vicente y de que era 
Capitáo Vafeo Lourenyo Je Barbuda , onde 
Xe embarcáram oArcebifpo, elnqutíidores, 
c alguns Fidalgos , em que cntráram D, Fran* 
cifco De^a , defpachado com a Capitanía 
de Malaca , e D. Pedro da Guerra feu irmáo. 
A nao Rainha , de que era Capitáo Jorge 
dje Macedo. O galeáo Drago , de que era 
Capitáo Louren^o de Carvalho. A nao & 
Paulo , que o anno paflado tinha arribado 
aoReyno, deque era Capitáo Ruy deMel* 
lo da Cámara ; e o galeáo Cedro , de que 
.era Capitáo Francifco Figueira de Azevedo^ 
Dadas as velas , foram todos feguindo fuá 
viagem ; e por acharem logo contrafles , ar- 
ribou a nao Cedro ao Reyno , e a nao S. 
Paulo foi invernar ao Brazil y onde já inver- 
nou outra vez y e as mais forara feguindo 
fuá viagem até patTarem o Cabo deBoaEf- 
peran^a já táo tarde , que Ihes fbi forjado 
tomarem a derrota por fóra da Ilha de S. 
Lourenyo , por onde tiveram trahalho , e 
Jbes morreo muita gente , e na entrada de 
Novembro foi a. nao Rainha ferrar Cochim. 
•£ o galeáo S« Vice&te cambeat paffou tiiia- 

tos 



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Dec. VII. Liv. IX. Cap. V. 337 

tos trabaIho5, e em quinze do fnefíno tnez 
foi haver vida da térra de Panane com mul- 
ta gente morta , e inuita falta de agua i e 
chegando-fe á térra , furgíram ; e negocian-- 
do o batel, o mandaran) aCochim com re« 
cado , c cartas do Arcebifpo pera ó Capitáo 
Henrique de Soufa Chichorro , e pera a 
Cidade , e por fer perto , chegou ao outro 
dia ; e vendo as cartas , e íabendo o traba- 
Iho em que eftava , negocíáram com mui- 
rá preda íeis navios de remo , mui bem 
petrechados , pera ¡rexn bufcar o Arcebifpo , 
e Inquifídores , e a Cidade Ihes mandou hurtí 
arrezoado prefente de refrefcos , que elles 
ellimáram muito , e ás toas leváram eftes nai- 
vios a nao a Cochim , onde o Arcebifpo, 
e os mais foram muico bem rccebidos daquel- 
la Cidade , e o Veador da fazenda Bclchior 
Serráo Ihcs negociou huma galé das da Ar- 
mada do Vifo-Rcy pera o Arcebifpo, eln- 
quiíiJores fe irem pera Goa , onde aquella 
Cidade Ihes fez hum muito folemne recebí- 
menro. 

As duas naos Cafteüo , e Drago' tambem 
pafiaram muito trabaího , ejá nofim deNo- 
vembro foram haver vifta da térra do Cabo 
Comorim pera dentro; epor parecer ao Pi- 
loto que eftava de Panane pera Cochim , fox 
governando ao Sul á vifta da térra , indo 
diantc o galeao Drago fondando o fundo ; 
auto.Tom.lKP.iL Y q, 



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338 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

e como já lúa quaíi fobre os baixos de Ma- 
nar., dco em íinco brajas , pelo que logo 
,deo com muita prefteza com as velas em 
baixo, e furgio quaíi na poma do baixo; e 
a nao Caftello , que hia atrás , vendo que o 
Drago» dava com as vergas em baixo , fez 
o mefmp com a mefma preíTa, e deo fun- 
do, e milagrofamente efcapáram devararera 
* fobre os baixos. £(las eram as naos que os 
noíTos víram de térra j e o Vifo-Rey D. 
Conftantíno defpedio com muita preíTa al- 
guns navios ligeiros., que i toa as tiráram 
'pera fóra ; e dando i vela , fe foram pera 
"Cochim já em Dczembro , e o Veador da 
fazendaéélchiorScrráo deo logo ordem ao 
concertó dellas , e á carga que haviam de 
irazcr. 

E porque o Capitáo mor D. Jorge de 
Soufa trazia muita fazcnda , e o tempo era 
multo curto, aíTentou deficar na India com 
a fqa nao, e fefoi nclla pera Goa, depois 
do Vifo-Rey chegar a Cochim j que depois 
que nao teve que fazer em Jafanapatáo, fe 
paíÍQU á Ilha de Manar , que era pegada 
acjuella coila , onde defcmbarcou , e notou 
ofitio della; e aíTentou com osFidalgos do 
confelho fazer nella huma fortaleza, e paf- 
íar pera eJla o Capitáo da cofia da Pefcaria 
'coi^Ti todos os moradores dePunicale. Elo- 
.gQ fliandou por máo á ojjra , e mandou re- 

ca- 



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Dec. vil Lív. IX. Ca?. V. 3J9 

cado a Manoel Rodrigues Coutinho Capitáo 
da Pefcaria , que fe fofle com todos os mora- 
.dores de Punicalc , por aquelle Naique Ihe nao 
fazer oucras aflPronras , como as que ha pouca 
contamos , e logo mandou correr com a obra ; 
e recebendo Manoel Rodrigues Coutinho o 
recado do Vifo-Rey D. Conftantino , fe pat 
fou com todos os moradores de Puntéale com 
muito gollo , e aicgria pera aquelle lugar. 

E dcpois que o Vifo-Rey deo alli regi- 
mentó pera a nova fortaleza , em que ficá- 
ram os Religiofos de S. Fraficifco , c da 
Companhia dejefus, quefundáram fuas c^ 
fas , e tem feito grande fruto na Chriftanda- 
de , deixando tudo mui bem negociado , fe 
partió pera Cochim a efcrever pera o Rey- 
-no, c defpedio Balthazar Guedes de Soufa 
pera Capitáo da fortaleza de Columbo , e 
Ceiláo , onde eftava D. Jorge 'de Meneztís 
Baroche , que niandou vir , e por elle man- 
dou ao Rey. da Cota a avó , e pa rentas , que 
o Rey. de Jafaivapatáo Ihe entregou , e o Prin- 
cipe mandou levar peraGoa, entregue a Pe- 
ro Lopes Rebollo. E depois de prover era 
ludo como era ncceíTarío , deo á vela pera 
Cochim , aonde chegou cm poucos dias ; e 
nelle o deixaremos porhum pouco, porque 
he neceíTurio continuarmos com as coufas, 
que nefterempo fuccedéram.emCfiilao, |)or t 

feguirmos a ordem da hiftcria. 

YU CA-: 



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340 ASIA DB DioGo db Covto 

C A P I T U L O Vi. 

Das coufas que nejle tempo fuccedérant em 
CeilHo : e da guerra que D. Jorge Baro^ 
che fez ao Madune : e dos recontros que 
tiveram^ e cafos que fuccedérant : e de 
alguns fehos bonrofos y que neUes aconte- 
céram a alguns dos noffbs. 

NAo nos deixam as coufas dede auno , 
que sao muicas, continuar por ordem 
coai ellas \ e ellas , que foram em principio 
deíleveraa , as nao podemos arrumar em 
outro lugar fenao nefte , porque aíEm nosca- 
híram melhor. N¿Ío deixou o Madunc de con- 
tinuar na guerra contra o Rey da Cota feu ir- 
máo , a quem tinha odio entranhavel , ede- 
fejava de Ihe tomar oReyno, (como algu* 
ir.as vezes diíTemos ,) em que os noíTos favo- 
recéram fcmpre o da Cota. E agora Aífbníb 
Pcrcira de Lacerda , Capitao de Columbo, 
.andava de continuo cm campo pera defender 
que o Madunc Ihe nao enirafle em fuas térras , 
tendo com os fcus Capiíáes muitos recontros , 
em que houve damno de ambas as parres, 
(deque náofazemos men^áo, porque foram 
t^o miudos, ^queferá coufa infinita dizerem- 
fe.) Baila que teve fempre o encontró ao 
Unimigo , pera que nao chegafle a por cerco 
áqMclIa Cidade da Cota, em que ElRcy cf- 

la- 



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Dbc vil Liv. IX. Cap. VL 341 

tava com alguns Portugue7.es , e rudo á for- 
^a de aíTaltos , de día , e de noite , e<n que 
os noíTofi padecérartí muitos trabalhos *, por* 
que como os inimígos eftavam em fuas tér- 
ras, e tinhani todos os provimenros de ca« 
fa', reforma vam-fe cada vez que queri^m; 
e fe perdiam dez homens , tornavam a refa« 
zer em feu lugar ccnto 5 o que os noflbs ríío 
tinham , porque os provimentos Ihes vinham 
da- India por mongóes , e com trabalHo ; e 
fe matavam , ou feriam alsuns , nao havia 
outros pera fe pórem ém feu lugar , atíte» 
os que íicavam íuppriaín aquella ^Ita de ma«»* 
nelra , que paíTavam as iróres neceílidades y 
€ rífeos, que fe pódiam imaginar, levando 
femprc adiante a guerra , porque fe nao per- 
defle tudo. £ em ^hum encontró , queAffbn- 
ío Pereira de Lacerda ícve aotes dé chegar' 
D. Jorge Baroche , efteve de^ todo de^bara** 
tado, e perdeo alguns foMados , pelo que' 
Ihe foi neceífario mandar pedir foccórro si 
Manar , donde Ihe acudió Jorge <]e Mello 
o Punho, Capitáo daquella fortaleza, com- 
alguns foldados , em que entravam Joao de 
Abreu o Diabo, e tres irthaos Dioga, An*» 
dré , e Chriftováo Juzarte , filhos de JoSo 
Juzarte Tijao , e D. Manóel de Caftro , Gafc 
par Pereira o Comprído ^ que depois foi de& 
pachado com a Capitanía de Cliaul , que 
fiáa quiz ir fervir } Feriiaa Pores d& Asdra^ 

de. 



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34^ ASIA DE DiOQO D£ COUTO 

de, e outros Fidalgos, e Cavallciros, que 
neíla guerra fe aílinaliram bem , e fizeratn 
coufas dignas de eterna ir.emoria* 

Nefte cflado eftavam aquellas coufas y 
quando em Outubro paíTado cfaegou aquella 
]Jha D. Jorge Barochc , que* o Viío-Rey 
£)« Condantino tinha defpacbado' com aquel- 
la Capitanía , como atrás fica.diío, que le- 
vou tnuitos roamimentos, mtmijfics, e pro- 
vinientos , e perto de duzenros hon^etis , em* 
que tamben) entravam muiros Fidalgos , e 
Cavalleiros,;a que.nao foubemos; es nomcs. 
£ tomando poíTe da fortaiexa deColuoibo ,■ 
paflbu-fe Jogo com toda a genie que baviaf 
na. Cota , aondc eftava ElRey, com quem 
coifHTiunicou as. coufas: da guerra* E faben- 
do que o M^riane. eftava na tranqucira Ma- 
pitígáo íobre o rio de Caiane , foi-fc com 
todo o poder que liavia ícu , e de El Rey , 
por dá outra banda ^ e foi continuando a 
guerra , dando aíTaltos aos inimigos , em que 
i¿es. fez uiüitodamno, enao fem algum da 
nofla parte ^ porque fempre houve efcala- 
viíados. 

- Ficou aflim. íendo efta guerra táoimpor- 
ttiM' , :arriícáda , e trabalhofa, e fobre tudo 
D.Ji>i;ge táó incanfavel , e mal foífrido com 
^^Xoldados , que Ihe cómcfáram a fugir pou- 
^Qs. c poneos pera a Cetar. Era eíle Fidal* 
gq^ .muhó ban cavftlldro , como algumag 

ve- 



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Dec. vil Liv. IX Cap. VL 343 

vezcs temos dito ; mas tSo arrebatado , é^ 
colérico , que de todos era havido por mui- 
to máo defoífrcrj efobre ifto era tSo váo, 
que a alguns Toldados , que Ihe fallavam 
por Senhoria , gabava muito , e dizia que 
muito bem parecía a cortczia. Acerca difto 
fe conta huma galanteria de hum Toldado ^ 
chamado Antonio Nicolaz , bom cavaüeiro )• 

3ue fe achou em feu tempo neftas guerras 
e Ceiláo , que eftando o Vifo-Rey D. Conf- 
tantino em Cochim , eíle veráo que embora 
vem da tornada de Jafanapatáo , ( de que 
logo adiante daremos razáo,) foi eíte An« 
tonio Nicolaz á fuá galé a pedir*the alguma 
tnercé , e acertou de icr em lempo qué achou- 
com elle D. Jorge Baroche ; e fallando O 
íbldado com o Vifo-Rey em alguns nego- 
cios, Ihe fallou fempre por morcó; c dan- 
do a D. Jorge por teftemunha de fcus fer-^ 
VÍ50S , diíTe pera o Vifo-Rey : Aqui eftá fuá' 
Senhoria , apontando pera D.» Jorge , que 
fabe ifto muito bem , e me vio pelejaf ; o- 
que o Vifo-Rey feftejou muito , porque já^ 
labia de fuas vaidades, e natureza* Tihha 
na guerra muitas bizarrías muito galantes, 
de que na fexta Decada diíTemos aágumas; 
e agora náó paflarcmos por boma'', que he' 
muito corteza i efoi. Qiie andandd «lie por 
Capltáo de huma galé , indo dpós hvíns ^ 
raos ; fendo horas de al(no$o> ^ pedio hxinf 

íol- 



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344 ASIA DE DioGo de Couto 

foldado ao difpenfeiro huma cebolla; eou«* 
vindo-o D. Jorge , relpondeo com muita co- 
lara : Que be ilTo , foldado ? Pedís miraos 
na minha galé ? Nella nao ba fenáo pelou* 
ros , e pólvora. Mas com rudo ifto foi efie 
Fidalgo hum dos bons Capicáes , e cavallei* 
ros , e fervidor de ElRey , que á India paír 
f^ram. 

E tornando aofio denofla hiftoria. Ven* 
do D,JotgeBaroche que os Toldados fe Ihe 
]iJam poucos ^ poucos , deixando Jorge de 
Mello o Pjinho em feu lugar, fe foi á Co- 
ta pera fa^er tornar a gente ; e em quanto 
fe iá d^tcvé, quiz Jorge de Mello dar hum 
aíTalto em os iniroigos ; e fazendo-fe prefles » 
huma madrugada partió com muito iilencio y 
€ deo ñas efiancias do Rajii , íilho bañardo 
do M^dune , e á forja de brajo as entrou y 
e fez cm os inimigos hum grande cftrago , 
matando-lhes os principaes Modulares que 
alli tinlia , e tomando-lhes muicas armas , e 
outros defpojos, com que fí? recolheo mui- 
tp a feu faiyo. Eftas novas chegáram a D. 
Jorge Bqroche ; e dando^lhe a inveja de ta- 
ipanha vitoria , ajuntou os mais íoldados que 
pode , e partió- fe muiío apreíTado pera o 
arraial ¡y ,e acbando os foldados contentes y 
e coip a máo folgada do íucceíTo , fe paC- 
ibu logo áoi^ra banda dorio em ap fuftasv 
f commcíteo outia madrugada as tranquéis 

ras , 



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Dec, vil Liv. IX. Cap. VI, 34^ 

ras , que o Rajú tinha já mui bem reforma-- 
das; e com aquelle furor, e defejo que íe^ 
vaya de ganhar alguma honra , as enirou 
logo , e á efpada Tez tal deñrui^o em ós 
inimigos , qué em breve efpago Ihe inatou 
ipais deduzentos, em que encravam os prin* 
cipaes Modiliares , e Aracbes , e a tranquei- 
ra poz toda por térra , e a aflblou. £ com 
cite tao biom fuccelTo , que Ihe nao cbftou 
mais de alguns ppucos feridos, fe recolheo 
D. Jorge Baroche táo contante , e ufano , 
que logó tratou de commetter a tranqueira 
de Mapitigáo , em que eftava todo o poder 
do Madune , primeir-o que fe enxugaflc o 
fangue ñas efpadas dos feus foldados, por-» 
que foi avifado que os inimigos ficáram com 
aquelles dous toques mui quebrantados , e 
medrofos; porque fe entendía quefeganhaf- 
fe aquella tranqueira', e fe fortificafle nella, 
ficava fendo Senhor dos caminhos deCeita- 
vaca , em que o Madune relidia , e que fó 
com^eñar nella o teria de cerco, e Jlie fa- 
riatoda a guerra quequizeíTe. Peraiílo man- 
dou fabricar dous Caftellos de madeira em 
lima de algumas embarcajóes , que andara 
naquelles rios , que fe chamam Padás , e mct- 
teo nelles alguns foldados com multas pa« 
nellas de pólvora , bombas de fogo , e ou- 
tros artificios , e mareriaes pera irem pelo 
rio inveílir 9.tranqueii;a ^ e elle cam todo^e 

po- 



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54^ ASIA DE DiOOO D£ COÜTÓ 

poder fe paflbii da outra banda , deixando 
ordem pera as fuílas darcm toas nos Caftel- 
los , até os abordarem á tranqueira. £ fa- 
2endo o final á hora de commerter, come- 
fáram as fuftas a remar pelo rio affima com 
ósCaftelIos; e indo já perco da tranqueira, 
Ihe aiiráram cotn hiim camelo, que tomou 
a fuüa, que hia diánte pela proa , e foi o 
pelouro varando pelo meio della até a pop- 
pa , levando mais de vinte marinheiros que 
tomou enfiados , alando por humas roquei- 
ras , e os fez todos em pedamos, Com iñxy 
paráram os navios, e D. Jorge Ihes mandou 
capear que fe tórnaíTem , o que elle tarf)bem 
fez , porque enrendeo que haviam de Jr to-' 
dos os dosCaílelIos medrofo? daquelie fuc- 
ceíTo* 

CAPITULO VIL 

De outro ajfalto , que D. Jorge deo aos ini- 
niigos , em que ejieve de todo desbara- 
tado: e de alguns jeitos honrofos 
que nelk Juccedéram a al- 
guns dos nojfos. 

ALguns dias fe deixou ficar D, Jorge 
alli efperando huma boa conjunfáo , 
até fcr avifado que o Rojú eftava em huma 
▼ariea junto da tranqueira com tres , oü qua- 
tro mil homens. E defejandó de fe ver com 

el- 



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Dec. vil L IV. IX, Cap. VII; 347: 

elle etn campo , mandou fazer preíle^ a fuá 
gente hum dia no quarto dalva , e huma 
hora ames que amanheceíTe deo de (upito 
na« Aias eftancias ^ e de tal maneira foram 
commettid.as dos noflbs , que prihiejro que 
os íenriíTem , fentíram o fio de feu ferro maís 
de cento , que alli íicáram eñirados , e os 
oíais com aquelle íbbrefaho deixáram aseí^ 
tandas; e oRajú com os que pode ajuncar, 
fe foi recolhendo pela varzea , indo-lhe 
D. Jorge Baroche feguindo o alcance , era 
que a noflfa arcabuzaria derribou outro gol- 
pe delles , até os Jan^arem fóra do campo , 
e os cncurralarem em hum boqueirSo , onde 
fcelles fizeram fortes. D. Jorge Baroche che- 
gou allí; e vendo o lugar, em que o Rajü 
fe quiz fortificar, determinou de o entrar , 
e acabar dearrematar a vitoria. Mas chegou 
a elle hum íbldado , chamado Pero Jorge , 
€ Ihe diíTe «que fe contcntaíTe com a mer- 
9 cé que Ihe Déos linha feiio , e fe rcco- 
9 Iheíl'e , porque já faltavam muni^Óes , e 
9 nao havla com que carregar as efpingar- 
» das j e que nao quizcíTe que Ibe aconte- 
» ceíTe hum defa^re* » Mas D.Jorge Baro- 
che , como eftava foíFrego daquella vitoria , 
Ihe refpondeo muito agaflado « que carre- 
31 gaíTem as efpingardas com aréa, ou que 
9 acabaíFem de vencer á efpada;» e que- 
rendo conunetter o paíTo^ vio que os leus 

fol- 



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34$ ASIA. DB DiOQO DE COVTO 

foidados fe comegavam a retirar , < porque 
na verdade já nao tinham pólvora , nem ped- 
icuros ; ) e nao podando elle fazer ouira cou- 
ía , os foi feguindo, e ordenando, porque 
os vía já ir defarrapjados^ O Rajú , que era 
Capitao fagaz, econhecedor doscafos, en- 
tendendo o modo de que os nodos hiam y 
arrebentou com .os feus após ellcs , e com 
tanta forga , e preQeza os commctteo , que 
os, foi pondo eo) desbarato : pelo que foi 
forjado a D, Jorge Barocfae j cora os Fi- 
dalgos , e Cavalleiros que o feguiam , fa- 
^r inuitas volcas aos inirnigos, pera, que fe 
nao perdeíTe de todo, E nefte. trabalho che- 
gou a hum páflb, que fe fazia no cabo cía 
yarzea , que achou impedido confKgrándes 
arvores , que os inimigos alli cortáram y e 
airaveíTáram pera os embarazar. Aqui fede- 
tevc D.Jorge ero mandar abrir o caminho, 
o que nao pode fer táo depreíTa , que nao 
cliegaíTem os Elefantes de peleja , que o 
Madune já tinlia mandado de foccorro ao 
filho, e hum deiles chegou aD. Jorge pera 
o levar na tromba ; mas hum foldado cha- 
mado Pedralváres Freiré, natural de Latne- 
go, vendo o Elefante fobre D. Jorge, re- 
metteo a elle com alguns peáes <}ue levava , 
dizendo-lhes : Aqui, filhos; e pondo o ar- 
cabuz no rofto, odefparou fobre o do Ele- 
£inte^ e o fez virar pera tras com ador da 

fe- 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. VIL 349 

itrída fóbre ds íeus , atropelando alguns del* 
les, e D.Jorge tevc tempo deeícapar. Aqui 
chegáram outros Elefantes , (queelles foram 
os que desbaratáram os noíTos ; ) e remetten- 
do hum com o Alfercs da bandeira de D. 
Jorge, virou elle o pique em que levava á 
bandeira , c Iho poz nos teflos , onde Iho 
quebrou ; mas nem por iffo pode efcapar: 
porque como elle hia com aquella furia, 
lan^ou-lhe a tromba , e deo com elle por 
eíTes ares, e o fez em pedamos. Outro Ele^ 
fante chegou a outro Toldado , chamado Gre* 
gorio Boielho , foldado velho da India , e 
nafcido nella , que vendo-o fobre 11 , virou 
a elle com grande animo , e Ihe poz huma 
alabarda nos teftos com tanta forja , que 
com a dor da ferida o fez deter , com o 

3ue elle teve tempo de fe por da outra ban- 
a do vallo. 

Aqut nena paflagem íeperdéram muitos 
dos noflbs , que peléjáram muito valorofa- 
niente , tomando antes muito grande vingan^ 
ja damoFte, que Ihehaviam de dar. E aín- 
da efte trabalho deñe paflb fora mais fofíri- 
vel , e de menos perigo ; mas como os ini- 
migos eram tantos , defviáram-fe alguns Ara- 
ches com fuas companhias , e foram por cu- 
tros paflbs a tolhar o caminho aos noíTos , 
e affim fe acbáram cercados naquella paíTa- 
gem , com o que D. Jorge fe deo de rodo 

por 



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•g5'o ASIA DB DioQO de Couto 

por perdido ; mas quiz Déos que foíTe já 
ifto no cabo davarzea, eque déíTe elle ani-» 
mo , e acordó a hum Toldado , a que nao 
pudendos faber o nome , que vendo o pe- 
rigo cm que todos os noíTos eílavam , arre- 
tnetteo a hum ber^o , que allí tinham os 
noíTos deixado, e Ihe poz fogo ; e foí o 
pelouro táo bem encaminhado , que entrou 
pelo meio dos inimigos » e foi derribando 
huns poucos : o que vifto pelos mais , cui- 
dando que aquillo era filiada , que Ihes allí 
tinham armada , dedveram-fe , com o que 
D- Jorge (que nao perdeo o animo) toroou 
a ajuntar os feus , e teve tempo de chegar 
aos navios, que cftavam perro , em que fe 
•embarcou j e fe paflbu da outra banda , ñ- 
cando-lhe por aqueile caminho da varzea 
mais de feflenta mortos, em que entravam 
alguns Fidalgos , de quQ fó de Joáo de Mel- 
lo, filho de .Triftáo de Mello, nos lembra 
o nome. E D.Jorge fe paíTou as fuas tran- 
queiras , táo magoado daquella perda , e def- 
aílre , que /c lan^ou pelo chao , esbravc- 
jando, e dizendo mal á fuá venrura. Dallí 
por diante fe deixou ficar naquelle lugar , v^on- 
tinuando na guerra , e defensao dos paíTos , 
pera que o Rajú nao pudeíTe entrar nos li- 
mites do Reyno da Cota , fobre o que teve 
alguns recontros com os inimigos ^ em que 
fempie houvc efcaía vrados de ambas as parres. 

CA- 



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Decapa VIL Liv. IX. 3^1 

CAPITULO VIIL 

De como q Madr^ Maluco tentou de fe ir 
fobre a fortaleza de Damao : e do ejlra^ 
tagema , de que D. Diogo de Noronhá 
ufúu pera homiziar o Cedemecan com 01 
Madre Maluco , por onde o fez matar c 
e de putras coufas* 

A Tras no Cap. IL do Liv. IIL temos 
dado conta , como o Rey moco de 
Cambaya fugíra de Madre Maluco pera o 
Ithimirican, porinvenjóes queooutro teve; 
que vendo- fe femElRey, fe foi pera a fuá 
Cidade de Baroche, que com as Villas , e 
Jugares, emais rerras ,que pofluia , era hum 
Eftado , que pudera contentar qualquer pei* 
10 , por muito cubigofo que fora , ( fe pode 
haver algum , que fe fatísíaga alguma hora ; ) 
e como fe refentio da poífe, que o Ithimi- 
tican ficava tcndo com o Rey , foi Ihe tao 
máo de foíFrer , que dcterminou de bufcar 
modos pera vir ainda a fubir á Monarquia 
daquelle Reyno , ( porque naturalmente era 
de animo grandiofo , ecubijofo de muito;) 
e como a fortuna anda fempre com o olho 
fobre eftes grandes , e he ^Tuito natural fctt 
de hum erro levallos a outro maior , troü« 
logo a imaginajáo deftc , que pera fubir ao 
que quería , Ihe era neceífario fazer-fe SeuJiar 

do 



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JJ'a ASIA DE-DlOGODE.COüTO 

do Eftado de Surrate , que era de Cédeme- 
can feu cunhado , filho de Coge C^ofar ; que 
com o que pofluia ficava com muiro arre- 
2oado Eihdo , e aínda Reyno : e com i(Tb 
ficaria com poíle , e poder pera fe fazer Se- 
nhor do Imperio Guzarate , que tantos an- 
nos florecco nefte Oriente. E pera corar a 
cubi9a de fazer guerra ao cunhado , tomou 
occaíiáo de pequeños achaques , (que nao 
faltáo nunca a quem os bulca , ) e comejou 
;^ ajunrar gente , e Capitáes pera efta jornada, 
Eílando já de todo preftes , fe metteo de 
permeio fuá muiher, ¡rml do Cedemecan, 
que otirou deíle propoíito , eainda fez com 
o marido que cafaíTe huma fílha y que#ti* 
nha de outra muiher, com o irmáo ; e fe 
concertou logó o cafamento , pera depois fe 
celcbrarem as bodas com muitas fcftas. 

Vendo-fe pois o Madre Maluco com o 
poder junto , e as defpezas feitas , e que o 
Viío-Rey era partido pera Jafanapatao , tac 
longe , que nao podia vir fenáo em Feve- 
reiro , tratou com feus Capitáes de ir fobre 
a Cidade de Damáo, e tornalla a lomar, e 
fazer-fe Senhor della , e defuas térras, que 
eram de muita importancia , e logo ajuntou 
as mais achegas > que pera iffb Ihe parecé- 
lam neceíTarias , e ordcnou artilheria deba- 
ter. E porque Surrate ficava mais perro de 
Hernia j aUentou com &us Capitáes de pe- 

dir 



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Dec. vil Lív. IX. Cap. VlIIé ^^^ 

dir huiti bazalifco ao cunhado y pera com 
elle arrazar os entulhos de Damáo. 

De rudo ido foílogo avifado D.Diogo 
de Noronha por pcíToas , que trazia em cafa 
do Madre Mabco, (como as tinha tambenl 
na de ElRey , é do Cedemecan,) que pei- 
tava groíTamente, pera que Ihe deíTem con- 
ta de tudo o que antre elles fe paíTava , (por- 
que eftas eram as mercadorias que eíle Ca^* 
pitáo fcmpre fez ñas fortalezas em que eC- 
teve;) e vendo que o Vifo-Rey era emja- 
fanaparáo, tao longe, que o nao podia foc« 
correr , receando que Ihe déíTe aquelle ne- 
gocio niMÍ grande trabalho, e opuzefle em 
defefperado aperto , porque nao vía donde 
pudefle fer foccorrido ; nao perdendo com 
tudo o animo, defpedio cartas apreíTadas a 
D. Pedro de Menezes CapitSo de Goa , em 
que Ihe dava conta daquellas coufas , aífir- 
mando-Ihe , que fe o nao foccorreíTc com 
muita preíTa , gente, e municóes, fe perde- 
ría aquella fortaleza; ecom ifto fecomejoil 
a fortificar o melhor que pode. E trajando 
no feu entendimenro o que faria fobre aquel- 
le negocio , que era multo grande , oftere- 
ceo-lhe Déos noífo Senhor o mais certo , e 
apreíTado remedio que podia fer , que foi 
ufar com aquelles CapitSes de hum edrata- 
gema , com que ós homiziou , e fez matar 
a todos ; e foi eftc, . 

<:mo.Tom.lF.P.il. Z Era 



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04 ASIA DE DíOGO DE COVTO 

Era ^e rouito grande amigo do Cede? 

irccan , e mandava-o viíirar a miude com 

(Tartas , e brincos , eme elle eftimava inuito. 

^ depois que D* Diogo de Noronba foi 

avifaao , da expediencia , com que o Madre 

Malu(;o tratava , e ordenava efte táo grande 

fnal coútra elle , continudu mais vezes efia 

vifica^áo ; e tanto que foube de cerro que o 

inimigo eílava em campo pera fe abalar^ 

defpedio Diogo Pcreira em hum navio com 

vinte e finco homens a vifitar. o Cedemecan^ 

e^ppr elle Ihe efcreveo huma carta em Par* 

Í€p\ em que Ihedizia «c que fe nao fiaíTe de 

31 feu cunhado Madre Maluco , porque fa» 

» bia deceno que vinha comaquelle poder 

> pera Ihe tpmar a fortaleza de Surrate , e 

H que pera o fegurar lancava fama que era 

y contra Damáo ; e que pera final defta ver- 

» dade , tanto que elle chegafle com feu 

^ campo a Surrate, Ihe havia de pedir hum 

)> bazaüfco empreftado pera bater os entu» 

9 íhos de Damáo; eque como o tiveíTe, o 

9 havia de fazcr i fuá fortaleza de Surrate , 

?> e que eftiveíTc fobre avifo, e acautelado, 

» porque o Madre Maluco era manhoib, e 

T$ de artificios , e atrei^oado i e que pela ami- 

n zadequeambos tinham, fica va negociando 

% alguns navios pera Ihe mandar pelo rio 

:» dentro de (occorro „ porque fabia que o 

¿ Vifo-Rey diílb havia de levar muito gofio* » 



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ÜÉa VIL Liv. IX. Ca?» Vil!. sfS 

Be todo jilo deo D. Diogo de Noronh^ 
conta a Diogo Pereíra fó , por fer homertí 
¿e quem fe elle nava em tudo , por fer prtr- 
dente, e debom.coníelhoi elhedifle mais^ 

> Que fe o Cedémecan Ihe déíFe conta do 
% que na carta Ihc efcrcvia, fefeeífe deno^ 

> vas f por fazer mats a feu caíb o fegredo 
» daquclle negocio. » 

Chegado Diogo Pereira a Súrtate , foi 
muito bem recebido do Cedémecan , (qué 
lambem era feu amigo,) e Ihe deo a carta 
de D. Diogo de Noronha , que elle leo fiumá ', 
e multas vezes ; t como pera todos os Moil^ 
ros baila qualquer pequeña fufpeita, quamo 
mais hum aviío , que Ihe importava a vida . 
e oellado, dado por humCapitáo, de qué 
elle tinha tao grande opiniáo , foi-lhe muitó 
fácil de crer tudo , é logo (é comecou a 
negociar , e preparar. Poucos dias depoiá 
de Diogo Pereira chegou o Madre Maluco , 
(que foi no Qutubro paíTado , ) e foi aíFeh- 
tar feu campo ao longo do tanque de Súf- 
rate ; e tanto que o Cedémecan tete^Tecado 
certo de fuá ir inda ^ mandou chamar Diogó 
Pereira , e Ihe fez queixume de feu cunJiado | 
affirmando-Ihe « que rinha com tenfáo d* 
» Ihe tomar feu Éftado , que fora dé fu 
» pai , que Ihe pedia t> acoafelhaife no quir 
> faria (obre aquelie negocio, y B cómo d 
Diogo Pereira bia fobrc avifo ^ '£wend6*/é 
;z; ü de 



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gy^ A,S|AcDE DiOQO DE GOÜTO" 

.de novas, Iherefpondeo. que nao podía fer 
ai)uillci; ao que Ihe aralhoju o Cedeoiecan» 
dizendo-ihe. : « Que elJe eftava avilado de 
^ boa parte , e Ihe pedio que dn íua foffe 

> vifitar o Madre Maluco j, e Ibe difleíTe qi» 

> lo^o após elle o iría fa^er etn peflba^ e 
^ que viíTe ñas praticas f^ podía alcangar 

> algumá coufa dos penfmnenros com que 
^ vinha. » Diogo Pereira chegou ao árraíal 
de Madre Maluco , acornpanhado de crínta ^ 
ou.quarenta Portuguezcs multo bem trajas 
dos, e como elle era muito feu amigo > o 
lecebeo.com.muitas honras, e caricias, e o 
^íTcncou apar, d^ íí , onde eñeve huní bom 
efpafo em converfajáo, perguntando^Ihe o 
Jvladre Maluco muitas xroufas, a que Ihe el- 
Je refpondeo femrpre muito apropofíto^ fem 
punca Ihe dar ^entender que fabia ajorna- 
ida qiip fazia contra Damáo, (porque tinha 
elle lanzado farna que hia Contra Tafalcao^ 
íjue fe tinha alevantado coni o Reyno de 
Verara. ) E depois de nruitas praticas Ihe 
^¡iTe piogo Pereira « que feu cunhado efta- 
íi . VA tímido delle , porque de Amagaba o 
}i av.ifáram , que vinha com determína^áo 
i de Ihe tomar a fortaleza,;» AiftpJerio 
M^qr^ Maluco ,, dizendo .« que fe efpantava 
j(^ cnüiío d? ;elle;' crer aquillo ;. que fe elle ti- 
>^ veja irinta fortalezas -,. tantas Ihe .diera , 
í^.q^UijtoJfnai^, :iomar*llie^ a^^ ,^ ,que Jeu 



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Dec. VIL Liv* IX. CAP^vnr. isf 

i pai Ihe deixára : que o fbíTq fegüraf M^ 
91 queila materia , e Ihe difleíTe que 6 fofle 
91 vifitar , aífirniandolhe que cotn nenhuma 
k coufa mais folgaria que velto» e de íinat 
daqueHa vontade Ihe deo ofeu arinel, pera 
que Iho levafle» Com ifto fe defpcdio Diogd 
Pereira ; e indo pera a fortaleza , athou jl 
DO caminho o Gédemecan com. tres ínil de 
cavallo , Turcos, Perfas^ e Abesins , gente 
inüito hiftroía , e a melhor de Cambaia ^ 
(que elle trazia a foldo , ) e finco , cu ibis 
mil de pé , e díame delle quinze Elefantes, 
armados, e elle moito gafabie ,-e cuftofó, 
^ue depois <jue defpedio Diogo Pereira cibm . 
a viíita a Madre Maluco , aflentou ¿t ir vir 
íkar o cunhado; primeiro qiieDiogo PefeH 
rá delá partiíTe; porque como ambps ¿ftá-» 
tam comruins pcnfamentos, determinon dé 
o fegiirar com o vifitar títíi peílba, pei^tf 
qué determinava de fazer* , \ 

' DiogoPereira vdltou com elle*, e.foramr 
ambos juntos prai ¡cando , e'á&ido^lhe elle 
conra dó que paíISra coin <rcunbado; épe-* 
ra fa^er mais aa cafo ^ ñas; fufpeftlas.de D«^ 
©ipgo de Noronha , Ibe aífirmptr que nSa 
vinha o cunhado' Com bom animd Néftaf . 
páticas chegáram ao arraial : ; e* ó Madre . 
Maluco o'tóhio fóra delle areceber , "e o 
levou pela máb até-* fuá tenda , onde ^atnbos 
:§á$ fe wentáfftm ■ bum bom efpasíi) .e:o Mar 
>1 * dre 



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5f8 ASIA os DioQo de Cóura 

dre Maluco ñas praticas Ihe diflfe i que íe 
» efpantava ivuiro de elle crer o oue delle 
t Ihe dízisfli, fabendo elle multo oem que 
3 O amava coma ülbo. % E eniío Ihe de4 
cooea da jornada , que hia fkzer contra Da* 
idIo , pera o cflie Ihe pedio Ifae etnpreñaíre 
kum baxalifco pera desfifiz^r os entulhos , 
«üe eram grandes. Ao que o Cedemecan 
Ihe difle, que. de boa vontade, eque ainda 
}he tlarin tudo o mais que tiveíTc , moftra»i 
do-fe itiuito liberal naquelle negocio pera 
«laior difliroüia^Üo do que logo concebeo 
pe animo ; porque como Vio que o con fe» 
ifao de D« Diogo de Noronha Ihe (abia vei^ 
dadeiro ^ e que o íinal do bazalifco fora 
éerto, logo determinou de íe vingar docu* 
fihado, e aodefpedir Ihe pedio que quizef* 
le ir cear com elle , porque todo o dia níú 
tinham comido ambea^ por fer a fefta do 
feu Ramedáo , (que; era como a nofla Qua* 
wfnna , eni que eües nSo comem mais que 
huma Ves ao dia ^ e efia ainda de noite.) 
Q Madré'Maluoó como eflava innocente dos 
tfatoa , Ihe fefpondeo «jque de mtiiio boa 
ai ventado iría acceitar o íeu banquete ^ e 
1 aínda Jevaria todos os kíís Capitaes.» E 
delpedidos dalti:, foi-fe o^Cedemecan faser 
prdles pera acpielle bacqtiete , que haria de 
fcf o ukiino ^ ^ue na viéa rhavia de Hfn 
li&dfe^aluco* Qíie tsmtú quelbraw ham 

/ fe 



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Dec vil Llv. IX. Cap. Vllt 3^^ 

fe foi pera a fortaleza , levando comfigo 
Muftafá Carman , e todos os Capitaes , e 
peíToas principaes , que lériam perro dé cen* 
to , que o Cedemecan veio receber á porta 
da fortaleza , onde todos fe apeáram , fican- 
do os cavallos da banda de fórá , e elle os 
foi levando alé hum formofo pateo , que fe 
fazia i entrada da primeira fala , onde tinha 
iDuitas alcatifas , ealttiofadas em baíleos q^ 
havia , e alli ie aíTentár^m em converfa^io 
hum bom eípa^o. 

E parecendo já horas de cea , fe aleran- 
tou o Cedemecan , pedindo licen^a ao cut 
sihado pera ir fazer preítes , e foi entrando 
por huma porta , que íicava á mSo efquerda 
no mefmo pateo ; e aínda die nao era den- 
tro, quando por outra da máo direitá íah(- 
ram duzentos homens artiVados , e endirei- 
tando com os hofpedes , os come^áram á 
banquetear de feridas taes y e tao mortaes , 
que em mui pouco efpajo os mandáram pe- 
ra o inferno , onde tiveram bem diflferente 
banquete do que efperavam ; o que ít (éz 
tSo preftes , ecom táo pouco eftrondo , qufe 
tÁo foi ouvido dos criados , que ÍTcavám de 
fóra da fortaleza com os cavallos. E fendd 
antre as onzé horas , e a méia noke , bateé 
hum Baneane é porta de Diogo Pereira , que 
poufava fóra da Cidade ; e aflbmahdó élte 
a huma jancjla^ Ihe düTe «c que viQe <9ú^ 

» ef- 



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3fo ASIA DE DlOQO DE COUTO 

'» eftava, porque Madre Maluco com todos 
>» os feus Capitáes eram mortos » do que 
elle íicou fobrefaltado , e mandou bater logo 
com itiuita preíla á porta do Camereiro do 
Madre Maluco , que poufava defronte , (que 
fe foi pera alli , por Terem muito amigos ; ) 
e aíTomando ájanella, Ihe perguntou Diogb 
Pereira fe tinhá algumas novas do que bia 
fia fortaleza ? Ao que Ihe refpondco , que 
jiáo} mas que Ihe parecía que Madre Ma» 
luco ficava lá toda a noite , porque havia 
pouco mandara lá, e que achiram aínda os 
cavallos á porta. Entáo ]he diíTe Diogo Pér 
reira o que Ihe diíTera oBaneanc, advertin- 
do-o que eftivefle fobre avifo, porque nao 
fabia o que feria : do que o Mouro ficou táo 
fobrefaltado,. que Jogo fem aguardar mais, 
fe poz em bum cavallo , e íe foi ao exer* 
cito, onde nao havia novas de coufa algu* 
ma. 

Diogo Pereira toda a noite eñeve com 
as armas ñas maos , e feus companheiros ; 
etanio que a.manheceo , ouvip difparar toda 
a artilheria da fortaleza, eer-a que o Cede* 
mecan mandava bater o eiercixo, e depois 
fahio ao campo com toda fuá gente pofía 
em armas , e mandou chamar Diogo Pereir 
ja , que logo veio , e o acíiou em hum for- 
mpfo cavallo acubertado, e com bum final 
joa cabep de fuá mor. alegría ^ '(jue era hum« 

lou* 



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Dec. VII. Liv. IX, Gap. VIII. 361 

iCHjquinba de feda pneta por (¡ma de outra 
inuito alva. E cliamando Uic^o Pereira juntO' 
de 11 , llie difle, rindo: « Diogo Pereira ^ 
)» quem vos quizer matar , que Ihe íareis ? 
Diogo Pereira Ihe refpoñde : « Fallo^lua eu 

> primeiro, fe pudeíTe. Pois (diíTe o Ceder 

> inecan) aínm a fe eu a ineu cunhado., 

> que tanto rrabalhava por me matar, etor 

> mar o roeu Eftado. » E daili fe abalou 
contra o eierclto, (onde já havia novas de 
tuda;) eos()ue nelle eftavam, nao oufando 
üo efperar y fe foram acolhendo a un ha de 
cavallo ) e o Cedemecan fe íenhoreóu delle , 
e de todo o ouro , e joias, e riquezas do 
Madre Maluco , que eram muitas , e fe^ re- 
cólheo com tudo pera a fortaleza, 

C A'P I T U L b IX. 

De como Chínguifcan , filbo de Madre Ma- 
luco , fot contra o Cedemecan ^ eo cercou : 
e da Armada que D. Diogo de Noronba 
mandou de foccorro a Surraiex e do que 
Ibe Id fuccedeo : e de como faleceo D. Dio* 
go de Noronba : e defuas partes , e qua* 
lidades. ' \ 

FUgida.a gente de Madre Maluco,, foii- 
fe pera Baroche , e deram a nova a Chin- 
guifcan feu filho, que era Já hofnem mtiito 
valorofo, grande Capitáo, € de.muita poj?. 



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^6z ASIA DB D1O6O t>B COVTO 

fe , porque I he ficáram todos os Effados do 
pai , e os thefouros , de que logo langou 
mSo ) em Ihe dando as novas de fuá morte. 
E vendo quetinha alli junta aquella gente, 

3ue eram finco mil de cavallo , e dez mil 
epé, ecomtoda a que mais pode ajuntar, 
partió logo pera tomar íatisfa^o da irorté 
do pai , e entrou pela Cldade de Surrate, 
que o Cedeinecan Ihe nao pode defender , 
porque fe recolheo á fortaleza ccm toda a 
geote de armas , e mantimenfos , que Ihe 
parecéram neceíTarios , deixando a Cidade 
com os Officiaes de mecánica , e os merca- 
dores, com que o Cbinguifcau nao bu|lio> 
porque parece que Ihe deram alguma co)ifa« 
É paiíando adiante , aíTentou feu cxercito 
fobre a fortaleza naquelle baluarte , que ficá 
pera a parte da Alfandega , e logo fe forti» 
ficou , e cercou de vallos , e foííos , c pran- 
tou fuá artilheria , com que a come^ou a 
bater muí furiofamente. 

O Cedemecan , que cftava mui bem aper- 
cebido de tudo y fe defendeo com muito va» 
lor; e porque o poder do inimigo era gran- 
de, receando-fe dealgum trabalho, fe quiz 
valer dos Portuguezes , defpedindo recado a 
P. Diogo de Noronha , pedindo-lhe muito 
n que o foccorreífe com huma Armada-, 
> porque fe receava que o Chinguifcan Ihc 
» manddfie tomar abarra dorio com alguns 

» na- 



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Dec. VII. Liv. IX. Cap. IX. jtfj 

n navios , que em Baroche tinha mandado 
» armar com muita prefla. » D. Diogo de 
Noronha pera a fuá arte foiaquiilo alvitre, 
porque havia que da defaven^a daquelles 
dous intmlgos íempre rcfultaria ao Éftado 
da India proveito , e quietagSo , como já 
Ihe tinha refultado do ardil deque ufou pe* 
ra bomiziar os Cunhados^ de que procedeo 
aquella quebra. E logo com muita preíTa 
mandou negociar dez navios , e pagar Tol- 
dados , elegendo pera ella jornada Luiz Al* 
vares de Tavora , dandó-lhe hum muito lar- 
go regimentó do que havia de fazer , cuja 
fubftancia era « que fe deixafle eftar no rio 
» i viña dos inimigos , e que riveíTe com 
» ambos imelligencias fecretas , pera Ihes fa« 
3» zer entender que vinha em favor de cada 
» hum ; c que por outra parte os induzifle 
n, a odios , pera que os cnegaíle ao derra# 
» dciro eftremo , e viíTe fe Ihe abria o tem- 
^ po occafiao pera lanzar máo de Surrate.i 
E mandou com elle Coge Abraham , Judeo 
prudente j e aftuto pera correr com eftes ne^ 

f ocios y por fer antre todos muito con hecido. 
,uiz Alvares de Tavora foi furgir naquelle 
rio á vifta do exercito , e da fortaleza , e 
dalti defpedio o Judeo de noite com recado 
ao Cedemeéao y com as carras de D» Diego 
de Noronha , em que Ihe dizia c que lá fítt 
^ mapdaTa aquella Aroiada pera tud^ que 



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I 



:^62[ ASIA jJe'Dióxjo de CdtrTo 

» Ihe faíTe neceíTario ; e que fe tnais 'Ihe 
^cunspriflc, que tudo Ihe mandaria; » e o 
mefmo fez por curras cartas mandadas por 
peffoas de confianza , e deimuito fegnedo ao 
Chinguifcan ; de maneira que a ainbos fez 
crer que era vinda em feu favor , e com am- 
bos fe tratou fempre ém fegreda O cercó 
foi por diante , e o Chinguiican hta aper* 
tando com a fortaleza, e com propoíito de 
fe nao levantar de fobre ella até a riáo to* 
mar. Efíando neíla obra, Ihe vieram ncrvas 
mui apreíTadas , que Atucan , hum dos Re^ 
gedores de Cambáia , Ihe entrara pelaCida- 
de de Vercdora , que era íua, e fé apode- 
rara délla , e que vinha com ten^o de Ihe 
tomar todo o Eñado; porque como vio o 
Madre Maluco morto^ houve que Ihe feria 
muito fácil. £(ias novas fentio Ghinguifcan 
muito, e determinou de acudir aofeu, poiw 
^^ue multas vezes ó vinha huoilicmeof ñ 
perder por pertender o albcía* É por nao. 
ficar com aquellas defpezas feitas ^ veio a coa** 
certo com o Gedcmecan por meio tiéGapi* 
ties de ambas; as partos i e ello íhíe deo cém 
tñil Mamudes'dé prata , finco cávallos Arap 
bios, e hum Elefante ; e alévaniantió o-cam» 
•po, fe foi pera Ba roche. . ' .. 

