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Full text of "Ensaio biographico-critico sobre os melhores poetas portuguezes"

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iigitizcii;,. Google 



ENSAIO 



lOBU OS KBKHOHXS 



POETAS PORTUGIIEZES. 



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ENSAIO 

EiaiiAniie-aunie 

SOBBE OS UELHOBBS 

POETAS PORTIlGlIiZES. 

âocio CorrttponâenU áa academia Retd dat SnencMi de 

Jtuboa, Âxio Honorário da Academia LMenetue Au 

iSeienciai, e dat Lttrai, e Soeio Corre^ondtnU da 

Gabmtte de Leitura do Ato de Janeiro, 

TOMO iir. 



MA nUKKMM »n.riAMA. 



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BKiASO 
BIOGR APHICO-CRITIC O. 

CONTINUAÇÃO DA £SCHOI.A ITALIANA. 

CAPITULO I. 

Fero de Andrade Cammka, 

fJorria o anno do Senhor del367, quando nm fidatg» 
Castelhano, on Gallego como quereis outros, veio aPor- 
tagal offerecer sua pessoa a El-Rei D. Fernando, que 
então empunhava o Sceptro Fortuguez. 

Chamáva-se aquellè ádalgo Fernão Camiuba, eera de 
mui distíncta linhagem', éEl-Rei o recebeu com aquella 
bcDignídade, e bom gazaltiado, que neste reino sempre 
foi uso fazer aos estrangeiros, com preferencia aos natu- 
laes delle. 

Parece que este FemSo Caminha era pessoa de mérito, 
e probidade; i^o consta que serviços elie prestasse a 
£I-Rei D. Fernando, mas é certo que aquelle Monarcha 
se deu por satisfeito com elles, pois em remuneração lhe 
fm mercê do senhorio da terra de Santo EstevSo, que 
entSo era de grossa renda ; e é natural que esta circums- 
tancia, e o favor do Rei cooperassem para os seus des- 
cendeutes se aliarem com as famílias mais distinctas da 
Aristocracia Porlugueza. 

De Femao Caminha foi quinto neto Affonso Vaz Ca- 
minha, que viveu no fim do século XY, e cujo segundo 
filho, que se chamava João Caminha, seguio a vida mi- 
litar, sn-vindo longos annos nos Estados da índia, oude 
se tomou famoso por seu grande denodo, e foi um doa 

Digitizcii;,. Google 



6 EHSAIO BIOGBAÍHICO CRITICO, TOUO III. 

primeiros, qoe entraram ew Aden, quando aqaetla cidade 
foi acommettida pelo graade Ãffonso de Albuquerque. 

Voitaodo ao reioo, recommendado por scas serviços, a 
lafftAta D. babel, fitta d'£l-Rei D. Hauuet, depois R»- 
nba de Bespantia, e Imperabiz de Alíemanha pelo seu 
malrímonio com o Imperador Carlos V., ihe fez a honra 
de o escolher para Viador da sua Keal Casa, e Fazenda. 

João Caminha conlrabío, passados tempos, matrimoDÍo 
com uma Senhora de sangue mui nobce, por nomeB-Fi- 
lippa de SoBsa, comqaem viveu largos annos em uma paz, 
e união de vontades, que raríssimas vezes se encontra en- 
tre casados. 

João Caminha teve de sua mulher os seguintes Qlhoa, 
Pêro de Andrade Caminha, de que tractamos neste Capi- 
tulo, Gaspar Caminha, cpie fel Cavalleiro da Ordem Mili- 
tar de Malta, Affonso Vaz Caminha, que passou á índia, 
onde terminou seus dias na flor da idade, D. Anua de 
Toar, D. Guiomar de Sousa, e D. Catharina de Toar, 
que marreq Freira, mas ignoro de que Ordem. 

NãoquizDeos, que João Caminha, e sua Esposa, que. 
tanto seamavam, vivessem um só instanteseparados, ou 
checassem a perda um do outro , poi& no, incsmo dia os 
cbamoa a melhor vida, para-que peFmanescessem unidos 
poc toda a eternidade. Este notável accontecimcnto oonsí- 
gnou o Poeta no seguinte Epithaphio, que é o trinta 
cinco da sua CoUeccão. 

Aqui JoSq, aqui Phillíppa j«zem. 
Os qnaeg em santo nó juntou sua, sorte, 
£ assim mortos invqa aos vivos faien 
Com sua santa vida, e santa morte. 
Haas almas no Ceo se satisfazem . 
Vendo o claríssimo, e divino norte. 
Que na vida foi sempre sua Guia, 
E que ao Ceo os guiou juntos u'ham dia. 

Sam tão escassas as noticias, que nos ficaram de Pêro 
de Andrade Caminha, que nem ao incnos consta com cer-- 
teza quacs foram os seus estudos, ou sí frequentou a 
Universidade de Coimbra: as suas obras não indicara, 
grande erudicção, mas parece que sabia o latim, e o grego. 



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inrBO IT., cuntiLO .t. 7 

Sabemos sMneate, qv&fAnCamtieini^eD.DBarté, Du- 
que de Guimarães, e muito estimado daquelle Príncipe, 
um dos mais instróidos do s^ tampo, e gnude fATore- 
cedor de todos os homens, que cultivavam as letras, e»- 
peeialBieale a poesia, tftn que nuilo ae deteitava, como 
acMtece a todos os homens, (fêe tem cuacío swaivel, e 
Qm esj^to devado. 

CodÍo o Duque era tio bem «isto, e aceeile de povo, 
como pouco amado no Paço, p*reoc ^a e^íaTor doamo 
preJDdicOa os inter^sca de criado, e «hu iieo nSo se 
alrazaría pouco asuafortima; o certo é, que debalde aa 
cHipulsaria oÁrchiTo da Torre do Toabo, para ahi des- 
cd)rír docranenlos de alanas »erc(>s, que Ibe El-Reí fi- 
zesse: apenas ali esiste nm Diploma, datado de 16 da 
Julho del&56, pdo qual D. João III, tn doaçSo a Pêra 
de Andrade Caminba de parte dos direitos reses dos vi- 
nhos exportados pela foi do Douro, de que jà por carta 
regia, deS!l de Outubro delfítíS, baTÍafeilo mercéa sua 
Mii D. Fílíppa de Soma, cm remnneraçio dos mniçov 
de seu irmio Gaspar de Andrade, qoe btvia perecido na 
índia, peleijando cootra os Infiéis. 

Esla escacez de beneKcios régios para com Pêro d* An- 
drade Caminha não deve admirar cm Portugal, aonde as 
Musas nasça tiveram BniAsgasb», umLeão X., ou Luiz 
XIV., a<mde a Historia só menciona uma peusfio dada a 
um Poeta; e esse Poeta foi Luiz de CamOes, essa pensSo 
foi tão grande, ou paga com tanta pontualidade, que nSo ' 
o bvFon de svslentar-se de esmolas, e de morrer de Fo- 
ne, ou como outros dizem, D'un hospital. Se alguns Poe-- 
tas foram entre nós remnnerados com honras, e fazenda, 
não foi a titulo de haVeren polido, e enriquecido a língua, 
e levantado monumentos à gloria da Pátria, mas em rc- 
moneração deserviços valiosos poreltes prestados nacar- 
reira militar, ou da magistratura. É deste desacoliiimcu- 
la dos cultores da poesia, que o Cantor dos Lusíadas se 
queixava, com tanla razão como amargura, nos seguintes ' 
Tersos: 

Pm isto, e não por falta de Natura, 

Não ha lambem Virgilíos, nem Homeros, 

Nem haverá, si este costame dura, 

Pios Eneas, nem Achites feros. 



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8 SRSAIO StOCUraiGO dlTIflO, TOHO Uf. 

. Si alguns dos nossos Poetas «screveran obru 

>Poue Imead» Cedro, a» leei senanda Cupnsso. 

ileveram-no ao impalso irrisistivel do sea génio, a HmA 
ardente sMe de gloria, ea&senpatriotiBmoeDthusiaslico, 
c nâo ao favor da corte, onde nunca acharam Mecenas; 
nniitas vezes as escreveran nas' dores doeiilio, e nomeio 
das perseguições, e trabalhos. 

fero de Andrade Caminha deven toda a pouca fortuna, 
que desfroetoo, aos seus longos, e leaes serviços, e á 
generosidade de seu amo D. Duarte ; foi elle qvem lhe 
conferiu a Akaídaria Hèr de Celorico de Basto, e uma 
Tença de duzentos mil réis, mercês estas, que Ibe foram 
conhrmadas por £I-Rei D. Sebaslífto, depois do fallesci- 
mento do Duque : e o mesmo Dnqne além de o recommen- 
dar, com grande efficacia, no seu testamento ao Cardeal D. 
HenriqHe, que depois foi Rei de Portugal, deixa a Pêro de 
Andrade um soberbo cavallo, por nome oLima, e noCo- 
dícilo deíxa-Ibe sessenta mil réis de Tença, de que El- 
Reí Ibe havia feito mercê, com faculdade dereounciarem' 
qnem lhe bem padecesse. , 

. D. Duarte aioava as letras, e a poesia, e o seu palácio 
era frequentado pelos mais disttactos Literatos e Poetas, 
que ali eram festejados, e bem agasalhados- Ali contra- 
hiu o nosso Caminha amisade mais, ou menos intima com 
todos elles, e muito especialmente com o Doutor Francisco 
de Sá de Miranda, o Doutor António Ferreira, e Diogo 
Bernardes, e seu irmão Fr. Agostinho da Cruz. 

Ferreira, que naquelle tempo era o oráculo do bom gos- 
to, e o cbefe da Eschola Poética Italiana, mostrou sem-, 
pre grande predileçSo por Caminha, e lhe dirigiu algu- 
mas Epistolas, louvaodo-o, e aconselbando-o ; Caminha, 
discípulo tão dócil coiqo Bernardes, o traclava com um 
respeito quasi filial, e parece, que nada via superior a Fer- 
reira, e não aspirava a mais, que a assemilhar-se a elle 
na elegância da composição, e na pureza clássica do es^ 
tylo. , " ' 

Pêro de Andrade Caminha casou com D- Pascóclla de 
Gusmão, talve^í a mesma Dama, que elle tanto havia ce- 
lebrado debaixo do ;iome de Ptiylis, tão poético, e bar- 



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LITIM) IV., CifmJl* I. 9 

moaioso, quanto o nome do baptismo ttnba de plebeo, e 
prosaico. Deste matrimauíoeoosta, qaeteve uma filha por 
nome D.Marianna, a favor dequem, por suamorte, des- 
p4s da metade da sua Tcuça de duzentos mil réis, dei- 
lando aoDtra metade asua mulher, tendo alcançado para 
isso carta de mercê deEUfieí D.Filíppe 11., que se acha 
arerbada aos Livros da Chancellaría daqoelle Uonarcha. 

Repartido ealre o desempenho das obrigardes do seu 
CM-go, os aSectos da sua família, e o cultivo da poesia, 
e conversação dos seus numerosos amigos, passou o nos- 
so Poeta uma vida , si não opulenta, ao menos quieta, « 
trauquilla ; e na Irauquiliidade, sem iudigeacia me pare- 
eeamim, que consiste averdadeíra felicidade destcmua- 
do, e esta desffuctou Caminha ^até ao dia 9 de Setem- 
bro de 1S89, em que terminou a sua existência. 

As poesias de Caminha foram muito estimadas no ses 
t«npo, pois o seu nome se encontra honrosamente mea- 
cionado nas obras dos melhores Poetas contemporâneos, 
e muito especialmente nas de Ferreira, e fientardes, pa- 
rece porém, que eram mais conhecidas nocircolo dos en- 
tendedores, e discipuios da eschola de Ferreira, do que 
do público, á excepção de um pequeno oiímero delias 
que sabiram á luz juuto com as obras d'outros Poetas, 
OD em algumas ColIecçOes espirituaefi. Sabia-se apenas, 
que na livraria do Duque de Cadaval existia um volume 
com algumas poesias de Caminha, eque a Academia Real 
das Scieucias havia alcançado a permissão de fazer ex- 
trair nma copia desse mesmo volume. 

Nestes termos podia Pêro de Andrade Caminha ser con- 
siderado como um Poeta perdido, assim como muitos ou- 
tros daqiiella epocha, de que apenas conhecemos os no- 
mes, e os louvores, que os contemporâneos lhe tribu- 
taram. 

tlm ditoso acaso feí resuscitar este Poela do esqueci- 
mento, em que jazia sepultado havia dous séculos. Corria 
o anno de 178i quando a Academia Real das Sciencias, 
sempre assídua, e zelosa prMaovedora dos progressos, e 
adiantamentos da nossa literatura, incumbio dous dos 
seus mais dislinctos Sócios oAbbadeJosé Corrêa da Ser- 
ra, e Fr, Joaquim Forjaz, da honrosa missão de examinar 
a nomerosíi Òolleccão de manuseriplos existentes na Bt- 



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10 ENSAIO tioatuaaioo cmtioo, 'toso ih. 
bliotbeca do Convénio da Graça deela Cidade, a fim de 
deacubrir aella algum, que podesse eervir ao seu louvá- 
vel projecto. 

£alTe estes manoscriplos, por e)les exanúiiados, appar 
rcceu fetÍLraentc ma Códice de poesias de Pêro de Anika- 
de, mas em que não havia um único verso, dos que se 
liam novolumequepeesuia o Dnque de Cadaval, oqueda- 
\a bem avér, que eram dous Tomos da mesma CollecçSo. 

Contente a Academia com afortuna desteacbado, trac- 
tau logo de alcançar dos Iteligiosos Graciaoos a fac«lda> 
de de fazer trasladar aquellas poesias, oque Ibe foi leve- 
mente outborgado ; e juntando-as com as que jáposMia, 
deu ordem para que fossem impressas na sua própria of- 
ficiuii, o que se elTectuou, em umvolume de oitavo por- 
tuguez, e em exceliente papel e typo, na auDO de 1791, 
juntando assim mais este serviço importante, feito á iin- 
gua, e á literatura, aos muitos de igual género, de qae 
Uie eram já devedora. 

Pêro de Andrade Caminha considerado como Poeta , é 
Bina espécie de meio termo entre o Doutor António Fer- 
reira, e Diogo Bernardes, tanto em bellezas, como em de- 
feitos. Tem elle tão pouca imaginação creadora como elles 
ambos, e menos abundância de idéas, que o primeiro, Q' 
mCBos amenidade, que o segundo. Sua expressão ê mais 
forte que a de Bernardes, e menos vehemente que a de 
Ferreira. Não tem otrabalbo, earte deste, nem anatura- 
lidade e graça daquellc, mas tnmbem não descabe tanto- 
ua dureza de um, nem nas oegligeacias, e prosaismo do 
ottlr». Sen caracter, demasiado serio, faz com qite o seu 
estylo pareça ás vezes secco, e desabrido; é o único dos ' 
nossos Poetas antigos em cujas obras se não encontra 
uma só comparação, pelo menos havendo-o lido bastantes 
vezes. Dão me recordo de haver deparado com alguma, e 
este defeito é grave, porque as comparaçfies sempre fo- 
ram cíHtsidcradas como um dtfs mais bellos ornamentos 
do estylo poético. 

As Éclogas deCaminha, em número deqmtro, sam es- 
criptas em linguagem pura, c quasí sempre no verdadei- 
ro estylo bocolico, e podem emparelhar com as melhores, 
que naqucllc tempo seescrcveram ; vêja-se o canto alter- 
nado de Andrageo, e Pierío na primeira delias. - 



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UVBO ir., CAPITCIO I. 11 

ANDBAOBO. 

Asperíssima PhylJs, a meos danos, 
De que ea, por aprazer-te, mais dezejo. 
Não sei se isto he verdade, ou sam enganos, 
Ouço dizer que bes braoda, e não o veja. 
Acrescenta-me, PbyUs, a tristeza 
Uadares para mim tua natureza. 

FIBMO, 

Formosissinia Phylis, si eu tivera 
Do giaa Tytiro a ^ma. a voz, e o canto, 
A fraata, a voz, o canto a ti só dera, 
Co' meamo amor, com que ora a ti só canto. 
Mas isto, I^ylis, ke pura verdade, 
£ muilo nais le 4á minha vontade. 

ANDBAaEO. 

Amo-te, Phylis, quanto smar-te posso. 
Vejo qne qaasto podes te avorrcço, 
Escondido lá tens o lume nosso. 
Sem elle nem me vejo, nem conheço. 
Deixa-le, Phylis, vér, ah 1 nSo le escondas, 
Só porque mal ao meo amor respondas. 

PIEBIO. 

Canto-te, Phytis, quanto sei cantar-le, 
Sempre a ten canto dou tudo o i|uc entendo, 
A meos rersos nSo basco estilo, ou arte. 
Pois nunca bam de chegar ao que pertendo. 
Disto faa, Phylis, em mim continna queiía, 
Mas assim como ser caalar-te deisa. 

ANDaAOEO. 

Inda, Phylis, que n'alnia, com que le amo, 
Sempre te tenho, si a9o posso vér-te. 
Dos olhos tristes lagrimas derramo. 
Que a abrandar-te nSo bastam, nem mover-te. 
Mas 8i a lagriíBas, Phylis, n5o te abrandas, ■ 
Não tens as oondiçCes, como ooço, brandas. 

PIBKIO. 

Inda, Phylis, que «mpre a alma te canla, 
Si á voz teo canto ás vezes se me eslrova, 
Se cobre o esprito de tristeza tanta, 
Que se encbc de huma dõr áspera, c nova, 
£ nSo se gasta, Phytis, esta pena 



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t KNSAIO BIOGRÁFICO CBITICO, TOHO m. 

The que outra vez ao canto a voz se ordena. 

ANDRAGBO. 

Todo hum anuo não be, Phylis, 13o grande 
Quanto a mim, sem te vér, bum breve espaço, 
Nem ha quem minha grave dúr me abrande, 
Sem a vista, em que só me satisfaço. 
Dam teus olhos á pena, Pbylís, termo, 
Sem elles quaato vejo be escuro, e ermo. 

píer IO. 

NSo he, Phylis, tão grande bua triste vida, 
Qnanto a mim, sem cantar-te, espaço breve. 
De mi só a voz, qae de ti canta, he ouvida, 
S6 cantado he de mim quem de tí escreve. 
Enche teo nome, Phylis, meos ouvidos. 
Tenho todos os outros esquecidos. 

ANBBAQED. 

Phylis, não he tio áspero, e tão duro 
O bravo Boreas na maior tormenta. 
Nem he o triste Inverno t3o escuro 
Quando a sua m6r furía represeota. 
Quanto a mim, Phylis, be danoso, e forte 
\ér de ti despresada a minha sorte. 

PIBBIO. 

Phylis, 1^0 he tSo doce, n«n tio brande 
Zepbyro, quando mais brando o sentimos, 
Nan tio ale^e, e claro o Verão quando , 

Mais Tormoso, mais claro, e alegre o vimos. 
Quanto, Phylis, a todo o peso grave. 
Tua branda voz sempre be doce, e suave. 

AI4MAGE0. 

Minhas tristezas, Phylis, graves sejam 
Quando nãot vejo os teos olhos Tormosos, 
Outra vez alegria nova vejam 
Os meos do que em ti viam saudosos, 
A (lòr com elles, Phylis, se desterra, 
E sem elles a paz se muda em guerra. 

PIBBIO. 

De Flores seja o campo, Phylis, cheio. 
De cdres ria, o bosque, o prado, e o v^e, 
Meta-se o duro tempo logo em meio, 
Tudo seque, destrua, mova, e aballc, 



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LITHO ir., CAPITDLO í. 13 

Si te vás, Phylis, flor, e cflr perece. 
Si tornas Ioga todo reTerdece. 

AHDBAOEO. 

Por mil Árvores too, Phylis, formosa, 
Contando qnanto te amo, e me desamas. 
Verás ndlas a pena rigorosa, 
Que este peito me accende em vivas chanus, 
Porque, quando a voz PhylÍB, me Talesça, 
Xellas este amor, e ódio se coohcça. 

PtERIO. 

Por mil arvores, Phylis, o teo nwne 
Tenho, como em men peito está, escalpido, 
Netlas digo, que não ha quem assome 
Ao louvor, qae de lodos te he devido; 
Porque quando eu canlar-te já não possa. 
De mim se ouça inda o bem da edade nossa. 
EsUs Cantigas me parecem no verdadeiro estylo pas- 
toril, singellas, mas elegantes na expressão, sem que com 
tudo excedam o alcance da intelligencia dos Zagaes, a 
qaem sam atríbuidas. 

Pelo exórdio da segunda se conhece, que o Poela lia 
Virgílio, e fazia deligencia por imita-lo sassuaspastoraes. 

Ioda te peço. Musa, hum favor grande, 
Novo canto me dá, com que aos ouvidos 
De Marília o amor de Fraoco mande. 

De Marília meos versoe sejam tidos, 
E d'hnma branda'voi, a Frauco amiga, 
Mil vetes a Marília repetidos. 

A' sorte do meo Franco dura, e imiga ' 
Qaem versos negará? que ha quem a grave 
Ddr sina em alta voi com Mt nSo diga? 

Amor, e hum brando Zephyro, e suave 
Seo amor aos ouvidos surdos leve, 
Porque meoos a pena a alma lhe agrave. 

Frauco, que ao. Sol, á sombra, e frio, e neve 
Nuncâ 3 MÒrilía mais, nem meãos ama, 
£ que sempre, a, Marília Q'aJaia escreve. 

Franco, que tristes lagrimas derraiiia, 
E em suspiros do peito lansa fogo,' ' ' 
E a si por só Mftritia scdCMVUli ^ 



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14 ENSAIO BIOGBAPHICO CRIHGO, lOHO III. 

Move-se o Amor a seu queixume, e rogo. 
Choram sco damuo as mais incultas Feras, 
Tem seo mal só Marilia em rizo, e jogo. 

Ah Uarilis criiel, que desesperas 
Cada vez mais a Franco íuiastamente, 
Porque a ira contra elle não temperas. 

Que mal em Franco teo esprito sente. 
Que cada hora em seo ódio mais se accende. 
E cada bora em seos damoos mius coi^ente? 

Ah formosa Marilia, em que te oBende 
Quem só amar sabe tua Tormosara, 
Tea só nome onve, teo só Amor enteade? 

A imitaçSo é livre ; mas Ddla se deixa bem conh^ter o 

Extremiim hme, Arelkusi, mihi coneedt labonm. 
Pouca meo tiallo, sed quce legat ipsa lÀcoris, 
Carmina sunl dtcenda, negel quís carmina Gallo? 

da Ecioga X. do Poeta Hontaano, e o 

Dapiíni, timtn Panos ttiam ingemuisse Leonês 
Iníeritmí motitesqtie feri, sylttBque togumtur. 

da Écloga .V. ? 

Destas quatro Éclogas, a qoe me parece p^or i a lei> 
ceira, que se reduz a nm pròli&o e fastidiofla encadeapSo 
de louvores exagerados de D. Duarte, e de snas irtnãas, 
sem que ao menos a poesia do estylo tempere estes ex- 
cessos adulatorioe: isto poderia sea'vir os intentos do Poe- 
ta, e lorna-la grato a seu amo, mas é intolerável para o 
Leitor, especidmente quando a «duJação se explica em 
versos como estes. 

Maria, e Calharina, cada uma 
Vence o Sol, vence a Lua, reace Eftrdias, 
Vence as trez Gvacas beilas, gentileza 
Nellaa tudo he, e belleza, e pensamento, 
Alto, alto entendimento, quanto vâjo 
Nellas, nada scdieja, na^ falta. 



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%rt%0 IV., CAMUHB I. 15 

£ preciso confessar, que quando Virgilio lisongeia os 
seus protectores, é sempre em bid estyjo mtis comedido, 
mais elegante, e sobre tudo em melhores versos. É pro- 
bavel que os elogia-los ficasse^ muito satisfeitos, lia pa- 
ladares aquém olouvor recreia, por mais mal temperado 
que seja, mas e púUico nem sempre faz cboro £om os 
applausos dos saldes. 

As Odes de.Camialia, posto que eslejaro aíada muito 
longe do que este Poema deve ser, me parecem, a pesar 
disto, superiores nSo só ás de Diogo Bernardes, mas até 
ás de António Ferreira, pelo menos oo que dix respeiito á 
versi&caçSo, e corte das Eslropbes. Parece~me, si niio 
me engano, qse de todos os Poetas daquelle tempo é Ca- 
minha quem atina mais vozes com o tom lyrieo da Ode, 
e quem descabe menos no estylo da Canção ; o que não 
obstante, Ibestucedeu na Ode X. «os bons Espritos, com- 
posta de viole e quatro Eslropbes de nove versos, e es- 
crípta, em estylo languido, e descolorido. Tenbo esta Ode 
pela peior de Iodas as quo elle escreveu, porque ilém da 
demasiada exlencão para o assumpto, elle ali repete até 
i saciedade does, ou trei id^s, variando apeaaa a ex- 
pressão. 

Não acontece porém assim eom oOdeYI., que sedes- 
tÍBgae pela brevidade nervosa, e pelo fogo da expressão, 
que se imMa bem com um canto extemporâneo. 

ODE. 

Gloria á Patriá, honra aos teos, prazer ás Musas, 

Que com amor te olharam, 
Esse teo claro engenho, esse de que usas 
Em louvor téo, de que se tanto honraram. 

Esse teo dara esprho, e peregrino 

Estilo, e snavc canto. 
De milhor tempo, ou miihor Terra dino, ' 
Qae em bmis engenhos cria justo espanto. 

Será por mèraviliia nomeado. 
Por tudo hi.rá voando, 
Teo nome oom louvores levantado, 
,Q« teo tío.rarq yerso o. hifá levajiik». 



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]6 ENSAIO BIOORAPHICO GBITICO, TOVO III. 

Teo verso, que a Phebo he rico thesouro, 

E será sempre ás suas 
Hove IrmSas houra aova, e ao verde louro 
Que inda espero cingir as frontes tuas. '' 

Mas já que tcos ignaes ao alto conceito 

O Canto, o verso, o estilo, 
Em tudo toma sempre igual objecto, 
£m que possas milbor que em mim suhi-lo. 

0(1(0 as Musas de longe, nunca ouvi 

Alguns segredos seos. 
Não vi seos bosques, sua agoa ndo bebi. 
Que ddes tio raros sam mais certo teos. 

Mas teo Canto me htrá ora movendo 

Com passo mais seguro. 
A fonte de que eslá sempre correndo 
Para ti o liquor brando, suave, e puro. 

Esta Ode foi feita em resposta a ontra, que Ibe dirigi- 
ra Francisco d' Andrade, Chronista M6r do Reino, e nm 
dos maiores Poetas daquelle tempo. E para sentir que es- 
sa Ode não ande junta a esta, porque por«tla poderiamos 
ajuizar do talento lyrico daqaelle Poeta ; mas ^ desgra- 
ça da nossa Literatura perdcram-se as suas composições 
deste género, e para maior desgraça o seu Poema do 
Primeiro Cerco de Dto, tão notável pela pureza da lin- 
guagem, e petas Iieltezas do estylo, posto que defeituoso 
pela arcbitectura Épica, está ameaçado da mesma sorte, 
pois já é raro achar um esemplar delle, mesmo nas mais 
bem providas BibUothecas. 

Pela leitura das suas Odes se deprebeude, quePero de 
Andrade Caminba estudava attentamente Horácio, e liaba 
o sentimento das suas bellezas ; elle o imitava frequente, 
não copiando-o, mas com a nobre liberdade, com que de- 
pois o praticou Garção, não dizendo em portnguez o que, 
elle tinha dito em latim, mas dizendo o que imaginava 
da maneira porque o diria Horácio, se escrevesse na nos- 
sa língua. Vêja-se a Ode a D. Duarte, em que Camioba 
procurou imitar a primeira Ode do Livro I. de Flacco. 



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UVKO IV., CAFITULO I. 17 

lÊeeenas aUnU tdite regibvs, 
O et prtâiium; tt àulce doem mtmi, 
Sunt gvoecmrHUio pvhertvt Olmpicum 
Collegisse jmat, ife. 

ODE. 

Boarte, il'al(o3 Reys ao Mnndo vindo, 

Minha honra, e espenunfa, 
Haas tem por seo mór gosto estar ouTÍndo 
Qaaiilo em Flandres se passa, e pabsa em FniDfs, 
Qaanto no Mundo todo, e estar mediado 

Tudo o que se acontece 
Como elles querem, como lhe parece. 

Destes oatros se rim mais recolhidos, 

Que passam toda a vida 
Comsigo em outros gostos escondidos, 
• £ de todo a memoria assi perdida 
Tem, que tanto ibes lembra dos vencidos 

Como dos vencedores; 
£m sna occnpaçao tem seos amores. ' 

Ha mnitos ontros que assi i trabalhosa 

Caçi^sam ÍBctinadflS| 
Que nenhuma ontra cooza maia gostosa 
Uies he que ora em silebeio, ora com tirades ' 
Com bums, e outros enganos, a medrosa 

Caça andar levantando, 
Inda que os corpos nisso andem quebrando. 

Na Planta o esprito linms tém que com cuidado 

Posu^tn, crescer viram. 
No ramo já de fructa carregado, 
Na clara fonte, que com gosto admiram , 
Na terra, que abre o' curvo, b duro arado. 

No grão, que lhe semeiam. 
No que esperam colher, no que receiam. 

Corron entros os mares, «Arem- terra ' ' 
Suetritos a perigos, 
2 



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id EHSAio ^o^tnLtfffioo fmtm, tomo m. 

K tormentas, a fogí>, a norte, a gnerra, 
' A aozesci» de P^rwtes, & de amigos, 
ToUo o qiie est^ .qaielo<«tttdaii) que erra, 

Culpam-no de ocioso, 
E o bom repouso tem por trabalhoso. 

O meo contentamento, Duarte grande, 

3) fea ás Musas mereço . ' 
Hum alto canto, hun wk a qoe se abrande, 
Todoopeito, he cantar quanto copheço 
3á de trà fit^l Esprítp, e qilantb mande 

^ ti ao Mundq o Ceo 
D'onde esse teo IbpritQ alto deflceo. 

Na Ode septima endereçada ao Doutor Francisco de 
Sá de Miranda pi^nrtu o Poeta imitar a Ode VU. do 
primeiro Livro de Horácio que priDcipip 

laudabtmt <^ii ciaram Jthoâoni aut Myliietun 
Aut Epkesma, bimarisqm Corií^íki 

Mtenia, vel Backo Jhebas, vei ÃpolUne Delphos 
Intigaú, (Oit Thesmla Tmp«- 

e o faz eom nma Tiyezis, e luso de poesia, que é muito 
para admirar em um poeta daquelle 4empo. Esta Odii 
tenho eu pior nma das melhores, que sahiraia áà peima 
de Pêro dç Apdrade Caminha, eí-la. 

ODE. 

LooTarSo muitos esta gran Cidade, 
' ' Esta nobre Lisboa, 
Raro Francisco, esta que da occídente 
Com grande nome epi toda a parte sta, 
£ soará poiQ gran nogm emtoda a edade, 
Qucdá Leys no meíadia,- a ao Oriente. 

Seos espanios yerãp, su^s grandezas 

Seos nobres, ediíicios, 
D' obra antiga, e moderna, as variedades 
Dos Estados, das Obras, dos Oftcios, 



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uno iT., CAnnto i. 19 

Dta iMgocíos, do9 tractos, das riqnezas. 
Dos coBtsmes, das Leys, e das Tootadú. 

Nio me recordo de haver eneontrado em algum oatro 
Clássico a palavra espantos na significa(Ío de merMithat, 
qae Pêro de Andrade lhe dá nesta Estrophe: é assim que 
Dm homem de talento sabe e&riqaecer a língaa palria 
mesmo sem crear palaVrfts noras, ou admi(ti-las deantra 
lingoa. 

Com alegre loAvor VerSo partidas 

Daqui armadas nossas. 
Prosperas as verão depois enlt^das 
Cheias de mil despojos, presas grossas, 
Com bandeiras triamphaes àõs 'Ceoa erguidas. 
Com bandeiras dé hnigos deníbãdatF. 

Tributos verSo vit todos os annos 

D7ndios, Árabes, Persas, 
E de outras mil regiões, d'ontras mil iBeatek, 
De vários nomes, e de Le}'S iliVei^â. 
Conquistadas por b6s, não com eAgatibs, 
Com jnslas armas, coth ^azóes prtfdcAtes. 

' Este allimorerso está perfeitamente botestjlo de^ran- 
cisco Manuel. 

Verão ricos retornos, grosm ganhos 

De ricas mercancias. 
Que está Terra a outraà dá, a'ttatraá licceltá. 
Novidades verãb todos os dias. 
Em que os sentidos, e olhos s'acheib esifanhos, 
Inda que o appetitoso nada engeita. 

O Poeta em qnast todas as suas obras , e algumas ve- 
Ki nesta Ode, faz uso do vocábulo oroMO, empregando-o 
Kmpre no sentido de rico, e de abunãante 4<^,, e nisto 
Tai concorde com às demais Clássicos, quç sempre tra- 
duzem a éspressSo Bíblica adipes teme pela pbrasè j^rot- 
ntra da terra, e disem terra grossa, quaiído qqerejn de- 
figoar um terreno fértil. Jofto deBarm chama nQtmw, 



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20 ENSAIO BTOaUBHKO CimOO, TONfl III. 

e outros emporkn do commereio Orientti tirrãs dê gros- 
so tracto. ÀiniU b{^e dizemos, que jugoceia por grosso 
aqnelle Negocíaote, que faz especalaçOes em grande es- 
ealla, « vende por atacada. i 

Tudp isto louvarão muitos, e a vida 

Toda aqui pasmariam, ^ . , 

Neste inútil cuidado, e gosto vSo 
Só destas vaidades penderiam 
Despresada de todos, & esquecida 
Toií outra mais alta occupapSo. 

Has tu que com mais são esprito raro 
Vés, coubeces, e entendes 
- O que deve fugir-se^ o qne buscar-se, 
Mas tu, que nunca ao mal, sempre ao bem póides. 
Com douto juízo, puro, livre, e claro 
Escolheste o que sempre deve amar-ee. 

O santo ocio escolheste, as Musas quietas 

Miísas castas, e brandas, 
Co' as divinas Historias, co' as humanas. 
Temperas o prazer, e o nojo abrandas, 
Teo,' ou de teos amigos, nem te inquietas 
Com nada, vives livre, e nSo te enganas. . 

Ouves de longe, v6s de longe o Unndo, 

Parece-te inda perto, 
Tndo o ai a QaietaçSo santa avorreee, 
A.b santa QuietaçSO, quanto mais certo 
Está em li o repouzo, como ao fundo 
Se vai qnem por (i tudo nSo esquece. 

Ab prudente Francisco, despresaste 

Sempre as Cidades vãas, 

Cheias de máoa enganos, vãos negócios, 

Louvas teu doce Neiva, as agoas sSas 

Datna fonte, as fnictas, qne plantaste, 

■ -Éls Aves que ouves, os teos saAtos ócios. ■ 

Como te ris de nós ; como naTegas 
Segim» para a praia, 



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■ UVIO IV., CAPIICtO I. 21 

Oade se acaba o medo da tonuesta, 
Que taatas vezes, tristes nos tUsmaial 
Tristes detidos de esperanças cegas, 
Uai qoe «igmboaameirte dos conteatíi. ' - 

Desmaiar é um verbo oeatro, e o Poeta o faz aqui ac- 
tivo dizendo o íormenfa que nos desmaia, isto é, que nos 
faz desmaiar; é esta uma elegância poética da nossa lin- 
goa, abonada pela pratica de todos os bons Escriptorcs 
do secalo dequinhentos; Francisco Mannel, que attenla- 
mente os estndava, e imitava, algumas vezes se aprovei- 
tou delia, e foi criticado por homcos, que se julgavao» 
grandes Mestre^ de Portuguez sem se haverem áaào aa 
trabaiho de estnda-lo. 

Destas vâas esperanças, que enganados 

Nos tem, estás seguro, 
fiSo lemes, aão esperas, não dezejas, 
Co' esse aaimo constante, e peito puro, 
Co' esses espritos sobre o Mundo alçados 
Muitos aunos, e sãos inda te vejas. 

O Poeta entra no assumpto dizendo, que outros louva- 
ram Lisboa, porque domina desde o Tejo tAé ao Õrieóte, 
pela grandeza dos sens edifícios, dos sens mODumentos, 
pelas finas artes indastriaes, o s«u commercio, leis, poli'- 
oa, pelas armadas, (|ue sabem pela shh barra, e voltam 
a dia carregadas de despojos dos inimigos, e com as 
liandeiras Icmdas ás suas tropas, pelos tributos dos pA- 
Tos da Africa, e da Ãsia, que lodos os dias lhe chegam, 
e depois passa a coufroatar este quadro de grandeza, e 
de movimento, com ôoccio, estudioso, e a tranquilidade, 
qae Sá de Mirenda desfrnnta no aprazível retiro da sua 
Quinta da Tapada, para oude fugira desgostoso da cor- 
te; faz o elogio dos seus sentimentos virtuosos, dos seas' 
talentos, e ac^a désejando-lhe, qae possa desFructar por 
muitos annos esta felicidade. Esta marcha é verdadeira- 
mente lyrica, e conforme com a maneira de Horácio. O 
estylo é corrente, fácil, elegante, a versificação em geral 
harmoniosa, e apresenta alguns verses, que se destacam 



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22 ENSAIO BIOtlAÍBICO CRIIICO, TOHO til. 

do fundo, e vem feríi agradavelmente o oavidoi por ex- 
emplo. 

Com bandeiras triumphaes ao Ceo erguidas, 
Com bandeiras de imigos derribadas. 

Com justas armas, com razOes prudentes. 

De ricas mercancias, 
Que esta terra a outras dá, de outras acceita. 

Inda que o Appetite nada engeita. 

Atas tu que nunca ao mal, sempre ao bem peodes 

Temperas o prazer, o nojo abrandas, 

Ouves de longe, vês de longe o Munda 

as Truitas que plantaste, 
As Aves que ouves, os teos santos occios. 

Tristes detidos de esperanças cegas. 

Quando em composição tão curta Be deparam belezas 
desta ordem, seria injustiça apontar algnma particniari- 
sação minuciosa, algum twmo prosaico, ou menos nobre, 
^gum verso menos bem torneado I Cumpre que sejamos 
indulgentes com os Poetas desta epocha ; cumpre que nos 
lembremos de que estes homens ainda lactavam com ft 
dilBculdade, não pequena, de acommodar, e amoldar o 
idyoQia á versificação, e formas da poesia italiana, então 
nova entre nós, e que o dialecto poético não estava ain- 
da descriminado da linguagem da prosa. O progresso nas . 
artes sempre é lento na mão de bomens, cuja Musa é o 
talento, e não o gfmio. 

A Ode segunda, aos annos de Sá de Miranda, começa 
por um exórdio verdadeiramente lyríco. 

Pierides sagradas. 

Que em vindo o claro dia. 



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Que com josU' aliegría 
Celebraes de Bera, e Lonro cMmdas, 



Ao som de concertados lostminentos, 
Em noMas claras fontes, 

Hibeiras, valles, prados, bosqties, montes 
lioBtreís mil sentimentos 
, com aleerea movimenlos. 



Iguaes bellezas achará o Leitor na Ode Hl. ao Doolor 
àotonio Ferreira, na IV. a D. Daarle, na IX. a D. Jor- 
ge de Menezes, e na VIII. ao Bisfko dé Silves D. Jero* 
nyrno Osório, o eloquente Antbor da Historia Latina de 
El-^ei D. Maaael, qne passo a traústrever. 

ODE. 

Boutem lindon nm anuo, 

Outro se começa boje, 
Deprepa passará como o passado ; 

O Tempo vAa, e Foge, 

E d'bQBi em outro engano 
Lera a Tidaapt» di, leva o cuidado. 

Polo qae já passou, 

Polo que passa agora, 
Qoas) o que p6de vir pôde JUlgat-se ; 

Ditoso' a quem hum' bbra 

Ditosa nfio faltou, 
Bm que podesse bem desenganar-se. 

Ditoso o que a lembrança 

Tem sempre bo que vio^ 
Qne já não ré, e no qae está diante ; 

E polo que senlio 

Por vaa julga a esperança, 
Que outros tem por segura, e por constante. 

Despreza vãos dezejos 
Da Terra, e com eapritos 
Altos aspira ao bem, ^ue sempre dura. 



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KITSAIO BIOOSWaiGO CIUTICO, TOMO Itl. 

£ com secretos gritos, ' 

NuDca a este fim sobejou, < 

Traz o Ceo a suft alma limpa, epura. 

Este. tem paz comsígo, 

Este de máos enganos 
Vive livre, es^e vive em si s^inro; 

Começam, acabam aanos. 

Vem hum, e outro perigo, 
Egconde-se em si meano emoccio puro. 

Em si tem seo d^caaso, 

Comsigo se contenta 
Como quem só de Deos em tndo pende ; 

Orá brava a tormenta, 

Ora o mar ^^a manso, 
Igualmente á Fortuna se defendç. 

Ab mas quão raramente 

Hum destes ha na Terra ! 
Que louvores merece o que assi houvesse! 

Quantos tem dura guerra 

Em si continuamente. 
Quem sem tal mal vivesse, õu não vivesse I 

Do qne viram esquecidos, 

Do qae vem descuidados, 
Ao que inda podem vér a vista ^condem ! 

Da Esperança gviados 

Vam traz ella embebidos, 
Surdos, que nem vos ouvem, nem respondem. 

Comsigo sempre inquietos, 

Nunca em nada reponsam. 
Ora vàamente esperam, ora receiam, 

Tudo o que cijidam ousam, 

Por bens nunca quietos. 
Que embaraçam sempre a alma, a vida enleiam. 

Hum anno, e outro corre. 
Hum tempo, e outro vda. 



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llVia lY., CJJITBLO I. 25 

Nenham avio nen (empo ao ben os leva, 

Nelles Bunca o bem sãa. 

Tudo em vjda lhes looRre. 
Nelles iodo o aono gea, e lodo neva, 

Teo raríssimo esfnito. 

Da nossa edade gloria, 
Clarissiffio, prudente gtande OsMro, 

De cuja alta memoiia 

MvaDta a fama bum grilo 
The o Ceo, que á Terra em ti deo grão ibesotiro. 

O Poela escreve Osouro, o mesmo appellido, que nós 
loje esCTCf emos Osório, é pois evidenle, que a pronuncia- 
fio deste vocabolo se acha alterada, conto lem acoulcci- 
do a muitos outros. 

Quam loage vás do cógo 

Vulgo, que ou não se atreve 
Co' bem, ora o não entende, ora se engana ; 

Que segue o que mais deve 

Fugir, que o bom sooego 
Foge, e lem só por glwia a gloria humana. 

Com Letras nos ensinas. 

Com virtudes nos moves, 
£ ccHn santos coslumes nos reprendes ; 

£m nossas almas choves 

Certas, altas doutrinas, 
Qoe o bem do Ceo, e o mal da Terra entendes. 

Em ti agora revive 

Quanto da Antiguidade 
Com espanto se tó, se ouve, e se canta, 

tonga, e ditosa edade, 

Ousoro, vive, vive, 
E viva em ti quanto em ti o Mundo espanta. 

K mil Janeiros vejas 

Ledo o primeiro Dia, 

A mil Deiembfos ledo e derradeiro. 



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26 ENSAIO BlOOBAncO CBtlRIO, TDHO III. 

Com tua pindencia gaia 

Cerla, e clara nos sejas, 

Com tua virtude exemplo verdadeiro. 

Temos tís(o Pêro de Andrade Caminha na Ode herói- 
ca, e na Ode moral; vgjamo-lo agora na Ode erótica 
cantando as grafas da sua Pbylis, pote como acima dis- 
semos, foi com esle harmonioso, e poético anagrama, que 
elle dcssimulou o a saloíado, e anti-poetico nome de O. 
Pascoela sua Esposa; como se queixa dos seus rigores, e 
encarece o bom acolhimento, que por hm fez ás soas li- 
uezas. 

ODE. 

Quando os suspiros movo, 
Formosíssima Phylis, a chamar-le 

De doce, brando, e novo 

Som, de só nomear-te 
N3o ha quem a alma, nem a voz me apparte. 

Teo brandíssimo nome 
Sempre a mim doce, sempre a mim suave. 

Que peito ha que não dome? 

Que dAr t5o dura, e grave 
Que co'elle não se abrande, e desagrave? 

Ns mór minha tristeza, 
No meo mais tristi;, e grave pensamento ; 

Na maior aspereza 

Do Amor, e seo tormento 
Tomo em teo nome, Phyhs, novo alento. 

Si tanto ás vezes ouso, 
Que deste nome canto, on deíle eso^vo, ' 

Nunca em nada- repouso, 

Mais do que digo devo, 
E assi com medo athe a cantar me atrevo. 

Mas já serás cantada 
De mim, formosa Phylis, toda a vida, 
E inda que em ySto amada, 



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LrVM IV., CAWTUIO I. 27 

Já nuBca arrepenitida 
Alma será do amor, qae a tem Tencida. 

Nem da amor, mm da rima, 
Tado a ti justamente ofterecido. 

Como a seo preço, e estima 

Será DDDca movido 
Este peito de ti, Pbylis, i'eBcÍdo. 

:iilém do Eufrate, e Nilo 
Irá, deste pur li Tannoso Tejo, 

O meo iaculto esUlo, 

Que com leo nome vejo 
Livremente contr rude, sem peje. 

Que onde teo nome brando 
Pôde chegar, que a fé nSo traga certo 
Quanto fõr aleansando, 
Pbylis, ao longe, c ao perto? 
Ou que peito a seo som não será aberto? 

N3o só ficará escriplo 
Nos espritos gentis d'amor vencidos, 

Serão do inculto csprito 

Com amor recebidos 
Teo nome, e teo louvor hum a outro unidos. 

Teo nome, a que preso anda 
O meo entendimento inteira meu te, 

E Ioda a dór abranda. 

Que esta alma por ti sente, 
Inda que na mór dòt por ti contente. 

Formosa Pbylis, onve 
Uiaha voz, e em (eo Dome, ouvindo-a, apura ; 

Meo canto sempre louve 

Teo nome, e formosura, 
E não qnero de amor outra ventura. 

Nesta Ode chama Caminha a PbylisduaB vezes /ormosa, 
i ama formo$isnma, parece que não sabe outro epitbclo 



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08. ENSAIO BKMiAPHICO CftlTIC», TOHO til. 

comqaeeograDdece-la. EcomooCoode de Barcellos, que 
prÍDcipia quasi todas as suas Trovas com a phrase Seiior 
formosa, este reparo é de pouca importância, e só o faço 
para preveair os principiantes, a fim de qne evitem estas 
negligencias, que produzem monotonia desagravei. Hoje 
exigiríamos do antfaor desta Ode mais sensibilidade, e 
nma expressão mais vehemrate, e natural; mas no tem- 
po do Poeta julgava-se que se nSo po^a cantar d'amores 
sem certo mystícismo Platónico, ecerto requinte deidéas, 
qae impunha a imitação de Petrart^, e qjie ao presente 
nos desagrada, e tanto é isto assim, que só nos versos a 
Phylis, é que Pêro de Andrade, appaiece algumas vezes 
affeclado, e coDceituoso. Tanta é a influencia, que uos 
melhores espirites exercem as preoccupacOes do seu sécu- 
lo. O mesmo caracter encontraremos na Ode XIV. 

Eu, Phylis, não entendo 
Este amor, com que te amo, 
Amar-te só pcrtendo, 
A mim por ti desamo, 
E cada vez em mais amor me intlamo. 

He sempre meo intento, 
Phylis, servir-te, e amar-te. 
Nunca outro pensamento 
Tenho si não louvar-te, 
Si soubera o louvor devido dar-tc. 

Fallar em outra cousa 
Nao sei, Phylis, nem quero, 
Fallando cm ti rcponza 
O esprito, c dcllc espero, 
Que sinta, o que eu dizer já desespero. 

Para louvar-te fallo. 
Para louvar-te escrevo, 
Para louvar-te callo. 
Quando a tanto me atrevo, 
Mas tudo a toos louvores, Phylis, dev%. 

A tudo a vista escondo 
Quando bes, Phylis ausente, 



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LlVaO IT., GAPITOLO 1. 

Nem oU(0, nem respondo. 
Si noa de ti sómeate, 
Que neste esprito estás sempre preseala. 

Nada, qne de ti diga 
Me deixa satisfeito. 
Nem sorte ha tão imiga 
Que mude este meo peito, 
bida qoe a ti nanca he, Phylis, acceita. 



Que n suavidade, 

ijo 



Esta a e segura. 

Qnando te víjo crêo, 
Que nada, Phylis, foço, 
E co' este duro enlêo 
K vida em àòr desfaço, 
Mas si morro d'amor, d'amor renasço. 

N3o queiras qne julgado 
Do qne em ti ha me veja, 
Porqiie a mais comdemoado, 
De ti, Phylis, não seja 
A brandura, a vontade, aqui te rCja. 

GmPoeta, que diz á sua amada, qaesáperltnjeama-h, 
7W seu tnlenlo é sò ama-la, e servi-la, eque nunca teve 
Miro <penmmento stmo louva-la, dá na verdade muito 
fraca idéa davehemencia da sua paixão, eparece-semais 
com Amadis de Gaula, ou D. Quixote, qne com Tibnlo, 
ooPropercio, ecommette uma grande estravagancia quan- 
do se queixa da in^atidlo da eua amada. Seestá na sua 
toSo ama-la, e louv^-la, que mun põdQ'extBi^ . . 



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30 INSAIO BI08BAMKI6 C8ITIQ0, TOXO III. 

Essí* sua scismatica ternura? 

