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Full text of "Diccionario universal de educação e ensino, ... contendo o mais essencial da sabedoria humana e toda a sciencia quotidianamente applicavel em assumpto de educação, ...de instrucção primaria, ...[e de] instrucção secundaria. Segue diccionario etymologico de todas as palavras technicas provenientes das linguas grega e latina. Trasladado a portuguez por Camillo Castello Branco, e ampliado pelo traductor nos artigos deficientes em assumptos relativos a Portugal"

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DICGIONARIO UNIVERSAL 



DE 



EDUCAÇÃO E ENSINO 



DIGGIONARIO UNIVERSAL 



DE 




K^ 



CAÇÃO E ENSINO 



UTIL A MOCIDADE DE AMBOS OS SEXOS, ÁS MÃES DE FAMÍLIA, ADS PROFESSORES, 
AOS DIRECTORES E DIRECTORAS DE COLLEGIOS, AOS ALUMNOS QUE SE PREPARAM PARA EXAMES, 

CONTENDO o MAIS ESSENCIAL DA SABEDORIA HUMANA 

E 

í?®a<íi ái aaaasíaa^ (§^©a2aaá^2í-ii2í2:i333 á^iv^aías^^aa» asa áiaa^sa-?^© 

I.'— DE EDUCAÇÃO 
Conhecimento e direcção dos caracteres, faculdades, defeitos, méritos e aptidões. — Religião, mora], 
pbilosophia. — Lógica, rhetorica, poética. - Litteratura, pedagogia, civilidade, escriptores antigos 
e modernos. — Agudezas, provérbios, máximas, epigrammas, etc. 

2." — DE INSTRUCÇÁO PRIMARIA 
Leitura, escripta, cálculos, problemas, formulas, systema métrico, moral religiosa. — Lingua portugue- 
za, orthographia usual e grammaticat, redacção, estylo epistolar, homonymos, synonymos, raizes, 
etymologias. — Methodos, disciplina, meios práticos de execução. Historia universal de cada sé- 
culo, varões insignes, descobrimentos e factos assignalaveis. — Geographia descriptiva, cidades 
principaes, indole e costumes 8 productos de todos os paizes, monumentos celebres, panoramas, 
curiosidades de toda a espécie. — Noticia das sciencias usuaes, artes, mesteres e profissões, etc. 

3.° — INSTRUCÇÁO SECUNDARIA 
Línguas: portugueza, franceza, latina, hespantaola e ingleza. - Geologia, mineralogia, botânica, zoolo- 
gia. — Physica, chimica, astronomia, mechanica. — Arithmetica, álgebra, geometria. — Industria, 
hygiene, desenho, agrimensura, commercio, agricultura, etc. 

SIÍC.CR 

DICCIONARIO ETYMOLOGICO DE TODAS AS, PALAVRAS TECHNICAS 

PROVENIENTES DAS LÍNGUAS GllEGA E LATINA 

Tudo simplificado ao alcance dos alutnnos e pessoas meramente desejosas de instnicrão 
com elucidações tão profícuas aos mestres quanto proveitosas no trato das familias 

REDIGIDO COM A COLLABORAÇÂO DE ESCRIPTORES PECULIARES 

I'OR 

DIRECTOR DE COLLEGIO 



El. 



TRASLADADO A PORTUGUEZ 

roR 

^\m^^^ ^'^^^^^^^ ^^^%^^ 

E 

AMPLIADO PELO TUADUCTOK NOS ARTIGOS DEFICIENTES E.M ASSUMPTOS 
RELATIVOS A PORTUGAL 



YOL. I 



LIVRARIA INTERNACIONAL 



ERNIííSTO GIIAUDHON 
911, Largo dos Clérigos, 1)8 



KUGKNIO CHAUDHON 
í, Largo de S. Francisco, l-.v 

BRAGA 




PORTO 

TYPOGRAPHIA DE ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA 
62, Rua da Cancella Vellia, 62 



1873 



ADVERTÊNCIA 1)0 TRADUGTOR 



Sei compulsar quanto é árdua a empreza de trasladar a 
portuguez este Diccionakio. Confesso que é lavor desigual á 
mediania dos meus recursos. 

Traduzir artigos de variada sciencia, escriptos por diffe- 
rentes authores, diversos na elocução como o devem ser em di- 
versas especialidades, é obra que eu não inculcarei como de 
grande valia, mas de fastidiosa difficuldade, sim. Sao poucas as 
cousas que sei dos estudos metliodicos da minha mocidade; al- 
gumas estudei depois muito pela rama, outras, a meu pesar, 
confesso que as ignoro. As matliematicas nomeadamente. 

N'este ramo abundam artigos no 1 )iccionario. Seria justo 
o receio de que elles me sahissem desdourados da versão. Soc- 
corri-rae, pois, do meu esclarecido amigo o snr. Azevedo e Al- 
buquerque, professor de mathematica no lyceu. S. exc.^ aceitou 
o encargo de os traduzir e acrescentar, quando assim conviesse 
á elucidação dos alumnos. 

Pelo que respeita ás restantes sciencias, cá me irei remin- 
do com as indagações próprias, receando ainda assim claudicar 
na nomenclatura respeitante a historia natural. Nilo me será 
menos arriscada a airosa saliida de assumptos commcrciaes; es- 
pero, entretanto, soccorrcr-me de livros portuguc/.es muito di- 
gnos de serem consultados c seguidos. 



VI ADVKRTKNXIA DO TUADUCTOK 

(Quanto íor de mini e dii uiellior vontade de inseiúr n'esta 
obr;i artigos que lhe iiào destoem, darei de lavra própria mais 
larga noticia, do que alii vem, das cousas de Portugal. Na espe- 
cialidade da historia littcrwria c civil, talvez a menos folheada 
por nmito sa))ida dos compêndios elementares, serei o menos 
diffuso qrfe ser possa, todavia conhecer-sc-ha que a pemia corre 
de vontade na matéria, por me ser a menos desconhecida. Ao 
propósito de linguistica, acostar-me-hei a opiniões dos niestres 
com quem formei as minhas, e dos modernos philologos aceita- 
rei o que tiver cunho de utilidade, e valer ao proveito de quem 
estuda, pospondo superílu idades e innovat^òes nem serviçaes 
nem conducentes a bem discernir ou bem escrever. 

N'este .DicciONAHio ha lanços que me pareceram imperti- 
nentes, por nimiamente amoldados a entendimentos muito pue- 
ris. Elidi-os, C(jm a segurança de que nunca seriam consulta- 
dos. Por exemplo : alphabetos de linguas e os sons das leti-as, 
dos diphthongos e das vozes. Presume-se que os ignorantes d'es- 
sas cousas, tão elementares do exórdio do ensino, nào folheam 
este DíCCiONAKio; — estudam as suas grammaticas, onde mais 
pelo miúdo se lhes deparam. 

Em pedagogia, sciencia modernamente acurada e fonte co- 
piosa das supervenientes, al(jm do que é do Diccionakio, acres- 
cerá o subsidio validissimo do snr. conselheiro Adriano d'Abreu 
Cardoso i\Eachado, cuja competência n'esta peculiar tarefa real- 
ça sem desaire das outras em que é proticientissimo. Com tào 
prestante coadjuvação, pesar seria grande para os entendidos 
se eu por minha parte me desobrigasse apoucadamente do en- 
cargo que me cabe. 

A passo igual que vou carreando aprestos para estes ali- 
cerces, sobre os quaes a mocidade tem de edificar, tremo da 
austeridade da critica, e, comtudo, não ouso acarcar-lhe indul- 
gências, antes lhe rogo com o maior encarecimento que me 
aponte os erros a fim de, mais tarde, se expurgarem, se não é 
vã, e demasiado demarcada a confiança que me prefigura reim- 
presso tão útil Diccionakio. 



^a^máè '^akf/(?^ -^^anca. 



PREFACIO 



A voga ou o descrédito de certos livros são os symptomas 
moraes que denunciam, até certo ponto, os sentimentos e idéas 
do publico. Se, com legitimo orgulho, confessamos que nunca 
tantos livros se fizeram, destinados a derramar instrucção, nem 
tão prosperamente se aventaram meios de insinual-a nas multi- 
dões, cumpre também confessar que as insignes e boas obras 
vão rareando cada vez mais, como se o publico locupletado ga- 
nhasse fastio á leitura. A litteratura, propriamente dita, poemas 
e até romances já não enthusiasmam ninguém. Hoje em dia, o 
francez pòe a mira no que é substancial e positivo ; faz-se-lhe 
mister grangear de afogadilho conhecimentos de tudo ; o tempo 
não lhe sobra para simultaneamente estudar especialidades e 
mourejar em negócios. Pelo que, os livros em voga são as En- 
cyclopedias. No dilatadíssimo estádio do saber humano, ha um 
aprender que aproveita ao commum das pessoas, e outro de 
que apenas utilisam pouquíssimas. Todavia, isto de querer sa- 
ber tudo, tanto monta como não ir ao âmago de cousa nenhu- 
ma; e c certo que o estudar sciencias pela rama dispara em tri- 
volidade e ligeirices. Por tanto, — posto o fito em satisfazer e 
pautar o vivo anceio de sciencia universal, em apressar o pro- 
gredir no estudo, e economisar, tíinto ao alumno como ao pro- 
fessor, o tempo valioso em averiguações tão improductivas 



VIII PREFACIO 

quanto íVitig-antes, — era mister iiiiia I^ncyclopedia ecléctica, 
não só reconimendavel pela 8elec(;.ào dos assuuijjtos, niethodo 
de cxposirão, e judicioso desenvolviíiieiitíj de cada ai-ti^o; se- 
não que taiidjeni estimável pelo espirito pratico e dexteridade 
nas (torrela(;oes, novidade de expedientes, e erudi(;ão circunis- 
cripta por discretas halisas. Tal ('• o lavor a que nos abalança- 
mos. 

Uma cousa é o metliodo de construir sciencia, e outra cou- 
sa é o metliodo de a expender. Se o professor nào ensina firma- 
do em principios fixos e estatuídos, se nào visa o scó})0 em li- 
nha recta e segura, se nào sabe aconchegar-se da peiccpçào do 
alunmo, debalde se dispende em aptidão e engenho, que a miú- 
do lhe descambará o pé. E ui-gente que as suas prelecções te- 
nham realces originaes; e nunca os ha de ter, embora lhe sobe- 
jem conhecimentos sólidos, se estes forem exclusivos, e se a ex- 
tensão do espirito não estiver em harmonia com a profundida- 
de. A arte suprema d saber aformosentar as questões mais ár- 
duas, lustrando-as das cores mais adequadas, dando-lhes relevos 
de utilidade consentâneos á honra, á gloria, liqueza, justiça, or- 
dem moral e physica, sciencia, virtude, amor pátrio e de famí- 
lia, grandeza de animo, leis divinas e humanas, immortalidade, 
paz, etc. É sobremaneira dissaborida e tríste a vida escolar, se 
o professor nào sabe matizal-a com variados exj^edientes e ap- 
plicações que enriqueçam a intelligencia de idéas novas, sem 
desvial-a do alvo apontado. Ora, o propósito do nosso Diccio- 
NAKio é investigar aquelles expedientes, expôl-os, justifical-os, 
mostrar a sua efficacia, esclarecer tudo que é de valia na edu- 
cação e professorado, subministrando aos mestres e ás mães m- 
exhaurivel veio de recursos. 

Já vem de longe o applicarem-se incansavelmente os en- 
genhos abalisados no descobrir- a melhor solução em problemas 
de ensinar. Quantas soluções cabem no espirito humano tem 
sido todas experimentadas por sua vez. D'onde resulta que, di- 
vergindo entre si as theorias, cada theorico opera sem confian- 
ça e sem principios estabelecidos, muitas vezes ao envez dos sãos 
preceitos do bom discernimento, e sempre com desar da gera- 
ção actual. Temos um só meio com que logremos attingir os 
verdadeiros principios e prefixar definitivamente o nosso itinerá- 
rio : é conciliar todas as soluções, joeh-ando o que houver falso 
e imperfeito n'gllas, por maneira que de cada uma se aproveite 
o que mais verdadeiro e substancial houver. Faz-se, pois, indis- 



PREFACIO IX 

pensavel, primeiro que tudo, recensear em cada author a porção 
de verdade que llie toca, liar entre si os membros dispersos da 
verdade absoluta, e refundil-os em um systema regular e com- 
pleto; a náo ser assim, achar-nos-hemos a sós com a nossa pró- 
pria experiência, quando nos vai muito no aproveitar da expe- 
riência dos eminentes engenhos que esclareceram o género liu- 
mano. 

Esta doutrina ecléctica liabilitou-nos a expor cada matéria 
em si sob o mais exacto e substancioso aspecto. E d'est'arte, fa- 
vorecidos pela severa escolha das particularidades, vingamos 
condensar em um só volume tudo que entende com educação e 
ensino, pratica e theoricamente considerados. 

Pelo que toca á educação propriamente dita, a qual se dis- 
parte em tantos problemas quantos são variados os caracteres, 
defeitos, vicios, predicados, virtudes e aptidões, avaliamos não 
longe de perfeito o nosso systema, pois que ahi se oíferece em 
nosso DicciONAKio tudo que é preciso para guiar o menino e o 
adulto mais conformemente á razão. 

Xo que respeita ao ensino, forcejamos, como director, em 
satisfazer, quanto possível, aquella mobilidade de gostos tão 
congcnial do homem, qualquer que seja sua idade, — circums- 
tancia tão pouco ponderada. Mostramos como é que pode apre- 
sentar-se de diiferentes modos uma mesma lição ou sciencia, at- 
tendendo aos annos, cultura e capacidade do alumno. Fecha- 
mos cada artigo com observações praticas que planeam o itine- 
rário por onde o estudo nos advém fructeando attractivamente. 

Esta obra, monumento singular em sua especialidade, pres- 
tadía como bibllotheca inteira, cujos artigos tem a variedade e 
agrado das publicações periódicas, resumindo com os pormeno- 
res essenciaes todas as curiosidades scientificas e litterarias, to- 
dos os pensamentos mais argutos e profundos dos espíritos in- 
signes (com indicação de author e obra), tudo que friza á scien- 
cia da instrucção primaria e secundaria — facultará aos edu- 
candos de ambos os sexos progredir pressurosamente em seus 
estudos clássicos, e predisporem-sc, a sós, e com bom êxito, a 
qualquer exame, denotando em suas praticas um certo relevo 
de novidade. 

Vj para o professor um manual completo, um como aniia- 
zem de idéas fecundas e praticas, mina inesgotável de niati-riaes 
e exercícios convidativos. 

Para a mni de famílias 6 verdadeiro thesouro, i;iiia seguro 



X PHEFACIO 

c lucidissinio, o máximo brinde que ella possa dar a seus filhos 
adolescentes. 

Foi trabalho de grande fôlego inquadrar na mais conve- 
niente moldura um diccionario, e conciliar a íV>rma alpliabetica 
mais íavoravcl a (|ucin o manuseia, com o mérito do encadea- 
mento e ordem metliodica, indispensáveis ao boin resultado do 
ensino. 

O professor encontra, como allianca de uns artigos com 
outros, as chciDiadas que reciprocamente os esclarecem ; — har- 
monia e unidade que lhe deve ser mui prestante em suas inda- 
ga(;oes. Esta obra, porém, posto seja tarefa de dez ai mos labo- 
riosos, e um auxiliador indispensável da mrd e do professor, 
minguaria nmito ao aproveitamento, se tao somente íosse con- 
sultada por mera necessidade. Convém que, ao menos uma vez, 
seja lida alphabeticamcnte, para se formar idéa cabal dos co- 
nhecimentos geraes que a ninguém é airoso ignorar hoje em 
dia. E livro que merece ser lido nas aulas e em familia, nas ho- 
ras vagas, e nas ferias de mais fadigosas lides. 

Se os diccionarios dos snrs. Bouillet, Bellèze e Vapereau 
satisfizeram o anceio do publico e serviram de muito, fiamos 
que o nosso Diccionario venha utilmente completar a opulenta 
collecçào de Encyclopedias clássicas, dignissimas da nossa épo- 
ca. Oxalá que este recente cooperador preencha o sensivel vá- 
cuo, e aligeire a grave missão dos que devotaram sua vida á 
carreira tão nobre quanto espinhosa do ensino. 



EDUCAÇÃO E ENSINO 



ABI 

ABEILARD. (Veja Decímo-segundo 

século). 

ABESTRUZ. (Veja Ribeirinhas e 
Sahara). 

ABETARDA. (Veja Ribeirinhas). 

ABIBE. (Veja Ribeirinhas). 

ABISMO. 1. O Génesis (VII, 11) fi- 
gura o (ibismo wmdi profunda voragem 
que, rasgada era todas as suas matri- 
zes, deiramou sobre a face da terra 
metade das aguas do diluvio, sendo a 
outra metade baixada das cataratas 
do céo, rasgadas ao mesmo tempo. 

O Apocalipse (IX, O, 10) representa 
o abismo uma caverna, cuja chave foi 
dada a uma estrella cabida do céo. 
Aberto o abismo, irrompeu uma fu- 
marada como de fornalha. d'onde 
procedciam uns como gafanhotos se- 
melhantes a cavallos de guerra, com 
coroas de ouro, aspecto de homem, 
cabellos de mulher, couraças de fer- 
ro, e caudas de escor|)iOes. K por tan- 
to certo que o abismo do principio da 
liiblia, onde se diz que as ondas pu- 
riticantes da espécie humana se re- 
Irahiram depois que os maus foram 
submergidos, subsistem no grande 
reservatório, cuja existência demons- 
tram os poços artesianos; ao passo 



ABR 

que o outro abismo, relatado no fim 
da mesma Biblin, sendo, ao envez do 
primeiro, um foco de brazido, deve 
de ser o respiraculo d'a(|iirlla região 
Ígnea, confessada por doulissimos geó- 
logos, que se engrossa cerca de vinte 
ou trinta léguas de espessura sob nos- 
sos pés, e cujas erupções vulcânicas 
lhe abonam evidentemente a existên- 
cia. 

Quanto aos gafanhotos ejaculados 
na fumaça do abismo, graves douto- 
res da Egrejii, a quem devemos lúci- 
dos commentarios de livros, que se 
devem reverenciar, dado que mal se 
comprebendam, presumem que taes 
gafanhotos prefiguram os heresiar- 
cas. A juizo d'elles, a estrella. que deu 
sabida a tão estranhas alimárias, era 
a figura sensivel de Luthero. 

ABÓBORA. (Veja CucurbitaceasV 

ABRIL. O lavrador semeia trigo, 
milho, ervilha, feijão, batatas e topi- 
nambor '. Grada as aveias e os iri- 

' K scmenloira pouco fioiiuente em Portu- 
gal, posto que CIhm-iiovíz (Dicriomirio dr Medi- 
cina PofíUar) diií.T que o loiíbiamhnr i^ planta 
origin.iria ilo Hrazil, cultivada cm Poi-lugal. As 
tubaras, que lhe formam a rair. parto comestí- 
vel da planta, cliamam-sc Imliitti lopiítamba. 

iV. do T. 



ABS 



ABS 



í(aí's lni,'o que cllcs iihicin a .sf'},'iiiiLl;i 
iullia; (.'snioiida as licltMiabas, cciiou- 
ias, (! o liiilio; iiKMtíiilha <; rendia os 
viiiliedos, calca as Imas das luii|i('iias, 
e deixa espraiaras aguas. M tempo de 
[ilaiilai' aivoíes sernpiu verdes, cíinio 
|)iiiliriro, larix, cedro, e leixo. INide 
lazer senifiileiías de acácias, <'iixer 
lias e iner',Milliias de aibuslos. O lior- 
lelào escarda o viveiro das couves 
semeadas em marco, descobre as al- 
caxofias, planta esp,irt;os o moran- 
gaes; i-e(|iieiita as vcjlias camas e re- 
nova-as para omeloal; semeia cou- 
ve, cardo, aipo, i)epiiio, ahoboivis, ra- 
bão, alface, salsa e cerefólio. Alléa, 
hortelã, cidieira, alfazema e salva, 
devem sei' i'eei'giiiiias, desdobradas e 
traiisplaiilãdas na primeira (jiiinzena 
de abrd, .No jardim llorecem prima- 
veras, jiinr|i]ilhos, jacinllios, frililla- 
rias e niyosolis. Semeam-se chagas, 
cam[iainlias, boas noites, e dhalias; 
ti-ans|)laniam-se ou semeiam-s(; goi- 
voF, margaritas, rosas, cravos da In- 
din, e os bulbos das luberosas. 

— f)icte-se esta lição, e mande-se 
investigar e explicar os nomes d'es- 
las plantas. 

ABSTRACÇÃO (do latim Irahere 
ah,'^, exlialiir, separar). 1. Vi uma 
pradaiia ; depois imaginei verdura, 
sem mais me lembiar tio prado, nem 
a côi" pintada na minha phanlasia 
se i(lenti!i'-ar nominalmente a outro 
qual(|U(*r objecto. Eis a(]ui nma idéa 
abstracta. Quando digo: verde, alvu- 
ra, viitmie, gozo, considero predica- 
dos distinctos das substancias cm que 
residem; abstraio dos seres e de suas 
outras (jualidades; e aquelles nomes, 
que expiimem modos de ser ou qua- 
lidades, são nomes abstractos. A abs- 
tracção, que é a attenção applicada a 
uma face dos objectos, encontra-se 
em os nomes comniuns, — o que nos 
conduz á analyse de duas cousas que 
muito importa distinguir: comprehen- 
são e extensão de nomes. — A pala- 
vra srr, por exemplo, só designa pela 
simples idéa de existência todas as 
substancias a que se applica. A pala- 
vra animal ajunta á idéa de existên- 
cia a de substancia organisada, dota- 



da de sensibilidade e locomoção. A 
palavra í/íiíz/ríí/yv/c ajunta maisáíjuel- 
ías idéas a de um sei (jue se move me- 
diante quatro pés Finalmenle, a pa- 
lavra cíiidllu augmenia o conjuncto 
de todas a(|uellas idéas com Iodas as 
idéas especijes das fiirmas [tarlicula- 
res (|ue estremam o cavallo das ou- 
tras espécies de quadrúpedes. I*elo 
<|ue, a palavra caniUo abrange mais 
idéas (jue a palavra <inndiii}rili; ; esta 
mais ([ue (inininl, o a ultima avanla- 
ja-se á palavra .S'7 . Todavia, iroulro 
ponto de vista, a palavra aiidllo con- 
tém somente os indivíduos da espécie 
dos cavallos; em fjuanlo a palavra 
iiunilrniirili; comprehende, além dos 
cavallos, multiiJão de outras espécies, 
como cães, gatos, bois, leòrs. Tem 
por tanto extensão muito maior que a 
palavra cavallo. D.íi me.<ma sorte, a 
palavra (inimnl comprehende muitos 
mais individuos que a palavra f/ua- 
(Iniprde, c a p:davra ser muitos mais 
que a palavra animal. — O numero 
de idéas parciaes compreliendida-; om 
um nome dá a comprehensão d'es- 
se nome. O numero de iiiilividuos ou 
classes de seres compre!iendid')S na 
signiticação de um nome dá a exten- 
são d'essenorae. Resulta naturalmen- 
te d'estas duas di-riuições que tanto 
maior é a coMiprehensãn de um no- 
me, tanto menor é a sua extensão, e 
reciprocameiíte. (Veja Nome). 

i. A péiiuena extensão de nosso es- 
pirito impcde-liie que pos>a perfeita- 
mente compi-ehender as cousas tanto 
ou quanto compostas, senão conside- 
ra ndo-as por iiartes. A isto se chama 
conhecer, abstrahindo. N'isto se fun- 
damenta a arilhinetica ; e toda a sua 
arte está em contar por partes o (jue 
não poderia contar-se pelo lodo, por- 
que ao mais consummado sabi') seria 
impossivel multiplicar dous números 
de oito ou nove cifras cada um, to- 
mando-os inteiramente. O mesmo 
acontece com a geometria, pois que 
abstrahimos da substancia dos corpos 
para somente lhes considerar as di- 
mensões. Subir do simples ao com- 
posto, generalisar, é oulro modo de 
abstrahir. Se me applico a considerar 
um triangulo equilalerâl, a minha 



ABS 



AGE 



única idéa é o triangulo; mas se, 
desviando a attenção, penso somente 
em uma figura limitada por Ires li- 
nhas iguaes, esta idéa me representa- 
rá todos os triângulos equilateraes, 
sejam quaes forem suas dimensões. 
Sc considero apenas (]ue é uma íigura 
limitada por três linhas rectas, for- 
marei idéa que pôde representar-me 
todas as formas de triângulos. Se, em 
lim. absirahindo do numero de li- 
nhas, considero somente que é uma 
sup'^rricie plana, esta nova idéa pôde 
apresentar-me todas as figuras rectili- 
neas, e assim posso ascender gradual- 
mente á mais completa extensão. É 
bem de vêr que, mediante estas for- 
mas de abstrahir, as idéas que eram 
singularos volvem-se communs, e es- 
tas ainda mais communs: o que nos 
leva a idéas geraes de género, espé- 
cie, classe, ordem e familia. — Con- 
soantes os casos, ha um numero 
maior ou menor de caracteres com- 
muns condensados na idéa geneiica, 
bem como um maior ou menor nu- 
mero de indivíduos. Ora, o numero 
variável dos caracteres communs, re- 
unidos pai-a formarem género ou espé- 
cie, dão-lhe a medida de comprelien- 
são, e o numero de indivíduos deter- 
minam-Uie a extensão. É evidente 
que a extensão nos géneros e bem 
assim nos nomes eslfi sempre na ra- 
zão inversa da comprehensão. Dizem- 
se (jcncros as idéas por tanta maneira 
comniuns que se dilatam a outras 
idéas que são por igual universaes: o 
quadrilátero é género a respeito do 
quadrado e do trapézio; a substancia 
é género a respeito do corpo, subs- 
tancia extensiva, e do espirito subs- 
tancia cogitante. \í estas idéas com- 
muns, suhmeltidas a uma ainda mais 
geral e commum, chamam-se espé- 
cies, assim como o quadrado e o tra- 
pézio sào espécies do (luadrilatero. A 
mesma idéa pôde ser (jcnero, compa- 
rada ás idéas a (]ue se estende, e itó- 
de ser espécie, comparada com outra, 
que é mais geral, como quadrilátero, 
(|ue é género, relativamente ao qua- 
drado e trapézio, c é espécie cm lela- 
ção á ligiira. — Kstc simples processo 
de generalisação abslractiva, que uma 



criança exercita sem o pensar, é de 
immenso alcance e incalculáveis re- 
sultados. As sciencias naturaes e mor- 
mente a botânica lhes darão bastos 
exemplos d'isso. E de mais : Deus que 
tudo creou com ordem, peso e medi- 
da, dispoz este mundo snb um traça- 
do simples e regular, onde a unidade 
se allia á variedade para formar uma 
harmonia digna de sua sapiência per- 
feitíssima. Este plano do universo, 
qual Deus o concebeu e executou, es- 
força-se a generalisação por descorti- 
nar ao través da desordem apparen- 
te dos seres do universo. O espirito 
humano, não podendo sondar-lhe o 
admirável complexo, reconstrue aqui 
e além fragmentos d'elle. Cuida elle 
que os géneros subordinados entre si 
e as espécies regularmente coordena- 
das, são fusis de uma immensa cadéa 
que se desenrola sem a rainima in- 
terrupção desde a mais grosseira e 
imperfeita creatura até Deus. Tal é o 
senso e valor de nossas classificações. 
(Veja Classificaç.\o). 

Direcção. A primeira lição vera ao 
pi'oposito da significação dos nomes, 
e a segunda da origem' das sciencias. 
— Os alumnos devem conhecera ana- 
lyse grammatical c lógica. — Lendo 
ou expondo a lição, o professor deve 
multiplicar os exemplos para fazer 
perceber as operações do nosso espi- 
rito e a importância do assumpto. 

Ercrcicios escriplos. \. Definição 
das palavras: nbslnurão, alleiíeão, ser, 
animal, qaadnijirde. campreJienmo, 
extensão, sensibilidade, hnomobilida- 
de, idéa, individuo, çieneralisarão, gé- 
nero, esprrie, quadrilátero, quadrado, 
triangulo, ti. Indagar a extensão e 
comprehensão das palavras: vegetal, 
arvore, erva, h'gunit\ alface, trevo, 
forragem, cercal, planta. 3. Dizer que 
espécies estão nos géneros: figura, 
poli/gono. quadrilátero, triangulo. 

ABUTRE. (Veja Uapinantes^. 

ABYSSINIA. iVeja Ecvno.. 

ACÁCIA. (Veja Li;c.lminosas). 

ACEPHALOS. (Veja Molluscos). 



ACO 



ACO 



ACHAB. (Vcj.i Nono skgulo). 

ACHILLES. (Vfja Okcimo-tercí-i- 

RO SKcrij), iinlrs (Ir (Ihrislo). 

ÁCIDOS e ALCALIS. iVoja Oxv- 

OOSj. 

ACONITO. iV<'j I Kai.nuníjulaceas). 
AÇOR. (Vcj.i Hapinantes). 

ACOTYLEDONIAS. As plantas aco- 

lylciloiiias 011 iiyjilogamas são as (|iie 
não l(íin oij,'ã(ts visíveis de IViícliíica- 
ráo, e \M)v coiisegiinite nem senifin- 
les, nem (Miihiyucs e colNhklories. Não 
obslaiílc. eiicoiT^ani Iodas coi'[)usciilos 
reproilucLores da espécie, os (jiiaes 
se cliatíuim rspúnilos. Eslas plan- 
tas oslenlam íóimas variadíssimas, e 
conformação ([ue, em diversas famí- 
lias, ascende gradualmente da mais 
simples até á mais [)rogressiva orga- 
nisação. As mais imporianles famílias 
são ás seguintes: Os f'tos, plantas or- 
dinariamenie herbáceas, tornam-se 
por vezes arborescentes nas regiões 
tropicaes, e alteam-se como palmei- 
ras. DVsla família ex.trahe-se muita 
polassa por meio da incineração. As 
vergonteas novas e raízes serVem de 
alimento aos aiiímaes, sem exclusão 
do homem, em alguns paízes. Os fe- 
tos crescem espontaneamente nos bos- 
ques e sítios maninhos e são muito 
úteis na córle dos gados. As folhas 
servem para enfardelamento, e das 
cinzas colhe-sc vantagem no fabrico 
do vidro. O feto macho ou polypodo, 
cuja raiz lança multidão de fibras com 
que se apega ás paredes e arvores, 
tem grande virtude como vermífugo 
mormente contra a tenia, ou solitária 
que pude medir G a 8 metros de com- 
primento, e vive ordinariamente no 
intestino delgado. Toma-se em jejum 
a raiz pulverísada. Os capillares, es- 
pécies de pequeninos fetos de finís- 
sima folhagem, nascidos nas fisgas dos 
rochedos e muros de poços são muito 
usados em pharmacia. Tomados de 
infusão são proveitosos nos catarrhos 



pulmonares. Os mnatjtis são planiasi- 
nhasaniiuaes ou NÍvazes(|ue medram 
em sítios humiíios <; sombrios; teu- 
nem-se, pela maior parte, eui montões 
mais ou míMios volumosos, ijuer no 
cháo ou nos rochedos, quer no tronco 
das arvores, das muralhas (ju dos cdi- 
licios velhos. Não são alimentícios, 
nem gozam i)ropiiedadt;s medirínaes. 
Ainda assim tem grande serveruia. 
Como crescem rápidos e invadem os 
logares estéreis, vão prepaiando terra 
vegetativa: a turfa (juasi (jue, só d'el- 
les se forma. Defendem os lioncos 
das arvores contra o lígor do fiio, e 
fornecem aos j)assaros o material dos 
seus ninhos, Asfl/í/í/.ssão plantas aquá- 
ticas singela riient(! organisadas, rom- 
(lostas de cellulas mais ou menos lon- 
gas, as (|uaes, reunidas, formam fila- 
mentos linos como cabellos. Hepro- 
duzeiM-se por corpúsculos encerrados 
no interior do, tecido ou nos receptá- 
culos exteriores em forma liibercular. 
São de côr esverdeada ou vermelha 
estas plantas que tanto se dão na agua 
salgada como na doce. As algas apro- 
veitam-se i)aia adubo das terras. Os 
aldeãos da beíra-mar recolhein as que 
a onda revessa ás praias, e as seccam 
para líies extrahir das cinzas soda e 
iode. Algumas são nutritivas como as 
ulvaceas e o varec comestível em Es- 
cossía. Ha uma espécie de andorinha, 
hirumkt csrnlcnta, que vive na China 
e nas ilhas do oceano indico, que fa- 
brica o seu ninho com uma substan- 
cia gehitinosa extrahida de um musgo 
(ilccloria luleola: os chins apreciam 
muito como delicada iguaria este ni- 
nho, lia musgos do tamanho de 100 
metros, admiráveis pelas brilhantes 
cores de sua folhagem, e curioso fei- 
tio de seus fructos. O inusgo nnlanlc. 
transforma certas paragens do mar em 
vastos tapeies de verdura, os quaes 
muitas vezes illudiram Christovão 
Colombo. Os marinheiros comem esta 
planta, que elles chamam uids do mar 
pela semelhança das suas vesículas 
dispostas em cachos. Os lirhcns são 
plantas que vivem na tona das arvo- 
res, na terra húmida, e nos rochedos 
mais escalvados. São singulares ve- 
gelaes que não tem raízes, nem has- 



ACO 



ACU 



tes, nem folhas, nem flores, e se mos- 
tram muilas vezes como herpes {In- 
chên em grego) á imilação de pellicu- 
las. Acontece não serem senão uma 
poeira multicor que se distende pela 
superfície de um monumento ou ro- 
chedo. A substancia dos lichens é ordi- 
nariamente secca e a modo de córnea, 
n'algumas espécies rediiz-se pela ebul- 
lição a uma gelatina que se usa como 
alimento. O musgo de Islândia, pul- 
verisado e secco, dá uma farinha com 
que os habitantes d'aq;ielle paiz cosi- 
nham caldos muito nutrientes. Mistu- 
rado com porção de farinha triga, 
produz pão qne é bom alimento ape- 
sar de amargo. É empregado em me- 
dicina contra os catarrhos chronicos. 
O musgo das reúnas é abundantíssi- 
mo nos climas glaciaes do norte, onde 
as rennas quasi que se não sustentam 
d'outro alimento, e o desenterram de 
sob o gelo. Os cof/umclos, plantas para- 
sitas, de consistência gelatinosa, car- 
nosa ou coriacea, sem i'ama ou fo- 
lhagem, vegetam e fenecera entre oito 
e dez dias. Quasi todos os cogumelos 
contr!m assucar e um acido particu- 
lar. Grande numero d'elies é comes- 
livel. O bom tem superfície secca, é 
pardo, rosado, ou d'um avermelhado 
de vinho; cercam-o insectos que lhe 
traçam raios irregulares sobre o cha- 
péo, que se separa facilmente da pel- 
licula que o cobre. O nocivo tem su- 
períicie escamosa, còr indeíinida ; uns 
são negros, outros amarellos, outros 
sanguíneos, e raro os insectos lhe sul- 
cam a superíicie. Alguns cogumelos 
vivem parasítamente sobre as plantas, 
6 as prejudicam muito como o ([ue in- 
vade a gluma do trigo, a mangra que 
mancha as folhas e as liges, e a caria 
que se forma dentro do grão, o oídium 
que molesta as vinhas, ehnalmentea 
ferrugem. 

E (luasi sempre moital o envene- 
namento pelos cogumelos. Provocar 
o vomito com agua morna bebida a 
raiudo, e por meio de titilações na 
garganta com a rama oleosa ile uma 
penna, são as primeiras piecauções. 
« Trdtdtiwnlt) do oircncndiiwiilo jiro- 
tliiziílo jirlos cnginnclos, Administrem- 
se ao doente 10 cenligrammas("2 grãos) 



de emético dissolvido em uma chicara 
de agua fria, para provocar os vómi- 
tos. Depois, 60 grammas (-2 onças) de 
sulfato de magnesia, dissolvido em 
duas chicaras de agua fria para obter 
evacuações alvinas. Evacuados os co- 
gumelos, tome o doente alguma be- 
bida acidulada, tal como agua com 
sumo de limão ou com vinagre, e uma 
colher, das de sopa, de meia em meia 
hora da poção seguinte: Agua com- 
mum 120 grammas (4 onças) — Elher 
sulfúrico 30 gotlas— Assucar 15 gram- 
mas (i oitavas). Chernoriz.fi 

Direcção. Antes de lêr ou expor esta 
lição aos alumnos. convém explicar- 
llies as palavras mais difticeis. Veja 
as palavras Dicotyledonias e Muno- 
COTYLEDONIAS, coHi as quaês Ihes fará 
discriminar as três piincipaes divisões 
do reino vegetal. Em quanto o profes- 
sor lè ou explica, devem os alumnos 
fazer notas. — Diclar o exercício es- 
crípto : Buscar a significação das pala- 
vras: AGOTYLEDOMAS, CÚIPTOGAMAS, 
EMBRYÕES, COTYLEDONES, ARLiORES- 
CENTE, POTASSA, 1NCINER\Ç.\0, VER- 
JIlt^UGO, GATARRIIO, TURFA, TUDERGU- 
LOS, SODA, IODE, GIIRONIGO, GOMESTI- 

VEL, PARASITA. Expõr por escrípto o 
que ha mais sabido acerca de ietos, 
musgos, algas, lichens e cogumelos. 

AÇUCENA. (Veja Liliage^vs). 

ACÚSTICA (do grego nkonò, eu es- 
cuto). Trata esta sciencia da produc- 
ção e natureza dos sons, e dos instru- 
rnentos mediante que se produzem. 
Resulta o som do movimento rapidís- 
simo de oscillação dos corpos; este 
movimento Iransmitte-se ás molécu- 
las de ar círcumpostas, e i)ropaga-se 
radiando ein todas as direcções com 
grantle celeridade. O mais fácil meio 
de jirotluzir uma oníla sonora é per- 
cutir rijamenie uma lamínasínha em 
uma das extremidades, e fazel-a vi- 
brar pela outra. A lamina, á maneira 
d(! i)eiidnla, desviada da vertical, os- 
cillará de ambos os lados, mas com 
mais rai)idez. Ouando a lamina vibra 
de um lado, imi)elle o ar diante de si 
e condensa -o, occasionaiulo após si 
um certo vácuo que rarefaz o ar. 



o 



ACU 



ADÃ 



Qii.-irido torna cm senlido inverso, ra- 
rí'í;iz o ar (|un íiavia condensado, e 
condensa o ar (jiie linha rarf^fcito. 
Kslas condensações e rarefaçòf«.s al- 
ternadas da camada de ar em conta- 
cto com a lamina on (pialíjuer oiilro 
cor|to vihi-ante, conslilnem as ondas 
sonoras e piodnzem o som. Se di'[)ois 
de (»xli;iliirnios o ar de um globo de 
vidro, lá impeiidermos uma campai- 
nha, ainda (pi(í a vihremos não dará 
som andivel ; e, lo|;o (pi(! deixemos in- 
gerir-si' ar no gloho gradualmente, o 
som jiroduzido pela oscillaçãoda cam- 
painha irá crescendo até SC ouvir como 
de costume. l)'onde se de[)rcliende que 
o som é imperceptivel no vácuo, c se 
propaga no ar. Sc mentalmente sup- 
pomos uma só vibração em um deter- 
minado ponto, a experiência conílrma 
o facto de que a ondulação sonora se 
propaga em um canal rectilineo, con- 
servando sempi-e a forma c intensi- 
dade primitivas em todas as direcções. 
E assim percon^e 33'3 metros por se- 
gundo. Gradna-sc esta celeridade do 
som no ar, observando o tempo que 
medeia entre oapparccimento do cla- 
rão de um tiro, disparado longe do 
ponto d'onde o observamos, e o per- 
cebimenlo da detonação. Como a ra- 
pidez da luz é incomparavelmente 
maior que a do som, demarcaremos 
assim o tempo que leva a ondulação 
sonora a transpor o espaço estabele- 
cido, e, dividindo esta distancia pelo 
numero de segundos empregados na 
transmissão, temos 333 melros ganha- 
dos em um minuto. Quanto á gravi- 
dade e agudeza dos sons isso depende 
da longitude das ondulações sonoras, 
ou, por outras palavras," do interval- 
lo que as separa. Supponha-se, por 
exemplo, uma lamina que vibra no 
intervallo de ura segundo, isto é, que 
demora um segundo em ir da direita 
para a esquerda e retroceder. Por 
cada oscillação d'eslas, o começo da 
ondulação irá já distante 333 me*tros, 
quando o fim da ondulação volver á 
mesma lamina. Se a lamina faz duas 
vibrações por minuto, claro é que as 
longitudes das ondulações serão por 
metade, 166 metros; sendo Ires as vi- 
brações por segundo, 111 melros; 



sendo quatro 83, e assim successiva- 
menle, |jois que a longitude das on- 
dulações é o quociente de 3:53 metros 
[)elo numero de vibi"açòes executadas 
em um segundo. l*osto isto, é grave 
o som quanilo as ondulações |)ercor- 
rem espaçf) grande e se succedem a 
longas int(;rcadencias. é agudo (piando 
é peipnMia a longitude dasondul.ições, 
e (mrto o intervallo d"ella<. Imagine- 
mos uma coida dislendida por um 
peso constante; se dobraiinos a ex- 
tensão da corda o numero das vibra- 
ções será metade. E pois (|ue o nu- 
mero das vibrações está na razão in- 
versa do comprimento de uma mesma 
corda, se encurtarmos a corda, retesa- 
da como em cavallete, poderemos for- 
m.ar sons diversos ou variar o tom da 
corda_. Assim se formaram a escala e 
os intervallos musicacs. Pylhagoras foi 
quem descobriu as corielações que 
existem entre as longitudes das cor- 
das vibrantes, d'onde procede a di- 
versidade dos tons. 

Direcção. Esta lição é destinada a 
alumnosjá instruídos. Antes de a ex- 
por, deve o mestre rehM-a até que os 
discípulos percebam claramente o que 
seja producção e transmissão de som, 
bem como ã proveniência do grave e 
do agudo, e como d'esta arte se for- 
mou a gararaa. (Veja Music.\). 

E.rprcicio cscripto. Que significam 
as palavras molécula, ondulação, ver- 
tical, condensar, rarefazer, ramo, in- 
lemidade, cavaUele, gamma ? — í*roble- 
massobrea rapidezdo som. —Pergun- 
tas oraes acerca da producção e trans- 
missão do som, ele. 

ADÃO, ou TEMPOS PPJMOR- 
DIAES. 1. De envolta com as fabulas 
que obscurecem as historias das na- 
ções primitivas, transluzem-nosos fa- 
ctos remotíssimos referidos por Moy- 
sés. A ordem dos seis dias da creà- 
ção, é, a passo igual, attestada pelo 
historiador do povo de Deus. e pela 
ordem da semana — usança observa- 
da invariavelmente por todas as na- 
ções. Cora pequena excepção, todas 
tiveram idéa da creação do mundo. 
Moysés, primeiro historiador, princi- 
pia em Adão o tronco do género hu- 



ADA 



ADA 



mano. Origem, idades, gerações, tu- 
do deriva de Babel, oito secuíos antes 
da sua narrativa. Não o estorva expli- 
car como foi (jue se navegaram os ma- 
res; e como são brancos uns bomens, 
e são outros negros. Seja como fòr, 
a historia justifica-o. Torre de Babel, 
confusão e origem de línguas, disper- 
são de povos : tudo isto vem nas tra- 
dições antei'iorcs á historia da ChaU 
déa. O ajuntamento do género huma- 
no na planície de Sanaar, entre os 
rios Tigre e Kuphtates, antes da dis- 
persão das colónias, é fado muito 
consentâneo á direccno que ellas se- 
guiram. Tudo provém do oriente, ho- 
mens e artes; tudo se encaminha 
lentamente para o occidente, melo- 
dia e norte. Se as tribus chínezas e 
egyptanas se policiaram mais têmpo- 
ras que as outras, foi porque estancea- 
ram, de primeiro, em paizes ubérri- 
mos, onde se exercitaram intellectual- 
mente. usando a pratica das inven- 
ções primordiaes. A remota antigui- 
dade doestas colónias, e a sua seme- 
lhança tão sensível com os habitantes 
da Chaldêa, attestam a communidade 
de origem. No emtanto, figuremo-nos 
famílias errantes, que não conhecem 
caminhos nem paragem, e vão ao aca- 
so estancear em paiz sáfaro onde tu- 
do lhes escassôa: nem utensílios para 
exercitarem as artes que sabem, nem 
socego para aperfeiçoarem o (jue a 
presente necessidade lhes poderia 
suggerir. Apenas assentadas, outra 
Iribu lhes disputava a terra. Vida as- 
sim vagabunda e incerta apagou-lhes 
toda a luz do engenho. Isto explica a 
selvatiíjueza e ignorância de certos 
povos. — Mudou de face o mundo, es- 
tabelecido o commercio com o orien- 
te. Godos, e (juanlas naçõesdemora- 
vam ao norte, desbarbarísaram-se, 
passando á Gallía c Itália. Galezes e 
francos devem seu policiamento aos 
romanos (jue haviam extrahido de 
Alhenas as leis e o saber. A Grécia 
manlcve-se barbara até (jue chegou 
Cadmo, que lhe levou as doutrinas 
phenicias. Encantados com tamanho 
brinde, os gregos deram-se a cultivar 
a língua, a poesia e os cantares. Des- 
curaram a politica, a architeclura, 

tOL. I. 



navegação, astronomia e pintura, até 
que pcVcorreram Memphís, Tiro e 
Pérsia. Tudo aperfeiçoaram; mas não 
inventaram nada. Está, pois, tão as- 
sente na historia profana como nas 
relações da Escriptura Sagrada que o 
oriente é o berço do género humano, 
e o manancial commum das nações e 
dos primores da scíencia. (Veja Ba- 
ças, para provar que Adão é o pai de 
lodos os homens. — Veja lambem 
GreaçÃo). 

2. Á proporção que os homens se 
multiplicam, diz Bossuet, convísínha- 
se a povoação da terra; transpõem- 
se serranias, galgam-se precipícios, 
vadêam-se rios, ciuzam-se mares, e 
fundam-se habitações novas. A ter- 
ra, floresta immensa no seu começo, 
transíigura-se; ruem os bosques e 
aplanam-se as pradarias, os pastios, 
as cabanas, as aldeias, e por fim as 
cidades. Dão-se a subjugar uns ani- 
maes, a domesticar outros, e a ser- 
vir-se de seu préstimo. Foi mister 
primeiro pelejarem com as feras. Os 
heroes primitivos, á feição de Nem- 
rod, assignalaram-se n'essas pugnas 
que insufflaram o invento das armas. 
Plantas e fruclos melhoraram de con- 
dição em favor do homem, que se 
valeu da força dos animaes. Nem os 
metaes resistiram á sua exploração. 
Pouco e pouco, submelteu-se ao ho- 
mem a natureza inteira.— Os egypcios, 
prosperamente acclimados, aperfei- 
çoaram as piimeiras artes e inventa- 
ram outras. Pavoneados pela unidade 
do paiz e pureza do eco sem nuvens, 
observaram atl(Mitamente o curso dos 
astros, e regularam o anno. Seme- 
lhantes observações robustecêram- 
os na intelligencia da arithmelica. 
A tim de reconhecerem suas terras 
annualmente inundadas pelo Nilo, 
soccorreram-se da agrimensura, que 
para logo lhes transluziu a geome- 
tria. Os Índios, cuja antiguidaile se 
encarece, jaziam ainda em tenebro- 
sa ignorância e selvageria, já quando 
egypcios, phenicios e chaldeos se es- 
tremavam por sciencia e peiulor ás ar- 
tes. l*arte do sabertjueos inthosgrau- 
gearam, dá visos de ter sido impor- 
tada da Grécia, que, depois das coii- 

2 



8 



ADÍ) 



ADD 



quistasde Alí^xandre, avassalloii a Ba- 
cliinria. p dosdfi as innrgons do Indo 
dil.iloii s(Mi doiniiiio [lor Ioda a exU'n- 
sao da Ilidia, sem Icvaiilarfim m;lo 
d'ossas regiões pelo tempo fora. — K 
oiilrosiiii, os cliiiis iinc r('(;ii;iin a ori- 
gem das sc.ieric.ias e arles ao cedor do 
:í:(H)() nnnos aiiles út\ Jesus (llirislo, 
trav;ir;im-se de iciarões c.oni os [lovos 
anlií,'os de (|iiem aiileririim a jír.iride 
C0|ti;i de coiílieciíiieiitos (jiií! taiilo llies 
ilhislia a memoria. N^esses leiíipos 
em (|iie se lhes aUrihue egrégias leis 
e vaslo império, lodo o sen liaver ci- 
frava om (limimilas provincias, ro- 
deadas de bárbaros que os premiam, 
de modo que. eiilre visiiibos taes, for- 
çoso é (bN:idir ([uo mui grahiilameiíte 
lhes concedem civilisa(;ão (|iie não po- 
diam ler. —Tudo, pois. nos guia na- 
lurabneute ;i relação de Moysés, na 
qual se declara (|ue lodos os povos, 
línguas, sciencias e arles. houveram 
origem nas campinas de Sanaar e ar- 
redores, d'onde o género humano de- 
rivou a povoar a lerra Ioda. (Veja 
Mythologia). 

Direcção. Estas duas lições, cora as 
chamadas que as elucidam e comple- 
tam, levam em mira dar ao alurano 
o affecto e sabor da Sagrada Escri- 
plura. l*ara bem se assimilarem es- 
tas noções, bom é que os alumnos já 
saibam' Historia Sagrada, e tenham 
luzes de Historia antiga. (Veja Bí- 
blia). 

Exercido. O desenvolvimento d'estas 
correlações: 1. Que provas adduz a or- 
dem daseraana. Berço degenero hu- 
mano. Dispersão das colónias e seu 
itinerário. Causas da ignorância e es- 
tado selvático. l*rocesso da civilisa- 
ção nos povos primilLvos. — 2. Como 
foi que a terra se povoou e cuUivou a 
pouco e pouco. Sciencia dos egypcios. 
Que devemos pensar do saber dos ín- 
dios e chins. Que conclusões se co- 
lhem. 

ADDIÇÃO. As operações arithme- 
ticas produzem nos números augmen- 
to ou diminuição. A operação, por 
meio da qual se augmenta um nume- 
ro, a mais simples de todas é a addi- 
ção. Todas as outras sahem d'ella por 



uma especialização cada vez maior. 
(Veja Oí'Kn\<'.õES). A addicão, na sua 
fórina mais simples, manifesta-se na 
aggieg.íção de unidades, i|ue é o modo 
primitivo pelo qii.d os numero-; se re- 
velam á no>sa intelligencia. Na sua 
forma complexa, o[iéra a reunião de 
dons ou mais numtTos, já formados, 
sem pas-ar pidos números intermé- 
dios. É um processo de simplilicação 
do modo nalural da formação dos 
números : percebe-se que, sem elle, 
a operação se tornaria impraticável, 
por sua exlensão. (juando os números 
fossem grandes. Não se principie, por 
tanto, pfda addição, pospondo a parte 
fundamental — a numeração oral e 
escripla (Veja NumkracÃoi ; exercí- 
lera-se bem os meninos no mecíia- 
nismo d'esta arte de formar e repre- 
sentar os números, e na addição men- 
tal de números pequenos. 

Direcção c erercicios. Antes de usar 
d'esla taboada, necessária ao decu- 
rião nas repetições, devem os meni- 
nos fazer, cora grãos, exercícios va- 
riados era numeração (veja esta pala- 
vra) pelo menos até ao n." 100. Sa- 
bem ajuntar 1 a um numero dado. 



1 

2 
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4 
5 
6 
7 
8 
9 


1 

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3 
4 
5 
6 
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2 
3 
4 
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8" 
9 
10 
41 


3 

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11 
12 


4 

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11 

12 

13 


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14 


6 

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8 
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9 
10 
11 
12 
13 
14 
15 

-' 

17 i 

"^1 



Quer-se agora, com os grãos, dar-lhe 
a conhecer o emprego d'esta taboada 
de addição. Ps^esse intento, tome-se o 
algarismo 2, primeira columna ver- 
tical á esquerda, e ajunle-se aquelle 
numero a cada algarismo da primeira 
columna horísontal de cima, e ahi se 
proporcionara nove perguntas. Faça- 



ADD 



ADD 



1 
Quanto são | 


2 


2 e 2 
2 e 4 
2 e 
2 e 8 


2 e 3 
2 e 5 
2 e 7 
2 e 9 


4 
6 
8 


2345678Ç 


14 
3 




Quanto são 


5 


4 + 2 
4 + 4 
4 + 6 
4 + 8 


4 + 3 
4 + 5 

4 + 7 
4 + 9 


7 
9| 



se idêntico exercicio com cada alga- 
rismo da primeira coliimna vertical, 
e ahi estão 81 perguntas, que vera a 
ser todos os casos que podem olTere- 
cer-se na addição dos nove primeiros 
números. Quanto á resposta a cada 
pergunta, eticontra-se sempre no an- 
gulo formado pelos lados das duas 
columnas onde os dous algarismos 
foram tomados. 

Percebida a taboada de addição, os 
aluranos devem aprendel-a de cór, 
com e sem os grãos, com e sem a ta- 
boada, quatro exercícios que lliessão 
aprasiveis pela variedade. 

Esta segunda ta- 
boada, variandoas 
perguntas, au- 
gmentaasdifficul- 
dades. Em vez de 
ajuntar 2 , por 
exemplo, successi- 
vamente aos 9 pri- 
meiros números, 
seguindo a ordem 
natural, ajunta-se 
este numero 2 aos 
números pares, de- 
pois aos impares. Executa-se o mes- 
mo exercicio era todos os algarismos 
da columna horisontal d'esta taboada. 
— Outro género de perguntas, que 
não exige taboada, é fazer contar de 
2 em 2, de 3 em 3, de 4 em -4. Quan- 
tos fazem 2 e 2, e 2, e 2, etc. ato 50 
pelo menos. Iguaes perguntas com 
o 3, 4 e 5, etc. começando por nu- 
mero par, umas vezes, e outras por 
numero impar. Mediante estes exer- 
cícios pôde o mestre occupar utilissi- 
mamente grande numero de meninos, 
encarregando o monitor das repe- 
tições. 

D'esla arte preparados para a pri- 
meira lição, os aluranos não serão es- 
torvados na passagem para a addição 
eecripla, com tanto que, a tempo, os 
hajam exercitado a escrever algaris- 
mos, — Principiar-se-ha por addições 
de uma só columna, como applicação 
das precedentes addições oraes. — 
Antes de passar avante, cumprirá exer- 
citar os alumnos a lt''r e escrever to- 
dos os números de 3 algarismos em 
columnas de 10 numeres cada uma. 



Para isto, o professor escreve na pe- 
dra os números todos de 100 a 200, 
dispostos d'este modo. 



100 


110 


120 


130 


140 


150 


nn 


111 


121 


131 


141 


151 


102 


112 


122 


132 


14? 


152 


103 


113 


iZi 


1.33 


143 


153 


104 


114 


124 


134 


144 


154 


lOõ 


115 


125 


135 


145 


155 


100 


110 


120 


130 


14fi 


1.50 


107 


117 


127 


137 


147 


157 


108 


118 


128 


138 


148 


158 


109 


119 


129 


139 


149 


159 






1 1 


«ic. 



6 lhes observa: 1 ." que para lêr e escre- 
ver a columna das unidades e das cen- 
tenas, não ha difllculdade nenhuma, 
pois que basta conhecer os 9 primeiros 
algarismos: pois que, se, em logar de 
101, queremos escrever 401, logo que 
se trata de 4 centos, é claro que se deve 
puro 4 na casa das centenas, etc; 2.» 
(|ue a columna das dezenas só apre- 
senta difliculdades que já se apren- 
deu a vencer na numeração oral e es- 
cripta. — Os aluranos poderão depois 
exercitar-se a sós comsigo dispondo 
em taboadas análogas os números 200 
a 300, 300 a 400, etc, até 999, o que 
produzirá 9 taboadas, com as quaes 
os alumnos se hão de afazer a dispor 
concertadamente os números em co- 
lumnas verticaes, e a escrever com 
acerto os algarismos. — Agora nos pro- 
pomos fazer perceber de fundamento 
o que seja addição, e por que devem 
juntar-se unidades a unidades, deze- 
nas a dezenas, centenas a centenas, 
etc. Ponho de um lado 234 grãos, isto 
é, 2 pacotes de 100 grãos, 3 de 10, e 
4 grãos ; do outro lado ponho 345 pre- 
parados semelhantemente, e pergunto 
ao alumno quantos são ao todo. Para 
me responder, é obrigado a juntal-os, 
e naturalmente responde que ha 5 pa- 
cotes de centenas, 7 de dezenas e 9 
grãos, ao todo 579 grãos. Se eu lhe 
der os dous números 557 e 778, o 
alumno achará 12 centenas, 12 deze- 
nas, e 15 unidades; porém, ser-lhe- 
hia diflicil l(M- o numero total, e so- 
bretudo escrevel-o consoante as re- 
gras ordinárias. Faz-se-lhe então no- 
tar (jue nas 15 unidades, ha uma de- 
zena que se ajunta ás 12 dezenas, que 



10 



ADIJ 



ADD 



l:'t7(;W0 reis 
H(iV25 
«ti35 
940 

5'iH03 



jxiií.izcin i:); e t\\u\ irtístas 13 iloze- 
uas, ha uma coiil(;iia (luese ajiiulaás 
lá c(!iil(Mias; e í\\uí nas 13 coiUciias, 
que (J'alii resullain, lia uiu inilliaf; e 
quo, liiialiiuMile, scgiitido a regra da 
íorniarão dos iimncros, rcsulla de 
Uido o iiuhhm'0 rc^jular, 133."). Com o 
auxilio (TCsta simples demoiislração, 
coiriprelieiide o aíiimiio: 1." quí; se 
deve addicioiiar (|ii;iiiilu ([iiei' furmar- 
se um lodít; "l." que, no exercii;io 
d'esla ()|)er,i(à(), deviMU unir-s(; uni- 
dades a unidades, de/enas a dezenas, 
eLc. - A liin de insiniiarllie o provííilo 
e uso d'esta (qKMacão, dão-se-lln; nous 
cxem|)l()s numéricos d(! vendas e com- 
pras das seiíumles ínalerias: cereaes, 
vinho e licores, pão, farinha, carne, 
lacli(;inios, ovos, legumes, lalos, ulen- 
silios variados, conlas de carpinteiro, 
de alvenel, de eslucador, ele. ; despe- 
za, receita d'um mez, d'um anno, etc. 
Estes artigos podem ser- 
vir de balisa para desco- 
brir muitos problemas prá- 
ticos que os alumnos de- 
vem esiiuadrinhar por si 
mesmos. — As addições 
n'este género devem ser continua- 
mente exercitadas, pois são as únicas 
que se ollerecem na pratica. — Pelo 
que respeita á prova de addição, ex- 
plica-sc que este processo é simples- 
mente uma verificação, e que, em vez 
de addicionar de cima i)ara baixo, 
addiciona-se de baixo para cima. E' 
fazendo continuadas operações que se 
logra ser hábil calculista. «Usa e se- 
rás mestre» ' [fii faber fabricando). 
Mediante os exercícios acima indica- 
dos (lição l.a e^2.a) podem enlreter-se 
utilissimamente os meninos por es- 
paço de seis mezes ou mais, empe- 
nhando-os de contínuo por variadas 
applicações. 

3. Depois d'estes exercidos sobre a 
addição, vem os números decimaes 
que devem ser precedidos de algumas 
noções sobre as fracções. (Veja Frac- 
ções). Cumpre notar: Ajuntando á 
fracção O"', 50 um numero qualquer 
de zeros á sua direita ou supprimin- 
do-lhe os que ella contem, a fracção 

• o provérbio francez diz: Cest enforgcan^ 
qu'on ãovient forgeron. 



nào muda de valor; obteremos sem- 
pre r> decimelros, visto (|ue a ordem 
d'(!Sle ali^;irismo lelativa mente á vir- 
gula nao «'; alterada. Uesulta d'aqQÍ 
que uma fiacção decimal não muda 
(ie valor (juando se augmcnlam ou ti- 
ram zeros á sua direita. Ksle piini.i- 
pio tem applicação ao caso d.i ailiJição 
de nuuiííros com desigual numero de 
algarismos decimaes: ignala-se o seu 
numeio, .(juntando ou su|)primindo 
zeros. Torna-se isto útil p.ir;i (|ue os 
meninos não encontrem (hriiijildade 
era não estarem os logares ligur;idos. 
iJe futuio, seião dispensados d'esta 
legra, hahituando-os, como na addi- 
ção dos números inteiros, a escrever 
em columnas verticaes os números 
compostos de desigual numero d'al- 
garismos decimaes, exigindo-lhes a 
collocação de cada algarismo no lo- 
gar que lhe convém. — Fazer formu- 
lar problemas práticos cxlrahidos de 
um rol, facturas, receita e despeza 
d'um mez ou anno. 

4. Antes de passar á addição das 
fracções ordinárias, os alumnos de- 
vem conhecer a divisão dos números 
inteiros e decimaes (Veja DivisÀO), e 
saber reduzir duas ou mais fracções 
ao mesmo denominador (Veja Frac- 
ção). Como exercicios práticos de cal- 
culo e de variada applicação, far-se-ha 
a addição das fracções oídinarias pe- 
los dous modos seguintes: 1.° redu- 
zindo as fracções ao mesmo denomi- 
nador, somraando os numeradores e 
dando ao resultado o denominador 
commum; 2." reduzindo, pela divisão, 
todas as fracções ordinárias em dizi- 
ma, e addicionando lodos os quocien- 
tes que serão números decimaes. Es- 
tes dous processos, que podem servir 
mutuamente de prova, poderão em- 
pregar-se simultânea ou alternada- 
mente. O ultimo tem a vantagem de 
exercitar os alumnos no calculo de di- 
v^isões em que o dividendo é menor 
que o divisor, o que lhes offerece dif- 
ficuldades na pratica, quando bem 
cedo não tenham sido exercitados. 

5. A addição das quantidades algé- 
bricas eífeclua-se escrevendo essas 
quantidades umas adiante das outras 
com os seus respectivos signaes, e re- 



ADD 



ADD 



11 



duzindo os termos semelhantes, se os 
houver. Por exemplo: a somma de 
2rt-f6efl — 2&éí2íi + 64-a— 26, 
ou, reduzindo, 3a — b. Chamara-se 
termos semelhantes os que são com- 
postos das mesmas leiras affecladas 
respectivamente dos mesmos expoen- 
tes (Veja Álgebra, para a explicação 
da linguagem algébrica). Assim, 7 ab 
e 3 ab são termos semelhantes; 8 a-// 
e 7 ab'- não o são, porque, posto que te- 
nham as mesmas leiras não estão af- 
fecladas dos mesmos expoentes. Mui- 
tas vezes um polynomio contém na sua 
expressão vários termos semelhantes; 
é então susceptível de simpliíicação 
ou reducção. Por exemplo, no polyfio- 
nilo, -)- 2° a'6r —A a^bâ -f ^ <í'br — 
8a'6c--|-H a^ftr, a somma dos ter- 
mos additivos, -}-2 a^bc--\-^ a'^bc--\- 
W a'' br é igual a -r-\^a'^bc'-, e a som- 
ma dos termos subtractivos — la^br 

— Sa^br é igual a — l^a^í/r; por- 
tanto o conjunto dos cinco termos pro- 
postos rednz-se a -f-l-^^'^'^' — 1-a^í/r 
e, reduzindo ainda 3i-\-1 a^bc^. — 
Quando a somma dos lermos subtra- 
ctivos é maior que a dos addilivos, 
aíTecla-se o resultado ou dilTerença 
do signal — . Resulta d'aqui esta re- 
gra: para operar a reducção dos ter- 
mos semelhantes, forma-se um só 
termo addilivo de todos os termos se- 
melliantes precedidos do signal -f-, o 
que se consegue ajuntando os coeftl- 
cientes d'estes termos e dando á parte 
litteral commum esia somma por co- 
efficipiite; forma-se, do mesmo modo, 
um só termo subtractivo de lodos os 
termos precedidos do signal — ; sub- 
trahe-se á maior somma a menor o 
dá-se ao resultado o signal da maior. 

— Para demonstrar a regia da addi- 
ção de polyiiomios, observaremos que 
um polynomio é semfire leductivel á 
forma de uma differeriça entre a som- 
ma dos termos addilivos c a somma 
dos subtractivos. 

Sejam, pois, a—bc r — d: se adian- 
te de a — b escrevermos o termo r 
com o signal -'-, o que dá a — b '■ c, 
obteremos um lesultado (|ue excede o 
verdadeiro o valor í/. portanto, para ler 
este, devemos escrever a — b-\ r — d. 
O que demonstra que, para addicio- 



nar dous polynomios. escreve-se o se- 
gundo adiante do primeiro, conser- 
vando a cada termo o seu respectivo 
signal, e assim por diante, havendo 
mais polynomios. Por exemplo, a som- 
ma dos polynomios seguintes: 

5fl'6"--f-2 a-// — 11 fl//-^10 è' 
e 4a^6-— 6a-&^-f 7fl<>^— 9b'^ 

é: ^da'b- — Aa'b'— iab'-~ b'^ 

Este exemplo mostra como se opera 
na pratica, quando os polynomios lém 
termos semelhantes: dispõem-se uns 
por baixo dos outros de modo que 
os lermos semeltiantes fiquem n'uma 
mesma columna vertical, e depois re- 
duzem-se a um só os termos de cada 
columna. 

ADDISON. Escriptor celebrado, de 
Inglaterra. 167-2-1710. Realçou-lhe o 
nome a elegância e o primor do 
« gosto ». (O termo « gosto i» 7io mpsmo 
significado em que o tomam os [rance- 
zes, já o remos tão introduzido ha 
mais de trinta annos em Portugal, que 
se dere rejiutar próprio do idioma no 
sentido de bom gosto : de modo que 
quer se diga gosto, quer bom gosto 
em Artes, tudo é o mesmo, nem se du- 
vida da identidade dos significados que 
neste srntiilo não requerem modipca- 
ção. Dias Gomes, Obr. l'oet. Not. 20 
a Eleg.) Foi elle quem deu mais no- 
meada ao engenho de Mdlon (Veja 
Milton"), longo tempo obscuro para 
os iiiglezes. Escreveu a Relação de 
suas viagens em Fiança e lldlia, e 
Diálogos acerca das medalhas, e um 
poema grandemente applaudido, a 
tragedia Catão, e uma não concluida 
defeza da religião christã. Por 1709 
e annos seguintes, collahorou com 
Sleele. lamí)em escriptor inglez, na 
redacção do Speclador. pultlicação 
muilooriginal. em que a lilteralura, 
a moral e a politica eram superior- 
mente discutidas. ^^ Addison carecia 
de aptidão para obras de grande to- 
mo, e era apoucailo em leN^anles 
dotes litlerarios: não obstante, pro- 
mette perpetuar-se a correcção fácil, 
tersa e grave lie sua prosa. Rem que 
muito imitados, ainda são inexcedi- 



12 



ADD 



ADJ 



dos os caraclLTCs ()ri^;ina<'s, as pintu- 
ras de usos, (! os fiatíiuoiilos de criti- 
ca que Addison publicou no Sjtnia- 
dor: sQo ohia-prinia do estalo hiiiaii- 
nico. linilaiaiuiio Tiolílsinitli ein Ir- 
landa, tí I" laiikliu iia America. \\ cer- 
to (]ue, d(!p()is de Addis(jii, a critica 
litleraria dispaiou em mais reipiiiila- 
das e sapieiítes metapíiNsicas; po- 
rém, que íez ella d(! mais valia <|ue 
os graciosos e hrillianles capítulos do 
Spcilailur acerca da pliautasia"/ Ce- 
damos, pois, a Addison a {floria de 
liaver sido moralista engenhoso, cri- 
tico sensato e d"alto espirito; mas, 



mais (]ue tudo, escriptoi' óptimo, li 
muito ('• isso já para (lucm amlc)U re- 
partido entie politica e amenidades 
litteiarias. » iViliemain, Lilleralura 
nu senilo X\ III). 

Diririão. Preleccionar esta lição 
ao.s alumnos de inglez. I*óde ser de- 
corada, e prestar três serviços: or- 
tliO}?ra|(liia, recitação e lição de litte- 
ralura, att'- para os (|ue não estudam 
o idioma mgle/,. 

ADJECTIVO (formado de ad, jun- 
to, c jiicere, collocan. 



ADJECTIVOS UETEKMINATIVOS 



Pordixucz 


FranccK 


llcspniiliol 


Ingloz 


Lalln 


Absurdo, 


absurde, 


absurdo. 


alisurd. 


absurdos. 


Afrc^juezado, 


a (ha lande, 


acreditado, 


accustoraed. 


celebris. 


Activo, 


actif, 


activo, 


active, 


activos. 


Admirável, 


adniirable. 


admirable, 


admirable, 


niirablis. 


Calmante, 


adoiicis&ant. 


calmante, 


demulant. 


mitigatorius. 


Debilitado, 


afTaibli, 


debilitado, 


weakened. 


debililatus. 


Faminto, 


aflami!, 


lianibriento, 


famisbing, 


esuriens. 


AHirmativo, 


ullirinatif, 


alirmativo, 


aflirmative, 


atfirmans. 


Allligido, 


aliligé 


afligido, 


afnicted, 


dolens. 


llorrivel, 


alTreux, 


horrible, 


horrible, 


borribibs. 


Agitado, 


agilé, 


agitado, 


agita ted, 


agitatus. 


Agradável, 


agréable, 


agradable. 


agreeable, 


dulce. 


Amargo, 


amer, 


amargo, 


bitter. 


amarus. 


Approvado, 


approuvé, 


aprobado. 


» 


probatus. 


Árido, 


aride, 


árido. 


aride, 


aridus. 


Attento, 


attentiT, 


atento, 


attenlive, 


altentus. 


Triste, 


attristé, 


triste, 


» 


moerens. 


Avaro, 


avare, 


avaro, 


avaricious, 


avarus. 


Fallador, 


babiliard, 


hablador. 


babbiing, 


garrulus. 


Humilde, 


bas, 


bajo, 


low. 


humilis. 


Pulcro, 


beau, 


bermoso, 


tine, fair, 


pulcher. 


Bizarro ', 


bizírre. 


calavera, 


slrange, 


morosos. 


Vituperavel, 


blàmable, 


vituperable, 


blàmable. 


vituperandus 


Branco, 


blanc, 


blanco, 


white, 


alvus. 


Ferido, 


blessé, 


herido, 


wounded. 


vulneratus. 


Azul, 


bleu. 


azul, 


blue, 


coeruleus. 


Louro, 


blond, 


rubio. 


fair. 


flavus. 


Bom, 


bon, 


bueno, 


good. 


bónus. 


Zarolho, 


borgne, 


tuerto, 


one-eyed. 


unoculus. 


Desconfiado, 


boudeur, 


mobino, 


sulky. 


moros\is. 


Moreno, 


brun, 


moreno. 


brown, 


subníger. 



' o author, dcsculpavelmenle, obrigou as outras línguas a francezarem o seu In^arre. Por- 

tuguezes e hespanhoes vertem o bisari-e em generoso^ arrogante, liberal, etc. ; mas nunca no 

sentido de extravagante ou extraordinário. Em inglez não se verteria strange; talvez liàndso- 

me. O morosus latino diz mal com o bisarre francez. 

.Y. do T. 



ADJ 



ADJ 



13 



Portuguez 


Francez 


Hespanbol 


lugiez 


Latim 


Brusco, 


brusque, 


brusco. 


blunt. 


asper. 


Brutal, 


brutal, 


brutal. 


brutal. 


ferus. 


Occulto, 


cache. 


oculto. 


» 


occultus. 


Tranquillo, 


calme. 


tranquilo, 


quiet, 


tranquillus. 


Carinhoso, 


caressant, 


cariuoso, 


caressing. 


blandiens. 


Quadrado, 


carré. 


quadrado. 


square, 


quadratus. 


Commodo, 


commode, 


cómodo. 


commodious. 


cominodus. 


Communicativo, 


communicatif, 


comunicativo, 


communicative, 


facilis. 


Condescendente, 


complaisant, 


condescendiente. 


compliant. 


ofíiciosus. 


Completo, 


complet, 


completo, 


complete. 


complelus. 


Contente, 


content. 


conliente. 


satisfied. 


contentus. 


Breve, 


court. 


corto. 


limited. 


brevis. 


Perigoso, 


dangereux. 


peligroso. 


dangerous, 


periculosus. 


Lacerado, 


déchiré. 


desgarrado. 


teared, 


laceratus. 


Desdenhoso, 


dédaigneux. 


desdenoso. 


disdainful, 


fastiiliosus. 


Dehcado, 


délicat. 


dehcado. 


delicate. 


fragilis. 


Deplorável, 


déplorable, 


déplorable. 


déplorable, 


deplorandus. 


Dedicado, 


dévoué. 


dedicado. 


devoted. 


addictus. 


Diligente, 


diligent, 


diligente. 


diligent. 


diligens. 


Discreto, 


discret. 


discreto, 


discreet, 


circumspectus, 


Divino, 


divin, 


divino, 


divine. 


divinus. 


Dócil, 


docile, 


dócil, 


docile. 


docilis. 


Duro, 


dur, 


duro. 


bard. 


durus. 


Durável, 


(lurable, 


durable. 


durable. 


durablis. 


Económico, 


ecnnonie, 


arreglado. 


econoraical, 


parens. 


Edificativo, 


édifiant, 


edificante, 


edifying. 


pius. 


Impudente, 


effronté, 


desvergonzado, 


impudent. 


impudens. 


Elegante, 


élégant, 


elegante, 


elegant, 


elegans. 


Sublime, 


élevé. 


elevado. 


elevated. 


sublimis. 


Eloquente, 


éloquent. 


elocuíinte. 


cloquent. 


cloquens. 


Espesso, 


epais. 


espeso, 


thick. 


opaco. 


Escarpado, 


escarpe, 


escarpado. 


steep. 


aliruptus. 


Apertado, 


étroit, 


estrecho. 


narrow. 


arctus. 


Excessivo, 


exoessif, 


excesivo. 


excessible. 


inimoderatus. 


Exorbitante, 


exorbitant, 


exorbitante. 


exorbitant, 


nimius. 


Enfadonho, 


fàcheux, 


enfadoso. 


grievous , 


incomraodus. 


Fácil, 


facile. 


fácil, 


facile, 


facilis. 


Débil, 


faible. 


flaco. 


weak, 


debilis. 


Fatigado, 


fatigue. 


fatigado. 


tired. 


fatigatus. 


Falso, 


faux. 


falso, 


scytne. 


falsus. 


Favorável, 


favorable, 


favorable, 


favourable. 


propicius. 


Fértil, 


fertile. 


fértil. 


fertile. 


fertilis . 


Fervente, 


fervent, 


ferviente, 


fervent. 


fervens. 


Fiel, 


íidèle. 


fiel, 


faithful, 


íidelis. 


Forte, 


fort. 


fuertc. 


strong, 


forlis. 


Impetuoso, 


fougueux, 


iuipeluoso, 


impetuous. 


impetuosus. 


Fraudulento, 


fourbe, 


trapacero. 


false. 


fraiuiiílcntus. 


Funesto, 


funeste, 


funesto. 


fatal. 


funostus. 


Fulil, 


fulil, 


fútil, 


futile. 


futilis. 


Alegre, 


gai, 


alegre. 


merry. 


hilaris. 


Grande, 


grand. 


grande. 


tall, 


niagnus. 


Gordo, 


gras. 


graso. 


greasy, 


pinguis. 


Grosso, 


gros, 


grueso. 


big, 


amplus. 



u 



AIiJ 



ADJ 



l*<ir(tix<ic/; 


l'raiiri-y. 


ii<'<t|iii II 111) 


1 Iii;;l<-y. 


i.iiiiiii 


II.iImI, 


Iiabile, 


liabil, 


skilful, 


aptuM. 


Alto, 


liaut. 


alto. 


bigli. 


allus. 


Heróico, 


lieroi)|ue , 


lieroiío, 


Iieroiral, 


Iier-jus. 


Feliz, 


liiMireux, 


feiis, 


liappy, 


Mn. 


Honesto, 


honniHe, 


honesto. 


honest, 


prolms. 


Vcrjçoiíliiiso, 


IldllIclIX, 


vergonzoso. 


ashamiMl. 


pudens. 


IIii>;|i(mIi'Íii), 


liii>-|iilaiii'r, 


liospilalario. 


liospilalilc, 


bospítalis. 


Iliini.iiKi, 


liUinaiM, 


liMtnano, 


I.Minan, 


humanus. 


Iliriiildc, 


IlUlllIlif, 


humilde. 


himdili>, 


buiiiilis. 


lliiiiiidii. 


liMMlidl', 


humedo. 


liumid. 


humidus. 


IgnoiMiiti', 


i^'iiiir.'tiit, 


ignorante. 


ignorant, 


ignarus. 


liliisorio, 


illiisiiirr. 


illusorio. 


iliusivse, 


failax. 


Iniaginuiid, 


iiiiaginain-, 


imaginário. 


imaginary, 


imaginarius. 


Ini|ioi'liino, 


i[M|iortiin, 


importuno. 


importunate. 


iriiportunus. 


Invejoso, 


jaloux. 


invidioso, 


jealous. 


invidus. 


Amarello, 


jaune, 


amarillo. 


ycllouw. 


flavus. 


Bello, 


joii, 


bello. 


genleel,. 


Iiellus. 


Frouciío, 


lâclie, 


flojo, 


loosse. 


laxus. 


Largo, 


large, 


ancho, 


wide. 


lalus. 


Cansado, 


las, 


cansado. 


tired, 


lassiis. 


Ligeiro, 


l('ger, 


ligero, 


lighl, 


levis. 


Livre, 


libre, 


livre. 


free, 


líber. 


Liquido, 


liquide. 


liquido, 


liquid, 


liquidus. 


Longo, 


long, 


largo. 


wide, 


longus. 


Leal, 


loyal. 


leal, 


honest. 


probus. 


Lucrativo, 


lucratif, 


lucrativo, 


lucrative. 


lucrosus. 


Luzente, 


luisant, 


luciente. 


shining, 


Incens. 


Magro, 


niaigre. 


magro. 


meagre. 


macer. 


Enfermo, 


raalade. 


enfermo. 


ill. 


.Tger. 


Malfazejo, 


niaifaisent, 


nocivo, 


rnalevolent, 


nocens. 


Matutino, 


matinal, 


matutino, 


morning, 


matulinus. 


Maldizente, 


medisant. 


maldiciente, 


slanderous, 


maledicus. 


Ténue, 


mincc. 


delgado. 


thin, 


tenuis. 


Brando, 


mou, 


biando, 


snfl. 


mollis. 


Maduro, 


mur, 


maduro. 


ripe. 


maturos. 


Necessário, 


nécessaire. 


necesario. 


necessarv. 


necessários. 


Negligente, 


négligent, 


negligente, 


negligcnt, 


negligens. 


Esquecidisso, 


oublieux, 


olvidadiso. 


forgetfui. 


obliviosus. 


Aberto, 


ouvert, 


abierto, 


open, 


apertus. 


Oval, 


ovale. 


ovalo, 


oval. 


ovatus. 


Pequeno, 


petit,' 


pequeno, 


short, small, 


parvus. 


Mordaz, 


piquant. 


mordaz, 


prickly, 


aculeatus. 


Plano, 


plaf, 


plano, 


flat, 


planus. 


Pleno, 


plein, 


pleno, 


full, 


plenus. 


Precioso, 


pr(''rieux, 


precioso. 


precious. 


pretiosus. 


Previsto, 


prdvu, 


prevido. 


» 


provisus. 


Prudente, 


pnident, 


prudente. 


prudent, 


prudens. 


Puro, 


pur. 


puro, 


puré. 


purus. 


Refrigerante, 


rafraicliissant, 


refrigerante, 


refresliing, 


refrigerans. 


Rápido, 


rapide, 


rápido. 


rapid. 


rapidus. 


Reflectido, 


réflóchi, 


reflesionado, 


refresliing. 


cogitatus. 


Rico, 


riche. 


rico. 


ricb, 


dives. 


Robusto, 


robuste. 


robusto, 


robuste. 


robustus. 



ADJ 



ADJ 



15 



Portugiiez. 


Francex 


Ele.opniihol 


I 


Taciturno, 


tnciturne, 


taciturno. 


tacitum, 


Tardo, 


lardif, 


tardo. 


tardy, 


Timido, 


timide, 


temido. 


timid, 


Igiial, 


uni. 


igual. 


even. 


Varuo, 


vide. 


vacio. 


enipty. 


■Vigoroso, 


vigoureux. 


vigoroso, 


vigorous 


Zeloso, 


7M, 


celoso. 


zealous, 



Inzlcz 



I.atim 



Direcção e obrigações. 1. É o adje- 
ctivo um modo de abreviar a expre?:- 
são. Era vez de «hnraem que tem ra- 
zão» — ^(rei que tem coragem)), diz-se 
succinlamente: homem razoável, rei 
corajoso. Não é por tanto absolutamen- 
te necessário o adjectivo, e é por isso 
que certos idiomas os não tem corres- 
pondentes a outros. E assim é que os 
adjectivos latinos aiireus, argenteus, 
ferrens, em francez c forçoso tradu- 
zil-os : (l'or, íVargcnl, de fir. — Os adje- 
ctivos podem exercer no discurso duas 
funcções diversas: umas vezes, o ad- 
jectivo forma só de per si o attributo 
de uma iiroposição: Nero foi cruel. 
Outras, entra quer no sujeito, quer no 
atlnbiilo, ou no complemento para 
determinar o nome a que se une: A 
innoconcia éuma consolarão/íOf/íTosa, 
em apertos de adverddade a mais 
acerba. — Exercícios simultâneos so- 
bre as cinco linguas : Que se busquem 
os significados de lodos aquelles ad- 
jectivos, iraduzindo-os já pela pala- 
vra correspondente, já pelo nome, 
sempre que possível seja. — Dividir 
este exercício em tantos themas quan- 
tos são os adjectivos que principiam : 
1." por A, 2." por R, 'J.» por C, etc. ' 
Em seguida fazer decorar os adjecti- 
vos de cada lliema. — Empregar nas 
cinco linguas cada adjectivo : 1 ." como 
delerminalivo, pliraseando ligeira- 
mente para cada um. — Comparar 
com o latim as outras quatro linguas, 
notando-llies as analogias e deriva- 
ções. - IMocurar os nomes, verbos e 
advérbios derivados de cada adjectivo, 
bem como o adjectivo que exprime 
sentido inverso. — Estes exercidos po- 
dem applicar-se a cada idioma de per 
si, consoante a precisão, idade, dis- 

I ruiu pstc Exercido ciimiiru soguir (i ulijhaltc- 
to da coluniiiíx de adjectivos francczes. 



taciturnas. 

tardus. 

timidus. 

sequus. 

vacuns. 

validus. 

studiosus. 

cernimento e penetração dos alum- 
nos. Convém que o professor escreva 
na pedra os adjectivos dados para a li- 
ção d'esse dia. — Oaluranodeve pro- 
ver-se do Diccionario da lingua que 
aprende. O estudo do nome (Veja 
Nome) deve anteceder aquelles exer- 
cícios. Pelo que respeita aos adjecti- 
vos determinativos, veja Artigo. 

2. Lingua franceza. — Estremar e 
pôr em ordem os adjectivos que expri- 
mem attributos: 1." os bons, 2.» os 
maus, 3." os materiaes, -i.» os espiri- 
tuaes,õ."os naturaes ou adquiridos. — 
Afora a lista dos adjectivos referidos, 
o professor pôde dar lições de leitura, 
ordenando (|ne então se escolham os 
adjectivos sujeitos. — Faça lambem 
coordenar listas de adjectivos mascu- 
linos ou femininos, singulares ou plu- 
racs, estatuindo as priíicipaes regras 
da concordância. Esies exercícios en- 
tendem com os juincipiantes. 

3. Lingua lalina. — Dividem-se os 
adjectivos latinos em dnas classes. Na 
primeira, são de Ires formas, uma pa- 
ra cada género : us ou er para o mas- 
culino, a para o feminino, nw para o 
neiílro; masculino, Ixjnus, niiser: íem\- 
mnoJ)()nn,niisrra :m'nlyo. bunum, mi- 
seruni : bom, miserável. O masculino e 
neutro declinam-se |ior liorhis e rer- 
buni : o feminino jior rosa. — Na se- 
gunda classe de adjectivos entram os 
(|ii(> tomam as terminações lia ter- 
ceira declinação. Exemplo: iv/íís, ve- 
lho. Singiilai- jtara os lies gtMieros: 
Nominativo, vocativo rc/f/.s- ; gcMiitivo 
veleris : dativo relrri : accusalivo rele- 
rem : ablativo relere. Plural : Nomina- 
tivo, accusalivo, vocativo relerei :^e- 
nitivo releram , dativo e ablativo r<7<'- 
ribus. — Faça declinar cada adjectivo, 
assignalando a classe que lhe perten- 
ce. Feito isto, façam-se os exercícios 
apontados no n.'' 1. (Veja Latim, so- 



10 



ADJ 



ADJ 



bré o mflliíjJo de (j ciisiiiiu). O atl- I 
jeclivo liiliiio l()Jii;i o ^.mmkto. nuiiicfo i 
tí caso (lo iKJino t\\n' (Iclcinuiia, o de- 
cliiia-sr (lo iiirsiiio llicor. 

Í-. LiiniiKi iioiliiijiirza. — «Os ad- 
jeclivos |iorliii,Mu;z(.'s sãooii de uma só 
lermiriarão, ou df duas ou dt; lies. 

«São d(t niiKi s'< tiTimniivã» : 1." Os 
acabados oní <; peíjueno ou breve, co- 
mo hriTc. firiiif, pntilnilr, Irislr, (\\ie 
é a leimiiiaiião mais abundante does- 
ta soiUi de adjeclivos ua nossa língua. 
'-!." Os acabados em ol, cl, il, como 
celcsHiil, nmarrl, fácil. 3." Os acaba- 
dos em ar, az, iz, oJ, como f.n-m- 
plar, rapaz, frliz, veloz. b'esles mes- 
mos adjeclivos, os ijue boje acabam 
em //. sem ser agudo, e em az, iz, oz, 
acabavam anligamenle como os pri- 
meiros em (' i)e(|ueno, como: ntcrili', 
farilr. rouhunacr, fclícc, alrore, ele. 
Afora esles são lambem de uma só 
terminação os quatro adjeclivos affim, 
{aU]{ni^),'covti'z, munlrz, rui. Também 
tjrão, abreviado (ie grande, serve como 
estopara ambos os géneros: o grão 
prior, a (irão inesira. 

(íSão de duas Icrminações : 1 ." Os que 
acabam em o, raudando-o era a na fe- 
minina, como juslo, justa, e se aca- 
bam em òzo. cora o penúltimo ú fe- 
chado, raudando-o em aberto na fe- 
minina, como rirluôso, virtuosa. "2.° 
Os que na masculina acabam era éz, 
ol, lir, n e wn, lambem tem a femi- 
nina em a que se lhes acrescenta, 
como : portuguêz porluguêza, hespa- 
nhúí hespanhóia, crcadòr creadôra, 
cru crua, um uma, commum commúa. 
Comtudo bons authores portuguezes 
Dão dão terminação feminina nem a 
este ultimo, servi ndo-se da em um para 
um e oulro género, nem aos em és, ól, 
c òr, que faziam de uma terminação só, 
commum a ume outro género. Assim 
diziam elles: vida couimnm, lingua- 
gem portuguêz, nação hcspanhol, ci- 
dade competidor ; e João de Barros diz : 
« Vara de disciplina destruidor dos ma- 
les, defensor da pureza. » 3.° Os que 
acabam em o diphlhongo nasal ão, 
perdem o o ua terminação feminina, 
ficando só como ã nasal, como chris- 
tão, christã. 

«São irregulares judeu, méu, têu, 



seu, tiDiii. máit, (|u<: fa/fiu na feminina 
judia, iniulia. tua, sua. biri, má. 

<• São de Irr.s ti-rniinaiòes : 1 ."Os nos- 
sos (|ualro adjeclivos d(-'inon>lrativos, 
este, esta, isto. esse, essa. isso, uim-Ue, 
iKluiHIa, anuillo, e o qual, a (juul. o/jue 
ou o íiual. '1." Os (juatro dftt-rimnati- 
vos de quantidade, a saber: os dous 
universaes coMcclivos lodo íi/da, Iwlu, 
e nenhum nenhuma, nada, e os dous 
jiartilivos algum alguma, algo, e ou- 
tro <)\Ura, ai. 

« N'estes adjectivos de ties formas é 
certo que a prinieira é paia o género 
masculino, e a segunda para o femi- 
nino. A terceira pois para que género 
será? O autbor- dos Kudtmentos da 
Grammalira l'ortugueza, pari. i, cap. 
II, ^ 111, dl/, que é uma forma subslan- 
tivada do género masculino, por (|ue 
os nossos subslanlivos não leui outro 
género senão o masculino ou o femi- 
nino, neutro não ha. Comludi^ o nosso 
João de Baiios em .•^ua drammatica 
da Língua 1'orlugueza, pag. '.iri, ed. 
de 1785, a Gnimmalica da Academia 
ileal Hespanliolu. pari. i, cap. iii, art. 
IV, e o abbade de Condiliac na sua 
Grammatica, pari. ii, cap. v, dizem 
que estas formas sãodo género neutro. 

«Com eíTeito nenhuma lingua dá ter- 
minações superlluas aos seus adjecti- 
vos: °e se a nossa deu uma terceira a 
esles adjectivos como os gregos e la- 
tinos a davam aos mesmos e a muitos 
outros, é por que reconheciam que 
era necessária, não só para concordar 
com os substantivos do género neu- 
tro entre elles, mas lambem para mo- 
dificar alguma cousa ou idéa, que não 
era nem do género masculino nem do 
feminino, e por consequência d'uma 
classe neutra. Toda a equivocação 
pois dos grararaaticos foi assentarem 
que os adjeclivos não foram feitos se- 
não para concordarem com substan- 
tivos, e que não tendo estes na nossa 
lingua género neutro, nenhum adje- 
ctivo lambem o devia ter. Porém os 
adjectivos podem concordar não só 
com os nomes mas também com as 
cousas, como são vari3s idéas, sen- 
tidos totaes e discursos inteiros, que 
não tendo por si, nem podendo ter 
género algum, não podiam ser mais 



ADJ 



ADU 



n 



bem determinados do que por uma 
forma adjectiva que não fosse de gé- 
nero algum, e que por consequência 
fosse neutra. 

(iTaes são as terminações neutras 
dos oito adjectivos acima, e a primei- 
ra dos adjectivos de duas terminações, 
6 ainda a única dos adjectivos de uma 
só, quando se empregam no discurso 
ou substantivamente, ou para modi- 
ficarem orações inteiras, como n'es- 
tas expressões : o mbliine, o bello de 
umpensamenlo. E igualmente perigoso 
crer tudo, e não crer nada. Tudo está 
perdido. Nada do que disseste é ver- 
dade. O d\ é martellar em ferro frio. 
Mais rale algo que nada. Isto, que eu 
disse, isso, que tu disseste, aquillo, que 
elle disse, tudo é verdade. 

«Deve-se pois estabelecer como re- 
gra geral, que lodo o adjectivo que se 
refere mais a uma idéa ou sentido 
do que a um nome, não tem género 
algum, e é por consequência neutro. 
O género ou classe assim dos nomes 
como das cousas, é que determina as 
formas adjectivas a tomarem também 
o género ou classe que lhes convém, 
e não ás avessas. Entre os mesmos 
gregos e latinos, os três géneros dos 
nomes detí^rminavam os adjectivos de 
uma só forma a tomar o género que 
lhes compelia. Porque não poderão 
fazer o mesmo os pensamentos, (juan- 
do precisam elles mesmos de ser mo- 
dificados por um adjectivo?» (Soares 
Barbosa, Grnm. PliHosoplúcn). 

5. Língua hespanhota. — O adjectivo 
hespanhol concorda em género e nu- 
meio com o nome ou pi'onome que 
qualifica. — Hueno, bom; maio, mau; 
primero, primeiro; poslrero, ultimo; 
lercero, terceiro, perdem o o final, e 
grande perde a syllaba final de (juan- 
do se une a um substantivo. — Os ad- 
jectivos terminados em o mudam, no 
feminino, o o em a, e são regulares 
no plural, quer dizer, terminam por.s 
em ambos os géneros. —Os termina- 
dos em or acabam em (í no feminino, 
e no plural em es para o masculino, e 
s para o feminino. — Os adjectivos 
em a, e e ente são de ambos os géne- 
ros, e ajuntam s no plural. — Os aca- 
bados por z lambem são de dous gé- 



neros e mudam no plural z em ces. — 
Os terminados em ete ou o/c seguem 
a regra dos adjectivos em o. — Aos ad- 
jectivos substantivados antepõe-se 
sempre ó artigo lo: prefiero lo íiiil á 
lo agradable. (Veja os exercícios n.o 1). 
5. Língua íngleza. — É invariável 
o adjectivo inglez. — Precede o nome, 
salvo quando o adjectivo tem o com- 
plemento em si. As seguintes termi- 
nações acrescentam aos adjectivos 
uma idéa particular: Ly indica se- 
melhança; friendly, amigável (como 
com amigo); ish designa diminuição: 
bluish, azulado. Some denota abun- 
dância: troublesome, fadigoso; tireso- 
me, enfadonho; less inculca ausência : 
iifeless, sem vida; child less, í>em\\\ho. 
Able argue capacidade; serviceable 
(que pode servir). En annuncia a com- 
posição do objecto: earlhen, de ter- 
ra; woollen, de lã. (Veja os exercícios 
n." 4). 

ADULTO. 1. Diz o provérbio: em 
qualquer idade aprendemos e nos cor- 
rigimos. Se assim é, a educação pôde 
actuar sobre os adultos. Todavia, o 
lempo endurece os hábitos, e geral- 
mente é necessário empregar maior 
e mais prolongada acção para educar 
um adulto. Consoante a Educarão po- 
sitiva de Raucouil, eis aqui algumas 
considerações que podem contiibuir 
á educação do adulto. — O homem, 
consideradophysiologicamenle, e pelo 
que é no exeicicio de suas variadas 
faculdades, manifesta-se por ijuatro 
maneiras: 1.^ o ente que vive me- 
diante os órgãos da nutrição e se 
prende ás necessidades ou appelites 
materiaes; ^2.» o ente sensivel, por 
meio do apparelho nervoso e das sen- 
sações dos cinco senLidos; ;>.•' o ente 
pensante, manifestado pelas funcções 
da intelligencia ; X:* finalmente, o eme 
atTeclivo, d'onde depende a sensibili- 
dade, amor, anuzade e precisão de 
sociabilidade. — Kstas quatro essên- 
cias são, até certo ponlo, os (]ii3tro 
cavallos appostos ao carro da vuia. Se 
puxam na mesma direcção, se vão 
de accordo en» exeniciu conveniente, 
a jornada vai ao Iimiuo sem cansaço 
nem desastre; poiém, se a acção de 



18 



ADU 



ADU 



um fiii (lo rnriis i' (Icpordoniid;!. podr,- 
cftm os oiilros, a jortiad.i (■ trahallio- 
sa, e a Iclicidailo (iífslniida. l] por taii- 
lo evidciilc (|iio ('■ iiiislcr liarinonisa- 
rem-so. aíiiicllcs f|iiali'o (miIcs. Doesta 
coiicordaiicia rcsiilla o liorrioin honi 
ordenado, (liitninc (luc cada um se 
cxarniiie apiilicadainciile, e cure de 
des(;ol)rii- (jiial ('• o (jiie motivou o de- 
sastre, se a liarinonia foi perliii bada. 
— Vai era all'er(!s de cavallaria — 
dirá iim militar — ia ser despachado 
lenente, (piatido vencido do desejo, 
que eu longo tempo vencera, de ir 
Jantar com nns amiiíos, pertiirbsi-me 
tanto com as bebidas, (|iie resvalei do 
cavallo, c lii]n('i estirado na estrada, 
d'onde me levaram em braços, haven- 
do já o meu cavallo chegatío ao fpiar- 
tel sen» cavalleiío. Eis-me aipii des- 
prezível! Perdi o frnclo de ipiatroan- 
nos de serviço! Ah! meu ser vivente, 
que terrível mal me fizeste! — Dirá 
de si para comsigo um homem dota- 
do de superior engenlio inventivo: 
Eu linha descobrido certa machina 
muito útil; meditara o tempo neces- 
sário para applical-a; mas, como me 
entregasse a outras invenções, aquel- 
la, que era a principal, foi antecipada 
por outro inventor, como outras ve- 
zes me tinha acontecido. Decidida- 
mente, cu sobejo-me de mais em pen- 
sar, e sou escasso na entidade affe- 
cliva. Serás tu, minha mãi, a victin^a 
d'estadesharmonial — Um sujeito mui- 
to agradado de musica, dirá algnma 
vez: É noite. Passou a hora que eu 
linha destinado a urgentíssimos ne- 
gócios. Ah! maldito piano! Quanto 
demasiado sou em concessões ao 
meu ser sensitivo ! — E, outro exem- 
plo, vejo um pai excellente em meio 
de seus fdhos; lê Hobinson ao mais 
novo: depois dá uma lição de gram- 
matica á tilha mais velha; depois vai 
com toda a sua família a um passa- 
tempo... Eis que entra o seu sócio, e 
acha desordenado tudo nos armazéns 
e na escripturação... Acasacommer- 
cial desmantela-se. Em resumo, o que 
ahi ha é um pai que dá tudo ao seu 
ente aíTectivo, e muito pouco ao seu 
ente cogitativo, — Esta espécie de exa- 
me de consciência não emendará sem- 



|)re o adulto, mas ensinal-o-ha a co- 
nhecer-se, — primeiro jiasso dado na 
trilha da iierfcição moral. No entanto, 
examinados os resultados mais ou me- 
nos nocivos do predomínio de um ou 
mais d'esses (luatro seres, dons a dous 
e Ires a três, veremos surdirem d'essas 
combinações todas as formas dos ca- 
racteres íiumanos. Não ('; para desjire- 
zar se esta Iheoria arbitraria : finando 
mais não seja, aproveita como varie- 
dade no tão comi)lexo estudo do es- 
pirito humano. 

t. EsrtilítsdrnduUGH. Devem assen- 
tar nas necessidaíles geiaes da loca- 
lidade as lições dadas aos adultos nas 
noitadas do inverno. K preciso que o 
adnllo conheça cabalmente o sentido 
e valor das palavras, porque a exa- 
ctidão do seu raciocínio impende mui- 
to d'isso. Estes exercícios far-se-hão 
conformemente coro as lições em que 
houver palavras tcchnícas e menos 
communs. (Veja Abstr\cç.\o, Acoty- 
LEDONES, etc.) Os adultos, segundo os 
cursos que frequentarem, devem ti- 
rar notas por meio da stenographia 
ou outras abreviaturas convencionaes 
a fim de que possam redigir per si 
mesmos a lição, presumindo que el- 
les já passaram dos princípios ele- 
mentares. Mas, se o? não passaram 
ainda, siga-se o methodo ordinário, 
variando quanto ser possa asapplíca- 
ções. (Veja Aduição, Adjectivo, etc.) 
O director das escolas examine pes- 
soalmente o adiantamento dos alum- 
nos. Evite enleal-os em sciencia es- 
peculativa sem lhes apontar imme- 
diatamente a [íratica. Seja-lhes apra- 
zível ensínando-os como quem con- 
versa recreativamente, figurando pa- 
lestras de homens doutos que tratam 
sciencias e melhoramentos. Mediante 
bons exemplos, líies irá incutindo a 
precisão e o proveito de aprender, 
não se esquivando ao elogio que in- 
cita a emulação moderada. A pouco 
e pouco, os alumnos irão comprehen- 
dendo que o descuido das cousas ele- 
mentares dífficulta o conhecimento 
dos estudos posteriores: d'onde virá 
lornarem-se attentos para bem se as- 
senhorearem da linguagem de cada 
sciencia, — Nas aldeias, desvele-se o 



ADU 



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19 



professor em leccionar agricultura. 
Os alamnos que lhe digam o produ- 
clo das terras, as despezas de cada 
produclo, o sustento do agricultor e 
o do gado, o salário do jornaleiro, 
ele. Estas praticas darão azo a discu- 
tirem-se abundantes problemas prá- 
ticos. Finalmente, o professor os irá 
encaminhando por tal via á scien- 
cia dos phenomenos geológicos, usos 
das plantas, cuidados que demanda o 
amanho dos variados terrenos, etc. 

E.fícrcicios escriplos. 1. Procurar a 
signidcação das palavras provérbio, 
phíjsiulogia, harmonia, engenho, per- 



feição, predominio, combinação, cara- 
cter, iheoria, arbitrário. 

2. Desenvolver este conjuncto em 
forma epistolar n'este sentido : Todo 
tempo é tempo para cada ura se emen- 
dar. Os quatro cavallos appostos ao 
carro da vida. Utilidade d'esta divi- 
são para cada qual reconhecer seus 
desaires. Exemplo de cada um dos 
quatro casos. Meios de correcção. Fe- 
licidade que d'ahi lhe resulta, bem 
como á farailia, e á sociedade. 



ADVERBIO 

palavra). 



(ad, junto, e verbuin, 



Portuguez 

Em outra parte, 

Assim, 

Em redor, 

Eiilào, 

Bastante, 

Hoje, 

Antes, 

Tão, 

Tanto, 

Antigamente, 

De uulro modo, 

Muito, 

Bem, 

Aqui, 

Quanto, 

Como, 

Mais, 

Dentro, 

Fora, 

,Iá, 

Ámaniii, 

Dctraz , 

De hora avante, 

Deliaixo, 

Diante, 

Tainhem, 

Finalmente, 

Juntamente, 

Depois, 

Uuasi, 

('■raluilamrntc, 

Pouri), 

llontem, 

Aípii, 

Antigamente, 

Nunca, 

Longe, 



ailieurs, 

ainsi, 

alentour, 

alors, 

assez, 

aujourd'hui, 

auparavant, 

aussi, 

autant, 

autrefois, 

autreraent, 

beaucoup, 

Iiien, 

ci, 

comi)ien, 

eomment, 

davantage, 

dcdans, 

deliors, 

d(''jà, 

deinain, 

derrière, 

desormais, 

dessous, 

devant, 

encore, 

enfin, 

cnsemiile, 

ensuite, 

environ, 

grátis, 

gutVe, 

iiier, 

ici, 

jadis, 

jamais, 

loin, 



Hesipanhol 

en otra parte, 

así, 

ai deredor, 

entonjes, 

bastante, 

boy, 

antes, 

tan, 

tanto, 

antiguamente, 

de otro modo, 

mucho, 

bien, 

aíjui, 

cuanto, 

como, 

mas, 

dentro, 

fuera, 

ya, 

mauana, 

detrás, 

cn adelante, 

debajo, 

delante, 

tamliicn, 

linalmcnte, 

juntainiintc, 

despues, 

casi, 

gratuitamente, 

poço, 

ayer, 

acá, 

antigamente, 

jamás, 

lejos, 



Inglez 

elsewliere, 

ttius, 

about, 

ttien, 

enougli, 

to-day, 

before, 

also, 

as mucli, 

fornierly, 

otherwise, 

much, 

well, 

this, 

how much, 

how, 

more, 

witliin, 

witiiout, 

aiready, 

to-morrow, 

heliind, 

bencefortii, 

under, 

before, 

yei, 

in tine, 

togetlier, 

then, 

about, 

grátis, 

few, 

yeslerday, 

here, 

of old, 

never, 

far, 



I.udiii 



alibi. 

sic, ita. 

circum. 

tunc. 

satis. 

hodie. 

prius. 

tani. 

lantuiii. 

olim. 

aliter. 

multum. 

bcue. 

Iiic. 

(juantuni. 

quoniodo. 

amplius. 

intra. 

foris. 

jam. 

eras. 

retrorsum. 

deincops. 

iníVa. 

coram. 

eliam. 

tandem. 

simul. 

lieimli'. 

circa. 

grátis. 

paruin. 

lieri. 

hic. 

(ilini. 

un(|uain. 

long.^. 



20 



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ADV 



fovttiKuvr 


I''riiiiri'K 


■iPNpuiih»! 


IllUlfJ. 


i.iiiiiii 


Diutiiinainenlc, 


lont;tenips, 


por muclio lienipo. 


long lime. 


diu. 


Agora, 


maintenant, 


aliora. 


now. 


nunc. 


M(!Siii;imri)lc, 


mème, 


a^íniísmo, 


sanie, 


eliani. 


Mulhur, 


niieux, 


mcjor, 


more. 


nielius. 


Menos, 


moins, 


menos, 


minus. 


minus. 


Pouco antes, 


naguère, 


poço antes, 


lately, 


nuper. 


Não, 


ne. 


no, 


not, 


non, liaud. 


Não ohslanlf!, 


ni-aiimoins, 


no oiístante. 


nevcrtiíeiess. 


niliilomínus. 


De modo nenliiini, 


nullenient, 


nulamente. 


in no wise, 


nequaquam. 


Kspcri.iliruTile, 


riot:imtiient. 


especialmente. 


especially, 


nominatim. 


Oiiil.', 


(ii'i, 


donde, 


wliere. 


iilii, ubinam. 


Em lotla parle, 


[lartuut. 


en todo iogar, 


everywhere. 


nliique. 


Pouco, 


peu, 


poço. 


iitllel 


parum. 


Mais, 


pkis, 


mas. 


more, 


plus, amplius. 


Anlos, 


piutòt. 


antes. 


ratiíer, 


potius. 


Quasi, 


presque, 


ca si. 


almost, 


propc, qiiasi. 


Depois, 


pnis, 


despucs, 


Ihcn, 


dein, qui'1, inde? 


Quando, 


quanii, 


Guando, 


wlien. 


fpiando. 


Scienleniente, 


sciemment, 


con conocimiento, 


hnowingly , 


scienter. 


Repentinamente, 


SDUilain, 


de repiente, 


of a sudden. 


eodem momento. 


Frcípien temente, 


souvenl, 


frecuentemente. 


frequently, 


s;epe. 


Principalmente, 


surtout, 


sobre todo. 


especially, 


pneserlim. 


Tão, tanto, 


tant. 


tanto, tan, 


so mucli, 


tantum. 


Logo, 


tantòt, 


luego. 


soon. 


brevi . 


Tarde, 


tard. 


tarde. 


lale, 


sero, tarde. 


Promptamente, 


tòt. 


pronto. 


soone. 


celeriter. 


Sempre, 


tonjours, 


sienpre. 


ever. 


semper. 


Todavia, 


toutefois, 


todavia. 


u 


verumtamen. 


Muito, 


trop, 


demasiado, 


too, 


riimium. 


Depressa, 


vite, 


aceleradamente, 


fdSt, 


celeriter. 


Voluntariamente, 


volontiers, 


con gusto, 


willingly, 


libenter. 



Direcção e exercidos, i. O adver- 
bio, assim como o adjectivo, não é, 
rigorosamente fallando, elemento es- 
sencial da linguagem: é palavra com- 
posta, forma abreviada e tnixta qtie 
equivale a uma preposição seguida 
do seu complemento : proceder jí///í- 
ciosameníe é proceder com juízo. Não 
se deprelienda, comtudo, que qual- 
quer preposição seguida do seu com- 
plemento possa, em todas as linguas, 
ser substituída por um adverbio, pois 
que tem cada lingua advérbios sem 
voz equivalente nas outras linguas. 
E assim é que os advérbios latinos 
sursum, deorsum, de.vírorsum, sinis- 
trorsum, não podem trasladar-se a 
francez senão por estas vozes : eu 
hant, en bas, à droite. à gaúche. — 
Exercícios, simultâneos ou alternados 
das cinco linguas. — Procurar e es- 



crever a significação de lodos aquel— 
les advérbios, veríendo-os com exem- 
plos bastantes que denotem diversas 
applicações de cada um. — Repartir 
este exercício em tantos quantos são 
os advérbios principiados por A, por 
B, por G, etc. ; depois fazer decorar 
os advérbios de cada exercício. —Es- 
crever nas cinco linguas alguma phra- 
se em que se empregue cada adver- 
bio. — Distinguir entre as cinco lin- 
guas, e catalogar: 1.» os advérbios 
de Iogar, 2.° de tempo, 2.° de quan- 
tidade, -4.0 de modo, 5.» de affirmação 
e negação, G.° de interrogação e ex- 
clamação. — Estes exercícios, que de- 
vem ser adaptados ao entendimento 
mais infantil com o auxilio das expli- 
cações, podem ser feitos em particu- 
lar* para cada lingua. 
2. Lingua porlugiieza. — «O adver- 



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21 



bio é uma palavra só, e essa indecliná- 
vel e destinada pelo uso para exprimir 
cora mais brevidade uma preposição 
com seu complemento. D'estes advér- 
bios uns se acham feitos, e taes quaes 
são os recebemos do uso, como são 
quasi todos os advérbios de lofjar, de 
tempo, e de qnanlid adc ; o\\ivo?> porém 
formam-se segundo as regras de ana- 
logia, e taes são quasi todos os de 
modo e qualidade. Era uns e outros, 
sempre se supprirae a preposição, que 
nos primeiros é ordinariamente em, e 
nos segundos com, que por isso são 
mais fáceis de supprir. Só o comple- 
mento é que é exprimido pelo adver- 
bio, e nos de logar, tempo e quanti- 
dade, é composto de duas idéas, uma 
geral, expressiva do logar, tempo e 
quantidade, e outra individual, indi- 
cada por algum dos demonstrativos; 
mas ambas concentradas em ura pe- 
queno vocábulo. — Expressões adrer- 
biaes. O terceiro modo de reducção 
das preposições com seus complemen- 
tos se faz por meio das expressões ad- 
verbiaes. Chamam-se assim as fór- 
mulas abreviadas das preposições com 
seus complementos, não pela con- 
centração de uma cousa e outra em 
uma única palavra, como succede ao 
adverbio; nem pela suppressão só da 
preposição, como acontece nos nomes 
adverbiados; mas sim pela suppres- 
são e eliipse de uma parle do comple- 
mento total. 

«Assim, esta locução, com cegueira, 
se reduz a menor expressão ou pelo 
adverbio cegamente, ou pela phrase 
adverbial ás cegas : que analysada, e 
supprido o substantivo occnilo, quer 
dizer : ás apalpadellas cegas. Ora o com- 
plemento de uma phrase adverbial 
pôde ser elliptico. ou por ser elle 
mesmo um adverbio, ou por ser um 
adjectivo com o seu substantivo oc- 
culto, ou pelo contrario o substantivo 
com o seu adjectivo subentendido. 

«Do primeiro modo são />///ví.s/',s í/í/- 
rerbiaes todos os advérbios de logar e 
de tempo, quando se lhes ajunta uma 
ou mais preposições para os determi- 
nar; ao que alguns grammaticos cha- 
mam advérbios compostos e sobrecom- 
postos, como : aponde, por onde, aonde, 



para onde, ã'aqui, desd'aqui, atéqui, 
d'aUi, dcsd'alli, atélli, dcs hi, afora, 
de fora, emfóra, acerca, d'antes, de 
traz, por de traz, de cima, em cima, 
por de cima, debaixo, abaixo, por bai- 
xo, antehontcm, trasantehontem, adian- 
te, para diante, em diante, e assim ou- 
tros muitos. 

«Do segando modo são phrases, ou 
fórmulas adverbiaes, as seguintes: a 
fim, em fim, de sorte, porque, a torto e 
a direito, ás claras, ás escuras, de im- 
proviso, de mais a mais, em continen- 
te, em vão, debalde, por demais, sobre 
maneira ou sobre modo, e infinitas ou- 
tras que o uso ensina.» (Soares Bar- 
bosa, Gram. Philosophica). 

3. Lingua hespanhola. — Os advér- 
bios terminados em mente formam-se 
dos adjectivos, ajuntando mente aos 
que só tem uma só terminação para os 
dons géneros, como fácil, facilmente, 
dulce, dulcemente, e, substituindo as 
terminações o, a, por rtmp«/^ respecti- 
vamente" aos outros adjectivos, assim 
de docto, doctamente, de diestra, dies- 
tramente '. 

4, Lingua ingleza. — Podem for- 
mar-se advérbios da maior parte dos 
adjectivos inglezes, ajuntando-lhes hj: 
lionest, honesto; honestUj, honesta- 
mente; virluous, virtuoso; virtuous- 
Ig, virtuosamente. — Aos adjectivos 
terminados por o/c, ajunla-se-lhe so- 
mente //, e elide-se o e final, porque, 
elidido o (' mudo, a terminação co- 
meça logo por /; irrevocable.. irrevo- 
cabíy. Se o adjectivo acaba por // pre- 
cedido de consoante, o // muda-seem 
i, antes de ajuntar /;/; irilty, espiri- 
tual; /r///////, espiritualmente. Quan- 
do occorre verbo auxiliar e infinito 
ou parlicipio do pretérito, o adverbio 
tem logar entre os dons; se, porém, 
o verbo simples é acompanluido de 
complemento, colloca-se o verbo de- 
pois do complemento, ou melhor ain- 
da antes do verbo. Os advérbios se- 

' Ksta^^ rcpçra'? e outras aiUiiiziílas com rcforen- 
cia ao idioma hespanhol são tão commmis da lingim 
liorluRue/.a une seria siiiicrlluo tradiir.il-as para uso 
lie quem as já conhece oii da llio>iria K'>'>t>niuaUcal 
ou da pratiai. Para os urimeiros seriam sobejas, e 
para os scnuiidos, fiira do temp'i 

.V. ,1o T. 



99 



ADV 



AFR 



j,'uiiit(!s ;iiilopO'!in-se sempre yo ver- 
bo, f|U(!r sfja simples ou composto: 
fiir, sein[)ie ; crvn, mesmo ; nei:er, 
nunca ; DJlrn, rie(|iieiilemeiile ; ra- 
Ihcr, aiiles; srarcc, apenas; snon, lo- 
go; stcll, ainda ; tlien, enlilo, etc. 

ADVERSIDADE. "I'aia (pie ioda a 
ener^Ma da alma se d<!s(ira,os rigores 
da adversidade são-llm d(! [)rov(iilo. 
{Os Mtuli/ifs). Vem-nos de Deus a 
advíMsidade como degrau por onde 
nos eifíva. {Os i\itlrlirz). Os homens 
vulgaics calicm <; não se erguen^nais 
de sol) o [)eso da desgraija ; os homens 
disLincLos, vergados pelo infoilunio, 
seguem ávaule, como soliJados ro- 
bustos (pie senlem leve a pesada ar- 
madura, n (MiHíDigcs lilléraires, de 
Chalcaiiljiiaud). — «Na lempesLade é 
(pie o pilolo revela a sua aptidão... 
Em quanto o baixel mareia prospe- 
ramente, facil é supporlai'-lhe o ba- 
lanço. A peito com a desgraça é que 
o verdadeiro valor resplende.» (S. 
Cypiiano).— «É tão precisa a prudên- 
cia na prosperidade, como a virtude 
na conformiiJade com a desgraça. As 
longas prosperidades produzem com- 
mutnmenle dous maleíicios: o costu- 
me de sei- feliz embota o gosto de o 
ser, e aguça os espinhos da adversi- 
dade, porque é desconhecida quando 
sobrevem.» (Oxenslirn). — «A l'ro- 
videncia prova a força do homem 
com a desgraça, e ensina-o a conhe- 
cer-se; corta a prosperidade de uns 
para que elia os não deprave; per- 
milte que outros sejam excruciados 
por enormes angustias, a lim de lhes 
exercitar a paciência e o aperfeiçoa- 
mento da virtude. Uns adquiriram 
gloria immortal com morrerem glo- 
riosamente ; outros, em hórridos sup- 
plicios, nos mostraram que a con- 
stância sobrepõe a virtude victoriosa 
de todas as calamidades. Portanto, a 
sabedoi'ia da Providencia tudo enca- 
minha apropositadamente, e ajustado 
ao benelicio de todos, sem resalva até 
da alternativa de bens e males que 
se revezam nos perversos. Se os sos- 
sobram revezes, é isso convenientís- 
simo; pois que, a juizo commum, 
merecem ser castigados ; — castigo 



para (Mies salutar, pois que d'ahilhes 
pode resultai' emenda — e salutar pa- 
ra os outros, (jue aunídronlados se 
desviam do cairel do ahysmo. Se, 
ao envez, se gozam dtí algumas deli- 
cias, é ainda alta lição que incute nas 
pessoas honestas o baixíssimo preço 
dos bens da fortuna, que tão indigna- 
mente se dobra aos caprichos da ini- 
quidade.» (Boecio, (lonsolíinloiln jjlii- 
lusopliia, Liv. i). 

Calígula oITeifceu a Demétrio, phi- 
losopho, duziMitos sesteiiMos. .Maravi- 
lhado (ia inépcia (lo [Hincí[ie, (pje ima- 
ginara compral-o com tal (luanlía. dis- 
se : «Se elle (|ueria experimentar-me, 
todo o seu império seiía apoucado en- 
godo.» Em vei(la(J(!, o mais desgra- 
çado homem é atpielle (jue nunca ex- 
perimentou revez : qualquer viração 
(|uebiará a haste d'essd frágil planta. 
Repulso de Roma e exilado em uma 
ilha, Demétrio expirou n'uma enxer- 
ga, temido dos maus, respeitado dos 
bons, e admirado de Séneca, que o 
elogiou assim : uProduzira-o a natu- 
reza para mostrar ao seu século que 
um elevado espirito pôde resguardar- 
se da corrupção em meio das tur- 
bas.» (Veja a historia de Job na Bí- 
blia). 

Exercidos. Redacção ou disserta- 
ção. Summario. Forlalece-se a alma 
coma adversidade. — Vem de Deus 
os infortúnios, cujo hm é obrigar-nos 
á contemplação do que somos, e des- 
appgar-nos da terra. — Causas da ad- 
versidade. — Nosso ruim proceder, e 
os particulares desígnios da Provi- 
dencia. — Percalços da prosperidade. 
— Palavras de Chateaubriand, de S. 
Cypriano e de Oxenstirn, que devem 
decorar-se como remate doexercicio. 

AEROLITHOS. (Veja Pl.\netas). 

AFFINIDADE. (Veja GniMiC.\). 

AFOLHAMENTO. (Veja ROT.^ç.io 

DE CULTUR.VS). 

AFRICA. É Africa uma região im- 
mensa situada entre os trópicos na 
sua maior extensão. É cercada de 
mar, e prende ao continente da Ásia, 



AFR 



AGR 



23 



mediante uma lingueta de terra de 
vinte léguas, chamada Islhmo de 
Suez. E' escassamente conhecido o 
interior do paiz, por causa dos estor- 
vos que o tornam desconversavel. 
Areaes ardentes, estuosos desertos, 
povoações barbaras e desgasalhosas, 
cordilheiras de rochedos que rom- 
pem as torrentes fluviaes, volvendo 
inexequível a navegação, afora as in- 
fluencias climatéricas, tantos empô- 
ços reunidos, desalentaram longo 
tempo a cnriositlade e propriamente 
a cubica dos viajantes e dos merca- 
dores/ Todavia, no século passado, 
houve homens bastante afuutosquese 
enroslaram cora todos os perigos, e, 
a custo de vida, lograram desvendar 
os myslerios e desertos africanos. 
l*elo que respeita á costa d^Africa, 
desde remotos tempos ahi aportaram 
viajantes, principalmente á oriental, 
que defronta com a índia, e é convi- 
sinha do mar Vermelho — golfo (|ue 
parece assignalado para api'oximar 
a Ásia da Africa, e foi sempre o con- 
lluente de grande commercio.— Qua- 
si toda a Africa está na zona tórrida ; 
pelo que, tão abrazadora ó ahi a cal- 
ma, e a esterilidade a cada passo vos 
apparece, quasi ao pé de fertilidade 
prodigiosa. Gran<le parte do conti- 
nente são esplainadas ardentes, mo- 
vediças de areia Una, de longe a lon- 
ge intercaladas de verdes oásis. As 
caravanas que desfilam n'esses deser- 
tos são, a revezes, subvertidas ]»or 
montaniias de areia que o vento re- 
volve como vagas do mar. — Abun- 
dam ahi feras, taes como leões, ti- 
gres, pantheras, rhinoceronles, vi- 
vendo piomisruamente com elephan- 
tes, girafas, gazellas, afora crocodi- 
los, serpentes, e insectos sem nume- 
ro. Luxuriosa vegetação abrolha de- 
baixo do sol tropical. Ahi se depa- 
ram copiosos vegotaes : o bambu, a 
palmeira, e o baobab cujo tronco me- 
de 30 metros de circumferencia. i Ve- 
ja Bari<\iu.\, S\nAHA, Sknegambia, 

(lUINÈ, CaFUES, MAUAGA.SCAK, EGVPTO, 

etc.) 

Kxncicios. Dicte este bosquejo co- 
mo exercício de orlhographia, e man- 
de que o decorem como exercício de 



recitação, e de estudos geographicos 
no Mappa). 

AGATHA. (Veja Argilla). 

AGEN. (Veja Guienna). 

AGOSTO. (Trabalhos da lavoura). 
Geralmente, colhem-se as plantas tex- 
lis e seraeiam-se nabo, rezeda, tre- 
vo encarnado e couves. A seiva está 
suspensa nas arvores, e é então 
que se cortam os ramos destinados á 
enxertia de garfo ou de borbulha. É 
o tempo mais opportuno para trans- 
plantar arvores resinosas. Os fructos, 
muito afogados em folhagem, devem 
descobrir-se algum tanto, para que 
adquiram côr e sabor. Póde-se fazer 
enxertia de olho dortnenti\ conforme 
a seiva, de amendoeiras, damasquei- 
ros e outr.Ms arvores. 

HorlknHurn. Kecolhem-se as se- 
mentes do cerefólio, da salsa, das al- 
faces, dos rábanos, cebolas, dos alhos, 
e das cenouras; planta m-se moran- 
gaes e semeiam-se saladas, cenouras 
de inverno, escorcioneiras, espina- 
fres, rabãos, e couve ílòr; apertam- 
se as chicoreas e cortam-se os cres- 
centes das alcaxofras, cujas cabeças já 
foram colhidas, ele. ' 

AGRIÃO. (Veja Cruciferas). 

AGRICULTURA. (Veja Lavrador). 

AGRIMENSURA. A agrimensura é 
a arte de medir a supeilicie dos ter- 
renos. Esta medição póde-se eITecluar 
por dous methodos goraes: o me- 
thodo denominado por (h'!<nirolri- 
meiílo, que consiste em seguir com 
a cadeia lodos os accidentes da su- 
perfície do solo, avalia a superlicie 
real do terreno; e o melhodo por 

' Abstemo-iios do v»'rler paia porliiijuei no 
mes do pluiit:i!ii f<inlicciil;is iki aiíritultair."» prós. 
peru (l'outrod piiize.s, mas aiiuta Jesusínlas ii;i 
horticultura purtiigue/.a. (JuaUpior roportorio. 
Ulule se (Ião coiisrlhos o preceitos uo lavrador 
em cada nioz do uiiiio, ser.i mais útil aoa pou- 
cos lavradores qiu: cnteuduui do thoorins, do 
i|un (iiidori» sci-Uics uui diccioiiurio d°esta na- 
turcz;!. 

.Y. do T. 



Zi 



aí;r 



AGU 



Irranlamotli), pelo f|ii;il sft mede o 
solo hoiisoiitilinctili', (|ii;il(|iior qno 
sfja a tlcsigu.iM.idc (l;i sihkmIícíc, re- 
duz esla á sua lucjccrfio lioiisoiital, 
a (|U(! se (lá o iioinc de hnsc proiliirli- 
rn. lisle iiiclliodo fuiida-se no fado 
de os veí,'elaes crescei em vcrlicalfneu- 
le, não podendo, por isso, um lerre- 
no inclinado conter maior numero de 
j)lanlas (pir a supfilicie do m;'smo 
lerrcno reduzido ao liorisonle. (Jual- 
(jiicr (|u<! seja o mclliodo empregado, 
a agrimensura (cm por bases: a linha 
recta e pcipendiciiiai", o seu li'arado 
c medida snbrc o paptd, sobiv; o ter- 
i"eno. De[)ois vem a medida das figu- 
ras elemciilares : ângulos, triângulos, 
(|iiadiil,ileros, \) lygonos (veja eslas 
lialavras); conliccinuMilíj sullicienle. 
por(|ue é >empi'<' possível decompor 
um teri"('iio, (pialipiciMiue seja a irre- 
gularidade de sua róiina,em triângu- 
los, i'eclangulos 011 trapézios, os f|uaes 
se medem sepa!:Hlamt'nLe c se addi- 
cionam os resultados. Acontece mui- 
tas vezes irum lerreno de forma ir- 
regular ser inaccessivel ou oirerecer 
obstáculos o seu interioi*: nx'sle caso, 
envolve-se a supeiíicie n'um rectân- 
gulo, e, baixando peipendicularesdos 
vértices do polygono do terreno sobre 
os lados do rectângulo, divide-se a 
superficic coraprebendida entre as 
duas figuras em rectângulos, triângu- 
los e trapézios; calculam-se as áreas 
de todas eslas pai'ies excedentes, e a 
sua somma din.iinue-se á área do re- 
ctângulo auxiliar. É. em geral, útil, 
para maior segurança na exactidão 
da medição, transportar ao papel a 
figura do terreno medido; mas é isto 
indispensável quando o terreno tem 
uma forma complicada em que os seus 
numerosos ângulos exigem diversos 
cálculos. É o (|ue se chama levantar 
uma planta. (Veja Levantamento de 
plantas). A planta representa a figuia 
do terreno; mas para que represente 
também a grandeza, devera as medi- 
das ser reduzidas n'uma certa pro- 
porção. É o que se chama construir 
a escala da planta. (Veja Escala).— 
Os cálculos que exigem as diversas 
operações da agrimensura são dos mais 
simples. Basta apenas saber operar 



com a mulliplicnrSo de numeres in- 
teiros e deeiínaes e dividir |)0r dons. 
Mas é essfiiiial saber dar aos resul- 
ta rios das opera c^ics a signili-Mcáo 
co(i(;i-ela. (Vej;i AriE). I*ur exemplo: 
.'{00"i /, ^OnrrrlVKHi melros (piadra- 
dos, ou (íOOO ciTiliares, ou OU ares, 
ou <)0 centésimas do liednre. Outro 
exeniplo: :iOO"',7() / '■>()'",3í) = :JO()7() 
centimetios < '.'(líV) cenlimelros = 
OlOíiMOO cenliineiros (juadrados. ou 
ainda, sup[»rimindo o zero nos dous 
factores: :iO()7 decimetro-; • 20:5 de- 
cimelros = r)l()í:íl dei-imelros íjua- 
drados, que é e(]uiv;)lenle a tjlOi me- 
tros (piadrados e '21 decimeiros (jua- 
diados, ou 01 ares e -i-il decimas 
millesimas do are. Em summa : es- 
tando os dons factores referidos ao 
melro como unidade, depois de se se- 
pai'arem uf) produclo, para a dii-eita. 
tantos decimaes quantas \C^n\ os dous 
factores, o melro quadrado ou cen- 
liare éa unidade concreta a rpie vem 
i'eferido o produclo; movendo jjois a 
virgida duas casas para a esquerda, 
isto é, pondo-a na casa das centenas, 
teiemos o produclo referido a ares; 
raovendo-a ainda duas casas, teremos 
a hectares. Quanto aos algarismos á 
direita da virgula, os dous primeiros 
exprimem decimelios quadrados, os 
dous seguintes cenlimelros quadra- 
dos, ele, ed'este modo o mesmo pro- 
duclo pôde ser lido de vários modos. 

AGUA. 1. Physicamente considera- 
da, é liquida, transparente, incolor, 
inodora, insípida, ou com um sabor 
indefinível. Combina-se ao vinho e 
agua-ardente em todas as proporções ; 
dissolve a maior parte dos saes ou 
substancias crystallisadas provenien- 
tes de matérias vegetaes, e ião forte- 
mente penetra na madeira que uma cu- 
nha de pau sêcco metlida na fenda 
aberta em um pedaço de rocha, se de- 
pois a humedecem faz abrir a pedra. — 
A' semelhança do ar, é a agua indispen- 
sável á conservação da vida animal. Re- 
duzida a vapor,* condensa-se em nu- 
vens, desfaz-se em chuva, e volve-se 
um dos princípios mais fecundantes 
da vegetação. A agua corrente é o 
mais económico motor ao alcance do 



AGU 



AGU 



25 



homem; aíiuecida até certo grau, faz- 
se agente de força illimitada (machina 
a vapor); é, em summa, um raagtiiti- 
co adereço do universo. Os ribeiros, 
lagos e catadupas aformoseiam a pai- 
sagem, e não ha ahi cousa mais lua- 
gestosa que a torrente de um rio lar- 
go, e nada mais espectaculoso que o 
mar em tormenta. — A agua que en- 
volve parto do globo (a agua maríti- 
ma), ou (|uelliíí deriva no interior ou 
á ílôr da terra (agua doce) contém ma- 
térias estranhas, que se ilie depuram 
mediante a vaporisacão ou a dislilla- 
ção. Quem quei- saber a quantidade 
de matérias sólidas, taes como sul- 
fato de cal e carboi\ato de cal dis- 
solvidos na agua de fonte ou de poço, 
faz evaporar o liquido era ura vaso vi- 
drado posto ao fogo. Avalia-sc a pu- 
reza da agua consoante a qualidade e 
natureza do residuo. Devera consi- 
derai--se boas para beber as aguas 
correntes, límpidas, sem cheiro, nas 
quaes se cosem bem os legumes, e 
se dissolve o sabão sem produzir gru- 
mos, nem perder a limpidez, ainda 
que lhe dissolvamos nitrato do prata, 
e (]uo evaporadas, até ao extremo, dei- 
xem [)e(|ueno ou nenhum deposito. A 
agua pura. a não ser suflicientetnente 
ai'ejnda, não é boa. Aguas procedentes 
de chuva, neve ou gelo devem ser lil- 
tradas ao través de pedra porosa ou 
caruada do areia hna. Depois, é mis- 
ter vascolejal-a em local bem arejado 
para (jue ella se tortie excellente. — 
A agua passa do estado liquido ao so- 
lido pelo abaixamento do temperatu- 
ra ((juando gela). lN'este caso, o seu 
volume progi"essivamente diminuo até 
marcar côi'ca de quati-o graus centí- 
grados de temperatura, pouco mais 
ou nuMios, acima de z(!i-o do Iherrao- 
metro. K' então que ella chega ao seu 
niii.mmani. de intonsidadí^ (o maior 
peso no mesmo volume). D'a(pii era 
diante, o liquido dilata-se, e. se. o va.so 
que o coníém não é movido, a tem- 
peratura pode baixar até cinco graus, 
sem gelar; mas, logo que o vaso é 
agitado, apparecc multidão de cara- 
mellos ([lie se agrupam, loruiando 
massa de agua gelada, cujo volurae é 
maior que o do li([uido deijue proce- 



de. Calcula-se que 4 i litros de agua 
produzem 15 litros de gelo. Ulo ex- 
plica as rupturas longitudinaes das 
arvores nos invernos aturados. Tem- 
se visto a agua gelada, em um canudo 
de ferro da espessura de um dedo, 
abril-o por dous pontos. Tarabera se 
calcula (jue a força empregada pelo 
gelo no rompimento de uma esphera 
de metal, equivale ao peso de 13.8t)0 
kilog. — O peso da agua serve de ter- 
mo comparativo na apreciação da den- 
íiidadc dos corpos sólidos e li(iuidos; 
o ar serve de unidade para os corpos 
gazosos. Ora, o peso da agua está 
para o peso do ar como 1 está para 
0,00h28()"2, ou — que é o mesmo — 
dado um volume igual, a agua pesa 
781 vezes mais que o ar. A agua tam- 
bém se toma como typo de unidade 
de peso no systema métrico : a íjramma 
equivale ao peso do um centímetro 
cubico de agua pura no seu mnximum 
de densidade. — A agua também passa 
ao estado solido, combinando-secom 
saes e outras matérias. S", por exem- 
plo, vertemos agua sobre gesso ou 
cal, o liqiiid.o se combinará tão inti- 
mamente com aquellas niateiías, que 
não poderemos dístinguil-as pela vista 
nem pelo tacto. l'or elícito do caló- 
rico, a agua, á imitação de todos os 
corpos, couverte-s(; em Unido ou va- 
por. Se a temperatura é baslante- 
mente alta, a agua chega a ser invisí- 
vel, e, evaporando-se. passa pelo es- 
tado de cbullialo. (Veja V.\por. Den- 
SIUADE, Gramm.v, Ar). 

i. A agua para o chimico c prolo- 
.vndo de liydroíiciiio. K sabido que o 
hydrogenio puro é gazoso, incolor, 
inodoro e insípido, cora densidade 
muito menor á dos outros gazes, sen- 
do semente de 0,0(»8S. (juando se lhe 
mergulha um corjio intlammado. ou- 
ve-se iieiiuena detonação seguida de 
combustão por camadas, com uma 
chamma mortiça. Mas se se mistura 
oxygenio com IndrogiMiio, e lhe pe- 
gamos fogo, a detonação é víolenla, 
por(|ue a combustão se dá .•simulta- 
neamente em todos ospoulos. Se mis- 
turarmos um volume de ox\ génio com 
dous de hydrogenio, a mistura des- 
apparece logo pela detonaçáo, res- 



2G 



AGU 



AGU 



ijiido sórnenle algumas gollas d'agiia. 
J)'a<|iii sií infere, como im()orl;uili.s- 
siiria coiisciiiifíícia, qiK! a aí^ii.i (• iiiiia 
combinarão de oxji^enio com liy(Jro- 
g(!nio na relação iJe 1 |)aia -1 de vo- 
lume. Uepete-SK esta expeiitíiicia em 
um cnilidincliíi (insli umeiíio inven- 
tado |u)i' Volta, do(|ual nos servimos 
na analys(! do ^m/,), em (|iie st; iotio- 
(hi/.em volumes deltíirninados d<! oxy- 
genio e liydiogeiíio. Se o volume do 
segundo gaz é o dobro do primeiro, 
esvaese tudo, e formase agua. Se lia 
excesso de (jxygenioou li>drogtínio, o 
excesso, depois da detonação, liça in- 
tacto. Logo, para rompiir certa (|uan- 
lidado de agua, é pi'eciso possuirmos 
certa (pianlulade d'ai|uelles dous ga- 
zes. Veremos no artigo Au como se 
obtém o oxygenio. Obtemse o liydro- 
genio mettendo zinco, acido sulpliii- 
rico e agua, em um vaso cujo cullo 
tem um tubo recurvo ipie mergiillia 
em balão de vidro cheio de agua ou 
merciirio. Ozinco apodera-se do oxy- 
genio da agua, e, formado o oxydo lie 
zinco, une-sc ao acido sulpliuiico for- 
mando o sulfato de zinco; e então, 
o hydrogeiíio da agua decomposta, 
destaca-se era forma de gaz. Em lo- 
gar do zinco pôde erapregar-seoferro. 
— Para decompor ou analysara agua, 
mcltc-se em ura tubo de porcellana 
limalha de ferro. A(|uece-se ao fogoe 
faz-se passar através do tubo um peso 
determinado d'agua em vapor: o fer- 
ro apodej'a-se da raaior parle do oxy- 
genio da agua, e a restante liquidiíica- 
se em um alambique. O hydrogenio 
apparece em um grande frasco cheio 
d'agua. Antes da operação pesa-se a 
agua e o ferro; em seguida pesara-se 
lodos os produclos; e, mediante isto, 
obtem-sc a certeza de que a agua se 
compõe de iOO paites de oxygenio so- 
bre 1-2,5 de hydrogenio em peso, ou 
de um volume de oxygenio e dous de 
hydrogtMiio. A analyse da agua tam- 
Lem pode fazer-se por meio da ele- 
ctricidade voltaica. (Veja Electrici- 
dade). 

AGUA MARINHA. (Veja Pedras). 

AGUAS MINERAES. I. O acha ta- 



raenlo da terra para os pólos, impen- 
de-nos a cr^r (|ue o globo terrestre 
foi oiiginariamenie (lindo, por (jue, 
n'esia liypotbese é essa exactamente 
a fiJrina <pie elle de per si devia lo- 
inar, em virtude do seu movimento 
de rotação, segundo está demonstra- 
do [lelos cal(;ulos dos geoimuras. Al('fn 
d'isto, sendo recordificida pelos astró- 
nomos a mesma ligiira em outros |)la- 
nelas rodando sobre si mesmos, e 
sendo sempre proporcionada a (juan- 
tidade do achatamento á rajiidez da 
rotação, deve cr6r-se (jue o acha- 
tamento em todos os casos seja o 
effeito do movimento rotatório, e 
(jiie d'este modo a terra e os pla- 
netas hajam sido lluidos primitiva- 
mente. 

Quanto á terra, este facto conlir- 
ma-se com outro (jue nol-o explica : 
c vem a ser (|ue o nosso globo tem, 
no seu interior, calor considerável e 
independente do que lecebe do sol, e 
que é um remanescente do seu calor 
original, do qual uma só [larle se dis- 
sipou através da sua superfície. .Mos- 
tra a observação que ao [)enetrarmos 
no interior da terra, achamos (jue a 
temperatura das camadas vai aiigmen- 
tando cerca d' um grau centésima I por 
cada "25 ou 30 metros de profundeza. 
Tudo pois nos leva a crer (|ue a flui- 
dez da terra antes de adquirir a for- 
ma espheroide era devida ao calor ; 
e que primordialmente foi de todo 
era todo lluida; e, arrefecendo, de 
suas partes superticiaes se formou 
uma espécie de crusta mineral, em 
quanto interiormente ficou possuindo 
temperatura capaz de derreteras dif- 
ferenles matérias (pie conhecemos em 
estado solido. Chama-se calor cen- 
tral nquelle calor próprio do interior 
do globo. 

:2. Esta elevada temperatura actuan- 
do sobre as matérias em fusão que 
formam o centro da terra, explica na- 
turalmente a producção e accumula- 
ção, abaixo do seu invólucro solido, 
das matérias gazosas, cuja existência 
se manifesta nas erupções vulcânicas. 
D'ella nos vem também a mais pro- 
vável explicação das fontes quentes c 
mineraes quese observam nos paizes 



AGU 



AGU 



vulcânicos, e nas regiões raonlanho- 
sas, raras vezes nas grandes esplai- 
nadas, mas ordinariamente onde hou- 
ve em remotas eras deslocações nume- 
rosas e levantamentos de rochas ma- 
ciças. Taes fontes procedem com cer- 
teza das emanações gazosas que sem 
seccar resfolgam d'esses focos vulcâ- 
nicos, seu reservatório commum, e 
jorram á superfície por meio de du- 
etos que confina m com as crateras 
dos vulcões, e lambem por fendas la- 
teraes iiue as repuxam algumas ve- 
zes a enormes distancias dos vulcões 
actuaes. Estes gazes, abundantes de 
vapores aquosos, atravessando longos 
canaes subterrâneos, esfriam ao apro- 
ximarem-se da superUcie da terra, c 
transforma m-se em fontes liquidas 
condensando-se, e d'ahi resulta ser 
n'esla forma que ordinariamente as 
vemos. Existe por tanto intima con- 
nexão entre o phenomeno das fontes 
mineraes e o das emanações vulcâ- 
nicas, 

3. Outra classe de fontes provém 
das aguas que escorrem na superficie 
da teira e se innilram no solo: são 
as fontes ordinárias. E sabido que di- 
versas rochas movediças, as areias, 
por exemplo, se deixam atravessar da 
agua á maneira de crivos; e que ou- 
tras são penetradas por ella em vir- 
tude da sua grande porosidade ondas 
numerosas fendas (|ue as sulcam (a 
greda e muitos outros calcareos). Cir- 
cula pois a agua no interior da terra, 
ou nos interslii:ios das rochas, quer 
seja pelas fendas naturaes que lhes 
separam as camadas, quer seja por 
canaes que ellas tem aberto, levando 
em dissolução as partes arenosas ou 
calcareas por ondíí romperam. Se as 
camadas permeáveis (|ue lhes dão pas- 
sagem são contidas entre camadas 
impermeáveis, taescomoos depósitos 
de aigilla, estes estancando as aguas, 
formam levadas (/ííí/^/ícs) mais ou me- 
nos extensas, que seguem todas as 
inllexOesdascamadas, umas foiínadas 
d'agua estagnada, outras d'agua cor- 
rente. E como (' possivel encontra- 
rera-se alternativas de camadas per- 
meáveis e im[)ermeaveis sobrepostas, 
pôde acontecer (lue a diíTerentes pro- 



fundezas no mesmo logar se encon- 
trem estanques d'agua, e percebe-se 
que estes sejam tantos quantas são as 
camadas porosas sobrepostas a cama- 
das impermeáveis. É conhecido que 
as camadas raras vezes tem posição 
horisontal em toda a sua extensão; 
mas sim formam em geral bacias 
geológicas junto das quaes ellas so- 
bresahera; e é por isso que as ve- 
mos descarnadas na quebrada das 
montanhas ou em chãs mais elevadas 
que as outras, onde ellas se apresen- 
tam horisontalmente. As levadas da 
agua que as acompanham, e ás vezes 
medem vinte a trinta léguas de lon- 
gitude, retrahem-se ao mesmo tempo 
que as camadas; e até nas partes mais 
elevadas, onde os dous terrenos, per- 
meável e impermeável, rebentam á 
ílôrda terra, é que ellas tem origem. 
N'esta linha interceptora entre as ca- 
madas e a superfície terrestre dá-se 
a absorpçãod'agua que alimenta as le- 
vadas subterrâneas, cujos reservató- 
rios são frequentemente os lagos e os 
ribeiros. Logo queestaslevadas, mais 
ou menos entranhadas na terra, se 
alteiam de novo no lado opposto ao 
seu ponto de partida, se ahi encon- 
tram nova sabida em o nivel menos 
elevado que o ponto d'onde partiram, 
dão nascimento a uma fonte n;itnral. 
Nos pontos em que esses depósitos se 
não erguem o bastante para chegar á 
superficie, pôde fazer-se uma fonte 
arlcsiana ou artificial, estabele;:endo 
mediante a sonda communicação en- 
tre a superficie do solo e o deposito 
da agua por um buraco cylindiico, 
guarnecido de longo tubo para que a 
agua possa subir sem perder-sc no 
terreno circumposlo. A agu;i move-se 
assim por uma esjiecie de sipliào in- 
vertido, cujo ramo longo está posto 
do lado do reservatório que alimeni;* 
a levada, e cujo ramo curlo •'• repre- 
sentado pelo tubo por onde «lia sobe. 
Segundo esta disposição, vè-se cpie a 
agua deve repuxar do poro furado, 
se a altura dxmde ella i>arle excede 
baslantemente a do oriticio por onde 
golfa. Tal é a origem das fontes ar- 
tesianas, e de certas aguas que bro- 
tam naturalmente. 



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AGU 



AGU 



AGUDEZAS. 1. Ami(/us. Cerlo pa- 
r;i.sil;i tlcli.iliia ;j jKis.sna cm casa ôc, 
(\muii iaiil;iia. i)izia-lli(! algiicin cii- 
láo : — Ao iiKMios Iara juiiiiciío a cJi- 
geslão. — (^diiIkm^o um velhaco (jiio se 
(Muiinieccii — (Jiz .M. (Jo daville. — 
Haverá (piaitMila aiirios (|ii(! clle me 
poiJia a honra (hí o [tiolcj,'!'!'; úv/auu- 
iios (J(;|)i)is, chamava-me seu aiiii^ío; 
hoje 111'in iu(! conipiiiiieiila. — 1'or 
Saiauazl Falias assim a lt!u senhor? 

— exclamava llemiiiue IV conlra Vii- 
leroi, (|ue se lhe alievera em palavras 
menos respeitosas. Mas (i'ahi a i)ouco, 
o rei íoi para elle de bom loslo, e 
disse-lhe: — Siir. VilltM-oi,(lous velhos 
amidos não se (Jesavém por Ião pouco. 

— Cerla pessoa disse a um amigo fjue 
lhe recusara um favor injusto, ipie a 
sua amizade lhe não prestava |)aia 
uada. — Nem a lua a mim — ifísjjon- 
deu o outio — poi(jue só se alimenta 
á custa d(^ injustiças. — Outro induzia 
o seu amigo a seivil-o com um jura- 
mento falso. - Imponhú-me o dever 
de servir os meus amigos sem olfen- 
der os deuses — di>se o pagão. — É 
rnelhoi' descoser que lasgar — dizia 
Catão, o antigo, fallando (Ja separa- 
ção de dons amigos. — Avém-te com 
os glandes como com o fogo — dizia 
Diógenes — nem muito longe, nem 
muito perto (i'elles. — Encarecia muito 
alguém a felicidade de Gallisthenes 
por (|iie se banijueteava á mesa de 
Alexanih;e. Ao qual respeito disse Dió- 
genes: E n'isso que eu o reputo in- 
feliz, pois (jueéohrigado a comer se- 
gundo a hora e a vontade alheia. 

2. Arioslo e Arislippo. Ariosto sa- 
bia primorosamente o idioma latino, 
mas preferia escrever em italiano. 
Perguntou-lhe alguém a razão. E'que 
eu antes quero — disse elle — ser o 
primeiro escriplor italiano que o se- 
gundo entre os latinos. — Era modes- 
lissima a sua vivenda. — Como vives 
tão ao singelo, tu, que tens poetisado 
inagnificos palácios?— pergunta ram- 
Ihe. — E' porque é mais fácil ar- 
cliitectar palavras que pedras — res- 
pondeu Arioslo. — Porque é que os 
philosophús coilejam tanto os gran- 
des, e pouquíssimo se frequentam 
uns aos outros? — perguntou Dyoni- 



j sio, o Tyranno, a Arislippo. — K \n)V- 
I <|ue os médicos vão mais a casa dos 
enfermos. — Disse Diógenes: Se Aris- 
ti|)po se contentasse ((jin legumes, não 
andaria ahi a cíMlejai- piimipes ab- 
jectamente. — Ai islippo replicou: Se 
esse (pie me condemna coubesse cor- 
tejar [uiiicipes, não se contentaria 
com legumes. — Pediu .')() djaclimas 
a um pai poi- lhe eilmai- o lilho. — 50 
drachmas ! — exclamou o homem — 
Por menos d'essa quantia compro eu 
um escravo ! — l'ois bem — tornou 
Arislippo — compra-o, e lerás dous. 

3. (jmrn.sííião. O oiador Celius, 
homem excilavel e impelm.so, ceando 
com um sujeito de bom natural que 
tudo lhe approvava. não jxjde em fim 
solTrer-lhe ião monolona condesi:en- 
dencia. — Ora vá — exc-lamou — con- 
Iradiz-me seja o que fòr, para (]ue eu 
possa co;ivencer-me de ipie somos 
dous. — Fallar sem jiensar, é d»'sfe- 
char sem pontaria. — Pelo oídinario, 
(juem sabe pouco falia muito, e quem 
sabe muito falia pouco. — Quem não 
sabe calar não sabe fallar. 

4. Drspcsn. Viu Diógenes um pró- 
digo (|ue tinha para a côa somente 
azeitonas. — Se tivesses sempie assim 
almoçado, não lerias cêa tão má— re- 
ílectiu-lhe o philosopho. — Dizia ura 
íilho ao pai que o visitava : — Que é 
que fez o pai para tanto se enrique- 
cer? — Fiz pouco — disse o pai, apa- 
gando uma das duas luzes que os alu- 
miava — contentava-me com o bas- 
tante, e accendia só uma vela. quan- 
do não eram precisas duas. — Sócra- 
tes, recebendo um dia alguns amigos, 
foi arguido de pouco esmerado nos 
preparativos da recepção. — Se os 
meus amigos são bons, isto lhe basta ; 
se o não são, é de mais isto — res- 
pondeu Sócrates. — Um avaro, que 
deu um jantar muito sovina, dizia 
aos .seus convivas: — Não heis de ler 
indigestão. — Estás enganado — re- 
plicou alguém — é difficil digeiir uQi 
jantar d'esta casta. — Josepbina, des- 
{.Miilada das pompas irrisórias de uma 
senhora nobilíssima que lograra ser 
recebida na côrle consulai-, pergun- 
tava ao marido: — Que me dizes lu 
d'esla senhora X... que se esladeia 



AGU 



AGU 



20 



com dons rhusseiirs alraz da ca; rua- 
gem ? — Não são chassfiws — replicou 
o priraeiro cônsul — são bnicuunirrs '. 
5. Drsrjos. Alguém disse a Mone- 
demo, piídosoplu) grego: — É ventura 
grande ter cada um quanto quer ler. 

— Maior ventura é estar cada um 
contente com o que tem. — Pedes 
aos deuses o que te parece bom — di- 
zia Diógenes — c os deuses te fariam 
a vontade, se não houvessem pieda- 
de da tua esLuilicia. — Arciíeláo, rei 
macedonico, olTereceu grandes cabe- 
daes a Sócrates para o attrahirá cor- 
te. Sócrates respondeu: — A maquia 
da farinlia é muito barat? em Atiíe- 
n<is, e a agua é de graça. Quem tem 
o preciso não desatina á cala de ri- 
quezas. —Pliocio, allieniense cele- 
brado, refnsou as dadivas de Antipa- 
ler. Aconselliou-lhe o principe que 
as aceitasse para seus filhos. — Se 
meus iilhos pensarem honradamente 

— i'espondeu Pliocio — terão que far- 
te jio que me abasta a mim; se fo- 
i'era d'outra Índole, não lhes faltarão 
riquezas. 

6. Dever. Iluet, um dos homens 
mais insignes do século passado, sen- 
do eleito bispo de Avranches, conti- 
nuava a estudar infatigavelmente. 
Muitas vezes o procurara um aldeão 
da sua diocese paia lhe fallar. Di- 
ziam-lhe sempi-e que sua excellencia 
estava estudandti e não i^ecebia. — Mas 
porque não nos mandaram bispo (]ue 
já tivesse estudado? — dizia ocampo- 
nez. — Indo iJêdir justiça a Phili|)pe, 
J'ei da Macedónia uma mulher, o prin- 
cipe deferiu o exame da petição i)ara 
outro tiia, dando como escusa ir di- 
vertir-se. — Kntão di'ixe de ser rei — 
disse a mulher coui vehemencia. — 
Pliilippe, abalado por semelhante in- 
vectiva, concedeu-lhe o pedido. — As 
damas, (|U(í assoalhavam suas jóias 
diante de Cornélia, Iliba de Scipião, 
pedií-am-lbe ijue mostrasse as suas. 
(Cornélia cb;imou os Iilhos, (luc ella 

' Intiii(lii7,ivel. (.7i(i.s's<'i(;-s (cariíiloros) s;io lacaios 
<lo libri' appitralosa. Itraconuierií são caradorca 
i|iii^ iMi-am a liirto nas tapadas. Náo lemos homo- 
iiyniia cpio nos Ui": o sentido equivoco e chistoso das 
iluas expressões. 