- Luiz Alvares de 1 avora , tanto que'fc 
elle foi, mandóu p6r tendap eratcirra, (por 
Iho mandar affim pedir oJQsdeinecan^ que 
• . fe 



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ÜRc. VIL, Liv. IX. Cap. IX; jó^ 

ie quiz ir ver ;Com elle j) e como Coge 
Abrahao hia todos os dias á fortaleza a ne* 
godos coxn o Cedemecan, eJevava fempre 
alguns foldados pera fuá companhía ^ foi hutii 
dia antre eftes Luiz Alvares de Tavora cni 
trajes mudados , porque deíéjou de ver a 
fortaleza , que notou mui bem , e vio que 
era de dous* muros , e de cavas dobradas^ 
e que tinha pelos baluartes , que eram mui 
fortes j muita , e groíTa artilheria ; e o di^ 
que tinham aíTentado verem-^fe ambos , o 
Ccdemecan o eíperou á porta da fortaleza 
da banda de fóra« E Luiz Alvares de Ta* 
vora foi por mar com todos os navios em- 
bandeirados , e defembarcou no caes ao íom 
de multas bombardadas , e cfpingardadas, 
e alli fe víram ambos , e pratícáram em al- 
gumas coufas , no que elle achou o Gede- 
mecan muí defembara^ado , ebom cortezáo. 
Era emao mancebo de vinteannos ^ táo alvo ; 
e louro , e gentil-homem , que parecía Ale- 
niao; e nao era muíto, porque feu pal , e 
mái eram naturaes de Otranto. Depoís de 

Spftarem algum cfpajo em cumprimentos , 
e defpedio Luiz Alvares de Tavora de to- 
do pera fe partir pera Damáo ; e ao outro 
dia 1 he mandou o Cedemecan muitas pe^as 
ricas, <e brincos curio fos pera o Vifo-Rey . 
e pera D. Diogo de Noronha, a qucm eí- 
creveo cartas de muicos cumprimentos , ^ 
... Luiz 



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^66 ASIA DB DxoQO dk Couyó 

Luiz Alvares de TaTon nSo ficoo com ai 
maos vazias* 

Dada á ?éla , chcgoú a Damáo , e achoa 
D. Dlogo de Noronna enfermo de humas 
febres y de que em poucos dias veio ^ fale- 
cer com grande mágoa , e dor de todos pe* 
las muirás , e boas panes » e qunlidades de 
fuá peíToa , e pela grande perda que o Efta- 
do da India toda recebeo. Faleceo em idada 
de quarenta e quatro annos. Foi filho legt^ 
timo de D. Alvaro de Noronha » filho de 
D« Fernando ¿e Noronha , e neto de D. 
Pedro de Noronha , Arcebilpo que foi de 
Lisboa , filho do Conde Gijon« Sua mai íé 
chamou Dona Mecía da Silveira , filha de 
Diogo da Silvieira , e de Dona Mari a de 
Tavora , inná de Pero Louren^o de Tavora , 
Senhor do Mogadouro. Em mo9o cahio hu- 
ma queda, deaue ficou quebrado pelas coC* 
tas , pelo que roi fempre anojado ; por eíle 
defeíto o mandou feu pai aprender letras, 
com propofiro de o fazer Clérigo ; e fendo 
já homem , füccedeo huma preíTa em hum 
dos lugares de África, a que acudíram mui-* 
tos Fidalgos do Reyno , e elle o fez tam- 
bem i porque deíejou de fe come^ar a mof- 
trar no férvido de El Rey. Depois deeftarem 
lá , ceíTou a occaíiáo , e ElRey efcreveo ao 
Capitáo K que de fuá parte déíTe os agrade* 
» clmentos aos Fidal¿os que lá foram ^ e 

1 que 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. IX. ^67 

% que Ihes diíCfík que bem fe podiam tor- 
9 nar pera o Reyno , e que Ibes nao efcre- 
» via pela preda, ji O Capiíáo fatisfez ao 
que Ihe EIRey mandou, e o diíTe a todos ^ 
e aínda Ihes moftrou a carra de EIRey , com 
o que logo fe embarcáram , excepto ede D. 
Diogo de Noronha , que dizendo«lhe o Ca- 
pitáo que bem íe podia ir pera o Reyno, 
refpondeo « que bem fabia EIRey que eña« 
3» va elle naquella fortaleza , que quando el- 
H le fofle férvido de o mandar ir , elle Iho 
n efcrcveria. » O Capitáo aílím o efcreveo 
a ElRcy , que vendo a conta que D. Diogo 
de Noronha tinha comfigo , e com feu fer-" 
vijo, o eílimou muito, elogo Jhe efcreveo 
huma carta multo honrada , em que Ihe man* 
dava que foffe pera Lisboa , porque tinha 
neceílidade delle pera outras coufas. Daqui 
ficou havido porhomem avifado, e de mul- 
ta opiniáo y e ,fi:ou feguindo a Corte com 
determinaban de mudar o propoílro na v¡da« 
Depois paflbu á India , como remos dito, 
onde EIRey teve fempre tanta conta com 
elle, queneftas naos doanno defeíTenta Ihe 
mandou a Capitanía de Ormuz pera logo 
entrar. Nunca cafou. Teve na fortaleza d« 
Dio (fendo Capitao della) hum filho em hu» 
ma muiher formofa , a que poz nome D. AU 
varo , como feu pal , que mandou em huma 
Fcrba do feu teuamento que Iho levaíTem 

lo- 



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368 ASIA DE t)loaO DE COÚTO 

lego pera o Reyno , (como íe fez ,) e lá íci 
entregue a fuá mái, Dona Mecía da.Silveíra, 
que o mandou crear muito honradamente no 
infigne Moíleiro de Alcobaga da Ordem de 
S. Bernardo , onde fe fez Religiofo y e foi 
Letrado, e Fregador. Foi D. Diogo deNo- 
ronha homem virtuofo , prudente , acaüte-. 
lado , muito verdadeiro , e hum dos mais 
esforzados Capitaes que teve o Eftado da 
India , e táo pouco cubi^ofo, que Ihe achá« 
ram por fuá morte quinze mil pardaos , com 
baver lído Capitáo de Dio, e daquella for- 
taleza de Damáo. Eftes mandou delpender 
em efmoias , e em pagas dos férvidos de 
feus criadois. Mandou quefeus oflbs foñem 
levados a Goa , e que fe depoíitaíFem na 
Igreja de noíTa Senhora da Serra, onde et». 
tavam os- de íeus tiosAffonfo deAlbuquer- 
que , e D. Antonio de Noronha , (que ma- 
láram na tomada de Goa;) e aínda hojé 
eftáo eftas tres fepulturas, a de AfFonfo dé 
Albuquerque na Gapella , e as outras duas 
ñas paredes da banda defóra*, em fepulturas 
de pedra muito bem lavradas, e cariofas. 

Por fuá morte fuccedeo naquella Capi- 
tanía Diogo da Silva , que era Feitor , e 
Alcaide mor daquella fortaleza de DamSo , 
Cavalleíro velbo muito honrado, (eque te^ 
ve huma filha cafada com Manoel 'de Soufa 
Coutiniío j, que 4ep<>is foi Governador da 



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Osa VIL Liv* IX. Ca?. IX. ^6ff 

India , ) que D. Diogo de Noronha nOmeoU 
no teílamento , por íer conforme ao regi- 
mentó de ElRcy , (em que manda que ÍTicí- 
cedam os Alcaides mores por morte dos Ca-» 
pitaes , ) o que fe hoje guarda tSo mal , que 
a primeira coufa que os Capicaes pedem aos 
Vifo-Reys , he Provisáo pera nomearem Ca- 
pitáo , falecendo. Diílo tevc tambem culpa 
a devaífidáo que depois houve nos defpachos 
dos cargos da India ; porque naquelle tem- 
po davam*fe aCavalleiros muito hpnrados» 
eque muitos delles podiam íerCapitáes das 
mefmas fortalezas ; e depois chegou iito a 
tanto menos ^ (aflim por fe darem os cargos 
mais por aderencias , que por merecimen- 
tos , como pelas trafpafla^Ses que hoje cor- 
rem , ) que nos nao efpantamos do pouco 
que hoje os homens fe eílimam em feus oi^ 
ficios ; porque eftSo alguns táo mal affora*» 
dos, que por huns fe vem a cflimar pouco 
os outros , que aioda os ha de merecimcn* 
tos pera tudo« 



CQUto.Tom.lF.T.it Aa CA- 



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370 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

CAPITULO X. 

Do que aconteceo ao Vifo-R^ D. Confian* 
tino em Cochim : e de como Je vio com 
o Rey do Chembé ^ e fez com ellepa%es\ 
e do foccorro que mandou a Cranganor : 
e de como Luiz de Mello da Silva entrou 
a Ilha do Primbaldo , onde eftava todo 
o poder do Camorim ^ e o desbaratou , c 
entregou aquella liba a ElRey de Co^ 
cbim : e da fuá chegada a Goa. 

CHegado o Vifo-Rey D. Conftantino a 
Cochim 5 (como atrás diñemos no Cap. 
V. defte IX Liv.) deo logo preffa i carga 
daá naos 3 e á efcritura do Reyno ; e de tal 
maneJra abbreviou tudo , que aquinze de Ja- 
neiro derao á vela tres naos , a Rainha, 
S. Vicente, e Drago. Efte galeáo poracbar 
Tuins tempos arribou a Mojambique , onde 
invernou, easduas naos chegáram ao Rey- 
no a faldamento ; e quizemos affim abbre- 
viar com ellas , porque temos muitas coufas 
pera que haver mifter o tempo. 

O Vifo-Rey , tanto que defpedio eílas 
naos , tratou de fe ir ver com o Rey da 
Pimenra , por Ihe tcr mandado pedir por 
feus Embaixadores que o fizeíFe , mandando- 
fe defculpar por elles das coufas que tinha 
paflado com D. Afibnfo de Noronha , e 
* -^ Vaí- 



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Dec. Vil. Liv* IX. Caí. X 371 

Vafeo da Cunha , (de que no fim da VL 
Decada , e no principio defta VIL demos 
larga rela^áo^) dcitando-Ihe a elles a cul«» 
pa , que elle fó tinha ; porque fe aíTentou 
em confelho que fe Uie diífimulaíFe tudo, c 
Ihe concedeíTe pazes pela neceflidade queha« 
via de fuá amizade por caufa da pimenta 
que corría por íeus ríos « que elle impedia ^ 
íobre o que o Eñado tiniía defpendido mui«^ 
to em Armadas , ( como pelo decurfo de 
noíTas Decadas temos dito.) 

Aflentado iílo y partio-fe logo o Vifo- 
Rey com toda a Armada , aflim de gales ^ 
como de fuñas » e levou comíigo o Capitáo 
da Cidade com a mor parte do6 moradores ^ 
que fe embarcáram em jmanchuas, tones^ c 
outras embarcafdes , com que foi pelo rio 
aílima furgir defronte do Pagodc de Vai- 
queta , e mandou logo a térra Chrifiováo de 
Azevedo, Alcaide mor deCochira, avifitat 
ElRey , e a Ihc pedir , que abbreviafle o mais 
deprefta que pudcíTe aquellas vidas , porque 
era tarde, e Ihe era neceílario partir* fe pera 
Goa. EIRey recebeo bem a vifíta^So , e 
mandou dizer aoVifo-Rey, quedahi adous 
dias fe veria com elle. Mas como efies 
Gentíos por nenhuma coufa daTida trafpaf* 
sao feus ritos , e coftumes ^ nem fazem cou-* 
fa alguma fem eleigáo de dias ^ e de horas f 
f de notar os finaes noáos ^ ou bons^'C^^o^ 
Áa ¡i mo 



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37^ ASIA DE DiOGO DE CoüTÓ 

mo algumas vezes diíTeipoSy) andou com 
dila^óes ; porque o dia que prometteo de 
vir, deixou de o fazer , porque Ihe paíTou 
a gralha atraveíTada , e ao outro diíTe que 
Ihe cantara a oiga; e ao outro que Ibe hui- 
vira o cao ; e aífim com outras íemelbantes 
brutalidades , fem nenhutn ñindamento , foi 
dilatando fete , ou oito días , de que o Vi* 
fo-Rey fe vio lao enfadado, que efteve pe- 
ra fe tornar , até que o diabo deparou aquel* 
le Rey bum dia de bom agouro, que fe« 
nao foQ mal lembrado ^ porque me achei 
iieQa jornada , foi quarta feira de Cinza , 
que he pera todos osChrifláos o de melho* 
res, e mais neceíTarios íinaes que pode fer^ 
porque nelle nos defengana a Santa Madre 
Igreja de noflas vaidades, e nos moftra que 
lomos Iodo 5 e térra, E nefle dia , que elle 
achou bom , partió aquelle Rey de fuá cafa 
acompanbado de mais de quinze mil ho- 
mens , e fe foi pera o Pagode , que eftava 
bum pouco affaílado da agua , onde tinham 
ordenado verem-fe. O Vifo-Rey tanto que 
teve recado, preparou-fe pera adefembaroa- 
jáo, (pofto que foi contra vontade, e pare- 
cer danmitosj.pela muirá gente queElRey 
traziay) é mandou que fe embandeiraffe a 
Armada ^ e que as fuftas eíH\j^eflem com 09 
cfpor^jsem. térra , e toda a gente da Ar- 
imda .f& efiendefle em iileiras ao longo, dz^ 
'.i . praia 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. X. 373 

praia com feus Capitaes de bandeitas. E ef- 
tando tudo a ponto , partió o Vifo*Rey da 
iua galé em huma manchua toldada de hor- 
cado , e elle acompanhado do Capitáo de 
Cochim , e de todos os Fidalgos da Arma- 
da , vellido muito cuñofamente ; c cliegando 
a térra, defembarcou nella ao fom.demui- 
tas bombardadas, e íalvas de nrtilheria ; e 
antes de chegar ao Pagode , o fahio EIRey 
a receber; edepois depaffadas ascortezias, 
aífim empé alTeniáram brevemente aspazes^ 
c as juráram a feu modo , de que fe devia 
fazer aíTento em algum livro, que hoje nao 
parece. 

Acabadas as ceremonias , fe defpedio o 
Vifo-Rejr , e fe foi pera a fuá galé , e ao 
outro día mandou apregoar as pazes por 
toda a Armada ; e EIRey fez o mefmo na 
fuá Cidade , e por todo o Reyno. E porque 
já era tarde pera os muitos negocios que tU 
nha , fe tornou pera Cochim , onde Ihe de- 
ram canas de Joao Pereira , Capitáo deCran- 
ganor, em que Ihe dizia « que os Principes 
» de Calecut , que fe haviam de vh* crear 
» era cafa de EIRey de Cranganor , eram 
ü chegados , e que elle Ihes tinha tomados 
)» os paíFos por onde haviam de entrar , a 
1 queacudia muita gente doCamorim, que 
» tinham tomada a Ilha de Primbaláo » que 
]t era de EIRey .^e Cochim > e Scava da 

» ou* 



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374 ASIA DE DioGo de Couto 

% outra banda , e que todos os días peleja^ 
91 vam muíto afperamente : pelo que Iheera 

> neceíTario acudir áquelle negocio , porque 

> ficava poralli caminho aberro pera fepo* 
» der perder aquella fortaleza, » O Vifo* 
Rey vendo a importancia do cafo, defpedio 
logo D. Franciíco de Almeida (que depois 
foi Capitáo de Tangere) com dez , ou doze 
navios , cheios de muirá , e mui luílrofa (oU 
dadefca , pera irem foccorrer Joáo Pereíra , 
e tomar os paíTos aos Principes , e favorecer 
EIRey de Cocliim. 

Eíles navios foram pelos rios de Gran*» 
ganor aílima com muiro trabalho , rifco^ 
e perigo , porque a gente do C^amorim fi* 
cava da outra banda , que era eñreiro , e dcf- 
carregáram fobre elles nuvens de pelouros ^ 
e fertas , com que encraváram muiros dos 
noflbs , e empenáram os navios , maños , e 
vergas , que era huma coufa formofa de ver ; 
mas por meio de todos eftes impedimentos 
paííáram adiante até onde Joao Pereira elta^ 
va em defensáo dospaflTos, ealli os ficáram 
tomando, epelejando com os inimigos , que 
eram tantofi , que cubriam a térra. O Vifo- 
Rey tinlia avilo todos os dias do que felá 
palíava ; e íabendo o perigo , e trabalho em 
que os noíTos eftavam , e que cumpria ao 
Eílado deitar os inimigos fóra da Ilha Prim- 
baláo , defpedio Luie de j\£dIo da Silvt 

com 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. X: 37? 

com quinhentos homens mais , pera com a 
gente que lá eftava dcfimpedír aquella Ilha; 
c pelos rios dentro foi com o mefnio peri* 
go , e trabalho até o paíTo em que os noíTos 
eílavam ; e vendo-fe com ElRey de Co* 
chim , (que tambem eftava em outros paíTos 
á batería com os inimigós , ) aflentáram am- 
bos de commetter a Ilha ^ e deitar della a 
gente do (^amorim , pera o que .mandos 
preparar os Capitáes. E hum dia de madru- 
gada commettéram os noíTos a Ilha , onde 
defembarcáram com muito grande refiflcn* 
cía, acudindo alli todo o poder, que era de 
mais de doze mil homens y com quem os 
noíTos traváram huma muito afpera batalha, 
em que todos fe alfinaláram bem , e fizerára 
coufas muito notaveis ; e aílim apertáram 
com os inimigós, que os foram arrancando 
do campo, e ganhando a térra , até que de 
todo amanheceo , que fe víram huns aos 
outros mais defcubcrtamente , em que o pe- 
rigo , e damno comef ou a fer maior , fican- 
do todos baralhados , e a crueza crefcendo 
tanto , que paíFavam por fima de corpos 
mortos , que eram tantos , que quafí impe- 
diara a paífagem aos noflbs. Nefte confliélo 
deram huma efpingardada a Luiz de Mello 
da Silva por hum bra^o em Jílma de hum 
encontró pegado ao hombro , que I he quer 
brou oa oSío^ > e ieiuio*fe tamo 4ella y que 

fe 



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37^ ASIA DE DiOGO DE CoUTO 

fe deixou íicar y dizendo aos feus que pafldi^ 
fem adiante ; e aífím o íizeram com tanto 
valor, e animo , que foraoi paííando ávan« 
te, perdendo algumas vezes térra ; mas lo* 
go a tornavam a ganhar. E tanto fizcraní^ 
que a poder de mortes , e eílragos deitáram 
os inimigos fóra da Ilha , e com tanta pref- 
fa, que muitos felan^áram aorio, ondepe*» 
recéram. 

Defpejada a Ilha , fe deixáram os noflbs 
ficar neíla até vir recado do Vifo-Rey , ca* 
pitaneando D. Francifco de Almeida em lu- 
gar de Luiz de Mello da Silva , que fe foi 
pera Cochim a fe curar ; e o Vifo-Rey o 
foi viíitar a fuá cafa , moítrando grande fen- 
timento de o ver alfim , porque receou que 
íe efcapaíFe , íicaria aieijado. E faberído tío 
modo em que as coufas ficavam , logo def« 
pedio Martim AíFonfo de Miranda, pera ir 
acabar de concluir aquelle negocio , dando- 
Ihe por regimentó , que entregaflc aquella 
Ilha pacifica a EIRey de Cochim , e que fe 
tornaíTe pera elle. Chegado Martim Affonfo 
de Miranda á liba de Primbaláo , mandou 
pelos navios , e manchuas dar tantos aíTal* 
tos na gente do Camorim , que eílava da 
outra parte do rio , que de todo os fez re- 
colher, edeixar ospaíTos, ficando tudo def- 
lalivado, e fem impedimento algum» E por 
nio haver mais que faser ^ cmregou a liba 

a 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. X. 377 

a ElRey de Cochim , (que fempre efteve á 
vifta dos noflbs em rodos eftes tranfes, ) e 
voltou pera o Vifo*Rey , que vendo concluir 
da aquella guerra canto em bem , e crédito 
do Eftado , mandou pagar geralmentc a to- 
dos os Toldados, edefpedio alguns Capitáes 
com gente pera Ceiláo » por fer já chegado 
D* Jorge de Menezes Baroche , que deixava 
aquella Capitanía entregue a Balthazar Gue* 
des de Soufa , cjue foi continuando na gucr« 
ra contra o Rajú, como adiante melhor di« 
remos. E affim proveo o Vifo-Rey a forta- 
leza de Cranganor de Capitáes , e gente pe- 
ra fuá feguranga , aue foram , D. Francifco 
de Mora , Nuno de Mendoza , Jeronymo 
Taveira , Jorge Homem , Manoel de Sá 9 
Jeronymo Carvalho , D. Martinho Rolim ^ 
Ruy de Sá , Francifco de Mefquita , e ou* 
tros ; e deixou dinheiro pera a paga dos 
foldados y e provimentos pera as mezas, 
aue Ihes haviam de dar. Próvidas eñas cou^ 
las, eoutras, fe embarcou o Vifo-Rey pera 
Goa, aondechegouquaíl na entrada de Mar« 
(o , e a Cidadc Ihe fe; muito grande rece» 
bimento. 



CA- 



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378 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

CAPITULO XI. 

De alguns Capitaes , que o VifthRey 2). 

« Ctmftantino defpacbou pera f era : e da 
grande Armada tjue mandou a Ormuz f 
de que fot por Capitao mar Baftido de 

• Sd : e de outrd , que fot de Joccorro a 
Surrate em favor de Cedemecan , de que 
fot por Capitao mar D. Antonio de No* 
ronba Catarral : e do que fuccedeo a ef- 
tai Armadas. 



c 



Hegado o Vifo-Rey D. Conftantino a 
Goa , ¡ntendeo logo nos proviroentos 
das fortalezas » e no defpaclio dos Capiráes , 
que haviam de ir pera fóra; e porque achou 
Etnbaixadores do Rey , que foi de Bajorá , 
e dos Senhores das libas Gizares , ( do que 
na VI. Decada no Cap. XV. do IX. Lívro 
temos dado larga conta , ) os ouvio , etelles 
Ihe deram fuas cartas , em que Ihe pediam 
os quizeíTe foccorrer com huma Armada , 
porque tinliam os Turdos de cerco na for- 
taleza; e em tanto aperto^ que Ihesnáo fal* 
tava mais pera Ihatomarem, que huma Ar<p 
mada , que Ihes defendeíTe por mar os pro- 
vimentos ; e que elles fe obrigavam a dar 
pera EIRey de Portugal a fortaleza , que 
eftava fobre ornar, eametade dorendimen* 
to daquelia Alfaadega ^ (como já outra ve« 

pro- 



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Dec. vil Liv. IX. Caí». XI. 379 

promettéram, quandoD. Antao deNoronha 
tora áauelle negocio, como na mefma De- 
cada affima fíca dito, Cap. V. e Liv.* IX.) 
Eque pera feguranja difto elles entregariam 
logo , em o Capitáo mor chegando , refens 
bailantes, e a feu contentamento. 

Eftas coufas poz logo o Vifo-Rey em 
confelho j e debatido o cafo , fe aíTentoa 
que fe Ihes mandafle a Armada que pediam , 
porque aquelle era ornáis importante negó* 
cío , que entáo na India havia ; aílim pelo 
muito que importara ao Edado da India ú* 
rar dalli táo ruim v¡zinhan9a, como a for« 
taleza de Ormuz cinha , fendo Baharem de 
Turcos , como pelo grande proveito que íe 
efperava daquella Alfandega , que por tem» 
pos podia vir toda ao Edado , como a de 
Dio i e que além diflb fe fegurava toda a 
India com aquella fortaleza na garganta do 
Eufrates , por onde nao podia entrar » nem 
fahir coufa alguma de Turcos , e que ficava 
o caminho aberto pera por alli fe paíTar 
adiante , quando Déos noflfo Senhor oíFere* 
cefle occafiáo pera ¡(To. 

AíTentado ido , mandou o Vifo-Rey or* 
denar huma Armada de nove velas groíTas 
antre galeóes , e caravellas , quatro galeotas 
Latinas , e fete. fudas , e elegeo pera efta jor- 
nada Baftiáo de Sá , que come^ou a correr 
com os provimeotos della ^ e paga dos fol^ 

da*- 



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gSo ASIA DE DioGO DE Couto 

dados , qué haviam de fer mil e quatrocen* 
tos homens. Etn ouanto efta Armada fe fa- 
siapreftes, defpacnou oVifo-Rey aD^Joáo 
de Taíde pera ir acabar o tempo que Ihc 
faltava da fuá Capitanía deOrtnuz, por ef* 
tar já livre das culpas , por que o tiráram 
della ; e D. Antáo de Noronha , que lá eda* 
▼a , acabava o feu tempo no Abril feguin- 
te y e deo á vé! a por fim de Mar^o. No 
meímo tempo defpachou tambem o Vifo- 
Rey a D. Francifco Deja pera ir entrar na 
Capitanía de Malaca , porque tambem acá* 
bava Joáo de Mendoza que lá eílava, e em 
fuá companhia foi p galeao da carreira de 
Maluco com provimentos pera aquella for- 
taleza, e huma nao pera as Ilhas de Banda 
por contrato, que de novo fez oVifo-Rey 
cora oCapitáo , que era próvido deftas via- 
géns* E porque he neceíTario declarar a cau- 
la , por que eftas viagens fe extinguíram , e 
o pouco proveito que ElRey deltas tinba , 
ferá neceíTario determo-nos hum pouco em 
o dizermos^ e paíTa defta maneira. 

Coñumavam osReys a prover eftas via* 
gens , como faziam as de Maluco » que an- 
dáram fempre emFidalgós muito honrados , 
(que nao nomeamos por nao fazermos com- 
prida a hiftoria,) porque importavam mui- 
to ; e pera eíla viagem.cofiumavam levar a 
maior nao que ElRey tinba na fuá ribeira^ 

(por 



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Dec. vil Liv. rX. Cak XL 381 

(por fcr a carga que de lá tra2ia de mdr 
volume , que do cravo ; ) de maneira , que a 
nao pera efta viagem , officiaes, ariilhcria, 
muni^Óes, e cabedal montava huma grande 
fomma de dinheiro , de defpezas á fazenda 
de El Rey ; e recolhia táo pouca coufa , queí 
niuicos annos ftcava pondo (comolá dizem) 
as linhas de fuá cafa , aílim pelas deforde- 
nadas mercés, que os Vifo-R eys, eGover-- 
nadores faziam dos tercos , e choques y quct 
vinham a ElRey , como pelos roubos que 
os Capitaes das víagens , e dos de Malaca ^ 
e mais Officiaes faziam : no que fe houvera 
juftija , e verdade , piidera montar pera fuá 
fazenda mais de íetenta mil pandaos cada 
anno , fem ElRey metter mais cabedal , que 
as defpezas dos galeóes ; porque o ordina-^ 
rio que eftas naos carregavam em Banda 
eram mil c duzentos bares denóz, emaífá^, 
de que cada bar tem íinco quintaes , huma 
arroba , e dez arrateis do pezo da térra ; e 
os Capitaes , e OÉRciaes que o carregavam 
em fuas liberdades , tiravam em Malaca tres 
ouintaes , duas arrobas , dez arrateis do pezo 
oaquella Cidade, e ficavam a ElRey fbrrai 
pera dlc lete arrobas , e quaíi era o terco, 
de que os Vifo^Reys faziam merc¿8 a lem 
parentes , .e criados. E ainda paíTava efta deí^ 
ocdem mais adíame , que davam licen^as a 
(OUCraspeíToás pera mandarem a Banda trazer 

tao- 



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382 ASIA DE DiOGO DB COÜTO 

tantos bares de nóz , e mafla no galeao de 
EIRey , e que nao pag^íTem inais que a trin- 
ca por cento , cerno 6^ Ofiiciaes , e ainda 
depoís Ihes faziam baixa \ e zos outros pai^ 
favaro Provis6es pera mandaren) trazer ccr^^ 
tos bares comprados com a fazenda de El* 
Rey, porque íempre tnandava cabedal , de 
que as peflbas toma va m o rifco , e depois 
Ihes panavam Alvarás de quita , e mercé, 
ppi? pnde fempre EIRey ficava fem coufa 
aiguma. Do que informado o Vifo-Rey D* 
Condantino , vendo quanta mais obriga^ao 
linha que muiros outros , de accrefcentar a 
fazenda de EIRey , e nao diminuir nella^ 
crdenou já o anno paflTado de nSo mandar 
nao de EIRey , e de arrendar a viagera (co^ 
mo fez ao Capitáo próvido della) por tre- 
zentos bares de nóz , e até fincoenta de maf- 
ia , forros pera EIRey , fem llie dar orde- 
nado , nem mercé alguma , e nem ifto fe 
pode colher. Pelo que efte anno fe concer-? 
tou com o Capitao da viagem , e Ihe deo 
dez mil pardaos feccos pera elle , fem outro 
algum inierelTe , concertando- fe á mefma ra-^ 
záo com os OíEciaes , pera ver fe podia co^ 
Iher algum fruto daquellas viagens ; e mztH 
dou humando muito formofa cdm cabedal, 
pera vir toda a carga pera EIRey , que tor* 
nou de lá , fendo Vifo-Rey D. Antáo de 
Noronhdi como naVIlL Decada diremos^ 

íe 



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Dec vil Liv. IX. Caf. XL 38? 

fe nos lembrar : e fegundo as informa^Óes 
que temos , tambem nao montou coufa al- 
guma. £ por rilo , e porque a tcrra eftava 
alterada com asdefordens dosCapitáes, que 
a ellas hiam , ceflaram eñas viagens « e íicou 
aquclle commercio livre aos Jáos , que to- 
<ios os annos vao aquellas libas , e carregáó 
muiros juncos feus , e os levam a Malaca^ 
e ao Achem. £ porque no pre^o defta droga 
fallamos já no Cap. XIL do VIII. Livro dti 
noffa IV. Decada , pcJo primeiro contrato 
que osnoflbs fizeram naquelias Ilhas , odei- 
xamos de por aquí agora. A todos eftespro- 
vimentos ,. e defpachos dco o Vifo-Rey g 
mor preíTa que pode. 

£ porque chegou tarde de Coclum , ^ 
as coufas que fe Ihe oflTerecécam foram mui- 
tas , nao pode defpachar a Armada d^ Or* 
muz , em que Baíliáo de Sá hia por Capt^ 
táo mor , fenáo a doze de Abril , em que 
deo á veía com os nove galeóes que diñe* 
mos, de que cram Capitács , a fóra .0 Ger 
neral , que hia no galeáo S. Lourengo y Ayw 
res de Soufa , filho de Chriñováo de Souía 
de 3antarem , que efte anno tinh^ vindo do 
Reyno na nao Caftello ; Francifco de Mello 
irmáo do Monteiro mor , D. Francifco 4f5 
Almeida , que depois foi Capitáo de Tatv- 
gere, D¿ Filippe de Menezcs , D.Jaáo de 
CaftelkHbranco.^Joáo Lopes licitáa > hwz 

' Frci** 



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3S4 ASIA DE DidGO £>£ COUTO 

Freiré de Andrade , que foi Capido deChau! 
naquelle foberbo , e efpantofo cerco ; e Dr 
Diogo de SoQÍa , que depois foi Commen^ 
)dador da Ordem de S. Joao , e BayJio de 
iAcre. Das quarro galeotas Latinas eram Ca« 
pitSes , D/ Jorge de Menezes , que depois 
Toi Alferes mor do Reyno ; Ayres de oa^ 
4danha , que depois foi Vifo-Rey da India ; 
Jeronymo Corregí , filho de Antonio Correa 
Sarem ; e Henrique Moniz Barreto , fillio 
•de Ayres Moniz, irmáo mais velho deAn^ 
tonio Moniz Barreto ^ que foi Govemad(^ 
da India. OsCapitáes dos fetc navios der^ 
nro eram Antonio de Noronha , Alexandne 
de Soufa , Pero Homem da Cofia , Ruy 
Freiré , Pero Lopes Rabello , Efteváo Pires , 
€ Cofmo Faia. 

Dada efta Armada á vela , fendo mais 
de cento e íincoenta leguas aíFaftada dacof* 
ta da India, na altura dasllhas deMaldiva^ 
Ifae deo hum tempo contrario tao tormén- 
tofo , que fez virar a todos em poppa , e 
com muito riíco , e trabalho foram correnda 
á vontade dos ventos , e quaíi deftro^ados 
'ferráram a coila de Carapatáo até Ba^áim 
efpalhados, ecada hum fe recolheo no por- 
to que pode alcanzar ; e o Capitáo mor com 
os mais dos navios de alto bordo foi tomar 
^haul , onde por fer tarde , e tíSo haver 
)i inoDj^o pera Ormuz , 4eterminoa de Jih 

ver- 



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Dec. VII. Ltv» IX. Caí, XU, 585? 

^ernar alli, e oíandou defapparelh^r os m* 
vios , e .efcrereo ao Vifo-Rcy o que Jb6- 
fuccedéra ; perdendo-íe , por partir tarde e& 
ta Armada^, huma.occafiao tamanha , e íi« 
caodo com as defpezas ieitas , qvte foram 
CKiuito grandes , o que acontece cada dia nü 
lüdiú 9 por fe nao fazerem as defpezas ne* 
ccíTarias areoipo: eonde ifto faz mais nojd 
he no Reyno , onde por nao enirar^m huni 
mez anees no defpacho das naos ,'« dílscou^ 
fas da India , fe perdetti tantas , tanta, gen*^ 
te, e fazendas pela tardanza de dez.dias^ 

Pouco depois defta Armada partida d^ 
Goa , ciiegáraai cartas ao Vifo-Rey de Ce* 
demecan , Senhor de Surrate i itm que Ihe 
fazia a faber que ñcava cercado de feu ío^ 
l>rinho Chinguifcan , que o tinha ero muico 
aperto; equepok eftava táoarrifcado aper->^ 
der aquella fortaleza , que antes a quería en«^ 
tregar a EIRey de Portugal y e aos Portu- 
guezes , em que fempre áchou amor ^ e ami- 
zade, que Ihe pedia mandaHe bun) Capháo 
a tomar poíTe della , porque logo liía entre-^ 
garia, eque líáo quería mais que porem-f)a^ 
em falvo com fuá familia , e (helaros na^ 
parte que elle efcolheíTe. 

Vendo o Vifo-Rey a importancia do n«*. 

gocio , e qtte Diogo da Silva Capitáo de^ 

pamáo Ihe efcrevia a certeza docaío^ affir-, 

«lando-Ibe que fe nao a^eudiíTe , qqe fe per* 

Cwt0.Tom.lKP.1L Bb de- 



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^Í6 ASIA DE DlOG^O DE COUTO 

defía aquella fortaleza , que era a mais im» 
f>ortante coufa que fe podía oíferecer. (Por- 
que alóm dé fe cfperar ihuko grande rendí- 
memo de fusr Alfandega^, pela coffimodidade 
do porto fegurava as terraa de DatnSo , e 
Ba^alm ^ é acaíbava de deirar huma braga 
aquella enfeada , e a todo o Reyno de Cam- 
baya , com huma poma em Dio , e ourra 
«aquella fonaleía.) Pondo o Vifo-Rey efte 
negocio émconfelliOi feaíTencou nelle, que 
cótü muita brevidade acudiífe a coufa taa 
neceífaria y e importante ; o que elle logo 
fez , fém embargo do Eílado eftar muito 
defpezo pelos exceífivos gaftos que tinha fei* 
fos ñsíquelle anno , aíllm M fuá ¡da a Jafa* 
nápatáo ñas guerras de Ceiláo , Cranganor , 
e prdvimentos das fortalezas , como na gran- 
de Armada de Baftiáo de Sá , de que^ainda 
nSo tinha novas. E logo com muita brevi- 
dade mándou armar quatorze navios de re- 
mó , que em dous , ou tres dias poz no mar , 
cotti muiros provimentos, efoldados; eele- 
geo pera aquella jornada a D. Antonio de 
Noronha o Catarraz « que fe fez i vela áos 
Vinté dias do mez de Abril. 

Os Capitáes que o acompanháfam em 
os navios , foram D. Lopo da Ciinha , ir- 
mao de D¿ Pedro da Cunha , Capitao thóf 
das gales do Reyno , D. PídfO de Caftfo, 
Alvaro Pires de Tavora , Ruy Pifes de Ta» 

va- 



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Dec Vil. Liv. IX. Caí. XL 387 

Tora kititjtáoj O. Miguel da Gama , B* 
Jho áb Conde da VidiguciraD. Praocifco 
da Gama, e neto do primeiro Conde Almi^ 
fame, que defcubno a India, e aquelle an^ 
no tinha vindo do Rey no ; Fernao de Mi-^ 
randa deAzevedo, füho de^ Antonio déMh 
randa de Azetcdo , Capítáú mor que foi da 
mar da India ñas difiercn^as de Lepo Vas 
de Sampaio, e Pero Maícarenbas, Chrifto« 
ySo de Soufa , filha baílardo de Antonio 
de Soufa , o Lángara de alcunfaa , porque 
era manqo, Fernáo deCaftro, Joáo Gomes 
da Silva ^ Diogo de Souía , André de Ma« 
galháes , Añdré Tavéira de aicunha o Ga« 
valleiro trifte, e outros. 

Neíla companhia defpachou tambem d 
Viib-Rey a Luiz de Mello da Silva para ir 
entrar na Capitanía de Damaó , e a SixnSo 
Vaz Tello pera Feitor , e Alcaide mor ácU 
la ; e folcou D. Pedro de Almeida , que até 
entáo efteve prezo ^ e o defpachou pera ir 
acabar a fuá Capitanía de Bagaim- D. An- 
tonio de Noronha fe deo tanta preíTa , que 
em breves días foi furgir fobre Dam«1o ^ on- 
de eftavam a ínór parte das galeotas da com- 
panhiía de BaftiSo de Sá , que eram Ayrea 
de Saldanha , D. Jorge de Menczes o Ba- 
roche, (comquem eu fui embarcado,) Hen- 
rique Moniz ^ e Pero Lopes Rebello , que 
fabendo da Jornada , a que D. Antonio hia , 
13b ii de- 



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388 ASIA DE D1O6O DS COUTO 

determina rám de o acottlpaobar ,: e fe fize* 
rsm predes pera iíTo : e affim iteímo outros 
Fidalgos , que eílavam naquella fortaleza ^ 
que foram , Ruy Goncalves da Cámara. , e 
Triftáo Vaz da Veiga , que todos foram to- 
mar D. Antonio de Norojilia na barria; de 
Surrate , -que elle recebeo bcm , e eíliíiKWi 
ftiuito, porque Ihe acabáram defaíer huma 
Armada de grande réprcfentagáo , e de uiais 
gente , porque de Goa nao trazia mais que 
duzentos. homens , por ferem os foldados 
embarcados em ootras Armadas* 

E primeiro que entremos ñas coicas , 
qué fiacxedéram a D. Antonio.de Noronha-^ 
nos pareceo bem dar coma das couías do 
Gedcmecan , é Chinguifcan para melhor 
entendimentó da hifloria. Atrás no Gap. 
VIL defte IX, Livro temos dito , como 
eftando o Ghinguifcan fobre Surrate , por 
vingar a mortc do pai , fe alevaniou de fobre 
aquella fortaleza, por acudir a feu Edado , 
que Ihe entrava por elle Alucan , e Ihe ti- 
nha tomado a Gidade de Veredora: agora 
continuaremos com o que mais fuccedeo. 

Chegado o Chinguifcan a Baroche , ajun- 
tou toda a mais gente que pode , e foí buf> 
car o Alucan , que cñava em Veredora com 
grande poder ; e aíTentándo feu exercito , co- 
me^áram ambos a ter efcaramu^as cuftofas, 
que duráram quaíi todo eíle veráo y e por 

fím 



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vDrg. VIL Liv. IX. Gap. XI. 389 

fth fioou o Chingaifcan com a vitoria , e 
xornou a tomar a fuá Cidade. Agoca ven- 
dofe cuera vez deüáipedido , com a máo 
folgada, cora.. a gente contente, c viélorio* 
ía, xleterminou de tornar contra o lio , c 
nao fe, alevancar de fobre Surrate fem fe fa- 
cisfazer da morte do pai; epodo que tinha 
-pera iíTo exercito bailante , quiz ir com mais 
poíTe , e mandou a Cambayeté convidar per 
» aquella jotrada a Berancan , e o Cem 
'Mirza , ambos irmáos, íilhpa debum irmao 
mais mo^o do Hecbar Rey dos Magores, 
que andavam fúgidos daqueUe Rey , porque 
os pertendia matar, de quera já ñas outras 
Decadas demos mais larga rela^ao , quando 
tratamos do ajev^ntamenco de todos osGo- 
vernadores das Provincias de Cambaya peU 
43iorte tde'EJRey Soltáo Mahamude, que o 
Ithimitktn dizem que matou ; e ficáram ef- 
ees dous irmáoB com tres , cu quatro mil 
Magores que trariam , vencendo o foldo de 
EIRey de Cambaya. Enes niandou o Chin* 
guifcan (como jiiaroos dízcndo) convidar pe- 
ra fe acharem com elle naquella empieza , 
¿ Ihes oflFereceo muito liberaes pagas , que 
dles accelíáram, e fe.vieram pera elle com 
coda a gente de fuá campanhia, E na entra- 
da defle raez de Abril do anno de.feíTenta 
foram aflentar feu campo fobre a fortaleza 
de Surrate , e plantáram muita ^ e formofa 

ar- 



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390 ASIA. DE DioQQ DE CovTb 

Vrtilbería , que de novo rrouxe^ contri o ba« 
loarte t que fica pera a parte da Alfeodega ^ 
ende fizeram fortes baüiaes , e armáram gran* 
des ceftóei de térra , e foraro coxuinuando 
a batería com tanto terror ,>e eipanto, que 
«ncheo de medo todos os de dentro , derri«> 
isi^ndo'Ihes todos os altos do baluarte at¿ o 
a^razarem por fima : e por outra parte fo«- 
fam fazendo faunnaferiDora mina porordem 
de alguns Turcos , grandes CMciaes, que 
peraifto rrouxe, que he tao fntrfunda, que 
paíTara porbaixo da cava, que era bem al- 
ta* O Cedetoecan vendo^íe cao apertado 
com hum poder táo groflp fobreaquella for«- 
f aJeza » e que nao tinha donde fe valer , en- 
tendendo que nao podia tleixar de perder a 
fortaleza , e a vida com ella-, a upaiz antes 
entregar aos Portugoezes, que toroar^lha o 
inimigo y e a mandcu ofierecer (como temog 
dito) ao Vifo^Rey D. Conftantino em no* 
me de ElRey , que deixou de vjr a noflb 
poder por nao fer vivo D. Diego de No- 
Tonfaa , que de fuá natureza , c ^o fe en^ 
tendía qae acudirá fuelle «legecto em pef- 
foa , « com lempo ; porque a rife com mais 
gofto , que a inenhuiti ouiro Capído^ a én<« 
fregara o Cedemecam íem ta iweios con 
<que ^dtMs* 



CA- 



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Decapa Vil. Liv* IXv. 39# 

c Á p iT u L O ;xir. 

Do que afúnfeceo a Dm ^tonh, de Ñ(^onb4 
em Súrtate : e dos recados que pajjdram 
antre elle , e o Cedemecan : e de como gsr 
nhou . bumíi' efianc'm ao Chhgufjc^an , r 
Ibetaman aarsilherÍ0\ e dabatalba que 
Ibí dco em campo , em que a desbafatou ^ ^ 
e tbt fe& a¡ev4»(ar o cerco f quf finb4 
pofio aquella fortaleza. 

DEíxámos Q^fte Capitulo ateas D. Antor 
nia de Nori3!nba rehogado ho jip de Sur^ 
race» que logo oo.prioAeiro po^ofurgio coqi 
toda a Armada 9 emandou armar ^e^d^is eiQ 
térra até ooutro dia, que chegárdm os na^ 
vJos de Damáo • e alU fez alardo de itoda 9 
gente da Armada ». ^ achou poucp fnais de 
quatrocentos homens : e a prlmelra.coufa 
que fes foi «defpjsdir logo Coge AI>rahaR| 
em hum ícatur ligeiro com pecado aoCedet 
mecan y como era cbegado , e ^ faber o mo« 
do que quería ler ^aqueíle^Wg^io da en- 
trega da fortaleza .^ ^ ibe mandou z% i^artaf 
do VíTo-ftef , etfi que Ihedma , conwt mv^ 
dava D..i\ot0Qk> di J^o/on^a icpna aquella 
Armad» pora o favx>re«r9 let ajudar^ eperg 
o p6r cmo toda fuá eafa » e jfamUía na pan^ 
le osdeiqtibdle^ imiftka afenfalyo^ equ$ « 
cUe padia fatfre^ar «.foi^aksil ^ cfijuo Ifaf 

ti- 



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39^ ASIA DE DioGO DE GOUTO 

tinha prcfnettido , porqiic levava feus pode* 
res ^ fázéodo-lhe muitos ofFerecimentos , e 
j^romeflas, cUmprindo oque Ihe tinha man* 
dado oflerecer ; e ao Judeo advcrtio , que 
notafle mui bem tudo o que hia na fortale- 
za , e o que entendía do Cedemecan , pera 
que Ihe íoubeíTe dar razáo de tudo ' o que 
vifle. O Judeo foi a Surrate, e o Cédeme-' 
can o fecebeo bem-, e praticou com elJe cm 
fegredo, e fós fobre- a entrega da fortaleza, 
porque fe nao- tinha nado em aquelle nego- 
cio depeíToa viva, por fe nlio atterárem os 
feus , por Tcce^r q\ie o prcndeflem , e oen- 
tregaflertí ao Chingoifcan. E difle ao Coge 
Abráham, que íe foífe o Capitáo mor com 
toda a Armada furgir defrónte da fortale- 
za , como que hia- em feu favor , pera o 
Chingoifcan alevantar ©cerco, eodefapreC- 
íar \ e que fazendo-o , entao huma noice o 
maisíecreto quepudefle Ihe entregaría afor* 
taJcza , e fe embardafia enfi alguns navios 
pera fe paíTar a Jaquere. 

Com efte recado foi o Capitáo mor D. 
Antonio de Noronba pelo rio affima até o 
po^ó do Pagodíi^ho j (que eftá inais de ba« 
tna legua da barra , da banda do Abexim , ) 
e^ allí furgió ; por fer avifádo <jije o Cbín* 
gUifc^n erk alli chegado do día dontei ; e 
t^iíe tinha • fobre o caha*! plantadas eftancias 
Alí.ir0 hirma» heryas'ieiteira»; era que. havia 

mui- 



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Dfic. VIL Liv. ir. Caf. XIL 39J 

jDuita artilheria , cóm ten^áo de Ihe defeoF* 
der a paflagem , como ¿e feiro aílim era ; 
porque tanto que o Chioguifcan vio. a noí^ 
la Armadaino rio , receando^fe que o Ce» 
detnecan quizeíle entregar aquella fonalézá 
aós 'Porruguezes , de¡;KOU as eftancias affim 
como eftavam , batendo a fortaleza: ooih 
quinzc , ou dezefei$ mil homens de guarda; 
e elle com tres, ou qiiaíro mil de cavallo^ 
e os douis iprimos do Rey dos Magores., fe 
foi por na aldea dos Abexin&, e loandoa 
pórna$ bervas leiteiras juntó ao Pagodiioha 
Dove pejas de artilheria de metal , que evam 
caes , e camelos , pera com elles defender a 
paíTagem á noiía Arnaailil* 

Tanto que o Capitáo mor furgio hum 
pouco antes da edancia , fabendo da detert 
mina^ao. do Qiinguifcan , fe foi pera a gft* 
kota de Ayres de Saldaúáia., (por fer. niuito 
grande, e dt dous baíleos^ ).e aJIi cbamou 
a ffonferbo, todos os Capútáes; e dando^lhes 
conta do iiegocio , fe aí&ntou , que fe nao 
buUifle com o Chingiui£caa> , ( que eta até 
emao noffo amigo , e.que-ainda fe nao th* 
nha dociaraéd ^ e que paflafie toda Armada 
pera a.fioatalcsEa , ) e que attraodp^llie «das 
eftancias , entáo defembarcaíTem , e aacomafr 
fem; masque fofle eMo-p^aíleiro^qtléque- 
braflfcia.paz^.: : ' : .. *. - . . 

Co» efe refc^u^ fe mctteo o Opi tío 
, . . í mpr 



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394 ASIA DX DioQO os Cqvto 

mor em hutna gabera , e^foi correndo i 
Armada a dar*lhe avifo do que luiviam de 
fazer. E prepailando pela galeou. de D* Jor« 
gé de Mcnezes ^ ciíamando por: elle , Ihe 
difle aquellas palabras do BLomance velho: 
Vamonos déxa^ mi tio , a Farisi effa Ciudad, 
dando^-lhe a entender que efia?a aíTenrado 
paíTar avante pera a fortaleza. £ D. Jorge 
de Menezes Ihe refpondeo xnutto a preñado 
com o meOoo Romance : Nan en trajes de 
Romens , ponjne no os conozca Galuan^ 
£ cnettendo-fe com elle na galueta ^ o toi 
acompaniíando até a fuá galeota , ficando 
aílentado , qua zo oucro dia pela manhá, 
no comeco da enchence da maré , tanto que 
elle ílzefle íinal com kima bomtordada , fe 
ieralTem ^ e foffeni caminhando pelo rio ai* 
fitna coro as armas sas máos; e que fe da 
tranqneíra Ibe adrafiem isofnbardadas , pu- 
seeífem ^as proas em térra, e Ihes ganhaflíem 
aquella edancia : e aífim toda aquella noite 
gaftáram os nofiba en» íazer muntgóes i e 
em alitnpar as. armas j;e ianto qoe amanhe- 
beo ) que a maté comedón < fubir , onviram 
o ünai doCapitíio snór, c fe leváram lodoa 
os navios , comanda o cerno em punfao pera 
palláiidm o6ra a< fortaleza. 

Bfta van fuños de&onte da cStocia da 
artilhería diante de toda a Armada omaYioe 
de O. Jorge- de Jiléncees , Ajrses de Salda- 

nha, 



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Dec. vil Liy- IX, Ca^ XIL 395 

nha , D. Miguel 4a Gama, Pei^ Lop^sKfr 
bello t e HcTirique Moaiz Barreto » (que 
eram os mdbóres oavios » e da. mclhor , .e 
mais límpa foldadefca de todo9 os da Ar- 
mada ^ ) qtie fóvajido a ancora ao final ^ em 
eome^ando a remar » difpariram dat^eftan- 
das algumas boaibardadas , e da prinieira 
carga deraoi huma na galeora d« ^« Jo^g? 
de Metiezes , onde eu eílava embarcado ^ 
<^ tomou onavio pda proa por tt^ixo 4^ 
jiigo , c kvou as perñas a finco , ou £eÍ9 
mariniíeiros ; e outra paiíTou por aUo , € ta* 
m<;xu pelas iiíburas da galeota 9 « foi varan* 
do fóra^ femfazer maisdainnot Enagaleor 
ta de Ays^s de Saldanha «keam.ootra^ <f» 
Ihe matou dous « t)u tre^ bomens, e outrps 
tamos no navio de D. Miguel da QfíVBÁ^ 
e os mais ^p íkáram feoíi qukibSor Ap4l 
€&a carga, velo outra ^ qüefambem kz aíláf 
de damno ; cofn o que cmbara^oa os fnari- 
oheíros c^ fe¿^o i que alguns deixárafii q 
reme , ficaado os nayi¡osdtraveír»dos ¿s bomr 
bardadas. 

^ > Vendo es Opitflri dos navios o damno 
<}üe dnjiam 4'ücemdQ ^ mandarina aos Catt^ 
Tcirosrqise 4>ueílem as|>roas <m:^rra« poiy 
qtse ineoor daono fe ^rpertva , <)de cftate^p 
fitlU 4'^tfréifit , « a(Em endirettár^aid ¡pera 
cHa ;. e f>oodo'tif farota abauco dm barraar 
c€iras> üMxMx .Mibldtdoi Isgo ear tein^ 

e 



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39^ A^SlA DE DlO<30 DE COÜTO 

e ¿oih;^i^ndé aflimo , e v«lor commettéfatn 
a9:efiancilás;^q()e áscuriladds ganháram mul- 
to dépreffa / e togo fobre a aftilheria fe ar* 
vcráram algtimas bandeiras. E cotxio os do 
navio de D. Jorge Baroche foram dos pm 
xneiros^ <]ue Ido (izeram^ (e eu hia com el* 
!cs , que era ^niáo de dezoito annos, e de» 
fcjofo dé ganhdr lionra > ) chcgando á eftan- 
cia dos' Mouros , acliei huma carreta de 
campo com huma formoüflima pe9a de ar- 
tilheria y e^^ou» bois muíto grandes que a 
tinbam ; e leoibrando-m^ de huma macha* 
dínhá' de [Roim^ qu6 levara na cima , (qise 
osr foldad^s «emáo coftumavam,) icom'eila 
jarreiei-os^ bote pelas pernás ^ e depois ' de 
cahirenf , e com aigiinr companheiros dos 
oue fe allí aCháram, viramos arpefa dearti- 
Incria pera o campo, onde os Mouros cfta«> 
vara emhum mui formófo cfquadiáo , e va* 
rejámo-lo(9 com ella moi arrezoadainente ; e 
•os bois, qudeíam maiopes^que osdeAlerii* 
tejo, mettemos na nofTa f ufta , que nos^íbi 
boa matalotagem. 

