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Full text of "Diccionario biographico de musicos portuguezes; historia e bibliographia da musica em Portugal"

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DICGIONARIO BIOGRAPHICO DE MDSIGOS P0RTD6UEZES 



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DIGGIONARIO BIOGRAPHIGO 



DE 



MÚSICOS fORTUGUEZES 



HISTORIA E BIBLIOGRAPHIA 

DA 

MUSICA EM PORTUGAL 

ERNESTO VIEIRA 



/>if et em tudo a verdade 
A quem em tudo a deveis. 

SÁ DE Miranda. 



I "VOIL.TT3S/tB 



LISBOA 

Tjrpographia Mattos Moreira <h Pinheiro 

39, lu Í9 JaráÍB á% l^tr, H 

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PREFACIO 



Em 1870 appareceu a publico uma obra intitulada «Os Músicos Por- 
tuguezcs», do sr. Joaquim de Vasconcellos, na qual, sob a forma de diccio- 
nario, aquelle sr. compilou as noticias que sobre os nossos músicos encoa- 
trou na uBibliotheca Lu&itann» de Barbo&a Machado e na Biograpine 
Universelle des Musiciens de F^étis, juntando lhes á pressa e sem a menor 
investigação outras que o acaso lhe deparou e enfeítando-o todo com 
pretenciosas mas nada judiciosas dissertações. 

N*essa obra foram acintosamente vilipendiados dois dos nossos mais 
eminentes músicos modernos : Joaquim Casimiro e Santos Pinto. 

Fosse c^ual fosse o movei de tão estulta injustiça, que eu em minha 
intima convicção attrihuo á instigação de algum invejoso a quem o talento 
alheio fazia sombra mesmo depois de extincto, é certo que ella produziu 
os mais desastrosos efíeitos. Todos os escriptores modernos, nacionaes e 
estrangeiros, que precisaram referírse a músicos portuguezes teem bebido 
n*aquella impura fonte, por não terem outra, reproduzindo-lhe não só a 
falsa critica mas também os erros, que são bastos como erva ruim em 
terreno inculto. 

O auctor de tão malfadada obra não satisfez a susi malevolencia com 
o que escreveu em portuguez : sendo incumbido de fornecer noticias para 
o supplemento á Biographic Universelle de Fétis, reproduziu n^essas noti- 
cias parte dos erros que editara e omittiu os nomes de Pinto e Casimiro ; 
ainda por cima citou este ultimo para o cobrir de disparatados impropé- 
rios n'um longo artigo dedicado á biographia encomiástica do sr. visconde 
do Arneiro. 

Taes aggravos a tão grande musico como foi Joaquim Casimiro e a 
omissão acintosa de tão notável mestre como foi Santos Pinto, em noti- 
cias dad s por um portuguez para serem publicadas n*um livro estrangeiro 
constituem um verdadeiro crime de lesa-patria. 

Quando a obra dò sr. Vasconcellos appareceu, houve grande clamor 
contra a facciosa apreciação sobre os dois eminentes músicos. Mas como 
a nossa historia da arte era geralmente ignorada le é da ignorância que o 
charlatão vive), todos suppozeram que, aparte aquella mancha, «Os Músi- 
cos Poriuguezeç» continham matéria digna de credito. Somente a suptna 
necedade do auctor em pontos de technica musical é que ficou eviden- 



ciada n*esse tempo por umas polemicas jornalisticas em que se metteu e 
de que sahiu muito mal ferido. 

Estava eu então no inicio da minha minha vida profíssional e interes- 
sava-me profundamente tudo quanto lhe dizia respeito. 

Indignei-me como toda a gente contra o facciosismo do sr. Vascon- 
celios, mas como toda a gente também suppuz que o seu trabalho tinha 
algum valor. 

O tempo e o estudo foram-me porém patenteando pouco a pouco toda 
a verdade. 



O mesmo desejo de trabalhar utilmente que me levou a emprehender 
e concluir o «Diccionario Musical», impelliu-me á tarefa de investigar com 
tenaz presistencia e não pequenos sacrifícios tudo quanto dissesse respeito 
á arte musical no nosso paiz, afím de habilitar-roe a produzir uma obra 
oue substituísse a do sr. Vasconcellos e que podesse merecer o credito 
devido ao trabalho elaborado com escrupulosa consciência, respeito pela 
verdade e suíRcientes conhecimentos technicos. 

Comecei por juntar quantos livros didácticos, folhetos e manuscriptos 
tenho podido encontrar e quantas obras praticas de compositores nacio- 
naes os meus parcos recursos me teem permittido adquirir. N*este ponto 
tenho algumas vezes sido bafejado pela fortuna ; assim consegui reunir uma 
grande quantidade de partituras autographas de Joaquim Casimiro, todas 
ou quasi todas tàp de José Maurício e António José Soares, muitas ue Lu- 
ciano Xavier dos Santos, Marcos Portugal, frei José Marques, Santos Pinto 
e outros, além de innumcraveis copias d'estes e quasi todos os outros 
auctores. Eu mesmo tenho tirado muitas d*essas copias de exemplares 
existentes nas bibliothecas publicas e em diversos archivps. 

Durante alguns ánnos tenho passado muitos intervallos disponíveis das 
minhas obrigações profíssionaes na Bibliotheca de Lisboa, correndo jor- 
naes, compulsando chronicas, farejando manuscriptos. O resto do tempo 
disponível tenho-o empregado quasi totalmente na mesma faina de colher 
noticias de músicos, saber dos seus merecimentos, estudar as suas obras. 

Seria impossível realisar o meu trabalho completamente só e seria 
ingratidão esquecer quem me tem ajudado com as suas indicações. 

Assim, na Bibliotheca de Lisboa encontrei na pessoa do seu director, 
o sr. Gabriel Pereira, um guia tno solicito que melhor não poderia desejar. 
£ não é elle o único, se bem que seja o primeiro e mais seguro, que ali 
encontra o enudioso : de alguns outros empregados d'aquella casa tenho 
recebido obséquios prestados com a melhor vontade ; isto não mettendo 
em conta, por especiaes, os serviços de um, João Marques da Silva, que 
por dedicação de velha amisade tem sido meu ajudante effectivo na explo- 
ração d'aquella inexgotavel mina. 

A Bibliotheca Real da Ajuda, cujas portas promptamente se me fran< 
quearam desde o momento em que solicitei a régia auctorísacáo, deu -me 
outro auxiliar dedicadíssimo, que bem depressa se tomou carinhoso amigo, 
no bondoso Rodrigo Vicente d' Almeida ; devem -lhe valiosos serviços todos 
os consultores de alfarrábios e papeis velhos, dos quaes eu sou o ultimo 
na ordem hierarchica, mas conservar-me-hei sempre primeiro em confes- 
sar a luz que a tantos tem guiado. 

Em Évora também ganhei de prompto o auxilio e amisade do extre- 
moso cultor das letras António Francisco Barata, que eu encontrei com- 
pletamente só na bibliotheca publica d*aquella cidade quando ali fui por 
duas vezes, e que se esfalfou a trepar escadas e desenpoeirar cartapacios 



para me ser útil, envidndo-me d'ahi por diante obsequiosamente as noti- 
cias que podia obter. 

Innumeraveis serviços devo também a muitas outras pessoas ; como 
principaes, mencionarei os srs. priores de diversas freguezias, o thesoureira 
e mestres da capella da Sé Patriarchal, o sr. Gomes de Brito larcbivo da 
Camará Municipal), D. José Pessanha (Torre do Tombo), monsenhor co- 
n^o Botto (Algarve), e finalmente os bons amigos D. Fernando de Sousa 
Coutinho, doutor Manuel Ferreira Cardoso, João Esmeriz (Braga) e Antó- 
nio Soiler (Porto). 

Muitas familias e descendentes dos artistas fallecidos me teem egual- 
mente obsequiado com as suas informações. 

A todos repito agora em globo os meus agradecimentos, pela caridade 
de me aplanarem o enredado e áspero caminho em que me metti. 



Decerto que apezar de tudo me não poderei gloriar de ter vencido 
todas as dificuldades. Nem eu qu.mJD encetei o trabalho pensei em que o 
produziria perfeito e completo ; se bem que no decurso d^elle tenha ido 
muico mais longe do que esperava, ficarei ainda áquem dos meus desejos. 
Circumstancias de ordem material me obrigam a deixar lacunas que muito 
bem reconheço e imperfeições que não posso ou não sei evitar. 

Tenho porém a convicção de que alguma coisa produzi de útil, con- 
correndo com elementos sérios pnra a historia artística do meu paiz e 
para o ennobreci mento da minha arte. 

E* esse o fim que procurei attingir. 

Foi para o completar que inclui no meu trabalho as biographias. 
de músicos estrangeiros que viveram em Portugal, e as dos brasileiros — 
portu^uezes também até certa época e qussi portuguezes d*ahi em diante 
pela mdole e pelo sangue. 

Na mesma orientação tenho disseminado por ditferentes biographías 
numerosas noticias históricas sobre os estabelecimentos de ensino, aggre- 
raiaçôes artísticas e muitos outros pontos importantes. Não constituem 
essas noticias um corpo regular e completo de historia, pois não o per- 
mícte o seu caracter subsidiário, mis poderão servir de base a futuros tra- 
balhos n*essa especialidade. 

Nas biographías dos artistas segui um caminho diverso do adoptado 
por Fétis e outros biographos : não tratei dos vivos, julguei só os mortos. 
Por estes sinto a veneração que sempre inspira o passado, ainda quando 
n*e)le se descubram algumas manchas, mas dos vivos tenho queixas que 
não me permittem occupar com desassombro o logar de juiz. Quem vier 
depois que se incumba d'essa tarefa. 



Haja quem se empenhe em descobrir e notar todos os defeitos exis- 
tentes no trabalho cjue emprehendi ; serei eu o primeiro em os reconhecer 
e não me occuparei em disfarçal-os ou inventar desculpas para elles. 

Uma qualidade única exigirei porém que se lhe reconheça : é a de 
ser um raro producto do desinteresse e da dedicação profissional. 



Ernesto Vieira. 



DiccioDario Biographico de Kqsícos PortQgoezes 



«Advirto que se vir contradigo algumas opi- 
niões que poderam honrar a nossa pátria, 
saiba c^ue o faço por mais honra sua; por- 
que alem de ser cousa sabida que sempre 
o falso desacredita, já que ella tem gran- 
dezas tão certas com que a possam aucto- 
risar os. naluraes, ou atfeiçoados, fica-lhe 
seiuio abatimento attribuir-lhe as duvido- 
sas de que podem motejar os estrangeiros 
e gloriar-se os invejosos.» 

'Diogo de Paiva d' Andrade, «Exar,-\e 
de Aiitiguidadesd). 



A-bveu. [António). Guitarrista portugucz que se esta- 
beleceu em Madrid nos fins do scculo XVIII, adquirindo ali 
grande reputação e publicando diversas composições entre os 
annos de 1780 c i8<x). 

Escreveu uma obra didáctica ^^\iz outro publicou com o 
seguinte titulo: Escuela para tocar com per/eccion la guitarra 
de chico e seis ordens^ compuesta por Z). António Abreu^ bien 
conoâdo por el Português. íllustradaj^ annoíada por el P. F. 
V^icior Prieto, dei orden de S. Geronimo, organista ensuReal 
Monasterio de Salamanca. La da a luz su apasiouado N. N, 
Salamanca lygg. i vol. 4.**, 107 pag. e 6 laminas. 

Possue um exemplar d'esta obra o sr. Dr. Sousa Viterbo, 
que d*eila faz raefnsão no seu livro «Artes e Artistas portugue- 
zes«> p^-- ^6» ^^<^ ^^ cncQntra \xn\ trecho do prologo qxie 



diz o seguinte: Solo el famoso Abreu es fá mi parecer) quien 
supoen este instrumento herir la dificuldady componer caracte- 
riscamente para Guitarra. Buenos festivos son sus delicadas 
obras las que andam com mucha aceptacion por toda la penín- 
sula. Pues amado lector^ aficionado, de este tronco nacièron 
estas débiles ramas que te presento. 

D. Baltasar Saldoni, no «Dicionário Biográfico — Bibliográ- 
fico de Efemérides de Músicos Espanolcs» faz uma ligeira refe- 
rencia ao portuguez António Abreu, mencionando a naciona- 
lidade Outros escriptores hespanhoes deram-n*o como seu 
. conterrâneo. 

Abren (Marianna de). Talento precoce que fallccendo 
aos dezoito annos incompletos, já se tornara notável em di- 
versos ramos dos conhecimentos humanos, especialisando-se 
também na musica. Chamavam-lhe a Marianninha, Nascera em 
Abrantes, cerca de 1704. 

Faz a'ella menção um pequeno livro intitulado «Portugal 
Illustrado pelo sexo femenmo» por Diogo Manuel Ayres de 
Azevedo (Lbboa, 1734). 

^^eurla. fD. José Francisco). Professor de piano e com- 
positor hespanhol, estabelecido em Lisboa no principio do se* 
"culo actual. Publicou alguns números defuma collecçãode mo- 
dinhas com o titulo seguinte: «A Lira Poriugueza. CoUecção 
de Modinhas Novas e dedicadas ás senhoras por D. José Acu- 
iia.» Publicou também: «O Pranto de Lisia, pela morte de S. 
M. Fedelissima O Imperador e Rey O Senhor D. João VI. 
Grande marcha fúnebre, c sentimental para piano-Forte, Har- 
pa, Cravo, ou Órgão. Op. 7."™*». Em janeiro de 1828 publi- 
cou mais: «A Marcha da Paz, dedicada ao Sereníssimo Se- 
nhor Infante D. Miguel.» 

Além d'estas c outras pequenas obras impressas, espalhou 
no publico muitasmanuscriptas, taes como sonatas, variações, 
valsas, etc. Todas ellas dão testemunho de que o seu auctor 
era mestre muito mediocre. 

Todavia adquiriu bons créditos e numerosa clientella. Fal- 
leceu em abril de 1828. 

Aldeio [Vicente Ferreira). V. Sola^no. 

-A.ffonso Vm fD.) Nasceu este rei portuguez em Cin- 
tra, a i5 de janeiro de 1482, e falleccu na mesma villa em 28 
de agosto de 1481. 

Vivendo n*uma época em que a cultura intellectual se de- 
senvolvia por toda a Europa prcpara-ndo o renascimento das 
artes e das letra«, filho de um rei illustrado, D. Duarte, e so- 
brinho dos grandes infantes D. Henrigue, D. Pedro e D. Fer- 
nando o Santo, el-rei D. AfPonso V, íoi naturalmente apaixo- 
2 



nado pelas letras e pelas bellas artes. A historia coUoca-o en- 
tre os príncipes mais cultos do seu tempo, beneíicamente in- 
fluenciado pelos exemplos dos seus maiores. 

Todavia a sua dedicação especial pela musica tem sido 
exagerada por alguns escriptores. 

O chronista Ruy de ?ina, que tinha boa razão para saber 
a verdade pura^ pois foi coevo de D. Affonso V, diz a tal res- 
peito só estas simples e claras palavras: «Folgou muyto d'ou- 
vir musica, e de seu natural sem algum artificio teve para ella 
bom sentimento.» (*) isto significa muito exactamante que o nos- 
so r^ íião praticava a arte, mas apenas folgava com ella e era 
esclarecido apreciador. 

Barbosa Machado, na «Bibliotheca Lusitana», foi talvez 
quem deu origem ao erro da exageração escrevendo: «Igual- 
mente foy perito na Mathematica, que na Musica, de cuja sua- 
vidade summamente se deleitava.» Mas a clasificação de perito 
não pode ter um sentido muito lato porque ficaria prejudicado . 
pela referencia de Pina. 

No tempo de D. Affonso V, floresceu um musico portu- 
guez, Tristão da Silva, auctor de um livro intitulado «Los Ama- 
bles de la Musica»; D. João IV, na sua «Defesa da Musica» 
menciona-o dizendo: 

«. . .Que en aaud tiempo tuviese faltas la musica, se vè por la perfec- 
cion fue tiene la de nuestros tiempos, y como de la musica de aquellos no 
ay ejemploSy j^^g^ (X ^^^ fundamento) quien esta escrive, esto por los mas 
antiguos compositores que halló como son Tristam de Silva en un libro 
intitulado los amables de la musica que ha docientos aííos que fut echo por 
orden, y mandado dei Rei de Portugal Don Allonso Quinto ...» 

Também este período foi causa de Barbosa Machado di- 
zer na mesma «Bibliotheca Lusitana» que Tristão da Silva 
tinha sido mestre de D. Aííbnso V, mera supposição que se 
não pode concluir como facto certo das palavras de D. João 
IV, nem documento algum conhecido o comprova. 

No emtanto já houve um escriptor (Pedro de Cravoé, no 
«Jornal de Bellas Artes ou Mnemosine Lusitana» n.° XII — 
1817), que avançou: «O certo é que a musica mcrcceo tal 
acolhimento na Corte, c Palácio do Senhor Rei D. Aflfonso V, 
e foi n'ella tão eminente este Soberano, que disputou prefe- 
rencia a seu Mestre Tristão da Silva, Professor insigne doesta 
Faculdade.» Não se pode levar mais longe a phantasia. 

D. Affonso V mandou á corte de Henrique VI que então 



(I «D. i^ffonto V,Chronica por Ruy de Pina, publicada nos «lueditot da Historia Por* 
tugnezs** toino 1, pag. 608. 



se intitulava rei de Inglaterra e de França, um musico da sua 
capclla, Álvaro AlTonso, para trazer uma copia do cerimonial 
litúrgico ali adoptado. Este é um facto certíssimo, attcstado 
não só pela menção que d*elle faz a «Monarchia Lusitana» 
mas pelo próprio documento, precioso códice que existe na 
bibliotheca de Évora, sob a indicação -^^- d. Este códice tem 
o seguinte titulo : Forma siue ordinaçõ Capelle illustrissimi et 
xtianissinú priusipis Henvici sexti Regis Anglie et ffrancie ac 
dni hibernie, descrivta Serenissio príncipi Alfonso Regi Portu- 
galie illustrí^ per iiumile servitore swi^ Wili' u Sa}% Decafw, 
capelle sitpradicta. Traduzido litteralmente : «Forma ou orde- 
nação da capella do illustrissuTio e christianissimo príncipe 
Henrique sexto, rei de Inglaterra e França, senhor de Irlan- 
da, escripta (ou copiada) para o serenissimo príncipe Affonso, 
illustre rei de Portugal, pelo seu humilde servidor Wili'u Say, 
decano (ou deão) da sobredita capella.» Descreve diversas 
•cerimonias litúrgicas, principalmente as da coroação de rei e 
de rainha, e as exéquias reaes. Varias antiphonas e a missa 
de reqiiiem teem o cantochão apontado no fim. 

E' a este códice que o cnronista Francisco Brandão na 
«Monarchia Lusitana^) — livro XVII, tomo 6.® pag. 217 — se 
refere quando diz o seguinte : 

«Succedeu-lhe (a I). Duarte) el Rey Dó Afonso Quinto seu filho e 
hendando ii deuaçáo de tal pay, procurou acrescentar o culto da sua Ca- 
peIla*'com "'maior numero de Lapelláes e cantores, para celebrarem os di- 
vinos officios, e cantarem a horas Canónicas solemnemente. Para este fim 
impetrou hum breve do Papa Eugénio Quarto expedido no anno de mil 
e quatrocentos e trinta e nove e manJou vir hum ireslado do ceremonial 
dos Reys de Inglaterra, por onde se dispusessem e regulassem seus Capel- 
lòes nas matérias, que entre nós pudessem accomodar se. Isto que el Rey 
Dom Affonso Quinto intentou, poz em execução seu hlho el Rey Dom 
Jo3o Segundo, ordenan lo nos paços de tvora anno de mil e quatrocen- 
tos e noventa e quatro a Capella na forma em que agora esto nos paços 
de Lisboa, que no apparato, numero de Capellães, e perfeição nos divi- 
nos oíiicios representa a magestade de qualquer Cathedral.» 

Baptista de Castro no «Mappa de Portugal» — tomo 3.% 
parte V, pag. 97 da 3.* edição — duvidou de ter vindo um 
livro litúrgico da Inglaterra, fundando a sua duvida em que 
o breve do papa Eugénio IV mencionado na «Monarchia Lu- 
sitana» e que vem reproduzido na cHistoria Genealógica da 
Casa Real Portugueza» — tomo 2," das «Provas, etc», pag. 
246 — determina que as horas canónicas fossem celebradas 
somente pelo rito romano. Não tem bom fundamento a duvi- 
da de Castro, porquanto as cerimonias adoptadas na corte de 
Inglaterra, que era n*esse tempo catholica, e sanccionadas pelo 

4l 



FCt christianisMino Henrique VI, decerto que não haviam de 
contrariar o uso romano. 

Eis o qu2 de mais importante se pode authentícamcntc 
affirmar com referencia à dedicação de D. AfFonso V pela arte 
musical. 

Ajg:xxetá.o (M. Nunes). Innocencio da Silva, no «Dicccio- 
nario Bibliographico» (tomo 6.^ pag. 266) menciona este no- 
me como sendo o do auctor da seguinte obra : Methodo geral 
para a viola franceza, com princípios de musica^ escalas, arpe- 
jos e prelúdios para todos os tons^ que ensinam a acompanhar 
o cantOj etc. Porto^ 1866, 4.** Impresso ao largo, ou em forma- 
to oblongo. 

Diz o mesmo Innocencio que apegar de todas as diligen- 
cias feitas por alguns dos seus correspondentes no Porto, não 
conseguiu obter a menor noticia doeste auctor, e nem ao me- 
nos saber-lhc o nome próprio. 

Sou obrigado a confessar que paior me suc:ede, porque 
nem da referida obra tenho o menor conhecimento. No êm- 
tanto não mi parece inútil observar que no próprio appellido 
do auctor desconhecido talvez ha)a troca de uma letra, porque 
Aguado e não.Aguedo é que é um appellido conhecido, vul- 
gar em Hespanha ; houve mesmo, no visinho reino, um insi- 
gne guitarrisca assim appellidado, Dionísio Aguado, que publi- 
cou um methodo para o seu instrumento. 

Ag-uiar (Alexandre de). Menestrel, natural do Porto. 
ao serviço da corte portugueza durante a regência do cardeal 
D. Henrique e reinado de D. Sebastião, passando depois para 
o serviço da corte de Madrid. 

Era juntamente poeta e musico, como os tocadores pro- 
vcnçaes, compondo elle mesmo as poesias e os tonos que can- 
tava acompanhando-se á viola. 

Quando el-rei D. Sebastião, planeando a sua funesta cam- 
panha de Africa que terminou em Alcácer Kibir, procurava 
obter o auxilio de Filippe II de Hespanha, teve com este rei 
uma entrevista no mosteiro de Guadalupe, durante as festas 
do Natal em 1576. Para dar explendor a essas festas, D. Se- 
bastião levou na comitiva os seus menestréis, entre elles Ale- 
xandre de Aguiar. Um manuscripto que pertencia ao visconde 
de Jerumenha, e feito por um padre da comitiva, o rev. Beça, 
dá*nos uma curiosa noticia da parte que a musica teve nos 
festejos realisados durante a entrevista dos dois monarchas. 
Como essa noticia menciona repetidas vezes o nome de Ale- 
xandre de Aguiar juntamente com o de outros menestréis por- 
tuguczes, e além d*isso é summamcnte interessante para a 



historia da musica no século XVI, julgo útil reproduzil-a inte- 
gralmente. 

Eiso contheudo do curioso manuscripto. (*) 

«Em 19 de dezembro, á mesa houve dois músicos, com suns guitarras 
castelhanas, cantaram muito bem, os quaes hião em nossa companhia, avia 
frautas. S. A. nâo quiz que as tangessem á missa. S. A. esteve a ella, no 
principio tangeram charamellas e á offerta corneta, e ao levantar a Deos 
frautas e violas d*arco e tangeram bem, eram de Trugillo. 

«Em 20: Aqui ouve á mesa de S. A. dous castelhanos graciosos com 
guitarras muito bem tratadas, e muito grandes officiaes do seu officio, e 
cantaram, e tangeram muito bem. 

«Em 23 : Este domingo 23 de dezembro foy El-Rey Phelippe a ver 
El-Rey Nosso Senhor no seu aposento, e la esteve bom pedaço e não ceou 
n'este dia ; e a boca da noite foi para S. A. o Duque de Alva, e fora esta- 
va o Duque de Aveiro, e Christovão de Távora, e D. Diogo de Corduba, e 
Pêro de Alcáçova, e D. Francisco Portugal, e Francisco de Távora, e o 
Alferes mor, e Manuel Goresma, e outros Senhores Castelhano!^, e ouve 
mais, convém a saber Affonso da Silva que tangia o cravo, Manuel de Vi- 
ctoria, e Alexandre de Aguiar as violas., e cantava Domingos Madeira, 
Egas Parlimpo e Pêro Vas, e Alexandre de Aguiar os conirabaxos, e can- 
taram por grande espaço, e muito bem, e muitos modos de vilancicos e 
chacotas ; e isto era na casa onde S. A. comia. E á porta da camará onde 
S. A. estava com o Duque de Alva, estava a porta aberta que hia para a 
salla com muita gente a ouvir a musica mas com porteiros castelhímos 
que a tinhão: nesta casa estava um castiçal grande alto/com huma tocha, 
o castiçal de prata com muito feitio, na salla duas tochas brancas acezas 
. e assim em todas as mais, e corredores avia tochas com castiçaes. 

«Era 24: Vésperas de Natal estiveram o^ Reys ambos ás vesporas, e 
estiveram no coro : as vesporas foram de canto àe órgão dos frades que 
havia muitos e destros: o Mestre da Capella que dizem que sabe muito, e 
outros frades contrabaxos e capados; de Toledo veio o capado aífamado, 
e uma corneta estremada, e o tangedor Penhalonga. E de Piazencia vieram 
3 capados, e um clerico tenor bom, e o primeiro salmo salmearam á es- 
tante os frades, o segundo cantou o capado nos órgãos com o corneta e 
tangia o órgão Penhalonga e cantou muito bem. O 3,^ salmo cantaram os 
frades de cantocháo sem órgão muito baixo e sem canto de órgão ; o 4." 
e o 5.° tangeo António da Silva, cantou Domingos Madeira alguns versos, 
e outros com Alexandre de Aguiar o Corneta e pasmarão estes senhores 
Castelhanos e ficavam perdidos pela musica portugueza e disseram gran- 
des cousas delia, de maneira que D. Diogo de Córdova se hia aos órgãos; 
a Manifica foi muito bem cantada, ouve dous ou três ternos dos capados 
muito bem ditos. E no órgão também ouve versos para ouvir, a corneta 
disse hum soo com o órgão. Domingos Madeira outro, Alexandre de Aguiar 
e a Corneta outro bem dito. Acabada a Manifica e a oração se foram Suas 
Magestades, etc. 

«Esta noite forão Suas Altezas ás matinas que so comessaram ás 8 
horas; em as matinas ouve chançonetas entre cada liçam e acabado cada 
nocturno ouve huma comedia, ou farça cada diferente em que entravam 
os capados, huns como pastores e no fim de cada hum huma musica, isto 
ouve no fim de cada nocturno, e no fim dos nocturnos veio hum mosso 



(O Apnd «Estudos sobre a Historia da Musica cm Portugal» por Platon Lvovitch de Wa- 
xel, publicados em porlugucz no jornal «Amphion* 1884-8^, e em allemáo na encyclopedia inti- 
tulada Mmikalisches Conversation^Lexicon, 



com uma guitarra e cantou muitos versos em louvor dosReysque vieram 
adorar dizendo que eram 3 em cantidade, mas estes eram dous mayores 
em calidade, e ríaueza, e que Nossa Senhora os trouxera a sua casa, e os 
ajuntara para nelia consultar cousas para seu serviço. A missa foi canta- 
da de canto de órgão com muitas chançonetas, e os Reys estiverão com* 
muito gosto e prazeres e rizos a todas as horas. A (25) missa do dia ouve 
procissão, etc. Acabada a procissão de entrar pela crausta, e chegar á ca- 
pella ambos os Reys se recolheram para a quartinà como de antes, e os 
frades puseram as Relíquias no Altar mor, e logo comessaram a missa de 
canto de órgão no coro, e os órgãos e cantou -se muito contraponto : al- 
gum de alguns capados, hum frade contrabaixo e o corneta; ao levantar 
a Deus ouve huma graciosa chançoneia, etc. 

«Em 25 : Ao dia de Natal foram os Reys ouvir vesporas de S. Este- 
vão, e forão muito bem cantadas; cantou Domingos Madeira e Alexandre 
de Aguiar, tangia António da Silva e a corneta da Sé de Toledo, ouve 
singelos e Manífica, ternos tudo muito bom. 

«Em 26: A segunda oitava ouviram os Reys missa a saber El-Rey 
Nosso Senhor rezada no coro, teve suas cerimonias e quartinà armada 
como em Portugal, folgaram muito alguns castelhanos de ser tudo como 
se lhe fazia, e olharam todas as pessoas da credencia, e as gabaram. A 
missa disse frei Simão portuguez filho de D. Fernando de Menezes Arce- 
bispo de Lisbo3, e eu R.'' de Beça fizemos as cerimonias, e El-Rey Phel- 
lippe ouviu a missa cantada, esteve na sua quartinà que sempre esteve 
armada sem se desarmar, não ouve pregação, cantou-se a missa pelos 
mesmos frades, e cantores de Plazencia e Toledo, ouve uma Allelluia, a 
saber o capado de Toledo o frade mestre da Capella, e. outro frade con- 
trabaxo, Alexandre de Aguiar, e foi muito bem dita, ao levantar a Deus 
cantou Domingos Mddeira a Ave Maria muito bem cantada, tangeo-lhe 
Afonso da Sylva. Etc. 

«Em 3b:... Ao Domingo ouviram os Reys missa ambos cantadaj 
ouve motete nos órgãos com corneta, e cada hum dos Reys acabada foi 
jantar ao seu aposento, e toda a missa foi de gostos e rizos de ambos os 
Reys. 

«Em 3i : . . . N'este mesmo dia ouviram os Reys ambos vesporas so- 
lenes, e estiveram no coro: ouve versos nos órgãos singelos, o capado de 
Toledo, e Domingos Madeira e a corneta que tangia tudo muito bem dito. 

«Em I de janeiro : Ao dia de anno bom, ouviram os Reys ambos 
missa na Capella mor na quartinà acostumada : foi também a missa dos 
frades como das outras vezes; cantou o capado de Toledo, ao órgão e 
tangeo a cometa que ornava muito bem e cantou a Ave Maria.» (*) 

Alexandre de Aguiar teve um fim desastrado ; conta-o nos 
seguintes termos Barbosa Machado na «Bibliotheca Lusitana» 
— vol. 1 pag. 93, 

«Assistindo em Madrid no anno de i6o5, e voltando desta Corte 

Eara a de Lisboa em hum Coche, morreu infelizmente em 12 de dezem- 
ro naufragante em huma torrente, que corre entre Tellavera, e Lobon 
juntamente com Francisco Corrêa da Sylva filho segundo de Martim Cor- 
rêa da Sylva Embaixador a Carlos V.» 



(I) Sobre algnns termos obsoletos que se encontram n'esta relação, taes como canto de 
orgáo e outros, v. no iDiccionario Musical» os respectivos artigos. 



E accrescenta, sobre as suas composições : 

«Deixou muitas obras assim poéticas, como Musicas, das quaes são 
celebres as Lamentações de Jeremias^ que se canião na Semana Santa 
compostas com grande sciencia,» 

-^Vlag-arinoL (Joaquim José Garcia)^ v. Grarcia 
A-lag-aiúm. 

^Vlcantara (António da Silva}, Musico brazileiro de 
que nos dá completa noticia um livro manuscripto intitulado 
«Desagravos do Brazii, etc», o qual existe na Bioliotheca Na- 
cional de Lisboa — Ms. B. i6. 23, fl. 383. 

«Padre António da Sylva Alcântara, natural do ReciíFe, filho de Ma- 
noel da Sylva Alexandre, e de sua mulher Maria da Roza, nasceo a 19 de 
Outubro de 171 1. Na idade juvenil estudou a Arte da Muzica, e sahio 
famozo professor desta armonica faculdade. Ainda não contava catorze 
annos de idade, e sabia especulativamente compor diversas obras, que 
lhe conciliarão universal applauso! Ordenado de Fresbiíero mostrou pela 
integridade de vida, e modéstia do semblante, ser digno de tão sublime 
estado. Foy convidado para mestre da Cathedral de Olinda, sendo insigne 
tangedor de todos os instrumentos, e dos mais celebres professores de 
Musica de seu tempo, como testemunhão as obras, que tem composto, 
sendo as principaes. 

«Tercetos, Sonatas com tromoas, e boes, e duas Missa. 

«Três Sonos para as Comedias reaes e a Salfa toda para as ditas 
Comedias, representadas no terreiro do Palácio dos Governadores. Sendo 
Governador, e Capitão .General o Excellentissimo Luis Jozé Corrêa de 
Sá, anno de \i52. 

«Ladainna por Elafá a quatro vozes com trompas, violinos e violon- 
cello obligado. 

«Te-Deum laudamus a quatro Choros com todos os instrumentos, 
que compoz em pouco tempo, e se cantou no Carmo do Reciffe. 

«Te-Deum laudamus a dous Choros, cantado na Misericórdia. 

«Antiphonas de Santa Cecilia. 

«Sonatas para rebecas, para Cravo, e para Cithara.» ^ 

^Icobia (Francisco José), Muito notável cantor, afilha- 
do e protegido da condessa de Lumiares D. Maria da Cunha, 
em cujo palacío viveu sempre desde a edade de sete annos, 
tendo nascido em 1785. 

Diz o registo de matrimónios da freguczia de S. José, onde 
Alcobia se consorciou a 25 de juho de 1809 — livro 18, fl. 54 
verso — que o nubente era natural da freguezia de S. Miguel 
em Ferreira dó Zêzere, tendo por pães Manuel Alcobia e uer- 
trudes Maria ; nSo obstante, o filho de Francisco Alcobia, José 
Maria Alcobia a quem pedi informações, attribuia a seu pae 
uma bastardia fidalga que é inútil e talvez impossível de ave- 
riguar. 

O certo é cjue Francisco Alcobia recebeu a sua educação 
litteraria e musical no seminário da Ajuda, e passando depois 
8 



a ser cantor da patriarchal continuou a viver no palácio Lu- 
miares, sob a protecção dos fidalgos d'esta casa, cujos saraus 
abrilhantava com a sua magnifica voz. O marquez de Castello 
Melhor e o conde de Lumiarcs, D. José, tinham-n*o em grande 
.estima, e por intervenção d*elles concorria aos mais aristocrá- 
ticos saraus que então se davam com frequência em Lisboa. 

Alcobia tinha uma voz robusta e extensissima que lhe per* 
mittia cantar indiffercntemente de baritono ou de tenor. Os 
cantores portuguezes tiveram n'essa dpoca o seu período áu- 
reo ; a excellente escola do Seminário Patriarchal educava-os 
completamente ensinando lhes não só musica, mas também 
grammatica portugueza, latim e italiano; os numerosos solfe-. 
joà de Perez, Luciano^ João Jorge, Solano e tantos outros, fa- 
ziam d'elles leitores imperturbáveis que liam á primeira vista 
e sem o menor embaraço toda a musica que se lhe apresen- 
tasse; os exemplos dos melhores cantores italianos estabeleci- 
dos em Lisboa eram-lhes útil lição para adquirirem um bello 
methodo de canto, cuja tradicção se conservou por muitos an- 
nos. Estes merecimentos tornavam-n'os estimados e faziam- 
n'os bem recebidos, de sorte que esses bellos cantores sabidos 
das aulas do Seminário tinham o seu futuro assegurado pelos 
largos proventos que alcançavam. 

Alcobia, por ir cantar a um sarau, recebia quatro ou oito 
peças de ouro ; por qualquer simples festividade religiosa, uma 
ou duas peças; Além d'isso tinha o seu ordenado de cantor da 
Patriarchal, que era de 600S000 réis annuaes. Este ordenado 
desceu extraordinariamente durante a guerra peninsular, em 
que soffreram enormes reducções todos os empregados civis 
do estado, e em 1810 estava reduzido a loSooo rcismensaes; 
mas em i833 já subira de novo a 32S3oo, verbas authcnticas 
que eu verifiquei nas próprias folhas de pagí.mento. 

Alcobia cantou n'uma explendida serenata que D. Miguel 
deu no palácio das Necessidades em setembro de 1828, pelo 
que teve a honra de ser dos primeiros agraciados com a me- 
dalha da Real Efígie^ que por esse tempo o governo legitimista 
creou para condecorar os seus bons servidores. 

Falleceu em 17 de agosto de 1847 tendo fiaannosdeedade, 
como consta do registo de óbitos do freguezia de S. José, livro 
i5 foi- 33. 

Seu filho, José Maria Alcobia, foi violinista da Real Gamara, 
e durante algum tempo chefe d'orchestra no theatro de D. Ma- 
ria. Nos uhimos annos abandonou o exercicio da arte musical 
mas não lhe perdeu o gosto, porque o seu recreio favorito 
eram as reuniões intimas que dava em casa tendo a musica 
por principal assumpto. Falleceu em i5 de março de 1895, 

9* 



tendo nascido no sobredito palácio Lumiares em 3o de abril 
de 1810. 

Foi pae do distincto official de marinha do mesmo appel- 
lido, que falieceu ha poucos annos, e dos srs. Alcobias conhe- 
cidos no commercio. 

^lmeií(}a, (António dej. Este individuo vem mencio- 
nado na «Bibliotheca Lusitana» por Barbosa Machado — vol. 
I? P^g* '97 — n^s seguintes termos: 

«António de Almeida, natural do Porto, e Mestre de Musica na Ca- 
thedral da sua Pairia, não somente perito n'aquella suavíssima Arte, como 
muito versado na Poética, em que compoz varias obras, sendo particular- 
mente insigne em a Cómica de que deu claro testemunho na obra se- 
guinte : La humana carça abrj:[ada el Gran Martyr S. Laurentio. Coim- 
bra por Thomé Carvalho Impressor da Universidade i656. 4 » 

Machado, que provavelmente citou o livro de que faz 
menção sem o vêr. suppóz que era alguma peça de theatro, 
como se deprehenae do qualificativo cómica que empregou. 
Fétisj tomando Machado por guia para as noticias de músicos 
poituguezcs na sua Biographie Umverselle des MusicienSy lem- 
bra-se de que uma peça cómica com o titulo de S. Lourenço 
devia ser religiosa, e chama-lhe oratória. Mas a verdade é 
que a tal Humana sarça (e não carça) não passa de uma sim- 
ples novena c vida de S. Lourenço, recheada de orações e 
jaculatórias. Da musica correspondente, se o mesmo auctor a 
escreveu, nada já se pode dizer porque a nada estará ella a 
estas horas reduzida, visto que não passou do manuscripto. 

Para augmentar os erros sobre este musico de mereci- 
mento problemático, Fétis erra um algarismo, dando á impres- 
são do livro uma antecedência de cem annos, pois trocou a 
data de i6b6 por i556, sendo por isso levado a dizer que o 
seu auctor viveu no século XVI. Podia antecipal-o á creação 
do mundo, que nada se perderia com isso. 

almeida. [Cândido de). Sob [este nome encontra-se 
no «Investigador Portuguez em Inglaterra», periódico que se 
publicou em Londres durante os annos de 181 1 a 1819, um 
artigo em francez assim intitulado: Eléments d'une Loíigue 
Musicale. — Par Cândido d Almeida^ ecuyer de S. M. le Roí 
Charles IV. (') 

O conteúdo d'este artigo reduzse a uma espécie de ex- 
posição ou annuncio de obra que devia ser volumosa mas não 
chegou a ter publicidade. Propunha-se o auctor realisar com 



(O o Investi gíidor Portugue^ em Inglaterra, vol. XIV, n.* Llíl, novembro, 181?, pag. 122 
a 127. 

10 



JLXa 

ella uma empreza deveras original : formar com os sons mu- 
sicaes uma linguagem positiva que todo o mundo podesse com- 
prehendçr ! 

Na exposição do seu projecto, depois de se expandir em 
considerações philosophicas sobre a origem da hnguagem, 
Cândido d'Almeida formula o seu intuito n*estes termos : 

«... examinando rapidamente a causa dos difFerentes graus de per- 
feição que as línguas teem ottingido, conseguimos a fortuna de descobrir 
n'esta cadeia progressiva, uma comparação que pôde estabelecer o paral- 
lelo entre os sons articulados da voz e os que são produzidos pelos instru- 
mentos; esta descoberta suggoriu-nos a idéa de crear uma lingua musical 
propriamente dita. 

«Bem persuadidos de quanto será importante apresentar uma theo- 
ria fácil e clara para ajudar a comprehensão do nosso systema, procura- 
remos apoiar com factos naturaes, todas as asserções que forem estabele- 
cidas como bases e regras infalliveis. 

«Para esse eífeiío dividiremos esta obra em três partes: a primeira 
apresentará a organisação dos sons musicaes e sua aisposição relativa 
(Grammatica). 

«A segunda conterá um grande numero de phrases de musica racio- 
cinada (Diccionario). 

«Na terceira e ultima se encontrará emfim um tratado philosophico 
(Lógica Musical), com que pr(»curaremos demonstrar a relação que existe 
entre as inflexões de voz e a dos sons mosícaes, assim como as vantagens 
que resultariam de dar á musica uma expressão positiva e regras invariá- 
veis. 

«Tornar a musica uma linguagem musical e representativa, é o único 
motivo que nos anima a emprehender um trabalho sem exemplo, e que 
nos impõe o dever de apresental-a sob um aspecto mais interessante do 
que tem sido até hoje. 

«Exprimir os nossos affeclos, representar os nossos sentimentos e 
agitar a nossa alma, agradável ou desagradavelmente, por meio da musica 
instrumental, é o fim d*esta obra. 

«Os accentos musicaes só nos teem até ao presente lisongeado o ou- 
vido com o seu tagarelar voluptuoso ; talvez que d*ora avante lallem com 
melodia e eloquência. 

«A magia dos sons tem-nos encantado por muito tempo sem que te- 
nhamos procurado conhecer a causa. 

«Iremos agora submetter, a uma ordem regular e determinada, todas 
as suas milagrosas inspirações.» , 

Depois de algumas considerações estheticas, o auctor do 
artigo conclue com esta vehemente preroração : 

«Músicos, a quem o fogo sagrado da arte anima desde o berço, jun- 
tae as vossas luzes aos meus esforços, e em breve as nossas vigílias serão 
coroadas do mais honroso triumpho. 

«O meu fim é attingir a cratera do sentimento; ver correr as suas 
suaves chammas para os nossos corações e abrazal-os sem os destruir, af- 
fectal-os sem os aniquilar, emfim, dar á nossa^alma um novo grau de su- 
blimidade.» 

Esta conclusão basta para nos deixar entrever que a obra 

II 



annunciada não seria mais do que um tratado de esthetica mu- 
sical, profusamente ornado pala rethorica de i8i5, que a exal- 
tação meridional do seu auctor tornaria ainda mais hyperbo- 
lica. Quanto á descoberta annunciada de uma linguagem posi- 
tiva^ formada com os sons musicaes, escusado é dizer que não 
poderia passar de uma pura phantasia. 

xMas quem era este Cândido d'Almeida ? Um portuguez, 
evidentemente. Prova-o a publicação do seu artigo n*um jor- 
nal que só a colónia portugueza em Londres, Paris e Brazil, 
lia e sustentava, ao mesmo tempo que o próprio governo do 
Rio de Janeiro (onde então estava a corte) o sub^idiava. Ex- 
ceptuando as noticias e extractos dos Jornaes estrangeiros, ne- 
nhuns artigos o «Investigador Portuguez» publicou que não 
fossem de escriptores nacionaes. O seu director era então o 
exaltado liberal José Liberato de Carvalho, que occupava um 
grau eminente na maçonaria, associação que n'essa época at- 
tingia o máximo da sua importância, mantendo em relações 
secretas todos os seus membros espalhac^os pelos diversos pai- 
zes; esta circumstancia justifica o caso de apparecer n'um jor- 
nal publicado em Londres, o artigo de um individuo que 
n'essa occasião devia residir em Madrid, visto ser escudeiro 
do rei de Hespanha. 

Por esse artigo ser escripto cm idioma francez, não se 
deve duvidar que o auctor d'elle fosse portugucz ; a obra de- 
via ser provavelmente publicada em França, c forçosamente 
n'aquelle idioma, por isso natural se tornava que a sua expo 
sição o fosse da mesma forma. 

Alguns annos antes, cerca de 1798, a casa editora de mu- 
sica em Paris, fundada em 1795 pelo celebre compositor Igna- 
cio Pleyel, publicou a seguinte obra : Six Quaíuors pour deux 
Violons, Alto et Basse^ par C. F. Almejda au service dii roí 
d'Espagne. Op, 2. Premier livre. — Paris. — Che:^ Pleyel, ctc. 
E' natural que o auctor doestes quartettos e o dos Eléments 
d'une langue musicale fossem uma e a mesma pessoa, porque 
muito menos probabilidade existe em ter o rei de Hespanha 
ao seu serviço^ na mesma época, dois músicos com o mesmo 
appellido portuguez, com a mesma inicial no primeiro nome, 
e ambos auctores de obras importantes. O quartctto publicado 
por Pleyel teve um artigo noticioso na «Gazeta Musical de 
Leipzig» em 1798, o que prova a universalidade de relações 
que mantinha o servidor de Carlos IV. 

No emtanto o musicographo hcspanhol, Baltasar Saldoni, 

nas F^emérides de Miisicos t^spaíioles, dedica algumas linhas 

ao auctor d'aquelle quartetto, fazendo d'elle seu conterrâneo; 

dá-o como violinista, natural de Burgos, e completa-lhe o nome 

12. 



chamando-lhe Carlos Francisco *d' Almeida. Esta noticia dbriga- 
ine a estabelecer o seguinte dilema : ou os Almeidas eram dois, 
ou algucm houve que das iniciacs C. F., encontradas no cata- 
logo de PJeyel, arranjou um Carlos Francisco puramente phan- 
tasrico. 

Quem conhece os processos de alguns escriptores não se 
admirará da segunda hypothese. 

.AArxt^ilsL /FJugenio Ricardo Monteiro de), V. IWCon- 
t;eii*o de .«^Imeicla,. 

jV.l]iieid£i (Fernando de). Freire da Ordem de Chris- 
to. Era natural de Lisboa e professou no convento de Tho- 
mar, sede da ordem, na anno de i638, sendo elevado ao cargo 
de visitador cm i656. Foi mesire da capella no mesmo con- 
vento. 

No catalogo da livraria, de D. João IV figura uma missa 
d*este compositor com a indicação seguinte: «Do terceiro tom, 
a 12. Fr. Fernando de Almeida, da ordem de Christo.» (*) 

Compoz também a musica j>ara os officros da semana 
santa, comprehendendo lamentações, responsorios e miserere 
para quarta, quinta e sexta feira; D. João V mandou tirar 
uma copia d'esta obra para ser cantada na Capella Real, se- 
gundo atlirma Barbosa Machado na «Bibliotheca Lusitana», 
tomo 2.®, pag. i6, 

Fr. Fernando de Almeida falleceu no convento de Tho- 
mar a 2r de março de 1660, segundo o mesmo Barbosa. 

.A-lmeida, (Francisco António \de). E* este o nome de 
um dos nossos primeiros compositores que escreveram ope- 
ras italianas, o qual viveu na primeira metade do seculò XVIII. 
Existe d*clle, e guarda-se na Bibliotheca d'Ajuda, a partitura 
completa e autographa de uma das suas operas, bem como o 
3.® acto de outra, o que permittc avaliar-se com exactidão o 
trabalho do musico e apreciar-se o seu estylo. 

Infelizmente, são parcas as noticias da vida de Francisco 
António d' Almeida; mas a época em que elle trabalhou é de 
tal modo interessante fará a historia da musica em Portugal, 
c a circumstancia de existirem alguns restos da sua obra para 
corroborarem os factos conhecidos tem tanta importância, que 
vale a pena substituir particularidades sobre um individuo, pela 
resenha histórica da notável época em que elle viveu. 

E* o que vou fazer, da forma mais resumida que seja [os- 
sivel. 

O principio do século XVIII marca o estabelecimento de- 



(I) «Prinaeira parte do ladex da Livraria de Musica do muy aJio poderoso Rey Dom Joáo 
o IV*i,paç. 4Js. 

i3 



finitivo da musica italiana no nosso paiz^ c o completo aban- 
dono da influencia flarnenga e hespautiola que predominou até 
meado do século XVII, declinando d'aqui por diante. 

Deu origem á preferendia italiana, o gosto pela musica 
theatral que se desenvolveu em Itália d'uma forma prodigiosa, 
attingindo quasi a excessos de loucura, espalhando-se depois 
por todas as cortes da Europa. 

Era Vienna d'Austria principalmente, sede do império al- 
lemão aò qual estava sujeita uma parte da Itália, as operas ita- 
lianas promptamentc se tornaram em divertimento favorito da 
corte; poetas aggregados ao serviço imperial, e que por isso 
tomavam o titulo honorifico de poetas cesáreos^ tinham por 
principal encargo compor os librcttos que músicos, também 
especialmente contractados, punham em musica. Todos os an- 
nos, nos dias de carnaval, se representava um componimento 
dramático y drama cómico ou festa ,teatrale ; nos dias de solem- 
nidade, tacs como anniversarios, consórcios, etc, executava-se 
uma serenata ou uma cantata allusiva ; emfim, a própria ora-- 
toriay invenção dos padres congregados no Oratório de S. Fi 
lippe Nery, constituía propriamente uma variante religiosa das 
festas profanas, 

D. Maria Anna d* Áustria, filha do imperador Leopoldo, 
casando em 1708 com D. João V, trouxe para a corte ponu- 
gueza este uso das representações italianas, e as cantatas, se- 
renatas, dramas e mais espécies do mesmo género, foram aqui 
repetidas annualmente nos dias solemnes e festas do carnaval, 
exactamente como em Vienna d'Austria. 

Para possuir bons músicos que soubessam compor e can- 
tar a musica italiana, D. João V iniciou o costunie que depois 
se inveterou, não só de mandar vir músicos italianos, mas tam- 
bém de enviar a Itália alguns portuguczes para estudarem esse 
género, então novo para cUes. O primeiro de que ha noticia 
foi António Teixeira, que segundo affirma Barbosa Machado, 
partiu para Roma em 1717. E* provável que Francisco d' Al- 
meida também tivesse estudado em Roma, poucos annos de- 
pois de Teixeira, por que assim se explica o facto de serem 
estes os únicos músicos portuguezes que n'aquclle tempo com- 
poscram operas italianas. 

O mais celebre e mais fecundo compositor que no prin- 
cipio do século XVIII (e fins do secillo precedente) tinha em 
Itália a supremacia da arte musical, era Alexandre Scarlatti, 
cujas cantatas serviram de modelo, segundo affirma Fétis, a 
todos os seus successores, e se consioera como fundador da 
escola napolitana. Foi Alexandre Scarlatti o primeiro que em- 
pregou uma orchestra regular, composta de duas flautas, dois 



oboé?, dois fagottcs c duas trompas, além do quartetto de ins- 
trumentos de cordas e do cravo para acompanhar os rccitaii- 
vos. Foi ellc também o primeiro que algumas vezes fez acom- 
panhar o recitativo por toda a orchestra, intercalando-lhe mesmo 
pequenos ritomclios, em vez de simplesmente escrever o baixo 
cifrado para cravo, como era e continuou por muito tempo a 
ser uso geral. 

Seu filho, Domingos Scarlatii, o celebre cravista cujas 
composições teem sido estudadas com tanta curiosidade pelos 
pianistas modernos, veiu para Lisboa cerca de 1720 e aqui se 
conservou até 1729, desempenhando o cargo de mestre da fi- 
lha de D. João V, a illustrada infanta que depois foi successi- 
vãmente princeza das Astúrias e rainha de Hespanha, D. Ma- 
ria Barbara. E' muito provável que Domingos Scarlatti, du- 
rante a sua residência em Lisboa, tivesse composto a musica 
para, algumas das peças theatracs executadas no Paço, assim 
como compoz alguma musica religiosa para uso da Real Ca- 
pella. 

Foram portanto estes os principaes, e seguramente excel- 
Icntes modelos, que tiveram os nossos primeiros composito- 
res de operas. 

A partitura completa da opera de Almeida que existe na 
Bibliotheca da Ajuda, tem o titulo seguinte: La Spiualba o 
vero il Vecchio Matto. Dramma Cómico da representarsi nel 
Real Palaz^o di Lisbonna Per il Carnovale di quesfanno Jj3g, 
Posto m Musica Per Francisco António d'Almeyda, — Original. 
São interlocutores Splnalba^ soprano; Dianora, contralto; CU- 
soy soprano; Vesperini, soprano; IpolJtOy tenor; Leandro^ te- 
nor; Arsénio, barítono; Togno^ baixo; ao todo, oito cantores, 
dos quaes três sopranos, um contralto^ dois tenores, um ba- 
rítono e um baixo. 

A opera dividc-sc em três actos com quatro quadros, sub- 
divididos em diversas scenas; cada saena consta de um recita- 
tivo seguido de uma ária. Apenas uma peça conccrtante se 
encontra em toda a partitura, que é um quartetto servindo de 
final ao segundo acto; mas esse é extenso e bem trabalhado, 
dialogando, as vozes primeiro c juntando-se depois, n'um es- 
tylo melódico em que se descobre o embryão da melodia ita- 
liana moderna, e onde já não se encontra uma sombra sequer 
do contraponto flamengo. E' muito notável este facto, porque 
poucos annos antes ainda o antigo estylo polyphonico servia 
de base ao trabalho dos nossos compositores; entre os villan- 
cicos de Marques Lesbio, que trabalhou até 1709, eesta opera 
de Francisco d* Almeida, ha uma differença tão grande de pro- 

i5 



ccssos tcchnicos-> como entre uma composição de Rossini e 
outra de Wagner. 

A orchestra na partitura da Spinalia é similhante á que 
empregou Alexandre Scarlatti: tem dois oboés, duas trompas 
e o quartetto dos instrumentos de arco; o recitativo é constan- 
temente acompanhado, pelo simples baixo cifrado, 

Inicia-se a opera com uma Overtiire fsicj, gallicismo sin- 
gular, porque geralmente as aberturas não toram designadas 
pelos músicos portuguezes senão com o nome de symvhonias 
segundo o uso dos italianos; talvez que Almeida conhecesse 
as operas de LuUi, o creador da opera franceza nos fins do 
século XVII, o qual é também considerado como creador da 
abertura, porque lhe deu maior desenvolvimento. 

Todavia, a abertura da Spmalba não tem grande desen- 
volvimento; consiste simplesmente n'um Presto, curto e de 
pouca importância. Em seguida vêem duas árias de dança : 
uma gãPóta^ só para quartetto, e um minuete para toda a or-. 
chestra; estes dois trechos são caracteristicos e creio que ainda 
hoje seriam ouvidos com interesse pelas pessoas curiosas da 
arte antiga. 

Em geral, toda a partitura revela a mão de um musico 
hábil; a melodia das árias é bem desenvolvida, isenta das vo- 
latas e requebros que mais tarde se tornaram em abuso; os 
rccitativos teem movimento e não deixam de ser modulados 
com certa variedade, coisa notável para a época em que fo- 
ram escriptos. No secundo quadro do primeiro acto, cuja 
scena representa um jardim com vista de rio, ha uma barca- 
rolla bem caracterisada. São muitas as árias, e cada persona- 
gem canta três ou quatro; só o primeiro aao tem dez, e. ao 
todo não serão menos de vinte e cinco a trinta, O primeiro 
acto termina com um duetto de soprano e teior, mas que 
propriamente não pode ser classificado de peça concertante 
porque é toda em dialogo. 

Ha ainda a notar na partitura de Spinalba uma curiosi- 
dade referente á orthognapnia: apezar de ser escripta em no- 
tação moderna, perfeitamente intelligivel para os músicos 
actuaes^ contém ainda certas formulas orthographicas que lem- 
bram a notação dos antigos mensuralistas; assim, quando se 
succedera series de notas com valores eguaes abrangendo dois 
ou mais compassos, as linhas de divisão só se encontram de 
dois em dois compassos, como lembrança de tempo cm que 
essas linhas não .existiam; uma nota prolongada durante dois 
compassos quaternários é representada pela figura de breve, 
em vez de o ser por duas semíbreves ligadas; âs fracções ari- 
thmeticas representativas dos compassos, são sempre prtíce- 
l6 



didas do semicírculo que representa a figura semibreve como 
unidade d'essas fracções, e que antigamente representava o 
tempo imperfeito ou valor binário da mesma semibreve; em- 
fim, no compasso 3/^ as divisões esrão indicadas só de dois cm 
dois compassos, o que o torna verdadeiramente em e/g. Estas 
pariicularidades teem um certo interesse porque significam re- 
miniscências de uma época que findara, e por consequência 
significam também que a nova época havia sido iniciada pouco 
tempo antes. 

Existe na Bibliotheca da Ajuda outra partitura que tem 
na capa a seguinte indicação: La Pa:iien:^a di Socrate. Atto 
Ter:^o. Di Francisco António d' Almeida. O libretto doesta opera 
existe impresso, mas não tem designado o nome do poeta que 
o escreveu nem do compositor que o poz em musica. Na pa- 
gina do rosto diz esse libretto o seguinte: La Pa:^ien:^a di So- 
cr ale, dramma cómico da cantarsiNel Carnevale diquesfanno 
Nel Real Palazzo diLisbona, — Lisbona Occidentale, Nella Ofi- 
cina de Giuseppe António di Syha. M, DCC. XXXIII. ('). 

E' uma comedia baseada sobre os distúrbios domésticos 
com que as duas mulheres de Sócrates lhe apuravam a pa- 
ciência, segundo a tradicção vulgar. 

O mesmo assumpto, senão o mesmo libretto, já havia sido 
posto em musica por Draghi em 1680, e por Caldara asso- 
ciado a Reuter em i/Si. São interlocutores, além do protogo- 
nisia (tenor), as suas duas mulheres (sopranos), Alcibíades e 
Aristophanes (baixos), uma criada (contralto), e um criado 
(tenor). 

A partitura nada apresenta de notável que a distinga da. 
Spinalba^ senão que termina por um coro em forma de mar-' 
cha, aliás pouco importante. De resto é a mesma série de rc- 
citativos e árias, o mesmo esiylo italiano, a mesma factura fá- 
cil e corrente denotando habilidade e experiência. 

De mais três obras de Francisco d*Almeida existem libret- 
tos impressos; o primeiro, por ordem de antiguidade é: La 
Finta Pa^a^ difama per musica, da rapreseutarsi nel Carnevale 
di quesVanno (1736) nel Pala:^To Real de Lisbona^ posto in mu- 
sica da Francisco António d' Almeida. 

Foi com uma peça de titulo similhante a este (e provavel- 
mente feita sobre o mesmo assumpto), que no anno de 1G45 
se estreiaram em Paris os italianos mandados chamar pelo 
cardeal Mazzarino. 

Menos antigo do que a Finta Pa^^^a^ temos o libretto de 



(i) E* possível que Almeida tivesse escripto só o terceiro acto, sendo o primeiro e o se- 
gundo de ootro oa outros compositores. 

FOL. 2 17 



uma serenata dedicada ao primeiro patriarcha de Lisboa, D. 
Thomaz de Almeida, pelos cantores italianos da Patriarchal. 
Este facto indica-nos com muita evidencia cjue Francisco d'Al- 
mcida era o mestre da Capella Real e Patriarchal, porque não 
s^ria próprio que outro escrevesse a musica de uma peça que 
os músicos da mesma Capella offereciam ao seu chefe su- 
premo. 

Diz esse libretto : Le Virtii Trionfanti. Serenata da canta- 
rsi nel Pala:^:^o delV Exmo. e Rcumo. Sig/ Cardinale D. To- 
maso D' Almeida Primo Patriarca di Lisbona^ etc. In occasione 
delia diLuiPromo:^ione allaDignità Cardinali:^ia ; ed ai medemo 
dedicata dalli Cantori Italiani. — Lisbona Occidentale, Nella Offi- 
cina di Musica de Theotomo Lima. Anno M. DCC XXXViH. 

São interlocutores n'esta peça as figuras allegoricas : Jus- 
tiça, Sapiência, Prudência, Força, Inve)a e Engano, secunda- 
das por dois coros, um de Virtudes e outro de Fúrias. Men- 
ciona o mesmo libretto, em seguida a uma dedicatória: Poesia 
dei Si^nor D. António Tedescht, — Musica dei Signor Francesco 
Antomo d' Almeida. 

Finalmente, o ultimo libretto impresso que menciona o no- 
me de Almeida é: Ulppolito. Serenata a sei voci^ da cantarsi 
nel Real Pala:^!^o di Lisbona, a 4 di decembre di quesfanno 
ij52 per j^li anni felicissimi delia S ignora D. Maria Barbara^ 
Remna di Spagna. Lisbona^ nella Regia Stamperia Silviana, e 
deu Academia Real — jj52. 

A poesia é também de D. António Tedeschi. 

Foi provavelmente este o ultimo trabalho importante do 
compositor portuguez, porque no mesmo anno em que foi 
concluido, 1752, chegava a Lisboa David Pcrez para occupar 
o locar de primeiro musico da corte. Talvez mesmo que a im- 
possibilidade, por velhice ou doença, d^ Francisco de Almeida, 
fosse causa de vir o notável mestre italiano que tão grande in- 
Huencia teve na arte musical portugueza durante a segunda 
metade do século XVIIL 

No emtanto parece que o nosso compositor ainda viveu 
ate ao terramoto de 1756, porque uma carta do litterato e de- 
senhador Tibério Pedagache ou Pedegache, escrípta com toda 
a probabilidade algum tempo antes da catastrophe, faz menção 
d'clle, sob o nome familiar de Francisco António, como exis- 
tindo a esse tempo. Eis os termos da carta de Pedagache, no 
trecho em que se refere á musica : 

«Na Musica temos feito ós mayores progressos. Náo hq casa onde se 

Uno ache algum instrumento musico, ou quem saiba cantar. Os Senhores 

Frsncisco António, António Teixeira, Pedro António Avondano, e outros 

que. não nomeyo, por nSo ser mais extenso, fazem admirar as suai com- 

j8 



posições. Não fallo dos compositores italianos, que se achão nesta Corte, 
porque não temos mister para realçar a nossa gloria do merecimento 
alheio.» (^) 

No archivo da Sé de Lisboa guardam-se as seguintes com- 
posições sacras de Francisco António d' Almeida: Benedictus^ 
Lamentação para sexta -feira santa, Miserere^ uma ladainha e 
dois motetes, tudo a -quatro vozes e órgão ; uma Sequencia cie 
Pentecostes^ a oito vozes e órgão. Também lá existe uma mis- 
sa a oito vozes e umas matinas de Santo António a quatro, 
com a simples designação de «Francisco António», que talvez 
seja o mesmo compositor, assim designado familiarmente como 
acima fica dito. 

As suas composições theatraes de que temos noticias au- 
thenticas, são em resumo e ^ela ordem chronologica : 

La Pa^^ien^a di Socrate^ 1733. 

La Finta ^a^^a^ iy3b. 

Le Virtu Trionfanti^ 1738. 

La Spinalbay 1739. 

UlppolitOj 1752, 

.almeida. (Padre Ignacio António de). Mestre de ca- 
pella na Sé de Braga, no principio do século actual. Nasceu em 
Guimarães a 18 de fevereiro de 1760, e falleceu em 25 de ou- 
tubro de 1826. Foi abbade da freguczia de S. Pedro dcPene- 
dono^ e por este titulo era geralmente conhecido. Compoz uni- 
camente musica religiosa, com especialidade para a cathedral 
bracarense. Na Bibliothcca Nacional de Lisboa ha umas mati- 
nas do Natal compostas pelo abbade de Penedono, para dois 
sopranos, baixo e acompanhamento de piano. E' composição 
de pouco valor. 

.A^lmeida. Oampos (João Ribeirão d). V. Cam- 
pos. 

^^Imeida (Joaquim d). Pianista que em Lisboa gosou 
de boa reputação como professor. Era filho de um musico mui- 
to medíocre, João d* Almeida, cunhado de Domingos Bomtcm- 
po. A casa editora de Lence e Canongia publicou grande quan- 
tidade de phantasias e trechos d'operas, arranjados por Joaquim 
d' Almeida, que tinham muita voga entre as pianistas pouco 
exigentes de primores artisticos e originaes ; a casa Sassctti, no 



(1) «Carta aos sócios do Journal (sicj Estrangeiro de Paris, em que se dá noticia breve 
dos litteratos mais famosos exi5tcnies em Lisboa, pelo senhor Miguel Tibério l^eda^achCf e pelo 
mesmo traduzida em Portuguez. — Km 4.° com 23 pag. náo numeradas, s. 1. s. d. Kxempl jr exis- 
teme na Bíbliotheca da Ajuda. Miguel Tibério Pedugache era uin negociante de origem íVanccza, 
estabelecido em Lisboa no meiado do século XVII I. Cultivava ds bellas artes e era também um 
CKMico poeta, existindo d'elle dois ou três manuscriptos na Collecçúo Pombalina du Bibliotheca 
Nacional. Fez alguns dos desenhos para a collecção de gravuras, que se imprimiram em Paris, 
representando varias ruínas do terramoto, e enviou para o Journal Etranger^ cujo era corres- 
pondente, algumas cartas, uma d>na8 descrevendo o cataclismo. 

Kl 



engodo da voga, também publicou tres phantasias sobre ope- 
ras c uma valsa. 

Joaquim d'Almcida, que no fundo era um bom rapaz, es- 
timado c bem recebido, teve um fim trágico ; desvairado por 
uns amores illiciíos, disparou contra si um tiro de rcwolver, 
de que vciu a fallecer ao cabo de dczcsseie dias de airoz sof- 
frimento, n'um quarto particular do hospital de S. José, em 28 
de outubro de 1074. 

.áLlmeida. (D. José. de). Eis um nome que desperta ain 
da profundo sentimento de magua em todos os que conhece- 
ram o excellente caracter c bcllo talento musical d'esse sym- 
pathico c mallogrado moço, que se chamou D. Josc d'Al- 
meida. 

As lagrimas da viuvez não se extinguiram, a saudade dos 
parentes e amigos não diminuiu, a dor da mãe que perdeu t«no 
querido filho d ainda viva como no momento em que a fatali 
dade vibrou o desapiedado golpe. 

D. José d'Almeida era descendente de uma das mais dis- 
tinctas familias portuguezas. Filho de D. Francisco de Almeida 
c de D. Carolina Street de Arriaga e Cunha, nasceu em Lis- 
boa a 7 de fevereiro de i858. 

Seu pae, amador de musica muito illustrado, flautista, foi 
quem lhe ensinou na infância os primeiros rudimentos d^ sol- 
fejo, ensinando-o também a tocar flauta ; o resto foi quasi tudo 
obra da sua natural vocação. 

Encetando os estudos militares, cuja carreira seguiu che- 
gando ao posto de capitão de artilhcria, D. José de Almeida 
não perdeu o gosto pela musica, e foi com suprema satisfação 
que se encontrou, na edaJe própria, senhor de uma bella c mal- 
leavel voz de baixo cantante, a qual para se desenvolver e 
aperfeiçoar não esperava mais do que alguns poucos cuidados 
c exercicios. 

Relacionado com o sr. commendador Francisco Lourenço 
da Fonseca, outro dilettante enthusiasta e lambem flautista, 
casou com uma de suas filhas, a sr.* D. Julieta da Fonseca de 
Almeida, excellente e consummada pianista. Doesta união re- 
sultou o commum aperfeiçoamento na art2 a que ambos con- 
sagravam os seus dcsv^cllos e cm que empregavam as suas ho- 
ras de recreio e distracção. D. José cm pouco tempo se fez 
cantor perfeito, tornando-se admirado e applaudidò nos salões 
da nossa primeira sociedade. Egualmente começou a concor- 
rer aos concertos públicos, e desde então a sua comparência 
n'estas festas tornou se assidua, porque nem o publico se can- 
çava de o ouvir, nem a sua grande bondade permittia excu- 
sar-se aos pedidos que lhe faziam. 
20 



i 



A sua estreia cm publico foi no thsatro de S. Carlos a 17 
de fevereiro de 1879, n'um sarau em beneficio dos asylos para 
rapazes e meninas pobres; cantou a ária do D, Carlos. Tinha 
apenas 21 annos, e apresentava já uma voz robusta, com 
aquclle timbre sympathico e pura emissão que constituía o en- 
canto de quantos o ouviam. 

Tomou parte na cantata de Alfredo Keil, Palríe^ que a 
Real Academia dos Amadores de Musica executou em o de ju- 
lho de 1884. 

Cantou em i885, no thaatro dos Recreios, a opera de 
Ponchielli / Promessi Sposiy n'uma recita dada por amadores, 
sob a direcção de António Duarte; em 8 de junho de 18S6, 
para festejar o consorcio de el-rei D. Carlos, então principc, 
repctiu-se a mesma opera no theatro de S. Carlos. D. José 
desempenhou primorosamente a parte de fi^a CtustoforOy e dj 
ta! modo que o melhor artista não o excederia facilmente ; a 

Karte de tenor desempenhou-a João Affonso, também fallecido 
a pouco tempo, o qual tinha uma voz pequena e pouco ex- 
tensa mais muito agradável. 

Em abril de 1887 cantou no salão da Trindade a Maria 
Magdalena^ de Massenet, e um duetto da Eva^ do mesmo au- 
ctor, em dois concertos de amadores e artistas, organisados 
lambem por António Duarte. 

Em 19 e 20 de outubro de 1889, beneficio dos orphãos 
do violinista Marques Pinto, cantou no theairo de S. João, do 
Porto, o FatisiOj de Gounod, desempenhando com os mais 
justos applausos o papel de Mephistopheles. 

Estas foram as representaç5w*s mais notáveis, porque do 
todas seria longo e fastidioso dar noticia. Mas o que merece 
ainda especial menção, e em que D. José de Almeida desen- 
volveu todos os recursos de cantor consummado, foi n*uma 
bailada escripta por Victor Hussla sobre a poesia portugueza 
de Lopes de Mendonça, O caitico das Vagas. Esta composi- 
ção, com acompanhamento de orchestra foi cantada primeira- 
mente na Trindade e depois no theatro de S. Carlos, em con- 
certos dados pela Real Academia de Amadores de Musica, nos 
dias 8 de junho e 3 de julho de 1892. 

A ultima vez que cantou em publico foi também n'um 
concerto da mesma Academia, em 10 de abril de 1893. 

No principio de 1894 teve uma congestão pulmonar, que 
sobjesdtou vivamente todas as pessoas que por elle se inte- 
ressavam; por conselho dos médicos, partiu para a Suissa c 
ahi experimentou sensiveis melhoras. Entrava em franco res 
tabelecimento e até já o medico lhe permittira cantar, o que 
para elle era a suprema satisfação, quando repentinamente o 

21 



assaltou uma pneumonia que o derrubou para sempre. Falle- 
ceu nos braços carinhosos da mãe e da esposa, que sempre o 
acompanharam, em 5 de outubro de 1894. 

A sua morte foi muito sentida cm Lisboa, e todos os jor- 
naes publicaram artigos necrologicos honrando-lhe a memoria. 

D. José de Almeida era estimadíssimo de todas as pessoas 
que o conheciam. Coração de oiro e alma franca, estava sem- 
pre prompto a concorrer com o seu préstimo para todas as 
festai de beneficência e a coadjuvar os artistas que procuras- 
sem o seu auxilio ; apaixonado pela musica, intercssava-se por 
tudo quanto lhe dizia respeito, e procurava a convivência dos 
melhores artistas para mais se esclarecer nas questões de arte. 

El rei D. Carlos, tendo conhecimento das excellentes qua- 
lidades de D. José de Almeida, nomeára-o seu ajudante de 
ordens. 

^Imeida. (José Ernesto de). Filho do litterato e poeta 
portuense Henrique Ernesto de Almeida Coutinho, nasceu no 
Porto em 27 de setembro de 1807. 

Professou, quando tinha 18 annos, na Congregação dos 
Cónegos Seculares de S. João Evangelista, excercendo no seu 
convento as funcçÕes de organista. Quando em 1834 se extin- 
guiram as ordens religiosas, Ernesto de Almeida, ou José Er- 
nesto, como lhe chamavam, dedicou-se ao ensino e adquiriu 
no Porto uma excellente reputação de professor. 

Deixou muitas composições, que ficaram manuscriptas, 
sendo entre cilas mais notáveis: Quatro sonatas para piano y 
com acompanhamento ad libitum de violino e violoncello ; Sym- 
plionia a grande orchestra^ dedicada á «Sociedade Philafmo- 
nica Portuense»; Variações para violino sobre a canção italia- 
na cíGià la notte s'avvicina». 

Traduziu a terceira edição da conhecida obra de Fétis «A 
Musica ao alcance de todos», e d*essa traducção foram publi- 
cadas três edições; a primeira sahiu em 184.5 — Porto, na ty- 
pographia Commercial, e a segunda em 1869 — Porto, na ty- 
pographia de Sebastião José Pereira, sendo editor Cruz Cou- 
tinho. Parece que a segunda edição se imprimiu entre os an- 
nos de i858 e 1859, porque tem a primeira data no frontes 
picio e a segunda na capa. O «Diccionario de Termos de 
Musica» incorporado n'esta obra, vendia-se também separada- 
mente. 

Forçoso é confessar que, se a traducção de Ernesto de 
Almeida está feita com toda a correcção sob o ponto de vista 
littcrario, deixa muito a desejar pelo lado technico, revellando 
escassos conhecimentos. 

José Ernesto de Almeida falleceu no Porto em 1869. 

22 



A sua symphonia foi ainda executada, pouco tempo antes 
d'elle faliccer, no theatro de S. João, em 25 de novembro dj 
1868, n'um grande concerto de amadores, dirigido porDubini, 
para festejar a installaçao da «Academia de Musica». 

.A^lva.rad.0 íDioQo de). Organista da Capella Real na 
primeira metade do século XvII. O seu nome figura no cata- 
go da livraria de musica de D. João IV, como auctor de um 
motcie a cinco vozes, Ave Virgo gloriosa^ e outro a quatro, 
Ver^sa esi in luctum. O exemplar do Libro de Tientos^ de Cor- 
reia de Araújo, existente na Bibliotheca da Ajuda, tem no fim 
umas annotações manuscriptas em letra d'aquella época, que 
fazem referencia a composições de Alvarado, citando-as co- 
mo exemplos auctoritarios, e apresenta duas d*essas composi- 
ções que são muito curiosas. 

Estava sepultado na antiga egreja dos Martyres, destruida 
pelo terramoto de ijSS, e no jazigo lia-se o seguinte epitaphio: 
Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capella 
realy 43 ânuos:, e de sua mulher ^ o qualfalleceu em 12 de feve- 
reiro de 1643. (*) 

-A^lvareng-a (Francisco Xavier de Mattos Pereira). 
Compositor de fraca instrucção, mas com bastante estro e so- 
bretudo extremamente ávido de gloria popular. 

Nasceu em Lisboa, a 11 de fevereiro de 1844. Era filho 
d'um ardente partidário do governo absolutista, António José' 
Pereira Alvarenga, que depois de ter possuído boa fortuna 
vciu a fallecer muito pobre por causa da dedicação ao seu 
partido. Tinha sido cozinheiro de D. João VI e D. Miguel. 
Quando Francisco Alvarenga se encontrou orphão era uma 
crcança; seu irmão Nuno Alvarenga, comquanto fosse muito 
novo ainda^ tomou a seu cargo toda a familia, que se compu- 
nha de mais uma irmã e da mãe, conseguindo á força de tra- 
balho e habilidade tornar~se um cozinheiro notável como p 
pae. Protegiam a familia Alvarenga algumas pessoas mais con- 
sideradas do partido realista, taes como D. João de Lacerda e 
o visconde de Azurara. Como o pequeno Francisco mostrasse 
uma grande vocação para a musica, resolveram mettel-o no 
Conservatório, frequentando primeiro a aula de flauta e de- 
pois a de trombone, cujo curso concluiu com bastante brilho 
em 1869. Já seis annos antes, em i863, se tinha alistado na 
banda de musica dos marinheiros, banda que adquirira muita 
fama e se compunha de artistas escolhidos. 

Alvarenga, porém, não se contentava em ser musico exe- 



(I) ■Memorias» (inéditas) de Diogo de Paiva de Andrade, apui Camillo Castello Branco 
roaiance «O Regicida», noto i.* 

23 



-A. Ill 

cutante, embora com mérito; aspirava ás glorias de composi- 
tor. Para satisfazer a sua aspiração, frequentou um anno a au- 
la de harmonia,, e não se entendendo com os preceitos esco- 
lásticos, pediu lições a quem era n^esse tempo seu condiscipulo 
c pouco mais saberia do que elle. Mas dominado por um es- 
pirito irrequieto e mal cultivado, Alvarenga menos seguiu os 
conselhos do condiscipulo do que a disciplina da aula; resol- 
vendo começar pelo fim, apresentava á emenda, em vez dos 
exercícios escriptos sobre o estudo elementar da harmonia, 
composições já acabadas mas informes, que fazia executar por 
uma sociedade de amadores sob a sua direcção. Lembro-me 
de que as primeiras d'essas composições foram uma abertura, 
uma novena de S. João Baptista e fragmentos de uma missa. 

E assim se lançou atrevidamente na carreira o aspirante a 
compositor, munido apenas com uma insignificante provisão de 
sciencia technica, mas animado por uma illimitada confiança 
em si mesmo. Teve bom cxito o atrevimento, realisando-sc 
mais uma vez o proloquio audaces fortuna juvat ; mas foi um 
êxito unicamente popular, como não podia deixar de succeder 
cm taes condições. 

Um dos seus primeiros trabalhos iniportantes para o thea- 
tro foi o «Cofre aos Encantos», peça magica de rarisini, re 
prcsentada pela primeira vez no theatro das Variedades em 17 
de setembro de 1874. Teve um grande applauso das platéas a 
musica d'esta peça, começando então a aura da popularidade 
a bafejar o compositor que a aspirava com soffreguidão. 

Por esse tempo deu-se o seguinte episodio : n'um mo- 
mento de embriaguez pela gloria, quando o publico fazia re- 
soar estrepitosas acclamaçÕes, Alvarenga, do seu logar de di- 
rector da orchestra, inclinou-se para um dos músicos e disse - 
lhe : aHei-de ser o Offenbach portuguez !» 

Esta phrase propalada entre a mestrança da musica, ser- 
viu de assumpto para cruéis motejos e lornou-se em epithcto 
irónico ; mas a verdade é que os motejadores, talvez acerados 
por alguma ponta de inveja, tinham o espirito mais acanhado 
c a alma mais pequena do que o imperito imitador de Offen- 
bach. 

Para muitas outras peças theatraes, representadas princi- 
palmente nos theatros das Variedades e do Principe Real, es- 
creveu Alvarenga a musica. Entre ellas citam-se : Corsário 
N^.gro — Amor e Dinheiro — Lucta dos Génios — Maestro Bovi 
- Filho da Senhora Angot — Os Areostatos — Pela bocca 
n.>rre o peixe — Beldemonio — Cartas do Conde-duquc — Ni- 
nichc — A filha do Tambor-mór — Os Lanceiros — O cerco 
de Granada — O sino do eremitério — Gil Braz de Santilhana, 
24 



operctta raprcsentada com bastante êxito no theatro da Trin- 
dade. Todas estas peças, com especialidade as operas cómicas 
e operettas, eram extrahidas do theatro franccz, cujos libret- 
tos Alvarenga muitas vezes escolhia, pedindo aos litteratos 
mais cm voga que lh'os traduzissem ou imitassem. 

Em 1882 Alvarenga partiu para o Rio de Janeiro como 
director de musica, n*uma companhia organisada por Sousa 
Bastos, e lá os seus sonhos tiveram mais ampla realisaçao do 
que era Lisboa. A sua musica agradou muito, o que mais o 
animou a trabalhar apresentando successivamente, e com pe* 
gueno intervallo, quatro peças novas : «O Visconde — O Pato 
Ganso — Um drama no alto mar — O Periquito». Esta ultima 
peça era extrahida da opera cómica em três actos «Vcrt-vert», 
e o libretto imprimiu-se no Rio de Janeiro. 

Entretanto Alvarenga, dominado pela febre de produzir, 
trabalhava com grande actividade, mas tinha uma compleição 
franzina e regulava mal o seu viver; sahindo de Lisboa já com 
a saúde bastante deteriorada sem que a isso prestasse attcnção, 
teve a sorte de muitos outros que vão ao Brazil nas mesmas 
condições: o clima e os desregramentos abriram-Ihe em brevj 
a sepultura. 

No apogeu da gloria tão ambicionada, quando os seus 
doirados sonhos se realisavam com o maior deslumbramento, 
applaudido no theatro, elogiado calorosamente por toda a im- 

Crensa fluminense, enthusiasticamente festejado por todo o pu- 
lico brazileiro, succumbiu quasi de repente, tendo apenas 
completado 3g annos de edade. 

Corre fama de que este triste desfecho não foi tanto cau- 
sado pela natural doença como por um crime que ficou oc- 
culio e foi perpetrado por um rival ciumento. 

O seu fallecimento occorreu em 8 de março de i883. 

Os jornaes do Rio de Janeiro, com especialidade o Globo, 
a Ga:^eta de Noticias e o Jornal da Noite, teceram-lhe os maio- 
res elogios. O Diat^io Illustrado, de Lisboa, publicou em 7 de 
abril de i883 o retrato de Alvarenga, acompanhado com uma 
biographia escripta por D. José Carcomo. Também o seu 
nome figura no «Diccionario Popular» de Pinheiro Chagas, 
i,^ supplemento, pag. 88, 2.'' columna. 

A-lvaro.' Diz Barbosa Machado na «Bibliotheca Lusi- 
tana», tomo IV, pag. 10, que este nome é o de um licenciado 
que compoz um o^cio dedicado a D. Affonso V, para celebrar 
a victoria e conquista de Arzilla, dizendo assim o titulo d*essa 
obra : Vesperasy Matutinum et Laudes cum Anthiphonis et fi gu- 
ris musicis de iuc^ta ac miraculosa victoria in Africa parte ao, 
Arzilla j era 1462. 

25 



E' possível que este licenciado Álvaro, de quem Barbosa 
diz que não poude obter noticia alguma, fosse o mesmo Al- 
v^iro AflFonso que trouxe de Londres o cerimonial para a ca- 
pclla de D. Affonso V (V. ^ffonso V). 

O que é certo 6 que, pela descripção que o auctor da 
ííBiblioiheca Lusitana» nos faz da obra, a qual no seu tempo 
existia em poder do infante D. Pedro (depois el rei D. Pedro 
III}, tinha ella bastante interesse histórico, mas pouquíssimo 
seria o seu interesse musical, pois que apenas continha a 
wsolfa do cantochãoí, segundo a phrase do "mesmo auctor. 

Alvito (Estevão de). (V. .l3i*ito [Estevão de), 

Amaiiii (Josephina). As circumstancias especiaes em 
que chegou a Lisboa esta artista viennense, e em que passou 
aqui alguns dos últimos annos da sua pouco feliz existência, 
dão motivo a que o seu nome tenha um logar importante, 
n'este Diccionario. 

Josephina Amann nasceu em Vienna d'Anstria no anno 
de 1848. Seu pae, Francisco Weinlich, era um industrial que, 
cabido em desfortuna e sabendo um tanto de musica, como 
em geral sabem todos os allemães, e com especialiaade os 
viennenscs, lançou mão da arte para adquirir os meios de 
subsistência que lhe escasseiaram no éxercicio da industria. 
Foi elle o primeiro mestre das duas filhas que tinha — Jose- 

Lhina e Elisa Weinlich — esta ultima actualmente residente em 
.ihboa. 

Josephina, depois de ter estudado violino e piano, recebeu 
lições, n'este ultimo instrumento, de Clara Schumann, a viuva 
do celebre compositor Roberto Schumann. 

Tendo-se tornado pianista de algum valor, encetou a vida 
errante, tão peculiar aos artistas allemãcs, e percorreu uma 
parte da Áustria dando concertos em diversas cidades. Por 
este tempo casou com Ebo Ampnn, um empresário também 
viajante. 

Tendo-se organisado em Vienna uaaa orchestra composta 
quasi toda de senhoras, Josephina Amann assumiu a sua di- 
recção, e essa orchestra despertou um grande enthusiasmo 
com os seus concertos, em que predominavam especialmente 
as valsas de Strauss e a musica de estylo ligeiro. A directora 
tocava violino ao mesmo tempo que dirigia, como é uso nas 
orchestras d'este género e como faz Strauss, cuja maneira ella 
imitava com bastante felicidade. 

O resultado obtido em Vienna despertou a idéa de mais 
largo emprehendimento, e a orchestra feminina, tendo Ebo 
Amann por empresário, intentou uma excursão artística pela 
ICuropa e America. 

36 



Estiveram em Paris, Nápoles^ Milão c outi as cidades, mas 
ao cabo de algum tempo a sociedade desm:mbrou-se total- 
mente. 

Depois de ter corrido varias peripécias de empresário aven- 
tureiro, Ebo Araann achou-se em Lisboa nos fins de janeiro 
de 1879, acompanhado apenas por sua mulher e sua cunhada, 
vindo também com elles um cantor, Georges Harmsen. 

N'essa occasião tinham os músicos de Lisboa sido postos 
á prova de uma violenta crise, cuja origem foi a seguinte : Era 
costume desde 1842, em que se fundou a «Associação Musica 
24 de junho» (V. Oosta. — João Alberto RodriguesJ con- 
tratarem as empresas com aquella associação o fornecimento 
de artistas para as suas orchestras. Porém a empresa, que em 
1878 tinha tomado a exploração do theatro de S. Carlos, rcag- 
giu contra esse costume, resolvendo escripturar individual- 
mente cada artista. Mas como a maior parte d'elles, e com es- 
pecialidade os de maior mérito, eram membros da Associação, 
mantiveram dignamente os seus compromissos associativos c 
recusaram qualquer contracto individual. O resultado d' esta 
divergência foi que os principaes músicos ficaram desemprega* 
dos ou disseminados pelos pequenos theatros. Tratava a «As- 
sociação Musica 24 de junho» de organisar concertos com que 
desse trabalho aos associados e demonstrasse publicamente o 
seu valor artístico, quando appareceu a pequena troupe vien- 
nense. Ebo Amann inteirou-se das circumstancias e resolveu 
tirar d'ellas partido ; propoz á Associação uma parceria, sendo 
a orchestra dirigida por sua mulher, Josephina Amann. A idéa 
de um chefe do sexo feminino foi recebida com extrema re- 
pugnância, e certamente em circumstancias ordinárias teria 
sido completamente regeitada ; mas a situação era muito cri- 
tica, e além d'isso o empresário especulador soubera fazer se 
apadrinhar, comprehendendo logo com maravilhosa intuição 
que se achava n'uma terra onde os padrinhos são tudo. 

A proposta foi por isso acceite^apezar das reluctancias que 
permaneceram latentes, e os concertos vienienseSj como lhes 
chamavam os programmas, foram inaugurados no salão da 
Trindade, realisando-se os três primeiros nos dias 2, 7 e 9 de 
fevereiro de 1879; annunciou-se em seguida uma serie de doze 
por assignatura, mas só se deram seis, nos dias 28 de feve- 
reiro, 2, 7, 9, IA e 16 de março. Estes concertos, se bem que 
pouco concorridos e de um desempenho mediocre, tiveram 
sua importância. A orchestra executou alguns trechos bons, 
taes como as aberturas do Oberon^ Freyschut^, Guilherme Tell, 
RobespieiTe, de LitolíF, e o poema symphonico de Saint-Saens 
intitulado Danse Macabre; este ultimo trecho e a abertura Ro- 

27 



bespiervCy ouviram-sc então pela primeira vez cm Lisboa. Em 
cada concerto executavam -se duas valsas de Strauss, que eram 
a especialidade de Josephlna Araann. Além d'isso, o cantor 
Georges Harmsen dizia primorosamenie as melodias do Schu- 
bcrt, e Elisa Weinlich tocava no violoncello com delicada sim- 
plicidade pequenas peças de boa musica, que se ouviam com 
muito agrado. 

Assim, estes concertos foram quasi uma iniciação, tanto 
para a orchestra que apenas estava costumada com o reportó- 
rio do iheatro, como para o publico, qu2 d^sde 1862 em que 
terminaram os «Concertos Populares», raramente ouvia mu- 
sica symphonica. 

Os concertos viennenses foram interrompidos pelos con- 
certos clássicos dirigidos por Barbieri, que produziram no 
publico uma enorme sensação (v. Barbieri). Mas logo 

^ue estes terminaram, tendo Ebo Amann obtido concessão da 
lamara Municipal para explorar divertimentos nocturnos no 
antigo Passeio Publico, ahi continuou Josephina Amann a des- 
empenhar as suas funcções de chefe d^orchestra, tendo logar 
o primeiro concerto d'esta nova serie, agora ao ar livre, no 
domingo i de junho de 1879. 

O nivel artistico desceu então muito, por causa do local, 
mas ainda se tocaram outros trechos notáveis, alem dos já 
mencionados, como foram as aberturas Rien:^i^ Tannhaiíser^ Gi- 
rondiuos, de Litolíf, o entreacto do Lohe igririy e a Rapsódia 
Húngara, de Liszt. 

Em principio de setembro veiu ura mes rc allemao, Luiz 
Brenner, dirigir a orchjstra, e esta- trabalhou então com me 
Ihor vontade, proseguindo os concertos no antigo Circo de Pri- 
ce até meado de outubro; executaram-se então peia primeira 
vez em Lisboa, com uma' interpretação muito satisfatória, a 
«Symphonia Italiana» e o «Sonho de uma noite de verão», de 
Mendelssohn. 

•Josephina Amann ainda dirigiu mais algumas vezes, alter- 
nadamente com Brenner, mas por fim reiirou-se, dedicando-se 
ao ensino do piano. 

Tendo Ebo Amann emprehendido a publicação de um 
periódico de musica para piano intitula lo «.Gazeta Musical», 
n'elle fez inserir algumas composições de sua mulher, as quaes 
todavia não revelam um grande estro. 

Josephina Amann foi acommettida pela tuberculose, que a 
victimou em 9 de janeiro de 1887, tendo poueo mais de trinta 
c oito annos de edade. 

^ma^ral (José do). Compositor, organista, pianista c 
cantor, natural da villa de Barcellos onde viveu sempre, Exer- 
38 



ccu durante cerca de quarenta annos as funcções de organis- 
ta na coUcgiada d'aquella villa, sendo considerado entre os seus 
conterrâneos como um musico de muito merecimento. Era vul- 
garmente designado pela antonomásia de «Josc dos Terceiros». 
Falleccu em 1876. 

.^meno (Francisco Lui:^). Proprietário da notável «Ty- 
pographia Patriarchal», fundada por elle mesmo cerca de 1748, 
onde além das numerosas obras litterarias que deram fama a 
esta typographia, se imprimiram também muitas sobre musica, 
com cspecialidadj livros de cantochão. Uma d^essas obras mais 
volumosas e mais apreciáveis sob o ponto de vista lypographi- 
co, é o Novwn Direclorium Choriy de José de Oliveira Sousa, 
impresso a duas cores com uma grande nitidez c correcção 
(1701). Também foi impresso na «Typographia Patriarchal» o 
pequeno compendio de Alberto Gomes da Silva, «Regras de 
Acompanhar», cujos exemplos são gravados cm cobre com bas- 
tante perfeição, tendo uns f or assignatura «A. Debrie» c ou- 
tros «Souza». 

Muitos librettos de operas foram impressos •n'aquclla ty- 
pographia, tendo todos a mdicação em italiano : Nella Stampe- 
ria Ameniaua. Luiz Ameno foi também o traductor de alguns 
d'esses librettos, assim como traduziu os das ires operas que 
se cantaram nos Paços da Ribeira pouco tempo antes do ter- 
ramoto (v. Fcrex—fDapiciJ. 

Luiz Francisco Ameno nasceu a 16 de março de 1712 na 

f>ovoação de Arcozello, comarca de Miranda do Douro, e fal- 
eceu era L'sboa no anno de 1763. Depois da sua morte ainda 
a «Typographia Pairiarchal» funccionou por muito tempo e 
imprimiu vários livros de musica. 

Amorim (António). Flautista de muito merecimento c 
compositor, natural de Braga, onde sempre viveu. Entre as 
suas composições de musica religiosa notam-se dois Benediclus 
que ainda se cantam com frequência n'aquella cidade. Fallcceu 
cm 1872 tendo mais de 70 annos. 

jâLngfelelli (Francisco Maria). Cantor italiano que se 
estabeleceu em Lisboa no ultimo decennio do século aVIU. 

Era castrado, e possuia uma extraordinária voz de contral- 
to, cultivada com aquella arte maravilhosa de que os italianos 
tinham o segredo. Veiu contractado como cantor da Capella 
Real e Patriarchal, logar que impunha a obrigação de tamoem 
tomar parte nas operas e serenatas qne se cantavam nos Pa- 
ços Reaes. 

Os cantores mandados vir de Itália n'estas condições eram 
pagos pelas fartas rendas que D. João V consignara á susten- 
tação oa Patriarchal. Como empregados no serviço da egreja, 

29. 



tinham nas respectivas relações a simples designação de músi- 
cos italianos ; moiS nos librettos das operas figuram com o titu- 
lo mais honorifico c mais ostentoso de virtuosi ai Servizio di 
8.M.F. . 

Os documentos mais antigos em que encontrei menciona- 
do o nome de Angeleili, foram umas folhas de pagamento aos 
cantores da Patriarchal em 1792; n'cssas folhas está-lhe con- 
signada a mensalidade de 6o$ooo réis, egual á de outros prin- 
cipacs cantores italianos, como eram Ceccolli, Mazziotti e Ca- 
pranica. 

No mesmo anno de 1692 cantou Augelelli no Theatro 
Real de Salvaterra uma opera cujo libretto diz o seguinte: // 
^nlo Astrólogo^ dramma giocoso da rappreseníarsi nel Real 
Theatro di Salvaterra fiel Camepale delV anuo 17Q2. O pobre 
castrado tinha n'essa opera um papel bem diíFerente da sua si- 
tuação physica, porque, segundo as próprias palavras traduzi- 
das do libretto, representava de Donna Elisay rapariga esperta 
e brilhante, promettida esposa de Don Enrichetto, A musica 
era do compositor cremonense, Francesco Bianchi, auctor de 
muitas operas que tiveram voga no seu tempo e se cantaram 
principalmente em Veneza. 

Na mesma recita desempenhou o papel de mulher apai- 
xonada na opera, de Paesiello, La Modista raggiratrice — A 
modista enganadora. 

Em 1793 cantou com Luiza Todi, no palácio do abastado 
negociante Anselmo José da Cruz Sobral, a composição de 
Leal Moreira «// Natale Augustos. Angeleili representava de 
Lusitânia^ e a Todi de Gloria. A parte do castrado não era 
menos importante do que a da celebre cantora que tanta fama 
adquiriu em toda a Europa. 

Cantou também algumas vezes no theatro de S. Carlos, 
mas unicamente nas oratórias que durante a quaresma ali se 
davam no salão nobre. Em dois librettos de oratórias encontro 
o nome de Francisco Angeleili. O primeiro é: La Passioni di 
Gesu Christo. Componimento sacro âest inato a cantarsinellaNuo- 
va Sala delia Assemblea nel Remo Teatro di S. Cario delia 
Principessa. Nella Quaresima 5. ai Aíar:^o deli' anno ijgy* Mu- 
sica de Paesiello. Angeleili representava de S. Pedr^o^ que era 
a parte mais importante; outro castrado italiano também can- 
tor da Patriarchal, Giovani Battista Longarini cantava a parte 
de Magdalenay e dois cantores da companhia do theatro, Mi- 
chele Schira e Giuseppe Tavani, faziam de João Evangelista e 
José da Arimathea. O outro libretto é : // Giudi:^io di Salomo- 
ne, oratório sacro di Giuseppe Caravítaj poeta dei Real Tea- 
tro di S. Cario; da eseguirse nella quaresima dei jygp in bene- 
3o 



yíj[/o dei sopradetto. Aneelelli fazia o papel de mãe verdadeira, 
Rachel, e a parte de Salomão era desempenhada por outro can- 
tor italiano da Patriarchal, Giuscppe Capranica. A musica era 
de António Puzzi, também cantor italiano da Patriarchal. 

Aogelelli cantou varias vezes nos concertos da «Assembléa 
Nova», que era n'aquelle tempo um dos mais concorridos pon- 
tos de reunião para as principaes familias residentes em Lis- 
boa. Um d'esses concertos foi em i6 de dezembro de 1795 e 
outro em 3 de janeiro de 1797, segundo se lê nas raras e ma- 
gras noticias dadas pela «Gazeta de Lisboa». 

Em 18 10 já não era cantor effectivo da Patriarchal ; tinha- 
se jubilado, conservando porém o titulo honorifico de Musico 
da Camará de S. A. R. o Príncipe Regente de Portugal, e des- 
empenhando as funcções de mestre de canto no Seminário. 
Entretanto adquiria uma escolhida clientella de discípulas de 
canto entre as mais aristocratas familias. Um medico italiano 
residente em Lisboa, Caetano Trove, dedicou-lhe um livro que 
mandou imprimir, tendo por assumpto a mudança da voz no 
período da puberdade ; tem esse livro o seguinte titulo : Saggio 
medico-Jisico sulla muta:^ione delia você, etc, — In Lisbona, nella 
Stamparía Regia j8i3 — 4.*^ de 68 — XI paginas. 

Quando, depois da guerra peninsular, D. João VI voltou 
ao Reino e as familias dispersas se reuniram de novo na corte, 
Angelelli recuperou a sua clientella aristocrática, entrando n'cl- 
la as próprias infantas, que sempre tiveram muito gosto pela 
musica, com especialidade D. Isabel Maria. 

As suas circumstancias physicas davam-lhe accesso franco 
c uma grande intimidade nas casas que frequentava. Como 
era extremamente desenvolvido de ancas, caso que geralmente 
se dava com os castrados, em muitas d'essas casas mandava-se 
fazer especialmente para ellc uma larga e ampla cadeira em 
que podesse sentar-se commodamcnte. Ainda hoje ha quem 
se lembre de ter visto em casa de seus avós a cadeira do An- 
gelelli. 

O enthusiasmo que cUe despertava quando se fazia ouvir, 
não tinha limites; conta-se que D. João VI, arrebatado uma/" 
vez por esse enthusiasmo. voltou-se de repente para um dos 
seus camaristas perguntando-lhe : «Hein ? Quanto darias tu pa- 
ra teres uma voz como esta do nosso Angelelli? — Eu. . . Se- 
nhor- . . — redarguiu o malicioso fidalgo — nem metade do que 
clle deu ...» 

O apreço em que era tido deu-lhe bons proventos. Pos- 
suía na calçada da Ajuda uma bella casa com capella, onde se 
dizia missa todos os domingos e dias santificados ; essa casa é 

3i 



a que agora tem o numero i52, quasi ao cimo da calçada pro* 
ximo do palácio real. 

Em 29 de setembro de 1828, tomou parte, juntamente 
com Alcobia e outros, na serenata que se cantou no palácio 
das Necessidades para festejar o nome de D. Miguel, o que lhe 
valou ser também dos primeiros agraciados com a medalha da 
Real Efígie. Foi esta serenata o seu canto de cysne, porque 
velho e achacado, não tornou mais a cantar. Os seus meios 
davam-lhe para ter uma velhice descançada, e assim a passou 
até fallecer. No livro XI dos óbitos da freguezia d* Ajuda está 
lançado a folhas 5o verso o seguinte assentamento: «Aos i3 de 
fevereiro de mil oito centos trinta e oito falleceu tendo recebi- 
do os últimos sacramentos Francisco Maria Angelelli, Musico 
Italiano. Fez testamento : foi sepultado no Cemitério Novo does- 
ta Freguezia do lado do sul dentro do coberto existente ; resi- 
dia no cimo da calçada da Ajuda, numero cento e um. — O 
Prior Elias do Carmo Constantino Ferreira.» 

.áLng-elo9 V. "Vechiato (Angelo). 

.áLngcolini, V. Romano (Angolini). 

^njos (F7\ Dionísio dos). Não podendo obter d'este 
musico outras noticias senão as que dá Barbosa Machado na 
«Bibliotheca Lusittana», aqui as reproduzo textualmente : 

«Fr. Diorisio dos Anjos natural de Lisboa, e Religioso de S. Jerony- 
mo cujo instituto professou no Real Convento de Belém a 6 de Janeiro 
de i656. Foi indigne na Arte de Contraponto, e não menos destro tange- 
dor de Arpa e Viola. Observou com summa exacçao as obrigações do seu 
insútuto pelas quaes mereceu acabar a carreira da viJa com boa opinião 
em o Convento de Belém a 19 de Janeiro 1709 deixou composto ; 

Responsorios para todas as Festas de primeira classe. 

Psalmo de Vésperas, e Magnificas, 

Diversas éMissas, Vilhançicos, e oMotetes. 

Todas estas obras se conservão com grande estimação no Convento 
de Belém.» 

(Bibliotheca Lusitana, vol. i.«, paginas 704-705). 

Na coUecção de poesias intitulada «A Phenix renascida»,, 
que se publicou no principio do século XVIII, encontra-se uma 
referencia a fr. Dionisio dos Anjos : 

«Celebre os Músicos logo, 
De Frei Dionysio a arpa, 
Diga que he hum Ceo na terra 
O Falsete ouvir da Graça. 
O Palmella dos Cardaes, 
Do Órfão já se não falia, 
Gabriel o da Azambuja 
He cousa lá de outra massa.» 

(«A Phenix Renascida», vol. I, pag. 336). 
32 



Alguns cscriptores modernos mudaram o nome de Dioní- 
sio em Dini:^^ sem todavia accrescentarem noticia alguma 
á que deu Barbosa Machado, mas simplesmente inverten- 
do- a. 

.âjnjos (João Maria dos). Guitarrista que ha poucos 
annos gosou de certa voga. Nasceu em Lisboa em i85o, estu- 
dando no Conservatório os rudimentos de musica e ainda um 
pouco de violino. Depois lançou-se na vida eirada, para a qual 
tinha muita tendência, e procurando a principio na guitarra 
uma companhia para os prazeres d*essa vida, veiu a tornarrse 
habilissimo, encontrando no instrumento a que se dedicou com 
afinco os meios de subsistir sem abandonar os hábitos de bo- 
hemio. 

Deu alguns concertos em Lisboa, e muitos nas provincias 

3ue percorreu por varias vezes com diversa fortuna, occupan* 
o-se nos iníervallos em dar lições, que eram bastante procu- 
radas. Entre varias pessoas distinctas que o apreciavam como 
excellente tocador do instrumento nacional, conta-se a sr." du- 
queza de PalmôUa, que algumas vezes o mandou chamar para 
abrilhantar as suas reuniões mais intimas. 

Publicou «Novo Methodo de Guitarra ensinando por um 
modo muito simples e claro a tocar este instrumento por mu- 
sica ou sem musica.» — Lisboa — Imprensa Nacional — 1877. 
Folheto em 8.° de 18 paginas. 

Morreu tisico, tendo apenas 33 annos, em julho de 1889. 

.áLnJos fFi\ José aos). Mestre de capella no convento 
dos Eremitas ac S. Paulo (vulgo Paulistas), em Lisboa, nos 
fins do século XVIII. Dirigia n'esse convento uma aula de mu- 
sica que era muito frequentada; n*ella apprendcram alguns dos 
nossos mais eminentes músicos, entre elles o celebre clarinet- 
tista Avelino Caroongia, e o compositor e organista Fr. José 
Marques e Silva. 

Francisco Solano dedicou-lhe a segunda edição da sua 
«Nova Arte e breve Compendio de Musica», fazendo-lhe na 
dedicatória a seguinte lisongeira referencia : 

«. . .N*est6S termos reflectindo attento no preciso Patrocínio, que de- 
via obter para conseguir o seu eíTeito deixando permanente o exercício e 
Praxe da minha laboriosa fadiga; encontro em V. R.""* tudo quanto posso 
desejar, isto he, não só o acerto de Dedícar-lhe esta segunda Edição ; mas 
também o de conseguir venturosamente agradecido, perpetuar o meu jus- 
to reconhecimento aos muitos benefícios, e obséquios com que sempre 
me honrou, e ennobrece a sua estimabilissima Pessoa. Sim, Senhor, para 
os fazer notórios^ plausíveis, e preduraveis com esta minha confissão, me 
encaminho a dar lhe a vida do Prelo. Sôe, sôe em todo o Orbe Musical, 
^aibão todos os Virtuosos Professores doesta nobilíssima Arte, que um Mes- 
tre digníssimo da propría Sciencia, he o apreciável Mecenas de outro 
FOL. 3 33 



Mestre ainda que indigno Musico. Este mesmo, com o mais profundo res- 
peito se declara. 

De Vossa Reverendíssima Seu muito Venerador, íiel amigo, e humil- 
de servo 

Francisco Ignacio Solano, 

Nos livros e documentos da irmandade de Santa Cecilia 
encontrei as seguintes noticias de fr. José dos Anjos : assignou 
o livro de matricula em 28 de março de 1764; exerceu diver- 
sos cargos, entre elles o de i.^ Assistente que era o mais ele- 
vado; falleceu cm princípios de julho de 1802. 

A.TUOS (Fr. Lui:^ dos Anjos). Um exemplo bem notável 
de altruísmo e dedicação pela communidadc, um caso singular 
de completa abnegação que decerto causará espanto aos egoís- 
tas do nosso tempo, é o doeste frade carmelita, cantor da Ca- 
pella Real no reínãao de D. João V. 

Frei Luiz dos Anjos, tendo professado na ordem do Car- 
mo em Lisboa, tornou-se muito notável como cantor primoro- 
so e mestre de capella, a ponto de chamar a attcnção de D. 
João V que procurava reunir na sua capella os mais excellen- 
tes músicos. Entrando porém para o serviço real, o bom car- 
melita conservou tão entranhado affecto pela corporação reli- 
giosa de que fazia parte, que em vez de consumir no proveito 
próprio as quantias avultadas que lhe rendia o seu elevado mé- 
rito, dispendia-os totalmente em favor do convento. Oiçamos 
a curiosa narrativa de Fr. José Pereira de Sant'Anna na «Chro- 
níca dos Carmelitas», porque o facto extraordinário não pode 
ser contado com mais eloquente simplicidade. Na parte em que 
descreve o Convento do Carmo em Lisboa, diz o chronísta : 

«Nas primeiras columnas de huma, e outra parte da nave do mevo^ 
)unto ao Cruzeiro, estão dois admiráveis Púlpitos, ob''ado3 de fínos jaspes 
Com escadas da mesma pedraria. O Padre F. Luiz dos Anjos (hum dos 
mais applaudidos Músicos, que houve na Corte) os fes mais .preciosos, 
porque os mandou cobrir de prata lavrada, com «uarniçao de pedras fínas, 
entre as quaes se distinguem muitos Emblemas da Soberana May de Deos, 
a quem este importante donativo foy consagrado. O da parte do Evange- 
lho tem hum letreiro, quedi?: — Este púlpito mandou fajer o Padre Fr. 
Luij dos Anjos, Cantor da Capella de sua Magestade, anno de 17 17. O da 
parte da Epistola tem a mesma inscripção, sem outra dííferença, mais que 
no anno, porque appareceo acabado no seguinte de 1718. A despeza de 
ambos importou, com pouca differenca, doze mil cruzados, adquiridos nas 
licitas esmolas que pelos exercícios ae sua Arte recebia ; o que tudo com 
religiosa piedade empregou, não só n*esta, mas em outras avultadas obras 
que em sua vida mandou fazer n'este convento.» 

(Pr. José Pereira de Sant*Anna, «Crónica dos Carmelitas». Tomo i.^j 
Parte IV, paginas 575 e 576). 

34 



% 



O mesmo- chronista menciona mais autra obra importante 
mandada fazer pelo dedicado mestre de capella carmelita : 

aNa contraria (parede do refeitório] que hè a Occidental, encostado 
pela parte exterior hym formoso tanaue aç pedra, onde se conserva a agua, 
me bebem os Religiosos: e nelle esta uma memoria^ que diz: Este tanque 
ef á sua custa o Padre Fr. Luiz dos Anjos, Mestre da Capella, que foy 
deste Convento,, e Cantoi- de Sua Magestade. Anno dè i6gj. Este Religio- 
so he o mesmo, que fez na Igreja os Púlpitos de prata, em que já falíamos, 
e em differentes officinas de Convento outras obras não menos úteis». 

(Obra citada, paginas 774 e 775). 

j^iijos (Simão dos). Mestre da Capella do Hospital de 
Todos os Santos, em Lisboa, onde foi successor de Pedro Tha- 
lesio cerca de 1600. Em 1610 requereu a cadeira de musica nà 
Universidade de Coimbra, mas não obteve provimento. (V. 
rFlia^lesio.) Barbosa Machado na «Bibliotheca Lusitana» 
(tomo 3.° pag. 3o8) menciona-o entre os discipulos de Manuel 
Mendes, mas do seu valor ninguém fala; nem o «Index» da 
livraria de D. João IV contém composição alguma d'elle, o que 
.é mau indicio. 

Somente na Bibliotheca de Évora existe ainda um docu- 
mento attestando que Simão dos Anjos foi compositor; é um 
motete a quatro vozes — Pueri hebreorum vestimenta proster- 
nabat — o qual faz parte de um códice manuscripto do século 
XVn, onde está junto com outras composições de Manuel 
Mendes, António de Oliveira e algumas anonymas. 

.A.nniineia.çâLo ÍFt\ Gabriel da). Frade franciscano 
nascido em Ovar, filho de André Francisco de Aguiar e de 
Isabel de Carvalho. Professou a 6 de setembro de 1706, quan- 
do contava 25 annos de edade, segundo affirma Barbosa Ma- 
chado, d'onde se conclue que nasceu em 1681. Completou os 
estudos no convento de Leiria, e foi successivamente vigário 
do coro nos conventos da sua ordem existentes em Coimbra, 
Porto e Lisboa. 

O auctor da Bibliotheca Lusitana diz que Gabriel da Ah- 
nunciação escreveu e publicou a seguinte obra: «Arte do can- 
tochão resumida para uso dos religiosos franciscanos observan- 
tes da Santa Província de Portugal — Lisboa na officina de mu- 
sica, 1745, 4.°» Mas parece que esta obra se tornou de extre- 
ma raridade porque Innocencio da Silva diz que não conseguiu 
ver exemplar algum, nem eu mesmo logrei ainda melhor for- 
tuna. 

Diz mais Barbosa Machado a respeito d'este individuo : 

ttÇom indefeso trabalho e continua applicação reformou toda a Li- 

33 



vraria dos livros pertencentes ao Coro que horrorosamente consumío o 
incêndio que devastou o Templo e Coro de Lisboa a lo de Junho de 
1707, cujo catalogo é o seguinte: 

Livro de Aniiphonas Feriaes que principia no Advento até Sabbado 
de Alleluya, Foi. Pergaminho. 

Livro de Aniiphonas Feriaes desde Domingo de Paschoa até ao Ad- 
vento. Foi. 

Livro da Missa de Santos. Foi. 

Livro das Missas próprias das Domingas que principia na primeira 
do Advento até ao Sabbado de Pentecostes. Foi. 

Livro das Missas próprias desde a Dominga do Espirito Santo até á 
ultima j>ost Pentecostes. FoL 

Livro das Missas particulares a vo^es. Foi. 

Livro de Officio^ e Missa de Defuntos; Ojficio da sepultura dos Reli- 
giosos com varias Antiphonas de suffragios petos Religiosos. Foi, 

Officio do Archanjo S, Rafael para o Convento de S. Francisco do 
Porto. 

Manual e Cerimonial^ que prepara para a impressão. 

(BibL Lus. tomo 2.« pag. Sog e 3 10.) 

Evidentemente estes livros do coro não são outra coisa 
mais do que os livros litúrgicos do cantochão, e o trabalho de 
frei Gabriel consistiu somente em reproduzir, provavelmente 
pelo systema da estampilharem então em uso, o contheudo 
d^esses livros. Apenas o cLivro das Missas particulares a vo- 
zes» seria talvez de musica mensurai, mas ainda assim é mais 
do que duvidoso que as missas n'elle contidas fossem origi- 
naes. Frei Gabriel da Annunciação era especialmente canto- 
chanista, como o seu cargo de vigário do coro -claramente in- 
dica, e da noticia dada por Barbosa Machado não se pôde con 
cluir que fosse também compositor. 

No emtanto escriptores modernos o teem dado por tal, no 
que mostraram bem pouco critério. 

O vigário do coro no convento de S. Francisco vivia ao 
tempo em que foi escripto para a tBibliotheca Lusitana» o ar- 
tigo que lhe diz respeito (1747). 

Jk.ntonio (Francisco). Designação familiar com que 
era tratado o compositor Francisco António d' Almeida. — V. 
almeida. (Francisco António de). 

A.ntonio (Francisco). Esculptor notável que cultivava 
também a arte musical. Viveu nos fins do século passado. Ti- 
nha excellente voz e bastantes conhecimentos technicos ; nos 
annos de 1791 e 1702 dirigiu a festa de S. Lucas, que a irman- 
dade dos pintores fazia annualmente. Pertenceu também á ir- 
mandade de Santa Cecília, na qual foi admittido em 17^0. Fal- 
leceu cerca de 1796, tendo 60 annos de edade. (Cynllo Ma- 
chado, «CoUecção de Memorias relativas á vida dos pintores, 
csculptores, architectos e gravadores portuguezes», pag. 253). 



^ntunes (Manuel). O ultimo fabricante de cravos c 
primeiro fabricante de pianos que houve em Lisboa. Não te- 
nho podido obter notícias biographicas d'este industrial, tão no- 
tável pela circumstancia de ter construido os clapicembali a 
maf^teueti col piano e forte exactamente na época que se marca 
para o estabelecimento definitivo d'estes instrumentos (1760, 
v. aDiccionario Musical», artigo «Piano»). Da sua existência 
restam, porém, certificados de grande valor ; em primeiro lo- 
gar os dois documentos que abaixo transcrevo, e em segundo 
como que a corroboral-os, um interessante producto do traba- 
lho produzido. 

Dos documentos collige-se que Manuel Antunes começou 
a construir cravos com marteltos^ isto é, verdadeiros pianos, 
antes de 1760, e aue, apresentando essa fabricação como in- 
vento seu (o que bem poderia ser em alguns detalhes), pediu 
e obteve n'aquelle anno privilegio por dez annos para só ellc 
os fabricar e vender em Portugal. O requerimento que fez 
n'essc sentido foi á consulta da Junta do Commercio, que deu 
o seguinte parecer : 

«Senhor. He Vossa Magestade servido, por aviso da Secretaria de 
Estado dos Negócios do Reyno do primeiro do Corrente, que vendo-ie 
n*esta Junta o requerimento incluso de Manoel Antunes, se consulte o que 
parecer. 

O Supplicante, que hé insigne Mestre de Cravos, Instrumentos Músi- 
cos, pretende fazer publico hum novo invento, com o qual se evitem os 
inconvenientes, que na fabrica mais moderna, qual hé a dos Cravos de 
Martellos regularmente se encontram; isto hé, a pouca promptidam doa 
jogos;- por cujo defeito se nio podem perceber as delicadezas da solfa, e 
o estrondo das mesmas teclas, que se mistura e embaraça o das vozes, 
caiuando confuzam na armonia. 

Para que «sta nova invenção lhe possa ser de proveito, pertende o 
privilegio exclusivo por tempo de dez annos ; e promete que será muito 
mais cómmodo o preço doestes Instrumentos que aquelle porque regular- 
mente se vendem os cravos de Martellos. 

A experiência, que ha do Supplicante nas suas manufacturas, faz en- 
tender, que elle será capaz de huma nova, e mais perfeita idêa; e como na 
concessão da graça, que pede, nam ha prejuizp, antes utilidade do Reyno. 

Parece à Junta, que V. Magestade seja servido conceder ao referido 
Manuel Antues o privilegio exclusivo por tempo de dez annos, para a no- 
va invenção de Cravos instrumentos muzicos; e que sobre a sua pertençam, 
se decrescente a prohibição dos que vierem de fora com a mesma forma- 
lidade nova, sendo esta tal, que se não ache descoberta pelos oíliciaes Es- 
trangeiros. 

Lisboa 21 de Abril de 1760. 

RESOLUÇÃO 

Como parece. Nossa Senhora da Ajuda em 2 de Maio de 1760. Com 
a Rubrica de Sua Magestade.» 

(Torre do Tombo, «Registp de Consultas da Junta do Commercio», 
livro 3.% íoL 144 ¥.•). 

37 



A.3Sr 

Completando o despacho favorável á pretensBo de Manuel 
Antunes, toi-lhe passado um alvará em i6 de outubro do mes- 
mo anno, que lhe concede, para elle e seus filhos^ o privilegio 
requerido, com a curiosa condição de que o preço de cada 
um dos novos instrumentos nSo excedesse I20$ooo réis. Está 
também registado esse alvará, que diz assim: 

«Eu El-Rey. Faço saber aos que este meu Alvará virem, que por par- 
te de Manuel Antunes, Mestre da manufactura de Cravos, instrumentos 
Músicos, me foy representado, que elle havia inventado huma nova forma 
de construcção dos mesmos instrumentos, dispondo por tal modo os jogos 
dos Cravos de Martellos, que sobre a sua mayor duração se evitem os in- 
convenientes, athe agora experimentados, do estrondo, e falta de prompti- 
dam das teclas, com que, ou se embaraçavam as vozes causado confu2So 
na armonia, ou se farião imperceptíveis, e de muita difíicultoza execução, 
as delicadezas da solfa ; pedindo-me, que para haver de lhe resultar utili- 
dade da referida invenção, lhe fizesse mercê de lhe conceder o Privilegio 
exclusivo por tempo de dez annos, assim a respeito de semelhantes manu- 
facturas no Reyno, como das que viessem de fora: E ]3orque havendo 
mandado consultar o referido requerimento, depois de feitos os necessá- 
rios exames, quanto á certeza da mvenção, e sua novidade, se achou, que 
não só era conveniente, mas necessário para animar os Fabricantes dos 
meus Dominios, e muito conforme ao costume de todas as Nações mais 
polidas, o conceder- se o Privilegio exclusivo a todos e quaesquer inventos 
em que se descobrisse novidade, em commun e competente beneficio dos 
meus Vassallos: Sou servido conceder ao sobredito Manuel Antunes, e por 
sua morte ao filho mais velho, que continuar na referida Officina; e na fal- 
ta d'elle, ao que se lhe seguir, o Privilegio exclusivo por tempo de dez an- 
nos, para dentro d'elles, nenhuma outra Pessoa nacional, ou estrangeira, 
possa fabricar, ou mandar vir de fora os Cra\os de martelos, que íorem 
construídos com a referida invenção nova de jogos, sub pena de nerdi- 
mento dos mesmos Intrumentos para o sobredito Mestre, ou seus Filhos, 
a cujo beneficio se completar o tempo do mesmo Privilegio, que será con- 
tado do dia da datta d'este: Com condição porém, que o preço dos referi- 
dos Cravos, não poderá exceder de cento e vinte mil réis cada hum; e que 
provando-se qualquer excesso ficará de nenhum effeito este meu Pnvile- 
gio. 

Pelo que Mando á Meza do Desembargo do Paço, Conselho de Fa- 
zenda, Regedor da Caza da Supplicação, Meza da Consciência e Ordens, 
Conselho Ultramarino, Sena jo da Camará, Governador da Relação, e Ca- 
za do Porto, Junta do Commercio destes Reynos e seus Dominios, e a to- 
dos os Corregedores, Provedores, Ouvidores, Juizes, e Justiças de meus 
Reynos e Senhorios, cumprão, e aguardem este meu Alvari, e o facão in- 
teiramente cumprir, e guardar, como nelle se contem, sem duvida alguma; 
e não obstante quaesquer Leys, Regimentos, Alvarás, e Ordens em con- 
trario: E valerá como Carta passada pela Chancellaria, ainda que por ella 
não faça tranzito. Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda a dezoito 
de Outubro de mil seitecentos e sessenta. oRey» Francisco Xavier de Men- 
donça Furtado.» 

(Idem, foi. 172 e 199 v.<») 

Existe na posse actual dp sr. Ernesto Wagner um exem- 
plar dos cravos do martellos construídos por Manuel Antunes; 

38 . 



Ib-. 



-Aisr 

tem collada no interior uma etiqueta com assignatura e data : 
«Antunes — 1767». Os documentos precedentemente transcri- 
ptos desvanecem todas as duvidas que acaso tivesse suscitado 
a authenticídade d'esta assignatura ou da respectiva data, e 
conferem ao instrumento um valor histórico incontestável. Não 
pôde haver duvida ; desde 1760, pelo menos, fabricaram-se ex- 
cellentes pianos em Lisboa. E digo excellentes^ em vista do 
exemplar conhecido que tive occasião de apreciar. Está opti- 
mamente conservado — ou habilmente restaurado — patentean- 
do-nos uma construcção perfeita, segundo os mais adeantados 
progressos do mechanismo dos pianos n'aquella época, com 
martcllos, conductores, abafadores, tudo cuidadosamente tra- 
balhado, como decerto melhor não seriam os dos fabricantes 
allemães e italianos então em competência na exportação dos 
seus productos. Note-se que os primeiros pianos francczes co- 
nhecidos no commercio foram os de Sebastião Erard, fabrica- 
dos em 1777. 

A industria iniciada tão brilhantemente por Manuel Antu- 
nes não poude todavia supportar a concorrência estrangeira 
nem triumphar da crise politica que assoberbou o paiz no co- 
meço do século ; mas resistiu ainda por bastante tempo, con- 
servada, embora com mesquinha viaa, pelos descendentes do 
hábil constructor. Era seu neto João Baptista Antunes, dono 
da «Real Fabrica de Instrumentos Músicos de teclado», que 
desde 1825 até i83o esteve estabelecida na calçada de S. João 
Nepomuceno, n.** 28-A. (*) Esta fabrica inseriu um annun- 
cio na Ga:^eta de Lisboa em 5 de abril de i83o, no qual o 
proprietário lhe dá o titulo que acima transcrevi. Procuran- 
do noticias nos registos parochiaes de S. Paulo, graças á 
bondosa condescendência do respectivo prior, encontrei que 
João Baptista Antunes residiu n aquella casa entre os annos 
de 1825 a i83o. Este mesmo Antunes era n'esse tempo o afi- 
nador effectivo do Seminário Patriarchal, pelo que recebia es- 
tipendio annual, e passou depois a desempenhar o mesmo ser- 
viço no Conservatório, quando este estabelecimento se fundou 
em substituição d'aquelle. 

Ha quem se lembre de o ter conhecido cerca de i865, já 
muito velho, pobre e surdo ; trabalhava ainda, e para remediar 
a surdez, quando afinava os pianos collocava uma varinha en- 
tre os dentes, encostando-a ás cordas cujas vibrações precisava 
ouvir mais distinctamente. Ignoro quando falleceu, mas não 
devia ter sido muito depois d aquelle anno de i865. 



f I) £' o primeiro prédio d'e8ta calçada» do lado direito indo de S. Paulo, e tem actual- 
meste os n.** 2, 4 e 6. 

39 



A.irsnixéLeL (Diogo de). Organista que se julga ter sido hcs- 
panhol^ estabelecido em Lisboa no meado do século XVI. Foi 
successivamente organista da egreja de Santa Justa c da ReaL 
Casa de Santo António, logar este de que foi desapossado con- 
tra sua vontade, como se vê pela carta que D. João III enviou 
ao Senado de Lisboa, recommendando-lhe, a pedido do infan- 
te D. Luiz, a sua readmissão. Essa carta, que prova bem como 
o organista era altamente protegido, e que portanto não era 
individuo insignificante, diz assim, transcripta einf ortographia 
moderna : 

«Vereadores, procuradores da cidade de Lisboa, e procuradores e 
mesteres d*ella, eu el-rei vos envio muito saudar. O infante D. Luiz, meu 
muito amado e prezado irmão, me pediu que vos escrevesse, que quizes- 
ses encarregar a Diogo irAranaa^ morador n'essa cidade, de tangedor dos 
orgSos da casa de Santo António d'ella, e ter cuidado d'eUes como sem- 
pre fez somente este anno passado, que não quizestes que tivesse o dito 
carrego, havendo respeito haver vinte e um annos que serve a dita casa 
d'isso, e a deixar os de Santa Justa com o partido que com elles tinha pa- 
ra acceitar esses. Pelo í)ue vos encommendo que queiraes encarregar dos 
ditos órgãos para d*aqui em diante os tanger e ter cuidado d'eUes, e assim 
e da maneira que dantes fazia, havendo por certo oue de o assim o fazer- 
des vol-o agradecerei muito e terei em serviço. Balthasar Femarídes a fez 
em Almeirim a sete de junho era de mil e quinhentos e cincoenta e um. 
—João Castilho a fez escrever. — Rei». 

(Archivos da Torre do Tombo, livro III de D. João III, íl. ii5). 

Esta carta foi primeiramente publicada, em 1860, pelo vis- 
conde de Paiva Manso, n'um opúsculo intitulado «Historia da 
Real Casa de Santo António»; Ribeiro Guimarães também a 
reproduziu no Jornal do Commercio em 1861, n'uma série de 
artigos sobre a mesma casa de Santo António, os guaes incor- 
porou no «Summario de varia historia», volume 1, paginas i 
a 26. Os «Elementos para a historia do municipio de Lisboa» 
por Freire d*Oliveira, egualmente fazem menção da carta en- 
ta enviada por D. João III ao Senado. 

Pode admittir-se a supposição ennunciada pelo dr. Sousa 
Viterbo no seu livro «Artes e Artistas Portuguezes». pagina 
200, que Diogo d'Aranda fosse irmão ou parente do lente de 
musica da Universidade de Coimbra, Matheus d'Aranda (v. 
artigo seguinte); mas tal supposição não tem por emquanto 
outro fundamento senão a identidade dos appellidos. (^) 

A.ra.nda. (Matheus de). Musico hespanhol estabelecido 



(1) Na transcrípçfio da caita de D. Joáo III publicada no citado opúsculo de Paiva Manso e 
no Summario de-GuimarãeSi o nome de Arando vem escripto 'Doronaa; mas exactamente Diou- 
guo 'Duranda é que se lé no documento original. 

40 



em Portugal no meado do século XVI. Segundo o antiquíssi- 
mo uso de appellidar os indivíduos pelas povoações da sua na- 
turalidade, teria nascido na pequena cictade de Aranda, em 
Castella Velha, na margem do Douro, 

Foi mestre da capella da cathedral de Lisboa, e em 1644 
obteve a cadeira de musica da Universidade de Coimbra, por 
provisão passada em 26 de junho d'esse anno. 

Alguns annos antes de ser nomeado lente de Coimbra, 
fez publicar em Lisboa unL tratado de cantochão e outro de 
canto mensurai, os quaes teem os seguintes titulos: 

L — Tractado de caio llano nuevamente compuesto por Ma- 
theo de Arada maestro de la capilla de la Se de Lixioa. Di- 
rigido ai muy alto e illustrissimo senor D. Alonso Cardenal In- 
fante de PortuQoly' Arçobispo de Lixboa y Bispo de Epora^ 
Comendatario ae Alcobaça. Com privilegio real. No fim : Fue 
impressa la presente obra en la mtiy noble ciudad de Lixboa 
por German Gallarde a vientey seys de Setiembre anno de mil 
r quinientosy trevnta r três. Ém 4.® de IX — 71 paginas. 

n. — Tractado de canto mensurabley contrapuncto nueva- 
mefite compuesto por Matheo de Arada maestro de la capilla 
de la Se de Lixboa. Dirigido ai muy alto y illustrisiimo seíior 
Don Alonso Cardenal Infante de Portugal^ Arçobispo de Lix- 
boa r Bispo ne Évora. No fim : Fue impressa la presente obra 
en ta muy noble j^ siempre leal ciudad ae Lixboa por German 
Gailhardj Emprimedor. Acabose a los quatro dias dei mes de 
Setiembre dei mil j- quihientosy trqyntaj^ cinco. Em 4.** de IV 
— 66 paginas (') 

No mdex da livraria de musica de D. João IV encontram- 
se estas duas obras reunidas sob o numero 53o, simplesmente 
designadas : Tratado de cantollano por Matheo de Aranda ; 
Trata-lo de canto mensurable, y contrapuncto^ do mesmo. 

Correram incorporadas n'um só volume, e assim se en- 
contram os raríssimos exemplares que hoje existem, de sorte 
que para alguns escriptores tem passado desapercebida a divi- 
são, confundindo-as n uma só. 

Effectivamente os dois tratados completam se um ao ou- 
tro, segundo o systema usado pela maior parte dos auctores 
didácticos antigos, desde que no século XIV ficou distincta- 
mente feita a scisão enire o canto litúrgico denominado musica 
plana e o canto rythmado que recebeu a designação de musica 
mensurai. O segundo tratado tem um appendice sobre o con • 
traponto applicado ao cantochão, que lhe dá um alto valor his- 



(i ) o in&nte D. ÂíTonso a quem Matheus de Aranda dedicou a sua obra, era o filho de 
el-rei D. Manoel, que foi nomeado cardeal aos tele annot de edade, e arcebispo de Lisboa, aot 
trezcu 

41 



torico, porque expõe as antigas regras da edade media sobre 
o õrganuntf diaphonia ou fabordão^ já menos barbaras na épo- 
ca de Aranda. O livro d'este mestre hespanhol tornou-se hoje 
de uma raridade extraordinária ; nem Fétis o conhece, que na 
Biogvaphie Universelle des Musiciens o cita vagamente, por vir 
mencionado no catalogo de D. João IV, ignorando que tives- 
se sido impresso. Como prova do seu valor bibliographico ci- 
tarei o caso seguinte: Em maio de 1 883 realisou-se em Lisboa 
o leilão de uma livraria, para a qual se distribuiu catalogo im- 
presso, onde figurava o Tratado de Aranda ; três concorrentes 
estrangeiros se apresentaram a disputal-o : um de Barcellona, 
cuja offerta se limitou a 1 8$ooo réis; outro de Paris, que compa- 
receu pessoalmente e licitou até i35$ooo réis; finalmente, outro 
de Btiriim. que mandara auctorisação para licitar até i8o$ooo 
réis c o oDteve por 1728000 réis, com o que ficou muito grato 
ao agente, mandando-lhe mil agradecimentos. Os livreiros de 
Lisboa ficaram pasmados com o elevado preço a que chegou 
um mesquinho livro de musica, e d'ahi por deante tornaram-se 
excessivamente cautelosos com os alfarrábios d'esta espécie, 
que até então desprezavam. 

A bibliotheca de Évora possue um exemplar da obra de 
Matheus de Aranda. 

O mestre hespanhol foi victima em Coimbra da má von- 
tade que o povo mostrou contra os lentes e estudantes da Uni- 
versidade quando ella ali se estabeleceu, especialmente contra 
os lentes estrangeiros. De tal forma se achou envolvido n'uma 
das repetidas e violentas rixas entre o povo e a Universidade, 
que veiu a morrer de desgosto pelos insultos que sofiFreu. Este 
trágico acontecimento está consignado na acta do Conselho 
universitário reunido em 11 de agosto de 1348. N'esse conse- 
lho, mestre João Fernandes, queixando-se de insultos recebi- 
dos da gente da cidade : «... se alevantou em presença de to- 
dos c com voz triste e palabras sentidas representou certa in- 
juria e grande afronta que lhe fora feita. . . que nem só a elle 
mas a todos os doctores afrontara . . . com palavras desarrazoa- 
dasj feias e sujas. . . tam enormes que as nom ousava referir 
por não ofender orelhas e emcruar corações. . . o triste animo 
c danada vontade que todos os da cidade tinham aos doctores, 
lentes, estudantes e pessoas da universidade. . . diziam ate in- 
jurias contra el-rei, que lhe perdoasse Deus (a el rei) que taes 
homens trouxera á terra». O mestre depois de algumas con- 
siderações resolveu-se a dizer algumas das palavras injuriosas: 
tinharn-lhc chamado castelhano y jitdeu^ avenediço (') e outras 



(I) Adveaticio, forasteiro. 

4« 



ainda mais graves. O conselho 6 muito extenso, ^tratando de 
achar remédio para o mal que era grande, de salvar a digni- 
dade e fazer respeitar a Universidade ; resolveu escrever a 
el-rei e proceder contra o insultador pelo conservador da Uni- 
versidade, e termina a acta com a ipençao de ser este o se- 
gundo caso de séria ofFensa : €e contaram do mestre de musica 
Matheus d' Ar anda que por similhante caso morreu de pura pai- 
xão^. (') 

O infeliz Matheus de Aranda falleceu com eíFeito n'um 
dos primeiros mezes de 1B48, porque uma provisão de 6 de 
abril d'esse anno nomeia para o seu logar Pedro Trigueiros.(^) 
Mas não ficou possuindo os seus ossos a terra inhospíta que 
lhe abreviou a existência ; parente ou amigo piedoso fez trans- 
ponar para Évora os restos do musico hespanhol, onde teve 
respeitosa e christã sepultura. E' o que consta de um antigo 
livro dos defuntos pertencente á Misericórdia d'aquclla cidade, 
onde se lê a fl. 80: «Enterramentos em junho de 1649 — aos 
2 dias enterrou a misericórdia a ossada de matheus daranda 
que veio de Coimbra; deram desmola duzentos réis». (') 

Jk.i*aryo (Damião Barbosa de). Compositor brazileiro 
muito apreciado na sua pátria. 

Era filho de um pobre sapateiro, Francisco Barbosa de 
Araújo, e nasceu na ilha d^Itanarica próxima da cidade da 
Bahia, em 27 de setembro de 1778. 

Em 1808 passou ao Rio de Janeiro incorporado na banda 
de musica da «Brigada Real», corpo militar escolhido que se 
organisou quando D. João VI foi para o Brazil. Como era já 
musico estimado e se distinguira por diversas composições, foi 
admittido como violino na Gapella Real e promovido a mestre 
da banda a que pertencia. 