Seja-nos permittido citar este verso de Lobo, qoe nospa- 
rece mui applicavel a este caso. Dans Vamoar U n'a que 
le Pkysique, disse Bufou, c fallou com« grande naturalis- 
ta que era ; e para que serve rodetar mu sentimento t<vIo 
pliysico de nma methapbysica quasi isititelligivel? Para 
desligura-lo, e enfraquecer a sua expressão, e foi isso o qoe 
Tizeram os Trovadores de Provença, e os Itatiaitos, que 
os imitaram, e os nossos maiores naluratmeute devotos, 
passaram aos seus versos eróticos as idéas ascéticas, e 
theologicas, e fatiaram ás suas bcllas como fallavam ás 
santas, e até lhe attrihuíam milagres, requestando-as em 
estylo beatifico como o Tartufo da Comedia de Moliere. 
Felizmente, que essa mania, que n3o durou pouco entre 
nós, tem inteiramente desappãrecido, porque os nossos 
Poetas comprehendcram em fim, que uma duzta de versos 
de Virgílio, ou de Propercio, ardentes de paixão, e de 
sentimento viva , e profundo , valiam mais, que todos os 
Cancioneiros Petrarchistas, recheados de fmezas alambi- 
cadas, de conceitos Freiraticos, e de gélida galantaria. 

Mas posto que este acbaque do tempo se manifeste al- 
gumas vezes nas Odes Eróticas de Caminha , nem por 
.isso deixam de ser obras de bastante merecimento , eílas 
como as Heróicas, s Moraes, devem contar-se entre as 
melhores, qae nos ficaram daquelle século. 

Horácio nos informa na sua Arte Poética, que a Elegia 
fura em sua primiltiva consagrada sòmenle á tristeza, e 
ás magoas, mas que depois passara a esprímir objectos de 
natureza festiva, e especialmente amores. 

Versibua impariler juiutÍM qiuesimonia primum, 
Mox etiam inclusa est voti sentencia compôs. 

E esta asserção se vé plenamente comprovada com as Ele- 
gias latinas de Catulo , Propercio, Tibuk) , e Ovidio, em 
que vemos Iractades assumptos muito estranhos ás lamea- 
taçAes, e queixumes. 

Pêro de Andrade Caminha, como seu mestre, e mode- 
lo Antooio Ferreira, e todos os Poetas da mesma escho- 
la, seappHcdUBiuitoápoeEia eligiaca, cultivando osdons 



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LlVni» IT-, CAriTClO I. 31 

gCBGros que ella abrange; aoprimeiro pertencem as suas 
Elegias á morle do Priocipe D. JoJSo, uma dasqnaes i 
dirigida a Francisco de Sá de Miranda, a morte de Maria 
Pimentel, Esposa de Ferreira, á morte do nelo, e herdei- 
ro de António de Sá, e a que dirigiu a Diogo Bernardes 
p^ morte do mestre, ecommujn amigo dos dous o Dou- 
tor António Ferreira. Todas estas Elegias sam escriptat 
com muita pureza, e elegância de eslylo, e de melro, 
mas todas sam medíocres pela poesia, á exceprão da ul- 
tima, que é de muito superior ás outras, eque passamos 
a transcrever. 

ELEGIA. 

Hum silencio, Bernardes, me rompeale 
Já quast a oâo Tatlar determinado 
Na d6r, que ora de novo era mim moveito. 

Igualmente i dAr minha ser chorado 
Não podia em meo verso o meo Ferreira, 
Nem ser de mim at» esprito bem caolado. 

Entendia de mim, qne á verdadeira 
Fama do que elle em tudo merecia, 
Nio chegaria a minha voz inteira. 

Calava, e a Tallar delle me escondia 
Por n3o offender morto bum bom amigo. 
Que me quiz lanio quando «á vivia. 
. Fizeste-me chorar ora comtigo 
Com magoa nova, sova saudade, 
A dAr, que eu cá chorava 86 comigo. 

Moveste-me a alma a nova piedade, 
A nova pena, a novo sentimento, 
Daquelta grande perda desta Edade. 

Daquella grande perda, que bum momonlo, 
Depois de lanto mal acontecido, . 
Não deixei de trazer ao pensamento. 

Mas eu nio choro v£r d'eQtre nós bido 
Este retrato só da E4ade antiga 
Do Ceo á nossa lingoa concedido. 

Has faltar-me bnm esgonho a que o meo siga, 
Hnma voz, qoe onça, e esprito de que apreada 
E os segredos das Musas me iibra, e.diga. 



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i ZNS&IO BIOOBAPHICO CRITICO, TOUO llf. 

E qnem o meo mau ¥erso me reprenda, 
E o meão mo concerte, e mo lerante 
Com douto aviso, e com segura emenda. 

Sinto faKat', Bernardes,, qnem me espante 
Com seo bom senso, com seo bom escripto. 
Com cuja imitação possa bir avante. 

Aquelle claro, aquelle puro esprito 
De são conselbo cheo, e de prudência 
Sempre será de mim cantado, e escrito. 

Agora em sua triste, e longa ausência 
Quem acharei, que a dôr me desagrave, 
£ me mostre o remédio na paciência? 

Faiia-me a tristeza menos grave. 
Mais branda a dura pena, a d6r mais leve, 
Fazia-me a alegria mais suave. 

Si tere, magoa nossa, a vida breve, - 
Largo nome tn^, larga memoria. 
Que a Ioda a parle , tempo a Fama leve. 

Já do tempo terá certa victoria. 
Que se honve assim na triste, mortal vida. 
Que aspirou semfffe á clara immortal gloria. 

Nesta da mortal carne despedida 
Esquecida de tudo, nos amores 
Divinos estará toda embebida. 

A voz levantará a outros louvores 
Mais devidos, mais puros, e mais aanh», 
Arrebatada de immortaes favores^ 

Mil versos, e mil Hymnos, e mil cantos 
Cantará sempre á eterna Formosura, 
Mais dinos de memoria, mais de espant». . 
■ Será nelles guiado de mais pura, 
De mais formosa, de mais rica Musa, 
Mais ornada de copia, e de brandura. 

Amará, e será amado, assi lá se usa ; 
Cantará, e será ouvido d«- quem canta. 
Que quem lá ama d'amar não se eseoza. 

O Sol, que sobre o Mundo se levanta. 
Que com sua luz clara, e tão formosa 
ifos veace a vi^ta, o esprito nos encanta. 



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xmo IV., CAPirCM r, ■ . 33 

Em conUi' Dia iera qu© outra glorioBa. '; 
Luz, que d&.luí ao 60I, e ás almaa lume, '- 
Lhe Wrá mais que o Sol 3 alma lustrosa. . '' 

Hum tempo eterno, hum imtDortal costMÍne, 
Seguirá sempre, tempo alegro, e puré, ■ 
Primavera, que nunca se consume. . 

Lá nào verá lávèrno triste, e escuro. 
Não ventos, não tormentas, não mudanças, 
Has tudo quieto em DeoQ, tudo seguro.' 

Livrou-se das incertas esperanças. 
Que nos desassocegam, desbaratam ; 
E das leves, e falsas coitliaúsas. ' 

Não vâs, Bernardes, como nos nialtratám, ' ' 
Os movimentos vãos, c os vãás rccfios. 
Que as almas inquietam, vfdas matam? 

Quemi ^dé defeudcr-se á inil cnMos? 
Quem SC pode yale^ em, mil perigos 
De. outros muitos perigog sempre chfios? , 

Jle porig» não ter, ç ter amigos, ,, ,_, , , 

Mal se pôde. viver, nesta eslrcitezp, ; _ 
Si me heide. velar delles como iniigos. .. , .., 

O nosso António está D'outra laiigue^a,- . . .; 
Ninguém teme, ninguém delle se teme^ ^.i ' ■,} 
'Em tudo' y6 pureza, e lem pureza. 
"">". E cá, Bernardos nosso, quem nio Irenie?- ' : >< 
Quem n^o deve de si mesmo temer^-se? . : * ; 
Qnetn ha que contra o Tempo emivèo nãoreme^- 

Quem vê cousa de ífuepoSsai valer-seí > ■ ' i 
Olhos noCeo, e no divimí Norte iii; 

fúdc guiar toda a alma a não perddr-se.'" 

Não chores jú do nosso António tf sorte, ' ' ; ' 
à minha sorte chora, a sorte tua, 
Pois no-lo tem raobsdo a.dura^mocle.' ' 

A. n6!! dura, a nQfl aípera, a >|iós«kaR, ' 
Que DOS levou o nosso amigo brando,- ■ > 
E a ddoe, e-ferahda convei:sae«0'Ai«i> ; , -lU 

Por elle rindo, por mim vou chorando, 
E por elle cdtllBHtfi, e pof Atm tti^ct ■ ■ -■- ' 

Sem elle a vida hirci toda passando 

3 



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34 ENSAIO BIOOBiraCO CIIHCO, TOMO Hl. 

Tu qne a nossa amisade clara viste. 
Claro verás, que á ddr na perda grande, 
D'hum claro amigo, e bom mal se resiste. 

Nunca tal perda, amigo, o Ceo (e mande, 
Ddr be que nunca a vida perde huma hora. 
Remédio pôde haver, com que se abrande, 
N3o que de todo o reuça, e deite fora. 

Esta Elegia , que é resposta a ontra de Diogo Bernar- 
des , já se vé que foi escrípla passado algum tempo de- 
pois da morte de Ferreira, e por isso o Poeta mui ja- 
diciosamenle se absteve de esprimir nclla os lameolos, 
transportes, e desespero, que accompanham os primeiros 
ímpetos da dõr. Aqai só se ouvem os suspiros da sau- 
dade, e as reflexSes de uma pbylosophia resignada, que 
adoça, e metiga, mas não desvanece as magoas. 

Caminha recorda, com profunda sensibilidade, a doce 
Gonviveocia, que tivera com Ferreira ; lamenta nelle a 
perda de um amigo sincero, e de bom conselho, de um 
censor recto, e desinteressado, com qnem consnllava as 
suas obras, que lhas corregia, e qne o animava a poetar 
com o seu exemplo, que é sempre a melhor doatriua : 
julga-se s6, e desamparado no mundo ; compara logo es- 
te mnndo com a bemaventurauça, os males, e perigos, 
e trabalhos daqoelle, com a felicidade delia, e o seu es- 
pirito religioso lhe faz julgar Ferreira muito feliz por ha- 
ver trocado a vida temporal pela eterna. Iodas estas idéa» 
6í encadéam perfeitamente, e sam díctadas pela phyloso- 
pbia christãa, que por isso não é meuos poética. Si nes- 
ta Etcgia se deparam alguns versos menos bem tornea- 
dos, também ha uella outros mui notáveis por sua per- 
fei(^o, por exemplo. 

Largo nome terá, larga memoria. 

Que a Ioda a parte, e tempo a Fama teve. 

Lm qae dá Inz ao Sol, e ás almas lume. . 

Qnem ba que coatra o Tempo em v3o nSo reme? 



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LIVBO IV. , CAPITDLO I. 35 

Ningaem leme, ninguém delle se teme. 

He perigo oão ter, e ter amigos 

Na Elegia a Aatonio Ferreira, pela morte de sni mu- 
lher, me parecem dignos de dtar-se os seguiates tercetos. 

Mas ah I qoe vou temendo que te agrave 
Em te assi imaginar, veado teo siso 
Com que esse jugo te farás suave. 

Vendo que claramente vés que he riso, 
QoanUi estorva o caminho do seguro, 
E immenso bem do eterao Paraíso. 

Veado que com espríto prompto, e puro 
Os olhos erguerás ao claro Norte, 
De que vem claridade a todo o escuro. 

Que a alumia o jnizo, e vence a morte 
E serena, e abranda as Tempestades, 
E abaixa o mar teupestaoso, e forte. 

Que mata em quem o segue as vaidades, 
Qoe cegam a alma, a vida desbaratam, 
E destruem Virtudes, e Verdades. 

Qoe a mil misérias os cuidados atam, . 
E escnrfcem de todo o juizo claro, 
E a mesma honra, que mais buscam, matam. 

Norte que sempre teve por seo Pharo 
A. que a vida (e pds em tal estreita, 
Que entre os tristes te podes chamar raro. 

A estes devem juntar-se os seguintes, daElegia ende- 
reçada a António de Sá, na morte de seu Neto. 

Ah, que si hum bom Esprito cuidar ousa 
Neste grave desterro perigoso, 
Na esperança da Morte só repousa. 

Queixoso he aquelle estado, este queixoso. 
Da Fortuna hoje vemos despresado 
O que viamos honlem mais mimoso. 

Olha hum quanto he possível luvanlado, 
VMo-bas, si elie bem sente, estar temcudo 
Poder-se vêr por terra iuda lançado. 

3* . 



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36 ENSAIO MOffltAneo GBmCO, TOHO Hf. 

Que estamos n'hn)na, e noatra historia lendo, 
Que nos não mostre em tudo mil mudanças ! 
Que estamos cada dia em tudo vendoí 

Em quem, ou em quem vimos esperanças, 
Que possam com razão ser comfiadas? 
Ott quando sera razão descomfiansas ? 

Da vida as horas todas sam gastadas 
Em eãperanças rãas, ou em temores 
De cousasi que si aú vês, sam todo nadas. ' 

O que cheio se vé de tSos favores; ' 

Da Fortuna, que sempre he duro imigo, ' 
Cuidas que o esprito lem livre de dares?' 

Antes tem, como sabes, mór perigo. 
Que quanto a Fortuba he mais tida em conta 
Muitos mores receios traz comsigo. 

Brevemente «ta rida vemos morta, 
Si queremos a viva he mister tento, 
Que se entra nella por estreita porta. 

O afto, e verdadeiro fandamenlo,' 
Que ha «ontra a triste vida, tn o vés claro, - 
Tu, em quem taatos bens tem Grme assento.-- 

Não h« segwro corte, e hom reparo 
Contra ella branda morte em tenra edade, - 
Qne inda nâo sebte como custa caro? 

Atalha-se da vida a Adversidade, 
Antecipa-se' o bem da vida eterna, 
Vida de amor, de paz, de suavidade. : ' ' ' 

Ganha-se vér mais cedo o que governa 
Só com querer os Ceos, e todo o Mundo, 
Vence-se a Hydra v5a desta v3a Lema. ■ 

A vida cá da Terra, que ao profundo 
Nos vai guiando as vâas inclinardes. 
Que nunca em appetiles acham fundo. 

Cortam-se juntamente ás ocasídes' 
As más cabeças todas em peleja, '' 

Livram-se em paz dú Mundo as afeiçSes. ' 

Cotegem-se as Elegias deBcrhardes com as fle Cami- 
nba, e se verá quanto este é'Supcríoréquelle, pela pby- 
losophia, e pela força, « eoergiada «xpressão, 



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LIVBO 17., CAPIICLO I. - 37 

As Elegias amorosas dirigidas por Pêro de Andrade á 
sna Phylis, ainda que ás vezes desluiidaa por alguns ras- 
gos da affectaçSo, com que o amor se exprimia naquelle 
tempo, sam cscriptas em estylo puro, ameno, e gracioso, 
e muitas vezes animadas da mais bella poesia descripli- 
Ta ; assim se pôde vér nestes versog, eom que principia 
a Elegia XIX. . , . 

Apoz o VerSo brando o Inverno duroi 
Começa triste, e cheio de asperezas, . 

Importuno, pezado, frio, escuro. 

Énlra o tempo com fúrias, e bravezas. 
Na terra, u'agoa, no ar Taz movimentt^ ,. 
Que ameaçam mil damnos, e tristezas. 

Revolvem todo os furiosos ventos, 
E parece que tem áspera guerra 
Bums com outros os grandes Elementos. 

Mais pesada se torna, e grave a Terra, 
E tudo quanto d'antes produzia 
Nega, e dentro em si mesmo esconde, e encerra. 

O que ora aos olhos mostra; o que ora cria, 
Tojos, Espinhos, Cardos, e secnra. 
Tudo alheio de graça, e de alegria- 

Cessoa aquella varia formosura ' 
De difereiUes rosas, varias flores. 
De que se ornam as Plantas,' e a verdura. 

Das fontes não sam claros os líquores, 
Correm, como. corriam; turvo he tudo, 
Tem as Aves silencio em seos Amores. 

Seu brando canto eslá de todo mndo, 
E só das tristes se ouve o U-lste canto, ' 
Que eu com meos tristes versos sigo, e ajudo. 

O Vento enche no mar de medo, e espante 
Asai o destro, esfor(ad« Navegante, 
Como o que não intende, ou oosa tanto. 

Ora as ondas com, fiwia leva avante. 
Ora as contrasta, e força, que hnoia deça 
Ao mais fundo, outra ás nuves se levante. 

Não ba cousa que triste não pareça. 
Tanques, fontes, ribeiras, mares, lagos. 
Nem peito, que de os vêr não se emtristeça. 



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S3 ENSAIO BIOOBAraiCO CniTICO TOHO, 111. 

Todo o Mundo padece mil estragos 
Da gran força dos Vcutos poderosos, 
Hais livres, e mais soltos, e mais vagos. 

Os Ceos puros, e claros, e formosos, 
Sam de dós vislos menos livremente 
Co'a grossura dos ares rigorosos. 

O claríssimo Sol resplaudecente 
Todo de escuras nuvens encoberto 
Deixa com menos laz a humana gente. 

A lua, inda que a nós anda mais perlo. 
Também c'os tempos tristes, e cerrados, 
Já seo lume não dá tâo descoberto. 

De trovões os ouvidos atroados, 
Os olhos de relâmpados vencidos, 
Os ares de chuveiros carregados. 

Mil outros damnos sam vistos, e ouvidos. 
No triste Inverno, duro, e grave imigo. 
Que índa que costumados, sam temidos. 
A. este quadro da entrada do Inverno, segue-se, no 
principio daElegía XX., outra da entrada do Estio, que 
contrasta com elle na expressão, e viveza das cores, com 
que está pintado. 

Apoz o Inverno duro o Verão brando 
Comefa alegre, e cbeio do branduras, 
\ai-se com elle o anão renovando. 

Traz o tempo alegrias, e frescuras 
Co'a hells, alegre, e suave Primavera, 
Cheia de diflereatcs formosuras. 

Tudo qoe triste, tudo que secco hera. 
Se alegra já de novo, e reverdece, 
Aii ! si o mesmo este peito usar podwa I 

H de mil varias flores apparece 
A Terra toda ornada, e tão formosa. 
Ao Ceo com soas Estrellas se parece. 

No rouxo Lyrio, c sa purpúrea Rosa, 
No alvo Jasmim, do Goivo almíscarado, 
Na amarella Giesta, e bem cheirosa ; 

£ em outras muitas flores, de que ornado 
Vem o doce Verão claro, e formoso, 
V4-se o Cco mais benigno, e temperado. 



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Livu IV., cAnniLo i. 39 

Tudo he mais claro, tudo be mais lustroso, 
Qaaolo ora cria a grande Natureza,. 
Mais brando, mais suave, e mais cheiroso. 

Fugio já aquella Puria, e aspereza 
Do Inverno anie o Verão, que a deitou fora, 
E veuceo co' a brandura sua dureza. ' 

&. fotmosura da formosa Aurora 
Sempre formosa, clara, e sempre pura, 
Mais formosa, mais clara, e pura be agora. 

Traz o Dia outra nova formosura, 
He formosa a manhãa, formosa a tarde, 
Formoso o horisoote, e mais a altura. 

k Noite em tão formosos lumes arde. 
Que pôde competir co' claro dia, 
Nasce mais cedo o Sol, poem-se mais tarde. 

A. agoa não corre já, como corria. 
Escura, e turva; mas já pura, e clara 
Bncbe os ouvidos, e olbos de alegria. 

O formoso Verão tudo repara, 
Dá novo fructo a tudo, e nova vida. 
Faz liberal a Terra, antes avara. 

He já das Aves docemente ouvida 
Aqnella branda Musica, e suave. 
Que Ibes tem Natureza concedida. 

Ouvem-se ora em som brando, ora em som grave 
Seos queixumes cantar, e seos amores 
Que não ba quem o Amor não damne, c agrave. 

Entre as folbas das Arvores, e as Flores 
Da gran força da calma se defendem. 
Nem temem já do Inverno ali os rigores. 

Humas, e onlras parece que se entendem. 
Que ora buma canta, ora outra lhe responde. 
Ora juntas no campo mais se acceadem. 

Mas que parte haver pôde no Mundo onde 
Do Verão a brandura não se veja. 
£ a sua formosura que se esconde? 

O mar que contra si mesmo peleja, 
Da gran força do Inverno tão movido, 
Qae inda té os altos ares rompe, e peja. 



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40~' ENSAIO eiOORAPHTCO CRITICO, T«UO til. 

, Ito brando tempo seo faror vencido' 
Se vé já tão qoieta, e já tão manso, 
Que parece qaa nunca foi lemiâo.' • 

Correm os brandos Ventos maoso, e.mauEo. 
E os de maior rigor, e mais.forçosoaii' 
Parece que buscavam Já .descanso,. . . , ; 

Os 7 " morosos , , 

Sem fu iiis brandamente , . 

Contra m poderosos. . 

No I cansa, e se sente,. ' 

Dam s passa novo alento, 

E lho facilmente. 

Mais mo ornamento 

Do claro Ceo se vé resplandecente,' 
Sem nada que dé á visla cmpedimento.- '• ' 

Ora as formosas nuvens se eslam vendo, ' 
Que do formoso Sol todas ornada» 
Varo delie varias flores recebendo, . - 

Verdes,, azuie, e roxas, e encarnadas. 
De prata, e ouro, brancas, e araarellas,. 
Ootras de Dipitas ;Cér9s variadas. 

Vê-se, com graa pcaier da vísla, entre ellas 
Formosissimí^s forinas dífoiK-ntes,' .y 

Formosíssimo hc .qiiai)lo ge ,vé uellas,. '. 

. Estes dons quadros campestres, ^ail) coloridos .£om to- 
da a viveza, e mostram qu^ o A.iilbor amava os campos, 
e se aprazia de viver nelles, e o mais é que para depa- 
rarmos com poesia descriptjva neste scculo, que possa 
competir com esta, é necessário recorrer a Ferreira, e a 
Camões, porqoe nos outros Poetas contemporâneos fora 
Irabalbo vam procura-la. Isto prova a sem razão com 
quealgunsCrilrcos eslrángeiroSj enacionaes temtraçfado 
Caminha, procurando faze-lo passar por nm Poeta insi- 
gnificante, sendo cile entre os nossos Poetas Clássicos o 
que melhor se aproveiton das liçOes de Ferreira, e o 
que imita de mais perto a sUa borrecção, elegância, e 
madureza de pensar. Não eraasSím queFerreira, Biíroar- 
des, António de Castilho, c Francisco de Andrade ajui- 
zavam do seu merecimento.' ' 
Tenho entre asBleglas amorosas de Camiliha por uma 



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LIYBO IV., C&VIIDLO I. 41 

das mais poéticas aqiie tem naCoIlecçi» onúmero quin- 
le, sobre atoroada dePhylísao campo,- d'ondebavía es- 
tado ausente por algnm (empo ; o Poeta extasiado de ju- 
bilo, por uma noticia tão grata para[o seu cora^io, con- 
Tida todas as Nympbas para o ouvirem celebrar no seu 
canto aquelle Tauslo acontecimeoto, e para o ajudarem 
com os seus versos. 

ELEGIA. 

Grandes, brandas, e claras rormosnraB, 
Em cujos olhos o Ãnior pude tanto, 
Que abranda as pedras ásperas, o duras. 

Em quanto alegre minba gloria canto, 
Pois também tendes parte nesta gloria, 
Ajudai com prazer meo ledo canto. 

lá Phytis vem por quem minha memoria 
Triste, e queixosa andava justamente, 
Comsígo da tristeza traz victoria. 

Cada huma em rosto alegre, e alma contente 
Cheias de novo Amor, aova alegria 
Este hem^ esperai ihegctfa ausente. 

Em seos olhos vereis chegar o dia. 
Em SCO rosto a manhãa formosa, e clara, 
E em todo a sua dulcíssima harmonia. 

Alegres esperai aquella rara, 
Antes aquella só Pliylls formosa, 
Dina que (odo o esprilo alto a cantara. 

Nella vereis a neve, e nella a Rosa, 
E Delia ouro, rubis, e perlas tinas, 
E em tudo formosura milagrosa. 

£ mil graças na Terra perigrinas, 
De todo o entendimento bem julgadas 
Não por humanas só, mas por diviuas. 

Graças, que a si mil almas tem atadas. 
Grafas, que presas tem a si mil vidas, 
A seo serviço, e amor sempre obrigadas. 

Deste devido amor também vencidas 
Esperào esta nova formosura. 
Em quem mil perdas sam restitoidas. 



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i xnsAio BiowAPinco cbitico, tovo ih. 

Nelta Tereis ataor, tereis brandura, 
Kdta vd sempre Ódio, e vã dureza 
Quem tem eiD seo amor a alma segura. 

Não Tédes hida já daqui a Tristeza 
Dos olhos formosissiioos temida 
De Pliylis? já do ar outra pureza? 

Nito vides do Prazer a Dôr veocida? 
Não védcs Musas já. Graças, e Amores? 
Não vedes bída a Morte, e vinda a Vida ? 

Signaes que chega já : de alegres cores 
Ornadas a esperai : o Prazer s6e, 
Orne-se o Ar de cheiro, o clkão de flores. 

Alegres eaulos todo o Ar eutõe. 
Seja sempre este dia bem cantado, 
£ delle em toda a edade a Fama \òs. 

Com nova gloria, e nova honra iltustrado 
Seja sempre este dia venturoso. 
Em <|ue he tat bem a nossos olhos dado. 

Oadc Pbylis está tudo fae formoso, 
Inda que ella he formosa mais que tudo; 
Mas onde não se vé tudo he queixoso. 

Para delia cautar o engenho he rud», 
Inda que vé-la apura o entendimento, 
M quem mèlbor a vè tica mais mudo. 

Só de não vêr a Phylis buiu momeuto 
Pôde taalo, que a vida á dõr se rende, 
Inda que sempre a vãja o pensamento. 

Quando escondida ha tauto tempo ofieude, 
A quem sempre seos olhos vér dezeja. 
Outra dòr cauza, que se não comprende. 

Depois se julgará quam grande inveja 
Devo ter a quem ponde vêr thegora 
A vista, de que Amor quer qne me veja. 

A vista oítde está a vida, e alma mora, 
D'ande tudo, que espero está pendendo, 
K de que a mesma Pbylis se namora. 

FormosLtnis que o Mundo estaes vencendo, 
A íossa Phylis vem, de vós amada, 
Aleijrias Ibe estaes graves devendo. 



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IIVBO lY., GAnrULO I. 43 

A grandissiioti Phylís sempre ornada 
De valor, cortezia, autborídade, 
De grande entendimento accompanbada. 

A claríssima PbylJs, qae a esta edade 
Dá grande nome, e dará sempre fama, 
A que dará seo nome claridade. 

A bellissima Phylis, que derrama 
De seos olhos, por onde os rai mostrandi^ 
Graça, que sem qnerer tudo a si chama. 

Por onde passa vem tudo illustrando, 
Faz a terra formosa, o ar sereno, 
£ tudo com seos olhos vem honrando. 

Accresceala o prazer, suspende a pena, 
A quem a nunca vÍo dá novo esprito, 
A voz a seos louvores move, e ordena. 

Pôde delles encher a todo o escripto, 
Os baixos pensamentos alevanta. 
Quanto em fim faz nSo pôde ser escripto. 

Já nos vem, já nos torna, já Amor canta, 
Porque vem, porque torna ; porque vêr-se 
Possa a força com que almas mil encanta. 

E porque ninguém ouse defender-se. 
Vinda esta fortaleza, da sua guerra. 
Contra a qual ntio ha quem baste valer-se. 

Porque uma formosura, onde se encerra 
Quanto buma formosura tem inteira. 
Se conhece quanto honra, e illusira a Terra. 

E quem não pôde haver tSo lizonjeira 
Condição, que por mais, que delia diga, 
Não se tenha por certa, e verdadeira. 

Já tendes Pbylis, sempre branda, e amiga, 
A voz, a ella também brandas, e amigas, 
Não seja a meo esprito dura, e ímiga, 
A outros mil não scjaes darás, e imígas. 

Esta Elegia respira todo oenthusiasroo do amor, e ape- 
sar de pequenas negligencias de estylo, pôde contar-sc 
no número das melhores obras deste género, que nos 
deixou a Eschola de Ferreira. A linguagem é pura, a 
eioquofão animada, e os versos harmoniosos, ecoiyentes. 

Pêro de ÀDdrade, já o adverti, não é feliz em epithe- 



;,GpOgIc 



44 BItSAIO BIDGRAraiCO CBITICO, TAUO III. 

los, e nesta Elegia abusou muito dos^^uperlativoa^ amon- 
loando-os a esmo, sem lembrar-se que estes vocábulos 
sam de ordinário mui pouco poelioos, e iudapeior^eílo 
fazem quando todos se ajuntam a um só nomo, como sue- 
cede aqui aoadt; yãmos, grandíssima Phylis, clariasima 
Phylis, bellissima Phylis, e isto em uove versos, -além de 
olhos formosissiv*«s, .(\ae se encontra mai&âcimti-.' 

As Elegias, que tein os números vinte e um, yiite e 
dous, e vinte trez não sam pertencentes a este.gonero 
de Poema : as duas primeiras sam voltas no estj^o anti- 
go, a primeira glosando este Motte Castelhano 

. Todo me cansa, y me pena, 
Nô. sê que remédio escpja. 

as segundas sam umas Redondilbas intituladas íaherin- 
tko d'Amor, e' as terceiras umas Oitavas glosando este 
verso Italiano 

' 'Ittíendami cki puó, che inlend'Ío. ' 

e não sei porqnc capricho osEdilorespõseram estas com- 
posipOes entre as Elegias: isto é abusar da significação 
das palavras, ou ignorar os termos techiiícos da arle, e 
desconhecer o caracter de cada gCnero de Poema, econ- 
fundir todas as idéas recebidas^ Partece impossiVel qae 
se deparem tilo grosseiras incoherenciás em uma edição 
dirigida por homens de tanlo saber, como os que presi- 
diram a esta. 



iinzc;;. Google 



CAl»rTULO u. 



e outros Poemas de Pcro 
de Andraãe Caminha. 



Na 



\,3 minha humiiJe opiaiiíQ entre as obras fie Pêro de 
Andrade Camiuba tem o primeiro logar as suas Episto- 
las, e nellas mais que em outros alguns se mostra dle 
nm digo» discípulo, c imitador degante do Doutor An- 
tónio Ferreira. 

O Poela tiaba em sua alma todo o calor, e força que 
demanda a Poesia dldatica, e nestas Epistolas se apre- 
senta aos olhos do Leitor, ora como moraíista judicioso, 
ora como pinlor exacto dos costumes <J» seu tebipli', des- 
crevendo, e discorrendo com força, e vigor; mas sem 
pedanteria, noestylo de sen modelo, imitando^ Cflm esme- 
ro, e perfeiçãe o seu colorido agradável. 

Cumpre porém confessar, que Pêro de Andrade, Anenos 
instruído que Fei'rt;ira, é também menos rico etn idéas, 
e em phylosophia do que elle. As Cartas endereçadas a 
seu Irmão, e a Ferreira, sam aqnellas, em que elle dá 
redêa mais livre flos sentimentos da sua alma, e mais 
manifesta o seu modo de pensar sobro os dilferentes ob- 
jectos, nas outras iemita de Ordinária as suas rcflexOes 
ao qwe diz respeito ás pessoas com quem conviria. 

Poacos Poemas haverá que enlre nós se cultiTassem 
primeiro que a Epístola Poética ; t no míio das vícessitu- 
des porque a poesia tem passado em Portugal; c apesar 
dasvaríaçCes de gosta, quo>tem're4tiadO'nO'no£so Parnaso, 
não tem os nossofe Poetas cessado- de cnllivm-la, s*ni po- 
rém muito raros os qoe a tem elevado á importância que 
goza entre os AlemSes, e oS Inglfezcsi pis .quasi sempre 
lem sido applicada a- aeÉumptoS' Eróticos, tí-parliculares, 
em vez d«nèila setractarem objectas doaitajibylosopbia, 
como praticaram Dusch, Wielland, Pope, otanlris'6tilros, 
que peM Epistola mori^ tcni conseguido' no nunilo nie- 



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4S EKSilO MOGRAraiCO CBITICO, TOHO III. 

recida repntaçSo ; sendo Francisco Manuel, e António Ri- 
beiro dos Santos, quasí os iinícos que em Portugal segui- 
ram as suas pizadas. 

Caminha, para em tudo imitar a Ferreira, atéescreven- 
do como elle quasi todas as suas Epistolas em tercetos, 
escreveu também uma única em verso solto dirigida a 
Luiz Alvares Pereira, como Ferreira havia endereçado a 
El~Rei D. João III., a única de soas Epistolas, que é 
cscripta em verso solto. 

Na primeira Epistola da Collecção, queé dirigida a D. 
Duarte, se queixa amargamente o Poeta da falta deTavor, 
e de estima que a poesia tinha em Portugal, onde somen- 
te se presava o ouro, e as riquezas, e só era considerado 
quem as havia adquirido fosse porque meios fosse. 

EPISTOLA. 

Que be do favor, Dua^, que os Espritos 
De louvor dignos juslamfflle achavam 
A seos bons cantos, a seos bons escríplos? 

Que be dos louvores com que se animavam 
A erguer a voz mais conGadamente, 
E com mais seguro animo cantavam? 

Como esquecido está tSo baixamente 
O que já tanto poude, que podia 
Hum Esprito fazer raro, e eminente? 

Quem ás Musas tirou tanta valia? 
Quem a Phebo tomou tão despresado. 
Que já entre uós seo nome não se ouvia? 

Antes inda mal se ouve, e mal jalgado 
He de muitos Juizes quem o segue, 
Este voto he de muitos approvado. 

Antes que o Ceo de todo á Terra negue 
Este dom, que inda a alguns elle nSo nega , 
A Terra a este favor toda se entregue. 

Has ahl qne Ioda está de todo cega. 
Traz interesses, traz cobiças, e ouro, 
E a estes dezejos vãos toda se entrega- 

Tem-sc em grande desprezo já o thesouro, 
D'ApoIlo, qne os Espritos emriquece, 
E as Itontes orna àe Hera, e verde Lonro I 



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LITBO IT., CANTVLO If. 4! 

Quam contente de si qninds amanbece 
Se acha o Esprito eatregae toda á Musa, 
Quara conteule de si quaado aiioil«ceI 

Quam contiad» sempre, e seguro usa 
Do seo Enteudiniento ! quam seguro 
Sabe ao Bem dar louvor, ao mal escssa 1 

Quanto milhor entende o bom, e o piro. 
Quanto milhor o mau, qae quem se arreda. 
Das doutas Musas com esprito duro! 

Mais racíl nelle está, mais certa a queda 
Do Entendi menlo, e em qualquer fraco laço 
Facilmente se prende, enlaça, enreda. 

Pejam-se as Musas, «orrem-se, no Pafo, 
Si se acham nelle, estam como forçadas, 
Vêem-se era toda outra parte mais de espaço. 

Será de serem mais agazalbadas, 
Corao sam, dos Espritos occiosos. 
De quem nunca ser podem bem julgadas. 

Nunca deram de si bruíIo a i&iaosos. 
Fogem do mimo, fogem da brasdnra. 
Mas fogem muito mais dos «obi^soG. 

Escondem muito a soa fonnosura, 
Sómeotea mostram, ao que ama-la sabe, 
E era estudo, trabalho, e amor se «pura. 

Baixo peito, «m quem tndo isto uSo cabe. 
Como pôde esperar tanta riqueta, 
Coam que a Musa nunca co'cl)e acabe t 

£ quem nSo força muito a Natureza 
Por este amor, com que razio espera 
Achar nelle si não ódio, e dureza i 

Formosíssimas Hnsas, si poderá 
Encher de vosso esprito este mco peito, 
Quam pouca inveja a todo o Mundo houvera? 

Fõra-se quem quizera satisfeita 
Do rubi, da esmeralda, do diamante, 
£ só fdra-vos eu a vós acceito. 

Grau Príncipe, que sempre tens diante 
Dos elbos ú favor das brandas Mu^ 
Fazc õs eogeubos bons bir sempre avante. 



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48 EKSAIO BIOfiRAPHICO CBITICO, TOUO III. 

Os meos versos, a que hei mister escusas, 
A que déscttlpas mil se te orerecem, 
Tracta-os co' amor, que aos Icos tractar sempre usas, 
Yirão achar assi o que nãe lúerecem. 

Vâ-se que o Poeta estava descontente pelo pouco fruc- 
lo, que tirava das suas fadigas literárias ; já vimos Dio- 
go Bernardes Tormar os OMsroog queixumes, « logo vere- 
mos um homem com vezes maior Poeta do que elles am- 
bos, qaeixar-se ainda com maior amargura, e até com 
maior justiça do mau acolhimento que as Musas çncou- 
tram nesta terra, e do desamor com que a Patiia se esque- 
cia dos serviços, que lhe fizera com a penna, e com a es- 
pada. E note-se que estamos no século d'curo da nossa 
Literatura! Era todo oleniporocam em Portugal bem aco- 
lhidos, louvados, e premiados os Pintores, Escuiptores, 
Músicos, e Gravadores; para estessemprehouve pensões, 
distinções, e louvores ; mas para os Poetas !,.. Oh para 
esses ainda não nasceu entre uós um Augusto, um Leão 
X., ou um Luiz XIV. 

Nos séculos seguintes cresceu o mal ; o Governo descoa- ■ 
fiou de todos os homens de grande talento, e grande sa- 
ber; e como para ser grande Poeta é necessário reunir 
estes dous dotes, ao esquecimento juntou-se a persegui- 
ção. Foi então necessário, que Tugissem da Pátria, os que 
uiio quizeram ^er alvos dos furores da luquisiffio, e dos 
rigores do Tribunal da Inconfidência. As vidas de Fran- 
cisco Mannel, José Anastácio da Cunha, Bocage, e João 
Vicente MaldoQadQ provam sufficien temente esta asserção. 

Tenho por uma das melhores Bpisiolas de Cami|iba, a 
que tem o número dezescte, em que elle fallando com 
Francisco de Andrade golpeia rija, e graciosamente com 
o azurrague da satyra. o$ praguentos arvorados em cen- 
sores, que tudo crilic^ aesipo, sem juizo, e sem razão. 

EPISTOLA. 

Qtiéixo-me, douto Andrade, de hnns indoutos^ 
Que o que ás vezes lém mal, -peior intendem, 
Querem julgar como que fossem doutos. 



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Lívio iv:, Citnnito ir. 49 

TJto facilmente a seo gosto reprendem; 
As TÍgilias alheias, que en me espaoto, ■ 
Como elles de si meaiuo d9o se offeudem. 

O verso ou mau, ou booi, o escripto, ou canto, 
Qu' ao esprito custa estudo, e tempo, e lima 
Julgam como que não caatassera tanto. 

A lirre prosa, ou obrigada ryma. 
Por seo jaizo, e só enleudimenlo, 
Assi a tem em despreso, assi em estima. 

Si lhes perguntas polo rundamenlo. 
Respondem, só qae bem não Ibes parec«, 
Querem qae obrignc o seo contentamento. 

Que mo dizes, Francisco, a quem conhece 
O Mundo por tão raro, e em cujo esprito 
Apollo claramente se emriqnece? 

Com quaes julgas que de?e ser escripto 
Aquelle de juizo Ião ousado 
Que qoer assi julgar o alheio escripto. 

O sesado, o prudente, O attentado, 
O Dooto, antes que |ulgue. Indo altenta, 
Por não ser seo jnizo nial julgado. 

Ante os olhos primeiro representa 
A obrigação do verso, e a naturesa 
Vé se offeode a invenção,' ou se contenta. 

Com livre esprito nota, e com pureza, 
Os conceitos, as pbrases, as figuras, 
£ si na lingoa leni copia, ou pobreza. 
- Si as palavras sam próprias, ou sam puras, 
Si as busca claras pêra o que pertende, 
Oa se ásperas, diliciles, escaras. 

O decoro si o guarda, ou si o entende, 
E si a matéria be bem, ou mal seguida. 
Si abranda, on areiçoa, ou move, e attende. 

Si toma imitação bem escolhida. 
Si o estilo be sempre grave, ou sempre brando^ 
Si a sentença a bom tempo, ou man trazida. 

Si se vai loagamenle dilatando, 
O si diz o que quer Ião brevemente, 
Que ou Dão se entende bem, ou vai cansando. 

í 



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) ENSAIO vioaKAPneo critico, touo iii. 

Quem' tudo isto, Fraacíseov nota, e sente 
Com claríssimo juizo, peilo puro, 
E o roais, que eogeita a Musa, e o que consente. 

Julgue, ria, re[H«nda, este seguro 
Que deve ioteirameale de ser crido, 
£ eu destes sós espritos trato, e curo. 

Destes quero ser aotes reprehendido, 
Destes, como tu hes, oh caro Andrade, 
Que dos outros looTado, e recebido. 

\prenda-se com estes a verdade, 
Do que Àpollo promete, e a Musa ensina; 
A quem dá a reprensão autbcn-idade. 

O esprito, qna não vúa, nem atina, 
O bem, oa mal, do que se canta, ou escreve, 
Quando bem, oa mal diga, desatina. 

St dá razão, mais fria a dá, que a neve, 
Sem rundaraento louva, e assi reprova. 
Que em juizo appressado ha razão leve. 

A reprensão na Mundo não he nova, 
Mas quem milbor entende, mais de espaço 
O mau reprendc, e o milhor approva, 

Tem as língoas agudas mais que á'aço. 
Estes qae querem ser graves Censores, 
Si Ibes armas, caem logo em qualquer lafo. 

Juizes vãos, índeutos reprensores, 
Não sofrem as Musas ser assi tractadas. 
Nem recebem de vós inda louvores. 

Tende-os gnardadc», tende bem guardadas 
As leves reprensões, que nsaes em tudo. 
Para as couzas das Musas não tocadas. 

Sem ellas todo o peito hade ser modo, 
He raríssimo aquellc, antes só, peito, 
Qoe não se dera entre ellas chamar rodo. 

Seja meo verso sem nenhum respeito 
Daquelles a que Phebo maior parte 
Tem de si dado, oa repreudido, ou acceito. 

Seja de ti Francisco, que guardar-te 
Quiz para honra db Musa Portugneza, 
E para eutre os mais raros mais roojstrar-te. 



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im» rr., címiblo n. ■ 51 

Tm segoe MmfiAd» aqodla empreis, 
Que tão f«lKen»(Q oomeçaste, 
Segue-B com paro esprílo, e ahna aceeza. 

Esta emprcza, qae Fraacisco de Aadrade faavia toma- 
da, e a que se rerere Caminha, era a composição de nm 
Poema Heróico sobre o primeiro cerco de pio, «{oe elle 
com effeito acabou, e deu á luz, mas que é hoje uma das 
obras mais raras da nossa poesia. Oeile traclaremos qoaa- 
do dermos uoltcia de Francisco de Andrade. 

A Victoria nrissima, «rse teluiste 
Digna da raro engenhOt qne «m tudo nsas, 
E usaste sempre em tudo i)ue caiilasta. 

Comliado em teo conselho, e no das Musas, 
A segue, e em lua Uma, e esprito claro, 
E assim mais haverá espantos, que escuzaf. 
Em teu verso ç em teo canto douto, e raro. 

O eslylo- desta Epistola é perfeítameute Didalico, e o 
Anlhor moteja com razão dos Críticos ignorantes, cu- 
ja maledicência está sempre prompta para motejar as 
obras alheias, sem qse sejam capazes de produiir cousa 
ílguma, que valba a pena de lér-se, e que isretes nem 
estam em estado de estender as meemss obras, qae tão 
grosseiramente censuram. Estes insectos importunos, e 
malfazejos tem íureslado o Parnaso em todos os tempos, 
e ainda nos. nossos, de tio adiantada civilisação, appare- 
cem muitos, que não podendo brilhar peh> que Tazem, 
qaerem ao menos brilhar desaccreditando e que os outros 
fazem. 

Alípistola Xil. « D-Anlonio, Prior doCrato, está cheia 
deescellentesidóas moraes sobre os deveres dos Príncipes. 

EPISTOU. 

Príncipe raro, que gloriosa fama 
Tens no Mundo alcansado justamente, 
Concede ouvidos promptos a quem te ama. ' 

Algum credito dá a quem n'alma sente 
Tudo o que sentes ; ouve coib brandura 
Buam. alma, que te fallft fíetmente. 



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Haverá algaiis, que cuidem por rantara^ 
Que porque sam os Príncipes formados 
C'os outros H(»Deus de huma compostura. 

Que por isso nSo sam mais obrigados 
k fugir da commam, e geral sorte, 
De que os de mais dos Homens sam levádQS. 

Querem que todos sigam o mesmo Norte, 
E que tenham hum mesmo enteudimento, 
£ que igualmente todo o juízo corte. 

Levanta, claro Autoqio, o pensamento. 
Verás qu3o baiiameate estes entendem 
Qual deve ser do Príncipe o intento. 

Verás a obrígaçSo dos que descendem 
De Príncipes, e Reys, como descendes, 
£ quanto os Reaes Eâpritos, mais comprendem. 

Todos, com tua brandura, d'amor prendes. 
Com lua condicção atas, e obrigas, 
Ata-te agora, e abriga co'que entendes. 

Faze-le forte muro nas amigas i 

Virtudes, na prudência sãa, que esctdbe 
O bem, que mais a teo descanso sigas. 

De razio enche o esprito, a razão olhe 
O eatendimeuto, e humilhe~se a vontade. 
Que as mais das vezes os discui^os tolhe. 

C os (dbos na divina claridade. 
Que a escura ooíle torna em claro dia, 
E d'3lma apparta toda a escuridade 1 

Cuno p6de faltar segura guia, 
Que o milbor, e mais certo sempre atine, 
Nunca, o que esta luz segue, se desvia. 

Quem alcansa em si Esprito, que o ensine, 
De todo se lhe entregue, c lhe obedeça, 
Porque do que a si deve não decline. 

De quem se espera que em mais gloria cresça. 
Trabalhar deve com mais alma, e esprito. 
Que a que tem alcansado não escureça. 

António grande, que cantado, e escripto. 
Mereces. ser de todos, nSo te escondas, 
Enche o teo couto, « «iich« o teo eisciiplji)-. 



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liTBO IV., fliMtmo n. 

Bem entendes que he jasto qae respondas 
Do teo tico talento co'as usaras, 
iSegoro põem o peito éA fortes ondas. 

Coosas dificDltosas,' graves, dui'as 
Não as acaba sempre a fortaleza, 
Mais as -aosba o Amor, mais a Brandnra. 

O qne por boa constância, e grãa firmeza 
Huítas vezes se tem, be lhe devido 
Uais propriamente nome de dureza. 

Sempre fòi de pradente, e de entendido 
O Conselho raòdar si o tempo o ensina, 
Qne o tempo he' mestre digao de ser crido. 

Aqnelle cuida que he da Ihz devína 
Guiado, c que ella he deile bem seguida, 
Qae ao proveito commra o anime inclina. 

Si lodos tem obrigado devida 
A este commam proveito, dez«jado 
De toda a alma do jnsto Ceo regida. 

Qnanto hum Príncipe Ibe be mais obrigado, 
Que deve procurar com grande gloria 
Ser sobre a tmtra Gente levantado. 

Ser Príncipe he ser digno de memoria, 
Digno de grande nome, e gteríoso, 
£ saber ler de si sempre victoria. 

Ser Príncipe nfio' be ter Caza pomposa, 
Nem ter nome de Príncipe, sem se-lo, 
Que tndo isto he f$a famra, e fabnlosa. 

Ser PriB(ápe, e Senhor, he merece-lo, 
E sw em todo sempre tfio perfeito, 
Que nunca pobsa o tempo eseurcce-Io. 

He ser o qne In hes, que' sempre aocelto 
A todos fbste, António puro, e etaro , 
Mas nSo fies no Honda cootrafeito. 

Torna-te a conservar, este dom raro, 
Esle gran dom, que o largo Ceo qnis dat-te ; 
Darás prazer & Terra, aos teos amparo. 

Nao deves de deixar tanto Icvar-te ■ 
D'onde hes ISo desejado, os oHios vira, 
E já aos qne tanto te amam vem jantar-te. 



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I msjiio 9ioa&PBic« cnnieo nm, iii. 
Todos os peasameatos d'«liaa Ura, 
Deixa os cuidado», que ki lá reiardam, 
E já a nossos deiejoA te r*ttre. 

Olha qna&t«B par ti c' o mbot «gnardam, 
E qaantos com poro amíBo tu pedeti, 
Que para a fé primeira isda t« goaKdam I 
£ si thegon «s Oos te b3o eo«c«d«n 
O que lodos desejam, e tu Htenceg 
Grandes bens, q>e do Ceo j«K>te procalom. 

Crâ, pois esta verdade Imn «oaheoes, 
Qae não te tardarSo >i tu ofto tardas, 
Que bSo te faltafio vi tu iMedes. 

Si em teo berevco peilo seoipre goardaa 
Mil divinas, heróicas mil Virtades, 
Que fanes? oh que cwidas? «u que sgoardasY 

NSo he ra^ão que teo E»ptrÍlo mwks, 
Desse cuidado, que te está detendo, 
£ só uo que te diz o taatp»; Mtudes. 

~G«aio? e be j^isto que te «ste imt4)k1»i 
D que a qualquer E^rilo aMIa, « mov«?' 
Si alguém o ealende assim, eu aéo o eateodot 

Não iguatBKBte o Geo em fn^ cbew, 
Não dá a todos iguaes «atradineatosv 
Mas Dão me iim>?o porque a outro approve. 

Não pod«m s«- segure» [aadtHoeittos 
Os que de quietação aem|W 03» tractam. 
Para esta s6 saoi bons os aovimcBtos. 

Os sãos conselhos a esta sempre sB-atVB, 
Bons peitos seus desenhos a esta ordens», 
^ tudo D que a estorva desbaralim. 

Xud« o ■(fm a niío epjHtiva tum coBdemoam, 
E os que a ONígeulem, querem, e alto eMorvam, 
JuslamcDle se aH^geai, cansam, penam. 

Os anioios dOs Principei affroTam 
Sempre • milhor, tm de ti se espera, 
Em quem «raudes virtudes se renovam. 