OCapítóo mar, que vinha aceroo^ ovh 
vindo dd bombardadas <^'e vendo* os hoffos 
navios cofn^ as prt)te' cm térra ,naa qúiz 
)>a(rar adíente S' ^ deíembarxiou na' parte etn 
(joe Wa,-('q<je ficavaatirQ de beroo^ on* 
titfeftávat^os:;) e form|n(do< feu efquadráo 
«nui bem 'Ordenado ^' toma bandeíra de 

Chri- 



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Dec. VIL Liv. IX. Cap. XII. 397 

Cbrifia no oieio , foi marchando pela borda 
da baí-ranceira por hum formofo, eefpa^^r 
So campo , e os navios todos ao longo da 
jN-aia por coilas. O Chinguifcan , que hía 
ji acudindo ás.eftancJas , (porque aquella bri* 
ga que nella ti vemos foi mui abbreviad^ > > 
^ vendo oCapitao mor cm teríá, foi-fe ef- 
tendeodo em huma meia jua , cujas pontaa 
biatp fecjiar ñas barranceiras (obre: o .rio de 
huma, e outra -parte , íicando os noíTos no 
rn^io. E os deftaponta y que^ava aba^Ko. 
dos noílos, fe adiantár^pi alguns avemyreir. 
ros dos iaimigos, e foram travar.efcaran^üH 
$a com os noílbs , de que tambecn fe adidn*. 
láram alguns , e antre eftes foi o primeíro 
Ruy Gon^alves da Cámara , filho do Capi» 
fáo da Uha da Madeira ; e foi táo venturo-" 
fo , que vio hum daquellcs Magores romper 
nelle o encontró , que elle efperou a pé que- 
do com huma alabarda nasmáos; e aopaf> 
far o Magor , o Jevou Ruy Gonjalves da 
Cámara na ponta da alabarda , e deo logo 
com elle morto em tcrra ; e depois fe fojiibe 
que era hum dos principaes Capitaes do 
exercito » chamado Ceifel Maluco : os com«^ 
panheiros cambem fe ncolhéram efcalavra* 
dos da nofla arcabuzaria , de que alguns fo-^ 
ram morto^ em fima dos cavallos , (porque» 
coílumam andar percintados nelles pera nao 
ücarem antre os inimigos i ) e aOka depen<« 

du- 



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3^1 ASIA deDiogode Covto 

durados dos cavallos os viamós ir peto cam- 
po defenfreados , e defatinados. Os noflc» 
navios , que hiam de longo da praia , com 
a maré (aue aílim como hia fubindo ^ e cref^ 
cendo) hiam elles deícubrindo máis o cam- 
po, de íei^ao que tiveram teiripo pera deí^ 
pararem os falcoes antro os inimigos, oifde 
com elles fizeram muito damno , e os noflbs 
foram caminhando mais defalivadosí , aré che- 
garem á tranqueira onde mSs eftavamos : e 
a primeira coufa que o Capitáo mor fez , 
fbi mandar embarcar a artitheria pelos ma- 
linbeiros dos navios , eftando o noíTo exer« 
cito fempre no campo fóra das leiteiras á 
viRa dos inimigos , por Ihes mofirar quáo 
pouca razáo tinbam pera os recear. 

O Chinguifcan vendo aquella confianca 
dos noíTos , ficou algum tanto quebrado da 
fuá ; e todavía defpedio os dous irmaos Ma- 
gores com úíA e quinhentos cavallos da fuá 
cevadeira , por Iho elles pedirem , porque de* 
fejavam de provar a mao com os Portugue- 
ses, que com grande determinagáo commet- 
téram* O Capitáo mor os efperou em hum ef- 
quadrao fechado , e bem ordenado , com os 
Capitáes poftos i roda , ficando elle de fdra 
capitaneando; e como era homem mui gran- 
de, e membrudo, e anda va vellido em hu- 
ma roupeta , e cal^Óes de cetim aleonado, 
ludo efpeguilhado douro , e por íima trazia 

hur 



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Dea TIL Liv* IX. Caí, XIL 399 

jtuma formofa faia de matha , e iium iDoa« 
tante ñas maos , andava tÍo formofo ^ que 
nao havia mais que Ver ; e aíTnn rodeando 
ofeu ,efqu9dr3o , andou ieinpre defóra del« 
lev aporque os feus fe nao definandaflem* B 
chegando os Magores a. tiro de arcabuz , 
difparáraoi os noíTos nelles Jiuma , e duaa 
cargas táo bem empregadas , que dellas íh 
cáram mais de oitema efiirados no campo ^ 
a fóra os que os cavallos leváram: e toda<¿ 
vía como vinbam com aquelle impeto na 
primeira cwnmettida ^ fícáram baralhadoa 
com os noífos , e atropeláram alguns , que 
le fahíram do efquadrao , por muito que o 
Capitáo mor trabalhou pelos ter. £ deftes 
acropeladoa foi hum Toldado chamado An« 
tonio Nicolás , que efperou hum daquelles 
Magores com huma efpada , e rodelía ^ e 
cahindo no cbáo virou o Mouro fobre elle 
pera o matar ; mas aífim de coilas , e quaíi 
por debaixo do cavallo Ibe deo Tantos gol- 
pes , que Ihe cortou huma perna , e deo 
com elle cochSo; e levantando-fe commui** 
ta preíT) ^ matou o Mouro , eftando }á foc* 
corrido ¿ai noíTos ; e logo Ihe rirou huní 
terf^ado de prata com fuá guarni^Sio de tala-» 
barres , que langou aó pefco^o « e aífím an« 
dou pelejando com muito valor y porque 
andava já a coufa muito tratada á efpada , 
€ M MÍlbft Hkui accesos na peleja ^ em qu4 

to- 



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400 ASI A DE DiaGo.DE CoufÓ 

todos fizeram taes couüís , que os inituigos 
de efcandalizados fe foram recclhendo pera 
onde eftava o Chinguifcan , bem deíconíia- 
dos aquelles dous Principes Magorcs ^ e en- 
fadados daquelle mal efperado fucceíTo ; rppri- 
que elles foram occaíiáo doGbÍBguiican que^* 
brar as pazes que tinha com o Efiado , por 
dizQceai muirás vezes que deíejdvam de fe 
ver eoi campo com os Portugucízes , pela 
fama: que tinJbam antre todas as ra$:6es da 
India : e aflim víram logo experiencia em 
os feus , porque os mais dos que morréram 
foram Magores , que por mais foberbos , o 
atrevidos k adiantáram 

Recolhidos elles pera o Chinguifcan , fe 
puzeram rodos no campo eol bum muito 
formofo efquadráo á vida dos ,noíIbs , onde 
parece eftiveram tomando confelho fobre o 
que fariam ; e entre tanto Ihe mandáram lá 
os noflfos alguns pelouros de duas pe^as, 
que'ticáram carregadas , que foram as der- 
radeiras que fe embarcáram ; cujos pelouros 
l^vantáram anire elles grandeis nuvens de por 
eirá, ^ desfizeram o confelho.. Todavia pa* 
rece que de aiFrontados , e magoados aílen* 
táram de comroeiter os noflbs -, e tornáram 
a rebeiitar pelo campo com grande furia, 
lanzando dianre muitas bombas de fogo, 
que no meio dos noflbs fe desfizeram , fem 
perigar mais que hum fó. £ como 9$ ne& 

f08 



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Dég. vil LiV. IX. Cap- tlí. 40Í 

fos eílavam com a mao folgada do fucceflb 
paíTado , deo-lhes pouco delles , e aflím cf« 
peráram os inimigos com grande determina-^ 
cao , e antre todos fe travou huma afpera 
bacaiha , que duroü pouco , porque a noflk 
artilheria pelas ilhargas , e a arcabuzaria pov 
diance aílim os efcandallzoii , que íé torna-' 
ram a recolher pera o cabo do campo, on* 
de Chinfuifcan ficou , que defdonfiado da* 
quelles lucceflbs j determinóu de it pelejai? 
com os noíTos a pé quedo , pera o que fe 
defceo , e fez por todos a pé , e fórroou ou*^ 
tro efquadráo com prdpofito de ir morree 
antre os noíTos ^ ou fatisfazef aquella quebra^f 
Efiando com efta furia ^ fe chegou a ell6 
hum homem de fuá obriga^ao, elhepedioy 
que nao quízeíTe arrifcar fuá peíToa com oí 
Portuguezes , que pelejaVam como defefpe^ 
rados^ e que ñinguem havia de levar delled 
a melhor; e ainda fe liou Com elle^ pedin«< 
do-lhe que nao paíTaífe dallL Eílando níílo,^ 
Ihe chegou hum recado de fuá mSi , (que 
íicava ñas eílancias , ) em que Ihe mandava 
pídir pelo amor que Ihe tinha , e pela léi 
do feu profeta Mafamede ^ que fe recolheífe ; 
e nao quizefle peíejar com aquelles Cafres , 
(que aílim íios chamam elles por defprezo^ 
que tanto quer dizer como Cafres , ) porque 
Ihe dizia o cora^áo que is fuas maos havia 
de morrer , como feu ayo Coge CJofaré Coirt 
Ouío. Tom. IF. P. il. Ce «f- 



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402 ASIA DE DiOGO DE CoUTO 

efte recado da máí tornou elle a cavalgar; 
e ajuntando os feus , fe fo¡ recolhendo pera 
as eftancias , e nao íe deteve nellas maJs, 
<jue em quanto mandou recolher toda a ar- 
tílheria , com que fe foi pera fóra da Cida- 
de , porque fe receou que fe ajuntaíTem os 
noíTos com Cedemecan , e Iha tomaíletn. 

Os noflbs fe fizeram fenhores do campo j 
e depois de fe embarcar toda a artilheria , 
fe recolhéram aos navios ; e todo aquelle 
dia , c noite paíTáram no raefmo poufo jun- 
to de huma formoiiílima nao chamada a Ru« 
paia» quequer dizer, nao deprata, porque 
cada anno vinha de Meca com huma grande 
fomma della , e doutras riquezas , por fer 
embarcajáo, emque feembarcavam os mais 
ricos mercadorcs de todo oReyno deCam- 
baya ; e todos os da Armada a julgámos 
por maior que todas as que andavam na car- 
reirá da India ; e nella entramos quafi todos 
os foldados da Armada , e nos provemos de 
chumbo cm duas ancoras de ferro que ti- 
nha , com huma guarni^ao delle no remate 
das unhas » parece que pera pezo , e ainda 
todos o nao pudemos efgotar. 



CA- 



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Década Vil. LiV. IX. 40J 

CAPITULO XIIL 

Dos recados que fe pajfdram antre D. Jh* 
tomo de Noronba , e o Cedemecan : e de 
como o Capitdo mor a fuá pe ti Cao commet-^ 
teo a Cidade , perd lanzar ¿ella o Cbin-^ 
guifcan : e de corno D. Antonio de Noro* 
nha fe vio com o Cedemecan fobre a entrC" 
ga da fortaleza , e as caufas que bouve 
pera a ndo entregar : e de como a /írma* 
da fabio do rio , e D. Antonio de Noro^. 
nba fe foi pera Goa y e o Fifo'^Rey D^ 
Conjtantino o mandou prender* 

A O outro diá pela manhá fe levou o 
Capitao mor com toda a Armada em- 
bandeirada , c foi furgir defronie da fofta* 
Jeza , e mandoii faber do Cedemecan o que 
dererminava, c o que queria que fizeíTe ; e 
elle Ilie mandou pedir , que defembarcaíTe 
em térra , e mandaíTe desfazer as eftancias 
dos inimigos , pera fe fegurar mais ^ e que 
dcpois Ihe entregaría a fortaleza» D* Anto- 
nio o fez aífim , e fe poz debaixo da forta- 
leza em térra com toda a gente em armas y 
e derredor dos muros fez hum muito bem 
ordenado efquadrao , dando huma formofa ^ 
e foberba falva de arcabuzaria, e a Armada 
de artilheria : o que fez reprefentar a todos 
outro maior y e mais poderofo exercito de 
Ce ii gQn- 



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404 ASIA DE DiOGo de Couto 

gente , do que era , porque aquella pouca 
cncheo os olhos de todos aquéllcs Mouros , 
que aínda que fe moftrem amigos , fempre 
os p6em nosChriftaos com odio, e aborre- 
citnento. Com efta ordem foi o Capitáo mor 
até ás eñancias do Cbinguifcan , e mandou 
pelos marinheiros da Armada desfazer os 
ceftóes , e derribar os vallos , e trincbeiras , 
e arrombar , e entulhar as minas ; e em quan- 
to fe ido fazia , andava o Cedemecan no 
baluarte da batería com muitos Officiaes con- 
certando , e repairando todas as ruinas de 
feigáo , que tornou naquelle dia > e no outro 
feguinte ao por no eñado em que dantes eí-- 
tava. E tanto que as eílancias foram derri* 
badas j mandou o Cedemecan dizer ao Ca- 
pitáo m.ór , que o Chinguifcan eñava aindá 
dentro na Cidade , ( que era hum tiro de 
béfta aíFaftado da fortaleza,) que Ihe pedia 
o foíTe lanzar della , pera elle mais livre- 
ttiente fe poder embarcar , e eniregar-lhe a 
fortaleza \ e pera iflb Ihe mandou alguma 
gente de pé , que feriam até quatrócentos , 
e algumas trombetas , e atabales em came- 
los , e muitos foldados dos feus armados de 
mui groflas malhas, forradas de fortes lami« 
nas da^o pelos peitos, e os mais com armas 
do corpo. 

Eftas dilafóes do Cedemecan (fegundo 
alguns cntendéram) foram pera ganar o 

tem- 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. XIII. 405: 

tcmpo , que era em fim de Abril , em que 
fe efperava pelo inverna, pera a noíTa Ar* 
mada fe ir dalli , porque já eilava em efta<- 
do dcfenfavei ; mas o que depois fe teve 
pormais certo , foi, que fe nao atreveo de- 
clarar aos feus a entrega que queria fazer 
da fortaleza aos Portuguezes , porque fe re* 
ceou que o mataíTem , e aflim nunca tratoií 
os recados fenáo fó , e ero fegredo com Co- 
ge Abraháo, com tanto refguardo , e cau- 
telas , que nunca Iho entendéram. D. Anto- 
nio de Noronha tambem culdou que aquillo 
eram entretimentos , ^Que mandar-lhe pedir 
que lanfaíTé o Chinguiícan fóra da Cidade , 
era invenyáo ; mas porque nao cuidafle o 
Cedcmecan que por mcao do Cbinguifcan 
deixava de fazer oque Ihe pedia, quaíi defr 
confiado Ihe mandou dizer , que logo faria 
o que Ihe mandava , eque pera aquelle ne-r 
gocio nao havia mifler gente fuá •, e tornou* 
Iha a mandar. E na mefraa ordem em que 
cftava foi marchando pera a Cidade , levan- 
do fempre a Armada de longo da ribeira á 
fuá vifta , o que fe Ihe eftranhou muito, 
porque fe foi metter em huma Cidade mui- 
to grande, e de multas rúas, ebecos, onde 
Ihe pudera acontecer hum grande defaftre, 
c defa ventura. E entrando por ella, foi pela 
rúa grande , que corre defronte da Alfande^ 
ga^ emque vinham dar oucras multas ruas^ 

por 



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J^06 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

|)or onde Ihe deo moAra huma copia de getw 
te de cavallo , com que os noflbs traváram 
^uma efcaramuga de efpingardaria ; e andan* 
do aílim travados y deram rebate ao Capitáo 
mor D. Antonio de Noronha, que o Chin* 
guifcan vinha com todo o poder, porfaber 
que ^ndavam os nodos dentro na Cidade, 
h receando-fe D, Antonio de Noronha que 
Ihe tomaiíem as rúas á voita , o que feria 
caufa de fuá perdi^ao , por nao moÁrar que 
voltava com algum receio , ou virava as cof' 
tas com temor , nao quiz voltar pela mefma 
rúa, mas fello pela primeira que achou fo« 
bre a máo efquerda pera a banda do mar« 
£ na mefma ordem foi marchando devagar 
até fahir ás codas da Alfandega , onde a Ar^ 
mada eftava fobre o remo , e foi voltando 
até ás eílancias dos inimígos j onde fe em« 
barcou muito a feu falvo, deixando a noíTa 
arcabuzaria alguns Mouros eílirados por 
dentro das rúas , e foi furgir defronte da 
fortaleza , onde fe dcixou íicar aquelle dia , 
cm que corrérara recados delle pera o Ce- 
dcmecan fobre a entrega della ; e por fim 
vierara a concluir, que foíTe o Capitáo mor 
D. Antonio de Noronha ao outro dia ver- 
fe na ponte da fortaleza com o Cedemecan 
com ios quatro , ou finco homens , e que 
elle Ihe viria alli fallar , e concluiriam na^ 



quelle negocio. 



Aq 



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Dec. VII. Liv. IX. Cap. Xm. 407 

Ao curro día fe embarcou o Capitáo 
tnór em huma manchua , venido em huma 
roupa de cetim roxo , e cal^Ócs do mefmo ^ 
todos guarnecidos de ouro , e por baixo 
huma muito fina faia de malha : leva va ná 
cabera gorra com huma medalha, e plumas 
muito formofas , e tres pagens , hum com 
hum montante nü, ouiro com hum efcudo 
dajo , e o outro com hum murriao , e elle 
com hum baftáo na máo ; e das quacro , ou 
finco peflbas que comíigo leyava , nao fou 
lembrado. Chegado á ponta do caes , efpe- 
rou até fe abrir a porta da fortaleza, e fa** 
hir por ella o Cedemecan , que vinha vefti- 
do em huma cabaia de veludo carmeiim 
guarnecida de ouro, e trazia na cabe 9a hu^ 
ma muito fina , e formofa touca , e hum 
rico Camarabando cingido , e na cinta hum 
punhal de ouro , e diante alguns pagens , 
hum com o terrado, outro com hum cofó 
de afo , e outro com hum arco , e coldré 
com fréchas. Vinham mais com elle finco > 
ou feis Capitáes , que o rodeavam , (era en* 
táo mancebo de vinte e quatro até vinte é 
finco annos, alvo, louro , e de ftiuito boa 
difpofifáo , ) e foi carainhando pera ó caes; 
O Capitáo mor logo defembarcou , e no 
xneio da ponte fe encontráram , e ñas viftas 
tiveram muitos cumprimentos ; e apartados 
ambofi cqm Coge Abraháo ^ faiiáram fobre. a 

ea- 



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4o8 ASIA DE DiOGo de Couto 

rotrega da fortaleza. OCedemecan Ihe diP» 
|e, que eílava multo preñes pera cumprír o 
que tiaha promettido aoVifo-Rey, eaelJe; 
ipas que o nao podía fazer fenáo com mui*« 
ta ordem , e fegredo , porque até eniáo o 
tinha encuberto aos leus , por recear haver 
antre $:Iles algumas alteracóes , íenao levafle 
a coufa no mefmo fegredo , em que eftava 
9té i hora da entrega da fortaleza. Que 
Ihe pedia fe deUaHe ettar noais dous , ou 
tres días com fuá Armada , em quanto elle 
negociava fuá embarca^ao, erecolheííe feus 
thefouros ; e que tanto que tiveíTe tudo preC» 
tes, na mefma hora de fuá cmbarca^áo Ihe 
entregaría a fortaleza. £ depois de fobre 
elle negocio praticarem muiío devagar , e 
P, Antonio de Noronba Ibe dar alguns avi-r 
fos de como havia de proceder naquelle ne-r 
gocio , fe defpedíram , e o Capitáo mor foi 
furgir no meio do rio , onde fe deixou eA 
tar , até o Cedemccan Ihe mandar recado 
pera ir tomar entrega da fortaleza, E quan-» 
do efper^va por.iífo, foi avifado que havia 
liella grandes altera^oes antre os Capitaes 
reinoes , que eftavaní dentro , e tinham lo- 
riadas as portas ao Cedemccan , porque fe 
nao conQertafle com o Gapitáo mor , porque 
depois daquellas vidas ficáram com recelo, 
^ fufpeitáram o negocio , p traziam grande^ 
ffpias fobrp elíe» 



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Dec. VII. Liv. IX. Cap. XIIL 409 

Vendo o Capitao mor aquelle feíco táo 
mal parado , charoou todos os Capitáes a 
confelho, e deo-Ihes rela^áo de tudo o que 
tinha paíTado com o Cedemecan , e do efta- 
do em que aquelle negocio eüava ; c como 
os da fortaleza andavam quaíi alevantados 
contra o Cedemecan , porque íufpeicavam , 
ou foram avifados defte negocio , c que já 
nao efperava bom íim aquellas coufas, que 
Ihes pedia feus pareceres, confiando a bre- 
vidade do t^mpo, £ fendo debatido o cafo 
conforme ás informajóes de Coge Abraháo , 
votáram quaíi todos conformes , dizendo ^ 
» que eram quinze de Maio , e que pela 
9 conta ordinaria nao tardaría o invernó 
)» mais que até alguma chca , em que coníVi* 
» mummente coílumava a entrar naquella 
}» enfeada ; e que fendo cafo que os tomafle 
» dentro naqqelie rio , ficavam arrifcados a 
]» fe perderem, e vir aquella. Armada a po* 

> der de Chinguifcan , com que poderla fa» 

> cilmente tomar aquella fortaleza , e depojs 
1» a Cidade de Damáo ; porque tomando-os 
9 allí a invernada , nao navia onde fe pro«* 

> veíTem , e que por forya fe háviam de en- 

> tregar á fome; e que aínda a tudo ido fe 

> poderiam arrifcar, fe houveífe efperan^as 

> de o Cedemecan poder curaprir íua pala- 
9 vra ; mas que tudo era trabalho perdido , 
» porque fe a fuá tenjáo fora entregar aquelf 

}i la 



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410 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

3) la fortaleza , já o pudera ter feito livre- 
1» mente , e fem rifco algum ; e que bem íe 
1» deixava entender que a neceíTidade em que 
9 fe vio , o fez táo liberal ñas promeíTas , 
)» pois que tanto que fe vio defapreffado do 
» inimigo , tratou tantas dila^Óes ; e que as 
)i alteragóes que diziam , podiam fer artiíicio 
» pera fuá eícufa; e que pedir aquella Ar- 
9 mada bem claro eñava que foi mais pera 

* fe valer della , que por vootade que ti- 

* veíTc defazer aquella entrega; e que pois 
» a coufa eftava nede eftado , nao havia que 
1» efpcrar , fenáo deixar tudo , e nao arrifcar 
» huma Armada , cheia de tantos , e rao 
» bons foldados , e de táo nobres Fidalgos , 
n a coufas táo duvidofas.)i 

Aífentadé ido, levou-fe logo o Capitáo 
mor, e foi íurgir no pojo da barra , e na 
maré da noite fe fahio pera fóra com tanto 
rifco , e perigo , que efteve a mor parte da 
Armada perdida nos canaes ; e fahidos pera 
fóra , deram á vela , e ao outro dia forani 
tomar Damáo , onde quafi todos aquelles 
Capitaes fe recolhéram a invernar-, e aífim 
efte invernó foi o em que naquella fortaleza 
invernou amelhor foldadefca, emaisFidal- 
guia , e Nobreza , que nunca fe vio em al- 
guma outra fortaleza da India , porque fo* 
ram mais de dous mil liomens pera quem 
fe ordenáram finco mezas ^ de que eram Ca« 

pi. 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. XIIL 411 

pitaes D. Jorge de Menezes Baroche , Ruy 
Gonyalves da Cámara , D. Francifco Hen* 
fiques , Fernáo de Caftro , e Triftáo Vaz da 
Vejga , a fóra outros , que em fuas cafas , e 
á fuá cuña deram mezas a muitos foldados , 
como foram Ayres de Saldanha , D. Miguel 
da Gama , D. Joáo da Coila , Alvaro Dias 
de Soufa , e outros ; e a toda efta gente pa- 
gáram efte invernó geralmentc dous quarteis , 
além de fuas mezas. 

Huma das coufas que me embaraza mul- 
to, he ver que no tempó, em que fe eñas 
coufas fazíam ^ nao rendia o Eftado da In« 
dia peraElRey mais que fetecentos mil par* 
daos , com que os Vifo-Reys ( além dos 
gados que tenho dito) íaziam pagas geraes , 
quando fe embarcavam ; c a fóra a Armada 
do Malavar , mandavam outra ao EñreitQ 
de galeoes , e galeotas , e foccorros de for- 
talezas; ehoje que a India rende emdobro , 
faltáo as mais deftas coufas. E deixando if« 
to , tornemos ao Capitáo nuSr D. Antonio 
de Noronha , que foi paífando pera Goa , 
aonde chegou emtres dias; eda bafrat^.man'» 
dou recado aoVifo-Rey D. Conílantino do 
fucceífo deña Jornada , que aílim fe enfadou 
por perder aquella empreza , que cuidava 
tinha ñas máos , que mandou dizer a D. An- 
tonio de Noronha, que fe foffe prezo pera 
hum paífo ^ dando-lhe por culpa o vir-ib 

íem 



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412 ASIA DE DiOGO DE CoUTO 

fem fuá licen^a ; mas depoís de Ihe paíTar 
a colera , e paixao , o foltou , e teve com 
elle tnuitas fatísfa^Óes, porque foube a ver- 
dade do cafo. 

CAPITULO XIV. 

De como os Mauros , que ejlavam naforta^ 
leza de Surrate , quizeram matar Cede^ 
mecan pelos tratos que teve com D. Aft^ 
tonto de Noronha , e elle Ibes fo^io : e de 
comofoi morto porordem de Chhguifcan^ 

POr multo grande fegredo que o Cede- 
mecan teve naquel les tratos^ em que an* 
dou com D, Antonio de Noronha fobre a 
entrega da fortaleza , nao deixou de vir á 
noticia dos feus , e fempre fe receáram de^ 
pois que víram a noflfa Armada naquelle rio. 
Ecomojá traziam olho nelle^ acabáram de 
fe fegurar em fuas fufpeitas o dia que fe vio 
com D. Antonio de Noronha na pontea e 
lanzando fuas efpias, e inteiligencias , fou-» 
h^ram que fe negociava com grande preífa , 
e ajuntava fuas joias, e thefouros , (como 
de feito aífim era , ) porque fempre fuá ten-» 
^o foi entregar a fortaleza , e cumprir fuá 
palavra ; e todas aquellas dila^Óes com D* 
Antonio de Noronha foram por fe nao atre- 
ver a declarar , por fe recear que como os 
.feus* o fQubeífem I fem dúvida o haviam da 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. XIV. 413 

matar , ou entregar ao Chinguifcan. E que- 
rendo elle últimamente entregar a D.Anto- 
nio de Noronha a fortaleza, o meímo dia 
que elle feaflPaftou della, acudiram osMou* 
ros Naéleas de Reinel , que eílavatn com 
elle na fortaleza , e quizeram lanzar mao 
delle, eprendello, porque os nao entregaíTe 
aos Portuguezes com fuas mulberes , e filhos , 
de quem eram táo inimigos , que antre to- 
das as na$6es do mundo efies Naéleas, qua 
feguem os Arabios em fuas feitas y sSo os 
3ue mor mal Ihes querem que todos, e af- 
ím elles sao caufa de o C^amorim , e todos 
os Reys do Malavar quebrarem fempre as 
pazes com o Eñado, porque todos os que 
habitam naquella frakía toda , sao deíla caña. 
O Cedemccan fentindo a alterajáo nelles , 
teve modo com que Jhes efcapoü , e huma 
noite fe ñihio da fortaleza com quinze de 
cavallo ; e defviando-fe do exercito do Chin- 
guifcan , foi caminhando apreíTado pera as 
térras do Vergi, (que sao aquellas, que ja- 
zem antre o Reyno de Cambaya , e as do 
Decan , que he hum Reyno muito afpero , 
e de ferras muito fortes , e intrataveis , por 
fer aquelle Rey da cafta dos antigos Reyg 
de Cambaya , com quem corria em muito 
grande amizade.) E aqui o dcixaremos hum 
pouco , por darmos conta do que fe paflón 
na fortaleza y depois que elle fe fahio della, 

Ao 



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4t4 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

Ao outro dia , tanto que amanheceo^ 
acháram os de dentro oCedemecan menos ^ 
e vendo que nos Pagos Ihe ficáram fuas mu- 
Iheres , e thefouros , nao tocáram em coufa 
aJguma , e tratáram de defenderem a forra- 
]eza, fe o Chinguifcan tornaíTe íobre ella; 
que logo foi avilado da fogida do tio , e 
da ida da Armada , com o que fe tornou 
a abalar contra a fortaleza , e aflentou fuaa 
eftancias onde dantes as tinha« E querendo 
por em ordem a batería , Ihe chegáram no-* 
vas , que o Alucan cornava outra vez fobre 
a Cidade de Veredora com grande poder; 
e largando logo rudo , acudió lá , e defen* 
deo mui bem fuá Cidade ^ durando antre 
aquelles dous Capítaes a guerra todo o in* 
verno , em que houve muitos recontros , e 
analtos I que deixamos , porque nos nao ísr« 
vem , e temos muito que tratan 

OCedemecan, que deixamos partido de 
Surrate , foi pela pofta ter á Corte do Ver- 
gi , e Ihe dco conta de feus traba Ihos , e 
Jhe pedio ajuda pera fe paflar á Corte de 
Cambaya , a Cidade de Amadabá , a fe ver 
com ElRey* E como o Vergi era grande 
feu amigo , o confolou , e o teve comíigo 
alguns días, edepois Ihe deo duzentos ho« 
mens de cavallo , e cem mil cruzados y e 
joias de muito prego , com que fe partió 
pera a Corte > e fe vio com ElRey , e com 



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Dec vil Liv. IX. Cap. XIV, 41^ 

o Ithimitican feu Regedor , e Ihes deo con* 
ta defeus trabalhos, queelles fentíram mul- 
to , e Ihe proraettéram de o favorecer , e 
ordenar todas fuas coufas , pera que paraf* 
fem em bem : pelo que fe deixou fícar na 
Corte todo o invernó. 

O Cliinguifcan teve logo rebate da che* 
gada do Cedemecan á Corte ; e defcjando 
de vingar a niorte de feu pai , fallou com 
dous Mouros de fuá cafa , que foram da 
crea^áo de Coge Cofar , e fe creáram com 
o mefmo Cedemecan , hum delies de na^ao 
Cherques, chamado Roftomocan , manco de 
huma perna , e o outro Abexim Eunuco , por 
come Bifílifcan , ambos homens muito de- 
terminados j a quem o Chinguifcan peitou 
groíTamente , pera que fe follém metter com 
o Cedemecan , e trabalhaflem pelo matar, 
Eftes dous hcmens foram ter á Corte , co- 
mo que hiam a negociar , e viíitáram o Ce- 
demecan , como homens de fuá crea^ao , e 
o ficáram acompanhando , fem fe elle temer 
delies pela crea^áo que tiveram. E andando 
hum dia á ca^a com elles , indo cor rendo 
a hum veado , metteo o feu cavallo huma 
máo em huma abertura da..^rra , e íicou tao 
embarazado , que fe nao ptídia bullir. Ven- 
dólo os dous traidores daquella maneira , e 
fó , arremettéram a elle , e ás cutiladas o 
niatáram ^ fem fe elle poder defender ; e to- 
man- 



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4x6 ASIA DE DtoQo bE CoúTd 

mando a poda, feforain peraBaroche, otí^ 
de acháram o Chinguifcan ^itoriofo do inw 
migo I que os feflejou muito. As novas da 
morce de Cedemecan chegáram a Surrate ; 
e (abcndo-as os feus , mandáram chamar 
Linguircan , por outro nome Caracem , ca* 
fado com huma irmá do Cedemecan , pera 
que fofle tomar poíTe da fortaleza , que Iha 
pertencia, por nao ficarem filhos ao Cede- 
mecan , o que elle logo fez ; e correndo o^ 
tempo , fe concertáram elle , e o Chinguif- 
can , que eram cunhados , e ficáram correndd 
em tanta amizade , que nafcendo hum filhof 
ao Chinguifcan , foi o Caracem feílejallo a 
Baroche, onde o cu viíítei , por me achaf 
entáo naquelia Cidade , e por fer muito feu 
amigo, por lermos ambos o Italiano, e Ihe 
eu moÁrar Dante , Petrarcha , Bembo j^ e ou-» 
tros Poetas, que elle folgou de ver. Aílim 
íicáram por entáo as coufas, fem nunca mais 
fe oíFerecer outra occafiáo pera os Vifo-Reys 
Janfarem máo de Surrate > que tanto impor* 
tava ao EíladOir 



CA^ 



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í) fe CADA Vil. ti Vé ít. 417 

C A P 1 T Ü L O XV, 

Í)íf que nejle tetnpú aconteceo em Maluco i 

e de como aquelle Rey áefiftio do Reyno 

ñas niaos do Capitao daquella forta-- 

le^a : e de outtas coufas que mais 

Juccedéranié 

DÉixámos o verao atrás palfado de i^6oi 
partido Manoel de Vafconeellos pera 
Maluco ^ com quem nao houVe até agora 
témpo de continuar ^ e por iíTo o faremos 
agora brevemente. Efte Capitáo foi tomaf 
Malaca , onde deixou os provimentos da-* 
quella fortaleza; e como foi rempo^ deo á 
vela pera Maluco , aonde chegou cotri todos 
os navios juntos ^ e tomou poflfe daquella 
fortaleza , e logo prendeo Antonio Pereira 
Brandáo, e Ihe mandou efcrever a fazenda 
por provisóes que levava pera iflb. ElRey 
o viutóu , e fe Ihe oflPereceo pera todas as 
coufas que foffem neceflarias do ferrizo de 
ElRe^ de Portugal feu Senhon E paitados 
os pnmeiros dias de vifíta^óes , tratou Ma-* 
noel de Vafconeellos de por por obra ou- 
tra provisáo que levava. Etta era : ic Que fr» 
3» zeííe definir ElRey Aeiro do Reyno de 
3» Maluco y pera tomar poíTe delle por El^ 
3í Rey de Portugal , como verdadeiro Se- 
j nhor y e herdeiro delle ^ pela verba do 
Couto.TomJf^.P.iL Dd » tef- 



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4i8 ASIA DE DioGo DE CotrTo 

» teftamento de ElRey D. Manoel , qnc 

> morreo em Malaca , ( como íica dito no 
) X. Capé doX. Liv. da ¥• Decada,) on- 

> de deixava a ElRey de Portugal , e a to- 
1» dos feus defcendenrcs por herdeiros da** 
9 quelle Reyno de Maluco. E pofto que já 
» Jordáo de Freitas tínha tomado poíle del- 
9 le por virtude da dita verba , foi neceíTa- 

> rio fazer-fe de novo efta folemnidade pe- 
» ra íicar raelhor direito naquella heran^a.ii 
Eñas provisóes , autos , e papéis que levou , 

Í)or que fez eda diligencia , nem os que de 
á mandou y nao adiamos neíleEftado , nem 
homens daquelie tempo , que íoubeíTem dar 
diílo vcrdadeira informa^ao , mais que hu« 
mas lembrangns 4 que eftao em noíTo poder , 
de Gabriel Rebello , que daquellas Uhas ef-* 
creveo algumas coufas curiofamente : e por 
iíTo efcrevemos ifto aflim confufamente , íen- 
do ellas de tanta fubñancia , que houveram 
de eftar em muito viva lembranja. Ero fim 
aílim em fomma : o Capitáo mandou hum 
dia chamar ElRey á fortaleza, eflando com 
todos os OíEciaes , e moradores prefcntes , 
c entáo Ihe noiificou a provisáo que leva- 
va , por cuja virtude ElRey logo lem con- 
tradic^áo alguma definió do Reyno ñas mSos 
do Capitao , dizendo « que dalli por díante 

> qSo conhecia outro Rey por Senhor da- 
n quelk Reyno ^ íenáo ElRey de Portugal , 

» co- 



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Dec. vil Liv. IX. Cap* XV. 419 

4i como verdadeiro hcrdeiro delle, por vír* 
» tude da verba do teílamento de ElRe/ 
n D« Manoel feu irmáo , em que o declara- 
11 va por tal » do que hum Tabelliáo públí-» 
co foi fazendo feus termos 5 e aíTentos de 
tudo , em que todos fe aflignáram ; e depois 
de tudo feito, juráram a ElRey D* Sebaf* 
tiáo de Portugal por Rey de Maluco com 
as folemnidades cofiumadas no ReynOé 

Acabados todos eíles autos , tornoü o 
Capitáo a entregar o Reyflo ao mcfmo Rey 
Aeiro , como Governador delle ^ com o meí* 
mo nome , prometiendo elle logo yaíralla* 
gem pelo coílume do Reyno de Portugal , 
prometiendo de o tornar a entregar a quem 
ElRey de Portugal feu Ser/.;or mandaíTe j to- 
das as vezes que diflb fofle férvido t do que 
tambem fe fizeram outros aíTentos , ficando 
aquelle Rey governando como dantes , mof* 
trando*fe muito bom , e leal fervidor de 
ElRey de Portugal. E com o favor do Ca- 
pitáo foi profeguindo na guerra contra o 
Rey de Tidore , pera tornar a cobrar os 
lugares que Ihe tinha tomados com cor de 
o ajudar , como já temos dito. Nefta guerra 
o ajudáram Diogo da Silveira , e Henrique 
de Vafconcellos ; e tanto fizeram , e tfaba* 
Iháram ^ que o tomáram a reüituir a todo 
feu Eftado ; no que fe pafláram muitas miu« 
dezas ^ que nao iervem de mais qu^ de eo- 
Dd ii fa- 



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420 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

fadar os que as lerem ; e como houve mon» 
^ao de fe partirem pera a India , defpachou 
o Capitao o galeao da carreira , de que era 
Capitáo D.JoáoCoutinfao, com a carga do 
cravo ; e o me/mo fez ás caravelas de Dio* 
go daSilveira, eHenrique de Vafconcellos : 
e foi entregue no galeao Antonio Pereira 
Brandáo , pera o entregarem na India pre-» 
zo , fícando a térra de paz , e quieta , e todos 
muito fatisfeitos de Manoel de Vafconcellos. 
Mas como elle era bom homem , e vir- 
tuofo , nao o pode foíFrer o máo clima da 
térra , veio a adoecer , e faleceo em poucos 
dias, e por fuá morte fuccedeo na Capita-» 
nía Baftiáo Machado , Feitor , c Alcaide mor , 
que tambem eílav^ bem quifto na térra ^ por 
fer bom homem^ e bom cavalleiro. E affim 
tanto que tomou poíTe da fortaleza, come-* 
^ou a correr tao direitamente com todas as 
coufas de fuá obrigajáo, quedeo deíi mui- 
to grande fatisfagáo. E fabendo elle que a 
fortaleza de Geilolo no Morro (que Bernal- 
dim de Soufa derribou, como no Cap. XIL 
do IX. Liv. da VI. Decada fica dito) ator- 
nava aquelle Sangage ( que já fe tornava a 
intitular Rey) a alevantar; e que tinha to» 
mado , e creado bico com o nome de Rey , 
receando que fe tornaíTe a fazer tyranno, 
como dantes , quiz atalhar aquelle tao gran- 
de mal ^ logo no principio ^ onde fe cortao 

com 



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Dec. vil Liv. IX. Cap. X. 411 

com menos diíEcüldade j porque nenhuma 
coufa tem desbaratado o Eílado da India , 
fen^o di(fimular-fe com ellas , e acudír-lhes 
a tempo que já nao tem remedio ; ou fe o 
tem , he com multa difiiculdade , de que pu- 
deramos trazer muitos exemplos. 

Pelo que pedio aquelle Capitáo a ElRey 
de Ternate as lúas corocoras com gente , e 
muni^Óes pera aquelle efFeito , cm que tam* 
bem Ihe hia muito ; e com alguns navios 
que mais armou , fez Capitáo daquella jor« 
nada a Jorge Fcrreira , que fe houve láo 

f)rudente , e cavalleirofamente , que tornou a 
an^ar os inimigos fóra della , e derribou a 
fortaleza de todo; e comido ficáram ascou* 
fas pacificas, e quietas. 

E porque nao paíTemos pelas de nofla 
Religiáo Chriftá, que naquellas Ilhas hiam 
em grande crefcimento , be de fabcr , que 
cada dia fe convertiam muitos ¿ Fó de noír 
fo Senhor Jefus Chrifto por meio das préga- 
^6es dos Padres da Companhia de Jefus. E 
nefte anno em que andamos vieram pedir o 
Sacramento do fanto Bautifmo dous Rege- 
dores principaes de Luzabatá , térra de Am^ 
boino , que o Padre Nicolao Nunes , Reitor 
daquelle Seminario , bautizou , a quem o 
Capitáo fez muitas feftas : e porque em to- 
do eíle anno nao houve ma/s, fícáram aíllni 
as coufas de Maluco até feu tempo. 

CA- 



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4XÍ ASIA DE DiOGO DE COUTO 

CAPITULO XVL 

Do que aconteceo ándoS. Paulo: e deeomé 

fe fot perder na liba Camatra : e do 

que pajfou a gente della. 

DEixámos a nao S. Paulo , da Armada 
de D.Jorge deSoufa, arribada aoBra«» 
zil , onde fe proveo de agua , e mantimen^ 
tos , agora he neceíTarío continuarmos com 
ella. Vendo o Capitío , e Officiaes , que pe* 
ra invernar alli , haviam de gaílar fete , oís 
oito mezes , e que a agua , e gufano cor<» 
rompem brevemente a madeira das naos, 
ajuntando-fe com os Pilotos da térra diante 
do Governador , praticáram fe baveria ainda 
tempo pera feguircm fuá viagem , e ir in- 
vernar á India , no que fariam proveiio 4 
ñáo , e a fuas fazendas ; e de commum pa^ 
recer aíTentáram , que fe parciíTem dalli em 
SetembrO) e foíFem por muita altura bufcar 
a liba de Camatra , pera della em Feverei* 
ro voltarem com a mon^ao , com que vem 
as naos de Malaca , e China. E tomando 
tudo o que Ihes foi neceíFario , partiram em 
quinze de Setembro ; e achando os tempos 
profperos , foram á viña do Cabo de Boa 
Efperan^a em fim de Novembro ; e por acha- 
rem os tempos brandos , fe foram pondo em 
multa altura » porque lá os haviam de achar 

mais 



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Dsa VIL Liv. IX. Cap, XVI. 423 

mais efpertos , e aflim fe foram p6r em qua« 
renta e dous graos da banda do Sul , onde 
acháram os tempos mais frefcos ; e por efta 
altura foram correndo mais de hum mez ^ 
até Ihes parecer que feria bom díminuirem ^ 
e irem bufcar a Ilha Camatra. £ aífim a 
foram fazendo com ventos brandos , até fo 
pórem debaixo da Equinoccial ; efendo vin^^ 
te de Janeiro , dia do Bemaventurado Mar- 
tyr S. Sebailiáo , á boca da noite fe acbáram 
táo abarbados com a térra , por caufa da 
grande córreme das aguas , que por moito 
que trabalháram por fe fazer em outra vol« 
ta , nao puderam , antes Ihes foi crelcendo 
o vento travefsáo táo rijo , que nao teve a 
nao por onde correr ; e como eftavam per-» 
to da térra, e as aguas tambem tiravam por 
ella y foram varar ncUa , fem Ihe poderem* 
valer: e quiz Déos que foi em parte, onde 
íicou a nao encalbada, e todos nella até pe^ 
la manhá , que langáram o batel ao mar, 
e fe paflaram a térra , onde todos fe puze« 
ram comfuas armas, femcoufa alj^uma en-* 
tender com elles, porfer agente oalÜ mei^ 
quiíiha , e táo domeíltca , que acudíram lo* 
go a Ibes vender algumas coufas ; e potlo^ 
que aílim nao fora , os da nao eram fete«> 
centos homens , todos muito saos , e bem 
difpoílos, e armados, que puderam atravef- 
íar toda aquella liba , le antre elles bouve-^ 

ra 



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4^4 ASIA DE DiOGO HE Coüfo 

ra ordem , c governo. E vendo-fe em térra ^ 
aflentáram de fazer alguns batelóes , em quo 
fe pudeíTero ir pera Malaca ; porque já que 
«Savain emparre fegura, nao quizeram paf* 
iar dalli , porque era melhor nao fe bullw 
rem muito , e aífim logo fizeram eftancias , 
e cabanas pera fe agazalharem; ede(embar-r 
cáram da nao todas as fazendas , mantimen-» 
tos , vinhos , azeites , e tudo o mais que 

I)uderam , e desfizeram a nao , e tiráram deU 
a toda a pregadura , madeira , cordoalha , 
e tudo o mais que Ihes foi neceílario , e ar*t 
máram duas embarca$6es , e concertáram, 
e alevantáram o batel, Neda obra trabalhá-* 
ram todos com muito godo , e preíleza , feí^ 
vindo de ferreiros , ferradores , carpinteiros , 
e de todos os mais officios y como fe fempre 
o ufáram; e aílim em breve tempo as acá» 
báram , e lan^áram ao mar y que feria em 
pouco mais de mez e meló , e fizeram fuá 
aguada em abaítanga , e recolhéram nellas 
todas as armas ^ mantimentos , e alguns bcr-t 
JOS , e falcóes , por nao ferem as vaíilhas 
capazes de mores pegas , porque quafi eram 
a modo de barcadas ; depoi^ de tudo prepa-^ 
rado, fe partiram as embarca^des por eíl^ 
maneira. 

Huma dellas fe deo a Diogo Pereira de 
Vafconcellos , hum Fidalgo que alli trazia 
íija raulher, ^ue fe chamava Pona Francifc 



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Dec vil Liv. IX. Cap. XVI. 41$: 

ca Sardinha , ( que foi huma das formofas 
mulhercs de feu tempo,) e huma filha que 
tiiiha doutra mulher , chamada Dona Conf- 
ran9a , que depois foi mulher de Thomé de 
Mello de Caftro. Outra toroou Ruy de Mel- 
lo Capitáo da nao ; e a terceira nos parece 
que deram a Antonio de Refoios , hum ca* 
valleiro muito honrado , que vinha defpa- 
chado com a Capitanía de Couláo* E repar* 
tindo-fe a gente por ellas , nao coube em 
cada huma mais , que cento e fetenta ho* 
jnens , ficando cento e fetenta , que por ne« 
nhum cafo fe puderam agazalhar: pelo que 
díTentáram , que efies caminhaífem por térra 
de longo da ribeira á vifta dos batéís , pera 
Ihes foccorrerem em alguma neceífidade. E 
elegéram antre elles hum Capitáo , e repar* 
ciram por eftes todas as efpingardas que ha* 
via , porque os que hiam ñas embarcajóes 
nao tinham neceífidade dellas ; e aílim co- 
me^áram a camínhar de longo do mar , e 
os batéis fempre á fuá viña ; e tanto que era 
noite , efcolhiam lugar pera defcangarem , e 
dormirem , e furgiam os batéis com as proas 
em térra , e o mefmo faziam a horas de 
Jantar, em que tomavam a refei^o ordina* 
ría; e aílim foram caminhando neftaordem> 
fem Ihes acontecer defañre algum. 

E havendo poucos dias que caminhavam , 
{)Qi)ycram yüla de quatro embarca ;6es ^mo^ 

do 



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4t6 ASIA DE Dioao de Couto 

do de bal ios , a que forain cor rendo , c ellat 
trabalhando tudo o que podiam por Ihes 
fugir; e atirando*lhes de numa embarca^áo 
deílas noflas com bum falcáo , que Ihes fot 
zonindo pelas orelhas , Ihes poz táo grande 
inedo , e efpanto , que logo fe lan^áram ao 
mar , e deixáraoa os navios , que os noíTos 
acháram carregados de farinhas de faguum , 
(que he o principal mantimento de todas 
aquellas libas,) de que fe osnoíTos prové* 
rana em abaftan^a j e recolhéram neílas em* 
barca^ées toda a gente que hia por térra , 
com o que íicáram oíais defcan^ados. B 
fendo já em tres graos da banda do Sul , 
hum día antes de Lúa fe recolhéram a hum 
formofo rio, que acháram peranelle a fegu^* 
rarem ; e foi ella táo ruim, que os deteve 
doze di^s , fem Ihes dar jazigo pera pode-- 
rem navegar, defembarcando todos elles em 
térra pera fe recrearem , c dormindo tam* 
bem nella as mais das noites com tanto def-» 
cuido , e feguranga , como fe a térra fora 
fuá. E até Diogo Pereira de Vafconcelios 
fe agazalhou com fuá mulher em hum bai- 
leo , parecendo ella á gente da térra « que 
a hia ver muito formoía , e muito ricamen-- 
te tratada , coufa que elles nunca víram y do 
que andavam como pafmados* 

Era efta térra do Rey de Manancabo , 
amigo do Eftado ^ donde todos os anno9 

hiam 



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Dec. VII. Liv. IX. Cap. XVI. 427 

liiam multas embarcajoes carregadas de ou« 
ro a Malaca a fazer refgate de roupa , e 
deóutras fazendas , porhaver naqucUas par* 
tes muito grandes minas delle ; e fox ifto 
ancigamente táo profpero , que aínda hoje 
jia peíToas, que íeiembram entrarem naCí- 
dade de Malaca feis , fete , e mais candiz 
de ouro , de que tres fazem hum moio. E 
aíHrn ñeñe tempo havia Chclis , (que sao 
Tnercadores Malaios , ) que tinham doze , e 
quinze bares de ouro. E como osnoíTos vi«- 
viam em térra com tanto defcuído, deram 
occaíiáo aos Manancabos pera defejarem de^ 
levar aquella muiher ao fcu Rey ; e aílim 
deram huma noite ñas fuas eílancias , e ma« 
táram perto de feflenta peflbas , e Jevárani 
Dona Francifca Sardinha , em cuja defensao 
fez o Meftre da nao efpantofas coufas , até 
que o matáram. O Diogo Pereíra falvoú a 
nllia , e outras mulheres , com que fe reco- 
Jheo á fuá embarcado muito anojado deíla 
defaventura y que Ihe aconteceo por fuá io* 
teja confianza. 

Dalli fe partíram os noíTos de longe da 
coda , que era muí limpa , com muito mais 
rento , porque aquelle defaftre os efpertou a 
nao fe fíarem mais da gente da térra , e aílim 
embocáram o boqueirao da Sunda , e foram 
tomar a Cídade de Pata , aonde achara m 
qqatrp naos Portuguezas^ de que era Capir 

tio 



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428 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

táo mor Pero Barrero Rolim , que alli eíla^ 
va carregando de pimenta pera a China y 
porque Ine tinha dado o Vifo-Rey D. ConC* 
tantino a viageni de Japáo que hia fazen 
E recebeo toda efta gente muito bem , e a 
repartió pelas naos , e proveo a todos ba(^ 
tantemente: e parte delles fepaíTáraoi áChi* 
na y e parte pera Malaca , e dalli pera a Ine- 
dia , onde aínda hoje vivem algumas peflbas 
cafadas , como he Francifco Paes , Provedor 
mor dos Contos , e o irmáo Antonio de 
Afonfeca da Companhia de Jefus. 

CAPITULO XVIL 

De como ElRey de Pegü mandou prometter 
humafomma de ouro ao Vifo-Rey D. Conf^ 
tantino pelo dente do Bugio , que trouoot * 
de Jafanapatao : e do que os Tbeologos 
fobre iffo ajfentáram : e de como fe quei^ 
mou : e das partes , e quaüdades deji^ 
Vifo-Rey. 