-V. du i: 



criara esmeradamente para gloria da 
pátria, e mostrando-IITos, disse: — Os 
meus enfeites e galas são isto. 

7. Aduladores. Os senadores pe- 
diam a Tibério (jiie jiozesse o seu no- 
me ao mez de novembro em que nas- 
cera, erepresentavam-lhe quejá dous 
mezes eram nomeados, um jiillio, de 
Júlio César, outro agosto, de Augus- 
to. Tibério respondí'u-Ihes com esta 
phrase tão espirituosa quanto discre- 
ta : — Que haviam de fazer os senho- 
res senadores, se tivessem treze césa- 
res?— Dyonisio, o Tyranno, fazia ver- 
sos; e, como n^^este genei'o. mais que 
nos outros, cada poeta se embelleza na 
sua obra, dava-se por mais honrado 
dos poemas que fazia que das faça- 
nhas militares ijue praticara. Os poe- 
tas, que elle acaieava á sua aula, en- 
comiavara-lhe os versos. Todavia, 
Philoxeno, famigerado poeta dithy- 
rambico, inimigo de lisonjarias, disse 
ousadamente a Dyonisio que as suas 
poesias não jireslavam; e para logo o 
rei ordenou que o levas.^em ao cár- 
cere. Porém, como, ao outro dia, to- 
da a corte pedisse o perdão de Philo- 
xeno, o rei admittiu-o novamente á 
sua mesa, onde, como costumava, 
trouxe á pratica os seus poemas, elo- 
giando-os, e ao mesmo tempo son- 
dando a critica de Philoxeno acerca 
de alguns trechos muito de seu sa- 
bor; mas, o consultado, em vez de 
responder, chamou os guardas, e ex- 
clamou :r—Levem-me oiilia vez ao cár- 
cere. — Menécrato, medico famoso, 
que curava epilépticos, era Ião ja- 
clancioso de sen saber, que levoii a 
soberba ao arrojo de chamar-se Jú- 
piter. Escrevendo um dia a IMiilipiie, 
disse: — Menécralo a IMiilippc. perfeita 
felicidade! — Pliilippe resp(uideu : — 
Pliilippe a Menécrato, saúde e juizo! 

8. FonírncUe, Frederico w. Os lio- 
mens são parvos e maus — dizia Fon- 
tenelle — mas laes i|iiai's são, lenho tie 
viver com elles, e muito a tem|)o me 
convenci d''isso. — Frederico ii, as- 
sistindo um dia a uma missa ("an- 
lada, celebiada por um cardeal, dis- 
se: — Os calvinistas tratam Deus como 
um servo, os luiheianos como seu 
par, e os catholicos como Deus. — 



30 



AGU 



Ohservnndo, fim urna pararin, quo, 
uni oflicial tinha um gilvaz, por- 
};iiiitf)n-lli<': — Km (|uo taverna apa- 
nliaslfi issoV— Km Kolin — respondeu 
o ollicial — onde vossa maí^estade fez 
as despezas (o rei linha' perdido a 
batalha). —Perdera um bispo },'rande 
l)arte dos seus reiblilos. om resultado 
da desinemlirarão da Pobinia. — Se 
S. Pedro — liie llisse Frederico — me 
recusar entrada no paraiso, espero í]ne 
lá me leveis debaixo de vosso manto 
sem que niiii^niern AC- IV-. —Seria dií- 
licnllosa cousa — replicou o bis|io — 
lioripie vossa mai^eslade dilaceron-me 
lauto a cajia, que eu não seria capaz 
de esconder contrabando com ella. — 
Um ofíiiiaK pensando (|ue o rei an- 
dava loiíí^e, loi passear, disfarçado, 
nos jardins de Smiíf-souri. Na revolta 
de uma alêa deu de rosto com o rei 
que o leconheceu. — Quem ésV — 
lhe disse Frederico — Senhor, sou 
um oflicial que ando aqui a passear 
iuroí/nilo. -~Ore\ desatou a rir, e dis- 
sc-lhe: — Acaulela-te que não te co- 
nheça o rei —Havia elle mandado 
cunhar moeda falsa que nenhum co- 
fre real (|ueria receber. Certo padei- 
ro (|ueria pagar com aquella moeda 
o valor do trigo a um lavrador que a 
rejeitava a grandes gritos. O rei ia 
passando incognitamente: — Porque 
não (píeres tu este dinheiro?— per- 
guntou elle ao aldeão. — E tu queres 
este dinheiro? — perguntou o lavra- 
dor. — E Frederico foi seu oaminho. 

9. Honra. Darío, rei da Pérsia, en- 
viara ricos presentes a Epaminondas. 
Este ilhistre varão respondeu aos por- 
tadores das dadivas: — Se Darío quer 
ser amigo dos thebanos, não tem 
precisão de comprar a minha amiza- 
de; e, se outros são seus sentimentos, 
carece de riqueza bastante a corrom- 
per-me. — Um cabo de guerra foi 
mandado entreprender uma proeza 
perigosíssima. Aventaram-lhe pre- 
textos que o dispensassem de execu- 
tar as ordens. —A vida posso eu sal- 
var, mas quem salvará a rainha hon- 
ra?— respondeu elle. 

10. Mau humor. Uma senhora de 
porte, como não lograsse obter de 
M. de HarJa^, presidente do parla- 



AGD 

mento, uma graça, ficou muilo agas- 
tada. Nào obstante, elle (juiz acora- 
panhal-a á porta; e, como a rlama 
se op|)ozesse, lingiu ceder, Saliiuella 
resmoneando e[iiitielos desabridos 
contra o honesto magistrado, sem 
dar tento de (pie elle a ia acomfia- 
nhainlo; mas como em íim o visse 
ao voltar o rosto, exclamou: — Ah! 
v. exc.» estava aqui?! — Sim. minha 
senhora ; v. exc^ diz cousas tão bo- 
nitas (pie eu não pude deixar de a 
seguir. — D^Aubigrií- eslava deitado a 
par com o leito de Il('n?i(píe iv e jul- 
gava-o adormecido (juando (Jisse a la 
Force, outro aulico: — Nosso amo é 
o mais villão e ingrato sujeito d'este 
mundo!— Ooulro, estrouvinhadocom 
somno, perguntou-lbe que dizia. O 
rei, que não dormia, exclamou: — 
La Force, não ouves o que diz d'Au- 
bigné? Diz que eu sou o mais villão 
e ingrato sujeito dVste mundo. — 
E, depois, Hcnriípie iv nunca mais 
fallou (Peste caso a algum dos dons. 

— Um mau pagador pediu vinte es- 
cudos de empréstimo a S. Francisco 
de Salles : — Esperai — disse o santo 

— a(pii tendes (Jez : dou-vol-os, não 
vol-os empresto, e ganhamos ambos. 

11. Mcnosiwero, má cara. Este ho- 
mem tem um exterior desgraçadíssi- 
mo — dizia um palaciano, indicando 
um embaixador mal entrajado e de 
feia presença. — Como assim? — lhe 
responderam — aquelle homem tem 
cento e vinte contos de renda. — Oh! 
então aquelle homem é excellente 
creatura? — E foi d"alli logo desen- 
tranhar-se em amabilidades com a 
pessoa. — Um homem de c(n"te des- 
denhava dos agricultores. Pergun- 
tou-lhe Luiz \ii qual era a cousa 
mais necessária. — E' o pão — res- 
pondeu o fidalgo. — Então porque 
tratas descaroadamente aquelles que 
te dão o pão? — Uma senhora levou 
Pélisson a casa de um pintor, e, dei- 
xando-lho, disse muito sacudida: — 
Feição por feição. — Pélisson, um dos 
mais gentis espirites do século de 
Luiz XIV, tinha cara disforme. Dei- 
xou-se ficar grandemente enleado, até 
que o pintor lhe disse : — Fui encar- 
regado por esta dama de lhe pintar o 



AGU 



AGU 



31 



quadro da tentação de Jesus Ghristo 
no deserto. Por espaço de un^ia hora^ 
discutimos a cara que havíamos de 
imaginar no diabo, e ella por fim re- 
solveu que o snr. Pélisson me fosse 
o modelo. — Jaime i pediu a Bacon o 
seu conceito ácprca de certo embaixa- 
dor mais para brilho que para sagaci- 
dade. — E' um homem grande e bem 
apessoado. —Mas a cabeça? — tor- 
nou o rei. — Senhor — redarguiu Ba- 
con — as pessoas muito corpulentas 
parecem-se muitas vezes com as ca- 
sarias de quatro ou cinco andares, 
onde ordinariamente o ultimo andar 
é o peormente mobilado. — O inglez, 
fora da sua ilha, é pessoa estima bi- 
íissiraa — dizia ura embaixador fran- 
cez a um lord. — Tem sobre v. exc.a 
uma vantagem — replicou o lord — 
que é ser estimável em alguma parle. 
— Uma senhora, escutando um man- 
cebo extravagante que invectivava 
contra todas as senhoras, disse ás 
pessoas circumstantes : — Este man- 
cebo não terá mãi? — De que servem 
n'este mundo tantos padres, tantos 
frades e tantas freiras? — E o se- 
nhor, dequc serve?— perguntou al- 
guém ao interrogador. — Esses (jue 
o senhor considera inúteis fazem 
n^esle mundo o que o senhor deve- 
ra fazer e não faz. 

12. Urhnnitlaclr. Malherbe, poeta 
celebre, mordaz e cáustico por gonio, 
sendo convidado a jantar em casa de 
um bispo, pregou-se a dormir depois 
de jantar ccmo costumava. O prela- 
do, que devia pregar, perguntou-lhe 
se ia ao sermão. — Não, senhor, (|ue 
eu durmo bem sem isso — respon- 
deu o poeta desabridauiente. — Per- 
gunlaram um dia ;i Fonlenelle como 
adíjuitira tanto amigo e nem um só 
inimigo : — Gom estes dous axiomas : 
Tudo fióiie ser, e Ioda a (/ciilc Icm ra- 
zão. — Um sábio conhece o ignoran- 
te, porque foi ignorante, mas o igno- 
rante não pódeconheiTr o sábio, por- 
(|ue nunca o foi, — Pensai duas ve/.es 
antes de fallar uma, o. fallareis duas 
vezes com mais acerto— dizia Plutar- 
co. — Quem lalla, semeia ; (juem es- 
cuta, colhe. — IJns (pie (|uerem ler 
sempre razão, são quasi sempre pes- 



soas desarrazoadas. — Quem principia 
a fallar interrompendo quem lhe está 
fallando, dá o mais relevante teste- 
munho de beslidade que pode dar. 

13. Probidade. Um mau homem af- 
firmava o que quer que fosse com ju- 
ramento. — Não é a juramentos que 
se presta credito: é á probidade — 
alguém lhe observou. — Ag^siláo, rei 
de Esparla, cedendo á impertinên- 
cia de um vassallo. promelteu-lhe 
cousa que, depois de rellectir, lhe pa- 
receu injusta. Passado tempo, disse 
ao espartano que não podia conceder- 
Ihe o pedido por ser injusto. — Mas 
os reis — respondeu aquelle — só de- 
vera prometter o que tencionam cum- 
prir. — E os vassallos só devem pe- 
dir aos príncipes o que elles podem 
conceder. — Um dos criados da ca- 
mará de Luiz XIV pediu a seu amo 
que recommendasse ao primeiro pre- 
sidenie uma demanda que elle Irazia 
com seu sogro. — Senhor, basta que 
V. M, diga uma palavra.— E, se tu 
estivesses no logar de leu sogro, que- 
rerias que eu disspsse essa p;davra ? — 
Incitavam a^Socrates a pedir repara- 
ção de ultraje que um homem bru- 
tal lhe fizera. — Gomo assi;n? — disse 
Sócrates — se um ca vai lo ou um [)ur- 
ro me escouceassem, qutMeiiam os 
meus amigos que eu os chamasse ao 
tribunal? — Segredavam a Júlio Ge- 
sar que se tramava contra elle. — Me- 
lhor é morrer de uma vez que estar 
sempre em desconfiança — respondeu 
Gcsar. 

14. Zombaria. O governador de 
uma cidade pequena de França, en- 
carregado de fazei' uma allocução a 
Henri(jue iv, principiou assim: — Se- 
nhoi'. o gosto que lemos ao xòv V. M. 
('• tamanho, que... mis... que nós...— 
E íicou engasgado. — Sim — lhe disse 
o piincipe com bondoso sentblante — 
o gosto (|ue tendes é tamanho (]ue... 
nem o podeis exprimir. — lin parvo 
escarnecia as orelhas d'uni hom(>m 
douto tjue eram grandes: E verda- 
de — respondeu a pessoa (-hacoleada — 
eu lenho orelhas grandes de mais pa- 
ra homem: mas vosst^ ha de convir 
que as tem peíjuenas de mais para 
Imiio. — Kii :mles (piero não ter ra- 



32 



AGU 



AGU 



zão (|ue lel-a ;i ffiiçàotla vossa— dizia 
Hoiloaii a Uacitii; a pioposilo de certa 
zonib.iiia ti:iiil" caiislica. 

15. Suhrii (1(1(1". l in rei da l'ersia 
enviou ao calif;i Miislapliá um iiiiidi- 
a> haliilissiiiio. KsUí, Ioj^o (|uo i;li('j^i)ti, 
(|uiz síilxT como SC vivia M'ii(|uclla i:<')r- 
tc. IU'S|ioiidciam-lli(!: — Aijui, (|uau- 
do lia roínc, < omc-sc, mas não st; far- 
ta a t,'cnlc. — Vou in(! ciiil)Oia — disse 
o medico— iiâo lenho i|ii(! fazer a(|iii. 
— l'eriíiiii(aii(lo iiiii medico ao padre 
liouiiialoue (|iic icj^imcn de vida oIj- 
seivava, respondcii-liie o padre t|iie 
comia uma vez por dia. — Não faça 
pultlicoo seu sei^iedo — dissí! o medi- 
co — senão lira nos a clinica Ioda. — 
Timollieo, cidadão illuslre de Allienas, 
Janlando eiii casa de Plalão um fru- 
gal repaslo com miiilo prazer seu, eii- 
conlrou no dia segiiinU! o illuslre plii- 
los(jplio, e disse-llie: — Gosto miiiio 
dos vossos janiares ponjutí a gente se 
acha bem no dia seguinle. — Arla- 
xerxes, rei da l'eisia, derrotado em 
uma batalha, (|iiaiiilo fugia, foi obri- 
gado a comer ligos e pão do rala, co- 
midas giosseiras ipie llw; parecerani 
saborosas. 1*- enlão exclamou: — Ó 
meu Deus, de (pie prazeres eu me ti- 
nha privado por demasia de delicade- 
za!— Se queics cear deliciosamente — 
dizia um philosopho — come um parco 
jantar. — Quem gasta de ante-mão o 
seu rendimento não fará a colheita, 

10. Vaiílíuii'. Disse La Bruyère: — 
Quem muito se enfatua está fortemen- 
te convicto de (|ue tem muito espiri- 
to: isto de ordinar'io succede a ijuem 
tem pouco, ou nenhum, — Alguém 
disse, um dia, ao doutissirao Vossio, 
cuja vasta erudição reluz em tantas 
obras, que toda a gente suppunlia 
que em Iclias e sciencias nada lhe 
fosse desconhecido. — Está muito en- 
ganado — respondeu elle — eu não 
sei a quarta parte das cousas que muita 
gente pensa que sabe. — Um patarata 
muito enfatuado de sua pessoa, apre- 
sentou a uma senhora da alta socie- 
dade o marquez de Thierceville : — 
Elle não é tão tolo quanto parece — 
disse elle, depois dos comprimentos 
do estylo. — E o joven marquez acres- 
centou logo:— Minha senhora, é a 



única dilTerença que .se dá entre mim 
,c este .senlior.— Dizia alguém ao poe- 
ta Theu[diilo:— K pena (|ue o senhor 
não seja um sábio, lendo lanto espÍ7 
rito ! — K Theopliilo HNpondeu : — É 
I pena (|U(í o senhor não lenha espirito, 
sendo tão sabio. 

17, A(iu<l('Z(ts iliictsds. Diógenes, 
vendo uma vez um homem desastra- 
do, exeicitando-se a atirar o dardo, 
foi pòr-se ao pé do alvo, e como lhe 
peigunlassern a razão daquillo, res- 
|)ondeu : — i^ porque lenho medo (]uc 
me acerte em mim. — l-m mancebo, 
a (|uem allribuiam o cume de haver 
envenenado o pai corn um pastel, 
tratava Cícero com peiulante soberba, 
ameaçando-o de vulgarisar contra elle 
toda a casta de insulto. Dizta-lhe en- 
tão Cicero : - Antes quero isso de li 
(pie o leu pastel. — Dizia Fabia D0I07 
bella que s(i tiidia trinta annos: — E 
tão verdade o que ella diz — dizia Ci- 
cero — (pie ha mais de vinte (|ue liro 
ouço dizer.— IMiilippe, rei da Macedó- 
nia, tendo de sentenciar entre dous 
scelerados, depois de lhes ouvir- as ra- 
zões, ordenou, (jue um sahisse da Ma- 
cedónia, e (jue o oulro fosse atraz 
d'elle. Com esta chistosa sentença des- 
terrou-os ambos, 

DirccçíW. Custa a cr-(}r ipianto es- 
tes i"elan(:os formam a indole com as 
sabidas felizes que subtili.sam o ani- 
mo, e entram ao coração, afazendo o 
moço a observar-se interiormente e 
a conhecer-se por si mesmo.— Nota- 
rei somente que estas agudezas não 
devem ser pi'ofusameiile referidas, 
a íim de (jiie os alumnosse não acos- 
tumem a ser zombeteiros, semsabo- 
r"es, seccos, e imper-linenles, — Con- 
vém (jue estes trechos derivem natu- 
i'almenie, e como accidenlaes na li- 
ção ou na conversação; o (jue não 
obsta i|ue o professor pr-edisponha a 
occasião oppoíluna: com tal desiguio 
é que eu os ordenei em ordem lue- 
thodica para coadjuvar gratamente a 
memoria. — Finalmente, não devem 
dar-se mais de dous ou ties; e se a 
lição entende com crianças, é bom 
aproveitar- o ensejo de lhes contar a 
historia do homem de que se trata. 
Quanto a elles, a ayudeza continuará 



ALA 



ALA 



33 



a inleiessal os no que depois se dis- 
ser, e o professor tel-os-ha allen- 
ciosos sempre. — Percorridos lodos 
aquelles traços, é bom dictar ás tem- 
poradas o artigo, que se decore, e 
exigir dos alumnos a historia dos per- 
sonagens nomeados, ou uma ampli- 
ficação de cada tiaço. (Veja Provér- 
bios. EPlGRAilMAS, 'íIORACIO, MOLIÈ- 
RE, BOILEAU, La FONTAINE, La BrLYÈ- 

RE, e os de maisaulhores latinos). 
ÁGUIA. (Veja (Rapinaktes). 
ALABASTRO. (Veja Calcareos). 
ÁLAMO. (Veja Ulmaceas). 

ALAVANCA, BALANÇA. \. A ala- 
vanca é uma haslea de ferro, de pau, 
ou de qualquer outra matéria solida 
e resistente, destinada a mover far- 
dos. Em theoria, a alavanca redu/-se 
a uma linha iccta ou curva, inllexi- 
vel, sem peso, e movei ao redor d'um 
ponto fixo, submettido á acção de duas 
iorças. 

lia Ires cousas a considerar n'uma 
alavanca : o pontu tiapoio: as duas for- 
ças, uma obrando como polcncin, a 
outra como resistcncin : e as distan- 
cias do ponto d'apoio as direcções das 
forças, que se chamam brarus da ala- 
vanca. Ura dos piincipios do c(|uili- 
brio da alavanca c que as duas forças 
estejam entre si na razão inversa dos 
braços. Este principio é uma das im- 
mort;ies descobertas de .\rcliimedes, 
o qual exprimia t-nthusiaslicamente 
toda a sua importância por estas pa- 
lavi.is memoráveis: ^Dai-uie um [)on- 
to (i'apoio no espaço e uma alavanca, 
e eu moveiei o mundo.» — Sabe-se 
quanto é importante o emprego da 
alavanca para o transporte dos fardos, 
pedras, etc. ; não ha opera rii) (jue des- 
conheça as suas admiiaveis proprie- 
dades. — Distmguem-se três espécies 
d'alavancas. Na alavanca de primeira 
espécie, chamada inter-lixa, o ponto 
d'apoio está situado entre a potencia 
ea resistência. Por exemplo: a ba- 
lança commum, as tenazes, tesouras, 
ele. INa alavanca de segiuida espé- 
cie, chamada inter-resistenle, está a 



resistência entre o ponto d'apoio e 
a potencia. Por exemplo: as barras 
de ferro de que usam os cavouquei- 
ros, os remos u'um barco, o pedal do 
piano, etc. Na alavanca de terceira 
espécie, chamada inier-potente, está 
a potencia entre o ponto d'apoio e a 
resislencia. Por exemplo: as pinças, 
o pedal do amolador, etc. 

Para que a alavanca hque em equi- 
libiio, é necessário que se verifiquem 
as condições seguintes: 1.» que as 
duas foiças exisiam no mesmo plano 
passante pelo ponto (i'apoio; :2.a ijue 
tendam a fazel-a girar em sentido 
contrario; 'á.'- ^\\^e estejam entre sina 
razão inversa dos braços da alavanca. 
Esta ultima condição pôde enunciar- 
se como se segue: que os wowfíí/oò- 
das duas forças em relação ao ponto 
d'apoio, sejam iguaes; designando a 
palavra momento em mechanica um 
producto d'uma força por uma dis- 
tancia. Demonstram-se exjjei imental- 
inente estas leis do eijuilibrio da ala- 
vanca, por xín^iú&àalavauinarillimo- 
licn, instrumento imaginado por Do- 
mingos Cassini, e aperfeiçoado por 
Delaunay. 

Quando a alavanca é recta e as for- 
ças que a solicitam são parallelas, as 
condições de eqiiilibrio rediizem-seá 
ulliina. N"esle caso, as distancias do 
ponto d'apoio ás direcções das foiças 
são proporcionaes ás distancias, con- 
tadas sobre a própria alavanca, dos 
pomos irapplicação das forças ao pon- 
to d'apoio; as quaes, por consei]iu'n- 
cia, substituem aiiiiellas: são os bra- 
ços da alavanca pioprlamente dilos. 

Se os braços são iguaes, as forças 
devem ser iguaes para (lue se dê o 
e(|uilil)iio. — São indispensáveis es- 
tas norõt'S para comprehender o me- 
chanismo das balanças. 

"2. A baUnira nnuiiiam compõe-se 
essencialmente iruina alavanca de 
primeira espécie, chamaila Inirissãi), 
cujo ponto d\ipoio está collocado ao 
meio. Os braços da alavanca são iguaes 
em jieso e comprimento. As exlremi- 
dades estão suspensos, por meio de 
cordas ou cadeias, duas bacias ou pra- 
tos, n'um dos ipi.ies se colloca o cor- 
po iiue se prelende pesar, e no outro 



34- 



ALA 



ALA 



as unidades de peso necessárias para 
lhe fri/.er eqiiili[)rio. I*nra que uma 
})alaiic,'i sí'i;i exacta. <! nei^essario (|ii(! 
satisfará as duas condições se^íuiiiles : 
1." qiic as distancias do ponto d"a[)oio 
do travessão aos pontos de sMS[jeiisào 
dos |)iatos sejam ipçiiaes; ^2." (pie, 
quando a lialança se aclia vasia, o 
travessão lenha a posição liorisotilal. 
Para apreciar corn rifíoresla liorison- 
tahdadíí. uma agnllia, (chamada fid 
da lifiltinnt, disposta perpendicular- 
mente soí)re o travessão, exactamen- 
te por cima do ímxo, desce ao longo 
do pé do in>trnmento e a sua extre- 
midade inferior percorie um peque- 
no arco circular dividido em partes 
iguaes, (Imante os movimentos d'os- 
cilla(;ão do travessão. O zero dVsla 
divisão corresponde á posição ver- 
tical da agulha, e, por conseguin- 
te, á horisonlalidade do travessão. 
Depois de ler reconhecido (|ue o tra- 
vessão se suslenla hem horisonlal 
quando a balança eslá vasia, para co- 
nhecer se a primeira condição se ve- 
rifica, procede-se do modo seguinte: 
collocam-se pesos nos pratos escolhi- 
dos de maneira (\ne o travessão fique 
horisonlal; depois miidam-se estes 
pesos d'um prato para o outro, e, se 
o travessão não perder a sua horison- 
lalidade, haverá a certeza queaquel- 
la condição se verifica; e a balança 
será exacta. Com eITeilo: se os bra- 
ços da alavanca fossem desiguaes, os 
pesos collocados nos pratos, e que se 
achavam em ei]nilibrio, obrando ás 
extremidades (Pesles braços, deve- 
riam ser lambem desiguaes, corres- 
pondendo ao maior peso o menor 
braço e ao menor peso o maior bra- 
ço; trocando a collocação d'estes pe- 
sos, leriamos feito obrar sobre o 
maior braço o maior peso e o menor 
peso sol»re o menor braço, o que tor- 
nava im[iossivel o equdibrio na nova 
posição dos pesos, e por consequên- 
cia o travessão não teria conservado 
a horisonlalidade. Esta importante 
condição da igualdade dos braços da 
alavanca da balança é impossível at- 
tingil-a na pratica com todo o rigor. 
Porém, quando a determinação do 
peso dos corpos seja exigida com mui- 



ta exactidão, podemos tornal-a inde- 
pendente da iguiddade dos braços da 
Ijalança. Kmprega-se para essií lim o 
melliodo de íliiiihi ii'!>(i<i<'m (jue p(jde 
ser |»ialicado por dous |)rocessos dif- 
feienles. O primeiro, devido a IJord.i, 
consistíí em collocar o corpo í|ue se 
pretende pesar ii"um dos pratos da 
balança, e(piilibial-o perfeitamente 
com gtãos de chumbo ou aieia, col- 
locada no outro prato, e sul)stituir 
depois o corpo por pesos conhecidos 
(pie de novo estabeleçam o eípulibrio; 
então estes [)esos re[>resentam exa- 
ctamente o peso do corpo, pois (|ue 
obrando ambos nas mesmas circiim- 
slancias fazem equilíbrio á mesma 
força: assim teremos obtido rigoro- 
samente o peso do cor[)0, qualquer 
que seja a desigualdade dos braços da 
balança. O segundo processo, que não 
('• mais longo, faz conhecer ao mesmo 
tempo a relação dos braços. Consiste 
em collocar o' corpo que se i)ietende 
pesar n"iira dos pratos da balança e 
equilibral-o com pesos conheciclos; 
recomeça-se a ex{ierieiicia colhicando 
o corpo no outro prato e cí|uilibra-se 
lambem por meio de pesos: o peso 
exacto do cor[)o é a media proporcior 
nal entre os pesos determinados pe- 
las duas experiências. Quanto aos 
braços estão na mesma razão que as 
raizes quadradas dos pesos que, em 
cada experiência, foram collocados no 
prato correspondente ao braço op- 
poslo. A balança comraum é a única 
que pôde ser empregada para deter- 
minar com rigor o peso dos corpos. 
No comraercio e na industria em que 
não ha mister de tanta exactidão, em- 
pregam-se outros syslemas. Um dos 
mais simples é a halanrii romana , que 
consiste em uma alavanca recta de 
primeira espécie de braços desiguaes, 
por meio da ipial um peso único, mo- 
vei ao longo do braço maior, pesa os 
corpos, collocando-o a distancias con- 
venientes do ponto de suspensão. — 
A balança de Quinlenz, que toma o 
nome úo seu inventor, é muito em- 
pregada no coramercio e para pesar 
as bagagens nos caminhos de ferro. 
Em francez é muitas vezes chamada 
bascule. 



ALE 



ALG 



35 



ALBUMINA. (Veja Neutros). 

ALBUQUERQUE (AíTonso de), filho 
do grande Atíouso de Albuquerque. 
Natural de Alhandra. ir)00-1580. E' 
author dos Commentarins de Afonso 
Dalbofjun-fjur, rupilão geral .V gorer- 
naáor da índia, publicados em 1557 
pela primeira vez. E considerado bom 
clássico, e ainda melhor aulhoridade 
nas cousas históricas da índia. 

ALBY. (Veja LInguedoc). 

ALCALIS. (Veja Oxydos). . 

ALCAXOFRA. (Veja Cinareas). 

ALCIBÍADES. (Veja Quinto sé- 
culo). 

ÁLCOOL. (Veja Fermentação). 

ALECRIM. (Veja Alfazema). 

ALEGRIA. 1. *A alegria éa mãi 
das graças... Mais ajustada á nossa 
fraqueza que o jubilo, a alegria faz- 
nos confiados e afoulos, dando relevo 
ás mais insignificantes cousas.» (Vau- 
venargues). — (cO segredo da vida ale- 
gre e contente é estar em paz com 
Deus e com a natureza.» (Pascal). — 
((.A alegi'ia demanda uma espécie de 
candura e boa fé, como tudo que é su- 
blime.» (De Baranle). — Não ha povo 
mais alegre no mundo que o francez. 
Na refrega das pelejas, e nas maiores 
fadigas, privações, padecimentos e 
completo desamparo, ([uem não viu a 
alegria franceza desferir-se radiosa, 
por agudezas eléctricas, nas fileiras 
dos nossos soldados bisonhos, voar de 
bocca em hocca e expaudir-sc em ale- 
gres cantilenas (juc ilhidem a dòr do 
momento? Se em alguma parte a ale- 
gria é puia, desinvejosa c sem nu- 
vens, é na choça humilde, após o la- 
vor dos campos; c no lar modesto 
onde se cosinham alimentos simples 
e restauradores; é nas festanças al- 
deãs, onde se mescla infância e ve- 
lhice, e onde por vezes os mais ale- 
gres são os mais pobres. 

"1. E sem[ue grande o prazer de 



mãi que vé seu filho. Que esse sen- 
tir feliz transluza sempre que se en- 
contrem; que mil alegres sobresaltos, 
mil gracejos cândidos, mil brinque- 
dos bem concertados, acompanhem 
sempre os cuidados que a infância 
pede: que haja um como continuado 
recreio entre mãi e filho; que em pre- 
sença do pai, esse enlevo continue e 
redobre: sendo assim, a ciianca ha 
de sempre soriir ao vèr seus pães, e 
a Índole sahir-lhe-ha alegre e prazen- 
teira. Que o menino piesenceie a do- 
ce harmonia da familia, enlielida em 
actos agradáveis e não em cuidados 
penosos, como os que procedem da 
sórdida cubica do lucro, da sede ar- 
dente de brilhar, da ambição irrequie- 
ta e tantas vezes mallograda: sendo 
assim, a alegria da criança irá pro- 
gredindo. Não é somente signal de 
felicidade a alegria: é também a con- 
ductora da satisfação alheia. Quem a 
tem vê tudo pela melhor face, é in- 
dulgente com a sociedade á qual se 
identifica pelo coração, 

ALENÇON, (Veja Normandia). 

ALEXANDRE, (Veja Quarto sé- 
culo). 

ALEXANDRE SEVERO. (Veja Ter- 
ceiro século). 

ALEXANDRIA. (Veja Egypto). 

ALFACE, (Veja Synantiierias). 

ALFAZEMA. (Veja Laiuadas), 

ALGA. (Veja Acotylkdonias). 

ÁLGEBRA (do árabe al-djah,r, 
sciencia das restituições). Os núme- 
ros, como os outros objectos dos co- 
nhecimentos humanos, podem ser 
considerados em particular e em ge- 
ral; isto é, nos fados, como na ari- 
Ihmetica, e nas /c/s, como na álgebra. 
A álgebra, com efíeito, ten» por obje- 
cto tratar d'um modo geral as (jues- 
lões relativas aos números. l'ara es- 
te fim, representa m-se |)or leiras as 
quantidades conliccidas e as desce- 



36 



ALG 



ALG 



nhociíJas, e por moio dos signaes I 
-f — '. X =, ,|;'i eniprof^ados em ari- ' 
Uinielica, e (l'.ilt,Miiis ouiros, oscre- 
víMii-sft (l'iirn modo altrcviado as rn- 
la<;õí'.s oiilicos dados r. as iiicotíiiit.is. 
Depois Itaiisfurmam-sc fslas ifl.icOcs 
cm oiilias (|iit! dão ;i soliirAo (lo pro- 
l)l<'ma. Kst;is iillimas sfio foiííiidasfíf- 
ra»'s iiidiíaiido os calinilos (pie s'- lião 
dt' cIlVciii;!!' com os dados para uhWv 
os v.doifs das iiico^Miilas. — Km vez 
ár ciripic};;ii- o sit-nial /, pata indicar 
miilliplir;irão, csí ifvcm-si», as mais 
das Vf'7,os, os Ijctoics adiaiiU; uns dos 
onlros sfMii iiílcrposirão de signal: 
aXbX''^, cscreve-s(! 'A(il):a~\-ii-\-;i-{-a, 
qut' representa a addiçSo de cinco 
niiinerosiiíiiaes, islo c, o luimoro a re- 
pelido cinco vozes, escreve-síí 5í/. Se- 
melliaiilemenle, lia ex[)rime a addi- 
ção de onze vezes o numero a, ou 
(i X 11 ; lirtV^ a addiçào de doze nú- 
meros iguaes aoprodticlo de n \)0v b, 
oi\ \ÍX (t X b. Percehe-se (jue este 
modo al}reviado não convém (piando 
os facloies são numéricos: poi'(pie, 
querendo representai' o producto, por 
exemplo, de 5 por O se escrevêssemos 
5t), contiindir-se-hia com o numero 
cincoenla e seis. Nos exemplos cita- 
dos: 3 aí;, 5 a, 11 a, lí2 ab, os núme- 
ros 3, 5, í 1 e l"?, que indicam quan- 
tas vezes se deve tomar a leira ou o 
producto lilteral, tomam o nome de 
cocffirinili'. O parenthesis ( ) exprime 
o resultado das operações indicadas 
dentroffelle; ossignaesqueaíTeclam o 
parenthesis indicam as operações que 
com esse resultado se tem de effe- 
cluar. for exemplo : {n-{-b) (./;— 5) in- 
dica o producto da somma das quan- 
tidades a e b pela difTercnça das 
quantidades ./• e 5. — Era vez de 
a X a :< (I ;< o X a ou a. a. a. a. a, 
escreve-se simplesmente cí', que se 16: 
a elevado á quinta potencia, a elevado 
a cinco, ou mais concisamente a cinco. 
O numero que exprime quantas vezes 
uma quantidade deve entrar como fa- 
ctor num producto, denomina-se e.r- 
poente, que se não deve confundir 
com o coefíiciente. Assim, 5 a signi- 
fica que se deve repartir a cinco ve- 
zes, em quanto que n' exprime que o 
numero a deve ser multiplicado, não 



por T), mas por si mesmo cinco vezes, 
o que é mm dilTerenle. |';ira dar uma 
idí^a da im|ioriacicia do expoente e 
coefíiiiente cm aljíehra. supponliamos 
(pie se quer exprimir um pioducio 
coiiifiosto de rpiatro faclores i^mi^cs a 
a, d(! Ires fai-lores iguaes a /y e de 
dons factorívs i^Miaes a r, es(;reveiemos 
a'/y'r-. em vez de andn hbb cc. Sup- 
|toiili;iMi()s agora (pie se (|uer expri- 
mir (pie este resultado dev(! ser nqje- 
lido sele vezes ou miilti[(licado por 7, 
escr(!ver(MTios 7 «'//•(-. Islo dá uma 
idéa da concisão da linguiigem algé- 
brica. — Unia expressão algébrica é 
um conjiinclo de letras ou leiras e 
números ligados entre si por meio de 
signaes. A expressão é rnciowtl, quan- 
do não contém o signal de raiz lai 
_ :t _ 

como \/ , \/ ', ele, (|ue indicam a 

exlracção d'uma raiz quadrada, cubi- 
ca, el(}.; no caso contrario, é inuciti- 
nal. É inteira, quando além de racio- 
nal não contém indicação de divisão: 
no caso contrario, é fnucionnrin. 
N'uma expressão algebri'a as dilfc- 
rentes partes separadas pelos signaes 
-j- ou — denominam-se os lennoí; da 
expressão. Por exemplo: a expressão 
2 (rb — 3 ab'- J- 5 1,' lem Ires termos. 
Uma expressão algébrica é ntonomio 
quando lem um só lermo, binonúo 
lendo dous, tfinoniio tendo ires. poli/- 
nnniio tendo um numero qual(|uer. 
Ha quatro elementos distincios n'um 
monómio: l.» O signal de (pie está 
atíeclado, o qual pôde ser -f- ou — . 
Quando o monómio não lem signal, 
subenlende-se que é o signal -j-; os 
monómios aífeclados do signal — são 
nei/aíiroft por opposição aos primeiros 
chamados pnsilicos. :>." O coefíiciente. 
Quando o monómio não tem coefíi- 
ciente, subenlende-se que é a unida- 
de. 3.0 As letras (pie representamos 
ditTerentes faclores. 4.." Os ex|)oentes 
que alTeclam es.sas leiras. Quando 
uma letra não lem expoente, suben- 
lende-se que é a unidade. Cliaraa-se 
(/vau d'um monómio inteiro, á som- 
ma dos expoentes de todas as letras 
que contém. Por exemplo: 5 a'b'-.v é 
um monómio do sexto grau. porque 
S-^-â-j-l =6. Grau d'ura polynoraio 



ALG 



ALL 



37 



é o grau mais elf^vado dos seus diíTe- 
renies termos. Um poiynomio diz-se 
homof/rneo quando lodos os seu? ter- 
mos são do mfsmo grau: este grau é 
o gnin de homngmeíiUuJp do poiyno- 
mio. Ordenar um pobjuomio cm rela- 
ção a uma leira é dispor os seus ler- 
mos de modo que os expoentes d'essa 
letra vão sempre augmenlando, ou 
diminuindo. Esla disposirão dá mais 
symeiria aos cálculos e facilita as ve- 
rificações. A leira em relação á qual 
o poiynomio eslá ordenado, cliama-se 
letra prinripa!. Por exemplo: o poiy- 
nomio 3 nl)^ — 5 a'-b- -{- 4 a'l) — (j ar- 
esta ordenado em relação ás potencias 
cr-escentes da leira a, e em relação ás 
potencias decrescentes da leira h : e é 
um poiynomio homogéneo do quarto 
grau. Ú ralar uiim' rico á^nm poiyno- 
mio c o numero que resulta qnando 
se substituem as leiras pelos numei-os 
que ellas representam, e se eíVectuam 
as operações indicadas pelos signaes. 
O valor numérico (l'um poiynomio não 
muda qualquer que seja a ordem dos 
seus termos, coml.inlo qne se lhes 
consei"vem os respectivos signaes. — 
Para apreciar as vantagens do empre- 
go dos signaes na resolução dos pro- 
blemas, como meio de abreviação, e 
das leiras, como meio de generalisa- 
ção, resolveremos o prQblema seguin- 
te: Delmninnr doas iia)neros. cajá 
somma seja 07, e a diffcrença H). Se- 
ja .r o numero menor; .x-j-lO será 
o maior. Equação: .T-[-,r-j-19 ou 
2 .r "4- lí^ = í^'?,* que se reduz a: 
2 x- = 67 — to = 18 ; d'onde se tirará 

.r=: ='zí, e, por consequência, 

.r f 1'.)= 2i. f 10 = -i3. Verificação: 
43 4-21 = 07, 4:1 — 2Í=10. Por ou- 
tro modo. Sfja '■ o numero maior; 
./• — 10 será o menor. Equação: 
r j-.í; — 10 ou 'i.r — 10 = ()7, (pie se 
reduz a : 2.r = 07 | 10 = NO ; d'onde 

SO 
se tirará x = = i3, e, por conse- 
1») 

quenria. .r — 1i)= i3— i0 = -24. 

(leiíeralisaríio úo jiroblema : Deter- 
viinar daaa iiaineros^ nija soaima seja 
a. e a differeura ti. Seja ./• o numero 



menor ;.r-L/^ será o maior. Equação : 
'^x-^bz=a. quesereduza2.í7=íí — ft ; 



d'onde se tirará .r 



a — b 



I) 

_ 1 



e, por consequência, 
b 



X 



'--^--^b 



2 -2 ^ '1 -i" 

Resulta (Faqui: (jiie d.ida a somma e 
a difTei'eiiça de dons immpros. oblem- 
se o numero maior, ajuntando á se- 
mi-somma a semi-dififerença, e o me- 
nor sublrahindo da semi-somma a 
semi-diíTerença. 

As expressões, --4-- e- ,aue 

2 2 2 1 

obtivemos tratando o problema d'um 
modo geral, dcnom.in;)m-se. em álge- 
bra, fonnalas, porquo contêm as so- 
luções de todas as questões congé- 
neres; isto é, de todas as questões 
cujos enunciados só difrerem pelos 
valores numéricos dos dados. (Veja 

EQUAÇÃO'. 

Direreão. Oueslões e exercícios na 
pedra sídjre o emprego dos signaes, 
coefri''ienle, expnenie, monómios, po- 
lynomios; e solução de problemas 
análogos a este ultimo. — Os alumnos 
que tiverem sido bem cedo habitua- 
dos a etTectuar e a sim|iliiicar as for- 
mulas arithmeticas não experimenta- 
rão nenhuma difticuldade. 

ALGODOEIRO. (Veja Malvaceasi. 

ALLEMANHA. 1. «A Aliemanha 
oíTerece ainda algumas feições de na- 
tureza agreste. Desde os Alpes até ao 
mar, enlre o Hheno e o Danúbio, vè- 
se um solo colxu-lo de pinbeií-aes e 
carvalheiras, golpeado por torrentes 
de apra/.ivel bellcza, e cavado de ser- 
ranias de magestoso aspecto. No en- 
tanto, os vastos areaese gándaras. as 
estradas (piasi inir.insitavtMs no ge- 
ral, a severidade do clima, assom- 
hram-nos Irislemeiíte a alma; e. st) 
depois lie longo decurso no paiz, 
descobrimos attraclivos que lá nos 
prendam. O sul da Aliemanha é pri- 
morosamente agricultado; sem em- 
bargo, em meio das mais formosas 



38 



ALL 



ÂLL 



estancias do paiz, ha o que (|uer que | 
seja pfsailo que iiuluz mais ao Iraba- ' 
lho (|ue ao coíílciilaiiuMilo, <; tios faz j 
|)<Misar íiiais nas virtudes dos iialji- 
laiil<'s (|U(í nos (Milevos da natiirc/.a. | 
As reliiiiiias dos caslrllos que se di- | 
visam nos caljeços das serias, as ca- i 
sas consli Ilidas ^h^ Icjiru, as janellas | 
estreitas, ;is neves ipie diiranle o in- 
verno acamam nas planicies siun lio- 
lisonle, tausani inipress.io penosa, 
lia ahi um sdencio de naliire/a (; de 
lionjens que conlrangt; o (•(jração. I*a- 
rece ijui' lá o tempo se move mais 
lento (pie nas outras partes; que a 
ve^'etaçã() não se dá mais pressa no 
solo do que as idéas no cerehio dos 
homens, e i|iie os sulcos pautados 
do lavrador são abertos sobre uma 
terra inerte. Não obstante, quem lo- 
grou vencer estas rellexOes irrellecti- 
das, vê depois que o paiz e os habi- 
tantes, bem observados, dão interes- 
santes e pialii;os estudos. Como que 
sentimos eslaiem-se aquellas campi- 
nas afoi'iiiosentaiid() de almas e phan- 
tasias diili-issimas. As estradas reacs 
são ma igi nadas de arvores friictife- 
ras, com que os viandantes se refri- 
geram. As paisagens cjue orlam o 
Rheno são qnasi sempre esplendidas : 
dir-se-hia (pie este rio é o génio tute- 
lar da Allemanba. As regiões, (jue 
elle rega, verdejam a um tempo tão 
graves e variadas, tão ermas e férteis, 
que no dá tentação de cvòv (|ue é elle 
mesmo quem as cultiva, e que os ho- 
mens enii'am por cousa nenhuma 
n'aquelle espectáculo... As cidades, 
([uasi todas, são bem conslruidas de 
casas (pie os seus proprietários deco- 
ram com rerto esmero em que reluz 
condi(;ão honesta. O exterior dos edi- 
fícios é pintado vaiVegadaraente, com 
fíguras de santos , e variados ornatos, 
cujo gosto de certo (> mediocremente 
fino, mas (jue aliernam o aspecto das 
habita(jõe>, e parecem significar be- 
névolo desejo de agradar aos de casa 
e aos;>^orasteiros. O esplendor do pa- 
lácio serve á vaidade de quem o pos- 
sua ; porém, a decoração esmerada, o 
alf aiamento e a grata contextura das ca- 
sinhas aconchegadas, tem o que quer 
seja de hospitalidade. » (M.""' de Slael). 



2." « Logo (jue observamos a classe 
imraediata á inlima — diz .Madame </e 
Stael — fai;ilmente noscom|jeiielram os 
do viver intimo e poe.^ia de alma </os 
allemáes. Siiccedeii-iup. entrar em 
pobres casas denegridas pela fumaí^a 
do tabaco, e ouvir não s('i a dona, 
mas lambem o dono da casinha im- 
provisarem no piano, como os italia- 
nos improvisam poíttaiubj... tJs estu- 
dantes divagam nas ruas, em dias fe- 
riados, eanlando psalmos em coro. 
Kstava eu em Cisenach, cidade pe- 
(|U(!na da Saxonia, em um dia frigidis- 
simo (J(! n(,'ve (jue cobria as ruas. Vi 
então um rancho de moços encapota- 
dos de preto que percorriam a cida- 
de cantando louvores ao Senhor. Não 
havia na rua viva alma, exceptuados 
elles; por(iue o ligor dos chuveiros 
afugentava tudo; e aquelles cantares, 
harmoniosos como os do Meio-dia, 
escutados em face de natureza tão 
aspeia, davam na alma rebates de 
ternura. Os moradores da teira, com 
tamanho frio, não ousavam abrir as 
gelosias; mas, ao traveis das vidraças, 
enir(;viam-se rostos severos ou me- 
lancólicos, viçosos ou encanecidos, 
que recebiam agradavelmente as con- 
solações religiosas que sabiam de 
aquella suave melopeia. » — « Por via 
de regra, anda falsamente avaliado o 
caracter allemão. Julgain-no pesado, 
sempre rellexivo, e avesso ao prazer. 
Não é nada do que se pensa. Todas 
as classes gostam da alegria e não 
perdem lanço de a gozar. Km Vienna, 
Munich e Berlim, ha salões onde se 
reúne a sociedade di-tiiicta; no cam- 
po, ha quintas, onde essa sociedade 
vai estivar na estação dos prazeres 
campesinos; não ha delicia a que se 
não ãC' nos turbilhões de suas festas. 
Olhem-me esses bui-guezes e artistas 
á volta de uma banca, abeberando 
era cerveja o pão e os rabanetes, em 
quanto, ao compasso de uma oi'ches- 
tra estridente, as lilhas, irmãs, e até 
as esposas, vão redopiaado em sara- 
bandas e galopadas. Não se passa de 
noite, nos arrabaldes de qualquer ci- 
dade, por entre casalejos, sem ouvir 
musica, accessorio forçado de todos 
os pontos de assembléa. O mesmo 



ALM 



ALM 



39 



acontece nas cidades e aldeias, nos 
palácios e nas choças. Em toda a par- 
te se cuida em gozar, movimento em 
tudo, alegria em todos, ás avessas 
d'aquellas physionomias ordinaria- 
mente carrancudas, d'onde provém ao 
observadoradmirar-se quando encon- 
tra tanta vida em um povo que se lhe 
figurava, ao primeiro aspecto, apathi- 
co e aborrido.» (D'Haussez, Alpes e 
Danúbio). 

Birccrão. Dictar as duas lições por 
quatro vezes, e fazer decorar o fra- 
gmento que serviu de exercido orlho- 
graphico. — Pode também lêr ou ex- 
por as duas lições, fazendo depois 
que os alumnos desenvolvam este 
bosquejo: Aspecto da Allemanha. Pri- 
meiras impressões. Rheno. Aspecto 
das cidades. — Costumes dos allemães. 
índole dos allemães. 

ALMA 6 INSTINCTO. 1. A nossa 
alma tem uma só forma simplíssima 
e immutavel: é o pensamento. Não 
podemos comprehender a nossa alma 
senão pelo pensamento. Esta forma 
não é divisível, não tem extensão, 
nem impenetrabilidade, nem maté- 
ria: logo a substancia d'esta forma, 
a alma é indivisível e immalerial. 
Pelo contrario, nosso corpo e todos os 
onlros corpos tem muitas formas; e 
cada uma d'essas formas é composta, 
divisível, variável, destructivel. Dá-se 
a mesma dilTerença em todas as fa- 
culdades da alma comparadas ás do 
corpo, e ás propriedades mais es- 
senciaes da mateiia. (BuITon). Era re- 
sumo, o entendimento é a alma que 
percebe; a sensibilidade ca alma (jue 
sente; a memoria é a alma que se 
lembra ; a imaginação é a alma que 
coloreia ; o juizo é a alma (|uc discer- 
ne com acerto; a vontade é ainda a 
alma (jue escolhe. (Dr. Descuret). O ho- 
mem está todo completo em sua alma ; 
para saber o que é e o que deve fa- 
zer, é mister que elle se veja em sua 
intelligencia, n^aquella parte da alma 
onde brilha um raio da sabedoria di- 
vina. (Platão). E universal o império 
(la alma: do fundo das masmorras 
pode elevar-sc até ao céo. (Napo- 
leão i). A alma enferma é desgraçada 



como o corpo que adoece : as paixões 
são as doenças da alma; a razão é a 
saúde d'ella...O escopo de toda a sa- 
bedoria é a felicidade da alma. Não 
poderá ahi leval-a quem a não man- 
teve em estado de justiça, paz e so- 
cego, ao través das agitações do mun- 
do, e tempestades da vida. iConde de 
Ségur). — (íOs deleites mentirosos e o 
estremecer voluptuoso, deixam na 
alma fermentos de amargura e um 
torpor acerbo; o sentir nobre e vir- 
tuoso enche a alma de júbilos puros, 
e forças novas. O tédio e o desgosto 
são o agro quinhão da alma devo- 
tada aos prazeres sensuaes; uma cân- 
dida alegria vera de par com os pra- 
zeres do espirito, que nunca o fati- 
gam nem lhe dessedentam o puro de- 
sejo. Em lira, a alma do homem, ébria 
de prazeres, está como devorada de 
febres; passado o ardor do accesso, 
descabe no mais profundo abatimento. 
A alma do sábio pôde entrcgar-se 
sem resalva ás delicias da verdade e 
da virtude; vicissitudes amargas não 
as tem; foiça e tranquillidade são-lhe 
sempre iguaes. Tão contrários elTei- 
tos arguem causas diversas: as sen- 
sações dependem das imperfeições da 
matéria, que lhes inlluem na forma- 
ção; os sentimentos, por (jue são per- 
feitos, inculcam que procedem so- 
mente do espirito. São tão bastos e 
elevados os sentimentos do coi'ação 
do homem, que só Deus pôde abali- 
sal-os. Que se dê a um só homem 
toda a sciencia que os oulios homens 
tiveram; que a sociedade toda, abdi- 
cando de si mesma, se reporte a elle 
sô; (jue a natureza se anime e esfor- 
ce por enriquecel-o dos seus dons mais 
raros; que esse privilegiado mortal 
colha a ílôr de todos os prazeres, e 
cinja a fronte com o diadema de toda 
a terra; que sei eu? que elle impere 
sobre milliares de mundos, não é 
bastante I Que milhares de mundos o 
adorem, estará cheio e contente o 
coração do homem? Não: ainda ha- 
verá n'essa alma um fermento de des- 
socego e tristeza, um vácuo iniinito. 
Que lhe falia pois? Kalla-lhe tudo, 
em quanto não tiver Deus. » (.4 ver- 
dadeira pliilosophhx). Parecem-me de- 

4 



40 



A LM 



ALM 



iiionsliados a«sirn o (Jesiiiui, a gran- 
deza, e a tialiircza dfi nossa alriia. Fi- 
giira-sc-m»' — diz nin aiillior cclcbie 
— que a i)liil'isopliia. (jiicrcndo pro- 
var (|ii(' a malciia jxmis.i, dtMiionslroii 
(]ii(; os |)liiliisiip|i()s iiào piMisaiii nada. 

•2. «A pro[)iia naliircza laiilaiiicii- 
te nos aUi'sl.1 a tiossa iiiirnoilalidadc ; 
nào sf-i (i'"iidi! islo vom, mas v. ccrlo 
(jiic 11111 i)i('s,igio de vida fiilura eslá 
li|,';i(l(i ;i íiliiia do lioiiictii. Consoaiilo 
ao [icnsar de todas as iKiròcs, ensinos 
na iininorlalidadc. Kslc [)r(!senlir, es- 
ta id('a de iiiunorlalidado, existe e 
fuli,'iiia cotii maior esplendor nos mais 
insignes geni'is, e nas mais egrégias 
almas. ft(CiC(M"o). — «Quando outra pro- 
va eu não tivesse da immortalidadc da 
alma, senão o Iriíimplio (jiie alardeia 
o mau, e a oppiessão iinc arrasta o 
justo ii'esle mundo, islo só me esqui- 
varia de duvidas. Tão manifesta con- 
tradicção, e ílagranle desaccôrdo na 
harmonia universal, me impulsaria a 
resolver o paradoxo. Eu diria: «E 
que farte provado ijue existe Deus; 
para a virtude desgraçada não pôde 
acabar tudo na sepultura.» (J. J. Uous- 
seau). O que é a morte do corpo? Uma 
dissolução dos órgãos cujos elemen- 
tos, que a força vital continha aggre- 
gados, se dis(iartem, separam, e ca- 
hein sobas leis da natureza inanima- 
da; ora, a minha alma, que não é 
composta do partes, não pôde dissol- 
ver-se, e só um acto particular do po- 
der divino poderia destruil-a assim 
como pôde creal-a, independente das 
leis da destruição. De mais d'isso, 
basta lôi" o Evangelho para nos con- 
vencermos deliciosamente d'este do- 
gma sublime da immortalidade. 

3. Mas os animaes lem alma tam- 
bém? Se elles dão indícios de racio- 
cínio, tem pelo conseguinte alma ín- 
destructivel : e esta alma que destino 
tem? Passará por alguma transmigra- 
ção? Será aniquilada? A mais douta 
resposta que pôde dar-se a isto é tam- 
bém a mais breve: não sei. Mas o que 
eu creio saber é que, ainda presup- 
pondo no bruto um espirito, uma al- 
ma, sei que esta não eslá sujeita ás 
mesmas leis moraes da minha; sei 
que não faz idca d'um legislador su- 



prejno; par(!ce l3o somente formada 
para fiincçòes machinacs; e por isso 
(pie não conhece o que é a virtude 
propriamente dita, lambem não é ca- 
paz de miMito nem de recompensa : 
io^o esia alma não eslá na mesma 
[liana e no mesmo sy.i^tema da minfia. 
— iiD'onde é ijue veiu a uniformidade 
de todas as operações dos animaes? 
I*or r|ue t^- que a mesma espécie faz 
sempiíí a mesma cousa e da mesma 
maneira? E por que é que cada irnli- 
viduo não a faz melhor nem peor 
(|ue oulro indiviíluo? Onerem mais 
convincente prova de que suas ope- 
rações são apenas resultados mecha- 
nicos e purameiile materiaes? Por 
(juanlo, se elles livessein a miniraa 
faísca da luz (jue nos alumia, vi^r-se- 
hia, pelo menos, variedade no trabalho 
de cada individuo da mesma espécie; 
mas não — trabalham todos pelo mes- 
mo molde; a pai:ta dos seus actos es- 
lá marcada em Ioda a espécie; não 
pertence ao individuo. E quem quí- 
zesse attribuir alma aos animaes, cor- 
ria-lhe obrigação de fazer uma só para 
cada espécie, da qual cada individuo 
participaria igualmente. Tal alma se- 
ria necessariamente divisível, por con- 
se(iucncía material e dilTerentissima 
da nossa.» (Buffon, Historia naliual, 
Livro IV). 

■4. «Qual ente de sobre a terra, tiran- 
te o homem, sabe observar os astros, 
medir, calcular, prever-Ihe todos os 
movimentos e resultas, e alliar, para 
assim dizer, o sentimento da existên- 
cia coramum ao sentimento da sua 
existência individual? Si eu sou o en- 
te único que sabe referir tudo ao 
homem, serei irrisório se penso que 
tudo foi feito para mim? E indubitá- 
vel que o homem c o rei da terra que 
habita; porque não só subjuga os ani- 
maes e dispõe, com sua industria, dos 
elementos; senão que só elle sabe 
dispol-os na terra, e se apossa, me- 
diante a contemplação, dos próprios 
astros que não pôde avisinhar. Mos- 
trera-rae na terra oulro animal que 
saiba usar do fogo, e admirar o sol. 
Pois que ! se eu posso observar e co- 
nhecer os seres, e suas correlações; 
se posso perceber o que seja ordem, 



ALM 



ALM 



41 



belleza e virtude; se po?so contem- 
plar o universo, e exalçar-me até á 
mão que o rege; se posso amaro bem 
e pratical-o, hei de comparar-me ás 
bestas! (3 alma al)ject3 ! debalde que- 
res avillar-te! contra os teus princí- 
pios sabe a lua consciência rcpugnan- 
do-os; o teu coração bemfazejo des- 
mente essa doutrina, e o propiio abu- 
so de luas faculdades prova a excel- 
lencia d'ellas, apesar de ti mesmo. » 
(.1. .1. Rousseau). O instincto é conge- 
nial, anterior á educação, cego, uni- 
forme, invariável, e circumscriplo a 
uma ordem especial de factos. Esta é 
a extrema que o separa dos actos li- 
Ibos da intelligencia, que são friictos 
da pratica e leílexão, variantes com 
os indivíduos, applicaveís ás mais di- 
versas círcumslancias. Por instincto 
è que a abellia edifica os seus favos, 
que os castores lebocam os seus açu- 
des, que a andotínba tece o seu ni- 
nho, o o rebusca passado um anno 
de ausência; que a sarígueia defende 
os filhos do menor perigo no sacco 
ventral. Em lira, o instincto ou alma 
dos anímaes é uma propensão inte- 
rior que os impelle a executar certos 
actos sem inteiíção, e a empregar sem- 
pre os mesmos meios, sem nunca pen- 
sarem na invenção de outros, nem 
conhecerem a relação d'esses meios 
com o fim. 

Direcção. Com quanto a infância 
seja impro|iria a raciocinar, é todavia 
preciso, sem conslrangel-a, dirigir- 
Ihe suavemente o primeiro exercício 
de sua razão ao conhecimento de 
Deus, c ao conhecimento do homem. 
Convém persuadir os meninos tem- 
poi-ãmeíitc das verdades chrístãs, 
sem lhes interpor assumptos duvido- 
sos. Mais ao diante se lhes darão as 
Ires lições referidas, babituando-os a 
resolver as objecções graves (|ue pos- 
sam sei-lhes feitas na sociedade, e 
doeste modo devem consolidar-se-lhes 
as crenças. A primeira lição poderá 
ser riictada, c decorada em seguida. As 
outras devem ser lidas, e resumidas 
depois pelos alumnos. 

ALMEIDA GARRETT (João Ba- 
ptista, visconde de). iNasccu uo Torto 



a 4 de fevereiro de 1799, e morreu 
em Lisboa a 10 de dezembro de 185-í. 

Pelas verdejantes collinas de Gaya 
lhe madrugaram as primeiras affei- 
ções da alma com que as musas, por 
mais lacrimosas que se queixem, 
brincam e sorriem. Por grades de 
mosteiros poetava o ardente acadé- 
mico aquelles amoraveis sonetos que 
elle, já no outono da vida, dava á es- 
tampa, Deus sabe com que saudades! 

Por Coimbra, era o travesso Gar- 
rett o mais esperançoso d'essa plêia- 
de de vates, abrazados em amor á 
liberdade, cantando-a sempre, agou- 
rando-a nos carmes, como o mantua- 
no em. Roma, a boa nova da legene- 
ração humana. 

O fíelralu de Vevus nasceu por es- 
ses tempos, já scintillante de originaes 
bellezas, já apioando para porto livre 
de pensamento c pbrase. já minando 
os alicerces do velho edifício arcadi- 
co, que, m.aís tarde, devia esboroar- 
se sob os cimentos do Camões. Ahi 
nasceram lambem as primeiras tra- 
gedias, c d'essas vingou para a pos- 
teridade o lypo da liberdade, o ardi- 
do Cnlào, que parece esculpido em 
bronze. 

Exulando por estranhas terras, a 
lyra de Garrett retemperou-se na des- 
graça. A providencia dos grandes gé- 
nios compensára-lhe em vigor de ta- 
lento o que as saudades, a pobreza, 
e o desconforto lhe afrouxavam na 
alma. Na Lyrira de João Mínimo, nas 
Flores sem f nulos , em lodo aquelle 
vergel de fiòres peregrinas, abrindo- 
se em sorrisos de esperança, on des- 
bolando ao amarellecer da saudade, 
faz gosto e mágoa vér a historia do 
coração humano tão lealmente con- 
tada áíjiKdles que a enlendem. Cora- 
ção assim, como não amaria sempre? 
Cordas atinadas pela musica dos an- 
jos, como as da lyra do grande can- 
tor, destemperam já quando a mão 
da morte, primeiro que a do desen- 
gano, passou por ellas, liraiulo os úl- 
timos sons como um dobre tinal. 

Fora sempre amor a vida de Gar- 
rett. Nalercía vivía-lhe no coração, e 
Luiz de Camões nas dores, nas penú- 
rias, c nas desesperanças. De eslra- 



i^2 



MM 



ALM 



nli.is pijijs, ciiciirnva^java os olhos 
j)('los lioiisoiílcs do oceano, e o des- 
leriaLlíj de- .Macau scgrcdava-llifi o 
verbo [iuii^'enle da saudade. O Cti- 
viõí'!> ('; a inUiir.ào das penas acert)as 
(|U(! exulcttraiauí a alma do ui.iioi' 
poi luguez do século xvi, já (juaudo o 
desalento lhe ri3o dava peito para o 
gemido. Se haveiá um taio de luz 
eliMua pata essas duas almas, que 
tanta luz irradiaram na sua pátria 1... 

O (iiu! íMa o drama em l*orlugal an- 
tes de Almeida fiarrelt? 

Enxahido pla;^ialo da musa liespa- 
nhola e italiana, desgraciosas versões 
do fiancez, cousa (Jescaracterisada, 
desnaluralisada, sem (|ti(! os malfa- 
dados arraiijadores dramáticos po- 
dessem alei-se a um molde de cu- 
nho. Gil Vicente era apenas um mar- 
co na lilleratura pátria; d'esse ponto 
para os seus successores não liavia 
transição loÍ5fica nem natui"il. 

GaiMett creou a comedia, creou o 
drama, creou a tragedia, trajou-asde 
galas que pareciam novas pelo feitio, 
mas que estavam congénitas no génio 
dalingua e costumes nacionaes. Quan- 
to mais longe da arte i"estringente e 
falsificadora do sentir ingénuo, mais 
perto da natureza e verdade fiorescia 
o engenho do author de Gil Vicenlee 
Alfarjetnc. Quando reinava o dispau- 
terio absurdo da escola romântica, 
e os dramaturgos de mais futuro em 
Portugal remedavauí com desnaturai 
esforço a innovacão franceza, Almei- 
da Garrett protestava em Fr. Luiz de 
Sousa, em PliiHppa de Vilhena, e So- 
Ininlta do Marquez contra os talentos 
desgarrados da trilha por onde se ha- 
via de attingir a emancipação do nos- 
so thealro. Não se mallogrou de todo 
o exemplo e a censura. Os discípulos 
de Garrett houveram pejo de servirá 
populaça as iguarias requentadas, de- 
licias de paladares estragados. Inva- 
sou-se a lingua clássica em modernos 
moldes. Não podia ser completa a res- 
tauração, nem seguido á risca o exem- 
plo ; todavia, raro diamaturgo de con- 
sciência ha ahi que não invide todo o 
seu poder de espirito e coração por 
aproximar-se dos exemplares* que o 
mestre herdouaossacerdotesdascena. 



Garrett dera-se pouco a dramalisar 
a vidj contemporânea. .Miguravam- 
se-llie p(jr ventura mesípiínlus «vul- 
gares as [)aixòes em (jue anda traba- 
lhada e vasculejada esta sociedade, 
arretntMo de outra, (jue se nào dá 
comnosco. liem poderá elle, com o 
vasto saber (|ue tiidia da alma huma- 
na, e experieni'Ja ila vida, dar-nos a 
pintura de tiemendas angustias, e se- 
veras lições; nào o fez, nem no dra- 
ma nem no romance; é que, nas pai- 
xões, em (pie andamos tiavados, ira- 
vam-se comnosco tantas ridicularias 
pom|)Osas, tanta miséria magnifica, 
que por melhor paieceu ao preclaro 
engenho removêl-as da vista da com- 
paixão, e do escarfieo. 

Quando a analyse e o contacto da 
vida actual lhe estimulava o talento 
indignado, Garrett obeilecia ás sof- 
freadas da ironia sarcástica, e, fiel ao 
seu syslema, no romance de idéas an- 
tigas inquadrava allusões a pessoas e 
cousas do seu tempo. O Arco de San- 
1'Anna seria um romance incoheren- 
te se o não dominasse aquella idéa 
mixta. 

Eram admiráveis os recursos do vo- 
cabulário de Garrett: Sabia dizer tudo 
em lingua puríssima dos que melhor 
a escreveram n'esta terra. Se, porém, 
a idéa nova sincava na improprieda- 
de do termo usual, o ousado escri- 
ptor enxertava a palavra estranha, e 
o mesmo era dar-lhe foro de portu- 
gueza. Se n'eslas liberdades se dema- 
siava alguma vez, era preciso acei- 
tar-lhe o capricho, ponjue não havia 
audácia que lhe pedisse contas, vista 
a immaculada dicção das suas obras 
mais reflectidas. 

O visconde de Almeida Garrett, na 
sua província litleraria, não tinha 
emulo. Alexandre Herculano, o dou- 
tíssimo historiador, tem uma sobera- 
nia dlstincta. Dlstanciavanj-se pelos 
génios, pelas índoles lltterarias, e pela 
heterogénea influição dos hábitos, aos 
quaes cada qual se submeltera na car- 
reira da vida. Se não existisse Casti- 
lho, o mais remontado poeta, o mais 
portuguez de todos, o mavioso Casti- 
lho, que enthesoura as jolasde máxi- 
mo quilate da nossa lingua, Garrett 



ALO 



ALO 



43 



seria o primeiro prosador. Herculano 
funde, por assim dizer, em fórraa de 
severa correcção, o austero e rigoro- 
so pensamento que forja e pule na in- 
cude da consciência, A este não lhe 
abunda a inspiração, a eífusão natu- 
ral, a imbrincada espontaneidade que 
reluz nos outros. E um escriptor que 
se estuda nas horas de animo repou- 
sado. Os outros buscam-se para do- 
mar o pensamento inquieto e alTei- 
çoal-o aos prazeres da inleiligcncia e 
do coração. 

ALORNA (Marqueza de). Nasceu 
era 1750, e morreu em 1830 a snr.^ 
D. Leonor d'Almeida Portugal de Lo- 
rena e Lencastre, condessa de Oey- 
nhausen, i.» marqueza de Alorna, 7.=» 
condessa de Assumar, dama da or- 
dem da Cruz-estrellada em Allema- 
nha, dona de lionor, e dama da leal 
ordem de Santa Isabel em Portugal. 

A quadra mais irrequieta em des- 
avenças intestinas, na historia de 
Portugal, foi de certo a decorrida du- 
rante os oitenta e nove annos da va- 
ronil senhora. Omillir os factos da 
politica, mais ou menos travados em 
sua vida, seria damnificar as peripé- 
cias de maior vulto na biographia que 
vamos debuxar. 

Contava apenas oito annos. quan- 
do foi reclusa no mosteiro de Cheias, 
como piesa do estado, com sua mãi, 
e irmã. A mallograda tentativa de re- 
gicídio, na noite de 3 de setembro de 
1758, lornfira suspeito o marquez D. 
João de Almeida, que, em vésperas 
de sahir do reino como embaixador 
á corte de Luiz xv, foi aftMTolhado 
nos cárceres da Junqueira; e sua fa- 
mília, excepto o lilho D. Pedro, que 
entrava no quarto anno de idade, en- 
trou no convento sob vigilantíssima 
espionagem. 

A teni'a Leonor, desajudada de 
mestres, estudou linguas. musica, 
poesia, e lodos os dotes e prendas 
que mais aformoseiam a esmerada 
educação de uma senhora. De onze 
annos, era já ella a encarregada de 
responder ás cartas de seu pai, escri- 
plas com o próprio sangue, nas mas- 
morras da Jumiucira. Quando linha 



quinze annos, por motivos de pueril 
escrúpulo, quiz professar; d'esle pro- 
pósito derooveu-a um illustrado con- 
fessor, a (juem depois fez uma ode 
allusiva ao previsto conselho que lhe 
dera. Dos dezeseis aos dezoito annos, 
adquiriram renome as suas poesias, 
recitadas nos outeiros, quando os jui- 
zes eram Francisco Manoel do Nasci- 
mento e outros d'este tomo. Ahi lhe 
deram nome de Alcijipe. 

O arcebispo de Lacedemonia con- 
demnou-a a dous annos de reclusão, 
cortar os cabellos, e trajar de côr ho- 
nesta, porque ella tivera a audácia de 
conduzir seu irmão da portaria até 
ao leito de sua mãi, servindo-se do 
sabido expediente de dar ao intruso 
o encargo de um dos criados do mos- 
teiro. Alcippe não obedeceu a lodos 
os preceitos do arcebispo; e, amea- 
çando-a elle de accusal-a ao marquez 
de Pombal, Leonor respondeu com 
dous versos de Corneille : 

/■.'• cceiír dElconore cst tvop nohle et trop franc, 
Poiír crnindre ou respecter lebourfeau de son 

[sa»rt. 

Fallecido D. José, e apagados na 
mão ferina de Pombal os raios com 
(|ue, déspota plebr-u, fulminava os 
inimigos da sua insuUadora soberba, 
o raanjuez de Alorna*, que entiára 
moço e galhardo aos vinte e cinco 
annos no cárcere, sahiu, aos quaren- 
ta e Ires, velho, e ahpiebrado de 
terror, de penúria, e de afílicções. 
Foi buscar ao mosteiro sua família, 
e retiiou-se ao campo, dVmde voltou 
revigorisado para abrir em Lisboa os 
seus salões á sociedade mais dislin- 
cta. Fnlão luziram os extremados 
merecimentos de Alcippe. e numero- 
sos pretendentes piutlaram esposal-a. 

Entre estes estiemava-se o con- 
de d'Oeynhausen Cia'veml>urg, tpie 
militava em Portugal com o condo 
reinante de Sihaumburg-Lippr'. D. 
Leonor preferiu-o, O conde abra- 
çou a religião calholica, ca.<on. e foi 
com sua mullier para o Porlo rom- 
mandar o ()." regimento de infaule- 
ria. Aqui nasceu a primogénita dVs- 
le ditoso enlace, a 30 do novembro 



u 



ALO 



ALO 



do 1780, a siir.' maríjiioza da Fron- 
teira, inài (lo aclual maniiic/. 

Nomeado iriinisUo vm ViíMína de 
Áustria, a instancias da solicita espo- 
sa, o conde de (jcvnliaiísen (](!Íxoii 
l*ortiigal. iNo transito, (|iie li/.ciain 
por terra, Alci[)|)i! foi hrillianleinentt; 
acolhida por Carlos iii, pida corte de 
Luiz XVI, e travou intimas itilações 
com Neiker. Km Vienna tratou a 
imperati iz Maiia Tlicreza, e recebeu 
de seu tillio José ii a insígnia da or- 
dem da Cniz-esti(!llada. Alii apren- 
deu com Pedro Metastasio as harmo- 
nias dulcíssimas da língua italiana. 
N'essa época pintou a condessa al- 
guns (]uadios de subido valor que se 
perderam, e escreveu alguns dos seus 
poemas, em (|ue ainda se encontra o 
colorido da musa feliz. 

Adoentada pelo clima, pediu licen- 
ça para voltar a Lisboa. Na viagem, 
deteve-se em Avíidião, onde deu á 
luz D. Carlos, o seu primeiro fdho 
varão; e em Marselha foi outra vez 
mãi de uma menina. Inlira-se d'ahi 
quão vagarosa e desenfadada faziam 
a jornada os felizes consortes! Dous 
filhos era viagem, para quem vinha 
em demanda de ares pátrios, não era 
poucdl O peor foi lutarem com os 
salteadores em Hespanha, e com as 
ond.is do Ebro á entrada de Torlo- 
sa. D'estes grandes perigos a salva- 
ram heróicas resoluções, as qnaes 
não se relatam, porque o biographo 
mais prolixo nol-as não communicou 
na noticia que precede as obras de 
Alcippe. 

Chegou a condessa sósinha a Lis- 
boa, poí-que deixara o esposo em 
Marselha. Solicitou o adiantamento 
do conde, e obteve-o com prospero 
êxito, fazendo que o nomeassem te- 
nente general e inspector geral da 
infanteria. Nomeado em seguida go- 
vernador do Algarve, o conde de Oey- 
nhausen, aos 54. annos de idade, 
morreu, deixando uma viuva pobre, 
com seis filhos, e formosura ainda 
peregiina, que não é de certo a mal 
arremedada nos lelratos conhecidos 
que desmentem a tradição. 

A saudade e a melancolia espirita- 
ram as mais maviosas poesias da 



consternada viuva, no decurso d'uma 
longa (juadra de luto. Traduziu o li- 
vro primeiro do poema das Eslítalns 
de Tompson, e o canto das solidões 
de Cronegh. Mais valiostjs dons olTe- 
n!cia a cxcellenle seidiora, fundando 
com os seus [)arcos recursos uma es- 
c(ila em Almeirim, onde as meninas 
pobres recebiam uma boa educação. 
i*ara lhes desenvolver o espirito, com- 
punha-lhes trovas (|ue ellas pagavam 
com melodiosos cantares, e coorde- 
nava em verso lições da historia de 
i'ortugal, tiabalbo (jue hoje se não 
conhece, e (|ue devia ter bom cunho 
de originalidade, se não de deleite. 

A excellente versão dos quatro pri- 
meiros cantos do Ohfron, po"ma de 
Wiland, deve-se a uma aposta (pie a 
condessa fez com um t;d Muder, com- 
promeLtendo-se a traduzir para ver- 
náculo, sem desluzir a energia e for- 
mosura do texlo, (jualquer poema al- 
lemão, provando assim a opulência 
da língua portugueza que o conten- 
dor desaii^ava para realçar a d'elle. 

A casa de Alcippe era o coníluente 
dos litleratos eslimaveís, dos fidalgos 
illustrados, dos emigrados díslinctos, 
como M.""' de Iloquefeuílle, e até de 
artistas beneméritos, como o jiíntor 
Foschíni. Este pintor, sob a inspira- 
ção da imaginosa condessa, executou 
alguns desenhos allusivos á nossa 
historia. 

Prevendo a invasão franceza, cujos 
princípios a illuslre poetisa rejeitava, 
pretextou a necessidade de curar dos 
interesses de seu filho na AUeinanha, 
e para lá partiu. Chegada a Madrid, 
ahi soube que os francezes infesta- 
vam de novo a Allemanha. e foi á 
Corunha embarcar em uma nau in- 
gleza, que a levou ás praias d'íngla- 
terra. Luiz xviii, expatriado, aiii foi 
aportar também, e a condessa, con- 
doída do desamparado monarcha, a 
quem a Inglaterra não olYerecia gua- 
rida, offereceu-lhe sua casa. O rei de 
França ia aceitar o convite, quando 
um lord, ferido em seu orgulho pela 
liberalidade de uma esliangeira, o 
aposentou no palácio de Hartwel. 

Alguns annos permaneceu Alcippe 
em Inglaterra. Graves desgostos lhe 



ALO 



ALO 



45 



amarguraram a vida, taes como a se- 
pararão (Jo filho, que mandou para o 
Rio de Janeiro, onde eslava a corte 
foragida, a morte de uma filha, e a 
deshonra que ennodoava a reputação 
de seu irmão o marquoz de Alorna. 
Em recompensa, dera-ihe a Provi- 
dencia dos infelizes o talento como 
um bálsamo de celestial unção para as 
mágoas de mãi e irmã. Escreveu en- 
tão as Becrcnrõcs bolanirds, e a ver- 
são da Arle poclica de Horácio, e o 
Ensaio sobre a rrilica de Pope. 

Voltando a I*oi'lug;il para resgatar 
o irmão delido em França, foi inti- 
mada da parte dos governadores do 
reino para logo sahir para Inglaterra. 
Instou debalde. ToiíKindo para Lon- 
dres, recebeu ahi a má nova de que 
o navio portador da sua bagagem fo- 
ra apresado por um corsário. «Deus 
o deu. Deus o tirou d foi a sua quei- 
xa, vertida da do sanlo árabe. 

Foram intimas amigas a condessa 
de Ocyrihausen e M.""^ de Slael. 
«Eram na verdade interessantes (diz 
um biographo da prini^ira) as con- 
versações d'eslas illuslres damas acer- 
ca das discussões politicas do tem- 
po, seguindo ellas opiniões diversas 
e principios inteiramente oppostos. 
M.""' de Slael, nascida na Suissa, era 
'rcpul)licana como seu pai, e adversa 
á causa de Luiz xviii, não obstante 
haver sido maltriUada e desterrada 
por Bonaparte. A condessa era rao- 
narchica, sequaz da realeza, contra- 
ria a tudo (pianto a podesse vulne- 
rar; e Luiz xviii era um rei legitimo: 
o que bastava para que a con(les>;;i 
sustentasse a sua causa, .\chando-se 
ambas um dia em casa do duque de 
Palmella, que então era ministro de 
Portugal, onde tinham sido convida- 
das a jantar, começaram (]uestioiian- 
do sobre a difliculdiide da resliluição 
dos Doutbons á França. A condessa 
julgou-a muito exequivel; e M.""' de 
Stat'1, p(>lo conliario, deridiu-a iin- 
|U'alic;ivcl, j)nr quanto Luiz xviii (di- 
zia ella) não tinha (MU seu favoi- mais 
que li-('s cAxos, e quatro cegos que o 
seguiau», iilludindo exagciiidamente 
ao principe deTalleyrand que era co- 
xo de uma perna; e ao duque de 



Blacas, que padecia dos olhos e esta- 
va quasi cego. Não se turbou a con- 
dessa com esla decisão ; mas voltan- 
do para o ministro d'AustiÍ3, convi- 
dou-o a fazer uma saúde á ptoxima 
restituição de Luiz xvui. Um anno 
depois, achava-se esta realisada; e, 
no dia seguinte á parti<]a de Luiz 
xviu para a França, foi .M.""^ deStael 
a Hamersmith, morada da condes-a, 
dar-lhe as desculpas de se baver en- 
ganado no seu juizo, aproveitando a 
occasião.de lhe dizer cousas muito 
lisongeiras e agradáveis acerca do 
mesmo objecto e do espirito da con- 
dessa '. » 

Voltou a Portugal a condessa, já 
marqueza de Alorna, como beideira 
do litulo e casa de seu fallecid^ irmão, 
em janeiro de 1813. Iniimou-a a re- 
gência a que aceitasse o mestre que 
ella lhe indigitava para edU' ação de 
seus netos. O proposto era um des- 
embargador boçal, que a illuslrada 
maríjueza rejeitou. 

Recolhida a uma quasi scdidão com 
suas filhas, depois de rebabdilar a 
memoria maculada de seu irmão, Al- 
cippe traduziu o Hnitho de Proseipina, 
poema de Claudiano, o Ensaio sobre 
a iuílifjrrrurn cm maiorias de reliijiâo 
do celebrado la Menais, c a paraphra- 
se completa dos psalmos, cpie raras 
vezes cede á do padre C.ddiis, em fi- 
delidade, correcção e elegau( ia. 

Ás lides lilteraiias roubava o tem- 
po abençoado do bem-bizer A vida 
corria-lhe já pacifiia e consolada 
pelas alegrias do ermo e do estudo, e 
da religião, iiuando o maior gnl[)o lhe 
separou dos braços seu filho João UI- 
rico, conde de Oeynhausen, e, aos:20 
annos, coronel de cavallaiia 1 

D'ahi em diante a sua vida foi ura 
continuado recolhimento de muda 
tristeza, raras vezes interrou)pida por 
trabalhos lilterarios ipie assá< deno- 
tam a ausência da vontade, da inspi- 
ração, e do vigor. 

Desde 1S:5;'. (jue os alentos da octo- 
genária senhora depereciam sensivid- 
mente. Aimia asM>tiu ás priuieiras 

I Notuiii 1)111^1 ii(iiii< a i|iif iiiovUo u iiUim 
cairftu om seis Volumes, das obras do Alcippo. 



46 



ALS 



ALS 



núpcias fln senliora D. Marin ii, mas 
j,'i iifio pOilo assistir ;Js sfijiiiidas. Tão 
(jiiorida foi, [)or(^m, no paro, (pio 
mais (lo uma voz os screiíissiiuos 
priíi' ipcs a visitaram no seu leito de 
enfciiiiidaíJe. 

No dia ti do outubro do 1S30ox- 
pir'0u esta vonoraiida sonhora, por- 
peluMiido a sua uiomoria outro dous 
padidcs immorrodouros: o de uma 
acrisolada viitudo, o o do beru mere- 
cido rciioino nas Irtras pátrias. 

ALS AGIA. 1. A AIsacia faz ])arlo 
do iciuo da Austrasia o porloucou aos 
róis do Fiança alo ao sociilo x. 
Olhão 1, iinporadorda Allomanlia,apo- 
dorou-so (rdla, o a casa (TAustria sc- 
nlioroou-a depois. Tornou para Fran- 
ça no roinado do Luiz xiv. O Uíiono, 
um dos ninis liollos rios da Furopa, 
por um lado, o do outro a oxtensa cor- 
dilhoiíM dos Vosgos, hirta de pinhei- 
ros negros, formam as na luraes fron- 
teiras ilVsla rica província. De per 
meio dislondo-se uma vasta planicie 
de magica 1'oi'mosura, e rara fertili- 
dade. Considerada como população 
e industria, o maravilhas naturaes 
ou artísticas, a b:iixa AIsacia goza a 
prini.izia sobro todas as províncias 
francezas. Ha difTerença entro o modo 
do vida dos habitantes da AIsacia : o 
baixo Hheno é sobre tudo agrícola e 
militar; o alto Rheno é mais exclusí- 
vamoote industrial, o por toda a par- 
te levanta as colossaes chaminés das 
suas fabricas, que parecem proclamar 
a seu modo as victorias e os progres- 
sos da industria. ' 

2. Alto Rheno, capital Colmar. 
Por igual agrícola o manufaclôra. Col- 
mar pôde ser considerada uma das 
mais convidativas cidades da AIsacia. 
O solo produz lúpulo e aquellas mons- 
truosas couves que os seus mercados 
apresenlam com orgulho. Numero- 
sos ribeiros alimentam ahi a indus- 
tria algodoeira : em fim é difficíl en- 
contrar região mais bella. — Mulhuse, 
sobre o canal do Rhône ao Rheno, 
dá uma perfeita ideado que seja uma 

1 Vè-se que este artigo foi escripto antes de 
1871. 

A', do T. 



cidade manufactóra e industrial. Im- 
pressiona o aspecto geral d'iima ci- 
dade om íjiie as elevadas chaminés 
das oflicinas dominam tudo, e em 
(juo da noílo ao dia, o[iorarios e ope- 
rarias, semelhantes a um enxame de 
abelhas, ou vão para o Iraballio ou 
voltam para casa. — Bolforl, um dos 
baluartes da França em frente da 
Siiissa, ostenta orgulhoso as suas três 
portas: a úo Strasburg, o a de Brde, 
(juo dão entrada [lara a cidade antiga, 
e a [lorta Fiancez;», edificada no rei- 
nado do Luiz XIV, ípio dá passagem 
paia a cidade moderna, construída de 
ruas largas r. alinhadas. O conjun- 
cto das fortalezas de lielfort eleva-a á 
categoria de praça d'armas do pri- 
meira classe. 

3. Baixo Rheno, capital Strasburg. 
Não ha nada'(|uo so compare. (|uanto 
a magnificência, ás margens do Rhe- 
no; o Strasburg. que ó uma das pri- 
meiras fortalezas da Europa, goza to- 
das aquellas encantadoras paisagens. 
De qualquer ponto que para alli va- 
mos, a maravilha que logo nos capti- 
va é a cathedral com as snas pompas 
opulentas, o a fiecha de sua torre 
que SC esconde nas nuvens. O magni- 
fico vesliluilo ó encimado por seis colu- 
mnas e muitas estatuiis excellentes, 
elevadas s^bro um triangulo, sobran- 
ceiro ao qual está o Padie Eterno re- 
presentado em todo o seu esplendor. 
Ao sopé, estão a \ irgem e seu Filho, 
o mais abaixo o rei Salomão, posto 
em sou throno com do.zo leões á volta. 
A frontal ia é adornada com cinco fi- 
leiras de estatuas: a primeira contém 
dezoito grupos representando todos 
os assumptos do pi-imeiro capitulo do 
Génesis; o segundo dezeseis passagens 
do velho testamento, fáceis do inter- 
pi'etar; o terceiro, os doze apóstolos 
e os dous levitas Estevão e Lourenço; 
seguem-se as estatuas dos quatro 
evangelistas, e principaes doutores da 
igreja; e finalmente os mais notáveis 
milagres de Jesus Christo. — A torre 
do Strasburg é o ponto culminante que 
sobrepuja todas as construcções hu- 
manas espalhadas no universo. O 
zimbório de S. Pedro de Roma é me- 
nor dous metros; a torre da cathe- 



ALT 



ALT 



il 



dral de Vienna Ires, c a maior pyra- 
mide do Egypto tem de menos quatro 
melros ou mais. Encorporada com o 
edifício ale á allura de sessenta e 
quatro metros, separa-se arrojada- 
mente até ao primeiro terraço, e rom- 
pe depois pelo ar fora absolutamente 
só e desamparada... Esta pyramide 
adelgaça-se progressivamente até con- 
verter-se em uma agulha ténue que 
depois de haver sido cruzada [lor uma 
linha transversal para formar o sym- 
bolo, termina em fim em globo de 
pedra na altura de 142 metros. — 
Se subimos a nave pela galeria es- 
querda, cliegaremos á capella onde 
está o relógio, obra prima de mcclia- 
nisaio, o qual contém três partes que 
correspondem a regular o tempo, o 
calendário, e os movimentos astro- 
nómicos. Foi preciso, primeiro que 
tudo, construir um motor central que 
impiimisse movimento n'este vasto 
mechanisnio. O motor que só por si 
é o reidgio completo, indica no mos- 
trador externo as horas e as subdi- 
visões, bem como os dias da semana; 
dá horas e quartos, e faz mover as 
diversas figuras allegoricas. Uma das 
mais notáveis é o génio, cídlocado na 
primeira balaustrada, e (lue, (Pliora a 
hora, esvasia a ampulliela (lue tem 
nas mãos. O cantar dogallo, que des- 
de 178'.) se não tinha ouvido, repro- 
duziu-se outra vez, e a procissão dos 
apóstolos, que se faz sempre ao meio 
dia, foi acrescentada a este coujplexo 
de figuras deleitosas de v6r-se. As 
festas moveis que não são reguladas 
por alguma lei continua, obtem-se 
por um meclianismo muitíssimo en- 
genhoso. A meia noite de :U de de- 
zembro, a paschoa e outras festas 
moveis surgem no calendário, e to- 
mam o lugar fjue occu[)am todo o 
fim do atino. 

ALTAR. Talvez nunca Deus exi- 
gisse allaies. se os homens permarje- 
cessem puros. í",éo e terra seriam o 
templo (Í'Ai|U('lle (|ue os creou; ser- 
Ihe-hia único altar o cor;ição do ho- 
mem; nossa candura e submissão se- 
riam sempre a hóstia immaculada of- 
ferecida ao Creador em perennal obla- 



ção, e nosso amor seria incenso sem- 
pre grato a Deus. Porém, como o pec- 
cado aniquilasse a harmonia, houve 
o homem mister chorar, orar, pedir 
perdão, oíTertar dons, e immolar vi- 
climas. Eis a oiigem dos altares. 

Em principio, foi altar de relva so- 
bre a qual Abel ofi"ereceu o seu sacri- 
ficio ao Senhor; em seguida, foi de 
granito, erguido pela mão agradecida 
de Noé; posteriormente é a pedra de 
Bethel que Jacub erige, ungindo-a 
com o óleo mysterioso; pur deiradei- 
ro, é o tabernáculo, e o templo de Sa- 
lomão (jue encerraram os altares, eé 
o próprio Deus (jue designa o modo 
como devem ser construiiios. Nn tem- 
plo judaico havia dous altaies: um de 
cobre, consagrado aos holocaustos, 
outro de ouro, onde se queimavam os 
perfumes. Nos templos pagãos, o gra- 
nito, o porfido, os melaes preciosos 
entravam na construcção das aras. 
Na região das Galias deparaai-se-nos 
pedras quadradas, peifuiadas per um 
orificio, as quaes, a juizo dus sábios, 
serviam de altares aos galezes para 
oíTerecerem seus sangrentos sacrili- 
cios. 

Sob o impeiio da nova lei, foi pri- 
meiro altar a iiropiin mesa em (|ue o 
divino Salvador insiiluiu, na véspera 
de sua moite, o adorável sacranKMito 
da EurhaiMslia : e, em memoria dVsta 
instituição inelTavel do sacrificiu chris- 
lão, é que os altares são do IViiio de 
mesa; pelo quê. os padres antigos os 
denominavam muito a niiinlo w/c.svi tr- 
Icsliiil, mrsn fonniilnrcl. T;imbem de 
algum modo semelham a túmulos os 
aliares, e então commemoiain o san- 
to Sepulc.hro, (ronde Jesus Chi isto sa- 
liiu glorioso e trium|>lianle, ou repre- 
sentam as asseuibléas dos chiistãos 
primitivos reunidos nos lumtilos dos 
marlyres para celebrarem sobre as 
campas o augusto mysUMio do sacri- 
fício santo. 

Os nossos aliares, por tanla manei- 
ra santilicado.s \\cmU'' (]ue em si tive- 
ram o corpo de Jesus (llirisio, rece- 
benr, não obstante, anlei i(Uiiiente ;i 
celebração do tremendo sacialicio, 
uma consagração especial e solemne, 
cujas niysleriosas ceremonias ciiten- 



48 



AMB 



AMB 



dem com as aliribuições do bispo: 
são as nriròcs dos;into clirisma, si|,'nal 
inyslctiosu (la doçiiia, (Ja },'rara (pie 
liamiriKJs no saciilicio tMicliarislico. 

Ivslcs incensos syniixjlisani os aio- 
mas (|iio Joscpli de AiiuiallK^a e 
as sanlas ninllicrcs consai^iaiain á 
se{)iilltira do Salv.idor, «> os perfiirnci; 
com i\\ip .M;i;;ilalcna (luciia i)als;iini- 
licar a i>('ilra d(» sen iiuniilo. Ali ! (pie 
pedia a(piclla do aliar! (|ii(; límpida 
ionlc deve dcrivar-se (Palli a depurar 
nossas almas I One liniiiuMilo para 
nos acalmar as (IímcsI 

IJe mais, os altares cont('m, s(í nào 
o corpo inteiro d'um marlyr, encer- 
ram ao menos os fragmentos de al- 
gum cadáver sanlilicado. A Igreja ler- 
rcslre (juiz com esle uso imilaroí|ue 
S. João nos revela ler vislo no cAo: 

alíu vi S'djre o aliar do Cordeiío 
as almas dos (jue morreram confes- 
sando Jesus. >' (Apocal., VI, 9). 

Dirccrão. Pôde leccionar-se esle ar- 
ligo a jiroposiio de Jacob, Noé, etc; 
e reciprocanieiile, ao respeito d'(^st.a 
lição, i)óde referir-se a historia dos 
personagens ou dos acontecimentos 
apontados. 

ALUMINA. {Veja Metaes). 

ALVARES do Oriente (Fernão). 
Nasceu em Gòa cerca de 15iO. Da vi- 
da d'este poeta temos mui diminuta 
noticia. l*ulilicou a Lusilania trans- 
forniiiíla, mescla de prosa e verso em 
(jue a elegância corre parelhas com 
a pureza da linguagem. Sobra, como 
elogio de seus escriptos, haverem 
dito alguns críticos que a Lusitânia 
não oia de Fernão Alvares, mas de 
Luiz de Camues, ijue havia sido es- 
poliado do seu manuscripto. É certo 
(]ue Fernão Alvares sobreviveu a Ca- 
mões, e o menciona com grande lou- 
vor a pag. 115 da edição de 1781. 

ALYZIOS (ventos). (Veja Ar). 

AMALGAMA. ^Veja Metaes). 

AMAZONAS. (Veja Buazil). 

AMBIÇÃO. 1. Ha uma só ambição 



compelenle ao homem honeàlo : ú 
praticar feilcs dignos de serem escri- 
ptos, ou escrevíM' feitos dignos de se- 
rem lidos. (IMiiiio, u .Mo(:o). A ambi<;ão 
(!, enlrt; todas as j>aix(^es humanas, 
a mais ferina em suas aspir;iç(5es e 
mais desenfreada em suas cobiças, e 
todavia a mais astuta no intento e 
mais ardilosa nos planos. ([Jossuel). 
Ambição e felicidade seguem estra- 
das tão ojjposlas ijue nunca podem 
encontrar-.se. (Saninl-lJub^iv). O am- 
bicioso é um ce^o a caminhar em 
pernas de pau. (.Madame NVoilb-z). O 
escravo tem um s(j senhor; o ambi- 
cioso tem tantos (piantas são as pes- 
soas (|ue podem afoitunal-o. (La- 
Bruyère). O coração generoso encon- 
tra sempre, e at(3 na vida caseira, on- 
de exercer legitima ambição. Onde 
quer que nos achemos, pfu- muito er- 
mos fpie vivamos, devemos sempre 
fomentar desejos de fructear no bem 
commum nosso espirito, talentos, 
6 conselhos. Os serviços, que po- 
demos prestar á socieiJíule, não se 
atém somente a fornecer candidatos, 
a defender iiinocentes no fôro, a en- 
tender em deliberações de paz ou 
guerra. Educar a mocidade, nitrar ás 
almas sãos princípios tão raros hoje 
em dia, reprimir ou sequer moderar 
o pendor vulgarissímo á fome das ri- 
quezas e sede de delícias, é, na con- 
dição de um particular, servir o pu- 
blico utilmente. (Séneca). 

2. «Ninguém resistiu ao irapeto 
dos comiuisladores; mas taoibem 
elles iiaviam [irincipiado por não re- 
sistir á C(d)iça e á crueza. Quando se 
cuidava que arrastavam os outros, os 
arrastados eram elles. Vejam César... 
Quem o despenhou, cora a republica, 
30 abismo? O anceio de gloiia, a am- 
bição furiosa de deixar os outros 
muito aqut^in da sua balisa. Não lhe 
solTieu o animo ter sobranceiro um 
só homem, e todavia a republica sup- 
poitava dous imperantes. E Mário, 
quando exercia o seu consulado úni- 
co (porque elle só uma vez o possuiu 
legalmente, e nas outras usurpou-o), 
e espostejava os cimbros e germâni- 
cos, e persegiu Jugurlba nos seus 
desertos, cuidam que era impulso es- 



AMB 



AME 



49 



poníanco de bravura que o arrostava 
com lamaiilios perigos? Não, Mário 
comuiandava o txertito, e a ambição 
commandava Mário.» (Sen., Carias a 
ÍAicilio). Como foi que Alexandre, o 
máximo conquistador, inquinou sua 
vida com vicios torpes e hoirendas 
crueldades? F,nlende-se, Pbili[)pe, seu 
pai, grande rei e grande polilico, 
ignorava que na mocidade é que a Ín- 
dole se amolda. Lysimacho havia 
instillado com lisonjas hartos vicios 
no educando, qaando Aristóteles foi 
chamado. Instiuir, favonear talentos, 
excitar brios, fòia fácil empreza ao 
princi[)e dos plnlosophos; mas corri- 
gir vicios de príncipe em corte como 
a de Philippe, sobrepujava talvez a 
força humana. Taes vicios apparecc- 
ram cedo. De modo que Alexandre, 
sendo convidado a pleitear o premio 
da carreira, recusou-se, salvo se lhe 
dessem emulos reaes. Como não re- 
bentaria de ambição e soberba aqucl- 
le a quem o pai dissera vendo Duce- 
phalo sopesado: (< Meu filho, vai de- 
mandar leino digno de ti; que a Ma- 
cedónia não te basta ! » E, quando ve- 
mos esse pai, ébrio em um banque- 
te, crescer sobre o tilho de espada ar- 
rancada, deveremos admirar que, 
mais ao diante, Alexandre saqueie e 
arraze Thebas, e corte a feiro os ha- 
bitantes, e mande matar Paimenio, 
e assassine Clito, e morra em lira a 
morte dfí um glotão incontinente? 

3. P>ilem-se os estímulos de am- 
bição (jue procedem de confrontar o 
alumno com os seus condiscijiulos. 
Se elle é superior a outro em jogos ou 
certos estudos, faça-se-lhe sentir (jue 
lhe é inferior n'um ou n'outro exercí- 
cio. Convém que estas observações o 
persuadam, de que o dominio das fa- 
culdades humanas é tão grande que 
ninguém pôde sersuperioi- aos outros 
em tudo. Afazendo-o a não se^com- 
parar aos outros, mas a si próprio 
quanto aos seus piogressos, o desejo 
de bera fazer crescerá em seu espiri- 
to, sem o estimulo da ambição. A his- 
toria dos ambiciosos (veja hção n.o "1) 
servirá de auxiliar. Diga- se aos alu- 
mnos que um homem, seja qual fôr 
hoje em dia o seu talento, pouco 



monta na sociedade, e que é impru- 
dentissimo lanço exorbitar da sua es- 
phera. É certo que a ambição incita 
ao trabalho, e leva a posições que in- 
cutem respeito. Não obstante será 
erro grande dar-ltie alentos. Cuide- 
se somente em mover desejos de ser 
útil, honesto, instruído, pi estádio e 
laborioso: n'este arsenal de virtudes 
é que se acham meios de obter a fe- 
licidade, e nunca nos expedientes 
ambiciosos. (Veja Emulação). 

Direcção. Diclar e fazer aprender 
a primeira lição, — Dar alguns por- 
menores da vida de César, de Scylla, 
e de Mário (Veja Primeiro século, 
antes de Jesus Chrislo), que os alu- 
mnos devem resumir, ajuizando acer- 
ca desses homens observados como 
aujbiciosos, — A terceiía lição é ex- 
clusiva do professor. 

AMEIXIEIRA. (Veja R0SACE.4S). 

AMERICA. Christovão Colombo 
fez conhecer á Europa a existência 
do vasto continente americano. (Veja 
COLOMDO). Em 1 i9'2 aportou ás ilhas 
Lucayas, e era 1497 descobriu terra 
firme. Isso não obstante, a gloria de 
ligar e dar o seu nome á Anieiica, esta- 
va leservada para Américo Ves[iucio, 
cujo meiilo unicamente consiste em 
ter descoberto em 1 U".) a costa orien- 
tal da America do Sul, da qual viagem 
publicou um roteiro. E hoje sabido 
que os corsários scandinavos já es- 
tanciaram na Groenlândia no sécu- 
lo VI, e ahi deixaiam colónias. No 
século X dous irlaiulezes apoitaram 
na região chamada Nu\a-Esc(>i;ia e 
Nova Inglaterra. Até se pretende que 
navios {dieiiicios e carthaginezes, des- 
garrados por tempestades, aborda- 
ram, em tempos remotos, as costas do 
Mexiio. Como (juer (pie fosse, só no 
século XV foiam realmente conheci- 
das na Europa essas vastas regiões. 
— A America, em virtude ila sua ex- 
tensão e jiosição. deve ctniter lodos 
os climas das outras parles do mun- 
do ; mas no geral é mais fria. Esta 
dilTcrença de certo procede da pe- 
(piena largura do cuiilinenlo e seu 
prolongamento para os poios, da ai- 



50 



AME 



AMI 



lura e direc(;3o de stias serras, e da 
immensa (lu.-uUid.ulc d^ai^iia (|iie ollas 
veíLcfn ao mar. irahi resulla (|ii(í alé 
d(jt)aixo (io (!(iiiad()i\ a tiMnppratiira ('• 
pouco mais ou rufuos sciiicIlKiiiit! á 
das r<'{,Mòos Uuiípcradas do nosso coti- 
tiiiodlc. As rctíiòcs siliiadas ciiUc os 
dons lfo[iic,ns são siijcilas a Icnivois 
borrascas o Ircmorcs d(í lerra. O ar 
(' dociilio oiri ali^Mimas parles, o. causa 
molcslias cpidcmir.is, lodavia m^nos 
fr(.M|u(Mil('s do (juc lia Ásia ou Afiica. 
— O solo, pela maior parte fciiil, c. 
desalirochaiido sob a zona lorrida a 
mais vijroidsa c rica vcfíctarão. (• l)em 
culiivado síMiHMUe no lilloial. No irile- 
rior ha rxlciisas lloreslase immoiisas 
planícies cobertas de enormes vege- 
laes bervaceos, as (|naes se chamam 
saranns. Afora as numerosas produc- 
ções que lhe são próprias, a Ameiica 
importou c naluraUsou quasi todas as 
plantas úteis do antii^o mundo, e 
muitos animacs domésticos. A batata, 
o milho e o peru. são originários da 
America ; os indígenas dão ares de 
pertenceí'em todos á mesma raça ; a 
maior parte d'elles tem a pelle co- 
breada, e quasi que não tem barba; 
andam dispartidos em populações nu- 
merosas, (juasi todas independentes, 
c algumas temíveis, mormente na 
America do Sul. A civílísação, em ge- 
ral, está muito atrazada entre os 
americanos indígenas; não obstante, 
alguns tem formas de governo notá- 
veis, exeicitam algumas artes indus- 
Iriaes, e não tem a ferocidade das 
outras nações. Muitos povos, extin- 
ctos ou anteriores ao descobrimento 
da America, tiveram conhecimentos 
astronómicos, leis, tal (|ual escriplu- 
ra, e arcliitectura considerável. Quan- 
to aos povos de origem europeia, es- 
ses primitivamente obedeceram ás di- 
versas metrópoles de que haviam si- 
do colónias; depois proclamaram a 
independência, e formaram republi- 
cas federativas, tirante o Brazil e o 
Haiti. 

Exercidos. Dizer por escripto a po- 
sição da Pbenicia, de Garthago, de 
Scandinavia, da Groenlândia, da No- 
va-Escocia, do México, do polo, do 
equador, dos dous trópicos, das zo- 



nas temperadas, das glaciaes, e da 
zona tórrida. ~ Hedigir depois da 
leitura : descobrimfMito da America, 
as[iecto e cJima, fertilidade do solo, 
costumes dos indígenas, povos eiiro- 
[»eiis. — Ksles dous exercícios devetn 
seguir-se a preleccOes oraes sobre o 
mapjia. 

AMETHYSTA. ( Vípi Aiigii.l\ e I»E- 
nriA). 

AMIGTO. (Veja Ornamentos), 

AMIEIRO. (Veja Ul.maceas). 

AMIENS. (Veja IMcardia). 

AMIZADE. 1. A vida humana se- 
ria solidão acerba se a amizade lhe 
não fosse companhia e esteio. Tão 
necessário soccoiro ninguém o bus- 
que inconsideradamente: poK-m, fei- 
ta uma vpz a escolha com prudência. 
á grande desar leniincíal-a. (Valério 
Máximo). Contemplemos nossos de- 
feitos e vicíos, e reconheceremos que 
o amigo ((ue necessitamos não é 
aquelle que nos louva, mas sim o 
que nos (alia com libeivlade, e nos 
força ouvil-o aconselhando, ou repre- 
hendendo. Ha ahi amigos que são 
como o dinheiro: antes de os pormos 
a uso, é mister examínal-os, e não 
guardar a hora da prova para quan- 
do carecermos d'elles. (Plutarco). A 
cada passo encontramos cãesinhos a 
brincar uns com os outros: parece 
que entre elles reina sincera amiza- 
de; mas se lhes atirardes o osso quan- 
do brincam, eil-os inimigos; pegam 
de rosnar, ameaçando, e d'ahi a pou- 
co dílacerara-se' Tal c, fiequente- 
mente, a amizade dos irmãos, de pais 
e filhos. Se pegam a disputar por 
causa de dinheiro ou de terias, lá 
vão os sentimentos generosos, os no- 
mes de pai, de irmão, e de filhos; o 
interesse tudo aniquilou. Queres sa- 
ber se dous homens são amigos? Não 
perguntes se são irmãos, ou se foram 
creados juntos; informa-le se são vir- 
tuosos; porque a amizade só pôde 
existir em corações onde se abriga o 
pudor, a fidelidade, e a concórdia de 



AMI 



AMI 



51 



tudo que é bello e honrado. (Epicte- 
to). Um amigo é a dualidade em uma 
só vida. De feito, quando estou com 
um amigo, não estou só, e todavia 
não somos dous. Elege para teu ami- 
go o homem mais virtuoso que co- 
nheces. (Pilhagoras). Os maus só tem 
cúmplices; os libertinos tem sócios 
de devassidão; o commum dos ho- 
mens ociosos tem relações. Os ho- 
mens virtuosos tem amigos. (Voltai- 
re). Quando presto algum serviço a 
um amigo, ou lhe zelo os interesses, 
não tia motivo para que me louvem; 
pois creio que apenas pratiquei um 
acto indigno de censura. (Planto). 
Não é na prosperidade que se distin- 
guem os verdadeiros amigos; na des- 
graça o que se aprende é a conhecer 
os verdadeiros inimigos. Não deixeis 
um amigo velho, porque o recemvin- 
do nunca o igualará. A amizade é 
bálsamo que dulcifica as amarguras 
da vida, e conserva a pureza d'alraa 
que prepara a eternidade. (Ecclesias- 
tes). Desconfiai d'aquellc que detrahe 
no amigo ausente, e o não defende 
quando o deprimem. (Roracio). Nada 
mais frágil ijue as amizades huma- 
nas: leva muitos annos a forraarera- 
se, e um momento só as desfaz. O 
amigo de todos não é amigo de nin- 
guém. (Bourdaloue). A semelhança 
dos destinos, principalmente quando 
esses destinos são desditosos, é o vin- 
culo que mais prende duas almas. 
(De Chaleaubriand). 

2. Sem a amizade, não ha encan- 
tos na vida. Isto é tão certo que se 
existe um homem de tão selvagem 
condição, que deteste a companhia 
de seus semelhantes, como Timão 
de Athenas, nem por isso tal homem 
se esíjuivará de conhecer outro em 
cujo seio possa verter o fel da sua 
misanthropia. Timão tinha um ami- 
go intimo chamado Apemanlo, ao 
qual se acamaradára por causa da 
semelhança de génio. Este, ceando 
uma noite era casa de Timão, excla- 
mou :— Garo Timão, (luecêa Ião agra- 
dável ! — Sim — disse Timão — se tu 
ahi não estivesses. — Perguntou-lhe 
um dia o mesmo Apemanto por que 
amava elle Alcibiades, mancebo fe- 



roz e atrevido. O philosopho respon- 
deu : — Por que prevejo que elle ha de 
ser o llagello dos atherii«nses. — Com 
grande espanto da multidão, appare- 
ceu elle ura dia na assembléa publi- 
ca e subiu á tribuna oratória, bra- 
dando : — Athenienses, eu tenho uraa 
horta onde nasceu uraa figueira em 
que muita gente se tem enforcado. 
Tendo eu tenção de edificar n'esta 
horta, antes de cortar a arvore, faço- 
vos saber que se algum de vós ten- 
ciona enforcar-se n'ella, ande de- 
pressa. — Singular serviço! e singu- 
lar amizade! — Um amigo deve amar 
o seu amigo tanto como a si próprio. 
Damão e Pylhias, ambos discipulos de 
Pylhagoras, tão fielmente se amavam, 
que competiam em morrer um pelo 
outro. Um d'elies condeinnado á mor- 
te por Dyonisio, o Tyranno, obteve es- 
pera para ir ao grémio de sua famí- 
lia regularisar os seus Uf^gooios, em 
quanto o outro sem hesitar se entre- 
gou ao tyranno como reféns do seu 
amigo, sujeitando-se a morrer por 
elle, se não chegasse no prazo con- 
cedido. Os dous amigos, tendo mos- 
trado grandeza d'alma igual no mo- 
mento supremo da prova, inspiraram, 
com a fidelidade reciproca tal espan- 
to ao tyranno, que Dyonisio lhes pediu 
que o admittissem, como terceiro, á 
sua amizade, perdoando ao que devia 
morrer. — O poeta Simonides, fiado 
na intima amizade que o ligava a The- 
mistocles,pediu-lhe favor injusto. The- 
mistocles recusou-lh'o, dizendo: — 
Querido Simonides, tu não serias bom 
poeta, se fizesses versos contra as re- 
gras da arte poética; e eu não seria 
bom magistrado se, por te comprazer, 
procedesse contra as leis do paiz. — 
Kulilio recusou a um amigo um pedi- 
do injusto : — De (pie me serve a tua 
amizade — lhe diz o outro indignado 
— se me não fazes o que te peço ? — 
E Rulilio replicou: — E (jue precisão 
tenho eu da tua, se me obrigas a fa- 
zer a teu favor o que a honra ine re- 
prova? — Mecenas era amigo intimo 
de César Augusto; e o muito (pie po- 
dia com elle tudo aproveitava no bem 
de lodos: tal era sua condição. Quan- 
do Augusto eslava colérico, Mecenas 



52 



AMO 



AMO 



com mnravilhosi habilidade e certo 
f)fe(l :)rni(iio, í|iicbraiilava-llift a ira: 
iiin (lia, ,\ut,'ii,lo síMilf^aoiava e pare- 
cia disposto ;i [)roft'rir muitas oonde- 
mnaçòcs á morlt- Mecenas eslava [)re- 
serite; e, corno visse que lli-^ eia iin- 
possivel roru[>er por entre a turba 
para clie<;ar ao tribunal desenami^o, 
es(;reven esl;is palavras nas suas ta- 
beliãs: (' Ki^;ni'-le tr.ilii, V('nln;,'o ! )) 
K aliron asi,;ihc|l;isa Anjíiislo. () prin- 
ci()e liMi, e, erguendo se de golpe, 
nintíncni foi (;ondeinnado. 

hiriTião. A primeira lição será di- 
ctada por duas vezes, e decorada. As 
palavras de cada aiittior podeaa ser- 
vir ao assumpto da narrativa. A se- 
gunda lição será lida, commentada, 
e resumida pelos alumnos. 

AMOR. 1. «Observei sempre que 
os mancebos corrompidos precoce- 
mente, e empégadosna libertinagem, 
eram desbumanos e cruéis, e rpie o 
fogo do temperamento os volvia im- 
pacientes, vingativos o coléricos. A 
devassidão era o principal de suas 
phantasias; pai, mãi, todo mundo sa- 
crificariam ao somenos dos seus pra- 
zeres. Pelo contrario, o mancebo edu- 
cado em ditosa simplicidade, pro[)en- 
de desde os primeiros impulsos da na- 
tureza para as paixões maviosas e be- 
névolas; condoc-sedas dores alheias, 
e estremece de jubilo quando encon- 
tra o seu condiscípulo; ha n"elle o en- 
tbusiasmo que enternece os abraços 
e dulcifica as lagrimas; peja-se de ser 
molesto, e pesa-lhe ser oíTensivo ; per- 
doa o mal que lhe fazem, tão depres- 
sa quanto repara o mal que fez; a 
adolescência não lhe é a idade dos 
ódios nem dos desforços; é antes a 
sazão da piedade, da cíemencia e dos 
pensamentos generosos. Sustento, e 
não receio que a experiência me des- 
minta, que um menino de honesta 
origem e mantido na innocencia até 
aos vinte annos, chegando a esta ida- 
de, é amoravel, dedicado e amabilis- 
simo. — Aproveite-se tudo que tenda 
a manter a pureza; a conservação das 
maximasvirtudes pende das mínimas 
cautelas. —A força de alma que gera 
as virtudes é consoante á pureza que 



as alimenta. —Guarde o próprio de- 
coro quem quer ser honrado. Quem 
a si não se respeita, como exige (jue 
o respeitem? K (piem denoda. lamen- 
te s(; remessoii á «Miliadj do mcao, oti- 
do terá paragem? « (J. .1. H(jusseau). 

2. Amor a D-ns. « Unicamente o 
amor rende a Deus o culio (|ui' lhe 
devemos. K lastimável a desamp;ira- 
da alm I ipie se não soccorre do Se- 
nhor amorosafnerjte! Nunca a felici- 
dade orvalhará a aridez d"essd alma !» 
(S. Agostinho). «Sem o amor a Deus, 
todas as virtudes são superliciaes, e 
nunca se radicam no coração. :« (Fé- 
nélon). «Sublime cousa (!amar Je.sus: 
só este amor faz leves os grandes en- 
cargos, e sujiporta in|uebraiitavel as 
alternativas da vida; ponjue não sen- 
te o gi'avame do peso, e adoça todas 
as amarguras.» IniUucão, iii,*5. (Veja 
Garíd.vde). 

3. Amor filial. A natureza dá as 
primeiras e principaes lições da pie- 
dade lilial; e, sem o ministério da pa- 
lavra nem das leiras, lillra mvisivel- 
raente no coração dos lilhos o amor a 
seus pães. Um mancebo seguira lon- 
go tempo a escola de Zeno. De volta 
para casa, perguntou-llie o pai o que 
era a sabedoria. Respondeu que os 
eíTeitos Ufa revelariam. O pai, aze- 
dado com tal resposta, castigou-o; e 
elle, immovel, soífreu serenamente o 
castigo, e disse: — Aprendi a suppor- 
tar sem azedume as iras de meu pai. 
— Agesilau ordenou a seu filho que 
julgasse iniquamenleum pleito. — De 
meu pai — disse o íilho — aprendi, 
desde menino, a obedecer á lei. Se 
hoje me recuso a transgredil-a, obe- 
deço ainda a meu pai. — Os gregos, 
que tomaram Tróia, lançaram bando 
que era permitlido a cada morador 
levar comsigo o objecto que mais caro 
lhe fosse. Èneas, descurioso de tudo 
mais, lança mão dos deuses penates. 
Os gregos,^ commovidos d'esia pieda- 
de, permittiram-lhe que escolhesse 
outro objecto. E elle tomou sobre os 
hombros Anchises, seu pai, de pro- 
vecta idade. Maravilhados de assom- 
bro, ordenaram que todos os bens lhe 
fossem reslituidos, assignalando as- 
sim quanto é nobre honrar, acima de 



AMO 



ANA 



53 



tudo, 05 deuses e os pães. Por occa- 
sião da tom id;i de Sardes, pelos per- 
sas, um soliiado que não conhecia 
Gresns, inveslin com elle de espada 
apontada ao peito. Um tilho, que o es- 
tremecia piedosamente, e nunca pro- 
ferira palavra, a despeito da habili- 
dade dos médicos, quando viu seu pai 
no cume do perigo, abriu a bocca, 
rompeu os liames que lhe entravavam 
a lingua, e exclamou com Ímpeto: — 
Soldado, não mates Gresus!— E d'esta 
arte, em premio do seu amor filial, 
este mancebo obteve o dom da pala- 
vra, c até ao fim da vida fallou per- 
feitamente. — Foi também o amor fi- 
lial que em tenros annos armou Sci- 
pião, o Africano, quando acudiu no 
campo da batalha a seu pai, o qual, 
sendo cônsul, pelejava contra Anni- 
bal, ás margens do Tesino, e cahira 
mal ferido no recontro. Nem verdura 
de annos, nem inexperiência da mi- 
lícia conliveram o moço que se não 
lograsse da gloria de arrancar á mor- 
te seu pai e general. — E conhecida 
a historia de Coriolano, que hostili- 
sava a sua pátria em desforço de in- 
justiças. Ninguém vingííra descel-o 
de sua ira; mas, rogado pela mãi, ex- 
clama : — Venceste, minha pátria ; que 
eu sou vencido das supplicas de mi- 
nha mãi; a injuria, que me fizeste, 
por amor d'ella t'a perdoo. 

Direcção. O professor deve appli- 
car-se á estremar o que c amar a 
Deus e amar as creaturas, entre pai- 
xões ardentes e paixõís legitimas, 
comparando o resultado d'ellas. — As 
passagens da terceira lição sejam li- 
das ou narradas, e os alumi\os devem 
julgar, faltando ou escrevendo, o pro- 
ceder de cada personagem. 

AMOR PRÓPRIO. (^0 amor próprio 
c a primeira c mais con;.;enita pro- 
pensão de quantas a natureza dá : é o 
manancial das outras; é a vida calma 
de todo ser intelligcnte e sensível. 
Segundo a direcção (|ae se lhe dá, re- 
sultam vicios ou virtudes. Esclareci- 
do acerca de seus interesses verda- 
deiros, concilia a sua com a felicida- 
de alheia, e só intenta dar- nos felici- 
dade operando de modo (juc lodosos 



mais nos aquinhoem d'ella. Logo, po- 
rém, que este amor se desmanda, 
deixa de ser amor bemfazejo, e equi- 
tativo de nós e do próximo, e volve- 
se amor próprio exclusivo e iníquo: 
é já vaidade, é orgullm, fonte de to- 
dos os males, c gérmen de lodos os 
crimes.;» (Gerard). Seria mister so- 
pesar desde o começo o orgulho da 
prosápia, dos títulos, do fausto e das 
riquezas, para pôr freio ao amor pró- 
prio, ou abafal-o ao nascer; mas para 
evitar a vaidade que nos vem do sa- 
ber, do talento ou da virtude, absta- 
mo-nos de confrontos, e sejamos fieis 
á máxima do sábio: «Entra no co- 
nhecimento do que és.» As fabulas 
da RCt e do Cnrvo darão a perceber 
aos meninos que o amor próprio nos 
torna ludibrio de rivaes sem con- 
sciência, poniuc nos falta discreto 
juízo. — «O amor próprio, avassalan- 
do os homens, estraga os fortes com 
o orgulho, e os fracos cotn a vaida- 
de.» (De Ségur). «Quem só a si se ama 
de si mesmo se deve só temer. É o 
que a religião nos inculca quando nos 
recommenda que sejamos odiosos a 
nós mesmos: bem sabe cila (|ue não 
aceitaremos o conselho litteraíraen- 
le.» (De Bonald). 

AMOREIRA. (Veja UnriCACEAS). 

AMSTERDAM. (Veja Hollanda). 

ANALYSE. i . A analyse nos é natu- 
ral, dígaraol-o assim, porque nos au- " 
xilía desde que adquirimos os conhe- 
cimentos rudimentares. Não podemos 
formar exactíssima idéa de um todo, 
sem o havermos estudado por partes 
separadamente. Dos nossos próprios 
sentidos recebemos as primeiras li- 
ções de analyse, actuando cada um de 
per si, e independente dos outros, so- 
bre as diversas parles do mesmo ob- 
jecto. E verdadeiramente útil a ana- 
lyse quando é completa e regular, isto 
é, quando observa todas as miudezas 
em sua ordem natural, e c*uu'luo re- 
compondo o objecto por maneira que 
lhe torne a vida retalhada durante 
momentos. Então é que o inventirio 
se ultimou, e o objecto se fez verda- 



54 



ANA 



ANA 



deiraraente conliecido. A aualvse, ne- 
cessária em lii(Jn, exig« processos par- 
ticulares e rfícfbe, nomes diversos, 
conforme os ohjeclos (!m i|ue se cm- 
pregj Na aiialys(3 grammalical, de- 
compõo s(í uma [ilirase em |)alavras, 
consi(l<'rj(las sóuienle como parle do 
discurso, como nomes, adjectivos, 
verbos, (Uc. Na arialyst! lógica, decom- 
põe-se uma plirase em proposições 
principaes. complelivas, explicativas, 
deltMiniM.tlivas, e cada pro|)osiçâo em 
estas diversas partes, sujeito, verbo c 
atti'iliiitõ para mostrar a correlaçáo 
de suas p.irles. Km a analyse das cou- 
sas ou vozes, exaraina-se cada parte 
em [)arlicular, comparando-as entre 
si. As analyses grammalical e lógica 
tendem a fazer conhecer especialmen- 
te o mectiauismo da lingua. K utilissi- 
mo que estas analyses sejam feitas 
oraliiKMile, e não por escripla, como 
antigamente, (jue era tempo desbara- 
tado. Os exercícios escriplos, que con- 
vém se f. ç.im para simultaneamente 
se aprender orlhograpliia e analyse, 
são os seguintes: Fazer escrever ver- 
ticalmente, exlrahidos das lições li- 
das: 1." os nomes das pessoas; 2.» 
os nomes de animaes; 3.'^ os nomes 
de cousas; i." os nomes masculinos; 
5.0 os nomes femininos, etc. — Quanto 
aos adjectivos: adjectivos expressivos 
de qualidades: 1." physicas; 2." espi- 
lituaes; 3.° naturaes, adquiridas; 4." 
boas ou más, etc. — Quanto a verbos: 
4.0 verbos activos, verbos passivos; 
2.° transitivos e inlransitivos; ver- 
bos no singular, no plural, no presen- 
te, no pretérito, no futuro, no indi- 
cativo, no condicional, no conjuncti- 
vo, ele. Para as palavras invariáveis: 
advérbios ou preposições de tempo, 
de logar, de modo; conjuncções de 
causa, de fim, de meio, ele. Pelo que 
respeita a analyse lógica, fazer indi- 
car já as proposições principaes na li- 
ção lida, já as subordinadas, etc, as- 
sim como os sujeitos, attribulos e 
complementos, etc. Estes diversos 
exercícios que devem adaptar-se á 
idade do alumno, tornarão variadís- 
sima a lição de leitura, e irão des- 
abrochando as faculdades, aopasso que 
obrigam o alumno a comparar, a no- 



tar a orlhographia das palavras que 
traslada, a desvelar-se na escripla, 
e a estar occupado em (juanto o 
professor se occupa em outro ser- 
viço. 

2. K mais relevante o inlfresse na 
analyse das cousas. iVVIc ("onside- 
rar-s(! om relação aos objectos phy- 
sicos. Historia natural, cliimica, e in- 
dustria abrem ao jjrofessor um ma- 
nanciiil iiiexliaurivcl de fXíMnplos as- 
sim curiosos que úteis. PóJe lambem 
ser empregada a fazer conhecer* não 
só o valor grammalical das palavras, 
mas lambem o significado d(! cada 
uma. Pôde em fim applicar-se a lodo 
o pensamento expr-esso na escripla 
ou no discurso, e então é que se cha- 
ma nnnlysc liltcrnria. — Se o conhe- 
cimento e sentido verdadeiro de cada 
palavr"a é necessário para o recto 
exercício do juizo, a analyse é a me- 
lhor maneira de obter aqiieile conhe- 
cimento com a explicação do valor 
das raizes, dos derivativos e compos- 
tos das palavras. (Veja K.mzesi. Por 
exemplo, impreiiúo, significa o que 
não é previsto, uma cousa que se não 
espera. Mediante esta explicação, os 
meninos certo não adquiriram idéa 
bastante clara da palavra, ou pelo me- 
nos sufficienle. Mas chama-se-lhes a 
atlenção para os três elementos da 
palavra inpve-vialo. Pergunle-se-lhes 
o sentido da syllaba in por meio de 
exemplos análogos: incommodo. in- 
civll, impaciente, illegivel, irrepará- 
vel, mostrando-lhes as modificações 
que esta parlicula pôde solTrer sem 
variar de accepçâo, Explique~se-lhes 
depois o sentido da syllaba pre, mos- 
trando a sua infiuencia sobre os com- 
postos de que ella é parte: preferido, 
prematuro, predicção. Em fim, che- 
gando á palavra vislo, indique-se-lhes 
a variada significação dos diversos 
compostos da palavra vn. Por meio 
de taes analyses que se devem fazer 
accidentalmente, o alumno virá com 
certeza a formar idéa completa da 
palavra assim analysada, e ao mesmo 
tempo de muitas palavras análogas. 
Pouco mais direi no que toca á ana- 
lyse litteraria (Veja Gosto), cujo ob- 
jecto é discutir de viva voz ou por es- 



ANG 



ANG 



55 



cripto um pensamento em separado 
ou, melhor ainda, O' lugar selecto de 
qualquer es<Tiptor, para lhe fazer ahi 
notar as excellencias ou defeitos. Este 
exercício, que é da alçada do ensino 
secundário, pode, não obstante, ser 
muito proveitoso na escola primaria, 
mas somente com referencia aos 
alumnos mais adiantados. Quanto aos 
outros meninos, logo desde os mais 
verdes annos, outro exercício poderá 
usar-se com vantagem grande; e vem 
a ser: após a leitura d'uraa historia, 
ou d'ura trecho qualquer, em vez de 
se lhes dar relevo ás qualidades do 
Ireciío, indicar-lhesem breve analyse 
as partes mais relevantes, de modo 
que d'esta analyse se colha o exercí- 
cio dá intelligencia, e se vá forman- 
do o homem de trato qae se ha de 
exprimir clara e correctamente. 

ANÃO. (Veja R.\ças). 

ANDORINHA. (Veja Pássaros). 

ANDRADE CAMINHA (Pedro de). 
Nasceu na cidade do Porto, não se 
sabe em que anno, e morreu cm Villa 
Viçosa por 1589. As suas poesias ap- 
pareceram impressas pela primeira 
vez em 1791. E' escriptor muito cor- 
recto, c digno de hombrear com An- 
tónio Ferreira, cujo discípulo foi; não 
obstante, as suas poesias, por muito 
monótonas, enfastiara; e, se não for 
o incentivo de estudar a língua (|ue 
lecompense quem o lêr, Andrade Õa- 
minha não tem outro mérito (pie o 
recommende. A critica judiciosa não 
lhe perdoa os epigramraas com que 
alguma vez tentou ferir Gamões, seu 
contemporâneo. 



ANÉMONA. 

CEAS). 



(Veja Rainuncul.v- 



ANGERS. (Veja Anjou). 

ANGOULÊME. (Veja Saintonge). 

ANGRA DO heroísmo, cidade, 
capital da ilha Terceira, no archipe- 
lago dos Açores. Descoberta entre os 
annos de llíi e 1130. Notabilissima 
na historia, pela contumaz e heróica 

VOL. I. 



resistência que fez á armada caste- 
lhana do usurpador Philippe ii. Foi 
elevada^ a categoria de cidade em 
1533. É praça de guerra em que a 
arte se trava de mão com a natureza 
para lhe darem um aspecto de forta- 
leza inexpugnável. O porto é amplo, 
de boa ancoragem, e abrigado de lo- 
dos os ventos, tirante o de travessia. 
A cidade é bella, bem arruada, lim- 
pa, e rica de edifícios primorosos e 
templos. A cathedral é coeva de D. 
Sebastião, qn^ a fundou para collcgio 
de jesuítas. É sede episcopal desde 
1')'34, e tem tribunal da Relação. An- 
gra foi capital de todas as ilhas aço- 
rianas; mas, depois da divisão admi- 
nistrativa do archipelago, é somente 
capital de um dos dons districtos. Ex- 
porta cereaes, legumes e laranjas '. 

ANGULO. 1. Definições. Um an- 
gulo é o íiitervallo que deixam duas 
linhas quando se encontram em um 
ponto Este ponto denomina-se o vér- 
tice do angulo, e as duas linhas os la- 
dos. Um angulo é rccíilineo quando c 
formado por duas rectas, ciirciiineo 
quando é formado por duas Unhas 
curvas, e mixiilineo quando é forma- 
do por uma recta e uma curva. — A 
grandeza d'um angulo não depende do 
comprimento dos seus lados, que se 
devem sempre reputar indefinidos, 
senão do inlervallo que ha entre el- 
les. — A medida d'um angulo é o nu- 
mero de graus e parles do grau do 
arco interceptado poios seus lados, 
descripto do vértice, como centro, com 
qual(|uer raio. — O angulo é recto, 
se tem por medida 90 graus ou a 
(juarta parle da circnmferencia {(ina- 
drante) ; c agudo, se tem menos que 90 
graus; é obtuso, se tem mais. — !Jis- 
sectriz de um angulo é a recta que o 
divide em dons ângulos íguaes. — .1»- 
gulos adjítcoilcs são dons ângulos for- 
mados do mesmo lado duma recta 
que é cortada por outra. — Dous an- 

« Os extractos concernentes ;\ cidutlcí» principaes 
dos domínios portupuczes são feitos do curiosíssimo 
livro do snr. 1. de Vilhena Barbosa, iuUtiiliuiu: As 
r/(íutit'.s c villas dii iiioitarcUia fiortugiirza, que 
i<m brazão Jeanncwt. Lisboi», IHCO. 3.* tom. 

.V. ,/,) 7'. 



56 



ANG 



ANI 



giilos, cuja somma (' \ff,\\w\ a um an- 
gulo reclo, são o ronijtlriwnlo uiu do 
oiilro; s3o o snj)[il''inriilíi um tlí» ou- 
tro, í|Uiin(lo a sua somma ó, igual a 
(Jous ângulos rectos. — Amjiilds nr- 
ticdhiiriiir (ijipofilos síio os ([uc t<'(ím poi" 
vértice ("omrnum o ponto diiitersec- 
çHo de duas rcdas o (|ue estão situa- 
dos dos dfnis lados de cada i'ecta com 
as aberturas dirigidas (;m sentidos 
oppostos. — Duas paralhdas, cortadas 
por uma recta, chamada acciínlo. ou 
íransrcrsal, formam oito ângulos de- 
nominados assim: ângulos corrcspan- 
(Icnlrs^ allrrnos-inhrnos e aUrrnos- 
r.rlcrnos. Os correspondentes estão si- 
tuados a um lado da secante, não ad- 
jacentes, um interno e o outro exter- 
no nas parallelas; os alternos-inter- 
nos são os internos nas parallelas, ca- 
da um a seu lado da secante, não ad- 
jacentes; e os alternos«externos são 
os externos nas parallelas, cada um a 
seu lado da secante, não adjacentes. 
— Os ângulos no circulo, segundo a 
posição do seu vértice e dos seus la- 
dos, denominam-se do modo seguin- 
te: nngnlns no contra, e cxrmlricos: 
inscriptns, circnmsrriplos, ângulos do 
scf/nirnlo. Os primeiros são os que teera 
por vértice o centro do circulo ; os se- 
gundos são os que não teem por vér- 
tice o centro do circulo: são inscri- 
ptos, se o vértice está na circumfe- 
rencia e os lados são cordas do circu- 
lo; são circuinscriptos, os que teem 
os lados tangentes ao circulo; e são 
ângulos do segmento, os inscriptos 
cujos lados são um corda e o outro 
tangente. 

"2. Proposições. Em dous círculos 
iguaes, ou n'ura mesmo circulo, ân- 
gulos ao centro iguaes interceptam 
com os seus lados arcos iguaes.— Em 
dous círculos iguaes, ou n'am mesmo 
circulo, os ângulos ao centro são pro- 
porcionacs aos arcos qne interceptam 
com os seus lados. — A somma de 
dous ângulos adjacentes é iguala dous 
ângulos rectos. — A somma de todos 
os ângulos, formados de um mesmo 
lado de uma recta e tendo para vér- 
tice cora mura um ponto d'ell3, vale 
dous ângulos rectos. — A sorama de 
lodos os ângulos, formados ao redor 



de um ponto, por qualquer numero 
de rectas, viiU; quatro ângulos rectos. 
— Os ângulos verlicalnuMile oppostos 
são iguaes entre si. — Nas [tarailelas: 
os ângulos correspondenies. alternos- 
inlenios, alternos externos, são iguaes 
entre si a dous e dous. — São iguaes, 
ou supplementares, dous ângulos que 
teem os ladf)s patallelos: são iguaes, 
(|uan(lo os lados parallelos são des- 
criptos a dous e dous no mesmo sen- 
tido, ou em sentido contrario; são 
su[)plementares, quando dous lados 
paiallelos são descriptos íio mesmo 
sentido e os outros dous em sentido 
contrario. — São iguaes, ou supple- 
mentares, dous ângulos (jue teen» os 
lados respectivamente perpendiíula- 
res : são iguaes, sendo da mesma e.«- 
pecie; são supplementares, no caso 
contiario. — Um angulo inscripto tem 
por medida metade do arco interce- 
ptado pelos seus lados. — Tm angulo 
do segmento tem por medida metade 
do arco que subtende a corda que for- 
ma um dos lados. 

Dirrcçno. Dictar e fazer aprender 
de cór a primeira lição, depois de ter 
feito comprehender as definições so- 
bre as figuras traçadas na pedra. 
Quanto á segunda lição, exp!ica-se 
cada proposição, do modo mais sim- 
ples possível, por meio de uma Geo- 
mclria, e manda-se redigir a lição. 
As matérias do segundo paragrapho 
d'este artigo farão objecto de varias 
lições sobre as quaes haverá o cuida- 
do de fazer repetições. 

ANIL. (Veja Leguminosas). 

ANIMAL (Reino). A natureza nada 
fez em vão. Osanimaes, que ella des- 
tina a morrer de velhice, são poucos. 
De que serviriam, entre os irracio- 
naes, os animaes caducos a favor da 
posteridade que nasce com toda a sua 
experiência ? l*or outro lado, como 
achariam soccorros os pães decrépi- 
tos entre os filhos que os abandonam 
logo que sabem nadar, voar ou an- 
dar? A velhice seria para elles um en- 
cargo de que as feras os vão resgatan- 
do. A natureza, porém, votando-os á 
morte, tira-lhesa agonia que lhes po- 



1 



ANI 



ANT 



5T 



deria ser cruel nos derradeiros instan- 
tes. De ordinário é durante a noite que 
elles succumbem nas garras ou nos 
dentes de seus inimigos. Além de 
que, as espécies de animaes cuja vi- 
da é pasto d'oulros, como os inse- 
ctos, não parecem dotadas de sensi- 
bilidade alguma. Se arrancamos a 
perna d'uma mosca, ella continua a 
andar como se nada tivesse perdido. 
As crianças de má condição recreiara- 
se a cravar-lhes palhas no corpo; ellas 
voam assim trespassadas, e raovein- 
se de modo (jue não parecem sentir. 
— Ha animaes de presa Dizem que 
são necessários; porque sem elles a 
terra seria infeccionada de cadáveres. 
Cada anno, morre de morte natural, 
pelo menos a vigésima parte dos qua- 
drúpedes, e a decima das aves; e nu- 
mero infinito de insectos ha ahi dos 
quaes a máxima parte das espécies 
vive um anno só. Com as aguas plu- 
viaes rolam todos esses despojos aos 
rios, e d'ahi aos mares. A natureza 
ajuntou nas margens os animaes que 
os consomem. A maior parte das bes- 
tas feras descem á noite, das serras, 
e ahi dirigem suas proas : taes são os 
amphíbios, os ursos brancos, as lon- 
tras e os crocodilos. Principaiinente 
nos paizes quentes, onde os eíTeilos 
da corrupção são mais rápidos e pe- 
rigosos, c que a natureza multiplicou 
os animaes carnívoros. As alcateias 
dos leões, tigres, leopardos, panthe- 
ras, gatos de algalia, hyenas, condo- 
res, etc. coníluem ahi a mesclar-se 
aos lobos, ás raposas, ás marthas, ás 
lontras, aos abutres e corvos, etc. — 
Os animaes de presa não são temíveis 
ao homem, ponjue este tem armas 
que os vencem e uma industria supe- 
rior a lodos os seus ardis. Os animaes 
terríveis para o homem são mais tle 
recear por sua pequenez (pie por sua 
grandeza : ainda assim não ha um só 
que elle não reverta em utilidade sua. 
Serpentes, escorpiões, sapos, só ha- 
bitam lugares húmidos e doentios, 
d'onde nos afastam não tanto por me- 
do de sua peçonha, quanto por seus 
aspectos asquerosos. As serpenles ver- 
dadeiramente perigosas tem signaes 
que de longe as annuncíani: taes são 



os ruídos da cobra de cascavel. Ra- 
ro ha quem, tirante os imprudentes, 
morra ferido por ellas. — E' certo que 
abundam insectos nocivos que roem 
os fruclos. os cereaes e até as pes- 
soas. Porém, se as lagartas e os be- 
souros, e os saltões nos devastam as 
campinas, é porque destruímos os 
pássaros que os comem. O gorgu- 
lho e a traça lavram ás vezes grande 
estrago nas tulhas e nas cearas ; mas 
temos a andorinha e a aranha que os 
devoram na sazão em que elles es- 
voaçam. De mais, em presença dos 
enofmes armazéns em que os açam- 
barcadores accumulam o alimento e o 
vestir d'uma província inteira, não é 
para abençoar-se a mão creadora do 
insecto quê os força a vendel-os? «Os- 
insectos que atacam o corpo humano- 
obrigam igualmente os ricos a empre- 
gar os pobres a cuidarem, como cria- 
dos, na limpeza áe suas casas. » (Ber- 
nardim de Saint-Píerre). (Veja Clas- 

S1F1CAÇ.\0). 

Erercicio escriplo. Redacção. Ani- 
maes de presa; sua utilidade, seus 
costumes Insectos nocivos; razão de 
sua existência, e lim providencial.— 
Em quanto o mestre lêr esta lição, 
dando-lhe o necessário desenvolvi- 
mento, os alumnos podem tomar 
notas. 

ANNELIDOS. (Veja Articulados). 

ANNIBAL. (Veja Terceiro sécu- 
lo). 

ANNO. (Veja Calendário). 

ANTHRACITE. (Veja Carv.\o e 
Huiliia). 

ANTILHAS. 1. Quem se aproxima 
das .\nlilhas vê por todos os lados 
muitas ilhas, todas ridentes, umas 
mais do que as outras. « \ú avisí- 
nhar-me d'eslas ilhas— diz C<dombo 
no seu roteiro —sentíamos bafejar da 
terra o mais grato e suave perfume. 
Tudo alli verdeja; a herva no inver- 
no é viçosa como em abril na Anda- 
luzia; lioreslas maravilhosas bordam 
extensos lagos; o fo\ é empanailopor 



58 



ANT 



ANT 



mivciis (Je pássaros de iiiliiúla varie- 
(Jade, (;iiji) canlar <! Ião dòct! (]Ui; a [le- 
zar se (l(!Íxa aqiiella paragfMH ; mil es- 
p(;cifis (J(! arvoi(!s piotJiiziMn parlicu- 
lafes IVuiUds e lodos saborosissiiiíos. 
Não sei oiidíi irei d'a(pii; (|iie meus 
olhos não eaiiçaiii de, admirar larila 
()piilem;ia. » — l'assados dias, Colom- 
bo descobriu Cuba, a maior das An- 
tilhas, e ahi re.'omeça as suas de,scri- 
pçòes eiiLliiisiaslas, todavia bem jus- 
tificadas pelos (isptictaculos (juea ca- 
da iiislaiile se liie reiíovavaiu K lau- 
to o brdhõ, Ião prodigiosa c luxurian- 
te de vaiiedade a vegetação d'aiiuel- 
les climas ardentes; tão íormosa a 
verdura das lloiusslas, tão esplendido 
o matiz das llòres, tão puro o ar e 
tão azulado o céo ! Os bosipics são 
povoados d'aves de plumagem varie- 
gada, o cada plauLa esLá colmada de 
insectos (]ue siúnlillaiu como pedras 
preciosas. A ilha de Cuba pertence á 
llespanha, e bem assim l*orto-I\ico: 
é quanto resta áiiuella nação de suas 
vastas possessões na Auierica. Está 
constituida em capitania geral, que 
se divide em Ires províncias, das 
quaes a occidental tem poi' capital a 
Havana. — A ilha de Haiti, ao su- 
doeste de Cuba, é cortada de este 
a oeste pelas montanhas de Gibau, 
ricas em minas de ouio; a sudoes- 
te, ampliain-se vastas plauicies on- 
de pascem immensos rebanhos; nu- 
mei-osissimas ribeiras fertillsani a 
tei'ra grandemente, mas o clima é 
liumido e doentio. Esta ilha divide-se 
hoje em dous estados distinctos: o 
império de Haiti, ea Republica domi- 
nicana. A carnificina q\ie os iiegi'0s 
fizeram nos brancos em 1791, esbu- 
lhou a França da parte occidental da 
ilha que era sua. — A Jamaica, que 
juntamente a Cuba e Haiti forma as 
grandes Antilhas, é possessão ingle- 
za. É quente e mau o clima, e a ter- 
ra, exposta a frequentes tremores de 
terra, produz extraordinariamente. 
2. Em quasi Iodas as Antilhas, o 
observador tem que estudar duas 
classes assas extremas : brancos e 
negros. Dcter-nos-hemos a contem- 
plar o quadro traçado pelos viajantes 
a favor dos negros, cuja sorte tão vi- 



va compaixão excita geralmente. É 
inexceilivel a misérrima condição de 
aqu(!lle povo, e-icoi"ia da natureza, 
e opprobi'io dos homens; envol- 
vem-se em fairapíjs (|ue nem os 
defendem do calor do dia, nem do 
grande frio das noitiís. Vivtiin (mu ca- 
sas seinelliantes a covis de ursos: 
doimem sobre veigas mais próprias 
a contundir o corpo que a descan- 
çal-o; todas as suas alfaias cifram 
em algumas cabaças e esoudellas de 
pau e bario. Trabalíiam incessante- 
mente, dormem pouquíssimo, nin- 
guém lhes paga, e á menor falta 
são azorragados. Tal é o estado fu- 
nesto a í|ue redaziram homeiís não 
destituídos lie razão, e (jue se co- 
nhecem absolutamente necessários 
áquellesíjue os llagvilbm. .Vpesar does- 
te immenso aviltamento, gozam per- 
feita saúde, ao passo (jue os seus se- 
nhores a trasbonlar de ri(|ueza, com 
todas as commodidades, são victimas 
de infinitas moléstias. — Os escravos 
negros respeitam muito os velhos. 
Nunca os chamam por seus nomes 
sem lhes ajuntar o de pai; conso- 
lam-os em todas as occasiões, e nun- 
ca deixam de lhes obedecer. São mui 
gratos aos benefícios, até ao extremo 
de sacrificarem a vida ; mas querem 
ser obrigados com bons modos; e, se 
o favor que se lhes faz não é comple- 
to, moslram-sc descontentes no sem- 
blante com (jue o recebem. São de 
seu natural eloquentes, e particular- 
mente quando pedem alguma cousa. 
Sabem representar habilmeute as 
suas boas qualidades, assiduidade no 
serviço, os trabalhos feitos, o nume- 
ro de filhos, e a boa educação d'es- 
tes; depois allegam os benelicios re- 
cebidos, agradecem-os respeitosamen- 
te, e acabam por pedir o que querem. 
— Tanto na folga como no trabalho, 
o negro parece não attender ao ar- 
dor do sol que os europeus não po- 
dem a seu salvo afírontar. Quan- 
do sesliam não procuram sombras; 
vão sentar-se onde os raios do sol ar- 
dente dardejem mais a prumo. Aquel- 
le astro tão funesto aos europeus nos 
trópicos, é o amigo do negro : em 
vez do abatimento e prostração que 



APO 



APO 



59 



aniquila o europeu, o negro debaixo 
do sol, restaura forças, saúde e con- 
tentamento. 

Exercidos. Fazer aprender de cór 
a primeira lição, depois de a ler di- 
ctado e estudado no ma[»pa. Pôde oc- 
correr de molde referir algumas fei- 
ções da vida de Cliri^ovào Colombo. 
— A esci"a vidão foi abolida lia poucos 
annos, e os negros são como nós cha- 
mados á civilisação. 

ANTIMONIO. (Veja Metaes). 

ANZIKOS. (Veja Guiné). 

AOD. (Veja Decimo-quinto século). 

APHTAS. (Veja Doenças). 

APOLOGISTAS. (Religião). O im- 
morlal aiilhor do nphio dn rhrixli/i- 
nifiirio, dotado de luminosa plinntasia 
e inesgotável facúndia, relembra, em 
magico esíylo, os muitos benelicios 
da nossa religião á geração ingrata 
que a linha abjurado. Diz elle: «É 
tempo de mostrar qiie o chrislianis- 
mo, longe de aguarenlar a inspiração, 
presta-se maravilhosamente aos ra- 
ptos da alma, e pôde encantar o es- 
pirito em tão altopímto como os deu- 
ses de Virgílio e de Homero. Afou- 
ta rneníe crAmos que este modo de 
ví^r o chrislianismo desc(dire real- 
ces mal conhecidos: sublime pe- 
la antiguid;ide de suas memorias, 
que ascendem ao berço do mundo, 
inelfavel em seus mysteiios, adorá- 
vel etn seus sacramentos; interessan- 
te em sna historia, celestial nos pre- 
ceitos, formosamente rico nas pom- 
pas, todos os quadros lhe vem de 
molde. ApiMZ-vos segiiil o na poesia : 
Tasso, Milton, Corneille, Uacine, Vol- 
taire, vos assignalam seus milagres. 
Nas leiras amenas, na el(>(|iieiicia, na 
historia, em pliilosoplua. (|iie inspi- 
rados não loi;im Dossiiel, l<Y'n(''lon, 
iMassillon, Heiírdalone. Ilicon. Pascal, 
Kuler, Newton, Leihiiit/! Nas artes, 
([iianlas obras i)iimas! Se o exami- 
naes quanto ao culto, que suavidades 
vos não contam as suas velhas igre- 
jas gotliicas, as suas poéticas depre- 



calorias, e faustuosas cereraonias! 
Entre o seu clero, vedes todos os ho- 
mens que vos transmiltiram o idioma 
e as obras de Roma e Grécia, lodos 
os eremitas da Thebaida, lodos 'os 
refúgios de infelizes, os mi«i.ionarios 
da China, do Canadá, do Paraguay, 
não esquecendo as ordens militares 
d'onde procedeu a cavallaria ! Costu- 
mes de avoengos nossos, descripções 
das remotas idades, poesias e até no- 
vellas. lanços secretos da vida, tudo 
convertemos em nosso proveito. Pe- 
dimos sorrisos ao berço, e prantos 
ao tumulo. Umas vezes cora o mon- 
ge maroiiita habitamos os píncaros 
do Carmeio e do bibano; outras ve- 
zes com a irmã da caridade, velamos 
na gravato do enfermo. .Aqui. dous es- 
posos americanos nos chamam ao re- 
côndito dos seus desertos: além, ou- 
vimos gemer a virgem nas solidões 
do claustro. Homero se nos mostra 
ao lado de Milton. Virgílio a par de 
Tasso; as ruínas de Memphis e Athe- 
nas rivalísam com as ruínas dos nioi- 
meiítos christãos, os túmulos ile Os- 
sian com os nossos cemitérios cam- 
pestres. Visitamos o cinerario dos 
reis em S. Diniz; mas, se o nosso as- 
sumpto nos leva a discutir o dogma 
da existência de Deus, as provas tão 
somente as pedimos ás maravilhas da 
natureza. Km íim, envidamos todo 
nosso vigor em abalar o coração do 
incrédulo; mas não nos desvanece a 
crença de possuir aqm^lla vai;i mila- 
grosa da ichgíào ipie faz golfar da 
rocha torrentes (r.igiia pura.K (Cha- 
teaubriand). (Veja Padres da igre- 
ja). — Desenvolva este fragmento, 
analysando e desenvolvendo cada 
idéa de per si. 

APOLOGO. A fabula ou apojogo é 
a nanaiiva d^uma acção allegorica, 
ordínaiíamenle altribuída aos ani- 
maes. .'^ão duas as maneiras de fa- 
zer conhecer uma cunsa : «m mos- 
tral-a (piai é, e então formamos o es- 
pectáculo, ou dizer sómeiíli* o que 
(dia é sem a mo^^trar. e é isto o (jue 
se chama narrativa, porque ahi se 
não V(^ o lobo (|iie arrebata o cordei- 
ro, mas s('>menle se diz «jue elle o ar- 



•60 



A PO 



AI»0 



lebyttMi. lia lies espécies de fabulas: 
as ijzoavcis, cujas peisoiiaj^riis cxcr- 
cilain a sua la/.ão, como A crlliu e 
(hias riiadds ; as iiioiaes, cujos dous 
ptMsonagíMis cxeicilam os costumes 
dos homens, sem ler (felles a alma, 
«|iit! lhes ('; essencial : O lohn r o ror- 
ileiro ; as mixlas, em que um perso- 
nagem i-ai'ional Irala com um oulro 
(|U(! o não (';, como l) hoitwm c a du- 
ninlta. 

Por via de regra, os apologos em 
t|uc não ha peisona^^ens humanos 
são mais agiadaveis ([ue os oulros: 
csUí genfiro deve auferir dos animaes 
e não dos homens, as lM;ões (|ue elle 
(|uei' (|in' os homens apioveilem. — 
A naiialiv.i lem lies (luahdades es- 
senciaes: deve ser curla, clara e ve- 
rosímil. Será curla se a não princi- 
piamos de muilo longe: «Vesli-me 
osla manhã; sahi de casa; fui pro- 
curar o meu amigo.» Era baslanle 
dizer: (íFui a casa do meu araigo 
esta manhã.» Comludo ha lanços em 
que as miudezas são agradáveis co- 
mo n'esia passagem de Lafoutaine: 

Mettent le nez ã l'air, montrent uii peu la tôte, 
Puis rentrent dans leurs nids ii lats ; 
Puis rcssorlant, lout quatre pás ; 
Puis enfin se mclleiít en quète... 

