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Full text of "Descripção analytica da execução da estatua equestre erigida em Lisboa á gloria do senhor rei fidelissimo D. José I. : com algumas reflexões, e notas instructivas, para os mancebos portuguezes, applicados á escultura : e com varias estampas que mostrão os desenhos, que servirão de exemplares : alguns estudos que se fizerão : a maquina interna, e methodo, com que se construio o modelo grande : e toda a escultura do monumento, do modo que se expoz ao público"

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Presented to the 

LIBRAR Y ofthe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 



Cv \ 



Digitized by the Internet Archive 

in 2010 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/descripoanalOOmach 



.MACHADO DE CASTRO, 

DESCRIPÇÃO ANALYTICA ' 

DA EXECUqXo 

D A 

RE.AL ESTATUA EQUESTRE 

D o 

SENHOR REI FIDELÍSSIMO 

D. JOSÉ L, 

A QUAL FAZ O PRIMEIRO TOMO DAS OBRAS DIVERSAS 

DO AUTHOR. 



DESCRIPCAO ANALYTICA 

y 

EXECUqíO 



D A 



ESTATUA EQUESTRE, 
ERIGIDA EM LISBOA A* GLORIA 

SENHOR REÍ FIDELÍSSIMO 

D. JOSÉ L, 

Com algumas reflexões , e notas instructivas , para os Mancebos Portugue- 
zes , applicados á Escultura : e com varias estampas que mostráo os dese- 
nhos , que servirão de exemplares ; alguns estudos que se fizerão ; a ma- 
quina interna, e methodo , com que se construio o modelo grande; e to- 
da a Escultura do Monumento , do modo que se expoz ao Público. 

ESCRITA, E DEDICADA 
A O 

P1INCIPE1EGENTEN. SENHOR, 

PELO ESTATUÁRIO DA MESMA REGIA ESTATUA, 

JOAQUIM MACHADO DE CASTRO, 

Professo na Ordem de Chrlsto , Escultor da Casa Real , 
e Obras Publicas , etc. 



Jo venal sol per isvigllari ali rui. 
Petrarca. Canz. 24. 

PRIMEIRO TOMO DAS DIVERSAS OBRAS DO AUTHOR. 




Por Oriem Superior. 




r >. H.C. inv. ,'.„/„ 



'/.//>>,-. .'.i/><v- /.i </r.i/>,- f>; • MmJe.éiJtó ?*« H-"r <V/.»« 



SENHOR 



A 



Prática das Virtudes nas Acções grandes , 
e sublimes , que Heroes esclarecidos tem obrado 
feio bem da Religião , da Humanidade , e das 
suas Pátrias , lhes conciliou a veneração , e amor 
dos Povos , de sorte , que não satisfeitos estes de 
ficarem essas gloriosas Façanhas , e Proezas can* 
tadas na Poesia , e descriptas nos Annaes Histó- 
ricos , recorrerão à Escultura para representar- 
Ihes as Imagens desses Génios superiores , e ad- 
miráveis ^ a fim (se tanto he possível^) de os res- 
peitarem sempre , como se presentes os gozassem , 
querendo assim immortalizallos. 

Por este motivo , todas as Nações polidas , e 
cultas , desde o tempo da florente Grécia , até o 



século , em que vivemos , se empenharão , com di- 
gno louvor , em erigir Estatuas , assim Eques- 
tres , como Pedes três a varias Personagens , sen* 
do as dos últimos tempos , pela maior parte , eri- 
gidas , e consagradas ao Nome , e gloria de So- 
beranos , como âquelles , a quem vão só se deve o 
respeito público , e particular , muito superior a 
todo o resto dos Estados , mas porque pelo emi- 
nente Lugar que oceupao , das suas sabias deli- 
berações pende a ventura de seus Povos. 

O Augustlssimo Rei , o Senhor D. José I. , 
de immortal Memoria , mui glorioso Avó , e Tio 
de K. R. A. , tanto se desvelou , no centro de 
trabalhos espinhoslssimos pelo bem de seus ajfor- 
tunados Fassallos , que levados elles pelo estimu- 



lo da fidelidade y e reconhecimento , quizerao com 
singular Brazao erigir a too Clemente Sobera- 
no huma Estatua Equestre , em que eu tive a 
ventura de ser o Estatuário elegido pelo mesmo 
Augusto Senhor para executalla , dignando-se de 
preferir o meu modelo a outros , que se lhe presen- 
tárao. 

A referida Estatua pois , Augustlsslmo Se- 
nhor , faz o objecto destes Escritos ; circumst an- 
el a assas poderosa para que a V. A. R. se deva 
unicamente consagrar esta Obra , em que mostro a 
circumspeccao > os desvelos , as meditações , os es- 
tudos , e os talentos , que deve ter todo o Artista , 
que chega a ser encarregado , como eu fui , de 
hum semelhante Monumento y a fim de que ? che- 



gando a feliz Época , em que os seus féis Vassal- 
los , já de espíritos socegados , possuo mostrar em 
público a gratidão , que profissão a V. A. R. 
querendo levantar4he Estatuas , que transmiti ao 
ã Posteridade a memoria das Heróicas , e Reaes 
Virtudes , que V. A. R. de continuo pratica em 
beneficio de todos os seus Estados , o Simulacro 
se execute de modo , que seja digno do Soberano 
Prototypo , que ha de representar. 

Esta perfeição , que desejo inspirar nos ventu- 
rosos Artistas , que houverem de executar primo- 
rosas Estatuas de V. A. R. vem a ser gloriosa 
nao só para toda a Nação , mas ainda mesmo pa- 
ra V. R. A. • pois quanto maior he o número dos 
Vassallos, que no Valor , nas Sciencias , nas Ar- 



tes , e em toda a qualidade de virtudes resplan- 
decem , tanto mais brilhante he a gloria do Sobe- 
rano , que os domina : por isso disse Camões , que 
de ver o nome dos súbditos engrandecido se pode 

julgar qual he mais excellente, 

Se ser do Mundo Rei , se de tal gente. (*) 
Por tanto , estou persuadido , e tenho por cer- 
to , muito AltOy e muito Poderoso Príncipe , e 
Senhor nosso , que será do Real agrado de K. A, 
R. , que todos , em todas as Classes , aspiremos 
à perfeição , a que podem chegar as humanas for- 
cas ; de cujo Régio agrado temos a gloria de ver 
tantas , tão repetidas, e tão magnificas provas 9 
na Augusta Munificência , com que V* A. R. se 

{*) Lusi. C. i. Est. io. 

B 



tem dignado de fundar Estabelecimentos Estudio- 
sos , premiar Sábios , e animar os applicados ; or- 
denando sefranqueem a todos proporcionados meios 
para alcançarem tão glorioso fim : e pelas benefi* 
cas , e illuminadas Deliberações de V. A. R. te- 
remos nós os Portuguezes o relevante júbilo de 
ver neste Reino propagado o bom gosto das bel- 
las p e fecundas Artes , que aos mais polidos Po- 
vos , assim Antigos , como também Modernos , 
tem servido de brilhante esmalte : e por estes mo- 
tivos podemos ter como evidente que na Augusta 
Presença de hum Príncipe tao cheio de amor para 
os seus féis Vassallos , lhe serão mais acceitos 
aquelles , que desvelando-se em suas próprias fadi- 
gas , e applicaçoes , por qualquer modo concorre- 



rem para os progressos estudiosos dos teus Com- 
patriotas, 

Aíovido por estas circumst anciãs , e pelos sin- 
ceros desejos , que tenho , e sempre tive de nao vi- 
ver em ócio , aproveitando todos os momentos , que 
para desafogo me são permittidos ? e anhelando a 
ser útil na carreira dos meus estudos a vários 
dos meus Nacionaes , me propuz escrever esta 
De: cripçao ? que encerra cm si muitos preceitos 
das Artes do Desenho , tirados da Natureza , e 
da longa pratica , e experiência que tenho , assim 
como apoiados em decisões dos melhores Mestres > 
que das mesmas BeUas Artes tem escrito , com 
acceitação , e applauso universal dos intelli gentes 
delias. 

B 2 



Tendo pois , Augustissimo Senhor , exposto 
com a mais fiel candura os meus sentimentos , ro- 
go, cheio de profunda humildade , a V. A, R. se 
digne de acceitar esta pequena offerta , que só me- 
rece chegar a tao Augustas Mãos por tratar nel- 
la de hum Padrão destinado a prepetuar a memo- 
ria de hum seu Augusto y e tao Benéfico Prede- 
cessor , e pelas puras , e fieis intenções , com que 
reconhecido , -para o mesmo fim o consagro ao In- 
clyto Nome de V. R. A. 

Os meus ardentes votos , unidos com os de 
todos seus mais fieis Vassallos , sao , que DEOS 
prospere sempre os virtuosos Desígnios de V. A. 
R. , conservando-lhe a sua preciosa vida por mui 
dilatados annos , para que tenhamos o inexplica- 



ml júbilo de gozarmos hum Soberano zeloso , e 
amantisshno da Religião , e -por conseguinte 9 
Exemplo de Piedade , Bemfeitor universal , c 
Providentissimo Pai da Pátria. 



DE VOSSA ALTEZA REAL 



Muito humilde, obediente, e fiel Vassallo 
Joaquim Machado de Castro. 



ADVERTÊNCIA 

Sobre a Dedicatória precedente , e da estampa qtie 
lhe compete. 



x\ O quarto período da Dedicatória se achão as pala- 
vras seguintes 55 Os seus fieis Vassallos jd de espíritos so~ 
cegados, etc. 

O dizer 53 jd de espíritos socegados hc , porque esta 
Dedicatória foi feita logo depois que o nosso Governo 
ajustou com a França ficarmos Neutraes na Guerra actual , 
de que o nosso amável Príncipe mostrou publicamente o 
maior prazer pela tranquillidade , que sempre desejou a 
seus Povos ; não obstante os milhões, que nos custou essa 
neutralidade, logo interrompida. 

Nerse tempo já esta obra estava para imprimir- se; 
mas a sua impressão tem soffrido tantos obstáculos, que 
só a lembrança delles causa tédio, c aborrecimento. Hum 
dos grandes embarrços foi o que tenho soffrido a vá- 
rios Gravadores, chegando hum dclles a ter em seu po- 
der hum desenho anno e meio, sem pôr mão na gravu- 
ra que lhe competia , tendo nao obstante recebido a 
terceira parte do ajuste: até que de todo perdida a pa- 
ciência de tolerar tnntos enganos , lhe arranquei de seu 



poder o meu desenho , e quantia , que lhe havia adian- 
tado. 

Duas estampas de outras mãos , depois de as ter 
pago, me deliberei a não me servir delias, por me não 
agradar a sua gravura. Nestes vaivéns dos meus dese«^ 
nhos por tão diversas mãos g quem deixará de conhecer 
o risco , a que andarão expostos ? O certo he que , se com- 
binamos a primeira estampa desta obra (em frente dã 
Dedicatória) com a estampa primeira , que se vê no Fron- 
tispício do Temo avulso das Obras Posthumas de Manoel 
ele Figueiredo , não deixará de parecer-nos ser furtada hu- 
ma da outra. Mas, como os meus desenhos andarão va- 
gabundos por diversas mãos muitos mezes antes de se 
fazer a estampa das Obras de Figueiredo (o que he faci- 
lissimo de provar ) claramente se vê , que se aqui ha fur- 
to, não sou eu que o fiz. Se esta declaração inculca fra- 
queza de espirito , e falta de generosidade de animo 9 
confesso em público, não me atrever, em taes casos, a 
triunfar do meu amor próprio,, pela innata repugnância, 
que tenho a ostentar, lavando me em suor alheio. 

Cançado, em rim, de tantas intrigas, e persuadido 
de que não falta vão desejos de que esta obra não appa- 
recesse, me deliberei a buscar nos Estrangeiros a since- 
ridade , que me negarão vários Patricios. 

Vali-me da Illustrissima Senhora D. Maria Rodri- 
gues Moscoso , para que, por sua intervenção, em Madrid 
se gravassem estas duas chapas, encarregando-se a pes- 
soa intelligente a escolha de Gravador, ajustes, etc. 



Dignou-se benignamente a dita Iilustrissima Senho- 
ra deannuir aos meus desejos, e também de entregar-me 
a carta, que em resposta lhe veio; na qual se acháo, en- 
tre outras , as palavras seguintes a Los quadritos ó la- 
minas son de mucbissima mérito , y se necessita las gr a" 

*ve uno de los mejores Gravadores de Camera. 

Estas duas chapas , que me causarão os fastidiosos 
lances acima referidos, sáo a precedente, annexa á De- 
dicatória ; e a que vai anteposta ao primeiro Capitulo 
desta Descripçao Analytkâ : ambas são allegoricas \ e as 
declarações das suas allegorias achão-se nas duas ulti- 
mas Notas do Discurso Preliminar. 



DISCURSO PRELIMINAR. 



V^ostume foi dos Arquitectos Gregos, segundo refere 
o Escriptor de suas vidas (i) , pubiicarem Descripções 
das grandes obras, que fazião: uso verdadeiramente lou- 
vável, e digno de praticar-se em todas as Artes , para 
o bem dos seus progressos estudiosos (2). A prolonga- 
ção dos tempos , e as revoluções , que tem havido no 

(1) Fies des Architectes. Tem. 1. pag. 48. Fontana ; em a Descri- 
pçao do Templo Fatie. Cap. 2. pag. 5. , citando , e seguindo Vitruvio 
no Proemio do Livro 7. O resto desta Nota , vai no Suplemento às 
Notas deste Discurso , ao Numero 1. O dito Supplemento se acha n<? 
fim desta obra. 

(2) II seroit à desirer que cette coulume fut encore pratiquêe pour. 
le progrés des arts et pour les interets des particuliers. Viés des Archir. 
Tom. 1. pag. 49. O resto desta Nota veja-se no Supplemento ás Notas 
deste Discurso , ao número 2. E náo só no mesmo Supplemento deste 
número, como nos que se lhe seguem a supprir as Notas dos Capítulos, 
se acharão traduzidas as passagens Italianas, e Francezas de todas as No- 
tas, em que houver taes citações. 

c 



li Discurso 

Mundo, consumirão estas obras, c alguma se teria sal* 
vado em o naufrágio , se naquelles princípios estivesse 
dcscuberto o admirável , e proveitoso invento da Im- 
prensa. 

Modernamente, cuido que neste particular a Nação 
Franceza , antes das suas desgraçadas perturbações, se 
tem avantajado ás mais , publicando os seus descubri- 
mentos estudiosos em varias Descripcões úteis para se 
adiantarem as Artes; já declarando os mysterios, e pre- 
ceitos das mesmas Artes ; e já fazendo judiciosas críti- 
cas nas obras , que se achao executadas , com selecção 
do bom e máo , que as mesmas obras contém ; e dan- 
do a razão de huma e outra cousa. 

Descripçoes porém de Estatuas , ainda que algu- 
mas ha , dirigem-se unicamente a noticiar os ausentes, 
do modo com que as taes figuras se achao , ou acharão 
existindo para objecto dos Espectadores ; sem tratar da 
maneira, com que forão executadas, para instrucçao dos 
Artistas. 

Domethodo, que deve usar-se para fundir Estatuas 
Gigantescas, ha duas Descripçoes ; porém daquelle , com 
que os Escultores as executarão , não me consta haveij 
mais que huma. Esta falta será talvez pela difficuldade , 
<jue tem semelhantes escrípcos; pois só o próprio Artis- 
ta, que executa a ebra, pode escrever delia, e decla- 
rar cabalmente as idéas das suas manobras (3) ; por se- 

(}) Como da Pintura e Escultura se tem escrito vários Tratados ex- 
cellentes , talvez se terão persuadido os Artistas serem supérfluas esta? 



Preliminar. ih 

rem estas operações nascidas de huma continuada serie 
de vários sentimentos internos , que a occultallos quem 
os discute no fundo da própria imaginação, como pode- 
rá outro qualquer sujeito comprchendellos , e patenteallos ? 
A Estatua Equestre de Luiz XIV. que fez A£/ Gi- 
rardon (4) , celebre Escultor Francez , foi fundida por 
M. r KeJter, o primeiro que abiio caminho para taes fun- 
dições : e tudo -.juanto ideou este hábil Fundidor teria 
esquecido , se a curiosidade do Arquitecto M. r Boffrand 
não tivesse observado, escripto, e desenhado as opera- 
ções desta m.mobra (5) ; as quaes descreveo com tanta 



Descripçóes ; conhecendo que a perfeição destas Artes depende especial- 
mente do Génio do Professor , e de huma sabia imitação da Natureza, 
como diz Boffrand. Descrip. de la Stat. Eq. de Louis XIV. Cop. 2. 
pag. 15. Mas sern embargo dos vastos estudos precisos, para que a dita 
imitação mereça o epitheto de Sábia , como estas obras são extraordiná- 
rias , e se encontrão nellas vários obstáculos , que os Escritores náo previ- 
níráo, precisa-se mais que o estudo cominam; o que bem se vè na Des- 
cripeáo , que fez Sally , e se verá na presente. 

(4) Esta Estatua , que existia ainda no principio da funesta revolução 
da França , continha 3 1 palmos e meio oeste o plano , que pizava o ca- 
vallo até o alto da cabeça do Heroe. Feja-sc o resto da Nota no Sup- 
plemcnto ao Número 4. 

(5) Pour faire ces tnemoires et les dessews pour les eclaircir , et don- 
ner une idée nette de tomes les operatious neces saíres pour parvenir à 
la fonte, j'ai suivi exactement tons les mvragés , qtn y ont été faits , je 
les ai vu execuicr depuis le ccmniencement jusqu' À la fn , et je les ai 
misdanslordre } etc. Boffrand. Descrip. decequi a été pratique pourfondre 
en bronze d'un seul jet la Fig. Eq. de Louis XI V. Avan-propos. pag. 4. 
Imprimio-se em Paris. 1743. 

C 2 



IV Discurso 

individuação, e clareza, que fora o estas memorias suffi- 
cientes, para que o Escultor Mf Lemohw guiado por el- 
Jas (não obstante fcltar-lhe a prática de fundições) di- 
rigisse a fundição da Estatua Equestre de Luiz XV. , que 
fez para a Cidade de Bordeaux (6) . 

Depois desta Descripção, que fez Boffrav.â, se pu- 
blicou em Paris outra da mesma natureza ; porém com 
alguma novidade no methodo (7) : muito mais circum- 
stanciada, e mais rica de estampas, e de Impressão, co- 
mo obra, que o Senado mandava fazer, e imprimir. Es- 
creveo-a M: Mariette , sobre as memorias feitas por M. r 
Lempercur , ancieti Echevin do mesmo Senado, que assis- 
tio a todas as manobras (8). 

Porém os referidos Authores , tratando tão diffusa- 
mente das operações de fundir as ditas Estatuas, no que 
respeita á Escultura não dizem cousa essencial ; confes- 



(6) Lors que Mr. Lemoine , Sculpteur a fait la Figure Equestre 
àe Louis XF. pour la Ville de Bordeaux , // y avoit 50 ans que celle 
de Louis XIV. pour la Filie de Paris , etoit fondue : les Mouleurs , 
Ies Forgcrons et les fondcurs , qui y avoient tté cmployés , n'etoient plus 
vivans ; et la pratique en auroit été perdue saus ces mémoires etces des- 
seins , que jai communiqués avec plaisir d Mr. Lemoine. Ahi mesmo 

P a g- ?• 

(7) Suivant cette méthode , /'/ est presque impossible de manquer au- 
jourd" bui ces ouvrages , quelques considerables quils scient. Patte. Mo- 
numens eriges en France a la Gloire de Louis XV. Article IV. de Ia 
Fonderie. pag. 33. 

($) Iroprimio-se em Paris, em 1768. 



Preliminar. v 

sando Bo ff rand (9) que neste particular os diversos co- 
nhecimentos precisos para a Escultura são de huma extensão 
muito vasta. Mas náo he a fundição ao que judiciosamen- 
te se chama execução de huma Estatua. 

Todos sabem que huma Figura destas he a Imagem 
de vulto, que representa algum racional: por cuja cau- 
sa, a sua configuração, a sua belleza , ou enormidade, 
e em fim o seu Ser de Estatua procede immediatamen- 
te da Escultura: e da Fusória depende tanto, como qual- 
quer obraLitteraria , que se imprime, he dependente do 
Typo , do qual não tira mais que o mecanismo da es- 
tampa , e todo o seu Ser (diga-se assim) consiste no 
assumpto, de que trata, e no modo, com que se acha 
exposto. 

Eis-aqui os justos y e evidentes motivos , que me 
obrigarão a intitular esta obra ;a Descripção Analytica , 
òâ Execução da Real Esratua, etc. ta ainda que não trato 
da sua fundição : circumstaocia , que me não compete por 
existir o Sábio Director d'essa manobra , a quem toca 
esse assumpto ; e por ser matéria , que se acha tratada 
muito individualmente , não só na Encyclopedia , mas 
ainda com maior extensão nas duas allegadas Descripcões 
das Estatuas de Luiz XIV. , e Luiz XV. y cujas narra- 



(9) "J e n'entrerai point dam 1'explication des précepts de la Sculptu- 
re: lesdivers connoissances qtti y sont necessaires , sont d'une etendue trop 
vaste , etc. Boftrand. Descrip. etc. chap. 2. pag. 15. reste da Nota v. 
tio SuppUmmto. 



VI 



Discurso 



coes dão todas as luzes precisas para se conseguirem com 
felicidade semelhantes emprezas. 

M. r Sally , Escultor Francez , que executou a Esta- 
tua Equestre de Frederico V. em Copenhague , he que fez 
huma Descripçao (10) tocante á Escultura; na qual de- 
clara as suas idéas , os seus estudos , e de que modo 
executou aquelle Monumento. 

Este Author na sua narração foi mais conciso, que 
eu ; porque escreveo especialmente para Professores, e 
para pessoas de bastantes luzes nas Artes do Desenho : 
e por esta causa não precisou declarar preceitos d'Arte, 
nem corroborallos com Authoridades para se acreditarem. 

O meu fim he o mesmo , que o de Sally em huma 
parte, e em outras he differentc. Em querermos descul- 
par-nos (u) estamos conformes , com esta diffcrença, 
que clie mostra ser a exacta imitação da Natureza quem 
oimpellio a fizer algumas cousas, que ápreoccupação dos 



(10) Sáo dous Opúsculos em oitavo, impressos em Copenhague : o 

primeiro tem por titulo Description de la Statue Equestre de Fre- 

deric V. em 1771. O segundo, 1 intitula-o Suite de la Description, etc. 
imprimiose em 1775. na mesma Corte. 

(1 1) J'aí cru devcir en donner une descripticn , en explicant mes 
idées et tncs motijs , me serve d'excuse pcttr plusiun cboscs et J asse en 
tnême tons ccnnoitre que ílon sculcnent je n'ai jait ricnt au haz rd ; 
mais que j'y ai cté induit et autorisé , scit par dcs r ai sons de necessite, 
soit par des exemples rcspect.tbks , soit par les circvnstanccs des tews et 
des lieux. SfcUyi Descrip. eic. na Carta dedicatória ao Marquez de Ma- 
rigny, pag, V. e na pag. 29 de la Suite, torna a mostrar que escreveo 
para o fim predito. 



Preliminar. vii 

Professores parecerão defeituosas ; e eu pertendo mostrar 
que faltei a varias bellezas da Arte por causa do limita- 
díssimo tempo, que se me deo para executar esta obra; 
e violentado por capricho alheio, obrigando-me a seguir 
falias desenhos, que por todos os motivos naodeviâo ser- 
vir de exemplares. 

Não duvido que alguns poderão dizer (e até citan- 
do bons Authores ) que estas satisfações me não escusão das 
commettidas faltas : que evitasse eu os defeitos , se os conhecia , 
ou não fizesse a obra. Mas também me persuado que não 
pensarão assim aquelles, que souberem as circumstancias, 
que occorrêrão. 

Em que parte do Mundo serão licitas aos súbditos 
proposições, e deliberações absolutas, contrarias ás Or- 
dens de quem com authoridade manda (12)? 

Quem intentar fazer-me esta censura (que talvez 
ande já em varias bocas) attenda primeiro para o syste- 
ma Politico, e para as Historias das Artes, e alli verá 
não ser só em Portugal que tem suecedido estes casos, 
nem eu o único Professor , que , a pezar dos próprios co- 
nhecimentos, tem soffrido estes desgostos. 

MJ. Sally j quando foi a Dinamarca fazer a Estatua 



(12) Se naquelle tempo as minhas vozes podessem chegar aos ouvi- 
dos do Ministro de Estado, primeiro Movei, e Inspector Geral desta, e 
mais Obras Públicas, creio que attenderia as minhas razões 5 assim como 
âttendeo as que lhe propuz , para que a cabeça do Heroe , e a do cavai- 
lo náo ficassem rectas: porém no principio da obra nem este desafogo me 
foi accessivel , e nesta occasiáo já se náo podia fallar no mais. 



viu Discurso 

Equestre de Frederico V. , para previnir obstáculos, e 
inconvenientes, fez o seu contrato com a clausula, que 
se declara em a Nota 22 do 3. Cap. desta obra: e com 
toda essa cautela , não lhe foi possível executar tudo o 
que ideou , ainda sacrificando o seu próprio interesse 

('3)- 

Arnolfo, Arquitecto, e Escultor, que floreceo no 

principio do Século XIII. , por causa de hum capricho 
fanático dos Florentinos do seu tempo , não pôde fun- 
dar (por mais razoes que allcgou) hum Palácio sem os 
defeitos, a que o obrigarão (14)* 

Vinhola, fez em Bolonha hum Palácio de máo gosto, 
obrigado pela extravagante fantasia do próprio dono 

Vasari, suecedeo-lhe o mesmo no Palácio, que lhe 
incumbio Júlio III., junto a Roma (16). 

Que não soffreo Bninelleschi , a respeito da cúpula 
da Igreja de Santa Maria dei Fiori de Florença} Chegarão 
a insultallo de insensato , e a expulsallo fóra da assem- 
blea dos Artistas , e Deputados da mesma Igreja, que 
se ajuntarão para deliberar sobre o projecto de Brunei/es- 



Çi-Ç) Aprés avoir éprouvé le cruel effct, que 1'auteur d'une ouvrage 
doit ressentir ... aprèstnctre eteurdi , sur les contrariétés que faieprou- 
vées j etc. Sally. Descrip. de la Statue Ecj. de Fred. V. pag. 16. 

(14) Vasari. Fite de piu cccellente Pittori , ScuUori , c Arcbitetti. 
Tom. 1. pag. 15-. 

(15) Viés des Architc. Tom. 2. pag. 24. 

(16) Ahi mesmo, pag. 36. 



Preliminar. ix 

chi : mas a solidez das suas razões , vencendo em fim 
aquella turba de ignorantes , fez com que se lhe fiasse a 
empreza ; coarctando-lhe porém a liberdade , e dando- 
lhe por cautela hum companheiro (de quem elle veio 
a desquitar-se) tal, como os vencidos. A tudo se sujeitou 
o hábil Artista (17), para que se visse em público a sua 
capacidade. 

Michelangelo Buonarotij o gigante da Escultura, no 
Governo de Pedro de Medicis , teve o desgosto de que 
este Príncipe o empregasse largo tempo no ridiculo tra- 
balho de fazer-lhe estatuas de neve (18). 

A' vista de tão qualificados exemplos, ecircumstan- 
cias não receio a sobredita censura nas minhas satisfa- 
ções ; além das quaes , também intento dar a conhecer 
que partes tem a Escultura em hum tal Monumento , e 
delias participar algumas noções aos Mancebos Portugue* 
•zes principiantes da minha profissão , assim como aos 
curiosos, que delia ignorão asdifficuldades (19); de cujo 



(17) Ahi mesmo, Tom. 1. pag. 19$. e seg. 

(18) Ahi mesmo, pag. $2$. 

(ip) Muitas pessoas , que náo tem as Artes do Desenho no devido 
conceito, que ellas merecem, pelas grandíssimas difficuldades que tem, e 
vastíssimos estudos , de que necessitáo os seus Professores , para se desen- 
ganarem, basta que leiáo com reflexão , náo digo toda a obra de Palo- 
mino , mas o Cap. 4. do seu Museu Pictórico , em que trata do Dese~ 
nbo. Aíurdtori , censurando os que tem em pouco as profissões alheias , 
diz : Ognun tiene in pregio 1'Arte o Scienza da se professata , e suole 
o ja iun conto , o almçno non aver la doyuta stima di quegli studi 

D 



x Discurso 

conhecimento se pôde inferir o grande cuidado , que de- 
ve haver na eleição de Professores hábeis (20) para se- 
melhantes emprezas , sem sujeitallos a quem ignore o 
delicado gosto destas Artes (21), para não prejudicar o 
credito de huma Nação inteira : pois que os monumen- 
tos públicos são huns signaes , que logo á primeira vis- 
ta mostrão a civilidade, e luzes, que os Povos tem das 
Sciencias, e Artes (22). 

che sono professati da gli altri. Riflessioni sopra il Buon Gusto. Par. r. 
Cap. 4. pag. 134. Edic. de Napol. 1755. E na pag. 12,7. , diz Ma 
sono poi ciecbi per discernere i difetti delia lor professione , e per ravi sa- 
re in se stessi . . . vanita , etc. etc. 

(20) Ce seroit s'epuiser en longs et vains discours , que de vouloir 
faire sentir combien il est importam de cboisir ce qu'il y a de plus ba- 
bile parmi les Artistes , hrs qu'il est question d'élever quelque monttment 
public, qui , par 1'interêt qui y est attaché , doitjixer 1'attention detout 
un penple , meriter ses sujfrages et ceux des siécles d vetiir. Descrip. 
destravaux qui ont precede ... la fonte en bronze d*un seuljer. dela Stac 
Eq. de Louis XV. chap. 2. pag. 23. 

(21) L'intention de YAuteur seroit donc de faire appercevoir ala 
plus grande partie des personnes qui emploient les gens d'art , combien 
les choses de mode , qui charment , son ennemtes du bon gotít , de leur 
jaire entendre quelles devroient sacrijier leurs pretendues lumieres À cel- 
les de l'Artiste , et ne se pas jigurer quelles scachent , sans etude , ce 
que les Artistes même en tres-petit nombre son à peine parvenus à bien 
apprendre aprés avoir employé la plus grande partie de leur vie à cette 
recberche. Avant-propos do I. Tom. das Dures Diverses de Mr. Cochitt. 
pag. VI. E ahi mesmo , na pag. VIU. diz On doit cboisir avec soin 
i Artiste , mais ensuit il faut lui accorder une conjiance entiere. 

(22) Entre tous les peuples de la Grece les Cariens estoient reputes 
Us moins polis , et les sAabandins entre les Cariens passoin pour telle? 



Preliminar. xi 

Nesta obra, imitando Sally ^ declaro os estudos , que 
fiz para executar a Estatua, de que trato (23) ; e se eu 
tivesse antecipadamente visto a Descripçao daquelle in- 
cançavel Escultor , de grande soccorro me serviriao os 
estudos, que elle escrupulosamente fez : porém depois de 
ter o meu modelo grande , original do bronze , quasi 
completo , he que por mercê do Excellentissimo Mar- 
quez Estribeiro Mor , vi a estampa , e Primeira Parte 
da Descripçao da Estatua de Frederico V. pelo referido 
Sally , que de Copenhague se remettêra ao nosso Augusto 
Soberano. 

De tudo , o que aqui relato , muitas cousas parece- 
lão aos Professores supérfluas , e eu muitas omittiria , se 
houvesse em Portugal, como em outras Nações, muitos 
escritos destas Artes : mas sendo este (póde-se dizer) 



ment stupides . . . Cependant tous les exemples qu £ on apporte de leur stu- 
pidité et de leur manque de jugement , se reduisent aux jantes grossie- 
res que leitrs Architectes avoient commis dans leur bastimens publiques 
etc. Perrault. na Trad. e commento de Vitruv. Liv. 3. Cap. 1. pag. 68. 
em a Nota $4. seg. Edic. de Paris de 1684. Feja-se a tradução, e res- 
to da A r ota, no Supplemento. 

(2 ;) Cuido que ninguém duvidará serem úteis , no estudo das Ar- 
tes , as mesmas diligencias, que sedesejáo nodasSciencias , do qual diz 
o Sábio Muratori. a Non poço beneficio avnbbono prestato alia Repu- 
blica delle Lettere alcuni celebri ingegni , se avessero publicata ognuno 
la maniera da lor tenuta nelle studiare , nel legere , nel trasciegliere , e no- 
tar e , e molto pia nel comporre. Refles, sopra il Buon Gusto. Part. I. Cap. 
8. pag. 216. da citada Edic. de Nápoles. 

D 2 



xn Discurso 

o primeiro , ainda o julgo deminuto, servindo para os 
curiosos o que he escusado aos Professores. 

Já em 1788 publiquei hum Discurso sobre as utilida- 
des do Desenho , e tanto aquclla obra , como a presente 
(*) , não me nutrem o desvanecimento de ser absoluta- 
mente o primeiro Portuguez , que escrevo destas Artes. 
Em 1733, publicou o P. Ignacio da Piedade Vasconcel- 
los o seu Artefactos symmetriacos , etc,\ e em 1616. cen- 
to e dezoito annos antes , havia Filippe Nunes dado ao 
Prelo em hum volume duas Artes 3 huma Poética, outra 
de Pintura ; ambas de igual merecimento, que he bem 
pouco. Porém o referido Artefactos , pode-se-lhe chamar 
a Compilação dos desvarios. : posto conter algumas cousas 
toleráveis.. 

Modernamente se publicarão duas Traducçoes de 
Vinhola, ambas de merecimento maior, que o das referi- 
das obras de Vasconcellos , e Nunes. Porém isto he só to- 
cante á Arquitectura , e deste Author diz Mengs ( sem 
negar-lhe a bondade) / Vignoli sono aiVitrimi come la Re- 
gia Pamasi alia Poética di Orazio (24). Que he paridade, 
como a que em Portugal se pôde fazer da Poética de 
Borralho com a de Freire : e em Castella , a de Ringila 



(*) Muito depois de ter posto de parte está Obra , como acabada; 
me vi obrigado a escrever , e publicar a minha Analyse GraficOrtho- 
ào%Or\ e para submetella ao mesmo conceito, que formo da outra minha 
de que fallo acima , he que acerescento esta nota. 

(24) Opere di António Rafael Mengs. Tom. 2. pag. 221. d* Edic;. 
Sfal. 



Preliminar. xhi 

com a de Lusan. Do metro , e suas espécies , dizem 
muitos Sábios ser o material da Poesia ; mas não consis- 
te na medição dos versos o espirito daquella Arte , o 
qual todo está no enthusiasmo, no filosófico, e no rhe- 
torico delia. O mesmo digo de Vinhola ( tocante ás suas 
cinco Ordens) e de qualquer outro, que nas Artes do De- 
senho só trata simplesmente de medidas. E como nestes 
meus taes quaes escritos não me restrinjo unicamente a 
medidas (posto que de algumas trato) avançando algum 
pouco a tratar do filosófico destas Artes, isto me faz pa- 
recer que sem arrogância posso proferir a sobredita pro- 
posição, de ser o Primeiro Portuguez, que de tal circum- 
stancia escreve. 

A varias amplificações, e notas induzio-me o mes- 
mo intento, ainda não ignorando que alguns Sábios lhe 
chamão charlataneria , e he sentença de hum Douto, que 
dizer tudo o que se sabe, ou se pode dizer he pedantismo (25). 
Porém este Sábio verdadeiramente reprova isto nas obras 
systematicas y ou didácticas, que se dirigem unicamente 
a ensinar, seguindo a ordem de certos preceitos, e re- 
gras; pois que em tal caso, quanto mais concisas, cla- 
ras , e deminutas forem essas regras , tanto maior será 
o merecimento da obra. Esta porém não he dessa na- 
tureza : não he hum systema regular , e methodico de 
preceitos, posto que declare alguns ; nem digo a deci- 
ma, parte do que se podo dizer a este respeito. E se , isto 

C25) VerneL Na Imroducçáa á sua Grammatica Latina. 



xrv Discurso 

não obstante, me quizerem condemnar , eu voluntariamen- 
te me sacrifico á censura , no honrado projecto de ser 
útil á mocidade, que pertendo instruir (26); mostrando- 
lhe , pelo que respeita á profissão , parte do que tem jul- 
gado, e dito os grandes homens das mesmas Artes, ex- 
citando-lhes assim a curiosidade para verem esses exem- 
plares : e, pelo que toca a outras Artes, eSciencias, co- 
nhecerem que das alheias pode cada hum tirar alguma 
cousa , que á sua própria seja útil (27) ; pois que he hu- 
ma prova deter imaginação estéril quem das faculdades, 
que outros professão , não sabe tirar alguma cousa , que 
lhes sirva á sua. 

Das citações tira-se o proveito de mostrar as fontes 
aos menos instruídos; e também uso delias, para que não 
haja quem julgue me quero erigir em Legislador da Ar- 
te. Eu amo a verdade ; e porque me persuado que esses 
Authores a encontrarão primeiro que eu, não quero rou- 
bar-lhes a gloria, que lhes compete; fazendo minhas as 
suas sentenças , ou decisões (28) : as quaes sigo em 



(26) alvo mais principal, para que deve olhar attent.tmente quem 
escreve , he a utilidade de quem lê. Longino. Trat. do Sublime. Logo 
no principio. 

(27) Tudo o que he útil ao fim de cada Arte , lhe pertence ; seja 
que o conhecimento da cousa lhe loque em particular , ou que diga res- 
peito a outras Artes , e Sciencins. L'Art. de Pens. 2.» Part. chap. I. 
pag. 125:. 

(28) He verdadeiramente cousa de animo servil , e de engenho in- 



Preliminar. 



xv 



quanto o meu débil discernimento as acha conformes á 
razão, e á Natureza ; porque em lhes não achando estas 
qualidades, deixo os Authores para encost?.r-me a estes 
dous mais fortes apoios ; pois não me obriguei a jurar 
na palavra dos Mestres. 

Tenho ainda outro fim nasauthoridades que allego, 
o qual he ficar na certeza de que a obra leva alguma 
cousa boa : pois do que he propriamente meu sempre de- 
vo desconfiar. 

Se introduzisse essa erudição no contexto da obra , 
como fizerão Alberti , zPalomino (20) poderia fazella mais 
fastidiosa ; por cuja causa são poucas as passagens , que 
assim vão; reservando-as para as Notas, a fim de que o 
Leitor possa ler, ou deixar o que lhe parecer. 

Isto não obstante , ainda tive outra cautela para 
evitar náusea no Leitor, se me não engano ; e he que, 
considerando que algumas Notas não poderão deixar de 
ser extensas , para nellas dar aos Principiantes , e Cu- 
riosos de boa fé alguns conhecimentos, que desejo par- 
ticipar-lhes , e que essa extensão suffocaria o discurso 
principal, e martyrizaria algum tanto a memoria do Lei- 
tor, me deliberei a cortallas (o que entrei a praticar lo» 



feliz querer antes ser apanhado com o furto nas mãos , que dar o que 
se lhe tem emprestado. Plinio. no Prefac. da sua Hist. Nat. 

(19) Reflexionando nas circumstancias dos tempos , e lugares , julgo 
que Alberúy e Palomino , para enriquecerem as suas obras de erudição, 
que alguns julgáo supérflua } tiveráo para isso parte dos mesmos moti- 
vos que eu tenho. 



XVI 



Discurso 



go no principio deste Discurso) e no fim da obra, em 
hum Supplemento dar esses pedaços truncados , declaran- 
do nas que ficão unidas ao Texto , as que vão incomple- 
tas; e citando o Supplemento no lugar, onde nelle se acha~ 
rã o resto da Nota : e ahi mesmo traduzidas em nossa 
lingoa as passagens citadas em Italiano , e Francez : não 
só porque poucos Principiantes tem destes Idiomas co- 
nhecimento , mas porque tenho visto , mesmo entre Pro- 
fessores de Sciencias, tanto Seculares, como Ecclesias- 
ticos , não entenderem alguns o Francez , e o Italiano. E 
para esta deliberação do referido Supplemento , me dá 
exemplo o nosso Cândido Lusitano, na sua Traducção dá 
Poética de Horácio. 

Em combinar os preceitos da Escultura com os da 
Poesia (30) tive o mesmo fim que mostrou ter o Tasso, 
quando ( fallando com a Sagrada Musa que invoca ) se 
desculpa dos Episódios , que introduz no seu Poema (31). 

(50) Mr. Boffrand, no principio da sua Arquitectura vai combinan- 
do os preceitos desta Arte com os da Poética de Horácio ; ou applicando 
á Arquitectura os que á Poesia descreve o grande Lyrico Latino : e se 
o que diz este Poeta em tal assumpto , serve para a Arquitectura , mui- 
to mais coherente he para a Escultura , e Pintura. 

(51) O' Musa, tu 



Sai , che lá corre il Mondo, ove piá ver si 
De sue dolcezze il lusingbier Parnaso 
Et ch'il vero condito in molli versi 
I piá sebivi , allentando , ha persuaso 
Cosi À l'egro fanciul porghiamo aspersi 



Preliminar. xvii 

Não deixo de conhecer que em Portugal intromet- 
ter-se hum Artista a ser Escritor he huma novidade, que 
muitos poderão estranhar ; e esta só eircumstancia he 
bastante paraattrahir sobre mim muitas censuras, asquaes 
todas antecipadamente desprezo ; porque não as espero 
dos que são capazes de exceder-me. 

Todas as Artes Liberaes dependem deTheorica, e 
Pratica : aquella he sem controvérsia mais nobre que es- 
ta ; por ser a primeira pertencente ao espirito , e a se- 
gunda á matéria : porém como a Prática na Pintura , e 
Escultura exige huma applicação muito assidua , e mui- 
to extensa , os que são frouxos , e os que não tiverão 
huma boa educação, em largando os exercidos manuaes, 
empregão o tempo que lhes resta em divertimentos, que 
lhes suavizem o cançaço corporal , sem cuidarem em il- 
lustrar o espirito ; e daqui nasce haver em todas as Ar- 
tes tantos Professores leigos , que obrão com a mesma 
Sciencia, com que os papagaios fallão. Para exornarem 
pois este seu defeito, por todos os lados culpável, cos- 
tumão dizer: que os Theoricos são na Vr ática inferiores. 

Que forte valhacouto da perguiça ! Especioso sub- 
terfúgio da ignorância ! Quem dirá ( nas Artes do Dese- 



Di soavi licor gH orli dei viso*. 

Sttccbi amdri, ingannato, in tanto ei beve , 

Et 4all'inganno suo vita riceve. 
Jerusal. Liberât. Cant. I. est. 5. Feja-se o Suplemento n a ao num. da No- 
ta. 

E 



XVHl D I S C tf R S O 

nho) que hum Buonaroti, hum Finei, hum Paládio, hum 
Salvador Rosa, hum Rubens, bum Vinhola , hum Coipel , 
c proximamente hum Cochin, e hum Mengs , com muitos 
outros, não forão grandes práticos, porque escreverão, e 
furão tão instruidos na Thsorica? 

Pela precisão da Theorica no Avani-propos da Des- 
cripçao da Fundição da Estatua Equestre de Luiz XV. , 
ainda mesmo não tratando nella da Escultura , essencial 
parte de qualquer obra destas, diz o Author que a ami- 
zade que teve com o 'Estatuário lhe foi muito útil para a sua 
escrita , pelas instrucçoes , e mais circumst anciãs , que elle lhe 
havia participado (32) . 

Na Descripção presente porém , como he relativa á 
Escultura , e o mesmo Escultor da obra o que escreve , 
a-cháo-se essas instrucçoes originarias, sem degenerarem 
na transplantação. E como não ha neste Reino pessoas,, 
cuja curiosidade lhes dê calor para semelhantes escritos,, 
se o próprio Estatuário se não deliberasse a fazer tal es- 
crita , certamente não seria por outro sujeito, nem mes- 
mo intentada; e ainda que o fosse , não poderia satisfazer 
o Público tão precisamente como o mesmo Artista, pe- 
los motivos , que já deixo acima tocados» 

(32) O Author do allegado Avant-propos , foi Mr. Lempereur , e o 
mesmo que escreveo as memorirs para aquella Descripção , porém Mr. 
Mtiriete he que lhas compilou : e este he o que tendo amizade com Mr. 
Boucharãon , Estatuário da dita figura , delle conseguio instruir-se de va- 
rias cousas , que lhe servirão para a mesma Descripção. Veja-se o referido 
Avant-propos , na pag. VIII. 



Preliminar. xix 

Lembro-me que haverá quem me reprove censurar 
eu varias cousas da nossa Estatua , julgando ser este pro- 
cedimento algum pouco desairoso á Pátria : porém os 
que assim pensão enganao-se ; porque os Sábios conhe- 
cem não haver obras de homens isentas de faltas. A sin- 
ceridade he muito formosa : não ha Nação, nem Indi- 
viduo sem defeitos; e por isso os Escritores , que se não 
deslumbrão com o seu amor próprio, e das suas Pátrias, 
são muito apreciáveis (33). 

Mr. Cochin, judicioso crítico das Artes do Desenho 
nas suas Ouvres Dherses censura fortemente varias obras 
grandes da sua Pátria. Na Description Historique dela Vil" 
le de Paris , a cada passo se encontrão censuras contra as 
obras mais distinctas daquella Cidade. 

A obra, de que mais se desvanece toda a Itália , he 
sem questão a magnífica Igreja de S. Pedro , ou Templo 
Vaticano : o Arquitecto Carlos Fontana fez a sua Descri- 
pção por ordem do Santo Padre Innocencio XI. ; e não 
obstante ser aqueile Templo huma obra de tanta Gloria 
para vários Principados, e ser a sua Descripção ordenada 
por suprema Authoridade (34), não deixa Fontana de no- 
tar-Ihe os seus defeitos. 



00 Veja-se aTraducçáo, qce o Douto P. Custodio José de Oliveira 
fez de Luciano , sobre o modo de escrever a Historia. Especialmente de 
pag. 77. até pag. 87. Ediç. de 1771. 

(Ia) Fies des Architectes. Tom. 2. pag. 365. E o mesmo Fontana, 
Templum Fatiçanum, etc. Cap. I. pag. 1. 

E 2 



xx Discurso 

Persuado-me que todos os Portuguezes convém , que 
na Poesia a peça de mais gloria para a nossa Pátria hc 
o grande Poema de Camões ; e nem por isso tem deixa- 
do muitos Nacionaes Doutos, e desabusados de lhe cen- 
surar as faltas , que elle commetteo ; sem que por essa 
causa se eclipsem as luzes de tão brilhante Génio ; por- 
que também Homero dormita : nem a Pátria se deslustra , 
visto que a mais privilegiada de todas não se eximio da- 
quelie fatal erro, que se espalhou por todos os homens, 
e por todos os séculos ; do qual procedem os defeitos 
de toda a humanidade. 

A crítica tem sido o crisol dos estudos (35"): quan- 
do he judiciosa , e não degenera em vil mordacidade ; 
consegue oaffavel acolhimento, eamor dos Sábios (36)* 
não deve pois o seu commercio ser prohibido aos Artis- 
tas. Já tenho mostrado acima que os Professores de ou- 
tras Nações culras atem praticado: porém como em Por- 
tugal sobre a minha profissão he esta a primeira escri- 
tura deste género, etem por sujeito huma obra , que pe- 
lo seu objecto he verdadeiramente gloriosa para nós y 

($5) Lecite, utili, elodevoli snran tra noi lecritiche, le censure . . : 
Jn tal guiza crescera l'Impero delle Scienze , e deWAni. Muratori. PrL- 
mi Diseg. delia Repub. Lett. pãg. 59, e na pag. 1 3. deixa dito : Qua- 
lunqtte Arte Liberale , d Scienza trattata con critica , e illustrata da 
tognizioni erudite, sara. da noi aprezzata. 

(36) Un vrai Philosophe jait pus de cas d'une bonne critique , qut 
de la louange lamienx assai sonnée. Lettres Philos. sur laPhysion. Leu. 
*7- Pag- '57- 



Preliminar. xxi 

vejo-me obrigado a dar esta satisfação aos meus Patrí- 
cios. 

Ser a obra censurada pelo mesmo, que a executou, 
desterra toda a suspeita. Eu mostro, com a maior inge- 
nuidade, não só os defeitos, em que impellidocahi , mas 
igualmente confesso com a mesma lisura, ainda os que, 
segundo tenho alcançado , procederão da minha fraque- 
za, e insufficiencia ; capacitando-me (sinceramente) de 
que tem muitas mais faltas do que eu alcanço ; pois o 
maior gráo de Sciencia , a que tenho chegado, he conhe- 
cer que da minha mesma profissão ainda ignoro muito. 

As Artes do Desenho são de tanta difíiculdade, que 
até agora se não tem achado nellas hum só homem in- 
teiramente completo , sendo de maior mérito aquelíe 
que em si tem reunido mais partes da Arte, que professa. 
Os Povos, que lhes dão mais apreço , cuidão muito na 
boa educação dos seus Alumnos, em que descobrem Gé- 
nio. Depois de estudarem nas suas próprias Pátrias, fa- 
zem-nos viajar, para se enriquecerem de idéas , e beber 
o bom, e grandioso gosto dos Antigos (37) Gregos, e 
Romanos , assim como dos distinctos Modernos : que pos- 
so eu pois saber sem ter sahido da Pátria (38) , faltan- 

(37) Chama-se Antigo, nestas Artes, tudo o que se tem feito des- 
de o tempo de Alexandre Magno , ate o do Imperador Foca. Depiles 
no Corrimento de ['Arte delia Pittura de Du Fresnoy , pag. 75. E por 
Modernos , reputamos os que tem flortcido desde o principio do Século 
14CO. 

(58) Ainda mesmo náo largando a Pátria (sem julgar-me Sábio) po- 



xxii Discurso 

do-me estes proveitosos estudos, e até aquelles , que os 
Artistas das outras Nações achão em seus próprios La- 
res ? Não obstante estas circumstancias , podemos os 
Portuguezes ter a satisfação de que o nosso Monumento 
he dos mais consideráveis, pela sua grandeza, e magni- 
ficência ; e que ainda mesmo nas partes da Arte, alguns 
bons Professores , e Curiosos Estrangeiros o tem visto 
com agrado ; achando-lhe huma das mais diffkeis quali- 
dades , qual he a illusão do movimento : e que sendo 
algumas das outras Estatuas estrangeiras executadas por 
Escultores famosos, que viajarão, e estudarão nas mais 
célebres Academias , não se achao todas essas figuras 
isentas de algumas faltas, que lhes notão os seus mesmos 
Nacionaes instruidos nestas Artes. 

Peio que respeita porém aos defeitos da Estatua 
em questão, os que eu lhe descubro, não me consta ha- 
verem sido notados por algum outro sujeito ; e he pro- 
vável que a ter havido estas censuras , já me teria chega* 
do alguma noticia ; assim como a tive de lhe notarem 
algumas pessoas excesso na grandeza j a que respondo 
no Capitulo X. , em a Nota 13 : tem-lhe censurado 
outros, faltarem-lhe luvas ; de que mostro o motivo no 

deria, não obstante, epóde outro qualquer, sabei mais do que alguns (*) 
insensatos, que só por terem visto Itaiia se julgáo Rafaeis , e Bonarotis. 
Veja-se o resto desta Nota no Supplemento. 

(") A palavra alguns , bem mostra que esta reflexão não comprehenue os Ar- 
tistas beneméritos em talentos, e honra. 



Preliminar» xxnr 

Capitulo III. ; e alguns se escandalizao pelo descuido, 
que se lhe acha em estar torcido hum dos lóros. Mas ás 
pessoas, que se comprazem de semelhantes críticas, pó- 
de-se applicar o que diz Luciatw dos que se occupão em 
escrever trivialidades (39) n'huma Historia circumspecta. 

Logo que intentei escrever esta obra , tomei por£#z- 
preza delia a Verdade. E como nesse tempo não me ha- 
via deliberado a expor certas particularidades , que ao 
escrevella tenho julgado precisas, ou agradáveis á curio- 
sidade, passei então em claro notar varias memorias, que 
me tem feito falta : e desta natureza são algumas datas, 
de que só conservava lembrança confusa; dasquaes, ain- 
da que depois fiz indagações, náo affirmo a sua veracida- 
de. Porém nesta qualidade de escritura he ponto de 
pouquíssima importância a difterença de hum , ou dous 
dias em qualquer data. 

Sobre o estilo, em que escrevo, não duvido have- 
rem pessoas, que o quererião mais ornado ; pois que já 
tenho achado sujeitos desta opinião : poiém conte rman- 
do-me (se me não engano) com os díctames de bons 
Mestres de eloquência , me persuadi que a natureza da 
obra pede huma locução singela , clara, e coí rente: cir- 
cunstancias, que tive sempre diante dos olhes em quan- 



(39) Com razão poderá alguém dizer , que homem taes como estes, 
quando vêem huma rosa não olbão para ella ; mas somente contemplão 
os espinhos que lhes nascerão junto das raizes. Allego a já citada Tra- 
ducçáo do R. P. Custodio José de. Oliveira , pag. 62, 



xxiv Discurso 

to escrevi: e se algumas vezes (que são raras) deixo es- 
ta estrada, he com o fim de variar; mas sempre com a 
clareza , que me tem sido possível. 

Tem tardado muito em apparecer esta Descripção\ 
e a sua demora pode ser tenha produzido em mim os 
mesmos effeitos , que Duarte Nunes de Leão attribue 
ao seu silencio (40) . Quando a concebi , e intentei , 
tive motivos justos para trazella fechada na idéa mui- 
to tempo : depois huma reprehensivel froxidão (eu o 
confesso) me desalentou alguns annos para tomar a pen- 
na , e lançando mão delia com resolução efficaz , os em- 
baraços do meu emprego, e os domésticos não me tem 
consentido manejalla mais do que algumas noutes de In- 
verno interpoladas , e a curtos espnços. 

Além dos motivos de faltas de tempo, para ter sa- 
hido ao Público mais cedo, como nella não fui obriga- 
do a produzir relâmpagos, e he obra unicamente do meu 
alvedrio , quiz trabalhar nesta escrita (já que me não 
foi possível no seu objecto) á minha satisfação , para 
que sendo com mais socego levasse menos defeitos. 

Se na occasião, em que se expoz ao Público a E> ta- 
tua , ou pouco depois, igualmente sahisse esta obra, he 
muito provável , que me servisse de alguma utilidade; 



(40) Na origem da lingua Pçrtugtteza. e no ultimo periodo da De- 
dicatória diz : E porque homens inuidos , e contraries ao bem com m um 
me fizer ao morto ante V. Magcstade com má ten^o, procurando gozar. 
de meus suores , c aproveitando-sc de meu silencio, eu o romperei, ctc. 



Preliminar. xxv 

20 menos na extracção dos exemplares : agora porém a 
publico sem esperança de interesse algum ; o que bem 
prova fazer em mim a honra muito maior impressão, que 
de lucros a sede. 

Porém, supposto que este meu trabalho me não sir- 
va de cousa alguma , poderá para o futuro vir a ser utii 
em varias cousas a qualquer outro Artista ; e não he di- 
gno de ser homem a que lie, que não cuida em o ser mais, 
que só para si, sem querer aproveitar aos outros. 

Tenho declarado os motivos, que me desafiarão a 
compor esta Descripção, e os que me induzirão a seguir 
nella o methodo, que adoptei: e pelo que toca á sua di- 
visão , no primeiro Capitulo trato do projecto da Esta- 
tua j e dos Desenhos , que indevidamente se me derão pa- 
ra exemplares da mesma figura; osquaes exponho estam- 
pados com a mais exacta fidelidade : e as estampas se- 
guintes servem para dar a conhecer os diversos traba- 
lhos, pelo que toca á Escultura do Monumento , e o re- 
sultado desses mesmos trabalhos ; principiando a nume- 
rar todas as estampas , pelas que mostrão os ditos Dese- 
nhos exemplares. Porém a que vai anteposta ao primei- 
ro Capitulo desta obra, e he de mero adorno, exclui-a 
da enumeração, por ser huma alíegoria , que posto seja 
relativa á mesma obra , e á minha Arte , como não se 
dirige a illustrar a declaração dos mesmos trabalhos, jul- 
guei não dever formar serie com as que se lhe seguem (*). 

.(*) Nesta alíegoria personalizo a Escultura , como executando a Es- 

F 



XXVI 



Discurso 



Assim mesmo não incluo na referida enumeração a ou- 
tra estampa do frontespicio desta obra , por querer com 
cl!a erigir (do modo que. me he possivel ) hum Monu- 
mento á gloria do Príncipe Regente Nosso Senhor, em 
veneração das suas Heróicas Virtudes , e cm testemunho 
de que reconheço as obrigações de fiel Vassallo (**)•- 



tatua da Verdade. E lembrando-me da contenda , que sempre tem existi- 
do entre Pintores , e Escultores a respeito das difficuldades de huma , e 
outra Arte , e que tendo os Contendores elegido hum Cego para Juiz, 
este , apalpando huma estatua , conhecera pelo tacto o que era ; e apalpan- 
do huma pintura , dissera que alli náo havia cousa alguma : deste facto 
resultou ficarem os Pintores dizendo ser a Pintura mais artificiosa , por 
mostrar innumeraveis objectos sem terem vulto ; e os Escultores no con- 
ceito de ser a sua Arte mais verdadeira. Lembrando-me pois desta ane- 
docta , e querendo mostrar que sigo a Verdade, finjo estar a Escultura 
executando em mármore a dita Paixão , ou Virtude ; e dous Cegos no 
acto de apalpar a mesma Estatua. Ao lado da Escultura se designa q seu 
Génio em hum menino, com huma tabeliã, em que se lê parte de hum 
elogio desta Arte , declarando-lhe as suas principaes qualidades. E para 
mostrar a que fim se dirige esta Verdade , se mostra do mesmo lado o 
modelinho da Estatua Equestre : enchendo o fundo deste quadro com al- 
guns utensílios da profissão , imaginando a scena em hum Laboratório da 
mesma Arte. 

(**) Esta configuração allegorica finge ser de mármore o Busto do 
Príncipe Regente Nosso Senhor : e , como para fazer-lhe Corte , se ex- 
põe personalizada ao lado direito a Lusitânia ; e deste mesmo lado 
se vê, por entre huma nuvem, como ao longe, o Templo da Memoria. 
Do lado esquerdo , entre algumas nuvens , e librada em suas azas , se 
mos'ra a Virtude Universal ; e como filha, parte, ou producçáo desta, 
individuada , a Fidelidade ; e o Génio da Escultura. 

Indica-se ter a Lusitânia encarregado a este a execução daquelle Re- 



Preliminar. xxvii 

No segundo Capitulo prosigo a matcria do pri- 
meiro , e trato da execução do primeiro modelo em ce- 
ra , e dos primeiros modelos dos Gruppos lateraes. 

No terceiro trato do segundo modelo , executado 
em barro , no qual se fizerão os estudos para servirem 
de guia , ou exemplar na execução do modelo grande ; 
e com a declaração das circumstancias , que produzem 
belleza nas formas do cavallo , segundo a opinião dos 
melhores Authores Cavalleiros, e Veterinários, que es- 
creverão desta matcria. 



gio Busto: e no acto de enfegar-lhe hum papel com a Inscripçáo, para 
lhe gravar no pedestal , a Fidelidade lança mão do referido papel , e ex- 
citando o Génio da Escultura a cumprir os desejos da Lusitânia , appa- 
rece a Virtude universal , que mostrando á Lusitânia o Templo da Me- 
moria j lhe intima ser alli que se deve collocar aquelle sublime Transum- 
pto, por ser o lugar, onde se immortalizáo os Heroes. E o mencionado 
Génio para executar o que se lhe incumbe , se mostra preparado com os 
instrumentos competentes. A Scena se finge no principie da subida para 
o Monte da Gloria. 

Cumpre agora dizer que os Artistas , e Conhecedores demasiada- 
mente ligados ás ninharias da Arte , poderão fazer-me a censura de que 
pertendendo eu fingir ser o Busto de mármore , náo deveria no desenho 
exprimir-lhe sobrancelhas , nem meninas de olhos ; pois que os Antigos 
náo praticarão no mármore esta individuação : mas como assim faz melhor 
effeito , este he o que sempre se deve preferir. 

Por esta mesma causa dei mais força de escuro na estampa XVIIl. , 
que representa o Baixo-reievo , náo produzindo estes sombras totaes , e, 
sendo a praxe commum de os indicar em desenho só a meia tinta. Nas 
obras próprias cada hum se dirige pelo gosto, e circumstancias, que orno» 
vem. 

F 2 



xxvni 



Discurso 



No quarto descrevo huma Symmetria Equestre , até 
aqui não declarada por outro algum Artista ; e em huns 
mappas , que de hum golpe de vista mostrão as dimen- 
sões doscavallos naturaes, que medi, as que seachão no 
cavallo da Estatua , e o resultado das combinações pelo 
natural , que julgo dever seguir-se , segundo a ideal bel- 
leza. 

O quinto Capitulo mostra o methodo , também 
novo , com que executei o modelo grande em estuque \ 
do qual , assim como do cunho sahe o lavor da moeda , 
assim este modelo produz a configuração da Estatua, co- 
mo se vê da noção , que se dá neste mesmo Capitulo, 
declarando a maneira , com que se tirão as formas sobre 
os modelos, para se reduzirem a metal. 

Vê-se no Capitulo sexto o modo, com que se exe- 
cutarão em mármore os Gruppos lateraes , e Baixo-rele- 
vo; que, posto ser esse modo conhecido pelos Artistas, 
sei que em Portugal a maior parte delles , mesmo Es- 
cultores, o desconhecem ; e ainda alguns desses mesmos, 
que o praticão, he leiga, e mecanicamente; ignorando 
em tudo as geométricas razões , que lhe dão todo o va- 
lor : e por esta causa gostarão os curiosos de achar algu- 
ma tintura desta matéria. 

Rclata-se no Capitulo sétimo a invenção Poética 
do Baixo-relevo ; e se discute se he , ou não licito ás Ar- 
tes do Desenho usarem de Allegorias. 

Indica o Capitulo outavo a composição gráfica do 
mesmo Baixo-relevo. 



Preliminar. xxix 

O nono contém huma breve noticia da fundição 
da Estatua Equestre , seu retoque no bronze , e do seu 
effeito visivo dentro no fosso. 

Declara o decimo y e ultimo Capitulo a conducçao 
da Estatua ; sua elevação ao pedestal ; os motivos de se 
fazer montuoso o plintho; e a declaração da allegoria, 
que se inclue no silvado, e cobras do mesmo plintho. 

Depois deste Capitulo decimo , segue-se o Supple- 
mento das Notas , e hum Catalogo das Estatuas Eques- 
tres , e Pedrestes , que se tem erigido na Europa ; ter- 
minando esta Descripçao com a mencionada lista , e com 
a sua indicação este Discurso. 

Acaba de escrever esta Descripçao nos fins do anno de 1-795. E a 
tste respeito veja-se no Cap. 11. a Nota (*), logo seguinte d Nota (24), 
do mesmo Capitulo ; e rogo âo Leitor queira ler a dita Nota (*) antes 
de tudo o mais , porque serve de cautela a varias circumsxancias. 



XXX 



APPENDICE 

AO PRECEDENTE 

DISCURSO PRELIMINAR. 



HiM Agosto de 1809 , casualmente me veio á mão 
hum livro escrito em Allemão, e traduzido em Francez, 
com o titulo seguinte : 

Voyage en Portugal, despuis 1797 jus qifen 1799, par Mr. 

Link , Membre de plusieurs Sociétés Savantes , suivi d 9 un 

Essai sur le commerce du Portugal , Traduit 

de V Allemand. Tome Premier Paris 1803. 

Mr. Link, napag. XIII. do Preface desta sua Obra, 
diz estas palavras: J'ai tache dUeviter, autant qiiil ma étê 
possfbje , tout ce qtú pourrait sentir le pédantisme de la scien- 
ce. Que em Porruguez quer dizer : „ Eu me tenho cs- 
„ forçado a evitar, quanto me tem sido possível, tudo 
„ o que poderia ter algum ressaibo de pedantismo de 



Appendice. 



XXXI 



„ sciencia. „ Mas não desempenha sua palavra em al- 
gumas passagens desta sua Obra , as quaes deixo para 
tratar só do que me compete ; pois não pertendo censu- 
rar ninguém , e só sim defender-me. 

No Capitulo i?, que destinou para descrever Lis- 
boa, e em que trata da Estatua Equestre (cujas particu- 
laridades descrevo, e analyso nesta Obra, confessando, 
com sinceridade não vuigar, as minhas próprias faltas): 
na pag. 223, escreve Mr. Link estas palavras: Cette sta- 
tue ma semblé três medíocre : le cheval et le cavallier sont roi- 
des ; les attributs , au moins dVipres mon sentiment , sont d* une 
mauvais choix et êtune mauvaise exécution : ( quer dizer em 
Portuguez) „ Esta Estatua me tem parecido muito me- 
„ diocre: o cavailo, e o Cavalleiro são duros; os attri- 
„ butos, ao menos a meu ver , são de má escolha , e 
„ de má execução. „ 

j Quanto são diversos os juizos dos homens ! Ve- 
jamos agora o que diz Murphy a respeito da mesma 
Estatua , e seus accessorios ; e juntamente as profissões 
des Authores, para inferir-mos delias qual terá mais co- 
nhecimento da causa ; e por conseguinte , qual dos vo- 
tos he mais attendivel, e de maior pezo. 

Este Author Murphy escreveo também , e primeiro 
que Link , Viagens em Portugal : escreveo em lingua In- 
gleza , e imprimio em Londres. Depois traduzio-se em 
Francez, impresso em Paris. Esta Edição citaremos. 

No 2. Tomo pois, e na pag. 32 principia hum Ar- 
tigo com o título seguinte : La statue equestre de Joseph 



xxxu Appendice. 



premier. Não copiamos tudo, mas só parte das palavras, 
que se oppõem ás do Author Allemao. 

Diz pois nesta pag. Au centre de la place (no centro 
da Praça ) ... est une statue equestre en bronze . . . ouvrage 
ffun grana merite, (em Portuguez) „ Está huma Estatua 
„ Equestre em bronze ... obra de hum grande meri- 
„ to „) . . . pag. 33. Lorsque Von considere ... la difficul- 
té quil y avait à exécuter une statue aussi magnifique (em 
Portuguez) „ Tanto que se considera adifficuldade, que 
„ havia para executar huma Estatua tão magnifica , etc. „) 
.^ . Le modele fut fait par im sculpteur nommê Joachim Ma- 
chado de Castro , qui xonçut et executa pareillement les 
grouppes emblematiques placés sur les côtés du piedestal. Ces 
seuls morceaux suffisent pour etablir la repulatton du sculpteur 
aux yeux des artistes et des amateurs. Le grouppe du côté 
nord est un chef d'oeuvre de conception , de gout et de délica- 
tesse. (em Portuguez) „ O modelo foi feito por hum 
„ Escultor , chamado Joaquim Machado de Castro , que 
„ concebeo , e executou igualmente os gruppos emble- 
yy maticos , postos sobre os lados do pedestal. Só estes 
„ pedaços bastão para estabelecer a reputação do Escul- 
„ tor aos olhos dos Artistas, e dos Amadores {das Ar- 
„ tes). O gruppo do lado do Norte, (he o Baixo-relevo 
„ que faz frente para a rua Augusta) entre outros , he 
„ hum chefe d'obra de concepção, de gosto, e de de- 
„ licadeza) . „ 

La figure et le elevai sont aussi tres-belles produetions. 
(em Portuguez*) „ A figura , e o cavallo são tambem 



Appendice. XXXIII 

3 , duas bellissimas producções,,). Dizendo , em fim > 
que nas fundições se perdem sempre os toques delicados 
do cizel , e que sobre as massas he que se deve exercer 
a crítica; continuando diz: Sous ce point de vue , de Cas- 
tro ti 9 a rien à redouter ; car il a dcployé le taleut à\in grani 
maítre, etc. , etc, (em Portuguez) „ Debaixo deste poiv- 
„ to de vista o Castro não tem nisto nada que recear; 
„ porque elle tem desenvolvido o talento de hum gran- 
„ de Mestre. ,, Na pag. 35" diz : Quant au sculpteur 
Machado de Castro 3 qui avoit ttn droit incontestahle au 
mérite principal de Vcuvrage , comme Fayant dessiné et mode- 
le j il est reste parjaitement datis oubli ; et sur mille Portugais 
il ríen existe peu-étre pas tm qui sache qtfil est Fauteur de 
la statue. (em Portuguez) ,, Em quanto ao Escultor Ma- 
ft chado de Castro , que tinha hum direito incontestável 
„ ao mérito principal da obra , pela ter desenhado , e 
5? modelado, elle ficou em total esquecimento \ e entre 
„ mil Portuguezes talvez não exista hum , que saiba 
,, ter elle sido o Author da Estatua. „ (ibi.) Quoique ses 
talens le placent à cote des premiers artistas de son siecle , a 
peine est il connu dans son propre pays. (em Portuguez) 
„ Ainda que seus talentos o ponhão ao lado dos primei- 
„ ros Artistas de seu século , apenas elle he conhecido 
„ em seu próprio Paiz. „ E finalizando o Artigo na pag. 
37 j elle o conclue deste modo: Nous desirons pour Fhon- 
neur du Portugal que Machado de Castro soit Is dernier 
exemple des talens négligés. (em Portuguez) „ Nós de- 
„ sejamos pela honra de Portugal , que Machado de 

G 



xxxiv Appendice. 

„ Castro seja o ultimo exemplo dos talentos desattendi- 
„ dos. „ 

Todas as pessoas de senso, e que tem alguma luz, 
e afíecto ás Artes do Desenho, sabem que as principaes 
delias são três ; Arquitectura , Pintura , e Escultura : as 
quaes entre si tem huma união tão íntima , que se che- 
gao a chamar irmãs-, e que os seus Professores, de ap- 
plicação, empregando-se , mesmo em huma só, não dei- 
xão de ter grandes noções das outras ; sendo notório, 
que muitos as tem praticado todas com applauso uni- 
versal : do que se deduz infallivelmente, que Murphy , 
por ser Arquitecto , possue da Escultura muito maiores 
conhecimentos do que Mr.Link\ sendo este hum Litera- 
to dado á Botânica , e Mineralogia , como nos indica na 
primeira pag. do seu Prefacio : e á vista disto julguem 
os meus Leitores qual dos dous votos he mais attendi- 
vel ; e se o intrometter-se a fallar decisivamente de fa- 
culdades , cujos principios , e progressos seignorao, não 
he cahir no pedantismo , de que nos attesta haver fugido. 

Diz pois o meu Censor , que le cheval et le cavallier 
sou roides. Para provar o contrario, passo a relatar hum 
facto, do qual, ainda que não tenho testemunhas, terei 
írrtnensas, mesmo da maior graduação, que attestem a 
minha verdade , e sinceridade ; e que não sou capaz de 
impor, e mentir, nem attrahido pelos maiores interes- 
ses. 

O facto pois he o seguinte : no Laboratório , e 
Aula , que estou administrando , existe da dita Estatua 



Appendice. 



XXXV 



hum modelo, do tamanho de quatro palmos, e molda- 
do em gesso; estando casualmente aberta a porta do ga- 
binete de estudo que alli tenho, e achando-se nessa oc« 
casião o dito modelo no tal gabinete , succedeo entrar 
hum cão , que assim que vio o modelo entrou a ladrar- 
lhe, e a querer arremetter-lhe, etc; Prova isto alguma 
cousa , que aquelle bruto se enganou , parecendo-lhe vi- 
vos o Cavalleiro, e seu cavallo ? Logo, assenta muito 
mal o roide , que lhe attribue Link : sendo muito mais 
difficil (em taes casos) enganar os brutos, que os rácio- 
naes. E eu mais estimo internamente o elogio , que 
nisto me fez aquelle cão , do que os louvores dos mais 
sábios Artistas. E na realidade, muitas pessoas, que di- 
visão bem sem óculos, achao nesta peça o effeito da iU 
lusao no movimento: eillusão reflexionada, e não repen- 
tina. 

Dirigindo-se o dito roide ao Cavalleiro , seria pre- 
ciso mostrar-nos em que lhe acha essa dureza, se no tra- 
ge , se na actitude : para reposta de huma , e outra cou- 
sa , serve o que se vê nos Cap. I. , e II. desta Descripção 
Analytica-, onde mostro, que pelo que toca ao trage, fui 
obrigado (contra o meu sentir) a fingir-lhe vestido de 
ferro: e tocante á actitude , ainda que também tive sujei- 
ção , não devia com effeito n'huma Estatua de hum 
Rei expressar huma actitude de Arlequim , ou Pantomi- 
mista , para evitar o roide , de que Mr. Link a censura ; 
e como talvez lhe agradasse, etc, etc. 

Os ditos dous Capítulos, que acima cito desta obra, 

G 2 



xxxvr Appendice. 

já esraváo escritos alguns antes de Mr, Link emprehen- 
der a sua viagem ; o que prova não ser a sua censura 
que obrigou a escrever o que se vê nos ditos Capítu- 
los, etc. , etc. 

Alais por honra da minha Nação , que da própria , 
faço esta pequena Apologia ; e pelo que toca á minha 
própria pessoa , contento-me com embrulhar-me no Em- 
blema 163 de Alei ato , que tem por titulo, Inanis impe- 
tus: e fazendo-me surdo ir andando meu caminho. 

Rogo aos meus Leitores , com acatamento , se di- 
gnem de tornar a ler a Nota 21 do antecedente Discur- 
so , e reflexionar nella : assim como em a Nota 9 do 
Cap. IX., desta Dcscripção Analytica, 



P. S. Quanto mais medito na sobrescrita censura, 
com que me favorece Mr. Link , mais indicios vehemen- 
tes lhe descubro de ser elle o Nobre Estrangeiro , de quem 
falio em a Nota 18 do Cap. VHL , combinando o que 
delle vejo escrito, com as suas propostas questões, na 
conferencia que então tivemos ; e que vendo-se conven- 
cido em particular , sem querer mudar de seu obstinado 
conceito, se deliberou a desabafar em público. 

Seja o que for. 
etc. 




rr< tf r ,,,,• ,>./,/.„ 



DESCRIPÇAO ANALYTICA 

DA EXECUÇÃO 

D A 

ESTATUA EQUESTRE, 
ERIGIDA EM LISBOA A' GLORIA 

D O 

SENHOR REI FIDELÍSSIMO 

D, JOSÉ L- 



Seja a razáo a que vença. 
Sá de Mlr. Egl 8. Est. 5. 



CAPITULO I. 

Do Projecto , e Desenho da Estatua. 



O 

\J Terremoto fatal , que Lisboa soffreo no primeiro ^ AP 
de Novembro de 1755- > sendo causa de muitos desas- 
tres para este Reino , também lhe abrio caminho para 
algumas felicidades , como tem julgado bons Políticos. 
Huma das boas consequências daquelle espantoso 



Gap. 
i. 



2 DescripcXo Analytica 

Fenómeno foi a reedificação desta Capitel , muito mais 
commoda, e mais bella do que era antigamente (i). 

Commetteo-se o projecto desta grande obra ao Ca- 
pitão Eugénio dos Santos, Arquitecto Civil, e Militar, 
e designou-se ao mesmo tempo erigir huma Estatua 
Equestre no centro da nova Praça do Commercio , em 
obsequio do Senhor Rei D. José I. , Pai da Pátria , Au- 
gusto Restaurador da Mctropoli , e de tantos bens Pa- 
trióticos: lembrança não só feliz, mas por todos os mo- 
tivos digna de muitos louvores. 

O mesmo Arquitecto nos deixou o desenho da Es- 
tatua , e do seu pedestal , com os dous Gruppos de figu- 
ras , que o adornão ; e creio , que o seu intento neste 
desenho seria não querer mostrar o risco da Praça , sem 
o seu objecto principal: e por isso também fez (ou man- 
dou fazer) o debuxo, que o indicasse ; pois não posso 
capacitar-me de que tivesse a idéa de obrigar-nos a se- 
guir na execução da Estatua o seu desenho; que isso se- 
ria mostrar aos Professores huma audácia insorfrivel , e 
a todo o Mundo huma ignorância crassa : o que se não 
deve suppôr de hum homem de conhecida probidade , e 



(i) Muitas pessoas notáo vários defeitos, tanto no com modo como na 
formosura da reedificação. Táo fácil he notar defeitos nas obras depois de 
feitas, como difficil evitallos, quando ellas se emprehendem. Com tudo, 
algumas cousas da nova Cidade podiáo ser melhores ; porém náo se deve 
censurar o Arquitecto , pois que de alguns erros , sabemos náo ser elle o 
culpado. 



da Estatua Equestre. 3 

instrucção, como, segundo me consta, fora o menciona-' 
do Arquitecto Eugénio dos Santos. 

Huma das primeiras obras, em que se cuidou , foi 
no alicerse do pedestal, e depois defeito este cimento, 
se foi continuando a Cidade, sem mais se pensar na Es- 
tatua , como se houvesse de achar-se feita , quando qui- 
zessem collocalla : conservando porem os desenhos na 
Casa do Risco das Obras Públicas , onde os julgo ainda 
existentes. 

Correndo o tempo , e chegando aquelle que tocan- 
do os ânimos acordou o projecto adormecido , se princi- 
piou a tratar da sua execução , e para este fim se copia- 
rão os mencionados desenhos, dos quaes , para sahirem 
as copias mais exactas , se tirarão os contornos em pa- 
pel applicado sobre os mesmos originaes, e em cima de 
hum vidro, á luz, para se darem ao Escultor : dando- 
se-lhe somente os dous relativos á Estatua , porque dos 
Gruppos ainda se não cuidava. Porém como este primei- 
ro Capitulo hc o que destinei para fallar do desenho, 
neste lugar tratarei de todos elles : eu os exponho ao Pú- 
blico (2) nas estampas I. , II., III., e IV.; para que os 
intelligentes , tanto Professores , como Curiosos , jul- 
guem do seu merecimento, e os combinem com a obra , 



(2) Para se mostrarem estas estampas com toda a fidelidade , e se- 
melhança dos seus originaes , se estrigíráo pelos mesmos desenhos , que se 
me deráo , e ainda conservo. Elias váo no fim do Capitulo II» : e as ou- 
tras notadas lo i 21 y 11 , e 23 , no fim do Cap. X. 



Cap. 

I. 



Cat. 
I. 



4 DescripçSo Analytica 

que sahio destes exemplares , e se mostra nas estampas 
XX. , XXL, XXII. , e XXIII. 

Dos qu2tro mencionados originaes não fallarei , se 
estão desenhados com bom gosto, por deixar essa deci- 
são ás pessoas, que acima digo os queirão julgar : mas 
sempre direi alguma cousa da composição em commum , 
com Gruppos, c Estatua : da Acção, ou Feito, em que 
se representa: da Aciitnâc (3) da Imagem : e do seu Tra* 
ge , ou modo de vestir. 

(3) A palavra Aciitude , julgo não estar ainda recebida geralmente 
na lingoa Portugueza. O nosso Cândido Lusitano, ou P. Francisco ^o- 
sé Freire, a quem devi amizade, e instrucçóes , sendo entre os nossos 
Literatos hum dos que em termos mais próprios , e com maior inteligên- 
cia falia das Artes do Desenho , quando se vale delias para as suas com- 
parações ; na sua Traducção da Poética de Horácio , não se animou a usar 
deste vocábulo 3 e disse por circumloquio , bum como movimento: e ainda 
esta circumlocução não explica tanto, comoaquella única palavra Actitu- 
de. Não he só este vocábulo estranho , de que uso nesta obra ; ao que me 
animo por ser o primeiro Escultor Portuguez , que da minha profissão es- 
crevo este pouco ; circumstancia que me confere toda a licença para usar 
das dicções , e frases facultativas da minha Arte ; que supposto serem 
praticadas pelos Professores não terão ainda o privilegio de moeda corren- 
te , pela pouca fortuna que em Portugal tem soffrido as bellas Artes do 
Desenho : e como ha precisão de usar destes vocábulos . lembre-me de 
que já disse Horácio. 

E se te for preciso estranhos 

Termos , cousa explicar desconhecida 

Permissão se te àá . ... etc. 
Sigo esta doutrina , e a que o seu allegado Commentador Lusitano 
expende , desde pag. 16 até pag. 35 da Edicçáo de 1758. Advirto aos 
principiantes que a homem, de Letras já ouvi pronunciar, e escrever apti- 



I. 



da Estatua Equestre. 5- 

Todas as pessoas instruídas sabem que a Escultu- 
ra , e Pintura são Poesia muda , e que estas três bellas AP 
Artes, imitadoras da Natureza , bem que obrando diver- 
samente , se identifieâo nas idéas , no enthusiasmo, e 
ainda em muitas instrucções (4). Na Poesia , o ultima 
esforço da sua invenção, da sua erudição, e da sua elo- 
quência, dizem ser o Poema Épico: e a Epopeia (5-) da 



tude , com p em lugar de c : porém deste modo tem diverso significado. 
Vej. nos Diccionarios apto , e acto , e actuação. 

(4) Dizia Phidyas que em Homero aprendera a representar a Aia- 
gestade de "Júpiter. E eu digo que em Horácio aprendi como devo dar 
a cada sujeito o caracter que lhe pertence , a náo mostrar o Ancião com 
o mesmo vigor do Mancebo, o General, como o Soldado ; huma Santa 
Virgem , como huma Dançarina , etc. 