EStava no Reyno de Pega Martim Aft 
I fonfo de Mello com huma nao fuá fa- 
zendo feu negocio , quando o Vifo-Rey D* 
Conftantino veio de Jafanapatáo ; e fabendo 
aquelle Rey como elle levava aquelle dente , 
que toda aquella gentilidade cinha em tama* 
nha religiáo , mandou chamar Martim A& 
fbnfo > e pedio-lbe ^ que pois hia pera a Iq« 

dia^ 



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Dec. VII. Liv. IX. Cap. XVIL 429 

dia , fizefle com o Vifo-Rey I he défle aquel- 
le dente , e que Ihe daria tudo o que por 
elle pediiTe. É affirmavam os homens que 
fabiam de Pegú , e da grande venera^áo em 
que clles lá rinham aquella reliquia do de- 
monio , que daria por ella trezemos , ou 
quatrocentos mil cruzados. E por coníelho 
deMartim AfFonfo ordenou huns Embaixa* 
dores pera irem em fuá companbia ao Vi- 
fo-Rey fobre aquelle negocio , e Ihes deo 

1)oderes pera aílentarem com elle tudo o que 
he pareceíTe , e que elle cumpriria tudo o 
em que fícaíTem. 

Chegado Martim Affbnfo a Goa elle 
Abril paflado, mandou o Vifo-Rey reccber 
bem os Embaixadores , e agazaihallos , e 
depois osouvio fobre aquelle negocio a que 
hiam mandados do feu Rey , e elles Ihe de- 
ram fuá embaixada , pedindo^lhe da parte de 
ElRey aquelle dente ; e que além de Ihe 
darem por elle tudo o que quizefle, ficaria 
em perpetua amizade com o Eftado , e fe 
obrigaria a prover a fortaleza de Malaca de 
mantimentos , todas as vezes que delles tiveí^ 
íe necelfidade , com outros muitos cumpri- 
menios, epromeílas. O Vifo-Rey Ihe difle, 
que logo Ihe refponderia. £ communicando 
aquellas coufas com alguns Capitaes velhos , 
e Fidalgos y todos foram de parecer , que 
4evia de acceitar lamanha couía y como era 

a 



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430 ASIA DE DioGo DE Covro 

a que Ihe offereciam , porque com iíTo re* 
siediaria o Efiado , que ella va empenfaado ^ 
e em neceíTidades ; e tanro difleram fobre 
iíTo , que o tiveram quaíi rendido. 

Tanto que eítas coufas chegáram ás ore*» 
Ihas do Arcebífpo D. Gafpar, logo acudió 
ao Vifo-Rey , e Ihe difle ^ que nao podía 
refgatar aquelle dente por nenhum theiouro 
do mundo , porque era contra a honra de 
Déos noíTo Senhor, e dar occaíiáo áquclles 
Gentíos a idolatrarem , e darem áquelle pe* 
queno oíTo, o que fó fe devía a Déos. E 
íbbre iílb Ihe fez muitas lenibrangas , e ain^ 
da o prégou pelos pulpitos em prefen^a do 
Vifo-Rey , e de toda a Corte ; c como D, 
Conftantino era muito Cathoiico , e temente 
a Déos noífo Senhor, e obediente aos Pre-* 
lados , nao auiz ir por diante naquelle ne^ 
gocio , nem íazer nada fem confelho de to- 
dos. Pera o que.ajuntou o Arcebifoo, Pre- 
lados , e Theologos das Religióes , (JapitSes , 
e Fid¿)]gos vcihos , e Oñiciaes da fazenda^ 
e perante todos propoz o cafo , e o muito 
dinheiro que por aquelle dente Ihe prometa 
ttam; e aprefentou as grandes necemdades, 
em que o Eftado eflava , que todas fe po- 
diam remediar com aquelle refgate. E óe* 
batida a materia entre todos aquelles Theo- 
logos , que já a levavam bem eftodada , a& 
fentáram ^ que íe alb podia entregar aqoeI# 

k 



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Dec, vil Liv. IX. Ca?. XVII. 431 

le dente, porque era dar occaíiao agrandes 
idolacrias , e offenfas de Oeos noíTo Senlior ; 
e que era hum peccado aquelle , que fe nao 
podía commetter , ainda que fe arrifcaíTe o 
Eílado , e o mundo todo. Os principaes 
Theologos . que niflo foram , foi o Arce* 
bifpo , os Inquifidores , o Padre Fr. Anto- 
nio Pegado ^ Vigairogeral de S.Domingos, 
Fr. Manoel da Serra da mefma Ordem , 
Prior de Goa , o Padre Cuílodio de S. Fran* 
cifco , e outro Theologo da mefma Cufto* 
dia, o Padre Antonio oeQuadros da Com^ 
panhia de Jefus , Provincial da India , o Pa« 
dre Francifco Rodrigues o Manquinho da 
mefma Companhia , e outros. 

Aflentado ifto , e feito hum Termo , em 
que todos fe aílignáram , cujo traslado eftá 
em noflb poder na Torre do Tombo , man- 
dou o Vifo-Rey aoThefoureiro quetrouxefr 
fe o dente , e o entregou ao Arcebifpo , que 
alii prefentes todos olan^ou em hum almo^* 
fariz y e com fuá propria mao o pizou , e 
desfez em pos, e osdeitou em hum brazei* 
ro , que pera iíTo mandou trazer , e as cin- 
zas , e carv6es mandou Janear no meio do 
rio á vifta de todos , que fe aíTomáram ás 
varandas , e janellas , que cahiam fobre o 
mar. Difto fe murmurou muiro do Vifo- 
Rey, dizendo aJguns, que pera os Gentios 
idolasrarem nao Ihesfaltavam outros Ídolos , 

c 



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43^ ASIA DÉ DíOGo DE Cóvra 

e que de qualquer pedago de oíTo podiatrt 
fazer outro dente em memoria daquelle , a 
quetn deíTem a mefma venera^áo ; e que tan^ 
to ouro como Ihe davam , era muico bom pe* 
ra as defpezas do Eüado , que eftava muita 
ncceíHtado : e aílim nos contáram que enl 
Portugal feeílranhára multo dealgumas peP» 
Toas confentir aquiilo. Mas por hum emble* 
ma , ou ten^ao , que aqui poremos , que lá 
Ihe dcitáram fobre eíle calo , ( fegundo me 
parece feito pelos Padres da Companhia^ 
approviram o que fez , e Iho notiram a 
grande Chriftandade , e zelo da honra de 
Déos j) e o emblema he o feguintc. Fize- 
ram huma tarja y e dentro nella pintáram a 
Vifo-Rey , e o Arcebifpo em huma meza , 
e ao redor todos os Prelados das Religioes f 
e Theologos , que fe acháram alli prefentes , 
e no meio de todos hum grande brazeiro 
accezo , e alguns Gentíos com bolfas ñas 
máos cheias de dinheiro , que as deitavam 
fobre elle ^ e finco letras , como a primeira , 
do nome de D. Conftantino , como eftas y e 
logo debaixo dellas eftas finco palavras 

cecee 

Conjlantinus y mli^ cupldine^ 
cremavity crumenas. 

Cu- 



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Dbís. VII. Liv: IX. Cap* XVUl 4^5. 

Guja verdadeira ^igúiñcs^io hé i deirando á 
conftruijáo ; Conflantino com as intenta f nó 
Ceo^ en^itou as thüfmros Áá térra* "& ñor-*. 
ñanda a contÍDfiar cerní o Viib^Rey)^^ . iodo 
eñe invernó gaflou eniiacabar httni>a peo i quú 
fez defranre dos íeus Pa9os j pera fe it neila: 
pera oReyno par éfperar em Setembro. pod 
ñicceflbr , a que pdz' nocne as Ghagar pela 
devoro que tinha ás de Chriíio ^> qué foi a 
COUJ& quse aífim na India ^ como coi' Eortu» 
gal Ihe. remordéram mais que .tadasi £ tan«^ 
to y que Ihe contrafizeram aquelle Romance 
velho, que di2: Mira.' Ñero dé Tirpéya a 
Rama tomo fe atdia ^ em Mira Ñero dd 
janella la nave cámáiJeJkatiamocfmmtjf 
tiveram ñenhuma razao^ porque nem a sellé 
Ihe cabía £al nome i por fer muita^álheid^ 
e diiFerénte de fuá natureza ^ ném !& fpa náa 
foi feiía com encargos com qué outrass de^ 
pois fe fizeram píor alguns Capitae8^:JÉieai 
com os.appa>relhosy e madeiras da$ ríbelra» 
de ElRey y como algims falfamepte difle^í^ 
ram , nem os OiSciaea íieáram clamando qué 
Ihes nao pagara feus jornaes ; mÉs foi feica 
com o que poupou de feus ordenado^ , d 
com empreílimos dé amigos, quedcpois pá-» 
gou mui bem j e com^ táo poucds embara^ 
$os^ :e com tantas^ bei^os ^ como fd p6do 
€onje¿ltítar doii!uito;quedun>u,edaspro£« 
4>eraá viage^s^que feíhofe fezii Porque .deudo 
Qmto.Tom.mP:iL ^Ee eí- 



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434 ASIA BE DióGo DE Cov.to 

eílc anuo dq feíTenta e^ hum até o de oiten* 
ta e finco ^ «que o Viío^Rey D. Duarte de 
Menezea^'fenhor da c^fa deTarouca, veio 
nella , rfeiz nove , oo dec> viajgens tao bem ef- 
candadas \ que nunca Jhe ^cooteGeo defaftre , 
antes fot acabar.no rio de Lisboa fdta ca- 
brea* E parque na enerada de Seteinbro che- 
gou á barra de Goa o Conde do Redondo 
por Vifpj'Rcy , cooi quem logo continuare* 
mos % : no9 pareceo • beni concluirmos neíle 
Gapimlo com todas as coufas defte Vifo* 
Rey^ ; 

Foi D. Conftahtlna* quarto^íilho de D. 
Jaoies^ quarto Duque de Bragdn^a , e de fuá 
iegunda. muJher Danajoanna de Mendoza, 
filha de Díogo de Meado^ ^ Alcaide mor de 
MourSo^Foi Iiomem de meia eftatura , grof- 
fo , eípadaudo , barbaíTudo , gentiJ^honiem , 
blando ^ aífabil , multo favorecedor das cou- 
fas da ^^igiáo ) multó amigo da jufii^a , ver* 
dadeiho ^ cailo , ao menos foi fempre tao 
cauto , que nunca deo efcandalo» Deixou 
íervir^us cargos aos Oificiaes , que os tinbam 
<oa1 grandes liberdades , com íer muito gran- 
de .olh¿dor , e poupador da fazenda de El* 
Rc|yví?»to, que porfaber quehavia defor* 
áeta na Alfandega , a mandou paifar pera 
oodq boje efiá a ribeira das gales, pera das 
fuas janeüas ver tudo ; o que fe Ibe taxou 
tanca /-q[ae logo em ichegando o Coiide do 



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D€C- Vn. Liv. IX- Cap. XVII. 4^y 

Redondo » a tnandou tornar a feu lugar. Fe2 
multas, e groíTas Armadas pera oMalavár, 
c pera o Ellrciio , em que eniráram duas , em 
que íe embarcou em pellba pera Damao , d 
Jafanapatáo ; e neftas vezes fez paga geral 
a todos os homens ; e em todas as fórrale* 
zas mandón pagar a gente ordenada pera 
ellas , principalmente Damáo , e Dio , onde 
ínvernaram todo feu tempo mil c quinhentos 
homens em cada huma , e dar-lhes mezas} 
e o mefmo fez na Cidade de Goa , com 
nao render o Eftado entáo mais de fetecen- 
tos mil pardaos , em que nada diílo ^ ou mul- 
to pouco fe defpendeo. 

Foi D. Conftantino pobre pera o Réyno f 
porque nao levbu mais que a fuá nao íbbra 
quem ainda dcvia muito dinheiro ; e nao ern^ 
barcou nella outras fazendas mais queefcra*» 
vos de todas asna^6es, e oñiciaes de todas 
as mecánicas., e outras curiofidades. O mor 
emprcgo que de féra levou , foram dez , ou 
dozemil cruzados depedraria, quenáói^uli^ 
arrifcar na fuá nao, ecmbarcou*a em outra 
entregue a hum Meflre pera no Reyno pa- 
gar fuas dividas; e chegando a Lisboa, fo} 
mexericado qtie levava grandes riquezas ^ e 
thefouros, e que roubára a India. Pelo qtie 
Ihe deram na nao ^ em que hia aquella pe^ 
draria , e a tomáram , e levdratív á cafa da 
india ^ onde vendú^fe a pouquidade^ a ^m 
£e ü em 



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43^ ASIA i>É Dioao de.Gouto r 

9tn tudo fora o Rey engañado ^ nuindáranf 
gue pagaíli) Wj^irettos , e ievaífe foa pedra* 
lia* Ao que D. Confiantino hiandou dizer 
aos Veadores da fazenda ^ que pois Ihe man* 
davam pagar direitos de couía tao pouca ^ 
que devia ElRej £ra Seohor decflar em ne* 
ceífidade; eque fe tat era, qaeeile libe fa« 
£Ía férvido de toda a pedraria^ co'm o que 
por vergonha Iha tornárain« 
, Eftava Portugal naquelle tempo tao mi- 
mofo f que foi o íeu governo entao muiro. 
eílranhado; mas depois fe entendco que fo« 
ra dos melfaores ^ que defde entao até hoje 
houve: e pelo que delle temos efcrito , q 
adiante efcrevermos , fe verá ido muito bem. 
£ na refidencia « que Ihe ElRey mandón 
tomar pelo Prefídente da aleada , que man« 
dou á India o anno de fetenta e dous , cujo 
traslado temos em nolTo poder, á mót cul* 
pa que Ihepuzeram dous homens, que nao 
fjraní feus amigos ) foi, que deixáxa Cananoi . 
4e guerra , e fe fora a Damáo , e que me* 
]hor era acudir á fortaleza cercada , que con«^ 
quiftar outra de novo. No que moílráram 
paixáo i e quao pouco goílavam delJe ; por* 
que na guerra de Cananor tínha eiie muí 
oem próvido , como neíla Decada fe pode 
v^ *, e a tomada de Daipao foi tao impor^ 
fante , que com aquella Cidade. fe fegurou 
l^^aun^. e fe apofentáram nella^ e.em fiias 



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EHsc. Vn. Li^. fX. GiíP./XVlL 437 

Tánadarias perta de quát'fdcentos rtiDradd* 
res y quecotnem groffas aldeas. E o que fe 
niais de ve do eftimar, he a grande conven* 
sSo, , que por todas aquellas cerras fe tem 
feiío, e cada,d¡a faz, e os formo fos, e ri- 
cos Templos, que por iodn€ ellas fe levan- 
t^ram ao Aldilimo^ Deo9 , onde cada dia he 
honrado , e ;vonerado feu Divino Nome > é 
de cujos facrificios efle bom Vifo-Rey devé 
ter na. gloria (a(»i(3e Déos noíTo Seuhor o 
levaría por feus merecimentos ) muito bom 
quinháo. E tanto fe te ve o feu governo , 
comohia dizendo, por muito bom, que di- 
zem , que quando ElRey D. Sebaftiáo man» 
dou por Vifo-Rey da India a D, Luiz de 
Ataíde a primeií^ Vez*, IhQ encommendára 
que goyernaíTe tao bem cómo D. Confian- 
tino. E dcpqis o anno de intenta e hum o 
mandou ElRey D, Sebaftiáo chamar a Al-* 
meirim , e o commetteo per^ tornar a eflas 
parres da India cóm fuá mulher pera nella 
reíídir em quanto vivefle , e Ihe dava hum 
Titulo muito honrado , que elle engeitou 
por fe quietar, e eftar j4 mui pezado. De* 
pois de chegar ao Reyno , requereo o cargo 
de Cantareíro mdr , que fe Ihe nao dco, 
porque por refpeitos que pera iílb houve fe 
aflentou fe ferviífe ElRey de quatro Sumi^ 
Iheres, Deram-lhe a Capitanía de Cabo Ver- 
de y que arrendou por feiscentos mil reís ca« 
- : da 



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438 ASIA DR.DlOG.O DE COUTO 

da anno» E porque ido era trabalho, pedio 
a ElRey aquelles feiscentos mil reis na Villa 
de Eftremoz ¿ que Ihe elle dco , e nella fe 
apofentou com fuá mulher Dooa Maria, fi- 
Iha de D. Rodrigo de Mello, Márquez de 
Ferreira , e de fuá fegunda mulher Dona 
Brites de Menezes. E porque nao tcve della 
filhos , fez herdeiro de rudo o /que. tinha D. 
Conftantino , filho do- Márquez ^de Ferreira ^ 
por ter o mefmonome, e fer feu fobrinho 
filtK) de fuá irma* 




DE. 



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4?9 

DECADA SÉTIMA. 

Da Hiftoria da ludia. 

LI VRO X. 

C A P I T U L o 1/ 

De como fai eleito pera Vifo-Rey da India 
D. Francifco Coutinho Conde do Redondo 5 
e da Armada , com que partió no anno 
de 15*61 : e do que ¡be aconteceo até che^ 
gar aGoa : e de como o Vifo-Rey D. ConJ^ 
tantino Ihe entregon agovernanfa daln^ 
dia , e fe embarcou na fuá ndo pera a 
Reyno , aonde cbegou cam muito profpe^ 
ra viagem, 

EM principio defte anno defeflTef&ta e 
hum , em que entraunos , a Rainlta , 
e o Cardeai , Tutores do menino Seí- 
bafiiáo , entráraoi em dcí^iaclio das couík6 da 
India y e vendo que Itaviá itres anaa$ que 

nel* 



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440 ASIA DB Dioao de Couto 

nella cftava D. Conftantino » determinárain 
de o inandar ir pera o Reynp ; e tratando 
da peíTo? que hayiam de efeger pera fucce- 
der a D. ¿onftantino, efcojhérarp D. FraiH 
jcifco Coutinhp^ Conde do Redondo , que 
ientao fervia deRegedor da Cafa da Siippli- 
ca^áp por falfciaieitfo 4o ^^^dor Jo|q da 
Silva , peíToa-, em que eílavá bem ó cargo 
de Vifo-Rpy da India pela^ ayuntas partes 
Gue nclle havia de avifo,. prudencia , e ef? 
for^o, de que h^via (tfuiti), énii)i larga ex- 
periencia , que de todas eílás cóu fas tinha 
dado , affint na Corte , como em Arztia , 
onde foi (Dapi(áOf Eleito pile , negociáram« 
fe finco ñáos pera irem á India , c defpa- 
cháram a!guns Fidalgos, e Cavalleiros , e 
provéram em multas coufas pera o bom go- 
verno daquelle Eftado. .£ tanta prefla fedeo 
a eña Armada ^ que a quinze de Mar^o. fe 
fez toda á vola , indo o Conde embarcado 
iia Hjáo Sant^IagQ , e das mais naos eram 
Capitaes Gonzalo Correa » de Flor de la 
mar: } Manoel Jaquea; , de Samo Antonio ; 
Francifco Figueira de Azevedo , da Gar^a ; 
e Pedralvares Vogado, daAlgaravia. Toda 
efta Armada teve tac bons tempos , que tp- 
mou Mo^rpbique a quim^e de Julho , e o 
Vifo-Rcy defemfaarcDU em térra , e fe apt)- 
fentou na fortaleza, que pei'a ifib Iha tinbsL 
defpej^da Dona Laiza de Yaíconcello; y mur 

Iher 



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• Dec. vil Liv. X. Cap. L\ 441 

ilier de PantaleSo de Sá , que era Capitáo'^ 
por elle fer ido a Cofala* Alii efleve o Con* 
de provendo as naos do neceíTario até feis 
días de Agofto , em que .fe fez á vela pera 
a India com todas as nios , e foram juniat 
furgir na barra de Goa a fete deSetembro, 
veípera da Natividade de noíTa Scnhora. Os 
Vereadores da Cidade o foram logo viíitar , 
eliiepediram fe detiveíTe eaiPangim alguna 
dias y até ihe preparare ofi feu recébimenro » 
que foi o melnor que puderam 1, e o Vifo^ 
Rey D, Conílantino Ihe entregou logo o 
governo na forma codumada » e tirou íeus 
inftrumentos do eftado » em que deixava a 
India , e fe foi pera Panelim , onde tínha a fuá 
fiáo , a que fez dar grande ariamento pera 
ir tomar a carga a Cochim. E em quanto 
fe nao foi ^ correo o Conde com elle muito 
pontualmente , fazendo«lhe no aviamento da 
nao muitos favores , e em 6q[| de Outubro 
fe fez á vela pera Cochim. 

Entregue o Conde do governo » a príip 
meira coufa i em que emendeo , foi em def* 
; >acbar alguns Capitáes pera fuas fortalezaé^ 
! jldes foram Henrique de Sá pera a de Mar 
uco y que deo á vela em quinze de Setem<i> 
)ro, porque achou já próvido o galeáo d€ 
tudo por D. Confiantino , por Ihe terem vin^ 
tío novas em fim de^Abril, que Manoel de 
iV^concellos., Capjtáo daquella fortaleza , i^ra 

fft- 



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44^ ASIA DE DxoQo de Coüto 

falecido. E logo aos vinte e tres do mefcno 
mez defpachou o Conde a Martim Afionfo 
de Miranda com a Capitanía de Dio , por 
Filippe Carneiro , que lá eíiava por Capi« 
táo , largar hum anno que ainda tinha por 
iervlr, porque determinava ir*fe pera o Rey* 
no y onde efperava fazerem-íe-lhe outras 
maiores mercés , aífim por íeus férvidos , c 
merecí men tos , como por fer fobrinho de 
Pero de Alca90va Carneiro , que era Secre* 
tario , e valia muito com ElRey. E no roeí^ 
mo tempo defpachou o Conde a García Ro- 
drigues de Tavora pera a Capitanía de Da« 
máo j onde Luiz de Mello da Silva eftava 
por Capiráo , tendo o Garcia Rodrigues de 
Tarora faavia pouco acabado de íer Capi« 
táo de Chaul , donde fahíra muito rico. E 
porque os homens viam fer-lhe o Vifo-Rey 
znuito affei^oado y e dar-lfae a Capitanía , em 
que Luiz de Mello da Silva efiava havia 
pouco y fufpeitáram que o quería o Conde 
ca&r com huma filha, 

Defpachadas eftas coufas, tratou o Con* 
de de fazer huma, execu^ao , que IbeaRai^- 
nha mandou , e encommendou muito , que 
era.mandar-'lhe prezo em ferros Gon^lo Fal- 
dio , porque defaíiára i^rancifco Barreto^ 
ijuando acabou de fer Governador ; e cli^ 
gaiulo-lhe ifto á noticia , fez ^pronunciar 
contra elle fenten^: «Quiefoflerifcado dos 

a Iw 



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Dec. VII. Liv- X. Cap. I. 445 

» Kviros deEIRey, eperdefle asmercés qae 
]» tiveíTc , e que a nieíma pena tiveífe quem 
» o favoreccíTe ^ ajudaffe , e dcfendelfe. f 
Porque tem os Reys por coui^ mui neceíTa*- 
ria caftigarem->íe com niuito rigor atrevimetí«> 
tos ) que alguns Fidalgos tomam pera defafia*- 
rem.os que acabam de governar os Eftados , 
em. que reprcfefitáo a peiFoa do Rey i que 
os poz nelies^ Oeíta fentenga foilogo avifa*- 
do Gonzalo Falcáo em chegando o Conde 
á India , pelo que fe recolheo a cafa de AU 
varo Paes dé Sotomáior , donde determinou 
embarcar-fe pera o Reyno* E tratando o 
Conde de o prender, vendo que o nao acha»- 
v^a , mandou publicar as provisoes que tra* 
^ia, que tnettéram tamanho medo, e terror 
era todos , que aquella noite o tomou AU 
varo Paes em muiro fegredo , e o levou ao 
Collegio dos Reys Magos , que eftá na bara- 
ta de Goa , onde efteve alguns dias fem Fi- 
dalgo algum , párente , ou amigo Ihe valer 
em coufa algunia , nem elle ter modo pera 
fe embarcar, pera Cochim, E quiz fuá boa 
ventura que chegaíTe á barra de Goa hum 
navio de remo ^ de que era Capitáo , é fe* 
nhorio hum Belchior Correa , foldado velho , 
honrado , e grande feu amigo , que fabendo 
ó trabalho em que eílava , chegou de noite 
aos Reys Magos ^ e o recolheo comfigo , e 
deo á vela peraCochim; e chejaodo a Ca^ 

na- 



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444 ASIA bsDioGd DéXovifo 

jiatior de noke, ófoi ian^ar napriaia daC»^ 
dade dos Mouros , e fe pastio logo por nao 
íaberem del le ^} je o Gonzalo Falcao fe foí 
metter em cafa do Ade Rajad , qoe era gran*» 
de feu insigo, em quein cabendo a virtude 
que faltou emnimtos amigos ^ eparente^ de 
GongaloFalcáoy a mandou levar aCochim 
em hum navio íeti ; que o lao^ou no Ache*» 
queioial , que era couto , donde fe embarcoo 
pera o Rey no. £ chegandb a elle, fe reco-» 
4heo em cafa de Diogo Lopes de Soiifa o 
Diabo , que logo Ihe houve feguro pera íc 
livrar , e poz fuas coufas na Meza da Cón^ 
Ciencia , onde o houveram por livre , por íer 
limito antes de fe publicar o fagrado Q3n<^ 
cilio Trídentino fobre efte negocio dos deíc 
aíios. £ depois dahi alguns annos Ihe pep» 
doou EIRey- Dv Sebaftiáo , e o defpachou , 
pera qué foífe entrar na fuá fortaleza de 
C^ofala , que elle nao logrou , porque morreo 
iogo y nao íicando defta gera^áo nefie Efta-» 
do mais que Ayres Falcáp^ filho de feu ir^^ 
mao Luiz Falclo , que ElRey O. Joáo o III. 
favorecía tanto , que quando deípacháram 
€(le Gonzalo F^Icáo com a fortaleza de Coy 
/ala ,d¡fle ElRey que Iba dava , porque féus 
antepaflfados f^iudáram a ganhar aquella Cit 
diBde de Lisboa aos Mouros : e que pois 
que dé todos orFalcóes jiáo havia já mais 
4ue aqadil^ >^ :q^ era wáo fe iuftemaSe i 

poih 



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Deg. vil Liv. X Ca*. L 445 

porque de todo fe nao perdeíTe aquella lió 
ooa y e antiga ra^a delles. 

Aai naos depois^ de comarem a carga em 
Cochini deram á vela pera o Reyno , é fo« 
ram 'nellas os Fidalgos, e Capitáes feguin* 
tes« Baftiáo do Sá» que acabou de fer Ca« 
pitao de (^o&la, na nao Sant-Iago, e com 
elie D* Jorge de Menezes ^ que dépois foi 
Alíeres mor ; Ruy Gon^aLves da Cámara ^ 
Luiz Freiré de Andrade , que depois foi Ca<* 
picáo.de .Chaul> D. AíFonfo Henriques , e 
oiitros» Eenoatranáo foi D.. Antonio de 
NoFonha de alcunha o Catarraz y: que fora 
Capitáo de Dio y que com fer pobre levou 
iodos os que com elle qulzeram in E em 
putra nio foi D. Aitfáo de Noronha , que 
aquelle veráo viera de fervir a Capitanía de 
Ormuz. E em ou(ra nao foi Filippe Car* 
neiro » Capitáo que foi de Dio. Eftes Capi-» 
taes levavam muitos Fid algos ^ eCavalleiroa 
i fuá conta , porque primeiro que partiflem 
de Goa y inandár am por eícritos pelos lugares 
púbHcos > pera que todo o que quizefle ir ñas 
fuas naos , íbubefle que Ihe daríam de co« 
mer até o Reino ,- porque aflim o coíluma^ 
yam naquelle tempo os Capitáes que fahiam 
deíuas tortalezaS) com ellas Ihes darem en^ 
táo atnetade meiK» , do que agora dáo ao 
4^^t tempo t i^m que nao ha nenhum , ou 
aáo inulto poucosi. 03 que dáo de. comer a 
; :> * hiim 



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44^ ASIA DK DlOGO DE Cou'i^o 

hum foldado : e üílim á faltia diíTo deizam 
muitos mui honrados de ir aoReyno requc* 
Tcr feus iervi^os, Foi tambem nefla compa- 
niña D. Jorge de Soufa , Capicáo mor da Ar- 
mada do anno paíTado, que tinha íicado na 
India cont a fuá nio Caílella^ que por nád 
abater a fuá bandeira a D. Conftantino , fe 
defviou logo delle ; mas encontrandó-íe aiti- 
bos fós em Sama Helena , nao qui2 D. Jor* 
ge enrolar a fuá bandeira , fobre o que man- 
dou D. Conftantino por a fuá artilheria em 
lima, epor rágelras chegar'buma ñáo áou« 
tra cooi tengáo de metter a de D« Jorge no 
fundo y on Ihe entrar a nao , e o levar pre- 
zo na fuá até'oReynOr E rendo tudo preP 
tes , mandou notificar a todos os Fldalgos , 
Cavalleíros , e Officiaeá da fuá nao , que fe 
foíTem pera térra fob peAa do cafo maior, 
o que todos fizcram logo. E D. Jorge mu« 
dou o parecer ; e tomando meihor confe* 
iho, abateo a bandeira , e líierrendo-íe no 
batel da foa nao , fe foi ver com D. Conf- 
tantino, reconciliou-fe cpm elle, edalli até 
o Rey no o acompanhou fempre , c falvou 
todos os dias. E chegado a (Jafcaes, tendo 
já ElRey avifo do cafo por outra nao que 
chegou pimeiro , por fe encontrarem todas 
ñas Ilhaa Terceiras , o mandou defembarcar 
prezo pera o Caftdio >, onde eíleve alguna 
tempos até ihe perdoarcm. 

CA'- 



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De CADA VIL Liv. X. 447 

CAPITULO II. 

De como vieram novas que o Cojfairo Cafar 
era fahido com tres gales a ejperar as 
ndos de Ormu% : e de tomo o Conde do 
Redondo VifoRey mandou a D. Francifi' 
co Mafcarenbas com huma g^ojja Arma^ 
da bufcalla: e do que Ibe Juecedeo. 

POr navios, quecbegáram deOrmuz^ em 
Outubro , teve o Conde Vifo-Rey arifo 
de como era fahido do.Eftreico de Meca 
toxñ tres gales o CoíTaira Cafar ( de quem 
algumas vezea déoiosxónta) com ten^o de 
ir efperar as naos , que haviam de Vir^de 
Ormuz pera Goa, como já íizera o veráo^ 
que D.Fernando dcMenezes, BlhodaVifo* 
Rey D. Affbnfo de Noronba , tomou as gales 
em Mafcate , como no fiñr da VL Decada 
no Cap..X. -do X«.livro ,* ^ em principio 
deíla íe diíle. E querendc o^ Conde prover, 
e acudir áquelle damno^^ eatalhac as prezas 
que aquelle Coflfairo pertendia fazer ,- man<> 
dou com muita brevidade^ negociar bunmi 
Armada de remo pera o niandar efpeiiar» E 
elegeo pera efla jornada aD. Franc¡íco'Ma& 
carenhas y que depoifr fox Capitáo dos. gíné^ 
tes , e da guarda, de fua'Ma^^iládc , eCon> 
de de Sama Cruz , e Vífo*Rey Ja. India, 
que com elle cinha viñdo ^ Reynó ^efpa^ 

cha* 



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^^i ASIA DE DíoGO UE Cbvto 

chado com a$ fortalezas de (Roíala, e Mo- 
zambique , e cóm tirulo de Capit^ó mor do 
mar da India ^ que fe deo tanta prefla ,.quic 
aos quinze de Novembro fe fez á vela com 
▼inte e tres galeotas, e fuftas , e dous ga- 
leóes mais, em ^ue levava feiscentos e í¡n« 
coenta foldados dos jntelbores da India ^ em 
que eocravam muiros Fidalgos ^ e Cavallei« 
ros muí honrados. 

Os Capitaes deíies navios que o acpní- 
panfaáram , forám Eylor da Silreira o DraH^ 
go i Slho do Coudcl mor ; D. Lounen^o de 
Soufa , D. Dioga.de Sottía íeu irmáo , que 
agora he Commcndador de S. Joáo v e Bai« 
iuy de Acre; D« Dkrgo Fernandes de Va£< 
concellos, fobrinho doArcebifpo de Lisboa 
D. Fernando deMenezes; Pero da Silva de 
Menezes , Pero, de Mendoza , de alcunha o 
Larim y Joáo de Mendo^ feu irmáo , Joáo 
Lopes Leitáo ^ Feoiáo A6 Miranda .de Aze^ 
yedo, íiiho deAntdnio de Miranda deAze^ 
vedo ^ que fora Capitáo líKSr do mar da In« 
,dta em tempo das defaven^as de.Lopo Vaz 
de ¡Sampaio oom .Pero Mafcarenhas ; D^ 
iFranctfco Lobo ^ Joao Gomes de Caílró , faum 
Fidálgo Gallego ^ que foi do Infanfe Di 
huh , Francifao Vzz. i& Siqueira y Rodrigo 
daxSÚva ^ Gafpar Velho , Joáo Correa de 
Bríto I , . Gonzalo Teixeira ^ Manoel Rodrí* 
¿ués 9^ Sedralyarés de.Canaaor^ AntonJoFer'* 
•Í..O lian-' 



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De¿ vil Liv, X. GaK ÍL 449» 

nandcs j e Luíz Ribeiro« B dos navios groPi 
fós eram Capitáes Miguel Rodrigues Cou^ 
tihho , de aleunha Fios Seceos > e Jerooyoio 
Teixeira de Macedón 

Dada eíla Armada ú vela ^ defpedio o 
Conde Viíb-Rey a Manoel TravalTos por 
Capitáo mor de fete , ou olto navios pera 
andarém com a Cáfila da coila do Cañará 
pera trazer mamimentos aGoaj e em^quan- 
to cárregava dell«is naguelles portos i man* 
dou dar huma vifta ao Malavar ^ por Jiaver 
iiovas de alguna Coflairos. £ porque Ihe nao 
fuccedeo todo efle vtírlo couía notavel j aca- 
baremús aqui com elle, porque he tíeeeíTarid 
continuar com a Armada de D. Frañcifcq 
Mafcareríhasi Que partido deGoa, foi cooi 
toda a Armada em breves dias tomar Ba»* 
jaim j onde niudou alguns navios, etomoU 
outrós melhorcs y e dalli atraveíTou a Dio ^ 
e de longo da cofia de Por ^ e Mangalór^ 
foi ter á enfeada de Jaquete ; e por ir falto 
de agua , a foi tomar na Ilha das Vacas ^ 
o que foi caufa de perder as gales } porque 
em quanto fe alli deteve em afazer^ foram 
paíTando adiante algumas cotias , que hiaoi 
em fuá companhia pera o Cinde , que de- 
ram com as tres gales do Cafar ^ que izm^ 
bem hiam com ren^o de fazerem aguada 
na mefma Ilha das Vacas. Échegando o 
Cafar a ellas , foube da noíía Armada ) pelo 
Couto.fomiíKPéih Ff que 



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45^0 ASIA DE DioGo de CoirTo 

^uetomando-lJie alguma pouca dajagoa qae 
ihe áciiou , tortioi] a voltar com tanta pref^- 
úi^ edefattemo^ que hama das gales fbidar 
á coda , e o Cafar com as duas que ihe fi- 
cánam^ fe aiFaílou della ; e correo táb largo > 
tjtic fe ejngolfou ^ e houve por feu confelho 
tornat-fe pera Moca , como fez. Depois de 
D. FTanciko Mafcarenhas fazer ¿guada ^ foi 
feguindo üiía derrota; ecomolevava ocem- 
po prospero , cm poucos . dias tomou Or- 
rauz^ onde efpalmáraan os navios, eosalim<- 
páram^ erecoibendocomílgo todas as naos, 
<joe haviam de ir pera Goa , voJtou cotn el- 
las, iodo-Jhe dando guarda. £ tanto feapref- 
ibu j que na entrada de Jar^iro defie anno 
de 1 5*6:2. era que com o favor Divino en- 
tramos , •chegou a Goa ; e porque o Maiavar 
cílava fcm Armada , o defpedio logo o Con- 
de Vifi^'Rey pera aquella coda ccm quafí 
itodos os navios que lerou ^ e outros aiguns 
««lis , que ie uarmáram de novo.. 

Deí pedida eda Armada , receando-fe o 
Conde que na mem^ao de Mar^o torn^^e o 
CofTair^Cafar a fafair fór^ eíperar as náo9 
de Ormoíz^ ixiaiidoa armar tnes galeées , e 
^gons navios de remo, a<ffim pera Ihe irem 
impedir a &Jiida ^ como pera toioarera as 
máos, qne iurvtam de ir úo Achecn, Tana-» 
($arim , Cainhaya., e de xxitnos poroos peta 
«qiielle£¿ftrefto com pimema ^ drogas ^ e on- 

tus 



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Dec. VII. Liv. X. Cap. ÍL 4jfi 

iras fazendas , fem levarciti falvoscondutos^ 
E elegeo pera cfta jornada a Jorge de Mo(h 
ra, Collado do Principe Dijoáo ^ pai deEl- 
Rey Dé Sebaftláo , que alguns dias andados 
de Fevcreiro fe fc2 á vela com os tres g^ 
leóes , de aue a fóra elle eram Ca pitaes , Pe- 
ro Lopes kabello , e Antonio Cabral i t oé 
das fullas nao fe acliam os nomes a mais que 
a Diogo Ferreira do Principe i e á Bañiáo 
criado de Abreu* 

Partida eftá Arihada ^ éntrou ó Conde 
Vifo-Rejr no negoció dos provimcntóf da^ 
fortalezas , é defpachou Dt Diogo Pereira « 6- 
]ho bafiardo do Conde da Feira ^ pera Ma« 
luco i por fer próvidos daquellas viageps » é 
Ilie ácú hum galéao cátregadd de rot!tpas^ 
inuni^des, e maiitimentos. E juntamente def-« 
pachou Di Fernando de Lima em ouiro ga^ 
ieáa pera Banda ^ e nao fabemos coni^qud 
partidos j e ambos deram á vela de quinze 
<lc Abril por diente; e proveo as üidis fop* 
talezas todas de ^iite ^ dtnheino , e muni*» 
^dea« Defpachadas ellas coufas j recolheo^fe 
DiFrancifco Mafcitrenhas dó Maiavar, on* 
4e ahdou : aqueUes trcis itiezes guardando ^. 
coftav e defendfndo que nSo íabiíleio náo$ 
«enr Meca ^ riem Pataos a roubar , e recoi» 
Ibeo cúmfigo buma grande Cáfila de navios ^ 
e.náos ; de Bengala , da China i Maiácaí y MaK^ 
'iuco> .-CoAa: ác ChoromandeL ^ o. de .outra* 
L Pf ii par- 



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45^* ASIA DE DioQo DE Couro 

partes ; e depois de todo recoibído , fe cer^* 
roa o invernó. 

CAPITULO IIL 

Do que áconteCeo a ^orge de Moura no EJ^ 

treito do mar Roxo : e de como Pero Lo* 

fes Rabello pelejou com huma poderoja^ 

ndo de Rumes : e de como ambos fe 

ábrazdtám : e de outras coufas. 

PArtido Jorge de Moura de Goa , (como 
no CapituJo atr^s acabamos de dizer,) 
foi atraveílando aquelle grande golfo , que 
yai da Cofia da India até a da Arabia , e em 
Tinte dias foi ha ver vida da Cidade Caxent 
hum dia pela manhá \ e em fe alevamando 
o Sol, defcubríram da gavea do galeáo de 
Pero Lopes Rabello , que fícava muko atrás ^ 
huma muitoformofa nao com todas *as velas 
enfunadas , que levava a derrota do Eftreito 
de Meca , que na grandeza , e apparato que 
fazia Ihe pareceo do Reyno. Pero Lopes 
virou logo a ella, e a foi feguindo , e fa^ 
zendo final á Armada , que quafi fe nao etH 
xergavia , c todavia ouviram a bombardada ^ 
e da gavea do galeáo de Antonio Cabral o 
viram ir naqudle bordo , e logo Ihe pare^ 
ceo que vira alguma coufa. £ voltaodo nó 
méímo bordo , fez final abCapitáo mór^ 
e inetteo codas aa velas ^ e varredeir^s 5 ^ 



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Dec. vil Liv. X. Cap. III. 45^3 

Capkáo mor fez o mefmo , e o foí fe« 
guindo, 

Efta nao , de que 05^ noíTos houverara 
vifta, era do Achem , e tamanha , que le^^ 
yava gavea , e fobregavea ^ que já partirá o 
anno paliado pera Meca; e por adiar tetti^ 
pos contrarios, arribou a Tanajarim, don* 
de tinha partido em Janeiro ; e vinha táo 
rica , e profpera , que affirmavam depois tra* 
zer mais etii íi de hum milMo de ouro , a 
fóra hum palanquim , que o Achem manda* 
va pera a peflba do Turco , com tanto ou* 
ro , e pedraria , que diziam valer duzentot 
tnii cruzados. Trazia a nao em ü ílncoentá 

Ee^as de artii hería de bronze y e quinhentos 
omens de armas , Turcos , Abexins , Far* 
taquins, e deoutras nagóes beiiicoías. Pero 
Lopes Rabello , que a hia feguindo , foi to^ 
do aqueile dia feropre á.vifta quafi no mef» 
sno coifipafío ; e tanto queanoiteceo , fez fa<* 
rol pera qtie os outros gale6es o viíTem ; o 
que vifto pelos xlanáo, ratnbem Ihefizeram 
oatro pera fe Ibe amoibar^ porque hiam 
taa confiados em fuá potencia, que ihesnao 
dava coufa alguma da- Armada , nem á e& 
timavam , e aífim fe deixava ir feu caminho 
muito íegura; Pero Lopes Rabello foi-íe 
fempre compaíTando cora eHa ; e tanto fe 
apreíTou , que quando foi o quarto d¿ mp«i 
ilorra ^ rendido a ^Ican^ou. j e ella ^m o ven^j^^ 

4a 



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454 ASIA t>» Diooo DE Cowrb 

dú rio perto , vífx>u a elle com todas ás vela» 
enfunadas com ten^áo de paflar pelo galeao , 
c d^ pancada defapparel hallo ^ e voltat feu 
caminho; eaíliai com toda aquelja furia Ih^ 
poz aproa por gilavemo ) elbelan^ou den- 
tro miiiro fogo. Pero Lopes Rabello coino 
hia já IcAes , e preparado pera aqueile fle*^ 
gocio , em ella dando a pancada ^ Ihe Ian« 
9CMI dentro alguns arpeos^ com que ambas 
US naos ficáram atracadas. Econn) osnoílbs 
iiiam com as armas pas maos , commettcram 
logo a entrada , lan^andorlhe dentro muitaa^ 
panellas de pólvora; porque efiavaxn faolb^É 
fregos , e animoíos com a cubica á^s pr(>» 
zas, que iovigmavam já ter ñas maos, quo 
defeílimáram a potencia da nao, eaíGm tra* 
taram de a render á efpada , per¿i Ihes fiqar 
9L Vitoria mais fprmofa, e o £aixo tiíais.ie* 
gnro. Os Mouros, qup erain ^niütos ^ e ef<» 
cQihidos f vendo a deteriniiia^ao dos noflbs , 
de&nderamtlhcs a entrada com taiito esfóiw 
(o, e valor, queosfbcramdeter^ traVando** 
fe de bordo a bordo huma arperiíltma iiata^ 
Iha com grande damnode ambaá as partes; 
£ cftnndo nefte con/lito , chegoo o ga^ 
hio de Apto nio Cabra! , que fempre feguio 
os faroeSv e como á efcuríd^o da noite era 
grande, e nao pode differcn^af sanaos, com 
aqttelia furia com que hiz , por a proa no 
gai^Q df P^rQ jLopes JELa^Úo ^ cuando 
^ que 



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Dec. vil Liv. X^ Cap. IIL. 45:? 

que a punhd na náa dos Mouros ^ e coxti « 
pancada foi viraiulo,. eüoou atrave£ido..por 
poppa de an^bas as naos , ctn c^ie bavia car» 
matifao rumor, e rugida das armas ^ quie pa^ 
recia huma bacal ba de grandes exercicos^ Q 
galeáo de Amanio Cabral ao traveü&r ,. qoe 
fez por poppa do& cmt ros , ce ve tai accrdo 
hum íbldado , por rnome Manoel da Calla y 
que eftava fobre o borda do gakao , que 
com a efpada conou as cerdas do. kráe da 
oáo dos Mouros, (porque fe gqireinaai co^ 
das com huas aldcopes > peias ilhapgas pela 
banda de fóra,) com o que o lecne ficou 
defgovernado 9 a que os MourDS acodíram 
pela tornar a preparar,. e entre taoto traban 
Iháraiii pera verem fefepodiam defafenrar, 
efahirein-»fe pera fóni,< pera oque andavam 
com as eicotas do craqucte, mas íicou^lhea 
tudo an vía ; porque jcomo eftavano^ aüvaca» 
dos , nao £s podiam defviar perjk oenbuoa 
parte; Ja nefle tempe era o íogo tanta no 
galeáo de Pero Lopes Rabelto , que fbi ne* 
ceíTario a Antonio Cabial hn^r-w nelle com 
alguns companbeiros^ pera que oajudaíTeiQ 
a apagar; porque cbegcm a coufó a eflado^ 
qtie largáram os no^Kos ' as armas peni acu* 
direm ao fogo* Com lAo tiveram os Mou%i 
roa lugar de fe defafferraifem ^ deixandb og 
nofíos galeóes ambos: abordados, ctendo ta^ 
piaaJbaa.pancadaa^ que /ede^a^tiam, eare* 

Yol^ 



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45*6 A.SIA DÉ DiOGO DE COVTO 

yolta era tamanha nelles, que fe nao enteiH 
diam ; porque hun& acu^iam ao fogo , por« 
que 08 nao abrazafle ; outros a fe defaíFerra? 
rem y por fe nao fazerem em pedamos , de 
forcfi que tudo era jiuma confusáo. A oáo 
dos Mouros como hia já aíFaftada , tomour 
Ihe ptráquete vento; mas faltandprlhe oía- 
me, deo huma volta em roda, e tornou a 
cahir Jobre os galeóes com a proa , onde dan- 
tes tiuha a poppa. E pofto que os noíTos 
cAavam naquelle grande ponflito , e trabalho , 
em que tratavam de apagar ofogo,'£m que 
o galeáo eílava ateado/ vetulo outra vez a 
nao dos Mouros fobre elles , langáram-^lhe 
tanto fogo dentro ,. que a abrazáram eni 
(:hammas , anteandorfc-lhe pelas velas , e en- 
xarceas com tanta bra;^eza , que era efpanto. 
E foi o fogo crefcendo de fei^ao , que fe 
ateou no galeao de Pero Lopes , fem osnof-? 
fos o poderem apagar , onde fe foi apeen- 
dendo com tanta furia , que fem Ihe pode- 
rem valer, cpmefou a arder juntamente con^ 
a nao. Pelo que foi forjado a Antonio Ca-? 
bral mandar cortar as rajeiras ao feu galeao , 
porque nao ardeífera todos j e pereceflem. 

Vendo-fe Pero Lopes Rabello perdido, 
e o feu galeao fem remedio , paflbu-fe ao 
de Antonio Cabral com os ique puderam , 
pof fer a preña tamanha, quemuitos ielaq- 
$áram ao mar , porque fe nao queimaífem , 



• 

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Dec. vil Liv. X, Cak IIL 45^7 

íicando o galeáo de Pero Lopes , e a nao 
dos Mouros ardendo já em labaredas. Os 
Mouros vendo-fe tambem perdidos , lan^á-t 
ram-íe ao batel ; e os que nelle couberam 
foram-fe acolhendo , e todos os mais ficáram 
pelo mar a que fe langáram , porque a nao 
era já toda fogo. Tapto que Pero Lopes 
tabello fe vio aíTaftado, metteo*fe no batel 
de Antonio Cabral , e foi recolher os feus 
foIdado$ , que andavam pelo aikr a que ie 
tinham lanzado , e de paflagem foram nía» 
tando y e pativando todos os Turcos y que 
achou a nado ; e antre eftes que recoibeo y 
foi hum com fete efpingardadas , que logo 
morreo. 

Feito ifio , recolheo Antonio Cabral a 
Pero Lopes Rabelio na fuá cámara , e ihé 
deo ametade de toda a fuá roupa, e omeP* 
mo iizeram os feus foldados aos outpos de 
Pero Lopes , porque nao falváram mais que 
o que tinham nos corpos* A efle tempo che« 
gou o Capitáo mor , que vio arder aquellas 
duasnáos eom tamanho terremotQ, eéftroñ- 
do , que parecía queimar-fe* huma grande 
Cidade , porqué com a efcuridáo da noifis 
caufava aquelle fogo muito grande efpanto ; 
e temor. E vendo hum fó galeáo aíTaftado, 
chegou i falla , e foube fer Antonio Cabral » 
e do defaftre de Pero Lopes Rabelio ^ que 
fentio em extremo y e deixou-fc ficar horde»- 



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45r8 ASIA de Dioqo de Couto 

jando aré amanhecer , que fe defcubríram a 
cao , e o galeáo coníumidos até o lumc da 
agua. 

Eftando aflitn vetxio aquelle niiíeravel 
efpedaculo, appareceo outra nao; e dando 
is véias ) a foram feguíndo , deixando as ou« 
tras entregues ao fogo de tudo confumidor. 
E fe fe deixáram &ar até fe elle acabar , 
por fem düvida fe tem que do porao da dos 
Mouros fe pudera tirar muito ouro , prara , 
e outras fazendas , que lá em baixo trazia , 
a que o fogo nao podía chegar ; ooas a go» 
lodice , e cubica da outra nao que víram , 
cuidando teüa ñas míos , ihes fez dehcar tu* 
do , e ir forjando as velas , tanto que a al- 
cran^ram fobre a tarde ; e fendo a tiro de 
bombarda , Ihe atirou o Capitáo mor a amai- 
fiar , o que ella fez , e foram os nníTos ga* 
leoes preparando hum cabo pera Ihe lan^a- 
rem -y e por cuidar o Capitáo mar que a ti* 
flliu fegura., mandou amainar as velas doíeu 
galeáo : e foram os feus OíEciaes táo deí^ 
cuidados ,. que ao deitar do csbo ficáram por 
gilaveiito da nao femó cabo a prenden Ven*' 
do /OS Mouros os nofSos no tomar das velas 
táo embara^do^ , e que o galeáo Ihes hia 
Meando porpoppa, nao pcrdendo o acordó , 
jlfáram depreíTa as velas, e foram preparan* 
do a mo , e metiendo de ló tudo o que pu» 
4$ram por tomarem o balravento aos nofibs 

na- 



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Dec. VII. Liv* X. Cap. TIL 45*^ 

navios j que deixáram amainados ; e quando 
acudíram a dar á vela pera feguirem a nao , 
faia ella já táo alongada , e defviada delles ^ 
qar houveram por efcuíado feguilla, o que 
todavía fizeram até anoitecer, que ella mu- 
dou omino, e fe foi feu caminho^ Osnoí^ 
fos ao outro dia pela inanha ao fahir do Sol 
niandáram defcubrir o mar , e já o nao vi- 
ram , pelo que fe fizeram na volra da boca 
do Eílreito ; e a monte de Félix andáram 
efperando as naos que haviam de vir deman^ 
dar aquella paragem , aonde os navios de 
remo foraní ter com eliesi porque nao pu« 
deram aturar as náost E em quanio alli ef» 
tiveram , (que foi mais de hum roez, ) bou^^ 
^eram viña de mais de iincoenta ni os por 
vezes, ftm Ihespoderemchegar; porque co« 
co elles efiavam á térra , e ellas vinham de 
li\2T em fóra enfunadas » nSo foi poflíivei 
chegarem-^lhes , nem feguirem-nas pera den» 
tro y por fe nSo metterem coai ellas no E& 
rreito a rifco de fe perderem ; e fendo o 
tempo já ganado , fe recolhéram pera Or^ 
muz , onde levavam por regimentó foflem 
invernar , pera virem dando guarda ás naos , 
^ My^tn de ir a Goa* 



CA* 



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4fio ASIA DE DioQo DB Cquto 

C A P I T U L o IV, 

J)o que mais fuuedeo ñas guerras dantre 

jábexins^ e Mauros: e do grande foccorra 

dos Turcos que entrou em Barod : e 

do que o Emperador pajfou com 

os Portuguegíos. 