Virtudes do ^an Priactpe, qne te bera 
Bom Pay, fiel amigo, e Consollieíro, 
Que já descaâsa na Oitesle Esphera. 



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LITBO IT., CANTDtO II. 55 

O grau Príncipe Loii, e Terdadeiro 
Amor da Pátria, e.grau columna, e time 
Aule o grau ILey Irmão sempre primeiro. 

Em tí o Ceo do Santo Pay coinfirme 
As virtades, e bens, e graças raras 
£ íada em todas as tuas mais se affirme. 

Temera, gran Senhor, que me julgaras 
Tão mri como eu entendo qne mereço, 
Si justamente nSo me desculparas, 
Co' amor £om que estes versos te oferepe, 

Entre as raelbores Epistolas de Pêro de Andrade Ca- 
minha, destinguem-seameuvdraEpisIolaXIV., aoCar- 
dea( Infante D.Henrique, então Regente do Reino; nella 
se encontram excellentes ídéas eii^essadas em excellen- 
tes versos, por exemplo. 

Boas sam boas leys, milfaor gnardar-se 
lateirameale (odo o que ellas mandam, 
Isto faz the aos Ceos a Terra alçar-se. 

Blas si ellas, grande Príncipe, desandam, 
Tudo ao m^o corre, tudo ao peior võa, 
Os bens se escondem, males se desmandam. 

Criar o Bey, dado por dom díTino, 
Como a seo Reyno enmpre, e t&o glorioso. 
Que de lio raro fley pareça índúm. 

Mostrando-lbe as virtudes, qse famoso 
Fazem o Rey em Terra, e tão perfeito 
Como de hum Rey se espera milagroso. 

Hum Esprito oonstante, hum claro peito, 
Qne entendido o milbor nunca se mude, 
£ mais qne o seo qneira o commum proveito^ 

Esta doatrina é óptima, mas o Cardeal se não apro- 
veitou delia, pois dominado pelos Jesuítas, os encarre- 
gou da educação, e ensino de Bl-Rei D. Sebastião, affas- 
taodo de seu lado o seu Ayo D. Aleixo de Uenezes, fi. 
dalgo híHiradissimo, adornado de toda a virtude, è saber, 
que aquelle cargo importante demandava. Os Solipsos, 
qae lá tiotmia formado o seu plano, se apodetaraú da 



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56 KMSA10 BIOaBAPBlGO CIUTICO, TOMO III. 

espirito do joren Mònarcba, e o doulrioaram, e aconse- 
lharam de modo, que o levaram, quando foi tempo, a mor- 
rer em Africa com a flor da I^brezá, e da juTeotude 
Lasitana, abriudo assim a estrada para a usurpação de 
Fitippe II., que era o fim a que se tinham propostoí 

Não cede a esta a Epistola Xlil. ao Duque de Perma 
Alexandre Faroese, um dos maiores Generaes doÉeu tem- 
po, neto do Imperador Carlos V.. por occa&ião do seU ca- 
samentocomD. Maria, filha do lufante D. Duarte. Aoitava 
a seu Irmão AfTousAVaz Caraiafaa, que eslava ;»ra;eni- 
barcar para o Oriente, e a quem dà óptimos conselhos 
para proceder bem, como se vé destes Tercetos. . '. 

Hura nome, que outros nomes ejcarece, ,; ' ;, 
Quai le espero iuda vêr, não descansado 
S'alcalea, que o ócio a nada favorece. 

Vai o tempo ora dar, tempo bem dado 
A Deos, ao Bev, à Pátria, á honra, á vida; 
Quein^ que ae Mundo esqneça hc aDeoslembhdo. 

Mas sabe que não pôde ser cumprida 
Nenhuma obrigação iniejramente, ,. 

Si a virtude a não leva bem regida. 

Tem fracos fundamentos, levemente . 
Derribado será de qualquer vento. 
Quem sem virtude fdr comfíadamente. . i 

Virtude snima, e esforça, atrevimento; ' 
Dá pêra o hem, e pêra o mahfaz pejo,. 
Segura contra todo movimento. ' : 



N3o teme quem a íem perda, ncjn dano. 
Por tudo pasSá, 'á todo' o Vento corre, ' 
Todos seoS benscomsigo traz todo o anuo. 

Nuçça ^ goipc jieuUum sejas rendido, . 
Em dauo d'alma, o corpo a mil peiigos. 
Por teo Deos, por leo Iley ande ofrecido. , 

Entrarás mais seguro entre os imigps 
Amadç de virtude suave, c.brat^da, 
■Que d'armaa fortes, que de leaes amigos. . 



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tlVlO IT., CUItULO II. S7 

 vSs sorte, qae faora anda, ora desanda. 

Terás em pouca conta, s6 fiarás 

lia voDiede de Deos, que tudo manda. 
Comtiado nelle só tudo oasBfás, 

Será mais cerlo o golpe do leo braço 

Que na força do seo levantarás. 
Não temerás do imjso o agndo aço 

Sabendo que, si a rida aseim perderes, 

Ganharás a qae dura elerno «spaço. 

Hal cuidava Caminha, que nislo não fatia mais do 
que repetir o que Mabomet no seu Alcorão havia prome- 
tido aos MusulmaiM» ; isto' é, que todos os que pereces- 
sem combatendo contra os Infiéis hirian direitos aa 
Paraíso. 

Sejam sómmte todos teos praieraa 
Peleijar pela Fé só verdadeira, 
Não por vãas hooras, não por vãos haveres. 

Eis aqui o reilexo das opiniões do tempo do Poeta. K 
obra mais meritória, que podia fazer omChristão, erahir 
combater os Infiéis, extermina-los, ou reduzi-los á fé á 
força de cutiladas; como si Jesu ChríslD tivesse escolhi- 
do para pré^r a sua divina Ley Conquistadores, e Sol- 
dados, e não Apóstolos, que a dissiminassem com o ex- 
emplo, e a persuasão. O que porím encanta nesta Epis- 
tola, é vér como o Poeta aconselha a sen irmão o culti- 
var as letras no meio do bolicio das armas. 

Do tempo, que occupado nSo te fôr, 
Aos Livroâ deves dar a maior parte, 
Criarás á Ociosidade desamor. 

Em tudo saberão bem avisar-te. 
Com conselhos oa paz, e ardts na goerra, 
De que possas era tudo aprovettar-te. 

Dir-te-hão o que ha no Ceo, e houve aa Terra; 
Dar-te-bão de ludo exemplos, muito os ama, 
Que quanto ha que saber nelles se encerraJ 

KaqucIIe (empo julgava-se, quo as armas deviam ajn- 

D çnzc^^v Google 



59 EHSAiO BWOBAPHICO CBITICO, T«MO III. 

dar-se das letras, e os Principes, e os Grandes 'as cal- 
tivavam, e honravam ; os lesuitas conseguiram mudar a 
pouco, e pouco estas idéas, certos de que os seus inte- 
resses só podiam medrar bem quando o poder setunasse 
apanágio exclusivo dos ignorantes , então os Hooteas 
doutos foram aSastados dos cargos pãblicos, e do eser- 
citD, e perseguidftS como suspeitosos ; o lesaUado foi o 
que devia esperar-se, e o que todos sabem. Perde»--se a 
influcDcia no Oriente, e grande parte das Gooqiiislas, 
corroraperam-se os cosluraes, e as leys, e o arbítrio lo- 
BHHt ologar delias, a superstição lavrou á larga, defiobon 
o commercio, e a industria, pois até as artes nechasicas' 
Hão podem fiiMTsoer, e «diantar-se sem o ausilio das !&• 
Iras, e da sciencia. 

Caminha era um admirador enthasiasta do Doutor An- 
tónio Ferreira, a quem imitava assídua, e desveladamen- 
le, lauto na conposHâo, como na correcçito clássica do 
estylo: e a Epistola, que passo a transcrever, servirá de 
provar o respeito, e veneração, qae clle professava para 
com o seu Amigo, e Mestre. 

EPISTOU. 

António, quaado vâjo o engenho raro 
O puro esprito, que nos vás mostrando, 
O estylo fácil, alto, limpo, c claro. 

Vejo que vás em tudo renoyasdo 
Aquella antiguidade, que inda agora 
Com grande nonie, e fama está espautasdo.' 

Vâjo em ti sempre meravilbas, ora 
Cantes da viva, da amorosa cbama. 
Que huma alma faz captiva, outra Senbora. 

Ou nos mostres de quem baisameote ama^ 
Amores em baixeza só fundados, 
Destruidores Hiáes da limpa fama. 

Ora sejam os teos versos eotoados 
Ao som da doce frauta, a cujo som 
Foram os do grau Tytiro cantados. 

Ou em outro mais alto, e triste tom, 
Nos HMstres da Fortuna as variedades. 
Mais vezes pelo máo, mais contra o bom. 



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LIVBD IT., (UVITULO If. 59 

Ora chores a perdas das edades, 
£m qne o bem tmha premio, o mal casligo, 
E mostres de mil erros «s rontades. 

Ora consoles o teo trista amigo 
Oh coBgralules qunido eslá coatcMe, 
AcedcRdo aoi prateres, e ao perigo 

Agont te Icvaotes altamente 
A altos feitos, e euprezas, que gloriosa 
Fama, mas merecida, dam á Genle. 

Ou temas a soberba, a perigosa, 
A Tãa, a ingrata Cdrlc, a ahnas, e vidas. 
Aos bOQs EsprítQs, e honraa tfio danosa ! 

Ferreira, e Camioha enna corteiSos, Si de Miranda 
era também cortecão, e os doosprímeiros qneixam-se da 
cArte, e fatem^eHa horrível piatsra, Sá de Miranda nSo 
se coateoton om» isto, mas fagw deAla e foi acabar seus 
dias na sua Qniota da Tapada, eMregne ao caltivo das 
leiras, A devoç9o, e «os caidados da lavonra. Isto deve 
desenganar os Poetas, de qne a cArle não é o sen logar ; 
para ser grande Poeta é Bcccssario respirar o ar livre dos 
campos, aqnentar>8e ao fi>go do sen modesto lar, viver 
eomsigo em liberdade, e conversar com os mortos, se- 
gundo a expressão elegante de Garção. A pobreza é me- 
nos prejudicial para o génio qne o ar das cOrtes, e a sua 
servidão dourada. Dante, Camões, e Milton escreveram 
«6 seoB Poemas immortaes o primeiro no desterro, e os 
dons no seio do abaadono, c da miséria. A Ilíada é obra 
de nm mendigo, e cego ; as sublimes Odes de Francisco 
Hannel escreveo-as eHe foragido em terra estrangeira, o 
homem grande lucta com a desgraça, vence, e adquire 
na lacta novas forças ; mas os qne se acustumam a cur- 
var-se diariamente a pequenos ídolos , nunca terão aicas 
para remontar-se ás Estreitas. 

Ckt dezejes as fontes só bebidas 
Dos que passam quietamente a vida, 
Não invejando as agoas mais seguidas. - , 

Ou te alces sobre tudo a essa querida 
Vida de n6s, de todos dezejada, 
De muitos mal, de poucos bem seguida. 



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00 ZlfSAIO BCOffitAratm CUTIQO, Toxa iri. 

Quando tudo feto vSje, quando a estrada 
QiK thegora seguiste, e o eaidado 
De por ti oossa lingoa eer honrada. 
£ vejo de outra parte já acabado. 
Com mago» o digo aasi, o Tempo, qne usavar 
Os engenhos bcHirar, de que bera honrado. 

£ poique a conjurado dos Jesuítas contra as letns, c 
o» talentos, hia já começando a produeír seu frooto; 

Que.,Ai(4 heid^:sentirt tudo levava 
Phebo- após £i, movia com seo canto 
Condições feras, gente dura, e brava. 
, . He tido agora «ii-p»vco« grande espanto! 

De Espritos .raros, de qu& n«sta terra 
. Nunca, houve taotosj do^que houresse taolo. 
, Mas conheeJdos mal, fasem^be gueria, 
.CapUvam-DOS con seretn msl ouvidos,' 
E a^sioi vemos ique em si cada hun se encerra. 

Mas si <ts í«ao& a^si mal recebidos. 
Não sei si he istti magoa, ou pbantasia. 
Cuido que he porque sam mal entendidos. 

Si nos já amanhecesse hum alvo dia, 
E a poz eite outros, muitos, que tirassem 
A este enganado tempo sua profia. 

Esse. dia, tão suspirado por Pêro deÃJidrade, ioda nSa 
amanljcceu na Lusitânia, nem talvez amanhefa' nunca: 
teiD-se, é verdade, algumas vozes rarefeito o negrume 
lias trevas, mas com uma Juz l3o débil como a das Ter- 
ras Polares. 

Que muitos zelos mãos desenganassem, 
Que muitos zelos bons faTorecessem, 
Porque assi máos temessem, bons ousassem. 

Quem davida que então, cada bora erguessem 
Ao Ceo novos Esprílofi novos cantos. 
Que igua£s ao canto antigo se fizessem. 

Poderiamos ter menos espantas 
De engenhos peregrinos, qoe os dará. 
Quando pouco, esta Terra tagtí, o tantos. 



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tivio IV., cAmtt» n. ' ( 

Si alguma hora tat tempo nos virá, ■ 
Qae veja tevaBtades' boas Espritos ? 
Qoe derribada eaté a «omtiçaotirá , 

Qae despreza boas Versos, bons escriptos 
Por mão zelo, por údio, ou por inveja, 
Qae esles laes entre os cegos sejam escritos. 

Tempo, em que levantado assi te vèja. 
Que em ti se ategre Apoilo, em ti das nove 
Irmãas o casto Choro alegre seja. 

E em mi a quem agora o peil«) move 
Teu alto canto, .que eu vou mal seguindo, ' 
Oulro mais alto canto então renova. 

Com que me pouco a poiuo vá sobiido 
Tra2 as Musas com toa guia clara. 
Que para ellas meos olhos vai a)»riitdo4 

Musas, cem qae se hama alma (anto ampara 
De todo pipe, com qnb se defende 
Da vaa Fortuna pródiga, oá avara. 

O Ião ditoso, que por elias vende ' 
Todo outro gosto vfio, dn vSos dezejos 
Livre, ii'ontros milhores a alma accende. 

Os soberbos estados, os sobejos 
Despresa, o campo mais que o Povo estima. 
Não sofre suas solturasj sem despejos. 
n acima 
Dl ío buscadas 

jy lestima. 

lastadas, 
Al o cego 

N' sadas. 

cego, 
De lauta inquietação, que sò a lembrança, \ 
Tirará ao socegado o seo socego. 

De uma esperança vãa a'outra esperaafa,' 
Não anda ali, scguno o sentimeato. 
Está ali de sentir tanta mudanfA. 

AU os olhos não dam ao pensamento ; 
Tanlo a que se abaixar, ali o desgosto. 
Si accerla de vir, dura hum eó moiawto. 



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62 EMSAIO BIOflKAFBICO CBIflCO, TOUO II. 

Ali do Sol nascido ihe o Sol posto, 
E delle poslo lhe ontra vez aascer, 
Não esconde a alegria seo bom roslo. 

Ali se Té mais cedo amanhecer, 
Mais tarde a noite, que em mil lumes arde, 
Quam poucos tal bem sabem escolher, 
Que por cedo que se ache, acha-se tarde. 

O respeito, e admirarão de Caminha por Anlonio Fer- 
reira, não se limitava só á imitação do seu eslylo, e ma- 
neira de poetar, estendia-sfi a perilhar todas as suas 
opinifies em literatura, escotando-as como oranulos, de mo- 
do que havendo Caminha, segnndo o uso do tempo, com- 
posto alguns TersM em castelhano, os mandoa ao seu 
amigo para lhos emeodar. Ferreta, que ardia em enthu- 
síasmo patriótico pela lingna portugueza, que todo o seu 
empenho era corrigi-la, aperfeiçoa-la e torna-la conhe- 
cida ; e que por isso havia por uma espécie de crime li- 
terário, o escrever um Portaguez em língua estranha, 
lhos devolveu com uma Epistola, que é a terceira do Livro 
primeiro do seu segundo Volume, em que lhe dizia 

O que entre a Antiguidade mais se havia 
Por imfamia, hera despresar a terra, 
De que bum hera Filho, e em que vivia. 

Pois com quanta razão me eu mais espanto 
Do que em ti vé]o, tanto vás perdido. 
Tanto, que me ali move a.magoa, e espanto. 

Hostrastc-te lhe agora tão esquecido. 
Meu Andrade, da terra, em que nasceste. 
Como si nella não fAras nascido. 

Esses teos doces versos, com que ergueste 
Teo chiro nome tanto, e que inda erguer 
Hais se verá, a estranha Gente os deste. 

Porque o com que podias nobrecer 
Tua Terra, e tua tiogoa lho roubaste. 
Para hires outra língoa emriquecer. 

Cuida milhor, qga quanto mais bonrasle, 
E em mais tiveste essa Lingoa Estrangeira, 
Tanto a «Ma toa ingrato t« oaostras-to. 



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tino IV., cinrtio ir. 63 

Volve pofs, Tolve, Andrade, da carreira. 
Que errada levas, coro tm psi « digo, 
Alcansará» tua gloria rerdadeira. 

The quando contra «6$, eooVtà ti inig», 
Te mostrarás? obrígve-te a Rasio, 
Que eu, como posso, a tna sombra sj^. 

Ãs mesmas Musas mal te jalgarSo, 
Serás em ódio a n^ tco» nataríes. 
Pois cruel nos roubas o qne em (í nes Sio, 

A lição foi áspera, nas approreibM ; Caminha nnnca 
mais escreveu se não em portngnez, e parece qne para 
ebedecer a Ferreira queimou todos os ycrsos que tinha fei- 
to em castelhano, p(H5 na colleefão das snas poesias u3o 
apparece nma só destas composirSes. 

Parece cora tndo que foi menos dócil com o systema 
de Ferreira quanto i abandonar inteiramente a antiga 
iwesia nacional, para caltivar exclusivamente a italiana, 
t o estflo clássico, visto que nos restam delle algumas 
Voltas, algumas Redondilbas na Tórma antiga, e entre el- 
las duas Epistolas em Coplas outosylabas, uma dirigida 
a uma Donzella, que estava para professar, e ontra a 
J<âo Rodrigues da Sá de Menezes, fidalgo moilo instruí- 
do, e grande Poeta, segundo o testeScam isnloo nosso 
Poeta, como Ferreira, Bernardi.'», e Sá de Niraeda, por< 
^e das finas poesias, que clles gabam taolo, aenhuma n 
imprinio e pelo mmos nenhuma chegou ao ím»so lempiL 

Citarei alguns trechos desta ultima para se faser idéii 
4 eslylo de Caminha naste género. 

Pay das Musas desta Terra 
Juntas por vós á Nobreza, 
Que bem em vós nào se encerra ! 
Destreza, e esforço na guerra. 
Na paz prudência, e destreza. 

V&s nos podesles mosttar, 
Vós nos deates scgantnça. 
Que sem nada se danar. 
Podem juDclanenle anikr 
Ka Letras, a Penoa, « Lanfa. 



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64 ENSAIO BioOHAmca critico, tomo in. 
Des que com ella ganlias-tes 
O sobrenome devido 
A nós, qoe por isso a herdastes, 
Co^l as Musas repousastes 
Repouso bem ^coibido. 

Sabíeis a ociosidade 
Quantas culpas em si traz, 
Pozesfe-VDS na verdade. 
Deixastes esta vaidade 
Se vér quantos males Eaz. 

. Sai-me Ucensa, que falle 
Comvosco luí pouco em segredo, 
O que o tempo quer que calle, 
. Uas não ba lii^oa, que iguale 
Ao que vai peia haver medo. 

Que esta Circe Teiticeira 

Da Corte dá volta a tudo, 

£ a lipgoa mais verdadeira 

Comver-te em mais lizonjeira, 

£ em mais doudo o mais sesudo. 
Aqui transdora a cada passo a imitação de Sá de Mi- 
randa; é omesmo metro, e combinação rythmica, a mes- 
ma prorasio de sentenças, mas como era de esperar de 
um disciputo de Ferreira, sem a baixeza dos lermos, a 
>grammatica irregular, e arrevezada, e a falia de neso 
nas idéas, que tantas vezes nos desgostam até nas me- 
lhores composições do Poeta de Coimbra. 
A verdade todavia 

Sempre seos contrários teve ; 

Já o tempo antigo o dizia. 

Mas, si poQco lhe devia. 

Menos inda ao nosso deve. 

De bum Rey Monro de Granada 
Se conta bum dicto pmdeDte, 
De vér quam mal gazalhada, 
Bera a verdade, e tractada 
Ainda da Ghrístãa Gente. 



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LivM iT., cAFinno ir. 65 

Dois Pregadores buscaodo 
Martyrio em Granada andavam, 
E ante este Rey os levando, 
Seos dezejos estorvando. 
Lhe perguntou, qne buscavam. 

Dizem « morrer vimos cá, 
Pola verdade » — Si delJa 

— Ousardes (diz) fallar lá 

'— D'ondc vindes, ninguém ha, 

— Que vos ii3o mate por eita. 

Esta idéa é tão atrevidamente poética, que assombra 
enconlra-ia em um Poeta deste tempo. Eslas anecdolas, 
assim como as fabulas, e outras cousas semilhantes tem 
lodo ologar ueste género de Poemas, e não faltam fuem- 
plDS disto nas Epistolas de Horácio, e lodos sabem com 
que empenho Ferreira, e os alumoos da eschola clássica 
tsludavnm as obras do grande lyrico latino. NSo sei se o 
dito do Rei de Granada é histórico, ou da inveofão do 
Poeta; mas não vam ainda mui arredados os tempos, em 
que os papeis públicos referiram uma resposta aroda mais 
nobre, e sublime do Imperador de Marrocos. Certo Em- 
baixador Europco, offerecendo-lhe grandes presentes, em 
nome do seu Monarcha, pela entrega de alguns emigra- 
dos polilicos da sua nação, que se haviam refugiado noa 
Estados Marroquinos. O Sultão, recusando os presentes, 
respondeu « Diic ao teu Rei, que si oEvangelho permit- 
le o quebramento das leis da hospitalidade, o Alcorão fas 
disso um crime imperdoável. 

O grande Sá de Miranda 
Bem enlendeo a verdade 
Deste mal, qne entre nós anda, 
Lanson-se là dessa banda, 
Seguro que rcEo se enfade. 

Bem se vé qne não se enfada 
Nas meravilhas, que escreve, 
Que alta fama tem ganhada, 
A' vêa, só nello achada, 
Quanto todo o engenho deve. 



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66 tnsAio Biosumco critico, touo m^ 
Fugio ás ocasiões 
Do Tempo ; que ha muitas cã, 
Que quebram os corações. 
Que caiizam mil semraziJes, 
De que está seguro lá. 

Sobre tudo poz os pés 
Como quem sente o que sente, 
Vio tudo andar ao revés ; 
Não fora cá ledo hum mez, 
Be lá todo o aono contente. 

NSo pôde fazer-sc maior elogio de Sá de Miranda, 
nem fallar-se delle com maior admiração, c respeito: 
todos os Poetas da epocha, inclusive Ferreira, o maior 
de todos, professavam por elle a mesma veneração. £ na 
verdade um phenomeno lilerarío, que valendo Miranda 
menos que todos os Poetas do seu tempo, estes todos 
o exaltassem com enthusiasmo, ao mesmo passo, que nem 
uma palavra dizem de Camões, que então florescia, e es- 
tava tão superior a elles todos. 

O casamento deD. Marta, filha deD. Duarte, com Ale- 
:xandre Farnese, Glho do Duque de Parma Octávio Far- 
nese, e de sua esposa Margarida de Áustria, filha aalu- 
ral do Imperador Carlos Y., e Governadora de Flandres, 
deu largo assnmpto aos Poetas cortezSos daquetlc tem- 
po para exercitarem seu estro compondo Epithalamios, 
Éclogas e outras poesias, com que celebraram aquelle 
fausto acontei;imento. O Epitbalamio de Ferreira, e o 
de Caminha passam pelas melhores composições, que en- 
tão se fizeram. No Poema de Caminha ha muita imagi- 
nação, estylo elegante, mais amenidade do que de ordi- 
nário se encontra nos seus escríptos, boa poesia descrip- 
tiva, e Oitavas mui bem fabricadas, o que faz vêr, que 
si este Poeta se desse a compor um Poema Heróico tal- 
vez consegui-se logar mui distincto entre os nossos Poe- 
tas Épicos. Citaremos alguns trechos em abono do que 
levamos dito. 

Cria-se hum livre Esprito descuidado 
De se lender ao que Amor tt'alma cria, 



;, Google 



ima ir., Cinrcto n. 
E sempre o Amor he delle despresado, 
Consigo se contenta a noite, e o dia, 
£ de mil armas anda sempre armado, 
CoDtra Amor forle, e coolra sua porfia, 
Mas a seo tempo Amor tudo salléa, 
E a qaem mais se defende mais se eoléa. 



Quem cantará de Amor as grandes cousas. 
S'inda as communs nSo podem bem cantar-se? 
Bem sinto, Esprito meo, que dSo repousas, 
Por dizer o que não deve caltar-se. 

Mas também vfijo claro, que não ousas 
Começar o que nào pôde acahar-se. 
Mas canta tu de Amor, e seos poderes. 
Que elle te guiará si te perderes. 

Foi visto hir pelo ar o Amor vâanda 
N'um claro dia, e todo em prazer cheio, 
Formosamente os ares serenando, 
Derramando mil Oores do seo seio, 
A's Testas, e prazeres convidando 
A mil Amores, que o levavam em meio, 
Dansas, Risos, c Jogos o seguiam, 
E ntil Cantos entre clIe, e as Grafas hiam. 

Esla pintura do Amor, que võa serenando os ares, cer- 
cado das Graças, e dos Jogos, e dos Risos, convidando 
os Amures a festas, e derramando Hores do seio, é Ião 
graciosa como poética ; a Estanca segunda n9o lhe Kca 
inferior. 

Hiam todos ornados de capellas, 
De mil flores diversas bem tecidas. 
Brancas, rouxas, vermelhas, e amarellas. 
Entre Myriho, e Verbena entremetidas, 
Todas suaves ao cheiro, é vista bellas. 
Todas de Amor, e para Amor colhidas, 
Assim se tracta Amor mimosamente 
Qaando al|j;«ma Alegria grande sente. 



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es ENSAIO nooiAPHico camco, toho m. 
Foram vAando assim tbe qae chegaram 
Oode t;stava sua May, Veans formosa, 
N'bum Jardim formosissimo onde a acharam 
Como eita sempre está, braada, e mimosa, 
De Nyuiphas, qoe em amores se criaram 
Accompanbada estava, e vangloriosa. 
No Jardim tudo sam flores, e rosas, , 

Tudo Nympbas alegres, e formosas. 

Os dous ullimos versos desta Estanca fazem lembrar o 
estylo ameno, e delicioso de Luiz de CamOes. 

Tudo mimos, delicias, e perfumes. 
Fontes formosas, agoas, e frescura, 
Tudo dansas, e gostos, não queixumes. 
Tudo tractos de amor, e de brandura. 
Idedir comforme os gostos, os costumes. 
Fazer por conservar a formosura. 
Não negar á vontade os appetrtos. 
Nem render a desgostos os Espritos. 

Em quanto ali as Arvores florecem, 
Com cuidado sam vistas, e tractadas, 
Si acontece seccar, e reverdecem 
Não as deixam de todo despresadas; 
Si com o tempo seccam, e murcbecem 
Logo deste Jardim sam arrancadas, 
Que no Jardim de Vénus nSo he olhada 
Arvore de quem não se espera nada. 

Parece haver uma contradicção nesta Estanca, mas 
n3o é assim, porque exprime perfeitamente a idéa ale- 
górica, que existia na mente do Poeta. 

O Minino da May sempre mimoso 
Se lhe encostou sobre o formoso peito, 
Contente de si mesmo, e glorioso 
De lhe baver de contar tão grande feito. 
Mas da ira da May mui receoso, 
Que houvesse por arronta, e por despeito 
Náo ser delle chamada ásjHmlas Bodas, 
A qae foi a Alegria, e ju Grafas Iodas. 



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iTvto n., cunvio ii. 09 

Tara encontrar neste século rasgos poéticos superiores 
a estes em amenidade, e graça, será necessário recorrer 
is poesias de Camdes. Eis aqui pinturas de outro ge- 
Btro. 

Já em toda occupaçSo áspera, e dura 
Se occupa ; ei-lo no campo, ei-lo no monle, 
Persegue as Feras na maior altura, 
Nem acha Fera, que nSo mate, e afronte. 
Não tem Diana bosque, ou espessura, 
NSe mata, valle, ou prado, on Rio, oa fonte, 
Qoe a estes exercícios delle usados 
Possa ter escondidos, nem vedados. 



Obedece Neptuno, e ao seo tridente 
Às formosas Nereidas vam seguJDdo, 
£ com seos Phocas Prótheo alegremente 
Vai as salgadas ondas dividiado. 
A ciara Lua, e o Sol qual mais coateote, 
A Noile, e o Dia vam cerrando, e abrindo, 
E o Grande Eolo, Rey, que os Ventos manda, 
Já a fúria Ibe tempera, o Ímpeto abranda. 

O Cântico das Graças, e dos Amores, com que termina 
o Poema, nada tem qoe invejar, nem pela poesia^ nem 
pela versificação aos Caóticos das Nereidas , e dos Tri- 
lAes, com queFerreira concluio oEptthalamio, que com- 
pAs para «stas mesmas núpcias. 

Pêro de Andrade Caminha compAs ainda outro Epílba- 
lamio por occasião das núpcias de Vasco da Silveira com 
D. Ignez de Noronha ; é escriplo em Tercetos , e ador- 
nado da mais risonha e deliciosa poesia. Eis aqui o sea 
eiordio. 

Tem, formoso Hymioeo, coroado 
De violas, jasmins, e outros mil florfô. 
Coibidas todas no amoroso prado. 

Nfio vès como cercado dos Amores 
O leo formoso Irmão Amor le espera 
Appar^do daqui qnçixas, « dores? 



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70 ENSAIO BIOORAPHIGO CBITIGO, TOUO lU. 

Olha em Novembro a alegre Primavera, 
Como parece que está rindo o dia, 
Que tão formoso o Cco hoje aos dera? 

Olha como chamando eslá Alegria, 
Por ti com grandes vozes!., como o canto 
Todo enche de suave melodia 1 

Vem, Hjmineo, vem, formoso, e santo. 
Não tardes vem, que d'alma já te chama, 
Aquelle Esprito digno d'alto canto. 

Ãquelle gran Sylveíra, que honra, c ama 
O grande Amor de quem devidamente 
Corre por todo o Mundo immorlal Fama. 

Este exórdio é bello como nma Elegia de Tibulo, a quem 
o Poeta parece ter querido imitar, e pelo coipo da ohra 
se encontram Tercetos, que em nada desmerecera destes: 
por exemplo. 

Aquella desusada formosura, 
Aqneila grande Dama clara,- e illustre, 
Igual em preço, e ser, honra, e brandura. 

Aquella, que dá ás Graças novo lustre, 
Ornada de virtude pura, e rara, 
Com que as mais partes suas mais illustre. 

Aquella que athe morte sempre amara, 
Por cujo amor mil vezes dera a vida. 
Ioda que ella tlie morte o desamara. 



Vem, Hymineo, e já ; vem, não aguardes, 
Cooifirma já este amor tão bem trocado, 
Nos dois peitos, que sempre em teo bem guardes. 

Võja-se já hum Esprilo a outro atado, 
Co' santo nó, que ajunta duas vontades, 
E prende duas almas D'hum cuidado 

Entreguem-se hum ao outro as liberdades, 
O que hum sempre quiser sempre outro queira, 
£ logrem n'hum querer longas edades. 

Olha quanto hum momento no Amor monta. 
Quanto se sente huma hora só perdida 
Do bem, de que se faz já cerla conta. 



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tlVBO IT-, CAPlTDtO ti. 71 

Uma prova, para mim clara, de qae não chegaran 
até d6s todas as poesias de Catnliitia, é vér qne entre as 
que poísaimos apenas se eucoatram dez Sonetos, e que 
esses mesmos são tirados de obras alheias, em cujo louvor 
foram feitos, e com ellas impressos, a saber : um com a 
EUffiçuía de Luiz Pereira, um com O Cerco de Dio de 
JeroDymo Corle Real, outro com a Batalha de Lepanto 
do mesmo, e os outros com a relação que se fez da viu* 
da de certas relíquias para a Igreja de S. Boque, vin- 
do por este modo a pertencer á CollecçSo manuscrípta, 
que se encontrou ao Convento da Graça somente, o So- 
neto á morte doPriacipeD. João, que sele apaginasl89 
da edição das Obras de Caminha, publicada pela Aca- 
demia das Sciencias. 

Poderá alguém accredior, que um Poeta, queflorescca 
quando Petrarcha, e a Poesia Toscana eram tão estuda- 
das, e imitadas entre nós, composesse apenas dez Sone- 
tos, quaodo este Poema andava tanto etu moda, e quan- 
do Ferreira, Miranda, Bernardes,. Fr. Agostinho da Cruz, 
e Camões nos deitaram centenares delles? Tal snpposiçSo 
é inadmissível, especialmente si nos lembrarmos de que 
as obras deste Poeta sò sahíram á luz muitos annos de- 
pois da sua morte, e da facilidade com que se perdem 
as obras manuscriptas. 

O celebre Poeta Latino, Fr. Francisco de Santo Agos^ 
linho Macedo, a nata, e creme do talento, e da sciencia 
Capucha, teve o capricho de compor um livro inteiro 
de Epjtaphios a todos os Doges de Veneza, mas nisso 
não fez mais do que Pêro de Andrade Caminha, que nos 
deixou nada menos de oitenta e um Epitliaphios quast 
todos em Oitavas, a quasi todos os Reis, Rainhas, In- 
fantes, Infantas, e Fidalgos, que sefmuram no seu tempo, 
ou próximo a elle, de maneira que precorrer este livro é 
o mesmo que passeiar no Cemitério dos Prazeres, ou do 
Alto de S. João. 

De certo que os seus amigos, e conhecidos podiam 
morrer descançados, e sem temor de que á sua sepultu- 
ra faltasse a honra de um Epithaphio, porque cá ficava 
o Epithapheiro Mór, que os nSo deixaria carecer da- 
queJIe sofragio. E o mais é que alguns até podinm es- 
ròliicr; só para D. Doarle compôs elle nada menos de 



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72 BNSAIO BIOGBAPHICO CDITICO TOUO, III. 

onze, para a Inraata D. Isabel quatro, outros qaatro pa- 
ra D. Nuno Alvares Pereira, para 0. Maria Coulioho trez, 
e assim para outros ; mas si uma pessoa iião tem mais 
que uma sepultura, para que necessita de mais de um 
Epitbaphio? 

AlgLimas pessoas fazem grande estima destes Epitfaa- 
phios, aem eu digo que sejam ruins, porém não obstan- 
te a predilecção, que tenho pelas poesias de Camlnba, não 
posso escurecer que me cufada lèr tantas vezes as mes- 
mas cousas, diversamente expressadas ; e o peior é que 
a este inconveniente accresce muitas vezes a trivialida- 
de das idéas, e ainsi^ificaiicia das reflexties. Isto acbar 
rá quem lâr com attenção o Epithaphio da Rainha D. 
Maria. 

Filha do Reys, e May, c Irmãa, e Thia, 
Avó de Reys, e de tudo isto diua, 
De qual outra, outro tanto se diria 
Como desta Raynba já diviua? 
Mulher de Manoel, grapde Maria, 
Por quem todo o alto Êsprito inda se ensina, 
E pôde com tudo isto a ley da morte 
Dar-lhe esta estreita sepultura em sorte. 

A's vezes as idéas nobres, e elevadas apparecen des- 
figuradas pelo prosaismo da expressão, e pela desbar- 
monia dos versos, assim acontece com o Epilhapbio a 
Yasco da Gama. 

Quem hc este, qoe aos pés tem o tridente 
Do Rey do mar? — He Dom Vasco da Gama, 
Que correndo do Tejo ao Oriente 
Deo Rcynos ao seo Rey, e a si gran Tama. 
Seo Nome viverá sempre entre a Gente, 
Quo com razão, seo nome ioda honra, e ama ; 
E ao Rey mereceo seo serviço raro 
OOcio principal, titulo claro. 

Nada mais prosaico, e inharraonico que estes versos, 
o primeiro verso cmperna com o segundo, o que é mui- 
desagradável cm obra tão pequena : íle Bom Yasco da 
Gama, no segundo hemestichio do Eesuudo verso, o faz 



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LIVBO tV., CAFITOLO II. 73 

de algam modo coxear. O mesmo acontereu »o terceiro 
l^^or falta da sinalepba no scguodo hemeslichio: si se ilíz 
Eo quarto, que deo a si graTuie fama, para que é neces- 
sário dizer noseguinte, que seo nome vieira sempre? seo 
nome inda honra, eama pecca contra amelodia, além da 
repetição Aenome, em dous versos consecutivos ; mereceo 
Ko, estas palavras de igual dissonância juntas Tormam um 
echú, que arranha os ouvidos delicadas 

Oficio principal, titulo claro. 

Sam expressões vagas, que não oiTcrecem idca ncobunia 
determinada. 

O Epithapfaio ao Doutor António Ferreira 6 no meu 
parecer nm dos melhores, mas tem o defeito de princi- 
piar com um verso prosaico, e acabar com um verso duro. 

Aqui Ferreira jaz, aqui Ferreira 
Se mil, e mil amigos be chorado, 
£ o seo nome com fama verdadeira 
De mil, e mil amigos he cantado. 
Da Morte, no chegar sempre ligeira, 
Da vidn antes de tempo foi levado, 
Seo corpo aqui, sua alma está na gloria, 
Seo nome em todo o Mundo, e sua memorin. 

Não lhe fica inferior um dos, que o Poeta consagrou 
a leão Lopes Leitão. 

Nesse fronteiro mar tão dilatado. 
Que lavra esta alta pedra, c estas aréas, 
De João Lopes o corpo está guardado 
N'hum vaso de ouro das mais ricas v<}as. 
Das Nereidas ali sempre he chorado, 
Ali cantado be sempre d<is Sercas, 
Erguco-se aqui csla pedra em sua memoria, 
£ o Mundo terá delle larga historia. 

Tractando-se de nmhomcro, que pereceu cm nm nau- 
frágio, o suppôr que ellc e\iste uo fundo do mar, rccu- 
iiiido em uma urna de ouro, que as Nereidas o choram, 



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74 XNS,UO BIOGBA.PniCO CHITICO, TOMO III. 

qpe as Screas celebram as suas acções com seu Canto, 
me parecem idéas mui poéticas, bem applicadas, e bem 
expressadas. 

Tenho para mim, que Perõ de Andrade CamÍDba se 
mostrou muito mais Poeta nos Epigrammas, que nos 
Epithaphios ; sam elles em tão grande número, que coq- 
tando os traduzidos chegam a duzentos e oitenta e oito, 
em diversos metros, edifferentes combinações de rymas, 
o que também lhes dá maior variedade. Parece-me mui- 
to engenhoso o terceiro, feito por occasiâo de D. Duarte 
dizer, que nada o alHigia tanto como a consideração de 
não ter que dar. 

Não pôde dar quem deo quanto podia. 
Mas não tem pouco quem tem tudo dado ; 
Como nunca o Sol nega a luz ao dia. 
Nunca tua largueza tens negado. 
Tem sempre o que se dá maior valia, 
Que o que está recolhido, e bem guardado. 
Quem largamente reparte o seo ouro 
Nos corações alheios Taz thesouro. 

A experiência não desmentida de muitos séculos tem 
demonstrado que nada ha mais falso do que a assersSo 
de Madama Stael, de que o amor é um sentimento ex- 
clusivo doBelloSexo, cuja vida inteira se reduz a amar; 
porque bem pelo contrario o sentimento, que mais rara- 
mente se encontra no coração femenino é sem dúvida o 
amor. A mulher não procura o homem pelo desejo de 
eatisfazer um sentimento erótico ; em o homem sendo ri- 
co, e generoso tem para ella todos os requisitos para ser 
amarei, e amado. O homem pobre, qualqner que seja o 
seu merilo, é para ella o objecto de mator despreso, e 
aborrecimento. Esta grande verdade exprimiu engeuho- 
sãmente Caminha nos Epigrammas do Amor pobre, e do 
Amar rico, qne passo a transcrever. 

Entre as Nymphas Amor entrando hum dia, 
. Despido, e pobre do que se elle presa ; 
Homa lhe dá de mão, outra o desvia. 
Outra as armas lhe toma, outra o despresa. 



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LiVBo IV., eArnuLo ii. 75 

Nenhuma com braadnra o recolhia. 
Fica eageitado Amor por sua pobreza, 
£ a todas foi era alta voz ouvido: 
Não pôde pobre Amor ser acolhido. 

Hum dia Amor ás Nymphas apparece 
Vestido, e beui oroado, não como aoles; 
Com ouro, e piata tudo resplandece. 
Com perlas, com rubis, com diamantes. 
Cada húa por Amor logo o conhece 
£m o gabar, c em o querer constantes. 
De todas para si logo he chamado. 
Que Dunca rico Amor, he despresado. 

O meu fallecído Amigo João Vicente Pimentel Maldo- 
nado, grande Poeia, e grande Philosopho, exprimiu ener- 
gicamente esta idéa em dous versos, com que termina 
um Soneto. 

Procura hum Cafre da hupal Negrissia, 
Carrega-o d'oiiro, e o teu rival respeita. 

Caminha estava tão convencido desta verdade, qae 
ajuntou a estes o Epigramma viute e trez, que ensina 
que o homsm sendo pobre, ainda que se accompanhe de 
lodos os talentos, e todas as virtudes nunca será amado 
pelas mulheres. 

Das Musas, e de Phebo accompaabado, 
De Mercúrio, de Palias, e de Marte, 
Foi visto hum dia Amor, d'armas ornado, 
E de ConstaDcia, de Brandura, e Arte; 
Mas Dão trazendo Amor Dite a sco lado 
Logo oovio : B Podes logo, Amor, lornar-le, 
«Que nem assim de tantos tão seguido, 
* Sem Dite serás vislo, nem ouvido. » 

A idéa do seguinte Epigramma é tirada de uma das 
mais belias Odes de Anacrcoute. 

Alta noite de Inverno a mim Cupido 
Molhado, frio, c nú todo tremendo, 



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TÔ ENSAIO BIOfiaAPHICO CltmCS, TOMO III. 

Se vem ; e eu vendo Amor assi perdido, 

O enxugo, e aquento, mas em se elte vead» 

Enxuto, e quente, logo despedido 

De mira, se torna contra mim, dizendo: 

8 Deste meo frio ficarás coro fogo, 

« Em que arderás, si não morreres logo. » 

O Epigramma vinte e quatro é dirigido a suaEiposa 
D. Pascboala, qae elle tanto celebcoii em outras poesias 
debaixo do nome de Phylis. 

Acha Vénus o Filho desarmado. 
De quem as armas lhe tomou queixoso, 
■ De quem foste, (diz) Filho, despojado, 
«Quem te deixou tão triste, e tão queixoso'}» 
— De quem pôde mais que eu, estou roubado. 
(Quem pôde mais que tu, tio poderoso?» 

■ Pascboala! Ouviudo-o, Vénus diz a Pascboala 

«Vença, pois nenhuma outra se lhe igua-la. » 

O Epigramma é bom, mas aquelle nome pleheo, c ri- 
diculo de Paschoala, basta para desfazer toda a illosa© 
poética, e lhe tirar toda a graça, deixando-o como um rico 
manto de seda, ou de veludo, em que cabiu uma nódoa 
de azeite. 

O Epigramma número sessenta e quatro a uma mulher 
muito feia, faz-se notável por sua graciosidade. 

Feia, si falias, hes; feia callada, 
Ouvindo feia, feia respondendo, 
Feia branda pareces, feia irada. 
Negando feia, feia prometendo, 
Feia toucada, feia dostoucada, 
Fda contente, feia descontente. 
Em tudo sempre feia a toda a Gente. 

NSo é menos engenhoso o seguinte ao mesmo as- 
Enmplo. 

Si a boa porporção faz formosura, 
Deves por bem formosa ser julgada. 
Pois a tens tão igual, e tão segura 



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tivio IT., CArnuiD n. 77 

Im ser em tado desporporcionada. 
Quem bem le vê entende, affirma, e jara. 
Que em ti tal porporção oão falta em nada, 
£ assim se mostra claro ser verdade. 
Que ha também porporção na variedade. 

Eis aqui outro Epií^-amma contra nm mentiroso, que 
me não parece destituído de merecimenlo. 

Tudo prometes quanto de (i qnero, 
Nunca cousa me dás, qne de ti queira. 
Já com esta experiência desespero 
De achar em ti promessa verdadeira. 
Se assim hes no que negas, o negado 
Hilhor que o prometido será dado. 

Eis aqui um espelho, a que poderiam vêr-se baslan- 
les pessoas poderosas dos nossos dias, que promcttem por 
oEcio, e por oHicio nada comprem. 

Ha entre os Epigrammas de Andrade Caminha alguns 
erigidos contra um bomem, que presumia de Poeta sem 
ter para isso disposição nenhuma, os melhores me pare- 
ecfn estes. 

Dizes que o bom Poeta hade ter fúria, 
Si não hade ter mais hes hom Poeta, 
Has se o Poela hade ter mais que fúria, 
Ta não tens mais que fúria de Poeta. 

Muitas vezes meos versos me pediste 
Que tos mostrasse, e nunca tos mostrei, 
Em nSo pedír-te os leos si bem sentiste, 
Entenderias porque tos neguei. 
Da paga me temi, si a não temera 
Muitas vezes meos versos já te lera. 

Bocage exprimiu o mesmo conceito em outro Epí- 
gramma, que transcrevo aqui porque nada coopera tan- 
to para aperfeiçoar o ^osto como estas comparações do 
modo porqae os homens de talento exprimem a mesma 
idéa. 



;,Go"ogIc 



78 KKSAIO BIOOIAPRICO CSITtCO, TDHO llt. 

<r Elmaao, lé-me os teus versos I > 

— Udhor sorte me dé Deos] 

— Tremo disso I «£ porque tremes?» 

— Porque podes lér-me os teus. 

Pêro de Andrade Caminha lambem se provou na Ira- 
ducção poética de algumas composições dos Poetas Gre- 
gos e Latinos, laoto antigos como modernos, imitando 
nístoseu mestre António Ferreira. Destas tradocções che- 
garam a nós as de alguns Epigrammas de Ausonio, de 
Theocrito, de Sannazzaro, e de algumas Elegias de Au- 
sonio, e Angeriano. Para se Tazer idéa do seu modo de 
traduzir porei aqni no seu original o Epigramma núme- 
ro cincoenta de Saonazzaro, junto com a traducção de 
Caminha. 

Miraris, liquidam cur ttott dissolvor til amaem, 
Cum nanguam siccas cagar habere genas; 

Miror ego ia teimes polius non isse favillas 
Assiduce carpant cum mea corda faces. 

Sdlicel ul mísero posstnl superesse dolori, 
Sic lacrimis flammas temperai acer Amor. 

VERSÃO. 

Como não sou tornado em rio coirente 
Te espantas, pois qne sempre cm choros vivo, 
E eu de não me tornar em chamma ardente ; 
Segundo está em meo peito o fogo vivo. 
Mas porque não me mate esta presente 
Chamma, nem este fogo tão esquivo 
Com lagrimas coutinuas o contino 
Fogo tempera Amor duro, e besino. 

A traducçSo é boa, especialmente se nos lembrarmos 
do tempo em que foi feita; mas o Epigramma assenta 
em um conceito falso, semilhanle aos muitos, de que 
usaram depois os Seiscentistas. Que admira que um fo^ 
uethaphysico, como é odoamor, nãoqueime, eque pre- 
cisão tem para isso de ser temperado com lagrimas? B 
inda que Sauiazzaro podesse desfazer-se todo em lagrU 



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imto IV., CAHTU10 ii. 79 

mas, nSo vejo qne dahi se seguisse também o transfor- 
mar-se em no. 

A traducfâo wais importante de todas as qne fez Ca 
minha é a do Idylio de Moscho, que tem' por titulo o 
Amor fugido, que clle escreveu em Tercetos e em fór- 
m de Elegia. Com elle Icrminaremos os escriplos deste 

Perdeo Vénus formosa o seo Cupido, 
Formoso Filho seo brando, c mimoso 
£ tristíssima está de o t«r perdido. 

Tudo corre, nada acha trabalhoso, 
O campo, o monte, o povoado, o ermo, 
Que á grande dôr nada he dificultoso. ' 

Co'esprilo de tristeza lodo emfermo 
Sobe n'um alto monte procurando, 
Ão cuidado remédio, á pena termo. 

Dali está, quanto pôde, a voz alpando, 
E nestas tristes queixas a derrama, 
Por seo formoso filho perguntando. 

"O Filho, a que esta May mais que tudo ama 
"Se me perdeo acaso, que d3o créo, ' 

'Qae se escondesse, nem que me desama. 

>■ Não posso inda saber onde se vôo, 
«Nem sei si Esprilo algum mo tem furtado, 
«Ando Ioda entre dOr, entre recéo. 

" Si o logar, onde está, me for mostrado, 
"A quem mo assim mostrar prometo, e juro 
"Que cm premio hum beijo meo lhe será dado. 

"A quem nas miohas mãos mo der seguro 
" Lhe darei inda mais ; quem ha que seja 
"Com lacs promessas descuidado, e duro? 

"Si ganhar este preço alguém dezeja 
"Mil signaes lhe darei, no peito os guardo, 
"Porque o nao desconheça quando o víja. 

"Nào he alvo, mas todo o corpo lhe ardo 
■Em côr de fogo, os olhos resplaadocera 
"Tanto que b3o ha vista, qae us aguarde. 

"As palavras, que diz doces parecem, 
"Mas tem chêa de enganos a vontade, 
»E engana os tristes, que isto não conhecein. 



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) BNSAIO BIOOBAHCO CRITICO, TOMO IH. 