A brevidade da narraliva demanda 
que lermine onde deve lerrainar, (jue 
lhe não acresça nada superlluo, que 
se lhe não enrede cousas alheias, 
que se siibenlenda o que poder ser 
percebido sem ser dilo; em fim, que 
cada cousa seja dita uma só vez. — A 
narraliva será clara quando cada cou- 
sa esliver era seu lugar e lempo, e 
que os lermos sejam próprios, ajus- 
tados, claros, inequívocos e sem des- 
ordem. Será verosímil quando tiver 
todas as feições que ordinariamente 
lesallam da Verdade; quando o lem- 
po, a occasião, a facilidade, o lugar, 
a disposição dos actores e caracteres, 
parecerem contribuir para o entre- 
cho ; (juaiido fôr pintado conforme á 
natureza e segundo as idéas d'aquel- 
le a quem se nana. — Estas Ires qua- 
lidades são esseuciaes a toda a nar- 
rativa seja de que género fòr; quan- 



do porém levamos em vista agradar, 
convém ajunlar-lhe ainda oulro pre- 
dicado: e (• (|ue os ornatos lh(! con- 
digam. Estes ornamentos consistem, 
já nas imagens : 

111 mort H'cn allait liintciiiint ; 
I..I dame au nc/. pointu ; 

já nas descripções: 

Vn vieux roíiard, mais de.s plus liiis, 
('. landi ToiíiKiii dipdulets.giandprencurdelaplíw; 

já em pen.samenlos notáveis: 

11 coiinait runiver.s et ne s« connait pas; 



e nas expressões umas vezes auda- 
ciosas : 



.\e coupez point c«;s aj-bres, 
lis iioiil asse/, lôt border le noir rivage; 

outias vezes pomposas: 



Le moindre vent (jui, d'aventuie, 
Fait ridor la face de Teau; 



ou ainda brilhantes: Vécharpe d;Iris, 
fallando do arco iris. 

Taes são, pouco mais ou menos, as 
qualidades das narrativas especial- 
menie feitas para agradar, enlre as 
quaes estão todas as narrativas poé- 
ticas, e por consequência as fabulas. 
— (tO eslylo das fabulas deve ser fácil, 
familiar, risonho, gracioso, natural e 
sobretudo singelo. Consiste a simpli- 
cidade em dizer com pouco e em ler- 
mos vulgares o que se quer... O 
familiar da fabula deve ser uma es- 
colha do que ha mais selecto e de- 
licado na linguagem da conversa- 
ção... O risonho caraclerisa-se em 
opposição á tristeza e á seriedade; 
e o gracioso em opposição ao des- 
agradável. O natural oppõe-se ao for- 
çado ; o singelo ao reflectido, e bom 
é que pertença mais ao sentimental.» 
(Balteux, Principios de Utteratíira). 

Piedacção, após a leitura, do se- 



AR 



AR 



61 



guinle bosquejo: Definição de apolo- 
gos. — Diversas espécies. — Qualida- 
des essenciaes da narrativa. —Orna- 
tos.— Qualidades do ornato ema nar- 
rativa. — Esta lição dar-se-ha a pro- 
pósito de qualquer fabula. 

APOPLEXIA. (Veja Doenças). 

APÓSTOLOS. (Veja Ciiristianis- 

MO). 

AR ou ATMOSPHERA. 1. O nos- 
so globo é envolvido por uma caraada 
de ar, cuja altura se calcula entie 
quinze a dezeseis léguas, e se cha- 
ma atmosphcra. Os movimentos ex- 
traordinaiios que se produzem n'esta 
massa gazosa, e que denominamos 
ventos, são principalmente causa- 
dos pelas variantes de densidade 
produzidas nos differentes pontos da 
almos|d)era, pela acção do calor so- 
lar desigualmente repartido sobre a 
superíicie do globo. Se abris uma ja- 
iiella d^am quarto aquecido por fogão, 
logo se estabelecerá n'esta janella 
dobrada corrente de ar; o que facil- 
mente se prova por meio d'uma 
luz cuja (]amn)a nos indica que uma 
das correntes, a de baixo, se precipita 
para dentro, e que a outia, a de cima, 
se dirige para fora. Facilmente se 
com[)reben(le (\\ni o ar fiio de fora, 
sendo mais denso e pesado que o do 
quaito, que se acha ddatado pelo ca- 
lor, entra necessariamente por baixo, 
e impelle por cima o ar quente que 
é mais leve. A esta causa principal 
dos ventos deve ajunlar-se a pressão 
exercida pelas nuvens, o resolverem- 
se em chuva, as trovoadas, a inllam- 
mação dos meteoros, em (im, a atlrac- 
ção do sol e da lua, e a rotação da 
terra (jue principalmente actuara so- 
bre os ventos regulares e periódicos. 
— Os ventos regulares constantes e 
periódicos são de ties espécies: bri- 
zas, uíonção, o ventos alizios. As bri- 
zas sopram nas costas marítimas, du- 
rante o dia, do mar contra a terra, 
ás oito ou riovc horas da mairhã até 
ás qualr-Q ou cinco da tarde; o rea[)- 
parecem ao pôr do sol soprando da 
terra contra o mar. A briza da tarde 



ó mais duradoura que a da manhã, 
mas menos forte. O nauta aproveita 
uma para se afastar das cosias, e a 
outra para se avisiiihar. — A monção 
sente -se a maior distancia das praias; 
são ventos que sopram seis mezes 
n'um serrtido, e seis mezes n"ura sen- 
tido opposlo, mas somente na zona 
tórrida. Ao norte do equador, a mon- 
ção da primavera começa era abril, 
e a raonção do outono era outubro, 
pouco depois das épocas dos eíjuino- 
xios, algumas vezes sem interrupção, 
outras depois de calmaria intermédia. 
Oi"dinariamenle dirige-se do nordeste 
a sudoeste, e do noroeste a sueste. 
— Nos mares altos e ao largo das cos- 
tas, ha em fim uns ventos que sopram 
perpetuamente, na mesma direcção, 
e se chamara ventos alizios Estas 
corr-entes estendem-se dos dous lados 
do eíjuador, cerca de 30 graus de la- 
titude. Aqui a sua direcção quebr-a para 
o equador', como a das monções; mas 
á medida que se aproxima da linha 
equatorial, a sua direcção torna-se 
cada vez mais este ou então oeste. 
Em geral, a sua dir-ecção cone de ésle 
a oeste, no mesmo sentido ijue o mo- 
vimento diurno do sol. — Toda a gen- 
te sabe como foi que o homem logrou 
reduzir em proveito seu a força do 
vento, quer como propulsor da nave- 
gação á vela, quer como motor rae- 
chanico dos lEoinhos de veirto. Me- 
diante o anemometio, veiificou-se que 
a rapidez do vento varia desde trinta 
melros por minuto, sendo o vento o 
mais débil, até dous mil e setecentos 
metros que attiirge algumas vezes o 
furacão. Os antigos divinisaram os 
ventos. Eólo, rei d'elles, encadea- 
va-os em cavernas nas ilhas Eólias. 
O norte chama va-se lloicds ou Aqui- 
ICui : o ésle Euro: o sul Sulm, Ans- 
ter, AfricHs; e oeste Zciiliijro c Fn- 
vonio. 

'2. O ar é pesado e terrde para o 
centro do globo como toda a espécie 
de matéria. O vento é o ar. i|ue se 
desloca em virlmie do seu peso, e é 
sensivel par^a nós (jiie o ar, ainda so- 
cegado, resiste mais ou meiros aos 
nossos movimentos. Dernonslra-se o 
peso do ar, exlrahindo d'uui gr-ande 



62 



AH 



AR 



gloho de vidro lodo o ar (\no oWo. con- 
lém, por meio da rnailiina piifiirna- 
lica formada do duas bombas aspi- 
raiiics gémeas, cujo luho de aspira- 
ção, em vez do ir aspirar a agua 
d^tiiii lescrvaiorio. vai tomar o ar no 
rccipiciile onde (incromos lazer o 
vacilo. Ksvasiado o gloho e fecliado o 
oiiliiio poi' meio (Piiiiia Uiriiciía, 
peiidiira-s(! om iiiit dos braros da ba- 
íaiir.a, í|iie se e(|uinbra coiilrapiMido 
pesos lio |)ralo do oiilro braeo. P'eilo 
isl.o, al)i('-s(' a loriKiira, o ai' afíliie 
do <^\{)\)() sibilaii(b), e o peso d^aiinclle 
gloljo aii[;iiit'iila apreciavehiiciile, pnr 
que th'S(:obiiiiios (|ue um lilro d'ar 
pesa uma gtamuKi o um terço. Ora, 
pesando uui blro d'aí,Mia um kilograni- 
ma ou mil grammas, pesa o ai" 770 
vezes iiienos (;ue a agua no nsesmo 
vohime. (Veja Densidade). Ainda te- 
mos outras i)rovas do peso do ar pelo 
emprego do barómetro, das bombas e 
do si[dião. — O mais simples baró- 
metro faz-se tomando um lul)0 de 
vidro fechado por uma extremidade 
e aberto por oulra, com 81 cenlime- 
tros de comprimento pouco mais ou 
menos; encbe-se de mercúrio (|iu' se 
ferve para o purgar do ar e da humi- 
dade, e, ajustando o dedo sobre o ori- 
fício, para ijue não fique alguma bo- 
lha de ar no tubo, volta-se e mer- 
gulha-so verticalmente no mercúrio 
cl'uma bacia, relirando-se então so- 
mente o dedo que tapava o orifí- 
cio. O mercúrio deixa a parte su- 
perior do tubo, de modo que fórina 
n'esse tubo uma cohimna vertical cer- 
ca de 76 centímetros acima do nivel 
exterior do mercúrio da bacia. For- 
que é que o mercúrio se suslenfa 
assim em uma altura de 0"',7B? É 
porque a superfície do mercúrio da 
bacia, premida pelo peso da columna 
d'ar que repousa em cima, precisa, 
para equilibrar-se, que todos os pon- 
tos d'aquella superfície de nivel se- 
jam igualmente premidos por uma 
colum.na de mercúrio que pese tanto 
como a do ar. Por consequência, uma 
columna de O"', 76 de mercúrio prime 
como uma columna de aratmosphe- 
rico, apoiadas ambas sobre a mesma 
base, A medida da altura barométri- 



ca lira-se por meio d'ura3 escala mé- 
trica, traçada na taboinha vertical 
í|ue sustenta o tubo. Se o tempo ú 
bom (! secco, o barómetro sobe. e pô- 
de chegar ali o (;"',7'.); qcandoo tem- 
po está chuvoso ou borrascoso, baixa 
o barómetro. Irisctevem-sc as |)ala- 
vrasfixo, bom, variável, chuva ou ven- 
to, tempestade, em fienic dos pontos 
da escala (|ue mais liabilualmenle cor- 
re«|iondem á(|iielles diversos estados 
da almosiihera. Toilavia, o bian ou 
mau tempo não dependem unicamen- 
te da maior ou menor densitlade da 
aimosphera, e por- isso não devemos 
sempre ter coiiliatiça absoluta nas 
indicações do barometio. Quando su- 
bimos ao topo diurna seria, poi isso 
(|ue a columna de ar vai diminuindo 
ao passo que subimos, a columna do 
barómetro desce rapidamente, segun- 
do a experiência feita por Pascal no 
Puyde-Uúmi'. Também podemos me- 
dir a altuia d'um monte ou d'um edifí- 
cio pelo abaixamento da Cídumna ba- 
rométrica. — Sendo o mercúrio 13 '/s 
vezes mais pesado, ou mais denso 
que a agua, seria preciso uma colum- 
na d'agua outro tanto mais longa, 
isto é, de 10 metros pouco mais ou 
[nenos, pai^a fazer equilíbrio ao peso 
do ai' aimos|)berico; é o (jue elíecli- 
vamente succede, como pela primei- 
ra vez em Florença, no tempo de 
Pascal, observaram os fíllradores, e 
a Pascal se deve o descobrimenlo do 
peso do ar; porque antes d'elle pen- 
sava-se que, lendo a natureza horror 
ao vácuo, a agua subia nos tubos 
da bomba cora o fím de encher o vá- 
cuo resultante da ascetisão do êmbolo 
{pist(in). iMas se a agua sobe por uma 
palha d'onde aspiramos o ar, ou por 
um corpo da bomba onde o êmbolo 
fez o vácuo, é porque o liquido, aper- 
tado de todos os lados no exterior 
d'estes tubos, deve forçadamente su- 
bir no interior, onde não encontra 
resistência. Isto explica o jogo das 
bombas e do siphão. 

3. Até aqui falíamos das proprie- 
dades physicas do ar; agora diremos 
dos seus caracteres chimicos. O ar 
atmospherico contém essencialmen- 
te oxygenio e azote; enconlra-se-lhe 



AR 



AR 



63 



lambem pelo ordinário algum pouco 
vapor aquoso e gaz acido carbónico; 
e, accidenlalmente, resíduos de cer- 
tas exhalações. Podem separar-se 
aquellas substancias estranhas, e ana- 
lysar o ar puro, exclusivamente com- 
posto de oxygenio e azote. Absorve- 
se o acido carbónico ao ar por meio 
da agua de cal, e depois o vapor aquo- 
so com uma substancia ávida de agua, 
como a potassa. Trata-se, em segui- 
da, de separar o oxygenio do azote, 
e para isto nos aproveitamos da pro- 
priedade que o oxygenio tem de com- 
binar-se com um grande numero 
de substancias bastante aquecidas. 
A vasillia de cobre, por exemplo, le- 
vada a alta temperatura, combina- 
se com todo o oxygenio do ar conti- 
do, e então o azole fica puro. Tam- 
bém se pôde operar a absorpção do 
oxygpnio mediante um pedaço de 
phosphoro; esta substancia combina- 
se porsi mesma com o oxygenio, sem 
ser aquecida. Qualquer (]ue soja o lo- 
cal da terra em que se analyse o ar, 
tanto nas mais eleva'!as seri-as como 
nos mais profundos valles, acham -se 
sempre sobre tOOO litros de ar, ''2(i8 
litros de oxygenio, e 7V'í2 de azote, 
isto é, 7r, ^^ azote e '/- de oxygenio. 
— O oxygenio, mais pesado que o ar, 
encontia-se em quasi todas as maté- 
rias vegetaes c aniraa^s, e na maior 
paile dos mineraes. É o corpo mais 
importante da naturezas e indispen- 
sável á vida orgânica. É a causa acti- 
va da combustão. Os corpos ardem 
porque os elementos se combinam de 
diversas maneiras com o oxygcnií^ do 
ar. A própria respiração é uma com- 
bustão. (Veja Sangue). A combustão 
dos corpos opera-se mais facilmente 
no oxygenio que no ar atmos[)liejic->. 
De sorte (pie, se mergtilbatnos no 
oxygenio uma vara de tViro, com um 
pedaço de isca indammada na extre- 
midade, arde vivissimamente, brilhan- 
do por lanta maneira (pie os olhos a 
custo lhe sujiportam o resplendor, 
llin pássaro, introduzido em uma re- 
doma cheia de oxygenio, morre (Palii 
a pouco. Primeiro agita-se, depois es- 
cabuja, respira anciado, e expira : islo 
demonstra (pie o oxygenio para in- 



fiuir salutarmenie na vida orgânica 
deve estar combinado com o azote. O 
oxygenio extrahe-se pelo commum 
do oxydo negro de manganez, aque- 
cendo fortemente este pó mineral em 
uma retorta, e recolhendo o gaz que 
se escapa em uma redoma de vidro 
cheia de agua. (Veja Oxydos). Distin- 
guem o azote propriedades quasi to- 
das negativas: não reage directamen- 
te sobre algum coipo. A presença 
d'elle em quasi todas as matérias ani- 
maes, e sua ausência na maior parte 
das matérias vegetaespodem servirde 
caraclerisar estos duas classes de ma- 
térias orgânicas. Oblem-se puro ab- 
sorvendo o oxygenio dn ar pela com- 
bustão do phosphoro, e lavando o re- 
síduo gazoso com agua alcalina. O azo- 
te, separado assim do oxygenio, é im- 
próprio á respiíação, e d'ãbi lhe vem 
o nome grego nzniikoft. sem vida. É 
sabido que o acto da respiração vicia 
o ar, bem como a combustão destina- 
da a aquecer e alumiar. É pois pre- 
ciso conservar nas casas corientes de 
ar que levem as porções viciadas, e 
as substituam com ar novo trazido do 
exterior. O receio de frio inv(Mn;il não 
deve ser causa a qnc as casas sp não 
ventilem. Está reconhe. ido que o ar 
fiio não é nocivo. saUo quando é de- 
masiado; e que um ar afpiecido, res- 
pirado longo tompo, é causa de mui- 
tas doenças. Acantelem-se. pois, dos 
exces<íivos resguardos contra o frio: 
é urgente que o ar se renove constan- 
temente nas casas por meio de fres- 
tas praticadas em alto para (pie as cor- 
rentes de ar não molestem as pessoas. 

Direcção. Formule iii -se (j na Iro li- 
cites relativas aos quatro elementos 
dacreação: ar, fogo, agua e terra. 
Os alumnos de dez annos podem ca- 
balmente compreliciider estas qiie.s- 
tões que lhes movem a ciiiinsubide 
sempre que o professor as expin» com 
certo agrado, gosto e ensejo apro- 
priado. I'ergiinte-sea signillação das 
palavras difliceis. 

E.irrririos escriplos. Signitiiação 
das palavras: 1." íilolx), ynzosd, iletm- 
tlmlr, ríilatmlo. mclcóvo, atlnurân, ro- 
larão, pcrioãiro, znnn, equivli>t\ oqiii- 
iwjíos, ])ropnh<'r, aiifViiniicIro ; "2." 



04 



ARA 



ARA 



ceníru, balão, pnenmntko, rcripienle, 
ractio, cipiilibrio, liibo, nurcnrio, ni- 
vcl, lifjuido ; 'ò." jiroinifdadfs, caracte- 
res, o.ini/cnio, azolf, /lolassa, phusphn- 
ro, Iciiiiii-nilnra, absorprão, orr/anico, 
cunibiislão, inaiK/ancz. 

Ikdacrõcs . 1." Kxleiísiio da almos- 
phcra. Causas dos ventos. Ventos 
periódicos: brizas, moiiròos, alizios. 
Força do vento ;i|i[)licada. Os ventos, 
seguoíJo os antigos. -1." Peso do ar. 
Díiraonslranão. Descripção do uso do 
barómetro. Dar a lazão da subida da 
agua tias bombas e sipbão. ;i" Com- 
posirào e analyse da agua. Proprie- 
dades (lo oxygtíuio o azote. A venliid- 
ç3o das casas. 

ARÁBIA. A Arábia tem pou(piissi- 
inas nioMlanbas, excepio ao nordeste, 
onde SC eiguem o monte Sinai e mon- 
te Horeb, e ao sudoeste, no Yemen, 
onde correm alguns nos de pouco vul- 
to. O restante da Arábia são planicies 
immensas, aienosas e desertas, onde 
reina continuamente o sopro ardente 
do siiiunoi ou vento do decerto. <cFi- 
gure-se — dizButíon — um paiz sem ver- 
dura nem agua, um sol abrazador, um 
céo sempre árido, esplainadas areno- 
sas, montanhas aspérrimas, sobre as 
quaes a vista erra e se perde sem po- 
der parar em algum objecto vivo ; uma 
terra morta, e, para assim dizer, des- 
arraigada pelos furacões... um deser- 
to iiileiramenle descoberto, onde o 
viajante não encontra sombra debai- 
xo da qual respire, onde nada o se- 
gue, nem lhe recorda a natureza vi- 
vente : solidão absoluta mil vezes mais 
horreiula ipie a dos matagaes; porque 
as aivores são creaturas para o bo- 
mem que se vê sósinbo. O viandante, 
mais só, mais desamparado, mais per- 
dido n'esses ermos vácuos e sem li- 
mites, em tudo se lhe figura vero tu- 
mulo. A luz diurna, mais triste do que 
as trevas da noite, renasce para lhe 
mostrar a sua mudez e fraqueza, e 
apresentar-lhe o horror da sua situa- 
ção, recuando-lhe a seus olhos a fron- 
teira da vida, e clrcumdando-o pelo 
abysmo da immensidade que o separa 
da terra habitada; immensidade que 
elle debalde tentaria percorrer; por- 



que a fome, a sôde e o calor ardente 
confrangem-n'o n^esses instantes que 
lhe restam entre a desesperação e a 
morte.» — Na.> j^aragens maritimas é 
grande a fertdidade; cu!tivjin-se abi 
muitas plantas aromáticas e dc' espe- 
ciaria, cale nirika, ;iloes, bálsamo, al- 
godão, e milho. Existe na Arábia a 
mais bella laça decav;j||os (pii; se co- 
nhecem, camelos, búfalos e carnei- 
ros de grande cauda. 

'i. O camelo pnncipalmente é para 
os árabes uma dadiva celestial: o leite, 
a carne, o felpo, que se renova todos 
os annos, satisfazem suas primeiras 
necessidades. O árabe educa os seus 
camelos logo (jue nascem; (Jobní- 
Ihes as pernas, e lodos os dias lhes 
vai augmentando o i)eso da carga, e 
lhes regra o alimento, diminuindo 
pouco e pouco a ração. Logo (pie ell,^s 
robustecem bastantemeiíte, exerci- 
ta-os na carreira com o exemplo dos 
cavallos. Um camelo assim adestra- 
do pode andar duzentos kilometros 
por dia, ou mil e duzentos kilom>'tros 
em oito dias, sem comei nem bebei'. 
Se, no deserto, encontra uma lagija, 
presente-a de longe, aperta o passo, 
e bebe pelo tempo que não bebeu, e 
por outro tanto que ha de vir. Dizem 
que ocavalloleme o camelo eliie não 
pôde soffier o cheiro. Segundo Heró- 
doto, Cyro, receando a cavallaria dos 
Lydios, fez pôr na vanguarda do seu 
exercito todos os camelos que leva- 
vam vitualhas e bagagens, e d"est'ar- 
te afugentou os cavallos de Cieso. — 
Os árabes, pequenos, magros, azf^ito- 
iiados são graves de cai"acter, atilados, 
frequentemente hospitaleiros, mas 
sempre propensos a roubar as ca- 
ravanas. Quasi todos, e maiormen- 
te os beduínos, vivera vida errante, 
reunidos em tribus, obedecendo ao 
governo patriarchal de seus clieiks ou 
anciãos. 

3. Meca, cidade principal da Ará- 
bia, está situada em um árido valleque 
coroa uma cordilheira de rochedos 
escarpados. Tem pouco que vêr de 
fora; todavia é algum tanto mais 
agradável no interior do que a maior 
parte das cidades do Oriente, tristís- 
simas por causa de suas ruas immun- 



ARA 



ARC 



65 



das e ladeadas de altas paredes de ar- 
gilla. As ruas de Meca são bastante 
espaçosas, e permillem ás procissões 
de estender suas longas alas; as ca- 
sas tem grandes janellas decoradas 
com elegância, allractiva dos peregri- 
nos, visto que o aluguer das casas 
forma a maior parle dos rendimentos 
dos pr( prielarios. — O mais notável 
edifício de Meca é a grande mesqui- 
ta, um dos mais vastos monumentos 
religiosos. Vivem os crentes persua- 
didos que mão invisível amplia o re- 
cinto á medida que a multidão dos pe- 
regrinos alli conílue mais numerosa, 
e que por isso mesmo loilos os mu- 
sulmanos poderiam alli caber. Em ver- 
dade, o templo çóde conter trinta e 
cinco mil pessoas. Em vez de editicio 
parece uma praça enorme, marginada 
de quatro filas de coluranas, que per- 
fazem para cima de quinhentas, umas 
de mármore, outi^as de granito, tira- 
das dos montes visinhos. Estas co- 
liimnas são entre-ligadas cora arcos 
que sustentam pe(iuenos zimbórios. 
Ao meio da mesquiia eslá a Kaaim que, 
dizem os mahomet;inos, fora construí- 
da no côo, dous mil annos untes da 
creação. Setenta mil anjos lhe for- 
mam senlinella, e tem de obrigação 
transportai a ao côo, no dia do juízo 
final. — A bella sazão da mesquita é 
na 'época do rnmadltini, ou quares- 
ma dosmusulmanos. E então que ella 
brilha exiiaordinariamente. A' hora 
da orarão da noite, milhares de lam- 
])adas illumiiiarn aquelles vastos co- 
lumnelos, em meio dos quaes se dese- 
niia a negrri Kaaba com a sua irainen- 
sa túnica. E espectáculo verdadeira- 
mente magestoso o d'aquella hora I 
EsiH (juadro, não obstante, tem seus 
escuros... O cansaço da viagem, a in- 
salubridade dos (|uarteise do alimen- 
to occasionam tjuasi sempre entre os 
peregrinos terrível mortandade, e nos 
últimos dias enche-se a mesquita de 
doentes, que se fazem levar á volta 
da Knnbti, esperando que lhes dO saú- 
de o v('^l-a, ou, se(iuer, morrerem nos 
braços ilo propheta. 

4. A romaria a Medina é um acto 
de cuiiosidiule, ou exaltação piedosa, 
mas não é obrigatória para o crente 



como a peregrinação a Meca. E com- 
tudo, em Medina é que está a sepul- 
tura do propheta, cercada de grada- 
ria de ferro, primorosamente lavra- 
da, com inscripções entrelaçadas de 
letras de bronze; mas os ornatos re- 
cruzam-se por tanta maneira que não 
deixam entrever nada do interior. O 
que se vê pelas janellas é immenso 
cortinado lojando de todos os lados, 
carregado de matizes e arabescos de 
ouro e prata, no qual se envolve o 
tumulo de Mahomet e dos seus dous 
immediatos successores. Dizem que 
o do propheta eslá revestido de praia. 
A fabula do sarcophago suspenso no 
ar é phanlasia europeia, e os musnl- 
manos não tem alguma idóa d'isso. 
Ardem toda a noite os lampadários 
á volta doeste recinto, coberto por 
ura formoso zimbório que sobreleva 
aos outros, e para onde os [)eiegrinos 
dirigem suas orações desde que o 
avistam do caminho de Medina. 

Dirrcção. As duas primeiras lições 
podeai ser dicladas. JNa primeira ob- 
serve-se a vantagem ([ue a imagina- 
ção de BulTon tirou do pensamento 
d'um deserto, e na segunda as quali- 
dades e extraordinárias previdências 
do dromedário. — Leiam-se ;is duas 
ultimas, e desenvolva-se o seguinte 
bosquejo: Descripção de Meca. — A 
grande mesquita e a Knaba. — A ora- 
ção da noite. — Peregrinos. — .Medi- 
na e sepultura de Mahomel. (Veja Sé- 
timo SÉCULO depois de Jrsus (lliris- 
lu, pelo que respeita á historia de 
Mahomet). 

ARACHNIDES. (Veja Articula- 
dos). 

ARCHIMEDES. (Veja Invenções e 
Teuceiro século). 

ARCHITECTURA. 1. A origem da 
archiieclura coidunde-se na primiti- 
va idjde do mundo. Cada povo leve 
sua archileclura (|ue, até certo pon- 
to, lhe ex|>iime a civihsação. \ pos- 
teridade de Abra hão, vivendo pri- 
meiro em familia. e depois escrava, 
não [)odia ter templo, e\|uessào da 
vida social. Depois, vagando no de- 



66 



AI\C 



ARC 



softo, lovo inri Irmplo [lorlnlil: foi o 
tahciiinciilo f|M(' MoysZ-s fez oditirar 
por divino mo|(l(\ [,o(?o (\\](' cIu'(íon {\ 
leira in-oiiiollida, leve teriifilo con- 
soaiiU' á sna iiriporlaricia social. Da- 
vid carreou as aclio^Ms, c Salom/lo 
edificou 110 moiile de Si;lo corii pro- 
digiosas dospe/.as. IU'feiern alguns 
escriplores, (pie esla edilicacão occií- 
poii c.enlo e sessenta mil operários 
por esparo de dons annos. Os jndens, 
poslo que livessetn templo magnifico, 
não tiveram aicliileclnra. 

Verdadeiramente os começos de 
Ioda a archilecinra sHo slngeiissi- 
mos; volvidos mnilos armos, e mui- 
tos séculos de ensaios e coristruc- 
ções. alvoreja o talento, acode a 
iiispÍ!'ação. e surgem obras |)rimas 
que assombram fanlo pela peifeicãn 
da ttaça como pelo primor. Knlto 
os judeus foi o templo conslruido 
segundo o plano dado por Deus. E 
d'abi em diante, não bonve mais 
exercilarse o talento do artiflce, pois 
Ibe era defeso ter outros templos. — 
Nas religiões indiati'"as, depara-se-nos 
panlheismo mais ou menos relevante. 
No |)ensar d'esses povos na infância, 
eslá Deus em tudo, e cada j)arlicula 
do todo é uma fracção de Deus. D'ahi, 
aiiuellas idéas vagas e confusas que 
elles teem da divindade, e aquelle 
profundo si^ntimento das energias da 
natureza. E alii vedes determinado 
o caracter de sua arcliiteclura : tem- 
plos ou pagodes escul[)i(l()S em ro- 
cba, e notabilissimos pela pompa das 
figuras butuaiias, e divindades alle- 
goricas. — Domina no Egypto o pen- 
samento da morte. Lá está o cunho 
lúgubre d'ella gra\ado no templo 
egyptano, se não é antes um sepul- 
chro o templo. Eil-o cavado na ro- 
cha como templo da índia ; também 
erecto sobre amplos alicerces, inaba- 
láveis 6 de fortes proporções; mas 
lá vão ar fora as suas abobadas; e 
n'aquelle altear dascolumnas ha um 
como aspirar a outra vida. Ahi não 
se entreve aquella substancia vaga, 
indeíinivel, a união de Deus com a 
crealura. Se ahi está representado o 
homem, é immovel, sem expressão, 
o homem do sepulchro. Avultara ves- 



tígios do seu [lensar; mas pensamen- 
tos graves, enigmáticos, mysleriosos 
conif) a morte. — Dcm diversas id/^as 
preoccupam o giego de-cuidoso e le- 
viano: pensa na vida presente. TAo 
rica lhe é a terra, e tão [tur<» e bello 
o c(^o, que não se flá a c.-inceira dos 
Júbilos de outra vida. Em vez de 
Iransmonlar a visla para alT-m do lio- 
risoiile, olha [lara si mesriKt : em si 
procura o ideal, o modelo da Ijellc/.a, 
por si tenta emmoldurar tudo (pianlo 
lia. VAde-lhe o lemplo: as propor- 
ções em que está construído não vos 
figuram a do corpo humano? Que 
mimosa e admirável symetria I que 
pureza, que suavíssimas formas ! Se 
a archilectiira fdsse a imilacão do 
corpo humano, a arcliiteclura dos 
gregos seria a mais perfeita. Mas a 
architeclura é a reprodncção d'esle 
universo em que Deus se manifesta 
ao homem em forma sensível. Tu- 
do ahi c grande e immenso con- 
Tu-me á divindade que o habita ; tu- 
do ahi está, sem duvida, discreta- 
mente pautado, mas não é essa re- 
gularidade a do corpo humano. — Os 
romanos pouco se deram á cultura 
das bellas artes; outros desvelos os 
distrahiam: era fundar a cidade eter- 
na, e sobpôr a seu domínio todas as 
nações. Sem impedimento, após as 
victorias, vieram as columnas sober- 
bas, os arcos Iriumphaes, os circos, 
os Iheatros. as basílicas ou tribunaes 
forenses. Porque não sabiam o que 
fosse verdade, facultaram, a cada na- 
ção vencida, religião e templos. Tam- 
bém para si os consLi-uiram ; mas co- 
mo haviam adoptado as ronce|)ções 
religiosas e philosophicas dos gregos, 
por igual lhes adoptaram a archite- 
lura, cujas proporções aiigmentaram. 
Por certo era isso alterar a eleg.mcia. 
a subtil delicadeza e harmonia do 
tem[)lo grego; mas lambera era dar- 
Ihe aquella magestade e realce com- 
petentes ao seu destino. — Aquelles 
templos que os primilivos christãos 
acommodaram ás necessidades do 
seu culto, deram a planta dos pri- 
meiros templos erigidos pela fé. Nun- 
ca se obliteraram as linhas das eras 
primordiaes; mas do afastarem-se 



ARE 



ARE 



67 



d'ellas grailualmeiíte, e das siicces- 
sivas mudanças nascou a arcIíiletUu- 
ra rota.) na, onde o cimbro romano 
se casa com a columna grega conside- 
ravelinetue alterada em suas propor- 
ções. — As mudjnças que fez na an- 
tiga architectiira cada povo formaram 
o velho golliico, o qual, mesclado ás 
artes do Oriente, produziu o estylo 
bysanlino, notável pela maior eleva- 
ção nos arcos, e pela substituição das 
abobadas aos tectos chatos. — A ar- 
chitectura sarracena ou gothica mo- 
derna formou St! pela alliança do ve- 
lho gothico e do estylo bysantinocom 
a arcbilectura árabe e mourisca; pou- 
co e pouco sobreveio o domínio da 
ogiva, formas agudas e angulosas, e 
ornatos multiplicados sem numero. 
Finalmente, a ítalla, no século xvi, 
creou uma feliz renascença, resusci- 
tando as bellezas da ai'ciiileclura an- 
tiga. [h)\ô em dia reina um eclectis- 
mo eschirecido tanto na architectura 
como em tudo. (Veja Ohue.ns de ar- 
chitectura). 

Esta lição peitence unicamente aos 
aluranos de desenho. A historia da ar- 
chitectura pôde produzir na imagina- 
tiva dos mais hábeis útil c fecunda 
impressão. 

ARCO-iaiS. (Veja Meteoro). 

ARDIL. ^Veja Esperteza), 

ARDÓSIA. (Veja Estrath-igação). 

ARE. O aro é a unidade principal 
das medidas agraiias do novo sysle- 
ma legal de medidas. E um deca me- 
lro iiuadrado; isto é, um ((uadrado 
cujo lado tem 10 metros de compri- 
mento, e, poi' conseijucncia, tem 100 
meli'os quadrados de superlicie. (Veja 
Syste.m.v metjuco). 

Para daraosalumnos uma idéa pre- 
cisa das incididas de superlicie, con- 
vóm proceder gradualmente. N'esie 
intento, o professor prepara dous qua- 
drados (1(! papel, um de um deciíae- 
tro (|uadrado, o outro um ([uailrado 
cujo lado lenha, por exemplo, ;> de- 
cimelros. Faz primeiro notara igual- 
dade dos lados e dos ângulos, dupli- 



cando a tigura pela sua diagonal ; de- 
pois, para medir sem quadrado, mos- 
tra a conveniência que ha em tomar 
outro quadrado para unidade de me- 
dida, cujo lado é a unidade de cum- 
primento : para o que sobrepõe o (jua- 
drado menor no maior, e mostra que 
é contido',) vezes; demonstra, depois, 
que se obtém o mesmo resultado sem 
a applicação directa: medindo dous 
lados do quadrado com o lado do i[ua- 
drado menor para unidade de medida 
e multiplicando os dous números ob- 
tidos. Observa (}ue tomando o dcci- 
melro para unidade de medida de 
comprimento, o resultado vinha ex- 
presso em decimetros quadrados; to- 
mando o melro, em metros (juadra- 
dos, etc. 

Por exemplo: querendo saber (|;ian- 
los tijolos de um decimeti-o quaiirado 
são necessários para ladrilhai- um ter- 
rado (]uadrado, basta determinar o nu- 
mer'o ile decimetros que cada um dos 
dous lados adjacentes do terrado con- 
tém, e mullipiicar esses dous números 
um pelo oulro ; o resultado será o nu- 
ínero de decimetros quadi^ados ou de 
tijolos (jue o terrado contém. A expres- 
são da superlicie seiia em metros 
quadrados, se o comprimento dos la- 
dos tivesse sido expresso em me- 
lros; em cenlimelros quadrados, se 
os lados fossem expressos em cenli- 
melros; e assim por diante. Esta sim- 
ples observação dá-nos o meio de fa- 
zer lixar, sem esforço, aos alumnosa 
relação dos múltiplos e submnlti[)l,os 
do melro (juadrado e do are. Tome- 
se, por exemplo, o hecloinelro qua- 
drado, ou o hectare seu etjuivalenle, 
e |)i!i"gunte-S(; aoalunino : ijuantosde- 
(;am(ítros (juadrados ha? quantos me- 
tros (lu.nlrados? (|iiantos tlecimelros 
(|uadrados? etc. Pelo methudo [)rece- 
dente responderá immediatamenle e 
sem esforço; além ile que saberá in- 
lerpi'etar o producto da multiplicação 
praticada, o ipie é de subida impor- 
lancia. — Convém sobre o terreno fa- 
zer observar que decamelro (|uadra- 
do não significa dez metios ipiadra- 
dos. mas sim um (juadrado com um 
decamelro de lado; e assim a respei- 
to das outras medidas agrarias; com- 



68 



ARG 



ARG 



prohfnder-sfi-lia poifoilamenle isto. 
tfiiidn o ciiidaflo rio rnoslrar ri forma 
o (lirncnsílo df» lodos os rnulliplos e 
submulliplos do nrc c, rnotro (juadra- 
do. o (jiic soliic o Umtímio iiciriiillirá 
í'oriiii,ii;il os, o assini íix.ir incllior as 
r('l;i(õi's. 

Diricnlo r r.rririri(i'<. i)('[iois do líír 
estudado o (piadiado como lioa dilo, 
passar-sc-lia ;'i dcliiiicào c mi'dida ilo 
reclain,Mdn. do liiaii^íiilo «'(rum poly- 
gouo (|tial(iiiíM\ ap|)li(:aiido osle co- 
nhíM-iiiKMito á iiicdida (Tiirn campo, 
d'tim jiirdim, ele. — Kxorcilar-sc-hão 
os alumiios em avaliar a olho uma 
snperílcie, o que depois se veri(iear.''i. 
Medem-se as superlicies das mesas, 
muros, e o soalho da aula, e faz- 
se tomar nota do resultado. Sobre 
estes números o professor exerci- 
tará os alumnos na comparação das 
medidas entre si, e nos variós mo- 
dos da representarão numérica de 
uma mesma grandeza. Por exemplo: 
43-2'"- 'i-,2741i pôde escrever e U^r-se: 
l.o.idccarn q.^;^2'27i() OU •4--*'-''%3227-16, 
ou aproximadamente A ares e 3:2 
centiares; "2.« Í3227^'^^«'"i-ff-,i6 ou 
43227 iO cenlim. q.; e, para compa- 
rar as medidas entre si, póde-se per- 
guntar: n"esta quantidade, quantos 
decametros quadrados ha? quantos 
ares e fracção d'are? quantos centia- 
res? quantos decimetros quadrados? 
etc. Estas questões, repelidas sobre 
ditTerentes quantidades e para cada 
um dos multij)los e submulliplos, des- 
envolvem muito a inlelligencia dos 
alumnos, o dào-lhes uma idéa perfei- 
ta tanlo das medidas métricas como 
das suas relações. (Veja Agrimensura). 

ARGANT. (Veja Lâmpadas). 

ARGEL. (Veja Barbari.\). 

ARGILLA,SILÍGIA. 1 . Aargilla, ter- 
ra pegajosa, molle e dúctil, com a qual 
se faz vasilhas, tem a propriedade de 
formar, encorporada na agua, uma 
massa que endurece ao fogo. Este ul- 
timo predicado torna as argillas pre- 
ciosas para a confecção das olarias de 
toda a espécie. (Veja' Olarias). As ar- 
gillas são misturas naturaes de alurai- 



na e silicia, com algumas substancias 
accidentaes como oxydo de ferro, e 
carborrUo de cal, ou calcareo. Quan- 
do csLi iillima subsl'incia enlra n'(*lla 
em (|uanlidade nolavtij d«; .'» a 10 "/„, 
a aitíill.i cli.-una-sí! uuiruc A argilla 
[ilastir^j diluída n;i agua produz uma 
massa mais ou menos densa. A agua 
lh(! adliPifí Ião f;!( ilmenle que ainda 
s(! encontra em parle da argdia (|ue 
haja sido exposta a elevada leriiiíera- 
tui'a. I*ara lh"a extrahir, é preciso l(''l-a 
ao fogo longo tempo: então a aigilla 
adquire maior dureza queosilex. f*or 
mais í|in! (uitãoa pisem e moam, nunca 
mais recebe agua nem se converte era 
pasla.Depoisdesecca a olaria diminue 
entre 1 a 2 décimos de seu vohme; 
e esta diminuição continua ainda de- 
pois da completa expulsão da agua. 
E' então necessário laborar a olaria 
de modo que o relrahimenlo seja uni- 
forme em lodo o sentido. Evitam-se 
as deformações desnodoando a ma.s- 
sa, isto é, inlroduzindo-lhe areia ou 
tijolo pisado. Para evitai- o (piebradi- 
ço resultante da cosedura. mistura-se 
na massa oxydo de chumbo, matérias 
vilrosas e palha miúda; esta uliima, 
ardendo, torna a massa porosa. .\ ar- 
gilla em porcelana, o kaolim dos chins, 
contendo alumina 3'.t, silicia 50, agua 
9, acha-se frequentemente nosi)aizes 
montanhosos em granito. Em França 
enconlram-se belíssimos kaolins: eín 
Cambo, junto de Bayonna; em Saint- 
Yrieix, ao pé de Limoges; e nos ar- 
rabaldes de Cherbourg e Alençon. 

:2. Fazendo aquecer areia ou pedras 
com potassa, obtem-se a silicia, sub- 
stancia branca, solida, insolúvel na 
agua e ácidos, infundivel ao fogo mais 
inlenso da forja. Esta substancia eslá 
derramada exlremainente na nature- 
za, sobre tudo em combinação com a 
alumina, formando com ella a maior 
parte da terra dos campos, e grande 
numero de pedras. No estado de pu- 
reza maior ou menor, constitua a 
areia, os calháos, a pederneira, e as 
dilferentes qualidades de quartzo ou 
de silex. O crystal de rocha é a sili- 
cia crystallisada e perfeitamente pura, 
A silicia é particularmente empregada 
na fabricação do vidro, dos alraofari- 



ARI 



ARI 



69 



zes, das olarins, e pedras preciosas 
arlificiaes. — O quartzo é o nome mi- 
neralógico que a silicia tem no estado 
crystallino. E' ordinariamente límpido 
(crystal de rocha); ás vezes colorido 
de violeta (araethysta), ou azul (sa- 
phira), ou amarello, ou rosado (topá- 
zio falso), em verde, alaranjado, ou 
rubro de oxydo de ferro (liematoide). 
Quanilo os crystaes de quartzo são pe- 
queníssimos e procedem da desaggre- 
gação de certas roctias como o grani- 
lo, formam, por uma nova jiiiicção, 
e com auxilio da silicia dissolvida em 
agua, os grés mais ou menos tenazes, 
diversamente coloridos e de granula- 
ções mais ou menos íinas. A silicia 
dissolvida pela agua ou pelo fogo, e 
depois solidificada rapidamente para 
crystallisar de maneira regular, esfria 
em massas mais ou menos translúci- 
das, e forma todas as variedades de 
ríí/ní/ííí.s coloridas de vermelho (corna- 
lina), côr de laranja (sardónica), de 
verde (helíolropio), e esmeralda. O 
silex é o ultimo grau dos quartzos 
mais ou menos translúcidos. Depois 
vem os jaspes, contendo cêi'ca de quar- 
to de a rgilla,e alguns centésimos de fer- 
ro oxydado, os fpiaes são de todo opa- 
cos ou de variadíssimas cores. O tri- 
poli é também uma matéria silicosa, 
colorida pelo ocre que se acha em Au- 
vergne e em Bretanha, e que serve 
ao polimento dos metaes. (Veja Vi- 
dro). 

IN'estas duas lições insistir-se-ha 
na definição das palavras technicas 
que lá se encontram, e consultar-se- 
ha, por causa da nomenclatura, o ar- 
tigo CniMiCA. 

ARGONAUTAS. (Veja Decimo-qu.\r- 

TO SÉCULO). 

ARIOSTO. Foi celebrado poeta ita- 
liano do século XV, que ás vanta- 
gens pessoaes da elegância unia um 
amável espirito, com doce e a(T(!Ctuo- 
so caracter. Foi-lhe sempre adorável 
o amor maternal. Como um dia cahis- 
se nas mãos dos salteadoies, estes 
quando lhe souberam o nome deixa- 
lam-no ir com muitas provas de con- 
sideração. A obra, que o immorlali- 



sou, é Orlando furioso, onde conta 
proezas de paladinos, misturando com 
inimitável arte o serio ao jocoso, 
o gracioso cora o terrível, tecendo 
muitos entrechos diversos, mas lo- 
dos interessantes. — O assum.pto d'es- 
te poema é parle da luta entre chris- 
tãos com mouros, quando a França 
foi ameaçada da invasão sarracena, 
Ariosto, á imitação dos trovadores da 
idade media, confundiu duas épocas: 
a de Carlos Magno, e a de Carlos Mar- 
tel. A invasão mourisca, acand liba- 
da por Abdeiaman, foi repellida pelo 
heróico Carlos Martel; mas, como o 
nome de Carlos .Magno deslumbrasse 
todos os outros, os cbronístas atlribui- 
ram ao grande imperador e a seu so- 
brinho Roldão morto em Roncevaux, 
e aos paladinos da sua corte, as em- 
prezas todas d'oulra época degenera- 
das em tradições fabulosas. U mere- 
cimetito de Aiiosto jirima na varie- 
dade interessante e inexhaurivel já 
nas peri[)ecías, já no eslylo. 

Ao particular intento d'osta lição 
lilterai'ia, pode referir-se pelo alio a 
historia de Carlos Magno, e bem 
assim a historia dos Quatro filhos de 
Aymond, compendiando-se tudo. 

ARISTOPHANES. Celebre poeta 
cómico grego (quinto século antes de 
Jesus Christo), profligava sem reser- 
va nas suas comedias, os pliilosophos, 
estadistas, poetas, o povo atheniense, 
e até os deuses. As allnsões, as per- 
sonalidades, e amphibologias diflicul- 
tam a interpretação de suas satyras; 
além de ([ue a rudeza dos gracejos c 
a extravagância das idéas produzem 
certo desgosto; mas tanlo sal, ecaus- 
ticídade não se enconlia n"onlro sa- 
tyrico. Racine ímiiounos/)(7/i(í//.7/.«;/,7s 
a comedia das Vcsjms. — <wVristopha- 
nes — diz Scblegel, illustre crilíco al- 
lemão — revela-se cidadão sempre 
abrazado em zelo; e assim dela- 
ta sem tréguas os seduclores do jio- 
vo, que Thucydídes descreve como 
perigosíssimos, .\consellia constante- 
mente a paz quando mais accesa la- 
vrava a guerra civil (|ue motivou um 
irreparável desastre á prosperidade 
da Grécia, e de continuo o ouvimos 



10 



ARI 



ARI 



recorarneiitlar a siiigoleza e severida- 
de (los cosliuruís anli^ços. » O mais 
honroso l(!sl('iiiuiilio (Jiii lavor de Aris- 
lopliaiics ('; o do sábio IMalão, t|iian- 
do cm iiiii <'|)í;>raiiiiiia diz (jiii: as (ira- 
ças liiiliain es(;olliid.) a alma de Aris- 
lopliaiics paia lá liahiLarem. Li.i IMa- 
tilo li(!i|ii(!iil<!m(MiL(; as obras d"esle 
pocla, (í ('oiisla (jiK! clle enviara as 
Niin'iis:\ Uyoiiisio, o Aiili^'0, adverliii- 
(lo-o (|iiií alli podíuia ;ii)ri!iider a co- 
nhecer o tíoviMiio de Alhenas, poslo 
(|U(! n'a(iin'lla peça, laiilo os s()|)liislas, 
como a pbilDsopliia ts sen próprio 
nieslrtí Sócrates fossiun vcMberados. 
Não é de ciOr (jue eíle (jui/esse aflir- 
mar com islo (jue Lai peca íosse, pro- 
va das demasias da liberdade denio- 
cralica; mas i-econliecia em seu au- 
Ihor pei\<picacia rara c profunda in- 
Inição de lodo o machinisiao da cons- 
liUiição populai'. A comedia antiga 
eia um carnaval de toda a gente, 
cai que se toleravam muitas facécias 
(|uea moderna decência não permilti- 
)"ia; poiém por ella se trazia a publi- 
co um dizer recreativo, arguto, e até 
instructivo, que nunca ousaria mani- 
festar-se, sem a proscripção momen- 
tânea de Iodas as barreiras conven- 
cionaes. Como ijuer que fosse, por 
mais plebeias e dcslragadas que hajam 
sido as propensões de Aristophanes, 
por mais offensivas da delicadeza e 
dos bons costumes que hajam sido 
essas chacotas, o ijue não podemos é 
negar-lhe a invenção e execução das 
comedias, os louvores devidos ao ar- 
tista liabil, destro e primoroso na sua 
arte. Quanlo a linguagem, é admirá- 
vel a prodigiosa llexibilidade cora que 
responde a iodos os tons. sem nunca 
descahir de raríssima elegância e in- 
comparável atlicisuio. 

ARISTÓTELES. Nascido em Mace- 
dónia (século quarto antes de Jesus 
Ghristo), seguira a escola de Platão no 
decurso de vinte annos. Em 343 foi 
chamado a educar Alexandre o Gran- 
de, que ao diante lhe favoreceu o amor 
ás sciencias, brindaudo-o com collec- 
ções de objectos de historia natural, 
e quantiosas dadivas para compra de 
livros. Fundou em 334 uma escola 



que lirou, do lugar onde se abriu, o 
nome de Lijini ou escola peripalelica. 
Aristóteles t; o maior es[iirilo da an- 
tiguidade. Abrangeu Ioda a sabedo- 
ria conhecida em sen líMUpo, e creou 
algumas sciencias. Wiíhi lhe veio o 
cognome de l'iinrip'' dos iiliilusoi)lios. 
— «iCommuinineiiiiM; ccjslume defron- 
tar IMalão e Arislolídes, por haveiem 
sido no gt!ial desenvijlvinKMilu da es- 
cola socrática, um o chefe do idealis- 
njo, oiilro da phdosoptiia expei inic-n- 
lal. Não é de todo falsa esta opinião, 
mas o exageral-a piejiidica-llie a ve- 
rosimilhança, íjuem pensar (|ije Platão 
leve em conta de na(Ía a base da expe- 
riência, ou que Aristóteles circumscre- 
veu tudo á impressão dos sentidos, 
não coruprehendeu nenhum d'elles. Ao 
envez, a gloria dY'sles dous homens il- 
luslres, e uma das feições caracleris- 
ticas de seus engenhos, está em have- 
rem aceitado lodos os elementos cons- 
liliiinles da natureza humana, e de 
adoptarem com mais ou menos pre- 
cisão, segunJo suas predilecções e 
particulares tendiMicias. todas ascon- 
diçõiís do problema philosopliico... 
Admittia Aristóteles a existência da 
razão e suas leis, todavia manda a 
justiça confessar, que se preoccu[)ava 
muito dos dados experimentaes, e 
que, se elle não ú integralmente um 
philosopho sensualista, foi levado por 
Índole e desejo de reagir contra a in- 
fluencia de Platão, a estadiar sobeja- 
mente o império da experiência. Um 
erro vulgar de Aristóteles csiá no em- 
prego exclusivo do methodo de dedu- 
zir. É porém verdade ([ue elle fez 
d'aquelle methodo uma tão perfeita 
analyse, que este ramo dos conheci- 
mentos humanos nadaaugmentou de- 
pois d'elle. E nos livros onde expõe a 
natureza e regras do raciocínio de- 
duclivo,dá utna theoria de inducção; 
e com analyse tirmee rigorosa dos ele- 
mentos do pensamento e das espécies 
fundamenlaes do ser, revela que 
a observação psychologica lhe é fami- 
liar, e que, longe de recusares dicta- 
mes da razão, lhe aprofundou lodos 
os dislinctivos. -o (Júlio Simon). — «A 
experiência sensível dá o que está 
aqui, além, agora, de lai ou tal manei- 



ARI 



ARR 



71 



ra; mas é impossível o que eslá em 
toda a parte e sempre... As verdades 
racionaes, bases do raciocínio, as ver- 
dades primitivas, os piincipios não se 
demonstram; aiiebalam immediala- 
raente o nosso sentimento e fé. Não 
é pois do nosso intento avcriguai-lhes 
as bases; (jue ellas repousam sobre 
si mesmas. (Aristóteles, post. i, 31. 
Topic, I, 1). (Veja Platão, Sócrates, 
e Syllogismo, e observe aos seus alura- 
nos que os grandes raciocinadores 
não tem sempi-e razão, visto (}ue ha 
cousas evidentes sem precedência de 
raciocinio). 

ARITHMETICA. «É .muito impor- 
tante que o professor que ensina ari- 
thmetica se habitue a observar o que 
so passa no espirito dos alumnos. De- 
pois de lhes ter pioposto uma ques- 
tão, deve examinar se a coraprehen- 
deram bem; se a não tiverem com- 
preiíendido, deve descobrir o modo 
de a tornar mais intelUgivel. » (Col- 
burn). — (c.Mas o que se torna sobre 
tudo im[)oitante recommendar, é a 
pratica do calculo mental. Estes exer- 
cícios que, principiando por extrema 
simpUcidade, podem ser levados mui 
longe e indeiinidamente variados, at- 
tingem dous lias: são um meio excel- 
lente d'educação lógica; e o melhor 
modo dY-nsinar aos meninos o calcu- 
lo usual, e a reconhecerem, com fa- 
cilidade e sem auxiho da peiína, os 
pioblemas que muito interessam um 
ensino árido em si e que suavisam o 
trabalho com o deleite.» (VVillni.)— .Se 
tivermos uma rneiada enredada, mas 
de que conseguimos encontrar o fio e 
fazel-o passar poi- todas as voltas e 
nós, Icrenios em bieve ennoveiado a 
meiada. E exactamente por modo 
análogo ijue se deve exercitar o espi- 
rito dos meninos no descobrimento 
de conhecimentos abstractos. Para 
um espirito que não tenha sido exer- 
citado, a mais s>mples ([uestãoé mui- 
tas vezes embaraçosa. Quantos me- 
ninos, ainda entre os melhores alum- 
nos, não haverá (|in! encontrem dil- 
liculdade em resolver este problema 
bem simples: (Jnanto são os dous ter- 
ços dos três quartos d*um numero?... 

VOl . I. 



E, comtudo, bastava-lhes o habito 
de decompor (luestões d'este género, 
guiados pelo principio: que se deve 
ir do conhecido ao desconhecido. Dão- 
vos um numero indeterminado: não 
percaes tempo em procurar os dous 
terços dos três quartos que não co- 
nheceis ainda; procurai primeiro os 
três quartos do numero que é conhe- 
cido, achados os quaes operai sobre 
esse numero agora conhecido, e ob- 
tereis facilmente os dous terços. Ser- 
ve este exemplo para comprehender 
como a applicjção da an:ilyse pôde 
dar, com mui poucos conhecimentos 
reaes, uraa certa habdidade na arte 
de calcular. Comtudo, para que esta 
habilidade seja verdadeiramente útil 
e usual, é necessário adquiril-a em 
exerciciosjudiciosos e vaiiados.» (.17a- 
gdsin d'nluralinn, traduzido do in- 
glez). — Começai por explicar o que 
se entende por numero, unidade, de- 
zena, centena. Depois fazei compre- 
hender o milhar, entrever o milhão 
e o bilhão; para o que dareis aos me- 
ninos pedrinhas, marcas do loto ou 
grãos preparados em pacotes de dez 
e de cem. Em fim, explicai o meio, 
terço, quarto, quinto, décimos, vigési- 
mos, centésimos, millionesiraos. Eis 
uma primeira serie d"exeicicios para 
o calculo oial. Não conteis com 
progresso algum da 'parte dos alum- 
nos, sem estas previas explicações; 
d;idas com clareza, servirão de base 
tanto ao calculo superior como ás 
operações e ao syslema tlecimal. (Ve- 
ja Systema métrico, Numeraç.\o, Ad- 
DiçÃo, SuríTRACÇ.Ào, etc, onde se en- 
contram a direcção necessária e a or- 
dem (jue se deve seguir nos exercí- 
cios práticos). 

ARKWIGHT. (Veja Invenções). 

ARMINHO. (Veja Rússia). 

ARRAIS (1). Fr. Amador). Natural 
de Dcja. Ignora-se o anno do seu nas- 
cimento. Moireu bis[)0 de Portali'gre, 
em lO(U). Publicou um livro nniito 
estimado, em lõSl», intitulado: Dia- 
/oí/os, de (jue ha lies edições. E con- 
siderado entro os mais vernáculos cs- 

6 



72 



ARU 



ARR 



criptorfís; o com quanto o padíft An.- 
toiíio Peroira do Fii^iicirodí), pof inex- 
plicável iiidis(:rirão,o (•(i||oi|ii(; riodun- 
dccimo liii^Mr d;i sítíí; dos rKjssos 
clássicos de maior lomo, o insii,'ne 
biljlií)pliilo Iiiiioccncio Francisco da 
Silva, re[»ara a llagranle injustiça com 
esto aprimorado conc»'it0(jo l;lo emi- 
nente esi:ri|)tor: «Todos os crilicos 
sHo concoides em reconhecer no bis- 
po Arrais iim dos mais |>erfeilos mes- 
tres da lingna [jorln^neza, e o melhor 
exemplar do estylo médio, ou tempe- 
rado. Os seus IH(ilo(/i)s go/.aram sem- 
pre da maior estimação, por sua pro- 
veitosa doutrina; pela copiosa e es- 
colhida erudição tanto sagrada como 
profatia que ii'elles se encerra; e fi- 
nalmente pelo admirável decoro e eco- 
iioiiiia (|uií o anlhoi' soube guardar na 
sua composição; ncommodando a ca- 
da um dos inlerloculorcs discursos 
próprios e adequados com pi'ofusão de 
sentenças, que não desdizem da pro- 
fissão e Índole dos sujeitos... A phra- 
se ó sempre engraçada e formosa, 
correcta e puríssima. d íDícc. hibliog., 
tom. i). 

ARRAS. (Veja Artois). 

ARREPENDIMENTO. 1. «O ho- 
mem, que pratica um crime, ao prin- 
cipio atordoa-se com o fructo da sua 
perversidade ; mas, apagado o fogo da 
vingança, ou dissipado o ouro, prin- 
cipia elle a recordar-se da vida do 
homem que foi sua victima, e do mo- 
tivo que o impulsou a manchar-se 
com o sangue d'um irmão. Acode-lhe 
então um pensamento doloroso em 
meio do silencioso recolhimento em 
que se abysmou. É pesar, em que 
não entra medo da justiça ultrajada 
ou receios de castigo: é o principio 
do remorso. Pouco a pouco a con- 
sciência se lhe conturba; depois vem 
a sombra da victima advogar sua cau- 
sa face a face do criminoso: por der- 
radeiro, esvae-se a nuvem, desfaz-se 
a sombra, e apparece o remorso. 
N'este conílicto, se a alma do crimi- 
noso é fraca, aterra-se e treme. O cri- 
me perpetrado dera elle a vida por 
não o haver commellido. Horrorisa- 



do de si mesmo, abomina-se, eamal- 
diç(^a o instante em (pie a paixão fa- 
tal o impelliii. Se tem forca d'alma. 
reflexiona, e diz: pratiquei o mal; 
e e.sse tal rpiereria a todo o custo 
desapressar-se do p<'sodo crime rpie o 
esmaga. O (irrcprutliiiviúo apo>sou-se 
da alma de ambos. Se o mil é rep:i- 
ravel, o liomein arrependido repa- 
ral-o-ha; se o não é, o liotnem (juí* 
se arrepende está (piasi absolto. O 
nrr('i)^nilim"ul() é o pesar amargo e re- 
flexivo da alma que b-z o mal e dese- 
ja remcdial-o. O <irri'itnidi milito é o 
ultimo degrau; vem após a piedade e 
o medo, o pesar e o remorso. Cousa 
admirável é (pie se haja feito do nr- 
rriirndimmlo um mérito; eo chrislia- 
nismo qiieclrimava |):(ra si os gentios 
e os peccadores, chamou lambem o 
(irroii('ndmi'ni(i e o bajítisou cbrisião, 
respondendo n'isto a uma necessida- 
de de nossa alma; porque se o nrrn- 
pctujiiiiputo está ao pé da confissão, 
ha n'elle o receio do opprobrio. O ho- 
mem arrependido quer uma alma 
que lhe conlidenceie a sua, em com- 
muuicações de vergonha e de pesar: 
podemos dizer n'esle ponto com o phi- 
losopho de Genebra: «Vós que poíJes- 
tes perdoar meus desatinos, porque 
não perdoareis a vergonha produzida 
pelo arrependimento d'elles?)) Por 
isso mesmo se vt*' quanto a religião 
catholica entendeu bem o coração hu- 
mano, impondo-lhe o dever da con- 
fissão, e absolvendo-o quando o ar- 
rependimento leva o peccador a con- 
fessar a culpa.» (Theodore LeMainei. 
2. «Pedi ao arrependimento a ves- 
te da candura: (' elle quem a encon- 
tra e a restilue áquelles que a perde- 
ram. Quando a natureza e os homens 
são inexoráveis, é maviosíssimo achar 
Deus prompto a perdoar: só a reli- 
gião chrislã ideou fraternisar a inno- 
ceucia com o arrependimento.» (De 
Chateaubriand). «O Senhor é Deus 
d'aquelles que se arrependem; e este 
Deus só veio á terra para áquelles que 
estavam enfermos, )> (Santo Ephrem). 
«Esperamos para nos arrependermos 
que as nossas culpas nos hajam pu- 
nido.» (Lugrée). «Ha tanta grandeza 
no arrependimento que poucas almas 



ART 



ART 



73 



lhe apreciam o valor. » (M.'"« Tarbé). 
«Adòr pliysica é o grito plangente 
dos órgãos enfermos, assim como o 
remorso é o grilo accusador da con- 
sciência ferida.» (Dr. Descuret). <.(0s 
remorsos supprem a justiça. O afazi- 
irienlo do vicio pôde enfraquecer, mas 
nunca suffocar de todo o grito do re- 
morso.» (Young). «O remorso é a úni- 
ca dôr d'alma que o tempo e a refle- 
xão não suavisam.» (M."*" de Stael). 

ARSÉNICO. (Veja Metalloides). 
ARTES. (Veja Sciengias). 

ARTICULADOS (Ânimaes). i. A 
classe dos animaes articulados subdi- 
vide-se, segundo suas formas princi- 
paes, e a natureza da sua respiração 
e circulação, em muitas classes, de 
que são principaes: os insectos, os 
arachnides, os crustáceos, os anneli- 
dos. Esta ultima compreliendo os ver- 
mes chamados de sangue vei-melho. 
que tem o corpo alongado e dividido 
em numerosos anneis por vincos trans- 
versaes, e não passam por metamor- 
phoses. Uns para se ajudarem em seus 
movimentos tem feixes de cerdas ri- 
jas e moveis: outros, que não tem al- 
gum appendice para o movimento, an- 
dam de rojo, rugando oucontrahindo 
diversas partes do corpo. Aos géneros 
providos de cerdas pertencem: a ari- 
nicula dos pescadores, vulgar nas 
praias á heira-mar, onde se aprovei- 
tam d'ellascomo engodo para pesca, e 
as minhocas que vivem na terra hú- 
mida dos jardins, onde se nutrem das 
matérias orgânicas contidas na terra 
ou no estrume. Aos géneros destilui- 
dos de cerdas pertencem as sangue- 
sugas, que tem nas extremidades uns 
discos carnosos que lhes servem de 
sugadouros. 

'i. Os crustáceos são animaes pro- 
vidos d(í membros articulados, respi- 
rando poi" barbatanas, cobertos era 
geral d'uma (Tusla dura, ijue deixam 
e renovam em certas ípocas. Tem 
sangue branco, coração muscular, o 
vasos circulatórios, muitos pares de 
maxillastransversaes, e antennas (pie 
ordinariamente são ([uatro. O seu cor- 



po divide-se em cabeça, thoracele. e 
abdómen ou cauda ; mas no mais das 
vezes a cabeça está soldada ao thorax. 
Os membros articulados nunca exce- 
dem a sete pares, nem são menos de 
cinco. Chamam-se dccápodos os gé- 
neros que tem cinco pares de pé*, e 
tetrndpcàimdos os que tem sete. Aos 
primeiros pertencem os caranguejos, 
lagostas e lagostins, e aos segundos 
pertencem os bichos de conta, que 
vivem nos lugares húmidos das nos- 
sas habitações (Veja Classificação). 

3. Os arachnides não tem antennas 
nem guelras ; tem a cabeça e o Ihora- 
cete reunidos n'uma só peça de forma 
redonda ou quadrada ; tem oito patas, 
um abdómen distincto, sem appen- 
dices locomotores. Respiram por pul- 
mões ou trachT-as; tem respiração com- 
pleta, com o coração simples que re- 
cebe o sangue que respirou nos pul- 
mões para o reenviar á economia. 
Termino sempre o seu canal intesti- 
nal na parte superior da extremidade 
do corpo onde estão as iiadeiras ou 
mstrumentos que servem para fiar as 
teias, quando possuem esta faculda- 
de, Dividem-se em duas ordens : uma 
que tem pulmões, e outra que lem 
trachèas: á primeira pertencem as 
aranhas e os escorpiões que pela maior 
parte são venenosas, cá segunda os 
aranhiços das paredes e uns bichi- 
nhos, espécies microscópicas que vi- 
vem no queijo, e nos alimentos ou na 
pelle e carne dos animaes vivos. 

4. O corpo do maior numero dos 
ínsrctOfi pfrfcilos é composto de Ires 
partes, separadas por constricções, a 
saber: a rabeca., a qual contém os 
olhos, as antennas, e a bocca : o thora- 
cele, ou cosmlete, ao qual se acham li- 
gadas as pernas, e azas: e o abdómen, 
que pende posteriormente, e contém 
a maior parte das vísceras. Comtudo 
cumpre notar-se, que nas aranhas, e 
alguns outros géneros, a cabeça, e 
Ihoracete formam uma só peça : ipie os 
lagostins, em lugar de abdómen, tem 
uma cauda articulada e com pernas; 
e que nos niillépedes, bichox de conta, 
ele, o corpo 6. composto de uma mul- 
tidão de peças articuladas, as (piaes 
se ligam todas com as pernas sem dis- 



74 



ART 



AKT 



tincçào de LhoracuLe, ahdumon, ou 
c;iu(J;i. 

As laiitis, (! iij/nijíliiis ãos i medos de 
mein iHiHitinnritkose Umíi ij^ii;iliii(iule 
eslas lies pailes; (! são iniiiii«las de 
pernas, anliiiiiias, o boccas seinrlli.iu- 
les ás dos insectos pi-iítúlos; poiéiu 
nos iiiseclos (ie inilniiioriihusi; com- 
pleta ha uma ^çrandc (Idíerciira, o vfun 
a ser, (jue a forma do corpo íJií suas 
larvas não Wm ridaçào conslanlecom 
a f(')raia, (jue liào d(! ler os insectos 
perfeitos: por(]ue é de ordinaii(j alon- 
gado e composto dtí urn certo nume- 
ro de anneis ledondos, ou chatos: a 
c.iheça é umas vezes escamosa, e mu- 
nida de (|ueixos; outras ve/es molle, 
e de hocca em forma de tromba, não 
tendo Jániais olhos compostos, e ob- 
servan(lo-S'^vdies somente !'udimentos 
de anlennas, que muitas vezes lam- 
bem faltam; unias não tem peiíias, 
outias tem muitas; mas siMupre mais 
curtas, e com menos articulações, do 
ijue nos insectos peifeitos. 

Os insectos vivem em todas as sor- 
tes de habitações, e por conseguinte 
tem todas as formas de órgãos de mo- 
vimento. As azas são umas peças 
inembranosas, seccas, elásticas, e li- 
gadas aos lados do dorso, e do thora- 
cete, acliando-se entre as ligações 
d'estas, um tanto posteiiormenle, um 
tubérculo chamado csciiilillio. As abe- 
lhas, as vespas, e as libellinhas, etc. 
tem (juati-o azas, as quaes, ou per- 
manecem estendidas, ou se dobram, 
ou se cruzam sobre o dorso, em quan- 
to o insecto descança, segundo as di- 
versas espécies. As borboletas tem 
igualmente quatro azas cobertas de 
pequenas escamas, as quaes apresen- 
tam á vista a apparencia de poeira, 
que lhe dá todas as cores. Os inse- 
ctos de duas azas teoi por baixo dous 
pequenos pedúnculos moviveis termi- 
nados em clava, que parece occupa- 
rem o lugar das azas, que lhes faltam, 
e se chamam badalos ou contrapesos 
[haUeres). 

Muitos insectos em lugar de azas 
anteriores tem espécies de estojos mais 
ou menos duros chamados eUjtros, que 
se abrem, e fecham, e debaixo dos 
quaes se dobram as azas no estado 



de repouso: esles insectos chamara- 
se colivptfios, e fallam-liies algumas 
vezes as azas; pcn-m nunca os el)- 
Iros. 

Nenhum inseclo alado tem mais, 
nem ioímios (it; seis pernas, ainda que 
um, ou (jutro dos seus pares sv. ache 
algumas vrzes menos desenvolvido. 
Kntre (js insectos, (|ue não tt!m azas 
alguns ha, com seis, oito, dez, doze, 
(juatorze, e até muitos centos de per- 
nas, achando-se somente, duas, ou 
Ires espécies, e estas mui pequenas, 
nas quaes se julga não haver mais de 
quatro pernas. 

Ksles membros são compostos de 
coxa d(í perna, e de um dedo, ilividiíJo 
em muitas phalanges, ou articulações 
terminando, de ordinário, em um du- 
plicado gancho: os insectos iiadmlu- 
res tem os dedos achatados á manei- 
ra de remos. 

Os músculos dos insectos são mui 
fortes, muito irrilaveis, e por extre- 
mo multiplicados, n'aquelles que tem 
o coi'po composto de anneis molles, e 
llexiveis; porém apenas ha mais de 
dous nas articulações envolvidas em 
uma côdea dura, como nas das per- 
nas; por quanto, sendo estas ligadas 
em dous pontos, só podem movei-se 
em um plano. 

Os insectos tem duassortesde olhos, 
a saber: simplices, mui pequenos, e 
immoveis; e compos;os, que parecem 
formados de uma multidão de oUios 
simplices, reunidos em montinhos, e 
de ordinário immoveis: os lagoslins 
tem os olhos sobre tubérculos movi- 
veis. 

Como o corpo dos insectos perfei- 
tos seja revestido de crustas duras, 
deve ser pouco sensível, mas supprem 
esta falta, cora as aiUcnnas, que são 
uns lios articulados, e moviveis em 
todas as direcções, de formas mui va- 
riadas, e situadas na parte anterior 
da cabeça, faltando em mui poucos 
insectos,* como nas aranita'^, lacnios e 
Umalos. Alguns suppozeram, que as 
anlennas serviam lambem para o ol- 
falo, cujo órgão é desconhecido uos 
insectos, posto que se conheça, que 
elles possuem esta sensação; poiém 
é mais provável, que esta' se exercite 



ART 



ART 



/o 



na entrada dos estyrjmns, que são umas 
aberturas pelas quaes entra o ar no 
corpo dos insectos. Os insectos tam- 
bém ouvem, mas ainda se não des- 
cobriu espécie alguma, de ouvido, se- 
nãnem os lagostins. 

Todos os insectos conhecidos, e suas 
larvas tem pelo lado do ventre um du- 
plicado cordão meduUar, que vai de 
uma extremidade á outra, engrossado 
dVspaço, era espaço, por pequenos 
tubérculos, dos quaes o primeiro, que 
passa por ser o seu cérebro, é o úni- 
co situado do lado do dorso, acima do 
esophagi), communicando-se aos ou- 
tros por dons cordões, que abraçara 
este canal, como uma colleira. Os ner- 
vos sabem d'estes differenles tubér- 
culos, para se distribuírem a todas as 
parles. 

Os órgãos da mastigação, nos ins**- 
ctoíí, são muito raais variados, do que 
em nenbuma outra classe de animaes. 
Aquelles que se suslenlam uni^^amen- 
te de liquides não tem queixos; mas 
Fomente uma tromba úeVib) duplica- 
do cnrolando-se cm espiral (liiiqua), 
ou um tubo a'jndo cnrvando-s'' debai- 
xo do corpo (rostrum), ou nnia trom- 
ba carnosa de dons lábios {[iruboscis), 
clc. 

Aquelles insectos, que tem queixos 
os abrem para os lados, e não de ci- 
ma a baixo, como os outros animaes, 
e tem de ordinário dous pares, dos 
quaes o supf^rior c mais forte c se 
chamam mandibalas, e o inferior con- 
serva o nome de queixos. Alguman 
vezes falia um ou outro, ou também 
ha muitos pares: além d'isto tem dous 
beiços, um superior, outro inferior; 
e este ultimo varia muito na forma, e 
connexão com os queixos, e raodo, 
pelo qnal sua extremidade, chamada 
lingua se alonga, ou encolhe. 

Os palpos, ou anlrnnas menores são 
uns pequenos filaraentos ordinaria- 
mente articnbidos. (jue se ligam a di- 
versas partes da mandiicaeão : porém 
o mais das vezes ao dorso dos (|uei- 
xos, e lábio inferior, seivitído para 
melhor darem a conlifcor ao insecto 
as subslanrias, que elle come. 

O canal alimenlar varia em iiiHc- 
"xõcs, e empolaçOes, sendo de ordiná- 



rio mais comprido, e de estômago 
menos robusto, nos que se nutrem de 
vegetaes. As espécies mui vorazes, 
como a lagarta, tem corntudo os in- 
testinos grossos, e curtos: outras, co- 
mo os gafanhotos, tem muitos estô- 
magos. O fígado, e as outras glându- 
las são suppridas por longos vascs 
análogos sem duvida aos vasos pró- 
prios das glândulas dos outros ani- 
maes; porém são tluctuantes, e não 
formam, pelo seu ajuntamento, um 
corpo solido. 

E' só nos lagostins, e géneros pró- 
ximos, que se acha um coração mus- 
cular; e não se conhece nos outros 
cousa, que se lhe assemellie; porém 
acha-se ao longo do seu dorso um va- 
so repartido por muitas consiricções, 
do qual as articulações se contraliem 
alternativamente; por maneira que o 
licor, qnc este contém parece ir de 
uma extremidade <á outra. Alguns au- 
thores lhe tem dado o nome de cora- 
ção, pí^slo que nVlle se Ucão haja visto 
entrar, nem sahir ramo algum. Pode 
muito bem ser que estes animaes não 
tenham realmente systema vascular, 
e que as pules do seu corpo se nu- 
tram por embebiçâo.Os lagostins são 
igualmente os únicos de guelras di- 
versamente situadas, segundo as es- 
pécies. Os outins insectos res[tiram 
somente por Irachêas: assim se cha- 
mam uns vasos de paredes elásticas, 
que se abrem exteriormente aos la- 
dos do corpo por buracos chamados 
esli/gmas: estas trarhêas se ramifi am 
infmilamente no interior. Os insectos 
consomem ar puro, e perecem no 
impuro, do mesnio modo que os ou- 
tros animaes; e também morrem 
quando se lhes tapam os eslygmas 
com substancias oleosas. (Cuvier). 

ARTOIS. 1. O condado de Arlois, 
depois de ter sido longo tempo pos- 
suído pelos condes de Flandies, foi 
reunido á coroa por Philipi>" Augusto 
em 1180. dado jior S. I.ni/. a seu ir- 
mão Roberto, e passou á casa de .\us- 
tria, p(>lo casamenio de Maria ile 
Horgonlia com Maximiliano (I i77K- 
por lim as eonqiiislas de I,uiz \IV e o 
tratado de Nimègue reslituiram-o ;\ 



76 



AHT 



ASI 



França, ficando a [((íiUincftr o lilulo 
de condtí (1(! Arlois a inuilos piinci- 
pes dt! saiij^iu!, (!ulre oiilros ao Lei- 
ceiro iiinão dt; Luiz xvi, depois rei 
co(U o noriift lie Carlos \. Arlois cons- 
liliie uma província, oudi; llorece va- 
liada industria, coininercio aclivo, e 
são nolaveis as cidaiJes liisloricas do 
Latis, de A/ancourl, e Calais. 

"1. V\s \)K Calais, capital Arras. Não 
haslou a Luiz xi loniar Arras liei aos 
du(|ues de Borgonha: eohiin-a de 
rniuas e cadáveres. llenri(|ne iv e 
UiclKílien, Tnrenne e Conde lizeram- 
llie solíier todas as misérias dos assé- 
dios implacáveis. Após tantas diistrui- 
çOes, Arras resurgiu com formosas 
praças, e nolaveis edifícios adminis- 
trativos; Vauban nnalmcnte alii con- 
struiu para as suas estrati'gias uma 
fort(í cidadella. líolonlia eslá dividida 
pela natureza em cidade alta e baixa. 
Uma no alto e no declive do monte 
Lambert, moslra-vos a nova e esplen- 
dida igreja de Nossa Senhora, bem 
como um casl>dlo iuteiíameute insu- 
lado, d'onde podeis coatemi)lara raa- 
gestade do mar, os navios em repou- 
so nas angras, ou velejando na barra, 
a agitação perpelu;i dos homens, dos 
barcos e das vagas em frenle das ri- 
bas imraoveis da Grà-Brelanha. 

A cidade baixa onde se falia inglez, 
maravdlia o viandante, que nunca viu 
inar nem navios, nera ancoradouros, 
nem cães, nem marinheiros france- 
zes, nem (niiristPH inglezes. N'este 
porto de facílima abordageiu, ha gi'an- 
de commercio de madeira, e linho do 
norte. O porto de Calais, é de some- 
nos importância, e lende a obslruir- 
se cedo ou tarde pela massa de areia 
e seixos que lhe accumula incessan- 
lemenle o movimento do mar. 

Pelo que respeita a Sainl-Omer, ha 
poucas campinas Ião singulares, e ci- 
dades tão fortes e ricas em monumen- 
tos com a mesma população. Os cam- 
pos de Saint-Oraer são em grande 
parte uma continuada lagoa, de lodo 
intratável, mas de incrivel uberdade. 
Um dos arrabaldes da cidade, cha- 
mado Hautponl, é o retrato fiel de Ve- 
neza; não ha estradas nem ruas pos- 
.siveis sobre essa terra lluctuante; 



communicam-se as casas entre si por 
meio de l>ole>. 

liiriiuiini. iJicla-se de duas vezes 
esta lição, <; maiidam-se mostiar no 
ína|tp.i os lugares mencionados. Di- 
gam-se algumas [)alavras a respeito 
de cada rei nomeado, e peça-se um 
resumo esciipto, 

ÁSIA. Quasi todas as planícies da 
Ásia são elevadas, e oITerecem uma 
espécie de terraços dispostos grada- 
tivamente, conduzindo ás terras bai- 
xas. Os mais (devados mostram umas 
vezes desertos arenosos, outras vas- 
tos espaçosescalvados, chama(Jos.s^7>- 
pcs e caraclerisados por uma espécie 
de terreno pardacento onde só vege- 
tam heivas e sarçaes. 

O clima da .\sia, varia segundo as 
regiões. Ao norte, eslão gelados os 
rios desde o principio ile setembro até 
julho, e durante a curta duração do 
estio, a atmosphera esíá carregada de 
neblina espessa e insalubre. No cen- 
tro, as elevações esiào expostas a ri- 
goroso frio; ao passo ()ue os plainos 
inferiores gozam temperatura elevada, 
inverno muito breve, e vegetação ri- 
ca e magnifica. Ao sul só se conhe- 
cem duas estações. De abril a novem- 
bro chove constantemente em algu- 
mas parles, em quanto n^outras ha 
grande seccura ; no restante do anno é 
sereno o céo. São admiráveis o vigor 
e opulência com que a vegetação ahi 
desabrocha. 

Foi a Ásia berço da civilisacão, e 
das crenças religiosas. Os habitantes 
das regiões meridionaes. são gt^ral- 
mente voluptuosos. eíTeminados, e 
inertes; mas vivos de espirito, pene- 
trantes, e ardentes de imaginação; os 
do norte são toscos, e quasi selvagens. 

DizVolney: ^(Quando um europeu 
entra no Oriente, o que mais o im- 
pressiona do exterior dos habitantes 
é a quasi tolal opposição das suas ma- 
neiras com as nossas. Dir-se-hia que 
um premeditado desígnio se recreou 
a estatuir multidão de antagonismos, 
entre os homens da Ásia e os da Eu- 
ropa. 

INós trajamos vestidos curtos e cin- 
gidos, elles usam-os amplos e roça- 



ASS 



ASS 



/ i 



gantes; nós deixamos crescer os ca- 
bellos e corlaoias a barba, elles dei- 
xam crescer a barba, e rapam os ca- 
l)ellos. Entre nós descobrir a cabeça 
é signal de respeito; entre elles ca- 
beça descoberta é signal de sandice; 
nós saudamos inclinados, elles saú- 
dam direitos; nós passamos a vida de 
pé, elles sentados; elles assentam-se 
e comem no cbão; nós estamos de 
alio, sentados em nossas cadeiras. Fi- 
nalmente até emcousas de linguagem : 
elles escrevem ás avessas do nosso 
uso, e a maior parte dos nomes mas- 
culinos são femininos lá ! » 

Direcção. A respeilo áos sleppes, pô- 
de discursar-se acerca das savanas 
do Novo-Mundo. (Veja Colômbia). O 
berço da civilisação e do género bu- 
mano natuialmenle nos conduza his- 
toria das primeiras colónias. (Veja 
Adão). 

ASPÉRULA. (Veja Rubiaceas). 

ASSOCIAÇÃO DE IDÉAS. c(É facto 
assas averiguado (jue as nossas con- 
cepções tem a propriedade de se des- 
peiíarem mutuamente. Tal pensa- 
mento, que meoccupa, suscita oulro, 
que suggere o terceiro, e assim infini- 
tamente, por pouco que eu me preoc- 
cupe d'essa derivação. Por exemplo, 
em quanto escrevo estas linhas, pen- 
so em certo capitulo das obias de 
Rcid, onde colhi as minhas idéas. Do 
livro, derivo para o author, e o figuro 
ensinando na sua escola deEdiínbuig 
com a sua gravidade serena e costu- 
mada bondade. Edimburg e Escócia 
fazem-me pensar em Maria Sluart, 
recordando-me a sua desgraça, for- 
mosura, e alto espirito. A formo- 
sura c o assumpto d^um livro de 
Plalão, e eis-me aipii meditando a 
natureza e origem d^ella. E como eu 
haja também lido sobre tal assumpto 
uma theoria de Kant, passo da Gré- 
cia para a Allemanha. Depois de al- 
guma paragem n^esle paiz, o meu 
pensamento embaica-se no Rheno e 
por alii vai descendo até ao mar. 
Aqui, assisto idealmente ao espectácu- 
lo (l'uma tempestade; e, quando estou 
imaginando o terror do quadro, oc- 



corre-me a lembrança de um painel 
que me representava scena semelhan- 
te. Ao propósito do quadro medito 
em pintura, e dominado da pintura 
derivo para a musica; porque a de- 
nominação d'arte, que Ihe.s é com- 
mum, me levou d'uma a outra, e 
assim começo interiormente a trau- 
tear qualquer trecho de opera. Pô- 
de ser que enlão, entrando em mim 
mesmo, despertado pelo contraste 
da rainha situação presente com 
aquella onde me transpõe as minhas 
recordações, eu me entregue de novo 
ao trabalho interrompido; mas, se es- 
tou de ferias, irei assim percorrendo, 
ao sabor de minbasconcepções, os pai- 
zes lodos da terra, as épocas todas da 
historia, e viajando em todo o senti- 
do no dominio infinito do pensamen- 
to... Tal é, toscamente descripto, o 
phenomeno psychologico, chamado 
associação de ideas.y) (Amédée Ja- 
cques). 

2. «Embora observemos pouco at- 
tenlos a maneira como uma idéa é ma- 
nifestada por outra, é certo que este 
accordo não vem casual, mas pende 
de secretas allianças das nossas con- 
cepções. Estas palavras são numero- 
síssimas: tempo, lugar, analogia, con- 
traste, relações de causa e eíTeilo, de 
principio e consequência, de signal e 
cousa significada. Esias são as causas 
principaes das travaçÕL>s que se for- 
mam em nossas idéas, e nosoccasio- 
nam todas as lembianças. P<-!o que, 
o aspecto de lugares illustrados por 
grandes acções, recorJam-nos suc- 
cessosahi passados; o nome d"nm per- 
sonagem egrégio faz pensar nos seus 
coevos: a obra recorda-nos o arlili- 
ce; um retraio o original ; uma idéa a 
palavra tiue a explica, ele. Estas liga- 
ções de pensamentos, note-se que não 
sãosómente importantes para a memo- 
ria; todas as parles da nossa consli- 
tuição estão debaixo de sua inlluen- 
cia. São ellas que nos prescrevem o 
gosto, os preconceitos, os erros, o geilo 
de nosso espirito e nossa Índole. O ta- 
lento dos chistes, por exemplo, resa- 
he principalmente do costume de co- 
adunar as relações mais remotas das 
idéas; do mesmo passo que as liga- 



78 



ASS 



ASS 



çno> naliiraps e rrgiilares formara a 
solidez (lo jiiizo, e a rfclidão do pro- 
cfdor.» (.I(iiiid;ilii). Kslas associarOcs 
ÍHMlem ser voltmiMtias c aitiliciaes. 
Sc (|ii('ieinos letcf iim fario (|ii(í nos 
foi^e, preri(leiiU)l-o foilciiienU^ a utri 
olijeclo (|Mft nos ('. f.itnili.ir. N'islo se 
fiindaníeiíla ;i tlicoria d;i nienioria ar- 
1ilir,i;il. cliainada mmmonh-n. (Vcj.-i 

MlMOFlIA). 

3, O desenvolvimento (las iíh-as es- 
tá, em geral, cni relação exacta com o 
modo como a nnlnreza exterior fere 
os sentidos. Dons meninos da mesma 
idade, e de ii^nal capacidade, adqui- 
rem conlieciíiientos em grau diíTc- 
renle, se nHo eslSo era reki(^ão igual 
com as cousas que os rodeiam. Sc um 
fiH' circumsrripto em recinto estreito, 
onde uAo veja as cousas pelo seu la- 
do inlei-essanie, se outro pôde vtx em 
maior numero os (dijcctos (jue lhe são 
a[iresenlados por lodos os seus aspe- 
ctos; este formará idéas justas e fa- 
culdades exercita las para adquirir 
sem cessar novos conhecimentos; o 
primeiro só poderá descobrir asípia- 
lidades apparenles dos objectos, e de 
tão incompleta e mal dirigida obser- 
vação hào de proceder idéas incorre- 
ctas e vagas; por maneira que em vez 
de conhecimentos positivos, terá id(?as 
erradas e preoccupações. Corre por 
lanio obrigafião no i)i'ofessor, de fazer 
observar aos meninos, desde a pri- 
meira educação, o> objectos que os 
cercam, e acostumal-os a analysar 
cuidadosamente as impressões que re- 
cebem, e associar idéas conforme as 
regras da lógica e do bom discerni- 
mento — Por exemplo, quando se 
triíta de historia, parece natural fal- 
ia r se de geographia, e vkc-vcrm; a 
propósito d'um vidro, vem á conver- 
sação objectos transparentes e frá- 
geis; a propósito de calças, o alfaiate ; 
do tecelão, o algodão ; do linho, o agri- 
cultor; a propósito d'um ped.iço de 
ferro, pôde conversar de oflicinas, de 
minas, de melaes, e vastidão de pro- 
fissões; finalmente, qualquer objecto 
que se nos depara á vista, pôde abrir 
ensejo a explicações e descripções, 
que são tanto mais attendidas quanto 
parecem cahir acaso para recrear os 



espíritos que folgam sempre cora o 
ines[icrado. 

ASSUGAR. O assucar pôde exlra- 
íiir-sc de difícrentcs vpgctacs: a ca- 
na, a beterraba, o milho, etc. N'uma 
('[)oca ainda nà<) muito distanciada, 
todo o assucar (pie se consurnniia em 
Krança e fiôde-se dizer nornundo in- 
teiro, era o (pie se cxtralna da cana, 
e por consequência era um producto 
estranlio (pie era preciso ir buscar aos 
paizes favorecidos onde o clima ([uen- 
te permitte a cultura d'esla planta. 
')uando uma guerra raaritima impe- 
dia as cnmmunic.ações, ficávamos pri- 
vados d'este género [)recioso, e o pre- 
(;o tornava-se então excessivo ; de ma- 
neira que um objecto tão necessário 
aos nossos hábitos, tinha assim ora 
um preço muito elevado, ora baixo, 
segundo as vicissitudes da paz ou da 
guerra. O génio do hornem e o génio 
írancez, diremos também, mudou es- 
ta situação, conseguindo extrahi!-o de 
um vegetal que se dá perfeitamente 
no nosso solo, e no seio do nosso cli- 
ma terape?-ado, tal é a beterraba ; da 
qual o uso estava restringido, até en- 
tão, á alimentação dos anitnaes em al- 
guns paizes, e hoje nos dá uma abun- 
dante colheita de assucar; de manei- 
ra que a tal respeito, a França rivali- 
sou cora as colónias, prescindindo ago- 
ra d'ellas, e não receando já (]ue as 
guerras maritimas e outros aconteci- 
mentos, que podiam impedir as com- 
municações com os portos que até 
aqui nos forneciam o assucar, empe- 
çam a producção e consummo de gé- 
nero tão indispensável. 

Nem todas as espécies de beterra- 
bas servem para o assucar, e a expe- 
riência faz conhecer as mais próprias. 
Debaixo d'este ponto de vista, deve- 
mos classifical-as pela ordem seguin- 
te : a brliTrnba branca, a amarella, 
semente de Castelnaudary, a vennc- 
lha, da mesma semente, amnreUa e 
vermelha commum: e era Ism a beter- 
raba rajada ou côr de rosa. Reconhe- 
ceu-se igualmente que as parles da 
beterraba que sabem da lerra perdem 
pela acção do ar uraa parte de assucar 
que contém, por isso deve cultivar-sca 



ASS 



AST 



79 



beterraba branca qne fica inteira de- 
baixo da terra, e não mostra senão a 
foliiagem; é pelo menos preciso esco- 
rar com cuidado e cobrir bem aqiiei- 
lasque tem parle da raiz fora da terra. 

A beterraba bravca, chamada da Si- 
lesia, éa raaissaccharina : a beterraba 
vermelha não é tão empregada por 
causa da cor; a beterraba rajada dá 
pouco assucar e é difficil de fabricar. 
Posto qne contenha de 10 a 42 7o 
de assucar cryslalhsavel, a beterraba 
branca não fornece senão 4 a 6 7o 
pela manipulação em grande. 

As beterrabas, lavadas, raspadas e 
espremidas, dão de 15 a 20 7o *^lc 
sueco; depois procede-se {\ defecação 
qu(í consiste era fazer ferver o sueco 
ajiiníando-lhe 50 grammas de cal por 
hectolilro até levantar espuma; de- 
pois deixa-se depositar o licor, o qual 
se passa pelos filtros Dnmont que 
são cnixiis de cobre, com dous fundos 
crivados entre os quaes .se lança o ne- 
gro dos ossos calcinados, apertando-o 
dentro de dous panos. A terceira ope- 
rarãtj consiste em evaporar o sumo ou 
a quente ou a frio, formando evacuo 
abaixo do liquido; na quarta opera- 
ção faz-se passar segunda vez o sueco 
pelos filtros de carvão; na quinta 
evap<ira-se de novo ou pelo calor ou 
pelo vácuo; na sf^xia faz-se passar so- 
bre os filtros Taylor formados de pan- 
nos de saccos dobrados; depois pela 
terceira vez pelos filtros Dumont 

Temos então chegado á cosedura, 
que se opera entre M^f" e 115»; e 
(|u/indo o xarope marca i3" no areó- 
nietro de Batimé faz-se crystallisar 
pelo resfriamento, e enião temos o as- 
sucar mascavado. (Veja Ferment.\ç.\o 
e NuTRiç.\o). 

"2. Para extrahir o assucar de ca- 
nas corta m-se estas, e pisam-se por 
meios meelianieos, para lhes extrahir 
o sumo, (jiie eorilém oassneai- foi-ma- 
do, além da fécula verde e outias ma- 
térias estranhas. Cose-se em caldei- 
ras de cobre, com uma quaiilidad(» 
peipiena de cal, (pje lho exlrahc a fé- 
cula em fóinia de espuma. I^ogo (pie 
o licôr eslá algum tanto concentrado, 
côa-se, evapora-se nas ealdeiras, e 
depois despeja-se nos tachos, onde se 



crystallisa, Trasfega-se o restante do 
liquido, e o assucar assim crystallisndo 
6 secco, chama-se assucar mascarado. 
O assucar que não crystallisou, cha- 
ma-se melaen. O assucar, para ser re- 
finado, é dissolvido em agua, ajunta- 
se-lhe depois pequena porção d'agua 
de cal. ossos carbonisados, e matérias 
alhuminosas, como sangue de boi. 
Esta albumina, coagulando-se pela co- 
sedura, absorve todas as matérias es- 
tranhas e forma uma espuma que se 
tira repetidas vezes. Depois fillra-se, 
evapora-se, e vasa-se em cones pos- 
tos do avesso. O esfriamento determi- 
na a crystallisaçào do assucar, e pela 
extrema aguda do cone, sabe o xa- 
rope que não crystallisou. Depois pro- 
Cede-se á terracjem. que consiste em 
cobiir o assucar com uma camada de 
outro já refinado, e pulverisado, e 
por cima d'esta sobrepõR-se outta de 
argilla diluida em agua. Esta agua fil- 
tra através do assucar em pó, trans- 
forma-se em xarope, que leva com- 
sigo, e do qual enche os interstícios 
de crystaes, levando também a male- 
ria incryslallisavel. Deve repetir-se 
três vezes esta terragem. o que gasta 
trinta dias pelo menos. Tiram se os 
pães das suas molduras, e seccam-se 
em eslufa por espaço de um ou dous 
dias. N. Dubrunfaut chegou a retirar 
lodo o assucar crystallisivel contido 
ainda nos melaços provenientes das 
refinarias. Para isto, combinou com 
o baryto e o assuearato de barylo qua- 
si insolúvel, mesmo ao fogo. é lavado, 
e depois decomposto pelo acido sul- 
fúrico, ou carbónico; depois d'isto 
cryslallisa o assucar era estado de per- 
feita pureza. 

ASSYRIOS. (Veja hiPKHio eSkxto 

SÉCULO). 

ASTROLOGI.ft,. Os movimentos dos 
astros produzem as noites, os dias, o 
inverno, a cani('i)la easesi.ições: Icem 
pois sohre os pioductos tericsli-es, e 
conseguintemente sohie o linmem, 
uma acção que se manifesla a cada 
instante. Ora, como o luMuiMn tem o 
innato e insaciável desejo de conhe- 
cer-se a si próprio e de antevôr o fu- 



80 



A ST 



AST 



tino, o (.'stiido do ct-o Ifvo, [jor longo 
Iciiipo, m;ii.s por liiii inevt^r os acoii- 
tfíciuiciilds (lo (|ii(; proliiiidar js Ukío- 
rias. A vida iiílcira d'um Iioiikmm dc- 
duzia-sí' do seu lioió.s<:o|jo, islo t:,da 
posic^ão do poiílo da fclipiica i\\ui, ao 
Icinpo do seu iiasciíiKfiUo, se l(;van- 
liiia no lioiisonle; posição que se es- 
tudava em rclarão ás posições diver- 
sas de lodos os astros. Assim a Luiz 
Xiii cliaiM()u-s(!-llie o Jiisln, portiue o 
seu iiotós(;o|)o (íslava situado no si- 
gno da lialança. Se tivesse nascido 
duas horas mais cedo ou mais tarde, 
no Mscorpião ou na Virgem, não era 
o justo; como se as constellações, as 
suas posições, figuras e nomes, (|ue 
são invenções devidas ao capricho do 
homem, podessem ler valores moiaes 
proj)rios para revelar o futuro. — Os 
Jiiais celebres astrónomos desde Pto- 
lomeu aié K('|)lei', acieditaram na as- 
trologia ; e lambem reis, ministros e 
generaes celebres, laes como Alexan- 
dre, Crasso, Pompeu, César, Riche- 
lieii, Masarin, Cathariua de Médicis, 
Tibério, Luiz xi, Caiius v. Os abusos 
a que em lodos os tempos deram lu- 
gar as prophecias dos astrólogos, mui- 
tas vezes levaram a [)roceder severa- 
mente contra elles, nomeadamente 
Augusto, Carlos Magno e Sixto v. 

Í2. Astrólogos ceíehres: Thrasyllo, 
Cardan, Regiomoiitano, J. Stofller, 
Thomaz de Pisan, Cosme Ruggieri, 
Noslradauio. — Tibério, descontente 
com Thrasyllo, perguutou-lhe se sa- 
bia o dia da sua própria morte; e o 
adevinho respondeu que precederia 
três dias a do imperador, escapando 
com esla astuta resposta ao supplicio 
que o esperava. — Cardan (século xvi) 
professou as mathematicas, depois a 
medicina em Milão e Bolonha ; viajou 
pela Escoria, Inglaterra e França, fa- 
zendo curas maravilhosas; e acabou 
os restos de seus dias era Roma, on- 
de o Papa lhe estabeleceu uma pen- 
são. AUiava profundos conhecimen- 
tos á mais desregrada imaginação: 
acreditava na astrologia; aflirniava 
ter um demónio ou génio familiar; 
dizia que era dotado d'uma sagacida- 
de sobrenatural, e laes extravagân- 
cias divulgava que o julgavam possuí- 



do d'acce.ssos de loucura. iJiz-se que 
lendo predito a hctia da sua morte, se 
deixou luoricr de fome j»aia juslilioar 
a pidphecia. - No numero das pro- 
phecias mallogradas, cita-se a do ce- 
lebre professor alleniào Stofller. Ti- 
nha [)roguosli(;ado r|ue, em virtude 
diurna conjuncçào dos grandes plane- 
las, haveria indubitavelmente, em fe- 
vereiro de \^)ií, uma inundação (|ue 
transtornai ia a superíicie da leria. 
Foi geral osobresallo. iJebalde os go- 
vernos procuravam desmentir a [iro- 
pliecia ; lodos li a lavam de se [jôr ao 
abrigo do llagelio : uns refugiavain-se 
nas montanhas; outros linliam feito 
construir barcos; e a linal o inez de 
fevereiro ile 1521 foi um dos mais 
seccos que liouv)'. Coinludo succedeu 
que Stofller tendo predito (pie morre- 
lia d'uma (jueda, e não [)odeii(lo, ape- 
sar de se metter em casa, eviíar o ser 
esmagado por uma livraria, morreu 
convencido que era astrólogo. — Tho- 
maz de Pisan foi o conselheiro de Car- 
los V, e pai da celebre Chrislina de 
Pisan, authora de varias obras muilo 
apreciadas no seu tempo. — Cosme 
Ruggieri veio a França no reinado de 
Catharina de Médicis, que o consul- 
tou muitas vezes e lhe deu uma ab- 
badia. Publicou AlmniKuhs (pie tive- 
ram muilj nomeada. — Noslradarao, 
que estudou a medicina era .Monlpel- 
lier, combateu com felicidade, por 
meio de remédios secretos, as epide- 
mias que grassavam em Aix e Lyon ; 
mas, por inveja de seuscollegas, viu- 
se obrigado a afaslar-se da sociedade. 
Publicou então uma coUecção de pro- 
phecia^s que obtiveram o maiorexito. 
Catharina de Médicis (juiz vêl-o ; man- 
dou-lhe tirar o horóscopo de seus fi- 
lhos, e prodigalisou-lhe presentes. 
Carlos IX nomeou-o seu medico or- 
dinário. O duque de Sabóia foi visi- 
tal-o a Salon, aonde se retirara depois 
de doze annosde viagens. — *iO cele- 
bre conde de Boulainvilliers e um lai 
Colonne, que tinham muita reputação 
era Paris, prophelisaram que eu mor- 
reria infallivelmente na idade de trin- 
ta e dous aunos. Tive a malícia de eii- 
ganal-os ha já perto de trinta aunos, 
pelo que lhes peço humildemente per- 



AST 



AST 



81 



d3o.*» (Voltaire). — O conde de Bou- 
lainvilliers foi, em França, ura dos 
últimos adeptos da astrologia; com- 
tudo, é ainda venerada no Oriente. 
Quem acreditaria, sem o testemunho 
da historia, que erros tão grosseiros 
podassem, por espaço de séculos, irn- 
pôr-se aos povos, aos grandes, aos 
reis; e que «golpes d'estado», como o 
S. Bartholomeu, só fossem tentados 
depois de consulta dos astrólogos ! — 
Conclusão: Tudo quanto é falso ou 
duvidoso não entre nunca como ver- 
dadeiro uo espirito dos aluranos. De- 
pois de ter lido ou exposto estas 
duas lições, façam-se resumir por es- 
cripto. 

ASTRONOMIA. 1. Avista do fir- 
mamento, uma ou outra vez, desper- 
ta a curiosidade das crianças, e é pa- 
i'a ellas assumpto de mil peigunlas. 
Principídtnenle, o que respeita á for- 
ma da terra, muito as interessa. Que- 
rem saber se a terra termina n'algum 
lugar que se possa encontrar indo 
semprfi era direitura. Se lhes disser- 
des que é uma bola, quererão saber 
em que assenta. É muito importante 
satisfazpr-lhes com clareza a curiosi- 
dade. Depois de ter contado a histo- 
ria (Palguns cel*'bres navegantes que 
realisaram a viagem ao redor do 
mundo, respomlei-lhes-heis coiscisa- 
menie que, visto conhecerem-se to- 
das as parles da terra c não se encon- 
trar base em que ella assente, está de 
facto isolada no espaço, aproximada- 
mente, como as bolas de sabão ou 
os balões. — Se succedo passear de 
noite com uma criança, a conversa- 
ção dirigir-se-ha |)ara as estrellas. 
Far-llie-heis notara Ursa maior, aes- 
Irella polar, o Orion, e as diversas 
constellaçòes mais conhecidas. As ob- 
servações feitas sobre um globo ce- 
leste iiabilitaião a criança paia co- 
nhecer as piiucipaes constellaçòes do 
lirmamenlo, e achar no céo as estrel- 
las imlicadas no globo. l)iq)ois, já 
podeiá compreheiuler que Vénus, 
Júpiter, etc, são astros como a ter- 
ra, tenilo dias, noites, estacões; (]ue 
o sol é um astro á parte, '(;om luz 
própria, G{\\hí as estreitas, n"este pon- 



to, teem grande analogia com o sol. 
á. O astrónomo observa o movi- 
mento dos astros; mede as suas di- 
mensões e distancias; segue-lhes o 
curso no espaço e no tempo; e as 
leis que descobre são todas fundadas 
no calculo e no mais rigoroso raciocí- 
nio. Os maravilhosos resultados que 
elle nos revela podem, pela sua gran- 
deza, oíTuscara nossa imaginação; po- 
rém, se algumas vezes nos repugna 
admittil-os, é porque, preoccupndos 
com a nossa própria pequenez, esque- 
cemos a infinita potencia doCreador. 
— Os chaldeos e egypcios observiíram 
muitoos astros; mas a historia auLhen- 
tica da astronomia só começa em Tlia- 
les e Pylhagoras. (Veja estas palavras). 
O primeiro (século vi antes J. C.) en- 
sinou a esphericidade da terra, a obli- 
quidade da ecliplica, e deu a verda- 
deira explicação dos eclipses. Pylha- 
goras pieveu o movimento diurno da 
teri-a sobre o seu eixo, e o seu movi- 
mento annual ao redor do sol; os co- 
metas, como os planetas, foram por 
elle incluídos no syteuia solar. Hippar- 
co (Mji) annos antes .1. C.) invenlitu o 
astrolábio, instrumento de que se ser- 
via para as observações astionomi- 
cas; determinou a duração do anno 
trópico, a das revoluções da lua rela- 
tivamente ás estrellas, ao sol, a seus 
nódos e ao seu apogeu; descobriu a 
precessão dos equinoxios; e deu o 
metliodo de fixar a posição dos luga- 
res sobre a teri'a, por meio da latitu- 
de e longitude, sendo o prioxirotiue 
em|)regou para a determinação da 
longitude os eclipses da ina. Em (ira, 
IHoloineu coordenou e rectiíicou todos 
os trabalhos de seus antecessores, 
ajuntando novas obseivações e desco- 
brimentos, com o que preteiultu fun- 
dar uni syslema com[)leto, o qual foi 
universalmente seguido, e que ex[)oz 
na sua grande obra inlilulad.i Alma- 
<lfsti). Collocava a terra no cenho do 
universo, e os astros nio\endo-se ao 
redor iFelIa, em circulos excenlricos. 
(l iO annos depois de .1. C.) Ccqieini- 
co, astrónomo priissiano ^século \vi), 
inaugurou a nova eia da ashonomia. 
Dcninnslrou os erros do svsleuia de 
i*tolomeu, e adoptou o sNslema em 



ATT 



ATT 



qno lodos os planeias giram ao rrdor 
do sol, d'ocri(l('riU', para otionlc, c (\\\ o 
dá á lorra dons rnoviíníMUos : \im dfí 
rotação soltre si mosma, outro dn 
rfivoíiir.lo ao rcflordo sol. Ivstasid/'as 
estavam cm t(ormoii nos pliilosoplios 
da anli^Mii(la(l(! : mas cabo IIk' a t,'lo- 
ria do as lor reduzido a lun systcma 
baseado em inniimeraveis observa- 
ções e cálculos. Apesar de evidrnles, 
as idéas dií (lopernico liveram fior 
mnito lempo de Inlar com os prejni- 
zosdarolina. De fialilen, o mais cele- 
bre e zeldso defensor d'esle syslema, 
sabemos (pie foi condemnado pela In- 
(piisicão, em Hotna, a qnal decl.iroii 
a donlriíia contraria á saf^rada Kscri- 
plnra, obiiírarido o illnslre ancião a 
assigriar uptiO formnia (l'al)jnração qne 
ellelcn de joellios. Diz-se qne depois 
de ler proíeiido a alquração, ex;la- 
máia a meia voz, e batendo com o pé 
no chão- E pur si miiovr (e comtndo 
ella movese), i^eferindo-se á terra.— 
Em fim, Newton, illtistie sábio inglez, 
ampliando lodos estes descobrimentos 
e snbníetlendo-os a nova analyse ma- 
Ibematica, achou, na aUracrão egra- 
rilnçno vnirrrsal, o principio geral 
dos movimentos celesles. Km l(iGr), 
deixou Cambridge para escapar á 
peste qne ahi grassava, e voltou para 
a sua pequena herdade de Woolslrop. 
Conta-se qne, estando um dia assen 
lado no sen jardim, a queda de um 
pomo desperiou no seu espirito a 
idéa de investigar a causa da poten- 
cia mysteriosa que 'precipita lodos os 
corpos paia o centro da terra ; e que 
esle incidente Ião vulgar o conduziu 
á idéa da gravitação universal e ao 
syslema do"mundo. 

ATHALIA. (Veja Nono século). 

ATHENAS. (Veja Grécia). 

ATLAS. (Veja Primeiro século). 

ATMOSPHERA. (Veja Ar). 

ATTENÇÃO. Para que o espirito 
conheça não basta que veja, é preci- 
so lambem que observe; e a observa- 
ção do espirito, a reflexão da idéa no 



objecto ípie nos impressiona, chama- 
se altenção. São precisos apparelhos, 
desenhos, mappas. ele., para ex'itar a 
alleiíção dos meninos e dos adultos. 
(Veja Associação dk n)i-':\s), A alten- 
ção não só é diflicil de ex -ilar, mas 
lambem é diflicil d» se sustentar mni- 
to lempo, principalmente n"S meni- 
nos. K preciso variar-lhes osobjr-i-los 
de eslndo para que se não f.iliguem. 

'< Dividamos nossas horas em estu- 
dos variados; a variedade restaura as 
forças da alma; e não ha nada mais 
custoso do que applii^armo-nos lon- 
go tempo ao mesmo trabalh > ; a lei- 
tura dá-nos tregoas depois da escri- 
pta, e essa mesma se deve dejiòr quan- 
do nos r,ança. Por muitos fpie sejam 
os lavores a fpie nos etUreguemos, o 
nosso espirito recobra-se, se o appli- 
camos a trabalho novo. A intelligen- 
cia esmoreceria se a obrigassem a ou- 
vir durante ura dia inteiro a lição de 
um só mestre. Para que ella se i-eno- 
ve, basta mudar-lhe o objecto, do 
mesmo modo quea variedade deigua- 
rias desperta o appelitee deseiifaslia. 
(Quidliliatio). 

«Conhecemos um professor que ex- 
plicava na sua escola um ponto mui 
lo difficil; em quanto elle se afadiga- 
va penosamente para o dar a per.:e- 
ber. u:n dos discípulos ensaiav.- a sua 
destí'eza em apanhar uma mosca, que 
livera a imprudência de pousar ao pé 
d'elle ; outro enganchava inn alfinele 
para prenderas calças do visinrio. co- 
mo se tratasse de arpoar uma baléa ; 
um terceiro tratava de sustentar o 
equilíbrio d'ura lápis na ponta de um 
dedo; um quarto desenhava figuras 
com gis nas costas do con'!is'ipulo. 
Deve ser raríssima a habilidade do 
professor, que consiga instruir me- 
ninos em iguaes circumstancias. 

«Por isso, ou se ensine a alumnos 
objectos deesludo, ou observância de 
regras relativas no porte e á discipli- 
na, é indispensável que o mestre exi- 
ja que elles o observem com fixidez. 
É sabido ser falia de delicadeza não 
olhar para a pessoa que nos falia. Da 
mesma sorte, convém que aceitemos 
como falta de disciplina e respeito de- 
vido ao mestre, e violação dos direi- 



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ATT 



83 



tos escolares, a negligencia desallen- 
ciosa do aluQino, qaando o mestre ex- 
plica, ou (Jesalienção do ineslrc. ({lian- 
do o discípulo esíá fallando. Que am- 
bos observem esta recommendiição, 
e as distracções ou recreios se não da- 
rão durante as lições. 

«Nunca serão de mais as insistên- 
cias Ir^ndenles a conseguir que o es- 
pirito dos pducaiidos, durante o tra- 
bal loe as lições, esteja atlent.imente 
applicado a-' assumpto, em quanto se 
trata d'elle. Prohibir brinquedos e pa- 
lestras não é bastante; o (jue importa 
éexi'„'ir cuidados, esforços, e séiia ap- 
plicaçào de espirito ao trabalbo. Se 
isto s(^ oblem por um certo tfMUpo, é 
útil deixar que o espii'it!) folgue, con- 
SiMitindo alguma disti"acção, e até al- 
gum divertimento. 

ccÉ pi incipalmente necessário acos- 
tumar os meninos a eslarem atlenios, 
em quanto elles tem aptidão pai'a con- 
Iraliir habilos;masnãose esqueça que 
a perseverança d"'elles é bieve; e por 
tanto não se lhes exija muito por lon- 
go espaço de tempo. Sxer'citem-se na 
proporção de suas forças; e então 
veremos como ellas crescem rapida- 
mente. 

'ília muitos meios de obter que os 
alumnos olliem fixaujente, ou por ou- 
tras palavias, que elles prestem at- 
lenção completa e sem desvio á li- 
ção. 

«Primeiramente, lenha cada alum- 
no diaria;nenle alguma cousa ((ue fa- 
zer em cada hora, e a cumi)ra n^cssa 
hor.i. Horas ile estudo, devem ser ho- 
ras d(! estudo. Se o |)rofessor é indif- 
fei"ente aocnreprimentu dt; cada obri- 
gação em seu tempo, os discipulos 
sel-o-hão lambem, e não ha poripie 
os cen.suremos. {Diário AmcriciiiH)). 

«Seja pois regra estabelecida na es- 
cola, (|ue o dis:ipulo deve ao mestre a 
máxima attenção, bem como ás res- 
postas dos seus condiscípulos.^) (Veja 

t^ACULDAUHS). 



ATTRACÇÃO. 

PLAiNKTAS). 



(Veja AsTUONOMiA e 



ATTRIBUTOS DIVINOS. 1. O lio- 
mem, cujo pensamento c impeileilo 



6 limitado, não pude comprehender a 
infinita essência de Deus. Só o infini- 
to pode comprehender o iniinito. Não 
obstante, aqu;ílla nalurczii ineíTavel, 
não nos é totalmente ooculta. Saber 
que existe Deus já é penetrai" profun- 
damente em sua natureza. O Di-us a 
que nos conduz a razão, não é uma 
esper.ie de incógnita algr^bi ica de na- 
tureza indeterminada para nós. Não 
é também o Deus abstracto cruma ce- 
ga lógica: é o Deus .da consciência, a 
causa das causas, a ra/.ào universal, 
o Ente perfeilissimo; é, para tudo di- 
zer, o Creador, e a Providencia do 
universo. 

Os attribulos divinos accessiveis ao 
pensar do homem, exprimem, uns, a 
sua maneira de ser; outros, o seu mo- 
do de acção e suas relações com o 
mumlo. Denominam-se os primeiros 
iilliibiilos mrltijiltusicos: os segundos 
allribulos intdlcrhnws ou moraes. 

Os [)rincipaes atliibuios met;tpyhsi- 
cos são: unidade, simplicidade, im- 
mulabilidade, eternidade e immensi- 
dade. 

1." Por unidade de Deus, enlende- 
se geralmente (jue existe um só Deus. 
Este dogma deriva primeiramenle da 
pi'opi ia idéa do Ente infinito, pois que 
dous ou muitos entes iniinitos. que 
mutuamente se limitassem, determi- 
nariam reciprocamente sua iiilinida- 
de, o (|ue implicaria contradicção. Ue- 
sulta aquelle dogma, em segundo lu- 
gar, da constituição do universo, cu- 
jo plano uniforme e leis constantes se 
explicam perfeitamente se a causa pri- 
meira é uni('a, mas seriam ilifliceis de 
perceber em (tulra liypolbese. 

"2." A siin[)licidade divina consiste 
na ausência de parles em Deus. Seu 
ser não é composto á maneira de cor- 
po: é ura, indivisível. Uma parle é 
uma cousa tiiiita. O linito junto ao li- 
nito não pôde produzir o iulinilo: são 
termos opposlosenireosquaes iKhi ha 
alhaiiça {)ossivel. Se a divindaile con- 
tivesse [lartes, se não fosse simples, 
não seria infinita. l'osso, eoin cerle:'.a, 
distinguir em Deus muitos ailriliutos 
segun lo o grau de. esseni"ia ipie vWa 
transmittiu ás suas crealuras; mas 
lodos estos attribulos são um mesmo 



8i 



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ATT 



ser, (jiic (! iim. de suprem;) uni- 
dade. 

3." Df'ns ('• imrantavel, não muda. 
A mudarira <! Hllrihulo das ualurc/.as 
i-(>sliiclas, (|ii(; privadas da [ilciiiludf! 
da exislcrifia, estão sempre em iisco 
de div('isiti(;ar(Mn do (jue eram; mas 
a miid.iiira repugna á essência inlini- 
la, (pie não poderia adcpiirir novos 
giaus (!•' ser, pois que os possuo lo- 
dos oii^iiiaiiamenle. 

«A idtMilidade da alma resplandece 
como icllcxo da immulabilidadíí divi- 
na. Como a imagem de Deus, perma- 
necemos sempre o que somos. O (pic 
eu íionlem era, sitilo que o sou ago- 
ra. Mas no homem só a substancia do 
ser é identi(;a; que as modiíicações, 
idéas, sentimenlos e volições variara 
continuadamente. Deus, pelo contra- 
rio, possue immutabilidade absoluta ; 
tudo n'elle permanece inalterável: 
pensa, (píer, e é constantemente a 
mesma essência. 

i.o «Deus é eterno : não teve prin- 
cipio nem terá fim. Se alguma cousa 
lhe existisse anteriormente, ou de- 
vesse acabar, qualquer cousa lhe es- 
taria superior; e não seria por tanto 
elle a causa primeira e absoluta — 
o que é contradictorio. 

«Deus, era tim, é imraenso, isto é, 
está em toda a parte. A sua presen- 
ça é certo não ser a presença local 
semelliante á das substancias corpó- 
reas; pois. como diz Fénélon, não 
tem superfície contigua á dos outros 
corpos; mas anima todas as partes 
do universo pela actividade de sua in- 
telligencia ; enche-as de seu ser, que, 
sendo infinito, não pode ser limitado 
por algum espaço. 

«O mundo não possue nenhum dos 
attribulos que ficara mencionados; 
não c uno, nem simples, nera eterno, 
nem immenso.niem sobre tudo immu- 
tavel; porque o seu viver éa mudan- 
ça continua, e transformação perpe- 
tua. Logo, o mundo não é Deus ; Deus 
é distlncto do mundo. Assim se refu- 
ta o erro dos philosophos, taes como 
Bruno e Spinosa, que identificaram 
o mundo e seu Creador, e só quize- 
ram vêr na creação o desenvolvimen- 
to necessário dá substancia divina. 



Mas o absurdo do panlheismo mos- 
tra-se ainda a maior luz, se estuda- 
mos as perfeirries moraes da divinda- 
de.» (.lourdaini. 

'i. Ailrihnios wirnfft. «Se contem - 
|)lamos as obras de Deus, a obra ad- 
miiavíd (pie se ostenta no universo, 
os vestigms de rnag''slade, bondade 
e sabedoria (jue (!in toda a partií se 
observam; se penetramos no âmago 
da consciência humana, nVsie uni- 
verso moral onde aprouve a Deus es- 
pi'lliar-se na mais completa e dis- 
lincta maneira, então logramos per- 
ceber as feições especiaes, que para 
nós constituem a natureza divina. 
Um methodo a um tcmfio simplis- 
sitrio e grandemente severo, nos guia 
rresta sublime exploração. Logo que 
vingamos [)erceber entre as creatu- 
ras alguma propriedade, algum at- 
tiihiUo assignalado com o sinete da 
perfeição, ou, tanto monta, capaz de 
infinito, de plenissima existência, a 
Deus o transportamos, purificado de 
toda a mescla imperfeita, estreme de 
todo limite. 

«D'esla arte chegamos a estabele- 
cer em Deus a liberdade com o poder, 
a sabedoria com a intflligencia, a jus- 
tiça com a bondade. Estes são os seus 
mais consideráveis attribulos moraes. 
O mundo exterior e a consciência 
não nos dão mais nada, mas dão-nos 
tudo aquillo. —A idéa do mundo ex- 
terior, exactamente analysada, re- 
duz- se a dous objectos capitães: for- 
ças e leis, — o restante são phenome- 
nos e relações. Ora o conhecimento 
da força e o da lei, destacados de li- 
mites, elevara-nos á idéa do poder 
perfeitamente intelligente, capaz de 
derramar sem medida a ordem e a vi- 
da no universo. A exploração da na- 
tureza humana, e o próprio mundo 
considerado era suas relações com 
ella, opulentara ainda esta sublime 
idéa, ajuntando ao poder a liberdade, 
á intelligencia a sabedoria, e á justiça 
a bondade, fulgurando no seio da 
consciência. Deus não é só creador 
omnipotente e ordenador supremo 
dos mundos, é o lypo do bello, e do 
bem, o architecto do universo, o ar- 
bitro dos nossos destinos, o juiz 



AUR 

e pai dos homens. v íEraile Saissel). 

«Deus possue a sciencia. Como ha 
de ellfi desconhecer-se? Como ha de 
dosconhecer o mundo sahido de suas 
mãos, se nos deu inlelligencia que se 
conhece, que conhece o mundo, e con- 
cebe as verdades eternas e necessá- 
rias? 

«Deus possue o poder. Em virtude 
cl'este poder, creou elle as cousas; 
animou a natureza inteira ; é o prin- 
cipio da actividade fecunda que a to- 
dos nós pertence. É certo que a alma 
c uma força, mas força que vera do 
Ser iníinito, o qual derramou assim o 
poder com a clausula de lhe possuir 
a plenitude. 

«Deus é livre. Se o não fosse seria 
inferior á própria hum.inidade; por- 
que mais vale ser senhor de si e de 
suas acções, como nós o somos, que 
sujeito áo jugo invencível da neces- 
sidade. 

«Deus c justo. N'elle está indivi- 
dualisada atiuelia lei absoluta que nos 
manda praticar o bem, e fugir o mal ; 
lei que — cumprida ou violada — é 
para o homem causa de felicidade ou 
desgraça. Separada da justiça de Deus, 
a lei do dever seria apenas uma con- 
cepção abstracta e desauthorisada, so- 
bre o livre arbítrio do homem. 

«Deus é soberana mente bom. O bem 
n'este mundo está misturado com o 
mal; porém acima de todos os bens 
particulares, finitos e imperfeitos, a 
razão concebe o bem absoluto e ex- 
tremo. Ora ([ual é esse bem supremo, 
senão Deus, que abriu para as suas 
creaturas intelligentes mananciaes tão 
copiosos de júbilos do espirito e do 
coração!» (Jourdain). — (Veja Provi- 
dencia 6 Mal). 

AUGUSTO. (Veja Primeiro sécu- 
lo). 

AURANCEACEAS. Esta familia com- 
prehende a laranjeira [Aiininliitm, 
e d^ahi Aio^nnirarcns) e o limoeiro. 
No seu pai/ natal, na índia, as laran- 
jeiras são grandissimas arvores, e ha 
d'<'llas, cujo tronco, medindo seis ou 
oito pés de circumferencia, se eleva 
a sessenta pés de altura ; dão llòres c 



AUR 



85 



fructo simultaneamente; no mesmo 
pé se vê, a um tempo, gomos e flores, 
fruclos que nascem, efiuctos amadu- 
recidos. Nas ilhas de Franca os li- 
moeiros espinhosos formam tapumes 
impenetráveis, e defendem os cana- 
viaes de assucar dos animais; damni- 
nhos. Em França, apenas alguns dis- 
trictos privilegiados da Provença e 
Córsega, possuem laranjeiras a des- 
coberto, e n'outras partes, são defen- 
didas do tempo com rauico cuidado. 
A laranjeira é commum no Brazil, em 
Portugal, e culliva-se em todas as re- 
giões quentes do globo. O amarello da 
cana dá pela espressão muita quan- 
tidade de óleo volátil que se chama es- 
sência de Portugal. Esta arvore mul- 
tiplica-se pela semeadura, pelo enxer- 
to de garfo, pela meigulhia e peloal- 
porque. Para semear, escolhem-se os 
mais bellos fructos; e como a polpa é 
destinada á perfeição da semente, dei- 
xa-se apodrecer, antes de lhe tiraras 
pevides. Os garfos fazem-se, procu- 
rando vergonteas novas, perfeitas e 
direitas, do tamanho (i'um pé, asquaes 
se enterram na altura de tiesou qua- 
tro pollegadas, abrigara-se depois con- 
tra o ardor do sol até que o garfo le- 
nha enraizado. Os aljwrqurít são me- 
nos vantajosos que os garfos, com tu- 
do estão em uso. As mergulhias são 
mais seguras. Para mergulhar corta- 
se o tronco da arvore cinco ou seis 
pollegadas acima do enxerto, e dei- 
xam-se-lhe as novas vergonteas que 
elle lança. No segundo anno, tendo es- 
tas vergonteas ad(|niiido alguma for- 
ça, fórma-se-lhe ao redor um combro 
de terra cuja altura exceda cinco pol- 
Ifgadas a parte superior do tronco 
qu(í se deixou ; vai-se cumulando esta 
terra á medida que se cortam ramos, 
e mergulha-se o todo. 

2. Todas as parles da laranjeira são 
úteis, lanlo as llòres como os fi uctos. 
A colheita das llòres é um objeclo con- 
siderável; poripie, distilhdas, |-rodu- 
zem a agua de llòr de laranjeira ; tam- 
bém se faz doce de laranj;is peipie- 
nas, de modo que S('>sediM\a amadu- 
recer na arvore a quantidade de fru- 
ctos proporcionada;') sua força, e quan- 
tas monos se deixam, mais bellassão. 



86 



AUS 



AUS 



As iiu-llioifís laranjas piocediim de 
Malla, do Potlugal, e das índias. A 
laranja bical ó procurada para aro- 
inalisar as (;arn«s assadas (juu se co- 
mem (iiifiiiles. As cidras fornecem com 
a sua casca fervida em agiia-ardenle 
um licor agradável. O limão, pela aci- 
dez da sua |)olpa, dá uma hfbida re- 
írigeiauíe; <; usado na cosinha. nas 
arl''s, e na linluiaria. A laranjeira 
conlém muilas e.-pecies, e um consi- 
derável niiiníMo de variedades, lia la- 
ranjas da llliiiKi, de ninhiíjo : sem ca- 
roço; laranjas de f/tiro; laranjas (t»i(ir- 
gas, ele. 

AURILLAC. (Veja Auvergne). 

AURORA BOREAL. (Veja Suécia). 

AUSONIO. (Veja Simplicidade). 

ÁUSTRIA. 1 . O império de Áustria, 
quasi lodo espinhado de montanhas, 
possue grandes riijuezas mineraes. As 
vias fei-reas que de Vienua se dirigem 
ás capitães da Lombai'dÍ3, da Baviera, 
da líungiia, da Moravia e da Bolie- 
mia, ligando a Áustria aos estados al- 
lemães do noi te, tem poderosamente 
contiibuido para o desenvolvimento 
das relações e prosperidade commer- 
cial, industrial e agricola do iuíperio. 

— Nas montanhas da Hungria ha mi- 
nas de ouro, ferro, cobre, mercúrio, 
mármores, porfido, sulfur e sei gem- 
me (sal que se exlrahe das minas); 
é terreno ferlilissimo de toda a espé- 
cie de cereaes, fruclos, e vinhos esti- 
madíssimos, nomeadamente os de To- 
kay, Budee Syrmia. Tem excellen- 
les pastagens, que alimentam muitos 
cavallos e grandes rebanhos. A indus- 
tria é pouco activa em Hungria, onde 
quasi todas as manufacturas são exer- 
cidasporoperariosallemães. Ainda as- 
sim, ha entre os húngaros curlidores, 
pelliqueiros, e fabricantes de rendas. 

— São estimados os espelhos de Neu- 
hauss, os crystaes da Bohemia, os vio- 
lões de Crémona, pianos, relógios, e 
porcelanas de Vienna. 

2. <íEm recinlo muito apertado por 
fortificações convertidas em passeios, 
conservando a primitiva forma, cru- 



zara-se ruas eslreilas, admiravelmen- 
te ladrilhadas, escurecidas por casas 
de grande altura, e conslantemeiíle 
cobertas de elegantes carruagens, que 
circulam a<'l[vamenle. K a cidade de 
Vienna... — É neo(!ssaiio vAr esia ci- 
dade, para .se fazer uu)a idéa de(|uan- 
lo é dissaborida a reunião desorde- 
nada de cousa.s bellis.^í.iujas. A irregu- 
laiiilade das praças, salva-se com a 
multiláo de monumentos que [lara 
alli aliraiam. Só uuja praça escapou 
a esse duplo mau gosto. riesdo.>.>-eus 
lados sáo formatlos por edilicios de- 
pendentes do palácio impeiial, e é 
aformoseada poí' uma bellisima esla- 
lua e(|uestie do imperaiJor José il, A 
mistura de tijolo e madeira e:npiega- 
da na construcção das casas, não con- 
Iribue a dar' alegria ao aspecto da ci- 
dade. Os ediílcios públicos (juasi todos 
são de pedra cinzenta, ou ladrilhos... 

— Os arrabaldes de Vienna tem pas- 
seios agradáveis; mas um doestes, o 
Leopoldsladt, conlém o maisforrnoso 
passeio que pôde vôr-se. O IMater. que 
assim se chama, occupa uma ilha do 
Danúbio, com uma légua de compri- 
mento sobre meia de largura. Ao tra- 
vés d^um bosque de arvores giganteas, 
correm avenidas marginadas de ca- 
saes e fabricas. O concurso da popu- 
lação que ahi vem procurar e Lrazer 
passatempos, as brilhantes e numero- 
sas equipagens que ahi se cruzam, a 
reunião de costumes variados, tudo 
reunido produz um espectáculo único 
no mundo.» (Dllãussez). 

3. «Os pobres bohemios, quando 
viajam com suas mulheres e seus fi- 
lhos levam ás costas uma péssima har- 
pa, de madeira ordinária, da qual ti- 
ram sons harmoniosos. Tocam quando 
se sentam á sombra d'uma arvore, 
nas estradas rejes, ou quando ao pé 
das estações, procuram enternecer os 
viajantes com o seu concerto ambu- 
lante de suas famílias vagabundas. >> — 
«O armentio na Áustria, é pastoreado 
por pegureiros que locam lindas mo- 
das em instrumentos simples e sono- 
ros. Estas árias casamse perfeitamen- 
te com a impressão doce e pensativa 
que produzo campo.» (M."-<^ de Staèl.) 

— Os húngaros são mais propensos á 



AUT 



AUV 



87 



guerra que ás artes e ao negocio ; fal- 
iam todas as línguas facilmente, e 
mais que todas a latina, que lhes é fa- 
miliar. 

Rcilacção. Aspecto, producções e 
industria da Áustria. — Descripção de 
Vienna: casas, ruas, arrabaldes, pra- 
ças. — Bohemios, pegureiros e hún- 
garos. 

AUTKORIDADE. 1. Sem recorrer 
ao testemunho da historia, podemos 
solidamente fundamentar as bases da 
authoridade, isto é, do direito de 
mandar, com estas palavras de Jesus : 
«Dai a César o que é de César, e a 
Deus o que é de Deus... Todo o poder 
me foi dado no céo, e na terra. Ide, 
pois, e ensinai todos os povos, etc... 
Tu és Pedro, e sobre esta pedra edi- 
ficarei a minha igreja, ele...» Kisaijui 
dous poderes claramente estatuídos. 
Cada poder tem seu íim particular a 
que visa. O poder secular tende á fe- 
licidade do homem no século presen- 
te; o poder ecciesiaslico prepara-o pa- 
ra a vida futura — dous objectos pre- 
ciosos para a humanidade... Deus 
não estabeleceu os dous poderes para 
que se contradissessem ; porque é 
Deus de paz, e não de discórdia: a 
sabedoria divina não podia contradi- 
zer-se. Ao inverso, quiz que estas 
duas authoridades podessem susten- 
tar-se e auxiliar-se reciprocamente, 
A juncção doestas duas forças é dom 
do céo (jiní lhes dá nova pujança, o as 
põe ao alcance do preencher os de- 
sígnios de Deus^.sobre o gt.Miero huma- 
no. Se cilas estão harmónicas, é bem 
governado o mundo; se se desunem, 
as mais sabias instituições correm 
perigo de próxima ruína.» (Dom Ja- 
min). «Todos os dias se pede frontei- 
ra (luc estreme os dous poderes : a na- 
tuieza (Ias c(3usas já ergueu essa bar- 
reira. Tudo o (lue respeita á vida lu- 
lur,-:, e o chrislão precisa, entende 
com a juiisdicção es[iiritiKil ; tud()(|ue 
é de vantagens humanas e temporaes 
e o cidadão carece, pertence exclusi- 
vamente á authoridade secular.»! Cai I- 
laid, Historia lie. h^nincisco i, tom. v.) 
:2. Se (juizer ser forte, a aiilluu ida- 
de deve ser jusla; caiiui vonule molde 

VOL. I. 



comparar ao magistrado a mãi e o 
professor. Qualquer poder tem jus ao 
respeito e obediência dos seus subor- 
dinados, como representante da lei, 
isto é, a própria justiça na ordem mo- 
ral. Se o magislrado'contiapõe a lei, 
claro é que perde o direito a ser obe- 
decido, pon[ue o fundamento da sua 
authoridade é a lei. Se não manda 
em nome d'ella, mas sim em nome 
de sua vontade particular ou capricho, 
perdeu a authoridade legitima. Para 
que pois seja legiiinia a nossa autho- 
ridade, mandemos discretamente em 
nome do dever, da moral e da reli- 
gião. Os caracteres mais rebeldes aca- 
bam sempre por submelter-se á au- 
thoridade (jue vem de cima, e (]ue, 
por necessária conseqr.en.ia, deve 
ser sempre imparcial, nalural, since- 
ra, serena, perseverante, e parcimo- 
niosa de palavras. Tal authoridade re- 
gulará no espirito do nosso alumnoa 
bem ordenada educação, e dará ani- 
mo e conliança á mãi e ao professor. 

AUVERGNE. Os. l/rcr/íi. que deram 
seu nome a Auveigne, foram podero- 
sos entre os povos da Callia, e rivaes 
temíveis dos eduanos, antes da con- 
quista romana. Da Arvernia sahiu Ver- 
cingetoiix, o mais peilinazadversario 
de César, e cuja submissão arrastou 
a Callia toda. Sob os reis da primeira 
raça, Auveigne instituiu-se condado 
dependente da Aipiitania. Km lõika 
condessa Anna legou o i*ondado de 
Auvergne a Catharíiia de .Medíeis, 
cuja tillia o cedeu a Luiz xili, ainda 
deli)him, que o reuniu á coroa subindo 
ao throno. — O solo de Auvergne, co- 
berto de numerosas serranias, mostra 
por toda a parte vestígios de vulcões 
e.xtinclos e cujas erupções cessaram 
em época descmihecida. Os seus val- 
les, outr'ora cobertos de aideníes la- 
vas, são celebres [)or 1'ei lilitlade ; ho- 
je em dia desabrolham luxuriantes 
almargiaes, (]ue occullam, debaixo 
das boninas e horvagem dos [nados, 
pedras preciosas, jorradas outr'ora 
por esses vulcões, cobertos de neve, 
por es|)aço do nove me/es. Límpidas 
aguas golfam d"a(iiiellas nnxUanhas, 
e se despenham em cascatas, ou se 

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88 



AVA 



AVE 



ajiinlam em rilioirns píira darom mais 
fotça aos paslios. Auv(m},mu' forma ho- 
je (íons (IcpailainfMilos, (|ii(í mostrara 
ao viajanlíí ctii-ioso os siiios pUloros- 
cos (la Stiissa e do Tyrol, as crateras 
líorriveis do Klria, eas paslajçeiis nor- 
mandas unidas á ílorescencia italiana. 

AUXERRE. (Veja Ronr.ONiiA). 

AVARENTO. \. <iO avarento não 
possue seus hens, é possnido d'elles.» 
(fJion). «Nunca 6 rico : estão sempre 
os desejos a empobrecel-o. Qnenupii- 
zessíí emendid-o, talvez o conseguisse 
moslrando-Ihe o (|i]adrodasprol)al)ili- 
dadesda vida humana. r)e[)OÍsdoep;ois- 
rao, a avai"eza é, sem conlradicta, a 
paixão onde entra mais individualis- 
mo.» (Alibert, Plij/siobifiia (hts pai- 
xões). '(A avareza é odiosa, porque é 
indicio de espirito relrincado, mau 
coração, e condição egoísta ; pelo que, 
o avaro é tão desprezado dos ricos, 
como amaldiçoado das pobres.» (Gel- 
lert). «A pobreza carece de muitas cou- 
sas ; e a avareza carece de tudo... Ha 
almas sórdidas, aviltadas pela cubica 
e pelo ouro, assim como ha almas gen- 
tis levantadas pela gloria e pela vir- 
tude. N'aquellas reina uma só vonta- 
de, que é adquirir ou não perder; pen- 
sam unicamente nos devedores, sem- 
pre inquietos com medo da baixa ou 
descrédito da moeda, sempre abisma- 
dos em contractos, em títulos eescri- 
pluras. Ahí não ha que procurar ami- 
gos, nem parentes, nem chríslãos, nem 
talvez homens. Dinheiro e mais nada... 
O que se prodígalísa, desfalca-se nos 
bens do herdeiro ; o que se poupa sor- 
didamente, é desfalque no próprio 
bem-estar. O justo meio consiste em 
justiça comnosco e com o próximo.» 
(La Bruyère). 

2. «Injustos homens! Se a abun- 
dância os cumulasse de tantos bens, 
em cada dia, quantas são as areias do 
mar, elles se queixariam ainda. De- 
balde Deus propicio lhes prodigalisa 
riquezas e honras; áquillo que tem 
não lhe dão valor. A avidez devo- 
ra o que tem, e, faminta de desejos, 
absorve o que não pôde encontrar. 
Que freio poderá reter em justos limi- 



tes a insaciável voracidade dos bens 
da terra, que a j)Ossessão augmenta, 
e (^ue se julga seiiq)re menos rii-a do 
(|U(! possue, ípie polirt; do que não 
tem?» (Boecio, ConsdliirãiKln jihiloso- 
jiliiii). — «Adípiirir onío sacrificando 
homens,!' perversidaile; demandal-o 
através dos perigos do mar é loucu- 
ra : havel-o por corrufição e vicios 
é infâmia. Os únicos lucros justos e 
honrados são os que nâo damnilicam 
ninguém, e não «e possud sem re- 
morso senão aquillo que não foi ar- 
rancado ou snbtrahido da proprieda- 
de alheia.» (Cassiodoro, ministro de 
Theodorico, VI século de J. G.) 

3. Sendo a avareza e a prodigalida- 
dedous extremos, é tm razoável meio 
que estA o bem. A liin de fazer en- 
tender ao discípulo qual este meio se- 
ja, é preciso inculcar-llie a utilidade 
do trabalho, o valor do dinheiro, e 
que, jcá por si, já por conselhos de 
seus pães, vá formando idéas sãs da 
boa e discreta economia. (Veja Eco- 
NOMi.\ e Trabalho). Pregue-se o exem- 
plo, e aproveitem-se as occasiões na 
recommendação d'estas idéas. Conte- 
se-lhe (jue um pai de famílias se em- 
briaga na taberna, despendendo odi- 
nheiro que reclama a miséria de seus 
filhos, e amanhã, venha a ponto a 
historia d'um avaro que sustenta mal 
os seus cavallos, e gasta mais á con- 
ta da sua avareza. Em outro dia, di- 
ga-se de um homem inlelligente e si- 
zudo cujo trabalho fructeou em deli- 
cias da casa bem ordenada, onde se 
encontra tudo o que é útil, e nada 
que seja supérfluo. Que o menino ve- 
ja e julgue, para que o ultimo lhe pa- 
reça estimável; e, repulsando os ou- 
tros, se refaça de bons propósitos. 

Direcção. La Bruyère, cuja vida pô- 
de ser referida (veja aquella palavra), 
faz lembrar o grande século de Luiz 
XIV. e o íamosolffíro de Molière, cujas 
scenas podem ser bosquejadas. Com 
referencia a Boecio e Cassiodoro, pó- 
de-se historiarTheodorico. (Veja Sex- 
to SÉCULO). 

AVEIA. (Veja Gramíneas). 
AVEIRO. A cidade de Aveiro, as- 



AVE 



AVE 



89 



sentada era terreno de mediana ele- 
vação, es|)elha-se nas aguas d'uma 
vasta ria, formada pelo rio Vouga, cu- 
ja foz llie íica visinha, e pelas ondas 
do oceano, qne entrando por um es- 
teiro em frente (\a cidade, lhe d<ão a 
vantagem de possuir um porto de mar, 
muito bom em outros tempos, e na 
actualidade bastanlemeate obstruido 
de areias. Está situada era distancia 
quasi igual dos rios Douro e Monde- 
go, pois dista do primeiro dez léguas 
para o norte, e do segundo nove pa- 
ra o sul. 

Abstrahindo das historias, meio 
incertas, meio fabulosas, com que os 
nossos geographos faliam dos primei- 
ros povoadores d'esla terra, ha lodo 
o fundamento para crôr que, duran- 
te a dominação dos romanos na Lusi- 
tânia, havia alli uma cidade llorescen- 
te com o nome de Ta ta b ri;/ a. 

Cora as dilferentes invasões que 
se succederam, arruinou-se e despo- 
voou-se completamente aquella ci- 
dade. Só no século xv é que foi 
novamente reedificada pelo infante 
D. Pedro, duque de Coimbra, e íilho 
d'el-rei D. João i, sendo regente do 
reino na menoridade de seu sobri- 
nho D. Affonso V. Por essa occasião, 
não passando d'uma simples villa,foi 
cingida de altos c fortes muros ameia- 
dos; porém a população, no seu cres- 
cente desenvolvimento, transpozos li- 
mites, dilatando-se a norte c sul e foi-- 
mando novos arrabaldes, que não tar- 
daram a constiluirera-se em bairros. 

Em ir)15deu-llu3 foral el-reiD. Ma- 
noel, com muitos privilégios e isen- 
ções. 

O tempestuoso inverno de 1575, ob- 
struindo-lhe de areias o porto e a bar- 
ra, deu pi'in(;ipio á sua decadência. 
Com o discurso do tempo aggravou- 
se de tal sorte este mal, (jue a barra, 
removida pelo movimento das areias 
(|ninze milhas para o sul, tornou-se 
diflicil e perigosa. 

No prin(;ipio doeste século tratou o 
governo de prover de remédio a tão 
grande mal, encarregando dous enge- 
nheiros dislinctos de confeccionarem 
um plano do obras. Encetara m-se os 
trabalhos em 1.S0Í2 c concluiram-se 



I e.m 1808, deixando construído um di- 
que de mil duzentas e dez braças de 
comprimento, setenta e dous paimos 
de largura, e altura superior ás mais 
elevadas marés, em cuja obra se des- 
pendeu mais de cem contos de íeis. 

Com este dique melhorou o porto e 
a barra, 6 por conseguinte melhoraram 
também os campos e marinhas de sal. 
Animou-se o commercio e a nave- 
gaç;u). Avpiro, então já elevada á ca- 
tegoria de cidade por el-ieiD. Jo- 
sé, readquiriu parte da sua paí-sada 
prosp<'ridade. 

Divide-se a cidade de Aveiro em 
cinco bairros. O mais antigo ainda se 
vê cingido com os muros que lhe le- 
vantou o infante I). Pedro. Um estei- 
ro ou braço de mar divide a cidade em 
duas partes, facilitando a communi- 
cação duas pontes de pedra. 

tem Aveiro casas de agradável ap- 
parencia, bom cães de pedra, alfan- 
dega, e um passeio formosíssimo, 
tanto pelas arvores giganleas que o 
adornam, como pelas vistas aprazíveis 
que d'e!le se disfructa. E uma fron- 
dosa alameda, situada na parte alta 
da cidade, eníre a porta de Vagos e 
o convento de Santo António. 

A cidade é abastecida d\igua por 
cinco fontes, das quaes a principal é 
a da Ribeira, que serve de ornamen- 
to a uma praça, junto do esteiro. 

Os subúrbios d'Aveiro são mui for- 
mosos pelas hortas, quintas, arvore- 
dos, e fontes (lue n'elles ha, A ria, 
com as suas nove léguas de compri- 
mento, desde Ovar até Mira, corren- 
do parallela ao oceano, e apenas se- 
parada d'ellc por uma larga restinga 
de areia, é continuadamente sulcada 
por infinita (|uantidade de barcos de 
diversos tamanhos e feitios. 

O termo de Aveiro é ferlilissimo. 
Tem boas pastagens onde se criani ga- 
dos, e entre estes excellenles cavallos. 
Produz grande copia de cereaes. ar- 
roz, legumes, vinho e fiuclas. Porém 
o sal e as pescarias (onsiiiueni as 
suas mais valiosas producçòes. e o 
ramo mais importante do seu com- 
mercio. 

Eazem-se alli duas feiras annuaes 
muito concorridas e de bastante mo- 



'JO 



AVI 



AVI 



vimeiUo commerci.il: iim;i ;i i7) dt; 
março, ea oiilra nu 1." de novem- 
bro. 

Foi Avi!Íi-() pairiu dt; muitos vaiões, 
(jue so disliiigiiiraiu poi' loiras, vir- 
uides (! saber, por viagens e desco- 
brimentos, cem liin por acçOPS de co- 
ragem e valor. Iriamos lonjje se ()re- 
lendessemos lazer o catalo^jo de seus 
nomes e obras. Diremos, porém, iiue 
aos lilbos (FAveiro se deve a desco- 
berta na península da costa seplen- 
Irional da Ametica, cliamada Ti-rra 
Noni. 

Aiinelle celebi"e navegante, João 
AlToiísu d'Aveiro, (|ue tão importan- 
tes descídjiimenlos fez na costa de 
Africa, durante o reinado d^el-rei D. 
João II, era natural d'Aveiro. Foi este 
intrépido viajante (juem. enlranban- 
do-se pelo sei tão (IWfrica e trazen- 
do de lá a Portugal mui curiosas no- 
ticias, e amostias de varias produc- 
ções do Oriente, e um embaixador 
do, pelo vulgo denominado, Preste 
João, fez nascer o primeiro pensa- 
mento do descobrimento da carreira 
da índia, que o immortal Vasco da 
Gama teve a fortuna de realisar no 
seguinte reinado. 

AVEIRO (Frei Pantaleão d'). Frade 
da ordem de S. Francisco. Sabe-se 
que nasceu era Aveiro, e peregrinou 
nos lugares santos em 156;^, onde co- 
lheu elementos para o seu livro, inti- 
tulado llincrariú da leira santa, etc, 
que appareceu, pela primeira vez, em 
1593, e do qual ha quatro edições. É 
obra recommendavel por pureza de 
linguagem e religiosidade de senti- 
mentos. A superabundância do asce- 
tismo damniílca talvez a valia da obra 
como noticiosa ; não obstante, é bera 
aproveitado o tempo gasto na leitura 
de paginas em que a singeleza se está 
insinuando no aniraodequera se exer- 
cita nos bons exemplares do idioma 
pátrio. 

AVELEIRA. (Veja Cupuliferas). 

AVINKÃO (Condado d'). O conda- 
do Venesiuo, que, com Avinhão, for- 



mou o departamento' de Vaucluse, foi 
re.sidiMicia dos papas em 130'.), sob 
(jltiinente v. (Juandoliregorio xi trans- 
feriu em 1377 a sede pontilical para 
Uuma, Avinlião licou sendo adminis- 
trada por um legado, e continuou su- 
jeita á santa sé até ao anuo de 17'.U 
em que foi encorporada á França, bem 
como o condado Venesino. O ilecorrer 
dos annos, e os elementos não pode- 
ramainila tirar, desça racterisara(|uel- 
le condado da sua physionomia meri- 
dional, tão expressiv;i doseuclima [iro- 
vençal,eda indoleardentedo seu povo. 
São originaes no género antigo os edi- 
ílciosd^Avinliào; osai"cosdi'tiiumplios 
romanos fa/.em lembrar Tito, Adria- 
no, e até o vencedor dos cimbros. A 
cathedral, o antigo palácio dtjs paiias, 
o hospício dos inválidos, o tribunal de 
Ci"illon, o tumulo de Laura, o Iheatro 
novo, e a longa ponte ile madeira so- 
bre o Rliòne, distinguem-se entre 
os mais notáveis monumentos d'A\i- 
nhão. Ajuntem-se aos grandes monu- 
mentos os espectáculos naturaes da 
máxima belleza: a fonte da Sorgue, 
que toda a gente conhece pelo no- 
me de Vaucluse, é só de si bastante 
para contentar o curioso mais exigen- 
te. 

Vaucluse, capital Avinhão. A aldeia 
de Vaucluse, que dá o nome ao de- 
partamento, escondida u'um sitio en- 
cantador, deve a sua celebridade a 
Petrarcha e Laura, O conego-poeta e 
a formosa dama são conhecidos em to- 
da a Europa. Laura era mulher le- 
gitima de Hugo de Sade,e,ao que pa- 
rece, tinha tanto juizo como belleza. 
Mas notem o perigo dos poéticos per- 

• Departamento ; do froiicez dapartement. 
No principio da revolução franceza, deixada a 
antiga divisão por provindas, foi a França di- 
vidida em departamentos, que eram porções 
de território, a que se estendiam certas autho- 
ridades estabelecidas para governo da republi- 
ca, e que nós poderíamos sem erro chamar co- 
ma7'cas, ou districlos. D"aqui ficamos adoptan- 
do este vocábulo, que somente se deve empre- 
gar, quando se trata da referida divisão, ou 
partes d'ella. Mas tomando-se em geral por re- 
partição, V. gr. ministro do depai-tamento da 
ijuerra — tem a seu cargo o departamento das 
munições, etc, é gallicismo que se não so£fi'e 
era bom portuguez. (D. Francisco de S. Luiz). 



AXI 



AXI 



91 



fumes : Petrarcha consagrou-lhe tSo 
louvaminheiras eslrophes, que a sua 
amiga na opinião publica não anda 
muilo bpm conceiluada. Quer o povo 
até que o papa dispensasse no casa- 
menlo d'elles: o que não é assim, co- 
mo se pôde provar visitando a sepul- 
tura de Laura, no mosteiro de fran- 
ciscanas d'Avinhão. Seja como fôr, 
aquelles dous nomes estão vinculados 
á fonte de Vaucluse, cantada pelo poe- 
ta ; e tanto basta para que em vez do 
escândalo sobreviva uma das mais 
bellas creações da natureza. 

Dez léguas distante dWvinhão, em 
meiod^ufn paiz montanhoso, sobe-se 
— dizM. Hugo — nma ladeira encanta- 
dora, tortuosa, orlada de rochas, onde 
a Sorgue, isto é, o córrego cuja ma- 
ravilhosa fonte é Vaucluse, serpeia por 
entre as pradarias, forma graciosas 
ilhotas, e alenta as fabricas. Ao sopé 
da aldeia,o vallecurva-seem semi-cir- 
culo, transforma -se em horrível des- 
penhadeiro, e termina abruplamente 
em enorme penhasco avermelhado; 
ao fundo do desfiladeiro está uma vo- 
ragem, vuli ão aqualii"o cujas erupções 
são fiTquentPS, cratera de jirofundeza 
incom mensurável e diieccão desco- 
nhecida ; é o primeiro um d{is manan- 
ciaesda Sorgue. Se a chuva aturada, 
ouodegeloda nevenasserras vlsinhas, 
vertem torrentes novas u'aquellc im- 
menso reservatório, cujas fauces es- 
tão escancaradas, a agua revolve-se, 
levanta-se, espadana, galga á gargan- 
ta do abismo, muge nas roclias que 
vomitou, forma uma sol)erl)a cascata, 
e rola rugindo no leito da Sorgue. 