Gompoz um quartetto dedicado ao ministro António de 
Araújo, duas missas c matinas fúnebres dedicadas ao professor 
de musica José Baptista Lisboa, e uma grande missa ofiferccida 
em 1822 a D. Pedro, por occasião d*este ser proclamado im- 
perador do Brazil ; compoz também uma burleta italiana Intri- 
ga Amorosa^ que não chegou á ser representada, diversas árias, 
romanças, concertos e muitas composições de musica religio- 
sa. Um escriptor seu compatriota^ Joaquim Manuel de Macedo, 
no «Anno Bibliographico Brazileiro», volume 3.% pagina i3i, 
critíca-o nos seguintes termos : 



(i) Notidat varias da Universidade de Coimbra exlrahidas dos livros dos conselhos 
(1S45 a i5<|â), pelo sr. Gabriel Pereira.. publicadas no jornal Aurora do Cavúdo, em junho de 1881 . 
(2) Historia da Universidade de Coimbrjf pelo sr. Theopbilo Braga, tomo 2.". pag. 829. 
{3) Notícias variasy eic., \oc. c\t. 

4? 



aO género de sua predilecção foi a musica religiosa; mas na profana 
em romances, modinhas e lundus mostrou todo o seu sainete bahiano. 

Suas composii^ões, principalmente as religiosas, resentem-se da falta 
da simplicidade grandiosa, e da solemnemagestade do culto catholico, que 
só a arte profunda é capaz de comprehender e executar. 

Grande artista de natureza, Damião Barbosa de Araújo fraquejou na 
pureza da arte. 

Não foi delle a culpa. 

Brilhante preciosissimo, quiz, e não teve apurado lavor. 

Mas foi brilhante de muito alto quilate apezar de imperfeitamente 
lavradoi, 

j^ranjo (Francisco Correia de). DiflScil, senão impos- 
sível, é hoje descriminar se este musico dos princípios do sé- 
culo XVU, nasceu em Portugal ou em Hespanha. Por direito 
politico foi obrigatoriamente hespanhol, pois que viveu na épo- 
ca da dominação philippina, e por compatrício dos músicos 
hespanhoes se confessa na sua obra que adeante citarei, em 
cujo prologo se lé esta phrase : «... hasta tanto que elengenio 
de uueslros Espaholes . . ^ n Que Sevilha, onde exerceu a sua 
actividade artistica, foi também a cidade onde recebeu o ensi- 
no musicalj egualmente o diz elle em uma das «Advertências» 
da mesma obra : «^ Quando comenie a abrir los ojos en la mu- 
sica no avia en esta Cidade. . . » 

O mais antigo bibliographo que d'ella falia é D. Nicolau 
AntoniOj na Bibhotheca Hispana; esse, que viveu não muitos 
annos depois de Araújo e podia portanto obter mais certas no- 
ticias, diz simplesmente (i.* edição, 1672, vol. II, Appendices^ 
pag, 323, coK 2.») : nFranciscus de Corrêa de Arauxo^ laudatur 
author alicubi Musici operis ita nuncupati — Musica pratica e 
theorica de organo — Compluti editi infoLy> Traducção: «Fran* 
cisco Correia de Araújo é louvado em toda a parte como 
auctor da obra musical assim intimlada— Musica pratica y theo- 
rica de organo — Compluti (Alcalá de Henares) editada em 
folio». 

E' verdade que na terceira edição da mesma «Bibliotheca 
Hispana »j vem a noticia modificada e n'ella recebe Araújo a 
designação de lusitano: Franciscus Corrêa de Araújo, Lusita- 
nus^ miisicus cdidit — Facultad orgânica. — Compluti 1626 in 
/oLyi Traducção: «Francisco Correia de Araújo, lusitano, mu- 
sico, publicou — Facultad orgânica. — Compluti (Alcalá de He- 
nares] 162b em folio.» Mas convém advertir que esta edição 
foi feita em 1787, e que antes d'ella sahiua «Bibliotheca Lusi- 
tanaií de Baroosa Machado (1747). Ora diz este na sua obra : 

"Francisco Correia de Araújo Presbitero, insigne professor de Musi- 
ca ^ e fiáo menos grande tangedor de Oraâo, cujo ministério exercitou na 
Igreja CoUegiada de S. Salvador da Cidade de Sevilha, onde foy Reytor 

44 



da Irmandade dos Sacerdotei. Compoz Faculdad Orgânica. Alcala, por 
António Arhau 1626 foi. Nas advertências d'este livro Part. I foi. 2 promet- 
tc dous livros, hum de Casos morales de la Musica, outro de Vtrsos, Al- 
gumas das fuas obras musicaes se guardâo na Bibl. Real de Musica como 
consta do seu Index impresso Lisboa por Pedro Craesbeck. 1649. Delle se 
lembra NicoL Ant. BU>L Hesp, Append. Tomo 2 pag. 322.» 

Barbosa não diz explicitamente que Araújo fosse portu- 
guez, mas implicitamente o dá como tal, visto que só trata de 
auaores portuguezes. Com toda a probabilidade, quem corri- 
giu a terceira edição da «Biblíotheca Hispana», bebeu n'esta 
fonte. Mas será ella merecedora de confiança completa? 

Esta é a questão, e creio que não poderá ser resolvida 
satisfatoriamente. O trabalho de Barbosa Machado tem mo- 
dernamente cahído em descrédito, por causa dos numerosos 
erros que n'elle teem sido descobertos. Já Rebello da Silva, 
em i8!)4, o apontou como tpropenso» a receber sem critério 
todas as informações e a inscril-as no corpo das suas biogra- 
phias com egual facilidade (*). Na mesma biographia de Araújo 
elle falta absolutamente á verdade, quando aflirma que algu- 
mas das obras d'este compositor se guardavam na Bibliotheca 
Real, como consta do seu Iftdex ; nem uma só composição de 
Correia de Araújo, se encontra n'esse catalogo colliçido por 
D. João IV, a não ser o livro impresso que descreverei, o qual 
lá está mencionado sob o numero 452. Não obstante, a men- 
tira de Barbosa tem sido reproduzida por vários escriptores 
modernos. 

Uma razão justifica a opinião de ser portuguez ou, pelo me- 
nos, descendente de portuguezes, Francisco Correia ae Araú- 
jo; é o appellido. Araújo, ou Arauxo, segundo a pronuncia 
gallcM c minhota, é uma pequena aldeia arraiana aa provín- 
cia ao Minho, muito perto da Galliza ; portanto, o appellido 
de Araújo, pôde muito bem significar que^ segundo o antigo 
uso, era natural d'aquella povoação o indivíduo assim appelii- 
dado. Além d'isso, os Araujos descendem de uma antiga fa- 
mília nobre, oriunda da mesma povoação e muito ramificada 
em Portugal. 

Razões são estas, plausíveis sim, mas insufficientes para 
base de uma aífirmação decisiva, tal como a que fez Barbosa 
Machado e outros teem reproduzido sem exame. 

Um equivoco bem singular originou também o nome de 
Francisco de Araújo, equivoco, que prova, mais uma vez, 
quanto é perigoso reproduzir cegamente o que outros escre- 



(1) iProsadoret potingatiH; no joroal O Poftorama, vol. ll.^ pag. 354, col. 2.* 

45 



veram. D. frei Francisco de Araújo, pregador da ordem de 
S. Domingos, descendente também de familia portugueza e 
natural da Galliza, foi um theologo muito notável que, subindo 
as dignidades ecclesiasticas. chegou a bispo de Seeovia, na 
mesma época em que o presoytero Francisco Correia de Araújo 
desempenhava as funcções de organista na egreja de S. Sal- 
vador de Sevilha; seriam talvez parentes, a identidade do ap- 
pellido auctorisa a supposição. Mas o que não pode compre- 
hender-se é a obcecação de espirito que fez confundir estes 
dois indivíduos n'um só ; o bispo de Segóvia tem o seu nome 
assignalado na historia ecclesiastica, para que a mais leve re- 
flexão não mostrasse a incongruência de ser elle o musico 
Francisco Correia de Araújo. Todavia quasi todos os biogra; 
phos modernos o teem dito, copiando uns dos outros o absur- 
do, que não sei cjual d'elles inventou; apenas dois, que me 
conste, refutam similhante invenção: Baltasar Saldoni, no 
wDiccionario Biographico de Efemérides de músicos Espano- 
Icsu, t. i.% pag. 154; Pinheiro Chagas, no «Diccionario Po- 
pular», t. 2.° 

Assim como se pode afíirmar com absoluta certeza que 
Francisco Correia de Araújo não foi bispo de Segóvia, tam- 
bém se pôde duvidar de que pertencesse a uma familia nobre 
(a não ser que se acceite a nypothese de parentesco com o 
bispo), e mais duvidosas^ ainda são as datas que se attribuem 
ao seu nascimento e morte. Estes factos, que são affirmados 
pelos mesmos escriptores, parece derivarem do primeiro equi- 
voco. Dizem esses escriptofes, que o organista de Sevilha e 
bispo de Segóvia j nasceu cerca de í58i e morreu em i3 de 
janeiro de io63; os bioeraphos do verdadeiro bispo de Sego- 
via^ D. frei Francisco de Araújo, dão ao nascimento d'este a 
data de 1 58o, e ao fallecimento a de 1664. Esta similhança de 
datas é expressiva. 

Não passe também desapercebido o seguinte : acceitando- 
se como verdadeira a data do nascimento attribuida a Correia 
de Araújo — 1681 — segue-se que elle tinha, quando pubicou 
o seu livro — 1626 — apenas 46 annos; ora n'esse tempo, não 
só era já um mestre de grande consideração e longo estudo, 
como se vê pela sua obra, mas desempenhava funcções que 
exigiriam responsabilidades e provecta edade, como parece 
que deviam ser as de reitor da irmandade dos sacerdotes. O 

3ue porém é mais para estranhar (acceitando-se também a 
ata do fallecimento — 1663) é que elle vivesse ainda 87 annos 
sem deixar algum vestígio dos seus trabalhos durante esse 
largo periodo, e sem ao menos publicar a segunda obra, 



que annunciou na primeira como complemento doesta, (V. 
adiante). 

Parece-me, pois^ que pequena duvida poderá ficar de serem 
falsas aquellas datas, devendo antes suppor-se que Correia de 
Araújo era mais avançado em annos do que o oispo de Sego- 
via; é só a este que ellas dizem respeito, embora com erro de 
um anno em cada uma. 

Portanto, só o que considero como authentico e positivo 
sobre este musico, é o seu livro, que realmente constitue uma 
das mais curiosas obras musicaes do século XVII. Esde livro 
tem o título seguinte : Libro de Tientosy Discursos de Musica 
practicaj- theorica de organo, intitulada Faculdad orgânica : 
con el qualy con moderado estúdio. e perseveranciay qualquier 
mediano tanedor puede salir avantajado en ella^ sabiendo dies- 
tramente cajttar canto de Organo^ e sobretodo teniendo buen 
natural Conwuesto por Francisco Corrêa de Arauxo, Clérigo 
Presbiteroy Organista de la I^esia CoUegial de San Salvador 
da la Ciudade de Sevilha^ Reitor de la tíermandad de los Sa- 
cerdotes delia y maestro en la Faculdadj etc. — Impresso en 
Alcala por António Amao. Ano de 1626. 

E* um in-folio com 204 folhas numeradas, contendo, além 
do texto em que expõe a theoria, 69 tentos ou peças de mu- 
sica para órgão, concluindo com um cântico á Virgem Maria. 

O que dá todo o interesse a este livro é o especial sys- 
tema de notação em que elle está escripto. Baseia-se esse sys- 
tema sobre a representação dos sons por meio de algarismos, 
meio que alguns pretendidos innovadores modernos teem que- 
rido apresentar como invenção de recente data. Tem alguns 
séculos de existência, não é pouco ! 

A notação com algarismos, na forma em que a emprega 
Correia de Araújo, é uma applicação á musica para instru- 
mentos de teclado da tablatura medieval usada para o alaúde, 
viola e mais instrumentos congéneres. 

O auctor do Libro de tientosy faz o elogio d'esse systema 
em um Prologo en alabança de la cifra, attribuindo a sua in- 
venção aos músicos hespanhoes. Como esse prologo offerece 
bastante interesse histórico e o livro é quasi desconhecido^ pela 
sua grande raridade, aqui transcrevemos textualmente a mais 
importante pane d*elle : 

«La cifra en la musica fue uma grande humanidade y misericórdia 
que los maestros en ella usarÕ con los pequeiios y que poço pueden : por- 
que, víendo la necessidad que los tales tenian de conservar en la memoria 
sus lecciones, y de aumentar las que mas les faltavan para períicionarse; 
r víendo assi mismo la difículdad tan grSde (no solo para estos, sino para 
os muy provectos en la musica) que avia en poner qualquiei* obra de cato 

47 



í< 



dé organo en la tecla, por pequefía y fácil que fuesse: proveyendo dei re- 
médio necessário ; acordaron divinamente de inventar un nuevo modo de 
sefíaleSf que causando los mismos efectos (en tanta perfeccion y primor 
como los de canto de organo, y sin que la musica perdiesse un punto de 
sus quilates) reduxesse aquella difficuldad y desabrimiento, a grande faci- 
Hdad y dulçura, haziendo camino Uano y taci), el que antes era en extre- 
mo dificultoso y agro. Este nucA'0 modo de caracteres llamado cifra, se usó 
ai principio de algunas diferentes maneras: ya con lettras de el A B C, ya 
con números de guarismo y castellano, con diversos accidentes y sefíales, 
el qual por no tener la facilidad y certeza que se pretendia, fue totalmen- 
te desemparado, hasta tanto q el engenio de nuestros Espaiíoles invento 
este género de cifra que oy tenemos, y en que va puntada la musica pra- 
tica deste libro, tan í jcil, y juntamente tan perfecto, que no puede aver 
otro que le exceda. Este a sido tan útil y provechoso ai culto divino, y ser- 
vicio de la santa Iglesia católica, que donde quiera que se a usado a obra- 
do maravillosos etectos: hatiendo que personas tiernas y de poça edad, al- 
cancen en breve tiempo, lo que en otros sielos, aun no se conseguia con 
largos afios de estúdio. Y no ay que maravillar! porque en ella vee, no so- 
lo el maestro, pêro el razonable discipulo, como entro el paso la primera 
voz, de que modo la seguda respecto de la primera: como la tercerg res- 

Í>ecto de la segunda, y la quarta respecto de la tercera; Y despues de aver- 
o acabado la primera, como acompanò esta a la segunda, en la fuerca de 
su passo ; y la primera y segunda como acompaiíaron a la tercera, y estas 
três como acompaiíaron a la quarta. Y despues de aver todas quatro aca- 
bado su thema, advierte como se divierten imitando algun passeie de glo- 
sa, o jugueteSdo sin imitatíon, o discurriedo de mil modos possibles, hasta 
que una delias deteniendo la rienda a su curso, calla, aguardado pausa ; 
para de nuevo començar c5 nuevo intento su discurso, o con el mismo re- 
petido por diverso estilo de acompanamiento 

Todo 10 qual con grande diíicultad, y ai cabo de muchos anos de estúdio 
alcan^flmos a azer en canto de organo los maestros, aviedo muchos, que 
ni aun en toda su vida pueden alcaçar a cõprehender quatro vozes lianas 
de repente ..» 

Eram bem fundadas estas allegações, poraue a notação 
musical estava n'esse tempo ainda n um estado ac grande im- 
perfeição ; as figuras tinham valores caprichosamente variáveis, 
as divisões dos compassos não eram mdicadas, e para maior 
embaraço na leitura de qualquer composição a diversas vozes, 
não se usavam partituras, mas unicamente se copiavam ou im- 
primiam as partes separadas. No emtanto a innovação encon- 
trava censores e não era geralmente adoptada; Araújo o diz: 

«. . . y con todo esso no falta quien no sienta bien delia. . .» 

Depois do prologo vem um extenso capitulo intitulado 
wAdvertencias», tratando de algumas particularidades techni- 
cas sobre as composições que se encontram no decurso da 
obra ; assim, logo no principio d'essas advertências diz-nos que 
empregou certas comoinações rythmicas, as quacs ainda hoje 
são pouco frequentes c n'aquelle tempo eram objecto de gran- 
de novidade: 
48 



«... Encontrarás assi tnismo alguaas proporciones no conocídas, de 
cincoy de nueve, onze, y diez y ocho figuras ai compa?, y otras mas que 
estan en el de versos. . .» 

Gaba- se de ser o primeiro que na peninsuia empregou 
vinte e quatro figuras no compasso ternário e trinta e duas no 
binário (equivalendo a fusas para a notação moderna) : 

«Hallaras assi mismo obras de c5pas mayor ternário de bein te y 
quatro figuras^ y de mayor binário de tremta y dos figuras ai compas, cosa 
nueva y de ningun autor destos Reinos puesta hasta hoy en estampa. . .» 

As «Advertências» são divididas em dezesete pontos. No 
primeiro ponto está delineado o plano dç outra obra que devia 
servir de complemento ao Libro de Tientos^ e que o auctor 
diz que teria por titulo — Casos Morales de Musica. Esta se- 
gunda obra, se Araújo a concluiu não chegou a ser publicada; 
os mesmos escriptores que inventaram a confusão do bispo de 
Segóvia, dizem que çlla existia na livraria de D. João VI, no- 
ticia egualmente falsa, derivando talvez da biographia inserta 
na «Bibliotheca Lusitana» , que atraz deixei transcripta. Eis a 
referencia de Araújo no plano da sua obra : 

PRIMERO PUNTO 

^ «... La segunda razon es porque quiero hazer en la musica, lo que 
muchos Doctores procura n hazer en sus sciencias y faculdades, que es 
augmentarlas, ampltfícarlas, y estenderias : y como en la musica aya mu- 
cho aias por dezir y hacer de lo que se a dicho y hecho, y querido anedir 
y inventar otro nuevo modo de theorica de casos morales de musica, que 
sonlos casos usuales q.ue se acostubrã hazer (y que le succeden a qualquier 
compositor (en la compost«2ra, en la concurrecía y successo de Jas vozes: 
dudandOy alegando y resolviendo, como yo para tibrir este camino lo e 
hecho en un caso solo que es: ntrn posais praotioari in mnsioa punotua 
intensns oontr.a remissnm, separatim & simnltatim? y es de salto y 
de golpe e unisonus cromático semidiapasõ, y plus díapasô. Y porque ten- 
^o intento (Diosqueriendo) de esbrevir un libro de los dichos casos mora- 
les de musica (que son estos que digo) por esso e hecho los dichos apunta- 
mientos para en el dezirte, tal caso que saccedio en tal tiento, a tantos 
compases, en el Arsis, o thesis dei, con tales y tales vozes, cantandose 
por tales propriedades, proc^diendo por tales géneros, en tal y tal pro- 
porcion, com tales y tales mas circumstancias, ay razon de dudar, alegase 
esto por ambas partes resuelvese esto en el : será cosa de mucho prove- 
cho se Díos es servido que salga a luz, lo qtal avra de ser despues de sa- 
hir el de versos.» 

Pela ultima allusao de Araújo a um livro de versos^ não 
se julgue que este musico tivesse sido também poeta; versos 
chamam os organistas a pequenos trechos de phantasia que 
elles executam nos intervallos aos versículos dos psalmos, cons- 
tituindo uma espécie de mierludios. 

FOL. 4 • 49 



O quinto e sexto ponto das «Advertências», tem um certo 
valor histórico, porque n'elle diz Araújo que no seu tempo co- 
meçarani a apparecer os accidentes occorrentes ; (') também faz 
referencia a dois compositores hespanhos muito notáveis: 

«QUINTO Y SEXTO PUNTO» 

«Quando comence a abrir los ojos en )a musica no avia en lesta Ci- 
dade rastro de musica de organo, accidental: y la primera que vide pun- 
tada en cifra despues de alguns anos fueronuus versos de octavo tono por 
delasolre de Peraza, y luego de ay a poço mas, otros de Diego de el Cas- 
tillo, racionero organista que fue de la cathedral de Sevilla, y despues de 
la capilla Real, y todos assi unos como outros teniã puestos sustenidos en 
todos los unos, esto es, en todos los signos de fefaut. . .» 

O sétimo ponto também é interessante pela referencia ao 
compositor portuguez Rodriguez Coelho, que é citado como 
exemplo que o satisfaz e por isso imita: 

«... Contentome el modo de usar de el, dei padre Manuel Rodriguez 
Coello en el libro que escrivío en cato de organo para tanedores de tecla, 
etc, por quanto usa dei imperfecto en obras de a diez y seis semicorcheus 
ál compas, sin mexcla de otro tiempo. .» 

No ponto decimo quinto, tratando do tao discutido inter- 
vallo de quarta perfeita, manifesta a intenção de publicar ou- 
tros livros: 

«PUNTO QUINZE» 

«Acerca deste punto te hago saber que tiene este intervallo, y con- 
sonância de Diatbesaron tanto que dezir, que de el solo se puede escrivir 
muchos libros, y siendo Dios servido, ôn todolos que sacare a luz, mientre 
Dios me la dière, te prometto yr diziendo dififrentes novedades, y curio- 
sas especulaciones dei ... » 

Emfim, no ultimo ponto nota que empregou algumas ve- 
zes duas notas do mesmo nome, sendo uma alterada e outra 
natural (meio tom chromatico), assim como a oitava diminuta 
(semi-cUapason), e oitava augmentada (plus diapason)^ coisas 
q^ue os outros mestres seus coUegas e menos adeantados con- 
sideravam de grande novidade : alleg^ em sua defesa o exem- 
plo dos mais celebres compositores que o precederam. Fran- 
cisco Montano, Gombert, Cabeçon e Josquin, começando tam- 
bém por dizer que sobre o assumpto poderia escrever um li- 
vro e não pequeno. Era, portanto. Correia de Araújo um dos 
mais atrevidos innovadores do seu tempo, que estudava os 



(i) Precedentemente náo se escreviam mas praticavam -se e tinliam o nome de musica/ ai 
sa. V. no «Diccionarío Musicai» os artigos Accidental ie 2, 

5o 



fraudes chefes das escolas flamenga e hespanhola, seguindo-os 
e perto nas suas audácias. 

«PUNTO DIEZ Y SIETE» 

«De solo este articulo comence a escrivir, para satisfazerlo algunos 
maestros en la facultad, a los quales se les hizo muy nuevo, quando víe- 
ron en obras mias punto intenso contra remisso en semitono menor y 
cromático, en semidíapason, y en plus diapason, o octava mayor : y fue 
tanto lo que se me ofrecio en su defensa, que hize un tratado que puede 
el solo imprímirse, y passar por libro, y no pequefío. . .» 

Depois das «Advertências» segue-se a nArte de poner por 
cifraiOy isto é, a theoria do systema de notação em algarismos, 
theoria que o auctor desenvolve com toda a clareza em cinco 
capítulos. 

Não exporei aqui essa theoria, porque mais próprio logar 
terá ella, bem como a historia da sua origem, no «Diccionario 
de Musica». Só direi, por agora, honrando a memoria de Araú- 
jo, que a aArte de poner en cifra^y é realmente clara, simples 
e fácil, está redigida com a maior lucidez e, confrontando-a 
com os exemplos práticos que constituem a parte mais volu- 
mosa do livro, nenhuma duvida se ofFerece sobre a interpre- 
tação d'ellcs, se exceptuarmos os erros typographicos, que 
aliás são numerosos. Esse systema teria effectivamente sido 
vantajoso para notar a musica da época em que foi empre- 
gado; hoje tornar-se-hia impraticável, porque a arte moderna 
exige o emprego de numerosos signaes graphicos, os quaes 
poderão ser simplificados mas nao supprimidos. 

Resta-me fallar da parte pratica do livro de Araújo : os 
Tientos, ou peças de musica. 

Não ofiferecem menos curiosidade nem são menos dignos 
de estudo. Somente para dissertar convenientemente sobre 
elles seria necessário reproduzir alguns extractos, o que occu- 
paria um espaço excessivamente extenso para esta obra. Con- 
tentar-me-hei, portanto, em dar uma idéa geral do seu valor 
artístico. 

São sessenta e nove os TientoSy como já disse, baseando- 
se cada um d'elles sobre um pequeno e singelo thema de pou- 
cas notas, que tres ou quatro vozes vão glosando (variando) 
segundo o esiylo polyphonico dos contrapontistas flamengos. 
Alguns d'csses themas são tirados do cantochão, outros de 
canções populares ; assim, ha um que é formado com as pri- 
meiras notas de uma canção muito celebre do compositor fla- 
mengo Thomaz de Crequillon, intitulada Gq^^ ber^ier. Outro 
tento consta de dezesseis variações sobre um estribilho popu- 



lar de que ainda hoje ha memoria em Hespanha, Guardame 
las vacas, estribilho que se harmonisava com o mesmo baixo 
do canto psalmodico no primeiro tom, como o mesmo Araújo 
diz no titulo d'este tento. Pela curiosidade aqui reproduzo o 
titulo a que me refiro, sentindo não poder reproduzir a mu- 
sica: 

«Sieguense diez y seis glosas sobre el canto llano : Guardame las 
vacas, o por mejor dezir sobre el seculorum dei primero tono de canto 
llano que -uno y otro cabe sobre el contrabajo de el dicho discante.» 

(Foi. 182 verso.) 

Em geral, toda a obra é baseada sobre o velho estylo fla- 
mengo, cujos mestres Josquin Desprès, Nicolau Gombert e 
Thomaz de Crequillon, tiveram immensa voga na península ; 
d'ellcs nasceu a escola dos contrapontistas hespanhoes e por- 
tuguezes que, desde os fins do século XVI até ao* princípios 
do século XVIII, floresceram com grande brilho, havendo en- 
tre elles alguns de primeira ordem e com fama universal, como 
foram Thomaz de Victoria, Francisco Guerrero, Manuel Car- 
doso e outros. 

O trabalho polyphonico não é muito interessante, e nada 
tem de complexo: quando uma voz se move glosando o the- 
ma as outras ficam quedas ou emmudecem; a mais frequente 
combinação consiste em uma voz seguir o thema singelo em 
quanto outra floreia a glosa. Não iam n^aquelle tempo mais 
longe os recursos da arte de combinar os sons simultanea- 
mente. Estava-se ainda longe dos rendilhados compactos e 
multiformes de Sebastião Bach. Também a arte da execução 
não os poderia traduzir ainda que houvesse quem os escre- 
vesse; toda a habilidade de um organista ou era vista consistia 
em mover os dedos com ligeireza, executando pequenas pas- 
sagens rápidas que raríssimas vezes excediam a extensão, de 
uma oitava, fazendo quebroSy meios quebros e requebros em 
quasi todas as notas; dialogando a mão esquerda com a di- 
reita, ma.s ignorando a arte de repartir pelas duas mãos o en- 
trelaçamento de três ou quatro melodias simultâneas. Esse en- 
trelaçamento, n^aquella época, era privilegio exclusivo da mu- 
sica vocal, que tinha sobre a instrumental uma supremacia 
enorme e da qual hoje mal se forma idéa. 

E* debaixo doeste ponto de vista que a obra de Correia de 
Araújo deve ser considerada e apreciada, como de resto o de- 
vem ser todas as dos compositores coevos ; e Araújo não era 
dos mais atrazados d'elles, como se viu pelos extractos das 
«Advertências». Ao contrario, marchava na vanguarda da per- 

52 



manente evolução da arte, seguindo os maiores mestres da sua 
escola e escudando-se n'elles. 

E' isto que augmenta ainda o valor histórico do Libro de 
TientoSf a ponto de me parecer interessante dedicar-lhe exten- 
so artigo, não, obstante a duvida de elle ter nascido em terra 
pgrtugueza. 

Portuguez ou hespanhol, Francisco Correia de Araújo foi 
um dos notáveis músicos da península, e a sua obra constitue 
hoje um exemplar curiosíssimo para a historia da musica no 
século XVII. Estou convencido de que todos os escriptores que 
teem feito referencias a este livro, uns não o Viram e outros 
não o estudaram convenientemente. 

Existeni d'elle, que eu saiba, dois exemplares em Lisboa ; 
um na Bibliotheca Nacional e outro na Bibliotheca da Ajuda. 
O primeiro tem a nota de ter pertencido ao convento da Gra- 
ça, e na folha de guarda lê-se a seguinte observação em letra 
do século XVII : «Que grande sciencia esta de que contem es- 
te livro». O segundo tem um appendice a duplicar-lhc o valor: 
em manuscripto portuguez do século XVII, e com as folhas 
numeradas em continuação ao livro, seguem-se-lhe i3 folhas 
com observações e exemplos a corroborai as: dois d^esses exem- 
plos são composições do organista portuguez Diogo de Alva- 
rado, e uma é do hespanhol Pcrazza, sendo anonymas as ou- 
tras. Quando pela primeira vez vi, sem analysar, o curioso ap- 
pendice, formulei a hypothese de ser escripto pelo próprio au- 
ctor do livro, mas uma analyse mais detida me fez reconhecer 
que era obra de um censor portuguez. No emtanto os exem- 
plos estão escriptos com o mesmo systema de cifras ensinado 
por Araújo, o que prova que esses systema também entre nós 
teve seguidores. 

A.irroyo (António Maria). Violoncellista e professor de 
piano, nascido no Porto, onde residiu até fallecer. Era ali mui- 
to considerado como hábil e digno professor, embora não che- 
gasse a tornar-se executante de grandes recursos. Consecutivas 
congestões lhe perturbaram a razão e o impossibilitaram de 
trabalhar obrigando-o a viver exiguamente, até que falleceu 
em 21 de dezembro de 1893. Era irmão mais novo de José 
Francisco Arroyo e de João Emilio Arroyo, biographados nos 
artigos seguintes. 

A.rroyo (José Francisco}. Filho de um musico militar 
vasconço, nasceu em 14 de janeiro de 1818 no valle deOyar- 
zun, pequena povoação na província de Guipuzcoa, a duas lé- 
guas da cidade de S. Sebastião. Vindo muito novo para o Por- 
to, sentou praça de musico n'um dos regimentos ali aquartel- 
lados, e tornando-se hábil occupou o logar de clarinette na or- 

53 



chestra do thcatro lyrico de S. João. Em 1846 apresentou uma 
opera — Bianca de Mauleon — para se cantar n'aquelle theatro, 
onde eflfectivamente subiu á scena cm 1 1 de março d'esse an- 
no, produzindo medíocre eflfeito. Um critico censurou-a forte- 
mente no «Periódico dos pobres», procurando porém conten- 
tar Francisco Arroyo com elogios ao seu mérito. O artigo 
d'aaueile jornal foi repetido em resumo na «Revista Universal 
Lisbonense», com o que se picou o compositor fazendo publi- 
car no mesmo jornal uma replica cm que se manifesta toda a 
cmphase de um verdadeiro hespanhol. 

O artigo publicado pela «Revista Universal» diz assim : 

«No Porto deu'se uma opera do sr. Arroio, artista portuguez, intitu- 
lada Bianca de éMaulion, Parece que a opera do sr. Arroio tem algumas 
coisas excellentes : mas notam-se-)he muitos motivos conhecidos, pecas 
muito extensas, partes de grande fadiga para os cantores, e outros defei- 
tos no complexo ; diz-se porém que este ensaio dá grandes esperanças do 
sr. Arroio chegar a ser um bom compositor.» 

(«Revista Un. Lisb.» 19 de março de 1846, tomo 5.<*, pag. 468.} 

No numero seguinte appareceu uma correspondência do 
Porto datada de 24 de março e assignada por V em que se 
contesta acrcmente o artigo precedente, reputando-o um resu- 
mo de outro publicado no «Periódico dos pobres» (o cjue á 
Redacção confessa em nota) e fazendo os maiores elogios a 
Bianca de Mauleon; diz que ella agrada ouvindo-se depois dos 
Lombardos e do Ernanij e que é escripta no estylo de Verdi. 
Emfim, avança que espera vel-a repetida nos theatros da Eu- 
ropa e não duvida que será classificada como (em letras ver- 
saes) A melhor producção portuguesa^ da sua espécie. 

Dois annos depois, Francisco Arroyo concluia outra opera 
que intitulou FroJicesca Ventivoglio. Gomo d'esta vez encon- 
trasse as portas do theatro menos francas, procurou o auxilio 
do jornalismo, onde a politica lhe tinha já n'esse tempo feito 
ganhar certa importância, e alguns jomaes lhe advogaram a 
causa; entre elles o «Espectador Portuense», de 21 de dezem- 
bro de 1848, o mesmo jornal de i de fevereiro de 1849, e a 
«Coalisão» publicaram artigos muito laudatorios annunciando a 
nova opera e instando com a empreza do theatro de S. João 
para que a fizesse cantar. Todavia nunca se cantou. 

Em 1849, sendo já mestre da banda de musica da Guarda 
Municipal, compoz uma marcha fúnebre para ser executada 
no préstito que acompanhou os restos mortaes de Garlos Al- 
berto, quancío estes foram conduzidos ao navio que os trans- 
portou a Itália. 
54 



Era a época das grandes agitações politicas que tanto fla- 
gelaram o paiz accendendo a cada momento a guerra civil. 

Saldanha, que em 1847 fizera recuar a revolução do Mi- 
nho com o prestigio da sua espada, pôz em 1 85 1 essa mesma 
espada ao serviço do partido revolucionário, entrando trium- 

Phantemente no Porto acclamado pelo povo e pelo exercito, 
^or essa occasião Arroyo compoz um hymno triumphal, que 
foi executado no theatro de S. João por todas as bandas mili- 
tares que se achavam no Porto e se reuniram debaixo da sua 
direcção. Este hymno, para piano e canto, foi impresso na li- 
tographia lisbonense de Canongia & C.*, parece que sem li- 
cença do auctor, que contra isso protestou no • Periódico dos 
Pobres», em 3i de maio de i85i. 

Em i852 el-rei D. Fernando foi ao Porto, dando ensejo 
a que Arroyo compozesse uma cantata dedicada a D. Maria II, 

ãue se executou também no theatro de S. João^ em presença 
e D. Fernando. Este, que levara ao Porto a intenção de li- 
songear os portuenses, fez-lhe um rasgado elogio e brindou-o 
com uma abotoadura de brilhantes, conforme narrou em gran- 
des phrases o aNacional», em 6 de maio de i852. 

Em i856 estabeleceu na rua Formosa, n.^ 212 um arma- 
zém de instrumentos e objectos de mqsica, mudando-se em 
1857 para a mesma rua, n.® 78, e em i863 para a çua de San- 
to António, n.°* io5 a 109. No mesmo anno de i855 foi con- 
decorado com o habito da Conceição. Em i858 tomou a em- 
preza do theatro das Variedades, coadjuvado por Braz Martins, 
figurando na companhia a actriz Carlota Velloso, que era en- 
tão uma ingénua muito apreciada pelo publico portuense. Em- 
quanto foi emprezario escreveu a musica para as seguintes pe- 
ças, que subiram á scena no theatro por elle dirigido : O se- 
Cedo do tio Vicente^ operetta em um acto, libretto de A. C. 
msada, primeira representação em 27 de outubro de i858; 
Recordações da guerra da Peninsula^ drama em cinco actos, 
originai de Braz Martins, primeira representação em 1 3 de no- 
vembro de i858; Gonçalo de Amarante^ drama sacro histórico 
em três actos e um prologo, primeira representação eni i3 de 
março de i85q. O tneatro das Variedades teve curta vida, fe- 
chando em julho d'esse anno, pois não podia supportar a con- 
corrência do theatro Baquet, que então se inaugurou com gran- 
de brilhantismo. 

Em 29 de julho de 1861 falleceu-lhe a mãe, D. Josepha 
Arroyo, em honra da qual se fizeram solemnes exéquias, com 
o concurso de uma orcnesira composta dos principaes músicos 
do Porto. 

José Francisco Arroyo gosava então de muita considera- 



ção entre os seus collegas; em 1860 estiveram ellcs em gran- 
de dissidência, aggrcdindo-se violentamente nos jornaes e guer- 
reando se por todos os meios com um grande encarniçamento; 
por essa occasião alguns dos mais importantes, entre elles os 
irmãos Ribas, José Cândido, Paiva e Canedo, dirigiram-lhe 
uma carta em aue, exaltando as suas qualidades, lhe pediam 
para assumir a airecção da sociedade cUnião Musical», que se 
achava tão desunida. 

Em 1861 compoz um hymno consagrado á acclamação 
de el-rei D. Luiz, que foi executado pelas bandas reunidas da 
Guarda Municipal e infantería 18, no dia 22 de dezembro 
d'aquelle anno, durante a cerimonia da acclamação que se 
reafisou no Porto n'aquelle dia. 

Em 1862 funccionou no theatro de S. João uma compa- 
nhia portugueza dirigida por Braz Martins, que levou á scena 
duas das peças com musica de Arroyo, representadas primei- 
ramente nas Variedades — as Recordações da guerra peninsu- 
lar e o Segredo do tio Vicente^ — representanao além d*isso o 
drama em um acto Os Monges de Toledo^ musica do mesmo 
compositor, primeira representação em 3 de maio de 1862. 

Se a parte activa que Arroyo tomava na politica lhe pro- 
duziu benefícios, também uma occasião veiu em que lhe ori- 
ginou grande semsàboria : tendo, em principios de 1862, subi- 
do ao poder um ministério do partido histórico presidido por 
Lobo d'Avila, esse ministério nomeou para commandar a 
Guarda Municipal do Porto o tenente coronel Doutel de Fi- 
gueiredo Sarmento, cujo primeiro acto foi dissolver a banda 
e dcmittir o seu chefe, o que teve logar em abril d*esse anno; 
offícialmente se declarou que a causa de tal medida era a ban- 
da envolver-se na politica. 

Depois d*essa época, Arroyo abandonou a vida activa de 
musico profissional, dedicando-se exclusivamente á gerência 
do seu estabelecimento, que se tornara prospero. 

Em 20 de setembro de 1886 falleceu, tendo 68 annos de 
edade. Além das composições theatraes e politicas que deixei 
mencionadas, escreveu algumas niissas e outras composições 
de musica d'egreja, trechos para banda e a seguinte obra que 
mandou imprimir : «Doze Estudos para flauta, Compostos e 
dedicados, como pequeno testimunho (V d'amizade, considera- 
ção e respeito, ao 111.™'* Senhor I. Parado, Insigne Professor, 
e Tocador d'este instrumento ; por J. L. (^) Arroio.» (') Em no- 
ta á margem: tTodos os exemplares que não tiverem a rubri- 



(I, 2, 3)5/<r. 
56 



ca do seu Auctor, serão havidos como furtados. — A, S. de 
Castro lith. — Lx.* Lith. de J. S. Lence». 

Esta obra deve ter. sido escripta antes do mez de setem- 
bro de 1842, visto ter n'esta data fallecido o flautista a quem 
foi dedicada, João Parado. E' boa composição no seu género, 
lembrando um pouco o melhor mestre que n*elle escreveu, J. 
B. Furstenau. O trabalho lithographico, porém, é detestável, 
tanto pelo mau desenho como pela Falta de revisão. São extre- 
mamente raros os exemplares d*esta obra, que não foi posta á 
venda. 

José Francisco Arroyo foi pae do ex-ministro o sr. João 
Arroyo. 

^A.rroyo (João Emílio). Irmão, mais novo do pre- 
cedente. Começou, como elle, por ser musico militar, desde 
a infância, tocando flautim. Depois de ter adquirido na pratica 
suíBcientes habilitações, encorporou-se na banda da Guarda 
Municipal do Porto, occupando os logares de requinta e con- 
tramestre. Dissolvida aquejla banda em 1862, como no artigo 
precedente ficou dito, passou para a tropa de Unha ; obtendo 
a nomeação de mestre, veiu para Lisboa dirigir a banda de in- 
anteria 2, occupando ao mesmo tempo o íogar de segundo 
íflauta na orchestra de S. Carlos. Em 1 868 concorreu com An- 
tónio Croner e Soromenho á cadeira de flauta no Conserva- 
tório, ficando vencido. 

Quando adoeceu Croner substituiu-o na orchestra de S. 
Carlos, e logo que este falleceu, em 28 de outubro de 1888, 
obteve particularmente do director do Conservatório, Luiz 
Palmeirim, a nomeação de professor provisório. Quatro an- 
nos depois, em 10 de novembro de 1892, realisou-se final- 
mente concurso puolico, ficando vencedor por maioria de sete 
votos contra quatro. 

Falleceu em 4 de dezembro de I896, tendo 65 annos de 
edade. 

Emilio Arroyo era um musico pratico de bastante mérito, 
mas não dotado de natural vocação artística nem de sufliciente 
instrucção technica. Tinha, porém, artes para fazer-se valer, 
impondo-se no juizo das pessoas que só julgam pelas appa- 
rencias. Foi o primeiro flautista que, entre nós, fez uso da 
flauta de systema Bohem. 

Era homem de porte correcto e amigo da familia. 

AjmoLÚCL (Frei João d). Cantochanista, reitor do coro 
e mestre de cerimonias da capella real de D. João L Nasceu 
na villa cujo appellido tomou, sendo educado por um tio, prior 
da egreja parochial da mesma villa. Tomou o habito de có- 
nego regular de S. João Evangelista, tornando-se perito na 

57 



musica c cerimonias religiosas, pelo que o infante santo, D. 
Fernando, tendo-o em grande estima, o recommendou a el- 
rei seu pae para dirigir a capella real. Como frei João da Ar- 
ruda se desenipenhou d'esse encargo, dil-o o chronistada con- 
gregação do Evangelista, o padre Francisco de Santa Maria : 

«Achou o padre muito que advertir e reformar : porque os estron- 
dos dât guerras, cujos eccos ainda duravão nos ouvidos, havião pertur- 
bado a consonância das vozes, e a revolução geral de grandes e pequenos, 
não dava lugar a que se esmerassem os ecclesiasticos, qjuanto deviao, nem 
ainda attendessera á perfeição e aceio das ceremonias. Hua e outra cousa 
estava pela mayor parte entreve ao esquecimento, ao abuso; mas hua e 
outra poz em seu ponto a perícia, e a diligencia do novo Mestre. Compoz 
vários tratados, assim de solfa como das cerimonias que a Igreja usava 
nos Olikios Divinos, e logo elles se começarão a celebrar na Capella com 
acerto e armonia. Seguirão este exemplo as mais Igrejas da Corte, e n*ella 
se fex geralmente conhecido e estimado o nosso Padre, coroo author da 
decência e consonância que em todas se ouvia e observava.» 

Frei João d* Arruda recebeu o habito no convento de Vil- 
lar de Frades, e ahi permaneceu muitos annos, occupando a 
dignidade de reitor. Quando o infante santo, D. Fernando, 
acompanhou a Borgonha sua irmã a infanta D. Izabel, levou 
na comitiva o seu estimado capellão, o qual também visitou 
Roma e Veneza. Sobre* a sua residência official n'esta ultima 
cidadCj diz o citado chronista: 

nAlli se deteve alguns mezes, dando e recebendo exemplos e edifica- 
ção. Cr. mo era tão excellente solfista, e tão perito nas cerimonias da Igreja, 
também teve em uma e outra cousa que emendar e que aprender. Trouxe 
de tá algumas regras conducentes á maior perfeição do canto, e do culto 
divino, que entre nós se admittirão e se praticarão . . . 

Voltou a Villar de Frades onde morreu em 27 de junho de 1470.» 

(«Ceo aberto na Terra», liv. 3,% cap. 44 a 46, pag. 741 a 749.). 

A notícia que sobre este liturgista se encontra na «Biblio- 
thcca Lusitana», é um resumo da biographia inserta no «Ceu 
aberto na Terra», cujos trechos mais importantes, com refe- 
rencia á musica e á vida do biographado. extractei acima. 

^Bsis [Padre Francisco José dej. Natural de Évora e 
mestre da capella da cathedral d'esta cidade, logar que exer- 
ceu desde 1825, approximadamente, até fallecer, pouco depois 
de 1840. 

Foi discipulo do seminário de Évora, tendo recebido li- 
ções dos mestres seus predecessores, padre Ignacio de Lima 
e padre Francisco José Perdigão. No cartório da Sé de Évora 
guardam-se diversas partituras do padre Assis, e na Bibliotheca 
S8 



Nacional de Lisboa existe também uma, aliás insignificante. 
Em Évora conserva-se a tradição de que este mestre de ca- 
pella era musico de profundo saber. 

J^L.ssump^a.o {Soror Archangela Maria da). Um pe- 
queno poema mystico foi publicado em 1737, sendo aada como 
auctora uma religiosa de nome Archangela Maria da Assum- 
pção, nome de que não se encontra mais noticia alguma e 
que pode muito bem ser um pseudonymo. Todavia, como 
n'esse poema se encontram algumas estrophes com o titulo de 
coros e outras destinadas a serem cantadas, o sr. Joaquim de 
Vasconcellos, na sua obra a Os Miisicos Portuguezes», formu- 
lou a hypothese de ser a poetisa também auctora de musica 
apropriada aos seus versos, e Pinheiro Chagas, no «Dicciona- 
rio Popular», transformou sem mais exame a simples hypo- 
these em facto certo. Parece-me inútil insistir sobre taes pnan- 
tasias. 

A obra poética tem o seguinte titulo : «Festivo Applauso 
em que huma Religiosa como pastora, e os anjos como mú- 
sicos, no Convento de N. Senhora da Conceição das Religio- 
sas da Senhora Santa Brígida, no sitio de Marvilla, celebra^ 
rão o Nascimento do Menino Jesu. Por Soror Archangela 
Maria da Assumpção. — Dado á Estampa, com as Notas, 
por' hum seu Obrigado.— Lisboa Occidental, Na Officina de 
Joseph António da Sylva, Impressor da Academia Real. — 
M.DCC.XXXVn.» 

J%L.88n.mpçãLO (Fr. José d'). Religioso da ordem de 
S. Agostinho, que viveu nos fins do século passado e princi- 
pios do actual, tendo a sua residência no convento da Graça, 
em Lisboa. Compoz muita musica religiosa, da qual conheço 
os seguintes restos que actualmente existem : «Missa a quatro 
vozes e órgão (ha uma copia na Bibliotheca da Ajuda e outra 
no cartório da Sé de Lisboa) ; psalmo 1 20, nLevavi óculos 
meos in montesyi^ a quatro vozes e órgão (uma copia no car- 
tório da Sé) ; Tofttum ergo, para dois sopranos e órgão (uma 
copia na Bibliotheca Nacional); «Benção dos Ramos», a três 
vozes sem acompanhamento, estylo de fabordão (possuo uma 
copia). São tudo obras de curto fôlego, denotando ser o seu 
auctor musico perito mas não primoroso. 

O que porém existe de mbito interessante feito por este 
frade, é uma singular composição constituindo um curioso 
exemplo de musica burlesca ; parece ter sido escripta para ser 
cantada por freiras acampanhadas pelo seu padre mestre da 
solfa, porque consiste n'um coro para três sopranos e baixo. 
Divide-se em duas partes, intitulada a primeira «Tempestade» 
e a segunda «Repique». Na primeira parte descrê ve-se uma 

59 



tempestade que assaltn um navio quando está próximo de Lis- 
boa; ouve-se a voz do mestre ordenando a manobra, a celeu- 
ma dos marinheiros, as preces e promessas á Virgem Maria 
c a Santo António, os gritos de angustia. Por fim volta a bo- 
nança e avista SC o porto, como diz a letra: 

«Terra, terra, lá está Beletn ; 
Lá fios espera o nosso bem.» 

Termina esta primeira parte com os seguintes versos: 

«Cessou a tempestade, cessa o pranto 
Quem Belem apparece o Corpo Santo.» 

Na segunda parte, que é a mais curiosa pelo seu caracter 
hilariante e completamente burlesco, festeja-se o salvamento 
do navio com um repique de sinos da Graça; para obter syl- 
labas onomatopaicas que imitassem os sons de um carrilhão, 
o auctor desprcoccupou se do sentido das palavras e da pró- 
pria rima, formando uma série de disparates destinados unica- 
mente a íicarem de accordo com determinadas combinações 
de notas. Parece que foi o próprio musico quem improvisou 
a letra segundo as exigências da musica, também evidentemen- 
te improvisada. Para amostra transcreverei o principio e alguns 
fragmentos d^cssa divertida letra; diz assim: 

flComeça o repique 
De sinos tão sonoros : 
Melão, melancia 
E C[tjeijo com pão, 
Para mim. 

Vêem os pintos comer 
As pevides do melão, 
Vêem os gaios lamber 
O summo do limão ; 
Vem um gamo a correr 
Em companhia d^um cão. 



Vêem os clérigos pretos e brancos, 
E alvos e negros, e querem tocar 
Os sinos da Graça com grande furor 
Lalira dindira, larira dindon. 

Pão, pão. 



r>o 



Creio que será dif!icil reter a gargalhada na audição de 
similhantes disparates, os <]uaes a musica torna muito cómi- 
cos ; as vozes travam um vivo dialogo imitando caricatamente 
os repiques de sinos : emquanto uma repete n'uma nota agu- 
da, para mim, para mim, imitando a sineta, o baixo repiíca- 
Ihe, fingindo o sino grande, pão^ pão. Nada se pode imaginar 
de mais desopilante em musica, e a descripção está muito lon- 
ge de dar uma idéa do eíFeito ; tive occasião de o apreciar ou- 
vindo-a, « testemunho as francas gargalhadas que desataram 
as pessoas mais sisudas. 

Deve-se confessar que é singular composição esta, feita 
por um frade e destinada muito provavelmente a ser cantada 
por freiras ; mas sabe-se como nos conventos se procurava 
muitas vezes amenisar os rigores da tristeza claustral com dis- 
tracções alheias ao exercicio religioso. E' um exemplar curio- 
so, mas não único ; tenho um outro anonymo, talvez do mes- 
mo auaor, porque é similhante ao primeiro no estylo ; tem o 
titulo de «Fogo», e n'elle se descreve também burlescamente 
as peripécias, gritos e desordem produzidas por um grande 
incêndio. 

As copias da composição do frade agostiniano estavam 
bastante espalhadas ; só ás minhas mãos teem chegado cinco, 
de diversas proveniências: uma completa — «Tempestade e 
Repique» — em partitura cuidadosamente feita, como o nome 
do auctor e a data de 1807, tendo pertencido á livraria do mar- 
quez de Pombal; as restantes contéem só a segunda parte — 
tRepique» — sendo uma. copiada de um exemplar encontrado 
em Beja, outra que achei entre as musicas do compositor co- 
nimbricense José Maurício, outra posta em partitura pelo pró- 
prio punho do compositor António José Soares, e mais outra 
em partes cavadas cuja proveniência me não recorda. 

Frei José da Assumpção entrou para a irmandade de San- 
ta Cecilia em 23 de fevereiro de 170Q, como verifiquei no res- 
pectivo livro de entradas, e despediu-sc em 25 de junho de 
1801. Parece que amda vivia em 1828, fjorgue Luiz Duarte 
Villela da Siiva. dando uma relação dos principaes músicos do 
seu tempo, inclue o nome d'elle. (*) 

jAjtcilcLysL (D. António Manuel de Noronha loJ^ Conde 
de). Este fidalgo, representante de uma das mais nobres e an- 
tigas familias portuguezas, foi um dedicado e enthusiasta ama- 
dor de musica. Nasceu em Lisboa a 19 de j.unho de i8o3, sen- 



(1) lObaerva^Óes critícas sobre alguns artigos do Eosalo Estatístico do Reino de Portu- 
gal e Algarves publicado em Paris por Adriano Balbi. Seu auctor Luiz Duarte Villela da Silva , , 
etc.» Liaboa — 1828. 

6x 



do filho do 4.° marquez de Tancos e 3.® conde da Atalaya, D. 
Duarte Manuel de Noronha, que durante a guerra civil des- 
empenhou o alto cargo de ajudante general de D. Miguel. 

Havia n'aquella época uma plêiade de famílias da mais 
nobre linhagem, que cultivavam a musica com um grande 
amor ; entre essas familias, quasi todas ligadas entre si por 
laços de parentesco, contavam-se as do marquez de Borba e 
conde de Rodondo, marquez de Tancos e conde da Atalaya, 
marc^uez de Bellas, marquez de Castello Melhor, condes de 
Lumiares, Belmonte, Anadia, etc. Desde a volta de D. João VI 
do Brazil, em 1821 até 1834, e ainda depois quando a tem- 
pestade da lucta civil serenou, o mais activo e dedicado ama- 
dor era o conde de Redondo (aue em seu logar terá biogra- 
phíâ própria), o qual reunia soo a sua direcção orchestras e 
coros que amenisavam os seroes Íntimos e concorriam fre- 

ãuentes vezes a grandiosas festas religiosas. O primeiro oboé 
*essas orchestras era o conde da Atalaya. Apprendera elle a 
tocar flauta^ oboé e fagotte com um dos dois irmãos Heredias, 
hábeis músicos hespannoes que durante alguns annos, no prin- 
cipio do século actual, fizeram parte da orchestra cie S. 
Carlos. 

O conde da Atalaya tinha uma qualidade rara em amado- 
res: era um perfeito musico pratico, lendo á primeira vista a 
sua parte na orchestra com a facilidade e promptidão de um 
bom profissional. Ao mesmo tempo era solista muito aprecia- 
do : Joaquim Casimiro escreveu especialmente para èlle diver- 
sos trechos, entre os quaes mencionarei como mais notável 
um solo de corne-inglez nos officios da Semana Santa que es- 
te compositor fez para o conde de Redondo e foram executa 
dos por amadores na egreja do Coração de Jesus. (V. Oa- 
Bimii-09 Redondo, Conde de). 

Falleceu D. António Manuel de Noronha, conde da Ata- 
laya, na quinta de Santa Martha, concelho de Almeirim, a 3i 
de julho de 1886. 

As tradições da familia na dedicação pela arte musical não 
se extinguiram, antes se conservam com o mais notável vigor : 
D cx,"^^ sr. D. Duarte de Noronha, filho do fallecido conde, 
amador tão enthusiasta como o foram seus illustres ascenden- 
tes, ti um dedicado tocador de trompa, que desde a Juventude 
tem feito parte de todas as mais importantes orchestras de 
amadores c ainda hoje se conserva inalterável e assiduo na Real 
Academia de Amadores de Musica ; sua filha, a ex.™* sr." D. Leo- 
nor Manuel de Noronha é uma pianista não só dotada de es- 
merada educação artística e excellente mechanismo, mas que 
também possue em elevado grau a qualidade, muito rara nos 
63 



pianistas, de leitora correcta, perfeitamente iniciada nos segre- 
dos do rythmo, e acompanhadora discreta. 

J%L.t]iayde (D. frei Joaquim de Menes[esJ. EstQ ecclesias- 
rico, que occupou elevados cargos e teve certa importância po- 
litica no principio do século actual, também cultivou a musica 
como amador, deixando numerosas composições religiosas. 

Nasceu no Porto a 20 de setembro de i765, e professou 
a regra de Santo Agostinho no convento da Graça, de Lisboa, 
aos 22 de setembro de 1781. Foi successivamente nomeado 
chronista da Casa do Infantado, reitor do collegio de Santo 
Agostinho, bispo de Meliapor, vigário capitular do Funchal 
com o titulo e as honras de arcebispo, e finalmente, em 1821, 
bispo de Elvas, titulo pelo qual é mais geralmente desgnado. 

As suas composições, todas de musica religiosa, eram es- 
pecialmente destinadas aos conventos, sendo muito numerosas 
as que escreveu para os conventos de freiras. Estas ultimas 
são extremamente singelas e fáceis, só a duas ou a três vozes, 
muitas em unisono n*um estylo de cantochão figurado. Já se 
vê portanto que o seu valor artístico é insignificante. Entre as 
de maior tomo mas que todavia não conteem trabalho primo- 
roso, conhecem-se uns oíficios da Sernana Santa a quatro vo- 
zes (tenores e baixos), «Oíficios e missa de defunctos» a qua- 
tro vozes e pequena orchestra, e uma missa festiva a quatro 
vozes e órgão, uanta-se ainda algumas vezes um «Benedictus» 
a quatro vozes sem acompanhamento, em estylo de fabordão. 

O bispo de Elvas, D. frei Athayde, tendo-se retírado para 
Gibraltar em 1828, por occasião de D. Miguel chegar a Lis- 
boa, alli falleceu de peste a 5 de novembro d esse mesmo anno. 

O sr- António Francisco Barata, illustre bibliophilo a quem 
devo muita ajuda no meu trabalho, enviou-me a seguinte cu- 
riosa notícia, colhida de tradicção : «O tal Bispo era de grande 
merecimento littcrario e artístico, e excellente musico, tocando 
com perícia differentes instrumentos ; poeta de fácil improviso, 
terno e apaixonado, e ao mesmo tempo com certa queda para 
libertino.» 

^vilez (Manuel Leitão de). Diz Barbosa Machado na 
«iBibliotheca Lusitana», tomo III, pagina 294, ser este nome o 
de um musico natural de Portalegre, que apprendeu na cathe- 
dral da sua pátria, onde foi moço de coro e discípulo de An- 
tónio Ferro, chegando a occupar o cargo de mestre de capella 
em Granada, cerca de i625. 

No «Inaçx da Livraria de Musica», de D. João VI, encon- 
tram-se duas missas de Avilez, com a seguinte designação (pag. 
454): cAve Virgo Santíssima, a 8. Aviíes Leytão». E a pagina 
461 : ccMissa de Manoel Leitam de Avilez. — Caixão 36, iTu- 
mero 812. Salva Theodosium, a 12.» 

63 



' Naturalmente esta segunda missa intitulada Saha Theodo- 
siunij teria sido dedicada ao duque D. Theodosio, pac de D. 
João IV. Barbosa Machado diz também que no seu tempo an- 
davam muitas outras missas d*este auctor espalhadas pelas 
mãos de curiosos, mas não me consta que tenha chegado al- 
guma d'cllas aos nossos dias. 

^vondano (Pedro António), Creio ser filho de um 
musico genovez, Pietro Giorgio Avondano, que se estabeleceu 
em Lisboa no tempo de D. João V, e era primeiro violino 
da capella real. 

Compoz a musica para duas oratórias, cujos librettos di- 
zem assim: I.** // Vx>to di Jefte, dramma sacro di Girolamo 
Tonioliy posto in musica dalsig. Pietro António Avondano, Vir- 
tuoso di Camera di S. M. F. — /;/ Lisbona. — Presso António 
Rodrigues Gagliardo, Stampatore delia Regia Cúria Censória. 
— M. DCC LXXL — 2.® Âdamo ed Eva, dramma sacro posto 
in musica dal signor Pietro António Avondano, Virtuoso ai Ca- 
mera di S. M. F. — In Lisbona. - Presso António Rodri- 
gues Gagliardo, Stampatore delia Regia Cúria Censória — 
M.DCC.LXXII. 

Os librettos não dizem onde estas oratórias foram canta- 
das, mas é provável que o tivessem sido na capella real, como 
era uso. 

Avondano escreveu também uma opera em três actos 
para o theatro real de Salvaterra, cantada no Carnaval de 
1766, // Mondo delia Luna, poesia de Polisseno Fegejo. N*esta 
opera faziam os papeis de damas os castrados italianos Lo- 
renzo Maruzzi, Giuseppe Orti e Giovani Battista Vasques. Foi 
pintor e inventor das scenas o scenographo portuguez Ignacio 
d'01iveira. No fim do primeiro e do segundo acto haviam dois 
bailados espectaculosos, dançados por um grupo de nove bai- 
larinos italianos. A partitura, parece que autographa, do Mondo 
delia Luna, existe na bibliotheca da Ajuda, encadernada em três 
volumes. E* boa composição, de estyjo italiano, abundante de 
árias e recitativos, mas pobre de coros e peças concertantes, 
assim como é pobríssima de orchestra, como geralmente o 
eram as composições theatraes d'aquella época. Não consegui 
averiguar se Avondano escreveu alguma outra opera comple- 
ta, mas possuo uma partitura manuscripta do século XVIII, 
cujo titulo diz assim : Scena de Berenice, dei signore Pietro 
António Avondano. E' uma grande ária dramática para sopra- 
no, sobre a letra da scena sétima no terceiro acto do drama 
de Metastasio, Antigono. Este drama, para o qual muitos com- 
positores escreveram a musica, cantou-se no Theatro da Corte 
em 1765, pouco antes do grande terramoto, e no Theatro da 
64 



Rua dos Condes no outomno de 1772, com musica do compo- 
sitor italiano Francesco Majo, segundo diz o respectivo libretto. 
A ária que eu tenho foi provavelmente feita para alguma d'es- 
tas duas representações d*aquella opera. Na Bibliotheca Na- 
cional existe também, com o nome de Avondano a partitura ma- 
nuscripta de uma ária, cuja letra começa: Ah ! nqn sai bella 
Selene. Pertence ao drama de Metastasio, Didoy para o qua 
também muitos compositores escreveram a musica ; pela época 
em que viveu Avonaano camou-se duas vezes em Lisboa : no 
Theatro Real de Salvaterra, em 1753, com musica toda de Da- 
vid Perez, recentemente chegado a Portugal, e no Theatro do 
Bairro Alto, em 1766. D'esta segunda representação, diz o li- 
bretto, que a musica era na maior parte de David Perez, e de 
«outros excellentes auctores». Nada mais natural que um d'es- 
ses fosse Avondano, que para, tal fim escrevesse a partitura 
que hoje existe na Bibliotheca Nacional. 

O catalogo da bibliotheca do Conservatório de Bruxellas 
menciona uma symphonia manuscripta para dois violinos, alto 
e violoncello, composição de Pedro António Avondano. Diz a 
tal respeito o mesmo catalogo, com aquella verdade que os 
estrangeiros usam geralmente a nosso respeito, que este com- 
positor nasceu em Nápoles no principio do século XVIII. - 

Pedro António Avondano falleceu cm 1782. seguindo a 
indicação que encontrei nos Uvros da irmandade ae Sarna Ce- 
cília. 

Não é duvidoso que Pedro Avondano fosse portuguez 
nato, embora oriundo de família italiana, como o appellido in- 
dica. Existe na bibliotheca de Évora um livro manuscripto, 
feito por um musico seu contemporâneo, José Mazza (V. este 
appellido), que o prova; esse livro é uma espécie de esboço 
para biographias de músicos portuguezes, e sobre o nosso bio- 
graphado diz o seguinte : 

«Avondano fPedro António), natural de Lisboa, professo na ordem 
de Christo. Foi raoeca da camará de S. M. e excellente compositor. A sua 
musica tinha grande harmonia e muita suavidade. Compoz psalmos, mis- 
sas, um Te-Deunty muitas sonatas de instrumentos e tocatas de cravo. 
Também compoz a musica da opera burlesca, // Mondo delia Luna^ que 
se executou em Salvaterra. 

(Apud jornal O Conimbricense^ de 28 de janeiro de 187 1). 

Além d*isso a carta de Pedagache também o menciona 
entre os príncipaes músicos portuguezes, a par de António 
Teixeira e Francisco António. (V. ^^^meida^ Francisco An- 
tonto de). 

Pedro António Avondano desempenhou um papel muito 
lOL. 5 65 



importante na reorganisação da irmandade de Santa Ceciiia, 
effectuada em 1766. A muitos respeitos é interessante a histo- 
ria d*essa irmandade, e por isso aqui dou em resumo a da sua 
reorganisação. 

Por occasião do grande cataclismo de 1755^ estava a 
((Confraria de Santa Gecilia dos Músicos em LisDoa» — se- 
gundo o titulo que lhe dá um dos seus fundadores, Pedro 
Thalesio — installada na egreja de Santa Justa onde tinha ca- 
pella própria desde cerca de 1688. Destruida esta egreja, e 
durante a sua reconstrucção foram os músicos installar a sua 
confraria na egreja de S. Roque, para onde os padres jesuitas 
os attrahiram, porque as festas de Santa CecJia eram cele- 
bradas com grande luzimento, especialmente pelo brilho que 
lhes dava a musica sempre nova e executada pelos mais há- 
beis confrades. 

No emtanto a irmandade, cujos fins não eram somente 
religiosos mas também associativos, constituindo uma verda- 
deira associação de classe talvez mais fortemente organisada 
do que av maior parte das modernas associações, procurava rei- 
vincíicar os seus antigos privilégios de só os confrades pode- 
rem exercer a arte musical, privilégios que parece tinham ca- 
bido em esquecimento ou nao podiam ser mantidos com eífi- 
cacia. 

Começaram por impetrar a graça espiritual das indulgên- 
cias, e obtiveram um breve pontifiio, datado de 5' de novem- 
bro de 1757, o qual traduzido diz o seguinte : 

«Benedicto Bispo, Servo (ios Servos de Deus. — A tocios os Fieis 
ChristSos, que as presentes virem, saúde e Apostólica benção. Conside- 
rando Nós a fragiliaade da nossa mortalidade, e a condição do género hu- 
mano, e a severidade do estreito Juizo, desejamos muito que cada hum 
dos Fieis chegue ^o mesmo Juiso com boas obras e pios rogos, para que 
por elles se apaguem seus peccados, e os mesmos Fieis mereção alcansar, 
mais facilmente os gostos da eterna felicidade. E como sabemos que na 
Parochial Igreja de Santa Justa da cidade de Lisboa existia canonicamente 
erecta, e ha pouco se transferio para a Igreja de S. Roque dos Padres da 
Companhia de Jesus da mesma Cidade, huma pi^ e devota Irmandade so- 
mente de Músicos Fieis Christãos, debaixo da invocação de Santa Cecilia, 
em louvor, e honra de Deos Todo Poderoso, e salvação das almas, e soc- 
corro do próximo; de cuja Irmandade os amados filhos Irmãos somente 
Músicos, e os de Instrumentos costumarão, ou intentão exercitar muitas 
obras de piedade, caridade e de misericórdia ; e para que a dita Irman- 
dade receba cada dia maiores augmentos, e os mesmos Irmãos, e os que 
pelo tempo adiante forem da dita Irmandade se appliquem ao exercicio 
das mesmas obras pias e daqui em diante as exercitarem mais, como tam- 
bém outros Fieis Christãos somente músicos, e os de Instrumentos se con- 
videm mais, para daqui em diante entrarem na dita Irmandade, e a dita 
segunda Igreja seja tida em devida veneração, e se frequente pelos mes- 
mos Fieis Christãos com honras convenientes, e tanto de melhor vontade,' 
movidos de devoção, concorrão á dita segunda Igreja, quanto virem que 

66 



por este dom de graça oelestial se fazem perfeitos abundantemente : Nós 
confiados na misericórdia de Deos todo Poderoso, a todos, e a cada um dos 
Fieis ChrístSos, isto he Músicos, e os que tocarem instrumentos, que ver- 
dadeiramente arrependidos, e confessados entrarem daqui em diante em 
a dita Irmandade, se no primeiro dia de sua entrada receberem o Saratis- 
simo Sacramento da Eucaristia, concedemos para sempre por auctoridade 
Apostólica, e teor das presentes Indulgência plenária, e remissão de todos 
os seus peccados ; e assim aos IrmSos que ao presente são, como aos c|ue 
pelo tempo adiante forem da dita Irmandade, que também verdadeira- 
mente arrependidos, confessados, e commungados, se isso commodamente 
se poder faser, ou ao menos contritos em o artigo de sua morte invoca- 
rem devotamente com o coração, se com a boca não poderem, o piedoso 
Nome de Jesus, ou fizerem algum signal de penitencia, concedemos tam- 
bém para sempre Indulgência plenária e remissão de todos os seus pecca- 
dos ; e aos ditos Irmãos, que também verdadeiramente arrependidos, con- 
fessados, e commungados visitarem devotamente cada anno a dita segunda 
Igreja, em o dia da festa principal da dita Irmandade, que será eleito pe- 
los ditos Irmãos, e. approvado pelo Ordinário do lugar, o qual dia, huma 
vez eleito, e approvado, mais se não possa variar, e não sendo festa da 
Páscoa da Resurreição do Senhor, desde as primeiras Vésperas até o Sol 
posto do mesmo dia da festa, e ahi rogarem a Deos pela exaltação da Santa 
Madre Igreja, extirpação das heresias, conversão dos Hereges e Infiéis, e 
pela paz, concórdia e união entre os Príncipes Chrlstãos, e pela saúde do 
Pontince Romanp, concedemos Indulgência plenária, e remissão de todos 
os seus peccados : Alem disto aos mesmos Irmãos, que também verdadei- 
ramente arrependidos, confessados, e commungados visitarem devotamente 
cada anno a dita segunda Igreja, e orarem, como fica dito, em outros qua- 
tro dias feriaes, ou festivos do anno, que também serão eleitos pelos ditos 
Irmãos, e approvados peto Ordinário do lugar, os quaes dias, huma vez 
nomeados e approvados, mais se não possão variar, e não sendo festa da 
Páscoa da Resurreição do Senhor, no qual dia dos sobreditos quatro dias, 
que isso pelo tempo adiante fizerem, relaxamos misericordiosamente em 
o Senhor para sempre sete annos, e outras tantas quarentenas : ultima- 
mente aos mesmos Irmãos todas as vezes que assistirem diligentemente 
ás Missas, e a outros Officios Divinos, que por costume se celebrarem em 
a dita segunvla Igreja, ou ás Congregações publicas, ou particulares da 
mesma Irmandade, que se exercitarem por qualquer obra pia, ou ás Pro- 
cissões ordinárias ou extraordinárias, assim da dita Irmandade, como a 
outras quaesquer, que com licença do Ordinário se fizerem, ou a sepultar 
os mortos, ou acompanharem ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia 
auando se leva a algum enfermo, ou, nãovO podendo fazer por impedidos 
dado para isso o signal do sino, rezarem d^ joelhos pelo dito enfermo 
hum Padre nosso, e Ave Maria ; ou hospedarem aos pobres peregrinos, ou 
os ajudarem com esmolas^ ou officios, ou visitarem aos enfermos, e os 
consolarem em suas adversidades, ou ensinarem aos ignorantes os precei- 
tos de Deos, e o que he necessário para a salvação, ou reduzirem a algum 
Doalencamlnhado para o caminho da salvação, ou compozerem paz com os 
inimigos próprios, ou alheios, ou rezarem sinco Padre nossos, e sinco Ave 
Marias pelos Irmãos defuntos da dita Irmandade, ou exercitarem outra 
qualquer obra de misericórdia espiritual, ou corporal, todas as vezes por 
qualquer exercício das sobreditas obras pias, relaxamos também para sempre , 
misericordiosamente em o Senhor sessenta dias de penitencias que lhe es- 
tejão impostas, ou por algum modo devidas. As presentes valerão para sem- 
pre, as quaes todas, e cada uma das Indulgências, e remissões de peccados 
concedemos também as possão applicar por modo de suffiragio pelas al- 
mas dos Fkis Chrlstãos defuntos que deste mundo sahirem unidas em ca- 

67 



rida de com Deos. Queremos porém, que se a dita Irmandade esteja aggre- 
gada, ou daqui em diante se aggregue a alguma Archiconfraria, ou por 
qualquer outra razão, ou causa, para conseguir as Indulgências delia, ou 
della^ participar, se una, ou aliás por qualquer modo se institua, ás pri- 
meiras, ou quaesquer outras lettras sobre isso alcansadas, além das pre- 
mentes, de nenhuma maneira lhe aproveitem, mas de então por isso mes- 
mo sejão totalmente nullas: e aue se aos sobreditos Irmãos estiver por 
Nos concedida outra alguma Indulgência perpetua, ou por tempo ainda 
não acabado, as mesmas presentes lettras sejão de nenhuma força, ou mo- 
mento. Dado em Roma em Santa Maria Maior no anno da Incarnação do 
Senhor de mil setecentos e sincoenta e sete, tios sinco de Novembro, e 
anno decimo oitavo do nosso Pontificado.» 

Os confrades de Santa Cecília pediram licença para fazer 
uso doeste breve e publical-o, em requerimento datado de 9 de 
novembro de lyBS, e no dia seguinte pediram approvação dos 
diaa escolhidos para as indulgências, que foram o dia de San- 
ta Cccilia, e os dias da Conceição, Natal, S. José e Assumpção; 
tudo lhes foi concedido por despachq com a data de 1 1 ae no- 
vembro do mesmo anno. , 

Já antes, em i/Sô, elles tinham pedido para serem privi- 
ligiados os altares em que mandassem celebrar missas para 
sulTragio dos irmãos fallecidos, privilegio que lhes concedeu 
um decreto pontifício firmado em 9 de dezembro d'esse anno. 
Não estavam então installados em egreja alguma, como o mes- 
mo decreto menciona, podendo portanto assegurar-se que a 
sua installação em S. Roque teve logar no mesmo anno de 
1767 em que foi passado o breve acima transcripto. 

Mas se as graças espirituaes serviam para dar importância 
á irmandade e fazer crescer o numero dos irmãos n'aquelle 
tempo em que a crença religiosa tinha tanto poder, se osprin- 
cipacs irmãos influentes procuravam também dar um grande 
brilho ás suas solemnidaaes religiosas, chamando d'este modo 
sobre si a attençao de poderosos protectores, eram meios es- 
ses que visavam a um determinado fim associativo, fim que 
lograram alcançar pelo interessante alvará mandado passar por 
el-reí D. José em 1760. Diz elle o seguinte : 

«Eu El-rei Faço saber aos que este Alvará virem, que o provedor, e 
mais Irmãos da Irmandade de Santa Cecilia dos Cantores d esta Corte, 
de que sou Protector, me representarão por sua petição o decadente es- 
tado, a que se acha reduzida a dita Irmandade, e os professores da Arte 
da Musica tão necessária para o culto Divino, em razão de se intromet te- 
rem a exercitar nas festas muitas pessoas, que não são Professores da 
Musica, nem sabem cousa alguma d'ella : Recorrendo á minha Real Pro- 
tecção para obviar os ditos inconvenientes. E attendendo ao seu justo re- 
querimento : Ordeno que nenhuma pessoa possa exercitar por qualquer 
estipendio, por módico que seja, ou se pague em dinheiro, ou em géneros, 
ou ainda a titulo de presente, a referida Arte da Musica, sem ser Profes- 
sor deLla, e Irmão da dita Confraria, sob pena de doze mil réis por cada 

68 



vez, pagos da cadeia, ametade para o Hospital Real de Todos os Santos, 
e a outra ametade para as despezas da Mesa da mesma Irmandade. 

E este se cumprirá muito inteiramente como n'elle se contém, como 
se fora Carta feita em meu nome, e passada pela Chancellaria, ainda que 
por elle não haja de passar, e que o seu effeito haja de durar mais de hum 
anno, sem embargo da Ordenação livro segundo, titulos trinta e nove, a 
quarenta em contrario. Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, a 
quinze de Novembro de mil setecentos e sessenta.— Rey.» 

Não quiz deixar incompleta a obra de defeza dos seus in- 
teresses de classe a corporação dos músicos collocados sob o 
patrocinio de Santa Cecilia ; para que os membros do clero 
não viessem allegar qualquer razão de immunidades contra a 
ordem regia solicitaram outra idêntica da auctoridade eccle- 
siastica, que lh'a concedeu promptamente na seguinte provi- 
são, firmada pelo patriarcha D. Francisco Saldanha da Gama. 

«Francisco I. Cardinalls Patriarcha Lisbonensis. — Aos que a presen- 
te nossa Provisão virem saúde e benção. Fazemos saber que os Irmãos 
da Confraria de Santa Cecilia d*esta Corte nos representarão por sua pe- 
tição que varias pessoas Ecclesiasticas se tmham introduzido a fazerem 
funcções e festas, sem serem professores da Arte da Musica, nem Irmãos 
da dita confraria; o que resulta em grande damno da tal Confraria: e que 
para evitar esta desordem nos supplicavam lhes fízefsemos mercê conce- 
der Provisão, para que nenhuma pessoa Ecciesiastica se intrometta a exer- 
citar a- dita Arte sem ser solíiista de profissão e Irmão da sobredita Con- 
fraria, sob pena de que, havendo quem fizesse o contrario, incorrer nas 
penas impostas em hym Alvará que também alcançarão de Sua Magesta- 
de, que nos oíferecerão. E sendo por Nós visto seu requerimento e docu- 
mento, que com elle nos offereccrão: Houvemos por bem passar a presen- 
te pela qual mandamos que pessoa alguma de jurisdicção Ecciesiastica de 
hoje em diante se não intrometta nas funcções festivas em o exercicio da 
Musica, sem ser professor delia, e irmão da tal Confraria dos supplicantes, 
pena de que, fazendo se o contrario, por cada vez pagará o transgressor 
doze mil réis da cadêa metade para o Hospital Real de Todos os Santos 
e outra metade para as despezas da Mesa da mesma Confraria. 

Dada em Lisboa sob signal e sello, aos 2 de maio de 1761 — F. Pa- 
tríarcha.» 

Esta provisão foi confirmada por outra que mandou pas- 
sar o patriarcha D. Fernando, com data de 16 de outubro de 
1780, e na qual, referindo se á primeira, manda que: «se 
observe em tudo e por tudo o que nella se contém e decla- 
ra.» Os originaes doestas duas provisões existem ainda no car- 
tório da irmandade, assim como existem duas reliquias e os 
respectivos certificados originaes, que vieram de Roma, nos 
annos de 1748 e 1780. 

Mas voltando á reorganisação da irmandade : fortes com 
o seu privilegio^ trataram os irmãos de redigir o compromisso 
que devia servir-lhes de lei as30ciativa. Foi longa a gestação, 

6a 



pois que só três annos e meio depois do alvará protector, é 
qiic foi presente á confraria reunida o texto completo da sua 
nova leij a qual foi unanimemente approvada. 

A reunião teve logar em casa de Avondano, o que prova 
ser este um dos principaes influentes, provando também mo- 
rar ellc cm habitação assaz desafogada, visto que poude com- 
portar commodamente uma assembléa de cento e cincoenta e 
dois índividuosj que tantos foram os que assignaram a respe- 
ctiva acta. 

Qual fosse a verdadeira causa que levou os irmãos a con- 
Çregart!m'se na casa de um dos seus confrades em vez de o 
fazerem na egrcja onde tinham a sua capella, isso é que não 
poderá ser averiguado ; diz a acta que foi por maior commo- 
didade^ e temos de nos contentar com essa afirmativa, extre- 
mamente lisongeira para a habitação de Avondano. Diz assim 
a acta : 

«Aos dezeseie dias do mez de Junho de mil setecentos e sessenta e 
sinco nas ca^as de morada de Pedro António Avondano, aonde por maior 
commQdidadc forão convocados todos os Irmãos doesta Irmandade de 
Sanu Cecilia, sendo lido em presença de todos elles em voz alta, e intei- 
ligível este Compromisso, e os dezoito Capitulos delle, foram approvados, 
e confirmados por lodos os votos, promettendo cada um a ooservancia 
dos mesmos, debaixo das penas que no mesmo Compromisso se contém: 
para tirmeza do que se lavrou o presente Termo, que vai assignado pela 
Mc^sa, Deputados e mais Irmãos. Eu Secretario da Mesa asdgnei o dito 
TeTmo, Era, e dia ui supra. — O Secretario da Mesa: O Padre Fedro An- 
tónio da Siiva.A 

Entre os nomes dos cento e cincoenta e dois irmãos que 
assignaram este termo ou acta, encontram-se os dos principaes 
músicos que viviam n*aquella época: covão primeiro assistente^ 
assigna D. Lucas Giovine, o velho mestre de canto da rainha 
D, Marianna Víctoria; segundo assistente é o mestre do Semi- 
nário Patriarchal, o beneficiado Nicolau Ribeiro de Passove- 
dro; assistente do secretario é o fecundo escriptor didáctico 
Francisco Solano. Outros nomes notáveis, são o do celebre te- 
nor PolycarpOj o do pae de Bomtempo — Francisco Saverio 
Buontempo — o do compositor e violinista José Mazza, ou 
Massa como elle mpsmo assigna, o do cantor Mixilim. São 
principalmente muito numerosos os nomes de cantores italia- 
nos que figuravam nas operas dos theatros reaes : os castra- 
dos Vasques e Orti, os tenores Cavalli e Giorgetti, os baixos 
D. António Tedeschi e Leonardi, etc. O ultimo que assignou 
foi Pedro António Avondano, que na sua qualidade de dono 
da casa teve a amabilidade de se guardar para o fim. Entre os 
outros nomes encontram-se mais dois Avondanos — João Ba- 
ptista e João Francisco — talvez filhos. 
70 



E* summamcnte interessante, está redigido com habilida- 
de e com uma certa correcção litteraria (exceptuando o titulo), 
o compromisso de 1765, 

Possuo dois exemplares, objectos de tal maneira raros 
que nem no archivo da própria irmandade existe um só. Tem 
o seguinte titulo, encimado por uma tosca estampa represen- 
tando a Santa: «Compromisso da Irmandade da Gloriosa Vir- 
gem e Manyr Santa Cecília, sita na egreja de S. Roque desta 
Cidade, confirmado por EÍrey Fidelíssimo D. José 1. Como 
Reeio Protector da dita confraria, ordenado pela dita Irman- 
dade cm o anno de 1766. — Lisboa^ na Officina de Miguel Ro- 
drigues. Impressor do Eminentíssimo Cardeal Patriarcha. — 
M. DCC. LXVI, (i) 

Consta de dezoito capítulos, como já ficou dito, e logo o 
primeiro d'elles ofiferece os seguintes períodos interessantes : 

«Toda a pessoa, que quizer exercitar a profissão de Musica^ ou seja 
cantor, ou Instrumentista, será obrigado a entrar nesta Confraria, como 
determina o Real Decreto de 17 de Novembro de 1760 que no fim d*este 
Compromisso irá trasladado. 

E para ser admittido por Confrade, fará petição á Meza, declarando 
a qualidade do seu estado, a sua naturalidade, o nome dos pais e o bairro 
em que assiste para que a mesa possa informar- se por pessoas prudentes 
se concorrem n*elle aquelles predicados, e circumstancias pelos quaes ha- 
ja ' de ser admittido, ou se deve ser ezcluido por alguma mfamia particu- 
lar, e notória ou de facto, ou de direito, porque sendo notoriamente ou 
infame ou inhabil, não poderá ser admittido na nossa confraria. 

Não serão admittidos na Irmandade senão os professores, que te- 
nham verdadeira intelli^encia da Musica, ou pessoas nobres, excluindo to- 
da a que exercitar officio mecânico ou mulheres, que se occupem em tra- 
tos baixos e vis. Poderão porém ser admittidos, Lettrados, Médicos e Ci- 
rurgiões, não só pela nobreza de seus officios, mas também pela utilidade 
que d*elles pôde resultar á Confraria ; e o mesmo se permitte a respeito 
dos Religiosos, que se obrigarem ás leys doeste Compromisso. 

No acto da entrada dará cada Irmão 2^400 réis de esmola para o 
cofre da Irmandade.» 

O segundo capitulo trata das obrigações dos irmãos, es- 
tabelecendo que paguem uma annuidade de 36o réis, deter- 
minando que todos concorram ás festividades da Santa e suf- 
fragios pelos irmãos defuntos, bem como os obriga a não falta- 
rem ás funcções para que forem convidados, tudo sob pena 
de diversas multas. Por um dos seus artigos se vê que os cas- 
trados não eram antigamente admittidos na irmandade, costu- 
me que terminantemente ficou abolido por esse artigo. 



{1} Ainda mediaram mais de seis mezes entre a reuniáo que spprovou o compromisso e 
a áãXai ecn qae elle foi impresso e posto em vigor. 

71 



Este uso de considerar os castrados como réprobos, vinha 
de longe; um coro cómico intitulado II flageÚo dei Musici^ 
composto pelo celebre musico veneziano Benedctto Marccllo, 
é feito sobre a seguinte letra : 

JVò, che lasú, ne*cori almi e beati 
Non entrano castrati. 
Perche é scritto in que! loco. . . 
— Dite, ditej ck*è scritto mai ? 
Arbor che non fa frutto arda 
nel foco. — Ahi ! 

No mesmo capitulo ha este artigo curioso : 

aNenhum de nossos Irmãos deve ensinar a proíissSo a pessoas que 
nSo sejâo dignas de a exercitar, e capazes de entrarem na nossa Irman- 
dade, conforme ise tem declarado no Capitulo primeiro deste Compro- 
misso.» 

O capitulo terceiro trata da obrigação dos irmãos no exer- 
cício da arte ; é o mais importante de todos como lei associa- 
tiva, porguc estabelece positivamente o monopólio em favor 
dos associados, e era esse o fito principal que elles tinham em 
mira. Pela sua importância, transcrevo totalmente esse ca- 
pitulo : 

«Nenhum dos nossos IrmSos presentes, ou futuros poderá ir a func- 
ção alguma, de qualquer qualidade que seja, ou publica, ou particular, 
com Religiosos que nSo forem Irmãos desta nossa Irmandade. Será po- 
rém licito aos Religiosos, professores da nossa Arte. usar delia nos seus 
próprios Conventos, nas funcções que forem dirigiaas pelos Mestres da 
Capella dos mesmos Religiosos, com os quaes poderão neste caso concor- 
rer os nossos Irmãos livremente ; mas os ditos Mestres de capella serão 
obrigados a entrar na Irmandade e ter Patente de Directores, e pagar os 
tostoens das festas (^) a que forem convidados alguns Cantores ou Instru- 
mentistas. 

E qualquer dos nossos Irmãos, que for a alguina funcção com os 
ditos Religiosos, que não forem Irmãos, ou que nao tiverem Patente de 
Directores, pagarão para o cofre da Irmandade o dobro do que forem 
vencer nos funcções sobreditas. 

Nenhum dos nossos Irmãos professores poderá faltar á p alavra que 
tiver dado a qualquer Director, ou mandar outrem em seu lugar sem o 
consentimento delle ; e quando lhe seja permittido mandar outrem, não 
poderá dar>lhe menos do que receber, approveitando-se de alguma parte 
dos salários; e qualquer que deltnquir contra estas determinações, pagará 
o dobro do que lhe render a funcção, para o cofre da Irmandade. 



(O Por cada festa religiosa que se fttzisi pagava o respectivo director uoi tostão para o 
cofre de Santa Cecilia, 

72 



Nenhum dos IrmSos professores, ou seja Cantor, ou Instrumentista, 
poderá ir a festas, que se costumio fazer de Cantochão misturado, em 
que se cantão Solos, Duetos, ou Tercetos, sob pena de pagarem 1^200 
réis pe!a primeira vez, 24^400 pela segunda, e pela terceira serem derris- 
cados da Confraria.» 

O capítulo quarto trata «da caridade que se ha de prati- 
car com os nossos Irmãos, e dos sufiíragios que se hão ae fa- 
zer pelos defuntos.» Determina que se dêem esmolas e se 
preste auxilio aos irmãos doentes, cahidos em pobreza, pfezos 
ou impossibilitados, assim como a suas irmãs e viuvas ; não 
estabelece pensões determinadas para todos os casos, como 
fazem as modern&s associações de soccorros mútuos, mas 
manda que se proceda com toda a caridade secundo as cir- 
cumstancias especiaes de cada irmão que necessite doesse au- 
xilio ; principio muito justo, se bem que difiBcil de pôr em pra- 
tica com equidade. Ha n'çste capitulo um artigo muito notável, 
sobre o exercício da fraternidade e conservação dos bons cos- 
tumes, artigo que não tem equivalente nos estatutos das so- 
ciedades modernas; diz o segumte: 

aSabendo-se que algum IrmSo está em ódio, ou desavença erave 
com outro, tratará a Mesa de os reconciliar, e restabelecer entre elles a 
concórdia : e se al^um for publico amancebado, ou notoriamente se der 
com excesso ao vicio da intemperança, ou praticar com pessoas escanda- 
losas, ou tiver outro qualquer defeito, que possa desacreditar a sua pes- 
soa, e a nossa profissão, terá a Mesa o cuidado de o emmendar, e reduzir 
a bom estaJo, fazendo-o chamar por carta do Secretario, admoestando-o, 
reprehendendo-o, e usando d'aquelles meios, que a prudência dos Mensa- 
rios julgar mais convenientes para o fím sobredito.» 

O capitulo quinto trata dos Irmãos que queiram ser dire- 
ctores de festividades religiosas ; determina que tenham uma 
patente especial passada pela mesa^ e c^ue paguem um, dois ou 
cinco tostões por cada festa que dirigirem, segundo essa festa 
seja uma simples missa ou comprehenda também vésperas, 
matinas e mais solemnidades accessorias. Ha n'esse capitulo os 
seguintes artigos dignos de nota : 

•Nenhum dos IrmSos directores poderá tomar a si qualquer festa, 
oue conste estar dada a outro director : nem poderá diminuir o preço or- 
oinario, por que sempre as festas foram feitas. 

Também não poderá ficar com mais de huma parte além da jue lhe 
tocar como Cantor ou Instrumentista, occupando-se na dita funcçao ; e a 
<^ue levar como Director ha-de regular-se pelas ordinárias dos outros Mú- 
sicos, que intervierem na tal funcçáo. 

Nenhum dos Directores poderá fazer ou dirigir festa alguma por ou- 
tro Irmão que não tenha patente ; nem também levará ás suas funcções 
Cantor ou instrumentista que não seja Irmão da nossa Irmandade. 

Poderá qualquer Director por si, ou por outrem procurar, e pedir as 

7.\ 



festas decentemente, com tanto que nSo seja em fraude dos mais Dire- 
ctores, a quena as ditas festas estiverem encommendadas.» 

O mesmo cãpituIo*obriçava os Directores a apresentarem 
annualmente uma relação de todas ás festas que tivessem di- 
rigidOj com declaração do numero de cantores e instrumentis- 
tas que tomassem parte n'ellas, preço recebido, egrejas ou ca- 
sas em que se tivessem realisado, e certificado de ter pago os 
respectivos tostões, sob pena de se lhe suspender ou retirar a 
patente* 

O capitulo sexto trata da festa que a Irmandade deve to- 
dos os annos fazer a Santa Cecilia, e não deixa também de ter 
a sua parte interessante : 

aNo seu próprio dia se fará a festa; a qual constará de Vésperas, 
Sermão ^ Mís^ãs, e segundas Vésperas, ou Sesta ; e as matinas se farão 
quando parecer conveniente á Mesa : para o que se ha-de erigir um co- 
reto ginnde^ e capai de caber n*elle a maior parte dos nossos Irmãos, so- 
lemnísando-s£ esta festividade com a devoção, e solemnidade possivel : 
pois he bem juãto que seja por nós celebrada com o maior obsequio a 
festa de uma tão sublime e singular Protectora. 

Adornar £e ha a Capella, em que estiver collocada a nossa Santa, 
com todo o asseio e decência ; evitando porém aquellas superfluidades, 
que são etl eitos da vangloria contrários á verdadeira devoção. E pelo que 
respeita ao corpo da Igreja será sempre moderada a armação, para oue se 
não dis penda nella o que se pôde empregar com maior serviço de Deus, 
e com maior utilidade no soccorro dos nossos irmãos necessitados. 

Para que ^e alcance melhor este fím, determinará a mesa por votos 
de todos a quanua certa, que se ha de gastar nesta funcção : e antes de 
votarem, será lido aos Mensarios o presente Capitulo para saberem como 
se hão de regular nesta matéria. E quando .os procuradores gastem mais 
do que for determinado, não se lhes poderá levar em conta ã maioria da 
despeia^ a qual sahirá das suas algibeiras.» 

Os restantes capítulos, que tratam dos cargos e obriga- 
ções a elles inherentes, eleição da Meza, ajuste de contas, etc, 
nada oflcreccíii que mereça a pena de transcrever; somente 
do capitulo do?:Cj sobre as obrigações do enfermeiro, citarei o 
seguinte caridoso e previdente trecho : 

n . . . Advertirá sempre na Mesa que se não gaste muito dinheiro em 
cousas menos precisas, de forma que venha depois a faltar para o soccorro 
dos no.^^os Irmãos enfermos, e necessitados; em beneficio dos quaes ella 
deve praticar todo o zelo e toda a caridade possivel.» 

Depois de extincta a Companhia de Jesus^ e doada á Mi- 
sericórdia a egreja de S. Roque, por carta regia passada em 8 
de fevereiro de 1768, a irmandada de Santa Cecilia poucos 
mais annos ali se conservou. Fosse porque a Misericórdia se 
interessasse pouco pelos músicos e com elles se desaviesse, ou 

74 



fosse por qualquer outro motivo, o certo é que estes em i 
transferiram a sede da sua confraria para a e^reja de Santa Isa- 
bel, realisando com a Irmandade do Santíssimo d'esta fregue- 
zia um accordo que lhe cedia gratuitamente uma capcUa para 
o culto e a casa do despacho para as reuniões ; o origmal d esse 
accordo, exarado em acta authentica, existe ainda no cartório 
de Santa Cecilia. 

Mas pouco tempo também se contentaram com esta mo- 
desta installação ; a egreja era muito exigua paraas suas pom- 
posas festas, que attrahiam sempre enorme concorrência. Re- 
solvidos a todos os sacrifícios e auxiliados por poderosas pro- 
tecções, procuraram estabelecer-se definiuvamente na egreja 
dos Martyres, que tinha sido recentemente concluída, e que 
peia sua amplidão, belleza e novidade, estava n'esse momento 
chamando todas as attenções. 

Em 7 de novembro de 1787 celebrou- se entre a irman- 
dade de Santa Cecilia e a irmandade do Santissimo da fregue- 
zia dos Martyres uma escriptura, em virtude da qual a segunda 
irmandande cedeu á primeira a f posse perpetua de uma ca- 
pella e casa de despacho com tribuna para a egreja e todas as 
accomodações que fossem necessárias»; por esta cedência pa- 
gou a irmandade de Santa Cecilia a quantia de 600S000 réis, 
obrigando-se além d*isso a pagar toda a despeza com o pintor 
para mudar o painel da capeTla doada, que era de Santa Ca- 
tharina, substitumdo-o pelo de Santa Cecilia. O pintor incum- 
bido de fazer o novo quadro foi o celebre e fecundo Pedro 
Alexandrino de Carvalho, que precedentemente fizera todas 
as pinturas da egreja. Na mesma escriptura menciona-se que 
«João António Pinto, musico da Casa Real, foi encarregado 
por Sua Magestade para prover n'este negocio em tudo que 
carecesse da sancção regia.» 

D'este modo se completou a obra iniciada em 1766 por 
Pedro Avondano e seus correligionários, ficando a confraria 
dos músicos de Lisboa proprietária de uma capella e casa de 
despacho n*uma das melhores egreias da capital, e tendo a 
imagem da sua padroeira representaaa n'um bom painel feito 
pelo mais notável pintor de assumptos religiosos que tem ha- 
vido cm Portugal depois do terramoto. E são esses os únicos 
bens que possue actualmente aquella celebre e antiga confra- 
ria, outr'ora tão prospera e hoje decahida n'um relaxamento 
miserável. 

A irmandade de Santa Cecilia teve em i836 uma segunda 
reorganisação, devida á iniciativa de outro musico benemérito, 
João Alberto Rodrigues Costa (v. este nome). Sobre a sua 
fundação primitiva v. Xhalesio (Pedro). 

7& 



Ainda sobre Avondano, accrescentarei a seguinte noticia: 

«Pedro António AvQQdano : Compoz a Musica de muitas Burletas. 
€ encre ellas s dã intitulada: Mundo da Lua, que se representou no Real 
Theairo de Salvaterra, em remuneração do que lhe fez mercê o Senhor 
Rei D, José do Habito de Christo.» 

(a Jornal de Bell as Artes ou Mnemósine Lusi- 
tana», numero XII, anno de 1817.) 

O casOj raríssimo n'aquella época, de um artista ser agra- 
ciado com o habito de Christo, é bem notável para ficar con- 
signado, significando o merecimento de Avondano e a grande 
estima cm que o tinham na corte. 

avondano ÍPietro Giorgio ou Pedro JorgeJ. Julgo 
ter sido o pae de Pearo António, oiographado no anigo pre- 
cedente* Era genovez, e viera para Lisboa ao serviço de D, 
João V, occupíjndo o logar de primeiro violino da capella real. 
Compoz as sonatas ou symphonias para os villancicos que se 
cantaram nas^ matinas de Santa Cecilia, em 21 de novembro 
dos annos 172 1 e 1722, por occasião das festividades realisa- 
das na egreja de Santa Justa pela irmandade dos músicos. Foi 
também o auctor das sonatas para os villancicos cantados nas 
matinas de S^Vicente» em 21 de janeiro de 1721, na «Cathe 
dral Metropolitana do Oriente H.» 

Nos livros da irmandade ae Santa Cecilia encontrei, alétn 
de Pedro António^ mais os seguintes Avondanos, naturalmente 
pertencentes á mesma família : António José Avondano, falle- 
cido em 1783 ; João Francisco Avondano, fallecido em 1794; 
Joaquim Pedro Avondano, fallecido em 10 de novembro de 
1804, 

Em 1808 era ainda primeiro violeta na orchestra de S. 
Carlos um João Baptista Avondano. 

Ayres* O ííEnsaio Estatístico», de Balbi, dá sobre um 
amador ponuguez, existente em 1822, com este appellido, o 
artigo seguintej que traduzo litteralmente, visto não ter podido 
obter outras noticias: 

fAyrem* Negociante portuguez. estabelecido desde algum tempo 
tio Rio de Janeiro. Tem uma soberba voz de barítono^ da qual sabe ti- 
rar um grande partido na execuçSo das melhores árias italianas e por- 
tu§uezas. 

£' também um dos primeiros compositores de modinhas.^ 
(Essai Stattsiique sur le Royaume de Portugal, etc, par Q4drien 
Balai, etc, 1822, Tomo a,*, pag. 217). 



ii) Diva-u n'squelk tempo esta detignaçfio á antíga Sé ou Basílica de Santa Maria, para 
dcsiínguíl^a da PniriíTcnal, eAUbelecida entáo na própria Capella Real. 

76 



AJZ 

j^Lzevedo [Francisco de Pauta ej. Lente de musica 
na Universidade de Coimbra e mestre da capella na cathedral 
da mesma cidade. Succedeu n*esses dois cargos a José Maurí- 
cio, failecido em i8i5, e foi seu fiel imitador na composição 
de musica religiosa que deixou. Tenho d'elle um numero con- 
siderável de partituras autographas, das quaes estão assigna- 
das as seguintes: tlnvitatorium et Responsorium ad Matuti- 
nam defunctorum a 4 vo2es, violeta, viola, flauta, oboés, fa- 
goiti, comi, basso». E' a composição mais importante e mais 
extensa d'este auctor. — «In natívitate Domini, ad Matutinam», 
para quatro vozes, órgão (baixo cifrado) e duas trompas. — 
f Ad Nonam», psalmos de Noa que se cantam em quinta feira 
de Ascenção, para quatro vozes e órgão cifrado. Tem a data 
de 1819. — «Ad Completorium, composto por D. Francisco de 
Paula de Azevedo para a festa de S. Bento em Coimbra.» 
Quatro vozes, órgão cifrado e duas trompas. — «Vésperas 
alternadas. Luzo, Julho de 1829.» Quajro vozes c órgão ci- 
frado, tendo os versículos dos psalmos divididos alternada- 
mente, um em fabordão e outro em musica mais ornamen- 
tada mas muito simples; exemplar curioso na sua espécie, 
muito usada nas antigas cathedraes. — «In nativitate ad 2.*' 
vésperas. Luzo, Setembro de 1829.» Está no mesmo caso da 
composição antecedente. — «Libera-me». Quatro vozes, órgão 
cifrado e duas trompas. — Quatro missas breves, a quatro vo- 
zes, oreão cifrado e duas trompas. — «Psalmo Sub venite», 
com a data: «Coimbra, i3 de Janeiro de 1834». 

Tenho também um grande numero de partituras anony- 
mas, umas mais consideráveis do que outras, todas escriptas 
pelo mesmo punho de Azevedo, e do mesmo estylo, que por 
não estarem designadas como composições suas não posso af- 
fírmar que o sejam, se bem que muito pareçam. 

As obras d*este compositor são todas modeladas pelas de 
José Maurício, de quem parece ter sido discipulo e tomou por 
único modelo. Revelam um musico habiL perfeitamente se- 
nhor da arte de compor, mas pouco abunaante de idéas. 

Tinha uma grande veneração pelo seu mestre, pois que 
n'um manuscripto que também possuo, feito pelo seu próprio 
punho, e que contém a relação do cartório de musica possuida 
por elle, lê-se o seguinte : «Catalogo de Musica ecclesiastica ou 
Religiosa. Missas de capella a 4 vozes e órgão, de José Mau- 
rício Mestre da Capella da Sé de Coimbra, e Lente de Musica 
da Universidade, o nyilhor compositor de Musica de Igreja que 
eu conheço.^ 

Azevedo pertenceu á irmandade de Santa Ceei lia, em 
cujo livro de entrada foi inscripto com a data de 23 de no- 

77 



-A.Z 

vembro de 1826, assignando-o em seu nome e como procura- 
dor, o organeiro notável António Xavier Machado Cerveira. 
(V* este nome), 

Azevedo (João Pedro de). Compositor de musica 
sacra, organista e cantor muito considerado em Braga. Nas- 
ceu n'esta cidade em 1790, e n'ella falieceu em janeiro de 
i853. Existem d'elle as seguintes composições manuscriptas : 
Missa de requiem a quatro vozes e orchestra; varias ladainhas 
e novenas, uma missa em cantochão figurado, hymnos, mo- 
tetes, coros religiosos para procissões, etc. 

Entrou para mestre de musica do Seminário de S. Pedro 
e S* Paulo em em 1822, succedendo a Vicente Roboredo fal- 
lecído n'esse anno. Era também excellente cantochanista, exer- 
cendo por isso o logar de examinador dos ordinandos. 

E' curiosa a seguinte relação dos logares que este concei- 
tuado musico bracarense chegou a accumular, assim como a 
nota dos respectivos ordenados annuaes: 

Professor de canto uo Seminário archidiocesano. . . goSooo 
Professor de canto e órgão no Seminário das Or- 

phãos , 5o$ooo 

Organista da Misericórdia 5o$ooo 

Cantor na Sé e í^ubstituto do mestre de Capella. . . 6o$ooo 

Segundo organista na Sé 20$ooo 

Examinador de cantochão no Seminário 4o$ooo 



3oo$ooo 



Junte- se a estas accumulações o producto de numero- 
sas festividades nas egrejas em que não era empregado effe- 
ctivo, e que cm Braga e seus arredores se realisam quasi dia- 
riamente^ junte^se mais o producto de lições particulares de 
canto e piano, c tcr-se-ha um cumulo que devia ser bastante 
invejado ha cincoenta annos n'uma cidade como Braga. 

João Pedro d^Azevedo deixou algumas filhas que entra- 
ram para organistas de diversos conventos. 



78 



^Oa^chicha. ou Baxixa.. (Joaquim Félix). Pianista 
muito estimado, que vivia em Lisboa no principio do século 
actual e foi estabelecer-se no Rio de Janeiro, depois da Corte 
para lá emigrar, fugindo á invasão franceza. 

Dá noticia a*elle o escriptor francez Balbi, mencionando, 
porém, somente o appellido, no artigo cuja traducção é a se- 
guinte : 

«Bat^liiclia» grande tocador de piano ; tSo forte como o prece- 
dente (o padre José Maurício Nunes Garcia), porétn dotado d'um gosto 
mais delicado. Foi prímeiro empregado na capella real de Lisboa e de- 
pois na do Rio de Janeiro, onde enlouqueceu. Apezar d'isso nSo deixou 
de continuar a dar provas de extraordinário talento, antes parece que este 
augmentou com a perda da razão.» 

(Essai Staiistique sur le Royaume de Portugal, eic,par Adrien 'Balbu 
— Tomo 2.« pag. no.) 

Deixo Balbi responsável pela veracidade do singular facto 
de um individo mostrar maior talento depois de perder a ra- 
j[ãò. Notarei também que a sua qualidade de pianista não lhe 
teria dado emprego na capella real, e se ali exerceu algum 
logar seria o de organista ou cantor. Em todo o caso nada 
consegui averiguar que negue ou confirme a noticia exarada 
no «Ensaio Estatístico». Apenas encontrei na numerosa livra- 
ria musical do ex."*® sr. D. Fernando de Sousa Cominho uma 
composição manuscripta para piano, onde li o nome completo 
do auctor, escripto assim :« Joaquim Félix Baxixa». Essa com- 
posição não se me aíligurou obra de um grande musico. 

79 



Nos livros de entradas da irmandade de Santa Cecília está 
inscripio o nome de Joaquim Fclix Xavier Baxixa, com a data 
de iB de março de 1790. 

Havia também um Francisco Xavier Baxixa, cantor, falie- 
cido cm 1787, que talvez fosse pae de Joaquim Félix. 

Sa^dajoz (João de). Musico muito celebrado na corte 
portugucza, e também nomeado em Hespanha, que viveu na 
segunda metade do século XVI. Foi musico da camará de 

d; João m. 

Os escriptores coevos citam-n'o somente pelo appcllido, 
tão conhecido elle era; o nome próprio encontra-se porém na 
relação das pessoas que tinham moradia na casa de D. João III, 
transcriptas por Sousa Macedo nas «Provas genealógicas», 
tomo 6." pag. 622 ; é o primeiro na lista dos tmusicos da Ca- 
marajjj e está inscripto com esta ortographia: «João de Bada- 
jds,» 

Dá, em primeiro logar. noticia de Badajoz como compo- 
sitor de apreço uma obra, noje de grande raridade, impressa 
cm Coimbra no anno de 1647, escripta por frei António de 
Portalegre, confessor da princeza D. Maria, filha de D. João III 
e casada com Filippe II de Castella. Essa obra que teve duas 
edições consecutivas, uma em portuguez e outra em caste- 
lhano, é assim intitulada na edição pormgueza: c Meditaçã 
da inoceussima morte e payxã de nosso senor em estylo me- 
trificado: nouamente composta.» No fim tem umas trovas 
espirítuaes, precedidas da seguinte declaração feita pelo im- 
pressor; 

irE depois de ser -imprimida, mandou a mi Joam de Barrevra, em- 
pressor 'dei rei nosso snor, em esta catholica uniuersidade, que ajuntasse 
aa mesma Meditaçã as seguintes trovas, pòrcjue lhe parecerS deuotas e 
proueiíosas especialmente para mUytos religiosos e religiosas que san 
grandes músicos e por falta de cousas espirituaes muytas vtzts tangem 
e cantam coLjsas seculares e profanas. Por isso os avisa e lhes roga, que 
em logâr de vaidades mundanas, cantem e tanjam estas espirituaes e de- 
uotas. E porque O romance que aqui vay acharam apontado singularmente 
por Badajoz, musico da camará dei rey nosso senhor. E o vilancete 
do Tarto da senhora se ha de cantar^ por o duo que compoz Torres da 
letra de Iniutiga foy madre; e no do Pranto da Senhora caminho de 
monte calvário^ por a composição do Motete Fili mei AbsalÕ, do qual foy 
a letra tomada. E desta maneyra será Deos louvado in chordis e organo, 
e o Spiritu Saneio que foy o primeiro inuentor e mestre da arte de mc- 
trefícadura será seruido.» 

Alguns modernos escriptores hespanhoes, entre elles 
Amador de los Rios, notam que não deve confundir-se Bada^ 
jo:^ el miisicOf com o poeta seu coetâneo^ Garci Sanchez de 
Badajozj cujas trovas figuram no cancioneiro geral hespanhol, 

80 



de Hcrnan dei CastiUo ; todavia é certo que o musico da ca- 
mará de D. João III também trovou, e em língua portugueza ; 
no cancioneiro de Garcia de Rezende (tom III, pag. 02, da 
edição de Stuttgard), encontra-se uma pequena trova de sete 
versos, cujo auctor é designado por Éadàjo^^ sem duvida o 
musico portuguez. O mesmo Garcia de Rezende na «Miscel- 
lanea» o menciona entre os mais notáveis ornamentos da arte 
musical. Diz elle assim : 

«Musica viimos chegar 
aa mais alta perfeiçam 
Sarzedo, Fonte, cantar 
• Francisquilho assi juntar 
tanf^er, cantar, sem razan 
Arriaga que tanger 
ho cego que gran saber 
nos orgios ho Vaena, 
Badajo^^ outros que ha pena 
deixa agora descreuer.» 

Também Gil Vicente fez allusão ao seu coetâneo Badajoz, 
na farça da «Ignez Pereira»; a protogonista d^essa farça não 
quer casar senão com um musico aue seja discreto «e saiba 
tanger viola»; o seu interlocutor «Vidal» diz-lhe assim: 

«O marido aue quereis 

De viola e dessa sorte 

Não no ha senão na corte, 

Que* ca não achareis. . 

Falíamos a Badajoz, ^ 

Musico, discreto solteiro ; 

Este fora o verdadeiro, 

Mas soltoa-se-nos da noz.» 

(Obras de Gil Vicente, edição da «Bibliotheca Portugueza», tomo 
3.* pag. 134.) 

O ^Cancioneiro Musical dei siglo XV y XVI transcrito y 
comentado por Francisco Asenjo Sarbieri» (Madrid — 1890), 
contém oito composições em que o actor é designado também 
pelo simples appellido de «Badajoz». Uma d'essas composi- 
ções é a canção citada por Gil Vicente na tragicomedia Dom 
Duardos: 

Mas cantad esta cancion : 
•Quien pone su aficion 
Do ningum remédio espera^ 
No se queje porque muera.» 

(Loc. cit^ tomo 2,^ pag. 224) 
FOI<. 6 81 



* Raena. Feirreira (Cosme de). V. Ferreira^ 

(Cosme de BaenaJ. 

Itaena. [Gonçalo de). Outro como Badajoz, também 
musico da camará de el-rei D. João III, compositor e organista 
muito celebre. Em 19 de junho de i536 obteve licença e lo 
annos de privilegio para mandar imprimir e vender hua obra 
e arte para tanger (como se disséssemos hoje «methodo e 
exercícios para tocar» — provavelmente órgão e os mais ins- 
trumentos de teclado; essa licença e privilegio constam da se- 
guinte carta regia : 

«Dom Joham etc. Faço saber a quantos e>ta minha cana virem e o 
conhecimento delia pertencer que eu ey por bem que Gonçalo de Bacna, 
meu musyco de camará, possa imprimir kua obra e arte para tangpr, e 
que nenhua outra pesoa a posa emprimír nestes reynos por dez annos 
sendm elle, nem a trazer de tora a vender, e qualquer pe^oa que ho con- 
trario fizer e nyso for comprendido pagara cynquoenta cruzados. E para 
fyrmesQ dyso lhe mandey pasar esta carta por mim asynada e aselada do 
meu ^cllo, que mando que se cumpra e guarde intevramente como se 
n Jla conthem. Joham Rodrigues a fez em Euora a XIX dias de junho de 
myl bc. XXX bj. E além da pena de cyncoenta cruzados perdera oslyuros 
que asi emprymir.» 

(Chron. de D. João III, liv. XXII, fl. 53. — Apud^ «Documentos para a 
Historia da Typographii Portugueza nos séculos XVÍ e XVII», parte II, 
pa^. 2.) 

Parece todavia que a obra não chegou a imprimir-se, por- 
que até hoje ainda ninguém deu noticia d'ella. 

E' naturalmente Gonçalo Baena, o «Vacna» mencionado 
por Garcia de Rezende no trecho da «Miscellanea» que no ar- 
tigo precedente ficou transcripto. Badajoz e Baena foram os 
principaes músicos da corte de D. João III. 

O Cancioneiro Musical de^los siglos XV j^ XVI transcrito 
r comentado por Francisco Asenjo Barbieri^ que no artigo pre- 
cedente também citei, contém quatro composições, cujo auctor 
é designado pelo simples appellido de «Baena», ao passo que 
treí5 outras teem por auctor «Lope de Baena» ; este ultimo foi ■ 
egualmente um musico notável, hespanhol, que Horesceu rio 
principio do século XVI, Barbieri attribue todas as sete óom- 
posições ao mesmo Lope de Baena, mas quem sabe se o illus- 
trc conimentador do cancioneiro se não enganou, e se o Bae- 
na simples, sem designação do nome próprio, não será o ce- 
lebrado musico da camará de D. João lII de Portugal? A letra 
é toda em hespanhol, mas tal facto não pode ser tomado como 
razão concludente, porque se sabe que a linguagem castelha- 
na era n'aquella época corrente em Portugal, e sobretudo fa- 
miliar aos poetas e menestréis da corte. 

82 : 



DlCCiONARIO^BlOGRA PíitCO 

DE MUSfCOS FORTUGUEZES 




Joaíí Jo$c flalái 

Copia de um deecnTjó df D. Siqueira 



VajL. I — Folha 6 



BA- 

Na lista dos músicos da camará de D. João III que atra^ 
citei (v. Badajoz), figura o nome de Gonçalo de Bacna 
em segundo logar, depois de Badajoz ; vêem seguidamente um 
Francisco de Baena o um António de Baena, òs quaes se eram 
filhos ou tinham outro grau qualquer de parentesco com Goa- 
çalo de Baena não adquiriram a mesma celebridade, aliás se- 
riam' todos três citados constantemente com os respectivos no- 
mes próprios para se distinguirem, visto terem os mesmos 
appellidos. 

Saldi (João José). Filho de um musico da CapellaReal, 
Carlos Baldi, italiano de origem. Este nome de Carlos Baldi 
figura na lista dos confrades que assignaram o compromisso da 
irmandade de Santa Cecilia em 1765. (V*. .A.voiidaiio). 
Nos livros da mesma irmandade encontrei nota de ter fallecido 
em 1779. 

Nasceu João José Baldi em Lisboa, no anno de 1^70, re- 
cebendo a sua principal instrucção no Seminário Patriarchal, 
para onde entrou aos onze annos, em 1781. Estava então no 
apogeu o ensino da musica n'aquelle instituto. João de Sousa 
Carvalho, Jeronymo Francisco de Lima, seu irmão Braz Fran- 
cisco de Lima, e Camillo Cabral haviam regressado de Itália, 
onde estudaram por conta das rendas patriarchaes, e foram 
logo nomeados mestres do Seminário ; além d'estes havia ain- 
da o velho mestre José Joaquim dos Santos, que fora díscipu- 
lo predilecto de David Percz c era contraponiista consumma- 
do, hábil sobretudo no ensino do acomp?.nhamento (baixo ci- 
frado). João de Sousa Carvalho sobresahira a todos na dedi- 
cação pelo ensino e methodo empregado, tendo já produzido 
dois discípulos bem notáveis: Leal Moreira, que recentemente 
passara . de discípulo a mestre, e Marcos Portugal, que n'esse 
momento ensaiava os primeiros voos do seu grande génio, 
admirado em toda a Europa. Foi n'este meio que se creou 
João Baldi, c bem depressa revelou uma aptidão excepcional, 
que facilmente se desenvolveu entre tacs mestres. Tornado 
rapidamente em cantor (todos os aspirantes a músicos n'aquclle 
tempo começavam por aprender a cantar), organista e pianista 
hábil, cstreiou-sc como compositor antes dos dezcnove annos: 
tecm a data de 1789 as partituras do duas missas d^cUe que 
existem no cartório da Sé de Lisboa. Essas partituras servi- 
ram lhe naturaJmente de diplomas comprovativos da sciencia 
adquirida, .porque no mesmo sobredito anno de 1789 partiu 
para- a cidade da Guarda, em cuja caihedral foi desempenhar 
asfuncções de meíitre da capella. Cinco annos depois transfe- 
riu-se para >a Sé de Faro, e mais tarde, em 1800, regressou a 
Lisboa a fim do occupar o logar de segundo mestre da Real 

o3- 



Camélia da Bemposta. Era primeiro mestre n'esta capella o sá- 
bio contrapontista e organista Luciano Xavier dos Santos; 
fallecido cste^ em 1806, Baldi ascendeu ímmediatamente ao 
primeiro togar, vindo substituil o como segundo organista o 
compositor que se tornou bem notável e fecundo, frei José 
Marques. 

Esiá claro que João José Baldi era bem apadrinhado, por- 
que* o talento só por si raras vezes jfaz progressos tão rápidos. 

O certo é que em i8o3 apresentava a sua composição 
mais considerável, a grande missa dedicada ao conde (mar- 
quez sete annos depois) de Borba, que por este titulo ficou 
conhecida. 

A partitura original d^essa missa, com indicação da data 
em que foi escripta, existe ainda hoje em poder do descenden- 
te d'aquelle illustre fidalgo, o ex.™® sr. D. Fernando de Sousa 
Coutinho. E' uma composição de largo desenvolvimento, es 
cripta com boa sciençia musical, no estylo italiano da época. 
Quando appareceu produziu um grande effeito, c era sempre 
escolhida para se executar nas mais pomposas festas que se 
realisavam em Lisboa, o que era muito frequente. Ainda me 
lembro de ter ouvido, quando comecei a exercer a arte, falar 
com grande respeito e admiração da grande missa do marque:^ 
de Borba f que n'esse tempo ainda se cantava de quandp em 
quando. 

Desde então ficou Baldi considerado como um dos nossos 
primeiros músicos, a pai* de Leal Moreira, seu mestre, e de 
Marcos Portugal, seu condiscipulo mais adeantado. Havia 
adquirido boa clientella de discípulos de canto e de piano, es- 
crevendo para cllcs muitas modinhas portuguezas, árias italia- 
nas e peças para piano. Um «Jornal de Modinhas-Novas de- 
dicadas ás Senhoras», que se publicava em 1801 editado por 
João Baptista Waltmann, inseriu no seu numero 1 1 uma «Mo- 
dinha nova de Giovanni Giuseppe Baldi». (Todos os discipu- 
los do Seminário italianisavam os nomes, como que para te- 
rem mais importância na opinião publica; só frei José Marques 
e António José Soares é que não seguiram este antigo uso). 
Por essa época também escrevia para os theatros da Rua dos 
Condes c Salitre ; é hoje impossivel averiguar para que peças 
representadas n'esses theatros Baldi escreveu a musica, por- 
que geralmente os annuncios publicados na «Gazeta» não men- 
cionavam os nomes dos auctores, e os cartazes em que esses 
nomes appareciain tornaram-se extremamente raros. Possuo 
um duetto para soprano e baixo, cuja letra começa : t Nunca 
mais em minha vida has-de ver o meu semblante», que deve 

84 



ter sido de alguma comedia ou farça. E' um exemplar curioso 
no seu género. 

Existe impresso um drama, representado no theatro do 
Saffcre em iScò^ no qual se menciona que Baldi foi auctor da 
musica ; tem este titulo : «Drama gratulatorio que no faustis- 
simò natalício do Príncipe Regente N. S. se ha de represen- 
tar no theatro do Salitre, e o emprezario do mesmo theatro 
constitue humildemente aos pés de S. Alteza Real. — Lisboa 
na oíf. da António Rodrigues Galhardo, 1806.») 

Por este tempo foi Baldi nonieado mestre da Patriarchal 
e do Seminário. 

Uma circumstancia veiu favorecer os créditos do novo 
mestre, fazendo com que a opinião publica se voltasse para 
clle e procurasse oppol-o a Marcos Portugal. Quando, por 
occasião da invasão tranceza, Junot entrou em Lisboa, quiz 
este general que o dia 1 5 de agosto, festa de Napoleão, fosse 
aqui solemnisado com uma recita de gala no tneatro de S. 
Carlos. Encommendou para esse fim uma opera nova a Mar- 
cos, que a escreveu e ensaiou promptamente, sem que a isso 
fosse violentado por outra força além da que poderia ter exer- 
cido a dadiva de algumis moedas de oiro. A opera represen- 
tou-se eflfectivamente no dia !5 de agosto, e foi feita sobre o 
libretto de Metastasio — Demofoonie. Quando os francczes fo- 
ram vencidos e expulsos, levantou-se grande indignação con- 
tra quem lhes tinha prestado serviços, e está claro que n'esse 
niunero devia ter ficado incluido o auctor da musica para o 
Demofoonte, E' verdade que elle acalmou como povicle essa 
indignação, tomando parte nos festejos patrióticos, mas o caso 
da opera nem por isso se tornou esquecido. João José Baldi 
foi então considerado como um rival de Marcos, e de tal modo 
este se viu abatido no seu orgulho que teve de tomar o cami- 
nho do Rio de Janeiro, apezar da repugnância que o fez reter 
em Lisboa quando a corte para lá partiu com D. João VL O 
espectaculoso drama allegorico de Miguel António de Barros 
— «Ulysséa libertada» ^— com que no theatro da Rua dos Con- 
des foi festejada a expulsão dos francezes, era ornada com 
musica escripta por Baldi, como se lê n'um folheto assim inti- 
tulado : «Breve descripção dos espectáculos, que a companhia 
nacional do Theatro da Rua dos Condes ofFerece gratuitamente 
ao publico pelo motivo da feliz restauração de Portugal. — 
Lisboa M DCCC VIII.» N*esse folheto encontra-se a seguinte 
informação : «A composição d'este Drama he de hum Portu- 
guezj cujas Obras Dramáticas teem merecido a approvação do 
Pubhco illustrado. As peças de Musica de que he igualmente 

85 



BA 

enriquecido sáo de João José Balde (1?/cyí, Cariada de S. A. -Rs. 
c Mestre do Seminário». , . . - 

Em i8o8 escreveu ^ também Baldi uma grande missa a 
cinco vozes c novena de Nossa Senhora do Resgate da Alma, 
para se executar n'Lima ermida que com esta invocação existe 
na rua direita dos Anjos. A este. respeito conta-sé tradiccional- 
mente um caso que prova cm quanta estima eia tido o.xoiH' 
positor. Baldi morava mesmo defronte da ermida, n'um paja^ 
ccte cuja entrada tinha n'aquelle tempo o numero 124 e actual- 
mente tem os números 187 e 189; no ponto em que está a 
ermida c o referido palacete, a rua, que até ali é muito estrei- 
ta, alarga considcravelnniente formando uma espécie de largo, 
de sorte que entre a.pprta da ermida e a do palacete- medeiam 
algumas de7.enas de passos; pois os fesjeiros mandavam pôr 
uma carruagem á porta do compositor^ para que o tran^spor^ 
tasse até á porca da ermida quando elle vinha dirigir a festa^ 
pomposamente fardado com a sua casaca coberta de bordados 
a oiro, calção de velludo e meia de seda, como então usavani 
05 músicos da Capella Real. Este excesso de corhmodidade 
custou lhe caro, porque naturalmente contribuiu para a dispo- 
sição apopletica de que foi vicrima. 

A novena do Resgate ainda hoje se executa annualmente 
na mesma ermida, e a partitura original, bem como a da mis- 
sa, guarda-se cuidadosamente sob chave. E' tal o respeito gue 
a tradicçáo consagra' a essa obra, aliás de pouco valor artistico, 
que nunca se consentiu na sua substituição ; Casiniir*o escre- 
veu uma outra novena, que decerto não seria inferior áquella, 
e passou pelo desgosto de a ver rejeitada. Apenas um hymno 
fetto em i8.|9 por Pinto, logrou a honra de ser cantado alter- 
nadamente com o de Baldi. Este respeito trádiccional tem uma 
vantagem : a de nos fazer ouvir uma obra escripta ha perto 
de cem annos, o que não deixa de offerecer interesse aos es- 
tudiosos da musica antiga. 

K preciso ainda notar uma circumstancia que augmcnta 
o interesse d^essa peauena composição e justifica o respeito 
que lhe foi consagrado: o anno de 1808 marca uma época 
terrível para Portugal e especialmente para Lisboa ; todo o 
paiz se estava revoltando contra Junot e contra as suas tro- 
pas, que se haviam tornado n'um verdadeiro bando de saltea- 
dores; o general francez dava o exemplo locupletando-se com 
quantas preciosidades podia haver debaixo de mão. as egrejas 
eram espoliadas das suas alfaias e os habitantes aos seus ha- 
veres. 

Em maio d*csse anno, o grito da independência tdrná- 
ra-sc temeroso; e como c no mezde maio que se reâlisa a" 
80 



festa annuál tia eriiiiâa do Resgate da Alma^ esta invocação 
adquiriu para os moradores d*aquelle sitio um sentido symbo- 
lico, interpretando-o como Resgaie da Pátria. Pôde iniagi- 
nar-se pois com que fervor se fariam as preces da novena e 
com que enthusiasmo seria jealisada a festa, quando a espe- 
rança no i^esgate da pátria^ animava todo p povo. O certo é 
que pouco mais de três mezes depois d'essa festa, davam-se 
os combates victoriosos da Roliça e do Vimieiro que pozeram 
termo á primeira invasão franceza. 

Quasi todos os espectáculos de regosijo publico e festas 
patrióticas que d'ahi por deante se organisaram, foram abri- 
lhantadas com a musica de Baldi. No theatro da rua dos Con- 
des camou-se o hymo inglez arranjado por elle sobre uns ver- 
sos ponuguezes; tenho uma copia da respectiva partitura, que 
é curiosa : dois sopranos a solo cantam alternadamente a me- 
lodia do hymno, variando a cada replica, e o coro responde 
a essas «strophes com a mesma melodia harmonisada na sua 
forma mais smgela; o acompanhamento da orchestra é di- 
verso' em cada estrophc e não deixa de ter um certo inte- 
resse. 

Nos dias 12, i3 e 14 de agosto de 18 10, para festejar o 
anniversario do principe regente de Inglaterra, a companhia 
do theatro de rua dos Condes cantou no theatro de S. Carlos 
um tElogio», com a musica de Baldi. Era uma espécie de 
desforra do «Demofoonteí cantado exactamente dois annos 
antes. 

Qnando o exercito de Massena abandonou Portugal pondo 
termo á terceira e ultima invasão napoleonica, em demonstra- 
ção de regosijo mandou o senado de Lisboa celebrar uma 
pomposa missa solemne e Te-Deum, na egreja da Sé. Foi 
ainda Baldi quem compoz e dirigiu a musica. 

De uma das composições theatraes de Baldi, nos dá ainda 
noticia um programma que por acaso descobri na Bibliotheca 
Nacional entre vários papeis não catalogados. Esse programma 
enquadrado n'uma bella gravura allcgorica que pelo primor 
do trabalho me ' pareceu do insigne gravador Joaquim Car- 
neiro da Silva, diz assim: 

«Quinta feira 12 e sexta i3 do correntf mez de outubro, no theatro 
àNacional da Rua dos Condes, a sociedade do mesmo iheatro/solemnisará 
o Aaniversario do Senhor D. Pedro de Al.antara, Principe da Beira, e 
Herdeiro do Throno do nosso Virtuoso e Amado Soberano, com o se- 
guinte Espectáculo : logo que finde uma nova Sinfonia, que servirá 
de abertura, começará a representação de hum novo Drama Allegorico, 
que SC intitula: O Festim de Vénus. He este Drama composto em ópti- 
mos Versos por aquelle fecundo Génio, cuja composição tem produzido 
sobre a. Scena o efieho que merecem : novas e bellas peças de Musica, 

87 



compostas por Joio José Btldi, Cisado dê S. A. R. o embéUesão; Scena- 
rio, e Vestuário novo feito a capricho, huma transformação geral, e hum 
Baile análogo com que finaliza^ o fazem o mais pomposo : seguir-se-ha a 
Representação de uma nova e interessante Comedia, intitulada Gricelda^ 
Composta pelo celebre Metastasio, e posta em excelleotes Versos, por 
Miguel António de Barros : tertpinará este grande Espectáculo a Dançai 
que se denomina Kamur^ Príncipe de Alguns Estados da Tartari4» 

A Sociedade, que em semelhantes dias procura nada esquecer-lhe a 
fim de os solenisar com a pompa que merecem, mandou petos mais há- 
beis Artistas doesta Capital desenhar e gravar huma chapa para Cartazes, 
de semelhantes funcçoes : «s suas Allegorias são bem lisongeiras á Nação; 
e espera-se que esta conheça os esforços que a mesma Sociedade faz, 
para testemunhar-lhe o seu reconhecimento, e o amor aos seus Augustos 
Soberanos.» 

O cartaz não menciona o anno em que teve logar este 
espectáculo, mas deve t^r sido em 1810 ou 181 1, porque a 
sociedade estabelecida no theatro da Rua dos Condes, sob a 
direcção de Manuel Baptista de Paula, começou a funccionar 
em dezembro de 1809, e passou para o theatro de S. Carlos 
em fevereiro de 181 2. 

N'este tempo estava Baldi officialmente considerado na 
mesma cathegoria que Marcos Portugal e os dois outros mes- 
tres mais antigos, Leal Moreira e Franchi Leal ; umas folhas 
de pagamento da Patriarchal relativas ao anno de 18 10, 
mencionam estes quatro mestres com o ordenado de 5o:oao 
réis mensaes cada um. 

Baldi continuava escrevendo alternadamente para o thea- 
tro e para a egreja, sempre com applausos. Na Bioliotheca da 
Ajuda existem, autographas, algumas das partituras que elle 
fez para a capella da Bemposta, e n'ellas se encontram as 
datas da época em que mais e melhor trabalhou, começando 
tio anno cie 1801. Partituras que teem data são: cMissa a 
quatro vozes, 1801 ; Responsorios para as matinas de S. Mi- 
ffuel, 1806; Te-Deum^ 1808; Responsorios para as matinas do 
Coração de Jesus, 1808; Responsorios para as matinas do 
Natcl, 181 1. Sem data, existem na mesma Bibliotheca as par- 
tituras seguintes: Responsorios para as matinas da Conceição; 
Psalmos de vésperas; Symphonia para orchestra; Credo. No 
cartório do sr. D. Fernando de Sousa Coutinho, onde existem 
composições de Baldi, ha as seguintes partimras autographas : 
Missa do ]^arquez de Borba (que já mencionei), i8o3; Lingua 
benedicta^ motete a Santo António, para duas vozes a órgão, 
18 14; Miserere, a três vozes e órgão, 1804; Setenarío das 
dores de Nossa Senhora, 1812; Ladainha, 1812. O mesmo 
cartório contém o seguinte curioso autographo: wHymno pa- 
triótico Ao Ex*''*** Snr, Duque de Cidad de Rodrigo Marquez 
de Torres Vedras, Marechal General^ Conde de Wellington 

88 



feito por Henrique Pedro; e posto por musica pelo Capitão 
João José Baldi/ Compositor aa Camará de S. A. R. Mestre 
de musica do Real Seminário Patriarchal, e Organista da 
Real Capella da Bemposta, anno de 1812.1 A composição con- 
siste Q*uma aría. para soprano e coro. Pelo titulo se vê que 
Baldi contribuiu também com o seu tributo de sangue para a 
defeza da pátria, pois que tinha o posto de capitão, provavel- 
mente das milícias, levantadas e organísadas por Beresford. 
Nos cartórios da Sé de Lisboa e de Évora, tamocm ha grande 
Quantidade de musica de Baldi, mas só 'são antographas as 
Guas missas de 1789 existentes na Sé de Lisboa, (íomo acima 
disse. Entre as suas melhores partituras aue eu possuo, cita- 
rei uma grande missa não inferior á do Marquez de Borba ; 
particularmente o Domine DeuSy é um trecho primoroso que 
merece toda a attenção: consiste n*um concertante a sete vo- 
zes — dois sopranos, contralto, dois tenores e dois baixos — 
escripto rigorosamente em harmonia e sete partes reaes, com 
uma mae^a absolutamente superior. Se hoje se executasse, 
não só produziria seguramente magnifico eífeito, mas até cau- 
saria surpreza nas pessoas que ignoram como antigamente se 
escrevia musica concertante para vozes. 

O Cum Saneio Spiritu da mesma missa, é uma fuga tam- 
bém magistralmente escripta. De resto, o estylo fugato abunda 
na musica religiosa de Baldi. 

Nos livros de coro que existem hoje ainda na livraria de 
Mafra, ha, entre muitas obras de outros compositores, uma 
missa e alguns psalmos feitos por Baldi ; todas as musicas con« 
tidas n*estes livros são a oito vozes de homens, divididas em 
dois coros, sem acompanhamento, estylo palestriniano. 

O trabalho d'este notável musico portuguez não se tor- 
nou mais numeroso, nem elle mesmo cnegou a obter a cele- 
bridade que só Marcos teve a fortuna de gosar, porque viveu 
n'uma época extremamente calamitosa para Portugal e teve 
uma vida muito curta, fallecendo apenas com 46 annos. O seu 
valor, porém, era de primeira ordem, e em nada desmerecia 
confrontado com o de seu mestre Leal Moreira, ou mesmo 
com o de seu rival mais feliz Marcos Portugal. À vantagem 
d*este seria unicamente uma certa largueza de idéas, largueza 
namralmente adquirida pela residência em Itália. 

João José Baldi falleceu de uma apoplexia em 18 de maio 
de 1816. Foi sepultado no chão da própria ermida do Res- 

Íate, onde ainda hoje se canta a sua novena. Deixou viuva, 
K lieocadia de Paula Baldi, três filhos — Carlos Frederico, 
João Plácido, José Maria — e uma 61ha, D. Maria José Baldi. 
O filho mais novo, José Maria Baldi, seguiu a carreira das ar- 

89 



mas e o ffanido constitucional, adquirínáo nome na guerra ci- 
vil e chegando á mais elevjada cathegoria militar. Não sei por- 
fue, o seu áppellido figura com o / latino mudado em^ grego. 
;sta mudança de letra seria feita com o fim dfe fazer suppor 
o general Baldf^ descendente de algum heroe da Grécia? A 
vaidade humana de tudo é capaz. 

JReíT^timteí fFranciscoji Na falta de outras noticias so- 
bre este musico, transcrevo fielmente a que dá Barbosa Ma- 
chado : ' . 

o Fr. Francisco Baptista natural de Villa de Campo-mayor na Pro- 
víncia do Alem te jo. Religiosa professo dos Eremitas de Santo Agostinho, 
ç .d^scipulo- na Faculdade de Musica do grande Mestre António. Pinheiro 
de cu [a escola sahio tão perito, c]ue çxercitou o lugar de Mestre no seu 
t:onventò de Córdova. Compoz diversas obras Musicas, em que mostrou 
a profundidade da sua sciencia, as quaes se conservãU na Bibliotheca Real 
dn Musica, como- consta do seu Index impresso em Lisboa pór Pedro 
Cracsbeck. 649. 4. grande.» 

, (Bibli. Lus., tomo If, pag. 11 3.) 

Com efFeito, 'no catalogo da livraria de musica mandado 
fazer por D. João IV, encontram-se mencionados dez villan- 
cicos compostos por fr. Francisco Baptista ; são todos com a 
letra em hespanhol, a njaior parte para as festas do Natal, es- 
criptos para uma, duas, três, quatro e até oito vozes. 