■•Quaado está cheio de ira, ou crueldade, 
nNão ba couza que o mova, ou que o abrande, 
«•Nem que lhe faca comressar verdade. 

"De Minino, mas tem a&tucia grande, 
"E eslá mil graves couzas cometendo, 
'•Mil vezes quando cuidam que rindo ande. 

» Crespos cabellos lhe os boiubros pendendo, 
»Edi certa ordem lhe estam, medo, nem pejo 
"Nuncíi em seo rosto ousado se está vendo. 

»M3os, e braços pequenos tem, mas vejo, 
»Que muito longe tira a sela dura, 
•> Com que bum peito sam fere, e hum sara dezejo. 

»De todo o corpo traz sem vestidura, 
■>A' calma, e ao Trio sempre descoberto, 
» Mas cheio he o espríto de prudência pura. 

"O voar deixa ás vezes, e de perto 
»\s Nymphas ora, os Homens ora tenta, 
•■Nao com rosto ãngido, ou emcoberto. 

»E como yi, e entende que contenta, 
kE qoe a Vontade ao que elle diz se abranda, 
xLá no intimo do peito, e alma se assenta. 

«Arco pequeno tem, mas Go'elle manda 
"The ás Eslrellas a seta destinada, 
■•Que certa sempre em suas regras anda. 

"Formosa aljava ao bombro Iraz dourada, 
■•Deotro peponba, e setas, que meo peílo 
"Uii vezes tem ferido, e alma chagada. 

"De usar fereza em tudo be satisfeito, 
nPois quanto ba nelle he rodo, e aspereza, 
"Cruel be o nome, que Ibe he mais acceilo. 

" Na mão a fasa traz, que com cmeza 
» Gasta as tristes entranhas, e seo fogo 
«Queimará o Sol, com sua fortaleza. 

"Si o achares, c á mão o houveres, logo 
" Si podes, com estreitos noz o prende, 
"N9o te enganem suas manhas, nem seo rogo. 

"Trazc-o preso com manha, e arte, e entende, 
"Que ou rogue, ou ameace, ou chore, ou ria, 
(•Que ardis sam tado, com qne se defende. 



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lITtO IT., CAPtniLO If, SI 

X Si com palavras cheias de alegria 
«Te mostrar amizade,- eatão mais teme^ 
«Então da sua paz mais descoaSa.- 

»Em soas pal«rras, e em sua boca, «é-me, 
■>Ãs peçonhas cruéis inrz escondidas, 
■•Comque otriste, aque as dá, chora, arde, etreme. 

R E s« te forem delle. oferecidas 
"Setas, coldre pintado, arcos formosos, 
■Não sejam suas ofertas recebidas, 
» Que seos d&es queíoiam tudo, e sara danosos. 

Este Idylio de Moscbo foi também traduzido pòr Fer- 
reira, ese lé a paginas 1Í0 do primeiro volume das suas 
obras, e eutFe as suas Elegias, pois também o verteu em 
Tercetos. Nesta versSo o estylo de Ferreira é ás vezes < 
mais animado, e enérgico que o de Camiaba, perém am- 
bas as traducçjies peccan) per paraphrxslicas, poiã lendo 
o original somente vinte e nove versos, Ibe correspon- 
dem sessenta e seis em Ferreira, e oitenta e um em Ca- 
miaba, DÚQieros summaiDeote desporporcíonados, ainda 
mesmo levando em conta o menor número de syllabas do 
verso portaguez comparado com o heiametro grego ; e 
oscircumioquios, que os dons Poetas estavam obrigados 
a fiizer para armar ao consoante: de certo que a liiada, 
ou a Odysseia traduzidas neste gosto, que de certo nSo 
éo bom gosto, triplicariam em portuguez asuaeslensSo. 
Por isto, e peias liberdades,' que ambos os Poetas toma- 
ram á cerca dos pensamentos, força é confessar, que ape- 
sar de Ferreira, e Caminha haverem traduzido direelamen- 
te do Grego, a graça, vivacidade, e barmunia do Idylio 
de Moscho estão melhor representadas na traduu;àk> de 
Bocage, pAsto que feita sobre uma interpretação literal em 
latim, que nas verbosas, e redundantes parapbrases de 
Caminha, e Ferreira. Compare o Leitor com ellcs « com 
o original os seguintes versos, e julgue. 

VcDus cbamava o lilho em altas vozes.i 
" Si algnem vio pelo campo (a May dizia} 
"Andar vagando Amor, esebe meo Fitbo, - ' ' 
"Heo lilho, que fugio; quem souber delle, - 
"Qaem noticias me der do m» Cupido .■. ' ■ 



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l msAio Moauraico cimeo, tdho m. 
"Premiado Bera, twn certo haffl beijo 
» Nos próprios lábios da amorosa Veons. 
oPorém, 8Í mo trouxer, terá ei^ia gloria, 
>i Cousas mais doces do qae liam simples beijo. 
«Entre MJdídds mil cSte Mioino 
■iPor difreotes signaes se reconhece, 
.. Nao tem cândida a tez, mas côr de fogo, 
..Sam seos olhos espertos, sciíriilantes, 
«Meigo a faHar, o coração maligno. 
>• Nunca sente o que dií, tem mel nas roíes, 
>-Mas toroa-se cruel, traidor, insano 
■•Apenas se enfnrece. He mentir«so, ■ - 

"Be sagaz, he cruel, athe brincando. 
«•Tranpa espessa, e formosa ao ar lhe ondêa, 
■>E em dourados anneis llie desce ao Coto : ■ 
sNasfaces lhe trasluz o ardor, a (nidacia, 
» Tem pequenina mão, porém tão Torte, 
>iQue arroja muito longe as fataes armas, 

■ itA's margens do Ãcheronto áa vezes toam," 
» E colhem descuidado o Rey do Inferno. 
••Seo corpo he nú, sua alma impenetrarel, 
i'Com azas, como hum Pássaro, voltêa 
hDo Sexo vigoroso ao delMl sexo. 
X Pousa nos coraçGes, e ali se aninha. 
>iN'him arco delgadinho aponta as fr^has, 
•> As frechas, que assim mesmo ténues, curtas 
M Se entranham pelos Ceos, alcançam love. 
■ Pejam farpas subtis a aljava de ouro,' ' 
- Que ao lado trai suspensa ; e dos seos liros 
nhlhe eu, s»s May, sou alvo ás vezW. 
«Tudo que lhe pertence iocloe estrago, 
•Mas nada do que he seo produz mais dano, 
»Que hunk curto, ardente, inextinguível fadlOj 
«O Sol, o proprioSol, com etle abraza. 
» Mortacs, si o encontrardes, eia, atai-o, 
wAtai-o, e muito bem, porque nSo fuja. 
» Si elle chorar, seo pranto não T4is mova 
cAotes desconfiai, seo pranto engana. 
- H Si elle rir, apeitai-Ihe os noz do laço, 
• Si quizerabraçar-vos longe, longe 1 
«Fugi, aãa voft fi^Sr abraços, beijos, 



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trmo 1*., cAHTUto n. 83 

: "Nada, naâa ! seus lábios tem peçonha, ' 
"Seos beijos eDMtiçam. Si elle acaso 
:»Vo3 dis9«t-aqui tendes estas armas, 
t-Tomai, eu.v6-lasdoii ^, náopegoeis ndlos; 
••Mimos de Amor sam pérfidos, e ardentes. >• 

-SiBocage doube^ '8 tingiia.grcga, é natural qne a 
na versão fosse ainda mais coiidsa : a pesar disiio, eHa 
tau meQO& Jriala versos que a (JB^amÍBiia, e qoinze que 
adeFeireira; e^que differeaça de metro, de estylo, de 
ÍKílidade, viveza, e naturalidade de espressio'! Mas. 
Bocage era um Poeta de oalareza, e os dons apenas o 
eram da arlc ; estes eram guiados pelo trabalho e o jui^ 
IO, e aquelle pek inspiração,, e o seotimento. < ' 

Pêro de Andrade. Camioba é na miaha opinião o dis- 
cípulo de Ferreira, que mais se lhe aproxima ' pela cor- 
recto, etegancia, nObreza de peoSantentos, e philoscH 
phia. H&o ignoro que quasi to(kis os Critica lhe prefe-< 
rem Bernardes ; mas si este tem ás vezes mais amenidar- 
(lc,,c imaginação, é também mais desigual, mais deslei-» 
xado, e iQcorreclo, e meoos instruído qne Andrade, e 
graade parte das suas poesias, afora as Éclogas, e Epis- 
tolas, se tornam smomameate ijustidiofias á força de phn 
saismo, e de idéascommuns; porque quaadodecahe nin- 
guém tem menos poesia do que elle, e haalamite Caioi-' 
Qha Dunca Toi nemaocusado, neiíi convencido de plaigíato,. 
como Diogo Bemirdes. ^ 



CAPITULO IH. 

Luiz de Camões, 



xlavemos peícorrido o espaço de alguns scculos, te-! 
moa visto a Língua, e Poesia Portnguéza, nascer, desetiir' 
rolver-se^ c tocar quasi o ponto da auia' perfeiçjo; e toHa-' 
via 'é agora, pelaprímcira vei, que (fncOntramçtf oiipieSa 
chama ura -Hoihem de Génio ! Isto è, umd^^déli^ ho-'' 



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84 XHSAItt UOdRAmCO CmidOi TOMO IH. 

mens raros, a(|aem é concedido abrir noTosoamlntos nas 
Artes, ou nas Sciencias, aperfeiçoar quanto i fizeram oS 
seus antecessores, marcar com o seu jtoaa o sewilo, 
em que viveram, ennobrecer a sua pátria, e captar a ad- 
miração da posteridade. 

Luiz de Camões fez isto; mas em desconto de tamanha 
gloria, veremos qoe foi do mito dasprdcelta9;'et»atras- 
tes da fortuna, das perseguições inínstas dos homens,» 
do ahysmoda pobreza, ouparameihordizerdaibiseíiat quC' 
este Génio raro elevou seu vôo aos astros, 'deiramaBdo 
de suas azas vigorosas o fulgor poético, queilluminou aos 
olhos do mondo as acçaes^ e feitos briosos dosFilbos da 
Lusitânia. 

Sete Cidades da 6re<^a disputaram entre si a gloria 
de liaver dado o berço ao Cantor deAchylles, e de Ulys- 
ses, e aao faltaram em Portugal poyoações, qne entre si 
sustentassem igna) pleito á cerca do Homero Lusitano;- 
Coimbra, Santarém, Aleoqner, Lisboa scdistingaem en- 
tre êsles contemdoref!, porém o assento de matricula na 
Casa da Índia das pessoas, que passaram á índia no an- 
uo de 19IÍ0, decidiu a questão a favor da capital do rei> 
no, pois ali sedeclara, que era natural de Lisboa, e mo- 
rador á Mouraria, e tinha vinte e dnco aonos de idade : 
á vista deste documento, descoberto por Manoel de Farfa 
e Sousa, parece-nre que sem grande escmpulo podemos 
abraçar com o mesmo Faria a opinião de qoe Luiz de 
Camões nasceu em Lisboa no anno de IKSJ, e foi bapti- 
fiado na Fregnezia de S. Sebastião, que nesse tempo me 
parece mui verosimil que estivesse situada em logar mui 
differenle daquelle, em que a vemos agora. 

Foi filho de Simão Yaz de CamCíes, e de D. Anna de 
Macedo, sua esposa, senhora muito illustre da villa do 
Santarém. 

Não era menos illustre pela parte paterna, pois aEBr- 
nam, que Simão Vaz de CamOes, seu Pai, descendia de 
Tasco Pires de Camões, chefe de uma das mais no)>fes 
casas, de Galliza, onde possuía grandes terra?, mas que 
baveodo com outros Sdalgos seguido o partido d'EI-Rei 
p. Fernando de Portugal, quando disputou a Coroa de 
Cast^i a D. Henriqpe por morte de seu irmão D. P&-. 
drot » via ii{i uçcesisidiíde de pas«ir-sà a Portugal, oa^ 



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'' ^ tfVM IV., CAinTKÚ «I, 83 

ÍM^EI-itflt D: F«rnaD^ o reoebeo beilgnantmte, adni- 
lincfo-o Bo sen Gonsrfhd, e o recòmpenson das terras 
qae perdera naGalliza, aomeaiulo-o Alcaide Mór doCas- 
tello dcÃIcanedo, e fazeiído-lhe metvé das Villas dePu- 
niiele, MarvSo, « Amêndoa; com o Concelho de Geslat^, 
e'ag terras^ e'hefdades, que em Estremoz, eAviz haviam 
«Mo da Infante D. Beatriz. 

Este Vasco Pires de GamBes, segando o lestemanho 
de Sarmiento, e do Harqim de SantílhaDa, ero uma 
Carta endereçada a» Candestavel D. Pedro, filho do Uu- 
qoedeCoiflibra, en Poeta invi affuiado, e delle affirma 
o mesmo Marqnec, qae em 'poder de sua avó, D. Meneia 
de Cisneros esistia um CancioHeiro com o titulo de Can- 
iieas Serranas e diãres Portugueses, y Gallegos. £ porém 
fliGíto probavel tfoe este Cancioneiro desapparecesse in- 
lõrameDle como a maior parte das poesias daquelle tempo. 

Vasco Pires de CamOes casoa em Portngal com uma 
Glha de Gonçalo Tenreiro, Capitão Mór das Armadas, de 
qu (eve aGonçalaVaz de CaraSes, JsãoVaz de Camfies, 
e ama Ulha, que casoa ron Pêro Severin, Cavalheiro 
Fnacez estabetecid* oeste retflo, que depois se dislin- 
{niu ■mito na «oaqnista de Ceuta, «ode flccompanhou 
D. João I. 

Darante o reiaado de D. Fernando nie ccssoa a Tor- 
tona-de ventar prospera' para os interesses de Vasco 
Pires de Camfies; mas as crises politicas, e a guerra ci- 
vil, qnetiveramlogar, depois da mortedaqacdleMonarcha, 
deÁrairam , como Acontece sempre em toes casos , o 
Edificio da «aa grandeza. 

Os. PorUtgoeã» dividírom-sfl então em dons partidos, 
o menos anmavso Vsaáo á sua frente a Rainha D. Leo- 
nor, viuva de D. Fernando, qaeria manter os direitos 
de D. Beatriz, Bainha de Castella, e filha de El-Ret D. 
FeTiuado; o nilis anmerAso, pois que nelle entrava o 
Povo, tendo í teita o Mestre de Avit, e o Coodestavel 
D. Nono Alvares Pereira, paguava pela independência na- 
cional, para qne não achava segurança, se não pondo o 
Sestro nas mSos do Uestre, Siho d'£UReÍ D. Pedro I. 
Ainda qne bastardo verdadeiro. 

QaeslSw de«ta nabireia ala so decidem seiáo pelas 



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ai^Biae, e parfl ellas appellaraio rosdofls parii(t)í, fr íílRAi 
dfí Casiella D. João I. entrou 09a um esercilo, ega Ptxr-t 
lugal para apoiar 9a imuesses ^esufi fepQsa. ' ' , - 
. Vasco Pírjes deCainSes, ou |>or gratidjki á uifmAria4c 
D- FerDat(do, a quem devia iMdo, ou por outro moli.vo. 
que oinguem pôde agora adviobar, seguiuio ^rtido de 
t:aslella ; e Toi aprisionado corp as armas na. mão ua gljt^ 
riosa batalha de Âljubarrots,^^, em cousequeacta.disso, pri- 
vado de Iodas as Urra», e fortalezas, com que fôra agra-r 
ciado ^r D. Fernando, Ucaodo reduzido ao que posEutá 
em Cxlrerooz, eAviz, e algumas propriedades em Alem*- 
quer, e Lisboa, que a clemência do Vencedor houve por 
bem- deixar-lbe disfructar. Com oproduclodestaspossi^ 
sOcs compraram depois os seus descendentes aí^amas 
herdades em Évora, e A.viz, que Manuel Severin de Fai- 
na, aa vida do Poeta diz, que ainda no seu temim eram 
por elles grangeadas, e cooliecidas com a denomiuaçiio 
de Camoeiras. 

loão Vai de CamOes, lilho segando de Vasco Pires, 
fes assignalados servidos a D- AiFonso V. nas guerras de 
Africa, e Castella, e foi sempre mui estimado daquelle 
jUoparcbíi; casou cofu Ignez Gomes daSlIva, Slhtt oatu^ 
ral de Jorge da Silva, lilho de Gonçalo Gomes da Silva, 
B irmSo de Joio Gomes da Silva, quej foi AKcrts Mór do 
Beino no tempo de D. JoSto 1-, e donatário de maitet 
terras., 

João Vaz de Camfieg tinha o sea domicilio em Coim- 
bra, cujo Corregedor era, epor nqudia cidade íoi nomea- 
do Procuradoras Cortes, que sectinvocaram durante a 
loenoridade deD.Affonso; naqudla. cidade lennínmi seus 
dias, e foi sepultado nocjauslro d»oapeUa daGalfaedral, 
eiii um monumento de mármore. -. , . . 

'SuLi filbo Antão Vaz de Camdes, oasou com D. Gia\o' 
naar da Gama, da família do AlmirasteiD. Vasco da Ga- 
fua, e delia teve a Simão Vaz dcGamSes, P<aii do nosso 
Poeta. 

, Os descendentes de Gonçalo Vaz de CamíSea, filho prí- 
mqfKiúto de Vasco, foram pessoas demuíta consideração, 
como se prova dos casamentos, que cpntrahiram nas ri- 
cas, e nobres casas, que aponta Manuel Severin de Fa- 
ria, e é deUes, que uiuitae [aBuUas.da ftlta aristocracia 



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IITIO IT-, CAriTBlO ai. 17 

receberam o appellido de Camões, qa« aJnâa hoje con- 
Eerram. 

Luiz de CamOes logo emseus primwros anãos dcB evi- 
dentes demoDstrac&es do que viria & ser para o futuro, 
tanto pela viveza, e desembaraço, como pda Tacilidade 
com qoe apprendia todo quanto lh« ensiDatem. Teri&iua- 
do o estudo das primeiras letras passou a frequeotar a 
Daiversidade, que El-Rei D. João lU. aeafcava de trans- 
ferir para Coimbra, oude fez rápidos progressos, lornan- 
do-se mui hábil na lingua latina, castalhafia, e toscana, 
na Historia antiga, e moderna, e com e^iecialidade na 
pátria, que soube perC^taneate, aa Geograpbia, Astro- 
nomia, e em todas as scieucias ntaiores, que então se 
cQllivavam, vindo porestemodo a ser um dos homens mais 
ÍDStruidos da seu século. 

Foi em Coimbra, qu#Luit deCamCes começou afazer- 
se conhecido pelas .suas poesias ; grande parte dns rymas 
foram sem alguma dúvida compostas nesta epocba, por- 
que neJIas a cada passo se faz luensão do Mondego, e 
das suas apraziveis margens. Também parece que ali 
sentiu pela primeira vez a paixão aiaoresa, e é muiio 
probavel, que aNatercia, acujorespeitotem havido tan- 
tas disputas, etantasopiaiOes, fosse uma Nymphadaqnel- 
las aprazíveis campinas. À ella, e a «lias parece que se 
referem-esles versos, talvez os melhores de qsastos até 
então se haviam escripte em portaguei. 



Vam as serenas agoas 
Do Monde^ deseeadn, , 

£ mansaneste athe o mar uS» |Miram': 
Por onde as niabaí magoas: 
Poiteo apditico crescendo. 

Para ^unoa acabar se começaram. - - 
Ali se ma mostraram 
Neste log^iMueno, 
Em que inda agora mouro. 
Testa de nave, e de owoi 

Biso brasdo, e saavo, lolbar sereno^ 
Bum gesto delicado. 

Que seinpn it'abM me estará pialadu. 



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I ENSAIO BIO6IUPHIG0 CRITICO TOllO, 111. 

Nesta florida Teita 

Leda, fresca, e serena, 
.Lédo; e contente para mim vivia ' ' ' 

Em paz com minha guerra, 
. Glorioso co'a peaa, 
Que de tSo bellos olfaos procedia, 

De bum dia em onlro dia. 

A esperar me enganava, ■■ 

Tempo longo passei, 

Com a vida folguei 
Só porqaç em bem tamanho se empregava. 

Mas qoe me presta já, 
Qne tio formosos olhos não os ha? 

Oh quem me ali dissera, 
Qoe d'amor tão profundo 

O fim pòdesoe vér em al^ma borá I . 
É qaem cuidar poderá. 
Que bouresee ali do MfindA 

Àpartar-me ea de vós, minha Senhora t 
Para que desde agora, 
Já perdida a esperança, '' 

Visso o vio peasamento 
Desfoito em hum momento. 

Sem me poder ficar mais na lembrança! 
Que sempre estará firme 

Atbe no derradeiro despedir-rae. 

Mas a mór alegria. 

Que d^qui levar posso, '< - 

E com qoe oefeader-me (riste espero : 

He que Dança sentia 

No tempo,r em que fui vosso, 
Querer-des-me vós quanto vos eu quero ; 

Porque o tormento fero 

De vosso apparutneato. 

Não vos dana tal peoa ' 

Como a- qie me condena, 
Qae mais sentiroi vosso seatnaento, ' 

Que o que a, minha alma senle. 
Moura eu^ Scabóra, e vós tkai coat«iil«. 



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tlVM IV., CAKTtflft III, fiS 

Ta, Cançio, estarás 

Agora accompanhando 
Por estes campos eslas claras agoas, 

£ por mi ticarás 

Com choro snspirando. 
Porque ao iíuaio diteodo tantas magoas 

Com huma larga historia 
Hinhas lagrimas fiquem por memoria. 

Terminados os seus estados, ao qne parece em 13Í8 
sahio Camões da Universidade, eregressou alishoa cheio 
de idosaes , e de esperanças, que lhe sopravam os seas 
«mbecimentos literários, sua oobreia, mérito pessoal, e 
maneiras polidas, e elegantes. Bem acolhido de todos', e 
com especialidade das Damas, compôs nessa epocha a 
maior parte das suas rymas, traçou o plano dos Lusíadas, 
e den principio á sua composição. 

Que elle composesse grande parle do seu Poema antes 
de partir para a-India rae parece fór» de toda a dúvida, 
e muito mais á vista da assersSo de Manuel de Farta e 
Sousa, qne affirma ter achado em Madrid em poder de 
PedroCoelho, um manuscripto dos primeiros seis Cantos 
dos Lusíadas, que o confirmaram em algumas opfniOcs, 
qne havia aventurado a respeito das obras do AuUior. 

Accrescenta, qoe aquelle mannscriplo se asscmilhava 
ao caracter de letra dealgumas obras deJoao de Barros, 
qoe tinha visto. Foi examinado por D. Thomaz de Var- 
gas, e João Pinto Ribeiro, a quem Faria e Sousa o com- 
muaicou, e nelle havia muitas Estancas, que se não en- 
contram na obra impressa, algumas emendadas, e outras 
alteradas, e era accompanhado da seguinte nota, ou ob- 
servação, « Estes seis Cantos se furtaram a Luiz de Ca- 
Ules da ohra, que tem começado sobre o descobrimento, 
econqaista da índia por os Portagneses. Vam todos aca- 
bados, excepto o sexto, que posto vai aqui o fim delle, 
iFalta-lhe nma historia de amores, qoe Leosardo couloa 
estando vigiando, qtae bade prosegnir Bobre a ryma qua- 
renta e seis onde togo se sente bem a falta delia, porque 
fica fria, e curtia a conversação, e o próprio Canto mais 
breve. 
Esta prova mé parece encontrastavel, uma t^ que nSo 



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90 tXSAIO BIOCBi^f» CU-riOOi TOMO III. 

queiramos duvidar da seiic«ridade de Manuel de Faria e 
Sousa, aquém, cornojánetei emoutra parte, poderá dar- 
se anota de Critico pouco judicioso, mas de sorle uenhu- 
ma 8 de impostor : admitto por isso a sua exposição, e 
muito mais porque estoa persuadido ficmemenle de que 
obras do calibre dos L^siajlas podem ger coaclwdas; mas 
ntiDca concebidas, epripcipiadas no meio das tribulações, 
dos desgostos, da miséria, e da inquietação de uma vida 
errante, abbrevada de desgostos. 

K porém certo, que ^i Camões naquella eppcbaandava 
bem visto, e applaudido na corte, também é certf», que 
sem embargo de estar apto, ebabititado para bemdesçni- 
pcnbar qualquer cargo, não pôde consegnir emprego no 
serviço público; parece que já começava a pesar sobre 
elle aquelia inesoravel fatalidade, que devia accompauha- 
lo toda a sua, vida, e toroa-lo, para nos servirmos da 
expressão de Chateaubriaud a este respeito, o tnai$ des- 
graçado dos homens. 

Dizem que algumas travessuras de mancebo o fize- 
ram desterrar da cdrte , mas ÍDgenuamenle confesso , 
que esse desterro é para mim muito duvidoso; todo o 
fundamento dessa supposiç^o assenta na Elegia III., que 
se tem tomado como lamentação de um desterro, quando 
me parece, que esse .desterro não é mais que ausência 
da sua amada, cuja saudade el)e compara á que Ovídio 
sentia por sua esposa no seu exílio entre çs Getas : é isto 
D que me parece dupreltender-se do seguinte Terceto. 

, . Desta arte me figura a pbaatasia: . 
A yida, com que morro, desterrado, 
Bo bem, qve em outro tempo jpotsui». ■ 

, Qneixa-se o Poeta de ser punúlo sem raxSo, € <xtm 
pouca eulfia, mas em vez da invtcMvar confra a- falta de 
justiça, a prepotência, oa:o a|)nso do poder, eono faria 
qualquer httBwiDÍBJustamemte.opprimido, reoerda ó6-gofr* 
los passados.e lamenla^amudanpa da vi^. 

. Aqni flontem[do o goslo já passado, 
Que nunca passará pela memoria 
De quem- o traz na neote. debuxado. 



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HVBe IV., CAPiTOL»-Ut. ' SI 

Aqui Téjo,eaditcB, 8 débil gloria 
Deseugaiiar meo erro «o' a mudaiça, 
. Que faz a frágil vida irausitoria. 
Aqui me represeata esia lembrança 
Quão pouca culpa teubo; e me ealnstece 
Vér sem razão a puna que me alcaafa. 

Não indica islo, que o Juiz que Ibe impAzera o degre- 
do fora o enfado da sua Dama t Note-se além disso, que 
os seus Biographos, aílirmando o facto, se contradizem 
acerca do logar desse desterro. D. José Haria de Sousa 
diz, que foi degradado para o Ribatejo, outros dizem, que 
para Santarém, outros, que para Alemquer, de certo que 
esla variedade faz duvidar da certeza de facto, e o mais 
é que nenhum delles aponta o motivo desse tao fallado 
desterro. 

Seja como.tôr, o qae parece é que o Poeta perdendo 
as esperanças de ser empregado em Lisboa, e sendo de 
eorapão animoso, e valente, quiz tentar fortuna peio ca- 
minho df|s armas : e se embarcou para Ceuta, onde sen 
fai então militava; alideu repetidas provas doseu valor, 
6 do seu engenho ; do primeiro combatendo bravamente 
os Uouros, do segundo compondo muitas poesias, que se 
conservara, eqne do eeu contbimdo se y& que foram pro- 
duadas em Africa. Por exemplo^ estes Tercetos. 

E com .isto figuro na lembrança 
A nova tH-ra, e novo tracto humano, 
A estrangeira Progénie, a estranha usança. 

Sttbo-me ao m(«itc, qne Hercules Thebano 
Do altissimo Calpe dividio, 
Dando caminho ao mar Mediterrano. 

Dali estou tenteando d'onde vio, 

O Pomar das Hespérides, matando 

' A Serpe, que a sco passo resistio. 

£stou-me em outra parte figurando 
O poderoso ÃAtkeo, que derribado. 
Mais íiaça m lhe vinha accrescentando. 

Foi emCeulf, que o Poeta conli-ahiu estreita amisa- 
de com D. António de Noronha, filho de D. Franciece 



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92 ENSAIO BionAraiM cftitico, tono llt. 
de Noronha, segonlo Conde de Linhares. Êra este fidal- 
go mancebo de grandes esperanças, dotado de um valor 
heróico, grande admirador de Luii de C»«i(íes, que de- 
pois deplorou sua morte na Eckiga I. 

Tão prompto no serviço de Apollo como no de Harte, 
ou sirvindo-rQos da sna plirase 

N'baina mio. ^mpre a espada, e n'0Btra a penna. 

Passava CamSes os seus dias em Ceuta, assistindo a 
muitos combates, tanto por terra, como por mar; eft» em 
um destes que, combatendo ao lado de seu Pai, perdeu o 
o olbo direito, a cuja deformidade deveu, se^sndo am 
informa Severjn de Faria, a alcunha de Cara sem olhos, 
e de Diabo, que lhe pôzeram as mulheres. 

Persuadido de que os seus serviços militares de AJ^íca 
lhe davam direito a ser recompensado, vtdtou a Lisboa, 
a continuar ávida de requereute, que si não é neste mun- 
do o inferno, é pelo menos o purgatório dos. homens de 
mérito. Também desla vei oengemaram suas esperanças, 
porque encontrou o mesmo desfavor no tiuverao, e o que 
mais é tal inveja nos seus competidores, que chegaram 
a ameaçar sua vida, e poslo que a sua espiída fez arre- 
pender alguns, julgou {vudcnte hir buscar no Oriente a 
segurança, e a fortuna, que dclle fugiam na Europa. Isto 
se collige da seguinte passagem de uma Carla sua, que 
anda nas suas obras «Èmilim, Senhor, eu não sei como 
me pague saber tão bem fugir aos laços, que nessa' terra 
me armavam, os acoDlecimentos como com vir'paraesta, 
onde vivo méis venerado que os touros da Merdana, e 
mais quieto, que a cela de um frade pregador. » 

Do citado assento da Casa daludia, se vé, que elle e^ 
lava prompto a partir para a índia em o anu» de ISSO ; 
mas de outro assento, que Faria também ttoscobrin, se 
conhece qiie elle deferiu a viagem, sem que se saiba o 
motivo, e s» a effeclDou em 15S3, embarcando na mes- 
ma nau, em que.bia Fernão Alvares Cabral, Conman- 
dante de uma Irota de-quatro, que ântão sabiu da Barra 
de Lisboa, c de que só a capitania pôde chegar nessa 
anuo flG^, depms desoffrer muitas tempestades, éperi- 
fios d« perdfer-se. 



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UTKOIT., CUmiU) III, 93 

Qoe o Poeta hia na firme resolaçao de nSo totoar a 
Portugal é cousa qne não admille dúvidas, pois em una 
carta sua, escripta de Gfta a ura amigo, elle refere, que 
as uliinsas palavras, que prononciou aoaffastar-se dacos- 
la foram as de Scipião Africana «Ingrata Pátria', lu» 
fo^detris ossa mta! Tjo enfadado liía do mim aocolhi- 
neoto, que na cArte haviam feito ao seu mérito, e aos 
seas serviços. 

Chegando a Góa, «m Setembt-o do referido ann», em- 
barcou logo, na qualidade de volflntarío, na armada que o 
Vice-Rei D. ^obso de Nor«»faa baria aproiQplado para 
hír restituir ao Rei de Porca ana Ilha, que lhe havia 
sido usurpada pelo Rei da Pimenta ; o qoe facilneote sa 
conseguiu. É notável a simplicidade com que o Poeta 
narra este succeeso, na soa Elegia I. ' • 

"Vi qoanta vaidade em nós se encerra, 
E nos próprios quara poaca; contra quem 
Foi logo Becessafio temos guerra. 

Que usia llfaa, que o Bey de Porca t«m,. 
E qne o Rei da Pimenta lhe tomara. 
Fomos tomar-lba, e succedeo-nos bem. ^ 

Com huBia grossa armada, que jtiiit^ri 
O Viço-Rey de Gèa nos partimos. 
Com Ioda a G^le d'arra3s qtre se achara. 

E com pouco trabalho destmímos 
A Gente, no çncvo aroo exercitada, ' < 

Com mortes, com íficendtqs os pwiimos. 

Era a Ilha com agoas alagada. 
De modo que se andava em Aloudías, 
Em fim outra Veneea trasladada. 

Em 1S5I chegaram as aaus do reino, e nellas D. Pe- 
dro Mascarenhas, que vinha render a D. AfTonso ; e foi 
por estas naus, que o Poeta recebeu cartas de Lisboa, 
em que lhe davam BOtioia damorle do sen. intimo amigo 
D. António de Norosba, e do PHnbipe D>. JoSo. Amtus 
estas noticias fizeram ndle grande abaid, a primeira pe- 
la |Krda de um amigo sincero, em quem podia fundar 
esperanças para 'O fatoro , « 8ègsnd».c6ina'tliná oakimi- 
dade pública, que puiútcfo^ imigo a Uidepeadjeuola d» 



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94 ENSAIO BIDdHAFHlGO CltlTIGO, TOHO III. 

reiao, e havia selle demasiada penetração para nSo pre^ 
ver 03 males, qae dabi podiam resultar, e de qne elle 
ainda foi testemuha. Consutte-se a Écloga I., e se veráv 
que elle propbetára a Tutura sorte de Portogal, e a de-^ 
cadencia da sua grandeza. 

Apeoas onovo Vice-Rei tomou posse do governo, cní-' 
doa logo em aprestar oma frota, que entregou a Manoel 
de Vasconcellos, ordenando-ltic que Tosse com'etla cruzar 
oa emboocadura do Mar Verme^o, e destrotr os Coraa~ 
rios Mouriscos, queiorestavam aquellas paragens, causaa- 
do graves prejaizos no oommercio portugméz. ' - ■■ 

Luiz de CamCes fez parte desta expedição, que ahia 
de Gôa no mez deFevereiro, e dirigi[i(Io^se'ao seu- des- 
tino, andou bordejando muito ti^mpo diante d« Cabo 
Guardafu, sem que os Piratas apparecessem,' naturalmen- 
te porque haviam sido avisados pelos st^us couddentcs ; 
tendo passado a monção foi invernar a Ormuz. ' 

No serviço da Marinha militar oão iia nentiuai tão fas- 
tidioso, e cançado como o de ora cruzeiro, velejar Sem- 
pre nas mesmas paragens, sempre com os mcsnros objec- 
tos á vista, é para impacientar o animo mais apalhico. 
Luiz de Camões temperava este longo enfadamento com 
o cultivo da poesia ; que em todo o tempo, e ,em todas as 
occasiões dcstrahe a nossa imaghração, e gfangea algum 
desafogo ós nossas amarguras ; ontreás poesias, por elle 
compostas durante o tempo daquelle cruzeiro, eonta-se a 
Canção X., uma das suas mais bellas producçôes íyíicas, 
que começa com a descripção do Monte Feliz. > 

Junto de hum secco, duro, estéril monle 
Inútil, e despido, calvo, imforme, 
Da Natureza em tudo aborrecido. 
Onde nem Ave vôa, ou fera dorme. 
Nem corre claro rio, ou ferve fonte, 
Nem verde ramo faz doce ruido ; 
Cujo Bome do vnigo introduzido 
He, feliz por antiphrase, infelice : 

O qual a Natureza 

Situou junto ã parte 
Aonde bum braço d'alIo mar reparte ' ' 
A Abassta da Àrobicft tspereia, 



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imio it:, cáWTrao m. ■ ■ 95 
Gm que ruu^lada foi já Berenice, 

Ficando á parle (I'onde 
O Sol, que nella ferve, se lhe esconde; 

O Cabo se descobre, com que a Cosia 
Africana, que do Anslro vem correndo, 
Lemíte faz, Arómata chamado; 
Aromata outro tempo, que volvendo 
A' roda, a ruda lingoa mal composta 
Dos próprios outro nome lhe tem dado 
Aqai no mar, que quer npressurado 
Eiltrar pela Garganta deste braço, 

Mc trouxe hum tempo, e leve 

Minha fera ventura. 
Aqui nesta remota, áspera, 'c dura ' 

Parle do Mundo, quiz que a vida brere 
Também de si deixasse hlim brcVe espaço; 

Porque ficasse a vida ' ■ 

Pelo Mundo em pedaços repartida. &c. 

Quando esta esquadra voHou a Gfla, cm Outubro áo 
anno seguinte, já era failecido Pedro Mascarenhas, e 
cm logar delle tinha tomado as redéas 
cisco Barreto, homem vaidoso, snberb( 
despótico. Vicios estes que evidenlemei 
pelo etame reflectido dos actos do seu 
rio, que os homens dcstecaractcr nSog 
se senão delisorgeiros, e espirilos abje 
dam os seus desvarios, e fraquezas, e s 
puto os seus caprichos, e ãs suas páíxS 
isso todas as superioridades, e muito 
literárias ; além deste motivo para ai 
tinha Francisco Barreto outro,' de que 
menfão. 

Não admirará pois, que no seu Governo príncipia^^seni 
as perseguições, e trabalhos do Poeta naqoclla parte d« 
inundo. Conhecida a mé vontade do Governador, os Sv- 
cophantas da sua cevadtíra, os emulos, e os Snvejosi^, 
aproveitando o insejo, deram obra a detrahi-lo, ca- 
lumaia-to, cnvenenarassuasiotensões, obras, epalàvras, 
eBarrelo, que não procurava senfio um pretexto, por ua 



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69 IMSAIO BfOOlAFICO CBITICO, TONO III, 

daquelles aclos despóticos, e arbitrários, emqaet&o pou- 
co escrupulosos samosque tem oGoverno' enterras mui 
distautes da Metrópole, o fez meter a tiordo de um navio, 
que estava a partir, e o mandou deitar nas Molucas. 

Um procedimento seiuilbante praticado ainda contra o 
homem mais humilde da sociedade, sem causa baGlante, 
sem processo, ou formas legaes, sempre seria altamente 
rcprebensivel, c vergonhoso para quem o praticasse: mas 
praticado com nm homem nobre, um literato disliocto, 
am militar valoroso, que honrara a pátria com a penna, 
e com a espada, e o que é peior aiuda innocente, é na 
verdade um attentado, que imprime uma infâmia eterna, 
e a execrefão da posteridade no nome de Francisco Bar- 
reto. 

Assim o entendia o Poeta, como pôde vôr-se destes 
versos da suaparapbrase do Psalmo cento etrinta eseis, 
em que compara os seus trabalhos, e padecimentos com 
os dosHebreos, transportados em ferros para Babilónia. 

A pena deste desterro. 
Que eu mais desejo esculpida, 
Em pedra, ou em duro ferro. 

Tinha tuSlo, porque para completameate vinga-lo, pa- 
ra desbonrar Francisco Barreto, bastava que a posteri- 
dade soubesse, que elle abusara da authoridade , que o 
Bei lhe conSára, para o perseguir sem causa, para o 
mandar innocente, não desterrado por sentença judicial, 
mas arrojado para as extremidades dos domínios portu- 
guezes na índia, sem tempo, nem logar limitado; como 
individuo iscado de peste, que se arroja para além das 
fronteiras I Resentido de tão iníquo, e bárbaro procedi- 
mento, na mesma parapbrase exbala o Poeta. a sua in- 
dignação, e invoca a justiça de Deos, e da posteridade 
contra os monstros, que o perseguiam. 

No grão dia singular. 
Que na Lyra em douto soía 
Hierusalem celebrar, 
Lembrai-vos de castigar 
Os ruins Filhos d'£dom. 



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una t9,, GATimo- m. g? 

Aqndles.-qae tintos vam 
No pobre sa&gue ioDoceate, 
Soberbos co' poder Tam, 
Arrazados igualmente 
Conheçam qne bnmanos sam. 

Neste penosa desterro vagon algum tempo pelas Ilhu 
de Temate, e Thidore, padecendo, e poetando, até que 
passou a Macau. 

Nesta cidade pôde em fim desrroctar algum descanso, 
e escapar per alguin tempo á miséria. O ^nado daquel- 
la cidade, compadecido da sua desgraça, e fazendo jus- 
lifa ao seu merecimento, the deu a serventia do Officio 
de Provedor dos Deruntos, e Ausentes, com cujos pro- 
Teilos pôde satisfazer as suas necessidades, e ajuntar al- 
,gom pecúlio. 

. Ha em Macau uma gruta, situada na praia Occidental 
do Promoutorie, defronte do porto. E uma vasta escaviH 
ção nos rochedos, que aSirmam, que boje é um dosprín- 
cipaes obj(»;ios de curiosidade para os estrangeiros, quo 
apportam áquella terra, pelo nome de Gruta de Camltes, 
qoe Ibe deram, e por uma grosseira imagem do Poeta 
^i gravada na rocba, não se sabe por quem. 

Poucos sítios haverá, que apresentem á vista um qua- 
dro mais estenso, e pictoresco ; a uma parte descobre-sa 
Uacau com os seus campanários, e castellos, a outra ver- 
dejantes Ilhas, Bosques, e Quintas, que bordam a costa, 
e amontanba erguendo-se magestosamente em forma pyr 
ramídal, realçaudo com seu aspecto sombrio esta paizagem 
da Datoreza. Aqui é fama que o Poeta, de que ora a Gruta 
(eoi o nome, costumava retirar-se, para meditar emsoco- 
go nos grandes quadros do seu Poema, que foi alfim ter^ 
minado uaquelle aprazível retiro. Assim Vergitio abendO' 
Dando O bolício uegocioso de Roma, se acolhia nas caa- 
pinas de Nápoles para dar á posteridade as Georgicas, c 
a Eneida. - 

Talvez que os annos passados neste remoto Estabeleci- 
mento, situado ás portas da China, sejam os únicos tem* 
pos de felicidade, que o Poeta desfructou em buq vida-l 
Quaotas vezes em Gõa, em Moçambique, em Lisboa na 
»aa}K)bre babítafãa da Calçada d& Santa Apna, se ofte 
3 



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9è CTSAw MòflíArtm»' o»iftcoV«»o m. 
recordaria com saiiíade, e lagrimas da hospitalidade dos 
bons, e benéficos Macaeases, da sua GruU, onde passa- 
ra tanias horas de embreagaez poética ! Quantas vezes, 
comparando a sua situação alj, e o tracto amigo daquel- 
les habitantes com a situação miserável, em que se,acha- 
va e o abandono, era que o deixavam perecer os seus 
éencidadaos ingratos, nSo maldiria, eliecm seu desespero, 
a fitai lembrança dedeiííar aqaelte porto tranquiHo para 
vir buscar na pátria o desamparo, e a fome 1 

Bm 1^S8 chegou á Ihdia D. Cimstaslino de Bragança, 
jnnão do Duque do mesmo titulo, despachado Vice-Rti 
jHira BUccedei- 8 Frantisèo Barreio, que lhe entregou © 
governo cotn grande descontentamento dos seus parcíaes, 
que eram mnilos, porque se compunham da gente mais 
corrompida de 6ôa, n'um teapo em que a desmoralisa- 
ção, e o desenfreamenlo dos costumes tinham chegado 
ao maior excesso, e toda aquella^ caterva corrompida se 
receiava mnilo de D. CoUstantinb, qúe vinha precedido 
da reputação de homem probo, hoUCsto, e de costumes 
ligidos, e que ilDpnnha ainda mais respeito pela suaqna- 
lidade dã Príncipe de sangue rgal. 

D. Constantino n3o desmentiu a idéa, que detle se ha^ 
via formado, poi^ corregiu muitos abusos, muitas delapí- 
dafOes de Fazenda Pública, e trabalhou principalmente, 
em quanto esteve é freute dos negócios, para enfrear ft 
dis&^uç3e dosoofitames, que hia preparando a nossa deca- 
dência no Oriente, que ã neurpaçSo hesponhola oSo fefc 
itiais que acceletar depois. 

Observando oPoeta d bom r«giroen, qoe sehia fazendo 
Sentir neste tíce-reinado, que por desgraça bSO foi Ioií- 
go, havendo concluído o seu E^raa, enSo restando mais 
^ue o trabalho das correcções, e retoques indispensáveis 
«m obras de scmilhãnle natureza, couliando Ba justiça 
^ D.Constantino de Bragança, lhe endereçou suas quei- 
xas, esuas justificações, o negócio era:clar0j a violência, 
e a injustiça manifestas, eoYice-Rei sem diflicnldadb lhe 
-bouve por levantado o desterro, 
-. Apromptou-sc pois o Poeta, psra voltar a G8a, roas a 
sua adversa fortuna fes que a nau, que o conduzia', d&t- 
se em un!i baixos aa costa de Cambaia, pouco distante 
4a fte de Ri« M«ceD; e «li ^despedaçasse, perdendo « 



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uvia iY„ UMnii» m. gg 

Poeta oestensofragio Mo. qaepossuí«, salTasdo-seaoe- 
Bas com o 8ea Poema, li«,ado como iUe «««a dij m 
Estanca oitenta do Caulo seUmo. ^ 

Agora da esperança já adquirida 
De novo mais que nunca derribado. 

Os moradores daqttella costa o receberam com tanta 
hospitalidade, qae o Poeta resolveu moetrar-ibt a sua 
gralidío accrescentaiido este eJogio ao Bio Hecou oa £&! 
tan^ cento e vinte oito do Cauto decimo. 

Este recebera placfdo, e brando 
Em seu regapo o Canlo. qoe molhado 
Vem do naurratçio irisíe, e misetando 
Dos procelosos baisos escapado. 
Das fomes, d«s perigos grandes, quando 
Será o duro nuodo executado 
fíaqnelle. cnja Lyra sonwosa 
Será mais afamada que ditosa. 

Naquellas paragens vagoa por muito tempo,. até depa- 
«r mmo, que o conduzisse a Gâa, onde chegou no imt 

Pa« captar a benevolência do Vice-Rei, e graBKew 
nelie am defensor contra os inimigos, q»e . o cercnvl». 
Ide dcfigm aquella aagpígca Epistola, que principia 

Como nos tosios hombros tão coastandes, 
Principe iliuslre, e raro. sustenteis 
Tantos aegQcios graves, e impoftaoíes. 
Dignos do largó injperio, que regeis, 
Come sempre nas armas rjililaales 
Vestido, o mar, e.a terra segureis. 
Do Pirata insolente, c do Tyranno 
Jngo do potealissimo ÍHbomano. 

Nesta formosa imitaçio da Epistola de Horácio a Au- 
gusto, dinge elle áqqeUe Principe louvores qbe nâo ex- 
cMem as raias da decência, e quaes um iomem de le- 
iiís, digno deste honroso íitulo, pódclrilalâcaumGran- 



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lío rasíioMofflíWn» amim, «no iii. 

i. sem eilYÍIIcer-sl>, o aconselha sobre tado_ a nSo tot 
ooviteaMle»"!»». '""i"'"' e calummadores, liçio 
moilo imporunle paca lodos, e mmto mais para o. qa. 

%a"reKencU de V. ConstantiBO nlo foi Cam«es perse- 
mido e poode iranqnillamenle empregát-se ao aperfei- 
foaménlo dos Lusíadas, coaviveodo amisaTelmenle com 
llions fidalgo», oojo nome ligora hepoicamenlc na kis- 
•ofia e gne como elle exerciam o mrster das arai» e 
"olliravam a poesia. Tae» eram Heitor da Silveira Vai- 
CO deilaide. Mo Lopes Leilão, D. Francisco de AUnei- 
da e outros de igual nobreza, e valor. 

Tanto porém qne D. Constantino de Bragança regres- 
sou ao reino, saccedendo-lhe no GoTerno D. Francisco 
Coulinbo Conde do Bedondo, logo os seos inimigos co- 
inecsiram'a tramar contra elle, e conaegniram faíc-lo 
irender e processar por malrasaçSes, cometudas, se- 
inndo elles diziam em Macau, no eaiercicio do seu cargo 
de Provedor dos Defuntos, e Ausentes. O pretexto era 
na verdade absurdo, é ridículo, pois que elle antes de 
EUa partida doquella cidade havia prestado suas contas 
TOrante o Senado, que lhas approvira. Os seus calom- 
iiadores o sabiam, mas que emportava issoí Se o sei 
fim era atribula-lo com penosa encarceraçSo, e as de- 
longas e despeza de um processo? Depois de muitos in- 
«jommódos, e padecimentos de áspera prisSo, quando de- 
pois de plenamente justlBcodo, hia a ser posto em lihei^ 
âade um homem táo nobre de linhagem, como vil de 
comportamento, chamado Miguel Bodrigues, de alconha 
o Fios Seccos, aliás rico, e abastado, teve â barbaridade 
inaudita de o embargar na cadêa, por duzeiítos cruzados 
de que dizia ser-lhe acredor 111 

Vendo-se neste novo, e inesperado vexame, o Poeta 
recorreu ao \ice-Rei, dirigindo-lhe este gracioso reque- 
rimento. . 
Que Demónio ha tSo danado, 
Que não tema a cutilada 
. ■ ' ■ Dos fios seccos da espada 
Do fero Miguel armado? 
Pois si tanto hum golpe seu 
fida na iofental carileia, 



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im« iT-, cunuLs iir. loi 

Do que o Oemooio arreceia, 
Cnno não Tugirei eu? 

Com raiSo lhe Tugiria, 
Si contra elle, e contra todo, 
NSo tivesse hum forte escudo 
Só em Tossa Seaboria. 
Por tanto, Senhor, provt^a 
Pois me tem ao remo atado, . 
Que, antes que seja embarcado, 
Eu desembargado seja. 

Istea uUifflos versos alladeta i cireuastaocia de estar 
eatão o Governador em vesporas de embarcar em orna 
eipediçâo, qae tinha por «bjecto bir aEseniar pazes com 
« Samorim, expedição, em que alguns dizem, que tam- 
hem Luiz de Camões o accompanhira, pteto que aio 
exista prova sufiiciente desta assersão. 