No seu estado ordinário, a fonte de 
Vaucluse, corre |)or um grainie nu- 
mero de regatos por peito, e por lon- 
ge da barra. 

AXIOMA., proposição evidente por 
si mesma, que não precisa ser de- 
monstrada. O Iheorema é a verdade, 
que se evidencela. mediante o racio- 
cínio chamado dmiditslrncão. O axio- 
ma é o jiouio de j)ailida de toda a de- 
monstração. Nas scieiu;las (jue proce- 
dem syiiihelicamente, como em geo- 
metria. prlnclpla-s(> p(u" assentar os 
axiomas com o lim de preparar a de- 



monstração dostbeoremas. ou a solu- 
ção dos problemas : duas quantidades 
iguaes a uma terceira são Iguaes en- 
tre si ; o lodo é maior que a parle ; o 
lodo é igual á somma das partes em 
que elle foi dividido: d'um ponto a 
outro só pôde lirar-se uma linha re- 
cta ; duas grandezas. Unha. superfície 
ou solido, são iguaes logo que postos 
uma sobre a outra coincidem em Ioda 
a sua extensão : taes são os princlpaes 
axiomas de geometria. — Toda a gen- 
te concorda que ha proposições tão 
claras e evidentes por si mesmas que 
não precisam ser demonstradas: mas 
nem Ioda a gente comprehende em 
que consiste esta clareza e evidencia. 
Se um axioma é claro e certo porque 
ninguém o contradiz, se é duvidoso 
quando alguém o nega, nada haverá 
no mundo claro e cerlo. pois ptiilo- 
sophos tem havido que professaram 
a duvida e negação de tudo. Não é, 
por tanto, segundo as conlroveisias 
dos homens, que devemos aquilatar a 
certeza d'uma cousa, pois que naila ha 
Ião a preceito demonstrado que não 
possa ser posto em duvida, pelo me- 
nos oralmente, embora a persua- 
são esteja no espirito de quem duvi- 
da ; mas (veve ler-se como averiguado 
e cerlo o que assim se figura a lodos 
quantos consideram as cousas alten- 
tamenle, e são sinceros em dizer o 
que pensam. «Não é cá palavra exte- 
rior, é á palavra interior da alma que 
visa a demonstração, bem como o syl- 
loglsmo. Contra a palavra exterior, 
facilmente se levantam objecções; 
mas não é facll creal-as contia a [la- 
lavra (jo Intimo. m (Arlsiotelos). 

a. K lm|)orlantissimo ter no esjú- 
rlto muitos axiomas e princípios (]ue, 
sendo claros e evidentes, nos possam 
dai" bases para conhecer as mais o^-- 
cullas cousas. Kls aqui os axiomas 
mais úteis: 1. O nada não pôde ser 
causa de cousa alguma. I)'esie axioma 
naturalmente se deduzem os ijualro 
seguintes (|ue lhe são corollaru>s. — 
'i. Nenhuma cousa, nem alguma per- 
feiçãií dVlla aclualiuenle exisiente, 
pôde pertencer ao nada ou a cousa 
não existente, por isso que exisle. — 
[]. Qualquer realidade ou perfeição 



92 



AXI 



AZE 



quft fislá em uma cousa se acha for- 
mal menle na sua causa piimaiia e to- 
tal. — 4. Nenhum corpo póili; movor- 
se por si mesmo, isLo é, dar-se a si o 
movimenlo, poisíjue o não tem em 
si. — 5. Nenhum corpo pó(hí movfr 
outro se elhi mesmo não t; mo\i(lo, 
por(|ue se um corpo eslaiuJo immo- 
vel não pótle dar-si; a si o movimen- 
to, menos o píulc; dar a outro corpo. 
— 0. Não se deve negai- o (|iie é cla- 
ro e evidenlc, i)Oi(|ue se não pode en- 
tender o (jue c obscuro. — 7. E da 
natureza do ('s()iiilo liniLo não poder 
coitipicliender o mliiiilo. — 8. Os fa- 
ctos accessiveis ao jui/o dos sentidos, 
pois (]ue são conliiinados por inlinito 
numero de pessoas de diversos tem- 
.pos, de diversas nações, diversos in- 
teresses, que faliam d^elles como se 
por si o soubessem, e são insuspeilas 
de conjurarem todas no applauso da 
mentira, devem passar por tão con- 
staiit''s e indubitáveis como se cada 
qual « s visse com seus próprios olhos. 
Este ultimo axioma é o fundamento 
da maior parle de nossos conheci- 
mentos, i)orqueé infinitamente maior 
o numero das cousas que sabemos 
pela authoridade dos outros, do que 
as conheciílas por exame próprio. 

{]. O miHhodo dassciencias pode re- 
duzir-se a oito principies ou regras 
piincipaes que é necessário ter mui- 
to presentes ao espirito. — Dcfuii- 
çõcs. 1. Não deixar alguma palavra 
obscura ou equivoca sem a (jeílnir. — 
2. Não empregar nas definições senão 
termos perfeitamente conhecidos ou 
já explicados. — Axiimias. 3. Não ar- 
vorar em axioma senão o que é per- 
feitamente evidente. 4. Receber co- 
mo evidente o que se reconhece ver- 
dadeiro com pouca attençào. — De- 
mousl rações. 5. Provar todas as pro- 
posições algum tanto obscuras, em- 
pregando ii'essa ptova as definições 
que tiverem precedido, e os axiomas 
concedidos, ou proposições já de- 
monstradas. — 6. Não abusar de ter- 
mos equívocos, esquivando-se a sub- 
stituir mentalmente as definições que 
os restringem e explicam. — Meihodo. 
7. Tratar as cousas quanto fôr possí- 
vel em sua ordem natural, princi- 



piando pelas mais geraes e sim- 
ples, e explicando ludo o que per- 
tence á natureza do género, antes 
de passar ás espécies particulares. 
8. Dividir (juanto ser possa, cada gé- 
nero em suas espécies, cada todo em 
suas partes, e cada difliculdade em 
todos os seus casos. Devem guiar- 
nos sempre estes oito princípios, pa- 
ra construir ou adquirir a sciencia, 
isto é, os conhecim«Mitos (|ui; se fun- 
damentara na evidencia e na razão. A 
verdade vem entretanto em busca do 
nosso espirito por outra vereda. Acre- 
ditamos que uma cousa (í verdadeira, 
fundados cm anlhoiidade de pes-oas 
dignas de crença: o (jue se chama 
crença ou Ur. Qnod arimiis, debcmos 
rntiuni; qnoil crcdimus, auctorilnli, 
dizia Santo Agostinho. O que sabe- 
mos, devemol-o á razão; o que cro- 
mos, á authoridade. (Veja Methodo e 
Testemunho). 

AZEDA. (Veja Polygon.\ceas). 

AZEVEDO (Manoel António Alva- 
res de). Nasceu na cidade de S. Pau- 
lo, no império doBiazil,em 1'2 de se- 
tembro de 1831. Falleceu em 20 de 
abril de 1852. Um anuo depois de sua 
morte, appareceu o primeiro tomo 
das Obras d'aquelle esperançoso ta- 
lento, cortado aos 22 annos. Nos an- 
nos subsequentes, vieiara a lume 
dous volumes de outras Obras, algu- 
mas das quaes denotam vontade de 
avolumar, todavia perdoável, bem que 
menos conducentes á gloiia do au- 
thor. Alvares de Azevedo accusa lei- 
tura muito exclusiva dos poetas ades- 
trados na escola byroniana. O espiri- 
to próprio compraz-se de abafar a ori- 
ginalidade nas imitações do que mais 
arrojado e olympico sahiu do cérebro 
candente do aullior de Werner e 
Giaour. Os ardores de phanlasia que 
lavram nas admiráveis paginas do l.» 
e 2.0 tomo das Obras de Alvares de 
Azevedo, parecem congeniaes do cli- 
ma brazileiro, e representara a ubér- 
rima florescência de um espirito que 
vai erguer balisa de renovação lit- 
teraria na pátria de Gonzaga e Du- 
rão. Todavia, analysados compassa- 
damente os escriptos de Alvares de 



BAC 



BAC 



93 



Azevedo, descobre-se ahi a escola, e 
não a espontaneidade, sente-se a febre 
que tocou mais ou menos todos os ta- 
lentos d'aquelia plêiade de moços, que 
se (izeram lilterariamente, entre By- 
ron eSchiller, entre Edgard (juinete 
Espronceda. Como quer que fosse, a 
lyra brazileira nunca desferiu mais au- 
daciosas estropbes, nem a prosa tão 
pouco revelou maior possançada que 
nos assombra na Taberna do Diabo. 
É, mais que muito, admirável a qua- 
si correcção de linguagem em que o 
moço brazileiro logrou assentar o me- 
lhor da sua reputação que os seus 
conterrâneos, com justo motivo, não 
deixarão esquecer. 

AZEVICHE. (Veja Carbone). 

AZIKCOURT. (Veja Carlos). 

AZOTATOS. (Veja Saes). 

AZOTE. (Veja Ar). 

B 

BACON (1560, '16'2G), filho de Nico- 
lau Bacon, chanceller no reinado de 
Isabel, viajou desde tenros annos em 
França; voltando a Inglaterra, advo- 
gou, foi guarda sellos, chancellei- de- 
pois, em seguida barão de Verulam, 
e a íinal visconde de Sainl-Alban. Ti- 
nha elle exercido duianle dons annos 
as funcçucs de chanceller-mór, (|uan- 
do foi accusado pelas communas de 
se ler deixado corromper, aceitando 
dinheiro a troco de eu) pregos e pri- 
vilégios; em virtude do (jue a camará 
dos pares condcninou-o a prisão na 
torre de Londres e ao pagamento da 
multa de (juarenta u)il libias; afora a 
privação de todas as suas tlignidades, 
e repulsão do funccionalismo publi- 
co. Pouco depois o lei lhe deu a li- 
berdade, e o rehabilitou de todas as 
indignidades contra elle proferidas. 
Sem embargo, Bacon a|)ós a sua des- 
graça, afaslou-se dos n»'gocios e de- 
dicou os derradeiros annos de sua 
vida a trabalhos philosophicos. 



2. Bacon e Descartes são os funda- 
dores da philosophia modeina; am- 
bos declaraiam batalha á escolástica 
e á influencia de Aristóteles, demons- 
trando a necessidade de novos me- 
thodos, methodos de descobrinientos 
e não de simples demonstração, como 
os que então se usavam. A diíTerença 
que os sepaia é que Bacon dá a pre- 
ferencia aos methodos experimeniaes 
e á observação dos phenomenos sen- 
síveis, em quanto Descartes funda 
uma escola racionalista. A contro- 
vérsia de Bacon deu o resultado ca- 
pital de mostrar: \y que a philoso- 
phia não devia ser uma sciencia pu- 
ramente especulativa, sem resultado, 
nem utilidade pratica ; mas, segundo 
as expressões d'elle, sciencia acti- 
va, operante, que devia sahir do re- 
cinto das escolas, onde recreava os 
ócios de alguns espíritos subtis, e le- 
var ao espirito humano, á sociedade 
das idéas novas, principies fecundos, 
capazes de melhoiarem os costumes, 
de engrandecerem as letras, de crea- 
rem applicaçOes novas da força e da 
industria; '2." que a idade de ouro 
não tinha ainda passado, mas eslava 
por vir — principio tolahnente con- 
teúdo no espiíito modeino; que o 
espirito humano é de natureza pro- 
gressiva, moldado para os descobri- 
mentos, renovações, engrandecimen- 
tos, e fecundação da sciencia e do 
mundo. Mostrado o programma. cum- 
piia-lhe crear um nielhodo novo so- 
l)re os anligtis methodos aniquila- 
dos. O methodo de Bacon está con- 
tido no Ni/ViiDi OrydiiKni. ISão nos 
incumbe idear hypolheses acerca da 
naluieza e oiigem do mundo; o 
que mais nos importa é conhecer- 
Ihe os phenomenos, estudar-lhe as 
leis, e aproviMtai' d'ahi. l*oi- tanto, 
o primeiro passo da scicMicia é conhe- 
cer factos. Conhecidos estes, urge 
descobrir-lhes as leis (|ue lhes são 
causas, e, por inlermeiho das causas, 
senhorearmos as consequemias. Ora, 
o processo que nos conduz ás leis, 
partiuíhí dos eiTeitos, é a inducçào, 
cujas i-egras são expostas no Onnuium 
de Aristóteles. lUicon a|iroí"unilou-as 
coui habilidade, e, o cjue mais ô, 



9i 



DAL 



BAL 



collocoij a iiidiirçào na sua vorda- 
dcira c.ílcgoti.i. Como reformador, 
Bacon iiilliiiii 110 s(!u século frios vin- 
douros pcrilutavflmonlP. (Vej.i Di:s- 

CAHTKS, AniSTOTKLES, I*L.\TÃO, SO- 
CHATfciS, ele.) 

BÁCULO. (Vcj.l l'All.\MKNTOS). 

BAGNÉRES-DE-BIGORRE. (Veja 
Gasconiia). 

BALAAM. \. (XV século anles de 
Jesus Ciiiislo). Falso pro[)lu!ta da Me- 
sopolaniia, foi mandado por Balac, 
rei dos moabilas, amaldiçoar os is- 
raelitas, (jiio depois de (juareula ân- 
uos de (ieserlo, Hh; invadiam os seus 
estados. Apesar da pioliihição divina, 
Balaam preslou-se ao convite. Anda- 
do meio cafninho, um anjo armado 
de espada nua sahiu á frente da ju- 
menta (|ue o levava; a qual, estacan- 
do rcpeniinatnente, bem que Balaam 
a castigasse, foi milagiosamonle do- 
tada cnni o dom da palavra, impro- 
perando-lliea crurldade. O prophela, 
maravilhado, levantou os olhos ao 
céo, e viu o anjo, que o repreliendeu 
de sua desobnliencia, permittindo- 
llie cointudo de seguir seu caminho, 
mas anniinci;indo-lhe que elle só po- 
deria dizer o (lue lhe fosse inspirado. 
De feito, do alto da montanha de Plio- 
gor, onde Balac o havia levado para 
execrar os israelitas, Balaam desco- 
briu os arraiaes de Israel, e bradou 
com divino transporte: ((Como são 
bellas as luas lendas, ó Jacob! que 
brilhantes são tuas vivendas, ó Is- 
rael!... Bemditos sejam os que le 
bemdizem, e maldito seja quem te 
maldisser!... Uma estrella sahirá de 
Jacob, um homem surgirá em Israel, 
o qual quebtaniará os chefes deMuab, 
e esmagaiá os filhos de Jelri...'*» Ba- 
laam não podia amaldiçoar, mas deu 
a Balac pej-fido conselho que vin- 
gou. Os israelitas, momenlanearaenle 
infiéis ao verdadeiro Deus, foram ven- 
cidos; mas depois, penitenciando-se, 
ficaram vencedores, e cortaram o ini- 
migo com grande mortandade. Ba- 
laam morreu com os moabilas. (Veja 



PnopnEciAs, Milagres, Evangelhos, 

ele.) 

•2. Os philosophanles chacnleiam in- 
sipidaniente á conta do idioma da 
burra de Balaam. que i;3o ó todavia 
muito difficil de explicar. Aquellc ipie 
(leu movimento á nalnrrz.i inlriira, 
imprimiu-o por momentos ao órgão 
d'aquelh! animal, como poderia irn- 
[irimil-o a (|ual(iuer ser inanimado. 
Nào se vi'' a lazào porque seja mais 
indigno de Deus fazer fallar um bru- 
to, que fazer soar urna voz no ar, 
ou seivir-se d<! quahpier s'gnal co- 
mo intermédio de suas vonlades. — 
A historia (Peste prophela deu azo a 
pergunlar-se sí; Deus [lóde servir-se 
de iiersonagens viciosos, infiéis e ido- 
latras, em predicções do futuro: al- 
leslam muitos exemplos que Deus fez 
com outros o que fez C(jm Balaam. 
O prophela Micheas (cap. in) acfusa 
alguns confiades seus de prophetisa- 
rem por dinheiro; e nem por isso diz 
que fossem falsos proph''tas. No li- 
vro de Daniel (<;ap. ii). vê-se que 
Deus mandou um sonho piophetiroa 
Nabui^hodonosor, princiíie idolatra. 
Jesus Chrislo (Matli., vii) diz que no 
dia dojuizo ha de haver homens que se 
jactem de ler pro|dielisado e feito mi- 
lagres em seu nome. S. João (cap. ii) 
ensina-nos que Caiphás, em foro de 
pontifice,propheiisou que Jesus Chris- 
lo não só morria pela sua nação, mas 
para congregar os filhos de Deus — 
predicção que fez provavelmente sem 
querer e sem entender. (Veja Dilu- 
vio, Ad.\o, Creaç.\o, ele.) 

BALANÇO. (Veja, para bem compre- 
hender o artigo, EscriptlraçÃo mer- 
cantil. Diário, Razão). O balanço é 
uma operação pela qual o negocian- 
te conhece o seu activo e passivo. Dis- 
lingue-se o balanço men-al, ou de 
conferencia, do balanço geral das con- 
tas. O balanço mensal iem por fim con- 
frontar osassentos do livro de Razão, 
e certificar-se de que os transportes do 
Diário para o Razão furam exactos. 
Pois que cada verba tem no Diário 
seu devedor e credor, e se acha trans- 
ferida ao Razão por conta do deve- 
dor e do credor, segue-se que qual- 



BAL 



BAL 



95 



quer somma lançada no Diário figu- 
ra simullaneamenle no Deve c Ha de 
Haver do Razão; e, necessária conse- 
quência, se se loma a lolaliilade das 
sommas assentadas nos débitos no 
Diário, e o das somnrias inscriptas nos 
débitos, e a totalidade das sommas 
inscriptas nos créditos do fíazão, ter- 
se-hão ires sommas iguaes. Se hou- 
ver differença, é certo que ha erro 
em alguma parte. É fácil attingir Io- 
da a importância d'este balanço men- 
sal; por elle se colhe a exactidão das 
contas do Razão; e, se ha erro, bas- 
ta verificar a escripluração do mez; 
ao passo que, fazorulo-s'e o balanço 
geral uma só vez por anno, se passa 
um só erro, é mister verificar as par- 
tidas de todo o anno. Dá-se n'islo ain- 
da ontia vantagem, que vem a ser dar 
constantemente ao negociante o es- 
clarecimento de suas dividas activas 
e passivas, e gnial-o no credito que 
lhe convárn dar ás di\ersas pessoas. 

2. O b.ilanço geial das contas, que 
faz conhecer ao negociante rigorosa- 
mente o seu activo e passivo, é a ba- 
se do inventario geral. Balançar oa 
saldar uma conta é reconhecer o que 
deve, ou o que lhe devem, e tornar 
por qualquer meio o debito igual ao 
credito. Ora, para balançar as contas 
pessoaes e algumas contas geraes, 
basta conhecer a diíTerença qwe. ha 
entre as sommas de debito e as do 
credito; mas para a conta de cofre, e 
mercadorias, e e(f'cil(is para cobrança, 
do morei e iininorel, tião succede o 
mesmo effectivamente: das sommas 
inscriptas no debito do cofre, parte 
foi paga a diveisas pessoas, e está no 
credito; o lestante deve estar em 
caixa. 

D.is mercadorias inscriptas no de- 
bito da conta de merradarias, parte 
foi vendida e eslá no credito; o res- 
tante existe no armazém. 

Das leiras descriptas no debito de 
vffciltis para cobrança, parte sahiu e 
está esrripta no credito; o restante 
existe em carteira. Dos eITeitos mobi- 
liai ios iiiscriptos no debito da conta 
(raíiuelle nome, parle eslá usada ou 
quebrad;! ; o restante existe aiuda. Os 
immobiliarios, (|uc o negociante pos- 



sue, uns podem ter perdido seu valor, 
outros augmentado, e não apresenta- 
rem o mesmo valor dos outros que fo- 
ram debitados. É pois neces-ario. pri- 
meiro que tudo, fazer inventario; 'este 
inventario deve abranger todos os obje- 
ctos conteudosem sua propriedade, ou 
á sua disposição: ou se possuam em ca- 
sa, ou fora, quer absolutamente, quer 
em sociedade com terceiros. Osobje- 
ctoscujo valor pôde variar, como m<r- 
radorias, effeitos moveis e immoveis, 
devem ser avaliados segundo o preço 
que elles tiverem na época do inventa- 
rio. — Organisado o inventario, dddi- 
cionam-se todasas sommas do debito, 
e todas as do credito de cada uma das 
contas, e então se possuem os necessá- 
rios materiaespara fa/!,er o t)alançoge- 
ral. Procede-se do seguinte modo : as 
contas são saldadas por meio da conta 
de pndaa e çianlios do capiiaí. e d"ura 
individuo íicticio chaMiado balanço de 
safiida,que, intervém jtara esie tim.e 
não tem outro uso. E-^le supposlo in- 
dividuo presume-se receber tudo o 
que o negociante possue, e tomar a 
seu caigo as dividas Certas contas 
por si mesmas se balançam, quer di- 
zer, que as soninas do debiio são 
ahi iguaes ás do crelito. Quanto a es- 
tas, não ha operação alguma a fazer; 
não importara nada para o balanço 
das contas, nem para o inveniario ge- 
ral: são como se não existissem. 
Quanto ás outras, pralica-se pelo mo- 
do seguinte: lira-se o balanço de ca- 
da uma das contas que eslá em aber- 
to, eseparam-se a um lado os balan- 
ços que indicam debito, e ao ou- 
tro os (]ue indicam credito: sommani- 
se sepaiadamenle eslas duas coliiin- 
nas do balanço; e. se as sommas d"el- 
las sabem iguaes, dizemos então ([ue 
os livros estão balançados, e a este 
balanço chama-se balanço volanie. 
Outras contas represenlanies de va- 
lores, de género a dar ganho ou 
perda, estão n'outro caso, pois que 
ajuntando ás sommas de que ellas es- 
tão ciediladas os valores ijuc se lem 
em dispouibiliilade, não leremos ain- 
da sommas que se balaur(Mn. \ som- 
ma tolal do (íredilo será maior se es- 
ses objectos derem lucro; e será rae- 



00 



BAI. 



BAL 



nor SC (Ifiiem perda. Para saldar es- 
tas cfllitas síM-iios-lia preciso addi- 
cioiíar-llies valor de duas naliirezas. 
Dalaiiral-os-licinos com o auxilio da 
coiila do Odlnni-i) dr sdliidn, i|iiaii- 
lo a valoiíís r(!afs, e com o auxilio da 
coiila (Ic perdas c ganhos, (|uaiilo ao 
hciidicio ou perda (|ih' cllis tivcrcui 
dadd. OuUas c.onlas, scni aprcsciilar 
al^iim valoi' cm iialuia, olícreccm ou 
perdas ou lucros. Mslas balanceia m- 
se n.ediaiile a couta de pfytlns c i/a- 
ulios. — I*ara proceder com a maior 
simplicidade, come(;,a-so o balanço ge- 
ral [lela conta de prjiliis n ganhos. Co- 
meçando assim, averigue i|uaes são 
as coutas (puí podem dar peidas, ou 
beuídicms: eu não vejo senão a conta 
de viircdíldrins, e suas subdivisões, a 
conia dos innnureis, e dos elTeilos/m- 
mohiliarios, e as subdivisões da con- 
ta de pcrdnn ei/anlios, como despezas 
geracs, ele. Calculo o beneficio que 
algumas oíTerecem,e credito na couta 
de perdas e lucros, debitando a(]uel- 
las. Calculo depois a perda ipie ipiaes- 
(juer outras apresentam, e debilo-liies 
a couta deperdas c iiinúuis, creditando 
aijuellas outras contas. Depois saldo a 
conta de pcnhis c i/iuthos, com capi- 
tal. Em seguida, serviíulo-me da con- 
ta do balanço de saliida, saldo todas 
as contas, tirante ocapiial, transpon- 
do ao debito do piimeiro todas as 
sominas (lue as outras coutas devera, 
e ao credito doestas todas as contas que 
lhes são devidas. — Assim se acham 
resumidas todas as contas do livro de 
Razão n'aquella do balanço de snhida, 
que apiesenia em seu débito o acti- 
vo do negociante, e em seu credito o 
passivo. Se o negociante ganhou nas 
suas operações commerciaes, a conta 
do balanço de sahida lerá em seu de- 
bito maiores somuias que em seu cre- 
dito, e esta diirerença é juslaraente o 
capital do negociante*; pelo que salda- 
remos esta conta com a do capilal. — 
Em sumraa, tudo o que é beneficio 
ou perda, é saldado pela conta das 
perdas e ganhos; todas as outras con- 
tas, excepto a ultima e a do capital, 
são saldadas pelo balanço di' sahida; 
este e perdas e ganhos são balança- 
dos pelo capilal. Terminado assim o 



balanço, transporlam-se para o livro 
dcUazão osailigosque se escreveram 
no iJiario, e todas as conlas eslão fe- 
chadas. l'ara conlinuar o negocio, é 
mister reabiir todas essas conlas. 
l*rocede-se então do míjdo ipje vamos 
dizer: 

BALANÇO ou INVENTARIO GE- 
RAL. 1. O balanço gi-ral ('• a de>cri- 
pçãíj geral do activo e passivo do ne- 
gocianl(!. A lei obriga n negociante a 
lazer este iuvenlaiio cada anuo, e a 
inscrevel-o em o livro particular, vis- 
to e rubricado. O iuluilo da lei, im- 
pondo-lhe esta condição, é de lhe fa- 
zer conluicer a exacta situação de 
seus negócios, e ilar-lhea medida das 
opeiaçòes que pode emprehender. Di- 
vide-se o balanço giiral em duas par- 
les : uma, apresenta no activo lo- 
dos os valoies naluraes que o nego- 
ciante possue : mercadorias, moveis, 
imnioveis, eiTeilos de carteira, espé- 
cies era caixa, e tudo (jue lhe devam 
diversos indivíduos; em outra parle, 
apresenta no passivo a narração cir- 
cumsiauciada de tudo o (|ue deve, quer 
em letras, quer em contas. Deve fe- 
char-se com um quadro resumido de 
todos os valores do activo e passivo, 
em que o capital balanceia todas 
aquellas sommas. 

"1. (lAnles que se extraia o balauço 
definitivo do negocio, saldando-se Io- 
das as contas, lêem de obscrvar-se 
algumasdisposiçõcs preparatórias ten- 
dentes a harmonisar o regulamento 
das conlas correntes com os corres- 
pondentes, ou conferem-se (juando 
estes nol-3s remettem, para que seja 
de conformidade entre ambas as par- 
tes a situação que ellas indicam, e pa- 
ra lançarem-se os juros que geral- 
mente eslas contas produzem, dos 
quaes se tem a fazer no Diário um ar- 
tigo relativo e d'alli transposto ás coa- 
las do Razão, para o seu ajuste ter- 
minanie. 

«As dividas duvidosas na sua co- 
brança passam a conta para este effei- 
lo — contas a li<iui(lar ou dividas du- 
vidosas — e as insolúveis a ganhos e 
perdas, para que estas dividas nãoíi- 
gurem no inventario como imporlan- 



BAL 



BAL 



97 



cias activas realisaveis que iriam fal- 
sear o verdadeiro capital. 

((O mesmo se deve entender com 
relação a alguma letra a receber não 
paga por íallencia do aceitante ou por 
qualquer outro motivo. 

«Quando tenhamos despendido al- 
gumas quantias, cuja applicação em 
parte ou no todo pertença ao anno se- 
guinte, como o aluguer pago adianta- 
do por tempo excedente ao do inven- 
tario, ou outra qualquer transacção 
inacabavel, para que os valores do in- 
ventario sejam reaes, passa-se a de- 
bito de uma conta transitória a som- 
raa que cabe ao anno posterior, a qual 
no balanço figura como valor activo, 
mas tem de reentrar na conta piopiia 
na época a que pertence. depois do ba- 
lançi» exlrahido. 

«Logo (lue as contas se acham no 
seu estado definitivo, faz-se a extrac- 
ção dos lucros e perdas nas contas 
subsidiarias da de ganhos e pcrrlns, em 
gastas geracs, co)nnii.')Sões, alugueis, 
ele, saldaiulo-as pela conta de ganhos 
e perdas: e n'a.qu('llas que pelo movi- 
mento de seus valores produziram lu- 
cro ou prejuízo, debitando-as ou cre- 
dilaiido-as da quantia lucrativa ou 
prejiiiiicial também pela conta de ga- 
nhos e peritas. 

«Com estes artigos fica a conta de 
ganhos c perdas contendo em seu de- 
bito todas as perdas e no credito to- 
dos os lucros, de maneira que a sua 
dilTeiença entre umas e outros, ou o 
balanço dVsta coiíta, é o ganho ou o 
prejuízo liquido emergente das opera- 
ções do anuo. Osahlod'eslaconta passa 
depois á conta de eapilal para aiiginen- 
lar 011 diminuir a cifra do capital que 
figurava no começo do exercício. 

«D<'bitadas ou creditadas poi' ga 
nht s e]ierdas as contas (jiie coiitíiiliam 
ganho 011 perda resultado do movi- 
mento de seus valores no decurso do 
anno, pelo balanço que- estas contas 
apresentarem, o qual éo valor dos ef- 
feilosinvenlariados, hão de ser salda- 
das por uma conta de balaneo de sahída 
ou iVinveuluriu ; — assim como são sal- 
dadas por esta mesma conta toilas as 
outras (excepto a de eajiilai), cujo ba- 
lanço para o seu fecho é o represen- 



tativo dos valores activos ou passivos. 

«Esta conta de balanro de sahida ou 
á'' inventario é uma conta d'ordem que 
unicamente serve para saldar as con- 
tas activas ou passivas no balanço de 
inventario, como se ellas eflecliva- 
menle se regulassem, reunindo em 
seu debito os saldos das contas deve- 
doras e no credito os saldos das con- 
tas credoras, e cuja somma de igual- 
dade do debito paia o credito é o ca- 
pital liquidado. Esta conta termina 
pois a sua existência pela conta de ca- 
pital, do que se deduz que os valores 
activos são iguaes na sua importância 
aos vãloi'es passivos mais o capital li- 
quidado. 

«Segue-se pois que as contas sub- 
sidiarias de ganhos e perdas são sal- 
das por esta conta principal. 

As contas esperiaes de mercadorias, 
caixa e letras a receber são fechadas 
por debito ou credito de ganhos e iwr- 
das do lucro ou perda ijue conteem, 
e por debito de balaneo de sahida dos 
valores inventariados; e as contas 
particulares dos deredorcs o são so- 
mente por debito de balanço de sahi- 
da da somma que devem. 

«E a conta especial de letras a pagar, 
e as contas particulares dos crnínres 
são fechadas ao contrario por credito 
de balanço de sahida, aquclla das le- 
tras que restam pagar e que ainda an- 
dam em circulação, e esta do que se 
lhes deve por saldo. 

«A conta própria ôe ganhos e per- 
das, que recebeu em si os saldos de 
todas as contas subsiiliarias, e os lu- 
cros e perdas das contas especiaes, é 
saldada por debito ou cicililo, ccuifor- 
mv. o seu resultado índicur g;iniio ou 
perda, pela conta de capital. 

«E a conta própria de capital, au- 
gmentada ou desfal("ada, pelo saldo 
da dt! ganhos e perdas, e recebendo o 
saldo da de balauçn de sahidii, o qual 
deve ser igual ao d\'sia conia, e por 
isso com elle se deve achar saldada: ' 

' A concordância entro o« saldos das con- 
tas de baltnv'0 de snltiiln (< a do ('<i))i((i< scr- 
vp do meio do vorillcação da foitoria do ba- 
l(tnri) (ji'ral, pois (juo estos dons suldos expri- 
mom ambos .a soinni;t linunla do «rtivo e pas- 
sivo. 



98 



BAL 



BAN 



«D'este moio fionm fochadasnsron- 
tas Dclivas o passivas [)p|a do halnnro 
de snhiifd. (|no rosiirno o,m si os rosiil- 
tados das roíilas halaiiçadas ; o aí)rorn- 
sfi rslas de novo, para a proscciíçáo 
das operarõos cornincrciacs, om cori- 
tiniiarão (las do anuo lindo, (^orn es 
mostíios saldos (pio as fccliararn. [lor 
contrapartida de outra conta de or- 
dorn de Ixiliiiiro de nilrírln, cujo o[)jo- 
clo ('• sónionlc a roaljcrtnra das con- 
tas fechadas jiola de hulíiiiro dr sahi- 
dn, e restituir ás novas contas os dé- 
bitos o credilos com que forem bicha- 
das. 

«Resnrniiulo : todas as contas rpie 
apresíMilam hicro ou ])erda são s.il- 
dadas por gnnlios e jirnhts:, d'esse hi- 
cro on perda ; todas as conlasípie con- 
leoni valores em natureza o são por 
bnldiiro de saliiild : e as contas de c/n- 
nhos (t ])f'rdiis e de balanço de snhida 
são-n'o pela de capital qne por si se 
salda. 

«Assim ficará concluída a factura do 
balança de safiida, que resume os sal- 
dos das contas reguladas, as (]uaps se 
abi'em de novo pela conta de balanço 
di' entrada pata continuação das opera- 
ções commerciaes.» (Almeida Outeiro, 
Estados, sobre escriptnração mercantil). 

BALEIA. (Veja Groenlândia e Ce- 
táceos). 

BALZAC (De), natural de Angou- 
lênie, foi o primeiro prosador que, 
DO começo do século xviii, deu á lin- 
gua franceza correcção, nobreza e pre- 
cisão. As suas obras principaes são 
o Sócrates christão, o Príncipe e os 
Colloíiiíios, onde realça elevada e sã 
moral. Alcançou a privança de Ri- 
cbelieu. que lhe estipulou uma pen- 
são de duas mil libras, com o titulo 
de conselheiro de estado, e foi rece- 
bido na Academia franceza entre os 
piimeiros. 

Lograram grande voga e admira- 
ção, mais tarde desvanecida, as suas 
cartas, pelas quaes lhe davam o ex- 
travagante nome de Grand epistolier. 
Deve noiar-se que n'aquelle tempo a 
lingua franceza e o gosto litterario 
não estavam ainda formados em Fran- 



ça. Pascal não tinha ainda escripto. 
I*()de av.iliar-se o eslylo doeste escri- 
[)tor na seguinte [la^sagem, exlrahida 
do Sócrates chnslãn: — «O bdmem 
Deiis que adoramos varreu de sobre 
a terra a multidão de monstros que 
os homens adoravam ; mas ainda foi 
mais ah-m. Não satisfeito com ari"ui- 
nar a idolatria, e impor silencio aos 
demónios, confundiu a sabedoria hu- 
mana, fez emrnudecer a philosophia. 
A's seitas (Telles succedeu a sua igre- 
ja, e aos dogmas, os seus manda- 
mentos. Razão e eloquência de Alhe- 
nas ambas lhe cederam. Foi elle(piera 
abalou a sobeiha do Portii:o, (piem 
desvirtuou o Lyi;eu e as outras esco- 
las da Greri;i. Fííz vi^r que a imjtos- 
tura reinava por Ioda a parte, que a 
philosophia era fabulosa, e qu(; os 
pbdosophos, não sendo menos des- 
atinados que os poetas, desatinavam 
mais grave e concertadamente. Fez 
confessar aos especulativos que so- 
nhavam quando ípieriam meditar. 
Mostrou-lhes que entre cento e cin- 
coenta e tantas opiniões que visavam 
ao escopo do supremo bem nenhuma 
tinha acertado no alvo. Estas opiniões 
podem conlal-as e V(!'l-as na lÃdiid':de 
Deus de Santo Agoslinho. .Jesus Chris- 
10 tratou d'esta arte os sábios do 
mundo; o assim pacificou as guerras 
e contendas (relles. P(*)l-os em harmo- 
nia, refutando-os todos...» — Expo- 
nba-se e faça-se redigir esta lição. 

BANHOS. A limpeza é a principal 
condição da saúde. A pelle é a sede 
d'uma transpiração contínua que de- 
posita no oritlcio de seus innume- 
ros poros nma matéria viscosa que se 
dissolve na agua. Quando aqnella se 
evapora, o principio que contém era 
dissolução tica na snperficie da pelle, 
onde forma uma espécie de verniz 
gommoso ao qual se prende o pó. D'ahi 
resulta uma espécie de crusta que ir- 
rita a pelle, e produz borbulhas, etc; 
além (l'isso impede a transpiração, e 
por isso mesmo a operação que de- 
pura o corpo de princípios nocivos. 
D'aqui, a utilidade e precisão da la- 
vagem e banhos frequentes. — Os ba- 
nhos geraes, quentes ou tépidos, afó- 



1 



BAO 



BAP 



99 



ra a vanlagem que lem de amaciar a 
pelle, deseinbaraçani-na completa- 
mente d'aiitieHe verniz que impede a 
transpiração, e chamam o sangue 
activandotodasas fancções. Estes ba- 
nhos são cahnanles, e desfadigam me- 
lhor (]iie os banhos frios ; convém par- 
ticularmente aos temperamentos sec- 
cos e irritáveis, aos velhos, e ás crian- 
ças. Se o banho se toma como remé- 
dio, cumpre ao medico indicdr o grau 
de calor conveniente; se é tomado 
como medida hygienica e de limpeza, 
deve ser aquecido de maneira que o 
corpo não experimente sensação de 
f,io._()s banhos do rio, na estação 
do estio, lem todas as vantagens dos 
banhos tejjidos, e são mais fortifican- 
tes. Reanimam as forcas dissipadas 
pelo calor, e abrem o appetite; po- 
rém, a fim de (jue a sna iiilluencia 
seja saudável, não deve o corpo estar 
suado, nem a digestão incompleta; a 
agua deve ser limpida, o céo sereno, 
e a temperatura entre -20 e -2j graus; 
o baníio deve durar quinze minutos 
em terapeiamentos debilitados ou ner- 
vosos, e(iuarenta nas compleições ro- 
bustas. Ao sahir da agua, deve o ba- 
nhista cn\ugar-se com forte fi-icção, 
vestir-se logo, e fazer um moderado 
exercício pai'a favorecer a reacção da 
vitalidade (juese opera internamente. 
— Distinguem-se os banhos do mar 
por sua acção tónica e excitante, cuja 
energia procede dos pr-incipios sali- 
nos dissolvidos n'elle, no ai'ejo re- 
sultante do movimento das vagas, e 
na maior densidade da agua. Quasi 
sempre est(;.s banhos favorecem os 
temperamentos débeis, e as pessoas 
que padecem tremores nervosos; mas 
não convém a todos os doentes, e só 
devem ser tomados por cons(ílho de 
medico. (Veja N\tac.vo, VmntilaçÃo, 
Habitação, Vhstiuos, Ukiíi.mhn). 

Dircrrãí). Depois de si; haver dicla- 
do ou exposto esta lição, \iiá a pro- 
pósito referir o lim desastroso de tan- 
tos navegadores imprudentes (jiie de- 
masiadamente liaram de suas forças 
e destreza. 

BAOBAB. (V(>ja Malvaceas e Se- 

iNE(iAMIíIA). 



BAPTISMO, e PIA D'AGUA BEN- 
TA. 1. No intuito de nos ensinar qae 
é preciso sermos puros e castos (Se- 
nhor, vós me lavareis e tornareis mais 
branco que, a neve, Ps. l), a igreja 
colloca á entrada dos templos uma pia 
de mármore, espécie de piscina, clieia 
de agua i|ue as bênçãos mysteriosas 
apartaram do uso ordinário e profano. 
As antigas igrejas tinham junto do ves- 
tíbulo exterior um adro ou recinto 
murado, onde frequentemente estava 
em trente da porta principal, uma 
fonte ou cisterna em que lavavam o 
rosto e as mãos os fieis ao entrarem 
no templo. Esta ceremonia era em- 
blema da pureza d'alma com que de- 
vemos entrai' na casa do Senhor. As 
nossas pias d^agua benta succederam 
áijuellas fontes, em cuja bacia se liam 
estas palavras: «Lava também teus 
peccados, e não só teu rosto.» Gum- 
pre-nos a nós usar com fé e respeito 
d'esta agua mysteriosa, de que mãos 
piedosas nos hão de aspergir o leito 
da morte, para nos lavar d'elle as 
manchas da vida. 

'1. Á entrada da igreja, á semelhan- 
ça do baptismo, á entrada da vida, 
estão as fontes haptismaes, nome que 
recorda as aguas do Jordão, consa- 
gradas pelo baptismo de Nosso Se- 
nhor, e as fontes e ribeiros, únicos 
baptistérios usados nos tempos apos- 
tólicos, e séculos de perseguição. 

D'estas fontes sagradas boibullia- 
ram as aguas que nos deram vida. 
Foi ahi que o nome d-um santo pro- 
tector me foi dado. Lá, o signal da 
salvação, o augusto signal da cruz, 
assignalou meu rosto e peito. Um 
pouco de sal bento, symbolo de in- 
corruptibilidade e sabedoria, foi posto 
em minha bocca, como penhor do 
pacto que alli se estipulou entre Oeus 
e a creatura; o óleo, symbolo ile for- 
ça e suavidade, manou sobro meu 
l)eito e meus hombros. 

A agua reg'Mieradora foi verlitla so- 
bre ininha cabeça em forma de cruz, 
ao mesmo tempo que os lábios do 
ministro proftii iam as palavras sacra- 
menlaes. O sanlo chrisina veio então 
sagrar-me padre e rei: [uidre. porque 
pertencendo á raça eleita, me devo 



100 



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devolnr incessantornenlo a Dmis como 
íiosli.i viva; rei, como rei do niiiiido, 
rei de rniiilias paixões, lilho du Rei 
dos reis, e herdeiro do reino celes- 
tial. De[t()is de me haver levado ao re- 
ciiilo da ils^eja, como o piiineiro ho- 
mem ao paraiso terrestre, o Seiítior 
me disse: «Tudo é teu. A rriitilia i|,'re- 
ja, (d)ra primorosa da rniiilia força, 
da minha sahcdoria e do mcii amor, 
é tua; goza do esplendor doestes mys- 
lerios, do seu sol de verdade, da fe- 
cundidade do seu evangelho, das vi- 
vas aguas dos seus sacra [uenlos. K 
teu o celestial pão da minha palavra; 
é teu o augusto sacrifício; são tuas as 
orarOcs e hoas obras dos lieis; é teu 
o palrocinio dos santos. Estas rique- 
zas todas te dou, todos estes Ihesou- 
ros te abro; mas ai de ti se abusares, 
porque muito será pedido a quem 
muito foi dado!» — O baptismo já foi 
praticado como symbolo de purilica- 
ção por S. João que baptisou Jesus 
Chrislo; mas o Salvador deu a esta 
ceremonia o poder de delir os pecca- 
dos, instituindo o verdadeiro baptis- 
mo chrislão com estas palavras ditas 
aos apóstolos: «Ide e ensinai todas as 
nações, e b^plisai-as em nome do Pa- 
dre, do Filho, e do Espirito Santo.» (S. 
Math., cap. xxviii, v. 1*)).— Dicle-se 
ouexponha-se esta lição, e, segundo 
convier, faça- se aprender de core re- 
digir, 

BARBARIA. (Argel, Marrocos, Tri- 
poli, e Tunis). 1. Este paiz abrange o 
que os antigos chamavam a Mauritâ- 
nia, Numidia, e os Estados carlhagi- 
nezes. A cordilheira do Atlas divide a 
Barbaria em duas regiões : a do nor- 
te é fértil, tem bom clima, e produz 
copia de cereaes, e excellentes fru- 
ctos; a do sul é toda planicies arden- 
tes, impregnadas de sal, e frequente- 
mente devastadas por gafanhotos. As 
montanhas e os desertos são habita- 
dos poranimaes ferozes e perigosíssi- 
mas serpentes. — Júlio Gérard, dota- 
do de invencivel intrepidez, e ao mes- 
mo tempo pasmosa certeza de ponta- 
ria, saboreou o aspérrimo prazer de 
se andar onze annos no encalço dos 
leões que entravam vorazmente pe- 



las colónias argelinas de França. Os 
vinte e cirif.o leões que elle matou na 
Arábia, deram-lhe o nome do — fran- 
rn terrirel. — Este famoso caçador 
revela-nos preciosas indicações dos 
hábitos e costiirnr-s (raípiclle rei dos 
animaes. Se o não irnpidlc violenta 
fome. ataca a pr(^a de s()l)r('s;illo e 
nunca a peito descoberto. Onlinaria- 
mente, embosca-se nas íiiargcns dos 
rios onde os animaes vão bfbcr, e e.s- 
preitatulo o instante opiiorliino, rom- 
pe fulminante sobre a viclinia; p()de 
abarcar (Tiim salto doze metros, e 
continuar por algum teuq)0 em ga- 
lões, por maneira que lhe não ganha 
a ra[)idez do melhor cavallo. O leão 
raras vezes ataca o homem, salvo 
quando é provocado ou lhe conhece 
teiror; mas é perigosíssimo, se tem 
fome ou já comeu carne humana. 
— Dorme o leão frequentemente de 
dia e sabe de noite á cata da presa ; 
e é então que elle despede o formi- 
dável rugido que apavora iodos os 
animaes; e ruge, em geral, depois de 
haver comido, ou quando o tempo está 
borrascoso. E' prodigiosa a força do 
leão : arrasta facilmente por grandes 
distancias os maiores bois; e pessoas 
dignas de fé asseveram ter persegui- 
do a cavallo, durante dez léguas, as 
pegadas d'um leão que arrebatara um 
novilho de dous annos. — Havia d'an- 
tes mais leões do que hoje: César e 
Pompeu reuniram quinhentos no cir- 
codeRoma. Hoje quasiqueexislem so- 
mente na Africa septentrional e cen- 
tral, nas serranias do Alias, e do Su- 
dan ; alguns que se encontram na Ará- 
bia e na índia, particularmente em 
Benguella, são muitomeaores que o 
leão da Barbaria. 

^. Argel, cujo território é extrema- 
mente fértil, tem temperatura eleva- 
da, mas temperada pelas ventanias; 
o inverno é lá muito suave, e apenas 
se conhece pela abundância das chu- 
vas que duram até abril. — Argel está 
edificada em amphitheatro, na quebra- 
da d'uma collina á beira-mar. Rodeia- 
se de largo fosso e muralha de trinta 
a quarenta pés de altura, e três quar- 
tos de légua de circumferencia, com 
artilheria. Da parle de terra é defen- 



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101 



dida pelo forte do Imperador que a 
domina ; as fortalezas que protegem o 
porto são irregulares. — Quando se 
percorre um bairro daquella cidade 
ainda intacto do camartello francez, 
crô-se errar nos círculos intrincados 
do labyrinttio; muito a custo cabem 
duas pessoas a par nas ruas, e em mui- 
tos sitios tocam-se os tectos oppostos, 
formando uma arcaria. .A cidade po- 
rém melhorou e salubrisouse muito 
... depois que» pertence aos francezes; 
tem hoje muitas ruas e vistosas pra- 
ças, entre outras a rua de Babazoun, 
é a praça do Governo. 

Esta praça, em dias de feira, offe- 
rece espectáculo verdadeiramente cu- 
rioso pela diversidade de trajos e íi- 
guras. De envolta com os mouros de 
largos turbantes, e judeus de manho- 
so aspecto, e kabilas de ar feroz e 
agigantados, o europeu não quebra a 
harmonia do (juadro. 

— Marrocos, sobre uma formosa 
chã coberta de palmeiras, é formosis- 
siraa de v6r-se ao longe, mas lá den- 
tro as ruas são estreitas e esquálidas. 
São notáveis o palácio imperial e seus 
jardins, três mesquitas, uma das quaes 
tem uma torre da maior belleza, e o 
Bel-Abbas, onde está o hos|)ilal para 
1500 enfermos. Dão-llie celebridade 
as suas fabricas de marroquins. — São 
pouco elevadas as serras do território 
de Tripoli, ha poucas correntes de 
agua, e muitas esplainadas safaras; 
ao passo í]ue Tunis é extremamente 
feraz, produz todos os fructos da eu- 
ropa meridional, e algunr> também 
das regiões do e(|uinoxio. As tâmaras 
de Tunis são as melliores de Africa. 
Tunis, muito visintia da Car'.li;igo an- 
tiga, é feia e doenli»; em quanto que 
Tripoli é a melhor cidade de Syria, e 
está cercada de formosos arrabaldes, 
entestando com o mar. 

3. Os argelinos parecera descender 
dos mouros da Aiulaluzia, aos quaes 
se misturaram os turcos (|ue forma- 
ram a raça guerreií.i. Kstão estas 
duas raças por tanta maneira confun- 
didas hoje, (pie a observação do fo- 
rasteiro difticilmente lhes discrimina 
diflerenças. 

— Os mouros, emules dos hollan- 



dezes no acelo, são no maiornumero 
industriosos e muito sóbrios: não co- 
mem, a quarta parte do alimento d'um 
europeu. O almoço das pessoas ricas 
é café ou chá, com fructos e limona- 
da. O repasto da noite é em todas as 
classes o mais importante. Só então 
se come carne. As senhoras mouris- 
cas regalam-se de comer ás vezes car- 
ne de càesinhos, porque dizem ellas 
que engordam com isso; ora é sabido 
que a nutrição é indispensável á bel- 
leza das damas mouras. Dizem que 
pelocommum são medianamente bel- 
las; mas aquillo de se dizer que os 
musulmanos pensam que assuaN mu- 
lheres não tem alma, não é verdade. 

— Ha muitas mesquitas era Argel. 
Todas tem á entrada uma fonte em 
que os crentes fazem seus lavatoiios, 
antes de entrarem ao sacrário: íem 
por cima um zimbório e um terraço, 
espécie de campanário terminado em 
crescente, sobre o qual o muezzin ar- 
vora uma bandeira quaiulo lá sobe a 
chamar os fieis á oração. Opaviuien- 
to é ricamente entapetado. São nu- 
merosíssimos os «cafésTí onde se en- 
contram mouros e árabes estirados 
em ottomanas, cachimbindo, beben- 
do café setn assucar, e jogando uns 
jogos muito análogos ao xadrez e da- 
mas, tudo isto ao som de musica qua- 
si intolei"avel em ouvidos civílísados, 
— Os argelinos, (jue rapam a cabeça, 
tem barbeiros para a cabeça como 
nós os temos para a barba, e as lojas 
dos barbeiros, são em Argel, como 
em toda a parte, o conlhiente dos va- 
dios, dos fabricantes de petas, e dos 
bandarrístas. 

lli'(l(u:aia. Aspecto da Bai-baria, Jú- 
lio Gcrard e os costumes tio leão. — 
Descri pção de Argel, de Marrocos e 
seus arredores. Território de Tunis 
e de Tripoli. — Costumes dos mouros 
e argelinos. Mes(|uitas e ft cafés i> dos 
argelinos. — Pôde dar-se desenvolvi- 
mento a este bosípiejo em duas ou 
ti"es lições, conforme o tempo dispo- 
nível. 

BÁRBAROS. (Veja ÍNVvsÃol 

BARCELLONA. iVeja UkspamiaK 



102 



BAR 



BAY 



BARCELLOS (Coiid»; dvj. Filho na- 
tural (1(5 el-roi D. Uimz. MortiMi em 
1351. AUribtiorn-llie os bibliopliilos a 
orgaiii.s;)(;âo (I<í iiin livro de. gciipalo- 
gias ijutí <'iii KUO foi publicido em 
Roma, com o lilulo de Nobiliário do 
condia D. l*i'dro, <; do (jiial se fez nu- 
tra edição 1111'iios estimada, em Ma- 
driíi, em HiíCi. O sor. Alcxaiidií; Iler- 
ciiiaiio dcsaiilhoia ra/.oavflmciite o 
comie de Darci^lios da exclusiva coor- 
denação das liuliagiMis, consideraii- 
do-a «livro, não dn uui liomfm, mas 
sim de um i)ovi) e de uma época:... 
espécie de |-t'gi;;lo aristocrático, cuja 
origem s(í vai perdei- nas trevas (|ue 
cercam o berço da monaichia...» (.17/?- 
movia sabre a origem jjrorciivl dos li- 
vros da linhagens). Também Ibe fo- 
ram altiibuidas as poesias ijue lord 
Sluart publicou em 18:23, em Paris, 
com a denominação i]ue encontrou no 
códice Cancioneiro do coUegio dos no- 
bres, e o snr. Varnhagen reeditou em 
1840. Não podem ser consideradas 
inlegralaiente do bastardo de D. Di- 
niz as poesias do Canciunciro. Bem 
que Iodas sejam modeladas pelo tom 
provençal, falla-lhes a uniformidade 
do estyio, e em uma d'ellas apparece 
assignado João VVíj, poeta coevo de 
el-rei D. Diniz. 

BARIUM. (Veja Metaes). 

BAR-LE-DUG. (Veja Loruaine). 

BARÓMETRO. (Veja Ar). 

BARON. (Veja Comedia). 

BARROS (João de). Nasceu em Yi- 
zeu em 1 Í'.)G, e falleceu na villa de 
Pombal em 1570. Ex.erceu lugares 
honiosos e lucrativos, durante os três 
reinados de D.. Manoel, D. João iii e 
D. Sebastião. É considerado historia- 
dor de primeira ordem e modelo de 
linguagem. As Décadas da Ásia são a 
obra que mais lhe perpetuou a glo- 
ria e a fama, e também a que mais 
proveitosamente nos pôde entreter em 
leitura convidativa. Nenhum escri- 
ptor do seu século enriqueceu tanto a 



pro.sodia lusitana, honrando simulta- 
neamente a pátria com a noticia dos 
seus fastos sempre arrojados, bem 
que nem sempre lieroii;os, na índia. 
Aos curiosos da anli;ía novella de ca- 
vallaria pi;sta agradável lição o Cla- 
riinunlo, e não são di; somenos inte- 
resst! para os moralistas a Knjiica pncu- 
ma (meicadoria espiritual) e o Dialo- 
go da ricio-ia rergonha. i)>, phibjlogos 
lambem são servidos com o variado 
en».'enho de tão eminente escriplor na 
Graiiimalica da liiigua jinrUigmza e 
(]arlinli'i para aprendi r a ter. 

BASALTO. (Veja I'i;i.Mnivos). 

BATATAS. (Veja Solaneas). 

BATRACIOS. (Veja Uei'T1S). 

BAYARD. (Veja Decimo-sexto sé- 
culo]. 

BAYLE, celebre escriptor francez 
(século XVII), natural do condado de 
Foix, creado no protestantismo, que 
os jesuítas lhe fizeram abjuiar na mo- 
cidade, mas a que voltou pouco depois. 
Em 1081, apparecendo um cometa, 
atacou a abusão popular que via no 
meteoro presagios ateri"adores. Quan- 
do o edito de Nantes foi revogado, 
combateu, escrevendo, a intolerân- 
cia de Luix XIV, e excedeu-se lan- 
to em ousadias de philosopho, (jue 
seus inimigos aproveitaram o azo de 
o despojarem da cadeira magistral 
que pr'ofessava. Começou então a 
compor a obra que mais celebridade 
lhe deu: o Diccionario hislurico o cri- 
tico, onde elle se compr-az exhumar 
as mais absui^da» opiniões robusteci- 
das com argumentos novos. Foi elle 
quem abriu a senda de Voltaire, pro- 
íligando^as demasias abusivas da re- 
ligião. Áquelle diccionario fulta uni- 
dade, systema, e imparcialidade. Day- 
le propende para o seplicismo, se não 
era séptico ao âmago, a despeito das 
suas circuralocuções. Observa-se, po- 
rém, n'este livro erudito, além de 
certo tino, a notável arte de fazer at- 
iractivas as mais árduas questões — 
d'oude provém utilidade a quem o 



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BEA 



103 



lêr, mormente se o leitor estiver obs- 
tinado em opiniões absolutas, e o 
seu espirito houver chegado á madu- 
reza, de modo que o espirito de nega- 
ção e zombaria não logrem seduzil-o, 
2. Um celebre orador, contemporâ- 
neo nosso, ajuizou assim de Bayle: 
«Houve um homem de tino superior 
6 eminente a quem, entre todos os 
talentos que engrandecem os ho- 
mens, só faltou o de não abusar d'es- 
ses dons; — espirito vasto e largo, 
que sabe tudo o que deve saber-se, 
que tudo quiz saber para pôr em du- 
vida e incerteza tudo o que se sabe; 
espirito destro no converter verdades 
em problemas, no confundir a razão 
com raciocinios, no radiar luz e gra- 
ça sobre assumptos escuros e abstra- 
ctos, no envolver em trevas os mais 
puros e simples princípios; espirito 
unicamente apontado a motejar o es- 
pirito humano; agora empenhando-se 
em escavar e remoçar os erros antigos, 
como quem força o mundo christãoa 
retomar os deliiios e superstições do 
mundo idolatra; logo, regosijando-se 
de aluir pelos alicerces os eri'os mo- 
dernos, ediílcando e arrasando com 
igual facilidade: por maneira, que 
não tira a limpo verdade nenhuma, 
porque tudo lhe sabe das mãos com o 
mesmo colorido de verdade, inimigo 
incessante da religião, já no ataque, 
já em a[)parente defesa, se desen- 
volve c para enredar, se lefuta é para 
obscurecer, se exalta a fé leva era mi- 
ra rebaixar a razão, se gaba a razão 
tem de propósito impugnar a fé. De 
Ibeor (jue, por diversas veredas, le- 
va-nos impeiceptivelmente ao mes- 
mo termo: — nada crôr, nada saber, 
desprezo da authoridade, menospre- 
ço da verdade, consultar a razão e 
não fazerd'ella cabedal.» — Kste con- 
ceito (juadivi bem com muitos philo- 
sophos do hoje em dia, qut; tudo dis- 
cutem, tudo provam, de tudo duvi- 
dam, excepto de suas pessoas, 

BÉARN. 1. Esta região foi outr'ora 
habitação dos Bénéharni, e foi senho- 
reada successivamontc dos roma- 
nos, godos, francos, vascões, ou gas- 
cões que todavia davam a suprema- 

VOL. I. 



cia aos reis merovingios. Por 819, 
Béarn foi viscondado hereditário, e 
passou da casa dos vi-condes de Ga- 
baret á de Moncade, depois á de Foix. 
Os viscondados de Béarn, e de Caba- 
ret, seguindo o destino do condado de 
Foix, entrararn na casa de Albret. de 
Borgonha depois, e foram aggregados 
á coroa de lYança por Henrique iv. 
N'um tracto de quinze b^guas depa- 
ram-se-nos três povos diversos: bas- 
cos, bearnezes e bigorrezes, cada um 
com seu lypo profund.i mente caracte- 
risado. O basco sobresahe por gran- 
de originalidade. Dizem que o seu 
dialecto é uma lingua-mãi, aparen- 
tada com as linguas asiáticas. Foram 
os bascos quem primeiramente se 
atreveu a arpoar a baleia no seio do 
oceano. Além de atrevidos nautas, são 
também pastores porgosto.eantepõem 
a tudo a ventura de errarem nas suas 
serranias. Andam armados de caja- 
dos á guisa dos bretões, e por jogarem 
a péla irão em cata (Pisso por vinte 
léguas fora. — O bearnez mais sim- 
ples, policiado, esperto, e igualmente 
corajoso, fará longas caminhadas para 
venderqualquer cousa insignificante, e 
pleiteará com a teimosia de norman- 
do. Os viandantes não se (jueixam da 
falta de probidade e cortezia d*esse po- 
vo, O bigorrez mais serio e forte que o 
bearnez, dissimula coui a pparencias de 
boçal expedientes que, do primeiro 
lance d'olhos, se lhe não persi-rulam, 
— O paiz do hom lIeniii|no conslilue 
hoje o departamento dos Baixos-Pyre- 
neos, cujo solo, pouco fértil, produz 
ainda assim cereaes vaiiados, vinhos 
de nomeada, madeiras para conslruc- 
ção e de mastreação, 

2, Baixos-PyrÉneos, capital Pau, 
Eis-aqui o }>fiii-hu'ÍA da Navarra 
franceza. O Louvre e as Tuiieries 
d'esta residência antigamente real, 
enconlram-se em seu ncIíio (asíelio 
no qual caila andar nos ilcsperla a 
memoria de lUiistres tacanhas. Vina 
bella escadaria de p(>dr.i aiiornada de 
llorões es(ul[)idos no gosto dn s(>culo 
XV, conduz ao primeiío pavimento, 
onde entre outros muitos licispedes il- 
Iiistrivs stí alojai am duas rainhas mui- 
to conhecidas: uma era .Margarida de 

8 



iOi 



BEA 



6EJ 



Navarra, a mais relfibrc das rainhas 
Maríjol; a oulr:i foi Joariii;) d'Albrnt, 
mài (lo IIfMnii|ii(» iv. a (jiial acaiidi- 
Iliava o piotcsliiiiismo e o exercito. 
No scfçiiiido amliir csiá Joariria ao pé 
da concha de larlaUi^M (|iie ;iinda ahi 
se Ví^ e (pie foi o herco de Henrique 
IV, S.ihimos iTesles apostMitos, vasios 
de tarilas 'florias, para o l(!rraço á ou- 
rela do rio. A nossos pés esteadc-se 
uma visla magnilii-a : logo em baixo 
eslá o Gavc e a praça do caslello, to- 
da arborisada e a cuja sombra se abri- 
gam os estrangeiros que saboreiam o 
doce clima de í*au; ao longe está um 
vallo delicioso onde asijoUiuas cari'e- 
gadas de vides produzem o perfuma- 
do vinho de Jurançon; em lim os Py- 
reneos surgem do seio do mar ele- 
vando-se pouco e pouco até formar ao 
longe uma niuralha ciixulnr era volta 
do l*k do Midi do Béarn, que é a pri- 
meira curiosid.ide natural do paiz. 
Tal é a perspectiva que se goza do al- 
to dos terraços d'esse histórico cas- 
lello, cercado dos mais bellos pas- 
seios que existem na Europa.— Bayon- 
na, fortificada por Vauban, é conhe- 
cida dos marinheiros por seu porto 
mercantil e militar; dos soldados pe- 
las baionetas invenladas debaixo de 
seus muros no anno lOiO, e de todo 
o mundo por seus presuntos. No xiv 
século uma espantosa tempestade en- 
tulhou o porto formado pela ribeira 
de VAdoíir, e esto pequeno caudal le- 
■vou a embocadura a ties léguas ao 
norte. Luiz de Foix, architecto do pha- 
rol de Cordouan, fez voltar a ribei- 
ra a seu antigo curso, e deu a Bayonna 
a sua bahia. As alêas maritiraas são 
um passeio de forma singular, senão 
única na Europa. Distendem-se, la- 
deadas de arvoredo, era feitio de mo- 
lhe. D'um lado eníileiram-se grandes 
edifícios de commercio activo; do ou- 
tro alleia-se um cães magestoso, on- 
de se amarram navios de toda a par- 
te. A oito kiloraetros de Bayonna, á 
beira-mar, as curiosidades de Biar- 
ritz são de outra natureza. Em parte 
alguma o golfo de Gasconha alcanti- 
la mais furiosos vagalhões. A própria 
maré se levanta ahi extraordinaria- 
mente, e quando ventos do norte ou 



oeste a embatem, quebra cora espan- 
toso estam[tido. A ":a<la instante, nos 
imaginamos (ira camio de batallia en- 
tre os horrores d.i aildlp-ria : tal é o es- 
tridor da vaga espiim:inle, chofran- 
do nos penhascos e rolando nas pro- 
fundas cavernas, por onde vai re- 
boando em continuadas explos(3es. A 
estiada de P.iu a L;iruns coruluz ás 
aguas iniiíeratis dos Baixos-Pyreneos. 
São adrairaveis as raonlanhas, flores- 
tas e rios fjue se top ira. Quera pro- 
longar a jornada por algura dos dous 
vallesinhos lateraes ipie se abrera no 
valle de Lariins, ou vai dar ás Enu.r- 
hitnwa ou ás Emix-diaudes. Ahi se en- 
contrara as pittorescas estancias de 
Baréges e Cauteretz. cujos despe- 
nhadeiros são horridaraenle pro- 
fundos. — N'esta lição, que se man- 
dará redigir, vera a pello contar pelo 
alto a historia de Henrique iv. 

BEAUV.\IS. (Veja Ilha de França). 
BÉCHER. (Veja Ciiimico). 

BEJA. A fundação (Pesta cidade at- 
tribue-se aos celtas, os mais antigos 
povoadores das Hespanhas de que ha 
noticias. Dizem que os carlhaginezes 
a occuparam ; poréra o que é fora de 
toda a duvida é que, senhoreada pe- 
los romanos, esteve muitos annos sob 
o seu domínio; e tanto floresceu n'es- 
sa época, que logrou a preeminência 
de ser um dos três conventos jurídi- 
cos da Lusitânia. 

Destruido o império romano, este- 
ve sujeita primeiramente aos suevos, 
e depois aos godos. 

No começo do século viii, correndo 
o anno de 715, seguiu a triste sorte 
das mais terras da península, rece- 
bendo o jugo musulmano. Depois, 
n'esta luta gigantea, e sem tréguas, 
que durante séculos fez de todo o so- 
lo das Hespanhas um vasto campo de 
batalha, correu fortuna varia a cida- 
de de Beja, sendo agora chrístã para 
logo ser outra vez moura. O primei- 
ro rei catholico que a disputou e ga- 
nhou aos árabes foi D. Affonso i, rei 
de Leão e das Astúrias, no anno de 
175. Betomada pelos sarracenos foi 



BEJ 



BEL 



105 



novamente resgatada por D. Ordo- 
nho II em 91 i, que a perdeu pouco 
depois, tornando a ser recuperada em 
1038 por el-rei D. Fernando Magno. 
Cabida de novo em poder dos árabes, 
conc|uÍ8lou-a primeira e segunda vez 
o nosso rei D. Affonso Henriques, em 
1155, e em 116^2. Desde esse tempo 
íicou para sempre chrislã. 

Não se sabe o nome que teve ante- 
riormente ao dominio dos romanos. 
Júlio César deu-lbe o nome de Pax- 
Julia em com memora ção da paz que 
acabava de celebrar com os lusita- 
nos. 

O seu successor Octaviano Augusto 
quiz que se chamasse Pax-Aíigusia, 
porém o primeiro é que prevaleceu, 
e se conservou até á invasão dos mou- 
ros, que o foram corrompendo em 
Paffté, depois /?r/r?<. e finalmente Beja. 

Pelo eíTeito das guerras que pade- 
ceu foi-se despovoando e empobre- 
cendo, de sorte que no tempo dos 
nossos primeiros reis estava reduzida 
ás condições de uma pequena villa. 

EI-rei*D. Aííonso m deu-lhe foral, 
e cercou-a de muros em 1253, e el- 
rei D. Diniz mandou-a povoar, eedi- 
ficou-lhe o castello. 

D. João II fêl-a cabeça de ducado 
em favor de seu primo D. Manoel; e 
este principe, tendo-lho succedido no 
tlirono, elevou Beja á sua antiga ca- 
tegoria de cidade em 151-2. O infante 
D. Luiz, segundo lilbo d^el-reiD. Ma- 
noel, foi creado por seu pai duque de 
Beja, e desde enlão íicou pertencendo 
este titulo aos liilios segundos dos 
nossos reis. Ttmdo determinado o im- 
mortal duque de Biagariça, o snr. D. 
Pedro, quando foi regenlo na meno- 
ridade de sua augusta tillia, que, em 
galardão á cidadí! do l*orto, se intitu- 
lasse duque (Fella o lilho segundo do 
monarcha porlugiiez, passou o duca- 
do de Beja para o iininediato. 

Beja é sédíí episcopal, e capital de 
um districlo adminÍNtrativo na pro- 
víncia do Aiemtejo. Kstá siluad;i em 
um terreno alto, i\\u^ de muita distan- 
cia v.ii subindo gradual equasi insen- 
sivelmente. Dista de Kvora onze lé- 
guas p;ira o sudoeste, e (piatro de 
Serpa para o noroeste. 



Divide-se a cidade em quatro pa- 
rochias, todas anteriores ao século 
XIV. A mais antiga é a matriz. Santa 
Maria, chamada da Feira. É tradição 
que fora mesquita dos mouros. Está 
no centro da cidade. 

Partp das muralhas conservam-se 
ainda em bom estado. Em toda es- 
ta côrca de muros abriam-se sete por- 
tas, de que existem cinco, chamadas : 
de Évora, fie Aviz, de Moura, de Mer- 
tola e de Aljustrel, pelas quaes sabem 
as estradas que conduzem ás povoa- 
ções que lhe dão o nome. 

Beja tem muitas casas nobres, mas 
não possue fonte alguma. A agua de 
que se abastecem os seus moradores 
é tirada de poços; porém é de excel- 
lente qualidade. 

Os arrabaldes não são formosos, 
ponjue consistem em dilatadíssimas 
campinas, sem accidentesde terreno, 
e cuja principal cultura é trigo. Em 
compensação, a sua fertilidade é ex- 
traordinária. Além de trigo e outros 
cereaes, abundam em azeite, algum 
vinho, e grandes montados onde se 
criam muitos rebanhos. Todos aquel- 
les contornos são ricos de caça va- 
riada, e de mineraes. 

A posição elevada da cidade, e de 
mui suave accesso, dá-lhe a vanta- 
gem de gozar de puríssimos ares. A 
10 de agosto faz-se na praça de Beja 
uma feira mui concorrida, e de gran- 
de commercio. A população eleva-se 
a cinco mil e trezentas almas. 

BELFORT. (Veja Als.\ci.\). 

BÉLGICA. A Bélgica é paiz geral- 
mente plano, tiiante o Hainaut e a 
província de Namur, onde as Ardeu- 
nas prolongam suas ramiíicaçôes. Su- 
perabundíira ahi os brejos, e as ribas 
mirilimas descem do nível do mar. 
O solo, delgadíssimo nas províncias de 
LiégeeLiiuhourg, é ubérrimo em Flan- 
drese Hainaul. Prosperam a agricultu- 
ra e indiislría; mas a inslru("ção está 
em maior atrazo (pie na llollanda. Os 
hahilanles, poslo que sejam uumero- 
sí>;simos, vivem ahastadiiuiente. — Os 
belgas são laboriosos, alTabilíssimos, 
francos, e muito alTecios aos france- 



lon 



D KL 



BEL 



zes, ciij.i liii{,'iia faliam, r com qiinin 
esliviíram tnii^orpuraiios pur espano 
dti (jiiasi viiilt! aiiiios. 

2. «ííSnixcllas cslá fidilir.ailíi sobre 
terreno aíícidtíiilado, d'oud(í lhe vem 
o escarp ido de imiilas de suas ruas. 
A cidade baixa, menos sadia e re^çii- 
lar, eiicei ra inuilas casas de arcliile- 
cliiia goUiK^a; mas o bairro, coiiliiiÇiio 
ao l*arc, passeio esplendido ornado (b; 
(isialiias de mármore, bfni laij^as ruas, 
bem aliiiliailas, e, casas muilo ele^çan- 
les... \inaisbella das |)raças é a lleal, 
cujo recinlo (|uadraiigiilar eslá entre 
a iiicbada da itíreja de S, Jacques de 
CadembeiK, muitos palácios mai^niti- 
cos, c (luatro vtsstibiilos. A «(liMiide- 
Place» tem diveiso aspecto; rodeiam- 
iia ilinVreniiíseslylos de architectura : 
hespanbol, llamengo egolhico. A prin- 
cipal é a casa da camará, llan(]u>^ada 
por cinco torres bexagoiias, encimada 
de um campanário, coroado com a es- 
tatua de S. Miguel, de bronze doura- 
do, de altura de dezesete pés, roílan- 
do sobre um gonzo á menor bafagem 
de ar. lU'gam a cidade numerosos 
chafarizes, todos aformosenlados de 
escuipiuras, e sustentados por uma 
mãi-d'agua, situada a um terço de lé- 
gua das barreiras da cidade. A orla 
do canal (jue prende o Rupel ao Es- 
caut, está a «Allée-Verte» deleitoso 
passeio, com t!'inta avenidas que or- 
çam por meia légua de comprimento, 
sendo a central, destinada aos trens 
e cavalleiros. É frequentado diaria- 
mente; mas aos domingos imita o 
brilhante espectáculo de Longchamp 
em Paris. Prolongam-se-lhe as suas 
formosas alêas até Laecken, pouco 
áquera da cidade d'aquelle nome, on- 
de os brnxellezes ricos lêem quintas, 
e o rei possue um parque e magnifico 
palácio, onde reside no verão.» (Malte- 
jjrun). — Dicte-se a segunda lição, e 
aprenda-se de cór, resumidamente. 

BELISARIO. (Veja Sexto século). 

BELLADONA. (Veja SOLANEàs). 

BELLO (0). ' O «bello» é o esplen- 

' Não hesitei em aceitar da antlioridade de Al- 
meida Garrett a nacionalisação d'esta pafavra, no 



dor da verdaile, segundo Platão; eslá 
na ordem e [larmonia das partes, no 
dizer de Arislolebís, e na perfeição, 
conforme Leibnilz. O Diccionaiio da 
Academia deline assim o termo: O 
<ib(!llo» é aquillo cujas [uoporcòes, 
formas e c()ies agradam á visia e cau- 
sam admirarão. O estudo do «bidlo» é 
já sciencia (special (pie recebeu nome 
de estheiica (<lo grego aistlifsis, sen- 
timento). — '(l"jin oííras de espirito, de- 
nomino 'íbello)), não o que agrada ao 
primeiro lançar de olhos da imagina- 
ção em certas ijisposicòes particula- 
res das faculdades da alma ou órgãos 
cor|)oraes; mas sim o que tem direi- 
to de agradar á reHexão e razão por 
sua excellencia piopria, lustre e har- 
monia, ou, por assim dizer, agrado 
intrínseco... Distingo Ires espécies de 
«bello» : o essencial, que apr.iz ao es- 
treme espirito, sem depemlencia de 
instituição alguma ainda divina ; o na- 
tural, que apraz ao espirito, em união 
com o corpo, sem dependência de 
nossas opiniões e gostos, mas cora ne- 
cessária dependência das leis do Crea- 
dor que são a ordem da natureza ; o 
artificial, que apraz ao espirito pela 
observância de certas regras que os 
sábios estatuíram sobre bases racic- 
naes e experimentaes como directo- 
ras em nossas composições. — Primei- 
ramente, qual c o (^bello;) essencial, 
primitivo eoríginal?... Um orador fa!- 
la-nos de viva voz ; um author falla-nos 
por escripto: o primeiro dirige-se ao 
publico, o segundo dirige-se não só 
ao publico, mas lambem á posterida- 
de. Que lhes cumpre fazer para me- 
recerem os sutlragios de tão respeitá- 
vel auditório? Que se requer d'elles 
desde a origem das leiras até hoje ? 
Que se lhes demanda em todos os 
paizes desde os confins do oriente, 
onde a eloquência nasceu, até ao oc- 
cidente, em que ella attingiu a per- 
feição? E, presentemente, qne é o que 
lhes pede o brado unisono da razão? 



sentido em que os francezcs a empregam. Nas ar- 
tes plásticas, na esthetica, é já tão corrente, que o 
substituir-Uie a idéa com outra ou outras expres*- 
soes nos pareceu inútil purism'"i. 

-V. do T. 



BEL 



BEN 



107 



Verdade, ordem, honestidade e de- 
ceijcia. Eis o «bello» essencial que to- 
dos naturalmente procuramos nas 
obras de espirito... — Se todos os nos- 
sos ouvintes fossem puras intelligen- 
cias, ou, pelo menos, pessoas mais 
razoáveis que sensíveis, bastar-nos- 
hia expôr-lhes a verdade estreme pa- 
ra contenlal-as. A verdade só de per 
si, com seu brilho, e ordem de prin- 
cípios que a demonstram, e de conse- 
quências que de si radiara como raios 
do sol, bastaria ao encanto dos ou- 
vintes. Nas obras mathematicas não se 
requer outra belleza ; mas, em a maior 
parle dos nossos discursos, temos que 
entender com homens muito mais 
sensíveis que razoáveis, que só que- 
rem entender o qne podem imaginar, 
que pensam não perceber o que não 
possam sentir, que só se deixam per- 
suadir por sentimentos que os trans- 
portem, em summa, a ouvintes que 
presto se enfadam de discurso que 
Ities não falle á phantasia ou ao cora- 
ção... É pois necessário igualmente 
dizer verdade que contente o animo 
e entrajal-a de imagens que captem 
a imaginativa, de sentimentos que 
movam o coração, e animal-a de ges- 
ticulação conveniente a incutil-a mais 
poderosamente na alma. Por tanto, o 
«bello» natural, pois que se funda na 
pro|)ria constituição da nossa nature- 
za, divide-se em Ires espécies: o «bel- 
lo» nas imagens, nos sentimentos, e 
nos movimentos. O «bello^^ artificial ou 
arbitrário, assim dito por que até certo 
ponto impende das instituições huma- 
nas, das regras do discurso, do génio 
das lingnas, gosto dos povos, e, mais 
ainda, do engenho particular dos au- 
thotes, ('. pi0[)ria mente a bplleza que, 
em obras do espirito, resulta do agra- 
do d;is ex|)ressões. Ora, eu distingo 
no corpo do discurso três pailes que 
lhe são elementos: a expressão, o bo- 
leio, e o eslylo : a expressão ípie trans- 
mitle o pensamento, o boleio ipie Ibe 
pule a forma, e o eslylo ipie a desen- 
volve ãs diversas luzes adaptadas ao 
intuito do orador. Claro ('', pois, (|ue 
estes três elementos do discui'so de- 
vem ter belleza própria cada um de 
per si... Tal é, se me não engano, a 



idéa snmmaria do "bello» nas obras 
do espirito. » 

BENEFICÊNCIA. A beneficência é 
parte da justiça. Não ha virtude que 
melhor diga com a natureza humana. 
Os homens mais perfeitos são os que 
se consideram obrigados a soccorrer, 
defender, e salvar os outros. É. toda- 
via, necessário haver cautela e juizo 
na escolha dos homens dignos de soc- 
corro. Judiciosamente disse Ennio: 
«Um beneficio mal empregado, é, a 
meu vêr, uma acção má.» E Horácio: 
«Quero que o homem, verdadeira- 
mente liberal, dé á sua pátria, aos 
seus alliados e amigos, mas aos seus 
amigos pobres; que ha uns ricos que 
só presenteiam aquelles que podem 
dar. Isso não se chama dar; é antes 
com dadivas cavilosas, que escon- 
dem a isca e o anzol, usurpar os bens 
de outrem. A beneficência é pressu- 
rosa : de prompto se faz o que se faz 
de boa vontade. Quem se demora em 
bem fazer vai nMsso apoucado de co- 
ração. Sevos antecipaes aos meus ro- 
gos, duplicaes a minba gratidão. Se 
me houvesses dado sem demora seis 
mil sestercios, Xanto, dizendo-rne 
«aqui os tens», eu te ficaria na obri- 
gação de duzentos mil; porém, como 
este serviço chegou depois de me faze- 
res esperar muito, queres que te eu 
diga a verdade inteira? Perdeste osseis 
mil sestercios. Dobra-se o beneficio 
qua ndo se acode ao indigente im media- 
mente.» — Ha muito quem favoreça 
quem lhe pede, sem discernimento 
nem medida, levado de sua phanta- 
sia, como de uma lufada de vento sú- 
bita. Taes serviços não tem certa men- 
te o valor dos (|ue se preslam cora 
refiexão e escolha. Se um homem 
honrado é rico sem desfah^ar nin- 
guém, não deve aferrolhar see.s ha- 
veres como avarento, nem esban- 
jal-os como pródigo. \S^ aos infeli- 
zes honestos e aos (|ue possa tornar 
bons. Soccorrerei uns (]uenão devem 
eslar em miséria — diz elle — não da- 
rei a outros, porque, ainda qne eu os 
favoreça, pediíão sempre. OITerece- 
rei a uns, e até forçarei outros a re- 
ceberem. Quer seja francez, ingleís. 



108 



BEN 



BEN 



011 ilaliano, (jue monla? onde ijuor 
(juc eslá um pubre, cslá o lugar da 
caridade. Darci ao pobre lujiie.slo, 
sem aml)i(;ão de pioveilo, prazer ou 
gloria. Dando, cumpro um dev(ír. — 
<iSe eu fosse arlisla, [)iiilaria a bene- 
ficência v(!lada como o i'udor, com 
um dedo poslo nos lábios como o Si- 
lencio, e a (jralidão com uma liom- 
bela como a Fama.» (De Srgui). 

2. Timão de Albcnas, Ilibo do ce- 
lebre Milliades, nobililou-se lapida- 
menle na plana dos magnates, bon- 
rado por sua sciencia de (breilo civil 
c da milicia. Quando sabia, levava 
dinbeiro para soccorrer sem dilaçãD 
os necessitados, entendendo que o 
adiar fosse recebido como recusa. 
Todos os pobres contavam com o 
prompto auxilio dos seus favores. Fez 
sepultar muitos pobres que nào ba- 
viam deixado o estipendio da sepul- 
tura. Não admira, pois, (jue tal vida 
corresse abrigada de insidias, e os ci- 
dadãos llie pranteassem a morte, — 
Pisistrato exercitou a máxima equi- 
dade em Atbenas no uso da sobera- 
nia que usurpara. Não liouve melhor 
cidadão, se lhe perdoarem a paixão de 
governar Quando encontrava vadios a 
passearem nas praças, chamava-os, e 
pergunlava-lhes a razão da sua ocio- 
sidade. Se lhe diziam que careciam 
de pão e utensílios de trabalho, dava- 
liros, e despedia-os, mandando-os 
trabalhar. — Alexandre Severo assen- 
tava os soccorros que prestava; e, se 
sabia que alguns necessitados lhe pe- 
diam pouco, ou nada lhe haviam pe- 
dido, charaava-os, edizia-lhes: ftPor 
que não me pedes nada? Queres que 
eu seja teu devedor?» —Alexandre, 
o Máximo, offerecendo a alguém o 
presente de uma cidade, teve como 
resposta uma recusa, em razão — di- 
zia o recusante — de não convir tal 
brinde á sua modesta posição.» — 
Nào lenho nada com o que te convém 
possuir, mas com o que me convém 
dar-te — respondeu o rei. — «O phi- 
losopho Arcesiláo tinha um amigo en- 
fermo que dissimulava sua penúria. 
Entendendo que devia soccorrel-o a 
occultas, introduziu-lhe sob o traves- 
seiro um saquinho de dinheiro a fim 



de que o doente, tão mal servido de 
suas demasias de pejo, parecesse en- 
contrar, e nao receber, o de que tan- 
to havia mistfF. Dando tino do dinhei- 
ro, exclamou o doente: «Cá eslA uma 
artimanha de Arcesiláo. j) D'outra fei- 
ta, o mesmo plulosopho, queicndo fa- 
vorecer um homem de bem, indigen- 
te, eniprestou-lhe, muito de industria 
uma baixella de ouio para hospedar 
uns amigos; e, quando lh'a elle ijuiz 
restituir, nào a recebeu. (Veja Ks- 
MOi.A e Gratidão). 

Depois de lidas ou expostas as duas 
lições, pôde maridar-se resumil-as, 
tomando como lliema as palavias de 
Horácio e os pontos essenciaes da se- 
gunda lição. Como lição de historia, 
dir-se-hão de passagem alguns traços 
dos personagens citados e da época 
em que viveram. 

BENEVOLÊNCIA. 1. «A modesta e 
doce benevolência é não só virtude, 
sentimento, dever e prazer; mas tam- 
bém é muitas vezes um attribulo que 
dá mais amigos (jue a riqueza, e mais 
credito que a força... E a mais amá- 
vel qualidade, sem a qual o mereci- 
mento inspira simplesmente um frio 
respeito, e o mais bello talento uma 
estéril admiração. Podemos ter quasi 
a certeza de que, onde ella brilha, a 
maior parte dos vicios é repulsa ou 
vencida.» (Conde de Ségur). — «É na- 
tural da alma grande amar aquelles 
mesm>osque a oiíendem. Amal-os-has, 
se pensares que és seu parente, que 
por ignorância e a pesar seu, proce- 
dem mal, que dentro em pouco sereis 
todos mortos, sobre tudo que nenhum 
mal te fizeram porque a tua alma não 
se desceu de seu valor. Quando al- 
guém te molestar, medita logo na opi- 
nião que esse deve ter do que é bem 
e do que é mal, para bem ajuizares 
do grau da culpa. Reflectindo assim, 
senlir-le-has compadecido, em vez de 
irritado; por quanto, se tu és da opi- 
nião d'elle acerca do bem e do mal, 
ou és d'outra que se assemelha á sua, 
deves perdoar-lbe; e no caso inverso, 
mais facilmente te será perdoar a um 
homem que apenas encarou mal as 
cousas. — O melhor modo de nos vin- 



I 
i 



BEN 



BEN 



109 



garmos dos inimigos é não nos pare- 
cermos com elles.» (Marco Aurélio). 
2. A benevolência é uma qualidade 
que Ioda a genle parece allribuir-se, 
6 que todavia é raríssima. Os que a 
tem são amados, estimados, persua- 
sivos, e com pouco esforço produzem 
grandes resultados. É muito rara esta 
excellente qualidade, porque envolve 
muitas virtudes. O homem benévo- 
lo mitiga as dores alheias, e adiviuha 
as precisões do próximo, denotando 
nos olhos e nos gestos que será feliz 
podendo favorecer seus irmãos. A be- 
nevolência calculada não tem estes ex- 
teriores: é praticada como dever que 
não tem recompetisa na ternura da al- 
ma. Distingamos pois em nossos tilhos 
a benevolência hypocrila da simples e 
franca, que se f;iz bem-crêr natural- 
mente, e a fim de Ufa inculcarmos re- 
commendemos-lhes Iodas as virtudes. 

— Principiemos por dar ao nosso 
alumno exemplos da benevolência, 
cultivando-lhe a disposição innata ao 
aíTecto e sympathia de tudo que o ro- 
deia, tornando-lhe meigas e fáceis 
todas as rclaçõns da vida. O nosso 
alumno irá ganhando maneiras affa- 
veis; tudo o que o cerca será alumiado 
docemente pela sereniilade de sua al- 
ma; se tem irmãos e iimãs,amal-as- 
ha, sem imaginar que seja possível 
não as amar. AíTccluoso c serviçal para 
os seus e para os de fora, obedecerá á 
lei da caridade: »íAnia o teu próximo 
como a ti mesmo; amai-vos uns aos 
outros como eu vos amei.« 

BENS, BEM. Juridicamente cha- 
mam-sc bens ludo o que o homem 
pôde possuir, e o código civil os divi- 
de em moveis e immoveis. Moralmen- 
te chama-se hcin tudo que pude o ho- 
mem [iictender. (! iuiui vem distinguir 
o bem pliijsiro, (|ue |)óde ser ulil ou 
agradável ao homem, (; o hi ni ninral, 
isto é, o l)oni, o honesto (jue com- 
prehende tuilo (]ue o homem a[q)i-ova 
conformcmíMile ao dever. (Juanto ao 
soberano bem, sobre ipie tanto se ha 
ilis[)ulii(lo, não ha eti(U)nlral-o f(M'a da 
harmonia (la felicidade com a virtude. 

— Como a felicidade é a maior somma 
de bens a que podemos aspirar, esco- 



lher inlelligentemente os bens que 
mais nos aproximem a felicidade, é on- 
de bate o ponto. Ora, bem real não de- 
vemos julgar aquelle que nos deterio- 
ra, altera ouconompe, pois tanto mon- 
ta derruir os fundamentos da nossa fe- 
licidade. Sob este aspecto, gloiia, hon- 
rase riquezas não passam de bens ap- 
parentes, pois que tantos sábios hou- 
ve que na pobreza e obscuridade lo- 
graram a felicidade e paz, que não ti- 
nham achado na suprema escaleira da 
fortuna. Ha bens duradouros e bens 
transitórios. Ainda que possamos usar 
legitimamente os segundos, daremos 
aos outros a preferencia, porque, sen- 
do continuados, nos podem grangear 
maior copia de gozos. lia beusgeraes 
e bens particulares. Consoante ás 
leis de ordem e razão que subordinam 
as parles ao todo, e conforme á pre- 
ferencia que devemos aos bens mais 
excellentes que podemos alcançar, 
cumpre-nos preferir o bem conimum 
ao particular. nMostrem-me — diz Vol- 
taire — um paiz, uma companhia de 
dez pessoas sobre a teria, onde aquil- 
lo que é útil ao bem commum não se 
prefere, e então convirei que não ha 
regra natural.» {Mclapínjsica, cap. 5). 
2. «O melhoi- meio de achar o bem 
é buscal-o sinceramente, e não se bus- 
ca longo tempo sem subirmos ao au- 
thor de lodo o bem.)> (I. J. Rousseau). 
— «O bem é fácil de fazer; o (jne é 
difiicil é querei" firmar [lor momen- 
tos a vontade movei e lliicluanle do 
homem para a coiigraçar com a eter- 
na e immulavel vontade de Deus. Os 
homens não udeiaip. nem podem odiar 
o bem; mas tem-lhe medo.^i (De Bo- 
nald). — <nOs maus iravam-se de mão 
para fazerem o mal; e por(|ne é iiue 
os bons se não mancommunam para 
fazerem o bem?" (Silvio l'ellico). — 
«O que d'esla vida levamos é a per- 
feição ([ue demos á nossa alma : o (|ue 
deixamos é o bem ijue tizeiíios ai|iii.» 
(.loiílTroy). — wO homem ilf bem nãoé 
o inseiisivel estóico : a viiliide não dá 
a impassibilidade ; mas, se elle está en- 
fermo, é menos lie laslimar que o mau 
em doença ; se eslá indigente é menos 
desgraçado ipie o mau na miséria; se 
está de.sgraçado não succumbe tanto 



110 



BER 



BER 



como o perverso no iriforlunio.» (Ba- 
rão (J'Holhacli).— «Um liomem de bem 
não aclia ulil o que é deshoneslo, e 
nunca llio aconlece pensar ou fazfir 
cousa (jiKí não possa afoiílamciito mos- 
trar a Ioda a {ícnle.» (Cícero). — «Os 
verdadeiros bens não são riquezas, 
mas sim virludcs (\\w. a conscioncia 
leva conisigo para com cilas formar o 
seu elerno lliesouro.» (S. Bernardo). 
— «Os liomciis são a|iíMias os mordo- 
mos de seus bens... Deus, soljcrano 
Senhor d'elles, confiou-os aos ricos 
para remédio dos pobres.» (S. Chry- 
sostomo). 

Dicle-se a primeira lição e ampli- 
íiquem-sfi em escripla os diversos 
pensamentos da segunda. Pôde ca- 
da aulhor dar um assumpto de dis- 
sertação; sendo preciso podem entrar 
dous em cada composição. (Veja Mal, 
Eloquência, Biietorkia, etc.j 

BERLIN. (Veja Prússia). 

BERNARDES (Diogo). Natural de 
Ponle do Lima, ou da Ponte da Bar- 
ca, nasceu enlre 1530 e lõiO. Acom- 
panhou a Madrid ura embaixador de 
D. Sebastião, rei de Portugal; seguiu 
o mesmo rei a Africa, onde ficou ca- 
ptivo. Resgatado e regressado á pá- 
tria, aqui viveu alguns annos, e mor- 
reu em IGOf) ou lliUti, segundo as ave- 
riguações (los biographos mais zelosos 
d'este notável poeta. São ainda lidas 
com merecida estima as composições 
métricas de Diogo Bernardes, que an- 
dam colleccioiíadas sob os títulos O Li- 
ma, e Varias 7imas, quasi todas ascé- 
ticas. Posto que alguns críticos de- 
preciem o merecimento d'este poeta 
louvado de António Ferreira e Sá de 
Miranda, o insigne avaliador Almeida 
Garrett conceilua-o com estas expres- 
sões : «Sobreviveu a todos estes (Ca- 
minha, Ferreira e Corte Real) e á pá- 
tria, que não tardou a perecer, o sua- 
ve cantor do Lima, que levado por D. 
Sebastião para testemunhar seus altos 
feitos, de que devia fazer um poema, 
perdeu-se com seu rei e jazeu captivo 
em Africa. Bernardes foi excellenle 
poeta, e com quanto sua linguagem é 
pobre, e em geral pouco variadas 
suas composições; a suavidade de seu 



estylo, certa melancolia de expressão 
(|ue lh'o requebra e embrandece, da- 
rão sempre a Bernardes um lugar 
muilo dislinclo na lilteralura portu- 
^w/.-à.>'{IU)s(fU(j() tia liisloria dapoesia 
e lilteralura porlwjueza). 

BERNARDES (Padre Manoel). Nas- 
ceu em Lisboa aos vinte de agosto de 
ilVí i. Craduou-se em pbilosophia na 
universidade de Coimbra, e tomau 
grau de bacharel em direito pontifício. 
Entrou depois no cuiso tlieologico ; e, 
ordenado [)resbylero, recolheu-se á 
congregação doOratorio, fundada n'es- 
te reino pelo padre Barlholomeu do 
Quental. Estudou e escreveu por es- 
paço de trinta e quatro annos as va- 
riadas obras (jue andam hoje nas 
mãos de lodos os estudiosos, particu- 
larmente d'aquelles que desejam co- 
nhecer o que mais rico pôde saber-se 
da língua portugtieza. A Nova flores- 
ta. Luz e calor, Ullinios fitis do homem, 
são cofres de selecta linguagem que 
sobreexcede os primores do padre 
António Vieira, na pureza das vozes, 
no torneio da dicção, e na graça inex- 
cedível. 

Ao cabo da vida, padre Manoel Ber- 
nardes, apôs a irradiação de tanta 
luz, perdeu a razão, apagou-se-lhe 
aquelle altoentendimenlo,fez-se á vol- 
ta d'elle a treva da morte moral, como 
em recamara da sepultura. São ini- 
mitáveis as paginas em que o prínci- 
pe dos clássicos e poetas modernos 
em Portugal, o snr. visconde de Cas- 
tilho, descreve os dous annos de ago- 
nia do seu digno mestre: «...livros fe- 
chados e inúteis, manuscríptos in- 
completos ao pé do tinteiro secco e 
da penna mirrada, uma phrase elo- 
quente por ventura deixada em em- 
bryão; diante de tudo isto e sem o 
comprehender, e por espaço de dous 
annos! oito estações! vinte e quatro 
mezes ! perto de oitocentos dias e ou- 
tras tantas noites ! com o mesmo tra- 
jo ! com o mesmo rosto! com ainda 
mais cãs... o homem a quem todos 
invejaram, de quem todos aprende- 
ram, fechado sobre si como um livro 
de sete sellos, como um enigma, como 
um desengano, como uma arvore sec- 



BER 



BER 



lil 



ca do raio, mas ainda em pé, como a 
frontaria inteira de um templo abra- 
zado, como um retrato vivente de si 
mesmo, como um jazigo da alma com 
um nome refulgente, e em vez de um 
aqni jaz, um aqui está, aqui vive, e 
aqui padece. 

«A ignorância de si e do mundo é no 
menino uma cousa graciosa, no ve- 
lho, uma cousa tremenda; no meni- 
no é a escuridão, em que se esconde 
o gérmen da alvorada, no velho é a 
primeira treva da noite, que de mi- 
nuto para minuto se engrossa, se es- 
fria, se povoa de medos ephantamas. 
Grande desengano para os vaidosos 
do seu entendimento ! como se o en- 
tendimento fosse mais nosso ou mais 
privilegiado que a formosura, que a 
saúde, ((ue a força, que a riíjueza, que 
a fama ! 

(íA ultima obra pois do padre Manoel 
Bernardes, e não a menos instrucliva, 
foi aquelle mudo sermão de dous an- 
nos contra as vanglorias terrestres, 
em que tão irrefutavelmente provou 
que o espirito podia também ser Job 
assim como o corpo, e de peor condi- 
ção que Job, pois, do seu muladar, uma 
vez cabido n'elle, já nunca mais se 
alevanlará. 

«Por passos contados procedeu esta 
sua longuíssima agonia. Foi a princi- 
pio só entibiaraento das faculdades 
intellectuaes, sobrevivendo-lhes o fer- 
vor das i)raticas religiosas, como se 
vê pelo mar liso resvalar uma galé, 
obedecendo aind.i á impulsão dos re- 
mos, já largados do punho. Depois 
anoiteceu-se ainda mais o siso; foi-lhe 
pi'oliibi(lo pelos superioies o celebrar 
o incruento sacrifício. Chorou, implo- 
rou, amesquinhou-se, rendeu-se... e 
succunibiu. Uegrad.ulo do cxercicio 
das ordens !... pridiibido de tocar nas 
aimas o soldado velho, (jiie tantos an- 
nos defcndeia invencível o estandar- 
te!... de{)ois, assim como as idéas 
mais altas lhe tinham ido tl('sap[ia- 
recendo, se lhe foram apagando até 
as mais comuiuns, ale as das iin[ues- 
sões immedialas, alé as do inslincto ; 
via c ouvia, mas não enleiulia, nem 
conhecia ; o mundo era paia elle o (jue 
elle era para o mundo, um myslerm. 



uma canceira, talvez um enfado; de- 
pois a 17 de agosto de 1710 acabou 
de expirar; que foi, como bem pode- 
mos presumir, voar do cárcere, car- 
regado com as palmas de confessor e 
martyr, para a pátria onde os fructos 
se colhem do que na terra se cultivou. 
«Foram sepultados os seus restos 
mortaes na antiga casa do Espirito- 
Santo, arrasada d'ahi a quarenta e 
cinco annos pelo grande terremoto, 
substituida no mesmo lugar com a 
elegantíssima igreja, riscada por Lu- 
dovice, filho, srbstiluida hoje, depois 
de outro terremoto grande, com as 
casas de prosaica frontaria do snr. 
barão de Barcellinhos.» {Noticia da ri- 
da e obras do padre Manoel Bernardes). 

BERNARDIN DE SAINT-PIERRE. 
Nasceu no_ Havre, aos 19 de janeiro 
de 1737, É um dos mais amáveis es- 
criplores que honram a litleratura 
franceza. Madrugou-lhe decisiva a vo- 
cação. Tinha oito annos, quando cul- 
tivava por sua mão um jardimsinho, 
esmerava-o, contemplava-o amorosa- 
mente, e alguma llôr, que colhia, era 
para offerecer a sua mãi. Como visse 
um gato levado na corrente de um 
ribeiro, e atravessado por um espi- 
cho, apanhou-o, curou-o, e, restau- 
rado pela humanidade da criança, 
deu-lhe liberdade. Aos nove annôs, 
Bernardin a fugir lio castigo, embre- 
nhou-se n'um bosque para lá se dar 
á vida eremita, e foi preciso que uma 
boa crealura de mulher que o vira 
nascer, e acaso o encontrou, se des- 
pendesse em rogativas e reprehen- 
sões para o resolver a voltar a casa. 
Tendo estudado línguas antigas com 
um cura de Caen. rt■lacionou-^e com 
um bom e ínstruíilo capucho, troiule 
lhe veio a idéa de se lazer lambem 
frade. A leitura d? lUihitison lhe lau- 
sou depois veidadeiíos enlevos, <> já 
não houve dissiiadil-o mais de rmular 
colónias. Na volta da Martinica, onde 
esteve com seu tio, l'oi aiamlado con- 
tinuar seus estudos com os jesuítas de 
Caen, Ahi. enlroii-se tio auceio de ir 
ceifar em regiões ioiiijiiniuas a palma 
do martyrio. .Mandado pelo pai a 
Rouen, fecliou seus estudes com lu- 



112 



BER 



BER 



/iiiieiilo, e exercilíMi nlguru lempo o 
ofíicio (lo «'iinciiliciri) (J<! poiílcs e cal- 
gailas, fuiicntcs (|ii(; llio foram dispu- 
tadas pelos aniis vicloriosos da inve- 
ja. Viveu algum Usmpo em l*aiis, po- 
bre e dcspiolegido do pai, fjiie coii- 
Irahira segundas núpcias. AnojaíJo 
de l*aris, saliiu para fundar uma re- 
publica 110 amafío da Hussia, e che- 
gou a Moscow com uma face e orelha 
geladas, e Ires francos no bolso. Ahi 
se lh(! deslingirain todas as suas chi- 
meras. Nomeado alferes de engenha- 
ria, Bernaniin desgoslou-se da Uus- 
sia, aproveiluu o lanço da insurreição 
polaca e cnlie^'()u-se esperançado a 
novas sensações. Da Polónia, onde lhe 
correu perigo a vida, passou a Vieu- 
na, depois a Dresde, e Berlin, e por 
fim a França. 

Esla vida errante acabou pela via- 
gem de Madagáscar, onde elle espe- 
rava levar a civilisação. Uludido ain- 
da d'esla vez nas suas esperanças, 
comprou cabana na Ilha de França, 
enlregando-se com ardor ao estudo 
da historia natural, d'onde voltou a 
Paris era 1771. Dous annos depois 
publicou a Viaijcm á Ilha de Fninrn, 
que foi bem acolhida; os Estudos da 
Nalurcza, que appareceram no anno 
seguinte, lhe grangearam ser consi- 
derado entre os melhores escriplores 
francezes. Pouco depois firmou a sua 
reputação, publicando Paulo f Virgí- 
nia, apesar do livro só mais tarde ser 
apreciado, e cahir no desagrado de 
BufTon e outros litteratos. Ainda pu- 
blicou outras obras, sendo a mais no- 
tável as Harmonias da Natureza. Luiz 
XVI nomeou-o intendente do Jardim 
das Plantas. Em 1705 entrou no Ins- 
tituto, e foi generosamente^ recompen- 
sado dur;inle o império. — É oescriptor 
que melhor descreve a natureza ; mas 
é de lamentar que lhe faltassem co- 
nhecimentos positivos e muitas vezes 
nos apresente as suas chimeras como 
leis verdadeiras do universo, 

2. «Considerei sempre os Estudos 
da Natureza, e as Harmonias que se 
lhes seguem, mais como obra poética, 
ou tratado de gosto, que livro de 
sciencia ephilosophia. O author avan- 
taja -se a descrever os effeitos do qua- 



dro do mundo, (juando porém quer 
guindar-se ás causas secretas (Pesses 
eíTeilos exteriores, iiuanlo mais se es- 
mera no a()rofundal-as, como que 
mais SC de^garra do verdadeiro liilho. 
Tem sempre razão (juando descreve, 
nunca pori^in (juando raciocina. Nun- 
ca o enganam as suas sensações; é 
todavia muitas vezes insidiado por 
seus [iroprios devaneios. E>les ser- 
vem-lhe comludo de lio conductor 
para o guiar no díídalo cncanlódor 
das brilhantes contemplaç(jes: liga- 
se-lhes com alinco, e a abundância 
das verdades de sentimento (jue se 
realçam nVsta vereda nos indem- 
nisam das id('as falsas (jue f.iscinam. 
Tal é, a meu jui/.o, a impressão i)ue 
geralmente os Estudos da Natun-za 
produziram. Paulo e Virgínia, e a 
(lltoupana indiana, onde .M. de Saint- 
Pierre tão bellamente exprimiu os 
contrastes da naluicza e da socieda- 
de, da ternura e do pudor, da melan- 
colia solitária e meditativa com o tu- 
multo ruidoso das cidades, são sem 
duvida producçíjesamabilissiii as; mas 
o que mais provam essas deliciosas 
obras não é que o author peneirasse 
o segredo da natureza; mas sim «jue 
adivinhou a maneira e as ctjres pró- 
prias para a pintar, exprimindo-lhes 
fielmente lodos os encantos, graças, 
e bellezas.» (Dussaull), 

Direcção. Póde-se seguir sobre o 
map[)a as viagens de Bernardin, mos- 
trar as linhas principaes da navega- 
ção, fazer notar a diffeiença dus cli- 
mas em relação ao pjiuador. Esta his- 
toria dá occasião a fallar das illusões 
da mocidade, e vocação (veja esla 
palavra) de J. J. Rousseau, e de Fé- 
iiélon, cujo estylo Bernardin imitou. 
A segunda lição será dictada e deco- 
rada. (Veja FÉiNÉLON, e Rousse.\u). 

BERRY (0). 1. Em t09i o conde 
Herpin vendeu Berry a Philippe i, rei 
de Frani;a, e abalou para a cruzada; 
e desde então, nunca mais se desan- 
nexou da coroa Berry, salvo quando 
foi dado em dotação aos príncipes ou 
princezas. É ferlilissimo este paiz, 
onde pascem grandes rezes e carnei- 
ros. Mas a sudoeste de Bourges, mais 



BER 



BIB 



113 



de quatrocentas iramensas lagoas oc- 
cupam uma superfície de cerca de 
seis mil hectares. Berry divide-seem 
dous departamentos. 

2. Cher, capital Bourges. Desde o 
século VI a xvi, ardeu Bourges treze 
vezes, perdenJo o esplendor, indus- 
tria e manufacturas. Os vinte e dous 
mil habitantes que lhe restam dis- 
persaiara as suas tristes vivendas ao 
longo de um território que poderia 
conter e nutrir triplicada povoação. 
Á semelhança da maior parte das 
igrejas da idade media, a cathedral 
de Bourges está edificada sobre a pla- 
nura mais sobranceira da cidade. Do 
pórtico da igreja, se avistara as pla- 
nícies de Berry, que abrangem dez lé- 
guas de tapete verde e dorido. Bour- 
ges é rica de passeios. Afora o jardim 
do arcebispo está cingida de terra- 
plenos arborisados, e ainda fora da 
cidade ha passeios frequentados, prin- 
cipalmente o Mail que é o coiiíluente 
da melhor sociedade no verão. A pra- 
ça Villa Nova, e a dos Massoniers são 
lambem ajardinadas e concorridas. 

3. Indre, capital Châteauroux. An- 
tigamente Cliâieauroux foi mal edifi- 
cada, mal alinhada, c sobre tudo pes- 
simamente calçada; hoje porém, com 
largas e regulares ruas, cora praças 
agradáveis e espaçosas, em fim com os 
sobeibos passeios que a rodeiam e 
marginam, Indre, quasi que parece 
outra cidade. A casa da camará, si- 
tuada e[n uma collina que entesta com 
Indre, e llanqueada de três torres 
de notável altura, olferece ao vian- 
dante pittoresco aspecto. Das janellas 
d'este editif.io desfruta-se um deli- 
cioso panorama ao longo do rio, ri- 
cos e feiteis valles, e assoberbas llo- 
restas de Saint-Maur, e Ciiàleauroux. 

Historie-se a primeira cruzada, vin- 
do ao j)roposito do conde (pie vendeu 
Berry a Philippe i, rei de França, e 
conte-se, com referencia á cidade de 
Bourges, a historia de .joanna d'Arc 
e Carlos vii, (|ue se appellidou rei de 
Ihiirges. (^Veja Cruzadas, e Jo.\nna 
d'Arc). 



BERTHOLLET. (Veja IisviiNgÕEs). 



BESANÇON. (Veja Fra:íche-Com- 

TÉ). 

BETERRABA. (Veja AssucAReSv- 

NANTIIEREAS). 

BÉZIERS. (Veja Languedoc). 

BÍBLIA. Livro que contém as Sa- 
gradas Escripturas, dividido era duas 
partes: Velho e Novo Testamento. A 
primeira parte encerra a historia do 
povo judaico, desde a creação do mun- 
do até ao nascimento de Christo, e se 
compõe de escriptos históricos, pro- 
phecias, poemas, e obras de moral. O 
Novo Testamento, declarado canónico 
pelos concílios dos primeiros séculos 
da igreja, abrange os quatro evange- 
lhos de S. Matheus, de S. Marcos, de S. 
Lucas, e de S. João; contém mais as 
Actas dos apóstolos; asquatorze epis- 
tolas de S. Paulo, mais sele epistolas, 
6 o Apocalypse. O Velho Testamento 
foi escripto em hebraico, e o Novo 
quasi todo em grego. 

Os Sí'/f/2/(i(traductores) traduziram 
para grego lodo o Velho Testamento, 
reinando Ptolomeu Piíiladelpho; e S. 
Jeronymo, no século iv, trasladou a 
latim a Biblia toda : esta versão, cha- 
mada Vulgata, é a única reconhecida 
pela igreja. — «.Na Biblia se nos de- 
param todas as variantes de cstylos, 
as quaes, formando um coipo único 
de cem diversas peças, não tem ainda 
assim parentesco ;ilgum com a lin- 
guagem dos homens. Desde o princi- 
pio até ao fim da Bíblia ludo nos ma- 
ravilha e assombra.)'' (^Chaleaubriantl). 
Quanto mais meditamos este divino 
livi-o, maiores enlevos nos tomam; o 
animo de quem lè saboreia-se da sin- 
geleza do dizer, e a sublimidade do 
sentido eleva e ampara. (S. Gregório, 
o Máximo). Com este livro se fecun- 
dam na mente as mais levantadas 
idéas, e como que lemos entre mãos 
o encadeamento e lU) de todas as cou- 
sas d'esle mundo. ^0 abbade l^-amba- 
còres). Não é livro feito para um ou 
outro povo: será um dia livro de to- 
das as nações, pois ipie encerra a his- 
toria do homem es(:iipta para todos, 
debaixo da inspiração do próprio 



1U 



Blli 



lilB 



Deus. (I)r. Dfiscurpt, Thmriadoifosld). 
N.í liiij^iiagcm (In Kscripliira se eslá 
Iraiíslii/itnlo inspirarão. Dos escriplo- 
r<!s sagrados [xmIo dizfir-se o rnosrno 
qtie diziam de .Ifsus í)s enviados dos 
pliariseus : «Ainda liorricrii al^Mun f,il- 
lou como eslp.» Ao ll^l-os se c.onhcr.e 
(|iH! o dedo divino llics l,or,(iii nos ia- 
Itios. Qne candura t;lo sinj/cla nas 
descripcòcs ! (Jnc donira c rliaiwza de 
verdade! One ingenuidade l;lo gra- 
ciosa! Helii/. ahi pureza e innocencia 
primiliva. !•] dcpcds a energia, pro- 
fundidade, opulência de imagens e 
vistas penelralivas ao âmago da na- 
tureza liumana, cujas misérias e ma- 
geslade ninguém as contieceu Ião de 
(iindamenlo. O (|ue alii lia suave, 
lerno, terrivel e sublime ninguém o 
procure fora da Escriplura, (Lamen- 
nais, Traindo acerca da Indiffcrcnçn). 
2. «Os livros que os egypcios e ou- 
tros povos denominavam divinos, 
muito ha que se perderam, e nos 
deixaram nebulosa memoria nas his- 
torias antigas. Os livros sagrados dos 
romanos, em que Numa, author da 
rehgião d'elles, lhe escrevera os mys- 
terios, acabaram ás mãos dos pró- 
prios romanos, por ordem do Senado 
que fez queimar taes obras como re- 
versivas da religião. Os mesmos ro- 
manos, ao diante, deixaram aniqui- 
lar os Hvros sibyllinos, longo tempo 
acatados como prophelicos, e deposi- 
tários dos destinos talhados pelos deu- 
ses immortaes sobre o império roma- 
no, sera que mostrassem alguma vez 
ao publico ura só volume ou sequer 
uma prophecia. Só os judeus pos.sul- 
ram livros sagrados, tanto mais vene- 
rados quanto mais conhecidos. Fo- 
ram elles que entre os antigos povos, 
unicamente guardaram os monumen- 
tos primordiaes de sua religião, com 
quanto os livros testificassem a infi- 
delidade d'aqae!le povo, e a de seus 
antepassados; hoje mesmo os israe- 
litas dispersos pelo mundo trans- 
mittem a todas as nações os mi- 
lagres e prophecias que volvem in- 
concussa a religião. — Deve notar-se 
a dilíerença existente na ligação dos 
livros dosdous Testamentos, *e é que 
os livros do povo antigo foram escri- 



ptos era diversas épocas. Deus, que- 
rendo convencer a incredulidade de 
um povo sensual, distribuiu milagres 
e pro[)íietas através de séculos, a fim 
de rení)var a miúdo o testemunho 
sensivel com que ju-lilicava as san- 
tas verdades. Km o .Novo Testamento 
seguiu outro rumo. Nada tem que re- 
velar á sua Igreja depois da vinda de 
Jesus-Chrislo, no qual eslá a plena 
perfeição. Todos os livros divinos es- 
cri[itos depois da nova allianra datam 
dotem[)0 dosaposlolos; [)orémnadif- 
ferença observada entre os livros dos 
dous Testamentos, guardou sempre 
Deus a admirável ordem de fazer es- 
crever os fados no tempo era (|ue 
aconteceram, ou d'elles havia recente 
memoria. Por onde, os que os sabiam 
os iam escrevendo, os ignorantes a pren- 
diam-os dos livros recebidos, e unse 
outros os legaram aos seus descen- 
dentes como preciosa herança que a 
posteridade guardou piedosamente. 
— Moysésfoi sempre tido. já no orien- 
te, já em todo o mundo, na conta de 
legislador dos judeus, e author dos li- 
vros que se lhe attribuem. Os sama- 
ritanos, que os houveram das dez tri- 
bus separadas, conservaram-os tão 
religiosamente como os judeus. — Tão 
oppostas nações não receberam uma 
da outra os divinos livros; pois am- 
bas os receberam de commum ori- 
gem, já do tempo de Salomão e Da- 
vid. Os antigos caracteres"líebraicos, 
que os samaritanos ainda conservam, 
demonstram que aquelle povo não se- 
guiu Esdras, que os alterou ; pelo que 
o Pentaieuco dos samaritanos e o dos 
judeus são dous originaes completos, 
com reciproca independência. A per- 
feita conformidade que se nota na 
substancia dos textos justifira a sin- 
ceridade dos dous povos. São tleis tes- 
temunhas quese accordam, sem se ha- 
verem consultado, ou, mais pelo cla- 
ro, que concordam apesar de inimi- 
gas, e vão alhadas em um mesmo 
pensar pela só e única tradição im- 
memorial d'um e outro povo.— Os au- 
thores que redigiram os quatro evan- 
gelhos recebem igual testemunho de 
confiança dos fieis, dos pagãos, e he- 
réticos. Aquelle grande numero de po- 



BOG 



BOC 



115 



vos diversos que receberam e tradu- 
ziram os livros divinos logo que ap- 
parecerara, são todos conformes quan- 
to á época e quanto aos authores. Tal 
tradição não a contradisseram os pa- 
gãos/Nem Celso que atacou os livros 
sagrados quasi á beira do berço do 
chrislianismo, nem Julião, o Apóstata, 
que nada ignorou nem escondeu que 
podesse desacredilal-os; nem algum 
outro pagão os acoimaram de suppo- 
siticios: aoenvez, todos lhes attribui- 
ram os authores que oschnstãos lhes 
assignam. As Actas dos apóstolos con- 
tinuam o Evangelho; das Epistolas o 
inferimos rigorosamente, mas para 
que tudo se ligue, Actas, Epistolas e 
Evangelhos, a cada passo ha referen- 
cias aos antigos livros judaicos. S. 
Paulo, e os demais apóstolos níio ces- 
sam de citar Moysés e os prophetas 
posteriores. Jesus-Gliristo invoca o 
testemunho da lei de Moysés, repor- 
ta-se aos prophetas e aospsalmos co- 
mo testemunhas contestes da mes- 
ma verdade. Se quer explicar os 
seus mysterios, principia por Moysés 
e por os prophetas; e quando dizaos 
judeus que Moysés escrevera acerca 
d"elle, assenta como base as cousas 
mais sabidas, e d'ahi as levanta até á 
fonte das suas tradições.» (Bossuet, 
Ilisloria unioersal, 'i.^ part., cap. 28 e 
2'J). — Dicte-se e faça-se decorar a 
primeira lição. A segunda será lida ou 
discursada, de modo que os alumnos 
demonstrem a authenticidade dos li- 
vros sagrados. A ultima só deve en- 
tender-se com alumnos já instruídos, 
ao passo que a primeira está no caso 
de ser entendida por meninos de dez 
annos que já tenham estudado histo- 
ria sagrada. (Veja Bossuiít, Mil.v- 

GRES, EVANC.ELIIO, PrOPIIEGIAS, CtC.) 

BISMUTH. (Veja Metaes). 

BLACK. (Veja GniMicos). 

BLUGA. (Veja Boiir.\gine\s). 

BOCAGE (Manoel Maria de Barbosa 
du). Nasceu em Setúbal em iõ de se- 
tembro lie t7Gr). Assentou praça de ca- 
dete, em infanteria, por 1780 e sahiu 



para a índia em 1 786, despachado guar- 
da-marinha. Em Gôa alcançou oposto 
de tenente de infanteria, com serviço 
em Damão, em 1789. Deleve-se doús 
dias em Damão, d'onde desertou para 
Macáo. D'aqui solicitou e obteve li- 
cença de voltar ao reino, onde já es- 
tava* em agosto de 179U. Ganhou de 
sobresallo a admiração das turbas, 
assombradas da vehemencia e valen- 
tia dos seus improvisos. Ninguém o 
emulava na especialidade do soneto, 
poema que mais realce lhe deu ao no- 
me, posto que devamos com boa cri- 
tica dar-lhe a primazia do engenho 
em outras composições menos cele- 
bradas. Bocage florescera exuberante- 
mente em dons de inspiração n'um 
período era que mais se descurava m os 
bons exemplares da lingua porlugue- 
za, bem que, áquelle tempo, o exila- 
do Francisco Manoel do Nascimento 
propugnasse para cila com zelo tão 
honrado quanto ás vezes sobejo. Ma- 
noel Maiia, acclaraado das multidões, 
poeta dos botequins edas salas, opu- 
lento dos fáceis applausosdo povo en- 
thusiasta e dos íidalgos que banque- 
teavam as musas nos seus festins para 
intervallar de sonetos as cortinas dos 
jantares, renunciou ás fadigas do es- 
tudo, incompatível com vida tão in- 
quieta e namorada das blandícias da 
gloria, que até certo ponto o desvai- 
raram. ((O temperamento irritável e 
ardentíssimo de Bocage o levava na- 
turalmente ás hyperboles e exagera- 
ções: essas eram as mais admiradas 
de seus ouvintes; requintou ifellas, 
subiu a ponto que se peideu pelos es- 
paços imaginaiios de sua creação 
phantaslica, abandonou a natureza; 
e a suppoz acanhado elemento para o 
génio... A melriticação de Bocage jul- 
gam-na sua melhor qualidade; eu a 
peor; ao menos a (lue peores elíeilos 
causou. Não fez elle um verso duro, 
mal soante, frouxo; porém não são 
esses os únicos defeitos dos versos. 
As varias idéas, as diversas paixões o 
alíectos, as distinctas posições e cir- 
cumslancias do assumpto, do objecto, 
de mil outras cousas, — variada me- 
dida exigem ; como e\ige a nuisira vá- 
rios tons c cadencias... Nos interval- 



MO 



BOC 



BOC 



Ics liiciflns (\\\c: n fíomçrp deixava ofa- 
lal desejo (If hrilliac, rralt,'uris irislan- 
les t\n('. (lesposscsso do (Icrnotiio das 
liypcitxílcs e aniilhcscs, lioava snii 
giamlf cngíMilio a sós com a iialiirp- 
za, fi ctn [>a/, com a verdade, ííiiIAo sft 
via a immeiísidade (Pessa grande al- 
ma, a tina leiripeia doesse raro (Mige- 
iiho, (|iie a aura popular estragou, 
perdeu o [)onr,o estudo, os costumes 
desregrados — a rniseria. a deperidon- 
ria, a soltura, a fome. Muitas episto- 
las, vários iddliosMiaritiiuos, ali^umas 
fahulas, epigrammas, as cantatas, 
nuo são medíocres tiiulos de gloria. 
Dos sonetos ha grande copia (pie nOo 
tem igual, nem em porlugue/, nem 
em liiigua nenhuma, (l'uma força, 
d'uma valentia, d'uma perfeição admi- 
rável. O resto é pefpieno e pouco, A 
linguagem é pohre ; ás vezes 6 fácil, 
mas em geral escassa. Sahia pouco a 
lingua ; á força de grande instincto 
lhe arredava os erros; mas as belle- 
zas do idioma só as dã e ensina o es- 
tudo. « (Almeida Garrett, Historiada 
lingua e da poesia portugucza). 

«P^ra um homem (Bocage) do povo, 
que alimentava no espirito todas as 
paixões violentas, e muitas vezesphre- 
neticas e desregradas do vulgo; e co- 
mo o vulgo, ajuntava a feios vícios 
nobres e generosas virtudes. Era o 
trovador, que improvisava os seus 
mais admiráveis versos no meio das 
multidões, á luz do sol ou dos astros 
da noite, nas orgias das cidades, nas 
festas campestres, em todos os luga- 
res, a todas as horas. Depois de Ca- 
mões, Bocage foi o nosso primeiro 
poeta popular: como Camões, foi po- 
bre, foi criminoso, e foi malfadado; 
adormeceu, como elle, muitas vezes 
no balouçar das vagas do oceano, e 
como elle orvalhou de lagrimas o pão 
do desterro, e veio morrer na pátria 
sobre a enxerga da miséria. Seme- 
lhante ao enfermo do Evangelho, pas- 
sou pela terra, abandonado, pobre, 
nú ; mas como os antigos romeiros 
trovadores, alegrou ou commoveu os 
ânimos das classes não privilegiadas, 
ás quaes três séculos tinham feito es- 
quecer que a poesia era também e 
principalmente para ellas. 



«Bocage é o lypo mais perfeito da 
sua escola, e de feito devia S('^l-o. Elle 
I)0()ulansoii a arte, porque poetou 
|)iinci|ialmerile para o povo. e emba- 
lou ao mesmo tempo com as tiielodias 
da linguagem, com o sonoro do me- 
tro, essas almas rudes, mais atlenlas 
á harmonia da fóruia (pie ao poético 
do pensamento. 

«Feita assitn a poesia plebeia, «luas 
consequências deviam segnir-se iPesse 
[lasso gigante: a liberdade lilteraria 
('. o a[tpare(imenlo do iheatro. A poe- 
sia popular rejeita, como o povo, 
quando começa a pensar e deixa de 
queier, todas as leis que se fundam 
ein autlioriíiade ou tradição o não em 
conveniências; e o drama é a forma 
mais completa da arte, cpiando esta 
se faz burgueza. Não aconteceu toda- 
via assim: a razão dMsso é obvia. 

«A revolução lilteraria que a gera- 
ção actual intentou e com-luiu, não 
foi instincto; foi resultado de largas e 
profundas cogitações; veio com as 
revoluções sociaes. e explica-se pelo 
mesmo pensamento doestas. Mas nem 
Bocage, nem os poetas que o imita- 
vam ou seguiam suas doutrinas, se 
doutrinas iiavia n^essa escola. cui'a- 
vam de averiguar theorias estheticas; 
porque os tempos da grave discussão 
ainda não eram vindos. Poetas inspi- 
rados deixavam-se ir ao som das suas 
inspirações, viviam n'uma espécie de 
excitamento intellectual: o estro, em 
que tantas vezes faliam, era uma rea- 
lidade, e o improviso a forma com- 
mum em que davam vulto aos seus 
pensamentos e affectos. Esses enge- 
nhos ardentes respiravam n"uma at- 
mosphera de enthusiasmo, de ebrie- 
dade poética. Semelhantes á avesi- 
nha, que solta o seu gorgeio como 
aprendeu da natureza e do gorgeio 
paterno, elles, no seu poetar espon- 
tâneo, aceitavam sem exame as re- 
gras que lhe ensinara a Arcádia. E 
que podiam fazer os pobres poetas 
peões, senão curvar a cabeça ao voto 
dos mui eruditos e cortezãos pasto- 
res do monte Menalo? 

«Por isso a escola bocagiana pre- 
parou só metade da revolução artísti- 
ca : trouxe a poesia dos corrilhos e 






BOC 



BOC 



117 



salões aristocráticos para a praça pu- 
blica ; mas não a fez nacional. Esta 
difficullosa erapreza estava em grande 
parte guardada pira um poeta tão ro- 
mano era intenções e desejos, quanto 
portuguez na índole de seu engenho. 
Francisco Manoel foi quem acabou o 
que Bocage começara, completando 
pela nacionalidade o plebeisrao da arte. 
Feito isto, seguia-se a revolução, e 
um poeta mancebo, desterrado como 
Francisco Manoel, rasgou a bandeira 
romana e hasteou a portugueza. Do- 
na Branca e Camões foram o signal 
da revolta. As tradições da Arcádia 
estavam irremissiveimente condem- 
nadas.» (Alexandre Herculano, Elo- 
gio histórico de Sebastião Xavier Bo- 
telho). 

«No tempo em que eu cursava 
meus estudos na universidade de 
Coimbra, ílorecia ellas com muitos e 
bons engenhos de mancebos dados ás 
bellas-letras. E pori]ue então se não 
tinham accendido osdesaslradissimos 
ódios das parcialidades politicas, a 
hobbesiana propensão de guerrear se 
exercia nas letras. Dc.as seitas de es- 
crever se contavam, a cada uma das 
quaes não faltavam admiradores, após- 
tolos e evangelistas, assim como por 
isso mesmo inimigos, escarnecedores 
e parodiadoros. Os livros, em que 
uma juramentava os seus adeptos, 
eram Gessner e Bocage; Filinlo era 
o alcorão da outra. Gessner, quanto 
ás cousas e aífectos, e Bocage, quanto 
ao terso lustroso de estylo e metro, 
eram os idolos de uma; os da outra 
eram, quanto a cousas e aíTecios Fi- 
linto, quanto a estylo e melro Filiiito, 
e Filinto quanto a tudo em que Filiii- 
to podesse bem ou mal ser imitado. 
Tinha cada uma d'(Mlas suas vantagens 
e seus descontos, como agora clara- 
mente diviso, quando as considero 
com animo livre e desassombrado de 
preoccupações 

<cA ambos dotara a natureza de ta- 
lentos, assAs fortes para (jue podessem 
cunhar á sua feição a poesia de seus 
tempos. Elmano,"que talvez em seu 
género nos licará sendo único, d(- for- 
ça devia deslumbrar e encantar pelo 
caudal inexhaurivcl, brilhante e es- 



trepitoso de sua veia, que eu appelli- 
darei, e ria quem rir, um Niagara de 
talento : e assim como os que pasmam 
diante d'essa grande cataracta, de pu- 
ro embebecidos em sua copia e ma- 
gnificência, não teem olhos para no- 
tar o estéril do seu curso, o assolador 
do seu Ímpeto, e os penedos que roja, 
envoltos e disfarçados com suas aguas, 
assim os que presentes assistiram ao 
poetar de Bocage, ou da tradição o re- 
ceberam, fascinados cora os seus es- 
trondos, espumas e iris, mal se podem 
lembrar de lhe desejar affecto, siso e 
exactidão, que muitas vezes lhe falle- 
cem.» (António Feliciano de Castilho, 
Primar era). 

«Nascera Manoel Maria de Barbosa 
du Bocage poeta. Pródiga a natureza, 
ao derramar em sua alma torrentes de 
estro, infundiu-lhe parte grande da 
sciencia, que só costuma ser dominio 
da arte. Vida aventurosa e estragada 
Índole o impediram todavia de opu- 
lentar inimitavelmente as suas pro- 
ducções com aquelles toques magis- 
traes que só segreda meditação, estu- 
do, leitura e applicação. Vfclima de 
insanos applausos, e de má turba de 
admiradores, a elles deveu os peores 
dias da sua existência de homem, os 
mais ruins impulsos, e os mais dis- 
cordes sons da sua lyra de poeta. Ca- 
racter fogoso e indómito, paixões ar- 
rebatadas e omnipotentes, subjuga- 
ram uma alma, aliás melancólica, em 
que os mais doces sentimentos vibra- 
vam escabrosos e acerbos. Ambicioso 
de todos os lauréis poéticos, tentou, 
com desigual fortuna, os vários géne- 
ros e eslylos. Idolatra da harmonia 
métrica, desencantou segredos de 
inesgotável melodia, e escravisou a 
locução, não para lhe dizer, mas para 
cant;ir-lhe os pensamentos. O idioma 
de Camões subiu em suas nulos a tal 
grandeza e mageslade, que nunca 
houve segundo typo (pie se lhe eijui- 
parasse. Seu estremado gosto o fez 
ousar uma tentativa d*' rea('ção con- 
tra o cançado e Irateado estylo bucó- 
lico. Conciso e claro, metaphorico 
mas natural, hyperbíílico mas v(M-da- 
deiro, as azas (la sua imaginação le- 
varam o seu ouvinte á esphera onde 



118 



BOC 



BOI 



reinava. Já, ora tão verdos annos, sem 
par ern (Iívím-sos t,'f'tior()s de poftsia, 
lodos os houvera illiislrado, se a Par- 
ca iiilo livosse cortado tOo brilliaiile 
e esperançoso lio. Ciíefe glorioso de 
uma escola nacional, leve a dita do 
Molière: lançou a barra onde nin- 
guen) lli'a pôíje ir l)us(-ar. 

«Numerosas manchas, repelimol-o, 
deturpam estt; astro da nossa litl(!ra- 
lura ; n;lo tão desculpáveis (|ue s(! lhes 
ujipluiue o íío/í (ijo iiatiris: por uraa 
coiiK^idcncia nuMuotavel, a mesma 
fonlí! d'onile manaram suas maiores 
bellezas, derramou a frouxo imper- 
feições. Nascem-lhe estas (juasi sem- 
pre do excesso de qualidades cxcel- 
lenlcs e raras. O maravilhoso dom 
do improviso hahituou-o ao desprezo 
da lima, do polimento, da perfeição. 
A faculdade imaginativa, inoslrando- 
Ihe o mesmo assumpto sob diversas 
faces, degenerou na antithese e no 
trocadilho. O culto da melodia exa- 
gerou-o ao ponto de privar-se de re- 
cursos que ministram as varias mu- 
sicas aos vários objectos: nem sem- 
pre comprehendeu como Bellini, a 
consonância entre a harmonia e o 
pensamento. 

« Em quanto das paixões activo enxame 
Ferve no coração, revolve o peito, 
Perde o caracter, o equilíbrio perde 
A rectidão sisuda. 



«Eis surge imparcial posteridade, 
Na dextra subpesando ethereo facho! 
Tu. cândido, gentil desinteresse, 

Tu lhe espertas a flamma. 

«O critério sagaz, á frente de ambos, 
.\pparencias descrê, razões combina, 
Esmiunça, deslinda, observa, apura, 
E depois sentenc.eia ! 

«Já sem nódoa a virtude então rutila; 
.Tá sem mascara o vicio então negreja: 
Desce ao tumulo a gloria : heroes arranca 
Aos domínios da morte. 



(cHojepois, que, desassombrados do 
tyrannico e deslumbrador influxo de 
sua magica voz, e de suas arrebatado- 
ras explosões, éjá possivel avaliar-lhe 



o merilo, proclamamos Bocage como 
poeta não lolalmenlc perfeito, mas 
friííjuenlernenle admirável modôlo.» 
iJosé Feliciano de Castilho, lÁcrarin 
clássica). 

A famosa epistola de Bocage, inti- 
tulada Parnrosa risCut da eternidade, 
deu azo a que o intendente geral da 
policia o tizfsse jecoltifr ao Umoeiro 
em 10 de agosto de t7'.)7, como au- 
thor de papeis Ímpios, sediciosos e 
satyi'icos. Aos 7 de novembro foi trans- 
ferido para os cárceres da impiisição, 
(Fondc sahiu |)Ouco depois para o 
mosteiío de S. Bento, ainda debaixo 
de prisão, e (Fahi foi mudado para o 
bospicio das Necessidades <; entregue 
aos padres do Oratório, a lim de serca- 
lequisado nos sãos princípios da re- 
ligião. <fA correcção expiatória que 
soíTrera foi para elle proveitosa dan- 
do-lhe a conliecer a necessidade de 
pôr termo aos desregramentos d'uma 
imaginação extraviada, e de abraçar 
um theor de vida mais sisudo, tanto 
quanto o permitliam a sua Índole na- 
turalmente inquieta, e o seu caracter 
instável e buliçoso. Entrando na ida- 
de da reflexão, muito havia (jue espe- 
rar de tão portentoso engenho, se a 
morte prematura o não levasse aos 
quarenta annos de idade, fallecendo 
em 21 de dezembro de 1805. » (I. F. 
da Silva, Diccionario bibliographico). 



LO 



BOCCHORIS. (Veja Decimo secu- 

))• 

BOECIO. (Veja Sexto século). 
BOERHAAVE. (Veja Ciiimicos). 
BOI. (Veja Ruminantes). 



BOILEAU. (1636-1711). A infância 
de Boileau não foi feliz, por que ficou 
sem mãi tendo dous annos. Seu pai, 
excellente notário, desattendeu o espi- 
rito evocação do filho. Sobrevieram- 
Ihe na adolescência enfermidades pre- 
coces. M. Sévin, regente do coUegio de 
Beauvais, reconheceu e animou a vo- 
cação litleraria de Boileau ; mas o mo- 
ço, submisso á vontade da familia, dei- 
xou-se levar por differentes carreiras, 



BOI 



BOM 



419 



primeiro a da advocacia aos vinte e um 
annos, depois a theologia ; alfim. abor- 
recido das sabtiiezas theolagicas e das 
trapacices, deixou-se arrebaiarda vo- 
cação poética, e deliberou dpsopilar 
a bilisatiraiido-a aos poet.istros. — A 
batalha que Boileau declarou aos con- 
soanteiros do seu tempo, foi valente e 
presladia empreza. Era preciso es- 
raoutar os escalrachos da lena para 
franquear o passo aos engenhos illus- 
tres, aos verdadeiros espíritos do bel- 
lo, e preparar o século para i|ue Mo- 
lière, Racine, Cossnet e os mais po- 
dassem ser saboreados. Esta foi a lo- 
grada missão de Boileau. Orçava pe- 
los vinte e quatro annos quando com- 
poz as duas primeiras satyras. Gomo 
herdasse então do pai modesto patri- 
mónio, bastante á sua frngalidade, de- 
dicou-seexclusivamenteá poesia, pai- 
xão que se tinha manifesiado no ledio 
que qualipaer ou Iro estudo llie causava. 
Km seguida ás Saiyras, frechadas con- 
Iraios escrevinhadores irrisórios, com- 
poz Boileau primorosas epistolas, em 
que poetisou diversos assumptos de 
moral com tanta nobreza como ener- 
gia, por modo que grangeou logo re- 
nome de cultor de fino espirito, e pro- 
pulsor da sã lilteratura em França. 
Julgou-se então com direito a ensinar 
na sua Ar(e poctira preceitos queelle 
professava exemplificando-os. Um aca- 
so sobre modo fulil, certa pendência 
travada n'um cabido de Paris, pela 
deslocação d'uma «eslantedocôro» fez 
nascer o poema d'aquelle nome, no 
(jual Boileau ostentou invençlo 3 va- 
riedade superiores ás que ate então 
denotavam os seus poemas. Não ob- 
stante, clauJicou na ode, e ^^ mordaz 
Fontenollc não deixou de ll>e desfe- 
char um epigramma : ko pobresinho 
enganou-sc» — único lemoipic solTiido 
durante briga tão aturada contra tan- 
tissimos authore.<5, a respeito dos quaes 
não se coliibia de ch:Hnar ao ttgato 
gato, ea Hulet— velhaco.»— O severo 
Boileau, amigo de .Molière, de La Fon- 
taine c Kacine, não foi pedante. Con- 
soante o preceito horaciano, foliava 
quando se lho asava o ensejo. Em ale- 
gres assembléas, onde remeilava os 
outros habdmente, acrescia o conton- 

VOI. I. 



tamenlo dos seus amigos com a ma- 
lícia e mordacidade do seu talento 
mimico, imitando o melhor possível 
o tom declamatório de .Moiièie, e até 
o bailado de Jannart. Entretanto a ín- 
dole séria do seu génio temperava es- 
tas facécias, e as reprimia opportuna- 
mente. Luiz xiv aduptou-o como hís- 
toríographo da corte, e para logo 
Boileau se revestiu da compostura 
grave e própria d'aquella nova região. 
Gomtudo, sempre (|ue podia, evitava 
tal constrangimento, e refugiava-se 
alegremente na sua casinha de Au- 
teuil, onde recordava os mais ditosos 
dias da sua infância, e reunia a flor 
dos tidalgos e escriptores novéis que 
almejavam a herança da grandiosa 
peosia. Boileau, ao anoitecer da vida, 
tornou-se tristonho, sui"dõ e achaca- 
do das enfermidades companheiras 
da velhice. Homem superior porcon- 
juncto e harmonia de faculdades me- 
dianas, leal amigo, caracter nobre e 
digno, poeta incomparável no género 
temperado, de uma só paixão se dei- 
xou vencer: raiva aos tolos, e admi- 
ração de boQsescriptos. Foi igualmen- 
te distincto por predicados de cora- 
ção e prendas do espirito. Douraram- 
Ihe a vida generosos actos, pelo que 
dizia M.""- de Sévigné, que elle só ver- 
sejando era mau. Legou aos pobres 
todos os seus bens. (Veja FIoracio, Ju- 

VKNAL, PERCIO, EPIGRAM.MAS). 

BOMBA. 1. É um instrumento des- 
tinado a elevar a agua. Dislinguem-se 
três espécies principaes, a saber: a 
boinhii (j.s/)í/ví/í/(', a l/oinlui prcmciili', e 
a bomba asiiijdtite-iircincnlt'. A bom- 
ba aspirante compõe-se de quatro pe- 
ças essenciaes: um cylindro ou ciniio 
ili' bdinhii : um (iilio iL' aspirarão, (jue 
mergulha na agua; ura ("ííi/xí/o, que 
uma hastea faz levantar ou descer no 
Interior do corpo de bomba. Duas vál- 
vulas, que se abrem ambas de baixo 
para cima, estão collocadas, uma no 
t^mboloe a outra na juncção do corpo 
de bomba com o tubo d"aspiração. O 
espaço, (pio sem()re existe, entre a 
base do corpo de bomba e a face infe- 
rior do L^mbolo «piando esto não pode 

9 



120 



BOM 



BOM 



mais (lííscfir, cliarn.'i-se rspnrn iiorÃro. 

Siii)|)()iiti;im().s r|iifi o CtinUiúo so le- 
vanla pailiddí) (l'('sla [josiráu limite; 
o ar coíilido iio osfjaço nocivo dilatar- 
so-lia o (liiniíiiiirá df! força filaslica ; 
a válvula iid'(!riorabrir-so-íia, em vir- 
tude do excesso de tfusáo (Jo ar con- 
tido no liitx) d'as|)irar;i(), e este ar po- 
nclrará no corpo de l)om[)a onde se 
espalhará uniroiinfíncnli!. Ao mesmo 
lerapo, a pressAo alfnosplierica fará 
elevar a a^íiia no luho iraspirarào até 
que a elaslicid.iihMlo ar interior, jun- 
ta ao |)(>sí) da coliimn.i d\igua introdu- 
zida, faça e(|iiilil)iio á pressão atmos- 
phericj. 

Quando se descer o êmbolo, a vál- 
vula inferior, que se fechou pelo seu 
pro[)rio peso, interceptará a commu- 
nicação entre o corpo de bomba e o 
tubo (raspiração; o ar que está por 
baixo do êmbolo, sendo entáo com- 
primido, abrirá a válvula superior e 
se espalha i"á na atmosphera ató que 
a força elástica do ar que fica no espa- 
ço nocivo iguale a pressão almosphe- 
rica. Um segundo movimento de vai- 
vém do êmbolo origina a mesma se- 
rie de phenomenos; e a agua, que se 
tinha já elevado até uma certa altura 
no tubo d'aspiração, continuará ainda 
a elevar-se. Depois de um terceiro 
movimento de vaivém do êmbolo, a 
agua elevar-se-ha de novo, até que a 
final penetra no corpo de bomba e en- 
che totalmente o espaça nocivo. A par- 
tir d'este momento vai passar-se ou- 
tra ordem de phenomenos. Quando 
se descer o êmbolo, o ar que se acha 
por baixo d'elle será completamente 
expulso, e a agua passará para a par- 
te superior do êmbolo. Quando de- 
pois se levanta o êmbolo, a agua ele- 
var-se-ha com elie, impellida pela pres- 
são do ar exterior; desde então o êm- 
bolo mover-se-ha continuamente n'es- 
te liquido, elevando com elle, em ca- 
da ascenso, um volume d'agua igual 
ao espaço que percorre. Comtudo, pa- 
ra que assim succeda, é evidentemen- 
te necessário que a altura, contada 
do nivel da agua do reservatório até 
ao limite superior de elevação do êm- 
bolo, seja inferior a i0"',33; porque 
é esta a máxima elevação que a agua 



p()de attingir no vácuo, impellida pela 
[iressáo atmospherica. 

A altura a (pie uma bomba premen- 
te pôde elevar a agua é indefinida; 
isto (', só tem por limite a forçi mo- 
tora de (pie dispomos para mover o 
êmbolo. —Na bomba aspiranle-pre- 
mente o êmbolo é destituído de vál- 
vula; é inteiramente solido. Aparte 
inftirior do corpo de bomba commu- 
nica com um tubo lateral chamado 
tnho ifiismisD. Uma válvula (jiie se 
abre de dentro para fiira estabelece 
ou intercepta a communic3<:;lo entre 
o tubo (Pasiíenso e o corpo de bom- 
ba. O manejo e a theoria d'esta bom- 
ba são os mesmos que os da prece- 
dente, com a differença que, chegan- 
do a agua ao corpo de bomba acima 
da válvula do tubo d'aspiraçào, o êm- 
bolo, em vez de a passar para a sua 
parte superior, fal-a relluir para o 
tubo d'ascenso. Emparelham-se de 
ordinário duas bombas semelhantes, 
de modo que o êmbolo suba n'uma 
em quanto que na outra desça. Estas 
duas bombas levam a agua ao mesmo 
tubo d^ascenso; e assim se evita a in- 
termitlencia no escoamento. A bomba 
premente não c mais do que a bom- 
ba aspirante-premente sem tubo de 
aspiração. A parte inferior do corpo 
de bomba mergulha directamente na 
agua do reserva tório : taes são as bom- 
bas de incêndio. 

í2. Dá-se o nome de siphão a um tu- 
bo recurvado em dous ramos de des- 
iguaes comprimentos, por meio do 
qual se pôde fazer passar um liquido 
d\im vaso para outro situado em po- 
sição inferior ao primeiro, sem pra- 
ticar orifício nas paredes d'este. En- 
che-se primeiro o tubo completamen- 
te do liquido, e depois raergulha-se 
o ramo menor no vaso que se preten- 
de despejar. O liijuido, debaixo da 
inllueucia da pressão atmospherica 
que se exerce na sua superficie, es- 
coa-se pela extremidade inferior do 
siphão; eobserva-sequeo lluxo dura 
até que o nivel do liquido contido no 
vaso superior não seja sufficiente- 
mente elevado para se tornar sensí- 
vel a ditferença das pressões almos- 
phericas que se exercem sobre o li- 



BOM 



BON 



i21 



quido contido nos dons vasos. Empre- 
ga-se o siphão frequentemente no com- 
mercio. —Quando dons vasos com- 
municam entre si, o liquido que se 
deita em um d'elles vai tomar o mes- 
mo nivel no outro vaso. Por tanto, 
suppriraindo um dos vasos e prati- 
cando no tubo de oommunicação um 
estreito orifício pelo qual a agua possa 
sahir verticalmente, o liquido elevar- 
se-ha no ar, em columtia, a uma altu- 
ra aproximadamente igual á do nivel 
que tem no vaso d'onde se escoa. Eis 
a explicação dos jactos de agua. 

3. Basta ter visto fiinccionar uma 
bomba d'esgoto para se formar uma 
idéa mais ou menos exacta do modo 
de acção da mnchina pneumática. A 
elevação do êmbolo no corpo de bom- 
ba deixa um vácuo após si, que de- 
termina a entrada da agua. Tal é, 
com pouca dilTerença, o modo de acção 
da bomba pneumática, por meio da 
qual se exhaure ou, mais rigorosa- 
mente, se rarefaz o ar d'ura vaso her- 
meticamente fechado, exceptuando a 
abertura que estabelece communica- 
ção com o interior do corpo de bom- 
ba. A única differença essencial a no- 
tar está na natureza da força que de- 
termina a introducção do ar no corpo 
de bomba: esta força é aqui a ten- 
dência que tem o ar a occupar todo 
o espaço dado. Em experiências de 
grande "precisão, ou quando se quer 
operar sobre grandes vasos, erapre- 
ga-se uma machina composta de dous 
cylindros verticaes com diâmetros 
iguaes e tendo cada um o seu êmbolo 
que obra por aspiração. A hastea de 
cada êmbolo é dentada ; endenta n'um 
arco de circulo fixo á extremidade de 
uma alavanca, movida por uma nia- 
nivella, lolido o sou ponto d'apoio no 
meio do intervallo dos dous cylindros. 
Do fundo de cada cylindro parte um 
canal (|uc vem terminar no centro de 
um disco horisontal, chamado a pld- 
tina da pneumática. Sobro este disco 
ponsa uma campana de vidro, que se 
chama rcri\)i(>nU\ cujo bordo está un- 
tado a lim de interceptar completa- 
mente a passagem do ar exterior. 
Pondo em exercício as bombas para 
aspirarem o ar que está contido no 



recipiente, diminue-se successiva- 
rnente a massa aérea, rarefaz-se o ar. 
É isto o que se chama impropria- 
mente faz"r o vácuo, porque o vácuo 
rigoroso só se faz na parte superior 
do barómetro; comludo, a aproxi- 
mação d'este estado, que sempre se 
pód*e obter, é tão grande que pode- 
mos, para nosso estudo, considerar 
os corpos collocados no recipiente 
como se estivessem no vácuo. Tal é 
a construcção d'esta preciosa machi- 
na que operou na sciencia uma revo- 
lução completa, fazendo mudar ou 
rectificar a maior parte das idéas re- 
lativas aos eíTeitos da pressão do ar, 
da respiração animal, da combustão 
dos corpos, e da evaporação dos lí- 
quidos. Foi ella que nos certificou que 
a presença do ar era indispensável á 
vida, pois que os animaes desfallecem 
e morrem ao ar mui rarefeito; que a 
combustão das matérias, ainda as 
mais inílamraaveis, não pode dar-se 
no vácuo, por mais forte que seja a 
intensidade do foco caloriíico; e que 
os líquidos na temperatura ordinária 
entram em ebuUíção e se evaporam no 
vácuo; pois que estes phenomenos ob- 
servam-se sempre que se exhaure ou 
subtrahe o ar pela acção das bombas 
aspirantes da machina. (F. Passot). 

BOMBAX. (Veja Malvaceas). 

BONDADE, l . «É a bondade o mais 
nobre predicado da alma e a máxima 
virtude. Dá ao homem vislumbres de 
divino, porque é o principal altribu- 
to da divindade. Homem, que a não 
tiver, ú miserável, impermanente e 
funesto a si e aos outros. Manifesta- 
se a bondade por diversas espécies 
de elíeitos e iiidicios que lhe são pró- 
prios. Por exemplo, o homem cor- 
lez, geneioso, e alTectivo dos outros, 
revela com seu proceder iiue se julga 
cidadão do todo mundo. Se o com- 
move a commiseração (l(> aliíeias d(^- 
res, arguo coração semelha nle á ar- 
vore preciosa (|ue dá bálsamos aos 
(|ue a ferem; se facilmente perdoa 
oITensas, demonstra alma tão egrégia 
e sobreposta a injurias (|ue os dardos 
da malignidade não a alcançam. Se é 



122 



BON 



DON 



graio aos rniniinos serviços, com lai 
delicadeza prova i|ii(í olha mais ás in- 
tenções do (jiie ás alijiheira.', dos ho- 
mens. Se, íiiialmenle, se alça ao su- 
blime grau da caridade de S. l*aulo, 
esle desejo heróico de devolar-se á 
salvação de seus irmãos inculca na- 
tureza divina e tal (ju.il conformidade 
com Jesus Chiislo.» (Racon). «Não é 
possível heneliciai' Ioda a gente; mas 
podemos mostrar hoiidad-i para to- 
dos.» (Ilolli(i). «Somos bons; e, bem 
que nos abusíMn da bondade, não 
nos emendemos.)) (Vollaii'e). «cToda a 
sciencia édamninhaa (|uem não pos- 
suir a sciencia da bondaile.» (.Mon- 
taigne). 

2. Luiz XII, subindo ao Ihrono, dis- 
se estas memoráveis palavras, a res- 
peito de um homem que o havia es- 
Í)oreteado: «Não compete ao rei de 
França vingar as injurias feitas ao 
duque de Orléans.» ínstavam-no a 
punir Trémouille; e elle respon- 
deu: «Se Trémouille serviu lealmente 
seu amo contra mim, ha de a mim 
servir-rae lealmente contra os que 
tentarem perturbar o estado.» — Hen- 
rique IV, dizia: «Se eu viver, não ha 
de haver camponio que, ao domingo. 
Dão coma a sua gallmha.» Vencedor 
em Ivry, exclamou: Poupai o snn- 
guc francez. Quando assediava Pa- 
ris, consentiu que entrassem viveres. 
Brincava puerilmente com os filhos. 
Deleitava-se travessamente em cançar 
o duque de Mayenne dando grandes 
passeios. — Estando Tureune, singelo 
de aspecto e de parecer vulgar, no 
iheatro á frente de uaa camarote, en- 
traram dous estróinas, e acaso bal- 
dearam á plateia as luvas e cbapéo do 
general ; e para logo Ufas levantaram 
cora respeito e receio, procurando es- 
capar-se de corridos que estavam. Tu- 
renne reteve-os docemente, dizendo: 
«Deixem-se estar, que talvez arranje- 
mos lugar para todos, se nos ageitar- 
mos.» — Os athenienses davam alfor- 
ria ás bestas de carga que haviam car- 
reado matérias para a edilicação dos 
seus templos. — Cimão, alimentava até 
morrerem e dava pomposa sepultura 
aos cavallos com que vencera nos jo- 
gos olympicos três vezes. — Xantippo, 



pai de í^ericles, fez enterrar solemne- 
mente o cão que o seguira nadando 
até Salamina. — Alexandre vivia mano 
a mano com os seus amigos e com os 
doutos, visilando-os e soccorrendo-os 
nas enfiMínidades e privações. «Por- 
(pie me não pedis alguma cousa? — 
dizia elle — anlesquereisdeplorar-vos 
secretamente (jue dever-me algum fa- 
vor ?)» 