Muito deve attender-se íe quem falia 

He Numen, ou Heroe , prudente velho, 

Ou fogoso mancebo 

Igualmente aprendi neste mesmo Poeta a chorar , a rir , e â irar- 
me comigo mesmo 5 por ver se posso exprimir estes affectos nas minhas 
figuras. 

Se quereis mover-me ao pranto , 

Haveis mover-vos vós primeiro a elle ...; 

respire ameaços 

O que em cólera está : graceje o alegre , 

E mostre seriedade o que be severo. 
Esta expressão de afiectos he tão importante , que o Artista , a quem 
faltar este dom, este fogo, nunca fará nada: isto he, ainda que as suas 
figuras sejão bem desenhadas, ainda que tenha bom estilo, faltando-lhe 
a viva , e coherente expressão , nunca chegará a tocar o sublime da Es- 
cultura, e Pintura. 

(5) Primeiro que eu lhe desse esta definição , lha deo Mr. Sally, 

H 



Cap. 
i. 



6 DescripcXo Analítica 

Escultura he huma Estatua Equestre, que aspira ao co- 
lossal , como a de que trato. 

Se na Acção Épica deve haver unidade, na Escultu- 
resca he indispensável: he verdade que huma só figura, 
nas Artes do Desenho , não se pódc representar em mui- 
tas Acções (6) ; porém eu não fali o de huma só figura , 
mas sim de huma composição, que comprehende varias» 
Todas estas devem concorrer por diversos modos a de- 
clarar, ornais que for possível, aquelle Facto, em que se 
quer exprimir a figura principal da composição j e aqui 
temos a Acção do Poema com a sua unidade. 

A Acção Épica he este , ou aquelle feito heróico, 
revestido com as circumstancias , que declarão os Mes- 
tres da Poesia : na Escultura , e Pintura he o mesmo, 
com a differença , que o Poeta representa a Fabula (7) 



dizendo . . . dans un Momtmen de cette importance , et que l'on pourroit 
à juste titre nomer le Poeme ê pique de la Sculpture. Descripúon de la 
Statue Eqtu . . . de Frederic. V. pag. 42. Bem que desta denominação, 
Sally não declare a causa , tomo a resolução de amplear o conceito , e 
dar a razão, do modo possível , á minha pouca inteligência. 

(6) Ainda que Plínio no Liv. $4. Cap. 8. diz que Eufranor fizera 
huma Estatua de Paris , em que se conheciáo três suas diversas Acções , 
digo que he impossivel no sentido, em que vou fallando : e para explicar 
como se pôde conseguir o projecto de Eufrauor , náo o soffre a brevida- 
de de humas Notas. 

(7) Como nestas Notas , c ainda no corpo da obra digo varias cousas 
dirigidas aos principiantes de Escultura , sejáo-me licitas algumas declara- 
ções , certamente escuzadas para os Literatos. A palavra Fabula mo 
deve entender-se unicamente das cousas totalmente falsas , mas tambenj 



da Estatua Equestre. 7 

da sua Epopeia , e Acção do seu Heroe por espaços de 
tempo, e vários incidentes ; e o Escultor, ou Pintor, 
mostra isto mesmo em hum acto momentâneo. Neste ca- 
so não sei se a Poesia , se o Desenho he mais difíkil. 
O Poeta Épico , satisfazendo aos preceitos da Arte , he 
obrigado a contentar o entendimento do Leitor Sábio; 
o Escultor , ou Pintor , seguindo também os preceitos 
da sua Arte , he obrigado a satisfazer o entendimento, 
e os olhos dos espectadores , não só individualmente, 
parte por parte, mas até de hum golpe de vista. 

Dizem que huma das principaes bellezas da Fabula 
Épica, são os Episódios, sendo bem ordenados, e nasci- 
dos da mesma Fabula-, e que faltando-lhes estas qualida- 
des serão inúteis, e viciosos. Também ha quem affirme 
que, ainda que elles faltem, não fica a Fabula mutilada. 

Pode também haver (como ha) alguma Estatua 
Equestre (8) , sem que na composição do seu todo haja 

daquellas , que a imaginação finge , e dispõe do modo que as concebe. 
Por exemplo. Basca ser da Sagrada Escritura , para ser verdadeirissima a 
historia de Laban seguir Jacob para lhe tirar os ídolos, de que se achou 
despojado, frustrándo-se-lhe a diligencia pela politica de Rachel. O Poeta, 
que emprehender cantar este facto, ainda que he táo verdadeiro , será Fa- 
bula do seu Poema a disposição que lhe der; assim como foi para o pai- 
nel , que deste assumpto fez Pedro de Cortona , etc. Veja-se a Poética de 
Freire. Liv. 2. Cap. 4. Neste sentido he que uso da palavra Fabula, pe- 
la comparação, que vou fazendo da Escultura com a Poesia. 

(8) A de Marco Aurélio, no Capitólio em Roma. A de Luiz XIV., 
na Praça de Louis le Grana , ou Vendome em Paris. A de Frederico V. 
(com bem magoa de seu Author) em Copenhague, etc. 

H 2 



Cap. 
1. 



Cap. 
I. 



8 DescripçXo Analytica 

no pedestal outras estatuas subalternas , baixos-relevos , 
ctc. , que são os Episódios destes mudos Poemas; po- 
rém, havendo estes accessorios, devem rigorosamente ser 
análogos da figura principal, e da Acção , Facto , Costu- 
me , ou Ajfecto , em que se intenta mostrar o Heroc aos 
espectadores : e só desta sorte será a composição bella , 
e judiciosa , livre da irrisão de Horácio , e de que se di- 
ga com elle , ser como os sonhos do enfermo. 

Pelo que respeita ao manejo da Arte , pode ser, 
que ainda faltando-lhe estas qualidades seja agradável á 
vista, pela pureza de desenho , elegância de expressões, 
harmonia de Gruppos, etc. ; mas faltando-lhe o ponde- 
rado, sempre ha de ser monstro de varias espécies. 

Se a Acção Épica não só deve ser grande , porém 
maravilhosa , »///, e interessante , para huma Estatua Eques- 
tre , deve-se escolher a que ornada destes predicados 
represente a virtude mais brilhante doHeroe, e com hu- 
ma tal actitude , que além de ser animada, seja muito 
conforme ao Caracter , Qualidade, Emprego , e Estado da 
pessoa , cuja Imagem se representa (q) : não só para res- 



(9) Neste particular excedeo Francisco Vieira Lusitano muitos dos 
que lhe precederão ; sem exceptuar o grande Rafael. Náo faltará ( até 
entre os mesmos Nacionaes) quem tenha esta proposição por absurda; 
porém he muito fácil de se provar : eu a profiro para gloria da minha 
amada Nação ; pois que todos os Portuguezes devemos prezar-nos deste 
admirável compatriota. Náo são poucas as obras, que tenho visto deste nosr 
so Lusitano ; e observo nas actitudes , e mais circumstancias das suas fi- 
guras , tal veresimilhança na expressão dos caracteres , que me parece ser 



da Estatua Equestre. 9 

peito , e veneração da Personagem effigiada ; mas para ' 
que este Padrão das suas virtudes fique mudamente fal- 
lando , e servindo de estimulo de imitação á Posterida- 
de. 

Cuido que na Poesia não ha preceito para o' modo 
de vestir-se o Heroe, por ser isto, naquella qualidade 
de Pintura , miudeza, de que senão faz muito caso, per- 
tencente ás descripçóes, em que deve haver grande eco- 
nomia , tendo com tudo alguma attenção ao tempo da 
existência da Personagem : porém na Escultura, e Pin- 
tura visíveis he ponto muito essencial ; devendo esco- 
lher-se o que mais concorrer para a nobreza , e formo- 
sura da Imagem, como adiante mostrarei, quando escre- 
ver do que intentei mudar nos desenhos, (a) 

Ponderadas as circumstancias , que devem ter as 
quatro qualidades, de que prometti fallar a respeito des- 
tes desenhos, asquaes são: Composição geral. Acção , ou 
Feito ) que representa o Heroe; Actitude da Imagem ; e o 
seu Trage , ou modo de vestir ; resta dizer como estas 
qualidades se nos mostrao nos desenhos. 

Primeiramente, o Desenhador dos ditos quatro de- 
buxos , nem pensou em tal , nem pela imaginação lhe 
passou certamente nenhuma destas circumstancias. Pe- 
lo que respeita á Composição , toda ella he frigidissima , 



huma das qualidades distinctivàs das suas obras 3 o dar com fidelidade a 
cada hum o que lhe pertence. 

(a) Vê-se no Cap. II. desta obra. 



Cap. 
1. 



I. 



io DescripçXo Analytica 

sem concordarem as partes em cousa alguma humas com 
* outras. O Leão, debaixo do Cavallo do Heroe, do mo- 
do que se vê no desenho , (*) faz muito mão effeito ; 
porque chegando com a cabeça até a altura dos pés do 
Cavalleiro, além da desproporção, entupe o espaço de 
ar, que medeia entre o pedestal, e o bojo do Cavallo, 
embaraçando o mesmo ginete, e fazendo-o parecer mais 
pezado, por causa daquella espécie de massiço , que for- 
ma; tirando-lhe deste modo o ar de agilidade, e desem- 
baraço , em que consiste huma das principaes bellezas 
daquelle bruto , desfigurando-lha o dito Leão. Visto o 
desenho pela frente , (**) faz o mesmo Leão hum cerco 
encruzamento com o Cavallo, fastidioso á vista não me- 
nos, que ao discurso: e ainda a querer-se-lhe suppôr al- 
legoria, seja cila qual for, he viciosa , por estar daquel- 
le modo debaixo do Cavallo. 

Os Gruppos Lateraes, (***) além de faltar-lhcs na 
grandeza a devida combinação proporcionada com a Es- 
tatua principal , são em todas as suas partes incohcren- 
tes: qualquer allegoria, que se lhes queira accommodar, 
ha de ser forçada. Diziáo-me , que nestes Gruppos se 
symbolizavao as quatro Partes do Mundo (10) , por se 

(*) Estampa I. 

(**) Estampa II. 

{***) Estampa III. , e IV. 

(10) Em huma das Notas da Ode, que fiz pela inauguração desti 
Real Estatua , forcejei por desfazer este estragado conceito, em que se es- 
tava, das quatro Partes do Mundo; declarei (ou attribuí) aos Gruppos, 



da Estatua Equestre. ii 

estenderem os Domínios de Portugal a todas ellas: que 
o Cavallo representava a Europa, o Elefante a Ásia, hu- 
ina das figuras prostradas , ou atrcpelladas a Africa , e a 
outra a America. Porém representarem-sc as duas mais 
cultas , e civilizadas em brutos , e as outras em figuras 
racionaes , he incoherencia tão despropositada , que a 
todos se manifesta. 

Mancebos Escultores , ouvi o que a isto diz Horá- 
cio: 

Todo o que por hum modo muito estranho 
Varia assumpto simples, representa 
Nas aguas javali , delfim nos bosques. 

Podião ser as quatro Partes do Mundo figuradas 
todas em brutos , ou todas em figuras racionaes ; e não 
haveria que notar de incongruência , com tanto que não 
houvesse aquclle mixto. 

O Elefante, proporcionando-se ás figuras racionaes, 
parece que para o porem alli o tirarão do ventre mater- 
no. 

As duas figuras aladas , como no desenho qualquer 
delias indica peito femenino, dizião serem duas Famas; 
e não me consta que tal extravagância sonhasse ainda al- 
gum estragado Poeta : aqui consegui fazer huma peque- 
na alteraqão, que adiante direi (*). Mas ainda que esta 



a allegoria , cjue mais racionavelmeme lhe podia convir; e ainda assim me 
remem a hum etcaetera. 
£*) No Cap. II. desta obra , onde se trata dos Gruppos, 



Cap. 
i. 



Cap. 
I. 



12 DescripçaO Analytica 

composição estivesse bem ordenada , era a sua sllegoria 
hum Episodio muito frio , por causa da nimia repetição 
que delie se tem feito ; e em certo modo alheio do He- 
roe , ainda que seja coherente ao Reino. 

O desenho dirigia-se ( se acaso tal intentava seu 
Author) a fazer-se , e levantar-se por elle huma Estatua 
a hum Augusto Heroe , que de novo reedificava a sua 
Metropoli; erigindo-se-lhe nesse mesmo tempo, em que 
se fazia a reedificação. Deste , e dos mais Feitos glorio- 
sos do Heroe se via o Empenho , com que se applica- 
va a felicitar os seus Povos : deste Empenho pois he 
que se devia tirar o Sujeito , da Fabula a Acção , e a 
unidade deste Poema : daqui devião sair as allegcrias dos 
Gruppos , que então seriao estes Episódios judiciosos : e 
tanto a Acção , como a Fabula Esculturesca , terião, como 
na Épica, a sua devida unidade, perfeição, e harmonia, 
sem que se lhe podesse dizer com justiça : 
Começou-se a formar hum grande vaso , 
E por que hum jarro Sabe , se a roda gira ? 
No que pertence á Acção , ou Feito, que nos repre- 
senta o Heroe, nem pela sua Imagem , nem pelos acces- 
sorios , podemos alcançar este conhecimento. O Author 
antigo da Estatua de Marco Aurclio, representou o seu 
Heroe, como Pai do Povo , cm Acção de o proteger. Gi- 
rardon mostrou Luiz XIV. na sua Estatua , como dan» 
do ordens aos seus Exércitos. Bouchardon lembrou-se do 
titulo , com que os seus Naturaes caracterizarão Luiz XV. , 
o Bcm-amado \ e por isso o figurou apoiando a mão no 



da Estatua Equestre. 13 

bastão de Commando por huma extremidade, e firmar,-" 
do a outra sobre a coxa direita ; mostrando usar da Au- 
thoridade Regia com doçura (n). 

Neste apoiar a mão , em lugar de pegar-lhe , con- 
siste o fino desta expressão: he certo que apoiando , nao 
se pode usar do bastão com a mesma violência , com que 
se pode mover pegando-lhe : cisto he que quizerão mos- 
trar aquelies judiciosos , e instruídos Escultores , para in- 
dicar, do modo que lhes era possível, a benignidade dos 
seus Heroes, e as outras qualidades, ou Acções , que lhes 
exprimira) com diversas actitudes , e mais circumstan-' 
cias. Todas estas meditações , e muitas mais faz hum Es- 
cultor, ou Pintor, que judiciosa, e scientificamente ma* 
neja a sua Arte. 

Na verdade, isto he muito diffícultoso (12) ; mas 
alguns grandes homens o tem conseguido. Em hum Mo- 
numento de maior composição, como o nosso, he mais 
fácil este ponto (13) : porque a pluralidade de partes 



(11) Este mesmo partido seguio Sally na Estatua de Frederico V. em 
Dinamarca. 

(12) Vejâ-se o que a este respeito diz Mr. Sally , na DescriptivH 
âe la Estatue Fq. de Fred. V. desde pag. $2 até pag. 35; e se conhe- 
cerá em que afiliações se vio este Author 5 os esiudos , as experiências , 
que fez para desempenhar o seu assumpto : e quem tiver a curiosidade de 
ler a sua citada Description , verá parte das grandes difficuldades desta Pro- 
fissão , e lamentará o conceito , que inda aqui se faz delia. 

(1:$) Mas se he mais fácil a expressão do Feito , he mais difficil A 
ordem , e invenção da Fabula. 

1 



Cap. 
1. 



Cap. 
I. 



14 DescripcXo Analytica. 

concorre a declarar o conceito : isto não obstante, não 
he para todos , como a experiência está mostrando. 

Sendo a Actituck a terceira qualidade, em que pro- 
metti discorrer, digo que hc insípida : e ainda que isto 
procedesse de se lhe não ter determinado Acção activa, 
que se fingisse estar o Heroe executando ; vem especial- 
mente esta falta da mão, que desenhou: a incorrecta sym- 
metria , os desacertados contornos , a mesquinhez de nu- 
mas partes, o pezado de outras, tudo concorre para es- 
ta insipidez. Não tem garbo, nem aquelle ar de vitali- 
dade , que encerra em si hum como engano da vista. 
Este ponto ainda he mais diffícil : e ainda que a figura 
tenha bellezà ; faltando-lhe o espirito, pouco será o seu 
merecimento. Diz Horácio , que 

Não basta que o Poema seja bello , 
Deve ser persuasivo .... 
E o seu Commentador Lusitano illustrando este lu- 
gar, com' Dacier , se vale da Pintura, dizendo, que: em 
faltaudo a vitalidade ás figuras , não consegue o Professor o 
fim da sua Arte. 

Não faltará quem julgue ser huma mesma cousa 
Aclitude , e Acção , ou Feito, em que se exprime a figura; 
porém eu acho-as muito differentes : confesso que ellas 
são tão unidas, como a Alma com o Corpo; mas assim 
como Alma , e Corpo são duas substancias totalmente 
diversas , assim Acção , e Actitude são dous accidentes 
absolutamente distinctos. Exemplo: quer-se representar 
hum homem lendo em hum livro: o ler r he a Acção > ou 



da Estatua Equestre. 15- 

Feito, neste caso; porém pegar no livro com huma , ou" 
ambas as mãos , estar em pé, sentado, ou encostado, 
mais, ou menos torcido, etc. , esta he a Actitude* 

A quarta, e ultima qualidade, que me propuz pa- 
ra indagar , he o Trage , ou modo de vestir o Heroe. 
Este modo he nos desenhos tão duro (diga-se assim) 
como o ferro que finge , ou como o bronze de que se 
acha feito. Os contornos deste modo de vestir são as- 
peros, e muito, por causa dos repetidos ângulos, e li- 
nhas parallelas que em si encerra; e por esta causa , mui- 
tos á vista. O Sábio Du Fresnoy , na sua admirável Arte 
da Pintura, recommenda , que se fuja de todas as figuras 
Geométricas (14) , porque em Pintura , e Escultura fa- 
zem máo effeito: e posto que neste lugar falle Du Fres- 
noy, especialmente da posição de braços, e pernas, co- 
mo quer o seu Gommentador Depil/es , para tudo o mais 
me deo esta lição o nosso famoso Francisco Vieira Lusita- 
no : e o mesmo Du Fresnoy com maior clareza o define 
mais adiante, dizendo (15), que senão representem cou- 

(14) Fuggite ahresi le lince et i contorni uguali, che jormano delle 
parallelo, ed nitre figure acnte e Geometricbe , come quadrati , triango- 
li j e tulte quelle , che per esser troppo regolari jormano una certa j/wc- 
tria dispiacevole , la quale niun buon effetto produce. Dufresnoy. Ar- 
te delia Pittura. Preceito 18. pag. 30. Esta obra que Dufresnoy compoz 
em verso Latino, lha traciuzio, e commentou em Francez , seu Amigo 
Mr. Depilles: depois traduzio-se, e imprimio-se em Italiano com o tex- 
to Latino, em Roma 1750 : a esta Edição remetto o Leitor, todas as 
vezes que a citar. 

(15) .... efuggitte ahresi lecose barbere , rozze, edure alia vis- 

I 2 



Gap. 



Cap. 
I. 



1 6 Dr.scnipqXo Analítica 

sas barbaras , grosseiras , duras d vista agudas , áspe- 
ras ao tacto ; porque os olhos aborrecem as cousas , de que as 
í nãos se retirao. 

Tenho mostrado, segundo a minha pouca inteiligen- 
cia , o que julgo a respeito do que propuz sobre os men- 
cionados desenhos ; e assim como deixei de analyzallos 
naquellas" partes de manejo da Arte , a que os Professo- 
res chamão bem ovimal desenhado, também deixaria de fa- 
zer este exame nas quatro qualidades, de que tenho tra- 
tado r se a isto me não obrigassem dous motivos muito 
fortes , que sao : o meu Credito, e o da minha Pátria. 

Entre as Nações cultas, me consta, que somos os 
Portuguezes reputados quasi (ou inteiramente) cegos nas 
Artes do Desenho (16); e ainda entre nós mesmos sees- 
creveo, não ha demasiados annos , huma Carta aos Sócios 
do Journal Estrangeiro de Parts , na qual ainda que o seu 
Author dava alguma noticia do estado, em que naquclle 
tempo se achava a Pintura, e Arquitectura neste Reino, 
quando havia de tratar da Escultura, diz: Na Escultura 
não temos ninguém, que mereça de ser nomeado (17). 

ta, ... . "quelle che amo acnte, eruvide altatto, e finalmente ttittociò 
.... poi che gli occhi aboniscono lecose che le mani nonvorrebono toc- 
care. Ahi mesmo. Prec. 55. Esta regra, e a decima tem suas excepções, 
que precisão mais luzes ; mas como não escrevo huma Arte , dando, e 
individuando lições, não devo ser mais extenso. 

(16) Náo julgáo deste modo sem alguma razão. O resto desta Nota, 
veja-se no Snpplemcnto As Notas deste Cap. ao Numero 16. 

(17) Á Nota correspondente a este lugar , vai toda no Supplemento 
ás Notas deste Cap. ao Num. 17. 



da Estatua Equestre. 17 

Esta proposição, a preoccupação dos Estrangeiros, 
e os defeitos , que fui obrigado a commetter , me impei- Po 
lem a mostrar, que estas faltas, naquella obra, não são 
effeitos de huma universal cegueira ; mas sim de hum 
particular , e extravagante capricho , invencível ás mi- 
nhas forças, e ás de qualquer outro Escultor Vassallo. 



iS DescripçÃo Analítica 



Cap. 
li. 



CAPITULO II. 

Em que se continua a matéria precedente , e se trata do pri- 
meiro modelo pequeno executado em cerei) e dos 
modelos dos Gruppos lateraes. 

T 

Ào he moderno em Portugal terem-se prezado al- 
guns Grandes de possuir boas pinturas , a que não tem 
faltado também vários Particulares: e posto que o incên- 
dio do Terremoto abrazou muitas , ainda se achao ex~ 
cellentes collecçòes. Porém como esta curiosidade só a 
podem ter pessoas de cabedacs, e não tenha havido an- 
teriormente Aulas públicas , e Academias das Artes do 
Desenho; nem o desvelo, que se restringio nos gabine- 
tes, se di Afundisse pelos jardins, praças , e mais edifí- 
cios públicos, em que se emprega a Escultura , não se 
tem propagado o gosto , e conhecimentos individuaes 
das Bellas-Arres do Desenho , mais que cm alguns Pro- 
fessores applicados ; e não muitos sujeitos de outras clas- 
ses se lhes tem mostrado affecivos , contcmplando-as , e 
procurando ter delias huma tal noção, que parece indis- 
pensável do trato civil (i) ; e que até serve de adorno, 
e utilidade aos Homens de Letras. 

(i) A huma respeitável Personagem , que vio muitos costumes, emui' 



da Estatua Equestre. 19 

Desta quasi geral falta de conhecimentos procede 
a pouca estimação, que se tem feito , e faz destas Ar- 
te?: 

Sem vergonha o não digo, que a razão 
D 1 algum não ser por versos exc cliente , 
He não se ver prezado o verso , e rima , 
Porque quem não sabe a arte , não a estima (2) . 

As queixas, que pela Poesia faz Camões nesta estan- 
cia 3 e na que se lhe segue , com muito mais razão se 
podem fazer pelo Desenho. Porém já raião novas luzes. 
Eu creio que o Reinado do Senhor Rei D. José I. ha 
de servir de Época para principiar a Historia, não só da 
restauração do Commercio, Milícia 5 e reforma dos Es- 
tudos ^científicos, mas também das Artes, e manufactu- 
ras deste Reino. O mesmo Senhor estabeleceo algumas 
Aulas de Desenho; e até no Real Collegio de Nobres 
que fundou para instrucção da Ulustre Mocidade Portu- 
gueza, ordenou se dessem lições desta faculdade. A Rai- 
nha Nossa Senhora, seguindo seu Augusto Pai, instituio 
huma Aula pública de Desenho histórico , e de Arqui- 
tectura Civil , para que todos os seus Vassallos se pos- 
Sào aproveitar destas inítrucções. 

Além das sobreditas Aulas , ha outras erectas por 




tos Povos , ouvi dizer , que a experiência lhe havia mostrado , não se 
achar completamente boa educação sem Desenho. O resto da Nora , ve- 
ja-se no Supplemento ás Noras desre Cap. e neste número, 
(2) Lusi. Can. 5. esr. </j, 



II. 



2o DescripçXo Anàlytica 

~~ Magistrados, já no Reinado feliz da nossa Augusta So 
' berana (3): e tudo isto dá grandes esperanças de se pro- 
pagar o bom gosto , e os precisos conhecimentos nas 
Bellas Artes, especialmente se a Ulustre Mocidade, mo- 
vida pelo Real exemplo de Suas Altezas , e das outras 
Nações polidas, cuidar cm conhecer, e praticar o De- 
senho (4) : isto certamente servirá de augmentar-lhes o 
adorno de suas respeitáveis qualidades, e de remediar-se 
a falta , que destes conhecimentos se tem sentido até nos- 
sos tempos, a qual tem sido assas nociva, no particular 
não menos , que no público. 

Tem esta falta { sem dúvida ) sido causa de se te- 
rem gasto neste Reino sommas consideráveis , mal admi- 
nistradas , e de gosto péssimo (5). Tem sido causa de 
que todas as Bellas Artes, e ainda os officios fabris, se 
não tenhao elevado áquelle gráo de peifcição, de que o 

($) O Intendente Geral da Policia, Diogo Ignacio de Pina Manique, 
como zeloso Patriota , no bem intentado estabelecimento da Casa Pia, 
criou também Aula de Desenho. E a Companhia do Alto Douro igual 
mente fundou Aula do mesmo estudo, na Cidade do Porto. 

(4) Os Excellentissimos Grandes de Portugal tem sabiamente co- 
nhecido , quanto as luzes do Desenho são úteis a toda a Sociedade Ci- 
vil : a reflexão nesta verdade os tem estimulado a fazerem applicar seus 
Ulustrissimos Filhos a táo instrua ivo entretenimento. 

(5) Entre muitos exemplos , que se podem allegar , por servir á bre- 
vidade, seja só o do Edifício, incompleto, denominado Obras de San- 
ta Engracia , onde a depravação do gosto , na sua tortuosa planta , fez 
augmentar muito a despeza , diminuindo não menos a commodidade, e 
formosura. 



da Estatua Equestre. tt 

Omnipotente fez capazes para tudo a maior parte dos ; 
Portuguezes ; como confessão os mesmos Estrangeiros 
sinceros (6): e foi ultimamente causa, de que tratando- 
se da execução da Estatua Equestre, de que vou fallando, 
€ sendo esta obra não só muito grande , mas a primeira , 
que deste género se fazia em Portugal, de tanta ponde- 
ração, e de tanta gloria, a fiz passar pelo infortúnio de 
se não fazerem as devidas diligencias, indagações, e re- 
flexões indispensáveis, para que aquelle Panegyrico mu- 
do , em todas as suas partes , fosse digno da Pessoa , a 
quem se dedicava, dando-se-lhe a perfeição possível; e 
para se não mal lograrem na minima circumstancia as 
grandes sommas , que nelle sehião empregar, para eter- 
na memoria de hum Soberano , a quem o Público he de- 
vedor de tantos desvelos; e por quem o mesmo Público 
p ertendia deixar á posteridade este Padrão de agradeci- 
mento. 

NosPaizes, onde os conhecimentos do Desenho tem 
muitos annos de idade , com estabelecidas Academias 
das Belias Artes , quando se trata de tamanhas empre- 
zas , ou as confiáo a hum Professor de merecimento ge- 

(6) . . . un Peuple , qui etoit laborieux , industrieux , clairvoyant^ 
profond diins les Sciences ; en un mot les Portugais sembloient etre pla- 
CCs sous un climat, qui leur donnoit de la super iorité, peurbien des cho- 
ses sur le rate des Européens. Le Politique Danois. pag. 194. Les Port. 
sont polis, généreúx, braves , spirituels, trespropres aux Sciences et au 
com. attacb^s A leur Religion, etç. Echard, Diçtion. Géografiç. etç. raoc, 
Portugal. 

K 



Cap, 
II. 



Cap. 
II. 



%t DescripçÃo Analytica 

ralmente conhecido , ou destinao hum concurso , em que 
se veja pelos desenhos, ou modelos de cada hum, qual 
he o mais capaz (7) do assumpto, para se lhe incumbir; 
e em qualquer dos casos , eleito que seja , lhe dão toda 
a liberdade para idear, e executar, segundo os seus ta- 
lentos. 

Para a nossa Estatua porém , não se cuidou neste 
ponto essensial , em que consiste lograr-se nestas empre- 
zas o fim, que nellas deve ter quem asemprehende ; pois 
não se fez a devida escolha de concurrentes : e depois se 
coarctou ao eleito inteiramente a liberdade de Artista j 
eujo captiveiro he prejudicialissimo a todas as obras de 
espirito. 

Com tão errado systema , se encarregou pela pri- 
meira rea este grande assumpto a hum Militar (dizem 
que Italiano), de quem se ignorava o préstimo, cujo mo- 
delo não agradou: e se incumbio depois a outro Estran- 
geiro, não sei se da mesma ca:h?goria. 

Entrou este segundo Artista a fazer o seu modelo ^ 
para o que se lhe dco o desenho que havia, com o seu 
petipé : porque fazendo-se modelo de toda a obra , era 
forçoso , que nas suas dimensões concordassem as partes 



(7) En conséqnevçe elle (a Cidade de Paris) ebargea les plus habl* 
les Artistes que fussent alors Paris de travailler enconcurs au dessem 
de ce monument , etc. Blondel , Architectnre Francoise , Liv. 4. pag. 1 37' , 
e assim outros , em diversos casos. O resto da Nota, veja-se no Supple* 
mento ás Notas deste Capitulo , e neste ntím. 



da Estatua Equestre. 23 

entre si , para que juntas em hum todo , fizessem a mes- ~ 
roa harmonia , que o desenho indicava : e passando al- 
gum tempo, se me fez aviso a Mafra (8) perguntando-se- 
me , se queria entrar na empreza , e declarando-se-me 
quem era o Athleta, que sustentava o combate, do qual 
tendo conhecido as forças , não duvidei , nem estimei 
entrar no certamen (9). Porém , como o referido avi- 
so não foi ordem , que positivamente me chamasse, mas 
sim hum convite para concurrente , a ambição da gloria, 
e do interesse não teve forças para me arrancar logo do 
meu tugúrio, sem acabar hum pequeno baixo-relevo, com 
que estava entretido : e passado hum mez he que vim a 
Lisboa , onde o Arquitecto Raynaldo Manoel dos San- 
tos (10) me entregou dous desenhos iguaes aos que se 



(8) A 19 de Outubro de 1770, me escreveo Domingos da Silva Ra- 
poso , Ajudante de Arquitectura na Casa do Risco das Obras Públicas, 
convidando-me para esta obra ; ao qual devi a fineza de ser , entre os Ar- 
tistas, o primeiro, que em mim fallou, neste particular. 

(9) Ainda que náo temi o contendor, como náo busquei a empreza, 
nem Padrinhos, que me conferissem o louro, confesso que me assustei; 
quando tendo já o meu modelo quasi acabado , vim a saber quáo fortes 
cráo os Baluartes , com que o meu Rival ostentava , sendo todo o meu 
receio, que decidisse a Protecção, e náo a Intelligencia. 

(10) A este Professor devi especialmente a influencia desta eleição,- 
isenta de toda a suspeita : náo só pela honra , que sempre mostrou em to- 
das as suas acçóes , mas porque nesse tempo ainda náo tinhamos a míni- 
ma amisade , nem conhecimento : movendo-se a propor-me ao Ministério , 
unicamente pelas informações, que lhe dera o dito Raposo a meu respeito, 
e depois, pelo que vio neste meu primeiro modelo. 

K % 



AP. 
Ur 



IL 



24 DescripçXo Anal y ti ca 

===== derão ao Estrangeiro , (*) e tanto que os vi me assaltou 
_ AP * huma interna afflicção (n) , conhecendo, qus seguirt- 
do-os , e executando-se a obra por elles , não tiravão 
delia, o Artista, nein a Pátria , huma gloria sufficienteç 
por faltarem na Imagem do Heroe aquelles accidentes, 
e circumstancias , que deixo ponderadas. 

Não ha Monumento algum destes, que se não con- 
fiasse inteiramente ao Escultor eleito para a sua execução , 
ainda os mesmos pedestaes (12) : porém nem eu podia 
dizer isto, nem deixar de seguir a olhos fechados as or- 
dens, que se me davão; e julgando que com politica po- 
deria alcançar faculdade para melhorar, evitando os de- 
feitos, que eu conhecia, acceitei os papeis,, e dei prn> 
cipio ao meu- primeiro , e pequeno modelo (13) nos fins 
de Dezembro de 1770. 

(*) Esr. I., e II. 

(11) Peias razoes qne deixo expendias no Cap. I. , he que tive esu 
afflicçáo-, a qual seaugmentou, quando (a tempo que já se estaváo escul- 
pindo os Gruppos) me veio á máo a Jrehitecture Framoise de Mondei; 
e vi que desta obra se furtarão , e muito mal, os desenhos. resto da 
Nota, veja-se no ■SupplemeMo ás Notas deste Cap. e neste num. 

(12) Veja-se a obra- intitulada : Monumem ertgées en France a \a~ 
glcire de Louis XV. por Mr. Patce , e outras , que trarão destes assum- 
ptos ; e se verá náo haver nenhum distineto Monumento destes , de que 
não fosse arbitro total o Escultor eleito para executallo : elles determina- 
rão as Acções , as actitudes, o vestir do Heroe, o jaezat do Cavallo, as 
allegorias, e os pedestaes; n'huma palavra, tudo. resto da Nota veja- 
se no Suçpkmento ás Notas deste Cap. e neste num, 

(i$) Este primeiro modelo > conformando-me ao petipé , tem domr 
palmus PortL'£uezes t 



r>A Estatua Equestre. i$ 

Logo nos primeiros dias de Janeiro de 1771 , voltei' 
ao dito modelo de cera, em cuja matéria o fiz por con- 
servar sempre a medida conforme ao petipé , livre das 
diminuições do barro ; e cuidando que pouco a pouco 
venceria (ao menos) não ser o Heroe vestido de ferro, 
nem ter capacete na cabeça , totalmente me enganei; 
porque fallando varias vezes neste ponto , e indicando 
com muita submissão , e humildade quanto isto era re- 
pugnante ao bom gosto da Arte, mostrando a razão, que 
a isto me inclinava , se me deo ultimamente huma res- 
posta desagradável; de que inferi ser-me preciso não fal- 
iár mais em tal, e seguir aquelle grande exemplar, co- 
mo se fosse deLysippo, ou Polycleto;. fícando-me, ape- 
nas, a Uberdade para variar algumas pregas, ou dobras 
do manto no seu arranjamento, e miudezas semelhantes: 
porém no que eu desejava mais anciosamente affastar-me 
tios desenhos, pelo que respeita ao trage do Heroe , era 
em o vestir ao antigo uso Romano , como são vestidas 
as melhores Estatuas Equestres, e Pedestres, que exis- 
tem (14) ; por ser este modo de vestir tão bello , que 
nenhum Professor intellisente se tem atrevido a deixal- 



(14) Náo fallando na Estatua de Marco Aurélio , no Capitólio em 
Roma , por ser feita no tempo , em que se usava aquelle trage , sabe-se 
com certeza de varias Estatuas mais , feiras por excellentes Escultores, 
depois de perder-se esse uso. No fim desta obra darei hum catalogo de 
60 , ou mais monumentos desta classe , de que tenho noticia ; e entre el- 
les notarei os que me consta serem as Estatuas vestidas deste modo á Ro- 
mana. 



Cap. 
if. 



Cap, 

II. 



26 DescripçXo Analytica 

lo, ainda á força das mais serias, e castigadas reflexões: 
sendo a principal causa desta belleza , verem-se em qua- 
si toda afigura os contornos donú, como diz Sally (if). 
A Imagem deste modo fica mais esbelta, e por con- 
sequência mais airosa. Em lugar de capacete , levar só 
a coroa de louro sobre o cabelio, concorre muito para o 
esbelto (16) : e o capacete, como augmenta o vulto da 



(15) Sally. Description , ctc. pag. 30. Esta circumstancia he ráo es- 
sencial da belleza nas Artes do Desenho, que ainda nas figuras adornadas 
com diversos vestidos , recommendão os Mestres, que se attenda a indi- 
car o nú. Ma siano ( os pannejamentos ) con il loro andar di pieghe gi- 
tati talmente , che scuoprino lo ignudo di sotto , e con arte , e grazia 
talora lo mostrino, e tal ora lo ascondino senza alcuna crudezza che of~ 
fenda la figura. Giorgio Vasari , Vite dePittore, Scultori , etc. Tom. r. 
Cap. b*. , que trata da Escultura : de pag. XXX. , para XXXI. Quando 
escrevi esta advertência , de que a indicação do nú augmenta a belleza nas 
figuras , que representáo racionaes , não havia vestígio algum do triunfo , que 
o Principe das Trevas tem obtido ao presente sobre muitos peitos Catho- 
licos de hum, e outro Sexo, na ridícula, e reprehensivel nudez, que por 
moda se tem introduzido; chegando o Sexo delicado a tal ponto de allu- 
cinâção , que náo só despreza , mas ate faz timbre de aniquilar de todo 
a mais preciosa jóia do seu adorno, e o mais rico dote das suas qualida- 
des, que he o Pudor. Por tanto (abominando este indigno excesso) pó- 
de-se attender ao nú ; mas nos termos hábeis. Os Artistas de juizo , pro- 
bidade, e instrucçáo , sabem como háo de tratar as suas composições, 
sem faltar ao decoro devido; o que já tem recommendado muitos dos que 
tem escrito das Artes ; conhecendo que o contrario he attentar contra a 
Religião, e contra o Estado, multiplicando fomentos de relaxação nos cos- 
tumes , tendo isto consequências taes , que os seus perigos sáo insondá- 
veis. 

(16) Só o ficar a figura mais esbelta he motivo muito efficaz para 



da Estatua Equestre. 27 

Cabeça , faz parecer a figura anã : a Chlamyde, serve' 
para interromper os contornos do nu , e alguma seccura , 
que poderia resultar sem este adjunto , com o qual se 
consegue parte daquella qualidade, a que os Professores 
chamao pastoso (17). Este estilo de vestir sempre foi 
bello , e distincto ; e como tem mais nobreza , e mais 
formosura , este he o que se devia eleger , e não ou- 
tro (18). 

Já houve quem me disse , que o melhor era ser o 
Heroe vestido de casaca, e com o seu manto Real, por 
ser este o uso do tempo da sua existência ; e para ficar 
o Monumento mais exacto , e mostrar no futuro o trage 
presente : e como haverá muitas pessoas apaixonadas pe« 



obrigar a que se desterre o capacete ; porém assim mesmo usaváo os Ro* 
manos em 03 seus Triunfos , levando só o louro na Cabeça naquelie acto 
da mais brilhante, e magestosa pompa. Rollin. Histoire ancienne. Tom, 
V. pag. 814, Ediç. de Paris, de 1740. em 4. 

(17) Pastoso , opposto a secco. Para dar alguma noção do que nes- 
tas Artes se entende por aquelles dous termos , supponhamos que vemos 
huma certa quantidade de bolas , todas separadas : cada huma por si , faz 
bum Corpo secco. juntando-se todas em monte , de sorte que humas en- 
cubráo varias partes- das outras , fazem todas hum Corpo pastoso. Isto 
basta para o meu caso: mas o significado das ditas duas palavras ainda he 
mais amplo, especialmente em Pintura, e Desenho. 

(18) No Cap. 15. da Descripção das operações de fundir a Est. Ecr. 
de Luiz XV. , descrevendo o Monumento , e fallando seus Authores no 
vestido da Estatua, dizem : 7/ (o Escultor) a vètu le Monarque À la 
Romaine, parce que rious ne ccnnoissons rien de si auguste , ni de si 'm> 
fosanp) etç. Veja-se a Traducçáo no Supplemento, 



Cap. 

xá 



Cap. 
II. 



28 DescripçXo Analítica 

'lo uso moderno , darei os motivos que ao contrario me 
inclinão, apoiado pela razão, e pelos Mestres, a quem 
sigo (19). 

O uso da casaca he para as Artes do Desenho tão 
falto de elegância , que até no seu próprio nome desco- 
bre este defeito : he muito popular, e por isto mesmo 
não expõe á vista hum certo ar de nobre , e de grandio- 
so , com que se deve mostrar a Personagem em Scena 
heróica; a fim de concorrer tudo para o maravilhoso, co- 
mo na Epopeia. 

Ninguém pôde negar ser a figura humana a mais 
bella entre todas as da Natureza (que he o manancial 
das Artes) ; e como o vestido Romano he o que mais 
deixa ver esta belleza natural , daqui procede ter muito 
mais nobreza , e formosura. 

Por esta causa , especialmente , e também porque 
os Professores do Desenho o tem adoptado em quasi to- 
das suas obras , estão os olhos do Público tio costuma- 
dos a ver este vestido, nas estatuas, nas pinturas, e nas 
estampas, que sempre lhes parece bem. Esta grande van- 
tagem não tem a moda contemporânea , que em perden- 
do o seu uso, já se não pode ver sem riso; sendo a mõ* 
da, como diz Boffrand, o Tyranno do Bom gosto (20). 

(ij/) Ai ais de nos vêtements la genante strueture 
Contrsdit À la Jois et l'Art et la nature. 
Watelet. An. de Peindre , Chant. 3. pag. 41. Edic. de Paris \3e 1760 
4. grande. Yeja-se a Traducçáo no Supplemento. 

(20) La mode Ic tjran du goât , met un grana obstaçle À la per* 



da Estatua Equestre. 29 

Deixando no Capitulo precedente demonstrado, ser 
hum Monumento destes o Poema Heróico da Escultura , 
vou seguindo as Leis da Epopeia , porque em quasi to- 
das encontro preceitos conducentes para esta qualidade 
de poemas. 

Creio que todos os Mestres da Poesia convém , que 
a Epopeia differe da Historia em narrar esta os factos, 
como na realidade forão , e aquella pintallos como vero- 
similmente deveriao ser, para que na Acção tudo arreba- 
te , e excite o espirito do Leitor , pois se expõe para 
imitar-se, e que talvez por esta causa preferisse Aristó- 
teles a Epopeia á Historia. 

Pois se o Poeta he louvado, e para ser perfeito he 
obrigado a tomar esta liberdade , alterando da verdade 
histórica alguns costumes , e circumstancias mais atten- 
diveis, e por consequência mais essenciaes; porque mo- 
tiro não se ha de conceder aos Escultores , e Pintores 
fazerem o mesmo, sem se lhes notar anachronismo? Es- 
pecialmente quando esta liberdade he tomada em cousa 
de tão pouca entidade , como he a moda do vestido , usar- 
se , ou não em o tempo do Heroe , de quem se faz a 
Estatua, ou Quadro. Diz Horácio, que 

De fingir ampla licença 

Ao Poeta , e Pintor sempre foi dada (21). 

fection des arts : elle est accompagnée de Ia folie noveame qui plait : U 
vulgaire la suit, etc. Bofírand. Liv. d'Architecture. Dissert. sur . . . le 
JBon Goust. 

(21) Esta licença não he úo ampla, que deixe deter seus limites: o 

L 



Cap. 

II. 



Cap. 
II. 



30 DESCBipqXo Analítica 

' Do grande Escultor Lysippo se refere , (22) ser o 

primeiro que fez as estatuas esbeltas, e com delicadeza 
proporcionada, reunindo o bello que se acha cm o natu- 
ral : atrevimento feliz , pelo qual dizia , que se os antigos, 
que lhe precederão 3 representavao os homens come elleserao, 
elle os figurava como dexiao ser ; de cujo apriorismo diz 
Carducho. „ Docta , y coetrda sentencia (23). E em outro 
lugar, diz este Sábio Pintor, que „ se pode , e deve arbi- 
trar o modo de pintar hum caso , cm se não mudando a essên- 
cia principal do Feito (24) . 

As prodigiosas estatuas de Laocoonte com seus fi- 
lhos, Gruppo que íizerao os três famosos Rhodianos Po- 
lydoro, Antenedoro, c Agessandro , as quaes ainda com 
desvanecimento possue Roma (*) são nuas : e por esta 

mesmo Horácio , na Poética , pouco adiante o declara , dizendo , que náo 
ha de ser tanta , que se una ave a serpente , cordeirinho a tigre : isto he-, 
que se náo saia do verosímil ; e como neste caso náo se dá impossibilida- 
ce , náo ss falta á verosimilhança, 

(22) Plin. 1. 2,4. Cap. 8. 

(22,) Vincencio Carducho. Diálogos de la Pintura Dial. 4. no rev. 
de pag. 54. 

(24) Ahi mesmo. Dial. 7. pag. ri 5. 

(*) Quando principiarão as lamentáveis desordens da França, estava a 
escrita da presente Descripçáo completa , á excepção de algum retoque. 
Entáo, tanto a respeito de Estatuas, como de outras circumstancias , olhei 
para as cousas no estado, em que existiáo quando escrevi. Depois forso 
mudando ; eseeu também fosse mudando de escrita, nunca ella teria fim. 
Occorro a isto com algumas Notas , assim como a presente , em que de- 
claro que já Roma chora a falta do seu Laocoonte , e outras bellas Esta- 
tuas, Bustos, e Painéis, que em 1796 os Francezes lhe levarão. 



da Estatua Equestre. 31 

impropriedade ainda ninguém se atreveo a censurallas , 
nem a seus Authores : antes por isso mesmo são louva- 
das pelos intelligentes , considerando a causa , que a que l- 
les grandes homens tiverão para tomar esta licença Poé- 
tica. Vcja-se o que a respeito deste admirável Gruppo 
diz Rogero DepUIes (25). 

Por estes motivos , e guiado por tão respeitáveis 
exemplos, e authoridades , lamentava, e lamentarei sem- 
pre , não ser a nossa Estatua vestida á Romana. 

Nos modelos dosGruppos lateraes tive a mesma su- 
jeição , a que me vi submettido na Estatua ; conceden- 
do-se-mc escassamente o desafogo de mudar algum pou- 
co nos pannejamentos, e actitudes: conseguindo este li- 
mitado indulto , porque affirmei ser impossível (como 
em effeito he) fazerem-se de modo, que correspondessem 
com exacção aos desenhos ; nos quaes indicando-se hum 
lado , e frente de cada Gruppo , como se vê nas Est. 
III. , e IV. ; e sendo feitos os taes desenhos por estima- 
tiva , não podião sahir certos (26), ainda que fossem de- 
senhados por mão muito mais hábil, de algum Escultor 
muito prático. Também consegui não serem ambas feme- 



Cap. 
11. 



(25) No Commento a l'Arte delia Pitíura de Dufresnoy. pâg. 124. , 
e seg. 

(26) Posto que esre moio de desenhar se pratique, e seja certo, ex- 
acto, e até preciso na Arquitectura, he , náo obstante, impossível usar-se 
na Escultura ; náo precedendo, e copiando-se objecto de vulto; pelos mo- 
tivos , que os Professores sabem , e deixo de explicar por evitar prolixida- 
de. 



L 



2 



Cap. 
II. 



'32 Descripçao Analítica 

ninas as figuras aladas; fazendo huma de mancebo-, pa- 
ra que representasse o Triunfo , e a outra como se acha 
no desenho , representando a Fama. 

Acabado que foi este primeiro modelo , assim como 
os dos Gruppos lateraes, e sabendo-se que o Estrangei- 
ro também completara o seu , fomos ambos avisados pa- 
ra conduzillos ao Paço no dia 21 de Março de 1771 : e 
levando o meu Competidor dous modelos, hum delles á 
imitação do desenho , que se lhe deo , e outro de sua 
idéa com o cavallo a galope , ambos lhe reprovarão 
(27) : e Sua Magestade se dignou de approvar a minha 



(27) Este Professor era de Nação Maltez : appâreceo nesta Corte, 
fazendo bagatellas de marfim, que aturdirão muitas pessoas, posto que de 
qualidade , sem intelligencia alguma do desenho. Essas mesmas pessoas se 
empenharão a protegello ; e como virão a eleição em outro Sujeito , as- 
sentarão ter sido intriga , que se urdio ao seu dilecto Aíaltez ; dando isto 
assumpto a varias conversações , em que se ponderava , como cousa es- 
candalosa , ter-se preterido o Mal tez , aproveitando-se do sen modelo. 

Se isto fosse verdade , seria com eífeito acção indigna. Para defen- 
der pois o credito das pessoas , que influirão nesse facto (e também o 
meu) devo declarar mais , que o modelo , que fez o dito Professor pelo de- 
senho, que se lhe deo, pagou-se-Ihe, e não mal : não se lhe pagando po- 
rém , o que elle fez de seu motu próprio , o qual recolheo a sua casa , fi- 
cando nas Obras Públicas o que se lhe encommendou , e pagou , feiro á 
imitação do desenho, que recebera para esse fim. Este modelo, por casua- 
lidade , veio parar a meu poder ; e como delle não fiz caso algum , se- 
guio-se disto quebrar-se , e maltratar-se. Constando-me depois , que os Pa- 
tronos , e partidários do Maltez, dizião ter-se-lhe feito a sobredita injus- 
tiça , anciosaniente cuidei em acautelar , e conservar os fragmentos do 
mencionado modelo 5 os quaes ainda se achão na casa da Escultura da* 



da Estatua Equestre. 



33 



Obras Públicas. Eu publicamente convido toda a pessoa, que quizer ver 
estes fragmentos ; porque os intelligentes pelo dedo conhecerão o gigante , 
conhecerão se fui Plagiário , e juntamente quão pequena he a gloria do 
meu triunfo, 



ii. 



obra com expressões, em que me honrou muito, além do 
meu curto merecimento; porém nascidas da sua Real Be- 
nevolencia : não sendo esta a primeira vez que alcancei 
tamanha ventura ; o que não he ignorado de muita gente 
de bem que existe. 

Beijando a mão a Sua Magestade nos retirámos : e 
no seguinte dia tive a certeza de estar eleito para execu- 
tar esta Real Estatua , recebendo ao mesmo tempo as 
ordens necessárias para se continuar com a mais ardente 
actividade. 



Cap. 
ii. 



34 DescripcÂo Analytica 

A P P E N D I X. 



p 



Ara provar a minha verdade, e acautelar alguma ne- 
gativa a respeito de serem os desenhos, que rne obriga- 
rão a seguir, tirados sobre hum vidro á luz , pelos que 
deixou Eugénio dos Santos ; e sabendo que António S'top- 
pant , Ajudante da Casa do Risco das Obras Públicas, 
havia sido quem tirara os taes desenhos , á luz \ e que 
por ser empregado naquella Casa , sabia varias circum- 
stancias , e os meus sentimentos neste caso ; lhe pedi , 
que nas costas dos mesmos papeis, em que estão expres- 
sados os desenhos, me passasse attestações de serem os 
mesmos , que me haviao entregado : e para isto fomos a 
casa do Tabellião Victorino Manoel Cordeiro , onde se 
fizerão , e reconhecerão as ditas attestações , de que ex- 
ponho as copias seguintes. 

Copia da att estação, que se acha no papel, em que 
se vê desenhado o original da Estampa I. 

Eu António Stoppani, Arquitecto Civil, e Pintor 
de Perspectiva , attesto que estando oceupado na Casa 
do Risco das Reaes Obras Públicas desta Cidade , no 
emprego de Ajudante , me entregou o Arquitecto das 
mesmas Obras, Rainaldo Manoel dos Santos, os dese- 
nhos projectados , para se fazer a Estatua Equestre do 
Senhor Rei D. José I. • e me ordenou que sobre hum 



da Estatua Equestre. 3? 

vidro os illucidasse , o que com Bifei to fiz; e affirmo ser' 
hum delles o que se acha neste mesmo papel, que hei- 
de assignar , e os dous seguintes , que também assigna- 
rei, para constar, onde for preciso, serem os mesmos 
que se entregarão a Joaquim Machado de Castro, Esta» 
tuario , a quem se incumbío a execução da mesma Real 
Estatua, e a mais Escultura, que adorna o pedestal ; e 
também sei , e o affirmo , que sendo o dito Estatuário 
capaz de melhorar a invenqão, e mais qualidades destes 
desenhos, e querendo assim fazello , se lhe não consen- 
tio; e por ser isto verdade o attesto, se necessário for, 
debaixo do juramento dos Santos Evangelhos. E como 
sou de Nação Romano , e por falta de prática não sei 
escrever o Idioma Portuguez , ainda que o saiba ler, e 
entender perfeitamente, roguei a António Januário Cor- 
deiro, que esta por mim escrevesse. Lisboa 8 de Março 
de 1782. 

(Assignado) António Stoppani. 



Cap. 
11. 



3^ DescripçXoAnalytica 

■ Segue-se inimediatamente no original o reconheci- 

Cap. m ento , e testemunho de verdade do Tabelliáo Victori- 
n ' no Manoel Cordeiro. E assim mesmo nos outros dese- 
nhos , assignados pelo dito Professor Stoppani , e reco- 
nhecidos pelo mesmo Tabellião. 



isr. I 




UsfáSt&é ^4>t**/fa*, 



Esr. n 




Est- m. 





/..,„„. .•<'/*■ 



da Estatua Equestre. 37 



CAPITULO III. 

Do segundo Modelo executado em barro. 



o 



Segundo modelo, de que trato agora, he aquelle," 
em que se deviao fazer todos os estudos precisos para a 
perfeição desta obra; por ser o que havia de servir, co- 
mo em effeito sérvio de guia para executar-se por elle 
o modelo grande, que he, em certo modo , o mesmo 
bronze (1). 

Bem sabia eu que ainda os maiores Sábios , como 
homens, errão nas suas obras, e que por mais exames, 
que lhes façao, nunca chegao ao ultimo gráo da perfei- 
ção ; porém a prudência de reflexionar , o cuidado de 
acautelar, e a resolução de perder muito do que se exe- 
cuta fazem , com que as producções saião menos defei- 
tuosas : conhecia pela prática de mais de i> annos na- 
companhia do hábil Escultor Alexandre Glusti (2) \ pela-' 

(1) Ainda que a razão natural seja o maior apoio desta definição, 
tambím assim o diz Mr. Boffrand .... mais pcur les cuvrages debron- 
ze , U modele est en quclque façon 1'ouvrage mê me , dont le metal prend 
la forme : lamatiere seule en fait la difference. Description, etc. Chap. 
2> pag. 15. 

(2) Alexandre Giusti , (Escultor Romano, da escola do famoso Rta* 

M 



Cap. 
III. 



Cap. 
III. 



38 DescripçXo Analytica 

amisade, também de largos annos, do nosso Vieira Lu- 
sitano, e outros Professores, que sem se desmanchar mui- 
tas vezes , não se acerta hum a : e voltando- me para os 
estudos theorieos achava , que todos os Mestres recom- 
mendão isto mesmo. 

„ O' tos de Numa Estirpe 

„ Reprebendei todo aquelle que não sabe 
,, Muitas veze) riscar o seu Foema (3). 
Porém que importava ter eu animo , e desejos de 
riscar varias vezes este meu Poema, separa isso não qui- 
zerao dar-me tempo , nem liberdade ? 

Tanto que me vi eleito para a execução desta gran- 
de obra , cuidei com todo o desvelo em fazer os estudos 
preparatórios , que me permittião a escacez do tempo , 
e os grilhões , com que me achava ligado. 



fOHÍ) 9 já mais acabou modelo, que nso desmanchasse muitas vezes. Em 
hum dos modelos dos rr,eio3 relevos de Mafra , o vi 4 mezes suecessivos 
ligado voluntariamente acs pannos da perna de huma figura , pelas in nu- 
meráveis vezes , que os fez , e desfez. 

(}) Horácio na Poec. Trad. de Candid. Lusit. , e o que sobre isco 
diz este Commentador j que principia na pag. 13}. da primeira Edição. 
E Vicente Carducho diz: Cr cerne por cosa infaltble que si cl Pintor»... 
rio lo vieres cnsayar cn une y mttebos esrjuicios .. . . desbazienrfo y 
borrando muchas vezes .... es cansarse en vano. Dklog. de la Pinr. 
Dial. 4. pag. 57. e seg. onde relata, que estando Buonarroú com zelos 
de Rafael, pelo que delle ouvia, quando este chegou a Roma , e que 
dizenJo-lhe hum Amigo, que Rafael náo era o que se dizia , pois elle 
o vira pintar, e observara, que fazia, e desfazia-, respondera Buonarro- 
ti . . . Haze, j bma, quita, y pone? Esse sabe> e a esse temo. 



da Estatua Equestre. 39 

Nos dez dias desembaraçados, que medeárão de 22 
de Março de 1771, até 7 de Abril seguinte, me appli- 
quei a medir, (4) e examinar alguns Cavailos, que pa- 
ra este fim mandou apromptar o Excellentissimo Mar- 
quez Estribeiro Mor; e para mais facilitar a instrucção, 
que eu pertendiâ tirar da Symmetria Equestre, que to- 
talmente ignorava , nem tinha noticia que Author algum 
tivesse tratado tal assumpto, (5") desenhei vários contor- 
nos de Cavallos inteiros , e em partes ; e vistos pelas 
superfícies, e aspectos, de que eu precisava as dimensões; 
a fim denotar nestes esboços (*) as medidas, que achas- 
se. Isto feito, entrei na especulação : e para proceder 
com acerto, segui ornethodo, que tem usado os melho- 
res Mestres na Symmetria do corpo humano; servindo- 



(4) Mr. Saily , só em medir Cavallos gastou mais de hum armo. 
Cette seule opérãtion me couta beaucoup de peines , et le sacrifice deplus 
d' une année de mon temps , etc. Suite de la Descript. pag. 9. E na pag. 
10. diz , que desde 17 de Julho de 1756 , até 17 de Agosto de 1757, 
hum só dia de trabalho náo deixou de medir, e examinar os doze Cavai- 
los, em que estudou. E da pag. 14 para 15 diz, gastara 15 mezes só nos 
estudos doCavallo, para osquaes eu náo tive mais que os ditos déz dias. 

(5) Depois de concluída toda (ou quasi toda) a obra desta Estatua, 
e que tive mais algum desafogo para averiguações , tenho indagado, e até 
o tempo, em que escrevo este Capitulo, me náo consta de ter havido Ar- 
tista algum , que tratasse esta partisularidade. Air. Sally também teve 
este desgosto: e lamentando esta falta, declara as medidas, que achou ao 
todo, promette publicallas; mas náo me consta que sahissem á luz. 

(*) Esboço , e Boceto ; o mesmo que Bosquejo : porém os Artistas 
usáo mais da primeira, e secunda. 

M 2 



Cap. 
111. 



Cap. 
III. 



4° Descripçao Analytica 

'lhes de origem ás suas medidas , huma das partes do 
mesmo corpo, que se medião,, cujo systema julga Wa&> 
lete ser o mais seguro (6). 

Escolhi pois para origem desta symmetria a cabe- 
ça do Cavallo , a qual dividi em 16 partes; c estas sub- 
dividi em outras 16 cada huma, (7) de cuja medição fa- 
rei Capitulo separado, com estampas, que a declarem, 
(8) para evitar neste lugar a náusea de miudezas , só a 
Professores agradáveis , ou soffriveis. 

No dia 8 do dito Abril, fui á casa da Fundição de 
Artilheria , para escolher alli o lugar, que me parecesse 
mais a propósito , para fazer este segundo modelo ; (9) 
e já naquella casa havia ordem do Ministério para se 
me apromptar tudo, quanto percisasse para esta empreza y 



(6) Cetle mesure esí une espece de mesure universeíle qui na ricfr d 
traindre des cbangements d'nsage , ou desvariétés de denomination. V &- 

telet. Arr. de Peindre, Reflexions sur la Peinture, pag. 62. 

(7) Esta subdivisão, em figuras de menor tamanho, que o natura!, 
he demasiadamente miúda ; e para figuras menores que 5 palmos , cheg* 
2 ser q-iasi impraticável : por esta causa , quem quizer seguir este me mo- 
do em figuras pequenas, e rejeitar (como deve) tal impertinência, pôde 
dividir cada huma das primeiras 16 partes da cabeça do Cavallo, em 8; 
ou em 4 : e vem a ser quasi o mesmo ; porque cada huma das 8 , valerá 
2. das 16: e cada huma das 4 ? valerá 4 das mesmas \6. 

(8) Cap. IV. desta obra: Estampas VII., VIII., IX, , X. , XI. 

(9) O segundo modelo foi feito em barro, para se lhe tirar forma de 
gesso: tem 4 palmos Portuguezes. Bouchardon, eSally praticarão o mes- 
mo, fazendo os primeiros modelos em cera, os segundos em barro, e o* 
grandes em estuque. 



da Estatua Equestre. '41 

encontrando na urbanidade do Tenente General, Manoel' 
Gomes de Carvalho Silva > e do Brigadeiro Bartholemeu 
da Costa (então Tenente Coronel de Engenharia) todo 
o civii acolhimento , e promptidão ; mostrando-me as 
casas que havia , das quaes escolhemos huma , e nella 
principiei a dez do referido mez este modelo. 

Poucos dias depois pedi ao Excellentissimo Mar- 
quez Estribeiro Mor hum Cavallo , que Sua Excellencia 
julgasse mais bello, para o copiar , não só em seu todo, 
mas na Miologia ; e promptamente me mandou hum 
Cavallo chamado Gentil, (que na verdade o era) vindo 
todas as vezes , que eu o queria ; e este só exemplar po- 
de ser que em gentileza excedesse os doze , que Sally te- 
ve ás suas ordens para copiar , por ser o meu exemplar 
das Hespanhas, e aquclles de Sally Dinamarquezes. 

Quando este Artista vio os melhores Cavallos , que 
havia em Copenhague , e que lhos presenrárao para lhes 
servirem de exemplares ao seu modelo , diz (10) que 
„ lhe parecerão, sem excepção, seccos no seu todo ; a 
„ cabeça, e orelhas grandes; o pesecço, o peito, e os 
„ braços, vistos de face , extremamente estreitos ; os 
„ joelhos grossos, e chatos; as canelias delgadas, e os 
„ pés grossos. Vistos de perfil , lhe parecerão os corpos 
„ compridos , e afilados ; as pernas curtas ; os braços 
„ largos; as coxas, e as pernas , quando estiradas, mui- 



(10) Suite de\la Description, etc. pag. 7 , e 8. A traducçáo desta 
passagem aqui dada no texto, vai resumida. 



Cap. 
ih. 



Cap. 
ih. 



42 DescripçÃo Analytica 

„ to estreitas; c as coxas, quando dobradas, muito lar- 
„ gas. As garuppas, as coxas, e as pernas, vistas pos- 
„ teriormente, muito estreitas. Mas que depois de mui- 
„ tas conferencias com os Picadores, e depois de mui- 
5 , tos exames se persuadira estar preoceupado , c assen- 
? , tara comsigo serem aquelles defeitos da sua imagina- 
5 , ção , e não dos Cavallos Dinamarquezes , os quaes 
„ tem alta reputação em toda a Europa. „ Porém sendo 
os Cavallos das Hcspanhas ainda mais apreciáveis (n) 
que os Dinamarquezes , cuido que neste particular me 
favoreceo a sorte mais , que a Mr. Sally ; pois pelo que 
vejo na estampa da sua Estatua, desenhada porelle mes- 
mo, combinando o Cavallo nella representado, com os 
bons, que se achão neste Paiz, julgo que o Professor te- 
ve alguma razão para os reparos, que fez , e deixo trans- 
critos; e para inquietar-se com as formas, que lhe pre- 
sentava a Natureza daquella Região , vendo-se obriga- 
do a seguilla , para que a copia não desdissesse muito 



(n) // n'y a presque personne qni ne dur.nc Ia preferance nu Che- 
cai d'Espagne. On le regarás comme le prémicr de tous les Cbevaux , 
etc. La Science des Personnes de Cour. Tome 6. pag. 2-0. Porém a sen- 
tença do Príncipe Marquez de Newcasde , sobre este ponto , ainda he 
mais terminante, e diz : J'ay vsu des Cbevanx d'Espagnc , et mesme 
j'en ay eu qnelques uns \ ils soiit extremement beaux , et les plus propres 
de teus a étre pourtraits d'un pinecau curhux , ou pour lavwnturc d'un 
Roy , lors qtten sa glcire et majestè il se víut monstrer À ses pcuples, 
etc. Nevcasile. Methode et Invention nouvelle de dresser les Chevaux. 
Liv. I. Chap. IV. pag. 2$. E,diçáo de Londres de 1757. 



da Estatua Equestre. 43 

dos originaes vivos, que se viao no sitio j em que ficava 
o Monumento. 

Não consiste só em copiar bem a Natureza , nem 
bastão só os estudos, que ministra o Desenho, para se 
executar com perfeição hum Monumento destes; além de 
outros muitos estudos , são indispensáveis os da Arte 
Equestre , ou Cavallaria : e como eu não tinha noção al- 
guma desta Arte, o Excellcntissimo Marquez Estribeiro 
Mór quiz benignamente supprir esta minha falta , com 
o zelo, e curiosidade , que teve de ir pessoalmente áquel- 
Je sitio varias vezes honrar-me com a sua presença , e 
instrucçdes judiciosas (12). 

Nestes, exames assentou Sua Excellencia , que o 

Cavallo se não representasse a Passo, mas sim em Piaf- 

fer (13): é foi resolução feliz por quatro attcndiveis mo- 

(12) íluma destas vezes, náo estando presente o original vivo, me 
disse Sua Excellencia , desse eu hum toque em hum musculo , cujo toque 
me parecia opposto á Natureza : com o devido comedimento puz a mi- 
nha dúvida ; mas Sua Excellencia instou , e se dignou de modelar com a 
sua própria mão o tal musculo: resignei-me , violentado do respeito; mas 
quando appareceo o Cavallo vivo, e examinei o lugar, achei ser tal, e 
qual como Sua Excellencia dizia. Fiquei entáo admirado, vendo que este 
Excellentissimo , náo só tinha os maiores conhecimentos da Arte Eques- 
ire, mas que até na Miclogia do bruto conhecia a mínima circunstancia. 

(13) Piaffer he o manejo, em que se póe hum Cavallo , em actual 
movimento , sem avançar terreno, cujo movimento sendo o mais brioso 
do dito animal, tem aquella vivacidade, que anciosamente desejão expri- 
mir os Professores de Escukwra , e Pintura nas soas producçóes: qualida- 
de táo difficil de conseguir , e que muitos acháo neste Monumento de 
Lisboa.. 




Cap. 
XII. 



44 DescripcXo Analítica. 

' tivos: I.° , por ?cr este o movimento, em que o Cavallo 
mostra mais fogo, mais brio, emais nobreza: II. , por- 
que nes$a actitude tiveoccasiáo parahuma allegoria mui- 
to própria doHeroe, incluida no silvado, e cobras, que 
piza o bruto ; as quaes cobras , e folhas de silva servem de 
esconder o vigote de ferro, que sahe dope esquerdo do 
Cavallo (14) : IIL° , porque assentando perpendicular- 
mente a perna direita do Cavallo, ficou o quarto da mes- 
ma perna mais redondo , do que ficaria sendo a Passo, 
porque na actitude do Passo , como o corpo do animal 
avança para diante, necessariamente o dito quarto se es- 
tira , e por consequência fica mais estreito ; circumstan- 
cia, que desgostou em extremo a Sally (15:), quando fez 
a Estatua de Frederico V. em Copenhague : IV.° , por- 
que no Piaffer fica o corpo do bruto mais gruppado, que 



(14) São 3 os vergalhóes de ferro , indispensáveis para segurar huma 
Estatua destas. Todas as Estatuas Equestres, que existem, sáo fixas desie 
modo , ainda que nas suas estampas se vejáo sem indicio de ferro os pés 
dos Cavallos , que se fingem no ar. 

(15) Une chose qui m' a fort etonne et À la quelle j'ai eu beaucottp 
de pcine a maccoulumer , c-est lecreux qui se forme nu las desgrassets 
à'un Cbevãl , lorsquc les jawbes de derrière sont cteudues en arrière. 
Ce cretix précisémem plncé à 1'enàroit ou les anciens formoient une bos- 
se, jau poroítre d'abord la cuisse à cet endroit lá injiniment trop etroi~ 
te et trop maigre. Sally. Suite de h Descripr. Observation 7. pag. 37. 
Esta observação fez em mim os mesmos effeitos, que em Sally: mas co- 
mo náo tive tempo de reflexionar tanto, como elle, segui o gosto dos An« 
ijgos, affestando-me da Natureza mais que elle; e por este motivo affe» 
ctei hum pouco esta parte, em que o Piaffer já me favorecia. 



da Estatua Equestre. 4? 

no movimento a Passo ; fazendo esta actitude a Passo, ; 
parecer o corpo do Cavallo mais comprido (16), e por 
esta causa mais esgalgado. 

Deve-se notar mais, que no Piaffer , quando asscn- 
tão em terra as ferraduras de pé, e mão , naquelle ins- 
tante, em que assentão os rompôes das ferraduras, sem- 
pre as canellas posteriores se observão a prumo, descre- 
vendo as perpendiculares dos taes ossos com a terra, 
dous ângulos rectos , como se vê na Estampa XII. (*) 
fig. I. em ABD , e CBD : ângulos produzidos pelo 
encontro da perpendicular D B , com a linha da terra 
A C. Em o manejo do Passo, e muito mais no do Piaf- 
fer , nunca a perna, e menos o braço do Cavallo, assen- 
ta o casco totalmente em terra , de modo que as canas 
mostrem a direcção da linha, EB ; e quando a perna se 
acha nesta direcção, he impossível que o braço se ache 
ao mesmo tempo na de FB : porque, tomando a perna 
antes de levantar-se do chão esta direcção FB , e não 
a podendo tomar sem que o corpo do animal vá avan- 
çando para diante, claro está que achando-se o braço já 
nesta direcção , e avançando mais para diante cahirá o 
bruto de peitos em terra. Por esta causa erra quem ao 

(16) Les chevaux dam 1'alure du pas paroissent et sont effective* 
tnent plns longs de corsage que lors qu'ih sont dans leur position natu- 
relle , surtout du cote de la main. Ahi mesmo, pag. 39. No Piaffer, 
cambem se evita este inconveniente de prolongar-se o corpo do animal, 
de hum lado mais que do outro. 

(*) A Estampa XII. ^ vai nç fim do Cap. V* 

N 



Cat. 
III. 



Cap. 
111. 



'46 DescripçXo Analítica 

'representar qualquer destes manejos mostra a perna do 
Cavallo nesta direcção , estando o pé em terra : como 
se acha no desenho que tive para exemplar, Estampa I. ; 
cujo descuido se conhece também na Estampa da Esta- 
tua de Luiz XV. , que fez Mr. Lemqyne para a Cidade 
de BordeauXy mas nas Estampas das Estatuas de Bouchar- 
dou , e de Sally se achao estas direcções , como devem 
ser no manejo do Passo ; procedendo esta axacçao (a 
meu ver) de terem estes dous sábios Escultores estu- 
dado este assumpto, mais que outro qualquer Artista ; se 
me não enganão as noticias , que tenho. 

A posição F B he a que toma a canella , depois 
que assenta o pé, quando o bruto quer avançar o corpo 
para diante : e quanto maior for o avanço , tanto mais 
abaixa o corpo do animal , como já notou Leonardo de 
Vince (17), e o mostro nesta mesma figura \ pois sendo 
jguaes as linhas DB, e FB , o movimento que se faz 
de D para F, he causa de que a perpendicular FH se- 
ja mais curta, que a antecedente D B : e se o movimento 
chegar a G, muito mais curta será a sua perpendicular, 
como se vê em G C. De sorte que no manejo a Passo 
não só ha de mostrar-se o Cavallo mais estirado, e mais 
esgalgado, mas até mais baixo, como deixo demonstra- 



(17) . . . . e questo é cswsato dali' obllquitâ dellegambe, cbe íocca- 
Jft> terra , <he inalzano la figura di esso animale quando tal gambe dis- 
fanno la loro obliquitá , e quando si pongono pcrpcndiçolare sopra 1$ 
Una, Vincc. Tratuto delia Piuura. Cap. z68^ 



da Estatua Equestre. 47 

do : motivos que fazem ser o manejo do Pi.ffer muito" 
mais estimável em hum Cavallo de qualquer Estatui. 

Estas vantagens , que julgo ter o meu Cavallo aos 
das mais Estatuas Equestres , não se devem aos meus 
estudos , nem ao meu descernimento ; foi hum efíeito 
do acaso , e da resolução do Exceilentissimo Marquez 
Estribeiro Mor. 

Cem as instrucçóes de Sua Excellencia , fui conti- 
nuando a modelar o Cavallo, copiando o natural, quan- 
to me foi possivei , e usando das dimensões, que havia 
extrahido de três Cavallos, que para este fim examinei: 
porém simplesmente fui applicando estas medidas ao bar- 
ro, á proporção que o hia modelando, sem o escrúpulo 
demaziado, que teve Mr. Sally nesta operação. 

Deste exacto Escultor, a quem muito louvo os es- 
tudos que fez , não he possível agradar-me o methodo 
que teve de os pôr em praxe ; e pode ser , que o meu 
desagrado neste particular nasça da minha ignorância. 

Diz elle, que ao executar o seu segundo modelo, 
(18) ,, depois de ter feito os estudos preparatórios em 
„ Desenho , depois de ter estudado o movimento do 
„ Pssso , depois deter tomado os prumos necessários pa- 

„ ra por o seu Cavallo em hum justo equilíbrio 

„ principiara a modelar o Cavallo do pequeno modelo, 
„ conforme com as medidas do original vivo, que para 
„ este fim se escolhera. A cada medida , que tomava, 



(18) Suite de la Descrip. pag. 2c. 

N 2 



Cap. 
III. 



Cap. 
ih. 



48 DescripçÃo Analytica 

„ punha no barro huma pequena ponta de cobre , a fim 
„ de que as pontas do compasso não entrassem no bar- 
„ ro, etc. „ 

Este escrúpulo das pontas de cobre mais parece de 
curioso, que de Professor. As pontas do compasso, ao 
applicar das medidas, não podem offender o barro, de 
sorte que facão na dimensão differença perceptível , a 
não ser trémula excessivamente a mão do Artista: porém 
neste caso acha-se o Professor inhabilitado para os to- 
ques mais essenciaes, e que precisão muito mais firmeza 
de mão , que para applicar as medidas. Este excessivo 
medo esfria o enthusiasmo, e impede a franqueza de to- 
que , em que consiste huma das boas qua|idades destas 
Artes. Depois de estudar-se hum objecto, como Sally es~ 
dou o seu, deve a execução ser franca. 

Huma vez que tiveres hum assumpto 
Bem concebido, as vozes sem violência 
Verás que não te faltao no discurso. ( 1 9) 

(19) Horácio na Poet. Traducc, de Cand. pag. 139, e napag, 17 àei* 
xa dito : 

que se conca em nimio polimento, 

Perde a força , e furor 

j, Apeíles se conhecia nesta parre superior a Portogenes, censurando 
;'. este de náo saber levantar máo das suas obras , e de consumir nelkn 
., demasiado tempo ; e por isto declamando , dizia : nao haver cousa que 
; , aos Pintores traga tanto prejuízo, quanto a excessiva exaccão ; e que 
., a maior parte desses não sabião conhecer que cousa fosse o Muito. 
35 Náo se duvida que este Muito he difrícil de conhecer-se , e por isto o 
„ Pintor {na Escultura he o mesmo') depois de ter bem pensado o as* 



da EsTATtJA Equestre. 49 

Nas dimensões do Cavallo não segui exactamente ; 
a Natureza em todas as suas partes, (20) alterando-a em 
algumas, quaes forão na largura da garuppa, por dicta- 
me do Excellentissimo Director destes estudos : na lar- 
gura dos quartos posteriores , pela preoccupação de Ar- 
tista, semelhante á de Sally > aqui descripta em a Nota 
15: e na grossura das canellas , para dar capacidade aos 
grossos vigotes de ferro , que devião ficar internamente 
no bronze, para sustentar a máquina. (21) 

Não duvido haver quem me censure, por me affas- 
tar este pouco da Natureza; mas isto não foi sem refle- 
xão , e com intento de melhorar. Nas canellas , obrigou 
a isso a ponderada precisão: na garappa, odizer-me Sua 
Excellencia , que huma das perfeições dosCavaílos finos, 
he terem a garuppa larga ; e que se devia representar o 
mais belio, ainda que se não visse ordinariamente : di- 



Cap. 

III. 



„ sumpto, c o modo de tratallo, segundo as regras, e segundo a força 
55 do próprio Génio , deve obrar com toda a facilidade , e promptidáo da 
„ qual he capaz, sem lambicar tanro os miolos, e sem usar tanta indus* 
„ tria para fazer que nasçáo cirnculdades na sua obra. „ Todo este dis- 
curso he de Rugero de Piles , commemando Dufresnoy. Arte delia Pittu- 
ra pag. 166 , sobre o Preceito 60. Não pareça este discurso opposto ao 
que se diz em a $; a Nota desce Cap. tudo tem seu3 limites ; o ponto he 
saber chegar-lhe sem sahir delles. 

(20) Non siate cosi fortemente attaccato ai Naturale cbe mula vo- 
gliate concedere a'vostri studi , e ai vostro Gemo, etc. Dufresnoy. Are. 
delia Pitt. Prec. 19. pag. 31. 

(21) Na declaração da Symmetria Equestre notarei o excesso, que dei 
a estas medidas , nos ditos lugares. 



Cap. 
iii. 



£0 DescripcXoAnalytica 

ctame, que meparcceo muito bem, e que segui reveren- 
te, por ser de Pessoa tão respeitável, e de tanta intel- 
ligencia da matéria ; conformando-se o seu sentir com o 
do Sábio Ditfresuoy (22) e outros: e isto medeo também 
animo para o pequeno excesso dos ditos quartos. 

A situação, grossura, tamanho, e maneira da cau- 
da no Cavallo , concorre também muito para o aformo- 
sear : a maneira de nascimentos , que ás dos seus Cavallos 
derão Lei7Joyne , e Bouchardon, não me agradão por serem 
alçadas ; tendo nisto hum pouco de affectaçâo, e inde- 
cencia (23). A cauda do meu Cavallo ficou do modo que 
se ve unida , por determinação do meu Excellentissimo 
Director. 

Boucharâon , e Lemoyne , farião talvez as dos seus 
Cavallos alçadas por três motivos: I.° por dar-lhes mais 
viveza: II. ° porque não apparecesse tão continuado, sem 
alguma interrupção, o contorno circular , que mostra a 

(22) Non basta d' imitar e csattamente con bassa manterá ogni sorti 
di Natura ; ma è necessário che il Pittore ne prendi il piu bello. Du- 
fresn. Art. delia Pitt. Preceito I. pag. 20. 

(23) A cauda do Cavallo, cjue fez Girardon , he muito affectada no 
ondeado das sedas j mas tem melhor nascimento , que a do que fez Bou- 
charâon. O de Lemoyne tem a mesma affectaçâo , e o nascimento alça- 
do. O de Sally não alça tanto em o nascimento , e cahem as sedas com 
alguma naturalidade j mas acaba com huma affectaçâo nunca vista , e im- 
prcpriissima . revoltando para dentro toda em roda as pontas das sedas. A 
do meu Cavallo também tem hum pouco deamaneirada: e a cauda, que 
juh;o melhor que todas (e tudo o mais), he a que fez £ouçbardon- t as« 
sim ella não alçara tanto. 



da Estatua Equestre. 5*1 

garuppa, vista de perfil : III.° para dar mais facilidade 
á introducção, e sahida dos tacellos da firma (24), quan- 
do esta se fizesse ; e ao tempo de incrustar as cer.is no 
macho da segunda forma. 

Neste particular tive eu toda a liberdade; porque o 
Engenheiro destinado para fundir , não receou este tra- 
balho : e posto que mandarem-me executar o segundo 
modelo já na Casa da Fundição, não fosse causa princi- 
pal observar elle no modelo se levava alguns fundos , 
que lhe embaraçassem a sua manobra , com tudo , tive- 
mos ordem de concordarmos ambos no que fosse mais 
conducente para o fim proposto ; e por isso lhe pergun- 
tei varias vezes se lhe causaria obstáculo alguma das 
grandes cavidades , que o modelo indicava ; porém sem- 
pre me respondeo com huma intrepidez , filha dos seus 
grandes talentos „ que executasse eu tudo o que julgas- 

(24) Tacellos , chamáo os Moldadores aos bocados , ou peças , de que 
compõem as Formas. Forma, e Forma. -Seja-me licito declarar o diffe- 
rente significado destas palavras , que tenho ouvido confundir a varias pes- 
soa, por lhes faltarem noções das Artes do Desenho. Forma com accen- 
to agudo no o, he a configuração de qualquer corpo. Forma , com accen- 
to circumflexo no ô , he hum concavo formado de huma, ou mais peças y 
contendo em si o avesso de algum lavor ; em cuja superfície concava ,. 
applicando-se tal , ou qual matéria molle, ou líquida , que se congele, 
apparece depois essa matéria em relevo , ou vulto , com o lavor , que na. 
forma he concavo, como se vê nos sinetes, que applicando-se ao lacre, 
cera, ou obreia, apparece de vulto o que nelles he cavado. No Capitula 
V. adiante, darei huma noção do modo, com que se fazem estas formas 
para fundir figura^ 



Cap. 
ui. 



Cap. 
III. 