O que porém parece demonstrado, é que todos os an- 
nos, que o Poela ainda permaneceu em Gâa, Foram 
dependidos, e empregados já ao {lolimento, e correcção 
do sen Poena, já nas espedífSes marílimas, que tinham 
logar para assegurar a costa, e alimpar aquelles mares 
eoQlinoamenle Infestados pelos Corsários Mouriscos, e In- 
dianos, que os infestavam com grav« prejuízo do nosso 
Conimercio, e grande risco dos Pescadores, que abaste- 
dam a cidade com a sua industria. E porém mui digno 
denotar-se, queDioge do Couto, oas suas Décadas, não 
especifique acção algnma de Luiz de CamOes, ao passo 
qae confessa, que fára sen maíatote, e Camarada, o que 
não podia verificar-se senão nas viagens, e expedições 
ffiaritimas. Qual será a causa deste silencio? Ódio, ou 
inveja aScpòác ser, vistoo notório caracter de franqueia de 
Diogo de CouU), que além disso era «migo do Poela : tt^^ 
bem não é crivei que este se portasse cobardemente, oa 
guando fosse occasiâo de vestir as armas, se recusasse a 
isso; pois é conhecida a sua liravura, e espirito militar ; no 
entanto o facto eisiste, e quanto a mim nSo podia nascer 
smio de medo, que o Bistoriador tivesse de altrahir so- 
bre si alguma persiguífão da parte dos poderosos inimi- 
gos do Poela, que nunca lhe perdoariam os elogios trí^ 



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102 ENSAIO BIOGBAraiCfl CUTtCO, 741(0 III. 

botados a um homem, que elles detestavam • Couto deyía 
conbece-Ios, saber o que podiam, e o que costumavam, 
e por isso se acautelou prudentemente. 

Seja como fAr, aesta epocba, isto é, aoteffipo quecor- 
reu de 1553, a 1501, indubitufelmente pertence a com- 
posição de muitas das suas rymas, e talvez as melhores, 
como fructo da madureza do seu engenho. 

Porém os aonos, bíara rapidanieate correndo, e com 
e1les se desvanecia aesperauça de fazer fortuna no Orien- 
te; e então o Poeta começou a recordar-se da pátria, e 
a contemplar como sua única taboa de salvação o Poe- 
ma, que acabava de compor. Cônscio de que havia le- 
vantado ás glorias portuguezas um monumento eterno', e 
mais solido, que as Pyramides do Egypto, pensava ter 
graogeado direito á estima dos sens concidailfios, e ás 
recompensas d« Governo! Mas esta esperança era uma 
illasão! A poesia nuaca foi em Portugal um meio de fa- 
zer fortuna, e nada o prova tanto como o seu exemplo 1 

Era pois o voltar ao reino o objecto continuo das Stias 
diligencias, e dos seus desejos, e nestes pensamentoi 
andava metido, quando um parente do Governador Fran- 
cisco Barreto, que tão barbaramente havia perseguido o 
Poeta, por nome Pedro Barreto Golin, foi despachado 
Capitão Morde Çofala, por morte de Fernão Martins 
Freyre, que occupava aquella Capitania. 

Pedro Barreto aventando qoe o Poeta estafa descon- 
tente de habitar em Gôa, se dirigiu a e)le, e « força de 
rogos, promessas, e propostiis vantajosas, o redoziu a 
accompanha-lo ao seu novo Governo. £ necessftfjo que 
CíiraOes fosse um homem bem sincero, ebem pouco pres- 
picaz, para coníiar-se naá boas palavras de um hoiuem, 
qae era- próximo parente do seu maior inimigo, do sen 
nrais bárbaro perse«tiidor. S6 esta pouderaçtíi devia ser 
i^toute para regeilar logo como suspeitas todas as vatt- 
Isgens, que lhe prumettia ; mas nem aíndigeoeiaealcuia, 
ném os homens do grandes talentos costumam saber re- 
gdtar-se &os ttegoci6s da vida commum. 

Ccdeo pois às instancias de Barreto, e com elle^pwtin 
■para ÇofatS; mas não tardou muilo qire o ruim' trÉ«ta- 
menlo, e a falta decorieila, qoe Barreto uava coneile, 
Ibefitessem conhecer, que havia eido gnossenaoiente iH«- 



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UVIO IT., aPITUlO III. 103 

dido, e o mal que fiien em prestar (Hividos |o 090(0 da- 
qaella Seraa. £ quando cbegarani ãMocatQbiqae já eram 
taes os molivfls de queixa que e Poela tiaba do sen fe- 
mentido protector, que rompera iateirameate comelle, e 
quaad» ali fundeou, a Naii ^uta Fé, em que viubaiu pa- 
ra oxeino Heitor da Silveira, e Diogo do Coulo, o acba- 
nm eommdo de amigos, tal é a expressão do Itistoriador. 

Àqudles bons auiigos compadecidos da miséria, em que 
o TÍam, e conhecendo que elje nada destjára tanto como 
Ubeitar-se daquelle eaptivejro de espécie nova, oiTeiece- 
ram-se para pagar-ibc a passagem para Lishioa. 

Acceitou Luiz de Canides : a (â'erta ; mas quando trac- 
tava de xealis^E' o seu emi)arque, Pedro Barreto, que^eu^ 
do acabar 4c colirir-se de infâmia, e dar a ultima prqva 
da soa perfídia, o fez prender pela quantia de duzentos 
eruzadost quç dizia haver gasto com elle oa sua viagem 
da ladia para ali. 

Neste lance, Heitor da Silveira, Diogo doOulo, Duar- 
te d' Abreu, ÁQt<aio Cabral, Luiz da Veiga, António Fer- 
rão, e outros, que Diogo do Couto desgraçadamente não 
Boowia, ifidignados de que tal liomem, victima da per- 
vereidade de um malvado, ficasse abandonado á miséria 
em um paíi bárbaro, na costa da E(lLÍ«pia Oriental,, e á 
disposiçSo de um. moniitro, que tão vilmente o enganara, ■ 
tomaram a generosa resolução de quotisar-se para paga- 
rem aquetla quantia, e libertar a pessoa de Camões. Ma- 
nuel de Faria «Sousa, referindo este facto vergonhoso, 
accresceata, com a su^ postumadfi mordacidade e deste mo- 
do a pessoa deLsiz de Camões, e a honra de Francisco 
Barreto foram vendidas por duzentos cruzados. » 

Aapòdaduraé puagente, ipasbem merecida; embor^ 
«BispQ .de yiseu D. Francisco Aleiandre Lobo, na sua 
Vida doPoeta, ipserídauoTomú sétimo da$ Memorias da 
Academia das Sciencias, se esforça por negar o facto, e 
desculpar a Pedro Barreio, como sempre costuma descul- 
par os perseguidores de Camões, oquclbealtraliiu aceií- 
sura do seu iraductor Mr. Maguia, que elle refutou de- 
poH, mas com poupa felicidade, Todos os^iugrapbos de 
Canfes coneordtim nesla circumslancía, e as razões de 
erodrlo Bispo me não parecem bastante fortes para pro- 
ísrem o contrario, e. convence-lí^ de erro. A primeira 



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104 ENSAIO BI06BAPHIC0 CBITICO, TOHO til. 

énegativa, ecoDsiste nosiiencio deCouto a este respeito; 
a segunda está em dizer o mesmoCouto, que Pedro Bar- ■ 
reto se embarcou nesta occasião para o reino ; mas o si- 
lêncio de Couto nada prova, porque o mesmo silencio 
guardou elle sobre as acçOes uilitares, e marítimas de' 
Camões, dizendo ao mesmo tempo, que fAra seu camara- 
da : e vir Barreto para o reino naquelia occasiSo, não é- 
mesmo que não haver commettido aquelia infâmia, pois 
o mesmo Prelado confessa, que os amigos deCaraOes se 
fintaram em seu favor, sá com adífferenfa de dizer, q^e- 
fdra para o aprontptarem de roupas ; mas si Barreto o não 
(inba provido de roupa na Índia, e nio era a despeza 
dessa, que elle pedia, em que baria despendido comCa- 
mSes dozentos cruzados, que nSo é pequena somma pa- 
ra aquelles tempos; na passagem? Não pôde ser, por- 
que as pessoas da cometiva de um Governador nunca pa- 
garam passagem nas embarcações do Estado. Em come- 
dorias? Soffre isto a mesma objecfão, e aaccusapSo con- 
tra Barreto subsiste da mesma maneira, pois semprecons- 
ta que lhe fez grandes promessas, que o enganou, que 
O desamparou, e o obrigou depois pelas roupas, de q»e o 
provera, que valendo duzentos cruzados, pelo valor qae 
então tinba o dinheiro, era impossível que Camões esti- 
' vesse t3o falto delia inda qu^ fosse mais estragado que 
ama creança. 

Durante a viagem para o reino, qoe Foi bem cheia de 
perigos, e contratempos, si oceupou o Poeta muito, se- 
gundo affirma Diogo do Conto, na composição de tim li- 
vro com o titulo àz •Parnaso de Luiz de Camões, o qual 
elle diz queconlinha muita doutrina, erudição, epbiloso- 
pbia : eslc livro é aquelle, cuja perda tem sido com razSo 
mui lamentada, e de que alguns Críticos affirmaram, qu^ 
Fernão Alvares do Oriente, bavia tirado quanto ba de 
bom na Lusitânia Transformada ; e outros, que Francisco 
Bodrigues Lobo se valera muito delle na sua Primavera; 
e Pastor Peregrino, e Desenganado, mas estas duas as- - 
serções tenho eu por tão absurdas como contraaíctorías. 
Já a uau, que trazia em si Luiz de Camões, e o seu 
Poema, navegava á vista da costa de Portugal, quando 
a mais pungente d6r traspassou ocorafSo do Poeta. Hei- 
tor da Silveira, um dos nomes mais affamados na Histo- 



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LfVflO IT., UmtLO III. 105 

ria da lodia, Fidalgo, Gnerreiro, Poeta, e sea intimo 
amigo, fatlecea ás portas da palría, terrível agoaro daa 
desventnras, que nella lhe estavam goardadas. 

Á epocha da chegada de LaJz de CamSes a Lisboa, 
b9o poidia ser menos opportaaa para as soas espeianças. 
A mais horrível peste, qoe até ali se tinha experimentado 
odla, e aque por isso sedeu oDome de peste graade, ha- 
via devastado, e' despersado a sua popnla^o ; fazendo oa 
historiadores subir a setenta mil o nómero das víclimas. 
As ruas estavam desertas, as casas abandonadas, o loto 
colH-ía a quasi lodos os que haviam escapado dqoella gran- 
de calamidade, as precauções continDavamatuda : osSi- 
T30S, as Academias, os Divertimentos Públicos, as Musi- 
cas, e Tangeres, qse outr'orB Taziam celebre, e affamada 
esta grande, e opulnita cidade, tudo havia desappareci- 
do : que espectáculo para o Poeta, que chegava do Orien- 
te dezesele annos depois, qae delia sahtra, adiantado em 
annos, valetudinário, curtido de trabalhos, e depobreza' 
Apesar disso foi tal a sua alegria nos primeiros tempos, 
que escrevea a um amigo do Porto nos seguintes termos 
■ nSo pouú crSr ainda lania ventura !.. d Ventura '... de- 
finhar 03 miséria, e fenecer no hospital, era a voitart 
qae o esperava aqui. 

Covemava entAo D. SebastiSo, on para melhor dizer, ga> 
vernava em nome deHe o Padre Luiz Gonçalves da Camará, 
Jesnila, e seu Confessor, e seu irmão Hartim Gonçalves da 
Camará, Escrivão da Puridade, que para isso o haviam per- 
anadido a que tomasse as redéas do Governo, sendo de de- 
cesete annos, tirando-as das mãos de seu Tio o Cardeal 
infante D. Henrique, que tinha a regência do reino. Co- 
mo por meio destes dous Jcsuitas a Cumpanhia de Jesus 
governava Portugal claramente se deprehcnde das Cartas 
Portugnezas do elegante historíador ialino d'£l-Kci D. 
Hanuel, o virtuoso Bispo li. Jenmymo Osório. Com di- 
versos pretextos faziam eites, que El-Rei divagasse con- 
tinuamente pelo reino, entretido em caçadas e romarias, 
todo a fim deaOasta-lo da communicação com seu Tio, e 
com os fidalgos velhos, e carregados de serviços, que po- 
diam desengana-lo, abriodo-the osollios íobn; asdesgra- 
ças do povo, e os perigos que elle próprio corria. 

Já sevé que estas cixcunulancáas eram as menos oppor- 



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tos e:^9Aio BiooBAPiuco cniTico, loao iii. 
lonas para diegar a Li»boa uui hoai<»ii, que tjaka. todas 
as suas esperanças na publicação de um Poema Épico, e 
nas rccompeogas, que de Ião bourada tarefa ptKlertaii), oa 
deveriam provir-lhe. 

Deii-se, apesar disso, com todo o aSinco ápublicaçio 
dos Lusiadas, revendo de novo o Poema, eajuDtaiid&-lbe 
alguns trechos, que evidentemente seconhece (|ae foram 
escriplos nesta epoch^, e traclou de alcançar íts licença? 
necessárias par» a impressão ; porque a liberdade de im-t 
pruasapleaissimaanliguamentc entrenós, hevia desa^ipa- 
lecído com a Inctuisii^a, e ps Jesuitâs, que dando-se as 
mãos aa néraudo projecto de propagar nestes reinoa as 
trevas de ama ignoranda systematica, se.baviam servido 
da eeutiura previa para não deiiiarefli- publicar. se Bào 
aquillo, que podesse conduzir aos s&is projectos, e aos 
leus interesses. 

Sem dificuldade persuadiram aD. João Hl., MonarcI)» 
de umaieligião poQcOillustrada, que não bavia meio mais 
profícuo para impedir que em Ptu'tiigal 'podessem propa- 
gar-^e as doutrinas perniciosas de Luthero, eCalvtno, 
qne tanto inquietavam a Alemanha, a laglateFra; e a 
Vmnça: alerrai'an com isto a sua consciência limctrata, 
e elle julgou, que não podia fazer maioE serviço a Deos^ 
c á Igreja, que ordenar, que nenhum livro podesse sahír 
á lu2, scmserprímeiroexaminado, eapprovado porCeu- 
fiores para isso escoibidos, e nomeados, 

Kscusado é dizer q^ianto o Poeta teria que soffrer com 
«s reparos, e escrúpulos destes homens pouco instcuidoa, 
e sem gosto, que a cada Estanca, do Poema encontravam 
diiBculdadãs, e diividas, l>3sta dizer, que aqjielle monu- 
mento immortel da gloria Lusitana, só poudéenU-afuo pre- 
lo, depois de des&gurado, eestropiado puresscsbarbaros. 

Lendo attcntaménte o Poema, vejo a cada pasao evi- 
dentes provas destes estragos da ceuiura nas laeunasi qse 
se orTerecetn, cm algumas Estauças mal torneadas, em 
algumas idéas desconexas, e absurdas,' qiie de certo não 
podiam ter sabido da cabeça do Poeta; mas que foi obri- 
gado a acceítar dos Censores para que Ibe òoncedessea 
a licença. -■- 

Foram os Censoras, e nãoCamSes, qnem no€aQto X., 
Sstança wtenta e doas fez dizer a Tbetys ; 



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LIVBO IT., CAMTDtO III. 107 

Aqni s6 verdadeiros, gloriosos 
Divos estam; porque Eu, Saturno, e lana 
Júpiter, Juno, somos fabalosos. 
Fingidos do mortal, e cego engano: 
Só para fazer Tersos deleitosos 
Servimos, e si mais o tracto hiimauo • 
Nos pôde dar, be s6 que o norae nosso 
Nestas estreitas pdz o engenho vosso. 

Mio fallando no incorrecto da linguagem, e no rastei- 
ro do estylo, e metro, é íniprobavel, que Camdes iotro- 
duzisse uma personagem no seu Poema, dizendo que era 
fabulosa, isto é, que não existia, a nSo ser obrigado a 
acceitar as correcções, que os Inquisidores lhe apresen- 
taram, pata d^iii á ohra a permissão de correr. 

Mas oque, quanto amim, prova de modo mais salicn-. 
le, que dos Lusíadas houve mulílaçOes consideráveis é 
o seguinte. 

Termina o Canto terceiro com quatro Oitavas, em que 
det«ide S>-Hei D. Fernando de haver tirado D. Leonor 
a «eu marido, para casar-se com ella, : sendo elle vivo, 
com grave, e justo escaada-io de seag vassaUos, e eu- 
Irané ito, priucipia assim. 

sa tempestade, 
sibilante vcato 

Da claridade, 
c salvamento : 

a escuridade, 
ao pensamcuto^ 

te QCtoutocco, , 

'ornando fallecco. 

Porque si muito os nossos desejaram 
Quem os damuos, e -ofleniias vá vingando 
Naquelles que tão bem se aproveitaram 
Do descuido remisso de Fcranado,- 
Depois de pouco tempo o aloansaram; 
JoaBoe, sempre idu^re, alevanlando 
Por Rey, como de Pedro único herdeiro, 
Ainda que bastardo, verdadeiro. 



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108 RNSiio Bioaunwi ckith», tomo in. 
Alteradas então do fteyno as Gentes 
Com o odto, que occupado os peitos tiolia. 
Absolutas cruezas, e evidentes 
Faz do Povo o furor por oude vinha. 
Uataado vam amigos, e parentes 
Do adultero Coode, e da Rayuha, 
Que soa incontineocia deslionesla 
Uais, depois de Viuva, manifesta. 

Has elle emfíin, com causa deshonrado. 
Diante deUa a ferro frio morre. 
De outros muitos na morte accompanhado r 
Que todo o Togo erguido queima, e corre. 
Quem como Astianiix precipitado. 
Sem lhe valerem Ordens, d'alta'¥orrç, 
A quem Ordens, nem aras, nem respeito, 
Quem nú por ruas, c em pedaços feito. 

Quem nunca Irver lido os Lusíadas, e abrindo o livr* 
ao acaso encontrar estes versoa, força é qae se persua- 
da, que elles tem referencia a logares anteriores, donde 
eonste quem é este Conde adultero, porqse se lhe dá 
este epitlieto, equem é a Rainha, que manifesta mais 
a sua ÍQcoDtineucia depois de Tíuva, eporque dessa des- 
honestidade resultaram tantos estrago^, e tantas mortes ; 
porém si desandar com a leitura para os Cantos prece- 
dente», hcará atónito por ndo deparar cousaalguma, que 
a e^s se refira, e não poderá conceber como tão grao- 
de-Poeta ponde cahir cm tSu grave falta, muito mais nãa 
hav^endo em todo oPoema cousa serailhante! N3o mostra 
isto que no manuscripto do Poeta o Canto terceiro não 
acabava, como está, mas com um quadro do reioad» 
d'KIRei D. Fernando, em que se referia, ccmto sua Espo- 
sa o atraiçoou com o Conde João Fernandes Andeiro, co- 
mo estes amojes, conhecidos de todos, escaudalisaram a 
lodos, e tornando-se mais evidentes depois da morte d'£l- 
Bei, produziram ofuror dopovo, oodio dosfidal^os, que 
invejavam a fortuna, e valimeato doConde, a sua morte, 
e as desordens, que se segairamí* e que es Censores achan- 
do 8sta pintura demasicido livre, a cortaram, e que Ca- 



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LITBO IV., CiHTClO IH. 109 

tnSes foi por elles obrigado a substitui-la por om l«gar 
commuai sobre o poder do Amor. Esta observação, quS 
me n3o consla que aiada se teoha Teilo, se tornaria evi- 
dencia, si apparecesse alguma copia domanuscripto pri- 
mordial de CamOea. Talvez que na copia dos prínteirM 
seis Caatos, que Faria e Sousa achou em Madrid fosse 
esta uma das cousas, que elle nos informa qne estandt 
ali , se nâo encontram no Poema impresso , e que nfio 
a restituísse com receio da censura. 

Sahiu pois o Poema álaz em lS7ã, e consa na verda- 
de rara, nesse mesmo aano teve segunda edição, tanto 
foi o applauso, com que foi recebido, tamanbã a anciã, 
com que Portuguezes, e Estrangeiros procuravam a sna 
leitura, e oconheciraenio de nma obra de novo caracter, 
e estylo, e em que transflorava em toda a sna força a 
luz brilhante de um ^euio superior a tudo o, que naqael- 
le género, até ali o l>aniaso havia produzido entre nós. 

Mas st o Poema era eogiandecido, e louvado, parece 
que não acontecia o mesmo á pessoa do Poeta, que vi- 
via na maior indigeacia , e miséria , pois qne era ne- 
cessário que um escravo de Java, por nome António, qM 
elle trouxera da índia, esmolasse de noite para com s 
mesquinho producto dessas esmolas ajndar a vtver o seu 
senhor, e a si. Consta também, qne uma preta vendedeí- 
ra de mexilhões, o presenteava às vezes com nm prato 
âelles, e alguns cobres doprodneto da sua venda, k' vis- 
ta destas circumstancias nílo sei como o Bispo de Viseu 
D. Francisco Alexandre Lobo, teve animo para escrever 
na sua vida de CamOes « Fidalgos dos mais qualificados, 
e de notório entendimento, e cultura, o traclavam com 
familiaridade cortei, procedida de-rcconbeccrero, e pre- 
zarem justamente a sna muita valia... Mas basta por 
muitos o exemplo de D. Gonçalo Coutinho, da Casa d« 
Marialva, eCapitào de MarzagSo. Com esle fidalgo trar^ 
tava, e vivia muito CamOes^ com elle hía passar tempot 
na sua Quinta de Vaqueiros, e delle recebeu favor, e 
toora, em razão da conta, em que o tinha, (segundo o 
qoe D. Gonçalo declarou depois em notável occasião) de 
Príncipe dos Poetas contemporâneos. Temos argumentos, 
de que tinhn muita entrada na Casa de Vimioso, e d6 
me possuía a estimação de toda aqnella Eamilia, e d* 



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110 INSAIO BIOGBAPHICO CBITKO, tOHO IIÍ. 

insigne Vicc-Bei da lodia D.Luiz de Ãlaidc. e «do Ca- 
pitão assombroso de Malaca, D. Lioaíz Pereira. » 

Na verdade tudo isto éiuui vcfosiniil ! Pois um homem, 
qne morava talvez n'um sótão da Calçada de Santa An- 
ua, c que vivia de esmolas, podia deixar de ter entrada 
em casa dos mais qualificados fidalgos da cõrle. gozar 
a sua estimação, e viver na sua Tamíliaridade ! É igual- 
mente verosímil, c natural o que também diz, referindo-se 
a Francisco e Sousa, a saber : que quando Camítes ap- 
parecia sasruas de Lisboa, paravam as pessoas, que hiam 
passando, a vã-Io, c coniiidera-lo com todas as mostras 
de admiração, e não continuavam sem que primeiro li> 
vesse desapparecído o Poeta ! 

£ o mesmo que se conla de Lopo de Vega Carpio, ç 
que Manuel de Faria c Sousa, em seu culbusiasmp pelo 
nosso Poeta , quiz lambem atlribuir-lbe, mas não viu o 
douto Prelado, que o que tinha todo ologar arespeilode 
LopodeVcga, Ecclesiaslico, vivendo uaoppulcnda, ador- 
nado de condecorações honorificas, honrado com teste-^ 
munhos públicos da estima do Rei, e dos Suromos Pon- 
tífices, denominado por seus talentos, e escriplos a Phe- 
uix dos Engenhos, alvo deadmiração do Povo a quem dia- 
riamente arrel>alava, e cntliusiasmava com a multidão doa 
seus Dramas, mal podia caber aCamCes pobre, desvalido, 
e perseguido? Como cque secombina tanta míserta com 
tamanha estimação ? Sc era tào estimado, c Testejado dos 
Grandes, como não achou cnlr« elles um Protector, que 
o empregasse? Se tanlo se interessava por elle o povo, 
em uma cidade como era então Lisboa, o empório de 
todo o commcrcio do mundo, onde existiam tantos Ne- 
gociantes ricos, como é possível não achasse uma almi 
generosa, que o livrasse ao menos da fome, e de perecer 
em um hospital? 

Fallemos claro, nem as Letras, nemaPoesiaforamonii- 
ca populares naqueiles tempos ; léa-^ o catalogo do# 
aossos Poetas antigos, e se verá que quasi todos per- 
tencem á Aristocracia, ao Clero, e áMagistraUini ; e es- 
tas trez classes podiam bem admirar o Poema, mas de~ 
testavam, e despresavam o Poeta ; tanto íslo é verdade 
que determinando EI-ReiD. Sebastião levar comsigo dong 
Poetas na espediçáo de Africa para prasencearem, e cele^ 



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LV/K rr, ctwima, ni. 1 1 1 

brarem as soas victorias sobre os Mouros, os ^ens Vali- 
dos, e o& Jesuítas, qae os dominaTam, lhe isdlearam Dio- 
go Bernardes e Luiz Pereira Brandão, dons l*oelas ni«- 
diocres. e Qão a Luiz de Camões, qoe alem de Soldad« 
decoabecido ^'alor, tinha provado oosLusiadas, (jue sa- 
bia tirar dígnameote da trombeia épica os soas, que iiu- 
mortalisam os heroes. 

Assim, durante os sete annos que decorrem de IS?2, 
cpocba da publicação do sou Poema, até 1IÍ79 em que 
teve togar o seu óbito, foi o Homero Lusitano defiaban- 
do na roiseiia, e no abandono: o Java, seu uaíco ami- 
go, rallecéra pouco antes, e esta perda lhe abrevioa sem 
dúvida o9 dias, vendo-se, era soa ultima eofenuidade, 
reduzido ao exlrenio de procurar asylo do hospital.. 

Alguns Escriptores duvidam deste ultimo facto; 'mas 
1 razão, ein que se ruadam me não parece ter Torça al- 
guma. Dizem elles que, os que morrem no hospital ali 
eocoDlram também a murtalha. È certo que assrm acon- 
tece boje ; mas seria assim no tempo de CamOes t 
Deve porem uotar-se, que dizendo todos que o lençol, 
em que o cadáver foi amortalhado, lhe fura mandado por 
esmola, o que, segundo elles, prorà que faltecéra em ca- 
sa própria, descordam com tado no nome da pessoa. 
que lho mandou, pois uns dinem, que fàra D. Francisco 
Haaud; outros, e destes é Sererim de Fnría, que D. 
FfíMicisco de Portugal, outros, que outras pessoas, e cs^ 
ta diversidade de assers&es me faz duvidar muito dâ 
verdade delias. 

O Morgado Matbeus D. José Maria de Sonea , áh : 
qne vira em poder de Lord Holktnd, um exemplar do« 
Lusiadiís. que pertencera a ¥r. Josepe índio, que o dei- 
5on no Convento dos Carmelitas Descal(X)S de finada- 
laxara . em cujo fTontespitio se acha cscrtpta, pela le- 
tn daquelle Religioso a segninté nots. « Cm cosa mas 
kstimosa qne ter tm tan grande engenio me}hgrado! 
y« h vi martr en a» hos'pitnl de IMboa, sm lener wim 
tòbo.ia «m que cobrir-rse, rfespwes rfe haver Iritínfado m 
'o Ináia Orienta} , y de ftnerr nav&}ado 8:Iiflft legoa$ 
for mar; que amo tan ffrmât para los gw de neeke. 
S ie dia si canssn istuãla^do si» proveeki) , como í« 
^isíía en urdir ielim para caçar moseas ! » ■ 



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113 EIÍSAIO BIOGKAFHICO CBlTtCO TOMO, IIT. 

Deste documento , para mim authentico , porijae tSó 
lenho motivo algum para dovidar da verdade de D. 
}osé Maria de Sousa, que na sua Yida de CamOea af- 
firaiia havc-lo copiado do exemplar de Lord Holland; 
deduz-se : 1.° Que Camões morreu do hospital ; i." Que 
foi amortalhado em um Icuçol, que lhe mandaram ds 
esmola , naturalmente , porque eutio não era costume 
dar o hospital mortalha : 3." Que o Poeta se tinha fei- 
to Dotavei nas guerras da índia Oriental , apesar de 
Diogo do Couto não haver nomeado alguma das suas 
acçOes ; e por tanto está decidida a questão contra os 
que negam que Luís de CamOes acabasse uo hospital. 
. Contra isto parece-me que não ha se nSo dons re- 
cursos , ou accusar de mentiroso a D. José Maria d« 
Sousa por alGrmar que copiara do exemplar de Lord 
Holiaud uma loscripção, que nelle nSo existe, o que é 
fazer um grave insulto á boa fé daquelle Cavalheiro, 
ou dizer, que Fr. Josepe índio não escreveu a verda- 
de na sua nota, supposição que me parece inadmissi— 
vel pois consta que Fr. Josepe fora Religioso de grande 
virtude, que missionou largos ânuos nas índias, onde 
talvez conhecesse o Poeta , e convivesse com elle , e é 
grande temeridade negar o que elle dií que viu, fa- 
zendo assim delle um ruim truão, que, para zombar do 
mundo, se divertira em escrever uma mentira tal bq 
frontespicio do exemplar, que talvez fosse um mimo do 
Poeta, quando dessa mentira lhe não resultava honra, nem 
proveito. 

Luiz de Camões foi sepultado na Igreja do Convento 
de Santa Anna, que então servia de Parochia, em se- 
pultura raza, e sem letreiro algum, e assim permanes- 
ceu, até que alguns annos depois D. Gonçalo Cootiobo 
lhe mandou põr uma Lapida com este EpUaphio. « A^ui 
jaz Luiz de Camões, Príncipe dos Poetas do sea letttpo, 
viveu pobre, e miseravelmente, e aesin morreu. Anno de 
167!). 9 £sta campa lhe mandou pôr D. Gonçalo Cott^ 
linAo, na qual se não enterrará pessoa alguma. 

Este Epitaphio está concebido de maneira, que me 
parece fazer honra a quem o compõz, modesto, breve, 
dá a conhecer o mérito do Poeta sem as exageraçOea, 
e verbosidades, que dçshguram todas, ou quasí todas as 



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tivtoiT., aprrotoHi. 113 

loscnpçSes daquelle tempo. Teaho porém a notar n^lle 
3S expressões, vteea.poitrs, e miserãfielnmlt, eogsim mor- 
reu, que em vez de eiacUs, me pareceni í^ma, oa psH 
mcoos exaggwadas. Ora que o Poeta morrea pobtc, e mi- 
seravelmente, é cousa que d3o pôde admillir dúvida ; e 
basta para [H-ova-lo o haver fallecido ao Hospital, 

Porém si dos Hltimos sete annos da sua vida viveu fw-^ 
isK, 8ustenlaado-fie das esmâlas qae o seu fisl escravoi 
de Java para elle meiídigava de noite, nSo se segue dabi 
qae elJe sempre assim vivesse, coíbo parecem indicar as 
expressões do Epitaphio, pois contra essa assersao temo& 
nada menos qne o teatemuaho do mesmo Poeta em eu« 
resposta a Rui da Gamara. 

Este fidal|^, qne sedava por graode amigo de Luiz de 
CamOes, nãopara oTavorecer, sendo como era rico, massó 
para ulilisar-se do seu préstimo, e talento, havia-lhe pedido 
qne lhe fizesse araatraducç5Q em versosdosPsaimosPeni- 
tenciaea, e o P«ela descni(kíii-íe de apromptar a sobredita 
iraducpâo com a brevidade, que Rui da Garoara exigia. 

Rui da Camará, impaciente de tanta demora, tomou a 
resoiação de hir procurar CamOe» á pobre casa, em que 
habitava, formaod» grandes queixas do sen descuido, e 
da sua delonga, e remab» dineodo grosseirameuto em 
resposta ás suas excusas.. 

« N3o tendes deijcnlpa, qne alegar : tendes feito tantos 
Twaos, e um tão furnueo Poecoa I si me sStt servis, não 
i porque aia podeis, é p<u^se nSo quereis. 

A tão pouco cortez, « Uo despropositada invectiva, ru- 
poidea o Cantor dos lAsifldM, oo huQ grave, e cora a 
amargo sorryr do boo^lP honrado, que sente, e despreza 
a invectiva injusta de um sandeo atrevido. 

• Seobar, quawiOi eu 6z esse Poema, e esses versos, de 
qae foliaes, era moço, favorecido das Damas Q linha o 
umtatíio para a vida,- e «gora tudo e^tá mudado. Não 
tenho espirito* jaem contefitaíQuato para aada, porque tur 
do isso me flalta ; e en : tal miséria me vejo, que abi es- 
tá o mea AjitanM, <)ih «e podft dinheiro para carvão, ^ 
Bte o tenho para dar-lhe. » 

Ora si luiz d« CamSes in, qu» quando conpoz oPoe- 
nia, de que grande pqrle. cansta que foi es.criplo era Por- 
t^)£3l, era roQ^o, « tevor«()d9 dfDt D^pnag & tinha o. i>«c«»i 
S 



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114 ENSAIO BIMKAPHH» CRITICO, TOMO Ilt. 

sario para a vida, é olnro a Iodas as luzes, qoe o Poeta 
até á epocha da soa TÍagera doOriente nSo viveu pobre, 
e miseravelmente como se dii noEpilhaphio, porque nem 
as Damas cústumam favorecer ds que assim vivem, nem 
elle havia ainda ultimado o sen Poema. ■ 

E mesmo na índia, si teve algumas, e mesmo grandetí 
privações, teve lambem ialervallos de-abundancia, pois 
o seu CotnmentadoF Munee! Corroa nos affiima, que vi»- 
ra do Sut rico com o^ue de lá trouxera, e lhe deram 
seus amigos, e que gastou tSo libenrimentfl tudo, qnc 
Cm breve tornou á poliíeza, ceroque começou, uSo sem 
alguma nota ^3oB que pbr isso o tíBham em conia de mal 
considerado, o I'orisso meíDcliBamuito á opinião dos que 
julga» q«& aspalavras viveu poíie, e mísírotieitftiwíc, e 
assim morrew, r^ fanam pftrtC' doEpitJiapbio, que D. 
Gonçalo Coutinho Ihe'mandoo graveraal^pída, mos qoe 
foram ali aecre9eeBtadas'muilo tempo depois. 

■ Para que Itíde' qOanlo dii> respeito a Laiz' de CamiSes 
ÍMse marcaido poi algam» angalwidade desgrucada, até 
a sua sepoHurâ esteve por muito, tempo ignorada dos 
s«us patrícios, e até 'depois de ella ser descoberta, t«m- 
se levantado dúvidas, e questíies r-enhidas sobre ser o» 
dSo aqliellB, porque havendo peto espantoso terremoto de 
1765 cabido a Igreja de Santa Anna, e sendw depois ree- 
dificada eoffl grandes' alterações do sou estado primitivo, 
ainercia, e desleixo Portugoez nlo curaram da sepultura 
do Poeta ; quefkoa assim esquecida pormuilos annos, e 
quando em nossos dias foi descoberta, bem que oseu local 
eorrespoIid6s3eàsna1ioÍas,qHedeHa havia, duvrdoU'«e oom 
tèdo 'da sUd aothenticidádo por Ibe faltar a lapida, e o 
Epilhaphio. ■ ' 

■ Já ém outra parte dei a razão desta falta, procu- 
rando destrnir esla prova negativa , referisdo o que 
muitas vezes ouvi a José Agostinho de Macedo tesle- 
moilha insuspeita de, que pertendesse accodir pela glo- 
ria de Camões; de quem era detractor ligadal ; e é que 
ftzefldo-se a pedidode alguns esli^Ugeiros no Convento 
de Santa Anna exactas pesquisas pana descobrir a se- 
pultura do Poeta, depois de muitos Irabalhos, c diligen- 
cias bbldadas , de modo que estavam Já perdidas Io- 
das as esperanças 'dâ bom eslto, d>ãse ama Freira' ve» 



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ttna Tf.,' cAHTix© m. -■ - us 
lha, que tendo algumas vezes espreitado por uma Tenda 
do altar, que estava junto agrade do choro debaixo, lhe 
parecera ter ali visto uma lapida sepnlchral. 

Tirado o altar, achou-se com efeito uma sepultura, 
qae não podia ser senão a do Poeta, pois ainda conser- 
Tava a Inscripcão, que Ibe mandara pôr D. Gonçalo Cou- 
tinho, e os versos latinos, que andam impressos nas suas 
Obras : porém a lapida estava toda quebrada, e fendida, 
sem dúvida com a queda das abobadas na occasião do 
terremoto. Para abrir a sepultura foi a lapida tirada a 
pedafos, e para a tapar substituída por outra ; mas aqui 
mesmo se mostra a pouca attenção que entre nõs se dá 
a estes objectos, pois nem a nova campa se fez igual á 
primeira, nem ao menos se lembrou uínguem de gravar 
oa Dova alguma luscripção, que informasse a posterida- 
de do motivo porque ali faltava o Epitaphio. 

Parece-me pois, que esla cxplicafSo, que eu ouvi mui- 
tas vezes a José Agostinho, sempre sein variedade, deve 
tirar todas as dúvidas, de que a sepultura, que existe ua 
Igreja de Santa Anua junto á grade do choro debaixo, 
que antigamente correspondia ao meio do Templo, en- 
cerra os ossos do. Cantor da gloria da Pátria, do Príncipe 
dos Poetas Portuguezes. 



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CAPITULO IV, 



Algumas observais sobre a vida ãe 
Luís de Camões. 



lado, qne diz respeito i i>essoa, e snccessos desl« 
Poeta, se apresenta enredado em conlradicçOes, e dúvi- 
das. Dúvidas sobre o aano do seu oascimeDlo; dúvidas 
sobre a lerra, que Ihedea oberço; dúvidas sobre aepi^ 
cba da sua otorte, e sobre o logar, em que ella se veri- 
ficoa, dúvidas sobre a causa das perseguições, qne sof- 
freu tanto na Europa como na \sta, e do abandono, em 
que ficaram os seus serviços. Nem podia deixar de ser 
assim, pois que a maior parte do que deile noa referem 
03 seus Biographos, quasi qne n9o tem mais Tundamen- 
to, que a noticia que o Chautre de Évora Manoel Seve- 
rim de Faria nos deixou da sua vida, guiando-se por 
coDJectiinis, que fez sobre o exame das suas obras. 

Este modo de escrever a vida de um Poeta pelas in- 
duçfies, que podem Urar-se de alguns trecbos dos seus 
Poemas, pôde sim provar grande sagacidade, e engenho 
em quem se dá a este exame, porém tenho-o por sobre- 
maneira fallivel, e tão fallivel como querer ajuizar por 
suas obras do seu caracter, opi&iões, e sentimentos. 

Além de ser mui raro que se imprimam todas as obras 
de um Poeta, ede ser mui probavel, que asque chegant 
ao conhecimento do público sejam as menos aptas para 
essas investigações, é também certo, que os Poetas sam 
muitas vezes obrigados a escrever versos em nome át 
ontras pessoas, e já se v6 quanto é facil, que se Ibe at- 
tribuam cousas, que tem referencia a individuos, e cir* 
cumstancias mui diversas, resultando daqui factos coo- 
tradictorios, inconciliáveis, e a confusSo, e o erro em 
logar da verdade. 



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imo iT., CAnTOLO ir. 117 

£ opiniSo geralmente recebida, que as desgraças, e 
perseguifOea do nosso Poeta nasceram dos seus amores 
com D. Catbarina de Ataide, Dania do Paço, da casa do 
Conde da Castanheira D. Luiz de Ataide, grande valido 
d'El-Rei D. Joio IH., mas de?iam provar primeiro, que 
essa Dama existira realmente, o qae me parece um pou- 
co difficil. 

Todo o fundamento desta opinião me parece assentar, 
em que entre aspoesias do Poeta existem algumas dirigi- 
das a Natércia, anagrama deCaibarísa; mas sendo ione- 
gavel, qae em Lisboa havia nesse tempo p«lo menos (aulas 
Senhoras desse nome, como é probavel que existam hoje, 
qoem pôde sem temeridade aSirmar a qual delias o Poeta 
dirigia os seus obséquios, quando elle em nenhuma parte 
de suas obras diz coasa, que indique asua qualidade, e 
pozifSo na Sociedade ? E prova-se tanto, que nisto não 
ha mais qae conjecturas, que Manoel de Faria c Sousa 
em oma das snas vidas do Poeta affirma, que D. Catba- 
rina era nma Senhora de Coimbra ; e João Pinto Ribeiro, 
qne nma Prima de Lniz de Camdes I D. José Maria de 
Sonsa diz, que recorrera as Memorias da Casa Real, para 
conhecer a qne ramo da familJa de Castanheira perten- 
cia D. Calhartna, e que perdera o seu trabalho. 

Si o Morgado de Matheus se vio obri(;ado a recorrer 
iqnelle livro, é porque entre os parentes daquella sobre 
casa não acbon noticias do que procurava ; ora sendo os 
fidalgos os mais profundos e minuciosos Genealógicos, po- 
derá alguém capacilar-se deque em uma das casas mais 
principaes do reino houvesse uma Senhora, de que os 
membros dessa familía não tenham noticia? Que houves- 
se nma Dama no Pa(o, de que as Memorias da Gusa Real 
não foçam menpao, lambem me parece uma suppoziçSo 
improbavel ; no entanto o nobre Morgado, seguindo a torr 
rente da opinião dos Biographos, diz que se persuade 
que seria parenta do Conde, mas essa opinião tão duvi- 
dosamente enunciada me parece não ser bastante para 
elucidar, ou dicidir a questão. 

Algaos citam como prova destes amores, e da cxis- 
tsncia dfôta Dama o seguinte 



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113 B>SAia BioouPHi» c&inco; nKo iii. 
SONETO. 

O culto divinal se celebrava 
No Templo donde toda a creatura ... 
Louva o Feitor divino, que a Feitan ' 
Com seu sagrado sangue restaurava. 

Amor ali, que a tempo me agoardaya, 
Onde a vontade tinha mais segura. 
Com buma rara, e angélica iigura 
A. vista da razão me salteava. ■ 

Eu crendo que o logar me derendia. 
De sen livre costume u3o sabendo, 
Que nenhum comãado Ibe fngia 

Dcixei-me captivar, mas hoje vendo, 
Senhora, qne por vosso me queria. 
Do tempo, que fui livre me arrependo. 

Este Soneto o mais que pôde provar é, qoe o Poeta se 
namurou de certa Dama, que viu pela semana santa em 
uma igreja de Lisboa, que os seus BtographoS querem 
que Tosse a ermida das Chagas, não a actual, mas outra 
que então exíslia junto ao Convento dos Trinos, de qa« 
eraannexa, e que depois por desavenças entre os Frades, 
e os Irmãos, se traiisferio parB o sitio do Pico, onde ho- 
je existe, isto em virtude de Bulias Pontifícias, que cor^ 
rem impressiis, e cujos originaes se conservam no cartó- 
rio da dita Ermida. Mas pôde alguém aEfirmar, qne nquel* 
la Dama fosse D. Catharina de Alaide, a Natércia dO 
Poeta? Não vejo netle cousa que o faça suspeitar, e com 
toda a rriínqneza digo, que tenho este succeãso por fabu- 
loso, e Natércia por um ente de razSo. 

Todos sabem queFrancisco Petrarcha, um dos homens 
mais beneméritos das leiras, e da Poesia no seonló qn»? 
torze nos seus versos Toscanos inventou nm novo modo 
de cintar damores, que nem Gregos, nem Romanos ha- 
viam conlieciílo. 

Coufiistia este novo eslylo em uma espécie de mcthct- 



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Lino iT., unnt« m -: iV9 

pbyBkaaiDWea, noédada pelas idèiB d»PlaU[o, emqne 
o amor se affastava dos sentidos, e da esparaaca, es))iri< 
lulisandoHse a ponio de loraar-se um coito ascético da 
betlcza, em qae a pbaatasia Ivilbava, e O coravão fícavii 
BHido : era orna poesia, qoe, semilhante ao g^loferido di> 
Sol, brilhava mas oío aquecia, deslumbrava com imagens 
a^daTeis, mas d8o arrebatava com a vehemencia de um 
aSécto ardente, e impetuoso. Tudo eram vlijões, raptos, 
ceotemplaçOes , delíquios de amor, lagrimas, suspiros, 
que faltavam , suspiros, que respóiMliam, cabellos de ou- 
R>, olbos que eram astros, rosas colhidas no|>arais«, agons 
doces, regalos despenhados de rochedos, auras, verdu- 
ra florida , 6nalmeute um verdadeiro curso de philosó- 
phia amorosa, escripto cm óptimos versos, e em lingua- 
gem puríssima, e elegante. 

Com estas miniaturas poéticas, sem ctaro-escuro como 
as pinturas Cbineias^ celebrou Pelrarcha uflia certa Ma- 
dama Laura, que eJle fci acreditar ao inundo, qne se nu- 
tria destes incensos, como elie se contentava de a vér, 
adorar, edizer-íhc qoe aamaya; som que dessa idulíitria 
proviesse a menor mancha á sua honestidade, e lldclída- 
de conjugal. Alguns Críticos modernos, ixirctcnilc-lhe 
qoe o estylo de Pelrarcha era demasiado artificioso, c 
estudado para ser a expressão de seotimenlos verdadiiros, 
e desconfiando de que tal desinteresse de afíectos podes- 
se dar-sc em um Clérigo tão pouco modesto, que deixa- 
ra dediversas mulheres um grande número d«lilhos na- 
laraes, deram-se a examinar o negocio com toda a at- 
leação, e sagacidade, própria da scieocía critica dos nos- 
sos tempos, e tiraram em resultado das suas ia\csií{ia- 
çOes, que a Laura de Pelrarcha. só existira na sua ima- 
ginação, como thema da sua i)ova ipo<^'a> 

Mas mesmo porque esta poesia era nova, p superior a 
quaolo no género lyrico havia apparecido uaquelle secu- 
h bárbaro, foi lambem da moda, «-PtliraTolia se viu á 
testa de uma-Escbola Poética, compoMa de lodos aquel- 
tes, qne oão lendo auQicÍei;Lcs ror^AS para seguir os voos 
assombrosos, de Dante, se dirigiam ao Pindo por nm 
caminho menos «aspo-o, copiawio a maneira, o estylo. as 
iovençOes do mesUe, de modo que as soas ol>ras segundo 
a expressão do Judicioso Betinelli. se fossem colligidas 



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120 KN9AI0 tIOGtUnnCO CBITICȒ TOMO III. 

«m UD1 sò volume, deTÍam ser impressas com o litale de 
Yaiiaateê dt Petrareka. 

Era um ponto de fé deste Senum pKvt Petnrchista, 
que uSe podiam merecer o nome de lyrLcos seu caalar 
de amores no mesmo tom do mestre, e Laura se repro- 
duzio em soas obras debaixo de dilTereutes nomes, com 
a mesma ísempsão, os mesmos rigores, a mesma esqui- 
vança, e o romaoce amoroso de cada um destes imitado- 
res, teve os mesmos snccessos, e as mesmas situaç^Ses do 
modêio, que Petrarcha lhe dera. 

Esta maoia imitadora passou dos Petrarcbislas de Itá- 
lia para os Pelrarchistas de Uespanba, e de Portugal, 
todos tiveram a sua Laura, lodos suspiraram ptatonic»< 
mente por ella, e todos fizeram do amor um jogo de es- 
pirito, e não uma paixão. Buscan, Garcilaso, e Lope de 
Yega, fizeram o mesmo que Casa, Molza, e Thebaldeo ; e 
Camões fez o mesmo que elles, posto que com maisengC' 
sfao, porque çWe sò era mais Poeta que Petrarcha, e to- 
dos os Pelrarchistas juntos. 

Petrarcha neste Soneto, que é o terceiro da primeira par^ 
te do sen CaDcioneiro, diz que se namoraa de Laura, ven- 
do-a em um^ igreja pela semana santa, 

SONETO, 

Era it giomo ch'al Sol si scoleraro 
Per la pietá dei suo Fatlore i raí. 
Quando Ío fui preso ; e no me ue guardai 
Che i bei Tostri occbi, Dona, mi legaro. 

Tempo no mi parca da far riparo 
Contra i colpi d'amor, però Q'andai 
SecuF, setizà sorpetto onde i miei guai 
Nel commune dolor si cominciaro. 

Trovomi Amor dal tutto disarroalo, 
Ed aperta la via per grocchi ai cuore ; 
Cbe di lacWme son fatti uscio, e varco. 

Per4 ai mto parer noa li fea onore. 
Ferir me di saetla In quello slato, 
£ a Toi armala non mostrar pur Yaxoi. 



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LITtO IT, CUITCLO. IT. 121 

Baston islo para tornar a semana santi i qnadra d» 

do dos Petrarchistas de todas as oaçfies, e de lodos os 

lODpos. 
Lope de Vega Carpio diz 

El culto celestial se celebrava 
Del maior Vieroes en la Iglesia pia, , 
Quando por Laura Franco se encendía, 
T Liso por Natércia se emflamava. 

Poderia, si quizesse citar mais exemplos de Poetas da 
Escbola dePetrarcba, que dizem haver-se namorado pela 
lemana santa, e porque não heide snppOr, que Laiz de 
CamOes, que era nm Petrarcbista dicidido, fazendo aquel- 
le Soneto não quiz mais que imitar Pelrarcba? Porque 
iiSo heide soppAr que a celebrada Natércia, que tanto 
tem dado que cuidar aos seus Bíographos, não é mais que 
um parto da sua imaginação para por sua conta pbilo- 
sophar de amor? Uma das razões, que me obrigam a pen- 
sar assim, é o estylo dessas poesias, que dizem ter sido 
compostas para ella, cm que não yi]o aquella expressão 
GÍngelIa, edigamo-loassim, involuntária de um seulimen- 
to profundo, de uma daquellas paixões, que ge apoderam 
da alma do homem, e dlcidem do destino da sua vida 
inteira! Ha nesses versos de CamQes, bclllssiitios quanto 
ao poDlo de vista arlistico, demasiado espirito, demasia- 
da elegância, e conceitos pbilosophicos , que decerto 
não indicam grande perturbação de alma, grande tumul- 
to decoração; quem pertende desafTogarsentimenlos ter> 
nos não busca tanto apparato, tanta subtileza, lanto^mcios 
de brilhar como ali observamos. \ 

De mim nSo quero mais que o meo dezejo, ' 

Nem mais de vás que vér tão lindo gesto, 
AU me manifesto 

Por vosso A Deos. e ao Mundo ; ali me imflammo 
Nas. lagrimas que choro ; 
£ de mim que vos amo 

Em Yit que soube amar-vos me namoro, 

E fico por mim só perdido de arte 

Que bei ciúmes de mim por vossa parte 



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173 CnSAIO BI0<iBAnCO CRITICO, TOMO Hl. 