' Da sua «profunda sciencia musical» é qiie não posso fa- 
zor nem dar idéa alguma, porque d*aquellas obras não existe 
hoje talvez o menor resquício ; os elogios de Barbosa Machar 
do também aão podem ser tomados ao pé da letra, porque 
esses elogios constituem uma espécie de floreio rhetorico, que 
o auctor da Bibliothcca Luzitana emprega inscientemente sem- 
pre que lhe fallecem noticias mais circumstanciadas 

Ilaptista,/D'a;7CÍsco Xavier). Cravista e organista que 
viveu cm Lisboa na segunda metade do século XVIII. Foi au- 
ctor de uma coUecção de musicas para cravo, curiosa hoje co- 
mo exemplar bibliographico por ter sido um dos primeiros 
ensaios de musica estampada que se fez em Lisboa ; tem o se- 
guinte titulo: nDodoci Sonate^ Vai^ia:^ione, Minuelti per Cem- 
balo Stainpaii a spese degU Sig/^ assinanti Composti Da Frau- 
cesco ZãP.^ Battista Maestro e Compositore di Musica. Opera L 
— SctílpJ^ da Francesco D. MUcent, — Stampati da Francesco 
A//' " Lisbona. — Vcndese na Loge do d.^" Estampador no 
fim da Rua do Paceio.» Esta obra de três Franciscos, não 
fionra a memoria de nenhum d'elles. 

Níi Bibliotheca NacionaI.de Lisboa existem dois livros ma- 
nyscripto3. contendo um^^.. considerável quantidade .deimusicas 



■*v.^ *• 



patsi cravo, entre èllas duas de Xavier Bapcista ; na dó priínííi 
ró vtJume, qae è mais importante e não deixa de ter algum 
valor,-lê-se o seguinte titulo: uTocata per Cembalo. Del Sig/ 
Francisco Xavier Baptista^ Alie Dome: 1765». A do segundo 
vòliime está assim designada: «Sonata para Cravo por asr. 
Francisco Xavier Baptista,! Uma folha separada b tambent 
manuscripta contem umMinuetto^ do mesmo compositor. 

Existe e^ualménte na mencionada Bibliothcca a partitura 
autographa de um motete a quatro vozes e órgão, composi- 
ção jde Xavier Baptista; tem indicada a data de 1766; 

. Encontrei o seii nome nos documentos da irmandade de 
Santa Cecilia, com a clas^ficação de primeiro organista da 
Basílica de Santa Maria, e com a assignatura no livro de qH^ 
tradas feita em 14 de fevereiro de 1761. '■''■ 

Por ultimo mencionarei que o Jorncd de Modinhas publi- 
cado pelo gravador Milcent inseriu um duetto do mesmo Ba- 
ptista, cuja letra começa: «He somente a minha vida sempre 
penar e sofrer.» ^ . 

Nenhuma das obras - referidas dão indicio 'de que o seu 
auctor fosse musico de grande fôlego. 

Uai*ba.i*a. (D. Maria). Y. Oi Af a,i*ia Ba.i*^ 

Barbieri (Francisco AsenjoJ. Não é para esite livro a 
biographia de unia.dUs mais puras e brilhantes glorias da arte 
hespanhola, um dos mais activos fundadores da zarzuelaj o 
inspirado auctor do Jugar. CQm fuego^ Diablo. en el poder, e. 
tantas outras obras primas da musica nacional em Hespanha ; 
o sábio bibliographo que transcreveu e ahnotou o Cancionero 
dei si^o XVI^ a sua ultima e mais valiosa obra, Asenjo Bar- 
bieri, tem muito importante logar na historia geral da musica 
para que a'este Diccionario, consagrado especialmente á arte 
ponugueza^ se possa dar o desenvolvimento que a sua bio- 
graphia exige. Por isso me referirei unicamente á sua curta 
estada em Lisboa, em 1879, onde veiu para dirigir os concer- 
tos clássicos, porque esse facto tem especial valor para nós. 
Nó artigo biographico de Josephina Amann (v. ^maiiii),, 
ficou apontada a causa qué obrigou os principaes músicos de 
Lisboa, membros da «Associação Musica J24 de Junho», a em-» 
prchendcrem a realisação de concertos symphonicos. Ainda 
Ebo Amann não havia fe^to a sua proposta de parceria, como 
também narrei, quando se tinha )á projectado convidar Bar- 
bieri para vir a Lisboa dirigir concertos clássicos. Este mestre,^ 
havia sido o iniciador eni Madrid dos primeiros concertos a 
grande orchestra que ali sè derará-.e que originaram a socier 
dadç artistici'pi;gai)isad|L dctó^^ da qual foi 
' --.-•- - ^ ^^^ 



cite também o primeiro director; o êxito d-essa sociedade ani- 
mava os músicos portuguew», qtK apesar de se terem Uçado 
com Amann^ de boa ou má vontade, aspiravam a empreben- 
dimentos mais sérios e mais artisticos. Com efFeito. a corres- 
respondencia com Barbicri encetou-se, e este manifestou logo 
ião grande enihusiasmo pelo projecto, que formulou a sua 
proposta nos termos mais favoráveis que se poderia desejar. 
Mas a época em que estava disponivel é que não podia ser 
demoradaj e o inflamado mestre apresentou-se em Ljsboa — 
de motu próprio ou porque alguém sem auctorisação lhe es- 
creveu para que viesse — justamente quando os chamados con- 
certos viennenses estavam em actividade; a Associação teve 
de acceitar o facto consumado, e tratou de cortar os concertos 
dirigidos por Josephína Amann, para o que teve de satisfazer 
ás exigências do empresário consócio, exigências que consisti- 
ram simplesmente em elle se abotoar com o producto total dos 
concertos realísados, que tinham sido nove. Diga-se em honra 
dos nossos aníscas: apezar de se encontrarem nas mais precá- 
rias circumstancías, nem por um niomonto hesitaram em abando- 
nar totalmente algum lucro pecuniário que lhes coubesse pelo 
trabalho etfectuaao até áquclle momento, trabalho que abran- 
geu o período de quasi dois mezes. O sacrifício pela arte foi 
completo, e para maior merecimento ficou ignorado do pu- 
blico, porque o interessado teve a cautella de não divulgar o 
seu bom negocio. Outra circumstancia que ficou também 
ignorada, foi um amador de musica, João da Cruz Oliveira, 
amigo dedicado dos artistas mas inimigo de assoalhar favores, 
ter em segredo abonado gratuitamente os fundos necessários 
para as despezas, fundos que, como bem se pôde suppôr, os 
pobres empresários não possiiiam. 

Encetou-se pois o trabalho dos ensaios sob a direcção de 
Barbieri, trabalho que foi muito árduo porque a orchestra, 
embora contivesse artistas de primeira plana, tinha também 
elementos muito fracos^ e em geral não estava habituada ás 
minnciosidades de uma execução esmerada nem ao estylo es- 
pecial da musica clássica. 

Os concertos realisados, que foram cinco, tiveram os se- 
guintes programmas : 

!,• concerte, — Domingo, 6 de abril de 1879, á i hora da tarde. — 
I,* parte: i.» Abertura do «Preyschutr», de Weoer. — 2.« «Andante» da 
quarta íymphonia, Mendelssohn. — 3.» «Marcha Turca», Mozart. — ».• 
parte : «Symphonia em dó menor», Beeihoven. — 3." parte : i> «Tercei- 
ra Dansa dos fachos», Meyerber. — 2.^ «Andante» do quartetto op. 76 
(Hymno Austríaco), Haydn.— 3.» Marcha do «Tannhauser»^ Wagner. 
2.* concerto, — Domingo, 20 de abril, á t hora e meia da tarde. — 
93 



!.• parte: i.® «Terceira Dansa dos fachos».' — a.*» «Hymno Austriaco». — 
3.* Abertura da opera «As alegres comadres de Windsor», de Nícolai. — 
2.* parte: «Symphoaia Pastoral», Beetboven. — - 3.* parte: !.• «Marcha 
Turca». — »•• «Andante» da quarta symphonia. — 3.* Abertura do «Freys- 
chuu». 

3.* concerto "— Domingo, 37 de abril, á 1 hora e meta da tarde. — 
!.•' parte : 1.*» Abal-tora da opera «Oberon», de Weber. — a.» «Andante 
com vsiiações» da symphonta em dó, de Haydn. — 3.^ «fintreacto e' Dan- 
ça das Bachantes» da opera Philemon et Baucis^ de Gounod.-- 2.* parte : 
«Symphonia em dó menor». — 3.* parte: t."* «As alegres comadres de 
Windsor^-:'— 2.* «Andante» da quarta symphonia. — 3.» «5cA«rfo em si 
menor», de Glinka. 

4.<» concerto. — Quarta-fetra, 3o de abril, ás 8 horas da noite.— i.* 
parte : 1.® «Dansa dos fachos» — 2."» «Andante com variações» da sympho- 
nia em dó. — 3.* «Dansa das Bacchantes» . — 2." parte: «Symphonta Pas- 
toral».— 3." parte: !.• « Sc/ítfrf o», de Glinka.— 2. • «Hymno Austríaco». 
—3.» «Marcha Turca». 

Ultimo concerto.— Sexta- feira, 16 de maio, as 9 horas da noite, sen- 
do o producto offerecido pelo maestro e peta orchestra aos pensionistas 
do Montepio Philarroonico e á Associação- de Nossa Senhora dos Affli- 
ctos. — I.* parte: i.« «Freyschutz». — 2.* «Dansa Macabra», poenoa sym- 
phonico por C. Saint-Saens. — 3.« «Marcha Turca». — 2.* parte : «Sym- 
phonia Pastoral». — 3.* parte: 1.® «Dansa das Bachantes». — 2.* «Hymno 
Austríaco». — 3.* «Alegres comadres de Windsor». 

O êxito d'estes concertos foi extraordinário, affluindo a 
elles, com um enthusiasmo não commum, a primeira socie- 
dade de Lisboa. A imprensa não prodigalisou por essa occa- 
sião os seus elogios, porque tinha tomado o partido do mais 
forte seguindo os interesses do empresário de S. Carlos ; mas 
no anno seguinte, em que a Associação voltou para aquelle 
theatro, não faltaram encómios aos concenos dirigidos então 
por Colonne. . 

Barbieri recebeu muitas provas de estima, sendo extre^ 
mamentc festejado e obsequiado : a orchestra^ apezar das tris- 
tes circumstancias em que se achava a maioria aos seus mem- 
bros, mandou cunhar u.na medalha de oiro que offereceu ao 
illustre mestre, e nomeou-o presidente honorário da Associa- 
ção Musica 24 de Junho, mandando desenhar em pergaminho 
o respectivo diploma que ficou um primoroso trabalho de ca* 
ligrapnia ; el-rei D. Luiz agraciou-o com o grau de official de 
S. Thiago ; emfim, outros brindes lhe foram offerecidos, além 
das attenções e carinhos que as pessoas de maior considera- 
ção lhe tributavam. 

O mestre pela sua parte também se mostrou cavalheiro 
sununamente grato : offereceu á Associação as partes d*orches- 
tra de todas as symphonias de Beethoven, as quaes ellc tinha 
trazido comsigo e constituíam uma excellente e valiosa coUec* 
ção, e quando se despediu enviou a seguinte carta : 

93 



«Mis qn&Êridos amigo» : Ao* terminar nuestí'a prime ra série de con- 
certo*, seria yo injusto e ingrato, si no htciera constar nai satisfaccion por 
los resultados artísticos alcanzaios. : :.....' _ 

Estosfio considero de gran transcendência -y p>orque si con poços en- 
sayos, y otros inconvenientes que se oponian á la marcha tranquila de 
nuestros tràbajos hemos llegado á obtener tan tavorable acogida de los 
artistas y dei publico, no hay duda ya de que en adelante^ si seguimos, çs- - 
tudiando com verdadero amor eK Arte, , conseguiremos ver á este' toa»ar 
en Portugal el desarrolo y la imjiortaficia que tiene en los países mas ade- 
lantados. 

A este fín se:IIegará sin duda;.p.or(|ue se hasta: ^liora los profesores 
portugueses no habian cultivado convenientemente la m^usica ciásica, no 
era porque caiteoiesen de las disposiciones necessárias para ello, sino por- 
que andaban di>persos, sin ua centro ai que pudieran converger las íuerr 
zas de todos^ 

Yo confíeso que ai aceptarla invitation que.ustedesme hicíeran de 
ser su director, lo hice con cierta desconfianza; pêro ai esperimentar des- 
pués el entusiasmo, y la buena disciplina con que la Asociacion se sugetó 
á mis humildes consejos,. no dudé ya dei êxito, que los hechps han veni- 
do á patentixar. 

Muy^gran ha sido la gloria que han alc^nsado ustedes, debida princi- 
palmente á sus talentos artísticos y á sua aplicacion constante; pues aun- 
que las obras dasicas requíeren todavia una ejecutíon mas perfecta, sia ' 
embargo, me complazco en dejar consignado que esa Asociacion ha Jbdo 
mucho mas allá ae lo que habia prometido ai público en su programa, 
puesto que en este consignaba tan solo la idea de hacer una espécie de 
ehsayo, por eí çual pudierá çomprendèr-^e lo que. vale la musica de los 
grandes maastros dei género cÍásico,.y ustedes, en general han ido mifcho 
mas^allá do qiíe To prometieron,,y, particularmente, algunas obras la han 
eiç^utado de un modo muy notable yrcercano á la perfeccien. Sea una y 
mil veces en hora* bucna \ - , . 

Pero he dicho antes que yo pecaria de ingrato si no hablara de.ello; 
y lo secia eh efecto, porque á laentusiasta aplicationy á la amabilidad die 
todos ustedes deoo un de los mas grandes triunfos que lie alcanzado en 
mi vida artística, viendome aqui obsequiado, aplaudido e condecorado de 
un modo muy superior á mis merecimientos (st es que algo mereciere); y 
no satisfecha esa Asociacion con haber sido el principal instrumento de 
ml gloria, todavia me ha honrado inás, nombrandome su Presidente ho- 
nerario^ y regalandome una preciosa medalla de oro commemorativa, 
comprada coii el producto de sus Ímprobos tràbajos articticos. 

Para significar' mi agradeci miento por tan preciados favores y tan ' 
exquisitas pruèbas de carino, ho alio palabras bastantes ;- pero en cambio . 
siénto en mi corazon vibrar las cuerdas dei entusiasmo,'y juro que nunca 
olvidaré lo que, por ustedes, debo á S. M. el Rey de Portugal y su Real 
familia y ai publico de Lisboa, que tanto nos han .favorecido. 

, Sin embargo, en médio de nuestra alegria no hay que olvidar ni un 
instante que todo se lo debemos á los grandes Compositores, cuyas obras' 
estamos obligados á interpretar bien. 

Entretanto, y ya que me es forzoso volver á Madrid, di^^ense uste- 
des- adcUitir -todas las partes de orquestra de la$ nueve sinfonias deKgran 
Beethoven, que regalo a esa Asociacion, para que sirvan debaseá nues- 
tros fiituròs tràbajos, y como recuerdo carinoso de este su afectisímo 
Smigo y compafièro, que se despide de ustedes todos y cada unó con un 
fuar te. apertou de manos y coíi la frase familiar portuguesa, aíé logo, 

Lisboa, 18 de Mayo de 1879.^ > . ^ i _ . • 

Francisco A. Barbieri. 

94 



Gomo se deprèhende d'esta carta, o primitivo projecJto dos 
concertos dirigidos por Barbieri tinha sido de^continual-os to- 
dos os annos ; porém no anno seguinte, quando os directores 
da Associação escreveram ao mestre pêdindo-lhe o cumpri- 
rnento da sua promessa, elle escusou-se áU.egando raz5es fi- 
nanceiras. 

Os concertos repetiram-se em iSSi e 1882, dirigidos por 
Eduardo Colonrie^obtendo um grande êxito; em 188Í houve' 
uma serie de quatro dirigidos por Dalmau, em i885 outra di- 
rigida por'Breton, e em 1887 outra mais importante dirigida. 
por Eme&to RudoríF, na qual se realisaram aez conc<írtos de 
assignatura e dois extraordinários. Ainda cm 1888 veiu um 
director ' aissâz medíocre realisap a ultima serie, com um resul-' 
tado lastimoso a todos os respeitos. / - 

E assim acabou este emprehendimento tão artistico ^ tão 
louvável, que deu uma excellente reputação aos artistas por— 
tuguezes, e que estes, talvez por falta de coragem ou de boa 
direcção, estultamente abandonaram. Fez-lhes muita falta um 
artista de grande coração e muito respeito. Augusto Neuparth 
(V. ]Veiipartli). 

Barbieri falleceu em Madrid a 19 de fevereiro de 1894. 
Poucas horas antes de fallecer deu uma ultima é solemne pro- 
va da sua graqde dedicação pela arte, dictando o seu testa- 
mento no qual legou á Bibliotheca Nacional de Madrid todos 
os seus livros. Foi um legado muito valioso, porque o illustre 
mestre era enthusiasta bibliographo.e tinha conseguido reunir 
numerosíssimos e raros exemplares da bibliographia . musi- - 
cal. 

JBai^bosa. [A^resJ-. Erudito litterato, especialmente hei- ^ 
tenista e latinista, que floresceu entre os séculos XV e XVI. Ó ! 
seu nome figura nas biographias de músicos, por ter sido au- 
ctor de uma obra intitulaaa «Epometria», em que trata da* 

geração dos sons. Foi publicada em Sevilha, no anno de i520. 
Lesidiu em Itália alguns annos, ouvindo em Florença as [içpes 
de Angelo Policiano, e leccionou depois. em Salamanca; no 
seu regresso a Portugal, el-rei D. Manuel nomeou-o mestre 
dos dois infantes seus filhos, D. AfFonso* e D. Henrique. 

Falleceu em Aveiro, terra da sua naturalidade, em 18 de 
julho de i53o. 

Como nas obras que publicou, o seu nomie próprio figu- 
rava com a forma italiana Artas^ é sob- essa forma que esse 
nome apparece nas biographias feitas pelos escriptores es- ; 
trangeiros. 

JBa.rbosa, [Ltu^ Antónia). V. HieitaLo f Lmj^ António 
Barbosa). 

95 



^ 



B&rea, (Francisco i Diz d'elle Barbosa Machado na «Bi- 
bltotheca Lusitana», toino II, pag. ii5: 

«Frmncis:o Barca n itural da cidade de Évora e Freyre da Militar 
Ordem de S, Thla^o, que professou ení as mãos do Prior Mór D. Jorge 
de Mello^* no Real Convénio de Palmella a 26 de dezembro de i635. 

Foi in^jgne professor ãc musica, sendo mestre de capelia do seu con- 
vento e depois do Hospital Reai de Todos os Santos d*esu corte onde 
morreo* As suas obras musicaes se guardão na Bib, Real da Musica.^ 

Percorrendo o ^ilndei» da livraria de musica de D. João 
IV, que foi a origem da referencia de Machado, só ali encon- 
trei duas composições de Francisco Barca; são dois viilancicos 
do Natal, um em hespanhol : Paxaritos ParleroSy a três e a 
cinco vozes ; ouíro em portuguez : Tende amor mão nelkj a 
solo e a oito vozes, O primeiro está mencionado a pagina 
262, e o segundo a pagina 264. 

]Barra.das (João Va^J. V. IMiorato. 

Barros (João de). Este grande mestre da lingua por- 
tugueza era entendido amador qe musica. Em duas das suas 
obras encontram-se umas referencias a esta arte, que são bas- 
tante interessantes para citar e explicar. 

Uma d'essas obras é o cDialogo em louvor da nossa lin- 
guagem», referindo-se á musica no ponto em que trata de de- 
monsu^ar as dlíTerenças da entoação e rythmo que existem nas 
principaes línguas neo-latinas ; o dialogo é entre o pae e seu 
filho, que no mencionado ponto dizem assim, (transcrevo em 
ortographia moderna para mais fácil comprehensão) : 

«Pae. . . E o signal onde $e isto mais claro v6, é na musica, que na- 
turalmente acerca de cada naçio, segue o modo da fala : linguagem gra- 
ve, musica grave e sentida. 

Filho. — D'ahi viria logo o provérbio que diz : hespanhoes choram, 
italianos uivam, francezes cantam. 

P.^Bem adequaste o provérbio; e ainda que não seja para a lin- 
guagem, verdadeiramente assim o podes ter na musica. Porque a prola- 
ção e ar que temos da linguagem aiíFerente das outras nações, temos no 
modo de cantar, ca muy estranha compostura é a francesa e italiaoa á 
hespanhol a, e as guinadas e diminuição que fazem no cantar, fazeoa na 
prolaçSo è accento da fala<» 

(Pag. 220 da 2.* edi^.) 

Vê se claramente que João de Barros quer encontrar uma 
analogia entre o caracter da musica e o da linguagem de cada 
paiz, idéa que o raciocinio recebe com facilidade; mas para 
quem ignora a historia da arte musical e só avalia essa arte 
pelo estado em q^ue ella se encontra hoje nos diversos paizes, 
deverá parecer iniusta a preferencia da musica franceza e hes- 
96 




panhola sobre a italiana', e principalmente o desprezo com que 
esta é tratada: ^italianos uivam». 

Para escfarecer este curioso ponto darei a seguinte resu- 
mida noticia. 

O contraponto, sabido das condições barbaras em que foi 
creado na Edade media, teve primeiramente o seu maior des- 
envolvimento no paiz de Flandres, d*onde sahíram os maiores 
mestres mensuralistas para èi\sinarcni a sua arte em toda a 
Europa. Um dos mais celebres foi Jean OcReghem, que du- 
rante a segunda metade do século XV occupou o car^o de mes- 
tre da capella dos reis de França. Seu discípulo Josqum des Prés 
ultrapas90u-o em celebridade, levando a arte do contraponto a 
uma perfeição até ali desconhecida. As obras dos mestres fla- 
mengos tornaram-se modelos que todos os contrapontistas da 
França, Hespanha e Itália procuraram imitar, creando-se as- 
sim a denominada escola niamenga ou franco-belga, escola 
mãe da arte musical no primeiro período da Renascença. Só. 
DO século XVII é que Palestrina conseguiu offuscal* a, come- 
çando então o advento da musica italiana que, até esse ponto, 
não tinha valor. 

O estylo flamengo adquiriu em Hespanha um caracter es« 
pecial, que se distinguiu pela melodia mais animada e expres- 
siva, contrastando com a modulação secca dos modelos imi-. 
tados. 

João de Barros trabalhou no meiado do século XVI, isto 
é, justamente na época cm que o nome de Josquin resoava 
com egual admiração em todos os paizes da Europa. Em Por- 
tugal, hão só esse nome se encontra algumas vezes mencio- 
nado pelos escriptores, mas até o poeta António Prestes fez 
d'elle um epitheto : 

«... Musicas são 

As mais graves, 

Mais josquinas^ mais suaves.» 

A^ora, é necessário notar que a Flandres estava sob o 
domínio da França, por isso, quando Barros se refere á mu- 
sica dos francezes, tem principalmente em vista os mestres 
flamengos, como bem se reconhece por citar os nomes de 
Ockeghem e Josquin, nos trechos que abaixo transcreverei. 

Fica assim explicada a rasão porque o grande mestre da 
língua portugueza classificou lisongciramente a musica fran^ 
ceza e hespanhola, tratando com átsçvAo a itali^ma. 

Ho mesmo «Dialogo em louvor da nossa linguagem», e 
logo algumas linhas adiante do trecho que deixei transcripto 
encontra se o seguinte período: 

FOL. 7 97 



BA. 

«...Foi o Virgílio naquelle seu livro (a nEneida»), como n'estes 
nossos tempos o Queguem em a compostura da musica : todaUs excel- 
lentes consonancias achou, depois Josc^uin e outros compoedores que 
vieram, sobre ellas fizeram sua diminuição e contraponto.» (Pag. 221 e 

222)* 

O Quedem, a quem Barros se refere, não é outro senão 
Jean Ockeghein. Duas affirmativas egualmente interessantes se 
encontram n 'este período: primeira, a comparação da influencia 
que teve o auctor da «Eneida» sobre a linguagem latina, com a 
que exerceu o mestre dos contraponiistas flamengos sobre a mu- 
sica do seu tempo; segunda, que foi Josquin oes Prés o imi- 
tador de Ockeghem mais notável e mais conhecido entre nós, 
pois que de outros compoedores não cita os nomes. 

A primeira affirmativa, tão lisongeira que parece exage- 
rada, prova a estima de Barros pela arte musical; a segunda, 
que a historia confirma, prova os seus conhecimentos a esse 
respeito. 

A outra obra de João de Barros em que se encontra uma 
referencia importante á musica, é a «Ropica Pnefma», espé- 
cie de allegoria moral em forma de dialogo, travado entre o 
Tempo, o Entendimento, a Vontade e a Razão. N'um ponto 
em que esta ultima expõe os conhecimentos humanos, diz 
assim : 

t^Em a theoria da musica, que trata de numero comparado, passei as 
três consonfínctas simples: diapasão que entra em proporção dupla; dia- 
pente em s^squrãltera ; diatesarão em sesquitercia com todalas suas vozes 
e intervaUo», tons e semitons, maiores e menores, com que faço obras e 
composiuras mais excellentes que as do Qaegjem (sic. Reguem) e Jos- 
quin : poraue elles compõem somente ao modo francez, e eu em italiano 
e hespanhol, que é mais saudoso.» 

Aqui temos uma ligeira allusão á theoria dos intervallos, 
tal como a ensinavam os mensuralistas da Edade-media e Re- 
nascença; por esta allusão mostra o nosso grammatico e his- 
toriador, que era entendido na techníca da musica. Menciona 
também os nomes de Ockeghem e Josquin, para nos dizer 
que o «o modo hespanhol é mais saudoso», isto é, mais ex- 
pressivo ou apaixonado o que é verdade em relação á época. 
Também no panegyrico da infanta D. Maria, filha de el- 
rei D- Manuel, puDlicaao nas t Noticias de Portugal» por Se- 
verino de Faria, tece João de Barros os maiores encómios á 
musica, com enthusiasmo que bem mostra ser-lhe muita grata 
esta arte. Emfim outra? pequenas referencias se encontram na 
«Grammaticas, que não vale a pena transcrever, mas que si- 
gnificam a mesma inclinação para a musica. 

João de Barros nasceu em 1495 e falleceu em 1570. 
98 



J3ai*kí (Domingos^ em it. Domenicol. Cantor italiano 
que veiu para Lisboa ao serviço da Patriarchal, antes de 1764 
pois que o seu nome figura no compromisso da irmandade de 
Santa Cecilia feito n'estc anno (v, -áLvoíidano) ; no livro 
de cobrança da mesma irmandade, o nome de Domingos 
Barzi tem esta nota relativa ao anno de 1783 : «Foi-se para 
Itália». 

Compoz muita musica religiosa, da qual restam alguns 
exemplares manuscriptos no cartório da Sé e na Bibliotneca 
Nacional. 

Bastos {Manuel PaíHcio de). Compositor e organista. 
Nasceu em Setúbal nos fins do século XVIII, e tendo em pe- 
queno estudado os primeiros rudimentos de musica na sua ci- 
dade natal, como tivesse boa voi de soprano foi admittido no 
seminário da Patriarchal, onde completou os estudos. Em 1825 
era já organista supranumerário na Basilica de Santa Maria 
Maior (antiga Sé, que então estava separada da Patriarchal), 
logar em que algum tempo depois se tornou effectivo e occu- 
pou até fallecer. 

Compoz muita musica de egrcja, toda no- estylo italiano e 
theatral, imitando as árias e peças concertantes das operas mais 
applaudidas no seu tempo, a ponto de empregar extensos re- 
ciiativos e brilhantes cabaletias, exactamente como no theatro. 
Este deplorável systema, que Bastos não foi o primeiro nem o 
ultimo a empregar, tem sua desculpa úo uso estabelecido, e 
no mau gosto de quem superintende nas coisas de egreja. 

Bastos tinha certa habilidade mas nenhuma intuição ar* 
tistica; compunha pela obrigação de fornecer musica para as 
festividades que o incumbiam de dirigir, e procurava satisfazer 
os festeiros aprêsentando-lhcs musica apparatosa e extensa. As 
suas composições eram banaes e sem o menor valor. 

Manuel Patricio de Bastos organisou uma irmandade com- 
posta de músicos dissidentes da irmandade de Santa Cecilia, 
collocando-a sob o patrocínio de Santa Isabel, pelo que os seus 
membros foram alcunhados de isabelões. Os isabelões c ctch 
lianoSy ou irmãos de Santa Cecilia, guerrearam-se encarniça- 
damente até que os primeiros foram vencidos, dissolvendo-sc 
a sua irmandade. Bastos morreu em Lisboa, da febre amarel- 
la, em 29 de julho de. i83(). 

Bastos (Padre José Maria-. Irmão do precedente. 
Era organista na egreja dos Martyres, c passava por ter maior 
scicncia technica do que o irmão ; mas não se dedicou muito 
a compor, e as poucas obras que deixou não são hoje conhe- 
cidas, assim como nunca foram muito estimadas. 

99 



BB 

Era todavia um sacerdote respeitável c muito considerado, 
passando também por bom organista. 

llelarmino (Fr, Manuel Gaspar). V. Oaspar. 

iOelem (Fr. António de). D'este musico também nada 
mais consegui ainda saber além da notícia dada por Barbosa 
Machado que é a seguinte : 

«Fr António de Belem natural da cidade Évora. Recebeo o habito da 
Religião de São Jeronymo no Convento do Espinheiro a a^ de Janeiro de 
1641 onde foy Prior no anno de 1667. No Seminário da Cathedral da sua 
pátria se applicou ao estudo da Musica, e sahiu tão consumado 'n*esta 
luavissima arte, que a exercitou por largo espaço de annos no Real Con- 
vento d« Belem occupando os ministérios de Vigário de Coro e Mes- 
tre da Capella. Foy dos celebres Compositores de Musica do seu tempo 
cujas obras merecerão as estimaçoens assim dos domésticos, como dos 
estranhos. Não foy menos estimável pela observância do seu instituto do 
qual era tão zeloso que nunca permetia nelle a menor relaxação. Cheyo 
de annos, e merecimentos passou a melhor vida no Real Convento de 
Belem a 3 de Março de 1700. 

Compoz : 

Livro de Responsoríos para todas as Festas da primeira Classe de 
Estante que hoje se cantão no Real Convento de Belem, obra de grande 
estudo e primor. 

Psalmos a 4, 5 e 6 choros para as Festas de Christo, e da Senhora. 

Missa a 4j a 6 e 8 vo^es. 

Lamentações da Semana Santa a quatro e 6 vozes. 

Misereres a 3 Choros. 

Oração de Jeremias a 4 vozes de grande devoção, e suavidade. 

Liçoens do Officio dé Defunctos a 4 e 8 vozes. 

Vúhancicos para todas as Festividades. 

Todas estas obras se conservam no Real Convento de Belem, e 
algumas na Bib. Real de Musica». 

(^ibL Lus.y vol. I. pag. 218 e 219.) 

Quando Barbosa Machado falia na Bibliotheca Real de 
Musica, refere-se geralmente ao catalogo de D. Jo5o IV, que 
em muitos casos foi o seu guia único; todavia é de advertir 
que d'csta vez encontrou fonte, porque o nome de Fr. Antó- 
nio de Bslem não apparece n'aquelle catalogo. 

E' provável também que na relação das obras d'este com- 
positor, acima transcripta, Barbosa se enganasse quando es- 
creveu choros^ devendo talvez escrever po^es^ porque compo- 
sições a 4, 5 e 6 coros (24 vozes), não são coisas triviaes para 
serem assim mencionadas de envolta com outras. 

Quanto ás obras que existiam no convento de Belem, 
desappareceram por completo; foram devastadas vandalica- 
mente em i835. 

Belem (Fr. Jerot^^mo de). Natural da villa de Arcos 
de Val-dc-Vcz, onde nasceu no anno de 1692. 
100 



Este escriptor franciscano, bibliothecario do convento de 
Xabregas e auctor da «Cbronica Seraphica da Santa Província 
dos Algarves», publicou também um livro intitulado «Excel- 
lencias da Mulher Forte ...» com o pseudonymo de Fortu- 
nato Lopes de Oliveira. Este livro não é mais do que uma 
simples novena de Santa Ânna. Innocencio da Silva no cDíc- 
çLonario Bibliographico» menciona-o e cita as duas edições 

Jue elle teve, assim como Barbosa Machado na «Biblíotheca 
.usitana», mas o que nem um nem outro dizem é que junta- 
mente com a sobredita novena se imprimiu a musica que 
n'ella se devia cantar. Existe na Bibkotheca Nacional um 
exemplar d'essa musica, cuja frontespicio diz assim: c Preces 
que se devem cantar nos dias da novena, e festa da Mulher 
íorte, a desposada mais casta, a Estéril mais fecunda, a May 
da mesma graça Maria Santíssima, e Avó segundo a Natureza 
humana de Jesus Christo a Senhora Santa Anna. — Dado á 
estampa por Fortunato Lopes de Oliveira. — Lisboa Occidental 
na Nova Oãicina Joaquiniana de Musica, de Bernardo Fernan 
des Gayo, 1733.» 3 volumes in-4.° tendo cada um mais de 5o 
paginas. Estes três volumes contecm as partes separadas para 
soprano, contralto e baixo, de toda a musica da novena, sendo 
uns trechos em cantochão e outros em musica rythmica. Verifi- 
quei, pondo um fragmento em partitura, que foi escripta só para 
aquellas três vozes, e por consequência se a obra não está com- 
pleta apenas lhe faltará o acompanhamento de baixo cifrado para 
órgão, c<HDO era uso da época, falta que não é muito sensível 
para se conhecer o valor da obra. E' musica fácil, simples e 
bem escripta ; não se lhe nota o caracter theatral que em época 
posterior evadiu a musica religiosa, e de que tanto se abusou, 

1)elo contrario está inspirada n'um estylo antigo muito simi- 
hante ao de Palestrina. A impressão é feita com typos mo- 
veis, de forma redonda e não em losango, o que n'aquelle 
tempo era novidade. 

O nome do auctor da musica não se patenteia, nem 
mesmo no pequeno prefacio que vem reproiJuzido nos três 
volumes, mas por isso mesmo não será descabido suppor que 
o próprio chronista fr. Jeronymo de Belém fosse curioso cul- 
tor da arte musical, e tivesse composto a musica para a no- 
vena de que tão devotamente fizera a prosa e alguns versos. 
Tendo elle occultado o seu nome, trocado por um pseudo- 
n)rmo no volume do texto, para admirar não é que suppri- 
misse um e outro^nos volumes da musica. 

Sello fJoão FradessoJ. Organista e compositor, que 
tendo estudado no Seminário Patriarchal, foi estabelecer-se 
na ilha da Madeira, onde falleceu em 1861. As suas obras só 

161 



foram conhecidas n*aquella ilha; em Lisboa, ainda não obtive 
o conhecimento de que exista uma única. . 

Por isso do seu merecimento nada posso dizer. 

Benavente [Domingos José Lui:^ de SaníAnnaJ. 
Mestre de capella na Sé de Lisboa e professor de solfejo no 
Conservatório. Nasceu em Lisboa, e entrando para moço de 
coro da Sé em 182& ahi apprendeu musica com o mestre de 
capella Gomes Pincetti. Tendo adquirido na edade adulta uma 
sofirivel voz de falsete, e sendo hábil cantor, entrou n'esta 
qualidade para a mesma cathedral onde apprendcra, e foi suc- 
cessLvamente promovido a segundo c primeiro mestre de ca- 
pella. D'este ultimo cargo tomou posse nps fins de 1862, por 
morte de Casimiro. 

Benavente tinha um caracter benévolo c paciente que 
lhe dava certa vantageni no ensino; numerosos rapgizes que 
com elle apprenderam na aula da Sé, tornaram-se bons mú- 
sicos práticos. 

Tendo a reforma do Conservatório, em 1868, creado uma 
nova aula de «Solfejo preparatório de canto» foi o logar de 
professor d'essa aula posto a concurso. O bonacheirão e des- 
ambícioso mestre de capella nem por sombras pensava em 
concorrer a esse logar; todavia um amigo, José Maria Chris- 
tiano, de tal modo o incitou a isso, animando-o com os em- 
penhos e influencias de que dispunha, que elle foi. Escudava-o 
principalmente a protecção do deão da Sé, D. José de La- 
cerda, protecção que n*esse momento era de primeira força 
por estar no governo o bispo de Vizeu, Alves Martins, seu 
amigo intimo, e que promptamente se interessou no caso. 
Eram artistas incontestavelmente de maior valor que Bena- 
vente, os seus competidores n'esse concurso; dois principal- 
mente, ainda hoje vivos. Rio de Carvalho e Alfredo Gazut, 
são bem conhecidos pelo seu mérito. No emtanto o jury, sub- 
serviente como de costume, deu a maioria dos votos ao pro- 
tegido do ministro, que assim se tornou em professor do Con- 
vatorio. O decreto que o nomeou tem a data de 2 de junho 
de 1869. 

Nenhum outro facto digno de nota ha a registar na vida 
profissional de Domingos Benavente, que se extmguiu em 3i 
de maio de 1876. 

Bei*iia*l [Affonso Pereira ou PereaJ. Lente de musica 
na Universidade de Coimbra, durante a segunda metade do 
século XVL Foi nomeado para este logar por provisão de 29 
maio de i653, tomando posse em 16 de julho do mesmo 
anno; os documentos universatarios que o mencionam, desi- 
gnam-n'o apenas com o nome c cognome de Affonso Perea 

102 



BE 

ou Pereira. Falleceu em principio de outubro de lôgS, sendo 
seu successor Pedro Correia, despachado em 3 de outubro de 

«594.0 

Accrescentou a «Arte de cantochão do padre João Mar- 
tins», obra aue teve grande voga na península durante quasi 
todo o século XVI e ainda princípios do XVII, publicando-se 
numerosas edições tanto em hespanhol eomo em portuguez. 
Da «Arte» do padre Martins accrescentada por Bernal, existe 
um exemplar na bibliotheca de Évora, dizendo assim o seu 
frontespicio : 

«Arte de Canto-chão, posta & reduzida em sua inteira perfeição se- 
gundo a pratica delle, muito necessária pêra todo Sacerdote, & pessoas 
que hão de saber catar; & a que mais se osn em toda a Christandade. Vai 
em cada hua das regras seu exemplo apontado, com as intoações. Orde 
nada por João Martínz facerdote. Acrecentada de nouo em as entoações 
de cousas- muito necessárias por Afonso Perea sendo Cathedratico de 
Musica na Vniuersidade de Coimbra. Com licença impressa por António 
de Barreira impressor dei Rey N. S. Anno de 1597.» 

No tim da obra originalmente feita por Martins, vem o 
accrescentamento feito por Bernal, a folhai 18 verso, onde 
SC lê: 

«Seguem-se alguas cousas muito necessárias acrescentadas nesta 
Arte por Afonso Perea Bernal, sendo lente de Musica na Univer&idade.» 

O exemplar que a bibliotheca de Évora possue é de uma 
reedição, por que a licença para se imprimir diz assim: 

Conforme o poder, que da mesa geral da sancta Inquisição se co • 
mete, dou licença a António de Barreira, que possa tornar a imprimir a 
Arte do Canto chão: visto não ter cousa algua cõtra a fee, & bõs costu- 
mes: & auer sido jn impressa com licença do Sancto Officio. Em 28 de 
Março de i5gj.» 

Como se vê pelo confronto das datas, esta reedição foi 
posthuma, pois que se publicou em 1^07, ao passo que Ber- 
nal falleceu em ibgi. O «Diccionario Bibiiographico» de Irino- 
cencio da Silva, citando este livro no artigo «João Martins» 
do «Supplemento», transformou o nome de AlFonso Pereira 
em Alonso Perez. 

Parece que as filhas d'este lente da Universidade ficaram 
em precárias circumstancias, porque fizeram uma petição que 



( i) Th. Brtga, «Historúi da Línivenidtde de Coimbrã >« tomo 2/ pag. 82o. 

to3 



teve o seguinte despacho, transcripto no «Registo das Provi- 
s5es« antes da reforma da Universidade, tomo 2.% folio 248. 

*LXXX rs, (80^000) de mcrce as f.«« de Afonso Perea mestre de 

Musica. 

Eu eíRey como protector que sou da V. (Universidade) de Coim- 
bra, faço saber a vos Rect^r deputa Jos e conselheiros da dica V.e q auendo 
respeiío sz informações q destes acerca do q as filhas de Afonso Pereira 
lente q foi de musica n^es^a V.e me enviarão diser por sua petição e visto 
o parecer dos d^^putaJos ao despacho da mesa de consciência, e ordes ei 
por bem e me prai f^^er mercê aas filhas do dito Afonso Pereira de du- 
lentos cru Ea dos por esia vez soomt.c aa custa da renda da dita V.e pelo 
que vos mando que Ih^s façais fazer pagamento dos ditos duzentos cru- 
zados nas ditas renJas posto que este não passe pela chancellaria. Gl." 
Nunes o fez em Lx.* a bj (6) de Outubro de MDLXXXXIII. Fernão Maré- 
cos Botelho o fez escrever. Rey.» (*) 

O sr, Sousa Viíerho, baseando-se na forma castelhana 
Gom que no livro apparece o segundo nome d'este musico, 
típerea», opina que elle fosse hespanhol; mas diversas razões 
tornam esta opinião em muito vaga hypothese: !.•. o mesmo 
segundo nome encontra se nos documentos da Universidade 
sob a forma portugueza «Pereira»; 2.% o nome próprio: con- 
serva sempre a mesma forma «Affonso», e nunca se apresen- 
ta em castelhano «Alonso»; 3.% o livro que elle traduziu e 
accresccntou em lingua portugueza, era originalmente escripto 
em hespanhot, e por conseguinte ter-lhe-hia sido mais com- 
modo conscrval-o n^essa linguagem se fosse a sua, tanto mais 
que ella era corrente entre nos n'aquella época, e o próprio 
livro estava muito vulgarisado na sua forma primitiva. 

Creio pois que este Affonso Pereira Bernal era legitima- 
mente ponuguez, podendo também suppor-se que os ascen- 
dentes é que tivessem vindo de Gastella, conservando por isso 
o tí Perea» como^ indicio da origem. 

^Berqia^' (D. Rodrig) Maria). Filho do marquez áz 
Cantagallo D. João Maria da Gama de Freitas Berquó, nasceu 
em Lisboa no dia i de janeiro de 1839. 

Este illustre engenheiro e benemérito humanitário era 
também illustrado c enthusiasta amador de musica. Na sua 
mocidade, desejando tomar parte activa nas orchestras de ama- 
dores que então se organisavam com frequência, Já constituin- 
do academias já realisando festas religiosas, apprendeu a tocar 
clarinette CQm um musico militar de regular merecimento, cha- 



(i)SoutA'^Nt<rbOf ^Artn t Artistas P^rtuguezesH, pag. 201. 
104 



mado José Osternold, irmão do compositor Mathras Jacob Os- 
ternold. 

Adquiriu n'este instrumento a suficiente execução para 
reaiisar os seus desejos de musico executante, mas ao mesmo 
tempo apparecendo-lhe a vo2 de baritono, que lhe pareceu 
merecedora de ser cultivada, dedícou-se ao estudo do canto, 
dando lições coní o sopranista Joaquim Ferreira d'Almeida, o 
Ferreiriíiha^ aue era um bom mestre educado na antiga esco- 
la da Patriarcnal. 

D. Rodrigo Berquó, dotado de singular vocação musical, 
em pouco tempo se tornou excellente cantor, com uma voz 
potente e vibrante, da qual se servia com arte e sentimento. 

Do seu mérito de engenheiro não cabe aqui dar noticia, 
bastando recordar que foi elte quem planeou e dirigiu a cons- 
tri|cção do estabelecimento de banhos th^rmaes das Caldas de 
Felgueiras e a transformação do hospital das Caldas da Rai- 
nha, além de vários palácios de notável archítectura. 

Também é um dever tributar homenagem á sua dedica- 
ção humanitária, largamente provada na administração do hos- 
pital das Caldas, onde consummiu os ultimo annos da sua exis- 
tência activa^ enérgica e illustrada em proporcionar todos os 
confortos possíveis aos doentes, ricos e pobres, que procuram 
n'aquelle estabelecimento um remédio para os seus soffri- 
mentos. 

Extinguiu-se em 17 de março de 1896, com profunda e 
inconsolável magua de quantos o conheciam e estimavam, dei- 
xando honrada e venerada memoria. 

Pela sua inclinação para a arte musical, deve-lhe esta tam- 
bém um tributo de respeito. 

Bertozzi fJosé Caetano Marcos). Organista e profes- 
sor de piano estimado em Lisboa, um dos últimos discípulos 
mais dístinctos do Seminário Patriarchal. Em i5 de janeiro de 
1819, ^ inspector d'este instituto propunha uma p2quena gra- 
tificação para o seminarista Bertozzi, nos seguintes iisongeuos 
termos : 

«A José Caetano Bertoni, seminarista, em attenção ao rápido pro- 
gresso dos seus estudos, e ao auxilio que já presta nas aulas ao^ mestres 
de musica suppríndo o íogar de substituto que occupava Fortunato Maz- 
ziotti, o ordenado de seis mil réis por mez, com o encargo do dito loíçar 
de substituto na forma do que o tiveram outros seminaristas seus ante- 
passados.» 

(Registo particular da correspondência de monsenhor 
José Joaquim Barba AUndo de Menezes, Inspector 
do Seminário Patriarchal de Lisboa, em officio para 
o ministro em i5 de Janeiro de 1819). 

io5 



BO 

Estudou contraponto com Leal Moreira até que este mes- 
tre fallcceuj em 1819, continuando depois as lições com Antó- 
nio José Soares. A este respeito é também curiosa a seguinte 
informação que encontrei na citada correspondência: 

n. . . pelo assíduo e zeloso exercício que o Soares tem feito nas li- 
ções dos seminaristas, teem estes conseguido um notável adiantamento no 
tocar Ê aconnpanhar, e, principalmente um que se applica ao contraponto, 
para cujas lições tira elle Soares do seu descanço horas separadas a fim 
de não privar as lições dos outros seminaristas do muito tempo que cos- 
tumam ter as lições de contraponto, e fallam^o da mesma matéria em que 
V. S.^ tem tanto conhecimento de causa, offereço como prova mais con- 
vincente do que tenho dito, o curso das lições de contraponto que elle 
tt^m dado ao discípulo Bertozzi, das quaes vão separadas as que este ha- 
via dado ao Mestre Leal aíim de se conhecer se ellas tem ou não o neces- 
sário fundamento de sciencia, e se elle segue ou não o systema e doutri- 
na do Mestre fallecido.» 

o 

(Idenr», carta dirigida ao cónego Manuel Wenceslau de 
Sousa em 18 de junho de 1820). 

Bértoz^i entrou para organista da Patriarchal em 1825, 
pretinchendo o logar que ficou vago por morte dç Simão Por- 
tugíiU conservou este logar até 1834, mas tendo as medidas 
do governo constitucional desannexado a Patriarchal da Real 
Capella, fazendo-a voltar para a antiga Sé, e como ali não po- 
diam ser recebidos todos os empregados porque os havia pró- 
prios, Bertozzi e a quasi totalidade dos seus companheiros, 
cantores e organistas, foram brutalmente lançados á margem. 
O nosso seminarista valeu-se do seu mérito, dedicando-se a 
dar lições de piano, e em breve se tornou professor muito 
hem conceituado e com boa clientela. 

Faitcccu em outubro de iSBj. 

Havia também um cantor da Patriarchal chamado Fran- 
cisco Bertozzi, que não sei se era pae ou irmão de José Cae- 
tano Benozzi. 

BeB&on (Gabriel Dias). V. ]3iAgi« 

Boa jVIorte (D. Francisco da). Cónego regular no 
convento de S. Vicente de Fora, onde exercia as funções de 
organista, no principio do século actual. Possuo d'elle umas 
aVariações do Lânaum da Monroe», composição para piano 
mais interessante pelo thema do que pelo trabalho do compo- 
sitor; tem a data de i8o5 e pertencia ao cartório do orga- 
nista conimbricense João José Borges. Creio que o seu auctor 
esteve também em Coinlbra, talvez como organista de Santa 
Cruz, visto ser cónego de Santo Agostinho. N'uns estudos 
históricos sobre o theatro em Coimbra, publicados por Joaquim 
Martins de Carvalho no Jornal O Conimbricense (1876), descre- 



vendo umí^ recitas* n*um theatro particular n'aquclla cidade 
em 1826, diz que a orcliestra era regida por «D. Francisco da 
Boa Morte, lente de musica na Universidade e mestre de ca- 
pclla na Sé». O sr. Theophilo Braga na aHistoria do Roman- 
tismo cm Portugal», repete esta noticia. 

Ora n'essa época, quem exercia aquelles logares era 
D. Francisco de Paula Azevedo (v. o respectivo artigo), co- 
mo, na falta de outros documentos, m'o provam as partituras 
autographas que possuo, nas quaes elle mesmo se intitula 
mestre da capella da Cathedral e lente de musica da Univer- 
sidade, assignando-se com o nome tal como eu o transcrevi. 
Encontra-se esse mesmo nome no Almanach Portuguez d;j 
1826. Creio que n'este caso houve um lapso de memoria da 
pane do illustre director do Conimbricense, o que é fácil de 
succeder a quem durante longos annos se occupou de tantos 
c tão diversos assumptos, soccorrendo-se muitas vezes apenas 
das suas recordações pessoaes. 

Bo Aventura* fFt\ Francisco de São), V. Saio 
Boa^^eixtura*. 

Boccanera (Eugénio Bartholomeu), Cantor italiano da 
Patriarchal, no principio doeste século* Não ficou memoria do 
seu mérito artistico, senão do seu zelo politico pela causa de 
D. Miguel, e das suas tendências litterarías, aliás mal escuda- 
das em fraca instrucção. 

Dedicando-se a escrever sobre politica, o tiple da Patriar- 
chal fez imprimir um folheio com este titulo: «Voz da verdade 
aos portuguezes por Eugénio Bartholomeu Boccanera, Italiano 
de Nação.— Lisboa, na impressão Regia. i83i.» In 4.® 

Consta esta «Voz da verdade» de doze cartas em defesa 
da causa realista, tendo cada carta 8 paginas, excepto as duas 
ultimas, que teem 12. 

Boccanera fez também imprimir, no mesmo anno de i83i, 
■Dous Sonetos offerecidos ás valorosas tropas de Sua Mages- 
tade Fidelissima», e em 1829 uma «Composição Poética Ita- 
liana, com traducção portugueza». Para se formar idéa do es- 
tro poético d'este cantor, basta ler a seguinte quadra com que 
abra e sua composição : 

«Do grande Miguel eu quero 
Hoje as Proezas narrar, 
E dos luzos valorosos 
A dita e gloria cantar.» 

Nem o «Diccionario Bibliographico» de Innoconcio^ nem 
o respectivo tSupplemento» do sr. Brito Aranha, mencionam 
estas publicações de Eugénio Boccanera. 

107 



Bom Sixecesso (António José Pereira). Medíocre 

compositor de musica religiosa, que viveu nos fins do século 
XVllL Existem varias pequenas partituras d'este auctor nos 
cartórios das cathcdraes de Lisboa e Évora, bem como na bi- 
blioihcca da Ajuda. N'esta ha a partitura de uma missa a qua- 
tro vozes com a data de 1796. 

Kom tempo (João Domingos). Depois de Marcos Por- 
tugal^ nenhum dus nossos músicos logrou maior fama europea 
do que Domingos Bomtempo, o insigne pianista e compositor 
que Paris e Londres applaudiram calorosamente. 

São todavia bem magras e eivadas de erros, as noticias 
que até aqui se teem dado sobre a sua vida e trabalhos. Lon- 
ga e porfiosa investigação me teem cu?tado os elementos que 
tenho podido reunir para dar á biographia de Bomtempo o 
desenvolvimento condigno do seu valor, biographia que apesar 
de não ser tão completa como eu desejava, contém informa- 
ções de summo interesse para a historia da musica portugué- 
za, e rectificam documentalmente os erros até aqui commctti- 
dos c propalados. 

Domingos Bomtempo era filho de um musico italiano, 
Francisco Savcrio Buontempo, que veiu para Portugal, como 
muitos outros na sua época, ao serviço de el-rei D. José L 
Como tambcm fizeram outros italianos, aportuguezou o nome, 
passando a chnniãr-se Francisco Xavier Bomtempo Todavia 
nos estatuios da irmandade de Santa Cecilia feitos em 1^65 
(v. A^voTidaiio) figura o mesmo nome com a forma ita- 
liana, d'onde se poderá concluir que a sua residência em Por- 
tugal seria recente n'esse anno. 

Do na sei memo de Domingos Bomtempo diz Fétis ter suc- 
ccdido em 1771, Innocendo da Silva em 1776, e a própria fa- 
mília , de quem recebi as mais preciosas informações, tinha 
apontada uma data incorrecta. A que deu Innocencio da Silva 
no «Diccionario Bibliographico», tomo III, pag. 363, é a exa- 
cta, como prova o documento authentico que obtive graças á 
obscquíosidade do illustre parocho do Loreto, o sr. Peragallo, 
cujos serviços as letras portuguezas são bem conhecidos. Diz 
assim o documento, cujo original conservo : 

«Eu abaixo assjgnado, certifico que no livro 3.^ do Registro dos Ba- 
ptismos admíni^irados n'esta egreja de Nossa Senhora do Loreto, se acha 
4 folha [33 o nssemo seguinte : 

kAos vime e hum dias do me* de Janeiro de* mil settecentos e se- 
tenta e seis annos., cu^ o P. João Francisco Delfim, Parocho n'esta Igreja 
de Nossa Senhora do Loreto, Parochial da nação Italiana n*esta cidade de 
Lk.', bi^pfzei e pu^ os santos óleos a João Domingos, que nasceu aos 
vinte e outo dias do mez de Dezembro próximo do anno passado, filho de 
Franc.^ó X.^f Bomtempo, natural e baptisado na Freg.* de N. Snr." dellin- 
id8 



DICCJONARJO BIOGRAPHICO 

DE MÚSICOS PORTUGUEZES 






""Sf;< 



p 




João f)oii\inéo^ 8omteir\po 



Copia de gravura antiga 



VoL. 1 — Folha 7 



BO 

conavetere, da cidade de Foggia, do Reyno de Nápoles, e de sua moiher 
Maríanna da Svlva Bomtetnpo, natural e baptisada na Freg.* de S.U C.na do 
Monte Sinay aesta cidade de Lx.*, e recebidos na Irtnida de N. Snr." dos 
Praieres, Freg.* que então era de SM Izabel, e hoje do Saçr.° Salvador, 
pello R do Parocho da sobred.' Freg.* de Santa C.na António Carlos dOliv.» 
com licença do Emni.<» Sr. Cardeal Patriarcha de Lx.* D. Franc.<]o de Sal- 
danha; e moradores na rua larga de S. Roque, Freg.* do Sant.T»^^ Sacra- 
mento desta Cidade de Lx.*. Foi Padrinho Diogo José Barbosa e npaJrinha 
sua filha D. Anna Joaq.oa de Barbosa, por seu procurador José Caetano 
de Lima. 

Padre João Franc.co Delfim, Parocho do Loretto. 

E nada mais continha o assento a que me reporto. 

Lisboa, Archivo Lauretano, 22 de Maio de 1896. 

Prospero L. Peragallo, Parocho do Loreto.» 

Temos pois, como indubitável, que João Domingos Bom- 
tempo nasceu em Lisboa aos 28 de dezembro de ij/S. 

Estudou musica desde a infância, muito provavelmente 
debaixo da direcção paterna, pois que apprendeu o mesmo 
instrumento em que o pae era especialista, o oboé, estudando 
também piano e contraponto com os mestres do Seminário 
Patriarchal, a nossa antiga e exccllcnte escola d'onde tanto» 
músicos notáveis sahiram. 

Não tinha ainda chegado aos 14 annos quando foi admit- 
tído na irmandade de Santa Cecília, cujo livro de entradas tem 
o seu nome inscripto com a data de 9 de julho de 1789; estí 
allí classificado como «cantor da Bemposta», indubitavelmente 
soprano porque n'aquella edade não podia ter outra voz. 

Francisco Xavier Bomtempo era primeiro oboé da Real 
Camará, gosando de grande consideração não só como bom 
musico, mas também como respeitável chefe de numerosa fa- 
mília, solicito em educar dez filhos, dos quaes quatro eram ra- 
pazes. Falleceu a 8 de Agosto de 1793, dizendo assim o res- 
pectivo assento lançado no registro aos óbitos da freguezia do 
Sacramento : 

«Aos outo dias do mes de agosto de 1705 anãos n*esta Fg.' do San- 
tíssimo Sacramento de Lisboa faleceu á^ viia presente sem sicramentos 
e repentinamente Francisco Xavier Bo Dtempo cisado com M irianna da 
Silva Bomtempo moradora na raa larga de São Roque foi a seoultar no 
seguinte dia a Igreja de N. S.* do Loretto no districto desta F^.* e por 
verdade firme assignei:— O thesoureiro Domingos Gonçalves Figueira.» 

A familia Bomtempo compunha-se n'essa época dos se- 
guintes membros, como também consta do rol da mesma fre- 
guezia : 

Francisco Xavier Bomtempo. 

Marianna da Silva Bomtempo, mulher. 

Isabel da Silva Bomtempo, filha. 

100 



r 



Margarida do Carmo Bomteiiipo, filha. 

António Caetano Bonncmpo, tilho. 

João Domingos Bomtempo, filho. 

Maria Nícolína Bomiempo, filha. 

Anna Ephigenia Bomtempo, filha. 

Miguel Bonitempo, lilho. 

Marianna líomtcmpo, filha. 

Maria Francisca Bomiempo, filha. 

Joanna ^ António, criados. 

Havia outro filho, José Maria Bomtempo, nascido em i b 
do Agosto de 1774, e portanto mais velho um anno que seu 
irmSo João Domingos, o qual veiu a ser medico muito dis- 
tincto e physico mór na corte do Rio de Janeiro, onde se es- 
tabeleceu em 1808; o nome d'este não figura no rol que 
acima transcrevi, porque provavelmente estaria por esse tempo 
esiuiando ainda cm Coimbra. 

Fallecido o chefe da familia, ficou esta cm circumstancias 
pouco prosperas, valendolhe a protecção regia ; o filho do 
musico, que então contava apenas vinte annos, foi logo no- 
meado para o logar do pae, primeiro oboé da Orchestra Real, 
tomando d*ahi em diante o encargo de sustentar sua mãe c 
irmãs, encargo que desempenhou constantemente com exem- 
plar dedicação. 

Também o irmão mais velho, o estudante de medicina, 
recebeu o inHuxo protector do Paço, porque em 1798 foi des- 
pachado physico mór de Angola com que encetou a sua car- 
reira, tornada brilhante mais tarde. 

João Dommgos Bomtempo, achando se na edçide dos dc- 
vaneioíi, vendo o exemplo de Marcos Portugal, que se achava 
então em Jtalía c começava a dar brado, sentiu também ir- 
resisiivel desejo de correr mundo em busca de gloria e for- 
tuna. 

Em 1801, aproveitando o momento de tranquillidade po- 
litica produzida pela paz de Badajoz assignada entre Portugal, 
Hcspanha e França, partiu para este ultimo paiz levando com- 
sigo |- arcos recursos mas largas esperanças alimentadas pela 
ambição dos vinte e seis annos. Segundo uma tradicção que 
SC conserva na familia, Bomtempo sahiu de Lisboa possuindo 
apenas duas peças de oiro e uma carta de recommenção es- 
cripta pelo primeiro barão do Sobral, Gerard Wenceslau 
Braamcamp. 

N'esse mesmo anno havia sido nomeado ministro de Por- 
tugal cm França, D. José Maria de Sousa, o celebre morgado 
Matheus que d sua custa mandou imprimir a magnifica edição 
dos Lusíadas conhecida por esse nome. O morgado Matheus 

no 



era, como se sabe, esclarecido protector das letras e das artes ; 
alem d*isso havia então em Paris uma numerosa colónia de 
portuguezes, entre os quaes se achavam alguns emigrados 
políticos que se haviam deixado seduzir pelos princípios revo- 
lucionários. O decano d'elles era o poeta clássico Francisco 
Manuel do Nascimento. 

Encontrou-se portanto o aventuroso musico entre ami- 
gos, que lhe facilitaram relações e meios para estudar e tra- 
balhar. 

Era justamente a época em que o consulado de Bona- 
pa.te succedera ao directório republicano, transformando-se 
depois no império napoleónico ; época de reconstituição social 
c de risonhas esperanças, extremamente favorável aos artis- 
tas, que se viam festejados n^os salões parisienses, onde se 
reuniam aristocratas e burguezes, esquecendo passados ódios 
era alegre cultura do espirito. 

Bomtempo era rapaz esbelto, solida figura, feições sym- 
pathicas — bonitas mesmo — animadas pelas vivas cores de 
um temperamento robusto e sangujneo ; a sua apresentação 
era distincta c desembaraçada, accusando vontade firme e lar- 
gas aspirações. 

Com taes qualidades, um artista de natural vocação, es- 
tudioso e hábil, dedilhando no piano com extrema facilidade e 
delicado sentimento, não podia deixar de ser benevolamente 
acolhido no meio social em que se encontrou. Tenho mesmo 
diante da vista aigmas provas de que o sexo feminino foi es- 
pecialmente sensível aos seus attractivos (*). 

Pouco tempo depois de Bomtempo se achar cm Paris, 
em 1802, chegou áquella cidade o creador da moderna escola 
do piano, Muzio Glementi, acompanhado do seu discípulo 
John Field. 

A impressão causada pelo novo estylo de Glementi foi 
immensa, e o nosso pianista decerto observou e estudou com 
a maior attenção os processos d'esse estylo, porque se identi- 
ficou com elle adquirindo-o d'uma maneira completa e per- 
feita. Se n'essa occasião não recebeu directamente lições 
d^aquelle grande mestre, sem duvida alguma que soube apro- 
veitar-lhe o exemplo com summa habilidade, como nas suas 
obras evidentemente se reconhece. 



(1; o ex."^ sr. Fernando Maria Bomtempo, único filiio do Insigne pianista, teve a ex- 
trema amabilidade de me confiar um caderno onde, pelo próprio punho de aeu pae, estão regis- 
tadas copias de numerosas cartas que elle dirig;i^a a diversas pessoas ; d'es8es preciosos auto- 
grai^ios irei transcrevendo o que for mais mil á minha narrativa biographica, sem pi ejuizo da 
necessária discrecçfio. 

lII 



BO 



A primeira composição que Bomtempo pnblicou, foi uma 
sonata dedicada a D. Carlota Joaquina, mulher do que foi de- 
pois rei D. João VI, e que então era ainda príncipe ; existe 
dessa composição um exemplar na Bibliotheca da Ajuda, tendo 
o íimlo seguinte: n^Graide Sonaie pour le Piano Forte^ com- 
posée ei aediée à Sou Altesse Royale la Prmcesse de PatHu- 
^ãl, par J. D. Bomlewpo. Oeuvre //'* — A Paris. Che:ç^ Leduc. 
Editeur de Musique. 

Contém dezoito paginas de musica, e é dividida em dois 
andamentos: Allegro moderaío e Presto assai; estylo brilhante 
cm que predominam as passagens rápidas, exigindo dedos de- 
licadamente ligeiros* O segundo andamento é especialmente 
um bom trecho, escripto com esmero e facilidade. 

Depois d'esta obra primeira, foram consecutivamente pu- 
blicados: € Primeiro concerto — em mi bemol — para piano e 
orchcsira», obra 2; «Segundo concerto — em fa menor — 
para piano e orchestra», obra 3. Ambos foram impressos em 
Paris na casa Pleyel, conforme indica o catalogo da Biblio- 
theca do Conservatório de Bruxellas, onde os encontrei men- 
cionados; não consegui porém ainda ver exemplar algum. Na 
mesma época e em Paris, publicou mais, umas variações so- 
bre o «Minuete afandangado», que é a sua obra 4. D'esta, as- 
sim como do segundo concerto, diz o catalogo publicado enri 
iSití pelo «Investigador Ponuguez» (que adiante mencionarei), 
icrem sido impressas em Londres; se não houve engano na 
redacção d'aquelle catalogo, então essas obras tiveram segunda 
cdiçáo, da qual ainda não obtive outra noticia. 

Esta primeira época de residência cjn Paris, foi para o 
nosso musico o seu período de estudo e iniciação ; convivendo 
com artistas de primeira ordem, como se reconhece por alguns 
trechos das suas cartas, devia ter tirado d'ahi o máximo pro- 
veito para o seu adeantamcnto. Filippe Libon, o mais applau- 
dído violinista que então existia em França, foi seu amigo in- 
timo e com elle tocou em alguns concertos ; n'uma carta para 
outro amigo, diz assim : aJe profte de la bonne occasion du 
départ de mon ami Libon pour te dowiêr de mes nouvel- 

Também manteve relações com o grande cantor Garat. 
que n'csse tempo havia abandonado o exercicío profissional 
da arte ; d^essa^ relações encontro vestigio n'uma carta diri- 
gia a uma senhora, e que começa: nVespéralíce que Mr. 
Garat m'avait donnée de votre arrivée à Paris. . . » 



; i| Libon residiu algum tempo em Lisboa, em 1796; provavelmente datam d*esta época 
i 3uas relações com Bomtempo. 



Dos concertos públicos dados por Bomtempo em Paris, 
temos noticia authentica de um que se realisou em maio de 
1809, com o concurso de Filippe Libon; o jornal parisiense 
Le Publiciste, no numero publicado em 10 d'aquelle mez e 
anno, deu a tal respeito a seguinte noticia : ' 

«Tinha-se reunido uma numerosa e brilhante assembléa para gosar 
dos talentos de Mr. Bomtempo, e dos mais professores que se tinham 
juntado para fazer completos os prazeres doesta noite. Todos receberam 
testemunhos de satisfação do Publico ; mas Mr. Bomtempo e Mr. Libon 
tiveram a maior parte nos applausos. O toque do primeiro no piano arre- 
batou todos os suífragios por uma rapidez, uma energia na execução, por 
uma nobreza e altivez de estylo, que mui raras vezes se acham j[untos 
no mesmo grau. Jamais correram sobre o piano dedos mais ligeiros e 
mais firmes; nunca se deu ao adagio mais expressão n'am instrumento que 
parece ter negaçSo para isso. Mr. Bomtempo merece também elogios como 
compositor...» 

(Âpud «O Investigador Portuguez em Inglaterra», vol. VI, pag. 884, 
maio de ]8i3). 

Ao mesmo concerto se referiu outro jornal, Le Courrier 
de tEurope, nos seguintes termos : 

«Mr. Bomtempo é um artista celebre, e de um raro merecimento. 
Ninguém tira do piano sons mais maravilhosos do que elle. Debaixo da 
sua mão sabia, firme, atrevida, e ligeira, o teclado submisso e docíl res- 
ponde a tudo o que d'elle exige Mr. Bomtempo. Sua representação pes- 
soal, e a dos professores que elle tinha convocado para seu concerto, 
tinha excitado a attenção do Publico, e attrahido a muitidão, mesmo de- 
pois do concerto de Mr. Lahoussaie. (^) Mr. Bomtempo excedeu ainda a 
expectação dos seus ouvintes : nunca os toques do piano resoaram de 
uma maneira mais brilhante. O tocar de Mr. Bomtempo é nobre, rápido, 
cheio de calor, d*alma e de elegância ...» 

(Loc. cit.J 

N'estc anno de 1809 compoz Bomtempo a sua primeira 
symphonia para orchestra, que fez executar n'um concerto 
dado em janeiro de 1810; eis em que termos se exprime a tal 
respeito o Journal general de la r rance, publicado no dia 17 
do mesmo mez e anno: 

»0 rigor da estação não obstou a que o concerto de Mr. Bomtempo 
tivesse um numeroso e mui bem escolhido auditório. Os verdadeiros co- 
nhecedores, e os homens de boa fé, ha longo tempo teem julgado que 
Mr. Bomtempo trabalhava mais para sua gloria do que para seus interes- 
ses. Este grande artista parece ter- se occupado cuidadosamente da com- 



(1) Pedro Lahoussaie era nm violinista parisiense muito estimado e respeitado que tinha 
sido discípaio de Tartini; em 1809 estava já porém n*uma edade muito avançada e só tinha valor 
P«lo seu passado. 

FOL. 8 113 



ISO 

posição, sr.mence pnra fazer um género de musica que ainda se não acha 
na memarta e dedos de todo o mundo. Basta ter ouvido a sua primeira 
^ymnhDnia para o pôr já na ordem dos mais celebres compositores; basta 
ouvil-o executar sua própria musica no piano para julgar que ninguém 
talvez senão elle^ pode presentemente exprimir bem os eÀfeitos novos e in- 
teressantes de que elle é creador, e de que está perfeitamente senhor. Os 
que não podem ai[>da imital-o, quererão talvez fazer lhe um crime de não 
ler seguido os vestígios a que a multidão está costumada ; mas é preciso 
que se lembrem que a musica dos Haydn, Gluck, Mozart, etc. foi criticada 
até ao momento em que se estudou bastant^mente para aprecial-a em seu 
justo valor. 

Deve-se empenhar Mr. Bomtempo para que perservere, e se man- 
tenhd na estrada dos grandes homens, cuja reputação não tem sido alcan- 
çada retrogradando, e cujos talentos teem afinal sido recompensados.» 

(Loc. citj 

Escrevia se isto em Paris, n'uina época em que ali con- 
vergiam os mais celebres artistas da Europa, quando se tinha 
ouvido Muzro Gicmenti e os principaes discípulos da sua escola, 
Field, Cramer, Kalkbrenner, Dussek e M.*"* de Montgeroult. 
Ainda mesmo que se pretenda entrever, nos artigos acima 
iranscriptos, o favor dos jornalistas que os redigiram, dado o 
desconto d*cssc favor restará prova sufficientc para se acredi- 
tar que Bomtempo era realmente artista de raro mérito. Se 
não cxcedeuj pelo menos competiu com aquellas summídades 
cujas obras constituem hoje uma importante parte da livraria 
clássica do piano, 

E note-sc que não foram só aquelles os artigos publica- 
dos a respeito do nosso illustre conterrâneo; o 1 1nvestigador», 
d'onde os cxtrahi, faz a seguinte observação: «Nós seriamos 
nimiamente extensos, e por isso fastidiosos, se quizessemos 
apresentar aos nossos leitores extractos de todos os jornaes 
que tcem falado do sr. Bomtempo com os mais altos elo- 
gios. . .?> 

Creio que foi este o melhor período da vida de Bom- 
tempo; pelo menos foi aquclle em que passou mais agrada- 
vclmentCj cotno se pôde julgar pelo seguinte bilhete, que não 
é único na espécie: 

«Mon cher 

Je vous auends ce soir chez moi. J*espére que vous ne vous refu- 
serei pas â engrossir une aimable societé composée de jolies femmes et, 
a prendre une taiise de thè sans façon » 

Mas não ha bem que não se acabe, diz o rifão. 

Em quanto o pianista portuguez se fazia applaudir em 
Paris as tropas de ISIapoleão deixavam-se bater em Portugal ; 
depois da expulsão de Junot e de Souh, ia caber a vez a Mas- 

114 



sena. Entretanto os naturaes do pequeno paiz que derrotava 
os vencedores de toda a Europa, não podiam deixar de come- 
çar a serem mal vistos pelo amor próprio francez. Ao mesmo 
tempo a colónia portugucza augmentava em Londres; o nome 
porcuguez circulava em Inglaterra com admiração e sympa- 
thia, exaltando-se as virtudes do povo lusitano, que estavam 
n'esse momento sendo tão úteis aos interesses britannicos. 

N.estas circumstancias, resolveu Bomtempo trocar Paris 
por Londres, partindo para esta ultima cidade no outono de 
1810. 

Eis um carta de despedida, interessante a muitos res- 
peitos : 

«Madame 

Force par des circonstances impéríeuses à m^éloigner de Ia France, 
ie n'ai pu que regretter beaucoup ce beau Pays oú les talens ont'été si 
longtemps encouragés, et je n*oublierai jamais que j*y ai recueilii ies fa- 
veurs de la bienveiiíance et du bon ^oút. 

Parmi les personnes qui méntent les hommages de ma reconnais- 
sance, yous ocçupez le premier rang; veuillez donc bien, Madame, a^éer 
les vives expressions de ma gratitude, et vous souvenir de celui qui será 
toujours pénétré de vos bontés. 

J*ai Vhonneur, etc.» 

Em Londres foi Bomitempo excellentemente recebido ; não 
lhe faltaram protectores e amigos, tanto entre a colónia por- 
tugueza como entre as principaes familias britannicas. D'estas 
acolheuo com maior benevolência e mais intimamente, a du- 
queza de Hamilton, cuja filha foi sua discipula ; encontro no 
registo de correspondência que airáz mencionei, varias cartas 
dirigidas á duqueza, algumas das quaes terei occasião de tran- 
screver. Dos mais dedicados amigos seus patricios que Bom- 
tempo teve em Londres, destaca-se o poeta liberal, Vicente 
Pedro Nolasco da Cunha, que lhe escreveu os versos para 
a cantata «Hymno Lusitano», como adiante direi. 

E' interessante o trecho de uma carta que elle escreveu 
para Lisboa pouco depois da sua chegada a Londres, dando 
conta da impressão que lhe fizera aquella cidade; começando 
por se manifestar admirador dos costumes inglezes e do seu 
governo, passa ás considerações artísticas, exprimindo se nos 
seguintes termos : 

«J*ai trouvé une grande augmentation relativement aux Arts, et dans 
ce moment il y a une reunioa de tous les artistes de TEurope, parnculier- 
ment dans la musique. Depuis mon arrivée il y a presque tous les jours 
des concerts ; ainsi tu peux penser quel est le gout actuei de la nation, 
quoique il y ait toujours dans ces concerts des disparates^ par le choix 

"5 



^" iu 



so 

de$ morceau^ qu*on execute; cependant on les trouve toujours remplies 
et quelquefois on ne peut se procurer un billet. 

«<Je ne me porte pas si bíen qu*à Lisbonne, et cela me faít renon- 
cer à toute sorte d*interét que je pourrai avoír; ainsi lorsque j'aurai arrangé 
mes atfaires, je me disposerais à partir pour le pays oú ma santé était si, 
p arfai te. 19 

Bomtempo estabeleceu relações muito amigáveis e muito 
intimas com Muzio Clementi, que n'aquelle tempo se achava 
n*aquella cidade diriçindo a fabrica de pianos e imprensa de 
musica por cUe fundada; os sócios de Clementi, os irmãos 
Coliard, também dedicaram ao nosso pianista estreita amisade, 
traduzida por muitos favores que elle nas suas cartas confessa 
dever-lhes- 

A primeira composição authentica impressa em Londres, 
creio ter sido umas variações sobre o celebre thema de Pae- 
sietlo aNel cor piii non mi sentoyy; constitue a sua obra 6, da 
qual ainda não consegui ver exemplar algum, conhecendo-a 
acenas pela menção feita no catalogo do Investigador. 

O mesmo catalogo, que enumera todas as obras até á 1 6, 
passou em claro a que deveria ter o numero 5. Ora succede 
que na bibliotheca da Ajuda ha uma composição com este tí- 
tulo : i Elogio Aos faustosíssimos Annos da Serenissima Senho- 
ra D. Carlota Joaquina de Bourbon Princeza do Brazil Com- 
posto por J. B. e Dedicado ás Senhoras Amantes da Musica. 
— London, Printed by Clementi & Comp.y 26, Cheapside.» 
Não posso duvidar de que esta composição seja de Bomtempo, 
porque não existiu na mesma época outro compositor cujo no- 
me tivesse as mesmas iniciaes. E' talvez a sua obra 5, que foi 
excluída do catalogo pelas mesmas razões que o levaram a 
não lhe pôr o seu nome por extenso. Consiste n'uma simples 
ária e recitativo em estylo italiano, com algumas reminiscên- 
cias de Marcos, feita sobre maus versos cortezãos e alambica- 
dosj como eram de uso n'aquelle tempo. 

Fez depois imprimir a obra 7, que é o terceiro concerto, 
c a obra 8, capricho e variações sobre o hymno inglez, da 
qual possuo um exemplar e tem o seguinte titulo : aCapricio 
and Gõdsave the Kin^, jvith Vanattons, Composed & Deaicated 
(hj Permissian) to íiis Rqyal Highess the Duke of Sussex. — 
London^ Printed for the Author, by Clementi & C.® 26 Chea^ 
psie, (Capricho e Deus salve o Rei, com variações. Composto 
e dedicaao, com permissão, a sua Alteza o Duque de Sussex. 
Londres, impresso para o auctor, por Clementi & C 26 
Cheapsic) 

Publicou mais as suas primeiras «Três grandes Sonatas 

1(6 



BO 

para Piano Forte», sendo a terceira com acompanhamento de 
violino obrigado ; é a obra g. 

Entretanto depressa o nosso musico teve um magnifico 
ensejo de se pôr em brilhante evidencia perante o publico 
londrino. 

Chegara noticia que o victorioso exercito anglo luso havia 
expulsado definitivamente do território portuguez as tropas de 
Massena. Para celebrar este facto, o embaixador portuguez 
D. Domingos de Souza Coutinho, conde do Funchal, deu uma 
grande festa para a qual Bomtempo escreveu uma cantata que 
intitulou «Hymno Lusitano», poesia do douctor Nolasco da 
Cunha. Esta composição foi ouvida com um grande enthusias- 
mo, que as circumstancias da occasião ainda augmentaram, 
pela mais tina sociedade ingleza e pelo corpo diplomático es- 
trangeiro, que se juntaram para applaudir no talentoso musico 
portuguez o valor dos seus compatriotas. 

A festa celebrou ao mesmo tempo o anniversario de D. João 
\T^ porque teve logar no dia i3 de maio de i8i i, como o pró- 
prio auctor diz em uma cana. Imprimiu-se a composição, que 
tem o seguinte titulo: «Hymno Lusitano consagrado á gloria de 
Sua Alteza Real o Principc Regente, de Portugal e da Nação 
Portugueza. Musica de J. D. Bomtempo. — Op. lo. — N. B. 
A poesia he de V. P. N. da Cunha. Price L. i,io,o. (Preço 
uma libra e dez schellings). — London. PfHntedfor the Auihor 
br Clementi & C* 26 Cneapside (Londres, impresso para o au- 
ctor por Clementi e Comp.').» Contém a partitura completa 
para grande orchestra, uma voz a solo (soprano) representan- 
do o Génio Lusitano, e coro; 40 paginas de musica. A mesma 
obra foi mais tarde impressa com poesia cm italiano, outro ti- 
tulo, e reduzida para piano e canto. Diz assim o frontespicio 
d'esta outra edição : nLa Virtu Tnonjante^ Cantata, composta 
da J. Z). Bomtempo, adattata pel Piano Forte ^ dali Autore.-- 
N. B. La Poesia da G. Caravita. — Pr. 10^.6 — Op. jo. — 
London. Printed by Clementi, Banger^ Collard^ Davis, & CoU 
lardj 26, Cheapside.yi 

Consiste n'uma ária bastante desenvolvida, composta de 
diversos andamentos e recitativos, intercalada de pequenos 
coros ; na edição italiana os coros são em muito menor nume- 
ro, substítuindo-os a voz a solo. O estylo é bastante inclinado 
ao de Haydn, e absolutamente distincto do italiano vulgar. Es- 
sa distincção nota-se tanto na forma melódica como no reves- 
timento harmónico, que se pôde considerar rico e trabalhado, 
se attendermos á época em que foi escripto. 

O «Hymno Lusitano» termina com uma marcha em hon- 
ra de Wellington, marcha que o auctor arranjou para piano a 

117 






BO 

quatro mãos e publicou com este titulo: Mar eh o/Lord Wel- 
lington^ from the Lusitanian H^^mn qfJ. D, Bomtempo. .>!;'- 
ranged às a Duet/or one Piano Forte by the Author.y* 

Logo em seguida á festa dada pelo embaixador portuguez, 
c apenas alguns dias depois, Bomtempo deu um grande con- 
certo publico, no cjual fez executar pela segunda vez a sua 
nova composição. Eis a noticia d'esse concerto dada pelo Mor- 
ning Ckronicle de 6 de junho de 1811, segundo a traducçao 
do «Investigador Portuguez» : 

ttO concerto do Mr. Bomtempo excitou naturalmente grande inte- 
resse entre os verdadeiros amadores de Musica, assim pelas numerosas e 
varias compoziçoens, que elie apresentou nesta occaziao ; como também 
pelo seu conhecido e exquízito saber, como Compozitor. Suas expecta- 
ções torão preenchidas pelas obras que elle oífereceu ao Publico : e o 
inimiiavd estilo com que elle toca, o põem, sem disputa, na primeira ordem 
dos Músicos » 

H . . , seguiu-se o Hymno Luzítano composto por Mr. Bomtempo, em 
honra das Naçoens Ingleza, e Portugueza. He este huma obra, que abun- 
da em tanta variação, novidade de effeito, e delicada imaginação ; e mos- 
tra hum tRO magistral império sobre os ricos e illimitados recursos de 
huma extensa orchestra, que colloca o author entre os primeiros Profes* 
sores do seu século, etc.» 

Em seguida e pela mesma época, publicou mais as seguin- 
tes composições : arirst Grand Sympnott}^ Arranged for Tipo 
Performers on one Piano FofHe^ and dedicated to His Friend 
Mr. João da Rocha Pinto By the Author J. D. Bomtempo. — Op. 
ii.^-London^ Printed by Clementi^ Banger^ Collard, Datais & 
Coilard, 26^ Cheapside. (Primeira grande symphonia arranjada 

Íara dois executantes em um piano, e dedicada ao seu amigo 
oão da Rocha Pinto pelo auctor...). Fourth Grand Concert 
for the Piano Forte With the Additional Keys in altissimo & 
adapteJ for Insti^uments of the ordinaty construçtion^ mth 
ãccompaniments for A Full Orchestra; Composed & Dedicated 
to Mr, M. A. de Paiva, bj^J. D. Bomtempo. — Op. 12, — A^. 
B. This Concerto was perfo^^med by the Author at his Concert 
in Hanover Sauare. -Published by Clementi^ Banger, Collard^ 
Dam and Cotlard, N.^ 26, Cheapside. (Quarto grande Concer- 
to para Piano Forte que tenha as teclas addiciónaes agudíssi- 
mas, e adaptado também para os instrumentos de construcçao 
ordinária, com acompanhamento de orchestra completa ; com- 
posto c dedicado a Mr. M. A. de Paiva, por J. D. Bomtempo. 
— Obra 12. — N. B. Este concerto foi executado pelo auctor 
no seu concerto dado em Hanover Square). 

O precedente titulo carece de uma explicação : os pianos, 
na época de Bomtempo, estavam ainda no período rudimen- 
118 



BO 

tar, e a extensão do seu teclado usualmente não excedera os 
limites de cinco oitavas e meia, entre fá— ^ e dóe; essa exten- 
são elevada a seis oitavas, até fás, era ainda novidade em 1811, 
da qual o nosso pianista quiz tirar partido no seu 4.® concerto. 
Corn efifeito, n'esta composição, as passagens nas notas agu- 
dissimas são muito frequentes, excessivamente, mesmo; quan- 
do essas passagens sobem acima do dóe, uma secunda pauta 
tem a moaificação apropriada para os pianos de cinco oitavas, 
aue eram então os pianos ordinários^ como o referido titulo 
Ines chama. 

E' unia composição bastante interessante, este quarto con- 
certo, notável de difficuldade^ e brilhantismo para a época em 
que foi escripto. N'elle se encontra, com mais evidencia do 
aue nas precedentes obras, o estylo magistral de Clemcnti. 
áe lhe falta a inspiração melódica, que é o ponto fraco de 
Bomtempo, não carece de riqueza harmónica, variedade e boa 
concatenação das idéas, unidade no conjuncto, e uma factura 
superior que só pode ser obra de um musico sério e comple- 
tamente senhor da sua arte. 

As suas obras i3, 14 e i3, que todas egualmente possuo, 
como a precedente, são as seguintes: An Easy Sonata for the 
Piano Forte with Accompaniment (ad libitum) for the Violon. 
Composed and dedicated to His Pupils by J. D. Bomtempo. — 
Op. j3.—London^ Printed by Clementiy Ban^r, Collard, Davis^ 
& Collard^ 26, Cheapside. (Uma Sonata facil para Piano Forte 
com acompanhamento — á vontade — para Violino. Composta 
e dedicada aos seus discipulos. . .) 

Gr and Fantasia^ for the Piano Forte. Composed and De- 
dicated to His particular Friend F. Pinto Esq.^—Op. 14. — 
London, Printed for the Author by Clementi & Comp^, 26, 
Cheapside. (Grande Fantasia para Piano Forte. Composta e 
dedicada ao seu particular amigo, o sr. F. Pinto. . .) 

Trvo Sonatas, and A Popular Atr mth Variattons for the 
Piano Fortey with a Violon accompaniment ad lib.^ Composed 
& Dedicated to Mrs. Oom. — Op. iS. — London, Printed for 
the auihor by Clementi & Comp/ , 26^ Cheapside. (Duas Sona- 
tas c uma Ária popular com variações para Piano Forte, com 
um Violino de acompanhamento á vontade. Compostas e de- 
dicadas aos srs. Oom. . .). 

Estas obras foram publicadas até ao anno de 181 5, appro- 
ximadamente, porque toi em maio d'esse anno que o tlnves- 
tigador Portuguez» publicou o catalogo, em que são todas 
mencionadas (com excepção do n.** 5, como já' disse). 

N*essa época, julgando-se analisada a guerra napoleonica, 
entendeu o musico portuguez que era tempo de visitar o seu 

H9 



BO 

paÍ2, e tornar a ver a mãe c irmãos que muito estremecia ; 
foi certamente para lhe preparar o bom acolhimento dos seus 
compatriotas^ que o «Investigador», redigido pelo proprip ami- 
go, o dr. Vicente Nolasco, inseriu o artigo encomiástico a que 
me tenho referido, o qual começa nos seguintes termos: 

ttO nome do famoso Bomtempo he hoie mui conhecido na Europa 
culta ; mas nós não sabemos porque fatalidade na sua mesma Patría he 
que sáo menos conhecidas as suas obras, e tem tido menos consideração 
o seu grande Talento, de que a França e a Inglaterra tem feito o maior 
apreço^ e a maior, mais publica e mais alta estima. 

He por isso que para o darmos a conhecer aos nossos Nacionaes 
acabamos de publicar a libta das obras, que elle tem impresso era Ingla- 
terra ; e porque os nossos elogios ao seu mérito transcendente parecerão 
suspeitos ás pessoas que conhecem a particular amisade e admiração que 
temos por esie insigne Professor que honra a nossa Nação ; por isso va- 
mos dar curtas extractos do que d*elle tem dito, entre muitos, alguns Jor- 
naes Inglezes e Francezes, ordinanamente mesquinhos em dar elogio ao 
que não he seu, ^ -^ 

Bomtempo não veiu pordm encontrar em Lisboa um meio 
apropriado para fazer brilhar o seu talento, nem para obter 
algumas vantagens materiaes; sabe-se em que estado de pro- 
funda miséria ficou o paiz depois da guerra peninsular, e como 
a questão politica agitava todos os espiritos, para que possa 
imaginar- se como faltaria tempo e vontade para questões de 
arte. Ainda assim, teve ensejo de se apresentar uma vez no 
seu meio favorito, que era a alta sociedade. Tendo sido rein- 
tegrado no throno de Hespanha, em consequência da paz ge- 
rd, o rei Fernando VII^ resolveu o seu cônsul em Lisooa fa- 
zer uma festa diplomática em sua honra e para abrilhantal-a 
convidou o nosso pianista a compor, ensaiar e dirigir uma can- 
tata allegorica, na execução da qual tomaram parte as sobri- 
nhas e parentes do mesmo cônsul. A cantata escreve u-se, re- 
cebendo por titulo «O Annuncio da Paz», e a festa realisou- 
se em 3o de maio, dia de S. Fernando ; é suficientemente 
curiosa e característica a noticia que a tal respeito publicou a 
■ Gazeta de Lisboa», para merecer a pena de reproduzil-a in- 
tegralmente : 

aO Cônsul e Agente de S. M. C. no Reino de Portugal, D. Pascoal 
Tenório e Muscoso, querendo dar um testemunho publico do mais acri- 
solado amor pelo seu legitimo Soberano e da fidelidade, e alegria, de que 
se acha possuído pela suspirada restituição e exaltação de Sua Magestade 
o Senhor D. Fernando VII ao Throno e Soberania aas Hespanhas^ de que 
fora despojado pelo mais pérfido dos Tyrannos, oifereceo no dia 3o de 
Maio próximo passado, em que a Igreja faz commemoração de S. Fer- 
nando, o mais luzido e pomposo divertimento no Palácio da sua residen 
cia. Por esce motivo tão plausível convidou os Excellentissimos Governa- 
dores destes Reinos, e os Fidalgos da primeira grandeza, os Ezcellentissi- 
130 



BO 

mos Duque e Duquesa de Belfort, e Corpo Diplomático, os Generaes, e 
Empregados públicos de representação, assim rortuguezes como Estran- 

§eiro$, e as principaes Senhoras de Portugal e de outras Nações. — . . .A*s 
ez horas, depois* de servidos ^todos os convidados do mais delicado e 
abundante refresco, começou o divertimento por huma cantata Portugue- 
sa acompanhada de sonoros e bem afinados mstrumentos, allusiva ao as- 
sumpto, e ás felizes circumstancias da Europa, intitulada o — Annuncio 
da Paz, — ofierecida pelo Amor, e Fidelidade a Sua Magestade o Senhor 
D. Fernando Vil, composição de hum dos mais fecundos Génios Portu- 
euezes, e a musica inventada pelo insigne, e affamado Professor Português 
João Domingos Bomtempo, tendo interlocutores a Alegria, e o Valor, e 
os Povos alliados formavam os coros. Esta cantata foi recitada pelas so- 
brinhas e parentes do Cônsul Geral, dirigida pelo mesmo Professor ; e 
tanto sobresahiu a boa execução, e melodia das vozes, que merecerão ap- 

{)lauso geral de todos os circumstantes. Depois de concluída, alternou-se 
ogo com a mesma profusão o refresco, seguindo-se outra cantata com- 
posta em Italiano pelo acreditado e bem conhecido Professor Felis Radi- 
cati, dirigida pelo mesmo, e recitada por Madama Bartinoti, huma das 
melhores cantoras da Europa, é allusiva aos mesmos assumptos. (M 

Ministrado terceira ves o refresco a todos os convidados, as filhas e 
parentes do mesmo Cônsul ataviados á Hespanboia, executarão hum bem 
compassado bailete de caracter Hespanhol, figurando em grupos, e com 
pandeiros a união das Nações Alhadas ; inventado e dirigido pela mais 
destra, e perita Bailarina seria madama Le Febre. . .» 

(Gaveta de Lisboa, 6 de junho de 1814). 

O texto da cantata em honra de Fernando VII foi im- 
presso n*uma folha de duas paginas, cujo fronstepicío diz as- 
sim : «O Annuncio da Paz, cantado em dia de S. Fernando. 
O Amor e a Fidelidade o consagrão ao Augusto, Catholico, e 
Suspirado Rei das Hespanhas o Senhor D. Fernando Sétimo 
pela entrada no seu reino. — Cantores. A Alegria e o Valor. 
O Coro hc dos Povos Alliados, e a Musica do msigne Profes- 
sor Portuguez, e acreditado na Europa, João Domingos Bom- 
tempo. Na Impressão Regia, Anno 1814.» Creio ter sido esta 
cantata o gérmen de outra do mesmo género, mas com ap- 
plicação differente, da qual Bomtempo depois fez imprimir 
em Londres a partitura para piano e canto, com o seguinte 
titulo : «A Paz da Europa. Cantata. A Quatro Vozes, com 
Coros e Acompanhamento de Orehestra : ó (sic) Forte Piano 
Obrigado, Composta e ofiFerecida A Sua Alteza Real D. Pe- 
dro O Sereníssimo Príncipe Da Beira. — London. Printed for 
Clementi & C/ 26 Cheapstde. Op. 77». 

Todo o fronstepicio é preenchido com uma litographia alle- 
goríca, de bom desenho, assignada por John Vendramini. 46 



(1) Felici Radicatí, tíoUoUu e compositor iuliano, falleccu em i8a3. Soa mulber The- 
rea Beninoti era cantora dktincta. 

121 



BO 

paglnasi. E' composição mais importante e trabalhada do que 
o iHymno Lusitano», contendo aois duettos um trio, diversas 
árias e ctíros; a mesma inclinação para Haydn e affastamento 
das formas italianas. 

Esta orientação artistica de Bomtempo obrigou o a re- 
nunciar ao theatro, e sobretudo ao nosso theatro de Carlos, 
onde nunca appareceu nem creio que tentasse appareccr. O 
seu elemento era o salão de concertos, o salão elegante e/ashio- 
nable^ onde se reuniam fidalgos e diplomatas, princezas e du* 
quezas^ que nao desdenhavam, quando lhe aamiravam o in- 
contestável talento, de o olharem com satisfação. 

Viu elie cm Londres estabelecer-se com grande êxito a 
celebre « Sociedade Philarmonica», que ainda hoje existe, e foi 
fundada em 1812; tentou reproduzil-a em Lisboa, e as pri- 
meiras tentativas, que mais tarde foram coroadas com os re- 
sultados gue direi, começaram, ao que me parece, no tempo 
d*esta primeira vinda á pátria. Creio ser d'elle o seguinte an- 
núncio publicado na Ga:^eta, em 3o de setembro de 1814: 

itPretendes^ alugar huma sala em primeiro andar para servir só 
huma vez na semana á noite para uma orquestra de curiosos : quem a 
poder dispensar ddze o seu nome e morada na loja da Gazeta.» 

Mas a idéa não poude ir agora avante, e Bomtempo vol- 
veu a Londres, O «Investigador», em maio de 1816. deitou 
novo reclamo cm favor do seu protegido, publicanao a se- 
guinte noticia : 

ftj. D. Bomtempo, Portuf^uez Insigne, e universalmente conhecido 
na Europa peias suas Composições Originaes, e portentoza execução no 
Piano Forte, está fazendo imprimir em Londres a obra seguinte, que den- 
tro de poucos dias será publicada : Elementos de Musica para u^o do 
Piano Forie.» 

(O Investigador Portuguez em Inglaterra^ 
Vol. XV, n.» LIX,-maio de 1816-*- 
pag. 359,) 

Em agosto do mesmo anno sahiu outro artigo laudatorio, 
acompanhando a lista das obras com os preços em moeda por- 
tugueza; n'essa lista já não figuram algumas das obras prece- 
dentemente publicadas, o que parece significar esgotamento da 
edição. Os números excluídos, talvez por esgotados, são os 8 
c 9, alem dos r, 2 e 5, que já não figuravam no primeiro ca- 
tologo. 

Em compensação annuncia-nos que está gravada a tPri- 
meira grande Simphonia para orchestra», op, 11, impressa 
122 



BO 

primeiro pára piano a quatro mãos, como já disse), bem como 
as obras 16, 17, 18 e 19, e mais uma «Marcha Portugueza» 
e uma «Waltz», ambas para piano, sem numero de obra. 

A obra 16, é um guintetto para piano, dois violinos, viola 
e violoncello, a c^ual nao possuo nem d'ella consegui ainda vêr 
exemplar algum impresso ; vi-a porém no próprio autographo, 
que existe em poder do sr. Fernando Bomtempo. 

A obra 17, é a tPaz da Europa», atraz mencionada. 

Da obra 18 possuo um exemplar, e o seu titulo é este : 
nThree Sonatas for the Piano Forte With an Accompaniment 
for the Violm^ aalibitum^ Composed and Dedicadet to hts Friend, 
W. F. Collari, bf J. D. Bomtempo. Op. 18. London, Printed 
hy Clementi & Compy . 26, Cheapsid. — Três Sonatas para Piano 
com um acompanhamento para V^iolino, aã Ubitum^ compostas 
e dedicadas ao seu amigo, W. F. Collard. . .» 

Estas três sonatas são excellcntes composições de estylo 
clássico, que ainda hoje se ouviriam com interesse ; bem me- 
recem ellas ser consideradas a par das obras dos mais concei- 
tuados mestres do começo d'este século que seguiram na es- 
teira de Haydn escrevendo musica pura e suave, própria para 
ser apreciada nas reuniões intimas dos amadores mtelligcntes. 

mo tendo sido escriptas, como os concertos e as phanta- 
sias, para fazerem brilhar o virtuosismo dos executantes, a 
idéa principal desenvolve-se n'ellas com a maior naturalidade, 
caminhando serenamente como em ameno passeio. E' o cara- 
cter essencial que predomina nos grandes modelos creados 
pelo incomparável mestre do quartetto e da symphonia, que 
Bomtempo seguiu com bastante felicidade e maestria. 

Não são muito extensas, mas ainda assim a parte só de 
piano contém 33. paginas de musica compacta. 

Tem o n.® 19 o t Methodo de Piano», cujo titulo completo 
é este : «Elementos de Musica e methodo de tocar Piano For- 
te ; Com Exercicios em todos os Géneros, Seis lições progres- 
sivas, Trinta Prelúdios em todos os Tons, e doze Estudos, 
Obra composta e OíFerecida á Nação Porrtueza, por J.*- D. 
Bomtempo.» — 66 paginas de texto e musica. 

Os primeiros capitulos d'esta obra, tratando da theoria 
elementar, são imitados sobre o «Methodo de Piano» de Cle- 
menti, sendo o capitulo io.°, que trata dos ornamentos, uma 
reproducção completa, incluindo os próprios exemplos ; a parte 
pratica, porém, é original, se bem que cerrando muito de 
perto o estylo de Clementi, e mais ainda, o de Cramer. Sob 
o ponto de vista didáctico, é uma obra defeituosa, porque está 
graduada n'uma progressão excessivamente rápida, ímpossivcl 
de seguir mesmo pelas mais expontâneas vocações ; deve po- 

123 



so 

rém levar-sc em conta <jue a sciencia do ensino do piano es- 
tava então no seu principio, e que os grandes mestres que a 
iniciaram^ como Marprug, e os mesmos Cramer e Clementi, 
peccaram por idêntico defeito. Technicamente, são todavia 
apreciáveis as «Seis lições progressivas», e os «Doze estudos», 
como trechos de musica boa e seriamente escripta ; os três 
ultimes estudos, principalmente, teem bastante valor e ofife re- 
cém já duras dimculdades de mechanismo a vencer, com es- 
pecialidade o ultimo, cuja primeira parte é consagrada ao trillo. 
Os trillos e as oitavas, depois das escalas e arpejos. formavam 
a base do virtuosismo de Bomtempo, constituinao as fontes 
d*onde elle extrahia com summa habilidade os mais admirados 
effeitos. 

Das duas pequenas composições sem numero de obra, 
«Valsa» c «Marcha», publicadas na mesma época de i8i5 a 
1816, possuo a segunda, que é assim intitulacla: «Portasse 
Mar eh ^ Arranged for the Piano Forte, Composed&i Decbcaied 
to The Fortuguese Arm}% By Their Countryrhan J. D, Bom- 
tempo, — London Printed hyClemenii & C.® 26, Cheapside. — 
Marcha Portugucza, arranjada para piano, composta e dedi- 
cada ao exercito portuguez pelo seu compatriota J. D. Bom- 
tempo , . . » O seu valor não excede o da extensão, que abrange 
apenas duas paginas de musica, além do frontespicio. Do ti- 
tulo, collige-se ter sido originalmenie escripta sob outra forma, 
talvez para banda militar, mas não tenho a tal respeito outra 
noticia, 

A ultima lista dada pelo Investigador^ terminava por an- 
nunciar que cm breve saniriam á luz mais as obras seguintes: 
«A Opera dAlessandro in Efeso; uma Grande Fantasia para 
Piano ; Quinto grande Concerto para Piano.j^ 

Estas obras ficaram infelizmente inéditas. Da Fantasia e 
do Concerto, possue o sr. Fernando Bomtempo os autogra- 

fíhos; da opera, porém, só existem no poder do mesmo cava- 
heiro alguns fragmentos, e supponho que o próprio auctor 
nunca a concluiu, 

Bomtempo demorou-se d'esta vez em Londres pouco mais 
d 'um anno, como prova a seguinte carta, interessante também 
por nos dar noticia dos seus proventos como professor. 

«Madairô. 

Je prends la liberte de vous adresser cette lettre pour avoir l*hon- 
neur de vous présenter mes humbles respects, et vous annoncer, qu*étant 
de retour de Lisbonne depuis un an, je me vois obligé de quitter Londres 
pour quelque temps, et par consequent de faire rentrcr le peu d'argent 

qu*il m'est du* 
124 



J'ose esperer, Madame, que vous excuserez de Ia demande aue je 
suis contratnt de vous faire, de la âomme de treate sept livres sterlings, 
treize schellings, et six sous, dus avant mon départ pour le Portugal, pour 
leçons données a Mademoiselles vos filies. 

Je vous prie, Madame, de vouloir bien présenter mes respects à 
Monsieur TAmiral, à toute votre famille, etc.» 

Parece que esta viagem a Londres teve principalmente por 
iim activar a impressão das ultimas composições, das quaes 
acabo de, dar noticia, trabalho numeroso e considerável, que 
admira ter sido concluído em pouco tempo, assim como tam- 
bém é para notar que o nosso musico tivesse ao seu dispor o 
importante credito que forçosamente precisou para reahsar o 
seu emprehendímento. Avaliaremos bem a despeza que seria 
necessário fazer em mandar gravar e imprimir os centos de 

f}aginas de musica contidos nas obras atraz mencionadas, se 
evarmos em conta que estamos a oitenta annos de distancia, 
durante os quaes os progressos da industria teem diminuído 
progressivamente as difficuldades de tempo e de dinheiro. 

Com isto prova-se a bclla energia de que era dotado o 
compositor portuguez. 

Sahindo de Londres, passou elle a Paris — segundo de- 
prebendo de uma carta que )á vou mencionar — e d'ahi re- 
gressou a Lisboa. 

Cheffou aqui pelos íins de i8i6^ isto é, quando o paiz es- 
tava de luto pela morte de D. Maria I, que occorreu no Rio 
de Janeiro em março d'esse anno, recebendo-se a noticia em 
Portugal a i3 de julho. 

Eis a carta a que me referi, e que dá interessantes por- 
menores, deixando porém ignorado o nome do destinatário, 
que não posso adivinhar quem fosse : 

«Mon três cher Monsieur. 

Je vous demande mille pardons de ne pas vous avoir écrít depuis 
mon départ de Paris, mais comme i*aí été íncertaín de tout ce que je de- 
vait faire, c*est la raison pour laquelle je ne vous ait pas donné de mes 
noQvelies. Maintenant que )e suis ooligé de séjourner plus longtemps que 
je ne croiai, je vais vous faire de détailles relativement á mes aifaires. 
J'avai l*intenuon de faire le voyage de Paris dans ce móis, mais des inté- 
réts qui se sont presentes m'ont obligé a retarder mon départ, que ne pour- 
ra s*efrectuer cjiie dans auatre móis, selon mes intentions. 

Je me suis occupé ae la composition de quelques ouvrages différentes, 
que i'aurais bien envie de vous les faire entendre, aíin de recevoir votre 
approbation, pour laquelle i'ai eu toujours beaucoup de consídération. 

J'ai trouvé les Arts aans cette ville presque annéantis ; les théatres 
sont encore fermés à cause de la mort de la Keine, et ne seront ouverts 
qu'à la fin de l'année du deuille. 

11 n'7 a pas eu un seul Concert, ni aacune sorte d'amusement publi- 

125 



que \ aínsi vous devez ímagner que j'ai eu le temps pour m*occuper de 
nouvelles compositions. que je mettrai au íour dans peu. Je vous prie de 
me donner de votres nouvélles, et des aétailles au sujet dcs Arts dans 
voire ville. 

Je sui avec amitié, etc.» 

A segunda estada de Bomtempo em Lisboa não lhe foi 
mais propicia que a primeira; em 1816 Portugal não melho- 
rara de situação, e o nosso artista nenhum meio encontrou de 
aqui se estabelecer, como desejava. Quando terminou o luto 
pela Rainha tentou dar um concerto publico, promovendo para 
isso assignaturas c solicitando a protecção ae uma senhora in- 
gleza (ignoro auem fosse, esta noticia como algumas outras 
são cxtrahidas das próprias cartas); mas creio que tal concerto, 
se teve realisação, pouco productivo lhe foi. Em 18 17, o «Jor- 
nal de Bellas Artes ou Mnemosine Lusitana» publicou (n.° XXII, 
pag. 343) um artigo muito laudatorio em favor de Bomtempo, 
dando também, como o «Investigador», a lista da obras pu- 
blicadas e annunciando que se vendiam em casa do auctor, 
rua Larga de S. Roque, n.*^ 55 ; tentativa para promover a 
venda dessas obras, e obter mais alguns meios. De tal manei- 
ra os recursos lhe escasseíavam que teve de mandar uma car- 
ta para Londres, pedindo a reforma de uma letra por elle 
acccite e prestes a vencer-se; n'essa carta, provavelmente di- 
rigida a Clementi & C.*, queixa-se de não fazer interesses al- 
guns. Outra carta enviada para Londres, em 1817, dizendo 
que Lisboa se prepara sem o menor enthusiasmo para accla- 
mar D. João IV, accrescenta que também se está apromptan- 
do o navio que ha de ir á Italiá buscar a noiva ao príncipe 
D. Pedro ; mencionando qs nomes de algumas pessoas mais 
importantes da comitiva que devia embarcar, manifesta o se- 
guinte desejo bem natural n'um artista illusmdo : J'aurai bien 
roulu faire ce vqyage pour voir ritalie, parce que depuis long- 
iempsfen ai l' envie t. 

Com efifeito, a 2 de julho de 181 7, sahiu do Tejo para 
Livorno a nau «D. João IV», a fim de conduzir ao Rio de Ja- 
neiro a archiduqueza d* Áustria, D. Leopoldina, desposada do 
príncipe que mais tarde veiu a ser imperador e rei; levou a 
nau lusida comitiva, inclusive uma banda de musica da qual 
era mestre o pae de um dos nossos mais notáveis músicos 
contemporâneos, Eduardo Neuparth, mas Bomtempo não foi. 
Tinha-llie chegado o seu período de contrariedadas e desgos- 
tos. Outros maiores o esperavam. Em meiado de 1818 partiu 
novamente para Paris. 

Péssima occasião. 

Estava-se na peior época que houve em França para a 
126 



cultura das artes. O reinado de Luiz XVIII foi um período de 
constante agitação politica, fomentada pelas sociedades secretas 

aue se diviaíam e subdividiam em mil conciliábulos, guerrean- 
o-se reciprocamente com o pretexto de regenerar a pátria e 
endireitar o mundo. E' o próprio Bomtempo quem nos dirá, 
em phrases pittorescas, a vida de Paris, nos fíns de 1818. Eis 
três cartas que elle n*esse tempo escreveu para Lisboa : 

«Paris, aquella cidade encantadora, e asylo das Artes, é hoje mais 
triste que Ninive quando esperava a sua ruina, mais confusa do que Babi- 
lónia, e qua^ tão estúpida como Alger ou Tunis, isto é para com as artes 
e artistas. 

As noites que em outro tempo se passavam em cantos e.outros amá- 
veis divertimentos, hoje se empregam em disputas politicas ; e o mais é 
não ser o interesse geral o alvo, mas só aquelie particular interesse que 
sempre causou desordens e males grandes. Todos faliam muito, e muito 
escrevem ; procura um partido abater outro, e, chocando-se impetuosa- 
menie, ameaçam o edifício de ruina, se uma providencia oue sempre obser- 
va nãu vier destruir manejos que a fdtalidade inspira. Eis aqui como se 
acha esta corte ou este reino ! 

E como me acharei eu atroado com tal barulho ? Sem faser nada de 
lucrativo, sem poder esperar melhoria ; mas ao canto do fogo, a penna 
em vima mão e a outra no teclado, arranjo louvores a Deus, pois para os 
hoúiiens não ha que fazer. Uma missa para a manhã da tarde em que o 
Te-Deum se cante ; outras partes necessárias para completar o dia, pois 
bem sabe que a Egreja o tem estabelecido, eis o que me occupa, embora 
rodeado de diplomatas de nova fabrica, e o mais é, dos dois sexos, sendo 
o de saias os mais ardentes e temiveis. Deus nos acuda, sem o que, o cho- 
que do cometa será horrível.» 

nAíeu respeitável amigo : 

«Ha muito lhe teria escripjo, se podéra dizer-lhe algama coisa de 
agrada /el ; mas nada havendo d*esta espécie, e conhecendo o extremo da 
sua amisade para commigo, receiei ir penalisar o seu coração. 

Mas posso eu ficar agora silencioso? Não, para me não suppor 
ingrato. 

Ora pois ahi vou embrulhado n*esta folha dar-lhe as boas festas, e 
desejar-lhe um novo anno tão felis como tão deveras lhe appeteco. 

Eu cá fico ao mesmo tempo, supportando os desvarios doestas es- 

3uentadas e volúveis cabeças, que a cada momento mudam de projectos, 
e desejos e de intenções. As sociedades nocturnas» em outro tempo tão 
agradáveis, são hoje politicas reuniões em que se tratam os mais sérios 
negócios do Estado, e se delibera sobre os interesses de todos os povos, 
como se os franceses fossem os árbitros do Universo. Como, porém, não 
teem persistência em nada, disputam, chocam-se, e o mais é que apesar 
da variedade de pareceres, se conformam para a desordem. Até mesmo 
ac^uelles entes que a natureza destinou para fazerem meias ou fiarem, se 
misturam na turba, e com um enthusiasmo de Sparta, faliam e discutem 
negócios públicos : Ai minha cabeça I E a casa dos orates vazia 1 

Comtudo, ao pé da minha chaminé faço notas de musica, e já uma 
missa solemne se acha acabada, e outras diversas pe^ as , mas tudo isto é 
f izenda para guardar no almazem, emcjuanto os espiritos não se tranquil- 
li%arem n*esta terra, ou que eu possa ir a outro sitio em que se apreciem 

127 



BO 

mais os talentos e as suas pnodocções. Em vendo o que digo, julgará co- 
mo me achOf que decerto não é em gosto ; por isso mais do que nunca 
preci:>o de consàolações amigáveis, e a maior que posso receber é na cer- 
teza de que para commigo e minha família a sua amisade seja sempre a 
mesma. O mesmo sou eu, e serei sempre como devo, etc.» 

Querido amigo do coração : 

A Recebi com prazer a sua estimada carta de 26 de setembro, e te- 
nho retnrddiio a resposta, por esperar ter alguma coisa alegre a dizer- 
Ihe ; mas como ;ís circumstancias a não tem querido apresentar, vou rom- 
per o íilencio- 

Até agora nSo appareci em publico, nem vejo disposições para o 
poder fazer com vantagem pecuniária. Esta nação, mudada inteiramente, 
s6 se occupa de politica, e de tal modo que as casas do^ particulares se 
acham transformadas em gabinetes de estadistas, sendo as saias ainda mais 
emhusia^tas do que os calções, o que não é favorável para as artes, e se 
a mania continua, cedo ellas fugirão d'este paiz. 

Se, porém, não tenho dado a conhecer os productos do meu traba- 
- lho, tenho-os augmentado com outros novos, sendo um d*elles uma Missa 
de Requíem, quu não só me agrada mas também áquelles a quem atenlio 
dado a conhecer; e o meu génio que, como sabe, é incansável, me fará 
augmentar o pecúlio para em favoráveis tempos tirar o partido que es- 
pero. 

Queira dizer a minha mãe que reservo para d'aqui a poucos dias lhe 
escrever, dar lhe as boas festas e enviar- lhe quinze moedas em metal ; po- 
rém, abrace a por mim agora, assim como a mais família.» 

E' bem digno de se notar, o ultimo período d'csta terceira 
carta; o desventurado artista encontra-se em Paris luctando 
com a falta de recursos, e no emtanto pensa em sua mãe, e 
na carência de meios que ella também terá, promettendo en- 
viar lhe dinheiro que teria provavelmente de pedir emprestado 
a protectores ou amigos. Não é esta a única prova docuoien- 
tacia do seu amor filial e carinho fraternal. N'uma carta para 
o marque z de Castello Melhor, lé-se o seguinte eloquente 
trecho : 

nCreía V. Ex.* que achando-me já constituído na maior obrigação 
um novo lance da sua bondade veiu ainda augmentar o meu dever e en- 
cher-me de confnsão; sabendo que V. Ex.*, sendo quem é, se dignou 
occur>ar-3e tão afTectuosamente de mim, procurando junto a minha mãe 
as minhas noticias. Só o cuidado de V. Ex.* me obrigaria muito, porém, 
tendo tido logar para com minha mãe, o prazer que eila sentiu me fax 
ainda ainda mais preciosa a bondade de V. Ex.* pois que mais me inte- 
resso por ella do que por mim mesmo.» 

E n'um carta escripta de Londres para o irmão, pouco 
tempo antes de regressar definitivamente a Portugal, termina 
assim: 
128 



BO 

«Mil abraços á mana e sobriahos; eu te abraço com o maior cari- 
nho, e me diria felJ2 se o podesse fazer pessoalmente, o que me parece 
não estar longe, e só com o pensar n'isso, o coração sente um jubilo fra- 
ternal e nacional. Não o duvides, pois o diz quem só exprime o que n'alma 
sente.» 

Outro fecho de carta para o mesmo irmão : 

«Abraça por mim a mana e todos os de quem sou tio ; muito ape- 
*teço ir fazel-o eu mesmo. Deus m'o deixe conseguir, para gosar de um 
contentamento de que careço para remédio dos desgostos e tormentos 
passados e presentes.» 

Não ha duvida que esta dedicação pela família teve uma 
grande influencia sobre a vida do nosso musico, incitando-o a 
trabalhar e a luctar contra a adversidade. Vendo que em Pa- 
ris não podia realísar as suas aspirações, tentou lançar-se em 
mais longiqua aventura; com data de i8 de maio de 1819, 
escreveu a um amigo dizendo-lhe que desejava acompanhal-o 
na viagem para o Rio de Janeiro, porque — segundo as pró- 
prias palavras — «desejando ser Camões no gemo não o que- 
ria ser no fim.» N'outra carta para Lisboa repete a idéa de 
ir para o Brazil, dizendo : ^ 

aMuito desejaria voltar e fíxar-me na minha pátria ; porém, a ordem 
das cousas, mettendo tantas diííiculdades ^os progressos da fortuna no 
velho mundo, me decidirei segundo o seu parecer, a passar ao novo, para 
meu bem e bem dos meus, por quem me interesso, e jamais. deixarei de 
me interessar.» (') 

Ao mesmo tempo escrevia também para Lisboa, ao mar- 
quez de Castello Melhor, manifestando o desejo de se fixar na 
pátria, «por ser já tempo de acabar com peregrinações». 

Não se realisou o intento de ir para o Brazíl. Quanto ao 
de fixar-se em Portugal, ficou adiaao para o advento da re- 
volução liberal, que já então se preparava ; as relações inti- 
mas de Bohitempo com os partidários do liberalismo permit- 
tiam-lhe esperar uma protecção efticaz no caso de triumpho. 

Estava n'essa época interessando muito o nome e a obra 
de Camões, que até então jaziam n'um quasi esquecimento ; 
o Montè-pio Litterario em Lisboa tinha aberto uma subscri- 
pção para se lhe erigir um mausoléu ; o morgado Matheus e 
o marquez de Marialva em Paris deram curso a essa subscri- 
pção, que só n'aquella cidade attingiu rapidamente a quantia 
10:200 trancos. Ao mesmo tempo imprimia-se a celebre edição 
do benemérito morgado. 



(I) Sempre 8 preoccupação da família I 
FOL. 9 129 



Inspirado n'cstas elevadas e patrióticas idéas, e também, 
dlga-se a verdade, procurando tirar d'ellas algum proveito ma- 
terial, o nosso arusta compoz uma missa de requiem consa- 
grada á memoria de Camões. E' provavelmente d'esta missa 
que elle falia na terceira das cartas que precedentemente trans- 
crevi, pois não me consta que tivesse composto outra. Fel-a 
ouvir em Pariá, talvez n'alguma audição mtima, a diversas 
pessoas da maior consideração, porque a isso se refere n'uma^ 
cana ao conde do Funchal e n'outra á duqueza de Hamilton, 
tratando em seguida de a fazer imprimir e de angariar com- 
pradores por meio de uma subscripção. 

Para este fim escreveu numerosas cartas, solicitando a 
uns que subscrevessem, a outros que obtivessem subscripto- 
rcs e protegessem a publicação. Bomtempo tinha posto um 
grande esmero n'esta composição, que considerava, e é com 
eífeito» a sua obra prima. Eis o que a esse respeito elle escreve 
para Londres: 

«. . - J'ai composé un Te-Deum et deux Messes, dont Tune de Re- 
quiem consacrée k la mémoire de Camoens, me será, j 'espere, plusprodu- 
ciivÊ que tant d'ouvrages dédiées à des hommes vivants que jusqu*à pré- 
sent ne m'on pas été fort utiles. . . 

Je puis ajouter pour vous comme mon aroi, que d'aprè8 les connaís- 
seurâ qui Tont entendue, cette production está une grande distance de 
tout ce que j'ai fait jusqu^ici.» 

Mandou para Londres copia da partitura, que foi ali exe- 
cutada af^radando muito; esta noticia e a do bom acolhimento 
feito á subscripçãoj levou-o a partir immediatamente, no meiado 
de julho de 1819, o que elle participa a um amigo: 

tt . . . Eu parto para Londres segunda feira, porque tive noticias do 
grande eíTeíio que a minha obra fez, e portanto é preciso aproveitar a oc- 
casião- . .1» 

A impressão da missa de requiem foi confiada ao editor 
Lcduc, e não estava ainda concluída quando Bomtempo se 
resolveu abandonar Paris, onde tão mal se achava. Incumbiu 
de ultimar esse negocio ao livreiro João Pedro Aillaud, o fun- 
dador da casa ainda hoje bem conhecida hoje entre nós, e que 
sendo filho de outro livreiro estabelecido em Coimbra, manti- 
nha com os porcuguezes intimas e frequentes relações. Pela 
correspondência vejo que Bomtempo assignou uma letra de 
mil e cincoenta francos a seis mezes de praso, que Aillaud de- 
via entregar a Leduc em troca de cento e vinte e tres exem- 
plares da obra impressa. Se esse trabalho importou só n'aquella 
quantia, ou se o compositor tinha já feito algum adiantamento 
130 



e que não posso saber ; o documento mais importante sobre 
esse assiímpto é o seguinte : 

«Moasieur. 

N'ayant pas termine nos arraneements como nous en étions conve- 
nus, je suis force de partir pour Londres. Je vous prie de vouloir bien re- 
mettre à Mr. Aillaud le nombre de cent vingt trois exemplaires qui doi- 
vent completer les deux cents que je devais recevoir jusau*au qumze du 
courantt a*après nos engagements respectifs: vous toucherez entre les 
mains de Mr. Aillaud la somme de mille cinquante francs à la date de 
siz móis. 

J'ai rhonneun etc.» 

Em Londres teve mais uma vez excellente e cordeal aco- 
lhimento, segundo aíSrma n'uma carta para Leduc datada de 
19 de julho de 1820, e n*outra para Aillaud, repetindo cm am- 
bas que por isso tenciona dcmorar-se. A impressão da missa 
de Requiem completára-se, e os exemplares eram distribuidos 
pelos subscriptores, pertencentes na maior parte á alta socie- 
dade de Londres, e ás colónias portuguezas de Londres e Pa- 
ris ; para Lisboa vieram bastantes exemplares, assim como fo- 
ram não poucos para o Rio de Janeiro. O frontespicio d'essa 
obra diz assim : Messe de Requiem à Quaire voiXy Choeurs, et 
gt^and Orckestre avec accompagnement de Piano à défaut 
aOrchesire. Ouvrage com^cré à la Mémoire de Camões. Par 
J. D. Bomtempo. — Oeupre 23. — Prix 36 /r. — à PariSy che:^ 
AugJ^ Leduc j Editeur M.* de Musique, au grand Magasin, Rue 
de Richelieu, N.^ j8. — Partitura completa, com 2o5 paginas, 
fora o frontespicio e seu verso. 

E' como já disse, a obra prima de Bomtempo, e consti- 
tue um excellente e desenvolvido trabalho, technicamente ir- 
reprehensivel, traçado com a largueza e mão segura de um 
profissional experimentado. Não contém, no emtanto, rasgos 
de inspiração, nem é abundante de melodia. Obra perfeita 
mas não inspirada, pertence á categoria d*aquellas a que os 
aliemães chamam obras solidas. O estylo de Haydn predomina 
em toda ella, mostrando n'um ou n'outro ponto, muito fugiti- 
vamente, que o auctor manuseou o Requiem de Mozart. Esta 
circumstancfa porém, se invoca uma lembrança não auctorisa 
a menor comparação, porcjue a obra sublime de Mozart é im- 
comparavel ; quem approximar d'ella qualquer outra commette 
grave imprudência senão verdadeiro sacrilégio. Abstraindo pois 
o impossível confronto, a partitura do musico portuguez fica 
um importante e valioso documento para a historia da arte 
nacional, attestando que entre nós menos faltam os talentos 
artísticos do que uma boa escola onde elles se desenvolvam, 

131 



BO 

c protectores intcUigcntes que saibam conhecel-os e apre- 
ciai- os. 

Temos pois Bomtempo em Londres, pela terceira vez, 
applaudido e bemquisto como sempre ; estamos no memorá- 
vel anno de 1820. A revolução de Cadiz repercutiu-se em Por- 
lugalj c o dia 24 de agosto marcou a primeira data na historia 
da nosí>a guerra civil. Ignoro se o nosso artista tomou parte 
activa nas conspirações politicas que então se tramavam por 
toda a parte. A siia residência nas grandes capitães, convivên- 
cia com os emigrados, e amisade mtima com os mais exalta- 
dos liberaes, como eram o doutor Vicente Nolasco, José Libe- 
rato (segundo redactor do Investigador Portugue:^), o doutor 
Pereira Marrecos e outros, deviam inclinal-o para o campo da 
revolução; mas por outro lado devia contei o a benevolência 
com que era acolhido pela flor da aristocracia. Supponho no 
cnnanto que pertenceria ao partido de liberaes aristocratas, cujo' 
chefe cm Londres era n'esse tempo o conde do Funchal, Do- 
mingos de Sousa Coutinho, e foi alguns annos depois o marquez 
de Palmella. O certo é que, logo que a revolução triumphou 
e a constituição foi proclamada em Lisboa, Bomtempo aban- 
donou as vantagens que usufruía na capital britannica, par- 
tindo para a pátria, cujas saudades tanto o atormentavam e 
d'onde não devia mais sahir. 

E logo que aqui chegou deu signal de si e das boas rela- 
ções em que estava com os politicos de 1820; na 35.» sessão 
das celebres e populares cortes então reunidas, realisada em 9 
de março de 1821, foi presente «um memorial de João Do- 
mingos Bomtempo, que acompanhava uma Missa nova com- 
posta por elle em obsequio da Regeneração Portugueza, que 
elle oOerecia ao Soberano Congresso. Foi geralmente applau- 
dido, djrigindo-se á Regência para ser impressa a Musica da 
dita Missa.» — Assim diz a respectiva acta, inserta no «Diário 
da Regência», de 10 de março de 182 1. 

A missa não se imprimiu, porque a Regência teve mais 
de que se occupar e não durou muito; mais executou-se com 
a máxima solemnidade. O mesmo «Diário» publicou dois dias 
depois o seguinte aviso: 

'íPara João Domingos Bomtempo. — A Regência do Reino em Nome 
de El- Rei o Senhor D. João VI, em consequência da Ordem que hoje re- 
cebeo das Cortes Geraes e Extraordinárias, ha por bem encarregar a V. 
m. de tudo o que pertence á escolha e direcção dos Professores que 
hão de executar a Composição Musica que V, m. offereceo ás mesmas 
Cortes, e que deve servir de brilhante ornamento na Funcçáo Solemne de 
Igreja que se manda preparar para o dia do Juramento das Bases da 
t^onítítujção. 

E espera que V. m. se empregará n*este objecto com o zelo e íntel- 
132 



BO 

lígencia correspondente á grandeza do objecto, e á justa confiança «|ue 
inspiráo os mui distinctos talentos de V. m. 

Deus ^ua^de a V. m. — Palácio da Regência em lo de Março de 
1821. — João T*edro Gomes d' Oliveira, 

Teve logar a festa religiosa no dia 28, na egreja de S. Do- 
mingos; não teria deixado de haver em seguida á missa o in- 
dispensável Te-Deum, e tanto uma como outra composição fo- 
ram provavelmente as que o auctor escreveu em Paris nos 
seus dias de amargura, como elle diz nas cartas precedente- 
mente transcriptas. - 

Alguns mezes depois promoveram os liberaes uma sub- 
scripção para com o producto celebrarem a memoria de Go- 
mes Freire e dos suppliciados de 1817 ; resolveram que a com- 
memoração consistisse n'uma missa de Requiem composta e 
dirigida por Bomtempo, tendo logar no dia 20 de outubro 
d'esse mesmo anno de 1821. 

Bomtempo tornara-se o musico favorito do governo con- 
stitucional, e D. João VI quando regressou a Lisboa aco- 
Iheu-o com a sua proverbial benevolência. Por isso não deixou 
elle de ser o escolhido para dirigir a parte musical nas exéquias 
de D. Maria I, celebradas por occasião de se trasladarem para 
l^isboa os seus restos mortaes. Um decreto publicado no Dia^ 
rio do Governo assim o determinou : 

«Manda EI-Rei peia Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, 

Sarticipar a João Domingos bomtempo que tendo designado o dia 18 de 
[arco próximo futuro para a Trasladação do Real Cadáver de Sua Au- 
gusta Mai a Senhora D. Maria Primeira, de Gloriosa Memoria, para o 
Convento do Coração de Jesus no sitio da Estrella ; devendo celebrar-se 
na noite do dia 19, Matinas, e no dia 20 Missa de Pontifical, e Absolvição: 
O raesmo Senhor querendo Honrar o seu merecime nto na arte em que é 
insigne : Ha por bem encarregal-o da composição da Musica para os ditos 
actos. — Palácio de Queluz em 18 de Fevereiro de 1822. — Filippe Fer- 
reira de Araújo e Castro, 

Em torno de Bomtempo reunira-se uma notável phalange 
de amadores de musica, pertencentes na maior parte ao alto 
commercio e muitos d'elles estrangeiros ou de origem estran- 
geira. O mais influente de todos era o barão de Quintella, de- 
pois conde do Farrobo — que sendo ainda novo n*esse tempo 
mostrava já o gosto artístico que tanto o distinguiu. Outros no- 
mes notáveis se contavam n*essa phalange, como se verá na 
relação abaixo transcripta, pois que tendo elles tomado parte 
na orchestra das exéquias, receberam um publico agradeci- 
mento no Diário do Governo, onde sahiu o seguinte docu- 
mento: 

133 



BO 

í^Ministerio dos Negócios do Reino. 
Para o Barão de Quintella. 

Tendo Sua Magestade dignado acceitar o generoso offerecimento 
que lhe fízaríim os Amadores e curiosos de Musica Instrumental, meneio 
nados na Relâçao inclusa^ para acompanharem as Exequkis de Sua Ma- 
eestade Augusta Minha Senhora Rainha D. Maria I, de Saudosa Memoria : 
Manda El-Rei pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino partici- 
par ao B^rão de QumtcUa, como um dos generosos offerentes, e para as- 
sim o communicar ao£ outros, que aqueile offerecimento, e a sua feliz 
execução^ merecerão o Real Agrado, e Approvaçao de Sua Magestade, fa- 
zendo lhes constar a Benignidade com que o mesmo Senhor acolheo este 
obsequio, do qual se mostra ao mesmo tempo o talento, e os sentimentos 
de seui Auihores. — Palácio de Queluz em 21 de Março de 1822. — Filip- 
pe Ferreira de Araújo e Casiro. 

Relação dos Amadores e curiosos de Musica que generosamente se 
ofíerecêrão a Sua Magestade para irem tocar nas Exeauias da Augustís- 
sima Senhora Rainha D. Maria I. — Barão de Quintella. José Maria de 
Mendonça. Frederico Rudolfo Lahmeyer. Joaquim Luiz Orcese. Augusto 
Soares LeaL José dei Negro. Sebastião Duprat. Cezario Dufourq. Caetano 
Martins da Slka. Joio Paulino Vergolino de Almeida. Ignacio Miguel 
Herche. Francisco António Driesel. Pedro Cavigioli. José Francisco de 
Assis e Andrade. Joaquim Fedro Scolla.» 

Parte dVstcs nomes se encontrarão disseminados pelo pre- 
sente Diccionario, como pertencendo a indivíduos qua foram 
distinctos amadores de musica, como Sebastião Duprat, pac 
do notável diplomata visconde- de Duprat, Francisco Driesel, 
ascendente do actual director do Banco de Portugal, o sr, 
Driesel Scbroter^ c outros. Todos eram affectos á causa libe- 
ral, e um d^elles, Joaquim Pedro Scolla, era parente d'aquelle 
conhecido tabelliâo Scolla que já tinha a alva vestida para ir 
para a forca quando entraram em Lisboa as tropas do duque 
da Terceira, em 24 de julho de 1834. Esta mesma orchestra 
augmentada ainda com adeptos novos, abrilhantou a festa com 
que o Soberano Congresso — como então pomposamente se 
denominavam as Cortes — inaugurou o retrato de D, João VI 
no dia i3 de maio de 1823, festa gue foi descripta n'um fo- 
Ihcto impresso na Regia Typographia Silviana. 

Bomtcmpo, senhor de tão favoráveis elementos, não tar- 
dou em realrsar a sua idéa favorita de instituir uma «Socie- 
dade Phílarmonica» como a de Londres. Para isso installou-se 
na rua nova do Carmo n.° 5, e abrindo uma assignatura, co- 
meçou em agosto de 1822 a primeira serie dos notáveis con- 
certos periódicos^ que constituem o mais legitimo titulo para 
se lhe honrar a memoria, pelos serviços que então prestou á 
arte, desenvolvendo o gosto pela boa musica e agrupando um 
núcleo de excellentcs amadores, cuja admiração pelo talento 
do mestre mais incitava a se aperfeiçoarem. 
i34 



L 



BO 

Rápido incremento tomou a «Sociedade Philarmonica», 
porquanto tendo começado em proporções muito modestas e 
com um caracter intimo, não tardou em annunciar na «Gazeta 
de Lisboa» os dias em que realisava os seus concertos de assi- 
gnatura, provavelmente porque o auditório se tornara nume-. 
roso a ponto de ser grande incommodo avisal-o particular- 
mente; o primeiro annuncio appareceu na Gazeta de 21 de 
setembro, dizendo textualmente : «A Sociedade Philarmonica 
participa a todos os seus sócios que a 4/ academia terá logar 
em a noite de segunda feira 23 cio corrente.» Em 16 de julho 
de 1823 annunciava o 4.® concerto do 4.® trimestre, que não 
se realisou. Um grande contratempo lhe sobreveiu n'esse mo- 
mento: tendo triumphado a contra revolução em virtude da 
Villafrancada promovida por D. Miguel em 27 de maio, come- 
çaram, com a proclamação do governo absoluto, as suspeições 
e perseguições politicas. As reuniões em casa de Bomtempo 
foram immediatamente prohibidas. 

Um raio que tivesse estalado sobre a cabeça do insigne 
compositor não lhe produziria maior abalo ; impediam-n'o de 
proseguir na empreza tão auspiciosamente iniciada, desfaziam- 
Ihe os sonhos que durante tanto tempo alimentara de desen- 
volver na pátria a sua bella energia e dedicação artistica, cor- 
tavara-lbe, emfim, os meios de prover ao bem estar da fámilia 
que elle tanto estremecia. 

Requereu a D. João VI que lhe concedesse licença para 
continuar os concertos; a bondade do soberano deixa va-lhe 
esperar um despacho favorável. Mas o requerimento foi a in- 
formar ao intendente da policia, que o contrariou com o se- 
guinte parecer: 

«III."® e Ex.""® Sr. — A preterição de João Domingos Bomtempo Com- 
pozitor de Musica que faz o objecto do Requerimento incluso, sobre o 
qual Sua Magestade He Servido Mandar-me informar por aviso de V. Ex.* 
em data de 5 do Corrente tem por fim conceder-se ao Supplicante licença 
para continuar na pratica de admitir em sua Caza a Sociedade, a que dá 
o titulo de — Philarmonica — , para que do producto das assignaturas das 
pessoas que alli concorrem, possa suprir a sua subsistência, e de sua nu- 
merosa familia. 

«Ainda que seja certo que á tal Sociedade costuma concorrer grande 
parte das pessoas da maior uerarchia e consideração d'esta Capital, a ella 
também concorrem muitos indivíduos, que, assim como o Supplicante, 
não merecem o melhor conceito na Policia, por isso mesmo que a titulo 
d'£jisaios mais a miúdo se reúnem ; e assim para evitar que com este ti- 
tulo se estabeleça alguma Sociedade secreta, entendo que se faça persua- 
dir ao Recorrente que tal pratica deve immediatamente cessar. 

«Sua Magestade porem ordenará o que For Servido. 

dDeus Guarde a V. Ex." Lisboa 10 de julho de 1823 = 111.»» e Ex.»* 

i35 



BO 

Snr, Joaí^uim Pedro Gomes d'01iveira = O Intendente Geral da Policia da 
Corte e Heyno, Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro.» 

(Torre do Tombo. Registo da Secretaria da Intendência da Policia, 
k livro 21, fl. 28 V.) 

E* forçoso confessar, em vista dos factos atraz narrados, 
que a policia do governo absoluto tinha alguma razão para 
|( suspeitar de Bomtempo, receiando que as reuniões artisticas 

servissem de capa a conluios politicos. A medida repressiva 
foi porém recebida com dolorosa surpreza, tornada em com- 
pleto desanimo com a negação da licença solicitada. O nosso 
I musico, para quem a inactividade era mais duro castigo do 

" que o próprio exilio, deliberou abandonar pela terceira vez 

f>atria c familia, em busca da fortuna que a cada momento 
he fugia. Eis como elle desabafa com um amigo residente em 
Londres: 

(■Eu não sei qual seja o meu peccado n*este paiz, para ser cada vez 
mais atormentado. Este ultimo terramoto me arrasou de todo, pois não 
me foi possivel obter licença para continuar os Concertos Philarmonicos, 
nem me^mo acabar o trimestre. Cóm que assim vê o meu amigo qual é o 
m(t\i estado, e como hei de prencher os pagamentos que tenho a fazer, 
pois só de renda da casa me custa um conto de réis, não me tendo apro- 
veitado mais de dez mezes, que é o tempo que este innocente divertimento 
durou. 

f^Desejo partir para essa o mais breve que possa, e já o teria feito se 
não fo&se o desarranjo em que me acho, pois não me é possivel obter um 
vintém de um grande numero de assi^nantes que me devem ; já tenho 
passaporte, e o dia da minha partida será para mim o dia da minha maior 
gloria.» 