A Tras temos deixado o Barnagais pro« 
feguíndo na guerra contra os Mouros , 
de quem tioha havido algumas Vitorias , o 
que Ihe deo ouíadia pera ir accotnmetter o 
Baxá , que eftaya em Baroa , em hum forte 
de pedra, e barro, com as coilas em huma 
ierra muí ingreme , e por diante como cava 
huma fbrmoüi ribeira, quetrazia tanto pe& 
cado , que podia fuftentar muita gente em 
hum prolongado cerco. E pera ido mandou 
chamar feu pai Radiafgana, homem velho, 

{grande cavaiieiro , e de muito bom coníé* 
ho, que trouxe comíigo humefquadráo de 
humas gentes , que fe chamam Tigares , 
grandes ladróes j e juntos ambos foram ceiw 
car o Baxá no forte , e em fuá companhia 
foi Diogo de Al vellos com aiguns Fortu^ 
guezes , com cujo confelbo o Barnagais fazia 
todas as coufas ; e como nao tinham arti* 
Iheria , nao puderam fazcr mais que defen* 
der-lhes os mantimentos , no que puzeram 
toda a diligencia. £ filando adim as coufas , 



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Dec/VIIí Liv. X. Caí. IV. 461 

entráram pela renda do Barnagais tres arre- 
negados, que vinhaprfogindo da fortaleza, 
huní chamado Aletíandre , Calabrez de na-» 
^io , outro Joáo María , Genovez , e o ter« 
ceiro Ungaro de nagáo , e fe ofPerecéram ao 
Barnagais a Ihe darem ordem pera tomar a 
fortaleza , fazendo-Ihe o negocio fácil , e 
dando-lhe relagáo de tudo o que antre os 
Turcos paíTava , aue o Barnagais eftimou 
muito , e os agazalhou , e todavía com os 
olhos nelles ; e logo fe poz em fei^áo de 
accommetter a fortaleza , pela ordem que os 
fogidos ihe deram , pera o que mandou fa* 
zer muitas haíleas groíTas , como de chucas , 
com ferros de arados , e.outros petrechos 
que Ihes mais parecéram ; e odia doaíTaló» 
repartió toda fuá gente em duás partes , elle 
com a fuá, efeu pal com os Tigares ; e no 

Suarro daWa commettéram a fortaleza por 
uas partes com aquellas chucas de ferros 
de arados, e come^áram a desfazer as pa- 
redes muito ñicíimente, porque eram depé* 
dra , e barro ; e por alguns pdrtilhóes que 
fizeram entráram dentro , e matáram muiros 
dos Turcos^, que fe Ihes puzcram em defen* 
9áo , e o Baxá com os mais fe recolhérám 
a hum ^aftelio , que tínhám fobre a rocha; 
Os Tigares da companhia da pai do Bar^ 
Dagais , como eram ladróes , Jogo íe metté^ 
Tam pelas caías a roubar ^ e a earregar dé 

fa- 



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4ét ASIA DÉ DioQo DE Covtó 

faro , e abida fobre elle rieram a pelejar 
buns com 08 outros. O Turco, queefiavano 
caflello, vendo aquella occafíáo, fahio com 
quinhcntos Turcos , e deo nelles com tanta 
preíTa , que primeiro que acudiílem ás armas 
matou tnuítos, eopai doBarnagais efcapou 
de fuas máos betn mal tratado, e com eíla 
Tttoria foi demandar oBarnagais, que como 
era cavalleíro , mandou pdr o fogo a todo 
o fato , e ás cafas *, e ajuntando a geotc que 
pode em hum batalháo , fe foí faliindo da 
fortaleza , pelejando multo valorofamente ^ 
€ multo a feu falvo fe foi recolhendo a íeu 
arralal, e o levaiuou logo multo apalxona-* 
do contra o pai por nSj prover na defor* 
dem do$ feus. 

Nefte mefmo tempo chegou a Ma^oá 
hnm genro do Baxá ^ que Ihe vioha de foc^ 
corro, com okocentos de ca vallo, e mil da 
pé , e meló contó de ouro em moeda , com 
innitas muni^Óes , e petrechos que o Turco 
«andará, pera IhecorreDem comaconquif? 
ta daquelle Imperio , porque o pertendia fe* 
nhorear todo, e logo fé foí ajuittar com o 
fogro , que eftara em Baroá. , com aquella 
v^oria faavida dosTigares* Eftas novas, ciifi^ 
¿áram á Corte do Emperador^ ique raelté«* 
ram em todos grande temor , e ^efpanto , e 
o Emperador fepreparou pera acodir áqnek 
ie negocio em.p^oa^ e coaie9ou a ajumaf 

gen- 



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Dec vil Liv* X. Ca?. IV. 4^3 

gente , e petrechos* £ como era muico dado 
a íuperftí^óes de fc¡tÍ9os , e agouros , parece 
que mandou por alguns Arufplces , e fciti* 
ceiros confultar o demonio fobre o que I he 
íuccederia naquella jornada ^ do que Ifaeelles 
nao dcram boas efperanjas , affirmando-lhe , 
<]ut Ihenáo convinha commetter aquelle ne- 
gocio , e que deixaíTe os Turcos , porque 
humas gentes íem nome os haviam de des- 
baratar de todo. Com ifto íe deixou o Em- 
perador ficar fem dizer a ainguem a caufa ^ 
o que os noflbs Portuguezes fentíram mui«* 
lo , porque viam eílar aquelle Eftado em 
grande riíco, e elles deferem todos cativos 
com fuas mulberes , e filhos. 

E ajuntando'íe aqueiles, que foram em 
companhia doBiípo, que eram Antonio de 
Goes , Jorge Vaz , Jorge Carneiro , Pero 
Martins, Diogo Gon^aives, Francifco Diaa 
Machado , e Gonzalo Soares Cardim , hum 
dia depois de cea tomáram hum tambor^ 
céfiros , e pandeiros , com íuas efpadas na&. 
cintas, e rodelas lanzadas fobre ascoíbs, e 
as efpingardas cevadas , e aílim chegaram á 
cerca das tendas^ do Emperador , e come- 
fánam a foliar , e a cantar muíto alto ; e aC- 
fim foliando com grande efirofKlo, foram en- 
trando pelas portas ^ que os poiteiros Ihes ' 
laigáram. O Emperador ouvmdo amarinada 
iahio fóra com a Raidb ^ e £uas Dama^ , c 

mai5 



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464 ASIA D£ DiOGO DE CÓUI'O 

tnais de trinta tochas accezas , e paráram a 
ouvir a folia ^ que os nodos hiam conii» 
iiuando 9 e o que cantavam era ifto : 

Viva ó Rey de Prejíe JoHo , 
Que pera os Turcos he hüm ledo. 

^ acabando a folia ^ deíparáram asefpingar^ 
das ; e chegando ao Emperador , Ihe düTerara 
que niandafle abater as tendas , e fofle con- 
tra os Turcos , porque elles fós baftavam 
pera os deftruirem diante dcllc ; e levando 
das efpadas com aquelle fervor , come^áram 
a efgrimir com muita ligeireza. A Rainlia ^ 
e as Damas eftavam como pafmadas de ver 
aquillo, que foicoufa que muico eftimáram ) 
e diíTeram humas pera as outras :* te lílo sao 
» Anjos , e nao homens. » A efta matinada fe 
alvorogou todo o arraíal ; e acudindo ás ten» 
das do Emperador , entrí ram rodos os Por- 
tuguezes dentro ; e vendo andar os outrús 
naquella batalha , deo-lhes o furor, c levan^ 
do das efpadas , íizeram o mefmo^ E dcpok 
fe foram ao Emperador , e fe Ihes oíFerecé* 
ram peramorrerem diante delle emdefensao 
de feu Reyno. O Emperador , que efiava mu> 
to contente de ver aquillo ^ diíTe contra os 
Portuguezes antigos: cEftedía nao era vof- 
9 fo , fenSo deiles novéis , (pelos que vieram 
^ com o Bifpo , ) e por cerro fenho , qufe 
> todps foís meus amigos. » £ logo majidou 

tríK 



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Dec vil Lir. Xi Cap. IV. 405» 

trazer auatro garrafas cryftallinas de eolios 
alces cheias de vinho j e algutnas conferí 
vas , com que os convldou ^ e os inandou 
' repoufar. 

Mas cdmó o Emperador efiava ínedrofor 
úo que Ihe os feiticeiros rinham dito y nao 
oufava a fe abaiar ; antes hum dia depois 
diílo entrou na tenda do Biípo Xumo Cafa- 
lou j cafado conl hunna irma da Rainha , e 
Ihe pedio defpejaíte todos } eíkando fós^ Ihe 
difle, como os Turcos vinham multo pode-^ 
rofos , que pedia Ihe diíTeiTe o que feria do 
Emperador , fe foíTe áqiíclla jornada y (por- 
que tem os Abexiris pór^coftume pergunta- 
teni a feus Prelados pelos fucceífos das cou- 
fáSé) O Bifpo vendo aquelle defpropoiito ^ 
lomou huma vara que tinha ña máo ^ e 2 
poz com a poma no chao direka y e difld 
contra o Cafalou : « Vés efta Vara aílim di- 
n reiía ? eii a largo ; fé eahir , morrerá a 
)i Emperador ña guerra ^ e fe íiear em pé^ 
> vencerá:» elargando-a oBifpo^ cahio ñO 
chao , dé que Xumo Cafalou ficou trifte , e 
o Bifpo muito rozado. Poucos días depois 
diño ftiandou o Emperador chancar todos 09 
Portuguezes; eeñainio etles defóra das ten^ 
das 9 abaixüu hum panno da cerca, e fícou 
defcuberro ató os peitos } e fallando com 09 
noíTos y com os dlbos chelos de lagrimas ^ 
Ihes diíle eíias palavras ; 
Cotáto.Tom.lK.P.il Gg € Coir 



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466 ASIA DE DioGo de Corra 

fc Coirados de vos , depois que eu mor- 
» rer. » Os noíTos ouvindo ido levánm das 
efpadas , c difleram : « Primeiro todos mor- 
» reremos dianie de V. MageÜade •, e d^C* 
% truireoios os Turcos noflbs irtimigos. » 
E profeguindo o Emperador a pratica , diíTe : 
% Sabei que fou coin vós*outros como gal- 
> linha com os fílhos , que quando vem o 
9 milhano , os recolhe debaixo de fuas azas. 
9 Em Ethiopia nao rendes fenáo a mim por 
9 amigo , todos vos querem mal ; aconfclho- 
9 vos que fejais como linhas juntas , que 
9 quando eftáo unidas , fazem hum cordáo , 
9 com que prendem hum leáo ; e apartadas , 
9 qualquer coufa as desfaz : digo-vos ifto, 
9 porque tenho pouca vida. 9 Ifto diíTe efte 
Emperador ; porque depois que feu pai fal* 
feceo , e que elle fuccedeo no Reyno , os 
mores defgoftos que teve com fuá mai , e 
com os Grandes , foi , por n3o querer degra* 
dar os Portuguezes pera eíTes fert^es da 
Ethiopia , donde nao pudcíTem ter commu^ 
nicagáo com o mar , nem recado da India ; 
porque eílando o pai pera rnorrer , Ihos en- 
commendou múiro, e 1 he paz pena de fuá 
maldifáo , fe os nao amaíle como irmáos , 
e fenáo graiificaíFe a ElRey de Portugal feú 
pai (com Ihó dar a metade do feu Reyno, 
fe o quizeíTe) os grandes beneficios que delle 
recebéra ; porque fe Ihe nao mandara o foc- 
; ; , . cor- 



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Dec. vil Lív. % Cap. 'iV. 46^ 

corro por D. Cbriílováo da Gama , ( como 
fica dito no Cap* XI. , do VIL Liv* da V* 
Decada 5) femdüvida fe perderá aquelle Im- 
perio. Os rtoffoS) que víratn o Emperador 
táo trille , e melancolizado , Ihe diíTerant 
Híuitas coufas fobre aquillo , e fe rccolhéram ; 
c nos o faremos por hum pouco j porqué 
temos multas coufas com que continuar , e 
depois a feu tempo tornaremos á eftas. 

C A P I T U L O V. 

De huma brevt relacdú das coufas da Sema* 
venturado Apoftóío S.Thúmé^ dejuamor^ 
te , e milagres. : e das grames maravi* 
Ibas de huma pedra , ^ueje achou no lugat 
em que o matdram : e de huns padroes ^ 
que os Reys daquele tempo pajfAram de 
rendas pera a Igreja que allí fez. 

POrque nao he beiti que paitemos pelas 
coufas , que nefte tempo acontecéram ntf 
Cafa do gíoriofo Apoftolo S. Thomé, Pa- 
droeiro da India^ faremos dellas humabrevef 
relajáo pera gloria de Déos noífo Senhor, 
louvor do feu fervo, eedificajáo nofla. Flo- 
recendo , e indo cada dia em grande crefci- 
memo o^ milagres defte Santo Apoflolo na 
Cidade Meliapor , que agora fe chama S* 
Thomé , onde ós Portuguezes tem huma 
rauiío formofa ,- e^profpera Colonia , de qu* 
Gg ü já 



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46S ASIA DE DioGO de Couro 

já algumas vezes fallamos 5 fuccedeo o an» 
no de quarenta e fete quererem os inorado* 
res com o Vigario da Cafa do Santo Apof» 
tolo alevantar a Ermida do monte grande , 
que tinha cahido feis y ou fete vezes , e havia 
muiros annos eftara no chao ^ por fer o prin- 
cipal lugar , e Oratorio » onde o Santo coftu- 
snava ir orar , e onde foi acabar fuá vida 
gIoriofa« E porque o lugar, e modo de fuá 
morte andam efcritos confufamente , diremos 
aaui a verdadc dido , conforme as muitas 
diligencias que fobre iíTo fazemos, e aopi- 
níáo ceral aue corre entre oGenrios anrigos 
daqueila Cidade , em cuja memoria Ihes ficou 
quafi como tradi^áo antiga, pelo que ouví- 
ram a feus pais, e av6s. 

Coftumava o Santo Apofíolo fahir-íe da 
povoa^áo , onde ordinariamente gafiava a 
mor parte do tempo na conversáo das gen* 
tes , e ir-fe a orar a hum monte aíFaftado 
quaíi huma legua da Cidade , que naquelle 
tempo fe chamava Antenodur , onde tinha 
dous Oratorios : hum logo na entrada do 
monte , onde agora eílam os Padres da Com- 
panbia , que ü agora chama o Monte pe-- 
quena , que era huma pequeña furna cavada 
em huma rocha viva , em que tinha feito na 
mefma pedra hum pequeño Altar , onde de- 
via de ter alguma Cruz, ou retabolo; e o 
omrp Oratorio era mais aíOma; onde agora 

cha* 



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Dec. VII. Liv. X. Cap. V. 469 

cl4amam o Monte grande , e onde eftá a Ca- 
fa d^ noflfa Senhora , de que logo fallaremos, 
que ferá dehum aooutro diftancia depouco 
mais de hum tiro de berjo. E eftando hum 
dia o Santo Apodólo em o Oratorio debaixo 
aflFeryorado em ora^ao , vieram os Bragma- 
nes , que andavam já conjurados contra elle , 
por nao poderem foffrer fuá rara virtude , e 
exemplo de vida , com que todos andavam 
defacreditados diante do Rey ; e íentindo-o 
dentro na lapa, foram-fe por huma ilharga, 
onde tinha huma pequeña frefta , que íizera 
pera claridade , e efpreitando-o por ella , o 
víram cftar dejoelhos, com os olhos fecha- 
dos , em hum rapto tao profundo , que pare- 
cía morto; e mettendo a lan^a pela frefta, 
Ihe deram huma lanzada. O lugar certo por 
onde íbi fe nao tem averiguado , aínda que 
todos concordam que foi por huma ilharga. 
E foi ella com tanta for^a , que parece que 
ao acordar do Santo, e ao bullir do corpoj^ 
quebrou o ferro aíüma do alvado quaii meio 
palmo i e ao gemido que o Santo deo com 
a dor , foram todos fogindo , e elle com 
aquellas anfias da morte fe fahio pela porta 
róra , e tomou o caminho do Monte gran- 
de , aonde tinha o principal Oratorio , e on- 
de eu prefumo que eftariam feus difcipulos , 
e que os iria o Santo bufcar pera o reme- 
diarem. Mas como hia morcalmenre ferido ,' 

che** 



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470 ASIA DE DioQO de Coüto 

chegando á Ermida , fe abrajou cora hufti 
retabolo de pedra , em que tinha huma Cruz , 
é allí encommendando iba alma a fea Mef- 
fre , fahiria daquelle fantiflimo corpo a go- 
ZSíT daqueljas bemaventuran^as eternas , e 
¿aquellas cadeiras de gloria , que Déos ti- 
jiha appárelhadas pera feus Santos Apofto- 
Jos , em que appareceráó no ultimo juizo 
pera juizes das gentes* Os diícipulos do San* 
to, depois de chorarem fuá morte, e apar* 
tamento, levaram-no a enterrar naCapella, 
que na povoa^ao tinha feita daquelle moni- 
truofo madeiro , que ainda boje eñá em pá 
na mefma forma ; e com elle enterráram hu- 
ma grande panella de barro , em que reco- 
Ihéram todo aquelle facratifllmo fangue , e 
ferro da langa , que fe achou aíFuii , quando 
no anno de vinte e tres defcubríram a fe- 
pultura , c corpo do Santo Apoftolo o Ca- 
pitáo Manoel de Farla , e o Padre Pernea- 
do , que El Rey D, Manoel de gloriofa me- 
moria mandpu a eíle negocio , pera faber a 
verdade do corpo do Santo Apoñolo , co- 
mo fe verá melhor na III. Década de Joao 
de Barros , e em outras partes das minhas. 

Em fim , tornando a noflb propofito , a 
Ermida , em que o Santo foi morrer no Mon- 
te a/fima , foi femprc renovada por feus dif- 
¿¡pulos, em quanto vivéram, edepois pelos 
Chriiláos ^ que fempre allí ficáram ^ até que 
V o 



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X>HC VIL Liv. X. Cap. V. 471 

o tempo veío a apagar tudo. E todavía , de- 
pois que entrátpos tía India fempre osReys 
Catholicos de Portugal mandáram* ter muita 
conta coin píla Cafa^. que foi inultas vezes 
renovada ; mas de fcicáo , que por tempos 
tornou á cahir , como efteve até o anno de 
quarenta e íéte ^ em que os moradores com 
o Vigario da Cafa trata ram de a alevantar 
de feicáo , que nao cahiíTe por mtiitos rem- 
pos* É pondo as m^os naobrá^ abrindo os 
antigos alicerfesj a huma terja feira , achá^ 
ram nelles huma pedra de maravilhofa fei*- 
§áp de cor parda clara , de quatro palmos 
de alto , e tres de largo , e nella feito de 
meio relevo hum portal ao modo Gótico , 
e no meio huma Cruz da fei^ao das de 
Avís , e em fima na cabera huma pomba, 
aíÉm como fe pinta , quando o Efpirito San-»- 
to appareceo á Senhora , e aos Apodólos, 
E no circulo do portal tinha humas letras 
de táo antigos caraderes , que nao houve 
em toda aquella Cidade quem as conhecef- 
fe j e a pedra por dentro , e .,meio della ti- 
nhs humas manchas como de fanguq. E pa- 
recendo a todos que aquella pedra era mi-^ 
lagrofa , a leváram - com grande venerajáo 
pera a Igreja da Cidade , em quanto hiam 
com a obra por diante, com determinajáo 
de a mudar pera aquella cafa^ eafeij^ da 
pedra he a ieguinte* 

E 



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47^ ASIA DE Dioso de Coutq 




E deíla fei^ao sao todas as Cruzes , que o 
Santo Apodólo mandou fazer em todas as 

par- 



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ÜECé VII. Liv. X. Cap. V. 473 

partes ; e aínda hoje fe vem ná fuá Igreja , 
e Capella , e nó Oratorio do Monte pequen- 
no, eemalgumas columnas, donde hapou« 
co tempo trouxeram huma pera o Convento 
de S. r rancifco de Goa , que os Padres tem 
em huma Capellinha na crafta , que abríram 
pela cabera , e Ihe fizeram hum váo com 
hqm efpelho , onde tem mettido hum peda* 
90 do ferro da lan^a, com que matáram o 
Santo Apodólo. E efta columna he ao modo 
oitavado da cor da mefroa pedra do mila* 
gre , fenáo ouanto he no tado mais afpera , 
e no meio aella tem hum pequeño portal 
entalhado na mefma pedra , e no meio hu- 
ma Cruz como efta. Outra columna eftá na 
povoa^áo de NegapatSo mettida no chao 
com varóes de ferro , por fe recearem os Gen- 
tios cjue os Portuguezes Iba tomem ; e pera 
fe mais fegurarem , a recolhéram pera junto 
de hum feu pagode de muita venera^áo, e 
a cercáram a roda de parede , ficando alli 
em hum pateo. Tem efta columna hum gallo 
talhado na pedra de huma parte, e da ou- 
tra huma corda , e huma vela , e anda de 
boca em boca das gentes de muitas centenas 
deannos a efta parte, que efta columna viera 
pelo mar huma noite , e que aquella vela 
vinha acceza ; e vifta por fauns peleadores 
aquella claridade , foram ver o que era , e 
acháram aquella pedra miiagrofa , que per 



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474 ASIA DE DioGO de Cotjto 

íima da agua hia pera a térra até encalhar 
nelIa i e dando rebate ao Geniio , acudió to- 
do á praia; e achando aquella maravilhoía 
columna , levaram-na com muita yenera^^o 
pera Junco daquelle pagode , temendo*fe 
iempre depois que os noflbs eqtráram na* 
quella povoajáo delha lomarem. E deiían- 
do nos noíTo juizo fobre efta pedra , nos pa-^ 
rece que foi das columnas , que S. Thomé 
wandou por era alguma parte de Meüapór ^ 
e onde achou aquelle efpantofo'madeiro , 
que era doze leguas donde hoje eflá fuá ca- 
ía y e anda em memoria de todos os Gentíos 
de avós a netos , que quando ElRey dera 
aquelle pao ao Santo, pera fazer huma cafa 
«aquella Cidade y onde o pao fe achou , que 
entáo era ao longo do mar, e doze leguas 
onde hoje eftá fuá cafa , diíTera, que nao 
havia de edificar Templo , fcnáo ondeo pao 
por fuá vontade foífe parar, porque aquella 
Cidade , e muitas leguas adiante fe havia 
aínda de cubrir de mar : e o pao foi dallí 
a doze leguas parar no lugar , onde hoje eftá 
a cafa do Santo Apoftolo. Pelo que nos pa- 
rece que quando ornar comeo toda aquella 
térra , efta columna , que eftaria naquella par^ 
te , feria milagrofamente levada pelo mar 
até aquelle lugar, onde hoje eftá, e onde 
efperamos em noffo Senhor pelos mereci- 
fnentos dp feu Santo Apoftolo , (^ue havemQ$ 

ain- 



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Dec. VII. Liv. X. Cap. V. 475: 

aínda de ver huma milito profpera Cidade ^ 
cheia , e povoada toda de Chriñáos i e que 
aquelle pagode , onde aquella columna eftá , 
ha de íer ainda convertido em hum muiío 
formofo Templo , em que Peos noflb Se- 
nhor feja honrado , e venerado* 

E tornando a noíTo fio da pedra domi* 
lagré , acabada a Ermida , que dedicáraiii a 
N. Senbora do Monte ^ paíláram pera ella 
a pedra com grandes feftas , e regozijos , c 
a puzeram fobre o Altar , e mandáraní fai- 
zer hum auto do modo de como fe achou , 
e mandáram tirar a forma ^ edebuxo della, 
que fe levou a ElRey D. Joáo , que a efti^ 
mou tnuita; eencommendou porfuas cartas 
aoGovernador D. Duarte deMenezes, que 
trabalhaíTe muito por febufcar quem decía* 
raíTe as letras pera por ellas fabetem a cer- 
teza daquellá pedra. E pela inílan^ia , com 
que ElRey encommendou efte negocio, tra- 
balháram todos os Governadores , e encom- 
mendáram aos Capitáes daquellá povoa^áo 
que com toda a diligencia poffivel fe buf- 
caíTe peíToa , que declaraífe aquellas letras : 
e aílim todos mandáram irazer defle fertao 
a muitos Bragmanes velhos^ e doutos pera 
jíTo , fem fe achar quem tiveíTe noticia da- 
quelles tao antigos caradleres. E querendo 
Déos noflo Senhor moftrar já ao mundo . a- 
quelle fegredo por honra do f^^u Santo Apof* 

to- 



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'47^ ASIA DE DiOGO DE COUTO 

"tolo, pera que os hotnens nSo perdeflem a 
Venera^áo , e acacamento' em que a tinham » 
permitcio que o anno de íincoenta e hum o 
día , oue fe celebra a fefta da Expe^la^áo de 
noíTa oenbora , a que chamam do O , que 
cahe fempre a dezoito de Dezembro , pera 
onde mudáram a da Santa Cruz , oue na 
mefma Ermida ordenáram que fe celeoraífe y 
em come^ando o Vigario , que dizia a 
MííTa , as primeíras palavras do Santo Evan- 
gelho : Mijfus eji Ángelus Gabriel á Dea , 
Ó^c.^ come^ou a pedra maravilhofa a íe 
mudar de huma cor ferrenha , e pouco e 
)ouco fe foi cerrando , e fazendo preta , e 
uzida , como fe eftivera untada de oleo , e 
ogo tornou outra vez á fuá cor natural , e 
come^ou a fuar gottas de agua ; e a huma 
parte , onde eftavam mais claras as manchas 
de fangue, fe moftrou muito formofa e ri- 
fada. 

Eftes effeitos foram viftos de todo aquel« 
le povo, que comefou a engrandecer , c 
louvar em altas vozes aoAltiíOmo Déos, e 
a feu Santo Apodólo , porque Ihe quizera 
moílrar a virtude daquella pedra, É eftas 
mefmas maravilhas , e milagrofos íinaes fe 
víram depois no mefmo dia certos annos , 
ainda que interpolados , até o paíTado de fe- 
fenta e hum , em que fendo Capltáo daquella 
povoa^So Pero de Talde Inferno , c Vigario 

da« 



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Dec. vil Liv. X. Ca?. V. 477 

daquella cafa o Padre Gafpar Coelho , que 
trabalháram rodo o poíEvel por defcubric 
queiD declarafle as ktras daquella pedra ^ aré 
que Ihe rrouxeraai do Reyno Cañará huoi 
Bragmane muiro anrigo, e muiro douro na 
feíra dos Bragmanes , e ñas Ierras anrigas de 
íuas efcriruras, que pela fama que delle ri<- 
veram, o mandáram bufcar. E moílrando* 
Ihe a pedra , vendo-a , e norando as letras , 
as conheceo , e dííTe que eram r2o anrigas , 

5|ue já fe nao ufavaní ; e que eram unco 
ortes , e differen^as dellas » e de lingua ; e 
que cada Ierra daquellas conrinha vinre , ou 
mais letras , conforme aos amigos Gerogly* 
fieos dos Egypcios , que punha huma letra 
por huma parte , e efia por muirás ; e que 
as Ierras eram rrinra e feis com rres pontos , 

3ue rambem íigniíicavam fuas parres : e dan- 
o-lhe juramenro conforme á fuá lei , com 
fuas ceremonias acoñumadas ^ pera que bem ^ 
c verdadeiramenre declarafle o que ellas di^ 
ziam , fe fubio em alto ,pera as notar bem , 
e as foi efcrevendo ñas Ierras , que enrao íe 
coftumavam anrreelles, queaíSrmava ferem 
mais de ferecenras ; e pondo«as em fuá or« 
dem com muiro rento , e vagar , e depois a8 
foi inrerprjerando por hum experto lingua » 
e humTabelliáo do público Judicial , as foi 
tomando em fuá lembran^ pera as lanzar en^ 
fuas notas i e o que continham he o feguinte. 



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47^ ASIA DE DiOGO DE COUTO 

« Em tempo do filho de EIRe/ Sagad 

> Gentío 5 que reinou trinca annos , hum fó j 
31 e verdadciro Déos veio á térra , e tomoii 
ji carne no yenife de huma Virgem , e lirou 
]i a Ie¡ dos Judeos , de cujas maos por fuá 
) vontadc romou caftigo pelos peccados doá 
j> homens, depois de andar no mundo trin- 
)) ta e tres annos , e enfinar a doze criados 
jg a verdade, que andou pregando, E hum 
^ defles veio a hum lugar chamado Majalle 

> com hum pao nn máo , e trouxe hum 

> grande madeiro chamado Bagad , que veio 
}i pelo mar; de que fez huma Igreja, com 
% que toda a gente folgava. Hum Rey de 
TI tres Coroas Cheralacone , Indalcone, Cuf- 
^ pandiad , e ElRey Alexandre do Reyno 
^ Ertinabarad com Catharina fuá íilha , e 
)» muitas Vifgens , e feis géneros de cartas 
TI por fuas vontades lomáram a Lei de? 
1 Thomé , por fer a da verdade , e elle 

> Ihes deo o final da Cruz pera adorarem, 
1» E ellefubia ao lugar de Amenodur, on-^ 
)$ de hum Bragmane Jhe deo huma lanja-» 

> da , e elle fe abrajou com efta Cruz, 
)i que ficou manchada de feu fangue , e 
% 08 difcipijlos o leváram a Majalle , e o 
)) enterráram na fuá Igreja com a lanya 
» no corpo : e porque nos os Reys aífi- 
» ma nomeadós Viflios ifto > feemos eñas 

> letra$. 

Don- 



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Dec. VII. Liv. X. Cap. V. 479 

Donde inferimos que todos aqiiellcs Reys 
foram feicoá Chriftáos por elle, e que eratn 
Regulbs de diíFerentes Provincias^ dalli per-^ 
to , que fe ajuntáram a ouvir fuá doutrina ^ 
c a fe bautizaren! peía fama de fuá v¡da# 
Efte anno , qué noíTo Senhor quiz certificar 
áquelles' moradores a virtude deña pedra , 
nSo fez ella o íinál acoílumado, do que to- 
dos íicáram defconfolados \ mas o feguíñtc 
de feíTenrae dous , em que andamos , que* 
rendo elle acabar de ciertificar a todos cotn 
maiores fináes da verdade daquella pedra, 
Ihos manifeftou o mefmo día de nofla Se-* 
nhora do O, por efta maneira. 

Eftando o Vigario GalparCoelKo dlzen-^ 
do a MiíTa, cm comegando o fanto Evan* 
gelho, comefou-fe a cubrir a pedra de hu- 
ma nuvem fubtil , que logo le desfez , e 
a víram ir mudando a cor , e manchar-fe 
de preto , e cárdeno , até ficar affim toda de 
huma cor defacoftumada , e tao luzidia , como 
fe eñivera untada de oleo ; e acabado o 
Evangelho , fe cubrió toda de hum fuor , que 
parecía que orvalhava fobre ella, oque du- 
rou toda a MiíTa ; e acabando o Vigario de 
confumir, fubio-fe emjoelhos fobre o Altar 
perante todo o poyo, c com ó fanguinho, 
que tinha as finco chagas lavradas de feda 
vermelha, alimpou áqueHe humor de pedra , 
ficando o íanguinho todo fnolhada, e com 

hu« 



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4S0 ASIA DB Dioad ut Covro 

huitias ríodoas de huma agua vermelha^a , 
como de lavaduras de carne frefca } e depois 
difto antre as onze , e as doze horas tornou 
a pedra a fuar de fei^áo , que pela ponta de 
Iium bra^o da Cruz eftillava gotta e gotta 
de agua , que o Padre Vigario hia rccolhen* 
do no fañguinho ^ o que duróu por efpa^o 
de meia hora , que fe tomoü aquelle humor 
a refolver, e a pedra fícou parda ^ clara, e 
graciofa^ e onde tinba as manchas de lán* 
gue fe enxergou muico claro^ 

De rudo ido fe fez logo allí hum auto y 
em que fe afügnáram o Capitao ^ Vigario ^ 
e peíToas príncipaes do povo, que fe man* 
dou ao Bifpo deCochim D. Jorge Themu- 
do , que de novo mandou tirar hum fumma- 
rio de teftemunhas , de que foi Enqueredor 
o Vigario , e Efcriváo Oiogo Pereira , pre- 
íente o Capitao , de que o Padre Fr. Duar- 
te Chanoca , que foi Guardiáo de S* Fran- 
cifco de Goa , e muito antes tinha íido Guar*» 
diáo da mefma Cafa de S« Thomé , nos deo 
o traslado, 

E podo que na interpretadlo das letras 
da pedra vá alguma coufa defviado de al- 
guns que efcrevéram , conforme as ioforma- 
^oes que tiveram muito depois de mim, 
quero ir atado ás que tivemos , e as dili- 
gencias que fizemos como de prefente , e aos 
autos ^ e traslados^ que de S. Thomé noa 

flpan- 



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Dec. vil Liv. X. Cap. V. 481 

mandara m. Porque quem os informou táo 
mal , como foi em dizercm que no anno de 
lyjz. entregaran! o Padre Penteado , e oí 
Padre Alonfo Cypriano ao Vigario , e Vifi-* 
tador do Bifpo de, Cochím* o traslado da ' 
humas doa^des^ que os amigos Reys con-~ 
cedéram pera a Cafa do Santo Apoftolo^ 
que elle tambem recita muitp defviado dos 
iQefmos traslados , que em noflb poder eftam , 
que logo abaixo poremos ; fenda ccrto quC' 
emCochim nunca houve Bifpo, fenáo oan^^ 
no de 15*59. ^^ 9"^ ^^^^ D.Jorge Themu**-» 
do , que foi o primeiro que aquella Cidadi^» 
te ve , tambem o podía ioforcnar aílim tks 
outras coufas. - '■'[ 

E pois fallamos neíta materia, nio po- 
demos deixar denos queixar de algunsfdd^ 
les, por tcmiar danoíTa V; Decida, que faa- 
fctc , ou oito aiinos temos no Reyno , o* 
onzeno , e dozeno Capitula, que toca na: 
Religiao do Gentío da India 'engaños , efu- 
períli^Óes dos Bragmanes , que nos cuíloa 
infinito, trabalho, edefpeza dafazenda mah"# 
dar trazer defuas mefntas efcolas doReyná 
Badagá , e de irmos em peíToa ver o no9^ 
pital dos paflaros de Cambaya , e notar cou^ 
las , que os homeñs , que lú paffam de diflíe^r 
rente pro^áo ^ nao fabem , ou nao querpnv 
notar: negando-nos a 1>cncvoicDcia que fe 
deve nO: citar dos efcrirores^ e.mais quando 
Cmt0.Tm.JF.P.iL Hh nos 



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481 ASIA DE Dioaó DE CovTo 

nos nefte Eftado eíbmos efcrevéndo por aiH 
tjioridade da Mageftade Real de ElRey D* 
Filippe. E Quem quizer ver fe me queixo 
com razáo , lea os Capítulos atrás allegados , 
e o IL , III. , e IV. Cap. do VI. Livro da 
minha V. Decada , que já deve de eftar im-^ 
preíTa , ou inuko perro de fe imprimir , e 
uerá fe na mor >parte dos outros nao vai pe^ 
las minhasuproprias palavras, e particularip* 
dades , quesea fó na India notei: e deixan* 
do.efia materia , em que eu nao bei de £car 
em obriga^áo de refiirui^o a ninguem , por- 
que em todas as minhas Decadas dou o feu 
st £tn dodo , como pelo decurfo dellas fe 
poderá mui bem ver. 

Tornemos á ooiTa ordem : já que atrás 
Bos penhorámos com os padróes , lera bem 
darmos rcla^áo ha realidade delles , porque 
íervirá > pera que ^vejamos a liberalidade da* 
quelles Reys naicidos^, e creados ñas entra- 
Bhas da gentilidade , quetiveram pera aquel* 
le Templo doSaqto Apodóte ; epaíTa affim^ 
O anno de fincoeiita e dous , íendo Vigario 
éa Cafa do Apo(blo- S« Tbomé o Padre 
Antonio Perneado ^ foi ter com elle hum 
Bragmane velho , é. Ihe dille : ce Que fe Ihe 
> pagafie bem, elle Ihe defcubríria huns pa* 
y dr&?s, que os Reys, ou do témpo , ou 
» poqco depoís doApoftolo&Thomé, Ibe 
]i^ pailaram de tesas > e rendas que deram 

• ■ > de 



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Dec* vil Liv* X Ca*. V. 483 

3) de efiDoIa pera a fuá Cafa , cjue Ihe an* 

> davam £oneffíd^t .y £ ifílavam eícotididas 

> em parte , que elle fá fabia..)» Venda q 
Padre Antonio Penieado aquillo , cohoettou^f 
ie com elle emtreieñtos zeraíkís , ^que ajun«* 
tou pdos moradores ^ e ns depofitou eiB má<i)í 
de peíFoa abonada que Ifaos déíTe , tratendQ 
elle os padróes, que logo, vieram* fi eraiQ 
fres taboas de mi^l de palmo de akd $ f 
iTieío die largo ¿ada hUtoa , feka^ aü modo 
de como fe pintam os e feudos das Arma^ 
das linhagens, e todas tinrham delruma par<f 
te ham letreiro, e da ourra huma Cme^ n 
hum Paváo. Difio tomáram atgnus motivQ 
pera affirmar , que a ave , que efiá ha potito 
de ílma da Cruz da pedra do tn^lagce, era 
tambeiti Paváo y no que fe enganáf am « por* 
que neftas taboas puzenim-fc os Pav^s co* 
lYio fellos das Armas daquelles Reys , e 9 
Santo nao as hay k de por na cabera ida 
Cruz ; .e na cabera das taboas tinfaa cada 
-huma dellas huma argola ^ por onde fe pendu-p 
lavam. Vendo-as o P. Vigario Antonio Peiir 
teado ) moürou-as aos.Gentios amigos ^ como 
os da pedra da Cruz , fobre o que fizerano fua^ 
diligencJas. E pela fama que havia de hvtm 
Bragmane douto ñas térras do Cañará ^ o maiv 
dáram trazer, que vendo as tabops, conhc^ 
ceo as letras , e tiacbrouras ao Notae^io que 
c;fcrevia , e o que continham the o /eguiñt^ 

Hhii A 



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484 ASIA i5e Dioqó de Covro 

- Aprinteira iaboa diziai 
c Ém notnc de O^^os, que fez o Ceoy 
e a térra , a que íe nao fabe principio, 
nem fim , a qoem me ehcommeado , e 
debaixo de coja mío eftáo o Sol ^ e as 
eftreUai , é tetn poder pera corlar rodo o 
mal* EÓe Senbor fez huma joia , que he 
ElRey nodo Seniíor , a quem deo poder 
nefte mundo pera fazer. o que quizefle. 
EíleRey alumiam fuas-obras comoeftrel* 
las ; em (empo que nafcéram as ^dras 
preciofas/ entáo nafceo elle contra todos 
leus inlmigos, 6 pera favor, e amoT dos 
boiTs: , que tei»« multa carídade* O av6 
defte Rey fe ¡chamava Arela Raji , e feu 
pai Campelia Raja , e elle Boca Raja , e 
tem dous filhos chamados , bum Marapa.; 
e outro Marapa. E cfte Rey he tamanho 
cavalleiro como huma alimaria ^ á que 
chamam Chigsáo ; que he Rey de todas , 
ehemaior que todo ooutroRey, ecomb 
hum dos lineo Reys, que venc£ram no* 
• renta e noveReys, eque rem tanta forga 
como hum dos.oito Elefantes fobre que 
o mundo eftá. Éfte reina em. feu Reyno, 
e'tem outros tnes , que tomou por armas , 

> que sáoOtia , Tulcao , e o Cañará , e efte 
% he Rey, e Senhor dosSenhores, que feus 

> inímigos venceo y e &z em poftas com 

> fuá etoada.n . 

^- A 



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Deq. vil Ltv. X. Ca?. V. 485: 

. Afegunda taboa continha o feguinte*, 

K Paflada aera de 12^9, annos , no pri- 
n meiro anno, que fe chama Icarrana Ra« 
» cham, aos doze dias dí2i Lúa nova do bom 
» anno, deo de eímola Abidara Modeliaf 
» Santo pera a fuá Igreja as térras ^ibaixo 
)• .declaradas , que parceni do Chandegari 
!► com Paliorcota , Cotur , e Meliapbr , onde 
H choveo térra , e foi defpovoadi ;. e eíle 
»! lugar de Meliapor parte com o Palcpáte ^ 
^ e com o de Cotur da banda do Nafcente , 

> e aleen do rio da banda do Sul , e da ou- 
n tra parte com o mar , e da do Norte com 
» Frlvanor. Entre eíles lugares ha hum , que 

> fe chama Uror , e outro Cateparede , e 

> outro Catetangul, ¿ outro Perogam Rey, 
» qM he cabera dellés. E efies Ihe dou Abe* 
)|^ dará ModeUar pera ajuda deaiumiar a fuá 

> cafa. £ todos efles Ihe dou com fuas cafas , 

> fementeiras , hortas , rios , aguas de pre- 

> zas 9 thefouros , rubis , e todas as mais 
)» pedras preciofas , que fe acharem por íima , 

> e por baixoda térra, e todo o navio , e 
n coúfas quevierem de mar eráfára quebrar 

> ¿m feus termos, e toda a níadeira/ e os 
% dirieitos de alguma nao que.alii carregár, 
». tirando algum pedazo x]e térra , fe anees 
» difto eftiver dada a algum Pajgode.^E eftes 
ífe.lugares Ihe dou ^ jurando fobre humPago- 
» de, que fe chama Ampifiriripaffa'deVe- 

.1 )í re- 



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486 ASIA t)^ DioQo os Coüro 

> rede : o que Ihe dou etti quanto o Sol , 
)i e Lúa durarem, pera que a fuatlgreja os 
31 tenha , e poflua pera íemp re, Ei ao pé de 

> tudo dizia: Em nome de Oeosi e entáa 

> o íinal de ElRe/. 

A ttrceira tah^ dizia affm : 
« Efte he o final de eíiaiolas pera alcan«* 
SI ;ar o Paráifo } e todüs os Reys » que 

> cumprirem , alcan^aráó muitag mais ; e 

> queit) as desfizer , eílará feflenta mil annos 
31 no in£ej-no com os bichos* Porque eftá 
n efmola que fa(o, he ipei^ fempre, epera 
B. codos os Reys a cumprirem , a qaem o 
SI pe^omüitó, y Dedes ^adr^es infíroeu que 
as térras íbram dadas ao snefmo Apodóla 
Sé Thomé em fuá vida naquclias palavras 
da fcgunda taboa, onde diz: Dd de efmúla 
a Abedarrd ModeHar.Sunt9 pera a fuá 
Jgreja\ porque fe fora já morto^^ feita á 
ei'moláaaigum de feus difcipuios, hocrvera 
de dizer que dava a efmok pera a IgreJ^ 
do Santo* .Eoaquella dignidade de Mo(|e^ 
liar , por que o imituia. , ift pode tamben» 
conjodhicar efia verdade y e aínda mdlis^ em 
Ibe chsmaoi: Santo, porque o titalo d& Mo» 
deliar era éntao o mais honrado na Corte 
daquelles Reys: c p taome di^ Abedarrá, 
por que* ó^ fioiHea , dG?e de fer algumá ex« 
cellencia fuá ; e muitas dufidas^ que podem 
i«¿reíber, como ña era quehomeain ^kv- 

tu- 



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Dec. vil Liv. X. Cak V. 487 

fura das taboa$, edós nomes daquelles me^ 
xes , podcm deitar a culpa aos curlofos da^- 
queüe tempe, que nao (buberam perguntar 
por ellas. E poílo que nos ^gora queiramos 
defcubrir ifto , já nSo devem de haver aquel- 
les Bragniaoes doucos , e antfgos , como ot 
que declara ram as* letras da pedra do mila** 
gre, e dos padres, porque a^ guerras « t 
o tempo tem confumido, e ¿aílado tudo.' 

Outras taboas como eíla» fé acháraiA 
tambem no Reyno de Cranganor de do^ 
fdes , que aquelles amigos Refs iizeram pera 
a ígreja , que os difcipialos do Apodólo Sw 
Thomé allí fundáram , de que já demos re^ 
lafáp no II. Cap. doL U^J^ttsi Vil. De^ 
cada. E porque nos nao fique huma coufa 
muito pera notar , o-farenios-aqui de paíTa- 
gem, l)orque cfñ outros Iqgares a relajare» 
IDOS mais dépropoíico; ehe^ queegiquan* 
to houve vecdade . juíU^a , e pKpuca cubica , 
e fpbre tudo ChriUandade f moÓcava Déos 
noflfó Senhor nefta pedra as maravilhas que 
diflemos pera gíoria fuá ^ e hcmra de^leu 
Santo; e o titinám Os cafados d^quella'pO* 
voa^o por táo particular mevcé de Deot» 
porque xom aqueile^ flnaes Ihe emravam tan« 
tas enchentes de fuá mxfericordia ^ qiidanda-» 
vafm com>09 olliós^0á pedra •; e éfp^ratam 
aqujelle defejadd'dia com¿' úáefya fafra^o i 
e aifim fe Ihe faitáyi alg^di arnio^'^iaitti 
t '-'*••' no 



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4S8 ASIA DE DioGO de Couto 

ao pelo mor caftigo da vida ; mas depois 
4)ue na lodia entrou tanta cubi9a, onzena, 
jnjufti^a, e taou ourra couía deíla qualida- 
de y trocou Déos noíTo Scnbor o final de mi* 
fericordia em final de caíljgo ; porque neftes 
asnos ( e ;em outra parte diremos a certeza 
dequaocof peracá) oanno queapedra mof* 
ira aquelle m^rayilhofo eíFeito , logo fucce- 
de na térra :aJgum defattre, ou perda nota* 
ível : e tení os horneas já ifto por láo ave- 
íiguado , :q*Wi em íe vendo, o final , logo ef* 
|xrram por^lgmo grande trabalho. £ aifim 
como de^ptes pediam áDeoa Ihes. maui£e& 
tíiffc na. pedirá; o fibal 4e fuá. mifericordia , 
dgora pMecq'Jhe efconda o de fea caftigo, 

C.A;.P I T U tO VL 

J)as rnais cóufas , que acóntecératn na Etbh" 
'fia : e dé como o CápitSo Ifác fe ajuntou 
♦ €om o Baxddos Turcos , e alevantd^ 
rom outroRey : e do que aquelle Em- 
perador fez ^obrei^o. 

.T7Icáram',a5i coufas da Ethiqpia defie an- 
jr ^ no paíTado -naquella vitaría , que o Em» 
pcrtidor Jiouye contra: o Capitáo Ifac , e 
contra o. Rey ,. que elle tinba alevantado , 
p elle, rcfpnciliado coovoBIfpo, e defeJQfo 
deofazer ^om o Ifac, ptírefeufar mai§ per- 
ií|rbaj^s^5i; e Jhe roapcÍDií-pera iflb perd^es 

reaes * 



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Dkc. VII. Liv. X. Ca^.íVI. 489 

reaes , que elle nao quiz acceitar , antes tra^ 
tou delhefazer todo odamno que pudei&i, 
pera o que fe reformou, erortioQ a ajuntav 
aíl os Portuguezes , que com elle efcapáram; 
Sabendo o Baxi do Turco (que eftava em 
Arquicó) eAascoufas,, parece^do-Uie que 
feria grande lan^ fanear-fecóm o Ifac , ^ 
fazérem ambos guerra áquelle Emperador^ 
aíé o deílruirem de todo , porque depoi^ Ifae 
5caVa melbor occaíiao pera oque pertendia; 
eiaílin) tratou ido por meio át hotn Mpurb ^ 
Senlior da liba de Laca , grande amigo dcfie 
Capitáo Ifac , qoe carteando-fe com.eHc, irio 
aos conformar , e aíTentáram que fe: viiTeai 
ambos , e o Tueco Ihe mandoi» kam filho 
ü:u pera Ihe fícar em.refen» , em qüanto di|^ 
raite a liga que faziam. E affiaiidia'xle: S¿ 
Sebaíl^o paflada fe ajuatárapii em huma, «ir 
beira feislcguas deArquícéi, levando o Ifiía 
íó comfigo FrapcifcoJacoñDe ^^e o Capitáo 
Arabo; eni^yiAas aireniárcMT):afi:amieadc84 
e jurácam de jarnos, e confodetadús: attiboa 
fazerem giicrca ao.Empei^dori tE pera rñtr 
isbrem eda expedi^áo co'm álgu'ite c^r ^ af- 
^mtáram tqae fe s^cvantaffc- ipon emperador 
Juim mentoo tle oko aonor Adtaiqada Mar- 
f:o8, filho do Abiticon Acobr^iám t]ue fhoir. 
ta$ vezestemo^ fallado > qup .0. Ifac/trázm 
comfigo , com fuá mai , « oútro^ irmáo ba& 
tardo chaouulaFafalateoi eJiooptifa»^ qur 

o 



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490 ASIA D£ DioGO db Covto 

c Ifac cafou com Iium íilho (éu chamuáo 
Tagala MicacL E aifim foi logo alevaotado 
o 111090 , e ]he fizeram as ceremonias cofta* 
madas naquelle Imperio , c Ihe puzeram no* 
me Alefiiegic , e o Baxá Ihe deo logo allí 
nlgumas pcfas ricas , e cavallos formofos » 
e logo ordenáram feu campo pera irem buí^ 
(:ar o Empíerador Adamas Saged ; e o Baxá 
negocioa aljamas pe^as de artilheria de cam'- 
po pera a jornada. O Ifac tomou comfigó 
pdSmperador menino , e em fuá companhia 
ieu paí, e o Capitfio Arabo com algunsPor* 
cugueze^^ etoda agente que:puderam ajun^ 
tar , qtíie náo' paíTou de cenco de cavallo 
Abéxíns, eniil de pé, e oBáxá outra tanta 
gentci E com fó eñe pouco poder comerá*- 
rám de caminhar pera onde eftava oEmpe* 
fador, que logo mi avifado da liga, é xie*^ 
ttfvminou de ii* bufcar os alepantados, pera 
o que ajontou ífoas gentes ^ e fe poz em 
campoi pera ir bufcar os inimigos^ 
r • Vendo Affbnfo. de Franca que tinha o 
£lnperad4ir neceffidade de ajuda dos Portu* 
guezes^i pedio-Ihe de mercé, que mandaíTe 
iolrar os «jure íinte: prezos por favorecerem 
o Ifzci^ -pitriDenendo-ihe que naquella jw*^ 
liada tí'íhavhiqi 'defervir cont grande amor^ 
V lealdsdé.'equp como osinimigos foubef* 
fem que elle levara mais dé ümroenta Por«* 
togucm/ ^ue To podíam^^aJMUur^ haviam 
o de 



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Dec. vil Lrv* X. Caf. VL 491 

dereceallo'inQito^ mas o Emperador nao 
Ihoquiz conceder, dizendo^lhe: «Que nSo 
» quería vitocia alcanzada com traidores^, e 
1 que fem elles Jha daridDeos. » Elogo íe 
poz em campo com fekcencos de cavallo > 
e dez mil de pé , em que encravam duzcn^ 
tos de eípingardas 9 emandou bufcar oBiA 
po , e Padres da Companhia pera os levar 
comfígo; ( com eíle exercira come^ou d^e 
fi»rchar aeá^ íe ir avizinhaqdo com os iiú« 
migos , com <)uem íe encontrou em hüm 
campo muito formofo , onde aíTemou lea 
éxercíto , ücando-lhe entre elles > ^ 08inimi« 
gos huma grande fcrra^ 
• Tanto que o Bax4 tcve novas do En>* 
perador^ £jmficoa-fe emhum tezo do^inont 
te, e prantou íua artilheriq y e mandou e& 
piar o campo do Emperador pelo pai dp 
líac ) e GoD^lo Soarea Cardimr com ihais 
quatro Turcos de cavollo em muitos bon$ 
cavallost que eíliveram nocando o modo de 
como o En^perador eftava , e víram qoe fe 
hk recolheiido pera hum campo, quefcav^ 
entre, duas granoes ierras ^^ que nüo tinhá 
mais qtie huma ib enerada muiro eftreita* B 
mnqwlla *|ieiir9da , que o Sm^erador fez^ 
entendéram os que o foram^efpiar , que at>ft> 
receava a: butalha. Mas tambem o Gonzalo 
SoiarcsCardtm nio detxou de fentir medo 
nos Turóos-^ porque .puY40:faUar huiúrcpa 

os 



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49^ ASIA 'DE DiOQO DÉ'COUTO 

o£ ottCros em fíialingua, que elle entendeo 
bem , e diziam : c Que os Poriuguezes nao 
% desbaratáram£lR.e}rGfadaamet em rempo 
» de O. CliciJfte^Jlo. da Gama com muhos 
> cavaljos , feíma com muiro fbgo ; porque 
1» difleram os «companheiros ^ que trazia o 
B Emperador pduca gente de cavallo.^ B 
dando conca'- ao Baxá do^que vícam , que 
por ver cudo com oolho, caralgou em hum 
fbrmofo.caY^llo , e.elle venido emhiun rout 
pao de horcado, foi ver o campo doEmp&« 
rador; e depois qu^ notou o ficio-, difle ao 
Ifac y que elle .o defalojaria mui deprefla. O 
Gonzalo Soares Cardim ,-pareceiido4he que 
a parre dos .Turcos eftava -muiro de vanta* 
gciQ, perfuadio dbfi Portuguezesy que efta« 
vam com elle, que fe paflaíTem pera oEm? 
perador, a.quem todos tiribant muka obri^ 
ga^o, e em cuja companhla andará o feíi 
BiTpo ; mas nunca os pode dobrar , nem 
fénder a que.o.j60e(Tem, c elle deixou de o 
fkzer por fer £á.. E. todavía aviíoil o Bífpo 
por iiuma ^carta de.algumas cou&s , que Ibé 
ieyou bura Mouro , que peitou.pera iíTo ; nüas 
Hle, oem os Padres a náó quisteram tomar 
por- fe tiao fiarém do Mouró^-nein íaberem 
o fobre que feriai .... 