^2 DescripçXo Analytica 

„ se melhor, sem attender aos desvelos, que para elle 
„ se pieparavao. „ 

As duas cavidades dos braços da figura , e a da 
cauda do Cavallo ( por ser unida , e não alçada , como 
as que fizerão os dous mencionados Boucbardon , zLemoy- 
ne) são de grande dificuldade para executar a forma. A 
cavidade , que do lado esquerdo produz a concorrência 
do braço , e corpo da figura , com a superfície interior 
do manto , naquelle sitio , he quasi a mesma , tanto em 
a nossa , como nas mais Estatuas Equestres ; por ser a 
posição da mão da rédea também quasi a mesma em to- 
das : mas a cavidade, que do lado direito se produz de 
semelhante concorrência , he muito maior em a nossa Es- 
tatua , por ser a actitude do braço direito delia muito 
mais unida ao corpo da figura , que nas Estatuas , que 
fizerão Girardon, Boucbardon, Lemoyne , e Sal/y. 

Na cauda, sendo unida, como he a do Cavallo da 
nossa Estatua 3 ha outra dificuldade, como as pondera- 
das, pela concorrência de outras três superfícies , quaes 
são as duas interiores das coxas, e a interior da mesma 
cauda. 

A cabeça do Cavallo, intentei voltalla (se me dei- 
xassem) para o lado esquerdo; para contrapor á do He- 
roe , que volta sobre o direito : porém ainda antes de 
ver os motivos, que teve Sally , para não usar desta con- 
traposição, (25) eu, experimentando-a , deixei de seguir 

(25) Sally, diz que intentara esta contraposição ; mas que lembran- 



da Estatua Equestre. ^3 

este partido por desagradar-me o seu effeito , parecen- 
do-me huma contraposição de a'spa dura, e affectada: 
ficando em fim do modo que se acha , por evitar propo- 
sições , talvez não admissíveis em arfastar-me do exem- 
plar proposto , e porque na dita actitude não desconveio 
o Excellentissimo Director deste assumpto. 

Tenho declarado até aqui os estudos , e meios, que 
busquei para modelar o corpo do Gavallo : e a pressa, 
com que me fizerão executar esta obra , não me deo lu- 
gar para estudos mais especularivos , e precisos em ob- 
jecto , que não só eu, mas todos os Artistas , que fo- 
rao incumbidos de taes emprezas , experimentarão ser- 
lhes assumpto novo, ou não estudado (26) ; e por esta 

do-se tet-se repetido muitas vezes , a rejeitara ; e também porque elíâ 
se náo conforma tanto com as regras da Cavallaria , as quaes diz que sem- 
pre seguio em tudo , o que náo era áspero .... dont je ne me suis écar- 
té tant quelles ne m'ont rien demande de roid. Descrip. de la Stat. de 
Fred. V. pag. 31. Note-se 3 que náo se apartou daquellas regras , em 
quanto se lhe náo oppunháo ao bom gosto do Desenho ; claro está que 
se apartaria delias nas cousas , a que os Professores destas Artes chamáo 
durezas , etc. 

(26) Mr. Bouchardon a recberebé tous les m&yens qui pouvoient 
concourir À la perfection de son omrage. Pour marcher dun pas plus 
sur dam une rcute qui lui etoit en quelque façon nouvelle , /'/ a vouht* 
connoitre le suget qu'il avoit a traiter ; et persuade qu'il ne pouvoit biert 
asseoir les muscles du cbeval qu'il devoit représenter , ni juger de leur 
jeu et de leurs resorts , qu'apres avoir etudié la cbarpente des os et 
la strueture interieure de ce bel animal , il en a desúné le squelette 
avec grand soin ; puis étendant ses etudes sur toutes les parties exte- 
rieures dn tnême animal, il n'en est aucune qu"ú n'ait parúlkment des- 

o 



Gap. 

III. 



III. 



5*4 DescripçXo Analytica 

causa caminharão de passo vagaroso, estudando por va- 
* rios modos o que hião executar , não me sendo a mim 
possível , nem ao menos ver alguns Authores de Cavalla- 
ria, e Alvenaria, que tratão d as formas , miologia, e os- 
teologia do Cavai lo ; mas como depois vi alguns destes 
Authores , e nesta Descri pça o pertendo também dar al- 
gumas noções aos principiantes das Artes do Desenho, 
transcreverei neste lugar ( para não interromper a devida 
ordem) o que tenho achado a este respeito; e vendo-se 
o que dizem esses Escritores (27) combinado com o que 
executei, aqui demonstrado, e com aSymmetria Eques- 
tre, que fiz, e declaro nesta obra, severa onde me apro- 
ximei , e affastei dos preceitos desses Mestres. 

Dizem pois que „ a Cabeça do Cavallo he a parte , 
j, que mais contribue para a sua belleza : cila deve ser 
„ bem collocada em seu nascimento, e em si pequena, 
„ curta , secca , e com ramificações de veias , que se 
„ lhe percebão pelos lados, desde os olhos até &s ventas- 

sinée datis tom les aspecls , snivant leurs dijferents monvemer.s et dans 
leur grandeur naturelle : aucun detail ne lui a paru indifjerent , m 
devoir être negligé , etc. Descrip. des travaux qui onc precédé la fonte en 
bronze d'un seul jet de la Stat. Eq. de Louis XV. Chap. 2. pag, 23. 

(27) Saunier. l'Art de la Cavallerie etc. Chap. 18. Martin Arredon- 
do : Kecopilacion de slbcjiteria, Cap. 2.: Pedro Garcia Conde: Vt& 
dadiva Albeytaria. Liv. 4. Cap. 61. : La Science des Persenes deCour, 
etc. Tom. 6. Chap. 6. Fernando de Sande : Compendio de A Iv citaria: 
trad. em Port. Liv. 2. Cap. 1. Gueriniere : Eccle de Cavallerie. Tom* 
1. Chap. 1. António Pereira Re^o: Instrução da Cavallaria de Brida. 
Cap. 5. 



da Estatua Equestre. 55 

„ descarnada , mas não tanto que pareça falta de nutri- - — 

Cap. 

» Ç ao - m, 

„ As Orelhas devem ser pequenas , (28) direitas, 

„ pontudas , delicadas , bem postas no mais alto da 

„ cabeça, pouco apartadas, com pello curto, que lhe 

„ não encubra as veias; e quando marcha oCavallo, de- 

„ ve-as levar quasi direitas, hum pouco inclinadas para 

„ diante (25?) , ao que se chama orelhas resolutas. 

(28) Rego , no Cap. citado , diz que sejão as orelhas grandes. Mas 
quem nos certificará que elle náo chame grande ao mesmo tamanho, que 
outros chamão pequeno l Como nenhum desses Authores se explicou até 
agora , senáo por esies termos geraes , grande , pequeno , sem definir com 
precisão a grandeza , ou pequenez, cada hum terá determinado mental- 
mente estas quantidades , como o seu bom , ou máo gosto lhe tiver inspi- 
rado. Este methodo , em determinar medidas , náo serve para as Artes 
do Desenho, nem mesmo para os Cavalleiros. Na Symmetria Equestre, 
que exponho nesta obra , mostro como se devem fazer as observações dos 
tamanhos dos membros. A dita Symmetria , que descrevo , he feita so- 
bre bons Cavallos naturaes , com attençáo aos sentimentos dos Authores 
citados, e de pessoas intelligemes ; mas náo obstante estas circumstancias, 
por este methodo poderão alguns Cavalleiros emendalla , sem precisa- 
rem para isso de tomar o compasso na mão , tendo vista prespicaz , e 
bom descernimento ; porque vendo nas estampas respectivas o que a este 
respeito lhes agrada, ou enfastia, podem approvar, ou rejeitar o que lhes 
parecer conforme ao melhor senso. 

(29) Garcia Conde, no lugar citado, he de opinião contraria, ediz: 
Tenga buenas oregas , y no cortas , ni angostas , que no estém vmy 
juntas , ni las traiga ressias , y derechas , que son de gran fealdad , 
sino han de estar apartadas , etc. Pelo que respeita ao comprimento , e 
apartamento , que devem ter , como náo determina quantidades especifi* 
cas , estamos no mesmo caso 5 e circumstancias , que deixo expendidas em 

O 2 



Cap. 
III. 



$.6 DescmpçXo Analytica 

„ A Testa deve ser hum pouco estreita , unida no 
„ alto, e as saleiros (covas dos sobrolhos) plainas. 

„ Os Olhos sejáo grandes-, e vivos , nada encova- 
„ dos ; mas também não sejão mais salientes que o so- 
„ brolho (30). 

„ As Ouelxaàas hão de ser estreitas no que vai da 
jj testa para o pescoço; mas bem apartadas huma daou- 
„ tra por baixo; para que a garganta entre nellas bem, 
„ e lhe não irnpida o recolher da cabeça, para o enfrear 
,, bem ; e a distancia, que ha dos olhos até as ventas, 
„ estreita, com pouco pello, e descarnada : porém no 
5 , descarnado, com acautela, que no principio se disse, 
jj tratando da Cabeça. 

„ A Bocca tenha boa proporção com o comprímen- 
yj to da Cabeça, nem muito rasgada, nem muito peque- 
y y na ; de sorte, que bem lhe caiba o freio. Os Beiços 
„ não sejão grossos, nem carnudos; e o superior, que 
„ tire hum pouco para o agudo , e algum tanto mais 
„ comprido que o inferior. 



a Nota antecedente. Pelo que pertence ao ressias y dereebas serem de 
gran fealdad , antes me parece pelo contrario ; e que do outro modo tem 
mais graça, e viveza, e que sáo, como dizem os Francezes , Oreilles 
hardies. Saunier no lugar citado, diz : Plus elles sont écartés l'une de 
l nutre , plus le cheval est difforme .... /ri grandes oreilles . . . . les 
petites hur sont préferàbles , tant pour leur beauté que pour leur intre- 
pediíé. Desta mesma opinião he Guerinieri lug. cit. 

( $0) Garcia Conde , diz : los ojos grandes y salidos a fuera , que 
paresca que se quierçn saltar dç }H çabidad. 



(;i) Semelha, agulha, e Cruz, he tudo o mesmo. Para mostrar 
as situações dos membros , a que estes , e mais nomes pertencem , vaj 
adiante estampa , que por números lhes mostra os lugares. He a Est. 6. 
que se acha no fim do Cap. IV. , e também ahi se encontrão as Est. da 
Symmetria Equestre. 

(32) Saunier he de voto contrario. Mas Gucrinieri mostra ser deste 
sentir, o qual sigo apoiado por inteligência muito superior á minha, 



m. 



da Estatua Equestre. £7 

„ As Ventas bem abertas , e a Barba não deve 
5, ser muito chat3 , muito relevada, nem carnuda ; ede- • 

5 , ve ter a pelle sobre os ossos. 

„ O Pescoço, para ser bom , ha de ser estreito jun- 
5, to ás queixadas, comprido; e que o seja mais da co- 
„ va entre as clavículas até as orelhas , que destas até a 
„ Semelha. Deve também ser antes chato, que redondo: 
„ e por isso a qualquer dos seus lados chamao Tahoa. A. 
„ volta do pescoço, a que chamão encoladura , deve ser 
>, hum tanto relevada, imitando o pescoço de Cisne ; e 
„ que seja talhante, junto á Cima, Esta seja comprida, 
„ e não muito basta ; e o Topete comprido, e de sedas 
„ finas. 

„ A Semelha (31) seja elevada, comprida, e gros- 
3 , sa , e mais alta que as ancas. 

„ As Espadoas não sejao carnudas ; (32) mas de- 
„ vem ser chatas, largas, livres, e moventes ; e que 
„ os seus ossos se achem , quanto for possível , debaixo 
j, da Semelha. 

„ Os Peitos sejão proporcionados ao talhe do Ca- 



Cap. 
III. 



5-8 DescripçXo AnalyTica 

, vallo , nem muito largos , nem muito abertos , nem 
, muito avançados (33). 

„ Os Braços devem ser em altura bem proporciona* 
, da ; de bons ossos, limpos, descarnados, de pello 
, curto, que pendão perpendicularmente desde cima até 
, a Junta ; e a posição das Mãos , que seja recta para 
, diante , sem voltarem para dentro , nem para fora. E 
, os coàilhos também devem ter a sua posição recta , e 
, parallelos hum com outro ; porque os Cavallos, que 
, tem os coàilhos cerrados para o Bojo , virão braços , e 
, mãos para fora; eaquelles que tem os coàilhos abertos, 
, voltão braços, e mãos para dentro , denotando froxi- 
, dão qualquer destas posições. O braço , até o joelho , 
, deve ser comprido , largo, nervoso , e os músculos 



($3) Fernando de Sande, no lugar citado, diz : os peitos largos, t 
sabidos para fora , d maneira de esporão. Mas Guerinieri parece ser de 
contraria opinião , dizendo na sua citada obra , les gros Cbevaux et les 
HoHssins ont presque toujours la poitrine trop large et trop ouverte , et 
qui les rend pesans , et par conséqucnt excellents ponr le tirage. O 
Excellentissimo Director dos meus estudos também be de opinião, como 
Guerinieri , que os peitos muito largos fazem os Cavallos pezados , e de 
figura mais grosseira ; e por isso náo consentio que eu desse a esta parte 
a largura, que pertendia , levado pelo desejo de exprimir o grandioso, que 
tanto amão os Artistas do Desenbo. Nos Cavallos porém , para carrua- 
gens , querem-se os peitos mais largos ; e neste uso serão mais bellos, 
por serem assim mais próprios para aquelle trabalho. O certo he que a, 
principal parte da belleza das cousas consiste em serem bem adaptadas 
ao seu próprio uso. Veja-se Mr. Bofjrand. Livr. d'Architecture. Disser- 
tatiun snr et qtCon appelle k Bon Goâst , tíç. 



Cai 

IH. 



da Estatua Equestre. 5:9 

„ pela parte de fora grossos á proporção (34); mas so- 

„ bre o chato. ^ Ap * 

„ Os Joelhos devem ser chatos , largos , e não ter 
„ mais que a pelle sobre os osso?. 

„ As Canas dos braços , do joelho para baixo , de- 
5 , vem ser grossas , unidas , e curtas ú proporção dos 
„ braços, e talhe do Cavallo. O Nervo , ou Tendão, que 
)5 reina pela parte posterior , e ao comprimento da Ca- 
„ na , faz huma das bondades do braço , e também da 
„ perna; deve ser grosso á proporção da Cana , desta- 



(34) Sande , e Saunitr dizem que sejáo os braços carnudos ; Gar- 
cia Conde quer que sejáo descamados. Mas isto julgo que se deve enten- 
der do modo, que se declara na Science des Perscnes de Cour: isto he, 
que os músculos pela parte de fora sejao grossos â proporção. Em varias 
cojsas mais variáo estes Authores, chegando Saunier , e Gxerinieri até 
a trocar os nomes nesta parte do Cavallo ; chamando hum Brás , ao que 
outro chama Canon. Mas com a prudência, e pareceres de bons Caval- 
leiros tudo se concorda. Nas Artes , e cuido que também nas Sciencias 
humanas, exceptuando algumas partes da Mathematica, tudo está sujeito 
a opiniões centradictorias ; devem seguir-se aquelías que mais tem de bona 
gosto: he verdade que esta qualidade admirável todos julgáo possuilla, e 
alguns se enganáo: porem se Mnratori já retratou o Bem Gosto das Set- 
eias, e Artes, Bojjrand , e Mengs também lhe desenharão a Imagem 
para as Artes do Desenho , a qual pode guiar os que entráo na estrada 
desta: Aries , e mostrar o caminho aos que leváo a derrota perdida : e 
posto que Bojjrand falle da Arquitecrura , e Mengs da Pintura ; as Bei- 
jas Artes todas subordinadas aos mesmos principios mutuamente se dáo 
as mãos nas suas Leis: e se os que estudáo não tiverem capacidade para 
lerem nas obras dos Authores mais alguma cousa do que acháo escrito 3 
náo será grande o fruto, que delias tirem. 



Cap. 

M. 



6o DescripçXo Analítica 

„ cado desta (35:), sem humor, ou grossura entre estas 
„ duas partes , para que não pareça a canella redonda , 
3 , antes sim chata , e larga. 

„ A Junta ha de ser nervosa , e grossa á propor- 
„ çao do braço , e perna. A Quartella não seja muito 
w comprida, nem muito grossa; e que incline hum pou- 
„ co para diante até ao casco. A Coroa do casco , deve 
„ acompanhar o casco em roda , e ser menos saliente, 
„ que o final , ou sola do mesmo Casco. Os Cascos de 
„ mãos , e pés sejão bem proporcionados ; nem gran- 
„ des , nem muito pequenos , quasi redondos (36) , e 
„ mais largos em baixo, que no seu nascimento. A Ta- 
5 , pa , ou Cinta do Casco, seja liza , igual , e sem ru- 

„ As Costellas náo sejão serradas , ou apertadas; 
„ mas que procedão em ar de volta , das vértebras para 
„ o bojo. 

„ O Bojo , ou Ventre , não desça muito abaixo , nem 

(35) Nos Racionaes , tanto nos braços , como nas pernas, ha dous 
ossos do cotovelo para a mão, e do joelho para o pé: nos quadrúpedes, 
ha hum só. Pelo que eu via na Osteologia dos Racionaes , vivi muito 
tempo na supposiçáo de que este Nervo , ou Tendão dos quadrúpedes 
era também osso , pelo ver tão grosso , e destacado da cana. Faço esta 
declaração para livrar os principiantes do engano , em que eu estava. Nos 
braços dos racionaes , o osso correspondente a este Nervo dos brutos , he 
o osso Cubito : e nas pernas , o osso Fibola. 

(?(>) Nas poucas observações , que tenho feito sobre a Natureza , acho 
que os Cascos dos pés são hum pouco menores , e mais ovados que os 
das mãos. 



da Estatua Equestre. 61 

„ seja muito largo (37) , nem muito cheio, e precisa- 
,» mente acomoanhe o redondo das Costellas. 

„ Os Ilhaes , ou Vazios , não sejão cavados , mas 
„ acompanhem o redondo do Bojo , e Costellas ; e o Lombo 
„ seja quasi direito, e náo fundido; e os Rins plainos. 

,, AGarnppa para ser boa ha de ser redonda, e lar- 
„ ga , com hum canal pelo meio no lugar, onde assen- 
„ ta o rabicho ; dividindo as Ancas com igualdade, as 
„ quaes devem ter proporcionado comprimento, sem que 
5 , os ossos delias sejão muito elevados. 

„ Da Cauda , ou Cabo, a sua situação, força, e por- 
„ te, fazem julgar a bondade, e força do Gavallo : o 
„ seu Sabugo , ou Troço , ou Tronco , seja curto, grosso, 
„ bem recolhido (38), bem guarnecido de sedas ? que 



(37) Rego, no lugar citado, diz que seja o Bojo largo; e Guerinie- 
r£ , lug. cit. j diz o mesmo ; porém accrescenta : à proporticn de la íaills 
dti Cheval. Attendendo a esra circumstancia , e ao que mais podia con- 
tribuir para a formosura do animal , me ordenou o meu Excellentissimo 
Director , que desse ao Bcjo do meu Cavallo menos largura , que á gârup» 
pa. E com eríeito não pode negar-se que em todo o animal, ou racional, 
ou bruto , hum Ventre grande pende para o deforme. Entre os Lacede- 
moneos reputava-se crime o ser gordo : hum delles foi ameaçado com 
desterro por ter o ventre muito grande. Mr. Mathon. Par quelles cau~ 
ses . . . les Loix de Licurgue se sont altérées , pag. 59. 

(38) Rego , no lug. cit. , diz : o Sabugo do Cabo , curto, e grosso, 
bem recolhido no nascimento, ctc. E Garcia Conde, lug. cit. diz : que 
tenga buena cola , biem poblada , y con buen assiento , que no la joegue 
a um , y otra parte , que paresca que esta çkvada. Tudo isto apoia a 
censura, que deixo feita ás caudas alçadas. 

P 



Caí* 
iíi. 



Cap. 
111. 



62 DescripcSo Analytica 

„ desça redondo ao sahir da garuppa ; e que não nasça 
„ muito alto, nem muito baixo. 

„ Os Testículos sejão pequenos, e a Verga curta. 

„ As Coxas , e Nádegas grossas, e carnudas porden- 
íy tro , e por fora , á proporção da Garuppa. 

„ As Solaras devem ser sahidas , e avultadas , e 
yy as Curvas enxutas. O Curvilhoes sejão grandes , largos 
yy descarnados, e nervosos ; nem muito unidos hum ao 
„ outro , nem muito para fora , e apartados. As outras 
„ partes das pernas devem ser largas, chatas, seccas, 
„ nervosas, e pouco guarnecidas de pello ; e nas Juntas ,. 
„ Quartellas , e Cascos dos pés , o mesmo que se disse 
5, destas partes nas mãos. „ 

Mais são ossignaes, que osAuthores de Cavallaria , 
e Alveitaria apontao , para a bondade, e formosura de 
qualquer born Cavallo; porem eu só transcrevo aquelles, 
de que a Escultura hc susceptível, deixando as mais ad- 
vertências para as pessoas appiicadas a esses conhecimen- 
tos, que para o Desenho de pouco servem; e continuo a 
discorrer sobre o modelo do meu Cavallo , que para o 
jaezar , aqui mostro nas estampas primeira , e segunda 
do Desenho , que me obrigarão a seguir, não poder dei- 
xar de traçar-lhe as clinas , ainda que conhecia ser me- 
lhor (para o gosto do Desenho) ficarem soltas, por ser 
mais pintoresco, e ficar o pescoço do Cavallo menos sec- 
co nesse lugar, por onde as mesmas clinas se espalhas- 
sem^)^ 

(39) Persuado-me, que todos gs Cavallos de Estatuas Equestres tem 



da Estatua Equestre. 6$ 

No resto dos jaezes também falta a nobre simplici- 
dade , que tanto amão as Artes (40), e em que se não 
embaraçou o Excellentissimo Marquez Estribeiro Mor; 
mas como eu não tive a felicidade de Mr. Sally (41), 
vendo-me subordinado avarias pessoas alheias destas Ar- 
tes , tive a fraqueza de as querer agradar ; e por isso o 
freio, o peitoral, os estribos, e rabicho tem bastantes 
ornatos : e que poderia eu fazer que agradasse a quem 
da minha profissão só estas bagatellas conhecia ? (42) 
Mr. Sally , diz que no jaezar o Cavallo da sua Estatua , 

as crinas soltas. As estampas, que tenho visto, me certificão ser assim 
hum grande número delias. 

(40) Deve però /ivvertirse , che Yopera non sia troppo arricbita. Du 
Fresnoy. Art delia Pie. Prec. 24. pag. $4. E Rugero de Piles commen- 
tando o dito , refere na pag. 1 16. que vendo Apelles huma Helena , que 
pintara hum seu Discípulo, adorn da com muito ouro, e jóias, lhe dis- 
sera : Amigo , como não a soubeste fazer bella , não faltaste a fazella 
rica. 

(41) Selon les conditions de mon contraí je devois exécuter ce Mo~ 
ttument sous les ordres immediats de sa Majesté , ou d'un Ministre 
qu'elle preposeroit à cet effet , et non d'autres. Sally. Suite de Ia Des- 
cript. na primeira Nota. 

(42) Quando se vio a Estatua fundida, epara este fim se deo ao Pú- 
blico entrada franca na casa da Fundição , eu ouvi a muitas pessoas ad- 
mirarem com muitos louvores, estas, e outras ninharias, que ha na figura, 
como são os punhos de renda , etc. que horrível sátira me seria este lou- 
vor , se fosse proferido por pessoas de solida intelligencia nas bellas Ar- 
tes ? Estes Panegyristas são comprehendidos na irrisão, que faz Luciano 
daquelles que descrevendo Júpiter Olympico , só se admirassem do poli- 
mento do pedestal. Veja-se a pag. 57. prim. Ediç. da Traduc. de Lucian. , 
feita pelo -nosso Erudito P. Custodio José de Oliveira, 

P 2 



Cap. 
iií. 



Cap. 
III. 



64 DescripçÃo Analttica 

■ se conformou tombem com o antigo uso Romano , pondo-/ hc só 
hum freio muito simples , huma manta (em lugar de sei la ) 
e huma silha (43). Na minha obra usei de sellim (44), 
charel , e o mais que fica dito. 

Para os estudos da figura do Heroe, como não po- 
dia escusar o vestido de ferro , pedi que se me deixas- 
sem ver os armamentos desta classe, que havia no Arse- 
nal dos Exércitos \ e ao vêllos 7 e examinalios se me 
augmentou o desgosto, não achando em nenhum dellcs 
o musculado, que via em algumas estampas : até que a 
reflexão me fez conhecer, que os corpos armados, pro- 
duzidos pelo Desenho, em cujos bustos eu vira indicada 
a miologia , erão aquclles que figuravão ser vestidos de 
couraça ; admíttindo estas o musculado , por serem al- 
gumas feitas em formas, estando o couro em consistên- 
cia tal , que nas ditas formas toma a configuração dos 
músculos» Porém nos de ferro não havia esta especie de 
belleza , que eu pertendia ; achando cm todos, pela fren- 
te, e pelo meio do corpo, de alto a baixo, hum angu* 
lo, ou espinha muito desagradável : e reparei, que es- 
tando vestidos os taes coletes de ferro, não cubiião to- 



(43) Descrip. de la Stat. Eq. de Fred. V. pag. 41. Também nisro 
deve haver prudência j náo seja a simplicidade tanta , que degenere em 
pobreza. 

(44) JBouchardon, na Lstat. de Luiz XV. em Paris, adoptou huma 
especie de Sellim. Lenwyne ', em a do mesmo Soberano, de Bordeaux , 
usou de manta. Girandon, na de Luiz XIV., em Paris, também man- 
ta 3 etc. 



. (45) A configuração dos coletes de ferro , que tenho visto 3 mostra-se 
na estampa V. figura i. a no fim deste Cap. 

(46) Mostra-se huma destas peças em quatro differentes aspectos, na 
mesma estampa V. figuras 2.% 3/, 4.% e 5.* 

(47) Etplutòt que le vrai , suivez la vraisemblance. Watelet. L'Art. 
de Peindre. Chant 3.° pag ( 30. 

(48) Salvador Rosa , nos seus Soldados , e le Brtm , nâs suas Bata- 
lhas, também fingirão armamentos. Imitons le jameux le Brun , l'un des 
plus bcaux gentes , qui aient brillé dans la peinture. S'il a etudié le 
costume des armures antiques , ce n'a point été pour les copier avec servi- 
tude , ni pour en admettre le goât simple jusqu'À la pauvreté , mais 
pour se mettre sur la voie d'en imaginer de plus ingènieuses et plus 
agréables, Mr. Cççhin. Ouvres Divcrses, Tom. j. q de pag. 210 , para 



111. 



da Estatua Equestre. 6$ 

do o busto de quem os vestia , chegando só a cubrir 
até o lugar das ultimas costellas espúrias (45") : de que in- ^ Ap « 
feri que o não cubrirem todo o tronco , era para não im- 
pedir o tal qual movimento , que tem o corpo neste lu- 
gar. Esta reflexão, e o achar algumas peças construídas 
de varias chapas moveis (46), e que servião de vestir as 
coxas das pernas aos cavalleiros, me aclarou a idéa para 
fingir hum novo modo de vestido de ferro, que se pare- 
cesse mais com a couraça , não faltando nesta ficção á 
verosimilhança (47) , e fazendo o Corpo da figura mais 
airoso do que ficaria com o colete feito de ferro , do 
modo que elles são construídos. 

Fingi pois (48) hum colete feito de duas chapas 
de ferro, huma da frente, outra das costas, musculado, 
e que chegasse unicamente ao dito lugar das ultimas cos- 



III. 



66 DescPxIpçXo Analytica 

■' tellas espúrias ; e como daqui para baixo , no resto do 
' busto , he que ha mais movimentos , fingi continuar com 
as mencionadas chapas móveis até cubrir todo o Abdómen 
com os seus músculos transversaes ; porque daquelle mo- 
do não impedem os movimentos próprios daquelle lugar, 
como se mostra na Estampa V. figura 6. a 

No resto do mesmo armamento, também não segui 
exactamente os que vi de ferro ; que todos mostrão nu- 
mas pernas, ao parecer, muito curtas, por causa da sua 
excessiva grossura : e nesta voluntária falta de exacção, 
busquei tudo (quanto me foi possível) o que d minha Pro- 
fissão convinha , fugindo ao que ella repugna (49) . E consi- 
derando a grande altura , em que se collocava esta Esta- 
tua , e que muitas das suas partes, por esta causa haviáo 
de ser vistas de escorço , pensei também ser-me preciso 
alterar-lhe as devidas proporções , para parecer propor- 
cionada , pelo effeito da illusão ; por cuja circumstancia , 
junto com a ponderada das armas de ferro , tomei a re- 
solução de augmentar algumas partes no seu comprimen- 
to, e diminuir outras na sua grossura (5*0). 



(49) Cercbisi tutto cío che conviene ali' Arte , e ebe puo ajutarla , e 
juggasi qualunque cosa , che ad essa ripugna. Dutresnoi. Arte delia 
Pinr. Prec 59. pag. 53. 

(50) E questo si fa , per che quelle figure , che son poste in alto , si 
perdono nello scorto delia veduta stando di sotto , e guardando alio in 
su. Onde cio che si dÀ di accrescimento , vieni a consumarsi nclla gros. 
sczza dello scorto , e tornano poi di proporzione , nel guardarle , ginete , 
t non nane , ma con boníssima grazia. E quando non piacesse far questo t 



da Estatua Equestre. 67 

Como a Imagem do Heroc não he vestida áRoma- 



111. 



na, seria incongruência fazer-lhe Clamyde, e neste caso p 
(como não' sabia de todo expressado no exemplar que 
tive) para evitar a mesquinhez, e maneira péssima, com 
que o manto se mostra no original , fiz esta roupagem 
mais grandiosa, na idéa de fingir manto Real, ou man- 
to da Ordem de Christo , os quaes estando soltos são 
assas amplos, para imaginar-se-lhes a extensão, que o da 
Estatua indica. E para não me afastar do uso do vestido 



si potra mantenere lemembra delia figura sottilette , e gcntile , cbe quês» 
to ancora torna quasi il medesimo. Giorgio Vasari. Vite de Pittori , Scui- 
tori, etc. Tom. I. Nella Introduzione. Cap. VIII. a Carr. XXXI. Na 

obra : Les Dix Livres d'Jrcbitect. de Vitruve Seconde Edition. 

Livr. 2,. Chap. 2. pag. 8 1 , se vê ser este grande homem da mesma opi- 
nião ; mas o seu Douto , e admirável Traductor ; e Commentador Mr. 
Perrault mostra náo seguir este partido , fazendo na referida obra huma 
larga Nota para refutar este systema , e persuadir o contrario ; porém , 
náo se atrevendo a condemnar absolutamente esta regra , que he huma 
daquellas , a que os Professores chamao regras de convenção , diz que Yotl 
tie le doit pratiquer querarement. Mas ocaso, em que eu a pratiquei, he 
huma dessas raridades. O discurso de Perrault he na pag. citada , em a 
Nota 24 do mesmo Cap. 2. No 6.° Livro torna Vitruvio a propor esta 
máxima 5 e Perrault a oppôr-se-lhe ; confessando porém que muitos Ar- 
quitectos , e Escultores sáo da opinião de Vetruvio. Os argumentos de 
Perrault sáo na verdade muito scientificos, a respeito do engano da vis- 
ta , expendendo bellas razões Physicas : ha com tudo bons fundamentos 
para lhos contrariar ; mas náo soffrem essa precisa extensão estas Notas : 
baste dizer , que em a nossa Praça do Commercio , ou seus edifícios, 
acho exemplos deste engano de vista j e contra a experiência náo valem 
argumentos. 



Cai» 
iii. 



68 DescripcSo Analytica 

; Je ferro, em lugar de esporas lhe fiz puas; pois que os 
Cavalleiros primitivos da dita Ordem usavão delias ; e 
ainda hoje , para memoria daquella antiguidade , quando 
algum Sujeito entra nesta Ordem , na ceremonia , ou 
acto de o armarem Gavalleiro , se lhe põem nos pés as 
ditas puas , e na cabeça o capacete de ferro , etc. 

A posição do Gavalleiro em corpo, braços, e per- 
nas, assim como a do Cavallo, para que ficasse confor- 
me com as boas regras da Cavallaria, foi tudo pela sa- 
bia direcção do Excellentissimo Marquez Estribeiro Mor. 

Querião algumas pessoas , que as mãos do Caval- 
leiro tivessem luvas , por ser isto conforme ás regras 
Equestres; mas eu, que via a Imagem do meu Heroe, 
dos pés até á cabeça , toda embuçada em ferro, e que 
em nenhuma parte mostrava o nu, (principal belleza des- 
tas artes, como fica provado nos Capítulos precedentes) 
pedi ao meu Excellentissimo Director me permittisse 
que as mãos fossem nuas , a pezar das censuras que me 
fizessem sobre este ponto as pessoas , que ignorao em que 
consiste o bello da Escultura , e Pintura (5*1): e conce- 
dendo-me esta licença , assim as modelei sem luvas, 
muito de propósito , e não por descuido , como alguns 
tem erradamente julgado. 

Mr. Sally para saciar os seus escrúpulos , quando 
quiz fazer a mão da rédea da sua Estatua , moldou cm 
gesso a mão de Mr. Schaejfer , primeiro Picador de Fre- 

(51) Yeja-se q final da Nota 25, e toda a 49 deste mesmo Cap. 



da Estatua Equestre. 69 

derico V. ; mas eu por menos escrupuloso , menos sa-' 
bio, e mais apressado, posto que já instruido na posi- 
ção que ellas devião ter, fiz moldar em gesso as minhas 
próprias, e pelos gessos delias extrahidos, copiei as da 
figura. 

No Rosto quiz fazer hum retrato parecido quanto 
cu pudesse ; e tendo Sua Magestade benignidade para 
conceder-me a honra de que na sua presença eu desse 
alguns toques de semelhança na sua Imagem (pois que 
em outras occasiões me havia já conferido a Graça de 
admittir-me a modelar na sua Real presença ) náo se me 
consentio intentar isto; e o único recurso, que tive, foi 
valer-me do meio perfil expressado na moeda , e da es- 
tampa de Carpinettt , com alguma vista casual. Em qual- 
quer retrato , para se mostrar bem parecido, (como os 
Professores não tem poder de os animar) he muito da 
essência não esconder nada do rosto , nem mudar-lhe o 
penteado (52), que a pessoa retratada costuma usar: tam- 
bém estes soccorros me faltarão, por ser o penteado di- 
verso; e peior que tudo, cubrio o capacete huma gran- 
de porção da frente , a qual no retrato do Senhor Rei 
D.José L faz huma muito principal parte de semelhan- 
ça. A pezar destes inconvenientes , muitas pessoas o 



(52) .... meme pour le cbcvelure , quoi qu'on ne puisse guéres la 
thanger sans afjoiblir la ressemblance et que ce soi cependant la senlc 
chose k la quelk teauçoupe de monde s'attache. Saliy. De&crip. eic. pag. 
40. 

a 



Cap. 
iii. 



Cap. 

Hl. 



70 Descri pçXo Analytica 

'achao bastantemente parecido: cuja circumstancia ainda 
que lhe faltasse , estou bem certo, que por esta falta 
não seria accusado no Tribunal dos Sábios das bel ias 
Artes. 

Na citada passagens de Mr. Sally , se ve que elle 
não duvidou faltar de propomo á exacção do penteado, 
ainda que a multidão (diz elle , e diz a verdade) só na 
semelhança repare. Neste modo, com que falia, claramen- 
te dá a entender, que não pensão assim os Professores, 
nem as pessoas de boa intelligeneia nestas Artes: emais 
adiante faltando do.taihe de corpo do seu Heroe (5*3), 
diz que o Vv efes sor não he obrigado a dar conta destas miu- 
dezas. Mais exacção de semelhança se requer em hum 
painel, ou busto, cujo fim único seja o de retratar tal, 
ou tal pessoa ; e com tudo isso Mr. Conhin prova muito 
judiciosamente , que a qualidade só da semelhança não 
faz o verdadeiro mérito dos retratos (54) ; mas sim as 
outras n;.rtes da Arte : máxima de que também Bernini 
estava bem persuadido ; e por essa causa quando em Pa- 



(53) Ahi mesmo, pag. 42. 

(54) Mr. Conhin , Cavalleiro da Ordem de S. Miguel , Gravador 
dT.lRei de França, Guarda dos Desenhos do Gabinete do mesmo Sobe- 
rano , Secretario da Academia Real de Pintura , e Escultura de Paris» 
etc. , foi hum Professor, que escreveo muito destas Artes , e com tanta 
stiencia , e delicadeza de gosto, que, a meu ver, se lhe pôde chamar o 
^ndicioio , e Investigador Crítico das Artes do Desenho. No Tom. 2. 
das suas Ouvres Divertes, de pag. 70, até 102, discorre neste ponto ad- 
miravelmente. 



da Estatua Equestre. 71 



ris fez hum busto de mármore , em que rctratrou Luiz™"" 30 "* 
XIV. , não lhe fez a grande cabelleira , de que sempre 
usou aquellc Soberano ; e não deixou por isso de conse- 
guir os maiores applausos (ff). 

Advertidas as circumstancias mencionadas, deve-se 
também ponderar maduramente na proporcionai concor- 
dância, que oro qualquer composição precisão ter as par- 
tes entre si , para que o seu Todo faça bom effeito ; e 
em huma Estatua Equestre, sobre este ponto, he de re- 
flexionar na proporção gradual do Cavalleiro para o Ca- 
vallo ; de sorte , que não seja o Cavallo grande com pe- 
queno Cavalleiro; nem este muito avultado em hum di- 
minuto Cavallo. Quando adiante descrever a Symmctria 
Equestre, mostrarei as medidas, que dei a esta combina- 
ção, pela cst imativa ; e o que depois achei examinando 
a Natureza: e posto que a boa ordem pedia esta decla- 
ração neste lugar , deixo de a seguir aqui para proce- 
der com msis clareza , e mostralia com individuação no 
lugar mencionado. 

Com as poucas precauções aqui descriptas comple- 



(55) O Cavalleiro Bcrnini , chamado a Paris por Luiz XIV. , com 
as mais distinctas honras, e premiado com prémios dignos do Artista, e 
de tal Monarca , náo fez a obra para que foi chamado. Retratou porém 
o Grande Luiz ; e como lhe produzisse máo effeito a cabelleira , lhe fez 
hum penteado arbitrário , segundo o bom gosto do Desenho , de que a 
Corte se agradou tanto , que os Fidalgos se pentearão da mesma sorte: 
e ficou sendo moda , que chamaváo í Bonina. Fies des Arçhitççtes , e/c 
Tom. 2. pag. 285. 

a* 



121. 



72 DescripcSo Analytica 

tei este segundo modelo ; e com execução tão rápida ? 
^ p * que dentro em seis mezes incompletos , fui obrigado a 
fazer os primeiros modelos de Gruppos , e Estatua em 
cera, e este segundo em barro: e em quanto cu na casa 
da Fundição o executava , se achavão na casa do Risco 
das Obras Públicas dous Amanuenses meus , modelando 
os segundos modelos para os Gruppos lateraes ; vendo- 
irie precisado a descer todos os dias a dita casa do Ris- 
co a observar, dirigir, e retocar estes modelos dos Grup- 
pos com trabalho indisivel , e inquietação de espirito 
inexplicável , contra hum dos conselhos , que propõe 
Leonardo de Finei , para que as obras saião perfeitas (^6)» 
Na execução da Estatua de Frederico V. , diz Mr, 
Sally , que só com os seus estudos , e segundo modelo 
gastara mais de cinco annos (5*7) para se pôr em estado de 
principiar o modelo grande ; e para mais trabalho, do 
que aquelle em que o referido Escultor , com desvelo 
assíduo ■, empregou cinco annos , não tive eu mais que 
os notados seis mezes: porque lançando mão desta obia, 



(56) Et ancora sara bttono levarsi spesso , e pigliarsi qualebe solaz- 
zo , perche col ri tornar e tu migliori il giudizio ; cbe lo st ar saldo mil* 
opera ti ja forte iugamiare. Vinck Trattato delia Pinara Cap. 274. A 
mesma inquietação, em que me descrevo era star saldo neWopera: por. 
cru? a idea não mudava de espécies j antes estas andaváo agitadas, e em 
tumulto : o que náo seria , se podesse pigliar qualebe solazzo. 

(57) Pevdant plus de cinq années , je n'avois fait que penser et fai' 
re des cuides pour me mettre à por ice d'exéçuter çe gr and modele. Suite 
de la Descrip. pag. 25. 



(58) A pressa, que se me dava, e determinar-se dia certo para mos- 
trar-se este modelo a Sua Magestade , me obrigou a chamar hum do* 
mei:s Amanuenses nos ukimos dias, para ajudar-me ao complemento. 



111. 



da Estatua Equestre. 73 

pela primeira vez , nos últimos dias de Dezembro de 
1770 , acabei este modelo nos fins de Junho de 1 77 1 ; AP * 
modelando, tanto este, como os primeiros de cera , uni- 
camente só sem adjutorio de mão alheia (58). 

Assim que se completou este exemplar, também se 
presentou a Sua Magestade ; e recebida a sua Real ap- 
provaçao , voltei com o modelo para a casa do Risco 
das obras Públicas, onde o entreguei ao Moldador, pa- 
ra tirar-lhe a forma de gesso: e antes que esta se prin- 
cipiasse, dei no modelo alguns trassos rectos, impressos 
no mesmo barro , com direcções horizontaes , e perpen- 
diculares, como indica a Estampa XII., para o fim que 
direi no Capitulo V. 



74 DescripqXo Analytica 



Cap. 
m. Explicação da Estampa V. 

Na figura I. mostro a configurado dos Coletes, que 
achei feitos de ferro. Os dous pinhões, ou pernes, no- 
tados com a letra P, e que tem o seu assento no lugar 
dos bicos dos peitos ; são os que recebem , e em que 
jogão as chapas, que cobrem os homhros. Elles no ori- 
ginal se divisoo furados nas pontas, de hum para outro 
lado, dando indicios de que alli se lhe introduzem cha- 
vetas, ou pequenas cavilhas, que segurão, e atacao es- 
tas peças ao Colete de ferro, sem estorvar o movimen- 
to dos braços. 

As figuras II., III., IV., e V. , representão hurna 
só peça , vista por diversos aspectos. Esta peqa he a que 
veste a perna direita do Cavalleiro , e se compõem de 
10 chupas de ferro. A íig. II. mostra o seu exterior con- 
vexo; e nella as letras A 13 indicão as series de pregos, 
que prendem as diversas chapas, humas a outras. A fig. 
III. mostra o interior concavo da mesma peca, com hu- 
mas corrêas, que ajudáo a prender as ditas chapas; cujas 
concas na elastecidade docouro tem aptidão para semo- 
verem estas chapas. Os pregos das corrêas E, C, D; 
não se divisão pela parte exterior desta peça: porém os 
da conca B, e os outros da filleira A, penetrão as cha- 
pas de parte a parte, e são os eixos, em que estas cha- 
pas tem o seu movimento ; fazendo os ditos pregos suas 



da Estatua Equestre. 75* 



cabeças pela parte exterior , como indicão as flg. II. - 

IV. , eV. Cap * 

V7 • 1 J ■ • ■ f llU 

iSo original desta peça, que examinei , via-se huma 
só corrêa de affiveltar, e hum pequeno fragmento da que 
lhe correspondia. A que estava inteira , como vai de- 
monstrada nos desenhos, dava indícios de que na outra 
he que andava preza a fivella ; mas como daquelle mo- 
do a operação de affivellar ficava esquerda, e incommo- 
da, quando fiz o modelo, troquei a posição da fívclla; 
imaginando na mesma peça affiveliar-se como os calções, 
de que usamos; parecendo-me assim mais natural. 

A ííg. VI. mostra de que modo configurei o vestida 
de ferro, para o busto do Cavalleiro ; como fica já de- 
clarado neste mesmo Capitulo, tratando dos estudos pa- 
ra modelar a figura do Heroe. 



E*. V 




Fia. II. 





Ficx IV. 



r> 



Fia. VI. 





da Estatua Equestre. 77 



lYo 



CAPITULO IV. 

Da Symmetría Equestre, 

J— J Screver o assumpto do presente Capitulo he para T> 
os meus débeis talentos matéria de bastante difficulda- 
de , pelas controvérsias , que me podem obstar ; sendo 
logo a primeira, a palavra Symmetria. 

Mr. Perrault diz , que „ esta dicção he Grega, 
5J (1) e significa o ajuntamento, concurso, e relação de 
9 , muitas medidas , que em diversas partes tem entre 
? , si a proporção conveniente para o perfeito compôs- 
.,, to. Mas que presentemente por Symmetria se entende 
„ a igualdade, e paridade, que se encontra nas partes 
.,, oppostas. „ 

Não obstante o aviso deste grande Arquitecto , e 
Literato, deliberei-me a nomear estas dimensões com a 
palavra Symmetria , por três motivos, que a isso me in- 
duzirão. I.° Ser constante entre os eruditos, que assim 
como a Lingua Portugueza tem muitas palavras deriva- 
das , e apropriadas do Latim , não tem poucas do Gre- 



(1) No Com. de Vitruvio. Liv. 3. Chap. I.° pag. 56. Nota 2. A 
traducçáo desta passagem de Perrault aqui no Texto Yai resumida. 

R 



Cap. 
IV. 



78 DeSCRIPçXo ÁNALYTrCA 

go. II.° Ser adifférença, notada por Terrault , mais pra- 
ticada na Arquitectura , que nas outras Artes do Dese- 
nho. III. Que entre Escultores , e Pintores sempre se 
entende por Symmetria o mesmo , que os Gregos com 
este termo explieavão. 

Não achar Author que seguir poderia fazer o empe- 
nho mais glorioso em pessoa , que tivesse as luzes , que 
me faltáo j mas caminhando eu como cego , he muito 
fácil tropeçar; posto que para evitar queda considerável y 
sigo a Natureza (2), e as prudentes convenções da Arte, 

João de Arfe só diz , que o Cavallo tem de altura 
huma vara, e três quartas (3). Sally relata parte das me- 
didas que achou , quando médio doze Cavallos vivos 
(4) ; mas não he com individuação , e declara isto por 
pés, pollegadas, e linhas: methodo, que não approvo, 
pela desigualdade, que lhe nota oP.Ignacio Monteiro (5). 

O mesmo Sally diz (6) que „ já depois de ter feiro 
„ os seus estudos vira os Elemens d'Hippiatriquc de Mr.. 
j, Bourgelat , onde este sahio Author dá as proporqões 



(2) La nature ne noas trompe pas. Lami. Entret. sur les Scien. Lice 
«le la Logique, Chap. IV. pag. 76. 
(}) Varia Commertsuracion. Lib. 3. Cap. 2. 

(4) Suite de la Descrip. etc. pag. 9. 

(5) Porém os pés , decempedas , e mais medidas , são desiguaes s& 
gtttido as variedades das nações , cada huma das quaes divide o pe a 
seu arbítrio. Compendio dos Elementos de Mathemacicaj Elem. de (7?o- 
metr. pag. 75, no Scholio. 

(6) Suite de la Desçrip. pag. 49 , em a Nota, 



da Estatua Equestre. 79 

„ geométricas do Cavallo ; e que se tivera visto esta 
„ obra no principio das suas observações, lhe teria pou- 
„ pado muito trabalho. „ Eu tenho feito as mais vivas 
diligencias pela ver ; não me tem sido possível , sem 
embargo de saber, que hum Fidalgo deste Reino após- 
sue em Alémtejo ; porém pelo que delia diz o referido 
Sally vejo, que não obstante ser pouco individual, tem 
melhor methodo , medindo por cabeças- porque na mes- 
ma obra , que se executa , se acha a raiz do cálculo. E 
como este systema he o de que tem ordinariamente usa- 
do os que escreverão medições do corpo humano, pare- 
ceo-me o mais acertado: e passando apraticaíío, divido 
a cabeça do Cavallo, como já disse no Capitulo prece* 
dente, em dezeseis porções, a que chamo -partes', e ca- 
da huma destas em outras dezeseis , que denomino mi" 
mitos. 

Não tenho o louco projecto de que esta symmetria 
se repute regra infaílivel; antes advirto aos principiantes 
ser preciso reflexionar nos diversos usos, a que se desti- 
não os Cavallos; nos diversos talhes, que tem, secun- 
do os climas, de que se representáo, e nas diversas ra- 
ças, ainda de hum mesmo Paiz (7). Como o meu inten- 



Cap. 

IV. 



(7) Nos racionaes mesmo, he preciso fazer estas reflexões , e ainJi 
mais attentas : náo só peia sua nobreza incomparavelmente maior , mas 
porque sáo muito roais as occasióes de representar figuras humanas. Tra- 
tando este ponto Watekt , diz : k rang , la condition , lajortune , k cli- 
mat 3 et k ttmpéranient contribuem à causer dam les dévebppçments 

K 2 



Cap. 

IV. 



8o Descri pcSo Analytica 

to, na execução da Estatua, de que fallo, foi represen- 
tar hum Cavallo fino de Hespanha , c os naturaes , que 
medi, erao* desta qualidade ; sobre semelhante aspecto 
he que exponho estas medidas. 

As pessoas , que seguirem severamente as opiniões 
do célebre Newcast/e , zombarão deste meu trabalho; 
vendo que elle também mofa dos que descrevem as qua- 
lidades , que deve ter o talhe perfeito de hum Cavallo 
(8), tratando isto de ridículo, e sendo irrisório a respei- 
to das formas, consequentemente o ha de ser tocante ás 
medidas. Mas deve-se notar y que este íHustre , e sábio 
Cavalleiro se contradiz a si mesmo , quando falia dos 
Cavallos de Hespanha, proferindo estas palavras : „ elles 
„ são extremamente belíos , e os mais próprios de todos para 
"„ serem retratados por hum pincel curioso „ (9) . Esta for- 
nwsitra , esta preferencia para serem retratados , no talhe, 
e nas formas dos o:us membros he que consiste : póde- 
sc pois tratar esta matéria, vendo que a natureza , e a 
razão tem Iiuma força tão poderosa, e ao mesmo tempo 
tão suave, que constrangerão insensivelmente o Famoso 
Neiíctutk a adoptar o me^mo , que refutava. 

Parecerá comradictorio expor esta Symmetria bas~ 

des preportions , des difjérenccs semiblcs. L'Art. dePeindre. Refiect. etc 
f3'j y -2,. Ediç. de Paris, 1760 em 4. grande. 

(8) Mcthode et Invcntlon nouyclle de Dresser les chevenx. Liv. I.. 
Chap. IV. pag. 25. 

(t>) Ahi mesmo, pag. 2$, e na pag. 24, ainda continua a louvar os 
ditos Çavallos- de Hespanha , em cousas relativas ás formas» 



(io) II jant doncavoir 1'esprit remptt de son mget. Lami. Emretiens 
ser Ies Sciences. Idée de Ia Logiq. Chap. V. pag. 84. 
(1 1) Iiefmons de l'Art de Peiudre, pag. 69 , em a Nota a. 



IV. 



ca Estatua Equestre. 8 í 

tantemente individuada, e censurar a Mv. Sally o riimio 
escrúpulo cm medir, quando executou os modelos, tan- 
to aqucltc, em que fez os seus estudos, como o grande 
para a fundição do bronze : porém nisto ha hum a gran- 
de differença. Eu não censuro , antes louvo a Sally 03 
exames, as observações, as medidas, e tudo quanto fez 
tendente a instruir-se (10); porque estas medidas, como 
se dirigem a saber as devidas proporções , não pode 
omittir-se o conhecimento delias; e o Artista he obriga- 
do a tellas tão presentes na fantazia , e nos olhos, que 
a reflexão daquella , e applicação destes baste para co- 
nhecer se as diversas partes se achão, ou não, confor- 
mes ao calculo, que lhes compete: servindo-se do com- 
passo, neste particular ,. só para decidir algumas dúvi- 
das. 

Bem sei que Mr. V/atelet diz : que „ a Escultura, 
„ como imita os objectos precisamente como ellcs são, 
„ deve apoiar-se continuamente nas medidas ; c que as 
mais circumstaneiadas lhe vem a ser preciosas, e úteis 
(11). Porém, assim como este Author d;z na mesma 
pagina, que este uso na Pintura, ao tempo de executas- 
se, hc fria ^ e lento \ e não coroem a hum a Arte , que requer 
muito enthusiasnWy sendo a Escultura irmã gémea da Pin- 
tura , não pode deixar de ter também aquelle Ascendera- 



Cap. 
iv. 



81 DescripçÃo Analytica 

te. Do que venho a concluir ? que ha precisão total de 
se conhecerem miudamente as medidas, e ainda mesmo 
palpallas algumas vezes , quando se reduzem a prática; 
especialmente no que toca á Symmetria \ mas o melhor 
compasso he sempre aquelle , cujas pontas são os olhos 
do Artista ; servindo-lhe de eixo o próprio entendimen- 
to cultivado. 

Para evitar muitas palavras em hum tão secco as- 
sumpto, e para expor sem confusão, não só o que julgo 
nesta matéria ; mas também todos os exames , que fiz 
sobre a Natureza , me pareceo , que as estampas , e os 
mappas, que adiante vão, encerrão em si hum methodo 
bastantemente resumido, e claro. A cada estampa junto 
hum mappa : e em cada hum delles se achão as medidas 
de cinco Cavallos vivos, que medi: as medidas do Ca- 
vallo da Estatua, e as que julgo mais convenientes para 
maior formosura do mesmo bruto. E a razão, que tenho 
para ?rbitrar neste ponto, além da Poética licença con- 
cedida ás Artes do Desenho , he as differenças , que 
achei na mesma Natureza, e os avisos, que li nos Au- 
thores de Cavallaria , que deixo citados , e transcritos 
no Capitulo antecedente. 

Dcs cinco mencionados Cavallos só os primeiros 
três me servirão , quando fiz o meu modelo : os outros 
dous examineios com mais vagar, para reduzir estas ob- 
servações a ponto mais exacto ; c por esta causa só no 
ultimo , chamado Formoso , se achão as divisões todas 
com as suas respectivas medidas \ indo em branco va- 






IV. 



da Estatua Equestre. 83 

rias dos primeiros três; porque no tempo, em que se fez ■ »■ "« 
a Estatua , naó houve lugar para especulações. E^tas ^ AP 
mesmas, ainda que não pouco individuadas , não tem al- 
gumas delias, nem se lhes pode dar, total exacção , por 
causa do movimento : circumstancia sobre a qual diz 
IVãtelet „ que se he possível perceber-se-lhe as differen- 
„ ças, he bem diíncil reduzillas a cálculo „ (12): e eu 
o julgo não só difficil , mas impossível; ao menos á mi- 
nha curta capacidade. 

Divido estes mappas em oito columnas, com linhas 
perpendiculares. Na primeira columna vão as letras al- 
fabéticas, que nas estampas também se achao. Nas cin- 
co columnas seguintes se mostrão as medidas , que a 
cada hum dos Ca vai los pertencem naquella parte, em que 
se acha na estampa a letra semelhante á do mappa. Na 
sétima columna vão as medidas do modelo, debaixo do 
nome Gesso. Na oitava as que julgo mais convenientes : 
dhiinguindo-as no vértice da columna com a palavra Re- 
sultado. Na 2. a , 3- a , 4. a , 5\ a , e 6. a columnas escre- 
vo nos seus vértices, ou cabeceiras os nomes dos Cavai- 
los, que medi. Encruzo nos ditos mappas as linhas per- 
pendiculares com outras horisontaes , a fim de ficar cada 
medida em sua divisão , para que usando dos mappas, 
cómoda taboada Pythagorica, a letra inicial, ou da pri# 
meira columna horisontalmente mostre a divisão perpen- 
dicularmente indicada pelo nome do Cavallo , que em 



(12) L'Art. de Pçindre. Reflex. pag. 76, 



IV. 



84 DescripcXo Analítica. 

cima vai escrito: e nessa divisão, por números Arit'hme- 
^ AP * ticos, se declarão as medidas, que lhe pertencem. Ad- 
vertindo, que nas divisões dos mappas a letra p, signi- 
fica parles-, a letra m , minutos, v. g. No primeiro map- 
pa (que corresponde á Est. VII.) reparando na columna 
pertencente ao Cavallo nomeado Arisco , e buscando na ' 
columna Alfabética a letra G , esta mostra na divisão, 
que lhe compete, p.io.w.ó. : quer dizer, que o dito 
Cavallo naquella situação se lhe acharão em medida, 
vinte partes, e seis minutos. 

No mesmo mappa , pela direcção da mesma letra 
G, buscando adiante a divisão, que fica debaixo do no- 
.me Formoso, achamos nelía unicamente,/?. 23. Quer di- 
7,er, que o Cavallo chamado Formoso, no mesmo lugar, 
tinha vinte e três partes certas. E deste modo em todos 
os mais lugares. 

Ora , algumas destas medidas , tomando-se no pa- 
pel , como este he plano , são nclle rectas todas as li- 
nhas , em que se mostráo essas medidas ; porém tomadas 
no vulto , vem a ser obliquas em varias situações, que 
no papel são rectas : e por este motivo, as desta natu- 
reza deverião ter no papel sua tal qual diminuição (13). 
♦ Mas, nem a pequenhez dos desenhos admitte essa exac- 
çao , nem parcceo conveniente dizer-se huma cousa na 



(1^) Pouca Geometria basta para conhecer esta verdade , ainda sem 
se demonstrar. Porém a Demonstração própria para este caso he a que 
traz Monteiro nos seus Elementos de Geomctr. pag. 84. Prep. V. Tab. I. 
fi£. 8. Vej. a Demonst. 



da Estatua Equestre. 85* 

na theorica , e achar-se outra na prática do compasso. E k 
ainda assim não duvido , que varias diffirão algum pou- 
co; o que facilmente desculpará quem sabe como as es- 
tampas se imprimem , e conhece que não só o papel , 
mas até os mesmos metaes crescem , e diminuem , se- 
gundo as variações do tempo. 

A respeito de variações devo advertir mais , que 
os desenhos destas estampas tocantes á Symmetria fize- 
rão-se pelas medidas notadas na columna , que tem o ti- 
tulo Resultado : sendo conformes a este aspecto , claro 
está que o não podem ser aos mais ; assim como entre 
hum angulo agudo, outro obtuso, outro recto, não po- 
de hum ter o valor , que tem o outro. Isto advertido , não 
he preciso muita agudeza para conhecer a difficuldade, 
e o meio de servir-se das estampas , nem muita indul- 
gência psra não pertender, que para cada objecto se fi- 
zessem estampas próprias. 

No Capitulo III. deixo declarado, que no meu mo- 
delo, em certos lugares , alterei algum pouco estas dimen- 
sões; e expondo alli os motivos, que tive para isso, pro- 
ínerto mostrar neste Capitulo a ditterença : ao que satis- 
faço dizendo, que na combinação dos mappas se conhe- 
cem individualmente as mencionadas alterações; combi- 
nando com as outras , as medidas notadas na columna, 
que tem por tirulo Gesso , cujo nome attribuo ao Mode- 
lo, por ser feito desta matéria, ou de Estuque, a que 
também muitos chamão Gesso. 

Nomearem-se varias partes, e músculos do Cavallo 

S 



Cap. 

IV. 



Cap. 
IV. 



86 DESCRirqXo Analytica 

"com os mesmos nomes dosracionaes , não deve escanda- 
lizar ; porque os Authores de Cavallaria , e Alveitaria 
assim o tem praticado: e Pedro Garcia Conde, quando es- 
creveo a Anatomia daquelie bruto, diz que estivera pa- 
ra deixar a empreza , com receio, que lhe estranhassem 
esta nomenclatura (14) : porém, não achando outro re- 
curso melhor , seguio a prática estabelecida , para não 
privar os seus naturaes de huma obra útil. 

No Capitulo antecedente já flcão referidos os nomes 
da maior parte dos membros , pela ordem que lhes de- 
rio os Authores, que delles tratarão, com a declaração 
das qualidades, que devem ter para serem perfeitos; e 
como os nomes de alguns serão desconhecidos a varias 
pessoas, pareceo conveniente, imi tando Guerimeri'^ jun- 
tar huma estampa que mostre por números, a que situa- 
ção pertencem os nomes, que se recopilão na seguinte 
Lista. 



(14) . ... me hallé tan ofuscado , y casi arrepervido . . . . , por 
ver que eonvicmn casi en iodo los nombres de las partes de que se com- 
pone el cavallo, con los que tienen las partes de que se compone el cuer* 
po dei animal racional, etc. Verdadera Albeiteria, Cap. 2. pag. 6. Lcs 
animazx ont des parties conformes aux nòires. Lami. Entretiens , etc. 
Discour sur la Philos. pag. 27$. Se ha conformidade na configuração } não 
he muito havella em os nomes. 



da Estatua Equestre. 



8 7 



LISTA 

Dos nomes pertencentes a vários membros do Cavallo, 
cujos lugares se indicao na Estampa VI. 



Cabeça 1 

Orelhas 2 

Testa 2, 

Saleiras, ou covas dos sobrolhos 4 

Olhos 5 

Queixadas 6 

Barras 7 

Ventas 8 

Beiços , . 9 

Barba 10 

Boca 11 

Garganta 12 

Pescoço , Taboa , e Encolladura 1 3 

Cova das clavículas .... 14 

Peitos 15 

Espadoas \6 

Semelha, Agulha, Cruz . . 17 

Clinas 18 

Topete 19 

Braços 20 

CodiJhos 21 



Joelhos 22 

Canas 25 

Nervo, ou Tendão .... 24 

Junta 25 

Quartella, e Jarrete .... 26 

Coroa, e Percinta .... 27 

Cascos 28 

Bojo, ou Ventre 20 

Vazios , ou Ilhaes . . . . 2,0 

Lombos 31 

Costellas 32 

Garuppa $3 

Rins 34 

Ancas 55- 

Nádegas 36 

Coxas 37 

Soldra 58 

Curvas 50 

Curvilhóes 40 

Sabugo, ou Troço do Cabo . 41 

Cauda , ou Cabo .... 42 



Cap. 
IV. 



A madeixirçha do cabello na parte posterior da Jun- 
ta , e que vai notada na Estampa com huma estrellinha, 
chama se Garra: porém nos Cava lios finos deve não ba- 
vella, ou ser muito diminuta. Em o número 16 o nome 

S 2 



Cap. 
iv. 



88 DescripcXo Analytica 

Qtiarlella, pertence á mão, e Janete , ao pé. Em o nú- 
mero 27 Coroa , e Percinta, são oscabellos, que circulão 
o Gzkt? ; mas na frente he que chamão Coroa, e aos la- 
dos Per chita. 



Est. VI. 




./ aí. r ■</,/, 






:• 






■ 



da Estatua Equestre. 



s? 



Mappa pertencente á Estampa VIL 



Ncmes dos Cavallos. 



Colu- 

mnas. 





Arisco 1 Belém 


• Centil 


v^acliudo 


"otticso 1 Gesso | 


Resultadol 


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. . 4 a . . 


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. . 8 a . . 


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16 


16 


16 


16 


16 


16 


16 


B 






p.; i.m.12 




■>.ç2.m.4. 


p.5i.m.4. 


p. 54.111.6. 


G 










p.26.m.8. 


p. 29. m.14 


p.52 m.14. 


D 


^..2. 


P-42. 


p-44- 


u.í 9.111.4. 


.1 41.111.4. 


p.jç.m.E. 


p.4 5m.4. 


É 


j.?7- 


p.^ç.m.io. 


p.42. 


p.58in.2. 


P-J9- 


p. 57.111.8 


p.42. 


F 


>.-n. 


P.4 1. 


p.42. 


p.;9.m.4. 


p.4o.m.6. p.38. 


p.4}.m.ic. 


G 


-.20 m 6. 




p.21. 


p.SO. 1T1.I 1. 


p.2J. 


p.23. 


p.2j m.io. 


H 








p.18. 


p. 18.IH.4. 


p.2o.m.7. 


p.iS.m.8 


J 


p. 1 s • 


p.15. 


p. I4.1T1.12. 


p.i2.m.2. 


p.i5.m.i2. 


p.16. 


p. 16 111.4. 


L 


p/i2.m.4. 




p. 12.111. 14. 


p.i i.m.6. 


0. i2.m.i. 


n.i2.m.j. 


p.i j.m.2. 


M 


p.T2.m.I2. 


p.I2. 


p.i r.m 12. 


0. II. Hl. 12. 


p. i2,m.2. 


p.I 2.111.1 ç. 


p.if.m.S. 


N 


p.7.111.15. 


p. 7.111. 4. 


p. 7. 111. A- 


P.7.IH.8. 


1.7.111. 10. 


p. 7. Hl. 14. 


p7.n1.12. 


O 


p. 14,111.1 2. 


J.If. 


p. 17. ni. 8. 


p. 16. m.14 


.1. 17. ir. 10 


p. 18.111.7. 


p.i 7.111. 14. 


P 








1.7.I11.I3 


p.í.m.6. 


p.I 2.111.1 5 


1 9.111.8. 


Q 


p-i6. 


p.i4.in.i3. 


.1 j.m.io. 


1.14. 


Ml.ir».8. 


" 

p.i ;.m.i2. 


.1.14.111.4. 


R 


-.15. 


o.i2.m.6. 


p.ij.m.4 


P.12.1TM4 


1.12.111.1. 


p. 1 o.m.6. 


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S 






p.4.rr.lO. 


p.i .in.4. 


1.4. in 12. 


...111. j. 


• 4.111. 12. 


-. T 






p.j.m.S. 


, .4.m.4. 


.4.m.6. 


• m.i 2. 





Cap. 

IV. 



Cap. 

IV. 



90 DescripcSo Analytica 

Appendix á Estampa VIL 

As quantidades indicadas com B, G, eH, devem- 
se considerar suppondo oCavallo na sua actituJe briosa, 
quando o Cavalleiro montado nelle o governa com a ré- 
dea na mão: porém tanto que levantar, ou abaixar mais 
a cabeça, todas estas três medidas differem; cuji dirfe- 
rença o bom gosto he que a deve regular. 

As duas quantidades G, e G, forçosamente hão de 
sommar mais que a quantidade B; sen.io esta perpendi- 
cular , e a de G obliqua. A quantidade comprehendida 
na linha L deve medir-se da cova das clavículas ao codi- 
Iho. 

As quantidades S, T, devem considerar-se estando 
o Cavallo quieto : alli ha movimento reflexo por causa 
do elasterio , que tem os nervos, e articulações da Quar- 
tella*> por este motivo deve suppôr-se aquella medida já 
depois de ter o movimento reflectido para cima. 



r 



Est. 



VH. 




14- IO (, 

X I I L I l I I I I 



32 



48 



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ZtAra£ie<7 *> ensaia. 



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• 



da Estatua Equestre. 



9 l 



Mappa pertencente á Estampa VIII. 



Nomes dos Cavallo?. 



C«.lu- 
miiai. 





Aii?co 


Belém 1 


ríentil 


Macbudc 


T-» 1 /~» ' 


Rcsultad 






roi'!tio<- 




Cap. 

IV. 


TT~ 


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1.4.111.1.4. 


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.5.111.10. 
p.6.m.8. 


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p.4-m.S. 


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-.5.11).?. 


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p.6411, 5. 


.1.6. m.4. 




D 


,1.7.111.12. 






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■■ 7. m.6. 


>. 7.111. 8. 


1,7. m 8. 




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F 






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.1.8. m.6. 


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1.8.171.7. 










Í1.7.1H.10. 


;i.t;. 111.2- 


p.ç.m.v 


p.S.m.8. 




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p. I 2. 


p.i2.m,2. 






p.ii.m.10 


p.i2.m-8. 


0. i2.m.i j. 




H 


P-4I- 


p.42.m.8. 


p.44. 


p. 5 8. m.4. 


p. 39. m.6. 


\4o.m.4« 


t1.44.rn. 8. 




I 


n.2o.m.a. 


p.20.fT>.9. 






p.20.H~.10. 




p.2i.m.8. 




L 








p.6. 


p.6.m.2. 


p. 8.m.8. 


.1.7.111.4. 




M 


p.6. 


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p.6.w..S. 


p.5.m.4. 


J.m.' . 


p.j.m.8. 


i.ó.m.t. 




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p. 5. m.6. 


p.j. m. 14 


P.5.1TI.14. 




O 










p.3.m.S. 


M- 


p 4. 




P 




p.rf .111.4. 


p.Ç. 




^.4. 


.1.4.111.2. 


p.j. 




Q 




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p. 2.01. 14. 


i.2.m.i ;. 


3.5.131.9. 


p.j. 




R 




1.5.111.2. 






).}.lTt.6. 


p. 3. .11.4. 




S 




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p 2.m.fí 




X 










;.rtl.8. 


H tn * 


p.2.m.l3 


1 



92 DescripçAo Analyticà 

Appendix í Estampa VIII» 



p As quantidades indicadas nas linhas H , I , d?mi- 

IV# nuem , e crescem mais, ou menos á proporção , que o 
Cavallo se move; e segundo o vagar, ou aceleração do 
movimento. Na letra I declara-se a extensão, que ha da 
solara aoCodilho, estando o Cavallo parado. Nj Estampa 
IX. se mostra a differença , que tem esta extensão , quan- 
do o bruto levanta obraço\ e na Estampa X., quando le- 
vanta a perna. Nesta Estampa , e na X. he notada esta 
medida com a letra I : e para notar-se na Estampa IX. 
com H houve motivo, que he impertinência declarar-se. 



Esr. VÍÍI 




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da Estatua Equestre. 



93 



Mappa pertencente á Estampa IX. 



Nomes dos Cavallos. 







Arisco 


Belém 


Gentil 


Mactíudo 


Formo«o 


Gesso 


Resultado 


Cohi- 
mnas 


. i . 


2 . 


. . 3 • 


• 4 • • 


. . 5 . . 


• . 6 . 


. . 7 . . 


. 8 . . 


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1.16.111.4. 


p 16 m.5. 


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p. 1 6. 


1 16.111.4. 




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. 1 9 . m . 1 2 . 


p. 17.111.1 2 


1 19.111.4. 


!. 17.111.8. 


1. -9 m.14 




h 








•.2o.m.ic. 


22 111.12 


-«.17.11! 15 


1 22. 'Tl. 4 




a 










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p.2. 




b 
c 
d 










1 cm. 10 


>.2.m.y. 


,•>. 1 m.14 












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1.4. 


) 3111. 7. 


) 4. m.2. 


P4- 




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p.4.m.7. 


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p-2.tn.l4. 


Pí- 

p.2 m 2. 












i.i. m 10. 


í.i-m 14 
1.9. 




i 






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■ 9 m.2. 


.S.m.7. 


p 8 m. 1 1 . 




1 


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i.i 3 ín. 8. 


>.i j.m.2. 


a. 12 mi 3 


'.14 m.i : 




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p 1 mio 


i.r.m 7. 

1 5 m.2 


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>.i.m.6. 




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' 3 m 4- 


3 3 m.8. 


- 3.m 2. 




o 


1 


p. I4.r.l.l 5. 




p. 14.01.4. 


p.M-m.i}. 


M4-m.i4. 



IV. 



IV. 



94 DescripçXo Analytica 

Appendix á Estampa IX. 



As quantidades notadas nas linhas 1, i , parecerão 
-*' supérfluas , por ficarem já notadas no Mappa da Estam- 
pa VIL, em M, N, da mesma Estampa VIL Porem, 
notão-se também neste lugar, péla differença que se lhes 
acha, quando dobra o braço, procedida dosalliente que 
fazem as prominencias das cabeças dos ossos Umero , e 
Radio, no tempo que o braço levanta. O mesmo he nas- 
medidas a, h, que no dobrar da Quarttfla , comprimem- 
se os músculos pela parte concava, ou posterior, e co- 
mo nesta compressão augmentão de volume os ventres 
dos músculos , forçosamente em casos semelhantes ha 
maiores grossuras : mas são imperceptíveis á vista , ou 
quasi , e por isso a differença he pouco atte.ndivel. 



Est. LX 




j-f /o 6 



EB= LU- 1 i i i i i i i i i i 



3* 



-+3 



58 



Rrfea 



w 



J MC <&//„. 



£<//r/tii> Atffs/fzo . 



da Estatua Equestre. 



99 



Mappa pertencente á Estampa X. 



Nomes dos Cavallos. 



Gola- 

inrus. 



1 


Arisco 


Belérh 


Genti! 


Machudo 


Forno ;o 


Ge* 


Resu!tadr 




Cap. 

IV. 


I . 


. 2 . 


• • 5 


. . 4 . ■ 


. . í . 


. . 6 . ■ 


• • 7 • 


. . 8 . 


,; 


1 IÇ. 


p 16 m.2 


p. [6.111.4. 




>.i 5.171.4- 




vi6.m.S. 




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p.I 7 . 


5.17.171. 12 


>.i6.m 14 


•>.I7 ín.r» 


». 18.a1.11. 


1 1 S m.6. 




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1. 1 


■ 1 1 m. 1 1 


p.11 ra 4 




E 




>. 15.171.4. 


.16. m S. 




. 1 j.m.2. 


p 14.111 t 5 


>.i 7. 




F 




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M.n. S. 




'•5.m 2. 


p.ó.m.S. 


•.6. 




G 






>.8. 




>.8.m.j. 


0.6. 


■> S. m . 1 o 




H 




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).4-r. - .i4- 


p.4.m. 1 2. 


1 4.m.io. 


• 4-m.io. 


1 ,-.m.2. 




I 




, 






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j.14 m.2. 


j.ró.m 12 




L 






'.6.m 1 5. 
.6.m. 15. 


.i2.rn.8. 


. 1 i.ra.io 


'.i2.m. 1 : 




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.7.171.6. 


i.j.m.t. 


^.ó.m.io 




n 








'.6.171.1 1. 


i.f.m.14. 


>.6.m-io. 




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•. 5. m.2. 


•.5.111.4. 


•1.3.171.?. 


•.5. m.4. 




P 








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■.j.m.2. 


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-.5. m.2. 





.'.Tl. 14 


>.{.m.7. 


1.3.171 6. 




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I.2.0I.I2. 


1 ?• 




l 


p 2.m 7. 


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í.2 m. io. 


2. m 1 2. 


.2,m.io. 
. ! r.i.i 3 


1.2.171.4. 


1.2 m. .2. 




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.j.m. 13. 


j trt.8. 




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».j.m.a 




X 


p.j. 


p.J. 




■•.m i 2 


.''.m.r ». 


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1 1. ■"*■> * 





T 2 



$& DescripçXo Analytica 

Appendix á Estampa X. 

=^ As quantidades eomprehendidas nas linhas C, D, 
^ AP * E 9 d if ferem das que £cao declaradas na Estampa VIL 
cm O r P, (^ E isto na actitude que mostra esta Es- 
tampa X. j procede do salliente que na Soldra faz o osso 
Fémur. 

Alinha L, contém a medida que ha, desde a maior 
prominencia do peito do Cavallo, até a perna, ou joe- 
lho do. CayalleiíOx 



IV. 



Esr. x. 




14- l" b 2 

■ I I I I I 1 I ! i ! I I I I I I 



16 12, 



4? 



b PartM 



<ZJU.C.é&£n. 



j:< 



(ttrt&f j/ttpiô . 



da Estatua Equestre, 



97 



Mappa pertencente á Estampa XI. 
Aspecto I. 



Nomes dos Cavallos. 



Colu- 
miias 





Arisco 


Belém 


Gentil 1 


Wachudo 


Formoso 


Gesso 


Resultado 


» 


Cap. 

IV. 


. I a . 


. 2 a . . 


,a 


. . 4 a • • 


• 5 a • 


. . 6 a . . 


. . 7 a . . 


. . 8 a . . 


A 










>.;.m.4. 


p.6.m.8. 


p. ç.m.6. 


B 






p.ó.m.?. 




->.6.m,6. 


p. 7.111.13. 


r>.6 m.4. 




c 


>.i2.m 8. 


>. i i.m.8; 


-t.i2.rn.io 


.i.to 111 2. 


p.n. 


p.u. 


.i.i 1 m. 11 




D**D 


Bojo 








.) 17.111.8. 


P-i>. 


0.15. 




E 


p. lo m.£. 


,1.1 O. 


p.I 1. 111. IO 


"■■9.1TI.2. 


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n. 12.111.9. 


> 12 m 8. 




F 










">.4.m.2. 


p.j.m.15 


1 3 m.4. 




G 










t.i. m 8. 


p. 2.111. 9. 


1.2. 




H 










\1.111.12. 


p. 2.111.3. 


'.1 m.14. 




J 










p.2.m.io. 


P-?. 


) 2.m.i ? 




L 










■>. 2.m,6. 


ii.m.7. 


;.2.m 6 




M 










. 1 m 4. 


p.i.m. 10 


p. 1.111.4. 




N 










1.2.1T1..1. 


p.2.m.8. 


p.2.m.8. 




O 










*f.IP.Í. 


p.i.m.iç. 


3 1.1T1.12. 




P 










1.2. m.S. 


p.2.m.r4. 


0.2.01.12. 




Q 










j.j.m.2. 


n. 3.111.4. 


j.í.m.4. 




RT 










>.26.m.8. 


>.2S.m.i2. 


1 \2.V J 




• ST 








p. 2 2.171.4. 


p.22.m.8. 


p.24.m.8 





98 DESCRipqXo Analítica 

Segundo Mappa pertencente á mesma Estampa XL 

Aspecto II. 

Nomes dos Cavallos. 



Cap. CtU - 

rana». 
IV. 





Arisco 


Belém 


Gentil 


Machudo 


Formoso 


Gesso 


Resultai 


. I a . 

6 


. 2 a . . 


. . } a . 


• . 4 a . 


• 5 a • • 


. 6 a . 


7 a • 


• . ^ a 








p 4.111.4 


p.4- TÍ.2. 


3 2 m q. 


p.j.tn.8. 








). 2.111-1 2 


p. 2.111.12 


1.4. 


P.2.1T1 i2. 


C 
D 








>.4.m.o. 


p.4.111.9. 


-.5.(11.8 


1 l in 6 


).6.m.{. 


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Aspecto IV. 



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Aspecto V. 








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Est. XI . 




JIM. C. a6/in . 



da Estatua Equestrk, yy 

Appendix á Estampa XI. 



IV. 



No Aspecto I. se marcao as grossuras do animal pe- ~T~~ 
la frente : porém as do pescoço são incertas ; porque á 
proporção que o bruto vira a cabeça se comprimem, ou 
dilatáo mais, ou menos os músculos ; e isto faz muito 
variável a sua grossura. Por esta mesma causa não se no- 
tara > medidas no lugar onde o desenho mostra o pesco- 
ço cortado. Neste mesmo Aspecto I. a medida G, he to- 
mada no osso; e ao seu lado anota a y he polpa de car- 
ne maior, ou menor, segundo o Cavalio he mais , ou 
menos gordo. 

No Aspecto II. a medida G , he também variável, 
segundo as visagens , que o bruto faz com as ventas: 
aqui nota-se esta medida nos exemplares vivos , e no 
Resultado , estando o animal em socego. Porém queren- 
do-se-lhe exprimir mais fogo, deverão as ventas ser mais 
abertar, e por consequência, maior esta medida. 

A pequenhez das estampas obriga a declarar , que 
uo Aspecto III. a risquinha horizontal notada com a letra 
A , e no Aspecto IV, a que no mesmo lugar he notada 
com L , indicão o Tendão , ou Nervo , mencionado na 
Lista de nomenclatura dos músculos. 

Expostas as precedentes dimensões , resta dizer r 
que tamanho deve ter o Cavalio á proporção do Cavai- 
leiro , para que o todo gruppe bem , e faça bem effei- 
fco» Não faltará quem julgue supérflua esta particular*- 



IV. 



ioo DESCRipqXo Analytica 

11 d a de , ouvindo proferir a huma boa voz, que „ para o 
p * „ para o uso da vida não precisamos saber individual- 
., mente, e com certeza os tamanhos dos objectos; que 
„ ainda que se ignore a grandeza absoluta , e natural de 
„ hum P^lefante , basta saber que he maior que hum Ca- 
„ vallo, e menor que huma Balêa. „ (15) 

Não se duvida que para o commum dos homens is- 
to seja sufficiente; os Artistas porém do Desenho, pre- 
cisão conhecimentos mais individuaes , pela obrigação 
que tem de imitar o mais bello da Natureza : e huma 
das circumstancias em que esta perfeição consiste , he a 
justa relação proporcional , que tem as partes de qual- 
quer composto. 

O Escultor, que fez a Estatua Equestre de Federi- 
co V. (ió) em Copenhague , para não negligenciar esta 
individuação de belleza , diz que „ representara o Ca- 
„ vallo do seu Heroe de hum tamanho mediano; e que 
„ o Cavallo para montar hum Rei em huma entrada pú« 
„ blica , não devia ser dos maiores. „ 

Eu julgo adoptavel esta decisão por dous motivos 
que a patrocipão ; hum tocante ao civil , outro perten- 
cente ao bom gosto do Desenho. Pelo que respeita ao 
primeiro , assentão todos os bons Cavalleiros , que os 
Cavallos finos não são* de grande corpulência ; e como 



(tç) La Logiqne ou 1'Art de Pcnser, pag. 357. 
(16) Sally. Dcsctip. dela Statue Eq. de Fred. V. pag- 4?. E na 
Suite de la Descip. de pag. 7 p,*ra 8. 



da Estatua Equestre. xoi 

nos finos he que se achao em maior número as qualida-' 
des que os fazem especiaes, não se ha de escolher para 
hum Rei , SQnÚo o que for mais precioso. 