Entretanto, e contrariamente ao que lhe faziam alguns 
devedores, tratava de se desempenhar honradamente para 
com os credores publicando na òazeta de 21 de agosto o se- 
guinte annuncio: 

nJoão Domingos Bomtempo, participa aos Senhores Assignantes da 
Sociedade Philarmonica, que não conseguindo licença para continuar os 
Concertos, na sua casa rua nova do Carmo n.° 5, ficará por esse niotivo 
responsável pelos últimos dois do 4.^ trimestre ; cuja importância poderio 
mandar receber desde o dia do annuncio, até 3i do corrente, entenden- 
dO'Se este annuncio igualmente comprehensivo a todas as pessoas que ti- 
verem contas ou qualquer outra pretensão com o dito J. D. Bomtempo.» 

Tinha porém o destino determinado que se realisasse 
mais esta vez o adagio popular : t Ha males que vêem por 
betns. 

Se Bomtempo tinha por amigos alguns dos mais convi- 
ctos liberaes, não contava menor numero de admiradores en- 
tre os que defendiam as prerogativas do throno. 
i3(j 



Ilf^l i j l 



Na corte eram seus protectores, além do proprro rei e 
suas filhas, que todas eram enthusiastas por musica, os duaues 
de Lafões e Cadaval, os marquezes de Borba e Castello-Me- 
Ihor, o conde de Lumiares, etc. : entre o partido da burgue- 
zia eram seus admiradores, quasi discípulos coadjuvando-o na 
orchestra, muitos dos mais lUustrados commerciantes e ban- 
queiros. 

Deu-se então um verdadeiro milagre, produzido pelo ta- 
lento de um grande artista ; n'aquelles calamitosos tempos de 
violenta^ agitação, em que na politica se jogava não só a for- 
tuna más também a vida, membros activos das duas oppostas 
facções, inimigos irreconciliáveis e exaltados, juntaram se em 
fraternal e civilisador çonvivio para prestarem culto A arte. 

Duas difficuldades havia que remover n'esta conjutictura : 
dissuadir o mestre de se exilar voluntariamente, e dissipar as 
desconfianças da policia; da primeira encarregaram -se os ami- 
gos Íntimos, da segunda os altos protectores. 

Resultado das diligencias empregadas, Bomtempo renovou 
o seu requerimento, que d'esta vez obteve mais favorável in- 
formação do intendente da policia. Não encontrei no archivo 
da Torre do Tombo o registo d'essa informação, mas o re- 
querente deixou nos seus papeis a copia do despacho dado por 
D. João VI, que é do theor seguinte : 

«Sua Magestade a quem foi presente a informação de V. S. de 25 de 
Dezembro do anno passado, referindo-se n*ella á anterior de lo de julho 
do mesmo anno, soore pretender João Domingos Bomtempo permissão 
para continuar a admittir em sua casa, por meio de assignaturas, para do 
seu producto poder subsistir honestamente, as pessoas que em sociedade, 
a que eile áB o titulo de Phii*harmonica, se quizerem entreter com boas 
peças de musica : Ha por bem em attenção ao que V. S. lhe pondera n*esta 
sua ultima informação e á coaspicuidade, sizudeza e gravidade das pessoas 
que costumam concorrer á referida sociedade, permittír ao supplicante a 
faculdade que pede ; ficando o mesmo senhor bem* certo ()ue nunca rece- 
berá desprazer ou descontentamento peia haver concedido, por acto da 
sua Real Benigiiídade e Complacência com que em tudo deseja compra- 
zer aos seus fíeis súbditos e nonestos cídadoens. — Deus Guarde a V. S. 
— Paço da Bemposta em i3 de janeiro de 1824. — Sr, Simão da Silva 
Ferra j de Lima e Castro, — Joaquim l^edro Gomes d'Oliveira.n 

Como acto de protecção e garantia de segurança, o du- 
que de Cadaval cedeu, para residência de Bomtempo e func- 
cionamento da Sociedade Philarmonica, a parte do seu enor- 
me palácio denominado «palácio velho», a qual tinha amplos 
salões luxuosamente decorados e era servida por uma entrada 
grandiosa. Esse palácio estava situado exactamente no logar 
occupado hoje pela estação central dos caminhos de ferro. 
Não consegui averiguar se a cedência do duque foi puramente 

13; 



y 



BO 

gratuitii ou se mediante pagamento de aluguel; mas em qual- 
quer dos casos constituiu favor muito especial, dando ao ar- 
tista ma^nitica installaçlo para os seus concertos a par de uma 
residência principesca, pondo-o ao mesmo tempo aó abrigo 
de alguma devassa ou prohibição porque ninguém se atreve- 
ria a vexar aquelle que o nobre duque, tão considerado na 
corte, acolhia sob o próprio tecto. 

Auspiciosamente pois se inaugurou esta segunda época, 
que foi a mais brilhante e productiva, tanto artista como pe- 
cuniariamente. Tenho á vista o livro, encadernado em marroquim 
com as pastas doiradas, no qual todos os assignantes firmaram 
os seus nomes. Tem na folha de guarda, escripto pelo punho 
de Bomcempo : «Anno de 1824. — O segundo do Estabeleci- 
mento Philarmonico»v> E na segunda folha, também do mesmo 
punho: wLista das Pessoas que subscrevem para a continua- 
ção do Estabelecimento Philarmonico, instituído e derigido por 
João Domingos Bomtempo no Palácio do 111.™° c Ex.°^ sr. 
Duque de Cadaval ao Rocio. — O preço de cada assignatura 
ti de 4SS00 réis em metal por seis concertos, sendo o primeiro 
no dia g de março do presente anno^ e successivamente todas 
as terças feiras até ser preenchido o dito numero; e para to- 
dos os seguintes o Director o fará sciente a todos os sócios na 
forma antigamente praticada.» Seguem-se as assignaturas dos 
subscriptorcs, curiosa coUeção de autographos comprehen- 
dcndo 271 nomes, entre os quaes se encontram os das mais 
notáveis personagens que então residiam em Lisboa ; figuram 
como primeiros o Duque de Cadaval, duque e duqueza de 
Lafões, conde c condessa de Subserra, marquez e marqueza 
de Palme lia, Manuel Mosinho Falcão de Castro (o conde de 
Subserra, marquez de Palmella e Falcão de Castro eram os 
ministros nomeados depois da Villafrancada, representando os 

^dois primeiros o elemento liberal moderado); vem depois pro- 
miscuamente todos os titulares, membros do corpo diplomá- 
tico, nomes notáveis e ainda hoje muito conhecidos cie ban- 
queiros, commcrciantes c homens de letras. Como já disse, é 
uma coUecção de assignaturas muito curiosa. 

Está claro que a parte artistica mais numerosa nos pro- 
grammas da Sociedade Philarmonica pertencia de direito ás 
composições do seu director; os concertos para piano, sym- 
phonias, aberturas c outras obras de Bomtempo tiveram ali 
repetidas audições, mas também se executava muita musica 
symphonica de Haydn*^ Mozart, Cherubini e outros mestres 
clássicos mais secundários então em voga, assim como alguma 
de Beethoven que começava a ser conhecido entre nós. Egual- 

i38 



í 



BO 

mente se executavam quartettos, quintettos e obras de musica 
dos mesmos auctores e de Boccherini, Hummel, Pleyel, etc. 
Os instrumentistas a solo, primeiro dos quaes era também 
por direito o insigne pianista, tanto pertenciam á classe dos 
artistas profissionaes como á phalange dos amadores associa- 
dos a Bomtempo. Entre os primeiros estavam o violinista Pinto 
Palma,^ os irmãos Giordani, Avelino Canongia, etc. Dos segun- 
dos citarei os flautistas Brelaz, Filippe Folque, Hirsch, o clari- 
nettista José Francisco de Assis, o trompa Joaquim Pedro 
Scola, os violinistas Grolund e Sebastião Duprat. Na flauta, 

3UC era o instrumento favorito da época, tocavam-se concertos 
e Devienne, Berbiguier, Tulou, etc. Assis tocou em i823 um 
concerto, para clannette, de Iwan Muller; Scola outro, para 
trompa, de Belloli, e até houve um concerto para dois fagot- 
tes, de Ozi, executado pelo amador Caetano Martins e pelo 
artista Thiago Calvet. 

(j)s cantores e cantoras também eram em numero notável, 
figurando entre ellas uma irmã de Bomtempo, e brilhando 
superior a todas á notabiiissima D. Francisca Romana Martins. 
Effectuou-se com toda a regularidade a primeira série de seis 
concertos, conforme fora annunciado na Ga:ieta^ os quaes ti- 
veram logar em todas as terças feiras comprehendidas entre 
os dias 9 de março e 20 de abril. Já não succedeu o mesmo á 
seguqda série, que tendo começado em 27 de abril sofFreu uma 
interrupção por causa da agitação politica produzida pela abri- 
lada (revolta promovida por D. Miguel em 3o de abril); o se- 
gundo concerto d'esta série só se realisou em 18 de maio, se- 
guindo-se os outros até princípios de julho. Na terceira série 
houve mudança de dias, passando-sc para os sabbados ; co- 
meçou em 27 de novembro e terminou em i5 do janeiro de 
1825. A quarta série mudou para as quintas feiras, começando 
em 17 de fevereiro e terminando em fins de março. Em abril 
abriu uma nova assignatura, que foi a terceira ; já então o li- 
vro dos subscriptores não tem as suas assignaturas, sendo os 
nomes lançados a lápis e sem ordem (primeiro symptoma de 
decadência). Começou em 21 de abril, terminando em 3i de 
maio. Em 14 de fevereiro de 1826 deu- se o primeiro concerto 
da segunda série, mas o quarto, que fora annunciado para 9 
de março, ficou addiado por causa da doença de D. João VL 
Fallecido o monarcha no dia 10, e tendo logo um mez depois 
sido concedida licença para os theatros continuaram a func- 
eionar, Bomtempo fez o seguinte requerimento: 

«DÍ2 João Domingos Bomtempo que tendo elle instituido em sua 
casa uma Sociedade Philarmonica com o beneplácito Régio como o pro- 

139 




BO 

va cocD o documento junto, abriu e continua a dita com desempenho de 
requisitos necessários a tão útil e decente divertimento; o qual justamen- 
te e sem ordem superior interrompeu nas luctuosas circumstancias do 
faUecimenio do nosso Augusto Soberano: e como o supplicanie veja que 
pela abartura dos theatros se concedeu o exercicio dos divertimentos que 
lendem a honesta cultura da mocidade, como á manutenção das pessoas 
que d^elles derivam a sua subsistência, 

Pede a Vossa Majestade que se lhe conceda a continua- 
da 'dita Sociedade Philarmonica.» 

Este requerimento foi deferido porque na Ga:^eta de i8 
de maio se annuncia que os três concertos últimos da série 
interrompida teriam logar nos dias 23 e 3o d'esse mez con- 
cluindo em 6 de junho. Mas não se rcalisaram, sahindo no 
próprio dia 2 3 um contra-annuncio adiando-os. 

O mau fado começava de novo a perseguir o laborioso 
musico, c em breve surgiriam os dias mais tristes da sua agi- 
tada vida, 

A decadência tia Sociedade Philarmonica, cujos membros 
começavam a debandar com a approximação da tremenda^ bor- 
rasca politica prestes a desencadear-se, manifestavam-se pelos 
repetidos adiamentos. Em janeiro de 1827 annunciou de novo 
os malfadados trcs últimos concertos, que finalmente se con- 
cluíram em i3 de fevereiro, não sem que o sexto tívesse sido 
mais uma vez adiado. - 

Em principio de março abriu a quarta assignatura, cujos 
assignantes nem mesmo a lápis figuram já no livro tão bri- 
lhantemente encetado em 1824; annunciou o primeiro concer- 
to para i3 doesse mez, porém só o realisou em 20. Os cinco 
restantes seguiram decadentemente, mas sem peripécias conhe- 
cidas, até 28 de abril. E nada mais por este anno de tristes pre- 
sagios. 

Finalmente, em 10 de janeiro de 1828 encetou outra as- 
signatura, que tinha de ser a ultima, terminando-a em i3 de 
março. 

No dia cm que a Sociedade Philarmonica dava o terceiro 
concerto doesta época, 21 de fevereiro, aproava á barra de 
Lisboa a fragata «Pérola» conduzindo D. Miguel, e no dia em 
que realisou o ultimo, i3 de março, eram dissolvidas as cor- 
tes começando de facto n'essa data o regimen absoluto. 

Não houve então mais que pensar em arte. Os liberaes 
fugiam ou escondiam-se, e a sua falta anniquilava a Sociedade 
Philarmonica deixando-a quasi sem executantes nem auditório. 
Apesar d^isso Bomtcmpo não desistiu ainda, tão grande era o 
seu animo. Como as reuniões não seriam agora decerto per- 
mittidas apesar mesmo da protecção do duque de Cadaval, 
140 



nomeado ministro por D. Miguel, o tenaz fundador da socie- 
dade atreveu se a redigir um desenvolvido requerimento em 
termos que julgou persuasivos. Deixou elle copia doesse reque- 
rimento permittindo-me agora reproduzil-o ; apesar de ser bas- 
tante extenso torna-se interessante, por constituir documento 
comprovativo de alguns factos que atraz deixei narrados c que 
outros biographos aeturparam ou não mencionaram. Eis a sua 
reproducção fiel c completa: 

«Senhor. 

Com o mais profundo respeito vem á Presença de Vossa Magestade 
João Domingos Bo.ntempo a expor que o Suppli cante teve a honra de 
servir em Lisboa o logar de primeiro oboé da Real Camera^ durante os 
annos de 1795 até 1800 ; porém, que instigado depois pelos desejos de se 
adiantar na Arte da Composição Musical e no conhecimento do instru- 
mento Forte Piano, passara a França, e no anno de i8o( (^) a Inglaterra, 
alcançando por sua continuada applicação, estudo e fadigas nas capitães 
d'aquelles dous Reinos o conceito e reputação que hoje tem ; que o Sup- 
plicante quando esteve em Inglaterra, fora encarregado pelo Embaixador 
de Portugal em Londres da musica para a solemnissima festividade que 
ali se fez em 181 1, por occasião da Restauração de Portugal, finda a guerra 
da Independência Peninsular, ao que immediatamente se prestou sem 
que por isso recebesse paga ou gratificação alguma, mais do que aquella 
que sempre resulta a todo e qudlquer súbdito, de ter concorrido quanto 
em si coube para a gloria do seu Soberano e do Paiz em que nasceu ; que 
não obstante isto e as muitas vantagens que se lhe promettiam se conti- 
nuasse em qualquer das duas Capitães as mais opulentas da Europa, o 
Supplicante, attendendo somente ao que reputava seu dever, e animado 
sempre do desejo de poJer ser uttl á sua Pátria, voltara a Lisboa em 182 1, 
e fora em 1822 encarregado por ordem de Sua Magestade o Senhor 
D. João VI, de saudosa memoria, da composição da musica para as exé- 
quias de Sua Magestade Fidelíssima a Senhora D. Maria Primeira, que 
Santa Gloria haja, ao que satisfez por maneira que Sua Magestade, por 
livre arbitrio e vontade Itie fez a graça de o condecorar com o Habito da 
Ordem de Christo ; que entre as diversas composições do Supplicante 
cUe se não esquecera de um methodo para tocar Piano Forte, obra de 
summa utilidade pratica, composta na Lingua Portugueza, e a primeira 
d'este género conhecida em Portugal, onde é hoje quasi geralmente 
adoptada com reconhecida vantagem e credito ; (2) que o Supplicante 
tivera finalmente a gloria de ser o creador da Sociedade Philaí-monica de 
Lisboa, a qual, reunindo as pessoas da' mais alta gerarchia, não só fez mui 
distincta honra a este ramo das Bellas Artes em Portugal, mis até poderia 
vir a ser um Instituto-^a maior utilidade, se o SuppUcante, que por elle 
se desvella, estivesse seguro. da sna subsistência, sem depender de fadigas 
assíduas e quasi sempre incompatíveis com aquellas que alargando a es- 
phera dos seus conhecimentos, seriam sobretudo proveitosas ao desen- 
volvimento dos grandes génios que Portugal não deixa de possuir. 



•(ij Bomtempo teve aqui um lapso de memoria; náo foi exactamente em 1801, mas sim 
em i9ffi qut passou a Inglaterra, como eu deixúi dito e provada nas pnginas 1 13 a 1 13. 

fi) Do que elle se esqueceu foi de mencionar a missa festiva oíferecida ao Soberano 
CoD|tresiodG 18.0, e a missa de requiem commemorando a morte de Gomes Freire. Não faltaria 
porem quero o lembrasse. 

141 



BO 

O Supplicante pois, Senhor, que no decurso de 27 annos em que 
sempre directa ou indirectamente se tem empregado a bem do seu Paiz, 
sem que por isso se lhe tenha até hoje dado ordenado ou gratificação de 
qualidade alguma, tendo ao contrario depois aue voltou a Portugal, 
exausto os meios que adquirira fora; para que a nnal se não veja na triste 
neces!.idade de ir buscar a pa'z estranho o que de todo lhe falta no seu 
abandonando além d'isso uma ) obre e numerosa família composta de qua- 
tro trmãs dionzellas e de urr a mâe já de edade avançadissíma, a quem ha 
mais de trinta annos serve de único amparo, 

P. a V. Magestade que para maior gloria Sua, e da 
Nação a que preside, tão sabia e generosamen- 
te protege e protegeu sempre as Bellas Artes e 
os que as professam, se digne attender com be- 
nignidade ao exposto pelo Supplicante e con- 
ceder-lhe a graça... 

Bomtempo deixou incompleta a copia do seu requeri- 
mentOj deixando de formular no fira a graça que pedia; pelo 
texto escripto parece que elle aspirava a mais que uma sim- 
ples licença^ requerendo também um subsidio ou qualquer 
outra [espécie de auxilio. E' mesmo possivel que não chegasse 
a dar andamento á sua pretenção, deixando-a unicamente em 
projecto, 

O certo é que elle abondonou o principesco palácio do 
Rocio, indo' residir com a familia para uma modesta casa no 
alto das Chagas. Mas não pararam ahi as suas attribulações, e 
nem mesmo modesta e obscuramente poude viver socegado. 
Amigos dedicados lhe fizeram confidencialmente saber, que os 
díscolos do governo absoluto lhe preparavam um auxilio que 
elle por modo nenhum desejava e era muito diíFerente do que 
solicitara. Para se escapar á graça que não pedira e que bem 
SC pode suppôr qual fosse, buscou refugio no consulado da 
Rússia^ onde exercia as funcções de cônsul Carlos de Raze- 
wich, amador de musica muito amigo de Bomtempo. 

Homisiado sob a bandeira de um paiz estrangeiro que lhe 
garantia alguma segurança, passou o nosso musico os cinco 
annos do reinado de D. Miguel, vivendo entre sobresaltos e 
esperanças, concebendo projectos de emigração que não podia 
realisar, exhaurindo os recursos que até ali havia adquirido, e 
jazendo — coisa que para elle constituia o maior sofFrimento 
— n'uma triste obscuridade, esquecido por uns, abandonado 
por outros, ignorado por quasi todos. Como devia ser dura 
esta existência para quem tanto tinha brilhado ! 

As duas seguintes cartas escriptas para Londres, dirigi- 
das com toda certeza ao gerente da casa Clementi e CoUard, 
são documentos d'essa nemsta época. 

142 



Lisbonne 4 de Avril 1829 
Mon três cher et bon ami. 

J'ai reçu votre almable lettre du 6 Mars, (]ue m'a faít le plus grand 
plaisir ; je suis três sensibie aux sentiments d*amitié que vous voulez bien 
me conserver, et je vous prie de coropter toujours sur la mienne. Je vous 
demande mil pardons de ne pas vous avoír écrit) mais comme j'ai été 
très incertain de tout ce que ]e devait faire, par les circonstances oú je 
me suis trouvé depuis mon retour dans cette nlle, c*est la raison par la- 
quelle je ne vous ait pas donné de mes nouvelles. 

Je tiens bien en mémoire la somme dont je vous suis débiteur, et je 
n'ai pas oublié d'un moment à Tautre toutes les obligations que je dois à 
votre estime, atnsin\)u*à Mr. votre frère et à Mr. Clementi, et je ne me prive- 
rai pas de Tavantage inappreciable d*aller vous assurer encore combien 
je suis reconnaissant à la délicatesse de vos procedes envers moi ; plait à 
Dieu que la fortune me favorise un jour, pour que je puisse satisfaire 
mes devoírs: 

Je me suí$ occupé de la composition de quelques ouvrages diíférentes, 
que j'aurai bien envie de vous les faire entendre, afín de recevoir votre 
approbation pour laquelle j'ai eu toujours beaucoup de considération ; 
|'espère que lorsque les affaires politiques auront pris une autre tournure, 
je me deciderai à partir pour Londres, et c'est alors que nous causerons 
du grand nombre iníini des choses étonnantes qui se sont passées depuis 
notre séparatton. 

Je vous prie, etc.» 

Lisbonne le 12 Aoút i83o. 

Mon très cher et bòn ami. 

Je suis trop heureux de saisir une aussi bonne occasion pour vous 
donner de mes nouvelles, et vous récommender très particulierment 
Monsieur le Chevalier A. Cardoso, personne de la plus grande estime, et 
digne d'êcre appreciée de toas ceux qui ont Tavantage de le connaitre. 

0*est pour Monsieur Cardoso que|Vous aurez une exacte Information 
relativement à ma triste situation dans cette ville depuis mon retour de 
Londres. 

Je vous prie d^offrir à mr. Clementi, et à mr. votre frère Texpression 
des sentiments que je lui ai toujours voués, et de me rappeler au souve- 
nir de toutes les personnes à qui je dois de la considération et la recon- 
naissance. Je suis, etc.» 

Durante esses cinco tristes e longos annos de homisio, o 
facto conhecido mais notável que se oeu na vida do nosso mu- 
sico foi um grande susto que elle apanhou, e do qual nunca 
se esqueceu, repetindo-o frequentes vezes nas conversações 
intimas. Deu-se o caso da seguinte forma, segundo a tradição 
que se conserva na familia : costuniava Bomtempo ir de noite 
e occultamente visitar as irmãs á casa do Alto das Chagas; (*) o 
trajecto não era longo, porque o consulado da Rússia estava 
installado a S. Pedro d'Alcantara, e torneando pelas ruas mais 



(1; Náo tenbo noticia do fallecimeoto da máe, mas creio que se teria dado pela mesma 
época. 

143 



BO 

escusas do Bairro Alto podia realisar as suas visitas sem maior 
perigo. Quando sahia nas noites de inverno usava metter no 
peito, entre o coUcte e a camisa, uma folha de papel de mu- 
sica para o resguardar do frio, uso muito commum entre os 
nossos antigos músicos. N'uma d'essas noites, o acaso fel-o 
topar com uma patrulha de urbanos que lhe tolheu o passo, 
dírígindo-lhe as perguntas da ordem : — Quem é ? D'onde 
vem? Para onde vae ? — Bomtempo tomado de susto, balbu- 
ciou algumas palavras em inglez. — E' um bije^ diz o arvora- 
do da patrulha para o camarada, não o entendo. — Deixa-o lá, 
responde o outro soldado, malhados é que precisamos filar. . . 
— O papel que n'essa noite elle tinha mettido no peito, con- 
tinha, por um desastrado descuido que podia ter ticio funestas 
consequências, nada menos que o esboço de um hymno cons- 
titucional planeado para festejar a chegada* de D. Pedro IV. (') 

Terminaram os dias de amargura, e doesta vez para sem- 
pre, logo que o triumpho da causa liberal se tornou definitivo. 
Quando o doador da Carta desembarcou em Lisboa, a 28 de 
julho de i833, Bomtempo apresentou-se-lhe e recebeu imme- 
diatamentc a nomeação de professor de D. Maria U e a com- 
mcnda de Christo. 

A joven rainha tratou-o afFectuosamente, e bem depres- 
sa o illustre musico recuperou na nova corte a brilhante po- 
sição de out'ora, realçada pelo contraste dos sofTrimentos 
passados. 

Quando se commemorou o primeiro anniversario da pre- 
matura morte de D. Pedro IV, Bomtempo compoz uma sym- 
phonia fúnebre c um Libera-me para se executarem nas exé- 
quias ; a partitura do Libera-me existe no próprio autographo, 
na bibliotheca da Ajuda, onde tive occasiãode examinal-a. Tem 
o seguinte titulo que transcrevo textualmente : uLibera-me Con- 
sacré à la memoire de D. Pedro Duc de Bragança et offert à 
5. M. Imperiale M,^^ la Duchesse Douairière Composé par J. 
D. Bomtempo, Commandeur de Vordre du Christ; Mailre de 
Musique de S. M. Três Fidèle^ Directeur du Conservatoire, 
NB. Execute vour la première fois le 24 Septembre i835 à 
roccasion de l anniversaire de la mort du Duc de Bragança à 
lEglisè de S. Vincent à Lisbonne.y> 

Notei, na analysc d'esta panitura, que Bomtempo quiz 
affastar-se um pouco do seu estylo, amoldando-o á musica ita- 



(i) Devo dizer a bem da verdade, que não me consta de hymno at^m constitucional es- 
cripto por Bomtempo. E' possível, porém, que o tivesse composto, e desistisse de o apresentar 
em consequência de D. Pedro ter tomado para si a gloria de ser elle mesmo o compositor de 
hymnos em honra da Constituição. (V. D. Pedro IV). 

144 



BO 

liana, talvez para satisfazer o gosto commum ; não conseguiu, 
porém, fazer uma obra notável, e aquelle manuscrípta não 
tem hoje outro valor senão o de uma recordação histórica, A 
symphonia fúnebre, que tem sido executada algumas vezes em 
Lisboa, também pouco vale, não sendo trabalhada com o es- 
mero da missa de Requiem e de outras composições que te- 
nho mencionado. 

Na partitura do seu Libera me^ já Bomtempo se intitula- 
va «director do Conservatório)) ; era-o, com effeito, se bem que 
aquelle instituto não funccionassc ainda com uma organisação 
definitiva. E como a historia da fundação do Conservatório de 
Musica se relaciona intimamente com a do seu primeiro dire- 
ctor, aqui a deixo esboçada e confirmada com os respectivos 
documentos. 

O Seminário Patriarchal(i) decahido gradualmente do seu 
antigo explendor, fora definitivamente mandado fechar pelo 
governo liberal, n'uma das suas primeiras medidas reformai- 
doras. Ao mesmo tempo, por decreto de 28 de dezembro de 
i833, a Casa Pia foi reformada e transferida para o mosteiro 
dos Jeronymos, addicionando-se-Ihe aos vários estudos uma 
aula de musica, cujo primeiro professor foi José Theodoro Hy- 
gino da Silva. 

Uma portaria datada de 8 de abril de 1834, mandava ao 
vigário geral do Patriarchado que entregasse ao administrador 
da Casa Pia os instrumentos de musica pertencentes ao extin- 
cto Seminário. O mencionado administrador pediu em seguida 
que se lhe mandasse entregar também os methodbs e mais 
musicas do Seminário que tinham ido para a Bibliotheca Pu- 
blica, mas a esse pedido respondeu uma portaria de 22 de 
maio, declarando que taes objectos deviam ser guardados na 
Bibliotheca, por serem de auctores celebres, nacionaes e es- 
trangeiros, f) ' 

Assim se preparava a fundação do Conservatório, que o 
plano geral de reforma da instrucção publica redigido por Al- 
meida Garrett consignara no seu capitulo XIX. Esse estabe- 
lecimento foi emfim creado por decreto de 5 de maio de i836, 
ficando provisoriamente annexo á Casa Pia ; recebeu por pro- 
fessores os do extincto Seminário, e por-director o insigne Do- 



ei } Sobre este v. as blographias de D. Joáo V e D. José. 

(2) Silvestre Kibeiro, Historia dos Estabelecimentos scientiíicos e litteraríos em Portu- 
ga), tomo VI, pae. 21 e 23. — ■ Pouco tempo depois houve reconsideração sobre a conveniência 
de guardar na Biotiotheca todo o archivo do Seminário, pnrqne o artigo 8.** do decreto adiante 
trsntcrípto, legisla em sentido contrario. Devia naturalmente t^er havido grande barafunda n'estas 
tocccitivas baldeações de livros, e naturalmente também náo^eriam sido poucos os extravios. 
O certo é que, tanto na Bibliotheca Nacional como no Conservatório, existem alguns pequenos 
restos do espolio do Seminário que eu mtsmo tenho t(do occasiáo de examinar. 

roL. 10 145 



BO 

mingos Bomtempo. Eis os termos exactos do mencionado de- 
creto. 

«Desejando Eu promover a arte de musica, e fazer aproveitar os 
talentos, que para ella apparecem, principalmente no grande numero de 
Ortáos que se educam na Casa Pia : Hei por bem decretar que o Seminá- 
rio da extincta Egreja Patriarchal, seja substituido por um Conservatório 
de Musica, que se estabelecerá na referida Casa Pia, debaixo do Regula- 
mento seguinte : 

Artigo i.*" Haverá na Casa Pia d*esta Capital um Conservatório de 
Musica, que terá as Aulas segumtes : Primeira de Preparatórios, e rxidi- 
mentos: Segunda de Instrumentos de latão: Terceira de instrumentos 
de palheta: Quarta de Instrumentos de arco : Quipta de orchestra : Sexta 
de Canto. 

Àrt. 2.^ A prestação mensal de quatrocentos mil réis, que tinha o 
extmcto Seminário da Patriarchal, é transferida, e appHcada para a manu- 
teníjão deste Conservatório. 

Art. 3.^ Dentro do referido conservatório haverá um Collegio de 
doze até vinte Estudantes pobres, sustentados pelo Estabelecimento : en- 
trarão nelle com preferencia os que no Seminário estiverem mais adian- 
tados. 

Art. 4.** Alem d*estes Alumnos serão admittidos os Órfãos e Orfas 
da Casa Pia, cujo talento e propensão se reconhecer, e bem assim os Alum- 
nos do Collegio de Augusto. 

Art. 5."* Admittem-se também Alumnos pensionistas, os quaes paga- 
rão doze mil réis por mez. 

Art. 6.^ As Aulas do Conservatório serão publicas e francas para 
Estudantes externos de um e outro sexo. 

Art. 7.° Nas Aulas do Conservatório se ensinará a musica própria 
dos OíRcios Divinos, e a profana, incluindo o estudo das peças do Thea- 
tro Italiano. 

Art. 8.<^ O Cartório de musica, qu^ provisoriamente tinha pasmado 
do referido Seminário para a Bibliotheca Publica da Corte, fará parte do 
f^artorip deste Estabelecimento, e será augmentado pelo Director Geral 
com todas as peças notáveis dos auctores modernos assim nacionaes como 
estrangeiros. 

Art. 9.<* A Direcção do Conservatório de Musica é encarregada, na 
parte instructiva, a João Domingos Bomtempo, nomeado Director Geral, 
e na parte económica ao Administrador da Casa Pia, António Maria Cou- 
ceiro. 

Art. io.<^ A primeira aula do Conservatório será regida por José 
Theodoro Hygino da Silva, mestre da Casa Piaj a segunda por Francisco 
Kykenbuk ; a terceira por José Avelino Canongia ; a quarta por João Jor- 
dani , a quinta pelo Presbytero José Marques e a sexta por António José 
Soares^ os ouaes todos terão os mesmos vencimentos, que percebiam os 
do extmcto seminário. 

Art. II.*' O regimen, e methodo de ensino nas mencionadas Aulas 
Bca inteiramente a cargo do Director Geral. 

Art. i2.<' A inspecção económica, pelo que respeita aos Estudantes, 
é encarregada ao Administrador da Casa Pia. 

Art. i3.<» A receita e despeza do Conservatório de Musica fíca igual- 
mente a cargo do Administrador da Casa Pia. 

Art. i4.<> O Administrador da Casa Pia e o Director Geral do Conser- 
vatório darão annualmente conta pelo Ministério do Reino, do estado em 
<iue se acha o Estabelecimento, indicando os Alumnos que mais progres 
âos houverem feiío, para que seus nomes sejam publicados pela imprensa. 

146 



T^^ 



BO 

O Conselheiro d^Estado, Ministro e Secretario d'Estado dos Negó- 
cios do Reino, o tenha assim entendido e faça executar. Palácio das Ne- 
cessidades, em cinco de Maio de mil oitocentos trinta e cinco. = Rainha. 
—. Agostinho José Freire. 

Antes de proseguirmos, convém esclarecer um ponto 
obscuro que se encontra no precedente decreto, e cuja causa 
não deixa de ser interessante: o artigo i.® estabelece o numero 
e titulo das aulas, mas entre ellas não figuram as de piano nem 
de composição musical ; menciona, porém, no quarto logar, 
uma aula de «Orchestra», titulo enigmático que parece signi- 
ficar uma aula destinada a exercicios coUectivos. O artigo lo.^ 
nomeia professor d'esta aula o presbytero José Marques, e 
ao mesmo tempo faz professor de canto o pianista e composi- 
tor António José Soares. Ora as diciplinas que estes dois mes- 
tres do extincto Seminário n'elle ensinavam eram piano, órgão, 
acompanhamento e contraponto. 

Está aqui portanto occulta uma intenção reservada, que 
não pôde ser outra senão a seguinte : Bomtempo tinha sobre 
o ensino d'essas disciplinas idéas especiacs, gue muito se 
afifastavam do antigo systema adoptacio tradiccionalmente no 
Seminário, e para pol-as em pratica precisava desviar aquel- 
les que decerto *não as seguiriam, nem mesmo as comprehen- 
deriam; como eram dois mestres muito conceituados e real- 
mente de bastante merecimento, supprimil-os de vez seria in- 
justiça flagrantíssima que não se atreveu a praucar, por isso 
tomou o expediente de os deslocar, distribuindo a fr. José 
Marques uma aula de titulo enigmático e utilidade pouco ur- 
gente, ao mesmo tempo que arvorava Soares em professor 
de canto. Os dois contraponristas decahidos da sua elevada 

Sísiçâo tomaram, porém, uma attítude digna: nem fr. José 
arques, quiz dirigir a orchestra dos rapazes, nem António 
José Soares quiz ensinar canto, pois não era cantor. Nunca se 
apresentaram a tomar posse dos secundários logares que lhes 
distribuiram, e os seus nomes figuraram somente no decreto. 
E apezar de não ter sido mencionada uma aula de piano, 
a 4 de junho, Isto é, apenas uin mez depois de ter sabido o 
decreto, foi nomeado professor de piano do Conservatório, 
Francisco Xavier Migone, um alumno do Seminário que ulti- 
mamente se distinguira pela sua applicação ao estudo, e a 
quem Bomtempo muito se aflfeiçoou. Exerceu também as tunc- 
Ções de decunão no ensino do piano outro alumno do Semi- 
nário, Joaquim José da Costa. Está portanto bem claro que 
a eliminação da aula de piano^ assim como de uma aula de 
contraponto t harmonia, foi fictícia e teve por objectivo tirar o 
ensino d'«ssas matérias aos dois mestres do Seminário. Seria 

147 




BO 

uma medida fundamentada em boas razoes, mas não deixou de 
ser um acto cruel. 

Esclarecendo ainda o artigo 4.** do decreto acima trans- 
cripto, na sua referencia ao «Collegio de Augusto», direi que 
era este um collegio de pensionistas annexo também á Casa 
Pia, e creado por decreto de i de janeiro de i835, mas que 
nunca chegou a ter desenvolvimento. 

Conservatório foi dotado no orçamento com a verba 
de oito contos e seiscentos mil réis, distribuidos pelo modo se- 
guinte : 

Um director 8oo$ooo 

Oito professores 3:ooo$ooo 

Consignação para sustento de alumnos, etc. (qua- 
tro centos mil réis mensaes) 4:8oo$ooo 

Total réis 8:6oo$ooo 

E agui temos mais uma chave do enigma na menção de 
oito projessoresy quando a lei só nomeara seis. Não passe des- 
apercebida a verba consignada ao director, pela qual se vê 
que lhe coube uma parte de leão menos má ; sabia tazer valer 
o seu merecimento quando se lhe offerecia o ensejo, não o 
criminemos por isso. 

No emtanto Bomtempo não fez do seu logar uma sinecura 
c trabalhou a serio na organisação do novo estabelecimento ; 
encontrei algumas provas d'isso nos seus manuscriptos que 
ainda possue o sr. Fernando Bomtempo, o qual teve a con- 
descendência de m*os patentear ; entre elles encontrei um des- 
envolvido projecto de regulamento, um tratado de harmonia e 
contraponto (incompleto) e outro de composição musical. 

A primeira lei que instituiu o Conservatório fez d'elle, 
como atraz se viu, um mesguinho annexo da Casa Pia ; não 
era porém essa a idéa definitiva dos seus fundadores, cujas 
vistas iam muito mais longe. Logo que em i836 triumphou a 
celebre revolução de setembro e subiu ao poder o caudilho 
popular Manuel da Silva Passos, incumbiu este, por portaria 
de 28 de setembro, ao seu amigo e correligionário Almeida 
Garrett de formular um plano para a organisação do theatro 
nacional, ao que elle promptamente respondeu com o admirá- 
vel relatório e projecto de um «Conservatório geral da Ane 
dramática», datado de 12 de novembro. Apenas três dias de- 
pois, t5 de novembro, sahiu o respectivo decreto, cujo artigo 
3,^ dizia assim: 

1 I.» E* creado em Lisboa um Conservatório Geral da Arte Dra- 
mática. 

[48 



BO 

§ 2.^' O conservatório da arte dramática divide-sc em três escolas, a 
saber: i.* a escola dramática^ propriamente dita ou de declamação; ^^ a 
escola de musica ; 3.*» a escola de dança, mímica e gymnastica especial. 

% 3.* Fica encorporado n*esie estabelecimento o Conservatório de 
Musica^ erecto na Casa Pia por decreto de 5 de maio de i835, depois de 
adoptadas as providencias que se vão tomar sobre este objecto. 

A primeira providencia adoptada foi a escolha de um edi- 
fício para o novo estabelecimento, escolha que a cabo de va- 
rias buscas recahiu sobre o extíncto convento dos Caetanos ; 
um decreto de 12 de janeiro de 1837 determina que ali se es- 
tabeleçam tos Conservatórios de Musica e da Arte Dramática», 
e outro de 28 de março manda que para lá sejam removidos 
todos os utensilios. Seguidamente nouve um sensível melhora- 
ramento no pessoal de ensino : entrou para professor de canto 

compositor italiano Francesco Schira, sendo também nomea- 
do professor de violino Vitente Tito Mazoni. 

Uma lei de 7 de abril de i838 fixou o pessoal e respectivo 
orçamento pela seguinte forma : 

Escola de Musica 

i Director e professor de composição 5oo$ooo 

2 Professores de canto e orchestra a 3oo$ooo réis 6oo$ooo 
5 Professores de instrumentos d'arco, palheta c 

latão a 20o$ooo réis. i :ooo$ooo 

Escola de Declamação 

1 Director c professor de declamação 5oo$ooo 

I Professor ajudante 2008000 

1 Professor de rudimentos históricos e preparati- 
vos 200$000 

Escola de Dança 

I Director e professor de dança 4008000 

I Professor ajudante 2008000 

I Professor de g}'^mnastica própria 2008000 

Pensões alimentícias 

Aos 4 alumnos mais dístinctos, a 400 réis por dia 6848000 

Aos 6 immediatos, a 240 réis por dia 52Í>86oo 

Aos 10 immediatos, a 120 réis por dia 4388000 

Premies de livros 588ooo 

Total réis 5:4068000 

149 



BO 

material e despezas com os empregados subalternos 
estavam a cargo da repartição das Obras Publicas. 

Em 24 de novembro de iSSy apresentou Garrett ao go- 
verno um projecto de regimento do conservatório, que foiap- 
provado c mandado observar por decreto de 27 de março de 
1839, Doesse regimento a parte que diz respeito ao ensino de 
musica comprehcnde os seguintes artigos : 

Art. 1.° O Conter vatorio Geral da Arte Dramática é dividido em três 
escolas, a de declamação, a de musica, a de dansa e mimica. 

g I.' Na primeira se ensina a declamação trágica e cómica, a decla- 
mação cantada dos mesmos géneros, ou applicada á scena lyrica e a de- 
clamação oratória. 

1 2.° Logo que as circumstancias permittam, e obtida auctorisação 
das coneSf se dará o necessário complemento ao conservatório com uma 
escola de decorações ou de pintura especial applicada ao theatro. 

Art- 2." O antigo semmario Patriarchal, que, por decreto de 5 de 
maio de 18 35 foi mandado denominar Conservatório de Musica, e trans- 
ferido para a Casa Pia de Lisboa, e o qual por decreto de 1 5 de novembro 
de iS30j fíÁ encorporado no Conservatório Geral da Arte Dramática, con- 
tinua também a fazer pane d'elle, com o titulo de Collegio do Conserva- 
tório^ sem que por esta incorporação se entenda que perde os direitos 
adquiridos pelo artii^o 2.^ do citado aecreto de 5 de maio. 

^ único, O colle;>io é destinado áquelles alumnos de ambos os sexos, 
que por seu raro talento e falta de meios merecerem ser educados a ex- 
pensas publicas. 

Art. 3.^ Todos os índividuos assim^ naturaes como estrangeiros são 
admítiidos a frequentar as aulas do conservatório como externos. 

Art, 4." Todos os que frequentam o conservatório serão matricula- 
dos em uma de três classes ; a saber, como ordinários, como voluntários, 
ou como obrigados. 

g í." Os ordinários são filhos da escola, sujeitos ao rigor da frequên- 
cia, exames e exercicios, e teem direito aos prémios e recompensas. 

g 2." Os voluntários teem a liberdade ae se sujeitar ou não ás provas 
exigidas ; e cumprindo com ellas podem passar a ordinários, e ter prémios 
e recompensas. 

§ !*• Os obrigados são os que pertencendo como ordinários a uma 
escola, frequentam alguma das aulas de outra por obrigação do estatuto. 

% 4,^ Os pensionistas do estado serão sempre matriculados em uma 
da^ escolas como ordinários. 

Art. K.^ Ha no conservatório uma bibliotheca e repositório commum 
para livros, musicas e instrumentos. 

g 1.^ O bibiiothecatio será um professor do conservatório. 

I 2 " Pelo deposito geral das livrarias serão fornecidos os primeiros 
e principaes elementos da bibliotheca. Um dos dois exemplares, que todo 
o editor de uma obra é obrigado a depor na Bibliothtca Publica de Lis- 
boa 5 será pelo raesmo modo enviado ao conservatório, quando a obra fôr 
ou draniitica propriamente dita, ou musica, ou relativa ás bellas artes, 
que são objecto do conservatório. 

Art. 24'* A escola especial de musica, consta das doze aulas se- 
guintes : 

1/ De contraponto e composição ; 

1.' De piano, harmotiia e suas accessorias ; ^ 

3.* De narpa \ ^ 

150 



4.* De canto para o sexto feminino. 

3.* De canto para o sexo masculino ; 

6.* De rebeca c violeta ; 

7.' De rebecSo pequeno e rebecão grande ; 

8.« De flauta e flautim ; 

9 ■ De darinette, de corne basseto ; 

IO." De oboé, de corne inglez, de fagote ; 

•II.»- De trompa, de clarim, e de trombone ; 

12.* De rudimentos, de preparatórios. 

Art. 2bJ> O regulamento especial da escola íixará os methodos, habi- 
litações e modo de se formar o programma annual do curso, e dos exames 
dos alumnos e o das opposições a qualquer cadeira da escola que haja de 
prover. 

Art. 26.<» São auctorísadas na conformidade da lei as despezas neces- 
sárias para o serviço de um afinador e de um copista. 

Art. 3o.* O coUegio terá doze pensionistas do sexo masculino e seis 
do sexo feminino ; doze meios pensionistas do sexo masculino e seis meios 
pensionistas do sexo feminino. 

§ i,« Os pensionistas são sustentados, vestidos e educados pelo 
collegio. 

I 2.* OsT meios pensionistas pagam metade do que se julgar equiva- 
lente á despeza que o estabelecimento tem de fazer com cada um d elles. 

Art. ii.° Os professores são obrigados a formar uns compêndios e 
obras elementares para as suas aulas. 

§ I.* Estes compêndios e quaesquer outras obras elementares que 
sejam precisas, serão examinadas por commissões especiaes compostas de 
membros do conservatório, nomeados pelo mspector geral. 

§ 2.* Feito o exame pela com missão será a obra apresentada em 
conferencia eeral, e ahi adoptada ou receitada. 

Art. 55,"* O objecto dos exercícios públicos é formar os alumnos 
para a ezecução do género a que se destinam. 

I i.<* Os exercícios serão, ou parciaes para uma escola, ou geraes por 
todas três. 

§ 2.* O inspector geral fixará o numero, época e ordem dos exercí- 
cios, e designará, sob proposição dos conselhos de direcção, os alumnos 
que devem ser escolhidos para a execução. 

f 3.^ As despezas dos exercícios públicos serão feitas pelo producto 
dos bilhetes de entrada. 

I 4.^ A quarta parte do producto liquido dos exercícios (deduzidas 
as despezas) será applicada ás viuvas e orfaos necessitados dos professo- 
res do conservatório. 

g 5.<> O resto será applicaJo ás despelas do collegio dos pensionistas. 

Os artigos d'cstc regulamento que se referem ao «Colle- 
gio do Conservatório» e seus pensionistas, nunca chegaram a 
ter execução ; quiz-sc conservar o systema de internato usado 
no seminário e imitado dos antigos conservatórios italianos, 
mas não houve meio, nem talvez muito boa vontade, de o pôr 
em pratica. Creio que essa idéa era de Bomtempo, porque a 
vi também consignada no seu projecto manuscripto. A verba 
destinada á sustentação dos pensionistas era distribuida em 
prémios pecuniários de 400, 200 e 120 réis diários, que se 
concediam a alguns alumnos dos mais distinctos. 

151 



BO 

A distribuição das aulas determinada no artigo 24 tam- 
bém náo teve execução integral; assim o estudo de harmonia 
não ficou a agregado ao de piano, mas sim ao de contraponto 
c composição; aula de harpa nunca houve, como ainda hoje 
náo ha; lambem os instrumentos de palheta ficaram como ho- 
je estão, reunidos n*uma só aula, c não distribuídos por duas 
como aqueltt: artigo muito judiciosamente determinava. 

Não deixarei passar desapercebida aquclla ridícula no 
menclatura dada ao violoncello e contrabaixo, chamando-lhes 
* vebecão pequeno e rebecão grande; parece impossível que Al- 
meida Garrett se não chocasse com taes nomes, que, como 
muitos outros, pertencem á linguagem vulgar mas nunca de- 
viam ser admittidos na nomenclatura technica. 

Para professor de canto do sexo masculino foi nomeado 
António Porto; o do sexo feminino era Francisco Schira, c 
na sua ausência Angelo Frondoni. A este respeito sahiram 
successivamente três portarias declarando que devia haver só 
um professor de canto, mas nunca deixaram de ser dois; um 
d'ellesj que era Frondoni, não tinha nomeação Ic^al, rece- 
bendo o ordenado pela folha das despezas diversas. 

O regimento acima transcripto em parte, estabelecia uma 
espécie de academia composta de artistas e litteratos, destinada 
a promover o desenvolvimento das artes a que o Conservató- 
rio era dedicado ; muitos dos nossos homens notáveis fizeram 
parte d'essa academia, e também receberam a nomeação de 
sócios correspondentes Donizetti, Rossini, Auber, Meyerbeer, 
Mercandante, Rubini, Herz, além dos mais celebres litteratos 
d'aquella época. 

Como se viu precedentemente, a verba orçamental con- 
signada ao Conservatório, que em i835 era de 8:6oo$ooo réis, 
desceu em i838 a 5:4068000 réis, apezar de ter sido elevado 
o numero de professores, com o que ficaram muito exíguos 
os ordenados ; reparando em parte essa falta, o orçamento 
para 1839 40 mencionou mais a verba de 2:i5o$ooo «para o 
^aperfeiçoamento do Conservatório Dramático». 

No antigo «CoUegio dos Nobres* havia uma aula de mu- 
sica que estava sendo dirigida por Francisco Gazul ; extincto 
esse estabelecimento em i838, foi aqiiclle professor transferido 
para o Conservatório, por portaria de 21 de julho de 1840. 

A 14 de novembro do mesmo anno foi nomeado José 
Gazul Júnior para, por tempo de um anno, «reger a cadeira 
de Hauta e Hautim» ; o serviço seria gratuito até que as cor- 
tes estabelecessem o ordenado cometpente. 

Cabe aqui memorar um acto notável praticado por Gar- 
rett, que prova quanto este homem illustre era dedicado ao es- 
152 



BO 

tabelecimento de que foi principal fundador e mais activo orga- 
nisador: tendo escripto o primoroso «Auto de Gil Vicente», no 
intuito de abrir o caminho para a regeneração do theatro por- 
tuguez, cedeu a favor das escolas do Conservatório os direitos 
de auctor pela representação d'essa peça, não obstante achar- 
se n'essa época em circumstancias pecuniárias assaz difficeis. 

Note-se também que o logar de Garrett na Inspecção dos 
theatros e presidência do Conservatório, onde trabalhava com 
toda a assiduidade, era puramente gratuito. 

Entretanto a escola de musica do Conservatório desen- 
volvia-se notavelmente ; numerosos e excellentes alumnos, di- 
rigidos com zelo e boa vontade, faziam rápidos progressos. 
Em 29 de maio de 1840, deu o Conservatório uma festa pu- 
blica no theatro do Salitre, para celebrar o nome do rei D. 
Fernando. Imprimiu-se o programma, que se compunha das 
seguintes partes: i.* cA Apocheose», cantata, musica de Xa- 
vier Migone, poesia italiana de Perini, traduzida por Correia 
Leal ; orchestra, dois cantores a solo (soprano e tenor), e co- 
ros, constituidos exclusivamente por alumnos. 

Intervallo i.® Symphonia do professor Francisco Schira, 
executada pela mesma orchestra. — Parte 2.' «Amor e Pá- 
tria», drama original portuguez em três actos, por *** (*). — 
Intervallo 1.^ Variações de Herz para piano, executadas por 
D. Thereza de Lima de Carvalho, discípula de Xavier Migo- 
ne. — Intervallo 3.^ «O Parricida», scena composta e execu- 
tada pelo alumno da escola de declamação (e decurião de i .* 
classe) António da Silva Reis. — Intervallo 4.® Variações de 
Osborne e Beriot, para rebeca e piano, executadas pelos alum- 
nos João Ziegler e D. Thereza de Lima Carvalho. — Parte 3.^ 
Pela escola de Dansa. cBella, Rica e Boa ou as Três Cidras 
do Amor», dansa em 2 actos composta pelo director Francisco 
York, e posta em musica pelo professor João Jordani. 

Produziu grande impressão no publico esta festa do Con- 
servatório, sendo principalmente elogiada a escola de musica 
pelo adiantamento dos seus alumnos; um jornal fez lhe a se- 
guinte referencia : 

«A musica foi a parte que melhor se tratou, o que não sabemos se 
se deva attríbuir somente ao merecimento dos Professores e do Director 
desta classe o Sr. João Domingos Bomcempo, ou também i nossa dispo- 
sição natural e ao nosso gosto (>or esta arte ; seja o que fôr, o que não 
carece duvida é que o conservatório vai produzindo immensos resultados, 



(1) Este aator aDonymo náo ert outro seaáo o próprio Almeida Garrett, e o drama pa- 
triótico oae elle eacreven para os alumnoa do Conservatoíio tornoií-se, depois de retocado, a 
celebre fFilippa de Vilhena* que tantas Tezes se tem representado no theatro de D. Maria. 



€ não tardará muito que venha a fornecer ao Theatros de S. Carlos dignos 
interpretes das sublimes composições dos melhores mestres. 

Na opera ouvimos com verdadeira satisfação a voz agradável de D. 
Henrictueta de Lima Carvalho, a qual ella dinge e modula com tal arte 
que deixa vêr um verdadeiro talento que deve ser cultivado com todo o 
esmero. Júlio César Gallouin Torres canta com gosto e promette vir a ser 
muito bom tenor ; estes dois artistas se continuarem no andamento em 
que vio, poderão brevemente apparecer n'um Thetro maior, principal- 
mente quando estiverem mais habituados á scena. 

Nos intervallos (do drama e do baile) executaram-se symfonias, ya- 
ríações de piano, outras de piano e rebeca, que foram ouvidas com pra- 
zer. . ■» 

(O Independente^ n.* 14, 3 1 de maio de 1840.) 

Depois da apresentação publica dos alumnos do Conser- 
vatório, trabalhou-se na publicação dos novos estatutos, feitos 
por Garrett e approvados por decreto datado de 24 de maio 
de 1841, referenaado pelo notável politico Rodrigo da Fon- 
seca Magalhães. 

São muito desenvolvidos esses estatutos, que davam ao 
Conservatório uma grande e utilíssima latitude. Comprehen- 
dem seis «Titulos» divididos em vinte e seis «Capitulos» com 
cento e oito «Anigos»; teem mais um apêndice de três «Ar- 
tigos transitórios». O titulo primeiro trata da organisação do 
Conservatório; o segundo da direcção e administração; o ter- 
ceiro dos trabalhos litterarios e artisticos, e dos prémios ; o 
quarto da censura theatral ; o quinto das escolas; o sexto da 
reforma dos estatutos. Transcreverei alguns dos artigos mais 
importantes para dar idéa do vasto plano traçado por Gar- 
rett, 

ftCapitulo I. — Do objecto do Conservatório e das suas secções. 

Artigo !.• — O Conservatório Real de Lisboa tem por objecto res- 
taurar, conservar e aperfeiçoar a litterattura dramática e a lingua portu- 
gueza, a musica, a declamação e as artes mimicMS. E promoverá outro sim 
o estudo da arcbeologia, aa historia e de todos os ramos de sciencia, de 
Ijiteratura e de arte, que podem auxiliar a dramática. 

Artigo 2.» — O Conservatório procura obter estes fins: !.• Pelas 
suas conferencias e reuniões litterarias e artisticas ; 2.*» Pela publicação, 
pela imprensa, de seus trabalhos; 3.° Pela censura que exerce sobre os 
iheairos; 4.° Pelas suas escolas. 

Artigo 3.* — O Conservatório divide-se em quatro secções, a saber: 
Primeira de lingua portugueza ; segunda de litteratura, e especialmente 
de litceratura dramática ; terceira de historia e antiguidades ; quarta de 
mudca e artes. 

I uníco. — Nenhuma doestas secções terá precedência sobre a ou- 
tra. 

Os capitulos 2.*» e S.** tratam dos sócios que compunham 
a academia ^o Conservatório, estabelecida no regimento de 



BO 

1837; o capitulo 4.^ determina que seja presidente nato um 
príncipe da família real, e vice-presidente o inspector geral dos 
theatros; o capitulo 6." determina que haja uma bibliotheca e 
repositório para livros, musicas e instrumentos; o capitulo j.^ 
diz que a casa destinada aos exercícios dos alumnos seria 
construída em forma de theatro, e regula o funccionamcnto 
d'esse theatro (que nunca chegou a existir). O titulo quinto 
começa assim: 

Artigo 72.<» — Conforme as leis, e dotaçSo por ellas consignada^ as 
escolas do Conservatório são três, a saber: a de Declamação, a de Musica, 
a de Dança e Mimica. 

SI.* Na primeira se ensina a declamação especial, trágica e cómica; 
amação cantada dos mesmos géneros ou applicada a scena lyrica, e 
a declamado oratória. 

g 2* Na segunda se ensina a musica vocal e instrumental, e a theo- 
ria da arte. 

I 3.0 Na terceira se ensina a dança e mimica, e a choreographia. 
§ 4.* Logo que as circumstancias permittam, e obtida auctorisação 
legal, se dará o necessário complemento á instituição, com uma escola 
de decorações ou de pintura especial applicada ao theatro. 

O precedente artigo raproduz, como se vê, o primeiro 
artigo do regimento de 1837, mas é seguido de muitos outros 
que regulam sobre a admissão dos alumnos, exames, pro* 
gramnnas, exercícios, etc. O capitulo 24.° reproduz também 
todas as determinações relativas ao «Gollegio do Conservató- 
rio», isto é, ao estabelecimento de alumnos internos, sem que 
todavia deixasse de continuar a ser letra morta. 

Entretanto a politica — a maldita politica — fizera com 
que Almeida Garrett se encontrasse a braços com inimigos 
que buscavam vin^ar-se mesquinhamente do seu grande ta- 
lento, ferindo-o no instituto que elle creára com o maior amor; 
António José d'Avila (depois marquez do mesmo appellido) 
ministro da Fazenda, propoz em cortes que fosse supprimido 
o Conservatório como medida económica. Essa proposta, e as 
polemicas que a tal respeito se travaram no parlamento, de- 
ram logar ao celebre discurso proferido por Garrett intitulado 
«Da discussão da lei da decima»;^ uma cias mais primorosas c 
violentas catilinarias que a oratória portugueza tem produzido. 
Não obstante, ou por isso mesmo, a suppressão total do Con- 
servatório seria in exora valmente realisada, se não acudisse 
toda a Academia em defeza d*aquelle instituto com uma ex- 
tensa representação, que tem a data de 27 de julho de 1841 ; 
asssignaram-a grande numero de pessoas do maior conceito, 
pelo que o governo se viu obrigaclo a emendar a mão. Para 
desfazer o pretexto da economia, acompanhou a representação 

155 



ff 



BO 

um projecto de orçamento que reduziu a despeza total do 
estabelecimento a 5:8i8$ooo réis, sendo effectivamente esse 
orçamento acceite como base das futuras determinações go- 
vernamentaes. 

Golpe terrível fora porém vibrado alguns dias antes : um 
secco decreto com data de i6 de julho de 1841 exonerou 
Garrett de Inspector geral dos theatros e por conseguinte de 
vice-presidente do Conservatório ; é certo que aquelle homem 
de immortal memoria, alma nobilíssima e desinteressada até á 
completa abnegação, trabalhou ainda mais alguns mezes em 
favor da sua obra, mas desprestigiado e vencido pelas contra- 
riedades, abandonou-a por nm, vendo esvahir-se como fumo o 
grandioso plano que apenas tivera um começo de execução. 

Garrett tinha proposto á academia do Conservatório, em 
sessão de 9 de maio, que se realisasse uma sessão plena ex- 
traordinária, consagrada a honrar a memoria dos sócios falle- 
cidos; já depois de exonerado, recommendou vivamente a 
sua proposta, do que resultou nomear-se uma commissão para 
redigir o respectivo programma, commissão de que fez parte 
Bomtempo juntamente com Garrett, Castilho, Varnhagen, 
Oliveira Marreca e outros. 

A grande sessão rcalisou-se na sala dos actos da Escola 
Polytechnica, em 21 de dezembro de 1841. Foi a ultima 
solemnidade do Conservatório em que tomou parte Almeida- 
Garrett e os eminentes homens de letras que o acompa- 
nharam ; n'clla discursaram : Varnhagen, que fez o «Elogio 
de Joaquim da Costa Quintella», Mendes Leal, no cElogio 
do Conde de Sabugal» ; José Estevão^ tEloeio de José Fer- 
reira Pinto» ; José Maria Grande, cElogio do Marquez de Va- 
lença» ; Alexandre Herculano, «Elogio de Xavier Botelho» ; 
António Feliciano de Castilho, «Elogio de Augusto Frederico 
de Castilho»; Garrett, »Elogío do Barão da Ribeira de Sa- 
brosa». Antes dos discursos, uma orchestra formada com os 
alumnos do Conservatório, parte dos professores e alguns só- 
cios amadores de musica^ executou uma composição de Bom- 
tempo, que elle mesmo airigiu ; n'um intervallo cantou-se um 
coro com acompanhamento de orchestra. O jornal «A Revo- 
lução de Setembro», dando noticia da solemnidade, refer-se á 
parte musical nos seguintes termos : 

a . . . . Também se deve notar que o sr. BomteiApo nSo foi só re* 
gente da orchestra, mas compositor das peças que se executaram, ás quaes 
se não pôde negar um distincto merecimento e apurado gosto. 

Os coretos de musica instrumental e vocal, eram todos compostos 
de professores, socioí, e alumnos do Conservatório. D'estes haviam trinta 
e tantas vozes de homens e mulheres, e figurava com elles o sócio do 
l56 



'T i f? w^ 



Conservatório, o sr. D. Manoel de Sousa, filho do Marquez de Saata Iria, 
e varias outras pessoas notáveis pela sua posição social, e amor ás artes. 
Não faltou a tocar, o sr. Folque ('), também sócio deputado ás cortes, e 
professor da Escola Polytechnica. 

Assim todo e&te acto solemne, e o primeiro d'e5te género que pre- 
senciámos no nosso paiz, foi celebrado por pessoas pertencentes ao Con- 
servatório, e ninguém ahi se lembrou de distincções sociaes, para se ,re • 
cusar a concorrer com o seu trabalho e prendas, para um fim tão louva - 
vel e tão alheio a vaidades.» 

Uma das disposições de Garrett, começada ã executar-sc 
mas que não teve seguimento, foi a publicação das nMemo- 
rias do Conservatório» e do jornal «Revista do Conservatório 
Real de Lisboa» ; n'aquellas estão impressos os discursos pro- 
nunciados na sessão acima mencionada, trechos interessantes 
da litteratura nacional. No jornal, de que apenas se publica- 
ram dois números, ha uma chronica de theatros, evidente- 
mente escripta por Garrett, que se alguns chronistas de hoje 
por acaso a lessem sentiriam vergonha do que escrevem. 

E assim acabou o Conservatório de Garrett; teve ainda 
a academia algumas sessões, presididas pelo engenheiro Joa- 
quim Larcher, sendo a ultima cuja acta foi publicada nas 
•Memorias» em 24 de dezembro de 1842, mas por fim cahiu 
em completo abandono. D'ahi por diante ficou aq[uelle estabele- 
cimento reduzido a uma simples escola de musica, cuja histo- 
ria será narrada n'outrou pontos d'este livro. 

Voltemos agora a Bomtempo. 

Desde que se julgou tranquillo por ter assegurado a sub- 
sistência própria e dos que lhe eram caros, entendeu qne era 
tempo de também gosar as doçuras do matrimonio. Em outu- 
bro de i836 casou na egrcja dos Jeronymos com a sr.* D. Ma- 
ria das Dores Almeida, senhora que ainda hoje existe e con- 
serva com respeito e saudade, viva memoria do illustre artista 
que nos annos juvenis recebeu por esposo. 

Em 23 de agosto de iSSj nasceu o sr. Fernando Maria 
Bomtempo cu|o baptisado se realisou com grande solemnidade 
na capella do paço das Necessidades, tocando por madrinha a 
rainha D. Mana II e por padrinho o rei D. Fernando, 

Sorria-lhe a fortuna e a felicidade. Os trabalhos do Con- 
servatório, a que elle se dedicara com tanto amor como Gar- 
ren, eram alternados com os saraus no paço c nas principaes 
casas de Lisboa, onde não só era admirado como artista mas 
considerado como amigo ; as horas de descanço passava-as no 
seio da familia, composta de irmãos que o adoravam como 



(1 ]0 illustre engenheiro Filippe Folque, distincto flautista ; V. o respectivo artigo n'este 
àkâoawnú. 

157 



um bcmfeitor, e de esposa que por ser muito mais nova o 
respeitava como um pae. 

Estava porém escripto que os longos annos de luctas c 
tribulações seriam apenas recompensados com ephemera ven- 
tura. 

No dia 7 de agosto de 1842 festejou-se, segundo o cos- 
tume, na egrcia annexa ao Conservatório, o santo padroeiro 
d'aquetla egreja e seu convento, que era S. Caetano; os alum- 
nos e professores executaram uma missa festiva de Bomtempo, 
que elle mesmo dirigiu. Foi a sua ultima manifestação artís- 
tica. Dez dias depois fulmina va-o a apoplexia de que falleceu 
ás 6 horas da manhã do dia 18. Apezar de ter quasi. comple- 
tos 67 annos, a sua robusta constituição ostentava-se ainda 
vigorosa t não fazendo prever um fim tão próximo. 

Causou em Lisboa dolorosa impressão a noticia de ter 
fúllecido o etninente musico portuguez ; fizeram-se-lhe pom- 

f)osas exéquias, e D. Maria II deu pessoalmente ordem que o 
cretro fosse conduzido n'um cocne da casa real. Em 5 de 
novembro o Conservatório celebrou exéquias solemnes na 
sua cape lia; cantou*se a missa de reauiem que o finado con- 
sasagrara á memoria de Camões, e o tiberame que elle mesmo 
escreveu para as exéquias de D. Pedro IV. Um necrológio 
feito por Mendes Leal e publicado na «Revista Universal Lis- 
boncnsert, termina com o seguinte elogio: 

«Foi a sua vida um continuo acto de beneficência. Deixa 
na terra viuva e filho, e três irmãos maiores de 70 annos," por 
quem dentro e fora ao reino» na boa e má fortuna, fora sem- 
pre o braço e representação visivel da Providencia. Ahi jazem 
elles agora entre lagrimas ao desamparo, só ricos de sauda- 
des, orpháos todos pelo coração do que para todos era pae, 
orphSos todos pela penúria do que para todos era riqueza.» 
Foi sepultado no cemitério cios Prazeres, em jazigo pró- 
prio. 

' Existem dois retratos authenticos de Bomtempo : um pri- 
morosamente gravado em Londres pelo artista jtaliano Ven- 
dramini, no anno de 181 3; outro pintado a óleo, em Lisboa, 
com esta assignatura: H. J. ou T.* e a data de 1814. Conser- 
vam n'o a viuva e filho como preciosa reliquia. E' copia d'este 
ultimo retrato a l}rtographia que sahiu na coUecção de «Retra- 
tos dos homens illustres» publicados por Pedro dos Santos 
em 1843-46, assim como a gravura de Alberto que sahiu no 
Diário lUmirado de 27 de setembro de i876.e na Arte Musi^ 
cal de 20 de outubro de 1873. Muitas biographias teem sido 
também publicadas, mas todas incompletas e cheias de erros. 

158 



As composições de Bomtempo constam, em resumo, do 
catologo seguinte: 

Impressas : 

Op. I. — Grande Sonata para piano. 
^Op. 2. — Primeiro concerto para piano com acompanha- 
mento d'orchestra. 

Op. 3. — Segundo concerto, idem. 

Op. 4. — Variações para piano sobre o Minuete afandagado. 

Op. 5 (?). — Elogio aos annos de D. Carlota Joaquina, 
para canto com acompanhamento de piano. 

Op. 6. — Variações para piano sobre o thema de Paesiello 
«iVe/ cor pm non mi sento. » 

Op. 7. — Terceiro concerto para piano com acompanha- 
mento de orchestra. 

Op. 8. — Capricho e variações sobre o hymno inglez. 

Op. 9. — Três grandes sonatas para piano. 

Op. 10. — «Hymno Lusitano», cantata para uma voz a 
solo, coro e orchestra. 

Op. 10 bis. — ^La viriu irion fonte» ^ a mesma obra pre- 
cedente, com letra italiana e acompanhamento de piano. 

Op. 10 ter. — Marcha extranida do «Hymno Lusitano», 
arranjada para piano a quatro mãos. * 

Op. II. — Primeira grande symphonia para orchestra. 

Op. II bis. — A obra precedente arranjada para piano a 
quatro mãos. 

Op. 12. — Quarto grande concerto para piano com acom- 
panhamento de orchestra. 

Op. i3. — Sonata fácil para piano com acompanhamento 
de violino. 

Op. 14. — Grande Phantasia para piano. 

Op. i5. — Duas Sonatas e uma aria com variações, para 
piano e violino. 

Op. 16. — Quintetto para piano, dois violinos, viola c 
violoncello. 

Op. 17. — «A Paz da Europa», cantata a quatro vozes, 
com coros e orchestra, ou piano. 

Op: 18.— Três Sonatas para piano com acompanhamento 
de violino. 

Op. 19. — Methodo de Piano. 

Op. 23. — Missa de requiem dedicada á memoria de Ga- 
mões. 

Sem numero. — Valsa para piano. 

Marcha, idem. 

Composições inéditas, cujos autographos existem na posse 
do sr. Fernando Bomtempo : 

159 



1 



Alessandra m Efeso, opera (fragmentos). 

Grande phantasia cm dó menor, para piano com acom- 
panhamento de orchestra. 

Quinto grande concerto para piano com acompanhamento 
de orchcsnra ('). 

(Missa em mi bemol, para quatro vozes e orchestra. 
Tc Deum, auatro vozes e orchestra. 
Matinas de defuntos, quatro vozes e orchestra. 
Absolvições, quatro vozes e orchestra. 
Seis grandes symphonias para orchestra. 
Segunda symphonia arranjada para piano, violino^ viola c 
violoncello. 
. Trcs sestettos para piano, dois violinos, viola, violoncello 

I c contrabaixo. 

Sestetto para piano, flauta, clarinette, duas trompas, fa- 
gotte c contrabaixo. 
1 Serenata para piano, flauta, clarinette, duas trompas, fa- 

[ gotte e contrabaixo. 

Sexto concerto para piano com acompanhamento de or- 
chrcstra* 

Capricho para piano com acompanhamento de orchestra. 
1 tíBiperttssementt para flauta, clarinette, duas trompas e 

dois fagottes. 

^Divertissement^ para piano com acompanhamento de or- 
chestra. 

Variações sobre a opera de Rossini mLa Donna delLago>^^ 
para piano com acompanhamento de orchestra. 

Três phantasias para piano com acompanhamento de or- 
chestra. 

Duas marchas para orchestra. 

Marcha dedicada a D. Maria II, para orchestra e para 
I piano. 

n Traité de composition musicah. 
I iiTraité dHarmonie et contrapoinH (incompleto). 

i cíPlano para um estabelecimento de musica vocal e ins- 

I tru mental,» Uma copia autographa d'este documento appare- 

I ceu no catalogo da livraria do fallecido architecto Nepomuce- 

no (aquelle que possuia os azulejos da Madre de Deus), livra- 
ria que foi posta em leilão; tem essa copia o seguinte titulo 
completo: tPlano para um estabelecimento de musica, vocal 
c instrumental. Offerecido a Sua Magestade Imperial o Duque 



.;]) Al três precedentes composições sáo as que o «Investígndor» anntinciou estarem 
pira «r publicadas, e ás quaes naturalmente Bomtempo tencionava dar a designaçfe de op. 20, 

160 



BO 

de Bragança Regente em Nome da Rainha, pelo mestre de 
Musica e de Piano Forte de Sua Majestade Fidelíssima a Se- 
nhora D. Maria Segunda. João Dommgos Bomtempo. i835.)) 

E' provavelmente o exemplar que Bomtempo entregou a 
D. Pedro IV por occasião de ser nomeado director do Con- 
servatório (6 ae maio de i836), cujo original na posse do sr. 
Fernando Bomtempo será o rascunho. Como esse documento, 
que devia legitimamente estar guardado na Livraria Real ou 
nos archivos do Estado, se encontra em mãos particulares, 
caso não é que possa despertar admiração, por ser insignifi- 
cante comparado com outros verdadeiramnte espantosos. (') 

Das obras que foram impressas, o sr. Fernando Bomtem- 
po possue apenas os originaes do Mcthodo de Piano e dos dois 
primeiros concertos. Affirma a ex.""* sr.' D. Maria das Dores 
Bomtempo, que a musica deixada por seu fallccido marido era 
em muito maior quantidade, mas que parte d'ella se extraviou . 
por occasião do fallecimento. 

No archivo do Conservatório, onde também devia existir 
alguma coisa do seu primeiro c tão insigne director — pelo 
menos as composições que ali se executaram debaixo da sua 
direcção, quasi nada encontrei. 

Domingos Bomtempo nunca- chegou a ser devidamente 
apreciado pela maioria cio nosso publico, cuja predilecção pela 
musica theatral é invencivel ; a sua obra, e até o seu nome, 
foram depressa esquecidos. Exerceu, porém, muito grande in- 
fluencia sobre a plêiade de amadores que constituiam a t So- 
ciedade Philarmonica», educando-os na musica de camará e 
de concerto, tornando conhecido o estylo dos mestres clássi- 
cos que elle seguia, dando- origem á formação das academias, 
e, emfim, contribuindo poderosamente para desinvolver e aper- 
feiçoar entre nós o sentimento anistico. Esse sentimento tão 
enraizado ficou^ passando de uma geração para outra, que se 
podem citar muitos nomes de distinctos amadores existentes 
hoje, íilhos, netos e bisnetos dos sócios da philarmonica de 
Bomtempo. 

A sua orientação artistica, visando exclusivamente ao es- 
tylo clássico, ficou' bem expressa nas precedentes paginas; 
mas para corroborar quanto elle era adverso á musica do 
theatro italiano, representada então pelas primeiras operas de 
Rossini, leia-se o seguinte humorístico trecho, escripto de Lon- 
dres para Lisboa a um amigo em 24 de julho de 1820 : 



(i) Depois de escríptas estas linhas li noa jornaes que a policia aprehendeu uma parte 
Qt liTraria de Nepomuceno, especialmente os manuscríptost que eram evidentemente furtados; 
catre elles foi o autographo de Bomtempo. 

roL. II 161 



«Vejo o que me dizes relativamente ao partido que hoje existe a fa- 
vor de Rossini ; vou dizer- te : 

A experiência que tenho do grande mundo, me tem ensinado que 
tudo é segundo a moda ; por exemplo, ha occasióes em que é moda não 
ter juízo, não ter talento, não ser homem de bem, e finalmente, o mau ser 
bom e o bom ser mau. 

Mas o peior, meu amigo, é que não vejo esperanças de melhoria, e 
portanto, i7 faut prendre le monde comme ti est^ vendo cada um de que 
modo poderá g^angear n*esta vida os meios de poder ser feliz na outra, 
pois é o único bem que nos resta.» 

As suas obras para piano eram estudadas pelos artistas 
portuguezoe do seu tempo, que as apresentavam em publico 
como primores de virtuosismo. No theatro de S. João do Por- 
to, em 12 ue agosto de 1826, um pianista — António José Ber- 
nardes — executou com acompanhamento de orchestra o tTer- 
ceiro concerto» ; na mesma cidade e theatro, outro pianista 
mais conhecido e compositor notável — Francisco Eduardo da 
Gosta — executou o «Quarto concerto», em 22 de fevereiro de 
1834; este mesmo concerto foi ainda executado no Porto por 
outro pianista — José Pedro — em 4xie novembro de 1834. (M 

Todos os estrangeiros que viajaram em Portugal na época 
de Bomtempo e escreveram a respeito do nosso paiz, teem 
phrases de elogiopara o illustre musico; citarei as seguintes: 

«A musica portu^ueza para piano, é príncipalmente a de Bomtem- 
po, o Mozart de Portugal. Posto que haja divergência de opiniões com 
respeito ao seu mérito de compositor, o que é indiscutível, é que são 
grandes os seus recursos de executante.» 

(Traduzido do livro inglez, Sketches of Portugueêe Life, et., ^r A. 
P. D. G.) 

«Deve-se fazer também justiça ao talento do grande pianista Bom- 
tempo.» 

(Tortugal lUusired, by the Rev. W. ^. Kinsey, B. D.) 

«Todos os portuguezes concordam em collocar Bomtempo na pri- 
meira ordem dos pianistas. Esta opinião foi confirmada por estrangeiros, 
em Londres, Paris e outras partes, onde este artista brilhou pelo seu ta- 
lento extraordinário, sem que a comparação feita com outros artistas 
eminentes, podesse diminuir o enthusiasmo excitado pela doce expressão 
. e inconcebível rapidez que elle desenvolve na execução da mais difficil 
musica.» 

(IBalby^ Essai statistique sur le ^yame de T^ortugal.) 



{ o Extrahi estas noticiai dat coliecçóet de programmas que existem na Bibltothcct Na- 
cional de Lisboa. 

162 



BO 

Concluirei com o trecho de uma das cartas escriptas por 
uma senhora ingleza cjue se propôz injuriar Portugal e os 
portuguezes, mas que tallando de Bomtempo não poude dei- 
xar de involuntariamente Juntar um grande elogio á proposi- 
tada censura ; diz ella que : 

«... a execução do pianista portuguez Bomtempo, era milagrosa ; 
porém não a sensitulisava no mais pequeno grau . . » 

(Cartas de Marianne Baillie, apud «Portugal e os Estrangeiros» de 
Bernardes Branco.) 

Boi*t>a, (Marque:^ de), v. Redondo (Conde de). 

Boirg-es (padre António Gaspar), O nome d'este ve- 
nerando sacerdote fallecido ha pouco tempo, tem logar n'este 
«Diccionario» por ter sido excellente mestre de canto eccle- 
siastico e auctor de um compendio publicado com o seguinte 
titulo: «Breves princípios de Cantochão para uso do Seminário 
Patriarchal de Santarém — Lisboa— Imprensa Nacional — 1855.» 
— E' um folheto pequeno, tem apenas i6 paginas, mas cor- 
rectamente coordenado. 

O padre Gaspar Borges nasceu em Castedo, junto a Ali- 
jó, em 22 de julho de 1809, entrando como noviço no con- 
vento de S. José de Ribamar, onde professou no i.^ de julho 
de 1829 e d'onde mais tarde passou para o mosteiro de Mafra. 
Os frades arrabidos eram notáveis pelo esmero com que cul- 
tivavam o canto religioso (sem acompanhamento, porque toda 
a musica instrumental lhes era vedada pelo voto de extrema 
pobreza), e o convento de Ribamar era uma escola especial 
d'ondc sahiam os melhores cantores que iam reforçar os fa- 
mosos coros de Mafra. 

Dissolvidas as ordens religiosas em 1884, fr. Gaspar re- 
solveu continuar na carreira do sacerdócio, e partiu para Coim- 
bra a frequentar o curso de theologia na Universidade, obten- 
do o grau de bacharel e chegando a preparar- se para o dou- 
toramento, ao mesmo tempo cjue desempenhava as funcções 
de chantre na capella da Universidade. Depois foi nomeado 
parocho de uma pequena aldeia próximo de Alcobaça, onde 
permaneceu alguns annos. 

Quando eiii i853 foi organisado o Seminário Patriarchal 
em Santarém, o padre Gaspar Borges foi escolhido para ali 
reger o ensino de moral e de canto litúrgico ; para uso dos 
alumnos d'esta segunda discipl.na é que elle escreveu o com- 
pendio acima mencionado. Exerceu também algum tempo as 
funcções de vice-reitor do Seminário. 

Em 1860 obteve por concurso a parochia de Nossa Se- 

163 



nhora dos Anjos em Lisboa, onde grangeou profunda vene- 
ração pelas suas virtudes. Era um dos mai > dedicados mem- 
bros do partido legitimista. Falleceu em 20 de dezembro de 
1898, na provecta edade de 90 annos. 

Seus sobrinhos, os reverendos padres António José Bor- 
ges e José dos Anjos Gaspar Borges, são também muito in- 
clinados á arte musical, tendo mesmo o segundo composto al- 
gumas obras de musica sacra. 

Borg-es (João José). Organista da capella da Univer- 
sidade de Coimbra no meiado século actual Possuo d'elle al- 
gumas composições religiosas e trechos para piano, de uma 
insignificância completa ; são autographas, tendo a mais antiga 
a data de 1826 e a mais moderna a de i85i. 

Em 1826 compoz a musica de uma opera cómica intitu- 
lada Os Tamanqueiros^ cujos versos eram do insigne poeta 
Castilho, a qual foi representada por curiosos n'um pequeno 
theatro de Coimbra. O Conimbncense de 19 de fevereiro de 
1870 narra este facto, elogiando a musica e o seu auctor. 

Castilho dedicou-lhe uma epistola, que vem no volume 
intitulado Escavações poéticas^ pag. 23o, s'ob a epigraphe «Ao 
sr. Borges, excellente compositor de musica.» Essa epistola c 
cheia de encómios hyperbolicos ao musico, cuja mediocridade 
não merecia ter inspirado tão grande poeta ; mas a inspiração 
nem por isso foi menos viva, sendo para registar, pela har- 
monia e propriedade, os bellos versos que descrevem a mu- 



sica; 



164 



«A musica, essa harmónica linguagem, 
Única universal, e sempre clara. 
Bem que diversa entre as nações diversas. 
£' a porteira que franqueia a entrada 
Do encantado universo dos delírios : 
Tudo é dominio seu, a vida, a morte, 
Céu, terra, abysmos, sonhos, existência, 
A saudade, a esperança, o gosto, as penas : 
Prothêu maravilhoso anima tudo. 
Diversa em ar e em gesto : entre os pasto, es 
Pastorinha amorosa engrinaldada ; 
Ameaçadora e audaz ante as phalan^es ; 
Risonha nos festins, nos templos séria. 
Ver como a terra se anniquila aos olhos 
Na escuridão da noite, e como inteira 
Resahe do cahos ao fulgir da aurora ; 
Cora e sorri co'a luz a rosa nova ; 
Alegra-se a ceara ; o mar se antolha 
Vasto e sublime, tristes as montanhas, 
Melancólica a pedra funerária 1 
A melodia é a luz que extrahe do cahos 
As palavras sem ella amortecidas ; 
Com ella a dor é dôr, o gosto é gosto.» 



J W ^ 



BO 

João José Borges era pae do juiz da relação de Lisboa, 
José Maria Borges, fallecido ha poucos annos. 

Botellio (Padre Manuel de Almeida). Nasceu ná cida- 
de de Recifife, capital de Pernambuco, em 5 de junho de 172 1. 
Tendo-sc tornado notável na sua terra como hábil musico e 
compositor, veju para Lisboa em 1749, onde o patriarcha 
D. Thomaz de Almeida o tomou sob a sua protecção, conce- 
dendo-lhe as ordens ecclesiasticas e nomeando-o cantor da sé. 
Corapoz muita musica religiosa, nomerosas sonatas para cra- 
vo, pequenos trechos para viola, cravo, tonos ou modinhas pa- 
ra canio, etc. 

A noticia d*este musico encontrei a n'um volume manus- 
cnpto intitulado «Desaggravos do Brazil...», que existe na 
Bibiiotheca Nacional ; devo porém notar que em nenhuma ou- 
tra parte se me tem deparado mais vestígios d'elle nem das 
suas obras, 

Botellio (Manuel Joaquim Pedro), Flautista e theori- 
co muito instruído. Nasceu em Lisboa nos fins do século XVIII, 
c teve por mest -e um bom tocador. Vicentino Tora, chamado 
familiarmente o Viceitinho. Inscreveu-se na irmandade de San- 
ta Cecilia em 27 de julho de 1822. Entrou para segundo flau- 
ta da orchesira de S. Carlos em 1825, e n esse logar se con- 
servou constantemente durante quarenta annos, até que ven- 
cido pela edade deixou de exercer a arte. 

Foi também por muitos annos segundo flauta na orches- 
tra da Casa Real, tendo tido sempre por primeiro, tanto n'csta 
orchestra como na de S. Carlos, o notável José Gazul. Saben- 
do a fundo harmonia e contraponto, e conhecendo também 
um pouco o piano, escreveu diversas composições, entre ellas 
um conceno para flauta ; mas ficaram quasi totalmente igno- 
radas, porque, dominado por um caracter excessivamente 
timido e modesto, nunca se atreveu a fazer conhecidos os seus 
trabalhos de compositor. Mas se não brilhou pelas próprias 
obras, adquiriu nome pelos numerosos discípulos que teve, 
tanto amadores como artistas, sobresahindo entre estes, dois 
bem notáveis : António Croner na flauta. Santos Pinto na com- 
posição. Foi também seu discipulo de harhionia o sr. Visconde 
de Arneiro. 

Muito amigo de transmittir a sciencia que um estudo so- 
litário e paciente lhe tinha feito adquirir, ensinava gratuita- 
mente quem mostrasse desejos de apprender; tanta era a sua 
dedicação n'esse mister, que não se contentava só com dar 
lições: como António Croner era muito pobre e não podia 
adquirir uma flauta boa para começar a exercer a arte, o bon- 
doso Manuel Joaquim Botelho presenteou-o com o instrumento 

165 



que SC tornou para Croner o companheiro inseparável de toda 
a vida. 

Uma única vez,na mocidade, Botelho tentou vencer o na- 
tural acanhamento, aprcsentando-se a tocar a solo em publico; 
foi no anno anterior áqutUe cm que entrou para a orchestra 
de S- Carlos, desejando naturalmente com isso dar provas 
de aptidão; tomou parte n'um sarau realisado no salão nobre 
d'aquellc theatro, em 14 de novembro de 1824, tocando um 
dos concertos do celebre flautista francez então em muita voga, 
Jcan Louis Tulou. 

Pela sua bondade e honestidade gosava de muita consi- 
deração entre os collegasj exercendo diversos cargos impor- 
tantes na corporação dos músicos, á qual prestou bons servi- 
ços. Foi um dos fundadores do Monte-pio Philarmonico, cujos 
primeiros esçatuios tceni a data de 1^34; {*) foi fundador da 
1 Associação Musi a 24 de junhon, em 1842; fez parte da com- 
missão que em 1843 reformou o compromisso, da Irmandade de 
Santa Cecília, e presidiu á que no mesmo anno reformou os 
estatutos do Monte-pio. 

Falleceu cm q de abril de 1873. 

Bragfa (Carlos Augusto Alves). — Pianista e composi- 
tor dotado de uma grande habilidade natural, se bem que 
Souco instruido c menos applicado ao estudo da ane séria, 
[asceu em Setúbal, no anno de 1842, vindo para Lisboa 
quando contava pouco mais de 20 annos. Tinha uma grande 
facilidade para escrever valsas, polkas e outros trechos de 
musica de baile para piano, que agradavam muito; os edito- 
res Lence e viuva Ganongia publicaram numero grande d'cs- 
sas composições, as quaes eram muito procuradas pelo publi- 
co^ chegando algumas d'ellas a adquirir bastante voga. Tam- 
bém escreveu no mesmo género para orchestra. Tocava um 
pouco violoncello, fazendo parte durante alguns annos da or- 
chestra do theatro de D. Maria II. 

Possuidor na mocidade de alguns bens de fortuna mas 
dotado também de um caracter folgasao e generoso, não lhe 
faltaram amigos para o conduzirem com presteza á ruina da 
bolsa c da vida, vindo a falleccr em precárias circumsiancias ^ 
no dia 24 de setembro de 1888, quando mal contava 49 annos. \ 
Outros amigos mais sinceros — os primeiros tinham-lhe vol- 
do as costas como é costmne — promoveram uma subscrípção 
para que as homenagens fúnebres lhe fossem prestadas com 1 
decência e respeito, 

liríig-aiiça (D, João de) u. X^afoes (Duque de). 



(1, V, f OIT A [Joio Alberto Redflgcij. 

166 




Bramão (Carlos Augusto Pereira). Filho de Carlos 
Augusto de Sequeira Bramão, nasceu em Lisboa aos 5 de ju- 
lho de i835. 

Seu pae era official do exercito no tempo de D. Miguel, e 
tendo síclo accusado de constitucionalismo esteve preso na 
torre de S. Julião até 24 de julho de i833; em compensação 
d'isso foi nomeado pelo governo canstitucional para o serviço 
aduaneiro, occupando successivamcnte os logares de director 
das alfandegas de Setúbal e Faro, e dos circulos aduaneiros 
de Valença e Bragança. 

Carlos Bramao filho, que passou a edade juvenil em Faro, 
revelou desde creança uma grande vocação para a musica; 
cjuando estava mais desenvolvido apprendeu, por simples curio- 
sidade, a tocar flauta, 'clarinete e famtte com um bom musico 
que havia n'aquella cidade chamado Becker. Vindo para Lis- 
boa, matriculou-se no Conservatório, onde frequentou as aulas 
de piano e harmonia, cujo professpr era Xavier Mígone. 

A necessidade de prover á subsistência, ou mais ainda 
uma pronunciada tendência para a vida folgada, fizeram-o des- 
curar dos estudos escolares, lançando se antes de tempo no 
exercício da arte. 

Por esse tempo estava a musica muito no gosto do pu- 
blico que frecjuentava os theatros portu^uezes, graças princi- 
palmente ao incomparável estro de Casimiro que tinha aviva- 
do esse gosto com as suas deliciosas partituras, taes como a 
«Batalha de Montereau», o «Ópio e Champagnei, a «Coroa 
de Carlos Magno» e tantos outros primores da mais espontâ- 
nea inspiração. Muitos compositores se lançaram no caminho 
aberto por Casimiro, e um d'elle&foi Bramão; a sua tendên- 
cia bohemia Icvou-o á convivência com as gentes de theatro, 
e como era dotado de boa organí sacão artística, embora não 
o inflamasse o sopro do génio, foi bem recebido no palco e 
frequentes vezes applaudido pelo publico. 

Em I de janeiro de i855 subiu á scena pela primeira vez, 
no theatro do Gymnasio, um drama historio de Braz Martins, 
intitulado «Recordações da guerra da Península», que, como 
quasi todas as peças representadas n*aquelle tempo, era inter- 
calado de números de musica, os quaes Bramão escreveu. 
Creio ter sido este o seu primeiro ensaio. Um anno depois 
firmou melhor a mão, compondo uma operetta intitulada «O 
Diabo nem sempre está atraz da porta», que foi cantada no 
theatro de D. Fernando em abril de i85fí. Em 3i de julho do 
mesmo anno cantou-se também n'aquelle theatro a «Palavra 
de Rei», opera cómica cm dois actos poema de César de La- 
cerda; agradou muito esta peça, representando-se numerosas 

167 



que se tornou para Croner o companheiro inseparável de toda 
a vida. 

Uma única vez,na mocidade, Botelho tentou vencer o na- 
tural acanhamento^ apresentando-se a tocar a solo em publico; 
foi no anno anterior áquelle em que entrou para a orchestra 
de S, Carlos, desejando naturalmente com isso dar provas 
de aptidão ; tomou parte n'um sarau realisado no salão nobre 
d'aquellc theatro, em 14 de novembro de 1824, tocando um 
dos concertos do celebre flautista francez então em muita voga, 
Jean Louís Tulou. 

Pela sua bondade e honestidade gosava de muita consi- 
deração entre os coUegas, exercendo diversos cargos impor- 
tantes na corporação dos músicos, á qual prestou bons servi- 
ços. Foi um dos fundadores do Monte-pio Philarmonico, cujos 
primeiros estatutos teem a data de 1034; (') foi fundador da 
^Associação Musi a 24 de junho», em 1842; fez parte da com- 
missâo que em 1843 reformou o compromisso, da Irmandade de 
Santa Cecilia, e presidiu á que no mesmo anno reformou os 
estatutos do Monte-pio. 

Falleceu em 9 de abril de 1873. 

Bi-ag^a (Carlos Augusto Alyes). — Pianista e composi- 
tor dotado de uma grande habilidade natural, se bem que 
Souco instruído e menos applicado ao estudo da arte séria, 
íasccu em Setúbal, no anno de 1842, vindo para Lisboa 
quando contava pouco mais de 20 annos. Tinha uma grande 
facilidade para escrever valsas, polkas e outros trechos de 
musica de baile para piano, que agradavam muito; os edito- 
res Lence e viuva Canongia publicaram numero grande d'es- 
sas composições, as quaes eram muito procuradas pelo publi- 
co, chegando algumas d^ellas a adquirir bastante voga. Tam- 
bém escreveu no mesmo género para orchestra. Tocava um 
pouco violo ncello, fazendo parte durante alguns annos da or- 
chestra do theatro de D. Maria II. 

Possuidor na mocidade de alguns bens de fortuna mas 
dotado também de um caracter folgasão e generoso, não lhe 
faltaram amigos para o conduzirem com presteza á ruina da 
bolsa c da vida, vindo a fallecer em precárias circumstancias 
no dia 24 de setembro de 1888, quando mal contava 49 annos. 
Outros amigos mais sinceros — os primeiros tinham-lhe vol- 
do as costas como é costume — promoveram uma subscripção 
para q^ue as homenagens fúnebres lhe fossem prestadas com 
decência e respeito. 

Bra,g^aiiça, fD. João de) v. X^afoes (Duque de). 



(i; V, poarji ^Jolo Alberto Rodrigei). 
166 



IBx*a.znSo (Carlos Augusto Pereira). Filho de Carlos 
Augusto de Sequeira Bramão, nasceu em Lisboa aos 5 de ju* 
lho de i835. 

Seu pae era official do exercito no tempo de D. Miguel, e 
tendo sido accusado de constitucionalismo esteve preso na 
torre de S. Julião até 24 de julho de i833; em compensação 
d'isso foi nomeado pelo governo canstitucional para o serviço 
aduaneiro, occupando successivamcnte os logares de director 
das alfandegas de Setúbal e Faro, e dos circulos aduaneiros 
de Valença e Bragança. 

Carlos Bramao iSlho, que passou a edade juvenil em Faro, 
revelou desde creança uma grande vocação para a musica; 
quando estava mais desenvolvido apprcndeu, por simples curio- 
sidade, a tocar flauta, 'clarinete e faâ[otte com um bom musico 
que havia n*aquella cidade chamado Becker. Vindo para Lis- 
boa, matriculou-se no Conservatório, onde frequentou as aulas 
de piano e harmonia, cujo professpr era Xavier Migone. 

Á necessidade de prover á subsistência, ou mais ainda 
uma pronunciada tendência para a vida folgada, fizeram-o des- 
curar dos estudos escolares, lançando se antes de tempo no 
exercicio da arte. 

Por esse tempo estava a musica muito no gosto do pu- 
blico que frequentava os theatros portuguezes, graças princi- 
palmente ao incomparável estro de Casimiro que tinha aviva- 
do esse gosto com as suas deliciosas partituras, taes como a 
«Batalha de Montereau», o «Ópio e Champagne», a «Coroa 
de Carlos Magno» e tantos outros primores da mais espontâ- 
nea inspiração. Muitos compositores se lançaram no caminho 
abeno por Casimiro, e um d'elleafoi Bramão; a sua tendên- 
cia bohemia Icvou-o á convivência com as gentes de theatro, 
e como era dotado de boa organisação artística, embora não 
o inflamasse o sopro do génio, foi bem recebido no palco e 
frequentes vezes applaudido pelo publico. 

Em I de janeiro de i85d subiu á scena pela primeira vez, 
no theatro do Gymnasio, um drama historio de Braz Martins, 
intitulado «Recordações da guerra da Peninsula», que, como 
quasi todas as peças representadas n*aquelle tempo, era inter- 
calado de números de musica, os quaes Bramão escreveu. 
Creio ter sido este o seu primeiro ensaio. Um anno depois 
firmou melhor a mão, compondo uma operetta intitulada «O 
Diabo nem sempre está atraz da porta», que foi cantada no 
theatro de D. Fernando em abril de i85fí. Em 3i de julho do 
mesmo anno cantou-se também n'aquelle theatro a «Palavra 
de Rei», opera cómica cm dois actos poema de César de La- 
cerda; agradou muito esta peça, representando-se numerosas 

167 



r- ^*A»g > . ^^?»«>- 



vezes e tendo tido algumas repetições em differentes épocas e 
theatros. Desempenhava o papel de protogonista — D. João V 
quando príncipe — o próprio auctor do poema, Lacerda, sendo 
o principal papel femmino desempenhado pela popular actriz, 
então no verdor dos annos, Luiza Fialho. 

Ainda no anno de i856, em 21 de novembro, cantou 
aquella actriz no theatro de D. Fernando uma canção militar 
tiA Vívandcira», poesia de Joaquim António d*01iveira, mu- 
sica de líramão; parece ter sido uma tentativa para captar a 
popularidade que obtivera outra canção com o mesmo titulo, 
poesia do Palmeirim, musica de Miro, cantada em 1849 ^^^ 
extraordinário êxito no theatro do Gymnasio. 

Bramão associou-se com o actor Isidoro, em 1869, na 
empreza do theatro das Variedades, e' âhi se representaram 
n*esse anno as seguintes peças para as quaes elle escreveu a 
musica: «Pipilet ou a victima a uma visão», operetta em i 
acto cxt rábida dos «Mysterios de Paris» (16 de maio); «O pri- 
vado do Sultão» (abril); «Vamos para Carriche», comedia em 
2 actos por D. José d'Almada (i de junho). D'essa empreza 
resultou-[hc perder o pequeno património que lhe coubera por 
herança, ficando d'ahi por deante á mercê dos recursos que a 
arte lhe podia fornecer, já nas lições de piano, para as quaes 
no emtanto nenhuma inclinação tinha, já nas coplas c outros 
pequenos trechos que, com maior ou menor frequência, con- 
tinuou a escrever para os theatros. Nos annos de 1869 e 1870 
dcram-se no iheatro do Principe Real duas apparatosas peças 
magicas — «A Lâmpada maravilhosa» e «A Pelle do Burro», 
— ornadas com grande numero de peças de musica, coros 
marchas, árias, coplas, etc , compostas por Bramão. O seu 
derradeiro trabalho para o theatro foi a operetta burlesca «Um 
banquete de antropophagos», representada no theatro do Gym- 
nasio em 1872; n'essa peça cantava Taborda um tango que 
foi publicado pela casa editora Lence e viuva Canongia. 

Bramão escreveu também muita musica vulgar para pia- 
no ; valsas, polkas, phantasias sobre operas, etc. ; uma coHec- 
çáo de cantos populares, uma romança para canto — «Melan- 
colia» — poesia de João de Deus, e uma valsa para recitar — 
«Saudade» — poesia de Bulhão Pato. Todas estas composi- 
ções foram publicadas pelo mesmo editor Lence ; algumas ou- 
tras publicou o editor Figueiredo, e ainda outras safiiram avul- 
samenie, O prurido litterario atacou-o um pouco, mas para 
caminhar n'cssa via falta va-lhe absolutamente uma qualidade 
que a natureza lhe não concedeu : o amor ao estudo. Deixou 
porém signacs das tentativas que fez n'esse sentido; n'um jor- 
nal publicado durante o anno de i865, A Gazeta Lisbonense, 
168 



escreveu um fraco esboço intitulado — «De como a musica é 
uma verdadeira linguagem», uma biographia de Haydn, e 
vários outros pequenos artigos. Começou também a publicar 
em 1872, na òa^eta Musicai de Lisboa — propriedade do edi- 
tor Lence — uma serie de artigos que intitulou «Historia da 
musica desde os tempos mais remotos, baseada na opinião 
dos mais celebres escnptores», titulo excessivamente pomposo 
para um magríssimo trabalho, que nem concluido ficou. Es- 
creveu mais um «Compendio cie Musica», cujo manuscripto 
enviou para o Conservatório afim de obter a approvação d'este 
estabelecimento ; de tal obra não tenho outra noticia porque 
cahiu em poço sem fundo. 

Finalmente, Carlos Bramão, que não tinha um viver bem 
regulado, foi atacado pela doença, contra a qual luctou du- 
rante algum tempo, até que falleceu em 3 de maio de 1874, 
antes de ter completado 3g annos de edade. 

Era primo do distincto pianista Emilio Lami. 

Brandaio [Manuel Valério de SousaJ. Musico ordi- 
narissimo, auctor da seguinte obra : «Resumo fácil c claro de 
todos os principios de musica vocal e instrumental, accomo- 
dado á capacidade de quaesquer principiantes. Com um ap- 
pendice. no qual se mostra o melnor modo de se apprender 
a musica com muita facilidade, e até mesmo sem mestre.» — 
Lisboa. — Na typographia da Academia das Bellas Artes. Rua 
de S. José, n." á. — iSSg. — O extenso titulo não está propor- 
cionado com a obra, que apenas occupa 18 paginas em 4.^; o 
texto refere-se frequentes vezes a exemplos de musica, os 
quaes deveriam ser lithographados ou gravados em appendice 
mas que nunca chegaram a obter essa rionra. E' obra de tanto 
valor como quem a escreveu. 

Este musico — muito conhecido em Lisboa durante certa 
época, designado familiarmente pelo cognome de Valério — 
ensinava e dirigia uma sociedade de amadores, do que tirava 
bom prpveito levando-os ás festas e embolsando elle só a res- 
pectiva remuneração. Compoz para serviço d*essa sociedade 
muita musica péssima, missas, aberturas, etc. Era natural de 
Traz-os-Montes, e falleceu pelos fins de 1873. 

Brito (Estevam de). Viveu no século XVII. Segundo 
diz Barbosa Machado, na Bibliotheca Lusitana, foi discipulo de 
Filippe de Magalhães, occupando os loeares de mestre de ca- 
pella beneficiado nas cathedraes de Badajoz e Málaga, «alcan- 
çando pelas suas obras grande applauso em toda a Espanha». 

No catalogo da livraria de D. João VI encontram-se men- 
cionadas as seguintes obras de Estevam de Brito : «Tratado de 
Musica»; «Motetes a quatro, cinco e seis vozes»; «Motete a 

169 



M,4wy 



quatro vozes — Exurge quare abdormis Dontinen; «Si Villan- 
cicos Dará a Natividade». 

tíreio que se refere a este compositor a seguinte noticia, 
que vem na BUãiotheca Hispana Nova, de Nicolau António, 
tomo 2.^, pag, 290, I.* col. : 

viSfephanus de Alvito^ Lusitanus, sacerdos regularis ordinis militar is 
Jesu Chnsíii Cardoso teste, aliquid Ar tis Musicce elucuòrayit,» 

Se Siephanus de Alvito não é o mesmo que Estevam de 
Brito, então o musico mencionado na Bibliotheca Hispana foi 
muito obscuro, porque nenhuma noticia encontrei d'elle, nem 
mesmo no Agiologto Lusitano, do padre Jorge Cardoso, ao 
qual Nicolau António parece referir-se. 



i;o 



Ceíbr SLlfAníonio Lopes). CapellSo cantor da capella 
real nos reinados de D. AfFonso VI e D. Pedro II. Segundo 
Barbosa Machado, nasceu em Lisboa no anno de 1634, sendo 
filho de Pedro Lopes Cabral e Filippa de Sousa. Professou 
na ordem de Christo e, antes de occupar o logar de cantor na 
capella real, foi beneficiado nas egrejas de Santa Maria de 
Thomar e de Santa Maria do Castello de Ponte de Lima. 
Ainda segundo o mesmo escriptor, falleceu a 6 de dezembro 
de 1698. 

Foi um ardente cultor da litteratura gongorica e um dos 
mais activos sócios da «Academia dos Singulares», onde teve 

Eor companheiro e amigo o notável musico poeta Marques 
resbio. As actas da «Academia dos Singulares» abundam em 
composições métricas do capellão Cabral, sonetos, oitavas, sil- 
vas, romances, e até um poema carnavalesco intitulado «Ser- 
pentomaquia», onde ha liberdades de linguagem pouco pró- 
prias de um freire de Christo. 

Presidindo a uma sessão da Academia, em 21 de dezem- 
bro de 1664, propoz-se defender uma these que não pôde 
chamar-se desarrasoada, embora o fizesse na balofa linguagem 
de Gongora. 

Eis os termos em que elle expoz o thema do seu dis- 
curso: 

«Em três pontos fundei o meu discurso, por entender que com a 
observação d*elles ficareis (ó Académicos Singulares) um modelo de pri- 
mores, um aceio da natureza, um epilogo de perfeições e um desvelo do 
mundo. Será o primeiro, que ó Académico Singular deve despresar hon- 
ras e titulos do mundOj por caducos e transitórios ; por ser o segundo que 
deve abraçar as scíencias, como taboa em que ha de salvar sua fama ; e o 

171 



•;-^5w^V]5e!»«*v3tiç- 



O-A. 

terceiro, que deve desprezar o ócio, como centro de vícios, e aproveitar o 
tempo como melhor ihesouro.» 

Mas se dos dotes littcrarios de António Lopes Cabral nos 
restam specimens espalhados pelos dois volumes em que fo- 
ram impressos os trabalhos da «Academia dos Singulares», do 
seu mérito musical nenhuma noticia existe, c creio mesmo que 
esse mérito não iria além do trivial conhecimento doxanto- 
cháo* 

Cal>ral (Camillo), O cardeal Saraiva, na «Liôta de al- 
guns artistas portuguezes», cita o nome de Camillo Cabral 
entre os quatro músicos — João de Sousa Carvalho, Jeronymo 
Francisco de Lima, Braz Francisco de Lima e Camillo Cabral 
— que el-rei D. José mandou á Itália para estudarem. Accres- 
ccnta que quando voltaram a Portugal foram todos quatro 
empregados no Seminário (não diz se como mestres se como 
simples cantores e organistas). Parece que foi Cabral o que sa- 
hiu mais fraco compositor, porque d'elle não tenho encontrado 
outros vestigios senão três paruturas autographas que existem 
no archivo da Sé de Lisboa, a saber : uma missa a quatro vo- 
zes e órgão, com a data de 1776^ e dois motetes, também a 
quatro vozes e órgão ; são composições de pouco valor. 

Cabral de Mlendonça (José). V. M!en- 

Oaetano (Fr. Lut'^ de S.J V. São Oaetano. 

Oaetano (Severino José). Hábil tocador de ophi- 
cleide que, pelos annos de 1846 a i8í>6. se fez ouvir a solo 
com muito applauso no theatro de S. Carlos e nas Academias 
de amadores. Era filho de um musico militar, Joaquim Cae- 
tano^ e irmão do violinista, ainda vivo, Justino José Caetano 
de Castilho. Falleceu hapoucos annos. 

Oamello (Fr. Francisco). Successor de Pedro Tha- 
íesio na regência da cadeira de musica na Universidade de 
Coimbra. Foi mestre da capella do EscuriaL e em lóSg obteve 
a succcssão de Thalesio em concurso puolico de que sahiu 
vencedor ; exercendo esse lo^cr interinamente, como era de 
praxe em todas as cadeiras universatarias, quatro annos depois 
requereu para ser nomeado definitivamente, o que obteve por 
provisiío passada aos 4 de fevereiro de 1643. O parecer do Con- 
selho da Universidade sobre o requerimento de fr. Francisco 
CamellOp no qual vem enumerados todos os seus merecimen- 
tos e constitue o único documento cophecido que nos dá no- 
ticia da sua existência, diz assim : 

ftRfanda Vossa Magestade por ordem do Conde Governador d'estes 
Reinos, de 16 de fevereiro passado, que n*este Tribunal se veja uma peti- 

172 



O-A. 

ção de Fr. Francisca CameUo, Religioso da ordem de São Hieronymo, e 
lente da Cadeira de Musica da Universidade de Coimbra, e consulte o que 
parecer. Na petição refere frei Francisco c^ue vagando a dita cadeira por 
edito publico na forma dos Estatutos da dita Universidade, foi oppositor 
a ella, e depois dos exames feitos cederam da opposíçao todos os opposi- 
tores Que com elle concorreram, pelas muitas vantagens que reconhece- 
rão n'elle frei Francisco por ihsigne na Arte de musica, e por tal reconhe- 
cido não só n 'estes Reinos, mas ainda nos de Castella e em outros por 
haver sido mestre da Capella do real Mosteiro de São Lourenço do Escu- 
rial e outras partes. E havendo levado a dita cadeira vae em quatro an- 
nos, tom feito muito fruito com sua lição, e com o cuidado, curiosidade e 
applicação que mostrou tinha muitos mais ouvintes que seus antecessores; 
e porque não ha pessoa qve possa ler a dita Cadeira com mais satisfação 
que elle frey Francisco, e sem embargo de ser triennal, Vossa Magestade 
a proveu muitas vezes de propriedade, quando os lentes o merecião, como 
foi na pessoa de padre Thalesio, antecessor d*elle Fr. Francisco, e na de 
padre Corrêa e outros ; e o n: esmo fez Vossa Magestade nas cadeiras das 
faculdades maiores. Pede a Vossa Magestade lhe faça mercê mandar que 
a dita cadeira seja perpetua na pessoa d'elle frey Francisco e não vague 
ao triennio como fez aos ditos seus antecessores. 

cc — O reitor e deputados da Universidade de Coimbra a quem na 
forma dos Estatutos se pediu informações dizem que frey Francisco le- 
vou esta cadeira por opposição e por ser insigne na arte de musica^ conhe • 
eido por tal e grande mestre e de particular engenho para ensinar tem 
sido de muita utilidade, que faz seu offício com cuidado, applicação e 
continuação e fica sendo tão bem de authoridade da Universidade ter por 
mestre de musica um religioso virtuoso e de bõ procedimento. Por tudo 
o Que são de parecer que VoíSa Magestade lhe faça mercê de fazer a dita 
cadeira perpetua em sua pessoa, como se fez por outras vezes. 

« — E este Tribunal he do mesmo parecer. — Lisboa, 9 de abril de 
i633. — Tinoco.» 

«(Meza da Consciência e Ordens da Universidade de Coimbra. Re- 
gisto de Consultas^ de i63i a i633, fl. 178. Apud. Theophilo Braga, «Hiito- 
ria da Universidade de Coimbra», tomo II, pag. 834.) 

Parece que frei Francisco Camello regeu a cadeira de 
musica até loSô, porque encontramos provido por opposição 
e sentença do conselho, Frei António de Jesus, da ordem tri- 
nitaria, em 27 de novembro de i636. 

Foi o sétimo lente que teve a cadeira de musica da Uni- 
versidade desde a sua fundação. 

Oajnpello [Fr. Gaspar). Frade carmelitano, em cuja 
ordem professou aos 24 de junho de 1567. Nasceu em Lisboa 
e foi organista no convento do Carmo doesta cidade, gpsando 
reputação de musico profundo e conhecedor dos ritos sacros. 
Gompoz o Processionario de que usavam os carmelitas da 
Província de Portugal, livro litúrgico que foi impresso na of- 
ficina de Pedro Craesbeck em 1610. Falleceu no seu convento 
do Carmo em 1622. 

Dá noticia d'elle fr. Manuel de Sá, nas suas «Memorias 
Históricas». 

Oaj3[ipo (Manuel Correia do). Dois músicos portugue- 

173 



zcs com o nome de Manuel Correia, coexistiram em Hespa- 
nha na primeira metade do século XVII ; um foi capellão can- 
tor — racionero — na cathedral de Sevilha, outro, frade car- 
melita, foi mestre da capella na cathedral de Saragoça. O Ín- 
dex da livraria de D. João IV, que de ambos menciona varias 
composições, distingue-os chamando ao primeiro Manuel Cor- 
reia, e ao segundo fr. Manuel Correia. 

Com outro appellido, porém, se distinguia a si mesmo o 
capellão cantor de Sevilha : n'uma carta dirigida por elle ao 
mestre da capella de Granada, Diogo Pontac, e que abaixo 
transcrevo, assigna-se Manuel Correia dei Campo. Gomo nin- 
guém melhor sjaberia o próprio nome com todas as letras, 
este deve ser tomado por verdadeiro. 

Barbosa Machado, na «Bibliotheca Lusitana», não nos diz 
a seu respeito senão que era natural de Lisboa, capellão da 
cathedral de Sevilha e «insigne na sciencia da Arte de Musi- 
ca», citando algumas obras d'elle que existiam na livraria de 
D. João IV. Os escriptores modernos, Fétis entre elles, repro- 
duzem simplesmente a noticia de Barbosa, copiando-se uns 
aos outros sem mais cerimonia nem trabalho ; apenas accres- 
centam a data de 162b como sendo aquella em que o musico 
portuguez florescia. 

telizmente posso avançar um pouco mais, graças ao acaso 
de uma rara descoberta : ao tempo em que andei na secção 
dos manuscriptos da Bibliotheca Nacional rebuscando elemen- 
tos para o meu trabalho com a paciência de quem procura 
agulha em palheiro, deparou-se-mc com grande alegria minha, 
dentro de um livro contendo obras didácticas, um documento 
precioso para o caso ; é yma folha impressa, d'aquellas folhas 
volantes que nos séculos XVI a XVII se publicavam numero- 
sas, sob a forma epistolar. Contém duas cartas; a primeira 
com este titulo: «Discurso de maestro Pontac, remitido ai Ra- 
cionero Manuel Corrêa»; a segunda consiste na resposta que 
o musico portuguez deu ao hcspanhol. 

Diego — ou Diogo — Pontac, começa o seu discurso por 
dar noticia da sua pessoa e merecimentos, dizendo que desde 
pequeno mostrou inclinação para a musica, apprendendo essa 
arte aos 9 annos com os mais distinctos mestres cujos nomes 
menciona ; depois entra no assumpto, que apresenta como 
principal mas talvez não fosse mais do que pretexto para falar 
de si, assumpto que consiste em elogiar uma freira de Sevi- 
lha, chamada dona Serafina^ dotada de voz maravilhosa e can- 
tora de primor. Comprèhende esse discurso apenas uma curta 
pagina de folio pequeno, terminando coma data: «£>í Gra- 
nada a 22 de Junto de i633 anosy>. Manuel Correia dá-lho 
174 



O-A- 



! 



larga e brilhante réplica em duas paginas e meia, glosando as 
mesmas phrases com outros motivos e servindo-se da mesma 
língua castelhana. Começa por jogar uma famosa bisca ao 
collega jactancioso, dizendo-Ihe que a sua inclinação para a 
musica ainda se manifestou mais cedo que a d'elle, pois até 
cantou no ventre materno ; á primeira settada disparada em 
cheio, seguem varias allusÕes assaz picantes que não sei se 
visaram o mesmo alvo, como parece. AfBrma que estudou na 
infância com os melhores cantores de Hespanha, que são os. 
portuffuezes: Desde mis ntne^es estudié con los mejores canto- 
res de Espana (que bastara dezir de Portugal] > ..y> Mencio- 
nando os mais insignes d'esses cantores, diz que eram fr. Vi- 
cente, Garoto, Garabulla, Veiga, Alpoim, Madeira, o Gallegui- 
nho, os Leonês e outros: accrescenta que quando começou a 
cantar em Lisboa lhe chamavam o ^menino Loyo» (d'onde se 

Eóde deprehender que foi moço da capella no convento dos 
-oyos, tendo ahi recebido a primeira educação musical), e que 
attrahiu sobre si toda a admiração que antes havia em Lisboa 
por aquelles grandes cantores. Depois de mencionar também 
as cantoras primorosas que tinham os conventos lisboncnses 
da Annuncíada, Santa Clara e Odivellas. refere-se á sua es- 
tada na corte do duque de Bragança (Villa Viçosa), onde ou- 
viu duas grandes cantoras, Cosma Orfea e Maria de Parma. 
Diz mais que esteve em diversos pontos de Castella, além de 
Sevilha, e que tem quarenta annos de idade (nasceu portanto 
em iSgS, pois que a carta é datada de i633). Em seguida en- 
tra no seu principal assumpto, que é o elogio de uma freira 
cantora chamada aona Mar^ariaa. 

E nenhuma outra noticia nos dá de si mesmo, assignan- 
do-se «El Racionero, Manuel Corrêa dei Campo». Este appel- 
lido, se foi tomado da terra natal, como era de uso, representa 
provavelmente algum dos sitios de Lisboa ou seus arredores 
que teem a donomição de «campoi, os quaes são numerosos, 
como se sabe: «Campo Grande», tCampolidei, «Campo de 
Ourique», etc. 

A carta do cantor lisbonense é curiosa a muitos respeitos 
e por isso a transcrevo textualmente. O auctor procurou os- 
tentar uma certa gala litteraria, talvez para também n*este 
ponto ficar superior ao collega, glosando-lhe o discurso não só 
com maior desenvolvimento mas em tom muito mais alto. O 
brio nacional ficou d'esta vez bem sustentado ; eis como elle 
se exprime : 

Al maestro Diego de Pontac, Respuesta de Manuel Corrêa, Racio- 
nero de la santa Iglesia de Seuilla. 

Remitiome V. m. el papel, escrito en loor de doiía Serafina (sobe- 



O-A. 

rana voz de la gran Capilla dei insigae Conuento de S. Clemente desta 
ciudad) y mandame por su carta lo corrije y censure (cumplimiento indi- 
gno de mi poça sunciencia) mas tan tarde, que ben creo es mas para 
aprooadoa que para resolucion ; siendo verdad, que importaua mucho Io 
comunicara V. m. antes. Porque assi como para pulir los diamãies se sir- 
ue el Arte de ellos mesmos ; assi los ingenios se afinan v perfícionan 
vnos con otros comunicando. Y como por la mucba que V. m. tiene de 
los Autores, y por su mucho estúdio, pone las consonancias en tan bue- 
nos lugares, y acendrados puestos, assi juzgo diera tambien el deuido. a 
cada vna de las senoras Cantoras de los Conuentos de Seuilla si a tocías 
las huuiera oydo. Y si agora lo fuera yo de los índios, tratara de persua- 
dirmos a creer, quan de poços anos me incline a Ia Musica verificando 
quizá, que cante en el vientre de mi madre, adquirindo despues la mteli- 
gencia y documentos desTa Arte, que aprendi de buenos maestros; con 
que alimente el particular talento, y exercício de la voz que Dios me dio 
(por el qual, y por la Iglesia que siruo, he omitido magistérios, que por 
mis estúdios pudiera conseguir.) Pêro como me escucha V. m. que me co- 
noce, escuso (para solo prouar que*entiendo) preâmbulos, y digressiones, 
que sirvieran mas para calificarme, hazerme notório, y alabarme, que cara 
alabar aotrê. Bien que la a^abança fsi ore próprio vilescit) se deue permittir 
en esta parte : porque el leyente vae, puede dar su voto, y censura quien 
dá el lugar j maestros, donde y con quien se estúdio y comunica la do- 
trina y ciência que aprendió. para cjue lodos la gozen, y participen; dieta 
men Católico, y el errado, y sofístico rito de algunos antemnsicos, o ante- 
cristos de este siglo, que como el diablo ocultan el bien. 

Esto presupvesto, el professor de nuestra arte (no aquel cuyas agu- 
dezas son viento, las raz nes quimeras, los discursos aristas, sus artifícios 
formalidades fantásticas ; no en fín el dcl dicho, sino dei facto) pndrá muy 
bien discur.^ar« censurar, y alabar, mediante el saber, y el tener buen gus- 
to, aunque sin este yerran talvez los doctos, y tal aciertan los que son afe- 
ctos y curiosos, con o probado susto, y mediante sciencia ; y siendolo la 
mia, me atribuyo el tener buen gusto, y el voio, y Ia experiência, assi de 
ver, y oyr, como dei obrar cantando : porque como ya dixe, y primeiro 
Túlio, in ojflciis fnec verá arro^anter hoc dictum ext mari velim) quoniam 
in eo studio cetatem consumpst (d id mihi assumo videor, id meo iure guo- 
dammodo vendicare). Desde mis niiiezes estudié con los me j ores cantores 
de Espaila (que b^istava dezir de Portugal) oyendo los mas insignes, y su- 
periores, que fueron fray Vicente, el Caroto, GarabuUa, Veiga, Alpoem, 
Madeira, el Galeguino, los Leonês, y otros, todos pasmos de aquei tiem- 
:)0, en el qual cantando el nino Loyo (nombre porque fuy conocido) quite 
a admiração que antes en Lisboa auia de oyrlos; e a mi el asfombro, aue 
siempre recordandome dellos tuue, hasta que oi a dona Margirita [de 
quatro anos a esta parte), Monja en el Conuento de Santa Paula de Seuiila, 
mas porque de hombres a muieres dispar est comparado (ni pienso la 
puede auer en que los egualen eílas: especialmente en lo sctentihco) digo 
que é oydo las mayores musicas que huvo en la Anunciada, Santa Clara, 
y Odivelas, conventos ilustres e Reales de Lisboa, y otra» excelentes y 
estremadas vozes; particularmente en Ia Corte dei Sereníssimo duque de 
Bragança, y en singular ali a Costa Orfea, portento dei Arte, y a M^ria de 
Parma, mila^ro de la naturaleza, sin otras que ilustrauam su Palácio y 
Capilla en mi iuventud: y assi en esta, como antes y despues en Sevilla y 
otras partes de Castilla, donde oi prodígios di mujeres, no he oydo, ni 
considerado [hasta quarenta anos qne tengo de edad) alguna que auenta- 
jasse a la dicha dona Margarita, eminentíssima cantora, a quien sino la 
aclamo entre todas vníca, la reconosco rara y a las mas soberanas de aora 
(de quien se tiene oy noticia) excede en lo raro, y llega a lo vnico, porque 

176 . 



fe 



'i".l*l' 



es su voz excellentissima, de agradable suabidad, Ia glossa, y passages de 
garganta bien granada, lisa, y veloz, con requebrados, y blandos quiebros 
(es Ia consistência dei quiebro, ablãdar, y quebrar la sequedad, y aspereza 
de la voz, su efecto, regular, y suavizar-se, no violentar-se, y emurecer-se 
a atirar punzadas, y saetas ai sentido dei oyente. Es anifícioso elegante y 
dulcíssimo el asseo de su cantar en el modo, y galanteria). Es incompará- 
vel su cordura en la eleccion, y proceder, y en la execucion de todo, toda 
divina, acordando finalmente su próprio taiíido, y su mesmo cantado, con 
tal vnion. donayre y Arte, que encanta a lo<; que la oyen sin passion, y a 
los que ai contrario, Erit illis Mista poreis óMargarita, 

Y lo que mas es, que tiendo tanta destreza, natural gala, y caudal, se 
acomoda, y ajusta de suerte a los perceptos de agenos estúdios, que los 
representa con mejoria, y los haze conaturales, y próprios suyos. Porque 
no le es difícil percibir de los compositores, y a elles el inuentar la can- 
toria tan facil^ como ai Piloto guiar biè un navio con viento en popa (por 
la agilidad y promptitud de la disposícion que tienne.) Desta propriedad 
le procede el no despenarse de los puestos dificiles, y el caer ae pies tan 
dulcement ; y el iio de daren precipícios temerários y dissonantes, ni en 
supérfluas reyteraciones^ que suelen osar algunos Músicos, que impruden- 
tes (imitando ciertos animales) no ruminan lo que cantan : dona Margari- 
ta SI, y con tanto acuerdo, que quien la imitare Erit mihi magna Minerua. 
Y no es mi intento contradizir a V. m. en lo tocante a su apoyo, y loa tan 
bien empleada, sino a escuchar cõ solo vn oydo (ocasion de poder juzgar 
apassionadoj que es lo que no admito. Per lo qual digo lo que dei Camões, 
ei otro sublime ingenio 

Si tUy triunfante Roma, este alcançaras, 
Nunca dei gran Therencio te admiraras, 

Y assi si V. m. a doiía Margarita oyera, assentara conmigo (y con 
los rauchos) como tan gran maestro: y viera claro, que (obscuratis coeteris 
stellis solus Sol aparet) como sol entre las demas estrellas resplandece. 

Y si el Sol no deuiera ser vno solo, y no temiera (por discípula de 
V. m.) tropezar en la lisonja, descriuíendo los grandes merecimientos de 
dona Anna de Mendoza (habilíssima Cantora) yo pusiera el sol de su ra- 
ro ingenio, en igual paralelo ai de dona Margarita, con que las dos fue- 
ran cadavn a sol a su polo; y imitara yo ai rio Eufrates, que aunque en- 
cuentra qualquier monte, no torce su corriente ; que no por salir de las 
alabanças de Margarita, aunque tan digna de loa singular, y entrar en 
Otras : auian de faltarme palavras, si encontraua con el ramo de oro de la 
Sybilla (que quintando vna hoja, ai momento brotava outra) con dona 
Ana digo, sugeto donde abundaua miteria para nueuas alabãças: ingenio 
tan capaz, y eminente; que repartido en tantas y peregrinas partes: delias 
se compone vn todo excelente, increible, y aJmirable. Ni fuera yo, por 
alaballa, como el rio salido de madre y furioso, que roba de vnas partes 
para enriquecer a otras deuiendo (como la lluuta provechosa) ser para 
todas radical, y no amontonado en solo vna. Pêro dexo este assumpto 
para su próprio logar, pues este solamente se dedica a doiía Margarita, de 
quien vltimamente díg) concluyendo, que assi como en Athenas para pin- 
tar a Mercúrio, retrataron a Alcibíades: assi para formar vna perfeta Can- 
tora, es menester bosquexar a esta Margarita. 

Esto es lo que delia alcanço ; y esto lo que me ha inclimdo (\'a que 
no se la puede dar de perlas Margaritas) a ofrecerle esta corona (Si coro- 
nare quando que est laudare) y bien quisera darle la dela gracia dei Rey 
nuestro sefíor, con quien desseara fuera valida, no para que la lUvara a 

FOL. 13 177 



O-A. 

Madrid, sino para que la hizíera fauores; y ai Illustrissimo Conuento mer- 
cedes, donde assiste; y Dios la guarde para que lo alabe, que es su próprio 
ofício, y a V. n). le trayga a Seuilla a oyrla, para que se ias ayude a dar: 
y a mi agora licencia para que dé este papel a la estampa, que por ser el 
primeiro sobre este intento ; y yo quien solo tome la pluma: tendré dis- 
culpa en estar mal cortada, y en lo que en loor no llegare ai deseo, etc. 
En Seuilla 2 de Agosto de i6^3 aiíos. 

El Racionero — Manuel Corrêa dei Campo. 

(Bibl. Nacional. — Secção de mss. — H-S-ii.J 

As obras do racionero Manuel Correia que se encontram 
no clndex da Livraria de Musica» de D. João IV, são as se- 
guintes : 

Caixão 27. Numero 695. Dois villancicos a 4 e a 8 vozes, 
para as festas de Nossa Senhora. 

Caixão 28* Numero 702. Um villancico do natal, a 4 e a 
8 vozes. Este tem o nome por extenso e em portuguez, as- 
sim : iiDo Racioneiro Manuel Corrêa do Campo». 

Caixão 28. Numero 706. Um villancico a 5 vozes, tdo Mes- 
tre Vargas», com mais cinco vozes accrescentadas pelo aracio' 
netro Manuel Corrêa». 

Caixão 28. Numero 707. Dois villancicos do natal, a 6 c 
a 8 vozes: um a solo com três instrumentos. 

Caixão 28. Numero 708. Um villancico a 8 vozes para a 
festa da Conceição. 

Caixão 3o. Numero 728. Dois villancicos do natal, a 4 co- 
ros; um a 6 vozes, outro a 4 c a 11 vozes. 

Caixão 3o. Numero 734. Um villancico do Sacramento, a 
4 e a 8 vozes. 

Caixão 33. Numero 770. «Salve Reginat a 4 vozes. 

Caixão 33. Numero 771. Dois motetes a 6 vozes. 

Caixão 36. Numero §10. Motete de defunctos a 6 vozes. 

Oampos (António Fernandes Gomes de). Organista e 
compositor muito estimado em Braga, onde nasceu no anno 
de 1839 e onde sempre viveu. 

Eis a noticia que a seu respeito me foi obsequiosamente 
enviada pelo sr. João Esmeris, professor também n'aquclla 
cidade. 

«Supposto que não fosse havido como grande executan- 
te, era no emtanto dotado de bom ouvido musical e bom gos- 
to para a composição, mostrando um certo conhecimento pra- 
tico de todos os instrumentos, tanto de orchestra como de 
banda, pois que instrumentava com facilidade e pericia. 

cNa mocidade cntregou-se muito ao passatempo de can- 
tar modinhas á viola, tanto de género profano e jocoso como 
em sério e religioso, sendo a parte musical quasi toda da sua 
178 



composição, chegando a reunir de memoria uma collecção 
d'ellas em numero superior a duzentas. Era esta uma das suas 
especialidades, sendo muito pretendido e convidado para reu- 
niões onde o ouviam com summo interesse. N'este género era 
conhecido em toda a provincia do Minho, pois que se fazia 
ouvir também de noite nas praças e ruas, podendo por isso 
dar-se-lhe o epitheto de Bohemio Bracarense. 

«Tocava violino, violeta, viola franceza e órgão, exercen- 
do o logar de organista durante muitos annos em varias egre- 
jas e capellas de Braga. 

«Deixou as seguintes composições : missa a três vozes e 
orchestra ; missa a três vozes e órgão ; vários Tantum-ergo e 
ladainhas, com orchestra e com órgão ; matinas do Sacramen- 
to a quatro vozes e orchestra ; hymnos diversos ; uma collec- 
ção de cânticos á Virgem Maria, para o mez de maio ; vários 
coros de virgens para todas as procissões, alguns dos quaes se 
tornaram muito populares e são de bom gosto; cantatas para 
vozes e quartetto, para o icmpo dos Reis, algumas d'ellas de 
lindo effeito ; novena do Menino Deus, a quatro vozes e or- 
chestra, varias outras pequenas composições de menor impor- 
tância. 

«Falleceu em junho de 1888, tendo 49 annos de edade». 

Oa^mpos (Carlos Augusto). Nasceu em Lisboa no dia 
I de março de 1827. Filho e discipulo de Gaspar Campos 
(v. o artigo seguinte), foi como elle primoroso clarinettista. Em 
22 de outubro de 1847, contando 20 annos de edade, foi 
admittido na irmandade Santa Cecília e Montepio Philarmo- 
nico, facto (jue n'aquella época significava o inicio solemne na 
carreira artística e o bom conceito que o neophito já merecia 
aos seus coUegas. Pouco depois, em 16 de janeiro de 1849, 
apresentou-sc na Academia Melpomenense executando um dos 
concertos compostos por Canongia ; era a ultima e mais dlffi- 
cil prova que tinham de dar os candidatos a sócios da impor- 
tante aggremiação de professores intitulada a Associação Mu- 
sica 24 de Junho» (v. Costa— Joã; Alberto Rodrigues), Em 
5 de março do referido anno repetiu o concerto de Canongia 
no theatro de S. Carlos, n'uma recita dada em beneficio do 
Montepio Philarmonico. Depois d*isso fez parte de diversas 
orchestras, até que em 1854, por fallecimento do pae, entrou 
para o logar que este occupava de primeiro clarinettc na or- 
chestra de S. (Jarlos. 

Foi também durante muitos annos mestre da banda do 
regimento de infanteria n.® 10^ distinguindo-se pelo óptimo 
desempenho d'esse logar; viu-se obrigado a pedir a reforma, 

179 



a fim de poder conservar se em Lisboa, quando em 1871 aquel- 
le regimento foi transferido para o Porto. 

Excessivamente retrahido, Carlos Campos depois da pri- 
meira apresentação em 1849, ^^^ P^^ assim dizer foi forçada, 
I)oucas vezes mais tocou a solo em concertos; assim não bri- 
hou como concertisia, ficando por isso o seu nome menos vul- 
garisado do que o seu contemporâneo e emulo Raphael Cro- 
ner, embora lhe não fosse inferior antes o superasse n*aigumas 
qualidades. No emtanto apresentou-se mais uma vez no palco 
de S. Carlos, em 6 de abril de 1862, tocando uma peça con- 
certante com outros artistas, e por varias vezes nos «Concer- 
tos Populares» realisados durante os annos de 1860 a 1862 
(v. Coussul— Gm/Aerm^y. Ainda, quando em 1879 por cau- 
sa da desintelligencia entre a empreza de S. Carlos e a Asso- 
ciação Musica 24 de Junho ficou desempregado como mui- 
tos dos seus collegas, promoveu uma recita em seu beneficio 
no theatro do Gymnasio, tocando então a solo no palco pela 
ultima vez ; executou com os irmãos Croners um tercetto de 
clarinette, flauta e oboé. 

Carlos Campos tinha um caracter muito bondoso e affa- 
vel, e todos os seus subordinados, músicos militares, o estima- 
vam ; os superiores também o tinham em grande consideração, 
por ser exemplarmente morigerado, sério, zeloso e pontual 
no cumprimento dos deveres, com o que mais realçava o in- 
contestável mérito. Todavia no trato com os collegas seus 
eguaes manifestava por vezes uma certa agrura, que chegava 
a estender-se ao serviço artístico fazendo impacientar os mes- 
tres que dirigiam a orchestra; apodavam-n'o por isso de cas- 
murro aquelles que talvez mais concorressem para lhe excitar 
a casmurrice^ os quaes também não tinham o bom senso de 
encontrarem nas bellas qualidades que possuia o excellentc ar- 
tista, sufficiente aitenuante para o único defeito. 

Esse defeito aggravado com a edade, e quem sabe se com 
íntimos desgostos, concorreu para que o dispensassem da or- 
chestra de S. Carlos logo que os annos começaram a dar os 
primeiros signaes de decadência ; rápida ella então se tornou 

[)or tal motivo, sendo elle mesmo quem — involuntária ou vo- 
untariamente — precipitou o desenlace fatal: tendo-se-lhe 
desenvolvido um furúnculo n'uma espádua, arrancou violen- 
tamente, n'um momento de mau humor, o parche que lhe ti- 
nham posto, aggravando-se-lhe a ferida de tal modo que lhe 
sobreveiu a gangrena e com ella o eterno descanço. 

Contava 61 annos de edade quando falleceu, em 4 de se- 
tembro de 1888. 

A qualidade especial que geralmente caracterisa os nossos 
180 



tocadores de instrumentos de vento, a pureza de som — q^ua- 
lidade que vae rareando por modo muito sensível — possuia-a 
Carlos Campos n'nm grau admirável ; a esta qualidade alliava 
um estylo singelíssimo, natural e correcto, colorindo a melodia 
e phraseando-a com tal propriedade que se tornava encanta- 
dor qualquer solo que executasse, por pequeno e insignifican- 
te que fosse. Era mesmo nos pequenos e fáceis trechos, exe- 
cutados desprcoccupadamente sem os receios que sempre o 
perturbavam nas peças de maior difficuldade, que elle mais 
sobresahía, attrahíndo a attenção do auditório e subjugando-o 

f)oderosamente sob a influencia de um som suavisaimo, modu- 
ado com a mais natural expressão. 

Os antigos frequentadores de S. Carlos ainda se lembram 
d*esse primoroso e modesto executante da orchestra, que tan- 
tas vezes lhes soube arrancar espontâneos e calorosos applau- 
sos, nos mais simples ritornellos de algumas operas, assim co- 
mo nos grandes solos taes como o da Saff^Oj lone e outros. 

Carlos Campos era irmão mais veího de Augusto Cam- 
pos, que foi mestre da banda de caçadores 2 e actualmente se 
acha reformado ; outro irmão, Gaspar Campos Júnior, falleceu 
muito novo de um desastre. 

Oa.mpoH (Gaspar). Excellente clarinetiista catalão que 
se estabeleceu em Lisboa e durante muitos annos fez parte da 
orchestra de S. Carlos. Nasceu em Barcelona no anno de 
1790, e foi um dos muitos músicos estrangeiros que se incor- 
poraram no exercito portuguez quando este, finda a guerra 
peninsular, regressou triumphante ao paiz (1814). 

Em 21 de fevereiro de 1816 entrou para a irmandade de 
Santa Cecília. 