Si pór algum acerto Amor vos erra 
Por parle do dezejo. comnietteado 
AlguDi aefaiido, e torpe desatino ; 
E se iada mais que vér em fim perteudo ; 
Fracfuezas sam do corpo, que lie de lerra, 
Mas não do peosameulo, que he divino. 

Porém si he grande a ddr, . 
Com a alteza do mal a restituo ; 
£ as armas, com que mata sam de sorte, .. 
Que aluda lhe Qcaes devendo a morte. 

Estes conceitos IJIo esquadrinhados, estas ánlilheses, 
estes trocadilhos, ejogos de espirito serão acaso alingua* 
gem de uma paixão verdadeira, de um amante eotlia- 
siasla? Se-lo-hão os seguintes versos da Canção II.? 

Mas como lhes esteve ali presente, ; 
E entenderam o li m do mco dezejo, 

Ou por outro despejo, 
Qne a Itngoa descobrío por desvario, 
Horto de sede estou posto em um rio, 
Oade do meu servir o fructo vejo ; 
Mas logo se alça si a colbe-lo venho, 
E foge-me a agoa si em beber porfio. 
Assi que em fome, e sede me mantenho; 
Nem (cm Tautalo a pena, que èu susteuho. 

Além do que padeço 
Atado em huma roda estou penando, ' 
Que em mil nuidaaças me anda rodeando. 
Onde eu, si a algum bem subo, iogo desço, ' 
E assim ganho, e assi perco a coniiaoça, 
E assim de mim Tagiado traz mimando, 
'. E assim me tem atado huma vingan^ 
Como IxioD tão Tirme na mudança. 

Considere-se mais este trocba extrafaido da Écloga D- 

: Oh Nympba delicada^ 
Uonra da natureza I 



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UTXO IT., CAPmUA ir. 133 

Como pôde isto ser. 
Que de lk> pegrino parecer . 
Podesse proceder tanta craeza? 

Não vem de nenhum geite 
De causa diviual contrario effeito. 

Pois coDio pena tanta 

He contra a causa delia? 
Fora he do natural minha tristeza. 

Mas a mi que me espanta? 

Não basta, oh Nympha iiella 
Que podes prevertcr a Natureza? 

Não he a gentileza 

De teu gesto celieste 

Fora do natural? 
Não pôde a natureza fazer tal: 
Tu mesma, oh bella Nympha, te Gzesle, 

Porém porque tomaste 
Tão dura condicção, si te formaste ? 

O Padre Francisco José Freyre, pôde na sua Arte Poé- 
tica, elogiar estes versos, e apresenta-los como modelo 
das imagens phaotasticas. Não trado de averiguar até 
que pouto este juízo está de accordo com o bom gos- 
hi; direi somente, que estas argumentações, estas sub- 
tilezas, mostram mais engenho, que ternura, mais des- 
Gripção, que sentimeulo. 

Mas dado, e não concedido, que estes amores de Ca- 
mões não fossem puro Petrarcbismo, que Natércia n3o 
fosse um ente fictício, mas D.Catharina de Ataíde, pa- 
renta, uão se sabe em que gráo, do Conde de Castanhei- 
ra, ainda assim mesmo não vejo afil motivo para in- 
duzir os parentes daquclla Dama a perseguirem o Poeta 
toda a sua vida com tanto cncarDifamcnlo, nem para 
jnlgarem o casar-se ella com elte dezar, e quebra da sua 
nobreza. Não era eile de uma familia muito illuslre? 
Seus primos, segundo diz Severim de Faria, nâo se 
haviam aliado com as melhores casas do reino? D. Jo- 
sé Maria de Sousa, dá por causa da repugnância dos 
País de D. Cathariua, a. pobreza do pretendente; mas 
as palavras de Camões, que acima citamos desmentem 
esta eupposií'âo, pois que elle claramente diz, que era 



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134 KHSAIO UOGUraiGO CBinCO, IDMO III. 

bem acceito das Damas, e tinha todu o oecijfisario para viver; 
a]éni disso, era mancebo nohre, ralente, e instruído, sd- 
mittído DO pareolesco do Vallido do Rei, podia aspirar 
a toda a qualidade de fortuna. Mas concedendo ainda is- 
to; Dão é visível que, nesse caso, o que os parentes 
de D. Catharina podiam querer, era aíTasta-io do reino, 
a fim de que a Dama, com o tempo se esquecesse del- 
le? Não é absurdo snppúr, que elles o perseguissem na 
índia, e ali lhe embargassem o Tazer fortuna, porque 
isso viria apressurar a sua volta á pátria, que era o que 
menos Ibe convinha? E roais incrivel ainda será esta 
perseguição, se como diz Manoel de Faria e Sousa, D. 
Catharina falleceu antes de CamQes sahir de Lisboa. 

Has si a desforluna, que Camões encontrou no reino, 
apesar do seu mérito, e serviços, d3o nasceu dos paren- 
tes de D. Catharina, não deixa por isso de ser eviden- 
te, que houve quem o perseguisse aqui, e na índia, e 
proccdimeoto de Francisco Barreto o prova sobeja- 
mente. Dizem alguns Ãuthores, que o ódio deste Gover- 
nador nascera da Salyra intitulada Disparates da índia, 
em que elle, e alguns amigos seus, foram pelo Poeta 
censurados : esta razão não tem pezo algum ; essa Satu- 
ra existe ainda para justificação do Poeta, e condemnação 
dos seus inimigos. Leiam-na com attenção, e Gearão to* 
dos convencidos de que nella não ha um único verso por 
que alguém possa offender-se, ou julgar~se designúlo. 
Toda a censura ali é geral, e não pessoal. Nada ali 
sabe dos limites da moderação, e de uma decente jo- 
vialidade, logo o ódio de Francisco Barreto, e o abo- 
minável acto de despotismo por elle praticado contra o 
Poeta, não podiam nascer daquelles versos. 

Os termos porque CamOes falia do seu desterro, di- 
zendo, que o deseja perpetuado em pedra, ou ferro, bem 
mostra, que elle o considera como um opróbrio eterno 
do seu perseguidor, e que se havia por viclíma de uma 
violência, e não como condemnado a uma pena, que me- 
recera por erro, ou culpa, que tivesse commettido I 

Lembremo-nos ainda de que, depois de findo o go* 
veroq de Francisco Barreto, foi Camões perseguido, pre- 
so, e processado por crime de peculato, de que se jus- 
tificou plenamente, confundindo o9 seus calumiuadores i 



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U7ID ir., aHTULO IT. 135 

foe Pedra Barreto o enganoa, e trabia vergoshosamea- 
te; que chegado ao teiao, os seos serviços ficaram sem 
recoinpeasa, e o deixaram perecer de miséria {.NSo pro- 
va islo, que havia uma conspirarão contra elle, que um 
poder occullo o seguia a toda a parte, para alormeDUic 
lo, e perde-lo? 

Mas qual era esse poder myalerioso, e occullo a quem 
deve altribuir-se a desgraça deste grande homem? Os 
seos contemporâneos o conheciam sem d&vida, mts oe- 
nhniD delles se attreveu a nomea-lo ; mas do que ell<s 
disseram, facilmente se deduz o que elles callaraD, e 
em tilguos o que procuraram dar a entender, uma vei 
qoe se combine com a historia do tempo, eiaminada i 
luz da boa critica- 

Os Jesoitas detestavam Luii de Camfies, e Luiz de 
Cambes detestara os Jesuítas. Aquella sociedade ambi- 
ciosa punha a mira em dominar o mando, avassallao- 
do os depositários do poder, e desde a sua entrada no 
reino, hav«ndo-se apoderado do espirito dehil, e de- 
voto d'EI8ei D. Jo9o III. , consiguiram o exclusivo da 
inslrucfSo pública, para qne, nem nas aulas menores, 
teta na Universidade se ensinasse si ndo o qne lhe convi- 
nha, dando cabo dos bons estudos, que até ali Doresciam, 
constituindo assim a nação em uma ignorância, que af- 
fcctava desciencia, mais prejudicial, por isso que aigno- 
rancia pura, e simples, porque nesta se conserva o bom 
senso, qne se deprime naquella. 

Por estes meios, e a influencia do conressioaario, se- 
duziram a maior parte da nobreza, e de todos os homens 
influentes, ligando-os aos seus interesses, e afTastando 
dos cargos públicos, coartando-lhe os meios de fazer for- 
tuna, a Iodos os homens em quem conheciam grandes ta^ 
lentos, accompanbados de espirito independente, e aman- 
te da prosperidade pública ; tal era o seu modo de pro- 
ceder, para firmar a grandeza da sua Ordem, como cla- 
ramente se dednz das InstrucçSes confidtnciaes (secreta 
nonita), dadas pelo Gerai, e seu Cousetbo, a todos os 
Prelados da Ordem, que depois da sua extiucção tem st< 
do frequentes vezes impressas. 

Entrava no plano desta corporapSo, chamada religiosa, 
Teonjr toda a Peainsula, debaixo de um s6 scepiro, uniu* 



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nS ENSAIO noGBAÍHtCO CbrUGO, TDUO lU. 

do Portugal a Castella, e a menoridade d'EIRei D. Se* 
bastião, pareceu occasião própria para isto, e coBsta qa« 
dotis Padjes de grande authoridade lUi Ordem, TÍeram a 
Porlugal Taier algomas propozíções á Rainlia D. Calhari- 
Dfl, então Regente, propoziçoes, que a Bainha, apesar de 
bespanhola, rejeitou com horror. 

Mudaram eotao de táctica os vencravei» Padres, eá 
força dedesgoBtos, que lhe elles prepararam, a consl^ange- 
ram a ahiir mao da Regência, qne passou ao Cardeal In* 
bote D.Dcuriqtie, grande devoto, c respeitador daConi' 
panhia, cujos membros elle julgava os mais firmes baluartes 
ia Religião Catbolica ; tanto haviam sabido fascina-lo com 
as eoas apparentes virtude, e mnnobras artiMosas. 

Assim foram propagando, e robustecendo asaainfluen- 
eia nacArle, e no reino, ajudados da sua valiosa alliada a 
Inquisição, affastaramdoIadodoRei, o sauAyoD. Aleixo 
doMcnezes, ancião respeitável por sua honradez, serviços, 
e virtudes, cercaram-no deJesuilas, ou de aliliados-seus, 
e quando chegou a tocar os limites da maioridade, accoB^ 
telharam-lhe, que tomasse as redéasdoGoverno, bem en- 
tendido debaixo da direcç<^o do Jesuita Luiz Gonçalves da 
Camará, que foi nomeado seu Confessor, eseuirmãoUar- 
tinsGonçalvesda Camará, Jesaila de capa curta, aqaemse 
deu ologar de Escrivão da Puridade, quecorrespondia ao 
que hoje se chama Primeiro Ministro, cm cujas mãos estava 
o samma da governança, e sobre tudo a ilistribyição das 
graças. O modo porque estes dous homens exerceram oi 
aeus logares pôde dignamente avalíar-se por nma carta 
diHgida ao Confessor, pelo virtuoso Bispo D. Jerooyino 
Osório, e pelo resultado da campanha de Africa, empre- 
hendida pelos arteGcíos Jesuiticos, e qae causou a morta 
do Rei, c a perda do reino. 

Luiz de CamSes era mancebo de espirito ardente e ge- 
Beroso, instruído, valoroso, e enthusiasta da gloria, • 
independência da soa pátria. Conbeda o espirito, e as 
inlenç^s da Companhia, detestava~os por i^o, e desaf- 
fogava o seu patriotismo, invectivando contra elles: e 
pdsto que nunca faz mensão delles, e se dirige aos Fra- 
des em geral, o faz com tudo de modo, que iodo o leitor 
conhece, qae aa suas repreheD(Oes, só podiam frízarbem 
DOS Jefioilas. 



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IITBO IV., CAKTCtO IV. . ] 2J 

Assim O entendeu aCompanhia, e todo o mmtdo sabe, 
pe aCompanhia nSo sabia perdoar.- Daqai afalta de re- 
nuneração dos seos serviços, c o despreso dos seus ta- 
lentos, e as persogoições, que no Oriente lhe promove- 
ram 06 seus adeptos. Frauciísco Barretii, o seu parente 
Pedro Barreio, Wiguet FiosSeccos, nBo fizeram mais que 
eiecutar asioslrucçícs da Companhia, que scgondo pa- 
lice se reduziam a amargurar s vida do Poeta, e abbre- 
TÍa-la á (orça. de maus tractatuenlos, desgostos, c priva- 
(íes. Note-se bem que Lniz de CamOes duraMe o Více- 
refnado. de Dj- ConstB&tino de Bragaapa, via levantado o 
sen injusto desterro,'e fiven trnoquilio etn Gôa-, porque 
si^uelle tempo aCTsadeBfagBo^ nao era ravoravei aos 
Jesaitas, eparlilhando iy.t>wstanlJ[io aaitipattila da sua 
^orítiaparfioóm el^», não e^«posBive^ueqM^esse tM-ner- 
» ÍHStnKnwu» das soas vÍDgattças. LofO jior^ que elle. 
termiSau úseu témpoj eqoelhe siiccedCB-oCDodedeKe- 
ieoào; logOi 0s peráegtndsreB de Camões ieraotoram O' 
colo, c o caluHiniariím de pemilalg, eioXondc apeslai* da- 
tslitfia em qHeUBha'OPobta, nao pôde resistir á influen- 
oia Jesoitioa, econsenlio que fosse preso, e processada' 
poT accBsatâo de pee^atQ connettido Bo exercido do. 
emprego- de Provedor d«5 defimlos,' aaflMnteB.qUe sep-' 
nraeat Macau; como si Tosse poasivol, ifa^a\ieliomts~: 
se sabido ãaq»ella cidade se«l ter dado coutas á Aalho-- 
rídado, qiKi ohavift' nomead* para equelle serviço. 

Ora si isto lhe accontecéra na Ãsia, que psdla elle es-, 
perarem LisbOA, qoendo o Goveraio estava nas idSob dos 
Jesoibis, por- ialervtDção des deus Camarás, nm lesoítaf 
eConft^sor d'E^reí, etootro «âUado. da Companhia, eSsi: 
crivão da Puridade? 

EMfoecer os longos serviços dò Poete na Asíi, e na 
Arrícaj desprcsar os seos laleotos, enuito sftber, qiteo; 
habilitavam para qtiahjoer óuprego^- era pento assenta-: 
do, o eDC«RtroVer») eiUre os cabeis da. Ordem, havia 
porém umacírclnetaíieia, que devia (^ngar a Compa^i 
nkia, e oB Camarás, a andai com tacto,' e maderaf ão, o' 
nSo levar as oáuséstâo' longe fomo desejavam, cnmp^a> 
salvar aS apparencias, eevitar o escmda-lo, doas coBsaS' 
en qse a hypecrisia pAe sempre o maior: ou idado. ■ . 
tuiz de Gamõoe' apf esentava-se Ba.côrte;fiãD cotia síB". 



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128 ENSAIO BlOOHAPaiCO CRITICO, TOMO III. 

pies reqaereole, que viaba pedir a remttoeraçSo cte Tod- 
gos, ebons serviços,' em tal caso seria Tacil desattendeJo, 
ou desvia-lo, segundo o costume ; mas iraeia na mSo ain 
Poema Épico, era quo celebrava a glofia nticioual, e vi- 
uha dedica-lo aoMooarcha reinante. Oraseguodo asidéas 
do scculo, e a pratica de todas as cArtes da Europa, e 
com especialidade da Ponlificia, rejeitar a Dedicatória, 
ou acceitaodo-a, dSo remunerar o Autbor, seria vm ver- 
dadeiro descrédito para o Rei, e uma vergonha para o 
seu Governo. 

Era necessário sahir desse paaso, masseuqueporiss» 
uelhorasse a sorte do Poeta ; e na scduçio deste proble- 
ma se empenhoa a finara Jesoitica. Aceeite^ a Dedica- 
loria; (disseram elles) para credito do Soberano, e des- 
se uma pcnçSo ao Aulbor; mas cem» «AuLbor Hão édo» 
nossos ; como tempeietrado os nossos arcanos, coBsuraa- 
do o nosso proceder, e acconselhtdo o .Rei, que. gavenã 
etie o Reiíto, t nos.fluiiuíe rtiof no choro, seja ess^ pen- 
sio lai, que b3o o livre de morrer de miséria. 

Segundo este bello plano foi Luii deCaiades aggracia- 
do com ISjJOOO réis de tcBf a por tempo detncz aunos, com' 
a coadipSo de lhe nSa serem pagos sem apresentar cer- 
tidão de que residia na corte, passada pelo Escrivão da 
raatncii& dos Moradores da Casa ^a), como consta do 
Alvará de ã8 de }«Hie d« 1S72, que existe na Torre do 
Tombo, registado no Litra 22 da Ghanoellari* d'El-Rei 
D. Sebastite a foL 3& 

Esta mercê Ibe lui prorogada por mais tcez aanos por 
Apostilia de t de Agaste d« ISI5 ; e por mtus teez annos» 
findos os primeiros, por oolra Apostilia datada dei 2 de 
Janbo de 1S78. 

£sila iHiça foi luchaéa de mesquinha, e inaigúBcaite 
por lodos os RiograpliQH de CamOee, e ettte eties pela 
laglez Adamson, e B. José Maria de Sousa- 
. A animosidade, e odi« da Companhia de Jesus contra. 
Lais de CanSes sobrevives à morte d« Poeta; d3» coo* 
tentes da haver-lhe aU)reviedo a vida á forca de desgos- 
tos, e de persegniçCes, quizeram ainda ferr-rlo na soa 
gliHÍa. Com esta intenção damnada fizeram duas ediçOea 
dos Lusíadas alterando, e mutilando o texto da maoeira 
maia ridícula, qne páck imaginar-se. £a mioca vi estas 



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imo tr.t CAnnitf ir. 139 

efifttes hoje ratissimas, mas ambas foram «xaiainadas 
pelo ertidito- Sacio dá Academia Real das Seíeniúas de 
Usboa Sebastião Francisco Ueodo Trigoso, como se vé 
da sen ExavM critico das jtrimeiras einco eàifõu dos 
iMmdat, publicado no Tomo VIII. da Historia, e Memo* 
tiis da mesma Academia, edaqni extrafairei alguns eient- 
pltedestaperfidiacommeltída contra arepulafio do Poeta. 
Os qaatro primeiros versos da Estanca vinte e tm do 
Ctato primeiro 

Em. lasentes assentos maròlietados 
Fonro, e de perlas mais abaixo estavam 
Os oatros Deoses todos assentados. 

alteraram os editores Jesnitas pela maneira seguíntèl 

Em lusentes asSentos marchetados 
pe onro, e de perlas mais abaixo estavam 
Os oatros Ídolos iodos assmíados. ■ 

Além de qae o Vocábulo ídolos dSo convém neste lo- 
gat, ha ainda a notar que 

Os outros ídolos todos assentados 

é DDia tioba de prosa, e n3o um verso, pois para' o ser 
tem uma syllaba de- mais; e oãe será uma iofamia atlrí- 
buir semilbftttte descuido a Luiz de CamOes, o mais apu- 
rado versiScador da seu tempo? 

Na Estanca trinta, e quatro do mesmo Canto, apparece 
ama alteração ainda mais absurda- Diz. o Poeta 



Estas cousas moviam Cylberea, 
E mais porque das Parcas claro enteode, 
Que ha de ser celebrada a clara Dea 
Oude a Gente beilígera se estende. 

Dizem 05 editores Jesuitas' 

Estas coDsas' moviam Cf therea,' ' 
E mais porque: das Parcas claro entende,' 
Que ba de sa. celebrada a nunca /M' 
Onde a Gente '«KirtfMfa Se- estende. 



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130 BN9AI0 «IMUnW CílIW», MMO 111. 

QMm nerã a KWH» /«a! Acaso Veow? tUs^toniae 
motivo se deoMBÍDi aesim? For v«vtorft «s ottr»» Den- 
sas 6fm oma» vessa feias, e outras y8í« fcrswsaf , e aè 
Venni tm « privilegia de nawa sflr feia? Que «qdvo- 
nienda íw em subrtUtrir goUe mantítsa, a Gente MH- 
atra qu« O Poeta haKia empi^gado fun designar a Ha- 
çlo Portugoeia? Que quer ámt a Gtntê mmitma? Ta- 
YCí Neptuno, bob Deasoa, eNymphas dasna oért»? Tal- 
çez os peixes? Ou os marinheiros? E altribneqi-«e et 
tas expressões vagas, inuexactas, eíDcobereutes a um Poe- 
ta como Camiíes para lhe deslustrar a fama, e semilhM- 
le perfidía é praticada contra elle porbomens, que se di- 
ziam Religiosos, e quando oAuthor era morto, e não p(h 
dia reçiamar, ç acodir pelo sen credito ? 

No Canto segundo supprimemtodasaa Oitavas, quecon- 
tém a descripçao da Viflgem de Venas, que acabando de 
salvar M PorUguWM 4a snlrap na barra de Mombaça, 
onde os Mouros teaUvaK dertrui-íw, sol» m Oíympo 
para interceder porelles com Júpiter, eem logar daq^e^ 
-las Eatinças brilhantes damara iiva, eimagiwJBa Poesia, 
para ligar o sentido introduziram nma toda nova, ealtm- 
ram outra, de modo quearesposta, (]\ieCaniiJesrefereco- 
mo dada por Júpiter a Vénus, é supprida por uma voi sobií- 
■ natnral, guçrespende ádeprwação doõauía : eÍTlasaqoi. 
Orava o illustre Gama desta sorte, 
Qnando uma voa «uvio; que do aHo TiiA», 
Dizendo-ihe, ngo temes vêr a morte 
T8o propineua a ti, e lio vísinha ; 
Anima-te, e esforça, Yafíío forte. 
Que tal empreia a tal Varão convinha. 
Ouvindo isto o Gama attcnlo estava, 
E a voz, que bem oovia, assim soava. 

Famoso^ Portugoezee não temaes , . 
Perigo algum, jamais em Lustlanos 
Nem que nenhum qne ^íeS poisa «jutú ' 
Em quantas gerações homer de humanos, 
Qne eu vosfíBo, imu^oiqHe vejaaa- - 
£s<^itoerain-ia firogos, o Ilomanns 
Pelos ilhiatres feitos, qNt eata geatfl ' 
Ua de fazwoai parles <loOn«ate. 



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MVM IV., CWlUlft IT. 131 

, i, b^bari4ad9 4« phra^e, ■ TersifioaeSo proMÍM, san 
i<|DÍigu&es àr«ii|dade daQKpress&o, eáiacolieFeieia das 
idéiB I Si Luie de CauiO^s esoraveEse neste gosto, lia 
muito qge «s Liuisdas e^t^rism tSo esquecidos como a 
furtvgaiáa, a Braganedia, e quejandos outros Poemas 
«crifttPf a de^pçito det Upsae, 

No CautQ quarto desorevsndo o Poeta a batalha de 
JiJjutarrota, lUe, faliaudo doa Irmãos doCoadcslaTel, que 
kjTian aegwtdo «» partea de Caatella. 

O9 Pureinu também arrenegados 
Morrem airenegapdo os Ceoa, e os Fados. 

Os Jeeaitas substituíram 

Os. Pereiras, que também sav rebelados 
Finalmeiíte ^m aqui desbaratados- 

$im rebelIadoB, neste sentido oSo é Portuguez, o pri- 
meiro verso tem nmasyllaba dejnais, e osegundo é uma 
linha de ruim prosa, ^9>d sabor ftlguQ) de estyli» poelico. 

No Canto sexto, Estanca treze, em logar de 

Qne tiveram os Deoses c'os Gigantes 

pezeíam 

Que UveraiB es áe cima o'ob Gigantes. 

O» deáma em \ost.t doa DeoBes I Ak grande CanSes [ í 
possivel qae estes Bárbaros de Roupeta não tivessem rc- 
manca iÀ &UnbuÍMe tantas, • Mnilhaflles sandices ! 

Mas os Jeguitas u9o ae lemitaram a esta perseguição 
posthnma : de accordo com alguns nobres, despeitados pe- 
»B oensurts de sobeJA esperas, que o Poeta lhe dirigira, 
e sabendo, qw Manoel de Faria e Sousa iraotava de im- 
primir um Commentario aCamOes, deram obra a evitar es-t 
ta empreza ; esoreveramr^bie para Madrid, que no dito 
Commentario fizesse toda adttigencia por desacreditar Ca- 
mSes, apresentando-o como péssimo Poeta ; e como Ma- 
poel dç |«ia » Sonn n negou a toískr j^te nastà io- 

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132 EKSAIS BTOGlIAPindO' CBinCO," tAVO III. 
fatne mkDObra; o denuDCiatam, á lutalsíçto, qne csdi 
demnoit a obrs como offensiva da RriigiSo. ' 

Manoel de Faria e Sonsa, Tendo'que as todsas lera- 
ram este camiolio, ' recorrea ã InquJsiçílo de HÊspanba 
apreseatando^lhc ama apologia da sua obra, que foi ap- 
provada com oparecer daqudif Tribunal, qnejunto cem 
ella se impriínio em Madrid, no anno delSiO, coln o se- 
guinte Ululo. « Informaeion en faxior de Manoel dtTarta 
V Soiiia, Caballero de bt Orden de Clarish, y âe ia Casa 
Seal, sobre la acusacton, que se lie ktzo en el Tribunal 
dei Sanlo O^cio de Lisboa, a los Commenlarios, qúe do»- 
ta, y juiciosa, y CaAoUeamenle escriuió a los Luiiadat 
dei doetissimo, profundíssimo, y solidissimo Poeta CAm- 
liano, Luií de Cantões, único ornamienlo de la Accade- 
mia £spanola en esle género de Letras. 

Esta declaração, e approvação clara, e explicita dos 
Inquisidores de Hespanha, moderou a sanha dos Inqui- 
sidores Portuguezes, e Manoel de Faria ponde sem obs- 
táculo publicar osseusCommentarios; mas esle fado pro- 
va que os Jesuítas u9o contentes de perseguir a memoria 
do Cantor do Gama, também envolviam noseuodió ósque 
linbam a nobre ousadia de fazer justíçâ ao seu juereci- 
mento. 

Para acabarmos de uma ves com estas tramóias, e in- 
trigas Jesuíticas apontaremos um facto atrozmente cómico 
do Jesuíta secular, ou de capa cwta, como diien «m 
França, Martim Gonçalves da Camará, que algum tempo 
depois da morte do Poeta )be mandou ^var aa eampa 
umEpithaphio, em verso latino, feito pelo Padre Cardoso, 
bunbem iedliita, qie começa c(»n estes versos 

Naao Elegis. Fiaetus Lyríeis, Efigraminaie Morem, 
Mie i<u*t Mtreo marmita 'VirgiUiu. 

c acaba com estes dous turgicamente bypniwiicosj tm 
. que transflora o ruim, e corrupto gosto do seeato. 

yitltte fas, ísqwm ne/tis, aquatíUt uni ' 
£sl sibi; fur »em>, nentít seemdm eril: 

O riBijd«lft«Bti>«iae4ftloiseuMvida dtnUNitir ts 

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,UVB« IVi, CUMDtO IT. 133 

nimores, qaeciícalavain oonifa osJesuites, e clle, ares- - 
peilú de Camões, fazendo persuadir a Posteridade docon- 
Iraho, visto que um Jes«itt compocera aqnelles versos, 
em que tanto o elogiava, e elle Martím Gonçalves os pc- 
din, e lhos iDaadâ'a e»;alplr na lapida, que cobria os 

MOS D3809. 

jfes a Po^ridade, que não é tSo facl) de illodir co- 
mo os contemporaBeoE, responde ao impostor tf Malvado, 
ebypocríta ! Si tujnlgavasverdadeiranienle, que em Luiz 
de CamOes estavam revnidos os djB'erei)ic« talentos de 
Ovídio, BoTBcio, Marcial, eVirgilto; si o havias por um 
foetasem igual, einniiúitave], porque, quando eras Escri- 
to ik Puridade, e Valido d'Eli-Rei, tendo na mfioocofre 
das graças, o deixaste viver deesmolas, e perecer na mi- 
séria, para depois de sua morte, q«e lu apressaste, e os 
leas sócios, vires tributar ás suas cÍBzas benras tardias, 
e eslerites? Essas honras sam um verdadeiro cscaroM 
feito ao talento, e à desgraça, um novo opróbrio para o 
teu nome, que apparecerá manchado com elle perante as 
geraçfies vindouras. » 

Alguns anlhores duvidam, que a naufrágio de Luiz de 
CamOfis á foz do Rio Moom fosse na soa vinda de Macau, 
e esta dúvida me d3o parece mal fundada ! Pois dizendo- 
se qae nessa occasião perdera quanto tiuba, salvando so- 
mente o maauscripto dos Lusiadas, como pôde dizer-se 
na saa vida, collocada á frente da eà.\ç.ío de Manoel Cor- 
rêa, que elle em pouco tempo despendiira em QCã quan- 
to dinheiro havia trazido do SulV 

NSo será mais verosímil, que aquelle successo desgra- 
çado tivesse logar na hida para as Molucasí Os versos 
em que o Poeta faz mcnsão deste accontecimenlo parecem 
confirmar esta opinião. 

Este recebera plácido, e brando 
Em seu regaço o Cauto, que molhado 
VeiB do naufrágio triste, e miserando 
Dos procelosos baixos escapado. 
Dos fomes, dos perigos grandes, quando 
Será o duro maado txecutado 
Naqaelle, cuja Lyra sonorosa 
. .Sijtá mais affam^da, (lue ditosa. 



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134 IN8JII0 BItMUraiM CBFltCO, TOIIO III. 

Dix aqui o Poeta, qac o uaafragio teve logar qaando 
Será o daro mando txscntftde, 

isto é, na occasilo da saa execuçSe, logo é na bida, por- 
que á vinda nfio só se são executava esse mando, maa 
já o Poeta estava livre delle, pois havia alcaotado de D. 
Constantino a permissão de voltar 8 G6a. 

No Capitulo precedente, segundo a opiniSo dé Maaoel 
Corrêa, Severim de Faria, FariB e Sousa, AdanuAn, eoU* 
troB Biographos de Gamões, disíe, qiM elle coAipoiera a 
Canção decima, em que descreve o Monte Felii, oa occasílé 
em que andava cruzando naqaellas paragená na Afmaãa 
de Manoel de Vasconcellos, não obstante isso, a leitura 
daquella Canhão torna para mim o easo muito duvidoso. 
Parece que sendo assim não teria o Poeta motivo part 
dizer 

Aqai me achei gastando huAs tristes dias. 
Tristes, forçados, máos, e solitários, 
De trabalho, de dâr, e de ira cheios. 

Como poderia diíer còm propriedade ePoeta,^ qne ser- 
via como voluntário, abordo daquella frota, que os diak 
que ali passava eram forçados ? Como podia chamar-lhe 
solitários, estando em companhia de tanta gente? Qne 
eram cheios de ira, si ninguém o offendiá, visto que a 
ira só pôde ser excitada por alguma effensa recebida? 
loclino-me mais a accredilar que estes versos fossem es- 
criptos no tempo da saa peregrinação, e desterro. 

Finalmente em nossos dias José Agostinho deMaCedo, 
o zoilo implacável de CamCes, não contente de ataçalbar 
torpe, e calumniosameute a soa reputação literária, che- 
gou ao excesso de em suas Reflexões Criticas sobre o epi- 
sodio do Adamastor, paginas trinta eduas, a trinta e três 
levantar dúvidas sobre a nobre 'ascendmcla do Poeta, 
qne ninguém Mé ali se havia lembrado ài contrastar. 
n Este testemunho (dit elle] faz-me crer, qne este solda- 
do chamado Luiz deCamSes, que, como diz Couto, veio 
morrer em Lisboa de pura pobreza, não é aquelle cuja 
genealogia é tecida por Manoel de Faria e SouSa, e co- 
meçada em Vasco Pires de Camdes, no reinado de D. 



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uno IV., UPITBLO IV. 135 

fnaná», em 133«. até ^mio Vaz de CavScf , casado 
com D Afina ddMactdoI l^homen Uo ilhidre, Mtro»- 
cado CO» 08 isais nobre» fomiliae, chegaria a tanta mi- 
BUfia CABO a tom ^ut morna, e nSo teria mna casa, 
na apa renda, nna razenda em Alemqner, ou em San- 
laiM? íSeosPaia nada Uvíam, que )be deixaf, sewlo li- 
)ho uoico ? O assento qae se achou na Caaa da índia com: 
■conta dgs S||t«§0 réis, qae ihe derus para embarcar co- 
ne soldado pitbto, s om dos alÍEtados por aquelle in- 
aigwficanle estipendio, talvet pfore a rniuba lambran- 
(a, t O que isto proTa é e iseaectídao, e a hiá fé con 
que José Agostinho escrevia sempre a respeito deCaioOes. 

Deítearanael, parece dediiaÍr-«equieMBiioel dcFariae 
SoBsa foi quem lecen a ganeotogia de tufa deCamfles, a 
qae é ara erro, porqi» essa geneologia se enconlra jA era 
Manael Severí» deParip, quB publicou « seus Discnrsoa 
en 16*9, t dalii a tirou Manoel de Faria, ^ que sé cm 
1039 deu é Ibz os CMumenlarios sobre oa Lusíadas. 

Além disso Manoel Corrêa , coolemporsAeo, e amigo 
do Poeta, affirma mui positivamente nos seus Commen. 
tOB aos Zunodus, que elle tmmbrt, enÍDgnem dirá, que 
elle Bio linlis todaa as raives para o saber. 

Si não era rico, tamb^em nfie era um miserável, como 
JoséAgostínbo perlendc nulignamenle iminuar, pois que 
seas Pais poderan dap-lhe nm curso regular de estudos 
03 Universidade ; e elle mesmo, na sua resposta a Ruy 
Dias da Camará affirma, que houve tempo, emqueltnAa 
todo o necessário para viver. 

Qnem disse a José Agostinho, queLuiz deCamfies não 
herdara nada de seus Pais? Que essa herança nSo seria 
grande é muilo de suppôr, visto que Simão Vaz de Ca- 
mOes nio passara de um filho segundo, e de um ramo 
collateral da casa, e morgado; mas é crivei, quealguma 
causa deixasse, e mais probavet ainda, que o lilho, que 
tinha gesio pródigo, alienasse, ou vendesse os poucos 
bens, de que havia ticado herdeiro ; mas que prova isso 
contra a nobreza da sua ascendência? 

Os assentos da Casa da índia, que elie arraslra para 
provar a sua tfaese, provam o contrario do que elle per- 
teode, pois ali se lhe dÀ a qualiticafão de Escudeiro, o 
qae «ostra, que não era plclKo. 



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1'39 ENSAIO. HOMATUGO CUnCO, TOMO UI. 

' Mas a este respeito deve aotar-se aqai a má fé cwb que 
José Agostiafao diz, qae rec«^era de gratificação 21000 
Féis, em logar de 3$i00 réis, como se ié em ambos os w- 
^eatos, para oom esta diSereoça menoicabar aiiula mais 
a Camões. Nem aquella quantia era iRsignifieanIe, como 
elle diz, attento o valor do diaheiro, e o preço doageae- 
ros naquelle tempo. 

E oode foi elle achar, qoe sò os plebeos recd)isn aqnd- 
la gratificaçio, ajuda de casto, soldo, oh como lhe quei- 
ram chamar? Talvez que si fosse otúigado a apresentar 
«8 provas da sua assersão, se visse na impossibilidade de 
produzi-las. 

Não v£jo por tanto razgo para rejeitar a genealogia, 
que os doas Farias dos apresentam como de Luiz de Ca- 
mões, e qae todos tem atégora adoptado ; parece-me fi- 
nalmente, que a lidalguia de Luis de Camííes é um fac- 
to, de que não pôde duvidar-se á vista do Alvará d'£t 
Rei D. Sebastião, acima citado, pwque lhe foi concedi- 
da a lença, e qae começa assim. « £u £1-Rei faço saber 
aos que este Alvará virem, que havendo respeito ao ser- 
viço, que Luiz deCamfies, Cavatletro Fidalgo da miidta 
Casa me tem feito nas partes da índia por muitos asnos, 
e aos que espero que ao diante me fará. &c. » 

Éclaro, que aqualificaçdo âeCaealhiro Fidalgo senão 
daria naquelle tempo em documento oflicial a quem nia 
competisse de direito. 



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sus Asm 

BIOGRAPHICO-CRITICO. 

I.IVRO V. 

CONTINUAÇÃO DA. ESCHOLA ITALIANA. 

CAPITULO I. 

Rhythnuts de Lms de Camões. 



Ainda qae Luiz de CamSes se não houvesse com o> 
BCQE Lnsiadas collocado na plana dos Bpicos de prímdra 
udem, bastariam as suas composições (yrícas para o rc- 
cMhecermas como o primeiro, e o mais sublime dos nos- 
sos Poetas do secnio de ouro da oossa literatura. 

Cam5es enriqueceu, e ptdia a líugaa, alfaiaudo-a com 
Duiías pate¥ras, e formas de dizer sovas ; discriminou o 
dialecto poético do prosaico até ali confundidos nos cs- 
críplos dos seus contemporâneos, e antecessores, elevou 
a versificação a um grau de apuro tal, que pôde sem cs- 
crapvlo affirmar-se, qgefoi elle o primeiro que entre nós 
fá versos, que podem diier-se perfeitos, foi o primeiro, 
qne conheceu a harmonia imitativa, e soube usardella a 
propósito ; que soube unir a facilidade com a etegaocta, 
a grafa com a força, edar acada assumpto oestylo par- 
ticular, que lhe convinha. 

Collivou com esmero a Poesia Italiana, introduzida 
em Portugal por Miranda, e Ferreira, semdespresar como 
o ultimo, a antiga Poesia Nacional, que levou ao grau de 
perfeição, de que era susceptível, como pôde vêr-se nos 
escriptos, nSo poucos, que neste género dos deixou. 

Outro mérito peculiar deste Poeta, é que a sua lingua- 
gem oSo tem ainda envelhecido ; muitas palavras, e pbra- 



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133 XKSAtO NOGUmCO CKITIC*, TOSO IH. 

ses de Poetas seus contemporâneos, e mesmo do secnfo 
segaÍDte teto-se tomado bàinas, obsoletas, e tem desap- 
parecido do uso, édos linos, ao passo que será mui dif- 
ficildepararnas Obras de CamSes vocábulo, ouphrase, ou 
modo de dizer,- que ido possa íudaboje ler logar na mais 
elegante, e pollida escriptara, e esta circomstancia por 
si s6 prova, queniaguem como eitesoube manejar oidyo- 
ma Lusitano, contiecer asuaindtde, e os ornatos, que me* 
Ihor lhe convinham. 

LuÍ2 de Camões, qse conhecia perfeilameote os Poetai 
da antiguidade, n3o deixava por isso de estudar os Poe- 
tas Italianos, t com especialidade Francisco Petrarcha, 
a cuja escbola pertenceu, e a quem procurava imitar, e é 
setaddvída a esta imitação, que se deve oestylo ameuei- 
sado, as antbiteses, conceitos, e pensamentos relioscados, 
que algumas veies se encontram nos seus escriptos ; ma» 
quando solta as cadeias da imitação, quando vAa co'8s 
próprias azas, e se abandona ao impulso do.sea génio, 
ent&o os sens vdos sam mais arrojados, at suas tintai 
anais vivas, e se mostra Poeta mni superior ao sen mo- 
delo, e a todos os discípulos da sua escbola; então m 
seus Poemas respiram nisa força prodigiosa, e a PbiloM' 
phia inspira, eillumina aa ssas consepfítes. Yé-se que o 
Poeta. havia corrida o Mundo, emprebendido grandes cou- 
sas; posto toda a diligencia em alcançar a tortuna, sm 
que podesse consegui-lo, que havia luctedo cran Iodas as 
calamidades da vida, e que á borda da sepultura se de»* 
cartava das illusões, que tanto o haviam eucaulcdo. 

Entre os seus Sonetos ha muitos, que podem passar por 
obras primas no género, bem pensados, ben dedoíídas, 
e aobte tudo bem fechados, no que levam natagen aoi 
dePetTKcka, cujos tercetos, pela maior parle, não eorrei- 
-poodeD á belieza dos quartetos, como confessa o i^aditO' 
PoelaSaverioBetlJDelli aquém ningnem decerto disputa- 
rá a coBpeteBCJa em matérias de Poesia, c bom gesto. 
- ÀlgBBs dos Sonetos de CamSes respiram a mais profno- 
ia melancbolia, e mostram que a sua alma começava a 
v^gar com o pezo do iafortuiuo. 



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tivno V., GAntbLo t. 139 

SONETO. 

Qm me qaet-e», perpetiMs sitidades? 
Cos que ea)Mmi(a aiada me eoganaisf 
Que o lempo, que k vai, aio torah sitis, 
E, bí loraar, aio tomau as idadei. 

Raião he já, oh Annos, que vos vades. 
Porque esles tão ligeiras, que passais. 
Nem todos para hum gosto sam iguais, 
Nem sempre sam ciaiformes ás voDta4es. 

Àquillo, a que ji quiz, fae tão mudado. 
Que quasi he outra cousa, porque 06 dias 
Tem o primeiro gosto já damuado. 

Esperanças de DoVas alegrias 
fiio me deixa a Fortuna, o Tempo errado, , 
Qne do contealamento sam espias. 

O seguinte Soneto parece um grito de desesperafiiio 
Eollú contra a desventura, que se enviperava em perse- 
gui-lo. 

SONETO. 

Que poderei do Husdo já querer? 
Que naquillo, em que poz tamanho Amor^ 
Não vi si nio desgosto, e desamor, 
£ morle emfim, que mais dSo pôde ser. 

Pois vida me nSo farto de viver, 
Pois já sei que não mata grande d6r, 
Si cousa ha que magoa de maior, 
£a a verei, que tudo posso vôr. 

A Morte a meu pesar me assegurou 
De quanto mal me vinha, já perdi 
O que perder o medo me ensinou. 

Na vida desamor somente vi, 
Na morte a grande ddr que me ficou. 
Parece que para isto s6 nasci. 



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. Í40 M9AI0 BIMUAWH» amCO Tono, IH. 

Os Sonetos eróticos de Camões sam de ordinário osqae 
nais adoecem do achaque dos conceitos, e affcctação do 
Petrarchisntó, e para isso me parece cooperar muito o 
serem ranitos ddles obra de encommenda, pa»tt satisfazer 
peditórios de amigos, em que trabalhava o espirito do 
Poeta desajmkdQ doeoração; ba porém entre eUes alguns, 
que sabem desta regra, e tm sido, con maita jastifa, 
louvados. Tal é o seguinte 

SONETO. 

Ham mover d' olhos brando, e piedoso. 
Sem vér de que ; bum riso brando, e bonesto, 
Qnasi forçado ; bum doce, e humilde gesto 
De qualquer alegria duvidoso. 

Hum despejo quieto, e vergonhoso. 
Hum repouso gravíssimo, e modesto ^ ^ 

' ' Huma pura bondade, manifesto 
ladicio d'alma limpo, e gracioso : 

Hum encolhido ousar, huma brandura. 
Bum medo sem ter culpa, bum ar sereno, 
'Hum longo, e obdieute std&imenlo ; 

Esta foi a celeste formosura 
Da mijiha Circe, e o magico vc»aeno, 
Que pôde transformar meu pensamento. 

Náo respira aqui oespirito dePetrarcha, e o seu coDo- 
rido engenhoso ! Em qual dos Poetas cootemporaDCOS se 
encontrará um Soneto escripto neste gosto? Qual é oama- 
dor de poesia, que não sabe de cár o segninte Soneto tio 
popular, tantas vezes glosado, ouparaphraseadoporootros 
Poetas, e até traduzido em Castelhano por Quettedo, qae 
o imprimió entre os «eus, esqueceudo-se de declarar que 
era traduzido. 



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limo ▼;, CAPITULO 1. 141 

SONETO. 

Sipie ânuos da Bastor Jacob- servia ' 
Labão, Pay de Rachel, Serrana bella, 
Has não servia ao Pay, eervia a ella, 
Que a ella só por premio perteadta. 

Os dias oa es()eraiiç» de hom sA dia' ' 

Passava, contentasdo-se com vella. 
Porém o Pay, usando de cautella. 
Em legar de Racbel, Uie dava Lia. 

Vendo o triste Postw, que c»ro «ogano» 
Assi Ibe hera n^da a sua Pastora, 
Como si a não tivera merecida, 

Começoa a servir onlroa septeannos, 
Dizendo « mais servira, si não Tftra 
<t Para Ião longo amor tão curta a vida ! 

Qae poesia tfio imagÍDOMt Que viveza deptulura no 
Soneto trinta, em que o Poeta refere como fOra salteado, 
e ferido pelo Amor, qnalidoDUiisdeBesidudioeMandisso. 

SONETO. 

Está o lascivo, e doce Passarinho 
Com o biquinho as pcnoas ordenando, 
O verso sem medida alegre, e brando 
Despedindo no rústico raminho. 

O cruel Caçador, qae do caminho 
Se vem callado, e manso desviando, 
Coai ^mpla Vista a setta indireilaodo 
Lhe dá no Estygio lago eterno ninho. 

Desta arte, o coracSo, que livre andava, 
Posto que já de longe destinado, 
Onde menos temia foi ferido. 

Porque o Frecbéira cego me esperava 
Para que me tomasse descuidado. 
Em vossos claros olho» eiooadido; 



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143 EMSilO MOORAraiflO CBITICO, TOHO III. 

Uma das manias do tempo do Poeta era transportar 
para a poesia as formvUi, e Í4éas da Philosophia esco- 
lástica, e elle próprio se deixou algamas vezes arrastrar 
da lorrenle da moda, como pôde yét-ss do segiiiitte 

SONETO. 

Traasforma^M 9 aoador na imn amada, 
Por virtqde do muito imaginar ; 
NSo teaho logç mais que desejar, 
Pois em mipt tíwho a parte desejada- 

Si nella está minha alma transformada 
Qne mais deseja o corpo de akançar? 
Em si somente pede descansar, 
Pois com elle tal alma 9slá |ia<ja- 

Uas esta linda, e (>ura Semidça, 
Que como o accidente em seu sujeito, 
Assi oon a alma tpieha se cosfonoa, 

Está Qo pensamento eomo idéa, 
E o vivo, e puro amor, de que sou feito, 
Com a matéria simples busca a forma. 

Algumas vezes aimagina(^o do Poeta escandecidapela 
ardência da paixão, lhe faz produzir idéas phantasticas, 
e bríibantes como no estado de um deliiio, çn de um 
sonho. 

SONETO. 

Amor, que o gesto humano n'fllma ewrev^ 
Vivas faíscas me mostrou hum dia, 
D'onde hum puro cristal se derretia 
Por entre vivas rosas, e alva neve. 

A vista, que em si mesma nSo se atreve, 
Por se çeriiSoar do que aji tJ«, 
Foi coDvortida wi foiUe, que fa^ia 
A dOr ag sog^ijMsto dwe, e Ifve. 



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LITID T., GiriTDLO. |. 143 

Iara Amor, qiM brandura de voolade 
Causa o primeiro effaito ; o sentiufiQtv 
Kadoq^ooe, si eaida qae é verdadç. 

Olbai como Amor gota cm ara momento 
De lagrimas de honesta piedade. 
Lagrimas de immortal coDteijt«iDeikt«. 

ÀlgoDE Sonetos deLníz de CamSes podem ser cooteni- 
[áados como miniaturas de Idylios cheias de anienidad* 
« de graça, ta] é o XIII, 

SONETO. 

N'hDni Jardim adornado de verdnra, 
Qne esmaltavam por ciias varias flores, 
Entrou hum dia a Deosa dos Amores 
Com a Deosa da Caça, e da Espessura. 

Diana tomou logo hQa Rosa para, 
Venns hnm rftio Lyrio, dos milhores. 
Mas excediam multo as outras flores 
As Violas na gra{ia, « formosura. 

PergaatuB a Copido, qne ali estava, 
Qual daqaellas trez flores tonuria 
Por mais suave, e pura, e mais íNsusa. 

Sorrindo-'M o Miatuo lhe tOTMTa, 
Todas formosai sam, maa eu queria 
\iola, antes que Ljrio, nem que Rosa, 

Este Soneto, dirigido, fio qne parece, a loitTar uma 
Dama, qoit se chamava Víolaiile, wti «fQrípto oo estylo 
de Moscho. O ttesiM oaraclW de MyUft «woatraremos 
ao XX. 

SONETO. 

rfhnm bosque, que de Nys^tM 9e h^iUn 
Sabella, Nympha linda, andava huB dJA. 
E, sabida em hnma Arvore sombria, 
As amarellas flores apanhava. 



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144 IN9AI0 KlOOUPHKiO CSmCO.TOHO Dl. 

Copido, qne ali seiopre costamaTà 
A vir passar a eesla á sombra fria, 
Em hum ramo, arco, e settas, qaé trazíA, 
Antes que adormecesse peudarava. 

A Nympha como idóneo tempo vira 
Para tamanha empreza, não dilata, 
lí&s com as armas foge ao moço esqaivo. 

As seitas traz nos olhos com que atira; 
Oh Pastores, fugi, que a todos mata. 
Senão a mim, que de matar-me vivo. 

E no cincoenia e Irez. 

SONETO. 

Apartava-se Nise de Monlano, 
Em cuja alma, partindo-se, ficava. 
Que o Pastor na memoria a debuxava. 
Por poder suslentar-se deste engano. 

Por huma praia do Indico Occeano 
Sobre o curvo cajado se encostava, 
£ os olhos por as agoas alongava, ■ 
Que pouco se doíam do seu dano. 

«Pois com tamanha magoa, e saudade 
Dizia » quiz deixar-me a que eu adoro, - 
D Por testemunhas tomo Ceo, e Esb^Ilasy 

sMas 9i em vós, ondas, mora a piedade, 
» Levai também as lagrimas, que choro, 
«Pois assi me levaes a causa d^las; » 

Pôde haver um quadro pastoril mais terno, maia mi< 
moso, e mais delicado, que o que o Poeta nos presen- 
ta nos amores de Daliuia, Silvio, e Laurenio:no Soneto 
eiucoenta e om ? 