Voltando-nos para o bom gosto do Desenho, tam- 
bém na proporção mediana se acha a vantagem de grup- 
par melhor o Cavallciro em hum Cavallo de vulto mé- 
dio , que em outro de corpo colossal : porém como se- 
gundo hum bom crítico das Bcllas Aries (17), e o bom 
senso, nada he grande , ou pequeno senão relativamente', com- 
binando-se huns corpos com outros , he que se conhece 
a grandeza , que deve ter cada hum em sua espécie (18). 
Eu exponho a combinação que fiz por estimativa ; a que 
achei depois examinando a Natureza , e a de que usou 
Mr. Sally na sua obra. 

Quando fiz os modelos da Estatua de que trato, co- 
mo a pressa me não dtu lugar a especulações , dei á 



(17) Mr. Cochin. Ouvres Diverses. Tom. 3. pag. 262. 

(18J A falta de reflexão neste parreular tem feito cahir muitos Artis- 
tas em absurdos notáveis , a que também são ás vezes obrigados pelos 
donos das próprias obras. Que relação proporcional se acha nos corpos de 
certos Emblemas, em que entrando cachos de uvas, e espigas de trigo, 
figurão os grãos deste, do mesmo tamanho que os bagos daquellas ? Hu- 
n.a romã, quatro, ou seis vezes maior, que a cabeça de hum menino? 
Como tenho visto. Nas praducçóes da Escultura , e em algumas da Pin- 
tura ha vários descuidos destes, que merecem censura; e acor»«cção des- 
te abuso clama por huma crítica extensa : mas como seja imprópria em 
humas Notas , veja-se o que sobre o ponto diz Mr. Cccbin no I. Tom. 
das suas Quvces Diverses. Supplication aux Orfevres. E no Tom. III. 
da mesma obu, onde trata: Ds 1'illusion àaws la peintwe. 

V 



Cap. 

IV, 



loi DescripçXo Analytica 

Imagem do meu Heroc huma grandeza tal , que pela vi- 
são me pareceo proporcionada ao Cavallo em que se acha 
montado: e examinando depois o mesmo modelo, conhe- 
ci ter o Cavallo desde o Sincipite á terra , em linha ver- 
tical 5*i partes, e 4 minutos: que suppondo-o de tama- 
nho natural , vem a ser 8 palmos , e 5* décimos e meio 
(19). OCavalleiro, suppondo-o empe, 49 partes, que 
fazem 8 palmos , e 8 centecimos. As partes , e minutos 
de que fallo, são pela repartição dos Mappas anteceden- 
tes. 

Examinando a Natureza achei no Cavallo denomi- 
nado Formoso (de que nos Mappas faço menção) desde 
o Sincipite, ou 'vértice á terra, 52 partes, e 4 minutos, 
que são 8 palmos, e 5 outavos. E montado o dito Ca- 
vallo por hum homem de boa proporção , e observando 
que fazia bom effeito, relativamente hum corpo, e ou- 
tro gruppados ; Hz apear o homem, emedindo-o, vi que 
do seu vértice aterra continha das mesmas partes, 46, e 
10 minutos , que fazem 7 palmos , e 7 décimos. 

Mr. Sally , nestas comparações que fez sobre a Na- 



(19) Se he uso na Cavallaria medir-se a altura do Cavallo desde a 
percinta até a semelha 3 ou Cruz ; no primeiro Mappa desta Symmetria 
se acha essa medição , que com effeito he a mais certa. Porém , nesta 
combinação attendo mais á medida do Vértice do Cavallo até a terra, 
por ser mais conveniente neste caso. E na mesma situação He que Sally 
marca a altura do seu Cavallo ; e da mesma sorte Bonrgtlat , segundo 
diz o referido Sally. 



da Estatua Equestre. 105 

tureza diz, (20) dera ao seu Cavallo 4 pés , e 11 pollega- 
das; que vem a ser 7 palmos, 2 décimos, e 1 centeci- 
mo; e ao Cavalleiro 5 pés, e 7 pollegadas, que são 8 
palmos, e 1 decimo, e 8 centecimos. 

Parece-me grande o Cavalleiro de Sally 5 porque 
hum homem de 8 palmos, equasi 2 décimos, posto em 
pé , e junto a hum Cavallo de 7 palmos , e 2 décimos 
escassos , fica a barba do homem tocando o Craneo do 
Cavallo : do que se vê claramente ser o homem gigan- 
tesco , ou o Cavallo de marca muito diminuta. Porém, 
sem embargo disto, não se deve censurar o dito Artista; 
attendendo aos motivos que teve pelas regras de conven- 
ção. Elle diz no mesmo lugar „ que por adoptar o 7es- 
„ tido , e mais uso Romano , lhe faltava huma sella, 
„ que lhe levantasse mais o corpo do Heroe ; e que es- 
„ te lhe ficava encoberto com a cabeça do Cavallo: es- 
„ pecialmente sendo visto debaixo para cima, e que por 
„ esta razão se vio obrigado a figurar o seu Heroe mais 
„ corpolento. „ Além deste motivo, ainda lhe acho ou- 
tro para o louvar, e não censurar; observando a sua es- 
tampa , e a nossa Estatua. Pelas reteridas combinações 
se conhece , que o Cavallo de Sally he menor que o meu; 
comparados com as figuras humanas que os montão : e 

(:o") J'ai commencé par faire choix d'un cheval entre la plus gran- 
de taille et la plus petite , qui s'est trouvé avoir 4 pieds 1 1 pauces. 
Apres quoi j'ai Jait monter ce cheval par des cavaliers de diff crentes 
grandcrtrsy d'apres les qicls jai cru devoir me dcterminer pour un de 5 
fieds 7 pomes; te tottt mesure de France. Descrip. ecc. pag, 45. 

\ 2 



Cap. 

IV. 



Cap. 

IV. 



104 DescripçXo Analytica 

observando a estampa da Estatua de Frederico V. , ea 
nossa Estatua , parece o Cavallo desta menor que o da- 
quella. 

Saibao agora os principiantes de que isto procede, 
para se irem costumando a reflexionar, e a tratar com ti- 
no as convenções. A Estatua de Saliy he vestida á Ro- 
mana , em cujo trage , além de ser o corpo como nú, 
não tem na cabeça mais que a coroa de louro ; e a chla- 
myde he huma espécie de capa de mediano comprimen- 
to , e pouca roda , que faz apparecer o corpo humano 
com pouco mais volume do que se fosse nu : por esta 
causa, ainda que o Cavallo seja menor, não faz máo ef- 
feito, e concorda melhor a harmonia visual, por ficarem 
os volumes mais conformes , e mais gruppados. Em a 
nossa Estatua porém, como tem capacete, cocar de plu- 
mas , e manto Real , que he muito mais vasto que a 
chlamyde do vestido Romano ; estes adornos augmen- 
tão o volume da figura humana em comprimento , e 
grossura, e fazem (apparentemente) diminuir o do Ca- 
vallo. 

Antes de completar este Capitulo, parece-me justo 
facilitar á mocidade Es-culturesca do meu Paiz, como se 
devem servir desta combinação em hum baixo , cu meio 
relevo, em que se represente algum Cavallo; que mui- 
tas vezes , por causa da composição gráfica do quadro, 
suecede não apparecer senão do peito para cima, pouco 
mais ou menos ; e pode também não haver figura huma- 
na cm pé : faltando neste caso os totaes comprimentos 



da Estatua Equestre. io^ 

de cada corpo para se combinarem. Suppre-se bellamen- 
te a referida falta deste modo. 

Divida-se o total da cabeça humana em 6 partes 
jguaes ; e a estas 6 accrescentando mais 10, que sejáo 
cada huma das 10, igual a cada huma das 6; temos as 
16 em que divido a cabeça do Cavallo : que por esta 
medição ficará em proporção relativa á do homem. Isto 
he , querendo representar homem de nobreza , e boa es- 
tatura ; e Cavallo de passeio, e bom talhe: que pedindo 
a composição homem grosseiro , ou Cavallo de outro 
uso, v. g. de carga, etc. então o juizo, e o bom gos- 
to , são as verdadeiras regras ; assim como em outros 
muitos casos. 

ANECDOTA 

Appensa a este Capitulo. 

Estando escrita a presente obra até o fim do Capi 
V. , e ouvindo casualmente hum Excellentissimo Titular 
deste Reino ler o Capitulo presente , reparou no lugar 
onde exponho ter buscado infrueruosamente a obra de 
Mr. Bonrgehit , e quanto me lamento de a não ter acha- 
do : isto moveo aquelle Animo Illustre, para que logo 
no seguinte dia Sua Excellencia me fizesse a generosa 
Mercê de constituir-me possuidor dos três Tomos dos 
Wlémens tfHippiatriqiie pelo referido Author. 



AP. 
IV. 



Cap. 
IV. 



106 DescripçXo Analítica 

Resulta deste facto. 

Com muito gosto vi as decisões que dá o Sábio 
Bourgelat, sobre aSymmetria doCavallo: porém não me 
fazem omittir as medidas, emethodo que exponho, por 
vários motivos. O primeiro, he julgar este meu trabalho 
mais individual. Segundo, muito msis amplo; dando de- 
baixo dos mesmos aspectos , e em cada Mappa diversas 
dimensões. Terceiro , comprehender-se na symmctria 
que faço , as medidas tomadas com escrúpulo sobre cin- 
co bons Cavallos naturaes; circumstancia muito attcndi- 
vel , por ser a Natureza o melhor mestre que se pôde se- 
guir ; posto que a Arte a deva ajudar com a ideal bel- 
leza. 

Bourgelat no Tomo I.° Cap. 7. 1110 he que trata esta 
matéria : na pag. 451 , declara o modo da sua divisão, 
dizendo , que „ divide a cabeça do bruto em três par- 
„ tes iguaes , a que dá o nome, Primas. Cada huma des- 
„ tas em outras três, nomeando-as Segundas-^ e cada hu- 
„ ma destas segundas em vinte quatro porqoes , que de- 
„ nomina, Pontos : contendo todo o comprimento geo- 
„ métrico da cabeça 216 pontos. „ 

Pela minha divisão contém a mesma cabeça 2j6 mi- 
nutos : por ser mais miúda, pôde ser mais exacta (11)» 

(21) Poi che quanto piu minute sono le parti delia divisione , tanto 
tneno si soggisce a gli sbagli , e tanto piu ci pctiamo accostare alia per* 
jertione. Parados, di Prospectiva. Part. 2. Frati. XI. Carie 61. 



da Estatua Equestre. 107 

E como não sou tão presumido como aquelles , que só a 
si se reputão dignos deapparecer, e cheguei ater a com- 
placência de ver os dictames de Mr. Bourgelat , delibe- 
rei-me a communicallos aos meus Naturaes com-Artistas; 
reduzindo porém a symmetria, que ordenou aquelle Sá- 
bio Chefe Veterinário, á escalla de que uso na minha; 
e indicando as mesmas estampas, em que a declarei nes- 
ta obra, com as mesmas letras, emethodo já propostos; 
o que passo a mostrar na taboa seguinte. E para que lo- 
go se conheça a differença que ha das minhas dimensões 
ás de Mr. Bourgelat, na primeira columna da taboa pre- 
sente mostro as do referido Author ; e na segunda 
aquellas que nos meus Mappas tem o titulo Resultado. 
Havendo porém escrupuloso, que pense não dever eu fa- 
zer o parallelo das dicisões de Bourgelat com as medi- 
das notadas na minha dita divisão, intitulada Resultado, 
por ser o lugar onde junto a belleza ideal que suppo- 
nho ; obscrvando-se as outras divisões em que mostro 
fielmente o que me indicou a Natureza , se verá , que 
também differem do que expõe o Author menciona- 
do. 

Também advirto, que na taboa presente não vão as 
letras alfabéticas gradualmente seguidas como nos Map- 
pas ; porque na taboa , indicáo unicamente os lugares de 
que Bourgelat mostra as medidas ; tendo eu examinado 
muitos mais: e por esta causa tem as letras indicativas, 
nos meus Mappas , a sua serie seguida ; não a tendo na 
taboa presente, por ter Bourgelat omittido as dimensões 



Cap. 



io8 



DescripçXo AnalyTica. 



IV. 



nos lugares onde faltao as letras em seguir a sua devida 



^ AP * serie alfabética. 



Estampa VII. nesta Descripção Analytica. 



B 
D 
H 
I 

M 
N 
R 



Dimensões por Bourgelat. 

partes . 48 

40 

16 

12 . . minutos 14. 

10 . . m. . . 11. 

7 . . m. . . 2. 

12 . . m. . . 7. 



Dimensões nesta Descripção, 



partes 

p. . . 

p. . . 

p. . . 

p. . . 

p. . . 

p. . . 



54 . 


. minutos 6. 


4? . 


. m. . . . 4. 


l8 . 


. m. . . 8. 


16 . 


. m. . . . 4. 


M • 


. m. . . . 8, 


-7 


. m. . . , 12. 




...... . • 



Estampa VIIL 



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. p. . . 
. p. . . 
. p. . . 
. p. . . 
. p. . . 
. p. . . 


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. m. . 


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Estampa 


IX. 








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F 


. p. . . 
. p. . . 
. p. . . 


• 1? • 

. 16 . 
. 18 . 


. m. 


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. p. . 

. p. . . 


. . 18 . 


. m. . 


. 4. 


G . 
















h 






. m. 


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. . 8. 




. p. . 


1 . 


. m. . 


. . 14. 


e . 


. p. . . 

















da Estatua Equestre. 
Estampa X. 



H 



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D**D p. . . 
F . . P . . . 

H . . P . . , 

I . -. P . . . 

M . . p. . . 

N . . p. . . 



m. 



• • P 5 

Aspecto I. da Estampa XI. 



10 
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m. 



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. m. . . 2 _ 

4 

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m. 



Aspecto II. da Estampa XI. 



A . . p. . . . 
c . . P . . . . 
D . . P 

E . . p. . . . 

F . . P . . . . 



C . . P . . . 
D . . p. . . 

F . . p. . . 
G . . P . . . 

H . . P . . . 



m. 
m. 
m. 



12. 
12. 

6. 



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m. 



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i - 

2 



4 
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Aspecto IV, da Estampa XI. 



14 

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4 

2 



m. 
m. 



4. 



m. 



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m. 



m. 



m. 
m. 



m. 

m. 



m. 



m. 



m. 



m. 



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m. . 

m. . 



Cap. 

IV. 



12. 



ii . . m. . . 

l 5 

5 . . m. . . . 4. 

I . . m. . . . 14. 



12 ' 

4. 
8. 



8. 



8. 



2. 
4. 

14. 



M 



Aspecto V. da Estampa XI. 

2 . . m. . . 6. . . . p 1 . . m. . . . 7. 



X 



Cap. 

IV. 



Ho Descripçao Analítica 

1 Quasi todas as dimensões da Symmetria , que ex- 

ponho , contém mais quantidades , que as de Mr. Bour- 
gelaf. circumstancia que se acha não só no titulo Resul- 
tado , onde pertendo reunir o Bello ; mas até se encon- 
tra nas observações feitas fielmente sobre a Natureza -, 
como se vê nos Mappas antecedentes: o que prova cora 
evidencia serem os Cavallos, que medi , mais esbeltos 
que o exemplar proposto por Bourgelat : e as partes , ou 
membros do Cavallo , que na minha Symmetria contém 
menos quantidades, que às declaradas pelo dito Author, 
são em situações , que essa mesma diminuição concorre 
para o mesmo fim de gentileza. 

Reparando-se , em fim , na medida notada com D , 
na Estampa VIL > e na que se declara em H , na Estam- 
pa VIII. , se vê também serem os meus exemplares me- 
nos longos de corpo. As duas circumstancias de serem 
os meus (segundo a Natureza que examinei) menos lon- 
gos , e mais esbeltos , cuido que lhe augmenta a formo- 
sura , e são mais conformes ao sentir dos Authores , que 
transcrevi do Capitulo III. 

Respeito porém- a sabedoria ác- Bourgelat-; não per- 
tendo oppôr-me aos Sábios ; exponho os meus estudos: 
e aos Desenhadores , e Cavalleiros intelligentes , e do 
bom gosto, deixo a decisão. 



da Estatua Equestre. ih 



CAPITULO V. 

Que trata do Modelo grande executado em Estuque, 



IV. 



*J A* no fim do Capitulo III. deixo declarado, que ap- 
provando Sua Magestade o segundo modelo executado 
em barro, o entreguei ao Moldador para tirar-lhe a for- 
ma. Proseguindo-se esta matriz com actividade, e vigi- 
lância ; e tendo recebido ordem a 10 de Julho do dito 
anno de 1771 para a execução do Modelo grande , de 
que vou tratar ; e para que neste intervallo se adiantas» 
sem as disposições , se fez huma casa de madeira , para 
servir de laboratório , em que se executasse esta figura; 
construindo-se , para maior commodidade, em hum pa- 
teo, que ha no recinto em que estão asofflcinas da Fun- 
dição de Artilheria. 

Conformando-me pois com as circumstancias do 
tempo, e do lugar, que não he muito espaçoso, reque- 
ri que neste laboratório só os seus páos de prumo , fre- 
xaes , e telhado fossem fixos ; e pelo que toca aos seus 
lados, tanto nas porções opacas, como nas transparen- 
tes, (1) se fizessem de caixilhos portareis, para podel- 

(1) Estes laboratórios para Escultura se costuma o fazer de medo, 

X 2 



H2 DescritcXo Analytica 

los tirar ; a fim de ver de mais longe a minha obra , e 
' observar melhor, deste modo possível, a combinação do 
seu todo, a sua perfeiqão (2), ou falta delia , de hum 
ponto de vista , que mais se assemelhasse ao do lugar 
onde havia de ser a mesma obra collocada. 

Assim se construio, com ef feito (3); posto que des- 



v. 



que as suas paiedes náo tenháo janellas até a altura de 12 , ou 15 pal- 
mos , pouco mais , ou menos : e as janellas que dahi para cima se fazem 
sáo grandes , com vidraças , e com papeis oleados , ou panno fino encera- 
do, por dentro dos vidros, e outras percauçóes , para moderar , e gra- 
duar a luz. 

(2) Cest de la perfection de ce modele , que dépetid celle de 1'ouvra- 
ge de bronze , qui en prend la forme par la suite ; cest pourquoi h 
Sculpteur doit le terminer autant qu'il es possible , et surtout se conten- 
ter entierement pour qui regarde 1'attitude et la disposition de ses par- 
ties , pane qu'il ne peut plus revenir a les changer. Boffrand. Descrip. 
de . . . la Figure Eq. de Louis XIV. chap. 2. pag. 17. 

(j) O Laboratório , em que fiz a minha obra, tem 60 palmos de com- 
prido, por 46 de largo. O de Boucbardon , em Paris , teve de compri- 
mento mais de 120 palmos ; que tanto sommáo 13 Toises , e 4 pés : e 
de largura, mais de <ji palmos ; que sáo 10 Toises, e 2 pés. O labora- 
tório de Sally, e-:n Copenhague , teve de comprimento mais de 126 pal- 
mos , e de largura , mais de 70 : e náo se contentando Sally com este 
espaço, usou da mesma industria de que eu me vali, para ver a obra de 
longe, jfe métois encore procure l'a vantage de pouvoir jouir de loin de 
1'eJJct de mon ouvrage , enfaisant pratiquer autour demon attelier } qui 
avoit 90 pieds de long. sur 50 de large , de grands chassis et panneaux 
à coulisse , que l'on descendoit, ctc. Suite, etc. pag. 16. Advirto que a 
medida Pi' , de que falia Sally , náo sei se he pela affiriçáo Dinâmar- 
queza , se pela Franceza : suppondo-a por esta, he que somma a conta 
lios palmos que acima digo 5 porque o Pé Francez combinado com o Pai- 



da Estatua Equestre. 113 

te soccorro só huina vez me vali , por falta de tempo : p— - 
e ainda que houvesse vagar para repetir estas observa- p * 
ções, he este recurso muito diminuto para com elle ven- 
cer os obstáculos da diversa elevação , e do cJaro-escuro. 
Pelo que respeita á elevação , como as partes sali- 
entes , e intrantes, são de muito maior extensão , que 
nos modeles pequenos, a diversa elevação faz huma inex- 
plicável mudança nos raios visuaes dos espectadores (4); 
e huma figura qne na elevação de outo palmos (por exem- 
plo) fará bom effeito, pondo-se na altura de vinte , per- 
de totalmente esse effeito; porque os salientes, impedin- 
do os raios visuaes , humas partes escondem outras , con- 
fundindo-se os contornos ; incobrindo-se alguns fundos 
precisos para individuar os mesmos contornos, e massas 
dos claros, e escuros , augmentando-se os escorços ; e 
consequentemente alterando-se a boa harmonia das pro- 
porções. Por isso diz Boffrand (5-), que „ estes modelos 

mo de que se usa nas Obras Públicas desta Cidade, contém hum palmo 
4 décimos , e 5 centecimos. A Toise comprehende 6 Pés. O tamanho 
do Laboratório de Bouckardon vê-se na primeira estampa da Descripçáo 
da Estatua de Luiz XV. em Paris. 

(4) Les objets paroissent outre ment quand mus !es pouvons toucher , 
que quand tis sont eleves en baut. Vitruv. Liv. 6. Chap. 2. pag. 20;. 
Para confirmar esta doutrina de Vitruv. , he digno do se ver o que diz S/il- 
íy na Suite , etc. de pag. 29 para 30 : narrando com admiração o que 
lhe mostrou a própria experiência a este respeito. De Vitruv- cico a 
Trad. que fez Perranlt , impressa em Paris, em 1684. 

(5) Descrip. de . ... Ia Figure Eq. de Louis XIV. Chap. 2. pag, 

l6r 



V. 



H4 DescripcSo Analítica 

,, seria bom se fizessem na mesma altura (6), em que se 
^ AP * „ deve collocar a obra em bronze; a fim de poder oEs- 
„ cultor, conforme esta elevação, e distancia de solos, 
„ observar os effeitos dos escorços , dar graça á obra, 
„ e fazer com que de todos os pontos de vista seja agra- 
„ davel. „ 

Não ha dúvida que esta cautela de fazer o mode- 
lo em altura igual á mesma em que ha de assentar-se a 
obra , he ponto muito attendivel ; mas os embaraços da 
Escultura íão taes, que ainda com esta prudente, e pre- 
cisa prevenção , he quasi impossivel conseguir-se o que 
diz Boffrand, isto he, ser a obra agradável de todas as vis- 
tas , pelos motivos acima ponderados : grilhões insepa- 
ráveis desta Arte, e que tem continuamente em tormen- 
to o génio, e enthusiasmo do Artista. 

Além das referidas contradicçôes , e outras muitas, 
que omitto , em que angustias se não acha hum Escul- 
tor, e de que juizo , instrucção, e prudência não carece 



(6) Persuauo-me que nenhum Escultor de semelhante incumbência 
fez o seu modelo grande em tão pouca elevação , como eu fiz este ; pois 
o estrado, que lhe sérvio de plintho , não se eleva do chão mais, que a 
grossura das vigas sobre que se estabeleceo ; que será palmo , e quarto, 
ou pouco mais. Sally fez o modelo da Estatua sobre hum do Pedestal 
do seu total tamanho; segundo se collige da Nota /, na pag. 25 à\ Sui- 
te. E vários Escultores , ainda para estatuas de mármore , e destinadas 
para nichos , e lugares cobe:tos , se tem acautelado em lazer os seus mo- 
delos em estuque , do mesmo tamanho , e no mesmo lugar destinado a 
estatua. 



da Estatua Equestre. ik 

quando pensa , e procura que receba hum bom claro-es- 
curo a sua obra ? Esta importantíssima parte nas Artes 
do Desenho, cuidarão muitos, que só na Pintura, e De- 
buxo tem lugar: mas sendo ella de tanta importância, e 
difficuldade para o Pintor, não he menos precisa ao Es- 
cultor, (e ainda ao Arquitecto); sendo-lhe o seu alcan- 
ce de tanto maior fadiga , que lhe chega muitas vezes a 
ser impossível, por mais sciencia que tenha, e diligen- 
cias que faça. Tal he o caso de huma estatua collocada 
no meio de qualquer terreno, em ar livre ; executando- 
se (como sempre se pratica) em lugar coberto (7) , e 
fechado , para que o rigor dos tempos , e concurso das 
gentes não interrompão, e perturbem os operários. 

Na Pintura , he o Artista Senhor absoluto , ou Ar* 
bitro total do claro-escuro (8) : se he sábio, quando in- 
venta , dispõe os objectos , e a fingida luz com que os 
mostra, de modo que lhefaçao oeffeito, que pertende; 
compondo , e accommodando os corpos em tal ordem , 
que lhe recebão grandes massas (9) de claro, e grandes 
de escuro ; gruppando humas, e outras; valendo-se das 
meias tintas , e das mesmas cores locaes ; pois sendo 



(7) . ... et cequi est datis un li eu enferme a tont ttn effet , que 
quand il est a decouyert. Or en ces cboses il faut mi gr and jugemenl 
four bien reussir , etc Vitruv. Liv. 6. Chap. 2. pag. 202. 

(8) Le clair-ubscur dépend absclumem de 1'imagination dtt Peintre. 
Depiles, Cours de Peinture, pag. }6$. Paris 1708. 

(o) Massas de claro } etc. vej. a sua definição no Cap. X. Nota. (b). 



1 1 6 DescripcXo Analytica 

'sábio, e engenhoso, em todas estas cousas acha soccor- 
AP * ros prodigiosos. 

Não he assim o Escultor : este , sem poder valer-se 
de cores diversas , acha-se indispensavelmente subordi- 
nado á verdadeira luz da Natureza. Quando a sua esta- 
tua , gruppo , ou baixo-relevo são collocados em lugar 
coberto , e fechado , e que recebem luz de alguma ja- 
nella , porta , etc. que o acaso lhe offerece , ou o artifi- 
cio faz de preposito romper (10) , ainda tem algum tal 
qual recurso ; porque recebem os objectos a luz sempre 
certa, e da mesma parte; porém quando a estatua se ha 
de collocar em huma praça, recebendo a luz do Sol com 
toda a sua força , que faz produzir sombras cortadas , e 
extremamente cruas, e além disto a volubilidade daquel- 
le Astro (*) de Oriente a Occidente , que de hum para 
outro instante faz notável diversidade nas sombras , os 
desvelos todos do mais sábio, e engenhoso Artista, não 

(10) Les Sculpteurs aussi bien que les Peintres , peuvent mettre en 
pratique l' artífice Au clair-obscur , quand ils oní occasion , ou qtt'iU se la 
procurent par la disposition de leurs figures , ou par le lieu ou doit être 
place leur ceuvrage. Le Cavaíier Bernine en a laissé des monumens à 
la posterité datis quelques Eglises de Rome , datis les quelles il a disposé 
sa Sctúpture seloti lalumiere des Jetiêtres qui devoietit l'èclairer. Ou bien 
il a perca des fenêtres d'utie ouverture avamageuse quand il en a cu la 
liberte , afin den tirer des lumieres qui fissent ut\ effet extraordinaire 
et capable d'entretcnir iattemion de son Spectatcur. Depiles. Cours de 
Peinture, pag. 384. Edicç. dita. 

(*) Como Arrista, devo explicar-me em termos intelligiveis ao com- 
mum, deixando Copérnico , e seus sequazes. 



V. 



da Estatua Equestre. 117 

são bastantes para vencer semelhantes dificuldades , e 
livrar a sua obra dos estranhos , e desagradáveis effeitos, ^ p 
que nella produz a illuminação esgazeada , e inconstan- 
te; desgostando-se os espectadores, sem reparar donde 
procede o que os enfastia (11) ; recahindo esta náusea 
contra o credito do innocente Artista. 

Eis-aqui porque os Escultores na construcçao destes 
laboratórios tem as ditas precauções, que por serem ain- 
da tão ténues para os ponderados fins , se vem obriga- 
dos, por assim dizer^ a estar em contínuas adivinhações 
dos effeitos , que no seu lugar ha de produzir a obra. 

Deixando pois o referido Laboratório entregue aos 
seus constructores , e acabada a forma do segundo mo- 
delo , fiz extrahir da mesma forma vários exemplares, 
nos quaes vinhao impressos os traços perpendiculares, e 
horizontaes, que dei no barro ; indicados já no fim do 
Cap. III., e se mostrão na Estampa XII. fig. II., elll. 
Todos estes traços servirão para por eiles serrar os ditos 
exemplares em tantos pedaços quantos os mesmos traços 
indicão. A primeira serragem foi pela figura de alto a 
baixo , e ao comprimento do Cavallo ; cujo traço he o 
indicado a a na mesma Estampa XII. fig. 3.* Dividido 
assim o modelo em duas metades , claro está produzir 



(11) Quando tratar adiante do complemento desta Estatua, e do lu- 
gar , e modo com que Suas Magestades a víráo , narrarei hum facto que 
prova os terríveis effeitos , que em qualquer obra destas Artes causa a 
luz mal dirigida. 

Y 



Cap. 

V. 



118 DEScuipqSo AnalyTica 

'esta serragem hum plano igual em cada huma delias, no 
lugar do corte : e tendo prompto hum papel do tama- 
nho, e qualidade competente, peguei na metade do la- 
do direito do modelo , e assentando a sua serragem , ou 
corte plano sobre o papel , que estava posto em huma 
taboa proporcionada , desempenada, e liza, com hum 
lápis agudo, sempre encostado ao gesso, fui riscando o 
papel com muito cuidado ; de cuja operação se mostra 
o contorno em a Estampa XIII. fig. I. : e deste modo 
usei de todos os mais cortes. 

Vali-me deste artificio para formar o esqueleto, ou 
armação interna sobre que devia applicar o estuque na 
execução do modelo grande. 

Depois que tive os ditos cortes contornados todos 
da mesma sorte , entrei a delinear os lugares das vigo- 
tas, cercias , e ferros, nos ditos papeis, do modo que 
na idéa os tinha concebido para a construcção do esque- 
leto \ e pelo seu respectivo petipé transmutado ao seu 
total tamanho , se foi formando a ossada de madeira , 
deixando nella a diminuição que me parcceo bastante 
para o volume de estuque em que se havia de modelar; 
cuja diminuição seria de meio palmo , pouco mais ou 
menos , por todas as superfícies. 

Para as pernas, e braço esquerdo do Cavallo , fiz 
forjar três ferros , que sustentão a maquina toda, os quaes 
se pregarão nas vigotas do comprimento do Cavallo, e 
se indicão na Estampa XIII. , na qual se mostrao dous 
ferros mais , hum que segura o braço direito do Cavai- 



da Estatua Equestre. 119 

lo , outro a cauda. E na Estampa XV. se devisão outros ' 
quatro ferros , que servirão para segurar braços , e per- 
nas da figura ; cujos ferros se pregarão em taboas recor- 
tadas com a devida configuração dos seus respectivos lu- 
gares , nos quaes se atacarão para o seu effeito. 

Armadas pois as taes vigas, e cercias do modo que 
mostro nas Estampas XIII. , XIV. , XV. , e XVI. , fiz 
cobrir tudo com arcos de pipa , a fim de se agarrar, e 
segurar nelles o estuque , assim como se pratica nos ta- 
biques , e tectos : porém como esta manobra se fez na 
Casa do Risco das Obras Públicas, para dalli se trans- 
portar ao Laboratório, onde se havia de executar o mo- 
delo , não se pregarão logo os ferros para as pernas do 
Cavallo , nem se fez a ossada toda inteira. De todo o 
corpo do Cavallo fiz hum volume: do tronco, ou busto 
da Figura outro : e da sua cabeça outro, com seus en- 
caixes para ajustarem certos ao tempo de se unirem. 

Pernas, e braços da Figura, cauda, e braço direi- 
to do Cavallo , forão peças , cujas ossadas se fizerão tam- 
bém separadas, para se unirem ao todo, a seu tempo. 

Girurâeii) Bouchardon , Sally , e creio que todos os 
outros Escultores de taes Estatuas, fizerão construir to- 
talmente de ferro os esqueletos dos seus modelos gran- 
des , para se acautelarem do enorme pezo do estuque, 
e parra segurança de não gemer , ou desunir-se alguma 
das partes, porque fizerão toda a maquina massiqa : po- 
rém como o meu modelo feito por este methodo ficava 
todo oco , evitei assim huma grande despeza de cabe- 

Y 2 



Cap. 
v. 



120 DescripcXo Anàlytica 



V. 



dal , e tempo (12) , e até caminhei livre do receio de 
' encontrar ferro ao tempo de modelar (13), achando nes- 
te methodo que segui (se me não engana a minha fra- 
queza, eamor próprio) muitas vantagens aosystema dos 
esqueletos de ferro. 

Nivelado o terreno do Laboratório , fiz estender, e 
segurar no seu plano algumas vigas de pinho de Flan- 
dres com a devida disposição; e formar sobre ellas hum 
estrado de pranchas de madeira do Brazil , ao qual se 
deo o mesmo recorte, ou configuração do plintho, que 
de mármore se fazia no pedestal : e acabado este plano 
de madeira em toda a sua superfície superior fiz lan* 
çar traços bastantemente visiveis por todo o seu compri- 
mento , e parallelos de palmo em palmo os quaes se 
repetirão pela largura do mesmo plintho em perfeita 
esquadria ; ficando em toda a superfície do estrado tra* 



(12) Mr. Sally esteve mais de dous annos e meio esperando que se 
completasse a armação de ferro para o seu modelo grande : cujo tempo 
empregou em novas observações estudiosas. Suite, etc. pag. 22. 

(1$) On ne sauroit trop appuyer sur la necessite dont il est que les 
âijjercnts braticbes de fer qui entrem datis cette armnture , se trovent 
placées de façon , qu'elles soient toujours au centre des diverses parties 
du modele quelles affermissent , et qu'elles ne s'en écartent en aucun 
endroit. Le Sculpteur eprouveroit un vrai supplice , si en travaillant À 
son modele il etoit continuellement dans la crainte de recontrer sous son 
outil quclque portion de fer qui le dérangeroit entiérement , et qui peutê- 
tre seroit telle , qu'elle l'obligeroit à recommencer fouvrage dans s.i to» 
talité. Descrip. ... de la Statue E<\, de Louis XV. Chap. 2. pag. 25. 



V. 



da Estatua Equestre. 121 

cada huma quadricula de palmos cúbicos superficiaes, no- 
tados com seus números pelos lados do mesmo estrado. p * 

Ora para exemplar do Modelo grande havia de ser- 
vir hum daquelles, que em gesso seextrahírão da forma 
tirada sobre o segundo modelo feito em barro : já este 
modelo pequeno de gesso se achava retocado , e sobre 
hum plintho de madeira , recortado com a mesma confi- 
guração do plintho grande ; accommodado sobre hum 
cavallete (14) fixo , e com huma grade rectângula por 
cima, do modo, que mostra a Estampa XII. fig. II., e 
pelo seu respectivo petipé estava este pequeno plintho 
gradiculado, e da mesma forma numerado em tantas par- 
tes como havia no estrado grande. A grade rectângula , 
que estava por cima , também se collocou nivelada , e 
com todo o cuidado se prevenio que ficassem os seus la- 
dos bem galgados com os do plintho ; tendo notado igual- 
mente na mesma grade as divisões dos palmos , ou par- 
tes, que no estrado, ou plintho estavâo notadas. 

No plano superior desta grade , em todos os seus 
quatro lados , havia em cada hum delles hum delgado 
varão de ferro ; e em cada varão se achava hum annel mo- 
vei , em que prendia hum cordel com sua chumbada no- 



(14) Termo, com que na Escultura se costumáo nomear humas ban- 
cas, ou bancos, destinados para sobre elles se modelar : e ainda que na 
Estampa XII. o mostro com 4 pés, porque assim sérvio entáo, costumáa 
ter ordinariamente só 3 , com a taboa de cima de pequena praça , movei 
em hum eixo ; c os pés tem 5 palmos de alto pouco menos, 



Cap. 

V. 



122 DescripçSo Analytica 

' fim ; (a) ficando moveis estes quatro cordéis , para se po- 
derem mudar a diversos lugares, quando a precisão o pe- 
disse. 

Com estas mesmas circumstancias, e em competen- 
te altura, se collocou outra grade, rectângula proporcio- 
nal , por cima do estrado grande ; e assim que esteve 
posta em seu lugar , tendo-se conduzido já para aquelle 
sitio o esqueleto de madeira , fiz assentar no estrado com 
a devida segurança , e circumspecçáo em medidas , os 
três ferros das pernas do Cavallo ; e logo sobre elles a 
referida ossada de madeira , jque examinada pelos pru- 
mos , e compassos, se achou com a certeza que me pro- 
mettêrão as serragens dadas no modelo pequeno, e que 
servirão para guiar a construcção deste esqueleto. 

Quando Mr, Sally fez a tantas vezes allegada Esta- 
tua de Frederico V. na armação de ferro, que fez cons- 
truir para o seu modelo grande , introduzio nella tantas 
pontas de cobre, quantas (15) pozera no modelo peque- 
no, em que havia individuado os seus estudos. 

Não he possível poder-me agradar esta miudeza , 
trabalhando-se em matéria branda, e apta para qualquer 



( a) Os Auth. de Mathem. chamáo pêndulos ao que aqui denomino 
chumbadas ; porem uso deste termo por me parecer mais intelligivel ao 
commum. V. M. Maria, Trat. de Mec. na Trad. Port. N. 414. 

O5) cf-e n'ai point employé lusage ordinaire lorsquc j'ai fait mon 
g/rand modele; je liai traivaillé comme on travaillé le marbre , ccst-.idi- 
re , quapr:s avoir disposc mon armature , je posai dessus autant de 
points que j'en avois mis À mon peiit modele. Suite, pag. 25. 



da Estatua Equestre. 123 

emenda em todo o tempo : parece-me impertinência de- : 
masiadamente servil ; e que nesta parte se pôde applicar 
a Sally (com o devido respeito aos seus Talentos) o que 
diz Luciano dos que não sabem escolher o que he pró- 
prio do seu assumpto (16); ou também o sentimento de 
Muratori , sobre os que se empregão cm ninharias (17)- 
Para o trabalho do mármore sim são precisas essas 
cautelas, (de que não usarão os antigos (18), como ha 
quem afíirme); porque qualquer leve descuido que haja 
em se tirar demais, depois não se lhe pôde applicar no- 
vo mármore, para supprir a falta; ainda que os Italianos 
dizem que ai Scultore cbe sa mat gli manca la pieira (19). 

(16) Luciano sobre o modo de escrever a Historia , pag. 43 , na 
Traduc. do Reverendo P. Custodio José de Oliveira. 

(17) In ciascuna sorta di letter atura noi possiamo contar e qualche 
tacciatore di moichi. Riflessio, sopra il Buon Gus. Part. 1. Cap. 4. pag^ 
150. 

(18) Lecn Batústa Alberti , foi o primeiro que na restauração das 
Artes escreveo da Pintura , e Escultura , se attendemos ao que elle diz na 
pag. primeira da sua Pittura , deste modo . . . matéria veramente dijfi- 
cile, e delia quale per quanto io akbia veduto , non e stato alcuno che 
per ancora ne abbia scrito. No seu Tratado delia Statua dá indícios de 
ser rambem o primeiro que descobrio o methodo de transportar os mode- 
los ao mármore , por meio de prumos , esquadros , etc. Vinte , também 
toca este ponto, bem que muito resumido: e dizem que Algardi he que 
aperfeiçoou o methodo que hoje se pratica. 

(19) O Escultor , que sabe, nunca lhe j alta a pedra. Este provérbio 
dos Escultores Italianos , tem suas excepções ; e só os que tem muita so- 
berba, pouco juizo, e menos instrucçáo 5 o entendem materialmente ao 
pé da letra. 



Cap. 

v. 



Cap. 
v. 



124 DescripçS.o Analytica 

1 Porém no estuque , sendo quasi o mesmo que modelar 
em barro, podendo-se-lhe accrescentar em todo o tempo 
novo material , parece-me escrúpulo mal fundado. 

O methodo , com que fiz o meu Modelo grande , he 
muito mais livre : poderá haver quem lhe chame temerá- 
rio ; porém eujulgo-lhe toda a precisa cautela para qual- 
quer Professor , que no berço da Arte já tem deixado as 
envoltas: eu o exponho. 

Primeiramente , a maneira de construir o esqueleto 
do modo que tenho declarado, he tão exacta, e livre de 
engano, que já no mesmo esqueleto seachão em embrião 
todas as partes principaes do todo, precisamente coilo- 
cadas nos seus devidos , e respectivos lugares. 

Persuadido inteiramente desta exacção , .ordenei, 
que se fosse pondo estuque (20) geralmente em todo o 
esqueleto , porque como os estímulos de apressar a obra 
se multiplicavão , também foi preciso cobrila de operá- 
rios (21) ; os quaes traaião, cada hum junto a si, hum 
pedaqo do modelo pequeno (22) correspondente á parte 
cm que no grande trabalhava. 

(20) A 16 de Outubro de 1771 he que se principiou a trabalhar no 
estuque. 

(21) Mr. Sãlly , como teve a satisfação de não ser flagellado com 
pressas , não admitio adjutorio, mais que na applicação do estuque. J'ai 
fait ce modele absohtmcnt seul , à la reserve Au platre que 'fai fait tuet- 
tre aux endroits ou j'en avois besoin. Suiete, pag. 16. E só assim heque 
o Professor incumbido pôde completar qualquer peça segundo o seu gos- 
to, e com a devida igualdade. 

(22) Dos mesmos exemplares de gesso, tirados na forma que se fez 



da Estatua Equestre. n$ 

Disposta deste modo a obra , eu andava em torno 
delia observando , subindo , ora a hum , e ora a outro 
andaime; retocando, e advertindo como queria que fos- 
se a execução. Mas fallem neste lugar por mim os pro- 
fessores intelligentes , e digão a dirferença que precisa- 
mente ha de haver na maneira do toque (23); mais, ou 
menos conforme i do professor chefe , mais próxima , ou 
distante do bom gosto; mais, ou menos medullosa (24); 
com mais, ou menos franqueza , etc. (25). 

Antecipadamente me havia acautelado em mandar 
fazer vários compassos grandes de páo , e pontados de 
ferro , para com elles se irem combinando as medidas : 
mas o que mais sérvio forão as grades rectângulas collo- 
cadas sobre hum, e outro modelos; e o modo com que 
usei delias, foi este, que mostro na Estampa XII. íig. 
II. 



sobre o modelo de barro , fiz serrar alguns em diversos bocados arbitra- 
riamente para este fim. 
(25) Toque. A definição desta palavra, veja-se no Cap. X. Nota/. 

(24) Medullosa. Demedulla, substancia, etc. Fraze peculiar , e enér- 
gica da Arte , especialmente entre os Francezes. Nós a devemos adoptar. 

(25) Nas producçóes das Artes do Desenho he impossível achar-se o 
manejo da Arte com igualdade , empregando-se em qualquer peça vários 
Sujeitos; cujos diversos tallentos , ecujo amor próprio (inseparável da hu- 
manidade ) fazem com que trabalhe cada hum a seu modo , persuadindo- 
se que de si , e náo do chefe procede a perfeição, e merecimento da obra; 
calumniando muitas vezes em conventiculos as idéas , avisos , e delibera- 
ções do próprio Director , as mais das vezes sem saber 9 que dizem. O 
resto da Nota , veja-se no Suplemento ás Notas deste Capitulo. 

z 



Cap. 
v. 



Cap. 

V. 



126 DescripçÃo Analítica 

■ Queria , por exemplo , ver a Figura pelo seu lado 

direito, e no lugar da garuppa do Cavallo, observar on- 
de chegava, ou estava collocado tal, ou tal musculo da 
perna do bruto ; chegava ao meu modelo pequeno , c 
puxava o cordel e,/; (*) v. g. ao $.° palmo da grade; 
logo o cordel g, b ; ao mesmo $.° palmo, do outro la- 
do ; e olhando para o cordel e , f ; de modo que a sua 
grossura me encobrisse o cordel g, h (26); e na super- 
fície da base o traço /', /; a todos se manifesta claramen- 
te, que olhando por esta maneira, se expõe á vista hu- 
ma secção imaginaria exactíssima, no corpo que se acha 
entre os dous cordéis : e depois de examinar em o mo* 
delo pequeno, que músculos, membros , ou dobras de 
panno se comprehendiíío nesta secção imaginaria , punha 
na grade grande os cordéis nos mesmos lugares corres- 
pondentes, que os números indicarão, e da mesma sor- 
te examinava no Modelo grande se as partes, que ave- 
riguava , se achavao na mesma situação que mostrava o 
original pequeno, para crescer, ou diminuir como o ca- 
so pedia. E deste modo mudava os cordéis a diversos 
lugares, servindo sempre deus a dous, com o traço que 

(*) Na execução da obra , todas as chumbadas destes cordéis chega- 
váo ao pavimento do plintho, como se ve em n s p. Aqui porém, na es- 
tampa , apparecem mais curtos estes dous primeiros cordéis de que se fal- 
ia , para evitar confusão na estampa. 

(26) Na definição que á linha recta àí o P. Monteiro no seu Com- 
pendio dos Elem. de Mathem. Elem. de Geom. Defin. 2..' na segunda 
explicação , acha-se a razão , que prova a certeza desta prática. 



DA ESTATVA EQUESTRE. llj 

na base lhe correspondia : pertencendo os cordéis e, /, 
e g, h ; aos exames dos lados da Figura ; e os outros 
dous cordéis f«, n , e , p ; com qualquer traço #, r; 
dos que se achavão pelo comprimento do plintho, para 
os exames da frente, e garuppa (27). 

He bem verdade que esta maneira de observação 
com os cordéis , não serve para definir senão pelo hori- 
zontal prolongo , e grossura do corpo collocado entre 
clles ; e pelo que respeita á sua elevação, ou altura, não 
servem de cousa alguma : porém não obstante achar-se 
nos compassos sufficiente recurso para isto , a maior se- 
gurança nestas medidas, já se havia estabelecido no mes- 
mo esqueleto para o todo ; que nas individuações parti- 
culares , o melhor compasso he o que aconselhava Buo- 
narroti (28): e tanto se não deve seguir exactamente em 



(27) Leon Bat. Alberti , na sua obra delia Pittnra, na pag. 22 falia 
de huma rede com que este meu meihodo tem sua tal qual semelhança: 
elle diz ser o primeiro que inventqu a tal rede , e eu julgo ser também 
o primeiro Escultor que descobri este methodo ; especialmente nas serra- 
gens do modelo pequeno , e mais circumstancias aqui descriptas , para 
construir o esqueleto , ou madeiramento interno deste modelo grande. 

(28) Michelangelu Buonarroú dizia que o Pintor , e Escultor devem 
ter o compasso nos olhos. Carducho , Dialog. de la Pint. Dial. 8. pag. 
145. E W atei et , na segunda Nota das Reflexões da sua Arte de Pintar, 
citando esta sentença de Buonarroú , acrescenta l'on pourroit ajouter qui 
Vedava doit partir de l esprit et étre derigée par le goút qui seul est en 
état de faire discerner le bon d'avec le mauvais. He também desta opi- 
nião o Vasart , dizendo : Ma non si AeVbe usare altra miglior misura , 
(he il giudicio delFocchio. Fite depíu cccelente Pittori , Scultori , etc. 

Z 2 



Cap. 

V. 



V. 



i2o DESCRirçXo Analytica 

medidas de elevação o modelo pequeno, que antes será 
P * prejudicial este escrúpulo ; e dará indícios de faltar ao 
professor alguma instrucção theorica , descuidando-se do 
modo com que fazem as suas funções os raios visivos ; 
e negligenciando ainda mesmo o artificio do claro-escuro. 
Para ter com estas circumstancias a possível atten- 
çao , me vali de outra industria para ver a obra em pon- 
to mais pequeno, resumindo-a mais debaixo da compre- 
hensão da retina (29), e pondo-a (ao parecer) mais dis- 
tante : pois achando-me em laboratório tão pequeno , exe- 
cutando huma figura muito grande , e em base summa- 
mente baixa , parecia-me suffocar- se-me a vista , sem po- 
der comprehender aquelle grande volume , e distinguir 
as suas partes; porque a sua mesma enorme extensão , fa- 
zia confundirem-se humas com outras ; olhando-se para 
elJas de tão perto. Usei pois de hum tekscopio de thea- 
tro , ou óculo de punho \ mas ás aveças : porque assim 
como estes óculos, olhando-se por clles do modo ordina- 



Cap. VIII. pag. XXXI.: e ainda para a Arquitectura, em certos casos, 
segue o mesmo j dizendo no Cap. VIL pag. XXX. Equeste cose son pík 
conosciute da nn ocebio buouo ; ilquale se ha giudicio , si pito tenere il 
vero compasso. 

(2(i) Como não sou Physico, estou desobrigado a dar a razão porque 
não via de perto a minha obra tão bem como de mais alguma distancia: 
aquelles a quem igualmente faltão os estudos de Fysica , e quizerem sa- 
ber a causa , consultem o nosso Douto P. Theodoro de Almeida na sua 
Recreação Filosófica. Tom, 4. Tarde 17. especialmente de pag. 74 para 
75 da Edic. de 178}. 



da Estatua Equestre. 129 

rio, augmentão os objectos , e parece que os trazem mais- 
perto ; assim , olhando por elles de modo que o vidro 
maior se applique aos olhos, e o menor se volte para o 
objecto, faz parecer menor (30), e em maior distancia 
o corpo para que se olha: em cuja observação, além da 
referida cautela , acha-se também a providencia que Leo- 
nardo de Finei aconselha aos Pintores , que vejao a sua 
obra em espelho ; no qual conhecerão mais facilmente os pró- 
prios erros (31) . 

Pelo que respeita ao manejo do material ? diz Mr. 
Sally , que pelo seu methodo tivera a vantagem de achar 
sempre o estuque fresco , o qual hia pondo d proporção que 
bia modelando cada parte ; e que desta sorti fizera em certo 
modo o seu Modelo grande ao primeiro rasgo como se pinta a 
fresco (31). 

Para conseguir esta vantagem , e com ella o toque 

($0) No mesmo Tom. da eirada Recreação , pag. 84 , explica o seu 
Sábio Author a figura 18 da estampa I. a desse Tomo , mostrando como 
se augmentáo os objectos, e posto que náo diga como elles se diminuão, 
cuido que na mesma figura 18 se vê como seja a diminuição: pois se alli 
vemos desenhado hum olho dá parte da lente ocular, e o objecto antepos- 
to á lente objectiva ; mudando o objecto para o lugar do olho, e este pa- 
ra a situação do objecto, parece-me achar-se a razão da diminuição pelos 
mesmos princípios que nos declaráo as causas do augmento. 

(31) Trattato delia Pittura. Cap. 274. Posto que Finei falle de es- 
pelho plano, e eu nesta pratica usasse de instrumento de huma lente con- 
vexa, e outra concava, a causal em que Finei estabelece o seu conselho, 
he a mesma. 

($2) Suite, etc. pag. 25., e 24. 



Cap. 
v. 



Cap. 
V. 



130 DescripçSo Analytica. 

•franco, e mcdulloso, julgo que o meu methodo excede 
o de Sally; por ser menos prezo, mais franco, e tão se- 
guro como tenho declarado : mas não approvo ir-se logo 
acabando parte por parte, sem primeiro assemblar (33), 
e examinar o todo. 

Na Pintura a fresco não he arriscado ir acabando ca- 
da parte por si , porque depois de feito o desenho , ou 
boceto para exemplar do painel grande, este fará o mes- 
mo effeito que o pequeno. Ao contrario na Escultura , 
onde os salientes , e cavados , assim como tem muita 
differença do modelo pequeno em o seu tamanho , pro- 
duzem também hum effeito muito diverso , que o Profes- 
sor não pode adivinhar; e por esta causa deve reservar- 
se a liberdade para crescer, ou diminuir algumas partes, 
ao tempo de executallas em grande ; chegando mesmo 
em certas occasides a preferir as regras de convenção aos 
mais inalteráveis preceitos da Arte (34). 

Pelo referido modo se fez esta obra em menos de 
cinco mezes ; porque principiando-sc a 16 de Outubro 
de 1771 , precisei dar este modelo por acabado a 10 de 



(}$) Assemblar. Termo de que até agora tem carecido as Astes do 
Desenho em Portugal. Os Italianos dizem Tuttimiemi ; e os Francezes 
Ensemble : que significa a relação , ajuntamento , e harmonia áas diver- 
sas partes em hum todo. 

($4) Bisopta , che la sodisj attione commune resti anteposta ai li ve- 
ri precetti deli' Arte. Paradossi per pratticare la Prospettiva P. I. pag. 24. 
Nas convenções porem deve haver grande prudência theorica , e discer- 
nimento juJicioso. 



da Estatua Equestre. iji 

Março de 1772. Que differença esta de cinco mezes," 
para oito annos , que Bonchardon empregou no modelo da 
Estatua de Luiz XV. em Paris! (35) 

A' vista do ponderado parece que sem vaidade pos- 
so julgar , que se para a nossa Estatua me dessem a li- 
berdade , e tempo , que em outros Paizes se costuma 
dar para taes obras, poderião achar-se nesta algumas qua- 
lidades mais attendiveisj não só na composição Poética, 
e Gráfica do Monumento, mas em todas as outras partes 
da Arte. 

Em todo o tempo que decorreo até se completar es- 
te Modelo grande , não deixei de mostrar-me desaffei- 
çoado ao Leão , que no desenho se projectara ; e para 
que se não executasse allegava as razoes , que a occasião , 
e prudência me subministravão nesses lances: até que em 
íim , ou porque as minhas razoes persuadissem , ou por- 
que parecesse não caber no tempo executar-se o referido 
Leão , elle foi proscripto do lugar que no projecto se 
lhe destinara \ de que me resultou não pequena compla- 
cência. 

Acabado como foi possivel este Modelo grande , 
ficou em poder do Engenheiro Bartholomeu da Gosta, 
para cuidar da fundição , sendo a sua primeira manobra 



(55) Ce modele , commencé datis les demiers viois de 1748 , a cté. 
termine en 1756. Descri p. des travaux .... de la Siatue Eq. de Louis 
XV. Avantpropos. pag. VI. era Nota. Só assim se podem fazei obras 
dignas da posteridade. 



Cap. 

V. 



Cap. 

V. 



132 DescripcXo Analytica 

; tirar-se a forma sobre o mesmo modelo, para desta for- 
ma se extrahirem as ceras, que depois vão a ser substi- 
tuídas pelo bronze. 

Quando Bouchardon completou o modelo da Estatua 
de Luiz XV. , e que se tratou de tirar-se-lhe a forma, 
não foi o Fundidor Mr. Gor-, que seincumbio desta ope- 
ração , elegendo-se para ella o mais hábil Moldador de 
gesso, que se achava em Paris (36): porém os raros ta- 
lentos do nosso Engenheiro escusarão este soccorro. 

Só pela sua direcção servindo-se de homens rudes, 
e que nunca em tal se empregarão , conseguio fazer-se 
esta forma não só seguríssima, porém summamente exa- 
cta : e como ha muitas pessoas que desconhecendo o me- 
chanismo da forma desejarão ter delle alguma 'noticia, 
e dos seus effeitos, julgo não ser fora de propósito dar- 
lhes huma leve noção desta manobra , pela qual conhe- 
ção como o bronze toma a figura idêntica do modelo ; 
e que a execução deste he realmente a execução da Es- 
tatua. 

Esta invenção de moldar em gesso tem sido utilís- 
sima is Artes do Desenho ; e com especialidade á Es- 
cultura. Lysistrato Sicyomo, «Escultor, e irmão do céle- 
bre Lysippo , dizem , fora o primeiro que usou destas 
formas (37). Não tratando porém do methodo que tive- 



(36) O Moldador que tirou a forma ao Modelo grande da Est. de Luiz 
XV. em Paris , foi Air. Levasscur. Descrip. citada. Cap. 3. pag. iy. 
($7) Desta opinião he Mcsscr Mareei lo Adriani , em a carta que 



da Estatua Equestre. 133 

rso nos seus princípios, e progressos , o que ordinária-' 
mente serve para fundir figuras , he ( em resumo ) deste 
modo. 

O gesso deve cozer-se de modo que fique em sazão 
própria para este fim; porque se lhe dão vários cozimen- 
tos para diversos usos. Depois de pizado, c peneirado, 
por peneira mais,, ou menos fina , segundo a precisão, 
se deita em agoa, de modo que fique á maneira de hum 
caldo grosso ; o qual em breve espaço de tempo se pe- 
trifica. Esta composição como ao tempo que se usa delia 
vai líquida , e he pezada , imprime-se com tanta exacção 
no objecto que se molda , que não deixa de exprimir a 
mais ténue miudeza ; de sorte, que moldando-se algu- 
mas partes do corpo humano, v. g. rostos, mãos, pés, 
etc. (o que se faz varias vezes para estudos) sahe com 
tal identidade com o original vivo, que até oenrredado, 
e grã que se percebe na cútis se vê perfeitamente ex- 
pressada na peça fundida em qualquer destas formas. Po* 
rém como o gesso applicando-se líquido encheria as ca- 
vidades , e circundaria diversas partes, petrificando de- 



escreveo a Vasãri , na pag. CV. O Vasari porém , attribue este invento 
ao Escultor André Verrocchio: mas os últimos Edictores de Fasari, op- 
põem-se-lhe em huma Nota, na segunda parte, pag. 462. Carducbo, no 
principio dos seus Dialog. pag. 8 , he também pelo Ferrochio. E Plínio 
no Liv. 35. Cap. 12 diz que Lysistrato aperfeiçoara ; mas que o primei- 
ro fora Dibutades, Sicyonio. Achar-se em Plinio esta noticia, he funda- 
mento bastante para refutar totalmente as opiniões do Fasari , e do Car- 
duçbo. 

Aa 



Cai*. 
v. 



Cap. 

V. 



134 Descripção Analytica 

pois , não se poderia tirar a forma. A isto acode a Arte. 
Para que assim não succeda , e para que a composição 
do gesso se não pegue ao modelo , se unta este com ou- 
tra composição oleosa ; e a forma se faz de muitas pe- 
ças ; de modo que cada huma possa tirar-se livremente, 
e pôr-se em seu lugar , quando , e como a occasião o 
pedir. Todas estas peças, com diversos signaes se mar- 
cão , para que chamando humas por outras , se casem 
todas , e se unão de modo , que facão hum só corpo. 
Acabada a forma desta maneira , se desarma , indo-se ti- 
rando as ditas peças cada huma por si , vendo-se outra 
vez o modelo como dantes, já desembocado desta gros- 
sa cappa , que o cobria : e ordinariamente fica o mesmo 
modelo, depois desta operação illeso. 

Fora do dito modelo se armão as mesmas peças, 
que todas juntas fazem hum corpo oco , em cujo vácuo 
se acha hum reverso , que em cavidade contém em si 
perfeitamente quanto em vulto contém o modelo sobre 
que se fez a forma. 

Para reduzirmos pois a metal aquelle modelo mes- 
mo, nesse vácuo da forma se funde cera (38), também 
composta de alguns mistos , e a cuja cera se dá a gros- 

(58) Quando estas formas sáo de figuras pequenas , até v. g. 1 pal- 
mos , funde-se a cera estando a forma armada toda : nas figuras maiores , 
como o pezo da forma impede que esta se menêe ao esgotar-lhe a cera^ 
para ficar só na grossura de que se quer o metal , já se lhe applica a ce- 
ra em peças separadas , que se possáo menear para o dito fim ; para o 
que, quando se faz a forma já he com essa precaução. 



da Estátua Equestre. i 35 



sura que ha deter o metal. Desta operação resulta achar- ' ' * 
mos em cera oca outro modelo tal , e qual como aquelle 
em que se fez a forma ; só com a differença de não sa- 
hir tão polida a cera , como se acha o original , e ter 
humas como costuras , ou rebarbas em diversas partes, 
que procedem de se imprimir a cera pelas juntas dos ta- 
cellos da mencionada forma , ou da união das diversas 
peças , quando a forma he de Estatua colossal : porém 
não obstante , contendo em si com exacção todas as par- 
tes, e miudezas do modelo. 

A fundição da cera , para figuras grandes , não se 
faz estando a forma de gesso armada , mas sim sobre 
cada peça da mesma forma separadamente , e também 
desta sorte se dá hum reparo geral a cada huma das di- 
tas peças de cera ; depois do qual reparo se tornão a re- 
por nas peças da forma de gesso de que forão extrahi- 
das. 

Depois de estarem as peças da forma com a cera, / 
que lhes compete, já retocada, se vai novamente arman^ 
do a mesma forma em fiadas como de cantaria (que esta 
he a sua construcçao) para se ir criando pouco a pouco 
o seu caroço , enchendo com elle , e massiçando o oco 
da cera. 

Este enchimento interior a que chamão caroço , ou 
macho , he construído , e apoiado em huma armação de 
ferro muito complicada, e da qual depois ficão algumas 
partes dentro do bronze para lhe servirem também de 
sustentáculos. 

Aa 2 



V. 



136 DescripçXo Analytica 

T, Acabado que seja de fazer-se o dito enchimento, 

Cap. . , 1 ta , 

ou caroço , se vai desarmando a forma de gesso , e á pro- 
porção que se lhe vão tirando as peças , vai apparecen- 
do o mesmo modelo que era de estuque , já reduzido a 
cera , a qual fica incrustada no caroço , onde se lhe fa- 
zem os últimos reparos , pondo-se na perfeição que se 
pode conseguir, e se deseja no bronze, que delia ha de 
ir tomar o lugar a seu tempo. 

Desembaraçada afigura de cera destes retoques, em 
que o Escultor acaba de aperfeiqoalla , se põe na mesma 
figura muitas hastes da mesma cera ; que fazem parecer 
a Imagem collocada no centro de huma arvore cheia de 
ramos seccos , sem folhas; cujas hastes tem diversos no- 
mes, e officios, de que logo farei menção. 

Chegando a obra a estes termos, se lhe faz em ci- 
ma segunda forma de barro ; a qual depois de feita co- 
mo ensina a arte, se coze a fogo; e neste cozimento se 
derrete a cera toda , e vai sahindo pelos lugares , que 
para este fim se lhes deixão , os quaes são partes das 
hastes, que acima disse, e que por este ofncio lhe cha- 
máo esgotos. Desta maneira fica vácuo todo o espaço que 
a cera oceupava ; e assim se conhece, que o mesmo que 
na cera erão hastes , rgora nesta forma são-duetos , ou 
canaes. Dos esgotos , ji disse o seu officio; outra perçáo 
de canaes produzidos das ditas hastes , servem para in- 
troduzisse o metal na forma; e sechamao gitos'. e o res- 
to destina-se para a sahida do ar, quando o metal entra 
na forma ; e por esta causa lhe chamao evaporadores. 



da Estatua Equestre. 137 

Findado o cozimento da forma se lhe tapão as bo- 
cas, ou sahidas dos esgotos , e tomadas outras cautelas, 
se derrete o metal , e se introduz na forma. 

O modo com que estas operações vão suecedendo 
humas a outras , mostra claramente que a configuração 
que depois apparece no metal , he realmente a mesma 
que se extrahio do modelo (30) : e por isso os inteli- 
gentes chamão ao modelo a execução da obra ; porque se 
elle he bom, a obra sahirá boa ; e se tem defeitos, não 
lhos pode evitar a forma : antes he mais fácil peiorar, 
que melhorar nelía (40) : e melhorar o modelo com a fa- 



(}p) O P. Lami , nos seus Entretiens sur [es Sciences, no Discurso 
sobre a Filosofia, pag. 266, para declarar huma passagem de Aristóteles , 
usa de huma comparação, que para apoiar o que aqui digo tem bassanie 
energia. Diz pois este Sábio . . . par exemple , que par la matière on 
entend âans un compesé ce qui est indetermine , et que la forme est ce 
qui le fait un tel être et donne $a perfection ; comme dam la Statue du 
Roi la matiére c'est le bronze , ou le marbre qui sctit indetermines , car 
h marbre et le bronze ne representent rien. Cest dene la forme que l'Ott- 
vrier donne à cette matiére qui fait qtielle est la Statue da Roi. E es- 
ta forma, com evidencia fica demonstrado, extrair-se realmente do mo- 
delo ; e por consequência pertencer totalmente á Escultura. 

(40) Na fundição da Estatua F.q. de Luiz XV. em Paris , succeJeo 
padecer imperfeição a forma , e alterarem-se 1 as ceras no tempo de fnzer- 
se o caroço, ou macho da forma: porém Un coup d'oil donné avec inte- 
ligcnce par le Sculpteur lui fit reconvoitre les jantes ; il marqua lui mê. 
me les pieces qui avoient suffert de iaiteration , et Itur reiablissement se 
fit sous sa direction , et. Description .... de !a Statue Eq. de Louis XV. 
Chap. 6. pag. 69. Este golpe de vista com que Boucbardon conheceo o 
defeito das ceras , prova o que deixo ponderado 5 em ter toda a precisa 



Cap. 
V. 



Cap. 

V. 



I38 D ESCR IPqÃO A N AL YTICA 

"ctura da forma , hc impossivel ; fazendo-se esta mano- 
bra, como fica dito, que he o único, ou mais perfeito 
modo com que pode executar-se (41). 

Tornando pois ao reparo, retoque, e perfeição da 
cera , como esta operação pertence totalmente á Escultu- 
ra , tomei novamente posse do modelo já reduzido a ce- 
ra , e entrei de novo a dirigir os meus subalternos com 
o mesmo desvelo, e efficacia, para que estes reparos se 
fizessem com a perfeição possível , e brevidade recom- 
mendada. 

A n de Outubro de 1773 se principiou a trabalhar 
nesta operação de retocar as peças de cera separadas , e 
se completarão a 18 de Dezembro, do mesmo anno : e 
sendo certo que a perfeição do modelo , he a perfeição 
do bronze em geral : com tudo, no retoque das ceras 
podem melhorar-se varias particularidades (42) , e dar- 



efficacia a vista inteiligente , para regeitar-se a nimia miudeza cm me- 
didas. 

(41) Como o meu assumpto náo he a fundição da Estatua, fiz esta 
narração muita suecinta , sem as suas particularidades : os curiosos que 
desejarem ver individualmente estas operações todas , podem recorrer á 
Description des travaux qui ont precede , accompagné et suivi la Fonte 
en bronze d"un seul jet de la Statua Equest. de Louis XV. a qual trata 
esta mataria com a maior individuação , e clareza ; mostrando as opera- 
ções em muitas, e bellss estampas: oh também nu Description de ce qui 
a été pratique pour fondre en bronze à'un seul jet la Figure Equestre 
de Louis XIV. Esta obra que cito aqui em segundo lugar, e que foi a 
primeira deste género , também se acha trasladada na Encyclopedia. 

(42) Quoiquil scmble que la perfeçtion d'un ouvrage depende dumo- 



da Estatua Equestre. 139 

lhes mais graça , sem que isto seja alheio do modelo;' 
porque também a cera he modelo. 

Mr. Giraram, e Mr. Sally , mudarão, para melho- 
rar , varias partes nas ceras das suas Estatuas : na cera 
da minha alguma cousa mudei ; porém de tão pouca en- 
tidade, que não se deve narrar: e pelo que acima digo 
se vê , que estes reparos das ceras se fizcrão em dous 
mezes , com trabalho de seis pessoas effectivas , e três 
mais nas ultimas duas semanas; havendo entre estes ope- 
rários muita desigualdade de préstimos, e agilidade. 

Sally, como se vio totalmente arbitro da sua liber- 
dade, e tempo, muito judiciosamente não quiz ajudar- 
se de mão alheia (43) , porém Bouchardon servio-se de 
dous ajudantes nestes reparos (44) , em que Girarãon li- 



dele . . . on peut cepcndant en reparam les cires , y donner de nouvel- 

les graces , et le perjectioner davantage. Bofírand. Descripr dela 

Fig. Eq. de Louis XIV. Chap. VII. pag. 32. 

(4?) J*ai égakmem réparé moi seul la S tatue entiére en tire e l 
j'y ai encore fait des recberches avantageuses : j'ai travaillé a cette 
importante opération depuis le 2 Decembre iy66 , jusqu'au 25 Avril 
1767. Sally. Suire, etc. pag. 26 em a Nota g. 

(44) Lasshtance de deux seuls compagnons Sculpteurs et le court 
espace de six semaines suffirem pour Ventier accomplissement d'une opé- 
ration qui, s'il enfaut croire Mr. Boffrand , fut aussi longue que pé. 
rilleuse par les variations et les incertitudes que mit dans son travail 
le Sculpteur célebre auquel nous devons la Staue de Louis XIV. Des- 
crip. de la Seat. de Louis XV. Chap. 6 de pag. 69 para 70. O Escul- 
tor a quem os Francezes diziáo dever a Estatua de Luiz XIV. , foi 
Mr. Girardon , e o Fundidor, foi Mr. Keller. 



Cap. 

V. 



V. 



140 DescripçXo Analyticà 

dou tanto, pelos obstáculos, que lhe acontecerão, e al- 
" terações a que foi induzido pelo desejo do bom acerto. 
Em fim, na Estatua de que trato depois de incrus- 
tada a cera (já retocada) no caroço , ou macho da forma, 
se lhe acabarão os últimos reparos ; e nesta situação he 
que lhe fiz as pequenas variações de que faço menção 
acima; em cujo trabalho se empregarão tão poucos dias, 
que pelo seu diminuto número me descuidei de fazer se- 
paração delles nas minhas memorias. E como já neste 
tempo com toda a pressa se trabalhava de dia , e de 
noute nas pedras dos Gruppos Lateraes, no Capitulo se- 
guinte descreverei o modo com que dispuz esta mano- 
bra, para total complemento da empreza toda. 



Est. XE. 




Tia. JL. 
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Est. XIII 




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£ieeédeea <j(/<//>j. 



da Estatua Equestre 141 

Explicação da Estampa XII. 



A figura I. fica declarada no Capitulo III. ^ 

Na fig. II. a grade abe d, he agrade rectângula de y# 
que se falia neste Cap. V. Se algum escrupuloso de Geo- 
metria reparar em chamar-lhe rectângula , mão se vendo 
ella no desenho equilátera, nem equiaogula ; respondo, 
que as que servirão erao effectivamente de ângulos re- 
ctos , e os lados oppostos, parallelos huns aos outros: 
porém no desenho mostro-a em perspectiva , e não geo- 
metricamente. As linhas concorrentes, que na Perspecti- 
va se imaginão rigorosamente parallelas , na Geometria 
deixão tanto de o ser , que chamar-lhes parallelas seria 
ignorar desta Sciencia até as definições das linhas. E se 
alguém julgar esta satisfação supérflua , ella he da mes- 
ma natureza da que dá Mr. de la Chapelle , Instituí tons 
de Géomét. Tom, 1. pag. 374. Nota (a) Paris, i757« 

Neste Cap. V. digo ter graduado a dita grade , e 
plintho do modelo de palmo em palmo ; e aqui numera- 
se a graduação de dous em dous , attcndendo a não fa- 
zer confusão , pela pequenhez do desenho. 

As linhas perpendiculares ef y gh , etc. são os cor- 
déis moveis de que se trata neste mesmo Cap. Os tra- 
ços perpendiculares , e horizontaes lançados na Figura 
humana, e no Cavallo, mostrão os lugares onde se tra- 
çarão no modelo de barro, e por onde se cortarão os di- 
versos exemplares de gesso. 

Bb 



Cap. 

V. 



142 DescripçXo Analytica 

• Na fig. III. mostrão-se os traços horizontaes , que 

são os mesmos indicados na fig. II. : e dos perpendicu- 
lares , o traço a a ; que he por onde se coitou o gesso 
ao comprimento do Cavallo. 

A íig. IV. he hum angulo da grade , vista por ci- 
ma , para mostrar os varões de ferro , delgados, nos 
quaes andavão os anneis moveis , em que se prendi ao os 
cordéis que servião de prumos. 

Explicação das Estampas XIII. , XIV., XV. , e XVI. 

Nestas quatro Estampas seguintes se mostra o mo* 
do com que se construio o madeiramento para o Mode- 
lo grande, que se fez em estuque. Nos lugares em que 
as cercias se haviao de mostrar pelo seu comprimento, 
omittio-se essa delineação, para não ficarem as Estampas 
confusas: porém pelos seus topos (as ditas cercias, e os 
lugares em que se coiíocarao) se conhecem claramente 
nas quatro figuras da Est. XIV., e na I. , II. , III. , e 
IV. fig. da Est. XV. 

Na Est. XIII., a fig. I. mostra o contorno, que se 
tirou do corte principal, dado peio comprimento do Ca- 
vallo , nos gessos extrahidos da forma, feita sobre o mo- 
delo de barro exemplar ; c cujo corte se indica na fig. 
III. da Est. XII., notado nas estremidades do traço com 
aa\ e esta mesma letra <?, se acha no espaço que se dei- 
xou para o estuque; indicado nas fig. I., e III. da Est. 
XIII.: c também esta fig. I. mostra o plano, que o dita 



da Estatua Equestre. 143 

corte deixou no modelo de gesso, que se cortou para se 

tirar por elle este contorno , cemo fica declarado neste 

r ' v. 

Capitulo. Nesta mesma figura se mostrao quatro cortes 

horizontaes notados, o primeiro com estrcllinhas , e os 
mais com letras : os planos dos três cortes dados no bus- 
to do Cavalleiro, achão-se na Est. XV. íig. II., III., e 
IV., notados na fig. III., com estrellinhas; na II., com 
QR ; e na IV. , com ST: e o plano do quarto corte 
(dado horizontalmente no corpo do Cavallo) acha-se na 
Est. XVI. , fig. I., notado com OP. 

Os cinco cortes perpendiculares de hum para outro 
lado , notados na Est. XIII., com CD, EF, etc. to- 
dos fazem perfeita esquadria com o corte perpendicular 
dado pelo comprimento do Cavallo; notado com aa^ na 
fig. III. da Est. XII. : cujas esquadrias se mostrao na Est. 
XV., fig. II., III. , e IV., em aa, GE 

Reparando-se pois com qualquer curiosa attençao no 
modo com que as letras alfabéticas vão dispostas nos cor- 
tes, e pianos das diversas figuras, se conhece que ellas 
se aceusao humas a outras , de maneira que fica muito 
fácil o perceberem-se. V. g. na Est. XIII. fig. I. , a li- 
nha ÀB, mostra o corte dado no modelo, naquelle si- 
tio ; e o plano produzido pelo mesmo corte , vê-se na 
fig. IV. da mesma Est. notado com as mesmas letras AB. 
E' assim nas mais figuras. 

A fig. V. da Est. XIII. , mostra o entrelaçado de 
vigoras , e taboas com que se formou a caveira do Ca- 
vallo : a qual se mostra mais individualmente nas fig. II. , 

Bb 2 



144 DescripçXo Analytica 

Cap. e IV. da Est. XVI. Nestas duas fig. a letra a indica hu- 
v. ma taboa, que determina a largura, e comprimento da 
dita caveira: £, indica outra taboa, que fica sobre a re- 
ferida; assentada de cutello pelo comprimento, forman- 
do o perfil do nariz: c, indica duas taboas que determi- 
nao as queixadas. 

Os signaes NI, na fig. I. da Est. XIII. , e na fig. I. 
da Est. XVI., indicão o lugar onde se eleva o madeira- 
mento do busto do Cavalleiro, delineado na fig. III. da 
Est. XIV. 

Os ferros principaes das pernas , e braços do Ca- 
vallo, não parão nas primeiras vigotas inferiores \ che- 
gão ás segundas superiores, aos lugares notados com os 
números -1-3-4-5': os quaes se achão nas primeiras fi- 
guras das Est. XIII. , e XVI. 

Conheço serem estas explicações não só prolixas, 
mas totalmente supérfluas para as pessoas que tem conhe- 
cimento de espaccatos, e plantas de Arquitectura ; po- 
rém a muitas mais , que não tem essa prática , não lhe 
será desagradável facilitar-se-lhes a percepção das Es^ 
tampas, se a isso os inclinar a curiosidade. 



da Estatua Equestrk. 145- 



^rj—yeissKr-rrT* i ■■■ ■ 



CAPITULO VI. 

Que trata do methodo com que se executarão em marmcre 
os Gruppos luteraes , e Baixo-r elevo. 



p 



Ara serem inteiros cada hum destes Gruppos , se« 
rião precisas duas pedras de 17 palmos de comprido, 18 
de alto, e 10 de grosso cada huma. 

Qualquer pessoa conhece a grande diffículdade que 
ha em achar , arrancar , e transportar massas tão enor- 
mes : e pelo que respeita ao trabalho da execução, não 
se concluiria cada Gruppo em quasi dobrado tempo do 
que se empregou na obra toda. Obstáculo diametralmer> 
te opposto aos desejos , que havia de que se completas* 
sem em vinte e quatro horas se possível fosse. 

Attendendo a todas estas circumstancias , determi- 
nei fazer os Gruppos de varias peças, para deminuir, e 
adiantar o trabalho material (1), ainda que deste modo 



(1) Ate nas mesmas obras literárias, náo faha quem aconselhe seguir» 
se este partido. O P. Lami , tratando do methodo, diz: Mais (ommc on 
le lasse et qu'on se dégoâte , quand le travail est long et pénible , li 
est ã propôs de le partager ; et ('est un des granas secrets de la Mé~ 
thode. Dam V Arhbmetiqne lors qu'on a plusieurs sommts à ajouter ou 
a multiplier , on le jait par parties. Emret. Sur les Scien, Idéc dá li 
Log. pag. 87. 



Cap. 
vi. 



Cap. 

VI. 



146 DescripçXo Analítica. 

1 se me augmentava o desvéllo , dividindo os cuidados na 
manufactura , por causa dos cortes , e asscmblages das 
diversas peças: para que ao tempo de unir humas a ou- 
tras não affrouxasse a expressão das actitudes ; ficassem 
as juncturas imperceptíveis, e as peças com a devida se- 
gurança. 

Não faltará quem se persuada, que terião os Grup- 
pos muito maior valor , sendo cada hum de hum a só pe- 
dra: eu também o não duvido; porém esta circumstan- 
cia , multiplicando-lhe a despeza , não lhe augmentava 
a perfeição , que o Artista lhe soubesse dar , nem o va- 
lor do Scientifico da Arte , a que mais ottendem os in- 
telligentes. Muitos exemplos ha destas divisões; porém 
o que mais qualifica este sptema he o Gruppo do Lao- 
coonte existente em Koma (^) ; que sendo muito menor 
que estes em medida, c muito menos complicado, não 
contém menos de cinco pedaços (2) ; sem que essas di- 
visões lhe deminuão o inestimável preço ern que he por 
todos os Sábios reputado. 

Com a determinação referida , preparei os meus 
modelos, ja' reduzidos a gesso, com os. cortes das suas 
divisões, ordenando estas, e dirigindo as uniões todas 
com as precisas caixas , c mechas de segurança , do mo- 
do que no mármore devião ficar com a possível peifei- 



(a) Veja-se no Cap. II. desta Obra , a Nota (*) entre a Nota 24» 
(2) Mengs. Tom. 2. da Edicção Italiana, pag. 9, e 2?. 



da Estatua Equestee. 147 

çáo ; a fim de que os mármores sahissem com igual cer- 
teza : dando-se logo as medidas para as pedreiras , e fa- 
zendo-se arrancar, e conduzir todas as pedras de que se 
compõem os Gruppos (3) ; cada hum dos quaes , con- 
tém dez pedaços de mármore Leoz de Perpiuheiro (4) , e 
de tamanhos diversos. 

Na Fraca do Ccmmercio , e próximo ao pedestal 
da Estatui, se construio outro laboratório interino, pa- 
ra nelle se trabalharem as pedras mencionadas : algumas 

(3) Quando esta obra se determinou, havia já 20 annos, pouco mais 
ou menos que em Mafra estabelecera o Senhor Rei D. José I. huma Au- 
la de Escultura debaixo das insuucçóes do hábil Escultor Romano Ale- 
xandre Giusti, da Escola do ramoso Rusconi : e com quem eu havia pra- 
ticado tanto em modelar como em cortar o mármore mais de 14 annos. 
Náo obstante estas circumstancias , houve quem julgasse deverem-se en« 
commendar estas figuras em Cãrrara : porém o Arquitecto Rainaldo Ma- 
noel dos Santos se oppôz com tanto esfjrço, e felicidade a este projecto, 
que conseguio executarem-se po: mãos Portuguezas. 

(4) Duarte Nunes de Leáo , na sua Dcscripcão do Reino de Portu- 
gal. Cap. 2$ náo faz menção deste marmere , sendo elle muito melhor 
(pela sua consistência) que s pedra d'Ansá, junto a Coimbra, e de que 
o dito Escritor dá conta no referido Cap. a pag. 105. Eoicç. de Lisb. de- 
1785. A qualidade deste mármore de que são teitos os Gruppos , he ca- 
paz de receber bastante lustro, querendo-se-lhe dar. Porém como ao lus- 
trar-se escurece muito mais, e descobre mais visivelmente os fios, e man- 
chas que tem , náo se costuma lustrar para lhe não diminuir a alvura que 
o faz mais bello. A pressa com que esta obra se executou , e o grosseiro- 
génio do sujeito a quem se incumbio o arranco das pedras , foi causa de 
se náo escolherem ; e por isso as pedras das duas figuras atropelladas , são 
cheias de manchas ; quando as das duas figuras aliadas , a do Elefante , a, 
do Cavallo, e outros pedaços, sáo admiráveis no seu género. 



Cap. 
v/. 



148 Descri?çáo Análtitca 

•das quaes (não obstante a divisão referida) são de bas- 
tante grandeza ; por terem as figuras humanas quatorze 
palmos de altura , excepto os seus terrassos : e como es- 
tes se devião incluir nas pedras a que pertencessem , e 
as duas figuras aliadas são em pé, se precisarão para es- 
tas , duas pedras de quinze palmos de aho cada huma , 
cuja medida contém , da cabeça para baixo : sendo as 
azas , que se elevão , feitas de pedaços diversos. 