Em 1817 alistou-se na banda de musica que acompanhou 
ao Brazil a princeza D. Leopoldina, noiva de D. Pedro, che- 

6 ando ao Rio de Janeiro em 2 de novembo d'essa anno. 
>. João VI convidou os artistas que compunham essa banda 
a ficarem no Brazil, e sendo Gaspar Campos um dos que ac- 
ceitaram foi admittido como musico da Casa Real em 26 do 
mesmo mez e anno. Regressando com a corte em 1821, aqui 
se estabeleceu definitivamente. Em 1824 era segundo clarinettc 
na orchestra de S. Carlos, logar que exerceu até 1842, pas- 
sando a primeiro em substituição de Avelino Canongia, falle- 
cído n'esse anno. 

Nas reformas que sofFreu a orchestra da Casa Real, deno- 
minada primeiro «Musica das Reaes Cavallariças» e depois 
«Musica da Real Gamara», teve a confirmação do logar que 
ahi occupava n'um despacho de i de abril de 1827 e em alva- 
rá de 3o de outubro de 1884. 

181 



Fazia tambcm parte da orchestra da Sé Patriarchal. 

Foi um dos fundadores do Montepio Philarmonico em 
1834, da Associação Musica em 1842, c assignou a reforma 
da irmandade de Santa Cecilia em i838. 

Falleceu em i de dezembro de 1854 e foi sepultado no 
cemitério do Alto de S. João. O jornal Revista dos Especíacu- 
los^ dando noticia do seu passamento termina com estas pala- 
vras: € Artista zeloso no cumprimento dos seus deveres, o sr. 
Campos tinha tambcm qualidades que o tornavam geralmente 
bemquisto dos seus collcgas e fizeram que estes sentissem sin- 
ceramente a sua morte.» 

Gaspar Campos tinha mais o appellido de Oliveira, que 
não usava, e no dialecto catalão, segundo me disse o próprio 
filho, chamavam-lhe Can de Oliva. 

Foi pae de Carlos Campos (v. o artigo antecedente). 

O Ampos fJoão Ribeiro de Almeida), Natural de Vizeu, 
filho de António Coelho de Campos. Viveu no ultimo quartel 
do século XVIII e principios do XIX. Foi auctor de um com- 
pendio com o segumte titulo : «Elementos de musica offcreci- 
do ao excellentissimo e reverendissimo senhor D. Francisco de 
Lemos de Faria Pereira Coutinho, Bispo de Coimbra, Conde 
de Arganil, Senhor de Cója, do Conselho de Sua Magestade, 
etc, etc, etc. Por seu auctor João Ribeiro de Almeida, Estu- 
dante da Universidade de Coimbra, Mestre de cantar na Aula 
do Paço Episcopal. Destinados para uso da mesma aula. — 
Coimbra: Na Real Imprensa da Universidade, An. de 1786». 

Este titulo fornece-nos duas noticias sobre o auctor do li- 
vro, pois nos diz que era estudante da Universidade em 1786 
e mestre de musica na aula sustentada pelas rendas do bispa- 
do. A assignatura da dedicatória tem mais o appellido Cam- 
pos, não mencionado no titulo. 

O logar do nascimento e filiação foram mencionados por 
Innocencio da Silva no Diccionano Bibliogt^aphico^ segundo 
informação obtida dos registos da .Universidade pelos quaes se 
soube que João Ribeiro d*Almeida Campos, filho de António 
Coelho de Campos, natural de Vizeu, tinha sido matriculado 
no primeiro anno do curso jurídico em 1785-86. 

Segue-se d^aqui, que era um estudante pobre valendo-se 
dos seus conhecimentos musicaes, adquiridos talvez na terra 
natal, e da protecção do bispo-conde, para obter os meios de 
frequentar a Universidade. 

Os Elementos de Musica são uma obrita em 8.° pequeno, 
tendo apenas 90 paginas de texto, dividido em IX capítulos, 
duas paginas de índice e uma estampa de dobrar representan- 
do os signaes da notação. Litterariamcntc está bem redigido ; 

182 ^ 



serviu-lhc de principal guia o Diccionario de Musica de Ros- 
seau, gue era então uma novidade e do qual foi o primeiro a 
traduzir a conhecida deânição: cA musica é a arte de combi- 
nar os sons de uma maneira agradável ao ouvido». E conti- 
nua, não já traduzindo textualmente mas imitando: cEsta com- 
binação faz-se pela Melodia ou pela Harmonia*. .)> (') 

No capitulo y, que trata das regras de solfejar, segue tam- 
bém a mesma obra, no artigo Solfier^ fazendo até uma referencia 
ao systema de Boisjelou que elle decerto só conheceu de o lêr 
cm Rousseau. E levado pela doutrina d'este escriptor, adoptou 
a syllaba si para designar o* sétimo grau da escala, innovação 
que elle explica nos seguintes termos : 

«Antigameate nSo se usava na Musica senSo das seis primeiras vo- 
zes, e a voz Si foi accrescentada á escala pelos Francezes, que usam d'ella 
para solfejar. Os Italianos, Espanhoes e Fortuguezes ainda se servem or- 
dinariamente do antigo methodo de solfejar só com seis vozes. Com tudo 
a razão mostra claramente que sendo sete os intervallos da Oitava, e sete 
os signaes que os exprimem, devem também ser sete as syllabas destina- 
das para denotar estes mesmos intervallos.» 

Seguiu também o systema de solfejo recommendado por 
Jacques Rousseau, que consiste em cantar sempre no tom de 
dó, fazendo a necessária transposição quando a musica está 
n'outro tom; dava-se a esse systema o nome de «transposição 
natural», e os nossos músicos d*aquelle tempo chamavam lhe 
«systema francez» ou «systema do si». Foi portanto Almeida 
Campos o primeiro auctor didáctico portuguez que, abando- 
nando o velho e complicado systema dos hexacordos e suas 
mutanças, adoptou as mencionadas innovações. 

Mas se o compendio que elle escreveu está bem feito 
quanto á fdrma litteraria e ao systema adoptado, pedagogica- 
mente está muito mal ordenado : expõe primeiro toda a ma- 
téria que diz respeito á entoação, e só depois, no capitulo VI, 
é que trata da duração dos sons, explicando o que seja uma 
semibreve, uma minima, etc. 

E' a ordem scíentiéca, que trata desenvolvidamente cada 
matéria em separado, systema bom para leitores illustrados, 
mas inapplicavel no ensino pratico. 

Por isso foi justamente abandonado* Almeida Campos 
logo que acabou os estudos, adquirindo não só o grau de ba- 
charel em direito, mas também ordenando-se sacerdote, dei- 
xou a cadeira de musica no Paço Episcopal e foi substituído 



(O nLa mtuique se divise aujourd'hui plus simplement en Mélodie et en Hftrmonie». — 
J. J. Rousseau, «Dicc. de Musique». 

183 



por José Maurício ; este não adoptou o compendio do seu an- 
tecessor, e a edição d'cs5a obra ficou quasi toda jazente no 
deposito da imprensa, segundo aftirma innocencio da Silva, 
sendo por isso raros os exemplares que se encontram no mer- 
cado. 

Alguns annos depois encontramos Almeida Campos mes- 
tre de capella na cathedral de Lamego, professor e examina- 
dor de cantochão ; é clle quem o diz na obra assim intitulada : 
«Elementos de Cantochão, offerecidos a Sua Alteza Real o 
Sereníssimo Senhor Dom João Príncipe Regente por João Ri- 
beiro d' Almeida Campos, Presbytero Secular, Bacharel for- 
mado em Leis pela Universidade de Coimbra, Mestre da Ca 
pella da Cathedral de Lamego, Professor e Examinador de 
Cantochão no mesmo Bispado. — Destmados para uso do novo 
Seminário de J. M. A. ('). Ajuntando-sc-lhes as Ceremonias, 
e as Cantorias mais precisas para a Visita que os Excellentis- 
simos Bispos fazem ás Igrejas das suas Dioceses. Lisboa. Anno 
M. DCCG. Na Officína Patriarcal de João Procopio Corrêa da 
Silva.» 

E' um compendio muito resumido, contendo só 24 pagi- 
nas de texto e exemplos, e 4 com a dedicatória ; n'essa dedi- 
catória diz o auctor que o folheto foi escripto com o sentido 
de servir de preliminar ao «novo Directório para o coro da 
Santa Igreja Patriarchal» (2). Na pagina 24 vem uma nota 
recommendando a leitura do Diccionario de Rousseau, no ar- 
tigo Plain-chantj recommendação pela qual podemos colligir 
que aquelle livro era o vademecum de Campos. As paginas 
25 a 71 (ultima), constituem um appendice com o ceremonial 
da visita episcopal e respectivos cantos litúrgicos. 

Apesar de ser obra insignificante, os «Elementos de Can- 
tochão» tiveram, não sei se por devoção de algum descendente 
do auctor se por exploração commercial, uma segunda edição 
no Porto, em 1859. Essa edição reproduz exactissimamente, 
pagina por pagina, linha por linha, todo o conteúdo da pri- 
meira, excepto a dedicatória, que ficou supprimida ; differe em 
ter indicado no frontespicio, em grosso normando — 2.'' edição 
— e ser substituída a indicação do logar e data da impressão, 
que é a seguinte: «Porto. — Typographia Commercial. — Rua 
de Belmonte, n.® 74. — iSBgt. 

Oandido (José). O nome completo d'estc notável mu- 



co Este i4 é um erro typographico em troca de/, pois que as letras das quaes elle faz 
parte devem ser iniciaes de Jnvs^ Maria, Joséy que foi o titulo dado ao seminário de Coimbra 
quando se fundou. 

(2) Novum Director ium Chori. . ., por José de Oliveira Sousa. — Lisboa, 1791. 

184 



sico portuense era José Cândido Correia Guimarães, todavia 
nunca foi conhecido senão por José Cândido. 

Era filho de um musico bastante considerado, João Luiz 
Correia Guimarães, que em i832, por occasião da guerra ci- 
vil e cerco do Porto, sahiu d'esta cidade com a família, indo 
estabelecer-se em Vianna do Castello. Aqui nasceu José Cân- 
dido, em i6 de abril de iSSq, e foi baptisado no convento das 
Ursellinas tendo por padrinho José António Ferreira da Silva, 
administrador do contracto do tabaco, e por madrinha D. Anna 
Cândida Maria das Chagas, religiosa do dito convento. A ce- 
rimonia realisou-se na grade do coro com brilhante apparato, 
tocando uma orchestra e havendo cantos litúrgicos apropria- 
dos. D*aqui se deprehende quanto os pães do neophito eram 
tidos em estima. 

José Cândido recebeu as primeiras noções de musica ainda 
na puerícia, tendo por mestre o próprio pae, que o ensinou a 
cantar, tocar piano e contrabaixo ; deu-lhe também lições de 
violino um professor hespanhol chamado D. Caetano. 

Quando as contendas politicas de todo serenaram, João 
Luiz Ijuimarães voltou para o Porto com toda a familia, tendo 
por esse tempo José Cândido os seus nove annos. Ajudava já 
o pae, cantando nas egrejas e copiando musica ; aos quatorze 
annos ficou orphão e a seu cargo mãe e irmãos, o que lhe 
serviu de estímulo para trabalhar com grande anciã e aperfei- 
çoar-se quanto poaia, lançando ao mesmo tempo mão de to- 
dos os recursos que a sua natural vocação e amor ao trabalho 
lhe proporcionavam : tanto se occupava em afinar pianos como 
em cantar nos coros dos theatros c nas festas de egreja, dar 
lições, compor, arranjar e copiar musica. 

Estes mesmos variados exercícios lhe serviam de instruc- 
ção pratica, quasi a única que recebeu como tem succedido á 
maior parte dos nossos músicos, sem exclusão dos mais dis- 
tinctos. 

Dotado de um espirito actívissimo^ caracter communica- 
tivo e attrahente, generoso e sympathico, facilmente ganhou 
amigos dedicados, e pouco a pouco foi alargando o quadro 
das suas aspirações, bem modestas a principio. 

Aos vinte e dois annos já não era simples executante, mas 
director e compositor, tanto na egreja como no theatro. N'este 
fez a sua estreia em 1861, compondo e dirigindo a musica de 
um drama popular «União e Trabalho §, de Garcia Alagarim, 

3ue pela primeira vez se representou no theatro das Varieda- 
es em 21 de setembro d*aquclle anno; quatro dias depois, 
25 de setembro, subiu á scena no mesmo tneatro, para acom- 
panhar o drama de Alagarim, a comedia de Eduardo Coelho, 

18S 



fUm namorado exemplar», cujas numerosas coplas' José Cân- 
dido também poz em musica. 

E feita no theatro a estreia, com bom êxito, voltou-sd 
para a egreja : depois de algumas composições religiosas de 
somenos importância, apresentou uma grande missa de re- 
quiem e responso, que foi executada nas exéquias que o Mon- 
tepio Musical Portuense mandou celebrar pelos consócios fal- 
lecidos, cm 22 de dezembro de i863; compunha se essa asso- 
ciação, fundada em 1848, dos principaes músicos residentes 
no Porto, e foram elles que, constituindo uma grande orches- 
tra e numeroso coro, executaram a composição de José Cân- 
dido. Foi esta a sua primeira manifestação, notável na musica 
sacra. Estava affirmada com bons titulos a sua aptidão artís- 
tica. 

Na época lyrica do theatro de S. João, inaugurada n*esse 
mesmo anno de i863, José Cândido foi incluido, juntamente 
com António Soller, no elenco da companhia, sendo ambos 
incumbidos de ensaiar os coros, coadjuvando e substintuindo 
também nas faltas o mestre director, que era Carlos Dubini. 

Figurou n'esta época ostensivamente no programma, mas 
já antes d'isso ensaiava e dirigia os coros. 

Do exercício no theatro lyríco e sobretudo da convivência 
com Dubini, que era realmente um bom mestre solicito com 
todos aquelles que mostravam desejos de apprender, José Cân- 
dido tirou o maior proveito para completar quanto era possí- 
vel a sua instrucção, e ganhar novos créditos. Em 1 2 de maio 
de 1864, effectuando-se n'aquelle theatro uma recita em bene- 
ficio dos habitantes de Cabo Verde, flagcllados pela fome, es- 
creveu elle a musica de uma romança intitulada «Caridade», 
poesia de Borges de Avellar, que foi cantada n'essa recita por 
madame Lafont, com geral applauso. 

No anno seguinte soffrcu um desastre theatral, mas não 
por culpa do seu trabalho: em 24 de fevereiro de i865 subiu 
á scena no theatro Baquet uma comedia em um acto, «No 
Tempo de D. João V», com musica de José Cândido ; o en- 
trecho da peça era porém tão mal feito e tanto desagradou ao 
publico, que este manifestou a sua reprovação por forma com- 
pleta. No emtanto os trechos de musica, escriptos pelo já dis- 
tincto compositor, não foram desfeiteados, mas applaudidos. 

Estreiou-se notavelmente como regente na opera em 1866. 
Dubini adoecera de repente, e José Cândido não hesitou em 
empunhar a batuta de improviso, dirigindo com bella energia 
e aprumo a representação do «Ernani», sendo por isso muito 
elogiado. Em 1872 succedeu um caso que prova não só a sua 
habilidade, mas o caracter generoso e altruísta que o distin- 
i8§ 



guia: na companhia lyrica que n'esse anno foi organisada para 
o theatro de S. João, veiu uma cantora principiante chamada 
Restelli, que desagradou ao publico sendo por isso despedida 
pela empreza: José Cândido condoeu:Sc da situação em que 
ficava a pobre artista, que nem meios possuía para voltar ao 
seu paiz, e reconhecendo que mais carecia ella do bom ensi- 
namento que de naturaes dotes, ensinou-lhe, com assiduo e 
rápido trabalho, o papel principal da opera de Donizetti, «Maria 
de Rohan», e apresentou-a depois ao publico que a ouviu cora 
verdadeiro assombro, terminando por lhe fazer enthusiastica 
ovação na qual foi comprehendida o cavalheiroso mestre ; não 
SC contentou este com o que fizera, e levando mais longe a 
dedicação promoveu entre os frequentadores do theatro uma 
subscripção que attingiu importante somma, com a qual poudc 
a cantora retirar-se, regeitando o offerecimento que o empre- 
sário lhe fazia de manter o contracto. 

Eram frequentes estes rasgos de José Cândido^ que o 
tornavam querido. Quando em janeiro de 1874 se cantou pela 
primeira vez a opera de Miguel Angelo — Eurico — desenvol- 
veu elle activíssimo trabalho em ensaial-a e dirigil-a, inflamado 
por patriótico ardor e dedicada camaradagem ; testemunhou o 
auctor a sua gratidão n'uma carta que publicou, onde se lêem 
estas palavras : «Ao maestro José Cândido, mestre e portu- 
guez cie lei, um cordeal abraço». 

Em 12 de fevereiro do referido anno de 1874 deu no 
theatro de S. João uma recita em seu beneficio, na qual a ar- 
tista Conti Feroni cantou uma cAve Maria» por elle composta, 
que se affirma ser uma das suas mais inspiradas composições. 
Alguns dias depois, 26 de fevereiro, outra artista cantou uma 
«Canção portugueza» que José Cândido escreveu. Em 9 de 
julho do mesmo anno, celebrando-se no theatro de S. João o 
anniversario da entrada do exercito libertador no Porto, exe- 
cutou-se um hymno triumphal para orchestra e banda, com- 
posto também por elle. 

Pouco depois apresentou a sua producção mais apreciada 
pelo publico portuense, a qual fez época no Porto, ficando ali 
reputada como uma das melhores obras que no seu género 
se tem apresentado no theatro nacional: é o «Narciso com 
dois pésf, operetta em um acto, letra de Alfredo de Mattos 
Angra; riepresentou-se pela primeira vez no theatro da Trin- 
dade em 10 de agosto de 1874. Esta pequena mas apreciável 
peça tem tido centenas de representações em diversos thea- 
tros do Porto, sempre com extremo agrado do publico. 

Em outubro do mesmo anno^ José Cândido tomou a di- 
recção do theatro popular de Variedades, realisando ahi ver- 

187 



dâdeiros prodígios de habilidade, pondo em scena, com uma 
companhia de ordem muito inferior c principalmente composta 
de actores que não sabiam cantar nem tinham voz, varias pe- 
ças com musica importante ; entre ellas a zarzuella «Os Mad- 
gyaresí, as operas burlescas «Gran Duquezat, «Flor de Chá», 
eíc. Continuou por algum tempo n'esse theatro — pois que 
na época lyrica de 1874-7D, sendo empresário Cardim, ficou 
excluido do theatro de S. João — até que em julho de 1875 
passou para o Baquet, onde tinha á sua disposição uma com- 
panhia regular da qual fazia parte o tenor Portugal. Ahi se 
repetiu frequentemente o «Narciso», cantando-se também uma 
operetta de Sá Noronha — «Os Bohemiost — c varias operas 
cómicas francezas. 

Ficando Noronha á testa do Baquet, voltou José Cândido 
para as Variedades, onde além de varias peças para as quaes 
arranjou e ensaiou a musica, poz em scena, com musica sua 
original, a comedia phantastica em 5 actos «Ali- Baba ou os 
40 ladrõesf ; representou- se pela primeira vez em 4 de no- 
vembro de 1877. Seguidamente voltou para o theatro de 
S. João a occupar o seu logar de mestre ensaiador, na época 
de 1877-78. Foi uma época tempestuosa essa em consequên- 
cia da má administração da empreza — Lana 8í C* — que 
chegou ao ultimo extremo de bancarrota ; no auge da crise, 
José Cândido assumiu toda a gerência technica do theatro, 
sendo calorosamente apreciado pelos mais influentes frequen- 
tadores, que levaram a empreza em cheque a fazer cedência 
de todos os seus direitos; deu-se isto cm fevereiro de 1878, 
concluindo-se pouco depois a época com geral satisfação, gra- 
ças ao trabalho de José Cândido e sympathias de que gosava. 
No ultimo espectáculo que eile deu em seu beneficio e cons- 
tituía a compensação única que para si tirou, o tenor Fran- 
chini cantou uma romança em italiano — La Lonianan^a - 
cuja musica o laborioso mestre escreveu quasi sobre o joelho 
Por esse tempo escreveu umas «Vésperas e Completas» para 
quatro vozes e orchesira, executadas pela primeira vez na 
festa de Nossa Senhora das Dores que em 1878 se realisou 
na egreja do Carmo com grande pompa, segundo o costume. 

voltando a dirigir o theatro de Variedades compoz a mu- 
sica para o drama de José Romano «O naufrágio do brigue 
Mondego», que ali subiu á scena em 24 de outubro de 1878. 
Agradou muito esta musica, sendo especialmente applaudidos 
os coros. Um valsa extrahida doesta peça foi publicada com 
o mesmo titulo. 

A associação que pouco tempo antes se fundara com o ti- 
tulo de «Associação Artista Portuense D. Maria Pia Protectora 
188 



O-A. 

dosPortuguezes», sustentava uma escola de musica dirigida por 
José Cândido; por occasião de falleccr o rei de Itália Victor Ma- 
nuel, esta associação fez celebrar Ujiias exéquias solcmnes, cuja 
musica, executada pelos alumnos foi composta, ensaiada e diri- 
rigida, com summa habilidade e grande trabalho, pelo nosso 
biographado, pelo que foi condecorado com o habito de Chris- 
to. N'uma das representações do «Brigue Mondego», em 9 
de novembro , os alumnos d'aquella escola subiram ao palco 
c entregaram a José Cândido a condecoração com que fora 
aeraciado, acto que o publico saudou com enthusiasticos ap- 
plausos. Findo o espectáculo foi-lhe ofFerecido uni banquete. 

Em 7 de dezembro d'aquelle anno representava-se no 
mesmo theatro de Variedades o drama «D. João o filho mal- 
dito §, com marchas, bailados e coros de José Cândido. 

Na época lyrica de 1878-79, não ficou escripturado no 
theatro de S. João, sendo então director e ensaiador António 
Reparaz. Todavia a época correu tempestuosa, e em fins de 
janeiro de 1879 Reparaz declarou-se acommettido de doença 
physica ou moral. Foi chamado José Cândido, o salvador 
nos momentos afflictos, e por tal modo se houve mais esta vez, 

aue a «Traviata», objecto de tremendo fiasco sob a direcção 
e Reparaz, tornou-se alvo de enthusiastica ovação. Deu-se 
este caso em i de fevereiro, e tornou-se pela primeira vez 
notável no Porto o preludio do terceiro acto, que até ali 
passara desappercebiao e José Cândido ensaiou primorosa- 
mente fazendo salientar toda a belleza d^aquelle trecho.Em i3 
do mesmo mez realisou ali uma recita em seu beneficio exe- 
cutando-se um fragmento do seu Libera-me — Dies irce —no qual 
tornaram parte a primeira dama Escarlate, o tenor De Sanctis, 
o baixo Monti, coros e orchestra. Continuou a reger no thea- 
tro de S. João e ao mesmo tempo dava-se no Baquet outro 
drama de José Romano — «Os ladrões do mar», para o qual 
escreveu a musica e cuja primeira representação se realisou 
em 14 de fevereiro. 

Em 8 de junho representou-se no theatro do Príncipe Real 
outra peça — «O Império da Loucurat — com musica de José 
Cândido ; a parte dramática não agradou, mas o trabalho do 
compositor foi assim apreciado pelo jornal o «Primeiro de Ja- 
neiro» : 

«O sr. José Cundido, esse teve a excentricidade anistica de bordar 
sobre differentes evoluções d*aquelle império em tres actos alguns trechos 
de musica deliciosa, nos quaes transluz um talento alevantado, bem mais 
digno d'outro paiz e de um meio diverso doeste, onde se \ae arrastando e 
colleando ao sabor das suas tristes condições, a desoladissima arte por- 
tuguesa.» 

189 



O-A. 

Para mais duas peças representadas n'este anno escreveu 
elle a musica, e foram : «Naufrágio da fragata Medusa», dra- 
ma de José Romano, e «O castigo do Ceu ou o Diluvio Uni- 
versal», drama sacro de Costa e Silva. Ambas foram no thea- 
tro da Trindade, e se a primeira pouco agradou, a segunda 
cahiu redondamente na primeira e única recita que teve. José 
Cândido, prompto sempre a trabalhar, prestava-se despreocu- 

f)adamente á collaboração de todas as peças dramáticas que 
he apresentavam, sem curar do êxito que ellas teriam, como 
se vê pela frequência dos maus resultados. 

Em 3 de fevereiro de 1880 deu uma recita em seu bene- 
ficio no 'theatro de S. João, apresentando uma graciosa ope- 
reta «O Botão», desempenhada por amadores que elle mesmo 
ensaiou, e uma marcha — «Victor Hugo» — composta pelo seu 
mais dedicado amigo António Soller. 

Em princípios de outubro de 1880 poz-se de novo á testa 
do theatro .das Variedades, e escreveu diversos números de 
musica para a peça militar «Frederico 2.° ou o tambor do re- 
gimento», assim como para o drama «Os filhos da vingança». 

Em i5 de janeiro de 1881 fez cantar em portuguez o 
«Hernâni» com a musica de Verdi, sendo o libretto ampliado 
por Costa e Silva, que lhe deu a forma de um drama falado 
(sem se importar com a obra original de Victor Hugo!) tendo 
intercalados todos os principaes trechos da opera. 

Segundo a opinião da imprensa, os actores da Trindade, 
desprovidos de voz, estropiaram horrivelmente a musica de 
Verdi, mas os coros e a orchestra foram muito bem, graças á 
habilidade do director. O certo é, porém, que o «Hernâni» 
assim arranjado teve excellente acolhimento do publico^ue 
frequentava aquelle theatro popular. * 

N'esse mesmo anno de 1881 teve mais uma occasião de 
provar quanto era generoso e bom : o actor Capistrano, que 
por alguns annos trabalhou em Lisboa e depois se estabeleceu 
no Porto, cahiu em profunda miséria, originada pela doença 
de que veiu a fallecer ; em seu beneficio organisaram uma re- 
cita que se realisou no theatro do Príncipe Real em 26 de 
agosto, e José Cândido escreveu expressamente uma roman- 
ça intitulada «Caridade» que foi cantada com muito applauso 
pela actriz Josepha d'Oliveira. Vários jornaes fizeram os maio- 
res elogios a esta composição. 

E continuando nas Variedades, apresentou nada menos 
do que o «Fausto» em 8 de janeiro de 1882, e o «Roberto» 
em 14 do mesmo mez, ambas essas operas arranjadas como o 
«Hernâni», ao sabor dos espectadores populares. 

Não poude, porém, continuar n esta notável e louvável 

190 



cmprcza que ia vulgarisando a musica dramática e habituando 
o publico a ouvir as operas cantadas em portuguez, porque o 
theatro, velho e mal construído, ofFerecia perigo, pelo que foi 
pela auctoridade mandado fechar. 

Em maio c junho do mesmo anno esteve no theatro Ba- 
quet uma companhia de opera italiana, tendo por director mu- 
sical José Cândido, que n'essc logar conquistou novos ap- 
plausos. 

Em 3 de abril de i883 houve no theatro de S. João um 
concerto em beneficio da família de Dubini, fallecído no anno 
anterior ; tomou José Cândido a parte mais activa e mais im- 
portante d'esse sarau, escrevendo e ensaiando uma «Elegia» 
Eara coro de senhoras, ensaiando também outro coro de Du- 
ini — íA Caridade» — dirigindo a orchestra — composta de 
quasi todos os músicos portuenses — e acompanhando ao 
piano os solos; entre estes figurou uma romança de António 
Soller, cantada por um amador, e tocaram Nicolau Ribas e 
Marques Pinto, 

O escriptor Augusto Garraio, constituindo se n'estc anno 
de i883 emprezario do theatro do Príncipe Real, organisou 
uma companhia de operetta, cuja direcção confiou a José Cân- 
dido; deu essa companhia óptimos espectáculos, dos quaes o 
primeiro teve logar em principio de novembro, com a zar- 
zuella de Barbieri «O segredo de uma dama». Entre outras 
peças que ali se cantaram durante essa época, é para notar a 
operetta de António Soller — «A Vivandeira» — que subiu pela 
primeira vez á scena em i3 de março de 1884. 

Foi este dia um dos mais notáveis e mais gloriosos na vida 
do desditoso artista. A recita era em seu beneficio, e uma 
commissão de amigos preparou-lhe ruidosa festa. Fizeram im- 

Krimir o numero único de um jornal intitulado t Quinze de 
[arco» (*) com o retrato do do maestro, a sua biographia e 
vários artigos escriptos especialmente por alguns dos mais no- 
táveis jornalistas do Porto, entre elles Borges d'Avellar, Bento 
Carqueja e Gualdino Campos. 

N*esses artigos teve José Cândido a consagração do seu 
talento. 

Attingira a máxima intensidade a luz que lhe alumiava o 
espirito: d'ahi por diante ir-se-hia extinguindo progressiva- 
mente até o deixar submerso nas trevas da loucura. 

A lucta pela vida tinha-lhe sido aspérrima e não termina- 
ra; contínuos embaraços lhe surgiam a cada passo não lhe 



(í) 12 pag. in-4 ®, Porto. Typ. Univcríal de Noguci*-a & Cáceres, rua do Almada. 347. 

191 



dando tréguas nem esperança de repouso. Para aggravamcnto 
do mal, esta vida agitada e irregular não tinha compensação 
nas doçuras do lar que nais lhe eram agruras. D'aqui a cons- 
tante alteração de espirito que lhe ia gastando as forças, tor- 
nando-o alquebrado c enfermiço aos quarenta e quatro annos 
tendo aliás nascido com uma natureza robusta e sadia. 

Ainda teve mais algumas noites de satisfação quando em 
fevereiro de i885 o theatro de S. João abriu as portas a uma 
brilhante companhia lyrica composta principalmente da cele- 
bre cantora ligeira Sembrich e dos nossos compatriotas, Fran- 
cisco e António Andrade : José Cândido dirigiu com a sua pro- 
ficiência habitual as poucas mas brilhantes e concorridissimas 
recitas que então ali se realisaram, as quaes foram outros tan- 
tos triumphos não só par aos eminentes cantores mas para o 
hábil mestre. 

Depois d*isso a decadência manifestou-se pronunciada- 
mente. Começou para o pobre artista uma vida de soffrimen- 
tos indiziveis, cada vez maiores e cada vez mais aggravados 
com a falta de recursos. Alguns amigos, d'aquelles que não 
voltam as costas ao infortúnio, lhe prestaram valioso auxilio.; 
um, principalmente, nunca o desamparou senão depois de ter 
visto o coveiro lançar-lhe as ultimas pás de terra sobre o corpo 
inanimado. 

Em 1888 conseguiu José Cândido, ao cabo de amargas 
decepções e graças ao auxilio d'aquelles amigos sinceros, rea- 
lisar um concerto em seu beneficio, cujo producto lhe permit- 
tiu passar algum tempo socegado no Gerez. Pequeno alivio foi 
este, que não poude reconstituir um organismo já gasto. Vol- 
tando á lucta, as perturbações do cérebro tornaramse cada 
vez mais frequentes e violentas, a impossibilidade de trabalhar 
tornou-se completa, a sorhbra povorosa da miséria apresentou* 
se-lhe, emfim, ameaçadora e implacável. 

Por um crudelissimo escarneo da natureza, a imaginação 
perturbada transformou-lhe aquella horrenda figura n'um doce 
anjo de esperança fazendo o sonhar riquezas, grandezas, arte, 
gloria. . . tudo justamente quanto o desventurado já não podia 
alcançar. 

O seu templo de gloria foi o hospital de loucos; em vez 
de coroa triumphal cingiram- lhe o colete de forças. . . 

Ainda, depois de ter entrado no hospital, melhorou um 
pouco, sendo entregue á familia e passanao algum tempo de 
relativa tranquillidade em Castro Daire ; mas foi o ultimo bru- 
xulear de uma luz que ia extinguir-se : novos e mais violen- 
tos accessos o levaram segunda vez á casa fatal d'onde só tor- 
nou a sahir quando era corpo sem vida. 

192 



'VX-' 



A sua triste biographia de louco resume-se nas seguintes 
linhas que o ex."° sr. ar. Júlio de Mattos, director do hospi 
tal, teve a bondade de enviar-me : 

«... o maestro José Cândido foi admittido no hospital do Conde de 
Ferreira em 26 de janeiro de 1892, affectado de demência paralítica ou 
paralisia geral com excitação e delírio de grandezas. Tendo havido uma 
notável remissão da doença, realisada á custa do desapparecimento do 
delirio, a esposa do infeliz pediu a sahida d'elle, realisada a t6 de maio do 
mesmo anno de 18^2. A doença, porém, seguiu fora a sua marcha e a i3 
de maio de 1893 foi elle novamente admittido no hospital que dirijo e on- 
de falleceu com ataques epileptiformes a i3 de dezembro de iSqS.» 

O desgraçado fim de José Cândido foi muito sentido, e 
vários jornaes de Lisboa e Porto consagraram á sua memoria 
palavras de sentimento e louvor; com especialidade o Século^ 
de 25 de dezembro de 1895, publicou um extenso artigo, in- 
teressante por invocar algumas recordações pessoaes pondo 
em relevo as difficuldades que amarguraram a vida do artista 
no periodo da decadência. 

Pequena concorrência teve o acto de serem entregues á 
sepultura os seus restos mortaes. Mas oito dias depois, António 
SoUer, o dedicado amigo que nunca abandonou o infeliz maes- 
tro, fez celebrar, coadjuvado por alguns collegas, solemnes 
exéquias em que tomaram pane os principaes cantores e or- 
chestra do theatro lyrico ; foi imponente esta manifestação, á 
qual assistiram grande numero de pessoas, representantes do 
municipio, da imprensa e de diversas outras corporações. 

Pelo que ficou narrado na precedente biographia, depre- 
hende-se que José Cândido era um musico bem dotado pela 
natureza, mas fracamente ajudado pela instrucção. Dizia-se 
elle discípulo de Dubini, cujos conselhos acceitára e cuja pra- 
tica observara attentamente para imital-a; mais porém do que 
áquelle mestre, deveu elle á própria natureza, que uma von- 
tade enérgica e uma actividacle febril desenvolveram prodigio- 
samente. 

Nas suas composições nunca, pelo que d*ellas conheço, 
sahiu das formas communs á musica italiana em voga no seu 
tempo, descendo muitas vezes á imitação e á banalidade ; mas 
produzia muito espontaneamente e com abundância aquella 
melodia quadrada e symetrica que soa gratamente nos ouvi- 
dos do vulgo. Por isso foi essencialmente um compositor po- 
pular, tanto no theatro como na egreja. 

O seu merecimento como director era maior c niais in- 
contestável : enérgico e trabalhador, procurando sempre obter 
da orchestra ou dos coros que ensaiava o maior grau de per- 
feição que elles podessem dar, era ao mesmo tempo bondo- 

FOL. 13 193 



so, paciente e tolerante, pelo que os seus subordinados o ado- 
ravam, empenhando-se em satisfazer as suas indicações, secun- 
dando-lhe os esforços. Mestre e amigo, estava bem entre elles, 
era aquelle o seu meio. Conhecendo technicamente todos os 
instrumentos da orchestra, e sendo ao mesmo tempo cantor, 
reunia as condições indispensáveis para dirigir proficiente- 
mente. O que lhe faltava de instrucção superior era compen- 
sado por aquellas qualidades technicas que poucos directores 
possuem. 

Teve muitos admiradores e sobretudo muitos amigos; se 
nem todos o acompanharam sempre com fidelidade, um, pelo 
menos, deu taes provas que bem compensou as faltas de ou- 
tros: esse foi António Soller — papá Soller — como o des- 
venturado lhe chama com carinhoso reconhecimento •n'um 
postal que eu mesmo vi. 

O pobre louco, nos seus momentos lúcidos devia sentir 
ineffavel consolação ao lembrar- se que lhe restava tão dedi- 
cado amigo. 

As suas principaes composições foram as seguintes: 

Musica religiosa : Missa de requiem, a quatro vozes e or- 
chestra. — Libera-mej idem. — Missa «Martini», a auatro vo- 
zes. — Missa grande, ofFerecida á Ordem 3.' do Òarmo. — 
Missa grande, offerecida a José Carneiro de Mello. — Véspe- 
ras e Completas, a q^uatro vozes e orchestra. — Stabat Mater^ 
ofiferecido a Nossa Senhora das Dores, de Vianna do Castel- 
lo. — Pater Noster^ solo de soprano com acompanhamento de 
orchestra. — Ave Maria^ solo de soprano, idem. 

Musica de theatro: «Narciso com dois pés», opereta, 
n'um acto. — tO Botão», idem. — cAs Bonecas da Infanta», 
opera-comica em três actos (inédita). — tO Pescador de co- 
ral», opera-lyrica (inédita). — Numerosissimos trechos para os 
dramas e comedias: «União e trabalho»^ «Um namorado 
exemplar», «No tempo de D. João V», «Ah-Baba ou os 40 lo- 
drões», «Naufrágio do brigue Mondego», «D. João ou o filho 
maldito»^ «Os ladrões do mar», «O Império da Loucura», 
«Naufrágio da fragata Medusa», «O castigo do ceu», «Fre- 
derico 2.°». 

Musica de concerto: «Elegia», coro com orchestra. — 
«Caridade», romança. — La Lontanan:(a^ idem. — Hymno 
triumphal. — Varias aberturas, marchas, musica de dansa, 
etc, em grande quantidade. 

Um irmão de Jos^ Cândido, Luiz Gonzaga Correia Gui- 
marães, era também excellente contrabaixista, occupando por 
muito tempo o logar de primeiro contrabaixo na orchestra 
do theatro de S. João. 
194 



Falleceu em 17 de maio de 1898. 

Havia um outro irmão, António Maria, egualmente bom 
tocador de contrabaixo, que morreu novo. 

Oanedo (António Estanislau Delgado). Amigo e com- 
panheiro de José Cândido (v. o artigo antecedente), foi como 
elle um dos excellentes artistas que teem havido no Porto. 

Nasceu n'esta cidade, na freguezia de Santo Ildefonso, em 
8 de dezembro de i838. Seu pae, Manuel Estanislau Delgado, 
natural de Évora, era também bom musico^ professor em vá- 
rios collegios. cantor e mestre de capella. Sua mãe, D. Maria 
Albina Caneao, era filha de outro mestre de capella portuense, 
João Alves Pereira Canedo, que foi um dos fundadores do 
cMonte-pio Musical Portuense», em 1848, 

Estudou os principios de musica com o próprio pae, vio- 
lino com João Medina de Paiva, harmonia com Franchini. 
G)meçou muito moço a vida de musico profissional c depressa 
se tornou violinista hábil, occupando durante muitos annos o 
logar de primeiro violino na orchestra do theatro lyrico do 
Porto. • 

Sem se dedicar inteiramente ao trabalho de compositor, 
escreveu todavia bastantes obras que eram estimadas pelos 
seus patrícios; entre ellas figuram principalmente diversas 
tsymphonias» (aberturas), a mais antiga das quaes tem a data 
de 1854 e foi talvez a sua primeira composição importante. 

Por occasião do casamento do rei D. Luiz, representou-se 
no theatro Baquet uma peça dramática — «A Itália» — escri- 
pta por Augusto César de Vasconcellos, com vários trechos de 
musica compostos por Canedo. A primeira representação teve 
logar no dia 3i de outubro de 1862. 

Em 1877 apresentou também no Baquet uma opereta em 
3 actos, «Pastor soldado», letra de Freitas, cuja primeira repre- 
sentação teve logar no dia 25 de fevereiro d'esse anno. A 
musica agradou muito, e pouco depois foi Canedo incum- 
bido de escrever a musica para a peça phantastica «Espelho 
da Verdade», que se representou no mesmo theatro. Em di- 
versas épocas foram representadas as seguintes peças com 
musica sua : «O relógio de Cláudio», «O senhor e a senhora 
Diniz», «O primo Luiz», «João o Carteiro», «Amor e Pátria», 
«A bandeira do regimento», «Trinta botões», «Cabana do pae 
Thomaz», «O Diabo Louro». Esta ultima era uma peça phan- 
tastica, letra do sr. Sá d'Albergaria. Deixou inéditos dois actos 
de uma operctta que estava escrevendo e não concluiu — «A 
ramilheteira» — letra do sr. Sousa Rocha. 

Canedo era estimado como professor de violino e piano, 
exercendo essas funcções por muitos annos no Instituto esco- 

195 



lar da Ordem Terceira da Trindade. Quando em 1894 se ce- 
lebrou no Porto o centenário do infante D. Henrique, Alfredo 
Keil escreveu um hymno que foi ali cantado ao ar livre por 
um enorme coro, do aual faziam parte as creanças das escolas 
primarias do Porto; (Janedo incumbiu-se de ensaiar e dirigir 
este coro, desempenhando o encargo com uma paciência e 

Eroficiencia que se tornou objecto aa publica admiração. O 
ymno de Keil e a sua execução dirigida por António Canedo 
constituiu uma das partes mais notáveis e de maior êxito nas 
festas do centenário henriquino. 

Falleceu o excellente artista ha bem pouco tempo, em 1 1 
de abril de 1899^ na véspera do dia em que devia realisar a 
sua festa artística no theatro do Príncipe Real. Foi muito sen- 
tida a sua morte e ao funeral concorreram quasi todos os artis- 
tas músicos e grande numero de actores residentes no Porto. 
Todos os jornaes d'aquella cidade dedicaram á sua me- 
moria sentidas necrologias; d'ellas extractarei os seguintes tre- 
chos para completar esta biographia: 

António Canedo* -^ Falleceu hontem, após breve mas dolorosa 
enfermidade, este distinctissimo professor de musica que n'esta cidade 
contava as mais vivas sympathias e as mais acrisoladas dedicações. Antó- 
nio Canedo, além de ser considerado um dos mais distinctos cultores da 
arte a que consagrou a vida inteira, distinguindo- se como compositor, 
executante e ensaiador, era dotado d*um caracter primorosissimo que lhe 
grangeava um amigo em cada conhecido. Não tinha e^ual a lhaneza do seu 
trato, nem pode conceber-se alma mais singela e mais piedosa. 

Trabalhador infatigável, consagrou a sua existência aos affectos Ínti- 
mos da família, mas a sua bondade, que era extraordinária, não ae confir- 
mava no seu modesto lar, irradiava cá para fora, fazendo-o estimado de 
te dos e tornando-o popularissimo e adorado n'este nosso pequeno meio 
artístico.» 

(Jornal de Noticias), 

aChega-nos a triste DOtici§ de ter fallecido hontem o nosso velho e 
estimável amigo sr. António Estanislau Delgado Canedo, que ha dias en- 
fermara, sem que, todavia, ninguém suppozesse um desenlace fatal para 
tSo breve. 

Oriundo de uma família de artistas, era indubitável que António 
Canedo se affirmaría também como artista, pois era um violinista de muita 
cor e riqueza de som, quando tocava a sólo/um distinctissimo e seguro 
acoropanhador de orchestra, um ensaiador musical e professor laureado e 
um compositor apreciável. De tudo deixa elle irreíragaveis provas, do- 
cumentos indestructiveis, que eram a sua mais legítima gloria. 

(A Provinda), 

Oanongfia. (José Avelino). Clarinettista e compositor. 
Quando este notável artista falleceu, em 1842, a t Revista Uni- 
versal Lisbonense» — n.^ 48 — publicou um extenso artigo 
196 



biographico assignado com as letras P* M., iniciaes de Paulo 
Midosi, que foi sem duvida quem o escreveu, pois era colla- 
borador efifectivo d'aquelle jornal. Esse artigo foi reproduzido 
no «Trovador» — i6 de novembro de i83d — e na «Revista 
dos Espectáculos» — 3i de novembro de i856. Contém noti- 
cias que parecem verdadeiras na maior parte, dadas certamente 
pelos parentes do fallecido; por isso me vae servir de guia 
principal na biographia que vou traçar, corrigindo-lhe peque- 
nos erros evidentes, accrescentando-lhe outras noticias que 
pude colher e completando a relação das suas obras impressas, 
as quacs possuo todas. 

* José Avelino Canongia nasceu na villa de Oeiras em lo 
de novembro de 1784. Era filho do fabricante de sedas catalão 
Ignacio Canongia, que trabalhava primeiro na industriosa ci- 
dade de Manresa, onde nascera, vindo depois para Portugal. 
A profissão de Ignacio Canongia, a época em que vciíi 
para o nosso paiz e a villa em que se estabelece Uj» estão indi- 
cando com toaa a certeza a causa que aqui o trouxe: foi senfi 
duvida um d*aquelles numerosos artifices estrangeiros que o 
Marquez de Pombal attrahiu para desenvolver a nossa indus- 
tria; installou-se de preferencia em Oeiras porque o grande 
estadista quiz fazer da sua villa senhorial um centro fabril, do 
qual resta como testemunho a fabrica de tecidos que ainda ali 
subsiste. 

Decahido o ministro, foi a sua obra contrariada e as indus- 
trias nascentes definharam em grande parte, como se sabe. 
Ignacio Canongia veiu então para Lisboa com a familia, natu- 
ralmente em busca de melhor fortuna e de um centro onde 
os filhos podesscm receber mais ampla educação. O artificc 
catalão, inclinado á musica como geralmente são os catalães, 
occupava com a cultura d'esta arte os seus momentos de des- 
canço, e era clarinettista dotado de certa habilidade. Diz mes- 
mo o primeiro biographo, naturalmente repetindo o que lhe 
disseram pessoas interessadas em elevar os merecimentos de 
um asccnaente, que este chegou a occupar o logar de primeiro 
clarinette no theatro de S. Carlos. Mas tanto não é verosimil: 
primeiramente porque o fabricante de sedas não pertencia á 
irmandade de Santa Cecília (não encontrei o nome d'elie no 
respectivo cartório), e nenhum artista era admittido na orches- 
tra d'aquelle theatro, como em todas as outras, sem ter en- 
trado para a sobredita confraria. Só se tolerava a excepção dos 
estrangeiros contractados expressamente, e esses mesmos apres- 
savam-se a requerer a sua admissão logo que resolviam esta- 
belecer-se definitivamente no nosso paiz. Nem mesmo ainda 
que o quizesse, Ignacio Canongia podia ser admittido irmão 

197 



de Santa Cecília porque o respectivo compromisso excluía 
expressamente toda a pessoa aue exercitasse ofíicio mechanico 
(v. -A. vondano). Além a'isso : o clarinette na orchestra, 
empregado pela primeira vez cm 1770 por Gluck, na opera 
«Ephigenia em Aulida», era ainda uma novidade não genera- 
lisada nem empregada pelos compositores italianos quando 
em 1793 se inaugurou o nosso theatro de S. Carlos; dois an- 
nos depois, em lygS, veiu para este theatro o clarinettista 
allemão João António Wisse ou Weisse, e este é que foi cer- 
tamente o primeiro, não só na ordem hierática mas também 
na ordem chronologica. 

Se, apezar do que fica exposto, prevalecesse a idéa de 
Ignacio Canongia ter sido primeiro clarinette de S. Carlos, 
seria forçoso limitar o cxercicio d'essas funcç5es ao curto pe- 
ríodo de dois annos {1793- 1795). 

Entretanto é certo que o pae de Avelino Canongia veiu 
estabelecer residência em Lisboa. Tinha então dois filhos — 
José Avelino e Joaquim Ignacio — aos quaes ensinou o que 
sabia de musica, destinando-os a esta arte que estava então 
sendo muito lucrativa. O mais velho, que mostrava rara dis- 
posição e muita sagacidade, entrou para a escola sustentada 
pelos frades da congregação de S. Paulo Eremita — vulgo 
Paulistas — estudando ali canto, piano e acompanhamento 
com o modesto mas sábio mestre frei José dos Anjos. Apren- 
deu também a tocar violino com Pedro Rumi, hábil violinista 
hespanhol residente em Lisboa. 

O artigo biographico de Midosi diz que Avelino Canon- 
gia recebeu egualmente lições de violino de outro hespanhol 
chamado CervíUcs, mas d'este não encontrei ainda outra 
notícia. 

Ao mesmo tempo aperfeiçoava-se no clarinette com João 
António Wisse. (i) 

Cedo se tornou artista disiincto, pois que era ainda muito 
novo e já fazia parte da orchcstra do theatro do Salitre ao 
mesmo tempo que desempenhava asfuncções de mestre de 
banda militar. 

Em 1806, tendo portanto apenas 22 annos, sahindo de 



(1) E' curioso e merece a pena contar o que succedcii com este appcllido : Pauío Mi- 
dosi. ouvindo-o mal proiiynciado e não o conhecendo, escreveu, sem mnis averiguações. Bit 
em ^ogar de Wisse. Mais tarde outro escriptor, 'Diomaz Oom, recordando, n'umas cphemeridcs 
publicadas em i834 na «Revista dos espectáculos», o íiillecimento de Canongia, parecendo-liie 
que o mestre de tão notável artista merecia um epitheto, escreveu: «... discipnlo áo famoso 
fíis. . .» O sr. Benevides, no livro qne publicou sobre o theatro de S. Carlos, para variar a no- 
ticia já que não sabia accresccntal-a, recorreu á synonymia escrevendo: «... di&cipulo áo ce- 
lebre ^ts.n V. assim vae passando á posteridade, qualificado de famoso e celebre um nome 
que nunca existiu. 

Como c perigoso copiar sem averiguar! 

198 



Portugal, esteve em Paris dois annos c residiu também al- 
gum tempo em Nantes. Escreveu por essa época uma opereta 
franceza — Les deux Julies — que Paulo Midosi não diz, nem 
consegui averiguar, se chegou a ser representada n'algum 
heatro. Entretanto dava concertos, colh ?ndo applausos e meios 
para subsistir ao mesmo tempo que ia apprendendo e aperfei- 
çoando-se. Em 1814 passou a Inglaterra, fazendo-se ouvir em 
Londres e outras cidades. No anno seguinte veiu a Portugal, 
causando geral admiração nos concertos que deu em Lisboa, 
e em 1 816 no Porto. 

Pouco depois emprehendeu segunda viagem ao estran- 
geiro. Percorreu as principaes cidades de Hespanha, do sul da 
França, Piemonte, Milanez e mais estados da Itália, esteve na 
Suissa, na Áustria c na Prússia, voltando de novo a Paris. 

Estando n'esta ultima cidade em 1820, tomou parte nos 
celebres «concertos espirituaeso que ali se realisavam pela qua- 
resma e semana santa; os jornaes da época fizeram-lhe gran- 
des elogios. 

A primeira revolução liberal, que tantos filhos trouxe á 
pátria, reconduziu também este, o gual se não era propria- 
mente um emigrado politico, não deixava de ser um fugitivo 
das más situações produzidas pela politica. 

Pelos fins de 1821 chegava a Lisboa; tenho para affirmar 
este facto um guia mais seguro do que a biographia escripta 
por Paulo Midosi; é o «Diário do Governo», que no numero 
de 3o de novembro d'aquelle anno publicou o seguinte an- 
núncio: 

«O Professor de Clarinette, José Avelino Canongia^ acaba de chegar 
a esta Capital, depois de alguns annos de Viagens pelas principaes Cida- 
des da Europa. Tendo sido, em muitas delias, testemunha dos mais iison- 
geiros applausos que os mais celebres Professores tributarão a seu dis- 
tincto talento, e experimentando com isso aquella satisfação que sempre 
nos causa tudo que de uma maneira qualquer dava lustre ao nome Portu- 
guês; apressamo nos em annnnciar que este celebre Professor se fará ou- 
vir, Qua^-ta feira 5 de Dezembro, no Theatro de 5. Carlos^ em algumas 
peças da sua composição. 

Estamos bem persuadidos de que elle achará da parte dos seus Com- 
patriotas, pelo menos, hum acolhimento tal como o que vimos fazer-se- 
lhe nos Paizes Estrangeiros.» 

Para redactor principal do Diário do Governo tinha en- 
trado, com o advento da revolução, José Libcrato Freire de 
Carvalho, rccemchegado também da emigração, e este facto 
explica as allusões da noticia publicada por aquellc jornal. 

Ganongia entrou em seguida para a orchcstra de S. Car- 
los e foi nomeado musico da Camará Real. 

199 



Eis outro documento que comprova estes dois factos; 
é o programma de uma recita em seu beneficio, realisada 
n'aquelle theatro em 27 de janeiro de 1823. 

«Segunda feira iq do corrente mez de Janeiro, no Real Theatro de 
5. Carlos^ em beneficio de José Avelino Canongia^ primeiro Glarinette 
do dito Theatro, e Professor da Real Gamara de h. M. F. se representará 
o primeiro Acto da bem Acceita Opera séria, denominada Eduardo e 
Christina, Musica do celebre Rossini. — Acabado o dito Acto o Benefi- 
ciado executará hum Grande Concerto de sua Composição. — Seguir- se- 
ha a grande Dança Trágica, em seis Actos, intitulada Os Cavalleiros do 
Templo^ depois da qual o dito Beneficiado executará hxim Pot-pourri^ ou 
rOifferentes themas com variações. — O segundo Acto da referida Opera 
rematará o Espectáculo. — O Beneficiado espera que este Illustre Publico 
lhe conceda o mesmo acolhimento que por outras vezes lhe tem genero- 
samente prodigalisado. — Principiará ás 6 horas e meia. — Lisboa. — Na 
Typographia de Bulhões. — Anno de 1823. 

Em 1824 houve uma tentativa de reforma do Seminá- 
rio Patriarchal, que tinha chegado a extrema decadência 
(v. D. JoSo V); essa reforma, determinada por decreto de 3 
de novembro d'aquelle anno, estabeleceu aulas para instru- 
mentos de orchestra, que antes não haviam, e Óanongia foi 
preferido para ensinar os instrumentos de palheta. 

Por este tempo fez imprimir a sua primeira obra publi- 
cada, que tem o seguinte titulo : Introduction et Thême Varie 
pour Ia Clarinette avec accomvJ dOvchestre ou de Quatuor 
Composé & dcdié à son Bienjaiteur & Ami Mr, le Baron de 
Quintella vor J. A. Canongia Musicien de la Chambre de la 
Chapelle ae S. M. F. et vremière Clarinette du Grand Théatre 
de Lisbowie. Paris, Pleyel & Fils ainé. Titulo interessante 
por nos dar noticia de que o conde Farrobo — Barão de Quin- 
tella até i833 — desvellado e generoso protector e amigo dos 
artistas, o foi também de Canongia. E' provável que tivesse 
sahido do seu bolso a despeza para a impressão d'esta obra, e 
que elle mesmo se tivesse incumbido de a fazer imprimir, 
pois que n'essa época estava emigrado em Paris. 

É foi talvez o mesmo protector que auxiliou a impressão 
da segunda obra de Canongia, que é o seu primeiro (Jon cer- 
to, assim intitulado : Premier Concerto pour la Clarinette avec 
Orchestre ou Quatuor seulementy composé et dédié à MM. les 
Prqfesseurs et Amateurs de cet Instrument por J, A. Canon- 
gia de la Chambre et de la Chapelle de S. Aí. Três Fidèle, et 
Premier Clarinette du Grand Opera de Lisbonne. Paris, 
Pactni. 

Quando triumphou a causa constitucional e D. Pedro IV 
veiu para Lisboa, Canongia apresentou-selhe immediatamen- 
te, sendo muito bem recebido pelo imperador-rej, que lhe fez 

200 



O-A. 

muitos elogios, mostrando-se conhecedor do seu merecimento 
e promettendo-lhe toda a amizade e protecção. Canongía de- 
dicou-lhe o seu segundo Concerto, cujo titulo diz assim : Deu- 
xième Concerto pour la Clarinette Avec Orchestre composé et 
dedié à Sa Magesté Pierre //'* Empereur du Brésil et Rot de 
Portugal par J. A. Coíiongia^ Musicien de la Chambre et de la 
Chapelle de S. M et i.^ Clarinette du Grani Théâtre de Lis- 
bonne. A Paris, Au Magasin de Musique de Pacini. 

Transformado o Seminário Patriarchal em Conservatório 
(v. Bointeiiipo), Canongia passou para o novo institu- 
to com o mesmo logar de professor de instrumentos de pa- 
lheta. Por esse tempo fez imprimir mais as seguintes compo- 
sições : Air Varie pour la Clarinette avec accJ de gi^and Or- 
chestre dedié à S. M. Dona Maria da Gloria^ Reine de Por- 
tugal^ por J. A. Canongia, Chevalier de rOrdre du Christ, 
Prof/ du Conservatoire Musical de la Chambre de S. M. três 
fidèle, iS^ Clarinette de VOpera. Paris, Schonenberger. — 
3.^ Concerto pour la Clarinette avec AccJ d' Orchestre ou de 
Quatuor, dédié à 5. Af. Don Fernando second Roi de Portu- 
gal, por J. A, Canongia, Chevalier de ÍOrdre du Christ, 
ProfS du Conservatoire Musical, de la Chambre de S. M. 
três fidèle, i''^ Clarinette de r Opera. Paris, Schonenberger, — 
4.^ Concerto pour la Clarinette avec acc} de grand Orches- 
tre, dédiè à S. M. L la Duchesse de Bragance, etc, (como 
acima). 

Como os titulos demonstram, a primeira d'estas três obras 
foi impressa depois da morte de D. Pedro IV, occorrida em 
1834, e as outras duas depois do segundo casamento de D. 
Maria II, realisado em i836. 

Canongia tornara-se estimadissimo do publico frequenta- 
dor do theatro de S. Carlos, sendo admirado pela belleza do 
som e primor da execução. O compositor Coppola, escreven- 
do para aquelle theatro a opera lA filha do Espadeiro», inter- 
calou na principal ária de soprano um solo de clarinette feito 
expressamente para Canongia e que este dizia divinamente, 
variando-o cada vez que o executava. Paulo Midosi escreveu 
a esse respeito as seguintes linhas : 

<K. . .Ainda nos lembra o religioso silencio com que era escutado, e 
o geral applauso que o seguia; ainda resoam nos nossos ouvidos aquelles 
deliciosos accentos, que nos enterneciam e arrebatavam a alma; já então 
o artista se sentia fendo de morte, e de morte próxima; — eram aquelles 
os nltimos adeus, que elle dirigia aos seus patrícios, que sempre o ama- 
ram e honraram tanto.» 

(Loc, cit.) 
201 



Com efifeito^ o insigne clarinettista não sobreviveu muito 
tempo a este ultimo triumpho : a opera de Coppola cantou-se 
em 1841, e a doença que o minava desde muito tempo pros- 
trou-o em seguida, impossibilitando-o completamente de tra- 
balhar; finalmente em 14 de julho de 1842 extinguiu-sc de 
todo. Tinha pouco mais de 67 annos. Legou em testamento 
um exemplar de cada uma das suas obras e os tratados de 
harmonia de Reicha e Momigny ao Conservatório, deixando 
todas as restantes musicas que possuia ao seu discipulo Manuel 
Ignacio de Carvalho. 

As obras impressas de Canongia existem eflfectivamente 
no Conservatório; também lá existe o tratado de Reicha, por 
signal que é o próprio livro que andou em uso na aula de 
harmonia durante mais de cincoenta annos e até ha pouco 
tempo. Mas o legado ao discipulo é que teve um fim prema- 
turo e pouco respeitoso: Ignacio de Carvalho (v. este nome) 
era um macambusio que nunca disse a ninguém possuir reli- 
auias do seu mestre; se as estimava era em silencio. Tempo 
depois de ter fallecido procurei o filho para ver se podia 
adquirir essas reliauias como tenho adquirido tantas outras. 
— Impossível, me aisse aquelle cavalheiro; minha mãe, incom- 
modada com o grande volume d'aquelles papeis, vendeu-os 
todos a pezo. — Mas não se poderia ao menos saber, insisti 
eu, para onde iriam ? — Oh ! foram por ares e ventos ! . . . 
comprou-os um fogueteiro ! . . . 

Não é este um caso novo; no decurso d'csta obra se en- 
contrarão outros similhantes. 

As obras de Canongia não constituem valioso trabalho de 
composição; o auctor só se preoccupou de fazer brilhar o 
executante, como os antigos mestres italianos escreviam árias 
para os cantores maravilharem o publico com os seus vocali- 
sios. As idcas são banaes, a harmonia e instrumentação desti- 
tuídas de interesse; de resto, e' o defeito de muitas obras do 
mesmo género escriptas por celebres concertistas. Mas Canon- 
gia tinha recebido solida educação elementar; por isso a falta 
de interesse é compensada pela correcção e facilidade com 
que trabalhava. 

Quanto á sua habilidade de concertista, é fora de duvida 
cjue foi realmente de primeira ordem ; jião só se reconhece 
isso pelas próprias composições, que conteem grandes difficul- 
dades de execução, mas também pela memoria que deixou. 
Tratei com alguns músicos que ainda o conheceram e fatia- 
vam d'elle maravilhados. 

Como professor é que deixou má lembrança; tinha um 
caracter violento, arrebatado, absolutamente impróprio para o 
202 



ensino. Por isso deixou poucos discípulos, distinguindo-se entre 
elles apenas o tal Carvalho seu legatário, que foi durante mui- 
tos annos segundo clarinettc em S. Carlos. 

Por ultimo citarei o trecho com que fecha a sua biogra- 

[)hia reproduzida em i855, treze annos depois de ter elle fal- 
ecido, que prova quanto se conservava ainda viva a memoria 
das suas qualidades; diz assim o referido trecho: 

«Canongia foi um homem. a auem uma feliz organisação, uma sensi- 
bilidade fina, o estudo profundo aa theoria da arte, a frequentação con- 
tinuada dos mais insignes artistas e compositores dos nossos tempos, e 
finalmente um longo e obstinado trabalho no seu instrumento, levanta- 
ram a tal grau de perfeição, assegnrando-lhe aquelle precioso tom do 
instrumento, aquelles proaigios de execução, aauella força de expressão 
encantadora, aquelle prumo e firmeza magistral n*uma palavra, aquellas 
qualidades todas euja difRcil reunião constitue o artista consumado.» 

(Jornal «O Trovador», n.« 6). 

CeLnangici (Joaquim Imacio). Irmão mais novo do 
precedente ; foi também bom clarinettista mas não attingiu a 
perfeição nem gosou a fama de José Avelino. Teve porém 
certa consideração entre os coUegas, exercendo vários cargos 
na irmandade de Santa Cecília, para a qual entrou em 20 de 
julho de 1816, e do Monte-pio Philarmonico do qual foi um 
dos fundadores. Assignou também a escriptura lavrada em 
1842, primeira lei orgânica que teve a «Associação Musica 24 
de Junho». Nos últimos annos da sua existência perturbou- 
se-lhe a razão, vindo a fallecer de um desastre, quasi suicídio 
pois se precipitou de uma janella, em 6 de agosto de i85o. 

Teve quatro filhos: Joaquim Ignacio, Thiago Henrique, 
João Baptista e José Victorino; os três primeiros também se 
dedicaram á musica e filiaram se na irmandade de Santa Ce- 
cília. O quarto, José Victorino, seguiu o officio de ourives, 
e estabelecendo-se viu prosperar o estabelecimento que ainda 
existe dirigido por seu filho, o sr. Eustáquio Canongia. Um 
filho de João Baptista, o sr. João Canongia é também ourives 
e conserva um resto das tradicções de família, tocando violino 
nas orchestas de amadores musica. 

Joaquim Ignacio Canongia Júnior, o mais velho dos qua- 
tro sobrinhos de José Avelino, não se salientou como musico 
mas era dotado de grande sagacidade ; depois de ter sido co- 
pista e ponto no theatro de S. Carlos, estabeleceu em 1860 
um armazém de musicas na Rua Nova do Almada, e no an- 
no seguinte acceitou por consócio João Cyriaco Lence que 
tinha outro estabelecimento idêntico, conseguindo os dois dar 
grande incremento ao negocio, installando uma lithographia 

203 



musical que aciívumente trabalhou durante muitos annos (v. 
Lieiicc). 

Falleceu da febre amarella em 1857. 

Thiago Henrique foi também musico pouco notável ; to- 
cava violino, violeta e fagotte. Exerceu o cargo de secretario da 
sociedade dos «ConcertosPopulares» (v. Cossoii.1 e IVeu.- 
pa.rth), e logo depois aessa sociedade se dissolver em 
1862 partiu para o Rio de Janeiro onde estabeleceu um arma- 
zém ae musicas e lythographía musical. Foi sogro do illuptre 
litterato e poeta brazíleiro Luiz Guimarães. 

O a,pr arnica, (Giuseppe ou José). Um dos notáveis 
sopranistas italianos chamados para o serviço da Patriarchal e 
da Corte nos fins do século XVm. Veiu para Lisboa junta- 
mente com Angelelli, em 1792. estreiando-se no theatro régio 
de Salvaterra, na opera séria de Gretry «Ricardo coração de 
Leão», e na opera Duffa de Paesiello La modista raggiratrtce 
que ali se cantaram no carnaval d'aquelle anno. Recebia pe- 
las rendas da Patriarchal o ordenado mensal de 5o:ooo réis, 
elevado mais tarde a 60:000 réis. 

Partiu em 18 10 para o Rio de Janeiro e lá morreu pou- 
co depois. 

O bibliothecario de D. João VI, Luiz Marrocos, enviou 
para seu pae em Lisboa a notícia do fallecimento de Caprani- 
ca, nos seguintes picarescos termos : 

«O musico Capranica morreu de repente, quando estava em vésperas 
de ir para su terra : despejou-nos o beco por differente modo ; e nem as- 
sim nos ficou o muito que elle deixou, porque morrendo ab intestatOj e 
consiituindo-se outro que tal, Chiconi^ (i) por seu testamenteiro, ror^we 
elle assim o disse^ obteve por graça especial a isenção das garras do Juiz 
dos Defuntos e Ausentes, e lá o está comendo á saúde do defunto, e de 
nós todos, de quem elle chupou. Grande circumstancia acompaiha os cas- 
trados, que nem na vida nem na morte deitam chorume I» 

(Cartas de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, ms. Real Bibl. da Ajuda.) 

Oa.rdeii*a, (Padre Lui:0. Celebre missionário jesuíta, 
nascido em Beja em i585 e martyrisado na Abyssinia em \Í 
de abril de 1640. O seu nome tem logar n'este diccionario, 
porque, sendo bom cultor da arte musical, ensinou alguns 
neophitos a cantarem os officios divinos, sendo o primeiro que 
ensmou musica aos Abyssinios. Era também organista e to- 
cava vários outros instrumentos. 



Sfc. Deve ser Ceccoli, v, este appellido. 
204 



A Bibliotheca ScHptorum Soaetatis Jesu, de Ribadeneira 
e Alemgabe (Roma, 1076), diz que Luiz Cardeira era: 

«Excellehs Theologus, Mathematicus, Praeceptor, Choraules, Orga- 
norum & co&terorum Instrumeniorum pulsatur peritusy graphicos chara- 
cterum delineator, eximius Religiosos, tacili ad orania oc a omnes índole, 
eaque de causa ia omnium ocutis habebatur. Prímus Abissmus Romanae 
rousices números docuit, & intra breve tempus chorum in illes instituit.» 

Jorge Cardoso no Agiologio (i652) e D. Nicolau António 
na Bibliotheca Hespana (1672) trocaram o appellido de Car- 
deira por Caldeira. 

OairdoRo (. . .^ v. Cardote. 

Cardoso fD. Caelana). Cantora muito apreciada nos 
salões aristocráticos de Lisboa, pelos fins do século XVIII e 
principios do XIX. Faz d'ella menção o marquez de Resende 
no opúsculo aPintura de um outeiro», em que diz (pag. 10): 

«Viam-se, em seguida, a Marqueza de Penalva, a quem Deus dotou 
de todas as qualidades de uma boa mãe, em conversação animada com a 
sua grande amiga a interessante D. Maria de Noronha^ e com as mui es- 
pirituosas condessas de Ficalho e de Vimieiro, junto as quaes estavam a 
galharda e admirável cantora D. Caetana Cardoso. . .» 

O poeta c cantor de modinhas. Caldas Barbosa, dedicou- 
Ihe o seguinte improviso, cujo mote ella dera : 

«Quizera bella Caetana, 

A tua voz singular 

A uma coisa comparar 

Qu'entendesse a gente humana. 

O teu Caldas não fengana; 

E* fiel qual te avalia. 

Essa tua melodia 

Tanto me consola esfaima 

Quanto em tempo de calma 

Caramelo e agua fria. 

Oardoso [Padre José). Mestre da Capella Real no 
principio do século XVIII. Faz-lhe elogiosas referencias o opús- 
culo assim intitulado : «Relação das Festas, que os Padres da 
Companhia de Jesus da Casa Professa de S. Roque, em a Ci- 
dade de Lisboa, Fizerão em Beatificação do Beato Padre João 
Francisco Regis, Sacerdote Professo da mesma Companhia, 
Composta por hum seu devoto. — Lisboa, Na Officina de Pas- 
coal da Sylva, Impressor de Sua Magestade. M. DCC. XVII. 
Relatando como começaram as festas no dia 16 de agosto de 
1717, diz assim o mencionado opúsculo, em pagina 14: 

205 



O-A. 

«... chegada a hora das primeiras Vésperas, sahirSo da Sacristia os 
24 Irmãos da Mesa com suas tochas acompanhando ao Padre Provincial, 
que assistido de dous Padres foy officiar as primeyraa Vésperas, cantadas 
pelos mais destros, e singulares Músicos da Capeila Real, e Corte, assis- 
tindo por ordem de S. Magestade as rabequilhas, e aboazes de sua Real 
Capeila, como também assistirão os seus seus atabales, e clarins todos os 
três dias, e tudo debayxo do compasso do que por todo e em todo he re- 
conhecido por Mestre, o Reverendo Padre Joseph Cardoso, o qual nesta 
tarde, e em todas as occasióes c)ue lhe couberam neste Triduo, mostrou 
que ^abia, como novo Apollo, dirigir vozes desmenti doras das fabulas de 
õríeo, porque se as deste só irracionaes constrangia, as daquelle aos mais 
doutos e entendidos attrahião de modo, que attirmavam todos, parecia 
quizera Deos para mayor gloria deste seu Bemaventurado Servo, que as 
vozes com que os Anjos no Ceo o festejarão, fizessem repetições nas gar- 
gantas dos que na terra o applaudião.» 

E em pagina 18, narrando as festas realísadas no dia 17, 
faz mais esta referencia : 

«. . principiou a Musica as Vésperas com aquelle assombro de vo- 
zes e admiração de instrumentos, com que já dissemos, tinha preparado o 
seu Coro, e verdadeyramente Mestre de Solfa, o Reverendo Joseph Car- 
doso ... V 

Apesar de taes elogios, nenhuma outra noticia tenho en- 
contrado d'este mestre da Capeila Real, cujas obras provavel- 
mente se perderam por occasião do terramoto de 175 5. So- 
mente no cartório da irmandade de Santa Cecilia existe um 
documento, copia de um termo lavrado em 9 de outubro de 
1702 e assignado por todos os irmãos, no qual se lê em ter- 
ceiro logar o nome de «José Cardoso». 

Cardoso (Manuelj. Cantochanista que viveu nos fins 
do século XVI. Foi primeiro capellão (archtprcecentor) de D. 
João III e thesoureiro da Sé de Leiria. 

A sua notoriedade provém de ter sido auctor de um li- 
vro de cantochão contendo todos os cantos litúrgicos da se- 
mana santa, livro impresso em Leiria. Esta obra constitue do- 
cumento authentico de ter existido uma imprensa n'aquella 
cidade durante alguns annos do século XVI e tal circumstancia 
lhe augmcnta o valor histórico. Ha d'ella um exemplar na Bi- 
bliotheca Nacional de Lisboa e outro na de Évora. 

Tem o seguinte titulo : 

«Passionarivm juxta Capellae Regis Lusitanas consvetudinem : accen- 
tos rationem integre observans. 

Per Emmanvelem Cardos vm eisvsdem Regis Capellas Archipraccen- 
torem, & Leiriensis Ecclesiae Thesaurarium. 

Ex mandato secundi prouincialis Concilij Vhsiponensis, nunc pri- 
mum oeditum. 

Leiria?. Ezcudebat Antonino à Mariz : cum Reverend. Dni. D. Gas- 

206 



O.A. 

paris Casalij, eiusde ciuitatis Episcopi : santae eriam inquisitíonis facultate 
Anno iSyS.» 

E' tudo impresso a duas cores, sendo pretas as notas e 
collocadas sobre cinco linhas vermelhas; títulos, letras capitães 
c rubricas são também a vermelho. Tem três ordens de nume- 
ração, constando a primeira de 62 folhas, a segunda de 24 e 
a terceira de i3. Esta ultima não faz parte integrante da obra, 
pois consta dos invitatorios que se cantam durante todo o anno 
tendo titulo especial em folha não numerada e addicionada no 
fim. Tem mais duas folhas não numeradas no principio; con- 
teem estas o frontespicio, o parecer, a approvação, uma breve 
exposição com alguns exemplos sobre as notas do cantochão, 
c uma advertência aos cantores sobre os logares em que de- 
viam respirar. 

O parecer diz assim: 

«O Lecenceado Martitn Vaz de Meyra, proui&or &. vigayro geral em 
este bispado de Leiria polo muito illustre & reuerendo senhor dom Gas- 
par do Casal Bispo da dita cidade &. Faço saber que sendo impresso na 
dita cidade por consentimento do dito senhor Bispo, este liuro das pai- 
xões, lamentações, lições, & orações da sesta feira da somana santa^ &. 
iouita tórios de todo o anno, com emmendas da cantoria das sobre ditas 
cousas, ora nouamente feyta por Manuel Cardoso Chantre da capela dei 
Rey noso senhor, & Thesoureiro da See desta cidade, approuada pelo 
segundo concilio prouincial de Libboa. O dito senhor bispo me commeteu 
que reuisse a leitura das ditas cousas: a qual eu reui & achei estar con- 
forme ao missal da impressam de Planiino. & ao breuiario que nouamente 
forão ordenados & impresos, por decreto do sagrado Concilio Tridentino, 
excepto a*gumas erratas que abaixo deste vão declaradas, pêra se emen- 
darem cada hum dos ditos liuros & por certeza fiz este por mim assinado 
oje vinte cinquo de Janeiro de í5j5 Annos. Martim Vaz de Meyra.» 

No fim do verso da ultima folha tem o encerramento da 
obra, feito em 23 de janeiro de i575, nos seguintes termos: 

«Emmanuel Cardosus supradicta faciebat vigésima tertia die mensis 
Januarii in civitate Leiríensi. Anno á Christo nato iSyS.» 

Manuel Cardoso falleceu antes de iSgS, porque n'esse 
anno publicou-se outra obra idêntica á sua redigida por Fr. 
Estevão de Christo, o qual no prologo lhe faz a seguinte refe- 
rencia: 

« . .E entre as cousas dos passados, me occorreo hum liuro de Pai- 
xões, & do mais que se canta na somana sancta, recopillado & accentuado 
pello egreeio & curioso Musico Manuel Cardoso que Deus tem, capelião 
que foi dei Rey Dom João o terceiro de boa memoria, & thesoureiro da 

207 



O-A. 

Sancta Sé da Cidade de Leyria. Liuro (na verdade) não menos douto na 
razão do accento, que necessário para o culto diuino d'aquelle$ dias.» 

Oa.rd.oso (Fr. Manuel). Um dos mais notáveis músi- 
cos portuguezes que floresceram na primeira metade do século 
XVII. Muitos escriptores antigos fizeram referencias mais ou 
menos extensas e elogiosas e Fr. Manuel Cardoso, mas a sua 
biographia mais completa vem nas «Memorias históricas, dos 
illustrissimos Arcebispos, e Escriptores Portuguezes da Ordem 
de Nossa Senhora do Carmo», por Fr. Manuel de Sá. D'esta 
obra, impressa em 1724, extrahiu Barbosa Machado a noticia 
que dá na Bibliotheca Lusitana, da qual outros escriptores 
modernos se teem approveitado com pouco trabalho e muita 
philaucia. 

Por não fazer nova e inútil reducção, em que se corre 
o perigo de desfigurar o original, parece-me mais interessante 
reproduzil-o textualmente ; apezar de ser antes um panegyrico 
do que propriamente uma biographia, e apezar do espirito de 
mysticismo que n'elle predomina despertando suspeita de 
exaggeração piedosa, encerra tudo quanto de positivo hoje se 
pode averiguar sobre este musico carmelitano, e tem o cunho 
da authenticidade por ser escripto pelo chronista da ordem do 
Carmo, que teve á sua disposição os archivos monásticos. 

Eis por completo o texto das «Memorias históricas» que 
se refere a Fr. Manuel Cardoso, tomo primeiro, paginas 362 a 
367. 

«533. Na Villa de Fronteyra Bispado de Elvas, e não na Cidade de 
Beja, como dix D. Nicolao António, nascéo o R. P. Fr. Manoel Cardoso, 
seus pays Francisco VáS; e Isabel Cardosa não se contentando com a no- 
breza, que lhe adquirirão seus antepassados, se exercitarão em a melhor, 
que he a da virtude, e criando os fílnos, que tiverão, com todo o cuydado, 
este logo dos primeyros annos o dedicarão para filho de Maria Santissi- 
ma, Senhora do Carmo. Para conseguirem os seus desejos, logo que foy 
de idade competente, o mandarão para a Cidade de Évora, para nella es- 
tudar Grammatica, e arte da Musica, á qual se applicou tanto, que em 
pouco tempo se fez destro nella, e depois estudou contra-ponto, e se 
grangeou os applausos de excellente Compositor, e a honra de fazer o 
compasso na Cathedral da dita Cidade. 

«534. Nestes termos estava, quando succedeo ir visitar o Convento 
da mesma Cidade de Évora o Muito Reverendo Padre Mestre Frey Simão 
Coelho, Provincial, que então era desta Provincia, o aue sabendo seu pay, 
lhe veyo fallar, e lhe manifestou o ter dedicado aquelle filho a Maria 5an- 
tissima, para ser seu Religioso, dando-lhe}noticia assim do seu préstimo, 
como do seu merecimento ; e informando se de huma, e outra cousa o 
Muito Reverendo Padre Provincial, e da limpeza do seu sangue e achando 
ter os requisitos necessários, o aceytou, e lhe mandou passar Patente. Já 
era outro Provincial, quando elle tomou o habito no Convento de Li&boa 
no primeyro de Julho de i388, e no mesmo Convento, tendo já comple- 
tos dezanove annos de idade, professou aos cinco de Julho de iSSg. O 
208 



CfA. 

grande applauso, que tinbSo as suas composiçoens, o excitau a se appli- 
car com todo o disvelo a e&ta arte, e de tal sorte o conseguiu, que foy 
hum dos mayores, e mais insignes Compositores, que houve não so neste 
Reyno, mas em toda a Europa ; mas sendo tão insigne nesta arte, nunca 
usou delJa, senão para compor o com que se louvasse a Deos na sua 
Igreja. 

«535. Tão grande estimação se grangeou, que não só era venerado 
dos Religiosos seus Irmãos, mas dos das outras sagradas Famílias, da No- 
breza, e Titulos da Corte, e até das Pessoas Reaes, como bem se vio nos 
grandes favores, que lhe íez o Rey Catholico Filippe IV, quando levando- 
lhe á Corte de Madrid hum dos livros, que compoz de Missas, que dedi- 
cou á mesma Magestade, e como nella hiu huma, que o mesmo Monarca 
lhe tinha mandado dizer compuzesse, o estimou tanto, que alem das hon- 
ras, que lhe fez, lhe deu huma boa esmoUa para vir para este Reyno, e 
despachou a hum Irmão seu com o Habito de Christo, e o fez Desembar- 
gador da Casa da Supplicação, e todo o tempo que esteve em Madrid, os 
dias, que El Rey assistia na Capella, lhe mandou, que fizesse o compasso 
aos seus Músicos, querendo-o desta sorte honrar publicamente. O Senhor 
Rey Dom João IV, de gloriosa memoria também o honrou muito, man- 
dando o chamar muytas vezes a Palácio para tratar com elle sobre a arte 
da Musica (da qual foy também destríssimo Compositor) e chegando a 
vir á sua cella, e lhe fez outras muytas honras ; e quando quiz ornar a Li- 
vraria da Musica da sua Real Capella, mandou fazer retratos dos homens 
mais insignes nesta arte, e entre elles lhe deu o primeyro logar, mandando 
pôr o seu muyto ao natural, como nella se vê ainda hoje. 

«536. Os annos, que viveo na Ordem, foy naquelle Convento; onde 
foy quasi todo o tempo de Sacerdote Mestre da Capella, e no mesmo foy 
muytos delles Subprior: a dita occupação exercitou com tanta perfeyção, 
que ainda ha vivas memorias na tradicção de huns a outros do zelo, que 
teve no mesmo emprego: assim na observância das cerimonias, como 
também na pausa, e devoção, com que fazia celebrar os Officios Divinos 
no coro, e em fazer assistir a elle os Religiosos moços, que estavão de- 
bayxo da sua jurisdicção. 

Por ser tão illustre Varão, no Capitulo, que se celebrou neste Con- 
vento aos treze de mayo de 1628, o fizerão terceyro Definidor; o que tor- 
nou a ser no Camtulo do anno de mil e seis centos e quarenta e quatro. 
O Reverendíssimo Padre Mestre Frey João Coelho na segunda vez 
que foy eleyto Provincial no anno de 1647, o nomeou seu Vigário. 

537. Mas todas estas estimaçoens lhe não servião de se esvaecer, 
mas sim de estimulo para as virtudes. No comer foy muyto parco, na mo- 
déstia singular, na guarda do silencio vigilantíssimo, nos votos essenciaes 
observantissimo, na pobreza tão pontual, que nunca teve cousa própria, e 
de tal sorte foy observante desta virtude, que estando o Sereníssimo Rey 
D. João IV. na sua cella, vendo-a tão pobre di^se ao Marquez de Ferrey- 
ra: «Não tem aqui Fr. Manuel cousa, que lhe possão furtar.» Em outra 
occasião estando o mesmo monarcha na cella do Reverendíssimo Padre 
Mestre Fr. Martinho Moniz, lhe disse: «Fr. Martinho a cella de Fr. Manoel 
Cardoso he melhor que a vossa, porque nesta ha duas cadeyras, e na delle 
não ha mais que huma.» Na obediência foy tão pontual, que observou to- 
dos os preceytos dos seus Superiores. O precioso thesouro da Castidade 
conservou toda a sua vida com grandíssima perfeyção; porque en nenhua 
occasião se soube, que a violasse não só de obra, mas nem ainda de pala- 
vra. Foy tão raro na humildade, que nunca quiz usar dos privilégios, que 
lhe erão concedidos aos seus annos, e ás suas occupaçoens, e entrava ás 
semanas a tocar o órgão (no qual foy também insigne) e nunca se quiz 
eximir de o fazer a semana, que tocava por turno. 

FoL. 14 209 



GA. 

538. Exercitado pois n 'estas virtudes, em muitos jejuns, oraçoens e 
ásperas penitencias, lhe sobreveyo hua grave, e enfadonha enfermidade 
em que se apurou muyto a sua paciência nas grandes dores, que suppor- 
tou, e dandolhe noticia de que se hia aggravando, e que se entendia ser 
mortal, pedio ao Prelado lhe desse os Sacramentos da Igreja, e disposto 
com uma confissão geral lhe trouxerão o Diviníssimo Sacramento do Al- 
tar, que assim' que o vio repetiu : ^Misericórdias Domini in oeternum can- 
taboy e o recebeo com admirável disposição, tendo os olhos banhados em 
lagrymas. Quando lhe trouxerão o da Uncção disse o Te Deum Laudamus 
com grande alegria, e ajudou a dizer os Psalmos e oraçoens que naquelle 
acto se dizem, e pondo os olhos na Communidade, a todos os Religiosos 
pediu perdão dos escândalos que lhe tinha dado peio discurso de toda a 
sua vida. Ao Prelado rogou, como he uso praticado na Província, que pelo 
amor de Deus lhe fizesse esmolla de hum habito velho para o amortalha « 
rem, e lhe mandasse dar huma sepultura para seu corpo ser sepultado; e 
logo peJiu que lhe rezassem o O.Hcío da Agonia, e ás oraçoens delle hia 
sempre respondendo com os mais Religiosos com tão grande devoção, e 
inteyreza de animo, que mostrava não temer a morte: e pondo os olhos 
no Ceo, para onde D^us o chamava, por meyo daquella enfermidade, foy 
a gozar (como piamente cremos) de sua eterna vista aos vinte e quatro do 
mez de Novembro de i65o. 

Seu corpo foy sepultado no cemitério antigo do mesmo Convento de 
Lisboa, onde falleceo, com aquella funeral pompa, que lhe era devida, e 
na sua sepultura se lê o seguinte letreyro. (t4qui jaj o T^adre Fr, õManoel 
Cardoso cMestre, e Varão insigne na Q/írte de oMusica, Faleceo em vinte 
e quatro de C^Çjovembro de i650. 

539. Compoz seis livros, que se imprimirão, quatro de Missas, hum 
de Magnificas, e outro da Semana Santa. O das Magnificas foy impresso 
na Cidade de Lisboa, na Officina de Pedro Craesbeck no anno de i6i3. 
O primeyro de Missas foy impresso na dita Cidade na mesma Oílicína no 
anno de 1625, e he dedicado ao Sereníssimo Duque de Barcellos D. João. 
O segando he dedicado ao mesmo Senhor, sendo já Duque de Bragança, 
e foy impresso também na Cidade de Lisboa na Oíficina de Lourenço Craes- 
beck no anno de i636. O terceyro foy impresso na mesma Cidade e Oífi- 
cina, e no mesmo anno, e o dedicou a EIRey Catholico Filippe IV. O da 
semana Santa foy impresso na mesma Cidade de Lisboa na Oíficina de 
Lourenço de Anvers no anno de 164J8, e o offereceu a EIRcy D. João IV. 
A Bibliotheca Hispânica faz memoria de mais um impresso no anno de 
16 13, e de outro no anno de 1625. Fazemos diligencia por averiguarmos 
esta noticia já que os antigos a sepultarão, dando todos os livros deste 
Varão insigne, que também compoz, e não imprimiu hum Tomo de Psal- 
mos, e diíTerentes Missas de Coros, Lições do Oíficio de defunctos, Res- 
ponsorios das Matinas das Festas principaes do anno, e os singulares Mo- 
tetes, que se cantão na Quaresma. Deste nosso virtuoso, e íllustre Varão 
tratão o Reverendo António Carvalho da Costa, dizendo fora: «Varão de 
conhecida Virtude, insigne Mestre e Compositor na arte da Musica, como 
testeficão bem os seus livros imp.ressos, aue d*ella compoz: D. Nicolau 
António, e o Padre Frey Daniel da Virgem Maria.» 

Nâ Real Bibliotheca da Ajuda existe um códice manuscri- 
pto que também dá noticia circumstanciada de fr. Manuel Car- 
doso ; é um dos volumes que sobre bibliographia portugueza 
escreveu o padre Francisco da Cruz nos fins do século XVII. 
Fr. Manuel de Sá aproveitou-se naturalmente d'clle, para a 
210 



O-A- 

biographia que acima transcrevi, porque em outros logares 
cita-o varias vezes. 

Quanto ao que diz D. Nicolau António, citado pelo auctor 
das «Memorias históricas», é bem pouco, mas transcrevo-o co- 
mo objecto de curiosidade : 

•F. Emmavel Cardoso^ Lusítanus Pacensis, seu ez Beja urbe Trans- 
taganse provincice, Carmelitarum sodalis, in facultate Musica cevo sus 
paucis comparandus, edidit actis suac quasdam opera, scilicet Missas, Ma^ 
gnificat^ aliáque, Olissipone excusit ioi3, 1623, i636. Domesticis testimo- 
niis fidem, ut aequum est, libenter praestamus. Horum tanium vidimusRo- 
mae — óMiasas quaternis, guinis, senis, vocibus ; in charta magna. Olissipo- 
ne apud Petrum Craesbeck 1625.» 

(Biblioiheca Scriptorum Híspainae, tomo i.^pag. 263, i/ ediçSo, 1672; 
a 2.* edição, 1783, repete o mesmo.) 

O padre Daniel da Virgem Maria, também citado por fr. 
Manuel de Sá, diz muito menos no «Speculum Carmelita- 
num», tomo 2.® pag. 1080; somente o nome — «Emmanuel 
Cardoso^ Lusitanus» —incluído na lista que apresenta dos 
mais insignes padres carmelitas. 

Mais cumpre ainda accrescentar que D. Francisco Manuel 
de Mello, coevo de fr. Manuel Cardoso, o menciona entre os 
«grandiosos sujeitos» que a musica tem produzido em Portu- 
gal (Carta i.* ao doutor Manuel Themucio da Fonseca). 

Finalmente para citar tudo quanto os escriptores antigos 
disseram d*este insigne musico transcreverei as curiosas estan- 
cias de Manuel de Faria c Sousa, qne foi também seu con- 
temporâneo. Este celebre escriptor, no poema dedicado á co- 
roação do papa Urbano VIII^ poema que vem inserto na se- 
gunda parte da collecção de rimas intitulada «Fuente de Agani- 
pe», poe a musica em acção e faz o parallelo entre os mais 
notáveis músicos hespanhoes e portuguezcs, pondo entre elles 
Manuel Cardoso e concluindo por lhes dar a preferencia. Co- 
meça Faria e Sousa por fazer o elogio dos grandes composito- 
res Josquin des Prés, Christovão Morales, FinppeRogierc Fran- 
cisco Guerrero (i); diz elle na estancía4 6 do citado poema: 

«La solfa compusieron los insínes 
Jusquin, que con el son de la Psalmodia, 
applausos consiguio de Cherubines ; 
Morales el divino en la prosódia : 



(O Josquin e Rogier náo eram hespanhoes mas flamengos; Faria e Sousa nomeando-os 
entre os hespanhoes ou se enganou, ou de propósito qutz citar aquellas duas celebridades do 
aeu tempo para mais realçar o parallelo dos portuguezes. 

211 



O-A. 

Guerrero, que alagara a mil Delfínes : 
Ruger, que la codicia a Cresso. e Clodia, 
De oro quitara ; porque todo el oro 
rindieran a su numero sonoro.» 

E depois de se espraiar em hyperboles musicaes durante 
um grande numero de estancias, contrapõe aos grandes mú- 
sicos precedentemente citados, os portuguezes Manuel Mendes, 
Duarte Lobo, Manuel Cardoso e Manuel Rebello. Diz o poeta 
nas estancias 71 a 74: 

«Si los primeros quatro Corifeos, 
que entre aquellos frondosos facistoles 
satisfícieron tanto a los Deseos, 
eran de los Parnasos Espanoles ; 
a escurecer los Linos, los Orfeos, 
salen con sus dulcíssimos bemoles 
dei Cielo a los Salones soberanos, 
otros quatro eruditos Lusitanos. 

Eran ellos el Mendes sonoroso, 
que de Músicos Uena a toda Espana : 
el Lobo, en la theorica lustroso, 
deste estúdio que tanto oido engaíia. 
Desde el Carmelo altíssimo el Cardoso, 
c)ue excede ai gran Ruger si le acompafia : 
i Rebelo que puede, desde el Monte 
Pindo, baxar osado ai Aqueronte. 

Del Mendes raro a la Noblexa cupo 
el canto, que es de oidos el arrobo ; 
la opulência cantava quanto supo 
no en fabula, ensenar, el docto Lobo. 
Todo a oir la Virtud me desocupo, 
con la voz dei Cardoso, de Almas robô : 
vese, por lo que entona de Rebelo 
el Ingenio, en mi pluma absorto el buelo. 

Nadie se admire, no ; si el sacro Apolo 
de Espana aqui la Musica ha traído, 
si acaso sabe que en el Mundo, solo 
es lo que es mas estraiío, mas oido. 
Si sabe, que de un Polo ai otro Polo 
en el Coro de Christo instituido, 
dei Espafíol el Canto es mas sincero, 
é entre êl, el Lusitano es el primero. » 

Não se julgue absolutamente hyperbolico o elogio do poeta 
aos músicos hespanhoes e portuguezes; a arte musical adqui- 
riu na Peninsula um brilhante desenvolvimento nos séculos 
XVI e XVII, graças ao desvelo com que era cultivada nas 
cortes de Madrid e Lisboa. Não é só a historia que o diz, 
212 



mas os próprios documentos existentes o certificam ; as obras 
de antigos compositores portuguezes que possuo ou tenho 
visto conteem primores que sem duvida competem com os 
dos auctores estrangeiros da mesma época. 

Os exemplares d'essas obras são hoje raríssimos, e de 
muitas outras não existe já resquicio algum, mercê do vanda- 
lismo que em 1884 assolou as livrarias dos conventos, por isso 
ellas não são conhecidas como as de Josquin, Morales, Victo- 
ria, Guerrero, e sobre todos Palcstrina, que actualmente estão 
sendo objecto de estudo e admiração em toda a parte. Mas se 
uma d'essas obras apparece^se, decerto não deixaria de ser 
tão apreciada como qualquer das suas companheiras. 

Tratemos agora das obras de frei Manuel Cardoso, que 
alguns restos d'ellas ainda felizmente existem, guardados em 
logar certo. 

Dizem as «Memorias históricas» que elle fez imprimir seis 
livros, sendo quatro de missas, um de «Magnificas» e outro de 
«Semana Santa». Porém, dos quatro livros de missas só des- 
creve três: o primeiro impresso em 1625 na officina de Pedro 
Craesbeck e dedicado a D. João IV quando era ainda simples- 
mente duque de Barcellos; o segundo impresso na officina de 
Lourenço Craesbeck em i636 e offerecido ao mesmo D. João, 
já duque de Bragança; o terceiro dedicado a Filippe IV de 
Hespan ha, impresso na ultima sobredita officina e mesmo anno 
de i636. Ficaremos, portanto, na duvida de que realmente se 
tivesse imprimido um quarto livro de missas, até que appareça 
ontra noticia d*elle ou haja prova de que nunca existiu. 

Do terceiro existe um exemplar completo e em perfeito 
estado na bibliotheca publica de Évora, onde tive occasião de 
o examinar detidamente ; o seu frontespicio diz assim : «Missas 
de Beata Virgine Maria quatemi quini et senis vocibus — Au- 
ctore Frate Emmanuele Cardoso Lusitano de Fronteira ordinis 
beatissima virginis Maria de Monte Carmelo in Província Por- 
tugalliae musices praefecto. — Liber tertius. — Ad S. C. R. Ma- 
jcstatem Philipi quarti Hispaniarum Regis, ac novi orbi Impc- 
rator^ — (Gravura representando as armas portuguezas.) — 
Cum facultatem Superiorum. — Ulissipone. Apud Laurenuum 
Craesbeck Regium Typographum, anno i636.» Contém oito 
missas, sendo umas a quatro vozes, outras a cinco e outras 
a seis, como diz o titulo. A oitava e ultima é particularmente 
interessante por muitos motivos; intitula- se «Missa Philippina» 
e é toda feita sobre o seguinte thema: 



213 



GA. 



s 



BE 



2z: 



í 



^m 



:le. 



Phi-^^Jip .........pus '*(juar^'^tus 



Cada uma das vozes repete a seu turno este thema e sua 
letra, emquanto as outras contraponteam com a letra própria 
do officia. Esta singular combinação obriga os cantores a dize- 
rem verdadeiras heresias; por exemplo: em quanto um pro- 
segue o thema — «Philippus quartus»— os outros acompa- 
nham dizendo : tu solus SanctuSj tu solus Dominus, etc. E' o 
cumulo da lisonja levado ao extremo do sacrilégio. 

A parte technica, porém, é admiravelmente trabalhada. 
Nenhum contrapontista dos que mais brilharam durante a 
época da Renascença, desde Josquin ate Palestrinp, dá nas 
suas obras exemplo de maior abundância e naturalidade em 
florear por mil diflferentes modos o contraponto de um thema 
tão pequeno e tão singelo como este. É o interesse cresce 
progressivamente, desde os «kyrie» em que o contraponto se 
apresenta sob uma forma relativamente singela, até ao ultimo 
«Agnus Dei» que é um cânon enygmatico a cinco vozes, 
estando occulta a quinta voz. 

Copiei todo este bello trabalho ; tenho-o relido muitas ve- 
zes e sempre lhe encontro que admirar. Se não fosse a triste 
idéa do auctor juntar ás palavras litúrgicas um nome profano, 
e de mais a mais um nome de nefasta memoria para portu- 
guezes, esta seria uma das nossas obras de arte musical que 
em todos os tempos maior respeito nos devia merecer pelo 
seu grande valor. 

Sobre o seu defeito único, justifique-se porém o frade car- 
melita perante as pessoas que ignoram a historia da musica: 
o facto que hoje tão estranho nos parece de juntar palavras 
profanas com as sagradas, era no tempo de fr. Manuel Car- 
doso muito commum e vinha de longa data ; creio mesmo ter 
sido este o ultimo compositor que o praticou. Cem annos 
antes Josquin des Prés escreveu diversas missas por essa 
forma, entre ellas uma frequentemente citada pelos historia- 
dores, cujo thema foi feito sobre as palavras «Hercules dux 
Ferrarae» ; Philippe Rogier também compoz uma missa sobre 
o thema «Philippus segundus», dedicada ao sinistro usurpador 
da independência portugueza. Poderia ainda citar dezenas de • 
exemplos idênticos, cujo uso não era mais do que um resto 
do barbarismo medieval em que as canções populares se mis- 
turavam com os cantos sacros. 
214 



Está claro ter sido este livro de missas dedicado a Philippe IV 
o titulo para fr. Manuel Cardoso receber as honras e favores 
que o acolheranni na corte de Madrid auando ali o foi apre- 
sentar ao monarcha, segundo narra fr. Manuel de Sá, c muito 
naturalmente é á «Missa Philíppina» que se refere o chronista 
dizendo que o próprio rei lh'a encommendara. 

E se Philippe IV quiz para o seu nome uma missa como 
a que Rogier fizera para o nome de seu avô Philippe II, en- 
commendando esse trabalho ao compositor portuguez é por- 
que o considerava digno de compeur com o celebre contra- 
pontista flamengo ; d*essa competência se sahiu victorioso o 
nosso carmelita, apresentando um trabalho que sem duvida al- 
guma hombreia com as mais celebres procíucções do mesmo 
género. 

Não deixemos passar desapercebida uma circumstancia : 
a data em que foi impresso o livro dedicado ao rei intruso de 
Portugal — i636 — é a mesma em que se imprimiu também 
o que foi dedicado ao futuro rei legitimo, o duque de Bra- 
gança ; esta coincidência de egual data em dois livros oíTere- 
cidos ao rei presente e ao rei futuro, foi evidentemente propo- 
sitada. Frei Manuel Cardoso incensou ao mesmo tempo cfois 
akares agitando dois thuribulos. Mas n'este facto transparece 
a sua causa justificativa : o compositor portuguez, forçado pe- 
las circumstancias a depor aos pés do monarcha o producto do 
seu trabalho, quiz juntamente dar testemunho do seu senti- 
mento intimo para com aquelle que por esse tempo era já 
objecto das aspirações nacionaes. 

Tanto assim, que logo que o duque de Bragança se tor- 
nou rei de Portugal concedeu a fr. Manuel Caraoso todas as 
suas boas graças, sem o menor resentimento pela offerta a 
Philippe IV, o que prova não ter essa offerta significado ausên- 
cia de patriotismo. 

Do livro de t Semana Santa» dedicado a D. João IV, existe 
um exemplar no cartório da Sé de Lisboa o qual eu tive occa- 
sião de examinar; tem estes dizeres no frontespicio : «Livro 
de vários motetes Officio da Seijiana Santa e outras cousas. 
Dirigido a Real Magcstade DElrey Nosso Senhor Dom João 
IV. De Portugal. — (Gravura com as armas portuguezas.) — 
Composto pcUo Padre M. Fr. Manuel Cardoso, Religioso da 
Ordem de Nossa Senhora do Carmo, natural da Villa de 
Fronteira. — Com todas as licenças necessárias. — Em Lisboa. 
— Por João Rodrigues Impressor. Na officina de Lourenço 
de, Anueres. Anno 1648.» Contém quarenta e seis composi- 
ções diversas, sendo uma a seis vozes e todas as outras a 
quatro e cinco. Não tive tempo de analysal-as demoradamente 

215 



e por isso nada posso dizer do seu valor; mas ainda assim, 
na rápida vista que passei por todo o livro prendeu-me particu- 
larmente a attenção um «Tantum ergo», incerto na folha 42, 
que me pareceu notavelmente bello. 

A titulo de curiosidade copiei a dedicatória, em que fr. 
Manuel Cardoso reconhece ter recebido favores de D. João IV, 
a qual diz assim : 

Ao Grande Monarcha do Império Lusitano Dom loam IV. Nosso Se- 
nhor. Dedicatória. 

Vi tem bem logrados os fructos de meus trabalhos, que tomey animo 
pêra emprender outros de nouo; & como a boa ventura dos passados con- 
sistio em V. Magestade de os apadrinhar, não posso eu querer, nem qui- 
zera poder buscar para os presentes outro patrocínio. Porém considero 
que para este meu humjlde serviço ter algua proporção com a Real grã- 
deza de V. Magestade, hua de duas cousas era necessário, ou que ella fora 
menos, ou que eu valera mais: desejar o primeiro seria impieiJade, o se- 
cundo V. Magestade pôde fazer com me conseruar nas mercês, honras & 
fauores, que a my, <x a minhas cousas sêpre fez. A que reconhecido, & 
agradecido oflFereço este liuro, cõposto de vários motetes, ofiBcio da Se- 
mana Santa, & outras cousas. Bem vejo que tudo fica muito ác|uem de 
minhas obrigações, mas consolome, & cobro alento com a consideração 
do grande fundamento com que se pode accómodar a V. Magest, sem te- 
mor de lisonja, aquella breve mas compendiosa sentêça de S. Gregório: 
Deus non respicit quantum, sed ex quanto. Cô tudo, cíffesso que a este 
liuro, poF ser filho da velhice quero maií, & muito mais pelo ver tão ven- 
turoso, que sae a luz em têpo que V. Mag. cÕ os resplandores de sua gran- 
deza, luz de sua prudência, rayos de seu valor, vay desterrando as espes- 
sas treuas, que por espaço de sessenta annos tâto tinhão escurecido a 
gloria desta sua Monarchia Lusitana, renovando as gloriosas memorias de 
seus reays progenitoras, principalmente daquelle, nunca de todo celebrado 
o grande Òondestable de Portugal D. Frey Nuno Alvarez Pereyra, cuja 
fama se vay eternizando em V. Mag. & no Sereníssimo Principe que Deus 
guarde. Por Carmelita tão affeiçoado, & obrigado, como todos os desta 
família são, & sempre foram ao nosso santo Conde, & Real casa de Bra- 
gança, tomei esta licença, & quizera tomar outra pêra me alargar nestas 
verdades, senão temera deslustralas, e oílender à real modéstia de V. Mag. 
mas contentome com dizer, qual outro Simeão. CSCunc dimittis seruum 
tuum Domine^ db quia viderunt oculi tnei ãc. E se estes virem que V. Ma^ç. 
por aliuio das grandes occupações e continuos desuelos cÕ que trata da 
conseruação de nossas felicidades, & bê de todos, passa os seus algu hora 
por este livro, não terei que desejar para elle mayor credito nê pêra my 
mayor fauor. Prospere Deos a vida & estados de V. Mag. pêra gloria sua, 
defensão da S. Fé Catholica, honra, & consolação de todos seus leaes vas- 
salos, de cnjos coraçoens a graciosa, & paternal benignidade de vossa 
Mag. o ti feito tão senhor, como os alegres viuas, & universaes aplausos 
caoa dia mostrão; pronostico muy certo de que vossa Mag. ha de lograr 
outros mayores. Beposita est hosc spes mea in sinu meo. 

Humilde Capellão^ & leal seruo de V. Mag. 

Fr. Manoel Cardoso. 
±16 



O-A- 

No cartório da Sé de Évora encontrei um exemplar do 
primeiro livro de Missas de frei Manuel Cardoso ; reconheci-o 
pela dedicatória c licenças, pois lhe arrancaram o frontespi- 
cio. Também não me foi possivel examinal-o com vagar. No 
mesmo cartório se me deparou o livro da t Semana Santa», 
cgualmente sem frontcspicio. 

Das outras obras impressas, não vi ainda exemplar al- 
gum. 

A propósito d'ellas citarei uma carta que o compositor 
escreveu a Balthasar Moreto, chefe da typographia Plantinia- 
na, de Antuérpia, cm 1611. O original existe no Museu Plan- 
tino e a copia foi publicada pelo sr. Deslandes na sua obra 
•Documentos para a historia aa typographia portugueza, nos 
séculos XVI c XVII», parte segunda, pagina loá. Escripta origi- 
nalmente em latim, o sr. Deslandes aeu-nos também a traducçao 
d'ella em ponuguez, e essa transcrevo : 

«Recebi as suas cartas e com ellas o desgosto de saber a morte de 
seu pae, de quem fui sempre muito amigo pelo seu bom nome e grande 
perícia na arte tjpographica, posto que eu esteja persuadido de que es- 
tas qualidades sao como hereditárias na família Plantiniana. D*aqui nasce 
qu« eu não procure hoje com menos avidez a sua cooperação para os 
meus trabalhos do que até agora procurava, no que sempre esperei satis- 
fazer os rogos dos meus amigos e os meus próprios desejos. 

DeVe saber que, se eu n'isto fosse movido de qualauer esperança de 
lucro, fácil me seria escolher um typographo entre os hespannoes e até 
n*esta mesma cidade a Pedro Craesbeck, que aprendeu em vossa casa, t 
tem uma oSicina bem provida, que lhe permitte imprimir mais barato, 
como de experiência própria o sei. Admiro-me por isso muito que me 
peça tamanho preço. Se íizer, porém algum abatimento, isto é, se vier ao 
c|ue a minha amisade para com os Plantinos e a propna equidade parece 
indicar, tem o meu correspondente D. Francisco Gooinez, com quem pô- 
de fazer rasoayel contracto. 

Ser me-ia também muito agradável que em breve se começasse a 
impressão e sem demora se ultimasse, depois de ajustado o preço ; aliás, 
se não quer ou não pode, contenta r-me -hei com a arte e a industria dos 
hespanhoes, rogando entretanto a Deus Óptimo Máximo pela sua saúde e 
a de seu irmão, a quem muito me recommendo. Adeus. 

Do Carmo de Lisboa, 17 de fevereiro de 16c i. — Seu irmão em 
Chrísto, Manuel Cardoso. — A Balthasar Moreto, typographo na oíiicina 
Plantiniana em Antuérpia.» 

Esta carta deu motivo a que o sr. Sousa Viterbo, no seu 
livro fArtes e Artistas portuguezes», pagina 198, aventasse a 
hypothese de ter Manoel Cardoso mandado imprimir na offi- 
cma de Plantino algum trabalho não citado pelos biographos. 
EiTectivamente, ella á primeira vista dá logar a que assim se 
supponha, mas uma leitura attenta fará reconhecer a sua ver- 
dadeira significação, que certamente é esta: frei Manoel Car* 

217 



GA. 

doso escreveu em íins de 1610 a João Moreto, então director 
da oflicina Plantiniana, propondo-lhe a impressão de um seu li- 
vro (muito naturalmente o que depois fez imprimir em Lisboa 
com a data de 16] 3); a carta chegou a Antuérpia depois do 
fallecimento de João Moreto, succedido n'aquelle anno, e res- 
pondeu a ella o filho e successor, Balthasar Moreto, partici- 
pando a morte do pae e apresentando-lhe as suas condições 
sobre o preço do tratalho proposto. O nosso musico replicou- 
Ihe com a carta acima transcripta, cujos termos lisongeiros 
com que começa são muito transparentemente destinados a 
obter uma reducção no preço. A ameaça de recorrer a Pedro 
Graesbeck que lhe fazia trabalho mais barato, teve porém de 
ser executada; Balthasar Moreto não se mostrou condescen- 
dente e nenhum livro imprimiu de frei Manoel Cardoso. Se o 
tivesse feito, a obra impressa não ficaria ignorada a ponto de 
não deixar vcstigio algum. 

Paliemos agora das composições que ficaram manus- 
criptas. 

Frei Manoel de Sá menciona : um volume de psalmos, di- 
versas missas, lições de ofiicios de defuntos, responsorios das 
matinas nas principaes festas do anno e os c «singulares motes- 
tes que se cantam na Quaresma». 

O catalogo da livraria de D. João IV contém as obras se- 
guintes, que parece também serem manuscriptas, posto- não o 
declare: Dois villancicos da Natividade, um a ires vozes — «El 
labrador de los Cielos» — e outro a três e a seis — «Pues que 
de hambre te nuceres». Três missas : uma a oito vozes — «Hic 
est discipullus ille » — outra do segundo tom, a doze vozes, e 
outra a oito vozes— «Ab initio». Cinco psalmos de vésperas, 
a oito vozes. Uma «Magnifica», do quarto tom, a oito vozes. 
Um «Te Deum laudamus» a oito vozes e outro a quatro al- 
ternado com o cantochão. Uma antiphona— «Salve Regina», 
a oito vozes. Uma Missa a nove vozes— «Joannes quartus 
Portuealiae Rex». 

O titulo d*esta missa significa bem claramente que ella 
foi feita sobre um thema com aquellas palavras, á similhança 
da Missa Philippina; o numero de nove vozes, por não ser 
usual parece symbolico, podendo suppor se que foi escripta 
nove annos depois da Restauração, isto é, em 1649. 

Mais menciona o mesmo catalogo, outra missa a oito vo- 
zes — «Beata Mater » . 

Barbosa Machado quando enumera as obras manuscri* 
ptas deixadas por frei Manuel Cardoso, reproduzindo a rela- 
ção dada nas «Memorias Históricas», em vez de mencionar 
os «Motetes da Quaresma» diz: «... e os celebres Afo/e/es, 
ai8 



O-A, 

que se costumam cantar ao correr dos Passos, que o Redem- 
ptor do mundo deu com a Cruz ás Gostas.» Ora é certo que 
ainda hoje é costume cantar-se em Lisboa, desde tempos im- 
racmoriaes, uns bellissimos motetes a quatro vozes sçm acom- 
panhamento, nas procissões dos Passos; possuo duas copias 
antigas d*esses motetes, mas não teem designação do auctor 
nem tradicionalmente consta quem elle fosse. O estylo em 
que estão escriptos denota antiguidade, mas não tanta que 
possa ser attribuida á época de frei Manuel Cardoso; são, sem 
duvida alguma, posteriores a essa época. Tenho, portanto, a 
convicção que Barbosa Machado trocou uma coisa por outra, 
commettendo n'este ponto um d'aquelles erros que a miúdo 
encontra na «Bibliotheca Lusitana» quem a explora com 
cuidado. 

Dos Motetes da Quaresma, ha dois no archivo da Sé de 
Lisboa, que ainda se cantam, sendo um para a primeira do- 
minga do Advento e outro, para quarta feira de Cinza; são 
authenticamenie de frei Manuel Cardoso, porque estão desi- 
gnados com o seu nome e incluídos n'um antigo livro do co- 
ro, feito em época próxima d'aquella em que viveu o auctor. 
Possuo copia do segundo d*esses motetes; é uma pequena 
mas bella composição a cinco vozes sem acompanhamento, 
puro estylo palestriniano. 

Cardote (Joaquim Pereira). Organista e compositor. 
Assignou o livro de entradas da irmandade de Santa Cecília 
em 5 de setembro de 1770. Falleceu em 1812, conforme en- 
contrei registado no archivo da mesma irmandade. Era orga- 
nista da iPatriarchal desde 1788, pelo menos, pois é este o 
anno ngiíiis antigo de umas folhas ae pagamento que vi e em 
que está o seu nome. No archivo da Sé de Lisboa existem al- 
gumas das suas composições sacras, e na bibliotheca da Aju- 
da ha uma novena de Santa Margarida de Cortona. Eu pos- 
suo umas «Variações para Piano Forte.» Todas são obras 
fracas. 

O aEnsaio Estatistico» de Balbi, menciona o nome de 
Cardote entre os de outros artistas discipulos do Seminário 
Patriarchal que se tinham distinguido como pianistas; mas, 
por erro typographico ou por lapso do auctor, esse nome tem 
uma letra trocada, lendo-se «Cardoto». Q sr. Joaquim de 
Vasconcellos emendou o erro produzindo outro maior, e re- 
petiu a noticia de Balbi sob a seguinte epigraphe : «Car- 
doso (. . .)» 

O «Diccionario Popular» reproduziu o erro n.® 2, c as- 
sim ficou perpetuada a memoria de mais um musico que nun- 
ca existiu, chamado Cardoso com três pontinhos. 

219 



(DA. 

Oarli (Jacopo). Professor italiano, natural de Verona, 
que viveu no Porto aurante alguns annos. Em i855 estabele- 
ceu n'aquella cidade uma escola popular e nocturna de musi- 
ca vocal, subsidiada pelo município; foi inaugurada em 17 de 
junho d'aquelle anno, contando n*esse dia apenas 60 alumnos e 
pouco depois mais de 200. Esta instituição foi muito applau- 
dida no Porto, e quasi todos ps jornaes da época se referem 
a ella com elogio. Carli em i856 escreveu e fez imprimir, na 
litographia Villa Nova Filhos & Comp.*, uma collecção de 
cDoze Solfejos» para uso dos seus alumnos; o numero d'es- 
tes n*esse anno, segundo affirmou a cRevista dos Espectácu- 
los» de 3o de abril, subia a mais de Soo. 

Compoz muitos trechos de canto para a escola, entre elles 
um hymno dedicado a D. Estephania por occasião do seu ca- 
samento com D. Pedro V, e um coro cuja letra eram as pri- 
meiras estancias dos Lusiadas. Em 26 de dezembro de i858 
houve uma solemne distribuição de prémios, e por essa occa- 
sião a Camará Municipal entregou-lhe uma medalha de oiro, 
tendo de um lado as armas do Porto com esta legenda cEsco- 
la popular de canto, da camará municipal do Porto». No re- 
verso uma coroa de loiro circumdando a legenda: «Fundada 
por Jacopo Carli de Verona. Em i856.» Esta medalha vem 
reproduzida em gravura no jornal cMundo Elegante», n.^ 6, 
I de janeiro de 1859. D*este jornal, que começou a publicar- 
se no Porto em novembro de i858, era director litterario Ca- 
millo Castello Branco. Juntamente com a folha litteraria sa- 
biam trechos de musica compostos por Carli. 

Parecia aue a escola popular, tão ruidosamente festejada, 
teria longa e orilhante vida; mas por um d'aquelles amorteci* 
mentos frequentes entre nós, não se falou mais n'clla e creio 
que fechou n*esse mesmo anno de 1839. 

Em i863 teve um resurgimento, egualmente ephemero, 
promovido por Carlos Dubini. V. Oubini. 

Jacopo Carli ausentou-se do Porto algum tempo depois, 
indo para Traz-os-Montes, e em fins de i863 retirou-sc defi- 
nitivamente para a sua pátria. 

Fez imprimir no Porto numerosas composições; entre 
ellas um «Álbum para canto e piano» dedicado a <D. Fernan- 
do Rei Regente de Portugal »• Contém seis trechos, com poe- 
sias de dinerentes auctores, em portuguez, hespanhol, italiano 
e francez. 

De um d*esses trechos, um coro, diz o auctor ser fra- 
gmento de uma opera inédita. São tudo cantilenas banaes. As 
outras composições publicadas, a maior parte d'ellas para pia- 
no, também nada valem. 

220 



Oarmo (Frei Francisco do). Monge do convento de 
Alcobaça e ali mestre de capella, nos fins do século XVIII. 
Existem na Bibliotheca Nacional de Lisboa algumas pequenas 
composições manuscriptas d'este musico, uma das quaes — 
Matinas do Natal — evidentemente autographa, tem a data 
de 1791. 

Oa.i*ino (José Maria do). Compositor medíocre .que 
durante os annos de i85o a i863 se incumbiu de fornecer mu- 
sica de encommenda para as peças que se representavam nos 
theatros da Rua dos Condes e Variedades. Foi um dos primei- 
ros alumnos que teve o Conservatório; em 1840 era alumno 
da aula de violoncello e decuriao de rudimentos. Entrou para 
a irmandade de Santa Cecilia em 1842, tendo 28 annos de 
edade. Entre as peças para as quaes escreveu musica, foram 
mais importantes: tO Corsário», drama marítimo em quatro 
actos e prologo, original de José Romano, representado pela 
primeira vez no theatro da Rua dos Condes em 17 de janeiro 
de i863; «Os Tchatasi, drama em três actos, de César de 
Vasconcellos, primeira representação em 3 de fevereiro do 
mesmo anno; «O Bloqueio de Sebastopol», disparate cómico 
burlesco em um acto, 3 de setembro de 1854; e as comedias 
«Granja feliz» e cAs Litteratas ou a reforma das saias t, etc. 
Escreveu também varias aberturas, sendo a mais importante 
uma a grande orchestra para a festa de Santa Isabel. 

Oarneiro (Frei Manuel). A noticia'd'este musico vem 
na cBibliotheca Lusitana», cujo respectivo artigo transcrevo 
textualmente, visto que mais nada sei a seu respeito : 

Fr. Manuel Carneiro natural de Lisboa onde teve por pays a Antó- 
nio Carneiro, e Anna de Fieueiredo. Professou o instituto Carmelitano 
em o Convento pátrio a 20 oe Mayo de 1645. Pela destreza com que to- 
cava Órgão foy admittido a Religião onde foy muito observante. Mereceo 
geral estimação pela sciencia da Musica que praticou com primoroso arti- 
ficio, Falleceu a 29 de Agosto de i6q5. Compoz : 

^HesponsorioSj e Lições das Matinas de Sabbado Santo a 2 Coros, 
Tiesponsorios das éMatinas de Paschoa a 2 Coros, 

Missa de Defuntos, e as primeiras lições de cada Nocturno^ a 2 
Coros. 

PsalmoSy Motetes, e Vilhancicos a diversas vo^es. 

«Bibl. Lu8.» tomo 3.® pag. 314 e 2(5.) 

Oarrara (Fábio Massimo). Italiano. Veiu a Lisboa 
em 1825, fazendo parte, como segundo tenor, da companhia 
escripturada esse anno para o theatro de S. Carlos pelo em- 
prezario Marrare. Mais tarde, e a convite do conde de Farrobo, 
estabelece u-se aqui definitivamente como professor de canto. 

Z2\ 



Obteve a nomeação de professor extraordinário do Conserva- 
tório, por decreto de 5 de novembro de 1841, até que outro 
decreto, ue 20 de setembro de 1 842 lhe deu o logar eífectivo. 
Entrou para a irmandade de Santa Cecília em 6 de dezem- 
bro de 1842, fallecendo em 29 de janeiro de* 1869. 

Muito protegido pelo conde de Farrobo, escreveu algu- 
mas musicas para se executarem nas festas do palácio das La- 
rangeiras, sendo mais consideráveis d'essas composições uma 
cantata e uma opera cómica em dois actos — «O casamento 
e a mortalha no ceu se talha» — letra de José Maria da Silva 
Leal. Fez imprimir em Milão, pelo editor Francesco Lucca, a 
seguinte coUecção de trechos para canto e piano : «Uma Sct- 
timana in Cintra. Álbum musicale por você di Baritono. Com- 
posto ed umilmente dedicato con Régio Assentimento a Sua 
Maestá D. Fernando Re Reggente di Portogallo da Fábio Mas- 
simo Carrara Professor Onorario di Canto dei Gonservatorii 
di Lisbona e di Londra. Milano. Francesco Lucca.» No fron- 
tespicío tem uma boa litographia representando o castello da 
Pena. Consta de 46 paginas oe musica, contendo sete trechos, 
poesias em italiano de Vittorelli, Metastasio, Perfumo, Roma- 
ni, Pepoli e Delia Bianca. Os editores Lence e Canongia tam- 
bém publicaram uma modinha portugueza — f Parabéns mi- 
nha ventura» — musica de Carrara. 

Os recursos de compositor que possuía Carrara eram muito 
limitados, e o seu talento de pr'ofessor de canto também não ia 
longe; mas apezar d'ísso era bastante considerado e tinha boa 
clientella, provavelmente porque era dotado da sagacidade 
necessária para conviver no meio em que se encontrava. 

O arrear ai (Joaquim da Costa). Fundador da impor- 
tante «Typographia Occidental i que existe no Porto e possue 
uma secção de musica impressa com caracteres moveis, única 
que no nosso paiz modernamente tem funccionado com acti- 
vidade c persistência. 

Nasceu Costa Carregal no Porto em 6 de janeiro de 1848. 

Tendo-se dedicado á arte typographica e sendo dotado 
de um génio activo, tomou conta da typographia denominada 
a Occidental» estabelecida na rua da Fabrica 80, desde cerca 
de 1868. Debaixo da sua direcção tomou o estabelecimento 
grande incremento, e, com o auxilio do professor César das 
Neves, emprehendeu Costa Carregal imprimir musica com 
caracteres typographicos. Começou por puolicar algumas com- 
posições de Arthur Napoleão, Miguel Angelo, Cyriaco de 
Cardoso, Canedo, fazendo parte de um jornal intitulado «Gri- 
nalda de Euterpe». Quando no theatro de S. João se cantou 
a «Africana» pela primeira vez, Carregal fez imprimir a parti- 
222 



tura completa d'esta opera, reduzida para piano, e bem suc- 
cedído foi na empreza pois que a edição se esgotou rapida- 
mente. E* numerosissimo o numero de obras musicaes im- 
pressas na «Typographia Occidental», e entre ellas contam-se 
além das já mencionadas, muitos methodos para diversos ins- 
trumentos editados pela casa Custodio Cardoso Pereira, solfe- 
jos, compêndios, etc, sendo mais importante de todas pelo 
volume o «Cancioneiro de Musicas populares», cuja publica- 
ção ainda não terminou. 

Joaquim da Costa Carregal falleceu em 29 de março de 
1897, tendo apenas completado 49 annos de edade. 

Foi muito sentida no Porto a sua morte. O seguinte ar- 
tigo publicado por essa occasião no jornal tPrimeiro de Ja- 
neiro», servirá agora para completar os traços biographicos 
d'esse homem utii e benemérito. 

«A morte de Costa Carregal. — O Porto perdeu uma das suas 
mais bellas figuras — fígura de generoso romântico — em Costa Carregal, 
o intelligente mestre-impressor morto hontem, ás 9 horas e meia da ma- 
nhã. Ninguém o desconhecia aqui : ao menos pelo seu exterior de farta 
cabelleira loira, e o talho todo próprio do seu vestir. Mas, é claro, ç[ue a 
sua larga notoriedade não provinha do modo singular do trajo, sim da 
excellencia admirável do seu caracter e da belleza rara do seu espirito. 
Uma iniciativa la^-ga, ajudada por uma segura actividade, íizera-o crear a 
ofiicina tipográfica que entre nós teve mais voga: a Tipografía Occidental, 
que Costa Carregal tornou falada pelas brilhantes perfeições dos seus tra- 
balhos d'impressão. A vasta G|uadra da rua da Fabrica tornou- se um centro 
de reunião do que ha de mais intèllectual no Porto, indo ali á procura do 
convivio adorável do talentoso impressor os nossos primeiros nomens da 
litteratura, da arte e do professorado. 

Pode dizer-se que não ha no Porto personalidade de vulto que não 
tenha feito a visita d*e$sa oílicina, onde a alegre e luminosa alma de Costa 
Carregal fazia uma doce atmosfera d*intelhgencia e de bondade. Ali se 
prepararam obras de litteratura e arte, se fizeram planos de mocidade 
vehemente que o generoso tipographo secundou com todo o seu enthu- 
siasmo e também muitas vezes com o seu auxilio material. Elle tinha quasi 
o delirio das iniciativas litterarias e a sua alegria era acompanhar «os ra- 
pazes» em todas as tentativas d*espiritos novos, ficando sempre, atravez 
de dolorosos escarmentos, de coragem juvenil e de decisão audaz. D*uma 
fina intelligencia para a percepção de todas as coisas, apurado na convi- 
vência de altos espíritos, era a'um grande encanto de conversa, e a viva- 
cidade do seu entendimento só encontrava egual nas mafjnificas eífusões 
do seu coração. Porque um dos motivos do forte prestigio do seu nome 
era a esplendida generosidade doesse trabalhador; preso de manhã á noite 
na ofHcina, que mal podia satifazer ás offertas de trabalho. Costa Carregal 
morreu pobre. 

Não consta que chegasse até lá o conhecimento d*uma desgraça sem 
que o caridosíssimo homem tratasse de a soccorrer. Os que frec{uentavam 
a officina da rua da Fabrica sabem bem como Costa Carregal tinha sensi- 
bilidade para todos os infortúnios e cotação para espalhar em larguezas 
de príncipe o resultado do seu dia d^esforço. E, quando os prudentes lhe 
censuravam a generosa imprevidência, a larga face sorria com toda a sua- 

223 



O-A. 

vidade dos olhos azoes, e sacudindo a farta cabelleira elle dizia que alguém 
devia pensar nos roiseros. Por isso elle morre sem um inimigo: — os pró- 
prios mvejosos tiveram de recolher ante o resplendor d'esse caracter de 
diamante 1» 

Carreira. í António L Mestre da capella do rei D. Se- 
bastião e do cardeai-rei D. Henrique. Recebeu a educação ar- 
tística na própria Capella Real, sendo moço do coro no tem* 
po de D. João III, como testefica a citação seguinte : nas «Pro- 
vas da Historia Genealógica da Casa Real», por Macedo de 
Sousa, vero, no tomo 2.**, pagina 786 e seguintes, umas listas 
dos moradores da Casa Real no tempo de D. João III, trasla 
dadas de documentos coevos que Sousa encontrou na torre 
do Tombo ; uma d*essas listas menciona, sob a designação de 
cMoços da Capella». este nome entre outros: António, filho 
de António Carreiro de Lisboa». E n'outra lista, encimada pela 
epigraphe : t Moços da Capella que Sua Alteza tomou para 
ensinar a cantar», lê-se: «António Carreiro». 

Sem duvida, «Carreiro» é n'este caso o mesmo que 
«Carreira», sendo a troca da ukima letra um accidente bem 
fácil de succeder em ma*nuscriptos ; é possivel também, e até 
mesmo natural, que f Carreiro» fosse a forma priminva do 
appellido d'este musico, que elle mesmo depois mudaria em 
«Carreira» para fazer esquecer uma origem extremamente 
humilde. 

O nome de António Carreira, Já mestre da capella de 
D. Sebastião, encontreio-o n'um documento coevo que faz 

Êarte do códice n.® 641 da Collecção Pombalina, existente na 
libliotheca Nacional. Esse documento é uma folha manuscri- 
pta, espécie de memorandum, comendo diversas observações 
sobre as reformas a fazer na organisação da Capella Real, or- 

f^anisação que foi projectada no tempo do cardeal rei e se ef- 
ectuou no reinado do primeiro Philippe. Tem este titulo: 
a Advertências sobre o regimento da Capella que parece se 
deve emendar». 

Na parte cjue se referem á musica, essas advertências não 
deixam de ter mteresse, não só por mencionarem o nome de 
António Carreira, mas também por conterem outras notícias 
curiosas. Dizem assim : 

«No capitulo ii.° que trata dos Cantores, tangedores e porteiros, se 
ha de acrescentar que o Mestre da Capella, sendo possivel, seja clérigo, e 
quando concorrerem alguns em pretender este cargo ccateris paribus seja 
sempre preferido ò clérigo, porque isto he mui decente, pois a elle toca 
o governo 4o cantochão no coro, o que não pode fazer o secular. 

E pór esta causa El-Rey DÕ João o 3.*» querendo reformar a Capel- 
la na fc^ma que se agora faz, obrigou a Bartholoroeu Torzelho oue então 
era mestre d'ella (sendo homem de edade) a se fazer clérigo, e depois de 

224 



GA. 

sua morte reinando já ElRei Dõ Sebastião, e não havendo intenção de re- 
formar a Capeiia se deu o Magistério a António Carreira. £ sou lembrado, 
que dizia ElRey Dõ João que o mestre avia de ser na sua Capella como 
os Chantres has suas cathedras. 

No Capitulo i5.<^ que toca da distribuição, onde diz-^Eipor bem que 
esta conta d'hum conto quinhentos setenta, e dous mil, e quatro centos 
réis — parece que esta soma se deve acrecentar e deve d'aver daqui por 
diante pêra a distribuição, hum conto e setecentos mil réis, assi por a 
distribuição em si ser pequena e aver que de ganhar muitos, como por- 
que o senhor Cardeal agora acrecenta mais nove ministros que hão de 
entrar n'ella, convém saber os dous baixões e hum corneta fora do nu- 
mero dos cantorej) e os quatro moços da Capella que tem eífectivos e 
dous porteiros. ..» 

O cataloço da livraria de D. João IV menciona varias 
composições de António Carreira ; estão assim designadas : 
Caixão 27, n.** G96. Villancicos «Vn nifio con vnas flores», a 
três vozes; «Ay de mi», a cinco vozes. Caixão 28, n.® 706. 
Villancico tAquel pastorcico», a duas c a cinco vozes. Caixão 
29, n.® 714. Villancico «Estos animalos rudos», solo com 
acompanhamento de três instrumentos, e a seis vozes. Caixão 
33 n,** 77C). Lamentações «Scderunt in terra», a quatro vozes; 
«Meiius fuit», também a quatro. Caixão 26, n.*^ 8fo. Motetes 
«Circunderunt me», a seis vozes; «Illumina óculos nicos», 
também a seis vozes. 

Pedro Thalesio na sua «Arte de Cantochão» (1618) em 
pagina 70 faz a seguinte elogiosa referencia a António Car- 
reira: 

c. .. e segundo observou (entre outras cousas que excellentemente accen- 
tuou & reformou) António Carreira, Mestre digníssimo que foy da Capella 
Real de Sua Magestade em Lisboa, cuja opinião, como milhor e mais se- 

fiira, vou d^ordinario seguindo na In»trucç&o do Presbytero, Diácono, 
ubdiacono, Mo^o de Coro, & na mayor parte dos Cantos chSos que aqui 
se acharão apontados. . .» 

António Carreira teve um filho do mesmo nome que foi 
também bom musico, mas que morreu novo, victimâdo pela 
peste de ibgg. Um sobrinho, e também com egual nome, 
occupou o logar de mestre da capella na cathedral de Santiago 
de Compostella. 

Oairrero (Angelo). Artista de muito merecimento, 
violinista primoroso e bom compositor. Era filho de um mu- 
sico hespanhol que, fazendo parte de uma companhia ambu- 
lante, veiu a Lisboa e aqui abandonou a mulher e o filho, 
creança de tenra edade. Houve quem se condoesse da sorte 
d'estcs dois infelizes, e Luiz Cossoul cncarregôu-se de ensinar 
solfejo e violino ao pequeno Angelo que mostrava singular 
inclinação para a musica. Tinha 16 annos e já obtinha alguns 
meios no cxercicio da arte quando se matriculou no Conser- 
FoL 15 225 



vatorio em 1842. Pela mesma época entrou para a irmandade 
de Santa Cecilia, assígnando o livro de entradas em 2 de ju- 
lho do referido anno. Em breve se tornou um dos mais esti- 
mados violinistas do seu tempo, incorporando-se na orchestra 
do theatro de S. Carlos e tocando a solo em vários concertos 
e academias. 

Angelo Carrero era muito estudioso, e apprendeu a fundo 
harmonia sem ter seguido um curso regular; lia os tratados 
observava as obras dos mestres, e em casos de duvida con- 
sultava na própria orchestra o seu coUega e bondoso mestre 
Santos Pinio, que o estimava e attendia complacentemente. 

Má sorte porém o preseguia: comquanto se tornasse um 
violinista de primeira ordem, nunca poude na orchestra attin- 
gir o primeiro lo^ar porque teve sempre á sua esquerda os 
insignes Vicente Fito Mazoni e José Maria de Freitas, cujo 
mérito e direito de antiguidade elle não podia vencer. 

Quando falleceu Santos Pinto deixando vago o logar de 
director da mesma orchestra, Carrero, que era dotado de bas- 
tante merecimento para o substituir e tmha já provado a sua 
aptidão de compositor, aspirou a esse logar; mas antecípou- 
, se-lhe Guilherme Cossoul, cujo merecimento também era gran- 
de e teve mais fortuna ou maior habilidade. 

Como premio de consolação, o mesmo Cossoul contri- 
buiu para que em i863 o nomeassem professor substituto de 
Rudimentos no Conservatório. 

A vida domestica também a principio o feriu de agudos 
espinhos: tendo-se apaixonado por uma menina ingleza que 
lhe correspondia com o mesmo affecto e com quem casou, os 
parentes d'esta, julgando-se deslustrados por entrar um mo- 
desto artista para a nobre (?) familia, promovcram-lhe toda a 
espécie de dissabores. Não obstante, esse artista era um ho- 
mem honestissimo, laborioso, dotado de um caracter cava- 
lheiresco e bondoso, que consagrou todo o seu trabalho á fe- 
licidade da familia. 

O excesso do trabalho e as contrariedades soflfridas exer- 
ceram a sua acção fatal: apenas completara 41 annos de cda- 
de quando a morte veiu tranquillisar o pouco ditoso Angelo 
Carrero, levando o em n de agosto de 1867. 

Carrero escreveu grande numero de peças originaes e 
phantasias para violino, peças concertantes para vários instru- 
mentos, pot-pourris para orchestra e outros trechos que fo- 
ram ouvidos com agrado, alguns mesmo com enthusiasmo, 
nos «Concertos Populares», na f Academia Melpomenensei e 
em S. Carlos. Compoz também e arranjou muita musica pa- 
ra os bailados de S, Carlos, tornando-se notável a que escre- 
226 



O-A. 

veu para ser intercalada na opera «Martha», por ter imitado 
com grande felicidade o estylo de Flotow. Deixou muitas 
composições inéditas, entre ellas uma missa a quatro vozes e 
orchestia. 

Carvalho (Filippe de). Mestre da capella da Sé de 
Braga, desde um pouco antes de 1820 até i858, anno em que 
falleceu^ no mez de novembro. 

Foi na sua época o primeiro cantor bracarense, possuin- 
do uma bella e extensa voz de baixo, cantando com grande 
primor segundo consta pela tradição. Foi mestre de canto- 
chão no seminário de Braga, e compoz diversas obras reli- 
giosas em cantochão fíguraoo. 