3. «Não sou de parecer que se ex- 
cite e apresse a sensibilidade das 
crianças; mas preservemol-as da du- 
reza da ignorância. Sei quanto nos 
cabe adquirir para sermos bons; sei 
quanto a verdadeira bondade impen- 
de da lecliilão de juízo, da inteireza 
da alma, e do impeiio da razão sobre 
as paixões. Pôde ser que nas crianças 
não haja gérmen que tanto importe 
vigiar com solicita constância. Fraco 
e depenilente, o menino tem natural- 
mente poucos ensejos de servir os in- 
teresses e sentimentos de outrem; 
nem os entende, nem os medita, e de 
seu natural tende mais a cuidar de si, 
porque n'elle é tudo desejos inquietos 
e multiplicados. Faz-se mister esper- 
tar-llie a sympathia, dizer-lhe que ha 
interesses mais preciosos que os seus 
próprios, 6 encarecer-lh'os, e lem- 
brai'-lh'os a miúdo. D'este trabalho 
difficil e melindroso deve banir-se 
tudo que pareça lição; porque se 
prescreveis a bondade, antes de lhe 
ter incutido o sentimento d'ella, o 
menino a receberá como norma de 
vida; e, como elle estuda as lições 
a horas lixas, sem dcleitar-se no es- 
tudo, cumpridos certos actos de bon- 
dade, cuidar-se-ba em saldo com es- i 
ses deveres, e ignorará os outros.» I 
(M.""^ Guizot, Cart. 23). — Predispõe- 
se o menino para ser bom, dando-lhe 
aia e professor que só lhe permitiam J 
trato com pessoas honestas, que en- % 
tre si se prezem, e se hajam cortez- 
mente por bem pagas de mútuos ob- 
séquios. Habilual-o-hão a pouco e 
pouco a prescindir do supei lluo a fa- 
vor dos necessitados, a defender os 
ausentes e fracos, a supportar os gé- 
nios ásperos, a beneficiar e não mal- 
tratar os animaes. Sobre tudo dô-se- 
Ihe o exemplo, e não se castiguem 



BOR 



BOR 



123 



nem severa nem arbitrariamente. 
Exercidos. Diclar e fazer aprender 
de cór a primeira lição. — Referir 
trechos da segunda com alguns desen- 
volvimentos históricos acerca dos reis 
nomeados, e mande-se redigir, facul- 
tando aos alumnos augraenlal-a cora 
alguns casos de bondade, que elles 
hajam presenciado. — Seguir a dou- 
trina da terceira lição para dirigir as 
Índoles. 

BORDEAUX. (Veja Guiennâ). 

BORGONHA. 1. A Borgonha deve 
seu nome aos burgundes ou burgui- 
gnons, povo teutonico que invadiu a 
Gaula em 406, e ahi fundou, debaixo 
da direcção do Gondicario, um estado 
conhecido pelo nome de Primeiro rei- 
no de Borgonha. Os filtios de Clóvis 
reuniram a Borgonha ao império dos 
francos, e Carlos Magno a erigiu em 
ducado. Philippe, o Ousado, quarto fi- 
lho do rei João, começou a terceira 
casa dos duques de Borgonha, que 
foi dft todas a mais briltianle; re- 
unindo grande numero de privilégios, 
c tendo por muito tempo contrabalan- 
çado o poder dos reis de França. Car- 
los, o Temerário, deixou uma única 
filha, Margarida, e esta, esposando 
Maximiliano d'Austria, levou líie em 
dote a Borgonha e todos os outros es- 
tados do seu paiz. Todas essas pro- 
víncias formavam no tempo de Carlos 
V o circulo de Borgonha, que não foi 
reunida á coroa de França, senão pe- 
los tratados de Campo-F(»rmio e de 
Luneville (1801). A Borgonha, tão ce- 
lebi-ada por seus vinhos, que é a prin- 
cipal riqueza do paiz, compOe-sc de 
quatro departamentos. 

2. CôTE-i)'Ou, capital Dijon. N'esta 
cidade é tudo agradahilissiino S vista ; 
constiucrõcs el(*ganl('s, zimbórios dos 
edifícios, as torres dos velhos palácios, 
situadas garridairumle ao pr (las mon- 
tanhas (la Hoigonha, iiztil.id.is do seu 
azul (mineral) c verd(\ianles (l(> vinhe- 
dos, ás margens de duas ril)'iras pe- 
nhascosas. Contemplai a (l<il'-il'(h\ 
admiravelmente digua (Peste nome. A 
(jile-irOr, verdadeira mina do Perii 
sem (jue haja necessidade de se lhe 



revolver as entranhas, produz abun- 
dantemente os melhores vinhos de 
Borgonha; é uma cadeia de collinas 
voltando as costas á cidade de Dijon, 
correndo de norte a sul, e a[iresen- 
tando ao sol seus declives para sem- 
pre abençoados de Deus, e conheci- 
dos dos homens. As construcções da 
cidade são d'uma belleza excepcional, 
e poucas cidades de França são mais 
felizmente adornadas de lindas habi- 
tações e soberbos monumentos reli- 
giosos. A cathedral, cuja torre cam- 
peia cem melros acima do pavimento, 
a igreja de Nossa Senhora com o seu 
antigo e magnifico relógio da i(iade 
media ; a igreja de S. Miguel que os- 
tenta a sua fachada de eslylo (.(renas- 
cença» tão grandioso quanto singular; 
a torre do terraço que sobranceia a 
cidade toda ; o senado, cuja sala prin- 
cipal tem 9-2 metros de comprimento; 
a cisterna de Moysés, que aformoseia 
uma das praças do antigo Dijon: as 
alamedas sombrias de castanheiros, 
e os caminhos abobadados de rama- 
gens de tilias ; finalmente, a Cúte (ÍOr, 
que já mencionamos : laes são as cu- 
riosidades de Dijon. Yonne, capital 
Aiixerre. Saô.ne-et-Loire, capital Mò- 
con. Am, capital llourij. 

BORIO. (Veja Metalloides). 

BORNÉO. (Veja Gélèbes). • 

BORRAGINEAS. Ksta familia de 
plantas abraça grande numero de gé- 
neros {borrnf/r)n, Itrlidirujiio. ele), 
muitos dos (|uaessão emollientes, diu- 
réticos, e empregados na tinluiaria. 

A horrngcw v annual. Caule coberto 
de pellos, folliasgiandes. ovaes e hir- 
sutas; ll('iies azues, e alpumas vezes 
vermelhas ou brancas. O chá de lia- 
res ou folha de borragem ò uma be- 
bida agiadavel. M«>dicamente sãotMU- 
pregadas todas as ]iarles da jilanla 
como líMVIgeranles, diuréticas (Ui ex- 
pectoi-antes. Sein(Ma-se na primavera 
e no outono. Di-se (MU toda a lerra, 
mas pref(>re a húmida e crassa, e lu- 
gaics somluios. Poderia aproveilar- 
se semeando-a em terras destuiadas 



124 



BOS 



BOS 



a trigo, para diipois (iii;in(Jo eslivos- 
so em llòr ser erilcrriíiJa coiiioiidubo. 

O hfliolrapii), (1(! lloiiiihas e.sl)ran- 
quiçadas, dispersas por suhie espigas, 
cresce na lurai meu le nos campos, o 
em laiila alxiixiaiicia, (|iie com ella 
se |)í)deria engrossar as eslrumeiras. 
O lielioLro|tio do Períi, de llorintias 
côr de violeta, cnlliva-se nos jardins 
em virtude da fragrância (jue exliala, 
e abriga-se emesiuías durante o frio 
invernal. Multiplicam-se as plantas 
semeando-oem terreno acamado; mas 
d'esla arte só llor*ece ao teixeiro ou 
quarto anno, e então é preferivel fa- 
zer enxertos na primavera que llo- 
recem logo no anno seguinte. 

A buíjlnssa uflicinnl cresce em lu- 
gares áridos e pedragosos; dá ílòres 
azues em forma de espiga, são co- 
mestíveis as suas folhas, ou cosidas 
ou em salada como alface. Requer 
pouco cuidado o seu cultivo. A bu- 
glossa mais conhecida pelo nome de 
arrebiques é notável pela sua raiz es- 
carlate de que se exli-ahe o verme- 
lhão com que se coloram os confeitos 
e licores. 

A grande consolda ou consolda offi- 
cinal cresce nos bosques e pr-ados hú- 
midos. É empregada a rai;i contra asin- 
flammaçOes do peito, e expectorações 
sanguíneas. FUigella òs prados pela 
sua grande multiplicação. O bom agri- 
cultor deve desariaigal-a. Recente- 
mente, lem-se lentailo em grande a 
cultur"a da consolda de folha rude. 
Esta planta, crescendo muito nos mais 
ingr^alos ter-renos, á beira dos fossos 
e entre ruinas, quando chega o abril 
tem cinco ou seis pés de altura. N'es- 
ta época dá grande colheita de folhas, 
que se renovam quatr'o ou cinco ve- 
zes cada anno, com as quaes se sus- 
tenta o gado, que muito gosta d'ellas. 
Durante vinte annos a planta produz 
incançavelmente, sem exigir outra 
cultura que não seja sulcar alguns re- 
gos entre as hastes. 

A consolda ofíicinal ou tnnior é fre- 
quente em Portugal nos sitios húmi- 
dos d'entre Douro e Minho. 

BOSSUET. (1627-1701). Estudou 
mui distiuctamenle humanidades no 



collegio jesuítico de Dijon, sua terra 
natal, e concluiu os estudos no colle- 
gio de Navarra, em Paris, onde o pr'o- 
IVssor Cornet lhe j)resagiou o talen- 
to. Tomou ordens era 1(J5^, depois 
de exames [)nl)lícos, que lhe grangea- 
ram geral estima, e a consideração 
do grande Conde. Despachado cóne- 
go [tara Melz, onde seu pai era con- 
selheiro do parlamento, ahí se reti- 
rava em viver obscuro a limdí; sobre- 
por nova sciencia á muita (jue já ha- 
via adíjuirido. Todo o estudo lhe era 
grandemente agradável; mas o mais 
pr-edilecto foi as Kscripturas sagra- 
das. Quando era chamado a Paris pa- 
ra negócios da diocese, realçava a re- 
putação com sermões improvisados e 
panegyricos. Pregou em presença da 
corte um advento e uma quaresma, 
operando conversões de muitos pro- 
testantes (Turenne, Dangeau, etc), 
para os quaes compôz o livro intitu- 
lado: Erposirão da doutrina chrislã. 
DerTamou-se progressivamente a il- 
lustre fama do sábio a quem já sub- 
meltiam suas obr-as escriptores de 
gr'ande tomo, taes como Port-Royal, 
Arnault e Nicole. No lapso de dez an- 
nos, a sua voz poderosa resoou em 
todos os templos da capital, atlrahin- 
do lodos os espíritos immínenles de 
todas as classes. Eleito bispo de Con- 
dom (Gers) em 1659, descia do púl- 
pito, deixando a Bour-daloue a peri- 
gosa lionra de o substituir, quando a 
morte de Henriqueta de França, rai- 
nha de lnglaterr'a, reabriu á sua elo- 
quência carreira nova por onde ta- 
manhos Iriumphos lhe advieram. Me- 
moranda época foi essa, em que na- 
ção nenhuma viu, a um tempo, tantos 
varões íllustres e tantas obras primo- 
rosas. Lafontaíne publicou o primeiro 
livro das suas Fabulas; Boíleau com- 
punha a Arte poética e a Estante do 
coro; Molière dava o Misanthropo e o 
Avarento, e Racine hombr-eava com 
Corneille. Emmeíod'estasfestasdain- 
tellígencia, e em presença dos esplen- 
dores da monarchia absoluta, a voz 
poderosa de Bossuet pregoava aos ho- 
mens o nada das humanas grandezas, 
e sopesava de assombro o mais illus- 
Irado auditório do universo. Remet- 



BOS 



BOS 



125 



tia com impetuoso arrojo, como elle 
disse de Conde; arcava rijamente com 
o auditório, e cada sermão seu era 
um duello de morte esgiiraido com 
os ouvintes, segundo o enérgico dizer 
de M.'"'' de Sévigné. Algures, fallando 
da falsa honra que não é virtude, ex- 
clamava: «Não me contento com re- 
cusar-lhe incensos, quero dardejar 
contra tal idolo o raio da verdade 
evangélica; quero proslral-a inteira- 
mente aos pés da verdade do meu sal- 
vador; quero esmagal-a e putveri- 
sal-a. Vem cá, honra mundanal! vão 
phantasma de ambiciosos e chimera 
dos espíritos arrogantes; eu te cito, 
a este tribunal onde serás condemna- 
da inevitavelmente.» — Era 157U foi 
nomeado preceptor do dclphim para 
quem, entre outras obras, compoz o 
Discurso acerca da historia universal, 
que não teve modôlo antes, nem imita- 
dores depois. «Este discurso eslá divi- 
dido em três partes. Historiador rá- 
pido e lúcido na primeira; Iheologo 
sublime na segunda; estremado poli- 
tico na terceira, Bossuet desíia a 
immensa concatenação dos successos 
primordiaes do mundo até Carlos Ma- 
gno, e os desígnios da Providencia no 
tocante á igreja, delineada em tempo 
dos judeus, aperfeiçoada pela lei no- 
va afim de se consummar plenamente 
na eternidade, epor ultimo a succes- 
são dos impérios que crescem, pros- 
peram, e cabem tocados pela mão pos- 
sante do Senhor do universo. Tudo 
isto é tratado com scíencia univer- 
sal, com eloíiuencia arrebatadora, e 
lance do vista de sobeivino espirito 
que do alto céo contempla as agita- 
ções da teria.» (Frayssinous). — Vol- 
vidos dez annos, e conclnida a educa- 
ção do delphim, foi o illnstre profes- 
sor eleito bispo deMeaux. Dedicou-se 
Bossuet com extremoso zeloaos novos 
deveres. As Meílilarõrsárrrca do Enm- 
gclho, e lílerarões sobre os iinjstrrios, 
duas obras (|ue sobrelevam ás ou- 
tras, foram redigidas para as freiras 
de certo mosteiro; conjundamente 
escreveu um catbecismo (jue elle, 
per si mesmo, ensinava ás crianças. 
Na assemblóa clerical, feita em \M'l, 
por occasiQo de desavenças entre o rei 



e o pontífice, revelou-se Bossuet estré- 
nuo defensor das li herdades gallicanas, 
e redigiu este celebre artigo: «Que a 
igreja deve ser regida pelos cânones; 
que S. Pedro e seus successores só re- 
ceberam poder em cousas espiriluaes; 
que as regras e constituições recebidas 
no reino devem ser m*antidas, e os 
limites abalisados por nossos pães não 
devem ser transpostos; que os decre- 
tos e opiniões dos papas não são irre- 
formaveis, etc.» Ficou-se chamando 
este articulado as Quatro pr< posições, 
que subsistiram como leis do estado, 
e constituem as liberdades gallicanas, 
propugnadas anteriormente por Hin- 
cmar, Gerson, e abbade Fleury; e 
posteriormente pelo cardeal La Lu- 
zerne, Frayssinous e M. Guillon. — 
Bossuet empregava igual ardor na 
conversão dos heterodoxos, e compu- 
nha a Historia das rariações das Igre- 
jas protestantes, no pióposilo de os 
illustrar. Annos depois, trabalhou na 
reunião das Igrejas cathdlica e lulhe- 
rana, de harmonia com Leibnitz, um 
dos principaes phílbsoplios allemães, 
6 o maior sábio dos tempos moder- 
nos; mas não logrou o intento. So- 
brevivem d'essa tentativa algumas car- 
tas eloíiuentes dos dous polemistas. 
Nos derradeiíos annos de vida, Bos- 
suet impugnou o mystii ismo de M."i" 
Guyon, en'esla controvérsia, onde se 
discutia o melhor modo de amar Deus, 
contendeu rijaniento contra o insigne 
Fénelon, fazendo coiulemnai-llie as 
Máximas dos santos, cujas doutri- 
nas, alcunhadas de quietiswo, eram 
expendidas em eslylo sublime. Argui- 
do Bossuet de se haver demasiado 
n'esta disputa, é memorável a respos- 
ta que deu a Luiz xiv, Disse-llie o 
rei: <Se eu também o contrariasse, 
que faria o bispo?» — Bradaria vinte 
vezes mais rijo — respondeu liussuet. 
D'onde se colhe que é sempie o mes- 
mo, o lulailtir intfopido, o gigante 
foimidavel, (pie faz Ciiliir o raio da 
verdade evangélica solue todos os ide- 
los. Bossuet, á conta de eminentis- 
simo laleiUo, obteve ile i,a Briiyère e 
Voltaire dous cognomes esplendidos: 
um denoininon-o l\idre da lijreja, e 
outro Aijuia de Meau.r. — É mcrivel 



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quanto Bnssiiot so íipplicava ao pslii- 
do. Dormido o piiinciío soniiio, ale 
de invciiio s(í ciguia, rezava, c tra- 
balhava depois aié canrar. Nunca al- 
terou esto llioor de vida alé idade 
provecta. DVsl'arle vingou adípiitir 
tamanho saher, que mal se ent(;nde 
como pAde l(''r ludo (pie sahia, e re- 
digir tudo ipie piihlicou. (Veja P'i':nk- 
LON, cos outros cilados no artigo). 

licflncçno. Mocid-ide d<i Bossuel. — 
Orarõosfuvrhres^ é[)oca memorável. — 
Jfisiurin nnirersal. — Liherdade.s da 
igreja gallicana. — Reunião das igre- 
jas, e disputa Acerca de quietismo. 
— Costumes e cognomes. 

BOTÂNICA (do grego hotani' , \)hn- 
ta). Oohjeclo d'esta sciencia é conhe- 
cimento, dcscripçào e classificação 
dos vegetaes. O jiriraeiro órgão que 
apparece nos vegetaes, e produz a 
germinação das sementes, é a raiz, 
parte infeiior que se alonga descen- 
do para mergulhar na terra, pren- 
dendo o vegetal, e exlrahindo do so- 
lo parle do seu sustento. O caule é o 
segundo órgão que se desenvolve na 
planta; cresce em sentido inverso da 
raiz, procurando are luz; é o eixo da 
planta, e amparo de folhas, flores e 
fructos. É linhosa ou herbácea. — O 
caule tem folhas que são laminas ver- 
des destinadas a exercer na almos- 
phera funcções análogas ás que as 
raizes exercitam na terra. São, por 
algum modo, órgãos respiratórios do 
vegetal, que ellas por isso alimentam 
lambem. Chamíim-&e folhas scminaes, 
ou cotyledones as primeiras folhas da 
planta que já estavam formadas evi- 
siveis na semente. Raiz, tronco e fo- 
lhas, completamente consideradas, 
constituem os órfãos da vegetação ou 
nutrição. (Veja Raiz, Caule, Folhas, 
Seiva", Nutrição, Flores, Fructos, 
Germinação, etc.) 

Afora esta classe de órgãos ha ou- 
tra composta de órgãos reproducto- 
res, comprehendendo tudo que diz 
respeito a flores, fructos, e sementes. 
Flores que passageiramente existem 
e só se mostram, as mais das vezes, 
depois do desenvolvimento das fo- 
lhas, são partes complexas que con- 



t(''m os rendimentos das sementes era 
estado de emhryões inertes, e os ór- 
gãos necessários a fecumlal-os. De- 
pois da fecutidação, murcham todas 
as [)aites da ílOr, á excepção d'aquel- 
la (pie encei ra as sementes, a qual, 
coiititiu.indo a crescer, se denomina 
fniflo. A semente á. a parte do fructo 
(jue encena debaixo de tegumentos 
embryãooii rudim.enloda planta. Des- 
envolve-se o emhrvào d'uma radicn- 
la que dá origem á raiz, d'uma plu- 
mula que forma a caule, e de cotyle- 
dones que ahrem as primeiras fo- 
lhas. (\eja Acotyledonias, Dicotv- 

LEDONIAS, MONOCOTYLEDONIAS). —O 

elemento [irimitivo, ponto de parti- 
da da organisação vegetal, 6 o orgão- 
sinho simples, chamado ovário ou 
celkila. (Veja Lenho). Algumas vezes 
as cellulas são estreitíssimas, mas 
rnol(hitain-se era polyedros como se 
mutuam(Mile se comprimissem; ou- 
tras vezes distendem-se grupando-se 
era feixes, fvirmando verdadeiras fi- 
bras que ap[>;irecera á feição de file- 
tes opncos; outras vezes, finalmente, 
proloiigam-se era extensos tubos ou 
prismas, os quaesse denominam va- 
sos. As fibras, reunindo-se, formara 
o tecido fibroso que acompanha ordi- 
nariamente os vasos, e parece desti- 
nado a dar mais robustez aos órgãos 
da planta, que a necessitam, e con- 
tribue a dirigira passagem da seiva de 
uma aouiia extremidade da planta. 
(Veja Classificação, Seiva, e Vege- 
taes). 

"-2. Boinnicos. A botânica, á seme- 
lhança de todas as sciencias, foi priraor- 
dialmenle uma confusa mescla de ira- 
perfeilos conhecimentos. Theophras- 
to, discipulo e amigo de Aristóteles, 
deixou a Hisloria dasplnnlase o Tra- 
tado das cnusasdai'cgelnrão. Dioscori- 
des, medico grego, coevo de Nero, 
corapoz seis livros de Maleiia medi- 
ca, of^qu^es são copioso manancial da 
sciencia botânica da antiguidade. Plí- 
nio, o Naturalista, que morreu, impe- 
rando Tito, quando examinava muito 
de perto a erupção do Vesúvio, escre- 
veu uma Hisloria natural em 37 li- 
vros, compilação feita á pressa, em 
que as repetições são frequentes, mas 



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i27 



todavia contém preciosos factos, ex- 
clusivos de Plínio. — No fim do sécu- 
lo xv, Bockou JeronymoTragus, me- 
dico e ministro protestante, tentou 
uma classificação natural dos vege- 
taes. e investigou a nomenclatura mo- 
derna transferida da que os antigos 
deram ás plantas. No século xvi, Le- 
cluse, doutor de Montpellier, percor- 
reu a Europa toda á procura de plan- 
tas raras, e descreveu rigorosamente 
as que observou. No século seguinte, 
Malpighi, medico do papa Innocen- 
cio XII e Grew, douto medico iiiglez, 
tocaram quasi todas as questões da 
estTuclura dos vegetâes mediante o 
microscópio, que então se descobri- 
ra e aplanara campo a novas obser- 
vações.— Tournefort, nascido na Pro- 
vença em 1G5G, inventou o género e 
creou um systema regular de classifi- 
cação, tirado principalmente da flore 
do fructo. Divagou nas serranias do 
Daupliirié, df'Savoie,do Roussillon,da 
Catalunlia, herboiisando sempre, en- 
riqueceu o jaidim do rei com as co- 
lheitas de Portugal, Andaluzia, Ingla- 
terra, Cândia, Constantinopla, Armé- 
nia, e de todo o oriente onde o man- 
dou Luiz XIV. — Liiitieo, celebre bo- 
tânico sueco, refundiu os géneros e 
espécies segundo os órgãos reprodu- 
ctores, creou nomenclatura simples, 
engenhosa, e admiiavelmente rigo- 
rosa. Era clle a[iroii(liz de sajiateiro, 
quando um nicdico, reconhecendo- 
Ihe as disposições, lhe deu recursos 

Sara estudar. Vi.ijou por Laponia, e 
'ollanda; estudou medicina em Lry- 
de, visitou Inglaterra e Franca, conhe- 
ceu em Paris Bcrnard de' Jussieu, 
do qual foi amigo intimo; foi no- 
meado medico du ieid;i Suécia, e de- 
pois professor de botânica em Upsal, 
onde trabalhou por espaço de 37 an- 
nos na sua classilicação methodica. 
— Faltava aiiMla o derradeiro pro- 
gresso. O nielhodo de Tournefort, e 
o systema de Linneo, bem que muito 
apreciáveis, eiani mclhodos puro 
artiíiriaes. Á illustre lamdia dos Jus- 
sieu cabe a gloria de haver achado 
Uma nova chissiticaçào em (pie os ve- 
getâes são ordenados em famílias na- 
luraes, conforme as suas mais inti- 



mas relações. Antoine de Jussieu 
(168G-Í758), impulsado desdea infân- 
cia por invencível vocação a estudos 
botânicos, discorreu pela França me- 
ridional, Hespanha e Portugal, d'on- 
de levou grandes riquezas vegetâes. 
Publicou o resultado de seus lavo- 
res nas Memorias úa Acaikmia das 
Sciencias, cujo membro era, e no seu 
Discurso do progresso da botânica. 
Bernard, irmão d'aquelle, publicou a 
edição augmentada da Hisloria das 
plantas de Tournefort, o mais douto 
e profundo naturalista do seu tempo. 
Este homem, que apenas publicara 
algumas memorias notáveis na Col- 
leccão da Academia das Sciencias, onde 
fora recebido aos vinte e seis annos, 
meditava incessantemente nas leis 
que regem os seies organisados, e 
nas relações que entre si os ligam. 
Em 1758*, como Luiz xv o encarre- 
gasse de planear a plantação do jar- 
dim botânico de Trianon, houve en- 
sejo de publicar o resultado da sua 
vasta sciencia, distribuindo as plantas 
methodicamente, fundamentando o 
seu methodo natural no lodo das re- 
lações. Jose[ili de Jussieu foi encar- 
regado de acompanhar, como botâ- 
nico, os astrónomos da Academia das 
Sciencias que em 1735 foram medir no 
Períi um arco do Meridiano, e só 
trinta e seis annos depois voltou a 
França. Deve-se-lhe o descobrimento 
do heliotropio do Peru, que tanto 
abunda hoje nos nossos jarilins. Lau- 
lent de Jussieu, o mais novo dos qua- 
tro irmãos, estampou em 1780 uma 
obra preparada com longo trabalho, 
o Genera ]ilanlnrutu, livro admirável 
que,ajuizodeCuvier, abriu nas scien- 
cias de observação uma época talvez 
Ião importante como a chimica de La- 
voisiei" nas sciencias expeiinientaes. 
N'esta obra npplica a todo o reino ve- 
getal a(|iielle methodo de chissili«ação 
natural (|ue tanto ha feito jMogredira 
botânica. 

Hrd acção. Órgãos da nutrição, ór- 
gãos de reproducção. (MganisaçAo ve- 
getal, botânicos celebres da antigui- 
dad(\ da idade media, e tempos mo- 
dernos. — l»eçam-se oralmente e fa- 
çam-se escrever todas as palavras te- 



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clinicas fixplicydas na priujeira li- 
ção. 

BOURBONNES. Ksta provinda do 
cenlfo da Kiaiir;i, notável sobre tudo 
por snas ajíuas rnineraes, formava 
anliííadienU! o doininio dos seníiorcs 
de liuurhon, e fc/ |)arl(' do ^'ovcrno 
deLyonnais, o t\\u' corresponde lifije 
ao dfpailamenlu d(! rAllier, cujo lu- 
gar piincipal ó Moiilins. — A cidade 
de Moiiiins aMniincia-sc primeiro por 
uma ponte magnilica sobre o torren- 
cial /VIlicr. Unia espessa e solida es- 
ijuadria, deitada sobre as areias mo- 
vediças sustenta essa ponte, que os- 
tenta com orgulho seus treze arcos 
ovaes, de vinte metros de largura ca- 
da um. A torre do castello, antigo pa- 
lácio dos Bourbons, domina esta ci- 
dade de tijolos cercada de collinas de 
aspecto risonho e piltoresco. D'es- 
se castello golhico cercado por três 
lados de fossos, llanqueado por vin- 
te e quatro torres, nada mais res- 
ta que um acervo de ruinas. Mas as 
aguas rnineraes que dão até :27()0 me- 
tros cúbicos d'agua em vinte e qua- 
tro horas, são bastante frequenta- 
das. Perto de oitenta enfermos podem 
todos os dias tomar as aguas no hos- 
pital, e outros tantos no estabeleci- 
mento publico. Bourbon-rArcham- 
bault offerece aos banhistas moradas 
espaçosas e bem collocadas, assim 
como clima temperado, depois de 
45 de maio, alé ao moz de outubro. 
Não muito longe d'alli,Vichy também 
oITerece seus banhos e aguas salu- 
tares. 

Dictar esta lição fazendo-a decorar, 
depois de ter feito enumerar FAlliere 
as cidades (jue esta ribeira atravessa, 
desde seu curso até á embocadura. 

BOURG. (Veja Borgonha). 

BOURGES. (Veja Berry). 

BRAGA. Capital da província do 
Minho, sede do arcebispo primaz das 
Hespanhas, corte dos reis suevos, flo- 
rescente município dos romanos, a 
cidade de Braga é uma das mais an- 
tigas e mais illustres povoações de 



Portugal, e de toda a peniuáula his- 
panic;). 

Attribue-se a sua fundarão aos gal- 
lo-celtas, du/.enios e noventa e seis 
atíiius antes d(j na^ iuiento de Chris- 
to. Ksles primeiros povoadores vie- 
ram ao diante a denominai em-se Ora- 
raros, dizem (|ue por ia usa d'uma es- 
pei;ie de calças cartas de (pie usavam, 
chamadas bractis, e parece (jue d'a(jui 
se derivou o nome de lirncurd uji n a 
sua cidade, depois corrupio em íiraga. 

Não se passou muito tempo, que as 
legiões romanas avassallassem a pe- 
nínsula, e por conseguinte a nascen- 
te povoação dos braça ro.s. Em breve 
medrou o cresceu a cidade pelo pode- 
roso influxo d"essa civilisação, que 
partindo d(í Honia, estendeu os raios 
da sua brilhante luz at(:'ás mais lon- 
gínquas regiões do inundo conheci- 
do. Em honra do imperador Augusto 
se lhe deu o nome de Brucara Au- 
gusta. 

Vários restos de edifícios, de que 
ao presente custa a descobrir os ves- 
tígios, cippos, e outros padrões, ain- 
da hoje altestam a grandeza a que 
chegou durante os quinhentos annos, 
que durou esta dominação civilisa- 
dora. 

Quando os povos do norte destruí- 
ram o império romano, e se apossa- 
ram das suas conquistas, vieram os 
suevos estabelecer-se n'esta parte da 
Lusitânia, fazemio de Braga a sua ca- 
pital. Passados mais de cento e se- 
tenta an'io<, foram os suevos venci- 
dos e expulsos pelos godos, e estes o 
foram a seu turno pelos árabes no fim 
de um domínio de cento e vinte e se- 
te annos. 

Em todo este longo período cou- 
beram á cidade de Braga a honra e 
gloria de lhe. ser pregada e ensinada 
a lei evangélica pelo apostolo Santia- 
go, que lhe deixou por arcebispo a 
S. Pedro de Rales; de ser a primeira 
sede archiepiscopal das Hespanhas; 
de ter por prelados a muitos santos, 
6 de se celebrarem no seu recinto vá- 
rios concílios importantes. 

Entrada definitivamente no domí- 
nio dos reis de Leão e Castella, foi 
cedida em dote por D. AíTonso vi com 



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BRÂ 



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as mais terras que constituíam o con- 
dado de Portugal a sua filha D. Tare- 
ja, por occasião do seu casamento 
com o conde D. Henrique, tilho do 
duque de Borgonha, e sobrinho de 
Henrique i, rei de França. Desde en- 
tão tem pertencido a cidade de Braga 
á monarchia portugueza, fundada nos 
campos de Ourique por D. Affohso 
Henriques, o illustre filho do conde 
D. Henrique. 

A situação de Braga é das mais 
aprazíveis e formosas, que se podem 
desejar para assento de uma povoa- 
ção do iinterior. Edificada no coração 
da provinda do Minho, delicioso jar- 
dim de Portugal, em terreno um pou- 
co elevado mas perfeitamente plano, 
cercada de fertilissimos campos, que 
o rio Deste banha e corta, e de fron- 
dosos arvoredos, que ao perto divi- 
dem e guarnecem prados sempre ver- 
des, e ao longe vestem e assombieiam 
montes, que em araphitheatro se vão 
elevando, e fazendo graciosa moldu- 
ragem aos prados, campos, e cidade; 
Braga desassombradamente goza pa- 
ra qualquer lado que olhe, lindas 
perspectivas; ao mesmo tempo (]ue 
oíTerece, a quem a contempla das al- 
turas visinhas, um quadro summa- 
mente encantador. 

Não ha cidade alguma em Portugal, 
incluindo até Lisboa, que, na pro- 
porção de sua grandeza, tenha tantas 
e tão vastas praças como Braga. O 
campo de Sant'Anna, que é a maior, 
temqnasi o dobro do comprimento da 
praça úe D. Pedro (em Lisboa). Apesar 
d'esta immensa extensão, é lodo guar- 
necido de edificios, salvos os sitios 
onde se abrem as diversas ruas, que 
n'elle vem desembocar. Este campo 
foi, ha oito annos, ajardinado. Em 
uma das extremnJades tem um bello 
chafariz, e na outra uma elegante co- 
lumna corintliia com um globo, sus- 
tentando a cniz arcebispal. 

O campo da Vinha; a praça Nova; 
a do paço do arcebispo; o campo das 
Hortas; o campo dos Touros; o campo 
dos Kemedios; são boas praças orla- 
das de grandes edificios, principal- 
mente religiosos. Na priuieira avulta 
o sumptuoso convento do Populo, que 



foi dos eremitas de Santo Agostinho, 
e hoje é quartel do regimento n." 8. 
Fundou-o no anno de 15U5 o arce- 
bispo D. fr. Agostinho de Castro. Na 
capella-mór de sua vasta igreja estão 
em dous ricos túmulos o fundador, e 
D. fr. Aleixo de Menezes, arcebispo 
de Gôa, e depois de Braga. 

Afora as praças, tem Braga alguns 
estabelecimentos e edificios dignos de 
notar-se. Os arrabaldes de Braga são 
celebres pela sua amenidade, cultu- 
ra, e belieza. São povoados de mui 
bonitas quintas, e de campos sempre 
viçosos. As aguas de muitas fontes 
espalhadas por toda a parle, alguns 
ribeiros que correm junto á cidade, 
e o rio Cavado, que passa a pouca 
distancia, entreteem em todos aquel- 
les arredores uma vegetação pompo- 
síssima, quer nos bosques, quer nos 
prados. 

O Bom Jesus do Monte, a menos de 
meia légua da cidade, é um dos san- 
tuários mais notáveis, mais ricos e 
populares de todo o reino, e um dos 
pontos mais formosos e apraziveis dos 
subúrbios de Braga. 

BRAGAL. (Veja Roup.\). 

BRAGANÇA. Está assentada a ci- 
dade de Bragança em campo plano, 
quasi no extremo da província de 
Traz-os-Montes, de que é capital. 

A sua origem é tão antiga, que al- 
guns antiquários a envolvem fin fa- 
bulas, attribuindo-a a um supposto 
rei Brigo iv, que dizem a fundara em 
mil novecentos e seis annos anies do 
nascimento de Chrislo, e que do seu 
nome se chamara Briganlia, e depois 
Bragança. 

O (jue parece mais averiguado é 
que já existia no tempo do doininio 
romano, e tjue o imperador Augusto 
César lhe pôz o nome de Julioluiija, 
cidade de .lulio, em memoria de Jú- 
lio César; pois é iiuasi fóia de duvi- 
da, (]ue, na lingnag<Mn dos amigos lu- 
sitanos, bri'ja significava cukule ou 
povoação. 

Nas diversas invasões (jue solíieuo 
nosso paiz, correu Bragança a sorte 
das mais terras da Lusitânia ; ora des- 



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Iniida, ora rfedilicada, linje seiílio- 
reada por uns, logo por oiilros. 

Lfvatilada das suas minas no rf!Í- 
nado do D. AlTonso llonrifiiif^s, foi no- 
vaiTionlo [lovoada oin 1187 porordom 
dft I). Sancho i, (jiio ilit; dcii gratídcs 
foros (' privilf^Mos. 

O sonliorio dt' Ilraganra, dopois de 
lor porlcnc.ido a diversas pessoas, foi 
dado a liliilo de ducujo pelo infante 
D. Pedro, sendo regenlo, eni riotníí de 
seu sobrinho, el-rei D. AlTonso v, a 
D. AlTonso, seu irniào naliiral, íillio 
reco[ihe(;ido de el-rei D. João i, (jue 
foi o primeiro duque do Bragança. 

Esta cidade c sede de um bispo, 
e de um governador civil. Divide-se 
era duas jjartes, uma chamada a villd, 
e outra (pie se nomeia a rui<uli\ A pri- 
meira é mais antiga c n'ella se acha 
o castello, monumento de muita an- 
tiguidade, bem conservado, e digno 
de v6r-se. 

Os h.ibitantes que andam por ([ua- 
tro mil, repartem-se por duas paro- 
chias, uma das quaesé cathedral. lia 
na cidade três praças e um grande 
terreiro. Uma das praças está dentro 
dos muros do castello, e nVlla se er- 
guera a casa da camará e o pelouri- 
nho. 

O pequeno rio Fervença banha os 
muros di! cidade. Bragança foi cele- 
brada outr^ora pelos inagnificos vel- 
ludos, damascos e outras fazendas de 
soda que alii se fabricavam. Esta in- 
dustria, porém, decahiu. O termo pro- 
duz muito milho e legumes, vinho 
verde, e cria-se n'elle algum gado. 

BRANDÃO (Fr. António). Nasceu 
em Alcobaça a "li) de abril de 1583, e 
morreu no mosteiro da mesma villa 
a 27 de novembro de 1637. Escreveu 
a terceira e quarta parte da Momir- 
chia hisiínna. É considerado como 
historiador de grande conta, bera que 
as suas opiniões em grande parte não 
resistam á critica severa; todavia é 
indisputável o merecimento d'este no- 
tável escriptor quanto a pureza e 
forn)osura de lingua, em que muito 
excedeu o seu antecessor fr. Ber- 
nardo de Brito. Foi chronista-mór do 
reino, e Geral da ordem Cisterciense. 



BRANDÃO (Fr. Caetano). Nasceu 
na Terra ila Feira a 11 de setembro 
de ITíd, e morreu arcebispo de Bra- 
ga, aos íõ de de/z-mbro de 180.'), ten- 
do j;'i sido bispo do ílr3o-l*ar;^. Escre- 
veu algumas pastoraes que foram [)U- 
blicadas em 182i. A fatna das suas 
virtudes sobreleva muitis>imo aos me- 
recimentos dos seus escriptos. ÍW'vem 
l("'r-se as Memorias para n Itislorin da 
vida do mirrai ri arcebispo li. (r. Cae- 
tano llrandão para bem se ar|uilalarem 
os relevantes dotes doeste [)relado in- 
signe ([ue tanto f.iz lembrar os bispos 
dos primitivos séculos chrisláos, e 
tanto se aproxima do seu antecessor 
D. fr. Bartlioloraeu dos Malyres. 

No Jornal dr Coimbra encontram 
os curiosos algumas cartai, e bera 
assim os Diários das visitas que D. 
fr. Caetano fezá suadiocesedo l'ará. 

BRAZIL. 1. Acham-se no exterior 
do Brazil muitas cordilheiras de mon- 
tanhas (|ue são ramificações dos An- 
des. I']sta vasta região é regada por 
infinito numero de rios de variadas 
dimensões : o Amazonas e quasi todos 
os seus afduentes, os Tocantins, S. 
Francisco, o Paraná etc. 

Varia o clima conforme as latitu- 
des, alturas e visinhanças do ocea- 
no; nos descampados, calores arden- 
tes e abundantes chuvas ; no topo das 
serras, frio glacial e neves quasi con- 
tinuas. É eminentemente fertd,e são 
immensas as riquezas mineraes do 
solo brazijeiro, em diamantes, ouro 
e prata. É magnifica e original a ve- 
getação; grande parte do paiz está 
ainda coberta de mattas virgens. — O 
rio Amazonas, que os brazileiros cha- 
mam Maranhão, é o maior rio do 
mundo; tem para mais de mil léguas 
de corrente, e mede cincoenta de lar- 
go na sua foz. A sua profundeza mé- 
dia é de 325 metros, e n'alguns pon- 
tos é insondável. A maré sobe até 050 
kilometros terra dentro. Ao desembo- 
car no oceano, rompe as ondas levan- 
do a agua doce a 135 kilometros mar 
dentro. — Se as margens do Ganges 
são cobertas d'areia dourada, as do 
Amazonas abundam em pó de ouro 
puro, Vão-se descobrindo minas de 



BRA 



BRA 



131 



ouro e prata, ao passo que as aguas 
do Amazonas, escavando as margens, 
descobrem os veios. Finalmente as 
regiões que este rio atravessa são um 
paraiso terreal ; e, se os seus habitan- 
tes auxiliassem a natureza, a ourela 
d'aquelle grande rio seria jardim im- 
menso cheio de flores e fructos. O 
desbordamento do Amazonas fertilisa 
por mais d'um anuo as terras que 
inunda a ponto de se dispensarem de 
outro adubo. Além d'isso, nas regiões 
visinhas abundam todas as riquezas 
da natureza: prodigiosa abundância 
de peixe nos rios, milhares de ani- 
maes differentes nos montes, infini- 
to numero de toda a espécie de aves, 
arvores sempre carregadas de fructos, 
campos cobertos de searas, e as entra- 
nhas da terra a regorgilarem metaes 
preciosos. 

2, Á entrada da enseada do Rio de 
Janeiro, capital do Brazil, causa es- 
panto uma immonsa bacia coberta 
de navios de todas as nações, e sul- 
cada por milhares de barcos. A' or- 
la da enseada, ergue-se a formosa ci- 
dade do Rio serpeando ás abas de al- 
terosas collinas, coroadas por grande 
numero de conventos e igrejas. — 
São geralmente estreitas as ruas do 
Rio, mas são bem ladrilhadas, orla- 
das de passeios e muito aceiadas. O 
que ahi ha mais de notar é não se en- 
contrarem mendigos, nem tabernas, 
nem Ijordeis, nmn outras ofíicinas de 
libertinagem. E gracioso o aspecto 
das casas, que todas resccndem agra- 
dável limpeza. 

3. Os biazileiros das classes eleva- 
das são do agradável trato, lhanos, 
joviaes, affectuosos, e muito dados; 
mas os merceeiros de baixa esphera 
são pouco aliáveis, e faz-se mister 
grande cabedal de [)aciencia para mer- 
cad(\jar com cllcs. Toilavia são muito 
honiados, e, piilo coininmn, niiiilo ca- 
ritativos. Os bi'azileiros em geral são 
pouco expansivos, e nada mexediços. 
A' semelhança de todos os povos dos 
paizes cálidos, são indolentes de mais 
para (pie o prazer os sedu/.a ; mas 
logo ipie se resolvem a sahir da sua 
Índole e aproveitam os raros instantes 
destinados ao prazer, então é viM-os 



atirar-se em corpo e alma á folia. 
Durante o carnaval é que se desper- 
tam os mais somnolenlos; reina en- 
tão tumultuoso prazer em todas as 
casas e ruas; as próprias moças bra- 
zileiras, de seu natural taciturnas e 
melancólicas, esquecem o retiro e a 
timidez ordinária, e lá vão na torren- 
te de alegria. Nas immensas florestas 
virgens que cobrem o interior do 
Brazil, vivem independentes muitas 
tribus selvagens. Os tupiíiiquins são 
corpulentos, infatigáveis no trabalho, 
e de agilidade maravilhosa. Vivem 
vagamundeando, e levam a destrui- 
ção onde quer que chegam. Alimen- 
ta m-se de raizes, fructos crus, ou car- 
ne humana que podem haver ás mãos. 
Usam arcos de força e grandeza ex- 
traordinárias, e clavas cravejadas de 
pedras com que esmagam as cabeças 
dos inimigos. 

Todos os habitantes do Brazil, sem 
excepção dos portuguezes, lhes temem 
a crueldade. — Os taperivas, ao norte, 
são muito menos bárbaros (lue os ou- 
tros selvagens d'aquellas províncias: 
recebem cortezmente os estrangeiros, 
e são valentes na guerra. Quando me- 
ninos perfui"am-lhes os beiços com 
uma ponta de veado; e logo que che- 
gam a adultos, enfeitam os orilicios 
dos beiços com pedrinhas verdes de 
que se pagam tanto, que desprezam 
todas as nações que não usam seme- 
lhantes adornos. 

«A historia do Brazil data talvez de 
mais longe que o Períi e o México. O 
descobi"iinento feito em i8l5 no inte- 
rior d'esse paiz, das ruinas d'uma 
grande cidade, com soberbos edili- 
cios, e iiiscripções de língua desconhe- 
cida, parece confirmar esta opinião 
geralmente adoptada. Paia os euro- 
peus a historia porém só começa no 
decimo sexto século. Foi unicamente 
o acaso (jue ahi contluziu em ir)00 o 
navegador portuguez Pedro .Vivares 
Cabral, mas ha todo o lugar de cri^r 
que no anno antecedente o hespanhol 
Vicente Yanez Pinson tinha visitado 
os arredores do Amazonas ou pelo 
menos as costas da ilha Maranjo. 
Portuga! limilou-seao principio a en- 
viar ao Brazil malfeitores, judeus, 



i32 



BHA 



BHA. 



multieros df má rnpulaçao, e ex- 
portar <J<! IA a madoira, tinias, e pa- 
pagaios. Mais tardf! pata lá foram in- 
divíduos deportados pela impiisif;;io, 
e esses infelizes atii cuilivararn com 
grande aproveitamento a cana do as- 
sucar, tians|)laniada da ilha da Ma- 
deira, lornamJo-se o produclo d'esla 
cullnia um objecto importante de ex- 
portarão. NAo foi .senão em i"):}! (pie, 
convencido em (im das vantagens d'es- 
ta conípiista, Portugal para alii despa- 
chou como govern;idor Thomé de Sou- 
sa, o ;|iial fundou, era i5i'.), a cidade 
da Dafiia ou S. Salvador. Os jesuilas 
esfoiçaiam-so em civilisar os natu- 
raes,'e o rei D. João iii authorisou a 
nobie/a do seu reino a fundar ahi 
senhorios, medida (jue apressou sin- 
gularmente o arroteamento do paiz. 

«No começo do século dezesete a 
prosperidade do paiz excita a cubica 
da França, da Hespanha e da Hollan- 
da. Esta ultima nação arrebatou uma 
grande parte da colónia aos portugue- 
zes, apesar dos esforços de Albuquer- 
que, e de outros chefes. Uma revolu- 
ção tinha arrancado o throno a Phi- 
lippe IV para n'elle installar a familia 
de Bragança: fez-se então um trata- 
do pelo qual os hollandezes consen- 
tiraju em ceder aos portuguezes as 
províncias do Brazil que ainda não 
estavam era seu poder. Entretanto o 
governo batavo tendo á força de op- 
pressão levado ao extremo os colonos 
portuguezes, estes amotinaram-se e 
acabaram era 1651 de libertar a sua 
pátria americana. A importância do 
Brazil augmentava consideravelmen- 
te, quando em 1698 se descobriram 
as minas de ouro, eem 173Uas de dia- 
mantes, e desde esta época até 1810 a 
colónia não exportava para a metrópo- 
le menos de 14,^280 quintaesd'ouro, e 
cincoenta mil cruzados em diamantes. 

«Até 1808 o Brazil tinha sido admi- 
nistrado como colónia porlugueza. D. 
João VI, corrido pelos francezes de 
seus estados da Europa, tendo para 
alli mudado a sua residência, por de- 
creto de 16 de dezembro de 1815 ele- 
vou aquelle território á posição de 
reino alliado a Portugal. Mas este prin- 
cipe tinha praticado o erro de augmen- 



lar os impostos, de reclamar como di- 
reito natural a propriedade das minas 
de ouro e pedras jireciosas descober- 
tas algumas em terrenos [jarticiila- 
res, e de se mostrar muiio parcial 
cora os portuguezes, seus compatrio- 
tas, na administração da justiça. 

«As vantagens auferidas pela per- 
manência da còrle, laes como a re- 
forma de numerosos abusos, o estabe- 
lecimento da liberdade do commercio, 
o progresso da colonisação não basta- 
vam a contrabalançar o descontenta- 
mento que lavrava cada vez mais fun- 
das raizes. O exemplo das colónias hes- 
panholas não foi perdido, e as idéas 
de emancipação propalarara-se com a 
rapidez do raio. As tropas brazileiras 
acharam-se em contacto com os insur- 
gentes de la Plala, quando D João vi 
tomou posse de Montevideo. Ura mo- 
tim republicano que rebentou em Per- 
nambuco, era abril de 1817, foi o pre- 
ludio da revolução. As tropas rebel- 
ladas pediram que se applicasse ao 
Brazil a constituição proclamada em 
Lisboa, em agosto de 1820, e que o 
principe real D, Pedro, filho de D. 
João VI jurara em seu nome, e em 
nome de seu pai, a 26 de fevereiro de 
1821. 

«A penúria do thesouro forçou o 
rei a suspender o embarque para Lis- 
boa que linha ordenado. O sangue 
correu era muitos conílictos, e a 21 e 
22 de abril D. João vi fez dispersar 
pelas tropas os eleitores que pediam 
a constituição hespanhola. Aborrecido 
d'um paiz de que nunca tinha gosta- 
do, o rei embarcou-se a 26 de abril 
para Portugal, declarando seu filho D. 
Pedro principe regente. Surdas a seus 
interesses, as côrles portuguezas repel- 
liram de seu seio os deputados do Bra- 
zil, e decidiram que esse paiz conti- 
nuaria a ser administrado como coló- 
nia. D. Pedro que preferia o Bra- 
zil a Portugal e que tinha a firme von- 
tade de preservar da anarchia a pá- 
tria de sua escolha, recusou a 9 de 
janeiro de 1822 de voltar a Lisboa, 
forçando as tropas portuguezas a em- 
barcar para o seu destino. 

«No mez de junho convocou uma 
assembléa constituinte, e a 18 de de- 



BRA 



BRA 



133 



zembro tomou o titulo de imperador 
que lhe tinha sido decretado a lí2 de 
outubro pela camará dos deputados. 
Desde o primeiro de agosto a inde- 
pendência do Brazil fora proclamada. 
Todavia as tendências democratas 
propagavam-se influenciadas pelas lo- 
jas maçónicas. Os irmãos Andrade, 
ministros do imperador, ensaiaram 
firmar as bases d'um governo durá- 
vel, fundindo n'um só o partido repu- 
blicano e portugupz. Mas esta tarefa 
era superior a suas forças, vendo-se 
o imperador obrigado a rênunciar-lhes 
os serviços a 11 de julho de 18^3. 
No entanto as tropas brazilienses oc- 
cupavam Montevideo em dezembro 
de 18^22, e a Bahia em julho de 1823. 
Em quanto D. Pedro trabalhava para 
fazer reconhecer o novo império pelas 
potencias estrangeiras, a restauração 
do poder absoluto em I^orlugal, pela 
revolução de maio de 18'23, enchia os 
brazileiros de desconfiança dos por- 
tuguezes estabelecidos entre elles, e 
que occupavam empregos mais ou 
menos importantes na administração 
publica ou nas armas. D'aqui resul- 
taram contendas violentas, primeiro 
entre os individuos, depois entre os 
partidos, e por ultimo disputas nos 
congressos. 

«A 10 de novembro, graves motins 
rebentaram no Rio de Janeiro. Os no- 
vos ministros deram a demissão e o 
imperador cercou de tropas o pa- 
lácio de S. Christovão, situado a pe- 
quena distancia da cidade, A 12 fez 
elle entrar as tropas na capital, cer- 
cou a assembléa legislativa, forçando 
os membros a obedecer ao decreto 
da dissolução que acabava de dar. No 
fim de quinze dias, convocou novo 
congresso, ao qual submetleu a 11 
de dezembro um projecto de consti- 
tuição muito democrática; e, sendo 
bem aceito, lhe prestou juramento a 9 
de janeiro de 18'2i. Esta lei funda- 
mental conferia um poder extraordi- 
nário aos deputados, levava ao impe- 
rador o roto absoluto, e abolia todos 
os privilégios. Apesar d'islo, o parti- 
do republicano levantou-se em Per- 
nambuco, e não se rendeu senão de- 
pois d'ura longo sitio, a 17 de dezem- 



bro de 1834, pela armada do general 
Lima, e a flotilha de lord Gochrane. 

«Depois de longas conferencias co- 
meçadas em Londres, continuadas em 
Lisboa, e depois no Rio de Janeiro, 
foi em fim concluído um tratado entre 
Portugal e o Brazil, no dia 15 de no- 
vembro de 1825. D. João vi reconhe- 
ceu a independência do novo impé- 
rio, e a soberania de D. Pedro. 

«Uma única questão ficara por re- 
solver; era a da successão ao throno 
de Portugal; appareceu ella com a 
morte de D. João vi em 10 de março 
de 1820. A constituição não deixava 
o imperador sahir do Brazil sem a 
permissão do congresso. D. Pedro por 
acta de 2 de maio de 1826 abdicou a 
coroa de Portugal em favor de sua fi- 
lha D. Maria da Gloria, depois de ter 
dado a este reino uma constituição li- 
beral. No entanto a enthronisacão da 
nova rainha soffria grandes obstácu- 
los na Europa, em consequência da 
usurpação de D. Miguel, e da decla- 
ração feita pelo imperador, de que, 
sendo necessário, sustentaria com as 
armas os direitos de sua filha. Des- 
contentes os brazileiros, temendo que 
os recursos de seu paiz se desfalcas- 
sem n'uma questão dynastica, quei- 
xavam-se também do grande numero 
de officiaes estrangeiros. O Brazil 
acabava de sustentar dous annos a 
guerra com Buenos- Ayres; e o resul- 
tado da lula foi a independência da 
Banda-Oriental. D. Pedro tinha espo- 
sado em primeiras núpcias a archi- 
duíjueza Leopoldina, cunhada de Na- 
poleão; ficando viuvo pediu e obteve 
a mão da princeza Amélia de Lench- 
tenberg, lilha do nobre príncipe Eu- 
génio. A nova imperatriz desembar- 
cou com seu irmão, no Rio de Janei- 
ro, a 17 de outubro de 1820. 

«Esta nova união parecia prometter 
a D. Pedro um longo e feliz reinado: 
não aconteceu assim. 

«Já o congresso de 182",t tinha por 
diversas vezes manifestado tão viva 
opposição, que o imperador fnra for- 
çado a dissolvel-o a 3 de setembro. 
No fim d'este anno fez concessões á 
opinião publica, compondo o minis- 
tério quasi exclusivamente de brazi- 



131 



BRA 



BRA 



leiros; mas yppsar crislo não conse- 
guiu rcí^aiiti.ir a coudiiiça do povo, e 
03 alaijiics (]() jonialistno it;(l(j|)iarain 
de viiij|(!iicia alé á abciiuia da s(!.s.s3o, 
no dia \i de maio do IHiJO, omlc olle 
já fatigado do lai gufirta, api(!sciilou 
uma lei rcsliicliva da liberdade da 
imprensa. Fez uma viagem a Minas, 
esperando recomjiiislar a opiniio e 
aíTeclo publico, e não o conseguindo 
entrou a 15 de raairo de 1831 no Rio 
de .laneiro, no meio da indilTerença 
geral, o ([uo prcfuiulamenle llie ma- 
goou o coração. 

«A O de abril rebentou uma revolu- 
ção, em seguida á (jual este prínci- 
pe, Ião benevolente e tão enérgico, 
abdicou a 7 em favor de seu filbo; e 
a 13 embarcou para a Europa com a 
imperatriz, eo irmão d'esla princeza.» 
(Garay de Monglave). 

«O Brazil (jue, durante treze annos, 
tivera em seu seio a corte portugue- 
za, entendia que já estava maduro 
para uma vida de independência; e 
á alta inleiligencia, inexcedivel dedi- 
cação e posição prestigiosa do snr. 
D. l*edro i, de accordo cora a dispo- 
sição dos ânimos, foi devida a obra da 
nossa elevação á categoria de nação 
independente e soberana. 

«Haviam cabido em pedaços todas 
as possessões americanas dâ grande 
nação bespaiibola ; cada zona, cada 
paímo d'esse território se foi progres- 
sivamente destacando, como corpo 
moribundo, invadido pela gangrena, 
e que vai successivamente pagando o 
seu tributo á dissolução e á morte. 
Todos esses destroços" da nobre Hes- 
panha se foram attenuando e nulliti- 
cando; a forma republicana implan- 
tou n'elles o gérmen da anarchia, e 
a cau(/illiogem, e a desordem e o re- 
trocesso campearam impunes nas pla- 
gasoutr'oraregitlaspeloleãoda Ibéria. 

«Por um contraste esplendido, o 
Brazil estabelecendo um cordão sani- 
tário, único da America, contra as 
idéas e instituições demagógicas, lan- 
çou á terra, desde o dia da sua sepa- 
ração, a semente d'esta grandeza e 
prosperidade, que tornará nossos vin- 
douros felizes e poderosos. 

«Tal resultado se deveu a varias cau- 



sas, entre as quaes dominavam : — a 
Índole suave, amiga e monarcbica dos 
nossos conlerraiKíos — a antiga bran- 
dura de nossos liabitos — o inslincto 
civilisador do nosso povo — o termos 
sido capitaneados pelo snr. D. I^edro i, 
nos dias crilicos — o ler-nos esle li- 
beralisado o pacto fundamental mais 
formoso, mais digno, mais sabio de 
quantos lia sobre a terra. 

«Kis alii |)ori]ue se observa um phe- 
nomeno, para lujs consolador: ambas 
as .\inericas se tem lonslanti-menle 
visto a braços com ambições infrenes, 
aspirações desorganisadoras, revoltas 
ensanguentadas; o Brazil, á sombra 
de sua constituição, vive, floresce e 
prospera, e tiuasi não lia uma voz em 
todo o império ijue a não tome por 
arca santa, em que por tácito con- 
senso ningemousa pôr mão sacrílega. 
Mas, f]uc dizemos! a Ameiíca? Me- 
lhor diríamos, a redondezi. Não ha 
uma nação no orbe inteiro, cuja cons- 
tituição vigente seja tão antiga como 
a que rege o Brazil. Houve hontem 
os Estados-Unidos, mas a sua consti- 
tuição rasgou-a o rostro do Mcrrimac. 
Ha também, nas imaginações, um 
phantasraa, denominado carta íngle- 
za, (]ue seria mais velho se não fosse 
phanlasma, lenda, myibo. Conslilui- 
ção real e verdadeira, é do Brazil a 
mais antiga. 

«D'essa constituição salvadora é o 
snr. D. Pedro ii irmão gémeo. Am- 
bos nasceram no mesmo anuo, e os 
dous irmãos vivera um com o outro, 
um pelo outro, um para o outro. Três 
aunos apenas antes havíamos procla- 
mado a nossa nacionalidade ; de modo 
que bem pode dizer-se que uo mes- 
mo instante fulguraram os quatro 
grandes signos do zodíaco brazileiro: 
— D. Pedro i — Independência — 
CoNSTiTUiç.\o — D. Pedro u! ! t. (Joa- 
quim Pinto de Campos, D. Pedro ii). 

«As instituições liberaes parece es- 
tarem agora dêtinilivamente enraiza- 
das no Brazil. Sua constituição é hoje 
uma das mais antigas entre as nações 
livres. As camarás trabalham com 
vontade em sustentar estes direitos, e 
seus esforços começam a obter os me- 
lhores resultados. ' iS'este moderno 



BRA 



BRA 



135 



império citam-se já com orgulho 
homens de estado distinctos, e ora- 
dores da primeira ordem; taes co- 
mo Carneiro Leão, Paulino, Olinda, 
Abrantes, Limpo d'Abreu, Eusébio de 
Queiroz, Rodrigues Torres, Paula 
Sousa, Alves Branco, Vasconcellos, 
Pereira da Silva, Ferraz, Pedro Cha- 
ves, Moura Magallíães, Maciel Mon- 
teiro, Ramiro, Victor d'01iveira, Za- 
charias e Marinho; excelieutes ad- 
ministradores, taes como Felizardo, 
Pedreira, Jeronyrao Coelho, Tosta, 
Boa-Visia, Gonçalves Martins, Sousa 
Ramos, e Penna'; emtim, notáveis es- 
criptores politicos, como são: Josino, 
Aprigio, Firmino, Torres-Homera, e 
Rocha. Dous partidos politicos se di- 
gladiam: o partido conservador, eo 
partido liberal; ambos constitucio- 
naes, á semelhança dos partidos ingle- 
zes loiíj e whig. Ainda ha outro, mas 
em pequena fracção: é o republicano, 
que em lugar de augmentar, todos os 
dias perde terreno, gastando-se a si 
próprio nas revoltas que provoca de 
tempos a tempos. Em summa, o Bra- 
zil tem immenso futuro, e por sua 
politica 6 posição exerce já gran- 
de influencia sobre os outros estados 
da America meridional. 

«A litteratura d'este paiz pode não 
só orgulhar-se de seu passado glorio- 
so, no qual brilham os nomes de Gon- 
zaga, Caldas, Cláudio, Durão, Basilio 
da Gama, Gusmão, Alvarenga, Fran- 
cisco de Lemos, Sam Carlos, Gregó- 
rio de Mattos, mas ahi se publicam 
ainda obras litterarias e scienlificas 
que provam que o gosto se vai aper- 
feiçoando; em poesia Gonçalves Dias, 
Magalhães, Teixeira Sousa, Norber- 
to, Porto Alegre, Januário, Parana- 
guá, Pedra Branca, e José Bonifácio 
d'Andrade; romances populares de 
Macedo, as obras litterarias e históri- 
cas de Pereira da Silva, Sam Leopol- 
do, Acioli, Pizarro, Varnhagen, e 
muitos outros são a prova. 

«Muito tempo a litteratura nacional, 
fatigada dos gregos e romanos, repro- 
duzidos constantemente pelos portu- 
guezos, foi procurar seus modt''los en- 
tre os f rance/es, inglezes, e ate nos 
allemãcs. Opintor-poeta, Araújo Por- 



to-Alegre, a está sustentando hoje 
com toda a independência. 

« Asescólassuperiores existem prin- 
cipalmente na capital, onde ha a uni- 
versidade, escola de medicina, escola 
de engenharia, de artilheria, de com- 
mercio, um observatório, etc, etc, 
partilhando cora a Bahia a escola de 
cirurgia, com S. Paulo a de direito, 
na Bahia a academia das bellas ar- 
tes, com o Pará (Belém) osjardins bo- 
tânicos. Afora a bibliotheca imperial, 
vinda de Portugal, ha na capital mais 
duas: a dos Benedictinos, e a biblio- 
theca nacional, que conta já 6-2:000 
volumes, não fallando em alguns pre- 
ciosos manuscriptos. .\inda ha na ca- 
pital o grémio de leitura braziliense 
com uma livraria de lí:OOU volumes, 
e o gabinete de leitura portuguez 
com 18:000, mais um instituto inglez, 
e outro alíemão. Não esqueçamos 
também o instituto histórico e' geo- 
graphico do Brazil, fundado em 1839, 
o qual publica memorias, e uma in- 
teressante revista trimensal. 

«Bahia, Pará, Porto-Alegre(no Rio 
Grande do Sul), Nossa Senhora da Vi- 
ctoria (no Espirito Santo), S. Paulo, 
Villa Real de Cuyaba, Villa de Rio 
Pardo (no Rio Grande), Cachoeira (na 
Bahia), Parahyba, etc, ele. Sobre tu- 
do é nas sciencias naturaes que os 
brazileiros mostram mais applicação; 
o que se explica pelas magnificências 
da natureza, de que elles com justa 
razão se nobilitam. 

«A igreja catholica, que é a do es- 
tado, mas que não exclue nenhuma, 
pois deixa a lodos o livre oxercicio de 
seuscultos,occupa-seha algnnsannos, 
com um afan digno de elogio, da ci- 
vilisação e raoralisação do povo. Pos- 
sue muitos lemplosdignos de admi- 
ração exterior e interiormente, e o 
serviço divino é celebrado com bri- 
liio e pompa como se não eni'on- 
tra em muitas das nossas calhedraes 
da Europa; comtudo o povo hrazilei- 
ro, ao envez dos habitantes das repu- 
blicas da .\merica do SuK não tende 
para a su),>erstição, e nienos para o fa- 
nalismo. A frente dos negocias eccle- 
siaslicos está o arc-ehispo da Bahia, a 
que estão subordinados oito bispos, 

10 



136 



BRI 



BRI 



e mais iim in jinrlihtis. Os protestan- 
tes alIíTiiaos, iin,'l('Z(!s e francezes, 
tem os seus Icmplos, a cetnilorios. 

fA agiii^iillma o o cominercio ii3o 
fizeram t,'ram!('s [jrogressos no Hrazil 
senão (l('[)()is (Icj^Mandcs iniiilanr,ai»[)0- 
lilicas(|ii('allialiiiain a alUMirão do go- 
verno [laradims ffcniidos veios do ri- 
queza nacional, Icndonlcs á aboli- 
ção completa di; muitas leis oppres- 
sivas. 

«Kiilrelanto a imraensa extensão do 
território do im|ioiio, o relativamen- 
te a falta da po|)ulação, o habito de 
trabalho dos escravos, a tendência 
innata e tradicional da preguiça da 
maior parle dos brancos, são sérios 
obstáculos á cultura do solo, e não é 
raro encontrar nos arrabaldes das 
grandes cidades, vastas extensões de 
terreno fértil desaproveitado. 

«O coramercto pelo contrario é mui- 
to considerável, favorecido por mui- 
tos portos excellentes abrindo sobre a 
costa oriental, e em face do antigo 
continente. O comraercio, em grande 
escala, está na maior parte em mãos 
de portuguezes, inglezes, francezes, 
americanos do norte, liollandezes e 
allemães; o de pequeno porte é dos 
francezes, portuguezes e brazileiros.» 
(Garay de Monglave). 

BRÉGUET. (Veja Invenções). 

BRIDAINE. Por meado do século 
xviii repercutiu em toda a França 
o renome d'aquelle apostolo. Por es- 
paço de quarenta annos a percorreu 
corá o privilegio que Bento xiv lhe 
dera de evangelisar por todo o mun- 
do. «Eis o mestre de todos nós ! — ex- 
clamavam os oradores contemporâ- 
neos— se nós locávamos o coração, 
elle o arrebata.» O próprio Massillon, 
quando pela primeira vez o ouviu, dis- 
se: tQuemdera que a sua vozpodes- 
se resoar na extremidade da terra.» 
Foi o padre Bridaine a Paris em n74.; 
e quem se dizia apenas chamado 
para pregar aos pobres, tirou da elo- 
quência de sua caridade palavras que 
estremeceram os ricos e poderosos 
d'aquella grande cidade. Quando cla- 
mava com troante voz : «O meu Deus 



vai julgar-vos», incutia terror em to- 
do o auditório. Km S. Suipicio, n'a- 
íjuelle famoso rimiuío da rWrnidade, 
proferiu estas memorandas palavras, 
(|ue cincoenta annos depois apavora- 
vam o cardeal Maury: «Ah! em que 
vos fundaes, irmãos meus, i)ara jul- 
gaitles tão longo o vosso dia derra- 
deiro? E porque sois moços? Sim, 
respondeis, eu lenho api-nas vinte an- 
nos, trinta annos... Ah! não sois vós 
íiuc tendes vinte ou iiinta annos; é 
a mortí! que vos leva viuilagem de 
vinte annos ou Irinia. Acautelai-vos 
que a eternidade chega. .Sabeis o que 
é a eternidade ?É um pêndulo, cujo 
balanço está sempre dizendo: sem- 
pre! nunca! nunca ! sem|jre! Duran- 
te estas revoluções, um réprobo ex- 
clama : Que horas são? E a mesma 
voz Itie resiionde: A eternidade!» 
Poucos oradores souberam como Bri- 
daine a grande arte <)e subjugar as 
multidões. Havia n'elle a verdadeira 
eloquência, que não faz cabedal de 
riíetoricas e regras d'arte. — Quando 
encetou carreira de missionário tinha 
só Ires sermões, que já havia profe- 
rido quando foi pregar era 17:25 a es- 
tação da quaresma na cidade de Ai- 
gues-Morles. E partiu, conta Feller, 
com esta pobre provisão, confiando 
n'aquelle que disse: «Não vos dê cui- 
dado o que haveis de dizer, porque 
chegada a hora, sabereis o que vos 
cumpre pregar.» Em quarta feira de 
cinza, dia do primeiro sermão, quan- 
do elle entrou á igreja, achou-a qua- 
si vasia. Vendo que ninguém concor- 
ria, sahiu tangendo uma campainha; 
foram depôs elle por curiosidade. 

Subiu ao púlpito, e com voz forte, 
e sonora, entoou um cântico á mor- 
te. — Um cântico em vez d'um ser- 
mão! Novo motivo d'assombro! De- 
pois entra a paraphrasear as terríveis 
palavras com tamanho impulso que 
quantos o ouviram ficaram estupefa- 
ctos, e d'ahi avante era immensa a 
multidão dos seus ouvintes. Tal foi a 
estreia do talento que ao depois cres- 
ceu tão celebrei Rogaram muitos bis- 
pos e padre Bridaine a missionar em 
suas dioceses. São espantosas as con- 
versões que este vehemente missiona- 



BRU 



i37 



rio 0|>eT0u em toda a parte, variando 
destramente os meios oratórios que 
lhe sahiam sempre imprevistos e no- 
vos. Muitíssima arte, mas arte myste- 
riosa, se alliava á sua natural eloquên- 
cia, procurando principalmente che- 
gar ás almas através dos sentidos. Na- 
da se lhe dava claudicar em matéria 
de gosto e elegância quando queria 
incutir profundas impressões. Bridai- 
ne improvisava quasi sempre. Diz-se 
que dez mil pessoas lhe podiam ou- 
vir a voz penetrante. Á excepção dos 
Cânticos espirituaes, quarenta e sete 
vezes imprimidos, não publicou mais 
nada. Bridaine, um tanto singular, e 
muitas vezes audacioso na escolha 
dos meios, foi desigual, mas locou o 
sublime da eloquência. 

BRISA. (Veja Ar). 

BROTERO (Félix de Avellar). Nas- 
ceu em Lisboa, em 1774, e morreu em 
1828. Doutorou-se era medicina na 
universidade de Reims, e tomou ca- 
pello na de Coimbra ; foi lente de bo- 
tânica e agricultura, professorado que 
exercitou com a maior distincção, ad- 
quirindo o nome de primeiro botâni- 
co em Portugal, e reputação europeia, 
que viajantes illuslres, taes como Link 
e Hoffmansegg consignaram nos seus 
livros. 

«Para escapar aos cárceres da in- 
quisição, teve a fortuna de evadir-se 
para França, em companhia do seu 
amigo Francisco Manoel do Nascimen- 
to, que immortalisou o nome poético 
de Vilinlo Elysio. Esta feliz evasão, 
que arrancou dous grandes homens 
das garras do santo olficio, effectuou- 
se no anno de 1778, embarcando el- 
les na Trafaria para bordo de um na- 
vio que os conduziu ao Havre de Grâ- 
ce : tudo devido ás benéficas e babeis 
diligencias de Thimotheo Lecussan 
Verdier. 

«Fora da pátria se conservou por es- 
paço de doze annos; regressando a 
cila era 1700, como já vimos, para vir 
enriquecel-a com os vastíssimos co- 
nhecimentos adquiridos nas sciencias 
naluraes, e maiorraente na botânica 
e na agricultura. 



«Apontarei algumas particularida- 
des curiosas. 

«O verdadeiro nome de Brotero em 
Portugal era o de Félix da Silva e 
Avellar; mas, em chegando a Paris, 
adaptou o appellido de Brotero, pala- 
vra composta das duas gregas: bro~ 
lhos e eros, que tanto querem dizer 
como amante dos morlaes. Ficou cha- 
mando-se pois, Félix d' Avellar Bro- 
tero: nome illustre, que á força de es- 
tudos, de trabalho, e de bons serviços 
á instrucção publica de Portugal, pô- 
de tornar immortal. 

«Afora o seu amigo intimo Francis- 
co Manoel do Nascimento, relacionou- 
se Brotero com D. Vicente de Sousa 
Coutinho, embaixador de Portugal 
em França; com D. Fernando de Li- 
ma, D. Francisco de Menezes, e com 
o respeitável doutor António Nunes 
Ribeiro Sanches. Todos estes foram 
seus muito effectivos protectores. 

«Isto, no que toca a porluguezes. 
Dos estrangeiros, foram seus mestres, 
ou amigos e admiradores, Vic d'Azir, 
Jussieu, Valmont de Vomare, Buis- 
son, Condorcet, Cuvier, Lamarck, etc. 

«Depois de concluir os seus estudos 
de sciencias naturaes, foi doutorar-se 
em medicina na escola de Reims. 

«Imagine-se, em presença de tão 
variados estudos, o quanto'não che- 
garia rico de conhecimentos a Por- 
tugal, passados doze annos de ausên- 
cia, tão diligente como sabiamente 
aproveitados!)) (O snr. José Silvestre 
Ribeiro). 



BRUXELLAS. (Veja Bélgica). 



BRUYÈRE iLa) (1644-1696) é o 
mais eloquente e engenhoso dos mo- 
ralistas francezes. Foi thesouieiro da 
França em Caen, ensinou histoiia ao 
duque de Borgonha sob a direcção de 
Bossuet, e passou o restante ile sua 
vida ao lado d'aquelle principo a titu- 
lo de homem de letras pensionado 
com 1:000 escudos. Avulla-se-nos La 
Bruyère um homem modesto. atTavel, 
desambicioso, alVeiçoado á vida reco- 
lhida e aos bons livros. Foi verde- 



138 



BRU 



BRU 



dciro |)tiilo.so[ilio e sagacíssimo obser- 
vador. L(;voii-o a piopíMisâo a prefe- 
rir erilre as obras anligas os (Inracle- 
res de. Thfophroslo, escri[)U)r grego 
(século IV, anles J. C), e succcssor 
de Aiistoleles no ensino da pliiloso- 
phia. Tra luziu a(|iiella obra cotn es- 
merado primor; mas, ao Irasladid-a, 
sugL(eriii-se-lbe o ib's('jo de prodiizir 
obra original de naliire/.a aii.dnga. 
Assim, compo/ o sen Mvro acerca dos 
(jirarlrrfs c roslnmrs (irstc scritlo^ (|ne 
veio a lume em li')S7, e para logo ad- 
quiriu r('[)uLai;ão ainda boje vigorosa. 
É' uma collecçãode observac^Oes sub- 
tis, piofnndas, e sobre Indo exactas, 
onde graceja a malicia sem maldade, 
e i-('sallam novidades realçadas f)elo 
rigoi' da verdade. Não ba leitura em 
que mais o animo se exercite, tanto 
por energia e perfeição de espirito, 
como variedade de retratos. 

2. -xLa Bruyère não tem os trans- 
portes c rasgos sublimes de Bossuct, 
nem a copia, numero e barmonia de 
Fénélon, nem a graça brilbante e des- 
envolia de Voltaire, nem a profunda 
sensibilidade de Rousseau; nenbum 
d'esles porém me parece reunir no 
mesmo grau a variedade, perspicácia, 
e originalidade de formas e conceito 
de La Bruyère. Pode ser que se 
Ibe não achem bellezas de eslylo pe- 
culiares da lingua franceza. Faz elle 
uma observação acerca do progresso 
que a arte de escrever íizera em Fran- 
ça, e ahi poderemos adivinhar pouco 
mais ou menos seu segredo. — «Es- 
creve-se regularmente ha vinte an- 
nos; somos escravos da construcção; 
enriquecemos a lingua de novaspa- 
lavras, libertamol-a da canga do lati- 
nismo, e reduzimos o estylo á pbra- 
se puramente franceza; pozemos em 
fim quanta ordem e clareza eram pos- 
síveis no discurso: d'ahi a precisão 
de o colorirmos graciosamente.» — 
A monotonia é o escolho das obras 
de tal natureza. Mais que muito o co- 
nheceu La Bruyère, e de sobra o de- 
nuncia no muito que se esforça em o 
evitar, variando seguidamente retra- 
tos, observações de costumes, e má- 
ximas. Difficil seria definir comexac- 
ção a índole precisa de seu engenho : 



como que todas as variantes do espi- 
rito lhe são f.imiliares. Allernaliva- 
menle, sublime e chão, eloquente e 
faceto, sutttil e profundo, acre e jo- 
vial, muda com extrema volubilidade 
de alinaçâo, de personagem e dté de 
Sentimenlos, sem^dcsconlinuar dos 
mesmos objectos. Ás vezes, di; uma re- 
llexão, simplesmente conlala, resur- 
te imagem ou referencia remota que 
nos impressiona inopinadamente. — 
ftTirante o espirito bem aiilailo, ocjue 
mais raro é n'este rnnndo são os bri- 
lhantes e as pérolas.» S(! La Bruvère 
somente dissesse que o espirito bem 
atilado é a mais rara cousa d'este 
mundo, ninguém daria a t^l sentença 
honras de escriptura.» (Suaid, Mis- 
relianrn lillcraria. — Nascido em 1734, 
fallecido em 1.S17). 

3. Pensdrnmlos selectos. «Está dito 
tudo ; e tarde vem o que se diz de no- 
vo, depois que são decorridos sete 
mil annos de gerações a pensarem. 
Pelo que é de costumes, o melhor e 
mais egrégio é rapsódia: o que faze- 
mos é andar ao respigo dos antigos e 
dos modernos mais bem dolados. — 
Tomemos a peito pensar e fallar cora 
acerto, sem o desvanecimento de al- 
liciar outrem com o nosso modo de 
sc7i/ír edilecção e maneira de pensar; 
que vai n'isso empreza de costa aci- 
ma. — Ao anlhor urge-lhe receber 
com igual modéstia gabos e deslouvo- 
res que se lhe dão ás obras. — A re- 
ctidão de animo que nos suggere 
obras válidas, também nos inculca as 
que não merecem lidas. — Espíritos 
medíocres cuidam que escrevem di- 
vinamente; espíritos distínctos per- 
.suadem-se apenas que escrevem ra- 
zoavelmente. — Quando a leitura vos 
enleva, e inspira ídéas nobres e alti- 
vas, não esquadrinheis outra regra 
para pautar a obra : é boa, e de mão 
magistral.» {Das obras do espirito). — 
«A modéstia é para o espirito o que 
são os escuros para as figuras de um 
quadro: dão-lhe tom e relevo. — Se 
as cousas raras nos abalam frequen- 
temente, porque é que a virtude nos 
commove ião pouco? — Estás enga- 
nado, Philemon, se cuidas que te fa- 
zem mais querido essa brilhante equi- 



BRU 



BUC 



139 



pagem de lacaios, que te segnem, e 
de bestas que te levam. Tudo isso é 
removido a um lado, e ficas tu a sós 
comligo e com a tua enorme fatuida- 
de. — Evitarei apontadamente não of- 
fender alguém, se sou justo; mas, so- 
bre tudo, resguardarei o homem de 
siso se tenho em alguma conta os 
meus interesses. 5» [Domnito pessoal). 
— «Se as mulheresfossera de seu natu- 
ral o que por arte parecem, se tives- 
sem o carão carminado como o pintam, 
inconsoláveis creaturas seriam! — 
Certas bellezas de alta perfeição e me- 
recimento brilhante impõem-nos e ca- 
ptivam-nos até ao extremo de nos li- 
mitarmos a vêl-as e comprimental-as. 

— As muHu-res são de extremos: ou 
são melhores ou peores que os ho- 
mens. — O homem é mais fiel ao se- 
gredo alheio que ao seu. A mulher, 
pelo inverso, guarda melhor o seu se- 
gredo que o alheio. — A certo tem- 
po, as dorizellas opulentas devem de- 
cidir-se quanto a maridarem-se; que 
muitas vezes o arrependimenio vem 
após os ensejos desprezados. — O que 
ahi não vai de senhoras, á cata de 
boas fortunas, fiadas na sua grande 
formosura !» (Das mulheres). — «Se 
queremos reger alguém com absoluto 
império e por muito tempo, façamos 
conhecer que nos pôde fugir, se qui- 
zer. — O coração faz-nos mais con- 
versáveis e de melhor convivência que 
o espirito.» {Do corarão). —«A par- 
voíce é apanágio dos importunos, O 
homem astnlo sabe qnando apraz e 
quando enfastia ; um instante antes de 
aborrecer, retira-se, — lia ahi gente 
que falia momentos antes de pensar, 
ha outra que presta insiilsa atten- 
ção ao que palavreia: são puristas. 

— O espirito dobem conservar, cifra 
mais no applaudir a graça alheia do 
que ostentar a proi)ria. Afasta-se 
contente de vós jilenamente quem se 
retira contente de conversar comvos- 
co. — E miséria grande carecer de es- 
pirito para f;illar de siso, e carecer 
de jiiizo para saber calar-se. — Com 
virtude, honestidade ebom porto, po- 
demos, assim mesmo, ser intolerá- 
veis. Os adeinanos, que se descuram a 
titulo de pequenezas, são fartas ve- 



zes o por onde os outros vos aquila- 
tam em bem ou em mal^ — Da igno- 
rância escura surge o tom dogmáti- 
co. Quem nada sabe, cuida que ensi- 
na aos outros o que aprendeu recen- 
temente. Quem muito sabe, escassa- 
mente presume que os outros igno- 
rem o que elle sabe, e de tudo "falia 
sem desvanecimento.» {Da sociedade 
e da conversação). 

Dictem-se a primeira e segunda li- 
ção, e conte-se a historia do duque 
de Borgonha, educado por Fénélon. 
— Quanto á terceira lição, sigam-se 
as direcções dadas no artigo Agude- 
zas. 

BUCÓLICAS. (Veja Virgílio). «A 
poesia carappzina, ou segundo vulgar- 
mente lhe dão nome, pastoril, com 
ser de todas a mais antiga, nunca em 
nenhuma parte se perdeu, dado em 
muitas decahisse não raro do seu cre- 
dito e lustre ; e segundo todas as mos- 
tras, deitará ainda até ao fim das ida- 
des liilerarias. Sempre moça como a 
terra de sua mãi, mansa como os ar- 
royos seus irmãos, formosa como as 
flores que lhe guarnecem o cliapéo 
de palha, livre e leve como os zeptiy- 
ros pela assomada dos montes, iilegre, 
namoraila e innocente como as aves 
na madrugada do anno, é de vêr 
qual se vai sósinha e vivíssima por 
entre tantas cousas mais fortes que 
morrem ; com o seu cajado de pasto- 
ra, segura entre tantos inimigos; gi- 
rando todo o orbe, e por todo elle 
bem vinda; vingando e vencendo to- 
dos os séculos; dando a alguns d'el- 
les de mais amoravel indole a sua 
própria forma; e relevando-lhe, ain- 
da os mais ferozes e guerreiros, que 
lhes ella misture con a sua fiaula do 
serão os hymnos da guerra, lhes en- 
treteça maliciosa violetas com os lou- 
ros, e os campos (jue elles a fi'rro e 
fogo devastaram os rejtovAe ell;i de 
imaginadas verdura, IlAres e felici- 
dade. 

^cUm curioso reparo poderão ter 
feito os que os fazem no lt''r poetas, 
e é, que apenas haver;'', algum dos 
chamados epiros, para (piem o cam- 
po e sua vivenda não fosse deleitoso 



MO 



BUG 



BUV 



assumpto. Corapraz-se Homero ilo 
travar com ^ laça nhãs dos lioroes 
tO(|ii('s (' [)iiiliii'.is (lu viver iialiiral <; 
primilivo; Viri,Mlio, (|U(í j/i primeiro 
(|ue se aljalaiiçass(3 ás armas e giifir- 
ras liiilia cantado os [laslores. o dou- 
trinado os lavradores, parLicnlarmíMi- 
to se recreia (piando no meio das ba- 
talhas p(Sd(! a uns V. onlros mandar 
algumas saudades; nos dons ()i laudos 
e em lodos os livros de cavallaria, vai 
igual mistura; o mesmo na Jerusa- 
lém, cujo autlioi- havia escriplo o 
Amintas: e d'entre os nossos, para 
por todos citar um, mas um ijue por 
todos valha. Gamões, não só afamou 
os poituguezes sujeitadores de ele- 
mentos e homens, raas todo se delei- 
ta em conversar os i)egureiros e cam- 
pos da nossa graciosa Lusitânia, ter- 
ra cujos filhos, se me não engano, 
são por Índole dotados d'e5tes dous 
extremos, de brandura e de valor, de 
amor ao obscuro luslicar e ao glorio- 
so correr de aventuras e perigos: por 
onde entendo que para muito mais do 
que são os fizera Deus, assim como 
fizera para muito mais do que é o 
grandioso torrãosinho (|ue habitam. 
«íDisse engenho subtil, e bonsjuizos 
o creram, que o desejo, anciã e espe- 
rança de bem que todos temos inna- 
tamente, era claro argumento de uma 
vida futura, já que n'esta se nos não 
deparava contentamento: assim tam- 
bém dissera eu, que este natural e 
universal gosto á poesia amena é um 
indicio de que, se jamais o homem 
foi homem e ditoso, lá nos campos o 
foi ; que as plantas d^onde nos brotam 
sustento e recreação, exhalam secreta- 
mente amor para os visinhos, e que 
pelos saudosos valles das idades pa- 
triarchaes, em quanto os bosques não 
cahiram para em sua vez se levanta- 
rem as muralhas, as bênçãos do c6o 
orvalhavam muito mais a raiudo. Al- 
guma cousa farão para aqui palavras 
do meu Florian, que porque d'elle 
são as verterei de muito boamente: 
— «Oh se nós podessemos lêr em seu 
original texto os bons authores d'essa 
AUemanha, enlevar-nos-hia a tanta 
singeleza, a tanta doçura por onde 
4e todas as outras se estremam suas 



ohias ! Km conhecer » natureza, e-es- 
pfcialmente a natureza camp^^aina, 
levam-nos elles unir* itiliMita vanta- 
gem : amam-na mais diívfnas, retra- 
tam-na com tinias mais fieis. Todos 
nossos poemas pastoris nada tem que 
vi^r com as meras Iraducçòes de (i<í>s- 
ner. Ninguém jámais fedia a Morte 
de Abel, os Mylhos ou Daplinis, .sem 
já se sentir mais sotírido, mais terno, 
mais mavioso, e porque tudo diga, 
mais virtuoso que antes da liçào. Não 
respira senão moral pura e íacil, e 
virtude d^aquella que logo vem tra- 
zendo bemaventutaças. Fosse eu pa- 
rocho de aldeia, (jiie sempre á estação 
da missa havia de lér e reler (iessner 
aos meus freguezes: e por certíssimo 
tenho que meus aldeões se fariam pro- 
bos, todas rainhas parochianas castas, 
e ninguém me havia de ao sermão 
adormecer.» (O snr. visconde de Cas- 
tilho, Primavera). 

BUENOS -AYRES. (Veja Plat.4). 

BUFFON. 1. O conde de BuíTon, 
nascido em Borgonha por 1707, natu- 
ralista celebre eescriptor insigne, re- 
cebeu esmerada educação, e viajou por 
França, Itália e Inglaterra. Dedicou- 
se, em seguida, a lavores de sciencia, 
sem ter de fito escopo algum apontado. 
Nomeado, porém, intendente dosjar- 
dins reaes alinhou a direcção de suas 
idéas, encetando a vereda que o guiou 
á immortalidade. — Até ao seu tem- 
po, a historia natural era simples e 
extensa canceira de compiladores des- 
talentosos; o restante de obras ge- 
raes era fastidiosa agglomeração de 
nomes. Havia muitas e excellenies ob- 
servações; mas versando todas sobre 
particularidades. Emprehendeu Buf- 
fon a traça de associar ao vasto plano 
de Plinio e profundos intuitos de Aris- 
tóteles a exactidão e minudência das 
observações modernas. Sentiu-se ro- 
busto de alentos próprios para abar- 
car a amplitude da sciencia complexa, 
e de imaginação bastante a coloril-a. 
Assim, pois, publicou entre 17-49 e 
1767 os primeiros quinze volumes de 
Historia nnlural. Os nove volumes se- 
guintes, sahiram da estampa entre 



BUF 



BUF 



141 



1770 e 1783, contendo a historia dos 
pássaros, da qual uma parte foi total- 
mente composta por dous amigos de 
BufTon, Gueneau de Montbéliard que 
em alguns lanços lhe imitou o estylo, 
posto que, a espaços, descaia na affe- 
ctação, e o abba*de Bexon, quando 
Guêneau, enfastiado de escrever das 
aves, variou para os insectos. O quin- 
to volumfí, dos sele supplementares 
(o ultimo já appareceu posthumo) é 
obra distincta do todo,,e a de maior 
nomeada. Contém as Épocas danaln- 
reza, onde mostra era linguagem al- 
tiloqua e com vigor de talento pode- 
rosíssimo, a segunda redacção da sua 
theoria da term. Este ingente traba- 
lho em que BuíTon laborou cincoenta 
annos sem ferias, é todavia simples 
parte do plano immenso que havia 
bosquejailo. Podemos formar concei- 
to do seu modo de compor, no Dis- 
curso acerca do pstylo, pronunciado 
quando foi recebido na Academia fran- 
ceza em 1753, discurso onde, a um 
tempo, dá o preceito e o exemplo, e 
é um dos mcjíioies pedaços de prosa 
da lingna fianceza Faz-se mister 
discriminar em Buffon duas entida- 
des: natunlista e escripior. O natu- 
ralista prestou serviços valiosos á sua 
sciencia por amor á historia natural 
que lhe nasceu da sua obra; raas, era 
consequência, a sciencia progiediu 
ultrapassando balisas queelle deraar- 
cára erradamente. Quanto a escripior 
está e estará sempre na primeira pla- 
na, por virtude da magestade, vigor 
e consonância do seu eslylo. É gioria 
que nem propriamente os coevos lhe 
disputaram. De prompto o rodearara 
os emboras, não só de sábios e lit- 
leratos, senão que dos personagens 
mais sobeibos da sua prosápia, e até 
de soberanos esli'angeiros. Durante 
a vida, lhe erigiram uma estatua com 
"esta inscripção latina : Magcsínti na- 
tural par inrjftíium (ião grande como 
a natureza). Voz nenhuma, afora a de 
críticos anonymos, pei-lnrbou a har- 
monia dos louvores. Quanto a lUilTon, 
as camadas de conchas, apparecidas 
na cumiada dos Alpes, provavam o 
diluvio; (juanto a Voltaire, essas con- 
chas tinham cabido do chapéo ou da 



esclavina dos romeiros que peregri- 
navam para Roma. D'ahi, alguns epi- 
gramraas do philosopho de Verney; 
mas, coraoeste, apesar d'isso, admi- 
rava o adversário, sahiu logo decla- 
rando qne não queria estar de más 
avenças com Buffon á conta de con- 
chas.* — Buffon, gentil de sua pessoa 
e corpulento, usava na vida particu- 
lar como no estylo certa gravidade um 
tanto mesurada. Dizem que elle se 
vestia galhardamente para escrever. 
Na elocução descurava-se ; raas tão 
pacientemente se dava á lima do estylo 
que copiou onze vezes, corrigindo 
sempre, as Épocas da natureza. Pelo 
que, dizia elle a miúdo: «O génio é 
a paciência.» Alheio das desordens 
que agitavam a França e a litteralura 
em seu tempo; silencioso sempre 
quando o criticavam ; consolidando o 
seu repouso com respeitar o dos ou- 
tros, viveu vida bonançosa e quasi 
inalterada. Achaques longos, causa- 
dos pela cyslite, lhe torvaiam os últi- 
mos ânuos, sem o em[)écerem de pro- 
seguir no seu vasto plano. Morreu em 
Paris, contando 81 annos. 

2. ftFormáia-se o engenho de Buffon 
com aturados esforços. Só, á volta 
dos quarenta e Ires annos, aspirou 
francamente ás glorias de escripior. 
— Das suas obras coi-rem extractos 
de descripções luminosas sempre ad- 
miráveis. E' damnifical-o desaggregar- 
Ihe os fragmentos; que o merecimen- 
to da vida dos animaes está na con- 
nexão, no theor como a tradição, ob- 
servação, discurso e rrilica se mes- 
clam e concertam. Alliam-se a ele- 
gância pomposa de alguns trechos 
coui a precisão das pariicularidadese 
singela clareza d() discurso, e ifisto é 
que rauito sobreleva a excollenoia de 
tal escripior. A pintura verdadeira ou 
conjectural dos animaes, a descii|)çào 
dos lugares (pie habitam, o :\ mixlão 
de natureza viva e natureza inanima- 
da, resplendem vivos maii/es. Algu- 
ma vez Plinio os descieveu jordiver- 
sissimos (pie fossem. Quer descreva o 
leão, (píer o rouxinol, é, (piando con- 
vém, brdlianle e vigoroso. Com igual 
lustre, DulTon é mais rorreclo e uni- 
forme. Phnio era mais da escola da 



Ii2 



BUF 



CAF 



phynl.isi;; íjiifí (loi,'()Slo (jiK! fez do Tá- 
cito pintor iiM;oiiip;ir;iv(!l, in^s pontu- 
do lli(! boleou gcilos (]('. (Jechimação e 
subtileza. Mais btloratio qno scienli- 
fico, I'bíiio veste as fabulas ou idéas 
erróneas de oslylo amaueirado. Buf- 
fon, alumiado pela moderna scieneia, 
('; severo e pautado no descrever ain- 
da mais ornamentado. A lintinagem 
(í mais acurada (pie a de llonsseau, 
c dispensa-se das arfcciaçAns que ás 
vozes mareiam aqiudle Ião francezos- 
lylo de Monlesipneu. 1'rivilegiado ra- 
ramente, n;V) se ilie nota fiouxoza nem 
declinai- de talento no volver de (pia- 
ronta annos, a n3o ser o plirasear 
faustoso, o circumloipiio vão: o de- 
mais (' por- igual juvenil e maduro, 
vigoroso o polido. Í*or vozes, com dou- 
ta preoccupaçâo, não menos expres- 
siva que a candidez do fa bui islã, trans- 
fere á pintura natural dos aniraaes 
retoques ba vidos de empréstimo da 
nossa, e descreve as brenhas e deser- 
tos dVIles, á força do phanlasia, como 
se os houvesse 'porluslrado. A des- 
peito do que lia dilo um grave escri- 
ptor não escasseia bondade de alma 
em seus escriptos. Se se lhe olvidou 
o cão do cego, e a imagem cbristã do 
inforiunio o da caridade, não ha sen- 
timonto honesto que não respeite, en- 
carecendo o amor á paz, ao trabalho, 
á virtude e gloria. Afortunado com o 
estudo, havei es e renome, conformou- 
se docilmente aos costumes da sua 
época, e desconheceu a mysanthropia 
e irritável condição do vulgar dos plii- 
losophos; e, bem que nâo declame, 
isso não faz que soj.i menos amigo dos 
homens. Viveu senhorialmente em 
Monlbar; todavia a cada passo se des- 
entranha em pbrases de bem-fazer 
ao pobre e de melhoria no inforiunio 
do povo. Pelo que, BuíTon, bera que 
não sahisso a campo, figura na missão 
philosophica do século xviii, missão 
que se desmandou em zelo por indis- 
crição dos apóstolos e falsos prose- 
lytos; mas que ainda assim foi gran- 
diosa no intento e nos resultados, e 
cuja influencia transformou a socie- 
dade frauceza e se prolongou até aos 
governos absolutos que se queixam 
d'ella. Em meio do movimento intel- 



lectiial do seu sei;ulo, a possança de 
BuíTon deu-lh'a a eloquência; e tal 
elofpiencia, estreme do paixões e con- 
tendas, foi-lhe grande parte na ele- 
vação dos estudos c socego de vida. » 
(Villemain). 

BÚSSOLA. (Veja MagnktismO). 

BUTIO. (Veja ÍUI'1N.\NTES). 



G 

CABRAL 'Gonçalo Velho). (Veja Na- 
VK(;Ai)Oi;fc:s 1'ortuguezes). 

CABRAL (Pedro Alvares). (Veja Na- 
vegadores PORTUGUEZES). 

CABRA. (Veja Ruminantes). 

CABRESTANTE. (Veja Rold.ana). 

CACÁOSEIRO. (Veja M.\lvaceas). 

CADA MOSTO (Luiz). (Veja N.ave- 
gadores). 

CADEIA MÉTRICA. (Veja Agri- 
mensura). 

CADIX. (Veja Hespaniia). 

CÁDMIO. (Veja Metaes). 

CADMO. (Veja Sexto século). 

CAEN. (Veja Norm.\ndta). 

CAFESEIRO. (Veja Rubiace.vs). 

CAFRARIA e CABO. A Cafraria, 
cujo clima é ardente no liltoral. ter- 
reno accidentado, e montanlioso no 
interior, contém vastos desertos de 
areia, onde ha grande mingua de 
agua. Abunda era rainas de ouro, 
prata, ferro, cobre, e beslas-feras. 
São guerreiras, e pela maior parte nó- 
madas, as tribus cafres. Pastoreiam 
grandes manadas de bois, pouco en- 
tendem de agricultura, e de indus- 



CAF 



CAF 



143 



tria menos. Quanto a religião, se al- 
guma observam, é brutal. Debalde lá 
tem ido missionários catequisal-os. O 
paiz dos hotientotes é cortado de este 
a oeste pelo rio Orange. Pouco se sa- 
be do interior d'essa região. A sul e 
norte 6 montanhoso; mas lá dentro 
correm immensas planicies arenosas 
e quasi improductivas. Formam os 
hottentotes tribus numerosissimasque 
podemos agrupar em duas familias: 
Namacas e Koranas. Estas possuem 
rezes e alguma industria. Já os mis- 
sionários lá conseguiram insinuar o 
christianismo. Acrescemos Bosjemans, 
o mais selvático e bestial povo de to- 
da Africa, que vivem ao modo mais 
miserável, nutrindo-se de caça e rai- 
zes. Sempre a braços com as outras 
tribus, erram pelas serranias que de- 
moram á ourela septeratrional da co- 
lónia do Cabo, e ahi se emboscam nas 
florestas. Tem agradável clima a co- 
lónia do Cabo; porém, está exposta a 
inundações e extrema seccura. Nos 
arredores do celebrado Cabo da Boa- 
Esperança encontra mos viajantes mui- 
tos rios, aguas mineraes, vegetação 
luxuriante, planicies agricultadas e 
desertos infindos, planlas da zona tór- 
rida e do sul da Europa. As uvas são 
deliciosas, limões e laranjas excellen- 
tes, figos saborosos, em fim, parece 
estarem lá acclitnados todos os legu- 
mes europeus. Lá passaria todo oan- 
no suavemente, se o vento de sudoes- 
te, que reina durante três mezes, não 
rescquisse a terra, a ponto de lhe 
queimar toda a força productora. 

2. Em três classes podemos dividir 
os colonos do Cabo: os habitantes 
suburbanos do Cabo, os mais afasta- 
dos para o interior das terras, e os 
que, ainda mais arredados, demoiam 
nas rai;is da colónia, entre os hotten- 
totes. Os primeiros, proprietários de 
opulentas terras, e lirulas casas cam- 
pestres, divergem muito dos outros 
pelo aceio e luvo,;sobre tudo por cos- 
tumes altivos e desdenhosos. Todo 
seu mal lhos provóm da ri(|ue/a. Os 
segundos são lhanos, hospitaleiros, 
boníssimos, e agricultores (pie vivem 
do seu lavor. N'estes, a boa sorte ad- 
vem-llics da mediania. Os últimos, 



sobremodo miseráveis e preguiçosos 
no auferirem o alimento da terra, 
recorrem tão somente ao producto 
das rezes mal apascentadas. A imi- 
tação dos árabes beduinos,raro acon- 
tece pascerem os seus rebanhos. Com 
vida tão vagabunda não cuidam de 
edificar residência. Se os rebanhos os 
forçam a parar por algum tempo, er- 
guem á pressa uma choça rústica te- 
lhada de esteiras, á feição dos hotten- 
totes, cujos estylos adoptaram, e dos 
quaes escassamente se differençam 
em traços physionomicos e côr. 

3. Os hottentotes costumam esfre- 
gar o corpo com banha de carneiro 
misturada com fuligem; e repetem a 
unção tantas vezes quantas o sol lli'as 
secca. A utilidade que tiram d'esta 
operação é resistirem aos ardores so- 
lares. Semelhante immundicie sujei- 
ta-os a toda a casta de vermes, so- 
bre tudo piolhos, que são lá descom- 
munaes. Mas, se estes os comem, 
também são comidos pelas victimas; 
e quando se lhes pergunta como se 
arranjam com tão detestável iguaria, 
allegam a lei de Talião, e pretendem 
que não é vergonhoso comer bichos 
que os comem a elles. O costume de 
immolar os filhos e os velhos, é tão 
usual entre os hottentotes, como em 
outras nações da Ásia e Aftica. Pelo 
que toca á primeira d'aqut'llas bar- 
baridades, com que ainda se deslion- 
ram o Japão ea China, os hottentotes 
desculpam-se com a usança, mas, 
quanto aos velhos, querem que seja 
acto de caridade, e que em tal idade 
mais vale sahir das misérias da vida 
por mãos de seus amÍJ;os, que morre- 
rem de fome na cubata, ou nas gar- 
ras das bestas-feras. — Quanto ao 
mais, parecem exceder os vicii's lom 
as virtudes da aniizach», benevolência 
e hospitalidade. Se ali^uem lhes pede 
soccorro, acodem logo; a qnrm lhes 
pede conselho, dào-no sincero; e a 
quem está em penúria soccorrem lo- 
go, cotisando-se. O sen maior prazer 
é dar. Em liin, a bondade dos hot- 
tentotes, inteireza, amor á justiça e 
castidade, são virtudes que em tama- 
nho grau raras nações possuem. 
I Hnlarçãn. Aspecto, clima, povos e 



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CAI 



govfirtio (Ja Cafraria, e do Cabo. — 
Colonos ricos o pobres. — Coslumes 
(Jos iillimos. — Usanças, liahilos e 
costiuncs (]os liollenloles. — Suas vir- 
tudes. (Veja os lugares no raappa). 

CAHORS. (Veja Guienna). 

CAILLÉ. (Veja Saiiara). 

CAIXA. (Livros auxiliares). Os li- 
vros auxiliares são: 

ho (',npinili)r (It! carias, (|ue é o re- 
gistro das cartas ((ue o negocian- 
te escreve; 
o íArro de luutiiras, que é o regis- 
tro das facturas que o negociante 
expede; 
o Lirrit de Contas de venda, que é o 
registro das contas (]ue o nego- 
ciante manda aos seus coinmit- 
tenles, quando vende as fazendas 
que lhe consignaram; 
o Livro (Ic (joutd'^ correntes^ que é o 
registro das contas (jue, com es- 
te titulo, o negociante dá aos seus 
correspondentes; 
o Livro d" Armazém, que é o regis- 
tro da entraíJa das fazendas no 
aimazem do negociante, e da sa- 
bida das mesmas, ou ellas sejam 
de conta própria, ou de conta 
alheia; 
etc. ele. O negociante usa, e deve 
usar d'esies livros, ainda que a 
escripluração do seu negocio se- 
ja tida nos Ires livros principaes 
somente; não é d'esses, porém, 
que vamos agora tratar, mas sim 
d'aquelles chamados /jro/í/íamfw- 
tp auxiliares. 
<(0s livros auxiliares do Diário são 
secções do Memorial, contendo priva- 
tivamente certas operações. 

«O seu numero é arbitrário, mas os 
que se usam mais são, o Diário de 
compras, e o Diário de veíidas. No ca- 
so de haver Diário de compras, deve 
lançar-se n'elle as compras que tizer- 
mos, dia por dia, em vez de as lan- 
çarmos no Memorial, e no fira do mez, 
ou de qualquer oulro período, devem 
passar-se todas as compras feitas den- 
tro do periodo para o Diário princi- 
pal em uma só partida. 



«Semelhanlementeobraremos a res- 
peito dos vendas, no caso de haver o 
auxiliar Uiario de v<Midas. 

'lAuxiliarcs do llazão sSo os livros 
correspondtMiles aos T:tulos collecli- 
vos que abrimos no Ua/.âo. Taes s3o 
o livro (Inira, o livro inlitul.iflo Fa- 
zendas (ié-rarx, i'azindas dr "/., Fa~ 
zpndaa de '/., l-azinlas d'imj)inla{-no^ 
Fazendas d'expiirlarnn. Compradores 
de Fazendas, Vendedores de Fazendas, 
etc. ele. 

tl-^stes auxiliares devem ser arru- 
mados por dt-biio e credito; e quando 
usarmos d'aigiHn d't!lles, c n'elle que 
deveremos lançar as operações que 
levaríamos aos Livros principaes, fa- 
zendo aquelles lançamentos nas datas 
em (|ue eITecluaiinos as operações, 
mas no fim de cada semana, de cada 
mez, ou de qualquer outro periodo, 
passaremos para os Livros principaes, 
em uma só partida, lodos os lança- 
mentos feitos durante o periodo. Does- 
ta arte o debito da Conta collecliva no 
Livro de Razão representar.i a somma 
dos debilos de todas as conlas aber- 
tas no auxiliar respectivo; semelhan- 
temente o credito da Conta collecliva 
no Livro de R.izâo representará a 
somma dos créditos de todas as cou- 
tas abertas no auxiliar respectivo. 

«Assim, creando nós o auxiliar Cai- 
xa, é n*elle que deveremos lançar to- 
do o dinheiro que entrar, e todo o di- 
nheiro que saliir, fazendo estes lan- 
çamentos nas datas era i|ue occorre- 
rem as opei'ações d'erabiilsa e des- 
embolso. Cieando o auxiliar Fazen- 
das Geraes, é n'elle que devemos abrir 
conta a cada uma das fazendas em 
que negociamos, e debitar ou credi- 
tar cada conta pelas compras e des- 
embolsos respectivos, ou pelas ven- 
das, segundo a operação fór. 

«Creando o auxiliar Conlas Corren- 
tes, é n'elle que devemos abrir conta 
a cada um dos nossos corresponden- 
tes, e lançar no debito, ou no credito 
de cada conta o que houvermos de 
carregar, ou descarregar ao corres- 
pondente. 

«Semelhanlemenle obraremos com 
outros auxiliares que por ventura 
orcemos, taes como Compradores de 



CAL 



CAL 



145 



Fazendas, Vendedores de Fazendas, 
Interessados em navios, ele, pois to- 
das as vezes que no Livro de Razão 
abrirmos ura titulo collectivo, deve- 
remos crear o auxiliar corresponden- 
te para n'elle abrir cada uma das con- 
tas singulares, que o titulo compre- 
hende.» {Tratado de contabilidade ci- 
vil). 

CAL. (Veja Calcareos). 

CALCAREOS. 1. Ocalcareo dos geó- 
logos, ou carbonato de cal dos chirai- 
cos,éabnndantissiraona natureza, for- 
mando só de per si ou misturado com 
outras substancias, cordilheiras de ser- 
ras e terrenos de espessura e extensão 
consideráveis. O espalho calcareo é a 
cal carbonada em grossos crystaes, de 
quese contam por centenas as variadas 
formas. Em estado de pureza é trans- 
parente, tem refracção dupla, o que o 
torna continuamente empregado em 
óptica. Agglomerado em pequenos 
crystaes como laminasinhas, consti- 
tue o calcareo lamellado. O mármore 
de Paros pertence a esta variedade. 
Se os crystaes são ainda menores, á 
feição do assucar, forma o calcareo 
saccharoide: tal é o mármore de Gar- 
rara. Ocalcareo concrecionado forma 
as stalactites e as stalagmites, por 
crystallisação maisou menos apparen- 
te. — As outras variedades de calca- 
reos, que não denotam vestígios de 
crystallisarão, compõem os calcareos 
sedimentosos, isto é, depostos no seio 
das aguas por precipitação, ou trans- 
porte. Á frente (los calcareos sedimen- 
tosos devemos collocar os mármores 
compactos, (jue são mistura de calca- 
reo ou resíduos gelatinosos de ani- 
maes, ou estuques artííicíaes, que são 
misturas de calcareo pulverulento, e 
colla de peixe. O calcareo compacto 
propriamente dito (o do Jura), e em 
particular a pedra litliographica, con- 
lí^m menos matérias orgânicas que os 
mármores; mas em desconto aclia-se 
intimamente ligado á argilla em maio- 
res ou menores proporções: esta va- 
riedade do calcareo fornece a cal hy- 
draulica. Depois lemos o calcareo 
cri\ formando depósitos extensíssimos, 



provenientes de resíduos conchyliares 
microscópicos: taes depósitos abran- 
gem ás vezes espessura de centenares 
de metros. Sobre o cré, assenlam os 
calcareos grosseiros em bancos maio- 
res ou menores, variados quanto á 
textura. — Está sabido que o calcareo 
reduzido a pó e calcinado em um ca- 
dinho de platina, difficdmente perde 
o seu acido carbónico; emtanto que 
aquelle acido se destaca de prompto, 
se a pedra calcarea é aquecida com 
lenha verde bastante a fornecer va- 
por aquoso que favoreça a separação 
do acido carbónico. 

A cal gorda, obtida por calcinação 
mediante lenha húmida, é capaz de 
absorver muita agua depois que es- 
friou; mas para se tirar o maior re- 
sultado possível é mister apagar a cal 
gradualmente, e não lanç;ir-lhe d'um 
jacto grande quantidade d'agua; que, 
em tal caso, o calor seria absorvido 
pela grande massa liquida, e a cal fi- 
caria, como lá dizem os práticos, afo- 
gada. A cal, que tem a propri<'dade de 
delir-se n'agua, de aquecer-se, fundir- 
se, e formar uma massa pegajosa, já 
não tem a mesma propriedade senão 
em menor grau, se procede d'um cal- 
careo misturado com muita raagne- 
sia. Esta cal charaa-se mngrn para a 
distinguir da cal gorda, proveniente 
de calcareos quasi puros, no emtanto 
ha misturas naturaes de calcareos 
e de argillas, que produzem cal de 
excellente qualidade, tal é a cha- 
mada cal hyJraulica; esta tem a pro- 
priedade de endurecer nos lugares hú- 
midos, e mesmo debaixo d'agua, on- 
de a cal gorda se diluiria, não servin- 
do para cousa alguma. Eslas misturas 
calcareas enconlram-se nas camadas 
inferiores dos terrenos do Jura (veja 
GEOLor.iA), e formam as melhores pe- 
dras de edificar. 

2. As pedras calcareas sfio o lypo 
da matéria própria para etlilii-ações, e 
a mais empregada geraliiinilt'. Kn- 
contram-seem carreir;is ou bancos ho- 
risontaes onde cada haiico superior 
se destaca i)err('itametilt' do banco in- 
ferior, com o (jiial não tem nenhuma 
ligação. Conhecfin-se muitas espécies 
de pedras calcareas: a pedra de amo- 



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CAL 



CAL 



lar, n pfdra dn cantaria, a rocha, a pe- 
dreira fiança, a [jndra mollc. — A pe- 
dra (1(! amolar rcnno loíias as (jiiali- 
dados (las mais licllas pedras; i; íliiis- 
sima, e de conlexlura iiiiiforine; re- 
siste a todas as intempéries das esta- 
ções sendo tirada das pedreiras com 
lemposecco. A pedia decantaria ('nina 
pedra diira,men()slina (\\u',;\ deaimdar, 
pouco em|>re^;ada por cansa do pre(;o 
de mao de ohra. A rocha ('■ uma pe- 
dra (lura e enconchada. Kncoiitra-s(! 
em dons hancos sohreposlos, do ipial 
nm ('" mais al)nndante em conchas do 
(jne o outro. A pedreira franca ('• uma 
pedra tenra que não serve senão pa- 
ra construir, e esta banida das pontes 
e encanamentos. Apedra raolle (í ain- 
da menos solida que a pedreira; esta 
só se emprega nas conslruc(;ões. O 
que é preciso procurar antes de tudo 
nas pedras calcareas, é que lenham a 
areia fina, e a textura uniforme e 
compacta. Para verificar se uma pe- 
dra (3 susceptivel de se dissolver pela 
acção do gelo, tira-se um pequeno cu- 
bo e mei gulha-sc n'uraa dissolução de 
sulfato de soda a ferver. Tira-se pa- 
ra fora, e deixa-se seccar; se ella a 
absorveu as arestas cahem em pó, e 
são seguidas d'uma porção maior ou 
menor do resto da massa, segundo a 
qualidade da pedra. 

3. A pedra gypsosa ou sulfato de 
cal hydratadoó uma matéria mui ten- 
ra, susceplivel dedividir-se era lami- 
nas mui delgadas quando está cryslal- 
lisada : sujeita á acção do fogo perde 
toda a sua agua de crystallisação, c se 
converte em' gesso, substancia que 
que tem variadissimas applicações. 
O gesso natural contem 21 7o d'agua; 
aquecido em ^OO graus, perde esta 
agua de crystallisação, e torna-se frio 
6 pulverulento. Assim confeccionado, 
o gesso absorve pouco a pouco o va- 
por atmosptierico,expon(Jo-se ao ar, 
mas se o caldeiam com um pouco 
mais do quinto do seu peso d'agua, 
absorve esta rapidamente, e faz-se 
em alguns minutos uma crystallisação 
confusa ; resultando uma massa solida 
mas menos dura que o sulfato de cal 
antes da calcinação. Solidificado, o 
gesso augmenta um pouco o volume, 



o (jiie o torna muito próprio á mol- 
dura, ada[)lanilo-se perfeitamente ao 
raodf^Io. Se ao caldear o gesso, em lu- 
gar d'aRua pura se lhe lança a colla 
(1(! gídatiiia ou de pedra hume dissol- 
vida, ohtem-se o estmpie que imita 
o mármore, sobretudo rnisturando- 
Ihe matérias coloridas na massa ain- 
da molle. O estuque resiste muito 
bem á agua ijue estraga o gesso ordi- 
nário. Os muros da igreja de S. í*e- 
dro, em Uoma, são cobertos d'esta 
matéria. — As aguas subterrâneas que 
tem em dissolução muito Cortes pro- 
porç(H's de gesso, vem algumas vezes 
reçumar na abobada e nos interstícios 
das cavernas, onde ellas deixam ao 
evaporar-se um deposito apertado e 
crystallino de ge>so. Debaixo d'esta 
forma, o gesso charaa-se alabastro 
gypsense, matéria muito branca e 
frágil, e algumas vezes raiada de ama- 
rello. Na Toscana fazem chegar as 
aguas gypsenses aos molde^, onde o 
alabastro se depõe tomando a forma 
que se lhe quer dar. O alabastro 
calcareo, que é infinitamente mais 
bello, e d'um preço mais elevado, 
fórma-se da mesma maneira pela in- 
filtração, depois da evaporação das 
aguas carregadas de calcareo. Em 
certas cavernas o alabastro produz 
bellas varelas cónicas pendidas da abo- 
bada, muito semelhantes ;is agulhas 
de gelo que pendem dos bordos dos 
telhados durante o inverno: é ao 
que chamam stnlacliles. As gotas ca- 
bidas na terra formam também um 
deposito chamado stalagmitcs, e ele- 
vam-se algumas vezes de maneira 
que se encontra com a slalactile pen- 
dente, formando assim columnas na- 
turaes,que em muitas grutas (Antipa- 
ros na Grécia, e Arcy em França) apre- 
sentam uma magnifica decoração inte- 
rior, e de magico aspecto ao clarão 
das luzes. 

Suynmario. — Calcareos crystalllsa- 
dos: espalho, mármore deParos, e de 
Garrara, alabastro gypsense e ala- 
bastro calcareo, calcareos de sedi- 
mento, mármores compactos e estu- 
ques naturaes, pedra lithographica e 
cré. — Gal gorda, magra e cal hydrau- 
lica. — Pedras calcareas, verificação 



CAL 



CAL 



147 



de sua qualidade. —Gesso, estuque 
artificial e seu emprego.— Stalagmites 
e stalaclites nas grutas. —Fazer re- 
digir e resumir verbalmente. 

CALCEDONIA. (Veja Pedras). 

CALCIUM. (Veja Metaes). 

CALCULO. «O ensino da arithme- 
tica, quando é bem dirigido, produz 
este espirito calculador que tantas 
vezes falta ao governo de casa, ori- 
ginando innumeros desacertos mui 
nocivos á economia domestica, e que 
teem por consequências a perturbação 
das famílias, a ruina do seu patrimó- 
nio, e todos os embaraços que d'ahi 
resultam... Este espirito calculador, 
estabelecendo a ordem na receita e 
despeza, facilita a observância dos 
dous grandes preceitos da moral: a 
justiça e a bondade. 

Em relação á justiça, o devedor vô 
o que deve fazer para satisfazer os 
seus compromissos. Em relação á 
bondade, moslra-lbe a economia que 
deve ter, não só para não ser pesado 
a outrem, mas lambem para soccor- 
rer aquelles que carecem de auxilio.» 
(P. Girard.) — Eis o fim. Quanto aos 



meios, imporia muito que o professor 
não se agaste das difticuldades que 
embaraçam os seus aluranos, que te- 
nha em' conta a diíTerença entre a 
sua capacidade e a d'elles, *e que pro- 
grida vagarosamente, para que todos 
o possam seguir. Além de que, deve 
preparar o terreno, esclarecer o ca- 
minho por meio de exercícios gra- 
duados de calculo oral, os quaes urge 
que comecem desde a mais tenra ida- 
de. (Veja Numeração, Aduição, etc.) 
Estes exercícios devem recaliir sem- 
pre sobre números concretos; appli- 
cados a questões de economia domes- 
tica, e a outras questões praticas. 

Atheoria e as demonstrações virão 
depois ; ou se as antecipamos, será só 
para os alumnos que presumem muito 
de si, julgando tudo comprehender e 
saber. A estes perguntar-se-lhes-ha 
o como e o porque de cada operação, 
sem comtudo presenlirem que que- 
ríamos embaraçal-os oii humilhal-os. 
Para a theoria* veja Operações. O 
calculo pratico deve produzir este re- 
sultado: prompla solução, intelligen- 
cia dos signaes e formulas, boa dispo- 
sição e limpeza nas operações. Eis 
o quadro das questões mais' usuaes, 
principalmente para o proprietário: 



(Veja o quadro da pagina seguinte) 



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2. Esle quadro serve de exemplo 
para mostrar aos alumnos coiqo so 
assenta rn as vendas e compras, como 
se faz a escripliiração por partidas sin- 
gelas, e como de promplo se pode 
av(!ri|5'nar o est;ido do.', nossos ne^jo- 
cios, fazendo em cada mez o balanço 
da receita e despeza. — Como exercí- 
cios, poderemos impor aos alumnos 
(pi(! disponliam pcda mesma forma as 
seguinte notas, e (|ue façam o balan- 
ço em separado de cada mez. 

Fevereiro. Vendido: 32 hectol. de 
trigo a 2-2^500 rs. cada 5 hectol.; — 
136 ovos, a \ iO rs. a dúzia, e 3í li- 
tros de leite, a iõ rs. o litro. — Rece- 
bido: juro de 118^,500 rs. (70 dias) a 
5 7o- — P^go: 15 hectol. decai em 
pó, a 1|,r)r)()rs. a barrica de 3 hectol.; 
■ — i7 kilogram. de grãos de trevo lim- 
po, a i iO rs. o kilogram. — lõjornaes, 
a 3Í0 rs. ; — i kilogram. '/i de assa- 
car a 1 10 rs. o arrátel (i.')'.) grammas). 

Marro. Vendido: 1050 molhos de 
vides, á 050 rs. o cento; — uma parti- 
da de 1660 lit.de vinho tinto, a 1 8^^000 
rs. a (piartoia de -228 lil.; — 6 cordei- 
ros, a 850 rs. ; frangos: 2 pares, a 280 
rs., e 3, a 250 rs.— Recebido: juro de 
80^5850 rs. (7 mezes), a5 7„.— Pago: 
um murode cerca tendo lin,30d'altura, 
35'", 40 de comprimento em dous la- 
dos, e 26'",80 nos outros dous, a 1 i>300 
rs. o m. q.; — 25kil. de luzerna pa- 
ra semeadura, a 120 rs. ; —28 dias 
de soldada ao criado Pedro, na razão 
de iSlíOO;) rs. por anno; —prestação 
semestral de contribuição predial, cal- 
culada sobre o rendimento collectavel 
de l:i50|,000rs., com a percentagem 
de 12,612 e addicionaes de íO 7, pa- 
ra viação e 2 7^ para falhas. 

Abril. Vendido: 340 taboas de pi- 
nho, comprimento 2'",05, largura 
O"', 40 cada uma, a 210 rs. o metro 
quadrado; — 30 hectol. de vinho 
branco, a 240 rs. o litro; — 3 juntas 
de bois, pesando cada uma 460 kilo- 
gram., a 350 o kilogram.; — 9 galli- 
nhas, a 850 rs. o par.— Recebido : juro 
de 50$,500 rs. (4 annos e 5 mezes), a 
5 7o- — Pago: ladrilhado de um ter- 
rado quadrado de 7'", 80 de lado, a 
1 1)000 o metro quadrado ; — 8'^i'- ,500 
de vacca, a 300 rs. e 6*^'' ,500 de vitel- 



la a 320 rs. o kil. ; — 3™, 60 de panno, 
a U^6r)0 rs. o metro. Ao ferreiro: 40 
kilogram. de ferro a Ou rs. o kilogram. 
e 15jornaes, a 320 rs. 

Maio. Vendiílo: 05 carvalhos no pé, 
lendo de comprimento 7'", '30, e 0"',85 
de volta na circnmfeiencia media, a 
7|,500 rs. o slere; — 25 sacc(js de ce- 
vada, pesando todos 1250 kd. a 2à550 
rs.cada tookil.; - lopatos.a 880 rs. o 
par. — l*ago: ladrilhado de uma loja 
r(!ctangular,de(')'",õOe5"',40d« dimen- 
sões, com tijolos quadrados de O'", 10 de 
lado, a l|,500rs. o cento; — 3 hectol. 
Vi de semente de linho, a li>'.>50o he- 
ctol.;— 2 pares de sapatos, a 2v>2oOrs. 
o par. — A minha irmã: 180^00') rs. 
com o juro de seis mezes. 

Junho. Vendido: uma pilha de 
achas tendo as dimensões, 4'", 50, 
l^jSO e (j'n,70, a 1í>150 rs. o slere; 

— 37 hectol. de milho, a 550 rs. ca- 
da 25 litros; — 5i20 kilogram., a 130 
rs. cada 50 kilogram. — Recebido: 
juro de í obrigações prediaes, de 6 
7o, valor nominal '.lO^OoO rs. —Pa- 
go: papel pintado para forrar as qua- 
tro paredes d'um quarto que tem 
18"', 80 de perímetro e 4'", 30 de altu- 
ra a 360 rs. o metro quadrado; — 3 
carneiros que morreram de epizootia, 
avaliados em 2^800 rs. cada um; 
uma teia de panno de linho de 26'", 80, 
a 780 rs. cada 2™, 40; — concertos 
em ferramentas de lavoura, 13í)550rs. 

Julho. Vendido: 25 carros de raat- 
to, a 35)800 rs. cada carro; — 60 li- 
tros de vinho velho a 2o|,()00 rs. o 
hectol.; — feno no campo 7h"-,67, a 
93,500 rs, cada 38 ares; — frangos, 
3 pares, a 320 rs., e 5 pares, a 350 
rs. cada par. — Recebido: juro de 
967|>500 rs. empregados em inscri- 
pções cotadas a 48 '/,, corresponden- 
te* ao semestre. — ^^Consuramo no se- 
mestre: 180 molhos de vides a 210 rs. 
cada 25, e 5 steres de lenha, a 750 
rs. o stere; — 8^*^ -^'-,50 de trigo, a 
5|,000rs. o hectol., e 12 hectol. de 
milho a 3^''^00 rs. o hectol. ; — 670 
litros de vinho, a 150 rs. o litro; — 
28 dúzias de ovos, a 120 rs. a dúzia; 

— 90 litros de leite, a 45 rs. o litro; 

— 8 kil. de queijo, a 500 rs. o kil. ; 4 
jantares em hospedaria, a 1|>500 rs. 



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3. I']sln inodo ;ilir('vi;i(lo iI<í fornm- 
lar ;is (]ii('slu(!S liicilila ao.s aliirmios a 
d('l<Miiiiiiac;i() das relações (juc ligaiu 
eiílcfi si as (|iiaiíli(]a(les conhecidas o 
incógnitas; isio é, nioslra-llies a es- 
Irucltiia dos probliMiias ainda os mais 
coiiiplirados; ao [)r(;fi'ssor, servc-lhe 
de ineltiodo i'a|iid(j e luminoso para a 
praliia do sysleina nieli ico di'ciiiial ; 
e periniUe-llie variar iiideUiiiilainente 
as (|neslòes, (|uer tnudando sini|iles- 
menln os valores dos dados, (|ner 
suppondo successivainente incoííiiilas 
cada nina das três quantidades da- 
das; o (|iie serve, ao mesmo tempo, 
mutuamente de prova aos prohiemas. 
(Veja coliiinna (hzetubro). Dispostos 
assim os [irobleraas, deteimina-se fa- 
.cilmenle a incognV.a pelo iwthododc 
rcdiicrão a uuiilíulf. Observe-se f|uc 
todas as (jueslões lelativas á propor- 
cionalidadí! das grandezas se reduzem 
a determinar o valor da (|uanlidade 
homogénea com a incógnita, corres- 
pondente á unidade das outras (luan- 
tidades. Tomemos para exemplo o 
primeiro problema da columna de- 
zembro: discorreremos assim: Se 15 
melros de panno custam 30|,(»00 rs., 
Mm melro custará 15 vezes menos, ou 

30^0(10 

; e se um meiro tem este va- 

15 

lor, GO metros custarão GO vezes mais, 

30-SOOO 



isto é, 60 X 



15 



, ou, pela regra 



da multiplicação das fracções ordiná- 



rias, 



GO X 30^000 
15 



= 12^000 reis. 



Uma cousa (jue embaraça frequente- 
mente os alumnos é não estarem as 
quantidades homologas referidas á 
mesma unidade, como no exemplo 
(columna setembro) : I O hectolitros cus- 
tam 45^00» rs.; qual é o custo de 
7"»<:-,820? Antes de discorrer como 
fica dito, devemos reduzir as duas 
quantidades homogéneas conhecidas 
á mesma unidade : ora 7"^- '-jS-iO con- 
teem 7820 decimetros cúbicos ou li- 
tros, e portanto, reduzido a hectoli- 
tros, dá 78h- 1/20. Agora o problema 
reduz-se ao primeiro caso: 10 hecto- 



litros custam t5§000 rs. ; (piai éo 
custo de "«'' ' ,-20? (Veja íjystema mk- 
Titico e cada uma das unidades me- 
liicasj. 

Observfi-se que o riielhodo de re- 
dijcrão á unidade resolve geralmente 
tíjdas as (jUPstòes, quabjuer ijue seja 
o numero de grandezas de (pie de- 
píMidam, comlanto (|iie essas grande- 
zas sejam ligadas entre si pela lii de 
propiirrioniiliilfidi'. (Veja regra de TnES 
e de I'iioi'OFiçÃo). 

CALDERON DE LA BARCA iD. Pe- 
dro), (icicbre [toeta dramático liesj)a- 
nliol (l(')()0-17H7). ílompoz a sua pri- 
meira pcçã, na idade de 1 l annos; e, 
assentando praça aos Í25, cnilivíni a 
poesia sem implicância da milícia. 
IMiilippe IV cbaraou-o á ccnte, (}u3n- 
do o talento lhe deu nome; favore- 
ceu-o liberalmente, e facilitou-lbe a 
representação das suas comedias. Por 
1()5'2, tomou ordens, e foi nomeado 
cónego no cabido de Toledo. Desde 
então renunciou ás gloriasdo theatro, 
ou compoz apenas dramas religiosos. 
Era todas as suas obras, (jue são mui- 
lissiraas, leluz extraordinário engenho 
e fértil phantasia; mas abaste-nos o 
admiral-o como insigne poeta, e não 
o imitemos quanto a gosto, pois que 
elie ou ignorou ou desprezou as re- 
gras da arte. 

2. iD. Pedro Calderondela Barca 
foi espirito por tanta maneira fecun- 
do, e escriplor tão operoso como Lo- 
pe de Vega, e mais levantado poeta, 
se ainda houve quem tal nome mere- 
cesse. Renovam-se n'elle era escala 
mais subida o dom de accender en- 
thusiasmo, o império sobre as pia teias, 
e, para que em pouco o diga, um mi- 
lagre da natureza. Os annos de Cal- 
deron marchara de par com os do sé- 
culo XVII. Orçava pelos 16. quando 
morreu Cervantes, e 35 ao fallecimen- 
to de Lope de Vega, a quem sobrevi- 
veu por espaço de 50 annos. Em qua- 
tro principaes classes se dividem as 
suas peças: as sacras, cujos assum- 
ptos são colhidos na Escriptura ou 
nas lendas; as históricas; as mvtho- 
logicas, de assumpto fabuloso; e em 
fim os iransumplos da moderna vida 



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CAL 



153 



social... Todavia, onde mais enérgi- 
cos realçam os sentimentos deCalde- 
ron é ní-s sacras. Os amores d'esta 
vida descreveu-os vagamente, faltan- 
do só a linguagem poética da paixão. 
Amor verdadeiro e muito seu é a re- 
ligião, que toda a alma lhe incendeia. 
Mediante esse sublimado aíTecto se 
nos insinua no coração, e como que 
dentro do seio lhe abrimos reserva- 
dos arcanos de commovidos aíTectos. 
Este prosperado espirito, esquivando- 
se ao lahyriíitho das duvidas, acoutou- 
se no invmlavel refugio da fé. Do rega- 
ço da paz, contempla e pinta as borras- 
cas da vida. Com o facho da religião 
penetrou todos os mysterios do desti- 
no humano, a dôr, tão enigmática pa- 
ra outros, as lagrimas que elle com- 
para ao rocio das llòres, onde se es- 
pelha o céo...» {Sd\\ege\, Curso de lit- 
teralura dramnlica, t. iii). Veja Schle- 
GEL. — Dicte-se a 2.» lição. 

CALENDÁRIO. 1. O calendário 
compõe-se da serie dos dias do anno 
trópico, distribuídos em estações, me- 
zes e semanas. O anno trópico é o 
tempo que a terra emprega em per- 
correr a sua orbita ao redor do sol, 
ou, por outras palavras, o intervallo 
de tempo decorrido entre duas pas- 
sagens successivas do sol pelo eijui- 
noxio da primavera. O anno sideral 
é o intervallo de tempo decorrido en- 
tre duas passagens successivas do sol 
pela mesma estrella. Para compre- 
hender a differença que ha entre es- 
tas duas espécies de annos, é preciso 
saber-so que o equinoxio não con- 
serva a mesma posição entre as es- 
trellas, mas fine em cada anno se des- 
loca em sentido contrario á ordem 
dos signos do zodiaco. Esta reti-ogra- 
dação ou precessão do equinoxio ope- 
ra-se pois d'orienle para occidente; 
é mui lenta, apenas mede 50, "2 se- 
gundos de grau por anno. Comtudo, 
já sobe a 3i) graus, ou um signo do 
zodiaco, desde os antigos gregos (-28'.t 
annos antes de Jesus Christo); de 
sorte (|ue o eipiinoxio da primavera, 
que n'esla época se achava na origem 
da constellação do Aries, acha -se iioje 
na dos Peixes. Por este calculo, o 



equinoxio percorrerá todo o zodiaco 
n'um periodo de :!6000 annos. O 
anno sideral excede pois o anno tró- 
pico o tempo que o sol gasta em per- 
correr o arco de retrogradação de 
50,2 segundos; isto é, excede 20 mi- 
nutos e 2(1 segundos de tempo. Com 
effeito, a duração exacta do anno si- 
deral expressa em dias solares mé- 
dios é de 305 dias, f» horas, '.) minu- 
tos e H ,5 segundos ; e a do anno tró- 
pico é de 365 dias, 5 horas, 4N mi- 
nutos e 51,6 segundos, ou 365 dias e 
6 horas, com 11 segundos aproxima- 
damente, por excesso. O anno civil 
formado de 3íi5 dias é menor que os 
annos trópico e sideral um quarto de 
dia aproximadamente; d'onde resul- 
ta que, no lim de quatro annos, aquel- 
ie anno tem o avanço de um dia em 
relação ao tempo verdadeiro. Júlio 
César, reconhecendo este erro. man- 
dou ajuntar, de quatro em quatro an- 
nos, um dia ao mez de fevereiro do 
quarto anno, intercalado entre o vi- 
gésimo quarto e vigésimo quinto d'es- 
te mez; o que originou os annos bis- 
sextos. 

Todavia, esta intercalação dá ao 
anno civil, relativamente ao anno 
trópico, um augmento de 11 minutos 
e 8 segundos, ou i\ minutos e 31- se- 
gundos no periodo de quatro annos; 
de sorte que no fim de 400 annos ha- 
verá aproximadamente um excesso 
de 3 dias. Para obviar este inconve- 
niente, Gregório xin, em 1582, de- 
terminou ([ue em quatro annos secu- 
lares consecutivos, houvesse três an- 
nos communs, ficando bissexto o an- 
no, cujo numero de ordem tivesse as 
centenas exactamente divisíveis por 
quatro. Com esta modificação, o va- 
lor médio do anno civil ficou reduzi- 
do a 365 dias, 5 horas, l'.» minutos e 
12 segundos, que excede ainda o an- 
no trópico apenas a (luantidade iO,4- 
segundos; dilTereiíça iiue só ao cabo 
de 1000 annos attingeuin dia. K nis- 
to que consiste a reforma gregoriana. 
O calendário gregoriano foi adoptado 
poi' todas as nações chnslãs, exce- 
pto pelos gregos e russos (lue se- 
guem ainda o calendário juliano; 
d'onde resulta que as datas d'estes 



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povos não (;oiiconlarn com as nossas. 
l']n\ \')Hi a i'f!fotina ;ír(!g(jriaiia es- 
lab('l(!Cf!ii a (lilTtiiíuira dií 10 dias en- 

tm í\< i\a\'A'í i\h< i\i\ii< iTilnrKit fine A 




07. . 

Quando se cila uma dala jiilian 
ira eviLar ambiguidade, escreven 



para evitar ambiguidade, escrevem- 
se as duas datas; por exemplo: — 

1 O 

26 de setembro ,„ 

de setembro, — . Tam- 

8 de outubro 

bem seempregara, para o mesmo fira, 
as palavras: ('■ilijlo anliifo, oscriptas 
enlie partíiilhesis ao lado da dala ju- 
liana. 

As denominações actuaes dos rae- 
zes são as mesmas que as do anno 
dos romanos, instituido por Numa e 
reformado por Júlio César. Porém, a 
designação dos dias em cada mez, era 
diíTerente. Em vez de números cres- 
cendo regularmente desde o princi- 
pio até ao íim de cada mez, os me- 
zes romanos estavam divididos em 
três períodos desiguaes: calendas, no- 
nas e idos. As calendas (origem da 
palavra calendário) representavam in- 
variavelraenie o primeiro dia de cada 
mez; as nonas, designavam o dia 7 
dos mezes de março, maio, julho e 
outubro, e o dia 5 dos outros mezes; 
os idos, o dia 15 d'aquelles mezes, e 
13 dos outros. Os outros dias desl- 
gnavam-se por números que indica- 
vam a precedência em relação ao mais 
próximo d'estes três dias particula- 
res, Por exemplo: Quinto nonas, cin- 
co dias antes das nonas; sexlo idus, 
seis dias antes dos idos; decimo nono 
calendas februarias, dezenove dias an- 
tes das calendas de fevereiro, isto é: 



CAL 

1 í de janeiro. N(j iú*'/. de fevereiro 
de '2'J dias, repelia-se o sexlo calen- 
das martias : isto »i, o dia SPgiiiMle a 
este (b;norninava-se biisejto calendas 
rnarltiis. K esta a origem da denomi- 
narão de anno bissexto dado au arujo 
de ;i(MJ dias. 

2. A lua s(;rve no calendário prira 
fixar a posição di; certas solemnida- 
des religiosas, chamadas ffslas muda- 
ceis, |)ori|ue lêem lugar em épocas va- 
riáveis calculadas jiela dala do dia da 
Páscoa, que o concilio de Nioea i'.ii')) 
lixou no primeiro domingo da lua 
cheia depois de ii) de marco. Taes 
são: a Sepluagesima, (V.5 dias anles 
da Páscoa; a quarla feira de Cinza, 
W) dias anles; a Ascensão, -40 dias « 
depois; o Pentecostes, õij dias de- 
pois; a Trindade, õ7 dias depois; o 
Corpo de Deus, iiuinla feira depois da 
Trindade. As outras festas lêem sem- 
pre as mesmas datas: a Epiphania, 
em O de janeiro; a Assumpção, em 
15 de agosto; o dia de Todos os San- 
tos, no 1." de novembro; o Natal, em 
2? de dezembro. 

Meton, astrónomo alheniense (sé- 
culo V antes de Jesus Chiisto), desco- 
briu que '235 lunações perfazem 40 
annos. Kste periodo ou cyclo lunar 
foi gravado em letras de ouro nos 
muros do templo de .Minerva ; e d'aqui 
vem a denominação de anreo numero 
ao numero de ordem d'um qualquer 
anno no cyclo lunar. Para achar o 
áureo numero, observaremos que o 
cyclo lunar começou ura anno anles 
da era vulgar; por consequência, 
ajuntando uma unidade á era dada, e 
dividindo o resultado por 19, o resto 
obtido será esse numero. Por exem- 
plo : para 1 873, o áureo numero é 12. 
Quando o resto fúr zero, o áureo nu- 
mero é 10. — Chama-se epacta o nu- 
mero de dias que é necessário ajun- 
tar ao anno lunar para completar o 
anno solar. Como o anno solar ex- 
cede It dias o lunar, a epacta vai 
augmentando successivamenle 11; 
porém, quando a somma excede 30, 
considera-se intercalado um mez lu- 
nar, e toma-se para epacta o excesso 
da somma sobre 30. A epacta de um 
dado anno pôde ser mui simplesmen- 



CAL 



CAL 



155 



te determinada pelo áureo numero. 
Eis a regra : Subtrahe-se uma unidade 
ao áureo numero do anno proposto, 
mulliplica-se esta difTerença por 11, 
e divide-se o resultado por 30 ; o res- 
to é a epacia do anno. Esta regra 
contém erros, que, posto tenderem a 
compensar-se, não se annullam com- 
pletamente: a differeiíça dos erros 
monta a um dia, ao cabo de 22'2 an- 
nos aproximadamente. Para fazer 
desapparecer este erro, a igreja, des- 
de a reforma gregoriana, estabeleceu 
duas espécies de correcções: uma, 
chamada mctcmplore (recuo), consiste 
em diminuir n'uma unidade a epacta 
de cada anno secular não bissexto, 
isto é, 3 vezes em 400 annos; a ou- 
tra, chamada praniptore (avanço), 
consiste pelo contrario em augmen- 
tar n'uma unidade a epacta do anno 
secular contado de três emires sécu- 
los (em 1000,180(1, 2100, etc.)Assim: 
em 180!i, as duas correcções compen- 
sam-se, e por isso a regra dá sem mo- 
dilicação o valor das epactas desde 
esta era até 19n0; em 1\iOO, as epa- 
ctas calculadas pela regra deverão ser 
diminuídas n'uina unidade, mas não 
terão outra modificação até 2200. 

Por meio da epacia póde-se facil- 
mente determinar o dia de Páscoa 
d'um dado anno. Eis uma regra: de- 
termine-se o dia (ii — epacta) de 
março, se a epacta é menor que 24, 
on o dia (i'3 — epacta) d'abril, se é 
maior ; obteremos a data da lua cheia 
ecciesiastica ; o domingo seguinte se- 
rá o dia de Páscoa. Quando a epacta 
fôr2i, loma-se 25; e se, ao áureo 
numero maior que 11, corresponder 
uma epacta iguala 25, deve lomar-se 
para epacta o valor 2(». Subentende- 
se (|ue(iuando a dilTerença 4í — epa- 
cta exceder 31, diminue-se-lhe estt; 
numero, e toma-se em abiil a data 
(|ue o it>slo indirar. Appliiniemos ao 
anni) do 1873. O aurco numero é 12; 

(12— 1)XH 

a epacta e pois o resto de 

30 

ou I ;a data da lua cheia ecclesiastica 
ser.i em (11—1) do marco, islo é, 12 
d\iiiril: o primeiro domingo, 13 de 
abril, é a Páscoa. 



A Páscoa tem por limites os dias 
22 de março e 25 de abril: pôde pois 
cabir em 35 dias diíTerenles. 

CALHANDRA. (Veja Pássaros). 

CALOR. Por fins do século passa- 
do, quando os sábios de Franca re- 
formaram a nomenclatura chimica, 
houve idéa de ser a causa do calor 
um fluido particular combinado com 
os átomos da matéria, lluido que se 
denominou calórico, reservandose o 
antigo nome calor para designar a 
sensação que produz em nosso orga- 
nismo aquelle lluido. Depois, porém, 
novas e mais rigorosas observações 
feitas nos phenomenos do calor, esta- 
beleceram que as variações do calor 
não se devem á accumulação de um 
lluido nos corpos ou á sua perda, 
mas sim ás agitações vibratórias de 
1 um lluido .inalogo. — Um dos mais 
notáveis etTeitos do lluido sobre todos 
os corpos, é a mudança de volume 
que produz n'elles. Em geral, um 
corpo afiuecido, augmenta seu volu- 
me : — é o que se chama dilntação ; 
um corpo, que esfria, diminuo em 
volume: é o que se chama contrac- 
ção. Um e outro se fazem conforme 
ás três dimensões dos corpos. Toma- 
ra m-se estes eITeilos como medida do 
calor sensível ou da temperatura dos 
corpos, e os inslrumenlos para esse 
Hm imaginados chamam-.^e thrrmo- 
?«r//u'?. (Veja esta palavra eTEMr[:R\- 
tura) A fracção que exprime a dilata- 
ção de uma unidade de longitude por 
um grau de atiuecimetilo chama -se 
corf/icicnle de (lÚaíacão. K preciso do- 
bral-o paia ler o coeflicienle ila dila- 
tação em superfície, e triplical-o para 
haver o da dilatação em volume. A. 
capacidade de um vnso tlilatr.-se pre- 
cisamente como aconteceria a um mes- 
mo volume cheio da snbslan('ia di> va- 
so. Pelo que a dilatação re;il do liqui- 
do contido em um vaso é igual á 
sua dilatação apparenie, augmcnlada 
por toda a dilatação real do \aso. Os 
melaes, e geialn ciUo os coritos sóli- 
dos, (lilalam-se menos que os líqui- 
dos, e muito menos (pie os gazosos. 
Assim, passando da temperatura da 



456 



CAL 



CAL 



fusão iJo gelo á tia .-j^jiia etn (!bulli(;âo, 
o j't'ii'0 augiuciila cíMca «li; '/j,^ do seu 
voluinti priíiiiliví), o unirciiiio '/..,.-., « 
o ai' 1'2. Se, i(!S[)(;il() aos nwilaos, só 
se considera o ai rescimo em coini)ri- 
meiílo, i>bserva-se (|ii(í aiiiieiido ali'- á 
tcui|i('raliira da agua feivciile, o fer- 
ro (lisl"iide-se cerca dt; (),'"0(i|-2 por 
melro, o cobre e latào (),"'í)iil(S, o es- 
laiilio (),'"()() i, e o zinco, |)ara mais do 
0,"'l)0:J. — Aprov('ila-se esla desigual- 
dade de dilalaçàíj dos iiKilaes para fa- 
zer o (|ii(; se ctiama paulnlds rompcn- 
S(nl(>r<is. 

Uma pêndula sim|jles angmenla ou 
diminiití de coinpiimento conforme a 
temperalura, e (Fesla acção icsulla 
andar o relógio mais rápido em lem- 

f)o frio, e mais lento em lempo de ca- 
or, A pendtila compensadora, forma- 
da de peças de vaiiados melaes com 
dilalação diversa e dispostas de modo 
que se dilatem em sentidos opposlos, 
corrige aipielle defeito quasi inteira- 
mente. D'jlii vem existirem pêndulas 
em relógios (|ue apenas variam alguns 
segundos jior anuo. 

á. Poi' effeito da accumulação do 
calor nos coipos, os fazemos passar 
do estado solido ao liquido, e do li- 
quido ao gazoso, e leciprocamente se 
fazem volver do estado gazoso ao so- 
lido. (Veja TaANSFOUMAÇ.\o dos cor- 
pos). Quando os corpos passam de 
um estado a outro, absorvem ou sol- 
tam certa quantidade de calor sem 
que soíTram na temperalura alguma 
variante apparente. Se misturamos 1 
kil. de gel(» a d", e ura kil. de agua a 
7õ'\ obtemos, depois da completa fu- 
são do gelo, -2 kil. de agua em temfie- 
ratura de O"; assim, pois, se fundiu 
o gelo, sem mudar de temperatura, e 
a agua quente perdeu "t> de calor, 
que foi absorvi(lo pelo gelo; este ca- 
lor absorvido e como disseminado na 
massa liquida lesullanle da fusão, 
chama-se calnr lalcnic {ãe lalcre, es- 
conder) em opposição ao calor sensí- 
vel ou Ibermometrico que nos impres- 
siona os órgãos.— No calculo das tem- 
peraturas de semelbanles misturas, 
deve considerar-se o gelo em zero 
como a agua liquido em 7õ graus 
abaixo de zero. Produzem-se grandes 



írialdades pela mistura de dous cor- 
po.*: capazesde se litpiidiíicarem mutua- 
mente. De modo que do gtdo em zero 
e do sal commum. reagindo-se recí- 
procos, e li(iuiddicando-S(', lesulta frio 
de cerca '20 graus niiaixo di* zero: é o 
que se chama mistura rrfriíjrnmíc. 
São conhecidas cm chimica estas mis- 
turas (|ue produzem ainda mais in- 
tensos frios. Faz-se um frio maior dis- 
solv(!n(ioem agua nitrato dcanimonia- 
co; este fiio (í capaz de congelara 
agua contida em um vaso pnslo em 
meio do refrigerante, e d'esla arlc se 
fabrica o gtdo no t!stio. 

3. Todos os cor|)os expedem raios 
de calor ipie se propagam e,om rxlre- 
ma rapidez. A existência d"esles raios 
prova-se, já directamente, recebendo 
a impressão súbita de um foco de ca- 
lor, já mediante espelhos côncavos 
que concenliam os raios em um pon- 
lo determinado, chamado foro, onde 
piodiizem tão intenso calor que é ca- 
paz de incendiar ou fundir certas sub- 
stancias, o que ainda demonstra (\\ie 
os laios do calor são capazes de lelle- 
xão como a luz. 

Este calor, chamado raiíinule, é em 
parle absorvido e parle relleclido. A 
força i'adianle ou emissiva existe in- 
«Jislinctamenle em lodos os coipos. 
Gonlrapõe-se-lhe a força absorven- 
te que actua de continuo para lesiau- 
rar as perdas da primeira. Além d"is- 
to, os corpos tem em geral uma for- 
ça reílexa, pela qual expedem, sem ab- 
sorvel~a, po. cão maior ou menor do 
calor radiante que recebem das super- 
fícies circumposlas. As forças emissi- 
va e absorvente são enlre si iguacs, 
quer dizer ijue os raios lem igual fa- 
cilidade em sahir dos corpos e pene- 
Iral-os; pelo que, os melaes polidos 
são os que tem menos força emissiva e 
absorvente, pois lem muito maior for- 
ça rellexiva : isto explica o moiivo de se 
elles a(]uecerem e esfriarem mais mo- 
rosamente que os outros corpos. Em 
um circuito de temperatura uniforme 
a radiação exisle do mesmo modo, e 
todos os pontos recebem tantos raios 
quantos emittem. Se uns corpos tem 
diversa temperatura dos outros, os 
mais quentes radiam mais do que re- 



CAL 



CAL 



457 



cebem, e por conseguinte esfriam; ao 
envez, os corpos frios recebera mais 
do que radiam, e aquecem: esta per- 
mutação desigual subsiste em quanto 
o equilíbrio se não restabelece. A for- 
mação do orvalho éum dos effeilosda 
radiação nocturna para os espaços ce- 
lestes! Quando o cóo está sereno, a 
superfície do sol radia para o espaço, 
que lhe envia menos calor. O orvalho 
é o vapor das camadas inferiores da 
almosphera que se deposita durante 
a noite na superíicie dos corpos, em 
consequf^ncia do seu esfriamento. Não 
Tem do alto, como se diz vulgarmente: 
vem do mais infimo da athmosphera. 
A presença das nuvens obsta á repro- 
ducção dó orvalho, porque as nuvens 
empecem todo ou parle do calórico, 
que a terra emitte, e o revertem para 
o solo. (Veja Meteoros). 

Redacção. Causas do calor.— Dila- 
tação dos corpos. — Calor latente e 
misturasrefrigerant.es. — Calor radian- 
te e formação do orvalho. 