í . Ó Baxá pelo que hotou do íitio , em 
4(]Ue. fe o Emperador recolbeo ,- entendeo que 
podia enixár ^wclogo fe po^eem ordem 

.:: de 



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Dec VIL Liv. X. Ca?. Vt 493 

de o cotntneeter, efubto á ierra pelo itieio 
com muito trabalho por caufa da artillería ; 
e depois de fer em íima , foi defcendo até fe 
por em baixo , ficando ambos os exercitos 
naquellas éAreituras , e hp cabo da ferra íe 
fortificou y e pramou foa arciiheria : e ao 
outro dia , que foi a derradeira Oitava da 
Pafcoa , cómeyou a bacer aseftancias do 
Emperador com famanho. terror, eefpanto^ 
que óstAbesins de medó íe.; puzeram : cm 
desbarato, e o Emperador com eIles,.e«D 
alcance foram os Turcos cativaodo muitos ; 
e entre éíles foram oWdré ManoelFernan- 
des , Reitor d^ Gorapanhia , e o Padre Gonza- 
lo Cardofo ; o Bifpo , e o irmáo Antonio Fer- 
nandes fe falváram milagrofamente , ficando 
tambem cativos os mais dos Póriuguezes. 

Acabado o alcance, recoiheo-fe. o Báxá 
com olfac aos alojamentos do Emperador, 
onde acháram multas prezas , que tudo man- 
dáram recolher , e levar ás coilas dos cati- 
vos ; e indo o Padre Reitor com bum folie 
de farinha ás coftas , e o Padre Gonzalo Car* 
dofo com huns paos de. huma renda , des- 
pidos , e maltratados tom grande pacien* 
cia, e humildade, (endo vinos por Gonzalo 
Soares Cardim , foi*fc loga ao Ifac , eBaxi*^ 
e pedio-lhes de fnercé, que Ihe elles cotice* 
déram , e com elles todos os mab Portii!^ 
guezes cativos. I e algiiioas mulberes. : 

Com 



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494 ASIA DÉ Dioao ds Couto 

Com efta vicoria ficáram os Turcos tac 
fobcrbos y que decermiDáram entrar pela rer* 
ra dentro , ficando os noíTos algum tanto 
defacredttados. Pelo que nunca oíais aqueiles 
Emperadores le quizeram fiar delles » nem 
pedir mais foccorro de gente aos Vifo-Reys 
da India. E porque o que mais fuccedeo 
fielle negocio he do lempo da VIIL Deca- 
da , ne!la (e verá , porque foi oeceflario pa- 
rarmos aqui por íeguirmos a ocdem da hi£- 
Coria. 

CAPITULO VII. 

Da Armada que ejle anno defejfenta e dous 
partió do Reyno , de que era Capitaa 
mor D. Jorge Manoel: e das coufas eni 
que o iJonde F^ijo-Rey proveo : e de corno 
jD. Pedro de Souja foi entrar na Capi- 
tanía de Ormuz , e levou comfigo Babuxa , 
que foi fucceder naquelle Reyno : e das 
pazes que concedeo ao Qamorim* 

ANtes que o invernó fe cerraíTc chegá- 
ram a Goa alguns Embaixadores do 
•C^amorim a vifitar de fuá parte o Conde, e 
^ dar«Ihe osparabens de fuá vinda; e a^rol*- 
las diflTo a tratar de pazes , porque eftava 
aborrecido das guerras pelas perdas , e da* 
tnnos , que deílas tinhci recebldo, E da mefma 
maneira ^vderam ao pcoprio negocio outros 

Ero- 



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Dec. VII. Liv. X. Ca?. Vn. 49jf 

Etnbaixadores do Idalcan , porque era coftu- 
me roandarem vifirar os Vifo-Reys no vos. 
£ cotno todos eítes Mouros sio fagazes ^ 
queriam-nos apalpar , e ver o que nelles 
tinbam. E aflim depois de Martim AíFonfo 
de Soufa pera cá , que as térras de Salfete , 
e Bardes fe deram á Coroa de Portugal, 
como diíTemos no Cap. XL do Liv. IX. da 
Boffa V. Decada, o principal requerimento 
feu depois da viíita^áo , era que Ihe largaf* 
fe as térras , porque Ihe nao tinham cum- 
prido o contrato com que as dera ; o que 
tambecn requeréram ao Conde cfles Embai<- 
xadores : e á vifitajáo Ihe refpondeo em fór* 
ma ordinaria ^ .roas ao mais y que naquelle 
negocio nao podia fazer nada fem primeiro 
dar conta delle a EiRey; e aílim íicáram as 
confas em cumprimento de parte a parre. 

Os Embaixadores do Caniorim trata ram 
o negocio das pazes , fobre o que o Vifo- 
Rey ajuntou alguns Capitaes a confelho , e 
antre elles fe praticou algumas vezes, epa- 
recco aos roais que fe The deviam conce* 
der, e que foffe o Conde Vifo-Rcv no ve* 
rao feguinte a Cochino , e de paífagem fe 
vifle com o Qinorim, e com elle as aflenh- 
ufle 5 e jurane pera inór feguran^a deltas^ 
cóm o que o Vifo-^Rey deteve os Embau- 
xadores em Goa , onde fóram bem apofenta*- 
dos^ e próvidos das coufas oeceflarias. Pera 

ef- 



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49^ ASTA -DE DioGO de Covtó 

db jornada niandou o Conde Vifo-Rey re* 
formar todü a Armada , e ajunrar achegas 
pera eila > e efcreveo ás fortalezas do Ñor* 
te fuá determina^ao , pera que os Fidaigos , 
e Cavalletros , que por ellas reíidiam , o vief-* 
fem acompanhar. No concertó , e aparcebi-^ 
mentó da Armada gaftou o Conde todo o 
invernó , e nelle metteo de poffe da Capí« 
Cania, de Goa a Lopo Vaz de Siqueira «^ ñ* 
Iho baílardo de Diogo Lopes de Siqueira y 
Govemador que fot da India , por acabar 
íeu tempo D. Pedro de Menezes o Raivo. 
£ logo nos primeiros dias de Setembro fur« 
gíram na barra de Goa feis naos , de que 
era Capitáo mor D* Jorge. Manoel , filho de 
D. NuiTO Manoel , e irmáo de D. Fadriqüe 
Manoel ^ que vinha embarcado na nao S. 
Martinha, que Antonio Moniz Barreto fez 
em Bai^aim -, fendo Capitáo .daquella forta- 
leza. As oiitras naos eram a Efperan^a , de 
que eraCapitao Fernáo Martins Freiré , que 
vinba defpachado com a Capitanía de Co* 
fala pera entrar logo ; S^ Vicente , de que 
era Capítád Aiitonio Mendes de Caíbo ; a 
náa Tigre , ; em que vinha Fernáo Coutinho ; 
a Rainba , de tjtie era Capitáo Luiz Men-* 
des de Vafconceilos ; e da nao Cedro D¿ 
Rodrigo de Caftro. Vinham nefta Ai mada 
perro de tres mil homens , gente toda muí 
efcolbidaí poc<]ue parece que naquelle teoh 

po, 



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Dec Vil Liv. X. Cap. VIL 497 

pOy em que Déos tinha pollos os olhos na 
India y pariam os monees , e valles homens , 
e naos* 

O Conde feftejou muito efta Armada 
pera a jornada, que perteadia fazer; elogo 
mandou ordenar mezas aos Toldados pera 
entre tanto , porque tambem parecía que. aos 
Vifo-Reys daquelle tempo Ihes nafcía dinhei- 
ro pera tudo no tbefouro , de que elles nun- 
ca tivéram a chave , (por quáo puros , e deí^ 
intereflados corriam y ) fenao os mefmos OíE* 
ciaes ; e depois oue fe Ihe velo a arrancar 
das máos , e que nouve tanto poup^r y pa- 
rece que tudo fe comedón a fumir , e tudo 
velo a faltar; porque como os penfamentos 
dos homens daquelle tempo eílavam menos 
occupados da cubi^ , favorecia'*os Déos 
em tudo* 

Em íim o Conde foi dando pfeíTa aos 
defpachos das naos pera irem tomar a carga 
a Uochim , e a íua Armada y que determi- 
nava de fer toda a que a India pudeíTe dar 
de í¡. E conduio com os Embaixadores do 
C^morim as pazes que pediam , aílim como 
fe fizeram com o Vifo-Rey D. García de 
Noronha. E o Camorim fe obrigou por feus 
Procuradores a mandar logo cortar os efpo* 
roes a todos os navios , que em feus portos 
houveflTe , e que fe alevantariam , e raríam 
de carga , pera que nao pudeflem íervlr maís 



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49^ ASIA DE DioQo D£ Cquto 

pera roubar. £ que de nenhum porto dos 
feus^ fabiria mais coíTairo algum , antes o 
mar feria feguro , e franco pera poderem 
«avegar por elle todos os navios grandes , 
e pequeños : e que o Conde Vifo-Rey iria 
a Calecut a jurar as paaes diante do Qmor 
Tira pera mor gofto y e alegría dos vaflallos 
de ambos. 

£ andando já o Vífo^Rey pera fe em- 
barcar y Ihe chegáram novas que ñas térras 
ile Damáo eram entrados alguns Capitáes 
de Cambaya com muka gente de cavallo , 
€ acompanbados dos Ahexins, e'que anda- 
vam pelas aldeas fazendo grandes eftragos , 
e deftrui^Óes. A iílo mandou logo acudir o 
Condecora alguns Capitáes, efoldados, que 
iquelle negocio foram em navios ligeiros : 
e mandou fazer paga geral a toda a gente 
úa India / foldados , e cafados , pera o acom- 
panharem naquella jornada y pagando dous 
quarteis a cada peflba. 

Tinha chegado ñas oáos do Reyno D. 
Pedro de Soufa defpacbddo com a Capitanía 
de Ormuz , de que a Raioba Dona Catha^ 
Tina Ibe fez aqueUe awQ mercé por bttma 
Patente 9 que Ine mandou», que a nao amoí- 
traÜe ao Vifc^Rej? y mas que Ihe xecaavsrefk 
aCapitaiuia porhim^ carta quíSm.» que Ibe 
deoí pera eüe y em i^ae Ihe mandava qué 
metteife logo de pode a D^ Fedra dsSooik 



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Dec. vil Liv. X. Cap. VIL 49^ 

da fortaleza deOrmaz. E o intento. da Ran 
nba em mandar a D. Pedro, qiie nao ufaíTe 
pera a entrad! da fortaleza da Patente y fe- 
nSo da carta miífiva, foi, .porque tinha pro^ 
mettido Ormuz a D« Franclfco Maíbarenha» 
Paiha y e a Luíz de Mello da Silva y e que 
aquelle anno Ihes mandaría as Patentes ^ qué 
de neceífidade fe eíles Fidatgos liariam de 
aggrarar y antepondo^Ihes D. Pedro naPateií* 
te y e quiz que entraíTe por virtude da carta 
fem inoftrar Patente ; o que D, Pedro dé 
Soufa fez , tanto que chegou á India ; mas a 
Conde Ihe reteve a carta com ten^ao dé 
mandar a Ormuz D* Francifco Máicare* 
nhas Palha. 

Vendo D. Pedro de Soufa que o Conde 
fe fazia preftes pera ir pera fóra , e que Ihe 
nao deferia ao feu negocio , eñandó huiti 
dia com o Vifo-Rey , pcrguntoa-lhe y por- 
Que Ihe nao deferia ácana miflirá, qué Ihe 
aera da Ráinha ? A que o Conde íé fez de 
novas i dkendo-lhe y que fe nSó lembravá 
de tai carta. Entendendó D. Pedro déSoufá 
o negocio , como hia já precatado i métteb 
a máo na algibeira } e tirando della a Pa-^ 
tente y. aprefentou^a áo Coii!de y que tañed 
wKía vio^^couJbbrefahado , e nió pode 
íazer itiais que pór-lhé neliá o Cumpra-fe^ 
como logó leÉi mandando^lhe que lefizeífe 
preftes pera ir entrar na fita fortaleza. ^ Co« 
li ií me- 



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500 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

me^ou logo ifio de correr por Goa ^ e a 
dizerem os homens muitas coufas conforme 
á foltura , e natureza da térra ; e o peior he , 
que houve alguns , quediíTeram publicamente 
que D. Pedro peitára muito. E tanto que o 
rumor deftas coufas Ihe chegou ás orelhas , 
levado D. Pedro de Soufa da colera , diífe 
em alguns lugares públicos : que porque a 
Rainha tivera novas devirem Turcos fobre 
Ormuz , o mandara a elle entrar naquella 
fortaleza , porque fabia que Iha bavía D. Pe- 
dro de Soufa de defender muito bem. Em 
fim elle fe embarcou em huma nao muito 
formofa , e levou comfigo Babuxa , filho de 
Torunxa , que foi Rey de Ormuz , a quem 
elle foi fucceder no Reyno. 

E porque nos nao fique por dar conta 
defte Principe, pois adiante havemos detra* 
tardelle, dallo- hemos aqui aconhecer. Pelo 

3ue fe ha de íaber , que o Governador Nuno 
a Cunha mandou trazer de Ormuz pera 
Goa a eñe Babuxa com hum irmáo feu , que 
foi pai de ElRey Torunxa , e fez iílo por 
cfcufar alteragóes naquelle Reyno. E quando 
LuizFalcáb foi entrar naqúell^ fortaleza de 
Ormuz , que levou Torunxa pera fucceder 
naquelle Reyno por morte de EIRev Xar» 
golxa , como fica dito no Cap. L do Lir. 
X. da V. Decada ^ ficou eíle Babuxa em 
Goa , onde efieye perto de qaáreota annos. 

El 



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Dec- VII. Liv, X. Cap. VII. 5:01 

E vendo elle que fe fazia D. Pedro de Soufa 
preftes pera Ormuz , fentindo-fe muíto de- 
trepito , por fer dé noventa annos , pedlp 
licenja ao Conde Vifo-Rey pera fe ir cota 
elle , porque defejava de ir morrer ba fuá 
natureza ^ e enterrar-íe na cova de feus avós , 
que Ihe elle concedeo por ver que daquella 
idade fe nao podia já efperar alguma alte* 
ra^ao ; e aifim fe embarcou. E no mar difle 
algumas vezes (como porgraja) que amef- 
ma noite que fe embarcara fonhára que ha- 
via de fer Rey de Ormuz ; e aílim o foi ^ 
como adiante na VIII. Decada fe veri. E 
pela ventura que diííeflfe ifto zombando por 
nao ter já idade pera nada , e que o attri- 
buiífe a fonbo , em que eftes Mouros todos 
crem. E quando fe embarcou , levou tam- 
bemcomfígo humfílho chamado Ferragoxa , 
que houve em Goa em huma Moura de Da* 
bul y que por fuá morte veio a fucceder na- 
quelle Reyno, como adiante fe verá. Nefte 
mefmo tempo defpachou o Conde Vifo-Rey 
a Triftáo de Mendoja pera ir entrar na Ca- 
pitanía de Chaui y que fora de feu irmáo 
mais velho , que deixou de a vir fervir por 
cegar dos olhos. Nefta Capitanía eftava Al- 
varo Paes de Sotomaior , que acabava íea 
tempo ; e em quanto o Conde dá preífa á 
fuá embarcajáo , trataremos das coufas , que 
fuccedéram em Damáo. 

CA- 



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^0% ASIA DB D1O6O DE CoVTd 

CAPITULO VIH. 

H^e dd conta dos Capitaes , qwe entrar am 

pelas tetras de DamSo : e de eomo Gar^ 

tía Rodrigues de Tavora , Capitao 

daquella fortaleza , úsfoibuf- 

car y e os desharatou. 

MUitas yezes temos dito das grandes 
altera^6es, que ficáram no Reyno de 
Cambaya entre os Capitaes depois da morte 
de Soltao Mahamude ^ e dos bandos em 
que todo o poder fe repartió; porque 05 

f¡randes tomiram muito mal apoíTe, que o 
thimitican íicou rendo com ElRey fícar em 
feu poder. Eera-lhes máo defoffrer verein- 
fe governádos por elle , e aílim os de mais 
polfe fe affaftáram , e langáram mao do qué 

Suderam , como no Cap. XVI. do X. Liv. 
a VI. Decada íica dito. E todos os máls 
andavam como em cabildas , comendo , e 
íenhoreando as térras , que achavam fem ca- 
beras. E defies era hum Abexim chamado 
Cide Meriam , homem havido por grande 
cavallciro , e que tinba quinhentos de cavallo 
de fuá cevadeira , que defejando de haver a 
Cidade de Damáo pera fe nella apofenta- 
xem , ou ao menos comerem todas íuas par^ 
ganas , que Importavam muító , folicitou 
alguns Capitaes ^ que Ihe acudiram com foás 

gen- 



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Dec. VII. L IV. X. Cap. VIIL foj 

gentes ; e com a que elle tinhá ^ ajuntou 
oitocentos de cavallo , e quaíi mil de pé^ 
emqueentravam quatrocentos arcabuzeíros » 
e outros tantos booibeiros, e todas as mur 
ni^Óes , e petrechos de guerra , e mais cou« 
fas y que Ihe parecéram neceíTarias pera aquel- 
la jornada, pera fufientar a Cidade de Da- 
máo , que cuídava levar nas^máos na pri«» 
xneira commettida. 

E tendo ludo preft^ , poz-fe em campo 
com todos , e Ibes fez huma breve falla , em 
que os perfuadio a fe quererem achar todos 
com elle com bom animo naquella jornada. 
Porque nao era honra do Reyno de Cambaya 
confentirem feus Capitáes poíTuirem os Por* 
tuguezes aquella Cidade , e térras a defpeito 
de todos, que nella, e ñas fuas Tanadarias 
fe poder iam agazalhar todos os que alli ef- 
tavam , porque com todos havia dé partir 
igualmente^ e que aíCm delxariám de pere« 
grinar. Eque aos que Ihe nao pareceíTe beiti 
aquella determina^áo , fe deixaíTem íicar, 
porque elle quería antes commetter aquelle 
negocio comn^zentos voluntarios, quecom^ 
dez mil for^aaos ; e que por ido os qué o^ 

ÍjuizeíTem feguir , e acompanhar , havia de 
er com tamanha determinado , qw ou trióte 
reifem todos na demanda , ou ganhaíTem 
aquella Cidade , e fuas térras, e lan^aflem 
dellas os Portuguezes. Todos Ihe refpondé* 

ram 



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5ro4 ASIA de Diogo de Coitto 

ram que eftavain preftes pera morrer com 
dle ; e que pera final daquella vonrade que- 
riam iazer voto em huoia tnefquita de o nao 
largarem ; e aílim logo o fizeram todos com 
grande íblenanídade. E pera maíor feguranfa 
rapáram as barbas , que era o derradeiro 
final de fe oílerecerem amorte, a que com- 
mummente chamavam Amoucos. 

Acabada efia ceremonia , abaláram logo 
contra as térras de Damáo era principio do 
mez de Outubro , e entráram por ellas com 
grande eílrondo , fenhoreando-íe logo das 

E árganas Bouticer , e Puari , e foram pai^ 
indo pera a noíTa Cidade de Damáo , achan- 
do já as mais das aldeas d^rpovoadas , por* 
que feus moradores tinham recolhido fea 
gado y mulheres, filhos , e mais coufse á 
lombra das tranqueiras de Damáo. Tendo 
García Rodrigues de Tavora , Capitáo da^ 

2 uella fortaleza , novas de como aquelles 
!apitaes fe abalavam contra elle , deípedio 
recado a Goa , e a todas as fortalezas vizi-* 
jihas pera que o foccorreíTem , como aquelles 
CapitSes íizeram , acudindo muitos Fidalgos ^ 
e Cavalleiros com navios , e foldados á fuá 
cufta y com o que fe vio Garcia Rodrigues 
de Tavora com poder pera ir bufcar osini- 
migos y e dar-lhes batalha; porque achou 
quinhentos homens de pé ^ de que os maisr 
«ram de efpingardas , e cento e oitenta de 



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Dec vil Liv. X. Cap. VIH, sof 

cavallo , que poderiam levar comíigo , a 
fóra a gente , que havia de ficar em guarda 
da fortaleza. Ecomo todos ^dias era avi« 
fado do eftrago ^ que os iiíimigos andavam 
fezendo pelas térras , e tinha certeza de feíi 
poder , ajuntou os Capitáes , e peflbas prin- 
cipaes a confelho , e Ihes deo rela^áo de tu^ 
do , declarando-lhes , que fuá ten$:ao era ir 
bufcar os inimigos ; porque fe o deixaíTe de 
fazer, ficariam elles táo affoutos , e atrevi- 
dos , que Ihe iriam bater as adargas ás por- 
tas da Cidade ; e que pois tinham tanta gen^- 
tc\ e táo valorofos Capitáes, e esforzados 
foldados ^ q^e fahi0em a bufcallos , porque 
a determinadlo era cometo de vitoria. E 
logo alli mandou trazer as efpias , pera que 
diante de todos deíTetn rela^ao do poder do& 
inimigos y o que elles iizeram multo partid 
cularmente. Ouvido por todos o que Ihes 
dizia y aprováram*lhe fuá tenjáo , afErmant 
do-lhe> que eftavam todos inulto alvoro^a- 
dos pera f^ verem já ás máos com os ini^ 
migos. 

Com efta reColu^o proveo García Ro- 
drigues de Tavora na guarda ^ que havia 
de íicar na Cidade y e logo fe paífou da ou- 
ira parte do rio , onde fe poz na ordem, 
em que haviamde caminfaar, e do modo, 
cm que hayiam de commetter Os inimigos^ 
£ ao outro dia de madrugada come^áram a 

mar* 



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jro6 ASIA DE DiOGO ÜE COUTO 

marchar , levando diante alguns corredores 
em cavallos ligeiros com asefpias pera deí^ 
cubrírem o campo, e o avifarem. E antes 
de cbegarem a Parnel , meia legua , Ihes fa« 
liio de huma aldea hum Abexim de cavallo 
com huma bandeirinha braníca na ponta de 
hum arremefsSo , que foi levado ao Capitáó ^ 
a quem deo huma carta de Cide Meriáo , 
em que Ihe dizia : c Que elle fora avifado 
» que o hia bufcar , que Ihe fazia a faber 
)i que nos campos de Parnel, que eram mui 
m largos , e formofos , o efperava , porque 
31 delejava de fe encontrar com elle em lu* 
31 gar erpa9oro pera o poder fervir^ como 
3D defejava« n Garcia Rodrigues de Tavora 
fez gazalhados ao Abexim , e Ihe difle: 
» Que bem podía dízer a feu Capitáo , que 
» elle hia pelo camihho, e que multo cedo 
» Ihe cumpriria aquelles defejos , porque 
)» elle tambem hia mui alvoro^ado pera o 
n íervir. )i E aílim foi caminhando pofto em 
ordeni de bacal ha mui fechado , e ordena- 
do ; e aquel le dia fobre a tarde chegou á 
vifta dos inimigos , que eftavam no lugar , 
em que a carta dizia o efperava , e eftavam 
já poftos em ordem de batalha , e tinham 
tomado do campo , o que Ihes melhor pa-* 
receo , e eftavam nefta forma. Os bombeiros 
diante , e os frécheiros etn hum eiquadráo , 
e o Cide! Meriáo com toda á ¿ente de ca« 



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Dec. VIL^Liv. X. Cap. VIIL 5*07 

Tallo em dous batalh6es de huma , e de oir^* 
tra parte. 

Tanto que Garda Rodrigues deTavora 
entrou no campo , parou , e eñeve notando a 
forma , em que os inimigos eftavam , pelo 

Í|ue tornou a ordenar fuá gente , e da de pé 
ez dous efquadróes , e da gente de cavallo 
fez o mefmo , que repartió pelas ilhargas. 
É depois de tudo bem ordeiiado , e lembrar 
a todos a obríga^ao que íinham , arvorou 
hum Padre de S. Domingos em huma hañea 
delan^a hum devoto Crucifixo , que foi vif- 
to de todos , e adorado dos mefmos com 
grande devo^ao. E pofto o Padre diante de 
todos y foi caminhando' pera os inimigos, 
chamando pelo Nome de Jefus , c pelo 
Apodólo Sant-Iago , e logo fe tocáram os 
tambores , e pifaros a romper batalha , pera 
que fe come^ram a alvoro^ar os ginetes , 
e a brandir as langas os cavalleiros , que 
nelles hiam , e os foldados de pé a negociar 
fuá arcabuzaria com grande animo , e alvo* 
ro^o. Cide Meriáo, Capitáo dos inimigos, 
vendo abalar os noíTos, o fez tambem ; e 
fendo já perto , defparáram os feus bombéis- 
ros huma fomma de bombas , que fe foram 
desfazer entre os noíTos , de que derribáram 
fete , e entre elles foi o Padre de S.< D» 
mingos., qué kvava o Crucifixo , qué logo 
alev^ütott hum foldado xnutto animofo;, :^ 



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yoS ASIA DE DiOGO DE Coul'o 

'que ináo foubemos o nome ; e chamando 

EJo Nome de Jefus , e do Apodólo Sant* 
go , foi pairando avante até fe metter em 
meío dos inimigos de pé , com quem já os 
noíTos come9avam a pegar , e a efpingar* 
daría a laborar de huma , e de outra parte. 
E nefie confli¿to deram huma efpingardada 
no bra^o do Crucifíxo ; ao que o Toldado y 
que o levava , levantou a voz , dizendo: 
» Aqui , Cavalleiros de Chrifto , vinguemos 
31 a aifronta , que feus inimigos íizeram í 
9 Imagcm de noflb Déos , e Senbon » R ale* 
yantando todos os olhos , vendo a Chriílo 
dependurado de hum bra^o , e com o outro 
quebrado , accendéram-fe em tamanha ira y 
e furor, que pareciam leóes , e como taes 
íe mettéram emmeio dos inimigos, fazendo 
nelles grandes eftragos; Cide Meriao ao en- 
contrar das batalhas de cavallo adiantou-íe 
dos (bus hum efpap , víndo armado ení 
humas armas mui luzentes , e em hum íbr- 
mofo cavallo acubertado com muitas plumas 
na tefteira ; e brandindo a langa , chamou pe- 
lo Capitáo García Rodrigues , que em'o ou^ 
víndo , que tambem faia na dianteira dos feus 
de cavallo, em vendo aquelle Mouro, que 
o chama va, entendeo que era o Cide Me* 
rüo , enreftou a lan^ ; e batendo as pernas 
ao cavallo , endireitou com o Abexim , que 
já yínha pera éic^ equiz fuá ventura^ que 

o 



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Dec. vil Liv. X. Cap. VIII. 509 

o tomaíTe por baixo da vizcvra bum pouco 
com tanta for^a , que deo com elle no chao 
de pernas aíliina ; e ao barañiñar dos caval- 
los reccbeo o feu tamanba pancada , que def- 
atinou, e foi cabindo, iicando García Ro- 
drigues de Tavora no chao com o Abexim 
Jiuaíi a bum mefmo tempo. E alevantando- 
e, acbou já oMouro íobreíi comoalfan** 
ge em alto pera Ihe dar ; e ficou táo perto , 
que Ihe lan9ou García Rodrigues as máos ^ 
eliou-fe com elle, iicando ambos a bracos. 
Os noíTos como García Rodrigues fe abalou 
contra o Abexim , logo foram tambem en- 
contrar os de cavallo , e acertáram táo bem 
feus encontros , que daquella primeira pan- 
cada derríbáram oitenta , nao cahindo dos 
noflbs mais aueoko, iicando todos baralba* 
dos em batalnas , e os Capitáes liados hum 
com outro a pé , cercados já de muiros de 
huma , e outra parte , que acudíram pera os 
foccorrer, fobre oquenzeram alj^umas cou- 
fas muito notareis. Mas hum íoldado , a 
que nao pudemos faber o nome, pondo-fe 
por huma ilharga , tomou o Cide Meriao 
atraveíTado com huma lan9a, que Iba varou 
á outra parte , cahindo logo morto ; eos 
noíTos trabalháram tanto , que puzeram o 
feuCapitáo acanallo, que fe foi logo met- 
ter na batalha y que andava multo travada 
por todas as partcr; e come^ou a pelejar» 

c 



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sil ASIA DE DioGo Dfi Cotrro 

C A P I T U L O IX. 

Da grande Armada , com que o Conde do 
Bjedondo VtfthRey partió pera Cochim : 
e daformofa vijta que deo ao Qamarim : 
e de comojurdram as pazes : e do que 
Ibé fuccedeo até fe ir pera Goa : e da 
viagem que as ndos fizeram até o Reyno , 
e Je per deo a ndo S. Martinbo , em que 
bia o Capitao mar. 

CHegidas a Goa as novas da Vitoria de 
Damáo , feftejou-as o Conde muito, 
porque eílava já embarcado ^ e ficava-lhe 
aquelle cuidado , que o houvera de cancar. 
£ logo entregou o governo ao Arcebifpo , 
e ao Capitao da Cidade com outros adjun«- 
tos , e ua entrada de Dezembro fe fez á vé- 
la com mais de cento e quarenta navios^ 
tem oue entravam oito, ou dez gales , em 
que ievava mais de quatro mil homens , a 
niais limpa , e luftrofa gente que nunca fahio 
de Goa. E pofto que efta jornada nao fot 
de mais eiFeito , que das vidas com o C^a- 
morim , que o Conde Vifo-Rey quiz que 
foíTem com a mor mageftade , e apparato^ 
que a India pode dar deíi, todavia pareceo» 
nos judo que os Capitáes , que nefta jornada 
o acompanháram » nao fiquem em efqueci* 
memo ^ e aífim faremos memoria de todos 

08 



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Dea VIL Liv^ X. Cap'. IX* jrij 

os'^ue vieram ánoffa noticia , fem guardar* 
mos ordem , nem preminencia y nem ^q fsH 
zer diftingáo de. navios grandes, cu peque- 
nos , como até aqui temos feito pelo decur-* 
fo de noíTas Decadas , por nao fraver cjuei-. 
xofos ^ c aggravadosrf 

Hia o Conde Vilb*Rey em íiurtia gala 
Real ; D. Francifco Maícarenhas , Capitáo 
mor do mar da India , que depois foi Coíi- 
de de Santa Cruz ^ e Vifo-Rey da India ^ 
e Governador de Portugal ^ Luiz de Mella 
da Silva í D^ Joao Pereira, Alvaro Paes de 
Sotomaior , D. Joao de Caftello-branco ^ 
D.Jorge deMenezes Baroche, AyresTelles 
de Menezcs-, D. Diogo de.Menezes , D^ 
Pedro de Caftro , D. Leoniz Pereira , Ayreg 
de Saldanha , D. Francifco Henriques , An- 
dré de Souía , D* Pedro de Menezes ^ Ejtor 
da Silveira o Drago, Alvaro Pires de Ta-» 
vera 5 Luir Alvares de Tavora feu irmáo , 
D. Francifco de Moura , Simáo de Soufa ^ 
Alanoel de Mendanha , Manoel Freiré , D. 
Teilo de Menezes, D. Luiz Mafcarenhas, 
XjUix da Silva, filiio de Francifco Barrero' j 
Governador que foi da India , D^ Francifco 
Lobo , Pero de Mendoza , D. Miguel da 
Gama , Francifco de Miranda Henriques > 
Eyror de Sampaio , Ayres de Soufa , Joao 
de Mendoca , filho de Triftáo de Mendoza ^ 
V>4 Diogo Fernandes de Vafconcellos , D¿ 
Coíáio. Tom. IF. P. it Kk Mar- 



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{ri4 ASIA DE DiOQO DB COUTO 

Martinho de CafteIIo*branco , Antonio Bo^» 
telho , Fernáo de Soufa de Caílello-branco , 
Manocl Pcreira da Silva , Pero Lopes Ra- 
bello j Gil de Goes , Francifco de Siqueira , 
Jorge Cabral , Manoel Travaflbs , Francifco 
de Brito , Jeronymo Dias de Menezes , Je* 
rónymo de Carvalho , Jorge de Moura , Je- 
ronymo Correa , Jorge Barreto , Gafpar de 
Sá , Jeronymo de Sá de Ribafria , Fernáo 
de Miranda de Azevedo , Chridóváo de 
Brito , Jorge Tofcano ^ Diogo Soares de 
Albergarla > Henrique Moniz Barreto, Ma- 
nocl Freiré , Antonio Correa , Jeronymo de 
Hollanda, Antonio Ferráo, que foi cafado 
com huma filha do Governador Nuno da 
Cunha , Vicente Carvalho , Miguel Rodri* 
gues Coutinho Fios Seceos, Ruy Godinho 
de Gananor , Roque Fernandes, Pedralva- 
res , fernáo Farto , Antonio Martins , Po- 
}inario de Val da Rama , Balthazar da Co(^ 
ta y Braz Fragofo , Bernardo Rodrigues , D. 
Theodofío Embaixador de Ceiláo , Manoel 
^eitáo Secretario , Belchior Serráo Veador 
da fazenda , Henrique Jaques Ouvidor geral y 
Domingos deMefquita, Alvaro Monieiro, 
Diogo Borges de A velar, Antonio Rodri- 
gues , Antonio Martins , e outros muiros. 

E com toda efta Armada paíTou por Ga- 
nanor fem o tomar , do que foi murmurado 
por paflar com aquella potencia fem dai: 

hum 



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DKCé VIL Liy. X. Cap* IX. 5^1^ 

huní grande cafliigo aos Mouros daqucllé 
Reyno , que foram caufa da guerra , que 
atrás eontánios no Cap. IV. do VI. Lívro^ 
e aínda nao eílavam nem caüigadps , nctn 
arrependidos^ E aten^áo que o Conde nitto 
teve nao a (abemos, que he decrer que ha« 
via de fer licita , (o que multas trczes acón*» 
tece aos Vilo-Reys , e Governadores em al- 
gumas materias^ que por nao chegarem as 
caufas ao povo , murmuram do que l^ao 
entendem*) Em fim o Conde com toda a- 
quella Armada^ que enchia aquelle mar, a 
tnais formóla coufa que os Mouros tiunca 
víram por aquella coña , fo¡ furgir em Ti- 
racolle , onde o Camorim eftara , e onde 
tratou de fe vcrcmy e logo corréram reca- 
dos fobre o modo que niíTo teriam : e aP- 
Icntáram que foíTc á borda da agua; cíobre 
p dia em que liavia de fer , houve defensas , 
€ dila^Óes por caufa de feus agouros , e fu-* 
perftijóes , até que os feus Bragmanes achá- 
ram hum bom final , c affigríáfam o dia , 
pera que o Conde já eftava preparado ; e 
em Ihe dando recado, fe embandEeirou toda 
a Armada , e os navios , c gales fe cubríram 
de toldos de difFerentes , e alegres cores , e 
osCapitáes, efoldados fe veñiram de ricos ^ 
€ raui luftrofos veftidcfe , levando debaíxo 
delles fuas armas. E abalando a Armada pe- 
ta a cerra ^ poz nelia a proa^ ^ lan^ou fóra 
Kk ii a 



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5ri6 ASIA de Diogo de Couto 

a gente, que fe recolheo as Capitanías , e 
bandeiras, que o Conde pera iflo cinha or«* 
denado , que íe eüendéram em fíleiras des 
da praia pera o fertao , pera onde eíperavam 
que o C^amorim vieíTe , que abalou de fuá 
cafa com quarenra mil Naires , que taaibeiit 
íe eftendéram eoiíileiras , porcujo meio elle 
foi paflando acompanhado de feus Regedo* 
res , Caimaes , e Punicaes , e apar delle vi« 
nham os Bragmanes , que sao os Miniftros 
de fuas feitas. Tanto que o Conde leve re- 
cado que EIRey fe vinha chcgando , abalou 
da fuá gálé em huma mancbua toldada até 
a agua de borcado , com bandeíras , e guioes 
de fuas corej , e elle ricamente veftido á Hef- 
panhola com plumas , collar , efpada , e a- 
daga de ouro , e cotn elle os Fidajgos , e Ca« 
pitaes velhos : e ao abalar da galé Ihe deo toda 
a Armada a mais formofa falva de artilheria y 
que fe nunca vio dar naquellas partes , por- 
que fe ouvio dos da térra com hum grande 
terror , e efpanto ; e foi tal , que fícou toda 
a Armada eícondida em huma eípefla nuvem 
de fumo , e o ar efcurecido todo até o vento 
a tornar a efpalhar, O Conde poz a proa 
em térra , onde defembarcou rodeado de 
cem efpingardeiros de fuá guarda , Portei- 
ros , c Officiaes de fuá cafa ricamente verti- 
dos , e com grande continencia foi entrando 
pelas fileiras, que o foram falvando de hu- 
ma. 



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Dec. vil Liv. X. Cap. IX; 5:17 

fna y e oucra parte com tamanho eílrondo , 
^ue parou o (^tnorim , que yinba já che- 
gando aos noííos ; porque os noíTos quatro 
mil Toldados , que eílavam em fuas orde* 
jian^s, lufiravam mais , e faziam inaiores 
carrancas , que os feus quarenta inil« 

PaíTada aquella corifcada , tornou ElRey 
a andar até entrar por noflas íileiras , e o 
Conde fe apreíTou até fe encontrar com elle ; 
e parando ambos , íizeram fuas cortezias a feu 
modo , e depois fe ajuntáram , e tiveram og 
cumprimentos ordinarios brevemente ; e após 
elles aífun em pé Ihe leo o Secretario os 
apontamentos das pazes , que Ihe o lingua 
hia declarando , que o C^amorim ouvio com 
muito teiito ; e rcfpondeo , que era multo 
contente de os guardar, como íéus Procura*' 
-dores em feu nome prometléram , e logo 
alli os jurou a feu modo , e com fuas c^ 
remonias ordenadas pelos feus Bragmanes; 
«'acabando elle , as jurou o Conde fobre hum 
MííTal , e hum Cruci6xo« E acabado efte 
a¿lo , tocáram-fe todos os inílrumentos mi- 
litares , e logo a efpingardaria tornou a re- 
Jampadejar , e a Armada a vaporar fogo , 
e^atroar os ares com trovóes artificiofos , e 
Corifeos tempeduófos , que nao fó os que 
eftavam prefentes , mas pela térra dentro , 
e pela coila abaixo , e aílima caufou efpan* 
tQ i e mettco roedo táo. grande j qu^ nao 



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flS ASIA DE DiOGO DE COVTO 

fabiam por onde fefoirem elconder. OCa^ 
nmrim ficou táo aíTombrado, que fe defpo 
dio do Conde muito apreflado , elogo man** 
dou apregoar na Cidade as pazes com fevic 
regozijos acoflumados perante os Oificiaes , 
que o Conde mandón , de que fe fízeram 
aufos folemnes , que Ihe rrovxeram : e o 
Conde tamben» fe embarcou , e as mandou 
pregoar por toda a Armada com todo6 ob 
inílrumentos alegres , e com novas fatvas , 
e alegrías de rodos. Ao outro dia mandoa 
o Conde viíitar o Camorim com hqm for- 
mofo , e rico prefente , e os feus Regedores 
nao ficáram fem feu quinbáo , porque he 
natural defies eQarcm fempre comoolho no 
que Ihesd^o , porque nada fazcm fenáo com 
p intento no intereíTe, 

Feito ¡fto agofto de todos, deo oCon*^ 
de i vela per^ Cochim , deixando naquelU 
cofta D. Francifco Henríques por Capitáo 
unir com huma galé, ealguns navios de re- 
mo i e chegando aquella Cidade , foi dclla mui 
bem recebido , e lomou cafas em térra » e 
mandou dar preífa i carga das naos , e co- 
mef ou a efcrever pera o Reyno ; e como a 
gente da Armada era muita , e andava ocio* 
fa y comegáram-fe a atear em brigas huns 
4C0S outros , e a haver defaHos particuíares 
defei^áo, que fe matáram mais dcfineoenta 
homeiv r f^ ^^^ eocrou EX Teilo df Mei- 



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Dec. vil Liv. X. Ca^ IX. s^9 

nezes , hum Fidalgo mancebo muiro gentil* 
homem , e bom cavaJleiro , que foi morto 
em lium defaiio. £ aílim mais D. Rodrigo 
de Cauro , Capitao da nao Cedro , que outro 
Pidalgo tnatou por humas palavras , que ti* 
nham havido havia muitos annos* £m fim 
cornada a carga deram as naos á vela até 
quínze de Janeiro , e no caminfao defappa* 
receo a nao S. Martinho , em que hia Dt 
Jorge Manoel Capkáo mor , e com elle Be^ 
chior Serrao, que foraVeador da fazenda^ 
fem nunca fe faber como , nem onde fe per* 
déram : as mais naos ciiegáram ao Reyno 
a falvamento. Depoís do Conde dar deipa-^» 
cho a muitas coufas , embarcou^fe logo por 
arrecear os Noroeftes , deixando porCapitaQ 
em .Cochim D, Jorge de Caftro ¡ e cliegan* 
do a Goa , entrou logó no defpacho dos pro- 
vimentos das fortalezas ; e pera a de Ma- 
luco foi Jorge deMoura, Collado doPrin^ 
cipe D. Joáo , que efiaya próvido daquellag 
viagens. E por elle mandou duasProvisóes^ 
huma pera Malaca , em que mandava , que 
das naos , que alli foíTem fer de Maluco , e 
Banda , fe nao defembarcaíTe nenhum cravo , 
noz, ou maja , fob pena de fe perder , e 
que rudo foíTe pera Goa. E a outra Provisáo 
pera lá fe nao venderem tercos , nem cho*^ 
ques de ElRey ; e que toda a peífoa que os 
compr^íTe ^ os perdeíTe ^ por evitar muiros 

rou- 



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5^20 ASIA DE Dioeo de Couro 

roubos , e dcíafforos , que nefle negocio 
íiavia. 

Neftas naos efcrevco o Conde a D. Fran- 
cifco Deja , Capitáo de Malaca , hun^»a cnrra 
em iTiuiío fcgredo , em que Hie mnndava , 
que no Outubro ícgiiinte o foflb efperar na 
coda do Achem cotii toda ^ Armada y e 
gente que pudeffe ajumar, e que ihe tiveíle 
elpiado o poder , e fírio daquella Cidade, 
porque Ihe manda va El Rey , que o folTe 
deftruir por tirar aquelle vizinho da fortaleza 
de Malaca. Com eíla carta fe preparou D. 
Francifco Deja em fegredo ; e no teitipo 
cm que Ihe niandou , partió e^m on^e na- 
vios muí bem negociados de gente , e mu- 
nicoes , e fe foi por na cofta do Achem na 
paragem , que o Gondc havia de ir deman- 
dar , e alli andou até a entrada de Dezem- 
bro ^ que fe recolheo por fer paflada a mon- 
jao , em que o Conde podía ir. Defpachados 
os provimentos pera as fortalezas do Sul ^ 
e do Norte , cerrou-fe o inyerno , em que 
o Conde ordenou emGoa quatro mezas pe* 
ra darem de comer aos foldados^ como era 
coílijraey 



PA- 



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¡Decada VII. Liv. X. j'it 

CAPITULO X. 

Da origem dos antigás Emperadores do Ma* 

¡avar , chamados Perimais : e do titulo 

de (¡¡amorim : e de todos os Reyms 

que ha no Malavar : e do prin^ 

fipio , e origem delles. 

PRimeíro quefaiamos defte Camorim nos 
parcceo razáo dar deñesReys humano- 
va relajáo , porque tudo o que delles efcre-/ 
véram os Efcritores vai niui defviado do 
que boje temos averiguado por fuas proprias 
efcrituras. Pelo que fe ha de fabcr , que em 
toda eña coda do Malavar , que cometa dos 
fins do Reyno de Cananor até o Cabo Ca- 
morim , em que fe incluem perto de cento 
e íincoenta leguas de comprido , c quinze 
pera o fertao até o pé das Ierras , houve ha 
mais de dou$ mil annos vinte e íinco Senho- 
res ifentos , a fóra outros fomenos , coal^ 
dtulo de Caimaes , Naoborins, e Panicaes^ 
tambem ifentos em jurdi^ao ; mas acoftados 
a alguns deíloutros vlnte e ílnco , que Ihes 
licavam mais vizinhos , qiie sao os feguintes, 
Cananor, Tanor , Moringur , Cranganor^ 
Parum , Mángate , Repelim , Cochimi , 
Diamper , Rey da Pimenta , Turungul , 
Maturte , Porcá , Marta Pitimene , Cale 
Pouláp ^ Changerpate ^ Gundra ^ e Travan- 

cor, 



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^tZ ASIA DE DiOGO DE CdUTO 

cor. Eftes (como diíTe) foratn fempre iíen* 
tos , e fem conhecerem fuperioridade a al* 
gum; mas vindo a cubica a fazer por tcm- 
pos fea oíHcio ^ come^ou a haver antre eJIes 
algtimas contendas fobre jurdi^Óes. Pelo que 
de commum confentitnento elegéram huma 
cabera , que fofle como Juiz de fuas dií¥e- 
ren^as i e eíle nao foi de cafía Nairc Bra* 
gmane , nem de nenhum dos intitulados , fe- 
nao de cada humilde , fem Eílado , nem Se- 
nhorio , porque fe nao alteraíTe com a di- 
gnidade, e que fempre entendeíTé que elles 
que o confticuíram naquella dignidade , o 
poderiam depór , e tirar della; eque naquel« 
la dignidade (de que logo fallarei) nao fue- 
cedeíle fiiho , fobrinho , nem párente , fenao 
que por fuá morre fe elegefle outro , aífim 
como fuccede ñas eleicoes dos Emperadores 
de Alemanha. E a efte eleito fobre todos 
deram titulo de Xarao Perimal ; e pera fea 
aífento Ihe deram a Cidade de Calecut. E 
correndo muttos annos efta elei^ao , e vindo 
os efirangeiros d^ Europa por via do Cairo ^ 
£ da Perfía bufcar á India as drogas^ faiam 
tomar efta Cidade Calecut por fer porto do 
;nar , onde concorriam tambem os mercado* 
res de todas as partes da India. E ailim fe 
víeram eiles Senhores a ^engrandecer tanto, 
^ fazerem-fe tamanhos 9 e táo ricos , como 

as iufiorias contao» . - 

Da- 



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D^Ea Vil. Liv. X, CaK X. 52} 

Durou efta digoidadc de Emperador etil 
Emperador até quaíi os annos do Senhor 
jde trezefitos quarenta e fete pela conta dot 
Bragmanes de Caiecut « e de Cochim até os r 
de quinhentos. oitent^ eoito, em que impe- 
raya o derradeiro Xaráo Perimal , que foi o 
mais famofo de todos , e o melhor hometn 
dclJes , e rao aiFei^oado stos ChñMos do 
Apoñolo S. Thomé , que viviam em Gran* 
ganor, que nao fazianada íemeDes, porque 
icmáo havia honaens muí fantos , * e de boa 
vida, como procedidos dasprimeiras plantas 
do Santo Apoflolo ; e affim fe Ibe aíFei^oou ^ 
quepor mcio delles feconvcrteo ánoífaFéi 
em que viveo alguns annos; ejá depois de 
velho por ¡nduzimcnto dos Cbriftaos fe foi 
ofFerecer á cafa do Samo Apodólo a Me¿ 
Jiapor com ten^áo de nel}a morrer, e nellá 
fe enterran Eaffim tracando de fe embarcar 
pera lá ^ deo coma diíTo a todos aquel tes 
Reys, deque fez chaman^ento, e íe defpe* 
dio delles > e Ihe ievantou a menagem, que 
Ihetinham dado até elle tornar, affirmatido* 
Ihe que feria cedo, Epor confmtimento de 
todos deixou na Cidade Caiecut hum pagem , 
que elle creou , chamado M anuchem Herari j 
natural de huma aldea chamada Baluri, tres 
leguas de Caiecut, quejar era tSo valorofo^ 
que mandando efte Emperador cercar a Ci- 
dade Modalagáo^ tendo }i fe^ om^rp por 
¿, tres 



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524 ASIA DE D1060 DE CoTxro 

tres partes da outra ^ por onde poufava eP 
te Manuchem , mandou ficaíTem aflixn , dí- 
zendo eftas palavras em Malavar : Manuchem 
fnadelu curabeda\ quequerem dizer: c Oi> 
> de vive Manuchem , nao ha mifier mais 
j» muro que elle. > 

Em fim partido efte Emperador pera 
Meliapor morreo lá , e niílo concordao as 
efcr ¡turas Caldeas dosChriftáos dasferras do 
Malavar, e as Olas deCranganor. Pelo que 
fiio tenlio dúvida fer o feu corpo hum da- 
quelles tres , que fe acháram na Capella do 
Bemaventurado Apodólo S* Thomé, quan* 
do Manoel de Faria por mandado de ElRe)r 
D.Joáo adefcubrio, comojoáo de Barros, 
e eu tratamos ñas noflas Decadas ; porque 
como eíie Emperador Chríftáo foi em roma<« 
ria á fu^ cafa , e lá morreo , verolimil he 
que Qs Chrifiáos o enterraíTem alli , porque 
fe Ihe devia por Emperador de todo o Ma« 
lavar, Eíla ida defle Emperador fuccedeo 
nos annos que já diflfe de trezentos quarenta 
e fcte, ou no de quinhentos oitenta e oito 
pelas Olas de Cochim ; e vindo dahi a mais 
de trinta annos os Mouros Arabios a eíla 
cofia do Malavar em fuas naos a bufcar as 
mercadorias do Oriente , aíTentando na térra , 
e fabendo depois do defapparecimento do 
Perimal , e achando entre aquella gente bru- 
ta 9 qu? f9 embarcara em huma xáo^ e fora 

a 



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Dic. VIL Liv. X, Cap. X. 5^25: 

a huma romaria, fizeram-lhe crer que fora 
ter á cafa de Meca a ofFerecer-fe ao feu 
Sancanáo, e qiie lá raorréra , c aíBm o ef- 
crevéram em feus livros , onde os Efcritores 
eílrangeiros o acháram , e por iflb affirmá- 
ram que o Perimal fe fizera Mouro. Nao 
computando eftes barbaros Malavares o tem- 
po , porque quando o grao Perimal defap- 
parecco nao era Mafamede aínda nafcido 
no mundo , porque efte nafceo na era de 
Chrifto de quinhentos noventa e rres , fégun- 
do a mais commua opiniáo , pofto que Ilbef- 
cas , Garibai , e Fr. Jeronymo Romáo em 
iuas Repúblicas o p6em alguma coufa máis 
adiante. E fogio da Cidade Zidem pera a 
de Medina Denelbi no anno de íeiscentos 
trinta e tres , em que comegou a pregar fuá 
feita , e defte tempo por diante contam os 
Arabios fuas eras , a que chamam Hegerat , 
ue quer dizer fogida , e morreo nos annos 
e feiscentos lincoenta e feis de idade de 
leíTenia c tres : claro fe vé que efte Perimal 
faleceo primeiro que Mafamede nafceíTe , 
por onde nao podía fer ir-fe á cafa de Me- 
ca , como os Mouros femeáram entre os 
Malavares. 