Oarvalbó (Padre Francisco dej. Organista e mes- 
tre da Capella Real na primeira metade do século XVIIL Em 
17 17 já occupava o segundo d'esses logares, pois vem men- 
cionado juntamente com o padre José Cardoso, na relação 
das festas que n'esse anno se fizeram na egreja de S. Roque 
para celebrar em honra do Beato João Francisco Regis (v. 
Oai*doso José); diz assim a referida relação na parte que 
respeita a este mestre : 

«... cantou a Musica da Capella Real com aquelle assombro e ad- 
miração com que se costuma fazer na mesma Capella em os dLis mais so- 
lemnes, & com nquella disposição, & vozes de instrumentos, que se ex> 
perímenta em todas as occasioes em oue o seu em tudo Real Mestre, o 
Reverendo Padre Francisco de Carvalno faz o compasso, como quem 
sempre põepn tudo em Real & boa Solfa » 

Frei Cláudio no «Gabinete Histórico»^ quando descreve a 
procissão de Corpus Christi que se realisou em 17 19 (tomo 
II.® pag, 247), também diz que n'esse anno era mestre da 
Capella Real o tbeneficiado Francisco de Carvalho». 

Oairvalbo (Dr. Francisco Maria de). Flautista ama- 
dor. Nasceu em i83i na freguczia de Leomil, concelho de 
Moimenta da Beira, sendo filho do doutor Francisco Gomes 
de Carvalho, juiz de direito e por varias vezes deputado ás 
Cortes. Formou-se na Universidade de Coimbra em Medicina 
e Philosophia, e depois de ter sido professor de mathèmatica 
no lyccu de Lamego entrou em 1868 para cirurgião do exer- 
cito, estando alguns annos no Porto e vindo depois para Lis- 
boa; foi nomeado cirurgião de bridada, e occupou por algum 
tempo o logar de medico no hospital de Runa, até que se re- 
formou, vindo a fallecer pouco depois em 5 de novembro 



de 1894. 



doutor Carvalho não era um flautista primoroso, e 
apprcndeu quasi sem mestre; mas o gosto pela musica era 

227 



n'elle quasi um vicio, e, devido a um exercido de muitos an- 
nos, tornára-se bom leitor e bom executante de orchestra. 
Tanto no Porto como em Lisboa tomou parte em todas as 
orchestras e academias de amadores, tocando tambeni muitas 
vezes a solo. 

A sua paixão por tocar flauta era tal que o fazia escan- 
dalisar-se e entristecer quando não o convidavam para as reu* 
niões onde houvesse musica e em que fosse executante. 

«Matei o vicio», dizia elle jovialmente quando tinha toca- 
do por longo tempo; era então <}ue se mostrava satisfeito e 
communicativo, desannuveando-se-lhe o espirito severo de 
velho militar. 

Reuniu uma numerosissima livraria de musica para flau- 
ta, comprehendendo tudo, ou quasi tudo, quanto alé ao ulti- 
mo anno cm que viveu se tinha publicado para este instru- 
mento, e alguns manuscriptos inéditos. 

Era também colleccionador de flautas, possuindo muitas 
de differentes épocas c systcmas. 

Carvalho (João José Fernandes de). Professor de 
piano estimado no Porto, onde residiu até fallccer em i853. 
Nasceu na Anadia cm i;783. Compoz muitas phantasias sobre 
operas, themas com variações, etc; todas estas obras ficaram 
inedictas, exepto a seguinte que foi impressa em Londres: Four 
brilliant Vanationsfor the Pianno-Forle on the celebrated air 
Rule Britannia^ composed and dedicated to the English Nation. 

Carvalho (João de Sousa). Assim como certos es- 
criptores augmcntaram a lista de músicos portuguczes inven- 
tando nomes que nunca existiram, também fizeram a opera- 
ção contraria reduzindo dois a um só, como succedeu no caso 
presente. João de Sousa e João de Sousa Carvalho foram 
dois compositores quasi coevos, o primeiro de muito menor 
valor do que o segundo e alguns annos mais antigo. De um 
e outro tenho visto partituras autographas, bem differentes 
tanto na caligraphia como na qualidade. Além d'isso, talvez 
mesmo para evitar o engano que afinal se deu, João de Sousa 
Carvalho firmava todas as suas composições com o nome por 
extenso. 

E' d'este só que vou tratar agora, e no logar competente 
tratarei do outro. 

Poucos são os dados biographicos que pude colher, ap e- 
zar de não terem sido poucas as diligencias e não obstante 
existirem descendentes, os quaes do seu antepassado sabem 
menos ainda do que eu. 

Quem primeiro deu curtissimas noticias d'este musico tão 
notável foi Pedro Cravoé no «Jornal de Bellas Artes», 1817 
228 



n.^ 12, e o cardeal Saraiva na «Lista d'alguns artistas portu- 
guezes», 1839, pag. 45. Outros escriptores reproduziram es- 
sas noticias sem nada accrescentarem senão uma relação muito 
incompleta e errada das operas que elle compoz. 

João de Sousa Carvalho era natural do Alemtejo, segundo 
disse o cardeal Saraiva. Não consegui averiguar onde primeiro 
apprendeu nem quando veiu para Lisboa, mas obtive a data 
eni que aqui encetou a sua carreira artística entrando para a 
irmandade de Santa Cecilia, condição essencial n'aquella c'poca 
para se exercer a arte ; vi a sua assignatura no livro de entra- 
das d*aquella irmandade, firmada com esta data: 22 de no- 
vembro de 1767. 

Foi enviado a Itália pelo rei D. José I, juntamente com 
Gamillo Cabral e os dois irmãos Braz e Jefonymo Francisco 
de Lima, para se aprefeiçoarem no estudo da composição. 
Logo que estes quatro pensionistas regressaram a Lisboa fo- 
ram empregados no Semmario Patriarchal, sobresahindo Sousa 
Carvalho que ficou sendo o primeiro mestre de capella e pro- 
fessor de contraponto. 

E como professor produziu discípulos bem notáveis : Leal 
Moreira, que lhe succedeu no ensino e ainda foi seu ajudante 
desde 178D; Marcos Portugal, cuja celebridade obscureceu o 
mestre e condiscipulos; João José Baldi, que tendo entrado para 
o Seminário em 1781, sem duvida apprendeu com Sousa Car- 
valho. Domingos Bomtempo, alumno desde cerca de 1785, 
também devia ter recebido lições d'ellc. A simples citação 
d'estcs quatro discipulos basta para dar idéa do mestre que 
era João de Sousa Carvalho, e também para fazer notar 
quanto n'essa época foi florescente aquelle estabelecimento. 

Quando David Perez se aposentou em 1778, foi Carva- 
lho escolhido para o substituir no ensino da família real. No 
desempenho d'esse elevado cargo teve por discipulos : a in- 
fanta D. Maria Francisca Benedicta, filha de D. Josc; o ma- 
logrado príncipe D. José filho de D. Maria I c fallecido novo; 
o irmão d'este, D. João, que foi depois príncipe e mais tarde 
rei; sua irmã a infanta D. Mariana Vicioria que em 1785 des- 
posou o infante de Hespanha D, Gabriel, (') e D. Carlota Joa- 
quina emquanto princeza. 

Compoz diversas operas para s^. representPrem nos thea- 
tros reaes. As partituras de todas, apenas com excepção de 
uma e parte de outra, existem na Real Bibliothcca da Ajuda, 
onde as examinei. Possuo também quasi todos os librettos im- 



;i) MârtiAi BastoSf «Nobreza Litteraria», pag. 207, 212 e 217. 

229 



pressos d'essas operas, e por isso posso dar sobre ellas noticias 
exactas. Seguirei a ordem chronologica : 

I.* L'amor industrioso^ drama giocoso. Este é o titulo 
que tem a partitura ; o do libretto diz assim : Vamore indus- 
triosot Dramma per musica da rappresentaf^i nel Real Teatro 
deir Ajuda in occasione di festeggiaresi il felicissimo giorno 
natalício di Sua Real Maestà tAugustissima Sigttora D. Ma- 
rianna Vittoria Regina Fedeiissima nella primavera deWanno 
ijôg. No rosto da segunda folha, em seguida ao elencho das 
personagens, diz: La Musica è dei Siç. Giovanni de Sousa 
Carvalho^ Maestro dei Real Seminário dt Ltsbona. 

A partitura offerece bastante interesse. Começa por uma 
Ouvertura fsicjj como a «Spinalba» de Francisco António de 
Almeida, escripta trinta annos antes (v. almeida.). Mas a 
abertura de Carvalho revela um grande progresso sobre a do 
seu predecessor, pois consta de três grandes andamentos — 
allegro, andante e allegro final — bastante desenvolvidos e com 
uma orchestração já notavelmente colorida. Distingue-se tam- 
bém esta opera das usuaes no seu tempo em não ser simples- 
mente uma serie de árias e recitativos; é quasi toda composta 
de peças concertantes, começando por um extenso quartetto, 
e tendo até um concertante a seis vozes que é o final do se- 

f;undo acto. No primeiro acto ha uma canção de meza, com 
etra em francez, muito cómica. O segundo tem também uma 
engraçada ária buiTa. 

Parece que esta opera não se cantou só no dia para que 
foi expressamente escripta, mas que ainda se repetiu n'outras 
occasiões, porque não só a partitura existente na Bibliotheca 
é uma copia e não o original, mas também existem todas as 
partes cavadas para a orchestra, cuidadosamente encaderna- 
das; é este um caso único e por isso mostra que a obra era 
particularmente estimada. 

Cabe aqui uma observação: os papeis que representa- 
vam damas eram cantados por homens e nos bailados tam- 
bém dansavam homens. Com outras operas ainda mais an- 
tigas succedcu o mesmo. E' portanto completo erro, propa- 
lado e muito repetido modernamente, attribuir ao excesso de 
religiosidade de D. Maria I a prohibição de entrarem mulheres 
cm scena; em 1769 ainda a filha de D. José I não tinha aucto- 
ridade alguma no paço, e muito menos a teria antes. O uso 
veiu de longe e a explicação d*elle deve procurar-se em causas 
mais mundanas do que religiosas. Não foi inventado em Lis- 
boa, nem era só para servir a corte portugueza que em Itália 
abundavam i castratori. O mesmo uso existia em Vienna, Ma- 
drid e nas pequenas cortes dos diversos estados italianos. 
230 



Quando D. Maria I, por morte de seu pae (1777), assu- 
miu no paço a responsabilidade de dona da casa, acceitou tal- 
vez de bom grado a pratica adoptada havia muito tempo, mas 
não a inventou nem a impôz. Se o costume passou occasio- 
nalmente para algum theatro publico foi por imitação e não 
por ordem expressa. 

Esta é que é a verdade. 

2.* Opera de Sousa Carvalho. Diz assim o titulo do libretto: 
Eumene. Dramma per musica da rappresentarsi nel Real Tea- 
tro deir Ajuda nel felicíssimo giorno natali:^io dei fedelissimo 
Monarca Z). Giuseppe I Re di Porto gallo^ Algarve, <fet\, <Êc., 
ékc, Nel di 6 giugno 1773. Na pagina 12 diz : La Musica è dei 
Sie. Giovanni de Sousa Carvalho , Primo Maestro di Cape lia 
dei Real Seminário de Lisbona. A partitura oíferece menos 
interesse do que a primeira por não ter tanta musica concer- 
tante ; apenas um guartetto para três sopranos e tenor, um 
duetto, uma insignificante marcha grave para orchestra e o 
coro final também de nenhum interesse. O mais tudo são árias 
floreadas e recitativos. Tem também abertura desenvolvida, 
com três andamentos, modelo empregado por Carvalho em 
todas as suas operas. 

3.' Não tenho o libretto d*ella e creio mesmo que não se 
imprimiu porque nunca encontrei noticia da sua existência. O 
frontispicio da partitura diz : L' Angélica. Serenata per Musica 
da cantarsi nella Real Villa di Quelu:^ per celebrare il felicis- 
simo giorno natali:^io delia Serenissima SigS^ Z). Maria Fran- 
cesca Benedetta Principessa dei Bra:^il il 25 luglio 1778. — A/m- 
sica dei Sig,^ Giovanni di Sousa Carvalho, Maestro delle LL. 
RR. A A. il Sereníssimo Príncipe delia Beira, ed Infanti di 
Portogallo, Nada tem de notável senão um duetto de soprano 
com que finalisa a primeira parte. 

4.* Titulo da partitura: Perseo, Dramma per Musica nel 
giorno Natali^io ai Sua Maestà Fedelissima D. Pietro Te?'^o 
Nel di 5 Luglio i77g. Del Sig.^^ Giovanni de Sousa Carvalho. 
A abertura é uma das melhores do auctor. Tem um bom 
duetto de sopranos no primeiro acto, sendo bastante trabalhado 
o acompanhamento da orchestra, e um coro brilhante servindo 
de introducção ao segundo acto. As personagens são desem- 
penhadas por trcs sopranos e um tenor. 

5.* Titulo do libretto e da partitura: Testoride Argonauta. 
Dramma da rappresentarsi nel keal Teatro di Qiíelu:^, II giorno 
Natalício di S. Maestà D. Pedro IH. Li 5 luglio 1780. Musica 
dei Sigf Gio: di Sous^a Carvalho. O libretto accrescenta ao 
nome: Maestro delle LL. AA il Sereníssimo Príncipe dei Bra- 
sil 



:^il^ ed Infanti ití Porto gallo. Tem um bello quintetto para 
quatro sopranos e tenor, muito bem feito. 

6.* Titulo da partitura : Seleuco Re di Siria. Dramma 
per Musica nel giorno Natalício di Sua Maestà Fedelissima 
D. Pedro III. Nel di 5 lugiio 1781. Del SigJ Giovanni de 
Sousa Carvalho. Não tem peça alguma concertante senão um 
pequeno coro final, em homenagem ao soberano como era 
de uso para terminar todas as operas. 

7.» D'esta não existe ou nao se encontrou ainda a parti- 
tura na Real Bibliotheca; tenho portanto de me guiar unica- 
mente pelo libretto, que possuo e cujo titulo diz: Everardo 
III. Re di Lituânia. Dramma per musica da cantarsi nella Real 
Vala di Quelu:^ per celehrare il felicíssimo giorno natalixio di 
Sua Maestà Fedelissima l Augusto D. Pedro III. Re di Porto- 
gallo degli Algai^vi^ &c., &c. Li 5 lugiio 1782. E no fim do 
elencho : La Musica è dei Sig. Giovanni de Sousa Carvalho^ 
Maestro delle LL. RR. Âltez^e il Sereníssimo Príncipe dei 
Braxile, ed lufíviti di Portogallo. 

8.* Titulo da partitura: Penélope. Dramma per Musica 
per celebrare il felicíssimo giorno natalício di Sua Maestà Fi 
delissima L' Augusta Donna D. Maria 1 Regina di Portogallo 
degli Algarvia & &. Li 17 Decembre 1782. Del SigJ Giovanm 
de Sousa Carvalho. Ha a notar n'esta partitura o emprego de 
fagottes, que pela primeira vez apparecem. A orchestra nas 
partituras anteriores compunha-se cie duas flautas (nem sem- 
pre), dois oboés, dois clanns, duas trompas e quartetto de cor- 
das. Esta partitura não tem flautas. A abertura é muito inte- 
ressante. No primeiro acto ha uma bella ária de meio soprano 
— Qual giubilo improviso! — com um expressivo c variado 
acompanhamento da orchestra; produziria hoje um curioso 
effeito se fosse cantada. No principio do segundo acto ha um 
pequeno duetto de sopranos muito floreado segundo o gosto 
da época ; este mesmo acto tem também um bom tercetto 
para dois sopranos c tenor, e um coro para dois sopranos e 
dois tenores. 

9.* Titulo do libretto : LFlndimione. Dramma per mu- 
sica de cantarsi nella Real Villa Real di QueluT per celebrat^e 
il felicíssimo giorno natali^io delia Sereníssima Signora D Ma- 
ria Francesca Benedetta Princivessa de Bra^ile. Li 26 lugio 
1783. Em seguida ao elencho : La Musica è dei Sig^ Giovanni 
de Sousa Carvalho^ Maestro delle SS. AA. Real il Sereníssi- 
mo Príncipe dei Brasile, ed Intanti di Portogallo, Tem uma 
única peça concertante, que é um duetto de sopranos no final 
do primeiro acto. 

10.» Titulo do libretto: Adrasto Re degli Argivi. Dram- 

232 



ma per musica da coiítarsi nella Real Villa.di (^uelu:^ per ceie- 
br are il felicissimo giomo naiali:^io di 5. Ml hidelissima t Au- 
gusto D. Pedro III, Re di Portogallo degli Algarvi &c. &c. 
Li 5 lugUo 17%4* Depois do elericho: La Musica è dei SigJ 
Giovanni de Sousa Carvalho^ Maestro di S. A. Sereníssima il 
Principe dei Brasile e de' Reali Infanti. X partitura não con- 
tém peça alguma concertante nem coisa que se me tornasse 
notável. 

II.* D'esta ha na Bibliotheca Real a partitura só do 
primeiro acto, com o seguinte titulo : Nettuno ed Egle. Musica 
dei Si^J Gio. de Sousa Cangalho. Vanno ij8S. E' uma fabula 
pastoril e foi escripta para celebrar o duplo casamento do prin* 
cipe D. João (depois D. João VI) com U. Carlota Joaquina, c 
de sua irmã, D. Maria Victoria, com o infante de Hespanhá 
D. Gabriel, facto que teve logar em 25 de abril de 1783. 

12.' Titulo da partitura: Alcione. Per le 25 luglio jySj. 
O dia para que foi destinada indica ter sido esciipta para o 
anniversario de D. Maria Benedicta, e com eSeito o coro fínal 
é um hymno a esta infanta. As peças concertantes são unica- 
mente um duetto e dois coros. 

i3.* Titulo do libretto: Numa Pompilio II Re de Roma- 
ni. Serenata per musica da cantarsi neí Real Pala:f^o di Lis- 
bonna. Li 24 Giugno ijSg. Per celebrare d giomo dei glo- 
rioso nome deli Augusto Don Giowmi Princif^e dei BrasiL 
Depois do elencho: La Composi^^ione delia Musica è dei Sig. 
Gioponni de Souza Carvalho^ Maestro de' Serenissimi Prínci- 
pe e Princtpessa dei Brasile. A partitura tem no segundo acto 
um quintetto para três sopranos e dois contraltos, muito bem 
feito e para apreciar pela diíficuldade de escrever para tantas 
vozes eguaes. Tem também um coro para três sopranos, dois 
contraltos e baixo. 

i3.' Titulo da partitura: Jomiri Anta^^ona Guerriera. 
Musica dei Sig/ Gio: de Sousa Cangalho. Não tem data, e 
não possuo nem tenho noticia do libretto, por isso não me foi 
possível averiguar quando foi escripta. A Licenza com que 
termina allude ao natal de D. Maria I. Tem um tercctto para 
dois sopranos e tenor, e dois coros para dois sopranos, con- 
tralto e tenor. 

Resumo chronologico : 1760, L'Amore industrioso; 1773, 
Eumene; 1778^ Angélica; 1779, Perseo; 1780, Testoride; 1781, 
Seleuco; 1782, Eperardoj Penélope; ijSij Endimione; 1784, 
Adrasto; 1785, Nettuno; 1787, Alcione; 1789, Numa Pompilio; 
sem data, Jomiri. 

Existem na Bibliotheca d* Ajuda duas partituras, uma de 
opera — La Nitteti—Q outra de oratória— isíocco^^rj dei Re- 

233 



defUore—Qut por engano estavam catalogadas no nome de 
João de Sousa Carvalho ; são de outro compositor- João de 
Sousa — como está indicado nas mesmas partituras e como 
claramente se conhece na difFerença de cstylo. 

Outra obra de João de Sousa tem sido indevidamente at- 
tribuída a Carvalho; é o «Monumento ImmortaU, cantado 
em 1775 por occasião de se inaugurar o monumento a D. 
José. Todavia frei Cláudio da Conceição, que foi quem deu 
noticia d'esta composição, no «Gabinete histórico» (tomo 17, 
pag. 284), diz que o auctor da musica foi «João de Sousa». 
Certos escriptores modernos é que não quizeram que houves- 
se um João de Sousa sem Carvalho. 

Agora tiremos alguns esclarecimentos bíographicos das 
obras precedentemente enumeradas. 

N& sua primeira opera — /.'amore mdi/5/rio*o, 1769, — inti- 
tula-se já Sousa Carvalho mestre do Seminário; logo foi es- 
cripta depois de ter vindo de Itália, e por conseguinte entrou 
para a irmandade de Santa Cecília, em novembro de 1767, 
também posteriormente á sua chegada porque não é possivel 
que a viagem e o estudo comprehendessem apenas o anno de 
1768. Maior lapso de tempo passou entre a primeira e a se- 
gunda opera — Eumene^ 1773— e entre esta e a terceira — An- 
gelicay 1778 ; seria n^algum doestes intervallos que Sousa Car- 
valho esteve em Itália ? N'esse caso cahiria a affirmatíva feita 
pelo cardeal Saraiva de ter elle sido nomeado mestre do Se- 
minário quando chegou, pois que já o era antes, assim como 
também ]á era compositor apreciado. Não me repugna esta 
hypothese, porque succedeu o mesmo com Marcos Portugal, 
apezar de dizerem o contrario os biographos (v. Portu* 

Entretanto fica este ponto sem averiguação por agora ; a 
sua importância não é tao pequena como parece : convém 
saber se os pensionistas portuguezes em Itália iam lá receber 
uma educação completa, ou se, já sufficientemente hábeis, fa- 
ziam apenas uma viagem instructiva. 

Na segunda opera intiiula-se Sousa Carvalho mestre da 
capella do Seminário; quer dizer que antes, em 1769, era so- 
mente mestre na escola. 

Na quinta opera — Testoríde^ 1780— intitula-se pela primei- 
ra vez mestre do principe e das infantas ; logo foi pouco antes 
que se aposentou David Perez abandonando-lhe esse logar 
que até ahi occupára. O principe n'esse tempo era D. João 
vi, porque seu irmão mais velho, D. José, morreu cm 1778. 
Finalmente na penúltima opera— A^wma Pompilio, 1789— inti- 

234 



tuia se mestre do príncipe e da princeza, que era D. Carlota 
Joaquina. 

Quanto á impressão que me fez o exame das partituras 
d'estas operas, devo dizer que foi o melhor possível ; adquiri a 
ccneza de que Sousa Carvalho era um compositor de primei- 
ra ordem no seu tempo, bastante avançado, possuindo a fun- 
do todos os recursos e servindo-se d*cUes com summa habili- 
dade. A orchestra mesmo, apezar de ser coisa pouco prezada 
n*aquella época, é trabalhada com esmero, principalmente o 
quartetto de cordas. 

O estylo é puramente italiano, floreado mas nao com ex- 
cesso, conhecendo-se-lhe com frequência o influxo de David 
Perez. Também não muito raramente lhe encontrei germens 
de algumas idéas apresentadas depois pelo seu discipulo Mar- 
cos. 

Das partituras que examinei agradaram-me principalmen- 
te o cAmor industrioso» e o «Perseo». 

Notarei ainda n*estas operas as seguintes particularidades : 
as personagens, quer representassem homens ou mulheres, 
eram quasi todas desempenhadas pos sopranos e contraltos ; 
apenas tiavia um tenor, e muito raramente um baixo. Corpo- 
ração de coristas, não navia ; algumas vezes pelo decurso da 
opera, e sempre no final, as personagens reuniam-se todas 
n um concenante e era isto que o auctor designava com o 
nome de coro. A musica dos bailados não está incluída nas 
partituras nem existem resquícios d'ella ; provavelmente o seu 
valor era nuUo. 

Na Bibliotheca Nacional ha as partituras de duas árias de 
Carvalho, que não pertencem a nenhuma das operas acima 
mencionadas; provavelmente escreveu-as para serem intercal- 
ladas em operas de outro compositor, como era uso fre- 
quente. 

O sr. D. Fernando de Sousa Coutinho tem uma bella 
collecção de «tocatas para cravo», por João de Sousa Carva- 
lho, ricamente encadernada e com as folhas douradas ; disse-me 
o seu actual possuidor que pertenceram á casa do marquez de 
Tancos. 

Sousa Carvalho escreveu também alguma musica religio- 
sa. Na Real Bibliotheca da Ajuda ha a partitura authographa 
de uns resDonsorios para a festa do Coração de Jesus, com a 
data de ijSS. O archivo da Sé de Lisboa tem também as se- 
guintes partituras autographas : Benedictus^ a quatro vozes e 
or^ão, 1770; missa a quatro vozes, órgão e orchestra, 1775; 
missa a quatro vozes e órgão, 1777; psalmos Dilexit e Confi- 
tebor^ sem data. 

235 



João de Sousa Carvalho, tendo casado com uma senhora 
rica e adquirido boa fortuna pelo seu trabalho, possui.a impor- 
tantes propriedades no Alemtejo e no Algarve, retirando-se 
nos últimos tempos da sua vida para a primeira doestas pro- 
víncias, onde falleceu em 1798. 

Esta data encontrei-a n'um livro de despczas da irman- 
dade de Santa Cecília, onde está lançada, n'aquelle anno de 
1798, a verba de 6S000 réis. Importância de 5o missas man- 
dadas rezar por alma de João de Sousa Carvalho. (*) 

Um de seus filhos, Joaa)iím Guilherme de Carvalho, foi 
também musico muito considerado c organista da Sé de Faro. 
Quando em i833 a expedição do Duque da Terceira entrou 
no Algarve, o filho de Guilherme de Carvalho foi denunciado 
como partidário de D. Miguel, e com esse pretexto saquearam- 
Ihe a casa completando o roubo com o incêndio; por essa 
occasião perdeu-se um copiosiâsimo archivo de musica que o 
neto do notável compositor possuía e em que naturalmente 
existiriam os autograpnos de seu avô. 

Existem descendentes de João de Sousa Carvalho ; o can- 
tor da Sé, Miguel Carvalho, que em tempo teve uma bella voz 
de tenor, é seu trineto. 

Oai*valbo {Manuel Ignacto de). Bom tocador de cla- 
rinette que durante muitos annos occupou o segundo logar 
d'este instrumento na orchestra do theatro de S. Carlos; foi 
também musico da Casa Real e da Sé. Apprendeu no antigo 
Seminário, onde teve por mestre de clarinette Avelino Ca- 
nongia, que o estimava muito, sendo um dos últimos alumnos 
d'a<^uelle estabelecimento que âttesiavam o bom ensino ali 
ministrado. 

Era homem honesto mas muito concentrado, pelo que 
nunca brilhou como solista; todavia em i85i, substituindo em 
em S. Carlos o primeiro clarinette Gaspar Campos, que se 
achava doente, succedeu-lhe ter de tocar o extenso e difficil 
solo que ha na «Sapho», e fej-o por forma que foi muito ap- 
plaudido e teve um elogio na «Revista Universal Lisbonense» 
de 2S de dezembro doesse anno. 

Carvallio (Manuel Innocencio de). Tocador de cla- 
rim na orchestra do theatro de S Carlos desde a sua inaugu- 
ração, e musico da Casa Real. Entrou para a irmandade de 
Santa Cecília em 10 de maio de 1790, fallecendo com edade 
muito avançada aos i5 de abril de 1861. Foi pae do pianístae 



(*) o antigo compromisso imponha, no capitulo IV, a obrígaçáô de le mandar rezar 
5o missas por alma de cada irmão que morresse. 

236 



compositor Manuel Innocencio dos Santos, c essa ciccumstan- 
cia tez com que seja aqui inscripto o seu nome. 

OAsella fCesarK Violoncellista napolitano penencente 
a uma numerosa famitia de músicos que teem usado o mes- 
mo appellido. 

veiu ao Porto cm 1849, escripturado para a orchesfra do 
theatro de S. João como primeiro violonccilo ; conservou se 
^ n*essa cidade, onde deu diversos concertos, até 18S2, indo 
n'esse anno á ilha de S. Miguel e vindo depois a Lisboa. 

Deixando ac^ui sua mulher (v. o artigo seguinte) partiu 
para Madrid escnpturado como violoncello do Theatro Real, 
e ali se conservou algum tempo. 

Voltou ao Porto em i865, dando um concerto em 4 de 
novembro, com tal êxito que o repetiu cinco dias depois. Era 
uma época de grande effervesccncia artistica e principalmente 
musical n'aquella cidade. Goncluia-se o Palácio de Chrystal 
em cuja nave foi collocado o grande orgSo construído em 
Londres pelo fabricante William Walker ; fazia-lhe sobresahir 
as magnificas qualidades o, hoje celebre, organista Widor que 
então era um principiante cheio de cnthusiasmo ; reunia o 
Pono uma plêiade de artistas primorosos, Arthur Napoleão, 
Noronha, Hypolito Ribas e Nicolau Ribas. Com taes elemen- 
tos, animados pelo enthusiasmo que o Palácio e a exposição 
despertaram no publico, succediam se os concertos ouasi dia- 
riamente; além dos que dava cada artista em seu oeneficio^ 
organisou-se uma serie d*eltes denominados «Concertos Popu- 
lares», titulo justificado pelo preço das entradas que era 3oò 
réis. Em todos estes concertos era Casella parte indispensá- 
vel, sendo freneticamente applaudido e chovendo sobre die os 
elogios dos jornaes. 

Depois continuou a sua vi()a um pouco aventureira, indo 
a Pari?, Londres, varias vezes a Madrid, etc. Em iS/S esteve 
novamente no Porto, dando um concerto de despedida em 7 
de abril de 1874 e partindo seguidamente para as ilhas dos 
Açores d'onde seguiu para o Brazil. 

Finalmente em Í081 voltou a Lisboa, escripturado para 
a orchestra de S. Carlos, e doesta orchcstra ficou sempre fa- 
zendo parte até fallecer em abfil de 1886. 

Deixou impressas varias composições para violoncello, 
entre ellas uma que teve muita voga nos coticertos^— Le chanl 
du Chrélien. Todavia, em vista de certas provas que deu como 
executante na orchestra de possuir conhecimentos technícos 
muito mediocres, houve quem attribuisse essas composições a 
sua mulher Felicia Lacombe. 

Um irmão, Carlos Casella, foi professor de violoncello no 



lyceu musical de Turim, fallecendo em agosto de 1896. Outro 
irmão, Joaquim Casella, esteve alguns aanos e até ba pouco 
estabelecido no Porto. 

E' filho de César Casella o violoncellista do mesmo nome 
e appellidOy actualmente muito estimado em Paris. 

Casella. (Felícia Lacombej. Mulher do precedente. 
Era irmã do pianista francez Louis Lacombe e recebeu uma 
educação muito esmerada, tanto artística como litteraria, estu- 
dando piano e canto no conservatório de Paris. 

Vindo ao Porto com seu marido em 1849, compoz uma 
opera em portuguez, para a qual Luiz Filippe Leite, então 
muito novo e com aspirações a poeta, arranjou o ooema, 
extrahindo alguns episódios do romance «C«onde de Monte- 
Christo», e que intitulou cHaydée». A própria compositora se 
incumbiu de desempenhar a parte de protagonista, mas a re- 

fresentação fez fiasco. Quando em i852 seguiu com César 
lasella para a ilha de S. Miguel, representou umbem ali a 
sua opera, porém muito melhorada, principalmente no libretto. 
Agraciou então muito, publicando-se por essa occasião o poe- 
ma, que tem o seguinte titulo: iHydée, tragedia lyrica em dois 
^ctos. Poesia do sr. Luiz Filippe Leite, musica de M.* Casella. 
— Ponta Delgada— i852.» 

Vindo para Lisboa, Felicia Casella procurou tirar maior 
partido da sua obra. Ofiereceu-a ao rei D. Fernando, e can- 
.tou-a no theatro de D. Maria, sendo os outros cantores o 
barytono Celestino e um tenor chamado Guilherme Rubens 
Morley^ que pertencia a uma familia ingleza e pretendia seguir 
a carreira de artista, mas ficou em principio. 

O êxito de Feucia Casella e da sua opera portugueza foi 
d'esta vez completo. Bem apadrinhada e tendo-se relacionado 
com a nossa melhor socieclade, foi festcjadissima e obteve os 
mais calorosos elogios da imprensa. A primeira representação 
da «Haydée» no theatro de D. Maria teve logar em 16 de junho 
de i853. A cRevista dos espectáculos», jornal bem redigido 
mesmo nas apreciações musicaes, dedicou-lhe um grande ar- 
tigo elogioso; esse artigo começa assim: 

«O êxito da opera Haydée excedeu as nossas esperanças; não por- 
que deixássemos de ter fé no talento da auctora, ou porque nSo acredi- 
tattemot o que a favor de tal producçSo vimos publicado em differentes 
jomaes da ima de S. Miguel, quando ali foi representada; mas porque, 
francamente confessamos, não pensávamos que em uma primeira com- 
posição lyrica fosse possível produzir e entrelaçar tantas oellezas, como 
mad. Casella reuniu na sua opera, a que não duvidamos chamsr formoso, 
ramalhete musical.» 

No primeiro acto havia uma cavatina de tenor, cujo 
238 



acompanhamento era realçado pelo cornetim, instrumento que 
então se salientava j>ela primeira vez n*uma orchestra de Lis- 
boa. Na introducçao do segundo acto Garcia Âlagarim, que 
era o primeiro violino da orchestra, executava um solo t ma- 
gistralmente elaborado», com «perfeita nitidez e apurado 
gosto». 

Quanto ao mérito de Felicia Casella como cantora, o mes- 
mo artigo apreciado nos seguintes termos: 

«Mad. Casella, posto c|ue nSo possua uma voz de soprano de pri- 
meira qualidade, tem, todavia, uma voz de timbre suíHcientemente agra- 
dável, muito afinada e bastante agíl, sabe emittil-a com perfeíçlo, e des- 
empenha o papel de protogonista tanto na parte do canto como na dra- 
mática com a consciência de quem sabe o que faz.» 

Lopes de Mendonça, notável folhetinista, também lhe dedi- 
cou um folhetim na «Revolução de Setembro» extremamente 
elogioso, e D. Antónia Pusich escreveu no mesmo sentido um 
extenso artigo no jornal «A Beneficência». 

A «Haydée» cantou-se ainda varias vezes em D. Maria 
durante a segunda metade do mez de junho e todo o mez de 
julho. Entretanto Felicia Casella cantou em diversos, concertos, 
públicos e particulares, sendo sempre muito festejada. 

Depois doeste triumpho que tinha de ser único, César 
Casella partiu para Hespanhâ e sua mulher ficou aqui na in; 
tençSo de se dedicar ao profes^rado. Annunciou a sua reso!- 
lução e os jornaes fizeram reclamos. 

Mas não obteve os resultados que esperava ou mudou de 
tenção. O certo é que tempo depois estava nos Açores fazendo 
parte de uma companhia lyrica. 

N*este ponto se extingue a estrella de Felícia Lacombe 
Casella, que por um momento tanto brilhou no nosso paiz. 

Além da opera portugueza «Haydée» escreveu nlais as 
seguintes composições pubncadas pelos editores Canongia & 
C.*: Hommage à la mémoire de Sa Magesié Dona Mana II 
reine de Portugal. Marche Juuebre pour le viano. — «Melodia» 
para canto, poesia de J. A. Sant'Anna de Vasconcellos. «Sus- 
piros do meu anjo», para canto, poesia do mesmo escriptor. 
Também lhe attribuem as composições para violoncello pu- 
blicadas em nome de seu marido. 

Oa.simiro Júnior (Joaquim). E' este o mais ins- 
pirado musico portuguez, a maior alma de artista que a arte 
musical tem produzido no nosso paiz. Nenhum outro dos 
tempos modernos o egualou no gemo, nenhum dos seus com- 
temporaneos lhe pode sofFrer a comparação*. Tão grande foi 
que ainda depois cie morto deixou invejosos; e d*elles tal houve 

^^9 




que não duvidou traiçoeiramente açular a ignorância de um. 
espirito desequilibrado para que este lhe vinpeTidiasse a me- 
mpria. 

Pobre Casimiro ! 

Não lhe bastaram as contrariedades da vida, a consciência 
do seu enorme valor mal apreciado e apenas entrevisto pelo$ 
poucos que de perto o conheciam, não lhe bastava ver-se 
numilde e pobre, -trabalhando de encommenda para viver c 
produzindo gratuitamente as mais bellas obras, não lhe bas- 
tava que a morte o arrebatasse justamente quando a subsis- 
tência lhe estava um pouco mais assegurada^ não lhe bastavam 
todas Bs desventuras que o perseguiram em quanto vivo, para 
que ainda depois de morto a sua memoria tosse maltratada! 

Pobre Casimiro! 
Em hora de desalento, e muito próximo do seu fim, escre- 
veu elle a própria biographia em termos sinceros e commo- 
vcdores. 

Começarei pela rcproducçao doesse documento. 

«Nasci no dia 3o de maio do anno de 1808 em uma pequona casa 
na rua dos Gallegos. Meu pae era o copisfi das musicas da casa real e do 
real theairo de S. Carlos; \ívin pobre^ porém com tal rigidei de honra e 
probidade, que cm toCa a sua.vida le he (>âo pode notar uma ió acção que 
ponha em duvida esta verdade. Primeiro filho de um casamento de incli- 
naçSo, concentrava em mim tcdo o amor e ternura de meus pães, e como 
elles sabiam que a maior prova tie amor que um pae deve dar a seus 
filhos é a educação, logo que completei os. 5 annos^ ficeram-me entrar 

f>ara uma «ula estabelecida na mesma rua, e que era regida por um excel- 
ente homem, chamava-se Rodrigues Palma: os castigos nesta aula eram 
raríssimos, as admoestações frequentei e os conselhos contínuos: porém 
como a sciencia não andava a par destas eminentes qualiJade«, tratou 
meu pae da minha transferencia para a aula dos frades do Carmo, aonde 
entrei pela primeira vez no dia 20 de maio de 1814. 

Havia nesta aula um mestre e um substituto; o mestre era um santo 
frade ní^odtlo perfeito de bondade e paciência; o substituto porém era 
destes homens que vem ao mundo para flagello das creanças; não se pas- 
sava um dia em que este Nero de rabicho (como nós lhe chamávamos) 
não fizesse uso da palmatoria« 

De\o a estes mestres toda a minha educação primaria e sobretudo 
as crenças religiosas que tão profundamente se arreigaram em roeu cora- 
ção, que circumstanda alguma até hoje tem podido abalar, felicidade que 
todos os dias agradeço a Deus, porque, em todos os perigos e tribulações 
da minha vida, é só ha religião que tenho achado abrigo e consolação. 

Frequentei esta aula por espaço de três annos com a única inter- 
rupção de quatro mezes que uma perigosa doença me reteve em casa. 
Acabados estes três annos, matriculei-me na aula' de musica da Sé de 
Lisboa; o mestre chamava-se José Gomes Pincetti, era bom velho e bom 
mestre; ninguém ensinava princípios de musica com melhor methodo. 
Fui tão feliz que €0 fim de 7 me^es era já o segundo decuríão, e no fim 
de um anno tinha solfejado toda a musica dos archívos da aula e mais 
aigunra que diversos me empregavam. 
240, 



k 



DICCIONARIO BIOGRAPHICO 

DE MÚSICOS PORTUGUEZES 




Joà€[idii\ Cà^iii\ii'o Jui\iof 



VoL. I — Folha i6 



Passei depois para a «lirecçfio de um tal frei António, frade Paulista, 
que me ensinou a cantar e que no curto espaíço de 8 mezes me habilitou 
para fazer um exame publico em consequência do qual entrei {)ara a cor- 
poração dos músicos. Alguns mezes depois vagou um logar de soprano 
no coreto da real capella da Bempdata; conforme o uso d^aquelle tempo, 
o logar poz-se a concurso, apresentei -me, íiz o meu exame, tire três 
oppositores, porém os examinadores deram-me a preferencia. 

Em recompensa destes progressos que enchiam de jubilo a meu pae, 
comprou-me elte um piano de Asthor (piano que ainda lioje conservo) e' 
um methodo de Pleyei e Dussek, auctores entSo da moda. Tinha pois 
um piano e um methodo, mas não tinha mestre : nSo obstante consegui 
tocar alguma cousa e para isso não tive muito trabalho. 

Neste tempo tomei amizade a um rapaz da minha edade que tocava 
flauta menos mal; chamava-se Jorge Titel (ainda hoje vive); todas as tar- 
des nos rexmiamos em casa de meu pae para tocar duetos, mas que due- 
tos. . . o meu amigo tocava na flauta os meus solfejos e outras musicas 
2ue podíamos apanhar, e eu improvisava o acompanhamento no piano. 
!m pouco tempo estagnaram-se estes recursos, e achando-me sem mate-' 
ria para os nossos pequenos concertos; tratei de a tirar de mim mesmo, e 
comecei a escrever duetos para os dois instrumentos ; foram estas as mi- 
nhas primeiras composições, que tenho muita pena de não ter conservado 
como recordação da infância. 

Estes ensaios deram-me coragem e atrevimento, e animado por meu 
pae, compuz os coros de uma oratória que se representou no theatro da 
rua dos Condes ; foi esta a minha primeira composição para orchestra. 

Havia na Carreira dos Cavallos um hospício de frades que tinha um 
órgão ; uma vez que ali fui cantar pedi licença para tocar ; era a primeira 
vez, porém de tal modo me houve, que os frades me pediram para lhes 
acompanhar d*ali em diante todas as suas festas, o que não só íiz, roas 
também comj)uz a musica para algumas delias; foram as minhas primei- 
ras composições para vozes e órgão. 

Sempre feliz nos meus atrevimentos, pouco admira que tendo adoe- 
cido ambos os organistas da real capella oa Bemposta, e achando- se por 
consequência o coro sem acotiapanhamento, eu me ofTerecesse para os 
substituir, o que teve efifeito por mais de seis mezes com geral satisfação. 
Como eu visse que o sr. rei D. João Vi se mostrava satisfeito com o meu 
serviço, e me honrava tratando-me com muita aíTabilidade, pedi-lbe que 
me mandasse ensinar pelo mestre de capella frei José de Santa Rita Mar- ' 
quês. O sr. D. João VI levou a bondade a ponto de escrever de seu pró- 
prio punho uma ordem que assim o determmava. - 

Comecei então a aprender com o sapientissimo mestre frei José 
Marques, e n'esse dia pnncipiou para mim uma nova época ; a arte veio 
denunciar- me todos os erros das minhas defeituosas composições; á luz 
da sciencia vi claramente o tortuoso ' caminho que havia trilhado, enver- 
gonhei-nae de me ter julgado compositor, e fiz o firme protesto de apa- 
gar com o meu futuro todo o meu passado. 

Estudei e estudei como era preciso estudar debaixo da direcção dó 
mestre de mais mau génio que tenho conhecido ; tambeni o meu aaianta- 
m.ento caminhava a par do meu estudo, e tão rápido era elle que, em ^ 
x8i6, vinte nieses apenas ,áecòrrláoSy tendo vagado ò logar de organista' 
que eu servia como supra, e achando- se o visconde de Magê pouco dis- 

gosto a dar- me > propriedade, por causa de alguns requerentes aue se 
aviam apresentado com habilitações que elle julgava superiores ás mi- 
nhas ; instigado por meu mestre pedi o concurso, que teve lo^ar, ficando ' 
eu victorioso em todos os três artigos do exame ; foram exammadores os 

FoL, i6 241 * 



mestres GalSo, Soares e Manuel Innocencio. Foi um dia de felicidade pa- 
ra mim e de gloria para meu mestre. 

Continuei a estudar ainda com mais fervor dirigido pelo mesme fr. 
José Marques a cuia memoria serei sempre grato, porque foi elle que me 
abriu as portas da sciencia e me habilitou para comprehender os seus 
mysterios. Foram muitas as peças de musica sacra que compuz até i832, 
avultando entre ellas as matmas de Santa Luzia^ de Reis, e a missa e cre- 
do para grande orchestra : a minha carreira era rápida e sabe Deus onde 
chegaria, se o cataclismo politico que inverteu todas as coisas do nosso 
paiz a nSo tivesse cortado : v|ctima da minha lealdade ao soberano que 
tiavia jurado defender, fui preso, e depois de solto obrigado a emigrar, e as- 
sim decorreram os annos até iSSy, época em que de novo tornei a appa- 
recer, e desde entio até hoje nSo tenho cessado de trabalhar, ora com- 
pondo, ora ensinando, ora praticando . . . trabalhar sempre trabalhar. 

De tanto trabalho alguma coisa havia de sair, e com effeito não dei 
pouco, porque fazendo a resenha de toda a musica que tenho composto 
encontro noventa e sete peças de musica sacra ou própria para egreja, e 
duzentas e nove partituras de musicas para dramas, oratórias, magicas, co- 
medias e farças. De todas estas composições as minhas filhas predilectas 
são as matinas da Conceição, a missa aArruda, os officíos que escrevi 
para a cathedral, o Stabat oMater a três vozes e o Credo de uma missa 
para se cantar sem acompanhamento. Lego-as á posteridade que saberá 
aprecial-as devidamente quando eu já não existir. 

Tenho 52 annos, nasci e sou artista, tenho em minha alma a convic- 
ção de ser esta a missão de que Deus me encarregou. Trabalhei até hoje 
para gloria e engrandecimento da minha arte. Fui leal aos meus principios 
politicos e fiel na minha crença religiosa. Puz sempre á disposição dos 
meus coUegas o meu nome, os meus serviços e a minha influencia : em 
todas as minhas composições aífastei-me sempre do centro para que todos 
os meus antecessores e contemporâneos convergiam. O couplet oortuguez 
é meu filho ; ninguém o tinha escripto assim antes de mim ; finalmente 
deixo ao meu paiz mais um nome para o seu catalogo de artistas. 

Na minha vida publica muita gloria conquistada á custa de um sem 
numero de vigílias, e parcos e mesquinhos interesses ; na minha vida pri- 
vada tristeza e desgosto. A fortuna bafeja- me os sentidos, porém o des- 
tino matou-me o coração roubando-me as carícias de todos os entes que 
mais amava : hoje só tenho a alma para soffrer, e a cabeça para meditar ; 
nfo é a primeira vez que penso no suicidio. 

Campo Grande, 19 de março de 1860. 

JoAQUu^ Casimiro Júnior. 

Para que nSo ficasse duvida sobre a data assignalada por 
Casimiro para o seu nascimento, pedi ao reverendo prior da 
freguezia do Sacramento para procuraUa nos assentos do ba- 
ptismo^ e tendo obsequiosamente obtido essa permissão en- 
contrei a seguinte verba, no livro i5.** fl. 146 v., authenti- 
cando a exactidão d'essa data : 

aEm o primeiro dia do mez de junho do anno de 1808 n*esta Paro- 
chial Igreja do Santíssimo Sacramento de Lisboa baptisei solemnemeate 
a Joaquim que nasceu aos 3o de maio ultimo filho de Joaquim Cazemiro 
c de Maria Gertrudes recebidos na Freguezia de N. S.* d'Ajuda e mora- 



dores na rua dos Galle^os, foi padrinho Cazemiro Lúcio de Mendoàça, 
sachristio d*6sta e madrinha N. S.« do Monte do Carmo.» 

O pae de Casimiro, cujo nome completo que usará era 
Joaquim Casimiro da Siiva,. foi eífectivamente um hábil copista 
que durante muitos annos exerceu o logar de chefe da copis- 
taria do theatro de S. Carlos; succedeu-lhe n'èsse logíir seu 
filho mais novo Gabrieí Casimiro^ para uso do qual escreveu 
um compendio que ficou manuscripto. Compoz também um 
poema italiano em honra de D. Miguel, com musica extrahida 
de diversos auctores. ofTerecido ao conde de Redondo e hoje 
na posse do filho d este, o sr. D, Fernando de Sousa Couti- 
nho. 

Joaquim Casimira da Silva falleceu na provecta edade de 
93 annos, em 1860, isto é, no mesmo anno em que seu filho 
escreveu a autobiographia acima reproduzida; é á sua morte 
que elle naturalmente também allude quando se lamenta de 
ter perdido os entes que mais amava. 

Diz Casimiro que tendo estudado musica na aula da Sé, 
se habilitou a fazer exame para entrar para a irmandade de 
Santa Cecilia. Eífectivamente assi^nou o livro de entradas 
n*aquella irmandade em 9 de outubro de 18 18. Tinha então 
pouco mais de dez annos ; o livro tem na margem correspon- 
dente á inscripção de Casimiro esta nota «Soprano», o que 
significa ter entrado nas condições especiaes estaoelecidas para 
os menores com voz de soprano, os quaes não gosavam todos 
os direitos de irmãos e se designavam também com o nome 
de cfilíados». 

:Em i838 houve dissidência na irmandade por causa do. 
novo compromisso (v. Oosta* João AlbertoJ^ e Casimiro' 
foi um dos muitos que sahiram por essa occasião ; mas logo 
pouco depois entrou de novo, em 17 de setembro de 1840. 

A sua primeira assignatura no livro da irmandade é feita 
ainda com o nome completo como o do pae : Joaquim Casi- 
miro da Silva ; mas na segunda firmou como costumava fir- 
mar as suas composições: Joaquim Casimiro Júnior. 

Diz elle ter escripto muitas peças de musica sacra até* 
i832, e menciona entre as de maior vulto umas matinas de 
Santa Luzia. Foram com effeito executadas essas matinas pela 
primeira vez na egreja da Pena em 10 de fevereiro de 1020, 
n'uma grande festa que ali se rcalisou para celebrar a vinda de 
D. Miguel. Imprimm-se um folheto com a descripção d'essa 
festa, folheto assim intitulado: «Relação da Solemne festividade ' 

3UC se fez na Parochial Igreja de Nossa Senhora dá Pena, no 
ia II de janeiro de 1829, pelos Devotos da Milagrosa Virgem^ 

243 



e Martyr Santa Luzia em desempenho de suas importantes 
promessas.! N*eUa se menciona que a musica das matinas 
tffoi expressamente composta para esta Solemnidade por Joa- 

2uim Cfasimiro Júnior, discípulo do R."^ Fr. José Marques. . . » 
fm mez depois d'cssa festa, em 28 de fevereiro, houve outra 
na egreja de Santa Izabel, mandada fazer jpelos voluntários 
realistas em honra também de D. Miguel; Casimiro, que es- 
tava alistado como voluntário, escreveu a musica tanto, da 
missa como do Te Deum. Vem este facto narrado na «Gazeta 
de Lisboa» de 24 de março d'aquellé anno. 

(ircio que elle mesmo íniitilisou essas primeiras compo- 
sições, porque das matinas não ha noticias, e mi^sa a grande 
orchestfa conhece-se unicamente a chamada cda Arruda» que 
foi escripta .muito depois; quanto ao Te Deum^ existe sim a 
partitura autographa de um antigo, mas tem a data de i83o.e 
está incompleta, por isso não pode ser a que se executou em 
1829, 

Este mesmo Te Deum de i83o era desconhecido, e só ha 
pouco tempo é que appareceu, tendo sido terminado e au- 
gmeniado na instrumentação por Carlos Araújo, para se exe- 
cutar, como SC executou, na festa do centenário da índia em 
1898. Não é trabalho notável, mas pfferece um certo interesse 
ao observador porque revela as descgualdades de um talento 
em principio, ainda sem idéas próprias e definidas. 

Casimiro mostra-se na sua autobiographia summamente 
grato á memoria de seu mestre fr. José Marques, fazendo-lhe 
os maiores elogios e notando lhe apenas mau génio. Pobre 
Casimiro! Nunca elle soube que esse mestre foi justamente 
o primeiro invejoso do seu tatento e o primeiro inimigo que 
a inveja lhe creou. 

Tenho disso prova authentica. 

N'um livro de actas da Mesa da irmandade de Santa Ce- 
cília está lavrada' uma acta que começa assim: 

«Conferencia de 8 de novembro de i83i. 

N*esta conferencia se determinou que a festa da nossa Santa se fiasse 
no dia próprio que he no dia 22 de novembro, que se cantasse a missa do 
Sr. Joaquim Casimiro Júnior e tudo isto approva a Mexa, bem como se 
determinou que se acaso o dito Sr. Casimiro não tiver ainda concluido. 
hum Te Deum que se hade cantar no dia da nossa festa, neste caso se 
deverá cantar o Te Deum de Marcos ...» 

A missa de Casimiro cantou- se efTectivamente esse anno 
na festa da padroeira dos músicos, o que constituiu para o 
auctor uma grande honra, ambicionada sempre por muitos, 
e era um grande passo que elle dava na carreira ae composi- 
tor. 
244 



^ Mas o ciumento mestre não se poude conter com tanta 
audácia do seu discípulo e enviou ímmediatamente á Meza da 
Irmandade uma queixa contra todos os compositores que atre- 
vidamente se apresentavam em publico sem sua auctorisação. 
Ignoro o conteúdo d'essa carta, que não achei; mas para tra< 
tar d*ella reuniu logo a Meza cuja acta diz : 

«Conferencia de 3 de dezembro de i83i. 

Nesta conferencia se leu bua carta de Fr. José Marques pela qual 
ae queixava de todos os compositores que actualmente se tem apresentadp 
em publico com varias peças de musica, allegando razões, que não tein 
duvida alguma em serem verdadeiras exigindo na mesma carta que em 
todo o caso deveriáo estes compositores apresentar estas peças de musica 
para serem examinadas por compositores scientiíicos, na presença dos 
ditos compositores, a Meza tomando em consideração a sooredita carta 
determinou que o nosso assistente (i) respondesse conforme elle enten- 
der, sem que òs ditos compositores ficassem de alguma maneira vilipen- 
diados.» 

Fr. José Marques considerava-sc, na sua pouca modéstia, 
f compositor scientifico», e pretendia infligir uma severa sabba- 
tina {Miblíca aos que não julgava taes, incluindo entre elles o 
próprio discipulo, ou mais provavelmente para mettcr esse 
mesmo em talas. 

Casimiro nunca teve conhecimento d*esta traiçoeira cila- 
da, pois os prudentes mesarios gtiardaram silencio sobre o 
caso. 

As obras que tenho d'esse primeiro período do trabalho 
de Casimiro mostram bem claramente a sua phase de inicia- 
ção e os esforços que já fazia para sahir das formas gastas do 
seu tempo. Um miserere a quatro vozes, órgão e dois fagot- 
tes, é o autographo mais antigo que d'etle possuo e tem a da- 
ta de i8 de março de i83i. Pouco já se lhe encontra <jue lem- 
bre frei José Marques, e a tendência para as idéas pitorescas 
e expressivas, que constituem o fundo do seu estylo, começa 
a evidenciar-se. 

Do mesmo periodo é um Libera-me a oito vozes, cujo 
autographo também possuo e tem a data de lo de maio de 
1834. Essa é uma pequena composição de caracter especial, 
primorosa pela factura; escripto em v harmonia a oito partes 
reaes, com um simples acompanhamento de baixo cifrado, 
prova quanto o auctor se tinha tornado hábil harmonista, fa- 
mJliarisado com as difficuldades technicas. A partitura parece 
ter sido escripta sem prévio esboço, de um só jacto como èlle 



(I) AMÚténte era a irmão que dirigia os trabalhos da Meza, correspondendo aó qae 
hoje tdenominaiAos presidente». , . 

«45" 



O-A. 

costumava fazer com as. composições ligeiras emboia esta o 
não seja; tem algumas emendas, mas não são muitas nem 
grandes, o que prova extraordinária facilidade. 

Tenho muitas outras composições autographas do mesmo 
período, mas nenhuma ofTercce mais que notar, a não ser uma 
sonata para piano a quatro mãos, que é única na espécie, mui- 
to bem escripta em estylo brilhante; tem a data de i8 de fe- 
vereiro de i836 e é dedicada a D. Maria José Gardeira, pa- 
rente do notável medico Leopoldo Cardeira. 

Por este tempo foi Casimiro director de um jornal de mu^ 
sica intitulado «Semanário Harmónico», que se publicou em 
Lisboa durantes alguns annos, desde i835, e cujo primeiro 
director foi fr. José Marques. Este jornal publicava trechos de 
operas para piano, outros para piano e canto com a letra em 
portuguez, modinnas, etc. O encargo do director era escolher 
e arranjar esses trechos. 

Recordarei também aqui um «Hymno militar realista» 
que Casimiro compoz durante o reinado de D. Miguel e offe- 
recido ao commandante dos voluntários realistas que era o 
nriarquez de Pombal. Tenho o próprio exemplar aue perten- 
ceu ao marouez, escripto em primorosa caligraphia com o 
frontespicio delicadamente ornamentado á penna, creio que pe- 
lo pae de Casimiro. 

Está claro que esta insignificante composição tem tanto 
valor como todas as outras da mesma espécie ; cito a unica- 
mente como objecto de curiosidade histórica. 

Diz Casimiro que em consequência da sua lealdade a D. 
Miguel esteve preso e depois de solto foi obrigado a emigrar. 
Que tivesse sido preso quando desembarcaram em Lisboa as 
tropas do duque da Terceira, em 24 de julho de i833, não 
admira; era realista exaltado embora inoffensivo, e n'aquelle 
momento praticaram se muitos excessos. 

Mas enganou-se decerto no emprego do verbo emigrar, 
poraue a verdade é que não sahiu do paiz ; esteve apenas es- 
condido n'alguma casa amiga dos arredores de Lisboa, como 
succedcu a muitos outros receiosos, e mais nada. 

Elle diz que reappareceu em 1837, mas eu tenho auto- 
graphos com as datas de 1834, i835 e i836; isto significa que 
o esconderijo não o impedio totalmente de trabalhar. 

As suas primeiras composições scenicas foram para o 
theatro do Salitre. Na autobiographia refere se aos coros que 
escreveu para uma oratória; doesse primeiro ensaio não ha 
noticia alguma nem de outros que provavelmente se lhe segui- 
ram. Por conseguinte a que verdadeiramente se deve consi- 
derar sua primeira composição theatral, tanto pela importan- 
246 



cia como por existir cl'ella noticia certa, 6 o «Roberto do Dia- 
bo», mysterio em cinco actos ornado de coros e bailados, re- 
presentado n^aquelle theatro pela primeira vez em 9 de abril 
de 1842. O enredo d*esta peça era baseado sobre a mesma 
lenda da opera de Meyerbeer, e foi engendrado pelo empre- 
zario e litterato italiano César Perini. Teve pouco êxito por 
ser um embroglio muito mal feito, mas a musica agradou, se- 
gundo affirmaram alguns jornacs da época. 

Em 4 de maio do mesmo anno, para estreia da actriz 
Delfina, subiu á scena no mesmo theatro do Salitre a comedia 
de Moliére «O Peão fidalgo», traducção de Manuel de Sousa, 
com coros e um bailado de Casimiro, t A musica foi reputada 
de bom gosto», diz a «Revolução de Setembro» do dia se- 
guinte. Em 2 de junho immediato houve uma recita em seu 
beneficio, na qual se repetiu o tPeão fidalgo» e se representou 
uma nova farsa — «Peccados velhos» — com musica também 
d^elle. 

E* da mesma época a representação da outra peça de 
Moliére — «O Medico da nova escola» — para a qual também 
Casimiro escreveu a musica. 

Em 8 de julho de 1842 os principaes músicos de Lis- 
boa assignaram uma escriptura que serviu de base á orga- 
nisação da «Associação Musica 24 de Junho», e Casimiro foi 
um dos signatários d*essa escriptura (v. OoâtA, João AU 
bertoj. 

Por aquelle tempo o theatro da Rua dos Condes, que ti- 
nha as prcrogativas ae theatro nacional e era dirigido por Emi- 
lio Doux, dava operas cómicas do reportório francez, taes co- 
mo «Fra Diavolo», «Barcarolla», «Dominó preto» e outras ; 
tinha alguns cantores que cantavam soffrivelmente e estava mes- 
mo escripturado um bom cantor de profissão que era o bari- 
tono Fíffueiredo. Em 1844 Frondoni apresentou ali a popular 
farsa «O beijo», letra de Silva Leal, e pouco depois outra — «O 
caçador do Minho» — letrade Mendes Leal, conseguindo agra- 
dar immensamente. Em vista de tal êxito, Emilio Doux pro- 
curou attrahir os nossos músicos para este género, e Casimi- 
ro foi incumbido de escrever a musica para outra farsa, cuja 
letra elle pediu ao mesmo auctor do «Beijo». 

Estava ainda o trabalho em projecto quando se resolveu 

Sue em 29 de outubro de 1846 fosse inaugurado o theatro de 
'. Maria, embora ainda por concluir, e que o espectáculo, 
desempenhado pela companhia da Rua dos Condes, tivesse 
musica de compositores nacionaes ; Santos Pinto recebeu a in- 
cumbência de uma ode-cantata e Casimiro foi convidado para 
apresentar a sua farsa. O poeta concluiu -a apressadamente e 

247 



mais apressadamente ainda fez o musico a partitura. Intitula- 
se «Um par de luvas» e representou-sç effeaivamente no dia 
determinado para festejar o anniversario de D-. Fernando e 
inaugurí^r o theatro de D. Maria. Rçpetiu-çe aínda.nos dias 3o 
e 3i, e depois varias vezes na Rua dos Condes. 

Tenho . a partitura autographa do «Par de luvas», que é 
bastante volumosa e cuja caligraphia attestaa rapidez.com c^ue 
foi escripta. E' uma deliciosa musica, cujas formas ligeiras 
teem mais pontos de contacto com a operacomica franceza do 
que com a opera italiana. Casimiro, como todos os principian- 
tc5, conaeçou por imitar, e para modelos serviram-Ihe Doni- 
zjstti e Auber que estavam na voga ; mas a sua inclinação mais 
pronunciada era para este ultimo. 

Não obstante essa imitação exterior de. formas, eviden- 
ceia-se já n*esta partitura o cunho individual de Casimiro, 
aquelle melodia fluente e espontânea, acjuelles episódios pican- 
tes que tornam a sua obra inconfundível com a de qualquer 
outro .compositor. 

Os annos de 1846 e 18479 annos de agitações politicas e^ 
miséria publica, foram nefastos para os theatros, cnegando a 
estar toqos. fechados. Apenas o dis D. Maria funccionou mais 
{^resistentemente por ser sustentado pelo governo, mas n'esse 
theatro, onde aliás a musica tinha então uma parte muito im- 
portante,- havia-se tornado compositor effectivo Santos Pinto. 

Em 1848 inaugurou Miro a opera cómica nacional no 
theatro do Gymnasio, dando a aMarqucza» e outras; pelos 
fins do anno seguinte tendo resolvido ir ao Brazil, abriu en^ 
trada a'aquelle theatro a Casimiro, que durante três annos 
não tinha tido ensejo de apparecer. 

Estreiou-se então com a musica para uma comedia n'um 
acto — «O Granadeiro Prussiano», que ali se representou em 
18 de agosto de 1849 c se repetiu em i85i. Possuo a parti- 
tura, que consta apenas de trcs números de musica : o pri- 
meiro é um extenso e bem desenvolvido duetto para soprano 
c tenor, e o segundo uma bellissima ária de soprano; só o 
terceiro numero é pouco importante. 

Depois preparou uma verdadeira surpreza que prova 
quanto era maleável o seu talento: escreveu elle mesmo a 
letra de uma farsa que intitulou «Um ensaio da Norma», na 
qual parodiou esta opera com infinita graça ; a musica não era 
todjá original d*clle, mas entremeada de vários trechos da obra 
de Bellini. Representou-se pela primeira vez em 8 de dezem- 
bro de 1849.. Agradou immenso, fazendo rir constantemente 
a platéa; co auctor foi chamado e victoriado com enthusiasmo», 
diz a € Galeria theatral)), n/ 16. Até o folhetinista Lopes de 



0J^ 

Mendonça, nada complacente com auctores de farsas, teve 
palavras de elogio para Casimiro no folhetim da cRevolução^ 
de Setembro» em que dá noticia da peça. 

O «Ensaio da Norma» foi a primeira parodia ás operas, 
italianas que entre nós appareceu ; aella procedem «O Anda-:: 
dor das Almas» e «O sr. José do Capote» que immediata- 
mente se lhe seguiram, assim como todaç as outras feitas á. 
imitação d*estas. 

Pouco depois escreveu coros e coplas para as comedias 
«Um aguaceiro» que se deu em janeiro de i85o e «A coroa 
de louro» representada nas Variedade em 18 de junho do 
mesmo anno. 

Começa n'este ponto o período da maior actividade artís- 
tica de* Casimiro. Começa também a phase em que elle adqui< 
nu mais pronunciadamente a sua individualidade e produziu 
as suas melhores obras. 

Eis como esse periodo foi iniciado : 

Em meiados de 1849 transformára*se a antiga egreja de 
Santa Justa n'um pec^ueno theatro, que foi denominado de 
«D« Fernando» e se inaugurou no dia do anniversario d*este 
rei. em 29 de outubro. Era seu emprezario Emilio Doux e 
tinna por principal figura da companhia a celebre actriz Emí- 
lia das Neves. 

A empreza não prosperou e em fins de junho do anno 
seguinte suspendeu os espectáculos. Os actores então, exce- 
ptuando Emília das Neves, constituiraoí-se em sociedade para 
continuar a exploração do theatro. Como a opera cómica 
estava muito no agrado do publico, resolveram dedicar-se 
especialmente a esse género. Escripturaram uma cantora ita- 
liana de S. Carlos, Catharina Persolli, que se tornou em bri- 
lhante estretla da nova companhia e deu que fallar; entraram 
também dois bons cantores de profissão, mas principiantes no 
theatro, o tenor Miguel Rorich e o barítono Hermogeneo Lis- 
boa. Finalmente, para director e ensaiador da parte musieal 
chamaram Casimiro. 

Estreiou-se a sociedade emprezaria do theatro de D. Fer- 
nando em julho de i85o com a cBarcaroUa» de Auber, libretto 
traduzido por Mendes Leal, e com uma chistosa comedia de 
Duarte de Sá — «Trabalhos em vão» — para a qual escreveu 
Casimiro alguns números de musica. 

O êxito foi brilhantíssimo, e constatando o a aRcvista dos 
Espectáculos» escreveu o seguinte periodo: «...devem-se tão 
bellos resultados não só aos bons desejos, fadigas, e aptidões 
dos artistas, como ao raro talento, gosto e vocação de seu di^ 
^o maestro o sr, Qs^simiro. ^' um verdadeiro homem de ge* 

^9L 



nto, a quem só falta lim nome em mi para aspirar ás honras 
' d'uma grande celebridade.» 

Em 1 1 de setembro representou-se outra comedia n*um 
acto intitulada cA assignatura em brancoí, com musica tam- 
bém d'elle. 

Entretanto começou a trabalhar com enthusiasmo n'uma 
opera cómica sua. Mendes Leal escreveu-lhe o libretto, em 
dois actos, extrahído de uma peça franceza — Le pensionat de 
jeunes demoiseUes — que também serviu de assumpto para as 
zarzuellas «Colegiales y Soldados», musica de Rafael Hernan- 
do, e «Amazonas de Tormes», musica de Rogel. 

O libretto em portuguez recebeu o titulo de «Batalha de 
Montereau». Subiu á scena em 20 de setembro de i85o, pro- 
duzindo um cffeito nada inferior ao da cBarcarolta». Todos 
os jomaes teceram os maiores elogios á opera cómica por- 
tugueza e ao seu auctor; com especialidade a «Revista dos 
Espectáculos» consa^ròu-lhes um extenso anigo. Ha n*esse 
artigb Uns traços muito verdadeiros sobre o caracter de Casi- 
miro e sua similhança com Bocage ; mais adeante notarei o 
que tem de exacto tal comparação, limitando-me por agora a 
reproduzil-a. Depois de ter dito que todas as honras do trium- 
pho obtido c pertencem indisputávelmentc ao insigne maestro^ 
de talento geralmente admirado», continua o referido artigo: 

«O sr. Casimiro, cuja vocação artística é ainda maior que a excen- 
tricidade do seu caracter pessoal, ofiferece, como auctor e como homem, 
admiráveis pontos de contacto com o nosso immortal Bocage. A par da 
espontaneidade que distmguia o numeroso Elmanoy reúne o iliustre artista 
a mdependencia, quasi farouche^ do grande poeta. Prosiga o sr. Casimiro 
ná sua brilhante carreira, e merecerá por certo o gloriosíssimo titulo de 
Bocage da musica. E' uma prophecia cuja realisação de ninguém mais 
depende. Esperamos nSo ser desmentidos.» 

A partitura da «Batalha de Montereau», que possuo e 
tenho á vista, consta de onze números de musica, todos de 
largo desenvolvimento; os melhores são os coros, havendo 
entre elles um de caracter marcial brilhantíssimo c muito bem 
feito. No final ha um bom concertante para cinco vozes e coro, 
sendo também para notar umas coplas muito cómicas no pri- 
meiro acto e um delicioso «Andante» na cavatina do tenor. 
Notarei ainda, para dar idéa da veia cómica de Casimiro, a 
lembrança que elle teve de parodiar a celebre ária de Isabel 
no «Roberto» para tornar summamente caricata uma certa 
situação. O maior elogio que em resumo se pode fazer d*esta 
notabfkissima opera cómica pprtugueza está na affirmativa 
authemicada de que o effcíto d*ella no publico contrabalançou 



victoriosamente com o das suas congéneres francezas; o artí* 
go da «Revista dos Espectáculos» conciue assim: 

«^' ocioso dizer que a Batalha de iMóntereau tem attfahido as 
attenç^es de todo o publico lisbonense. Até hoje tudo lhe promette a 
mesma popularidade que obteve a Barcarolla. As evoluções militares do 
bello .«exo tem sido, sobretudo, vivamente applaudidas, e o sr. Casimiro 
frequentemente victoriado.v 

Depois d'estc êxito tornou-se Casimiro o compositor mais 
em voga no seu tempo. Todos o queriam^ todos solicitavam 
o seu trabalho que elle desempenhava com febril actividade. 

Para o theatro escrevia as coplas de quantas comedias 
apparecessem ; nos concertos dirigia a orchestra, ensaiava 
cantores, acompanhava solistas; na egreja dirigia as festas, para 
as quaes a cada momento compunha novas musicas com uma 
fecundidade e rapidez maraWlhosa. 

E' d'esse tempo o cSetenarío de Nossa Senhora das Do- 
res»^ em que está mcluido o Stabat Mater ^ uma das suas prí<* 
morosas composições que elle mesmo classificou entre as que 
mais estima. Tenho a partitura autographa com esta data : 4 
de abril de i85i. 

E* também da mesma época um lindíssimo cTerço de 
Bemditos e Ladainha» incluindo as jaculatórias cSenhor Deus», 
para vozes sem acompanhamento, rápido lampejo da mais 
viva inspiração religiosa ; a partitura tem a data de 27 d*agosto 
de 1751. 

Em summa, são approximadamente d*este período da 
actividade de Casimiro muitas das suas melhores obras, pri- 
meira das quaes, sob o ponto de vista technico, eu consi- 
dero o Credo a quatro vozes sem acompanhamento, para 
quinta feira santa, a f Missa d* Arruda», os responsorios a 
três vozes e pequena orchestra, para quinta e sexta feira 
santas, os quaes ainda hoje se cantam em todas as egre- 
jas de Lisboa e em muitas das províncias e do Brazil, a 
(cTrezena» c as «Matinas» de Santo António, as cMatihas 
da Conceição», assim como dezenas de outras composições 
sacras menos importantes. Entre estas ultimas conta-se um 
pequeno Te Deum^ rapidamente improvisado n*uma festa que 
se realisou na Freiria, pequena povoação próxima de Matra. 
Ainda no anno de 186 1 foram escriptos os responsorios para 
quinta e sexta feira santas^ a quatro vozes, coros e grande 
orchestra, chamados cOfficicios grandes», cuja origem foi a 
seguinte: Casimiro era um dos directores da orchestra da 
Academia Melpomenense, composta de artistas e amadores e 
da qual elle mesmo foi sócio fundador (v. Oosta, JoSo 

2SX 



ABerto/; n'aquelie anno suscitou a idéa de que a Academia 
tomasse a seu carço a parte musical das festividades da se* 
mana santa na eçreja de S. Nicolau, para as quaes elle mesmo 
escreveria a musica. Abraçada a idéa com enthusiasmo, Casi* 
m,iro- escreveu aquelles responsorios, e como o tempo lhe fal- 
tasse apesar da celeridade com que trabalhava, aproveitou 
para elles alguns trechos de outros a quatro vozes e órgão, 
que annos antes composera para a mesma egreja. Foram des- 
empenhados por uma granae orchestra e um coro numero- 
síssimo do qual faziam parte muitas senhoras. O jornal «A 
Semana», dando os nomes dos cantores a solo menciona um 
-^^^'^•♦♦# <jue supponho ter sido o rei D. Fernando. O mes- 
mo jornal diz que nunca se tinha visto utn conjulicto mais nu- 
meroso senão nas grandes festas de Santa Cecilia. 

Quando o theatro do Gymnasio se reconstruiu e abriu 
de novo as suas portas, o espectáculo de inauguração, em i6 
de novembro de 1 852 foi preenchido com o «Misanturopo», 
comedia de Molière imitada por Paulo Mtdosi, e outra come- 
dia de Braz Martins, cO homem das botas»; para ambas es* 
tas peças Casimiro escreveu musica; 

Em setembro de i853 subiram á scena nò mesmo thea- 
tro mais duas comediais omi musica d'elle^. <0 que tem de 
ser»^, em três actos, e «Miguel o Torneiro», n'um acto ; a mu- 
sica d*esta ultima é. numerosa e particularmente linda. 

• Em 1854 escreveu musica para as peças seguintes, repre- 
sentadas também no Gymnasio: «Fraquezas humanas»/ «Por 
caiisa de um algarismo», «Juiz eleito», «Viuva de quinze an- 
nos», Hymno de D. Pedro V (cantado em 16 de setembro), 
«Paraizo, Terra, Inferno», peça cm três actos de Júlio César 
Machado (representada no mesmo dia 16 de setembro). De 
todas estas peças dá noticia a «Revista dos Espectáculos,» elo- 
giando sempre a musica de Casimiro. 

Em i3 de outubro do referido anno representou-se pela 
primeira vez no theatro da rua dos Condes o «Ópio c Cham- 
pagne», opereta graciosíssima que se representou muitas ve- 
zes em diversas épocas e theatros. Por occasião de uma d'es- 
sas repetições, realisada em janeiro de 1867, escreveu a «Chro- 
nica dos Theatros» : 

«O opto e o champagne veíu em seguida recordar-nos Casimiro 
Júnior» e mais uma vez nos lembramos da perda que a arte soffreu 
com o passamento do seu cultor mais distincto. Vejam esta opereta, e di- 

Í(am depois se já escutaram musica mais apropriada ao género, que me- 
hor traduzisse o pensamento do poeta. Por isso a memoria do maestro 
é inimofredoira como as obras que nos legou, E' que Casimiro era um 
d'èsses génios raros, raríssimos que deveriam ser eternos como os tno- 
muuenios que criou .. .» 



CDJL 

Ainda no mez de outubro do mesmo anno representa- 
ram-se as seguintes peças- com musica do fecundo composi- 
tor: «Nem turco nem russot, comedia chistosissima de (Jostâ 
Cascaes, representada no theatro de D. Maria, e em que a 
actriz Delfina fazia rir extraordinariamente n*um papel 4é 
turca exaltada ; a partitura cujo autographo tenho, consta de 
cinco números de musica muito interessante e engraçada, en- 
tre elles umas coplas com coro em lingua turca e um bailado. 
«O Grumete», comedia em dois aaos, e «O bombardeamento 
de Odessa», vaudcville em três actos, de Mendes Leal; am* 
bas estas peças foram representadas no Gymnasio. 

i855 foi anno. menos prouductivo para o theatro; no 
mez de janeiro appareceu: cA romã encantada», comedia ma- 
gica cm dois actos representada na Rua dos Condes; n'tòtm 
Eeça não era a musica toda original, contendo trechos popu- 
ires e de diversos auctores. cA mentira», comedia em aois 
actos representada no Gymna^o. 

O mez de março produziu: cSansão ou a destruição dos 
Philisteus», drama bibiico em 3 actos^ por José Romano, re- 
presentado na Rua dos Condes em 20 d*aQuetle mez. A par- 
titura contém dezesete números, consistindo em coros, baila- 
dos, marchas e harmonias» 

Uma bella compo.^ição de musica religiosa apresentou elle 
n'este anno de i855. Foram uns resjponsorios para quinta feira 
santa^ a quatro vozes e orchestra, leitos por encommenda de. 
D. Diogo de Pina Manique para com elles presentear o conde 
de Redondo (v. Redondo). Ha n-esses responsoríos um 
verso — Alieni in surrexenmt — a quatro vozes e quartettode 
cordas, que é um primor de estyio profuodamente religioso e 
um irrefiragavel testemunho de quanto elle sabia escrever cotíí 
a máxima correcção e sciencia, quando para isso lhe dava a 
volubilidade do seu extravagante caracter. 

Em i836 começou no theatro por arranjar á musica tirada 
de operas (coordenada^ como dizem hoje os arranjadores que 
não fazem outra coisa), para a revista cProgresso e Fossihs- 
mo», de Manuel Roussado, que se representou no Gycrinasio' 
em o de janeiro. Trabalho de copista, ao qual raríssimas vezes 
se entregava. Ao mesmo tempo escreveu musica original para 
a cTorre suspensa», comedia phantastica em 3 actos, repre- 
sentada na Rua dos Condes em 12 do mesmo mez e anno. 

Em 17 de junho representou-se no Gymnasio cA Filha 
do Ar», peça phantastica em 3 actos e prologo, de Joaquim 
de Oliveira, ornada de coplas, coros, bailados e harmonias, por 
Casimiro. A partitura é muito volumosa^ e na importância 
pertence-lhe o terceiro logar depois da «Batalha de Montereau» 

aj3h 



e do t Par de Luvas» • São principalmente notáveis o coro de 
introducção, i>ara sopranos com acompanhamento de harmo- 
nium* e os bailados ao segundo acto. 

Terminou o anno de i856 com a «Joven Guarda», come- 
dia militar em dois actos, representada no Gymnasio em 29* 
de outubro. Sobre o valor da musica d'e8ta não tenho noticia 
alguma. 

O anno de iSSt foi de ^andes amarguras para Lisboa; 
a febre amarella assolou a capital e quem poude fugiu, fechan- 
do-se portanto os theatros. 

Antes de se manifestar a epidemia subiu á scena no 
Gymnasio, em 7 de fevereiro^ «O cabo da cassarola», comedia 
phantastica em 3 actos do actor José Carlos dos Santos. Agra- 
dou muito, tanto a peça como a musica, composta por Casi- 
miro. 

Mas foi exactamente n'este triste anno que Joaquim Casi- 
miro apresentou a mais considerável e mais amorosamente 
escripta das suas obras primas : os responsorios para quarta 
feira santa. Tinha elle sido nomeado organista eíFectivo da Sé, 
e por esse tempo o deão D. José de Lacerda, testemunhando- 
Ihe a sua admiração pelo estro de que dava continuamente 
tantas provas, pedíu-lhe que completasse os oHicios da semana 
santa escrevendo uns para quarta feira que elle ainda não 
tinha composto. Casimiro, por um d^aquellcs impulso^ que 
por vezes o accomettiam arrebatando-o ás mais altas regiões 
da inspiração, possuiu- se de um enthusiasmo quasi louco ao 
ouvir as palavras sinceramente elogiosas do deão, e dedicou- 
se sofregamente ao trabalho. 

Esse trabalho, que representa o estado de espirito de um 
verdadeiro inspirado, sahiu uma completa mara^lna, adorável 
pela inspiração e admirável pela factura. E* sem duvida algu- 
ma o seu melhor titulo de gloria, uma das mais notáveis obras 
produzidas pela arte portugueza, um monumento, emfím, que 
attestará sempre a quem souber admiral-o ter sido Casimiro 
realmente um grande musico. A obra prima de Casimiro can- 
tou-se pela primeira vez em i5 de abril de iSbj. 

Produziu enorme sensação. Por felicidade tinha a Sé n'a- 
Quelle tempo bons cantores, principahnente rapazes com voz 
de soprano, discípulos do bom mestre Benavente. Um d'estes 
era o actual mestre da capella Carlos Araújo, que contava en- 
tão os seus doze annos e possuia uma bella e extensa voz, su- 
bindo até ao dó agudíssimo e vocalisado com admirável facili- 
dade ; para elle expressamente escreveu Casimiro um diíiícil 
solo — tioítum ercU ei — que é uma das mais sentidas melo- 
dias da partitura. 



No dia seguinte o jornal «Revolução de Setenobro» pu- 
blicou um artigo muito extenso e elogioso sobre esta primo- 
rosa composição e seu desempenho. 

Desde que pela primeira vez se apresentou nunca mais 
até hoje deixou de ser cantada no dia próprio, e naturalmen-: 
te continuará a cantar-se ainda por muitos annos ; attrahido 
pela fama. concorre sempre n'esse dia á Cathedral grande 
multidão de povo, e entre elle niuitos enthusiastas que ali vão 
constantemente como em romaria piedosa. Todavia a sua exe- 
cução actual está muito longe de ser satisfatória, e só por cila 
não é possivel fazer perfeita idéa de quanto vale. 

Toda ella é egualmentc admirável, mas os melhores tre- 
chos são os seguintes: a preza do primeiro responsorio — Spi- 
ritus quidem promptus — coro em estylo fugato, e o tercetto 
que se lhe segue — Vigilaie et orate; a preza do secundo res* 
ponsorio — Fas /m^oi» capietis — fuga a dois sujeitos muito 
bem escripta; a preza do terceiro responsorio — Cujus Itpore: 
sanati sumus — e todo o quarto responsorio incluindo o celebre 
solo — Bonum erat — que actualmente quasi sempre se sup* 
prime por não haver quem o cante. E' também de um effeito 
especialmente admirável e dramático a primeira parte do sex- 
to responsorio — Unus ex discipulis méis tradet me^^-t a sua- 
vissima preza que se lhe segue — Metius ille erat si naius non 
fuisset. Fmalmentc o quartetto do sétimo responsorio — Omnes 
amici mei — e todo o oitavo são de uma beUeza encantadora. 

Casimiro offereceu esta obra ao cabido da Sé, não obten* 
do d*ella outro proveito senão a gloria de a ter produzido ! 

O mesnio lhe succedeu com a ipaior parte das suas com- 
posições religiosas, jpelas quaes poucas vezes recebia alguma 
pequena remuneração» 

E a propósito vem dizer quaes eram os proventos, que 
elle tirava da musica que escrevia para o theatro : por uma 
simples copla levava dois pintos (960 réis), e nas peças ext^n* 
sas contava quatro pintos por cada folha de oito paginas, ou 
seja 240 réis por cada pagina. A partitura da «Filha do Ar», 
que é uma das mais volumosas, tem as folhas numeradas a. 
lápis, naturalmente para lhe marcar o preço ; essa numeração 
vae até 208 (incluindo as paginas em branco), podendo sup- 
pôr-se portanto que recebeu a totalidade de 49$920 réis por 
aquella obra. 

Em fins de 1857, quando a febre amarella estava quasi a 
çxtinguir-se, formou-se uma sociedade para explorar o antigo 
theatro do Salitre que estava abandonado. Era presidente -da 
assembléa ^eral d'essa sociedade o conde de Farrobo, tendo 
por secretano Júlio César Machado ; o director mais influen- 

255. 



te ena Francisco Palha, e entre os outros directores contava . 
se José Maria Chriístiaao, o amigo dedicado de Casimiro. 

Determinou-se que o theatro ficasse intitulado «Theátrd 
das Variedades». Francisco Palha e Joaquim de Oliveira, gue 
desde essa época ficou mais conhecido pela alcunha de 01i« 
▼eira das magicas, incumbiram-se de escrever uma peça ma^' 
gica cuja musica foi feita por Casimiro. Trabalhou-se activa-^ 
mente, e em i de fevereiro de 18&8 inaugurou-se o renovado 
theatro com a primeira reoresentação da comedia magica em 
ires actpsy cA Loteria do biabo». Fez época esta peça, e não 
concorreu pouco para o seu êxito a musica de Casimiro, sem- 
pre fresca, viva e graciosa. 

N'e8se anno escreveu musica para mais as seeuintes pe- 
ças : cO Mundo ás avessas ou o reinado das mulheres», co- 
media em dois aaos, nas Variedades em 19 de abril; «Quan- 
do nós éramos rapazes», comedia ení três actos, imitação por 
Júlio César Machado, Gymnasio; cAmor virgem n'uma pec- 
cadora», comedia em um acto por Bulhão Pato, D. Maria ; 
«Historia d'um pataco» , Gymnasio; «Amor joven n'um peito 
velho», D. Maria. 

ÍTO9 começou por um dos poucos arranjos feitos por 
Casimiro: «A Revista de i858», com musica de diversas ope- 
ras cantadas em S. Carlos n'aquelle anno ; representou-se nas 
Variedades em 6 de fevereiro. Em 12 do mesmo mez repre- 
sentou-se em D. Maria a comedia «Uma noite nas Calclas», 
para a qual elle escreveu só dois números de musica. Teve 
também a honra de coUaborár com Almeida Garrett na co- 
ndedia popular «As prophecias de Bandarra». 

As suas melhores composições theatraes de 1859 foram 
as conhecidas comedias: «Viveiro de frei Anselmo», «Por cau- 
sa de um par de botas», «Precisa se de uma senhora pára via- 
jar». Todas estas comedias teèm coplas lindas, que eram o 
encanto do publico n*aquelle tempo. 

Mais importante porém, pela quantidade e variedade de 
musicas, foi a «Corda de Carlos Magno», peça magica em qua- 
tro actos, representada pela primeira vez nas Variedades em 
26 de dezembro de 1859. Esta peça tem sido repetida em 
differentes épocas, mas com musica de outros auctorès ; a de 
Casimiro foi vendida para o BraziK 

De 1860 nada encontrei que registrar, com referencia ao 
theatro, mas da egreja ha a noticia de ter obtido uma bem 
merecida promoção: como fallecesse em 4 de setembro o 
mestre da capella da Sé, João Jordani, foi logo Camimiro 
promovido a esse logar. Rendia elle, como hoje, o ordenado 
de 3oSooo réis mensaes, quantia que para o nosso composi- 

2f6 



lor, habituado a viver de receitas adventícias e parcas, repre- 
sentava uma boa fortuna. 

i8Çi produziu somente o seguinte: «O cego vê...», co- 
media em um acto, com quatro números de musica, sendo o 
primeiro um bonito coro; cGrazielIa», drama n'um acto imi- 
tado de Lamartine. tendo seis números de musica, o primeiro 
dos quaes é um coro a quatro vozes sem acompanhamento e 
o terceiro uma taraniella; «O Astrólogo», drama de Andrade 
Corvo, com onze números de musica muito interessante, en- 
tre elles um- para órgão. Estas três peças representaram-se 
em D. Maria. 

1862 foi o uhimo da existência d*este grande artista. Pou- 
co produziu já ; tenho apenas noticia das comedias represen- 
tadas no Gymnasio «Os três inimigos d* Alma» e «Isidoro o 
vaqueiro». Também possuo a partitura autocrapha da musi- 
ca para o drama de Mendes ieal — «Egas Moniz» — repre- 
sentado em D. Maria pela primeira vez no dia 7 de outubro 
d'aquelle anno ; consta de coros, bailados e harmonias. Tinha 
tamoem uma bonita romança que um tenor chamado Miguel 
Carvalho cantava atraz dos bastidores em logar do Tasso 
(Egas Moniz) e que era sempre muito applaudida ; essa ro- 
mança estava escrípta n*um papel solto que se perdeu* 

Foi esta a uluma musica que Casimiro escreveu para o 
theatro. 

No mesmo anno executaram-se na «greja de S. Domin- 
gos os chamados oíiicios grandes da semana santa e uma 
missa de AUeluia, muito ruidosa más de pouco valor. Os oíii- 
cios foram executados por artistas e amadores, reunidos em 
numero enorme, perto de duzentos executantes entre instru- 
mentistas e cantores. Foi então que eu conheci Casimiro; ti- 
nham-me escolhido juntamente com outros rapazes alumrios 
do Conservatório para tomarmos parte no coro de sopranos, 
e a figura do inspirado musico fíxou-se-me na imaginação para 
nunca mais se apagar. Lembro-me perfeitamente d'aqueHa 
physionomia sympauiica de completa bonhomia, cujos olhos 
a^ucs e rasgados brilhavam por vezes com intenso fulgor, 
d^aquelles cabellos compridos, desalinhados e quasi completa- 
mente brancos como estrigas de linho, com seus reflexos aloi- 
rados recordando a primitiva cor ; lembro-me do lenço encar- 
nado, da caixa de rapé e formidável bengala virgem que elle 
trazia sempre comsigo. assim como me lembro das largas cal- 
ças amarellas e grande lenço enrolado em volta do pescoço. 
Sempre irrequieto durante os ensaios da sua composição, mas 
sempre de semblante prazenteiro e agradável, nunca se mos- 
trava descontente; só quem observasse a frequência dos assal- 
FoL. 17 ^ 257 



tos que elle dava á caixa do rapé c a força com c}uc puxava 
pelo nariz c que poderia avaliar as contrariedades intimas que 
o affligiam. 

Nunca tornei a ver um auctor tão satisfeito com a inter- 
pretração dada ás suas producções; tudo lhe parecia bem, 
tudo julgava caminhar optimamente, tendo sempre elogios 
para os interpretes c nunca reprimendas. Dir-sc-hia que na sua 
modéstia lhe parecia ser a execução superior á obra. 

Pobre Casimiro ! Como eras differente de tantos outros ! 

O seu ultimo trabalho foi a instrumentação de umas ma- 
tinas do Sacramento, compostas para órgão e quatro vozes 
por frei José Marques. Quiz o destmo que empregasse o resto 
das forças exhaustas n*uma obra d'aquelle mesmo que o en- 
sinou. 

A ultima vez que dirigiu foi no dia i de dezembro, por 
occasião de se celebrar na Sé, pela primeira vez e com grande 
pompa, o anniversario da independência nacional ; cantou se 
a missa d' Arruda e em seguida um Te Deum de Cossoul, a 
quem Casimiro attenciosamente oíTereccu a batuta para que 
regessse a sua composição. 

Estava a morte á porta. A febril actividade que sempre 
o dominava, a exahação do cérebro, os desgostos secretos, e 
também o desleixo e desregramentos, não lhe concederam mais 
um mez de vida. 

No domingo 28 de dezembro de 1862 extinguiu- se de 
todo aquella fulgurante luz. 

Habitava então na rua do Telhai, n.® i5, 3.** andar, d'onde 
sahiu o modestissimo préstito acompanhado apenas por alguns 
amigos e irmãos na arte; d'estes, os que tiveram voz para 
cantar em tão triste momento, entoaram-lhe sentidíssimo res- 
ponso ao baixar o corpo á sepultura. 

Singela e comovedora sccna! Quantos discursos valeu 
aquelle submisso cântico entrecortado de soluços! 

Três mezes depois cantou-se na cathedral uma missa so- 
lemne de requiem^ suflPragando-lhe a alma. 

Ao mesmo tempo José Maria Christiano tratou de obter 
alguns donativos para lhe erigir um modesto monumento no 
cemitério, conseguindo-o ao cabo de algumas fadigas. N'elle 
foram recebidos os restos do grande musico, realisando-sc a 
trasladação em 25 de agosto & 1864. Por essa occasião íize- 
ram-se lhe solemnes exeq^uías, recitando a oração necrologica 
o notável orador e escnptor Soares Franco, que tinha sido 
amigo e admirador de Casimiro. 

Concorreram a prestar homenagem á sua memoria os 
condes de Farrobo e de Paraty, Francisco Palha, D. Carlos 
258 



da Cunha Menezes, o deão D, José de Lacerda, Eduardo Coe- 
lho, e muitos artistas, entre elles Guilherme Cossoul. O jor- 
nal «Revolução de Setembro» publicou uma sentida noticia a 
este respeito, escripta por Eduardo Coelho, quQ no seu conhe- 
cido enthusiasmo pelas glorias do nosso patz enalteceu mais 
uma vez o mérito de Casimiro. Também pela mesma occasião 
escreveu o doutor Guilherme Centazzi uma poesia em honra 
de Casimiro, publicada no seu livro «Recreios poéticos» pagi- 
nas 148 e 149. N*essa poesia ha os seguintes versos: 

«Depois da vida a voz da fama soa, 
Morre da inveja o hálito nojento, 
Mil cultos chovem, mil adorações. . . 
Vê, Casimiro, como apoz três séculos 
Víctoriam Camões ! . . . » 

O tumulo onde estão encerradas rs cinzas d'aquelle que 
foi tão grande musico ergue-se no cemitério do alto de S. João, 
rua n.® i, jazigo n.° 353, próximo da capella. E' de forma sin- 
gela, mas elegante, tendo gravada no centro da moldura es- 
ta inscripção : 

JAZIGO 

DB 

JOAQUIM CASIMIRO JtJlílOR 

IMSIGNB COMPOSITOR B MESTRE DE CAPELLA 

DA SÉ PATRIARCHAL. 

NASCEU EM 30 DB MAiO DE 1808, 

B FALLECBU EM 28 DE DEZEMBRO DE 1862. 

O SEU VBRDADBIRO AMIGO 

JOSÉ MARIA CHRI5TUNO 

LHE MANDOU ERIGIR ESTB JAZIGO 

COM O PRODUCTO DE UMA SUBSCRIPÇÃO 

FEITA ENTRE ALGUNS PROFESSORES DE MUSICA 

E ADMIRADORES DO FINADO. 

LISBOA 25 DE.AGOSTO DE 1864. 

Por baixo tem um livro aberto com alguns fragmentos 
das obras primas do compositor ; actualmente porém já se não 
distinguem por terem sido apenas desenhados na superfície da 
pedra. 

A obra de Casimiro é enorme ; elle mesmo diz ter escri- 
pto noventa e sete peças de musica sacra e duzentas e nove 
partituras para theatro. Pode dar-se inteira fé a estes números 
porque Casimiro não era homem que faltasse á verdade. 

De todas essas composições considera elle suas cfílhas pre- 
dilectas» as «Matinas da Conceição», a «Missa d'Arruda», os 

259 



CA. 

«Officios» de quarta feira santa, o Stabat Mater e o aCredo» 
sem acompanhamento. 

Como já disse, eu estimo esta ultima como superior a to- 
das sob o ponto de vista technico. E* que realmente, ella cons- 
titue um bello exemplar do mais puro estylo polyphonico. O* 
primeiro andamento, que vae ate ás palavras desceudit de ccelis^ 
é uma fuga a dois sujeitos, de caracter solemne e melancóli- 
co, cm que as notas se ligam com a letra d'um modo tão na- 
tural e apropriado que se torna absolutamente digno do maior 
respeito para quem conhece as difficuldades vencidas. E a 
belleza esthetíca disputa primazias com a sciencia icchnica, 
porque poucos trechos de musica religiosa terão sido escriptos 
com mais profundo sentimento. O resto do Credo segue divi- 
dido em pequenos trechos, todos no mesmo estylo fugato e 
trabalhados com egual elevação. O contraponto dos antigos 
mestres da Renascença é aqui applicado com summa destreza, 
tornado mais vivamente colorido com as modulações da tona-» 
lidade moderna. 

Não é esta a única composição em que Casimiro empre* 
gou o estylo antigo ; tenho uma pequena missa e collecção de 
graduaes e offertorios que elle escreveu para todas as domin- 
gas de quaresma, a quatro vozes sem acompanhamento, em 
óptimo estylo de fabordão. Do mesmo género é outro «Credo» 
pequeno e fácil que se canta geralmente nas egrejas de Lis- 
boa em quinta feira santa, e um motete — Adoremus in ceter- 
num. 

Outra «filha predilecta» de Casimiro é a «Missa d' Arru- 
da». Esta é de todas a mais vulgarisada, e desde que apparc- 
ceu até hoje não deixou de se cantar frequentemente nas 
principaes festas de Lisboa. O nome teve a seguinte origem: 
na egreja matriz da villa de Arruda dos Vinhos realisa-se des- 
de tempos remotos uma grande festa a Nossa Senhora no dia 
i6 de agosto, á qual, no tempo de Casimiro e dirigidos por 
elle, concorriam muitos dos principaes músicos de Lisboa ; pa- 
ra essa festa escreveu elle uma novena e uma pequena missa 
cujos autographos devem existir no cartório d'aquella egreja, e 
em certo anno prometteu compor uma grande missa expres- 
samente para ser ali executada. Cumpriu a promessa, e a 
composição ficou por isso conhecida pelo nome da villa onde 
se executou pela primeira vez e continuou a executar-se du- 
rante muitos annos. 

Mas apezar da estimação em que o próprio auctor a tinha 
e do prazer com que é ouvida pelo publico, a missa d*Arru- 
da está longe de ser obra perfeita no conjuncto. Não só é de- 
feituosa pelas desegualdades de estylo que se notam nas diffc- 
260 



OA. 

rentes partes de que se compõe, mas também pelo abuso das 
formas theatraes e dos logares communs. A par doestes defei- 
tos capitães para a critica mas desapperccbidos do vulgo, con- 
tém no emtanto notáveis bcllezas e formosíssimos eflfeitos de 
instrumentação. E no meio do dcsegual conjuncto ergue-se 
uma verdadeira maravilha de arte e de inspiração, um d'a- 
quelles trabalhos que bastam para fazer considerar o artista 
que os concebe como um sublime inspirado. 

G)nsiste esse notabilissimo trabalho n'um larghetto em 
imitações entre os instrumentos de cordas, do meio das quaes, 
c em quanto ellas proseguem tranquillamente com a mais 
perfeita naturalidade, sae um solo de clarinette produzindo 
encantador effeito ; esta espécie de maravilhoso preludio con- 
duz a um enorme iutti em que o coro exclama imponente- 
mente : Domine DeiiSj Rex ccelestis! 

Não se sabe o que mais admirar n'este susprehendente 
trecho, se a felicidade da idéa se a forma grandiosa como foi 
desenvolvida. Ainda nenhum artista sincero ouviu tão formo- 
sa composição que não manifestasse o seu respeito pelo génio 
que a produziu. 

E todavia, lastima é dizei o: logo cm seguida vem uma 
ária vulgar, com recitativo, andante^ cabbaletla c todas as tri- 
vialidades da musica italiana em voga n*aquclla e'poca. 

Por isso a missa d*Arruda olfcrecc esta particularidade 
curiosa ao exame critico : constitue uma synihese do maior 
defeito de Casimiro — a dcscgualdadc ; esta traduz também 
uma feição particular do homem — a volubilidade, a inconse- 
quência. Elevando- SC por vezes ao sublime, trabalhando nos 
momentos de socego com inexccdivel arte, teve muitas occa- 
siões em oue escrevia ao correr da penna tudo quanto a phan- 
tasia agitada lhe ia dictando sem reflexão, e aproveitava todos 
estes productos necessariamente dcseguacs na qualidade, jun- 
tando-os ás vezes com lastimável desleixo. 

Diga-se porém a verdade : é este o defeito commum aos 
artistas que produzem muito. 

E dê-se também a razão porque na missa d'Arruda so- 
bresae tal defeito em tão grande escala : Casimiro tinha que 
apresentar a sua obra em determinado dia, e com tanta pre- 
cipitação a concluiu que nem os dois últimos trechos poude 
compor, aproveitando uns que anteriormente tinha feito. A 
escassez do tempo não o deixou por isso fazer um trabalho 
primoroso no todo, como indisputavclmcntc o é em parte. 

Tempos depois accrescentou-lhe para final uma grande c 
bella fuga, a qual poucas vezes se executa por ser difficil pa- 
ra as vozes. 

261 



Muitas outras composições que Casimiro não menciona 
entre as suas predilectas são todavia dignas de nota. Por 
exemplo, os aOfficios» para quinta e sexta feira santas, que se 
cantam ainda hoje. São elles escriptos todos com grande sen- 
timento e conteem trechos que, apczar da sua pequenez, são 
de superior belleza c notáveis pela propriedade com que a 
musica exprime a letra. 

O « Credo • chamado n.° 2 é também notável, assim co- 
mo é deliciosa uma Totapulchrãj cujo thema consiste no pró- 
prio cantochão. 

As cMatinas da Conceição», que elle entrega ao julga- 
mento da posteridade juntamente com as suas outras obras 
primas, são realmente encantadora^ pela abundância de lin- 
díssimos cantos e de ídéas pittorescas, mas não teem grande 
elevação de estylo e por isso não offereccm maior interesse á 
analyse. Está no mesmo caso o Stabat Mater^ se bem que 
deva especíalisar-se pelo sentimento dramático e exacta inter- 
pretação da letra. 

N*este ultimo ponto também se manifesta frequentemen- 
te c com a maior evidencia a desegualdade do singular cara- 
cter de Casimiro : umas vezes punha todo o esmero em se- 
guir o sentido da letra, traduzindo-a na musica com a maior 
propriedade de expressão ; ouiras vezes tratava o caso á ma- 
neira italiana do seu tempo, bordando cantilenas sem se preoc- 
cupar com o sentido das palavras. 

No que elle foi sempre irreprehensivel foi no respeito pe- 
la prosoaia d'essas palavras; fossem latinas ou porcuguezas, 
não se encontra na mais insignificante das suas composições 
um só erro em tal matéria, e pelo contrario, o observador mi- 
nucioso terá muitas occasiões de admirar .a naturalidade e es- 
crúpulo com que o accento grammatical se une á accentuação 
rythmica. 

A educação litteraria que recebeu e a viva íntelligencia 
de que era dotado deviam ter sido a causa d'essa esmerada 
correcção. 

Casimiro affirma o seguinte na sua autobiographia : «O 
couplet portuguez é meu fílho ; ninguém o tinha escripto as- 
sim antes de mim.» Com eifeito, a musica de canto que antes 
d'elle ornava as peças de theatro consistia, além dos coros, em 
árias e modinhas ; Leal Moreira e Marcos Portugal tinham si- 
do os mestres d'esse género. Depois de 1834 Emilio Doux fez 
conhecer o reportório francez e com elle os respectivos cou- 
pletSy os quaes Casimiro tomou por modelos para também 
crear uma forma especial sua. E creou-a^ porque realmente 
as coplas de Casimiro são assaz características; a par da gra- 

202 



ça c espontaneidade, brilham por um certo contorno melódico 
que especialmente as distingue. 

No que elle se enganou foi em lhe chamar couplet portu- 
tuguez, porque embora tivesse imitadores não checou a ga- 
nhar foros de nacionalidade. Poucos annos depois vem Offen- 
bach e todos os nossos compositores lhe seguiram no encalço. 

E' irnpossivel dar um catalogo completo das composições 
de Casimiro, porque muitas peraeram-se ou elle mesmo inu- 
tilisou, outras param em mãos desconhecidas. 

Limitar-me hei portanto a enumerar as que possuo, dan- 
do em seguida noticia de outras cuja existência conheço. Se- 
guirei a ordem chronologica nas que teem data. 

Musica sacra: 

I. — Missa para quatro vozes a solo, coro e orchestra, 
N.® 2. Autographo com data: 1829. {}) 

2. — Sub tuum prcesidium^ para quatro vozes e instrumen- 
tos de cordas. Partitura autographa, 7 de abril de i83o. 

3. — Miserere a quatro vozes com acompanhamento de 
dois fagottes e órgão. Partitura autographa, 18 de março de 
i83i. 

. 4. — Libera-me^ a oito vozes com acompanhamento de 
bhixo cifrado. Partitura autographa, 10 de maio de 1834. 

5. — Sub tuum prcesidium^ a quatro vozes e órgão. Parti- 
tura autographa, 19 de maio de 1834. 

6. — Te Deum laudamus^ a duas vozes (baixos) c órgão. 
Partitura autographa, 28 de maio de i835. 

7. — Novena de Nossa Senhora do Carmo, para três vo- 
zes com acompanhamento de piano, flauta, corne-inglcz e vio- 
loncello. Partitura autoerapha, 6 de julho de 1839. 

8. — Setenario de Nossa Senhora das Dores {Stabat Ma- 
ter inclusive), para três vozes e orchestra ou órgão. Partitura 
autographa, 4 de abril de i85i. 

9. — Terço de bemditos, ladainha e «Senhor Deus», pa- 
ra três vozes e orchestra ou órgão. Partitura autographa, 17 
de agosto de i85i. 

10. — Novena de Nossa Senhora do Resgate, para quatro 
vozes e orchestra. Partitura autographa, 1860. 

11. — Credo para quinta feira santa, a quatro vozes sem 
acompanhamento. Partitura autographa^ 2 de março de 
i856. 



(O B* a míMB que se executou em i83q na festa em honra de D. Miguel e em i83i na 
festa de Santa Cedlta, como deixei mencionado' em pagina 344; quando eKrevi aqoellas linhas 
ignorava que ainda existisse essa missa, mas sabendo depois em que máos ella parava, adqui* 
n-a. De resto, abstrahind* o valor histórico e bibliograpnico cm que eu a estimo, o seu valor 
artístico é nuilo por ser omi obra de principiante. 

263 



12. — Kyrie c Gloria para quinta feira santa, a quatro vo- 
zes com acompanhamento de órgão. Partitura autographaj 27 
de julho de i856. 

i3. — Miserere a três vozes e pequena orchestra. Parti- 
tura autographa, i3 de março de i856. 

14. — Terço de bemditos a três vozes e órgão. Partitura 
autographa, iSSj. 

i5. — Ladainha a três vozes e órgão. Partitura autogra^ 
pha, II de dezembro de i858. 

16. — Novena de Nossa Senhora do Castello, a três vo- 
zes e pequena orchestra ou órgão. 1862. 

17. — Missa a quatro vozes e orchestra (denominada t Mis- 
sa d* Arruda»). 

18. — Credo a quatro vozes e orchestra. 
19. — Missa a três vozes e orchestra. 

20. — Credo a quatro vozes e orchestra. N.<> 2. 

21. — Pequena missa e credo a duas vozes e órgão. Par- 
titura autographa. 

22. — Missa de AUeluia, para quatro vozes e grande or- 
chestra* 

23. — Missa a quatro vozes sem acompanhamento^ para 
as domingas de quaresma. Graduaes e oífertorios para todas 
as domingas. Partitura autographa. 

24. — Missa a três vozes sem acompanhamento. 

25. — Officios què se cantam em quarta feira da semana 
santa, para quatro vozes e orchestra. 

20. — OflBcios que se cantam em quinta feira santa, para 
três vozes e pequena orchestra ou órgão. 

27. — Officios que se cantam em sexta feira santa, para 
três vozes e pequena orchestra ou órgão. 

28. — Lamentação qte se canta em quinta feira santa, pa- 
ra trcs vozes e pequena orchestra. 

29. —Lamentação que se canta em sexta feira santa, para 
três vozes e pequena orchestra. 

3o. — Officios a quatro vozes e órgão, para sexta feira 
santa. 

3 1.— Officios a quatro vozes e órgão, para sexta feira 
santa. 

32. — iMiserere a 4 vozes, i flauto, 2 clarini, i tromba a 
chiavi, 2 corni, 2 fagotti, 1 trombone, 2 viole, organo, violon- 
cello e basso.» Partitura autographa. 

33. — Miserere a quatro vozes e grande orchestra. 

34. — Miserere a três vozes e pequena orchestra. 

35. — Matinas de Nossa Senhora da Conceição, para qua- 
tro vozes c orchestra. 
264 



36. — Matinas de Santo António, para quatro vozes e or- 
chestra. 

37. — Matinal de S. Pedro, a quatro vozes e órgão. 

38, — Trezena de Santo António, a quatro vozes e pe- 
quena orchestra. 

39. — Novena do Menino Jesus, a três vozes e órgão. 
Partitura autographa. 

40. — Novena de Nossa Senhora da Conceição, a três vo- 
zes e orchestra. 

4í. — Novena de Nossa Senhora do Carmo, a três vozes 
e orchestra. 

42. — Novena do Santissimo Coração de Maria, á três vo- 
zes e órgão. 

43. — Novena de S. Nicolau, a quatro vozes e órgão. 

44. — Quisedes^ duetto de soprano c contralto com acom- 
panhamento de órgão. 

45. — Hymno da novena de Santa Quitéria de Meca, pa- 
ra três vozes c orchestra. Partitura autographa. -' 

46. — Libera- me^ a quatro vozes e órgão. Partitura auto- 
grapha. 

47. — Terço de bemditos^ a quatro vozes e orchestra. 
Partitura autographa. 

48. — Ladainna, para três vozes e orchestra. Partitura auj» 
tographa. 

49. — Novena de Nossa Senhora do Castello (na villa dfc 
Coruche), para três vozes e órgão. 

5o. — Ecce Sacerdos magrtusj a trcs vozes e órgão. 

5i. — Ave Maria, a três vozes e orchestra. Partitura au- 
tographa. 

52. — Adoremus in ceternum^ motete a quatro vozes sem 
acompanhamento. 

d3. — Te Deum laudamus^ a três vozes e pequeAa or- 
chestra. 

Composições que não possuo mas sei que existem : 

54. — Officios para quinta feita santa, a quatro vozes e 
orchestra, feitos expressamente para o conde de Redondo. 

55. — Officios para quinta feira santa, a quatro vozes e 
grande orchestra (cnamados «officios grandes»). 

56. — Idem, para sexta feira santa. 

57. — Missa para a noite de Natal, a quatro vozes e or- 
chestra. 

58. — Matinas de S. Vicente, a quatro vozes e orchestra. 
69. — Novena de Nossa Senhora da Salvação, a trcs vozes 

c órgão. 

60. — Novena de S. João Baptista, a três vozes e órgão. 

265 




s.-^ 

f 



O-A. 



6i. — Novena de S. Luiz Gonzaga, a tres vozes c órgão. 
è^: . 62. — Hymno de Noa, a quatro vozes e órgão. 

f 63. —Padre Nosso, Ave Maria q Gloria Palri, a quatro 

t vozes e órgão. 

64. — Idem, a tres vozes c órgão. 
;:. 65. — Beneaictus e Cknstus jactus esi^ a tres vozes sem 

acompanhamento. 

Musica de theatro (tenho a maior parte): 

1 . — «A Batalha de Montereau», opera cómica. 

2. — «Um par de luvas», farsa. 

3. — f Ópio e Champagne», opereta. 
Peças magicas : 

4. — «A Filha do Ar». 

3. — «A romã encantada» (parte da musica não é original y 

6. — «O Cabo da Cassarola». 
!. . 7. — f A Lotería do Diabo». 

^ õ. — tParaiso. Terra, Inferno». 

9. — «A Coroa de Carlos Magno». 

10. — fA Torre suspensa». 

Dramas com coros, oailados e harmonias: 

11. — «Sansão». 

12. — cO Astrólogo». Drama de Andrade Corvo. Contém 
onze números de musica interessante, só para orchcstra (me- 
lodramas, ouy como vulgarmente lhes chamam, harmonias); 
um d*esses números é para órgão e tem o caracter apropria- 
damente religioso. 

i3. — cMagdalena. Dois coros, sendo um com coplas. 
\ 14. — « Egas Moniz » . 

Comedias, farças e vaudevilles, com coros, árias, coplas^ 
etc: 

i5. — iO Peão fidalgo». 

16. — «O Medico da nova escola». 

17. — «Peccados velhos». 

18. — fO Granadeiro Pru*ssiano». 

19. — «Um aguaceiro». 

20. — «A Coroa de louro». Tem um coro de escolares, 
com acompanhamento de órgão e flauta, composição graciosa. 

21. — «Trabalhos em vao». 

22. — fO Misanthropo». 

23. — fO homem das botas». 

24. — «Miguel o Torneiro». 

25. — cFraquezas humanas». 

^ 26. — «Por causa de um algarismo». 

r 27. — «O juiz eleito». 

t 28. — «Nem turco nem russo». 



29. — «O bombardeamento de Odessa.» 

30. — tO Grumete». 
3i. — «A Mentira». 

32. — fA Jo^en Guarda». 

33. — «O Mundo ás avessas». 

34. — «Quando nós éramos rapazes». 

35. — «Amor virgem n*uma peccadora». 

36. — «Historia oe um pataco». 

37. — «Amor joven n'um peito velho». 

38. — «Prophecias do Bandarra». De Garrett. Tem dez 
números de musica, coros e copias, sendo dois d*elles sem 
aconipanhamento. Possuo a partitura autographa. 

Í9. — «Viveiro de frei Anselmo». 

40. — «Precisa- se de uma senhora para viajar». 

41. — «Um marquez feito á pressa». 

42. — «Os três inimigos d' Alma». 

43. — «bidoro o vaqueiro». 

44. — «A viuva de quinze annos». 

45. — «Não tenham lá padrinhos», 

46. — «O cerco de Tetuão, 

47. — «Lisboa á noite». Contém uma cantiga popular sem 
acompanhamento, muito caracteristica. 

48. — «A mulher de três maridos». Contém três peças 
concertantes para dois sopranos, dois tenores e doiS' baixos. 

49. — «Receita para curar saudades». 

50. — «O Pintasilgo». 

5i. — «Graziella». Tem um coro para quatro vozes sem 
acompanhamento e uma tarantella para orchestra. 

52. — fUm sonho em noite de inverno». Tem uma gra- 
ciosa barcarolla para coro. 

53. — «Quem apanha um militar». 

54. — «XJltima aescoberta de um chimico». 

55. — «A Pedra das Carapuças». Comedia de Joaquim 
da Costa Cascacs. Contém varias coptas com musica de cara- 
cter popular muito habilmente imitada; uma marcha, bailado 
e varias harmonias. 

56. — iAs três visinhas». 
57.— «Uma comedia á janella». 

58. — «Precisa-se de um creado de servir.» 

59. — «O Pomo da discórdia». 

60. — «O Cego... vê?». 
61.— «Um naturalista». 

62. — «A Marqueza de Tulipano». Tem um coro com a 
seguinte curiosidade burlesca: no palco tocam um flautim, um 
clarinette e três sinos afinados em fa, sol e si bemol. 

267 



CA 

Deixo de mencionar muitas outras comedias (mais de 
trinta) cuja musica possuo, mas que é insignificante, consis- 
tindo apenas em uma, duas ou três coplas. Também de mui- 
tas outras peças não consegui encontrar noticia. 

Entre as pequenas composições di/ersas de Casimiro, 
mencionarei as seguintes: uma abertura para a peça «Revista 
do século XIX», que se representou em D. Maria; uma aber- 
tura burlesca, para o carnaval, sobre motivos populares ; uma 
abertura pastoral para a noite de Natal; uma canção em hes- 
panhol — La Natanjera — cuio autographo possuo; o «Hymno 
dos Lavradores» para a poesia de Castilho com este titulo c 
que foi publicado nas tEstreias poetico-musicaes»>; uma polka 
para piano, publicada pelo editor Sassetti, o qual também pu- 
blicou algumas quadnlhas de contradanças que elle arranjou 
de diversas operas; uma mazurka para pequena banda mili- 
tar; uma sonata para piano a quatro mãos. 

Supponho que Casimiro começou a compor uma opera e 
rasgou depois o que já tinha composto, como fez a muitas 
outras das suas producções; entre os autographos que d*elle 
tenho encontrei diversas folhas fragmentadas, pertencentes a 
uma partitura cujo frontespicío diz: «Scena e Cavatina neiropera 
Ludro». O titulo está mal escripto, quasi incomprehensivel, 
talvez de propósito; a letra menciona o nome de «Ludovic». 
Seria o libretto extrahido da opera «Ludovic» de Harold e 
Halévy? 

Quando eu era alumno do «Asylo da infância desvalida» 
na rua dos Calafates (onde a caridade me ministrou a maior 
parte da instrucção que recebi do auxilio alheio), cantava coríi 
òs meus pequenos condiscípulos um coro com letra de Casti- 
lho, cuja primeira estrophe e respectivo canto conservo per- 
feitamente na memoria : 

«Deixae vir os peaueninos 
Christo mesmo o fiez saber^ 
Quem no mundo nSo esmola 
No outro mundo se ha de haver.» 

Tinha então os nieus seis annos. Muito tempo depois 
soube que o auctor d'esse canto que me alegrou a infância 
tinha sido justamente o musico portuguez cujo génio eu hoje 
mais admiro e cujo valor, quasi ignorado por ui>s e malevola- 
mente desprezado por outros, tomei a peito tornar tão evi- 
dente quanto me tosse possivel. Está-me no animo reparar 
todas as injustiças que possa, porque sei quanto ellas pezam. 

Falarei agora do homem; mteressa isso á apreciação rígo- 
í68 



rosa das suas obras porque n^ellas se reflecte não só o seu 
intimo sentir mas também os hábitos do seu viver. 

Começo por notar que da própria autobiographia escre- 
veu elle primeiramente um rascu.iho que ampliou e não repro- 
duziu com exactidão quando o passou a iimpo, O escripto 
definitivo foi o que trancrevi e tinha sido publicado na «Revo- 
lução de Setembro» em 1864; o rascunho foi mais tarde en- 
conu-ado pelo irmão, Gabriel Casimiro, e publicou-ae no jornal 
«Ecco Musical» em 1873. Não tinha data nem assignatura, e 
algumas phrascs foram transcriptas approximadamente porque 
as palavras eram indecifrav^eis. Por i>so também ha certas 
diverg[encias, aliás de pouca monta, nas duas versões ; mas na 
primeira lêem se phrases que elle omittiu na segunda e teem 
certa importância. Vou reproduzil-as. 

. Depois de se queixar de não ver o seu trabalho condigna- 
mente recompensado e de occupar.um logar que apenas lhe 
rende quatorze mil e quatro centos réis mensaes íera o logar 
de organista da Sé, porque não tinha sido aínaa nomeado 
mestre da capella), accrescenta: 

«Permitta-se este desafogo a cjuem já cantado de ser menospresado 
entrega ao papel queixas c|ue jamais faria em sua vida, certo de qge. ellas 
só podem apparecer e ser julgadas sobre a minha sepultura* 

A minha vida privada foi sempre um composto de circunstancias 
contraditórias» 

O primeiro d'estes períodos merece conservarnsc como 
testemunho da modéstia e dignidade de Casimiro; o. segundo, 
levanta uma ponta do veu da sua vida exterior, ou antes, re- 
vela-a plenamente n*estas simples palavras: «foi sempre um 
composto de circumstancias contraditórias.» 

Com eifeito, nada mais contraditório : realista ferrenho, 
ligou-sc em. estreita amisade com um ardente liberal — José 
Maria Christiano — que serviu no exercito» constitucional e to^ 
mou larga parte nas agitações populares que houveram até 
1847; religioso sincero, a sua vida domestica foi irregular e 
condemnavel; intimamente melancholico por se ver desprote- 
gido da sorte, buscava com avidez e sem escolha toda a espé- 
cie de prazeres, apparentando a mais doida alegria. — Apenas 
um signal poderia dar a conhecer o luto que essas ostentosas 
apparecencias occultavam: era o sorriso sardónico que por 
vezes lhe encrespava os lábios e os ditos mordazes que lhe 
escapavam no meio das animadas palestras. 

A sua vida de bohcmio incorrigivel deu óptimo pasto á 
maledicência dos que não podiam soSrcr-lhe o talento. 

£ elle prestava negligentemente o flanco aos ataques trai*. 

369 



O-A. 

çoeiros, não se dando por sentído nem se resguardando com * 
a capa da hypocrisia. Este vicio nunca lhe pesou na consciên- 
cia. 

Compararam Casimiro com Bocage. Ha effectivamente 
entre o poeta e o musico pontos de notável simiihança : a 
espontaneidade do talento; a desegualdade de producção; a 
vivacidade do caracter; o desregramento da vida; o fundo 
de bons e generosos sentimentos manifestando-se nas melho- 
res obras produzidas. 

Também o logar de Casimiro na musica não deve ser 
inferior ao de Bocage na poesia ; um e outro tiveram eguaes 
rasgos de génio, um e outro tiveram defeitos idênticos na orí- 
gem. Casimiro comprazia-se, como Bocage, nos applausos da 
multidão e deixava-se levar pelas instigações dos companhei- 
ros das patuscadas; d'aauí a producção visando o sosto do 
vulgo. Casimiro, como Bocage, luctou com a falta de meios 
e piara os obter trabalhou muitas vezes precipitadamente; 
d*aqui as obras supecficiaes, sem outro valor artistico senão o 
da natural e espontânea inspiração, nem sempre bem equili- 
brada. 

Só uma differença, e essa em favor de Casimiro : não era 
violento nem se desforçava do$ inimigos ; se as inepcias que a 
seu respeito se escreveram depois de morto o tivessem en- 
contrado vivo, falo-hiam rir muito. 

Prestou serviços aos seus coUegas como ellc mesmo diz 
com inteira verdade ; exerceu diversos cargos na Associação 
Musica 24 de Junho, da qual foi um dos fundadores, na Irman- 
dade de Santa Cecilia, Monte-pio Philarmonico e Academia 
Melpomenense, trabalhando com zelo pela causa commum. 

Para completar a biographia d*este musico de tão grande 
valor, vou reproduzir os períodos mais importantes do artigo 
que sobre a sua vida e caracter escreveu José Romano ; este 
cantor e escriptor conviveu muito com Casimiro, era dos seus 
Íntimos, e por isso a descrjpç^p que elle faz é interessante e 
absolutamente verdadeira. 

«Pobre Castniiro 1 

No seu tempo em moda os rapazes serem doidos, e elie foi-o : -— 
Doido sublime 1 

E que mais sublime doidice do que a do génio ? 

Na sua casa, na sua mesa, no seu trajar se lhe encontrava a mesarta 
desegualdade das suas composições. 

A musica, as mulheres e as flores constituíam a trindade da sua ido- 
latria. Dava a uma a cabeça, ás outras o coração e ás ultimas os cuidados. 
A alma reservou- a sempre toda inteira para Deus. 

Quem pela manhS procurasse Joaquina Casimiro tinha a certexa de 
o encontrar sentado ao seu piano de Astor, de que elle próprio noi fa- 
270 



O-A. 

lou, OU entre as flores do seu quintalinho transformado por elle em jar- 
dim e por suas próprias mios amanhado, (i) 

Ora este piano de Astor, a que elle parece referír-se com summo 
orgulho, era um movei digno de ser descripto. Para qualquer outro, este 
famoso instrumento era um instrumento impossível ; para Casimiro era 
uma orchestra completa, um mundo de harmonia. 

O soberbo instrumento tmha o quer que fosse d*anal')So com o ins- 
trumentista. O que n*um tinha sido frescor e viço da mocioaJe, e no ou- 
tro verniz e polimento haviam de ha muito desapparecido ; o rosto do 
homem, bem como o aspecto do movei, àccusavam os precoces estragos 
do tempo ou do muito labutar. Se a fronte do artista se via sulcada de 
rugas, o folheado do piano estava toJo atravessado de riscos. Um e outro 
revelavam vetustez prematura. Mas, sem embargo, ambos elles, homem 
e piano, se mostravam risonhos e despreoccupados. Casimiro nunca fe- 
chava a boca onde já faltavam alguns dentes ; o piano nunca fechava o 
teclado onde ja faltavam algumas teclas. Dir-se-hia que se conservavam 
n\im permanente sorriso. A única differença notável que existia entre os 
dois é que ao piano havia cabido um pé, e o pianista conservava, vigoro- 
sos ambos os seus. 

O piano de Joaquim Casimiro accumulava as funcçôes de instru- 
mento, mesa d*almoçOy secretária e guarda fato. 

Que piano e que homem! 

Não sabemos se Joaquim Casimiro, como elle próprio confessa, vi- 
via desgostoso ; nós nunca o vimos triste. 

Encontrámos sempre n'elle ufn sorriso e uma desenvoltura qittii 
permanente. Raras vezes o vimos aerío, e ainda mais raras zanguéot. Do- 
tado de uma actividade pasmosa, de corpo e de espirito, passava por in- 
constante e leviano, e para muitos por... doido! A sua inconstância, a 
sua dk)tdice, porém era a vivacidade do seu génio, a ebuliçio d*aquelle 
estro que o nao deixava socegar. 

Preferia andar a pé a andar a cavallo ou de trem. Por vezes o acom- 
panhamos da Arruda a Alhandra a pé, tendo aliás óptimos transportes á 
nossa disposiçSo. 

Tinha discípulos ao Campo Pequeno e ao Lumiar, mas nunca en- 
trou no omnibus para lhes ir dar as suas lições. Algumas vezes apresen- 
tava- se em casa das suai discípulas á meia noite e depois d*ella, sem se 
quer pensar nj inconveniência da hora, e — caso notável ^ era sempre 
bem vindo embora a discipuh, que, já estava para se metter na cama, ti- 
vesse de ae vestir e preparar para lhe Vir tomar a lição I 

Joaquim Casimiro não repáVava n*essas bagatellas. Para elle não 
havia dia nem noite : n*aquelle cérebro, illuminado pelo fogo da inspira- 
ção, irradiava sempre a luz. 

Nas suas composições, no seu vestuário e no seu viver, tudo era vo- 
lubilidade e capricho. Nada o ineommodava. 

Procuremos dar uma idéa das feições, do trajar e do viver d*est9 
celebre artista. 

Era pouco mais de meão d*estatura; ossudo mas não fornecido de 
carnes, robusto sem ser musculoso. Tez alva e rosada, fronte desassom- 
brada e espaçosa; olhos azues e muito rasgados; nariz ligeiramente arre- 



ei ) M«r«tt âlgont aiuot dt rua do Carrí2o, primeiro andir da casa que tem l^ojeo n * 34 
e comprebende rnii quinul com ubida pela rua da lisperança, eomo outras cauí convlsiohat. 

271 



bitado, como o de Sócrates; boca um pouco grande, lábios grossos e hú- 
midos, sendo o inferior bastante descanido o que lhe dava á physionomia 
um ar de bonhcimia e, porventura, d'indolencia; as faces cavadas, e corta • 
das por sulcos perpendiculares, mais contribuíam para essa expressão. Ca- 
simiro não usava barba. 

O modo de trajar de Joaquim Casimiro estava em perfeita relação 
com o seu viver. As cores claras eram as suas predilectas. O sçu fato na* 
bitual consistia n*uina calca de cotim ou casimira cor de grão; sobrecasa- 
ca azul ou verde; collete a'acolchoadinho riscado de branco e cor de ca- 
nella; gravata de lã azul com raminhos bordados, que, dando-lhe volta no 
pescoço ia esconder as pomas nos cozes das calças; botas grossas e com 
saltoj^ * muito rasteiros; chapéu alto de seda preta; bengala muito alta e 
muito grossa de canna da índia, com uma enorme ponteira de ferro, o que 
lhe dava uns certos ares de oilicial de diligencias ou pimpão de arraial. 
Pois, não obstante, Casimiro nasceu,, viveu e morreu o ente mais inoífea- 
sivo d*este mundo. Não era homem de barulhos, e muito mj^nos de bri- 
gas. N'aauella alma não havia ódio, nem maldade, niem inveja, nem ne* 
nhuma d essas ruins paixões que levam os homens aos últimos extremos; 
todo elle era mansidão e descuido. 

A principal das suas virtudes era a fé, a crença sem ostentação nem 
fanatismo. Não revelava as exterioridades da hypocrisia nem as suscepti- 
bilidades dos beatos. Quando, em reunião de que íiiesse parte, a conver- 
sação cahia sobre matéria religiosa e as idéas expendidas começavam a 
mostrar-sè menos orthodoxas ou licenciosas, oão as combatia; disfarçava, 
e a£fastava-se sem dar logar a que fosse notada a sua ausência.» 

(«Ecco M^usicaU, 1873, n.«" 8 e 9.) 

Existem ainda duas filhas de Joaquim Casimiro, uma le- 
gitima e outra natural. 

A filha legítima é D. Carlota Joaquina Faria, hoje viuva, 

3uasi cega e reduzida a extrema pobreza, vivendo da carida- 
e; a filha illegitima é a talentosa escriptora e poetisa D. An- 
gelina Vidal. 

Como elle nunca tivesse consentido em que o retratas- 
sem, depois do seu fallecimento o scenographo Barros dese- 
nhou-lhe de cor o perfil, e esse desenho, que apezar de incor- 
recto dá uma idéa muito apropriada das mais características 
feições de Casimiro, foi passado á Iithof^aphia e publicado 
p^ía officina Lopes da rua dos Martyres. 

Ha também reproducçõcs photographicas da mesma li- 
thographía. 

Ceccoli. Appcllido de trcs cantores italianos que fa- 
liam, parte da Capella Real nos fins do século XVIII. João Bí^- 
Etista Ceccoli foi mestre da capella, fallecendo em 1796. De 
ruíz Maria Ceccoli e Thomaz Maria Ceccoli (talvez filhos), 
existem no cartório da Sé diversas composições — psalmos, 
antiphonas, missas, etc. — todas a quatro vozes e orgao. Al- 
gumas ps^rtituras de Thomaz Maria teem as datas de 1777» 
27a 



1778 e 1779. Um d'elles seguiu a Corte na emigração para o 
Brazil em 1808 e lá falleceu. 

Celestino (António Maria). Excellente cantor com 
voz de barítono. Nasceu em Lisboa cerca de 1824 e appren- 
deu musica na aula da Sé, onde teve por mestre Gomes Pin- 
cettí. Foi moço do coro em quanto conservou a voz de so- 
prano, e tendo-se-lhe rapidamente desenvolvido na época 
própria uma bellissima voz de barítono, passou ao quadro dos 
cantores. Assignou o livro de entrada na Irmandatle de Santa 
Cecília em 1 3 de março de 1843. Em 1844 o emprezario do 
theátro de S. Carlos, António Porto, que conhecia Celestino e 
coraprehendeu que cUe se podia tornar notável artista, escri- 
ptufou-o n'aquellc theatro. 

A sua estreia em scena como cantor solista teve logar 
em i5 de janeiro de 1845, desempenhando um dos particht- 
nos da «Lucrécia Borgia?). 

No verão d*esse anno fez também parte da companhia 
lyrica do Porto como segundo baixo, conservando-se d'ahi 
por diantCv até 1862 com pequenas interrupções, no theatro 
de S. Carlos e fazendo repetidas temporadas no Porto. A sua 
reputação cresceu rapidamente. Ajudava-lhe a magnifica voz 
um bello ouvido, prompta memoria e a educação rudimentar 
adquirida na aula da Sé, tão rara nos cantores improvi- 
^dos. 

Em março de i853^ tendo adoecido de repente o primei- 
ro baixo da companhia DairAste, e estando annunciada a re- 
presentação do aErn^ni» em que este cantor desempenhava 
muito bem a parte de «Silvat naquella opera, Celestino pre^- 
.tou-«e promptamef)te a substituil-o e de tal modo se houve que 
-despertou geral admiração e frenéticos applausoB. 

Desde então ficou considerado indispensável. e os elen- 
chos davam^lhe a classificação de «baixo comprimarío e sup- 
plemento». Esta obrigação de ser supplemenlo desempenhava-^ 
eUe com pasmósa facilidade, .supprindo todas as faltas dos pri- 
meiros cantores, fossem barítonos ou baixos, porque a. siia 
extensa voz a tudo se prestava ; e é de notar que as doenças 
se tornaram pouco frequentes, porque, o confronto nem senb- 
pre era vantajoso para o substituído. 

EUn i85o, estando o theatro do Gymnasio em competên- 
cia com o de D Fernando na exploração da opera cómica, 
attrahiu a si Celestino para que elle desempenhasse os papeis 
principaes em algumas peças; efiectivamente cantou n'aqueUe 
theatro, com enorme êxito, o «Chalet» c a «Giralda» de 
Adam, tomando tambeni parte na celebre parodia «O Arida- 

FoL. 18 272^ 



dor das Almas», que n'esse anno se representou pela pri- 
meira vez. 

Em setembro de i853 teve um grave desgosto domestico 
(^ue o levou a ausentar-se repentinamente. Publicou essa no- 
ticia a «Revista dos Espectáculos», nos seguintes termos: 

«O baixo comprimarío e supplemento António Maria Celestino, des- 
appareceu de Lisboa. Dix-se que tugiu para Hespanha e ignora-se o mo- 
tivo da fuga.» 

Receberam-n'o de braços abertos na companhia lyrica 
que n'cssa occasiSo funccionava em Sevilha, e ahi cantou com 
extraordinário cxito, até abril de 1854, desenipenhando os pa- 
peis de primeiro barítono na «Sonâmbula», «Rigoletto», «Tro- 
vador >• etc. Depois regressou a Lisboa e voltou para 
S. Carlos. 

Em 1861 associou-se no Porto com Sá Noronha para ex- 
plorarem o theatro Baquet com uma companhia de opera có- 
mica portugueza. Noronha ensaiava as primeiras partes e di- 
rigia, Celestino incumbia-se dos principaes papeis; para en- 
saiar os coros chamaram o diligente José Cândido, óptimos, 
directores technícos, mas péssimos administradores e dispon- 
do de fraquíssimos elementos; primeira dama da companhia 
era a actriz Carolina Falco, a quem Celestino, dando^lhe a 
mão esquerda visto ter ficado aleijado da direita, elevou, de 
bailarina que ella tinha sido, á categoria de cantora sem toda- 
via lhe poder dar a voz necessária. 

Passado muito tempo em longos preparativos, consegui- 
ram afinal apresentar, em 6 de julho d aquelle anno, o «(«ha- 
let» e depois o t Dominó preto», obtendo excellente êxito. 
Mas a dimculdade de crear reportório tornou-se invencível e 
apenas poderam dar mais o «Fra Diavolo» em 3o de agosto. 
A empreza^ embora muito elogiada pelos jornaes, dissolveu- 
se no principio de setembro. 

Escripturado para fazer parte da companhia lyrica no Rio 
de Janeiro partiu Celestino para ali em abril de i863. Depois 
seguiu para Buenos Ayres, Montevideo e outros pontos da Ame- 
rica do Sul, sendo em toda a parte festejadissímo. Em Buenos 
Ayres, a colónia portugueza offereceu-lhe uma enorme coroa 
de prata com as armas de Portugal formadas de rubis e dia- 
mantes, tendo na inscrípção a data de 2 de setembro de 1864; 
na mesma occasião a loja maçónica italiana mandou cunhar 
uma medalha de oiro em sua honra, com esta legenda: AW 
III. • . Frat. • . A. M. Celestino^ in occasione dei suo befieji^io. 
1864; e no verso: L. • . Cap. • . Unione Italiana ai Ch\' . <U 
Buenos A^es. 
274 



Em digressões artísticas pela America passou alguns an- 
nos, volvendo varias vexes ao Rio de Janeiro, até que cm 
1871 uma grande djesgraça lhe cortou de repente a existência, 
justamente quando se achava no ponto culminante de uma 
carreira brilhaniissima. Chegando á janella do hotel cm que 
habitava n'aquella cidade, um preto atirou-lhc da rjua com 
uma garrafa ferindo-o mortalmente na testa. Constou que o 
assassino tinha sido assalariado por um pretendente á amante 
que elle tinha n^aquella occasião e que era uma cantora 
franceza. 