Montadas todas as pedras nos seus respectivos es- 
taleiros (5-) se entrarão a trabalhar a 19 de Junho de 
1771 ; fazendo-se o seu desbaste segundo a indicação 
dos competentes modelos, e transportando destes as me- 
didas ao mármore, pelo methodo, que hoje usão os Ita- 
lianos (*) . 

Já Leonardo de Vinci (6) deo methodo para trans- 



(5) Estaleiros. Sáo huns engrâdamentos feitos de pedaços de vigas, 
fixos na terra com estacas, para senão moverem do lugar onde cada hum 
•e firma, como se vè na Est. XVII. no fim deste Capitulo : e colloca- 
das as pedras sobre esta espécie de pedestaes , se atacáo a estes mesmos 
engrâdamentos com chapuzes, que bem unidos ás pedras, se prégáo bem 
seguros em torno delias , para que ao tempo de se desbastarem náo se 
affastem do seu assento, nem a grossura de meia linha depollegada: cir- 
cumstancia que a sueceder , causaria desordem notável ao tomar das me- 
didas. Estes estaleiros , devem estar bem nivelados ; e as pedras , que de- 
pois háo de assentar nelles, devem ter feitos (com toda a igualdade) os 
leitos , que assentáo nos mencionados estaleiros. 

(*) Veja-se a Nota 18 do Cap. V. desta obra. 

(6) Finei. Tmttaâo delia Pittura. Cap. 551, que intitula: Delia 
Statua. Paris. 170 1, e Nápoles. 1755. 



da Estatua Equestre* i 49 

portar do modelo ao mármore : porém he muito des- ' = 
accommodado , e falto de individuação. Leão Baptista Ap * 
Alberti (7) atingio muito melhor o ponto do que o Vin- 
à, e domethodo presente, seja quem for o seu Author, 
na especulação de Alberti se encontra a sua origem. 

Na Encyclopedia também ha hum Artigo deste as- 
sumpto (8) ; e sendo tão circumstanciado, que no To- 
mo VIII. das estampas, seachão desenhados muitos ins- 
trumentos , e ferramentas , que pertencem a estas opera- 
ções , não declara com individuação , de que modo se 
tomem as medidas, e se transportem do modelo ao már- 
more. Pode ser que o Auchor do Artigo, ou osEdicto- 
res daquella grande obra julgassem supérflua esta (na 
verdade) impertinente narração, por verem que em Fran- 
ça não haverá talvez huma pessoa civil , que desconheça 
os Laboratórios das Artes do Desenho : porém , os Li- 
vros são feitos para todos , e para todos os Paizes do Mundo : 
que he familiar is simo em hum lugar , he raríssimo em ou- 
tros \ ou mesmo absolutamente incógnito : por tanto , he preci- 
so explicar tudo (o) . 

Para transportar pois hum modelo ao mármore , ou 
para desta matéria fazer alguma estatua , baixo-relevo, 
ou qualquer outra peça , seguindo exactamente o mode- 

(7) V. * obra de Finei , em cuja edicçáo acima citada , vem a de 
Alberti. 

(8) Tom. XIV. mor. Sculpture en marbre, pag. 841. 

(9) Sáo palavras de Mr. de la Chapelle. Institutions de Géométsie, 
pag. 3<>$. Nota (b). Paris. 1757. 

Cc 



15*0 DescsipcXo Analytica 



==== lo , que delia se tem feito , e usando nestas operações 
* do methodo estabelecido, todos os práticos sabem, que 
no modelo se vão marcando os lugares onde se tomão 
as medidas : e para transportar ao mármore esta marca r 
ou ponto com precisão, no lugar que no modelo fica in- 
dicado , se tomão três differentes medidas para cada hu- 
ma destas marcas ; cujas medidas pode cada hum no- 
mear como quizer ; com tanto que do principio até o 
fim da obra siga sempre a mesma nomenclatura ; e que 
no tomar das medidas se guarde sempre a mesma ordem; 
para evitar confusão, e algum descuido notável, a que 
facilmente conduzem as variedades. 

Ordinariamente chamão a estas medidas (para dis- 
tinguidas dos diversos lugares da origem década huma) 
altura , distancia , e profundidade : cujos nomes de situa- 
ções cada hum julga a seu arbítrio. Daqui nasce , que 
muitas vezes ao que António tem por distancia , chame 
Pedro profundidade : o que pode facilmente causar equivo- 
caçoes perigosas , todas as vezes que na obra for preci- 
so empregar mais hum ^operário. 

Pelo que, desejando euacaute^r taes equivocações , 
eu proponho estabelecer huma diversa nomenclatura , 'e 
vem a ser: Vertical, Horizontal, e Central. 

He bem verdade ser esta huma questão de nome , 
e por isso mesmo talvez que pareça a muitos de peque- 
na , ou nenhuma entidade , especialmente quando hum 
só operário se emprega ; pois que toda a essência do 
caso consiste na exacção das medidas : porém quando na 



da Estatua Equestre. 15T 

mesma peça trabalha mais que hum sujeito, he ponto de 
não pequena consequência. 

Ora , medida Vertical , he a que se toma de cima 
para baixo, ou de baixo para cima. Medida Horizontal, 
he a que se toma de hum para outro lado. E medida 
Central , deve-se chamar sempre (ou quasi sempre) a 
que se toma do cordel para o mármore (10) ; especial- 
mente do cordel da frente : porque o lado, também al- 
gumas vezes dirige a medida Horizontal ; como adiante 
se verá quando mostrar as operações, citando a estampa 
competente. 

As duas medidas , que ordinariamente fazem inter- 
secção, ou encruzão quando se encontrão , são aquellas 
a que chamo vertical , ^horizontal. Pode succeder ficarem 
algumas vezes assim - /\, ou assim - V > com semelhan- 
ça á direcção das hastes das duas letras iniciaes Roma- 
nas, A, e V, consoante; e nestes casos, tomando-se o 
facto cm rigor Mathcmatico , não lhe convém os ditos 
nomes : porém , posto que estas operações participem 
das Mathematicas , não temos obrigação de as tratar com 
tanto rigcr; antes o demasiado escrúpulo, em certos ca- 
sos , vem a ser damnoso. E na occorrencia de casos co- 



(ig) Declarar a posição vertical , c horizontal, seria irrisório, se es- 
crevesse unicamente para pessoas instruídas; porém como esta obra tam- 
bém se dirige a principiantes da minha profissão, não he desacerto fallar- 
lhes com clareza : fique para os instruídos o conhecimento da causa por- 
que assim se denomináo. E Air. delia Chapelle , acima citado náo receou 
explicar que cousa seja Hvrizottte, na pag. 386. Nota («). 

Cc 2 



Cap. 

M. 



VI. 



1^2 DescripçXo Analítica 

==== mo o referido exemplo , chamo vertical á que fica do la- 
^ p * do direito da figura, ou á mão esquerda do que a traba^ 
lha ; e a outra seja a sua horizontal. 

Com as três mencionadas medidas , ou espaços de 
gráos , se busca no mármore a infallivel situação de ca- 
da baliza , que se quer notar : cuja situação vem a ser o 
vértice de huma triangular pyramide scalcna , imaginaria 
(chamo-lhe imaginaria., porque se não descreve com tra- 
ços visíveis). Este vértice, ou ápice, que he o ponto 
fixo que se deseja achar , procura-se deste modo : 

Na fig. primeira da Estampa XVII. (*) se vê o es- 
quadro ABC (que também pode ser grade rectângula, 
como a da fig. II. da estampa XII.). Este esquadro de- 
ve ser collocado de nivel , e graduado ; assim como a 
dita grade rectângula , de que se trata no Cap. prece- 
dente, quando se descreve a maneira de que se usou pa«- 
ra se transportar em grande o segundo modelo da Esta- 
tua Equestre; e os cordéis aqui notados na fig. I. da Es- 
tampa XVII. com D , e E , tem em parte o mesmo uso 
dos que fícao declarados no referido lugar, os quaes tem 
suas chumbadas, para servirem, sempre a prumo. Nesta 
fig. I. da Estampa XVII. de que estou tratando, a letra 
D, mostra o cordel da frente; e a letra E , o do lado: 
e FG, indicão o pedaço de mármore de que sequer fa- 
zer a peça de Escultura. 

Depois que este pedaço de mármore se assenta no 



(*) A Est. 17. vai no fim desre Capitulo. 



da Estatua Equestre. 1^3 

seu estaleiro, he que se lhe colloca por cima no devido' 
lugar, o esquadro graduado; e depois se fixa o modelo 
no seu determinado sitio, combinando-se-lhe a sua posi- 
ção eom aquella em que se acha o mármore; e calculan- 
do todas as partes sallientes do modelo , com as superfi- 
ces da pedra; para que ao tempo que esta se vai desbas- 
tando, não succeda faltar-lhe alguma porção em que &e 
haja de executar algum dos sallientes, que se contém no 
modelo. 

A primeira baliza que se nota neste modelo, e dei- 
le se traslada á pedra , he arbitraria ; subordinando-lhe 
aos dois cordéis as medidas horizontal , e central : e co- 
mo este seja o ponto, ou baliza que primeiro seassigna, 
ainda falta origem para se tirar com exacçao a vertical , 
que lhe compete ; ao que suppre huma tentativa pruden- 
te ; apoiada com tudo , na indagação do compasso. 

Seja pois a primeira baliza neste caso (Estampa 
XVII.fig.L) v. g. em /; ; que já supponho certa pela refe- 
rida tentativa, corroborada pela central tomada do cordel 
D; e pela horizontal dirigida do cordel E (1 1) . E para 
se assignar no mármore , he com a prática mesma que 
tou a declarar nas que se lhe seguem. 

(11) O cordel D , ao determinar a central que pertence ao ponto h } 
deveria achar-se coiiocado em o número 4 do esquadro ABC: e o cor- 
del E, para reger a horizontal do mesmo ponto, deveria achar-se noprin* 
cipio da gradiiâçáo do lado, próximo ao angulo B. Porém desenhado des- 
te modo embaraçava a declaração de outras balizas ; e nunca no desenho 
podia servir com exacçáo para declarar mais que huma baliza. 



Cap. 
vi. 



Cap. 

VI. 



154 DEScRipqXo Analítica 

Voltando agora ao modelo , supponhamos que tio 
lugar *', se quer collocar ouiro ponto, ou baliza ; põe- 
se alli no dito modelo hum ponto com tinta- para delle 
se tomarem as três medidas vertical , horizontal , e central:, 
das quaes , todas as quantidades averiguadas que sejão 
no modelo , se notão em hum papel , para não esquece- 
rem : e assim se faz sempre que se quer notar baliza no- 
va. Fixando pois hurna das pontas do compasso em h y 
abre-se o mesmo compasso até que a outra ponta chegue 
ao ponto /'; c observando no pctipé pertencente áo mo- 
delo a quantidade comprehcndida nesta abertura , se to- 
ma outro igual número de partes ha escala grande , e 
chegando ao mármore, se fixa humà das pontas docoirr- 
passo grande no ponto h , e com a outra se descreve a 
porção de círculo #, a\ cuja medida b 1 i; he a vertical 
do ponto i : e para lhe achar à horizontal que lhe com- 
pete , se busca do cordel E para o dito ponto i\ obser- 
vando no modelo, e tomando no compasso a quantidade 
de partes, que á dita horizontal pertencem, se conduz o 
cordel E ao gráo competente , de modo que fique , o 
mais que for possível, fronteiro em linha recra ao pon- 
to i\ c estando o cordel quieto, se fixa huma ponta do 
compasso em qualquer parte da linha a a ; circulando a 
perna movei do compasso para o cordel È, (o qual fiei 
sendo tangente do arco r, r): estando pois o cordel cm 
socego , c circulando a ponta do compasso de modo que 
toque o cordel no ponto n ; com a outra ponta, que f> 
cou fixa no mármore , se faz nesse lugar a risquinhà 



da Estatua Equestre. i$$ 

e, e y (12) ; a qual causa huma intersecção com a linha" 
a, *<; no ponto i Falta a medida central, que he a que 
decide a certeza deste ponto. 

Para se achar, ou tomar esta medida, conduz-se o 
cordel D , no esquadro , ao número 4 , que fica perpen- 
dicular, e fronteiro ao ponto £ç e tomando no compas- 
so a quantidade pertencente á dita central, se fixa huma 
das pontas em i, e com a movei se observa quanto esta 
$e affasta do referido cordel D. 

Supponhamos que adita ponta movei descreve o ar- 
co j, s: isto prova não estar ainda o ponto i no seu de- 
vido lugar. Para se acertar, se vai pouco , a pouco ti- 
rando mais pedra no mesmo lugar /, e se vão repetindo 
todas as operações até aqui declaradas : dando-se por con- 
cluídas quando nesta medida central a ponta movei do 
compasso toca o cordel D no ponto m\ ficando este cor- 
del servindo de tangente ao arco í, t (13): completan- 



(12) Para se perceberem no mármore 05 traços que encruzão, se lhe 
faz naquelle sitio huma pequena praça de meio, até hum decimo de diâ- 
metro. Esta praça mancha-se com Ia pis preto, que se esfuma com o de- 
do ; e como fica denegrido o dito lugar , com facilidade a ponta do com- 
passo descreve os traços que se intentáo : os quaes flcáo apparecendo na 
cor branca da pedra. Esfumar , he empastar huma côr de sorte que na 
praça náo fiquem apparecendo salpicos de outra. 

(13) Esta medida a que chamo central, he a que em toJas as opera- 
ções aqui mencionadas , tem a direcção precisamente horizontal ; de cuja 
verdade se vè a prova nas proposições 11 , e 12 da Pratique de la Geo- 
vietrie de le Clerc. no Liv. 1. : e ainda com mais evidencia nas Prop. 
18,. 19, e \z do P, Tosca , no Comp. Math. Tom. 1. Liv. 3. daGeom. 



Cap. 
vi. 



VI. 



1 5 6 DESCBirqXo Analítica 

do-se a dita imaginaria , e triangular pyramide scalena; 
^ p * cujo vértice he o ponto i\ e a sua base , os três pontos 
h, m, n. Achando-se assim este ponto, certo no seu de- 
vido lugar , se lhe faz no ápice da intersecção, e com 
broca subtil, hum pequeno furo pouco entrante, e nelle 
se introduz lápis preto ; não só para ficar servindo á mul- 
tiplicação das balizas, mas para guiar o desbaste, ven- 
do-se no modelo outra semelhante nota no mesmo lugar. 
Passando pois a notar outra baliza , supponhamos 
que seja o ponto/» ; marca-se este ponto no modelo, e 
se mede o espaço que ha de h , até p : observa-se a suã 
quantidade no petipé do modelo, e tomando outro igual 
número na escala grande , se fixa huma das pontas do 
compaço em /&, e com a outra se descreve a porção de 
círculo b , b-, e aqui temos em h,p', a vertical do ponto 



Elem. Porém, chamar-lhe aqui central, he por distinguilla das outras, 
attendendo ao seu effeito em buscar sempre o centro da pedra. O referi- 
do Tosca, nas Definições do Liv. i. Tom. i. Def. 14. diz: Figura es 
una quantidad cerrada de uno, ò muebos términos. Advirtindo que ha 
de estar cerrada por todas as partes ; y assi el angulo , como ABC 
(fig. 1.) no es figura, por quedar abierto pur A,y C. O dito exemplo 



na estampa de Tosca, he assim .... c___^B. Mas senáo he figu- 
ra , para que lho chama no parenthesis , e na estampa ? Nenhuma pessoa 
cordata fará esta pergunta censurando o Sábio Tosca. Elle usou do nome 
figura, para explicar com mais clareza , e facilidade o que alli quiz de- 
clarar: e este seu proceder, neste caso, apoia a denominação de que uso, 
dando áquella medida o nome de central , para melhor declarar o que per- 
tendo. 



da Estatua Equestre. 157 

p: pelo referido modo se lhe busca a sua horizontal, de 
i , para p , descrevendo outra porção de círculo c y c\ 
feita a intersecção/?, se conduz o cordel D, ao número 
2, no esquadro ABC, para dicidir a central da maneira 
acima dita. 

Querendo agora notar as balizas do lado (14), sup- 
ponha-se a primeira ser em o ; a sua vertical será a linha 
«, de / para o\ e firmando huma das pontas do compasso 
em / , com a ponta movei se descreve a porção de cír- 
culo d. A horizontal, seja a linha x y tirada de h para o\ 
descrevendo a porção de círculo g : e a central será dici- 
dida pelo cordel E ; do modo já declarado quando se 
descreveo a baliza i. E para as balizas dooutro lado op- 
posto , já fica sem uso o cordel E ; servindo o cordel D 
para as centraes desse lado: e as balizas, que já seachão 
collocadas pela frente, e o outro lado, para indicar, ou 
reger as ver ti cães , e horizontaes. 

Deste modo se vão multiplicando as balizas, edes» 
bastando a pedra com tal exacção (15) , que Alberú af- 

(14) No Capitulo precedente deixo declarado ter-me servido de com- 
passos grandes feitos de madeira pontados de ferro: os mesmos servem no 
mármore. E para se fazer nas balizas dos lados a intersecção , em se lhes 
curvando huma das pontas (ou ambas quando as clrcumsuncias o pedem) 
já se consegue o intento. 

(15) Da infallivel certeza com que desta sorte se acha o preciso lu- 
gar, onde se quer abaliza, náo duvidará qualquer pessoa, que tenha no- 
ções de Geometria , ainda que ténues. Nesta operação da referida pyrami- 
de imaginaria, se encerráo muitas verdades Geométricas} nas demonstra* 
çóes das quaes , combinando-as com esta , se conhece a infalUbilida.de que 

Dd 



Cap. 
vi. 



Cap. 
VI. 



158 DescritcXo Analytica 

■ firma ( 1 6) que sahird semelhantíssima ao modelo ; que não 
poderá errar senão aquelle , que de preposito não quizer obe- 
decer aos dictames que elle descreve ; que se poderá fazer as- 
sim huma Estatua do tamanho do monte caucaso ; e executar 
metade em Faros , e outra metade nos montes deCarrara (17). 



aífirmo : e para lhes achar razõe3 iguâes não se carece de singular agu- 
deza. 

(16) Trâttato delia Satua , pag. 44, 245. Esta passagem de Alber- 
ti, vai aqui no texto resumida. Alberti alarga-se mais; chegando a dizer 
na pag. 47 que qualquer medíocre engenho poderá exactissimamente sa- 
hir bem , seguindo este methodo. Do que se segue náo servir de gloria al- 
guma para aquelles que só leiga , e mecanicamente o praticáo. Os meros 
práticos , ( para confusão da vaidade que e3tribáo unicamente no manejo 
do escopro) devem advertir no que relata de Mengs , o Cavalheiro Aza- 
ra , na vida que escreveo daquelle célebre Pintor , do qual diz „ que elle 
sem ter em tempo algum praticado com escopro , restaurara huma bella 
Vénus antiga , de modo que causou admiração a todos os professores. „ 
E de que procedeo isto ? Da Sciencia que possuía ; e náo da prática , em 
que era táo noviço , que aquelle foi o primeiro ensaio. Yeja-se Opere di 
Mengs. Tom. 1. da Edicç. Italian. pag. LXXXIV. 

(17) Seguindo este, ou semelhante methodo, náo se deve duvidar do 
qne assevera Alberú. Na Encyclopedia , Tom. 14. Art. Scu'p:wrs anci- 
tnes (que he todo de Mr. le chevalicr de Jaucvurt") na pag. 827. co- 
lumna 1. fallando dos Escultores Telecks , e Tl^odoro, de Samos; e ci- 
tando DioJoro de Sicília, diz, que aquelles deus Irmãos fi/eráo a esrarua 
de Apollo Pytheo , executando Telecles metade da dirá esratua em Sa- 
mos , em quanto seu Irmão Theodoro fez outra metade em Epheso. So- 
bre a possibilidade deste facto discorre o Author do Arti. , e ajunta as re- 
flexões de Mr. le C. de Caylus , a este respeito ; censurando o Historia- 
dor Siciliano : mas sem duvidar da possibilidade que tem o facto , con- 
correndo nelle hum methodo semelhante ao que fica exposto. João Ravi- 



da Estatua Equestre. 159 

Se Alberti julgou, e com razão, ser o seu systema 
tão seguro para evitar erros, estando esse mesmo syste- 
ma , pelo referido modo muito mais apurado, também a 
sua certeza he mais infailivel , e evidente. Porém a mul- 
tidão de vezes que para collocar cada baliza obrigão o 
operário a tomar na mão regoa, e compasso; e a espe- 
rar que os cordéis suspendão , ou parem no seu movente 
balanço faz o trabalho assas moroso. 

O desejo de satisfazer á pressa que se me dava , e 
causar-me , na verdade , certa náusea a repetição excessi- 
va de tantas medidas , me fez cogitar outro expediente 
mais prompto , para o desbaste do Baixo-Pvelevo (18). 
E passo a declarar na segunda, figura da mesma Estam- 
pa XVII. , o systema de que usei para adiantar a obra, 
diminuindo o trabalho material. 

Imaginei pois , que andando a prumo pela frente da 
pedra huma regoa movei , grande , e graduada (a que 
chamo regente) , e atravessando em perfeita esquadria es- 
ta regoa outra muito menor , também graduada ( a que 
chamo âifinitoria ) , findada por hum de seus extremos em 
ponta aguda , cuja ponta fosse terminar em hum dos an- 

sio Textor , in Offici , também refere esre caso dos dous Irmãos Escultor 
res; com a differença porém de chamar Telaáeo ao que na Encyclopedia 
se denomina Telecles. 

(18) Neste lugar, como não trato mais que do trabalho do mármore, 
deixo para o Capitulo seguinte a declaração das mais circumstancias desta 
peça j a qual se principiou a trabalhar no mármore a 5 de Setembro de 
!774. 

Dd 2 



Cap, 

VI. 



Cap. 

YI. 



160 DescripçXo AnalyTica 

■gulos da mesma regoa pequena , que facejáo com a su- 
perfície , ou face em que anda notada a graduação de 
alto a baixo na regoa grande ; e sendo a pequena, difi- 
nítoria, collocada em huma caixa, também movei, que 
a obrigue a conservar sempre esquadria perfeita com a 
regoa regente ; a baliza indicada pelo contacto da ponta 
àifinítoria , sem questão , será tão certa como as que se 
marcarem pelo methodo antecedente. 

Desta sorte se poupa muito tempo , e trabalho; 
pois que em huma só operação se comprehendem as três 
já declaradas na fig. I. da indicada Estampa. Porém sen- 
do asoperaqões desta sorte muito mais breves, são mais 
arriscadas a commetter algumas faltas , havendo qual- 
quer descuido na exacção do instrumento , e na posição 
em que este se colloca , tanto no modelo, como no már- 
more. 

Seja pois A B , ( fíg. 2. ) a pedra de que se execu- 
tou o Baixo-Relevo ; a qual na estampa finjo cortada 
desde a face da frente para a posterior , afim de se mos- 
trar melhor o effeito desta espécie de compasso. A letra 
C, mostra huma porção de madeira que fiz fixar em to- 
da a largura do painel , com a mesma convexidade com 
que já se achava a pedra. D, he huma chapa de ferro, 
que comprehende toda a extensão da madeira C , em 
cuja madeira he pregada a dita chapa ; e a construcçao 
desta, he dobrada em esquadria, como indicão D , r ; 
coroando a frente da pedra de hum até outro extremo ; 
para conservar sempre , sem se affastar do seu devido 



da Estatua Equestre. 161 

canal, a peça E ; cuja peça consiste em huma roda co- ■ 

mo huma lente convexa em ambas suas faces ; a qual fiz * 

vi» 
executar de latão; contendo o seu diâmetro meio palmo, 

pouco mais, ou menos, para servir na pedra : e para o 
peti-pé do modelo outra menor, á proporção. A letra F, 
indica hum ferro dobrado em esquadria , fazendo angulo 
recto no lugar do mesmo F ; e cuja sua menor porção, 
voltada para a lente E , lbe vai servir de eixo em que a 
dita lente , ou roda se move. A outra porção maior do 
ferro F , vai fixar-se no centro do topo superior da regoa 
regente G, G. Na dita regente, anda a caixa lo, h, h, h, 
que traz em si a regoa definitoria, o , 0. Esta caixa h, he 
movei ; e o que a sustem no lugar em que se quer dei- 
xar , são as mollas / , i ; notadas na fig. III. Nos lados 
da caixa ha duas aberturas, indicadas com ti, (fig. III.) 
pelas quaes se introduz, e conserva em esquadria a regoa 
àefinitoria , 0,0. Ecomo a chapa , r (fig. 3.) da frente des- 
ta caixa , encubriria a graduação da definitoria , he tam- 
bém aberta, nessa chapa da frente outra abertura s, s-, 
mais estreita que as dos lados n , para descubrir a gra- 
duação da definitoria , sem deixalla sahir da sua precisa 
direcção. 

Ora, como a chapa D , (fig. 2.) he plana em seu 
assento, e a lente E, contém hum círculo ; o contacto 
deste com o plano da chapa , he em hum ponto : por 
consequência a regoa G, opera da mesma sorte que qual- 
quer cordel com a sua chumbada : e aqui temos a verti- 
cal do precedente methodo; ou hum effeito semelhante. 



Cap. 
vi. 



161 DescripçXo Analytica. 

A faxa de madeira C, (fig. 2.) he também graduada em 
toda sua extensão ; e isto lhe faz produzir o mesmo ef- 
feito da horizontal do dito methodo: e a central, acha-se 
na definitoria 0, o (fig. 2. , e 3.). 

Pelo que , deste modo em chegando ao modelo , e 
marcando nelle , v. g. o ponto m (fig. 2.) conduzo (19) 
a regente do peti-pé no dito modelo pela chapa D , até 
ficar o seu lado GG , bem fronteiro ao ponto marcado 
t n : estando neste lugar, conduzo a caixa b, até que o 
angulo , ou linha o , o , da definitoria chegue a gráo com- 
petente ; de modo que a sua ponta aguda o , toque no 
modelo o ponto m ; e neste estado, observão-se, e no- 
tão-se em papel (como acima se disse) três quantida- 
des : a da regente G , que he a vertical \ a da faxa C, 
que he a horizontal, e a da definitoria o, que he a cen- 
tral. E assim se traslada com o instrumento grande , no 
mármore a mesma operação, com muito mais facilidade, 
e em muito menor espaço de tempo , do que se gasta 
com o primeiro methodo aqui exposto. 

A graduação da regente , pode principiar de qual- 
quer de seus extremos \ porém , na definitoria , deve ser 



(19) Para conduzir a regente na pedra, e modelo, ao lugar em que 
se quer, ha no ferro F ( fig. 2.) dous anneis fixos, e próximos ao angu- 
lo F ; nos quaes estão atados os cordoes q q , e estes cordões váo ter a 
roldanas fixas nos extremos superiores da pedra, e modelo ; para que pu- 
xando pelo cordáo competente , a regoa se dirija para o lado que se per- 
tende. 



da Estatua Equestre. 163 

da ponta aguda para a regente ; como a Estampa indica 
na fig. 2. 

Acima deixo advertido, que as operações deste ins- 
trumento são mais arriscadas a commettcr erros de me- 
didas: e agora mostrarei de que modo. 

As duas medidas, vertical , e central , tem para o 
acerto a mesma, ou talvez mais , segurança do que ha 
no methodo precedente; estando o instrumento perfeito: 
porém a medida horizontal he mais fácil errar-se , por 
qualquer leve imperfeição do mesmo instrumento, assim 
como de inadvertência do operário. 

A perfeição principal desta peça consiste em serem 
as regoas bem desempenadas ; em ser a caixa b, cons- 
truída com tal igualdade, que as duas regoas, regente, 
e àefinhoria , conservem sempre com prefeiçao entre si , 
a sua esquadria; e que * regente faceje com apedra AB, 
e com a madeira G, tão justamente, que nunca tome o 
mais ténue movimento de eixo. 

Este movimento pode causar desordem notável , e 
tanto maior , quanto mais extensa for a medida que se 
toma, com a àefinhoria, desde a regente até o lugar on- 
de vai definir o ponto. 

Neste caso, tendo a regente qualquer movimento de 
eixo, descreve a ponta da àefinhoria porções de círculos; 
e a extensão da àefinhoria desde a regente até o ponto da 
definição, he o radio desses círculos. 

Supponhamos pois , que a regente se move em a, 
(fig. 4. da mesma Estampa) e o ponto da definição de- 



Cap. 

VI. 



Cap. 
vi. 



164 DescripçXo Analítica 

■veria ser erai; se a regente gira hum quarto de círculo, 
e a extensão da âefinitoria for só de <?, até 0, será o erro 
tamanho como a corda d, e ; porém se a baliza houver 
de ser em£, tendo a âefinitoria essa extensão, sem maior 
giro, será o erro tamanho como a corda b, c. 

He verdade que hum tal descuido de quarto de cír- 
culo, só pode acontecer com instrumento péssimo, e o 
operário negligentíssimo; pcrém como o movimento do 
centro, por ténue que seja, faz notável difterença na ex- 
tensão do radio, devendo a baliza ser em d, e girando 
a regente de modo que a âefinitoria chegue a o , será o er- 
ro como a corda d y o ; nesta menor extensão de radio: 
e na maior, será tamanho como a corda b, i : que nes- 
tas operações he erro muito considerável , ainda mesmo 
na pequenhez em que a dit3 figura 4. vai na estampa de- 
liniada ; pois se ajusta proporção que deve ter hum olho, 
nariz , ou boca de qualquer figura do tamanho natural, 
se ajuntar o pequeno espaço da dita corda b, i será hu- 
ma aleijão horrenda. 

No desempeno das regoas deste instrumento , de- 
ve também haver grande cuidado ; ecomo as regentes por 
causa da sua extensão estejão mais expostas a empenar, 
para servir no modelo, mandei fazer huma de latão, e 
com a grossura de pouco mais de meio decimo de pal- 
mo ; e para servir na pedra a fiz construir de taboinhas 
delgadas, formada em caixa, de três décimos em qua- 
dro (20) . 

(20) Para conservar deserripenada esta regoa, náo meoccorreo melhor 



da Estatua Equestre. 16$ 

De tudo o ponderado tiro por consequência , que ' 
estando o instrumento perfeito , e sendo o operário vi- 
gilante , se opera deste modo com tanta ou mais segu- 
rança , do que se acha no systema dos cordéis -, e com 
muito maior expedição : porém quando o Artista chefe 
se vê obrigado a fiar-se de mãos alheias , mais me incli- 
no ao primeiro methodo; (ainda que muito mais lento, 
e vagaroso) especialmente nas figuras insuladas, (*) nas 
quaes he mais difficil de adaptar o referido instrumento, 
e a cuja declaração me escuso por evitar maior prolixi- 
dade , e porque reflectindo-se no que fica exposto , qual- 
quer Artista, ainda de medianos talentos, poderá fazer 
bom uso do dito instrumento , mesmo nas estatuas exe- 
cutadas por todos os seus lados. 

Já deixo acima dito que na Encyclopedia , e no lu- 
gar daquelia obra citado na 8. a Nota deste Capitulo, não 
se declara o modo individual de se tomarem estas medi- 
das , mas vendo-se aquella descripção dá indícios de usa- 
rem os Francezes de regoas , enão de cordéis com chum- 
badas, como usão os Italianos: porém hum instrumento 
definitorio como o que exponho , ou semelhante , nem 

lembrança que o construir-se oca : a prova de não ser desarresoado o pen- 
samento ( sem metter-me em razoes Fisicas ) he a mesma peça , que 
ainda conservo desempenadissima , desde Agosto de 1774 ; não obstante 
conrer dezesete palmos e meio de comprimento ; a de latão , contém 5 
palmos , e $ quartos. 

(*) Insuladas : Termo da Arte. Sáo as figuras que se executáo em 
redondo. 

Ee 



Cap. 

VI. 



i66 DescripçXo Analttica 



na escrita se declara , nem se vê nas estampas deliniado. 
? ' E não obstante omittir-se em a narração o uso dos cor- 
déis , ou prumos, no Volume S.° das Estampas , em duas 
vinhetas se observão as grades com os ditos prumos; o 
que dá bastante fundamento para crer que também os 
Francezes usão do methodo Italiano. 

Seguindo pois estas maneiras de trabalho, o maior 
desbaste destes Gruppos, e Baixo-Relevo, foi executa- 
do por canteiros, dirigidos por quatro Escultores, meus 
subalternos, que hião contornando osnús, e pannejamen- 
tos das figuras , aos quaes eu communicava as advertên- 
cias , e instrucçôes, que julgava precisas; por serem mais 
aptos a percebellas, que os canteiros; e assim continua- 
rão aquella obra até seu complemento , que foi nos prin- 
cípios de Abril de 1775 ; tendo-se começado a 19 de 
Junho de 1772, sem me ser possivel em todo o referido 
trabalho dar-lhe de mão própria mais que algum leve to- 
que , e alguns traços de lápis (21). 

Pelos niethodos aqui expostos para tomar medidas y 
não ha dúvida que as partes de qualquer figura se collo- 



(21) A pressa incrivel que se me deo naquella obra , e em todas quan- 
ta,? se me háo confiado , tem sido causa de que ellas náo sejáo mais que 
humas copias (e em partes pouco exactas) dos meus modelos ; e me tem 
posto na precisão de valer-me de canteiros : cirçumstancia que será hera 
estranha aos Escultores de outras Nações , que tiverem escrúpulos* super- 
stição nas bagatellas da Arte. Eu me tenho dado bellamerrte com os can- 
teiros; e pelo que deixo demonstrado se vè , que bq desbaste > os. que ti- 
verem tino, podem-se empregar, sem escrúpulo. 



da Estatua Equestre. 16*7 

carão todas sem erro nos seus devidos lugares ; porém 
isto he o menos. Se Alberti , no lugar aqui citado em a 
Nota 15" diz , que „ sahirá a peça que se executa seme- 
lhantíssima ao modelo ,, isto deve- se entender com suas 
restricçóes. 

Se afigura for executada pela própria mão, que mo- 
delou o exemplar, pôde com effeito ser semelhantíssima , 
e tem todo o lugar este superlativo ; porém a ser feita 
por mãos diversas, de outro, ou mais operários, só pô- 
de achar-se esta exacta semelhança nas actitudes , con- 
tornos , pannejamentos , e ainda mesmo na correcção do 
desenho ; sendo trabalhada por Escultor de préstimo. 

Forem esta correcção , diz Mr. Falconet (22), e diz 
sabiamente, nao se deve restringir a huma semelhança fria\ 
esta sorte cie verdade , ainda que bem demomtrada , nao pode 
excitar , por sua exacçao , mais que a hum louvor tão frio 
como a mesma semelhança ; e a Alma do Espectador não será 
commovida.. He a natureza viva , animada, e apaixonada , que 
o Escultor deve exprimir sobre o mármore , bronze , etc, 

Eis-aqui o que he impossível conseguir-se cabalmen» 
te nas obras em que o Author não pode fugir de entre- 
gar-se nas mãos , e sentimentos de outrem : este fogo, 
e o zelo de o exprimir , achão-se unicamente no peito 
do criador da peça. E posto que do modelo cem espe- 



(22) Veja-se o Tom. 14. da Encyclop. na pag. 834. Creio que o Au- 
thor deste Artigo, também o he da Estatua Equestre de Pedro Grande, 
em Petersburgo. 

Ee a 



Cap. 

vi. 



Cap. 
VI. 



16*8 DescripçXo Analítica, 

•cialidade emane o que mais contribue para bem mostrar 
as paixões , e viveza das figuras ; o modo com que se 
maneja a matéria , não concorre pouco para o alcance 
destes attendiveis requisitos. 

Além disto, as diversas intenções, os diversos prés- 
timos des operários sobalternos, faltando-lhes os motivos 
de se lhes inflammar a imaginativa , trabalhando servil- 
mente , com frialdade , e também a medo ; todo o seu 
cuidado (se o tem) se limita a náo desarranjar a peça, 
que se lhes confia; em acabar muito, e muitas vezes em 
lugares desnecessários (23) y em articulações que dege- 
nerão em gosto secco, e deslustra, em certo modo, as 
mais partes da Arte , (24) que a direcção do chefe na 
obra tem espalhado. 

(2$) Nas mesmas obras de Eloquência he este abuso reprehensiveL 
O nosso António Ferreiía, na sua Carta XII. a Diogo Bernardes, diz . • 

a graça 

Tirão , quando algum cuidão , que a mais dão. 
Citando Cândido Lusitano a sobredita passagem do Ferreira por extensa 
na Traducçáo da Poética de Horácio, accrescenta: Daqui se tira, que a 
affectaçao de nimiamente polir as obras hc causa de as deixar sem es- 
pirito , e substância , etc. O mesmo Horácio , mais adiante IV. posto 
que a outro respeito , aponta por exemplo mesmo hum Escultor aesta. 
ordem , e diz : 

No fm do circo , junto d esgrima Emilia , 

Sei de Escultor , que explica bem no bronze 

Leves cabellos , delicadas unhas , 

Mas a Estatui no todo não vai nada. 
(24) A. maneira do trabalho (diz Mr. Cochin) he a que poe a co^ 
roa as demais qualidades (da Arte): e ordinariamente a diff crença do, 



da Estatua Equestre. 169 

Na maneira do trabalho devem haver certas negli- 
gencias , que vistas pelos que ignorão os mysterios da 
Arte as julgão descuidos , e talvez imperfeições : mas 
contempladas pelos professores, e conhecedores intelli- 
gentes, nellas conhecem a elevação do espirito do Artis- 
ta , em saber desprezar ninharias (25). 

O resto da manufactura , nestes Gruppos , se conti- 
nuou do modo commum com que se trabalha o mármo- 
re ; sem se lhes lustrar parte alguma , por causa da qua- 
lidade da matéria; declarada em a Nota 4.* deste Capi- 
tulo: ficando, depois de cortada do escopro, gradin, e 
broca, tocada com raspa, ou groza , pedra deburnir, e 
pedra pomes (26); nos lugares onde convinha. 

grande Escultor ao medíocre , tião consiste em mais que no gosto do tra* 
talho. Ouvres Divers. Tom. 2. pag. 220, e 221. Esta passagem por ser 
extensa vai resumida ; e deve ter suas modificações que o Author indica ,, 
e em que se deve meditar : fujáo os principiantes de julgar esta decisão 
de Cochin táo superficialmente como fazem alguns a outras sentenças, 
que os enchem de unta vaidade como ignorância. Repare-se no que se 
diz de Mengs, em a Nota 16 deste Cap. 

(15) Les négligcnces , des qtielles meritent d'être appellées beureu~ 
ses, son des perfections , etc. Hagedorn. Reflexions sur la Peini. Tom. 2. 
chap. 45. pag. 280. O Author , intitula este Cap. Das negligencias 
reaes , e apparentes no n:anejo da Arte. E discute com bastante amplifi- 
cação a matéria. 

(:6) Escopro, Gradin , Broca , Raspa, ou Groza; são instrumentos 
com que se trabalha o marmere ; e de cujos feiíios se mostráo na Ency- 
ciopedia desenhados, muitos, e diversos exemplares. A Pedra deburnir, 
he de huma qualidade mole , e aspara , que no mármore faz o mesmo, 
efíeito que a lixa na madeira :. nas visinhanças desta Cidade ha varias pe° 



Cap. 
v. 



170 DbscripçJo Analytica 



Cap. Em huma Carta que a Monsenhor Fabronio escre- 

vi, veo o célebre António Rafael Mengs (27) diz este sá- 
bio Escritor Artista , louvando as qualidades do Gruppo 
de Laocoonte ; que , entre eilas he notável o modo do la- 
vor tio mármore , cortado unicamente a escopro , especialmente 
nas carnes , sem mais aderece de raspa, de pomes , nem de po- 
limento ; modo de laborar que se observa em muitas outras obras 
egrégias , como a Vénus de Médicis. Todas as- Estatuas tra- 
balhadas desta maneira são menos acabadas nas partes miúdas , 
e prevalece nellas bum certo gosto de que o Artista não goza 
senão depois de ter vencido todas as difficuldades da Arte ; que 
he quando tem chegado a ser senhor daquella negligencia , e fa- 
cilidade , que em vez de diminuir augmenta admiravelmente 9 
deleite do Espectador, (Se he intelligente) se deve aceres- 
centar. 

Assim diz o Sábio Mengs , no lugar citado : porém 
eu, respeitando os seus grandes talentos, e estudos, não 
me conformo com o seu sentir , em parte ; não obstante 
allegar tão respeitáveis exemplos. 

Como eu não tive a fortuna de ver aquellcs bellos 
exemplares , mais que nos gessos delles extrahidos , e 
não nos próprios originaes de mármore , não tenho todo 
o bastante fundamento para me oppôr ao que diz hum 
Artista Sábio , que os examinou : porém como a sua ana- 



dreiras delia ; porém â de que se faz aqui mais uso, he de Bellas. Ape- 
dra Pomes vem de fora. 
(27) Edicçáo Italiana. Tom. 2. pag. 23. 






da Estatua Eqúestrr. 171 

iyse (nesta parte) pertence ao manejo, e não ao Scien- 
tifico da Arte ; não se lhes faz injuria na supposiçáo de 
que, sendo Pintor, e não tendo a prática do manejo da 
Escultura, talvez se enganasse em julgar, que as carnes 
daquellas Estatuas , são unicamente feitas a escopro, 
sem toque de raspa , etc. 

A raspa , ou groza , além de facilitar, e adiantar 
muito o trabalho , dá nas carnes hum toque muito mais 
gracioso, e de melhor empaste; o que me não ha de ne- 
gar nenhum bom prático. 

Não se admitte porém , quando se fingem cabellos , 
linhos, tafetás, etc. E como tenho finalizado o que per- 
tence ás operações do mármore , passo a declarar o as- 
sumpto, e mais circumstancias do Baixo-relevo : o qual 
como chegasse o tempo aprazado para a Inauguração da 
Estatua Equestre , e se achava com pouco mais de meio 
desbaste, assim se assentou, e assim existe, (*) faltan- 
do áquella obra o complemento desta, e outras peças: a 
cuja conclusão se não tem procedido por embaraços ur- 
gentes; constando-nos porém, que Sua Magestade quer 
mandar concluir esta obra : resolução bem digna da sua 
Real generosidade; especialmente sendo aquelle Monu- 
mento dirigido a ter sempre expostas aos olhos do Pú- 



(*) N. B. Muito depois de ter acabado a escrita desra Descripção ti- 
ve ordena para completar o referido Baixo-rdevo , a cujo trabalho se deo 
principio a 14 de Julho de 1794, e se acabou no fim de Março de 1795. 
Veja-se a Nota ($7) do Capitulo VIII. desta escrita. 



Caf. 
vr. 



IJZ DESCRIPqÃO Analytica 

blico memorias de seu Augusto Pai ; Heroe verdadeira- 
£- mente grande, e que sempre vivira nos coroçoes de seus 
fieis, e desabusados Vassallos. 






Esr. XVI 




ZM.C.ek/*n 



"St/ii JCtíf/W. 



da Estatua Equestre. 17$ 

Explicação da Estampa XVII. 



vi. 



As figuras i. a , 2.' , e 4- a ficao declaradas no corpo p 
deste Capitulo. As figuras 3- a , e 5.* porém, servem só 
para mostrar mais claramente a configuração , e uso da 
caixa movei , que posta na regoa regente segura em si a 
àefimtoria. 

Na figura $. a , GG, dd, ee, indicão a regente. E 
00, indicão a definitoria. As letras ae, nos dous extre- 
mos da regente, mostrão a face da mesma regente, em 
que encosta a definitoria; cuja face he graduada, como 
indica a figura 2. a 

A figura 5.* mostra a dita caixa movei vista de fa- 
ce ; e para se poder accommodar no desenho , não se 
lhe prolongarão na deliniação as chapas , que servem de 
molas, notadas i i : cuja falta suppre a figura 3.* onde 
se divisão inteiras as ditas chapas , ou molas i i. 



Ff 









I ' . : . 



da Estatua Equestre. 175- 



■ m.msi^Hiagu w^ 



CAPITULO VIL 

Da Invenção Poética do B aixo>-r elevo \ e se discute se be 
justo usar de AHegorias nas Artes do Desenho, 



N 



O projecto que deixou Eugénio dos Santos para o 



pedestal' da Estatua 1 Equestre , era sem ornato algum a ^ AP « 
pedra convexa posterior do mesmo pedestal. Porém , 
Rainaldo Manoel dos Santos , Arquitecto que succedeo 
ao sobredito, não lhepareceo bem que ficasse este gran- 
de espelho totalmente nú; achando-se o da frente orna- 
do, evendo-se interrompidos os planos dos espelhos dos 
lados com os episódios dos Gruppos. 

Para que a composição daquelle todo não parecesse 
como aleijada , faltando-lhe o equilibrio do ornato , se 
deliberou a supprir aquella falta com algum adorno , a 
fim de adoçar a seccura daquelle sitio , ficando a compo- 
sição mais harmónica. 

E como tudo andava atropellado com pressas des- 
ta , e outras obras , e o Arquitecto se visse distraindo 
com muitas incumbências , não lhe occorrendo logo de 
que havia constar aquelle ornamento, mandou , que se 
fossem lavrando as pedras, e no sitio que pertendifr en- 
riquecer, ordenou se não tirasse pedra alguma , conser- 

Ff 2 



VII. 



iy6 DescripçXo Analytica 

vando-se toda a que veio da pedreira , no referido lugar ; 
_ p * fazendo-se-lhe porém a sua moldura : e estando a dita 
pedra neste estado , me incumbio o mencionado Arqui- 
tecto do ornato, que alli pertendia, para que eu o pro- 
jectasse, como bem me parecesse. 

A minha profissão, naturalmente me havia de suge- 
rir que fosse este ornato de Escultura , e parecendo-me 
que o lugar estava chamando hum Baixo-rekvo , que re- 
presentasse alguma cousa análoga ao assumpto geral , e 
que de algum modo remediasse esta falta incluída nos 
Gruppos lateraes, segui a primeira idéa , que a imagi- 
nativa me offereceo (i); pois que para ruminar oponto, 
e fazer selecção , não se dava tempo : occorrendome 
neste caso huma representação de figuras symbolicas, 
que alludisse á generosidade com que o Soberano (re- 
presentado na Estatua , principal objecto deste monu- 
mento) concorria (2) , e ordenava a reedificiíção da sua 
Cidade Capital quasi totalmente arruinada. 

(1) Só em casos semelhantes aos em que me tenho visto, sem se me 
dar tempo em obra alguma para buscar, e escolher o melhor, por meio 
de meditações, e envestigações , he que poderá ter desculpa o Artista que 
seguir táo péssima varèda. O que ordinariamente occorre em primeiro lu- 
gar , he que deve ter o ultimo. Diz Quintiliano, nas suas Instituiç. do 
Orad. Liv. 7. Cap. 1. e aconselha ahi mesmo , que não trabalhemos d 
pressa j e que busquemos alguma cousa mais do que nos vem ao pensa- 
mento no principio da idéa. 

(2) O Senhor Rei D. José I. amou os seus Vassallos de moJo, que 
na reedihcação da Cidade, primeiro cuidou em accommodallos , cpe a si 
mesmo, e sua Real Família. Teve tal generosidade, que em beneficio 



da Estatua Equestre. 177 

Esta lembrança me forneceo a Invenção Poética des- ; 
te quadro, e ainda que não faltao génios oppostos as re- 
presentações allegoricas , (3) preferindo lhe as históricas: 
eu julgo (não sei se bem , ou mal) que as circunstan- 
cias dos casos devem ser attendidas , e ponderadas ma- 
dura , e judiciosamente ; contemplando, se naScena his- 
tórica os Actores, e accessorios são todos de hum deco- 



Cap. 
vii. 



do Público desfalcou de avultadas sommas o donativo annual , que os 
nossos Americanos lhe offerecêráo , para erigir o Palácio de sua residên- 
cia. Ordinariamente, dava deste Donativo para as Obras Públicas, dous 
Decretos todos os ânnos de 80 contos cada hum. Muitos ânnos deo a três 
Decretos do mesmo lote : e houve anno em que para o mesmo fim deo 
334 contos. De tudo isto ha Documentos no Real Erário, e nâ Casa do 
Pagamento das mesmas Obras. 

XO Hagedorn. Fv.eflex. sur Ia Peint. Tom. 1. chap. 55. pag. 4-0 da 
Trad. Franc. Edic. de Leipzig. 1775 , diz que „ a representação de hu- 
„ ma acção real , e importante tios interessará mais o coração, do que 
„ nunca interessará o symbolo mais engenhoso. „ Tem razáo : mas he , 
se o facto histórico se pôde revestir das circumstancias , que exigem as 
Artes do Desenho, para que a Invenção Poética, e Competição Gráfica 
se unáo com perfeita , e decorosa harmonia. Cito asmer.c ; crsadas palavras, 
náo para me oppôr ao seu Author ; mas para diminuir a força, que nel- 
las acharão os adversários do allegorico. Náo he tíagerâon opposto ás 
allegcrias judiciosas , e usadas com prudência. No decurso da sua cora , 
todo o seu ponto (a este respeito) he , que a expressão de affectos se 
prefira ao mysterioso da alegoria. Este sentimento he judiciosissimo: o 
nosòo Vieira Lusitano conciliou huma e outra cousa ; e isto ( segundo o 
adagio) he ouro sobre azul. Nas figuras symbohcas mesmo, deve achar- 
se esta e3timabilissima qualidade ; que a náo a terem , náo serve o symbolo 
mais que de huma ostentação vá. 



178 Descri pqXo Analítica 

1 — 1 ro (4) conveniente ao assumpto, e principal objecto; c 
^ AP ' se podem representar-fSe de modo qu£ fique o facto intel- 
Ijgivçl. 

Neste painel , a representar-se facto realmente his- 
tórico, ficaria menos nobre ; por causa de vados Acto- 
res plebeos, que deveriãa entrar na scena ; seria a repre- 
sentação mais, escura , que o mesmo allegorico ; não te- 
ria tanta extensão de significado , reduzindo-se a menos 
circumstancras ; e scriaò as figuras mais pequenas, e em 
maj.or número : qualidades, todas, que.- devem evitar-se T e 
os Mestres reprovão. 

„ Nas Artes do Desenho he impossível (pela natu- 
v reza delias mesmas) representar, a respeito de obje- 
p ctos , mais que os indivíduos j e a respeito de sucecs- 
„ sos , mais do que pode acontecer em hum instante. 



(4) Osserva il decoro, cioè la convenienza deli' atto, vesti, iito, e 
tirconstanti delia dignitá, etc. Vinci. Trattato delia Pitr. pag. 67. cap. 
251. Cibert , na sua Rhetorica Liv. }, Cap. 5. diz : Le Point essentiel 
datis l'Elocution , ou, comme dit Ciceron , le Point capital , c'est de gar- 
der les Bienscances. E logo adiante declara que ., as decencias segura» 
mente se guardarão, tanto que a Elocução convenha i.° ao assumpto que 
se trata. 2." A's Paixóss daquelle que falia. $.° Aos costumes das pessoas. 
4. Ao género de causa que se tem emprehendido ; e ao tempo, e lugar 
onde se acha. ,, Nes»e caso, o meu assumpto, e género de causa, sáo 
nobilíssimos. As paixões dos que fallão (mudamente) , e os seus coau* 
mes, pertencem á expressão de actitudes, e semblantes do» Actores , que 
expuz na scena : o tempo , e lugar desta pedem toda a possível nobreza* 
Loigino mostra que „ a narração de miudezas, cousas humildes, e vo- 
cábulos baixos, destroe o sublime. „ Trat. do Subi. Cap. 45. 



da Estatua Equestre. 179 

„ Mas pelo soccorro da àllegoria^ o que era impossível , ■ 
„ deixa de o ser. As noções geraes são exprimidas por 
5, hum objecto individual; e huma serie de successos se 
„ representa de huma vez. A allegorui pois , he da maior 
„ importância na Pintura \ c não he senão por seu soe- 
„ corro que esta Arte chega ao mais alto gráo de ener- 

ii g»a „ (5) • 

Nestas circumstancias náo fazem reflexão os antago* 
nistas da allegoria ; e por esta causa o nosso Francisco 
Vieira Lusitano padeceo muito neste particular; em que 
mesmo a muitos homens doutos o tenho ouvido censurar 
sem piedade, e a olhos fechados (6); em que nunca lhes 



(5) Mr. Sulzer. Theor. génér. de Beaux-Art. E transcrito no Suppl- 

da Encyc. mor. Allegorie. Posto que esta passagem acabe fallando só na 

Pintura ; no principio da mesma passagem se v'è, que o Aiuhor compre** 

hende no seu sentir todas as Artes do Desenho ; as quaes muitos ihtelli- 

eentes em vários casos as incluem debaixo do nome Pintura, 
o- 

(6) Huma occasiáo presenciei a desarrezoada censura que hum homem 
muito douto fez ao sábio Francisco Pieira Lusitano. Mcstrarido-se hum 
bem conhecido desenho do referido Pintor , que representa hum repouso 
de Jesus Maria José, na jornada do Egypro, no qual o Artista seguio * 
opinião de se despedaçarem os ídolos, quando passava o Salvador do Mun- 
do. No primeiro plano do painel se vè huma cabeça , hum pé, e hum 
pedaço de lyra , qae-fudo finge ser de mármore : e conhecendo-se clarissi- 
mamente j tanto pelo cotbumo que veste' o pé, como pelo pedaço de Iy»-" 
ra , serem aquellas três peças fragmentos de huma Estatua de Apollo, 
houve quem perguntasse, que era aquillo' r A que o douto respondeo lo- 
go , e com gestos magistraes. He algum* Allèg ria , qttt o Auíbor l&~ 
muito disso. Para estes assim , náo ha nas Bellas-Artes representação al- 
guma , que lhe seja imeiiigivel; 



Cap. 
vir; 



VII. 



180 DescripçXo Analytica, 

; achei nem acho razão alguma: chegando a ver-se aquel- 
le hábil Pintor por suas ficções ailcgoricas (bem que ju- 
diciosas) opprimido até mesmo no aperto da Imprensa 
(*) : cujas circumstancias me obrigão a entrar nesta dis- 
cussão em favor dos symbolos a que recorrem as Artes 
do Desenho, para exprimirem os seus conceitos; e des- 
ta sorte justificar o partido que tomei em fazer allegorí- 
co este Baixo relevo. 

Na Poesia , e Oratória , he frequente o uso das 
allegorias , e ninguém o reprova ; antes he muito louva- 
do , quando a preposito , e com as devidas circumstan- 
cias se emprega. 

He ponto controverso entre Authores de boa nota, 
se na Epopéa deve haver , ou não , allegoria geral que 
reine em todo o Poema ; porém da particular nenhum 
duvida (7) : e posto que Aristóteles delia não falle na 
sua Poética , vejo que a favorece quando diz da meta- 
phora , que „ faz a dicção magestosa , e saber com decoro 
usar delia , he difficultoso , e sinal de engenho feliz ,, (8). E 
creio, que ninguém duvida ser a metaphora huma allego- 
rta abreviada ; e a allegoria , huma extensa metaphora (9) . 



(*) Carta aos Sócios do Journal Estrangeiro de Parts. Acha-se no 
Summario de. Lisboa. Impr. ahi mesmo. 1755:. 

(7) Veja-se Poética de Freire. Tom. 2. Liv. 3. Cap. o. 

(8) Poética de Aristóteles Cap. 24. §. 6. pag. 103. Cito a Tradu- 
ção Portugueza. Lisboa 1779. 

(9) Assim o julgou Quintiliano, quando disse que, a metaphora ÇQih 
tinnada degenera em allegoria. Institui, do Orador. Liv. 8. 



da Estatua Equestre. i Si 

No primeiro Capitulo desta obra deixo demonstra-' 
do ser hum monumento desta ordem o Poema Épico da 
Escultura ; e que nelle, por esta, e outras causas, se 
devia incluir allegoria geral : o que sem dúvida eu teria 
feito , se o houvesse projectado. Porém como não tive 
esta satisfação , venho a tella na peça , que serve de as- 
sumpto ao Capitulo presente. E como acima deixo indi- 
cado, que as ficções allegoricas bem ordenadas, são bel- 
lezas Poéticas, devo lembrar aos que asdetestão no De- 
senho, que na Oratória se faz também apreço delias. 

Quintiliano diz que „ a allegoria sendo clara , he hu- 
ma perfeição : que a metaphora he hum dos mais bellos orna- 
mentos da Oração \ qae ella nos he tão natural , que mesmo 
es ignorantes se servem delia sem o saber. „ Desta verdade 
estamos cada hora vendo repetidos exemplos. E no mes- 
mo lugar declara o Rhetorico referido , quatro espécies 
de metaphoras, reputando a quarta pela melhor ; e que 
„ delia resulta o sob li me , e maravilhoso „ (10); sendo es- 
ta a que tem parentesco mais estreito com as allegorias 
de que usão as Artes do Desenho. 

O P. Bouhurs profere, que ,, não ha cousa mais agra- 
dável que huma metaphora bem seguida , ouhuma allegoria re- 
gular (u). „ Longino , assevera, que „ os lermos em- 
pregados em huma significação differente da que lhe he própria 9 



Cap. 

VII. 



(10) Quint. lugar citado. 

(li) Aianiere de Bien pens. Dial. $. pag. 308. 



VII. 



1S1 DESCRirqXo Analytica 

'tem natural grandeza', e que as metaphoras produzem osobli- 
me (12). „ 

Ciçero aconselha que „ o discurso seja semeado de me- 
taphoras (13) : „ e em outro lugar (14) , que se „ usa 
delias para dar mais graça ao discurso , e para supprir a 
Salta de lingoagem. „ Não se pode achar decisão mais ter- 
minante a favor das àllegorias , que empregão as Artes 
do Desenho; pois esta he huma das partes essenciaes da 
§ua lingoagem. 

Aos dous motivos acima ditos , que Cicero aponta 
para se usar da metaphora , accrescenta Gibert terceira 
causa (15); e he „ o cuidado de evitar o que h.um termo po- 
de ter de tnao: „ e neste caso, servindo-me de represen- 
tação allegorica , me conformei com a doutrina deste 
Mestre, podendo na allegoria usar (por assim dizer) de 
termos mais nobres , que na representação de historia y 
como já deixo tocado. 

O mesmo Gibert, perguntando qual seja a causa do 
prazer que resulta de huma bem posta metaphora ? Segue % 
que „ nasce de ser natural ao homem pintar , imitar, eagra- 
dar-se de ver conformes imitações, e pinturas (16). „ Não. 
be tudo isto a favor das àllegorias do Desenho? 

(12) Trat. do Subi. Çap. 52. pag. 184. da Trad. do P. Custodio Jc% 
k de Oliveira. 

(1$) No Orad. Cap. \6. 

(14) Ahi mesmo Cap. I2 

(15) Na sua Rhet. ou Régies del'Eloquem. Liv. 5. Chap. 1< 

(16) La Reth. etc. Lçiv. e Chap. citado* acima. 



da Estatua Equestre. 183 

Pois se aos Poetas , se aos Oradores he licito , e ' 
louvável o uso das allegorias , porque ha de ser vedado 
ás Artes do Desenho ? A lingoagem desta muda Elo- 
quência , são a enérgica expressão dos semblantes , das 
actitudes , e a fiel demonstração dos caracteres ; e os 
nossos Tropos , são as allegorias. Deixem-nos pois em 
paz na posse em que estamos, não só porque temos da 
nossa parte os Oradores, e Poetas; mas porque achamos 
mais forte, e sobiime apoio nas Sagradas Letras. 

„ O Velho Testamento (diz hum douto) he huma alie* 
goria continua do Testamento Noto (17). „ 

Propondo«se Bocquillot tratar das Ceremonias da 
Missa , adverte no seu Prefacio aos Leitores , que não 
esperem delle dar-lhes explicações mysticas das ceremo- 
nias , e ritos , que vai a referir ; e não obstante , ao tra- 
tar da consagração das Igrejas , e Altares, diz que „ Eu- 
5 , sebio pregara aos Povos na dedicação da Igreja deTir, 
„ na presença de hum grande número de Bispos. Elle 
„ lhes ensinava , que a construcção do Tempo material , 
,, era huma figura do Templo espiritual , que Nosso Se- 
„ nhor JESU CHRISTO tem edificado, e consrgrado 
„ a seu PAI , do qual elle mesmo he a pedra angular } 
5 , que une, e sustem o corpo do edifício todo; isto he , 
5 , toda a sociedade dos Fieis. Que o mesmo Eusébio, 
,, na sua Oração , declara com individuação, as partes 
„ de que se compõe o Templo material , e delias faz 

(17) Diction. portatif , Hist. Theol. etc. de la Bibí. mor. Allegorit. 

Gg 2 



Cap. 
vií. 



Cap. 
VII. 



184 DescripçXo Analytica 

' „ applícaçao mystica ás do Templo espiritual , etc. n 
(,8). 

Porém como Bocquillot, segundo os seus disignios, 
omittio as declarações de Eusébio , não será máo que 
aos mancebos Artistas se mostre parte do que a este res-» 
peito diz outro Sábio. 

„ Todas as dimensões de altura, comprimento, e 
5, largura , que tem o Santo Espirito , especificadas na 
„ descripção do Templo material de Salomão, são sem 
5 , dúvida mysteriosas. E os Santos Padres se tem per- 
j, suadido , que as três virtudes principaes , que com- 
5 , põem a estructura do Templo espiritual da Igreja y 
5, ali i se achão figuradas. Elles atribuem o comprimento 
w d Fé , que nos sustem neste longo desterro ; a altura 
3, d Esperança que nos eleva sempre aos bens do Ceo; 
„ e a largura , d Caridade , que encerra em si toda a sor- 
„ te de pessoas ,, (19). 

Este Sábio em toda a sua grande obra vai mostran- 
do as alkgorias , que se contém na Sagrada Escritura; e 
authoriza muito o meu intento quando diz. „ O Salva- 
„ dor não se tem servido ordinariamente de parábolas , q 
j, de figuras para declarar ao Povo os mysterios da Re- 
„ ligiáo? (20) 



(18) Traité Hist. de la Liturg. Sacrée, etc. no Pref. pag. VI. E no 
Cap. 6. pag. 118. Ed. de Paris 1701. 

(19) Sacy. Roy. Liv. }. C.6. V. 2. na explicação do Sens Litterah 

(20) O mesmo no Pref. do Apoc. 



da Estatua Equestre. i 85* 

E que pezo incomparável nao tem para abono das ' 
allegorias , dizer de si o mesmo Salvador: Eu sou o Alfa , 
e o Omega ? (21) 

Esta passagem declara hum Douto Portuguez deste 
modo : „ Dizer pois CHRISTO, que elle he o Alfa, 
„ e o Omega , he dizer (como elle mesmo explica) que 
„ elle he aquelle por quem tudo começa , e a quem tu- 
„ do se termina : que he aquelle a quem nenhum prece- 
j, de, e a quem tudo succede ,, (22). 

Desta santíssima allegoria composta da primeira , e 
ultima Letras do Alfabeto Grego, usão muitas vezes as 
Artes do Desenho para representarem a verdadeira Di* 
vindade ; e ordinariamente são as duas letras em cifra 
encadeadas, e sobre hum triangulo; para exprimir tam- 
bém a unidade de Deos em Trindade de pessoas : pois 
nesta figura Geométrica , três ângulos distinctos fazem 
hum só composto. 

A Santa Igreja tem adoptado as allegorias nas suas 
ccremonias, ornamentos, e vestes. Estes sinaes (diz San- 
to Agostinho) tocao nossos espíritos ; e sua impressão com" 
mwúcanào-se d nossa alma , accende o fogo de nossa devoção 
(23). O mesmo Santo Doutor lhes chama livro público 
da Igreja , no qual todos os Fieis podem ler , e conhecer a 



(21) Apoc. C. 1. v. 8. Vej. pag. \. e 14, 

(22) Pereira, na Vers. do Testamento Novo. T. 6. pag. 160.. 

(i\) J. Grancolas. Antiquité des Cerem, qui se prat. dans radmirv 
des Saçr. pag. 4, Ed. de Paris. 1602. 



Cap. 
vu. 



Cap. 

vii. 



x86 DESCKirqXo Analytica 

''grandeza de nossos Mysterios , representados a nossos olhos pe- 
las Ceremonias differentes que ella emprega para os celebrar 
(24). E no mesmo acto em que nos recebe por filhos, 
no3 principia a instruir com allegorias ; pois cada ceremo- 
nia do Santo Baptismo contém sua particular allegoria 

Estas são as solidissimas bases em que os Artistas 
do Desenho estabelecem o uso que fazem das allegorias : 
uso tão antigo , quanto he o de cunhar medalhas (26); 
porque o maior número delias , em tudo , ou em parte 
contém o allegorico. E que riquezas não tem fornecido 
á Historia este copiosíssimo thesouro das medalhas? 
Os Artistas mais célebres se tem deleitado com es- 



(24) Ahi mesmo , pag. 6. Das allegorias do Desenho diz hum dou. 
to , que sáo lingoa universal para todo o homem que reflecte. Sulzer. 
aqui eirado em a Nota 5. Quasi com as mesmas palavras o affirma tam- 
bém Couaruvias ; pois fallando da Pintura diz , que „ for medio delia se 
han conservado en el mundo admirables historias , por ser las figuras le m 
trás universales que en todos tiempos y en todas las gentes se conocen. 
Embl. Moral de D. Joan de Horozco y Couaru. Foi. 17. Esta conserva- 
ção ainda se deve á Escultura mais que á Pintura ; tendo-se achado nas 
estatuas, baixos-relevos , medalhas, e camafeos ; de cuja antiguidade se 
náo acháo pinturas : porém como estas Artes são irmãs , os louvores de 
huma são recíprocos em ambas. 

(25) Veja-se Grancolas, de pag. 111. até 200. 

(26) Cúuarruvias, assina ò principio das allegorias desde o Diluvio, 
no Arco íris : e depois vai mostrando as allegoricas insígnias que os .inti- 
gos davão ás suas falsas Divindades ; e as que em varias medalhas anti- 
quíssimas se tem conhecido. Emblemas Morales. l.iv. ?. 



da Estatua Equestre. 187 

tas composições. Ainda hoje se falta na famosa allegoria 1 
de Apelles, intitulada a Calumnia (27). Nlo he menos 
célebre a de Rafael de Urbino , chamada a Escola dç 
Athenas (28) . 

São estimadas as que pintou Rubens em Paris no 
Palácio de Luxemburgo , as quaes contém , allegorica- 
mente as vidas de Maria de Medicis , Henrique IV. , e 
Luiz XIII. , e delias ha huma collecção de excellentes 
estampas (29). 

Carlos le Brun pintou as da galleria de Versalhes; 
de cujas InscripçÕes falia Boileau; e do que diz se colli- 
ge serem as primeiras legendas empoladas , e que elle 
com M. Racine as substituirão com outras (30). 

Seguindo tão respeitáveis exemplos, nunca duvida- 



(27) De PU. Cours de Peint. Fdic. dita no Cap. 5. nota 8. de pag, 
55. para 56. citando Lúcia. Gerará de Lairesse , na sua obra Le Grana 
Liv. des Peintres. Tom. 1. liv. 2. chap. ir. pag. 181. descreve esta alle- 
goria de Apelles. Este Author em varias partes da sua obra , especial- 
mente no Cap. citado , e no Cap. 15. diz bellas cousas a respeito das 
allegorias, e do modo com que os Artistas as devem imaginar. Elie cen» 
sura juntamente os Escultores (e eu o acompanho) que negligenceáo este 
ramo da Arte , fiados em talentos alheios. 

(28) De Piles. Ahi mesmo. 

Çiij) A declaração destas allegorias , acha-se a pag. 2,62 do primeira 
Tomo do Dictionnaire abregé de Peinture etd^Architecture. Iropr. em Pa* 
*ís. 1746, 

(}0) Ouvres de Boileau Despr. T. 3. pag. %6i. da Edic. de Amster- 
dam. 1775. Q Dic, acima citado faz menção destes, painéis, a pag. 547» 
do 2. T. 



Cai». 

VII. 



C<AP. 

vir. 



Ig8 DeSCRIPçXoAnALYTICA. 

•rei animar-me dos mesmos sentimentos deCicero, quan- 
do se lhe não dava de enganar-se na companhia de Pla- 
tão, e Sócrates (31). 

Admittida pois a alkgoria , deve attender-se com 
reflexão ás suas qualidades; que são ser clara, conforme , 
e honesta (32) : e creio que nisto convém todos os Sá- 
bios. 

Quanto ao preciso gráo de claridade , que deve rei- 
nar em qualquer allegoria das Artes do Desenho , he (a 
meu ver o ponto mais difficil de decidir; porque a mais 
bella poderá ser escura , e escurissima para huns (33), 
sendo clara , e muito clara para outros ; segundo a ins- 
trucção que o espectador tiver a respeito de symbolos : e 
á proporção da perspicácia, e gosto, de que for dotado, 
para comprehender as actitudes , gestos , e expressões 
de semblantes; mercadoria, que em quanto delia se po- 
der usar não se deve recorrer ao symbolo (34) mais que 
para distinguir os Actores. 



($0 V. no Orad. 

(32) Estes são os requisitos que lhe declara Freire na sua Poética,, 
T. 2. liv. 3. Cap. 9. pag. 215. M. Sulzer , também a pertende clara-., 
c reprova , por escura , huma de Caraci : mas a sua claridade , náo a per- 
tende para todos ; só sim para os homens que reflectem. Sulz. lugar cita- 
do em a Nota 5. deste Cap, 

(3$) Veja-se a Nota 6 deste Cap. no que se diz tocante a hum pai- 
nel de Francisco Vieira Lusitano. 

(34) Raras vezes poderão as Artes do Desenho produzir allegoria bem 
ordenada , sem que a expressão das figuras , e o symbolo , se unáo mutua , 



da Estatua Equestre. 189 

Sobre esta qualidade attendivel , de ser a allegoria 
em certo modo transparente , como se explica lacomhe (35), 
eu julgo pedir a boa razão , e o bom gosto das Bellas- 
Artes , que nella se contenha a segunda condição , que 
Paulo Giovio quer nas Imprezas ; isto he, que não seja 
tão escura que haja precisão de hum a Sibylla para interprete , 
nem tão clara que todo o plebeo a entenda (36) : pois que 
„ a natureza do espirito humano estima que se lhe dei- 
xe alguma cousa, que supprir „ (37) : c serve de obse- 
quio aos espectadores instruidos, mostrar que se faz con- 
ceito das suas luzes, e discernimento. 

Pelo que respeita a ser conforme a Allegoria , penso 
que na Rhetorica de Mr. Gibert aerfamos excellentes 
dictames para esta qualidade, quando trata da metapho- 
ra (38), da qual diz „ se deve tirar de cousas que con- 
venhao ao Orador, ao Assumpto, e ao Ouvinte ; rejei- 
tando-se os objectos desconhecidos. „ 

Nas composições do Desenho , e das suas metapho- 
ras, ou alie gerias ^ ha mister o Artista muito cuidado em 



e alternativamente. Lairesse, no Cap. 15. acima citado, mostra os luga- 
res em que deve haver expressão, e onde pôde empregar-se o symbolo. 
0?) Spectacle des Beanx Arts. Chap. 21. pag. 212. 

(36) Ved- UImprese Illustre ... con espositiotii di^feronimo Ruscelli 
L. 1. C. 1. 

(37) La Logiqne, ou VAn. de Penser. 3. Part. Chap. 14. pag- 272. 
E M. Gibert he da mesma opinião. V. Le Rbetcriq. ou ks Rcgles de 
VEloq. liv. 3. eh. 7. Art. 4. pag. 527. Ed. de Paris. 1750. 

(58) Gibert. La Rbe. pag. 550. e seg. 

Hh 



Cap. 
vii. 



Cap. 
▼ii. 



190 DescripçXo Analítica 

'não representar cousas , que o ridiculizem. Deve con- 
templar o que convém a cada huma das personagens que 
expõe na scena ; dar-lhes as actitudes, fysionomias , ex- 
pressões, e vestes próprias aos seus caracteres (39). No 
total do assumpto, ha de ter advertência em que não se 
lhe ache falta, nem superfluidade: que os Actores todos 
cumprão com os seus empregos: que osaccessorios oceu- 
pem os seus devidos lugares: e que os espectadores cul- 
tos, com poucos momentos de reflexão, comprehcndão 
o facto; achando-se nelJe instrucção , e deleite. 

Sendo o fim das Artes do Desenho , o mesmo que 
o da Poesia, de instruir deleitando, ,, pede a razão, que 
não tenha mácula alguma o véo da allegoria „ (40) ; e 
por isso a sua terceira qualidade he , que seja honesta: 
para o que , deve o Artista nas suas composições evitar 
toda a nudez escandalosa , e ter muita attenção cm que 
as actitudes não indiquem de qualquer modo cousa algu- 

(}o) A conformidade nas expressões, tanto nos gestos do semblante, 
como nos do corpo , he ponto delicadíssimo ; e em que tem naufragado 
Artistas de grande porte ; de que não cito exemplos para náo parecer te- 
merário aos supersticiosos da Arte ; posto que tenho a meu favor a ra- 
zão, e á mesma Natureza. No mesmo acontecimento, náo deve a ex pres- 
são de hum Rei ser semelhante á de hum Plebeo : a de hum Filosofo á 
de hum Ríistico, etc. Todos os Mestres de Rhetorica , Poesia, e Dese- 
nho, recommendáo , que haja nisto grande vigilância. 

(40) Freire, no mesmo Cap. âqiii citado em a Nota }i. Muitos Ar- 
tistas de bom nome' tem abusado com escândalo deste Christáo, e honra- 
do preceito ■> apartando-se do fim principal das Suas Artes. Fuja a mocida- 
de de semelhantes exemplos. 



pa Estatua Equestre. i?i 

ma, que offenda os olhos castos do espectador de inten- "■— ■ 
ções innocentes : que para aquelles que as tem damna- ^ ' 
das, he toda a prevenção inútil (4 1 )- 

Para se reduzirem pois, estas circumstancias a prá* 
tiça nas Artes do Desenho , precede a Invenção P&etW, 
e logo íc lhe segue a Composição Gráfica (4*) • 

4* Invwçao Poética pertence a idéa do facto ^ que 
se hi de representar; peia elie histórico, allegorico. ou 
fabuloso : que personagens devem entrar na scena ; que 
affectos háo.de exprimir; qucaccessorios as devem acom- 



(41) Os Artistas antigos, tiravão o bello do seio da Natureza inno- 
cente , e honesta. Diz Winc Kclmann. Histoire de l'Art cbez les anci. 
Tom. 1. da Trad. Franc. pag. 327. Ed. dTverdon. 1784. Os modernos, 
que tem juizo, instrucção, e probidade, fazem o mesmo: e no honesto, 
ainda excedem muito os antigos ; a que os move a grande differença de 
Religião , bem que a daquelles lhes facilitava muito mais o estudo das 
formas. Veja-se la Rhet. de Gib. de pag. 502 para a seg. 

(42) Nesta divisão que faço de Invenção Poética , e Composição Grá- 
fica , alguma cousa me aparto do commum dos Artistas, no modo de ex- 
plicar. Todos os que tem escrito concordáo em ser huma cousa differente 
da outra , na mesma idéa que eu faço destas duas qualidades : porém de- 
baixo de hum só substantivo, a que huns chamão Invenção, outros Com- 
posição, E para distinguirem aquella em que só tem parte o entendimen- 
to, lhe ajuntáo como adjectivo a palavra, Poética; distinguindo a outra 
parte em que a mão coopera , com a palavra Pintoresca. A palavra Grá- 
fica de que uso, he genérica a todas as Arres do Desenho ; e por i.sso me 

■pareceo preíerilla ; vendo que cm todas estas Artes ha Invenção, e Com- 
posição. Pe Piles, no Commcnto a Dufresaoy mostra bem claramente a 
differença mencionada de Invenção , e Composição. L'Ar ; t. delia Fite di 
Dufrçs. £4iÇr líaj. Jxpma. i^O. de pag. g$ para a seq. 

fíh 2 



i? 2 Descri pqXo'ANALYTicA 



— — — panhar , etc. e a este ideai ajuntamento se pôde chamar 
' alma da composição (43): cujo ajuntamento ptkle idear 
qualquer sujeito de bom gosto, juizo , e instrucçao li- 
terária, ainda que não saiba desenhar (44); e á propor- 
ção que possuir as ditas qualidades , a Invenção sahirá 
mciis, ou menos bella. Porém Dufresnoy di/, que, para 
a Invenção se requer hum génio fácil , e potente : e a mes- 
ma Invenção a denomina Musa , que sendo provida com as 
vantagens que possuem as outras suas irmãs , e infiammaâk 
no fogo de Apollo , vem a ser mais ellevada , e a resplandecer 
na mais bella chamma (45). 

Consiste posem, a Composição Gráfica , cm delinear 
os objectos que a Invenção Poética tem concebido; coilo- 
callos nos lugares que justamente lhes pertencem ; dar- 
Ihes as devidas formas que lhes convém ; as actitudes, 
expressões, e ornamentos próprios do assumpto em ge- 
ral, e década individuo ern particular ; ordenar os grup- 
pos de modo que não haja confusão , e que produzão 
boas mansas na sua disposição, e no claro-escuro ; deter- 
minar o horizonte, e ponto de vista do quadro: e outras 



(4$) No mesmo, ou semelhante sentido chamou Aristóteles alma da 
Tragedia , á fabula que na mesma Trag. se contém. Poet. Cap. V. de 
num. VI. até XII I. E faz comparação com a Pint. 

(44) Pôde com effeito sueceder , que hum Literato , sem ter exerci- 
tado o Desenho pense huma idéa destas, que posta em prática faça bom 
effeito : mas isto he raríssimo. E se acertar huma vez náo lhe acontecerá 
muitas. A experiência o tem mostrado. 

(45) Dufresnoy, L'Jrte dçlU Pitt. Prec. 3. e vej, o Commento. 



da Estatua Equestre. 193 

mtitas cousas, que fizerão dizer a Lairesse, que „ pe- 
dindo grande talento a boa imitação da Natureza , para 
huma sábia composição se requer muito maior „ (46). 

Se tantas diffkuidades encerrão estas duas partes da 
Arte; se tantas instrucçóes , e talentos se hão mister pa- 
ra unillas com felicidade , que se pódc esperar de mim 
vendo-me sem cabedaes tão preciosos ? Especialmente 
sendo o meu sujeito allcgorico; dos quaes diz o mesmo 
Author „ não haver parte d* Arte mais exposta á censura y 
e de que seja mais difficil sahir bem ,, (47). 

As pessoas prudentes, de juizo são, e impnrciaes, 
não deixarão de disfarçar algumas faltas , e mesmo de- 
feitos, que acharem na Invenção, e Composição daquellc 
painel"; na certeza , de que as difficuldades que nisto ha 
sáo muitas mais, que as referidas; e que para vencellas 
não tive quinze dias completos: em cujo tempo fui obri- 
gado a idear , desenhar , e modelar o primeiro boceto 
do mencionado quadro. 

He bem verdade que os Authores Sábios , julgão 
ser desculpa de néscio o dizer „ empreguei pouco tempo. „ 
Alas isto he quando a seu arbitrio tem o Artista o tem- 
po conveniente; e não quando obedece, como deve, a 
superior Authoridade. 



. (46) Le Grana Liv. des Peint. Tom. 1. Liv. 2. Chap. 15. pag. 212. 
Neste Cap. mostra o Author as difficuldades que tem huma boa compo- 
sição ; e que dons deve possuir o Artista para o seu desempenho. 
(47) Ahi mesmp. Cap. II. pag. 182, 



Cap. 

vii. 



194 DescbipçÃo Analytica 

Gap. Na Estampa XVIII. exponho o desenho deste Bai- 

vir. xo-retevo , em cuja Invenção Poetka , tendo-me proposto 

representar a Generosidade Regia (48) com que Sua Ma- 

gestade acudío ao seu Povo naquelle espantoso desastre, 



(48) Para os attributos destas figuras me valli da Iconologia de Cesu- 
re Ripa: mas com a livre franqueza de Artista; sem sujeição ás mesmas 
actitudes por eile determinadas 5 nem á collocaçáo dos attributos em se- 
rem de hum, ou de outro lado; nesta, ou naquella máo : e ainda mes- 
mo diminuindo-os em humas , e augmentando-os em outras. Todos deve- 
mos ter nisto liberdade; com tanto que estas licenças se tomem com eco- 
nómico juizo, justa concordância, e com os olhos sempre nas fontes, ou 
lugares communs donde se podem tirar os symbolos. Tem havido sujeitos 
pouco affeiçoados ao Ripa. Mengs he hum; Hagedorna outro; e De Pi- 
les diz , que o melhor que tem Ripa , he o que tirou das medalhas anti- 
gas. Outros porém o npplaudem : e Lairesse o preza muito. .Alguns que- 
rem que só das medalhas se tirem os symbolos : confesso que o manan- 
cial he copioso, e salutifero : porém com tudo isso, he restringir dema- 
siado os espíritos dos Artistas modernos. Quem deo aos primeiros Artis- 
tas a authoridade para inventarem os symbolos de que usarão ? Hcracio 
na Poética (Traducção de Cândido Lusir. ) desde o vers. 54 até o 58, a 
jrespeito de innovar palavras , faz duas perguntas semelhantes a esta que 
aqui faço. Se os Antigos não se animassem a inventar os Symbolos por 
Jhes faltarem exemplos, ainda hoje não teríamos esses mesmos, que elles 
nos deixarão. Não he só estudo numismático o recurso único para enten- 
der, e compor em Desenho alíegorias. Picrio Valeriano, e os mais Ci?m- 
mentadores de Gercgliíicos ; Alciato, e os mais Authores de Emblemas; 
Ruscelli, e outros Compiladores de Imprezas, são todos attendiveis nesta 
matéria. Também os que tratáo de animaes , minerges , -e veg<saes , com 
a declaração das suas qualidades, servem de muito soccorro : mas sempre 
se devem pr-eferir { cpmmprjtvneníe ) os symbolos mais conhecidos aos que 
o são menos. 



vir. 



da EsrATUA Equestre. 19^ 

imaginei a seena em hum como Peristvllo , ou Varanda 
nu:gestosa , semelhante áquelbs em que se fazem as Ac- ^ Ap » 
clamaçócs dos nossos Reis ; na qual se visse o Throno , 
e a dita Virtude personalizada em huma Real Donzella, 
sobre o mesmo Sólio. 