CALPURNIO. Nemésio e Calpur- 
nio, coevos e amigos, viveram rei- 
nando Caro (século iii depois de Je- 
sus Christo). Aquelle príncipe, caroa- 
vel de poesia, pleiteou o premio a Ne- 
mésio, e foi vencido. O opprobrio da 
derrota não lhe impediu exalçar ás 
honras o seu ffliz emulo, e Nemésio 
declinou aquella rara generosidade 
para o seu amigo Calpninio, que vi- 
via indigentíssimo, bem que fosse 
poeta insigne. Knlào se viu um lance 

3 ue nunca devia delir-se da memoria 
e homens doutos e virtuosos: um 
grande imperadoí' locupletar de da- 
divas o |)oeta que mais lhe vulnerara 
o amor- próprio, e um anthor distin- 
cto apontar á mais brilhante cArte do 
universo aíiuelle (|ue poderia siip- 
plaiital-o. No entanto, Calpurnio, to- 
do apontado á gratidão, não cessou 
de considerar Nemésio seu Mecenas, 
ijtie, em recompensa, o considerava 
o seu Virgílio. DVst^arte, antigamen- 
te, os liliciatos se mutuavam justiça, 
gencrosidaile o reconhcrímenlo. Te- 
mos sele éclogas de Calpurnio, nas 
quaeselle tentou prosperamente imi- 



tar Virgílio. Citaremos um fragmen- 
to da Elegia na morte de Melibeo: 

2. «Se as almas bemavenluradas 
habitam os templos celestiaes {Icmpla 
cnelestia), se se deliciam na contem- 
plação do mundo [mundoque fniun- 
tnr), ó Melibeo, escuta as minhas vo- 
zes. Ai! ó Melibeo, ao alvejar das 
cans (canenleseneciá) eis-te gelado pe- 
lo frio da morte (lelali friffore segnis), 
victima da lei commum. Teu coração 
desbordava de inteireza {plemim libi 
powleris (pqui perius eral); saborea- 
vas-te em ser juiz das nossas con- 
tendas icomponere lites) e conchavar- 
nos. Tu prescrevias o respeito que a 
justiça se deve, e abalisavasas extre- 
mas dos nossos campos (íí.'«^?r/Míí.sst- 
gnavit termiiius agros). Transluzía-se- 
te no semblante amável magestade 
(hlanda libi ruUih gravilnK) e certa 
altivez temperada por brandura {et 
mile serena' fronte saperciliuin);mas 
ainda era mais affavel tua alma que o 
teu aspecto {sed prctus milius ore). Tu 
foste quem, ensinando-nos a ligar 
canudos de cana com cêra,e a insuf- 
(lar-lhes os sons, nos deste o remé- 
dio com que se illude a t!ist''za ('/«- 
ras docuisli faUere curas); tu a pre- 
miavas com dadivas os que se distin- 
guiam nos cantares. Muitas vezes pa- 
ra nos alentares, apesar de provecto, 
fazias resoar na avena de Apollo ale- 
gres toadas. Ó ditoso Melibeo, atleus! 
{felix óMeliban\rale!) Apullo, quees- 
lanceía por nossas varzens, colha o olo- 
roso loureiro, c o deponha sobre tua 
campa : levem-te os faunos seus mo- 
destos dons em racimosos cachos [de 
rile racemos), dos caules das searas (r/c 
campo calamos), dos fruclos de todas 
as arvores {omniqa<^ ex arbore frn- 
clus)\ levem-te mel as Nymphas(m(7a 
ferunl Nimplur), e coroas variegadas 
Flora {piclas dal Flora coronas); em 
fim, como suprema honra concedida 
aos teus manes, dedícam-le seus ver- 
sos os poetas (danl carmina rales) e 
nós, singelos pegureiros ipaslornni 
/»)/í«/í/,s),ossonsde ni>ssa>;naiilas(//u)- 
dulamar arena). V(''r-se-hão as pho- 
cas [tasccr nas áridas charnecas, os 
teixos [)orejarem mel, e as estações 
inverlerem-se. e o torvo inverno a 



458 



CAM 



CAM 



madurar sfiaras, e o esLio os olivedos, 
e o outono os j.irdius, e a prirnaver.i 
o iicc.lar (Ic Hacclio, aiílcs (jue a mi- 
nha avnria, ó Mclibeo, cesse do cele- 
brar loiís louvores.» 

CALUMNIA. A in:il(>(lic('tirij [Mihlí- 
ca os vícios, a caliiimiia iuvenla-os; 
eis a dilítTíMiça. K uli-cra iucuravfl 
ponjue a calumiiia alaslra-se como 
nódoa de azoile. A mancha resiste 
ao esforço (|ue a (juer delir. «Nào 
consj»ui(|uois a lin},Mia com a calu- 
miiia, |ior(|ii(' as palavras secretas vi- 
rão um (lia a lume, e a hocca que men- 
tiu causará a moi-lc da alma.» {Síihcdo- 
ria, 1, 11). «Não (juereis que vos mal- 
sinem do inventor da calumnia ; mas 
(juanlas vezos aulhorisaes os calu- 
mniadores, dando-llios criminoso as- 
sentimento, provocando-os com ap- 
plausos, e aceitando assim a cumpli- 
cidade o responsabilidadi' de todas as 
suas supposiçOes!» (Buurdaloue, SVr- 
mõcs). «Qiiein se sustentar socegado 
na alma em borrasca de calumnia vai 
já longe na vereda da perfeição.» 
{Esjjirilu de S. Francisco d>; Snllcs). 

2. O menino, que descuriosamente 
observamos, e é rudemente punido, 
se de sobresallo o adiamos culpado, e, 
cada vez mais vicioso, se volve a final 
mentiroso e ladrão, está a pique de 
ser calumniador. Supponliamos que 
pratica um furto, e vê que um ter- 
ceiro é suspeito de haver sido o la- 
drão: elle apoiará a suspeita; e, se 
vingou desvia rogo! peque o ameaçava, 
muitas vezes recorrerá á delação e á 
calumnia. — Paes bons e bons mes- 
tres pievinam estes defeitos, dando- 
Ihe um vivei- suave e intimo por onde 
o menino nunca se verá em apertos 
de dissimular e mentir. Se estes cui- 
dados fallecerem, a calumnia se irá 
corrigindo, ainda assim, com o conhe- 
cimento e amor da justiça. 

CALVINO. (Veja Decimo-sexto sé- 
culo). 

CAM (Diogo). (Veja Navegadores 

PORTUGUEZES). 

CAMALEÃO. (Veja Reptis). 



CAMBRAI. (Veja P^i.andres). 
CAMBYSES. (Veja Sexto século). 



CAMELO. 

NA. NT ES). 



(Veja AuAiiiA e Rumi- 



CAMÕES I Luiz de). Celebre poeta 
liortugufz iir)2l-ir)8()) de gerarão !i- 
dalga, mas p(jbre. mal<|uistado por 
intrigas de aulicos, e, por amor d'is- 
so, desterrado, entrou na rndicia por 
desgosto, e pelejou em Africa onde 
perdeu um olho irum ataipie a Ceuta. 
ICm 155:5 fez -se de vela paia a ín- 
dia, e demorou algum tempo em Goa, 
d'onde foi exdado para Macáo por ter 
salyiisado em verso o viso-rei. NVsle 
dest(!rro compoz o píjema (jue o im- 
mortalisou, os Lusíadas, omle canta 
a gloria dos portnguezes {lusitatti, 
era latim), eas excursões de \ asco da 
Gama, celebre navegante. (Veja Na- 
vegadores). Chamado do seu exilio, 
após cinco annos, naufiagou ria costa 
da Cocbinchina, e salvou-se a nado, 
levando na mão, que emergia do mar, 
o manuscripto do seu poema. Vol- 
tando a Goa, o[íde novas perseguições 
o assediaram, entrou em Lisboa em 
1500, e publicou a sua epopéa. Ne- 
nhum favor, porem, lhe grangeou. 
Esmorecido pela indigência, expirou 
á volta dos cincoenla e seis annos. 

2 ((O sentimento patriótico de Ca- 
mões, que toda a sua vida consagrou a 
erigir ura monumento ao seu paiz; e 
que, já êxul, já em penúria, outro pen- 
samento não teve senão a gloria da 
sua terra, e terra de ingratos, isto 
nos commove entranhadamente. De 
todo o coração nos alliamos áquelle 
generoso arrojo, e amamos Portugal 
porque de tão insigne varão foi ama- 
do. — Não ha negar que o assumpto 
escoliiido por Camões é grandioso e 
genuinamente heróico. Em verdade, 
na epopéa portugueza, o heroe é um 
povo, e não um homem; mas, não só 
é esplendida a empreza, senão que os 
resultados são de tamanha valia que 
sobredouram toda a uididura do poe- 
ma, e lhe dão interesse e vida. É o 
descobrimento da passagem para as 
índias, a communicação travada en- 



CáM 



CAM 



i59 



tre os paizes da nova e velha civili- 
sação, em fim, a amplitude sem bali- 
sas da possança europeia. Resalla ahi 
um contraste verdadeiramente épico 
entre os costumes orientaes e occi- 
dentaes; e se esse contraste não re- 
surle sempre com altos relevos, bro- 
ta bellezas que farte para justificarem 
o assombro. Nota-se singularmente 
em muitas composições poéticas, e 
mais ainda nos Lusíadas, a mistura 
do maravilhoso christão com a my- 
Ihologia pagã. Marte e Minerva re- 
presentam seus papeis ao lado das 
potencias do Christianismo. É certo 
que as divindades pagãs são na traça 
do poema personificações allegoricas 
e não entes reaes. Vislumbra em tu- 
do a fé christã... (De Sismondi, Lille- 
ralura do meio dia da Europa). 

Os louvores ao prodigioso génio de 
Luiz de Camões são tantos, e tão 
amiudados no discurso de três sécu- 
los que já hoje em dia o repetil-os, 
pelos mesmos conceitos e formas en- 
comiásticas, nos parece banal enca- 
recimento. Mais ulil e plausível nos 
avulta o esforço de alguns biographos 
empenliados em esclarecer os lanços 
raenos claros da biographia do poeta. 
N'esta árdua lide tem mostrado ar- 
dente zelo o snr. visconde de Juro- 
menha, o mais particularisador noti- 
ciarista da vida de Luiz de Camões. 
Todavia, assentando boa parte de suas 
innovações em conjecturas, resulta 
que a louvável vontade de esclarecer 
se demasie em hy|iotheses pouco me- 
nos de inverosímeis. Kslá em o nu- 
mero d'eslas a afíirmaliva de residir 
em Coimbra por I .").')!), o pai de Luiz 
de Camões, Simão Vaz. Ksle mesmo 
é na hypothese do biographo, um tal 
que o corieí;edor de Coimbra envia- 
va preso a Lisboa, em ir)S3, por ter 
entiado em mosteiro d(> freiras, e vera 
a sei- o mesmo que em 1570, junta- 
mente cora os seus criados espanca- 
va o almotacé de Coimbra. Bastaria 
a despintar da pliantasia do snr. vis- 
conde (lejuromeiíba semellianie con- 
jeciiira, a pobreza do íiliio, i|iie rece- 
beu í2.>i()(i reis p;ira se alistar na ar- 
mada, em lugar (Poutro, em quanto 
seu pai. com mais de cincoenla de 



idade andava por Coimbra escalando 
conventos, e já com mais de setenta 
espancava as justiças, acaudilhando 
criados, circumstancia indicativa de 
vida abastada, e orgulho de fidalgo 
com as posses que dão azas ao orgu- 
lho. 

De todo em todo aniquila a sup- 
posição de que o mexediço Simão Vaz 
de Camões haja sido pai do poeta, 
e marido da desvalida Ànna de Mace- 
do, uma nota do snr. doutor Ayres 
de Campos, sobposla ao traslado da 
Provisão passada em 16 de maio de 
1576, a res[)eito das injurias e ofi"en- 
sas praticadas por Simão Vaz de Ca- 
mões no almotacé. Eis a nota : «E pa- 
ra também não ficarmos culpados em 
passar por alto alguns outros docu- 
mentos que com estes tem estreitas 
relações, aqui os apontamos desde já 
em quanto as suas integras não forem 
publicadas no supplemento. Assim el- 
les vão prestar auxilio valioso, e não 
grande embaraço a todos os críticos 
iUustres que, talvez fascinados por 
meras semelhanças de nomes e ap- 
pellidos, não teem hesitado em allri- 
buir ao turbulento cidadão conimbri- 
cense Simão Vaz de Camões, muito 
vivo e são em 1571), a honrosa pater- 
nidade legilima do authnr dos Lusia- 
das.^) Cita mais o insigne antiquário 
a Vereação da Camará de Coimbra 
de 31 de jiillio de l5(J3da qual se de- 
prebende que Simão Vaz havia casa- 
do em 1562, e casara novamente. Ora, 
quer o nuranienlr signifique .segundas 
núpcias, quer primeiras, como al- 
guém aventa, sem dar a razão do al- 
vitre, é certo (|ue esse não podia ser 
o pai de Luiz de Camões, (pie falleceu 
antes de sua mài. (Veja Índices c Sinn- 
7)iarios lios Litros c Donimnilos mais 
aiiligos (• imporlnnlfs do Archii'o da 
Cnmtira Municipal de Coimbra. Coim- 
bra. 1867, pag. 7). 

Temos presente a genealogia dos 
Camões, manuscripto de Jorge de Ca- 
bedo, fallecido em l()()-2 ou I60t, e 
pelo tanto contenipoi'aneo de Luiz 
de Camões. (Veja Ihccian. biblimj. de 
L F. da Silva, tom. iv, [lag. 161). 

Cabedo falia do bisavô do poeta 
João Vaz de Can)ões, t|ue foicorrege- 



\m 



CAM 



CAM 



(Ioi- (;in í^oiíiilira, e jaz ein Saiila 
Cruz. 

Scgiin Aiilào Vaz dft Camões (llllio 
d'a(|iicll(! (! avò (lo |)i)('la) (pie casou 
no Ali^arvc com CiiiiiiarVazda Cama. 
Menciona Siniào Vaz iJt! (^airiòcsKillio 
de AiilTio Vaz e pai do |)ocia) (iw fui 
por cnjulãi) iViuiHDiihi a Imlid, r dm à 
cosia á risla ilc (inn, sah Dii-sr cm hhki 
lahiiít, (' In viorrrn, ilrintniln viuva 
AniKi dv Marrdo, dos Mnrrdos ilr San- 
larcm. 

VáL laml)(!in menrOo de oulro Si- 
mão Vaz de Camões, residente em 
Coimlíia, pareiíle pioximo do poela, 
dizendo ler sido aipwlle casado 'íoni 
Francisca Uchidlo. (illia de Al vai o l{(!- 
bello Caidoso, a i|uai, enviuvando, 
casara com Domingos Roíjue Pereira'. 

Eslas positivas, e, só por mero ai- 
bilrio, dispulav(>is aflirraalivas escri- 
plas por um coetâneo do poela, elu- 
cidam, a nosso vúr, a escuridade do 
destino de Simão Vaz, de quem o emi- 
nente bingraplio D. Francisco Alexan- 
dre Loho havia escripto: «o que se 
refere de Simão Vaz de Camões, \)a\ 
do poela, é muito pouco, e esse pou- 
co muito confuso.» [Mnnoriaítisloviva 
e critica árcrca de Luiz de Camões. 
Odras, lom. I, pag. 28). 

A tradição de liaver morrido Luiz 
de Camões no hospital foi judiciosa- 
mente impugnada por D. Francisco 
Alexandie Lobo no seguinte frag- 
mento (la sua cilada Memoria: 

«Tem dilo alguns, que acabou seus 
dias em um pobre leito do hospital. 
Que acabou em pobre leito, bem se 
pudera inferir do que consta da sua 
pobreza, e não se pôde porem duvida, 
por(|ue elle mesmo o deixa entender 
em uma das suas Cartas. Pouco faz, 
depois d'isso, ao caso que o pobre leito 
fosse o do hospital, ou o ordinário 

' Este Simão Vaz de Camões era filho de 
Duarte de Camões de Távora, filho de outro Simão 
Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Ca- 
sou Duarte com D. Izabcl Lobo, filha de Ayres Ta- 
vares e Souza, de quem houve, além de Simão Vaz 
de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria 
da Gamara, que casou com Francisco de Faria Se- 
verim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz 
o linhagista que se casara ã sua vontade, como 
quem desfaz na estirpe da esposa. 



rabalo em que usava jazer o poela. 

orno porém esla circumslancia pa- 
rece acrescentar o concí^-ilo d(js seus 
dcsamjjaros; (|Ufm os prele.iide de 
alt,'uin modo encarecer, não se deter- 
minou a (l»*ixal-a de parlf ; <• alé se 
toinoii em provcrhio pela noloiia al- 
lusâo de uin dos engenhos, (jue mais 
nos honraram no século passado '. 
líii não me pioj)onho encarecimentos ; 
proponho-mi! s(!)menle contar o (pie 
tenho por v(;rdaile; e esla me obriga 
a dizer (|ue o fallí;cimenlo do poela 
no hospital publico de Lisboa, senão 
é de lodo falso, é j)('lo menos muito 
duvidoso. O snr. morgado de .Matheus 
dá noticia de uma advetleiíria mauu- 
scripta, (pie achou no exemplar dos 
Lusíadas pertencente a lord llollaud, 
cujo author altesta de viàla (pie Luiz 
de Camões morreu no liosi)iial. Não 
apparece cora efTíMto razão grave de 
suspeitar, (jue esla leslemuiiha ou se 
enganasse, ou fiuizesse dar aos vin- 
douros uma eirada informação em 
matéria seiuelhante; e faltando abso- 
lutamente, esla consideração deveria 
impedir a negativa de ura critico ar- 
razoado e cauteloso. ^Mas como pôde 
uma advertência manuscripla e de 
pessoa pouco, ou nada, conhecida, 
fazer frente ao que inculca, não digo 
já o raandar-se pedir a mortallia á 
Casa de Vimioso, e ser Camões sepul- 
tado na igreja de Sant'Anua -. porém 
o silencio de seu antigo e familiar 
amigo, Manoel Corrêa; ou para me- 
lhor dizer, a conlissâo que faz Manoel 
Corroa de não morrer no lio^^pilal o 
nosso poeta ? .Manoel Corrêa commen- 
tando a estancia xxiií, do cant. x, 
em que allude Camões á pouca ven- 
tura do famoso Duarte Pacheco, diz 

1 Garção, que foi um dos poetas modernos que 
mais aproveitaram com a lição de Horácio, e me- 
lhor o seguiram no género lyrico, diz na 1.* Satyra : 

Não sabes que das Musas Portuguezas 
Foi sempre um hospital o Capitólio ? 

- Estas são as razões, com que Faria e Souza 
(segunda Vida, §. 37) se termina a recusar a noti- 
cia de Camões morrer no hospital, mas não me pa- 
recem decisivas, maiormente quando não sabemos 
bem, qual era naquellc tempo o uso e economiados 
bospitacs entre nós. 



CAM 



CAM 



IGI 



assim: ((O qual dizem que veio a dar 
em tanla pobreza depois da sua pri- 
são, que adoecet)do, foi necessário 
leval-o ao hospital onde morreu rai- 
seravelmenle, o que tem succedido 
a outros muitos excellentes varões 
de que os lidos na historia sabem.» 
^E seria possivel, poderemos pergun- 
tar ao lêr esta ponderação, (jue falle- 
cendo no hospital Luiz de Gamões, o 
ignorasse Manoel Corrêa, que vivera 
intimamente com elle na mesma ci- 
dade de Lisboa? ou que sabendo-o, 
o não comp.irasse com Duarte Pacheco 
n'esta circumslancia, principalmente 
dada uma occasiâo tão opportuna e 
quasi forçosa, e comparando com Pa- 
checo outi'os varões excellentes apon- 
tados nas historias? Não me parece na 
verdade possivel ; e não acho por tanto 
fora de lazão aflirmar, que o silencio 
de Manoel Corrêa vale bem, n'este 
caso, uma expressa confissão em con- 
trario.» 

Novos biographos auxiliados por 
indicações escavadas em escriptores 
antigos vieram em nossos dias assen- 
tir na conjectura de ter faliecido Ca- 
mões na calçada de Sanl'Anna, na 
casa que f,iz a esquina do beco de S. 
Luiz. Qupm mais insistiu com bom 
êxito, nesta hypotliese, já hoje con- 
vertida em notório facto, foi o snr. vis- 
conde de Jnromenha. A pag. 140 do 
1." tomo das Obras de Luiz de Ca- 
mões, dizia o seu benemérito biogra- 
pho: 

((No tempo de Faria e Souza era a 
opinião mais seguida que fallecera 
(Luiii de Camõi's) (un uma pobre casa 
na ru.i de Sant' Vnna. ((Alguns dizen 
que elPofHanuirioenun hospital. Pêro 
los mas dizen que el niurio en una 
pobre casila en ipie vivia cerca dei con- 
ventode Monjas Fianciscanasy dela vo- 
cacionde Santa Anna.» O padre Fran- 
cisco de Santo Agostinho d(> Macedo, 
em uma bingia[)hia manuscnpla, aflir- 
raa (juií moricia em umaríí.w/ htinnldc 
na dila rua junto ao arco de Santa 
Anna, e casa da Kiicai-nacão, pegada 
com a ermida do Senhor Jesus da 
Salvaç;\o e Paz. Acrescenta F;iiia e 
Souza, que esta casa de sua residên- 
cia nunca mais fura habitada; é no- 



tável que ainda hoje pesa o mesmo 
mau destino sobre esta habitação. Se 
alguma vez o leitor subir esta Íngre- 
me calçada, e fatigado parar no meio 
d'ella, observe á sua mão esquei"da 
uma casa em. ruínas sem habitador, 
que faz frente para a rua e para o 
beco de S. Luiz, e tem o numero de 
policia de 52 a 54, e saiba que debai- 
xo à'aquelles telhados porventura cur- 
tiu a mais cruel e acerba desventura 
o cantor immortal da gloria dos por- 
luguezes.» 

A pag. 510 insiste o snr. visconde : 

«I'or muito tempo se viu uma casa 
em ruinas junto á ermida do Senhor 
da Salvação e Paz, que está pegada á 
casa das Commendadeiras da Encar- 
nação, (jue tinha o numero de policia 
de 52 a 5i, e com uma das frentes 
para o beco de S. Luiz, cuja casa era 
foreira a D. Aleixo de Menezes, e foi 
ultimamente reedifiiada ; este prédio 
pela descripção da biograpliia do pa- 
dre fr. Francisco de Santo Agostinho, 
parece ter sido a habitação do nosso 
poeta.» 

Perguntava em 1863o snr. visconde 
de Castilho : « Seria grande custo para 
a camará municipal de Lisboa mandar 
embutir em pedra ou bionze na fron- 
taiia do prédio nm resumo dVsla no- 
ticia? lia omissões que se não perdoam 
nem se explicam; uma d\'llas, e a 
mais vergonhosa, é esta.» (Nota ao 
drama Camões, tom. iii, pag. 1U5). 

Foi attendida e respeitada a justa 
censura do grande poela. A legendaria 
casado beco de S. Luiz, lá tem uma in- 
scripção. Para maior e gloiioso des- 
vanecimento dos dous Castilhos, inde- 
fesos honradores de talentos esvaí- 
dos em escura pobreza, Camões tem 
uma estatua em Lisboa, depois das 
supplicas reiteradas dos dous poetas. 
A elles devemos lambem o estimulo 
([ue erigiu a Boc;ige um monumento 
em Setúbal, honras supei Iluas a im- 
morlalidade dos que passaraui, mas 
honroso preito ipie a si mesmos se 
prestam os vivos. 

CAMPAN (Vai de). (Veja G.vscoN!i.\). 
CAMPAN ^M.">'de). Nasceu era Pa- 



102 



CAM 



CAM 



riz cm nfi-i, foi educada esmerada- 
moiiK;, p, muito na flor dos ainios, 
maraviilioii os mostres com a rapidez 
do seu aili.iiilameiílo nas liu^uas in- 
gle/.a <í ilali.iiia, em musica e arlft de 
recitar as hMliiras. Nomeada aos 1"» 
aniios leilora das (lllias de Luiz xv, 
recollieu-sc á corte de Veisadlr^s, le- 
vando emhryonarios taleulos á mis- 
tura com muitas puerilidades. «Um 
dia — conta (dia algures — enlrelinlia- 
mc eu a andar de redor, (; a^acliei- 
me derc|>(Mitc para vAr a minlia saia 
de soda f'(*u' de rosa enfunada |»elo 
vento. Kslava eu n'este. grave exer- 
cício, (piando o rei entrou, seguido 
da [)riiiceza. (juiz eu erguer-in(! ; mas 
os pés trocaram-sc-me de modo que 
ri(|Ufi esialidada no (dião com a saia 
enliilada. — Miiilia tillia — disso o rei 
em g;irg.ill\;idas — dou-le de conselho 
que reenvies ao convento uma leilora 
que viii á vela.» Desposando-se com 
M. Cam[)an, lilho do societário par- 
ticular da lainlia, recebeu do Luiz xv 
5:000 libras (cerca de um coiiLo de 
reis) de renda dolal, e a formosa e 
infeliz Maria Antoinette, pouco de- 
pois casada com o delfim Luiz xvi, 
nouieou-a sua camaieira-mór confi- 
denciando-sp-llie, durante vinte an- 
nos. Allidi, as fúrias revolucionarias 
aparta ram-as para sempre, posto que 
M.me Campan solicitasse insLanle- 
mente ser encarcerada no «Temple» 
com a familia i-eal. Tiaspassou-a de 
horror o supplicio de Maria Antoi- 
nette; e, se Hobespierre não cahisse, 
ella seguiria alé ao cadafalso a sua 
bemfeiíora, como tantos desgraçados 
que haviam embarcado na faial car- 
roça. — A hm de erapregar-se em al- 
gum mister rendoso, M.""'- Campan 
abriu collegio, com tal metliodo e se- 
veridade de princípios, que, ao cabo 
de um auno. contava cem discípulas, 
altrahidas pela traio de fina elegân- 
cia e acrisolada polidez d'aquelle col- 
legio. Volvidos dez annos, concedeu- 
Ihe o imperador o encargo de dirigir 
o asylo de Ecouen, onde o Estado 
corria com a educação das irmãs, fi- 
lhas e sobrinhas dos valentes. O exilo 
foi brilhante, (|uanlo era de esperar 
de sua destreza e zelo incançavel. 



Trezentas meninas foram educadas 
n'a(pie||e asylo. Der.-ihido Napoleão, 
esl;i senhora foi m;dsiii;ida c.ilumnio- 
samente de iniidtdidade á sua prote- 
ctora ; e, como a nova realeza a des- 
denhasse, acolheu se a Manles, onde 
escreveu as suas .l//;//orí(iA, [iuiigenle 
historia anecdoiica do seu tempo. É 
lambem d'e|la o Tlc-alnulto, interes- 
sante pela attractiva singeleza das mo- 
ralidades, e não são menos excellen- 
tes em doutrina as Cariou. Por fim, 
escreveu o livro da Edurarão que 
oxpOe, desprelenciosa e Im idamonte, 
intuitos práticos dignos de e^ludo. — 
M.'"" Campan sabia educar meninas, 
como qiiasi ioda a gente deseja. Dava 
a um tempo insinuTão, graças exte- 
i'iores. gosto delicado, arilfiiie desejo 
de captivar por (luabdades ostensi- 
vamente seducloras. O cerlo è que a 
educação recel)ida era Econen, lus- 
trava amavelmenieas educandas, í|ue, 
por iníluencia da mestra, se casavam, 
o o problema de en>ino, tal qual com- 
miimmenie se deseja, eslava assim re- 
solvido. Porém, as nienina> d'Ecouen, 
anhelanios de se esladearem nos bai- 
les e espectáculos, careciam talvez 
da recla e inflexa razão qm- faz uma 
boa senhora de casa, e a defende de 
enlevos jierlurbadotes, suggerindo- 
Ihe bons alvitres para os maridos e 
judicioso alTecto aos filhos. Os dicla- 
mes de M.""" Campan, quasi lodos 
fundados no principio da autlioi idade, 
e monos sobie a razão e consciência, 
como que tendiam tão somente a for- 
marexlorioridades honestas cora bas- 
tante espirito para não passarem des- 
percebidas. Pelo que respeitava aos 
predicados do coração, era isso cousa 
de menos monla. Semelhante prin- 
cipio deaulhoridadejá Féiielon o em- 
pregara; mas applicou-o apenas em 
artigos de fé religiosa, ao passo que 
M.n'p Campan o"applicava a tudo, 
quadrasse ou não, quando mais de siso 
fora facultar á razão ou consciência o 
cuidado de bem discernir. 

CAMPECHE. (Veja Leguminos.\s). 
CAMPHOREIRA. (Veja Loureiro). 



CAP 



CAR 



163 



CANA DE AS SUGAR. (Veja Assu- 

CAR). 

CANAFISTULA. {Veja Legumino- 
sas). 

CANÁRIAS. (Veja Sahara). 

CANÁRIO. (Veja Pássaros). 

CANELEIRO. (Veja Loureiro). 

CANO (Sebastião dei). (Veja Nave- 
gadores). 

CÃO. (Veja Carnívoros). 

CAOUTGHUC.(Veja Nutrição). 

CAPRICHOS. \. Paulo gosta de 
pasteis; mas, se lh'osdão, rejeita-os. 
Agora quer um tambor; mas, se lh'o 
dáo, repelle-o. Quer sahir á rua ; mas, 
se lhe propõem um agradável passeio, 
diz que quer ficar em casa. Alegre e 
triste sem motivo, quer e não quer, 
affirma e nega, muda instantanea- 
mente de semblante e de linguagem; 
agora éuma ventoinha bafejada a sa- 
bor do capricho, logo, Jica para ahi 
soturno e carregado como ura penedo, 
testudo e teimoso que chega a fazer 
lastima. Em menino, foi, como o vul- 
gar das crianças, capriclioso de ins- 
lincto, por volubilidade de idéase ra- 
Giocinio inexperiente. Das impressões 
e actos da infância não podia elle então 
formar conceito algum. Chegado á 
adolescência submelteu os capi'ichos 
á lei do calculo. Penetrado do terrível 
egoisrao que seva as suas delicias nos 
sotíriíAentos alheios, perturba o so- 
cego de sua familia pacifica e feliz, 
estomagando pai, mãi, criados, em 
cujos aspectos revô constrangimen- 
to e fastio. Supportaram-lho longo 
tempo os caprichos, esperando que 
a emenda lhe viesse de si mesmo; 
boje, porém, toda a familia se arre- 
ceia das scenas incommodas que so- 
brevem ao capricho contrariado ou 
não s;itisf(!Íto. Cresceu a authoridado 
de l'aiilo na proporção da tibieza de 
seus pães (■ondtjsconilonttis. As num 
sisudas resoluçõ(>s (jue se lhe sugge- 
rem cedem ao despotismo da mania, 



tão difficil de perder-se como certos 
hábitos corporaes. Sem embargo, 
muitas vezes a mãi lhe tem diio que 
ninguém vive só para si ; que as rela- 
ções da vida, desde a infnnoia até á 
velhice, se compõem de mutuas con- 
cessões e serviços recíprocos. Baldado 
empenho! Paulo é sempre o mesmo. 
É o algoz de sua n-ãi, que tão extre- 
mosa e indulgente lhe ha siiio. 

2. Agora, outra historia. Apparece 
um tio que inspira áqu^lla mãi cons- 
ternada novos expedientes. Quando 
Paulo carece de recursos, faz-lhe sen- 
tir com pesar que os não merfce; e, 
se os recursos pedidos são suppiíluida- 
des, nega-lh'os justiceiramente. Os de 
fora, os da sua roda, e até os criados 
já se julgam no direito da desforra: 
fazem-se lambem caprichosos É justo 
que Paulo se sujeite aos caprichos 
alheios para que bem saiba qnp é pre- 
ciso conceder aos outros o que quer 
para si. Paulo é caprichoso já por in- 
veja, já por imitação, já por motivos 
que nem elle sabe. É atacar o princi- 
pio d'onde lhe vem o capricho, a lira de 
o destruir... Se lhe infligem castigo, 
ou proraettem galardão, l*aulo atem- 
se a isso, pensa, e o juizo formado 
está a salvo dealgam instantâneo re- 
viramento; o castigo e preinio não se 
lhe figuram cousas arbitrarias e ca- 
prichosas. Está a correcção radical em 
que a raãi lhe dè em si o exemplo de 
igualdade e atino de proceder: esta 
é a mais efficaz lição. Se ella observa 
que o capricho impende de ouiros de- 
feitos, tacs como a indncilidade e 
animo imperioso, é alacal-o na sua 
origem. Velleidades. castigadas por 
seus resultados, leituras escolhidas 
prudentemente, conversações que sus- 
citem de seu natuial exemplos interes- 
santes, tudo isto combinado levou o 
caprichoso Paulo á igualdade de génio, 
seguro symptoma de espirito justo e 
alma que a si se rege. 

CARBONE. É nome que os chi- 
micos modernos deram ao carvão 
puro, resíduo ordinário ihi combus- 
tão (las substancias animaes e vege- 
taes a(inecidas ao abrigo do ar. Tem 
o carvão, assim obtido, preciosas pro- 



WA 



CAR 



CAR 



prifídadfis; <• noj^ro, miiilo poroso, 
capaz de absorvi-r gazes coiidensãii- 
do-os (!in síMis poros, dfi [)iinli:ar a 
agua cíjiriiiila, «' daiiticar os liíjiiidos, 
liraiido-ltics, tanto as còrcs, coino as 
substancias [tiilvcnilciUas siispCMisas 
n\'ll('s. Aclia-s(í o caivilo nas camadas 
supci lii:ia(>s do gloho cm estado do 
iiullia (carvão de pedra!, aiilliracites e 
ligiiites. A liuliia, (|ije os l)elgas co- 
niiecem desdií o século xi, contém 
75 a 00 7o ^f" carvão pun», mistu- 
rado a matérias betuminosas e alca- 
Iriio (|ue se despegam aquecidas for- 
temente c produzem o (/dz de illnmi- 
minardo. Fica um carvão rijissirno 
que so chama coice. Contém a hulha 
grande riumer"o do fosseis vogelaes, 
enormes fetos, troncos e folhagem 
de palmeira. Certas minas oíTerecem 
o aspecto de lloreslas de vegetaes, uns 
em pé, outros pr'ostrados. Segundo 
a posição da hulha na serie dos ter- 
renos, a forruação d'ella recua a épo- 
ca geológica remotissiiiia. Alguns de- 
pósitos foram formados por grandes 
acervos de destroços vegetaes trans- 
portados pelas correntes, e amontoa- 
dos nas .fozes dos rios, onde lenta- 
mente se decompozeram, c os depó- 
sitos de terra cobriram depois. Quan- 
to, poi'ém, ás hulheiras onde as ar- 
vores fosseis estão a prumo, não é 
admissível a conjectura do transporte. 
Presume-se que eslas llorestas hajam 
sido subvertidas pelo mar, em conse- 
quência de algum abaixamento da 
teri"a. Xanthracileé mais antiga ainda 
que a hulha, com a qual se assemelha 
muito; mas é combustível difficil de 
incendiar. As ligniles são mais ou 
menos carbonisadas, e óptimos com- 
bustíveis. O azcriche é uma Ugnite 
compacta. E muitissirao denotar que 
a mais dura substancia mineral, o 
diamante (veja Pedras preciosas), é 
o carbone pui'o crystallisado. Gonse- 
guiu-se já queimar esta pedra preciosa 
e obteve-se, como no carvão ordiná- 
rio, acido carbónico, gaz formado de 
carbone e oxygenio. 

2. O acido carbónico destaca-sena- 
turalmente de alguns terrenos vulcâ- 
nicos. Esta exhalação não é perigosa 
ao ar livre; porém, quando este gaz, 



que é asphyxiante, está cumulado em 
cavernas subterrâneas ou poços de 
minas, faz-se pre -isa grande cautela 
no entrar lá denlio. C-Miliecemos que 
elle e\i>le mediante uma vt-la aooesa 
que se fixa na extremidade d(; uma 
vara. Se a luz arnortecr-, e se apaga, é 
essencial, antes de descer, renovar o 
ar da mina, e derramar ir^lla am- 
moniaco ou a(jua de cal, <|ue absor- 
vem o acido cai bonico. Este g.iz dis- 
solve-se na agua, e forma a agua ga- 
zosa artificial, a agua gazosa natural 
de Seltz e de Spa. E também este o 
gaz (jue se destaca dos viniios espu- 
mantes corno oCharnpagne,er)lão|iro- 
duzido pela fermentação. Lifiuidiíica- 
se com uma forte pressão e solidiíica- 
se pelo frio, e ifeste segundo caso é 
branco de neve. Misturado com o 
ether i)rodiiz frio cerca de 1(»0 graus 
abaixo de zero; posto em contacto 
com a cútis, produz o eíTeito desor- 
ganisador de uma queimadura. De- 
monstra-se que o ar respirado sahe 
com acido carbónico gazoso, prove- 
niente da combustão de parte do car- 
bone do .sangue pelo oxygenio do ar, 
e descobri use que o carbone quei- 
mado no acto da i*espiração é a cau- 
sa primaria do calor animal. (Veja 
Sangue e Respiraç.\o). As porções ver- 
des das plantas,raórmente a folhagem, 
tem a propriedade de decompor o 
acido carbónico' do ar (veja Ar) apo- 
derando-se-lhe do carbone, e dando 
liberdade á maior parte do seu oxy- 
genio. (Veja NuTRiç.Ão). 

Redacção. \. Carbone ou carvão 
puro: suas propriedades. Hulha: 
composição e formação, .\nthfacite, 
lignites, azeviche, diamante. — -2. Aci- 
do carbónico : seus perigos. Agua ga- 
zosa. Propriedades d"este acido. O 
que elle repr^esenta na respiração dos 
animaes e nutrição das plantas. 

CARCASSONA. (Veja Languedoc). 

C ARGEL. (Veja Lâmpada). 

CARDAN. (Veja Astrologia). 

CARIDADE. «-'^ O christianismo, sem- 
pre de harmonia com os corações, 



CAR 



CAR 



165 



não ordena virtudes abstractas e so- 
litárias, senão virtudes consentâneas 
ás nossas necessidades e úteis ao 
commuin. A caridade collocou-a elle 
como poço de abundância nos deser- 
tosda vida.» (Ghateaubriand). «-Todo o 
mysterio da religião cliristã está na 
caridade, na dedicação illimilada do 
Mestre : toda a moral evangélica está 
na caridade ; toda a perfeição do chris- 
lão cifra n'aquella virtud*e ; que a fé 
e humildade, a renunciação e espe- 
rança tendem a chegar á caridade. E 
o alvo d'esta caridade fraternal entre 
os discípulos e a dedicação do Mestre 
é derruir as barreiras que separam 
de Deus o homem, e os homens entre 



si; é agrupal-os em a mesma fé, em 
a mesma esperança e mesma felicida- 
de.» (Bautain). Pôde defuiir-se a ca- 
ridade: (cum rapto de alma (|uo nos le- 
va ao gozo de Deus, de nós mesmos 
e do próximo por amor de Deus.» (S. 
Agostinho). «Virtude sem caridade 
não passa de nome.» (Newton). 
«Assim como a alma é a vida do cor- 
po, assim a caridade é vida e perfei- 
ção da alma... A salvação enlre-mos- 
tra-se á fé, preluz á esperança, mas 
só á caridade se dá.» (S. Francisco de 
Salles). «O fim da religião, a alma das 
virtudes, o compendio da fé, o resu- 
mo da lei é a caridade. » (Bossuet). 
(Veja o artigo Latim). 



1. Audistisquia dictum est: Diliges proximum 
tuum, et ódio habebis inimicum tuum. Ego autem 
dicovobis: Diligite inimicos vestros; benefacite 
his qui oderuat vos; benedicite maledicentibus 
vobis, et orate pro persequentibus et calumnian- 
tibiisvos: ut sitis filii Patris vestri, qui solem 
suum oriri f.icit super justos et injustos. (Mat., 
c. V, V. 43, 44, 45). 



1. Tendes ouvido que foi dito : Amarás ao 
teu pro.\imo, e aborrecerás a teu inimigo. Mas 
eu vos digo : Amai a vossos inimigos, fazei bem 
aos que vos tem ódio : e orai pelos que vos 
perseguem, e calumniam : Pai-a serdes filhos 
de vosso Pai que está nos Céos : o qual faz 
nascer o seu sol sobre bons e' maus : e vir chu- 
va sobre justos e injustos. 



2. Diligite inimicos vestros, benefacite et mu- 
tuum date, nihil inde sperantes : et erit mercês 
vestra multa, et eritis filii Altissimi. (S. Luc, e. 
VI, v. 35). 



3. Attendite ne justitiam vcstram faciatis, co- 
ram hominibus, ut videamini ab eis; alioquin mcr- 
cedem non habebitis apud Patrem vestrum, qui 
in coelis est. Si dimiseritis hominibus peccata 
eorum, dimittet et vobis Pater vester ca:'lestis de- 
licta vestra. Si autem non dimiseritis hominibus, 
nec Pater vester dimittet vobis peccata vestra. 
(Mat., o. VI, v. 1, 14, 15). 



2. Amai pois a vossos inimigos : fazei bem, 
e emprestai, sem d'ahi esperardes nada : e te- 
reis muito avultada recompensa, e sereis fllhos 
do Altíssimo, que faz bem aos mesmos que lhe 
são ingratos e maus. 

3. Ouardai-vos não façais as vossas boas obras 
diante dos homens, com o fim de serdes visto por 
elles : d'outra sorte não tereis a recompensa da 
mão de vosso Pai, que está nos Céos. Porque 
Se vós perdoardes aos homens as ofTcnsas que 
tendes d' elles : também vosso Pai Celestial vos 
perdoará os vossos peccados. Mas se não per- 
doardes aos homens : tão pouco vosso Pai Ce- 
lestial vos perdoará os vossos peccados. 



4. Qui amat patrem aut matrem plús quhm mc- 
non est me dignas; et qui amat tilitim aut filiam 
supri- me, non est me dignus. (Mat., c. X, v. 
37). 

5. Audi, Israel: Dominus Deus tuus Deus unus 
cat: et dilipes Dominum Deum tuiiui ex totó corde 
tuo, et ex totà nnimá tuá, et ex tntá virtuto tuá. 
Hoc est maximum et prinuim mandatam. (Mat., 
<•. XXII, v. 38; Marc., c. XXU, v. 2!t, 30). 



fi. Mandatum novunt do vobis, ut diligatis invi- 
«om, sicut dilcxi vo», ut et vos diligatis invicem. 
(JOAN., c. Xni, V. 34). 



4. O que ama o p;u, ou a raài mais do que 
a mim : e o que ama o filho, ou a filha mais 
do que a mim, não é di^no de mim. 



5. K Jesus lho respondeu : Quo do todos o 
primeiro Mandamento era este : Ouve, Israel, o 
Senhor teu Deos é. sú o quo ó Deus : K ama- 
rás o Senhor teu Deus de todo o teu eorai^ão, 
e de Ioda a tua alma, e do todo o toii en- 
tendimento, o de todas as tuas for>;as. l-ijte iS 
o primeiro Mandamento. 

Cl. Ku dou-vos um novo Maiulamento : Quo 

vos orneis uns aos outros, assim como ou vo.s 

amei, para quo v«''s tnmhoni luninunciiti" v»-: 
ameis. 



166 



CAH 



CAR 



7. In tioc cognoBcent omnoii qiiia dwcipuli inei 
ostiH, ui (lilerlionem hahiicritin ad inviccm. (H/id., 
V. 35). 

8. Qui hahcl mandiít.i imia et Hurvat ca, lllc tmt 
qui diligit me: qui auliun dili|;lt me, dili«i;tur a 
Pairo mí!0, ()l eno ililinam «um, et manifeMlibo ei 
me ípHum. (Ihid., c. XIV, v. 21). 



9. Si (iiii.s diligit mi!, Hormoiiom mciim m-rvaliit, 
et PalíM- mciiH dilij,'cl iMim, et ad eum vcnicmus, 
et mansioiícm apud cuin faciíiinus. {Ibiã., v. 23). 

10. Manctc in m«i, et ego in vobis. Sicut palmos 
non potost forro friictum a Hcmetipso, nisi man- 
serlt in vitc, sic nec vos, nisi in me maasoritia. 
Ego siim vitis, vos palmitcs; ([ui nianet in me, 
et ego in eo, hic fert rnictiiin .multum; quia .sini; 
me nihil poli-slis faciTc. (.Ioan., c. XV, v. \, õ). 



H. .Si manseritis in me, et verba nica in vobis 
manserint, quodciim(}ue volucritis, petetis, et íiet 
vobis. (V. 1). 

12. Si linguis bominum loquar et angelorum, ca- 
ritatem autem non habeam, factus sum velut íea 
sonans, aut cymbaUiin tinniens. (S. Paul., ad 
CorinUi., c. XIII, v. 1). 

13. Et si tiabuero prophetiam, et novcrim mys- 
teria oraniu et omnem scientiam, et si habuero 
omnem lidem ita ut montes transferam, caritatem 
autem non liabuero, niliil sum. (V. 2). 



14. Et si distrlbuero in cibos pauperum omnes 
faeultates meãs, et si tradidero corpus meum ita 
ut ardeam, caritatem autcni non habuero, nihil 
mihi prodest. (V. 3). 

15. Caritas patiens est, benigna est: caritas non 
PRmulatur, non agit perpcram, non inflatur, non 
est ambitiosa, non qua;rit qure sua sunt, non irri- 
tatur, non cogitat mahim, non gaudct .super ini- 
quitate, congaudet autem veritati, omnia suflert, 
omnia credil, omnia sperat, omnia sustinet. (V. 4, 
5, 6 et 7). 

16. Etsi prajoccupatus fuerit homo in aliquo de- 
lido, vos, qui spirituales estis, hujusmodi instruite 
in spiritu lenitatis, considerans te ipsum, ne tu 
tenteris. (Arf Galata-os, c. VI, v. 1). 



7. N'ÍMto conheceráo todos que uia meus UU- 
cipulon, n4s \o» amardw una aos outro«. 



K. Aquclle, qu«? U:m oh m^un Mandamentos, 
e qu>; os guarda : ««)<« <• o que me ama. B 
nqiielle, que me mnn, nerA amado dt: meu Pai : 
<! cu o amarei lambem, e me maniíeslan;i a 
Bile. 

11. Sc algum me ama, guardarii n minha pa- 
lavra, e meu P.ti 11 amar.'í, e nf»» vírcrao» a 
elle, e faremos n'elle morada. 

1U. Permanecei cm mira : c cu perroaneccrei 
em \{m. Como a vara da videira mio pi^de do 
8i mesmo dar fructo, se não pcrmaneí^er na vi- 
deira : assim nem vós o poderei.H dar, se não 
permanecerdes em mim. Eu hou a videira, vi'»» 
outros as vanis : o que permanece cm mira, o 
o em que cu permanerjo, c8.so dá rauito fructo : 
porque vós sem mmi náo podeis fazer nada. 

11. Se vós permanecerdes cm mim, e as mi- 
nhas palavras permanecerem em vós : pedireis 
tudo o que quizerdes, c ser-vo.s-ha feito. 

12. Se eu fallar as linguas dos homens, e 
dos Anjos, e não tiver caridade, sou como o 
metal, que soa, ou como o sino, que tine. 



13. E, se cu tiver o dom de prophecia, e co- 
nhecer todos os mysterios, e quanto se pôde 
saber : e se tiver toda a fé, até ao ponto de 
transportar montes, e nrio tiver caridade, não 
sou nada. 

14. E, se eu distribuir todos os meus bens 
em o sustento dos pobres, e se entregar o meu 
corpo para ser queimado, se todavia não tiver 
caridade, nada d"isto me aproveita. 

15. A caridade é paciente, e benigna. A ca- 
ridade não é invejosa, não obra temerária, nem 
precipitadamente, não se ensoberbece. Não é 
ambiciosa, não busca os seus próprios interes- 
ses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga 
com a injustiça, mas folga com a verdade : 
tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo soíTre. 

16. Irmãos, se algum como homem fur tomado de 
sobresalto, ainda em algum delicio, vós outros, 
que sois espirituaes, admoestai ao tal com es- 
pirito de mansidão : tu considera-te a ti mes- 
mo, não sejas lambem tentado. 



CARLOS MAGNO. O reinado does- 
te grande príncipe foi uma das épocas 
mais nolaveis da historia de Franca, 
não só pelas heróicas acções d'este 
monarcha, mastambem pelos progres- 



sos de todo o género que se operaram 
n'aquella nação. 

Não bastava a Carlos Magno ler 
estendido sua aulhoridade sobre toda 
a Gallia, e feito desapparecerpela sub- 



CAR 



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167 



missão da Aqaitania uma causa per- 
manente de perturbações e distúrbios 
interiores, era-lhe preciso ainda pôr 
seu reino a coberto d» invasões. To- 
das as suas fronteiras estavam amea- 
çadas: ao nordeste pelos saxonios; 
áo este, pelos bavaros e os avaros; 
ao sudoeste pelos lombardos; e ao 
sul pelos sarracenos ou raahoraeta- 
nos, senbores de Hespanha. — Carlos 
Magno voltou-sp primeiro contra os sa- 
xonios, fazendo-lhes uma guerra que 
durou trinta e três annos. Vittikind, 
seu principal chefe, subraetteu-se em 
fim depoisde vigorosa resistência abra- 
çando o christianisrao. Esta guerra foi 
sobre tudo guerra religiosa. Em vão 
Carlos Magno despedaçavaacada inva- 
são os Ídolos d'esses povos; que elles 
vinga vam-se destruindo as igrejas que 
se fundavam no seu paiz. Mas a reli- 
gião foi mais poderosa que as armas, 
e a Saxonia foi sui)jugada logo que 
Vittikind recebeu o baptismo. — Em 
744 Carlos Magno venceu Didier, rei 
dos lombardos, eapossou-se dos seus 
estados. D'ahi passou a Hespanha em 
778, onde ganhou muitas batalhas aos 
sarracenos, porém na volta d'esta 
expedição a sua retaguarda foi balida 
em Roncevaux, nos Pyreneus, onde 
pereceu o famoso Roland seu sobri- 
nho, depois de ter feito prodígios de 
valor. Proseguindo suas conquistas, 
submetteu os bavaros revoltados pe- 
netrando no paiz dos avaros, que 
também foram vencidos depois de três 
batalhas successivas (776). Em segui- 
mento a estas diversas guerras Car- 
los Magno, senhor d'esse grande im- 
pério, foi a Roma, onde o papa Leão 
III o coroou imperador do Occidente 
pela acclamação de todo o povo (800). 
2. Mediante estas guerras Carlos ti- 
nha posto a França, Itália, e a Alle- 
manha ao abrigo das invasões ; e com 
suas leis e regimen conseguiu dará seu 
reino organisaçào regular. As leis 
dos francos eram ainda imperfeitas: 
os capitulares ou ordenanças do gran- 
de imperador regularam* tudo o que 
dizia respeito á igreja, serviço militar, 
justiça e linanças. Para lhe consolidar 
a execução, os commissarios visita- 
vam as províncias, recebiam as quei- 



xas dos vassallos e vigiavam a admi- 
nistração dos condes e duques. Estes, 
como no tempo dos reisMfrovingios, 
tinham de otTiciolevantar tropas, exer- 
cer justiça, e receber os impostos. A 
Carlos Magno cabe aimia a grande glo- 
ria de ler procurado afugentar do seu 
império a ignorância, que os bárbaros 
derramaram por toda a parte. For- 
mou uma espécie de pequena acade- 
mia, chamada Escóln do Palácio, da 
qual elle fazia parte, assim como seus 
Ires filhos, sua irmã, sua filha, e os 
principaes personagens da sua corte. 
Esta escola era dirigida por Alcuin, 
monge saxonio, e o homem mais sá- 
bio, da época. 

Para propagar a instrucção em todas 
as classes, o imperador fez abrir em 
todas as cidades, escolas ao lado das 
igrejas e elle próprio as vigiava. Um 
dia visitando uma d'essas escolas, diz 
o seu historiador, o terrível impera- 
dor fez designar pelo mestre os me- 
lhores discípulos, e aquelles de quem 
menos se esperava. Achou-se que os 
que sabiam menos eram todos filhos 
dos grandes e dos ricos do império, 
em quanto os filhos dos pobres es- 
tavam lodos no primeiro lugar. Fez 
elle então passar os filhos dos pobres 
para a sua mão direita, e prometteu- 
lhesriquezasedígnidades.<íE vós, dis- 
seelle aos filhos dos ricos, passai á rai- 
nha esquerda, e sabei que não tereis 
de mim, se não vos corrigirdes, nem 
abbadías, nem ricos domínios. « Os es- 
forços de Carlos Magno não foram in- 
úteis, e tanto nas escolas como nos 
mosteiros estudava-se com ardor, co- 
piando-se os mannscríptos que se po- 
diam desencaminhar ou desfazer, — A 
fama de Carlos Magno enchia o mun- 
do. Seu historiador nol-o mostra era 
seu palácio de Aíx-la-Chapelle, on- 
de elle fixara residência, cerrado de 
reis e embaixadores vindos dos mais 
reraotos paízes. Na prí meíra em- 
baixada, o califa de Bagdad olTere- 
ceu a Carlos Magno as cliaves do Santo 
Sepulchro, e a soberania dos Lugares 
Santos; e este enviou-lhe logo cande- 
labros do ouro, armações de soda, 
um elopliante, animal desconhecido 
então dos occidenlaes, um leào. 



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CAR 



macacos de Boii{,'iit'lla, e o que sobre 
tudo excitou a ailmir.inao, um n^logio 
de idid.iipjs, o primeiro (|ueap|).'ne(:eu 
em Kl atiça. 

Hrdnrrâi). C;iilos Magíio ; sua poli- 
tica. — (liicira contra us saxoiiios; 
guerra em Itália, em llcspanlia, e na 
Baviera. — Capitulares ; universida- 
de; escolas. — Gloria e faiua ilc (Carlos 
Magno. 



CARLOS MARTEL. (Veja Oitavo 

SECUI.o). 

CARLOS I. 1. A propósito d'este, 
diremos aljíiimas palavras dí! Iodos os 
reis da França \\\'<.W nome, mui [lar- 
ticiilarmente de Carlos v, Carlos vi 
e Carlos vii, que tomaram parte na 
grande época nacional da guerra dos 
cem annos. (Veja Cem annos (guerra 
de). — Carlos i é Carlos Magno {Caro- 
lus Mnfjníin ou Charles ie Grand), do 
qual acabamos defallar. — Carlos ii, 
chamado o Cdlco (8-23-877), viu seu 
reino devastado pelos normandos, aos 
quaes deu grandes sommas para os 
obrigar a retirar-sc. — Carlos iii, o 
Simjdcs, não pôde resistir a esses nor- 
mandos, tendo de lhe abandonar a 
Neuslria, (ine tomou desde então o 
nome de Normandia, e deu sua íilha 
em casamento a Rollon, seu chefe 
(879-OiU). —Carlos iv, o Bello, morto 
em U12X, teve com o rei de Inglaterra 
sangrentas questões a respeito da 
homenagem que este principe lhe de- 
via pela Normandia. 

2. O reinado de Carlos v, filho de 
João, o Bom (veja esta palavra), foi ura 
reinado de reparação e de convales- 
cença para o reiíio da França, tão 
doente e despedaçado. Carlos v com- 
prehendeu que ao valor inconsiderado 
da cavallaria franceza se deviam as 
desgraças de Crécy e de Poitiers; e 
resolveu desde então evitar as bata- 
lhas formaes. Deu ordem a suas tro- 
pas para fatigar o inimigo com con- 
tinuadas escaramuças, e devastar o 
paiz na su.a passagem para o empo- 
brecer. Por este novo syslema de 
guerra, o rei, sem sahir de seu palá- 
cio, chegou a reconquistar o que os 
seus predecessores tinham perdido no 



campo da batalha. Carlos v deveu 
grande paite doestas victoiias a Du- 
giirsclin, gcnlil-homem l)rel3o, que 
linlia caiisadit o desespero a sua fa- 
mília, por sua fealdade. def(jri!iida- 
de e seu mau caracter; batia nos 
pro[)iios iriuàos, nos camaradas e 
nos mestres, e andava sempre cober- 
to de feridas e contusões. Depois de 
ter assigiialjdo sua bravura nas guer- 
las da ÍJiclanlia, [)assou ao serviço 
da França, celebrando a coroação do 
rei Carlos v (\'M)\) batendo em Co- 
cherído tci de Navarra, Carlos, (> .\ítiu. 
Dei)ois doesta victoria, voou de novo 
á Bretanha; mas, apesar de lodos os 
seus esforços, seu partido foi desfei- 
to e elle mesmo íicoii prisioneiro do 
bravo Chandos, chefe da armada in- 
gleza. Tornado á liberdade, depois de 
ter pago o re.sgate de 1( OiiiOo libras, 
foi encarregado por Carlos v de livrar 
o reino das grandes Companhias, 
amontoado de soldados francezes. in- 
glezes, e bretões indisciplinados, que 
devastavam as província.-. Duguesclin 
persuadiu-o a ir combater na Hes- 
panlia poi- Henrique de Transtamara, 
o (jual disputava a Pedro, o Cruel, o 
thiono de Castella. Alii se cobriu de 
gloria em muitas batalhas, e tinha já 
aniquilado o partidode Pedro, o Cruel, 
quando aquelle chamou em seu auxi- 
lio os inglezes, comraandados por 
dous valentes capitães, o principe Ne- 
gi"o, e Chandos. Duguesclin foi ven- 
cido e prisioneii'o depois de ter pra- 
ticado prodigios de valor na batalha 
de Navaretle, que se tinha dado con- 
tra sua opinião (1367). Outra vez li- 
vre retomou sua authoridade, íir-- 
mando com novas victorias o throno 
de Henrique de Transtamara. — De- 
pois de tantos triumphos foi nomea- 
do condeslavel da França por Car- 
los V, expulsando completamente da 
Normandia, da Guyenna, e do Poi- 
tou os inglezes. Pouco tempo depois, 
suspeito de traição, enviou logo ao 
rei sua espada dê condestavel, e pos- 
to que este reconhecendo sua inno- 
cencia instasse para que a aceitasse, 
nunca o conseguiu. Os inglezes já não 
possuíam em França senão as praças 
marítimas de Calais, Brest, Bordeaux 



CAR 



CAR 



169 



e Bayonna, quando Duguesclin mor- 
reu sitiando Châtpauneiif de Randon 
(Lozère), defendida pela guarnição 
affecta aos inglezes.— «Anles de mor- 
rer—dizia Duguesclin, cercado dos 
bravos guerreiros, entre os quaes ti- 
nha envelhecido noscombates— quero 
repetir-vos o que vos tenho dito mil 
vezes: lembra i-vos que por toda a 
parte onde fizerdes a guerra, os ec- 
clesiasticos, o povo indigente, as mu- 
lheres e as crianças não são nossos 
inimigos; não tomeis as armas senão 
para os defender e proteger.» — Car- 
los V prestou a maior attenção a to- 
das as reformas, e ramos do seu go- 
verno. Fixou a maioridade dos reis 
de França aos quatorze annos, sup- 
primiu impostos vexatórios, fundou a 
Bibliotheca real e mandou construir 
a Bastilha. 

3. Carlos VI, seu filho, succedeu-lhe 
na idade de doze annos; mas só to- 
mou coíita das rédeas do governo aos 
vinte. Asua menoridade foi turbulenta 
com as dissidências entre os duques 
de Anjou, de Borgonha, de Berry, e 
de Bourbon, seus tios, em consequên- 
cia de todos quatro se disputarem o 
poder. O duque de Anjou, que era o 
mais velho, começou por espoliar o 
Ihesouroque tinha juntado o defunto 
rei, despendendo-o nos i)reparativos 
de uma expedição contra o reino de 
Nápoles. Depois estabeleceu em no- 
me do rei novos impostos, o que deu 
lugar a desordens. Foi Paris que deu 
o signal. Os amotinados estenderam- 
se logo por todos os bairros, entra- 
ram no Hotel de Ville, apossando-se 
dos punhaes, espadas, etc. Assim ar- 
mados commelleram todos os exces- 
sos, toruaudo-se duranh^ alguns dias 
o terror da cidade. O rei castigou os 
rebeldes mandando lançar ao rio den- 
tro de saccos de couro os chefes princi- 
paes, e retirando ás cidades alguns de 
seus privilégios. — Apoiado pelo con- 
deslavel Olivier deClisson, que tinha 
substituído Duguesclin, Carlos vi ga- 
nhou a vicloria de Uoosbecke. lím 
i:j'.l-2 marchou contra o du(iue de 
Bretanha, por este ter dado asylo a 
Pedro (In Craon, accusado de ler at- 
tentado contra a vida do condestavel 



de Clisson. — .\o atravessar o bosque 
de Mans, debaixo d'um sol ardentís- 
simo, viu um mendigo tomar a fren- 
te a seu cavallo, exclamando: «Volta, 
que és trahido!» Prendem este ho- 
mem, afastam-no, e o exercito conti- 
nua sua marcha em silencio. Mas al- 
guns instantes depois, tendo um pa- 
gem deixado cahir a espada, o es- 
trondo do ferro fez pensar ao rei que 
o iam assassinar; voltou-se, e ar- 
rancando da espada, matou quatro ho- 
mens do seu séquito. Enlouquecera. 
Durante a sua demência, seus tios re- 
tomaram a regência, e a guerra ci- 
vil recomeçou. O duque de Orleans, 
irmão do rei, tinha sido assassinado 
por ordem do duipie de Borgonha. 
Toda a Fraaça se dividiu em dous 
partidos: os*armagnacs, partidários 
do duque de Orleans, e os borgui- 
nhões, partidários do duque de Borgo- 
nha. Logo depois o duque de Borgo- 
nha foi assassinado por represálias. 
—Henrique V, rei de Inglaterra, apro- 
veitando-se d'eslas desordens, inva- 
diu a França á fiente d'um poderoso 
exercito, avançando até á pequena 
villa de Azinco*url. AUi se deu uma 
batalha tão funesta como o tinham 
sido a de Crécy e Poiliers; o exercito 
francez perdeu 10:000 genlis-homens, 
6 120 fidalgos; eos inglezes apodera- 
ram-se da Normandia. Os borgui- 
nhões e armagnacs dominavam ora 
uns ora outros l'ariz, rivalisando em 
ferocidade. A indigna Isabel de Ba- 
viera, mulher de Carlos vi, uniu-se 
aos borguinhõcs, e estes esganaram 
nas prisões o conde de Armagnac e 
todos os seus partidários. Mas no an- 
no seguinte, o novo conde de Borgo- 
nha, João .s7f//.s pnii\ tendo aceitado 
uma entrevista na ponte de Monte- 
reau com o delphim Carlos, debaixo 
do pretexto diima reconciliação, ahi 
foi traiçoeiramente assassinado por 
Tannegúy-Duchàtel que negociava os 
interesses do delphim. — Este novo 
crime bandeou os borguinliões no 
partido dos ingle/.es. Pliilippe, o fíom, 
filho e successor de .bnlo saiis prur, e 
a rainha Isabel li/.eram assignar ao 
pobre idiota Carlos vi o vilipendioso 
tratado de Troycs, pelo qual desher- 



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dava sfiii próprio liilio, e dava ao rei 
do Inglaterra, com a mào da (ilha. o 
titulo (1(! rcgfiiL)! (lo reino, (; licrdriro 
da curòa. Deshordado por seu [>;íí e 
por sua iiiài, o d('l|»liiiii ap|)('lloii [j^ira 
Deus (5 para a sua espada. 

-Í-. A iiKHlc (jiiasi simull.irica de 
II(Miri(pie V, rei de Iniílalerra, e do 
ineiitei-;ipl() (larlos vi, lasgoii siiliita- 
meiítc! novos destinos ;'i Kiaiira (1 t'2-2). 
— l'elos lermos do tralado de Trovfs 
foi o líllio de Ilciirii|iie v acidaiiiado 
rei d(! Inglaterra e Kracça ein Lon- 
dres (í l*aii/, cotn o nome Ilenri(iiie 
Vi; [loiém o delpliirn foi coroado en» 
Poiliers com o nome de Carlos vii. 
Por toda a parte venciam os inglezes, 
por tanta maneira (pu; Carlos vii es- 
tava i(!iliizido ao território de Bour- 
•ges; pelo que derisoriaraente o de- 
nominavam rridc nouifirs. Carlos vii 
6 a França tinham descido ao máxi- 
mo aviltamento. Quatro escudos eram 
todos os haveres d'esle pobre rei; 
comia miseravelmente; e uma vez 
qu^e La Hiree Xaintrailles o visitaram 
leve só dous pombos e uma pá de car- 
neiro que Iheoííerecer. Orleans, úni- 
ca praça que o defendia, estava cerca- 
da. Se esta praça succumbisse, per- 
dida estava Bourges, e o rei de Fran- 
ça não teria asylo em seu reino. De- 
mais, Xaintrailles e La Hire estavam 
situados em Oileans; mas, já os vive- 
res lhe faltavam, e fallavam em ren- 
der-se, quando uma rapariga de de- 
zoito annos surgiu a salvar a Franca 
(U28). (Veja Jo.\nna d'Arc). 

5. Carlos viii, íilho esuccessor de 
Luiz XI, enthusiasmado pela leitura 
dos romances cavalheirescos e expe- 
dições de Alexandre e César, conce- 
bera um plano agigantado: quiz con- 
quistar Nápoles, dirigir-se depois á 
Grécia, tirar Constantinopla aos tur- 
cos, e restabelecer o império chris- 
tão no Oriente. Os últimos principes 
da casa de Anjou haviam legado seus 
direitos ao reino de Nápoles, á famí- 
lia de Carlos. Foi rápida espantosa- 
mente a conquista projectada, por 
modo que era senhor de Nápoles, 
cinco mezes depois que abalara com 
o exercito; mas mais depressa do que 
os tinha conquistado, perdeu esses 



novos Estados. Colligaram-se contra 
elle muitos principes, (|ue o forçaram 
a satiir de ilalia no mesmo anno. 
Ouando voltava loi atacado junto de 
1'oriioue, [)ur quarenta nul confede- 
rados, (jue elle derrotou com nove 
md homens (liOi)), c vingou entrar 
nos seus domínios. 

(■). Carlos i\. (Veja Srxto si;(;l'LO|. 

7. Carlos X i\lh',-\H\\^\}, irmão de 
í.uiz XVI, e de Luiz xviii, foi chama- 
do ao throno, por fallecimento do ul- 
timo, em ]H-lí. Cou>as notáveis no 
seu leinado ha o voto de bdliào para 
indemnisar os emigrados; a expe- 
dição á Crecia, e a vicloria de Nava- 
rino; a tomada de Argel (d de julho 
de 1830); as ordenanças que dissol- 
veram as camarás, e convocaram col- 
legios eleitoraes mudando o sysiema 
da eleição, e suspendendo a liberda- 
de da imprensa. Kstas ordenanças in- 
constilucionaes excitaram movimen- 
to geral, pelo que em três dias foi 
Carlos X desthronado('2y de julho de 
1830). 

CARNEIRA. (Veja Couro). 

CARNEIRO. (Veja Rumin.\ntes). 

carnívoros. Esta ordem de ma- 
míferos comprehende todos os ani- 
maes que tem os molares mais ou 
menos comprimidos, estômago sim- 
ples e pequeno, intestino curto, e 
que se nutrem de carne, de insectos 
ou de quaesquer matérias animaes. 
Os principaes são: o cão, o lobo, o 
chacal, o raposo, o isolis, que for- 
mam o género Canis: o gato, o lobo 
cerval, o leão, o tigre, a panthera, o 
leopardo, a byena, que são o género 
Felis (gato); o urso, o texugo, a tou- 
peira. (Quanto a leão e tigre, veja 
B.\RB.\Ri.\; Indus, e Russl\ para ou- 
tros pequenos carnívoros). 

1. O espaço de que podemos dis- 
por não nos permitte alongarmo-nos 
sobre a historia dos costumes do cão, 
nem dar noticia das numerosas va- 
riedades d'esta espécie que são desi- 
gnadas debaixo dos nomes de dogue, 
rafeiro, cão de lobo, galgo, perdiguei- 
ro, fraldeiro, mastim, goso, etc. Limi- 



CAR 



CAR 



471 



tar-nos-hemos a dizer que a maior 
parte dos naturalistas consideram to- 
das estas variedades, determinadas 
pelas diversas condições em que a 
domesticidade poz esses animaes, 
descendendo todas d'um só tronco, 
que se suppõe não podia ir muito 
longe do cão de lobo; todavia, hoje 
o cão já se não encontra em parte al- 
guma no seu estado primitivo, e os 
cães selvagens que se encontram em 
alguns paizes, são descendentes de 
cães domesticados, e fugitivos. Acres- 
centemos que a duração da vida d'es- 
tes animaes é de quinze a vinte an- 
nos; que nascem ás ninhadas de três 
a seis, e que nos primeiros dias tem 
os ollios fechados; que crescem até 
aosdous annos; vivem em bandos, e 
habitam quasi todos os pontos do 
globo. 

O lobo commnm parece-se extre- 
mamente com o cão, mas diíTere pe- 
los instinctos e outras particularida- 
des da formatura. F.xiste em quasi 
todas as partes da Europa, ao norte 
da Ásia e da America. 

O chacal, muito commum na Algé- 
ria e na Ásia, lambem tem com o cão 
um grande parentesco zoológico. Em 
fim encontra m-se em outras regiões 
doglobo animaes que se parecem cotn 
estas Ires espécies, mas são bastante 
diííf rentes para se confundirem com 
nenhum d'elles: taes são o lubo rer- 
mcllio do México, e o lobo dos prados 
da America septentrional. 

O rapoao é um animal essen(;ial- 
mente nocturno; durante o dia dor- 
me n'uma cova que cava na terra. 
Vive só, e nutre-se ordinariamente 
de proas vivas; encontra-se em to- 
das as parles da Europa e Ásia. 

O inalis, ou raposo azul, é mais pe- 
queno que o raposo ordinário; vive 
na Sibeiia, e a pelle é muito esti- 
mada. 

Ha ainda uma terceira espécie, 
chamada rví/ío.soprr/írv/f/o, cuja pelle é 
aiiiii;i Miais preciosa, e vive nos mes- 
mos tuteares; conhecem-se mais al- 
guin.is raças, umas que são próprias 
da America, outras da Africa ou Ásia. 

'2. O (/alo commum vive no estado 
selvagem em alguns bosques da Eu- 



ropa; é um terço maior que os gatos 
domésticos e não tem a variedade de 
cores que se nota n'esles; é de um 
pardo escuro ondeado ás listas mais 
escuras pelo lombo, e d"um pardo 
branco por baixo, com as patas aleo- 
nadas para dentro, e a cauda no co- 
meço annelada, e no fim denegrida. 
Os costumes d'este animal são geral- 
mente muito conhecidos para tratar- 
mos d'elles; diremos só que vive do- 
ze a quinze annos, que os filhos nas- 
cem em ranchos de cinco ou seis, com 
os olhos fechados, não os abrindo se- 
não aos nove dias, e que só adquirem 
todo o desenvolvimento aos dezoito 
mezes. A domesticidade do gato é 
muito remota. Os gregos da ariti- 
guidade conheciam pouco estes ani- 
maes, mas já então eram comniuns 
entre os egypcios. Hoje estão vnlga- 
risados na America e na Imlia, tanto 
como na Africa e em toiias as partes 
da Europa. Dáse o nome de hinccon 
lobo cerbal a uma outra espécie de 
gato, notável pelo tufo de pellns que 
lhe cobre as orelhas; o pell.» é ruivo 
com manchas ruivo-cií.zentis; é in- 
dígena da Europa temperada, e no 
tempo dos romanos era muito com- 
mum em França; todavia tem des- 
apparecido quasi inteiramente dos 
lugares habitados, e onde se encon- 
tra ainda é nosPyreneus, nas monta- 
nhas de Nápoles, e Africa. Trepa pe- 
las arvores mais altas dos bosques, 
escondendo-se entre os ramos a es- 
piar a preza. Faz consideráveis es- 
tragos nos rebanhos, destroe grande 
numero de lebres, veados e gamos, e 
possuo uma vista tão perspicaz que 
os antigos attribuiram lhe a faculda- 
de de vér através das pedras dos mu- 
ros; isto é evidentemente falso; o(]ue 
parece é que distingue a muito maior 
distancia que a maior parle dos car- 
nívoros. 

A pnnthrra é mais pequena (pio as 
es|)ecies precedentes, e mais vulgar. 
Está espalhada jtor toda a Africa e nas 
partes (|uentesda Ásia. e no aichipe- 
lago indiano. E notável pela bel- 
la pellapein, arruivascada por cima, 
branca por baixo, e sobro os quatlris 
tom cinco ou sois lileiras de manchas 



172 



CAR 



CAR 



negras ciu IViíma de rosas; islo é, for- 
madas do .'ijiiiilaiiicnlo d*; cinco ou 
seis inniiclias simples. Os cosluincs 
da paiillicia parccciíi-sf! niuilo com 
os (los ^alos; laiiihiMii alacaos pciiiic- 
nos (|iiadnipt'd('s, o solx; sol)r(í as ar- 
vores pata pcisci^iiir a presa, ou fugir 
ao p(íri},'o. 

O lru}jiiril() |)arei-('-s(' iiiuilo á [)aii- 
tluira, mas as manchas iiue o [)ello lem 
nos (|iiadris são m.iis pe(|iieuas, c fa- 
zem dez listas (Mn lugar de cinco ou 
seis. Vive na Africa e lai vez na Ásia. 
Ale ha poii(;o lemjx) confundiam-no 
com a espécie precedenle. 

Ainda ha uma oulra raí^a igualmente 
noiavel {)elo tamanho, mas esta não 
ataca senão os peijuenos aiiimaes; é 
o coid/imr, chamado por alguns autho- 
res h'ãi) (hl Aini'ric(i. Tem a pellagem 
d'ura arniçado f|iiasi uniforme. 

Finalmente collocam no género dos 
gatos, um animal que lem muita se- 
melhança com os ligres e os leopar- 
dos, nas que é muito ililTeienle das 
outras espécies do mesmo grupo, por 
ler as garras pouco retrateis: éoyué- 
jard ou tigre caçador das Imhas que 
do tamanho do leopardo, um pouco 
mais alto das pernas, mais delgado, 
a cabeça mais redonda e pello ruço, 
tem pequenas manchas negras uni- 
formes. Pilha-se facilmente, e deixa- 
se adestrai' para a caça. 

As hyenassão animaes nocturnos e 
habitam ordinariamente as cavernas, 
são d'uma voracidade extrema, não 
merecem poicWii a reputação de fero- 
cidade (jue lhe fazem, por que não 
atacam senão rai'as vezes animaes vi- 
vos, e repastam-se nos cadáveres. 
Tem o pello áspero, pouco espesso, e 
sobre as costas uns pellos compridos 
formando uma espécie de juba. A 
hycna commum acha-se em todas as 
partes da Ásia e da America, e na 
Algéria, por exemplo. 

3. Os ursos {Ursns) são todos ani- 
maes corpulentos, membrudos e cau- 
da muito curta. Tem a andadura pe- 
sada; mas são muito intelligentes, e 
dotados d'uma força prodigiosa. Seu 
regimen varia com as circumstancias : 
accommodam-se tanto com os vege- 
taes, como com a carne dos animaes, 



porém na maior parle são frugivoros, 
procurando com preferencia os fru- 
ctos, as raizes succolentas, e os re- 
beniòe.s das arvores ; são apaixona- 
díssimos de mel, e para o saborear 
ex|iôem-se ás jiicaduras de todas as 
abelhas de um enxame. K só quando 
a fíjuií! os a[)(!rta, que alacam os ani- 
maes. A sua conlormarào p(ju<;o favo- 
rável .i corrida, permirie-lhes suslea- 
lar-se facilmente levantados sobre as 
patas inffMiores, e tre|)ar com fa- 
cilidade ás arvores de (|ue (iodem 
abraçar o tronco e os ramos. Alguns 
são bons nadadores, e devem em parte 
esta faculilade á ipiantiilade de gor- 
duia de (]ue de ordinário lem o corpo 
carregado. Tem (inissimo olfato, e as 
ventas formadas de focinho muito 
móbil. Estes animaes gostam do retiro 
e da solidão; a maior parte d'elles 
vive nos bos(]ues mais selvagens, es- 
tabelecendo seu domicilio entre os 
rochedos em alguma caserna, ou em 
antros que elles fossam cora as unhas 
fortes e cuivas. Alguns chegam a cons- 
tiuir com ramos e folhas, cabanas 
cuidadosamente revestidas de musgo ; 
outros vivem sempre no meio do gelo 
dos maies polares. No inverno entor- 
pecem profundamente, e (juando o 
frio é mais intenso, cahem niima le- 
thargia completa. Durante lodo o tem- 
po d''esse somno invernal, não tomam 
nutrição alguma, e parece que vivem 
a expensas da gordura de que tinliam 
feito deposito no outono, de inaneira 
que quando sabem de seu covil esião 
na magreza extrema. A pelle d'estes 
animaes é espessa, e compõe-se de 
pellos brilhantes e muito compridos. 
Por isso é muito procurada e uni 
objecto impoi tanle de commercio. É 
no inverno e nos paizes mais frios 
que esta pelle é melhor e mais forne- 
cida, e por consequência é também 
no inverno, que se fazem mais caça- 
das de ursos. Encontra m-se ursos era 
todas as partes do mundo, e debaixo 
de todas as latitudes, excepto na Afri- 
ca e na Austrália. 

O lexufio da Juiropa, que é do ta- 
manho d'um cão medíocre, apre- 
senta na pellagem particularidade no- 
tável. Quasi sempre a face. dorsal 



CAR 



CÂR 



173 



do corpo dos mamiferos, é de uma 
côr mais carregada que a face ven- 
tral. O texugo, ao contrario, é cin- 
zento por cima, e negro por baixo: 
é um animal solitário que passa a 
maior parte da vida n'uma cova obli- 
qua, tortuosa e com uma só abertura, 
(jue elle cava facilmente com o auxi- 
lio das unhas muitos fortes e em que 
elle tem extremo cuidado para as tra- 
zer limpas. Habita nas partos tempe- 
radas da Europa e da Ásia ; tornou-se 
porém muito raro em França por 
causa da caca activa que lhe tem dado. 

Para o caçar armam-lhe ciladas, 
ou o fazem perseguir por ura cão ras- 
teiro, que entra na lura, o encurrala 
segurando-o com as garras, até que 
abram a cova por cima. Para se de- 
fender o texugo deila-se de costas e 
serve-se com vantagi^m das uidias, 
tanto como desdentes. A pelle do te- 
xugo é espessa, áspera e com ponco 
brilho. Os carreteiros servem-se dVlla 
para cobrir a colleira de sens cavallos 
e os pellos do pescoço (Peste animal 
são empregados no fiibrico dos pin- 
céis e das escovas de barba. 

A loupeira vulgiir de nossos campos 
é ordinariamente d'ura bollo negro; 
G vive em todos os territórios férteis 
da Europa. Geralmente perseguera- 
na como nociva /i agriculiura; as to- 
cas formadas pelos desentulhos pro- 
venientes dos trabalhos subtcrianeos 
d'esles animaes são com effeiío in- 
commodativas nos prados onde a her- 
va deve ser segada o mais rente pos- 
sível, e dcsguainecem ns jardins; no 
entanto devemos acreditar que as tou- 
peiras são mais úteis ijue noiúvas, por- 
que destroem grande numero de lar- 
vas de in.sectos, e essas larvas fazem 
muitas vezes grandes estragos roendo 
as raizes das plantas. 

E sobí(; tudo peiseguindo as larvas 
dos insectos, de (pie estes animaes 
fazem sua nutrição, (jue elles esfos- 
sam novos subterrâneos; e segundo a 
naluieza e accidenlado do terreno le- 
vam a presa a esconder-se profunda- 
mente no terreno, ou a aproximar-se 
da su|)eificie; vcndo-se construir ca- 
minhos nas differentes camadas. Sua 
morada nunca communica directa- 



mente com o ar exterior; e se sabem 
de suas galerias não é senão para es- 
colher um ponto conveniente para re- 
começar novos trabalhos. As palas 
trazeiras são pouquíssimo flexíveis, 
e á superfície (ja terra movem-se com 
tanta dífficuldade quanto facilmente 
se movem debaixo da terra. A rapidez 
com que esfossam é tamanha algumas 
vezes que mais parecem ir a nado. 
Estes animaes, como se vê, estão des- 
tinados a viver em profunda escuri- 
dade, e por isso mesmo tem os olhos 
pequeníssimos e quasi parece não dis- 
tinguirem entre luz e trevas. 

CAROTTE. (Veja U.mcelliferas). 

CARTAS. 1. Por carias entende- 
mos em geral a escripta em prosa que 
enviamos aos nossos conhecidos, quer 
respondendo acerca de cousas que 
nos são perguntadas, quer noticiando 
novidades, ou ainda para entreteni- 
mento de relaçõ.'s. É, para pssim di- 
zer, um modo de convi'rs:çãú entre 
pessoas ausentes. Os predicadas agra- 
dáveis de uma carta devem ser os 
mesmos que deleitam na conversa- 
ção: o natural, que não exclue a re- 
flexão e escolha de pensamentos en- 
tre os quaes se hão de prefeiir os 
mais modestos; facilidade, que con- 
siste em certo ar de liberdade, sem 
acanhamento, nem tropeços, um tom 
jovial que vai colorindo gratamente 
as mínimas frioleiras. Esta giaciosi- 
dade resulta da destreza em apresen- 
tar os objectos pela sua face mais 
aprazível, da delicadeza das idéas, da 
escolha, propriedade, eaié, ás vezes, 
da singularidade das vozes, e certos 
geilos familiares e faceciosos. Com 
tal arte, logramos dar matizes á mo- 
ralidade, dnlcilicar a censura, dar 
maisattractivos ao louvor, e desassom- 
brar melancolias. Mediante leitura 
aturada e altenta de boiis livros é 
que se adtjuire a facilidade ou cor- 
renteza deestylo, (jue nunra deve ul- 
tra[i('\r as fronteiras do a atamento e 
corle/.ia. (Veja KnsTDi.MiM) |geiiero|). 

^1. Tanto para escrever uma carta, 
como para travar uma conversação, é 
preciso haver ídéas. .Não tendo o me- 



17i 



CAR 



CAR 



nino (l(! 10 anní)s ainda bastantes 
idéas próprias, é-llie grandr íírabara- 
ço corrí'spond«'r-se com sua íamilia. 
Por isso coiiviMii (|uc os meninos leiam 
e Irashideiii muitas cartas, antes de 
os ol)rit?;n mos a rcdi^çd-as. (^iiame- 
se-ilies primeiramente a altcnçãu pa- 
ra as ÍDriiuilas coitezes (jiie díivcm 
rematar as cartas, e depois, pouco (! 
pouco, adestreniol-os, com [lergunlas 
singelas, e explicaçò(!s ao seu alcan- 
ce, para ies|)oiidt'r (iralmcolc ou de 
escri[)la a cada caria (|ue houverem 
copiado. Para isto, ãCi o professor o 
esboço ou plano da resposta, indigi- 
tando o modo de desenvolver a idéa, 
cora clausulas de tempo, logar, mo- 
do, íim, causa, virtude, moral, reli- 
gião, ele. - Os exercícios ulteriores 
-poderão ser giaduados assim: Res- 
ponder a uma designada carta sem 
auxilio de mestre. — UeproducçSo 
de uma carta que se leu, sem se dar 
o plano. - Redacção de uma carta, 
tendo-se-Uie dado simplesmente oas- 
sum|tto. — Não passar de um a outro 
exercício sem (jue o precedente haja 
sido bem applicado e comprehendi- 
do. — 0> esboços sequentes, que 
abrangem casos geracs de correspon- 
dência, daiào ao professor meios de 
associarem idéas particulares que de- 
pendem das circu instancias, e deli- 
nearem assim aos alumnos grande va- 
riedade de assumptos e planos. So- 
mos muiias vezes obrigados, nas re- 
lações de sociedade, a consolar^ pedir, 
recenciliar, felicitar, referir, agrade- 
cer, ele, a pessoas afastadas. Cure- 
mos pois de prencher eslc encargo 
conveniente e honradamente. 

3. Consolação: Ter parle sincera na 
dôr alheia. O que seja vida, morte, 
e ordem admirável da Providencia. 
Eternidade. Amor divino e sacrifício 
do homem. Relembrar os próprios in- 
fortúnios e dar sublimes realces á re- 
signação. Senlimentosaffectuosos. Em 
amizades entranhadas é licito tocar 
em pontos Íntimos. Xsreuposlas d'es- 
tas cartas devem ser breves, e expres- 
sivas de tristeza e gratidão. — Peti- 
ção: Expor a petição com modéstia. 
Causas e motivos do pedido. Não pe- 
dir com altivez, nem solicitar com 



baixeza. Rondade de coração e gozo 
intimo (juepro\(''m da boa acção. Va- 
lor do (tbse(|ui() pedido. Sincero re- 
coiihei imerito. Nas nsposltts afaga-se 
(I am(tr jiropi lo da pessíja a t\\U'in soc- 
corremos, atlenuatido a valia do ser- 
viço que se lhe offerece. Exprimimos 
o prazer sentido na occasiáo que 
se nos faculta. Eslipulam-se condi- 
ções, se vem a propósito; c no caso 
de recusa, conh'ssa-se o |)esar da 
impossibilidade de servir, e prorael- 
te-se satisfazer n'oulra occasião, se 
acreditamos poder cumprir a pro- 
messa. — HiTimriliarno: Rusrjuemos 
desculpar aquelle a (|uem se escreve 
sem todavia o arguirmos encarecida- 
mente da offensa. Demonstre-se que 
a contenda não tem toda a im[)Ortan- 
cia que se lhe dá. Relembiern-se os 
eternos princípios de caridade e jus- 
tiça, a nobreza do perdão, e a felici- 
dade da paz. — Felicilaçõrs: Congra- 
tulemo-nos caloiosa e sinceramente 
com as prosperidades do nosso ami- 
go. Sejamos nobres, modestos, deli- 
cados, caridosos e concisos. Evitemos 
formulas frívolas e triviaes. Sejam 
modestas as rrsih-stns d'estas cartas, 
agradecendo, e fortalecendo o animo 
com alUibuir a Deus a maior parte 
das prosperidades porque nos felici- 
tam. — Disrri])ção: Conle-se singela- 
mente o fado em traços vivos e insi- 
nuantes. Indaguem-se causas, efTei- 
tos, vantagens e inconvenientes. Com- 
parações. Como e porque. Incidentes 
particulares. Reflexões praticas. — 
Agradecimento: O serviço recebido, 
as circumstancias que o acompanha- 
ram, a generosidade de quem obriga, 
a sensibilidade e gratidão de quem 
recebe: taes são as principaes idéas 
d'esta espécie de carias. Dar relevo á 
grandeza do serviço e á bondade de 
quem o prestou. P*alavras respeitosas 
sem objecção. — Desculpas: confessar 
francamente seus erros, desculpal-os 
sem querer ostentar absoluto direito, 
e mostrar desejo de os reparar. A de- 
longa da jusliticação vaiía conforme 
a gravidade das faltas, e consoante as 
prevenções que presumimos n'aquel- 
le perante quem nos justificamos. — 
Recommcndarão : Estas cartas devem 



CAR 



CAR 



175 



conter a exposição das boas qualida- 
des da pessoa qiie se apresenta, a des- 
culpa do incomrnodo que se dá, ou 
diligencias que pedimos, do que já de 
antemão nos damos por obrigados, 
pretextos de gratidão ao serviço que 
esperamos. — Pertence ao coração di- 
ctar as cartas familiares, de amizade, 
e de corlezia. — As cartas sobre ne- 
gócios demandam claridade e preci- 
são, exposição clara, e completa; es- 
tylo simples* e rigoruso. 

CARTAS GEOGRAPHICAS. l.Pó- 
de-se representar sobre um globo a 
configuração dos continentes, ilbas 
e mares, e dVsle modo oblem-se ura 
desenho semelhante a original. Mas, 
para mais commodidade no trans- 
porte e no uso d'este desenho, faz- 
se liabiludliiionte sobre cartas pla- 
nas, para o que ha vários modos 
de traçar os meridianos e parallelos 
terrestres; isto é, de obter a projec- 
ção da esphera terrestre sobre um 
plano. — A projpcção diz-se orlho- 
graphica, qu;iiulo é feita sobre um 
plano que passa pelo centro da esphe- 
ra, e o olho, ou o ponto d'onde con- 
correm as rectas projpctantes, se acha 
a uma distancia iiiliiiila sobre a recta 
passante peio centro perpendicular- 
mente ao plano; e slereorjraphica, 
quando é feita sobre um plano de 
circulo máximo da esphera, e o olho 
se acha no [lolo do circulo. Emprega- 
se a primeira em astronomia ; e a se- 
gunda serve para a construcção das 
cartas geogra[)iiicas. — As cartas to- 
mam denomiiiiiçòes differentes, con- 
soante a rppresent;ição do globo é to- 
tal ou parcial. No mapjiamundi, iraa- 
gina-se ogl bo cortado em duas par- 
tes peio jiiano do meridiano e sup- 
põem-se os dons hvmis})hi'rios collo- 
cados a par. Os pl.iiiisplicrios repre- 
sentam a totalidadíí (i;i siípcrlicie ter- 
restre em projecção plana c rcdn/.ida. 
Uma caila cliama-se rhoroí/rdjiltirn, 
SC 1'epresenta pormindo uma [irovin- 
cia ou circuiiiscripçào ; li>}i(><ira}>hicn, 
quando indica os accidetUes do solo; 
hiiilroijrapltira ou marilima, (piando 
não representa senão o mar, ilhas e 



co&las ; orographica, quando se limita 
á indicação das montanhas. 

2. O esboço das cartas geographi- 
cas é um exercício indispensável e 
atlrahenle, que profundamente gra- 
va na memoria dos alumnos a po- 
sição e contornos dos diversos pai- 
zes, bem como todos os outros ac- 
cidentes geographicos. Todavia, para 
que se torne útil, devem os alumnos 
estar preparados com estudo serio 
de geographia e das cartas. (Veja 
Geographia.) — Mostra-se-lhes que 
não ha nada mais fácil do que co- 
piar uma carta, principalmente coa- 
servando-lhe as mesmas dimensões. 
Traça-se primeiramente o quadro, de- 
pois* os meridianos e parallelos, que 
podemos representar por meio de re- 
ctas ; feito o que, só resta desenhar 
em cada um dos quadrados ou qua- 
driláteros da quadriculei fnrniada por 
essas rectas, as íiguras iiisciiptas no 
quadrilátero correspondente do mo- 
delo. Querendo, para maior exacti- 
dão, representar os meridianos e pa- 
rallelos por linhas curvas, delermi- 
na-se a posição de três pontos para 
cada um d'elles, e descreve-se a cur- 
va, quer á vista, quer por meio d'um 
junco ílexivel ou vara de baleia, quer 
pelo compasso, depois de determinar 
o centro de cada curva. (Veja Circu- 
lo). Quando se pretende uma carta 
ampliticada, duplicam-se. ou Iripli- 
cam-se, etc, as dimensões do modelo 
consoante o espaço de que podemos 
dispor; querendo-a rediix.uia. redu- 
ziremos proporcionalmente todas as 
distancias. Observe-se (jue dcdtrando, 
triplicando, ele, as diiaeii>ut's, tor- 
na-se maior a snpei ficie da caria (jna- 
tro vezes, nove vezes, ele. ; e redu- 
zindo-as á metade, ao terço, etc, tor- 
na-se menor essa superlicie. qnalro 
vezes, nove vezes, etc. Por exemplo: 
dobrando as dimensões d^ima carta 
que tem "1 melros de comprimento 
sobre um de largura, o que dá '1 me- 
tros (piailrados. ol>tem-se uma caria 
(|ue lem í- melros sobre 'i. cuja super- 
licie é, pois, S melros (]uadra(U)s, e 
por consequência (lualro \(>/.es maior, 
— Seja pro|>oslo desenhar uu;a carta 
mural de PorlUiíal ou da Kuropa. por 



170 



CAK 



CAS 



um modôlo que lenha as dimensões, 

O"', 70 e O'", ío. Quailniplico, [)0í exem- 
j)lo, oslfs iiurncríjs, oblciilio 'l'",Hi) o 
1 "','>(). Tra(;o o (juailto por meio 
d'iiiiia coiila cobcila com pó de cifr- 
ou de ^\a; iiiilii;o soIjií» cslr ipiadro 
os jxinlos [)or omln devem passar os 
mei'idiaiios e os [larallelos, (piadru- 
plicaiido as divisões correspoiídeiiles 
do modelo; c Iraço estas linhas pela 
mesma fói ma (jtie as do (|uadro. Co- 
pio depois, do (|ii:ulrado om (|uadra- 
(lo, tudo (|iio se acha tio moiK^lo. — 
Para coiisliiiir um mappamiiiidi, tra- 
ça-se sohre o muro uma linha hori- 
sonlal (|ue se divido ao meio para 
obter o diameti-o de cada hemisphc- 
rio; dividindo novamente cada diâ- 
metro ao meio, obteremos o raio e o 
centro de cada hemis|)herio. S>i|)po- 
nliamos que a linha traçada loníia í2 
metros de comprimento: com uma 
corda de O'", 50, valor do raio, presa 
por uma das suas exlretnidades no 
centro, doscrovem-se duas circumfe- 
rencias langenles, que representarão 
os dous liemispherios; e pelos centros 
dos (|uaes se levantará uma vertical, 
que detormiiiaiá os poios. Os dous 
círculos filham d'este modo divididos 
cada um em quatro parles iguaes for- 
mando cada uma um angulo leclo ou 
de '.)() graus Diviíle-se, por tentati- 
vas, cada quadrante em nove partes 
iguaes, o que dá 35 partes em cada 
circumforeiícia; uma d'estns partes 
vale 10, pois que '36 XlO=:36ii graus. 
Trace-se agora os meridianos e os 
parallelos, fazendo-os passar pelos 
pontos de divisão. Como os meridia- 
nos passam todos pelos poios, basta 
determinar, sobre o diâmetro do 
equador, o terceiro ponto por onde 
cada um deve passar. Para isso, to- 
ma-se uma regoa sufficienlemente 
comprida que seapplica por uma das 
snas extremidades a um dos poios, e 
faz se passar por lodos os pontos de 
divisão da semi-circumferencia que 
não contém esse polo, marcando, em 
cada posição da regoa, o ponto de in- 
tersecção com o diâmetro: é este o 
terceiro ponto que determina cada 
um dos meridianos. Procede-se do 
mesmo modo para determinar na li- 



nha dos poios o terceiro ponlo de 
cada [larallelo: colloca-se uma das 
extremidades da rejfíja n'um dus ler- 
(nos do <'(|iiador, dinge-se a regoa 
j)ara cada um dos pontos de divisão 
da síími-circumferem.ia apfiosta, e 
marca-se em cada [losiçào da regoa 
a intersecção com a Inibi dos poios; 
6 este o ponto pKjcurado. A linha dos 
poios, proloiigjda inileíinidamente, »'• 
o lugar de todos os centros dos \)ã- 
rallelos; a linha do equador, consi- 
derada indtlinida, é o lugar dos cen- 
tros dos meridianos Complela-se o 
trabalho, desenhando a lápis ou a 
tinta de (juabiuer côr os contornos 
dos Kstados limitiophes, as ilhas, os 
rios, as montanhas, ele; e circura- 
screvendo a carta por uma tarja preta, 
sobre a (jual se indica, por meio de 
algarismos, os graus de longitude e 
latitude. 

CARTHAGO. (Veja Nono século). 

CARVALHO. (Veja Cupulifer.^s). 

CARVÃO. (Veja FossEís). 

CASTANHEDA (Fernão Lopes de). 
Nasceu em Santarém. Foi para a ín- 
dia, d^onde voltou com os elementos 
da sua IHsloiia do d''scobrimciUo e 
conquisla da Índia pelos porlwjiwzes. 
Após vinte annos de trabalho, obteve 
na pátria o lugar de bedel do Colle- 
gio das artes de Coimbra, onde mor- 
reu em 1559. A collecção das suas 
fJisl07'ias, impressas entre 1551 e 
15()1, são hoje extremamente raras; 
mas ha nova edição de 1833, em 7 
tomos in-i." «Os críticos, diz o sur. 
Innocencio Francisco da Silva, reco- 
nhecem na sua historia sinceridade 
e desejos de acertar, com boa averi- 
guação dos factos, laes quaes se pa- 
tentearam á sua diligencia: a lingua- 
gem tem lodo o sabor próprio do seu 
século, é pura e correcta e não des- 
pida de elegância; porém, diremos 
com o marquez de Alegrete: «Quem 
lê as Dfcndas de Barros e Couto não 
se satisfaz facilmente de outro histo- 
riador do mesmo assumpto.» {Dicc. 
Bibl., tom. II, pag. -283). 



CAS 



CAS 



177 



CASTANHEIRO. (Veja Cupulife- 

RAS). 

CASTELLO BRANCO. A doze lé- 
guas de distancia da cidade da Guar- 
da, para o sul, e a qualorze da vijla 
d'Abrautes para o sudoeste, está si- 
tuada a cidade de Castello Branco em 
lugar elevado, na província da Deira- 
Baixa, de que é capital. 

Não ha noticias certas sobre a épo- 
ca e autliores da sua fundação. Sabe- 
se, porém, que é de origem antiquís- 
sima. Alguns cippos, e outras pe- 
dras com inscripções romanas, acha- 
das dentro da cidade, e nos arredo- 
res por occasião de se abrir alicerces 
ou demolir muros, provara que alli 
existiu alguma povoação importante 
no tempo da dominação romana. 

Um nosso dislinclo escriptor, que 
se deu muito ao estudo de antiguida- 
des, chamado Gaspar Alvares de Lou- 
zâda, encontrou fundamento n'aqnel- 
las pedras para se convencer e affir- 
mar, que al!i teve assento a cidade ro- 
mana de Castralcurn, e que das suas 
ruinas sahiu Castello Branco. 

As memorias mais certas dVsta ter- 
ra datam do reinado de D. Sancho i 
que lhe deu foral. D. Sancho ii, na 
doação que fez d'ella a D. Simão Men- 
des, mestre dos templários, em 12-20, 
menciona -a como povoação impor- 
tante; emais taide D. Joàoii deu-lhe 
o titulo de notável. 

El-rei D. .José i elevou Castello 
Bi'anco á categoria de cidade. 

Ediíicada em uma encosta tem Cas- 
tello ilranco as suas ruas com tíiande 
declive, e sem construcções dignas de 
menção. Na parte mais alta está o ve- 
lho castello, bastante arruinado, (jue 
foi fundado pelos templários, e {\ne 
pela extincção dVsta ordem passou 
para a de Chtisto. Dentro do castel- 
lo, ainda se vêem as casas em (jue le- 
sidiam os commcndadores. Os últi- 
mos (jue alli viveram foiam D. Fer- 
nainlo (i(! Menezes, e D. António de 
Menezes, que se retiraram para Lis- 
boa logo depois da acclamação de D. 
João IV. 

A antiga igreja matriz lambem fi- 
cava dentro da fortaleza, pelo que se 



denomina Santa Maria do Castello. 

Tem esta cidade varias capellas, 
casa da misericórdia, e dous hospi- 
taes. 

Os subúrbios de Castello Branco 
abundam em cereaes, legumes e hor- 
taliças. 

Passara pelo termo d'esta cidade, 
em alguma distancia, os pequenos 
rios Ponsul, Ociesa, e Lisia. Se se 
der credito auraa tradição d'aquellas 
terras, a meia légua de Castello Bran- 
co, junto ao rio Ponsul, no sitio ao 
presente chamado — o porto dos Bel- 
gnijos, exisiiu uma cidade em eras re- 
motas, denominada Delcagia. 

Conta Castello Branco uma popu- 
lação de seis mil e oitocentas almas, 
e 6 residência d'um governador ci- 
vil e d'ura general, commandante da 
divisão militar. 

CASTIGOS. 1. Ao pisso que a ci- 
vilisação tui- progredindo, ascondem- 
nações a pena ultima irão rareando, 
e as crianças serão rateios vezes cor- 
poralmente punidas, porque asalraas 
hão de ser então mais de paz e os 
bons exemplos mais amiudados. Quan- 
to poréui á época em (lue vivemos os 
castigos são por vezes necessários, 
sobre tudo (|uando o menino se obs- 
tina na maldade, apesar dos meios 
suaves que se empregam na sua edu- 
cação Uma criança voluntariosa que- 
reria dominar-nos, se lhe não íizes- 
seraos sentir, (|uando convém, a sua 
necessária dependência. .Mas obser- 
vareis que, se castigaes vosso lilho, 
deixaes até certo ponto de ser seu 
amigo e seu pai, e que elle se torna 
para vós como estranho, incommo- 
dativo e insupportavel. E forçoso en- 
tão (jue elle seja defoiluosissimo; 
e vosso filho lerá os extremos de- 
feitos, e virá occasião em que vos 
excite a cólera, a impaciência e o des- 
espero. E, dado tal coiillitto, ireis 
arrebatado contra elle (;iri»'l)aiado no 
exleiior; poríjuc^ seria desgr.iça su- 
prema que um pai reminiesse, ver- 
dadeiramente irado, contra o lilho) 
por maneira (|ue o eiTeilo moral pro- 
duzido seja incom[)ara\elmeii!e mais 
forte (jue a dAr pliysica. —Observa- 



178 



CAS 



CAS 



reis oulrosirn (\no. no lance de casti- 
gar, vos (leveis abster de raeiocinios; 
a liiri (!(! (|ue vosso (illio, forrado a en- 
tender vossos motivos e a entrar em 
sua consciência, vendo- vos tâo lon}^'e 
dos vossos costumes, coidieça inevi- 
tavelmente (|ue deve proi-eiíer d'on- 
tra maneira. Ser-vos-ha desculpa a 
terniiia, jjoís (|ue as culpas do IíIIh) 
vos seiAo causa de penas (|ue haveis 
de solTrer; e, se elle vos considera 
alguma hora im[)aciente e colérico, 
nâo poderá ao menos accusar-vos de 
acciimular,sí'm horror, as duplas func- 
ròes de jiiiy. e algoz. — \í de saber 
que não deve aviltar-se o menino (|ue 
se castiga. Que elle j)ossa dizer sem 
pejo e nobremente: «Foi bem feito; 
mere(;i o castigo; agora estou emen- 
dado. í) Náo descureis n'estas cousas 
o siso das crianças; (pie elles são 
perspicassissimos no que lhes loca ; e, 
se os castigam com justiça, não se 
queixam. Acontece até desprezarem 
quem é servil com elles, e se deixa 
aviltar; e presam os génios francos e 
leaes (|ue se deixam conhecer ao pri- 
meiro aspecto. 

2. Aos meios extraordinários, que 
só em raros casos devem emprega r- 
se, acrescentaremos os meios pnren- 
íivos, do uso quotidiano, únicos que 
podeu) dar educação racional. Pos- 
sua-se o mestre de sentimentos pa- 
ternaes para com os discípulos; não 
seja grosseiro quando austero, nem 
pusillanime quando indulgente. Evi 
te iras e transportes; mas não vol- 
A/a os olhos de culpas que não de- 
vam passar inattendidas. Seja sim- 
ples no modo de ensinar, paciente, 
exacto, e faça maior cabedal na ob- 
servância da disciplina e assiduidade 
que da excessiva applicacão dosalu- 
mnos. Quando seja obrigado a corri- 
gil-os, fuja da oiíensa e da acrirno- 
nia; por quanto o que volve muitos 
aborridos do estudo é reprehende- 
rem-nos certos mestres com má ca- 
tadura, como se lhes tivessem raiva, 
Falle-lhes miudamente de virtude, e 
encareça-lh'a com os maiores louvo- 
res, môstrando-lh'a em idéas agra- 
dáveis, como bem que a todos sobre- 
puja, 6 o mais digno do homem de 



bem atilado, e o mais esperançoso em 
honras; pois dVlle deriva a geral es- 
limaç.lo, e a vereda (jue conduz á 
viudadeiía felicidade. Quanto mais 
lhes fói' adveilindo deveres, menos 
occasiOes terá de casligal-os... Dado 
(|iie a leitura lhes faculte muitos 
exemplos, o (jue se diz de viva voz 
tem maior acçáo c engendra melho- 
res eITeitos, sobre lud(» se liro diz 
mestre (|ue os meninos respeitem e 
estimem; que é grande a pr pensão 
a imitar (le vontade «(jiielles que 
noi-a ca[)tivam. Kstí's predicados, que 
Quintiliano recommenda a um pro- 
fessor de rbetorica, locam por igual 
aos [laes e aos mestres encarregados 
do ensino da mocidade. (Veja IIeííU- 
LA.MENTO, Punições, Keco.mpens.\s). 

CASTILHO (António de), filho do 
celebre arctiileclo Jiiâo de Ca^itilho- 
(Veja ESCILPTORES E .VRCÍIITFXTOS 

PORTUGUEZES). Nasceu em Tli^mar, 
em anno que se ignora, e falleceu em 
data ainda não averiguada. Exerceu 
lugares de grande coosiib-raçâo, tan- 
to na magislratuia, como nas letras, 
no reinado de el-rei D. João iii, cujo 
embaixador foi a Londres. Segundo 
se deprehende dos louvores dos seus 
contemporâneos mais queridos das 
musas, foi eminente poeta e prosador 
notável quanto podemos iiif- rir das 
poucas obras que ainda se consultam 
em authoridade de linguagem; taes 
são o Counnonlnrii) do crco de Gôa e 
Cnnl, impresso em l-õT:', e i730, e o 
Elogio J'cl-rei D. João de Portugal, 
terceiro do nom". impresso em 1655 
cora as Noticias de Parfugnl por Ma- 
noel Severim de Faria, em 17í-(>, e 
em 1791 com os Pnnrgyricos de João 
de Barros. O grande poeta António 
Ferreira tinha-o na alta conta de 
mestre: 

Castilho, de meus versos douta lima. 
Que cuidarei que fazes lá escondido, 
D'onde me não vem prosa, nem vem rima? 

CASTILHO (Diogo de), irmão do 
antecedente. Foi monge de Cister. Es- 
creveu o Liuro da origem dos Turcos 
he de seus Emperadores. publicado 
em 1538. D'este appellido C.\stilho 



CAS 



CAS 



179 



menciona oito escriptores o snr. In- 
nocencio Francisco da Silva. Dos 
mencionados ainda vivera dons, em 
opulência de talento, honrando o mor- 
gadio que lhes vem derivando ha Ires 
séculos sem desfalque, e já novas ver- 
gonteas nos assegurara a cadeia nun- 
ca interrompida de grandes poetas e 
prestanlissimos cidadãos. A genealo- 
gia Ião fidalga, quanto liileraria, d'es- 
ta família, deve ser lida nas Notas do 
terceiro tomo do (mamões, admirável 
drama do snr. visconde deCaslillio. 
Lá no meado do século xvi avulia-nos 
João de Castilho, o poeta que escul- 
pia as suas eslrophes no mármore; 
cá, volvidos trezentos annos. um dos 
seus descendentes, architecto do edi- 
fício do porvir, evangelisa a educação 
da mocidade, exorando a dupla alma 
da sciencia para os meninos, e remo- 
ça a cada primavera nova (lue lhe en- 
flora as ca ns. O visconde de Castilho é 
o mais opulento clássico lusitano, por- 
que possue as riquezas de todos. Se- 
jam lidos e relidos da mocidade os 
numerosos livros d'a(iuelle esplendor 
das leiras pátrias, que não ha melhor 
cordão sanitário contra a gafaria que 
DOS querem cá iraplantar os Gongo- 
ras da idéa, que são maisdamninhos 
que os da locução. 

CASTRO (Gabriel Pereira de). (1571- 
1632). Nasceu era Braga e falleceu 
em Lisboa, onde exercia as unc- 
ções de chanceller-raór do reino. 
Escreveu largamente sobre jurispru- 
dência civil e canónica. N'esla espé- 
cie, ha d'elle dous livros que ainda 
pagam a canceira de quem os lôr co- 
mo estudos de historia pátria : são os 
documentos portuguezes da obra in- 
titulada De mana regia, etc.,e a Mo- 
nomachia sobre as roncorilias que fi- 
zeram os Heis com os Prelados de Por- 
iufial, etc. A celebridade, porém, do 
.seu nome, prende com o poema inti- 
tulado Uhjssea, ou lÃsboa edificada 
(lO;]!)), tão encomiaslicamente admi- 
rado de uns críticos, e denegrido por 
outros. Tal houve que o anlepoz aos 
Lusíadas I N'este desatino cahiram Ri- 
beiro dos Santos, eJosé Agostinho de 
Macedo. O padre Francisco José Frei- 



re dá-lhe o lugar immediato ao prin- 
cipe dos poetas. Quem por demasia 
dedesaíTecto coUocou Pereira de Cas- 
tro muito desfavoravelmente foi Al- 
meida Garrett. Dizendo dos degene- 
rados portuguezes que escreviam em 
castelhano por aquelle tempo, distin- 
gue o auctor da Ulyssea: aD^esta com- 
mura baixeza se alevantou o honrado 
e douto magistrado Gabriel Pereira 
de Castro que depois de ter aberto na 
jurisprudência uin caminho novo e 
n'aquelle tempo tão difrii:il por gran- 
des verdades então perigosas, tomou 
ousado a trombeta de Homero, e não 
se arrojou a menos que a compt^lir 
ao mesmo tempo cora a lUiada eOdys- 
sea ; que tanto abraça o assumpto do 
seu poema. Grande é a concepção, 
bera distribuídas as parles, regularis- 
sirao o todo, regular e bella a acção, 
bera entendidos os episódios; mas o 
eslylo...oeslyloé.prololypodaP//r/H\c 
renascida, o requinte do gongorisino, 
cujo patriarcha foi entre nós, perver- 
tendo-nos, á sombra de sua grande 
fama e brilhante engenho, lodo o res- 
to escasso que de gosto Unhamos ain- 
da, intrincando a poesia (senão que 
lambera a prosa por mau exemplo) 
n'um dédalo inextricável de concei- 
tos, de argucias, de exagerações, de 
affectada sublimidade, falsa e vã 
grandeza ; com que de todo veio a ter- 
ra a poesia nacional, e acabou a gran- 
de escola de Camões e Ferreira, que 
tantos e tamanhos aluranos havia pro- 
duzido. E suppunha esse homera vai- 
doso (Gabriel Pereira de Castro) ler 
sobrepujado com as quixoladas da 
sua Ulifssea as naluraes bellezas dos 
divinos Lusiadas! {llisíuria <la lingaa 
e da poesia porlugueza). 

Sobejara n'esle juízo censuras (jue 
deviam ser justihcadas com as passa- 
gens arguidas. Houve grande exces.^o 
nos libellos dados contra os sectários 
de Gongora, aliás poeta estimável por 
méritos que os imitadores abastarda- 
ram. Não se lhes levou era conta aos 
seguidores do cordovez eiilhusiasla a 
novi(Kid(! dos [)ensameiilos, cuja des- 
envoltura não daraiiilirava a graça e 
donaire (|ue outros depois aproveita- 
ram mais aliladamenle, desafeian- 



180 



CAS 



CAS 



do-a íl.is posturas e rccamos da locu- 
rào (Jcsnaliiial. Ao [iroposilo de goií- 
goristas s3o de clíívada crilica pslas 
id(^as (If um doulo ptofcssorconlern- 
poraru'0, o bacli.ircl Álvaro Rodrigues 
de Azevedo: «Os gorigorisias, no de- 
lírio das suas lijiicilxilicas uiihrl-isi- 
d<uU'x^ linliain imlipindruria e nm iila- 
(ic (\(* plirase, 0(|uej;'i lulo é pouco. 
Abri a lào decauiada /'lunir vjt<tsri- 
da, e lá niesino ai"liatt'is exemplos 
d'esl»'srlol(*s Os seisceiUislas, sob pe- 
sada a(ui(>s|diera de du|ili(;e oppres- 
s3o, l);dl>U(iaiam o piiunpio de liber- 
dade lillcraria. — Desvali aram'/ K o 
percalí^o de (luasi lodos os neopliylos 
do novo cidLo;, mas nem por isso os 
condemneis. E cousa da infância o 
nSo saber e louípiejar. Abençoai-lbc 
os inslinclos bons, e dai tempo ao 
tempo. O fiongorismn ensaiava na dic- 
ção, por(]ne o nosso occidente mais 
lhe não permillia,o que o século xvii 
preparou na idén, e o xviii rcalisou 
1)0 fiulo. Olbai o <joi)(jorismo a esta 
laz, se quereis fazer-lhe justiça. Não 
ha século que não contribua com seu 
elo para a cadeia dos progressos 
humanos.» [Esboço chlico-litterario. 
Funchal, 186ti). 

Voltando á Uhjssca, abramos acaso 
o poema, e motivemos o nosso repa- 
ro na desamoravel injustiça de Gar- 
ret, trasladando dous fragmentos co- 
mo amostra da linguagem e geito poé- 
tico de Gabriel Pedreira de Castro: 

Quanto convém que sejam preferidos 
Para os cargos tia guerra os esforçados, 
Que ao valor os lugares são devidos 
Pai-a os que em obras querem ser honrados : 
Os que vem do alto tronco, se esquecidos 
Do herdado exemplo estão de seus passados, 
Que a virtude abraçaram preeminente, 
Poubam logar alheio injustamente. 

Que montam os leões, ;is águias puras. 
Com que a soberba espera eternisar-se ".' 
Que montam átrios, carros o pinturas, 
Se quer a ignavia n'ellas gloriar-se? 
Que as fumosas imagens, as figuras, 
De que a vangloria sabe namorar-se, 
Affrontam os que imbelles encostados 
No tronco antigo estão de seus passados. 

(Cant.vii, est. 72 e l^y 

No episodio dos amores do pastor 



a Galalbea (canto iii) é onde resal- 
lam mais os conceitos, antilbeses e 
ar.ibfscos dj escola gongorica. Nâo 
obstante, peregrinas nnagensnos es- 
tão alii sf'du/.iiid(» a não aceitar co- 
mo de lodo iindíi aíirrn a poesia na- 
cional, no dizer absoluto de Garrett. 

(Ulíite.n formoiia, em cuja neve 
Achou prini-ipio o foKo peregrino, 
Que me kouIm; ahrarjir, <; n culpa teve 
D'c'?'l<í meu amoroso di;s.'itino : 
Se m<í quer<-H uiatnr, e a amor «e devi- 
Malar-rnc, ilo teu ouro rrcKpo, e fino 
ilum laro me darás, l>ella homicida, 
Oiiilc suspendas co'a e«[)cran<;a a vida. 

A ti no prado imita a pura rossi, 
Quando quí^r e.xccder-se na bclleza. 
Por ti rntrat.T, como mais formosa. 
As que mais bellas faz a natureza; 
Ouve esta triste voz, que hc s6 ditosa 
Quando tua graça canta, e gentileza. 
Que por vangloria sua amor ordena, 
Quf teus louvores cante, c minha pena. 

Esta ribeira com te ví-r floreco. 

Aonde de Am.althea se derrama 

A copia, que tua luz, quando apparece. 

Anima as flores, e este prado inflamma: 

Nasce a flor, abre a rosa, a planta cresce. 

Só triste chora quem te busca, e ama. 

Perde o sentido quem te vè presente, 

E dás sentido a bum monte, que não sente. 

Se abres os bellos olhos, n'um momento 
Céo se alegra, e doura, e te namora, 
As pardas nuvens fogem, o bravo vento 
Se recolhe nas grutas, onde mora: 
Rouba o teu peregrino movimento 
O officio, e o poder á branca Aurora 
Flores abrindo, as conchas d"este rio 
Pérolas geram, sem colher rocio. 

Vivo, imiga, de vêr-te, e quando vejo 

De teus olhos a pura claridade, 

Não quero mais da sorte, nem desejo 

Mór premio da perdida liberdade : 

E amor (pois me não mata amor sobejo) 

Quer sem te vCr matar-me de saudade, 

Com nova tyraniiia amor me trata. 

Se me matar, sem vêr a quem me mata. 

Se tantos males soffro, ó Galatea, 

Também me soffre que t'os cante, e conte. 

Cançada d"este rio a mansa veia, 

Cançadas tenho as grutas d"este monte : 

Ah quem, para que a pena se lhe creia, 

Te mostrará no espelho d' esta fonte 

O ardente coração, firme, e seguro 

Mais que os roche los, mais que as ondas puro. 



CAT 



CAT 



181 



Dizei com verdes folhas arvoredos 

(Que são linguas do monte) o que me ouvistes, 

De que fiei a fé de meus segredos, 

E a cujos troncos dei lagrimas tristes : 

Dizei-o vós, ó côncavos p^-nedos. 

Quantas vezes as queixas repetistes 

De minha imiga, e o echo, que me ouvia, 

A ultima voz, imiga, repetia. 

A neve é escura, ó Galatea formosa, 
E sem crtr o rubi mais abrazado, 
A saphira sem luz, sem graça a rosa, 
E o ouro a par de ti monos dourado: 
Que em tua alvura, e bocca graciosa, 
Olhos, e face, e n'essc longo ondado 
Cabello guarda amor em mór thesouro 
Neve, rubi, saphira, rosa, e ouro. 

Quando por cima da divina prata, 
Galatea, o cabello de ouro estendes, 
N'um só fio, que o vento te desata, 
Mil almas at;is, mil vontades prendes: ■ 
A minha, que desprezas, como ingrata, 
Em te amar só se vinga, e se te oílendes, 
A culpa de olTender-te, e de enojar-te 
Paga offendendo com de novo amar-te. 

De teus raros extremos de belleza 
Os mesmos elementos se namoram, 
Perdem vendo-te os ventos a braveza. 
Como deosa do mar todos te adoram : 
Minha constância, e tua gentileza 
Dous prodígios iguaes, e raros foram, 
Que ambos nos fez dous monstros a ventura, 
A mim de amor, a ti de formosura. 

Hum dia junto ao mar te estavas vendo 
Nos crystaes da agua pura, e socegada, 
Alli amor me fazia estar temendo, 
Que ficasses de vèr-te namorada : 
Mas ah Nympha, que digo, que te offendo, 
Que não podes em flor vé r-te mudada, 
Porque quando este caso te aconteça. 
Não tem o prado fiór, que te mereça. 

CASTRES. (Veja L\nguedoc). 

CASULA. (Veja Ornamentos). 

CATINAT. Nasceu cm Paris. Foi 
advogado, om principio de vida; mas, 
como perdesse um pleito que repu- 
tava justo, deixou a Itanca, e alistou- 
se no exercito. Distinç;uiu-se no as- 
sedio de Lille em 1(»()7, ganhando o 
poslo de tenente; porém, com quan- 
to se estremasse em todas as bata- 
lhas, só om 1080 sahiu general; e 
depois da victoria de Marselha, al- 
canrou o hastilo de marechal. De 
volta, conversou largamente com o 



rei que a final lhe disse : «Temos con- 
versado bastante do que me interessa. 
Diga-me agora como vão os seus in- 
teresses? — Optimamente, senhor, 
mercês á libpralidade de vossa ma- 
gestade. — Eis aqui — disse o rei aos 
circumstantes — o único homem de 
meu reino, que me fallou d'esle fei- 
tio!» Calinal, mrdilalivo, sereno, e 
aíTeiçoado aos soldados, recebeu de 
um d'elles o cognome de Padre J/e- 
rfí/arão.— Mandára-o Louvois tributar 
o principado de Juliers e o paiz de 
Limbourg. Aquelle ministro, cuja ín- 
dole revia no imperativo das ordens, 
disse-lhe: «Faça violentas execuções 
em Limbourg; terras onde lhe não 
queiram pagar, queirae-as; o melhor 
modo de encurralar os habitantes de 
Limbourg e dos subúrbios de Maes- 
tricht 6 enviar-lhes na retaguarda in- 
cendiários ás suas aldeias. K — Cati- 
nat conciliou ao serviço do estado as 
leis sagradas da humanidade, execu- 
tando das ordens apenas o impres- 
cindível para alemorisar aquelles po- 
vos. Ordenou á tropa que, se os ha- 
bitantes pertinazmente resistissem, 
de modo que só podesse vcncel-os o 
incêndio, pozessera todo o cuidado em 
queimar uma só casa distante de ca- 
da aldeia, a fim de que o fogo não 
passasse ás povoações. Os aldeãos, 
vendo o exercito disciplinado, obede- 
ceram logo, de modo que bastou avi- 
sinhar-se Catinat para (lue os tribu- 
tos fossem pagos. O gazoieiro hollan- 
dez relatou-lhe o proceder por ma- 
neira tão louvável para elle quanto 
acrimoniosa para os generaos, seus 
contemporâneos. Teve o principado 
de Juliers a boa sorte de ser Catinat 
o commandante da força armada: o 
paiz seria devastado se outro fosse o 
general. — O marechal de Catinat de- 
plorava amargamente a rapidez com 
(lue um official era julgado á conta 
do seu primeiro erro; e dizia que ao 
general corria obrigação de lhe faci- 
litar meios de restaufar-se. —O au- 
thor da vida de Catinat censura acre- 
mente uns (|ue nol-o malsiMaram de 
incrédulo, e aponta mesmamente al- 
gumas calumnias (pie lhe assacam. 
Hevela-nos que Catinat quotidiana- 



182 



CEM 



CEM 



mente se deliciava na lição das sa- 
gradas Ksc.ri|ilui;is. — D'esl'arle se 
expiitno Lm ll;\r\tci uo elogio (|iie foi 
premiado na academia fraiiceza: «Ao 
enlard('(;(M- da vida, deixou de ir á 
côrl(!, limilaiido-se á corivivííiicia de 
Sainl-Gracicri, alguns amigos e pou- 
cos livros. Como as forças se lhe es- 
vaíssem, rogou ao famoso ilclvei-.io 
(jue. Ili(! dissesse aproximadam»'iiU! 
(jue tempo ainda viveria. O meilii^o 
aprazou Ires m(!/,t's, ordenando-llie 
algumas li/anas. — De (jue serve isloV 

— perguntou Catinal. — Para dulci- 
íicar os paioxismos — res|)ondeu o 
medico. O marechal tomou as tiza- 
nas. Todavia, se alguma suavidade 
podia aligcirarlhe a agonia era o re- 
cordar-se da vida que vivera. Tal ho- 
mem, acoimado de impio. morreu 
balbuciando estas vozes: «Meu Deus, 
espero em vós!» Per si mesmo pediu 
os soccorros religiosos. Legados pios 
e caridosos á igreja e bospitaes cons- 
tituem o priniipal do seu testamento. 
Nenhum criado se lhe olvidou. Catinat 
não augmentára nem desfalcara o seu 
património. 

Rcdncção Catinat, sua Índole. — Seu 
proceder no principado de Liinbourg. 

— As suas idéas a respeito dos offi- 
ciaes subalternos. —Religião e hora 
fínal de Catinat. 

CAUTERETS. (Veja Gasconha). 

CAVALLO. (Veja Pâchidermes). 

CAVENDISH. (Veja Chimico). 

CAZOAR (ou Ema da Ásia). (Veja 

Rir.EIRINIIAS). 

CÉCROPS. (Veja Primeiros sécu- 
los). 

CEDRO. (Veja Coníferas). 

CEDROS. (Veja Turquia d'Asia). 

CEGONHA. (Veja Ribeirinhas). 

CÉLÈBES. (Veja Malesia). 

CEM ANNOS (Guerra dos). O con- 



flicto (jue se deu entre a França e a 
Inglaterra foi uma das guerras mais 
longas de (lue a historia faz menção. 
— Leonor (1(! Aquilania, divorciada do 
rei d(! França L'iiz vii, retomou seu 
dol(; dous mtizes «Jepois. levando essa 
rica lieraiiça á casa (hí Anjoii, espo- 
sando Ilcnrinui! Plaiili';«'nt;l, duque 
de Normandia, cond'* de Anjou, de 
Mairm a Tourainc, fciio no anuo se- 
guini»! ici de Inglaterra, com o nome 
de lleiíriíiue ii, sendo este o ramo 
d'a(|uella temível casa dos Planta- 
genels, inimiga eiicariiirada da casa 
(l(! Fiança. O rei de Inglaterra estava 
senhor, em lliio, de (|uareiila e sete 
departamentos dos actuaes da Fran- 
ça, em (|uanlo (jue o rei d'este reino 
possuía apenas vinte. — D'aqiii a pri- 
meira origem das lulas frequentes 
entre os reis de França e Inglaterra, 
e a grande rivalidade entre as duas 
nações. 

i. Pbilippe Augusto, no tempo da 
cruzada, expulsou o espirito aventu- 
roso de Ricardo Coração de Leão para 
lhe tomar algumas das províncias que 
este possuía na Franca, e n'uma cur- 
ta e feliz guerra, recobrou a Norman- 
dia, Anjou, Touraine, Maine e Poitou 
(1-20-i). 

3. S. Luiz, que não sentia a con- 
sciência muito segura sobre as re- 
uniões das privincias tomadas por Pbi- 
lippe Augusto, pensou primeiro em 
regular suas contas com a Inglaterra. 
Aproveitando-seda menoridade do rei 
para elevar seu poderio, os grandes do 
reino revoltaram-se e Henrique iii foi 
propriamente em seu auxilio. S. Luiz 
marchou e venceu os estrangeiros 
em TaiUebourg e Saintes. Em 1-259 
foi concluído um tratado regulando os 
direitos respectivos das duas poten- 
cias. Henrique m renunciou todas as 
pretenções á Normandia, Maine, Tou- 
raine e Poitou, prestando vassallagem 
ao rei de França como duque d'Aqui- 
tania. De seu lado, S. Luiz deu-lhe a 
Saintonge e .\unis, províncias con- 
quistadas por seus predecessores. 

4. No reinado de Pbilippe, o Bello, 
recomeçaram as hostilidades. Uma 
questãoque bouveem Bayonna entre 
um marinheiro francez, deu causa á 



CEM 



CER 



183 



desalliança entre as duas nações. Phi- 
lippe citou Eduardo i seu vassallo dian- 
te da camará dos pares. Dada a recusa 
de comparência d'esle, Pliilippe man- 
dou confiscar a Guyenna, que cubi- 
cava havia muito, invadindo-a mi- 
litarmente. Outra força marchou con- 
tra Flandres, que se tinha alliado 
á Inglaterra. Depois de um revez, 
Philippe derrotou os flamengos na 
batalha de Mons en-Puelle (1304) e 
reuniu o condado de Flandres á co- 
roa. No mesmo anno foi assignada 
a paz com a Inglatera, e PhiUppe resti- 
tuiu a Guyenna a Eduardo i, seu rival. 

5. Luiz X, Phihppe, o Longo, e Car- 
los, oBcllo, reinaram successivamen- 
te na França e Navarra, depois da 
morte de seu pai Philippe, o Belb. Al- 
gumas hostilidades contra os inglezes 
na Guyenna deram causa á conquista 
de Agènais, no tempo de Carlos, o 
nello. 

O rei de França encontrara útil 
alliado em sua irmã Isab-^l, esposa de 
Eduardo ii, rei de Inglaterra, qne de- 
testava seu marido. Eduardo consen- 
tiu em prestar o juramento de home- 
nagem e fidelidade como vassallo da 
França. Os inglezes não lhe per- 
doaram esta fraqueza, e Isabel apro- 
veilou-se do descontentamento ge- 
ral para accender uma guerra civil, 
só terminada pela deposição c morte 
de Eduardo ii, em 1327'. Carlos, o 
Hello, assim como seus dons irmãos, 
morreu sem deixar herdeiro varão. 
Com elle se extinguiu o ramo dire- 
cto dos Capetos, que linha dado qua- 
torze reis á França, depois de Hugo 
Capeto. 

0. Pfh morte de Carlos, o llcllo, três 
pretendentes reclamaram a corOa. 
IMiilippe, conde de Valois, sobrinho 
de Philippe, o Hrlh), por seu pai, Car- 
los de Valois; Eduardo iii, rei de In- 
glaterra, neto de Pliilippe, o lícllo, por 
sua raãi, (sabei de França ;e em fira 
Philippe, conde de Evreux, esposo de 
.loanna, filha de Luiz x. A camará dos 
pares, e os grandes do reino decidi- 
ram (jue em virtude da lei salica, nem 
Isabel nem .loanna podiam tiansmit- 
lir o direito (juenao tinham. Philippe 
<le Valois foi acclamado rei com o no- 



me de Philippe vi. Eduardo iii pres- 
tou homenagem ao rei de França do 
ducado da Âquilania ; nã> tardou po- 
rém a renovar as pretenções que ti- 
nha á coroa. Estalou então entre a 
França e a Inglaterra uma guerra des- 
apied*ada que se chanou dos Cem 
annos, em consequência da sua longa 
duração. 

Começada em 13:]0 pela revolta de 
Flandres, só acabou em I Í5'2 pela to- 
mada de Bordeaux, e a expulsão dos 
inglezes do reino do Fr-ínça. (V<^ja pa- 
ra outras miuilezas Eduardo ih. Jo.\o, 
o Bom, Carlos v, Carlos vi, Carlos 

VII, JOANNA D\\RC). 

Redacção: Causa da guerra dos Cem 
annos. —Leonor d'Aqnitania. —Phi- 
lippe, o Bello, c seus filhos. — Pre- 
tendentes á coroa. 

CENOURA. (Veja Umuelliferas). 

CERE.\ES. (Veja Gramíneas). 

CÉREBRO. É o cérebro a sede de 
nossas faculdades intellecluaes. Logo 
que elle é ferido, comprimido, ou mal 
conformado, o ente solTre moite, pa- 
ralysia, idiotismo, ou qualquer outra 
aíTecção mental. R ^conheceu a scien- 
cia que o entendimento augmenla na 
proporção do volume do cérebro e 
seu perfeito desenvolvimento. São di- 
versamente importantes as partes que 
o formam. Parece que a vida reside 
principalmente em uma poição muito 
compacta, situada no occiput no pon- 
to da reunião do cerebello e meduUa 
espinal; nó rital lhe chama M. Flou- 
rens. D'esle órgão descem os nervos 
que se ramilicam por toda a econo- 
mia animal, como órgãos censórios. 
A criança exercita sua sensibilidade 
logo (|ué nasce; entre os doze e quin- 
ze mezes, já comprehende a Índole 
das pessoas (|ue a rodeiam. Estuda e 
trabalha antes de enicndiM- a falia, e 
o estudo da palavra é ifella tio rápi- 
do como a sensação da vista, do ou- 
vir, e do tacto. Nos seus dous pri- 
meiros annos, despende mais iiilelli- 
gencia do que em outra (jualquer 
época da vida. Pelo que, guardadas 
as [)ioporçòes, o volume cerebral de 

13 



48i 



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CER 



uma criança é maior qae o do adul- 
to, 011 dl) vcllio; o islo prova ser o 
cérebro o oii^ão mais aclivo das crian- 
ças. Ora, t('ii(Jo u natureza regulado 
com laiila ordem Iodas as cousas a 
fim d(! (pie as primeiras impressões 
nos sejam de largo provtMlo no futu- 
ro, deprehende-se (pie a educariío do- 
mestica (l(!S(le a piimcira infância, ó 
extremamente valida. (Veja MÃI, (1k- 

NIO, ADMLTO, SySTKMA NKUVOSOj. 

2. «Vi. (li/. Santo A^Mstinho, uma 
crian(;a ciumenta ; n^o sai)ia ainda fal- 
lar, e já com rosto lívido e olhos co- 
léricos encarava outra (;riau(;a (pie sí; 
amamentava com ella. Podemos pois 
asseverar (pie as criauí^as tem mais 
conliecimento do (|ue se ílies imagina : 
podeis [)or tanto inclinal-as. median- 
te expressões auxiliadas pelo gesto, a 
pessoas honestas e virtuosas, des- 
viando-as d'outras, cuja freipiencia é 
nociva... Eu não avuito estas cousas 
insignificantes; mas em fim disposi- 
ções remotas sãn primórdios que se 
não devem descurar, e este modo de 
precatar o menino dá resultados in- 
sensíveis que facilitam a educa(}ão... 
A substancia do cérebro da criança é 
molle, e por isso facilmente se lhe 
imprime tudo, m()rmenle se a novi- 
da(Je e o sobresallo a torna curiosa, 
e lhe dá fácil e continuado movimen- 
to. D'islo procede a agitação dos me- 
ninos, que não podem prender o es- 
pirito a cousa alguma, nem permane- 
cerem em algum lugar. Por outro la- 
do, como as crianças não sabem pen- 
sar nem operar per si mesmas, ob- 
servam tudo, faliam pouco, se as não 
acostumam a fallar muito, e não é mau 
que assim seja...» (Fénelon, Educa- 
ção das meninas, cap. iii). 

CEREFÓLIO. (Veja Umbelliferas). 

CERIUM. (Veja Metaes). 

CERTEZA. Quando a consciência 
nos adverte que sentimos dòr ou pra- 
zer, quando a vista ou o tacto nos 
transmiltem a noção de um objecto, 
quando a memoria nos desperta lem- 
branças de um successo, não impu- 
gnamos a veracidade da consciência, 



dos sentidos, e da memoria ; mas, 
conftjrme o testemunho d'elles c d'el- 
las, (jue lai successo se deu, (jue tal 
objecto existe, que nossa alma está 
impressionada alegre ou molesl.imen- 
le. Ksle confiar do houKMn em suas 
faculdades — adli(!silo viva e [irofiin- 
da á verdadí! (pie lhe ellas revelam — 
chama-se cnlrza. O impulso deter- 
minativo da certeza é, em nossa in- 
timidade, a <)()eraçâo das faculdades 
do entíMidimento, e, no exterior, é a 
evidencia ou poder (pie a verdade tem 
de locar o es[)irito — espécie de luz 
(jue nos penetra para n(j|-a fazer vi- 
sível. Logo (jue uma verdade nos pa- 
rece evidente, cerliíicamo-nos d"isso, 
ou, tanto monta, (í verdade para nós. 
E pois a certeza um modo da alma 
correlativo a uma propriedade das 
cousas, que é a evidencia. Entre evi- 
dencia e certeza ha a relação do ef- 
feilo e causa; esta implica a outra, e 
invariavelmente se Iravam. Pensaram 
alguns philoso[)hos que a certeza po- 
dia equiparar-seá probabilidade, pois 
que ella era a probabilidade levada ao 
mais alto grau; todavia a analyse dos 
factos demonstra ser errónea tal opi- 
nião. O característico da ceiteza é: 
l.osuppôra affirmação absoluta que 
uma cousa é ou não é; '1." não ad- 
mittir graus; o." ser invariável e uni- 
forme. Pelo que quando dizemos que 
dous e dous são (juatro, não temos 
d'isso meia certeza primeiro, e de- 
pois certeza completa; estamos sem- 
pre no mesmo grau de inteira certe- 
za. Ora, a probabilidade não é acom- 
panhada de tão completa, uniforme e 
invariável segurança. Acontecendo 
que os motivos pelos quaes espera- 
mos que succeda ura acontecimento 
que é provável succeder, e dando-se 
em opposição outros motivos, é claro 
que o espirito não pôde formar segu- 
ro juizo sobre tal sucessso. Embora 
o numero das supposições favoráveis 
seja infinito, basta um só revez con- 
tra mil probabilidades, para nos in- 
quietar e embargar que (Jigamos: te- 
nho a certeza. Quando por exemplo 
uma urna contivesse mil favas bran- 
cas e uma só preta, a probabilidade 
de tirar uma fava branca não equiva- 



CER 



CER 



185 



leria á certeza em que estaríamos se 
todas as favas fossem brancas. (Jour- 
dairi). 

2. Cinco espécies de certeza se dis- 
tinguem conforme os objf^clos e mo- 
do da acção de nossas faculdades : 
i.° a certeza sensível, ou dos objectos 
conhecidos mediante os sentidos, co- 
mo os corpos e suas propriedades; 
2.0 a certeza metaphysica que com- 
prehende as verdades que a razão co- 
nhece, taes como os axiomas e theo- 
remas malhematicos; 3 " a certeza 
moral, a dos fados da consciência, 
das verdades moraes e acontecimen- 
tos quo o testemunho certitica; 4.° a 
certeza immediata, á qual chegamos 
sem investigal-a, por acção instantâ- 
nea da evidencia ; por exemplo, a cer- 
teza de que não ha eITeito sem causa, 
e dous e dous são quatro, ele. ; 5.° a 
certeza mediata que resulta do racio- 
cínio A certeza é, em todos os casos, 
igual a si mesma; porquanto, em to- 
dos é devida ã operação do mesmo 
espirito, procede da níesma faculda- 
de que a cognoscitiva applicada a di- 
versos objectos coUocados em diver- 
sas condições. Urge todavia observar 
dous pontos: l.» que as verdades co- 
nhecidas pelo processo demonstra- 
tivo derivam das verdades primitivas, 
evidentes de si mesmas, peio que a 
certeza mediata depende da certeza 
immediata e a presuppõe ; ^.^que en- 
tre as verdades iramedialamente co- 
nhecidas, a existência pessoal, como 
bem ponderou Descartes, é a primei- 
ra que a consciência nos revela, e 
antes de todas, nos impressiona; lo- 
go o conhecimento próprio, o senti- 
mento intimo da personalidade, é 
principio e condição de toda a certe- 
za. (Veja GoNiiEGiMiíNTO e Piiiloso- 
PiHA). Dictem-se as duas lições por 
duas vezes, e ampliem-se, fazendo 
procurar exemplos de certeza em ca- 
da caso. 

CERVANTES (1547-1610), celebre 
escriplor hospanhol de família nobre 
mas pohio, foi gloriosamente ferido na 
batalha de Lepanto, d'onde lhe ficou 
aleijão incurável. Voltando á Hespa- 
nha, ([uatro annos depois, foi tomado 



pelos corsários, e ficou seis annos es- 
cravo em Alger. Entrou na pátria res- 
gatado pelos PP. da Trindade, e ahi 
viveu miseravelmente, desconhecido 
de seus compatriotas, não tendo mais 
recursos que a sua penna. Cervantes 
é hoje conhecido em todo o mundo 
pelo seu romance Don QuiclioUe de 
la Mancha, onde elle satyrisa, da ma- 
neira mais picante, o gosto das aven- 
turas cavalleirosas e romanescas que 
n'essa época dominava. Antes que o 
Don Quicholle lhe tivesse conquistado 
uma gloria immortal, linha trabalha- 
do com muito zelo para o thealro e 
vinte ou trinta peças suas foram mui- 
to applaudidas, embora o aulhor as 
tivesse em pouquíssima conta. Como 
o seu intento era tão somente agra- 
dar na scena, logo que o conseguisse 
não pensava mais nas obras. A Des- 
Iruirão de JSmnancia ^iúu%\\i a cravei- 
ra do colhurno trágico, e deve ser con- 
tada enlre os mais notáveis plienome- 
nos da historia dramática, sobre tu- 
do, porque o aulhor sem querer nem 
pensar n'isso se avisinhou da simpli- 
cidade antiga. Logo que appareceu 
Lope de Vega, Cervantes foi deslum- 
brado; e em desforra fez imprimir 
em 1615, pouco tempo antes de mor- 
rer, oito comedias, que não tinham 
podido lograr no palco o exilo que 
elle desejava. 

2. Immortalisou-se peio Don (Jui- 
cliolle. — <íEm nenhuma obra de língua 
conhecida, diz judiciosamente o his- 
toriador das litteraluras do Meio dia, 
ainda a salyra foi mais hna, mais 
desenvolta ao mesmo tempo, nem 
phantasia mais feliz deu de si mais 
espirituosos giacejos... Conhecem to- 
dos acjuelle lidalgo da Mancha, que 
treslendo á força de l^r lívios de ca- 
vallaria, se imagina em tempo de pa- 
ladinos e encantadores, e delibera 
imitar os Amadis e Orlandos cujas 
historias tanto o embelecaram ; e por 
tanto cavalgando o magro e velho Ho- 
cinanle, e armado ao anligo, perlus- 
tra selvas e planícies á cata ile aven- 
turas. Todos os objectos vulgares a 
poética imaginação lhe iransligura; a 
cada passo lhe sahein gigantes, en- 
cantadores e paladinos; o bem que 



186 



CKH 



CER 



taes encontros o doixem raal ferido, i 
não ha (jiiem o desilliida. Mas, Qui- 
clioUe, e o Ifiil Uociíi.uile, e o soi-,ar- 
rão Saiicfio-l*;iiir.;i vivctn desde inuilo 
na minha iln;^^,Mll;j(;a() <; na de lodos. 
Ai|ni'll(! Ião roi:r('alivo hvro. nr(hdo 
do avciilnias tão chislosas e orifjinar-s, 
suiít^orfi-nos ;,'iavf»s rcllnxòes. Deve 
lAi'-so o pfoprio l)i)ii Qniilti>lti\ se iintv 
rornos vím" Imlo ipKí |)óde ahi haver 
irri.soiio no lieroisino do (;av;»ll(!Íro, 
no modo do escudeiro, quando ellt!s 
osculam, no seio (h* cerrada noile, o 
compassado Iraijejar do moinlio de 
vento. Não é com exlraclos (]ue se 
pôde dar muilo pela rama o riso das 
avcnlnras na estalagem que I). Qui- 
cholle imaginava sempre caslello en- 
cantado onde Sancho foi manleado: 
sómcnle na leitura seguida do li- 
vro podemos saborear a opposicão 
tão galhofeira entre a grave e fi- 
dalga linguagem do cavalleiro e a 
ignorância e rudeza de Sancho. Nin- 
guém mais que Miguel Cervantes 
sustentou por igual o interesse e 
a zombaria, a facécia da imagina- 
ção e a do tecido das peripécias 
que se desenvolvem no desenho dos 
personagens. A invenção fundamen- 
tal de D. Quicholle é oeterno antago- 
nismo do espirito poético com o es- 
pirito prosaico. Desfere-se o talento 
de Cervantes principalmente no cómi- 
co, e tal que nunca oITende costumes, 
leis 6 religião. O caracter de Sancho- 
Pança é admirável contraposição do 
do amo. Em quanto um é todo poesia, 
o outro é todo prosa. Todas as qua- 
lidades do homem vulgar realçam 
em Sancho : sensualidade, glotoneria, 
preguiça, cobardia, bacharelice, egoís- 
mo, manha, lá se travam com certo 
grau á bondade, fidelidade, e até 
sensibilidade. Entendeu sisudamente 
Cervantes que não devia desenhar á 
primeira luz, sobre tudo em um ro- 
mance cómico, um caracter odioso : 
quiz (jue lhe estimassem Sancho e D. 
Quicholte, rindo de ambos, e por isso 
os contrapòz em tudo, não os aqui- 
nhoando em moralidade e vicio. Ao 
passo que D. Quichotte ensandece se- 
guindo a philosophia da alma, nasci- 
da de sentimentos exaltados, Sancho 



não é menos sandeu, tomando como 
norma a philosophia pratica da utili- 
dade calculada, cujos pr(jverbios cita. 
Prosa e poesia são ambas postas a ri- 
so. Se o eniliusiasmo é zombeteado 
(MU Quicholte, não o ó menos o egois- 
mo em Sancho Pnnça... (Sismomii, Da 
l.illrrdlnrd ilo M io ilinda hJitiopn). 

Dicle se e f.iça-se resumir oralmen- 
te a |)rimeira lição. Exponha -s(! ou 
leia-se a segunda, e faça-se redigir. 

CERVEJA. (Veja Ferme.nt\ç.\o). 

CÉSAR, escriplor celebre, e grande 
guerreiro, sobrinho e partidário de 
.Mário, apresenta-se sempre a nosso 
espirito como o primeiro heroe dos 
romanos. Um dia chorava lendo a vida 
de Alexandre; seus amigos pergunta- 
rara-lhe a causa das suas lagrimas: 
«Não é para mim justo motivo de 
dòr — respondeu — que Alexandre na 
idade em que estou tivesse já con- 
quistado tantos reinos, cm quanto eu 
ainda não pratiquei acção memorá- 
vel?» Na sua volta de Ilêspanha onde 
foi enviado como pretor, reconciliou 
Crassus e Pompeo, os dous homens 
mais poderosos da cidade, e por sua 
influencia nos comidos seguintes foi 
nomeado cônsul. Tinha apenas toma- 
do posse d'este lugar quando publicou 
leis, não dignas de um cônsul, mas 
do tribuno mais audacioso. aCuidado 
com esse elegante de toga fluctuante» 
dissera aos nobres o velho Sylla. 

2. César distinguira-se muito cedo 
por sua eloquência e aíT;ibilidade; a 
polidez, o acolhimento gracioso que 
dava 3 todo o mundo mereceram-lhe a 
aíTeição popular devendo ao povo, e 
durante cinco annos, o commando nas 
Gallias. N'esta nova carreira César 
se nos revela tão grande guerreiro, 
tão hábil cabo que nenhum dos ge- 
neraes admirados depois adquiriram 
maior gloria com suas proezas. Em 
menos de dez annos, que durou a 
guerra nas Gallias, levou de escalada 
mais de oitocentas cidades, submetteu 
trezentas nações differentes, comba- 
teu em muitas batalhas campaes con- 
tra Ires milhões de inimigos, ficando 
sempre vencedor. Sabia inspirar aos 



CES 



CES 



187 



soldados aíTeição e ardor tão vivos, 
que aquelles que debaixo das ordens 
d'outros chefes, eram soldados vulga- 
res, tornavam-se invencíveis debaixo 
do seu commando, e ninguém resistia 
á sua impetuosidade. Este ardor e 
emulação da gloria eram incutidos 
pelas recompensas e honras que Cé- 
sar lhes prodigalisava. Além de que 
César se expunha voluntariamente a 
todos os perigos, não se esquivando 
a algum serviço da guerra. Todavia 
era delicado d*e corpo, sujeito a fre- 
quentes dores de cabeça, e a ataques 
de epilepsia; mas longe de fazer da 
fraqueza de seu temperamento pre- 
texto para viver na ociosidade, pro- 
curava no exercício da guerra remé- 
dio para as doenças, combatendo-as 
com marchas forçadas, um regimen 
frugal, e habito dedormir ao ar livre, 
endurecendo assim seu corpo em toda 
a espécie de fadigas. 

3. Dizem que foi elle o primeiro 
que introduziu em Roma o uso da 
correspondência por cartas, ([ue elle 
dictava de cima do cavallo a muitos 
secretários ao mesmo tempo. Á força 
de combates e victorias, avassallou a 
Gallia, prisionando Vercingetorix, o 
ultimo e mais formidável adversário 
que elle combateu n'aquelle paiz. 

4. Pompeo, cioso de seus tiium- 
phos, impugnou que elle fosse de 
novo eleito em seu commando, e fez 
decretar que se demittisse. Irritado 
com semelhante ordem que consi- 
derou injusta, César transpoz os Al- 
pes c o Kubicon, que delimitava o 
território do seu governo, marchou 
para Roma d'onde Pompeo fugiu com 
o senado, entrou na cidade sem estorvo 
e fez-se dictador. Chamou então os 
expatriados, restabeleceu em lodosos 
seus direitos os filhos dos que Sylla 
havia proscripto, desonerou os deve- 
dores de parte dos jui os de suas divi- 
das, e partiu no encalço de Pom|)eo. 
Com tanta actividade o fez, que dei- 
xou depôs si grande parte de seu 
exercito; e bem que só tivesse seis- 
centos cavallos o cinco legiões, em- 
barcou, atravessou o mar .loiíio, e 
apossou-se das cidades de Oricum e 
Apollonia. E como n'esta ultima cida- 



de se visse com mui fraco exercito 
para manobrar contra Pompeo, e 
as tropas retardadas se demorassem, 
deliberou embarcar sósinho em um 
batel de doze remos, para accelerar 
a marcha. 

5. Ao cahir da noite, disfarçou-se 
em escravo, embarcou no batel, e 
acanloou-se para alli entre os mais 
somenos passageiros, e nada disse. O 
barco descia na corrente do Anuis, 
que ia dar ao mar. A agua do rio, 
rechaçada violentamente pela maré e 
vento rijo, não deixava que o piloto 
governasse a barca e dominasse as 
vagas; pelo que ordenou o piloto á 
maruja que arripiasse a carreira. Cé- 
sar, ouvindo tal ordem, deu-se a co- 
nhecer, e apertaiulo a mão do piloto, 
pasmado de o vêr alli, lhe disse : M;Meu 
amigo, procede na tua rota com cora- 
gem, por que levas César e sua fortu- 
na.» Os nautas, alTronlando a tem- 
pestade, forçam os remos, e envidam 
toda a força do seu pulso em sopesar 
a violência das ondas; porém balda- 
ram-se-lhes os esforços. Foi César 
forçado a voltar ao seu arraial. 

(í. Entretanto, como o exercito de 
Brindes chegasse então, César, com 
grande confiança oíTereceu batalha a 
Pompeo, que tirava abundantemente 
de terra e mar todas as suas vitualhas, 
ao passo que César para logo se achou 
reduzido á indigência das mais uigen- 
tes cousas. Os soldados alimentavam- 
se com raizes que adoçavam em leite ; 
algumas vezes fabricaram pão com 
ellas, e acercando-se das avançadas 
do inimigo, atiravam-lhe aquelle pão 
ás fronteiras, dtzendo-lhe, que em 
quanto a terra laes raizes desse não 
deixariam de cercar l*ompeo. Não 
obstante, César foi vencido no pri- 
meiro recontro, onde esteve a pi(iue 
de morrer; e, recobrando-se,dis>eaos 
amigos: «A victoria seria hoje dos 
inimigos, se o seu cliefe soubesse ven- 
cer.» 

Abalando do arraial, apoderou-se 
de (íemjtlies na Thessalia e restabele- 
ceu a abundância do seu exercito. 
Deixou-st" Pomi»t'o diMerminai' a per- 
seguil-o mau grado st>u ; e travando 
peleja nos campos de Pharsalia. em 



188 



CIIA 



CHA 



Macfidonia, l'oi dciiolado (! foi rado a 
fiiííir paia o Ist/ypU» oiidfí pcvcjwn. Co- 
sai clioioií-llii' a iiioite, desí^iilliroiiou 
ojovcM Plidoincii, <i sLMilou (^leo[)atra 
110 lliiDiii) dft K^y[ilo. 

7. Volvfiido a Uoiiia, vencidos os 
demais iiiimit^os, íiiiiiiiplioii e f<;z-se 
decretar a dictadiira perpetua (Ifi). 
Senhor em ílm do poder alisoliito, (le- 
sar conveileu-o em IxMiclicio dos seus 
maiores inimii^o.s a ipiem pfrdooti. 
Kefoiínou as leis, afurmoscoii Homa, 
fez ad()|)lar um calendário novo, e 
cr(M)ii miiilos eslal»i'lci'iineiilos úteis. 
Sem (Miiharjío, os republicanos, (|iie o 
acciísavam deípieicr f,izer-se rei, con- 
juraram contra cllc. dirigidos por Orií- 
lo e (lassio, e o mataram em pleno se- 
nado (11). — César escreveu Mniio- 
rias de suas batalhas que são notabi- 
lissimas. 

lUilacrão: Estreia de César. —Con- 
quista da Gallia. — Seus trabalhos e 
iadole. — César trans|iõe o Uubicon. 

— César e o barqueiro. — Sobrieda- 
de e coragem de seus soldados. — 

— Batalha de IMiarsalia. —César vi- 
ctorioso. 

CEVADA. (Veja Gramineas). 

CHACAL. (Veja Carnívoros). 

CHALONS. (Veja Guampagne). 

CHAMPAGNE. Philipe, o BeUo, 
aggregou esta provincia á França em 
líáSi. Entre o Aube e Marne discorre 
a Champagiie Ponilleuse (piolhosa), 
assim denominada pela esterilidade da 
terra e miséria de seus moradores. 
Tirante este tracto de terra onde é rara 
a verdura, equasi tudo pinheiraes, o 
restante do paiz é ubérrimo em pra- 
darias e vinhedos que produzem os 
notáveis vinhos espumosos. 

CHAPELARIA. (Veja Tecidos). 

CHAPTAL. (Veja Invenções). 

CHARLATÃES. «É para lamentar 
que, não somente o povo, mas até ho- 
mens de alguma instrucção queiram 
sacrificar-se á ignorância' e cubica de 



charlatães, consentindo que estes o 
Iratcin nas mais graves doenças! 