Celestino tinha dois filhos legitimos que solicitamente edu- 
cou, tendo sido alumnos do nosso conservatório em quanto 
se conservaram em Lisboa; o mais velho, chamado Carlos, foi 
bom violinista e estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Do mais 
novo trata o artigo seguinte. 

Oelestino JTuLtiior {António Maria). Filho do pre- 
cedente, nasceu era Lisboa em i85o. Estudou rudimentos de 
musica e princípios de piano no conservotorio, interrompendo 
os estudos regulares para seguir com o paepara o Brazil. Ahi 
continuou porém a estudar, mais ou menos regularmente, 
apresentanao-se em vários concertos. Adquirindo reputação de 
bom pianista e musico de natural vocação, estabeleceu-se em 
Buenos Ayres, onde se tornou muito estimado desempe- 
nhando habilmente as fun:ções de director d^orchestra. 

Mas começou a dar se á vida bohemia, e pouco a pouco 
perdeu a consideração que disfructava. Escripturando-se como 
director de orchestra n'uma companhia lyrica ambulante, che- 
gou á cidade da Bahia Blanca, na republica Argentina/ onde 
essa companhia se dissolveu. Esgotados os recursos e cabido 
cada vez em maior desgraça, atacado pelo terrível castigo 

S|ue o álcool inflige aos ?eus adeptos — o delirium tremem — 
oi recolhido no hospital d'aquella cidade onde falleceu mise- 
ravelmente em 28 de março de 1893. 

O.elestino (Padre Ignacio /l;//owioy. Mestre de- capei- 
la e chantre na Sé de Évora, durante a primeira metade do 
século XVIIL Foi discipulo e successor do notabilissimo mes*- 
tre Diogo Dias Melgaço, fallecido em 1700. No cartório antijgo 
d'aquella cathcdral devem existir ainda muitas composições 
do padre Ignació Celestino, porque um inventario feito em 
1819 e do qual possuo copia, menciona-as. São mais impor- 
tantes, segundo me parece pelo numero de vozes a que são 
escriptas, as seguintes: Duas missas a oito vozes; ofticios de 
defunctos e Lioerame a oito vozes; Memento a doze vozes, 
psalmos diversos e uma sequencia a oito vozes; Miserere a 
três coros, alem de responsorios, motetes, etc, N'um livro de 

275 



OH 

estante que vi no mesmo cartório, contendo psalmos de vés- 
peras de diversos auctores, deparou-se^me um De ^ro/widis a 
quatro vozes com a indicação do auctor: «Celesnno», que é 
sem du^da este mestre da capella. Pareceu-me boa compo- 
sição no estylo palestriniano. 

Também na bibliotheca de Évora ha uma obra manuscri- 
pta — tEscola de Canto de Órgão, etc.» pelo padre Caetano 
de Mello Jesus — que contém cartas com os pareceres de di- 
versos mestres, entre as quaes ha uma bastante extensa e eru- 
dita firmada pelo padre Ignacio António Celestino, com a data 
de 1738. 

Oentazzl (Guilherme). Medico, amador de musica 
muito devotado. Nasceu em Faro a 20 de novembro de 1808, 
falleceu em Lisboa em Í28 de junho de 1875. Tocava bem vio- 
lino e violeta. Sendo estudante da Universidade em 1828 e 
tendo abraçado o partido liberal, emigrou para Paris onde o 
seu dilettantismo lhe foi muito útil porque exerceu profissio- 
nalmente a arte para prover á própria subsistência. Não foi 
este o único emigrado que deveu aos seus conhecimentos mu- 
sicaes um auxilio tão opportuno; a alguns outros succedeu o 
mesmo, tanto em Paris como em Londres. 

O doutor Ccntazzi não se contentou em ser amador exe- 
cutante e deuse também ao prazer de compor. Escreveu a 
letra e a musica de duas comedias— «Ninharias familiares» 
em um acto, «O latino quasi grego» em dois actos — impres- 
sas ambas com a respectiva musica em 1861. Compoz um 
iHymno de D. Pedro V» para canto e piano, publicado pelo 
editor Figueiredo. Na sua obra litteraria «Os desafogos da 
vida» incluiu também algumas pequenas composições, c outra 
no fim da collecção de poesias «Recreios poéticos», umas para 
piano só, outras para piano e canto. Todas são porém com- 
pletamente pueris e mostram muita carência de conhecimen- 
tos technicos. 

Na referida collecção de poesias vem uma jocosa, ofTcre- 
cida ao compositor Santos Pinto, a propósito de uma festa de 
egreja realisada por curiosos, aa qual elle dá noticia pouco 
lisongeira mas engraçada; começa assim: 

«Corre, Pinto, acode cá. 
Corre, vem, tocam- te a missa, 
Olha que vão á derrissa 
A quem mais a esfolará, 
NSo por ser charanga má 
A que brilha na íuncção; 
Mas pela disposição 
Que mostra a guerrilha toda, 
Sò por ser coisa da moda 
Chiar por embirraçSo. . .» 
276 



De Santo António cm festorio, 
Foi o grande instrumental, 
Harmonia tão formal 
Causou espanto notório . . . 
Estremeceu o zimbório 
Ao rum rum do rabecão ^ 
Saiu a solo o trombão 
Com dez máximas tão longas^ 
Que fez engrillar as trombas 
Aos mordomos da funcçao. 

O doutor Guilherme Centazzi pertenceu também á irman- 
dade de Santa Cecília, cujo livro de entradas assignou em 20 
de novembro de i838. 

Cerveira (António Xavier Machado). V. IMEacha.*» 
do Cerveira. 

César (Padre António José). Organista no convento de 
S. Domingos de Lisboa. Estava para entrar em funcções 
acompanhando a missa que ia cantar-se quando se deu o 
grande terremoto de i de novembro de 1753, sendo esmagado 
pela derrocada da cgreja. Dá esta noticia o padre João Baptista 
de Castro no «Mappa de Portugal», tomo 5.", pag, 187 da 3/ 
edição. 

Cliagfas (Frei Lwí^ das). Não tenho outra noticia d'es- 
tc musico senão a que dá Barbosa Machado na «Bibliotheca 
Lusitana*. Limito-me por isso a transcrevel-a fielmente: 

«Frei Luiz das Chagas, natural de Villa Nova de Portimão em o 
Reyno de Portugal. Por ser dotado de suave vo£ e summa destreza da 
musica teve a sua educação em o Convento de N. Senhora de Jesus em 
Lisboa cabeça da Província da 3.* Ordem Seráfica da Penitencia, cujo 
sagrado instituto professou a 14 de maio de 1606. Depois de exercitar 
louvavelmente os logares de Vigário do Coro, e Mestre dos Noviços foi 
eleito em o anno de i636 Ministro do Convento de S. Francisco junto da 
Cidade de Silves em o Reyno do Algarve. Falleceu no Convento de Lis- 
boa a 22 de Dezembro de 1Ò40. Não somente foy insigne cantor, mas 
grande contrapontista deixando composto com egual sciencia que sua- 
vidade : 

Officios da Semana Santa^ foi. M. S. 

Manual para todo lo que se canta fuera dei coro con/orme d uso de 
los FraileSf r oMonjas dei Sagrado Orden de Penitencia de N. P. S. 
Francisco dei T^eyno de Portugal y Castilla. Contiene las ceremonias dei 
Quitar y Coro en todos los actos solemnes, que occurren en el descurso dei 
ano conforme ai cMissaly Breviário ^I{pmano más correcto impresso en d 
tempo ael Senor Papa ^urbano VllL 8. 

Esta obra não chegou a imprimir- se ; o manuscripto origi- 
nal serviu mais tarde ae base a frei Raymundo da Conversão 
para coodernar o seu «Manual», como este mesmo auctor con- 
fessa no respectivo prologo. 

277 



OK 

Cbrifestiano (José Maria), Bom violinista, notável 
principalmente pelos serviços que prestou á classe de que fez 
parte c por ter sido o mais extremoso c dedicado amigo de 
Joaquim Casimiro. 

Nasceu em Lisboa em ly de maio de 1806, sendo filho 
de um musico da Casa Real chamado José Christiano. Filiou - 
se como soprano na irmandade de Santa Cecilia em 25 de 
fevereiro de 1818, quer dizer, no mesmo anno em que tam- 
bém se filiou Casimiro, mais novo do que elle quasi exacta- 
mente dois annos e seu condiscípulo na aula da Sé. 

Foi chefe da orchestra do theatro da Rua dos Condes 
desde 1842, passando com o mesmo cargo para o theatro de 
D. Maria quando este começou a funccionar; ahi se conservou 
até 1866, anno em que deixou de exercer a arte effecti vãmente. 
Foi também primeiro violino nas orchestras da Real Camará 
e da Sé. 

Teve suas velleidades de compositor apesar de não pos- 
suir as habilitações necessárias, e compoz um ftHymno do 
Lavrador» publicado pelo editor Lence, uma abertura para 
orchestra, que, reduzida para piano, foi publicada no «Sema- 
nário Harmónico», e não sei se mais alguns outros pequenos 
trechos. 

No serviço da classe a cjue pertencia trabalhou muito pro- 
ficuamente com toda a actividade do caracter enérgico e deci- 
dido que o distinguia, sendo um dos mais poderosos auxiliares 
de João Alberto Rodrigues Costa (v. este nome). Foi um dos 
fundadores do Montepio Philarmonico em 1834, da Associação 
Musica em 1842, da Academia Melpomenense em 1845; 
occupou os cargos de secretario, vice-presidente e presidente 
da Associação, presidente da commissão que reformou os 
estatutos do Montepio em 1860, presidente da Academia, etc. 

José Maria Christiano desempenhou um papel importante 
nas nossas luctas civis, e se bem que seja assumpto extranho 
a este Diccionario, consignarei as principaes phases da sua 
accidentada vida politica. 

No tempo de D. Miguel sentou praça no regimento de 
infanteria 4, justamente o regimento que se revoltou em 21 
de agosto de i83i proclamando a constituição, o que deu em 
resultado serem fuzilados trinta e nove soldados; feliz ou ex- 
perto, Christiano poude escapar-se, emigrando para Inglaterra 
d'onde passou á ilha Terceira alistado no batalhão de volun- 
tários de D. Maria 11. Veiu para o Porto com o exercito de 
D. Pedro IV e entrou em Lisboa com o duque da Terceira. 
Km i838, sendo capitão do 14.'* batalhão nacional, tomou parte 
activa nas agitações populares, seguindo com ardor o partido 

278 



OH 

setembrista e incorporando-se no celebrado batalhão da Ribeira 
que se apoderou do arsenal de marinha ; foi um dos três signa- 
tários que por parte dos revoltosos assignaram a convenção 
chamada de Marcos Filippe por ter sido feita no botequim 
que. havia no largo do Pelourinho e penencia a um individuo 
com aquelle nome. 

. Pelos seus serviços na politica obteve um bom logar na 
alfandega ; Costá> Cabral quando subiu ao poder demittiu-o, 
mas mais tarde obteve outro na camará dos pares que con- 
servou e onde era muito estimado. 

. Pertencia a quasi todas as associações liberaes, patrióticas 
'ede beneficência. Era condecorado com a medalha da Torre 
Espada. Nos últimos annos da sua existência cegou, vindo a 
fallecer em 26 de novembro de 1887. 

Ohristo (Frei Estevão de). Foi auctor de dois livros de 
cantochão contendo, um as Paixões e mais cantos litúrgicos 
da semana santa, outro os hymnos, ladainhas e mais trechos 
que se cantam nas procissões; este foi impresso em Coimbra 

Eor António Maríz em iSgS, aquelle em Lisboa por Simão 
.opes em \b^. Estes livros teem hoje um ceno interesse f>a- 
ra os bibiiophilos pela sua antiguidade e raridade, e é esse in- 
teresse que se reflecte no auctor, aliás mn simpies noestre em 
liturgia. 

A noticia que d*eUe dá Barbosa Machado na «Bíbliofheca 
Lusitana» (tomo i.^ pag. yb^ é a seguinte, que não prima pe- 
la veracidade como aepois direi : 

«Fr. Estevão de Christo natural da Villa de Torres Novas do Arce- 
bispado de Ltsboa« e Religioso professo da Ordem Militar de Christo em 
o Real Convento de Thomar. celebre professor da Arte de Contraponto, 
o qual foy chamado a Madrid pêlo Capellaomór D. José de Almeida para 
que se ordenasse e accentuasse pela Cantoria da Capella do Papa as Pa- 
xoen^ que a Igreja canta na Semana Santa o que executou com tanta sa« 
tisÃição d*aquelle Prelado que o persuadio a que as imprimisse. Morreo 
no Convento de N. Senhora da Luc da Sua Ordem Militar situado em o 
Subúrbio d*esta Corte em o anno de 1609.» 

Em seguida menciona os dois livros a que acima me re- 
feri e um Monuak vro commumcandis^ etc.y o qual nada tem 
coaf^ musica. Attnoue a este auctor também a «Introducção 
facifima c novíssima do canto fermo, etc», no que errou por- 
,ué esta obra é de Vicente Lusitano. Também errou o nome 
o capellão-mór da corte, que n'aquelle tempo era D. Jorge 
de Atnaide e não de Almeida; o «Mappa de Portugal» de Ba- 
ptista de Castro traz este nome certo. 

Também no dizer que Estevão de Christo tinha sido «ce* 

279 



I 



lebre professor na Arte de Contraponto», Barbosa Machado 
empregou uma das suas costumadas phrascs elogiosas, de aue 
frequentemente se servia sem ter a consciência da verdade d ci- 
las; nenhum outro testemunho existe de que o auctor d'aquelles 
livros litúrgicos fosse também contrapontista e de mais a mais 
celebre; não era senão um liturgista perito no cantochao. 

O supplemento da «Bibliotheca Lusitana» traz a seguinte 
rectificação á data em que morreu Estevão de Christo (tomo 
4.«pag. 114): 

«Fr. Estevão de Chrísto professou a i5 de janeiro de i55g. Falieceu 
em o ãnno de i6i3^ e não 1609, como está impresso na Bibliotheca»^ 

O livro das procissões nada oflferece de notável, conten- 
do apenas os cantos litúrgicos conhecidos; imituiarse: ccPro- 
cessionak ex ritv missalis ac brevianij quce Sacrosancii Conci- 
lii Trideniini Decreto sunt editay>y etc. 

O livro da semana tem o seguinte titulo : 

Liber Passionvm et eorvm apce Dominica in Palmis^ vsque 
ad Vésperas Sabbathi sancti inctusiué^ cantari solent: diligentis- 
simè correctuSy & locupletissimé actus: imprimis singulorum 
perborum Accentu studiosiswnê spectato. Avctore Fratre Ste- 
phano exsact^a lesv Chnsti seruatoris nostn Militia. — Ad D. 
Al/onsum de Castelbranco Episcopum Conimbricce^ &. — Olissi- 
porte. Excudebat Simon Lopezius cum facuUate Inquisitomm. 
Anno j5g5. 

Em seguida á licença concedida pelo prior dB ordem de 
Christo para a publicação da obra, vem o parecer do grande 
mestre Duarte Lobo que, por ser de homem tão eminente na 
musica, julgo interessante transcrever : 

Parecer de Duarte Lobo^ mestre da Capella da Sé de Lisboa. 

Vi muito meudamente & corri este Passionario com todo o officio 
da semana sancta que nelle está, composto pello Reuerendo padre Frey 
Esteuão religioso da ordem de Nosso Senhor Jesu CHristo, o qual visto e 
bem examinado por mim, me pareceu muito bom, & digno de se impri- 
mir, para se communicar em toda a parte destes Reynos de Portugal, 
porque será muito proueitoso ao estado Ecclesiastico, & se farão os ofíi- 
cios divinos com perfeição vsando>se d'elle, por vir mui bem acentuado, 
guardando as regras da Musica com a Melodia delia, que pêra os taes 
tempos se requere, em Lisboa a 20. de Julho de M. D. XCÍIII. 

Duarte Lobo. 

Depois segue uma advertência de «O auctor aos músicos 
curiosos», em que explica ser a sua obra uma edição correcta 
do Passionarium de trci Manuel Cardoso. 
280 



Pedro Thalcsio na sua tArte de Cantochão» (1618)5 
occupa SC no capitulo 36.^ (pag. 68) de censurar alguns livros 
que teeoi certos cantos errados; na sua censura inçlue o «Pro- 
cessionario» de Estevão de Christo, citando muitos togares 
que diz estarem errados. 

Obnsto (Madre Joanna de). A primeira freira car- 
melita que houve em Portugal e que era excellente organista, 
segundo affirma o padre Cardoso no «Agiologio Lusitano», 
tomo 3.^ pag. 858 : 

«Nas Carmelitas de Beja, também é digna de lembrança^ a Madre 
Joanna de Christa por ser a primeira que neste Reino vestio o habito de 
N. Senhora de Carmo, dando felice principio a esta religiosa casa com 
duas irmãs suas, do mesmo fervor e espiritu, filhas de uma honrada viuva, 
chamada D. Colassa, que ofPereceu sitio para ella. Onde seruiu toda vida 
de Vigaria do Choro, porque tangia orgSo excellentemente, com grande 
ar, & destreza, deixando famosas discipulas n*esta arte.» 

E no commentario em pag. 874 diz que Joanna de Cbristo, 
uma das trcs irmãs fundadoras do convento de N. Senhora da 
Esperança em Beja, falleceu em i6o3. 

Obiristo (Frei João de). Insigne organista segundo 
affirma Barbosa Machado; mas como não alcancei d*eUe outra 
noticia senão a que deu o auctor da cBibliotheca Lusitana», 
aqui a transcrevo textualmente : 

«João de Chriato natural de Lisboa Monge Cisterciensé cujo habito 
vestio no real Convento de Santa Maria de Alcobaça a 8 de janeiro de 
1614, e professou solemnemente a 10 do dito mez do anno seguinte. Foy 
insigne tangedor ,de OrgSo, e dos celebres professores de Musica do seu 
tempo como testémunhão as obras que deixou desta armonica faculdade, 
sendo as principaes : 

O Texto das Paixotnsque se cantão em a Semana Sania^ composto 
a 4 vozesy do qual se usa no ^al Convento de oálcobaça. 

Calendas do tratai, e de S. bernardo, Falleceu no Convento de 
Alcobaça a 3o de Julho de 1654.» 

{BibL Lus,^ tomo 2.<», pag. 636). 

ObiTisto (Frei Lui^ de). Outro de cuja vida não tenho 
mais noticias senão as que deu Barbosa Machado e aqui re- 
produzo: 

«Fr. Lui2 de Chrisco natural de Lisboa filho de Thoma2 Dias e Se* 
bastiana Gomes. Recebeu o habito de Carmelita Calçado no Convento 
pátrio a 18 de Mayo de 164 1 e professou a 19 do dito mez do anno se- 
guinte. Foi muito perito na arte da Musica, e dextrissimo em tanger 
órgão cujo exercício teve por muitos annos na Cathedral da sua pátria. 
Introduziu em obsequio de Maria Santíssima, da qual era cordial devoto, 
huma devoção na madrugada do seu Nascimento que depois se estendeu 

281 



oo 

aos dias da Conceição, e Eacarnação. Falleceu em summa piedade a 7 de 
Setembro de 1693 com 68 annos de edade e 52 de Religião. Compoz a 
quatro vozes: 

Paixoens dos quatro Evangelistas. Foram as nrímeiras que sahirSo 
depois das que compoz o celebre Geri de Ghersen Mesrre da Capella do 
Príncipe Alberto Sennor dos Estados de Flandres. 

Liçoens de ^efuncios^ Motetes e Vilhancicos,» 

(Bibi lMS,y tomo 3.*, pag. 83). 

Mas SC não tenho que accrescentar tenho que corrigir : 
não é crivei que este frei Luiz de Christo fosse o primeiro 
que compoz' musica para as paixões, depois de Geri (ou Gau- 
fferic) de Gherscm que viveu cem annos antes; o próprio Bar- 
bosa Machado se desmente a si mesmo na bíographia de João 
de Christo, pois que este foi mais antigo do que Luiz de Chris- 
to e também escreveu musica para o texto das paixões (v. o ar- 
tigo antecedente). 

Na coilecção de poesias de D. Francisco Manuel de Mel- 
lo — fLa Apena de Tercicore^ — vêem duas — «Tono IV» e 
c Tono V» — que o poeta diz terem sido postas em musica pe- 
lo Padre Mestre Frei Luiz de Christo. 

Ooccia. {Cario). Este notável compositor italiano tra- 
balhou algum tempo em Lisboa e por isso aqui o inscrevo. 

Nasceu em Nápoles em 14 de abril de 1782 c foi discipu* 
lo de Pedro Casella. A sua primeira opera — // matrimonio 
per cambiale — cantou-se em Roma em 1807, escrevendo de- 
pois muitas outras que lhe deram reputação em Itália. 

Em meiado de 1820 veiu escrípturado como maestro con* 
certatore e compositore para o nosso theatro de S. Carlos, 
onde pouco tempo antes tinham agradado muito as suas ope- 
ras «Matilde f e cElena e Constantmo». 

Expressamente para este theatro escreveu as seguintes 
operas: Atar^ primeira representação em i3 de maio de 1820; 
La donna selvaggia^ no mesmo anno; La festa delia Rosa^ 
primeira representação em i3 de agosto de 1821; Mandana^ 
regina delia Pérsia^ 4 de novembro do mesmo anno. 

Quando triumphou a revolução liberal, em 1820, Cario 
Coccia escreveu a musica para uma cantata allegorica em por- 
tuguez, intitulada O Gemo Lusitano triumphante^ poesia de 
João Baptista Hilberath. Essa composição, executada justa- 
mente no momento em que os ânimos estavam exaltadissi- 
mos, despertou enorme enthusiasmo servindo de pretexto pa- 
ra as mais ruidosas manifestações patrióticas; o final adquiriu 
foros de canto nacional, tornando-se no celebre hymno de 20 
que os velhos liberaes ainda até ha pouco tempo invocavam 
com saudade. 
282 



oo 

Coccia foi para Londres cm 1823, voltando a Itália em 
1827 c continuando a compor diversas operas, algumas das 
quaes agradaram muito no seu tempo. 

Nomeado mestre da capella cia cathedral de Novara em 
1840 'para substituir Mercadantc, renunciou completamente á 
carreira theairal, vivendo d'ahi por diante retirado até que fal- 
leceu em i3 de abril de 1873. 

Ooelbo [Militão José de Sousa), Organista da Sé de 
Faro. Nasceu n*esta cidade em 181 8 e ali viveu sempre, falle- 
cendo em i883. As suas composições de musica sacra são 
muito estimadas e vulgarisadas no Algarve, sobresahindo en- 
tre ellas uns responsorios para quinta e sexta feira santas, a- 
trcs vozes e órgão, um Miserere a quatro vozes, um setena- 
rio também a quatro vozes e orchestra, motetes, etc. 

Militão passa entre os algarvios por ter sido um dos seus 
melhores músicos. Todavia algumas pequenas composições 
que d'elle possuo não me dão uma alta idéa do seu mere- 
cimento. 

Foi pae do organista do mesmo nome e appelíido que 
desde alguns annos reside cm Lisboa. 

Ooellio ^Padre Manuel Rodrigues). Autor da primei- 
ra obra de musica instrumental que se imprimiu no nosso 
paiz. Da sua vida só consta o que elle mesmo disse de si n*es- 
sa obra, que bem pouco é; nem Barbosa Machado nem 
outro qualquer cscriptor poderam accrescentar essas peque- 
nas noticias, e eu mesmo não consegui d*esta vez ir mais 
longe. 

Por ellas se verifica unicamente o seguinte : que Manuel 
Rodrigues Coelho era natural de Elvas; que ahi se dedicou á 
musica desde os oito annos, chegando a ser mestre da capel- 
la na respectiva cathedral; que depois passou para a Se de 
Lisboa; que foi admittido na Capelta Real, precedendo rigo- 
roso exame, na qualidade de capellão e tangedor de tecla (or- 
ganista); finalmente que occupava esse logar havia dezesete 
annos quando publicou o seu livro, o qual tem a data de 
1620. 

Confrontando datas, podemos accrescentar que foi colle- 
ga de Diogo de Al varado, também tangedor de tecla na Ca- 

Kella Real durante quarenta e três annos e fallecido em 1643. 
Icstre da Capella Roal n'esse tempo era o hespanhol Fran- 
cisco Garro, nomeado pelo rei intruso Philippe 11. 

O livro do padre Rodrigues Coelho consta de uma nu- 
merosa e curiosissima cwllecção de peças de musica para ór- 
gão, cravo ou harpa; o frontcspicio aiz assim: «Flores de Mu- 
sica para o instrumento de Tecla & Harpa. Compostas por 

283 



oo 

o Padre Manuel Rodrigues Coelho, Capellão do serviço de 
sua Magestade & tangedor de Tecla de sua Real Capeíla de 
Lisboa, natural da cidade de Elvas. Dedicado A. S. G. R. Ma- 
gestade dei Rey Phelippe terceiro das Espanhas. Com licença 
do S. Officio da Inquisição, Ordinário & Paço. Em Lisboa: 
Na ofticina de Pedro Graesbeeck. Anno Dfti M.DCXX.» 

Contenn 233 folhas com musica, numeradas só no rosto, 
e 1 1 paginas não numeradas, contendo as licenças, advertência, 
dedicatória, poesias em honra do auctor e prologo. As licen- 
ças teem as datas de lo e ii de fevereiro de 1620. Vem de- 
pois d'ellas o parecer do grande compositor frei Manuel Car- 
doso, que diz: 

Vi a Musica d'este livro por mo pedir o Autor delle. Achey nelle 
muita variedade de passos, grosa excellente, <& airosa, as falsas (#) em 
seu lugar, muy bem acompanhadas: dt em tudo me parece digno, assi de 
seu Auctor, como de ser impresso, pêra proveito dos cjue delle tiverem 
noticia. Dada no Carmo de Lisboa oje 21. de Julho de 1617. 

Frey Manuel Cardoso. 

Entre as poesias laudatorias ha um soneto de Manuel de 
Pino tministril de S- Magestade», e uma canção seguida de 
um soneto do capellão cantor António Soares da Fonseca. 

E' interessante o prologo; n'elle nos dá o auctor noticia 
de si, e das composições que o livro contém. Transcrevo-o 
textualmente : 

«Prologo da obra aos tangedores, & professores do instrumento de 
Tecla, o minimo de todos Manuel Rodrigues Coelho. 

Não se me pode (com rezão) imputar culpa de atreuido em sair 
agora a luz com estas Flores de Musica, confiando, que os curiosos de 
Tecla & Harpa, delias se aproveitem, & possam coJher fructo. Pois he 
cousa notória, que com esta Arte, & talento (de que Deus por sua immensa 
bondade foy servido dotarme) tenho fructifícado, & com minhas lições 
approveitado a muitos discipulos em varias partes deste RejT:io, em c^ue 
fuy bem recebido, não somente em a See d'Eluas, minha igreja primitiva, 
& natural, onde me criei, & de idade de oyto annos ja nisto estudaua. £ 
assi mesmo na See de Lisboa, da qual vim ao serviço de S. Magestade, 
donde ha dezasete annos que siruo com a satisfação que todos sabem: ten- 
do passado pello riguroso exame, que na sua Real Cnpella se me fez, estan- 
do a elle presente no choro o muito reuerendo Prelado d*ella com todos os 
capellães & cantores. E ainda que como Tullio affirma: Trahimur omnes 
siudio laudis & apenas se acha, quem na empreza dos trabalhos não appe- 
teça gloria por pa^a, & o cantou o poeta elegantemente: V^on paruas 
animo dat gloria vires^ com tudo minha principal intenção nesta matéria, 



(*)Grosa ou glosa sieiríica variação-, falsas chamava-sc antigamente ás dissonâncias. 
V. DICCIONARIO MUSICAL. * 

284 



oo 

& em trabalhos tam certos não foi cubica de honra bem incerta, que por 
ser Portugal pátria minha; mal poderei ser nunca propheta nella: mas 
pois é de bom cidadão, & natural, não fazer fim em atteotar pollo beni da 
Pátria, & commum proueito, desejando eu que toilos estudem, saibam, & 
attendam com mais vontade ao estudo, & exercício desta Arte, com que 

Êossão em seus instrumentos com facilidade, & mor perfeição louuar a 
^eus nosso Senhor, a quem toda a gloria se deve; pêra tal intento & 
fructo offereço aos estudiosos estas Flores de varias composturas acom- 
panhadas, nas Quaes acharão vinte & quatro tentos: três do primeiro tom, 
três do segundo, três do terceiro, três do quarto, três do quinto, três do 
sexto, três do septimo, & três finalmente do octavo tom, com Kyrios por 
Csolfaut, Dlasolre, Elami, Ffaut, Gsolreut, Alamire, & Bfa, com mais qua- 
tro Susanaa, ou Tentos (que assi se podem chamar) sobre o cantochão da 
Susana, cada qual diíferente, & todas a quatro, porque tudo o que passa 
no instrumento de quatro não serve, por qucnto o instrumento não de- 
clara mais, & passando d*aqui tudo fica parecendo o mesmo, o que não é 
nas vozes humanas. Mais auatro Pangelinguas sobre o cantochão:em cada 
voz. Quatro Ave Maris stellas sobre o cantochão em cada voz. Cinco ver- 
sos sobre os passos de Ave Maris stella. Alem disso todos os oyto tõs 
pêra cantarem acompanhado cada verso quasi sempre a cinco, porém a 
voz que se canta não se tange. Vâo mais outros oyto tõs sobre o canto*- 
chão de cada voz pêra tangerem a versos as Magnificas, & ao6 Benedictus. 
Isto é o que tenho trabalhado, & cansado pêra o cocnmunicar aos que sç 
disso quizerem approveitar, como de feito o communico, não leuado de 
presumpção, ou vaidade alguma, mas totalmente mouido do zelo do befn 
commum, qne por ser parto de vA animo nascido, & o primeiro de mu- 
sica pêra 1'ecla & Harpa, que n*estes nossos Reynos tem saldo, conâo 
que não stra mal recebido. E aduirto que alguas destas cousas andarão 
por fora, que não faltaria quem mas leuasse, ou em lições apprende>se, 
as quais eu não conheço por minhas, pois não ^no reuistas por mim, nem 
reconhecidas e examinadas pello Reuerendo pndre frey Manuel Cardoso, 
religioso de nossa Senhora do monte do Carmo, cujo parecer nesta ma- 
téria deue sô bastar por muitos por sua sinv^ular erudição.» 

A obra do padre Rodrigues Coelho ó muito similhante á 
do seu contemporâneo Correia de Araújo intitulada Libro de 
Tientos e publicada em 1626 (v. A^rarijo). Não é porém 
escripta como esta em cifras, mas na notação usual da época 
(no^as em losango, ausência de divisões de compasso, etc). A 
impressão é feita com caracteres moveis, como também quasi 
exclusivamente se usava então. 

O estylo é o mesmo que o de Correia de Araújo, isto é, 
a polyphonia flamenga trabalhada sobre o cantochão- Os tre- 
chos sobre os cânticos Ave Maris Stella e Pange Ihigua teem 
a particularidade de que em cada um é o cantochão coUocado 
em sua voz differente, contraponteando as outras; é o processo 
empregado ainda hoje nas aulas para o estudo do contraponto 
simples. Nos «cinco versos sobre os passos de Ave Maris 
Stellan, encontra-se differente processo: fragmentos do canto 
são promiscuamente distribuidos por todas as vozes e contra- 
ponteados de differentes maneiras como nas fugas de época 

285 



ao 

mais moderna. Também são interessantes os «oito tonos» para 
serem cantados com acompanhamento de um contraponto 
liv/e a quatro vozes. 

Emfim, toda a obra de Rodrigues Coelho patenteia que o 
seu auctor foi dos mais hábeis contrapontístas da sua época, e 
que devia também ter sido organista dotado de ligeiros dedos, 
a julgar pelo que escreveu. 

Ooelbo (Padre Victorino José). Viveu no fim do sé- 
culo XVIII c principio do actual. 

Era organista e professor de piano e canto, dando lições 
principalmente nos conventos de freiras. 

Compoz alguma musica religiosa, trechos para piano e 
para canto, tudo com pouco valor. Tenho d'elle (manus- 
cripto): «Novo Methodo para apprender a Musica e a tocar 
Pianoforte;» Can:^oftette con acompagjiamento di Piano forte 
(onze cançonetas com letra italiana); ^Nel corpiíi non mi sento 
ait^ VM^iée pour le Piano- for te. m 

Ooncei^aLo (Frei António da). Frade trino muito 
celebrado na historia religiosa pelas suas virtudes, occupando 
elevados cargos na ordem a que pertenceu. Na mocidade po- 
rém, e antes de emprehender os estudos que o tornaram 
theologo eminente, toi soprano da Capella Real^ sendo a sua 
voz considerada uma maravilha. Sobre a sua vida virtudes e 
saber publicou-se em i6bS um livro assaz volumoso que tem 
este titulo: iFama Posthuma do Venerável Padre Fr. Antó- 
nio da Conceição, Religioso da ordem da Santíssima Trindade 
Redenção dos Cattivos da Provincia de Portugal. Pelo D. Fr. 
António Correia», etc. Também o padre Cardoso no «Ágio- 
logio Lusitano» lhe faz um extenso panegyrico, além da noti- 
cia qued'elle vem egualmente na «Bibliotheca Lusitana» a qual 
é um resumo da «Fama posthuma». 

Nasceu frei António da Conceição em Lisboa, na fregue- 
2ia de S. Nicolau, em 8 de dezembro de 1579. Aos vinte an* 
nos começou a apprender latim e canto ; segundo as palavras 
do «Agiologio» (tomo 4.® pag. 266), «deu-lhe o Ceu. uma har- 
moniosa voz, e esta lhe facilitou o ser acceite na capella Real 
por moço de Estante.» 

Aos 27 de julho de 1594 entrou como noviço na ordem 
da Santíssima Trindade, e anno e meio depois, tendo comple- 
tado dezeseis de edade, fez a profissão solemne. Foi recebido 
com extrema satisfação dos correligionários, porque os seus 
dotes musicaes o tornavam muito apreciado para abrilhantar 
as festas do convento. 

Succedia n'aquella época que muitas communidades dis- 

286 



oo 

Eutavam entre si a posse dos melhores artistas, afím de attra- 
irem ás suas egrejas a maior multidão de ouvintes. 

Mas o rouxinol perdeu a voz dentro de pouco tempo; 
elle mesmo, segundo affirmam os seus panegyristas, é que 
pediu a Deus que lh*a tirasse, para que a sua grande humil- 
dade não soffresse quebra com a vangloria de se ver applau- 
dido. 

O facto é assim narrado na «Fama Posthuma» (pag. lo 
e ii). 

«... como cantava típle^ & com toda a perfeição, ainda muitos an- 
Dos despois de professo, deleitavase muito toda a gente em o ouvir, & « 
elle com isto crescião só os receios de se esvanecer ; pediu a Deos, mie 
sem prejuízo do seu Choro, o quisesse livrar do tal gerígo : ouvioo o Se- 
nhor & em ordem ao bom despacho de sua petição, entrou em a Reli- 
gião outro tiple; & o V. P. Fr. António de tal sorte perdeu a voz, que 
ainda quando queria fallar, não era muito fácil o poder ouvir ; muito esti- 
mou esta perda o Soldado do Senhor, conhecendo que elle ainda com os 
meios naturaes o favorecia em ordtm à observância do silencio que tanto 
amava; & porque não íixesse de todo falta ao préstimo do Choro para o 
qual fora em Religião admittido, aprendeo a tanger OrgSo, & desta sorte 
com as forcas naturaes nunca faltou á Religião em servilla & com as do 
espiritu em honralla. . .» 

Frei António da Conceição abandonou mais tarde totalmente 
o exercício da musica, dedicando-se á conversão das almas 
e adquirindo reputação de religioso virtuosíssimo, a ponto de 
quasi o considerarem santo. Falleceu em 22 de julho de i635. 

Oonc^eiçSo (Frei Bernardo da). E* o nome do au- 
ctor de uma «Ane de Cantochão» muito desenvolvida e muito 
bem feita, seguramente a melhor que existe impressa em por- 
tuguez. Ó titulo completo d*essa obra é seguinte : «O Eccle*^ 
siastico instruído scientificamente na Arte do Cantochão com- 
posta pelo P. P. Fr. Bernardo da Conceição, Monge da Or- 
dem de S. Bento, e dada á luz por Jeronymo da Cunha Ban- 
deira, irmão do Author. Lisboa. Na Oíiicina Patriarc. de 
Francisco Luiz Ameno. M.DCC.LXXXVUI.» 

Contém io9i paginas em 4.^ A parte theoríca expõe com 
muita clareza e desenvolvimento o systema dos tetracordos 
dos gregos, o hexacordo de Guido d'Arez2o^ e a moderna es- 
cala de oito notas. Frei Bernardo da Conceição opta por esta 
ultima, no que dá prova de possuir idéas de progresso, por 
quanto em 1786 e ainda muito depois prevalecia entre nós, 
principalmente no cantochão, o systema hexacordal. 

Infelizmente, do autor de tão excellente obra não conse- 
gui obter noticia alguma biographica; parece mesmo que dle 
nem chegou a vel a impressa^» pois que o frontespicio declara 
ter sido dada á luz pelo irmão. 

287 



oo 

OonceiçsLO (Frei Domingos da). Franciscano nuiitp 
perito no canto litureico, vigário do coro no convento da sua 
ordem na villa de Aleniqucr. Dedicou-se também a trabalhos 
litterarios que ficaram manuscríptos. Nasceu em Lisboa em 
i586, falleccu em 1647. 

Conceição (Frei Fernando da). Frade da ordem de 
Santo Agostinho, cantor do convento vulgarmente chamado 
do Grilo, próximo de Lisboa.. . 

Coordenou e editou um Directório do coro para uso dos 
frades da sua ordem, o qual tem este titulo: Divectorium Cho- 
ri ad usum Fratiim excaiceatotmm P. 5. N. Augustini Pariu- 
gçdlice^ etc. Impresso em Lisboa na Typographia Regia, em 
1798. Volume em 4^® com XII ~ Sgo paginas. 

Ooneeição (Frei Filippe da). Compositor que na 
época da dominação dos Filippes passou a Hespanha, onde 
foi freire da ordem militar de Nossa Senhora da Mercê. 

No catalogo da Bibliotheca de D. João IV figuram trcs 
viliancicos d'este auctor, sendo dois do Natal, a quatro e a seis 
vozes, e um do Sacramento, a quatro vozes. 

Frei Filippe da Conceição foi também pregador. 

Conceição (Frei Manuel da). Organista e escriptor 
litúrgico franciscano. Era natural de Lisboa e professou no 
convento de S. Francisco de Évora em 17 de março de 1703, 
onde entrou para occupar o logar de organista. Depois pas- 
sou para o convento de Xabregas, peno de Lisboa, exercendo 
durante muitos annos o cargo de vigaria ck> to^%i- 

Foi eleito guardião em 23 de iJsrii de lyJS. 

Corrigiu uma edição do cerimonial da sua ordem, a qual 
tem este titulo: Manuale romanum seraficum ad usum jfraifttm 
Minorum Alma propincice Algarbiorum ordinis SancU Fran- 
cisciy etc. Impresso em Lisboa na Typographia de Musica;^ 2.* 
edição em 1746. Publicou-se d'elle também uma cNorma di- 
rectiva de cerimonias para as Senhoras Abadessas, supple- 
mento do Ceremonial Seraphico». 

Dá noticia d'este musico liturgísta, frei Jeronymo de Be- 
lém na f Chronica da Satna Província dos Algar ves», pagina 
262 da introducção. 

Também o sábio arcebispo de Évora, frei Manuel do Ce- 
naculo, no Elogio de frei Joaquim Pimenta, se refere a uma 
contenda sobre liturgia sustentada entre o mestre de cerimonias 
Verissimo dos Martyres, o mestre da capella Bento de Loulé e 
o vigário do coro Manuel da Conceição, contenda em qjue os 
adversários desenvolveram grande erudição ao mesmo tempo 
qjue trocaram famosas c estocadas de emulação •. {Ãpud «Pa- 
norama i, tomo 8, pag. 144). 
^88 



CO 

Frei Manuel da Conceição falleceu em 1 8 de março de 
1745, tendo portanto sahido posthuma a .segunda edição do 
seu aManual». 

OonceiQflLo (Soror Maria da). Freira franciscana, in- 
signe organista do convento do Couto, districto de Vizeu. Nas- 
ceu na Beira em 1592, falleceu em 1680. 

OoiiLeciyâ.0 (Frei Nuno da). Frade trino, natural de 
Lisboa, compositor de musica religiosa e villancicos. Professou 
em 1672 e foi nomeado lente de musica na Universidade de 
Coimbra em 1691. Falleceu em 8 de fevereiro de 1737. 

Ooneei^aLo (Frei Pedro da). Compositor e poeta de 
quem Barbosa Machado dá a noticia seguinte : 

«Frei Pedro da Conceição natural de Lisboa alumno da sagrada Or- 
dem da Santissima Trindade, que professou a i5 de Outubro de 1706. 
Foy insigne na arte da Poezia e da Musica formando dos números métri- 
cos^ e armonicos taes produçoens que causavão não pequeno assombro 
aos Professores mais peritos destas duas Artes. Falleceo intempestiva- 
mente na florente idade de 21 annos a 4 de Janeiro de 171 i deixando as 
seguintes obras que pareciam partos de annos mais maduros : 

Musica a 4 coros para uma comedia que se representou no Paço em 
applauso da Serenissima Senhora D. Marianna d* Áustria. 

Loa com musica a 4 vo\eSy representada no Convento de Santa Cla- 
ra de Lisboa. 

A Letra e Sol/a de um Villancico para cada dia da tret^ena de Schtto 
António. 

Villancicos a 3, 4 e 8 vo^es, para o Convento de Odivellas. 

In êxito Israel de Aegypto^ a 4 vo\es, Motete sobre o cantochao do 
mesmo psalmo.» 

Conversão * (Frei Raymxindo da). Nasceu em Lis- 
boa a 6 de setembro de 160 1. Professou na ordem terceira de 
S. Francisco, no convento de Vianna do Alemtejo, em 20 de 
março de 1625 e (Jtcupou o cargo de vigário do coro no con- 
vento de Jesus em Lisboa. Falleceu no convento do Vimieiro 
em 29 de setembro de 1661. 

Traduziu e corrigiu o «Manual» de frei Luiz das Chagas, 
que deixou completo em manuscripto e foi publicado posthumo 
com este titulo : «Manual de tudo o que se canta fora do choro, 
conforme ao uso dos Reh'giosos e Religiosas da sagrada or- 
dem da Penitencia do nosso Seraphico Padre São Francisco 
do Reyno de Portugal. — Contem as cerimonias do Altar e 
Choro, em todos os actos solemnes que occorrem em o des- 
curso do anno : conforme o Breviário, Missal mais correctos. 
— Em Coimbra, com todas as licenças necessárias. Na officina 



r 



« E n£o CoMMtpdo como traz o «Diccionarío Popular*. 

FoL, 19 289 



oo 

de Rodrigo de Carvalho Coutinho, Impressor da Universidade- 
Anno de 1675.» Um volume em 4.'' com 486 paginas, além 
dos Índices, licenças e prologo. 

E' livro curioso pela minuciosidade das cerimonias aue 
descreve e por conter alguns cânticos litúrgicos pouco conhe- 
cidos. 

Oonde (Silva). Cirurgião amador de musica que vivia 
no Rio de Janeiro, na primeira metade do século actual. Deu 
noticia d'elle Balby, no cDiccionario Estatistico» (1820); disse 
este escriptor que Silva Conde era considerado o primeiro jflau- 
tista do BraziU e que tinha sido admirado como tal mesmo em 
Inglaterra, onde estivera eMudando medicina. 

Coppola. (Pietro António). Este compositor italiano 
viveu muito tempo em Lisboa, onde era estimadíssimo não só 
pelo seu merecimento, mas também pela excellencia do seu 
caracter, extremamente bondoso e singelo. 

Seu filho, o padre U. Pedro Coppola, escreveu e mandou 
imprimir em 1890, em Catania, uma biographia exacta e com- 
pleta do pae, na cjual se corrigem muitos dos erros commetti- 
dos por outros biographos ; esse trabalho vae portanto servir- 
me de guia, excepto na parte que se refere á época que o 
compositor passou em nós, porque a esse respeito tenho noti- 
cias mais completas como bem se pôde suppor. 

Pedro António Coppola nasceu em Castrogiovanni, peque- 
na cidade da Sicilia, em II de dezembro de 1793. Seu pae, 
Giuseppe Coppola, era um compositor napolitano çiue residiu 
algum tempo n'aquella cidade, transferindo-se depois para Ca- 
tania ; esta tornou-se pátria adoptiva do filho, que ali fez todos 
os seus estudos e viveu até aos Sg annos. 

Tinha apenas dezesete annos e era já professor de cravo c 
mestre ensaiador no theatro de Catania, logar que occupou até 
deixar esta cidade em i832. Durante essa época compoz muita 
musica sacra, cantatas, . aberturas, etc, e três operas: II fi- 
glio bandito (i825), Achille in Sciro (1828), Artala d'Alagona 
(i83o). 

Depois foi para Nápoles e ali apresentou a opera que firmou 
a sua reputação e teve maior voga — Nina pa^^a per amore — 
cantada pela primeira vez em 14 de fevereiro de i835. O efieito 
d'esta opera foi tal, que no mesmo anno ella se cantou em 
dezeseis theatros de Itália, repetindo-se depois nas principaes 
3cenas da Europa. O nosso publico ouviu-a pe!a primeira vez 
no theatro de S. Carlos, em 11 de maio de i836, e com muita 
frequência nos annos subsequentes. 

Seguidamente produziu: GrUlinesi (Turim, i835); La 
festa delia Rosa (Vienna, i836) ; La bella Celesti degli Spa- 

290 



oo 

^ari fMilão, iSSy); // Postigltone^ opera bufFa (Milão, i838.) 

Em 1839, sendo empresário de S. Carlos o conde do 
Farrobo, veiu Coppola para Lisboa, dirigindo a sua opera 
GVIllinesi^ pela primeira vez em 16 de setembro d'esse anno. 

Dotado de um sentimento religioso, Coppola logo que teve 
conhecimento da existência e importância que ainda tinha n'a- 
quelle tempo a nossa irmandade de Santa Cecilia, requereu 
para ser n'ella admittido e assignou o livro de entradas em 5 
<le dezembro de iSSg. 

Em 1840 apresentou a primeira opera que compoz expres- 
samente para o nosso theatro — Giovanna di Napoli — cuja 
primeira representação teve logar em 1 1 de outubro. Para fa- 
-zer o elogio doesta opera publicou o jornal «O Entre-acto», de 
que era redactor principal Almeida Garrett, um supplemento 
ao seu numero 7, com a data do mesmo dia em que ella se 
representou, contendo unicamente elogios a Coppola e ao seu 
trabalho; termina esse panegyrico por um soneto italiano as- 
signado por António Perfumo, compatrício de Coppola e aqui 
residente. 

Gíovanna di Napoli repetiu-se em janeiro de 1841, sc- 

fuindo-se-lhe em 18 de março La bella Celeste, que teve tam- 
em o titulo de La figlia dei Spadaio (em portuguez «A filha 
do Espadeiroi). Esta opera serviu para estreia de uma ^oven 
-cantora, Augusta Boccabadatti, filha da celebre Luigia Bocca- 
badati ; opera e interpretes foram elevados ás nuvens, sahindo 
um grande e elogioso artigo dedicado a ambas no jornal cA 
Sentinella do Palco», artigo que foi reproduzido em francez 
n'um jornal que se publicava n'esse idioma e era intitulado 
VAbeille. 

No mesmo anno de 1841 apresentou outra opera nova — 
Inês di Castro — que não agradou tanto como qualquer das 
precedentes ; cantou-se pela primeira vez em 26 de dezembro. 

Partiu para Itália em 1848, c deu ali as três seguintes 
operas novas: // Folletto (Roma, 1844); VOrfana Guelfa e 
Fingal (Palermo, 1846). 

Voltando para o nosso theatro de S. Carlos em novem- 
bro de i85o, contratado pela empresa Cambiaggio e C.*, apre- 
sentou n'essa mesma época e na seguinte as duas ultimas 
d'aquellas operas ; a Orfana Guelfa foi porém muito modifi- 
-cada e teve o titulo muaado em Stefanelía. 

Escreveu depois para o conde do Farrobo, uma opera có- 
mica portugueza em dois actos, que os biographos estrangeiros 
não mencionam ; intitula-se O annel de Salomão, letra de Men- 
des Leal, e foi cantada por amadores no theatro das Laranjei- 
ras em 23 de junho de i853. 

1291 



oo 

Vagou n'esse tempo o logar de director e professor de 
contraponto no conservatório oe Palermo, e Coppola foi con- 
vidado para o preencher, recebendo n esse sentido uma hon- 
rosa carta que lhe escreveu o príncipe de Satriano, em 7 de 
agosto de i863; mas o auctor da Nina achaya-se bem entre 
nós e recusou o ofterecimento. Completara 60 annos de edade^ 
já não tinha ambições de gloria e só tratou de gosar a vida o- 
melhor que podia. Continuou portanto a ser maestro no nosso 
theatro, limitando-se ainda assim a ensaiar e a dirigir as ope- 
ras dos outros, pois que não escreveu mais. Somente em 1864,. 
para ter a satisfação de ouvir o seu Fingal cantado pelo ma- 
vioso tenor Mongini, se deu ao trabalho de o reformar orches- 
trando-o quasi todo de novo ; cantou-se em 2 1 de março de 
aquelle anno, agradando ainda, apezar de se lhe reconhecer 
que tinha envelhecido. ' 

No verão de i865 foi a Catania, onde tinha ainda irmãos- 
e uma irmã, sendo festivamente recebido pela municipalidade- 
Os habitantes illuminaram as ruas quando elle chegou, deram- 
Ihe uma serenata, dedicaram-lhe uma representação no thea- 
tro e uma sessão solemne na «Academia Gioenia», que o no- 
meou seu sócio honorário. Também mandaram cunhar e lhe 
ofTereceram uma medalha de oiro com a sua effigie. 

Como testemunho de reconhecimento, escreveu uma ora- 
tória — Matatia vincitore — que dedicou ao município de Ca- 
tania. 

Pouco depois voltou a Lisboa, fazendo cantar mais uma 
vez a Giovanna di Napoli, cuja instrumentação completamente 
refundiu, em 3 de janeiro de 1866. 

Finalmente, em principio de 1871 fez reapparecer a Ntna, 
também refundida, e esta reapparição foi como que o adeus 
de despedida a Lisboa ; em meiado de setembro d'esse anno- 
retirou-se definitivamente para Catania. 

Alli a municipalidade assegurou-lhe uma existência tran- 
quilla para o resto dos seus dias, concedendo-lhe uma pensãa 
annual de 2:400 liras, com o pretexto de dirigir os «estabele- 
cimentos musicaes» do município, estabelecimentos que em 
Catania se reduziam á simples banda de musica subsidiada 
pelo cofre municipal como é uso em Itália. Esta pensão foi-lhe 
concedida em 5 de outubro de 1871. 

Ainda em outubro de 1874 escreveu uma missa solemne 
para se executar na festa de Santa Agatha, padroeira de Ca- 
tania, gue se realisou em 5 de fevereiro do anno seguinte. 

Nao foi porém este o seu ultimo trabalho. Quando em 
1876 as cinzas de Bellini foram trasladadas de Paris para Ca- 
tania, pátria do auctor da Norma, tratou-se de celebrar uma 
292 



oo 

missa de requtem e depois de muitos embaraços na escolha 
appellaram para o patriotismo de Coppola ; este, apesar da 
«ua avançada edade não duvidou escrever rapidamente a missa 
que se lhe pediu, concluindo a em poucos dias. Foi executada 
em 24 de setembro de 1876 e dirigida pelo próprio auctor. 
Pela mesma occasião compoz Coppola uma cantata — // poto 
^ciolto — e um hymno em honra de Bellini. Estes foram os 
seus cantos de cysne. 

Falleceu na madrugada do dia 12 de novembro de 1877. 

Cordeiro (João). D. Francisco Manuel de Mello, na 
parte dos seus cApologos dialogaesi c^ue intitulou c Hospital 
das lettras», apresenta-nos uma breve lista dos portuguezes de 
maior engenho, e entre elles o musico João Cordeiro. Diz as- 
sim essa lista : 



«Não foi a natureza, nem a fortuna avara com os Portuguezes da glo- 
ria do engenho ; porque tal poeta como vos deu no Camões ; — tal histo- 
j-iador, como em João de Barros ; -- tal orador como em Jeronymo Osó- 
rio ; — tal rhetorico, como em Cypriano ; — tal jurista, como em João das 
Regras ; — tal escripturario, como em Oleastro ; — tal theologo, como em 
£gydio ; — tal maihematico, como em Pedro Nunes ; — tal medico, como 
•em Amato Lusitano ; — tal canonista, como em Luiz Corrêa ; — tal prega- 
dor, como em António Vieira ; — tal philosopho, como em Balthasar 
Telles ; — tal antiquário, como em Resende ; — tal tangedor, como em 
Alexandre Moreira ; — tal musico, como em João Cordeiro ; — tal destro, 
xomo em Gonçalo Barbosa ; — tal compositor, como em João Soares...» 

Tanto o «tangedor» Alexandre Moreira como o tmusico» 
João Cordeiro e o t destro» (virtuose^ como é moda dizer-se 
agora) Gonçalo Barbosa, foram glorias cujos explendores se 
apagaram porque não resta d'ellas outra memoria senão a que 
-deixou D. Francisco Manuel ; somente do compositor João Soa- 
res existem noticias certas e obras conhecidas, porque este é a 
afamado João Soares Rebello que D. João IV tanto estimava 
<v. Ilebello). 

Oordeii*o (João). Era assim designado algumas vezes 
abreviadamente o compositor João Cordeiro da Silva ; (v. em 
Silvst). 

Cordeiro (João Rodrigues). Nasceu no Rio de Ja- 
neiro em 1826, sendo filho do medico portuguez Rodrigues 
"Curto. Tinha apenas dois annos de edade quando o pae o trouxe 
para Lisboa, e pouco depois ficou orphão vendo-se a mãe obri- 
gada a esmolar o próprio sustento e dos filhos. 

Um protector encarregou-se de custear as despezas da 
educação de Rodrigues Cordeiro, chegando a contribuir para 
<jue frequentasse a escola medica em 1842. Depois matriculou- 

293 



oo 

se no conservatório, frequentando as aulas de contrabaixo e 
harmonia. 

A necessidade de prover á própria subsistência obriga- 
ram-n'o a logo exercer a arte, tocando nas orchestras e ensi- 
nando nas sociedades de amadores. 

Como era estudioso e intelligente, adquiriu por si só todos 
os conhecimentos necessários para se tomar hábil n'esta ulti- 
ma especialidade, estudando a theoria de todos os instrumen- 
tos e praticando mesmo muitos d'elles. 

Por esse tempo começaram a formar-se entre nós as socie- 
dades populares chamada sphilarmonicas, e João Rodrigues Cor-^ 
deiro foi o primeiro e melhor mestre que essas sociedades ti- 
veram. Habituou-se a escrever musica fácil e banal para elles,. 
chegando a fazel-o com pasmosa rapidez e abundância; cho- 
viam-lhe as encommendas, pois estabelecera preços muito con- 
vidativos ; por cada folha de panitura com oito paginas levava 
avulsamente 480 ou 5oo réis e aos artistas e intermediários- 
320 réis ; também copiava as partes separadas a 140 réis por 
folha. 

Está claro que este meio em que a necessidade o collocou 
não lhe permittiu ter uma orientação artística elevada, e mes- 
mo o seu caracter prosaico e epicurista o não faziam propensa 
a grandes commettimentos. 

Não escreveu portanto coisa alguma que sahisse da cra- 
veira vulgar, mas sabia muito bem do seu officio, sendo te- 
chnicamente correcto. Trabalhou muitissimo, espalhando as 
suas composições por todas as philarmonicas, bandas militares 
e directores de festas religiosas do paiz e do Brazil ; figuram 
entre o seu abundante trabalho grande quantidade de musica 
para egreja, aberturas para orchestra, musica de baile, solos 
para diversos instrumentos, marchas, hymnos, pot-pourris, etc^ 
para banda militar, muitos trechos para piano e para canto. 

Compoz musica para uma operetta — «Qual dos três ?§ — 
que se representou no Gymnasio em 3 de janeiro de 1870, as- 
sim como para muitas comedias e dramas representados env 
diversas épocas e theatros. Entre essas peças especificarei: 

«João o Carteiro», «O Paralytico», «Ò Lago de Kyllar- 
neyi, «O Trapeiro de Paris», «A Indiana», «A Kedempção»,. 
fPedro o Ruivo», «Cadet Roussel», «O Bastardo», «Maria 
Antonietta», «A Pastora dos Alpes», «Picolino», «Judeu Po- 
laco». Nem toda a musica que fez para estas peças era origi- 
nal, recorrendo muitas vezes aos cantos e hymnos nacionaes 
de diversos paizes quando isso vinha a propósito, como na 
«Pastora dos Alpes», «Maria Antonietta», etc. Tenho os auto- 
294 



CO 

graphos de todas as panituras a que me refiro e de outras me- 
nos importantes. 

O editor Lence publicou um «Hymno a S. M. a Rainha 
a Senhora D. Maria Pia», para canto e piano e para piano só; 
Sassetti publicou lO Africano», tango para canto e piano e 
para piano só ; Figueiredo publicou diversas dansas para pia- 
no. Ultimamente era director de um jornal intitulado La Gran- 
de Sotrée^ para a qual compoz e arranjou muitos trechos. Este 
jornal dedicou-lhe um panegyrico que pecca por exagerado. 

Mas sem a menor duvida, João Rodrigues Cordeiro era 
musico de muito merecimento, embora não o empregasse em 
trabalhos de grande valor. Era inclinado a estudos litterarios 
e scienti ticos, nos quaes empregava as horas vagas, sabendo 
um pouco de medecina, botânica, chimica, photographia, me- 
cânica, etc. 

Os philarmonicos que elle ensinava estimavam-n'o muito. 

Falleceu em ii de maio de 1881. 

Cor-deiro (Padre José dos Reis). Organista e com- 
positor de musica religi^osa. Não produziu muito nem obras 
que mereçam menção. Entrou para a irmandade de Santa Ce- 
cília em 1826 e falleceu em i5 de outubro de 1857. Tenho 
d'elle a partitura autographa de uns responsorios da semana 
santa, com a data de 1829. 

Corrêa (Loren^^a Nunes). Cantora notável que fez a 
sua educação em Madrid com o celebre sopranista Farinelli (e 
não Marinelli, como Fétis escreveu e outros copiaram). Além 
de Madrid, cantou em Veneza, Nápoles, Paris, e por ultimo 
em Milão onde esteve no outomno de 1811 (v. La Scala, de 
Cambiaso, pag. 258-269). 

Fétis, na cBiographia Universal dos Músicos», diz que 
esta cantora nasceu em Lisboa em 1771 ; porém Baltasar oal- 
doni, no «Diccionario» de músicos hespannoes, tomo 4.® pag. 
228, affirma que era natural de Málaga, dedicando-lhe um ex- 
tenso artigo e mencionando o sobrenome Nunes, que Fétis 
omittira. 

Entre estas duas affirmativas contraditórias não é facil 
optar sem provas. Mas o caso é aqui insignificante : tivesse Lo- 
renza Corrêa nascido ou não em Lisboa, é certo que nunca se 
fez ouvir entre nós nem existe a seu respeito noticia alguma 
que se ligue com a nossa historia artística ; portanto é desca- 
bido o seu nome entre os dos músicos portuguezes. Só a men- 
ciono para notar tal circumstancia e para que a omissão se não 
attribua a lapso. 

Corrêa dei Campo (Manuel), v. Campo. 

Correia (Antomo José Félix). Auctor de uma opera 

295 



oo 

feita sobre o libretto de Metastasio — La Clemefi\a di Tito — 
e dedicada á rainha D. Maria II. Vi na Bibliotheca Real a par- 
titura que o auctor ofFereceu, eni três volumes ricamente en- 
cadernados, com uma dedicatória na qual se lê ter elle sido 
empregado nos tribunaes e apaixonado amador de musica, que 
estudou nas horas vagas a pratica de instrumentos e algumas 
noções de composição, sendo aquella a sua primeira opera. 
Creio que seria também a ultima, no que pouco se perdeu, 
segundo parece pela estreia. 

Correia, (Henrique Carlos). Compositor, de quem 
Barbosa Machado dá a seguinte noticia (tomo 2.^ pag. 446). 

«Henriaue Carlos Corrêa naceo em Lisboa a 10 de Fevereiro de 1680, 
sendo filho ae Félix fhomaz Corrêa, e Marianna de Brito e Oliveira. Nos 
primeiros annos em que logo mostrou viveza de engenho, e felicidade de 
memoria cultivou a Arte da Musica aue lhe ensinou o Padre Domingos 
Nunes Pereyra Mestre da Cathedral de Lisboa, de quem já fizemos memo- 
ria, e foram taes os progressos, que fez nesta Faculdade, que chegou a ex- 
ceder ao seu Mestre, e competir com o insigne António Marques Lesbio, 
Mestre da Capella Real, venerando Oráculo desta armonica Arte. A fama 
que corria da sua profunda sciencia authenticada com a multiplicidade de 
obras em que a novidade da idea se unia com a armonia da consonância 
sempre reguladas pelos preceitos da Arte, moveo ao Illustrissimo Bispo 
de Coimbra D. António de Sousa e Vasconcellos, para o chamar para 
Mestre da sua Cathedral, cuja incumbência desempenhou por muitos an- 
nos com geral aclamação. Anhelando o seu espirito a mayor perfeição re- 
cebeo o habito militar de S. Thiago em o Real Convento de Palmella a 24 
de julho de 1716 onde exercitando o magistério da Musica não tem cessado 
até o tempo presente de compor as obras que se ouvem com applauso e 
se conservão com estimação, cujo catalogo é o seguinte . . » 



O catalago é muito extenso ; comprehende quarenta e duas 
composições de musica religiosa, entre as quaes figuram algu- 
mas a oito e a doze vozes. Quanto ao seu merecimento po- 
rém, não posso apresentar contestação nem confirmação dos 
elogios que lhe faz Barbosa Machado, porque até hoje ainda 
não pude obter um só specimen d'essas obras. 

Correia (Padre João Dias). Distincto e muito esti- 
mado cantor em Braga, onde nasceu em 1829, Foi cantor-mór 
de vários coros d'aquella cidade, professor de cantochão no 
Seminário e primeiro baixo na capella da Cathedral. Falleceu 
em maio de 1877. 

Coi-jreia (Frei Manuel), Frade carmelita natural de 
Lisboa, discípulo de Filippe de Magalhães. Passou-se a Hes- 
panha, onde foi mestre da capella de Siguenza, e depois da 
cathedral de Saragoça ; para esta ultima entrou em 1 3 de se- 
tembro de i65o. Falleceu em i de agosto de i653. 
2q6 



oo 

Compoz muita musica religiosa, sendo considerado el pri- 
mero en grada para los villancicos. 

No catalogo da bibliotheca de D. João IV figuram com 
«fFeito vários villancicos, assim como um motete — Adjuva-nos 
— a cinco vozes, do qual Barbosa Machado diz que «merece 
distincta estimação». 

Em junho do presente anno (1899), P^^ occasião de se ce- 
lebrar o centenário do pintor Velazquez, houve na Academia 
de Bellas Artes de Madrid um concerto histórico em que se 
'executou um Bailei e de frei Manuel Correia. 

Coirela do Oampo (Manuel), v. Oa.mpo. 

Coireia (Manuel António). Mestre de musica militar, 
com muito merecimento. Nasceu em Lisboa, na freguezia do 
Coração de Jesus, em 1808. Sentou praça de clarim na caval- 
laria, chegando pela sua habilidade e estudo a ser mestre da 
fanfarra do regimento de lanceiros n.° 2. 

Entrou para a irmandade de Santa Cecília em 20 de maio 
de 1843, incorporando-se em seguida na orchcstra de S. Car- 
los como segundo clarim. O primeiro era n'esse tempo Santos 
Pinto, o qual nos intervallos dos espectáculos dava lições de 
harmonia ao seu collega, exactamente como elle as tinha tam- 
bém recebido de Manuel Joaquim Botelho. 

Manuel Correia foi um dos nossos músicos que primeiro 
aprenderam a tocar cornetim, e o primeiro que se apresentou 
a tocar a solo n este instrumento, executando uma composição 
'expressamente escripta pelo Pinto, n'um concerto realisado na 
Assembléa Philarmonica em 25 de novembro de 1848. 

Era habilissimo em escrever musica para fanfarra, assim 
-como em ensaiar e dirigir, para o que tinha grande paciência 
€ maneiras insinuantes. No verão de 1869 organisou uma gran- 
de fanfarra, da qual faziam parte artistas de primeira ordem, 
entre elles Augusto Neuparth, Raphael Croner, Del Negro, 
Carvalho e Mello, etc. Esta soberba fanfarra deu alguns con- 
certos no antigo Passeio Publico, produzindo um verdadeiro 
deslumbramento pela inexcedivel perfeição com que executou 
peças diíBceis de orchestra, taes como as aberturas da Dinorah 
e do Guilherme Tell^ admiravelmente transcriptas para os ins- 
trumentos de Sax. 

Manuel Correia escreveu grande quantidade de musica 
para banda e para fanfarra ; entre essa musica contam-se mui- 
tas peças originaes e numerosas transcripçôes de orchestra. 
Alguns trechos pequenos e fáceis foram publicados em parti- 
tura por Augusto Neuparth, para uso das sociedades philar- 
monicas. Também o editor Figueiredo publicou dois hymnos 
para canto e piano, um dedicado ao exercito e outro ao ma- 

297 



oo 

rechal Saldanha. Compoz também alguma musica religiosa, 
entre ella uma missa a três vozes e diversos instrumentos, de- 
dicada ao sr. D. Fernando de Sousa Coutinho e escripta na 
sua quinta do Bomjardim. 

Manuel António Correia falleceu em 7 de janeiro de 1887, 
tendo 79 annos de edade. 

CoxTeia (Pedro). Lente de musica na universidade de 
Coimbra, tendo sido nomeado em 3 de outubro de 1594. Fal- 
leceu em 16 10. 

Cossonl {Guilherme Antomó). Um dos nossos músi- 
cos mais sinceros e convictos, um dos que tinha mais elevada 
intuição artistica e, sem duvida, o que mais afincadamente tra- 
balhou para que a grande arte fosse entre nós apreciada, fa- 
zendo ouvir as obras clássicas dos grandes mestres, luctando 
presistentemente contra o gosto vulgar. 

Guilherme António Cossoul, nasceu em Lisboa, a 22 de 
abril de 1828. Foram seus pães Jean Louis Oliver Cossoul e 
D. Virginia Cossoul, sobrinha do celebre aeronauta Guilherme 
Mugenio Robertson. 

Aprendeu musica logo desde a primeira infância com a 
própria mãe, que lhe ensinou piano e harpa, sendo-lhe seu pae 
inestre de violoncello. Mais tarde estudou harmonia com San- 
tos Pinto. 

Ftíz a sua primeira apresentação publica, quando ainda 
nao tinha completado 12 annos deedade, tocando uma peça 
do piano e outra de harpa n uma recita que o pae deu no 
thcatro da Rua dos Condes, em 25 de fevereiro de 1840. Um 
mez depois, em 25 de março, executou as mesmas peças no 
ilicarro de S. Carlos. 

Em outubro de 1842 já dirigia a orchestra de amadores 
da «Assembléa Philarmonica», tendo apenas 14 annos. 

Mas o seu verdadeiro inicio na carreira profissional foi em 
1S43, porque está datada de 3o de agosto d'esse anno a sua 
assignatura no livro da irmandade de Santa Cecilia. Entrou 
logo na orchestra de S. Carlos, como segundo violoncello (o- 
primeiro era João Jordani), logar que occupou até subir a mes- 
tre em 1860. 

N'esse tempo o serviço da orchestra d*aquelle theatro não 
occupava brutalmente o artista dia e noite, como succede hoje ; 
algumas noites ficavam livres em cada semana, e essas empre- 
gava-as Cossoul nas reuniões e concertos particulares. 

Tenho noticia de um concerto realisado na tAssembléa 
Philarmonica», em 7 de outubro de 1848, em que executou no 
violloncello uma «Polaca e Bolero» de Franchome, cuja apre- 
298 



DICCIOSARIO BIOGRAPHICO 

DE MÚSICOS PORTUGUEZES 




G[uill\ei*ii\e -Xiitoi^io (Joí^.^oul 



VoL. I — Foi.ttA \X) 



oo 

dação foi feita pelo jornal lEspectador», n.® 3, nos seguintes 
termos: 

aQuanto ao solo de violoncello, os apreciadores já estão acostuma- 
dos a admirar e applaudir o talento do )oven executante, oue escusado 
será dizer que cada um dos seus concertos é um novo triumpno.» 

N*outro concerto dado pela t Academia Melpomenense», 
em 2 de novembro do citado anno, dirigiu uma abertura de 
sua composição e executou com Daddi um duetto de Fran- 
chome, para violoncello e piano. A citada abertura repetiu-se 
frequentes vezes n'aquella e outras sociedades de amadores. 

Tendo vindo a Lisboa, em junho de 1849, o pianista An- 
tónio Kontsky, Cossoul dedicou-lhe outra abertura, que foi 
executada no theatro de D. Maria em 3o de outubro do mes- 
mo anno. Por esse tempo foi nomeado musico da Real Ga- 
mara. 

Em março de i85o tocou a solo no theatro de S. Carlos, 
fazendo-lhe a tRevista dos Espectáculos» a seguinte critica : 

«O sr. Guilherme António Cossoul, joven professor já vantajosamen- 
te conhecido do publico, colheu bem merecidos applausos pela delicadeza 
e perícia com que tocou, na noite do beneficio do Monte pio Philarmo- 
nico, um andante e rondo de Servais; sendo unicamente para lamentar 
(como dissemos em o n." 52 da Revista Popular) que não tivesse escolhi- 
do uma peça mais agradável, ou, pelo menos, escripta sobre motivos mais 
conhecidos ; tanto mais, que, em musica, não julgamos impossível lison- 
gear os sentidos, embrenhando-se ao mesmo tempo nas sublimidades da 
sciencia.» 

Esta critica á composição do celebre víoloncellista belga 
Adrien Servais, representa um echo da opinião vulgar d^aquella 
época, que dava preferencia ás phantasias e variações sobre 
motivos conhecidos ; era justamente contra essa preferencia que 
o nosso artista animosamente luctava, apresentando sempre 
que podia musica original e de bom quilate. 

Entretanto prosperava a opera cómica nacional, inaugu- 
rada por Miro no theatro do Gymnasio em 1848 e continuada 
por Casimiro; o primeiro tinha dado n'este theatro a tMar- 
quezat, o segundo apresentou depois no de D. Fernando a 
tBatalha de Montereau», duas peças que ficaram memorá- 
veis. 

Cossoul quiz experimentar fortuna n'este campo, e sobra 
um libretto arranjado por José Romano compoz uma opera 
cómica n'um acto, intitulada tA Cisterna do Diabo». Repre- 
sentou-se esta peça no theatro do Gymnasio em 17 de agosto 

299 



oo 

de 18B0, tomando parte no seu desenapenho o excellente bari- 
tonio António Celestino. 

Segundo noticiaram os jomaes, a musica t agradou mere- 
cidamente», e Lopes de Mendonça dedicou-lhe as seguintes li- 
nhas n um folhetim da «Revolução de Setembro» : 

«A parte musical escripta com inspiração e movimento^ parece-nos 
peccar por excessivamente elevada no assumpto ; distrahe-se do género 
opera-comica^ para as melodias da escola italiana. É um defeito feliz, se é 
porventura um defeito. Denuncia no joven auctor grandes tendências para 
a opera, e promette-nos um esperançoso compositor, cheio de sentimento 
e de elevação artística.» 

A «Revista dos Espectáculos» também disse que a com- 
posição de Cossoul «encerra muitas bellezas de canto e de 
mstrumentação, mas que o seu estylo, em geral, é talvez mais 
severo e menos ligeiro do que requerem as composições d'este 
género. » 

Como disse muito bem Lopes de Mendonça, o «sentimen- 
to e a elevação artistica» eram sem duvida alguma as mais 
notáveis qualidades de Guilherme Cossoul, mas faltaram-lhe 
quaesquer outras, ou pelo menos a vontade, porque não pro- 
seguiu na carreira. 

Escreveu porém mais duas operas cómicas n*um acto, 
para o conde ao Farrobo fazer cantar no seu theatro das La- 
rangeiras. A primeira, intitulada «O Arrieiro» cantou-se effe- 
ctivamente ali em 1862 ; da segunda — lO visionário do Alem- 
tejo» — não consta que chegasse a ser cantada, mas a partitu- 
ra existia na bibliotheca d'aquelle fidalgo, pois a vejo mencio- 
nada no respectivo catalogo manuscripto, que possuo. 

Na época de i83i-52 esteve em S. Carlos uma cantora 
muito notável. Carolina Sannazaro, nova e sympathica, por 
quem o nosso artista se apaixonou a ponto de pretender casar 
com ella. Desistiu porém da pretenção, contentando-se em lhe 
dedicar uma romança, com poesia portugueza feita por Men- 
des Leal, e que a Sannazaro cantou na noite da sua despe- 
dida. 

Em 19 de abril de i863 houve na «Academia Melpome- 
nense», um grande concerto em beneficio dos Asylos da infân- 
cia, ao qual assistiu toda a familia real. N'esse concerto dirigiu 
Cossoul a orchestra, que executou uma symphonia de Mozart. 
Não perdia, como se vê, ensejo de fazer executar boa musica ; 
também n uma recita de S. Carlos, dada por Carrara, em 
maio do mesmo anno, apresentou uma abertura de Beethoven 
e outra de Mozart; por essa occasião executou no violon- 

3oo 



oo 

cello uma composição sua intitulada Caprice sur la Sicilienne. 

Para satisfazer os seus mais ardentes desejos, partiu para 
Paris em junho de i853. Ali se demorou até agosto do anno 
seguinte, estudando, ouvindo e frequentando os grandes cen- 
tros anisticos. Fez parte da orchestra da «Grande Opera t, e 
também algumas vezes se apresentou a solo ; tenho noticia de 
um concerto que elle deu no salão Pleyel, que lhe valeu elogios 
em alguns jornaes, entre elles La France Musical e Le Théa- 
ire. Este ultimo termina o seu artigo com o seguinte período : 
fMr. Cossoul chante sur sa basse, tantót avec une puissance 
(Tarchet saisissante, tantót avec une douceur plaintwe et mé- 
lancolique cTun charme tnfini.* 

Regressando a Lisboa, na época em que a corte se achava 
em Cintra, deu ali um concerto que a «Revista dos Espectá- 
culos», de setembro de 1864, noticia nos seguintes termos: 

«O joven e talentoso violoncellista o sr. Guilherme Cossoul, regres- 
sado ha pouco de Paris, onde por espaço de quatorze mezes recebeu as 
lições e os conselhos dos melhores mestres, deu ha pouco um concerto 
em Cintra, na nova sala do sr. Sassetti, e deixou convencidos a todos quan- 
tos se achavam presentes, da grande vantagem que tirou do sério estudo 
que fez em quanto esteve ausente de Portugal. Com effeito,,o sr. Cossoul, 
que já era vantajosamente conhecido entre nós, não só se apresentou ago- 
ra como um tocador hábil, cheio de sentimento, de gosto e de expressão, 
mas patenteia-se também como um compositor digno de grande elogio. 
A phantasia por elle composta e aue, n'aquella occasião lhe ouvimos exe- 
cutar sobre motivos do Roberto ao Diabo, é uma prova do que acabamos 
de dizer e que lhe fez a maior honra.— A sr.* D. Sophia Cossoul, insigne 
professora ae harpa e cantora da camará de S. Magestade, também con- 
correu para abrilhantar o concerto dado por seu irmão, tocando e cantando 
varias pecas com todo o primor.— A concorrência foi numerosa, brilhante,, 
e applauáiu unanimemente por varias vezes os dois estimáveis artistas.» 

Quando D. Pedro V regressou da viagem que fizera aa 
estrangeiro, Guilherme Cossoul escreveu e dedicou-lhe um 
grande Te Deum a quatro vozes e grande orchestra, que se 
executou na Sé em 14 de agosto de i855. Existe na Biblio- 
theca Real da Ajuda a partitura autographa d'esta composição, 
que foi muitas vezes executada em diversas outras occasiões 
solemnes. No cartório da irmandade de Santa Cecilia ha uma 
copia. 

N'este mesmo anno compoz uma missa a quatro vozes e 
orchestra, executada na festa da acclamação de D. Pedro V. 

De i856 tenho noticia de ter tomado parte n'um concerta 
que houve no paço das Necessidades em 1 1 de fevereiro, no 
qual se fez ouvir o celebre pianista Thalberg ; Cossoul tocou 
uma Reverte de Franco Mendes. N'esse mesmo anno apresen- 

3o I 



oo 

tou uma Cantata dedicada ao rei D. Fernando, que foi ouvida 
n'um concerto da t Academia Philarmonicdi em 5 de janeiro, 
e ao qual assistiu a familia real. N^esse concerto também So- 
phia Cossoul cantou uma romanza — La Barque — composição 
do irmão e dedicada á duqueza de Palmella. 

i858 marca uma época memorável na vida de Guilherme 
Cossoul : foi n'esse anno que se viu elevado ao logar de maes- 
tro no theatro de S. Carlos, para substituir Vicente Schira fal- 
lecido no fim do anno anterior*. N'este anno, em 8 de abril, 
o barítono Beneventano cantou uma sua romança dedicada ao 
rei D. Fernando, intitulada Le Prisonnier, poesia de Méry. 

E na festa de Santa Cecília realisada também n este anno 
de i858, apresentou umami*'sa solemne a quatro vozes e gran- 
de orchestra dedicada á rainha D. Estephania. Guarda-se na 
Bibliotheca da Ajuda a partitura autographa d'esta missa. 

Construíra se por aquelle tempo no Largo da Abegoaria 
um bom edifício com sala para concertos, que foi denominado 
«Casino Lisbonense». Tendo-se dissolvido a empreza que ten- 
cionava explorai o, Cossoul emprehendeu organisar uma so- 
ciedade de concertos populares, exactamente no momento em 
que Pasdeloup em Paris trabalhava na mesma empreza. Com- 
municou a sua idéa a Augusto Neuparth, que a acceitou com 
enthusiasmo, e obtida a adherencia de Thiago Canongia, José 
Maria de Freitas e Fihppe Real, este primeiro núcleo assignou 
uma circular aos principaes artistas de Lisboa convidando-os a 
constituírem uma sociedade de concertos. 

Todos accorreram pressurosos ao convite, e trabalhando-se 
com grande ardor nos preparativos rapidamente se organisou 
a sociedade ; realisou-se o primeiro concerto em 17 de agosto 
de 1860, isto é, mais de um anno antes que Pasdeloup podes- 
se inaugurar os seus, cujo primeiro foi em 27 de outubro de 
1861. O êxito foi extraordinário e o publico correu em massa 
a ouvir esses concertos que applaudíu com o maior enthusias- 
mo. Terminou a primeira época com o 14.® concerto que teve 
logar a 26 de setembro. Em abril de 1861 começou uma se- 
gunda época que se prolongou até setembro, tendo logar du- 
rante esse período perto de cincoenta concertos que se efte- 
ctuavam regularmente todas as terças e sextas feiras, havendo 
ainda alguns extraordinários em outros dias. 

Um dos concertos extraordinários realisados na primeira 
época, foi em beneficio do monumento a Camões ; teve logar 
em 12 de setembro de 1860, sendo n'essa occasião que pela 



* E nSo Saltos Pinto, como por lapso ficou d;to na biographia d« Ca rrero. 
302 



oo 

primeira vez se executou a conhecida marcha consagrada ao 
grande poeta. O primeiro anniversario da inauguração dos 
concertos populares foi commemorado por uma forma curiosa : 
Cossoul escreveu um coro sobre uma poesia de José Romano, 
€ esse coro foi cantado por todos os executantes da orchestra. 

Apesar de tanto enthusiasmo, os concertos decahiram 
muito ao terceiro anno. A concorrência do pubh*co afrouxou 
e, como resuhado, os sócios mais interesseiros desampararam 
a sociedade obrigando-a a dissolver se por falta de numero. 
Os concertos realisados em 1862 foram já poucos e fracos. 

Teve porém os mais benéficos resultados, apezar da sua 
curta duração, este bello emprehendimento de Guilherme Cos- 
soul : muitos dos nossos primeiros artistas ali se crearam e ali 
fizeram as suas primeiras armas ; outros já eximios mas igno- 
rados, tornaram-se conhecidos; outros, estimulados pelo exem- 
plo, estudaram e capricharam em disputar competências. A 
todos, emfim, foi de grande proveito a emulação estabelecida, 
o exercicio bem dirigido e os applausos com que o -publico os 
victoriava. 

Entre os soHstas que mais se distinguiram notarei : 

Pianistas : Daddi, Eugénio Mazoni, Meumann, Augusto 
Xavier e Emilio Lami ; este era acompanhador effectivo e um 
dos mais ardentes batalhadores doesta cruzada. Também se 
estreiou a pianista e distincta professora M.™« Girard, que 
desde então ficou vivendo entre nós, e o pianista polaco Emi- 
lio Wroblewski. 

Violinistas : Vicente Masoni, Freitas, Carrero e o malo- 
grado Guilherme Soromenho. 

Violoncellistas : Cossoul e Sérgio. 

António Croner, flauta. 

Raphael Croner e Carlos Campos, clarinettes. 

Ernesto Wagner, trompa. 

Carvalho e Mello, cornetim. 

Galleazzo Fontana, harpa. 

Neuparth, fagotte, clarinette e saxophone. 

E' porém verdade que, apezar de todos os bons desejos 
de Cossoul e muito contra sua vontade, não se ouviam com 
bastante frequência n'estes concertos as obras primas dos gran- 
des symphonistas. Os trechos mais notáveis que se encontram 
nos seus programmas são: as aberturas do Frejrschut\^ Obe- 
roHj Flauta encantada e Guilherme Tell; as marchas Tan- 
nhauser de Wagner, Nupcial de Mendessohn, Húngara de 
Berlioz, Schiller de Meyerbeer e mais a terceira Dama dos 
fachos de Meyerbeer, o Convite á Valsa de Weber, o setimino 
de Humme le o entreacto de Philemon et Baucis de Gounod ; 

3o3 



oo 

de Beethoven, apenas como amostra, a Batalha de Vtctoria 
e o Andante e scher\o da sétima symphonia. 

Para cerca de setenta concertos foi realmente pouco. Mas 
cumpre advertir que o publico assim o exigia ; o que mais lhe 
agradava eram os pot-pourris de operas e as peças a solo ou 
concertantes. Entre estas ultimas mencionarei como uma das 
mais notáveis, o celebre duetto de Thalberg, para dois pianos^ 
sobre motivos da Norma, executado por Lami, d'uma vez com 
Masoni, e d' outra vez com M.*"« Cart. 

Como curiosidade consignarei a gratificação especial que 
tinham os solistas n'estes concertos : por uma peça a solo re- 
cebiam 4Cr5oo réis ; por um duetto 3íCí!000 réis ; por uma peça 
concertante desempenhada por mais de dois executantes, réis 
2^25o. 

Em 21 de outubro de 18G1, a colónia italiana em Lisboa 
mandou celebrar solemnes exéquias pelo conde Gavour; des- 
empenharam a parte musical todos os cantores e a orchestra 
de S. Carlos dirigidos por Cossoul, o qual escreveu para essa 
solemnidcide os seguintes trechos : Benedictus^ solo cantado 
pelo tenor Baragli ; Tremem factus, solo pelo tenor Fraschini^ 
Dies ilh, solo pelo baixo Delia Costa ; Domine^ duetto para 
tenor e barítono, por Fraschini e Guicciardi. 

Em i863 esteve Cossoul em Londres, fazendo se ouvir a 
solo no Palácio de Chrystal, sendo muito applaudido e elogia- 
do por diversos jornaes. 

No regresso foi nomeado director da escola de musica do 
Conservatório, onde já era professor de violoncello e contra- 
baixo desde 1861. 

N'esse estabelecimento prestou Guilherme Cossoul os mais 
relevantes serviços, com um zelo, actividade e intelligencia, 
que infelizmente não tem servido de exemplo. Foram seus dis- 
cípulos de violoncello Eduardo Wagner, Cunha e Silva, Frei- 
tas Gazul e outros ; no contrabaixo teve por discípulo Júlio 
Soares, um contrabaixista de muito merecimento. 

Como director da escola mandou que todos os professo- 
res organisassem programmas de estudos para as suas aulas, 
que até ali não tinham ou não eram observados ; redigiu elle 
mesmo, de accordo com Eugénio Masoni, o programma para 
o curso da aula de piano, programma muito superior a todos 
os que depois se teem feito e que não tinha outro inconvenien- 
te senão o de ser muito difficil. Não Jogavam n'esse tempo in- 
teresses particulares de espécie alguma, nem Cossoul o con- 
sentiria, por isso a escolha d'aquelle programma visou única* 
mente ao seu verdadeiro fim. 

Nos exercícios públicos que até ali se realisavam no Con* 
3o4 



oo 

servatorio, era matéria corrente os alumnos cantarem e execu- 
tarem musica de medíocre valor, como árias, variações, phan- 
tasias, etc, tudo das operas mais em voga. Cossoul cortou im- 
mediatamente simílhante pratica, determinando que só se 
apresentasse musica clássica, determinação que encontrou mui- 
tas reluctancias, havendo até professor que declarou não saber 
o que era musica clássica. Eu mesmo, então alumno, o vi dar 
com todo o desembaraço e sem ambages uma solemne repri- 
menda no professor de canto Garrara, por ter apresentado uma 
alumna em exame cantando uma ária theatral do mau estylo 
da época. 

Foi elle também que estabeleceu o costume de interrom- 
per os examinandos durante as provas do exame, para os adver- 
tir dos erros commettidos e fazel-os corrigir ; costume utilíssi- 
mo que tomava o exame n'uma proveitosa lição final. Cossoul 
porém fazia as suas advertências com uma cordura e delica- 
deza, que bem longe de intimidar o examinando lhe davam 
animo para proseguir nas suas provas, observando o que se 
lhe dizia e empregando o maior cuidado em ser correcto. Ou- 
tros examinadores menos cordatos e desinteressados, querendo 
usar o mesmo systema estragaram-n'o praticando abusos. 

Muito faria este illustrado e benemérito mestre, se a sua 
administração da escola de musica do Conservatório tivesse 
sido mais prolongada ; decerto que, mesmo com o parco sub- 
sidio que então o governo concedia áquelle estabelecimento, se 
teria ella tornado uma instituição verdadeiramente útil, supe- 
riormente artistica e alheia a toda a especulação particular. 
Mas quiz a fatalidade que se apoderasse de Guilherme Cossoul 
uma singular 'mania: a de ser bombeiro. E levado pela anciã 
de ser primeiro em tudo, foi também um dos primeiros bom- 
beiros voluntários que houve em Lisboa, e um dos mais atre- 
vidos, acudindo intrépido a todos os incêndios, lançando-se ar- 
rojado em todos os perigos. Resultou da heróica philantropia 
irremediável mal para a arte : o rheumatismo gottoso, conse- 
quência de repetiaos resfriamentos, começou em breve a dar 
os primeiros rebates de um mal que não tardaria a inutilisal-o 
e o faria sofFrer horrivehnente. A sua actividade no Conserva- 
tório, principalmente como director, não durou por isso muito, 
apenas quatro ou cinco annos, diminuindo progressivamente 
até se reduzir ao simples ensino na aula, que por fim teve 
também de abandonar. 

Em 1864 associou-se Cossoul com Campos Valdez e Gui- 
lherme Lima para tomarem a empreza de S. Carlos, que effe- 
ctivamente lhes foi adjudicada. A gerência doesta empreza foi 
notável sob o ponto de vista artistico, graças principalmente á 
FoL. 20 3o5 



oo 

influencia de Cossoul, que empregava todos os esforços para 
que as operas de maior valor se apresentassem cuidadosamen- 
te ensaiadas. Sobretudo ficou memorável a extrema perfeição 
com que o Fausto foi posto em scena, tendo logar a primeira 
representação em i de dezembro de i865. Cossoul ensaiou 
esta opera com tal esmero, qiie tendo vindo no anno seguinte 
o baixo Jules Petit que em Paris creára o papel de fMephis- 
tophelest, declarou com toda a intimativa que o desempenho 
do «Fausto» no nosso theatro não era nada inferior ao da 
Grande Opera de Paris. Mas para se obter tal resultado teve 
a orchestra só á sua parte vinte e tantos longos ensaios, feitos 
com aquella paciência e minuciosidade que distinguiam Cos- 
soul como mestre. 

Durante muitos annos, em quanto na orchestra se conser- 
vou um certo numero dos artistas que tinham ensaiado o 
tFausto» na primeira época, *notava-se na execução doesta ope- 
ra um colorido e finura de detalhes que não eram habituaes 
em outras operas. 

Outro tanto succedeu com a «Africana», ouvida pela pri- 
meira vez em Lisboa a 2 de fevereiro de 1869, ensaiada por 
Cossoul com a mesma perfeição que empregara no tFausto». 

A doença porém seguia a sua marcha, vagarosa mas im- 
placável : primeiramente impediu-o de acudir aos incêndios ; 
depois tolneu-o de se occupar activamente com os trabalhos 
artísticos ; por fim inutilisou-o completamente, começando en- 
tão os dias de prolongado martyrio, softrido com heróica resi- 
gnação. 

Em 1872 dissolvera-se a empreza Valdez e Cossoul; este 
continuou a figurar nos elenchos como maestro até 1878, mas 
pouco serviço já podia prestar, e no ultimo anno apenas se 
sentou na cadeira da regência três ou quatro vezes. Tinha en- 
tão as mãos deformadas, mal podia mover os pés arrimado a 
uma bengala e só de carruagem fazia o curto trajecto de casa 
para o theatro. 

Só lhe restava o espirito, cuja vivacidade conservou até ás 
ultimas horas da existência. 

Falleceu ás 6 horas da manhã de 26 de novembro de 1880, 
tendo apenas 62 annos de edade. 

O seu funeral foi imponentíssimo. Mais de 2:000 pessoas 
de todas as classes acompanharam a pé o féretro, que foi con- 
duzido sobre uma carreta de bombeiros. Iam no fúnebre cor- 
tejo quasi todos os músicos de Lisboa, todos os artistas e em- 
pregados do theatro de S. Carlos, entre elles a cantora Ermi- 
nia Borghi-Mamo de quem Cossoul tinha sido muito amigo ; 
artistas de todos os theatros ; deputações de diversas socieda-» 
3o6 



oo 

des ; alumnos e professores do Conservatório ; corporações dos 
bombeiros voluntários e municipaes de Lisboa, Belem, Olivaes 
€ deputação dos bombeiros* voluntários do Porto; todas as 
bandas regimentaes da guarnição de Lisboa e a da armada ; 
presidente e vereadores da camará municipal ; litteratos, jor- 
nalistas e numerosissimos amigos pessoaes do finado. Quando 
o préstito passou pelo largo de Ô. Carlos, a orchestra d' este 
theatro reunida com a banda da Guarda Municipal e postadas 
sobre um grande estrado forrado de preto, executaram a mar- 
cha fúnebre de Ponchielli, sob a direcção do maestro Kuon. 

O cadáver foi depositado no tumulo da familia Palmella, 
por iniciativa da ducjueza, que o estimava muito. 

Um mez depois mandou a Associação Musica 24 de Ju- 
nho celebrar na egreja dos Martyres exéquias solemnes, nas 
quaes tomaram parte os principaes artistas, executando-se a 
missa de requiem de Cherubini. Os bombeiros voluntários pro- 
moveram entre si uma subscripção, com cujo producto lhe eri- 
giram o jazigo para onde foram trasladados os restos mortaes 
de Cossoul em 23 de abril de 1882. Ergue-se esse singelo mo- 
numento no cemitério occidental, consistindo n*um pedestal 
ornado de emblemas artisticoí!, sobre o qual se eleva a esta- 
tua de um génio com uma coroa nas mãos. 

Sobre o mérito e sobre a elevada orientação artistica de 
Guilherme Cossoul, ficou já dito o suficiente para se julgar do 
seu valor. Mas o seu caracter e qualidades pessoaes, egual- 
mente superiores, devem também ficar memoradas como no- 
bilíssimo exemplo ; n'este ponto falem por mim com mais au- 
ctoridade alguns escriptores que intimamente o conheceram. 



«Cossoul foi um talento brilhante, um fino homem de sociedade, um 
corarão propenso a todas as obras humanitárias, um caracter nobilissimo 
e jovial, nnaímente um homem querido da sociedade lisbonnense, que hoje 
vae render-lhe a ultima homenagem acompanhando-o a^ á sepultura. 

A dolorosa sensação que a noticia da sua morte produziu, a espon- 
taneidade com que todos parecem apostados em tornar numeroso e impo- 
jíiente o seu cortejo fúnebre, dão exacta medida da estima, da sympathia, 
da adoração com que as mais oppostas classes da sociedade lhe queriam. 

Com eífeito, elle foi o idolo de uma população inteira, quer appare- 
cesse nos magestosos salões aristocráticos, empunhando a sua batuta de 
regente, ou, louco de enthusiasmo, se arremessasse ao seio das chammas 
para salvar a vida do mais pobre e obscuro operário. 

Por isso a sua memoria será abençoada e bemdita em todos os tem- 
pos. 

Por isso hoje, nobres e plebeus, ricos e pobres, irão ao cemitério 
acompanhar os restos mortaes d*esse homem cujo bello espirito, cheio de 
actividade e benevolência, de dedicação e generosidade, deixou apoz si um 
rasto tão luminoso como perdurável. 

Nós, que sempre o estimámos como amigo e como artista, como ci- 

307 



CO 

dadão prestante e coração magnânimo, também por nossa vez vimos depor 
no seu athaude a coroa da nossa saudade e do nosso sentimento » 

(Diário lllustrado), 

«Coração rasgado a tudo (quanto era bom e digno, Guilherme Cos- 
soul tinha alma de verdadeiro artista, e as inspirações do seu talento cor- 
respondiam plenamente ás bondades do seu caracter, sempre franco e af- 
íavel em extremo.» 

(Diário de Noticias). 

«. • .Cossoul era a incarnação da alegria e da bondade. Travesso como- 
uma creança, era impossível estar-se quieto na companhia d*elle. Ao mes- 
mo tempo a sua jovialidade era realçada pelos mais honestos sentimentos 
de homem e pelo mais austero culto da arte. 

Não conheci nunca uma alliança mais encantadora e perfeita de qua- 
lidades que á primeira vista parecem inconciliáveis. 

Nas breves horas de descanço Guilherme Cossoul apparecia-nos um 
rapaz descuidoso, frívolo, folgasão, de uma alegria impetuosa, doida. 

E logo depois aquelle mesmo rapaz era um modelo de gravidade in- 
sinuante entre os seus companheiros, que como regente da orchestra de 
S. Carlos, como maestro e aos primeiros, dirigia peia mais incontrastavet 
de todas as auctoridades : a do mmto e a do talento ~ comprovado nas 
deliciosas composições que todos os apaixonados da boa musica conhe- 
cem e apreciam.» 

(Visconde de Benalcanfor, nos Perfis ArtisticoSy n.° 19). 

«E* profundamente melancholico pensar n'esse homem, cuja existên- 
cia incompleta, indefinida, despedaçada antes de ter podido verdadeira- 
mente realizar os trabalhos para que era armado e forte, n*este homem. 
para quem a morte teve um tao lon^o e doloroso preludio, e que só pode 
caracterisar-se falando da sua alegria communicativa, abundante, extraor- 
dinária, e — pode dizer-se — heróica. 

Essa alegria que os accidentes nem sempre impassivelmente próspe- 
ros da vida não poderam por um momento sequer impallidecer, teve por 
fim annos de lucta victoriosa com a dôr, com a deformação, com a morte,. 
que ainda nas ultimas lagrimas não podia de todo abafar- lhe os restos ani- 
mados d'um sorriso, que a vontade interior ainda formulava, mas para que 
os músculos da face já estavam immobilisados. 

A exuberância do bom humor, das partidas de Guilherme Gossoul,. 
ficará para sempre proverbial em Lisboa. 

A Ex."» Sr.* D. Magdalena Podestá enviou-lhe o seu álbum, onde já 
haviam escripto Bulhão Pato e outros d'entre os mais celebres poetas e es- 
criptores portuguezes, mas cuja primeira pagina fora reservada para Cos- 
soul. 

Quinze dias antes da sua morte, escrevendo n*cssa pagina, Guilherme 
Cossoul suppunha delicadamente que o haviam encarregado do modesto» 
logar de porteiro e dizia : 

«A dona da casa recommendou-me que deixasse entrar todas as pes- 
soas verdadeiramente amigas da familia Podestá... o que é uma ordem. 
para deixar entrar toda a gente.» 

""3Ô8 



oo 

«Como não posso assistir ao encerramento do album^ pelos meãs pa- 
<lecimentos que se aggravam cada vez mais, pedi á menina que me substi- 
tuísse por alguém que seja gottoso como eu, e, se for possível rabugento^ 
— quafídades essenciaes n*um porteiro. . .» 

«Entre, Bulhão Pato, entre, que a Sr.* D. Magdalena já lá está em 
cima . . . Quando entrou vinha cantando uma barcarola que em tempos es- 
cudou commígo. . • 

Mon cpil rêveur suit la barque lointaine 
Qui vient à moi faible jouet des/lots. • .» 

Quando apoz annos de soífrimento índescriptivel algum amigo o pro- 
•curava, dízía-lhe sempre rindo : 

— Estou bom. Completamente bom. Estou aqui descançando porque 
não tinha nada que fazer. Não me querem para nada. São intrigas que es- 
palham que estou doente. 

£ na, e ria sempre, e ao mesmo tempo, sem poder andar, sem poder 
mover os dedos, tendo ao lado o seu violoncello, a sua harpa, o seu piano 
mudos, mas por isso mesmo implacáveis, com dores permanentes, soífria 
TÍndo, um soífrimento horroroso. 

Como não podia tocar e como, já por fim, lhe custava fallar, fazia 
fabulas em francez com a mesma veia mextinguível do seu tempo d& 
saúde. 

Mas, nos dois últimos dias, sem voz já« quando os amigos o iam bei- 
jar na eterna despedida de todas as alegrias e de todas as dores, as lagri- 
mas corriam- lhe silenciosas pelo rosto. 

Guilherme Cossoul tinha uma distincção pessoal que se sentia nas 
suas relações pessoaes e na influencia que elle havia adquirido sobre toda a 
.sua classe em Lisboa : distincção de maneiras, feita de aífabilídade amável 
e de finura, distincção de aspecto, de toilette correcta, elegante e séria.» 

(Occidente, vol. 3.*, pag. 198). 



A obra de Cossoul como compositor, hoje quasi desco- 
nhecida, é no entanto considerável. Quasi todos os seus autogra- 
{>hos são hoje cuidadosamente guardados como estimadas re- 
iquias pelo irmão, o sr. Ricardo Cossoul; da relação d'esses 
autoçraphos e de outras noticias que pude obter, extrahí o 
:seguinte catalogo que julgo não estar longe de ser completo. 
Sigo quanto possível a ordem chronologica : 

1. — Fantasia para harpa dedicada a sua mãe. 1847. 

2. — Tercetto para piano, violino e violoncello, dedicado 
a seu pae. 1848. 

3. — Primeira abertura burlesca, para grande orchestra. 

4. — Segunda abertura burlesca para grande orchestra. 

6. — Abertura para grande orchestra dedicada a Barbosa 
Lima (v. este nome). 

6. — Abertura para grande orchestra dedicada a João AI- 

309 



oo 

berto, I.* contrabaixo do real theatro de S. Carlos (v. Oo»ta 
— João Alberto Rodrigues)* 

7. — Grande abertura para orchestra dedicada a António 
Kontsky. 1848. 

8. — Abertura para orchestra dedicada a seu pae. 

9. — Entreactos para o theatro do Gymnasio. 

10. — lA Cisterna do Diabo», opera cómica n'um acto. 
1848. 

II. — «O Arrieiro», opera cómica n'um acto. 1861. 

12. — tO Visionário do Alemtejo», opera cómica n^una 
acto. 

i3. — lAdeus Lisboa», romança. i853. 

14. — Fantasia c variações para o instrumento de madeira 
€ palha (xylophone). i853. 

i5. — Reverie para piano. 

16. — Fantasia para harpa sobre o Dominó noir. 

17. — Grande fantasia para harpa sobre motivos do Ma^. 
chbeth», dedicada a sua mãe. 

18. — Fantasia para violoncello sobre motivos da opera 
«Atila». 

19. — Capricho e variações para violoncello sobre a tSici- 
liana». i853. 

20. — Fantasia para violoncello sobre o bailado «Saltarel- 
lo». 1854. 

21. — Fantasia para violoncello sobre motivos da opera 
«Roberto do Diabo», dedicada a D. Pedro V. 1854. 

22. — Missa a quatro vozes e orchestra. i855. 

23. — Te-Deum a cjuatro vozes e orchestra. i855. 

24. — Cantata, dedicada ao rei D. Fernando. i856. 

25. — La Barque, romança dedicada á sr.* duqueza de Pai- 
mella. i856. ' i 

26. — Grande missa solemne a quatro vozes e orchestra* 
i858. 

27. — Te-Deum a quatro vozes e orchestra. i858. 

20. — Fantasia para piano sobre o duetto do !.• acto da 
«Machbeth», dedicada á duqueza de Palmella. 

29. — Le PrisonieTj romança para barítono, dedicada ao 
rei D. Fernando. 

30. — «Homenagem a Camões», marcha para orchestra 
(publicada para piano por Neuparth em 1880). 1860. 

3i. — Coro para celebrar o anniversario dos concertos po- 
pulares. 1861. 

32. — Libera mè^ a duas vozes, tenor e barítono, com 
acompanhamento de instrumentos de cordas. i86i. 

33. — Souvenir de Londres, reverte^ para violoncello. i863. 
3io 



oo 

34. — Tantum ergo, solo de tenor com acompanhamento 
de harpa e quartetto de cordas. 1868. 

35. — Final para a opera de Donizetti lA filha do Regi- 
mento», escripto para ser cantado por M.«"« Laura Harns. 
1870. 

36. — tOs sinos», dedicado ao sineiro de Santa Cruz de 
Braga. 1873. 

37. — Valsa para orchestra, dedicada á sr.* duqueza dç 
Palmella (publicada para piano pelo jornal «Perfis Artísticos» 
n.^ i5) 1882. 

O08S011I (Jean Louis Olivier). Filho de Jean Louis Cos- 
soul e de Catharina Tenain, ambos parisienses, nasceu em Pa- 
ris a 29 de janeiro de 1800. Estudou violino e violoncello no 
conservatório d'aquella cidade, mas não sei por que aventura, 
appareceu em Lisboa como ajudante do celebre aeronauta Eu- 

?[enio Robertson, em 18 18. O seu rosto trigueiro e baixa estatura 
ávoreceram a mystificação de se apresentar como indio, ficando 
o vulgo suppondo sempre que realmente o era. 

Robertson dava espectáculos de physica recreativa, phan- 
tasmagorias, mechanica, etc; Louis Cossoul — o Malabar, 
como lhe chamavam — não só o ajudava, mas também entreti- 
nha os intervallos com jogos malabares. 

O primeiro espectáculo de Robertson em Lisboa foi no 
salão dos concertos do theatro de S. Carlos, em 12 de outubro 
de 1818, continuando a apresentar-se com muita frequência, 
não só n'aquelle theatro mas também no da rua dos Condes e 
do Bairro Alto. 

Por este tempo casou Louis Cossoul com D. Virgínia, so- 
brinha de Robertson e excellente harpista. 

Desde o meiado de dezembro de 1823 até ao principio dç 
abril de 1824 deu a familia uma série de espectáculos no thea- 
tro do Bairro Alto, curiosamente variados : Robertson maravi- 
lhava os espectadores com as suas phantasmagorias, em que 
foi o primeiro do seu tempo; «Monsieur Cossoul, discípulo do 
conservatório de Paris e do afamado professor Kreutzer» — 
como diziam os annuncios — executava no violino concertos de 
Rode e outras composições para o mesmo instrumento; «M.""* 
Cossoul» tocava diversos trechos de harpa. N'um d'esses es- 
pectáculos, em 23 de fevereiro, executou D. Virgínia Cossoul 
um concerto de Nadermann com acompanhamento de orches- 
tra. Em diversos outros espectáculos, os dois esposos tocaram 
duettos de violino e harpa, assim como de violino e piano, pois 
que D. Virgínia era também pianista. 

Louis Cossoul começou então a deixar-se de exhibir os 
exercidos malabares, dedicando-se com mais especialidade á 

3ii 



oo 

musica. N'esse anno de 1828 annunciaram os dois esposos 
que davam lições em sua casa; o annuncio, publicado na «Ga- 
zeta de- Lisboa» de 3i de dezembro, diz assim: 



«Madame Cossoul^ Professora de Harpa, e seu mando Professor de 
Rebeca, ambos discípulos da Conservatória de Paris, residentes na travessa 
do Corpo Santo n.*' i5, ?.• andar, offerecem o seu préstimo para ensinarem 
qualquer dos dois sobreditos instrumentos. As pessoas que os quizerem 
aprender, podem dirigir-se á sua residência para tratarem do ajuste». 



N'outros annuncios publicados tempo depois, Louis Cos- 
soul intitula-5e também professor de violonceílo. Isto significa 
que, dotado de vocação natural e caracter emprehendedor, aqui 
mesmo elle ia estudando por si só e alargando o campo dos 
seus conhecimentos musicaes. 

Querendo emfím dedicar-se unicamente ao exercício da 
arte, requereu a sua admissão na irmandade de Santa Cecilia. 

Foi este um caso bastante embaraçoso para os membros 
da confraria dos músicos, porque sendo muito ciosos da sua 
dignidade sentiram naturalmente repugnância em receber por 
confrade o c celebre indio malabar». O estatuto da confraria 
prohibia que para ella entrasse quem exercesse qualquer officio 
mechaníco, mas nada deterniínava com respeito ás habilidades 
exercitadas por Cossoul. Para estudar assumpto tão novo e 
singular, reuniu a mesa da irmandade em conferencia de 14 de 
outubro de 1826; depois de madura reflexão e cedendo pro- 
vavelmente a instancias de empenhos, deliberaram os mesarios 
que o candidato podia ser admittido, com a condição de assi- 
gnar um termo em que se obrigasse a nunca mais «exercitar 
em Praças Publicas ou Theatros os exercicios de Jogos de Mãos 
nem de Ingolir espadas ou fazer equilíbrios, assim como lucra- 
tivamente em outro qualquer logar». 

O ex-malabar acceitou promptamente esta condição, e no 
próprio requerimento escreveu e assignou a declaração exigida» 
accrescentando que se sujeitava a ser despedido se faltasse a 
ella. Assignou também a acta da conferencia em gue a referida 
condição foi estabelecida, e finalmente, tendo feno exame ar- 
tístico e sido approvado em 24 do mez e anno acima mencio- 
nados^ poude dar ingresso na corporação dos artistas músicos. 

D*ahi por diante ficou Louis Cossoul vivendo exclusiva- 
mente da arte musical, tocando nas orchestras e principalmente 
dando lições. No ensino encontrou bons recursos, porque era 
dotado de muita paciência e cordura, adquirindo por isso nu- 
merosa clientella. Entre os seus discipulos de violonceílo, além 

3l2 



oo 

do próprio filho, tornou-se notável o amador Eugénio Sauvinet 
{v. este nome). 

Tendo em iSSy um relojoeiro de Paris, Leclerc, inventado 
uma espécie de harmoniflúte a que chamou tmelophone», e 
tendo este instrumento adquirido certa voga, Louis Cossoul 
mandou vir um, estudou-o e apresentou-sé com elle tocando 
•em alguns concertos. Santos Pinto escreveu um thema e varia- 
■ções para melophone, composição que foi executada por Cos- 
soul n'um concerto da «Academia Melpomenense» em 2 de 
novembro de 1848. 

Pelos fins de i85i emprehendeu implantar entre nós o 
-ensino do canto em coro pelo methodo de Galin, aperfeiçoado 
por Émile Ghevé, que n^esse tempo estava fazendo a elle activa 
propaganda; para fiealisar a sua idéa offereceu Cossoul á «Aca- 
demia Melpomenense» reger um curso gratuito por aquelle sys- 
tema, e tendo a ofiferta sido acceite fez a mesma Academia o 
seguinte annuncio: 

Academia Helpomenense 

A direcção participa aos sócios amadores que no dia 8 de janeiro pró- 
ximo futuro, nas terças e quintas feiras, e sabbados pelas 6 horas da tarde 
€m ponto, começa na Academia o curso de musica vocal pelo moderno e 
facilimo systema Galin Paris Ghevé sob a direcção do sócio João Luiz Oli- 
vier Cossoul, que voluntariamente se offereceu para estabelecer o dito curso 
tão somente para os sócios e suas famílias, e gratuitamente: este systema 
habilita a solfejar em todas as claves, e a cantar em coros em curto espaço 
■de tempo. Os sócios que quizerem aproveitar-se d'estas vantagens deverão 
deixar seus nomes inscriptos em um livro que para isso se acha na Aca- 
demia onde também está patente o respectivo regulamento»). 

(Ann. na Rev. de Set. 22 dez. i85i). 

Dois annos depois dirigia este curso em sua própria casa, 
admittindo gratuitamente até ao numero de 5o creanças e for- 
necendo elle mesmo os livros necessários. Por varias vezes 
apresentou os seus pequenos discipulos cantando coros infantis 
na Academia Melpomenense ; na noite de natal d'aquelle anno 
foram elles cantar a missa á capella real das Necessidades, 
recebendo por isso muitos elogios o paciente e dedicado mes- 
tre. 

Castilho, nas c Estreias poetico-musícaes», pagina 61, ai- 
iude elogiosamente a este emprehendimento de Louis Cossoul. 

Todavia pouco mais tempo durou, acabando como aca- 
bam entre nós muitos emprenendimentos úteis, por falta de 
auxilio eíGcaz. 

3i3 



oo 

D'ahi por diante Louis Cossoul occupou- se unicamente dO 
ensino particular. 

Tendo em 1862 fallecido a filha que elle muito estimava, 
D, Sophia Leonor Cossoul Gardé, esta perda causou-lhe tão 
grande abalo que apenas lhe sobreviveu alguns mezes, expi- 
rando em 18 de fevereiro de i863. 

D. Sophia Cossoul era também uma harpista de muito 
valor, tendo se feito apreciar em numerosos concertos públicos 
e particulares. Nascera em Lisboa a 20 de agosto de 1820. 

Ooista. (Affonso Va\ da) Compositor e cantor portuguez 
que exerceu a sua actividade artistica em Hespanha, lallecendo 
em Ávila, no principio do século XVII, segundo affirma Bar- 
bosa Machado. Este mesmo escriptor diz que Vaz da Costa 
partira para Roma na adolescência, send^ depois mestre da 
capella da cathedral de Badajoz e mais tarde da de Ávila, onde 
por largo tempo ensinou, produzindo notáveis discipulos. Bar- 
bosa accrescenta ainda que D. João IV enriqueceu a sua biblio- 
theca com as obras musicaes — principalmente as sagradas — 
d'cste compositor, mas tal affirmativa posso eu dar por menos 
verdadeira: no catalogo da livraria de D. João IV figura ape- 
nas uma vez o nome de Affonso Vaz da Costa, como auctor 
de um único villancico, a solo e a cinco vozes. 

O cardeal Saraiva na tLista de alguns artistas portugue- 
ses», diz que este musico falleceu em iBgg, mas parece-me 
também asserção sem fundamento, porque na curtíssima no- 
ticia que dá não mostra ter encontrado outra fonte que não 
losse a cBibliotheca Lusitana». 

OOHta. (Frei André da). Religioso trino, natural de Lis- 
boa- Foi admittido no convento da Santissima Trindade pelo 
seu mérito de harpista e compositor, recebendo o habito em 
3 de agosto de i65o. Pertenceu depois á capella real durante 
os reinados de D. Aflbnso VI e D. JPedro II, que o tinham em, 
grande estima. 

Falleceu repentinamente em 6 de julho de i685, quando 
ainda se achava na força da vida. 

Barbosa Machado menciona umas dez composições de 
musica sacra e villancicos, que diz se conservavam no seu 
tempo «com grande estimação na Bibliotheca Real da Musica 
c em outras partes». Quando Machado fala na «Bibliotheca 
Real da Musica», refere-se geralmente á bibliotheca de D. João 
I\\ cujo catalogo lhe serviu muitas vezes de guia; mas d'esta 
vez não se dá esse caso, porque o nome de André da Costa 
náo figura n'aquelle catalogo, nem podia figurar, visto que tra- 
balhou muito depois de elle ter sido impresso e quando nem 
já existia D. João IV. 
3i4 



oo 

A c Historia chronologica» da ordem da Trindade, por frei 
Jeronymo de S. José (tomo 2.°, pag. 272), reproduz a noticia 
dada por Machado sobre André da Costa, accrescentando que 
falava d'elle também o livro dos óbitos do convento. 

Oosta (André da). Outro compositor com o mesmo 
nome do precedente, mas que viveu alguns annos depois e foi 
secular. 

Existe na Bibliotheca nacional, collecçSo pombalina códice 
82, um pequeno livro manuscripto de musica para canto a uma 
voz só e acompanhamento de baixo cifrado, contendo, entre 
outras, duas cantatas de André da Costa. A primeira, que é 
também primeira do livro e a mais extensa de todas, foi feita 
em honra da noiva de D. João V, D. Maria Anna de Áustria^ 
cujo casamento se realisou em 27 de outubro de 1708. Reco- 
nheci este facto pela leitura da letra, que começa assim : 



Alba soberana que con luj sutiL 
Hapendo masjelij ai Sol de Lu^o, 
Venis a eternizar vuesiro Carmin. 



E' um interessante e muito raro specimen da nossa musica 
seiscentista em estylo profano, ainda não influenciado pela 
quadratura das formas italianas. Divide-se em carias» e c reci- 
tados», terminando por uma «fuga». A melodia une-se intima- 
mente ás palavras, reproduzindo o seu sentido e accentuando- 
Ihes a prosódia, sem obedecer á symetria exacta; as phrases 
do canto são cortadas em dialogo com o acompanhan^ento (um 
simples baixo com rarissimas citras), o qual começa sempre por 
expor um desenho melódico, servindo ae modelo, que o canto 
em seguida imita. Isto nas árias, porque nos recitados torna-se 
o acompanhmento extremamente singelo. A chamada «fuga» no 
final, não passa de um simples dialogo á oitava entre o canto 
e o acompanhamento. 

André da Costa compoz também um villancico para as 
matinas da festa de Santa Cecilia, realisada em 1721, e outro 
para as matinas de S. Vicente em 1 722 *. 

No cartório da irmandade de Santa Cecilia existe um do- 
cumento contendo a copia de um termo lavrado em 1 1 de ou- 
tubro de 1701 com os nomes de todos os irmãos, figurando entre 
elles o de André da Costa. 

Este segundo André da Costa não tem sido até aqui men- 



* «ChroDologia dt opera em Portugal* por J. J. Marques, no jornal Á Árt$ Musical, n. 32, 
1874. 

3i5 



oo 

cionado por escriptor algum, porque naturalmente foi confun- 
dido com o padre trino seu nomonymo, fallecido em i685 e 
mencionado no artigo precedente. 

Oosta. (Abbade António da). Personagem notável pela 
sua vida singular e pelas cartas que escreveu, publicadas ha 
alguns annos *. 

Tem logar a sua biographia n'este Diccionario por ter cul- 
tivado também a musica, sendo compositor, violinista e guitar- 
rista eximio. 

Nasceu no Porto, segundo se julga, em 17 14. Apezar de 
ter feito estudos theologicos preparando-se para seguir a car- 
reira ecclesiastica, pronunciou-se pelas doutrinas dos encyclo- 
pedistas, que estavam então abalando muitos espiritos, e viu- 
se por isso obrigado a emigrar. E' possivel porém que para 
esta emigração forçada, mais do que a liberdade das idéas con- 
corresse a dos costumes, cuja dissolução se manifesta a cada 
passo e por forma frequentemente obscena, nas cartas publi- 
cadas. 

Depois de uma aventureira viagem a pé e sem recursos 
atravez de Hespanha e França, chegou a Roma em 1760, onde 
viveu alguns annos; mais tarde passou a Veneza e por fime^- 
tabeleceu-se em Vienna d'Austria, onde foi muito protegido 
pelo duque de Lafões, D. João de Bragança. 

Dotado porém d um caracter excêntrico e altivo, viveu 
sempre pobremente, contentando-sc com meio florim diário 
(220 réis) que lhe rendiam as missas. 

Falleceu cerca de 1780. 

O seu merecimento como musico foi attestado pelo escri- 
ptor inglez Charles Burney, que lhe fez elogios na sua obra 
sobre o estado da musica na Allemanha *'*. 

O abbade Costa foi apresentado a Burney pelo duque de 
Lafões n'um sarau em casa do embaixador inglez, lord Stor- 
mont, onde se reunira a maior parte da alta sociedade vien- 
nense e onde também se encontrava o grande compositor 
Gluck. Convidado o artista portuguez para se fazer ouvir, exe- 
cutou na viola um andante e um presto de sua composição, e 
no violino um duetto com o violinista allemão Startzel, também 
composto por elle. 

Burney diz que estas obras não eram menos originaes pela 



• «Cartas curiosas escríplas de Roma e de Vienna pelo Abbade António de Gsta, anno- 
tadas e piecedidss de um ensaio biogrupli co p<r Joaquim Je Vtsconcciloi > Pono, ibyS. O sr. 
Theuphilo Braga commenf u-as n'um artiKo pimhc^do no «Buleiim de Bibliographia Portuguesa»» 
n.** é e 8, reproduzido em sepurtid» num fnlheto e incli.ido na ccllec^ão de aitigos Co mesmo 
senhor intitulada «Questões de Iitieraiura e arte portugueia», pag. 794. 

** Tkt prtsent $tat ofmusU tn Gerfnany, Ik» Netkerlandt, and United Prwinees, or tkejoumtU 9f 
a tourlhrough Ihose countries, etc , Lonjres, 1773, dois volume*. 

3ib 



oo 

modulação que pelo rythmo, e reproduz o thema da primeirai 

Passados dias o abbade pediu a Burney que fosse ouvil-o 
com mais socego em sua casa, ao que este accedeu, aprecian- 
do então mais ainda as qualidades do nosso musico. 

D'ahi por diante Costa tornou-se amigo e companheiro em 
Vienna do musicographo inglez, apresentandoo a aiversos mú- 
sicos importantes. 

Burney compara o seu amigo abbade com Jacques Rous- 
seau pelo seu génio independente e philosophico, achando-lhe 
porém mais originalidade. 

Nas suas cartas que estão publicadas ha muitas noticias 
relativas á musica ; o seguinte trecho é interessante pelas re- 
ferencias pessoaes : 

«. . .Sei que V. M. me poderia dizer que um clérigo só, sem vicios, 
e governado, como eu, passa com pouco ; é certo, sr. dr., eu o via em mui- 
tos^ experimentava em mim, muito contente da m^iha sorte ; mas, vae 
grande differença de viver n'um estado pobre em que se pôde dizer se nas- 
ceu, a tornar para elle de outro menos pobre ; com eu ser um dos cléri- 
gos mais pobres de Vienna por não ter mais que a missa, posso passar aqui 
muito melhor que no Porto, pela conveniência e pela quietação ; se eu 
quizer, posso comer todos os dias em mais de uma casa, de modo que me 
hcam os dois tostões da missa para pa^jar a casa, que também podia ter 
sem dinheiro se quizesse, e para me vestir ; e este ganho sem mais traba- 
lho que o de dez minutos de uma missa, e sem políticas nem rapa-pés^ 
que antes na egreja me ficam obrigados ; de modo que me fica todo o ou- 
tro tempo livre para as minhas escrevinhaduras de musica e para beliscar . 
com grande gosto na viola. 

«Ora V. M. agora veja se nem me pode vir ao pensamento o estudar 
em ir para o Porto ; mas já que estamos no ponto não me parece fora de 
propósito o estender-me mais n*elle para um dos seus ramos para satisfa- 
zer a alguma cousa que é natural ter-lhe chegado lá a V. M. aos ouvidos, 
como é de crer pelo que me soa até ás vezes pelos meus, convém a saber : 
que sou pobre porque sou phiiosopho ; que podia andar em carruagem ; 
que podia ter tnesouros ; e outras cousas assim. O que a V. M. comtudo, 
que me conhece^ não lhe parecerá talvez destituído de fundamento ; e por 
isso lhe direi duas palavras na matéria, para V. M. assim o poder ver com 
menos escuridade do que por si só. Certo que tenho estudado em musica 
mais do que ninguém poderá crer ; bem : e então que se tira d*ahi ? Que 
conheço mais de rabeca para tocar com companhia de modo que se de- 
leite mais o ouvido que se faz ordinariamente, ainda pelos que tocam me- 
lhor este instrumento ; que toco viola, dizem alguns que bem, por esses 
ares ; e que componho para rabecas, viola, cantar, e dizem alguns também 
que com grande maestria, profundidade e até gosto. 

«Ora supponho que digam verdade, parece-lhe a V. M. justo, como 
parece a tantos, que eu, que nunca suspirei por alcançar dinheiros e nome 
no mundo, me metta agora a isso, e á custa de fazer-me homem muito 
menos de bem do aue sou, que por taes tenho eu todos os que andam 
mostrando as suas habilidades em publico ou em particular, quasi sempre 
a quem não entende nada das suas sciencias, arrastados vergonhosamente 
do interesse e vaidade que lhes roem o coração ? Mas não, supponhaV. M. 
que eu devia fazer-me assim. Não alcançava nUsso nada certamente^ por» 

3i7 



oo 

que na rabeca ninguém quer ouvir senão moscas por cordas ; auanto á 
viola, os mesmos que gostam muito d'ella confessam que a toco ae modo 
oue a pouquíssimo» pôde agradar, pela demasiada suavidade da voz que eu 
me tiro e das peças em si mesmas ; das composições dir-lhe-hei somente 
que ninguém as sabe cantar nem tocar ; e creio que isto basta para V. M. 
comprenender, sem trabalhar com o juizo, o lucro que eu podia nrar 
d'ellas, caso que entendesse que isso me era licito ; muito mais era neces- 
sário dizer na matéria, mas isso seria bom para conversação e não para 
cartas em que se ha de fallar de ou'.ras cousas». 



O abbade Costa, nas cartas cjue escreveu em Roma, diz 
muito mal da musica n'aquella cidade e sobretudo dos violi- 
nistas ; mas todas as suas apreciações são evidemente exagge- 
radas, e tanto por isso como pelo caracter faceto com que são 
feitas não oíferecem o interesse de uma critica sã. 

Para se fazer idéa do todo, farei mais o seguinte extracto 
de uma carta em que elle descreve os theatros de Roma. 



«. . Das rabecas não sei que lhe diga, que sou officiaT, ou bom ou 
mau, do officio ; já V. M. entende : em quanto á ^rossaria ou delicadeza 
dos ouvidos italianos não digo nada, por isso não digo nada em quanto ao 
gosto da affinação. Eu prometti falar como quem não entende nada de 
musica. Quando acompanham, tocam forte despropositado, de sorte que 
encobrem muito as vozes, e quando largam todo o panno aos arcos fazem 
um grande rumor, mas para os meus ouvidos bem grosseiro e desagradá- 
vel, que junto com o de dentro do theatro e da grande multidão de gente 
que está a ver, certo que é cousa para fazer doer a cabeça a quem fôr de- 
licado d*ella. Emfim, quando venho para casa, que pergunto a mim mes- 
mo : ora que ouvi eu aqui ? Conheço que não foi cousa que me desse 
gosto, antes trago na cabeça um zum zum de quatro para cinco horas de 
rumor de rabecas, rabecões, trompas, etc, gritaria de gente, conversação 
continua, risadas, palmadas, uns a gritar : bravo, bravone, ah, caro Ca/a» 
rello ; os aue vendem sempre a apregoar ao redor dos camarotes gritando 
desesperados, quem quer vinho, tructas, doces, etc.» 



Deve-se porém advertir que, pondo de parte a exaggeração, 
resta um fundo de verdade na pitoresca descripção que o ab- 
bade Costa faz do theatro italiano em meiados do século XVIII. 
Por isso as suas cartas não deixam de ser bastante curiosas 
para o investigador. 

Oosta, {António Correia da Costa). O commendador 
Francisco de Moraes Sardinha, fidalgo da casa de Bragança, 
escreveu em i6i8 um livro assim intitulado: t Famoso e anti- 
quissimo Pamasso, novamente achado e descoberto em Villa 
Viçosa, de que é Apollo o Duque, etc, e dos varões illustres 
que n'elle nasceram, etc.i Esta obra ficou inédita e não se 
conhece hoje d'ella senão o titulo ; mas Barbosa Machado, que 
3i8 



oo 

a compulsou ou teve conhecimento do seu conteúdo, extrahiu 

'd^ella noticia, que inseriu na cBibliotheca Lusitana» de umma- 

thematico e musico chamado António Correia da Costa, natu 

ral de Villa Viçosa, que viajou na Itália e Flandres ; accrescenta 

3ue voltou a Portugal em 1617, já em edade provecta, mas não 
á mais noticia alguma. Nem outra eu posso dar também, por- 
que até hoje não consegui encontral-a. 

Oosta (Feli:^ José da). Doutor em leis pela universi 
dade de Coimbra. Nasceu em Lisboa em 20 de novembro de 
1701, pertencendo sua mãe á illustre família Freire de Andra- 
de. Cultivou as bellas letras, deixando algumas obras impres- 
sas e outras inéditas em prosa e em verso. Era também 
amador de musica e parece que compositor, porque Barbosa 
Machado refere-se a um livro que elle deixou manuscripto, in- 
titulado : «Musica revelada de Contraponto e composição que 
comprehende varias Sonatas de Cravo, Rebeca e vários Mi- 
nuetes e Cantatas.» 

Falleceu depois de 1760. 

Oosta. (Francisco da). Cantochanista e compositor de 
musica religiosa, pertencente á coUegiada dos freires de Christo 
em Lisboa, no meiado do século XVlL 

Falleceu em 1667. 

Barbosa Machado faz menção d' elle, accrescentando que 
deixou as suas obras de musica em dois volumes manuscriptos. 
Na Bibliotheca Nacional ha umas «Paixões» a quatro vozes, 
de Francisco da Costa. São escriptas no estylo de fabordão, 
commummente usado n^aquellas composições. 

Oosta. (Francisco Eduardo da). Um dos músicos mais 
estimados no Porto, onde sempre residiu desde a infância. 
Pouco tempo antes de fallecer, publicaram diversos jornaes 
uma biographia d'elle, que, por julgal-a exacta, aqui repro- 
duzo: 

«Francisco Eduardo da Costa nasceu na cidade de Lamego a 26 de 
março de 1819, e foi baptisado na igreja de Santa Maria Maior de Alma- 
cave. Seu pae o sr. José Luiz da Costa, que ni decurso de muitos annos 
servira na mesma cidade vários empregos de justiça e de fazenda, e que 
em 1823 se achava servindo o officio de distribuidor, inqueridor e conta- 
dor da correição, foi obrigado, em consequência das dissençôes politicas 
por que passou o paiz n'aquelia epocha^ a retirar-se para o Porto com toda 
a sua familia, onde tem permanecido até hoje. 

«Querendo o sr. José Luiz da Costa, como bom pae, facilitar a seus 
filhos uma posição decente, lembrou-se de os applicar ao estudo do plana, 
para^ como prendados, serem admittidos nas ordens religiosas^ e n'essa 
qoahdade foi o então joven pianista Francisco Eduardo recebido na con- 
gregação dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, não chegando, porém, 
a verincar-se o seu ingresso por causa da extincção das mesmas orciens re- 
ligiosas. 

3i9 



oo 

«Munido desde a sua infância com as melhores obras de Haydn, Mo* 
zart, Beethoven, Weber, etc, os progressos do sr. Francisco Eduardo no- 
piano foram tão rápidos e brilhantes, que, contando apenas dez annos de 
edade, executou com muita perfeição na real capella da Lapa, no Porto, o 
sexto concerto de Cramer, acompanhado de uma numerosa orchestra. — 
Este e outros factos similhantes, e ainda mais a promptidão com que de- 
sempenhava á primeira vista qualauer peça de musica, despertaram a at- 
tenção publica e grangearam-lhe valiosas sympathias ; sendo por esse mo- 
tivo brmdado com um excellente piano, que lhe oífertaram os chefes de 
algumas das principaes casas de com~mercio do Porto, e pouco tempo de- 
pois nomeado membro do conservatório real de Lisboa, e agraciado com 
o grau de cavalieiro da ordem de Christo. 

«Como installador e sócio da Phylarmonica Portuense tem enrique- 
cido o seu archivo com óptimas composições, tomando-se dignas de es» 
pecial menção uma symphonia em forma de polaca, e dois entreactos para 
grande orchestra ; mas as obras em que mais se fez admirar, e que lhe 
adquiriam maior reputação foram o Tamtum ergo^ Kyries eGloria a 4yO' 
zes com coro de senhoras e homens : Gradual, solo ae soprano ; o CredOy 
SanctuSf Benedictus ; e Agnus Dei, também com acompanhamento de 
grande orchestra ; e o motete O' Salutaris Hóstia^ para dous sopranos com 
acompanhamento de harpa e oito outros instrumentos ; tudo por elle ge- 
nerosamente oíTerecido á mesma sociedade para a festividade de Santa 
Cecília sua padroeira. Os directores d*esta sociedade, em vista do oftere- 
cimento do sr Francisco Eduardo, julgaram se tão penhorados que reco- 
nh;íceram como um dever acompanhar os enthusiasticos applausos dos 
portuenses com demonstrações mais positivas ; e em consequência dista 
deram-lhe um rico presente no valor de 72 mil réis, e mandaram-lhe col- 
locar o seu retrato na sala principal da casa das suas reuniões. 

«Expostas assim ás provas publicas quasi todas as suas composições 
sem os obstáculos e estorvos que n*este paiz de ordinário se encontram para 
as provas de composições lyricas de auctores nacionaes, não é comtudo 
fácil determinar com exactidão a edade em c^ue deu principio a esta diííi- 
cultosa tarefa ; mas é verosimil que principiasse antes dos 14 annos, por 
isso que já em 1834 fora soliicitado com instancia para acceitar o cargo de 
maestro director da companhia italiana do real theatro de S. João, do 
Porto, logar que se prestou acceitar em 1840, e que depois tem exercida 
constantemente até hoje. 

«Seria enfadonho, senão impossível, comemorar todas as suas com- 
posições para egreja, orchestra e banda militar, disseminadas dentro e fora 
do reino. No instituto dramático de Coimbra, do qual também é sócio, ha 
muitas \ as religiosas benedictinas do Porto, as de Jesus de Aveiro, as da 
convento das Chagas de Lamego, e as Ursulinas de Vianna também pos- 
suem algumas. — Limitar-nos-hemos a dar hoje uma relação das prmci- 
paes^ além das já mencionadas : 

«Missa denominada da Victoria — Kirios e Gloria — a 4 vozes com 
coros, a acompanhamento de grande orchestra. 

«Missa denominada de Santa Isabal. — Idem. 

«Missa privativa da venerável ordem terceira de S.Francisco. — Idem» 

«Missa denominada Segunda — Idem. 

«Missa denominada dos Pontificaes — Kirios e Gloria — a 4 vezes 
com acompanhamento de órgão e baixos obrigados. 

«Dois Credos a 4 vozes com acompanhamento de grande orchestra. 

«Quatro Tantum er^o. — Idem. 

«Dois Te Deum, — idem. 

«Laudate pueri a 4 vozes com um solo obrigado de violino e acom« 
panhamento de grande orchestra. 
320 



oo 

«íLÀbera-me a 4 vozes com acompanhamento de grande orchestra. 

«Quatro responsorios de sepultura, a 4 vozes, com acompanhamento 
de grande orchestra,, expressamente compostos para as exéquias de Sua 
Magestade D. Maria II de saudosa memoria.» 

(Revista dos Espectáculos^ julho de 1854; O Commercio 
do PortOy 28 de agosto de i855; O Nacional^ 3o de agos- 
to de 185:).) 

Justamente quando os jornaes publicavam esta biographia, 
começava o pouco robusto, temperamento de Eduardo Costa 
a dar claros indicios de que não resistiria muito aos excessos 
de trabalho e outros; em abril de i855, depois das festas da 
semana santa em que elle desenvolvia grande actividade como 
director, foi para o Bom Jesus de Braga, já bastante doente. 
Regressou depois ao Porto dando-se como restabelecido, e em 
i5 de julho tomou ainda parte numa grande festa religiosa 
realisada na egreja de S. Bento da Victoria; n'essa festa can- 
tou-se a sua missa chamada tda Victoria», juntando-se a uma 
grande orchestra o órgão, tocado pelo próprio auctor. 

Foi o seu ultimo trabalho. Apenas cinco dias depois o Pe- 
riodico dos Pobres dava a seguinte noticia: 

«O Sr. Francisco Eduardo da Costa^ distincto professor de musica e 
compositor, acha-se sem esperança de vida, com escrófulas, sobrevindo- 
lhe a cholera.» 



Viveu assim sete dias ainda, fallecendo na noite de 27 de 
agosto de i853, contando pouco mais de 87 annos de edade. 

Apesar de se achar o Porto n'essa occasião luctando com 
uma angustiosa crise, pois que a cholera morbus havia então 
chegado ali ao seu auge, a perda de Francisco Eduardo — como 
familiarmente lhe chamavam os portuenses— causou profunda 
impressão e foi muito lamentada. 

Logo dois dias depois alguns jornaes aventaram a idéa de 
se lhe erigir um monumento no cemitério, e mais tarde foi essa 
idéa posta em pratica abrindo-se uma subscripção. 

EfiFectivamente em 1864 erigiu-se no Prado do Repouso o 
jazigo de Francisco Eduardo da Costa, no qual se vê o busto 
em mármore do notável musico, trabalho primoroso do escul- 
ptor Calmeis. 