A coroa desta figura , he de imperiaes fechados; 
indicando assim , ser do Soberano (49) , e não de al- 
gum dos Títulos subalternos : vestida com hábitos ma- 
gestosos, á heróica; c a seu lado hum Leão; symbolo 
desta Virtude. 

Depois desta figura , tem o primeiro lugar na ima- 
ginativa , e para a expiessão do sujeito, a Cidade de Lis» 
boa , cshida, como em dihquio ; a qual se distingue por 
hum escudo , que se finge ter embaraçado antes da que- 
da ; c nelle se divisão as Armas da mesma Cidade, para 
se dar a conhecer por eilas (50) a imaginaria pessoa a 
quem pertencem. 

O Governo da Republica, mostra cooperar em acudir 

(49) A estampa que mostra Ripa desta Virtude , tem coroa aberta: 
mas elle attribue-a a hum Duque; e a minha designa hum Rei. Bem sei 
que também os Reis antigamente a usavão aberta; porém os Duques nun- 
ca a tiveráo fechada. Além desta razáo distinctiva , a fechada he mais 
bella ; e por estas causas a prefiro : náo obstante o exemplo do Author 
citado , por que as razões que para isso allego me parece patrocinarem 
assas o partido que sigo. 

(50) O amor próprio não me fecha a boca para deixar de confessar 
os meus descuidos, e erros que chego a conhecer; esta figura tem a mão 
esquerda apoiada no escudo ; e o diliquio em que se mostra pede mais 
deixação do mesmo escudo. 



Cap. 

VIÍ. 



196 DescripçXo Analítica 

■ á Cidade ; porém como não pôde sem authoridade supe- 
rior á sua , o Amor da Virtude o conduz á presença da 
Generosidade Regia , que benigna , e promptamente lhe 
facilita os meios , dando-lhe nos Cofres do Commercio y 
o recurso para as despezas ; e na Providencia Humana , e 
Arquitectura , as direcções para o bom êxito de tamanha 
empreza. 

A Cidade , he personalizada em huma venerável Ma- 
trona , adornada com vestes magnificas , segundo a prá- 
tica dos Artistas , e com o referido escudo. O Governo 
da Republica, em hum varão, vestido de couraça, arma- 
do com capacete , e lança ; e além disto hum ramo de 
oliveira. O Amor da Virtude , em hum menino aliado , 
coroado de louro, e huma estrella (51) , tendo na mão 
esquerda três coroas do mesmo louro , e com a direita 
pegando , como conduetor , pelo braço ao Governo da 
Republica. 

O Cotmnercio (^2) se representa em hum varão, ves- 

(51) Ripa, representa esta figura com duas coroas na mão direita, e 
huma na esquerda : porém nesta invenção desembaracei-lhe a direita para 
emprego mais importante. Introduzi-ihe demais a estrella na cabeça ; por- 
que o dito Author diz ahi mesmo , que o Amor da Virtude não he cor- 
ruptível. E descrevendo l' Anima Ragionevole , e Beata , diz (com au- 
thoridade de Pierio Valeriano) que a estrella he symbolo da im mortali- 
dade : por cujas causas tem alli a estrella hum lugar muito próprio. E o 
que da estrella diz Ruscelli , explicando a Impreza de Daniel Bárbaro, 
pôde sem violência applicar-se neste caso. 

(52) O motivo de representar-se o Cotmnercio nesta Allegoria , foi 
por ter sido feita huma grande despezà da reedificaçáo i e toda a deste 



VII. 



da Estatua Equestre. 197 

tido ao antigo uso Portuguez , abrindo hum cofre , e 
offerecendo as riquezas, que nelle se designão, á Gene- * 

rosidáde Regia : e junto a ú tem huma segonha , e duas 
mós ; que são seus symbolos. A Providencia Humana, e 
Arquitectura se personalizao em fim , com duas Matro- 
nas ; a primeira , coroada de espigas de trigo com hum 
leme, e duas chaves na mão esquerda: e a segunda com 
hum papel, em que se vê a planta da nova reedificação; 
vendo-se-lhe também na mão direita hum esquadro , e 
hum compasso, que são os seus distinctivos. A' excepção 
da figura da Cidade , se acha em Ripa a razão destes 
symbolos. 

Pelo que respeita ao número das Personagens , at- 
tendi a não serem tantas , que produzissem tumulto; 
nem tão poucas, que ficasse ascena vazia. OsCaraches, 
e alguns outros , seguião inventar com poucas figuras 
(5*3). A Dufresnoy disse Albano, ter ouvido a seu Mes- 
tre Anibal , que não podia ser perfeito o quadro que incluis se 
mais que doze figuras (5 4). Alberti, ainda mesmo quando 



monumenro com o producto da Contribuição, ou Donativo, que os Ne- 
gociantes offerecêráo para a construcçáo da Alfandega , e mais obras do 
Público. 

(55) Cochin. Litteres â un Jeune Artista, pag. 52. 

(54) De Piles no Comm. a VArt. delia Pitt. de Dufresti. Isto não 
obstante, na Galaria do Palácio Farnese , pintada pelo mesmo Anibal, se 
acha composição de maior número de figuras: o que prova que nestas ma- 
térias todos os preceitos tem suas alterações. O ponto he saber usar dei- 
las com discernimento. 

li 



198 DescripçXo Analytica. 

recommenda a variedade , e abundância nas Invenções , 

' mostra seguir o svstema deM.Varrão, que nos seus con- 
vir. 

vites não admittia mais de nove pessoas (55); dizendo, 

que o número dos convidados devia principiar com as Graças , 

e acabar pelas Musas (5 6) . 

E ta regra, e também as de contraposição, tem per- 
suadido bons Artistas , a seguirem , que o número das 
Personagens seja impar j assim como he o das Graças , 
€ o das Musas. 

Nesta minha Invenção, excedi o primeiro número, 
e não completei o segundo ; porque estas máximas não 
são definições Geométricas : e o meu disignio todo , foi 
attender os preceitos sim dos grandes Mestres, mas con- 
formando-me com as circumstancias do assumpto , e do 
todo da obra: pois que isto he também huma das regras 
mais attendiveis. 

Antes de entrar a descrever as circumstancias da 
Composição Gráfica deste Baixo-r elevo , devo advertir o 
Leitor, que as molduras nos painéis lhes servem demais 
alguma cousa que de simples ornato. Suppõe-se que en- 
tre o espectador, e ascena representada no painel, exis- 
te hum muro , no qual se acha porta, ou janella , por 
cuja abertura vê o espectador o facto que da outra parte 
se executa. 



(55) Leon Battista Alber. Delia Pitt. lib. 2. pag. 28. 

(56) Descrizione di Roma Antica, pag. 469. Veja-se também, La 
Civil Convenatione. de Stefano Guazzo. Lib. 4. rev. de pag. 227. 



da Estatua Equestre. 199 

E eís-aqui o mais essencial préstimo das molduras, 
suppondo-se portas, ou janellas : porque não podendo o 
Artista , as mais das rezes , dar conta de tudo , com 
aquelle adornado artificio expõe o que he conveniente , 
sem se apartar da natureza : pois bem claramente se co- 
nhece que quem estiver em huma praça , não pôde ver 
todo o espasso de huma casa, só pela abertura da porta ; 
nem o que estiver dentro da casa (afastado da porta) ver 
todo o âmbito da praça: e por esta causa, quando o Ar- 
tista imagina acontecer o facto em salla , praça , ou jar- 
dim , etc. não pode, e muitas vezes não deve dar conta 
de toda a praça , jardim , ou salla. 

Deve-se também advertir, que estes relevados pai- 
néis de Escultura são de três espécies (57); que se po- 
dem denominar Alto-relevo • Meio-relevo ; e Baixo-relevo. 
Os primeiros , são aquelles cujas figuras são quasi insula- 
das , e destacadas do fundo do quadro. Os segundos, 
não destacão as figuras mais que metade do seu verda- 
deiro vulto : e os da terceira espécie , contém huma sa- 
cada muito deminuta ; circumstancia que os faz muito 
mais difíceis , pela força de desenho , que deve possuir 



(57) Está divisão lhe dá Vasâri. Fite de'piu cccell. Pitt. Scult. e Ar- 
th. Tom. 1. Cap. 10. O mesmo segue Lairesse. Le Gr and Liv. des 
Peint. Tom. 2. Liv. 10. Chap. 3. Falconet porém , distingue-cs só em 
duas espécies, V. Supplem. daEncyclop. Tom. 14. pag. 60. Parecem-me 
serem mais conformes ao que se pratica , e á razão as definições de Va- 
sâri , e Lairesse. 

li 2 



Cap. 

vu. 



VII. 



200 DesckipçXo Analytica 

1 o seu Author (5*8); e pela prática discreta com que de- 
* vem ser executados ; a fim de que os objectos facão a 
possível illusão de que tem todo o vulto, e não pareção 
recortados em taboa, grudada sobre outra superfície es- 
tranha. 

He contra a boa razão, contra o bom gosto, e con- 
tra a mesma natureza , que as três espécies destes qua- 
dros se empreguem indistinctamente ; e por isso deve o 
Artista considerar com seriedade o destino destas peqas 
(59) para conservarem o devido acordo com a Arquite- 
ctura ; sem faltar á verosemelhaça : na certeza porém , 
que os da terceira espécie , fingem ser desenhos releva- 
dos (60) ; e por esta causa tem o Artista mais liberdade 
na composição delles, admittindo a ficção de corpos de 
Arquitectura , com roturas por onde se veja o supposto 
ar; objectos distantes; paizes, etc. E nos desta qualida- 
de, nunca podem os objectos nelles representados sobre- 
por , nem interromper de modo algum , as molduras, 
que os cercão. 

Nos corpos de Arquitectura porém , onde for in- 
compatível suppôr janella , ou qualquer outra rotura, co,- 
mo v. g. em frizos , pedestaes , etc. , será indiscrição 

(58) Para isto , diz Vasari , che è necessário grandíssimo disegno* 
Lugar citado , pag. XXXV. 

(59) Vej. Lairesse, e Falconet, nos lug. prox. citados. 
(66) Le bas-rcliej .... n'est proprement quun desseinrehaussé. Cq- 

chin Voyag, d'Ical. Tom. ?. pag. 167. em a Nota. E no Tom. 1. des 
Ouvr. Divers. pag. 178. Mem. de M. Queswell. 



da Estatua Equestre. 201 

grande empregar os relevos da primeira espécie; e pou- 
cas vezes os da segunda : devendo suppôr-se o lugar da ^ 
Scena (segunio penso) quasi sempre , no mesmo sitio 
em que se achão esses painéis de total , ou meio-relevo: 
fingindo, que o facto em realidade ahi mesmo acontece. 
E nestes tem o professor franca liberdade para sahir fo- 
ra da moldura com braço, perna, roupa, ou qualquer 
outra parte dos objectos, que representa : mas também 
fica summamente prezo para representar nelles corpos de 
Arquitectura. E até pavimentos que escorcem lhes não 
admitte Vasari (61), dando boas razoes para isso: pos- 
to que algumas podem modificar-se. Nos da terceira es- 
pécie porém , concorda o referido Author nos pavimen- 
tos escorçados, fabricas, etc. E a razão disto he, fin- 
gir-se nos da terceira espécie, como se disse acima, se- 
rem desenhos relevados : o que se prova nas columnas 
Trajava, e Antonina ; cujos baixos-rekvos são como bor- 
dados em largas fitas, ou faxas , enroladas em torno das 
mesmas columnas de alto a baixo. 

Todas estas circumstancias , bem que muito atten- 
diveis, não he o Artista muitas vezes senhor de seguil- 
las na pratica ; porque humas occasioes não he arbitro do 
assumpto; outras deve sacrificar os seus talentos a huma 
cega obediência ; e outras a direcção da luz que recebe 
o quadro, em maior, ou menor grão de força, lhe fa- 
zem desprezar cousas menores , ou menos conhecidas, 

(61) Vasari, no lugar citado. 



202 



Cap. 

VII. 



DescripcXo Analytica 

■para attender ao principal effeito, no claro-escuro, que 
recebe o quadro : pois que a resolução de sometter par- 
ticularidades a effeitos grandes (62), he qualidade esti- 
mável em qualquer Artista. 

Ponderadas as sobreditas particularidades , passo a 
mostrar de que modo as satisfiz na Composição Gráfica, 
unindo-as com as que a esta pertencem ; no Capitulo se- 
guinte. 



(62) Cochim Ouvr. Diyers. Tom. 2. pag. 256. 



da Estatua Equestre, 203 



«-auosaa&szxvaaKSMM 



VIII. 



CAPITULO VIII. 

Da Composição Gráfica do B aixo -relevo , e mais cir- 
cumstancias da mesma peça. 

T 

J- Endo pois imaginado a Invenção Poética do Baixo- 
relevo , e contemplado as suas circumstancias , passei a ^ AP * 
desenhalla , pondo em ordem a Composição Gráfica: e sa- 
hindo este primeiro bosquejo da minha mão houve quem 
se intromettesse a presentar outro : porque os conheci- 
mentos destas Artes ainda se achão t5o pouco espalha- 
dos, que parece a muitos ser vedado aos Escultores ma- 
nejar o lápis (1); e ignorão que he injuriar hum Profes- 



(0 Pour faire en marbre ou en pierre une statue , ou quelque ani- 
ma) , 1'artiste commence par jeter sa pensée sur le papier ... après quoi 
il Y execute en terre-gíaise le plus exactemetu qu'il est possible d'après 
son dessin ...II est donc nécessaire que le Sculpteur possede parfaite- 
meni le dessin et qu'il connoisse bien les loix de la perspective. Lairesse. 
Le Grand liv. des Peint. Tom. 2. Liv. 10. Chap. 2. pag. 431. E Mengs. 
Tom. i. pag. 22i. diz. „ Questa digressione su la Scultura non è fuori 
di propósito , per cbè trattandosi di Disegno risahano in qnest'Arte il 
con^nw, e le forme , che sono ugualmente necessarie nella Pittura. Eis- 
aqui de que modo pensão os Artistas Sábios ; posto que o contrario jul- 
guem alguns a quem faltáo os estudos , e descemimento daquelles Mes- 
tres. Onde sevio bom Escultor sem saber desenhar? He impossivel. Bem 
que náo faça desenhos de miniatura. 



vnr. 



204 DescripçÃo Analttica 

sor querello sujeitar a debuxo alheio, depois de lhe ter 
p * confiado o desempenho de huma tal obra : assim como 
seria affronta para o Orador de quem se pertcndesse re- 
citasse Oração , que outro houvesse composto. Porém o 
Sargento Mor Rainaldo Manoel dos Santos, parcial sem- 
pre da razão, e da honra; e que por ser Arquitecto das 
Obras Públicas gozava de grande influencia neste parti- 
cular , concorreo para que não se adoptasse outro dese- 
nho, que não fosse o meu: e o mesmo teria feito a res- 
peito dos primeiros da Estatua, se a isso não obstassem 
circumstancias Politicas. 

No desenho que ardilosamente se quiz introduzir, 
seguio quem o deliniou , o meu mesmo projecto da Ge» 
nerosidade Regia , a Cidade cahida, porém com a d iff cren- 
ça , que o fundo do quadro continha o Arco Triunfal da 
Praça, com seus edifícios lateraes : o que logo pareceo 
huma espécie de pleonasmo insípido; e ser o mesmo que 
para dar a conhecer hum sujeito, expor o seu retrato no 
lugar onde existe o original em realidade. O Commercio , 
representava-o na figura de Mercureo\ cuja mistura de fa- 
buloso, e symbolico também não agradou (2); nem que 
a hum Príncipe Catholico ministrassem as Divindades 
Gentílicas ; idéa de que tem sido Camões por vários crí- 
ticos aceusado. \i pelo que respeita á Composição Gráfica 



(2) Lairesse também reprova este misto. Veja-se Lc Grâttà Liv. etc. 
nos lugares onde trata o modo de pintar os Sujeitos Fabulo»os, e osSym- 
bolicos. 



da Estatua Equestre. 20? 

do referido intruso desenho , igualmente não satisfez;" 
por serem as figuras muito pequenas, e os seus gruppos 
sem a liação devida (3). 

Entrando pois a cogitar na ordem , e economia des- 
ta minha composição , reflexionei cm ser todo o monu- 
mento colossal ; e que por este motivo devia engrande- 
cer , o mais que fosse possivel, as figuras deste quadro; 
ainda que nos baixos-relezos não ha obrigação de seguir 
a proporção das mais figuras do edifício (4) : porém sem- 
pre he justo attender-se a guardar em tudo a possivel 
analogia. 

A razão, a civilidade, e as lições dos Mestres que 
tem escrito da Arte, me havião persuadido, que o moto 
mais interessante da Acção deve oceupar sempre o meio 
do quadro, e neste sitio dar o lugar íruis distincto á Per- 
sonagem principal (5-); expondo-a ornais visível , e des- 
empedidamente que for possivel : e por esta causa dese- 

(}) Vendo M. Ccchin em Florença , e na Galeria do Gran-Duque 
hum painel de Albani , eis-aqui o que diz delle „ il y a de belles parties 

âans ce tableau mais il est mal cGmposé ; les figures sont parsemées , 

çtc. „ Coch. Voyag. ditai. Tom. 2. pag. 5. No mesmo Tom. vej. o fim 
da pag. 20. pag. 5J. e 65-. 

• (4) Vej. o que diz M. Ques^ell , citado por M. Coch. Ouv. Div. 
Tom. i. pag. 178. O mesmo Coch. louva huma composição de figuras 
grandes em pequeno espasso. Tom. 2. pag. 251. E lett. a un jenne Ar- 
tiste. Lett. 3. com o exemplo dos Caraches. 

(5) V. Watelet. VArte de Peindre. 3. Chant. Lairesse. Lq Grani 
Liv. etc. Liv.2. Cbap. 5. pag. 114. Dufresnoy. LArte delia Pitt. Preç. 
li. etc etc. 

Kk 



Cap. 

VIU. 



vnr. 



106 Descripç.Xo Analytica 

nhei a Generosidade Regia , vista de frente ; e cuido que 
' algum outro Actor mais. Porém advertindo ser huma por- 
ção de figura eliiptica pelo seu plano a superfice ém que 
se devia esculpir , e que a soíidez do pedestal , ainda 
mesmo no a p parente da mesma superfície, se não podia 
romper , nem alterar sem erro muito notável, conheci, 
que em planos taes , as Personagens postas de frente não 
podem deixar de parecer chatas, e como amassadas por 
algum corpo mais forte que as tenha esmagado. 

Esta consideração me fez passar a desenho segun- 
do, em que os Actores se vissem mais de perfil; e com- 
por de modo as actitudes , que os braços accionassem 
ambos para o mesmo lado: pois que nas superfices con- 
rexas em accionando cada braço para o seu próprio la- 
do, em ar de cruz, he inevitável o defeito referido. 

Para compor as actitudes, ponderei que a Persona- 
gem principal representava huma Virtude Regia , e que 
por este motivo todos os mais Actores devião mostrar 
moderação , e respeito ; segundo as intenções que hiáo 
alli mostrar ; dando a cada individuo o seu justo cara- 
cter, e cuidando em que tudo na Composição contribuis- 
se ao bem da Acção, (6) que alli se expunha ; fazendo 
qs esforços possiveis á minha ténue capacidade , pnra 



(6) Non-scakmcnt un Peintre ne doit rien faire entrer , dans svn su- 
jei qui ne conconre avec 1'action yrincipale de son tablcau-, mais il jaut 
que tout contribue à en augmenter encore la force et le caractere. Coy« 
l<.l. Diocours prononcezj etc. pag. 68, Paris, lyiu 



VIII. 



da Estatua Equestre. 207 

que logo á primeira vista se conhecesse (ao menos em 
ambrião) o facto (7) naquella scena indicado. \^ é 

Nesta representação , as figuras que devem expri- 
mir mais actividade são, sem controvérsia , a Generosida- 
de Regia , o Governo da Republica , e o Commercio : expres- 
sando essa mesma actividade por diverso modo em cada 
hum a , conforme ao seu caracter , sem exageração ; a 
qual he contraria á Natureza, e desagrada ás pessoas de 
bom senso, e gosto apurado (8). 

For estas causas desenhei a dita Generosidade com ò 
corpo magestosamenre direito , mostrando a sua activi- 
dade em estar em pé, e como que desce do Throno: a 
cabeça hum pouco voltada para a figura do Governo, em 
ar de falia* com elle ; indicando-lhe com a mão esquer- 
da o lugar da reedificação; e mostrando-lhe com adirei* 
ta afigura do Conr.nercio com as riquezas, que delle ema* 
não, sobordinadas á Providencia Humana, e Arquitectura y 
para dirigir-lhes o emprego, e execução da obra. 

Ainda que todos os membros do corpo ,• e até as 
mesmas vestes concorrão para a boa expressão (como já 
disse em outra obra), a cabeça, emãos, quando as suas 

(7) De Piles. L'Arte delia Pitt. di Dufresnoy, pag. 96. 

(8) Les expresúoens outrés etgrimacces qui pouvent frapper íamulti- 
tude , répttgnent a ceux dont le sentiment est epuré. Cochin. Ouvr. Div. 
Tom. 2. pag. 2c8. E na pag. 209. diz. „ li ne suffit pai qtCtme tete 
AU de Vexpression , /'/ faut encore que cette expression àit dela justesse et 
de lã nobksse. O mesmo he na> actitudes. Veja-se a Estampa desta pe« 
ça , no fim deste Capitulo, 

Kk 2 



Cap. 

TUI. 



208 DESCRIPqXo Analytica 

'actitudes se dirigem como convém, são as partes, que 
mais contribuem para a viveza das figuras. Da cabeça , 
diz Quintiliano, que „ em hum só sinal faz entender mui- 
tas cousas. Que o rosto chega a declarar-se melhor em seus 
modos que o discurso mais eloquente. Que as mãos mesmo f ai- 
Ião j e que a sua lingoagem he como huma lingoa universal 

Quando em Winckelmaim vi o modo com que descre- 
ve a Imagem de Falias , e como os sábios Gregos a re- 
presentavao, tive alguma complacência, por me parecer 
que não desconvem á maneira com que expuz personali- 
zada a virtude , que neste assumpto mostro no meu He- 
roe. Valias, (diz o referido Author) sempre virgem, Pal- 
ias a imagem do pudor virginal , livre de todas as fraquezas 
áo seu sexo , Palias que tem vencido o mesmo amor , tem os 
olhos pouco abertos , e moderadamente voltados. Ella não mos- 
tra a cabeça com orgulho : seu olhar he modesto , e baixo , co- 
mo huma pessoa oceupada de alguma doce reflexão (10). 

Se me não acho illudido pelo meu amor próprio 7 
parece-me , que tocLs estas circumstancias tenho expri- 
mido na figura da Generosidade Regia', e de que cilas não 
só a Palias , mas que á dita Virtude convenhão , julgo 
supérfluo provallo. 

Também fiz esta figura mais esbelta , e gentil que 



(</) Instir. Liv. ir. Cap. 5. 

(10) Hiuoire de l'Jrt. chez Us Ançi Tom. 1. da Trad Fancezâ a 
pag. 315. da Ed. já citada. 



da Estatua Equestre. 209 

as demais ; para que este accidente não faltasse a di-' 
signar a sua superior qualidade (11). 

Conhecendo , para as mais figuras , que o melhor 
meio de indicar as Personagens , qiie se introduzem , he o de 
fazcllas executar (12); (isto he, mostralks emmovimen» 
to) e que essa execução deve ter viveza conforme ápes* 
soa representada , e ao que se acha executando : conhe- 
cendo igualmente, que esta expressão de paixões se não 
consegue, mais que pelos movimentos do corpo, e ges- 
tos do semblante ; qualidades únicas de animar as figu- 
ras (13): e reparando ser a figura do Governo a mais at* 
tendivel em qualidade, e Acção; depois da Generosidade ; 
a deliniei mais movente, como encaminhando-se á Gene- 
rosidade , e com a cabeça brandamente voltada para a 
mesma Virtude , em ar de supplicar-lhe auxilio para le- 
vantar a desmaiada Matrona , symbolo da Cidade ; na 
qual com a mão direita, c parte dobraço, pega, esfor- 
çando-se para livralla do fatal accidente. 

E o Amor da Virtude, como he hum movimento da 
Alma , que nesta representação indica ser da Alma do 
mesmo Governo , he figurado em hum innocente , mas 

(11) 11 jaut de píus avoir soin de donner une plus grande beauté 
aux personages d' une nature supériore et de charger davantage ceux 
d'une nature commune. Lairesse. Le Grand Liv. etc. Liv. 2. Chap. 5. 
pag. 121. 

(12) Boileau. Tom. 5. Refl. sur Long. Refl. X. pag. 252. Ed. cita- 

03) V, CoypeL Disçours pron. ttç, pag. 15 1, 



Cat. 
viu. 



2IO D escripcSo AnalyTica 



judicioso menino (14) ; he hum Amor puro , discreto * 
socegado, e não hum travesso Cupido. Estas considera- 
coes me induzirão para lhe não dar actitude com mais 
despejo; e só a cabeça affectuosamente volta para o seu 
cliente, pcgando-Ihe com a mão direita no braço esquer- 
do, para o conduzir no empenho, que se tem proposto. 
Depois do Governo, a figura de maior actividade he 
o Commercio. O ter esta figura hum joelho no pavimento, 
e outro levantado, além de a variar das outras, a mos- 
tra mais movente do que se estivesse ajoelhada com am- 
bos ; e neste movimento, que ?e deve suppôr instantâ- 
neo, por estar cm acção, fica salvo o reparo, que se po- 
deria fazer de incivihdade , etc. E como alli se ache a 
dita figura subordinada á Providencia Humana ; para ella 
volta a cabeça em ar de fallar-lhe, e dizer-lhe; que of- 
ferece os seus cabedacs á Generosidade Regia. Conceito 
que bem se conhece na actitude em que se lhe vê o bra- 
ço direito , e a mão do mesmo braço aberta , designan- 



(14) Na Tragedia intitulada Athalia , pinta o seu Am. M. Racine, 
ao menino Joas , faltando como varáo instruido; e a causa declara o Poe- 
ta no Prelado da mesma Tragedia, dizendo: „ Aias quando se julgar , 
que excedi os limites , considere-se no mesmo tempo , que Joas he hum 
merino de índole extraordinária , c que fora educado no 'Templo, etc. Sc 
o Joas de Racine conserva a verosimilhança por ter índole extraordiná- 
ria , e ser educado , etc. com mais razáo se devem reputar verosímeis as 
qualidades que julgo no Amor da Virtude, posto que o represente deida- 
de muito menor , á que Racine suppóe no seu Joas» 



da Estatua Equestre. 211 

do com a direcção desta, e com estar aberta, a franqueza 
com que os condux aos pés do Throno. 

Segundo a degradação de actividade nestas Perso- 
nagens , tem o quarto lugar a figura da Providencia Hn- 
ir.ana. Ella attende o Commercio, e com o dedo pollegar 
da mão direita lhe mostra junto a si a Arquitectura , pa- 
ra seguir-lhe os projectos no material da obra, e em ar 
de lhe dizer , que pelas direcções daquella Arte se em- 
pregarão as sommas , que elle está offerecendo. 

Esta maneira de apontar com o pollegar , e não com 
o indice , tem dous motivos ; hum consiste em não ser 
tão vulgar, causando por isso mesmo alguma espécie de 
novidade : outro , he que ordinariamente usamos desta 
maneira de apontar, quando o queremos fazer como em 
particular , ou occultamente : mas he se falíamos com 
inferior, ou igual. E por esta caura, se a dita figura es- 
tivesse praticando com alguma das duas Personagens de 
maior authoridade , não a faria accionar daquelle modo. 

Ora , neste Drama Esculturesco (permitta-se-me 
chamar-lhe assim) ha dous diálogos ; hum, que he co- 
mo público, outro particular. No primeiro, são Actores 
a Generosidade Regia , o Governa da Republica , e o Amor 
da Virtude ; e por isso estas figuras se voltao reciproca- 
mente humas a outras. Os Interlocutores do segundo, 
sao o Commercio , a Providencia Humana , e a Arquitectura , 
que da mesma sorte discorrem entre si, ou assim se fin- 
ge- 

O dialogo segundo não deve interromper o primei- 



Cap. 

VIII. 



Cap. 

VIU. 



iii DescripçXo Analttica 

' ro; não só por ser da maior importância o que neste se 
trata , e he origem do que se lhe segue ; como por se 
achar ncl!e a Personagem mais distincta. E o serem dous 
os diálogos, náo dcstroe a unidade da Acção ; por que 
o segundo hc consequência do primeiro ; e se está dis- 
pondo a cooperar na resolução, que se toma no primei- 
ro. Eis-aqui mais declarado o segundo motivo de accio- 
nar daquelle modo a figura da Providencia Humana ; por- 
que falia mais em particular; em tom muito mais mode- 
rado ; para deixar sobre-sahir as deliberações da princi- 
pal Personagem , etc. 

A figura que representa a Arquitectura , posto que 
seja huma tão distincta Arte, não me deve cegar a pai- 
xão de Artista para deixar de conhecer, que ella , ain- 
da sendo tão precisa neste caso , he , não obstante su- 
bordinada a todas as mais Personagens deste quadro* 
por cuja causa he também a que fica mais posterior , c 
menos visível ; expondo porém , quanto permitte o lu- 
gar , o supposto papel em que mostra á Providencia a 
planta, em desenho, da nova rcedificação: circumstan- 
cia muito attendivel , não só por ser essencial do sujei- 
to, como para manifestar também o lugar da scena (15): 
do qual diz De Piles ser preciso com industria decla- 
rallo. E pela referida planta se vê , ser a scena em Lis- 



(15) L'Arte delia Phtura di Dufresfioy, Prec. 16. na pag. 55: e o 
Corrimento na pag. 1 50. Vej. Lairesse. Lç Crand Livr, des Pein. Tom» 
I. Liv. ?. Chap. ip. pag. 250. 



VIII. 



da Estatua Equestre. 213 

boa : para cuja declaração concorre também o escudo na 
figura da Cidade ', c a jóia que no peito prende o manto ' 
da principal Personagem. 

Consistindo toda a expressão das referidas figuras 
em hum certo ar de vitalidade, indicada nas suas diver- 
sas actitudes; na figura , que representa a Cidade, he pe- 
lo contrario : toda a sua expressão se encerra em mos- 
tralla sem movimento, languida , flexível , e em total 
delíquio. E por esta causa a desenhei como cm huma 
desamparada queda ; perdido o vigor das peinas, e ar- 
ticulações das juntas. O que se mostra tendo os joelhos 
dobrados , e as coxas unidas , com a mesma direcção, 
cada huma á sua perna ; como que na queda assentarão 
de pancada as extremidades do tronco sobre os calcanha- 
res dos próprios pés. O mesmo tronco sem consistência 
nas vértebras, clavículas, e escapulas ; flexível 2 qual- 
quer impulso estranho: e por isso o braço direito se lhe 
mostra em languidez total ; e o hombro mais elevado, 
pela força que alli faz a mão do Governo para levantalla. 

Esta figura he a principal na expressão do assumpto; 
posto que a Generosidade Regia o seja em qualidade , e 
Acção. Ella he o objecto a que se dirigem as beneficên- 
cias da Generosidade, e os anciosos cuidados do Governo', 
e este deliquio da Cidade he o que move toda a maquin3 
da scena : por essa causa a situei mais próxima que to- 
das á linha àà terra (16) , e aos olhos do espectador, 



(16) Ycja-se Lairesse. Tom. 1. pag. 114. e 115, A Tradução era 

LL 



214 Descmpçao Analytica 

para dr.r-lhc a conhecer loco no intróito o justo motivo 
* com que opera aquella Sublime Generosidade. 

VIII. ,ii 

Pelo que pertence d maneira de vestir estas figuras , 
segui a liberdade de Artista, em que julgao os de bom 
senso devermos ser muito livres (17), para não estragar 
o bom efreito com os caprichos loucos das modas: e co- 
mo toda esta composição he de figuras symbolicas , sao 
nestas asliccnqas muito mais amplas, que nos assumptos 
de historia realizada ; nos quaes se deve com effeito se- 
guir o uso do tempo das Personagens , em tudo o que 
não for totalmente contrario ao bom gosto da Arte : re- 
servando porém os assumptos Heróicos , para os quaes 
conservo a opinião, que deixo expendida no Capitulo se- 
gundo desta Descripção, a respeito do antigo uso Ro- 
mano, que nestas Artes sempre tem existido. 

Na figura que representa o Conmiercio , para evitar 



Trancez da tantas vezes eirada obra deste Authcr , pub!icou-se em Paris 
no anno de 1787, muito depois de estar este Baixo-reíevo no seu lugar, 
e no estado em que se acha. Em muitas ccjsas se encontrarão, ou uni- 
rão , as minhas com as suas idéas. No Cap. óo citado lugar se ve que 
elle concorda com esta deliberação da linha da terra , e em collocar a 
Personagem principal era alguma emminencia, 

(*7) 3 e crcls pouvoir avancer que ncus devem être três libres dans 
h cbeis de cc que notts croirens pouveir suivre dn coutume , et qtiil faut 
ccmcvver le droit de le rejetter, lors (j»'U ue s'allie pas avec les beautés 
que l'art a toujcurs droit et interêt de cbereber. Cochin. OEuvrcs Divo 
Tom. 5. pag. 2CO. Na pag. 171 principia hum Tratado sobre este as- 
sumpto : he belio, nelle vem a referida passagem , e outras que omiteo 
jDor brevidade, 



da Estatua Equestt. e. 21 f 

vestillo de cazaca , uso ingratíssimo a's Artes, me occor-' 
reo adornailo d maneira dos Antigos Portuguezcs ; não 
só por ser aquelle modo mais adaptado ao gosto do De- 
senho , como por ficar mais análogo ao uso em que se 
representa o Heroe do monumento ; rircumstancia tam- 
bém obrigatória de adoptar aquclia maneira de adorno 
pessoal; dando-ihe , pouco mais ou menos, hum vesti- 
do semelhante aos do nosso antigo tempo; e como Ca- 
mões pinta o de Vasco da Gama (18). 

Dividi esta composição em três principaes gruppos, 
supposto que elles se possão subdividir em mais. O pri- 
meiro, comprehende a Generosidade Regia , o Governo da 
Republica , o Amor da Virtude , e a Cidade \ cem seus sym- 
boios. O segundo , contém o Conimercio , a Previdência 



(18) Lusíada. Canto 2. Esr. p8. Achando-se nesta Cidade, Viajan- 
te, hum Nobre Estrangeiro, se dignou procura r-me ; porque vendo aquel- 
le Monumento, quiz cambem communicar o seu Artista: neste colloquio 
me perguntou „ que motivo me induzira para vestir o Cammerció da- 
qttclle modo , e para introduzir alli este Actor ? E respondendo-lhs o que 
deixo referido no texto , e em a Nota 52 do antecedente Cap. 7. , me 
lepíicou dizendo, que „ se não conjormava com o meu sentir, visto que 
es Poriugtiezes nunca ferao muito commerciantes. „ Porém outros Estran- 
geiros pensão , e conhecem diversamente. Eis-aqui o que diz outro náo 
menos Sábio, e Folitico. „ La bauie considératioti ãont U (Portugal) a 
joui dans 1'Europe , par V habilite de ses Commcr^ans ; les Portugãh ónt 
fait les principales dccottvertes du, nouveau A4or.de , ils on$ eu dans 
leurs tnains tcut le commerce des Jndss , ils rvnfermoknt dans hur port 
de Lisbone le magasin general de 1'Europé. Le Politique Danois, paj;. 
Ipi. Copenha. 1756". 

LI 2 



Cap. 
viii. 



li 6 DeschipcXo Analytica 

Humana , a Arquitectura , e seus disrinctivos. O terceiro, 

^ AP# as duas columnas do Throno com parte da cortina do 
Viií. 

Pavclhão, seus degráos, e mais resto do Feristyllo: as- 
sim como, em plano diverso, e como em distancia , hu- 
ma porção de outro edifício separado; o qual se vê por 
hum como entrecolumneo, ou entrevallo do Peristyllo. 

Tive particular attenção em que estes gruppos sâ 
unissem huns a outros , sem affectaçáo , nem tumulto; 
e que esta mesma ordem guardassem as figuras de cada 
hum delles entre si (19) : na certeza de que he defeito 
grande scparallos, e que da sua união resulta no quadro 
a boa harmonia : e posto que o artificio desta união me- 
lhor se declare na estampa ; esse conhecimento he só 
manifesto aos Artistas, e Conhecedores já instruídos nos 
preceitos da Arte: por esta causa direi mais algumas pa- 
lavras aos principiantes, e amadores menos versados. 

A liaçao, que tem o primeiro gruppo com o tercei- 
ro , he a mais clara, e menos artificiosa; por estar a fi- 
gura principal executando a sua heróica Acção sobre o 
mesmo Throno, que faz o terceiro gruppo: o pé esquer- 
do planta, e faz a sua firmeza no degráo segundo; o pé 
direito ainda encosta no terceiro degráo ; mas já como 
resvalando delle : e as outras três figuras , como todas 

(19) Commentando De Piles o Prcc. 12. de l' Arte delia hitt, de 
Dufresnoy , e comparando a composição com hum concerto de Musica 
diz „ Lo stesso aviem delle Figure ; se si uniscono in medo , cbe l'una 
sostenga, e serva a far comparir 1'alíra, e accordandosi insieme faceira* 
un spl luto , çtç. pa^. 112. e seg. 



da Estatua Equestre. 217 

encobrem parte do mencionado Throno , isto concorre 
para conseguir-se a liga. O artificio com que estes dous 
gruppos primeiro, e terceiro , se unem ao segundo, con- 
siste na balaustrada, que passa posterior a todas as per- 
sonagens ; oceupando o vácuo de ar entre os dous grup- 
pos das mesmas, unindo-as assim humas a outras; e no 
cotre da figura do Cemmercig , que encobre huma glande 
parte do primeiro degráo do Throno , para melhor se 
formar a sobredita liação. E o edifício em outro plano, 
e que com o Peristyllo, e Throno fazem o fundo deste 
quadro , une-se com os mais corpos pelo referido modo. 

Desejo não ser prolixo ; porém como não escrevo 
p2ra os Artistas completos (20), em favor dos seus tra- 
balhos devo declarar aos outros grémios mais algumas 
particularidades , que aos Professores são assas laborio- 
sas; e para as quaes ordinariamente se olha sem conhe^ 
cimento, nem attençao alguma; e como para cousas in- 
significantes (2 1) , ou de nenhum trabalho. 

Nas composições de Arquitectura tudo se derige á 
igualdade; e em deixando os seus corpos de ser confor- 
mes, e perfeitamente semelhantes, perde o todo muito 
da sua belleza. Na Pintura, e Escultura (neste particu- 

(20) Fu deito con leggiadria , cbe sarebbano felici Y Avú , se diquel- 
le giudicassero i soli Artejici. Lamindo Prit. > ou Moratori. Rifes, sopra 
il Buon Gusto. P. 1. Cap. 6. pag. 177. Nápoles. 1755. 

(21) li jãut avoir éprouvé les diffeultes du talem pour juger dti 
mente quil ya ales surmonter. M. Cochin. 0£uvrcs Divers. Tom. 2. ás 
pag. 218, para 210. 



CaP. 
VIII. 



2l8 DESCRIPqXo Analytica 



Cap, l*r) he todo o seu valor a variedade. As fisionomias, as 
vur. actirudes , a disposição dos gruppos , os arranjamentos 
das vestes , a collocação de accessorios, deve tudo ser 
diverso , e posto como ao acaso ; sendo esta sabia , e 
bella desordem pata as nossas composições , hum dos 
seus melhores efieitos ; pois que todas ellas participáo 
do cnthusiasmo Poético (22). Se o não consegui, fiz de- 
ligencia por acertar o alvo, sem faltar ao decoro, e ao 
sublime do assumpto. 

Em outro lugar já deixo ponderado que na Pintura , 
e Escultura se deve evitar, quanto for possivel , a repe- 
tição de linhas parallelas (23); ou sejáo horizontaes, ou 
verticaes : e como esta repetição seja indispensável nos 
corpos d'ÁrcjUÍtectura , quando estes se introduzem nas 
composições de Pintura, ou Escultura, precisa o Artis- 
ta interromper essas parallelas, com arte , sem mostrar 
Arte (24). 



(22) Chez elle un beau désordre est urt effct de Vart. Boileau. Art 
Poet. Chant. 2. vers. 72. Ao iratar da Ode. Outro Sábio diz : „ La Pein- 
ttire, la Sculpture tons !es arts , que dis-je> la nnture méme nous Jottr- 
tút une ttifinhi d^exemples de ces bcureuses irrégularités. Essai sur le 
Beau. Ch3p. 1. pag. 52. Paris. 1741. 

(2$) Cap. 1. desça DescripcÃo, no lugar da Nota 14. 

(24) D\iiileurs , Von ne bannit lout ce qui sem l'Art, que par des 
traits inimitables dei' Art méme. Cela paroit dam lesOuvrages des Pein» 
três et des Sculpteurs. Leurs Chefs d'OEnvres sont d'autant plns par- 
jaus , quils attrapent de plns prés la Nattire 5 ils Vattrapcnt d^atitant 
plus , que l'Art y disparou dayantage ; mais (t sont les plns grands 



VIII. 



da Estatua Equestre. 219 

As parallelas verticaes dos dous corpos d'Arquite- 
ctura , ne^e Baixo-relevo , são interrompidas pela corti- 
na do pavelhão 5 cabeça , braço esquerdo , e corpo do 
Governo - y aza direita do menino; braço esquerdo, e ca- 
beça da Generosidade \ assim como bustos, e cabeças das 
duas matronas, que estão juntas. A interrupção das pa- 
rallelas horizontaes , acha-se na lança, capacete, e ra- 
mo de oliveira do Governo ; papel que tem nas mãos a 
figura da arquitectura ; mão direita, e cofre do Commer- 
cio-, cujo cofre, e parte da figura da Cidade interrompem 
as parallelas dos degráos doThrono. Outras interrupções 
ha que se pedem conhecer pela declaração das mencio- 
nadas. 

Sobre o conterem , ou não escorços as composições 
do Desenho, he ponto controvertido entre os nossos Au- 
thores : porém na Pintura são inivicaveis; e também na 
Escultura, quando esta se emprega em medalhas, e ou- 
tros relevos de tão pouca sacada como este de que fallo. 

Na Pintura , rigorosamente , he tudo escorçado;, 
porque o escorço não he outra cousa mais que fingir o 
vulto , e extensão, que não ha (25): e na Escultura, he 
fingir muito mais do que ha. Porém não são estes os es- 
corços geraes, (por assim dizer) que huns louvao, oa- 



coups de Maitres qui le font disparoítre et qui Ie cachem. Gibcrr. La. 
Rhetori. second. Disc. pag. 42. 

(25) Fallando Palommo cios escor ços , lhe dá huma definição mais e& 
tensa. Muito FUtor. Tom. 2. Lib. 4. Cap. 8. pag. 22, 



-J20 DescripçÃo Analítica 

■ tros condemnão; mas sim os mais violentos; que o seu 
^ AP * effcito se assemelha mais , ou menos ao que produziria 
numa unha iecta , se a podessemos ver pelo seu topo; 
em cujo aspecto não veríamos delia mais que hum pon- 
to. 

Destes, diz Mengs, e Palomino, que os Pintores 
prudentes os evitao o mais que lhes he possível (26). 
Falconet, igualmente condemna empregarem-se nos pri- 
meiros planos dos Meios-rclevos , especialmente destacan- 
do para fora as extremidades dessas partes escorçadas 
(27) sentimento judiciosissimo, e que não tem contra- 
djçáo alguma racionavel. 

Porém ainda mesmo aos desta qualidade (em Pintu- 
ra) não se oppôe Vasari , dizendo, que, sendo huma das 
maiores difficuldades da Pintura , dizem mal delles os que não 
os sabem executar; que Bucnarrcti os fez melhor que ninguém ; 
e que isto procedeo da prática assídua que teve da Escultura 

(28) ' 

Air. Cochin diz, que os escorços não agradão ao com- 
mum dos homens , aos quaes he dijficil o concebellos. Porém 
com tudo , elles são huma singularidade d? Arte ; pois que a 
difjiai Idade vencida , se deve ter at tenção com ella (29) • 

(26) Opere di Ant. Rafael. Mengs. Tom. 2. pag. 246. Mmeo Pict. 
lugar citado. No fim da pag. 2 3 , recommendando que especialmence se 
evitem na figura principal, etc. 

(2-) V. Suppl. da Encydop. Tom. 14. pag. 69. 

(28) Fite de'piu eccelltrai , etc. Tom. 1. pag. XLVI. 

OjO Ltttrts 4 un Jiutiç Artiste. Leu. 3. pag. 41. ,' 



da Estatua Equestre.' 221 

O certo he, que em Pintura, e nos Baixos-relevos , 
nao pode fazer bom movimento figura alguma que não escor- 
çar algum de seus membros', como diz João de Arphe (30). 

Neste Baixo-reJcvo , evitei quanto me foi possível os 
escorços violentos : elles não se achão mais que em duas 
partes; que são, o braço direito do menino; e o esquer- 
do na figura da Cidade : e nesses mesmos lugares procu- 
rei adoçar-lhes, ou disfarçar-lhes a violência ; interrom- 
pendo o escorço do menino , com o braço esquerdo da 
figura do Governo ; e o da figura da Cidade, com as do- 
bras do seu próprio manto , que voltão sobre o sangra- 
douro do mesmo braço. No resto , são tudo escorços, 
niais, ou menos moderados. Os corpos d'Arquitectura , 
e o pavimento, são escorçados; por estarem em Perspe- 
ctiva: cujas leis dominão sobre as mesmas figuras huma- 
nas, brutos, e mais corpos, nesta circumstancia de es- 
corçado, e outras. 

Quanto á Perspectiva , persuado-me , que os Pinto- 
res , e Escultores devemos usar delia nestas composi- 
ções , e ao tempo de as arranjar , da mesma sorte que 
se pratica nos Dialectos das Lingoas ; que ao tempo em 
que se fallão ninguém recorre aos rudimentos , e regras 
Gramaticaes; servindo-Ihe unicamente de guia o frequen- 
te uso. 

Assim mesmo fiz nadelineaqão deste quadro; e de- 
pois de o ter arranjado todo em ambrião-, e de ter atten- 



(30) Varia Conmcnsuraçion. Lib. 2. Tir. 4. pag. 41. 

Mm 



Cap. 
viii. 



Cap. 

VIU. 



122 DescripçXo AnalyTica 

dido ao principal do assumpto he que reduzi os corpos 
de Arquitectura aos preceitos da Perspectiva, tendo mais 
vigilância na desejada harmonia do todo , que na exac- 
ção daquella parte em particular : da qual diz Carducho, 
que „ a experiência , e prudência nos ensinão que desse rigor 
(em seguir a Perspectiva exactamente) sahirião maiores 
inconvenientes ao sentido visivo , por que se fariao figuras , e 
histerias deformes, etc. (31). 

Seguindo pois, nos corpos de Arquitectura , a di- 
recção das linhas , que ao arbítrio havia lançado, a in- 
tercecçao das concorrentes , e diagenaes me indicarão o 
ponto de vista , cousa de dous palmos fora do quadro, 
da parte da figura da Providencia ; e passar pelo cinto 
desta ígura , e pela cova das clavículas do menino , a 
imaginaria linha horizontal. 

Lairesse dá indícios de querer , que o lugar do- ha* 
rizonte seja hurna das primeiras cousas em que nos oceu- 
pemos ao tempo de compor (32). Não me parece rmío 
o systema ; posto que o nao praticasse assim, como aci- 
ma digo. Mr. Cochhiy pelo que diz de Ti cia no, Paulo 
V^roncz , c outros, mostra enclittar-sc a que os horizon- 
tes sejão baixos para apoderem (diz clle) dar jogo as- 
composições , pela variedade da grandeza das figuras , ficando 



(31) Vincencio Carducho. Diálogos de Ia Pint. Dial. 5. pag. 68- 
Vcja-se também De Piles no Comm. a UArte delia Pitt. di Dufresnoy T 
de paj;. 107 até 109, que segue o mesmo. 

(32) Le Grami Liv, etc, Tom. 1. Liv. 2. Chip. 3. pag. 114*. 



da Estatua Equestre. 223 

&s anteriores sempre âomhumtes (33)5 isto lie, maiores que' 
as outras : e reprova no Tintoreto , e Bassano , terem 
usado horizontes elevados. Porem , ha vários casos em 
que as excepções se permutem. 

Posto que a dita degradação das figuras se consiga 
cm hum, e outro systema, não me desagrada a opinião 
de Cochin , se o painel contém diversos planos: porém 
quando, como este meu, não tem mais que hum, onde 
as figuras se achão juntas, e tocando humas cm outras, 
eu julgo (sem dicidir), que assim como o ponto de vis- 
ta se imagina , ordinariamente , na altura dos olhos do 
espectador, (ainda que na realidade o não esteja) assim 
o horizonte se pode bem collocar na altura dos olhos das 
Personagens de maior proporção que ha no painel ; ima- 
ginando-se estas plantadas na linha da terra do mesmo 
quadro. Porém isto não he regra infallivel : o caracter da 
composição, as circumstancias visivas, o bom gosto da 
Arte, e hum judicioso descernimento he que devem guiar 
o Artista neste, c outros casos. 

Tendo mostrado os caminhos que segui nesta com- 
posição , e não querendo oceultar (em beneficio da mo- 
cidade) as quedas que nelies dei \ declaro, que no se- 
gundo corpo da Arquitectura tive a idéa demostrar prin- 
cipio da reedifkação. Porem esta idéa , refiectindo-se 
bem, não se conforma com a representação das Persona- 
gens. Estas , ainda estão deliberando ; ainda não se mos- 

00 Letttr. à m ^eme 9 ttc. pâg. 55. 

Mm 2 



Cap. 

VIII. 



Cap. 
Vlll. 



224 DESCRIPqXo Analytica. 

■ tra completo este acto deliberativo, ordens passadas, 
etc. Como lie pois verosímil , ver-se naquelle accessorio 
já com adiantamento, a execução, se a deliberação ain- 
da se acha em acto ? Confesso com sinceridade , que 
errei. O meu erro, não obstante, ainda tem admirável 
remédio , visto não estar a peça concluída. (*) 

A maior obra da nova Cidade , se ordenou ser no 
mesmo sitio que d'antcs era; bem que totalmente diver- 
sa: pois mutile-se mais aquelle accessorio; ponha-se ena 
forma que mais pareça ruina da Cidade antiga , do que 
principio da moderna; tire-se-lhe o mastro de cabrestan- 
te , que indica manuzeação d'obra : e como o dito mas- 
tro não se acha alli só por este motivo , mas também 
por attender ao equilíbrio do quadro , pode muito bem 
transtormar-se em outra cousa , visto ser o relevo tão 
baixo. Desta sorte concorda tudo , e fica mais enérgica 
a actitude com que a figura da Generosidade mostra o lu- 
gar da existência antecedente , para que alli mesmo se 
torne a levantar de novo. 

Mostrar a Cidade personalizada, e indicalla n^outro 
plano, per meio de corpos inanimados, a muitos parece* 
rá redundância ; porém nesta grande obra não se enovou 
só o material j o Politico tomou igualmente bem di ver- 



(*) Como depois de estar escrita esra Descripção tive ordem de aca- 
bar aquelle Baixo-relevo , neste acabamento lhe fiz as correcções todas efe 
que íallo. Veja-se a N. B. no fim do Cap. VI. desta «ema. 



($4) Veja-se a obra intitulada : „ Memorias das principaes FrovideiU 
cias que se derão no Terremoto , ctc. por Amador Patrício de Lisboa. 

(^5) Este boceto, e o desenho que enráo fiz, náo excedem a medi- 
da de hum palmo : e limitei-me a tão pequeno espaço para poder cora 
mais facilidade illuminallo todo com a pequem luz de hum rolío de ce- 
ra j vendo-me precisado a trabalhar de noute , sem embargo de ser no 
tempo dos maiores calores do verão. O segundo modelo , tem de alta 

p. 4 J. : de largo recto , p. 3 _ : e pelo convexo , p, 4 i, A 

ioi 10 k 101 

moldura da pedra , de vivo a vivo inteiro , tem de comprido, p. r$ J, • J a 

z 

largo recto, p. 11 1 : c pelo convexo, p. 12 2. . Porém estas medidas- 
10^ 10 

em porções de círculos náo se podem combinar exactamente com as re- 
ctas , como sabem os Geómetras: e ocaso náo pede mais individual cer- 
teza. O relevo deste quadro na pedra, e nas partes de maior sacada, náo 
excede meio palmo. 

(;6) Tôsso , termo de que se usa nestas Artes para explicar hum* 
configuração grosseira , que pende para aná. 



VIU. 



da Estatua Equestre. 225* 

sa face (34): e eis-aqui a questão dicidida , e o motivo 
deste projecto. ^ Ap * 

Para este quadro , não me foi possível fazer mais 
que a Invenção Poética , a composição cm desenho ; e mo- 
delar em barro o primeiro boceto (35). Deste se passou 
a outro modelo maior, que fiz executar por mão alheia, 
e me sahio hum pouco tôsso (36), ou pezado. A pres- 
sa , a lida , e a confusão em que se fazia esta obra , não 
deo lugar a correcções ; pois se cuidava menos em per- 
feição que em collocar-se, fosse como fosse : desgraça 
das Bellas Artes , que não deixa de continuar. Porém j 



2i6 DescripcXg Âkalytica 



"■', achando-se ainda este Bdixo-rckvo só desbastado , se eu 

chegar a finalizallo , espero corregir os descuidos men- 
VIII- . . 

cionados ; e quando não , fiquem advertidos para quem 

lhe der o ultimo complemento (37). Reflectindo porém, 
que as fíguras não devem ser todas de igual proporção, 
e gentileza, ha precisão de attender ao caracter de ca- 
<3a hurr.a. 

Deixando acima demonstrado, reputarern-sc os Bai- 
xos-relevos desta espécie por desenhos relevados , deve- 
se também suppôr, que o panno, papel, ou pergami- 
nho em que se desenhou, ou bordou, foi depois sobre- 
posto naquelle massiço convexo, que ao mesmo desenho, 
ou panno, em o seu total , communicou aqueila forma 
de porção cilíndrica 9 e que tirado fora daquelle sitio, e 
posto em huma superfície nivelada em todo o âmbito, 
que oceupa, tomaria figura plana. 

Assim o desenhei , como se a sua superfíce fosse em 
plano recto: e os contornos assim delineados, os passei 
ao plano convexo , da mesma sorte sem alteração algu- 
ma. Assim o modelei , e assim se executou no mármo- 
re : de sorte , que as pessaas que o observarem no seu 
lugar , com qualquer pequeno movimento em torno dei- 



(3-") No modelo de gesso , e no próprio mármore desta peça , que 
já completei , fiz todas as correcções de que acima digo precisar : pdlétil 
na Estampa vai do modo que tem estado exposta ao Público , para não 
en^nar o Leitor , e para não desdizer a narração do que ha tantos annos 
»e tem visto na obra executada 



VMr 



da Estatua Equestre. 227 

fó , acharão o mesmo effeito que offcrece a Estampa 
XVIII. (38) ; a qual não exponho com n convexidade, ^ AP 
que tem o mármore , por causa do péssimo effeito que 
no desenho farião os escorços que a mesma convexidade 
produziria (a) não os havendo no mármore : e até seria, 
em certo modo, enganar os espectadores, que não virem 
o próprio monumento : quando em tudo pertendo não me 
aífastar da verdade, ainda na menor circumstancia ; ten- 
do sempre os olhos fixos nella desde o principio desta 
escrita. 

Ingenuamente affírmo estar persuadido, que não te- 
nho desempenhado com perfeição, os preceitos que dos 
grandes Mest/es deixo indicados, e outros que volunta- 
riamente omitto ; porque não escrevo huma Arte (coma 
já disse em outro lugar) ; porém mostro que não traba- 
lhei ás cegas, e só por efíeitos de hum leigo , e puro 
mecanismo ($<))) como tem certamente julgado a maior 

(}3) Adverte-se, que este painel, na Estampa, he proporcionalmen- 
te mais largo do cjue se acha na pedra : porém a causa he, porque se ex- 
põe como pergaminho desenrolado em plano recto; enáo como sobre-pos- 
to no seu massiç/o convexo. 

(a) O que diz Paradosso (de Perspectiva) na pag. 20, declarando a 
2/ fig. da pag. 21 apoia esta minha deliberação. 

' (?9) Diz Mengs : os que tem mais mecânica do que sciencia , são 
grosseiros imitadores da Natureza. Op. di Ant. R. Mengs. Tom. 1. 
pag. 1^5. E na pag. antecedente deixa dito que as Circumstancias da Ar- 
te , não se pedem adquirir sem bom talento , -e juízo ; nem faltando cer- 
tos estudos , que de algum medo sabem fora dos limites da s. rte. Cito 
a Edição Italiana. 



izS DescripçXo Analyticà 



■ parte dos meus espectadores, que suppõem serem asAr- 

• tes do Desenho de fácil accesso, e não conhecem acx- 
tensão (*) de espirito, e vastidão de estudos, que exi- 
ge qualquer delias. 

(*) Náo ignoro que Filosoficamente se deva applicar á matéria , e 
pão ao espirito o predicado extensão. Porém ao nosso Idioma sáo muito 
familiares as frazes, e metaphoras, asquaes em Rhetorica tem bom aco- 
lhimento. 







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ída Estatua Equestre^ tiy 



C A P I T Ufe|* IX. 

Em que se dá htma breve noticia da fundição da Estatua 

Equestre , retoque do bronze , e do effeito visivo 

da mesma Figura dentro do fosso 

em que se fundio. 



N. 



Ão era só no Laboratório da Escultura das Obras 
Públicas , onde os desvelos , e operações andavão em 
contínuo ehoque ; na Casa da Fundição de Artelharia , 
destinada para fundir-se acjuella Estatua, erão também 
sem interrupção as diligencias para completar-se esta 
obra ; que não obstante a sua grandeza , fazia-se maior 
em ser a primeira, que deste género em Portugal seexe- 
cutava. 

O hábil Engenheiro a quem secommetteo esta fun- 
dição, bem costumado a dar sempre cabal conta das in- 
cumbências de que havia sido encarregado , vendo-se 
nliuma empreza de tanto empenho do Ministcrio , e 
gosto da Nação , não podia afrouxar da actividade que 
possue; tendo para isso génio efficaz, e espirito honra- 
do : e havendo-sc-lhe dado para a brevidade , e pressa 
na Fusoria , as mesmas recommendações , que se me ha- 
vião feito a respeito de Escultura , em quanto a de mar- 
inore se executava , foi elle dirigindo as manobras con- 

Nn 



Cap. 
ix. 



Cap. 
IX. 



230 DESCRIPqXo Analttica 

venientes para se fundir a de bronze : cogitando os meios 
mnis adequados para conseguir-se com perfeição , e bre- 
vidade : e a seu respeito passo a huma pequena digres- 
são, que sem violencj^me ha de tornar a introduzir no 
assumpto. 

Pela Inauguração desta Real Estatua , por affecto 
de Vassalo, e também por obedecer aquém podia man- 
dar-me (1) , fiz huma Ode (2) em louvor do Augusto 
Protótypo da mesma Estatua; e na Strophe 22, digo, 
Oh quanto brilha a mole Magestosa 
Com a Effigie , em que o bronze se enriquece l 
Obra a mais primorosa 7 
Que a Fundição conhece j 
Fonte da viva chama , 
Que do Costa, pelo Orbe ex tende a Fama, 



(r) O Conselheiro da Real Fazenda Joaquim Ignacio da Cruz Sobral 
encáo Fiscal das Obras Públicas, positivamente me ordenou fizesse alguns 
versos para aquella funçáo ; dizendo que visto a minha curiosidade ter-me 
conduzido ao Parnaso , não deixava de ter algum sabor 7 ver-se que no- 
Estatuário do Soberano havia. 

Para cantallo, mente ds Afusas dada; 

Para cfjigialio, pulso ao cizel feito. * Veja-seCam. Lusk Cant, 
10. esc. ^5. 

(2) Para não faltar á verdade, e declarar circumsrancias que jul^o pre- 
cisas , fallo já segunda vez em ter feito aquelles versos ; sem me entrar 
11a idéa o desvanecimento de ser Poera ; pois no caso que o tivesse , bas- 
taria para humilhar-me a seguinte sentença. „ Un Sonnet, une Ode, une 
Elegie, hn Rondeau et tous ces petits vers dont on fait souvent tant de 
huit } tve som d'ordinaire que des produçtions tomes purés de Vimagina* 



da Estatua Equestre. 231 

E para declarar a pessoa a quem alli pertence oap-' 
^pellido Costa , ha huma Nota que diz. „ O Brigadeiro 
5j (agora Tenente General) Bartholomeo da Costa , ho- 
„ niem raro, que a Mão do Omnipotente quiz produzir 
j, para gloria da Nação Portugueza ? merecedor de que 
„ todos se empenhem em louvallo ; eu o espero fazer 
„ em obra mais diffusa ; atrevendo-me a dizer , (sem 
? , temeridade) que entre os maiores louvores que se lhe 
3 , derem a este respeito , não devem os que eu proferir 
j, ter o menor lugar; porque tenho mais razões para co- 
3 , nhecer o primor com que a Fundição exprimio tudo 
3 , quanto a Escultura fez. „ 

Esta Nota he huma prova muito forte de que já na- 
quelle tempo me havia deliberado afazer apresente Des- 
cripção, que me conduz ao termo de cumprir a promes- 
sa que fiz então ao Público , de louzar em obra mais dif- 
fusa aquelle benemérito Patricio. Porém de que modo 
satisfarei eu este empenho , depois de o terem louvado 
naquelle tempo tantos Engenhos , que em talentos , e 
instrucções , me são muito superiores? Não seguirei es- 
ses Sábios Panegyristas , faltando-me forças para remon- 
tar tanto os voos ; voltar-me-hei para a verdade , que 
pintando-se nua , se mostra que na falta de adornos con- 
siste a sui belleza. 

tion. Un esprit superjiciel avec mn peu (Vmage du monde , est aipablc 
de ecs ouvrages. I J . Kapin. Reflexions sur la Poeti. Refl. 3. A esta sen- 
tença, não ha de falrar quem ache distincçóes, e contradições : a meu 
respeito porém 3 acceuo-a como ella se expõe á primeira vista, 

iNn 1 



Cap. 
IX. 



Cap. 
IX. 



17.1 DescripçXo AnalyticÀ 

■ Na multidão de versos, e algumas prosas que 3ppa~ 

recerão na festiva Inauguração desta Real Estatua sobre 
e»te assumpto , muitos de seus Authores chama'rão Es- 
tatuário da mesma Estatua ao nosso reeommendavel En^ 
genheiro, pela ter fundido; cuidando ser isto o mesmo 
que fazella , e que deste modo oelogiavão. Eu me com- 
padeço de se haverem enganado taosolemnemente aquel- 
les Literatos ; sendo conduzidos a este desar pela falta 
de conhecimentos (3) das Artes do Desenho. Os louvo- 
res,, quando contém cousas que não ha no sujeito, não 
lhe mostráo a sua luz, antes lha eclipsão (4). O nosso 
Engenheiro he hum Campo muito fértil , donde se po- 
dem tirar muitas palmas y muitos louros , muitas flores 
para lhe tecer capellas , sem os ir mendigar a terreno 
alheio. Deile, neste particular, póde-se dizer o mesmo 
que Jacinto Freire disse a outro respeito do grande D. 
João de Castro , que tem por escusado furtar honra quem 
sabe ganhalla (5) . Em o nosso hábil Tenente General se 
verifica este conceito : elle nunca repugnou mostrar ás 
pessoas que vão áquelle Arsenal , o meu modelo grande 
da Estatua (que ainda existe), nem occultou em tempo 



(0 Qnaad on parte de ce qu'on tte connoit pas bien, cn par te mal» 
JL«mi. Entret. sur les Scien. Discur. sur la Philos» pag. 27-v 

(4) 1 Paitegirici , cbe fa certa gente di Custo conoto , sono veri bifr 
limi nel vocabulário degt intendenii. Muraior. Rifiess. sop. il Buon Cmsí, 
Par. 2. Cap. 3. pag. 51. Ed. de Nápoles. 175^. 

(5) Fida de D. Jjaão de Castro. Liv. ^. pag. 510* Ed. de Paris. 
#759* 



da Estatua Equestre. 233 

algum o nome de seu Artista. A conservação deste mo- 
delo , (6) a franqueza com que se mostra , são provas 
indubitáveis da generosidade com que este honrado Va- 
rão não quer absorver em si o mérito alheio , sendo o 
dito exemplar o mesmo que sérvio para se tirar sobre 
elle a forma em que se fundio a cera, que depois (per- 
mitta-se-me a expressão se transformou em btonze, pe- 
lo methodo que em resumo fica declarado no Capitula 
V* desta Descripçao ; onde também deixo ponderadas 
as circumstancias, que a respeito de forma, fazem hon- 
ra ao Sábio Director delia: matéria que também toco no 
Capitulo III. desta obra. 

Como a fundição desta Estatua foi a primeira que 
se fez em Portugal , e a leitura da Historia , e monu- 
mentos das Artes não tem aqui muito séquito , ignorava- 
se o bom êxito das fundições que lhe precederão (7); 
por isso agitou em todo o Reino hum grito universal no 
Público , parecendo-lhe este lance impossível (8) : po- 

(6) Para se conservar o dito modelo, e mostrar-se illeso das manchas 
que lhe infundio a composição oleosa com que se costumáo banhar para 
tirar-se-lhe a forma , se lhe tem dado , de tempos em tempos algumas de- 
rráos de cal. Esta operação que lhe conserva a brancura , entupe-lhe va- 
rias partes , e destroe-lhe o gosto do toque tal , ou qual, com que foi 
modelado. Fique isto advertido aos intelligentes da Arte , que ainda o che- 
garem a ver. 

(7) Ordinarixirtente as emprezas que se parecem, tem suecessos seme- 
lhantes. Diz Aristot. no liv. i. Cap. a. da Rhetor. 

(8) Les idées de diffeile, de bardi, tiennent de prés a celle du mer~ 
VCÁUçhx , et en imposent beauecup 4 la multitude et sur-tout à aux qní 



Cap. 

IX. 



Cap. 

IX. 



234 DescripçXo AnalyTica 

rcm pnra as pessoas , que conhecem estas cousas a fun- 
do , e sabem que depois de ter M. Boffraud escrito , e 
publicado o systema , que para este artefacto descubrio 
M. Ketter , ficou sendo de fácil accesso a qualquer cu- 
rioso de resolução, c senso concertado ; por cujo moti- 
vo não he a maior prova dos talentos de tão hábil sujei- 
to : para muito mais he a sua capacidade, e corr.prehen- 
çao ; qualidades que não devo individuar, para não me 
expor ao mesmo que deixo censurado nos que lhe chama- 
rão Estatuário: pois não falíundo conforme, e dignamen- 
te dessas qualidades, não deixaria de ser irrisório o meu 
discurso (9) . 

Pelo que toca porém á fundição da Estatua , maté- 
ria em que com mais conhecimento de causa posso fat- 
iar, cila he, sem questão, a que tem sabido mais com» 
pleta: muito limpa, muito exacta, e especialmente sem 
fenda alguma , em que excedeo as precedentes. 

Nesta manobra , huma das cousas de não pequena 
ponderação he o esqueleto , ou armação de ferro , que 



connoissent peta les Jrts. Discurs sur le Gout .... lú a 1'Acade. Roya, 
des Scien. et Beiles-Ler. de Naney. Pag. 12. Nancy. 1778. 

(9) Qj<elo , cbe nuoce assaissimo alie Materie , etedia di troppo o fd 
tidere i Savi Lettori , si è il mettersi a trattare certi argomenti , e a vo* 
ler torto decidere , qnantunqne non sabia oniuna, o sujji ciente pruwisio* 
tte deTrincipi , cbe pur sarebbano necessari a quel tale bisogno. Nel cbe 
mi sia leciío di dire , cbe non solo peccano Giovani mal'csperti , ma ezi- 
andio Uomini provetti nelle Cattedre , e nelle Sctiole. Murato. KitÚ. sopr. 
il Buon Ciusto. Par. 2. Cap. 7. de pag. 108. para 109. 



da Estatua Equestre. 23 f 

fica dentro do bronze; do qual se tira depois certa quan- 
tidade : e collocar esta armação de modo que precisa- 
mente fique no seu justo, e devido lugar, he ponto de 
muita importância, e diffículdade, e para que se precisa 
vigilantíssima cautella ; o que bem desempenhou o nos- 
so hábil Engenheiro : para cujo fim , antes de se forja- 
rem no ferro as peças da referida armação, construio hu> 
ma espécie de compasso sobre o modelo grande , no 
mesmo (ou semelhante) quadrilongo de que me servi na 
construcção do mesmo original de estuque (10). Porém,' 
o instrumento dimensorio imaginado pelo Engenheiro 
para tomar as competentes medidas , tendentes ao refe- 
rido fim , posto que originário do methodo , que usei , 
era mais artificioso , e complicado. A grade rectângula 
de todo o comprimento do Cavallo era fixa ; e dentro 
desta havia segunda grade quadrada , dentro da qual se 
achara huma terceira grade também equiangula , todas 
graduadas; sendo moveis a segunda, e terceira: deser- 
te que a segunda, dentro do rectângula grande, e fixo,, 
movia-se ao arbitrio de quem manobrava pelo compri- 
mento do mesmo rectângulo: a terceira, também como 
queria o operário , se movia dentro da segunda grade 
de hum para outro lado ; descrevendo estes dous movi- 
mentos sempre ângulos rectos , e em tanta quantidade,, 
€ diversos lugares quantos erao os pontos , que se que- 



Cap. 

IXr 



(10) O uso do rectângulo, ou quadrilongo que me sérvio no modelo^ 
fica declarado no Capitulo V. desta Descripçáo. 



Cap. 
IX, 



236" DfiscRipqXo Analytica 

■ rião notar para extrahir as medidas , que se perten- 
d. ao. 

Esta grade terceira , trazia em si huma regoa per- 
pendicular, graduada; na qual andava hum arame gros- 
so , que na mesma regoa descia , e subia , para que a 
ponta deste arame fosse tocar na superfície do Modelo 
o lugar , de cuja situação se queria notar a certeza •, á 
maneira da regoa deflnicoria de que faço menção no Ca- 
pitulo VI. , quando trato da execução do Buixo-relevo 
de mármore. 

Com este bem imaginado instrumento dimensorio, 
ideado pelo Tenente General , conseguio elle forjarem- 
se exactamente as peças , que precisavão deste recu r so 
na dita armação de ferro , e collocarem-se nos seus res- 
pectivos lugares com toda a certeza (11). 

Organizado pois , e fixo este esqueleto de ferro, 
no fosso onde a Estatua se havia fundir , seguio-se fa- 
zer-se no mesmo esqueleto o macho da fó^ma , por di- 
recção do mesmo Engenheiro , e incrustado com as ce- 
ras o dito macho , fiz os últimos reparos ás mesmas ce- 
ras, como já disse no Capitulo V*j acabados os quacs, 

(n) A narração que faço deste instrumento, náo fie individual, por- 
que deve ser feita peio seu Author. Naquelle tempo lhe propuz em va« 
rias práticas , que á imitação dos Francezes escrevesse huma Descripçáo 
dos seus trabalhos nesta empreza. Jul^o que até agora náo tem cuidado 
cm tal ; e para omittilla terá talvez motivos , assim como eu os tenho 
para escrever esta. Se ainda se deliberar a escrevella , então verá o Públi- 
co bem individuada a narração do bello instrumento sobredito. 



IX. 



da Estatua Equestre. 237 

passou o Tenente General a dirigir a ultima forma, que = 

havia de receber o bronze liquidado; feita de certa com- " 

posição de vários barros , e outros mistos a que os Fran- 
cezes chamao Potêa. 

A referida composição principia-se a usar tão liqui- 
da, que ao pincel, ou com brochas, he que se vai dan- 
do sobre a cera, até se achar em certa grossura; e co- 
mo sem estar secca huma demão se lhe não deve dar 
outra, e as taes demaos são em grande quantidade, pa- 
ra tomar a competente grossura , antes de se lhe appli- 
car a mesma potêa de outro modo mais farto, isto faz o 
trabalho muito longo ; especialmente manobrando-se 
dentro de hum fosso , onde por falta de ar agitado se 
demora muito mais a humidade : porém a perspicaz in- 
dustria do Tenente General , achou meio (sem lhe pre- 
ceder exemplo) para remediar esta falta (12). 

Elle fez com que no fosso girasse continuamente 
hum vento artificial , quente , e secco ; o qual dirigia 
aos lugares onde a obra o precisava : e deste modo ven- 
ceo a difficuldade em seecar-se a forma sem perigo , e 
em brevíssimo tempo; continuando, e dirigindo as ma- 
nobras todas, sempre com acerto, até chegar o arrisca- 
do instante porque esperão com susto o Fundidor, e Es- 



(12) He providencia que julgo invenção total do nosso Engenheiro. 
As duas obras que tratáo das Fundições das Estatuas Equestres de Luiz 
XIV. , e Luiz XV. , não fazem menção de hum tal invento j nem do 
instrumento dimensorio referido acima. 

Oo 



238 DescmpçXo ànalyticà' 



Cap. cultor no acto da fundição ; pois este momento decide 
ix. com satisfação , ou desgosto dos desvéllos em que os 
dous Agentes se tem esmerado. 

Em i$ de Outubro de 1774, vio Portugal pela pri- 
meira vez, fundir-se huma Estatua Equestre collossal de 
hum só jacto. Quando se fundio a de Luiz XV. para 
Paris, forão muitos os espectadores que assistirão a este 
acto ; no qual vendo-se, que o metal havia deixado to- 
talmente vácuo o lugar da sua liquidação, e se introdu- 
zira todo no que lhe estava destinado; e sendo isto hum 
prospero indicio , o Fundidor M. Gor , anmmciou ser o 
suecesso feliz , deitando o seu chapeo ao ar, e gritando , viva 
o Rei , segiúo-se logo dar- se tiaquelle recinto huma dei carga 
de morteiros , para no mesmo ponto espalhar esta agradável 
noticia na Capital , que toda se encheo de contentamento (13). 

Na fundição da nossa Estatua porém , não concorre- 
rão estas circumstancias : não houve descarga de artelha- 
ria nesta acção, nem outro algum apparato público; tal- 
vez porque a moderação Portugucza não costuma osten- 
tar nas suas emprezas; contentando-se com exccutallas sem 
fazer delias alarde. Poucas pessoas assistirão, ;í excepção 
dos interessados naempreza: mas não faltou a honrar es- 
te acto o Excellentissimo Ministro de Estado Martinho 
de Mello e Castro, levado pela sua judiciosa, c inves- 
tigadora curiosidade , e do zelo que tinha de que esta 

00 Descrip. des travaux qui ont précédé .... la fonte en bronze 
4'un sçh! jçt la S tatue £q, de Lonis XV. Chap. 10. pag. no. 



da Estatua Equestre. 239 

Nação fizesse progressos nas Sciencias, e Artes. E ven- — — 
do todos que ao tempo de achar-se o forno vácuo , se p# 
via a forma cheia do metal, que clle pouco antes encer- 
rava, se encherão de geral gosto, e alegria. 

Para o bom êxito de huma fundição destas , alem 
da intelligencia , e precauções com que desde o princi- 
pio devem ser dirigidas todas as manobras, que neíla se 
empregão , deve o seu Chefe ser dotado de resolução, 
e presença de espirito ; para soccorrer prompto as casoa- 
lidades contrarias, e repentinas , que quasi sempre acon- 
tecem. Na fundição da sobredita Estatua Equestre de 
Luiz XV., para Paris, se vio accommettido M. Gí>r, no 
acto da fundição de hum temeroso, e repentino obstácu- 
lo (14) de que elle, não obstante, cantou a victoria. Po- 
rém no acto da fundição da Estatua do nosso Augusto 
Soberano , teve o Fundidor Portuguez que vencer dous 
de diversa natureza, e ambos de igual perigo: o que lhe 
faz, a respeito do lance de M. Gor , o triunfo duplica- 
do. (*) 

(14) Veja-se a Discrip. des travaux , etc. acima cit. no dito Cap. 
pag. 109. 

(*) Náo he fora de propósito declarar aqui o pezo da Estatua de que 
trato. Para ella se fundir, se deitarão ao forno seiscentos cincoenta e seis 
quintaes e meio de bronze : e tirados os gitos , e todos os sobejos , de- 
pois de pezados estes , se vio terem ficado na Estatua quinhentos quintaes 
do dito bronze. A armação de ferro , que ficou interna , pezou cem quin- 
•taes ; e por esta conta se vê , que o seu pezo total , entre ferro , e bron- 
ze são seiscentos quintaes. Estas declarações me deo o Director desta? 
manobras. ■ • 

Oo % 



Cap. 

IX. 



240 DescripçXo Analyticà 

' Havendo-se pois interposto o tempo, que se preci- 

sava para se coagular , c esfriar o metal , se tirarão as 
terras da cova em que a figura se fundira , e desfazen- 
do-se a forma appareceo a Estatua como se estivesse no 
centro de hunia arvore de bronze, por causa das ramifi- 
cações dos gitos, que a circundavão ; e neste estado se 
deixou ver a muitas pessoas. 

Depois da manobra da extracção das terras, e tira- 
da da forma, segue-se (como em effeito seseguio) cor- 
tarem-se os gitos ; para o que se precisa tanto cuidado 
como se declara na Descripção da Estatua de Luiz XV. , 
ende diz „ não consentirão se tirassem em quanto não estive- 
rão totalmente cortados , para que nos puxões que causaria $ 
corte incompleto se não alterasse cousa alguma a perfeição do 
Ei cultor • c que nenhum tempo foi mais bem empregado que s 
que nisto se gastara (15). 

A referida Estatua de Luiz XV. foi eizcla-da em lu- 
gar separado daquellc em que foi fundida ; a nossa po- 
rém , reparou-se no mesmo fosso: e sobre esta operação 
de serem , ou não cizelados semelhantes monumentos, 
ha varias opiniões, que passo a declarar para instrucção 
dos principiantes, c satisfação dos curiosos. 

M. Boffrand confessa , que, sendo acera bem reparada., 
sabe o metal tão limpo como a mesma cera ; e por este motiw 



(15) Cap. II. pag. iíi. Eis-aqui como os intelligentes attenctem , t 
zeláo , o que toca á Escultura , por ser o essencial da obra. Esta passa* 
gem , no original he roais extensa. 



IX. 



da Estatua Equestre. 241 

se pode dispensar o cizelar-se ; porém que não obstante he mais ' 

a propósito retocar-se a cizel , para lhe dar nova graça , e ^ AP » 
correcção ; e para lhe decidir , ou firmar os contornos (16) . 

Ainda que respeito os estimáveis talentos de M. 
Boffrandy não lhe acho toda a razão neste discurso : i.° por- 
que não he só do bom reparo da cera que procede sahír. 
bem impresso, e limpo o metal, na fundição : 2. por- 
que o cizelar não pôde para os intelligemes, dar-lhe no- 
va graça , e correcção , a não ser cizelada pela mão do 
Escultor, que fez o modelo; tendo elle pratica de cize- 
lar : 3. que esta operação do cizel não pode firmar 7 
nem decidir contornos em figuras de tal grandeza. 

M. Pigalle foi de opinião diversa na Estatua Pedes- 
tre , que do mesmo Soberano fez para a Cidade de 
Rheims; resolução que assas lhe louva M. Cochin, lamen- 
tando terem cizelado a que fez M. Bonchardon para Pa- 
rts (17) : e não obstante para esta operação escolherão 



(16) Boffr. Discr. de ce qui a été pratique pour jonâre en bronzs 
d'un seul jet la Fig. Eq. de Louis XIV. Chap. 12. pag. 58, Esra passa- 
gem de Boffr. , também aqui vai resumida. 

(17) Tratando M, Cocbin da maneira do trabalho, a que os France- 
zes chamão Le faire , e elle ( com todos 0$ bons Artistas ) reputa , quan- 
do he magistral , huma das maiores bellezas da Arte , diz deste modo : 
Cest ce jaire en fn , qui détruit par le lime et le ciselet , dans la belk 
S tatue du Roi par M. Souchardon , lui a fait perdre un des principaux 
wkrites , qui l'tut jait admirer par la postérité , et que Aí. Pigalle a 
eu le courage de conserver dans le beau momtment quil a jait pour la 
ville de Rbeims. OEuvres Diverses. Tom. 3. de pag. iyj 3 para 2 ^3» V©? 



IX. 