Partido o grao Perimal pera Meliapor, 
evindo dahi aalguns annos as novas de fuá 
morte, nao querendo eftes Senhores Mala* 
yares fer mais fuje^os a ninguem > íicáram 

co- 



a 



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ya^ ASIA de Diogo de Coirro 

como antes daelei^So dos Emperadores ifea<« 
eos; e aínda fizeram mais, que tomáranr o 
titulo de Reys , íkrando o Manucbem Herarí 
na Cidade Calecut , onde fe veio a fazer 
jico , e poderofo com o trato , e ccmiuer- 
(Cio , e aioda ufurpar o titulo de Emperador 
^f efie nome de Qimorim , que he o nietmo , 
e a fujeitar alguns Scnhores mais vizinhos, 
como os de Tanor Chalé , fuccedcndo-lhc 
no Eftado os íobrinhos , como em todos 
os mais Reynos , fempre com efte nome Ca- 
jnorim , como aínda hoje o conferiratn. £ 
Jia^fe de faber , que des que fe foi o grao 
Perimal até hoje reináram cm Calecut no- 
venta e oiio CJamorins ; e ncfte título ( co- 
mo difle) nao Ihe fuccedem filhos , fenáo 
fobrinbos ; e eíles tanto que nafcem , nao 
Jhes podem p6r mais que hum deftes tres 
nomes , Manuchem, Mana, Bequerevem, 
€ Vira Rainon , c aínda- deftes aquelle, que 
Ihes cabe em forre , e elei^ao , que fazem os 
ieus Bragmanes com grandes ceremonias. E 
jtanto que cliegam a herdar o Reyno, logo 
- Ihes p6em o titulo de C^araorim ; e efta he 
a razáo , por que fe nao faz catalogo deftes 
Reys , porque todos tem efte nome de Ma- 
jiabeden , ou de Camorins. Mas fa be-fe de 
certo por fuas CHas , que depois de Pírrimal 
isiorto, ou depois de Manuchem Herari luc- 
jcedcr noReyno Caiecut^ qoc ha i2&y an^ 

BOS» 



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Dec. vil Liv. X. Cap. X. s^f 

nos , sao panados noventa e cito Reys ; e 
aífirma-íe , e aflim dizem fuas Olas , que 
nenhum deftes C^amorins reinou oíais devin* 
te e quatro annos , e nenhum menos de tres. 
Faltando a efles Reys de Calecut hér-^ 
deiros legítimos , que hao de fer fobrínhos » 
enáo fílhoSy pela razáo que logo direí, tem 

f)or obrigafáo perfíiharem osHcraris deBa^ 
uri , parece que porque deícendem de algum 
párente do primeiro Manechem , que o CJa- 
niorim deixou em Calecut , e deñes elegem 
pera períilharem em hcrdeiros os mais idó- 
neos , e nao os mais velhos , nem os mais 
chegados, ainda que as mais das vezes ele- 
gem os de menos idade pera crearem em 
leu Pajo. Já multas vezes faltáram nefte 
Reyno herdeiros legítimos , e fó depois que 
os Portuguezes entráram na India Ihes ral» 
tou por tres vezes ; porque o Rey , que re* 
cebeo Vafeo da Gama , e feu anteceíTor am- 
bos foram perfilhados. Aelles fuccedeo hum 
legitimo íilho de huma das Princezas , que 
foi o que poz o grande cerco á noíTa for- 
taleza de Calecut em tempo do Governa- 
dor D. Henrique de Menezes o Roxo. 

Na era de I5'49. ^ ^^7 » ^^^ reinava 
em Calecut , nao tendo herdeiro mais que 
hum irmáo , perfilhou tres irmáos Heraris 
de Baluri , porque pelo menos háo de ter 
femnre quatro herdeiros vivos. Eñe Rey 
" fa- 



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5X8 ASIA DE DiOGO DE CoTffO 

faleceo aos doze annos do leu reinado , e 
fucccdeo-lhe o irmáo ; e dos outros tres 
Principes , que eflavam períiihados , (que nao 
deixam defícar, podo que outroRey fuccé- 
da$) falecco hum delles , que era o do 
naeio ; e os dous por fereoí máos , e per- 
verfos , e fazerem muitos aggravos , e ave- 
xajóes aos povos, os desherdou ElRey , e 
ainda os mandou matar por fe recear de al- 
guma trai^áo; e em feu lugar perfíihpu ou- 
tros tres irmáos tambem Heraris de Baluri, 
porque nao podem fer outros. Succedeo iílo 
jio anno de 1570. ; e falecendo eñe Rey de* 
pois de ter reinado dezefete annos y Ihe fue* 
cedeo o irmao maior dedes tres perfilhados , 
que vi veo dez annos no Rey no; e por fuá 
jnorte , que foi nos annos do Senhor de 
15'87* fuccedeo outro irmáo , que he eñe, 
que hoje reina, que nena era de 1610. vai 
€m vinte e dous annos que governa. Tem 
eñe Rey hura Principe irmáo feu , imroedia- 
to fucceflbr , chamado Vira Rairon ; e a fóra 
dle ha outros oito Principaes de linha legi- 
tima , filhos de Princezas , que nafcéram de- 
pois dos tres perfilhados , e o maior paíTa 
de vinte annos , e osoucros sao de dezefete , 
dezefeisy dez> feis« 



CA^ 



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Década VIL Liv. X* " yij 

c A p 1 T ü L O xi; 

Do modo que feiem tías f ucee fi oes de todos 
ejies Rey nos do Maluvari edos que sao 
feus verdadeiros herdeiros : e do abufo 
que ha, ñas Na iras ferem commuas a so* 
tíos : e de outras coufas muito novas , e 
€uriofas^ 

MÜito íabidohé áqueíle torpe ^ etrütaí 
cofiume i que todos eíles Reys do 
Mala va r tem de Ihes nao herdarem os Rey^^ 
líos os filhos machos ^ fenáó os fobrinhoa 
íilhos de fuas irmans ; e nao nos havendo | 
herdarem os filhos das parentas até o ultimo 
grao 9 por dizerem que feiis íilhos , fejam de 
quem forem ^ fempre sao de fangue Real 
por via fetninina ^ por terem as mulheres 
por fufpeitofas^ e os íilhos dos Reys íicatn 
fendo Naires , que vivem privada j e pobre* 
mente ; nio vendo eíles barbaros , que aflim 
como o fílho deíTe Rey pode fer íilbó de 
outro qualquer homem ^ rambem fuas íilhas ^ 
cujos filhos sao feus herdeiros 9 podiam taní* 
bem fer adukerlnos , e rtáo terem os herdei^ 
ros nenbum fangue Real por nenhuma das 
partes , e aílim Ihes fica o mefmó impedimen* 
to pera a heran^a que tínham os filiios. Mas 
deixando ifio , continuemos como modo que 
oifto t;emé 
Omu Tom. ÍV. P. //. Lí Suc- 



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yjo ASIA DE Diodo de Cavro 

Succede hum no Reyoo , recolhe fuas 
iriiíans em fuas cafas logo em nafcendo ; e 
tanto que sao de idade pera cafarem a mais 
velha , o fazem ; e pelo mefmo modo as 
mais , que forjado háo de fer de quatorze 
annos, manda o Rey chamar bum dos PriiH 
cipes j que fe Criam pera herdeiros de qual- 
quer ourro Reyno vizinho , e com elle ef- 

Sofa a irmá, e Ihe faz grandes feftas, que 
uram trinta e tres dias-, e no cabo delles 
deita eñe Principe a linha de Bragmana á 
eibofa aopeíco^o, e logo, fem confuminar 
Matrimonio , fe partem pera o feu Reyno , 
e ao outro dia entregara eíta Princeza a bum 
Naire de huma cafta a que chamam Nabu* 
ris , de que logo darei rela^áo , que confum* 
ma Cornelia o Matrimonio; e paíTado aquel- 
le ado , fe vai aquelle martyr do diabo fóra 
daquelle Reyno , fem mais poder apparecer 
nelíe , porque o matáram. Dalli por diante 
tera ella Princeza liberdade pera tomar ou- 
tro Naire dos da cafta Naburins , qual ella 
quizer , e quantos Ihe vier á vontade , e com 
elle commuñica até emprenhar; e tanto que 
fe fente pejada, a levam ahuma térra, que 
pera iíTo tem eni cada Reyno , e allí efpera 
aré parin E ha-fe de faber que com efta 
Princeza nSo pode communicar fenao apeí^ 
foa , que ella mandar chamar ; e fe algum 
foíTe táo oufado que a commetteíTe^ logo 

. . fe- 



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Deg* vil Liv. X. Cap. XL 531 

feria morto. Poftas ellas Princezas prenhes 
mas tierras que diíTe ^ manda EIRey lanzar 
pregoes por todo o Reyno $ que todas as 
mulheres de Fidalgos , e Naires de fangue 
Real , que sao os que procedem dos íilhos 
dos antigos Reys , que fe acharem prenhes 
daquelle mefmo teaipo, fcjam levadas pera 
onde eftá a Prineeza , c alli parertí y e teiíi 
amas y que Ihes crlam os fiihos ^ e as filhas« 
E os machos que eílas Princezas parem ^ íe 
criam pera herdeiros do Reyno j e as filhaá 
pera Princezas , porque dellas hao de pro* 
ceder outros herdeiros; e osfílhos, que ^o 
Os que fe criam pera ettiprenharem as Prin- 
cezas , t deítes cotilo diíTe , efcolhem as 
Princezas os de quem háo de émprenharj 
tnas eítes ham de liafcer no proprio diai 
com ellas , e pelo menos no fetimo ^ e os 
demais tambem sao cham.ados pera feiis 
godos ^ e paflatempos depois de preñhesi 
Muitas fuperíli^óes , e beflialidádes ha inais 
nefte negocio , que por honeflidade calo , 
porque náo he licito dizerem-fe todas aai 
que ha* 

Pera tirarmos á abusao que ha pelo mtiñ«- 
do das Nairas do Malavar ferem commuas 
a todos , e que os que entram cotii ellas 
deixam is portas as rodelas em íinal que 
cftam dentro j pera que vindo os maridos 
Jiáo commettáo a, entrada da cafa ^ direi o 
Ll ii que 



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531 ASIA DE DioGo DE CctrTo 

que pafla nefie negocio. Os Naires do Ma^ 
iavar sao todos táo pobres , que poucos dias 
comem arroz pelo nao terem , e fuftentam* 
fe 08 mais delles com hum coco , huma 
pouca de jagra, (que he o acucar que dá a 
palmeira | ) avcla , que he arroz torrado ^ e 
o betere ; e iílo nafce de nao ferem merca- 
dores , nem officiaes , nem terem crea^óes ^ 
porque fó feguem as armas ; e dos foldos , 

J[ue sao bcm poucos , e de quatro palmeiras 
e fufientam. E como antre elles nao ha efte 
contrato de cafamentos nem por leí , nem 
por obrigagáo , ajuntam-íe tres e quatro , e 
tomam huma muiher de que ufam ^ que ro-> 
dos fudentam. Efta muiher eftá em cafa fo« 
bre íi ; e quando algum delles a quer com- 
municar , deixa a rodela á porta , pera que 
vindo qualquer dos outros , faiba que eílá 
a cafa occupada ; éifto corre entre elles com 
tanta íingeleza, que nunca fe achou ferem 
tocados da raivofa pede dos ciumes. E por 
iíTo louvando o noíib Luiz de Cam6cs efte 
codume ñas fuas Luíiadas , diz : Di toja coa* 
di cao ^ dito/a gente j que nao be deciumes 
pendida. E todavia fe houver Naire, que 
pofla íuíleqtar huma muiher , converfa^a com 
tantas guardas, e cautelas, que fe nao pode 
ella furtar aos direitos, por mais que faga, 
eirabalhe. Mas tem edes huma coufa, que 
como fe enfadam dellas « Ihes dam huma 

Ola, 



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Dec. VII, Liv. X. Cap. XI. ^^j 

Ola , como carta de repudio , pera fazerem de 
Ü o que quixerem. Daqui toináram os Ef- 
grkores ( que nao fouberam eftas particula- 
ridades) pccafiáo pera fazerem eftas mulheres 
cbmmuas a todos, e fe algumas ha deílas^ 
sao as Princezas , como cenho dito ; mas nao 
pera quem as quer , fenáo pera quem ellas 
oudrem :• e aílim como entram muitos nefta 
iementeira , nao le pode verificar qual dos 
graos efpigou. 

B deixando eftas coufas , depoís do Con- 
de fe embarcar , fe fez á vela pera Cochim , 
aonde chegou em breves dias, e roí muito bem 
récebido daquella Cidade , que já pera íÍTq 
eftava preparada comcaes feito fobre ornar. 
E ao deiembarcar foi tomado debaixó de 
hum rico palio , e Ihe fizeram huma breve 
orajáo da parte da Cidade, em que ihe da- 
va os parabens daquella entrada , e Ihe fi- 
zeram as lembranjas ordinarias de Ihe guar- 
dar feus foros , privilegios , e ]¡berdades¡ 
Depois do Conde apofentado , fe veio ver 
com elle ElRey de Cochim , cujas viftas fe 
fizeram ou dentro na Sé , ou no terreiro¿ 
Era liovamente alevantado por Rey Rama 
Brama Unicormem , porter falecido aquelle 
anno feu tio Vira Galao Gago , Rey bem 
conhecido , que foi morro pelos Mourcs 
Amoucos do Rey da Pimenta , depois de 
ter reinado vime e quatro annos , e foi q 

ter- 



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5r34 ASIA DE DroGo DE Couto 

terceiro Rey dos que conbecératti os portu-» 
guezes des que defcubrimos a India. O pri- 
meiro fe chamou Unicormacoul ^ que foi o 
que Pedralvares Cabral achou vivo , e viveo 
ííié ós annos de 1502» O fegundo foi Uni- 
ratnacoul, que foi o que agazalhoq os no(^ 
fos Portuguezes, e o que por iflb teve per-? 
dido o Reyno , que o C^amorim pertendeo 
tomar-Ibe ; efte viveo trinra e hum annos , 
e faleceo nos de 15^ 37. O terceiro foi o 
Vira Galao Gago , que affimá diffe. O quar^ 
to he efte Rama Brama , que o Conde aga- 
^alhou müito bem , e Ihe confirmou o Rey-» 
po em nome de ElRcy de Portugal, 

CAPITULO XII. 

J)e algumas coufas de (les Reys de Cochim , 

de que noffas biftorias nao tratam , que 

sda mui importantes faberent'fe. 

PEla partida do grao Perimal ficáram eA 
tes Reys de Cochim ifentos , e íem obrí- 
gafao alguma ao C^amorim ; mas corno o 
tompo de cento em centannos muda quafi 
todos os Eftados » vieram elles com forja , 
e violencia a opprimir gftes Reys de Co- 
chim , e a fazellos feus fujeitos em certo 
modo , mas todavía fem pareas j porém de* 
pois que nos entramos na India , que pelas 
traijdes de que os C^amorins uiaram com as 

nof-^ 



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Dec VII. Liv. X. Cap* XII. ssf 

noíTas Armadas, e peio recebimento , e re^ 
colhimento ^ que ps de Cochim deram aos 
noíTos , que biam delles efcañdalizados , e 
peja tnuica , e grande lealdade que . fempr^ 
moftráram ao íervijo de ElRey de Portu-? 
gal , os tomáram elles i íua conta , e os 

f>uzeram no eftado , etn que boje eftam de 
ivres da fujei^áo dos C^amorins , e de tnais 
ricos que elles ; porque antes diíTo todos os 
C^amorins y quando k coroavam , havía de fer 
fobre aquella pedra , que primeiro eftava no 
Pagode de Rama Ceram junto da Cidade 
de Cochim : e tanto que allí chcgavam , lo* 
go o CJamorim defapoíTava do Reyno ao 
Rey de Cochim , pelo tempo que as feftas 
duravam , e depois o tornava a invenir ; e 
ainda dizem alguns que fe quizeíTem o nao 
faria , e poria outro» £ eíle coQume nem os 
proprios Reys de Cocbim fabem donde te- 
ve principio , o que durou até o tempo de 
EIRey Uniramacoul , que nSo quiz entregar 
os Portuguezes ao CJamorim , que elle o det» 
truio , c Ihe tomou o Reyno , e tirou a 
pedra do Pagode Rama Ccram , e a paíTou 
á liba Repelim , aonde fe edes Emperadores 
biam depois coroar, por nao entrar nos li- 
mites do Reyno de Cocbim, Defta liba (co- 
mo já diffe) a tirou Martim AíFonfo de Sou^ 
fa , fendo Capitáo mor do mar da India, 
c a entregou a ElRey de Cocbim , com o 

que 



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y^á ASIA DB DiOGO DÉ COUTO 

que deixáram osC^moñns de íe coroar ib* 
bre ella , a fe coroavam em hum Pagode 
de Calecut. Em íim com o favor dos noíTos 
Reys fe ifentou ede de Cochim de todas 
eftas fujei^Óeg. 

Defta fujelsáo que os Reys de Cochim 
tinham aosQiaioríns dizem alguns que naf- 
ceo aquella promeíTa, que onoflb Vifo-Rey 
D. Francífco de Almeida fez ao Rey de 
Cochim y quando o coroou com a corea de 
curo , que ElRey V. Manoel de felice , e glo<* 
riofa . memoria Ihe mandou , como fe ve na 
Chronica defte roefmoRey; que fezDainiáo 
de Goes no Cap. VIH. do II. Livro, dizen-r 
do^lhc em Ihe pondo a Coroa na cabe^ , 
» que o invcftia da poíTe daquelle Reyno 
3» pera o ter, p reger como vaíTallo de El^ 
> Rey de Portugal , que ficava obrigado a 
31 fuílentar , e defender nelle de quem o qui- 
» zeíTe oíFender. » Ao que o Rey de Cochim 
refpondeo : « Qiie faria tudo o que ElRey 
3» ae Portugal feu irmao Ihe manaaíTe; por* 
» que fenáo íbra feu favor , e ajuda , já 
» aquelle Reyno fora junto ao de Calecut. ]| 
Eíla vaíTallagem , que ElRey allí prometteo , 
jiSo confia della mais que por ella Chronica 
de Damiáo de Goes , que nao havia de eC* 
crcverfem fundamento ifto, eque havia de 
ver o auto que diíTo fe fizeíTe , que fenáo 
eñá na Torre do Toa)bo de Lisbpa, devi;^ 



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De a VIL Liv. X, Caí. XII. ^37 

de íicar por máos dos Secretarios , onde ü 
perdería, porque na India nao ha memoria 
diílo , nem da menagem , que o Kej que 
hoje reina deo , cujo aílento ficou na Cama^ 
ra de Cochim , e íe nao tem mandado a efta 
Torre do Tombo de Goa , tendo*a eu man« 
dado pedir poralgumas vezes: edeftes def^ 
cuidos Portuguezes tem nafcido a falta do 
todas as coufas muito importantes pera á 
hiftoría da India, que vou continuando. 

A outra razáo, por que oYiío-Rey D. 
Francifco de Almeida fez aquellas promeíTas 
aos feusReynos,'de quem o quizeíTe ofFen- 
der, Foi efte o primeiro Rey de Cochim 
chamado Unicprma Couli. Tinha hum Prin* 
cipe chamado Matara Bari Coulmar , que 
Ihe havia de fucceder no Rejrno , que vena- 
do as grandes guerras, que o C^amórim fa-^ 
zia aElRey de Cochim, por ter recolhidos 
na fuá Cidade os Portuguezes , que PcdraU 
vares Cabra! aifí deixou, parecendo que fe 
nao poderla defender , e que fem dúvida 
perderla o Reyno , pedio a EIRey muitaa 
vezes , que entregaíTe os Portuguezes pera 
ceíTarem aquellas guerras. E porque EIRey 
o defenganou oue tal nao havia de fazer, 
e que antes peraeria o Reyno , e ainda a 
vida, que entregar homens, queficáram en* 
tregües á fuá honra ^ e palavra, e fé Real^ 
fe fbi (^e Principe lá como defefp^rado pe^ 



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3:38 ASIA DE DiOQO DB COUTO 

ca oReyno deMoringur vaíTallQ do deCo- ^ 
chim , e kvou comíigo outro: Principe íe* i 
gundo 9 que havia de fucceder tambem no ^- 
Reyno , deixando ElRey na for^a daquellas 
guerras fó , e coin o Principe tercciro cha- ^ 
mado Elatabori Martigilcoul, que foi o que | 
fuocedeo no Reyno , e defendeo os noíTos 
contra o poder do C^amorim , e o que D« 
Francifco de Almeida coroou , como aífíma I 
diíTe , que depois de ElRey fe cbamou Uni^ i 
ramacoul , que he o fegundo no Catalogo i 
dos Reys que íicam atrás. 

E porque os dous Principes , que aíltma 
diíTe , que fe foram pera o Reyno Morin- 
gur , pertendéram metter^fe de pofle do 
Heyno de Cochim, os noflbs Iho defendé- 
ram fempre , e fuílentáram nelle o Rey Uni- 
ramacoul até vir D. Francifco de Almeida 

fior Vifo-Rey , que o achou no Reyno , e 
ho confirmouy e coroou por tal em notnc 
de ElRey D. Manoel, e entáo Ihe diífe, e 
prometteo de o defender naquelle Reyno de 
quem o quizeflé oíFender* Entendendo ¡So 
por aquelles dous Principes , que pertendiam 
defapoíTallo > e ailim o fuñentou , e elles fi« 
cáram excluidos dáqúeila heran^a pela de& 
confianja > que tiveram do Rey velho fe po»* 
der defender do C^amoriní. E aíIim íicáram | 
iem o Reyno deCochim , e fem o de Mo* 
riogur y porque efte que aínda hojd nella era 

de 



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D»EC. VII. Liv. X. Cap. XII. f^p 

áe 1610. vive, fendo já muito velho , fe 
unió com o Rey de Cochim , e o foi vili* 
taY , e pedio por herdeiro de Moringur o 
Principe terceiro , que crcava pera aquella 
heranja**», que Ihe elle concedeo , e elle o 
prefilhoií. Eqomo eíTe feviver ha deherdar 
portempos eílcsReynos ambos, eaílim tor* 
nar-fe-hao a ajuarar em hum , como já on* 
tra vez efiiveram. Mas acontecendo que efte 
principe morra , fendo Rey de Moringur an* 
tes de herdar o de Cochim , logo o Rey 
de Cochim herdará aquelle Reyno. 

Deda lianza , e amizade de EIRey de 
Cochim com os noíTos foram fempre os Ca* 
morins muito ciofos; porque além de com 
o favor dos noffos fe ifentarem de fuá fu- 
jeijao , víram que hia crefcendo em rendas , 
e térras , e fazendo-fe poderofo , porque fó 
a Alfandega de Cochim , e feus annexos 
Ihe rende cada anno feíTenta mil pardaos, 
que he o que o CJamorim inveja muito , por- 
que elle nao tem_ mais que palmares , e al^ 
guns direitos poucos das fazendas , que vam 
ao porto de Calecut ; porém nao tem gados , 
porque toda a gente ae guerra fuüenta com 
térras que Ihe dá , e o Rey de Cochim fuf- 
tenta feus Capitáes , e foldados a puro di^ 
nheiro , e pagas. E daqui vem que 0$ vaf- 
fallos do (^amorim nao querem guerra , por- 
que tem fuá fuílenta^^o certa > eo^ de EK 

Rey 



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5^4^ ASÍA DE DioGo DE Coirrb 

Rey de Cochim folgam com elta por cauia 
das pagas , que fempre tem de ordinario ^ 
quer baja guerra , quer nao , porque fe nao 
paflem pera os inimigos. 

Huma novidade contarei , que ifióc acho 
ñas hiítorias , digna de íe faber ,'' de cuja 
origeni nao ha poder-fe achar rafto algum , 

5|ue he efta. Todos os primeiros dias de 
aneiro principio do anno , em fahindo novos 
Vereadores , e OíEciaes da Cantara, logo, 
varo vifitar ElRcy de Cochim , e Ihe levam 
hum Portuguez de ouro , o que até hoje 
dura ; e nem os mefmos Vereadores fabem 
a razáo de porque fazem aquillo. O que eu 
prefumo he, que fe Ihe dá aquillo a modo 
de pitanja, que Ihe ofFerecem, quando Ihe 
yam dar os bons annos em gratifícalo da« 
quella Cidade , que Ihe deo : ou tambem fe 
Ihe ofierecerá porpe^a que naquelle tempo^ 
que defcubrimos a India , fe ihe coílumava 
a dar de Janeíras. 

Tambem tem ElRey de Cochim cada 
anno feiscentos e quarenta cruzados pera hu* 
ma copa de ouro , que Ihe os noflbs pri* 
sneiros Reys manda vam dar , deve de fer 
em final de amizade« Eftes Ihe leva o Feitor 
daquella Cidade em dia de Reys y como pe- 
^a dada de Reys; e como tudo fe vai per- 
dendo, ou mudando^ ás vezes Ihos levam ^ 
e ás vezes náo« 

•CA- 



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J 



Decada VII/Liv. X 5^41 

CAPITULO XIIL 

De huma breve reía gSo das libas de Am» 
boino : e do alevantamento que houve os 
annos pajfados contra os Chrijlios : e d$ 
perigo , em que fe viram até chegar Hen^ 
rique de Sd , ^ue cajiigou os rebeldes , e 
livrou os Cbrtjiáos. 

NA relajo que demos no VIIL Cap. 
_ do VIL Liv. da noffa IV- Decada , 
dos arquipelagos do mar de Levante , falla- 
mos no de Amboino , cuja cabera he efta 
Ilha , de que o feu arquipelago toma o nome. 
£ pofio que ella em fi feja pequeña ^ por 
nao ter mais em circuito que dezefeis leguas ^ 
tem muitas Cidades, e Villas, cvjos mora- 
dores navegam pera diverfas partes em na- 
vios grandes y e pequeños , e foram os pri- 
meiros deque tivemos conhecimento em to- 
do aquelle mar, e que ^eram obediencia a 
ElRey de Portugal, indo alli ter Francifco 
Serráo da companhia de Fernao de Maga- 
Iháes , que os moradores daiCidade de Aito 
Tecolhérám , e agazalháram , e alli o man- 
dou bufcar ElRey Boleife de Témate , co^ 
mo ñas outras Decadas temos dito , ficando 
fempre aquelles naturaes muito grandes fer- 
vidores de ElRey de Portugal , recolhendo 
£ias Armadas^ e.provendo-as, e anofla for» 
i* ta- 



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J'4* ASIA OE DiOGO DE COITTO 

taleza de Maluco de todas as coufas neceA 
farias em teropos fortuitos , e trabalhoíbs. 
E o mefnio fazíam ¿s Armadas do Rejr dé 
Tidore com ferem lientos , e nao obedece- 
rem a ninguem , porque fe governavam por 
Juizes eleitos dosmais anclaos; mas femprel 
H Cidade de Alto teve alguma fuperioridade 
Ibbfe todas , e tambem ?e regia como Re^ 
publica por certo numero dos mais antigosé 
Neda liberdade vivéram muitas centenas de 
annos, aré que depois fefundou anoíTa for« 
laleza na liba Ternate , que pela continua^áo 
d^ Armadas daqüelles Reys de Tidore , e 
Ternate , que de paífagem focavam aquella 
liba pera fe proverem ^ quando bíam a aigum 
feito y que íe aíFei^oáram alguos daqüelles Iu« 
gares ao Rey de Ternate, e outros ao de 
Tidore , com o que foram pouco e pouco 
lomando pofle delles ^ aílim por feus natu*» 
raes fe fegurarem de alguns CoíFairos , co* 
mo a defpeito huns dos outros , porque an-» 
davam tocados de ciumes dos favores dos 
Portuguezes, e.da fortaleza que tinham em 
Ternate , e daqüelles Reys. 

Durou ifto. até que Jofdáo de Freítas 
tomou poffé da fortaleza de Ternate , c Rej- 
oo de Maluco, que ElRey D. Manoel feu 
aiilhado , que morreo em Malaca ^ Ihe fez 
doa^áo daquella liba de Amboino , como 
ñc^ dito i»> Cap« IIL do LiYé IX. da no& 

fa 



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Dec. vil Liv* X. Cap. XIII. 3*43 

fa V. Decada , de que elle Jordao de Frei* 
tas mandou totnar pofle por Vafeo fle Frei- 
tas feu fobrinho 9 que fez huma fortaleza ea« 
tre o mar da enfeada , em que as naos inveri- 
náo , e a Villa de Alive , que já era povoa- 
da de Chrlfiáos , como todas as mais povoa* 
cóes daquella Ilha , onde o P. Francifco 
Aavier, e os Padres da Companhia tinham 
feito grande fruto na conversáo das almast» 
E como eíles moradores deAtive anda* 
vam já dantes. em grandes diiris6es com os 
de Aito , que Ihes fícavam mais vizinhos pela 
outra banda da liba , accendeo*ie mais aquel- 
le odio com o favor que os de Ative ficá- 
ram tendo com a fortaleza , que Vafeo de 
Freirás alli fez. E ajuntou-fi? a ifto, come- 
$ar o Vafeo de Freitas a ufar do oífícío 
dosCapitáes da India, de alguns digo, que 
' era fazer forjas , e tomar o que nao era 
multo fabidamente feu, e ainda a fazer a& 
frontas aos Regedores da Cidade de Aito; 
€. O que elles fobre rudo fentiram mais , foi 
parir-lhe huma cadelia , e elle por aus ca^ 
chorros nomes dos principaes Regedores da 
Cidade. Com oque efcandalizadosi, manda- 
ram Embaixadoi^ á Raiñha de Japará na 
Jaoa , que era podexofa , e fcus juncos na^ 
vegavam todos ps.annos pera aquella Ilha 
por quem Ihe mandáram dar obediencia , e 
cfierecer vaíTallagem^ que eUa acceítou , .t 

man- 



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5^44 ASIA t>ú Dioi30 Dt Cotrrá 

ihandou lá feus juncos a carregar de cravc^ 
Do que Jordáo de Frehas fez grandes ex* 
danoa^des , quando fe foube em Maluco , e 
fnuicos proteftos a ElRey Aeiro ^ pera que 
acudiíTe áouilloé Ao que elle refpondeo «que 
» a Uha deAmboino nao era de EIRey da 
» Portugal , fcnáo delle Jordáo de Freirás , 
» que eUe ihe foccorreíTe , porque nenhuma 
» obriga^áo tinha a fazer defpezas naqiielie 
» negocio. » E alguns Portuguezes velfaos , 

aue entendiam bem a térra , difleram a Jof<* 
áo de Freirás « que os juncos da Jaoa nao 
3» faziam damno ao noflfo commercio , antes 
% proveito , porque traziam muítos manti^ 
» mentos , de que os noflbs galeóes da car-*» 
» reirá íe proviam , e o mefmo a noíTa for*^ 
» raleza; eque ocravo, que levavam, nao 
01 falta va nos galeÓes , que fempre hiam 
9 cbeios ; e que a mor pane do que os Jaos 
» aili carregavam ^ e refgatayam , hía ter i 
» noíTa fortaleza de Malaca , e que por hvt^ 
» roa parte ^ ou pela outra ^ fempre os Por^ 
01 tuguezes o haviam. » 

E depois que D. Duarte De9a prended 
EIRey de Maluco , como atrás fica dito nú 
L Cap. do IV. Livro^ ilnandáram osRege*- 
dores do Reyno huma Armada y de aue era 
Capitáo Cachll Liliato , contra a liba ^e 
Amboino , que deo em muitos logares de 
Chrifiaos , e os ^ deftruw ^ € aflolou y mar^ 



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Dfec; Vil. Liv. X. Ca?. Xnt $4$ 

tyrizando muiros , e fazendo tornar atrág 
óutros , que feria m menos forteSé E fempre 
fe extinguirá aquella Chriftandade , fe hura 
Chriftáo por nome Mánoel , Regcdof di 
Villa de Atíve (creado de mojo na doiitrinat 
daquelle Varáo ReligioftíFrancifco Xavier, 
¿Jue o fez Chriftáo) nao esforzara ^ e fuften- 
rara com muito valor a muiros dtílles ; por-* 
que ajuntando os que pode, fez hum arfe- 
zoado efquadráo y com que fahio muitas Ve- 
zes aosinimigos, e Ihe deo alguns aíTalrosj 
ém que Ihe marou muiros. No que parece 
que ainda alli obrou a virtude^ e fanridade 
do Padre Francifco Xavier , que diante dé 
Déos eíláva pedindo a Déos nóíTo Senhor 
o favor, e ajuda p^ra aquella Chriftandáde ^ 
que Ihe elle dava com tao larga tniOé Por-> 
que na fortaleza de Amboino havia poucoá 
Porruguezes , que a fuftentavítm fem púde^ 
rem fahtr fóra della -^ e fó o Mafloel de Ative 
fuftenrava o campo , nao fó contra os ini-» 
migos ) mas ainda contra os amigos , e pa^ 
rentes. Porque na forya defle trabalho fe 
levantou hum feu cunhada chamado AntQ< 
nio , que defejou muito de ó matar ; e peri 
iífo bufcou rodos os itlodds que póde'^ até 
fe valer de alguns ntáos , e bai¿os Portu* 
guezes , que com ira diaíbolicía , achándo-or 
fó , encaráram dous deües as efpingarda^ 
jielle, quQVeíido-fe féift remedio, úem rcíif^. 
CoupQ.Tm.lV4P.1L Mm tenr 



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5r4<( ASIA de Diogo de Coüto 

tencia, deo*lhe Déos noflbSenhor efpintOy 
e animo pera arremetter com huma Cruz cota 
que £e aora^ou , e nelia efcapou a leus ini- 
migos ^ que com medo de os Déos nolTo 
Senbor caUigar, nao quizeram defparar nel-* 
le as efpingardas por nao darem na Cruz, 
a cuja íombra , e virtude deixou peccador 
¿enhum de achar remedio , e amparo* £ pa- 
rece certo que as ora^óes do Padre Francis- 
co Xavier o guardáram daquelle perigo pe- 
ra defenfor daquella Chriftandade. 

Os inimigos tinham cercados todos os 
moradores da Villa Qpiláo 9 que tambem 
eram Chriíláos y que ferccolhéram em huma 
ferra muito forte y onde foram por algumas 
vezes combatidos rijamente ,' humas com ar- 
mas , e outras com rogos , com que os com« 
mettéram fe entregaíTem , prometrendo-Ihes 
de os deixarem ir liyres , dizendo-Ihes c que 

> nao tiveflem efperangas em foccorros de 
» Portuguezes , porque todos os que eftavam 

> na fortaleza eram tomados ás máos y e 
>. mortos » £azendo*Ihes fobre iflfo grandes 
promeflas. Ao que elles fempre refpondéram 
com grande conftancia , e inteireza , affir« 
mando'lhes c que em qnanto Manoel deAtí- 

> ve foíTe vivo , e Chriítáo , nao trataflem 

> de fe entregarem , nem de deixarem a Fé 

> de Chrifto: que o foíTem bufcar, e que 
» rendendo-o ^ e desbirataodo-o , cntao ie 



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Degí VII. Liv. X. Cap.' XIII. 5^47 

» entregariam ; porque tinham todps Um^ 
» nha confianza em feu esforzó , liabef , e 

> chriílandade , que aquel les tra^b^Ijios qii^ 
» paiíTavaní , Ihe eram faciliülmos cotn as 

> admoeíla^Óes que de quando etn qujando 
» tinham delle , que nefia parte nunca fe 
Ji defcuidou de fuá obrigajiao. » Andaya elle 
;io campo com os moradores de Ative , que 
Ihe obedeciam j epor algumas vez.es fe en^ 
controu com os inimigos , que ^^zvam mui 
poderofos , e infolentes , por íe Ifae cerent 
aj untado todos os arrenegados } e fem os tcf 
mer, nem recear, rompeo batalha, que 1^ 
apartou por noite^ em que O leal^ endelif- 
íimo Chriñáo Manoel fez Coufas dignas , e 
merecedoras de maior efcritura* 

Ncíle eílado eílavam as couíá^» cjuand^ 
chegou áquelle porto Henrique de Sá, que 
em principio defte verao deixánros partida 
pera Maluco, que fabendo os trabalhos da[*> 
ouelta Ilha, e o muito que o Manoel tihha 
teito , o ajuntou a fi , e Ihe fez muítasf hon^ 
ras , e tratou com elle de darem nos alcvan- 
tados , pera o que fe fizeram predes. E a 
primcira coufa que Henrique de Sá fez , foí . 
prender o Antonio ^ cuñhado do Manoiel , e 
caíligar os dous Portuguezes que oquizerant 
iñatar; eajuntando a mais genfte que pudcf 
tam , foram dar nos alevantados , que eil^ 
Vam fayprecidos da gente de £111^7 d;e Te^^ 



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54^ ASIA DE DioGO DE Catrro 

líate , e os dcsbaratáram , e íizeram embarcar 
com muirá gente perdida , e defcercáratn os 
Chriftáos deQuiláo; e depois andáram por 
todas aquellas II has caftigando os rebeldes , 
e os que tornáram atrás naFé, e animando, 
e favorecend^os Chriftáos em feu» lugares*. 
E de feiyáo fez Henrique de Sá ifto , que 
quietou aquellas Uhas ; e os Padres da Com* 
panhia tornáram a p6r as máos naquella obra 
da conversSo das almas , e em breve tempo 
reconciliáram com a Igreja quafi todos os 
que tinham apoftatado , e bautizáráo muiros 
outros que vieram de novo , íendo a prin- 
cipal parte em tudo ifto o bom Chriftao , e 
Catholico Manoel , que como tal correo 
fempre muito bem coro os Padres. Ncfte ef- 
cado deixaremos eftas coufas até feu tempo. 

CAPITULO XIV. 

Dagurrra que o Madune mandou profeguir 

, cdHtra a nojfa fortaleza de Columba y 

e de Cota , em que ejiava E/Rey 

Persa Pandar : e dos cajos que 

acmtecéram. 

MUitas vezes temos dito do muito que 
o Madune Pandar defejava de totnar 
oReyno da Cota, e prender ElRey feu ir- 
máo , pera aílim com mais feguran^a ficar 
fenhor de toda a liha. Pelo que nunca le- 

70U 



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Dec vil Liv. X. Cap. XIV. ^49 

vou máo da guerra , e trouxe fempre feus 
exercirps , die que era feu Capitáo geral fe^ 
filho Rajd Pandar , ora contra Colutnbo^ 
ora contra a fortaleza da Cota , onde eflava 
EIRe/ Peria Pandar, Era Capitlo de Co- 
lunribo Baithazar Guedes de Soufa, e tinh^ 
comfigo feu irifiáo (aon^Io Guedes , ambo^ 
muito bons Capitaes , com outros alguns , qap 
tinham ido 4e Goa , como foram Nuno Pe^ 
reirá de Lacerda, 3ini§o de Mello Soares, 
Gafpaf Qutcrres de Vafconcellos , Amonio 
Chainba de Cañro , André da Fonfeca , Aa- 
tonio da Foflfeca , Diogo Fernandos Piri* 
Ihao , e outros , que o Capitáo Baithazar Gue- 
des de Soufa tinh^ reparcido por eflancías. 
O Rajú depoís de dar fnuitqs aflaltos or^ 
na Cota , ora em Colutnbo, determinou-fp 
em cercar Columbo 9 etrabalhar de a tomar ^ 
e aíTim Ihe ppz cerco com majs dp trint^ 
mil homen^ ao redor da fortaleza , e com* 
Lateo-a por todas as partes com muita for^a , 
arriícaado muitas yezes rodo o poder, pof 
Jevar a povoa^lo ñas máos ; m^s foi-lhp 
fempre dos noflbs muito bepi defendida, 
com haver muitas mortes de parte a parte , 
e os noflfos fe verem muitas ye;&es perdidos ^ 
e neíle cerco fizeratn taitas coulás , e tap 
grandes cava}larias , que as nao fei efpecíf- 
ficar; eforam osaíTaltos tantos^ etáo amiu;* 
¿^ps ; <|ue úíq }}a po4er-fe ía^er | nem d^r 



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fyo ASIA DE DiaGo DE Covfo 

rela^So particular delle?. Sómente diréi ha? 
jna cotila 9 que de qualquer dia diefte cercd 
fe pudera muito bem fazer huma hiftoria de 
iper fi , porque os cafos de cada mpínentQ 
eraní notavelidimos ; e eu nao deixára de 
contar os principaes , fe os fpubera na realí- 
dade daverdade; mas fó efnfomma foube^ 
que maior fp¡ o defgofto que pie deram^ 
que o godo , e alvoroyo que tenbo de efcre? 
ver efta jornada , que foi huma da$ tncmoí- 
rayéis, e notaveliflima^ do mundo* Em ^ii^ 
joRaju foi continuando efte cerco fobreCor 
lumbp com muito grarfde jmpprruna^ao , e 
apertOy até que de caníádo, e enfadado de 
i^er que Ihe nSo fuccediám as coufas comp 
queria , fe recolheo a Ceitavaca , cuidandp 
es noíFos que feria pera os nSo tornar a com- 
metter. Mas como o Rajd , e feu pa¡ entr^- 
ipam nefte negocio com pdio , e cubiga , nap 
fez mais que refazer-fe de gente , munifoes , 
e mantimentos , e logo fe poz aó caminho 
da Cota pera concluir aquelle negocio , que 
tinha por averiguado , e concluido , havendp 
que ficáram os noíTos táo efcalavrados dq 
cerco paflado , e táp quebrantados , que nao 
cftariam em eftado de ppderem ir foccorrer 
aquelle Rey, no que feenganáram; porque 
tanto que Balthazar Guedes de Soufa te ye 
novas que elle fe abalava contra a Gota , 
partio^fe deCplumbo cpm amáis ¿ente que 

po- 



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Dec. vil Liv. X. Cap. XIV. yji 

pode , c fe foi metter na Cota , deixando 
feu irm&> Gon9nIo Guedes emCoIumbo coni 
a gente que Ihe pareceo neceíTaria , pera fe 

£oder defender desigual encentro ^ fe 6 
ouvefle. 

He a Cidade de Cota de fóritia redonda 
pofta como em huma II ha ^ cercada toda em 
roda dé hum arrezoado rio , que fe nao póv 
de paíTar fenáo com embarca^Óes^ Terá dous 
inii paíTos de roda, e nao ha mais ferventU 
pera fóra , que por hqm paflb como o pefr 
cofo de hum hottiem , que feria de fincpenta 
pafFos de largi^ra. £í}a garganta finham 08 
noíTos fortificada com hum muro de paredes 
groífas de huma , e d.e outra parte , e duas 

Earedes mai« , qu^ atraveflavam efta garganta , 
urna pera fóra , e outra mais dentro , e a 
jefie paUb chamavaití j^ Prea Cota, Tem maig 
fobre o rio huma ponte , a qiue cfaamam o 
paíTo de Ambola , que vai pera a parte de 
Columbo , por que ps noíTos fe fervem , e 
ferá da Cota a Columbo legua e meia, Teoí 
oucro paíTo , que chamam do Mofquito ; e 
outros dous , emrque os noíTos tinham feitas 
fuas tranqueiras , e próvidas detudo. Orno* 
do de como Gonzalo Guedes, eElRey pro^ 
yéram ido , e os Capitáes , que puzeram ne& 
te^ paíTos, eu o nao foube, nemachei Iem« 
brancas algumas ; fomente féí que na Prea 
Cata , c[ue he o paflb mais perigofo ^ efiav4 

luim 



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^^t ASIA DE BlQGp DE CqüTQ 

hum Capitáo com quarenta homens , e em 
todos p^ n^ais paíTo^ ed^ya cajda huip com 
p feu y e trinta Jioinens* £ na Prea Cota 
/eflavaro o Padre Fr. Siipáq (de Níizareth , 
Fr. Lucas, e outros tres Padres deS. Fran- 
cifco, to^QS ^cljgJofos de grapde , e mui 
jconhecida virru^de. ElRey ficou defpra com 
p Capiráo pajthaz^r Guedes de Souía pera 
acudirem apnde foíTe nepeíTario. 

Tanto qpe p Rajú apparecep fcbre g 
Cota, a cercou emroda cpmtodp opocler^ 
que tinha muito engrpíTadp , ^ 9 cpmmetteo 
por muira^ ve^es ppm grande determinábaos 
principalmente pela Prea Cota , (cpm os elcr 
fantes , que por huma pafie por onde cher 
gava p rio fíc^va mai$ íecco , foram couir 
pietrendo denodadamente; ma$ osnpíTps 0$ 
^fcalavrárai^i , e abra;p4rani com I^n^as dp 
fogo , cpip que ps fi'^eram ypltar , acudindp 
aaui o pe^o dp$ inimigos , puidando que os 
JElcfantes Ihes fizeram entrada , fpbre o que 
fetravou huma multo afpera baralha de muir 
to rifcp ^ e perigo , em que hpuye mu ¡tos 
jnortos de amba$ as parres , onde ElRey, 
e o Capitáo Balchazar Gucdes de Soufa , e 
outros cavalleirps que os acompanhavam , 
fizeram tantas maraviJhaí?, qup pareciam Ele- 
fantes bravos. E os Frade^ ípraoi os que 
í?erain mais , porque pelejayam cfpiritual- 
ment^ coai pra^Óe$ :¡ js cpfn per|u9diren) aos 

ho- 



r 



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15 Ec, VIL Liv, X. Cap- XiV. SS3 

Jiomens a que fe defendeíTém , e pediflem a 
Peos perdáo de feus peccados, lendo elles 
fempre o$ primeiros em todos os rífeos , e 
.perigcs^* ^eíla crueza fe paíTou aquelle día, 
e outros feguintes ^ fem deixarem tomar aos 
Jioííos h.um pequeño de defcaQ^o , porque 
neni de dia , nem d^ noíte largavam as ar- 
mas das máos 5 comendo n^uito pouco , e 
(dprmindp menos. E a coufa de mor efpan?- 
to , e em que defcjo de gaüar muitas ipaos 
ide papel , he , que efta noíía gente a mor parr' 
re dell^^ 0u quaíito^a, eramfoldados dan<r 
tre Douro e Minho , da Beira , e de Tr^s 
os jlVl<>n(^s y liomens nao conhecidos , nem 
de appellidos ufurpados , íenáo creados po- 
bre, e ruflipamente , pial vellidos , e peior 
atados. Mas por certo aue por elles fe po^ 
(dia dizer, o que^íe já diffe por Cefar, que 
ie j[uardair^ daquelle mancebo mal cingido. 
Amm deílcs jioilbs Portugu^^zes , a quem a 
falta de fangue encubrió o grande valor do 
efpirito, fe podía dizer: ^Guardaivos dai- 
> quelJ^s esrarrapados , e daquellas efpadas 
^ ferrugentas , porque alli vam outros Ce- 
^ fare$. » E aífim vjeis hum deñes poílo de 
barb^ a barba contra muitos dos inimigos, 
le cortallos com tanto valor , e esforzó , que 
vos mettia medo 1 e caufava grandiilimo e& 
panto, e endireltar com hum Elefante bra?> 
VQf quepod^ri» fw^f seguir todo humexef!» 

ci- 



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.yf4 ASIA DE D^IOGO DE COUTO 

cito , c fazctio Tirar pera tras , como fe fo- 
ra outra alimaria mais brara ^ e mais feroz 
que ella. £ eftes de que fallo sao os que 
acabáram na India os mais dos feitos arri& 
cados , que nella ie commettéram ; e os que 
nefta Ilha de Ceiláo fuftencáram elle , e ou- 
tros cercos , de que íp puderam fazer rnui^ 
tas efcrkuras, fe otempo, e odefcuido Ihe 
íAo rivera íepultados os nomes ^ e com lelles 
m feitos. 

CAPITULO XV. 