Quando elle falleceu ainda o pae era vivo, e como ficasse 

em circumstancias precárias, os artistas associados na capella 

que tinha sido dirigida pelo filho obrígaram-se a sustental-o em 

quanto elle vivesse, ticou por director da capella Silvestre 

Fou 21 321. 



oo 

d' Aguiar Bizarro, sendo regente de orchestra João António 
Ribas. 

Francisco Eduardo da Costa era realmente dotado de um 
bello talento natural, que muito precocemente se manifestou 
com grande brilho. N'uma collecção de programmas que exis- 
te na Bibliotheca Nacional encontrei um, annunciando um es- 
pectáculo no theatro de S. João, que diz assim: 



«Quarta feira 4 de dezembro de i833, a beneficio de Caetano Pog- 
gi, Primeiro Rabeca Regente da Orchestra do Porto, e de Francisco 
Eduardo, Mestre de Piano. — ... No fim do primeiro acto Francisco 
Eduardo executará em Piano Forte uma grande e brilhante Polonesa 
(^opera 3oA composta pelo insigne professor e mestre Henrique Herfy pia- 
nista de S. M. o Rei de França. Todas as obras d*este celebre auctor 
envolvem muito gosto e grandíssimas difficuldades ; e ter-se este jo- 
ven portuguez arrostado com ellas em tão curta edade, é uma outra cir- 
cumstancia que o torna cada vez mais digno da estima de seus illustres 
compatriotas, que ainda mesmo entre o estridor da guerra, e debaixo do 
mais vivo fogo, nunca deixaram de o honrar e applaudir, até algumas ve- 
zes na Augusta Presença de Sua Magestade Imperial o Senhor Duque de 
Bragança*.» 



Francisco Eduardo tinha então apenas 14 annos de edade, 
o que não o impedia de intitular-se já «mestre de piano». Dois 
mezes depois, n'uma c Academia de musica» realisada pelo flau- 
tista João Parado, em 22 de fevereiro de 1834, executou com 
orchesta o 4.° conceno de Bomtempo, composição assaz difB- 
cil para a época. 

Como compositor tinha uma grande facilidade melódica, 
frequentemente mspirada, e trabalhava o acompanhamento har- 
mónico com certa variedade. Nunca porém sahiu, que me 
conste, dos moldes italianos em voga no seu tempo, quer es- 
crevesse musica profana ou religiosa. Na Bibliotheca Nacional 
existe d'elle, vinda do convento da Ave Maria, o autographo 
de um Stabai Mater para três sopranos e órgão, que as frei- 
ras d'aquelle convento cantaram com muita frequência e du- 
rante bastantes annos, como se reconhece pelo uso que tem a 
partitura. E' uma pequena composição, apreciável no seu gé- 
nero, dando perfeita iaéa da orientação artística e dos recursos 
technicos do seu auctor. 

As suas missas e outras composições de musica religiosa 
ainda hoje se cantam com frequência no Porto e em Braga, 
onde são estimadas. 

Um irmão' mais novo de Francisco Eduardo — António Ma- 
ria da Costa— era também professor de piano estimado no 
Porto. 
3aa. 



oo 

Oofsta. (Francisco Pereira da). Um dos nossos mais 
notáveis violinistas. Nasceu na cidade do Porto em 3o de ja- 
neiro de 1847. 

Seu pae, Thomaz Pereira, era ao mesmo tempo tecelão e 
musico, tornando-se muito estimado e considerado pelas suas 
excellentes qualidades de homem honrado e laborioso. 

Francisco Pereira da Costa revelou, desde a edade mais 
tenra, uma precoce vocação para a musica, tendo tido por mes- 
tre Agostinho Badoni; aos sete annos começou a apprender 
violino, fazendo progressos taes que o insigne violinista Nicolau 
Ribas se interessou por elle encarre^ando-se com o maior dis- 
velo de lhe dirigir a educação artistica. Logo ao cabo de pou- 
co tempo de ensino, apresentou este mestre o seu pequeno 
discipulo n'um concerto realisado na Sociedade Philarmonica 
Portuense em 22 de janeiro de 1857. Pereira da Costa, que 
estava para completar onze annos de edade, causou proÃinda 
admiração executando com extraordinário desembaraço uma 
das brilhantes, embora pouco diíficeis, phantasias de Singe- 
lée. 

Alguns mezes depois apresentou-se em publico, no theatro de 
S. João, em 2 de maio; tocou então uma phantasia sobre o 
«Rigoletto», com acompanhamento de orchestra, composta ex- 
pressamente por Nicolau Ribas para o seu discipulo. Ainda 
no mesmo anno, em 6 de novembro, deu outro concerto em 
beneficio das victimas da febre amarella em Lisboa. N'este ul- 
timo principalmente, muito concorrido pela primeira sociedade 
portuense, despertou o maior enthusiasmo. Enviado o produ- 
cto doeste concerto para Lisboa ao Centro promotor das classes 
laboriosas, para que esta associação lhe desse o devido destino, 
tão gratamente foi recebido que o retrato do infantil violinista 
foi mandado pintar a óleo e coUocado em uma das salas da 
mesma associação, onde ainda existe. 

Em 7 de abril de i858 sahiu pela primeira vez do Porto 
para vir a Lisboa, publicando por essa occasião o jornal Porto 
e Carta uma poesia em seu louvor. Deu aqui um concerto no 
theatro de D. Maria em 27 de maio; dias depois D. Pedro V 
chamou-o ao paço, e tendo-o ouvido elogiou-o muito, deu-lhe 
sábios conselhos e terminou por presenteal-o com um alfinete 
de brilhantes. 

Pereira da Costa apresentou-se também na cAcademia 
dos Professores de Musicai (novo titulo dado á antiga «Mel- 
pomenense»), tomando parte n'um concerto realisado em 3o 
de junho. N'esse concerto, ao qual assistiu e família real, 
tomaram também parte os irmãos Croner e outros dos nossos 
mais notáveis artistas. 

323 



oo 

Incitado pelos àpplausos que unanimemente eram prodi- 
galisados ao pequeno violinista cujo talento tão rapidamente se 
desenvolvia, o pae resolveu fazer todos os sacrifícios para en* 
vial-o a estudar em Paris. Como esta resolução ficasse assente, 
Pereira da Costa deu um concerto de despedida no theatro de S. 
João em 6 de novembro de i858. Tocou a tS.* Ária variada» 
de Beriot, uma phantasia sobre a «Traviatai de Nicolau Ri- 
bas e umas c Variações sobre motivos nacionaes» do mesmo- 
auctor. 

Por essa occasião fizeram-lhe os portuenses uma impo- 
nente ovação e vários poetas dedicaram-lhe poesias que foram 
publicadas nps jomaes, EUe mesmo escreveu uma poesia a 
despedir-se do publico, a qual foi publicada no jornal o Porto 
e Carta» de i3 de novembro. Seguidamente veiu a Lisboa, to- 
cando ainda uma vez em publico no «Casino Lisbonense», e 
d'aqui partiu para Paris em 3o de novembro, chegando ao seu 
destino em 8 de dezembro. 

Ali estudou primeiramente com Jules Garcin — o notável 
professor que estava então no principio da sua carreira e se 
distinguia apenas por ter sido um dos melhores discipulos de 
Alard. Com o novel mestre se habilitou a concorrer aos exa- 
mes de admissão no Conservatório, e sendo admittido entrou 
Sara a classe do próprio Alard que o recebeu cora agrado e 
le deu proveitosas lições. Apprendeu também piano e harmo- 
nia. 

Não lhe faltaram na grande capital as lições de arte, mas 
faltou-lhe a assistência paterna para se governar ajuizadamente 
n'aquelle grande pandemonio, seguindo direito e persistente- 
mente ao seu fim. 

No meiado de i863 regressou ao seu paiz, antes de ter 
checado a obter o primeiro premio no conservatório de Paris,^ 
distincção que ali só se concede com extrema raridade a es- 
trangeiros. Esteve em Lisboa, tocando no theatro de S. Carlos 
em duas recitas, uma em 28 de novembro e outra em 5 de de- 
zembro; o publico não lhe perguntou por diplomas, applau- 
dindo-o enthusiasticamente. Tocou também no paço em pre- 
sença de D. Luiz, que por essa occasião o nomeou musico da 
real camará. A imprensa de Lisboa fez-lhe muitos elogios; 
Eduardo Coelho, por exemplo, na «Revolução de Setembro» 
escreveu as seguintes linhas : 

«Francisco Pereira da Costa, na opinião dos mestres, é um grande 
e excellente arco. Filiado na escola mais apurada, e inspirado por superior 
talento, é já, com apenas dezeseis annos de edade, um eximio viohnisia. 
O tempo e o estudo não de tornal-o um génio. 
324 



oo 

aO publico chamou-0 ao proscénio repetidas ye^es, e o$ ;tnusiqos paáis 
•distinctos abracaram-no. . 

aPereira da Costa honra o paiz e dá nimia gloria ao honrado artista 
•que tão grandes sacrifícios tem feito para educar táo talentoso filho.» 



Depois voltou para o Porto, fazendo-se ali ouvir na fPhi- 
larmonica Portuense» em i6 de janeiro, no theatro de S» JoSo 
•em 28 de fevereiro e )5 de iftíirço de 1864. Seguidamente fez 
uma digressão pelas provincias do norte, vindo também outra 
vez a Lisboa, onde deu Um concerto, no theatro dé D. Maria, 
em 25 de junho. 

Procurando explorar mais vasto campo, partiu para o 
Brazil, theatro dos seus maiores triumphos e que mais tarde 
se lhe tornou segunda e carinhosa pátria. 

Logo que chegou ao Rio de Janeiro estreiou-se no thea- 
tro lyrico em 3o de agosto, conseguindo immedjatamente con- 
quistar as sympathias geraes. O jornal «Correio Mercantil» 
kz d'elle a seguinte apreciação: 

«. .Apesar dos seus verdes annos, conhece todos os recursos e se- 
gredos do protentoso instrumento que adoptou. A sua arcada é sonora e 
elegante ; a sua agilidade extrema. O publico applaudiu-o com enthusias- 
mo e teve razão O sr. Pereira da Costa é já um artista de subido mérito, 
e poderá vir a ser uma verdadeira celebridade.» 

Percorreu então muitas cidades da America portugueza 
{quatorze, diz um noticiarista), sendo por toda a parte immen- 
samente festejado. Em principios de junho de i865 estava em 
Pernambuco, d'onde regressou aò Porto, chegando a esta ci- 
dade em 23 de julho, com um pecúlio de alguns contos de 
reis. 

Determinou o pae que fosse novamente aperfeiçoar-se em 
Paris aproveitando os recursos obtidos, e n'esse propósito deu 
um concerto de despedida no Porto em 8 de setembro e outro 
em Lisboa. 

Mas no Brazil mesmo, onde a sua carreira teve um pe- 
riodo tão brilhante, ahi o destino lhe deparou quem havia de 
entraval-a para que nunca viesse a ser muito mais gloriosa; 
uma filha ao poeta bahiano Francisco Moniz Barreto lembiXHi- 
se de se apaixonar pelo ingénuo artista, e teve artes de se 
apoderar do seu fraco espirito dominando-o para sempre. Pe- 
reira da Gosta tinha um caracter bondoso, extremamente dó- 
cil, sem vontade própria, deixando-se por isso facilmente sub- 
jugar. 

Chegando a Paris encontrou ali, por acaso ou por ante-. 

3^5 



oo 

rÍOT combinação, a apaixonada brazilcira que o fez pôr de parte 
o estudo e exgotar todos os recursos adquiridos, exceclenda 
n^este ponto a auctorisaçSo paterna. Ao cabo de anno e meio- 
foi o próprio pae buscal-o, empregando em vão todos os esfor- 
ços para o separar d'aquella que não mais abandonou e com 
quem mais tarde veiu a casar. 

Dahi por diante ficou entregue, não a si mesmo que nãa 
tmha enei^ia para se dirigir, mas á mulher que ligou ao seu 
destino. 

Não fez mais progressos sensiveis, deixando assim de 
cumprir o vaticinio que lhe promettera vir a ser uma grande 
celebridade. 

Esteve em Lisboa em abril e maio de 1868; deu aqui um 
concerto em seu beneficio e tocou em vários outros. Era sem- 
pre bem recebido, mas a situação financeira conservava-se de- 
plorável tendo chegado ao ultimo apuro devido ao mau governa 
<lomestito. 

Em junho voltou ao Porto e contratou-se para tomar parte 
n^uma serie de concertos dados ao ar livre no jardim do Fala- 
ciO) os quaes se realisaram até ao principio de agosto ; reno- 
vou o contracto para outra serie, rcalisada durante o mez de 
setembro no theatro de Gil Vicente. N^estes concenos Pereira 
da Costa era o principal attractivo. 

Em maio de 1869 estava outra vez em Lisboa, sem melho- 
ras financeiras. Por esse tempo adoecera Tito Mazoni, pri- 
meiro violino a solo da orchestra de S. Carlos, e Pereira da 
Gosta foi admittido naquelle logar, resolvendo estabecer-se 
aqui definitivamente. Seria uma resolução sensata, mas o po- 
der occulto que o dominava nunca o deixou proceder sensata- 
mente. 

Faltava a cada momento ás suas obrigações, umas veze^ 
chegava tarde, outras não apparecia sendo necessário ir bus- 
cal-o a casa e disputal-o á desequilibrada creatura que o reti- 
idia por qualquer simples capricho. 

A situação tomou-se-lhe aqui insustentável e partiu para o 
ft-azil no méiado de 1871. 

Por fim cstabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde viveu sem- 
|Hre em lucta com a sua má sorte, embora muito estimado não- 
sò pelas suas grandes qualidades de artista mas também pelo 
9eu èxcellente caracter, singelo e bondoso. 

Atormentado por uma lesão cardiaca, que o fez sofiFrer 
bastante durante algum tempo, veiu a fallecer em 24 de junho 
de 1890. 

O «Paiz», jornal do Rio, deu a noticia do seu passamento 
fiOB se^uhues termos : 



oo 

«Calou-se hontem o magico violino qué tantas ve^es enlevou as nos- 
sas platéas , 

«Pereira da Costa, o inspirado artista cuja alma parecia identificar-se 
com o instrumento, quando suas mãos empunhavam o arco, aqueila ver- 
dadeira organisação artistica desapj^areceu nontem. 

«Após longa e penosa moléstia, Pereira da Costa— o violinista tão 
grande pelo talento e pelo merecimento artístico quanto pela lucta em 
que corajosamente se empenhou durante a espinhosa carreira que lhe tra- 
çou a arte que tanto estremecia — finou-se hontem, ao meio dia, victimado 
por uma lesão cardíaca 

«Perde o nosso mundo musical um dos seus homens mais notáveis* •. 



O «Correio do Povo», da mesma cidade, dedicou-lhe, en- 
tre outras, as seguintes linhas : 



tO nome ilJustre d*esse excellente artista foi festejado e applaudido 
em todo o Brazíl que admirou n*elle a espontaneidade de um talento su- 
perior. 

«Como violinista, raramente se encontrará quem o exceda na ex- 

f>ressão e no talento. Era outro desde que tomava o violino e tudo o que 
he ia n^alma de amor e sentimento e de luz no cérebro, vasava-o elle nas 
notas melodiosas e suavíssimas que arrancava ás suas cordas frias. 

«Era um caridoso : nunca ninguém appellou em balde para o seu co- 
ração sempre aberto a todas as dores e todos os soífrim entes. Foi applau- 
dido sempre, procurando todas as vezes que tratava de fazer bem e fel o 
quanto poude. 

• Lma molesiia cru^l matou o hontem e elle deixa á família como úni- 
cos legados, além da gloria e a honra do seu nome, a mais lúgubre po- 
breza». 



Finalmente, para dar idéa completa do apreço em que o 
tinham no Rio de Janeiro, reproduzo mais o seguinte trecho 
de um extenso artigo publicado no i Jornal do Commercio» 
d'aquella cidade. 



«Com a edade e com a pratica^ o nosso artista tornou mais nítida a 
sue agilidade ; mas Pereira da Costa ha de sempre ser citado pela mages- 
tosa maneira de dizer o adagio ! 

O arco d'elle tinha uma largueza extraordinária ; o som redondo e 
vigoroso Que tirava do violino era único nos seus dias felizes, ninguém os- 
tentava n aquelle instrumento mais paixão, mais sentimento e maior me- 
lancolia. 

A Phantasia sueca era uma das suas peças predilectas, e nunca lh'a 
ouvimos que não fosse coberta de applausos. 

Pereira da Costa era bom mustco, se bem que nunca fizesse ostenta- 
ção do que sabia. Se agradava immensamente como solista, era aprecia- 
díssimo como primeiro violino de atacjue em uma orchestra Em tudo o 
nosso artista era grande : era-o na musica, era-o no coração*. 



3a7 



oo 

Oosta (João Alberto Rodrigues). Não é este o nome 
de um artista de ordem superior ; o seu mérito artístico con- 
sistiu apenas em ser bom contrabaixista, occupando por alguns 
annos o logar de primeiro contrabaixo na orcnestra de S. Car- 
los. Mas um logar especial e único lhe cabe na lista dos mú- 
sicos portuguezes, pelos grandes serviços que prestou á sua 
classe e pela extraordinária energia que para isso desenvolveu. 
be tal ordem foram os seus trabalhos e tão energicamente pro- 
cedeu, que bem se lhe pôde chamar o Marquez dé Pombal dos 
músicos. 

Senão, veja-se: 

Reorganisou a irmandade de Santa Cecilia, fundou o Monte- 
pio Philarmonico, inspirou a creação da Academia Melpome- 
nense, promoveu no paço, graças a influencias de que dispu- 
nha, a organisação da orchestra da Real Gamara e da Capella 
Real, influiu para que na Sé houvesse também uma orchestra 
efifectiva que antes não havia, organisou as ôrchestras de todos 
os theatros de Lisboa, fez regulamentos impressos para essas 
ôrchestras, creou uma caixa económica annexa ao Monte-pio, 
fez restaurar com certa grandeza a casa de despacho da ir- 
mandade de Santa Cecilia, deu novo explendor ás festas d'essa 
irmandade, emfim, empregou os mais admiráveis esforços para 
que essa classe prosperasse e fosse respeitada. 

A sua biographia resume-se em poucas linhas: nasceu em 
Lisboa em 1798 ; na sua mocidade era atabaleiro na banda dos 
menestréis da corte, ou— como depois se lhe chamou — tmu- 
sica das Reaes Cavalhariças*, corporação que ellç mais tarde 
teve a habilidade de transformar em «orchestra da Real Ca- 
mará» ; entrou para a irmandade de Santa Cecilia em 3 de se- 
tembro de 182Í, sendo classificado como tocador de trompa e 
contrabaixo ; fez parte das ôrchestras de S. Carlos, Real Ca- 
mará e Sé Patriarchal, occupando em todas o logar de pri- 
meiro contrabaixo ; tendo exercido importante papel na politica 
partidária, prestando serviços á causa constitucional e seguindo 
o panido cartista, obteve um emprego na alfandega, onde foi 
fiscal dos trabalhos braçaes. Era bom executante do seu ins- 
trumento, tanto que algumas vezes tocou a solo na Academia 
Melpomenense e no theatro de S. Carlos ; succedeu mesmo 
que em 17 de fevereiro de 1840 apresentòu-se n'este theatro 
tocando um duetto de contrabaixo com o celebre concertista 
italiano Luigi Anglois. 

Falleceu em 24 de abril de 1870. 

A historia dos institutos que elle creou ç restaurou é inte- 
ressante e dá bom testemunho do seu trabalho, por isso vou 
dal-a aqui em resumo. Começarei por Santa Cecilia, servindo 
328 



oo 

este trecho pára completar a noticia sobre tão notável corpo- 
ração. 

Na biographia de Pedro António Avondano narrei como a 
confraria dos músicos de Lisboa se reorganisou depois do 
grande terramoto de 1755 até se installar na egreja dos Mar* 
tyres em 1787. Agora continuarei a narrativa. 

Com grande brilho se faziam então as festas da santa pa- 
droeira dos músicos, ás quaes assistia toda a corte e contribuia 
para ellas com fortes donativos. A rainha D. Maria I, que assim 
■como seu pae se declarou protectora da irmandade, pagava 
annualmente a jóia de 19:200 réis, o príncipe e as infantas da- 
vam 9:600 cada um. Os principaes fidalgos eram irmãos ho- 
norários, contribuindo também com as respectivas jóias. Mas 
as despezas eram egualmente grandes ; aptzar do compromisso 
advertir que não se gastasse muito dinheiro com coisas menos 
precisas para que não faltasse soccorro aos irmãos enfermos, 
montava a 25o:ooo réis só o que se despendia com a festa. 
Avultava n'essa verba o aluguer das seges que traziam da 
Ajuda os cantores italianos e que custava quatro pintos (1:920 
réis) cada uma. 

Assim as dificuldades financeiras apresentavam-se com 
frequência. 

Por occasião do terramoto de 170b, as pratas encontradas 
nas ruinas da egreja de Santa Justa foram derretidas e distri- 
buidas proporcionalmente pelas irmandades que sustentavam 
o culto n'aquella egreja ; á de Santa Cecilia coube na partilha 
três barras de prata com o peso de 19 marcos i onça e qua- 
tro oitavas. Até i8o3 conservaram-se essas barras como re- 
-cordação do cataclismo, mas n^aquelle anno o apuro de dinhei- 
ro chegou a ponto de obrigar a vendel-as. N'esse mesmo anno 
4im dos irmãos tinha proposto como medida salvadora, que se 
fizesse a festa sem italianos para economisar a enorme verba 
das seges ; foi julgada tal medida como um golpe tcrrivel no 
brilho da festa e por isso rejeitada. 

Mas golpe terrível não tardou em ser vibrado por força 
maior: a guerra peninsular e a sahida de D. João VI para o 
Brazil. Ficou a irmandade sem protectores. Além d'isso os 
-cantores italianos debandaram na maior parte, indo uns tam- 
bém para o Brazil c outros para o seu paiz. Não foram por- 
tanto precisas mais seges. Mas Santa Cecilia teve por alguns 
annos de se contentar com uma simples missa de capella no 
seu dia de 22 de novembro, e os suffragios pelos irmãos fal- 
lecidos, que era costume fazerem-se oito dias depois, reduzi- 
ram-se também a simples responsos de cantochão. Entretanto 
um dos mais importantes intuitos da confraria, a sustentação 

329 



CO 

da dignidade collectiva, contínuava a ser galhardamente defen- 
dida. 

Em 1799 foi expulso um mau confrade hespanhol t por se 
ter sabido ao certo que furtara um castiçal de prata á viscon-' 
dessa da Asseca.» Esta ignominiosa declaração está lançada, 
ipsis verbis^ no livro de entrada ao lado do nome do delin- 
quente. 

Em 1801 foi reprehendido, em plena reunião de Mesa, um 
irmão director de uma festa nos arredores de Lisboa por ter 
chamado para tomar parte na orchestra da egreja um trompa 
que estava tocando no tzabumba» (sic) do arraial, 

Em i8o5 foi reprehendido pela mesma forma o irmão 
Mathias Ostemold, musico militar, por ter tomado parte no 
bando dos toiros \ desculpou-se que o fizera por ordem do seu 
coronel e assignou uma declaração formal de que não reinci- 
diria. 

E assim como eram rigorosamente punidos os que delin- 
quiam ou não honravam a classe, occasião também houve em 
que foram defendidos com a nn^iior energia alguns que se quei- 
xaram de serem vexados por estranhos. Succedeu esse caso 
com os directores da i Assembléa Nacional», sociedade de re- 
creio estabelecida em 1818. Esta sociedade dava frequentes 
saraus e bailes, sendo a orchestra dirigida por um violinista 
italiano chamado Giuseppe Galli ; no baile realisado em terça 
feira de entrudo de 1821, quizeram os sócios directores do di- 
vertimento prolongal-o além da hora convencional, e dando 
n'esse sentido ordem aos músicos por forma inconveniente^ 
originou-se d'aqui uma querella, parece que aggravada por fa- 
ctos anteriores, que fez terminar o baile com musica muito 
desafinada. A Mesa da irmandade tomando a peito o vexame 
softrido por seus irmãos, reuniu e lavrou o seguinte docu- 
mento : 



«Circular a todos os irmãos Professores da Irmandade da Gloriosa 
Virgem e Martyr Santa Cecilia, estabelecida n'esta Corte e Cidade de Lis- 
boa — A Mesa da Irmandade da Gloriosa Virgem e Martyr Santa Cecília^ 
tomando na sua mais séria e madura consideração, pela verdadeira expo- 
sição e perfeito conhecimento de factos, o indecoroso, injusto e indigno 
tratamento aue se tem feito, e te em supportado com assaz sobeja mode- 
ração e prudência os nossos Irmãos Professores da Arte de Musica no 
serviço da Caza da Assembléa Nacional, e especialmente na noite de terça 
feira seis do corrente e ultima do Carnaval, em c^ue os dois Directores d*a* 
(fuella Assembléa não somente insultarão, injuriarão e provocarão os ditos 
ionãos, mas até os ameaçarão de serem precipitados pelas janellas fora, ten- 
do estes desempenhado sobejamente os deveres de suas convenções até hora 
e meia depois da meia noite, e já Quarta feira de Cinzas, contra o publico 
« descripto regulamento da dita Assembléa, e muito além das suas conven-» 
33o 



oo 

ç6e^ ; ainda por ciinà cobrirão e carregarão das mais atrozes injurias toda 
a nossa corporação em geral com os nomes mais insultantes^ deshonrosos 
e infames, sem haver algum outro motivo senão o capricho e orgulho dos 
sobreditos Directores em desprezarem os talentos, os trabalhos e os suo- 
res dos Professores beneméritos, de caracter brioso e honrado : 

Determina e ordena a todos os irmãos Professores, que nenhum se 
occupe nem sirva, ou exercite a arte n*aquella Assembléa, ou seja lucra- 
tiva ou gratuitamente, sob pena de serem riscados e expulsos da Irman- 
dade, como infractores do bom e honrí do comportamento, e decoroso ca- 
racter que o nosso Compromisso não somente recommenda mas imperio- 
samente reauer e exige debaixo d*aquella pena^ dos Professores de uma 
Arte tão nobre, tão estimada e tão necessária, que são Irmãos d*esta tão 
distincta Irmandade. 

E outrosim adverte a dita Meza, que os ncssos Irmãos Directores de 
similhantes ou d*outras funcçÕes profanas, tenhão em vista primeiro que 
tudo o bom, decente e honroso tratamento dos Professores seus Irmãos, 
e estes egualmente o fiel e exacto desempenho de suas convenções, e irre- 
prehensivel conducta, qual devem sempre ostentar homens nonrados e 
beneméritos da Arte, ficando uns e outrcs responsáveis á referida Meza 
pela contravenção do que fica exposto e ordenado. 

E para que chegue á noticia de todos, será esta afixada em a nossa 
Casa do Despacho, extrahindo-se duas copias, as quaes serão entregues 
aos Irmãos Procuradores da Irmandade e da Meza, para que a fáção saber 
a todos os Irmãos, devendo cada um d'elles assignal-a afim de eme em 
tempo algum possão allegar ignorância . Dada em a nossa Casa do Despa- 
cho em Conferencia da Mesa de 27 de Março de 1821. 

O Secretario, 
Fr. António d* Almeida,^ 



Esta enérgica represália poz em grande sobresalto os di- 
rectores da Assembléa Nacional, pois ficavam privados de mú- 
sicos para as suas funcçÕes, pelo que se dirigiram nada menos 
Sue ao ministro para que lhes acudisse ; e como eram pessoas 
e fino pello, foram attendidos, baixando um aviso do inten- 
dente da policia á irmandade, ordenando que se anncllasse 
aquella circular. Foi cumprida a ordem, como não podia dei- 
xar de ser, escrevendo-se por debaixo do terrível documento 
a seguinte nota: 



«Por Aviso da Intendência Geral da Policia de 14 de Abril em cum- 
primento de outro da Regência de 1 2 do mesmo mez, fica sem effeito esta 
Circular, e os professores músicos nossos Irmãos com a liberdade de se 
poderem ajustar para o serviço da Assembléa Nacional. Em a nossa Casa 
do Despacho e Conferencia da Meza de 21 de Abril de 1821. 

O Secretario, 
Fr. António d' Almeida » 

33i 



oo 

Mas a irmandade não deixou de protestar, enviando á 
Regência do Reino (que então governava em nome de D. João 
VI), um violento requerimento pondo em evidencia o vexame 
dos artistas e o orgulho dos directores da Assembléa. Este 
requerimento ficou porém abafado. 

Já no tempo em que João Alberto começara a preponde- 
rar na irmandade, houve um caso curioso que prova quanto 
era grande a força moral de que aquella. confraria dispunha: 
o irmão José Maria Leoni, director de festas de egreja e en- 
saiador dos coros no theatro do Salitre, era um desaforado 
má-lingua que desacreditava os collegas e andava sempre de 
rixa com elles ; por isso e por não cumprir o estatuto, convi- 
dando para as suas festividades indivíduos que não eram ir- 
mãos, foi por isso varias vezes reprehendido. Vendo-o sem 
emenda, a Mesa chamou o pela ultima vez á barra e obrigou-o 
a assignar o seguinte estupendo testemunho de humilhação, 
em que não se acreditaria se a prova não existisse, como existe 
no archivo da irmandade d'onde o extrahi. 

Eil-o: 



«Pelo presente Termo, Eu abaixo assignado José Maria Leoni, me 
obrigo de hoje avante a regular minhas acções e palavras pelos principios 
da mais perfeita moral, não manchando publica ou particularmente o cre- 
dito não só dos irmãos congregados em Meza, como lambem dos que com- 
põem o resto da nossa Irmandade. Conhecendo quanto a minha conducta 
se tem feito odiosa, pela inobservância das leis a que me obriguei como 
Irmão da Real Irmandade de Santa Cecilia, e consinto de minha expontâ- 
nea vontade em ser riscado do numero de Irmãos logo que me constitua 
infractor da mesma lei ; e igualmente me sujeito ao que determina a Meza 
no Capitulo 5.° Paragrapho 5/* do nosso Compromisso, que determina 
que não se possam levar ás funcçóes cantores nem instrumentistas que 
não sejam nossos irmãos, e por verdade se assignoa abaixo, comigo, o as- 
sistente do Secretario, hoje i6 de Dezembro de i832. — José Maria Mar- 
tins Leoni. — José Francisco Barbosa, 2,' Secretario» 



Em 1824 já tinha João Alberto sido eleito secretario da 
Mesa, sendo um dos seus primeiros actos no secretariado 
mandar fazer novo livro de entradas, o qual ainda hoje serve, 
encadernado em marroquim com as pastas e folhas doiradas, 
fechos de metal doirado. 

A festa de Santa Cecilia readquiriu por então novo brilho, 
graças á influencia de João Alberto. Os irmãos porém, habi- 
tuados já ao desleixo, faltavam com frequência ao convite de 
tomarem parte no coro. Para poder canir desapiedadamente 
sobre os relaxados, João Alberto solicitou o logar de thesou- 
reiro, que lhe dava o pretexto de zelar os interesses do cofre. 
332 



oo 

Foi então unna verdadeira hecatombe ; as reuniões da Mesa ena 
i83o quasi não se occuparam se não das multas impostas aos 
irmãos que faltavam ás festas e ás exéquias. Todos pagaram 
sem recalcitrar, antes desculpando-se humildemente e promet- 
tendo serem mais pontuaes. Houve porém um orgulhoso que 
se julgou com direito de ficar impune e privilegiado, mas sa- 
hiu-lhe cara a presumpção : o castrado italiano Domingos Lau- 
retti, cujos merecimentos eram altamente cotados tornando-o 
muito senhor da sua pessoa, tendo faltado á festa e recebido a 
intimação da respectiva multa, mandou dizer verbalmente que 
não pagava e que se quizessem continuar a tel o por irmãa 
não o oorigassem a tomar parte na festa. Ao ouvir tal recado 
em reunião de Mesa, João Alberto propôz que Lauretti fosse 
immediatamente riscado e que se quizesse continuar a ser ir- 
mão pagasse nova jóia além da multa em que incorrera. Logo 
na conferencia seguinte compareceu o orgulhoso cantor, agora 
com o seu orgulho abatido, a pedir que o readmittissem, pa- 
gando n'esse acto segunda jóia de 2í!?4oo réis «e a multa de 4 
arráteis de cera em que ficou multado por falta de intelUgen-- 
cia.» Assim está textualmente exarado na respectiva acta. 

Quando D. Miguel se proclamou rei absoluto, João Al- 
berto, apesar de seguir occultamente o partido liberal e ser até 
maçon, não hesitou em ir elle mesmo ao paço solicitar a regia 
protecção para a irmandade, levando-lhe um livro especial para 
as assignaturas da familia real, no qual D. Miguel firmou o 
seu nome *. 

No intuito de dar nova força aos antigos privilégios da ir- 
mandade, então bastante obliterados, fez João Alberto publi- 
car na cGazeta de Lisboa» o seguinte annuncio: 



«O Provedor e Mesaríos da Real Irmandade de Santa Cecilia, erecta 
na Parochial Igreja de Santa Maria dos Martyres doesta Côrte e Cidade de 
Lisboa, fazem saber, que, se acha em pleno vigor o Compromisso da Ir- 
mandade, e o Decreto de 1 5 de novembro de 17Ó0, aue prohibe expressa- 
mente a todos os que não forem Irmãos da dita Contraria exercitar a arte 
de Musica lucrativamente, debaixo da pena imposta no mesmo Decreto ; 
e que El-Rei Nosso Senhor se dignara fazer Mercê á sobredita Irmandade 
de a tomar na Sua perpetua e Real protecção por Seu Régio Alvará de 27 
de abril de i83i.» 



Mas a questão financeira assoberbava sempre os dirigen* 
tes da irmandade e tomara-se um pesadello para o enérgico 



* A folha onde ettava eita assignatura foi ma» tarde rasgada por mfio desconhecida. 

333 



oo 

thesoureiro. Um novo facto a veiu aggravar : determinava o 
decreto de 1760 que qualquer pessoa que exercesse a arte 
sem ser confrade pagasse \2íjt>ooo réis de multa, o sendo me- 
tade para o Hospital de Todos os Santosi. A' sombra d'essa 
determinação, quando entrava algum novo irmão que prece- 
dentemente tivesse feito exercicio da musica era obrigado a 
pagar aquella multa, mas entrava toda para o cofre, ficando o 
caso sonegado ao Hospital; em 1826 houve denuncia, e o pro- 
vedor do Hospital mandou um officio a pedir esclarecimentos. 
Troca de explicações e desculpas, terminando a irmandade por 
enviar 2oíS^ooo réis «por conta da divida das multas». Quando 
em 1826 Luiz Gossoul foi admittido pagou pontualmente os 
I2íy50oo réis exigidos, os quaes foram por inteiro entregues ao 
hospital Ainda em fevereiro de i83i se enviou ao mesmo hos- 
pital a quantia de bouf^ooo réis por saldo de contas. 

Os mesarios não tardaram em notar que era inconvenien- 
te saccar dinheiro dos irmãos em proveito de terceiro, e come- 
çaram a fechar os olhos ás infracções, acceitando qaaesc^uer 
desculpas. D*aqui o relaxamento a crescer. Estavam as coisas 
n'este ponto quando, em 1828, entrou para thesoureiro João 
Alberto. 

Viu logo que o remédio único era reformar o compro- 
misso, encontrando porém muita resistência por parte dos ir- 
mãos antigos ; provisoriamente fez umas modificações oue le- 
vou á presença de D. Miguel para que as auctorisasse. Mas a 
agitação politica e a guerra civil que se lhe seguiu paralysou a 
acção do enérgico reformador, lançando de novo a irmandade 
em profundo abatimento. 

Logo depois de entrar em Lisboa o exercito liberal, João 
Alberto tratou de fundar o Monte-pio Philarmonico, como 
adiante direi. Em seguida dedicou-se á reorganisação da ir- 
mandade, fazendo para esse fim reunir todos os irmãos em 23 
de abril de i836. N'essa reunião elegeu-se uma coramissão en- 
carregada de elaborar um novo compromisso, da qual João 
Alberto ficou sendo relator. Este apresentou no anno seguinte 
as bases da reforma e em i838 a lei completa, que foi appro- 
vada em reunião de 19 de julho sendo presidente o conde do 
Farrobo. 

Muitos artigos do velho compromisso foram reproduzidos, 
mas estabeleceu-se o pagamento de quotas e outras contribui- 
ções, as quaes levantaram grande opposição. Muitos irmãos 
sahiram por não se conformarem com os novos encargos, c 
por fim João Alberto, resolvido a consolidar a sua obra con- 
graçando os dissidentes, apresentou nova reforma em que as 
quotas eram eliminadas. 
334 



CO 

Esta segunda reforma foi approvada em 27 de janeiro dç 
1843. 

Tanto n'uma como n'outra foi supprimido o decreto de 
1760 que figurava no antigo compromisso e cuja publicidade 
dei origem ás reclamações do hospital; continuou porém a 
ser cumprido com mais ou menos rigor segundo as circums- 
tancias. 

Desde então, unida a classe e animada pela influencia de 
João Alberto, readquiriram as festas de Santa Cecília novo 
explendor, tornando-se n 'alguns annos imponentissimas. 

O coro da egrejíi dos Martyres é assaz espaçoso e sobre 
elle armava-se um coreto volante que comportava grande nu- 
mero de executantes. Mas não se )ulgou isso sufficiente e em 
1844 mandou-se fazer um enorme e grandioso coro supple- 
mentar que descia em amphitheatro desde a altura do órgão 
até quasi ao meio da nave. Este coro, construido todo de ma- 
gnificas madeiras, compunha-se de diffcrentes peças engenho- 
samente combinadas que permittiam armar-se com relativa fa- 
cilidade, ficando solidamente ligado por fortes ferragens e sus- 
tentado por grossas columnas *. 

Não se celebravam n aquelle tempo em Lisboa solemni- 
dades religiosas tão importantes como as de Santa Cecilia. To- 
mavam parte n ellas não só quasi todos os artistas desde o 
mais classificado até ao mais modesto, mas também muitos 
amadores ; uns e outros consideravam uma honra serem exe- 
cutantes na orchestra ou cantores no coro, tomando algumas 
vezes patte n'este ultimo muitas senhoras da nossa mais disr 
tincta sociedade ; também muitas vezes cantavam os primeiros 
anistas de S. Carlos. Executava-se obras primorosas, taes 
como as missas solemnes em dó, de Beethoven, em sol, de 
Mozart, a de Cherubini, as missas de requiem d' este auctor, a 
de Bomtempo e sobretudo a grandiosa de Mozart (que se exe- 
cutava com muita frequência), as matinas de deiunctos de 
David Peres e as de Marcos Portugal (desde certa época dei- 
xaram de haver matinas por exigirem excessiva despeza). 

Também os nossos compositores porfiavam em que se 
executassem as suas obras, e muitos as escreveram expressa- 
mente para esse fim, produzindo verdadeiras obras primas; 
taes foram Casimiro, Migone, Santos Pinto, Guilherme Cos- 
soul, Monteiro d' Almeida e outros. 

Os logares reservados na egreja eram disputados com 



' Ciutoti mai4 de quatr centos mii réis e IA vendi Jo hs algu^^s annos a um vidraceiro dn 
KM d« S. Roque, que o cotnprou i'o:qu icro moedjd {i()^%.»o róis), aproveitaa lo as madeiras pan 
a construcçâa ds ua prédio de casas. 

335 



oo 

grande empenho fazendo augmentar o numero de irmãos ho- 
norários para terem direito a esses logares ; a parte da egreja 
destinada ao povo enchia-se desde manhã cedo. 

Emfim, a festa de Santa Cecília era um acontecimento 
notável em Lisboa. 

Tudo isso passou . . . 

Voltemos porém á obra de João Alberto. 

be tudo quanto dizia respeito á sua classe elle se occu- 
pava simultaneamente. 

Os monarchas portuguezes tiveram sempre ao seu ser- 
viço, desde época remota, uma banda de músicos composta 
de instrumentos de vento, taes como trombetas, sacabuxas, 
charamelas e atabales; estes músicos chamaram-se primeiro 
trombeteiros, depois ministrís ou charamelas e por ultimo ti- 
veram o titulo pouco honorifico de músicos das Reaes Caval- 
lariças. Eram os «trombeteiros» de D. Pedro I a que se refere 
o chronista Fernão Lopes, eram também os ministrís dos au- 
tos de acclamação, eram emfim os chiirumelas^ como lhes cha- 
mava o povo. 

Além d'estes havia os vivítiosos da Real Gamara, estran- 
geiros quasi todos, contratados para tomar parte na orchestra 
da opera e saraus do Paço. 

João Alberto, que era, como a principio disse, atabaleiro- 
das Reaes Cavallariças, quando triumphou a causa constitu- 
cional aproveitou as circumstancias para reunir aquellas duas 
classes de músicos, obtendo a incumbência de organisar com 
todos uma só orchestra destinada ao serviço da corte. 

Esta orchestra ficou denominada musica da Real Gamara- 
Foi arbitrada aos seus membros um pequeno ordenado vitalí- 
cio (i2íj?ooo réis mensaes), que no caso de impossibilidade por 
doença ou velhice continuavam a receber, sendo as suas func- 
ções preenchidas por substitutos cujo serviço era gratuito. 

Os logares obtinham-se por concurso sanccionado pela 
nomeação regia. 

Foi este um óptimo serviço que João Alberto prestou não 
só aos seus coUegas mas ao próprio paço, dando a este, com 
pequena despeza, uma orchestra effectiva de bons artistas, 
obrigados a comparecer sempre que lh'o exigissem *. 

Aproveitando também a influencia de que dispunha, fez 
pouco depois com que o incumbissem de organisar na Sé Pa- 
triarchal uma orchestra effectiva, que antes não existia ; a des- 



* Ha certo tempo um adminlsirador economfco cortou e«8a despeza, qne julgou excessiva 
e inntil, não nome indo os substitutos para os locares que iam vagando ; algum d'esses sabstitú' 
tot tinham servido gratuitamente durante muitos annos. 

336 



oo 

peza com esta orchestra foi tirada da verba destinada aos can- 
tores, os quaes antigamente eram mais numerosos e tinham 
ordenados muito elevados. 

Entretanto tinha completado uma das suas obras mais im* 
portantes : a fundação do Montepio Philarmonico. 

Não sei se o titulo, e mesmo a obra, lhe foi inspirada. pelo 
conhecimento que tivesse do Pio Instituto Filarmónica^ esta- 
belecido no theatro Scala de Milão em 1783 e composto dos 
professores da orchestra d'aquelle theatro. 

O que é certo é que foi na primeira época das nossas agi- 
tações politicas que as sociedades de soccorro mutuo começa^ 
ram a ser conhecidas entre nós. 

João Alberto projectou crear para a sua classe uma asso- 
ciação d'este género. Como a idéa estava ligada aos principios 
liberaes e uma grande parte dos irmãos de Santa Cecilia pro- 

[)endia para o campo opposto, João Alberto reuniu particu- 
armente os que eram não só coUegas mas também affeiçoa- 
dos ao novo regimen, e apresentou-lhes o seu projecto de es- 
tatutos, o qual foi approvado em reunião de 21 de abril de 
1834. 

Uma disposição singular d'esses estatutos determinava que 
a sociedade só se constituísse quando tivesse trinta e sete só- 
cios, numero a que poude attingir alguns mezes depois; pro- 
cedeu-se então á sua installação definitiva, que teve logar em 
4 de novembro. 

Entre os sócios fundadores, figuram na respectiva acta os 
nomes dos notáveis músicos João e Caetano Jordani, António 
Luiz Miro, Eduardo Neuparth, José Gazul e seus filhos, José 
Maria de Freitas, José Maria Christiano, Gaspar Campos e 
Manuel Joaquim Botelho. 

Foi primeiro presidente da assembléa geral João Jordani 
e primeiro secretario o próprio João Alberto. Os estatutos im- 
primiram-se na typographia de Morando e teem este titulo: 
«Compromisso do Monte-pio Philarmonico. Installado em Lis- 
boa aos 4 de novembro de 1834.» 

E' pois esta associação a mais antiga da sua espécie que 
ainda hoje existe e uma das primeiras que se organizou no 
nosso paiz. 

O pequeno núcleo de sócios fundadores não tardou a au- 
gmentar com os restantes irmãos de Santa Cecilia ; que pouco 
a pouco se lhes foram aggregando ao verem quanto a nova 
instituição era útil e como prosperava. Por fim, e era esse o 
fito de João Alberto, a Irmandade e o Monte-pio ligaram-se in- 
timamente, tomando-se commum e obrigatório o ingresso em 
ambas as corporações. 

FoL. 22 ' 337 



oo 

Para que esta obrieação, tacita a principio, podesse im- 
pôr-se como lei, João Aloerto reformou os estatutos do Monte- 
pio, introduzindo no capitulo sobre a admissão de sócios um 
paragrapho que os obrigava a entrarem previamente para a ir- 
mandade de Santa Cecília se não pertencessem já a ella. 

Foram esses segundos estatutos approvados em sessão de 
20 de maio de 1845. A commissão reformadora, cujo relator 
foi João Alberto, teve por presidente o primoroso compositor 
Santos Pinto. Entre os nomes que figuram na lista da assem- 
bléa geral encontram-se os de todos os principaes músicos 
xl'aquella época, incluindo muitos que não tinham entrado na 
primeira aggremiação, como Casimiro e outros. 

A nova lei obteve a sancção régia, que não houve para a 
primeira, por portaria de 3i de agosto assignada pelo ministro 
Costa Cabral, de quem João Alberto era intimo partidário. Im- 
primiu-se com este titulo: «Estatutos da Associação do Monte- 
pio Phylarmonico Reformados em 20 de Maio de 1843.1 

São muito mais desenvolvidos que os primeiros, constan- 
do de quinze capitulos com oitenta artigos (aquelles tinham 
apenas sete artigos). Além dos soccorros a doentes e pensões 
aos impossibilitados definitivamente, estabeleciam subsídios ás 
famílias dos fallecidos ; n'este ponto teem um curioso paragra- 
pho, pouco canónico se bem que humanitário, permittindo aos 
sócios ecclesiasticos habilitarem como herdeira d'esses subsí- 
dios «qualquer pessoa do sexo feminino». 

E como não julgasse sufficientes os oitenta artigos d'esses 
estatutos, João Alberto apresentou ao mesmo tempo como ap- 
pendice um «Regulamento interno», em que a matéria dos es- 
tatutos é largamente desenvolvida e accrescentada com grande 
numero de determinações relativas ao trabalho profissional dos 
associados; assim prohíbia que os directores de festividades 
convidassem indivíduos que não fossem associados, prohíbia a 
estes que prestassem serviço dirigido por estranhos, determina- 
va-lhes que não faltassem aos ajustes nem acceitassem qual- 
quer serviço por menor preço do que o estabelecido, mandava 
regular esse preço por meio de uma tabeliã, etc. Esta espécie 
de lei supplementar, que não foi submettida á sancção régia, 
imprimiu-se egualmente na Imprensa Nacional, com este ti- 
tulo : «Regimento interno da Associação Monte-pio Phylarmo- 
nico. Feito em 20 de maio de 1843.» Contém 98 artigos de- 
senvolvidos em grande numero de paragraphos, occupando i ia 
paginas de 8.® pequeno. 

O artigo 7D.** dos estatutos estabelecia o principio da caixa 
económica, determinando que fosse applicada uma parte dos 
fundos em adiantamentos de ordenados: o regulamento am- 
338 



oo 

pliava este principio auctorisando os administradores a recebe- 
rem quantias em deposito com vencimento de juros. 

Esta caixa económica foi de grande utilidade para os só- 
cios, especialmente durante a crise politica de 1846, produzin- 
do também óptimos lucros para o cofre ; mas foi egualmente 
motivo de grandes dissabores para João Alberto como direi. 

Para se ter uma idéa do incremento adquirido pela obra 
do dedicado organisador da corporação musical, basta compa- 
rar estes algarismos : na occasião de se insiallar, em novembro 
de 1834, contava o Monte-pio Philarmonico apenas 87 sócios e 
o magro fundo de 187^^^380 réis; quando se reformou, nove 
annos depois, já este fundo tinha subido a quasi cinco contos 
de réis e o numero de sócios era de 108, numero que pouco 
depois chegou a duzentos. 

Ao mesmo tempo que reformava o Monte-pio, João Al- 
berto tornava publica, fazendo imprimir os seus primeiros es- 
tatutos, a forte associação destinada a defender os interesses 
da classe, que mais tarde se intitulou «Associação Musica 24 
de junho» e que até então havia funccionado secretamente sob 
a forma de loja maçónica. 

Subiu n^essa época ao apogeu a preponderância de João 
Alberto entre os membros da classe que elle tão energicamente 
unia em estreitos laços; para lhe testemunharem o seu reco- 
nhecimento resolveram os seus mais íntimos cooperadores abrir 
uma subscripção cujo producto foi destinado a mandar fazer 
um retrato para ser coUocado na casa do despacho da irman- 
dade de Santa Cecilia onde ainda existe. A inauguração doesse 
retrato constituiu uma solemne homenagem á qual também se 
associaram algumas pessoas estranhas á classe, irmãos hono- 
rários da irmandade de Santa Cecilia ; entre estes salientaram- 
se o sábio professor philologo António Caetano Pereira e o 
medico Guilherme Centazzi, .ambos amigos Íntimos de João 
Alberto. Caetano Pereira escreveu duas peças poéticas, que se 
imprimiram na Imprensa Nacional, assim intituladas : 

1.* «Humildes oitavas oíferecidas ao Senhor João Alberto 
Rodrigues Costa. — Para serem addicionadas ao Quadro, (que 
seus Amigos tributam, signal de gratidão». No fim as iniciaes 
A. C. P. ^ntonio Caetano Pereira). 

2.* «Ode dedicada ao Senhor João Alberto Rodrigues 
Costa no dia 16 de novembro de 1843 na occasião da inaugu- 
ração do seu retrato, monumento de gratidão por ser o insti- 
tuidor do Monte-pio Philarmonico, por um seu muito amigo e 
admirador J. P. Ò.» 

Se bem <jue o nome do auctor d' esta ultima poesia tenha 
a prmeira inicial designada com um J, não pôde naver duvida 

339 



oo 

que ella seja de António Caetano Pereira, porque João Alberto 
não tinha outro amigo que podesse prestar-lhe homenagem no 
estylo em que aquella ode está escripta. E' líma esmerada com- 
posição rigorosamente clássica, primor de vemaculidade, em- 
Dora também de emphatico mau gosto. Citarei d' ella os es- 
guintes trechos, que dão boa idéa do todo : 



irtlstrofe 2: 



Euterpe, do Ceo mimosa filha, 

Heroe piedoso 
Eu cantar intento hoje, onde brilha 
De acções mil, mil vezes varão famoso ; 

Seu coração deseja 

Benefícios espargir 

Alma virtude adeja 
De quem do orbe immenso dividir 
Quereria, sendo possivel, a redondeza 
Para mostrar de tal peito, tal grandeza. 



Artlstrofe 8.' 



Tu innumeras virtudes relatas 

De um peito forte ; 
Com amor, piedade o coração esmaltas, 
Victimas tantas arrancando á morte ; 
Viuvas amparando 
Também temos filhos 
A' mingoa roubando : 
De excelsas virtudes auríferos brilhos 
Gravada ficará eterna memoria 
Em corações gratos perpetua gloria. 



O dr. Centazzi improvisou um soneto, que recitou no 
momento em que se descobriu o retrato e sahiu impresso nas 
suas obras. 

A sessão abriu com um discurso lido por João Jordani, 
presidente da commissão que promoveu a manifestação. Esse 
discurso, que se imprimiu também na Imprensa Nacional, es- 
cripto em estylo muito floreado e cheio de allusões históricas, 
decerto que não foi redigido por João Jordani cujos recursos 
litterarios não chegavam para jpompas de rhetorica ; creio não 
errar attribuindo-o também a Caetano Pereira. 

O retrato pintado a óleo em ponto grande, foi reprodu- 
340 



oo 

zido em litographia cujos exemplares se distribuíram pelos 
subscriptores. 

João Alberto não quiz só para si todas as honras que lhe 
tributaram : era seu auxiliar dedicado e generoso o organista 
Joaquim Barbosa Lima, que possuindo alguns bens de tortuna 
poz gratuitamente á disposição do Monte-pio quantias impor- 
tantes para reforçar as transacções da caixa económica ; o prin- 
cipal fundador do Monte-pio propoz por isso que as sobras da 
subscripção e o mais que se podesse obter se destinasse a 
mandar fazer também o retrato de Barbosa Lima para se col- 
locar defronte do seu, como effectivamente está (v. Hiitna, 
— Joaquim Barbosa). 

Depois de tão gloriosa apotheose, começou a inveja fa- 
zendo das suas. Opposições surdas, boatos, intrigas e calum- 
nias, levaram-o a deixar a gerência do Monte-pio em 1849. 
Aproveitando-se doeste afastamento, appareceram accusações 
formaes nos relatórios das gerências que se lhe seguiram, e 
elle querendo defender- se na assembléa geral, ouviu em 1862 
um discurso violentíssimo com que foi atacado no próprio re- 
cinto onde alguns annos antes o tinham glorificado, oiscurso 
que não duvidou pronunciar um dos seus admiradores e que 
se dizia seu amigo. 

Este bom amigo era Francisco Casassa — que foi empre- 
gado na Bibliotheca Nacional — um italiano intriguista e de ca- 
racter pouco liso. 

João Alberto, apanhado de surpreza, reservou a resposta 
para um folheto que fez imprimir e se intitula : a Relatório di- 
rigido á Associação do Monte-pio Philarmonico a fim d'esta ser 
esclarecida relativamente á questão que teve logar na assem- 
bléa geral de 11 de junho de i852 por João Alberto Rodrigues 
Costa.» Versavam as accusações principalmente sobre a admi- 
nistração financeira e forma de negociar com os fundos ; o ac- 
cusado justificou plenamente a sua probidade e o zelo com que 
administrara, pondo também a descoberto as qualidades do 
cseu amigo» accusador. 

Depois d'isso, e em consequência de fortes instancias poz- 
se de novo á testa do Monte-pio. Em i855 apresentou segunda 
reforma de estatutos, que foi approvada em sessão de 24 de 
novembro doesse anno, mas não começou logo a vigorar por 
caso de força maior; sobreveiu por esse tempo a cólera mor- 
bus e quasi seguidamente a febre amarella que dizimaram uma 
parte da população de Lisboa. O Monte-pio Philarmonico 
poude fazer lace a essa angustiosa crise na qual succumbiram 
diversas associações suas congéneres ; prestou então os mais 
valiosos serviços aos associados, não só soccorrendo os doen- 

341 



oo 

tés mas também auxiliando os desempregados com emprésti- 
mos a juros módicos. Um sócio antigo falou-me uma vez com 
enthusiasmo da dedicação com aue procederam os corpos ge- 
rentes n'aquella época : constituidos em sessão permanente, os 
seus membros revezavam-se de forma que houve sempre, de 
dia e de noite, na casa do despacho dos Manyres quem esti- 
vesse auctorisado a soccorrer immediatamente os sócios que 
pedissem auxilio. 

Quando terminou a crise voltaram-se as attenções de João 
Alberto para a sua nova reforma da lei, e solicitando para ella 
a approvação régia obteve-a por decreto de 8 de agosto e al- 
vará de IO de setembro de 1857. 

Pouco depois novos dissabores o fizeram definitivamente 
abandonar a gerência das associações que fundara, e por fim 
em 8 de maio de i865 despediu-se de sócio. 

O Monte-pio Philarmonico tem tido uma existência acci- 
dentada. Muito abalado com a crise politica de 1846 e com o 
desfalque produzido pelas despezas da Academia Melpome- 
nense (v. adiante), enfraquecido pelas epidemias de i856-57, 
agitado por frequentes discórdias, teve um período de restau- 
ração em 1860, graças aos esforços do padre Joaquim Vital 
Sargedas, um benemérito muito digno de louvor. Seguidamente 
o sr. Rio de Carvalho também lhe deu um bom impulso. Mas 
este mesmo foi causa de haver uma scisão entre a classe, sci- 
são que em 1879 levou o Monte-pio á extrema decadência, che- 
gando a ser dado por perdido. Houve então quem tomasse 
sobre os hombros a empresa difficil de lhe dar alento, conse- 
guindo-o á custa de bastante trabalho e sacrifícios. Por essa 
occasião fizeram-se novos estatutos, approvados por alvará de 
14 de julho de 1880. 

Ultimamente e desde alguns annos, recomeçou a decahir 
por abandono. 

Tratemos agora de outra creação de João Alberto, a «As- 
sociação Musica 24 de junho». 

Desde longa data que os membros da orchestra de S. 
Carlos se entendiam entre si para defeza dos interesses recí- 
procos; já em 1825 tinham feito uma demonstração de solida- 
riedade requerendo a D. João VI, com data de 9 de agosto, 
que para aquella orchestra não viessem artistas estrangeiros em 
quanto hou esse nacionaes idóneos. 

E' todavia curioso que alguns dos requerentes fossem jus- 
tamente estrangeiros, como Pedro Rodil (flautista hespanhol), 
João Wisse (clarinettista allemão) e outros. 

João Alberto emprehendeu reunir, não só a orchestra de 
S. Carlos mas as dos outros theatros, n'uma só corporação in- 
342 



ao 

cumbida de contratar com as empresas a organisação d'essas 
orchestras. Como era idéa nova que teria a opposição de mui- 
tos interesses, João Alberto começou por promover secreta- 
mente a sua realisação, constituindo para esse fim uma loja 
maçónica denominada «S. João», para a qual entraram os ini- 
ciados no segredo. Depois de algum tempo de propaganda con- 
seguiu aggremiar um grupo ja numeroso, em que entravam 
muitos dos principaes artistas, como Santos Pinto, Casimiro, 
os dois irmãos Jordani, Freitas, Gaspar Campos, Luiz Cos- 
soul e outros, fazendo-os assignar uma escriptura em que se 
obrigaram a não acceitarem contratos directos com as empre- 
sas mas somente os que estas fizessem com a sociedade, tendo 
em compensação logares garantidos e melhoramento de orde- 
nados. Esta sociedade, que os músicos a principio chamaram 
«colligação», passou a intitular-se «Associação Musica 24 de 
junho», titulo allusivo á sua origem. 

Todas as orchestras ficaram logo debaixo da sua jurisdi- 
ção, e João Alberto elaborou para uso d'ellas regulamentos 
?[ue mandou imprimir, nos quaes impoz fortes multas ás in- 
racções da disciplina ; foi sempre sua idéa predominante obri- 
gar os seus consócios a procederem correctamente para serem 
respeitados. Para dar uma idéa do rigor d'esses regulamentos, 
transcreverei um artigo do primeiro d'elles, que foi o de S. 
Carlos, feito em 1843; diz assim: 



«Artigo 4.® — Todos os professores da orchestra, em as noites de es- 
pectáculo, deverão achar-se nos seus logares um quarto antes da hora an- 
nunciada para principiar, e o que faltar pagará de multa um dia de orde- 
nado para o cofre do Monte-pio ; egual quantia pagará aauelle que fazendo 
prelúdios se não cale, logo que o Primeiro Rebeca lh*o determine. • 



A Associação teve a principio por lei apenas umas cbases 
de estatutos», apresentadas por João Alberto em sessão de 3o 
de agosto de 1843 e só impressas em 1846 com este titulo: 
«Bases para os estatutos da associação formada sobre a escri- 
ptura que teve logar n'esta Cidade de Lisboa aos 8 dias do 
mez de julho de 1842.1 

Em sessão de 25 de junho de i85i é que João Alberto 
íipresentou os estatutos definitivos, que tiveram approvação ré- 
gia por alvará de 27 de outubro do mesmo anno, sendo minis- 
tro Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

O fundador da Associação deu á sua obra uma forma sin- 
gularmente autocrática: constituiu-se elle mesmo presidente 
vitalício e fez-se coadjuvar por um conselho de dez membros 

343 



CO 

jnamoviveis que elle também nomeou; estabeleceu uma <as- 
scmbléa representativai com limitadas attribuições e determi- 
nou que a assembléa geral só reunisse de três em três annos,. 
unicamente para eleger uma parte da tal assembléa represen- 
tativa. 

Custa a crer como o governo sanccionou similhantes es- 
tatutos. 

Teve para isso uma razão de muito pezo no nosso paíz : 
João Alberto era uma influencia eleitoral e estava relacionado 
com o ministro. Além d4sso, para dar na vista de quem lêsse 
a coisa por alto, mencionou machiavelicamente nos primeiros 
artigos que um dos fins da Associação era t proporcionar aos 
alumnos do Conservatório Real de Lisboa um futuro rasoaveU 
« cconsiderar a escola de musica do mesmo Conservatório coma 
escola da Associação» ; palavras vãs que nunca tiveram effeita 
pratico. 

Mas esta associação autocraticamente organisada deu ópti- 
mos fructos aos associados, embora com prejuizo dos que nãa 
o eram. Aquelles tinham permanentemente logares garantidos, 
e quando fechava o theatro de S. Carlos requeriam logo em- 
prego n'outros theatros fazendo sabir os que fossem simples- 
mente sócios do Monte-pio Philarmonico. Facilmente se ima- 
gina as animosidades que d'ahi resultariam. 

Por isso a existência das duas corporações reunidas mas 
distinctas, Monte-pio e Associação, foi sempre agitada por con- 
tinuas discórdias. 

João Alberto tudo dirigia com mão de ferro. Justificava 
porém, o seu systema com uma incontestável dedicação pela 
collectividade, temperando-o também com a consulta dos col- 
legas mais sensatos e respeitados. 

Mantinha com extremado rigor a disciplina das orches- 
tras e essa circumstancia lhe captava a acquiescencia das em- 
presas. 

E' certo todavia que no rigor de que usava ultrapassou 
algumas vezes os limites do justo, chegando a ponto de em uma 
occasião produzir consequências íataes. Citarei o seguinte casa 
como exemplo: Era primeiro trombone na orchestra de S. 
Carlos, José Nicolau ae Oliveira, que além de excellente mu- 
sico era muito sério e exacto cumpridor dos seus deveres. Em 
certo dia não esteve ao principio de um ensaio, mas sem fazer 
falta porque o trecho a ensaiar não tinha parte de trombone ; 
quando chegou disse João Alberto em voz alta : O sr. José 
Nicolau faltou. Este levantou-se do seu logar e exclamou for- 
malisado : Eu nunca falto ! Foi o suficiente para que a multa 
pela supposta falta fosse aggravada com três dias de suspen- 
344 






oo 

s&o. José Nicolau quando recebeu notificação do castigo, teve 
tão grande sentimento que foi acommettido de um ataque apo- 
pléctico, vindo a fallecer pouco tempo depois. 

Uma associação assim constituida, era naturalmente res- 
peitada pelos estranhos, e os seus membros gosavam de ge- 
ral estima. O espirito de classe era também mantido entre 
elles com inexcedivel zelo, o qual se evidenciava nas próprias 
discórdias intestinas, que nunca atacavam a existência da so- 
ciedade. Conheci muitos sócios antigos, que quando falavam da 
sua associação evidenciavam ter-lhe tanto apego como á pró- 
pria casa e família. Esta phrase ouvi eu a Augusto Neuparth 
em 1878: «Serei o ultimo soldado a abandonar o campo de 
batalha !i 

Tudo isto também passou. . . João Alberto despediu-se da 
Associação ao mesmo tempo que do Monte-pio Philarmonico, 
assumindo as suas funcções o sr. Rio de Carvalho. 

As determinações dos estatutos que concentravam toda a 
gerência da collectividade nas mãos de um só individuo, cho- 
cavam muito os sócios que iam entrando de novo ; não tendo 
assistido á génesis da associação nem apreciado as qualidades 
do fundador, não comprehendiam a razão d'aquellas determi- 
nações nem se conformavam com ellas. Assim foi crescendo, 
juntamente com outras causas, a indisposição contra os esta- 
tutos, que se tornaram pedra de escândalo e que todavia o se- 
gundo presidente não se apressava em reformar. Apenas em 
1875, para entreter a opinião, se imprimiu um projecto de re- 
forma, que mudava o titulo da sociedade em «Associação dos 
professores de musicai ; mas não passou de projecto. 

Por fim, quando certos interesses se viram feridos ou 
ameaçados, alguns dos principaes artistas de S. Carlos reuni* 
ram-se em numero de quatorze, no mez de maio de 1878, e 
resolveram promover a todo o transe a reforma da lei asso- 
ciativa. O sr. Rio de Carvalho viu n'este movimento a inten- 
ção occulta de o despojarem da sua auctoridade, e rodeou-se 
de um partido decidido a sustentai* o, ficando assim a classe 
dividida em dois campos hostis. 

Com esta scisão coincidiu a resolução tomada pela em- 
presa de S. Carlos, de escripturar os artistas individualmente, 
prescindindo da Associação como intermediaria. O sr. Rio de 
Carvalho encarregou-se de organisar parte da orchestra por 
esta forma, completando- a com artistas italianos mandados vir 
pela empresa. 

Ficou então a Associação Musica 24 de junho desapossa- 
da da orchestra de S. Carlos, e desempregados os artistas que 
se lhe conservaram fieis. Mas não trepidaram ; e como entre 

345 



oo 

elles se achavam justamente os mais distinctos artistas^ taes 
como Neuparth, os irmãos Croner, Carlos Campos, Del Negro, 
Carvalho e Mello e outros, souberam preparar a mais gloriosa 
época artística que aquella associação teve (v. Jktnsiiiii e 
!Ba.i*l>iex*i). 

Os grandes concertos clássicos dirigidos em 1879 por Bar- 
bieri, em 1881 e 1882 por Colonne, constituiram a mais artís- 
tica e notável manifestação musical que tem havido entre nós. 
O êxito d'esses bellos emprehendimentos, infelizmente não 
continuados, está ainda na memoria de muita gente. 

A Associação voltou em 1880 para o theatro de S, Carlos. 
Reformou em seguida os seus estatutos, que foram approva- 
dos pela assembléa geral em 3 de dezembro de i883 e pelo 
governo em 7 de outubro de 1884. Conservou por algum tem- 
po o prestigio adquirido, mas não o tendo renovado foi-o per- 
dendo pouco a pouco. Em 1894 modificou profundamente a 
sua oreanisação, tomando o titulo de «Associação dos Profes- 
sores de Musica de Lisboa». 

Resta-me falar da Academia Melpomenense, outra insti- 
tuição devida á iniciativa de João Alberto. A sua existência, 
também muito accidentada, não foi longa mas ainda assim 
prestou bons serviços aos artistas. 

Em julho de 1845, trinta sócios do Monte-pio Philarmo- 
nico, presididos por José Maria Christiano (v. este nome), e 
inspirados por João Alberto, organisaram uma academia de 
musica destinada a dar concertos e saraus em que os artistas 
se exercitassem, tanto na composição como na execução, ao 
mesmo tempo que se tornavam conhecidos e apreciados. 

Óptima idea, que nunca mais se repetiu por falta de ini- 
ciativa. 

O secretario fundador d' esta academia era o philologo An- 
tónio Caetano Pereira, a quem já me referi, amigo de João 
Alberto e enthusiasta amador de musica. Este desempenhava 
as funcções de vice-presidente e era segundo secretario Bar- 
bosa Lima. Entre os fundadores contavam-se mais : Joaquim 
Casimiro, Santos Pinto, Luiz Miro, Luiz Cossoul e seu filho 
Guilherme, etc. 

Um grande embaraço impediu a nova sociedade de come- 
çar logo a funccionar : a falta de meios sufficientes para as 
primeiras despezas, que tinham de ser grandes. 

Por isso'Conservou-se algum tempo em estado embryona- 
rio e chegou quasi a abortar. João Alberto teve então uma 
idéa salvadora, idéa que produziu porém muitos inconvenientes e 
lhe acarretou os maiores dissabores : unir a Academia á Asso- 
ciação Musica e ao Monte-pio Philarmonico, fazendo correr as 
'346 



oo 

despezas pelo cofre doeste ultimo. Realmente era uma ligação 
singular; mas para o enérgico fundador todos os meios eram 
bons comtanto que chegasse aos seus fins. 

Entretanto inslallava-se definitivamente a nova sociedade 
em 27 de fevereiro de 1846, tendo Barbosa Lima adiantado 
importantes quantias para as primeiras despezas ; os concertos 
e reuniões começaram logo com brilho notável. 

Em assembíéa geral de 22 de maio concordou o Monte- 
pio (não sem forte opposição e renhidíssimas discussões) em 
unir a si a Academia, e nomeando uma commissão para elabo- 
rar os respectivos estatutos, da qual foi relator o indispensável 
João Alberto, foranx estes approvados em 22 de junho. 

Segundo o artigo i.*^, a sociedade ficou denominada t Aca- 
demia dos Professores de Musica» com o titulo distinctivo de 
«Melpomenense» e por emblema a lyra de Apollo comosym- 
bolo da adoração entrelaçado na mesma lyra *. 

O artigo 2.^ dizia quaes eram os fins d'esta sociedade : 
«... a máxima acquisição de conhecimentos na Arte da Mu- 
sica, e sua perfeição n'esta Capital ; assim como o honesto de- 
leite dos amadores da mesma Arte, quer seja executando, quer 
ouvindo». 

O artigo 3.® determinava que só podiam ser sócios tos 
professores de musica pertencentes ao Monte-pio Philarmonico 
e todos aquclles indivíduos nacionaes ou estrangeiros que fo- 
rem de probidade, credito e estima publica, na qualidade de 
Sócios Amadores». 

Os professores pagavam 240 réis de quota mensal mas 
era-lhes dispensado esse pagamento se prestassem serviço ar- 
tístico ; os amadores tinham o encargo de 720 réis de quota e 
2^)400 de jóia. 

Realisavam-se duas «reuniões ordinárias» por mez (con- 
certos com orchestra, peças concertantes e solos), uma «reu- 
nião de famílias» por trimestre (saraus sem programma), e duas 
festas solemnes annuaes, uma em 27 de fevereiro e outra em 
22 de maio, anniversarios da installação e da juncção com o 
Monte-pio. 

O jornal a O Artista», n.° 8, publicou em 23 de dezembro 
de 1847 um relatório, narrando interessantes particularidades 
5obre a fundação e existência da Academia Melpomenense e 
em vários outros números dá noticia das suas reuniões. 

Em fevereiro de i853 reformaram-se os estatutos com o 
principal fim de elevar as quotas dos sócios amadores a 800 



' Adaraçjlo foi erro typ^grapMco: duração é qua devia ser e veiu depois ua reforma J» 
«833. Coro etfeiío, o tiiii:>re da Academia e a una lyra com ramos de hsrt entrelaçadja. 

?47 



oo 

réis e supprimir totalmente as dos artistas ; estabeleceu-se 
também a obrigação de realisar a Academia nove concertos 
annuaes, incluindo um extraordinário para solemnisar a ins- 
tallação, e seis saraus, sendo um d^elles egualmente extraor- 
dinário. 

Logo pouco depois foi modificado o titulo, annunciando-se 
essa modificação no jornal «Revolução de Setembro» em 25 de 
julho de i853, onde se lê o seguinte aviso: 



91 Academia Real dos Professores de Musica. —A direcção previne a 
todos os sócios que desde o dia 20 do mez de junho próximo passado ficou 
substítuido o titulo Melpomenense pelo supramencionado, assim como o 
concerto doeste mez terá logar no dia 25.» 



E para estabelecer officialmcnte o novo titulo, reformou 
segunda vez os estatutos, em janeiro de i865; o i.® artigo da 
segunda reforma diz : «A Academia Melpomenense é denomi 
nada — Academia Real dos Professores de Musica. O rei D. 
Fernando, então regente, tinha se declarado seu protector, por 
alvará de 22 de dezembro de 1854. 

Esta protecção não era simplesmente honorifica, pois que 
o rei-artista contribuía com a mensalidade importante de réis 

22ífiCí500. 

Foi brilhantissima a existência da Melpomenense ; funccio- 
nava no palácio em frente do Chiado, sendo os seus concertos 
concorridissimos pela melhor sociedade de Lioboa. 

D. Maria II e D. Fernando compareceram n'elles com 
muita frequência, mostrando pela Academia particular predi- 
lecção, tratando os artistas familiarmente e animando-os. Estes 
tiveram ali um grande incentivo, que foi causa de muitos tra- 
balharem com enthusiasmo, aperfeiçoando-se para adquirirem re- 
putação. Era nos concertos da Melpomenense que os candida- 
tos a membros da Associação Musica 24 de junho e aos loga- 
res da orchestra de S. Carlos davam as suas provas, tocando 
a solo perante numeroso auditório, provas que decerto eram 
muito mais valiosas e difficeis do que um simples exame par- 
tícular, nem sempre julgado com imparcialidade. 

Executava-se com frequência musica boa, o que não suc- 
cedia nas outras academias de amadores existentes também 
n^aquella época. Assim, n'um concerto realisado em 16 de ja- 
neiro de 1849 executou-se a primeira symphonia de Beetho- 
ven; em outros concertos ouviram-se varias partes de outras 
symphonias do mesmo auctor, e em 27 de setembro de 1848 
a cBatalha de Victoria». 
348 



oo 

Foi também na Melpomenense que Santos Pinto, Casi- 
miro, Guilherme Cossoul, Angelo Carrero e outros se exerci- 
taram como compositores, escrevendo para os seus concertos 
grande numero de trechos. 

Havia porém defeitos de organisação que não deixavam 
caminhar tão útil instituto nem permittiram que elle tivesse 
uma vida muito longa. O principal era a sua ligação com o 
Monte-pio. 

Os sócios doeste que não tinham aspirações artísticas e só 
desejavam os benefícios do soccorro mutuo, não podiam con- 
formar-se com os encargos da Academia e por isso moviam- 
lhe crua guerra. Nas accusações feitas em i852 a João Al- 
berto, tiveram larga parte as despezas da Academia. Essa 
guerra chegou a ponto ae dirigirem um requerimento ao Gouerna- 
dor Civil pedindo uma commissão de inquérito, a qual foi com ef- 
feito nomeada por alvará de 5 de agosto de i858. Essa commis- 
são deu parecer desfavorável para a Academia e para a Asso- 
ciação Musica 24 de Junho, sendo a gerência do Monte pio ac- 
cusada de applicação illegal dos seus fundos em proveito das 
outras duas instituições. 

A Associação Musica defendeu-se bem n'um folheto que 
fez imprimir, mas a discórdia não deixou de produzir péssi- 
mos resultados, sendo um d*elles João Alberto abandonar pela 
segunda vez os seus trabalhos. 

Entretanto o Monte-pio não abonou mais as despezas da 
Academia e esta definhava-se progressivamente. No seu seio 
também não reinava perfeita harmonia entre os artistas e os 
amadores, por questões de precedência; era este outro mal 
produzido pelo defeito orgânico. 

O certo é que por fim, em sessão de assembléa geral reu- 
nida em II de julho de 1861, foi resolvido por unanimidade 
dos votos presentes que se dissolvesse a Academia Real dos 
Professores de Musica. 

Ainda assim teve uma existência de i5 annos, alguns dos 
quaes foram verdadeiramente gloriosos. 

Decerto que não foi esta uma das menos úteis creações 
d'esse notável homem, tão enérgico e tão dedicado á sua classe^ 
que se chamou João Alberto Rodrigues Costa. 

Tomaram os músicos de hoje que lhes apparecesse outro 
egual a despertal-os da sua triste apathia. 

Ootsta. (João Evangelista Pereira da). Organista, pia- 
nista e compositor dotado de muito talento, mas que não poude 
dcsenvolver-se completamente por ter tido uma existência breve 
e cortada de aventuras. 

Era natural de Proença a Nova, villa da Beira Baixa no 

349 



oo 

districto de Castello Branco, sendo sua mãe D. Catharina Ma- 
ria Pereira da Costa. Nasceu cerca de 1798. 

Um tio, o padre João Pereira, que era um bom musico^ 
e que lhe tinha tanta aífeição como se fosse pae, ensinou-lhe 
na primeira infância os princípios da arte e notando-lhe ex- 
traordinária vocação trouxe-o para Lisboa afim de o fazer se- 
guir a carreira artisiica. Estudou no Seminário Pa-triarchal, 
e em 1820 exercia já as funcções de organista, entrando para 
a irmandade de Santa Cecilia em 29 de março d'esse anno. 

Pela mesma época começou a tornar-se notável por diver- 
sas composições de musica religiosa, modinhas, trechos para 
piano e farsas que se representaram no theatro da Rua dos 
Condes, onde foi mestre ensaiador. Depois entrou para o thea- 
tro de S. Carlos como pianista acompanhador, e ganhando a 
estima de Cario Coccia recebeu úteis conselhos doeste excel- 
lente mestre italiano. 

Em 1824 apresentou n'aquelle theatro a sua primeira com- 
posição importante. O programma que a annunciou é curiosa 
na parte que se lhe refere ; diz assim : 



aSegunda feira 23 de fevereiro, no Real Theatro de S. Carlos, era 
beneficio de hum Empregado, haverá hum interessante e variado Espectá- 
culo, distribuído da maneira seguinte : 

Principiará por hum novo Elogio Dramático, dedicado á Nação Pjr- 
tugues^a^ intitulado O ]M[ei*lto li^xciltaclo, cuja Musica he da Com- 
posição do Mestre ao Cravo do mesmo Theatro João Evangelista Pereira 
da Costa. 

O novo Elogio começa por huma grande Scena e Ária com Coros, 
da primeira Dama Adelaide Varese : e sendo esta a primeira Obra que o 
novo Compositor, Discipulo do célebre Carlos Coccia^ tem a honra de 
apresentar ao Respeitável Publico, espera não desmerecerá a sua appro- 
vação. 

O Beneficiado implora a protecção dos seus Illustres Compatriotas»» 



O beneficiado era elle mesmo, que tinha por costume ef-^ 
fectuar todos os annos um espectáculo em seu beneficio, fosse 
no theatro da Rua dos Condes fosse no de S. Carlos, apre- 
sentando sempre n^essas occasiões uma coniposição sua. 

A poesia do «Mérito exaltado» era de Filippe Hilbrath, e 
já em 18 18 servira para António José Soares escrever a mu- 
sica. De ambas as vezes se imprimiu, tanto em 1818 como 
em 1824. 

Logo em três mezes apresentou outra composição no mes- 
mo theatro de egual género, que se cantou no anniversario de 
D. João VI, em i3 de maio de 1824; intitulava -se «Jove Be- 
35o 



CO 

nefico» e o poema era antigo, tendo já também servido a ou- 
tros compositores. Na mesma noite em que se cantou o «Jove 
Benéfico» executou a orchestra uma «grande Symphonia» (aber- 
tura), egualmente composição de João Evangelista. 

Estas composições agradaram muito e o seu auctor foi 
considerado um musico de grandes esperanças. Aconselharam- 
Ihe uma viagem a Itália ou a França, idéa muito agradável ao 
seu caracter irrequieto ; sobretudo ir a França era uma aspi- 
ração intima de João Evangelista, que se apaixonara pefa^ 
idéas liberaes em eflFervescencia n'aquella época. Empregou 
portanto todos os esforços para obter meios de realisar essa 
aspiração, e o elogio dramático em honra de D. João VI foi 
decerto escripto no intuito de alcançar o auxilio do monarcha. 

E alcançou-o, porque em i825 partiu para França. Creio 
que esse auxilio foi também devido á influencia da infanta D. 
Maria d' Assumpção, muito amiga de musica, que se interessou 
por João Evangelista. Tenho um hymno manuscripto, a três 
vozes com acompanhamento de piano, que elle compoz e de- 
dicou a D. João VI no momento de partir, cujo frontespicio 
diz: «A Sua Magestade Fidelíssima Él-Rey D. João Sexto. 
Hymno. Posto em musica por ordem da Serinissima Senhora 
Infanta D. Maria d'Assumpção. Agosto de 1826 em Lisboa. 

Outra causa viera augmentar o desejo de ir a França : João 
Evangelista casara por esse tempo com uma gentilissima me- 
nina franceza. Celeste Adelaide Philippe, pertencente a uma 
das principaes familias de Dunkerque ; seu pae era o conside- 
rado negociante Jean Jacques Antoine Philippe, que esteve de 
passagem em Lisboa. 

Achava-se João Evangelista em Paris quando occorreu a 
morte de D. João VI, em março de 1826, e esse acontecimento 
inspirou-lhe uma composição, que mandou imprimir, com o 
seguinte titulo : «A' morte do Senhor D. João VI rei de Por- 
tugal, imperador do Brazil. Marcha fúnebre para Piano Forte 
composta e dedicada á Nação Portugueza. Paris. Chez lan- 
teiír^ Rue Montmarte^ w.® 63 et Boulevard Bonne Nouvelle n.^ 
3i.» E' um trecho de curto fôlego mas bem feito e accusando 
a mão de um compositor hábil. 

Logo depois regressou a Lisboa, vindo occupar o logar de 
segundo mestre no theatro de S. Carlos, sendo primeiro o in- 
signe Mercadante. 

Este theatro, que havia fechado em demonstração de luto 
pela morte de D. João VI, reabriu em 12 de junho, época de 
grande efifervescencia politica e enthusiasmo por parte dos li- 
beraes em consequência de D. Pedro IV ter outhorgado a carta 
constitucional. No dia 3i de julho, em que se realisou o jura- 

35 1 



oo 

mento da Constituição, houve uma recita de gala para a qual 
João Evangelista compôz uma cantata intitulada La Reggia di 
Astrea (O Palácio de Astrea). Tenho as partes de canto d'esta 
composição, as próprias que serviram quando ella se execu- 
tou ; constam de uma ária, uma cavatina, um duetto, um con- 
certante a cinco vozes, coros e recitativos. Estylo muito flo- 
reado de vocalisios, segundo o gosto da época, boa factura^ 
contornos melódicos lembrando Marcos Portugal ; a ária de 
tenor, escripta para ser cantanda por Luigi Ravaglia, é a mais 
abundante de floreios, desenhados n uma tessitura muito alta^ 
chegando mais de uma vez ao ré agudíssimo. O final, cuja par- 
titura autographa também possuo, é um hymno com a letra 
em portuguez, o qual foi objecto de grande enthusiasmo e pre- 
texto para ruidosas manifestações politicas ; cada cantor dizia 
a íua estrophe terminando sempre pela palavra «constituição», 
a que toda a platéa respondia dando vivas e applaudindo es- 
trepitosamente. Como curiosidade, reproduzo algumas estro- 
phes doesse hymno, que teve uma celebridade momentânea e 
hoje ninguém conhece : 



Senhora Yareil Pedrotti 



352 



Já cessou todo o mal e a discórdia, 
Entre os Lusos não ha dissenção, 
Pois são todos concordes em serem 
Os amigos da Constituição. 



Goro 



Viva o Rei, viva a Augusta Rainha 
Viva a nossa melhor religião, 
De Bragança a Real dinastia, 
Viva a Pátria e a Constituição. 



Senbor RaTaglla 

o ditoso momento chegou 
Em que é livre o bom Cidadão, 
D 'entre nós a intriga fu^iu 
Ao aspecto da Constituição. 



Com, 



oo 

Senbor Cartagenova 

Um D. Fedro dá aos lusos o Ceu 
PVa os livrar de qualquer oppressão, 
E lhes dá virtuosa Regente 
PVa defeza da Constituição. 

CorOy etc. 

Os cantores italianos que tiveram de repetir dezenas de 
vezes estas e outras estrophcs com as mesmas terminações, de- 
viam ter ficado sabendo bem como se pronuncia o ão portuguez, 
que para os estrangeiros é tão difficil. Dos nossos poetas politi- 
cos e que elles não ficariam fazendo boa idéa por esta amostra. 

O hymno de Pereira da Costa, pela enorme voga que 
adquiriu, tornar-se-hia o canto ofBcial dos liberaes, se pouco 
depois D. Pedro IV não tivesse enviado do Brazil o seu t Hym- 
no da Cartai, cantado pela primeira vez em 6 de janeiro de 
1827 no theatro de S. Carlos, com instrumentação do próprio 
João Evangelista (tenho as respectivas partes de canto e or- 
chestra). 

No dia 22 de janeiro de 1827, anniversario da imperatriz 
do Brazil D. Maria Leopoldina, apresentou João Evangelista 
outra cantata: tO Tributo á Virtude». 

Era outra no titulo mas a mesma na essência, pois que as 
peças principaes não mudaram, tendo apenas de novo aleuns 
recitativos e outro hymno em portuguez para servir de final. 
Tenho egualmente todos os papeis que serviram n'essa occa- 
sião, escriptos precipitadamente e cosidos aos antigos, denun- 
ciando que foi obra feita á pressa. O poeta do segundo hym- 
no não foi mais inspirado que o do primeiro ; exemplo : 

Amor e respeito 
A' Carta e ao Rei, 
Elle é nosso pae, 
Nossa mãe a lei. 



João Evangelista era fértil em hymnos; escreveu ainda 
outro, que se imprimiu para piano e canto, intitulado tOs di- 
reitos individuaesi, letra do bacharel Senna Freitas. Apezar de 
escripta por um bacharel, a poesia rastejou pelas precedentes. 

Viva Pedro Quarto 
O Pae da Luza Nação, 
Que a fez livre dando 
Divinal Constituição. 

FoL. 23 353 



oo 

Bem pouco valeria porém o nosso compositor se não ti- 
vesse feito outra coisa senão cantatas e hymnos á constituição. 

Trabalho de maior vulto tinha elle porém n'csse tempo 
preparado com a sua opera Egilda di Provença. 

Não consegui averiguar em que dia ella se representou 
pela primeira vez; nem a c Gazeta de Lisboa» nem os poucos 
jornaes da época publicaram annuncio ou noticia que desi- 
gnasse esse dia. O libretto, que se imprimiu, tem a data de 
1827, data que é a da impressão mas pôde não ser a da re- 
presentação. No emtanto, vários escriptores a teem mencio- 
nado, tomando-a — segundo supponho — como indicio certo. 

Parece-me, todavia, bastante incçrto. O «Constitucional» 
publicou em 29 de janeiro de 1828 um extenso artigo analy- 
sando a opera e a sua execução ; apesar de não dizer quando 
ella se cantou pela primeira vez, indica bem claramente q^ue 
foi pouco tempo antes — sem duvida menos de um mez, aliás 
seria uma noticia muito serôdia. Além d'isso a Gazeta annun- 
ciou a opera de João Evangelista para a recita em beneficio da 
Pietralia, realisada no dia 14 de janeiro; estou portanto incli- 
nado a crer que foi n'este dia a sua primeira ou — com mais 
probabilidade — segunda representação, embora não viesse 
classificada como tal. 

O bem conhecido laconismo da Gazeta n'aquelle tempo 
justifica essa falta. 

O artigo do t Constitucional» a que me referi, é curioso, 
pelo descambado do esiylo e pela aspereza da critica ; trans- 
crevo a sua parte mais interessante : 



«Esta peça, composta pelo senhor João Evangelista Pereira da 
Costa, joven portuguez de muito talento, tem como tudo o que existe 
cousas boas e cousas más. O que lhe dá mais merecimento é ser a pri- 
meira que compõem, e é isto mesmo o que desculpa mais os defeitos 
d*ella. 

Principiando pela simphonia, nota-se que é um tanto extensa, porém 
bella. — A cavatina d'Eurico (o signor Montresor) é por elle muito bem 
desempenhada, não sendo ella grande cousa. — A cavatina de Raimondo 
{p signor Cartagenova) é assaz bella, e a cabaleta « Or non manca &c == 
e bem executada ; lembrarei porém ao signor Cartagenova^ que não se af- 
fectfc tanto na acção. — O dueto de Fernando (a signora Pietralia) e Rai- 
mondo é muito bello e bem desempenhado ; os amadores o reputam o 
melhor bocado da peça ; a satisfação que teve Raimondo depois de ler o 
bilhete de Fernando, supposto morto, é pelo signor Cartagenova expri- 
mida o melhor possivel. — A cavatina da heroina do drama (a signora Ya- 
rese) é bem escripta e bem executada. — Tanto Egilda como Fernando de- 
sempenham muito bem o seu dueto ; mas Fernando executa melhor que 
Egilda o adagio = Quando la reggia ingombra &c =, e Egilda melhor que 
Fernando o allegro= Vanne dvn cor costante &c=. A cabaleta do' ter- 
354 



oo 

ceto d*Egilday Eurico e Raimondo é óptima ; o signor Montresor desem- 
penha muito bem a sua parte » La tua perfidia é alfirn palese &c a; a 
signor Cartagenova soffrivelmente a sua = Quês/ ira inutile &c.— ;e a 
signora Varese^ não sempre, mas algumas veses, executa a sua parte = Vi 
spre^Oy o barbari &c. — o melhor que é possivel. — Ultimamente^ o final 
do primeiro acto é magnifico e fas grande eífeito. 

Entrando no segundo acto ; o rondo d'Eurico é soffrivel, e bem exe- 
cutado. — O dueto de Raimondo e Eurico agrada muito pela sua diíficul- 
dads e bom gosto, specialmente a cabaleta =» Vieni dunque &c. = execu- 
tada pelo tenDr. — O rondo do soprano é excellente, e a cabaleta ^^ O qua 
mi splende &c. =», inteiramente nova agrada muito : o solo de cor inglez 
que lhe serve de introducção é muito gabado, e sem duvida concorre 
muito para o bom etfeiío que fas, a boa execução do signor Cotinelli. — 
O rondo do contr*alto também agrada muito, e os dilettanti gabam sobre 
tudo a cabaleta ■» Per te sola^ o cara amante ácc. = : o solo de violoncello 
do signor Giordani que serve de introducção a este rondo é, além de bom 
grandemente desempenhado. — Seguia-se um bom solo de clarinete to- 
cado pelo signor Canongia, mas julgou-se a propósito (provavelmente o 
signor Mercadante, como director absoluto da musica do theatro) privar- 
nos do prazer de o ouvir, sendo elle parte integrante da peça, e isso sem 
prevenir o publico, reputando-o como uma reunião d'entes nullos; mas 
elles que o fizeram bem o intenderam. — 

Clhegamos finalmente ao rondo do baixo, que é a melhor cousa do se- 
gundo acto ; o adagio -^Ahi se pietá tu vuoi etc. = chega até a sensibili- 
sar ; e o signor Cartagenova executa- o com toda a expressão : devo po- 
rém recommendar-lhe, cjue não venha tão embuçado na sua saída, porque 
o frio não é agora tão intenso que exiga isso. 

• ■■•■«•.•••■••■••.••••..•••••.•••■••••••••••••••■••••••a •••••■••■■• 

(O Constitucional. N.** 4. 29 de janeiro de 1828.) 



Possuo d*esta opera, além da abertura para orchestra e 
da sua reducção para piano, o duetto de tenor e baixo e o 
rondo de contralto, trechos que o critico diz serem dos que 
mais agradaram. São effectivamente bem feitos segundo o es- 
tylo de época, mas não primam pela originalidade ; as reminis- 
cências do auctor da cSemiramis», então em grande voga, são 
muito evidentes. 

A abertura da fEgilda», reduzida para piano, imprímiu-se 
na litographia de Valentim Ziegler ; executava-se muitas vezes 
nos concertos das academias e festas de egreja. 

Á accusação que o critico do «Constitucional» fizera de ter 
Mercadante supprimido o solo de clarinette, respondeu o mes- 
tre italiano com uma carta de Canongia em que este declara 
que o solo fora supprimido por occasião da sua doença, e ()ue 
voltando a exercer o logar continuou a suppressão por se jul- 
gar que esse solo não fazia falta, «e até porque geralmente se 
reconheceu muito extenso e de pouco effeito.» 

O que é verdade é que as relações entre Mercadante e o 
auctor da Egilda não eram nada amigáveis ; a cantora Cens- 

355 



oo 

tança Pietralia movia grandes intrigas contra o mestre italiano^ 
tendo João Evangelista por seu mais ardente partidário. 

Quando se cantou a opera de Mercadante — Adriano in Si- 
riãy o seu competidor fez inserir no tConstitucionaU um artigo 
critico e em seguida desenvolveu esse artigo n'um folheto, que 
mandou imprimir, com este titulo : t Juizo critico sobre a opera 
seria — Adriano in SíWa— -composta expressamente para o 
Real Theatro de S. Carlos pelo conipositor Saverio Merca- 
dante — çor »«*.» A critica de João Evangelista não tem va- 
lor, principalmente porque se reconhece n ella a intenção ag- 
Íressiva, consistindo a sua maior accusação em affirmar que 
lercadante imitou outros compositores. O auctor do Adriana 
respondeu-lhe no c Constitucional» retribuindo-lhe a accusação^ 
chamando-lhe ironicamente «sapientissimo doutor» e denun- 
ciandoo como chefe da cconjuração constancina* (allusão á 
Pietralia). 

João Evangelista escreveu mais duas árias para S. Carlos; 
uma intercalada na opera Temistocle de Pacini e cantada pela 
Tuvo; outra, com letra em portuguez, cantada pela Pietralia 
na noite do seu beneficio, em 14 de janeiro de 1828. 

Em março do mesmo anno emprehendeu a publicação de 
um jornal de musica, chegando a annunciar na Gazeta que co- 
meçaria no principio de abril. 

Mas n'esse tempo os ares politicos tinham tomado um as- 
pecto sinistro com a proclamação do governo absoluto e per- 
seguição aos liberaes. Para um auctor de hymnos á constitui- 
ção, o caso ofFerecia sérios perigos, embora João Evangelista 
tivesse altas protecções. Conservou-se ainda algum tempo em 
Lisboa, retranido n'uma • prudente obscuridade, mas tendo fe- 
chado o theatro de S. Carlos em fins de 1828, resolveu-se no 
anno seguinte a tomar o caminho da emigração, partindo para 
França. 

Ouvi contar mais de uma vez a diversos músicos an- 
tigos, que elle antes de partir praticou o seguinte acto de ver- 
dadeiro louco : João Evangelista era organista da capella real ; 
um dia em que D. Miguel assistia á missa e elle estava ao ór- 
gão, no momento da elevação em que todos estavam prostra- 
dos e ninguém por conseguinte podia mover-se, começou a 
florear sobre o hymno da Carta. Acto continuo desappareceu, 
escapando-se com a maior presteza e fortuna de ser recom- 
pensado pela sua inspiração musical. 

Pouco tempo antes, quando alguns liberaes estavam ainda 

illudidos sobre as intenções de D. Miguel, João Evangelista 

teve também uma extravagante idéa, só própria de um cérebro 

muito incandescido : escreveu um Te Detan a oito vozes e or« 

356 



oo 

gão, tomando por thema o ultimo versículo do mesmo hymina 
da Carta. 

Possuo a partitura d'essa composição singular. E* traba- 
lho excessivamente extenso, tão grande como um grande acto 
<le opera ; e com uma opera se parece não só na extensão coma 
na estructura, pois que tem árias, recitativos e coros exacta- 
mente como em qualquer composição theatral d'aquella época. 
O thema final é trabalhado com extremado esmero e extraor- 
dinária phantasia*, as imitações entrelaçam-se n'elle com ex- 
cessiva complicação, em que as modulações são procuradas 
com anciã e nenhuma naturalidade. Reconhece-se n'este tra- 
balho um furor de produzir obra que cause espanto, levado 
esse furor quasi ao desequilibrio mental. Está portanto longe 
<ie ser uma obra de arte bem ponderada, embora demonstre 
ser feita por um bom harmonista. 

O seu auctor nunca chegou a ouvil-a executada em pu- 
blico, mas parece ter começado a ensaial-a, segundo consta da 
tradição. 

Èm 1873 appareceu com ella José Maria Christiano, que 
^ mandou instrumentar por Monteiro d'Almeida e Freitas Ga- 
zul, fazendo-a executar na egreja de S. Domingos em 24 de 
julho d'esse anno. Depois desappareceu de novo até vir parar 
ás minhas mãos. 

Quando em i83i os liberaes que estavam no Brazil vie- 
ram encorporar-se ao exercito expedicionário de D. Pedro IV, 
João Evangelista não poude resistir ao desejo de escrever mais 
um hymno, cuja poesia foi escripta pelo primoroso traductor 
da Eneida, José Victorino Barreto Feio ; imprimiu-se em Pa- 
ris, na casa editora de Pacini e tem este titulo : « Hymno dos 
Emigrados Portuguezes na sua volta do Rio de Janeiro para a 
Europa. — Palavras de J. V. Barreto Feio, musica de J. Evan- 
gelista P. da Costa.» 

Todavia o exaltado musico liberal não viveu até triumphar 
a causa que tão ardentemente abraçara, e este hymno foi talvez 
a sua ultima producção. Morreu em Calais, em i832. 

Além das suas composições que citei pelo decurso d'esta 
biographia, tenho mais as seguintes, todas manuscriptas e al- 
gumas autographas: i.^ cAs nuvens disseram basta ! ! — Va- 
riações para Piano Forte», com data no fim: cFevereiro de 
J828» ; o titulo é tirado de uma quadra popular: 



«Subi com a minha amada 
Té onde ninguém nos viu I 
As nuvens disseram, basta 1 
Até aqui ninguém subiu 1» 



oo 

Talvez o thema seja também o da cantiga popular. 

2.° Laudate Dominum^ psalmo a quatro vozes e orches- 
tra, composição bastante extensa no estylo italiano da época, 
com uma grande ária para contralto e coros, precedida de um 
solo de clarinette. 

3> Miserere a três vozes e pequena orchestra, trecho pouco 
importante. 

4.** Doze modinhas e árias com letra em portuguez, entre 
ellas uma intitulada : tOs sonhos», poesia de Castilho que vem 
publicíida nas t Escavações poéticas». 

Scí também que existem : t Matinas de Nossa Senhora do 
Carmo» e cMatinas do Natal», ambas a três vozes e órgão; o 
sr. visconde da Esperança tem na sua livraria uma t Lamen- 
tação para quinta feira santa», com data: 1823. 

João Evangelista, pouco antes da emigração, manteve in- 
timas relações com o insigne poeta Castilho e sua familia; o 
sr. visconde de Castilho, nas suas cMemorias» (tomo II pag. 
17!^), descreve-o muito interessantemente; para completara 
sua biographia transcrevo essa descripção, que nos dá uma 
ide a muito viva do caracter um tanto desequilibrado doeste 
musico. 



• Outro intimo da casa era o maestro João Evangelista Pereira da 
Cçsta, ^enio musical de subidos quilates, inspirado auctor da opera £^i7i<r 
de Provença representada em S. Carlos desde 1827. (Entre parenthesis : 
conservou Castilho muitos annos, com apreço, o tmteiro de chumbo em 
que o distincto compositor achara a sua partitura). 

Kra Pereira da Costa um typo celebre de Lisboa d'aquelle tempo. A 
primeira sociedade, o paço mesmo, lhe disputavam as horas para lições e 
concertos. O seu caracter era affectuoso debaixo de apparencias rudes, e 
grosseínis quasi. Não sabia disfarçar as suas antipathias ; recusava aberta- 
mente tncar piano quando suspeitava que o tomavam /?e/j rrewífa. 

Fra hirsuto por fora, mas tinha lá dentro o segredo das grandes de- 
dicações. Nem ás senhoras dissimulava o seu mau génio, guando entendia 
que elkis lh*o mereciam ; intratável, mas cheio de bonhomia ; o verdadeiro 
húurru írancez. Lembrava o que quer que fosse de Bocage : no modo, no 
caracter, na desventura e no talento. De um typo assim fez Molière o seu 
Alcesie, e Ponsard o seu Rodolphe. 

A Castilho António (não sei quando começaram a ser amigos) con- 
sagroi; clle sempre adoração ; era mais : era fanático. 

As vezes entrava ; não dizia palavra ; dir-se-hia que o dominava 
uma idea negra ; vergava ao peso de uma melancolia desconhecida, eléc- 
trica, sem causa apparente. Já o percebiam, e não o apoquentavam. Ia sen- 
tar- se ao pé de Aiitonio Feliciano, apertava lhe a mão, e continuava ca- 
lado. 

O poeta falnva-lhe suave, conversava com elle sem exigir muitas res- 
postas, deixava passar o tempo (a grande medecina 1), contava alguma 
coisa, amaciava o com aquelle condão irresistivel cjue Deus lhe dera. O 
grande musico estremecia, levantava-se de repente, ia ao piano, abria-o e 
358 



oo 

expandia toda a sua melancolia, todo o seu humor, toda a sua alma, em 
improvisos de arrebatar 1 

Parecia que se lhe tinha aberto no espirito uma grande porta desco- 
nhecida, lá para a banda do ideal, e jorrava d'ella muita luz por vidraças 
multicores. 

£ ao passo que ia improvisando, as lagrimas caiam- lhe a quatro e 
quatro pelas faces, e o cabello negro agitava-se-lhe em ondas descompas- 
sadas. 

Era assim ; era preciso acceitarem-n'o como elle tinha nascido. 

E quando se levantava do piano vinha bom ; sorria-lhe a bonhomia 
portugueza na face afogueada : crescera alemãs polegadas, e lampejava- 
lhe nos olhos o que quer que fosse, que dizia ao auditório atónito : «Sou 
immortal U 

Oh! arte!... 

Immortal ? pobre João Evangelista 1 nem as tuas obras o foram. 

Quem falia noje na Egilda di Provetvjfa^ que levantou as platéas com 
o Cartagenova e a Fietralia, a Pedrotti e o Montresor ? a Egilda assobia- 
da e cantarolada em toda a parte ? a brilhante Egilda que era o enlevo 
dos salões ? 

Quem fala d'ella ? Quem lhe repete a grande ária : 

La tja pielà mcntita, 
Empio, t\ leggo iii volto? 

Dorme a filha dos reis de Provença no empoeirado archivo de S. 
Carlos ; e quem sabe se até já a es()ueceram as estatuas doiradas do pros- 
cénio, ellas que tanta coisa teem visto I » ^ 



A viuva, filha e um filho de João Evangelista, regressando 
a Portugal depois da morte doeste, e estabelecendo se em Lis- 
boa, vieram a ter um trágico fim: foram as victimas do cele- 
bre crime commettido em 1841 por Mattos Lobo, primo do 
compositor. 

A filha, chamada Júlia Pereira da Costa, revelava muita 
vocação para a musica, tocando bem piano e harpa. 

Tinha approximadamente dezoito annos quando foi as- 
sassinada. 

Oo»t£i, (Rodrigo Ferreira da). Mathematico, poeta e 
amador de musica muito erudito. Nasceu em Setúbal em i3 
de maio de 1776. Formou-se em Coimbra nas faculdades de 
leis e mathematica, concluindo os estudos universatarios em 
1804. Fez as campanhas da guerra peninsular, acompanhando 
o estado maior na qualidade de official da secretaria. Foi de- 
putado em 182 1 e nomeado professor de mathematica na Aca- 



< o sr. visconde phanutloo ani pouco contra a ver Jade n'etic ponto; a partitora Egilda 
nfio extste neii ciiatiu no archivo do iheatro onde se cantou, porque sendo propriedade do au- 
ctor este nitoralmeote a conservou em seu poJer. 

359 



oo 

demia Real de Marinha em i823. Falleceu em i de novembro 
de 1826. 

A sua inclinação para estudar profundamente todas as ma- 
te rias de que se occupasse, levou-o a tentar conhecer toda a 
theoria da arte musical, que muito o captivava e que praticava 
nas suas horas de descanço. O resultado dos seus trabalhos 
ji esta especialidade compendiou-os elle na seguinte obra, pu- 
blicada pela Academia das Sciencias, o primeiro volume em 
1820 e o segundo em 1824: •Princípios de Musica ou Expo- 
sição methodica das doutrinas da sua composição e execução.» 
Dois volumes em quarto, tendo o primeiro 188 paginas, e 
o segundo 287 com XV estampas de dobrar contendo os exem- 
plos de musica, gravados em cobre. 

Para que a Academia das Sciencias mandasse imprimir 
esta obra, apresentou o secretario José Bonifácio de Andrade 
e Silva um parecer sobre ella, lido em sessão publica de 24 de 
junho de 1818. N'esse parecer o illustre sábio brazileiro, que 
foi por algum tempo secretario da nossa Academia, discursou 
eloquentemente sobre a utilidade da musica, manifestando o 
dosejo de que ella fosse ensinada nas escolas com as primei- 
ras lettras*. 

A obra de Rodrigo Ferreira da Costa é muito bem feita 
sob o ponto de vista scientifico, e n alguns pontos ofterece in- 
ttrresse a quem tenha conhecimento da matéria ; mas para es- 
tudo elementar é absolutamente inadmissível, pela falta de or- 
dem progressiva. Começa por tratar da formação do som, isto 
c, da acústica ; passa ao rythmo, que trata desenvolvidamente, 
c em ultimo logar é que explica a formação da escala diatoni- 
CLi, notas, accidentes, etc. Está claro que um tal methodo, em- 
bora racional como divisão lógica das matérias, não pôde ser- 
vir para o ensino pratico elementar, que exige a fusão d^essas 
matérias ordenadas progressivamente do fácil para o difficil. 

O segando volume pretende ser um tratado de harmonia, 
contraponto, fuga e composição, matéria muito vasta para 277 
Imaginas em quarto e apenas algumas estampas com pouquís- 
simos exemplos. Na harmonia segue o auctor os tratados de 
Catei e Momigny, recorrendo também á «Encyclopedia Me- 
thodica», que de resto lhe serviu de consulta para toda a obra. 
Sobre contraponto, do qual dá uma falsa idéa dizendo que mo- 
dernamente é apenas applicavel á musica de egreja, apresenta 
apenas um capitulo com a súmula do tratado do padre Martini 
e um único exemplo, aliás curioso, do mesmo tratado ; dois 



' «Memoria» da Academia», tomo VI, pane 1, pag. XIII. 

36o 



oo 

capítulos sobre a fuga e o cânon, ainda são mais resumidos 
Reconhece-se que o auctor pisava terreno mal conhecido. Os 
dois últimos capitulos, que tratam da composição do quartetto, 
sonata, concerto e symphonia, offerecem o interesse de nos 
■dar idéa das preferencias do auctor e da época. No quintetto 
e sestetto elogia Pleyel (foi compositor de grande voga entre 
os nossos amadores), Boccherini e Romberg. Nasonata cita, 
pela ordem chronologica, Bach, Handel, Haydn e Mozart; faz 
especialmente os mais enthusiasticos elogios á phrase dilatada 
e tecido harmónico dos longos periodos de Haydn, comparan- 
do-os com os discursos tdos Ciceros e Andradas» (retere-se 
naturalmente aos três irmãos Andrada e Silva, celebres defen- 
sores da independência brazileira). A sua apreciação de Haydn 
é absolutamente justa e demonstra o mais elevado cultismo 
musical. Em logar secundário coUoca Dusseck, e depois cita 
com admiração Steibelt, Beethoven, Kozeluch, Clementi, Gra- 
mer e o nosso Bomtempo, dizendo que elles não tinham ainda 
concluído a sua brilhante carreira e por isso competia só á pos- 
teridade o seu julgamento. Não cause estranheza ver Beetho- 
ven envolto entre outros sem especial menção, porque a obra 
do genial compositor ainda n'aquelle tempo ia em meio e ape- 
nas começava a ser conhecida. 

Sobre concertos, cita Corelli, Geminiani e Vivaldi, fazen- 
do'Os precursores da symphonia, e tratando doesta elogia as 
doze ultimas symphonias de Haydn, citando em segundo logar 
apenas uma de Mozart (sem dizer qual seja e mostrando igno- 
rar que Mozart escreveu muitas symphonias). De Beethoven 
faz uma critica curiosa, que mostra quanto os maiores génios 
precisam de tempo para serem apreciados ; eis como Ferreira 
da Gosta julgou em 1820 o sublime génio da musica v Beetho- 
ven mostra-se grande musico na symphonia, como no quar- 
tetto e na sonata: mas falta-lhe ás vezes a naturalidade e o 
solido saber, que exalta os verdadeiros modelos.» 

Gonclue citando como bellos exemplos do estylo sympho- 
nico os concertos para violino de Viotti, Kreutzer, Daveux, 
Pleyel e os concertinps de Krommer. 

No primeiro volume apresenta Ferreira da Gosta uma in- 
venção, idêntica a muitas outras que em dififerentes épocas 
teem sido tentadas por vários innovadores, cuja applicação se- 
ria realmente útil se podesse generalisar-se : notando a dificul- 
dade da leitura nas diíFerentes claves, propõe uma clave úni- 
ca, escolhendo para esse fim a de dó na terceira linha, por ser 
a que representa os sons médios da escala geral ; essa clave 
com dois pontos addicionados do lado direito, representaria os 
sons da oitava superior, e com quatro, seis ou oito as succes- 

36i. 



oo 

sivas oitavas agudas ; inversamente, os pontos á esquerda re* 
presentariam as oitavas graves. Deve convir-se que é um in- 
vento muito singelo e de fácil applicação, mas para poder uti- 
lisar-se seria necessário fazel-o adoptar universalmente, o que 
é impossivel. Todavia Ferreira da Costa emprega-o em todos 
os seus exemplos. 

Ainda o primeiro tomo contém interessantes dissertações 
sobre os andamentos e metronomo, apresentando a forma de 
construir um metronomo simples e de graduar a respectiva ta- 
beliã. 

A obra do sábio mathematico ofFerece portanto leitura in- 
teressante aos estudiosos, que em muitos pontos tirarão bons 
fructos da sua consulta. 

Oosta (Sebastião da). Mestre da capella real desde os 
últimos annos do reinado de D João IV. 

Era natural de Azeitão e foi cavalleiro professo na ordem 
de Christo. Falleceu em Lisboa aos 9 de agosto de 1696. 

Barbosa Machado (Bibliotheca Lusitana, tomo 3.** pag. 
684) cita d'elle as seguintes composições: Psalmos de com- 

f>letas, a oito vozes ; Missa a oito vozes e outra a quatro ; duas 
ições de defunctos a quatro e a oito vozes ; diversos motetes 
a quatro vozes ; Miserere, a oito vozes ; villancicos do Natal 
Conceição e Sacramento a diversas vozes. 

O mesmo escriptor conta de Sebastião da Costa a se- 
guinte anedocta : quando morreu D. João IV, o mestre da ca- 
pella ficou tão pezaroso que abandonou o logar, resolvido a 
partir para a guerra da independência, que tomava então nova 
incremento ; a rainha viuva, D. Luiza de Gusmão mandou-a 
chamar para saber a causa da sua ausência, e quando elle lh'a 
explicou respondeu-lhe : cantad en la capilla^ que el llorar de- 
xad vós pêra mi. 

Frei Agostinho de Santa Maria, no a Santuário Marianno», 
tomo I.*', pag. 496, historiando o culto de uma antiga imagem 
de Nossa Senhora da Graça que havia na egreja dos Martyres^ 
faz a seguinte referencia a Sebastião da Costa : 

«Depois da Acclamação (1640) passou a devoção aos Músicos da Ca- 
pella Real, & estes a festejava© com muyta perfeyçSo continuando a sua. 
festividade na mesma Igreja de Nossa Sennora dos Martyres. E em quanto 
viveo o Mestre da Capella, Sebastião da Costa, perseverou entre os Músi- 
cos a devoção de servirem a Senhora ; porque elle com a muyta que tinha 
á soberana 'Rainha dos Anjos, continuou sempre nos seus obséquios. Com 
a sua morte se esfriou de sorte a devoção dos Músicos, que hoje não ha- 
via quem cuidasse de servir á Senhora da Graça». 

OoBta (Victorino José da). Escriptor notável da primei- 
362 



oo 

ra metade do século XVII. Era freire da ordem de S. Bento^ 
e no curso dos seus estudos applicou se também á musica, que 
apprendeu com o mestre frei Flácido de Sousa, egualmente da 
ordem de S. Bento e irmão do marquez das Minas. Falleceu 
pouco antes de 1762. Barbosa Machado na tBibliotheca Lusi- 
tana», dando a lista das suas obras gue se imprimiram, quasi 
todas sob o nome religioso de frei Victorino de Santa Gertru- 
des, accrescenta os títulos de algumas aue diz terem ficado 
completas para a impressão; entre estas ngura uma t Arte de 
Cantochão para uso dos principiantes», a qual não chegou a 
imprimir-se. 

Fétis, que para as suas biographias dos nossos músicos 
antigos não teve outro guia senão a «Bibliotheca Lusitana», 
quasi sempre erradamente traduzida, dá como publicada a tal 
fArte de Cantochão» e assignala-lhe uma data — 1737, data 
puramente phantastica pois que tal obra não se puDlicou. O 
auctor da Biographie Úniverselle des Musiciens não teve pejo 
em deixar a sua obra, aliás tão grandiosa, inquinada de fal- 
sidades commettidas, como esta, voluntariamente e que lhe 
teem feito perder o valor á proporção que vão sendo reconhe- 
cidas. 

Oosta e Silva. (Francisco da)^ v. Silva • 

OoixtinhC> (D. Francisco José). Amador de musica 
insigne, segundo affirma Barbosa Machado dizendo que : cFoi 
tão insigne na arte da Cavallaria como em a da Musica, to- 
cando com destreza e suavidade os instrumentos de Cravo e 
Viola». Nasceu em Lisboa a 21 de outubro de 1680, sendo fi- 
lho do fidalgo militar D. Manoel Pereira Coutinho que foi go- 
vernador de Angola de i63o a i636. 

Segundo o mesmo Barbosa, deixou diversas composições 
musicaes, como hymnos, psalmos, villancicos, responsorios, 
etc, distinguindo-se entre ellas um Te Deum a oito coros que 
se cantou na egreja de S. Roque em 3i de dezembro de 1722 
e uma missa a quatro coros com clarins, timbales e violinos, 
intitulada Scala Aretina *. 

D. Francisco Coutinho falleceu em 1 3 de fevereiro de 
1724. 

Ci*aeí*becli:. Appellido de uma familia oriunda de 
Antuérpia, proprietária de uma notável ofificina tvpographica 
que se estabeleceu em Lisboa nos fins do século a Vl, na qual 



^ Naturalmente o aocior da «Bibliotheca Lusitana» enganou se aqui, como em outroe to- 
gares, empregando a palavra «con s» en vez de «vozes» ; escrever nm 1> Dtum a oito coros, oi 
aeja trinta e dnas vezes, bem como uma mi8»a a qu tro ccros cu deze^els vozes, S(.ria tr.^balho 
excessivamente importante para um simples amador. 

363 



se imprimiram numerosos livros de musica e de cantochâo. 

O chefe d'essa famiiia foi Pedro Craesbeck (Peter van 
Craesbeck), natural de Antuérpia onde apprendeu a arte typo- 
graphica na celebre officina de Christovão Plantino. Sahiu da 
sua pátria para Lisboa era 2 de maio de 1592, e depois de 
aqui estabelecido obteve a mercê de ser nomeado cavalleiro da 
casa real por carta de 25 de outubro de 16 17 e o privilegio de 
impressor régio por alvará de 28 de maio de 1628. As obras 
que imprimiu, muito estimadas pela belleza do trabalho typo- 
graphico teem as datas comprehendidas entre 1Õ97 e i632. 

Foram successores seus filhos Paulo e Lourenço, suc- 
cedendo a estes o neto, António Craesbeck de Mello, que tra- 
balhou até quasi ao fim do século XVII. 

Os livros de musica e de cantochão, principalmente os 
grandes livros in folio para uso do coro, sahidos da officina 
craesbeckiana, são bellos exemplares de typographia musical. 

Cronei* (António José). Um dos nossos mais notáveis 
flautistas. Nasceu em Lisboa em 1 1 de março de 1826, sendo 
seu pae José Crcner, mestre da banda de infanteria n.** 4. 

José Croner tomou parte na revolta d'este regimento con- 
tra o governo absoluto em i83i e foi condemnado á morte, 
sendo-lhe commutada a pena em prisão perpetua. Foi solto 
quando venceu a causa constitucional, mas com a saúde arrui- 
nada pelos soffrimentos da prisão pouco tempo viveu mais. Os 
filhos, António e Raphael, ficaram orphãos de tenra edade e 
tiveram de começar muito cedo a trabalhar, para cooperarem 
com a mãe e irmãs no commum sustento. Ambos sentaram 
praça incorporando-se na banda do batalhão naval. 

E ambos revelaram immediatamente extraordinária habi- 
lidade ; notando a e condoido da sua sorte precária, o bondoso 
flautista e theorico, Manoel Joaquim Botelho (v. este nome), 
encarregou-se de aperfeiçoar António Croner na arte de tocar 
flauta, e elle mesmo lhe deu um instrumento bom, porque o 
pobre orphão não estava em circumstancias de compral-o. 

Aos dezesete annos já António Croner era artista de re- 
conhecido mérito, pois que entrou n'essa edade para a irman- 
dade de Santa Cecilia, em 29 de abril de 1843. 

Serviu de grande incentivo para o seu desenvolvimento as 
academias de musica que então havia e realisavam frequentes 
concertos, com especialidade a «Academia Melpomenense ; 
n'ellas tocou frequentíssimas vezes a solo, fazendo assim rápi- 
dos progressos que a natural vocação muito ajudava. 

lambem nos «Concertos Populares» (1860-62) foi fre- 
quentemente applaudido e ali firmou reputação de brilhante 
concertista. Desde então costumava elle mesmo dar um con- 

364 



certo annual em seu beneficio, do que tirava bons resul- 
tados. 

Em 1861 fez com o irmão uma digressão artistica ás pro- 
víncias e a Hespanha; estiveram no Porto, onde deram dois 
concertos nos dias 23 e 3i de maio, sendo muito applaudidos 
como em toda a parte. 

António Croner entrou para primeiro flauta da orchestra 
de S. Carlos em 1860, substituindo José Gazul que se demit- 
tiu por estar cansado. 

Em 3o de setembro de 1867 concorreu com Manuel Mar- 
tins Soromenho ao locar de professor do Conservatório, divi- 
dindo-se n'essa occasião as opiniões sobre a aptidão dos dois 
concorrentes para aquelle logar ; Croner, concertista brilhan- 
tíssimo, de dedos ágeis, bello som, extrema vivacidade artis- 
tica e perfeito aprumo, era todavia fraco theorico mal ajudado 
pelas faculdades intellectuaes ; pelo lado da theoria levava-lhe 
portanto incontestável vantagem o seu conipetidor, o que dava 
razão aos que o preferiam para o ensino. Ém quanto aos em- 
penhos de pessoas gradas, que são entre nós a razão supre- 
ma, equilibravam-se as forças dos dois contendores. Por isso a 
votação do jury foi ambígua, dando unanimidade a Soromenho 
na parte theorica e maioria a Croner na parte pratica. A este 
respeito debateram os interessados violenta polemica nos jor- 
naes: tPopular» e tRevolução de Setembro», terminando-a o 
ministro com a annullação do concurso. 

Houve segundo certamen, no qual se apresentou também 
João Emílio Arroio, talvez com a idéa de ser o tertiiis gaudet; 
mas durante o intervallo já os ânimos dos principaes conten- 
dores se tinham acalmado um pouco, e Croner obteve maioria 
de votos sem mais escândalo. Recebeu a sua nomeação defi« 
nitiva em n de março de 1869. 

Em 1872 e 1876 acompanhou o irmão nas duas ultimas 
digressões que este fez á America do Sul, sendo ahi também 
muito festejado. 

Falleceu em 28 de setembro de 1888. 

Um seu discípulo, o amador Mendonça e Brito, fez impri- 
mir em Londres uma composição do mestre a quem dedicava 
muita amisade, composição para flauta e piano cujo frontespi- 
cio diz: La Sympatnie. — Dedicated to J. J. Mendonça e Bri- 
to. — Composed by António Jo\é Croner. — London. Rudall, 
Carte & C.® E' obra totalmente insignificante. 

O grande valor de António Croner consistía unicamente 
n'uma espantosa facilidade de mecanismo, bello som (quali- 
dade que perdeu sensivelmente nos últimos annos) e admirá- 
vel instinto musical que lhe permittia ler á primeira vista com 

365 



GJR 

pasmosâ facilidade. Graças a esse instinto, desempenhava no- 
tavelmente bem o dialogo da flauta com a voz no rondó da 
opera a Lúcia», o que lhe valia sempre, além dos applausos do 
publico, os elogios das cantoras, que se davam por felizes ao 
encontrarem tão raro acompanhador. Ultimamente a celebre 
cantora Sembrich affirmou que em theatro algum tinha encon- 
trado um flautista que mais perfeitamente executasse aquelle 
trecho. 

António Groner nunca se serviu de outro instrumento se- 
não da velha flauta de cinco chaves que lhe dera seu mestre 
Botelho e que lhe foi companheira inseparável durante perto 
■de cincoenta annos ; isto não obstante ter elle sido presentea- 
do, tanto em Portugal como no Brazil, com instrumentos de 
subido preço e dos mais aperfeiçoados systemas. Ghamava elle 
a essa nauta, a sua velhinha. 

A tosca e deteriorada velhinha de António Groner guar- 
da-se hoje no Gonservatorio como curiosa reliquia. 

OiTonei* (Raphael José), Glarinetista, irmão mais novo 
do precedente. Nasceu egualmente em Lisboa, a 26 de março 
de 1828. Sentou praça no batalhão naval em i de junho de 
1845 e seguindo o destino d'esse batalhão tomou parte activa 
na guerra civil de 1846. 

Quando se reorganisaram as forças da armada passou a 
incorporar- se na banda dos marinheiros, para a qual entrou 
em i85i. Em 1 de janeiro de i865 foi promovido a mestre de 
musica e passou a exercer esse posto no batalhão de caçado- 
res n.** 5, onde se conservou até fallecer. 

Foi seu mestre no clarinette Manuel Ignacio de Garvalho, 
bom musico e bom clarinettista, discípulo de Ganongia. Aos 
19 annos tinha já reputação artistica, pois entrou para a irman- 
dade de Santa Gecilia em 22 de outubro de 1847. 

Gomo o irmão e como tantos outros artistas distinctos 
d'essa época, desenvolveu a sua grande vocação e habilidade 
de concertista na «Academia Melpomenense» e outras, tocando 
muitas vezes a solo. 

N'um grande concerto que aquella academia realisou em 
iQ de abril de i853, ao qual assistiu toda a familia real, Ra- 
phael Groner tocou umas difficeis variações de Gavallini, sobre 
a «Somnambula», causando a maior admiração pela facilidade 
do mecanismo e belleza do som que adquirira. Esta apresen- 
tação serviu-lhe de prova decis.iva para ser admittido na «As- 
sociação Musica 24 de Junho». Um mez depois, em 3i de 
março, executou a mesma peça no theatro de S. Garlos, sendo 
esta a primeira vez que se apresentou em publico. 

Durante os annos seguintes tocou frequentes vezes a solo 
366 



DICCIONARIO BIOGRAPHICO 

DE MÚSICOS PORTUGVEZES 




l{àpl\kel CíOT\QÍ 



VoL. I — Folha 23 



«m S. Carlos e em diversos concertos. Etn 1861 fez uma di- 
gressão artística com o irmão, fazendo- se ouvir no Porto^ 
Coimbra e outras cidades, tíra sua intenção seguir para o 
Brazil, mas houve quem o aconselhasse a ir primeiro a Lon- 
dres, facilitando lhe as recommendações necessárias. 

Partiu com effeito para aquella cidade em 27 de junho de 
1861 e em 26 do mez seguinte apresentou-se ao grande pu- 
blico de Londres, n'um concerto realisado no Palácio de Crys- 
tal ao qual assisaram cerca de dez mil pessoas. Foi muitissimo 
applaudido e considerado um clarinettista de primeira ordem. 
O jornal The Musical World (cO Mundo MusicaU) fez d'elle 
uma apreciação muito elogiosa, nos seguintes termos : 



«Este cavalheiro executou uma ária com variações, composição sua, 
mostrando a todos os respeitos que é um admirável concertista. O seu tom 
é cheio, suave e musical, a sua execução fluente e magistral, e o gosto ir- 
reprehensivel. 

focou o thema com expressão muito apropriada, e as variações com 
tanto desembaraço e segurança (aplomb) e tão brilhantemente que nada 
deixou a desejar. 

Obteve êxito incontestável e foi saudado com geraes e estrondosos 
applausos até que deixou a orchestra.» 



Por esse tempo estava em Londres o compositor italiano 
Francisco Schira (v. este nome), que n'uma carta enviada para 
Lisboa escreve estes períodos : 



«Ouvi o sr. Croner tocar no grande concerto no palácio de crystal, 
em 26 de julho, e reconheci que executa as maiores ditBculdades com pre- 
cisão e puro canto, como se costuma dizer, concluindo as phrases com 
summo gosto. 

Obteve um grande êxito, e applausos geraes, e até da orchestra in- 
teira, e eu sigo a opinião geral.» 



Estas citações foram publicadas no tJornal do Commer- 
cio» de 18 de agosto, por occasião de Raphael Croner regres- 
sar ao seu paiz. Pouco depois deu elle um concerto no theatro 
do Gymnasio, em 11 de fevereiro de 1862, sendo enthusiasti- 
camente festejado. 

No anno seguinte efifectuou a sua projectada viagem ao 
Brazil, fazendo-se ouvir pela primeira vez no Rio de Janeiro 
em 3 de junho de i863. Teve explendido e fructifero acolhi- 
mento, produzindo só o primeiro espectáculo uma receita de 
cinco contos de réis (moeda brazileiraj. Todos os jornaes d'a- 

367 



cjuella cidade lhe fizeram os maiores elogios; o mais sério e 
ngoroso, o tJornal do Commercio», publicou um artigo em 
que se lia este trecho : 



«Não nos propomos julgar profissionalmente o sr. Croner ; somente 
diremos que a sua execução e boa, o seu methodo excellente e a emboca- 
dura fácil e de uma suavidade que diíHcilmente será excedida. Damos-lhe 
os emboras, e parece-nos que o seu nome pode com justiça ser posto en- 
tre os das summidades musicaes que nos teem visitado. 



Quando regressou a Lisboa apresentou-se a tocar pela 
primeira vez saxophone, n'um concerto que deu em 7 de maio 
de 1864. Esse instrumento era então uma novidade entre nós, 
tendo sido Augusto Neuparth quem primeiro apparecera com 
elle nos a Concertos Populares», dois annos antes. 

Em 1866 voltou á America, depois de ter dado em Lisboa 
um concerto de despedida, no dia 9 de maio. N^esta segunda 
digressão percorreu não só grande parte do Brazil, mas esteve 
também em Montevideu e Buenos- Ayres ; recebido em toda a 
parte com vivos testemunhos de apreço, concederam-lhe di- 
versas medalhas, e um amador entnusiasta presenteou-o com 
um saxophone de prata. 

Ainda fez mais duas viagens á America, uma em 1872 e 
outra em 1876, levando na sua companhia o irmão, que foi 
também muito festejado. 

Depois da ultima viagem dedicou se a tocar oboé, e em 
seguida foi occupar o primeiro logar d'este instrumento na or- 
chestra de S. Carlos. 

Durante a dissenção entre a empreza de S. Carlos e a 
€ Associação Musica 24 de Junho», em 1878, conservou-se 
fiel sustentáculo doesta associação, tomando parte como primei- 
ro oboé nos celebres concertos de Barbieri e Colonne ; em 
1879 voltou para S. Carlos e alli se conservou até ao anno em 
que falleceu. 

Estava em Cascaes com a banda de que era mestre, 
quando foi acommettido de uma apoplexia que o victimou re- 
pentinamente em 22 de setembro de 1884. 

Raphael Croner, como o irmão, tinha tido uma educação 
elementar muito escassa, forçados como ambos se viram a tra- 
balhar desde tenra edade e a tirar da própria habilidade natu- 
ral e força de vontade os meios de se desenvolverem. 

Mas como tocador possuia um mecanismo maravilhoso e 
um bello som, tendo também como o irmão aquelle aprumo 
e desembaraçada apresentação com que certos artistas sabem 
368 



fascinar o publico. Mais do que António, Raphael impunha-se 
por maior distincção e boa ngura, sendo também mais apre- 
ciado artisticamente pelo maior esmero e delicadeza na expres- 
são. 

No saxophone mostrava qualidades eguaes ás que possuia 
no clarinette, mas no oboé nunca chegou a obter toda a sua 
suavidade e pureza de som que este instrumento pôde produ- 
zir. No emtanto foi óptimo executante na orchestra. 

Croesse^r (Lui^ da MaiaJ^ v. Ala^na. (D. Carlos 
de Jesus). 

Cruz (D. Agostinho da). Doeste musico nada mais sei 
senão o que diz Barbosa Machado, que é o seguinte : 



«D. Agostinho da Cruz, natural de Braga, Cónego Regular da Con- 
gregação de Santa Cruz de Coimbra, cujo habito recebeu neste Real Con- 
vento a 12 de setembro de 1609. Foy peritissimo na Musica, e insigne tan- 
gedor de rabeca, e órgão, de cuja destreza, e sciencia deu manifestos 
argumentos não somente quando exercitou o logar de Mestre do Coro do 
Real Convento de S. Vicente de fora, mas nas muitas obras que compoz, 
as quaes merecerão as estimações dos mayores Professores daquella arte, 
sendo as principaes. 

Prado Musical para Órgão. Dedicado á Serenissima Magestade dei 
Rey D. João o IV. 

Duas Artes^ huma de Cantochão por estylo novo^ outra de Órgão 
com figuras muito curiosas compostas no anno de i632. e as dedicou ao 
mesmo Principé, que como tão perito nesta arte as estimou muito. 

lÀra de Arco^ ou arte de tanger Rabeca. Dedicada a D. João Masca- 
renhas, Conde de Santa Cruz.» 

(BibL Lus. vol. !.•, pag. 65). 



Estas obras decerto que não se imprimiram, porque nem 
Barbosa affirma tal nem ha outra noticia d*ellas. Cumpre tam- 
bém notar que não vêem mencionadas no catalogo da livraria 
de D. João iV. 

Cruz (António da). D. Francisco Manuel de Mello, na 
carta ao doutor Manuel Themudo, menciona entre os nomes 
mais notáveis de músicos portuguezes o de t António da Cruz» ; 
creio porém que foi um lapso do illustre escriptor escrevendo 
«António» em vez de cFilippe», porque Filippe da Cruz (v. 
este nome) é que foi compositor cfigno de hombrear com frei 
Manuel Cardoso, Filippe de Magalhães e outros mencionados 
n^aquella carta. 

E' verdade que a aChronica dos Cónegos Regrantes» por 
D. Nicolau de Santa Maria (livro X pag. 408), menciona como 
FoL. 24 369 



grande musico um D. António da Cruz, mas se este nome nâo 
é também um engano que diz respeito a D. Agostinho da 
Cruz, então representa o de um individuo do qual não existe 
outra memoria. 

Cimz (Frei Clemente da). Religioso da ordem de S. 
Francisco, na qual exerceu diversos cargos. Nasceu em Lisboa 
a 23 de novembro de i685. 

Escreveu um livro de cantochão, cujo autographo existe 
na Bibliotheca Nacional e tem este titulo: «Promptuario de 
cerimonias e oííicios diversos de toda a Semana Santa, com a 
solfa de tudo quanto se canta n'estes dias. No fim lê-se a se- 
guinte declaração: 



•Este livro he da composição e letra do P. Fr. Clemente da Cruz 
Pregador desta Província dos Algarves, aue sendo Guardião de S. Fran 
cisco de Beja mandou fazer e dourar a talna da Capella Mor da Igreja do 
sobredito Convento e foi secretario da Província. Foi muito versado e 
douto em musica. Esta he aquella cb a da qual diz o Chronista Fr. Jero- 
nymo de Belém, que de bem guardada não apparecia e o mesmo, cuido 
que diz a Bibliotheca Lusitana. — Fr António de Jesus Maria José Costa, 
chronista da Provincia dos Algarves. i3 de Dezembro de 1792. 



Cruz (Frei Filippe da). Compositor e mestre de ca- 
pella no meiado do século XVII. Era natural de Lisboa e freire 
professo na ordem militar de S. Thiago, no convento de Pal- 
mella. 

Foi primeiramente mestre de musica na casa da Miseri- 
córdia em Lisboa, d'onde passou para Madrid a occupar o le- 
gar de capellão na capella real de Filippe IV. Depois de pro- 
clamada a independência de Portugal, mandou-o D. João IV 
chamar e nomeou-o mestre da sua capella, cujas funcções exer- 
ceu até ao tempo de D. AflFonso VI. 

Diz Barbosa Machado que frei Filippe da Cruz produziu 
as seguintes obras : 

Missa a dez vozes sobre o thema Que raion podeis vos te- 
ner para no me querer. 

Missa sobre o thema Solo reynas tu en mi^ offerecida, 
quando estava ainda em Castella, a Filippe IV, em cujas pala- 
vras se incluem as vogaes de Joannes Quartus Rex mi. (Ha com 
certeza n'este ponto lapso do escriptor ou erro typographico, 
porque não é possível ter o musico portuguez offerecido ao rei 
castelhano uma composição em que lhe dissesse que só D. 
João IV era o seu rei ; a missa era questão teria muito natu- 
ralmente sido oflFerecido ao restaurador de Portugal e enviada 
370 



de Madrid para Lisboa, o que talvez valesse ao seu auctor a 
nomeação de mestre da capella real portugueza). Mais explica 
Machado que as syllabas do thema correspondiam ás notas 
da musica por esta forma : sol la re fa ut re mi. (Era una 
d'aquelles ingénuos artifícios muito usados pelos contrapontis- 
tas dos séculos XVI e XVII). 

No catalogo da livraria de D. João IV figuram as seguin- 
tes composições de Filippe da Cruz : um motete a cinco vozes, 
para a quaresma, com a letra Vino ego; um villancico do na* 
tal, a quatro e a oito vozes, letra em portuguez ; quatro vil- 
lancicos do Sacramento, a diversos números de vozes, letra em 
hespanhol. 

Barbosa Machado menciona mais que este compositor es- 
creveu diversos psalmos de vésperas e completas. 

Na collecção de poesias de D. Francisco Manuel de Mello 
— ^fLa Apena de Tercicore — vem uma — Tono XXIII — 

?[ue o poeta diz ter sido posto em musica por el maestro Fe^ 
ipe de la Cru^. 

Cruas (D. Gaspar da). Não tenho d'este musico ou- 
tra noticia senão a que dá Barbosa Machado, que é a se- 
guinte: 



D. Gaspar da Cruz, Cónego Regular de Santo Agostinho, insjpie pro- 
fessor de Musica e Mestre d*esta armo nica faculdade em o Real Convento 
de Santa Cruz de Coimbra, deixando por testemunhos da sua sciencia : 

Arte do Canto chão recopilada de vários Âuctores. M. S. * 

Arte de Canto de Órgão. M. S. * 

Huma e outra encadernadas em hum volume conservava com grande 
estimação Francisco de Valhadolid, grande professor de Musica, de que se 
fez memoria em seu lugar. • 

(BibL Lus., tom