«A palavra «hailalão é imitada do 
vocábulo italiano cmrlaUinn derivado 
de í<fu/u/v'. fallar muito. ou p;ilrai'. Na 
língua grega correspontJia a palavra 
charlatão a Hfjurlrs, asseinbb-a. ajun- 
tamento. Em iatim a [jalavra nnnla- 
líir tinha idêntica eiymologia, [lois 
(pie de rirrnlus, circulo, roda ou ajun- 
tamento, se (izera este substantivo 
(|iie designa o charlatão, isto é, o ho- 
me.Mi (jue fallava ás turbas reunidas 
em reilor (felle. Em allemão também 
a palavra inurklsrhrriirs tem uma si- 
gniíicação <piasi análoga : niarlcl, pra- 
ça [iiiblica; srJirrjiefi, pregoeiro, gri- 
tador, vo/,eiro. - N>stes dilTerentes 
idiomas é a palavra por si só uma de- 
íiiiição do ol)jecto que representa. A 
alguém parecerão municiosas e talvez 
extemporâneas estas indagações phi- 
lologicas; mas é tal a voga e impor- 
tância que os charlatães teem aiJ-qui- 
rido nos nossos dias, que julgai iamos 
faltar ao nosso primeiro dever, se 
tratássemos de leve o assumpto. E 
por onde havíamos de começar me- 
lhor (até segundo as regras do char- 
latanismo liiter.irio) senão pela ety- 
mologia, ensinando a origem da pa- 
lavra charlatão, e as diversas manei- 
ras cora que assim os antigos como 
os modernos a exprimiam ? Os charla- 
tães, como mostra a elymologia que 
apresentamos, não passavam antiga- 
mente de homens, que andavam pe- 
las praças publicas de vários paizes, 
congregando as turbas á roda de si, 
divertindo-as com enxurradas de pa- 
lavras, e, em summa, procurando co- 
mer á custa dos crédulos. De todos 
os meios próprios para caplivar a at- 
tenção do vulgo, seduzir-lhe a imagi- 
nação, estiiiuilar-lhe a curiosidade, 
nenhum havia mais azado que o de 
explorar essa mina fecunda e in- 
exhaurivel de males e de dores que 
atormentam a raça humana. Calculou 
e calculou bem o charlatanismo que 
acharia pasto abundante no vasto 
campo d'enfermidades, que cercam o 
homem, e com mais ou menos bre- 
vidade o levam á sepultura; e eis- 
aqui o porque em todos os tempos, e 



CHA 



CHA 



189 



entre lodos os povos tem apparecido 
homens a vender, com mais ou me- 
nos azáfama, remédios de suppostas 
virtudes infalliveis, ao povo em torno 
d'elles apinhado, e que seduzido pe- 
lo engodo d'ufiiia cura promettida, 
comprava se não a cura, pelo menos 
a esperança de a obter. 

«ílahojé Ires classes mui distinctas 
de charlatães. A primeira é a dos 
charlatães vagabundos ou ambulan- 
tes, a mais miserável de todas as três, 
e que diminue de dia para dia. Na ca- 
pital e cidades mais populosas já cus- 
ta a encontrar alguns membros d'es- 
ta classe intima, que somente ainda 
vão tirando fructo de seus embustes, 
lá por essas terras onde raro é o ho- 
mem que sabe lôr. Alli, sim, pôde o 
som da trombeta, e o brilho das ma- 
ravilhas e ouropéis que enfeitam os 
vestidos do charlatão, alvoroçar o po- 
vo, e despertar-lhe a credulidade: 
porém nas cidades grandes onde o 
\(\r os jornaes é uma precisão diária, 
onde em cada esquina e a cada minu- 
to apparecem cartazes de gordas le- 
iras, de variadas cores, o povo que 
lê, e presume saber discorrer sobre o 
que 16, já não presta fé á trombeta 
do charlatão errante, mas crê no jor- 
nal, crê no annuncio, crê no cartaz 
gigante, em fim ainda não escarmen- 
tado de engulir patranhas, crê pia- 
mente em todos os ardis dos charla- 
tães da segunda classe, nos charla- 
tães estabelecidos, graduados, que ás 
vezes habitam palácios ou pelo me- 
nos ricos aposentos, que chegara a 
alcançar condecorações, e que já não 
vão pregar nas praças publicas, e nas 
encruzilhadas, e semeiam com mão 
larga cartazes impressos em caracte- 
res do comprimento d'um covado, que 
fazem com (pie os passantes parem 
boi^ui-abertos. Os jornaes, (|ue nMsto 
levam gaiilio, incumbem-se, median- 
te uns tantos reis por linha, de lhes 
gabar as curas maravilhosas, a excel- 
lencia dos remedio.s, a superioridade 
dosiuelhodos. Alguns d'estes manho- 
sos especuladores dão conselhos de 
graça, porém levam muito caro pelos 
seus lemedios indisjunsarvis: porque 
o que o povo paga mais contra sua 



vontade, não é o remédio que tem a 
seus olhos um valor intrínseco ma- 
terial, mas o parecer que julga que 
nada custa a dar. 

(íA esta classe de charlatães perten- 
cem um grande numero de vendedo- 
res de remédios secretos, isto é, cu- 
jas formulas se não acham publica- 
das. A taes indivíduos alludia o nos- 
so Nicolau Tolentino, quando disse 
n'uma das suas judiciosissimas e jo- 
cosíssimas satyras: 

Chegou MoiLsieur de tal, 
Chimico em Paris formado ; 
Traz segredo especial; 
l'm elixir approvado, 
Ura remédio miiversal : 
Não pretende ajuntar fundo 
Cos grandes segredos seus; 
E cheio de dó profundo, 
Tira pelo amor de Deus 
Os dentes a todo o mundo. 

Analyses rigorosas feitas em vários 
tempos e lugares teem provado serem 
esses decantados remédios, uns um 
composto de cousas disparatadas, ou- 
tros incertos e alguns finalmente pe- 
rigosos. Quantos e quantos remédios, 
sem virtude alguma, se venderão por 
ahi, apadrinhados com um titulo re- 
tumbante! 

c(l'ouco diremos acerca da terceira 
classe de charlatães, ou dos charla- 
tães scientificos. Esses não vendem 
remédios, nem põem seus nomes na 
quarta pagina de um jornal, isto é, 
entre os annuncios, poiéin mandam- 
no estampar no artigo — nulicias di- 
versos. — Perseguem asacademias com 
as suas memorias, vangloriam-se em 
alto e bom som d'aquillo a que cha- 
mam as suas doutas pesquizas, e in- 
dicam exactamente a sua morada, nos 
annuncios de suas obias; se vão de 
jornada, logo a imprensa annuncia 
(juando parlem. Sempre teem um 
amigo oflicíoso que se inLiiuibe de 
annunciar ao mundo (pie o sábio, o 
illustre doutor fuão, é esperado com 
impaciência na cidatle de tal, e que 
ha tle passar por estas e aquellas po- 
voações. Os charlatães scientilicos oc- 
ciqtam no mundo uma piisíção mixla, 
(jue não é completamente brilhante, 



490 



CIIA 



CU A 



nora inl''iram(Mit<' ohsciira. Em fiiiati- 
to vivos sfio niuilo fallatlos, depois de 
mortos iiào dcixatn rasto de si. Po- 
dem (;om|t;irai-se com essos foguetes 
(|iie amnsliaiido-iios de relance um 
sulco liifiiiuoso deixam a|M')S breves 
instaiílcs um pouco dí; fumo (pie a 
menor virarão dissipa. 

«Api»arecem todavia de lori;;e em 
lonpe alguns cliarlalâes de hoa fé, ipie 
prelendem acliar na iudohí do ho- 
mem, considerado em alislraclo, a 
fonte propagadora do cliarlalauismo, 
e ([ue, esi',uilados com esta desculpa 
ou pretextos, pedem aos homens sen- 
satos e illusliados lhes perdAem es- 
sas cu!|)as, (|ue elles suppõom íillias 
de uma ('S|)ecie de fado social. 

aVem a(pii a pello uma anecdola 
muito saltida, (juelia de explicar com 
mais clareza esta idéa. F... medico 
de consciência e estudos, exasperava- 
se, e pasmava de v(^r das janellas do 
seu solitaiio gabinete a immensa con- 
corrência de fieguezesa pé, e dos de 
sege, que entulhavam as portas d'um 
famoso charlatão, o qual assistia de- 
fronte da sua casa, n'uma das ruas 
de maioi' passagem em Londres. Um 
dia que já nãi estava na sua mão dis- 
simular o que sentia, animou-se a ir 
a casa do seu feliz visinbo e a per- 
gnnlar-lhe sem mais preâmbulos o 
segredo da sua fortuna. Ouviu o char- 
latão com muilissima .serenidade de 
espirito a peigunla do homem bene- 
mérito, e levando-o para uma janel- 
la,p(Tguntoi!-lhc: «Ora faça favor de 
me dizer que numero de pessoas lhe 
parece que passam pela nossa rua no 
espaço de uma ou duas horas? — Eu 
seil—respondeu-lhe o sábio algum tan- 
to admirado — talvez duzentas. — E 
n'esse numero — continuou o charla- 
tão— qnantaspessoasjulga que haverá 
com juizo e olhos abertos? — I*ara lhe 
dizer a verdade, parece-me que não me 
poderá chamar mesquinho, se lhe eu 
disser que haverá uma ou duas pes- 
soas quando muito? — Pois ahi tem o 
problema resolvido— proseguiu o sin- 
cero charlatão — esse homem dejuizo 
irá procural-o, e o resto ha de vir ter 
commigo. 

E para que vem aqui este artigo ? — 



perguntará algiiern. — Para, se é possí- 
vel, com o (pie liça dito, e o (]ue se 
vai dizer, curar o povo d"u(na mania, 
que a muita gente tem sido fune«la. 

Ha um racioiinio mui simples com 
que se pôde convencer e desenganar 
o povo muito meUior, segundo nos 
parece, do (pie o poderiam fazer todas 
as diatrialies impressas contra char- 
latães, rm'»! nienle ípando essa.s dia- 
tribes sãoescriptas pjr médicos. Con- 
viria dizerlhecora brandura, que ho- 
je remédio algum pode ser um sríjre- 
(h), i)onpie a analyse chimica está tao 
aperfeiçoada (|ue ensina a conhecer 
todas as drogas (pie entram em (jiial- 
quer compctsição, de sorte que(|ijaii- 
do se provasse tpie um reimídio mys- 
lerioso era um verdadeiro esj)eciíico, 
a sua composição, ao menos para os 
médicos, dentro de oito dias deixaria 
de ser segredo. 

Conviria também dizei-llie (|ue o 
charlatão não tem nem pôde ter co- 
nhecimento algum das moléstias, e 
que ainda (piaiido o seu remédio ti- 
vesse as virtudes que lhe allribue, 
não o podia saber applicar, ele, ele. 
Admira na verdade haver gente tão 
tresloucada que crê que uma velha ou 
um homem ignorante, que não teem 
a miiiima noção de uma sciencia em 
extremo diftioullosa, podem fazer mi- 
lagres que não édado fazer a homens 
que consagraram a maior parte da vi- 
da ao estudo da medicina, a homens 
que juntam á sua própria experiên- 
cia a experiência de todos os médicos 
que o precederam ha perlo de Ires mil 
annos!>) (Panorama). 

CHARTREUSE. (Cartuxa). (íEslá o 
ermo da Cartuxa posto nas ásperas 
montanhas da Saboja, a que os anti- 
gos chamaram Alpes, no meio de 
umas serras de grande altura, tão Ín- 
gremes e de tanta penedia, que não 
achou até agora a indusiria humana 
modo nem lugar por onde a ellas se 
subir, porque todas ao redor são uma 
rocha talhada, que por muitas partes 
vai acabando em uns penhascos agu- 
dos, os quaes com sua natural aspe- 
reza não só raettem espanto a quem 
de baixo os está olhando, mas ainda 



CHA 



CHA 



191 



causa admiração vêr o artificio com 
que a natureza foi misturando o ro- 
chedo d'aqueilas serras cora a ver- 
dura do arvoredo que por muitas par- 
tes arrebenta. O sitio por dentro é 
mui capaz, porém mui áspero e in- 
tratável, assimpor estar a maior parte 
d'elle sempre coberto de neve, como 
pelos ventos que ordinariamente cor- 
rem, Ião frios e agudos que até os 
animaes bravos do monte os não po- 
dem supportar, pelo que em todas 
aquellas brenhas ha mui pouca caça, 
e ainda das aves não ha as menores, 
como rouxinoes, melros, nem outras 
que com sua melodia costumam ale- 
grar e fazer doce a habitação do cam- 
po, senão algumas maiores de rapina, 
como águias a que a natureza ensinou 
a buscar os cumes dos mais altos ro- 
chedos para n'elles fabricarem seus 
ninho"^; e posto que em todas as cou- 
sas é este lugar por sua estranheza 
muito para \(^r, todavia o mais admi- 
rável de tudo é a serventia que Nosso 
Senhor ordenou que tivesse, porque 
não havendo nenhuma por estar todo 
em roda crespo de penedia, de fora 
se levanta outro monle da mesma al- 
tura, que no cume se foi encostando 
ao da Cartuxa, de modo que deu lu- 
gar a se lançar de uma a outra parte 
uma ponte por industria humana, 
com a qual a entrada não só ficou ac- 
commodada paia o serviço da Cartu- 
xa, mas também fácil para se defen- 
der a passagem a quetn n'flla quizesse 
entrar. Fica por baixo da ponte um 
valle entre estas serras, que por ser 
profundíssimo enão admiltir os raios 
do sol se faz tão escuro, que mais 
causa horror que gosto aos {\uc pas- 
sara por cima, ao que ajud:i muito o 
rouco som do rio Guyer, que pelo 
fundo vai passando, cujas ondas que- 
bradas na penedia ( ausara um rumor 
importuno e temeroso. Fica muito 
Cíirto todo o encarecimento ijue doeste 
lugar escrevem os lli^toriadores para 
se poder explicar o grande arlilicio 
com (|ue a natureza o compoz, porque 
parece quiz Nosso Senhor formar n'el- 
le um castclli» roíjueiro, em (|iie estes 
Santos se pode.ssem defender ilos ini- 
migos (Palma com tanta facilidade, 



que não ficassem armas ao mundo, 
diabo e carne com que os inquietar. n 
(D. Basilio de Faria, Vida do Palriar- 
cha S. Bruno). 

CHATEAUBRIAND. (1768-18-18). 
É incontestavelmente o máximo es- 
criptor d'este século, o máximo pintor 
da natureza, esplendido no colorido e 
magestade das imagens, homem raro 
cujo génio não somente conquistou a 
gloria, senão que influiu poderosa- 
mente e por largo tempo no seu sé- 
culo. Primeiramente, destinou-se á 
clarezia ; mas, para logo, mudou de 
rumo, entrando nas fileiras como of- 
ficial. Introduzido á corte de Luiz xvi 
por seu irmão, que esposara a neta 
do insigne Malesherbes, viu, enthu- 
siasta,a aurora da Revolução franceza, 
e ao mesmo tempo a consagração da 
liberdade americana pelas victorias 
de Washington. A titulo de explora- 
ção geographica, obteve embaixada 
do governo para osEstados-Uiiidos, e 
foi recolher impressões novas e poéti- 
cas ás margens dos enormes rios do 
Novo Mundo, e no seio das florestas 
virgens da America do Norte. Saben- 
do que Luiz xvi havia sido preso, vol- 
tou á Europa; e a despeito da Índole 
livre de suas convicções, entrou— for- 
çado por sua posição social — na lista 
dos emigrados que pegaram em armas 
contra a França. Ferido no cerco de 
Thionville e levado moribundo a Jer- 
sey, demorou alguns annos em Lon- 
dres, e, de pobie que eslava, vivia 
dando lições de francez e de traduzir 
por conta de livreiros. Enião {Miblicou 
o Ensaio áccrcii das Rcvoliirõcs, livro 
composto sem mclhodo nem madure- 
za, porém já notável por eneigia de 
linguagem e gravidade de estudos. 
Duradoura e digna estima o Vv^uu. de 
volta á pátria, a M. de Fontanes, com 
quem redigiu o Mcrnirio, onde in- 
seriu a deliciosa novella Mala, pro- 
ducção original que impiessionou 
grandemente, e lambem /?* jíc, que 
mysteriosa e siblimemcnte melancó- 
lico, reviveu a impiessão (luc ileixára 
Aldht. Por 180-2. ao manircslarem-se 
vislumbres de regeneração religiosa, 
a tem[io (|ue Napoleão, dado a lecons- 



192 



CIIA 



CHE 



Iniir liiilof|nfi dóssc caução de ordem, [ 
re<!ij,'iiia (js allar<!s, [jiiblicoii Clia- | 
tcautiiiaiid u seu (ÍK.Mt) DoCiiiSTiANis- j 
MO. Koi a|i|»ai('(;iim'iito oslr(»iido.s() ! ^ 
A(|ii('llt' loiíiioso livro, (|ij(í namorava 
as iiílclligeiícias com sciíilillaiilrs (|iia- 
dros, e os corações com profiitidos 
seiílimorilos, Ioví; um exilo immciisu i 
e uiiivíMsal. l'ro|)OZfira-s(' o aullíorde- 
raonslrai" ifosla oljia (Jikí o clirislia- 
nismo, Ião superior ao pajçaiiismo pela 
pureza de sua moral, não é menos fa- 
vorável á arle e á jjoesia do (|ue as 
ficções aiitiiías. — Em l.SOl o encar- 
regou o im[iera(lor (Je reprcserUar a 
França Junio á republica de Valais, 
quando teve. nolicia da execução do 
du(]ue de Kii|<liien. Deu-se [)ressa em 
dimillir-se, e desde enlão moslrou-se 
adversário do império. Assim mesmo 
reconhecendo os grandes predicados 
do imperador, não recusou laureal-o 
com ra|)iilos e magnilicos elogios. 
Chaleaubriand, sempre sensível ás 
donosas saudades e poéticos enle- 
vos, emprendeu viagem á Terra San- 
ta, perpassando na Grécia. Assim se 
arrobou nas tradições da dupla anti- 
guidade sacra e profana, e ideou a 
traça de uma epopca chrislã, onde se- 
riam cotejados o paganismo mori- 
bundo e a religião no berço. Repa- 
triado, retirou-se em modesto ermo, 
onde compoz os .\hirlyres, espécie de^ 
epopéa em prosa, que é, sem disputa, 
a sua obra prima, e offerece a mais 
feliz applicação das Ibeorias do Génio 
do Christianismo. Na restauração dos 
Bourbons, entrou activamente nas dis- 
cussões politicas. O livro que então 
publicou, denominado Bonnparíe e 
Bourboníi, teve grande voga, e deu a 
Luiz xvni um exercito. N'este reina- 
do, foi ministro de estado, par, mem- 
bro do Instituto. Depois, descahindo 
da graça por haver censurado um acto 
do governo, fez-se chefe de opposição 
atilada. A morte do duque de Berry 
convisinhou-o da còrle. Foi enviado 
embaixador a Londres em 18-21, e de 
volta aceitou a pasta dos negócios 
estrangeiros. Nova desgraça o feriu em 
18:24, por onde veio a ser despedido 
brutalmente por M. de Villèle, então 
presidente do conselho, por motivos 



de desavenças. O nobre caracter de 
(Chaleaubriand sobranceou sempre os 
revezes da fortuna. Escrevendo no 
Jtirnnl itus Ih-hitics, levelou zelo da li- 
berdade da imprensa e independên- 
cia da Grécia, com grande applaiiso 
publico. Após a revolução de julho 
deu ares de retirar se da politica, e 
passou os derradeiros annos em des- 
conversavel rcliro, que só deixava 
qiianilo visitava .M.'"' Uecamier, cujas 
salas eram |)arada das dislincções lil- 
terarias. Knlre os [irimores d'arle ijue 
lhe deram a glona, publicou o ro- 
manc(! poético dos Nulclirz, epopéa 
admirável, de rpie Atnia e Hrm^ são 
simples episódios; os E^lntloa His- 
toriroa, obra giave e de idéas lransi;en- 
dentes. Apertado pela necessidade de 
dinheiro, (pie o apoquentou toda a sua 
vida, viu-se <d)rigado em \H'M) a alie- 
nar a propriedade das Mrinorins de 
nlém da onnpn, historia da sua vida, 
que não devia a()parecer senão depois 
da sua morte ; esta venda porporcio- 
nou-lhe um rendimento razoável para 
o resto de seus dias. Á superioridade 
do espirito, Chaleaubriand juntava os 
dotes pessoaes. Nos olhos fulgura va-lbe 
o génio, a graça no sorriso ; a nobreza 
e lirraeza da alma espargia-se-lhe em 
todas ns feições. O que elle teve á se- 
melhança dê outros grandes homens, 
era uma vaidade mal dissimulada, o 
que mais uma vez nos mostra que não 
ha ninguém perfeito. «Eu sou — dizia 
elle— bouibonico por honra, monar- 
chista pela razão, republicano por 
gosto e por caracter.» (Veja Apolo- 
gistas, DE FOiSTANES). 

Summario: Génio, vocação e pri- 
meiras viagens de Ctiateaubriand. — 
Impressões causadas i»elo R''nr, Ata- 
la e G''nio do Clirislinnismo. — Via- 
gem d Terra Santa e Os Marli/res. — 
Seu papel na primeira Restauração. — 
Ultimas obras, e opiniões politicas. 

CHATEAUROUX. (Veja Berry). 

CHENIER. 1. André Chenier, nas- 
cido em 1703 em Constantinopla, on- 
de seu pai era cônsul, sentiu muito 
cedo o gosto e a inspiração poética ; 
mas a sua modéstia impediu-o de pu- 



CHE 



CHI 



193 



blicar os ensaios do seu talento. A 
Revolução excilou-llie o enthiisiasmo; 
porém *desgostou-se logo com os ex- 
cessos de que a viu maiicliar-se, ou- 
sando censural-os publicamente nas 
cartas que publicou no Jornal de Pa- 
riz. Dizem que foi elle quem redigiu 
a eloquente carta enviada por Luiz 
XVI á Convenção. O partido revolucio- 
nário viu em André Chenier ura ini- 
migo. Foi preso, arrastado á prisão, 
e condemnado á morte. Aos trinta e 
dous annos, pereceu sobre o cadafal- 
so, juntamente com o seu amigo, o 
poeta Roucher.— Virtuoso mancebo— 
dizia-lheeste — condiiz^nn-vos á mor- 
te, brilhante de génio e de esperan- 
ça ! — Nada fiz para a posteridade — 
respondeu Chenier — depois, batendo 
na fronte : — Ainda assim eu tinha aqui 
o quer que fossei... — Estas tão ma- 
viosas palavras eram modestíssimas, 
porque Chenier era já grande poeta, 
bem que experiência llie não houves- 
se sazonado o talento. Realçou mcír- 
raente na elegia, mas no idyllio, com 
quanto menos correcto, revela mais 
originalidade e um perfume antigo 
que nos encanta Nota -se em piimei- 
ro lugar a Joren caplirn, e o Doente. 
Alguns dias antes da execução com- 
poz sobre o seu fim prematuro ver- 
sos muito commoventes. Os seus úl- 
timos pensamentos, diz M. Villemain, 
foram todos poesia e íMilhusiasino... 
A voz do poeta n'esta horrível expe- 
ctativa permaneceu firme e sonora : 

Comme u» dcrnicr raijon, comnic un dt'rnier 
Anime la Jln d'tm bemi jour, [zcpUijrr 

Au pied de 1'èchafaud yesaaiji: encore ma Ujre... 

I.e messager de mort, noir recruteur de^i mnOrcs, 
Kscortc d' infames suldats, 

Hfiniitira de yivm num cea ionr/.s corridorit tiom, 

\hres. 



As oito horas da manhã foi chama- 
do André Chenier (juando o poema 
não eslava concluido. 

"2. .Iom'í Chenirr, irmão do prece- 
dente, deu-se ãs letras, tendo seguido 
(lur;inte dous annos a carreira mili- 
tar. Cultivou muitos géneros de litte- 
ratura, nias sobre tudo as suas obras 



theatraes tiveram êxito prodigioso. 
Foi ás idéas democráticas de que era 
entliusiasta que deveu as mais das ve- 
zes a inspiração. Exprimia em todas 
as peças, n'um estylo puro, nobre e 
enérgico, o ódio ao despotismo, e 
amor vivíssimo á liberdade. Posto que 
ardente democrata esforçou-se toda- 
via por obstar aos excessos revolucio- 
nários. 

As diversas poesias de José Chenier, 
tem um caracter satyrico. Basta lér o 
vehemenle discurso em verso sobre 
a Calunmia para conhecer que elle 
tratava p assumpto debaixo da inspi- 
ração. É n'estediscursoque José Che- 
nier repelle com eloquente indigna- 
ção, a imputação horrível de ter po- 
dido se quizesse salvar o irmão. Se 
teve a desgraça de se associar aos 
homens que faziam pesar o terror so- 
bre a França, não ha motivo para lhe 
assacai- tão culpável fratiicidio. Uma 
parte da sua gloria litleraria, funda 
em obras de critica, especialmente so- 
bre a Syiiopse da liltcrahiKi fvancc- 
za, depois de i?8!). José Chenier mor- 
reu aos íG annos, e foi subsiiluiduno 
Instituto, por M. de Chaleaubiiand, 
de quem elle teve a desgraça de des- 
conhecer o génio. (Veja Ciiateau- 
r.RiAND). — Recite e faça redigir estas 
duas lições, juntando-lhe alguns pro- 
menores acerca do Terror. (VojaC\M- 
PAN e Revoluç.\o). 

CHERBURG. (Veja Norm.\ndia). 

CHICÓRIA. (Veja Synantiiereas). 

CHILI e PATAGONIA. l. Enron- 
tram-se muitas montanhas no Chili 
do lado da costa ; o solo elev;i- se gra- 
dualmente até aos .\n(les, que se|)a- 
rara o Chili do interior da America 
meiidional. Estas montanhas encer- 
ram grande numero de vulcòes sem- 
pre em erupção. D'este modo a lerra 
é freijuentemente atormentada com 
terramotos. Varia o clima do Chili; 
o calor é extremo, mas tempera- 
do pelas brizas do mar, e por chuvas 
abundantes; a lerra é extremamente 
feitil: immensos bos(]ues de cedros 
vermelhos, de coqueiros o loureiros, 



19i 



CHI 



CHI 



cobrem os flancos dos Andes ; cm firn 
todas as plantas tro[)ic,aes o as produ- 
ções vegetaes da Europa alli se acdi- 
malarn e desenvolvem rapidamente. 
Os indígenas desceiídrMn de duas raças 
dislinitas: a dos aramanos, o povo 
mais policiado da Amerir,a; e a dos 
puelctics, (|iie vivíMn ordinariamente 
nas monlaidi.is, dislint;uindo-se pela 
corpulência de suas f()i mas. 

Estes dons povos encontram-se ao 
iiorlc da fatagonia, [)ni/. muito frio, 
monl.iiilioso, coIxTto de malas ao 
norte, o em geral cortado por gran- 
des correntes; no sul vivem os pata- 
gonios, os ípjaes excedem em altura 
muitos centímetros aos europeus, che- 
gando a ter mais de dous melros, e tal- 
vez três. Este paiz foi descolierto em 
If)!',) por Magalhães, para a Hcspanha, 
que explorou o estreito que tem o seu 
nome e fez uma dcscripção pomposa 
dos paizes visinhos. Oulros viajantes 
deram mais tarde informações mais 
exactas, das quaes resulta que este 
paiz é geralmente árido. 

2. Difíicilmenle se encontra cidade 
mais limpa e regular que Santiago, 
capital do Chili. É dividida em praças 
que formam ruas cortando em linha 
recta. A forma das casas é quadran- 
gular, o tecto chato, e por cima da 
cornija tem uma elegante balaustrada; 
são d'ura andar e caiadas de branco. 
Ao centro de cada morada, ha ura es- 
paço chamado pnteo sobre o ijual dão 
todos os quartos. A entrada da rua é 
um vasto pórtico, adornado com gos- 
to. Na época dos grandes calores le- 
vantam um toldo sobre opateo, oque 
dá muita frescura aos aposentos. Nas 
trazeiras cada casa tem o seu jardim 
regado por fontes encanadas. Os ha- 
bitantes d'esla cidade trajara elegan- 
temente, e são muito policiados com 
os estrangeiros. 

3 Os antigos chilenos cultivavam 
milho e algumas planlas leguminosas : 
batata, pimento, morango, e outras 
plantas indígenas. Seus animaes do- 
meslicoseram camelo, coelho, porco, e 
gallinhas. Cultivavam a terra com ins- 
trumentos de pau, tinham grande co- 
nhecimento dos pastios, e das monta- 
nhas tiravam metaes que moldura vam. 



Como ignoravam o uso do ferro, guar- 
neciam as armas e ferramentas de 
[icdias polidas, ou cobre amalgama- 
do. O cainído puxava a charrua, e a 
lã (Kesie animal tingida de diversas 
cores, servia-lhe de vestuário. As ca- 
sas construídas geraluifoie de pau, 
eram cobertas decaniradas. Como os 
peruvianos, levanlavain lupicduclos e 
cruzavam canaes. Algumas d'esta8 
obras perfeita mente conservadas, exis- 
tem ainda ; v<^-se enlr(í outras um ca- 
nal perlo de Santiago (pie l<Mn muitas 
milhas de comprimento, e é notável 
pí'la solidez. Os chilenos ignoravam a 
arl(! de escrever. As i)inliiras cpie usa- 
vam eram grosseiras e desproporcio- 
nadas, mas por oulro lado podiam 
ex|irímir toda a espécie de quantida- 
de, e para povos separados da civilj- 
saçào lizeram notáveis progressos na 
asti-onomia c cirurgia. —Entre os usos 
do paiz, nola-se a maneira pela qual 
caçam os animaes selvagens. Servem- 
se do laço: é uma corda de couro da 
grossura d'um dedo, e í|uinze a vinte 
melros de comprimenlo. N'uiaa das 
pontas tem um nó corredio e na ou- 
tra um annel no qual [lassa uma gros- 
sa corroa que vai prender á sella do 
cavailo em que montam. Difticilraen- 
te se imagina a destreza com que 
os homens do povo jogam o laço. Ê 
uma o[)eração dífííjil quando se está 
parado; julgue-se da difliculdade 
quando a galope, e muitas vezes atra- 
vés d'um terreno desigual. Mas é tal 
a perícia, que elles podem apostar 
que apanham o animal pela parte 
do corpo quequizerem: pelas pontas, 
pescoço, ou uma das palas, e isto fa- 
zera-nocom destreza e rapidez incrí- 
veis. Claro é que é preciso um gran- 
de exericício e grande habilidade para 
adquirir tão maravilhosa dexlerídade, 
por isso os mancebos se exercitam 
desde tenros annos, cnsaiando-se na 
caça de gatos e cães. 

Redncçno: Clima e producções do 
Chili. — Õspatagonios.— Descripçãode 
Santiago e dos costumes de seus habi- 
tantes. — Os antigos chilenos. — .\caça 
a laço. — Lér ou expor esta lição, e fa- 
zel-á resumir depois de mostrar por 
escripto, estas terras no mappa. 



CHI 



CHI 



195 



CHIMICA. Segundo a definição de 
mr. Thériard, a chimica é a scien- 
cia que tem por objecio o conheci- 
mento da acção molecular e reciproca 
de todos os" corpos uns sobre ou- 
tros. Toda a modificação, que sobre- 
vem no estado d'um corpo e que lhe 
muda a natureza como a formação 
da ferrugem sobre o ferro, o verdele 
sobre o cobre, a combustão do pau ou 
da hulha nos focos, a putrefacção dos 
despojos animaes ou vfgetaes, tudo 
isto são phenomenos chimicos. A ma- 
téria pode ser solida, e n'este caso 
tem uma fónna determinada e variá- 
vel ; ou liijiiida, e então as moléculas 
ficam livres para raover-se em todos 
os sentidos; e em fim gazosas, e n'esle 
estado as moléculas afora a mobili- 
dade em lodos os sentidos, tem mais 
a propriedade de se repellir e occupar 
um volume indefinitivamente grande. 
Chama-se cohesão a força que une as 
partículas materiacs em seu estado 
solido. Enfraquece-se geralmente pela 
accumulação do calor que parece en- 
tão ser uma força opposta á cohesão. 
Quando porelTeito do calor um corpo 
passou ao estado liijuido, a cohesão 
está quasi destruida. E quando o li- 
quido chega a uma certa temperatura, 
toda a massa passa ao estado gazoso, 
e não resta então mais que a acção 
do calor (pio vai apartando as parti- 
culas mateiiaes tornadas gazosas. A 
força da cohesão, que une os átomos 
dos corpos, não deve ser confundida 
com o peso universal. Usa-sc na chi- 
mica a palavra cohesão, para designar 
a força que sustenta em contacto os 
átomos da niesna espécie, quer sim- 
ples, quer compostos; e chama-se a/li- 
nidadc a força que provoca e conser- 
va a reunião ou combinação de áto- 
mos de diversas naturezas. Á cohesão 
se deve a cryslallisação, que é tanto 
mais regular quanto os corpos passam 
mais lentamente tio estado liipiido ou 
gazoso, ao solido. Todavia ;i allinidatle 
se devem todas as maiavilhas da chi- 
mica e o estudo doesta força inconi- 
prehensivol »'• no que mais sé cmprt^ga 
o chimico. — Na tlicoria corpuscular, 
admitle se que a mattíria se componha 
de átomos ou partículas. Estes átomos 



são de diversa natureza; isto é, tem 
diíTerentes propriedades. Se átomos 
idênticos entre si chegam a reunir-se, 
formarão um corpo simples; mas se 
muitas espécies de átomos se combi- 
nam intimamente, resnllará d'ahi o 
corpo composto. A chimica ensina a 
formar e a destruir estas combina- 
ções; faz conhecer as propriedades 
dos corpos, e em seguida as applica- 
çues de que se pôde tirar proveito 
para as artes, a industria, e a medi- 
cina. É talvez esta sciencia a de maior 
utilidade pratica. 

2, Pela synthese pôde forma r-se um 
composto, fazendo reagir duas ou 
mais matérias simples. A affiiiidade 
que tem estas matérias entre si, pro- 
vocada ou não pela acção do fogo e 
dos dissolventes, opera â combinação 
d'ellas. A analyse ou operação con- 
traria á synthese, consiste era isolar 
os elementos d'um composto para co- 
nhecer a natureza d'esses elementos 
e a proporção em que se acham liga- 
dos. — Para facilitar o estudo da chi- 
mica e distinguir entre si os compos- 
tos de differentes ordens, inventou-se 
uma nova nomenclatura que é impor- 
tante conhecer. — Diz se sulfureto de 
carbone ou carbureto de sulfur, para 
indicar uma combinação de enxofre 
e de carbone, danio assim a termina- 
ção ureto á primeii'a palavra, se o 
composto é solido ou li(iuido; mas se 
o composto é gazoso, dá-se á segunda 
palavra a terminação ar/o como hi/lro- 
gniio carbonado, liyiroijcuiu pltnspho- 
railo. Quando um radical como o ferro 
se combina com diversas proporções 
de enxofre, por exemplo, o composto 
era que entra menos enxofre chamar- 
se-ha proto-snlfurclo de ferro ; o se- 
gundo bi-sulf ureto de ferro : o ter- 
ceiro tri-sulfurelo de ferro c assim 
successivamente, reservando a deno- 
minação de pfrsulf ureto de ferro \K\r3i 
designar o composto em (pie entra a 
maior (piantidade do enxofro possível. 
Os compostos irum corpo siiii|>los i-om 
o oxygenio tom os nomes genoiicos 
de oxydo ou acido. so;íniido as pro- 
|)riedades chimicas d'oslos compostos. 
(Veja Ownos). 

Òs diversos graus de oxydaçio iil- 



19G 



cm 



cm 



dicam-se d.i sfiguiritft forma iprolorif- 
dn lU' ffrro, hiiuyilo de. ferro, triori/iio 
(k ferro, ni;is li;j cliiinicos (jiie os (íis- 
lirigiKim pchis c(n'o%: o.njdn hranro de 
ferro, oiijlo nrt/roilr ferro, oi i/dorrr- 
mellio dr firro. <J (íraii mais elevado 
(Ir oxytífMiarão lamhcm se chama jirr- 
o.ri/lo. Ivn gíMal lia dons f^raiis de 
acidili<'a(;ao: o pruneiro Icm a termi- 
narão fí.vo, o sc^iiiido a lerruinarão de 
iro. ITeslc moútuirido sulfuroso o, dci- 
do sulfiinro, o ullmio tem mais oxy- 
genio (|iie o iirimciro. Um f^naii infe- 
rior de .icido sulfuroso, dá o acido 
iiyposulfiirosf»; iim grau intermediá- 
rio aos ácidos sulfuroso e sulfúrico dá 
o acido hyposulfurico. A combinação 
d'um oxydo com um acido produz úm 
composto de segunda ordem, a (jue 
se dá o nome genérico de sal. (Veja 
Sal), o acido em oso dá ao sal a ter- 
minação em ilc, e o acido em icn dá 
ao sal a terminação nlo. Assim snlfilo 
de jiolassa designa um sal resultante 
da combinação do acido sulfuroso 
com a potassa ; e snlfalo depolaasa um 
sal formado do acido sulfúrico e po- 
tassa. Quando o sal contém um átomo 
de acido com um átomo de oxydo, 
sendo este ultimo a base do sal, diz- 
se que o sal é nmlro, mas (> um sal 
acido ou um fii-sal, quando dous áto- 
mos de acido estão reunidos a um só 
átomo de base, e é sal básico ou um 
sitb-sal, logo que dous átomos de ba- 
se estão juntos a um atorao de acido. 
(Veja Metaes e Metalloides). 

Snmmnrio:\. Definições, phenome- 
nos chimicos, moléculas. — DiíTeren- 
ça entre as co/í/'sõí'.s e affinidades. — 
Corpos simples, corpos compostos. — 
2. Synthese e analyse.— Aomme/a- 
tiira: Emprego das terminações em 
eto, eado /emprego dasparticúlas;íro- 
to, bi, tri, per. — Ácidos em oso e em 
iro. — Emprego da partícula hypo. — 
Saes em ile e em alo, e sua significa- 
ção.— Sal acido, bi-sal, sal básico, 
sub-sal. — Perguntar cada ponto do 
summario, depois de lido ou exposto. 

CHIMICOS. 1 . «É profissão interes- 
sanlissiraa a chimica para homens de 
alto espirito. Decompor e compor 
corpos, formar gazes, líquidos, soli- 



des novos uleis ás artes, ás manufa- 
cturas, á saúde e á guerra, operar 
prodígios quf* podem elucidar o phi- 
íosíjplio e re.s(j|ver questões reputa- 
das insolúveis; crear artes uleis diile- 
riormenle incógnitas; este é o fim da 
cliimica. .NiMiliuma balisa lhe limita 
a ambição de scicncia; nenhum cor- 
po é simples para elle. Nos Unidos im- 
ponderáveis \ò sómentí' corpos inde- 
compostos dos (jiiaes elle poderá um 
dia mostrar os elementos; talvez (|ue 
todos os crystaes e metaes vcnhani a 
nascer no seu laboratório. Não o des- 
animam os maus resultados de pre- 
cedentes trabalhos; í|ue o acaso e o 
talento podem remover muitos obstá- 
culos. Se sabemos que o diamante é 
carbone, ponjue não faremos um dia 
do carbone diamanleV — O chiraíco 
deve ser malhernatico, physíco, mine- 
ralogista, metallurgico; deve ler boa 
retentiva e grande vigor de dedac- 
ção; alguma phantasia pôde nào lhe 
ser inútil, mas importa que ella o não 
domine. O aliimno não pôde esperar 
grande exilo se no espaço de dous an- 
nos ao menos se não empregar co- 
mo preparador no laboratório de pro- 
fessor notável, e bem assim se não 
fôr destro e laborioso, e não estudar 
as leis que presidem a todas as com- 
binações, e a natureza dos compos- 
tos que forem submeltidos a investi- 
gação e analyse. Urge-lhe desvelar- 
se em substituir processos simples e 
novos, fazer experiências o mais eco- 
nomicamente que ser possa; habí- 
tuar-se a redigir no mais claro e con- 
ciso estylo a exposição e iheorias dos 
princípaes factos da scíencia. Ao chi- 
mico versado não cançam meios de 
prosperar; pôde collocar-se em uma 
pharmacía, era emprezas melallurgí- 
cas, e ínslrucção publica, producções 
chiraicas, etc' Se fôr babil em sua 
carreira não tem que recear-se de 
emulos ; porque o talento é raro, e só 
se distingue quem o tem.i (Giroa de 
Buzareingues). 
2. Chimicos celebres. Anligamente 
' nada se sabia de chimica. Com o no- 
me de Arte Sagrada, os chimicos pos- 
suíram a arte de fabricar o salitre, a 
porcelana, e a pólvora; os gregos 



CHI 



CHI 



49? 



adoptaram a existência de quatro ele- 
mentos: fogo, ar, agua, e terra; os 
árabes, ahi pelo século xi cultiva- 
ram-na com o nome de alchimia, 
levando principalmente em vista a 
transmutação dos meiaes; finalmente 
as cruzadas divulgaram -na na Europa, 
e aquém do século xiv, íloreceram 
homens de engenho que rasgaram 
horisontes aos incríveis progressos 
d'estasciencia maravilhosa. — Paracel- 
so(l-i03), medico e thaumaturgo, pre- 
tendeu ter achado o segredo do pro- 
longar a vida, e fazer ouro. Acreditava 
na magia e astrologia, explicando as 
doenças pela influencia dos astros. 
Devemos-lhe o ópio, o emprego do 
mercúrio, e muitas preparações chi- 
mimas ; porém a extravagância do seu 
empyrisrao desluziu-lhe ijuasi de to- 
do o mérito. — Libavius, sábio alle- 
mão do século xvi, é o primeiro que 
fallou da transfusão do sangue, e com- 
bateu a doutrina deParacelso. O licor 
fumegante de Libavius é uma compo- 
sição de murialo de estanho que se 
emprega como cáustico. — Van Hel- 
mont, celebre empyrico, nascido em 
Bruxellas em 1577, quiz crear medi- 
cina nova fundada na chimica.— Be- 
cher, medico echimicoallemãu(lG28), 
foi quem primeiro pertendeu crear 
uma theoria chimica. Procurou um 
acido primitivo do qual todos os ou- 
tros fossem meras modificações, deu- 
se muito á transformação dos metaes 
pelo calor, e preludiou d'esta arte a 
doutrina phlogislica de Stahl, medico 
allemão (IGOO), que, para explicara 
combustão, imaginou o plilofiialíro, 
doutrina que dominou a scieni:ia por 
mais d'um scculo. Explicava elle lo- 
dos os plienomonos da vida animal 
por um principio im material que re- 
portava tudo a causas chi micas ou 
mechanicas. — Boerhaavo (llermaiin) 
(lf>t>8), celebre medico d(^ Leyde (|ue 
exerceu inlluencia no seu omnipotente 
século, estorvou o progresso da medi- 
cina apartando-se do melliodo de 
Hippocrales, ipie primeiro tinha pre- 
conisado ; no entanto fez muitas obseV- 
vaçòes exactas, c conseguiu decom- 
por o sangue, o leite, e todos os flui- 
dos aniraaes. Contribuiu também po- 



derosamente nos progressos da botâ- 
nica pela animação que deu ao cele- 
bre Linneu. — Palies (1677), capellão 
do príncipe de Halles que publicou a 
A nnlyac do ar, e a .1 rlede tornar a agua 
do mar potaiel, fez rauiias invenções 
úteis, entre outras a dos ventiladores, 
destinados a renovar o ar nos hospi- 
taes, nas minas, e nos navios. — Black 
chimico escocez (1728) foi quem des- 
cobriu a existência do acido carbónico 
chamado ar fixo e mostrou a sua pre- 
sença nos alcalis, na cal, ena magne- 
sia. Deve-se-lhe também o descobri- 
mento do calor latente. (Veja Calor). 
— MargraíT, nascido em Berliu em 
1789, associado á Academia das scien- 
cias de Pariz, achou o meio de exlra- 
hir a potassa do tártaro e do sal de 
azedas, e de tirar assucar da beterra- 
ba. — Scheele, celebre chimico sueco, 
d'uma familia pobre, a muito custo 
conseguiu ser proprietário d'uma 
pharmacia. Figura elle entre os crea- 
dores da chimica orgânica, devendo- 
do-se-lhe o descobrimento de muitos 
princípios chimicos: oxygenio, chlo- 
ro, manganese e muitos ácidos. Seu 
Tratado do ar edo [ego passa por uma 
obra prima. — Priestley (1733), chi- 
mico e iheologo inglez, collocou-se 
por seus numerosos descobrimentos 
em chimica e physica, no numero dos 
primeiros sábios da Europa; porém 
attrahiu as perseguições do seu paiz 
pelo ardor com que defendia o unita- 
rismo e os princípios da revolução 
franceza. Foi o primeiro a descobrir 
e isolar o oxygenio. que elle chamou 
ar doiihlúfjhlico. abrindo o caminho 
a Lavoisier. — Cavendish, physico e 
chimico, nasceu em Nice, em 1731, 
entregou-se ao estudo das sciencias 
em lugar de procurar as honras a que 
seu nomo linha direito. A sua família 
que era nol)re desdenhou-llie a sabe- 
doria sem riqueza; chegou tMilão um 
tio seu d'além mar, que lh<' legou, 
morrendo, mais de 3i>:()i'0 libras de 
renda. (|ue elle consagrou ao progres- 
so da sciencia e actos de l)en('litencia. 
Deve-se-lhe o descobrimcnlo do gaz 
hydrogenio, (|ue ellech;imava gaz m- 
jíaiiimarrl, e o da composição da agua 
e do acido nítrico. — Lavoisier nasci- 



198 



CHI 



CHI 



do em P.iíis v.m 1713, mereceu, 
desde a idjide dt; viiilee cinco annos, 
sei' adiiiillido i Ai;a(leiiiia das scieií- 
cias; d(Mnoiislroij, em nif), (]iie a cal- 
cinação dos inelaes e em geral a coin- 
buslúo dos corpos, é o prodiiclo do 
oxygeiíio com esí,es corpos, e, operou 
por esUí descobriuieulo uma revulu- 
çào completa na cliiuiica. Junlamenle 
com Giiylon de Morveau, creou para 
a cliimica uma nova nomenclatura 
(|ue devia mudar a face da sciencia. 
O tribunal levoiur.ioiíario ftMo mor- 
rer no i;ailar;ilso. Di'balde elle pediu 
a dilaç;lo lie alguns dias |)ara acabar 
experiências utfis á liumaiiidade. — 
A decoMiposirão dos melaes alcalinos 
por meio da pilba, as numerosas pes- 
quizas de lodos os cbimicos moder- 
nos, a Ibeoria atomistica e a do 
isomorphismo, abriram à chimica 
uma nova ('|joca, csiabelecendo-a so- 
bre bases inalteráveis. 

Snmmarii): Fim do chiraico. — Qua- 
lidades e deveres. — A cbiraica na 
anlignidnde. — Paracelso, Libavius, 
Van Ilelmont, Béclier, Slalil. — íioer- 
haave, lia lies, Black, MargraíT. — 
Scheele, l*rieslley, Cavendisb, Lavoi- 
sier. — Progresso da cbimica. — Per- 
guntas e resumo depois da leitura. 

CHINA. 1. A parle occidenlal do 
império cbinez ó coberta de altas 
monlanbas; e lá se encontra a plai- 
nura central e o deserto deTobi, que 
os chinezes chamam shmno, ou mar 
de areia. O resto são férteis planícies 
produzindo em abundância todas as 
plantas tropicaes. O clima da China 
varia segundo as latitudes, mas ge- 
ralmente é quente; os invernos são 
seccos, e os estios chuvosos. — Como 
os antigos romanos, o governo cbinez 
presta Ioda a attenção ás estradas pu- 
blicas. Emprega coiilinuamente uma 
infinidade de homens a corapol-as e 
enfeitai as, sobre ludo nas provindas 
meridionaes, onde não estão em uso 
nem carros, nem cavallos. Estas es- 
tradas são ordinariamente muito lar- 
gas e bem ensaibradas; tanto que fi- 
cam enxutas logo que cessa a chu- 
va. Os chinezes tem aberto caminhos 
no cume das mais altas montanhas, 



cortando rochedos e aterrando pro- 
fundos valles. Em .ili^Mimas províncias 
as entradas formam alijas maiginadas 
de arvores muito alias, e em algumas 
parles cora muros de dous a lr(,'s me- 
lros d^alliira. para im[)i'dir os viajan- 
tes d<! (jassar a cavallu para as terras. 
Além das estradas, a China abunda 
em commodidadcs [lara os viajantes 
maritimos. Ao long) ilos rios ha uma 
eslrada commoda para os caminhan- 
tes, e os canaes sãi» marginados citm 
um cães de pedra. Nos cantões liumi- 
dos e paludosos lein constiuido gran- 
des calçadas para facilidadt! dos via- 
janles e dos barqueiros. De espaço a 
espaço, os grandes rios são cobertos 
de pontes, de tri's, cinco, ou sete ar- 
cos, debaixo dos (|uaes podem passar 
os barcos sem abaixar os mastros. 
Estes rios desembocam dos dous la- 
dos em outros mais pequenos, que se 
dividem em quantidade de ribeiras 
cominunicando com a maior parte 
das cidades e villas.— O famoso canal 
real, cujo nome é tantas vezes men- 
cionado nas descripçOes dos viajan- 
tes, atravessa lodo o império de norte 
a sul. Começou a formar-se pela junc- 
ção de muitos córregos; e mesmo 
nos lugai-es onde elles faltam não dei- 
xa de correr, atravessando montanhas 
e rochedos, que nãu eram muito sa- 
lientes para causar-lhe embaraço. 
Assim por meio dos rios e canaes 
póde-se viajar mui commcdamente 
de Pekin até ás derradeiras extremi- 
dades do império; isto é, talvez o es- 
paço de 600 léguas. 

í2, Pekin, capital de todo o império 
cbinez, está situada n'ura vasto plai- 
no a 47 kilometros ao sul da grande 
Muralha. Uma avenida de 6 kilome- 
tros, calçada de grossas lageas de gra- 
nito ahí conduz do lado do este, 
e um soberbo arco de triumpbo indi- 
ca a chegada. Distingue-se d'alli duas 
partes distiiiclas: a cidade imperial, 
e a cidade velha, cercadas ambas 
d"uma alta muialha. As ruas da cida- 
de imperial são largas, compridas, di- 
reitas e muito limpas; as principaes 
tem 40 melros de largo, e ha uma que 
tem sessenta! — A magnificência dos 
chinezes brilha em suas obras publi- 



CHI 



CHI 



199 



cas, taes como as fortificações das ci- 
dades, dos fortes e dos castellos, as 
salas de seus antepassados, as torres, 
e os arcos detriumpho. — Contam-se 
talvez 3:000 braças no comprimento 
da Grande Muralha, o monumento 
mais curioso do império chinez. Tu- 
do quanto a vista póile abranger d'es- 
ta muralha fortificada, e prolongada 
sobre a cadeia das montanhas e so- 
bre os pontos mais elevados, desce 
nos mais profundos valles, fende as 
ribeiras pelos arcos que a sustenta. 
É duplicado, triplicado em muitos lu- 
gares o muro para tornar as passagens 
mais difficeis, e tendo torres ou for- 
tes bastiões pouco mais ou menos de 
cem em cem passos, apresentando 
tudo isto ao espirito a idéa de em- 
preza giganlea. Esta prodigiosa for- 
tificação, dizem que tem perto de 800 
léguas de comprimento, e foi cons- 
truida com tanttj cuidado e habilidade, 
que se conserva inteira e sem preci- 
sar de reparo ha dous mil annos, e 
parece tão pouco exposta a ruina, 
como a longa fileira de rochedos 
que a natureza creou entre a China 
e a Tartaria, Independente dos meios 
de defesa que a Grande Muralha for- 
necia em tempo de guerra, não era 
sem utilidade para afastar das pro- 
víncias mais férteis da China os ani- 
maes ferozes que infestam os deser- 
tos da Tartaria, assim como para fi- 
xar os limites dos dous paizes. Tor- 
nou-se menos importante depois que 
os dous paizes,que ella separa, estão 
submeltidosao mesmo imperador. Um 
viajante iiiglez conta, que esta muralha 
foi começada e acabada no espaço de 
cinco annos, e que os obreiros esta- 
vam tão juntos uns dos outros que 
podiam passar os materiaesde mão era 
mão. O imperador que emprehendeu 
este gigantesco trabalho, merece cem 
vezes mais elogios, que o rei (jue fez 
levantar as pyramides do Egyplo, se 
é verdade que se deve preferir as 
empre/as úteis ás que não tem ou- 
tro objecto senão satisfazer vaida- 
des. — A torre de porcelana de Nan- 
kiii, a obra mais solida e mais ma- 
gnifica do todo o oriento, tem .al- 
tura de 70 melros. Os nove andares 

VOL. I. 



são formados porespessas traves, que 
se cruzam para sustentar o tecto, on- 
de se vêem despojos todos enriqueci- 
dos por diversas pinturas. Os muros 
dos andares superiores tem infini- 
dade de pequenos nichos que con- 
tém Ídolos em baixo-relevo. A cúpu- 
la, que não é das menores bellezas 
d'esta torre, termina por uma grande 
esphera dourada. — A magnificência 
das habitações consiste na solidez das 
travesecolumnas sobre que assenta o 
tecto, e na escolha da madeira e es- 
ciilptura das portas. Para a construc- 
ção das paredes, o povo emprega uma 
espécie de tijolos que não são cosidos 
ao fogo, como os da fachada. Era al- 
gumas províncias são de argilla diluí- 
da e amarrada entre duas pranchas; 
n'oulras são de caniçadas ou vimes 
enlaçados e cal; todavia era casas de 
pessoas de dístíncção as paredes são 
todas de adobes poíidos e algumas ve- 
zes cinzelados com arte. 

3. Os chinezes são geralmente de 
pequena estatura. Tem còr amarella- 
da, a cabeça de forma cónica e o 
rosto triangular; são de seu natural 
doces e pacíficos, mas também são 
manhosos e desconfiados. Sua lítte- 
ratura é rica e variada, sobre tudo 
em historia, romances, e peças de 
theatro; em nenhuma parte ha mais 
livros, nem se acham mais baratos. 
Os homens letrados que são talvez em 
numero de 500:0J0, formam, com os 
officiaes militares, a nobreza doesta- 
do. Não recebem esle titulo de letra- 
dos senão depois d^um exame; e só 
elles tem o direito de preteiuier os 
empregos públicos e o titulo de man- 
darim. — O povo deve a sua sub- 
sistência sóniente ao trabalho assí- 
duo; assim não se conhece nação 
mais pobria e laboriosa. Os chinezes 
habítuam-se ás fadigas desde a in- 
fância; depois de labutarem um 
dia inteiro com as pernas iriígiia ató 
ao joelho, dão-se á noile por inuilo fe- 
lizes se tem para cear nina mão cheia 
dearroz cosido em agua, um caldo de 
legumes, e um pouco de chá. Não re- 
jeitam nenhum ukmo de ganhar sua vi- 
da. Como é dilicil em toilo o império 
achar terreno sem estar cultivado, não 

u 



200 



cm 



CUL 



se enconlin pcssfi.i fm <|ii;ili|ii('r ida- ' 
de, (|iu' iiíií) Iprifi.í f;ii;ili(l;iil(; cm aclmr ! 
meios (Ic vivfT. Servem-se 11:1 Chi- 
na (los moiíiliMs a braço, para moer o 
gr3o ; eslc Iraballio ijiie não exií,'e se- 
n3o uiM movirneiilo minto simples, é 
a occiípaçAo de iiiliiiidade de [lo- 
bres hõhilaiiles. 

N;1o ha cousa em ipie os cliiiiezes 
ponham mais escriipiilo, <|iie nas ce- 
remotnase civilidadcs (|iie usam: es- 
tão persuadidos ipic utna grande at- 
tencfio a (;om[)rir Lodos os ileveres da 
vid.i civil servi! miiilo a corrijrir a ru- 
de/, natural, a adoçai- os c,arai;teres. a 
maiiLfr a pa/, a ordem e a suhordi- 
naçAo do estado. Knlre os livros ijue 
contiWn as suas regras de |)olid('z, dis- 
tingue-se um ipie conta mr.is de três 
mil preceitos diversos. — O methodo 
ordinário das saudações entre os ho- 
mens consiste em ajuntaras mãos fe- 
chadas diante do peito, movel-as com 
certo geito aíTecluoso e abaixar algum 
tanto a cabeça pronunciando /.s?>í, Isin, 
expressão de polidez, cujo sentido não 
é limitado. 

Quando se encontra uma pessoa a 
quem se deve maior acatamento, jun- 
tara-se as mãos, levantam-se e abai- 
xara-se até ao chão, Inclinando pro- 
fundamente o corpo. Se duas pessoas 
conhecidas se encontram após longa 
ausência, ajoelham ambas baixando 
a cabeça até á terra; erguem-se de- 
pois e repetem duas ou ires vezes a 
mesma ceremonia. A palavra fo, que 
significa felicidade, repete-se frequen- 
temente na urbanidade dos chins. As 
regras de cortezia são por igual obser- 
vadas nas aldeias, e os termos em- 
pregados quer na conversação, quer 
nas saudações são sempre humildes 
e respeitosos. — Os chinezes letrados 
tem sido nobilitados com o fim de in- 
citar a applicação ao estudo e affecto 
ás sciencias; na China são principal- 
mente a historia, jurisprudência e mo- 
ral, por serem estas que mais infiuem 
na paz e ventura da sociedade. Por 
toda a parte do império estão derra- 
madas escolas e collegios onde se re- 
cebera, como na Europa, graus de ba- 
charel, de doutor, e mestre em artes. 
Alli toda a gente se dedica ao estudo, 



único meio de alcançar dignidades. 
.Não ha cidade, villa ii(»in aldeia, sem 
mestre-escóla [lara a instrucção da 
mocidade. 

Siiniwnrio. 1. l'r«'ducçào da China. 
— Kstradas e canafs. — Canal real. 
'2. Dcscripçâo de l't'kin. — Descrip- 
çâo da Grande .Mur;iliia; fim d'esla 
construcção. — Toir»' de porcelana 
em Nankin. — Magiiiliccncia nas ca- 
sas. ;j. Coslutnes dos chinezes, sobrie- 
dade, frngalidade, e corlpzia. — .Modo 
de saudar. — Instrucçào e vocação dos 
chinezes. — Cada qual (Testas ires li- 
ções [)6 le servir de redacção. Aponta- 
dos os lugares no map|)a, leia-se ou 
exponha-se a lição, edicle-se osum- 
mario que ha de ser desenvolvido pe- 
lo aliiinno. 

CHLORATO. (Veja Potassa). 

CHLORO. O chioro foi descoberto 
em 177 i por Scheele. Não se encon- 
tra na natureza senão em combina- 
ção com os raetaes : o sal marinho ou 
vulgar, a prata, o mercúrio, o cobre, 
ele. Os vulcões lambem exhalam va- 
pores formados da combinação do 
chioro com o hvdrogenio. O chioro é 
um gaz amarello esverdeado, que 
exerce acção muito violenta sobre a 
eeonomiaanimal, excita a tosse cau- 
sando uma espécie de estrangulação. 
Pôde combater-se-lhe o elTeito com 
fumigações degazaramoniaco,ou eu- 
gulindo um pouco de assucar diluido 
em espirito de vinho. — Para obter 
o chioro aquece-se ligeiramente uma 
mistura deoxydo negro de manganez 
e de acido muriatico chamado com 
mais propriedade acido hydrochlori- 
co, por ser composto de chioro e hy- 
drogenio. Este hydrogenio apodera- 
se do oxygenlo para formar a agua, 
e o chioro combina-se com o manga- 
nez; mas se a porção do chioro é de 
mais para produzir o chlorureto de 
manganez, uma parte deslaca-se em 
gaz. Este gaz pôde ser envasilhado 
em garrafas seccas e bem arrolha- 
das; lambem se pôde conduzir em 
tubos cheios d'agua. os quaes lhe dis- 
solvem quantidade tanto maiorquan- 
to o gaz destacado exerce mais forte 



CHL 



CHR 



201 



pressão. Se em vez d'agua pura se 
emppfga agua de cal, ahi se conden- 
sará grande quantidade de chloro, e 
oblerenaos o clilorureto de cal empre- 
gado no branqueamento dos algodões. 
Fazendo passar a corrente do chlo- 
ro em uma dissolução extensa e fria 
de potassa, obter-se-ha um liquido 
chamado chiorureto de potassa, que 
se emprega também no branqueamen- 
to, debaixo do nome de agua de ja- 
velle, substituída hoje pelo chiorureto 
de soda, que se obtém da mesma ma- 
neira. —Aquecendo o chiorureto de 
cal com álcool, lem-se o chloroformio, 
empregado muitas vezes na medici- 
na. Algumas gotas d'este preparado 
erabebiiJas n'uma esponja, ou n'um 
lenço, causam o mais das vezes, de- 
pois de quinze a vinte aspirações, a 
perda completa da sensibilidade. O 
chloroformio substituiu vantajosa- 
mente o ether, que é mais desagra- 
dável. — Os compostos de chloro com 
os diversos corpos simples, diversos 
do oxygenio, tem geralmente o nome 
de chloriireíos. A affinidade do chloro 
com o hydrogenio é tal que se collo- 
camos em. lugar exposto aos raios do 
sol uma garrafa de vidro branco, con- 
tendo volumes iguaes d'estesdous ga- 
zes, ellescombinam-se rapidamente, 
debaixo da influencia da luz solar, e 
uma vjolenta explosão partirá a gar- 
rafa, É esta propriedade que faz que 
o chloro destrua as matérias colo- 
rantes vegetaes e animaes, assim co- 
mo as matérias odorantes, os ger- 
mens pútridos, os miasmas deletérios 
derramados na atmosphera. Mas co- 
mo o chloro gazozo tem o inconve- 
niente de irritar os órgãos, lem-no 
substituído com vantagem pelas as- 
persões de líquidos chamados vulgar- 
mente chloruretos. Berlhollct foi o 
primeiro a experimentar a acção do 
chloro sobre as matérias colorantes, 
era 178:5, c Fourcroy em 1791 o re- 
commendou na desmfecção dos ce- 
mitérios, dos amphithea*tros anató- 
micos, das estrebarias em crises epi- 
demicas,elc.— Quanto ao acido chlor- 
hydrico, (]ue serve a preparai o, ob- 
lem-se decompondo mediante o acido 
sulfúrico, o sal marinho que contém 



soda e acido chlorhydrico. Ò acido 
sulfúrico occupa o lugar do ultimo, 
que se destaca e forma com a soda o 
sal de soda ou sulfato de soda. — O 
acido azotico, misturado com três ou 
quatro vezes de seu peso de acido 
chiorohydrico, forma a agua real, as- 
sim chamada porque pôde dissolver 
o ouro, considerado rei dos metaes 
pelos antigos chimicos; dissolve tam- 
bém o paládio e a platina, que resis- 
tem á acção dos outros ácidos: é em- 
pregado na tinturaria e nas manufa- 
cturas de porcelana. — O chlorato de 
potassa, que é o mais importante de 
todos os chioratos, apresenta-se em 
laminas ou palhetas incolores. Oblem- 
se fazendo passar uma corrente de 
chloro em uma solução concentrada 
de potassa; e assim *se produz chio- 
rureto de potassium muito solúvel e 
chlorato de potassa menos solúvel 
que facilmente se separa pela cryslal- 
lisação. Misturado com corpos com- 
bustiveis, como enxofre ephosphoro, 
forma um pó que se abraza e detona 
com a maior facilidade, com o calor 
ou cora a fricção. Emprega-se uma 
enorme quantidade na fabricação dos 
phosphoros. 

Summario : Definição do chloro. — 
Maneiradeoobter.— Chloroformio.— 
Propriedadesdochioro.— Acido chlor- 
hydrico e agua real. — Emprego do 
chlorato de potassa. 

CHRISTÃOS. 1. <iO christãovô em 
si o viajante que passa rápido sobre 
a terra e só encontra o repousar no 
tumulo. Não lhe é delicia o mundo, 
porque sabe que o homem vive pou- 
cos dias, e que a vida lhe é epheme- 
ra. É na morte que o chrislão irium- 
pha, e a gloria lhe principia quando 
as outras acabam.* (Chateaubriand). 
— <( A alma do verdadeiro christão es- 
tá sempre alegre; dá-lhe maior go- 
zo aijuillo de que se abstém, do que 
ao incrédulo os prazeres a que se 
dá.^) (Lamennais). — «Todas as virtu- 
des humanas existiram na antiguida- 
de; mas as virtudes divinas são ex- 
clusivas dos christãos.'» (Voltaire). — 
«Um bom chrislão antes ijuer ser bi- 
gorna que martello, antes roubado 



202 



CHR 



CHU 



que ladrão, anles assassinado t\ni'. as- 
sassino, anlps maiiyr (\[nt lyianno.» 
(S. Ki^ancisco (lo Siillfsi. 

'2. l*rimiliii)s rhri^lãos. Vor debai- 
xo ih l\oii)a |);i^'.i havia uma Horna 
sublcrranoa, lial)ilada jxdos priinciros 
chrisláos: ó (>i|ii(; st; chama ralunim- 
ftfl.s, as ijuaps f()iinain uma cidade (jiie 
medo miiilas léguas, com grande nn- 
moro do tuas. [)ra(;as, enciii/dhadas, 
e mnllidAo do liimnlos. Kslas cala- 
cnmhas serviram do asylo esormllura 
dos |>iitnoiros chiislúos dnranle as 
persognições. Ahi sooi;cnllavam cian- 
do e olíorocondo os santos mysUirios 
como |)ro|)ar,'lorios para o martyrio, 
ou como dopiecalivos [)ara a salva- 
ção de seus |)orsogui(h)res. Com o 
lim do se enlre-animarem, haviam 
pintado os lanços principaos da Es- 
criptura, análogos ao seu estado, taes 
como Daniel na cova dos leões, os 
três meninos na fornallia, Nosso Se- 
nhor resuscilando Lazaro, finalmen- 
te servos, pombas, videiras, symbo- 
los de esperança, de innocencia e de 
caridade. — A vida de nossos maiores 
quanto á fé era admirável do santi- 
dade e innocencia: ao orgulho dos 
pagãos contrapunham a humildade, 
desprezando riquezas e melhoria de 
condição; ao luxo d'ello5 oppunham 
modesta simplicidade, notável no tra- 
jo e no viver domestico ; e ás devassi- 
dões pagãs correspondiam com a tem- 
perança, jejuns, e a máxima sobrie- 
dade. —Este virtuoso proceder não 
agradava aos pagãos pelo mesmo mo- 
do que o porte das pessoas honestas 
hoje em dia não agrada aos maus 
chrislãos. Os judeus e os idolatras as- 
sacaram muitos aleives contra a reli- 
gião de nossos pães. Os apologistas re- 
futaram-as eloquentemente, e a vir- 
tude dos christãos melhor ainda os 
refutou ; não obstante os inimigos en- 
crudeceram na perseguição, immo- 
lando milhões de victimás em ódio 
dochrislianismo. (Veja Martyres). 

Dicte-se e faça-se aprender de cór 
a primeira lição. Leia-se a segunda, 
e mande-se redigir com desenvolvi- 
mento d^algumas idéas da primeira. 

CHRISTIANISMO. 1. «Sublime pe- 



la antiguidade de suas memorias, que 
sobiMu ao berço do mundo, inolTavel 
om seus mvslerios, adorável em seus 
sacramentos, inleressanlo em sua liis- 
toria, celeste om sua moral, rico e en- 
cantador nas suas pompas, oclinstia- 
nismo presla-se a ioda a espécie de 
quadro... myslerios da divindade, e 
mystorios do corarão humano mar- 
cliam do par. iJesvondaiulo o verda- 
deiro Deus, desvendam o verdadeiro 
homem. "(Chaleaubriand). -«Ochris- 
tianismo ó a inais profunda das [ihi- 
losopliias.» (Bncoii). — «O chrislianis- 
mo ó a mais itiofiíinla, b isla e subli- 
mo doutrina (pie a[)[)jroceu na terra; 
nenhuma outra coul(;ni mais ()ura sa- 
biídoria, e mais alta o mais elevada e 
philosophica sciencia: pelo (^uo se al- 
guma palavra de verdade ha n"oste 
mundo, lá devemos procural-a.i> (íiau- 
tain). — ttOpiniõosinintelligiveis, liJIias 
do absurdo, e mães da discórdia, é 
quanto intentam substituir aos do- 
gmas que o christianismo ensina.» 
(Voltaire). — «O christianismo tem de 
vôr esvahirem-se muitas duutrinas 
com preteações a substituil-o.w (Jouf- 
froy). 

2. Nascimento do rlirislianismo. S. 
Pedro. Após a pregação do evangelho 
na Judòa, dispersaram-se os apósto- 
los para o levarem a toda a terra. S. 
Pedro foi á cidade de Joppe, onde 
Deus lhe fez saber que os gentios 
iam ser chamados ao evangelho, e 
que a elle incumbia abrir-lhes as por- 
tas como chefe da igreja.— O primei- 
ro convertido foi Cornelio, oflkial ro- 
mano. Passou depois S. Pedro a An- 
tiochia, capital da Syria, onde esta- 
beleceu residência. Percorreu grande 
parte da Ásia, e foi a Roma combater 
Simão, o magico, e converteu grande 
numero de pessoas. Depois voltou pa- 
ra o Oriente. — Como curasse em no- 
me de Jesus Chrislo um aleijado de 
nascença, converteu com este milagre 
cinco mil pessoas. Na cidade de Lidda, 
achou Pedro um paralytico chamado 
Eneas que se não levantava da cama 
havia oito annos. «Eneas, o Senhor 
Jesus Christo te cura.» Eneas ergueu- 
se logo, e a multidão que havia sido 
testemunha da enfermidade e da cu- 



CHR 



CHR 



203 



ra, e bem assim os moradores de 
Lidda e Sarona se converteram ao Se- 
nhor. Em Joppe, cidade visinha de 
Lidda, resnscitou Tabitha, viuva mui- 
to esmoler. — S. Pedro escreveu duas 
cartas cheias de ternura de pai e de 
chefe da igreja, enviando-as aos fieis 
espalhados por todo o império roma- 
no. Em conclusão, voltou a Roma on- 
de o esperava a coroa do martyrio 
que S. I*aulo devia aquinhoar com 
elle depois de haver participado dos 
seus combates. 

3. S Paulo. Oriundo da Judôa, nas- 
ceu em Tarsa, cidade da Cilicia. De- 
pois de ler perseguido os christãos 
tornon-se o mais ardente apostolo do 
evangelho, pregando primeiro em Da- 
masco, e depois em Jerusalém, onde 
encontrou S. Pedro; depois em An- 
tiochia, onde fez tantas conversões 
que os fieis ahi receberam o nome de 
christãos. Em seguida partiu para a 
ilha de Chypre onde converteu o go- 
vernador Sergius Paulus. — Acompa- 
nhado de S. Barnabé, percorreu toda 
a Ásia menor, voltando á cidade de 
Lystre onde curou um homem para- 
lytico de nascença. Á vista d'este rai- 
lagíe os habitantes idiaginarara que 
os apóstolos eram deuses, e quizeram 
oíTerecer-lhes sacrificios. — S. Paulo 
tendo voltado a Phiiippes, na Mace- 
dónia, com um discipulo chamado Si- 
las, livrou uma rapariga escrava que 
andava possessa do demónio. Os se- 
nhores d'esla escrava ficaram irrita- 
dos, porque ella costumava predi- 
zer o futuro, é d'ahi lhe provinha 
muito dinheiro : por este motivo, pren- 
deram Paulo e Silas a titulo de per- 
turbadores do socego pul)lic.o, fa- 
zemlo-os açoutar. Porém, durante a 
noite os alicerces da prisão foram 
abalados, as portas abertas e as ca- 
deiasdos prisioneiros rompidas; ocar- 
cereiro fez-se baplisar e toda a sua 
família, ena seguinte manhã soltaram 
Paulo o Silas. - De Phili|)pes, Paulo 
passou a Thessalonica, onde fundou 
uma igreja de fervorosos christãos a 
quem elle mais tarde escreveu uma 
das suas cartas. Ern seguida foi a 
Athenas, apresentou-se dianle do 
Areópago, conftnuliu a philosophia e 



a idolatria, e partiu logo para Corin- 
tho, onde formou uma christandade, 
á qual dirigiu depois duas epistolas. 
Voltando a Jerusalém, passou por 
Troada, onde resuscitou um mance- 
bo que cahira d'uma janeila á rua ; foi 
preso no templo pelos judeus, e en- 
tregue ao governador romano, que o 
enviou a Roma para ser julgado no 
tribunal de Nero. Passou S. Paulo 
dous annos na prisão, e obtendo em 
fim a liberdade, passou ao Orien- 
te, entrando em Roma com S. Pedro. 
Elles encheram a cidade, e até o 
palácio de Nero de christãos; e por 
isso foram condemnados á morte a 
29 de junho do anno 66. 

-i. Oís onlros iipostolos. S. Tliiago 
Maior pregou ás doze Iribus de Israel, 
dispersas nos difíerentes pontos da 
terra, penetrando até á Hespanha. — 
Santo André, irmão de S. Pedro, levou 
o evangelho até á Ásia menor e ao 
paiz dos Scythas. — S. João, o mais 
moço dos apóstolos e o amigo parti- 
cular de Nosso Senhor, pregou entre 
os Parthos, fixando residência em 
Ephéso. Exilado na ilha de Pathmos 
por Domiciano, ahi escreveu o seu 
Apocalypse, isto é, a revelação das cou- 
sas que deviam succeder á igreja no 
decorrer dos séculos. Em seguida vol- 
tou a Epheso, onde escreveu o seu 
Evangelho. — S. Thiago Menor foi o 
pritneiro bispo de Jerusalém, d^onde 
escreveu uma carta a todas as igre- 
jas. — S. Philippe, um dos primeiros 
discípulos de Jesus, foi prég;ir na 
Phrygia. — S. Bartholomeu dirigiu-se 
para os lugares mais bárbaros do 
Oriente, penetrando no interior até 
ás extremidades da índia, e voltando 
pela Arménia onde foi m;>rlyri>ado. 
— S. Matheus passou á Africa; S. Si- 
mão p.irliu para a Pérsia; S. Jutlas 
foi implantar a fé na Libya. e voltan- 
do a Jerusalém morreu na Arinenia 
depois de ter escriplo uma caria di- 
rigida a todas as igrejas, preinuniu- 
do-as contra as heresias nascentes — 
Foi (Teste modo (jue os n|)Ostolos de- 
pois do {'entecostesse dispersaram por 
(lilTorentes paizes, a fim de levar por 
Ioda a parle a boa nova. — Dii'lar uma 
a unid estas quatro lições, fa/.endoas 



2í).i 



CIIK 



CHR 



(Jecoiar. (Veja Hklk.iÃo, Apuloíhs- 
TAS, l'Aiiiu;s, <;l(;.) 

l'h\liis()jilna do (llii isliiuusnio. « A 
cxislfiici.i (1(; lima doiiliiiia mural 
c()iil»''iii iicccssa? iaiiKMUe em si a exis- 
tência (Ic inuilos fados : as acções dos 
iioiiiciis são as siil)slili;icões das fór- 
mulas, por assim di/.cr, algchricas, 
chamadas ou crenças religiosas oii 
Uieorias d(! oflicios e de\(íres. Toda a 
importância de (|uali|uer sciencia de 
aj)pli(:ação deriva-se não tanto d'('lla 
como dos seus resultados práticos, e 
é por elles ipie ilevemos avalial-a. A 
scieni:ia dos actos humanos pertence 
a esta (•ale},'oria. 

icQu.indo a morai se íli-nia nas re- 
velações huscatlas no céo, denomiiia- 
se religião: ijuando nas inspiíações 
espontâneas da consciência, deiiomi- 
nase lei natural; quando no estudo 
das relações sociaes, e nas conse- 
quências lógicas do grande principio 
humano chamado sociaí)ilidade, de- 
nomina-se philiiso|)hia. Kstas Ires es- 
pécies de normas d^acções conduzem 
forçosamente a resullailos dilT.Mentes, 
porque as suas condições são diver- 
sas. 

«Philosophia — consciência — reli- 
gião: Ires fontes do bera obrar; de 
tudo (|uanto ha grande, bello, e ge- 
neroso 110 desterro da vida. Qual d'el- 
las é mais pura e caudal? 

«A religião: porque a religião não 
fluctua nos seus preceitos, aceita o 
homem como um typo de miséria e 
da grandeza, como corpo e como es- 
pirito, e exige de nós a moralidade 
em nome de uma causa final— a vida 
das lecompensas. 

«Ligados com especulações ontoló- 
gicas, com doutrinas melaphysicas, 
vacillanies, contestáveis, e perpetua- 
mente contestadas, os princípios iiio- 
raes das escolas philosophicas tem se- 
guido de perto, arrastados por ellas, 
todos os desvarios d'essas doutrinas 
até o nosso tempo, ,í,Quem nos diz 
que as de hoje não serão rejeitadas 
como erros, ou, mais rigorosamente, 
quem nos diz onde está a razão, e a 
verdade no meio do combate, que 
ainda dura entre as diversas parciali- 
dades, u'esla provinda do mundo iu- 



lellei;ti]alV Quem nos diz ijue a nossa 
sciencia não será matéria de riso para 
a ^!eiaçi(j ipje hade succeder-nos ?! 

'íA historia da pliilonopliia é a iiis- 
toria de um edilicio < omeçado ha tni- 
Ihaics d'annos, cm que um século 
revolve os fundamentos que outro 
lançou, para lançar os seus, os ijuaes 
igualmente são revolvidos |)elo século 
seguinte, cujos trabalhos condeinnará 
o ipie vieT após elle. 

«tDesde a moral de Platão deduzida 
do amor da formosura divina ; desde 
a moral de K|iicuro, moral negaiiva, 
que põe o profundo desfuezo <ia hu- 
manidade como pedra angular df) pro- 
ceder humano: desde as escolas da 
Grécia ale o nviterialismo grosseiro 
dos encyclopedislas, ijue nia\iiiia, i^ue 
regra de acções deixou iJe ter aliares, 
deixoudeseicondemiiada /Nenhuma. 

«Constância, perpetuidade, só a 
teem os preceitos immutaveis das 
crenças leligiosas. 

«Substitui, porém, o individuo á 
escola : substitui a inspiração da con- 
sciência aos laciociniits do entendi- 
mento, mais incompleto, nuiis vacil- 
lante e mais esteiil será ainda o sen- 
timento moral. 

«De que dependem os aíTeclos do 
coração? Da iiidole e engenho do ho- 
mem, da sua educação, hábitos, pro- 
pensões, e até da sua [ihysiologia. 
Mais: a doença ou a saúde, a felicidade 
ou o infurlunio, fazem vanar o seu 
modo de sentir em relação aos seus 
semelhantes. Os instincios da con- 
sciência só podem por isso produzir a 
anarchia moral, a contiadicção dos 
actos humanos. 

A virtude sem fé não tem verbo 
que a explique; éuma linguagem es- 
cripta com caracteres hieroglyphicos, 
que se vêem sem se comprelieiulereui, 
em que os eruditos só encontiam ma- 
téria de discussão e de conjecturas. 

«Estas considerações rápidas e abs- 
tractas tornam-se mais evidentes, ap- 
plicando-as ás doutrinas especiaes, e 
a um aspecto único d'estas. Deixemos 
de parte a fonte moral da consciência, 
que ora derrama o mel, ora o absyu- 
tho; ora verte o bálsamo das conso- 
lações, ora é árida como o rochedo 



CHR 



CHR 



2O5 



tostado de serrania núa e erma, e que 
será sempre na terra um acaso, ou 
um myslerio. Chamemos ú prova a 
pliilosophia do nosso tempo e a reli- 
gião do nosso paiz: estabeleçamos a 
comparação enire ellas no mais gra- 
ve e impôrtanle dos seus resultados — 
a beneficência. 

<!:D'onde viemos nós os (|ue ora vi- 
vemos? — qual éa nossa filiação intel- 
lectual e moral? A geração presente 
veio de unja geração argumentadora 
6 incrédula ; a nossa época veio de 
uma época em que o orgulho dos ho- 
mens chamou a crença divina de de- 
zoito séculos ao tribunal humano de 
uma dialéctica implacável : nascemos 
no meio das blasphemias e alaridos 
dos inimigos do Evangelho: assisti- 
mos ainda aos nlumos dias do julga- 
mento: ainda ouvimos condemnar a 
doutrina de Jesus porque era indigna 
da grandeza de Deus, e porque não 
era atlieistica ; porque era severa, e 
porque era indulgente; ponjue era 
copiada de crenças antigas, seguidas 
largos annos por milhares d'homens, 
e porque era impossível seguil-a; 
porque era perturbadora doseslados, 
e porque era um elemento de servi- 
dão. Aferido pelas opiniões mais op- 
poslas, e no tim rejeitado por contra- 
rio a todas ellas, vimos o christianis- 
mo expulso do templo da pliilosophia, 
e a cruzdesterriída como um syrabolo 
inuiil. As escolas dos sophistas (|iie 
não podiam. convir entre si no míni- 
mo ponto de duutrina, concordaiam 
todavia n'um icsultado: foi este, que 
a religião, clara, detinida, aceita pe- 
las mais profundas e vastas intelli- 
gencias que o mundo produzira em 
perto de dous mil annos, origem de 
inniiineravpis acçõ(!s nobres, formo- 
sas e sublimes, causa principal e quasi 
única de todo d piogressodas socieda- 
des modernas, era absurdo e mentira, 
era um mal inloleiavcl, e (|ue no cabos 
moiisliuoso, cambiante, incerto das 
doutrinas contradiclorias <los sophis- 
tas (|uo nem um só bem haviam trazido 
á terra, iumu enxugado uma lagiima, 
nem gerado um;i consolação, nem 
inspirado um só feito generoso e for- 
te, eslava a verdade, a evidencia, a 



felicidade, e o fundamento seguro do 
crôr e do obrar humano. 

•íEra demasiado demente e ridicula 
esta pretençâo dos sophistas, para 
que a época actual lhe não voltasse 
as costas com tédio e desprei:o. Mas 
a cruz jazia por terra, cobei ta de lodo 
espadanado contra ella por insensa- 
tos : o seu antigo prestigio estava des- 
truído, e os homens passaram muito 
tempo por ella, sem que houvesse 
uma intelligencia robusta que ousasse 
ajoelhar na enciuzilbada, e abraçar- 
se com o symbolo da redempção. Os 
primeirosque otentarau) tinham por 
certo grande coração; porque o con- 
trastar o escarneo das turbas é a mais 
subida prova de esforço. A energia 
d'esias almas teve a sua recompensa 

— a consciência de haverem contri- 
buído poderosamente para a restau- 
ração moral da sociedade — e se o 
cbrislianisrao não trinmphou ainda 
completamente das preoccupaçõfs ver- 
gonhosas do século passado, não se 
carece de grande perspicácia para an- 
tever que não tarda o dia em que a 
Europa seja outra vez verdadeira- 
mente christã. 

^0 espiritualismo é hoje sem contra- 
dicção o aspecto característico da phi- 
loso[)hia, como o da escola, ou antes 
escolas dos encyclopedistus fòi a o ma- 
terialismo ! Estes dous syslemas, am- 
bos elles orgulnosos por diverso mo- 
do, e por diverso modo incompletos, 
ahi estão frente a frente, abi lutam 
desespeiados, até que um seja esma- 
gado pelo outro, sorte que, segundo 
parece, está reservada ao mais velho 

— o da pura animalidade dos ency- 
clopedístas. 

«Todos os homens, cujo espirito é 
mais ou menos cultivado, sei;uein ou 
por inlluencia da authoiidade alheia, 
ou po!" meditação piopiia, uma d'es- 
sas doutrinas: ambas ellas actuam 
portanto no caracter moial d;is clas- 
ses elevadas : (pianlo ás inferiores cus- 
ta-nos a dizer que um sensu;dismo 
biulal predomina nos seus l.;ibitos e 
insliiulos; (|ue o nialeiiiilisiuo, ptuico 
a pouco ex[)iilso do meio (r;i(iiielles, 
(|ue primeiro recebem as inspirações 
de uma civilisaçáo progressiva, vai 



200 



ClIK 



CHR 



aniiiliar-sn nas lahcriias, iios prosti- 
hulos, (' o (|ii(' iiiiiilo (• (Ic sííiiiir nas 
clioiiiianasfolinailas. Km mais tl'uína, 
(|uaiiil() .1 (Irsvciiliira s<í assoiUa ao 
j)ol)i(; lai (lo caiiiponr'/-, esU', íjiie 
d'atUfs SC ahri^^ava na rcsignaráo, no 
orar, no dcriainar la^;iiinas aos pés 
da crnz, procnra agora o csíiMci-imcn- 
lo na cniliiia^MU'/., o icrncdio da ini- 
soria no loutx), c ali'- a salvarão no 
snicidio. A incrcdiilidadc, aincarada 
dft d('st('n"o nas rrK'<'"'í^ onde |»or niais 
de cincocnta annos imiMTáia como 
rainha, fa/,-so fabril c hui^olica : so- 
nliorM (' dispiiiadnra ainda lia pouco, 
lonia-sc nidc, hcsLial, o grosseira. 
Quantas vc/.cs lemos ouvido saliir de 
liiimilde albergue os sons leiriveis de 
profundo descier !— (|iianlas vezes le- 
mos respirado o bafo morlal da blas- 
phemia sabido iJe babitações, onde a 
única excepção ás extremas misérias 
da existência fora a esperança! A 
causa d'este aííliclivo es|ieclaculo bus- 
cai-a na bistoria dos desvarios dos 
últimos oitenia annos: oshomens que 
podiam remediar lanlo mal; aquelles, 
que na signilii-ação mais extensa da 
palavra, presidem aos destinos popu- 
lares, são lilbos intellectuaes, são dis- 
cípulos da Enryclopedia. Todos os 
meios mais santos, mais suaves, e 
produclivos da felicidade publica— os 
religiosos, leeni sido condemnados no 
espirito snperticial d'essesbomens co- 
mo perigosos e ineflicazes, e o cbris- 
tianismo, o grande civjlisador dos 
tempos modernos — consideiado co- 
mo um instrumento quebrado e in- 
útil. Assim o povo abandonado a si 
mesmo, quasl sem culto, e sem pas- 
tores, vai perdendo diariamente a sua 
riqueza moral, a berança de crença 
e doutrina que Ibe baviam legado 
seus pães. A religião, cujo primeiro 
alvor começa de novo a despontar no 
oriente do nosso intimo viver, tão des- 
corado e triste, apenas se entievô no 
horisonte das alturas espiritualistas; 
são, porém, profundas as trevas nos 
valles e nas planícies rasteiras, onde 
pousam as névoas mephyticas de um 
sensualismo hediondo. 

<íTal é o estado moral da sociedade : 
duas pbilosophias contrarias, que pe- 



leja m n)ais um d>sses combates tra- 
vados entre ellas diariamente desde 
milhares doarmos : as almas nobres 
lidando em sib^ncio para despertarem 
do snmno estúpido do sceplicismo ; e 
o povo danr.jndu tristemente feroz 
sobre as ruinas do altar e da cru2. 
Vejamos como esses três elementos — 
as duas doutrinas rivaes, e a bruta 
indilTerença da ignorância se tradu- 
zem na vida : [iroiiiiemos o sen valor 
na applicação — n^iiin facto — e com- 
paremos este com o facto análogo como 
o produzia d'antes, como o produzira 
ainda hoje, se fo>se dominadora en- 
tre os homens, a moral divina do 
Calvário. Acareemos o amor dos ho- 
mens em Deus — a caridade — cora o 
amor dos homens pelas doutrinas das 
escolas, não das que ensinam a du- 
reza de coração e o egoisino. mas das 
mesmas que ensinam essa compaixão 
e humanidade, a que se chama phi- 
lanthropia. 

«Vôde aquelle edifício: as janellas 
estão abertas; os espelhos das pare- 
des, os fechos dourados dos umbraes 
e portas, os adereços de pedras pre- 
ciosas que adornam as mulheres, cus- 
tosamente trajadas, refrangem multi- 
plicados os raios de luz derramados 
dos lustres esplendenles : ouvem-se 
lá dentro as toadas harmoniosas dos 
instrumentos, e vozes humanas que 
modulam cantos voluptiiarios: vé-se 
d'ahi a pouco o turbilhão das danças 
passar cercado de um ambiente de 
perfumes, que derramam as essências 
e as ílôres variegadas: os mais deli- 
cados manjares, as bebidas mais de- 
liciosas giram no meio d'a(]uella turba 
que se agita como possuída de loucura 
febril: o deleite pinta-se em lodos os 
rostos, porque a um tempo ahi o as- 
pirara lodos os sentidos; — aspira-o, 
até, a imaginação, porque muitas ve- 
zes lá desabrocha a primeira espe- 
rança da corrupção e do adultério; 
lá, n'essa atmospíiera impregnada de 
seducções, de sensualidades, de delí- 
rio, as paixões mai» ignóbeis refer- 
vem e trasbordam despeadas, porque 
a poesia de que ahi se reveste a vida 
material e externa faz esquecer ainda 
ás almas mais generosas e fortes os 



CHR 



CHR 



207 



contentamentos da vida intima; lá, 
em fim, a própria virtude troca seus 
brios em languidez, e deixa-se mor- 
rer, como o viajante que debaixo da 
sombra atraiçoada da mancenilha sen- 
te coar-lhe a* morte nas veias, e mal 
cuida que esse adormecer suave que 
o consola seja um somno perpetuo. 
«Esta sala esplendida é uma escola 
de perdição, inslituida por homens 
corruptos no mPÍo da sociedade que 
tocou a. meta da decadência e do des- 
caro? É Roma serva que se alevanta 
do seu pó e renova ei:tre nós os se- 
rões vertiginosos de Trimalcião? Na- 
da d'isso. ^^e quereis a explicação does- 
te espectáculo, o programma d'este 
ardente festim, entiai em est'outro 
edifício, onde a custo vedes através 
dos baços vidros de breve janella 
frouxo luzir de lâmpada, semelhante 
a eslrelia longiiiqua. vista através de 
ar chuvoso por fenda rasgada em céo 
negro. É ura conventinho onde ha 
annos calaram as orações monásti- 
cas. Entrai. O dormitório está em si- 
lencio: a alan)pada, cujo bruxulear 
enxergastes de longe, pende do tecto 
no cruzar dos corredores : esses quar- 
tos ou cellas estão povoados de infe- 
lizes, que recuando ante o aspecto 
da fome vieram acolher-se á morada 
destinada para aquelle que não achou 
quinhão no ban(iuete da vida. Este 
lugar melancólico e pohre é um asy- 
lode mendicidade ; a(|ueiroutro, ale- 
gre e esplendido, uma sala de baile. 
A ebriedade do festim nocturno pro- 
duzirá um bem ; alimentará estes ve- 
lhos e inválidos; foi essa a condição 
do deleite : as paixões — talvez os vi- 
cios—fazem-se humanas, e civilisam- 
66. E um progresso real; e este pro- 
gresso—sejamos justos— deve-sc á il- 
histração e á pliilaniliropia. Ellasteem 
sabido fazer que propensões e alfectos 
culpados e menos nobres combatam 
contra outros ainda mais vergonho- 
sos e destruidores ; e d'esses comba- 
tes tem sabido habilmente tirar van- 
tagens para o bom f honesto. Assim 
na grande iuimoralidade das loterias 
existe pela cubica uma contribuição 
espontânea para' a infância abando- 
nada ; assim a avareza mata, nas cai- 



xas económicas, o jogo, a embriaguez, 
a gula ; assim a grande prostituição 
dos iheatros chega a ser digna de per- 
dão quando o preço d'indecencias vai 
fazer subsistir os institutos de educa- 
ção infantil. Agradeçamos tudo isto á 
orgulhosa intelligenéia humana : são 
estes os mais brilhantes resultados do 
seu progredir, e, sinceramente o di- 
zemos, se mais não tem feito, é que 
nunca ella poderá ir mais longe do 
que a espalhar benefícios materiaes. 
D'ahi avante só a religião acha senda 
para caminhar. A generalisação é o 
caracter das doutrinas da escola. Es- 
tas quando ensinam o beneficio, at- 
tendem a uma abstracção — ao ho- 
mem, não os indivíduos O amor pie- 
doso dos nossos semelhantes chama- 
se por isso philanlhropia : o christia- 
nismo chamava-lhe caridade. A cari- 
dade vinha do coração; a philanlhro- 
pia nasce do entendimento. Hoje os 
corações estão mortos porque a cren- 
ça passou : vive a intelligencia porque 
a excita e cultiva uma civilisação vi- 
gorosa. 

«O christianismo entendia de bem 
diverso modo o amor da humanidade, 
porque entre este amor e o género 
humano estava a idéa de Deus. A ca- 
ridade era affectuosa, modesta e es- 
piritual, em quanto a pliilanhropia é 
dura, ostentosa e grosseira. Entre um 
e outro systema de bemfazer ha a 
distancia que vai da philosopliia do 
céo á philosophia terrena O chi istia- 
nismo sabia que no homem havia es- 
pirito e corpo. O cbristão sabia doer- 
se de um e d'oulro: a sua caridade 
não era materialista. 

«Que vale a vossa virtude, filha da 
civihsação, comparada á (jue se estri- 
bava na fé? Que lucri'U o mundo em 
trocar a humildade sublime dos (|ue 
buscavam por toda a parle amaipuras 
da alma p;ira consolar, dores pliysi- 
cas |)ara mitigar, pela soberba faslosa 
d'a(iuelles para quem é precis.) velar 
a boa obia com a masc;ir;i ;il(iacliva 
das paixões ou do delnieV ,\ vossa 
beneficência esquece c(*mplel;imente 
a vida inlerior; e era a esia que a be- 
nelicencia religiosa dedicava os seus 
mais ricos thesouros, a sua mais alTe- 



Í08 



GIIK 



CHR 



cluosa conipaixrKj. V(j.s, (|ue so vos dá 
das .igoiiias do rspinlo V 

<iN'('.s.sa mocada, Iti.sttj, pobr»;, si- 
lenciosa, e es(|ii('(;ida, revorso negro 
do iiuadro hiiltiaiilo de um hade; 
n'essa njosina liabilaçào do incndij^o, 
(jue é todavia unia das insliUiicòcs 
mais formosas (! putas dos nossos dias, 
iremos buscar um cxcmido. Vereis 
(jU(!a |ilMlanlliro|iia não supprea cari- 
dade, ou |)ara mcllior di/cr (|ue a ci- 
vilisação iiiio suppre o clinsLianismo. 

«Solire uma das duras (Mixeri,'as, 
enlileiradas pilaspared('sd'essesapo- 
sonlds desadornados, dorme um ve- 
llio C('^;o, cujo loslo vos encobre a es- 
cassez da 111/. (|ue aluii ia o doiuiilorio. 
Inlerrompein-llie a espaçoso res-pirar 
sereno esses ge'uidos, (|ue ainda em 
sonhos a dòr n)oi-al sabe arrancar- das 
proluiidczas do coração, sem (]ue os 
Jabios s(! descerrem Que imporia isso 
á pbilanlhropia? Klla deu-lhe pão e 
uma enxerga. Que importa as chagas 
envenenadas(|ue lhe lavram lá dentro? 

— Deu-se-lhe um teclo que o j-es- 
guarde das injurias do tempo. É o 
que basta : o cancro interior não se vê. 

«K todavia se indaga ides a historia 
do cego mendigo achai'eis (jue havia 
ahi alguma infelicidade mais profun- 
da e tremenda, a que fOra necessário 
applicar, não os soccorros materiaes, 
mas o bálsamo d,is consolações. Era 
um homem honesto, a quema ceguei- 
ra fez pobre. Duas tilhas o alimenta- 
vam do producto do seu trabalho: 
fallou-lhes este uiu dia — uma semana 

— um niez — ; e a miséria da farailia 
desventurada chegou a extremidade 
horrivel. Então a devassidão veio em 
nome da fome bater á porta das que 
até aqueile momento haviam sido pu- 
ras, e ellas a seguiram ao prostibulo. 
As duas arvores frondosas nascidas 
da raiz do cedro carcomido, e que lhe 
encobriam a decrepidez com a sua 
verdura, foram cerceadas, e o sol ar- 
dente acabou de mirrar o cedro mo- 
ribundo. Aquella alma dera em terra 
nos transes de dilatado morrer. A 
philanthropia passou por lá— eencon- 
traiuio-o no charco da rua, afastou-o 
com o pé para o receptáculo caiado 
d'este género de misérias, e depois 



foi badai nas suas salas douradas, 
para (jue o velho mendigo tivesse um 
bocado de pão negro para temperar 
cíjin lagrimas, e um pedaço de saial 
giosseiro para se cobrir. Kra só d'is- 
to ; — cia piincipalmentc d'isto t\\ie 
elle carecia ? 

«Não, mil vezes náo ! — Mas a civi- 
lisação fez o (|ue pôtjtí .Seria loucura 
cxigii' imp(js.si\eis da ptnlanlhi<j|ua. 

«O i|ue, porém. íòia para ella im- 
praticável, fal-o-hia sem custo a ca- 
ridadf! do chrislianismo. 

«A benelicenciii, inspirada pela re- 
ligião, não t(ím essa triste faculdade 
de geii(»ralisar que paia a benelicen- 
cia philanti(jpiia se converteu n'ura 
principio. Os seus preceitos .-ão uni- 
versaes e rigorosos em si, mas na ap- 
plicaçào tornam-se individuaes e va- 
riados. A caridade chrislã teria cru- 
zado talvez o limiar d'aquella família 
mesquinha, antes ijue a devassidão 
houvesse chegado lá, guiada pela mâo 
da fome: teria sido para idia a provi- 
dencia. Mas quando houvesse vindo 
tarde para impedir o mal, conb-nlar- 
se-hi3 de atirar ao infeliz <; abando- 
nado cego um pedaço de pão negro? 
Oh por ceito que não! Teria escuta- 
do os gemidos (Paquilla alma altribu- 
lada: teria fullado ao desditoso de 
Deus e da esperança: leria chorado 
com elle. Fana in.iis: procuraria ar- 
rancar á devassidão as suas viclimas: 
alcançal-o-hia talvez, e leconslruiria 
pelo arrependimento a felicidade de 
uma familia ; porque só o mundo, que 
se cré mais perfeilo que o céo, é in- 
exorável para com aqueile que uma 
vez errou: a fé, essa tem perdão e es- 
quecimento para 0(jue se converteu. 
Fora tudo isto o que fizera a benefi- 
cência chiistã, e não arrojara o co- 
ração despedaçado do velho para um 
theatro de misérias, onde muitas ve- 
zes se misturam com ellas a cólera, os 
vícios e a desesperação. 

»0 defeito capital da beneficência, 
que não se estriba no chrislíanismo, 
é o esquecimento completo dos afTe- 
ctos humanos: é por isso que despe- 
daça indiíTerente os santos aíTectos 
de familia, para disseminar os indi- 
vidues na realidade da vida pelos re- 



CIC 



CIC 



209 



partimentos e casas dos quadros es- 
tatislicos da miséria publica. A pater- 
nidade, o amor filial e materno, as 
saudades do lar domestico, isso não 
comprehende ella: para tudo e para 
todos tem as>los e soccorros, menos 
para a mais importante entidade mo- 
ral, para a sociedade que é origem de 
todas as outras, para a familia. 

«A beneficência d'hoje conhece ape- 
nas a sede, a fome, a nudez: a nossa 
beneficência é essencialmente com- 
pleta, porque é materialista. 

«Condemnamos nós a sua existên- 
cia? Sem duvida não! Abençoamos, 
ao contrario, os homens que supprem, 
como um pensamento mundano pôde 
supprir, o subhme pensamento chris- 
tão. Mas spja-nos licito deplorar que 
o orgulho da sabedoria terrena acre- 
ditasse que em si tinha recursos que 
tornassem inútil a eterna e insondá- 
vel sabedoria do evangelho: seja-nos 
licito saudar a auroia d'esse dia que 
já rompe no horisonte, em que a cruz 
Iriuiiiphante se hasteará de novo so- 
bre o mundo, para abrigar e conso- 
lar outra vez com a sua sombra divi- 
na todo o género de desventuras.» (A. 
Heiculano). 

CHROMIO. (Veja Metaes). 

CHUMBO. (Veja Metaes). 

CHUVA. (Veja Meteoros). 

CÍCERO, philosopho, moralista eo 
maior orador romano, nasceu em Ar- 
pinium, pátria de Mário, 106 annos 
antfs de Jesus-Christo. Cursou tem- 
porãmente os estudos em Roma. Aos 
126 annos de idade, estreou-se no 
foro, e sahiu a viajar por Ásia e Gré- 
cia. Tendo trinta annos, foi enviado a 
Sicilia, como queslor, e lá se houve 
tão honradamente n^este ollicio, que 
os sicilianos a elle recorreram depois 
para accusar Verres (lue os desbali- 
sara com escandalosas concussões. 
Aptts este famoso processo, foi no- 
meado eilil, e l(.go depois acclamado 
cônsul. Na correnteza de seu consu- 
lado, delatou a vasta conspiração for- 
jada por Catilina, que lhe havia dis- 



putado o lugar. Pai da pátria o accla- 
maram então galardoando-lhe assim 
a energia; mas, lambem, desde logo 
o perseguíramos antigos faccionarios 
de Catilina, por modo que foi dester- 
rado em 69Õ. Repatriado no seguinte 
anno, foi governar a Cilicia; e, na 
volta da sua província, accendeu-sea 
guerra entre César e Pompeu. Cicero 
bandeou-seem Pompeu; mas, depois 
da batalha de Piíarsalia, conchavou- 
se com César; e, logo que este foi as- 
sassinado, declarou-se em pró de 
Octávio, sobrinho de César, profli- 
gando com as suas Pliilippicas os pro- 
jectos ambiciosos de António. Porém, 
como quer que Octávio e António for- 
massem com Lepidoo triumviralo, Ci- 
cero foi iiiscripto na lista da proscri- 
pção. Estava elle, ao tempo, na sua 
quinta de Tuscuhim. Primeiro tentou 
fugir; mas, como não podesse, enlre- 
gou-se animosamente aos soldados 
encarregados de o matarem. O caudi- 
lho da soldadesca degolou-o, e dece- 
pou-lhe as mãos, que juntamente com 
a cabpça estiveram expostas alguns 
dias no tribunal oratório. Deixou Ci- 
cero oito tratados de rhelorica, cin- 
coenta e seis orações, doze tratados 
philosophicos, quasi todos preciosos; 
dezeseis livros de epistolas ao seu 
amigo Attico, poemas bastantes, e 
até, se Plínio não mente, um tratado 
de historia natural. 

2. Cicero orador. A poesia, diz M. 
de Clerc,era em Cicero mero desfas- 
tio; que o seu talento eminente e so- 
berano predicado era a eloquência. 
Foi- lhe Demoslhenes modelo, cujos 
vestígios tiilhou com tão jjrosperada 
emulação que mereceu de S. Jerony- 
mo este brilhante louvor: Deinostlie- 
nes tirou-te a gloria de ser o pri- 
nieiío orador; e tu a elle tirasle-lhe 
a gloria de ser o único. ícAs excelieií- 
cias doestes dous oradoies, em gran- 
de paite, correm parelhas: meihodo, 
ordem, maneira de dividir, de |ire- 
parar, provai, em liin, linh» que é da 
invenção. Respeito a elocução, ili\ersi- 
ficava tanto ou (luaiilo. Demoslhenes 
é mais apanhailo, (cicero mais proli- 
xo; o primeiro concluo com maior 
precisão, o segundo mais dilTusaiuen- 



210 



CIC 



CIC 



te, o primeiro fere com a ponla do 
gladio, o sogurido esmntça com o pe- 
so da armaíJiira; nào lia í|ue lirar a 
uni nem acrcscciílar a oiilro; cm Cí- 
cero domina o trabalho, cm Dcmos- 
theiícsa nativa espoiííaiieidadíí. K iii- 
coiilcslavrl (|ii(» Cícero avaiitaja-se a 
DemoslIiíMiesiio nso jáda salyra, já do 
pallietico. Todavia, como fi oulro llo- 
resceii piimeiro, pódc di/er-se (|iie 
Cíceio deven i^raiide parle do que foi 
a Demostlieiies. I*eisiia(l()-me eii que 
Cícero se deu Iddo a imilar os gre- 
gos, (! assim lofírou rcjiroduzir a ener- 
gia de Demnsllienes, a co[)ia de IMa- 
tàOj e as graças de Isocrates; e não 



só fez seu [lor meio do estudo o me- 
lhor de cada um d\'M|uelks escripto- 
res, mas ainda grande |)3rle, senão 
todos, dos seus predicailos brotaram 
da feliz fecundidade de seu engenho 
immortal. Núo é reservatório que re- 
cebe as aguas pluvijcs, como di/, Cin- 
daro, mas torrente que deriva inun- 
dando o leilo. Dir-se-hia ser el- 
le obra da Providencia (jue, ao en- 
vial-o a este mundo, (\\\h n'elle con- 
substanciar todas js virtudes da elo- 
(|uencia .. iQiiinliliano). 

:{. Pensamentos escolhidos de Cí- 
cero : 



i. Interesse nportet, ut inter rectiim et pra- 
vum, sic inter veruin et falsum. Acad., IV, 31. 



2. Honestum in sapientibus est solis, neque a 
virtute divelli unquam potest. Off., III, 13. 

3. Sapiens omnia humana tolerabilia ducit. 
Tusc, V, 6. 

4. Non utilitatc omnia metienda saiit. /.'■;/., 
I, 42. 

5. Magi5tratiis lex est loquens, Icx autem, 
mutus magistratus. Leg., III, 1. 

f>. Apes senectutis est auctoritas. Sen., 60. 

7. Consuetudo est altera natura. Fin., V, 74. 

8. Fortitudo virtus est propugnans pro a;qui- 
tate. Off., I, 02. 

9. Bonum mentis est virtus. Titsc, V, 67. 

10. Virtutum amicitia adjutrix data est, non 
vitiorum comes. Fin., 1, 72. 

11. Nunquamproditoricredendumest. Verr.. 
I, 15. 

12. Occultte inimicitiaj magis tinendaj sunt 
quam aperta3. Verr., V, 71. 

13. Libcr is est existimandus, qui nulU turpi- 
tudini servit. Her., IV, 24. 

14. Maximus in republica nodus est inópia rei, 
pecuniariae. Br., 18. 

15. Custos virtutum omnium verecundia est. 
Part., 22. 



1. Entre a verdade e a mentira <• forçoso que 
h«ja a mesma difTerença que estrema o bem da 
maH 

2. A virtude realça mais nos .sábios, e nio ha 
separal-a da inteireza de vida. (') 

3. O sábio julga todos os males da vida «up- 
portaveis. 

4. Não se meça tudo pelo interesse. 



5. O magistrado é a lei que falia, e a lei é o 
magistrado «ilencioso. 

6. A authoridade é a coroa da velhice. 

7. O costume é segunda natureza. 

8. A coragem é a virtude propugnando pela 
justiça. 

9. A virtude ú um thesouro da alma. 

10. Foi-nos dada a amizade como auxiliar da 
virtudes, e não como sequaz dos vicios. 

11. Ninguém se fio em traidores. 

12. As inimizades secretas são mais de temer 
que as declaradas. 

13. Deve considerar-se livre quem não é es- 
cravo de paixões torpes. 

14. A maior difficuldade na republica ésa 
falta de dinheiro. 



15. O pudor é a sentinella de todas as virtu- 



des. 



(■) Não seguimos a versão d letra por nos pare- 
cer inaceit;\vel a sentença. Ha muita gente igno- 
rante e honesta. 



CIC 



CIC 



2H 



16. Firmamentum stabilitatis constantiseque 
in amicitiâ fides est. Am., 18. 

17. Jucunda est memoria prseteritorum ma- 
lorum. Fin., II, 105. 

18. Conscientia rectae voluntatis máxima con- 
fiolatio est rerum incommodarum. Fam., VI, 4. 

19. Multorum malorum in anã virtute posita 
sanatio est. Tusc, IV, 15. 

20. Vitanda est ingenii ostentationis suspicio. 
de Or., II, 81. 

21. Ut quisque optimc dicit, ita maxime di- 
cendi difficultatem pertimescit. de Or., 1, 120. 

22. Avari liomines non solum libidine augen- 
di cniciantur, sed etiam amittendi metu. Parad., 
1,2. 

23. Terra ad universi coeli complexam quasi 
puncti instar obtinet. Tusc, 1, 40. 

24. Divitias sine divitum esse : tu vero virtu- 
tem pncíer divitiis. ad Her., IV, 20. 

25. Cujusvis hominis est errare ; nuUius nisi 
insipientis in errore perseverare. PhiL, XII, 15. 

26. Ut adversas res, sic secundas immodera- 
te ferre levitatis est. O//"., 1, 00. 

27. Fortis animi et constantis est non pertur- 
bari in rebus asperis. Off., I, 80. 

28. Principum múnus est resistere et levilati 
multitudinis et perditorum temeritati. MU., 3. 



16. A confiança é a base da solidex e constân- 
cia da amizade. 

17. E agradável recordar as dores passadas. 



18. A consciência d'uma vontade recta é má- 
xima consolação da adversidade. 

19. A virtude só por si sana muitos males. 



29. Niliil omnium rerum melius quam omnis 
rerum mundus admiiiistratur. Inv., I, 59. 



30. Neque stultorum quisquam beatus, nequc 
sapientum (quisquam) non beatus est. Fin., I, 61. 

31. Animi virtutis ex ratione gigaunlur, quà 
niliil est in iiomine divinius. Fhi., V, 13. 

32. Omnibus in rebus neccssitatis inventa an- 
tiquiora sunt, quam voliiptatis. Or., 1H5. 



3:t. Majus est corteque gratius prodesso om- 
nil)us, quam opes magnas liaberc. .V. Deor., 1 1, 0'í. 

3'». Lacrymà nil citius arcscit. hiv., I, 5."). 



:i5. lia lidam habeamus qui plus intclligunt, 
quam nOH. O//., ||, 9. 

36. Accipcrc, quam facere, prajstat injuriam. 
iasc. V, 55. 



20. Devemos evitar que nos suspeitem desva- 
necimento de engenho. 

21. Com quanto mais talento falíamos mais 
nos assalta o receio de não fallar bem. 

22. Os avaros são atormentados não só pelo 
desejo de augmentar, mas Uunbem pelo medo de 
perder. 

23. A terra abrange um ponto relativamente 
á immensidade do céo. 

24. Deixai aos ricos as suas riquezas, e pre- 
feri para vós a virtude. 

25. É próprio do homem enganar-se ; mas 
perseverar no engano é de louco. 

26. É próprio de indole ligeira não supportax 
moderadamente a boa e má fortuna. 

27. Está na alma forte e constante não pei'- 
turbar-se nos incidentes funestos. 

28. Cumpre aos príncipes resistir á leviandade 
das multidões, e á temeridade dos homens perdi- 
dos. 

29. Nenhuma das cousas que o mundo con- 
tém é melhormente administrada que o mundo 
todo em si. 

30. Não ha parvo feliz, nem sábio desgraçado. 



31. Ks virtudes da alma nascem da razão, fa- 
culdade que mais divinisa o homem. 

32. Em todas as cousas, os descobrimentos 
que a necessidade fez, «ão mais antigos que os do 
prazer. 

33. É mais agradável ser util a todi)s iiue pos- 
suir grandes riquezas. 

;!'t. Nada se enxuga mais depressa que «ma 
lagrima. 

35. l'.oiilicnios nos que sabem nuiis do que 
nós. 

36. É melhor ser injuriado (luc injuriar. 



212 



CIC 



ClC 



37. VolupU«, qmun maijor eHt atquo longlor, 
omnc animi luriifín oxlinuml- !^'-n., ^'•i. 

38, Qiil pluiíi lixiuiliir, ík incptUH e8«s dicitur . 



39. Pcrlinct .ul beate vivcniluin, ut ( um virin 
bonifl, jucundÍH, amanlibu» tui vivan. Fatn. !X, 
24. 

W. Vir honun ft civilis oflicii nrm ignanií iili- 
lit:iti iimnimii pliis (piam muf. coiisiilit. h'tn.. Ill, 

fi\. Ni.n f>t illa fortitiido, (pi!i;rationÍKr8t PX- 
ptTK. Tusc, IV, ITi. 

W. Siimmanecodsitudo lionestatis esl; huic 
próxima, imolumilatis: tcrtia et levissima, com- 
moditatis. Inv., II, W. 

/iH. Viriu.s fst animi habitus natune modo at- 
quo rationi conKentaneus. Inv., II, IJ3. 

Vi. Turbidi animorum concitatiqiie molus 
aversi a rationn sunt et inimicissimi mentis vitre- 
que tranquillic. 7't(sc., IV, 15. 

45. Indignum est sapicnti» gravitate ntqiie 
constantia, qnod non salis explorais perceptum sit 
et cognitum, id sine ullfi dubitatione defenderc. N. 
Deor., 1, 1. 

4G. Qui se ipse norit, aliquid sentiet se habe- 
redivinnm, tantoqne muncre Dei semper dignam 
aliquid et faciet et sentiet. Leg., I, 59. 

47. Alienum est magno viro; quod alteri prre- 
ceperit id ipsum facere non posse, ad Br., 9. 

48. Difficile dictu est, quantopere conciliei 
ânimos hominum comitas affabilitasque sermon is. 
Off., II, 48. 

49. Robustus animus et excelsus omni est 1 i- 
ber cur<\ et angore. Fin., 1, 15. 

50. NuUa potest cuiquam male de republica 
merendi justa esse causa. Arasp., 44. 

51. Jus civile est jequitas constltuta iis, qui 
ejusdem sunt civitatis, ad res suas obtinendas. 
Top., 9. 

52. Temeritasest florentis aítatis, prudentia 
senescentis. Sen., 6. 

53. Is qui orationem bonorum imitatur, facta 
quoque imitari debet. Quint., 16. 

54. Taciturnitas imitatur confessionem. inv., 
II, 54. 

55. Nos ad justitiam sumus nati, neque opL- 
nione, sed natura constitutum est jus. Leg., 1, 10. 



.'n. Quando a voluptucmidade 6 muito intensa 
e demorada, a luz da almxi apaga-sc. 

3H. Homem «lui; muito falia cobra farna de 
ini-pto. 

'.tu. Quem qiilier viver feli/ tr.iti- . .,tn pescou 
virtiiOHan, at(radavcis c amigaf 



¥>. O varão honesto, c/impi:nctrado de seus 
deveres civicoM,:itteiidemais ao interesse commam 
que ao próprio. 

41. Coragem carecida de nizáo não # coragem. 



42. O ra.Hximo interetise ^: a honra, depois 
csl/i a conservarão ; por ultimo as commodidadefi, 
que são o menos. 

43. A virtude «^ uma disposirilo do animo 
consentânea ã natureza e ã razão. 

Vi. As paixões turbulentas sâo incompatíveis 
com a razão, e inimicissimas do socego da alma e 
da vida. 

45. K indigno da gravidade e constância d'um 
sábio defender absolutamente que não ha nada 
certo. 



46. O homem que se conhecer sentirá em si 
o que quer que seja divino, c j.í pensando, já ope- 
rando será digno da dadiva de Deus. 

47. Contradiz-se o homem que não faz o que 
recommenda aos outros. 

48. Difficil 6 dizer quanto a cortezia da lin- 
guagem eo araffavel prendem o animo doshomens. 



49. O animo forte e altivo está a salvo de in- 
quietações e angustias. 

50. Não ha motivo que legitime o mal que al- 
guém faça ao seu paiz. 

51. O direito civil é a igualdade constituída a 
bem de todos os cidadãos na posse de seus have- 
res. 

52. A temeridade é própria da idade \irosa, 
a prudência é dos velhos. 

53. Quem imita o dizer das pessoas honestas 
dere também imitar-lhe as acções. 

54. O silencio dá visos de confissão. 



55. Nascidos somos para a justiça, e o direito 
não foi constituído pela opinião, senão pela natu- 
reza. 



CIC 



CIC 



213 



56. Nunqunm praestantibus viris laudata est 
in unà sententiil perpetua permansio. Fam., I, 9. 

57. Quod probat multitudo in genere dicendi, 
hoc idem doctis probandum est. Brut., 189. 

58. Leges omnium salutem singulorum salu- 
ti anteponunt. Fin., III, i9. 

59. Hoc doctoris intelligentis est, sic institue- 
re adolescentes, ut alteri calcaria adhibeat, alteri 
frenos. Brnt., 204. 

60. Nunquam temeritas cum sapientià com- 
miscetur, nec ad consilium casus admittitur. 
Marc, 2. 

61. In omnium animis Dei notionem impres- 
sit ipsa natura. .V. Deor., 1, 16. 

02. Multíc nobis notitise rerum imprimuntur, 
sine quibus non intelligi quidquam potest. Acad., 
II, 7. 

63. Subjiciunt se homines império alterius et 
potestati pluribus de causis. 0[f., II, 30. 

64. Nemo unquam, sine magna spe immorta- 
litis, se pro patrià ofTeret ad mortem. Tusc, I, 15. 

65. Eloquentiaefticit ut ea, quae scimus, alios 
docere possimus. N. Deor., 11, 59. 

66. Homines ab injuria natura, non poena, 
arcere debet. Leg., 1, 14. 

67. Magni est ingenii revocare mentem a sen- 
sibus et cogitationem a consuetudine abducere. 
Tusc, 1, 16. 

68. Solem e mando tollere videntur, qui ami- 
citiam de vità toUunt. Am., 13. 

69. Varietas occurrit satietati. Or., 52. 



56. Presistir immovel no mesmo parecer nun- 
ca egrégios Varões encareceram. 

57. O que as multidões julgam da eloquência 
devem os sábios approval-o. 

58. As leis antepõem a salvação commum á 
dos particulares. 

59. K dever do mestre intelligenle educar os 
meninos de modo que faça sentir a um a espora e a 
outro o freio. 

60. A temeridade nunca se casa com a sabe- 
doria, e o acaso não é admittido aos conselhos da 
prudência. 

61. A própria natureza gravou em todos os 
corações a idéa de Deus. 

62. Temos congénitas certas idéas, sem as 
quaes nada lograríamos entender. 



63. Submettem-se os homens ao império e 
poder d'outro por muitas razões. 

64 Ninguém s« exporia a morrer pela pátria 
sem crer vivamente na immortalidade. 

65. A eloquência permitte que possamos 
transmittir o que sabemos. 

66. A consciência e não o castigo deve des- 
viar os homons da iniquidade. 

67. É próprio do homem superior resgatar a 
alma dos sentido.^, e trilhar veredas novas. 



08. Tirar a amizade da vida, seria tirar o sol 
do mundo. 



69. A variedade evita o fastio. 



70. NtiUa vit;e pars nequc publicis, neque 
privatis, neque foreusibiis, neque domesticis in re- 
bus, vacare oflicio potest. Olf., I, 2. 

71. Ut magistratibus leges, ita populo praj- 
sunt magistratus. Lcg., III, 1. 

72. Plcrique infirmissimo tempnre ;ntatis, aut 
obsccuti amico cuidam, aut una alicujus, quem 
primum audieniiit, oratione capti, de rebus inco- 
Unitis juilicant, et ad (iu;unc-uinque sunt discipli- 
nam (luasi tcmpestate delati, ad ciim, tanquam ad 
saxum, adluerescunt. Acad., IV, 3. 



70. Toda a vida nos e.stá empenhada em de- 
veres, já nos negócios públicos, já nos privados, 
tanto nos forenses como nos domésticos. 

71. Assim como os magistrados governam o 
povo, íis leis governam os magistrados. 

72. O máximo dos homens na idade mais frá- 
gil, cede á influeiiria d'um amigo, ou á seducção do 
primeiro mestre que escuta; julga as cousas sem 
as conhecer, e seja qual fòr a doutrina para onde a 
tempestade os impelle, atiiican>-#e irella como 
naufrago em rochedo. 



73. Prudontia constat ex sentcnti:\ rerum bo- 
narum ot mnlarum, et rerum nec bonarum nec 
mularum. .V. /Voe, 1, 35. 

74. Vitiositas est habitus animi, a\it alTectio 
in totil vili\ imonstans et a no ipsi\ dissentiens. 
'i'ii.i<-.. IV, 13. 



73. A prudência versa no conhcrcr ns cousas 
boas, a-> más. e as que não são má.s nem boas. 

7'i. O vicio !• um rslado d'animo. o\i »>nformi- 
dade em vida semiue fluctuantr e discorde de si 
mesma. 



214 



CIC 



vr». f;opi;i moddiii f!^çre»!ia vilioHa cwt. Ijuint ., 
VIII, <;. 

7<i. Huiiii cxixtintutiii divitiiH pru;^t.tt. il< 
Or., '2. 

77. (iiijiiH aiiriíH itu clauRiíi sunt vpntati, ul 
ab amico vcnitn aiKlirr; rici|iieat, Iiujuh iialiiH (\w- 
peranda cHt. Am., 'M. 

7H. Dolictii doloro, itorrectidne Kaudero f)|)or- 
tft. A>n., '2'». 

79. Ex nutiirft vivoro Humnium bonum rst, id 
est vitft modicft et apta virtuti; pi^frui. /.«'/., I, 
21. 

M). Ofllcia m<!ininiss(! dclicl i», in i|iicm col- 
lata Hunl; non commcmorarc, fpii conlulil. .Am., 
21). 

81. Proprium esl stultitiji; aliorum vilia cer- 
iiere, oblivisci suorum. Tuxc, III, 73. 

82. Zenonis scntentitc sunt et priBcepta ojiis- 
modi : solos sapientcs esse, si distortissimi sínt, 
formosos; si mendicissimi, divites ; si servitutem 
serviant, reges. Mar., 2!). 

K?. Turpiler facere cum periculo fugiamus, 
([uod fugercmus otiam cum salute. Att., X, H. 



84. Mors, propter brevitatem vitíc, nuiiquam 
longe potest abesse. Tusc, I, 'JS. 

85. Cândida pax liomines, trux decet ira fe- 
ras. Am., 3. 

86. Me nimis istorum philosophorum pudet, 
qui nullum vitium vitare, nisi judicio ipso nota- 
tum, putant. Ia'[i., I, 19. 

87. Eorum nos magis miseret, qui nostram 
misericordiam non requirunt, quam qui illam ef- 
flagitant. MU., 34. 

88. Ea omiiia quaj non nostrà culpa accidunt 
fortiter ferre debemus. Fatn., VIII, 40. 

89. Niliil interest ad beate vivendum, quali 
utamur victu. Fln., II, 28. 

90. lUum lauda et imitare, quem non piget 
mori, quum juvat vivera. Sen., 54. 

91. Oporlet privatisutilitatibuspublica.s,mor- 
talibus íBterna anteferre, muUoque diligentius mu- 
neri suo coiisulerc quam facullatibus. Sen., 7. 

92. Dicere bene nemo potest, nisi qui.pru- 
denter inlelligit. Brut., 6. 

93. Equidem putabam virtutem hominibus, 
institaendo et persuadendo, non minis, et vi ac 
raelutradi. ãe Or., 1,58. 



CIC 

";'>. K abundância em excesso é vicio«a. 

7ft li«m renome sobrepuja riquezan. 

77. Náo ha que esperar lalvai^^lo «m homem 
cujos ouvidoH 8(; fecham á verd.ide que lhe dix o 
amigo. 

7M. I)<rvern affligir-nos ai* culpaji, c alegrar- 

79. O Bupremo bem f'. viver ao natural, into (•, 
gorar existência modesta e virtude commoda. 



8(). íjuerr. recebe serviço» deve rcconUr-se, « 
ipiuHi os presta não deve Icmbral-os. 



81. K natural dos tolos enxergar os vi<:io8 
cPoutrem, o não vèr os próprios. 

82. Estes são os preceito» e sentença.^ de 7,e- 
non : Os sabins são formosos, ainda que sejam feis- 
simos, rici;s, embora pobres ; reis, em Ixira escra- 
vos. 

83. Fujamos de praticar com risco as torpe- 
zas de que deveremos fugir ainda que nos vá u"\íís< 
a existência. 

84. Pois que a vida é tão breve, nunca a 
morte pôde estar longe. 

85. É dos homens a doce paz, e das bestas- 
feras a ferocidade. 

80. Nauseiam-meuns taes philosophos que so- 
mente se esquivam aos vicios que as leis castigam. 



87. Commiseram-nos mais os infelizes que 
não requerem nossa compaixão, que os outros que 
a solicitam. 

88. Supportemos com valor os trabalhos por- 
vindos por nossa culpa. 

89. Nada faz á felicidade da vida a qualidade 
dos nossos alimentos. 

90. Louva e imita o homem que morre sem 
pena quando a vida lhe corria suave. 

91. Devemos preferir o eterno ao perecedou- 
ro, e curar mais gravemente dos deveres do que 
das posses. 

92. Ninguém pôde bem íallar se não medita 
judiciosamente. 

93. Ameaças e pavores ensinam menos a vir- 
tude dos homens do que a persuasão, e o ensino. 



CIC 



CIC 



215 



94. Amplitude animi maxime eminet con- 
temnendis doloribus. Tusc, II, 26. 

95. Plerumque improborum facta primo sus- 
picio in.sequitur; deinde sermo atque fama; tum 
accusator, tum judex. Fin., 1, 16. 

96. ímprobo et slulto et inerti nemini bene 
esse potest. PartiL, 2. 

97. Ne in festationibus suscipiamus nimias 
celeritates. Off., I, .36. 

98. Ut innocens is dicitur, non qui leviter no- 
cet, sed qui nihil nocet : sic sine metu is habendus 
est, non qui parum metuit, sed qui omnino metu 
vacat. Tusc, V, 14. 

99. Deforme est de se ipsum praídicare, falsa 
prffisertim. Off., I, 38. 

100. Par est, primum ipsum esse virum bo- 
num, tum alterum similem sui quaerere. Am., 22. 

ICM. Negligere quid de se quisque sentiat, 
non solum arrogantis est, sed etiam omnino disso- 
luti. Off., I, 28. 

102. Ut hirundines a;stivo tempore praísto 
sunt, frigore pulsa; recedunt: ita falsi amici sere- 
no vitae tempore presto sunt : simul atque hiemem 
fortunas viderunt, devolant omnes. ad Heren., IV, 
61. 

103. Nec ita claudeuda est res familiaris, ut 
eam benignitas apcrire non possit, nec ita rese- 
randa, ut pateat omnibus. O/T-, 11, 15. 

104. Quam si ad se quisque rapiat, dissolve- 
tur omnis humana consortio. Off., III, 6. 

105. Optimi viri permulta ab eam unam cau- 
sam faciunt, quiu decet, quia rectum, quia lioncs- 
tum est : etsi nuUum consecuturum emolumentum 
vident. Fin., II, 14. 

lOfi. In omnibus negotiis, priusquam aggre- 
diare, adhibenda est pra;paratio diligens. Off., I, 
21. 

107. Ubi semel quis pejeraverit, ei credi pos- 
tea, etiamsi per plures deos juret, non oportet. 
l\ab., l>ust., 13. 

108. Non ícstimatione census, verum victu 
'•iiltuque terminatur pei-unias niodus. Pavad., 6. 

109. Constat ad salutem civium, civitatura- 
qno incolumitatcm, vitamque homiaum quietam 
et buatam inventas esse leges. Leg., II, 3. 

11». Vere illud dicitur, pervers(í dicere lio- 
mines, pcrversíi dicondo, faciUime consequi. de 
Or.. !,:«. 



94. Lustra grandemente a grandeza d'alma 
em subjugar as dores. 

95. As acções criminosas movem primeiro a 
suspeita, depois vem o rumor publico, e por fim o 
accusador e o juiz. 



lizes 



96. O mau, o par\-o, e o vadio, nunca são fe- 



97. Não sejamos precipitados em nossos zelos. 



98. Ciiama-se innocente, não o que delinque 
pouco, mas o que em nada delinquiu ; e as.sim deva- 
mos considerar destemido, nâo o homem pouco me- 
droso, mas o que nada teme. 

99. E feia cousa louvar-se homem a si, mor- 
mente se ptiantasia méritos. 

100. Comece o homem por ser honesto, e bus- 
cará amigos que se lhe pareçam. 

101. Ter em nenhuma conta o que se diz de 
nós, é não só mostra de grande arrogância, mas 
também de completa depravação. 

102. Apparecem-nos as andorinhas no estio, 
e fogem quando o frio as repulsa : taes são os falsos 
amigos : vida ditosa e serena chama-os, e apenas 
bafeja sopro adverso, lá vão esvoaçando. 



103. É preciso não fechar por tal modo a 
bolsa que o bemfazer a não abra, nem tel-a tão 
aberta que a toda a gente se preste. 

104. Se cada qual cuidar só de si, a sociedade 
liumana está dissolvida. 

105. Praticam os homens virtuosos muitas 
acções só por que são bellas e justas, e porque é 
honroso pratical-as, embora d'ahi lhes não venha 
proveito algum. 

106. Em todos os negócios convém preparar- 
mo-nos com exame e meditação. 



107. Do homem que uma vez perjurou não ha 
juramento aceitável, embora elle jurasse pelos 
deuses. 

108. Calcula-se os haveres pelo modo de viver 
e dcspeza, e não pela somma do rendimento. 

109. Foram inventadas as leis para salvação 
dos cidadãos, conservação das cidades, tranquilli- 
dado e felicidade geral. 

110. K certo o dictado que do diíer mal ao 
mal-dir.pr pouco dista. 



111. ( )pera dando est, ut vorbis utamur quani 
VOL. I. 



111. E.\orcilenio-no3 em empregar n» expres- 

15 



210 



cm 



CIH 



ijKÍtatÍHnimÍH et quam maximc aptÍH, ii\ c^t i (;m de- 
I laraiitibiiH. Fm., V, 20. 

112. Ficri pot(!8t, ut recto. qiii« iieritíat, et id, 
({iiod 8(.-iitit, pollto eIo<iiii non pOíHÍt. Tuhc, I, 3. 

11.'t. .Soli hor rontinitit Hapienti, iit nihii fai^at 
invilii.M, iiiliil Uolpiiíi, iiiliil coartiii. 1'ariiil., V, 11. 

11'». .MiCM-íe non potcHl, (piin cjusdiMn liomi- 
nis 8Ít, qui Ímprobos prohct, probos iniproliare. Or. 



Hòex na;iÍM u>'a>ias e juiitAS, ixto 6, as que melhor 
pxprlfnern. 

112. FMe dar-M haver boas tdéas, e faltar a 
el<-((an>'ia no expreiuial-aM. 

11.1. t: privilegio do Habio fazer tu<U coirm 
llii: praz, Huavementfl, • de wu livre alvedrio. 

11^. Niío pi'>de acontíTfr, que o homem que 
npprova OH maua esteja bem d(«p<mto a elo((ía>- o» 
bons. 



Exrrriíios c (lirenàrs. — A sitnplcs 
leitura d^esUis ma.ximas do, Cícero, 
basla a corivcncor-tiosda .sua eniiiif^n- 
te propriedade de formar e de.sonvol- 
ver o colarão da jnveriliiilfl. O proíe.s- 
sor p(')de de.serivolver a sul)slanciii de 
duas 011 Ires d'essas máximas ou pen- 
saraenlofi. adaptando-a á intolligen- 
cia dos alumnos. 

CICUTA. (Veja Umbellifer.\s). 

CIDRA. (Veja Ferment.vç.ío). 

CIDREIRA. (Veja L.\i?iace.^s). 

CIMBROS. (Veja Segundo século). 

CIMON. (Veja Quinto século). 

CINCINATO. (Veja Quinto século). 

CINGULO. (Veja Ornamentos). 

CINTRA (Gonçalo de). (Veja Na- 
vegadores portuguezes). 

CINTRA (Pedro de). (Veja Nave- 
gadores portuguezes). 

CIRCULO 6 CIRCUNFERÊNCIA. 

I. A circumferencia é uma linha pla- 
na, que lem todos os seus pontos 
igualmente distantes de ura ponto in- 
terior, chamado centro. O circulo é a 
porção do plano limitado por uma cir- 
cumferencia. — As circumferencias 
são concêntricas quando teem o mes- 
mo centro; exccntricas, no caso con- 
trario; tangentes, entre si, quando 
teem" um só ponto commum, que se 
chama de tangencia ou de contacto. O 
arco é qualquer porção de uma cir- 



cumferencia. — A circumferencia di- 
vide-se era 3G0parles igiiaos, chama- 
das graus {")\ o grau em riO miun- 
ti)S {' ]: e o minuto em <iO segundos ("i. 
Esta divisão é a base do calculo geo- 
métrico; e é particularmente destina- 
da a medir os ângulos. — As rectas 
principaes consideradas no circulo 
são: o raio, recta tirada do centro 
para qualquer ponto da circumferen- 
cia ; o diâmetro, recta íjue passa pelo 
centro e termina na circumferencia: 
a corda, recta tirada entre os dous 
termos do arco; llechaou sogitla. re- 
cta tirada entre o meio do arco e o 
da corda respectiva; secante, recta 
que corta a circumferencia em dous 
pontos; tangente, recta que só tem 
um ponto commum com a circumfe- 
rencia. — Consideram-se no circulo 
três partes: o sector, porção do cir- 
culo comprehendido por dous raios e 
pelo arco interceptado; o segmento, 
porção do circulo limitado por um ar- 
co e pela respectiva corda; a coroa, 
porção do circulo limitada por duas 
circumferencias concêntricas. 

2. Obtem-se o comprimento d'uma 
circumferencia, cujo raio ou diâme- 
tro é conhecido, multiplicando o diâ- 
metro pelo numero 3,1 -i IO, que ex- 
prime a verdadeira razão da circum- 
ferencia ao diâmetro a menos de meia 
decima-millesima. — Determina-se o 
diâmetro d'um circulo, cuja circum- 
ferencia rectificada é conhecida, divi- 
dindo esta circumferencia pelo nume- 
ro 3,14i6.— Obtem-se o comprimen- 
to d'um arco, cuja graduação e raio 
se conhecem, mulliplicandó o com- 
primento da circumferencia, a que o 
arco pertence, pela razão entre enu- 
mero que representa a graduação do 



GIR 



CIU 



247 



arco e 360 graus, — Obtem-se a su- 
perfície d'ura circulo, cujo raio é co- 
nhecido, multiplicando o quadrado do 
raio pelo numero 3,14-16. — Obtem-se 
o raio d'um circulo, cuja superfície se 
conhece, dividindo a superfície do 
circulo pelo numero 3,1416 e extra- 
hindo a raiz quadrada ao quociente. 
— Obtem-se a superfície d'uma coroa 
circular, cujos raios se conhecem, 
calculando a differença das superfí- 
cies dos dous círculos que a limitam, 
isto é, multiplicando o numero 3,1416 
pela differença dos quadrados dos 
dous raios. — Obtem-se a superfície 
d'um sector, cujo raio e gradua- 
ção do arco respectivo se conhecem, 
multiplicando o comprimento do ar- 
co pela metade do raio; ou multipli- 
cando a superfície do circulo respecti- 
To pela razão do angulo do sector a 
360 graus. — Obtem-se a superfície 
d'um segmento, cujo raio e graduação 
do arco se conhecera, calculando* a 
differença das superfícies do sector 
respectivo e do triangulo formado pe- 
los dous raios e a corda do arco do 
segmento ; cu multiplicando a metade 
do raio pela diíTerença do comprimen- 
to do arco do segmento e a metade 
da corda que o arco duplo subtende. 

3. Proposições. N'um mesmo cir- 
culo, ou em círculos iguaes, arcos 
iguaes teem cordas iguaes. — N'um 
mesmo circulo, ou em círculos iguaes, 
o maior arco subtende corda maior, 
sendo ambos em arcos menores que 
a semi-circumferencía ; no caso con- 
trario, a conclusão seria inversa. — 
A perpendicular á extremidade de um 
raio, c tangente á circuraferencia n'es- 
se mesmo ponto. — Duas cordas pa- 
rallelas interceptam na circuraferen- 
cia arcos iguaes. — Dividir uma cir- 
curaferencia era ura numero qualquer 
de partes iguaes, quer por tentativas, 
ou por melhodos particulares, quer 
por meio do transferidor, ou taboa 
das cordas. — A tangente a uraa cir- 
rumferencia 6 perpendicular ao raio 
tirado para o ponto de contacto. — O 
ponto de contacto de duas circumfe- 
rencias tangentes entre si está na di- 
recção dos centros. —O centro d'um 
circulo está na perpendicular levan- 



tada do meio d'uma corda. — Se duas 
circumferencias se cortam, a distan- 
cia entre os seus centros é menor que 
a somma dos raios, e maior que a 
differença entre elles. — Se duas cir- 
curaferencias são tangentes entre si, 
exteriormente, a distancia entre os 
seus centros é igual á somma dos 
raios; se são tangentes entre si, in- 
teriormente, a distancia entre os seus 
centros é igual á differença dos raios. 

— Se n'ura circulo duas cordas se 
cortara, as partes interceptadas são 
inversamente proporcionaes; isto é, 
as duas partes d'uma das cordas são 
os extremos d'uraa proporção na qual 
as duas partes da outra são os meios. 

— A perpendicular baixada d''um pon- 
to da circuraferencia sobre o diâme- 
tro, é media proporcional entre os 
dous segmentos do diâmetro. — As 
circuraferencias são proporcionaes aos 
seus raios e aos seus diâmetros. (Veja 
PoLYGONOS e Semelhança). D'esta pro- 
posição resulta : que para traçar uma 
circuraferencia, cujo comprimento se- 
ja duplo, triplo, etc.,dodeuraa dada 
circuraferencia, loma-se um raio du- 
plo, triplo, etc. — A razão das cir- 
curaferencias aos diâmetros respecti- 
vos, é quantidade constante; por ou- 
tras palavras, o comprimento d'uma 
circuraferencia dividido por o do 
seu diâmetro dá sempre o quociente 
3,14159265..., ou aproximado a me- 
nosde meia decima-raillesima, 31416, 
o qual se representa pela letra grega 
■z, que se 1(^ pi. Este nuraero entra 
como elemento essencial em todas as 
proposições que respeitara a medida 
da circuraferencia e do circulo. 

— Dictar e fazer decorar as duas 
priraeiras lições, depois de ter raan- 
dado traçar ê calcular na pedra as su- 
perfíciesou linhas respectivas. — Ex- 
plicar a terceira lição por meio de 
uma Geometria. 



CIRCUMFERENCIA. (Veja Circu- 



lo 



CIÚME. O ciúme é o mais vil e o 
mais baixo do todos os sentimentos, 
porque procede d^im individualismo 
constantemente irritado. Não ha na- 



218 



CLA 



CL A 



da mais mudável que ociume(|uando 
pfiide da cssíMícia do caracler: luuda 
lào a iiiiudo d(! ohjfclo (|iie iiào dá 
lrof,'uas m'in repouso; pjrectiíjue em 
si (;oiiU'in o seu [)iopri() casligo. 

Afeiia-S(Mícinge-soa píMpiciias (^ou- 
sas; de soil(! (lue o liomcrn cuimciito 
(í spíiiprc digno de lasliiiia, emfxjra 
lhe s()l)('jtMii clíMiiciitos dt! |t!lii:iil.id<'. 
— O ciúme, grosseiro é a d(!scouliaii- 
r,a da pessoa (pie se ama ; o ciúme de- 
licado é a d(!scoii(iaii(;a ipu; lem cada 
(}ualdesi.« (Clicslctlifld). — «A liii- 
gua do ciumeiílo devasla ludo qne 
toca.» (Massillon). — (Na casa palerna 
não ha meninas (pie nOo experimen- 
tem os seus primeiros sentimenlos de 
ciumií a (ine o seu sexo é Ião alreilo. 
Quando se lhes falia d'uma menina 
muilo instruida e amável, se esle 
exemplar de perfeição dá auso a ser 
por alguma maneira criticado lançam 
lago mão d^elle, invertendo em funes- 
ta propensão de espirito ura senti- 
mento nobre e generoso.» (M.""- Cam- 
pan, 1'jluc., liv. V, cap. ii). — «Em 
justiça, o ciúme e em fim o que ha 
peor'no amor próprio, procede uni- 
camente da disposição que temos em 
olhar não já do que temos bom em 
nós, mas do que temos melhor que os 
outros.» (M.""^' Guisot, Cartas sobre a 
educ, 49). — «A energia das facul- 
dades é um dos mais seguros preser- 
vativos do ciúme; e se os meninos tão 
facilmente se tornam ciumentos é por 
que ha muito pouco cuidado em en- 
sinar-lhes o amor. E também se des- 
cura o único principio de força que 
possa apartal-os da personalidade. 
Esta incapacidade de amar augmen- 
tará, e com ella a propensão ao ciú- 
me, se os acostumam a occupar-se de 
suas necessidades próprias era vez de 
lhes desviar a attenção de siraesmos, 
e dar-lhes a gozar o prazer de serem 
úteis ao próximo.» {Ibid., carta 38). 
(Veja Egoísmo, Caridade, Dedicação). 

CLASSIFICAÇÃO. Chama-se clas- 
sificação botânica á distribuição de 
todas as plantas conhecidas' n'um 
certo numero de grupos ou collec- 
ções distinctos uns dos outros por 
caracteres e nomes particulares. Ha 



duas: o sqslcrna e o methudu. — No 
syslema classilicam-se as plantas co- 
mo fez Liiincu, all(;ndrn(l(j simples- 
mente ás f(')rmas de um orgâo, ou de 
um [ieípieno numero do órgãos. — 
No metliodo agrupam-.ie as plantas 
pela somma de suas maiores analo- 
gias, tiradas de lodos os orgàos. — 
Ksla se chama laiiil)(;m i:la.->silioarao 
iiatnnil, a(]U('lla lUlitUviL Coineça-se 
pela compai;j(;à') dos indivíduos ajun- 
tando os stMiielhanles em gru[>(js (jue 
se chamam fsprriea. Uenucm-se (Je- 
pois as espécies mais parecidas para 
formar os tjnnrros. Com os géneros 
mais análogos forma in-se as /tim/ZiViA-, 
e com estas as ordrna. Com as ordens 
ou famílias de maior afliindade com- 
põe-se as dnssrs. E com estas final- 
mente as dirisõps, ou quadros (|ue são 
as collecçòes mais superiores. O no- 
me botânico de quahjuer [danta devia 
ser formado de tal sorte que exprimis- 
se os lugares da classificação em que 
a planta entra, a classe — a ordem — 
a família — o género e a espécie. — 
Mas como assim ficavam os nomes 
muito extensos preferiram os botâni- 
cos formal-os unicamente cora o no- 
me do género, e da espécie, o primei- 
ro como substantivo, o segundo como 
adjectivo. Assim o Urio cândido, e o 
Urio bulboso, são duas espécies dege- 
nero lírio. — A única classificação ar- 
tificial que a botânica tem para assim 
dizer perfilhado, e que apesar dos 
seus grandes defeitos, ainda hoje é 
uiilisada pela facilidade com que en- 
sina a conhecer os nomes das plan- 
tas é o syslenia sexual de IJnneu, as- 
sim chamado, porque as bases d'esta 
classificação são tiradas de circum- 
stancias relativas aos órgãos sexuaes 
das plantas. Linneu distribuiu todas as 
plantas em 21 classes. As 13 primei- 
ras são distinclas pelo numero dos 
estames. As U.» e 15.» pelas dimen- 
sões respectivas d'esles. .\s 16. % 17.» 
e 18. a pela soldadura dos estames pe- 
los filetes. A 19.* pela soldadura dos 
mesmos pelas antheras. A 20.» pela 
soldadura dos estames como pislillo. 
As 21. a, 22.» e 23.» pela separação 
dos sexos. As 2-i.* finalmente pela 
ausência real ou presumida dos or- 



COG 



COI 



219 



gãos sexuaes. — A classificação das 
plantas pelas suas affinidades era fa- 
milias naluraes primeiramente indica- 
da por Bernardo deJussieu, foi esta- 
belecida por seu sobrinho A. Louren- 
ço de Jussieu, depois desenvolvida e 
melhorada por outros respeitáveis 
botânicos como R. Brown, Decandol- 
le, Lindley, Kunth, Adriano de.Jus- 
sieu, etc. — Os quadros ou divisões 
geraesdo methodo natural são ires, a 
saber.- Acolylcdonms, — Monocotyle- 
doneas, — Dicotyledoneas. 

CLAUDIANO. (Quarto século de- 
pois de Jesus Christo). Poeta latino 
natural de Alexandria, foi amigo de 
S-tilicon, primeiro ministro de Honó- 
rio, e acabou cahindo em desgraça 
com elle. ígu;ilaram-no a Horácio e 
Virgílio o< seus contemporâneos ; mas 
o que d'ei!e possuímos não justifi- 
ca tamanho elogio. F;illa-lhe inven- 
ção e talento. O assumpto de suas 
poesias são os acontecimentos da épo- 
ca. (Veja Quarto século). 

CLÉMATITE. (Veja Ranuncula- 

CEAS). 

CLERMONT. (Veja Auvergne). 

CLÓVIS. (Veja Quinto século). 

CLUNY. (Veja Borgonha). 

COBALTO. (Veja Metaes). 

COBRE. (Veja Metallurgia). 

CODORNIZ. (Veja G.\llinace.\s). 

CODRUS. (Veja Decimo-segundo 
século). 

COEFFICIENTE. (Veja Álgebra). 

COELHO (Duarte). (Veja Navega- 
dores PORTUGUEZES). 

COELHO (Nicolau). (Veja Navega- 
dor i;s F'0RTllC,l]li7,ES). 

COGUMELO. (Veja Acotyledones). 



COHESÃO. (Veja Chimica). 

COIMBRA. Da Conimhriga dos ro- 
manos restam poucos vestígios. Esta 
cidade tinha seu assento no lugar 
onde agora vemos Condeixa a Velha, 
duas léguas distante da actual cidade 
de Coimbra, e ao lado da estrada que 
conduz a Lisboa. Na invasão dos po- 
vos do norte, no século v. foi comple- 
tamente destruída; e querendo de- 
pois os vencedores reedifical-a, re- 
solveram mudar-lhe o assento para 
junto do Mondego. Tal é a origem, ao 
que parece, da moderna Coimbra, a 
quem dão por fundador Ataces, rei 
dos alanos. 

Pelo casamento de D. Tareja com 
o conde D. Henrique, entrou este 
príncipe na posse de Coimbra, e d'el- 
la fez a sua corte alternadamente com 
Braga e Guimarães. 

Seu filho D. Affonso Henriques es- 
tabeleceu em Coimbra a sua residên- 
cia habitual; e assim ficou sendo es- 
ta cidade corte única de Portugal, 
durante os primeiros quatro reina- 
dos. 

Foi a cidade de Coimbra theatro de 
importantes acontecimentos políticos, 
assim como também o foi de lamen- 
táveis scenas trágicas. Duas mulhe- 
res, ambas formosas d'alraa e do cor- 
po, e para sua desgraça elevadas am- 
bas por amor a uma alta posição, ahi 
padeceram morte violenta, e a todos 
os respeitos iramerecida ! 

D. Ignez de Castro e D. Maria Tel- 
les são os nomes d'essas illusires e 
tristes victimas da politica e do ciúme. 

A primeira foi mandada assassinar 
por el-rei D. AlTonso iv, a lim de não 
servir de estorvo a um projectndo en- 
lace do infante D. Pedro, sou lilho e 
successor, com uma iiifiinta de Cas- 
lella. A segunda foi apunlialaila por 
seu esposo, o infante D. João, lilho de 
D. l»edro, e da desditosa D. Ignez de 
Castro, a (|uem a porlida r:iinha D. 
Leonor Telles, forjimdo embustes, ar- 
m;'ira o braço contra n sua própria 
irmã, para depois perseguir o assas- 
sino, e dVste modo desviar da suc- 
cessão do ihrono um príncipe, que as 
leis do reino antepunham a D. Bea- 



220 



COI 



COL 



triz, única (ilha (rci-rci IJ. Fernando 
(5 (ia (lila rainlia D. liccinor Telles, a 
(jual ifossa ocxasiJo já eslava casada 
com D. João I, rei de CasUdIa, e |)or 
esla circuiiislancia inliiltida de succe- 
(Icr na coroa de I). AlTon.-^o llcmiqiies. 

Eslá Coimbra siluada no coiacáo 
do reiím, na província da Beira. Irni- 
ta c duas léguas dislanle di; I^ishoa 
para o norte, e dezoito do Porto para 
o sul. 

Sentada á i)orda do Mondego, par- 
te era terreno cliiio, partií subindo em 
amplutliealro [)elo doiso d"iim monte, 
ao (|iial fazem vistosa corOa alguns 
dos seus melhores edilicios, e os ar- 
voiedos das margens do lio, dando 
belleza e realce a este quadro já de 
si tão formoso, esla cidade sobreleva 
a Iodas as suas irmãs pelas graças ex- 
teriores que ostenta. 

Nenhuma outra apresenta como es- 
la, a quem de fora a contempla, mais 
nobre e risonho aspecto. 

Vista por dentro, verdade é, varia 
muito o quadro. As alegrias exterio- 
res quasi que se convertem em tris- 
teza, porque a maior parte da cidade, 
principalmente a baixa, é cortada de 
ruas estreitas, tortuosas e immundas, 
6 guarnecida de casas de apparencia 
desagradável. Todavia o viajante fica 
bem pago d'esle desgosto ao entrar 
em algumas ruas e praças, amplas e 
orladas de bons edifícios, e ainda mais 
indemnisado sejulgará, visitando tan- 
tos monumentos que ahi se erguem, 
ricos d'arte e de tradições históricas, 
e venerandos por sua antiguidade. 

Os edifícios da universidade estão 
coUocados no ponto mais alto da ci- 
dade, servindo-lhe de magestosa co- 
roa. Foi a universidade fundada em 
Lisboa por el-rei D. Diniz e pelo mes- 
mo mandada para Coimbra, onde te- 
ve assento na rua da Sophia, nos pa- 
ços reaes, que ahi havia, e que mais 
tarde se transformaram em palácio 
da inquisição. Depois de ter sido por 
vezes, e em ditlerenles reinados, trans- 
ferida para Lisboa, e novamente mu- 
dada para Coimbra, el-rei D. João iii 
deu-lhe para sede os paços reaes do 
alto da cidade, e desde então n'elles 
tem permanecido. 