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tmo T-, cumiut [. 145 

SONETO. 

Qaaotas vezes do fuso se esquecia 
DalJana banhando o lindo seio, 
Oatras tantas de hnm áspero receio 
Salteado Laarenio a cAr perdia. 

Glla, que a Sylvlo mais qne a si gaería, 
Para pode-lo vér nlo tinba meio ; 
Ora como curara o mal alheio 
Quem o ku mal tão mal cnrar podia? 

EUe, que vio tSo clara esta verdade. 
Com solaços dizia, que a esperança 
luctioaTam de magoa á pieibide. 

D Como pôde a desordem da Natnra 
» Fazer tao differenles na vontade, 
bAos que faz tão coprormes na Teniura?« 

Um dos Sonetos mais temos, e palhelicos, que sahl- 
Tam dl penna de Luiz de CamOes, é o que na collec(ão 
lem o número setenta edous, que Manoel de Faria eSoU" 
sa julga mui superior aos de Pelrarcha. 

SONETO. 

Quando de minhas magoas a comprida 
Maginapão os olhos me adormece. 
Em sonhos aqnella alma me apparece, 
Que para mim foi sonho nesta vida- 

Lá n'buma solidade, onde estendida 
A vista pelo campo desfallece, 
Corro a poz ella, e ella me parece 
Qae mais de mim se alonga compelida. 

Brado a NSo me fujaes, sombra benina I > 
E ella os olhos cm mim com brando pSjo, 
Como quem diz, que já Mo pôde sér, 
10 



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146 XNSMO HOfiuraco cunfis, toho ni. 
Torna a fugir-me; torno a bradar Ditta, 
E antes que diga flwne, accordo, e vejo, 
Que nem um breve engano posso ter. 

O Sondo quareBU, que ainda copiarei, é notável pela 
originalidade da» idéas, e pela belleu da poesia descríp- 
liva. 

SONETO. 

Alegres campos, verdes arvoredte. 
Claras, e frescas agoas de cristal, 
Que em vós os debuxaes ao Mtural, 
Descorreudo da altura dos rochedos. 

Silvestres montes, ásperos penedos 
Compostos de concerto desigual, 
Sabei que sem licença do mea mal 
Já não podeis fazer meus olhos lados. 

E pois já me nSo vades como vistes, 
Não me alegram verduras deleitosas, 
Nem agoas, que correndo alegres vem. 

Semearei em v6s lembranças tristes, 
Begai^vos-hei com lagrimas saudosas, 
E nascerão saudades do meu bem. 

Temos dezesete CaofSes de CamCíes, as mais bellas 
qne possuimos em nossa lingua, ou se atirada i belloa 
dos pensamentos, ou á graça das pinturas, ou á elegân- 
cia do estyle, perfeição, e cadencia dos versos, corte dos 
ramos, ou eslrophes, e á cotlocação mu^cal das rym^; 
estes Poemas mostram o estudo, que o Poeta havia fello 
das Obras de Petrarcha, e a facilidade, com que o imita- 
va : mostra porém de ordinário mais variedade, mais elfr 
vação, e mais força, que o seu modelo ; e, quando o assopp- 
to o permitte, sabe compor os seus quadros com vifisá- 
mos rasgos de poesia descríptiva. Vé-sc que os oíodílos 
clássicos lhe eram familiares, e que o cdlorido Grego, t 
Latino vinham muitas vezes animar as suas composif^ | 
românticas. 



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Esta combiiucto do estjrlo utigo, e iwdeRio se vi 
mui especialmente qk Cai^ lU. 

CkHÇlO, 

Neqi rúxa FlAr de Akril, 
Pintor do campo ameno, e de verdura, 

Colhida Qfltre outras nil, 
Foi DQDca asai ^raâavd á OmnIU, 

Cwtei, alégie, c baila, 
De sua May caidado, e gleria para, 
Como a mim foi a inculta fonDoaura, 

Nataral, que pedera 
A. Satoroo render na qoaita esphera. 

Natara) Tonte agrwt*, 
NSo laTrada de artífice exceUnte, 

Mas por arte celeste 
Derivada de ruitíco penedo 

Ngo fez jámatB tio ledo 
Cangado Caçador por seita ardente, 
Quanto o cuidado assi me fei contente, 

De vér tio descalçado 
Que fez sereno a Júpiter irado. 

I^ueta, que sem concerto 
Naturalmente em ramas se pendura, 

Achada por accerto, 
A qnem piatada a vé de saagae, • leite, 

Não lhe derao deleite. 
Que Msa graça me dá sem «onpoatnn. 
Ornamento dá mesma formosura. 

E o toucado sem arte, 
Que tomara Pastor ao bravo Marte. 

A manhia graciosa, 
Que derramasudo sae d'eotre os paballai 

A ílflr, o Lyrio, a BosB, 
Sem ajuda de ornato, cu de artegeít 

NSo faz o beneficio, 
Qae fas a In doi vemos oHns Wi», 
10* 



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48 ENSAIO WoeaAPHiCO OHTlCO, TOMO III. 

Aquém os tô tSo. puros, e singellos. 

E esse. iimoceDle. riso 
por quem ApoUo, o Tejo torna Amphryso. 

Outeiros coroados 
Das Arvores, que fazem a espessura 

Com os ramos copados, 
Alegre que mio destra os nlo cultiva ; 

Graça tão excessiva 
NSo fei na sua natural verdura 
Quanto no desses olhos clara, e pura, 

Deposita a Esperança, 
Com que Amor gosU), a May lormenlo alcançfl- 

Dos simples Passarinhos 
A Musica sem arte concertada, 

D' entre os verdes raminhos 
TSo suave n5o he, Ião deleitosa, 
A quem aa Selva umbrosa 
Com mente ouvindo-a está ISo elevada, 
Quanto a mi essa falia doce agrada, 
. E o natural aviso. 
Que roubara a Mercúrio o sceptro, e o síso. 

De frescos rios d'agoa. 
Que clara entre Arvoredos se devisa, 

' Cahindo de alta fragoa. 
Esmaltando de pérolas no prado 

O verde delicado, 
Com brando som aos olhos fugitiva, 
Nâo nos alegra quanto a graça esquiva 

Dessa luz soberana. 
Que faz conter a rústica Diana. 

A lai luz, (oh Canção, que ousaste vê-la!) 

Vendo estás já prostrado 
Saturno triste, Júpiter irado. 
Bravo Marte, áureo Apollo, Vénus bella, 
E Mercúrio, e Diana, e toda a Estreita. 

Preeoria o Leitor todas sa CauçOes de Bernardes, Ci' 

D.„.c... Google 1 



LITBO T-, ClFinrtD T. ' 140 

minha, e do mesmo Ferreira, e veja si em alguma dei- 
las encontra esta Taríedade, esta abandanciai este esty- 
lo picloresco, esta faoíKdade, e fluidez de versfficaçSo 
sempre harmónica, que murmora aos nusos oavidos co- 
mo D nunor de nma fonte, que brandamente se deslisa 
per entre rodiedos cobertos de musgo, e enlio conhece- 
rá » ^nde d^nça, que vai de um Poeta de génio a 
um Poeta d'arle, que caminha qaaodo o ontro vte, e 
qne pensa quando eite improvisa.. 

Á Canção I!I. principia com uma «tescripçio da nu- 
dingada tão amena^ e formosa como o se» objecto ; Luiz 
de CamCes amava o campo, como todos «s graades Poe- 
tas, equando se tracta de pintar as suas belleias singsl- 
Ifls, nem a sua imaginação se cancã, nem u «ns tio- 
\»s esmorececi. 

-Ji a roxa Hanblía clara 
As portas do Oriente vinha «brindo, 

Os montes descobriodo, 
A nègfa escnrídío de Inz avara ; 

O Sol, que nunca pára. 
De sua alegre vista saudoso ; 

Traz ella pressuroso 
Nos cavallos cansados do trabalho. 
Que respiram nas bervas fresco orvalho, 
Se estende claro, alegre, e luminoso. 

Os Pássaros voando 
De raminho em raminho vam saltando. 
E com suave, e doce melodia 
O claro dia estão manifestando. 

A manbSa bella, c amena 
Seu rosto descobríhdo, a espessura 

Se cobre de verdura 
Clara, suave, angélica, serena, ' 

Oh deleitosa pena 1 
Oh effeito de Amor alto, e potente ! 

Pois permite, e consente, 
Qoe eu donde quer que en ande, eu donde esteja» 
O Serapbico geslo sempre veja, 
Por quem de viver triste sQu contente. 



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160. HMAIO UOCMUm» GUWQ», TOMO ni. 

Had tu. Aurora fvtt, 
De tulo ben dá gnçM i T«ntura, 
Pois o foi por em ti lio cxMlIeitc, 
Qoe repreBflBtM taM4a fonmtira. 

Si alguma coQBa ba r^rtòensivel nesta «fltropbe é o 
epitheto de taigtlicê dado á verdura, nio posBo compr»- 
hender que cousa seja uma Yerdara angélica ! Mris cum- 
pre confessar, que si a rerdora é angãlca, fpmco pòie 
admirar que o geate s«ia 5«rapAieo.' 

AaCan^M sétima, coitara tractamdómesnoasaQapttv 
e dizem quasi as mesmas coiuas, com pequenas altera* 
ç6tB, Té-Be bem qoe uma é o primeiro borrão da ontra, 
qtte o Poeta emendou depois, mas bBo é tOo Ricil dicidtr 
qual delias foi a primeira, qual prefcrio o A&Mier, aen 
qual delias seja a melhor. 

A maneira impeHtDsa, e sem pi«ambQlo com que pría- 
cipia a Canfão q«fiu«, é perfeitamenle no gosto de Horá- 
cio, emoslra qne oPoeta arrebalado de sukila iospiraçio 
rompe em nm Canto d6o premeditado. 

Que he isto? soabo? ou vejo a Nympha para, 

Qne sempre n'alma vejo? 

Ou me pinta o desejo 
O bem, que em vão cada hora me assegura? 

Hal pôde a noite escura, 

Amando a sombra fria 
Handar-me em sonho a luz formosa, e bella, 

Que se n3o torne em dia 
De seus lusentes raios inflanmiada. 

Oh visla desejada 
Da graciosa Nympfaa, e viva Estrellal 
Que ha lauto que por este mar navego 
Sem vãr meu claro Polo escuro, e cego. 

O espirito pfailoso]»bRO de Íuie de CamOes se revdla 
tneravilhosamente naCaa^o qutone, uma dasmaís bet 
kis dacollecfão; e esteesptritBphUDsqthico severa ainda 
mais vivamente estampado n'um graíde numero de Es* 
tancas do sen Poema. 



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LIVBS ▼., UriTDIjD. I. 151 

CANÇJLO. 

Qaen o*n sotido inteMo 
Os segredos basear da NaMreza, 

Qoantfl d'Athenai pr^ 
Entregas ao mar irado, aa kire vealo ; 

N«Ta PhiflasofUa 
De expcriracias feita, Anor mt cobíb». 
Das leys do aalígo tempo ben decUpa ; 
Qoe Aiíuor a Naturena «m nira Taría, 
Drade escboia d« sabws auiea rio 

Em natural sugeito 
Quanto Amor em meu (xito deaoebfio. 

Ãs aves no ar senão. 
O Gado.dA Protitéa ms agou paace; . 

Vive .0 Hamea, e nasn 
Neste Mondo, qua) M«Bdo soais pequeno : 

£n twht deMrdeoo 

Em todos dividido; 
A bocca DO ar, na terra o entaMlIiBeDto 
Dá-ne esse Amor, di-me essa o pesBsaitBto ; 
O coração no fogo be coasnmJdo ; 
Mas a agoa, que dos olhos sempre desoe, 

Tem effeito tão vario 
Que em bum fattmw coutrario « íogo cresce. 

Da vista Amor soUa 
Abrir a« cavação segnii entrada, 

Ley he já profanada, 
Qae qnando a Uu de hums athos me feria. 

Amando o qoe nio via, 

Qoal de escopo o Inme 
ífímeiro o qnerer vi, qae e causa visse;- 
Quem o desejo co'a etpecaaça unisse. 
Cego hiria apoz cego, e vii cortame; 
í^ en dnta alna, da Ley do Huado isenta, 

Morta a esperança vejo 
Oude sempre o desejo se sustenta. 



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UfUIO BlOfiUPraOO CBITIGO, TOMO III. 

Em vâo se considera, 
Qne hum semilhaate a oulro busca, e ama : 

£ que foge, e desama 
Todo o Mortal a morte esquiva, e fera. 

Sigo huma linda Fera, 

Qae esconde em vista humana. 
Coração de diamante, e peito de aço; 
De meu saugne fainiuta ; e satisfago 
Com cruel marte a sede dcshumasa, 
Assi que sendo em tude differente, 

Corro apoz minha sorte, 
E, si me entrego á morte, estou contente- 

Cafae em maior defeito 
Qaem cuida ser Sciencia clara, e certa, 

Que a cansa descoherta 
Sempre prodaa a si conforme effeílo. 

Renden-me hum lindo objeito, 

Qne sendo neve pura 
Vivo me abraza, e o fogo interno aviva ; 
Que esta formosa Fera fugitiva. 
Com ser neve do fogo se assegnra. 
Donde infiro por corto (e cesse a Fama 

Vãa, mentirosa, e leve] 
Qne não desfaz a neve ardente chamma. 

Bem no effeito se sente 
Cessar, cessando a causa donde pende, 

Qne o fogo mais se accende 
Estando á vista, donde mais ausente; 

Mas n'alma vivamente 

A trazem debuxada. 
De Doite Amor, de dia o Pensamento : 
£ qnando Apoilo deixa o claro assento. 
Por entre sombras vejo a Nympha amada, 
Pois si sem luz Amor os olhos ceva, 

Gégo, si não concede 
Que em nada Amor impede a eswra treva. 

Erra qnem Atrevido 
Prggoa ser maior que a parte a todo; 



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uno V., OiPITCiO I. 153 

Amor me tem de modo, 
Que estou n'hHma aloia minha convutído; 

Desta gloria ba oascido 

O tfmor de perde-la, 
E posto qne o receio a muitos fioge 
Lá aa ImagÍBaçio Gbymera, e Sphynge, 
De mal futuro, que urde iraiga EstrelU, 
Vejo em mim por incógnito segredo, 

Quando eslon mais contente, 
Que só do bem preseite oaaoe o medo. 

Tem-se por manirmo 
Parecer-se ao sugeit» o accidenle : 

Mas ainda em mi se sente 
O pensameato, « câr, o riso, o gesto ; 

E tendo lodo o resto 

Da vida já perdida, 
Neste tormento meu tão duro, e-oquivo 
A gostos HMrto estou, < a penas viro. 
£, sendo morto já, vive o seolído. 
Porque ainda que n'alma despedida. 

Pôde em meu mal unir-se 
O ficar, e o partir, a morte, e a vida. 

Destas raifies, Cançio, eafiro, e creio 
Qne ou se mudou em tudo a fórma usada 

Da natural tirmeia. 
Ou tenho a natureza em mim mudada. 

)iilo pertendo approvar, nem justificar algumas aathi- 
teses, ecostrapeetús, que se escoBtram nesta Canção; mas 
DãDp6denegar-se que é perfeitamente escripla, edesem- 
penha o que o mui fecundo, e elegante Poeta Geflovea 
o Abbade Frugoni chama plulosopliar de amor á manei- 
ra de Petrurehã. 

Quegli in cor volge, e nelle lunghe notti, 
£ su le chete, e limpide mauine 
Va meditando si pur possa a i footi 
Ber dei culto Petrarca, e gentilmente, 
Com' egie feo, filosofar d'amore. 



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164 BRSAIO II06BAIBIO> CKITIGO, TOIO III. 

Has este phyloiopiar d'amor tru eonsigo um grare 
tiic«DV«iie>t«, fl é que so «nor «ssin traciado brilha 
muito o espirito, e a ímaginaeio, mas o coração é mo- 
do, pon)ue falta a paiíSo, que promove todo o ialeresae 
âa poesia erótica, e qoe não pôde mcfntrarnte em as- 
anmptDs phantastieos, e iaventados sã para descorter; 
este senão depara-se em Petrairha, nos seus rmilado- 
res, e no menno Camfies, como já em oalr» Capitulo 
adverti. 

Poucas Canções deLon deCamOes poden rhralisar com 
a decima sexta em variedade de pintaras, riqueza de 
imaginação, e amenidade. Este Poema também se destin- 
gue dos outros DO artificio setrico, pois o Poeta mista- 
rou nelle alguns versos tetrasylabos, qwe produzem har- 
monia mais variada, e innsical, como fdde «4F-se da Es- 
trophe seguinte. 

O doce RousiooJ «'hum rano canta, 
E do outro o PintBs*rgo lhe responde; 
A. Perdiz d'entre a matta, en q4ic «e eficoode, 
O Cavador sentindo se levanta : 
VAando vai ligeira maia que o Vealo, 
Outro assento 
Vai buscando; 
Porén quaado 
Vai fugindo, 
Ritinindo 
Tiai ella nniB veloz a Gotia eorre, 
De que ferida logo cahe, e morre. 

Ksta mistura mebrica édesconheeida dos Italianos, po- 
r«n não dos Poetas de Hespanba, que algumas vezes a 
empregaram nas suas Caop5es. 

Já fallei da bellissima CançSo X. , qae tem poucas na 
lingua PortDgueza, que possam competir cran elJa ea 
.merecimento lyrico; e que diremos da undécima, que 
principia 

Vinde cá, meu tão certo Secretario, 

qsc os Críticos tem julgado pela melfau' de todas, e en 



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Eivio T., amtiLô I. 15S 

qae o Poeta, entfio virende na Ásia, no cwtra de sfflio- 
{Ses, e desgostos, passa resenho em sua iaaginaçSo e 
lembrança aos tristes lances, porqne havia passado, aos 
acinlcs da adversa fortuna, e ás perseguifiies dos sens 
iflimigos empenhados em eocorlar-lhe, e aviargurar-Ihe 
aeiistencial Qae poesia tio rica, e tão siagetia! Qne 
dAr tão vehemente, etão viva 1 Que melancbolía Ifio pco- 
ftmdal Qae voz tio lastimada, e t2o pnngestel Clonio o 
qnadro das suas desventuras impressiona es nossas idcas, 
punge, e dilacera o uosso coraciio, e'fios arranca as la- 
grimas dos olhos I Qteremos fugir daqilelle espectacnio 
de dores, e de magoas, mas nSo podemos porque a doçu- 
ra daquelle canto lúgubre, nos prende, e nos encanta 
com os prestígios da sua magia, onde ha hí cora^So tão 
dnro, que possa resistir a estes versos» 

Desta arte a vida em outra fui trocando, 
Eu não, mas o destino fero, e irado; 
Que eu ainda assim por outra nSo trocara, 
Fez-me deixar o palrio ninho amado, 
Passando o largo mar, que ameaçando 
Tantas vezes me esteve a vrda chara. 
Agora exprimentando a fúria rara 
De Marte, que nos oThos quít que logo 
Visse, e tocasse o acerbo J'ructo seu, 

£ oeste escsdo men 
A pintura verão do infesto togo; 
Agora perigtino, vage, errante 
Tendo NaçOes, linguagens, e costumes 
Ceos vários, qualidades difTerentes. 
Só por seguir com passos deligentes 
A ti. Fortuna injusta, que consnmes . 
As edades levaódo-lhes diante 
Huma esperança em vista de diamante; 
Mas quando das mãos cabe se conhece. 
Que he frágil vidro aquillo, qne apparece \ 

Qoe poesia t9o rica, fSo robusta, que estylo tSo dcsaf- 
fectado, e singello \ Aqui não ha conceitos, nem troca- 
dilhos, Dem rasgos de espirito ! Tudo é sentido, ludo g'";'- 
ve, porqne é o coraçíio que falia, porque se lamentam 



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166 XnSAiS BIOaB&FBiGO GIITICO, TOMO Ilt. 

desgraças verdadeiras ; não é neste tom, que o Poeta e» 
tR amores imagÍBados, rigores ficlicios de Nymphas da 
fabcica Petrarchesca ! Prosígaeioa. 

A piedade humana me fallava, 
A gente amiga já contraria via 
No perigo primeiro; e no segund^) 
Terra, em que pòr os pés me failescia, 
Ar para respirar se me negava, 
£ fallava-nie emdm o tempo, e o Mondo. 
Qne segredo tão árduo, e lâo profundo 
Nascer para viver, e para a vida ' 
Faltar-me qnanlo o Mundo tem para ella t 

£ não poder perdella 
Estando tanlafi vezes já perdida 1 
EmGm não houve transe da Fortuna, 
Nero perigos, nem casos duvidosos. 
Injustiças daquelles, que o conruso 
Ttegimento do Mundo, antigo aluiso. 

Faz sobre os outros iíomens poderosos. 
Que eu não passasse atido ú dei coliioa 
Do soffrimento meu, que a importuna 
Perseguifáo de males em pedaços 

Mil vezes fez á força de seus braços! 

Pude liaver um grito mais enérgico de um coraflD 
oppriínido contra a violência do oppressor? A £strophe 
seguinte não é menos bella, nem menos rica de seoti- 
muulo, e poesia. 

Nfio conto tantos males como aquelle. 
Que depois da tromeula procelosa 
Os casos delia conta em porto ledo; 
Que inda agora a fortuna lluctuosa 
A tamanhas misérias me compelle, 
Que de dar um só passo lenho medo. 
Já do mal que me venha nâo me arredo, 
Nem bem que me fallcsça já pertcndo, 
Que para mim não vai astúcia humana, 

Do força soberana, 
Da providencia emfim divina pendo. 



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ITVBO T., CAPlimO 1. 157 

Islo qae cuido, e vejo ás vezes toam 
Para consolação de tantos dtrnos, 
Mas a fraqueza humana qiíando lança 
Os olhos no qae corre, e uSo alcança 
SeaSo fflcmoria dos passados annos : 
As agoiís, qne então hebo, o pSo que como. 
Lagrimas tristes sam que eu ounca domo. 
Si bSo com fabricar na phantssia 
Pbaatasticas pmturas de alegria. 

Nestes versos exprime « Poeta na maneira mais naln- 
nl a resipiação Cbristia, que tomava por escudo nos 
seas trabalhos, e estas Jdéas piedosas nos (ornam mat^í 
interessante a sua cansa. 

Tem-se disputado muilo si dev«dar-sc aprererenciaís 
Canções de Camõos «obre as suas -Odes, ou a estas sobre 
aqoellas^ Ferjoando B«drig«c« Lobo da Surrtipíla prcferio 
as Cascões, o Padre Tbomaz d'Aquino parece estar pelas 
Odes, sem querer agora crigir-ine em Juiz deste pleito 
literário, não tenho dúvida em declarar-me pebs Odes, 
p«f ser as únicas de todas as que se escreveram tiaqiic]- 
ksMulo, cujo estjlo se aproxima ao estjlo lyrico dos 
antigos. 

Não quero dizer com íslo, que nas Odes de Luiz de 
Camões se deparam os voos arrelialados, e os rasgos lu- 
minosos dePindaro, ou a censura enérgica, eas pincela- 
das sublimes, e engraçadas de Doracio, mas d certo que 
ellas se aproximam bastante do tom, eda linguagem pic- 
loresca deste Poeta, posto que a necessidade da ryma 
o obrigasse a fazer um pouco mais longas as suas Es- 
trophes. 

Estas Odes som doze em número, em versos hcnde- 
easytabos, eseplenarios, em Eslrophes curtas como o exi- 
ge a oalureza do género, e a rapidez, qne deve reinar 
em um poesxa, que sejulga improvisado, eescriplas com 
tada apnreza, «louçaoía do estylo lyrico. Isto prova que 
Camões havia aproveitado mais na leitora de Horácio do 
que o Doutor António Ferreira, que perlenden fazer Odes 
H^raeiaifts com Bstropbes mal clausuladas, versos duros, 
c mal cesurados, e estylo dcscoliorido. 

Ob»' das Odçs do Camdes, quQ os entendedores tem 



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)5S ElfSilO BIOQUraiCO CBITIW, TOMO IH. 

flogiado mais é a primeira dirigida á Lua, e. a» verda- 
de, qae em Denhnma soube o Poeta conciliar também a 
graça da antiguidade com certa ternura romântica ijrre, 
e extreme da menor stunbra de aSectacão. O exórdio, que 
é nma invocação á Lua, é no mais pnro eetyto da Ode 
antiga; cumpre porém advertir, que as primeiras Estro- 
phes sam imitadas de outra Ode lambem á Lua, qae se 
encontra entre osAmores ãe Bernardo T^sso, mj^ do meio 
para diante as duna composi^rões sam absolutamente diF- 
fcreotes, porque díiTercntes eram os assumptos, que o Poe- 
ta Italiano, e o Portuguez haviam escolhido. 

Deve tamhem notar-se, qne mesmo qnando o nosto 
Poeta copia asEstrophes de Bernardo Tasso.é sempre con 
liberdade, emelhorando muito pela expressão as idéaa do 
original, quepeccaás veies pornimiaverbosidade ; cppia- 
remos alguns versos dos dous Pootas, e jalguem os UU 
tores se tenho razilo. 



Pott freno, o Musa, a quel si lungo pianta, 

Ch'Amor fapre d'al core, 
E vestila di riceo, e lielo manto 

Rendíamo a quella onore, 

Cbe coi vago esplendore, 

Faccendo il Ciuio adorna 
Hostra quanto é piú õscuro em chiaro giorno. 

camSes. 

Detém bnm pouco, oh Musa, o largo pranto. 

Que amor te abre do peito, 
E vestida de rico, e ledo manto 

Dêmos honra, e respeito 

À'quella, cujo objeito 

Todo o Hnndo alumia. 
Tornando a noite escura em claro dia. 

Este modo de dizer as mesmas cousas me parooe mi- 
to superior ao outro; ponfrmo iractando-se de pranto, 6 
«spressio pouco própria aquet ti lungo pisnío, rmtia»9 



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im» T., Gunoio I. IS9 

mon a f wí/s. . . ■ faunda ii Cttío aiomo »am lulilida- 
des, e fãrmalas fHwakas, que ml oonvém á nagcsta- 
de, e coooisio, que deTem niaai bb Ode. 

Trocacda a Noile escora era ctaro dia 

F cem vezes melhor por cxpnsiSo, e por pfBsannil» 
que o 

Mostra quanto é pia escuro un chíaro gíonui 

do ori^naL 



Tedi il ttto Edeniion souTra i) suo colle, 

Ch'il Ciei mirando fiso 
Chiama il tno oome col bel volto molle ; 

£ suovra il saseo assiso 

Cauta como conquiso 

Fu dalla tua beltade 
Sema trovar uu tempo ín te píetade. 

cahSes. 

Ji veio Eadimijo por estes montes 

O Ceo, suspenso, olbando, 
£ teu nome co's olhos feitos fontes 

Em vão sempre chamando. 

Pedindo (suspirando) 

Mercês á tua beldade, 
Sem que ache em li huma hora piedade. 

Parece-me que n9o pôde haver dúvida sobre a supe- 
rioridade desta express3o; e excusado seria confrontar 
mais trechos, e apesar disto Bernardo Tasso é um dos 
Poetas, que mais honra fazem á Itália tanto pelo seu Poe- 
ma Romântico de Ãmadia, como pelas snas rymas, que 
o collocam entre os melhores tyricAS do seu tempo, mas 
Camfies será sempre aaperiw pela elegmda do eslylo, e 
pelo apuro da versificação a ifualqoerPoeU, com quem o 
comparem. 



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100 BHSilO BIOmATOlGO CKITICO TOKO, III. 

A Ode IX. é uma brilhante imitação da Ode Vn. do 
quarto lÍTro deHomcio; nelle descreve o Poeta a cbegs- 
da da Primavera, e logo a do Verão, do Outono, e do 
Inverno, que regolarmente se seguem, e deste coatJDiia- 
do giro das estações tira motivos para mni poeticanet 
te moralisar sobre a pouca duração da vida do homeD, 
e das propriedades mondanas. 

ODE. 

Fogem as neves frias 
Dos altos montes, quando reverdecem 

As Arvores sombrias, 

As verdes hervas crescem, 
E o prado ameno de mil flores tecem. 

Zephyro brando espira ; 
Suas settas Amor afia agora ; 

Progne triste snspira, 

E Pbylomella cbopi ; 
O Ceo da fresca terra se namora. 

Jí a linda Cylharea 
Vem do choro das Nymphas rodeada ,- 

A branca Pasytea 

Despida, e delicada 
CíMU as doas Irmáas acompanhada. 

Em qaanto as officinas 
Dos Cyclopes Vulcano está queimando, 

Vam colhendo boninas 

As Nymphas, e cantando 
A (erra co' ligeiro pé tocando. 

Desce do áspero monte 
Diana, já cançada da espessura, 

Boscando a clara fonte 

Onde por sorte dnra 
Perdea Actheoo a natural figura. 



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lítio T., UMTBLO I. 

Assim se vai passando 
k rerde Prímarua, o serco Estio : 

O Outono vem eotrande, 

E logo o lavefBo frio, 
Qae também passácá por ciirla fio. 

Hir-se-ha entbraaqaecendo 
CoD a Rígida neve o secco monte; 

£ Júpiter chovendo 

Turbaiá a dará fcmte, 
Temerá o Marinheiro o hotisente. 

Porqne emSm t«do passa ; 
NSo labe o tempo ter firmeui em nada ; 

E a nossa vida escassa 

Foge Ião apprenada-, 
Que qoaodo se começa he atabada. 

Que se fez dos Troianos, 
Heitor temido, Eneas piedoso? 

Consumiram-le os anoos, 

Ob Cresso lio famoso. 
Sem te valer leu ouro precioso. 

Todo. o contentamento. 

Crias, que eslava em ler tbesouro ufano 1 
Ob falso pensameuto. 
Que a conta do teu dano 

Bo sábio Sólon creste o des«igano I ^ 

O bem, que aqui se alcança, 
"Hlo dará por possante, nem por forte r 

Que a bemaventurauEa 

Durável de outra sorte 
Se iiade alcançar na vida para a morte. 

Porque em6m nada bosta 
Contra o terrível Qm da Noite eterna ; 

Nem pôde a Deosa casta 

Tornar á luz superna 
Hyppolito da escura sombra eterna. 
U 



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193 ENSAIO Bioaa&m» cvncOt-Tovo m. 

Nem Theseo esíorçaio, 
Ou com manba, «u c«ia força valorosa^ 

Livrar pôde o oesads - ' 

Perilhoo da e&pastofia 
Prisão Lelhea escara, e tenehnMa. 

Não sam estes os soas da Ljn KonaaaY NSo é esta 
a voz do Venasipo, não quando imitaado Piadaro cele- 
bra as proezas deDruso, as victorias de:f agosto, ouain- 
flexivei probidade de Regala ; mas qaaado tm soas mais 
pianos canta as gf»(as 4eLálage, a alegria d(» banque- 
tes, ou os brandos diclames da mais amável pfaylasophíaí 
Nenhum dos nossos Poetas antigos possoio como CamCes 
a arte de dar a ca4a Poema as cone, e «caracter de es- 
lylo, que lhe pertenci». 

Nada maisdigoo daOdeGrega, em to^ a sua pureza, 
que o exórdio da Ode VI., qne o Poeta enderefou a D. 
Haaoel 4e Portugal. 

A quem darão do Piado as moradaras, 

Tâo doutas como bellas , 

Florescentes cappellai 
De triugiphante louro, ou myrlho verde? 
Da gloriosa palma, qoe não perde, 

A presumpsSo sublime. 
Nem por força de peso elgam se ep)»ime. 

A quem trarão nas fraldas delicadas . 

Rosas a-Toxa Chloris, 

Conehas a branca Doris, 
Estas; dores do mar, da terra aqueUas, 
Argênteas, ruivas, brancas, e amardlas, 

Com Dansas, e chcreas 
De formosas Nereidas, e Napeés. - . 

NQo parece que escutamos os Irez primeiros versos íi 
segunda Olympica de PÈadaro? 

TIV« <^WT, TIVOt «pua. 



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imo T., amwLo j. 163 

Mo parece qne principiaows a lér uma Ode de Anlo- 
díd DJQJz da C^ue « SitT« aos Harócs da Índia i 

O Poeta DO quarto \as» da segunda Strophe chama 
iscoDchas flores do mar, a(|aelles qufi tem vísto a col- 
lecçio de concha» Oiiestaes, q«e poseoe o Sr. Arcebispo 
de dh, observado as bellezas das suas fórmàs, a víve- 
la, e meravilhosa mistura' das suas cftres, é- que podem 
KDlJrtoda a graça, e propriedade idesta metbaphora. 

Na Ode decima procura o Poeta {u-ovar com o exem- 
(iId dosheróes, e dos sábios da antiguidade, qoe o amor 
«me um poder irrisislivel no geaero haxD8iu>, e oràri- 
giicommetter os maiores excessos. Suppoobo, que nin- 
guem ousará negar-lhe a verdade desta proposi^Ào, mas 
file a prova com Ioda a louçaoia do estylo lyrico. 

ODE. 

Aquelle Moco fero 
Nas Pelethronias covas donlrínado 

Do (^nthanro severo, 

Cojo peito esforçado 
Com tutanos de Tygre foi criado. 

Na agoa fatal, Minino 
O lava a May, presaga do futuro, 

Para que ferro fino 

N3o passe o peito duro. 
Que de si mesmo tem b si por muro. 

A carne lhe endurece 
Porque não seja de armas oITendida, 

Cega ! pois oSo conhece ■■'- ' 

Que pôde haver ferida 
N'aliQa, e que menos dõe perder a vida. 

Que donde o brafo irado 
Dos Troyanos passava aruez, e escudo, 

Ali se vio passado 

Daquetie ferro agudo 
Do Minino, que em todos pôde tudo. 



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3Í INSAIO BIOSRAPBICO CBÍTICO, TOHO m. 

Ali se Tio captivo 
Da captiva gentil, que sem, e adora. ' 

Ali se vio que vivo 

Em vivo fogo mora, 
Porque de sen Stiúm a tS Stahort. 

Já toma a branda lyra 
Na mSo, que o duro Pelias meneara, 

Ali canta, e-suspira, 

N9o como Ibe eusínárs 
O Velho, mas o Moço que o cegíra. 

Pois logo quem ci^lpado 
Será, si de pequeno offé^recido 

Foi lodo a seu cuidado ; 

No berço instiluido 
K nSo poder deixar de ser TeridoT 

Quem logo Traço infante 
De outro mais poderoso foi sugeito, 

E para cego Amante 

Desde o principio feítt' 
Com lagrimas banhando o terno peito ? 

Si agora foi ferido 
De penetrante ponta, e força de herva, 

E si Amor é servido, 

Que sirva á linda Serva 
Para quem minha Estrella me reserva ? 

O gesto bem talhado, 
O airoso meneo, e a postura, 

O rosto delicado, 

Qae na vista Rgura, 
Que se ensina por arte a formosura, 

Como pôde deixar 
De render a quem tenha entendimento f 

Que quem não penetrar 

Hum doce gesto attento, 
N5« lh« é nenhum louvor vivef isempio. . 



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uno T-, CAPITULO 1. Ifi5 

Aquelles, cajos peilos 
(h9oa d« alias scieocias o destino, 

Se Tiram mais sogeitoa 

Ao cégg, e tSo Minino 
Arrebatados do furor divino. 

O Rey famoso Hebreo, 
Qae soDbe naifi que todos, mais amou, 

Tanto que a Deos alheo 

Falco sacrificou. 
Si muito Bonbe, e teve, muilo «rrou. . 

E o grão sábio, que ensina 
Fasseando os segredos de Sopbia, 

A' baixa ci^ncnbina 

Do vil Eoancbo Hermia 
Aias ergueu, que aos Dcoses só devia. 

Aras ergue a quem ama ' 

O PbyloEopbo insigne namorado. 

Doe-se a perpetua fama, 

£ grita, que culpado 
De leaa Divindade he acusado. 

Já foge donde babita, 
Já paga a culpa enorme com desterro, 

Mas, oh grande desdita ! 

Bem mostra em tamanho erro. 
Que doutos corações não sam de ferro. 

Antes na altiva mente 
No subtil sangue, e engenho mais perfeito, 

He mais conveniente, 

£ conforme sugeito, 
£m que se imprime o braudo, e doce cffeito. 

' Na opíniSo, em que estavam os Gregos, de que o Poe- 
ta Lyríc» cantava junto aos altares dos sacriticios, e nus 
grandes festividades nacionaes debaixo da influencia ini- 
mediata da divindade, earrebatado deumfnror, ecnlhu- 
siasmo divino como a Phebade sobre a tripode de Dul- 



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166 xnsAio BioanAraifio griticoí tomo iii. 
phos, força era que acreiliUisseni, qne assnasidéas de- 
viam tumultoar, eagitar-se rapkla, e desordeBadamente, 
passaado de um objecto a outro sem UgaçAo apparente; 
que o seuestylo devia ser remota, eaffiíístado, aãosõ do 
dialecto da prosa, mas até da ordluariv lioguagen) dos 
outros geoeros de Poemas, animada de frequeutus tro- 
pos, e figuras, de modos de díier ídsoíUos', de vocaba- 
íos desusados, novos, e compostos, resallando dft^oi ser 
a Ode o Poema menos accessivel ás intclligeuclas vul- 
gares; daqui vem, que de cada det pessoas em estado 
de lêr sem estorvo Homero, e Tlieocríto, VirgHio, e Ovi- 
-dio, apenas haverá uma que seja capaz de entender bem 
Pindaro, ou Horácio. Os grandes Lyricos liioderaos tra- 
Iialbaram por conservar á Ode a sua graadiloqucncia, e 
elevação de idéas, e linguagem, e yquella marcba livre, 
impetuosa, e desenvolta, que Boikau cbauiou com razão 
bella desordem, e isto segundo a Índole mais, ea menos 
jcanbada da língua, em que escreviam. 

£ esta a razão porque Camoes, que tiuba o lacto lio 
Gdo, e o gosto tão delicado, fei uso nas Odes de uma 
linguagem mui differeute daqnella, que empregara nas 
Cauçfies, amiudando os tropos, as figuras, e substituin- 
do os nomes próprios pelas periphrases, nesta mesnuOde, 
por exemplo emiogar de dizer Achyies, diz o Moço dou- 
trinado pelo Cutlauro nas covas Pelethronias, cm logar 
do Amor, diz o Menino que páde tudo em todos. Em vez 
de dizer, que Achyies canta, não como Ibe ensinara Cby- 
ron, mas como lhe ensinara o Amor a diz que canta não 
como o doutrinara o Velho, mas o moço, que o cegara. » 
Por seita bervada diz ponta penetrante, e força de hena. 
Salomão é o Reg Eebreo, que soube, e amou mais que to- 
dos, e finalmente Aristóteles é aqui designado pelosa6to, 
que ensinava passeando os segredos de Sophía. 

Mas, perguntará alguém, quem ensinoQ aCamSes esta 
linguagem figarada, e artiliciosa, que o» seus Conleai' 
porancos não conheceram ? Respondo, que elle a soube 
porque Iba inspirou o génio, que os seus Coolempora- 
neos a ignoraram, porque tinham só talento, e nio gé- 
nio ; e só com talento pbde-se ser escriptor correcto, t 
elegante, porém não grande Poeta. 

A Ode IV. , que passo a transcrever, é uma das que 



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HDpre me agradaram mais ; a me parece a mais repas- 
sada do espirito de Horácio. 

ODE. 

formosa Fera banana. 
Em cujo coração soberbo, o rado, 

A força soberana , ; 

Do vingativo amor, que Teoce lado, 

As pontas amoladas ' 

De qnantas seitas tinha, tem quebradas. 

Amada Circe minha. 
Posto que minha não, com tudo amada, 

A quem bum bem, que tinha. 
Da doce liberdade desejada, 

Pouco a pouco entreguei 
E, si mais tenho, mais entregarei. 

Pois Natureza irosa 
Da Razão te deu partes ião contrarias. 

Que sendo tão formosa 
Folgues de te queimar em flammas varias. 

Sem arder em neobua 
Mais que em quanto alumia o Mundo a Lua. 

Pois trinmphando vás 
Com diversos dispojos de perdidos. 

Que tu privando estás 
De razão, de juizo, e de sentidos, 

£ a quasi lodos dando 
Aquelle bem, que a todos vãs negando. 

Pois tanto de contenta 
Yêr o nocturno Moço em ferro envolto, 

Debaiso da tormenta 
De Júpiter em agoa, e vento solto, 

A porta, que impedido 
Lhe tem seu bem, de magoa adormecido. 

Ksla sóEstrophe, por força deexpressSo, o viveza de 

Diçpitizcii;,. Google 



169 KH5AI9 HOaBAnUCO CUTKft, tOHO UI. 

estylo, verdadeirameote Lyrico, Tale mais que todas as 
Odes de Caminlia, e de Ferreira, apesar daa bellezas de 
outro género, que possam conter. 

Porque nSo teus rec^o 
Que tantas insoIcDcias, e esquiranças, 

k Deosa que põem Treio 
k fioberbas, e doudas esperanças. 

Castigue com rigor, 
E contra ti se accenda o fero ÃmorT 

Olha a formosa Flora 
De despojos de mil suspiros rica, 

Por o Cappitam chora. 
Que lá em Thessalia em fim Tencido fica, 

E foi sublime tanto. 
Que altares lhe deo Boma, e nome santo. 

Olha em Lesbos aquella 
Em seu Psalterio insigne conhecida. 

De muitos, que por ella 
Se perderam, perdeo a chara vida, 

Na rocha que se infama 
Com ser remédio extremo de quem ama. 

Por o Mofo escolhido 
Onde mais se mostraram as trez Graças, 

Qne Venns escondido 
Para si teve hum tempo entre as Álfaças, 

Pagou co'a morte fria 
A sua vida, que a muitos já daria, 

E vendo-se deixada 
Daquelle, por quem tantos já deixara. 

Se foi desesperada 
Precipitar da infame rocha chara, ■ 

Que o mal de malquerida 
Sabe que vida lhe he p^der a vida. 

• Tomai-me, bravos mares, 
s Yós me tomai, pois outrem me deixov, 



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IITKO T., CAPmiLO I. 1*39 

Disse, e dos altos ares 
Pendendo com furor se arremessou ; 

Accude ID, saave, 
Accode poderosa, e divina Ave. 

Toma-a nas azas tuas, 
HinÍDO pio, illesa, e sem perigo, 

Ãstes qae nessas cruas 
Agoas caiiindo apague o fogo aotigo, 

He digno Amor tamaabo 
De viver, e ser tido por estranho. 

Não ! qae é razão qm seja 
Para as Lobas isemptas, qne amor vendem, 

Exemplo onde se veja. 
Que tnmbem (içam presas as que prendem, 

Assi o deo por seoieosa, 
Némesis, qae Amor quiz que tudo vença. 

Entre as rymas de CamCes encontram-se algumas Sex- 
tinas: estes Poemas, que D. Manoel José Qnialena, com 
o bom gosto, qae distingue todos os seus juízos, qualili- 
GOD de imftrtinentts, eslam boje de Iodo fora de moda ; 
e com razão, visto que é tal a ruindade de sua neture- 
a, que nem Petrarcba, oom Cam6es as poderam tornar 
»portaveis. 

Vinte, e nma sam as Elegias, que nos restam de Ca- 
sões, todas em tercetos, que o exemplo de Ferreira Tez 
adoptar como a uuica combinação rhylbmica, que em nos- 
sa língua c(Hivém a este Poema : depois dos Lusíadas, 
sam estas as composições roais estendas do Poeta, e tam- 
bém aquellas, em que se deparam mais dados para ajuizar 
do caracter, e circurnstancias pessoaes do Ãuthor. 

O erudiclo Bonterweck, coufessandu o graude mereci- 
mento destas Obras, e a harmoniosa brandura, e suavi- 
dade da sua expressão, nota que em algumas delias su 
acha confundida o estyio da Klegia com o da Epistola ; 
não quero totalmente negar esta opinido, mas é cerlo 
que esse deffeito, muito leve no meu entender, é muito 
mais frequente em Bernardes, Caminha, e no mesmo 
lerreira, do que em Luiz de Camlíes, qnc ó mui proba- 



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172 INSAIO «IMHUHICO CUTICO, T9H0 III. 

Todas as cousas vejo demudadas, 
Porque o Tempo ligeiro não consente. 
Que estejam de firmeza accompanbadas. 

Vi já, que a primavera de coatonte 
Em variadas cores revestia 
O monta, o campo, o valle alegremente. 

Yí já das altas Aves a harmonia, 
Que até duros penedos convidava, 
A algum suave modo de alegria. 

Vi já, que tudo em fim me contentava, 
E que de muito cheio de firmeza 
Hum mal por mil prazeres me trocava. 

Tal me tem a mudaofa, e estranheza. 
Que si vou para os prados, a verdura 
Parece que se secca de tristeza. 

Mas isto he já costume da ventura, 
Porque aos olhos, que vivem descontentes, 
Descontente o prazer se lhe afigura. 

Estas recordapOes dolorosas da primavera da vida, es- 
tas mcditacOes saudosas da ventura passada, e estas ob- 
servações amargamente phylosophicaB sobre as cousas, 
que nos rodéam, e as círcumstaacias, em que nos acha- 
mos, convém perfeitamente á indole da Elegia. 

O exórdio da Elegia decima é inteiramente no gosto 
antigo. 

Que tristes novas, e que novo dano? 
Que inopinado mal incerto sòa, 
Tingindo de terror o vulto humano? 

Que vejo as praias húmidas de Gda 
Ferver com gente atónita, e turhada 
Do rumor, que de bocca cm bocca võa I 

Ê morto D. Miguel!., ah crua espada, 
E parle da lustrosa companhia, 
Que alegre se embarcou na triste Armada. 

Neste Poema deplora-se a morle de D.Miguel de Me- 
nezes, amigo do Poeta, e lilho de D. Henrique de Me- 
nezes, Commendador da Azinhaga, e Idanba a Velha; 
dcprchende-sí da Elegia, qnc morrera na Ilidia pdei- 



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tlV» T., CAPITtLO r. 173 

jasdo yaloTosamenle em um combate naval, porém ]tfa- 
noeldeFaria eSouía aiGrma, que sem embargo das mais 
eiaclas invesligaçOes, a qrn procedeu, aio pAde averi- 
guar quando, nem txa que para^n tivera logar aquelle 
accoatecimeoto. 

Transcreverei agora porioteiro aElegta [11., una dai 
mais bellas, que o Poeta escreveu, a fim de que os Lei- 
tores possam melbor formar idéa do seu talento nesU 
qualidade de corapoBÍfSes. 

ELEGIA. 

O Sulmonense Ovídio desterrado 
Na aspereza do Ponto, ímagioando 
Vér-se de seus Penates appartado. 

Sua cliara Mulher desemparaudo, 
Seus doces filhos, seu contentamento, ' 

Da sua Pátria os olhos appartando, 

Não podendo encobrir o sentimento, 
Aos montes já, já aos rios se queixara 
Do seu escuro, e triste nascimento. 

O Corso das Estreitas contemplava, 
E aqnella ordem, com que descorEÍa 
O Ceo, o Ar, e a Terra adonde estava. 

Os Peixes pelo mar nadando via. 
As Feras pelo monte procedendo . - 
Como o seu natural lhe permitia. 

De suas fontes via estar nascendo 
Os saudosos rios de cristal 
A soa natureza obedecendo. 

Assi só de seu próprio natural 
Appartado se via em terra estranha, 
A cuja triste dõr não acha igual. 

Só sua doce Musa o accompanha 
Nos saudosos Versos, que escrevia, 
E nos lamentos, com que o campo banha. 

Desta arte me figura a phautasia 
A vida, com quem morro desterrado. 
Do bem que em outro tempo possuia. 

Aqui contemplo o gosto já passado. 
Que nunca passará pela memoria 
De quem o traz ua ai«ate debuxado. . 



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tá ENSAIO BIOOHAFHICO Citl1IC0'TOIIO, III. 

Aqui véjo caduca, e débil gloria 
Desenganar meu erro ci>'a muda^ea, 
Que faz a fragU vida tranâitoria. 

Aqui me repceseola esta lembran^ 
Quão pouca calpa tenho ; me ealristece 
Vêr sem: razão a pena que me aleonfa. 

Que a pena que com causa se padece, 
A causa lira o seulimento delia, 
Mas muilo doe a que se nSo mwíce. 

Quando a roxa Mantiãa dourada, e bella 
Abre as portas ao Sol, e cae o orvalho, 
E torna aos seus queixumes Pbytomella. 

Este cuidado, que co'soinuo atalho. 
Em sonhos me apparece, que o, que a Gente 
Por seu descanso lem, me dá trabalho. 

E depois de accerdado.cDgamcBba- 
Ou por milhor dnec desaccudsdo, 
Que pouco accordo logra bum descoateat«. 

De aqui me vod com passo carregada 
A hum Outeiro' erguido, e ahi me asatnto 
Soltando toda a redéa a men cuidiHio. 

Depois de farto já de meu tOrmenlOr 
Estendo estes meus olhos saodosos 
A' parte donde tinha o pSisameoto. 

N5o vejo sinSo montes pedregosos, 
E sem graça, e sem 8ôr os campos vfijo, 
Que já floridos vira, e graciosos. 

Vejo o puro, suave, e rico Tejo . 
Com as concavas Barcas, que nadando 
Vam pondo' em doce efl^eito o seu desejo. 

Humas com brando Yeulo navegando, 
Outras com leves remos brandamente 
As cristalinas agoas appartaudo. . 

Dali fallo co' a agoa, que não senta, 
Com cujo sentimento esla alma sai 
Em lagrimas desfeita claramente.' 

Oh fugitivas ondas, esperai. 
Que pois me não levaes em companhia, . . 
Ao menos estas jagciraaa levai. 