14* DESCRIPqXo Analytica 

hum dos melhores cizeladores , (ou lavrantes) que para tal 
p# obra havia naquetta Cidade , ( onde os ha óptimos , com 
estudos de Escultura) subordinado , ainda assim, aos olhos , 
e direcção do Escultor ; não perdendo de vista o modelo , ;t- 
jkxumando nelle a cada instante , e recebendo do Escultor as 
úteis advertências ( 1 8) . 

Na Estatua Equestre de Frederico V. em Copenha- 
gue , he que se acha o toque do seu próprio Author; por 
ser M. Sally o mesmo que a retocou, ou cizelou no bron- 
ze (19) : e com tudo isso eu não creio, que esse toque 
se ache na execução do cizel com tanta franqueza , e 
gosto como estaria no modelo , e se veria no bronze, 
sntes de cizelado, sendo a Estatua bem fundida ; e isto 



ja-se aqui a Nota 24 do Cap. 6.,eJ Traducçáo desta no Suppl. Veja-se 
também no Cap. 10 , a Nota/, explicando a palavra Toque. 

(18) Le sieur Gastelier , reconnu pour un des meilleurs cielcurs en 
cuivre que notts eussions , etoit celui dont on avoit fait eboix pour repa- 
rer Vouvrage et le tnettre , en travaillant sotts les ycux et sous la dirc- 
ttion de M. Boucbardon , dans l'état de perjection cu cc Scu'pteur 
lavoit amené dans son excellent modele. Descrip. destravaux, etc. Chap. 
12. pa£. 127. E na pag. 1 $2 , Le ciseleur ... ne perdan point de vue 
le modele, et le consultam a chaque instant, recevant les avis útil es de 
l'habile Sculpteur et s'y soâmettant , etc. 

(19) J'ai encore poussé plus loin mon zele pour la perjection dumo- 
tiument , en travaillant moi-même à la Statue de bronze , c'est-a-dire , 
tn reparant entiérement toutes les chairs et en retouch.in la plus 
grande pvtic du reste ; de sorte que contre 1'usage ce bronze se trouve 
avoír la toucbe mème de son anteur. Sally. Suite de la Descr. pag. 16 
cm a Nota (g) . 



da Estatua Equestre.. 145 

por dous fortes motivos : i.° a grandissima differença 
que ha da brandura do estuque á dureza do bronze , o 
cual não pode o cizel domar , e correr por elle com o 
mesmo desembaraço, e senhorio com que asespatulettas 
operão no estuque : 2. não ser provável ter o Escultor 
em cizelar pratica tão extensa , e magistral como em mo- 
delar. 

Se eu da minha própria mão tivesse inteiramente 
feito o Modelo grande em estuque , e a meu arbítrio es- 
tivesse dar-lhe, ou não o retoque de cizel, faltando-me 
essa prática , poderia talvez inclinar-rne a deixar a Es- 
tatua sem ser cizelada ; posto que me não faltarião op- 
posiçoes , e censuras j mas erão mal fundadas , pelos mo- 
tivos ponderados : porém como a pressa me obrigou a 
servir-me de muitas , e diversas mãos em ajudar-me na 
dito modelo , isto fez com que não tivesse esse toque 
original , que teria , sendo modelado unicamente pelo 
Artista , Chefe da mesma obra. 

Para se reparar, em Hm, esta Estatua, tomei nova- 
mente conta delia para dirigir-lhe o retoque ; o qual se 
fez pelos artiíices empregados nas officinas do Arsenal 
dos Exércitos , onde a Figura se achava , sobmettidos 
porém , á minha correcção , e advertências. Os que se 
oceupárão neste retoque forão em número 83, dos quaes 
hum só era Escultor, aggregado ao mesmo Arsenal; su- 
jeito de muito boa habilidade para esta, e outras Artes, 
E como neste mesmo tempo me achava com a Escultura 
<ie mármore , e náo podia assistir actualmente ao reto- 



Cap. 

IX, 



Cap. 
IX. 



244 DescripçXo Analítica 

que do bronze , visitava todos os dias a obra até que se 
completou; cujo trabalho se fez em 63 dias. 

Em 15 de Maio de 177^ , foi Sua Magestade, en- 
tão Reinante , ver a sua Estatua ; e acompanhado de 
sua Real Esposa : e como a Figura se achasse ainda no 
fosso onde havia sido fundida, e retocada ; para facili- 
tar a descida ao mesmo fosso , se havia construído em 
torno delle huma rampa de madeira ; cujo corrimão, e 
paredes do fosso , decorarão com damasco encarnado 
desde o nível da Casa , onde principiava a rampa , até 
o plano do fosso: e todo este âmbito estava guarnecido 
com luzes , para que Suas Magestades podessem ver 
com individuação todas as particularidades daquella obra , 
sem cuja illuminaçao houve quem se persuadisse não po- 
derião perceber-se , faltando no sitio a luz natural para 
patenteallas : cujo systema de illuminar não foi de meu 
gosto (pelos motivos que adiante mostrarei) mas que 
não estava a meu arbitrio evitar, segundo as circumstan- 
cias occorrentes. 

Chegando Suas Magestades á Casa da Fundição, 
se dignarão com effeito a descer pela rampa , acompa- 
nhados de alguns Fidalgos, a fim de verem a seu gosto 
a figura toda ; e neste lance tirei, com afflicção, huma 
prova dos effeitos que eu esperava, e que faz a luz mal 
dirigida ; especialmente quando cahe sobre corpos de 
superfície polida. 

Em torno da beca do fosso se havia levantado hum 
parapeito de quatro palmos de altura , pouco mais ou 



da Estatua Equestre. 245* 

menos para evitar algum precipício; e neste lugar fiquei 
observando o que se passava em quanto os Augustos 
Espectadores se divertião em ver a obra. 

Poucos minutos depois ouvi dizer, á Serenissima Rai- 
nha , estas palavras : O rosto da Figura esta horrendo. Que 
assalto para o Artista que o havia dirigido , e feito o 
exemplar ! Com tudo , não me soçobrei inteiramente ; 
lembrando-me de o ter louvado muito Sua dita Mages- 
tade , quando o vio em barro no segundo modelo , e 
igualmente ao vêllo em estuque no modelo grande ori- 
ginal do bronze : e vendo eu que na fundição se não ha- 
via alterado cousa alguma , nem no reparo do bronze se 
lhe dera toque algum , que eu não dirigisse , e appro- 
vasse, conheci, que do lugar, e da direcção da luz he 
que procedia aquelle máo efíeito. Esperando então os 
Soberanos ao sahir do fosso , pedi ao Excellentissimo 
Marquez Estribciro Mor , declarasse a Sua Magestade 
o motivo daquelle máo eífeito , o qual havia mudir ven» 
do-se de sitio competente, em tendo outra luz; e ainda 
mais em o bronze perdendo o lustro com que se achar 
va : cuja declaração , me certificou o dito Excellentissi- 
mo, haver já feito, e de que achei a resulta no Benigno 
agrado com que Suas Magestades me facultarão beijar- 
Ihes as Mãos, 

Para declarar pois aos principiantes, e curiosos me- 
nos versados , as causas daquelle máo effeito , oue aos 
olhos da Rainha offereceo o rosto daquella Figura, de- 
ve-se advertir, que em qualquer Estatua, he pelo todo 



Gap. 
ix. 



2^6 DESCRipqXo AkalyTica 

(e especialmente cm partes que represcntáo carne) a sua 
superfície composta de alternadas porções mais, e menos 
concavas, e convexas. 

Peias leis da reflexão da luz (20) sabemos, que to- 
do o corpo iliuminado (especialmente sendo polido) re- 
flecte, e com ângulos iguaes, os raios directos que em 
si recebe do luminoso (21). 

Em todas as proposições que neste lugar exponho, 
deve-se imaginar sempre ser polido, e iliuminado o cor- 
po de que se trata. 

De qualquer ponto do corpo luminoso sabem innu- 
meraveis raios de luz para todas as partes (22). E se in- 
cidem oblíquos , e vão topar em superfícies planas , os 
reflexos , que sahem de cada ponto , sao divergentes, 
(23), ou se cspalháo. Mas , os que sahem de difreren- 
tes pontos do corpo luminoso, e incidem , ou ferem os 



(20) A difficuldade que o P. Monteiro achou em definir a natureza 
da luz , obri:»ou-o a dizer , que a lição de todos os systemas dos Filóso- 
fos nesta matéria o fez conhecer, que na luz todos somos cego*. Tom. 2. 
Opr. Schol. 1. pa?,. 6. E nesta sentença talvez concordem todos os que 
náo se obstinarem pela certeza de algum particular systema. 

(21) Mont. Catoptr. Observ. 2. na pàg. 6í. Almeid. na Recr. Fi- 
los. Tom. 2. Tard. 5. §§. 2., e 5. Da reflexão da Luz. Vej. tsmbern 
Tom. 1. Tard. 3. §§. 5., e 6. Das leis do movimento reflexo. E Tom. 
4. Tard. 18. pag. 100. 

(22) Mont. Opt. Coroll. 4. na pag. 15. Tosca, Tom. 6. Opt. Prop. 
32. do Liv. 1. na pag. 52. 

(2$) Tos. Catoptr. Theore. 1. do Liv. 2. na pag. 267. 



da Estatua Equestre. 247 

planos parallelos , fazem que os raios da sua reflexão ca- 
minhem também parallelos (24). 

Quando os raios directos (que são os que sahcm do 
luminoso) encontrão superfícies planas , reflectem com 
ordem ; e quando cahem sobre superfícies concavas , e 
convexas , he o cffeito da reflexão com desordem (25) j 
pcsto que sem alterarem a igualdade nos seus ângulos 
de incidência , c reflexão : e esta desordem na reflexão 
até faz variar as cores no objecto (26). 

Os raios directos , que sahindo do luminoso encon- 
trão obliquamente superfícies convexas , voltão , ou re- 
flectem divergentes; isto hc , apartando-se (27): e quan- 
to mais esférica for a convexidade , maior será a diver- 
gência (28) ; encontrando-se com os olhos do especta- 
dor em muitas mais partes (29) por onde este vague. 

Pelo contrario, os raios, que despedidos do lumi- 
noso incidem obliquamente em superfícies concavas, são 



(24) Tos. Catoptr. Theore. 2,. do Liv. 2. pag, 269. 

(25) Tos. Opt. na Dam. do Probl. 14. do Liv. 1. pag. 28. 

(26) Ahi mesmo. E na Prop. 1 $ diz que a cor be a mesma luz mo m 
■dijicada ; dando por exemplos a pedr.i preta , e areia , moídas ; a tinta , e 
agoa feitas em escuma , etc. Mas os exemplos que nos indica Tosca in- 
clináo a pensar, que a modificação mais esteja no objecto que na luz: c 
este sentir , cuido se confirma nas experiências de Newton. Vej. a sua 
Opt. Liv. I. Par. 2. Exp, i. a , e 2. a 

(27) Alm. Recr. Filos. Tom. 2. Tard. 5. pag. 2,7. 

(28) Tosca, Tom. 6. Catopt. Theore. 2,. na pag. 2536. 
(20) Alm. Recr. Filos. Tom. 2. Tard. 5. pag. 38. 

Pp 2 



Cap. 
ix, 



Cap. 

IX. 



248 Descripcão Analytica 

na sua reflexão convergentes (30): isto he, venvse unir 
todos a hum ponto a que chamão/eVe, em certa distan- 
cia do corpo , que reflecte: e quanto maior for o segmen- 
to da esfera , ou quanto menos esférica for a convexida- 
de, mais distante será o seu foco (31). 

Os raios de luz reflexa , trazem em si , até certa 
distancia, quasi a mesma intensão de íuz que de si des- 
pede o luminoso (32). 

Ora, quando em qualquer corpo ha humas porções 
avançadas outras recolhidas , as avançadas he que estão 
expostas a receber maior somma de luz ; e as porções 
recolhidas ficão em sombra , ou só participão de luz re- 
missa (33): e como o claro-escuro nos corpos he que di- 
cide á vista os sallientes , e intrantes dos mesmos cor- 



(}0) Ahi mesmo 3 pag. 40. Vej. também Tom. 4. Tard. 17. 

(2,1) Tos. na Catop. Prop. 5. do Liv. 4. pag. 313. 

($2) A luz , na sua reflexão posto que se debilite (Alm. Recr. Fi- 
los. Tom. 2. pag. 85.) se o ponto da incidência reflexa, náo dista exce3* 
si vãmente do ponto da sua radiação , parece que até o ponto onde incide 
o raio reflexo , leva a mesma força , ou pouca menos , do que aquelli 
com que sahe òo luminoso. Consta da experiência : porque em nos50s 
olhos , tanta , ou quasi tanta impressão nos faz o raio directo despedido 
do luminoso , como o reflexo repellido do ponto radiante , onde aquelle 
inciJío; sendo o corpo lustroso, v. g. vidro, agoa, etc. A graduação da 
debelidade que tem a luz na distancia , mostra Makbranc)ye , Recher. 
Ma Vérité. Tom. 4. Eclaíre. surTOpt. num. n. pag. 427. Paris. 1772. 

(}$) Finei. Trai. delia. Viu. no fim do Cap. 80. Cap. 2,27. , e a 
terceira advertência do Cap. 332. Vej. também Tosca naOpt. Prop. 36, 
37, 38, etc. 



da Estatua Equestre. 149 

pos, incidindo o luminoso cm partes, que deveriáo ficar' 
em sombra, e reflectindo essas partes a luz intensa, que 
recebem, lhes faz parecer o relevo, que não tem, con- 
fundindo asapparencias todas: o que forçosamente ha de 
sueceder pelos motivos ponderados* e ainda mais multi- 
plicando-se os luminosos. 

Sendo pois tantos fenómenos da luz contra o bom 
effeito da visáo , para se evitarem todos estes obstácu- 
los ; deve o luminoso ser hum só ; grande, pouco potente, e 
collocado em lugar alto (34) ; porque a illuminação debai- 
xo para cima não só troca os efeitos , pela opposicâo 
que faz á Natureza, mas até àifficulta conhecer os semblan- 
te (3?)* Epara o espectador perceber melhor o objecto, 
que examina , deve achar-se mais da parte do raio da inci- 
dência , que daquella do raio de reflexão (36). Pois de tal 
modo pode incidir a luz , que faça os objectos deformes , e vá- 
rios (37). 

Além das mencionadas circumstancias pelo que per- 
tence á luz , ha outras que não deixão de ser muito at> 
tendiveis a respeito da situação em que se acha o espe- 



ca) Vinci. Trat. etc. Cap. 41. 

(^5) Ahi mesmo. Cap. 279. 

(*;6) Ahi mesmo. Cap. 280. 

(;7) Alberti, delia Pittura, pag. o. E De Piles, Ediç. já eirada, 
diz que para illttmhiar os objectos he preciso escolha ; e que nella consis* 
te o artificio do claro-escuro. Cours de Peint. pag. 371. Esra escolha náo 
he menos importante á Escultura: e nesta he mais difficil o conseguir-se 5 
porque nem sempre he (como na Pintura) ao arbitrio do Artista, 



Cap. 

IX. 



Cap. 

IX. 



2^0 DescripçXo Analytica 

1 ctador , para perceber bem o objecto que pertende ver. 
Para o que, assentando em que a visão procede median- 
te a impressão que nos olhos fazem os raios reflexos, 
que sahem do corpo iliuminado (38), claramente se co- 
nhece , que esses raios formão huroa pvramide visiva , 
cuja base he a superfície do objecto, e o vértice da py- 
ramide na pupilla (39) ; onde os raios extremos da pv- 
ramide fazem bum angulo , que dicide o tamanho do 
objecto (40) . E sendo , pelo commura , o ponto de vis- 
ta mais próximo , o que representa o objecto de mais 
grandeza, por formar angulo maior; podem, não obstan- 
te , aehar-se dous pontos em taes sitios , que do mais vi- 
sinho pareça o objecto menor que domais distante (41). 
Esta pyramide máxima, que nos seus raios extremos 
comprehendc todo o objecto , he totalmente cheia de 
outras pyramides menores (42), que sahem de cada hu- 



($8) Alm. Recr. Filos. Tom. 4. Tard. i<S., e 18. 
(30) Regnault. Entretiens Mathema. Tom. $. Êntr. 6. pag. 83. n. 
92. Ediç. de 174?. Paris. 

(40) Mont. Opt. CoroII. 1. pag. 42. Alm. Tom. 4. Tard. 17. pag. 

(41) Regnault. Emr. Mathcm. Tom. 3. Enrr. o. Probl. 2. na pag. 
148. e Prop. 7. na pag. 150. em cuja Piop. , bem considerada , se en- 
contra a mesma causa que no Problema antecedente. 

(42) Títue le qualitd d'e cor pi cbe noi veggiamo, e tutte le superfí- 
cie , creano una pirâmide sola, pregna per modo di dire di tante pirâ- 
mide minori , quante sono le st*perjicie che mediante quella veduta son 
comprese da'raggi di deita veduta. L. B. Alberti. Traí. delia Pitt. lib. 
I. pag. ia. 



da Estatua Equestre. i$ i 

ma das partes desse tedo : e quando quem ve se acha ' 
em sitio tal , que a visão da pyramide máxima lhe faça 
máo effeito, o mesmo ha de ser com as pyramides me- 
nores, que se encerrao dentro da pyramide máxima. 

Deixando porém essas pyramides menores , como 
identificadas naquella que abraça todo o objecto , se os 
raios extremos desta formarem angulo de 6o gráos , fa- 
rá boa visão , e he o angulo mais a propósito ; posto 
que o de 5c gráos também he bom, ainda que náo tan- 
to (43)- 

Já o angulo de 70 gráos não he para desejar : o 
recto, pecr : e os obtusos, péssimos; á proporção dos 
gráos que medirem. Tudo consta , e se demonstra no 
lugar citado. De que se conclue que o angulo visivo de- 
ve achar-se entre os 60, e os 50 gráos, com pouca dif- 
ferença. 

Para mostrar pois , que a Estatua Equestre ( sujeito 
desta obra) não podia ser vista em ângulos competen- 
tes, no lugar onde foi fundida; na primeira, e segunda 
figuras da estampa XIX. (*) exponho dous espaccatos, 
ou cortes do fosso, mostrando oafig. i. a , a largura del- 
le ; suppondo ver a Estatua pela frente: na fig. 2. a , o 
seu comprimento ; suppondo ver a Estatua de lado. A, 
C; B, D; mostrão a altura da cova em ambas as figu- 



(43) Tose. Tom. 6. Trat. 19. de la Perspect. Lib. 2. Prop. 2. pag, 
145. 
(*) A referida escampa vai no fim do Cap. X. 



Cap. 

IX. 



Cap. 

IX. 



25*2 DescripçXo Analytica. 

ras : A, B; C, D; declarão, na fig. i. a a largura da 
mesma cova , ou fosso ; e na figura 2, a o comprimento 
que nelle havia , pouco mais ou menos ; o que se pode 
saber pelo petipé notado no alto da estampa. A linha 
C, D- em ambas as figuras denota a linha da terra , ou 
plano da cova : a linha de pontinhos a, 0, e, nas duas 
figuras , parallela com a dita linha da terra , e delia at- 
fastada 6 palmos acima , denota o lugar onde chegavão 
os pés do Cavallo; c no espaço dos ditos 6 palmos, da- 
hi para baixo , se accommodavão os vigores de ferro, 
que haviáo servir para segurança da Estatua no pedestal. 
A linha vertical E, F ; na i. a e 2. a figura, que tem 7 
palmos de altura , e remata em hum pequeno círculo 
com pontinho no centro, indica huma ordinária estatura 
de qualquer espectador , suppondo os olhos situados no 
lugar do mencionado pontinho ; que he o melhor que 
neste caso se pode imaginar , como se collige da de- 
monstração. Advertindo porém, que G, H; nas mesmas 
figuras, he o axe, ou linha central da Estatua; objecto 
que mentalmente se deve alli suppôr; c o.ponto G, col- 
locado no meio do rosto da mesma Estatua : por isso, 
de G, até H , não ha todo o tamanho do referido ob- 
jecto; notando-se alli o G por ser o lugar onde a curio- 
sidade mais se dirige. 

Os triângulos H, F, G , em cada huma das ditas 
figuras, tem diversa medida ; o que d primeira vista se 
conhece nas mesmas figuras , e do que deve haver lem- 
brança para o que adiante se declara. Considerando pois 



da Estatua Equestre» 15*3 

os olhos do espectador no angulo F, da figura 2. a , não 
se podia dalli ver a Estatua senão pela frente, ou no lu- 
gar opposto , pelas costas : a observalla pela frente a 
cabeça do cavallo embaraçava o ver-se todo o resto da 
Estatua : a examinar pelas costas , não se achava tanta 
satisfação. Por cuja causa todo o espectador , natural- 
mente havia buscar ver o objecto de lado, onde encon- 
trava peor angulo , como se nota na figura i. a em F; 
angulo de 120 gráos não menos. E o angulo da figura 
2. a he de 74 gráos , ambos oppostos (hum mais que ou- 
tro ) á boa visão , por todos os motivos ; como fica de- 
monstrado. 

Não duvido que para a medição destes ângulos ha- 
ja algum escrupuloso, que me não queira admittir o pon- 
to H , como hum dos pontos radiantes dos raios extre- 
mos da pyramkle visiva ; visto não descerem os pés do 
Cavallo mais abaixo da linha de pontinhos a y , e. E 
posto que para apoiar o raio H , F , ache bons funda- 
mentos, não quero fazer questões de ninharias: accom- 
modo-me ao reparo ; e sendo o ponto radiante inferior 
em I , ainda o angulo da figura i. a fica sommando 83 
gráos. E se o da figura 2. a fica deste modo em 5*7, não 
sé podia dalli ver o objecto , por causa do ponderado 
obstáculo , que em si mesmo encerrava a respeito da* 
quelíe sitio : ficando unicamente livre de impedimentos 
qualquer angulo semelhante ao da figura i." , por serem 
alli os ângulos de lado. 

Conhecidas estas verdades Fisico-Mathematicas.,. e 

Qa 



Cai*. 



Cap. 
IX. 



I 



25*4 D F.SC.R IPCÂO A NAL YTlCÀ 

combinando com ellas as circumstancias de verem Suas 
Mngestades a Estatua com illuminação produzida de mui- 
tos corpos luminosos , collocados em mui diversas , e 
oppcstas situações; ser o corpo illuminado, polido; ter 
este a sua superfície de immensas porções concavas , e 
convexas , que reflectem a luz em contínua desordem ; 
sitio augusto , que obrigava os espectadores a estarem 
excessivamente próximos , vendo de todos os sidos em 
ângulos desproporcionadíssimos ; a consequência disto he 
encontrar-se huma visoalidade não só desagradável , po- 
rém mesmo terrivel. 

Estas observações, pelo commum , só as fazem os 
Artistas do Desenho , e não todos ; porque também nem 
todos as conhecem : elles pois lie que só tem o zelo de 
as acautelar , e prevenir , quando os deixão executar o 
que entendem ; para que as suas obras facão o devido 
effeito com satisfação completa dos espectadores; e pa- 
ra não soffrerem indefensos semelhantes golpes , que aos 
mais pouca ou nenhuma dor causão ; não duvidando re- 
provar de improviso, ou porque não conhecem estas, e 
outras circumstancias , ou porque não fazem a mínima 
reáexão neíias. 

Muitas particularidades omitto sobre este artigo; 
porém já receio a nota de prolixo (44) nas especulações , 



(44) Náo temo esta censura das psssoas costumadas a manejar mate- 
lias Mathematicas : pois que nesses Tratados se acháo as cousas analysa* 
das com muito mais individuação , e miudeza. 



da Estatua Equestre. 255 

e declarações deste Capitulo: mas eu me tenho julgado" 
em precisão de as mostrar , para que se vejáo os motivos 
que tive de affligir-me por se pYesentar aquella Estatua 
á espectação de Suas Magestades em tal sitio , e com 
semelhante illuminação: para que os Artistas meramente 
práticos, conheção como sem theorica poderão occorrer 
ás difficuldades , que se lhes presentão mesmo na práti- 
ca : e para que os curiosos saibao quanto as Artes do 
Desenho ( ou seus Professores ) carecem de noções de 
sciencias sublimes; o que bem conheceo o Sábio P. Cas- 
tel, não excluindo da sua Mathematica universal 9 os Ar- 
tistas (45) aos quaes também a dirige. 

(45) Mathematiq. Univ. etc. Par U R. P. Castel. Tem sido impres- 
sa em Paris mais que huma vez. 



Cap. 

IX. 



Qa» 



i$& DESCRirqSo Analytica 



Cap. 

X. 



CAPITULO X. 

Em que se relata a conducçao da Estatua ; sua elevação ao 
pedestal ; motivos de se fazer montuoso o plintho } e 
declaração da allegoria que se inclue no sil- 
vado , e cobras do mesmo p limbo. 

T 

-1- Endo Suas Magestades , e grande parte da Corte a 
15 de Maio (como já disse) visto aquella obra , logo 
no seguinte dia 16, se facultou na casa da Fundição en- 
teada franca a todas as pessoas de distineção , e civilida- 
de , para também a verem ; cuja multidão foi tal , que 
deo muito trabalho ás sentinellas, que nas portas se pos- 
tarão , para manter a boa ordem : e sempre continuou o 
mesmo concurso até o dia 19. A 20 se suspendeo a Es- 
tatua , da cova em que foi fundida, e retocada ^ a :i, 
sahio da casa da Fundição . e se collocou no carro de 
transporte^ e a 22 principiou a marcha para o seu lugar 
destinado. 

Esta conducção de sufficiente apparato, se fez por 
mãos de homens ; e logo ao sahir a Estatua daquelle si- 
tio, ainda que nos cordoes de puxar pegavão muitos Tra- 
balhadores asseadamente vestidos , para condecorar mais 
aquella marcha , pegou nos mesmos cordões toda a Cor- 
poração da Casa dos Finte e quatro , precedidos do seu 



da Estatua Equestre. 25:7 

Juiz do Povo : e igualmente as pessoas mais civis da ' 
Corporação das Obras Públicas , precedidas também pe- 
lo Ulustrissimo Conselheiro Fiscal das mesmas Obras , 
Joaquim Ignacio da Cruz Sobral ; que ainda mesmo no 
elevado gráo em que se achava , não quiz poupar-se a 
dar esta demonstração pública da veneração , respeito, 
e amor que se devia ao Soberano Prototypo da mesma 
Estatua ; acção que sempre lhe ha de honrar a memoria* 

Os desejos universaes , erão ver a Estatua no seu 
lugar assim que eila sahio da Casa da Fundição: poréra 
como estas manobras são complicadas , e sujeitas a di- 
versos obstáculos , no seu transporte se empregarão três 
dias e meio consecutivos, causando isto muitas murmu-« 
rações contra o Arquitecto das Obras Publicas Rainaldo 
Manoel dos Santos, que foi o incumbido da conducção. 
Porém , se todas essas pessoas , que censurarão a lenti- 
dão daquella marcha , tivessem visto a da Estatua Eques- 
tre de Luiz XV. em Paris , não fanao semelhante re- 
paro. 

A referida Estatua de Paris , no seu todo não con- 
tinha mais que 24 palmos (1) : a nossa porém , no seu 
total , mede 31. Até o ultimo contorno da cimeira do 
capacete, excepto as plumas, são 27 f , e com o dito 



Cap. 



(1) La hauteur totale de la Statue Equestre est de seize pieds , tt 
telle de lã Figure du Roi prise séparément est de douze. Descripr. des 

Travaux qui ont preceda la Fonte en bronze ... de la Star. Eq, de 

Lovjis XV. Chap. 15. pag. 161» 



Cap. 

X. 



25*8 DescripçSo Analytica 

■ornato de plumagem , completa os mencionados 3 1. Ora 
este augmento de volume , também augmenta conside- 
ravelmente o pezo com bastantes quíntaes : e não obstan- 
te o muito menor pezo da Estatua de Paris, na sua con- 
ducçao da mesma sorte se empregou igual espaço de 
tempo (2) ; sendo a distancia do terreno da mesma ex- 
tensão que a de Lisbo3 , pouco mais ou menos; segun- 
do me dizem pessoas que residirão naqueiia Cidade. 

A elevação da Estatua , para collocar-se no pedes- 
tal , se encarregou a João dos Santos, então Soto-Patrão 
da Ribeira das Nãos ; que por essa manobra passou a 
Patrão Mor : e como com prudência se quiz acautelar 
em segurança , também sem causa foi motejado. Mas 
quem se livrará das occiosas , e ignorantes sentenças do 
vulgo, que cegamente prodigaliza satyras , e louvores, 
sem conhecer onde com razão devem empregar-se. 

Quem vê as estampas da maquina , ou andaime, 
que se construio em Paris (3) para se elevar , e col locar 



(2) Uoperation , qui se fit à mdin d'homs , dura trois jours : elle 
cotiimença le jeudi dix-sept Février 1763 , sur les hv.it bcures dtt matin, 
€t fnit le samedi mivant. Ahi mesmo. Chap. 13. pag. 135. 

(3) No fim do Cap. 14. da obra acima citada , enrre pag. 158 , e 
150. se acháo as mencionadas estampas ; e no mesmo Cap. a sua expli- 
cação. A maquina de que usou o Tenente General para suspender a Es- 
tua, da cova, he semelhantíssima : porém encerra huma particularidade 
mais. Na de Paris só havia movimento de avançar. O Tenente General 
também deo á sua motu de ladear em angulo recto , para poder sahir da 
casa em que esrava , e collocar-se no carro de transporte. 



da Estatua Equestre. a^p 

no pedestal a referida Estatua de Luiz XV. , acha que 
cila sem dúvida parece mais artificiosa (por menos com- 
mum) que a de que usou o Patrão Mor ; porém esta, 
além de ter sido ainda menos arriscada , e muito mais 
segura que a de Paris , foi também muito mais econó- 
mica : porque a Franceza , na sua construcçao forçosa- 
mente se havião cortar muitas madeiras , em cujos cor- 
tes he iniviravel o desperdício ; e o Patrão Mor cons- 
truio huma eabria de vários mastros , que tirou do Arse- 
nal da Marinha , cujos mastros , cadernaes , moutões, 
cordames, etc. , tudo tornou para o mesmo Arsenal , sem 
perder-se cousa alguma. 

Mas antes de proseguir nesta relação devo retroce- 
der hum passo, para declarar huma circumstancia atten- 
divel. 

Quando Suas Mâgestades forão ver a Estatua, ain- 
da os mármores dos Gruppcs iateraes não estavão de to- 
do completos; e como em hum destes ha hum Elefante, 
poucos dias depois fui á Quinta do Meio , com hum mo- 
deleto de barro , tendo configurado nclie o dito bruto; 
e com o disignio de lhe dar alguns toques pelo natural, 
á vista de hum Elefante vivo , que naquella Quinta se 
achava. Ao retirar-me com o dito modelo já retocado se- 
gundo a Natureza , suecedeo casoalmente andar ElPvei 
divertindo-se de passeio, na mesma Quinta : vendo-me 
pois, e sabendo que intento alli me conduzira , quiz ver 
o referido modelo , que parecendo-lhe muito semelhan- 
te ao vivo, que estava próximo, lhe deo muitos louvo- 



Cap. 

X. 



Cap. 
X. 



160 Des^ripçXo Analytica 

' rcs (4) ; e disto passou a faltar da Estatua com os mes- 
mos elogios, attribuindo alguns á mesma deligencia de 
copiar a Natureza , e ao escrúpulo com que se havião 
seguido os preceitos da Arte Equestre ; dizendo mais, 
que só lhe achava o pequeno defeito de lhe não haver 
ficado noCavallo, bem perpendicular o braço esquerdo: 
o que se podia remediar ao tempo de assentar-se a Figu- 
ra no pedestal, dando-lhe huma escassa inclinação sobre 
o lado opposto: recommendando-me, que não houvesse 
nisto descuido. E a vigilância que eu teria em cumprir 
esta suprema Ordem , a todos se fará crivei sem que a 
encareça. 

Chegando pois o dia 27 do referido Maio de 177?, 
destinado para se elevar ao pedestal , e assentar nelie 
aquella Figura; eprevendo-se que seria grande o concur- 
so do povo, e poderia por isso mesmo embaraçar as ma- 
nobras , se detreminou , que algumas Companhias de In- 
fanteria formassem na Praça hum cordão , de modo que 
ficasse desempedido, com desafogo, todo o espaço de 
terreno , que se havia mister para os trabalhos daquella 
empreza : e estando eu próximo do pedestal , sobre o 
andaime em que estavão os cabrestantes , para assistir ao 
assentamento da Figura , a fim de lhe dar o seu devido 



(4) Acompanhando a Sua Magestade andaváo os Excellentissimos 
Marquezes de Marialva, de Angêja , e de Aiviro ; e também o Desem- 
bargador joáo Rodrigues Villares. Porém foi tal a escravidão com que 
fiz esta obra , que se me náo deixou seguir o modelo exactamente no 
mármore. 



nA Estatua Equestre. i6t 

prumo, e comprir a sublime recommendacão acima refe- 
rida, fui lançado fora da Praça publicamente, com tal, 
ou qual ignominia ; porque o Tenente . .. não quero no- 
meallo ; pois só em declarar-lhe o nome lhe faria maior 
injuria do que elle me fez naquelle acto: o referido Te- 
nente, em fim , não só usou de palavras, e gestos inde- 
corosos á sua própria Farda , mas até me ameaçou com 
prender-me ; porque eu lhe instava na precisão que havia 
da minha assistência naquelle sitio (5-) . 

A resulta disto foi ficar a Estatua como se está ven- 
do , fora do seu prumo ; toda pendente para o lado es- 
querdo , em lugar de inclinar para o direito , segundo 
se me havia ordenado : mas como foi notório o suecesso , 
a minha obediência ficou salva com Sua Magestade. E 
ás pessoas que ainda ignorão este facto dirijo a sua de- 



(5) Quão differente he esta maneira de tratar Artistas, da que se usa 
em outros Paizes ! Eu refiro o que em Bordcaux se praticou náo ha mui- 
tos annos , em caso semelhante, com o Escultor M. Lemoync, execu- 
tando elle a Estatua Equestre de Luiz XV. para aquella Cidade. Porém 
como o disignio era de honralío , não foi no dia em que se assentou a Es- 
tatua, mas sim no da Inauguração ; por ser mais plausível, e de maior 
pompa. „ Depois da primeira saudação ( á Estatua ) M. Boucbtr ( In- 
tendente da Província ) fez chamar M. Lemoyne , e alli o comprimen- 
tOH , e louvou publicamente , em nome da Cidade , sobre a semelhança , 
nobreza , e perfeição que elle havia dado a este Monumento ; e para 
elevar mais os seus elogios , acabou abracando-o. Este exemplo foi se- 
guido pelos Ministros , e mais corpo do Senado , que todos lhe mostrarão 
a sua satisfação. Patte. Munu. erig. en Fran. a la gloire de Louis XV. 

Rr 



Cap. 

X. 



Gap. 
x. 



i6z DescripcXo Analy^icã 

; claração, para conhecerem, que aquelle defeito nãopro- 
cedeo de inadvertência , ou ignorância minha* 

Já disse em outro lugar , que nas producçòes das 
Artes ha certas negligencias , que são desagradáveis ás 
pessoas , que das mesmas Artes ignorao os mysterios ; e 
para os que bem as entendem , são o sello do magisté- 
rio do Artista (6). Accrescento agora, que pelo contra- 
rio ha outras circumstancias que os Artistas muito zelão, 
e que pelo seu conhecimento , são insignificantes para 
os que das bellezas da Arte não entendem. Desta quali- 
dade he o devido equilíbrio (7) nas figuras ; e assim mes- 
mo evitar objectos antepostos ,. que embaracem ver-lhe 
os extremos , ou pareção cortar-lhe algum dos seus prin- 
cipaes membros (8) . 



(<5) Vejáo-se ás Notas 25 , e 2; , do Cap. 6. desta Descripc/o. E 
:ambem as palavras de Mengs , transcriptas no Texto do mesmo Capino 
<ugar onde se acha o número 27 accusando Nota. 

(7) Leonardo de Fvice , julgou merecer este artigo attençáo tal , que 
na sua obra Tratt. delia Fiit, , em recommendallo, e declarallo , empre- 
gou ii Capítulos: posto que De Piles, citando a mesma obra do Vince 9 
no Corrimento a Dufresnoy , lhe assigna maior número de Capítulos ; 
dizendo que eHe Vince começa no Cap. 181 , e acaba no 27$. Isto pode 
ser erro de Imprensa , ou demasiado escrúpulo em De Piles : porque en- 
tre os Capitule?, que eile cita do Vince, muitos não contém cousa algu- 
ma tocante ao equilíbrio ; outros , ainda que toquem circumstancias que 
lhe pertençáo , cilas sáo muito remotas do mesmo equilíbrio. Veja-se 
LArte delia Piti. di Dujres. Preceito 7. e oComm. por De Pil. depag. 
JOo, até 102, num. 30. Trad. Ital. Roma. 1750. 

(8) Dufreinoy, acima citado, no Preceito 16 diz: „ Chi mRi skiiè 



da Estatua Equestre. 263 

Por esta causa , na Estatua Equestre de Frederico' 
V. em Dinamarca , adoptou o seu Author o u:o dos 
rompões nas ferraduras do Cavallo da mesma Estatua ; 
dizendo que „ este modv dg ferrar he tão favor arei ás Ar- 
tes , e dá tanta ligeireza , e graça aos pés do Cavallo , que 
seria para desejarem os Artistas ser esta maneira recebida ge- 
ralmente (9). E logo na mesma pagina mostra outro mo- 
tivo de conveniência no uso dos ditos rompões , dizen- 
do , que „ da distancia donde se pôde bem ver , e julgar de 
buma Estatua Equestre , a sacada de seu plintho esconde sem~ 
pre buma parte dos pés do cavallo 5 e a elevação que produ- 
zem os rompões ajuda tanto a diminuir este defeito , que isto 
só bastaria para fazer- lhe adoptar o tal uso (10) . 

. Ora ,, quem reparar na quantidade de elevação que 
naquelia Estatua causarião os rompões das ferraduras, e 
combinar esta pequena porção com o total da mesma Es- 
tatua, que he de 15; pés, e 11 pollegadas de Dinamar- 



nascosti i Piedi , e molto raramente le estremitâ delle Giunture. Veja-se 
no Corrm. o num. 43. a pág. 114. 

(&) Cette façon de Jerrer est si favorable mx arts , elle donne tant 
iie lígéreté et de grace aux pieds des chevaux ; quil seroit a souhaxter 
Lfcur les artistes, qtielle fut rezue par tout. Salii. Descrip. de la Status 
Ecj. etc. àz pag. 41 pára 42. 

(10) Comme À la distance cu Von est à portee de bien juger d' une 
Statue Equestre , la saillie de son plinth cache toujcurs une partie des 
pieds du cheval; Yélévaúon que produisent les crampens, aide si fort à 
diminuer cet inconvéniçnt que cela seul auroit snjfi pwr mç la fairc 
: *dopter. Ahi mesmei 

Rr % 



v>AP. 



X. 



i6jl DescripçÃo Analytica 



Cap. c * (n) y não lhe parecerá ninharia para desprezar , se- 
x. melhante attenção? Com tudo, hum Escultor tão estu- 
dioso como Mr. Sally , fez dessa pequenhez o conceito 
acima referido ; não tendo o pedestal da sua Estatua 
mais altura que 19 pés, e huma pollcgada : incluindo-se 
nesta somma $ pollegadas, que se derão de elevação ao 
terreno em que assenta o pedestal (12). 

Os mencionados 19 pés, ehuma pollegada pela me- 
dida Dinamarqueza , vem a ser 27 palmos, e hum deci- 
mo, pelo palmo de que aqui se usa nas Obras Publicas. 
O pedestal da nossa Estatua Equestre em Lisboa , tem 
palmos 47 £: e o plintho da Estatua, 1 palmo,, e 7 ou- 
tavos ; que ao todo somma 48 palmos , e 3 outavos ; cu- 
jo total vem a ser mais que o pedestal de Copenhague, 
palmos 21 ~, e £-%% Notável maioria (13)! 



(pi) Ccite Status esi en bronze; elle a 15 pieds 11 pouces de baut 9 
ãepuis iextremité de la têtc Au Roi jusqu'au dessous des pieds du cher 
vai , et 16 pieds 11 pouces avec son plintb. Ahi mesmo, pag. 8. Na 
pag. 7 , em a Nota a declara o Author que o pé Dinamarquez , he me- 
nor 4 é pollegadas , que o pé de Rei , Francez. A combinação deste., 
com o palmo de que aqui se usa nas Obras Publicas , fica declarada na 
terceira nota do Cap. V. da presente Descripçáo. E o pé Dinamarquez, 
contém a extensão do referido palmo, com 4 décimos, e dous centésimos 
demais. 

(12) Le piedestal a 18 pieds 8 pouces de hauteur , et 19 pieds 1 
pouce , en y comprenant les 5 pouces de pente du pavé qui se trouve en- 
tre les trois marches du piedestal et la grille , etc. Ahi mesmo. pag. 8. 

(n) Muitas pessoas que náo conhecem as bellezas das Artes do De- 
senho , tem dito, que este pedestal da nossa Estatua, deveria M w»tf« ah 



da Estatua Equestre. 2^ 

Reparando pois, na medida que tem de altura ore-' 
ferido pedestal da Estatua de Frederico V., (cômputo, 
com pouca differença, dos mais que ha em semelhantes 
Estatuas) e reflexionando que Mr. Sally se allegrou mui- 
to de poder adoptar o uso dos rompões nas ferraduras, 
para que este pequeno soccorro concorresse a diminuir o 
obstáculo que a sacada doplintho causava para se verem 
os pés do Cavallo , por estar naquella elevação ; facil- 
mente se pode inferir oscuidados que me daria ver, que 
a minha obra se hia collocar em quasi dobrada altura; c 
que por isto mesmo esconderia muito mais os pés do 
Cavallo , na Estatua do meu Augusto Soberano : incon- 
veniente que eu desejava evitar , para que não pareces- 
sem cortadas as pernas do Cavallo ; o que infalivelmen- 
te succederia se me não deliberasse ao arbitrio que to- 
mei neste caso \ e em que tive a satisfação de mo não 
embaraçarem. 

Porém , para mostrar com clareza o partido que se- 
gui neste ponto, e indicar palpavelmente as causas \ ve- 
jamos a Estampa XIX. (*) 

to v porque attendendo d grandeza da Estatua , em maior altura pare^ 
tesse do tamanho natural. Que despropósito ! Se a Estatua parecesse , ou 
na realidade fosse dessa proporção, causaria huma illusáo de modo que os 
espectadores se persuadissem de serem o Heroe , e o seu cavallo corpos 
vivos ? Seria louco náo só o que tal julgasse , mas até quem pertendesse 
da Arte semelhante rasgo em Estatua de bronze, ou de mármore. O res- 
to desta Nota veja-se no Supplemento competente debaixo do mesmo nú- 
mero correspondente ao da Nota. 
(*) A dita estampa vai no fim deste Capitulo. 



Cap. 

X. 



Cap. 

X. 



166 DEscHipqXo Analytica 

A fígttfi» 4.» representa em planta, oplíntho da Es- 
tatua ; cujo alçado se vê na figura 3." entre as três li* 
nhãs #, 0, ?/. 

Na figura 4.* B, hea frente : a estrellinha inscripta 
no angulo F , he o lugar onde assenta o pé direito do 
Cavailo; e alli corresponde a perpendicular p, q^ da fi- 
gura 3. a 

A outra estrellinha do angulo E, na figura 4.* , mos- 
tra onde assenta a mão esquerda do mesmo animal ; dei- 
xando a perpendicular correspondente á comprehenção 
ido Leitor discreto : a qual se não mostra na figura 3.* 
porque esta figura nâo designa do pedestal mais que me- 
tade. 

Do angulo F, para o lado C, na dita figura 4." , 
ha (com pouca differenqa) distancia igual á que existe 
da estrellinha E, para o lado opposto D; que são pal- 
mos <r - . 

' IO 

Na figura 3/ , e em cima do plintho, a perpendi- 
cular/), q\ indica o vigote de ferro, que para seguran- 
ça da Estatua está (com dous mais , nos seus respecti- 
vos lugares) dentro da perna direita do Cavailo. 

Aqui temos agora na figura 3.* delineado por fren- 
te, o contorno, e toda a elevação do pedestal ; mas só 
• em metade ; porque o tamanho da estampa não admitte 
mais: e por isso não se vc a perpendicular, que indique 
o vigote de ferro , que ha no braço esquerdo. Na linha 
da terra desta figura 3.* se vê a letra e, para notalla; e 
suppondo a mesraja linha, prolongada por baúco da figu- 



da Estatua Equestre," %6j 

ra 2* , na margem desta se ve porção dessa linha, com ■ 
outra divisa e ; para indicar, que a sua extensão conti- 
nua y de modo , que desde o degráo do pedestal até o 
fim desta linha sejão palmos 1 83 é : lugar ornais affasta* 
do donde a Estatua se pode ver suficientemente (-1-4)9 
pois quanto m^is próximo estiver o expectador , menos 
poderão ver-se os pés do Cavallo : no fim pois do refe-* 
rido prolongo da linha e , e ; se levantarmos huma per- 
pendicular de 7 palmos, temos a altura ordinária poucõ> 
mais ou menos em que ficão os olhos do espectador. Des~ 
te ponto, tirando-se huma recta «, //, u ; que toque ò 
angulo inferior do plintho em r , he impossivel verem- 
se os pés do Cavallo: porque ; como os corpos se vêem pelos" 
raios de luz quê nos enviao , e estes venhao sempre por Unhas 
rectas , nenhum corpo se poderá ver , sem que delle para os 
nossos olhos se \ possao tirar linhas rectas (15) : o que aqui 
não podia ser , por causa do triangulo de pedra s , r, 
q ; comprehendido no mesmo plintho ; o qual destruía 
totalmente a possibilidade para tirar-se , ou achar-se 1U 
nha recta visiva de q , para os olhos do espectador. 

Isto demonstrado, se ficasse o plintho regular des* 
crevendo, ou mostrando duas parallelas em roda ,. ten* 

(14) A distancia dos palmos 185.Í , não servirá para todas as quall* 
dades de vistas. Naquelia occasiáo não se dava tempo para observações 
exactas ; a que fiz , foi tumultuaria. Muito tempo depois da Inauguração 
he que examinei mandando medir o terreno â-zsde o lugar onde me filiei 
para observar, até o primeiro degráo, e achei a referida conta de palmos; 

(15) Monteiro. 'Tom. 2. Elem. de Qpti, Coroliar. 2. na paj>. 14.. *> 



Cap^ 
x. 



i6% DESCRipqXo Analítica 

do de altura hum palmo, e sete outavos, como foi de- 
.' liniado, lavrado, e assentado, não podião sahir os raios 
visoaes da perna , e braço do Cavallo senão palmo e 
meio acima do seu assentamento ; como se mostra na 
mesma figura 3.* onde toca a recta #, a, a\ na perpen- 
dicular/?, q ; sem poder descer mais abaixo, pelo ob- 
stáculo que encontra no triangulo, ou corpo #, j, r. 

Se este plintho, em circuito se diminuísse metade, 
ficando o resto para cima abaulado, ou escarpado, oqie 
he permittido quando as circumstancias o pedem (16), 
ainda assim se não conseguia o intento; como se vê no 
lugar onde toca a linha 0, 0, 0; (figura 3.*) na perpen- 
dicular p , q ; hum palmo acima do plano em que assen- 
tão os pés ; e por isso ainda assim esconderia por intei- 
ro os cascos da mão , e pé que assentão. Os plinthos, 
não se devem omittir nas Estatuas , que tem pedestaes 
com regularidade ; não só porque lhes servem de baze, 
mas porque de algum modo concorrem para esbeltallas : 
c no presente caso com mais razão ; pois ainda sendo 
pouca essa diminuição de altura , tirando-se-lhe ficaria 
em peores termos, por causa da sacada, que faz acima- 
Iha do pedestal. 

O recurso pois que achei para occorrer a estas dif- 
iculdades, foi destruir aregularidade ao plintho; e em 



(16) Veja-se o que da base , ou plintho, da famosa Estatua, deno- 
minada Hercules de Farnese , diz De Piles , commentando o Poema de 
Qujresnoy. Arte delia Pitt. E«li. já citada, pa§. 100. 



Cap. 

X. 



da Estatua Equestre. 269 

lugar de ser como huma lage galgada , reduzillo a fi- '"" 

gura montuosa , fazendo-lhe tirar pedra até á cimalha 
do pedestal, nos lugares que julguei a propósito para 
desembaraçar a vista de modo, que do ponto q\ (figu- 
ra 3« a ) podessem caminhar os raios visoaes para os olhos 
dos espectadores. Aos plinthos dos Gruppos lateraes 
mandei fazer igual desbaste j não só pela mesma causa, 
como pela de concordarem com o da Estatua princi- 
pal. 

Bem pôde ser que alguém estranhe a novidade; mas 
quem reflexionar nos motivos , creio que ha de julgalla 
admissível : e para esta resolução ainda tive outra causa , 
a meu ver muito justa ; como logo direi , quando tratar 
da industria de que usei para encubrir o vigote de ferro, 
que sahe do pé esquerdo do Cavalio. 

He certo que todas as estatuas Equestres de bronze 
tem a sua segurança em três pontos; que são, o pé , e 
mão do Cavalio, que pousao ; e o pé que se acha como 
no ar, em forma de mover-se: do qual sahe huma vigo- 
ta de ferro igual das outras, e que se fica vendo, pos- 
to que as estampas de taes estatuas náo as indiquem: 
omittindo esta circumstancia os Gravadores dessas es- 
tampas, porque a configuração do referido ferro, tira a 
graça , e ligeireza que se pertende exprimir no bru- 
to. 

Ora , se o ver-se figurado aquelle ferro nas estam- 
pas , deminue aquellas duas qualidades tão essenciaes a 
qualquer peça destas , como se poderão achar essas qua- 

Ss 



Cap. 
X. 



270 DesckipçXo Analytica 

' lidades no original , vendo-se-lhe o referido accessorio 
que parece estranho? (17) 

Na distancia em que se náo possa ver com indivi- 
duação , parecerá aquelia perna de hum comprimento ex- 
traordinário; demais perto, apparece hum soccorro que 
faz lembrar muletas ; e por consequência , em ambos os 
casos parecer o Cavallo aleijado. 

Para eu evitar este desar na minha obra , recorri ao 
allegorico ; em cuja idéa , além dos mencionados moti- 
vos, concorre muito, para representalla bem, ser mon- 
tuoso o plano que piza o bruto. 

Já no Capitulo III. desta obra deixo dito , que o 
manejo em que se acha o Cavallo a Piafer , me deo mo- 
tivo para esta allegoria, a qual symboliza no Cavallo os 
Estados , ou Reino do Heroe : pensamento que. também 
seguio Camões , qujndo n3 sua Dedicatória ao Senhor 
Rei D. Sebastião lhe diz : 



(17) Como os rres pontos de apoio sáo indispensáveis psra a segu- 
rança destas F.staiuas , e creio que a Mr. Falconet , causou também náu- 
sea , e repugnância ficar-se vendo hum calce, ou pontalete de encosto na 
Estatua de Pedro Grande , que fez em Petresburgo ; por esta causa , e 
pela allegoria, que seguio, elle projectou a Estatua com o cavallo a ga- 
lope : em cuja actiiude , como assentáo os pes do bruto no chio , e a 
maior parte dos Artistas julgáo , que recua , e abaixa muito a garupa, 
tocando a cauda na terra; nas duas pernas, e cauda se introduzem (sem 
se ficarem vendo) os três ferros de segurança ; como fez o referido Au- 
ihor na mencionada Estatua. O resto desta Nota veja-sc no SupplemetltO 
competente, debaixo do mesmo número correspondente ao da Nota. 



da Estatua Equestre. 271 

„ Tomai as rédeas vós do Reino vosso (18). 
No Piafer , manejo em que o Cavai lo não avança 
terreno , mas não pára , antes sempre está em movimen- 
to, e o mais brioso; symboliza , que o Senhor Rei D. 
José sem sahir do seu Estado, nem mandar os seus Vas- 
sallos a novas Conquistas , os poz em contínuo movi- 
mento, útil, e brioso; nas muitas reformas que fez em 
beneficio público; nas Sciencias, nas Artes, naMiíicia, 
no Commercio, etc. E como isto se não consegue sem 
vencer muitos obstáculos, e diffkuldades , estas se re- 
presentão no silvado (i<?) espargido pelo montuoso ter- 



(18) Lusiada. Canto 1. Est. 15. Figurar em brutos as quatro Par- 
tes do Mundo, he muito usado. Veja-se Iconolog. de Ces. Ripa ; ainda 
que também as personaliza em figuras humanas. Na Europa , designa 
bum Cavallo ; na Ásia , hum Camelo ; na Africa , hum Leão ; e n* 
America , hum Crocodilo, ou jacaré. Sendo pois isto admittido em ge- 
ral , não se deve estranhar em particular. Nos dous brutos do Presépio 
symbolizáo alguns Doutores o Velho, e Novo Testamentos , e os dous 
Povos, Hebreo, e Gentílico. V. Pereira, na exposição ao v. }. cap. I. 
de Isaías , citando S. Jero. ; e no canti. dos cant. c. 1. v. 8. , e sua No- 
ta, que tpoia a satisfação que a isto dou. V.Ayala, no seu Pintor Chris. 
Lib. 3. Cap. 1., e João Bap. de Castro. Vida de Chr. Liv. i. Cap. 2. 

Mr. Falconet, na Estatua de Pedro Grande, como lhe serve de pe- 
destal aquella prodigiosa. pedra da mesma sorte que a produzio a Nature- 
za , sem artificio algum ; no mesmo rústico da pedra symbolizou a falta 
de cultura daquelles Povos , antes de serem dirigidos pelo Heroe alli re- 
presentado: e no galope do Cavallo, os rápidos progressos que íizeráo de- 
baixo do activo , e bem regulado Governo do mesmo Soberano. 

(19) Veja-se no Diction. Franc. de Pierre Ricbelet , a palavra Ron- 
(e , cuja explicação elle amplifica desta maneira. „ Ce mot , aujignré , 

Ss z 



Cap» 



Cap. 
X. 



272. D escripçXo An AL YTICA 

rcno , que o bruto calca ; em cujo montuosi he muito 
rnais próprio aquelle , e qualquer outro arbusto do que 
seria sobre huma lage : assim como as cabras, que aliu* 
dem aos viciosos (20) abusos, que o Soberano pisou pa- 
ra restabelecer a sua Metropoli ; não só no material, 
mas até mesmo no Civil , e Politico , em todo o Esta- 
do : e desta sorte, com as folhas das silvas, e cobras, 
escondi aqúelfo porção de vigote de ferro; para que oc- 
cultando-se este soccorro de segurança , apparecesse uni- 
camente, o que era próprio d ficção allegorica , sem es- 
candalizar a vista, e destruindo por este modo os ponde- 
rados inconvenientes, tão oppostos ao bom effeito. 

A' excepção de algumas particularidades menos im- 
portantes, tenho até-qui declarado, pelo que toca á exc» 
cuçáo deste Monumento , os meus sentimentos , traba- 
lhos , estudos, e parte dos obstáculos, que me impedi- 
rão icvalro a melhor ponto: sem oceupar-me o desvane- 
cimento de que , se pensasse , c trabalhasse em plena 
liberdade , teria feito huma obra isenta de defeitos. E 
para provar a sinceridade com que faço esta confissão,, 
as.im como para instruir mocidade menos avançada na 

signifie , des difficnltez et des eboses qui embarrassem et qui empechent 
.Vavancer. ( Le cbemin de la vertu est plein de ronces et d'épines.) Nos 
Dizion. liai. V. Roveto , e seus derivado-;. Também pelos espinhos das 
silvas se entendem as paixões culpáveis. Saci. no Exod. expondo o z.° 
V. do Cap. 3. 

(20) Pigliansi ancv il serpente per figura utiivers.ili d'ogni peccato et 
vitio % Rip. Iconol. pag. 510. Ed. de Vei>. i$6o. 



dá Estatua Equestre. 273 

Arte , e desenganar os que não conhecem as difficulda- 
dcs de huma tal empreza, transcreverei aqui (traduzido 
com a fidelidade que me foi possivel ) o Artigo com que 
Mr. Sally acaba a sua Descripção: prezando-me muito de 
finalizar a minha com hum Discurso de hum tão instrui- 
do , e escrupuloso Artista. Advertindo , que as Noras 
deste Artigo são do mesmo Author ; e como lhe junto 
outras minhas , distinguillas-hei com os appellidos de 
hum, e outro. 



Cap. 
x. 



»74 DESCRipqXo Analytica 



x*xaB33£SB%SM&t&sm 



Cap. 

X. 



ARTIGO ULTIMO. 

Com que Mr. Sally , Escultor Francez , finaliza a Des~ 

cripção da Estatua Equestre de Frederico V. , que 

o mesmo Artista executou em bronze , na 

Corte de Copenhague. 

A 

„ .l\. Inda que no contexto da Descripqão da Estatua 
„ Equestre de Frederico V. se trata de hum grande mí- 
5, mero de partes importantes , e necessárias a hum tal 
„ Monumento , eu estou muito longe de crer que estas 
„ sejao as principaes. Eu sei pelo contrario , que no re- 
„ ferido té o presente não se tem ainda tratado mais 
„ que do tendente á imaginação, á reflexão , á cornbi- 
3 , nação, ao rhithmo em fim, da Escultura; e que mes- 
„ mo quando hum tal Monumento reunisse no maior grão 
„ de perfeição todos estes objectos , se todas as partes 
„ da Arte relativas á sublime execução , e que se admi- 
5 , rão nas bellas obras Gregas (a) ahi se não acharem 



00 » ^o obstante os bellos pedaços que nos deixarão os grandes 
„ Estatuários Gregos , e o soccorro que podemos tirar delles , estudan- 
„ do-os em nossa mocidade , não nos he possível chegar á grandeza , e 
„ á magestade do estylo destes immortaes chefes-d'obras. As melhores 
„ obras modernas sáo as que mais se parecem com aquellas : e o maiçr 



da Estatua Equestre. 27? 

„ juntas, disto não resultará mais, que hum Monumen-' 
„ to muito medíocre: de sorte, que para elle ser total- 
„ mente bello, haveria mister infaliivelmente , ao menos 
„ ainda : 

„ I. Que o estylo de todas as partes, que o devem 
5, compor, fosse enérgico, pomposo, e sublime. „ 

„ II. Que a grande, e nobre simplicidade; o ma- 
„ gestoso, e respeitável; que fazem as partes caracteris- 
„ ticas da Escultura, e a essência desta beila Arte, ahi 
„ se achassem igualmente distribuídas. „ 

„ III. Que o Monumento fosse composto assas sa- 
„ biamente ; para que do ponto de vista donde se po- 
„ desse observar , fosse o todo igualmente vantajoso, 
j, agradável , e maravilhoso. „ 

„ IV. Que as massas (b) geraes ahi fossem gran- 
„ des, cadenciadas, e decididas. „ 



„ elogio, que se lhes pôde fazer he de as comparar (como nós dizemos) 
„ ao Antigo- „ Sally. 

(/') A palavra massas, nas Artes do Desenho, he hum rermo deaue 
usáo os Professores , que sem embuto de que todos beiiamente o enten- 
demos , náo se pôde explicar em poucas palavras de modo que se faça 
precisamente perceber ás pessoas faltas desta prática. He pois a massa de 
claro, a iiluminaçáo de varias partes juntas: e a massa de escuro, a som- 
bra, ou privação da luz, também de outras partes congregadas. Ticiano, 
exemplificou isto felizmente em hum cacho de uvas. No ajuntamento de 
bagos em que incide a luz , he que se observa a massa de claro : a ou- 
tra porção de bagos , que floáo do lado opposto , e só participáo de luz 
remissa, mais, ou menos forte, existe a massa de escuro. A sábia dispo- 
sição de objectos, para formarem esta alternativa contraposição, he a ori- 



Cap. 
x. 



276 Descrip^So Analytica 

~ 5j V. Qi; ie todas as partes da Estatua Equestre tí- 

„ vessem entre si huma relação mútua , servindo-sc hu- 
jj mas a outras, sem se combaterem algumas, nem em- 
„ baraçando-se , de modo que vistas de longe prejudi- 
„ cassem o desembaraço do Cavalleiro , e do cavallo; 
„ ou confundindo-se humas com outras , fizessem pare- 
,-, cer algumas defectuosas ,. (Y) . 

„ VI. Que o movimento do Cavalleiro , e do ca- 
7, vallo , tivessem perfeita concordância ; que o manto 
„ do Heroe, a crina, e cauda do cavallo , assim como 
„ todas as outras partes ligeiras , dasquaes hum tal grup- 
5 , po he susceptível , par teci passem igualmente do mes- 
j, mo ar ^ que se suppõem agitallas. „ 



gem do bom effeito neste particular : e esra palavra massas também se 
extende ao 2rranjamento dos objectos. Machado. 

(c) Nesta máxima convém todos os Artistas instruídos : eis-aqui o 
que a este respeito diz Air. falconet : // jant que 1'ouvrage .... san- 
nonce sans equivoque , du fins loin quú ponrra se destingucr. Ency- 
cíop. Tom. 14. Arti. Sculptu. já na psg. 835. Mas o que o Author diz 
neste artigo náo concorda com o que executou na Estatua de Pedro Gran- 
de (segundo mostra a medalha da mesma Estatua) onde o braço direito 
do Heroe, se confunde com a cabeça do cavallo. Escreveo Falconet este 
artigo na Encyclopedia muito antes de executar aquella Estatua , e isto 
li2 bastante prova de que náo procedeo de ignerantia o dito desar , que 
se vé na medalha. São descuidos que escapáo a pezar das mais calcula- 
das reflexões. Sáo os diversos pontos de vista d'onde qualquer Estatua se 
observa. Sáo em fim , dificuldades incríveis desta Arte , que só quem 
bem as entende conhece o alto merecimento dos que chegáo a vencer tan- 
tos obstáculos. Machado. 



da Estatua Equestrk. 177 

„ VIL Que tendo sabido preferir a hum falso bri- ■ 
„ lhante,'hum acordo harmonioso, e a hum fuzilar ge- ^ AP * 
„ ral , repousos bellos , que fazem sobre-sahir as partes 
„ bem trabalhadas ; que não tendo dado muito jogo ás 
„ ditas partes , nem carregado o todo de muitos orna- 
5? mentos , se lhe tivesse sabido manejar as passagens 
„ das meias tintas {d) entre os grandes claros, e as for- 
„ tes sombras, e que lhe não ficassem certos claros du- 
„ ros , e sombras cortadoras (e) , de que resulta hum 
, scintillar, que fere os olhos do Espectador. „ 

„ VIII. Que tendo sabido evitar o redondo, eexa- 
3 , gerado o caracter do desenho fosse grande, ondeado, 
? , e próprio á idade do Principe representado. „ 

(d) Estas passagens das meias tintas, na Escultura, he a insensível 
diminuição dos claros , nos lugares onde a luz se vai affrouxando : ou 
dos escuros, onde a luz mais se vai gradualmente manifestando. Na Pin- 
tura, dependem unicamente ão Artista, que as maneja. Elias terão mais, 
ou menos beileza á proporção da Sciencia que tiver nesta pane o Profes- 
sor : e se na Pintura são difnceis, fingindo o Pintor a illumir-ação a seu 
arbítrio , he incomparavelmente maior a difficuldade que encontra o Es- 
cultor, subordinado a luz verdadeira , e não fingida. Veja-se o Capitulo 
V. desta minha obra, desde a Nota 8 , até á 10. Machado. 

(e) Ainda mesmo conservando a veneração com que olho os discursos 
de Mr. Sally , perdoe a sua memoria, que nisto dedaros duros , e som- 
bras cortadoras, ou qye cortão, não lhe acho roda a razão, para querer, 
que na realidade não existáo. Que isto se deseje , e se procure , conve- 
nho : porém, o Escultor que á força de sciencia , e reflexões acautelar 
qualquer cousa este desar , nunca o pôde evitar totalmente em huma Es- 
tatua exposta insulada em ar livre; pelos motivos declarados nos lugares, 
que indica a precedente Nota. Machado. 

Tt 



Cap.. 

X.. 



278 DescripçSo Analytica 

„ IX. Que a Osteologia , e Miologia do corpo do 
„ homem, e do cavallo, ahi se achassem na maior exac- 
„ ção , tanto no que toca á verdade dos músculos, co- 
? , mo pela certeza do seu movimento; que para ostentar 
„ sciencia anatómica se lhe não achassem prenunciados 
., todos os músculos, e veas, evitando o que conduz ao 
„ gosto secco , e descarnado ; e que para fugir deste 
„ defeito se não haja cahido no redondo , e tntumeci- 

)) do. 5> 

„ X. Que o toque (/*), esta preciosa, e importante. 
„ parte da Arte , nelle fosse franco, meduiloso, e ani- 
5 , mado. ,, 

„ XI. Que o Heroe, do qual a dedicacco da Esta- 
„ tua he huena espécie de apotheese (g) , f :se , em 



(/) O toque. Para os Artistas escusado he dechrar esta palavra : pa- 
ra os que ignoráo porém , os termos da Arte , he o mesmo que aquelle 
garbo na escrita , a que vulgarmente chamáo talho de letra. Pelo toque 
se conhece a franqueza, e gosto que tem no trabalho aquelle que o exe- 
cum. A 1 achado. 

(?A „ Os primeiros Simulachros foráo feitos em honra dos Deoses, 
„ e para os expor á adoração dos Povos. Para veneração se elevarão so- 
„ bre altares de formas diííerentes , postos sobre degráoí , a fim de os 
3 , mostrar dominantes sobre os mortaes , e para dar mais facilidade aos 
„ contemplarem aquelles que se lhes náo podiáo aproximar. Os primei- 
„ ros Simulachros , ou Estatuas que se dedicarão aos Imperadores , em 
„ sua vida, ou depois de mortos , para os deificar, foráo elevados sobre 
„ altares, ou pedestaes, á semelhança daquelles dos Deoses ; e este uso 
„ se transmictio até nossos tempos, ainda que os motivos de se erigirem 
„ estas Estatuas , náo sáo hoje os mesmos. As primeiras eleváráo-se pa,- 



da Estatua Equestre. 279 

certo modo como deificado , por hum ar de dignida- 
de , de elevação , e de bondade ; e que se lessem em 
seus olhos a natureza de sua alma, de seu espirito, e 
de seu coração. „ 

,, XII. Que o cavallo, pela fereza, e nobreza de 
seus movimentos , parecesse jactar-se do pezo que le-* 
va , e fizesse conhecer o que pode ajudar á boa con- 
formação , o ensino que os Soberanos fazem dar aos 
cavallos , que elles montão. „ 

„ XIII. Que a Arte haja triunfado da matéria , até 
, chegar a tal ponto de illusao , que o bronze pareça 
, tenro, e de tal sorte animado, que a imaginação cui- 
, de ver-se respirar, e mover, tanto o homem, como 
, o cavallo. „ 

„ XIV. Que a magia da Arte , este Não sei que, 
, que admira, commove, e encanta ; que se não pode 
, definir , porque não tem regra alguma por base ; que 
, se sente muito melhor do que se pode explicar; e que 
, he ainda menos difticil a explicar do que a executar. 
, que eu conheço melhor, que aquelles menos avançados 
, que eu na carreira da Arte ; e menos que os mais adian- 
, tados que eu ; (b) que esta magica, digo eu, ahi se 
, achasse em toda a sua força. „ 



Cap. 



ra lhes render cultos : o amor , e o reconhecimento dos benefícios re- 
cebidos conduzem a erigirem-se as destes tempos] „ Sãlly'. 
Qj) „ O conhecimento das Artes he como a potencia da vista : aquel- 
la cujos raios visuaes críégáo muito longe, disringue , e julga mesmo 
de huma infinidade de objectos, que nâó pôde perceber a outra em que. 

Tt 2 



Cai 
x. 



280 DescripcXo Analytica 

„ Ponderado pois o que fica dito , bem se vê que 
„ as partes de que só se faz menção na Descri pçao que 
„ eu exponho da Estatua Equestre de Frederico V. 
5) quando mesmo cilas fossem levadas ao mais alto gráo 
55 de bondade , sem serem juntas áquella propriamente 
5, dita belleza da Arte ; comporião huma obra que se po- 
55 deria comparar a hum Poema Épico 7 do qual o as» 
w sumpto fosse bem escolhido; o plano bem concebido, 
55 e bem distribuído ; todas as partes bem arranjadas, e 
„ bem trabalhadas ; os preceitos, e methodo, exacta- 
? , mente observados ; e os versos bem medidos ; mas que 
3, lhe faltasse o enthusiasmo Poético. Esta faísca da Di- 
5, vindade , este dom inestimável da Natureza 5 que o 
„ estudo pôde aperfeiçoar , mas nunca já. mais conferir 
55 a posse. „ 

„ Resulta de tudo o que tenho exposto; I.° que eu 
5, estou muito longe de crer ter feito muito executando 



3 , os mesmos raios são mais curtos. Náo he senão pela sabedoria , que s» 
„ descobrem os mysterios das Artes ; que se podem analyzar, resolver, 
„ explicar, e fazellos sentir em suas obras. „ Sally. 

O Author , na comparação que faz dà vista com a sciencia da Ar- 
te , e::plicou-se do modo que lhe pareceo mais breve , e preceptivel ao 
commum dos Artistas. Para se conhecer pois a fundamento este ponto da 
visão , veja-xe Rccreaç, Filos. Tom. 4.. Tard. 16, e 17 , e os Tratados 
de Óptica. Ora, se Mr. Sally , e outros, assim pensão a respeito mesmq 
dos Professores, que juizo se pôde suppor naquelle, que sem conhecimen- 
to algum desta , ou daquella Arte, se intromette a dicidir magistralmen- 
te , prò , ou contra ? Machado. 



da Estatua Equestre. 2 S r 

„ tudo o que hei escrito na primeira , e nesta ?egunda ■ 
„ parte da minha Descripção: II.° que he infinitamente 
„ mais fácil chegar a conhecer tudo o que exige hum 
„ tal Monumento , que executaiio : III. que para for- 
„ mar huma em tudo bella Estatua Equestre , haveria 
5 , mister que não só tudo o que tenho indicado até qui , 
,, nclla se achasse reunido ; mas ainda que todas quaes- 
,, quer outras partes, que compõem o exceilente , o su- 
„ blime, e o maravilhoso da Escultura, tanto pela com- 
„ posição, como pela execução; e igualmente pela por* 
v ção das Sciencias, e outras Artes, que nella concor- 
„ rem , fossem mesmo ahi levados ao mais alto ponto 
„ de perfeição. „ 

„ Ora , como a perfeição em todas as cousas he re- 
? , servada ao Creador , e que por consequência não he 
„ possível a hum só homem profundar , e expor tantas 
yy partes sabias no mesmo gra'o de sublimidade; deve-se 
„ concluir, que a mais perfeita destas Estatuas he,. ou 
w será aquella , que em si une, ou unirá maior quanti- 
„ àiâQ destas partes ; e o Estatuário que tem podido, 
„ ou poderá juntallas, tem sido, cu será o mais hábil y 
„ e por consequência o mais venturoso. „ 

Deste modo conclue Air. Sally a Descripção que 
escreveo da Estatua de Frederico \V. , executada pelo mes* 
mo Artista, em Copenhague: cujo discurso refiro, em cer- 
to modo , como próprio ; para mostrar , que de hum se- 
melhante espirito possuído, tanto do que tenho escrito f 
como executado , me não fica a menor jactância : sendo 



Cap. 



2 3 2 D f. s c n i p q X o Analytica 



Cap, todo -o -meu intento (levando a verdade por guia) , em 
x. primeiro lugar, dar satisfações das faltas em que incor- 
ri; humas por capricho alheio, outras por descuido pró- 
prio , motivado pela excessiva , e indiscreta pressa (*) 
que se me deo: ao que me deliberei: primeiro, em re- 
vendicação do credito, que declaro nos fins do primeiro 
CaDitulo desta obra. Seoundo , instruir a mocidade Por- 
tugueza , que se applica á minha profissão. Em terceiro, 
e ultimo lugar, desenganar as pessoas , que cegamente 
reputão a Fuscria mais scientifica do que a Escultura ; as 
quaes , se repararem neste discurso de Sally , e em tudo 
o mais que deixo escrito , e provado a respeito dos sei- 
entiíicos estudos, e conhecimentos, que exige a minha 
Arte, e pondo a paixão de parte , hão de confessar de 
plano , serem incomparáveis as difficuldades , e vanta- 
gens , que a Escultura rem sobre a Fusoricu 



' (*) Nem Sua Magestade , nem o seu Ministério concorrerão para o 
excesso nesta pressa : por isso lhe chamo indiscreta. 



F I Mc 



N'est que pir Vattentlon de 1'csprit que teutes les vérités se decou- 
vrent. Màlebranche , Recher. de !a Véricé. Pref. pag. XXl\ r . Vcja-se a 
traducçáo no fim do Suppltmentq as notas. 




JM.C. de/* 



Lúcia* xfafou 




f/.C #£/& 



^£ss<rsss<f -<nrss^>ír. <?<&&/&. ^YÇ2>. 




'firtflfr- ^trts/nJ.áYto/ytr? //wi. 



Ksi XXII 




\MC r/,/„ 



7 T / 7 



Est XXIII 




fcufer. 0/ÀfMi* jjyoô . 



283 



SUPPLE MENTO 

A's Notas de toda esta Obra , e traducçao das Citações Itália^ 
nas, e Francezas das mesmas Notas. 

Os Números correspondem aos ynesmos das Notas, 



Supplemento ás Notas do Discurso Preliminar. 



N, 



Umero i. Continuação da Nota deste numero. Quando i 

nascerão, efoião crescendo as Artes do Desenho, ordinariamen- D0 *^ IS " 

curso» 
te cada sujeito, que exercitava , huma, sabia tedas \ e como 

isto procede da íntima correlação que humas tem com as outras, 
enrre o c modernos se tem visto , e vê o mesmo ; por esta cau- 
sa he muito provável , qiie os Antigos também das grandes ebras 
de Escultura publicassem Descripçocs. Seria grato aos Esculto- 
res se hoje tivéssemos hum a individual noticia do modo com 
que se construirão os grandes colossos de Rhodes , de Jove 
Oivmpico, de Apollo Toscanico, de Jove Pompeiano, o de 
Nero, o Equestre de Domiciano , e outros de que se faz men- 
ção na Rohia Antiek % Tom. i. pag. 97. E Plinio , Jiv. 34. 
Cao. 7. , cujo Author declara ahi mesmo, Cap. 8. , que os 
Escu'tores Menechomeno , e Antlgono , escreverão livros da sua 
pfefissao. 

Numero 2, A passagem Franceza deste numero quer di- 



284 SUPPLEMENTO A's N O T A S. 

■ zer : Seria para desejar que este costume ainda se praticasse , 

do Dis- para o progresso das Artes , e para os interesses dos parti- 
curso. cu i ares , Boffrand , lie do mesmo sentir no Avant-propos , ou 
Prefacio da Descri pção da Estatua de Luiz XIV*. pag. 3. Tam- 
bém Sally confirma esta opinião , quando diz : Mas tendo-me 
advertido pessoas illustradas , que todo o Artista , em quali- 
dade de membro da Republica das Artes lhe deve dar conta 
de suas menores âescubertds ; e que em factos de Artes , o 
que tende a pôr o Viiblico em estado de julgar de maneira 
consequente das producçoes delias , não podia deixar de lhe 
ser vantajoso , etc. Suite de Ja Descrip. na carta dedicatória, 
pag. IV. Em a Nota 10 deste Discurso se dá noticia da Des- 
cripçao de Mr. Sally , aqui citada. 

Numero 4. A Estatua que indica a Nota deste numero, 
foi a primeira Equestre , e a maior que até agora se tem fun- 
dido de hum só jacto ; mas antes desta já se havia fundido a 
Estatua Pedestre do mesmo Soberano; que era a figura do Rei , 
a da victoria , com outras peças mais ; que tudo fazia hum 
gruppo formidável de 13 pés (palmos xoi) de altura, fundi- 
da de hum jacto pelo mesmo Escultor, que a fez. Cest Mar- 
tin Vanden-Bogaer , connu sous le nom de des Jardins , Scul- 
pteur de PAcadémie Royale , qui a donnú les dessàns , et qui 
a conduit la finte de ce superbe monument. Quer dizer : Foi 
Martin Varidem-Bogaer , conhecido pelo nome de des Jardins , 
Escultor da Academia Real , que deo os desenhos ( deve-se 
crer que também os modelos ) e que dirigio a fundição deste 
soberbo monumento. Descrip. Kist, de la Ville de Paris. Tom. 
3. pag. 63. E na pag. 62, he que descreve o monumento, e 
se declara ser fundido de hum só jacro. A fundição , porém , 
de huma Estatua Pedestre , não he tão difficil como a de hu- 
ilia Equestre. 



StfPPLE MENTO a's NOTAS. 1o$ 

A nossa Estatua , até a mais elevada extremidade do co * 

car, tem a mesma altura que a de Luiz XIV. : rnas como as D0 Dls " 
. . „ . , i ^ • j curso, 

plumas do referido cocar com o capacete se elevao acima ao 

casco da figura 4 palmos, ou pouco mais ; rigorosamente fal- 
lando , he a nossa menor que aquella 4 palmos em altura ; e 
no mais á proporção. O tamanho da referida Estatua de Luiz 
XIV., declara- o Boffrand na Descri p. dece qui a eté pratique 
pour fondre ... la fig. Eq. de Louis XIV. Avant-propos. Na 
Descrip. Histor. de Paris. Tom. 3. pag. 5* , também declara 
o tamanho desta Estatua , indicando-lhe só 20 pés , que he pal- 
mo e meio menos do que diz Boffrand : porém este merece 
mais credito , neste particular : pelos motivos que na seguinte 
nota se observão. 

Numero 5-. A passagem que a nota expressa , quer dizer : 
Para fazer estas memorias , e os desenhos , que as illustrão , 
e dar huma idéa clara de todas as operações necessárias pa- 
ra conseguir a fundição , eu segui exactamente os trabalhos 
todos que se fizerao ; eu os vi executar desde o principio até 
o fim , e os reduzi a ordem , etc. 

Numero 6. A nota deste numero quer dizer : Criando o 
"Escultor Mr. Lemoine fez a Figura Equestre de Luiz XV. 
para a Cidade de Bordeaux , havia $0 annos que a de Luiz 
XIV. para a Cidade de Paris se havia fendido : os Moldado- 
res , Ferreiros , e Fundidores , que se empregarão naquelle 
trabalho , já não vivido ; e a prática delle se teria perdido 
sem estas memorias , e desenhos ; que eu , compraze** commu- 
niquei a Mr. Lemoine. 

Numero 7. A traduccão he : Seguindo este methodo he 
qttasi impossível que hoje em dia haja falha nestas obras , 
por mais consideráveis que sejao. 

Numero 9. A substancia desta Nota 3 fica traduzida no 

Vv 



2$6 SUPPLEMENTO A's NoTAS. 

^1 « « mesmo Texto : eis aqui o resto. He psra notar que sendo Mr. 

do Dis- Boffrond , contemporâneo do Escultor desta obra Mr. Giran- 
' don, e sendo Boffrond , professor de Arquitectura, Arte muito 
mais análoga da Escultura , que da Fusoria , não receasse escre- 
ver desta, curiosamente, e nrío se atrevesse a escrever d'aquel- 
la de que sem dúvida havia de ter mais luzes. Isto prova com 
bastante clareza a grande vantagem que tem a Escultura sobre 
a Fusoria , em Sciencia , e Prática. 

Numero n. Traducção da Nota: Eu me persuadi dever 
dar ( daquelle monumento ) huma Descripçao , na qual expli- 
cando minhas idêas , e motivos , me sirva de escusa para 
muitas cousas ; e ao mesmo tempo faça conhecer , que não só- 
mente não fiz cousa alguma por acaso , mas que em tudo fui 
induzido , e authorizado por motivos de necessidade , por exem- 
plos respeitáveis , e pelas circumstancias do tempo , e dos lu- 
gares. 

Numero 13. Traduc. Depois deter experimentado o cruel 
ef feito , que o Au th cr de huma obra deve ressentir . . . depois 
de me ter perturbado com as contrariedades , que tenho en- 
contrado , etc. 