Os arrabaldes d»; Coimbra são no- 
meados por >ua muita formosura. Os 
virosos cam[)Os, pomares, e bosques 
silvestres das margens d(j .Mondego, 
os montes i-, valles por toda a parle 
verdejantes, e por todas as partes re- 
bentando a^,'ua emfíjnics cryslallinas, 
ou correndo em ribeiros, tudo isto 
.são justos títulos para tão grande no- 
meada. 

COLBERT, ministro de Luiz xiv. 
João Ba [dista Colberl, diz um con- 
temporâneo, era de aspecto carran- 
cudo. O cavado das orbitas e espes- 
sura das sobrancelhas afeia\am-llie o 
semblante um tanto repelhíiite ; mas, 
passada a piirneira impressã(j e tra- 
tado de perto, ganhava muito com 
seus modos aliáveis, expeditos e in- 
abalável firmeza de caracter. Tinha el- 
le de si para comsigo (jue a boa fé 
nos contractos é o solido fundamento 
d'elles. Incançavel applicação e insa- 
ciável desejo de saber suppriara nel- 
le a imperfeição da sciencia. Restau- 
rou as rendas do estado que estavam 
pessimamente geridas quando enlrou 
no ministério. Espirito solido, mas 
grave, propenso mais ao calculo, des- 
trinçou todos os embaraços com que 
os Ihesoureiros haviam illaqueado os 
negócios para irem pescando nas 
aguas turvas. aColbert restaurou as 
antigas manufacturas, introduzindo 
novas fabricas, nomeadamente as dos- 
espelhos e tapeçarias. Fez concertar 
as estradas reaes, abriu muitas, e li- 
gou os dous mares por meio do canal 
de Languedoc. Deu alento ás scieií- 
cias e artes. Fundou as academias de 
sciencias, de inscripções, de archite- 
clura. Creou o Observatório. Afor- 
mosentou Pariz de cães, praças e por- 
tas Iriumphaes. São obras dê sua ini- 
ciativa a coluranata do Louvre e jar- 
dim das Tulherias. Deixou Colbert 
muitos filhos, que lambem foram es- 
tadistas, entre outros o marquez de 
Seigrielay e um sobrinho, o marquez 
de Torcy que lambem foi ministro. 
(Veja Luiz xiv, e os nomes dos mais 
notáveis homens d'este século). — A 
propósito d'este ministro, pode dis- 
correr o professor acerca de outros 



COL 



COL 



221 



igualmente celebres como Sully, Ri- 
chelíeu, Pombal, etc, e fazer redi- 
gir oa resuQiir oralmenle. 

COLIBRI (ou Pica-flur). (Veja Pás- 
saros). 

COLIGA. (Veja Doenças). 

COLLIN D'HARLEVILLE. Oitavo, 
entre os onjie filhos de um advogado 
de Chartres. Passou a mocidade em 
suavidades carapezinas e intimida- 
de de família, d'ondelhe ficaram sem- 
pre reminiscências nos poemas. Em 
uma obscura hospedaria, onde mora- 
va com o seu amigo Andrieux, phan- 
tasioii Collin a sua primeira comedia: 
O inconstanle, que foi glacialmente 
recebida. Desanimado e empenhadis- 
simo, deu-se porlargos annos á advo- 
cacia. Tornando-se a Pariz, poetou 
novamente, e ganhou com isso ler de 
traduzir para hvreirosa razão de tre- 
zentos a quatrocentos reis por dia (30 
a 40 soldos). O insigne actor Mole le- 
vou-lhe á scena O incotislante, e le- 
vantou-o com o primor da execução. 
Reanimado com este triumpiío, deu 
no anno seguinte O oplimisla. Os Cas- 
lellos em líespanha, um anno depois, 
deram-lhe gloria e dinheiro. O Velho 
celibatário, sua melhor peça, foi com- 
posta durante a crise febril de uma 
doença, apesar dos amigos, do medi- 
co, e do enfermeiro. Recolheu-se a 
íiual ;'í casa onde nascera; e, bera que 
apoucado em haveres, hospedava lau- 
tamente os amigos, e esmolava ainda 
aos infelizes. Era-lhe tão necessário 
ser poeta como ser caritativo. Acom- 
panhando á estação da Diligencia um 
antigo amigo ijue se lhe. carpira de 
pobreza, tirou dos hombros o sobre- 
tudo, e lançou-o nos do amigo, di- 
zendo-lhe : ((Olha que já te es(|uecias 
do teu casaco.» Collin morreu tysico 
aos 51 annos de idade, em 1806. 

COLMAR. (Veja Alsacia). 

COLÔMBIA. 1. A Colômbia, que 
já pertenceu á America hespanhola, 
está hoje dividida em três republicas 
distinctaá: Venezuela, Nova Granada 



e Equador. É paiz fertilissimo, onde se 
encontram espécies variadíssimas de 
madeiras. As serras, mais que as de 
todo o continente elevadas, contém 
minas de ouro, de prata, e pedras 
preciosas. — As montanhas de Quito, 
capital do Equador, abundam em 
quadrúpedes e aves de belleza rara. 
Ha ahi pavões silvestres, faisãos, es- 
pécies indígenas degallinhas, isto em 
tantra copia, que, se não se embre- 
nhassem no arvoredo, os viandantes 
munidos de espingarda não carece- 
riam de outras e melhores viandas. 
Abundam por lá também cobras, e 
macacos que orçam por dous metros 
de altura, quando se põem a prumo. 
— Entre Caracas, capital de Venezue- 
la, e Curaana, cidade forte e coramer- 
cial d'esla republica, o viandante dá 
de rosto com as immensas savanas 
que se desenrolam á feição de alcati- 
fa chã e liza, e tanto cançam a vista 
com a sua monotonia. Nada ha ahi 
tão magestoso, uniforme e melancó- 
lico! — Durante a sazão calorosa, a 
vegetação elanguesce; montículos de 
cinzas indicam o lugar onde lloriram 
plantas agora calcinadas. Não sopram 
ventos. Ligeiras brizas, a inlervallos, 
bafejam a face da terra, e remoinhan- 
do a poeira vegetal, molestam o via- 
jante. Conterapla-se com tristes olhos 
esta estéril immensidade! Escassa- 
mente, uma ou duas palmeiras, aqui 
ou além erguidas, assignalam a bacia 
de uma fonte que seccou. K tudo terra 
escorchada. Arvores e fontes que de 
longe nos illudem como que nos vão 
sempre fugindo. Raios de sol (jue dar- 
dejam a pino, sem nuvem (iiie lhes 
quebre o ardor, esbatem sempre uma 
superllcie polida que os refrange e 
lhes redobra a intensidade. A desola- 
ção augmenla sempre, sem o mínimo 
accidente. Como que vamos cami- 
nhando debaixo da abobada abra- 
zada de um forno aquecido para sup- 
plicio. Ao convisinharmos das mar- 
gens do Oienoco, vemos com prazer 
accidenlar-se algum tanto a paisagem. 
Aqui e além já se desperlam algumas 
casas, aihegailas a regalos que ser- 
peiam por entre matos e são embebi- 
das pela areia. A linal, já nos verde- 



222 



COL 



GOL 



jam foIli;igí'iis, collin.-is, o p.iraiso (ie- 
pois do iiilcrrio. 

"2. Sanl;i-I'(' de Mogota, capital da 
Nova-ílranada, dá-iios urna drtcc cs- 
pcclaliva. As casas, todavia, sào bai- 
xas, motivo dos frí'(|ii('nl<'s Icrnrno- 
tos. Sao formadas do adobns seccos 
ao sol, (udiorlas de lellia, fi raiadas 
por fora. Dilo-lho dos^racioso asfiocto 
as i)('(|ii('riiiias jaiicll.is, fachadas com 
grossas trancas. I*ouco lia quo. os vi- 
dros comeram a usar-so. Uma nii- 
liada do quarlos, aí)rindo para uma 
galoria, roccliom só a luz (pie lhos 
entra pela poita. O pavimoiito o as 
parodos s;lo tfio mal foitos (pio nem 
as o.^teiras ou maus tapolos Ifios on- 
cohrom os dofoitos, nom bom dissi- 
mulam a siijidado dos inso(;tos f|uo 
por alli enxameiam. —Bogotá, ainda 
assim, tom alguns monumentos bem 
architeclados, nomeadamente a ca- 
thedral, cujo interior nobremente sin- 
gelo contracta com o luxo prodigioso 
das outras igrejas, que resplandecem 
de ouro. Não escasseiam todavia os 
Ihesouros da catliedral; sendo que 
uma só imagem da Virgem está ador- 
nada com 1358 diamantes, 1205 es- 
meraldas, 59 amethystas, 1 topasio, 
1 hyacinlho, 372 pérolas, no pedes- 
tal <JU9 ametbystas. e o trabalho foi 
pago com 4(K)() piastras. 

3. No geral, o colombez tem pou- 
ca vivacidade physionomica, ó triste, 
sem expressão, indolente c preguiço- 
so. O orgulho, essencial em sua ín- 
dole, produz-lhe a antipathia que vo- 
tam a todos os forasteiros. Carecem 
de conhecimentos e engenho, na 
maior parte. Cortezania e affabilida- 
de isso é 110 que elles são apontados 
até ao excesso. Respeitam em extre- 
mo os pães, tratando-ospor «meu se- 
nhor, e minha senhora.» Ingratos é 
que elles são com certeza. Apenas re- 
cebem um favor olvidam-no logo. 
Quando topam alguém pela primeira 
vez compriraentam-no; á segunda, 
apertam-lhe a mão; todavia, não é 
bom dar valor a taes exteriores. 

Procure se no mappa os lugares 
designados, e faça-se desenvolver o 
que vai resumido* de viva voz ou por 
escripta : — Producção de Colômbia. 



— Desc.riprão das savanas. — Sarila- 
Fé do Bogoia; casas e calíiodral. — 
Caracteres c costumes dos colom- 
bezcs. 

COLOMBO íCbristovão). 1. No cô- 
moro do serulo xiv os gonovezes e 
outros povos da beira mar começa- 
ram a fazer uso da bússola oiiira- 
nbandoso ao longo das costas atlân- 
ticas, guiados por osso pcíiuono in.s- 
trumonto (pio ia frampioar aos eu- 
ropeus todos os raminhos do oroano. 

— O Oriente, a índia sobre tudo era 
para a imaginarão da meia idade o 
paiz das ri(|uozas fabulosas. Alli os 
fructos exqiiisitos, as pedras precio- 
sas, e o ouro, se encontravam om 
profusão. Para chegar a estes mara- 
vilhosos lugares não sí; conheciam ou- 
tros caminlios senão os da Ásia. A re- 
lação escripta pelo cavaltieiro inglez 
João Mandoville que viajou no meado 
do século xiv é notável principalmen- 
te por certas idéas co>mographicas, 
sobre a rotundidade da terra, a pos- 
sibilidade de se viajar ora roda, e a 
existência dos antípodas, nova da 
mais alta importância para o desco- 
brimento d'uui novo caminho para a 
índia. — A vaga idéa de que devia 
existir outro continente, preoccupava 
entretanto os navegadores, e os ma- 
thematicos. Brunelleschi, celebre ar- 
chitectollorenlino, linh;i muitas vezes, 
diante de seu disci^iulo Tcscanelli, 
desenvolvido a idéa de haver um ou- 
tro hemispherio; Tcscanelli pela sua 
parte tinha lambem confirmado esta 
idéa a um joven genovez, Christovão 
Colombo, que sonhava o descobri- 
mento d'um novo caminho para as 
índias. Em quanto os portuguezes pro- 
curavam uma passagem para as ín- 
dias pelo sul da Africa, Colombo scis- 
mava se não seria possível descobrir 
caminho mais direito o menos longo. 
Por estudos bem dirigidos, já elle ti- 
nha conseguido colligir acerca da ver- 
dadeira figura da terra, noções mais 
exactas que as da maior parte dos sá- 
bios do seu século. Considerando a 
extensão e massa enorme de terras 
que pesam sobre o nosso hemisphe- 
rio, tinha imaginado que terras equi- 



GOL 



COL 



223 



valentes deviam servir-lhe de contra- 
peso no hemispherio opposto. Em tim 
as descripções de Marco Polo segundo 
as quaes dous paizes que elle visitara, 
o norte da China e o Japão se esten- 
diam mais a este que nenhuma parte 
da Ásia conhecida pelos antigos, não 
contribuíram pouco a confirmar Co- 
lombo na idéa de que era para o su- 
doeste que os navegadores deviam 
procurar essa passagem.— Cheio d'es- 
tas idéas, Colombo propoz ao senado 
do paiz ir, sob o pavilhão da republi- 
ca, em demanda das novas regiões 
que elle devia descobrir. Os genove- 
zes rejeitaram-lhe as propostas, apo- 
dando-o de visionário, e assim perde- 
ram o azo de repor a sua republica 
no antigo esplendor. —Não desani- 
mou Colombo. Recorreu a Portugal; 
mas nada pôde obter. Acercou-se de 
Hespanha em li84. N'este ensejo os 
os reis calholicos estavam grande- 
mente empenhados na guerra contra 
os musulmanos que, após oito sécu- 
los de luta, ia terminar em fim com 
a queda de Grenada. Depois de reite- 
radas solicitações, logrou Colombo fal- 
lar ao rei e á rainha. A commissão 
encarregada de examinar o projecto, 
sustentou que Colombo encontraria 
mar sem termo, ou então chegaria a 
uma altura em que a convexidade da 
terra lhe tornaria impossível o retro- 
cesso, e levado assim pelo descahir 
das ondas seria precipitado em inson- 
dáveis abysmos. Volvidos cinco annos 
de conferencias vans, foi rejeitado o 
plano. — Logo, poríin, que Granada 
cahiu, os amigos de Colombo apro- 
veitaram o lanço para redobrar de 
instancias a Isabel a Calhoiica. Ou- 
viu-os a rainha benignamente, e para 
logo chamaram Colombo (|ue já se 
afastava de Hespanha, resolvido a não 
tornar. A 17 de abril de li'.) '2 foi as- 
signado um tratado pelo (inal Colom- 
bo foi elevado ã dignidade de almi- 
rante, e nomeado vice-rei de todas as 
ilhas e continentes que descobrisse 
no discurso da sua expedição. Três 
naus compunham a esquadra* : a Sauln 
Maria, que era capitaneada por Co- 
lombo; a l'inl(t, de que foi capitão 
Alonzo Pinzon, e a Ndija, capitaneada 



por Vicente Pinzon. A expedição le- 
vava provisões para doze raezes, e 90 
homens somente, aos quaes se ajun- 
taram uns vinte aventureiros e al- 
guns fidalgos que Isabel encarregou 
de acompanharem Colombo. 

2. Levantaram ancora aos 3 de agos- 
to de 1492. Após um estirado mez de 
navegação, a frota continuava a vo- 
gar na mesma direcção, quando al- 
guns pássaros desconhecidos pousa- 
ram em Q mastro de um dos navios. 
Observaram ao mesmo tempo que o 
mar se esverdeava, por causa de mui- 
ta hervagem que boiava á tona de 
agua, mas deitando a sonda, não acha- 
ram fundo, d'onde inferiram que es- 
tava longe a terra. Desataram então 
a chorar alguns marujos, que muito 
custosamente Colombo vingou reani- 
mar. — No 1 ." de outubro levavam já 
andadas 770 léguas, bem que Colom- 
bo dissesse á tripulação que eram 
500. Estava totalmente" perdida para 
os nautas a esperança de acharem 
terra ; sobreveio o terror de não po- 
derem já retrogradar. Accordam-se 
lodos em que c urgente forçar o in- 
sensato almirante a retroceder. Al- 
guns mais enfurecidos votam por ati- 
rai o ao mar. Salvou-se do cume do 
perigo Christovão Colombo com o de- 
nodo e sobranceria d'alma. Promet- 
teu a uns gloria, a outros riqueza, e 
a todos recompensas e honras logo que 
entrassem na pátria. Estas promes- 
saseloquentes pacificaram a maruja e 
reaccenderam-lhe o bi io. Proseguiram 
na rota, segundo o curso do sol. — 
D'ahi a pouco encrueceram os pran- 
tos e as ameaças nas trcs naus ao 
mesmo tempo. Os próprios officiaes 
se deram de mãos com os tripulantes, 
exigindo com horriveis anieaças(iuea 
esquadra retrocedesse logo paia Hes- 
panha. Hecorre de novo Colombo ao 
prestigio da sua eltuinencia e \ê-se 
forçado a condescender, não obsianie. 
Estipulou, todavia, que lhe dessem 
mais três dias, promeltendo (jue se, 
n'este espaço, não descobrissem ter- 
ra, se submetleria á vontaile dos tri- 
pulantes. — Durante estes Ires dias e 
três noites não dormiu, attenlando 
alternatlamenie nos astros e na bus- 



224 



COL 



COL 



sola, e (Jiritjiiulo propriariif^iilo o Ifíme 
da sua nau. — A<j s»'gun(lo dia, dcs- 
cobrirauí uuia cana cortada de fresco, 
ma [)(!(laro de pau irahalliado por m3o 
de liornoiu, e urna vergoulea (Je ar- 
vore coiD um fruclo. Ao pôr do sol, 
latiçarain a :»oiida, ((ue achou fundo. 
O aluiiranle, persuadido de hav(;r 
chegado ao termo da em|)reza, an- 
uuncia á e(iuipagem que, ao romper 
a aurora do dia se^'uinie, veriam ter- 
ra, e ordíMia aos pdotos que níio vão 
por d'avante sem grande cautela o 
receio de se irem a |)ique nos roche- 
dos de que podiam estar crespas 
aquellas desconhecidas costas. — Ao 
terceiro dia, viram dislinclamente, 
duas léguas ao norte, terra coherta 
de ridente verdor, golpeada de nume- 
rosos regatos, e sobranceada ao longe 
por immenso bosque de arvores olo- 
rosas, cujos perfumes lhes vinham 
bafejando as auras matutinas. Irrom- 
peram brados de jubilo, transportes 
de phrenetica alegria! Abraçaram-se 
todos debulhados em lagiimas. Pu- 
nliam as mãos agradecendo ao céo 
lel-os guiado sãos e salvos através 
do oceano, ao termo de suas espe- 
ranças. Ao mesmo tempo lançavam- 
se êm joelhos aos pés de Colombo, 
proclamando-lhe o génio, a gloria, a 
intrepidez, e implorando perdão que 
o prazer e o iriurapho lhes concedia 
de boamente. — Eram 12 dias corri- 
dos de outubro de 159-2: — estava 
descoberto um mundo novo ! — Orde- 
nou Colombo que proejassem aquel- 
las ribas; e, enlrajando-se bizarra- 
mente, cora um estandarte era punho, 
onde estavam bordadas as cifras de 
Fernando e Isabel, saltou ern terra 
com os mais grados dacomitivaeapos- 
sou-se solemnemente do paiz para a 
coroa de Caslella. Era a Ilha de S. 
Salvador, uma das Lucayas. Desco- 
briu depois Cuba, e S. Domingos, e 
voltou á Hespanha em março de 1 Í93, 
e então foi nomeado, após grandes 
festas trinmphaes, vice-rei das terras 
que descobrira. — No mez de setembro 
seguinte, eraprendeu nova viagem. 
Descobriu a maior parte das Antilhas, 
e formou as feitorias de S. Domingos. 
Em terceira viagem, executada em 



liOS, descobriu o continente, e per- 
correu toda a America meridional 
desde a foz de Orenoco até ao Caracas. 
Km quarta e derradeira viagem, che- 
gou at(; ao golfo de Darien. Durante a 
terceira expedição, foi viclimado á ca- 
lumnia, desauthoiado e substituído 
por Bohadilha, (jue o enviou a Hespa- 
nha carregado de ferros. Obteve facil- 
mente a liberdade; mas não vingou il- 
libar o credito, a termos de se vêr des- 
prezado de Fernando depois da quarta 
viagem. Em lóOG, morreu alanceado 
de dissabores e achaques. — «Estando 
eirei (D. João ii) o anno de i'.t:ja .seis 
de março ern Vai de Paraiso, junto 
do mosteiro de Nossa Senhora da.-, 
Virtudes, termo de Santarém, pela 
razão da peste, foi-lhe dito que ao 
porto de Lisboa era chegado um Chris- 
lovam Colora, o qual dizia que vinha 
da ilha Cypango, e trazia muito ouro 
e riquezas da terra. El-rei, ponjiie 
conhecia este Colom, e sabia i|ue por 
el-rei de Castella fora enviado a este 
descobrimento, mandou-lhe rogar que 
quizesse vir a elle, para saber o que 
achara n'aquella viagem, o (jue elle 
fez de boa vontade, não tanto por 
aprazer a el-rei, quanto por o magoar 
com a sua vista. Por quanto primeiro 
que fosse a Castella, andou com elle 
mesmo rei D. João, que o armasse 
para este negocio, o que elle não quiz 
fazer, por as razões que abai.vo dire- 
mos. Chegado Colom ante el-rei, que 
o recebeu com gasalhado^ ficou mui 
triste quando viu a gente da terra que 
com elle vinha não ser negra, de ca- 
belio revolto, e do vulto como a de 
Guiné, mas conforme om aspecto, côr, 
e cabello como lhe diziam ser a da 
índia, sobre que elle tanto trabalha- 
va. E porque Colom falia va maiores 
grandezas e cousas da terra do que 
n'ella havia, e isto com uma soltura 
de palavras, accusando e reprehen- 
dendo el-rei em não aceitar sua of- 
ferta, indignou tanto esta maneira de 
fallar a alguns fidalgos, que ajuntan- 
do este aborrecimento de sua soltura 
com a magoa que viam ter a el-rei de 
perder aquella empreza, ofTereceram- 
se d'elles que o queriam matar, e com 
isto se evitaria ir este homem a Cas- 



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225 



tella. Cá verdadeiramente lhe pare- 
ceu que a vinda d'elle havia prejudi- 
car a este reino, e causar algum des- 
assocego a Sua Alteza, pela razão da 
conquista que lhe era concedida pelos 
summos pontifices, da qual conquista 
parecia que este Colom trazia aquella 
gente. As quaes offertas el-rei não 
aceitou, antes as reprehendeu como 
príncipe catholico, posto que d'este 
feito de si mesmo tivesse escândalo; 
e em lugar d'isso fez mercê a Colom, 
6 mandou dar de vestir de grã aos ho- 
mens que traria d'aqufílle novo des- 
cobrimento, e com isto o expediu. E 
porque a vinda e descobrimento d'es- 
te ChrisLovão Colom (como então al- 
guns prognosticaram) causou logo en- 
tre estes dous reis, e depois a seus 
successores algumas paixões e con- 
tendas com que de um a outro reino 
houve embaixadas, assentos e pactos, 
tudo sobre o negocio da lodia, que é 
a matéria d'e3la nossa escriptura : não 
parecerá estranho n'ella tratar do 
principio d'este descobrimento, e do 
que d'elle ao diante succedeu. Segun- 
do todos aflirmam, Christovão Colom 
era genovez de nação, homem esper- 
to, eloquente, e bom latino, e mui 
glorioso em seus negócios. E como 
n'aquelle tempo uma das potencias de 
ItaHíi que mais navegava pela razão 
das suas mercadorias e cornmercioera 
a nação genovez, este, segundo o uso 
da sua pátria, e mais sua própria in- 
clinação, andou navegando por o mar 
do Levante tanto tempo até que veio 
a estas partes de Hespanha, e deu-se 
á navegação domar oceânico, seguin- 
do a ordem de vida que antes linha. 
E vendo elle que el-rei D. João ordi- 
nariamente mandava descobrir a cos- 
ta d'Africa, com intenção de por ella 
ir ter á índia, como era homem lati- 
no, e curioso das cousas de gengra- 
phia, e lia por Marco Paulo, que fal- 
lava moderadamente das cousas do 
Oriente, do reino Cathayo, e assim da 
grande ilha de Cypango, veio a phan- 
tasiar que por este mar oceano Occi- 
dental se podia navpgar tanto, (|ue 
fossem dar n'esta ilha Cypaiigo, e em 
outras terras iiicognilas. Porque como 
em o tempo do infante D. Henrique 



se descobriram as ilhas terceiras, e 
tanta parte da terra d'Africa nunca 
sabida nem cuidada dos hespantioes, 
assim poderia mais ao poente haver 
outras ilhas e terras... Com as quaes 
imaginações que lhe deu a continua- 
ção de navegar, e pratica dos homens 
d'esta profissão que havia n'este rei- 
no, mui espertos com os descobri- 
mentos passados, veio requerer a el- 
rei D. João que lhe desse alguns na- 
vios para ir descobrir a ilha do Cy- 
pango por este mar occidental, não 
confiando tanto com o que tinha sa- 
bido (ou por melhor dizer sonhado) 
d'algumas ilhas occidentaes como que- 
rem dizer alguns escriplores de Cas- 
tella, quanto na experiência que ti- 
nha em estes negócios serem mui 
acreditados os estrangeiros. Assim 
como António de Nole seu natural que 
linha descoberto a ilha de Saiil-Iago, 
de que seus successores tinham parte 
da capitania ; e um João Baptista, fran- 
cez de nação, que tinha a ilha de .Maio, 
e Jos d'Ulra, tlamengo, outra do 
Fayal... Esta é a mais certa causa da 
sua empreza que algumas ficções que 
(como dissemos) dizem escriplores de 
Caslella, e assim Jeronymo Cardano, 
medico milanez, varão certo, douto, 
e ingenioso, mas em este negocio mal 
informado. Porque escreve em o li- 
vro que compôz da Sapiência, que a 
causa de Colom tomar esta empreza 
foi d'aquelle dito d\Arisloleles, (jue no 
mar Oceano, alem d'Africa, havia ter- 
ra para a qual navegavauí os cariha- 
ginezes; e por decreto publico foi de- 
fezo (jue ninguém navegasse para ella, 
porque com abastança e mollicias 
d'ella se não apartassem das cousas 
do exercício da guerra. El-rei porque 
via ser este Christovão Colom homem 
fallador e glorioso em mostrar suas 
habilidades, e mais phanlastico e de 
imaginações com a sua ilha Cypango, 
do que certo no que dizia, dava lhe 
pouco credito. Comtudo á força das 
suas importunações mandou (iiic es- 
tivesse com D. DiO!:;o Orli/, bispo de 
Cepta, e com mestre Rodrigo, e mes- 
tre Josepe, a (jueui fllf commellia es- 
tas cousas de geographia e seus iles- 
cobrimenlos, e lodos houveram por 



2ár. 



COL 



COL 



vaiíIíKJe as palavras de ílhrisU)v;lo Cn- 
lom, por ludo ser fiimiado cm itna^^i- 
nsçOcs (' cousas da ilha ílypaii(,ÇM d(í 
Manx» Paulo, e niJo (mii o (|iif' Jcio- 
nyrno (ianlaiio diz, o com cslo dfis- 
engaiio cxpfdido cllc (rcl-rfíi st! foi 

f)ara Oaslella, aonde lambem andou 
adraudo osU; rciiiicrimcnio cm a 
côrlc (rel-roi IJ. Fciiíaudo sem ao 
querer ouvir, alé (pie por meio do 
aiceliis|»o de Toledo, [). l*ero (loiíçal- 
ves de Meiídòça, o ouviu.» {Asia de 
João de Barros, Década 1.% livro 3.», 
cap. XI). 

COLOQUINTIDA. (Veja CucuRBi- 

TACEAS). 



COLSA. iVeja Cruciferas). 

COLUMELLA, o mais sábio agró- 
nomo da ahligiiid'jde (t.° século de- 
pois de Jcsus-Chrisloi, possuia lerras 
consideráveis cujo valor elle mesmo 
acrescentou. Viajou por diversas re- 
giões do im[)erio romano, a lim de 
aprender lodo o concernenle á econo- 
mia rural. Depois licou de assenlocm 
Homa onde «escreveu o seu Iralado De 
rr Hustiai em 12 livros, dos (juacs o 
sexlo é em verso. 

I^ciwnni-nlos sctrrloa para úioc^io, 
recitação, composições, versões elíie- 
mas: 



1 . Petita quiim tellue hortorum eeminn poscit, 
Panuitc tiim vários, terrrstria sidera, flores, 
(íaiidida IcHc.oia cl (lavcntia lumina caltha-, 
Narcissique comas et biantis sxva leonis 
Nec non vel níveos vcl cceruleos hyacinthos. 

(De re Rústica, l. 10). 



2. Invigilate, viri ! tácito nam têmpora gressu 
DitTufiivmt sensimque ccler convertitur annus. 

(L. 10). 

3. Nuno ver purpurcum, nunc cst raQllissimus 
' [annus ; 

Nunc Phonbus tener, ac tenerã decumbere In herbà 
Suadct; et arguto fugientes gramine fontes, 
Nec rígidos potare juvat, nec sole tepentes. 
Jamque Dionícis redimitur floribus hortus: 
Jam rosa mitescit Serrano clarior ostro. 

(Liv. 10. .4 primavera e as flores). 

4. Porcius Cato censebat in emendo agro 
prrecipue duo esse consideranda, salubritatemcoeli 
et ubertatem loci ; post hajj, viviam et aquam, et 
vicinum. (Liv. 7. Escolha de visinhos). 

5. Míilo enim practeritorum quam pr.xsentium 
meminisse, ne vicinum meum nominom, qui nec 
arborem prolixiorem .stare nostr;e regiouis. nec 
inviolatum seminarium, nec pcdamentum adne- 
xum vinea;, nec pecudes etium negligentius pasci 
sinerat. (Liv. 7. Escolha de vishihos). 

6. Villicus non urbem, non ullas nundinas, ni- 
si vendendfc aut emendas rei necessaraj causa, 
frequentaverit. (Deveres do quinteiro). 

7. Pecuniam domini, neque in pecore, nec in 
aliis rebus promercalibus occupet: quod eum ne- 
gotiatorem potius facit quam agricolam. (Deveres 
do quintei7'0). 



1. Assiro que a. terra bem revelvída entá de 
molde para receber ar, sementes destinadas á jar- 
dinagem, .semeai as varia.s espécies de flores, as- 
tros da terra : a modesta viola tendida, o malme- 
quer de flavo lustre, o narciso de afilada folha, e 
hei'S'a bezerra que semelha os colmilhos do leão 
saiihudo, o lirio de nevado e coruscante cálice, ou 
jacintlios brancos e os azues. 

2. Desvelai-vos, hornens, que o tempo v6a .i 
passo surdo, e o anno completa a sua rápida revo- 
lução sem nos apercebermos. 

3. Pui-pureja a primavera: é a mais linda es- 
tação do anno. Phebo, em tod» o brilho juvenil, 
convida ao repouso na fofa relva. E doce beber nas 
fontes que fogem murmurosas; nem já estão con- 
geladas, nem o sol lhes tirou o frescor. Festoam- 
se os jardins das flores caras a Vénus : desabotoa 
a rosa mais resplendente que o escarlata da ser- 
ra. O 

4. Porcio Catão entendia que, era compra de 
terras, duas cousas são attendiveis : salubridade do 
clima e fertilidade do torrão ; depois, caminhos, 
agua e visinhança. 

5. Maisquero exemplos pretéritos que actuaes, 
para me não entremetter com o visinho que nâo 
soíTre arvores que bracejem muito, nem alfobre, 
nem tanchões a ampararem \inhedos, nem reba- 
nhos que pascem sem zagal. 

6. O quinteiro não ande por feiras nem cida- 
des, salvo se tem que vender, ou comprar uten- 
sílios. 

7. Não empregará o dinheiro do senhorio em 
compras de gado, ou d'outras mercancias: p6de 
surdir-lhe d"isso dar em negociante com damno do 
agricultor. 



O Peixe de qpie Plinio deu noticia. 



COM 



COM 



227 



8. Jam, illa quae in niajoribus etiam imperiis 
difficulter custodiuntur, considerare debebit, ne 
aut remissius agat cum subjectis, semperque fo- 
veat bonos et sedulos, parcat etium minus probis, 
et ita temperet, ut magis ejus vereantur severita- 
tem quam ut ssevitiam detestentur. Poteritque id 
(.ustodire, si maluerit cavere ne peccet operarius, 
quám sero punira, quum peccaverit. NuUa est au- 
tem vel nequissimi hominis amplior custodia quàm 
quotidiana operis exactio; nam illud veruin est 
Catonis oraculum: «Nihii agendo homines maie 
agere discunt.» (Deveres do quinteiro). 

9. Villicus primus omniiim evigilet, familiam- 
que nimis ad opera cunctantem, pro temporibus 
anni, festinanter producat, et strenuè ipse praece- 
dat. Plurlmum enim refert colonos a primo mane 
opus iiggredi, nec lentos ac velut otiosos agere: 
siquidem malim unius promptam industrium, 
quàm decem homiiium tardam atque oscitantem 
negligentium. (Actividaih; do quinteiro). 

10. Hoc igitur custodire oportet villicum, ne 
stalim a prima luce família languido incedat, sed 
velut in aliquod praílium cum vigore et alacritate 
animi prKcedcntem cum tanquam ducem sequa- 
tur. Ipse variis exhortationibus laborantes cxhila- 
ret, alterius quoque interdum fungatur officio, mo- 
neatque sic fieri debere, ut ab ipso fortiter sit ef- 
fectum. (Acliuidade do quinteiro). 

COMEDIA. «É a comfidia a imila- j 
ção da vida, espelho dos costumes, 
imagem da verdade. Nunca em Athe- 
nas seriam applaudidas as infâmias j 
do thealro, se costumes públicos as ; 
não auitiorisassem. Os gregos das re- 
motas eras como que alardeavam sua 
libertinagem, pois havia lei(|ne licen- 1 
ciava a comedia illimitada, liberdade ; 
de tudo dizer sem reserva de nomes. í 
Por tanto, nada respeitou, ninguém \ 
lhe sahiu incólume das garras. A lei j 
das doze Taboas decretou, em Uoma, 
pena de morte áquelle que recitasse 
em i)ublico ou compozesse versos in- 
juriosos á reputação de outrem. Dem 
entendida lei ; que os nossos actos de- 
vem andar sob a inspecção dos Iribu- 
naes e exame legitimo dos magistra- 
dos, e não sujeitos á phantasia de poe- 
tas: é mister que possamos appellar , 
do ultraje para os tribiinaes.» (Cicero). 
— «As nossas comedias mais gabadas i 
representam, pelo ordinário, tutores , 
logrados pelos tutelados, pães pelos li- i 
liios, maridos pelas consortes, amos 
por criados... Diz-se ahi (lue a co- 
media emenda os maus costumes es- 



8. Ha um lanço de execução difficilima, até 
nas mais importantes administrações, digno da at- 
tenção do quinteiro: é haver-se com os servos sem 
rigor nem nimia brandura; gabar os que se portam 
bem e cumprem seus deveres; ser indulgente com 
os de menos consciência, e dirigil-os com mão ten- 
te, por feitio que lhe temam a severidade, em vez 
de lhe execrarem o rigor. O melhor meio de espiar 
o mais desastrado homem é dar-lhe tarefa diária. 
K veracíssimo este oráculo de Catão: Homens, que 
nada fa^em, aprendem a fazer mal. 



9. O quinteiro deve avantajar-se no madrugar, 
e guiar presto {i lavoura, na razão própria, os obrei- 
ros, de seu natural calaceiros.Éutil que os cultiva- 
dores comecem a safara ao romper d'alva, e se es- 
quivem ás moUèzas da preguiça. Eu de mim antes 
quero o lavor de um só homem ágil e afreimado 
ifue o de dez jornaleiros negligentes e ronceiros. 



10. Corre ao quinteiro obrigação de vigiar que 
os servos, ao amanhecer, não vão languidamente 
para o trabalho : cada qual deve seguil-o com afan e 
zelo como o soldado segue o cabo que o conduz á 
peleja. Cuide em alegrar os obreiros com varias 
exhortações. Âs vezes, faça o serviço de um, e, 
com seu exemplo, o incite a satisfazer seu cargo 
como elle mesmo o satisfaria. 

carnecendo-os: Castigai ridendo mo- 
res. Este adagio é falso como outros 
muitos em que se funda uma certa 
moral. O que a comedia nos ensina é 
a rir dos outros: e mais nada. Não 
me consta que alguém diga : «O re- 
trato d'este avaro parece-se commi- 
go;» o que cada um vê no palco é o 
retrato do seu visinho. Muito ha que 
Horácio fez esta observação. Porém, 
quando mesmo alguém se revisse na 
sua copia, nem por isso dou (jue d-ahi 
se lhe seguisse a reforma. Acaso pôde 
o medico curar o seu doente, apre- 
seniando-lhe um espelho, e rindo-se 
d'elle? Querendo justilicar nosso gos- 
to, aboiíamo-nos com o dos gregos; 
mas damos de barato que os nossos 
estólidos espectáculos chamem a at- 
tenção publica sobre frioleiras, e met- 
iam á chufa a vlrluile de cidadãos il- 
lustres, e incitem contra elles inve- 
jas e ódios que os aniquilaram. Não 
impugno o riso ; e, S feição de llob- 
bes, certo não creio que o riso seja 
parte do orgulho. Riem as crianças, e 
verdaiieiramenle não riem por orgu- 
lhosas. Uiem ao mero taspeco do uma 



298 



COM 



CHR 



ttòr fi ao tilintar do um guiso. Ha o 
rir (la akgria, do jubilo o do inliino 
re[»ouso : porém a chacota é cousa 
muito outra do rir natural : um resulta 
da agradável harmonia de nossas sen- 
sações e sentimentos: o outro á o en- 
Ire-chotiue de dous objectos, um gran- 
de, outro pequeno. Assim ipie, um 
objecto frívolo e sirigelo p(')de produ- 
zir terror profundo, ao passo <]\u\ por 
excitar grande liilaridade, ('; mister jo- 
gar com idéas apjtaralosas.» (Mern. 
de Saint-IMerre, /vs-Zí/í/ox, liv. iii). 

2. A malicia, congenial dos ho- 
mens, 6. o principio da comedia. Ve- 
mos os defeitos dos outros com a|)ra- 
zimento mesclado de menospreço. 
Fazem-nos sorrir as imagens se sfio 
jiintadas com destreza ; fazem-nos 
gargalhar, se a malignidade dos traços 
dispara em surprezas disparatadas. 
Eis o (jue dá a força e recursos á co- 
media. Urge, porém, que os desman- 
chos, que elía zombeteia, não sejam 
afilictivos que nos movam dó, nem 
odiosos que estimulem rancor, nem 
nos atterrem com eminentes calaslro- 
phes. O vicio dos domínios da come- 
dia é aquelle tão somente que se 
presta í\ irrisão. — Se a comedia se 
apropria a irrisão dos vícios c des- 
atinos dos personagens, chama-se de 
caracter ; se a irrisão resulta dos suc- 
cessos que a comedia dispõe em or- 
dem a ludibriar os personagens, cha- 
ma-se do situarão. Na comedia de ca- 
racter, o poeia, cura de escolher a 
acção própria a pôr em evidencia os 
desvarios que quer ridicularisar : to- 
das as situações se atém a este fim. 
Pelo contrario, na comedia de situa- 
ção ou intriga, o author no que mais 
se desvela é na fabula, collocando os 
.seus personagens em situações ex- 
traordinárias e enredadas: n'este ca- 
so, o enredo é o principal. Também 
é de mencionar a comedia de costu- 
mes, que se propõe criticar os de certa 
classe de pessoas de determinada con- 
dição, e censurar as ridiculezas que 
as instituições, usanças e modas fazem 
e desfazena. — O Misanthropo é uma 
comedia de caracter; as Sabichonas 
é comedia de costumes; o Estouvado 
é comedia de intriga. Duvidar da uti- 



lidade da comedia moral e decente 
seria pretender que os homens sejam 
insensíveis ao despreso e á correcção 
dos vícios que os fazem corar. 

3. (lomicos celebres. Na Grécia o 
mister de cómico não aviltava, ao 
[)asso íjue em Homa só os escravos 
podiam exercital-o. Homano i|ue pi- 
zasse o tablado perdia os direitos cí- 
vicos. .Modernamente, sobre Indo em 
paizes calholicos, muito tempo ruins 
preconceitos perí»*'guiram íis actores: 
isso está desvanecido, e já hoje são 
estimados na proporção do seu pro- 
ceder e meritf) artístico. Todavia, é 
verdade que são raros os que reúnem 
as boas (lualidades moraes ípie digni- 
ficam um homem. «A condição dos 
cómicos era infame em Uoma e hon- 
rosa em Grécia. Que é ella em Fran- 
ça? Temol-os na conta em (jue os ro- 
manos os tiniiam. e vivemos com elles 
á imitação dos gregos.» (La Bruvèrei. 
«O talento do cómico que é? Contra- 
fazer-se, mudar de aspecto» parecer 
outro, apaixonar-se sem paixão, di- 
zer o que não pensa, esquecer o que 
é á força de ser o que não é... Qual 
é a profissão do cómico? Um officio 
em que se dá em espectáculo por di- 
nheiro, submettendo-se ás ignomi- 
nias c affrontas que se lhe fazem com 
um direito comprado. Que moral au- 
fere o cómico d'esse seu modo viven- 
te? Um composto de baixeza, menti- 
ra, orgulho ridículo e indigno avilta- 
mento, predicados que habilitam para 
fazer toda a espécie de personagens, 
menos o de homem que elle deixa de 
ser.» (J. J. Rousseau). 

Roscius (i.° século, antes de J. 
Christo), o mais celebre dos actores 
romanos, aperfeiçoou a pantomima, 
e deu lições a Cicêro, com quem por- 
fiava a vér qual dos dous lograria sa- 
hir melhor com a mesma iiléa — se o 
primeiro com o gesto, se o segundo 
com a palavra. A França teve Mole, 
Prèville, Baron, M."^"»" Mars, etc. Quan- 
to a actores que se distinguiram no 
drama trágico, veja Tragedia. — Acer- 
ca da comedia litterariamente consi- 
derada, ÂRisTOPiiÂNEs, Flauto, Te- 
rêncio, MoLiÈRE, Regnard, Destou- 

CHES, COLLIN D'HARLEVILLE, 6 THE.A- 



COM 



COM 



229 



TRO PORTUGUEZ. Leia-se e exponha- 
se esta lição, a Ululo de recreio. 

COMETAS. (Veja Estrellas). 

COMINES (Ptiilippe de), estadista e 
historiador (1445-1509), serviu pri- 
meiro Carlos o Temerário, duque de 
Borgonha, e ligou-se depois a Luizxi 
que o enriqueceu e honrou, fazendo-o 
seu confidente e ministro. Fallecidoo 
rei, bandeoií-se no partido do duque 
de Orleans contra o regente, cahiu 
em desgraça, e esteve algum tempo 
encarcerado em Loches em uma das 
gaiolas de ferro que Luiz xi inventa- 
ra ; mas restituído ao valimento de Car- 
los VIII, a quem seguiu á Itália, foi 
encarregado de variados negócios. 
Voltando á pátria, empregou as horas 
vagas na redacção das suas Memorias 
(reinado de Luiz xi e Carlos xii) onde 
avalia os successos pelos resultados, 
sem ter palavra que impropcre os 
mais iniquos feitos; não obstante, a 
obra tem innegavel mérito, conside- 
rada histórica e politicamente. 

«Entre os historiadores modernos, 
diz M. de Barante, nenhum ha sido 
talvez tão estimado como Comines. Ãs 
seducções da linguagem natural e íle- 
xuosa,'onde realçam e lustram os va- 
riados relôvos do' pensamento, ao in- 
teresse que nos prendo á narrativa 
ingénua e enérgica de testemunha 
ocular, ajunta Comines profundo saber 
dos homens e dos negócios. Não julga 
como philosopho e moralista, nem tão 
pouco medita acerca dos governos e 
revoluções como politico : o seu dis^ 
correr, na phrase de Montaigne, «re- 
presenta, grave e authorisadamente, 
o homem de fina tempera educado na 
pratica das altas cousas.» Tudo n'elle 
vislumbra observação serena, e juizo 
são e recto. Creado no seio dos impé- 
rios lumulltiosos, das intrigas da rea- 
leza, (la corrupção das amásias reaes, 
n'aí|nelle tempo em quo o enthusias- 
mo (la cavallaria e da religião eram 
já fallidns, e o império do mundo ia 
pertencer aos mais babeis e pruden- 
tes, Comines afez-se a presa r, de 
preferencia, a sabedoria do proceder 
e do caracter. Não se nos depara irel- 



le nobre e elevado amor á virtude e 
lealdade; mas, como a justiça, a boa 
fé, e o respeito á moral são o apoio 
da ordem duradoura, honrosamente 
o devemos acatar pela inteireza de 
juizo e honestidade de intuitos. Em 
nenhum escriplor aprendemos, como 
em Comines, o que eram n'aquelle 
tempo direito de reis e privilégios de 
povos. Tem elle pelos inglezes gran- 
de consideração, porque mantinham 
seus foros com vantagem ás outras 
nações; não considera menos o rei de 
França, que soube manter e exercer 
05 seus direitos. A indolc dos diversos 
povos europeus, de modo a descreve, 
que ainda hoje nos sabe exacta. Em 
conclusão, não sabemos de livro po- 
litico mais applicavel e pratico ; abun- 
da em sciencia positiva, fruclo de ex- 
perimentação, em que nada iníluem 
opiniões esyslemas. «Príncipes e cor- 
tezãos topam aqui boas advertências, 
a meu ver» — disse elle, e com elle o 
dizemos nós.s» 

Leia-se e faça-se redigir este arti- 
go. Pôde addilâr-se-lhe alguma pas- 
sagem sobre Luiz xi e Carlos vii. 

COMMERCIANTE. (Veja Negocian- 
te). 

COMMERCIO. (Veja Portos). 

COMPANHIAS. «Uma das inclina- 
ções que mais convém excitar no ani- 
mo da mocidade inexperta é a das 
boas companhias, que conviria fossem 
sempre compostas de pessoas supe- 
riores não só em graduação, como em 
talento e ascendência, as únicas que, 
geralmente fallando, teom admissão 
na boa sociedade. Verdade é que se 
observa frequentemente que alguns 
indivíduos em quem se não dão taes 
qualificações são mui bem recebidos; 
mas cumpre notar (jiie essa tolerância 
nunca recahe em homens de rastíMra 
condição, ou de caracter decidida- 
raenlí^' iníame e vil. 

«As maneiras polidas e a Ix^lhv.ade 
linguagem só se aprendem na compa- 
nhia culta, que (• aonde se reúnem 
as pessoas instruídas, que por génio 
e timbre fazem particular estudo 
d"a(iuellas matérias. 



230 



COM 



COM 



«Poder-nos-h3o objectar (juc nom 
todos os iruJividiKjs Umíid occasiJo de 
fre(|ri('iit;ir polidas sociedades. A isso 
res()Oiid(Meinos (jue sem[)re as oljler.í 
coin iriais ou menos facilidade a pes- 
soa (|i]e por suas circuinslaiicias pos- 
sa viver como cavallieiro; e uma vez 
alli adiniltida, a iuslrui.rào, Ijoa edu- 
cação e modeslia lhe i{ran},'('arào a 
estima dos indivíduos «pie a «dia igual- 
mente concorroicm, e cuja intimidadf! 
e rciaròcs lhe stMiiu proveitosas. T<;- 
nha-se sempre picsente (|ue a polidez 
é a (|iiali(lade mais necessária, e a (!m 
que mais podemos confiar : sem ejla 
todas as outras lialjilitaeões, posto 
(|ue apreciáveis, de pouco ou ipiasi 
nada servirão: sem ella o estudioso 
dado ás leiras é sempre tido em conta 
de pedante; e sem ella, íinalmenle, o 
homem (|ue mais mérito possua será 
por todos olhado como um rústico. 

«Nào aconselharemos todavia osjo- 
vens a quese dcdiquemabsolulamen- 
te ao trato dos homens de leiras, com 
o qual, ainda que vantajoso seja ao 
progresso do espirilo, se não apren- 
dem certas maneiras que o mundo 
lauto apiecia, e de que não faz caso 
o lillerato (]ue viaja quasi sempre pe- 
las i'egiòes supeiiores. Isto não é re- 
provar as relações com uma classe tão 
respeitável; bem pelo contrario as 
achamos de summa utilidade, não ha- 
vendo demasiada frequência. 

«.4s companhias de que todos, e 
principalmente os mancebos bera edu- 
cados, se devem desviar, são as das 
pessoas tão rasteiras de condição co- 
mo de porte e maneiras. Semelhante 
gente, destituída de todo o mérito e 
habilitação, procura sempre a compa- 
nhia dos que lhe são superiores, e em 
quem, para captar sympalhias, lou- 
vam com fingido enlhusiasmo qual- 
quer vicio, ou extravagante loucura. 
«Muitos mancebos haverá adorna- 
dos de prudência e são juizo, a quem 
taes vilezas não fascinem; no entanto 
se se virem applaudidos e admirados 
como pessoa de grande capacidade; 
se a lisonja, embuçada no manto da 
hypocrisia, representar bem o seu pa - 
pel, então a sua victima, cheia d'uma 
vaidade orgulhosa, cahe na rede que 



se llie armou, começa a amar o que 
atá alli aborreceu, e cria estreitas re- 
lações com individuoj i^ue vêem por 
liin causar-lhe total ruina. 

iA .sociedade iníima é (juasi sem- 
pre viciosa, [)oique a ignorância, que 
anda ordinariamente associada ao vi- 
cio, tem irella a sua sede. A boa com- 
panhia, purthn, não participa tanto 
d'estt! mal; e se de algumas pessíjas 
(|ue as freijiientam ouvimos contar 
cousas desagradáveis, podemos Iji.ar 
certos que não são alh tão estimados 
ou respeitados como o seriam se taes 
defeitos não possuissem. O contrario 
d'istoacontece nassocjedades intimas, 
porque ifellas se admiram e applau- 
dem c(jm fre(|iien':ia vícios sobre os 
(|uaes toda a sociedade decente e gra- 
ve lança um completo anathema. 

«Uecotnmendamos poilanlo aos 
mancebos incautos que fujam das 
companhias abjectas, porque o fre- 
qucntal-as é o primeiro passo para a 
depravação mental. Pedimos-lhes (jue 
procurem antes imitar as maneiras 
graves e sisudas das pessoas liem edu- 
cadas, na certeza de que se alguns 
defeitos n'eslas se notarem, serão 
sempre na razão de um para cera em 
relação aos que nas outras se encon- 
tram. Todavia declarareaios que isto 
não se entende absolutamente de to- 
das as classes rasteiías, mas sim das 
companhias abjectas por seus vicios e 
desordens.» {Panorama). 

COMPIEGNE. (Veja Iliia-de- 
Franga). 

COMPRIMENTOS. Ha muitas pes- 
soas que querem achar nos livros os 
comprimentos já promptos e feitos : o 
methodo é commodo; mas tem in- 
convenientes. Supponhamos que Jú- 
lio e Eugénio se escrevem reciproca- 
mente no mesmo dia, e que ambos 
tiram, ao mesmo tempo, o mesmís- 
simo comprimento no mesmo Manual 
epistolar. Pobres rapazes ! com que 
affecto se não devem bem-querer os 
dous sujeitos por sentimentos recí- 
procos, que não derivam do coração, 
mas da mesma pagina de cerlo livro! 
«Os bens alheios não uos luzem» diz 



COM 



CON 



231 



o provérbio ; do espirilo pôde dizer-se 
o mesmo. O que se pede emprestado 
vale o mesmo que o que tem cada qual 
de seu; e, em surama, quem o não 
tem saiba abster-se— melhor é isso 
que ser ridículo. — Além de que, as 
pessoas não habituadas a redigir, lo- 
go á primeira linha se pegam, e não 
escrevem porque não sabem o que hão 
de escrever ; mas vai n'isso mais amor 
próprio que irapossibiUdade. Querem 
dar-se ares de eslylistas, em vez de 
exprimirem chãmente o que pensam 
e sentem, e, (i força de quererem fa- 
zer cousa muito linda, não fazem na- 
da. Isto entende com todas as cartas 
em geral, e com os comprimentos de 
anno novo ou de natalícios. 

Primeiro que tudo, cumpre saber 
que o comprimento é um breve dis- 
curso que se dirige, ou de viva voz, 
ou por escripto a pessoa a quem se 
deve reconherimmlo ou veneração, 
para lhe agradecer bondades qne usou 
comnosco, e rogar-ihe que as cunti- 
nue, expressando-lhe os votos que 
formamos por suas prosperidades. O 
comprimento rejeitado que fôr alheio 
d'isto; a carta, pelo contrario, ad- 
mitte que se tratem negócios, e os 
comprimentos podem entrar inciden- 
talmente. Um e outro devem ser sim- 
ples, claros, sem palavras superlluas 
nem phrases ambiciosas. Sabedores 
do lom (|ue nos convém empregar, e 
idéas que importa expender, pensa- 
remos nas particularidades que di- 
zem respeito aos progressos feitos du- 
rante o anno, e.rilos obtidos e espe- 
rados, nd/ms castigadas ou perdoa- 
das, indelicadezas ou faltas de atten- 
çào, esquecimento e perdão de inju- 
rias: rerezese accidentes, promessas, 
resoluções ou desojos, etc. — senti- 
mentos (jutí variara conforme a posi- 
ção, idade, domilicio do menino ou 
do mancebo que escreve. — O inte- 
resse da carta ou comprimento im- 
])ende lodo de circumslancias parti- 
culares, factos individuaes, c ao mes- 
tre incumbo dirigir o alumno na in- 
dagação dVsses factos pessoaes, sem- 
pre gratos ãs famílias, e devera ser a 
substancia da caria ou comprimento. 
Esla redacção, ijuando o professor é 

Vl)L. 1. 



zeloso, dá ensejo a grave ensina- 
mento moral, que abre lanço de exa- 
minar o proceder duranle o anno de- 
corrido, e excita no animo do discí- 
pulo generosas resoluções. (Veja Car- 
tas, ESTYLO). 

concílios. Concílio é uma assem- 
bléa de bispos reunidos para regula- 
rem os negócios ecclesíasticos, res- 
pectivos á fé, disciplina e usos. Cha- 
ma-se ecuménico, se todos os bispos 
da chrisiandade se reúnem ; nacional, 
se se reúnem somente os bispos d'uma 
nação; proiincial ou diocesano, se é 
convocado por bispo metropolitano. 
Conlam-se 18 concílios ecuménicos 
ou geraes : o de Jerusalém, nu tempo 
dos apóstolos (anno 50). — O de Nicea, 
em Bíthynía (325), onde foi condem- 
nado Macedónio, que negava a divin- 
dade do Espirito Santo. — O primeiro 
concilio de Epheso (i39), onde foi 
condemnado Nestorio, que negou a 
união hypostalica do Verbo com a 
natureza humana, e ensinou i]ue de- 
via distinguír-se em Jesus Christo, a 
divina, pela qual a humana fora absor- 
vida como golla de agua pelo mar. — 
O segundo e terceiro concilio de Cons- 
tantinopla (553 e G8I). No ullimo fo- 
ram condemnados os monothelilas 
que pretendiam haver uma só von- 
tade em Jesus Christo, bem que as 
naturezas fossem duas. — O segundo 
concílio de Nicea, onde foi coiidem- 
uada a heresia dos iconuclastas eu 
destruidores de imagens. — O quarto 
concilio de Constantinopla, onde foi 
condemnado o scísnialíco Phocío, ho- 
mem possante e orgulhoso que usur- 
pou a sé patriarchal que santo Igna- 
cio occupava. — Os qualro concílios 
de Latrão (11-2-2, 113'.), 1170, 12 15). 
No primeiro foram condemnados os 
vandenses que professavam serem pa- 
dres todos os cbristãos ; e, nos outros, 
confirmou a igreja o benelicio pres- 
tado pelas ordens monásticas, e esfor- 
çou-se por lecondiizír os gregos á uni- 
dade. — Os dous concílios de Lvão. — 
O lie Víenna no l)el[)li!iudo. em que 
a igreja se revelou soliiila a bt>m da 
sociedade, refoiínando costumes e 
alentando a sciencia, e condemnando 

16 



23: 



CON 



CON 



oshfiipgfsqiip f)0i1iiil).'ivatn os povos 
{\'M). — Oooii(;ili()(l('Coiist;irir.'i (111 ii 
quft poz tcnno ;io í,'inii(|(' siisin;i do 
occiílfíilc, o sii[i[)rimiii, [)í»|- s.ipicii- 
lissimns razOos, a comrniiiilirio sob 
diias csjiocips. — O rdiicili'» (l<! FJalc 
(1 13I). — Ocoiicilio (IcTiciilo. (jcciíno- 
oilavo ('. ullimo (iiic se rciiiiiu i\')i:)H 
i?){VA) fiara coiidciniiai" lií'n'>ias dos 
proleslaolrs (! rcforinai- os coshiiiifs 
dos callmliros. 

2. A igreja púdc considcrar-so sob 
dons aspectos : iciiiiida cm concilio, 
OU disixMsa. Em (jiialíiuor d'fisles 
dons esiados, p(')(lo a igreja decidir 
nas disputas ijtic se forniam em seu 
grémio. SSo sempre iguaes em auclo- 
ridade os seus juizos, por (|ue rt.s- 
portas do infcnio não prrvnlrrrrão já- 
tíinis contra cila... Cuidar i|ue ella s() 
goza privilegio de iiifallibilidade nos 
concilios geraes é restringir muito a 
promessa (]U(í se prolonga a lodos os 
tempos, é erro na fé. Jesus Cliristo 
não disse aos apóstolos: «Eu eslou 
somente comvosco (|uando esLaes rpu- 
nid(is,y> mas: «Eu eslou Sí-m/íjv com- 
vosco até á consum mação dos sécu- 
los.» {Prnsanirnlnsllicoloíjiros, de Dom 
Jamin).— «A verdadeira regra da ra- 
zão, diz Nicole, é estabelecer a cren- 
ça sobre a majima aulhoridade visí- 
vel. Esta regra é a única bem propor- 
cionada ao povo, e apta a unir os tieis 
em um corpo de sociedade razoavel- 
mente.» — «A aulboridadc da igreja, 
residindo na pluralidade visivel do 
corpo dos pastor-ís unidos aos seus 
chefes, une a máxima certeza da cren- 
ça á máxima iranquillidade de um go- 
verno intelligente e duradouro.» (O 
abbade Terrasson). — Transpostas as 
barreiras, e descurada a aulhori- 
dade, ninguém sabe onde parar. Os 
anglicanos, por opposição, engendra- 
ram os presbylerianos; estes, os in- 
dependentes, etc. (Veja HuME, Casn de 
Sluart, tom. iii, p. 2U4, etc.) «Quando 
Luthero me propõe substituir a con- 
substanciação á Iranssubstanciação, 
a que tribunal me envia ? Ao da aulho- 
ridade? Essa contraría-o. Ao da ra- 
zão? Em que é que a minha razão 
entende melhor a consubstanciação? 
E quando outro arguraentador mêdiz 



que Josus Christo não cslá presente 
na Kiirharislia senão por fé '* Ou esli 
oti não est.i prrscnte; se não está, a 
minha fé não píide f.izer (jue esteja, 
f mal avisado ando >(' creio (|He eslá. 
A minha ft' nada Icm com iss(j : e (]uer 
(Mi creia (|ner não, est.i pres-Mite. (jue 
|(reletidem, pois? Se me não (|iiel)ram 
peias á razão, si; ura deixam subjiitra- 
da, antes (jiiero o jugo sagrado <jue o 
profano. .Myslerio |)or niysterio, só 
aceito o (|ue me vtMii da aulhoridade 
legitima. Ou vos abalançais a muito 
ou a muito pouco. Ou não corteis nada, 
ou cortai tmlo (|ne a razão n'isso cmi- 
senle. Os incrédulos arredam-se mais 
do que vós da via de salvarão, mas 
estão mais a ponto de entraram nVdIa, 
raciocinam melhor; e, logo que sin- 
tam precisão da aulhoridade, submet- 
ler-se-hão inteiramente, sem as vos- 
.sas ridículas resalvas. Eis-aipii o nos- 
so modo de ví^r as idéas vagas dos 
hereges, e as tão pouco philosophicas 
mudanças que aprouve a Luthero. 
Calvino e a seus se(|uazes irazer á 
doutrinada egreja.jnGaillard.da Aca- 
demia franceza. Historia de Franria- 
ro I, t. VI, liv. VII, c. H). Dicte-se e 
faça-se recitar a primeira lição. Leia- 
se a segunda. 

Se citamos estas vigorosas passa- 
gens, é para affirmar a fé já tão aba- 
lada, e nãopara tornar o moço dogmá- 
tico e intolerante. Pregoamos a ca- 
ridade illustrada, e deixamos a cada 
qual a liberdade do pensamento, de- 
pois de nos desvelarmos em persua- 
dil-o com o maior melindre. 

CONDE. O grande Conde, nomea- 
do general em chefe aos ±2 annos, 
desbaratou inteiramente em Hocroy 
os hespanhoes, muito superiores em 
numero, e formidáveis por sua in- 
fanteria. «Na véspera de um grande 
dia, diz Bo.ssuet, e desde a primeira 
batalha. Conde está tranquiilo : tanta 
é sua presença de espirito ' Mo dia se- 
guinte, á hora aprasada, foi preciso 
espertar do dormir profundo este 
novo Alexandre.» — No anno seguin- 
te bateu os allemães em Fribourg e 
ganhou em 16iõ contra Mercy a bata- 
lha de Nordlingen. «Que objecto se 



CON 



CON 



233 



me avulta ! — exclama Bossuet, men- 
cionando aquella derradeira batalha 
— não ha ahi somente homens que 
combater ; ha serranias inaccessiveis ; 
algares e despenhadeiros de um lado, 
do outro um matagal impenetrável, 
cujo chão é alagadiço; e á reta- 
guarda, torrentes e trincheiras pro- 
digiosas; por toda a parte fortalezas 
inexpugnáveis e bosques derribados 
que atravancam estradas intransitá- 
veis; enocentroestáMercycomosseus 
valentes bavaros,Mercy que nunca fez 
pé alraz nos prélios, Mercy ([ue o 
principe de Gondé e o pervigil Turen- 
ne nunca tomaram de sobresalto em 
movimento irregular, e do qual dis- 
seram (grande louvor!) que nunca 
perdera momento propicio, nem dei- 
xara de lhes prever os intuitos, como 
se fizesse parle dos seus conselhos! 
Por espaço de oito dias, em quatro 
batalhas, vin-se tudo que cabe em- 
prender e tentar na guerra. As nos- 
sas tropas pareciam descorçoadas já 
pela resistência dos inimigos, já pe- 
las horríveis localidades, e como que 
o principe se viu por algum tempo era 
desamparo. Porém, qual outro Ma- 
chabeu, não lhe afrouxou o braço ; e, 
irritado pelos perigos, ganhou cora- 
gem.» - Conde foi menos feliz em 
Catalunha; mas, pouco depois, levou 
de vencida o archiduque Leopoldo, 
com a victoria de Lens, que abriu as 
pazes com Allemanha. — Durante as 
guerras da Fronde, Conde, que, ao 
principio, defendera a corte, hostili- 
sou Masarin. Foi então preso por es- 
paço de três mezes. Restituído á li- 
berdade, respirou na vingança. Le- 
vantou um exercito, marchou sobre 
Pariz, e desbaratou o marechal Hoc- 
quincourt; e em seguida foi batido 
por Turenne no arrabalde de Santo 
António. Após este desastre, passou 
ás lileiras hespanholas, e felizmente 
para a França não foi com ell(( o gé- 
nio da viclnfia. A paz dos Pyreneus 
restituiu este principe á pátria. Apre- 
sentou-o Masarin ao rei que liie disse 
estas palavras: «Meu primo, depois 
dos grandes serviços que prestou á 
minha conVi, esíjuecc-se de um mal 
quo foi igualmente funesto para nós 



ambos.» — Em 1668 o vencedor de 
Rocroy e de Fribourg, reappareceu á 
frente do exercito real, e a Franche- 
Conté, conquistada em Ires semanas, 
nol-o mostra iriíimphante e reparan- 
do gloriosamente o (pic devia á Fran- 
ça. Seis annos depois (1674) venceu 
os hespanhoes e austríacos em Sénef, 
ostentando aos cincoenta e três annos 
a intrepidez dos dezoito. — Contava 
Boileau que Conde, estando a mor- 
rer, chamara seus familiares, e lhes 
dissera : «Muitas vezes me ouvistes 
proferir irapiedades; mas, no meu in- 
timo, eu queria tudo que exterior- 
mente negava. Fingia^e libertino e 
atheu para parecer mais valente.» 
Que palavras! e que segredos se refo- 
Iham no coração dos mais illuslres 
varões ! 

SiDiimítrlo : Batalhas de Rocroy e 
de Fribourg. — Apreciação por Bos- 
suet. — Missão de Conde na guerra 
da Fronde. — Batalha de Sénef. — 
Leia-se, e faça-se redigir com este es- 
boço. 

CONDILLAC. Teve ordens de clé- 
rigo; mas não se votou á vida eccle- 
siastica. Foi philosopho celebre, e 
chefe da escola sensualisla em Fran- 
ça. Seguindo a carreira das letras, 
em annos ilorentes, ligou-se aos mais 
eminentes philosophos da época, no- 
meadamente Diderot, Duelos, e J. J. 
Rousseau. Ao principio, imitou Lo- 
cke, philosopho inglez, e publicou em 
1746 o seu Ensaiu árcrca da orujem 
dos conhficimenlos humanos, notável 
por novidade de idéas e clareza de 
estylo, onde revela grande destreza 
de estudos metaphysicos e recursos 
de linguagem. — Três annos depois, 
no Tratado dos sijstriiias, a(|UÍlatou 
as doutrinas dos mais illustres philo- 
sophos seus antecessores. — Em 1754 
appareceu o Tratado das sensações, 
obra vigorosamente ideada, mas on- 
de ha doutrinas paradoxaes d"esta 
natureza : Que todas as idéas proce- 
dem dos sentidos; (juc as faculdades 
da alma não são mais (pie srnsarõcs 
transfiirniadas . (jue o único methodo 
bom é a anal>se ; (pie as línguas são 
methodos analíticos; (lue o progresso 



23 i 



CON 



CON 



da inlflligeiícia depende do aperfei- 
çoanKiiilo das línguas ; (|ue iinia scieri- 
cia t' nina liní,Mi;i bera constrnida; quo 
a arlo de <;sor(íver se reduz a seguir 
a tiavarão das iiléas. — Os emules 
avenlaiani (pie Condillac haurira o 
pensainiuUo (l"esla ol)ra nos livros de 
Oiderol c HiilTon; ellf, port-ni, rcfu- 
tou-os victoriosanifMlt', conipontlo 
nVssp ensejo o Tniludn tUi^ iiininivs. 
Nomeado membro da Arademia fran- 
cesa, foi encaiici^ado da educarão do 
du(]ue dl! Parma, nelo de Luiz xv, 
para quem compoz um ciuso com- 
pleto de estudos, (|ue compreliende : 
Arir de pcnsdr, Arle do niriíiriudr, 
Arte de escrccer, GúDiíinaliai, llhlu- 
ria iinire7-sal. 

CONE. 1. Fazendo girar una trian- 
gulo recta n'^ulo ao i'edor de um dos la- 
dos do angulo recto, gera-se o solido de 
revolução chamado íi>Uí'. O lado íixoé o 
eixo ou a alliira do cone ; a liypothe- 
nusa, cjenitriz da superíicie convexa 
do solido, c a arcsla . e o circulo des- 
cripto pelo movimento do outro lado 
do angulo recto, é a hase do cone. 
Como a superíicie lateral d'este solido 
é gerada pelo movimento de uma re- 
cta que passa constantemente por um 
ponto lixo e pela circumferencia da 
base, generalisou-se esta concepção, 
substituindo a linha circular por uma 
curva qualquer, e denominaram-se 
€onica.% as superfícies que admittem 
esta geração. O cone é recto quando 
o eixo é perpendicular ao plano da 
base ; é obliquo quando está inclinado ; 
mas n'este caso não se pôde conside- 
rar produzido da revolução d^um trian- 
gulo rectângulo. — Todo o plano, con- 
duzido polo eixo do cone de revolução, 
dá uma secção que é um triangulo isos- 
celes duplo do triangulo gerador; pelo 
contrario, lodo o plano perpendicular 
ao eixo dá uma secção circular, que di- 
vide o cone cm duas partes: a supe- 
rior, um cone também, a inferior, um 
tronco de cone com as bases parallelas. 
— Considerando, como no cylindro 
(veja esta palavra), a circumferencia 
da base do cpne constituída por uma 
infinidade de elementos rectilíneos in- 
divisiveis, a superfície convexa do 



cone deverá ser considerada como 
sendo formada por uma inlinidade de 
eleiíieriios indivisíveis limbem, (jue 
serào lrian;íulos isosceles iguaes, cuja 
altura com m um confunde-se com a 
aresta do cone ; o (pie reduzirá o so- 
lido a uma injroinidf rd/ular (rnmii 
in/inid(idr ili- fans. (Veja 1*víi\midk). 

'2. I)rfinirni'x. O cone leclo é UID SO- 
lido [)ro(luzido do j^iro inteiro de ura 
triangulo rectângulo ao redor de um 
dos lados do angulo reclu. — A base 
do cone é o circulo gerado pelo fluxo 
do outro lado do angulo recto. — O eixo 
do cone é a recta que une o vértice 
ao centro da base. — A genitriz, ou 
aresta do cone, é a hypothenusa do 
triangulo gerador, a qual, no seu mo- 
vimento, descreve a superíicie lateral 
do solido. — No cone recto, o eixo é 
perpendicular ao plano da base; no 
obliquo, o eixo é inclinado. — A altu- 
ra do cone é a perpendicular baixada 
do vértice sobre o plano da base, que 
se prolonga sendo necessário. No cone 
recto, a altura coincide com o eixo. 
— Um cone troncado, ou tronco de 
cone, é o que íica d'um cone cortado 
por um piano, depois de separada a 
parte superior. O cone pôde ser tron- 
cado por um plano parallelamente á 
base, ou obliquamente. — Cows de 
revolução semellianles são os que teem 
eixos em proporção com os raios das 
suas bases. 

?>. Proposições. A superfície convexa 
do cone recto deve considerar-se cons- 
tituída por uma infinidade de triân- 
gulos isosceles, cuja base é o elemen- 
to indivisível da circumferencia da 
base do cone: e cuja altura coincide 
com a genitriz do solido : é pois evi- 
dente que a super /icie conre.ra do cone 
recto é e.rpressa por metade dn cir- 
cumferencia da bane multiplicada pela 
aresta. A área total obtem-se ajun- 
tando a esta expressão a área do cir- 
culo que serve de base ao cone. isto 
é: a área total de um cone recto é 
expressa por metade da circumferencia 
da base docone, multiplicada pela som- 
ma da aresta com o raio da base. Ob- 
serve-se que a superfície lateral d"um 
cone obliquo não pôde ser obtida pelas 
proposições da geometria elementar. 



CON 



CON 



23' 



— Obtem-se a superfície lateral d'um 
tronco de cone de revolução com as 
bases parallelas, multiplicando a ge- 
nitriz do tronco pela semi-somma das 
circumferencias das duas bases. Para 
\èr a razão da regra, basta notar que 
o (lescnvokimenlu d'esta superfície 
é um trapézio. — O volume de um 
cone recto ou obliquo é expresso por 
um terço da sua altura, multiplicado 
pela área da sna base. Deduz-se dire- 
ctamente esta regra, observando que 
o cone é uma pyramide d'uraa iníini- 
dade de faces. (Veja Pyramide). Eis a 

formula: volume = - R= X ^r , isto 

é: 3,141f) multiplicado pelo quadra- 
do do raio R da base epelo terço da 
altura a. — Obtem-se a altura do* cone 
correspondente ao tronco, com bases 
parallelas, multiplicando a altura do 
tronco pelo raio da maior base, e di- 
vidindo o producto pela diíTerença dos 
raios das duas bases. — Para obter o 
volume' d'um tronco de cone, cujas 
bases são parallelas, calcula -se o qua- 
drado de cada um dos raios das ba- 
ses, o producto d'estes dous raios, e 
ajuntam-se os resultados obtidos; 
multiplica-se esta somma pela altura 
do tronco e pela razão da circumfe- 
rencia ao diâmetro ; e divide-se o pro- 
ducto por três. (Para a demonstração, 
veja Lkgendre, Sonnet, etc.)-^Os 
volumes de dous cones semelhantes 
são proporcionaes aos cubos das suas 
alturas, ou aos cubos dos diâmetros 
das suas bases. (Veja Semelhança, 
Superfície, Volume). 

Dieta r e fazer decorar as lições 2 e 
3, depois de ter explicado, com o 
auxilio da primeira lição, a parte que 
mais facilmente se pôde comprehen- 
der, 

CONFIANÇA. «Sem a confiança 
não podemos esperar educarão bera 
dirigida.» (Fón., Ediírnrào (htfi mcni- 
tírts, c. .5). Se o menino oommetter 
uma falta, e se mostrar sinceramente 
arrependido, mostremos acredital-o. 
Diz Locko: «Se se der o caso de ipie 
as suas desculpas sejam de natureza 
tal que não accusein impostura, acei- 



tai-as como verdadeiras, sem de ne- 
nhuma maneira vos mostrardes sus- 
peitosos; porque é sobremodo im- 
portante que o menino mantenha a 
sua reputação comvosco no mais per- 
feito grau que ser possa, pois que se 
elle vem a perceber que o tendes em 
mau conceito, perdereis a melhor op- 
portunidade de o dirigir a vosso ta- 
lante.» {Educação dos meninos, t. ii). 
— Não se capiiva a confiança d'um 
menino, se o desamamos, e como a 
sua intelligencia comprehende bem o 
sentimento que lhe dedicamos, d'ahi 
resulta que só lhe ganhamos a con- 
fiança, traiando-o amoravelmente, 
sem fraqueza nem artificio. 

2. A confiança dá mais actividade 
á intelligencia do menino, dilatando- 
Ihe o espirito, e excitando-lhe as qua- 
lidades generosas que a desconfiança 
comprime. A confiança concilia a 
sym[)athi4 dos outros, e oblem dos 
corações tributo affectuoso ; e porque 
é expansiva, também é o mais fe- 
cundo predicado, se a prudência lhe 
abalisa justos limites. — «Presta con- 
fiança ás acções dos homens, mas não 
ao que ellês dizem.» (Demophilot. 
«Quem perdeu a confiança não tem 
mais que perder. J) ( P. Cyrus). <^0s que 
se confiam no Senhor serão como a 
montanha de Sião que nenhuma tem- 
pestade abala.» {Ps. cxxiv, 1). «Dor- 
me-se em paz no seio de Deus, se nos 
entregamos á sua providencia, e ao 
brando sentimento da sua misericór- 
dia. Nada mais ha que procurar : if el- 
le descanca inteiro o homem.» (Féne- 
lon). 

Dicle-se a segunda lição, e ampliem- 
se estas idéas em forma epistolar a 
um inferior a quem aconselhamos. 

CONFISSÃO. 1. A confissão foi 
instituida por .lesus Christo, que deu 
a seus discípulos pod<*r de perdoar 
peccados por estas palavras : «iSerão 
perdoados os peccados (faquelles a 
(|uem vós perdoardes, cIc-k (João 
Kv.. c. XX, veiso 23). — «A conlissão 
é remédio imprescimlivel ;i pohre hu- 
manidade : ÍM-m dciiuinslra sor ins- 
tiluiçào de Deus, reparador da alma. 
I*('la confissão [t»M'se vera mos no bem. 



-23t> 



CON 



CON 



conhecemos o mal, (ugirnol-o, e nos 
unimos a Deus: isU» ít inn<'(,'avel.)> 
(Nai)ole;lo i). — «Seia a conlissão, sem 
esla inslilniçào salutar, o criminoso 
caliiria (mii descspíTo. E(n que seio 
(Jesabafaiia elle as angustias da sua 
alma? No seio do amigo? Ah! que 
valem anii/ades (Thoincns? Iria con- 
lidenciar com os deseilos? Os deser- 
tos re|i(M(ulem seuiprc o ilangor d"a- 
(|uellas lr()m[)as que Nci-o, o malrici- 
da, pensava ouvir á volt,! do tumulo de 
sua mài. Quaiulo a naiuir/a e os ho- 
mens sdo iuexliorav(!Ís, ('• maviosissi- 
mo de;)arar-se-nos iJeiís prestes a 
perdoar. Formar da iiinocencia e da 
mágoa duas irmãs, só a religião chris- 
13 o fez assim.» ((llialeaubi'iand). 

2. Km família honesta, unida, in- 
telligente, nada se esconde: conta-se 
tudo que se viu e fez, c a moralidade 



de cada um augmenla no proveito de 
todos. Se o pai. |)or exemplo, costu- 
ma ao laniar, ou (Juranle o sei jio con- 
tar cousas da sua \idasuhmeltendo-a.s 
ás ledexOés e ohservaçòes de lodos; 
se a m.li faz (j mesmo, e os lilhos imi- 
tam !-eus |»aes, resulta i<jhu.^tecer-se 
a uiiiáo da íamdia e inslruirem-se os 
ííIIkjs em iiilinilas cou.sas. e a proce- 
der d(! modo (pie nào tenham de es- 
conder .seus d( feitos. Kslascoiilissòes 
de família, tem um percalço |>erniiio- 
sissimo; e é (pie um menino não con- 
fessa as suas culpas sem divulgar as 
alheias. Devem jkjís vigiar-se estes 
inconvenientes; e logo (|ue laes con- 
fissões forem mal dirigidas, convém 
ir-lhes á mão, legulal-as. e confiar com 
taes meios ipje a situação moral da 
familia se aperfeiçoe. 
3. VíMsões, themas, lecitacão: 



1. Si di.xcnmus quoiiiam poccatum iion habe- 
mus, ip.si nos scducirnus, et vcritas in nobis non 
est. Si confileamur peccata nostra, TiJeris est et 
justiis, ut rcmittat nobis peccat.i no.stra, et cmun- 
det nos ab oinni inifiuitate. (Ep. i. c. IjV. Heíl, 
.S. Joan.'). • 



1. Se dizemos que não temos pccrados, a nós 
mesmos mentimos, e desgarramos da verdade. .S« 
confessamos nossos peccados, o Senhor é fiel e jus- 
to: perdoar-nos-lia, purilicando-nos de Ioda u ini- 
quidade. 



2. Confitemini alterulrum peccata vestra, et 
orate pro invicem, ut salveniini: multúm cnim va- 
let deprecalio jiisli assidua... Si quis cx vobis er- 
raverit a veiitate, el convertcrit quis eum ; scire 
debet quoniam qui converti fecerit peccatorem ai) 
errore vi;c su;e, salvabit animam ejus a morte, et 
operiet muUitudinem pecpalorum. (S. Jacques' 
c. V, V. 16. 1í)et20). 



2. Confessai vossos peccados uns aos outros e 
pedi reciprocamente a fim de que sejaes salvos; 
porque a supplica assidua e fervorosa do justo con- 
.seiíue muito... Se algum de vós ac transvia da ver- 
dade e é reconduzido por outro, saiba que quem 
tira um peccador de sua perdição salva uma alma 
da morte, e cobre a multidão dos seus peccados. 



CONIÍECIMENTOS HUMANOS. 1. 

íÈ illimiiado o dominio dos conheci- 
mentos humanos: comparlem-no di- 
versos espirites, e o cultivam fructi- 
íicando-o diversamente.» (Laya, aca- 
démico). — «O orgulho ha de ser sem- 
pre a perdição das turbas; não ha 
coQvencôl-as de que ellas tudo igno- 
ram qiiaudo se cuidara sabedoras de 
tudo. bó os homens superiores podem 
bem entender essa extrema do saber 
humano ein que os thesouros hauri- 
dos do estudo parecem esvair-se, e o 
seu possuidor volver-se á original po- 
breza.» (Chaleaubriand). — «As esco- 
las superiores não aproveitam a to- 
dos, senão a poucos. Acervo de co- 
nhecimentos mal regulados é mais de 



perigo que a absoluta ignorância.» 
(Platão). — (iUns longes de philosophia 
podem conduzir á negação da essên- 
cia divina; mas um saber mais solido 
guia o homem até Deus.» (Bacon). — 
(vGeralmenle. presam-se muito os ma- 
Ihemalicos. Tem altíssimas verdades 
a geometria, e objectos pouco eluci- 
dados, pontos de vista que são uns 
como esbatimentos de luz.>^ iP. Gas- 
tei). — «Os espíritos geométricos são, 
pelo commum, desconcertados nas 
cousas chãs da vida: procede-lhes 
isso da sua extremada exacção. . . 
Querem topar em tudo verdades abso- 
lutas. , . ; mas, em politica e moral, 
as verdades são relativas.. . Que as 
leis boas em Athenas sejam boas leis 



CON 



CON 



237 



em Faiiz, não é ião verdaJfi cori.o 2 
e -2 serem 4..» (Chateaubriarid). — «Os 
primeiros elementos das sciencias não 
exercitam muito a lógica talvez por 
i|ue são sobeja mente evidentes. Apren- 
demos a raciocinar bem, e a bera 
pejjsar e sentir — primeiro cuidado 
que aos pães e raesties incumbe — 
occupando nosso animo em maté- 
rias delicadas era moral e gosto.» 
(Cuvier). — <i.È muito mais profícuo 
avaliar habilmente os homens e tra- 
tar com elles ajnizadífínenle que sa- 
ber latim e grego, oa lógica, physica, 
metapliysica, ele.» (Locke), 

-2. Qualquer que seja o estado a que 
se predisponha um menino, seja qual 
fôr a fortuna ([ue haja de prospera l-o, 
ou a nação onde deva ir, o que mais 
lhe quadra é ter exacto conhecimento 
das cousas. Não se faz mister (lue se- 
ja grande sábio quem houver de o en- 
sinar: basta-llie ter espirito recto, por 
Iheor que o inenino aprenda a obser- 
var com justeza, e a repelir a expe- 
riência que o houver iliudido nas suas 
observações. É ruim predicado não 
ser instruido; mas é mais ruim ainda 
não ter juízo. Pelo que diz respeito ao 
coipo, facil é ensinar um pequeno a 
exercer agilmente suas forças; e, pelo 
que é das artes, não é difficil familia- 
risal-o com certas profissões. Quanto 
ás noções recommendaveis, a instruc- 
ção primaria deve ser o fundamento 
àe todo o edificio inlellectual. (Veja' 
Leitura, Escripta, Calculo, Aritu- 
METicA, Línguas, I\eligi.\o, etc).— 
«Pouca gente, diz o conselheii"0 Ren- 
du, considera o systema completo da 
instrucção primaria, como alicerce da 
inslrucçào superior, que ao diante, 
as mais gradas famílias da jerarchia 
social devem receber. As mais pró- 
prias meditações, e numerosas expe- 
riências feitas em muitos coUegios, 
me convenceram (jue os estudos ulle- 
riorcs, litlerarios e scientilicos, hão 
de custar aos [trofessores e alumnos 
menores fadigas, e fructilicarão mais 
copiosamente, se aos meninos abas- 
tados que encetam a inslrucçào se- 
cundaria se lhes exige (jue apresen- 
tem a mesma porção de conhecimen- 
tos em inslrucçào piimaria, í\\iq se 



dão aos meninos pobres como patri- 
mónio inlellectual.» Dando ao ensino 
primário, como ultimamente se tem 
feito, caracter pratico, o menino en- 
tre dez ou doze annos falia e escreve 
com bastante correcção a sua lingua ; 
saborear-se-ha em leituras serias e 
instruclivas; sabei á resolver com 
promplidão os cálculos da contabili- 
dade caseira ; lerá idéas sãs de mora- 
lidade e religião; conhecerá a vulto 
as operações industriaes que se era- 
[)regam na obtenção das matérias pri- 
mas, e quererá saber como os mine- 
raes se fundem em ferro, e se faz do 
ferro aço. Assim se irá preparando 
para os estudos Iheoricos. E, como, 
outro sim, terá conhecimentos bas- 
tantes da Imgua materna, poderá por 
compai-ação e analogia aprender com 
goslo e fiuclo linguas estranhas, 
coordenando todas aquellas maleiias 
sobre base já solida. Além d'isso. de- 
ve ensinar-se-lhe de cada cousa o que 
é applicavel : pouco é, mas isso basta. 
Alumnos assim guiados, aos \i annos, 
sentii'-se-hão bastante desenvolvidos; 
e os que se destinam a seguir cairei- 
ras escolares não sentirão ao dianle 
repugnarem-lhesas theorias, cuja uti- 
lidade não percebem, se não vão já 
preparados por esludos jjraticos. 

Dicte-se a primeira lição, e tomem- 
se de cór os pensamentos mais pro- 
fundos. Os alumnos já adiantados po- 
derão, ao redigirem., ampliar e com- 
menlar as idóas (jni^lhcs parecerem 
mais pialicas. 

coníferas, a íamilia das conífe- 
ras, uma das mais uleis do nosso lie- 
mispherio, compõe-se em grande 
parle de arvores verdes e resinosas, 
formando immensos bosques ao nor- 
te íla Europa o da America. Taes são : 
o larix, pinheiro manso, e bravo, o ce- 
dro, cypreste, teixo, zimbro, e lliuya. 

1. O lari.xdá-se facilmente nos pai- 
zes temperados. .\fóra a madeira, ijue 
é uma das mais incorrupliveis, coii- 
servando-se ilebaixo d';igua mais de 
mil annos. o larix produz: o iiunui, 
que trans[)ira d.is vergontaes durante 
a noite e do qual se usa medicinal- 
mente como purgativo; e a gomma 



238 



CON 



CON 



qufi so ocha no conlro íJo tronco par- 
lindo-sc a arvore; o em liin a resina 
conliccida viil^'ainir'nlfi com o nome 
de Irrrhnillhnn ilc Vrwza. — Semeia- 
se o larix no outono ou na prima- 
vera, pr('f(MÍn(lo-so-ll)(! marro ou 
abril. O larix produz em terrenos 
baixos, húmidos e ferieis, mas não se 
dá em terrenos pantanosos, ou sai- 
bre n los. 

2. O pinheiro manso com suas di- 
versas variedades é uma das arvores 
cuja (íullura jióde ser das mais uleis. 
Dá ao homem a madeira, ípicr para 
os navios, (píer para a carpinleria e 
marcenaiia ou paia queimar. O sue- 
co resinoso (|ue (feile se exlrahe, dá 
a resina secca, e um óleo especial 
empregado na pintura. Nenhuma ar- 
vore! chega a rnaiorallura; jióile cha 
mar-se-lhe onif/diilc iln rcinn regelai. 
A esta (lislincrão acresce a de se dar 
nos lenenos mais estéreis, nas mon- 
tanhas, e sobre collinas escabrosas 
que sem o pinheiro seriam inteira- 
mente áridas. Finalmente sua cultu- 
ra é das mais simples, e nos terrenos 
onde as hervas são pouco abundan- 
tes, basta apenas depois de cavar a 
terra semear para se formarem bos- 
ques que com o tempo so tornam den- 
síssimos. 

Pinheiro uravo. Pinus mavitima, 
Linneo. Habita na Europa meridio- 
nal; é (piasi esjionlaneo em todo o 
reino de Portugal. Esta arvore fórraa 
uma bella pyramide, cujos ramos são 
dispostos em verlicillos regulares. 
Suas folhas são duas a duas, rijas, 
muito estreitas, do ccmpriraento de 
22 a 27 centímetros; as pinhas são 
arruivadas, luzentes, de forma cóni- 
ca, do comprimento do 13 a 10 cen- 
tímetros. E' este pinheiro que forne- 
ce a maior parte da lerebenlhina com- 
mum e das resinas empregadas em 
medicina e nas artes. Sua tereben- 
thína é conhecida no coraraercio sob 
o nome de tercbcnthina de Bordeos. 

Pinheiro prateado ou verdadei- 
ro. Pinm piem, Linneo. Habita em 
todas as altas montanhas da Europa, 
e principalmente nos Alpes do Tyrol, 
nos Cevennes em França, na Suécia 
6 Rússia. Esta arvore, de forma py- 



ramidal, tem 3^ a iO melros de alto : 
seus ramos são dispostos por verli- 
cillos bastante regulares, e são diri- 
gidos hoiisíjnlalmente ; suas folhas 
são espargidas sobie os novos ramos 
mas acham-se com[>rimidas e dirigi- 
das em duas llleiras opposlas como 
os dentes (h» um penle. Estas folhas 
são lineares, chatas, coriaceas, obtu- 
sas ou clianfradas no lopo ; são lu- 
zentes e de um verde carregado na 
face superior, rshrnnfitiiimlíis na in- 
ferior, salvo a linha mediana verde, 
o que fez com que se desse á arvore, 
vista de baixo, o nome de funhftro 
jirdlntdo. Fornece á pharmacia a le- 
rebenlhina lina. chamada tm-heulhi- 
na de limão ou de Veneza e os reno- 
ros. Chamam-se renovos, em botâni- 
ca, pequenos corpos ovóides, cónicos 
ou arredondados, que nascem sobre 
os ramos das arvores, na axilla das 
folhas ou na extremidade dos ramos: 
no seu centro existe um pequeno eixo 
esverdeado coberto de folhas rudi- 
mentares. 

Os renovos do pinheiro são compos- 
tos de 5 ou (j lenovos conicos-arre- 
dondados, verticillados ao redor de 
um renovo terminal, mais grosso e 
do comprimento de 1 1 a 27 millime- 
tros. São revestidos de escamas aver- 
melhadas, pegajosas, e cheias de re- 
sina, da qual parle reçuma na sua su- 
perfície sob a forma de lagrimas. Seu 
cheiro e sabor são resinosos, leve- 
mente aromáticos. Os melhores vem 
do norte da Europa, e principalmente 
da Rússia. 

CONJUGAÇÃO. 1. (íConjugarão é o 
systeraa total dasdiíTerentes termina- 
ções que a forma primitiva de qualquer 
verbo toma para indicar osditíerentes 
modos de enunciar a coexistência doa t- 
tributo no sujeito; os dilTerenles tem- 
pos d'esta coexistência ; e os dilíeren- 
tes personagens que o sujeito do ver- 
bo faz no acto do discurso; e conju- 
gar é recitar todas estas formas e va- 
riações, segundo a ordem dos modos, 
dos' lempos, do numero e qualidade 
das pessoas. 

<^A conjugação é ou simples, ou rom- 
posla, regular, ou irregular. A simples 



CON 



CON 



239 



consta em todas as suas formas de 
uma só palavra, como sou, fui, serei; 
a composta consta da combinação de 
duas até três, como hei de ser, estou 
sendo, tenho sido. Alguns grammati- 
cos tem por imperfeição nas linguas 
vulgares a necessidade de recorrerem 
aos verbos auxiliares para conjuga- 
rem todos os seus tempos. As línguas 
grega e latina lambem recorriam a 
elles; e este recurso tão longe está de 
prejudicar a perfeição de uma lingua, 
que antes dá mais doçura, variedade, 
e harmonia á expressão; e tem sobre 
isto a vantagem de lhe dar mais viva- 
cidade, podendo ás vezes separar o 
auxiliar pnra encorporar de algum 
modo o adverbio com o verbo auxi- 
liado cuja significação elle modifica. 

((.Conjugação regular é aquella que 
segue uma mesma regra na formação 
dos tempos derivados de seus primi- 
tivos, e nas terminações de uns e de 
outros; e irregular a que ou em tu- 
do ou em parte se aparta d'esta regra. 
Os verbos drfectivos, que carecem de 
certos tempos, ou de certas pessoas, 
queo uso não admitte, pertencem em 
certo modo á classe dos irregulares. 

«O verbo substantivo ser,e os seus 
ires auxiliares haver, estar e ter, são 
todos irregulares. Mas toda a conju- 
gação, ou regular, ou irregular, tem 
modos, tempos, números e pessoas. A 
conjugação simples concentra em uma 
mesma palavra todas as variações pre- 
cisas para indicar seu attributo e si- 
gnificação principal com todas estas 
modificações; a composta porém faz 
separação. Tudo o que pertence ao 
modo de enunciar a coexistência do 
attributo e sujeito, á designação dos 
tempos, e á distincção dos números 
a das pessoas, é da repailição do ver- 
bo auxiliar. O que pertence á signifi- 
cação de existência, é privativo do 
verbo substantivo; e o f|ue pertence 
ao modo e estado doesta existência, é 
elíeito da combinação dos verbos au- 
xiliares com as diff^rentes formas in- 
linilivas do vorbo substantivo ; de sor- 
te (jue nas linguagens compostas se 
vêem di^senvolvidiis e separadas as 
idéas, que nas simples se achara en- 
volvidas e concentradas. 



2. (íDos tempos do verbo em geral. 
Tempo é uma parte da duração ou exis- 
tência, quer continuada da mesma 
cousa, quer successiva de muitas que 
se seguem umas ás outras. Ora, on- 
de ha successão continuada e não in- 
terrompida, não pode haver tempos, 
senão relativos a uma época arbitra- 
ria, que se fixa primeiro, para d'ella 
se proceder á comparação de um es- 
paço anterior, e de outro posterior. 

«Esta época, tralando-se de gram- 
matica, isto é, da arte de fallar e es- 
crever correctamente, foi muito na- 
tural o fixal-a no acto mesmo da pa- 
lavra, isto é, no espaço e duração em 
que qualquer está fallando ou escre- 
vendo. A esta época se deu o nome 
de tempo presente, e por ordem á mes- 
ma cbamou-se tempo pretérito ou pas- 
sado toda a existência ou começada e 
não acabada, ou acabada, dos seres 
que a precederam; e tnnpo futuro ou 
vindouro, toda a existência quer co- 
meçada, quer continuada, quer aca- 
bada, dos seres que se lhe hão de se- 
guir; e bem assim, por ordem a lodos 
os tempos, a existência meramente 
possível das cousas que nunca existi- 
ram nem hão de existir, mas que po- 
deriam existir, dada certa hypolhese. 

«Não ha pois verdadeiramente senão 
três durações ou tempos: a saber o 
presente, que é o em que se está fal- 
lando; o pretérito, que é todo aquelle 
que precedeu ao presente; e o futu- 
ro, que é todo o que se lhe ha de se- 
guir. Mas todas estas durações e tem- 
t)Os se podem considerar de dons mo- 
dos: ou como continuados e não aca- 
bados, ou como não continuados e 
acabados. D'aqui a subdirisão dos 
mesmos Ires tempos em inijierfellos, 
ou periódicos, e em perfeitos ou mo- 
mentâneos. 

(^Os tcmposim])erf(itos exprimem du- 
rações não acabadas, e como estas 
são outras tantas continuações da 
existência denti'o dos ospnços (pie cor- 
rem ou até á época da palavra, ou 
no tempo d"esta, ou depois (relia, for- 
mam ellas outros tantos períodos, os 
quaes confinam uns com os outros. 
O período anterior pega com o pe- 
ríodo actual, e este com o posterior; 



24<J 



CON 



CON 



de sQrle que o liin do juimeiro è o 
principio (Jo sí't;iiii(in, o o ílrn do se- 
gundo ó (j piiiiripio do terceiro. D'a()ui 
veui coiiiiiiiiiiii:;ji(Mii-se iniilu<iin('iile 
enlreys si iint;u;i^eiis dos Iciiipos ini- 
pcilcilos, a d(j prelcrito e ;i do fuluro 
eoiuo (Jo pr(!R('iil(!, como: rslm a Imn- 
li'ni, rsUii a iii/ni ii^cslarciiiiiDiii, rsltini 
tnhduhn romlii/í): o. a do presíMilc com 
aniixis dous, r podermos assim flizcr 
do prclcrilo ha ntiiili) (niijui, ijur sim 
Irii amiiji): v. do fuluro inimuliã sou 
cuniliijo, áDíHuhã piirlu. 

«Não succede já o mesmo com os 
lciii}ií)s prrfriíiis (|U(í exprimem uma 
existência araliada. Asliii},'uagensd'es- 
tes não s(! conimunicam. Não posso 
dizer: linha sido, lini sido, em lugar 
de lenho sido, e muito menos substi- 
tuir esla linguagem ás duas antece- 
dentes. A lazão é porque os seus tem- 
pos são momentâneos. O que cessa 
de existir, cessa em um instante do 
periodo, ou aciual, ou anleiior, ou 
posterior; e estes instantes não se no- 
tam como os períodos, para se pode- 
rem trocar. 

«Os lem\iO?.imperfeitoseperfeilos\)o- 
dem ser ou nhsolitlos ou rrlalivos. São 
absoluios (]uando notam só ura tem- 
po, ou presenie, ou pretérita, ou fu- 
turo sem leiação a outro. Sou, era, 
fui, serei, são (Veste género. São rela- 
liros, quando além do tempo ou pre- 
sente, ou pretérito, ou fuluro, que in- 
dicam, denotam lambem outro pre- 
sente, ouiro pretérito e outro fuluro, 
a respeito dos quaes se dizem perfei- 
tos ou acabados. Todas as linguagens 
composlas do auxUiar ier, e do par- 
licipio perfeito do verbo substantivo 
sido, são d'esle género. 

«Assim, lenho sido é um presente 
perfeito relativo, porque não só nota 
um presente acabado, do qual não 
resta nada, mas acabado lambem em 
respeito ao presente actual em que 
estou fallando. Do mesmo modo linha 
sido não só é um pretérito acabado, 
mas acabado a respeito de outro pre- 
térito, que suppõe depois de si, co- 
mo : hontem ao meio dia, quando che- 
gou António, tinha eu jantado. O mes- 
mo se deve dizer do futuro perfeito 
terei sido. O auxiliar terei nota um fu- 



luro, e o participio perfeito sido de- 
nota outro, a respeito do qual o pri- 
meiro é acabado, coiiío: amanhã, 
f/uaiido tu theijares, lerei futo o que 
me enrommrndas. 

«Oque sui:cedecom os tempos per- 
fettos, acontece Ijiiibem (:(jm os im- 
perfeitos. Klles são relatieos, quando, 
alí''(n iJo tempo que signilicam, deno- 
tam outro, (piai é ou o lia exei;uçáoda 
acção ou o de uma bypoiliese, da qual 
se faz depender a verdatle da jjropo- 
sição aflirriiativa. Taes ^ào o presen- 
te imperfeito sé tu, séilc nós, e o pre- 
térito condicional imperfeito eu seria, 
ou [)eifeito eu teria sido, ele. 

«O imperfeito é um presente (juanlo 
ao mandamento, mas denota um fi- 
turo íjuanlo ú execução do (jue se 
manda ; e o preleril(i condicional quer 
imperfeito, ([uer perfeito, além d'es- 
te tempo diz sempre relação a outro 
pretérito, que t- o da liypolbese ou 
condição, a quol, só posta e executa- 
da, é (]ue se verill aria a verdade da 
pioposição afíirniJitiva. 

«Mas como esta liypolliese é mera- 
mente possivel, e o que é só possível 
pôde ter a sua existência em lodos os 
tempos, d"aqui vem a linguagem af- 
tirm.itiva condicional, cujos tempos 
andam sempre concordes com os da 
sua condição, lambera se pôde em- 
pregar e applicar a lodos os tempos, 
e dizermos: eu partiria hontem, se ti- 
vesse em que; eu partiria jd, se tiresse 
em que; eu partiria amanhã, se tivesse 
em que. Esla linguagem, partiria, é 
do tempo pretei ilo imperfeito, porque 
a da sua condição, se tiresse, é do 
mesmo tempo. E bem assim podemos 
lambem dizer: eu leria partido hon- 
tem., se tivesse lido <'/« 7i/('. tu teria par- 
do a esta hora, se lY tivesse chega- 
do; e amanhã a esla hora teria eu 
pariido, se hoje me não tivessem em- 
baraçado. Esla linguagem, teria par- 
tido, c do tempo pretérito perfeito, 
porque as das suas condições, tives- 
se tido, tivesse chegado, tivessem emba- 
raçado, são do mesmo. 

«Na linguagem condicional imper- 
feita, a execução da promessa seria 
simultânea com a execução da con- 
dição: na perfeita, a execução da 



CON 



CON 



241 



promessa seria posterior á da liypo- 
these. Mas lanlo a promessa como a 
condição ficam sempre na massa dos 
possiveis, que nunca existiram nem 
existirão; que por isso os antigos 
gramma ticos chamavam potencias es- 
tas linguagens. 

3, (nDos números e pessoas do verbo. 
O verbo não enuncia a existência de 
qualquer allributo e qualidade, senão 
em uma cousa ou individuo em que 
exista como em seu sujeito. Este su- 
jeito porém pôde ser ou um só ou 
mais, e d'aqui a necessidade de ha- 
ver nos tempos dos verbos, termina- 
ções que indicassem o numero d'es- 
tes sujeitos, que fazem o principal ob- 
jecto da oração. 

«Os mimeros pois do verbo são dous, 
singular e plural. O singular indica 
que o sujeito da oração é um só, co- 
mo: eu sou amant(\ tu estás amando, 
elle ha de ser amante. O plural indica 
que não é upi só, mas muitos os que 
entram na oração, como: íío.v somos 
amantes, vós eslaes amando, elles tem 
ariíado. 

«As terminações temporaes, indica- 
tivas d"'estes números, são pela maior 
parte as letras linaes, a saber: asvo- 
gaes para a primeiía e terceira pes- 
soa do singular: a consoante liquida 
s para a segunda do singular e pri- 
meira e segunda do plural: e os di- 
phthongos nasaes para todas as ter- 
ceiras pessoas do plural. Esta é a 
idéa mais geral que se pôde dar does- 
tas terminações numeraes. 

«O numero dos sujeitos da oração 
era necessário para a sua verdade; 



porém a distincção da qualidade dos 
mesmos por ordem ao papel e figura 
que fazem no discurso, não o era me- 
nos para a sua clareza e intelligencia. 
Cada numero pois tem três formas 
ditlerentes, segundo as três figuras ou 
personagens que qualquer sujeito pô- 
de fazer no discurso; ou primeira 
quer do singular quer do plural, que 
é aquella que falia, como: eu sou 
quem fallo: ou segunda, que é aquel- 
la com quem se falia, como: tu és 
com fjuem estou fallaiulo; ou terceira, 
que é aquella de quem se falia, co- 
mo : esse é de quem se falia; e do mes- 
mo modo no plural: nós somos, vós 
sois, elles são. 

«As terminações adoptadaspara de- 
signar estes diflferentes personagens 
que figuram no acto da palavra, são 
as mesmas (|ue as dos números, po- 
rém cora dilTerentes elementos que 
compõem as syllabas finaes. Geral- 
mente podemos dizer que as vogaes, 
o, e, i, o, são as finaes da primeira e 
terceira pessoa do singular de quasi 
todos os tempos; que a segunda do 
mesmo numero acaba sempre em as- 
ou (istc, em es ou este; que a primeira 
do plural acaba constantemente em 
mos, a segunda em aes ou astes, em 
eis ou des, em is ou des; e a terceira 
ou em am ou em em, segundo a ter- 
ceira do singular tem a ou e. O que 
tudo melhor se verá nos paradigmas 
das conjugações regulares que po- 
remos adiante, e ainda nos das conju- 
gações irregulares do verbo substanti- 
vo e seus auxiliares, que passamos a 
representar. 



Paradigmas da conjugação do verbo substantivo 
e seus auxiliares 



MODO INFINITO 



IMPESSOAL 



Ser. Haver de ser. Estar sendo. Ter sido 



242 



CON 



CON 





ii:> Ser. 


Haver 


s. 


|2.» Sores. 


Haveres 




(:{.« Ser. 


Haver 



PESSOAL 

Estar 



1.' Sermos. Havermos 
!2." Serdes. Haverdes 
3.-' Serem. Haverem 



de Ser. 



Kslares 

í)slar 

Estarmos 

Estardes 

Estarem 



Sendo. 



Ter \ 

Teres 

Ter 

Termos 
Terdes 
Terem / 



Sido 



PAHTICIÍMO IM1'FRI KITO 

Sendo. Havendo de ser. Estando sendo 
PARTir.ino i-rniKiTO 



MODO INDICATIVO 

PRESENTE IMPERFEITO ABSOLUTO 

' Hei ', Estou 

l 

Hás i Estás 



Tendo sido - 



1.» Sou. ^ 
2.» És. * 
3." É. 
1.3 Somos 

2.» Sóis. 
3.« São. 



Há ( Está 

de Ser. 
Havemos! Estamos 



Sendo 



Haveis ■' } Estaes 

Hão / Estão 

PRESENTE IMPERFEITO IMPERATIVO 

S. 2. a Sê tu. Está tu 



Sendo 



P. 2.=" Sede vós. 



Estai vós 



' Os participios imperfeitos dos verbos estar, andar, ir e inr, por isso mesmo que são auxiliares, cos- 
tumam-se conjugar com os participios imperfeitos de outros verbos, como : estando sendo convalescen- 
te, ou estando convalescendo, andando vendo, indo cotttiniiando seu caminho, vindo passeando. 

2 Os quatro participios perfeitos Sírio, havido, estado, tido, nunca se empregam na oração, como os 
dos verbos adjectivos; mas sempre juntos com o auxiliar ter, como tendo sido, tendo havido, tendo 
^stado, (endo (ido. N'este uso só o primeiro é auxiliar: os outros /«afído, estado, í ido ou íeúdo, como 
.se dizia antigamente, são adjectivos, e por isso auxiliados e não auxiliares. 

3 Na antiga linguagem, e ainda agora na rústica, se diz som, depois se disse sam., e na 3." do plural 
som. 

* Antigamente ercs. V. Bcmard. Ribeir. Menin. 11. 13: Moraes, Palmeirim, p. I, cap. 27. 
5 Havem.os, haveis, contrahem-se muitas vezes em hemos, heis. 



CON CON 243 

PRESENTE PERFEITO 

I Tenho , 

S. i2^ Tens 

3 a Tem 

; Sido 

4 a Temos 

p ; 2.» Tendes] 

3,a Tem 

PRETÉRITO IMPERFEITO ABSOLUTO 

l.a Era. Havia Estava 

S. ! 2.' Eras. Havias j Estavas 

3.» Era. Havia I Estava 

)de Ser. ) Sendo 

1.=' Éramos. Haviamos í Estávamos 

P. 1 2.=» Éreis. Havieis ] Estáveis 

1 3." Eram. Haviam / Estavam 

PRETÉRITO IMPERFEITO CONDICIONAL 

I l.a Seria. Haveria Estaria 

S. i 2.^' Serias Haverias 1 Estarias 

( 3.» Seria. Haveria 1 Estaria 

) de Ser, ) Sendo 

1 4.'' Seriamos. Haveríamos í Estariamos 

P. 1 2.^ Serieis. Haverieis | Estarieis 

3,' Seriam. Haveriam / Estariam 

PRETÉRITO PERFEITO ABSOLUTO 

1.=» Fui. Houve I Estive \ Tive ' 

S. 1 2.a Foste. Houveste j Estiveste J Tiveste 

3.'^ Foi. Houve f Esteve I Teve 

\ de Ser. > Sendo. 

1.' Fumos Houvemos! Estivemos í Tivemos 

/'. ' 2. •« Fostes. Houvestes 1 Estivemos | Tivestes 

' 3." Foram. Houveram Estiveram / Tiveram 

• Este tempo nflo ó do verbo íct- como auxiliar, mas como activo. Porque dizemos : lono qiu tive 
a cousa f>'Uu, e nHo logo ftte tive feita u cousii. 



Sido 



241 CON CON 

PltKTIiRITO PEnrEITO RKLMIVO 

í 1." . . . . l'Yita; Tinha, o» Tivera 

.S. ) 2.' .... Furas; Tinhas, (<»/ Tiveras 

3.' .... Kôra; Tinha. oM Tivera 

1." .... Fiáramos; Tinliamos, oíí Tivéramos 

2.3 ... . Fôreis; Tinheis, oít Tivéreis 

3.> .... Fôratn; Tinham, oií Tiveram 

PRETÉRITO PERFEITO CONItlCIONAL 

l.a . . . . Teria, OU Tivera sido, o?í Fora 

.S'. J S.-" . . . . Terias, ou Tiveras sido, on Foras 

3.^ . . . . Teria, ou Tivera sido, ou Fora 

l.a . . ." . Teríamos, ou Tivéramos sido, ou Fôramos 

/'. I 2.=' ... . Terieis, ou Tivéreis sido, ou Fôreis 

3.» . . . . Teriam, ou Tiveram sido, ou Foram 

FUTURO IMPERFEITO 

l.'' Serei. Haverei \ Estarei 



S. 2. a Serás. Haverás j Estarás 

3.» Será. Haverá I Estará 

) de Ser. ^ Sendo 

l.a Seremos. Haveremos í Estaremos ( 

2.3 Sereis. Havereis l Estareis | 

3.=* Serão. Haverão / Estarão 

FUTURO PERFEITO 

l.a Terei \ 

|2.a Terás 1 

3.^ Terá I 

Uido 
l.a Teremos[ 

J2.» Tereis 

3.a Terão 



CON 



CON 



245 



MODO SUBJUNCTIVO 



PRESENTE IMPERFEITO 



,M.* Seja. 

S. '^.a Sejas 

I 

(3.a Seja. 




de Ser. 



P. 2.^ Sejaes. 

/ 

3.a Sejam. 



Esleja ' \ 

- i 

Esteja f 

Estejamos í 

Estejaes ] 

Estejam / 



Sendo 



PRESENTE PERFEITO 



l.a Tenha 

S. *2.a Tenhas 

(s.» Tenha 

li.» Tenhamos 

P. |2.a Tenhaes 

[3.» Tenham 



Sido 



PRETÉRITO IMPERFEITO 



l.a Fosse. 
S. 1 2.» Fosses. 
3." Fosse. 



Houvesse 

Houvesses 

Houvesse 



1.' Fôssemos Houvéssemos 
P. I 2.» Fôsseis. Houvésseis 
3.» Fossem. Houvessem 



> de Ser. 



Estivesse \ 

Estivesses 

Estivesse 

Estivéssemos 

Estivésseis 

Estivessem 



Sendo 



« Todos nossos escriptores iintigoa antes de Camelos di/.iam constaniiMnento fsti'. c^tAt, estr. este- 
mas, enteia, eslem. Camflps usa a cada passo da mosma forma. Mas já disso pela primeira vor. esteja, 
estejaes, por causa da rima. A forma antiga ainda subsiste em alguns adágios, «\. : Ustif como estú. 



240 



CON 



CON 



Í-HKTKIIITO PKItIFITO 

i." .... Tivesse 

.S. /' í2.-' Tivesses 

.']." Tives.se 

1.' Tivéssemos 

/'. ' 2." Tivésseis 

' 3.' Tivessem 



Sido 



FUTUiio iMi'i:i;i'i;iTO 



i.- Fôr. 

S. I 2.=" Fores. 
3.' Fôr. 



Houver 

Houveres 

Houver 



Estiver 

Estiveres 

Estiver 



de Ser. ) Sendo 

1.=' Formos. Houvermos í Estivermos 



P. 2." Fordes. 
' S.-" Furem. 



Houverdes 
Houverem 



Estiverdes 
Estiverem / 



FUTURO PERFEITO 



4.^ Tiver 



S. - 2.» 



Sido 



Tiveres 

3.» Tiver 

1." Tivermos! 

P. ! ^.^ Tiverdes 

3.'' Tiverem 

(Soares Barbosa, Grammatica philosophica) 



CONJUNCÇÃO. a^Conjuncção é uma 
parle conjuncliva da oração, que ex- 
prime as relações de nexo e ordem 
que as proposições tem entre si para 
fazerem um sentido total. O verbo, 
pois, combina e ata os termos da pro- 
posição, que são o sujeito e o attribu- 
to; a preposição conjuncta os comple- 
mentos com o sujeito e com o attribu- 
lo; porém, aconjuncção não ata nem 
os termos da preposição, nem os seus 



complementos; mas as mesmas pro- 
posições entre si, em ordem a forma- 
remum sentido total. Ella, pois, é 
verdadeiramente a parte sjisteniatica e 
metliodica do discurso, destinada a li- 
gar as proposições em membros, os 
membros em períodos, e os perío- 
dos em um discurso seguido e conti- 
nuado. 

(.(Como as relações de nexo e de or- 
dem, que as proposições tem umas pa- 



CON 



CON 



247 



ra cora outras, são umas vistas sim- 
plicíssimas, e uns meros aspectos de- 
baixo dos quaes nosso espirito as con- 
sidera; as conjuncções, que as indi- 
cam, devera ser, bem como as prepo- 
sições, umas palavras curtas e nãopo- 
lysyllabas, primitivas e não derivadas, 
simples e não compostas. 

«Por esta razão merecem ser excluí- 
das do numero das conjuncções : 

(í ! .» Todasas expressões, que, ainda 
que lenham alguma cousa de conjun- 
ctivas,são com tudo compostas de ou- 
tras partes da oração, a cujas classes 
pertencem, e não à das conjuncções-, 
como são as que se compõem de uma 
preposição cora seu complemento, v. 
gr. por que, por quanlo, etc. 

at." Todas as expressões e phrases 
compostas de algum nome, ou adver- 
bio com o conjunctivo7?fe, como: ain- 
da qw, bem que, posiu que, alnn de 
que, etc. O que estas locuções tem uni- 
camente de conjunctivas é o que; o 
qual, pelo que tem de relativo, per- 
tence aos adjectivos demonstrativos; 
e só pelo que tem de conjunctivo pa- 
ra unir as proposições parciaes iis to- 
taes, é (lue pertence lambem á classe 
das conjuncções. 

«3.° toda "a palavra, ainda que sim- 
ples, que serviu de nome ou de adver- 
bio em outras expressões, como: ora, 
logo, quer, asfiini, e lambem. VoTq\ie o 
que uma vez foi nome ou adverbio, 
não póJe mudar de espécie, salvo se o 
uso lhe antiquou seu próprio destino 
para lhe dar outro novo. Mas persis- 
tindo ainda aquelle, dar-Uie outro de 
diíTerenle ordem e natureza é pertur- 
bar todas as idéas da elymologia, e 
confundir despoticamente as classes 
elementares das palavras, o (jue o 
uso não costuma fazer. 

<íl'olò (jue conjuncções [)ropriamen- 
tfi ditas não ha na Lingua Porlugueza 
senão Jíorc, a sabor: a antirjuada ai 
ora lugar d(w/ítí', e as usadas e, mus, 
III III, ou, pois, porém, que e se. Todas 
as maisípie nossos gramraalicos ajun- 
tam a (!stas não são conjuncções, mas 
sim o;i palavras conjunctivas, ou 
phrases conjunctivas. 

^d]\\:\u\ojinlarras conjuivlirna qual- 
quer nume ou adverbio, que além da 



sua significação principal tem a ac- 
cessoria de indicar de mais uma re- 
lação a outra idéa, ou antecedente oq 
seguinte, como são : 

c(l."Oscomparalivosíão, ían/OjÇfíão, 
quanto, lai, qual, mais, menos, maior, 
menor, melhor, peor: dos quaes pro- 
cede a virtude conjuncliva, que se 
observa nos advérbios lambem, assim, 
lalcez, de sorlp, de modo, islo é, de lai 
sorle, de lai modo, etc. 

<í2.° Os demonstrativos puros este, 
esse, aquelle, o mesmo, os quaes se 
subentendem nas expressões conjua- 
ctivas ora, pois que, excepio que, posto 
que, por isso costumam trazer com- 
sigo o relativo conjunctivo que, para 
atar o que se segue com as phrases 
ellipticas que estas palavras contém. 

«3.° Os demonstrativos conjuncli- 
vos, o qual, quem, que, cujo, os quaes 
suppõem antes de si outra preposição, 
que alam com aquella a que dão pria- 
cipio. D'elles vem a força conjuncliva 
do adverbio como, que quer dizer de 
que modo, do qual modo, e a do adver- 
bio í/ow/6'emlugardeí/'o ({ue se segue. 

«Chamo phrases ou fórmulas con- 
junctiras todas aquellas que constam 
de mais de uma palavra, e que ordina- 
riamente terminam pePo que, como: 
bein que, se bem que, lanto que, desde 
que, como quer que, a fim de que, por- 
que, postoque,vislo que, bem entendido 
que, tanto mais que, com tanlo que, mé- 
dios que, ainda que, de sorle que, assim 
que, logo qw, pelo que, e outras mui- 
tas, as quaes todas nada tem de con- 
junctivo senão o que preparado e con- 
duzido pelos nomes e advérbios, que 
o precedem n'estas e semelhantes fór- 
mulas. Do que tudo resulta que não 
ha conjuncções, ([ue verdadeiramen- 
te mereçam' este nome, senão as oito 
ou nove acima apontadas. 

ftComtudo, como tão poucas con- 
juncções não são bastantes para in- 
dicar todas as relações que as propo- 
sições podem lei" uu\as com outras, e 
as de ordem e subordinação princi- 
palmente, foi preciso supprir esta fal- 
ta com phiases conjunctivas; (jue por 
isso toiemos lamlicm conta cora eilas 
na classilicarào (jue passamos a fazer 
das conjuncções. 

17 



ns 



CON 



CON 



ffKsIns ;iin(l;i (|iio pai-crnni ligai- só 
as palavras, (Milrc as (|iiaí's se acham, 
d3o lií/am vfidadfirariicnle spuão as 
proposiròcs, (|iio sendo oii sirn[ilns, 
on (;om(i()slas ãc oiilras prnposirõps 
parciais, (jiicr iruidfiiles, ()uer iiile- 
graiiU's,(|iiai)(l<) as coiijiinccòívs PslSo 
enlrc vários rioiiics. on adjectivos con- 
tinuados d('i)aixo do mesmo regime, 
s3o um signal de (pie tantas são as 
proposicíies (|iie ellas ligam. 

«Todas eslas in-oposii-òes, (píer sim- 
ples, (piei- rotii|iostas, (píer incom[)le- 
xas, (píer complexas, uma vez (|uo se 
comhinem e ajiiiitínn para fa/erem 
todas um sentido total, tem necessa- 
riamente rel.Hjões naluraes entre si, 
as quaes são marcadas pelas conjunc- 
ções. Ora estas relações, geralmente 
fallando, são de dons modos, ou de 
nc.ro somente, on de iin.ro e ordem ao 
mesmo tempo. As conjuncçOôs, (pie 
exprimem as primeiras, chamo ou lio- 
mólogas, ou siiiiilm-es, porque estão 
umas para as outras na mesma razão; 
e ás que exprimem as segundas, dou 
o nome de anliomóknfns, ou dissimi- 
hrcs : porque estão umas para as ou- 
tras era razão dilTerente.i^ (Soares 
Barbosa, Grammalicn philosophica). 

CONSCIÊNCIA. «A consciência, 
juiz interior do bem e do mal, 6 a 
alma, contente ou descontente de nos- 
sas acções. Se nos sacrificamos ao de- 
ver, a exultação da consciência nos 
indemnisa ; se o violamos, a consciên- 
cia triste nos faz de antemão pagar a 
transgressão... Ditoso o culpado que 
attende ao brado salutar de sua cons- 
ciência I O remorso pôde repõl-o na 
felicidade, reconduzindo-o á virtude 
pelo arrependimento.» (Dr. Descurei). 

— «A consciência é o melhor livro de 
moral que possuímos, e devemos con- 
sultar a miúdo. >^ (Pascal). — «Ha um 
juiz mais severo e implacável que as 
leis: 6 o testemunho da boa consciên- 
cia.)) (Duelos), — c(Os bens da boa con- 
sciência reverdecem sempre; não os 
deseccam trabalhos, nem se perdem 
com o morrer: reflorecem durante a 
vida, consolam no trespasse, e sub- 
sistem eternamente.)^ (S. Bernardo). 

— 4 A consciência avisa-nos como 



amigo, antes de nos julgar como 
luiz.i- iStaiiislas). — «Quanto mais vou 
mais me convenço de ipie nao ha nes- 
te mundo mais agradável cousa (pie a 
paz da consciência.» (Kacine). 

2. Assim como o ler ouvido para 
conhecer as dissonâncias não inculca 
arte musical, assim o sentir remor- 
dimenlos em seguida a grandes cri- 
mes nãO' denota coiisciencia. Seme- 
lhante, até certo ponto, a lodos os ór- 
gãos, o da consi;iencia p('tde chegar a 
grande aíluação, e iresse empenho 
(Jevemos desvelar-nos. As buas leiras 
dão-lhe delica(Jeza, sensibilidade c 
meliridie; as sciencias exactas impri- 
mem- lhe circumspecção. e ifllexivas 
delongas, A imitação dos demais ór- 
gãos, a consciência gasta-se com ex- 
citações violentas; e do mesmo modo 
que os olhos longo tempo titf s no sol 
fiouxamente se impressionam da luz 
dilíusa, e o ouvido do artilheiro raro 
aprecia as harmonias de umaorches- 
Ira, assim a consciência aguilhoada pe- 
lo assassiiiio ou ciime d'este [»orle, 
com o rodar do tempo deixa de sentir 
remorsos de culpa> menores. Tal qual 
o sentir do ouvido, a consciência vem 
a falsear-se pelo conjunclode liabilos 
discordes. A falsa consciência è accom- 
modaticia com bem e mal: cnj-se o 
usurário honrado, o avaro generoso, 
o maledicente caritativo. Tal militar 
tem ambições a honrado, depois de 
ter (".onspurcado o asylo da innocen- 
cia sob o tecto hospedeiro. — Se á ra- 
zão compete esclarecer a consciência, 
incumbe á imaginação espirital-a. 
afervoral-a. Na primavera (Ja vida •'■ 
tudo formoso: o coração arde, a con- 
sciência teme, a imaginação referve. 
Não ha ainda a sciencia do fingir: ha 
pejo de simular virtude, sem havel-a : 
ha vontade de agradar, e altamente 
nos esforçamos por grangear a estima 
publica; creamos moldes perfeitos, 
realisamol-os e adoramol-os; quere- 
mos vivificar tudo que nos cerca: 
identificamo-nos aos infelizes; goza- 
mos dos males que removemos e dos 
bens que dadivamos: consciência en- 
tão é para nós a doçura do prazer e 
o pungir do pesar. Oh! que bella não 
é aquella idade do senlir e do imagi- 



CON 



CON 



249 



nar! Quão deplorável é esse que nun- 
ca experimentou as delicias da acção 
boa, á qual immolou um gozo inapre- 
ciável! A consciência, mais convisi- 
nha do senliraentoque da razão, tem 
com elle affmidadese connexões mais 
intimas. D;»satada da imaginação, é 
calculada, egoísta e sensual. Da edu- 
cação é que mais impende a consciên- 
cia'. A sagrada mensagem de crear o 
homem moral, de insinuar nas al- 
mas o aíTecto á equidade, de refor- 
mar propensões nativas quando vi- 
ciosas, fortificar, era fim, a aulhori- 
dade da razão não deve ser obra do 
acaso. Qualquer modificação da con- 
sciência dispara em amor ou ódio. 
Do amor brota o desejo, do ódio o 
medo. Influídos pelo desejo, opera- 
mos, e fructificamos virtudes presta- 
dias; se, pelo medo, abstemo-nos 
enervados. Crear, fecundar ou desen- 
volver disposições alTectivas, volver 
amável e familiar a virtude, propagar 
noções de bondade e justiça, deve 
ser a mira onde apontam os intuitos 
da boa educação; porque a benevo- 
lência e equidade são o duplo funda- 
mento d'a(iuelia consciência moral 
que todaa nação civilisada deve man- 
ter e introduzir em seus costumes. 

A lição 1.» deve dictar-see recitar- 
se, — xV "2.=» seja lida ou exposta, e re- 
sumida pelos alumaos de viva voz ou 
por escripta. 

CONSELHOS. 1. «Os homens sen- 
satos recebem conselhos de todos, e 
não se deixam governar por ninguém ; 
os insensatos repellem conselhos, pa- 
ra que se não cuide que alguém os 
governa.» (Do Bonald). —«Conselhos 
agradáveis raras vezos são nteis.» 
(Massillon). — «<Julgam-se os homens 
bastante babeis para aconselhar, e so- 
beja monte espertos para dispensarem 
conselhos.)) (Dubay). — «Se consul- 
taes um libertino acerca de viriude, 
um mau acerca de justiça, euma mu- 
lher a respeito da sua rival, eum co- 
barde em cousas de guerra, e um ne- 
gociaiii(í sobre operações mercantis, 
e um chalim sobre veniagas, e um in- 
grato sobre gratidão. . . não espereis 
de algum doasses conselho que pres- 



te. , . Vivei de boas avenças com toda 
gente; mas, quanto a conselheiro, 
escolhei um em cada milhar.» {Ec- 
clesiastes). 

2. «A mais honesta casa é que la- 
vra riquezas sem injustiça, eas retém 
de boa fé, e jamais se arrepende do 
que despendeu.» (Sólon). — c^Quem se 
bandeia com um mordaz faz-se inimi- 
go da victima d'elle.» (Cleobuloi. — 
«Tem mão, se i odes, d'aquelles que 
vão proceder mal.» (Periandro). — 
«Melhor é que prescindamos d'um 
amigo, por nossa sinceridade franca, 
do que envilecermo-nos, mentindo, 
para lhe agradar.» (Pythagoras). — 
«Louvar a mediocridade é prejudi- 
cal-a.» (Demócrito). — «Os deuses ar- 
voraram o trabalho como senlinella 
da virtude.» iHesiodo). — «Só as gran- 
des almas sabem quanto é feliz o ho- 
mem, se é bom.» (Sophocles). — «A 
preguiça é a sepultura dos vivos.)) 
(Theraistocles). — «Os meninos devem 
aprender o que lhes ha de ser útil 
quando chegarem a homens. >> (Aris- 
tippo). — Esquece o que dás ; lembra- 
te do que recebes.» (Menandro). — 
nColligi máximas breves e claras que 
sirvam de norma e esteio a espíri- 
tos (luctuantes, quando escasseia tem- 
po para discutir lanços embaraçosos. )> 
(Epicuro). — «Privar de honras a vir- 
tude é como privar a mocidade de 
honra.» (Catão). — «O homem hon- 
rado corre-se de que o avantagem no 
bem-fazer.^> (Terêncio). — »vUm ani- 
mo escorreito adapta-se a todos os 
génios.» (Ovídio). 

Dictem-se as duas lições, e façam- 
se decorar. — Os alumnos mais des- 
envolvidos commentem e ampliem, 
de viva voz ou por escripta, cada um 
d'aquelles pensamentos. 

CONSERVAS. (Veja Neutros). 

CONSOLAÇÕES. 1. nToiia a conso- 
lação procedente ilt' homens é vã e 
ephemera... Tanto mais o ho mem se 
chega a Deus (|uanio mais se afasia 
das consolações terrenas. « {Iniil ., m, 
16 o li). Os recursos que a philoso- 
phia nos olVerece. nos acontecimentos 
aliíeiosda nossa vontade, tomamol-os 



^250 



CON 



CON 



da iiecossiiladc, ijuasi nada consola- 
dora, ou d'a(iu(;lla sloica lifjiiihndadtí 
cora (jiie o sábio s<í (iscuda, jiil^ç.mdo- 
se iiilaiii^iv»!l aos golpes da foiUiiia. 
Ksla sol)iaii(;eiia (Ic animo boa é, pos- 
to (JIk; nos nàoallivic, para irmos (U)n- 
temporisaiido com as dores. Porém, 
a relij,'ião do Clirislo sóinfMiK; falia ao 
coração, altraliimlo-os ao desafogo da 
fé, e conliabalançando-llio nos pado- 
cimenlos dtí hoje a osptMança da ver- 
dadeira felicidade. — Comparem-se 
nas duas lições seguintes as i;onsola- 
ções hiimiiiins com as dirinus. 

2. «Succedem-vos casos tristes, 
lorriveis, o custosos de tragar: sup- 
portai-os inalterável, e ireis de par 
com Deus, ou mais âvanle ainda. E 
Ueus isento do males e da força (|ue 
os su[)eia ; V(3s sois superiores aos ma- 
les pela paciência.» (Soneca). — «.\s- 
sim como seria irrisoiio admirar-se 
alguém de (jue uma ligueira produ- 
zisse figos, não é menos para rir que 
estranhemos os productos (reste mun- 
do. Écoino se um medico e um pilo- 
to estranhassem os accidentes da fe- 
bre e dos ventos contraiios... É estul- 
tícia buscar no inverno figos em li- 
gueira, e o mesmo se dá com ura que 
buscasse o filho querido, não tendo 
algura... Tudo (jue succede é t3o vul- 
gar e commum como as rosas o são 
na primavera e os fructos no outo- 
no. Taes são as doenças, a morte, e 
a calumnia : tal c, em resumo, tudo 
o que rejubila ou afilige os ineptos.» 
(Marco Aurélio). — ^dlomem destina- 
do á fadiga, á pena e dôr, consola-te, 
poniue lias de morrer. Ergues-te de 
madrugada esporeado pela precisão; 
deitas-te á noite alquebrado pelo tra- 
balho. Gonsola-le, porque has de 
morrer, e o morrer é descançar... Se 
Deus, que anima o mundo,' exhala 
ura sopro, dá a vida; e, logo que o 
retira, começa a morte... Não achas 
que o tempo vai como de rojo? É que 
o tempo traz a morte, e a morte é o 
termo a fjue tende a natureza irre- 
quieta e impaciente de vida. Quem é 
que não almeja o dia seguinte ? É que 
hoje é a vida, e amanhã é a morte. 
Um Deus tão inexorável que quizesse 
desesperar o homem, condemual-o- 



liia a não raoirei' jhnais. Desgosto e 
amaiguras conlui bal-o-hiam, e a ne- 
cessidade de viver, semeltíante a pe- 
nhasco lurlo de puas, o ddaceraria 
conslantemenlí!. O signal de recon- 
ciliação entre o céo e o homem é a 
morte.)» (Um philosopho contempo- 
râneo). 

3. Ó morte! éslu a nossa consola- 
dora única V Ditosos aquelles que do 
I'jVangelho haurem Ioda a sua pliilo- 
sophia ! — «Felizes os que choram 
porque h5o de ser consolados! Feli- 
zes os perseguidos por amor á justi- 
ça, ponjue é d"elles o reino do céo... 
Não vos temaes dos (pie só podem [jer- 
der o corpo ; mas temei os »}ue podem 
a um tempo perder corpo e alma... 
Exultará o mundo, c vós chorar(!Ís; 
mas a vossa tristeza reverterá em ju- 
bilo... e este jubilo ninguém vul-o 
poderá tirar.»(.^Ial.v, 5, 10, 53.— João 
XVI, -JU.) — líNão esmoreçamos. Em 
quanto o que nos é terrestre e exte- 
rior se aniquila, o homem interior 
remoça dia a dia, porque as nossas 
angustias transitórias, que tão ligei- 
ras e momentâneas são, nos produ- 
zem galardão immenso e eterno da 
gloria. Olhai Jesus, aulhore consum- 
madorde nossa fé. Seja-vos exemplo 
quem tantas contradicções padeceu 
dos peccadoi-es: não cahireisem aba- 
timento. — Não vos cance o solTrer. 
Deus castiga os que ama. Trata- vos 
como a filhos... Castiga-nos, quanto é 
preciso pai-a nos dar quinhão de sua 
santidade: ora, todo castigo nos con- 
trista; mas, ao depois, dá-uos messe 
de fructos de justiça colhidos em paz.» 
(S. Paulo. 1, Gor.'iv, 16, 12.— Heb. 
XII, "2, :?, 5, ó, 7, 10, 11). — Dicte-se 
e faça-se recitar. 

CONSOLDA. iVeja Borra.gine.\s). 

CONSTÂNCIA. -<0 homem incons- 
tante tudo enceta e nada conclua. 
Após longos lavores, tudo produziu 
desordenado, e só deixou obras co- 
meçadas que ninguém quer acabar, 
e assim ficam inúteis. Os seus pro- 
jectos fazem rir. Ninguém o auxilia 
nem lhe obedece, porque é duvidoso 
se amanhã quererá o que hoje quer. 



CON 



CON 



251 



O inconstante perturba a vida domes- 
tica, deixa em meio a educação dos 
filhos, e arruina-se era empreitadas 
interrompidas. Teria sido feliz, se os 
mestres o habituassem a reflectir an- 
tes de emprehender, e de concluir as 
cousas começadas.— Dê o professor 
exemplo de constância para ir corri- 
gindo a inconstância do alumno. A 
criança, de seu natural, imita as pes- 
soas que ama e estima : se observa que 
o mestre é invariável e obstinado em 
suas emprezas, imitalo-ha.» (Giron 
de Buzareingues). 

CONSTANTINOPLA. (Veja Tur- 
quia). 

CONSTELLAÇÕES. (Veja Estrel- 

LAS). 

CONTADOR DE ARGOTE (D. Je- 

ronymn), (1676-1749). Clérigo regu- 
lar Iheatino, e académico da Acade- 
mia real de historia portugueza. Na 
Collecrdo dos Dacuinoilos e Memorias 
da Academia (lora. iv, v, vi e ix) ha 
escriptos de alguma valia sob o titulo 
de Contas dos seus estado-i com que 
este notável antiquário provou su ra- 
ma diligencia, se não estremada cri- 
tica. Escreveu das antiguidades de 
Braga, era latira, e quatro tomos de 
Memorias para a historia ecriesiaslica 
de Braga. O primeiro, que consta da 
geographia antiga e moderna d'aquel- 
le arcebispado, não goza bons crédi- 
tos quanto á interpretação das inscri- 
pçOes lapidares. Segundo se depre- 
hende, da distancia a que D. Jerony- 
mo vivia das localidades que se pro- 
poz descrever, íiou-sc era informa- 
ções do pessoas nada entendidas em 
archeologia. Sem embargo, não le- 
mos aullior que tanto nos esclareça 
(pianlo ao numero dos monumentos 
era (pie mais que todas se distingue a 
província do Minho. 

CONTOS. «As crianças gostara de 
contos — diz Fénelon — aproveilai- 
Ihe o gosto.» Sube-se que os conta- 
dores professos são pelo ordinário pes- 
soas eslafadoras, as (piaes, no dizer 
de la I{ruy('Te, contam sempre signal 



de pequenez de espirito. Porém, os 
meninos são fáceis de contentar. Tal 
sujeito, que se vos figura um pasca- 
cio, lá para elles, é um portento, logo 
que haja visto lobos, bruxas, cães 
raysteriosos e impossíveis, tudo que 
satisfaça a curiosidade do pequeno e 
lhe fascine a imaginação, e o as- 
sustem com cousas que'nãoha, e lhe 
substituam chimeras a realidades! 
Quem quizesse levar um menino até 
á parvoíce não tinha mais que enlre- 
tel-o sempre com semelhantes panto- 
miraas. — Á vista dos péssimos con- 
tos que por ahi se escrevera para uso 
dos meninos, cuidar-se-ha que o me- 
lhor modo de os regalar é dar-lhes 
absurdidadcs. É certo que perigos, 
medos, crimes, assassínios e maravi- 
lhas excitam vivamente a imaginação; 
mas não é com o 7nal que devemos 
captivar-lh'a ; mas sira com o bem. 
N'este sentido são boas as Fabulas de 
La Fontaine, de Florian, de Fénelon, 
as historias escolhidas da Biblia, da 
historia grega e romana, da ravlho- 
logia, ele. — Quando contardes o que 
quer que seja a crianças muilo impres- 
sionáveis, nolai-lhes que devera apren- 
der a ler depressa para poderem pro- 
curar nos livros todas essas curiosi- 
dades, c conlal-as depois aos outros. 

CONVERSAÇÃO. 1. «:Ha pessoas 
que fallara um momento antes de ter 
pensado; ha outras que parece esta- 
rem-se escutando, e corao que nos 
molestara cora o gravame da sua pon- 
derosa pratica: estes são uns chama- 
dos /^íírí.v/as, que não bocejam pala- 
vra menos limada, embora discreta e 
bem cabida ; nada lhes sabe es[)onta- 
neo nem feliz... Consiste o espirito da 
conversação menos em ostental-oiiue 
a deixal-o entrever aos outros Quem 
se reliia da nossa conversação satis- 
feito de si e de seu espirito, vai per7 
feilamenle agi'adado de nós.... E 
grande lastima não ter um homem 
bastante espirito [)ara beinfallar nem 
o preciso juizo para se calar... Dizer 
modestaniíMile ipie uma cousa é boa 
ourai, allegando as razões ifisso, re- 
(pier bom siso e boa phrase. Ha um 
chamado fallai- bem. e fallar correu- 



252 



CON 



COP 



tiameiíle, c fjll.jr y potiLo, c lall.ir jo 
juslo: vai do (mícoiiIiij ao (Jonadeiro 
geiioro o divagar a íiouxo acerca de 
um laiili) jantar, (|ij(; se levo, na pre- 
sííiiça (lo pessoas pouco roíuediadas, 
dizei' t,'al)açòes do saiido em [)i7'sença 
de pessoas valeliidiíiarias ; esladííar ri- 
quezas, rendas e loiíraiiias diante de 
um tal (|ne iiilo leni nada de. sen, em 
sunnna, pavoneai piospeiidadesdian- 
le d(! infelizes. Tal conversação mor- 
lilica-os, e o conlronto (|ne (sliiís fa- 
zem dispara em (xJio... Os piovincia- 
iios e os sandens estão sem [ire a pi- 
(|ue de se estoinaj^arem, cnidando(|iie 
zombam (Fcdles com menospKiç.o. Ha- 
ja cantela eín não tíracejar, masbian- 
daraenle (|iie seja, senão com pívssoas 
cultas o espirilnosas... O homem dou- 
to, ás vezes, logf! da sociedade conio 
do enojo.» (La Bruyèrc). — Todo ho- 
mem tem lá uma certa especialidade 
que o occupa, e dá-se a uiiudo ser 
um homem ignorante perspicacissi- 
mo em certas cousas. Se o encami- 
nhamos para a sua especialidade, lu- 
cramos bastantemente em ouvil-o. 
Porérn, por que tudo vá de bom acer- 
to n'isto de, conversar, faz-se mister 
remover tudo que é garrulice, Irio- 
leira, egoismo e paixão. Além de (|ue 
é preciso que haja modéstia, alTeição 
a conhecimentos universaes, e mutua 
tolerância. Se este ultimo predicado 
fallece, ha desavença logo no intrói- 
to, e aborrimento reciproco, — Aqui 
protestamos contra o costume, que 
reina em certas casas, de se fallar ás 
crianças em linguagem diversa da 
que hão de fallar quando houverem 
crescido. Com tal uso, criam-seduas 
linguagens differentes, faz-se-lhes 
inerte o entendimento, e retarda-se- 
Ihes sem minirao lucro, o momento 
em qne devem fallar no estylo com- 
mum. Diz Fénelon : «Podemos insi- 
nuar infinitas instrucções, mais úteis 
que as lições propriamente, nas con- 
versações joviaes.» A conversação é, 
em veVdade, excellenle meio de' bem 
dirigir os meninos, mas com as se- 
guintes condições : Respeitar-seo pro- 
fessor; evitar' maledicências; afastar 
quanto ser possa idéas de grandes vi- 
dos 6 crimes; deplorar os maus em 



vez de os execrar desabridamente; 
em llm, encomiar com ardor o mérito 
das acções lionradas. 

iJicle-se, e faram-se decorar e am- 
jjlilicar os pensamentos de la Bruyè- 
re. (Veja Toute, Polidez, Visita, 
elc.i 

COPENHAGUE. .Veja Di.namauca). 

COPÉRNICO. (Veja A.stuo.nomia e 
Invk.nsões). uNa variedade de opi- 
niões contradictorias, (|ue o profundo 
Copérnico examinou para construir o 
syslema planeiaiio, (|ue actualmente 
ó recebido como a hy[)Olliese mais 
plausível, estudou com mais reílexâe 
duas: — 1." o systema dos egypcios 
que suppunham que Mercúrio e Vé- 
nus giravam ao redor do sol, e que 
Marte, Júpiter, Saturno, e o sol fa- 
ziam o movimento de circumvolução 
em torno da terra: — 2." o sy.stema 
de Apollonio Pergeu que linha o sol 
por centro de todos os movimentos 
planetares, mas cria que o sol girava 
á roda da terra da mesma maneira 
que a lua. Estes systemas não lhe pa- 
receram voos desvairados da imagi- 
nação, porque se applicou a exami- 
nal-os experimentalmente por meio 
de r-epetidas observações astronómi- 
cas, estudo constante que muito o au- 
xiliou em sua tentativa. Por outro la- 
do viu que os pythagoricos removiam 
a terra do centro do universo e ahi 
collocavam o sol : julgou portanto ((ue 
o systema d'Apollonio se tornaria mais 
simples e symelrico só com a modifi- 
cação de estabelecer o sol como cen- 
tro tixo e suppondo que a terra gira- 
va á roda dVlle. Viu também queNi- 
cetas, Heraclides e outr'os philosophos 
collocando a terr-a no centro do uni- 
vei-so lhe conferiam um movimento 
rotatório, necessário por causa dos 
phenomenos do nascimento e occaso 
dos astros e as alternativas do dia e 
da noite. Attendeu lambem áquella 
parte do systema de Philolau, que ti- 
rava a terra do ponto central, e não 
somente suppunha que ella se revol- 
via sobre o seu eixo, mas lambem 
que linha uma annual rotação á roda 
do sol. Assim adoptando as verdades 



COP 



COR 



253 



que coUigiu de cada systeraa, e rejei- 
tando ludo o que achou falso e com- 
plicado, compoz o admirável sysle- 
ma, dito, copernicauo, que permane- 
ce como a única exposição verdadei- 
ra do movimento e disposição dos 
corpos planetares. 

«Occapou Copérnico toda a sua vida 
no calculo dos phenoraenos particu- 
lares para d'ahi deduzir taboas dos 
movimentos das espheras celestes, e 
assim fornecer meios de os predizer 
com toda a simplicidade c certeza; e 
a este fim e para demonstrar a sua 
theoria não cessou de fazer observa- 
ções e de combinal-as com asque lhe 
ministravam outros astrónomos; e 
quando julgou ter accumulado bas- 
tantes observações e provas, appli- 
cou-se a expor o complexo dos seus 
descobrimentos na obra, dividida em 
seis livros, que intitulou De orhiuiit 
cxelcslinm reroliitionibns, na qual re- 
duz toda a astronomia ao domínio de 
um simples e único priniipio. Parece 
que esla obra se completara pelos an- 
nos de 1530, lendo chegado o author 
á idade de 57 annos. Instavam com 
este para que a publicasse os mais ce- 
lebres astrónomos, por quanto muito 
se iiavia dilatado a fama de tão estu- 
pendos descobrimentos; mas elle he- 
sitava, ou porque a pretendesse me- 
lhorar com o fructo de ulteriores es- 
tudos, ou porque, e seiia o mais cer- 
to, tivesse receio de vulgarisar tão 
maravilhosa novidade, que deiTÍbava 
as opiniões até alli jecfbidas na ma- 
téria: e infelizmente não se receava 
sem fundamento. — «Nada ha tão ar- 
rogante e intolerante como a igno- 
rância : (observa Mr. Biot, cuja excel- 
lente memoria sobre C()|)ernico to- 
mamos por principal aulhoiidade) de- 
clarai a V('i'iiade aos homens; se o 
objecto os interessa pouco, talvez que 
vos perdoem o anojo; mas se o vos- 
so saber extirpa uma 0|iinião apadri- 
nhada de, ha muito, ou os desabusa 
de (pialtpHM- prevenção, embora mes- 
quinli.i ^'. mal fundada, o mero facto 
de ler sido conslantemenle admiltida 
a idéa ou cousa refutada é mais que 
sufliciente para lhes oíTender o orgu- 
lho, e muitas vezes para os levar a 



hostilidade aberta contra quem quer 
que pretenda mostrar-se mais cauto, 
ou mais sceptico do que elles.» — O 
exemplo no caso de Copérnico é mui 
notável : ao passo que os homens mais 
distinctos por saber e erudição, úni- 
cos juizes competentes em *taes as- 
sumptos, reconheciam a verdade, bel- 
leza, e importância d'aquelles desco- 
brimentos, o vulgo desatinou com el- 
les, e intentou declaral-os chimeras 
absurdas, chegando a ponto de ridi- 
cularisar o author n'uma comedia 
posta em scena em Elburg. Todavia 
o venerando caracter d^ste homem 
illustre, e talvez ainda mais o silencio 
que soube manter sempre, o preser- 
vou de insultos. 

«Noentanto Copérnico percebeu que 
demorando mais a publicação das 
suas investigações deixava campo mais 
livre á ignorância, e que o desenvol- 
vimento de tão evidentes verdades 
acompanhado de provas tão numero- 
sas e tão palpáveis seria a maneira de 
refutar a incriminação de absurdo le- 
vantada contra a sua douliina : por 
isso consentiu que o seu livro fosse 
por seus amigos dado á luz, e na de- 
dicatória ao paj)a Paulo iii assigna co- 
mo razão da publicação o desejo que 
tinha de evitar ser arguido de temor, 
ou repugnância de arrostar a critica 
das pessoas inteHigenles;e maisadian- 
te diz que Sua Santidade approvando 
o livro pôde resguarda l-o das presas 
da calumnla. — A obra foi impiessa 
em Nuremberg sob a direcção de seu 
amigo e discípulo, Rhelico, que lhe 
remetteu, concluída a impressão, o 
primeiro exemplar, o qual chegou 
ainda a tempo de o vêr o illustre au- 
thor, porque d'alii a poucas horas 
succumbíu á grave enfermidade (jue 
o atacara, fallecendo aos '21 de maio 
de 15 í3, com "O annos de idade, mas 
não sem a satisfação de vèr estampa- 
da a sua obra.» {Ihinonnnd). 

CORAÇÃO. K órgão musiid.u . prin- 
cipal agente da circulação Ao sangue. 
No ponlo deanalyse pliysiologica c es- 
tudo interessanle. ^Veja SamíUK). Mo- 
ralmenie considerado, o estudo do 
coração immano é um abssmo, o só 



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COR 



Dons o snn(l;i... O corarSo altora a 
face do liumíMn, e Hie imprime si- 
gnaes de hondade ou maldade... A 
alegria do corarão é a vida do homem, 
e lhe prolonga os dias. {Errlrsinstrs}. 

— O espirilo á o lado parcial do ho- 
mem: o coiarão é Indo. flUvarol). — 
Deus só (tóile \)C)v fioiílciras ;is agita - 
çõese aos i lisa II a vcis desejos do cor;iij;lo 
liiiiiiaiio. (Massilloii). —Temos visto 
liaI)allia(!i)Spor inroitniiio iiiis(Hieiiao 
.soiihcram espi;ir o (|iie ia nos ânimos 
dos oiilros; mas. pelo que é (runsf|ne 
niio estudaram o próprio (-oraçrío, for- 
ça é (pie sejam ilesgraçados. íMarco 
Aurélio). — O peor dos inaiis consór- 
cios é o do corarão. (Cliamfori). — 
Não é a cabeça, é o coração (pie deve 
sobrelevar a' Indo. (Clialeanbriand). 

— Não ha mérito nem talentos que 
dispensem o bom coração. (M.""^ de 
Genlis). — Coraçlo só com o coração 
se entende. (P. André). 

Quanto a educação moral e cultura 
do coração, veja SENSimuDAnE, VON- 
TAHE. Kxplirpioin-se, dlclera-se e fa- 
çam-se decorar estes pensamentos 
aos alumnos. 

CORAGEM, l. «A coragem verda- 
deira é o que sem[ire deve ser: nem 
sofTreada nem excitada. O homem de 
porte exercila-a, nas batalhas contra 
o inimigo, na convivência de amigos 
a favor da verdade edos auí^entes, no 
leito da enfermidade contra os ata- 
ques da dôr e aspecto da morte.» (J. 
J. Rousseau). — «Espera serenamen- 
te o perigo o homem corajoso, e só 
se expõe quando a honra lh'o pre- 
screve; mas, no gume do perigo, não 
se lhe furta. Ti» (Aristóteles). — «Está a 
verdadeira coragem em ir de rosto 
contra os perigos, e desprezal-os quan- 
do são necessários. >i (Fénelon). — c<Nos 
grandes transes, a coragem heróica é 
inteiramente natural, e mais vulgar 
que a paciência nas pequenas contra- 
riedades da vida.v) (Zimmermann). — 
«A coragem moral está no dominio 
do homem sobre suas paixões : é pro- 
ducto da educação inlellectual que lhe 
moderou os desejos e harmonisou os 
deveres com as necessidades."» (Dr. 
Descurei). — <íÉ mister tanta coragem 



no soíTrer com animo igual as dores 
da alma como em quedar-se o [lo- 
mera lirme sobre o parapeito deumba- 
luarte.» (.Napoleão). — «Coragem sem- 
|ire! Sem isto não ha virtude. Cora- 
gem com (pie sopeses leu egoismo, e 
te faças benifazejo; coragem com (jue 
venças tua preguiça, e [irosigas em 
teus estudos illiístradamente ; cora- 
gem com ipie defendas a pátria, e 
jirolejas o teu próximo em todos os 
accidenles: coragem com (pie resistas 
aos mans exem[)íos í; á irrisão injus- 
ta ; coragem com (juesolTras osacha- 
fjues, dores o variadas angustias, sem 
lastimas pusillanimes; coragem com 
que anlieles a perfeição, intangível 
ri'este mundo, mas a (|ue d(!ves aspi- 
rar, conforme a sublime [)hrase do 
Evangeliio, se não ipieres descahirda 
nobreza da alma.» (Silvio Pellicoj. 

2. Ha cnrdf/cm riril e corafjr-m mi- 
litar, (pie entre si diversificam, e ra- 
ro se combinara. Ensina a experiên- 
cia que a coragem militar é mais fá- 
cil ao cidadão que a civil ao guerrei- 
ro. Cusline, que nos combales arros- 
tara numerosos perigos, descorou 
diante do patibulo. Na guerra tudo 
conspira a incutir arrojo; e, mais em 
defesa da vida que por desejo de ma- 
tar, o guerreiro vai matando. Poríím, 
firme caracter na adversidade é mais 
heróico. Séneca diz que está em nos- 
sa natureza admirarmos sobre tudo 
o homem que sabe ser desgraçado in- 
trepidamenie. Das revoluções politi- 
cas tem surtido grandes exemplos de 
coragem. Simoneau, maire d'Etam- 
pes, cercado na praça por furiosa 
gentalha, que rouba d pão e lhe im- 
põe a baraleza do género que rouba, 
oíferece a vida, e morre no cumpri- 
mento dos seus deveres. Louvet, ac- 
cusando Robespierre, defendeu com 
immensa coragem civica o partido da 
Gironda. Lanjuinais, arrancado vio- 
lentamente da tribuna por Legendre, 
exclamou, alludindo á antiga profis- 
são do collega : «Decreta que eu seja 
boi, e terás direito a me agarrar!» 
Laya, fazendo representar em 2 de 
janeiro de 179;í o Amigo das leis. e 
Marie-Joseph Chenier, proclamando 
no mesmo thealro, sob a dictadura do 



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Terror, aquella máxima Leis em