Po grande aperto , em que o Rajú po% of 

noffos : e de cerno Diogo de Mello Ca^ 

pitao de Manar foi de foccorro : 

e de outros foc corros que fe 

Ih ajuntáram, 

ORajú foi continuando no cerco a/iim 
coQtimór poder, como com mor crue^ 
^z cada día , bufcando todos os modos pera 
.«ntrar na Cidade , aíüm por mar com em'» 
Jsarca^Óea , e jangadas , como pela Prca Cota. 
£ multas vezes fe víram os noflbs perdidos ; 
mas Déos noflo Senhor , que tinha os olhos 
lielles, e naquella Ilha , deo animo aos nof- 
fos , com que íempre rebatéram os inimigos 
•com graáde deftrui^áo fuá , e nao pequeño 
idamno da nofla parte. ElRey com alguma 
•gente fuá fempre fe acho^ nos mores peri« 

gos. 



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Dec. Vn.'Lív. X, Cap, XV. fSt 

gos, comoquem Ihe hia mais que a rodos, 
pois íhehia oReyno. Osiniípigos tomárain 
,outro caminho do paíTo do Ambolao , por 
onde llie vinham da Cota cílguns provimen- 
tos , e recados, eaífim com trabalho , emui* 
to rilco podianí os noflbs mandar- fe recados 
^uns a putros.. As novas deñe ce^co ^ e dos 
noíTos elbrem em grande pcrigo , chegárani 
a Manar na entrada de Ago(!o , que fabidaf 
por Diojgb de JVlello Coutinho , Capítío da* 
quella fortaleza , negociou logo alguns na- 
vios , em que fe partió de foccorro elle enl 
jium , e nos oiitros Pero Juzarte Tijáo , e 
Gafpar Pereira o Comprido , que depois fof 
f]efpa.chado com a fortaleza de Chaul , fen| 
querer vir entrar pella. 

Partidos enes navios chelos de gente ^ 
jnunijóes , e maniimento$ , porque nao t|t 
pham tempo pera de longo da coda ir bufr 
car Columl^o , foram demandar a outra coí^ 
ta de Tutocori pera della atraveflarem con» 
vento , que entap era iiipngáo. Entre tan* 
to foi o Rajú apertando p cerco , porque 
yia que fe hia acabando o inyerno , e que 
podiam logo vir muitps fpccorrosj e affiai 
derermihou-fe a levar a Cota ñas máos , c 
pera iflb commetteo-a por todos os paflbf 
commuita furia, achando nos noflbs a reííC- 
tencia coftumada, Seriam os nofl^os , que po-r 
(diam pelejar , quatrofientos , <jue náp pare¿ 
' » cian^ 



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jrjr6 ASIA pE DiOQO DE COVTO 

ciam de carne , fenSo de bronze , porque nem 
^ bombardadas os aíTombravam , nem aba- 
lavam , nem os Elefantes os (aziam mover 
de feu lugar» Nefta eontinpasáo foi o Rajü , 
até que hum dia metteo toda a potencia no 
combate ^ e a mor for^a della poz na Piea 
Cota , que foi commettida da gente da Ata- 
pata , que he a da guarda de ElRe/ , ibl- 
dados eJcolhidos , e valorofos ; ( como os 
Janizaros.) e diante da guarda foram os Ele- 
fantes de guerra , que com feus urros cofio- 
fnados puzeram as teftas ñas tranqueiras , 
aondjs acudió EIRey , e o Capitáo com os 
fronÚDuos que com elle andavam , e diame 
de todos o Venera vel Padre Fr. Simáo de 
Nazareth, com finco, ou feis Frades, qu^ 
na mdr furia da batalha fe acháram fempre 
diaQte, esforzando os homens , e moftrando- 
Ibes oo ar ChriQo crucificado , debaixo de 
Cujo nome , e Fé pelejavam todos , clamando 
multas vezes pelo nome dejefus, que fem- 
pre os foccorreo com feus auxilios, accref- 
centando-l)ies animo, e esforzó; porque fe 
iíTo nao fora , tudo fe acabara. Em fim os 
elefantes tanta for^a Ihes fizeram fazer, que 
arrombáraqi a primeira parede da Frea Co* 
ta, onde os noíTos andavam pelejando com 
muito valor ; e afiüm com aquelle impeto 
foi a Prea Cota entrada , e mortos tres Fra- 
ses de §• Fr^ncifcQ > e mais d$ vinte Po(« 



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Dec. vil Liv. X. Cap. XV. ssf 

lQgaezer« Vendo-fe ElRey , e oCapitáo ei^ 

trados , e perdidos, acudtram com todo o 

reno da gente que tinham , levando diante 

algumas langas de fago , e a eípingardaria ; 

e appellidando Sant-Iagay e o Padre Fr.Si- 

ináo de Nazareth diante ^ chamando por 

Chrlflo que os foccorrcffe ,^e ajudaíTe , quiz 

efte Senhor^por fuá grande mirericordia (co* 

mo elle coltuma fazello em femelhantes ne» 

ceílidades) foccorrellos de fei^^o , que lan^ 

gáram fóra os Elefantes mui queimados , e 

iflb mefmo fizeram os ininiigos , ficando-lhe 

daquclla feita tnais de quatrocentos morbos ^ 

e abrazados. Finalmente foi o eftrago tal ^ 

que houve o Rajú por feu partido retirar-fe 

quafí desbaratado , cuidando elle que tinha 

concluido aquelle negocio daquella feita. O 

Capiíáo Balthazar Guedes de Soufa , que éC- 

te dia fez o officio de valorofo foldado , fi-r 

cou ferido de duas fétidas; mas nao foram 

parte pera detxar o conflifto , antes nelle 

moftrou mais os quilates de feu fangue : e 

o mefmo fizeram osFidalgos, eCavalleiros 

conhecidos , a que nto achei os nomcs pera 

os engrandecer como mereciam. 

ElRey , e o Capitáo fem tomarem re- 
poufo alguiii , reformáram , e fortificáram a 
nea Cota da banda de dentro muito forte* 
mente , e defejáram de mandar recado á In- 
dia y em que fizeíTem a faber ao Vifo-Re/ 

o 



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f^^ ASIA DB Díooo DK Ceirro 

0. .filado em que aqnella fortaleza eftavaí 
pera que a foccorrefle , p que teve por du- 
vidofo, porque eílavam os camiirhos todog 
tomados , e nao era poíHvel poderem paflar 
por elles. Mas hum Frade de S.Franciíco^ 
que vio aqudla neceffidade , c o rifco , e 

ferigo emque rodos eílavam , fallando com 
um Pacha, que fabia multo bem aquelles 
matos y deo-lhe conta de fuá determinado , 
que era paflar a Columbo pelos matos , e 
com u>do o rlico de fuá pcíToa , que I he fa- 
lla pagar muito bem i o Pacha fe Ihe ofie^ 
receo/ao por em Columbo muito fegura 
£ dando o Padre conta ao Capitáo , e a 
ElRev do Asocio , Ihe agradecéram muito 
aquelle férvido, que quería fazer a Déos, e 
bem áquelle povo ; e entregándolo ao Pacha, 
3 quem pagaram bem , fahiram-fe no quarto 
da modorra pelo paíTo do Amboláo , e fe 
•cmbrenháram por huns matos novos, edif- 
ferentes , por onde caminháram com muito 
trabaiho, e rifco* Equiz noflbSenhor, que 
fempre favorece obras femelhantes, que em 
duas horas chegáram a Columbo , . onde o 
Padre entrou, e deo conta dotrabalho paf- 
fado, eperigo em que todos íicavam, dan- 
do as cartas ao Alcaide mor , em que Ihe 
mandava que logo déíTe embarca^áo pera 
j)a(rar aTutocori, que Ihe logo negociaran):, 
d^uefolMm tone pequeño^ em que fe eof' 

bap- 



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Dec* vil Liv. X. Cap. XV. SÍ9 

barcou , e foi atraveíTando a Tutocori ; e 
chegando á térra , vio a Armada de Diogo 
de Mello Coutinho, que tloha cbegado do 
día dantes , e eftava já com elle Antonio da 
Coila Travailos , que tinha vindo de Co- 
chim por Capitáo mor de feis navios de re- 
mo com muita , e boa gente y e alli ajunrá- 
ram mais alguns navios de mantimentos, 
que foram fere , ou oito. E fabendo a grande 
neceílldade em que a Cota fícava , fe fizeram 
logo á vela peraColumbo por ter o tempo 
bom ; e ao outro dia entráram naquella Ba- 
bia com aquelle grande foccorro , de que 
logo correo a nova aoRajú. Os noíTos tan- 
to que defembarcáram , tratáram de tr foc- 
correr a Cota , e ajuntáram-fe mais de qua- 
trocentos homens com que fe puzeram em 
ordem pera fe partirem.^ Mas tanto que o 
Rajú o foube , alevantou o exercito , e fe 
recóllieo pera Ceitavaca com levar menos 
do que trouxe mais de dous mil homens , 
que perdeo naquella jornada, E com ifto fi- 
cáram os noflbs defalivados , e fe fortifica 
ram de novo , e provéram a Cota de man- 
timentos, e gente; e Diogo de Mello tanta 
que vio nao fer alH neceflario, recolheo-fe 
pera Manar na fuá fufta fó , íicando em Co- 
lumbo todo o mais foccorro que foi com 
«lie. 

CA- 



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f6o ASIA DE Dioao dé Covt'ó 

CAPITULÓ XVL 

Da Armada que ejle anrio defifíenid e trej 
partió doKeyno ^ deque era Capí t do mor 
Z). 3^^ ^^ Soufa : e de como fot ao Ma^ 
lavar D. Francifco Mafcarenbas : t da 

5 r ande batalha , qM Jeronymo Dias de 
íenezes teve com tres Paraos , de que 
todos Jabíram dejirofados : e de outras' 
coufas • 

TOdo elle Invernó gaftou o Conde Vilb'- 
Rey em reformar a Armada com que 
determinava partir entrada deSetembro pera 
o Achem , como tinha efcrito a D. Francifco 
De^a , Capitáo de Malaca , como atrás fica 
dito , e pera eíla jornada fez todas as prepa-* 
raides que Ihe parecéram neceflarias. E loga 
na enttada de Setembro furgiram na barra 
de Goa tres naos do Reyno , de que era 
Capitáo mor D. Jorge de Soufa , que vinfaa 
embarcado na mefma nao Caftello , em que 
o anno atrás paflado de (eifenta trnba vinda 
do Reyno« As mais naos eram a Garga , de 
que era Capitáo Diogo Lopes deLima , que 
y inha proWdo com a Capitanía de Maluco } 
S. Filippe, de que eraCapíi^ Vafeo Leu»- 
ren^o de Barbuda, o Cana^áe; e a Alg^ 
ravia , em que vinha Vafeo Fernandes PimeiT* 
tel ^ que arribou ao Re/nor Surtas as naos ^ 

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Dec. vil Liv. X. Gap. XVr. 5^f 

€ eilando aínda com a mor parte da cargal 
dentro em íi , Ihe deo hum tempe táo groíTo f 
que fo^obrou a nao S. Filippe , que eílava 
mais chegada a térra. O que o Conde fentio 
muito por nao ficarem mais que as duas pe- 
ra levarem a carga da pimenta. Pelo qud 
determinou de as defpedir muito cedo , e 
deíiilio da Armada do Achem , e nao foii« 
bemos a caufa porque ^ ou fe Ihe veio alguní 
regimentó de novo , de que nao tiveraos no- 
ticia. £ vendo que ceíTava aquella jornada ^ 
entendeo em prover de Armada a coíla do 
Malavar, fem embargo deeftar de paz » por 
haver novas que em alguns rios fe armavaoi 
alguns coífairos pera lahirem ás prezas. 

E porque o Reyno de Cananor eftava 
aínda de guerra, defta Armada fot por Ca- 
pitáo mor D. Francifco Mafcarenhas , qu¿. 
levou tres galeotas Latinas , e doze navios 
de remo, cujos Capitáes eram os feguintes» 
D. Pedro de Menezes , Ayres de Saldanha ^ 
Manoel de Saldanha íeu irmáo , Fernáo de 
Miranda de Azevedo , Pero de Mendoza ^ 
Alexandre de Soufa , Mem Dómelas , Jero- 
nymo Dias de Menezes , Diogo Soares de 
Albergarla , Bernardo de Azevedo Couti- 
iiho , Jeronymo Teixeira de Macedo , Mat- 
theus de Figueiredo , Manoel Furtado ^ Ma^ 
jioelSimoes. De todos eítes navios ficou em 
Coa o de Jeronymo Dias de Meneaes ^ q^ 
Co^to.tom.ír.PdL Na fe 



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' 5r6i ASIA de Diogo de Couto 

fe íicou negociando de algumas coufas , que 
partió dahi a poucos dias , levando em íua 
companhia alguns navios , aífitn com cabal- 
los pera os portos do Cañará , como com 
£izendas pera as naos do Reyno aCochim. 
E indo tanto avante como o porto de Ba- 
fecalá ao mar , houveram viña de tres Pa- 
raos de Mata vares , que cuidando que os 
Boflbs navios eram de mercadores , por ferjá 
aArnaada paíTada adiantCi osforam deman- 
dar, cuidando que tinham na máo alguma 
boa preza, Jeronymo Dias conhecendo os 
navios , e entendendo fuá determinagáo j to- 
mou confelho fobre o que faria : « AÍTentá- 

> ram que os efperaíTem , e pelejaíTem com 

> elles , porque de ouira maneira perder- fe- 
y hiam todos aquelles navios y que hiam em 

> fuá companhia ; e elles podo que pudeíTem 

> efcapar aos Malavares , já havia de fer 

> com a infamia da fogida , coufa que os 

> foldados que álli hiam tinham por mui 

> grande vituperio, e aífronta , e por íífo 

> nao temiam o perigo , ainda que o viíTem 

> muito grande , e certo. y^ Levava Jerony- 
mo Dias deMenezes quarefita foldados dos 
jnais bifarros , e roncadores da India , e an- 
tre elles hia humGafpar Carvalho da obri- 
ga^áo de Alvaro Paes de Soto-maior , ho- 
mem de eftatura ordinaria , mas ñas fei^Óes 
táo robttfto^ e carregado^ que parecía hum 

iat- 



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ÜEC. Vil. tiv. ¿ Cap- XVf. s^i 

falvagem , porque as peftanas , e fobrancelhas 
Ibe cahiatn fobre os olhos , de modo que 
quafi Ihos cubfiam, eelle táo cabeludo poí 
todo o corpo , que era huma monftruoíi- 
dade ; e com iíTo era táo vaícnte faomem , d 
táo deílro ñas armas , que nao havia entre 
os Toldados do feu tempo quem Ihe fizeíle 
Tantagem naquellas coufas« Eíte vendo vii^ 
os navios dos Mala vares com grande preflk 
a elles , difle a Jeronymo Días de Menezeí 
que fe apreíTafle , e que puzeíTe a proa cm 
hum y que vinha adiantado , e que ae paíTa^^ 
gem oaxoraíTem; porque quando os outroá 
dous chegaflem , tíveflem menos dotitrarios.í 
Jeronymo Días o fez aífim j e apertando a 
x^mo, chegáram ao coflfairo , e deram-íhe 
huma furriada de efpingardaria , de que Iheí 
derribáram muitos Mouros , e jontamentef 
Ihe puzeram a proa^^ onde hia o Gafpar Car- 
val ho , que á primeira pancada fe arremeíFoU 
dentro no parao com huma efpada , e rodel- 
la , e como hum leáo faminto fe metteo en- 
tre os Mouros , ém que fez tal eílrago ^ qud 
defpejou a proa, efoi paflando avante pelas 
coxia com aquelle fíiror, dekando iá mai¿ 
de dez efpeda^ados , e aílíni os foi levando 
até o mafto , e aínda adlante delle , que che- 
gáram outros foHados, que o ajudáranfi a 
averiguar a vltofia táo apreííadamente , que 
quando os outros dous paraos chegáram ^ 
Nn ü li 



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$r¿4 ASIA DE DioGo de Couto 

já tudo era concluido , e os noflfos recolhif 
dos ao navio com algumas feridas. 

Vendo os coíTairos aquelle eíirago nos 
feus , recolhendo de paíTagem alguns , eme an- 
davam pelo mar , foram enveftir o noflb na- 
vio ; mas primeiro leváram huma carga de 
ardiheria , que era hum fakáo , e dous ber- 
ros , e após ella mais de trinta efpingardas 
a volca de algumas pancUas de pólvora , que 
fe empregáram táo bem , que quando che- 
gáram a fe envedir , já nos navios vinham 
perto de trinta Mouros derribados. E como 
elles vinham com aquella furia , ao abalroa- 
rem o noflb navio , fe lan^ram logo dentro 
mais de íincoenta Mouros , com que os nof- 
ios tiveram huma muito afpera batalha , em 
que os noíTos moflráram bem feu valor, e 
esforzó, principalmente oGafparCarvalho, 
que á efpada , e rodella desfez muitos dos 
que abalroáram pela parte em que elle eftava. 
Mas todavía como os Mouros eram muitos » 
e todos fe lan^áram em o noíTo navio por 
todas as partes , foram levando os noflbs até 
a poppa, e aínda alguns fe recolbéram de- 
baixo do toldo , donde as fréchas dos inimí- 

fos, que dentro oshiam bufcar, easrepre- 
ens6es de Jcronymo Días de Menezes , e 
de outros Toldados de valor, os fizeram ar- 
xebentar outra vez pera fóra , e metterem-fe 
na batalha , que anda va encarnizada ^ e cruel i 



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Dec. vil Liv, X. Cap. XVL s^S 

c tantas coufas fizeram osnoíTos, que ap(> 
der de golpes lanjáram os Mouros fóra do 
navio , íicando-Ihe dentro mais de feíTenta 
efpedafados , e os outros rao efcaldados de 
fuas ináos , que em chegando a feus navios , 
fe aíFaftáram , e deram á vela pera o mar , 
deixando elles tambem os noíTps em tal es- 
tado de encravados das fréchas , de abraza^^- 
dos do fogo , e de feridas dos feus terra- 
dos , que houve foldado de quatro | e finco 
íínaes cruels , e penetrantes. 

Vendo Jeronymo' Dias de Menezes os 
inimigos recolhidos, e os feus táo mal tr^- 
tados , defpejou o navio dos Mouros mor* 
tos , que lanjou ao mar , e deo i vela pera 
Batecalá. E nao acho que dos noífos foífe al- 
gyn) morto , mas todos , ou os mais a perí-» 
go diíTo. E cfaegando a B;atecalá, acháram 
lá os navios de fuá companhia , que fe fou- 
beram recolher ; e o Feitor Portuguez , a 
quem nao foube o nome , foi defembarcar 
todos os ferldos , e os levou pera fuá cafa , 
onde os fez curar com muita diligencia , e 
refguardo , provendo-os de todas as coufas « 
que Ihes foram neceíTarias, Poneos dias de- 
pois difto chegou áquelle porto Manoel de 
Saldanha porCapitáo mor de quatro navios 
da Armada , que vinham dando guarda a 
aJguns navios , que hiam pera Goa , e leva- 
va dous paguéis , ijue tomou no caminho , 

qU9 



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f;66 ASIA dk Diogo de Couto 

que requeréram de preza diante do Feitor, 
que Ihe foram julgados , por dizerem qu^ 
nao levavaro cartazes , fem embargo Á09 
jyiouros delles fe queixarem que os Capitáes 
dos noíTos navios ihos fumiram, e engullí* 
ram* ÍEm fim os paguéis foram allí vendido^ 
com lodo o recheio por quatro , ou finco m\\ 
pagodes , que fe repartíram entre todos. E 
deixando alli os navios, a que biam dando 
guarda , por íer já paragem fegura , torná- 
lam-fe pera o Malavar ^ levando comíigo 
os outros da companhia de Jeronymo Dias 
de Menezes ¡^ que fe fippu curaiidp com feu9 
fpldados. 

CAPITULO xvjr- 

Das caufas em que o Conde proveo : e dé 
como mandou Domingos de Mefquita ef^ 
perar os tagutis do Malavar , que 7;/- 
nbam de (Jambaya , com cor de alevanta^ 
do : e da grande deflruicao que nelles fez : 
e de como faleceo a Conde Vifo-Key : e das^ 
partes , e qualidades de fuá pejfoa. 

DEfpedida a Armada de D. Francifco. 
Mafcarenhas pera o Malavar , deo o 
Conde dcfpacho á carga das naos , e á es- 
critura doReyno, que como nao eram mais 
que duas , partíram em poucos dias andados 
de Janeiro de 1564. e paliando pelas varíe* 

da- 



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Dec. VIT. Liv. X. Cap. XVII. ^67 

^ades daquella jornada , chegáram a falva^ 
memo ao Reyno, E alíim aviou o Conde 
ao Arcebifpo D. Gafpar pera ir vifitar as 
fortalezas do Norte , ever fuasovelhas com 
,0 olho , que «ra a primeira vifíta^áo , que 
fez depois de vir do Reyno. E pera ilfo Ihe 
deo huma efcufa galé , e huma fufta per^ 
ieu férvido , e todas as niais co^ifas necefla- 
lias pera a jornada. Tinham já chegado a 
<joa as novas dos paraos , que pelejáraiQ 
com Jeronymo Dias de Menezes , ^e de ou- 
tros , que eram íahidos a roubar contra o 
contrato das pazes , que com taata folemni- 
dade jurou com o C^amorim. Mandou-fe-lhe 
queixar pelo CapUSo de Chale , que fe vio 
com elle , e Ihe reprefentou aquellas coufas 
como cpnvinham ao Eítado , lembrando-lhe 
<]uc dos contratos das pazes os mais impor* 
cantes Capítulos fe quebráram , que eram : 
Nao fahirem mais ladróes de todos os feus 
portos, nemhaver nelles navios deefporáo, 
e que todos fe (cortariam , e fariam paguéis^ 
Lembrando-lhe a obriga^áo que tinha de 
cumprir o que jurara , e em que ficava de 
caftigar aquelle crimc multo bem. Ao qut^ 
Jherefpondeo o CJamorim , que elle nao fabií 
de tal , que deviam de fer alguns ladróes for» 
migueiros , que fe os achaíTem , os tomafleni , 
equeimadem ; e que fe elle os colhefle ás 
píaos /Q$ mandaría c^fllgar naui gravemente. 



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yÉjS ASIA DK Diofio DE Covró 

Vendo o Conde aquella razio , e enteiu- 
dendo que eram aquillo coufas dos Mou«» 
ros I que íémpre foratti occnfiao da guerra , 
€ que nunca já mais deixáram de a tecer com 
o C^tnofim pera contra nos ^ pelos grandes 
proveitos que ñas pilhagens alcan9avani, de^ 
terminou íatisfazer-fe daquella aíFronta nos 
mefmos Mouros. E fabendo que éram pafr 
fados pera Cambaya mais de oirenta psfgueis 
4de todos os rios do Malavar , e que leva- 
vam cartazes dos Capitaes de Chale % ^ Car 
xianor , determinoü de os mandar efperar , 
e abrazallos a todos , e mcttellos á efpada 
a todos os Mouros que nelles foflcra , e man^ 
dar pera eíle eíFeito alguns navios com no? 
mes de alevantados , como o C^amorim dizia 
que eram os feus Paraos. E pera ella joma?- 
da dizem que commettéra hum cerco Fidalr 

Í;o , que fe Ibe efculára , com dizer que aquil- 
o era quebrar pazes , e que nao podia manr 
dar matar homens , que hiara com feguros 
Reaes , e que nao tinham culpa do que os 
Jad roes faziam. 

Ifto foi íabido por lium Domingos de 
Mefquita, cavalleiro muiro honrado, epei- 
ra cuja condi^ao , e natureza eram aquellas 
coufas hum grande alvitre. Foi-íe ao Conde 
Vifo-Rey , e pedio-lhe de mercé aquella em- 
preza , dizendo, que elle tomava íobre ñ. 
ludo aquillo ^ e fó elle quería dar ^ Déos 

con- 



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»Ec. VII. Liv. X. Caí». XVII. 569 

conta della ; porque contra Mouros , e ini- 
migos tao fallos nao íe havia de guardar 
primor , nem Jei de guerra. O Conde co* 
mo o conhecia, e íabia do íeu esforzó , e 
valor , eftintou muitoofferecer-íe-lhe , e deo^ 
Ihe huma caravela , e duas fudas com cento 
£ vinte homens , fem declarar a ninguem 
aquella jornada, nem fefaber pera onde era; 
e com fiftas obriga^Ó^s íe foi Domingos de 
Mefquita. 

ChegadoelJe aorio de Carapato, man- 
dou Airgir defronte dalle duas leguas ao 
mar, porque nem por huma, nem por ou* 
tra pane paíTafle embarca^ao alguma , que 
elle nao viiTe, e alli fe dekou'eílar des de 
quinze de Fevereiro até todo Marjo , tempo , 
em que os paguéis cohiejáram a vir de Cam- 
})aya. Eaílim como appareciam dedous em 
dous , de tres em tres , e de quatro em qua- 
tro, chegavam as fuftas aelles, e os faziam 
íurgir, e levavam osmais graves, e honra- 
dos Morros á caravela ; e como os lá tinha , 
mandava-os metter debaixo das cuberías, e 
aflim poucos e poneos Ihe levavam todos 
até os paguéis ficarem dcfpejados , e os met- 
tiam debaixo , donde hum e hum eram le* 
vados afllma , e cortadas as caberas , e lan- 
zados ao mar , e depois mandava dar furos 
aos paguéis, e os mettiam no fundo. E a 
^liguns Mouros inandava cozer dentro nag 

vé- 



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^70 ASIA DE DioGo DE CouTd 

velas dos paguéis , e aílim juntos os maiir 
dava lanzar ao mar , onde roorréram fem 
fe poderem menear. E deíla maneira tomou 
mais de vinte paguéis, que fe mettéram no 
fundo , e metteo á elpada , no tempo que allí 
efteve , mais de dous mil Mouros , em que 
lentravam alguns de Cananor , que foi a cau- 
fa de fe tornar a accender a íegunda guer- 
ra , eftando ella já quieta , como na VIII^ 
Decada fe verá.. E foi tamanha a mortan-' 
dade que fe fez nos paguéis ^ que em todos 
osportos doMalavar houvegeraes prantos, 
c clamores, e nasfazendas ficiram todos os 
Mouros quebrados de todo. Porque nos pan- 
guéis traziam toda a fuá fubílancia , e nelles 
ieíl^va todo aquelle Malavar intereíTado , os 
pobres com pouco , e os ricos com grandes 
cabedaes. 

£ edando Domingos de Mefquita nefia 
iobra , adoeceo o Conde do Redondo ; e 
foi táo abbreviada fuá enfermidade , que 
,qua(i fe nao fentio , fenáo quando fe diflfe 
que era falecido, O que caufou em todos 
grande efpanto ,. e trifteza , porque eftava 
muito bem quiílo de todos. Faleceo aos dez* 
enove d¡as\de Fevereiro do anno de 1564. 
em que andamos , ás duas horas da tarde, 
tendo governado a India dous annos e meiow 
E abrindo^fe feu teftamento , acháram que 
fe manda ?a enterrar em Sp Francifco de 
1 Coa , 



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Diíc. VIL Liv. X. Cap. XVII. 571 

Goa , e que feus oíTo^ foíTem depois leva- 
dos á Villa do Redondo ; e aíGm foi logo 
levado a enterrar vellido no habito do glo» 
riofo Padre S. Francifco, e por íima delle 
Jevava o da Cavajlaria de Chrifto , acompa-» 
nhado do Cabido da Sé , e Irmandade da 
Santa Mifericordia , c todas as Ordens y e 
Clerifia da Cidade, 

Era o Conde do Redondo hometn de 
bom corpo , gentil-horoem , bem podo no 
jcháo ; e ainda naquella idade dp iincoenta e 
fete annos , em que morreo , era galante^ 
Foi homem fácil, alegre, bem aflbmbrado , 
rauiro avifado , e grande cortezao , e tinh^ 
ditos multo galantes ; foi libera] , ao meno9 
nao foi tacanho , amigo de juíli^a , e traba- 
Jhou fempre muito que fe fizeíTe com intei? 
reza, Foi filho de D. Joáo Coutinho o pri- 
meiro Conde do Redondo , e de Dona Ift? 
bel Henriques filha de D. Fernáo Martins 
Mafcarenhas , fenhor da Lavra , Alcaide móp 
de Montemor o Novo , e de Alcacere dQ 
Sal , Commendador de Mertola , e de AIa 
modovura , e Capitáo dos Ginetes. Foi efte 
Conde p. Francifco Coutinho cafado cotn 
Dona Maria deGufmáo, filha de Francifco 
de Gufmáo, e de Dona Joanna de Blasfe, 
Camareira mor da Infante Dona Maria , e 
elle fcu Mordomo mor. Teve o Conde D. 
Francifco Coutinho da CondeíTa (r^s filhos , 

e 



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^7* ASIA DB DiOGO DE Couro 

e oito filbas ; dos filhos chamava-íe o maíg 
velho D, JoSo Coutinho , que falecea me- 
nino: o fegundo fe chamou D. Luiz Cou* 
tinho I que herdou a cafa , e foí cafado com 
Dona mecia , filba de D. Aleixo de Menezes , 
Aio de ElRey D. Sebaftiáo , e de Dona 
Luiza de Noronha ; morreo em África na 
batalha de Alcacere com o mefmo Rey D. 
Sebaftiáo: o terceiro fe chama D.Joáo Cou- 
tinho , que boje he Conde do Redondo, 
porque herdou a cafa por íéu irmáo nao ter 
íilbos. As íilhas chamava-fe a mais veiha 
DonalfabelHenriques, que foi cafada com 
o Commendador mor de Chrifto D. Diniz 
de Alencaftre : a outra Dona Joanna de Guf- 
máo , que foi cafada com Ruy Gongalves 
da Cámara , Conde de Villa Franca : e a 
outra Dona Guiomar deBlasfe, cafada com 
D* Simáo de Menezes. E tres Religiofas, 
duas no Mofteiro da Efperan^a de Lisboa , 
Dona Confianza , e Dona Catharina , e Dona 
Violante no Mofteiro de S. Joáo da Villa 
de Eftremoz da mefma Ordem de S. Joao : 
e Dona Anna , e Dona Luiza , que morrS* 
ram meninas. Teve mais humfilho baftardo 
por nome D. Manoel Coutinho , que foi 
Clérigo. 



CA- 



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Decada VIL Liv. X. 575 

CAPITULO XVIIL 

De como por morte do Conde do Redondo 

fuccedeo na governanfa da India Joao 

de Mendofa : e das coufas em que 

logo proveo. 

FAIecido o Conde D. Francifco Couti- 
nho deíla vida prefente , eíbndo feu 
corpo depofítado na Capella mor de S. Fran- 
cifco de Goa , fendo prefcntes o Cabido da 
Sé, por fer oArcebifpo D.Gafpar a viíitar 
as fortalezas do Norte , como atrás diílemos 
no Cap. X, do X. Livro : eftando inais D* 
Belchior Carneiro Bifpo da Ethiopia, eto« 
das as Ordens , e Irmandade da Santa Mi-* 
fericordia , Lopo Vaz de Siqueira Capitáo 
de Goa , Lopo Vaz de Siqueira Veador da 
fazenda , Henrique Jaques Ouvidor geral ^ 
Gon9aIo Louren^o de Carvalho Chanceller 
do Eftado , Manoel Leitáo Secretario , e to« 
da a Fidalguia , e Nobreza que havia em 
Goa , e os Vereadores , e Officiaes da Cá- 
mara , mandou o Secretario Manoel Leitáo 
trazér huma boeta , em que eñavam guarda- 
das as vias das fuccefsóes da goveman^a da 
India, queeram quatro, que o mefmo Con- 
de comíigo trouxera de Portugal , que eram 
aíltgnadas por fóra pela Rainha Dona Ca;- 
Iharina, ayo, e tutora de EÍRey D. Sebat^ 

tiáo ^ 



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574 ASIA DE DioGo de Cóura 

tiáo, e Regedora dos Reynos de Portugal 
por fea neto fer menino de dcz annos. Ti- 
nha cada huma deíla fuccefsóes , e Alvarás 
tres fellos de cera vermelha com as Armas 
de Portugal; e tirando aprimeira fuccefsáo, 
a amoílrou em alto , pera que viHem aue ef> 
tava inteira , fellada , e cerada , fem íe nella 
tocar, nem bullir, e entregou-a ao Capí rao 
daCidade, que alii preíidia, pera que com 
o Ouvidor geral a examinaíTe , pera verem 
ie fe tinha bullido nella , e fe era o final 
de fóra da Rainha Dona Catharina ; e de- 
pois de vifia , a abrió o Secretario , e achoil^ 
üe nella que havia por bem que D. Antao 
deNoronha fuccedeUe na governan^a dzln^ 
dia por morte do Conde do Redondo. E 
porque D. Antáo de Noronha fe tinha ido 
pera o Reyno o Janeiro paflado de feflenta 
e dous , que acabara de fervlr a Capitanía 
deOrmuz, a tornáram arecolher no cofre, 
de que tiráram a fegunda , em que fe fez 
a mefma diligencia que na primeira ; e abrin- 
do-a , achou-fe nella Joáo de Mendoza , que 
tinha vindo de fervir a Capitanía de Mala- 
ca , que eftava prefente , a quem o Secre- 
tario Manoel Leitáo leo a fuccefsáo, e eiíe 
a acceitou, de que fe fez hum Termo, em 
que fe aílignou ; e logo allí na Capella mor 
deo a menagem do Eílado ñas máos do Ca- 
pítao da^ Cidade Lopo Yaz- de Siqueira v e 



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D£c- VII. Liv. X- Cap. XVIII. S7^ 

depois pofto de joelhos defronte de hum Al- 
tar , que pera iflb (é armou , com as máos 
em íima de hum MiíTal , e hum Crucifixo , 
fez juramento de guardar , e manter juñi^a 
ás parres conforme ao e&ilo , e ordem do 
Eftado. 

Feíto ¡fto , enterrou-fe o corpo do Con- 
de , e o Governador fe recolheo pera as ca- 
fas em que poufava , que eram a nolTa Se- 
nhora do Rofario , onde hoje he a Novi- 
ciaria , e cafa de prova^ao dos Padres da 
Companhia , donde fe nao quiz mudar pera 
a fortaleza , porque no Setembro feguinté 
efperava por Vifo-Rey , e por feís mezes 
nao quiz fazer mudanza de íi. E logo co- 
me^ou a entrar em defpacho das coufas de 
Malaca , Maluco , e mais fortalezas ; e an- 
dando nefta prefla , chegáram a Goa huns 
Embaixadores do C^amorim a vifitar o Go- 
vernador, c a volta diflb Ihe fizeram quei* 
xume de Domingos de Mefquira do grande 
damno , e edrago que tinha feito nos feu9 
vaflallos , e em fuas fazendas , e paguéis , que 
montavam muito: pedio-lheque Ihe fizeíTe 
emenda de tudo , como amigo que era do 
C^amorim , e elle fervidor de ElRey de Por- 
tugal , pois aquelle Capitáo fobre contrato^ 
de pazes , e navegando feus vaflallos com 
feguros Reaes ,' os tomara , matara, erou- 
bára* O Giovernador fe moftrou muito fen** 

ti* 



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^76 ASIA DE DiOgo de douTO 

tido daquelle negocio , e Ihe refpondeo , qud 
aquelle Capitao aadava alevantado por efle 
mar como coíTairo » que fe o padeíTe colher 
ás máos , que fatisSzeilb feus vaíTalIos ; e que 
ie o elle pud^fle haver , que elle Ihe pro- 
mettia de o caílígar como o cafo o merecía^ 
E andando eftes Naires neíle requerimento ^ 
chegou i barra de Goa o Domingos de Mef- 
quita, e oGovernador omandou defembar-* 
car prezo , porque o vlfTem os Embaixadores 
do C^morim , que por fer lempo fe foram , 
levando muitas íatisfacdes do cafo ; e em fe 
partindo , foi logo lolto o Domingos de 
Mefquita , e o Governador Ihe fes multas 
honras, e mercés pelo cafo^ 

As novas da morte do Conde do Re^ 
dondo chegáram a D. Francifco Mafcare- 
nhas, queandava noMalavar, que elle kti^ 
tio em extremo pelo grande parentefco , e 
^mizade que com elle tinha i e porque era já 
em Margo, e fe Ihe acabava o provimento 
da Armada ^ tratou logo de fe ir pera Goa , 
edecaminho viíltou a fortaleza deCananor^ 
onde deixou gente , e provimentos , porque 
jiavia de novo alteragoes no Ade Rajao; 
porque entre os paguéis , que Domingos de 
Mefquita metteo no fundo , foi hum feu , 
em que Ihe matáram muitos Mouros prin- 
cipaes deCananpr, centre elles hum muito 
honrado^ e ricp^ cuja mulber^ que era Im^ 

ma 



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• Üac VIL Liv. X. Cat. XVIII. $77 

maMoüra Varonil » e de tnuita authoridade 
entre elles , andou como douda , perfuadmdo 
a codos 0% Mouros a tomarem vingan^a de 
canto damno. Eceve tanta for^a nefte nego^ 
cío , que os fez ajuntar ^ e formar huma liga 
geraí contra a nofla fortaleza , qne foram 
celebrar em fuas mefquitas com íuas ceremo- 
nias y fazendo fuas protetta^óes de fe nao 
alerantarcm de fobre ella fem a deftruirem 
4e todo. Pera o que comegáram a convocar 
todo oMalavar, e ajuntar perrechosi emú* 
AÍ^Óes pera aquella conffiira^áo* 

Depois de D. Francifco Mafcarenhas del- 
xar aquella fortaleza próvida , fbi*fe pera 
Goa ; e chegando ao rio Canharoto, onde 
ElRey de Cananor reíide^ entrou nelle ^ e 
mandou esbombardear o feu pagode , que í¡^ 
ca fobre a ribelra j porque eftava ElRey já 
declarado por parte do Ade Ra)ao , e dos 
Móuros , porque efla era a mor aifronta que 
fe Ihe podia fazer; e aíüm a íentio ElRey 
tanto ) que logo ao dia feguinte de madru- 
gada deram os Mouros na ribeirá dos na- 
vios , que eílavam á fombra da nofla forra* 
leza y e Ihe puzeram fogo , com que íe con- 
fumíram trinta entre grandes , c pequeños , 
em que os moradores daquella fonaleza re« 
cebéram notavel perda. Com ifto iicou a 
guerra de todo declarada, eoCapitSo della 
D. Payo de Norpnha efcreveo ao Governa-, 
Cmo.Tm.IKP.lL Oo dor 



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57^ ASIA Ds DióQo D& Covrct 

dor Joáo de Mendoza o .^do em que fi-- 
cava ) affirniandolhe que aquelle invernó íe- 
m de gránele trabalbo , pedindo-lhe o pro* 
veflfe depreíTa. £ D. Francifco Mafcarenhas 
foi pera Goa fem faber o que era paflado 
emCananori e da barra mandou recado ao 
Governador, eoique Jhefazia aíaber deiua 
chegada , que o mandou entrar por fer já 
cabo do veráo^ e ferem vindo a mor parte 
das naos da China y e Malaca , Bengala , e 
outras parces. 

Depois defta Armada recolhida deram 
buma carta ao Governador de huns Chrí- 
fiaos, que efiavam fazendo feu negocio no 
rio de Girapatáo , em que o avifavam como 
naquelle rio fe recomerá huma nao do 
Acliem , que hia pera Meca , a mais rica que 
daquelle porto partirá havia muitos annos^ 
que com rempo fortuito fora alli tomar y e 
que fe iicava negociando pera fahir na lúa 
íeguinte ^ e que fe á mandaíTe efperar tinba 
Bella huma muito rica preza. O Governador 
alvoro^ou'fe com eíla carta; e tendo defpa* 
cbado Antonio Furtado de Mendoza feu fo« 
brinbo em huma galeota pera invernar a Da« 
lináo y e fahit era Agofto com huma Arma- 
da a efperar as naos de Meca nos po^os dé 
Surrate , deo prefla á fuá partida , e mandou 
^rmar outra galeota , de que fez Capitaa 
Joáo da Cofia Peleja^ e dous navios mais y 
. . .■s> ■ ■ de^ 



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D«c. Vil Liv* X Gaf. Mílt sH 

¿e que fez Capitáo de faum Balcházar áú 
Cofta , e do outro a Luiz de Aguiár , e deP 
pedio Antonio Fürtado de Mendoga com re-^ 
gimento que fe foffe^lanjar ao niar de Ca- 
rapatáo *m parte que o nao viflem da tér- 
ra, e que daíli mandaíTe todas as* noiies os 
catares á boca -da barra ^ onde achariam re-^ 
cado dos Ghritláos do que lá hia. Porque 
tambem os avííbu do que haviartí defazer^ 
e Ihe mandou huma almadía com huiti Chri« 
ftáo de recado , pera com diíSmulajao andaí 
pefcando naquelle rio ^ e de noiie tomar 
falla dosquo eftav^ift em térra , é avifar aoís 
navios do que foíTe neceíTafio ; é que tdntol 
que foíTe de madrugada , fe lóriíaírem a re- 
colher pera Antonio Fu nado.; E eftando elfe 
naquella paragem continuando oscatures ná 
fuá vigía , foram avifados que os princi- 
paes, e mais ricos mereaciores da nao cpm 
iodo ooura^ e 4inííeiro fe paíFavam a hym 
Taurim pera fe irem pera Canibaya , e que 
eílíveflem fobre'avifo , porque eíiava ceítoi 
cahirem-Ihe ñas maos. E eftando os noííbs 
eoíri grande ' al verdeo , e vigía aguardando 
a preza, qlie cuidavatii tifrlram certa , quÜí 
a defai^eriiura que o día q&en^ Taurini há- 
yia, de fallir pera fórá , difleram hiiris pefcá- 
dotes ao$ m€(ft;adbre¿ da nao qtíe háyiá tres/ 
ou' quairo dias qué Vianí hfuns ftávíós arf 
Hiar : fempre ^egí ho^ma mefma parsgeiit v é? 
•:» Oo ii qu« 



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5S0 ASIA DE DiOGo Dte CóuTd 

que nao fabiaiq o que efperavam* E como 
os Mouros sao niuito precatados , e acau* 
telados , receando que íoík aquillo ciliada, 
de improvifo mudáram o conlelho ^ e tor* 
sáratn a defembarcar fuas fazendas. E ten- 
do Antonio Furtado de Mendoza avifo diiV 
to pelos Chriftáos da térra , havendo por 
efcufado eftar alli mais tempo, defpedio os 
navios pera Goa, e elle na fuá galeota pa& 
fou a Uamáo ; e o que Ihe fuccedeo na en- 
feada de Cambaya he do tempo do Vífo- 
Rey D. AntSo de Noronha ^ que entra na 
yiIL Decada pera onde fe guarda. 

capí tu lo XIX. 

De alguns Capitaes , que o Gobernador Joaó 
de Mendoza defpachou pera fóra : e de 
algumas coulas em que mais proveo até 
chegar o Vifo-Rey D. Antao de Noronha , 
que entra com a VIIL Decada : e das 
partes , e qualidades da pejfoa dejle Go- 

' vernador. 

POr fe ir acabando o veráo foi o Go- 
vernador loao de Mendoza dando pref» 
fa ao deípacbo dos Capitaes , que haviam 
de ir pera fóra , que foram Alvaro de Men* 
do^a pera a Capitanía de Maluco, que foi 
embarcado na nao Santa Barbara y de que 
eraCapitáuD.JoáoCoutiflhOj que era pro* 

vi* 



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Dec. vil Liv* X Ca?. XIX. y8i 

vído daquellas viagens , e levou muiros prp- 
vimeníos pera ac^^uella fortaleza : e aífim Pe- 
ro de Taíde inferno pera a Capitanía de 
Ceiláo , edeo-Ihe alguns navios , gente , di- 
nheiro, e muni^es, porque o Madune hia 
continuando na guerra contra o Rey daCo« 
ta feu irmáo* 

Nefte mefitio tempo chegáram cartas de 
p. Payo de Noronha Capiráo deCananor, 
em que Ihe dava conta de como o Ade Ra^ 
jaoncava declarado contra aquella fortale- 
za; e queNicore Garipo lingua, e jangada 
della o avifára da conjura^So , que ellava 
feira entre todos os Mouros do Malavar 
contra ella , pedindo-lhe que com multa pref- 
fa a foccorrelíe com gente, e provimentos , 
porque já comefava haver aíTaltos , e efcara- 
mujas de parte a parte. Pelo que com mui-» 
ta prefla defpedio o Governador a André 
de Soufa com finco, ou feis navios, cujos 
Capitáes eram ; Manoel Travaflbs , Gafpar 
de Brito do Rio,, hum feu irmáo, Thomé 
de Soufa Coutinho , dous irmaos Betanco^ 
res , Antonio Ribeiro; e deo regimentó a 
André de Soufa pera fer Capitáo^ de toda 
agente de guerra, que afliftiíTe naquella for- 
taleza , e refidifle ñas tranqueiras de fóra , e 
que nunca D. Payo de Noronha fahiíTe da 
fortaleza , por fer já velho , e muico pejado , 
nemmandaiTe della pera fórq coufa alguma. 

Che* 



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ySz ASIA pí DioGo DE CouTo 

Chegado André de Soufa a Cananor| 
achou a fortaleza fechada, e vigiada , e o 
Ade Rajao pofto em campo com muito po- 
der. E tomando entrega das tranqueiras d^ 
fóra , as repartió pelos Capitaes que levou , 
e comefOü a fe fortificar de novo , e dar 
aíTaltos , e fazer algumas fahidas , em que 
cortou muitos palmares aos ínimigos» que 
j;e toda a fuá tubílancia. E aflim fe paílbü 
todo o invernó nefta guerra lenta fem acon- 
tffcer coufa notavel que fe ppíFa efcrever. 
pGovernador, pofto quetinha porfem dA? 
YJda vir-lhc em Seiembrp fucceífor , naa 
deixou de mandar concertar a Armada pera 
o yeráo feguinte , porque p que vieffe a 
achaíTe preftes : e ajuntou pera ellas as cour 
fas neceífarias fem qu^erer poupar pera fuas^ 
pagas t e de feus criados , como depois al- 
^uns fízeram , que o anno que efperavam 
iucceíFoF fe de/cuida vam defta obrigagaq 
úo neceíTariaao Eftado, e poupavam tudo 
o que podiam pera fe deipender np que 
queriam. 

OGovernador tanto que.entrou Agofto, 
poz huma nao no mar prpftes , e negociada 
perq partir como Ihe o tempo défle jazigo,. 
em que havia demandar fazer a viagem de 
Japao que tinha ^ com a fortaleza de Ma- 
laca que já fervíra y em que havia de ¡r Sir 
fíii<) de Mendop ^ pnd^ perteudia tambem 

cm- 



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Dec. vil Lir. X. Cap- XÍX, sh 

cinbarcar-fe D. Dioniz Pereira ^ ñlho dé 
Conde da Feira , pera ir entrar na Capitanía 
de Malaca , pera que eñava deípachado , por* 
que fe receava que vieíTe ñas naos do Rejr* 
no D. Diogo de Menezes , que era próvida 
jdella primeiro que eIJe , e quería ter antes 
diíTo dado á vela ; porque quando elle che« 
gaíTe já Ihe feria forjado mandallo reque* 
rer á Malaca, no que fe dilataria o tempo. 
Mas elle Ihe atalhou eíle difcurfo ; porque 
primeiro que Ihe déíTe jazigo pera partir ^ 
iurgíram a tres de Setembro na barra der 
Goa as naos do Reyno , em que vinha D« 
Antáo de Norqnha por Vifo-Uey da India, 
e nellas D, Diogo de Menezes , que o Vifó-^ 
Rey D, Antáo de Noronha defpachou logof 
pera ir na mefma nao entrar na fuá Capí-* 
tañía , como adiante fe verá na Decada que 
fe fegue a efta VIL 

Antes das naos chegaretn defpadio o 
Governador Joao de Mendoza feu Ibbrinho 
Rodrigo Furtado porCapitáo mor de kte^ 
ou oito navios , pera ir dando guarda á cá- 
fila de navios, que hiam aos rios do Cañará 
a carregar de mantimentos , porque edav^. 
Coa muito falta delles , e com iflo concluí 
remos com o tempo defie Governador , e 
com as partes , e qualidades de fuá peíToa» 
Foi homem meáo , magro , hum pouco do- 
brado n9s coftas, )}Qtnem verda4¿iro, libe^ 

ral. 



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584 ASIA DB DiOGO DE COTTTÓ 

ral , amigo de juftjca , fácil nos negocios ^ 
e de refpoftas muibem attentadas , ouvio 
íémpre as partes muito becn , teve continua* 
mente as portas aberras pera todas as vezes 
que Ihe queriam fallar , que lie a inelhor par- 
te , e a mais neceíTaria que ha de ter o que 
¿overna. Foi iilho de Antonio de Mendo- 
^ , e de Dona Ifabel de Cafiro, filha do 
Capitáo D. Antáo. Foi cafado com Dona 
Joanna de Aragáo, filha de Nuno Rodrigues 
Barrero y Fronteiro mor do Algarve , Vea- 
dor da fazenda , e Capitáo m& da Cidade 
de Faro, e da Villa de Loulé, e de Dona 
X^eonor de Miláo. Teve della hum fó filho , 

3ue fe chama Nuno de Mendoza , mancebo 
e multo prejjo , e valor , que no fer , ver- 
dade, bondade , entendimento ^ chriftanda- 
de y e mais partes que tem , moftra bem cla- 
ro vir dos troncos de que procede , pelo 
;»nimo, e esforjo que nelle fe enxergou ñas 
Ijatalhas , em que fe achou em Flandres em 
companhia doSereniíIimo Principe Arquidu- 
que de Aullria , cafado com a Sereniilinia 
Frinceza Dona Ifabel , fiiha do muito Caiho- 
lico , e Chriftianiífimo Rey das Hefpanhas 
D. Filippe noflb Senhor , que Ihe deo em 
dote os Edados de Flandres. Foi Capitáo de 
Tangere, Partió efte Governador pera o Rey- 
no nojaneiro feguinte, emcuja embarcayáo 
o Vifo-Rey P. Amáo de Noronha Ihe fez 

muir 



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Dec. Vil. Liv. X. Cap. XIX. ySj 

niuitos favores. £ por achar tempos contra- 
riosi, arribou , e ñáo quiz lomar Mozambi- 
que por refpeitos que pera iflb teria ; mas 
EaíTou a Ormuz , onde eflava por Capitao 
K Pedro de Soufa y que era grande feu ami- 
go , e o fefiejou muito. £ daquella fortaleza 
partió em Novembro , e tomou a llha de 
Sanca Helena, ondedeicou algumas perdizes 
pera caíla , deque coda a llha eñá hojecheia. 
£ aílim deitou mais huma vacca , e hum no- 
vilho pera fe crearem. Chegou a Portugal 
pobre , porque de Malaca tirou pouco , óu 
nada , e muico menos da governan^a que Ihe 
durou pouco. £ conforme á fuá condi^ao , 
enatureza, íe Ihe durara mais, cuido que ti- 
rara menos. £ com ido temos concluido 
com eda VII. Decada á honra , e gloria de 
Déos noflb Senhor , que vive , e reina in 
fascula faeculorum. Amen. 



FiM DO LiT. X. DA Decada VIL 



D& 



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X 



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I 



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