Numero 19. Traducção das duas passagens Italianas da No- 
ta deste numero. Passagem primeira : Cada hum reputa estimá- 
vel a Sciencia , ou Arte que professa , e costuma não fazer 
caso , ou ao menos não ter na devida estimação os estudos , 
que outros professao. Passagem segunda : Mas são cegos para 
discernir os defeitos de suas profissões • e para bem ver em 
sy mesmos . . . etc* 

Numero 20. Traducção : Seria cançar em longos , e vãos 
discursos querer mostrar , quanto he importante escolher o 
mais hábil entre os Artistas , tanto que se trata de elevar 
qualquer monumento público , que pelo cuidado que nelle se 



SVPPLEMENTO a's NOTAS. 287 

emprega 7 deve attrahir a attenção de todo hum Povo , mere* ■- ■<■. — i 
cer os seus aplausos , e os dos Séculos futuros, D o Dis- 

Numero 21. Traducçao das duas passagens Francezas da curb0 * 
Nota deste numero. Passagem primeira : Por tanto , <z intenção 
do Author seria persuadir a maior parte das pessoas , que 
empregao as gentes da Arte , quanto as cousas de moda , que 
os encantão , são contrarias ao bom gosto : de aclvirtir-lhes , 
que devem sacrificar suas pertendidas luzes ás do Artista ; 
e não julgarem saber sem estudo , o que os Artistas mesmos , 
em numero muito pequeno , tem apenas chegado a saber de- 
pois de ter empregado a maior parte de sua vida nesta inda- 
gação. Passagem segunda : Deve-se escolher com discernimento 
o Artista ; mas depois he preciso ter nelle huma confiança- 
completa, 

Numero 22. Traducçao. Entre todos os Povos da Gre- 
eia , os Carienses erao reputados pelos menos polidos ; e os 
Alabandinos entre os Carienses passavao por totalmente estú- 
pidos .... com tudo , todos os exemplos , que se referem de 
sua estupidez , e falta de juizo , se reduzem ás grosseiras 
faltas , que os seus Arquitectos havião commettido na cons- 
trucção dos seus Edificios públicos. O nosso jacinto Freire 
de Andrade , tombem segue, oiv apoia a opinião de que os Mo- 
numentos públicos indicao a cultura, e ânimos de seus possui- 
dores. Vida de D. João de Castro , nos Liv. 1. , 2., 3,,, e 4. 
Mas isto depende da escolha 1 de Professores li a beis para execu- 
tar esses Monumentos, Se a maior parte das predu cçoes das 
Artes do Desenho , destinadas á' posteridade são efíeitos do 
Bom gosto , da Magnificência , e do Culto da Religião, 
porque se hão de fazer tanto áo acaso 9 . como ordinariamen- 
te suecede ? Estas obras , as mais das 'vezes, não s3o de abso- 
luta necessidade , por cuja causa v ou devem 'ser beiias , ou 

Vv 2 



280 SUPPL EMENTO A's NoTAS. 

« não se fazerem : pois de outra sorte mostrão no presente , e no 
do D.s- futuro ignorância dss Artes , e mesquinhez de ânimos nos qus 

CU1S0. ■■ • - - a 

ss erigem nao menos , que nos que ss executao ; como nca pro- 
vado nas allegadas Authoridades. 

Numero 23. Traducção. Grande beneficia terião feito d 
Republica das Letras alguns célebres Engenhos , se tivessem 
publicado s maneira de que usarão em estudar , em ler , em 
escolher , notar, e muito mais em compor. 

Numero 31. Traducção. O 5 Musa , tu ... „ Sabes que 
lá concorrem todos onde mais derrama „ Suas doçuras , o li' 
songeiro Parnaso ; „ E que a verdade , confeitada em brandos 
versos , „ Deleitando os mais austeros , os tem persuadido : 
„ Por isso , quando queremos medicar o Menino enfermo ; 
,, Lhe ungimos com suave licor a orla da taça , 3 , Suco amar- 
go enganado entre tanto bebe , ,, E doesse engano seu vida re- 
cebe. Não intentei traduzir esta estancia mesmo em verso , por 
querer chegar-me de mais próximo ao conceito , e expressões 
do Author : mas para satisfazer á curiosidade , eu a exponho 
em verso Portuguez , do modo que se acha na traducção, que 
do Tasso fez Pedro de Azevedo Tojal. 

Vêz que o Mundo lá corre , onde a exhaurida 

Doçura verte o adulador Parnazo , 

E que , no brando metro indo escondida 

A verdade , o mais duro attrahe ao caso : 

Oual ao Menino enfermo na bebida 

De mel se lhe usa a orla untar do vaso , 

Que no entanto , em que o suco amargo bebe ? 

Do seu engano espíritos recebe. 

Numero 35*. Traducção das duas passagens Italianas deste 
numero. Passagem primeira: Licitas , úteis, e louváveis serão 
entre nós as críticas , as censuras . . . Deste modo crescerú 



StfPPLEMENTO A's NoTAS. 2É>Q 

s Império das Sciencias , e das Artes, Passagem segunda. Qual- ^— — — i 

tf//<?r ^r/f Liberal, ou Silencia , tratada com crítica , ^ illus- BO ® IS ~ 

curso 

/fW<z *-<?;tz conhecimentos eruditos , j? r# /fc »w estimada. 

Numero $6» Trsducção. J/»w verdadeiro Filosofo, faz 
mais caso de fornia boa crítica , que do louvor mais bem or- 
denado. 

Numero 38. Continuação da Nota deste numero. O ver 
as bellas obras daquelle paiz , e outros , assim como as suas 
Academias do Desenho , bem que seja muito útil aos que tem 
Génio , e se applicao seriamente, com tudo, não valem cousa 
alguma, se estas vistas não são acompanhadas daquelle dom supe- 
rior, e muito estudo reflexionado: antes vem a ser prejudiciaes 
essas digressões ; porque no lugar que havia oceupar a Scien- 
cia , entra a Soberba , e a detracçao ; manchando a própria 
consciência , denegrindo a própria honra , no intento de ani- 
quilar a dos outros j ficando o individuo em peores termos do 
que estava antes de sahir da Pátria \ voltando a ella com a mes- 
ma ignorância } e entumecido com huma hydropesia de espiri- 
to absolutamente incurável. Quintiliano , Liv. 10. Cap. 7. diz, 
que de ter aprendido as regras de huma Arte , não se segue 
o sabe lia. Mengs também diz que os que não aprendem pelas 
estampas de Rafael , não aprenderão vendo todos os seus ori- 
ginaes , e todas as bellezas da Natureza. Tom. I. pag. 6f. 
da Edição Italiana.. 



ioo Supplemento a's Notas. 



Supplemento ás Notas do Capitulo I. 



— — — Numero ç. Traducção. Em hum Monumento desta impor- 

c ' i anciã , ao qual justamente se poderia chamar o Poema Épi- 
co da Escultura, 

Numero 14. Traducção. Fugi também das linhas , e con- 
tornos iguacs que formão parallelas , e outras figuras agu- 
das , e Geométricas ; assim como quadrados , triângulos , e 
todas aquellas que por serem muito regulares formão huma 
certa symmetria desagradável , a qual nenhum bom effeito 
produz* 

Numero if. Traducção, e continuação da Nota. E fugi 
também de cousas barbaras , grosseiras , e duras d vista . . . 
as que são agudas , e ásperas ao tacto ; e finalmente tudo 
aqui lio . . . pois que os olhos aborrecem as cousas que as mãos 
não querem tocar. Nas traducçdes destas passagens , em todos 
os lugares Oiide as ha , julguei que devia ter cuidado em que 
fossem mais literaes do que elegantes , a fim de que os que 
ignorão o idioma traduzido , possão combinar palavra por pa- 
lavra. Mas ainda não obstame esta circumstancia , não deixaria 
de usar nesta passagem da palavra barbaras , ainda que em seu 
lugar poderá empregar alguma outra : mas naquella acho mais 
amplo significado , que cm outro algum Synonymo seu. V. G. 
Na Tragedia querem os Mestres que aos olhos dos espectado- 
res não se cxpon!;ão na Scena factos horrorosos, ctc. Assim 
também nas Artes do Desenho Tecomraendão alguns Authores, 
que ej não pintem cousas que horomem , nausêem , etc. 

Numero 16. Continuação da Nota deste numero. Olhão 



1, 



SuPPLEMENTO a's NoTAS. 20T 

esí;-s Nações para si, achachss cheias de Academias destas Ar- 
ies es Grandes, os Ricos, os Poderosos, todos as protegem , D0 ca p« 
honrando, e felicitando os seus Professores que em talentos, e 
honra se destinguem ; cogitando, e multiplicando as occasioes 
de se exercerem , para que os Artistas cheios de estímulos hon- 
rados , e de huma nobre emulação , aspire cada hum a ser o 
melhor; e estendendo as suas vistas sobre Portugal, não achao 
huma só Academia de Pintura, Escultura, e Arquitectura. No 
Público, por acaso encontrão em que empregar a vista ; e se 
lhes consta que em particular se achao algumas boas collecções 
de Pinturas , sabem que de Escultura se não descobre nada pú- 
blico , exceptuando Mafra , e o que modernamente se tem fei- 
to. Por esta falta de objectos, que a varias Cidades Estrangei- 
Fas attrahem tantos Viajantes ; pela falta de estudos , de pro- 
tecção , e de occasioes , he que julgão assim : e por es- 
tes motivos he que Portugal não tem produzido abundân- 
cia de grandes homens em todas estas Artes ; tendo aliás 
muitos , e muitos engenhos habilissimos , que impelidos 
da vehemencia do génio, em particular (alguns) forcejão 
por serem menos ignorantes do que os Estrangeiros os jul- 
ga - 

Numero 17. Nota deste numero. O Author da referida 
Carta não deveria intremeteer-se a decidir do merecimento de 
Professores daquellas Faculdades que ellc não estudara a fundo : 
ao fallar da Pintura, e Escultura, mostrou faltar-lhe nestas Ar- 
tes o preciso conhecimento para sentenciar decisivamente. Não 
teria a Escultura queixa deste escritor , se quando falia da Pin- 
tura nomeasse unicamente Francisco Vieira Lusitano ; porque 
até agora não tem havido Pcrtuguez na Escultura , de mereci- 
mento igual ao de Vieira na Pintura : porém , fallando nesta 
de André Gonçalves , de Ignacio de Oliveira , e não me lem- 



202 SuPfLEMENTO a's NoTAS. 

r bro , se de mais algum, podia fallar na Escultura (e sem re- 

Do cap. ceio ) de António ¥ cr r eira , de José de Almeida , e de Ma- 
noel Dias ; sem os injuriar negando-lhe o merecimento de se- 
rem nomeados. O Ferreira \ ainda que não operou senão em 
barro , e cera , não deixa por isso de ser Escultor ; circumsran- 
cia que o Authcr da Carta não podia ignorar , tendo lido ( co- 
mo supponho) em Plinio , Liv. 35*. Cap. 12. que Euchira , e 
Eagrammo, forão Escultores em barro: e que o Escultor i'a- 
sitele , chamou Mãi da Escultura d Plástica, ou exercício de 
modelar. O Abecedario Pittorico faz menção de muitos Escul- 
tores Plásticos , sem outro exercício - y e pode ser que alguns 
destes não igualassem o nosso Ferreira. Este grande homem, 
não teve todas as luzes da Arte, que se deve attribuir especial- 
mente á falta de Academias do Paiz; porém o que não se ad- 
quire com estudos , o Génio , o inestimável Dom do Ceo , que 
lie o mais ; teve-o em grão eminente : achão-se cousas nas suas 
obras que incantão os mais escrupulosos intelligentes. O Almei- 
da, pelo contrario i teve Arte faitou-lhe Génio: operou não só 
em barro , e cera como o Ferreira , mas também em madeira , 
e mármore. Estudou em Roma, e foi Discípulo de Carlos Mo- 
naldi. Se o Àuthor da Carta a escrevera daquella Corte não 
deixaria de fallar cm Monaldi \ especialmente sendo elle Acadé- 
mico da Academia de S. Lucas, e caracterizado nella ; e sen- 
do certo que em nenhuma Academia elegem para Sócios os que 
são ignorantes. Pois se he tão provável que o podemos ter por 
certo , que escrevendo de Roma fallaria em Menaldi , porque 
razão escrevendo de Lisboa nío falia no Discípulo, não sendo 
elle inferior ao Mestre ? Para provar não ser o Almeida infe- 
rior a seu Mestre Monaldi , não precisamos ir a Roma : em 
Mafra ha varins estatuas de Monaldi \ na Casa de Nossa Se- 
nhora das Necessidades ha duas do Almeida , e me consta dei» 



Su PPL EMENTO a's N O T A 3. 293 

xar outras duas quasi completas para a Igreja da mesma Casa. " 

Na Escultura teve José de Almeida igual merecimento ao de D0 CAP> 
Iznâcio de Olheira na Pintura. De André Gonçalves com Ma- 
mel Dias , pôde fazer-se hum imparcial paraiielo : se aquelle 
soube muito bem aproveitar-se das estampas , este não foi me- 
nos hábil em desfrutar os gessos. 



Supplemento ás Notas do Capitulo II. 
Numero i. Continuação da Nota deste numero. Na Gre- 



DO CaP. 



cia , em tempo de Pamphylo , Mestre de Apelles ( e deve jul 
gar-se que com authoridade âeFi/ifpe, ou de seu filho o Gran- 
de Alexandre) houve ordem positiva, para que os meninos no- 
bres aprendessem primeiro que tudo a debuxar ; que entre as 
Artes Liberaes se desse a estas a primazia : e com Edicto per- 
manente, que fossem prohibidas aos servos; por cuja causa não 
se vião na Pintura , nem na Escultura obras de reputação fei- 
tas por Servos. Plin. Liv. 35". Cap. 10. 

O famoso Penelon j no seu Telemaco, liv. 12. introduzin- 
do Mentor a instruir Idómeneo do que devia praticar na sua 
nova Cidade, e dando-lhe lições tão severas, para que dester- 
terrasse delia todas as Artes, que promovem o luxo, diz: Pa- 
receo a Mentor que a Pintura, e a Escultura não crão Artes 
para se deixarem , etc» Esta opinião he constante em tedas as 
pessoas de intelligencia solida. Muitos dizem (e o mesmo Fe- 
nelon) que não são Artes de absoluta necessidade : mas quem 
reparar no modo com que este Sábio discorre , conhecerá que 
dÍQ quando isto diz, falia do económico, e não do civil ; pois 

Xx 



294 SUPPLEMENTO A'S N O T A fj 

■ r i.. se deixa de haver delias precisão total para a Economia , não 

do GAr. deixa de havella absoluta para a Civilidade. 
li 

Também os Poríuguezes nos prezamos deter Prelados que 

pensem como o de Cambrai , e neste particular clhão ainda 
mais Icnge. Hum dos róseos Exceilentissimos Bispos, recora- 
mendando a hum Artista desta Corte a curiosidade de certo 
Ordinando seu, que aqui veio, diz ao Professor em huma Car- 
ta : mostre-lhe multas cousas , interesse-o , e derija-o ; porque 
eu tenho muitos desejos que no rneu Clero haja conhecimento , 
e amor a huma Arte , que adoça , e enfeita os ânimos para 
serem civis , e até santos. 

Numero 6. Traducção das duas passagens da Nota deste 
numero. Passagem primeira. Hum Povo que era laborioso , in- 
dustrioso , perspicaz , profundo nas S ciências ; ifhuma pala- 
vra , os Portuguezes parecido estar postos debaixo de hum cli- 
ma , que lhe dava superioridade para muitas cousas sobre o 
resto dos Europeos, Passagem segunda. Os Portuguezes são 
polidos , generosos , intrépidos , espirituosos , muito próprios 
para as Sciencias , e para o Commcrcio , firmes em sua Reli- 
gião 9 etc. 

Numero 7. Traducção , e continuação da Nota deste nu- 
mero. Em consequência cila (a Cidade de Paris) encarrcçriu 
os mais habtis Artistas , que então havia em Parts, de tra- 
balhar em concurso no desenho deste monumento , etc. Eis- aqui 
o resto da Nota. Repare-se , que para o concurso , diz se en- 
carregarão os mais hábeis. O certo lie que da boa escolha dos 
sujeitos para o que se lhes incumbe, pende (humanamente ) o 
bom suecesso das emprezas : mas quando estas são das Artes , 
quem hao de ser os Eleitores? Nao devem ser por si sós o Po- 
der, a Authoridade, nem a Riqueza; que estas bellas qualida» 
des, tão veneradas, e desejadas no Mundo, podem achar-se ás 



SlJPPLEMENTO A's N O T A S. 295' 

vezes nuas de Sciencia para saber votar, especialmente nas Ar- 
tes; asquaes tem não obstante, a desventura de quererem quasi D0 CAP * 
todos imprudentemente ser seus Juizes ; sem cada hum reparar 
que quando tem huma Demanda , não busca o Medico para pa- 
trocinar-lhe a Lite : quando se acha enfermo , náo o Theologo 
para recuperar-lhe a saúde corporal : nem quando tem caso de 
consciência , o Mathematico para soeegar4hé o espij -iro. Serão 
pois os conhecimentos das Bellas Artes de tanta facilidade , ijws 
huma superficial idéa da Natureza baste para julgar delias ? Oh 
que engano ! A grande Literatura não basta : a natural propen- 
çao , e viveza de espirito para cilas não lie sufhciente : estar 
bem instruido de tudo quanto delias se tem escrito , ainda não 
toca a meta. He preciso, sobre tudo isto, haver delias alguma 
prática: e como esta ordinariamente falta nas pessoas que dei- 
las não fazem profissão, ouvem-ee varias vezes, neste particu- 
lar dizer absurdos notáveis a homens doutissimes , quando se 
animáo a falíar delias decisivamente. Huma occasião discorren- 
do Alexandre Magno com Apelles à respeito da Pintura, este 
Artista com a morosa submissão disse áquelle Monarca : Se- 
'nhor , adverte êúk os meus Discipuhs se estão rindo do que 
dizes. Assim o refere Plinio , Liv. 35. Cap. 10. Nestas elei- 
ções devem ser consultados es Professores ; e ainda nestes se de- 
vem escolher para vogaes os mais inteligentes , segundo a voz 
pública ; porque cada hnm entende á proporção do que sabe 
obrar. Digo pttes que juzgarà de la Tintura , y entendera dei- 
la proporcionalmente , segun la supiere hazér ', y el que mucho. 
supiere y hiziere , mu coo entenderá , y el que poço , peco , etc. 
Vincencio Carducho. Diálogos de la Pintura. Dialogo 6. de 
pig. 104 até loy , discorrendo sabiamente, e declarando cou- 
sas certíssimas , que a própria experiência lhe fez patentes, e a 
mim também me tem mostrado-, com Professores , e Curiosos. 

Xx 2 



EO C/iP. 



296 Sl/PPLEMENTO a's N O T A ?. 

Não traduzo a passagem Castelhana desta Nota , nem as mais 
que houver do mesmo idioma , p^uadido de que dos Portu- 
guezcs só os que não souberem ler deixarão de ter desta lingoa 
hum soffrivel conhecimento para entendelias. 

Numero 11. Continue ção da Nota deste numero. A indis- 
creta pobreza de ir mendigar ás casas alheias o que na própria 
se podia remediar melhor , he mor Ivo muito justo , como sa- 
bem os Artistas insrruidos , e briosos , de augmentar-se a mi- 
nha magoa. Na citada obra de Blondel se encontrão duas es- 
tampas de dous projectos , dos que se fizerão para hum Arco 
Triunfal , que em Paris quizerão levantar ( e chegou a princi- 
piar-se) em obsequio de Luz XIV. : hum destes projectos he de 
Perraalt , outro de le Brun : cada hum remata tom sua Esta- 
tua Equestre , que não louvo. Quem fez os nossos desenhos 
furtou daquelles o máo , e regeitou lhes o bom. No projet to de 
Perrault , vê-se a Estatua vesrida de ferro j no de le Brun , 
he á Romana, com o Le t ão atravessado no pedestal, como se 
vé no presente desenho, Estampa I. , e II. ; e tem no mesmo 
original hum Gruppo de cada lado , além de outras duas figu- 
ras. Admiro-me, que sendo le Brun tão grande Pintor, dese- 
nhasse os ditos dous Gruppos com tanta igualdade , e sem at- 
tender nada, ou qu2si nada, ao que nós chamámos contraposi- 
ção , e os Francezes contraste : porém le Brun nesta obra cui- 
dou só no que era Arquitectura , como objecto principal na- 
quella classe de monumentos ; e no que havia de ser Escultura 
não poz cuidado algum , porque deixou isso ao E -cultor que 
houvesse de executalla : conhecendo muito bem o devido pun- 
donor que nestes casos tem os Professores de algum merecimen- 
to. O Gruppo do Cavallo, no presente desenho Estampa III., 
he o mesmo que o de le Brun , quanto á idéa ; o segundo 
Giuppo Estampa IV., contrapõe mais que o de le Brun , no 



SlJPPLE MENTO A's N O T A S. 2Ç7 

elefante em lugif de cavallo. O original Francez tem o mesmo — 3 
defeito de cruzar o Leão com o cavallo do Heroe 3 mas com LO LAV ' 
melhcr proporção, e sem mas c içar o vácuo desde o piinrho até 
ao bojo. do cavallo; e o Heroe he vestido á Romana. Seguin- 
do porém aquelle original tanto a ponro o nosso copista , não 
sei como foi buscar ao desenho de Perrault o vestido de ferro ! 
Eis-aqui o que be querer variar sem saber de que modo. Ad- 
virtão os Mancebos principiantes destas Artes , que não basta 
ver as estampas, e obras dos Authores, e imitallos á tôa : he 
preciso cuidar em saber escolher delles o bom , e< regei tar-lhes 
o máo ; meditando muito, e muito sobre as suas ob r as : inda- 
gando neilas o bello , o mediocre , e o Ínfimo : conjecturando 
os motives que terião para expor deste , ou daquejle medo as 
suas composições : e nestas as massas dos Gruppos, as actitu- 
.des , os panejamentos , etc. estudando isto já pela Natureza, 
já pelas obras desses mesmos Authores , já pelas advertências, 
que alguns delis escreverão, e já pela communLaçao de Profes- 
sores hábeis , e de pessoas de juízo , e erudição , etc. 
„ Enriquece a memoria de doutrina, 
„ Do que hum cante, outro ensine, outro te conte. 
Ferreira. Carta 12. no Liv. 1. do Tom. 2. Edic. de Lisb. 1771. 
Numero 12. Continuação da Nota deste número» E com 
muita razão , porque o Escultor tem maior ohrgação que o 
Atquitecto, de ter estudado todas as partes de que se compõe 
líL,m todo, em que a Escultura faz o principal objecto: e sen- 
do assim , fiando-se ao Escultor a Esratua , que he o centro do 
assumpto , como não se lhe fiará o pedestal com seus adornos , 
que sãoacce c sorics ? Eu faço muitas reflexões sobre mim ; apar- 
to me com muito esforço do meu amor próprio , e paixão de 
Artista; mas com tudo isto, não posso deixar de persuadir me, 
que para huma Estatua Equestre, ou Pedestre > para hum Mau- 



29# SuPPLEMENTO A'S NOTAS. 

5255=2 soleo , ou Tumulo ; para huma fonte caprichosa ; para huma 
DO GAP# cascata , e para todas as producqóes do De:en^o , dependentes 
de composição vaga , em que tenba maior parte o Estro , ou 
fogo Poético, ainda que nestas producções hajão partes de Ar- 
quitectura , estão os Pintores , e Escultores que se applicío, 
mais costumados , e ensaidos em seus esrudos , a dar estes voos , 
do que os que são só meros Arquitectos , sem bastante prática 
do desenho que imita a Natureza. E sendo a Arquitectura nes- 
tes casos precisa, qual será o Escultor, ou Pintor, que ainda 
sem ter delia particulares estudos não saiba quanta basre psra 
isso? Só o que não for huma, nem outra cousa. Bem conheço 
que este discurso terá muitos Censores , porém estou cerro que 
esta opinião em nenhuma Academia das Artes- do Desenho será 
reprovada. 

Numero 15% Traducção da passagem desta Nota. Mas 
sejao (as roupas) em seu dobrar de pregas , lançadas de tal 
sorte, que descubrão o nu que se acta debaixo , e com arte, 
e graça, ora o indiquem , ora o es condão , sem alguma crue- 
za que offenda a figura. 

Numero 18. Traducção da passagem. Elle (o Escultor) 
tem vestido o Monarca d Romana , porque nós não conhecemos 
nada ião augusto nem tão respeitoso. 

Numero 19. Traducção dos dous versos. Mas de nossos 
vestidos a incoimnoda estruetura „ Contradiz juntamente a 
Arte , o a Natureza. 

Numero 10. Traducção. A moda , o tyranno do Bom gos- 
to , p f 7e hum grande ohstacuh d perfeição das Artes : el/a se 
acompanha da louca novidade que agrada : o vul^õ a segue 
etc. 



SuPPLEMENTO a's NOTAS. l*?? 



íir. 



Supplemento ás Notas do Capitulo III. 

Numero i. Traduccão da passagem Franceza desta Nota. ■"■ mmmm 
Mas para as obras de bronze , o modelo he em certo medo a 
obra mesma , do qual o metal toma a forma : a matéria só- 
mente lhe faz a differença. 

Numero 4. Traduccão. Esta só operação me custou mui' 
to trabalho , e o sacrifício de mais de hum anno do meu tem- 
po. 

Numero 6. Traduccão. Esta medida he huma espécie de 
medida universal , que não tem nada que recear de mudanças 
de uso, ou de variedades de denominação. 

Numero ir. Traduccão das duas passagens: Passagem pri- 
meira. Não ha quasi pessoa que não dê a preferencia ao ca- 
vallo de líespanha. Olha-se como o primeiro de todos es ca- 
vallos. Passagem segunda. Eu tenho visto cavallos de Hespa- 
nha , e mesmo possuído alguns \ elles são extremamente bel/os , 
e os mais próprios de todos para serem retratados por hum 
pincel at tento , ou para montar hum Rei , quando em sua glo- 
ria, e magestade se quer mostrar a seus Povos , etc. 

Numero 15:. Traduccão. Huma cousa que me tem admi- 
rado muito , e que me tem dado muito trabalho a me costu- 
mar , he a cavidade que se f Sr ma no baixo das soldras de 
hum c avalio , tanto que as pernas estendem para trás. Esta 
cavidade precisamente posta no lugar onde os Antigos forma- 
vão huma prominencia , faz parecer logo a coxa neste lugar 
infinitamente estreita , e muito magra. Para conhecer o que 
he Solar a , veja- se esta palavra na lista de nomenclatura dos 



^00 S:UPPLE MENTO A's NOTAS. 



s músculos do Cavalio , com a estampa que lhe compete, no Ca- 



so ca p. itulo v desu 0bra# 
ih. 



Numero ió. Traducção. Os cavallos no andamento apas* 
so , paressem , e são effectivamente mais compridos de esta- 
tura do que são em sua posição natural, especialmente do la- 
do da mão. Isto he , da mão que avança. 

Numero 17. Tradução. E isto he causado da obliquid.i- 
de das pernas que toe ao a terra , que levantão a figura do 
animal quando as taes pernas desfazem a sua o b liquidada , e 
quando se põe perpendicularmente sobre a terra. 

Numero 20. Traducção.. Não estejais tio fixamente pre- . 
zos ao Natural , que nada queirais conceder aos vossos es tu- 
dos , e ao vosso génio t etc. 

Numero 22. Traducção. Não basta imitar exactamente 
com baixa maneira toda a qualidade âe Natureza ; mas he 
necessário que o Pintor tome delia o mais bello. 

Numero 25. Traducção da passagem Franccza desta No- 
ta. Das quaes eu não me tenho apartado em quanto ellas não 
me tem nada pedido que fosse duro. 

Numero 26. Traducção. Mr. Bouchardon tem buscado 
ioàos os meios que podido concorrer para a perfeição da sua 
ebra, Para caminhar de hum passo mais seguro em hum ca- 
minho que lhe era em certo modo novo , elle quiz conhecer o 
sujeito que tinha para tratar ; e persuadido de que não pO' 
dia bem estabelecer os músculos do cavalio que elle devia re- 
presentar , nem julgar de seu jogo , e de suas molas (ou de 
seus movimentos) senão depois de ter estudado a armação dos 
ossos , c a estruetura interior deste bello animal , elle lhe de- 
senhou o esqueleto com grande cuidado \ depois extendtndo seus 
estudos sobre todas as paites exteriores do mesmo animal , 
elle não lhe deixou alguma que lhe não tenha da mesma sorte 



SUPPLEMENTO a'S NOTAS, 3OT 

desenhado em todos os aspe. tos , seguindo seus differ entes mo- ~ 

vimentos , e em seu tamanho natural : não houve circumstan- DO CAP * 

. ih 
cia que lhe parecesse indifferente , nem que devesse ser negli- 
genciada» 

Numero 20. Traducçao da passagem Franceza desta No- 
ta. Quanto mais ellas são apartadas buma da outra tanto 
mais o cavallo he deforme ... as grandes orelhas .., as pe- 
quenas lhe são preferíveis , tanto por sua bondade , como por 
sua intrepidez. 

Numero 33. Traducçao da passagem Franceza desta No- 
ta. Os grandes c aval los , e osrucins tem quasi sempre os pei- 
tos largos , e muito abertos , o que os faz pezados , e por 
consequência excellentes para puxar. Isto he , para carruagens , 
carretas, etc. 

Numero 37. Traducçao da passagem Franceza desta No- 
ta. A* proporção do talhe do cavallo. 

Numero 40. Traducçao da passagem Italiana desta Nota. 
Deve porém advertir-se que a obra não seja muito enriquecida. 

Numero 41 . Traducçao. Segundo as condições de meu con- 
trato eu devia executar este Monumento debaixo das ordens 
immediatas de Sua Magestade , ou de hum Ministro que Elle 
determinasse para esse effeito , e não de outros. 

Numero 47. Traducçao. E antes (ou em lugsr do) que 
o verdadeiro , segui a verosimilhança. Este conselho também 
he Poético. 

Numero 48. Traducçao. Imitemos o famoso le Brun , kum 
dos mais bellos Génios que tem brilhado na Pintura. Se elle 
estudou os usos dos armamentos antigos , não tem sido para 
os copiar com servidão , nem para lhes adoptar o gosto sim- 
pies até indicar pobreza , mas para se pôr em estado de os 
imaginar mais engenhos es , e mais agradáveis, 

Yy ' 



302 Sufi» ls mento a's Notas. 

:— ~ -— . Numero 49. Traducção. Butque-se tudo aqui Ho que con- 

Do cap. vem d Arte , f que pôde ajudalla , efuja-se de qualquer cou~ 
sa que a cila repugne. 

Numero 50. Traducção. £ /V/0 se faz , porque aquellajt 
figuras que são postas em altura perdem no escorço da vista 
estando debaixo , e olhando para cima. De sorte que o que se 
lhe dá de acerescimo vem a consummir-se na grossura do es- 
corço , e vem a pai ecer depois de proporção ao verem- se jus» 
tas , e n ao. anãs , mas cem boníssima graça. E quando não 
agradasse fazer isto , se poderão conservar os ynembros da fi- 
gura mais delicados , e engraçados , que isto vem a ser qua- 
si o mesmo. 

Numero 52. Traducção. Mesmo para o encabellamento 
( ou maneira de penteado ) ainda que este se não possa nada 
mudar sem affroxar a semelhança , e que isto seja , não ob- 
stante a única circumst anciã em que a maior parte da gente 
se firma. 

Numero 56. Traducção. E ainda será bom levantar -se 
varias vezes , e tomar algum desafogo , para que com o re- 
tornar ( ou quando voltas á obra ) tu melhores o discurso j que 
o estar firme na obra te fará muito enganar. 

Numero 57. Traducçao. Durante mais de cinco annos , 
eu não havia feito mais que pensar , e fazer estudos para m*. 
pôr em termos de executar este grande modelo. 



$UPPLEM*NTO A*S NoTÀS» 303 



Supplemento ás Notas do Capitulo IV. 
Numero 2. Traducção. A natureza não nos engana nun- ■ ■ = 

DO CAP. 

Numero 7. Traducção da passagem Franceza. O estado , 
<z condição , tf fortuna , r//w/tf , <? temperamento contribuem 
tf causar na especulação das proporções , differenças sensí- 
veis. 

Numero 10. Traducção. ífi? preciso pois , to" o espirito 
cheio do seu assumpto. 

Numero 14. Traducqão da passagem Franceza. Os ani- 
mães tem partes conformes ás nossas. 

Numero 20. Traducção. Eu principiei por fazer escolha 
de hum cavallo entre o maior talhe , e o mais pequeno , que 
se achou ter 4 pés , e 11 pollegadas. Depois de eu ter feito 
montar este cavallo por cavalleiros de differentes tamanhos , 
assentei dever-me deliberar por hum de 5 pés , e 7 pollegadas , 
pela medida de França. 

Numero. 21. Traducção. Pois que quanto mais miúdas 
são as partes da divisão , tanto menos nos somettemos ao er- 
ro , e tanto mais nos podemos encostar d perfeição* 



Y 7 l 



304 Su?PLE MENTO a's NoTA!.' 



Supplemento ás Notas do Capitulo V. 



Nnmero 2. Traducçao. Ee da perfeição deste m$delo que 
^ aiJ ' depende aquella do, obra de bronze , que delle ( do tal modelo ) 
toma a forma ( o bronze ) ao depois. Por cuja causa o Escul- 
tor o deve terminar o mais que lhe for possível , e sobre tudo 
satisfazer-se inteiramente pelo que respeita aactitude , e disr 
posição de suas partes , porque depois não as pôde mudar. 

Numero 3. Traducção da passagem Franceza. Eu ainda 
procurei a vantagem de poder gozar de longe o effeito de mlr 
nha obra 5 fazendo construir em torno do meu Laboratório 
{que tinha 90 pés de comprido , por 50 de largo) grandes cai- 
xilhos tapados de corredissas. , que desci ao , etc. 

Numero 4. Traducção da passagem Franceza. Os objectos 
parecem diversamente quando nós os podemos tocar , do que 
quando estão elevados em altura* 

Numero 7. Traducção. E o que está em hum lugar fe- 
chado faz outro effeito diverso do que estando em descuberto. 
Ora y nestas cousas ( ou para executailas ) he preciso ter grar- 
de juizo para bem acertar , etc. 

Numero 8. Traducção. O claro escufo , depende absolutãr 
mente da imaginação do Pintor. 

Numero 10. Traducção. Os Escultores assim como os Pin- 
tores podem pôr em pratica o artificio do claro-escuro , quan- 
do tem occasião , ou que elles a procurao pela disposição de 
suas figuras , ou pelo lugar onde se deve collocar a sua obra* 
O Cavalheiro Bemine deixou disto exemplos d posteridade em 
algumas Igrejas de Roma , nas quaes elle dispoz sua escultu- 



SUPPLE MENTO á'S NoTAS. 305* 

ra } segundo o clarão das janellas que lha deviao illuminar. - 

Ou também fez romper janellas de huma abertura vantajo- DO cap. 
sa , quando para isso teve liberdade , a fim de tirar delias 
luzes que fizessem hum effeito extraordinário , e capaz de en- 
treter a attenção de seu espectador. 

Numero 13. Traducção. Não se pode bem encarecer a 
necessidade que ha de que os diversos braços de ferro que en- 
trao nesta armação , se achem postos de modo que fiquem sem- 
pre no centro das diversas partes do modelo que clles segurão f, 
e que não se apartem ( da sua situação ) em parte alguma. O 
Escultor (neste caso) experimentaria hum verdadeiro suppli- 
cio , se ao tempo de trabalhar seu modelo estivesse continua- 
mente no receio de encontrar debaixo de suas espatoletas qual- 
quer porção de ferro que o desarranjaria inteiramente , e que 
talvez seria tal , que o obrigasse a começar totalmente de no» 
vo a sua obra. 

Numero 1.5*. Traducção. Eu não tenho seguido o uso ordi- 
nário quando fiz o meu modelo grande ; eu o trabalhei como 
se trabalha o mármore ; isto he , depois de haver disposto a 
armação (de ferro) eu lhe puz tantas pontas (balizas) como 
havia posto no meu pequeno modelo. 

Numero 17. Traducção. Em toda- a qualidade de litera- 
tura nos podemos contar alguns caçadores de moscas. 

Numero 18. Tradccçlo da passagem Italiana. Matéria 
verdadeiramente difficil , e da qual pelo que eu tenho visto não 
tem havido até agora quem delia tenha escrito. 

Numero 21. Traducção da passag m Franecza. Eu fiz es- 
te modelo absolutamente só , d excepção do estuque que man- 
dei pór nos lugares onde eu o precisava. 

Numero 25* Continuação da Nota deste Numero. Isto 
faz lembrar o que diz Mr. Rollin dos Soldados Romanos, 



306 SUPPLEMEKTO A^S NOTAS. 

■ quando nos Triunfos acompanhavão os seus Generaes. Eis-aqui 
do cap. Q q Ue ^ z . £7/^ celebrai) ao á porfia os louvores de seu Gene- 
lal, e nesses louvores misturavao ás vezes mofas , e satyras 
assas picantes , que mos travão a libertinagem -militar. Hist. 
ancie. Tom. V. pag. 815-, Ed'c. d: Paris de 1740, em quarto. 
Os Generaes servem-se de mãos alheias , mas o principal das 
victorias a elles se deve , pelas disposições que delles emanao. 
No meu caso porém , se a precipitada pressa me obrigou a ser- 
vir-me também de operários subalternos, deve-se advertir, que 
na Escultura , por causa da sua morosidade he este ufo muito 
mais frequente , que nas outras Artes do Desenho \ e disto mos- 
tro exemplos. 

Não tratando aqui de Bouchardon , de quem fallarei adian- 
te (*) a este respeito , vendo-se na vida de Bernine a Lista das 
suas obras , se conhece claramente ser impossivel , que hum ho- 
mem só podesse fazer tão prodigioso numero de obras. Bastava 
unicamente o Baldaquino , e Cadeira de S. Pedro , na Igreja 
Vat'cana , para empregallo toda a sua vida (e não bastava) 
ainda que foi de 82 annos. Veja-se a dita Lista, que principia 
na pag. 294 do Tom. II. de Viés des Arcbitectes. Porém se a 
Lista das obras de Bernine pela sua quantidade admira , o que 
diz Plinio das deLisipo, espanta. NoLiv. 34. da sua Hist. Nat. 
Cap. 7. diz, que este Escultor fizera da sua mXo 610 obras % 
que cada huma por si era capaz de dar fama d Arte, He 
preciso ser demasiadamente estúpido para crer que sem muito 
adjutorio de mãos alheias isto assim fosse. Não obstante , diz 
Plinio bem claramente, que da própria moo de ] isipo , por ser 
co. r tumc immemorial , e inalterável , reputar^m-se originaes , e 
da própria mão , as obras que da sua , e em seu nome deixa sa- 

(*) He no Cap. V. tio Texto, e no lugar da Nota 44. 



SuPPI. EMENTO A'S NOTAS. 3O7 

liir qualquer Author ; deliberação a que muitas vezes obrigao - 
as circumstancias , e nada vantajosa ao bem da mesma obra , e D0 GAP# 
de seu Artista ; o que; lamenta o Sábio Mengs , a re«peito das 
obras do grande Ur bino , reputando isto desgraça. He no Tom. 
1. a pag. 157. 

Numero 28. Traducção das três passagens. Passagem pri- 
meira Franceza. Póde-se ajuntar que as luzes devem sahir do 
espirite , e serem dirigidas pelo bom gosto , que be só o que 
se acha em estado de fazer distinguir o bom do máo. Traduc- 
ção da segunda passagem Italiana. Mas não se deve usar ou- 
tra melhor medida que a dos olhos com juizo. Traducqao da 
terceira passagem Italiana. E estas cousas são mais conhecidas 
de huns olhos bons ; *s quaes se tem juizo se podem reputar 
9 verdadeiro compasso. 

Numero 34, Traducqão. He necessário que a satisfação 
commum se anteponha aos verdadeiros preceitos da Arte. 

Numero 35-, Traducqão. Este modelo , começado nos ulti- 
mos mezes de 1748 , foi acabado em 1756. 

Numero 39. Traducção da passagem Franceza. Por exem- 
plo , por matéria se entende em hum composto o que he inde- 
terminado , e por forma o que lhe faz hum tal ser , e lhe dá 
sua perfeição \ como na Estatua do Rei , a matéria he o bron- 
ze , ou o mármore , que siío indeterminados , pois que o már- 
more , e o bronze não represente o nada. He pcis a firma que 
o Artífice dá a esta tnateria , que faz que ella seja a Esta- 
tua do Rei. 

Numero 40. Traducção da passagem Franceza. A primei- 
ra vista dada com intelligencia pelo Escultor , Ike fez cohhe' 
cer as faltas : elle marcou por sua mão as peças que havião 
padecido alteração, e o restabelecimento se fez debaixo de sua 
direcção. 



308 Supplemento a's Notas. 

i Numero 42. Traducção. Ainda que parece que a perfi- 

do ca?. ç^ de huma obra depende do modelo ... pode-re \ com tudo ao 
reparar das ceras dar-lhe novas graças , e aperfeiçoalla mais. 
Numero 43. Traducção. Eu tenho igualmente reparado 
só a Estatua inteira em cera , e ahi tenho ainda feito inda- 
gações vantajosas : eu trabalhei nesta importante operarão 
desde 2 de Dezembro de 1766 , até 25 de Abril de 1767. 

Numero 44. Traducção. O adjUtorio só de dous camara- 
das Escultores , e o curto espaço de seis semanas bastarão 
para o inteiro complemento de huma operação , que se he pre- 
ciso crer Mr. Boffrand , foi tão extensa como perigosa pelas 
variações , e incertezas que poz em seu trabalho o Escultor 
célebre a quem nós devemos a Estatua de Luiz XIV, 



Supplemento ás Notas do Capitulo VI. 
Numero 1. Traducção. Mas como ( cada hum ) se cança , 



docap. e se desgosta quando o trabalho he longo, e escabroso , he a 
preposito repartillo ; e isto he hum dos grandes segredos do 
Mcthodo. Na Arithmetica tanto que ha muitas sommas para 
juntar , ou para multiplicar , se faz isto por partes. 

Numero 25, Traducção. As negligencias , tanto que me- 
recem ser chamadas felices , são perjeições, • 



SUPPLEMENTO A*S NOTAS. 3OQ 



Supplcmento ás Notas do Capitulo VIL 

Numero 4. Traducção das duas passagens. Passagem pri- s=s 
meira Italiana. Guarda o decoro , isto he , o que convém ao D0 CÁP « 
acto , vestidos , sitio , e circumst anciãs de dignidade , etc. Pas- * 

sagem segunda Franceza. O ponto essencial na Elocução , ou 
como diz Cícero , o ponto capital he guardar as decencias. 

Numero 58. Traducção. Que he tiecessario ter muita 
Sei ene ia de desenho. 

Numero 60. Traducção. O baixo relevo . . . não he pro- 
priamente mais que hum desenho elevado , ou avultado. 



Supplemento ás Notas do Capitulo VIII. 

Numero 1. Traducção das duas passagens. Passagem pri- ■« 

meira Franceza. Para fazer em tiarmore , ou rf outra pedra , D0 CAP * 
huma estatua , ou qualquer animal , o Artista começa por lan- 
çar seu pensamento sobre o papel . . . depois o modela em bar* 
ro com a maior exacção que he possível , seguindo stu dese- 
nho. . . Devo aqui ajuntar ao que diz o Authcr , que ao tempo 
de modelar, se não segue ião exactamente o desenho, que se 
não facão no modelo varias alterações , e algumas consideráveis. 
Continua o Author. He por tanto necessário que o Escultor 
possua perfeitamente , o desenho , ( ou saiba perfeitamente de- 
senhar) e que conheça bem as Leis da Perspectiva. Traduc- 
ção da segunda passagem Italiana. Esta digressão sobre a Es» 

Zz 



3 IO SlJPPLEMENTO A'S NoTAS. 

; cultura não he fora de preposito , porque tratando-se de De- 

ão cap. senho elte sobresae nesta Arte nos contornos , e nas formas , 
v l ' que são igualmente necessários á Pintura. 

Numero 3. Traduccâo da passagem Franceza. Ha bellas 
partes neste quadro , . . mas elle he mal composto , as figuras 
estão espalhadas , etc. 

Numero 6. Traduccâo. Não somente hum Pintor não de- 
ve fazer entrar nada em seu assumpto , que não concorra com 
a acção principal de seu painel • mas he preciso que tudo con- 
tribua para augmentar-lhe mais a força , e o caracter. 

Numero 8. Traduccâo das duas passagens Francezas. Pas- 
sagem primeira. As expressões excessivas , e de risagens que 
podem mover a multidão , desgostão aquelles cujo sentimento 
he apurado. Passagem segunda. Não basta que huma cabeça 
tenha expressão , he necessário também que essa expressão te- 
nha conformidade , e nobreza. 

Numero 11. Traduccâo. He preciso demais ter cuidado 
em dar maior belleza ds Personagens de qualidade superior , 
e engrossar mais as de natureza commum. 

Numero 17. Traducqão. Eu creio poder deliberar-me a 
dizer que nós devemos ser muito livres na escolha do que nos 
parece poder seguir- se a respeito de usos (ou modas no ves- 
tir ) e que he necessário conservar-mos o Direito de os regei- 
iar-mos , tanto que elles não se adaptão com as btllezas que 
a Arte sempre tem Direito , e interesse de procurar. 

Numero 18. Traduccâo da passagem Franceza. A grande 
consideração de que elle (Portugal) tem gozado na Europa 
pela habilidade de seus Commerciantes ; os Portuguezes tem 
feito os principaes descobrimentos do novo Mundo , elles tem 
tido em suas mãos todo o commercio das índias , elles encerra- 
rão em seu Porto de Lisboa o armazém geral da Europa. 



SUPPLEMENTO A*S NOTAS. 3II 

Numero 19. Traducção da passagem Italiana. O mesmo 
acontece com as figuras ; quando se unem de modo , que huma D0 CAP# 
sos tenha , e sirva a fazer ap parecer outra , e acordandc-se 
juntamente facão hum só Toao. 

Numero 20. Traducção. Foi dito com graça , que seriao 
felices as Artes se delias julgassem só os Artífices. 

Numero 11. Traducção. He preciso ter provado as difi- 
culdades dos talentos (isto he , no que elies emprehendem ) 
para julgar do merecimento que se adquire em vencellas. 

Numero 22. Traducção das duas passagens. Passagem pri- 
meira. Nella huma bella desordem he hum ejfeito da Arte, 
Passsgem segunda. A Pintura , a Escultura , todas Artes ; que 
digo eu} A Natureza mesma nos fornece huma infinidade de 
exemplos destas felices irregularidades. 

Numero 24. Traducção. Além disto , não se desterra tu- 
do o que tem ressaibos da Arte senão pelos rasgos inimitáveis 
da Arte mesma. Isto se vê nas obras dos Pintores , e dos Es- 
cultores. Seus chefes de obras são mais perfeitos quanto elles 
se chegão de mais perto d Natureza ; e elies se lhe avisinbão 
tanto mais quanto a Arte nelles àesapparece mais \ mas nis- 
to são os maiores rasgos dos Mestres que afazem desappare- 
eer , e que a escondem. 



Zz a 



3I4 SuPPLEMENTO A*S NoTÀS. 



IX. 



Supplemento ás Notas do Capitulo IX. 
■— — — -• Numero 1. Traducqao da passagem Franceza. Hum So- 

DO ("* A P 

' neto , huma Ode , huma Elegia , hum Rondo y e todos estes 
pequenos Poemas dos quaes se faz muitas vezes tanta osten- 
tação (ou que dão tanto brado) não são de ordinário mais 
que producçoes todas puramente da imaginação. Hum espiri- 
to superficial com bum pouco de uso do mundo , be capaz de 
fazer estas obras. 

Numero. 3. Traducção, Quando se falia do que se não 
conhece bem , falla-se mal. 

Numero 4. Tradução. Os Panegíricos , que faz certa 
gente de gosto estragado , são verdadeiros vitoperios no voca- 
bulário dos intelli gentes. 

Numero 8. Traducqao. As iãéas do difficil , e do teme- 
rário avisinhao-se á do maravilhoso , e attrahem muito a 
multidão , e sobre tudo aos que conhecem pouco as Artes. 

Numero 9* Traduccão. O que be prejudicialissimo ds 
Matérias , e enjoa muita , e causa riso aos Sábios Leitores , 
be o intrometter-se a tratar certos argumentos , e a querer 
logo dicidir , qualquer que não tenha ou nenhuma , ou suffici- 
ente provisão dos Princípios , que em tf feito ser ião necessários 
(para tratar) aquella tal Matéria. No que, seja-me licito de 
dizer , que não só cabem Mancebos inexpertos , mas ainda 
mesmo homens veteranos nas Cadeiras , e nas Aulas. 

Numero 17. Traducqao da passagem Franceza. He esta 
maneira em fim c, que destruída pela lima, e pelo sinzel , na 
bella estatua do Rei ( feita ) por Mr. Boucbardon , lhe tem 



SlTPPLE MENTO A*S NoTAJ. JI? 

feito perder hum dos principaes méritos que a farino admi- £ 



rar na posteridade , e que Mr. Pigalle teve a resolução de do cap. 
conservar no bello Monum nto que e lie fez para a Cidade de 1X> 
Rheitns. A respeito da palavra maneira , veja-se a varias vezes 
eirada Arte delia Pintura de Du-Fresnoy , ru declaração dos 
termos facultativos ; e o Dictionaire Abregd de Peint. etc , 
mots , Paire , e Maniere. 

Numero i%. Traducção das duas passagens Francezas. Pas- 
sagem primeira, O Senhor Gastelier bem conhecido por hum dos 
melhores lavrantes em cobre que nós tínhamos , era o de quem 
se havia feito escolha para reparar a obra , e a levar ( traba- 
lhando- a debaixo dos olhos de Mr. Bouchardon ) ao estado de 
perfeição , a que o Escultor a tinha conduzido em seu exceh 
lente modelo. Passagem segunda. O lavrante . . . nco perdendo 
de vista o modelo observando-o a cada instante , e recebendo 
as advertências úteis do hábil Escultor , e sobmettendo-se a 
ellas , etc. 

Numero 19. Traducção. Eu ainda levei mais longe meu 
zeh pela perfeição do Monumento , trabalhando-o eu mesmo na 
Estatua de bronze , isto he , reparando-lke inteiramente todas 
as carnes , e retocando- lhe a maior parte do rosto \ de sorte 
que contra o uso 5 neste bronze se acha ter o toque mesmo de 
seu Author. 

Numero 42. Traducção. Toda a qualidade de corpos que 
nós vemos , e toda a superfície crido huma pyramide só, pre- 
nhe j por assim dizer 5 de tantas pyramides menores , quan- 
tas são as superfícies , que mediante aquelia visão , sao compre" 
hendidas dos raios da mesma visar* 



3l£ SUPPLEMENTO A 5 S NoTAS. 



Supplemento ás Notas do Capitulo X. 



Numero i. Traducção. A altura total da Estatua Eques- 

*"• tre l 
x. 



' tre he de dezeseis pés , e a da figura do Rei tomada separa- 



damente , he de doze. 

Numero 2. Traducção. A operação (de conduzir) que se 
fez por mãos de homens durou três dias : ella se começou na 
quarta feira dezesete de Fevereiro de 1763 , sobre as oito ho- 
ras da manhã y e acabou 110 Sabbado seguinte. 

Numero 8. Traducção da passagem. Que nunca sejão es- 
condidos os Pés , e muito raramente as extremidades das jun- 
tas. 

Numero o. Traducção. Esta maneira de ferrar he mui tê 
favorável ás Artes , ella dá tanta ligeireza , e graça aos pés 
dos csvallos , que seria muito grato aos Artistas , que ella 
fosse recebida geralmente. 

Numero 10. Traducção. Como na distancia em que se fi- 
ta a ponto de bem julgar de huma Estatua Equestre , a sa- 
cada de seu plintho esconde sempre huma parte dos pés do ca- 
uallo \ a elevação que produzem os rompoes , ajuda tanto a 
diminuir este inconveniente , que isto só seria sufficiente para 
me fazer adoptar (este uso). 

Numero 11. Traducção. Esta Estatua he de bronze; ella 
tem 15- pés , e 11 pollegadas de alto desde a extremidade da 
cabeça do Rei até d palma do c avalio , e 16 pés , e 1 1 polle- 
gadas com seu plintho. 

Numero 12. Traducção. O pedestal tem \% pés , e 8 poh 
legadas j (e vem a ter) 19 pés , c 1 pol legada comprebenden* 



StfPÍLEMENTO A'S NOTAS. ^TJ 

do-se ( nesta somma ) y pollegadas do declive da calçada que 

se acha entre os degrdos do pedestal, e a grade. D0 CAP » 

Numero 13. Continuação da Nota deste numero. Nas Es- 
tatuas , attende-se á grandeza dos sitios em que se collocao ; 
para que na companhia das mais partes , façao bom acordo no 
todo da harmonia visoal. E além deste motivo ainda ha ouiros. 
A belleza augmema-se na maioria ; mostrando nisto , que a 
pessoa' representada , ainda mesmo no material , e forma , não 
he do commum : que he extraordinária , que he maravilhosa. 
Que de exemplos disto mesmo nos fornece Homero ! São mui- 
tos. Mas para citar algum , veja-se o Liv. 24 da Ulissea , on- 
de elle diz que Minerva , ao sahir do banho Laerte , Pai de 
Ulisses , a Deosa o tornou mais bello , e de maior grandeza 
do que era amantes : de que admirado o filho exclamou : O' 
Pai, por certo algum dos immortaes Deoses , em semblante , 
e grandeza te fez melhor. Porém para o presente caso nenhum 
lugar daquelle grande Poeta vem tanto a ponto como o do Liv, 
21. da lliada , onde elle pinta a contenda de Marte com Mi" 
verva ; dizendo , que esta Deosa pegara em huma grande pe- 
dra , a qual havia servido de marco de divisão de campos , e 
com ella atirou a Marte com tanta força que deo com elle de 
aveço , cujo corpo , na qutda , oceupou sete geiras de terra, 
Notao-se aqui duas grandezas extraordinárias : a primeira na 
mão de Minerva para pegar em tal pedra , e atiralla com fa- 
cilidade. E de que tamanho seria o corpo á proporção de taes 
mãos ? A segunda grandeza he o corpo de Marte, que esten- 
dido no chão aceupava sete geiras de terra, tendo cada huma 
cem varas em quadrado. Tudo isto he para mostrar o grande , 
o maravilhoso. E se o que tenho exposto não basta , a censu- 
ra não cahe sobre mim 3 porque segui a medida que me de~ 
ião. 



JlS SlTPPLEMÉNTO A'S NOTAS. 

: - Numero 17. Continuação da Nota deste numero. Mas, 

do càp. segundo as observações de Mr. Sally nas muitas vezes citada 
DescripçÕo da Estatua de Frederico V*> pag. 2 3 , este recuar, 
c abaixar de garupa he falso , e contrario á Natureza no movi- 
mento do galope , do modo que os Artistas quasi todos o in- 
dicão. Porém não obstante , acha-se no movimento a que cha- 
mão Terra-terra ; cujo manejo eu mesmo presenciei no Pica- 
deiro de Sua Magcstade , onde por ordem do Senhor Rei D. 
José se executou para eu o ver ; a fim de lhe fazer hum mo- 
delo nesta actitude 1 o qual modelei alli mesmo , seguindo as 
advertências do Excellentissimo Marquez Estribeiro Mor, e do 
Chefe da Picaria Bertoldo : não se dedignando Sua Magestade 
nesta occasião , de expor também as suas sabias reflexões E 
como a referida Estatua de Pedro Grande, faz o principal ob- 
jecto desta Nota , devo declarar mais que ella não tem píintho : 
e o seu pedestal todo, finge hum monte, que consta de huma 
grande pedra , preciosíssima pelo seu tamanho , e qualidades. 

Numero 19. Traducção da Passagem Frar.ceza. Esta pa- 
lavra , no figurado , significa difficuldades , e cousas que im- 
pedem o caminhar ( o caminho da virtude he cheio de silvas , 
e de espinhos ) . 

Numero 20. Traducção. Tomão-se também as cobras por 
figura universal de todo o peccado , e vicio. 

Numero , ou signal C. Traducção da Passagem Francesa 
desta Nota. He preciso que a obra . . . se indique sem equivo- 
co , desde a maior distancia em que se possa destinguir. 

A sentença de Malebranche , que se acha im mediata ao 
fim do Capitulo X. , quer dizer : Não he senão pela attençãê 
do espirito que todas as verdades se descobrem. 



319 



-» MajBuefiiiiafifasiSTWí 



CATALOGO 

Da maior parte das Estatuas públicas Equestres , e Pedestres , 

existentes na Europa \ eregidas á gloria de alguns Soberanos, 

e outros Personagens distinctos : segundo a memoria , 

que delias faz Mr. Patte , na sua obra intitulada , 

Monumens eriges en France , stc. 

Estatuas em Itália» 

Cj M Florença , ha huma Estatua Equestre , de Cos- 
me I. , feita pelo famoso Escultor Jeao de Bolonha , em 
bronze. -.-------------- i 

Em Pisa , huma do mesmo Heroe : não diz se Pedes- 
tre , ou Equestre; nem de que matéria seja. ----- 2 

Em Florença , outra ao Gran Duque Fernando de Me- 
dices. (*) ---.----- -3 

Ao mesmo Herce , outra na ponte de&orne. Nos qua- 
tro ângulos do pedestal tem quarró escravos , que represen- 
tao quatro irmãos corsaries que e!!e venceo. ----- 4 

Em Placencia y huma Equestre, de Alexandre Farne- 
se , Duque de P2rma. --.---------£ 

Ahi mesmo, outra Equestre, deRanucioj filho do so- 
bredito Alexandre. -____-------6 



(*) Mr. Cochin , Voyagz eTltalie Tom. 2. pag. 55. , diz ser também 
de bronze esta Estatua ■■, e que ambas as de Florença são boas. 

Aaa 



310 Catalogo das Estatuas. 

Em Ferrara , huma Equestre em bronze, erigida aNi* 
coláo » Marquez de Est. -----------7 

Ahi mesmo , outra Equestre , em bronze , ao Duque 

Borso. --- . g 

Na mesma pagina quehe 384, diz Patte que a maior 
parte das Cidades do Domínio Ecclesiasrico tem elevado 
hum grande numero de Estatuas em bronze a diversos Pa- 
pas. ----.-----•-..... 

Em Ferrara \ diz haver huma de Alexandre VII. - - 9 
Outra de Clemente Vlií. - - - - - - - - -10 

Em Ravena , huma ao dito Alexandre. - - - - - 11 

Em Pisaro , huma de Urbano VIU. - - - - - 11 

Em Lorcto , huma de Xisto V. - - 13 

Em Veneza , huma de bronze dourado , ao General 
Bartholomeu Cog. ---••...... - - 14 

Em MUao , huma de Oldrando : não diz de que ma- 
téria ; nem se lie Equestre, ou Pedestre. .---.- 15* 
Ahi mesmo, outra de Filippe II. Nao declara mais. - 16 
Em Génova , huma de André Dória. - - - - - - 17 

Ahi mesmo , outra ao Marechal , Duque de Reche- 
ou. ,g 

Em Ni f o/es , huma Pedestre , a D. João de Áus- 
tria. I0 

Nos raízes Baixos , e Alemanha, 

Em Granel^ huma a Carlos V. ----- * - 20 
Em Rotterdam , Pátria de Erasmo, erigirão estatua a 
este Sábio. A primeira foi de madeira, depois transíerio-se 
a mármore- e em fim a fizerao de bronze. - - - - - ir 
Em Berne , duas que fazem hum só monumento , são 



Catalogo das Estatuas. 311 

de Guilheime Tcll , e seu filho: cuja historia he notável , 
e artendivel. Veja-se o Author. ---- - - - - . 22 

Em Nuys, huma em bronze do Imperador Frederico 

III. 2 3 

Em Dusseldorff , huma Equestre de bronze , a João 
Guilherme , Eldtor Palatino. EJiá he representada de ecu- 
raca , isto he, á Romana. -...----- -24 

Em Copenhague , huma Equestre muito maior que o 
natural, executada em chumbo dourado, e erigida a Chri- 
stiano V. ..-..-----•----25' 

Ahi mesmo, huma de Frederico V. em bronze, ves- 
tida á Romana. Foi executada porMr. Sally , hábil Escul- 
tor Francez , da qual fez o mesmo Esculior a Descripção 
que se deixa muitas vezes citada nesta obra. - - - - - 26 

Em Berlin , huma Equestre de bronze, a Frederico I. 
dito, ou chamado o Grande Eleiror. - - -• - - - - Vf 

Em Dresde , huma Equestre , feita de chapas de co- 
bre; erigida ao Pvei Augusto. ---------28 

Em Suécia, e julgo que emStockholmo, huma Pedes- 
tre , a Gustavo Vasa : não diz de que modo , nem de que 
matéria. ----------------29 

Ahi mesmo , outra Equestre em bronze ao famoso Gus- 
tavo Adolfo , pelo Escultor Mr. Larchevêque : gruppo de 
duas figuras a cavallo de boa idéa Poética , posto que mui- 
to difncultosa para neila ser agradável a composição grafi- 
ta : e tal a não julgo ; segundo a Descripção de Pat- 
te. - 30 

Quando Mr. Patte escreveo a sua obra , ainda estas 
Estatuas dos dous Gustavos se nao achavão mais que em 
modelos : mas a do Vasa já se ccncluio, e collocou, se- 
gundo vi em huma Gaveta de cujo sitio , e data me não 

Aaa z 



322 Catalogo das Estatuas. 

lembro ; nem opor.ro merece oimmmenso trabalho que da- 
ria indagar tao pequena circu instancia. 

Em Hespanha. 

Em Madrid, huma Estatua Equestre em bronze, a Fi- 
lippe V. --•----------. ~ - 31 

Em Aranjvez , huma em bronze de Carlos V. Não 
diz se Pedestre, ou Equestre; mas que finge ser vestido de 
ferro. --.---------------32 

No pateo do Palácio do Bom-Retiro , huma em bron- 
ze a Filippe II. •------»------ 33 

Na entrada do jardim *fe la Casa dei Campo , huma 
Equestre de Filippe III., vestida á Romana. ----- 34 

Diz haver outras ciíTerentes estatuas de P\eis em mui- 
tos lugares do Palácio do Escoriai, 

Em Besançon , huma em bronze a Carlos V. , vestido 
á Romana : não he Equestre : representa o Heroe senta- 
do- - 35- 

Em Inglaterra, 

Na Praça de Charing-Cross , huma Equestre em bron- 
ze ao infeliz Carlos I. He feita pelo famoso la Seur. - - 36 

Na Praça da Igreja de S. Paulo de Londres , huma da 
Rainha Anna , cm mármore branco. -------37 

Ahi mesmo na Praça chamada Jobo-Square , huma Pe- 
destre em pedra } a Carlos II. --------- 38 

Ahi mesmo na Praça intitulada , Grosvenor-Square , 
huma Equestre em bronze dourado , e do tamanho natural , 
a Jorge I. .-...-- r , - 39 



Catalogo u a s Estatuas. 323 

Ahi mesmo, na Praça de Leicester-Fields , huma Eques- 
tre do mesmo Rei , em chumbo dourado. ----- 40 

Entre o Palácio de Éschemont , e Wttcal, em Spring- 
Carden , se vé huma Estatua em bronze, a Jaques II. Diz 
ser muito estimadi. .------.----41 

Na pequena Praça da Rainha Otieen Sauare . ao lado 
do Pare de S. Jaimes , huma Pedestre da Rainha Anua : 
co '. locada em hum nicho. -----------42 

Na pag. 92 diz o Authcr Mr. Pa! te, que na Bolsa , 
e outros lugares de Lom-rfc se a chão também quantidade 
de figuras de PrmttpeSj e Ministros \ ainda que pau cê re- 
commendaveis por sua Escultura. 

Isto he prova do cuidado que deve ter quem faz se- 
melhantes obséquios , e despezas , em escolher Artistas há- 
beis , para que os monumentos sejao attendiveis • pois que 
ce o não serem , resulta o desprezo dos mesmos monumen- 
tos , e o esquecimento (contra o que se intenta) dos He- 
rces , que elles representão ; pois que nem em seus nomes 
se falia : como se prova da maneira com que escreve o refe- 
rido Patte. Conhecendo bem esta verdade Alexandre Ma- 
gno , prohibio por hum Edicto , que ninguém o retratasse 
em Pintura , á excepção de Apelles ; nem o esculpisse em 
bronze ou:ro que não fosse Lysippo. Horaci. Epis. 1. dp 
Liv. 2. v. 239 , e 24c. 

Em Dublin , ha huma Estatua Equestre de Guilherme 

HL - - : 43 

No meio da Praça Stvens-Green , se scha huma de 
Jorge I. em bronze. ---._.-----• 44 

Na Praça dita Mali , se acha elevada huma Estatua 
Pedestre do General Blackney. ------.-- 45 



324 Catalogo das Estatuas. 

Em França. 

Defronte ao Palácio de Qhantilly (9 legoas ao Nor- 
te de Paris , e 2 ao Poente de Senty , segundo Echard no 
seu Dicíon. Geogr. ) ha huma Estatua Equestre do ultimo 
Ccndestavel Montinorency; he armado á antiga (a palavra 
antiga , julgo referir se ao uso Romano) , e a Estatua he 
feita de chapas de cobre; porém estimada pelos intelligen- 
tes. .-------- *__„... «..46 

Em Paris na PoM-neuf , huma a Henrique IV. em 
bronze , fundida em peças. Nos ângulos do pedestal tem 
Quatro escravos ; e em três faces do mesmo pedestal , bai- 
xos-relevos ; tudo em bronze. .-.---.---47 

Na Praça Real , huma Equestre em bronze a Luiz 
XIII. , vestido á Romana. ----.-.--.48 

Na Pont-au-Change , hum gruppo em bronze; primei- 
ro monumento erigido a Luiz XIV. , não undo elle ainda 
mais que dez annos de idade. He o menino Rei , e huma 
Victoria que o coroa de louro. De hum lado tem a Estatua 
de Luiz XIIL , e do outro a da Rainha Anna de Áustria : 
são do tamanho natural ; tudo em bronze. Neste monu- 
mento são três Estatuas de Monarcas ; e por esta causa 
avanqa a enumeração da margem, --.-----^i 

Ahi mesmo, na Praça desVictoires , huma Pedestre do 
mesmo Luiz XIV. , em bronze dourado ; e de que se faz 
menção em a Nota 4 do Discurso Preliminar desta obra - £2 

No Pateo do Senado de Paris , huma Pedestre ao 
mesmo Soberano. O Author não diz de que mater a ; mas 
sim que he obra do célebre Coyzevox , e vestido á Roma- 
na : porém Mr. Ptganiol de la Force > na sua Discription 



Catalogo das Estatuas. 325 

hisior. de Par/s , declara no Tom. 4. pag- 99, ser a dirá 
Estatua de Lroiue , e hum dos chefes de obra do referido 
Escultor. -------------- .-£3 

Na Fraca de Luiz o Grande , cu de Vendêmc , huma 
Estatua Equestre em bronze , ao mesmo Rei : a maior de 
quantas existem, c a primeira que seíundio juntamente com 
o cavallo , de hum só jacto : foi feita por Mr. Girandon, 
e fundida por Mr. Kclier. O Heroe he vestido á Romana. 
No Discurso Preliminar desta obra , Nota 4 , se dcclarao 
mais algumas circumsrancias desta Estatua. - - 4 - - ca 

Em BouffierS) huma Equestre em bronze , ao mesmo 
Soberano , e pelo mesmo Girandon. He provável ser á Ro- 
mana. ----------------- çe 

Em Lyon , huma Equestre em bronze , á Romana: 
ao mesmo Rei, e pelo célebre Escultor des Jardins , que 
execut u a da Fr^ça das Yictorias, norada acima ao nume- 
ro 52. - $6 

Fiv Renites , huma _ 1 . . . bronze , á Romana, 
ao m/esmo Rei; e pot GoyzeA -, -.-•-•.•••,• , :? cj 

Em Dijon , huma Equestre em bronze, ao mesmo. - 58 

Em Montpellier ;, numa Equestre em bronze, ao mes- 
mo. ----------------- rg 

Na pag. no principia huma Nota em que Patte diz, 
q e ao mesmo Luiz. XIV. se erigirão varias outras Estatuas, 
c Bustos particulares , da? quaes diz que não faz menção por 
se ter proposto o tratar só das públicas. 

F?m Paris , na Praça de Luiz XV., a Estatua Eques- 
tre deste Soberano em bronze ; chefe de obra do admirável 
Escultor Mr. Bouchardon , que figurou o Heroe vestido á 
Romana. A Estatua foi fundida por Mr. Gor , de hum só 
jacto p assim como todas quantas se tem executado desde que 



326 Catalogo das Estatuas. 

se ftmdio a que fica notada em o numero 54. Desta de Luiz 
XV. se foz menção em vários lugares dos precedentes Ca- 
pítulos : ella tem 24 palmos de altura ; no pedestal tem 4 
Estatuas allegoricas de 15 palmos cada huma : e assim es- 
tas como todos os mais ornatos (que não são poucos) tu- 
do he de bronze. ----...--,.--60 

Ao meemo Luiz XV. em Bordeaux , huma Equestre 
em bronze , á Romana r pelo hábil Escultor Mr. Lemoi- 
ne. --------__---_--- 61 

Ao mesmo Rei, em Vaknciennes , huma Pedestre em 
mármore, por Mr. Salíy. -------.---62 

Em Kennes , e ao mesmo Soberano , huma Pedestre , 
á Romana , com duas figuras allegoricas , e outros ornatos 
mais , tudo em bronze , por Mr. Lemoine. A Estatua do 
Rei tem quasi dezesete palmos ; e as figuras allegoricas quin- 
ze- - - - 63 

Ao referido Monarca , em Nanei , huma Pedestre de 
bronze, vestida á Romana : mede os mesmos palmos, que 
2 sobredita : no pedestal tem baixos-relevos , e outros orna- 
tos igualmente de bronze ; á excepção de quatro figuras al- 
legoricas , as quaes são de chumbo bronzeado. - - - - 64 

Ao mesmo Luiz XV., em Reims; huma Pedestre em 
bronze, á Romana: pelo hábil Escultor Mr. Pigalle : el!a 
tem de altura dezesete palmos e hum quarto: aos lados tem 
duas figuras allegoiicas , também de bronze , e de quinze 
palmos. ---------------- 65* 

Todas estas Estatuas de França aniquilou , ou exrin- 
guio a sua Revolução ; e por esta causa parece que na sua 
enumeração deveria failar delias em pretérito : porém como 
ainda existião quando esta obra se achava já em bastante 
adiantamento, e sigo a Descripção de Mr. Patte, deliberei- 



Catalogo das Estatuas. \527 

me a fallar como elle, neste particular ; e porque me pa-\ 
rece assim mais enérgica a narração. Além disto , se o ran- 
cor lhe extinguio a existência no vulto , o amor das Artes 
que as transmudo a' estampa , assim as conservará em quan- 
to houver Bom gosto. 

Depois que Mr. Patte escreveo., e imprimio a sua obra , 
seerigio em Petersburgo a Estatua Equestre de Pedro Gran- 
de em bronze; da qual se trata hum pouco em a Nota 17, 
e Nota c do Capitulo X. desta Descripção. - - - - - 66 

Findado pois o Catalogo , que prometti no Capitulo II. 
Nota 15, -vemos que as Estatuas, aqui mencionadas, chegão 
ao numero de 66* Mas fazendo reflexão no que diz Patte , e 
fica notado, ou escrito entre os números 8, o: 34, 35*: 42, 
43 ; e no pequeno artigo immediaio seguinte ao numero 59 
desta lista , póde-se prudentemente julgar , serem talvez mais 
de oitenta. 

Se os Pomiguczes , nas campanhas , e nos Empregos Ci- 
vis , tem dado muita?, e brilhantes provas do zelo, fidelidade, 
e amor para os seus Soberanos , não temos sido assim nos Mo- 
numentos públicos, para perpetuar-lhes a memoria nestes rasgos 
de mngniíkencis ; nos -quaes com mais energia , e concisão que 
«a Historia , se recommendão os Heroes á posteridade ; e cora 
iiuma Iingoagem , e eloquência tal , que de hum golpe de vista 
se faz perceber 2 S^bies , e Ignorantes; a Narjraes, e Estran- 
geiros : cooperando também este meio para diffundir o bom 
gosto das Artes pela Nação toda. 

Em Portugal, pelo Público , não temos ainda mais que a 
Estatua Equestre em bronze erigida ao Senhor Rei D. José 1. 1 
a qu ;1 He assumpto desta Descripcao. 

Quando Sua dita Magestade faleceo , estava eu para prin- 
cplar numa Pedestre do mesmo Senhor em mármore de Mon» 

Bbb 



328 Catalogo das Estatuas. 

tes-C!arns , ou de Borba , para coilocar-se em cerra, livraria 
desta Corre j de cuja Estatua ainda conservo o modelo ; e nclle 
tenho mais complacência , que no da Estatua Equestre , por ser 
vestido á Romana ; e em consequência muito mais conforme ao 
bom gosto dfP Desenho. 

De sua Augusta Filha , a Rainha Nossa Senhora , tenho 
executado huma Estatua Pedestre, em mármore de Itália ; ob- 
sequio que a Sua Magestade faz o seu Esccllentissimo Mordo» 
mo Mor, primeiro Marquez de Ponte de Lima. He vestida co- 
mo Heroina Romana, com o seu manto Real por cima da cou- 
raça; segurando o bastão de Cominando com a mão esquerda y 
e a direita em actitude de proteger os seus Estados , indicados 
n'hura globo terráqueo , que tem sobre o plintho do mesmo 
lado : e esta he a Acção ,. ou Feito , que representa. 

O Corregedor de Campo de Ourique , Jacinto Paes Mo- 
reira de Mendonça , tendo a feliz lembrança de erigir naquelle 
sitio- hum Monumento cm memoria da prodigiosa baralha que 
alli dera, e vencera o Senhor Rei D. Aílbi^o Henriques, sès 
Mouros , a qual sérvio de Base a esta Monarquia , rem com- 
as Comeras tia sua Comarca erigido hum Obelisco para ; o dito 
fim : e para mostrar aos Séculos futuros , que foi erigido no 
Reinado da nossa Augusta Soberana , me incumbio hum me- 
dalhão com o busto de Sua Mag stade , pouco maior que o na- 
tural. He feiro em mármore de Itália, e tanto que se comple- 
tou, foi conduzido ao lugar do seu destino. 

Nesta Capital , e na livraria da Casa de Nossa Senhora 
das Necessidades , ha hum belio Busto de mármore de Iralia. 
.Representa o Senhor Rei D. João V. E he executado pelo ex- 
cellcnte Escultor Romano Alexandre Giusti. 



No II. Toiro, intenta oAiithor introduzir as Obras seguintes. 

Obras j d impressas que se reimprimirão , retocadas 9 
na Segundo Tomo, 

I. A Ode que o Author fez pela Inauguração da mencio- 

nada Estatua. 

II. Carta que hum affeiqoado is Artes do Desenho, etc. 

III. Discurso sobre as utilidades do Desenho ; recitado pelo 

Author da Casa Pia do Castello de S. Jorge de Lis- 
boa ; estando presente a maior parte da Corte , etc. 

IV. Ode , na Acclamaçáo da Rainha Nossa Senhora. 

V. Ode ás melhoras do Príncipe Regente Nosso Senhor, 

quando esteve enfermo. 

VI. Analyse Grafic'Orthodoxa , etc. 

VII. Elogio em oitava-rima ; a Francisco Vieira Lusitano; 

VIII. Triduo Métrico, etc. 



Obras ainda não impressas* 

I. Algumas decbraqões , e circunstancias mais ; tocantes 

á DescripÇáO Analytica : que faz o primeiro Tomo 
destas Gtrras Diversas. 

II. Orpheida; Poema Epico-Tragico, em oitava-rima, di- 

vidido em quatro Cantos. 
Varias obras mais em prosa , e verso : já pertencentes ás 
Artes do Desenho ; e já tccjntes a outros diversos assumptos : 
que se fizerem o Tomo muito volumoso, se deminuirá para fa- 
zer Terceiro Tomo. 



Bbb a 



Como esta Obra comprehende 25* Estampas , que todas 
tem lugares próprios ; já se pede licença para lhe accrescentar 
huma pagina mais > de Aviso aos Encadernadores , para, lhes 
indicar os lugares onde as devem collocar. 



j 



AVISO 

A quem encadernar esta Obra , para colJocar-lhe as Es- 
tampas nos seus devidos lugares, 

A Estampa da Dedicatória , que tem o Busto do Príncipe 
Regente Nosso Senhor ; deve-se collocar voltada para o* resto 
da mesma Dedicatória. 

A que se lhe segue , que tem hum menino com huma- 
tabeliã , em que pega com a mão direita , e na qual tem es* 
critos quatro versos; deve ir em frente do primeiro Capitulo,, 
voltada para o rosto deste Capitulo. 

Todas as mais que se seguem são numeradas em cima ; 
e se devem collocar, seguindo a serie dos seus números, pelo 
modo seguinte. 

Os números I., II., III., e IV., no fim do Capitulo II., 
juntas. 

O numero V., deve ir no fim do Capitulo III. , depois- 
da explicação da mesma Estampa. 

O numero. VL , deve seguir-se immediatamente á pagi~ 
na 88. 

Numero VII. , immediata á pagina cev 

Numero VIII. , immediata á pagina o 2o. 

Numero IX., immediata d pagina 04^. 

Numero X. , immediata á pagina <)6 t 

Numero XI., immediata á pagina 98.. 

Numero XII. , immediata á pagina 140 : e os números 
XIII., XIV., XV. , e XVL, todas cinco juntas, seguindo a 
sua serie numeral ; no fim do Capitulo V. : depois de cujas 
Estampas se segue a declaração delias , com a qual remata o 
total do dito Capitulo V., até pagina 144. 



Tnimedtara ao reverso da pogina 173 , deve ir a Estampa 
numero XVII. 

No fim do Capitulo VIII. , immediata á pagina 228 , de- 
ve ir a Estampa numero XVIII. 

As cinco Estampas , cujos números são XIX. , XX. , XXI. , 
XXII., e XXIII. , devem ir todas cinco juntas, seguindo a sua 
serie numeral , no fim do Capitulo X. 

Ao collocar das Estampas deve haver muito cuidado, em 
cliegallas muito aos contos do cozido: de sorte que antes eco* 
zido lhe encubra alguma pequena porção , do que fiquem ex» 
postas a ser cortadas ao aparar o volume. 



Todas as pessoas de alguma instrucção ssb^m , ser quasi impossível 
deixar òz haver alguns erros de Prelo , nas Obras que se imprimem ; e 
que os Aiuhores que tem algum zelo pela perfeição das suas , cosiumã» 
occorrer a isro accresceiuando-ihes huma tolha de Erratas , e Emitidas , 
&c. 



Erros. 

No Discurso Preliminar. 

Pagina VI, linha r. a par crerão . . 

Pag. IX, no principio da ulrim: li- 
nha desta pag. o Ja iun conto . 
Pag. X, na linha 8 da Nota 21 . . 

Pag. XII , linha ultima do Te:<to 

Ringilo . 

Pag. XIX , linha 1 1 , Ouvrcs . . . 
Pag. XX , em a Nota 36 assai 

sonée 

Pag XXXI, linha 20 des Jutbo- 

res 

Pag. XXXI [, Ihha penúltima aussi 

très-belles 

Pag. XXXVÍ, linha 1/ ... ajuris 

antes 



Nos Capítulos dfsta Obra. 

Pag. 4 , Nota 3 quasi no fim , ver- 
so i.° . . preciso estranhos . . . 

Pag. 15, linhas 10, e 11 muitos á 
vista 

Nesta pag, em a Nota 14 linha 2 
parallelo 

Pag. 21 , linha 7 a fiz 

Pag. 24, Nota 13 linha ultima, de- 
ve-se-lhe aecrescentar 

Pag. 50, Nora 54 linha 17 da mes- 
ma Nota . . Artes todas . . . . 



Emendas. 

No Discurso Preliminar. 

. lêa . . parecerão : mudando o 
accento. 

. lêa . . o far niun conto. 

. Tem hum D , que deve ser hum 

diptongo de OE. 



. lêa . . Ringifo. 

. o O , deve ser diptongo de OE. 

. deve ser unido assim assahonie, 

. lêa . . destes Autbores. 

. lêa . . aussi deux tres-be!les. 

. lêa . . algum annos antes. 

W — — MM— ■■ 1 » ■ ■■> y— — — — — — fc- 

Nos Capítulos desta Obra, 

. lèa . . preciso com estranhos. 

. lêa . . muito ingratos A vista. 

. lêa . . parallele , mudando o, 
em e. 

. lêa . . a fez. 

. pela aferição das Obras Ptíbli* 
tas. 

. lèa . . Aries são todas. 



Erros. 

Pag. 6*2, linha 23 traçar-lbe . . 

Pag. 64 , linha 4 f/tfttJ 

Pag. 67, linha $ r/í todo . . . . 
Pag. 6y, linha 20 ctibrio . . . . 
Pag. 70, linha penúltima Ouvres 
I 



74, linha 19 élastzcidade . . 
, no fim da linha 1* pa- 



Pap 

Pag. 100 
ra o . 

Pag. 195, linha 14 embaraçado 
Pag. 2CO , primeira linha da Nota 
60 desseinreanssé 



. dita, linha 21 patrocipão 



Pag. 262 , linha 9 íf« conhecimen- 
to 

Pag. 297, linha 17 delis 

Depois da pag. 3 1 1 , deveria seguir- 
se-lhe pag. 312, e 31$; mas co- 
,mo nisto houvesse o descuido que 
se encontra em muitas outras 
Obras., segue-se-lhe a pag. 514, 
e daqui por diante vai certo. 

315 , linha 4 do Numera 19 
rosto . 



Pag. 



. " Emendas. 

IH . . trancar-lhe. 

lèa . . chairel. 

lea . . do tGdo. 



. lea 
. lea 
OE. 

. léa 



. cu br ir. 

Ouvres, com diptongo de 

. elasticidade. 



. Não se lèa. 

. lêa . . patrocinao. 

. lêa . . embracado, 

. lea . . dessein reaussé , como 
sáo duas palavras , devem ter a 
indicada separação. 
. lêa . „ seu recôndito conhecimen- 
to. 
. iêa . . deiks. 



lèa 



resto. 



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