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,r- tíTM T-, OAimiU I. y 17S 

Alé qae venba aquelle alegre dia, 
Qae eu vá ande vós hides, livre, « \èâa, 
Has lanto tempo que» e ptssaría i 
' Não pede tanto bem cliegar tio c«dâ, 
Porqoe primeiro a vida «cabará 
Qae se acabe tSo áspero degredo. 

Mas essa triste morte tpie virá 
Si em x&o contrario estado me acabasse, 
Esta alma assi impaciente adonde fairá? 

Que s! às portas Tartaricas chegasse, 
Temo que tanto ma) pela meuwria 
Nem ao passar do Leibes Ibe passasse. 

Que si a Tântalo, e Ticio foi notória 
Á pena com que vai, e qae a atormenta, 
k peoa que lá tem terão por gloria. 

Essa imaginação, que em lim me augmema, 
Mil magoas no sentido, porque a vida 
De imagínaç&es tristes se contenta. 

Que pois de todo vive consumida 
Porque o mal, que possue, se resuma. 
Imagina na gloria possuída. 

A.tbe qae a unite eteraa tue coosana, 
Ou veja aq^uelle dia desejado, 
Em que a fortuna. faça o que oostuma. 
Si nella ha hi mudar-se- hum tri&le estado. 

Esla Elegia fíii escripta, segundo alguns querem^ em 
Santarém quando oPoeta aht estava desterrado; ]& disse 
qae duvidava nuila deste decorro, como acto judicial, 
cu do poder; parece-me que o desterro, qne o Poeta la- 
menta é a ausência da sua amada, tal é pelo menos » 
sentido destas expressões 

desterrado 
Do bem, que em outro tempo possuía. 

parece-me também deduzír-^e ds texto, qoe Luiz de 
Cam6es sahira de Lisboa para desfarçar a magoa cfa sua 
amada se haver enfadado com etle sem razSo bftstnote, 
e é a isto que aludem «3 Tersos ■ ' 



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na KNsiio DioaaiPEice ciitioo, Tono in. 
Aqui me representa esta lembrai^ft 
Quam pouca culpa tenho, 

e o Poema deve ler sido escrípto para desarmar o en- 
fado da Dama. Seja como fdr, ocaso é que Desta Elegia 
se descobre toda a força de uma imagiaapSo nova, e u 
sentimentos exaltados de um Poeta mancebo. 

O resto das Elegias produzidas naluraimeute durante 
as suas peregrinações pela Ásia, pintam ao vivo os seotí- 
mentos do seu coração, e as saudades com que se lem* 
brava d^ tranquilla ventura, de que lhe parecia ter go- 
zado na l'alria, ao passo que delia bavla sabido cheio de 
indigasfão, e despeito. E' por isso que nenhumas du 
suas obras excitam mais sympatbia nos Leitores, neinmait 
compaixão dos suus inrortunios. 

Desejava saber em que razão se haviam Tundado oi 
Editores das Obras de Camões para imprimirem alguns 
Poemas em Oitavas debaixo do titulo vago, e iodetermi- 
nado de Eslanças, sendo estes Poemas verdadeiras Epis- 
tolas Poéticas, ou se considere o seu contbeudo, ou o sen 
eslyto; é muito natural que entendessem nSú podia haver 
Epistolas se não em Tercetos, porque em Tercetos sam 
escriptas as de Ferreira, Bernardes, Caminha, e Fr. Agos- 
tinho da Cruz, e esta raziio é na verdade mui coocladen- 
le. Está porém contra ella o ser uma das Epistolas de 
Ferreira em verso solto, e quasi todas as de Sá de Mt- 
tanda, e algumas de Caminha em Coptas oclosylabas. 

A primeira destas composifCes é ama Epistola moral 
sobre as erradas opini5es dos bomeus, e a falsa idéa que 
formam da felicidade, escripla uo estylo de das de Ha- 
gedoru, c Dusch, e que lhes não cedem nem em Pbj* 
losuphiu, nem em força de expressivo; vejamos alguns tre- 
chos. 

Demócrito dos Deoses proferia 
Que beram só dois, a Pena, e o Beneficio. 
Segredo algum será da pbanlasia 
De que eu achar não posso claro indicio, 
Que se ambos vem por não cuidada via 
A quem os não merece be grande vicio 
Em Deuses sem justiça, e sem raiSo, 
Uas Demócrito o disse, e Paulo são. 



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uno T., camtA u t: 

Diogeaes pisava de Plsifto 
Com seus sórdidos pés o rico eslrado,- 
Uostmido oBtia mais alta presDmppSo 
Em despresar o fausto tSo presado. 
Diógenes, não rés qoe estrefflos são 
Esses, qne, segues de mais alto estado? 
Pois si de despresar te presas toaito. 
Já perlendes do Mondo fama, e fruilo. 

Deixo agora Beis grandes, cojo estado 
He fartar eata sede cobiçosa 
De querer dominar, e mandar tudo. 
Com Tama larga, e pompa sumptuosa; 
Deixo aqueiles, qoe lomam por escudo 
De seus tícíos, e vida vergonhosa 
A niAreza de sens antecessores, 
E o3o cuidam 4e si que aam peiores. 

Aqaelle deixo a qoem do Bunno espula 
O gran faror do Rei, que serre, e adora, 
£ se mantém desta aora falsa, e incerta, 
Qoe de corsçOes tantos é Senhora. 
Deiso aqueiles, qne es(3o co'a boca âbu*!*, 
Por se encher de thesouros de hora, em hora, 
Doeotee desta falsa faydropesia. 
Que, quanto mais akànça, mais queria^ 

Deixo outras obras vSaa do Vulgo errado, 
A qoe já não ha alguém, qne contradiga; 
Nem de outra cousa algama é governado, 
Que de buma opinião, e usança antiga ; 
Mas pergunto ora a Cezar esfor^do, 
Ora a PJatiEo divino, qoe me diga 
Esle das muitas terras em qne andon, 
Aqaelle de vence-las, que alcanfiou? 

Cezar diri o Sou digno de memoria, 
» Vencendo Povos vários, e esforçados, 
«Fui Honaitha do Mundo, e larga hisatria 
» Ficará de mais feitOg subltmadoi. * 

18 



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178 KNSAIO BIAGMFarCO CBITIGO TOHO, III. 

He verdade I mas esse mando, e gloria 
Logras-le-o muito tempo? os CoijuradM 
Bruto, e Cassío dirão, que, si venceste, 
Em iim, em Um ás mSos dos tens OKffTcste. 

Dirá Plalíío «Por vér o Ethna, c o Nilo, 
» Fui a Scicilia, a Egypto, e ontras partes, 
1» Só por vêr, e escrever em alto eslylo 
» Da natfltal Sciencia em muitas Artes. » 
O tempo é breve, e queres consumi-lo, 
Platão todo em trabalhos, e repartes 
T9o mal do teu estndo as breves horas. 
Que em &m dé fabo Phebo o hlbo adoras? 

Pois quanto des que vive já appartada 
A atma desta prisSo terreste, e escara, 
Está em tamanhas cousas occupada. 
Que, da Tama que fica nada cura. 
E se o corpo terreno sente nada, 
O Gynico dirá si por ventura 
No campo onde lançado morto estava 
De si os CSes, ou as Aves enxotava. 

Esta maneira de poetar, esta phylost^hia tSo onsada, 
e tão sublime, era nova não só na Poesia Portngueza, 
mas na da Europa inteira, onde entSo não existia um s6 
exemplo delia. Camões a havia aprendido em Hwacío, e 
delle havia imitado esta argumentação, esta arte de em- 
pregar o dialogo, e variar, e anitaar o-discurso; e nSo 
é isso pequena prova da superioridade do seu génio so- 
bre os seuB Contemporâneos. 

Nesla mesma Epistola introduz elle muito a propósito 
a historia doDmdo deAthenas, que se encootra Bft Epis- 
tola segunda do Livro segnado das de Bordei», e a imi- 
tação não tem qne iavejar ao Original. 

De bum certo TrasDáo se lé, e escreve 
Entre as cousas da velha antiguidade, 
Que perdido grão tempo e siso teve 
Por cansa de buma grave enfermidade ; 
E em quaito de á fora doudo vttsn 



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inw ▼•> Cinntb i. 179 

Tinha por teieui, e cria por verdade, 
Qoe eram suas as náos que navegavam. 
Quantas oo Porto Pyreo ancoravam. 

Por am Senhor mai grande se teria 
Além da vida alegre, que passava, 
Pois nas, que se perdiam, oão perdia, 
E das que vinham salvas se alegava. 
Não tardou muito tempo quando' hum dJa 
Huncrito, seu irmão, que aif^eate estava, 
Chegando á Pátria, quando o vio pu'dido, 
00 fraternal amor íoi commovido. 

Aos Uedicos o entrega, e com aviío 
O faz estar á cora refouda. 
Triste porque tornar-lhe o aotigo sm . 
Lhe tira a doce vida descansada. 
As hervas Apolineas de improviso 

tornam á saúde já passada, 
Sisudo Trasiláo ao charo irmão 
Agradece a vontade, a obra nfio. . 

Porque depois de v6r-3e no perigo 
Do trabalho, a que o sise o obrigava, 
£ depois de não vér o estado antigo 
Qne a louca presumpçaio lhe appresentava, 
D Oh inimigo Irmão com cAr de amigo, 

1 Para que me tiraste (suspirava] 

■ Da mais quieta vida, e livre em ti)do 
»Qne Qunca pode ter algam -sisado ? 

«Por qual Senhor algum eu me trocara, 
>0n por qoal algum Rei de mais grandeza? 
• Qne me dava que o Mundo se acabara, 
sOu que a ordem mudasse a Natnreiaí 
«Agora meé penosa a vida chara, 
nSei que cousa he trabalho, e e que he tristeca, 
> Toma-me ao meu estado, qoe ea te avise 
»Qae na dontltce s6 d^osíste «siso. 



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180 EKSUS BIOCKÀPHK») CUTICO, tOUO Ilt. 
À segunda destas Epistolas é imitado Urre da Epis- 
tola II. do segando LíTro das do Poeta Vennsino, que 
prÍDCipia 

Cum tot susfiaeas, et tanta negotia $olus 

e foi dirigida a D. Constantino de Bragança, qne entio 
era Vice-Rei da índia, e o mesmo que Ibe havia leTao- 
tado o degredo, a que o condemnára Francisco Barreto. 
Neste Poema loava o Poeta aqnelle l^inctpe nSo sá 
pelfi soa ascendência reftl, e brilhantes ac{Ses dos seos 
antepassados, mas péla lealdade, e zelo do serrigo do 
Rei, com que se haria exposto aos trabalhos, e tempes- 
tades do Oceano, quando a sna fortuna, e ^tás quali- 
dades o isemptavun dehir goveraar aIodiaí'emcÍccums- 
lancias tio difficeis. 

Sendo vós' de tão alto e illastre preço, . 
A Tida fostes pdr'n'um fraco lenho 
Por largo mar, e nadosa tempestade. 
Só por servir a Regia Uagestade. 

E depois de tooiar a rédea dura 
Na mio do Povo indómito, que eslava 
Costumado á largueza, e á soltura 
Do pesado Governo, qne acabava. ' 

Este pesado governo, que havia terminada, era o de 
Francisco Barreto, e apesar dosaggravos, que delle tinha 
recebido, da injasta~perseguicilo, que Ibe promovera, te> 
Te o Poeta a generosidade de não eovectivar pessoal- 
mente aquelle Governador, que tão pouco merecia o ser 
por eile poupado ; e volta-se a D. Constantino louvando 
o quanto se empenhava em refrear a relaxação de costu- 
mes, e aimmoralidade, qne iavtavam ás soltas poraquel- 
le Estado, despresando os queixumes, émnrmuraçSesdos, 
que recusavam sujeitar-se ao jugo das Leis, e da Reli' 
giao. ^ 

Quem nSo terá por santa, e justa cora, 

Qual do vosso «onceito se esperava, 

A Ião desesperada enf^midade 

Applicar-lhQ contrarifi qnalidads? 



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Lino V., CAtmiLD. 1, 131 

NSo é mnilo, Senhor, si o modemáo 
Governo se bl(i^>heBH, e se desama 
Porqne o Poro a larguezas costumado 
A.' lei ser^H, e justa dura chama. 
Pois o zelo em virtude só fuadado, 
De salvar almas da Tartarea flamma, 
Com a agua salutifera de Cbristo 
Poderá pwr ventura ser malquisto t 

Passa logo a agoa^r mui poeticamente grandes victo- 
lias, com que o boto Governador tem de âecresceolar o 
listado, e restabeleqer os negócios de Portugal no Oriea- 
te, mas nisto se.mostraya elle melhor Poeta do que 
Propheta. 

Sei eu, e sabem todos, que os futar(» 
Verão por vós o Estado accreacentado 
Serão memoria vossa os fortes muros 
Do Cambaico Damão bem sustentado ; 
Da ruína mortal serão seguros. 
Tendo todo o alicerce seu fundado 
Spbre Orphiias amparadas com maridos, 
E pagos os serviços bem devidos. 

Quanto de intamia ao Príncipe he perder-se 
Pouco do Estado seu, que inteiro herdou. 
Tanto por gloria grande p6de ter-se 
Si accrescentado, e prospero a deitou, 
Nunca consentiu Roma emnobrecer-^e 
Com trinmphos alguém, si não ganhon 
Província, com que o Império se augmentasse, 
Por maiores victorias que alcançasse. 

Pôde tomar o vosso nome díno 
Damão por honra sua clara, e pura, 
Como já do primeiro Constantino 
Tomou Bisaucio aquelle, que ainda dura. 
E tu. Rei, que no Reino Neptunino, 
Lá no seio Gangetico a Natura 
Te aposentou ; de ser tão inimigo 
Deste Estado, não ficaa sem castigo. 



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183 snsAio noWiinKio cmiu, tomo ni. 

Bem viste contra ti nadantes Ava 
Cortar a espamosa agua navegaBdo; 
Ouviste o som das tubas não suaves, 
Mas com temor horrífico soando. 
Sentiste os golpes ásperos, e gríves 
Do LusitaDD braço nunca brando, 
MSo soETreste o gran brado penetranttl 
Qae os trovQes imitava do Tonante. 

A terceira é endereçada a EI-Réi D. Sebastião acom- 
panhando uma setta, que oSummo Pontifice lhe enviara, 
como ama das que haviam servido ao martyrio de S. Se- 
bastíão. 

A quarta contém nma declaração de amor a certa Da- 
ma, natordlmente obra de encommenda para servir al- 
gum amigo. As outras sam glosas, segundo o costume de 
Castella. 

O Poema de Santa Úrsula, que se encontra com algu- 
mas alterações para peior, entre as Obras de Diogo Ber- 
nardes, foi revindicado para o nosso Poeta por Manoel 
de Faria e Sonsa, assim como algumas Éclogas; já no 
Capitulo do Cantor do Lima declarei, que me inclinava 
á idéa de Manoel de Faria ; mas a imparcialidade reqner 

3ue declare aqui que muitos eruditos defendem Bernardes 
a inculpaçSo de plagtalo : taes são o Morgado de Ma- 
theus D. José Mbria de Sousa, o Bispo de Viseo D. Fraor 
cisco Alexandre Lobo, o Poeta Inglez Mr. Sonthey, Bon- 
lerweek, e outros, que seria excusado mencionar ; o Lei- 
tor comparando o estylo, e o talento de ambos decidirá 
como mdhor lhe parecer este ponto de critica literária. 
Tornando porém ao Poema direi, qne me parece defen 
tuoso no plano, pobre de invenção, mas pelo estylo, e 
versiHcação muito superior i SantaConba doDoutor An- 
tónio Ferreira, e a todos os Poemas deste género, que se 
tem publicado em portugnei. 

Entre todas as poesias que compQem as rymas de Ca- 
mOes me parece que tem um logar mui distincto, se nio 
o primeiro, asEclogas; ou se atteoda á riqueza de ima- 
ginação, á invenção, e belleza dos quadros, ao patheti- 
co, e simplicidade dos aOêctos, á viveza das pinturas ra- 



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Lino V,, càHnuA u itta 

lUB, t el^ancia do estylo, ao pictoresco da poesia, e á 
melodia, e variedade dos tatlToa. 

As margens do Tejo, e do Mondego sam quasi sempre 
atbeatro Ãeslespequeaos Dramas, e os seos Pastores dSo 
kbilam aa montanhas da Arcádia, mas as planices da 
Lositaoia; ^gamas destas Éclogas foram escriplas na 
SBB adolescência, isto é, quando o seu talento, e a sua 
ímaginaçSo eslaram em todo oseo vigor, e os trabalhos, 
e Bs desventaras nio tiobam ainda amargurado o sco es- 
pirito. Outras fi^aiB escríptas na Ásia, e é muito para 
Mitir qae os seus preconceitos clássicos, lhe não dcíxas- 
eem conh«cer o partido, que poderia lirar das formosas 
paizageos, de qae aqoeila antiga terra lhe fornecia oe 
modelos ; o otJorido local teria dado nova vida aos seus 
qoadros, mas a soa educação, e os seus estudos milbo- 
legicoslbe faziam voltar os olhos eontianamente para a 
Enropa, e para a pátria, lá estava o sou coração, todos 
os objectos de soas mais ternas affeiçfies, e nada mais 
tiaba interesse para elle. 

Luii de CamÃes tinha estudado a poesia bocolíca en 
Virgílio, e Theocrito, e tinha mui fino gosto para não 
imitar as cAres, eestylo daquelles grandes Poetas, epre- 
ferír-lbe oestylo rústico de que Sá de Miranda fizera uso, 
creio eu porque não sabia escrever de outro modo, pois 
as saas Éclogas sam escríptas como as suas Cartas, e as 
suas Cartas cono as suasEclogas. Os sensBicitos eGoih 
lalos descreteam como phylosophos, e faliam como ca- 
breiros. Manoel de Faria e Sousa, homem de muita erur 
dição, e de gosto mui depravado, era grande seguidor 
desse chamado estylo rústico ; e tão rústico que os seus 
Pastores a cada passo atropellam todas as regras gram- 
maticaes, e estropiam os vocábulos; ao mesmo tumpo 
que moralisam tanto, ou mais que os de Sá de Alírauda, 
e desculpa-se disto dizendo, que nSo baiovcrosimilhança 
em que os Pastores teobam livros, por onde adquiram 
íostruccSo. Não quero negallo, mas nesse caso é quasi 
um milagre, que os Livros, que ensinam assciencias aos 
Pastores, lhes nãoensinem ao menos afallar regularmen- 
te a língua I 

Onira rasio que alegam os que partilham esta opinião 
de Faria, é que a poesia é imitação da natureza, c que 



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184 INSAIO nottAPICO CBlIICOt TOMO IH, 

como os Pastores usam de linguagem rude, e iacorreoU 
no campo, devem usar da meesia nos Poemas. Isto nSo 
é razão, mas um grandiasimo absnrdo, que prova qoeel- 
les não gabem destinguir, entre imitação, e capia : o Gn 
das Artes é a imitaçio, e uSo a copia ; as Artes iniKam 
a Natureza aperfeiçoasdo-a, isto é, mostfaitdoi-a no sen 
aspecto maisfavoraTeti Neahnm pintor, qoe não seja per- 
feitamente louco, pintando as rUas de uma cidade, colo- 
cará no seu quadro os muladares, que nellas formam és 
Tezes os canos de despejo. Que sucèederia a um Actor, 
que, representando em scena o caracter de embriagado, 
se pozesse a vomitar ooTheatro? pois isso acontece com 
frequência aos bêbados. Os Pastores de Theocrito, e de 
Uoscbo peccam ás vezes em demasiada grossaria, niasn9a 
deinam por isso de fallar em grego tão correcto, e tâe 
puro como o de H<Hnero, e de Anacreoote. Virgílio os 
imitou na pureza de estylo, e Camfies com muito accerlo 
seguio as pisadas de Virgílio, e de Ferreira, qae, ainda 
que pobre de génio, tinha sobrado gosto, e juízo sam pa- 
ra sentir o mérito dos antigos, e imita-los conforme suas 
forças. 

O celebre Sanoazzaro, um dos primeiros Poetas da La- 
tinidade moderna, eum dos melhores Bucólicos Italianos 
foi o primeiro qae introduzio Pescadores nas Éclogas, e 
esta invenção recebida com grande applauso dos Literatos, 
foi um verdadeiro progresso para a Arte. Luiz de Camões, 
que tinha grande conhecimento da literatura Italiana, e 
que estimava moito Saunazzaro, não só o imitou nas Pes- 
catorias, mas até inventou um sovo género de Écloga 
mixla, em qneintroduzio Pastores, e Pescadores; assim o 
praticou elle na Écloga VL em que nos faz v^r 
A rústica contenda desusada 

£nlre as Musas do bosque, e das Aréas, 

De seus rudos cultores modulada. 

Nesta Écloga, que eu tenho pela mais bella de todas 
as suas, introduzio elle o Pastor Agrário, e o Pescador 
Alicuto cantando aodesafio, e usando cada nm delles dos 
peDEamenlos, e linguagem próprios das suas respectivas 
profissões, em eslylo natural, e poético, sem que por is- 
so saia dos limites da verosimilhança. 



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iiTKO r., cármu i. 



Vós semicapros Deoses do alto monte, 
Pbannos longevos, Satyros, Silvanos, 
E vós Deosas do bosque, e clara fonte, 
E dos troncos, que vivem largos annos: 
Si tendes pronpta hum pouco a sacra frouls 
À nossos versos rusUcos, e humanos. 
Ou me dai já a capella de Loureiro, 
Ou peada a minha Lyra de hum Piobeire. 



Vós húmidas Deidades deste pego, 
TrítSes cerúleos, Pjõlheo com Palcnio, 
Vós, Nereidas do Sal, em que navego. 
Por qaem do vento as Tarías pouco temo. 
Si as vossas sacras aras nunca oego 
O congro nadador na pá do remo. 
Não consÍDlaes que a n-nsica marinha 
Vencida seja aqai na Lyra minha. 



Pastor se fez um tempo o moço louro, 
Que do Sol as carretas move, e guia ; 
Ouvio o Rio Amphriso a Lyra de ouro. 
Que. o sen claro inventor ali taugia. 
Io foi Yacca, Júpiter foi Touro, 
Danças Ovelhas junto da agoa fria 
Guardou formoso Ãdoois ; e tornado 
Em Bezzerro Neptuno foi já achado. 



Pescador já foi Glauco, e Dcos agora 
He do mar, e Prolhéo Phocas guarda, 
Nasceo no pego a Deosa, que é Senhora 
Do amoroso prazer, que sempre tarda, 
Si foi Beizerro o Deos, que cá se ^dora 



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186 iNsuo nomxnaaa aarioo, tovo itr. 
Também já foi Deiphiffl. Si se resguarda, 
Võ-se qoe os Uoçtw pesetdores eram, 
Que o escaro enygma ao prioio Vate deram. 



Fonnosa DÍDamene, si dos niiibos 
Os implumes pentxffes já furtei, 
A' doce Pbylomella, e dos Murtinhos 
Para ti, fera I as Qores apanhei ; 
E si os crespos Hedroubos dos ramiabos 
Com tanto gosto já te presenteí. 
Porque não dás a Agrário desditoso 
Hum sò revolver d'olbos piedoso 1 



. Para quem trago d'agoa em vaso cavo 
Os ruivos Camarões vivos saltando? 
Para quem as conchiobas ruivas earo 
Na praia, os brancos búzios apanhando? 
Para quem de mergulho no mar bravo 
Os ramos de coral fui arrancando ? 
SenSo para a formosa Lemnoria 
Que co'hum só riso a vida me daria? 



Quem vio o desgrenhado, e crespo Inveroo 
D'àtras nuvens vestido, hórrido, e feio, 
enegrecendo á vista o Ceo superno. 
Quando os troncos arranca o rio cheio. 
Raios, chuvas, trovões, hum triste Inferno, 
Que ao Mundo mostra um pallido receio. 
Tal he o Amor cioso, a quem suspeita. 
Que outrem de seus trabalhos se aproveita. 



Si alguém vé, si alguém ouve o sibilante 
Furor lançando ílammas, e bramidos 



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LÍVIO V., anniLo i. 
Quando «s pssfflosas Serras trai diaolc. 
Hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos, 
A braf»s derribando o já outaote 
Himdo, c'08 elementos destruídos, 
Assi me lepreseola a pbaatasia 
À desesperação de a vér hum dia. 



Uioba alva DiDamene, a Primavera, 
Que os deleitosos campos piots, e veste, 
i, ríado~se, fauma c4r aos olhos gera. 
Que em terra lhe faz vér o arco cellestc. 
As Aves, as fioaioas, a verde Hera, 
E toda a formosura amena, agreste. 
Não he para os meus olhos tão formosa. 
Como a toa que abate o Lyrio, a Rosa. 



As conchinhas da praia, que prescntam 
A cór das nuvens quando nasce o dia, 
O Canto das Sirenas, que adormentam, 
A tinta, que no Murice se cria, 
O navegar por ondas, que se assentam 
Co brando bafo, com que o Sol se esfria, 
NSo podem, Nympha mioha, assi aprazer-me 
Como o vêr-te, si em tanto chego a vêr-me. 



A Deosa, que na Lybica Lag(\a 
Em forma virginal appareceu, 
Cujo nome tomou, qne tanto sda. 
Os bellos olbos tem da cAr do Ceo. 
Garbos os tem ; mas huma que a coroa 
Das formosas do campo mereceo 
Da cAr do campo os mostra graciosos, 
Quem diz qne não sam estes os formosos? 

N{o será este o estylo de bum vcrdaèftirb discipuio de 
Virgílio? Impede acaso a cultura da linguagem , e do 



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133 cnsiio Biomunuod cutico, tomo ih. 
melFD, que Alicuto, o Agrário sà eiprímam as idéos que 
saia propriss ãe um Pescador, e de umPuíor? Que fal- 
ia faz^n aqui os barbarismos, e solicissimos com qaeFa- 
Tia «Sousa maculou adicção das auaa Éclogas? Deseuga- 
Bein»-Bos, oão é oealylo elegaute, e poético de Ferreira, 
e de Camões, que desfigura a Poesia Pastoril, mas as 
dDutoríces, e phylosophias com que Sá de Miranda, e 
Fam e Sousa fazem descnrsar os rnslícos, que iotrodu- 
zeta a fallar ; porque essas é que sabem da verosimilhao- 
fa, e muito mais quando se exprimem com linguagem 
plebea, ou barbara. 

O judicioso Boileaa no Canto II. da sua Arte Poética 
depois de censurar osquetractam assumptos heróicos em 
Eclogifô, não tracta melbor os que asescrerem emestylo 
baiiw, e rasteiro. 

Au contraire cet autre, ahjecl en son langage 
Fait parlcr ses Bergers eomme en parle au Village. 
Ses vers plats, et grossiers, depouíllés d'agrement, 
Toujoitrs balsent la terre, et rampent tristement 
Ou dirait que Ronsarde, en ses pipeaux rusliques 
Vient encor fredonner ses Idylles Gothiques, 
Et changer, sans respcct de rorcille, et du son, 
Lycidas en Pierrot, et Phylis en Toinon. 

Entre ccs deux excés Ia roule cst diGcile; 
Suívez pour la trouver Tbeocrite, et Vergile, 
Que leurs, Icndres êcrits, par ies Graces dictés, 
Ne quitent point vos mains, jour, el nuit feulletés 
Sculs dans leurs doctes vers iis pourront vous appreodre 
Par quel art sans bassesse un Auleur peut desceudrc. 
Cbauter Flore, Ies champs, Pomone, Ies vergers, 
Aue combats de la flute aoimcr deux Bergers, 
Dcs plaisirs de TAmour vauter la douce amorcc, 
Changer Nascisse en flcur, couTrir Daphné d'ecorce, 
Ft |>ar quel art encor TEclogue quelque fois 
Rend digne d'an Cônsul la Campagne, et Ies bois, 
Tel est de ce Poeme et la forco, et la grace. 

Quer pois Saif«au, que segundo Voltaire, qnasi sem- 
pre tem razão, que a Poesia Pastoril Iracle assumptos eam- 



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■■ LrVBO V., CAPITCIO I. 189 

ftsites, taas' com linguagem para (sem aqnal toda a' 
composição édetestavet,] correcta, elegaDte, e poética, « 
propOem para modelos deste estylo Theocrito, e Vh-gilio, 
qoe CautOes seguio.e imilon com a perCeição, e talento 
ieqne anatnreza o havia cnríi^uccido. Ora {larece-ne 
pois qu& neste caso aopiDiso de Boiteau édewuilo «ais 
pezo que a de Siirripita, e Tbomaz dé Aquino, e qoe a 
pnUca, e doutrioa de Faria e Sousa. 

Que poesia tão rica, e tão imaginosa, e campestre se 
nlo depara na Écloga I., que o Poeta tinlia pela melhor 
das suas, vêja-se como Umbrano convida Frondelío a 
lamentar em ses caiito a morte de Teonío. 



Canta agora, PaBtor, que o Gtdo pace 
Entre as húmidas berras socêgado, 
E lá nas altas Serras, onde oace, 
O Sacro Tejo á sombra reciHlado, 
Com os olbos no elão, a miti aa face. 
Está para te ouvit apparelhado, 
E com silencio triste estão as Nymphas 
Dos olbos deslUlando claras timphds. 

O prado as flores branoss, e vetmelbas 
Está suavemente presentando : 
Ãs doces, e solicitas Abelhas 
Gom susurro agradarei vam vdaailo. 
As cândidas, pacíficas Ovelbas, 
Das bervas esquecidas, inclinando 
As cabeças estam ao Som divino 
Que faz, passando, o Tèjó cristalino. 

O vento d'enlre as arvores respira 
Fazendo companhia ao dará rio ; 
Nas sombras a ave gárrula suspira 
Sua magoa espalhando ao vento frio : 
Toca, Fronddio, loca a dOce Lyra, 
Que daquelle verde álamo Sombrio 
A branda Phylomella eutrestecida 
Ao mais Saoâoso ctioto te' convida. 



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190 ENSAIO BIOORiPnCO CBITIGO, TOVO Ilt. 

Em qaal dos nossos antigos Bocolicos se encontra talt 
abundância, esta suavidade, este rico manancial depoesii, 
qne alegra a imaginação com a variedade de objectos, qne 
Ihepreseota, e recreia o ouvido com barmoaia tio doce, 
e nunca interrompida? Vejamos agora alguns trechos do 
Canto Tunefare de Frondelío, e nelle reconheceremos al- 
gumas imitaçOes de Virgílio. 



Aquelle dia as agoas n3o gostaram 
As mimosas Ovelhas, e os Cordeiros, 
O campo encheraram de amorosos gritos, 
£ não se penduraram dos Salgueiros 
As Cabras de tristeza ; mas n^aram 
O pasto a si, e o leite a seus Cabritu. 

Prodígios infinitos 

Mostrava aqnelle dia, 

Quando a Parca queria 
Principio dar ao fero caso triste, 
E tu também, oh Corvo, o descobriste. 
Quando da mSo direita em voz escora 

Voando repetiste 
A tyrannica ley da morte dura. 

Tionio meu, o Tejo cristalino, 
E as Arvores, que já desamparaste, 
Cboram o mal da tua ausência eterna. 
Nâo sei porque tão cedo nos deixaste, 
Mas foi coosentímenlo do Destino, 
Por quem o Mar, e a Terra se governa. 

A noite sempiterna, 

Qne tu tão cedo viste, 

Crnel, acerba, e triste 
Si quer da tua idade nSo te dera 
Qne lograras a fresca Primavera f 
Não usara com elle tal crueza, 

Qae nem nos montes Terá, 
Nem Pastor ha ao campo sem tristeza. 



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iiTM V., cánmo I. 
Os PbanaoB, certa guarda «los Pastores, 
Já não seguem as Nyiapfaas na espessura. 
Nem as Nymphas aos Cervos dam trabalho. 
Tudo, qual vês, « cheio de tristura : 
k's Abelhas o campo nega as flores. 
Como ás flores a Aarora aega briolho. 

Eu, que cantando ^Kúbo 

Tristeza todo o dia, 

k frauta, que sohia 
Haver as altas Árvores tangendo. 
Se me vai de tristeza enroquecendo ; 
Que tudo vejo triste neste «tonte : 

£ tu também correndo 
Manas envolta, e triste, oli clara fonte. 



Já diante 6m olhos Ibe voavam 
Imagens, e phantasticas pintoras, 
Exercício do falso pensamento ; 
Já pelas solitárias espessaras. 
Entre os penedos sós, que não fallavam, 
Fallava, e deso^ria o sen tormento. 

Em longo esquecimento 

De si, todo esibebido. 

Andava tão perdido 
Que qoaodo algnm Pastor lhe perguntava 
À causa da tristeu, qne mosbrava, 

Sorrindo Ibe tomava : 
« Si não vivesse triste, morreria. » 

Apesar de qne, como já disse, e Aothor contava esta 
como a melhor das snasEctogas, não posso como Critico 
sobscrever a esta opiniSo. A Écloga i como o Drama, e 
deve ter como elle nexo, e desfecho, e sobre tudo unidade 
deinteresse, eestemeparece qoefollanesla, écomoduas 
Éclogas juntas n'uma; na primeira os Pãsiov» Umbrano 
e Frondelio deploram a morte do Pashu- Tioaio (D. An- 
tónio de Norcmha) na segunda a Nympba Aonia (a Prin- 
ceza D. Joanna) lamenta a morte d« seu Esposo (o Prín- 
cipe D. João) e esta duplicidade de assumpto, perjudica 
oiiiteresse,dividiado^o; «ccresceaiflo, q»e.osqueixomçs 



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Í9Z EHSiio BiooBAPBico cnmco, Toifo m. 
de AoDÍa sam em verso Casielhano, o qae me pwcce um 
Terdadeiro defeito : quaolo porém á belleza de pensa- 
menlos, riqueza de poesia, e apuro de eslylo, e metro, 
itôo ha dúvida deqne esta composição sejaom dos partas 
mais felizes do talento do Poeta. 

A Écloga segnnda é uma das mais vivas pinturas da 
paixão amorosa levada a ponto de delirío, e que resiste 
a todas as admoestações da pradenoia, e conselhos da 
amisade. 

Como sara ternos os qaeixnmes namorados dos Pastores 
Frandoso, e Duriano na Écloga IV. 



Isto he o qoe aquella verdadeira 
Pé, com que te amei sempre merecia. 
Sem nunca te deixar hum só momento? 
Como, cruel Belliza, te esquecia 
Hum mal, cuja esperança derradeira 
Em ti só linha posto o seu asseaío ? 

N3o vias meu tormento ? 
NSo vias tu a fé com que le amava t 

Porque não le abrandava 
Este amor, que me tu tão mal piigaslef 

Mas pois já me deixaste 
Co'a esperança de ti toda perdida, 
Perca quem te perdeu também a vida. 

DCBUNO. . 

Si os males, qne por ti tenho soffrído 
Oh Silvaoa, em meus males tSo constante, 
Quizesses que alguma hora te dissera ; - 
Inda que qual duríssimo Diamaate 
Fora o tea cruel peita endurecido, 
Creio qae á piedade te movera', 

Já agora em hranda cera 
Os montes- sam tornados, e os penedos, 

E os rios, qne estio quedos. 
Sentiram meus snspiros, minhas queixas. 
Tu s6, cruel, me deixas 



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nVlO V., CAPItVLO. I. 

Que hes mais que montes, e peoedoa dará, 
E fagitiva mais qae a fojile pura. 

fbandoso. 

Onde está aqnella Talla, qae sohia 
Só com seu doce íom, qae me chegara, 
Ãvivar-me os Espíritos cangados ? 
Oade está o olhar brando, que cegara 
O Sol resplandecente ao meio dia? 
Onde estam os cabellos delicados, 

Que, aos ventos espalhados, 
Escureciam o ouro, e a mi mataram? 

E a quantos os olhavam 
Causaram também noros accídentes? 

Porque, cruel, consentes 
Que outro goie da gloria a mim deridaf 
Perca quem te perdeu também a vida. 



Neuhnm bem r^o qoe a meu mal espere, 
Si não fosse esperar que a morte dura 
Me venha em fim a dar a saudade ? 
Vejo faltar-me a lua formosura : 
A ronlade me diz que desespere, 
Contradiz-me a Raz&o esta rontade, 

Diz que em huma Beldade, 
Em quem mostrou o cabo a Natureza ; 

Não ha tanta crueza, 
Que hum tão constante amor despresar queira, 

E fé tão verdadeira ; 
Mas tu, que da Raz&o jamais curaste. 
Porque era dar-me a vida, ma tiraste. 



A quem, Belleza ingrata, te entregaste? 
A quem deste, cruel, a formosura. 
Que a meu tormento só, só se devia ? 
Porque huiDJt íi i^sisi* iirme, e pnra? 

13 



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94 ENSAIO BiootArmeo CRnieo, toho ni. 
Porqae la» sem respeito me trocaste 
Por quem só nem oÍhar-le merecia? 

O bem, que te cu queria, 
E que Dão perderei se nSo por morle, 

Não he de maior sorte 
Que quanto a cega fama estima, e preza? 

Só a tna crueia 
Foi nisto contra mim endurecida ; 
Perca quem te perdeo tamb^n a vida» 



Levaste-me 6 meu bem n'bum 66 momento : 
Levaste-me com elle juntamente 
De cobra-lo iámais a confiança, 
Deixaste-me em logar deite somente 
Huma continua dór, hum gran tromenlo. 
Hum mal, de que n3o pôde baver mudanpa, 

Tu que eras a esperança 
Dos males, que, cruel, t« me causaste. 

De todo te trocaste 
Gom^Amor cobjurada em minha morte. 

Porém ai minha sorte 
Consente que por ti seja causada. 
Morte não foi nrais bemaventurada. 



N3o nasceste de alguma penha dura ; 
N3o te gerou alguma Tygre Hircana ; 
Não te criaste, n3o, entre a rudeza, 
A quem, cruel, sabisle deshumana? 
No Ceo formada foi tal formosura. 
Onde a mesma brandura he natureza. 

Pois logo essa dureza 
Donde teve principio, ou a tomaste? 

Porque, ilura, engeílaste 
De bum verdadeiro Amor, que tu bem Tías, 

A fé, que conhecias. 
Por outra de ti nnnca conhecida? 
Perca quem le perdeo também a Yida> 



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imo T., CAPUtLO I. 



Vai-sfrco seu Pastor o manco Gado 
J-orque d amor entende aquella parte 
yue a natnreza irracional lhe cosina. 
O rústico Leíío, sem alguma arte, 
Oo instinto natural aó ensinado, 
Aonde sente amor logo se inclina. 
E tu, que de divina 
• Não tens menos qoe Venns, e Cupido 
■ „ Porque, si quer co' outido, 
am Amor verdadeiro não soccorrea? 

Ah ! porque te não corres 
De que o LeSo te vença em piedade 
Si dSo te vence Vénus em beldade? 

pnAnooso. 

A mi não rac faltava o que se preza 
Entre os Celestes Deoses, que rorraaram 
A tna mais que humana formosura ; 
Em mim os voluntários Ceos faltaram ; 
Em mim se prevertea a Natureza 
De home cruel formosa creatura, 

Mas pois, Belliza dura. 
Que do mais alto Ceo a nós vieste, 

E em teu peito cellcste 
Ham tal contrario pódc apascenlar-se, 

Nâo he contrario achar-se 
Tamanha fé tao raal agradecida. 
Perca quem te perdeo também a vida. 

BCRIANO. 

Por li a noite esci\ra me contcnla, 
Por li o claro dia me aborrece ; 
Abrolhos me parecem frescas flores ; 
A doce Phyíomella me entristece, 
Todo contentamento me atormenta, 
^"j^» watçnjptaçío dos teuí amoras; 



;,GQOglc 



19G INSAIO BIOOBAPBtCO CMIICO, TOMO In. 
As feslas dos Pastores 
Que podem alegrar toda a tristeza, 

Em mi (ua crueza 
Faz que o mal cada hora rá dobrando : 

Oh cruel ! até quando 
Hade durar em ti tal pensamento, 
E a vida em mi, que soffre tal tormento. 

Para que é citar mais? Em cada Écloga, que examine, 
encontrará o Leitor iguaes, ou maiores bélicas deste, ou 
de outro género, que collocam seu Autbor acima, e mui- 
to acima, de todos osBocolicos doaffamado século dequi- 
iilieotos. 

Posto que Luiz de CamOes cultivasse com esmero a 
poesia italiana, introduzida em nossa hngaa por Sá de 
Miranda, e tornada de moda pelo Doutor António Ferrei- 
ra, nem poí isso seguio o exemplo deste, que teve em 
tanto menoscabo a antiga poesia nacional, que nem um 
só verso nos deixou naquelle gosto. 

Camões pelo contrario a cultivou, e levou ao grau de 
perfeição, de que era susceptível, porque era do seu fado 
ou abrir caminhos novos, ou aperfeiçoar quanto osoutros 
haviam feito. Uma parle das suas rymas pertence é Es- 
cliola dos Trovadores, e não sam estas as que menos abo- 
nam a fecundidade do seu estro, e a flexibilidade do sea 
talento. Vêjam-se as suas Bedondilhas sobre otheiaa «so- 
per flnmina Jiabylonis, tâo louvadas pelos CriticosNa- 
cionaes, e ainda mais pelos Estrangeiros ; vâjam-se tan- 
tas Voltas cheias de graça, e de cbisle, tantas Coplas 
eróticas, e satyrlcas cheias de veia, e de elegância, e 
sobre tudo animadas de uma versificação fluida, harmo- 
niosa, e corrente, que os antigos Trovadores duocv co- 
nheceram, e que compõem esta segunda parte das soas 
rhytbmas. Parece impossível que ura homem só, no meio 
de perseguições, e dos trabalhos de uma vida errante, e 
miserável, podcsse moldar-se a lodos os géneros de com- 
posição, e deixar modelos em todos elles: quando peow 
nisto, confesso que até me envergonho de apontar algom 
descuido, de noiar algum leve defleito em tal Escríptor, 
que os desconta, e compensa com lauta multidão de bel- 
lezas ! E muito mais quando me lembro dequQ nSo foielle 



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imo T., CANTDLO I. ](J7 

qnem publicou as suas Poesias, nem tere tempo para as 
lÍDur, e corregir para o prélo. 

O caracter habitual destas Poesias de CamSes é a en- 
genuidade, esingelleza dospensamcDlos unidas á brandu- 
la, c graça da express5o, é isto, que se observa uas Co- 
plas aama Dama, que tioha osestro de jurar pelos seus 
olhos. 

Quando me quer enganar 

A minha bella perjura, 
I Para mais me confirmar 

O que quer certificar. 

Pelos seus olbos mo jura. 

Como mea coolentameBto 

Todo se rege por elles. 

Imagina o pensamento 

Que se faz aggraro a elles 

Não crer tão gran juramesto. 

Porém como em casos taes 
Ando já visto, e corrente. 
Sem outros certos sígnaes, 
Quanto me ella jura mais. 
Tanto mais cuido que mente. 
EnISo vendo-lbe offender 
Hnns taes olhos como aquelles, 
Deixo-me antes tudo crer, 
Sõ pela não constranger 
Ajnrar falso por elles. 

Pergnnto agora si é possível ter mais espirito, mais 
delicadeza de expressão, e corar com mais grafa nma 
censDra? 

As Glosas, isto é, o descorrer em uma combinação da- 
da derymas sobre oassumpto apresentado em um motte, 
próprio, ou alheio, ampliando, ou alterando o sentido, e 
repetindo no fim de cada glosa o verso do motle, que se 
lomon para assumpto, foi sempre um exercício, em que 
os nossos Poetas folgaram de alardear seu engenho ; e sem- 
pre, em Portugal, e Hespanfaa, os Amadores da Poesia se 
pagaram muito destes improvisos ; Camdes mostrou neste 
género a mesma superioridade, que nos outros. 



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inSÀio HoQunic» gkitim, t/ito m. 

HOTTE ALHEIO. 

Campos bemaventurados, 
Tornai-vos agora tristes, 
Qne os dias, em qne me vistes 
Alegre, já sam passados. 



Campos cheios de praier, 
Vós, que estaes reverdecendo. 
Já me alegrei com vos vir, 
Agora venho a temer 
Que intrislecaes em me vendo. 
E pois a vista alegrais 
Dos olhos desesperados. 
Não qaero que me vêjaes, 
Para que sempre sejaes 
Campos bcmaventurados. 

Porém, si par accidente 
Vos pesar do meu tormento, 
Sabereis que amor consente 
Que tudo me descontente, 
ginão deacontentamenlo. 
Por isso vós, Arvoredos, 
Que já nos meus olhos vistes 
Mais alegrias, qne medos. 
Si mos quereis fazer ledos 
Mostrai-Tos agora tristes. 

Já me vistes ledo ser. 
Mas depois qne o Ealco amor 
Tão triste me fez viver. 
Ledos folgo de vos vér. 
Porque me dobreis a d6r. 
E se este gosto sobejo 
De minha i6t me sentistes. 
Julgai quanto mais desejo 
As horas, em que me vejo. 
Que os dias em que me vistes- 



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" J 



LÍVIO r., CAPITULO I. 199 

O Tempo, qae be deslgoal, 
De seooes, vaMes vos tem, 
Porqae em vosso natural 
Se moda o mal para o bem, 
Has o mea para mór mal. 
Si perguulaes, Terdes prados, 
Pdi» tempos dlfTsrentes, 
Qae de amw me foram dados, 
■ Tristes, aqui sam presentes, 
Alegres já sam passados. 

£stes Tersos r^piram lernara, e melancolia, e senti- 
neato profundo dos desgostos, que opprímiram e Aulhor : 
ossegQiates toraam-se igualmente notáveis pelo mimoso 
da piatma, e a singelleza dos sentUnentOG ; é preciso con- 
fessar que uioguem entre nóspossuio no mesmo grau qae 
Camfies aqaella grafa de estylo, que os Fraocczes dcsi- 
gmm pela palavra naivité, e cm que tanto se desUoguio 
LafoqtAiac. 

MOTTE PBOPRIO. 

Na fonte está Leonor 
Lavando a talha, e chorando, 
A's amigas perguntando, 
« Vistes lá o meu Amor t » 



Posto o pensamento nelle, 
Porque A tudo Amor a obriga, 
Cantava, mas a cantiga 
Heram suspiros por elle. 
Nisto estava Leonor 
O seu desejo eDganando, 
A'a amigas pergnntnRdo, 
(1 Vistes lá o mea Amor?» 

O rosto soitre hnma mão. 
Os olhos no cbfio pregados, 
Qae de chorar já cacçados 
Algum descasco lhe dão, 



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300 SNS|10 BIOOMVHIGO GUlIfiO, TOMO lU. 

Desta sorte Leondr 
Suspeode de quando cm quando 
. Sua dór, e em sí tornando, 
^ais pesada seote a dâr. 

Não deita dos olhos agoa. 
Que não quer que a àòt se abrande. 
Amor, porque em magoa grande 
Secca as lagrimas a magoa. • 

Depois que do seu Amor 
Soube novas perguntando 
De improviso a vi chorando, 
Olhai que estremos de dâr ! 

Percorram-se todas as poesias, conthendas no Cancio- 
neiro de Resende, e nos outros Cancioneiros, e véja-se 
se ali ha cousa que corresponda, já não digo que ignale, 
pela variedade, elegância de expressão, abundância de 
qaadros, e harmonia versificatoria, a Carta a uma Dama, 
que ramos transcrever. 



Querendo escrever hum dia 

mal, que tanto estimei, 
Cuidando no que poria 

Yi a Amor, que me dizia 

1 Escreve que eu notarei, e 
E como para se lér 

Não era historia pequena, i 

A que de mi qmí fazer, 
Das azas tirou a penua. 
Com que me Tez escrever. 

N3o é acaso no estylo deOvidio este exórdio tSo poe- ' 
tico? t o Amor que nota a Carla, eécom uma penna ti- 
rada das suas azas, que o Poeta escreve : occorrerJa is- j 
to a Bernardim Ribeiro, a Cbristovao Falcão, ou Resende, 
que sam, os primeiros dos nossos Trovadores? E quando ' 
lhe occorresse, saberiam elles eiprimir este pensamenUt 
com tamanha viveza, e graça? 



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uno T-, CAKTDLO I. 

E logo, como a tirou, 
He disse; > Àvtva os «sprítos, 

■ Que pois em teu favor soo, 
» Esta peoDa, que te doo, 

■ Faça vOar tens escriptatt. » 
E danâo-me a padecer 
Tudo o que quiz que pozesse. 
Pude emfim delle dizer 

Que me deu com que escrevesse 
O que me deu a escreva:. 

£u que este engaao entendi 
Disse-Ihe ; « Que escreverei ? » 
Respondeu dizendo assi, 
«Altos eSeitos de mi, 
>E daquella a quem te dei; 
nE já que te manifesto 

■ Todas minhas estranhezas, 
D Escreve, pois que te prezas, 
D Milagres de hum claro gesto, 

« E, de quem o vio, tristezas, s 

Ah, Senhora, em quem se apara 
A fé do men pensamenlo I 
Escutai, e estai attento. 
Que com vossa formosura 
Iguala Amor meu tormento. 
E posto que tão remota 
Estejaes de me escutar. 
Por me nfio remediar; 
Ouvi, qite, pois Amor nota, 
Uilagres se ham de notar. 

Escrevem vários Autfaores 
Que junto da clara fonte 
Do Ganges, os Moradores 
Vivem do cheiro das fiares. 
Que nascem naquelle monte, 
Si os sentidos podem dar 
O mantimento ao viver. 
Não he logo de espantar, 



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Vft KKUro BKMSAPncO CfiRMD, TOIIO lU. 
Si estes viveoa de churar. 
Que viva <« e6 de vos vãr. 

Esta tradicçSo popolar de que os moradoreE das cerca- 
nias da fonte do Gaoges se sustentam do cheiro das flo- 
res, é aqui mui bem trazida para o intento do Poeta, se- 
ria porém graude injustiça ao sen bom seoao,* o julgar 
tl£uem que elle tinha poi verdadeira rala falMtla. 

Hnma Arvore se conhece 
Que na geral alegria 
Ella tanto se entristece. 
Que como be noite floresce, 
E perde as flores de dia. 
Eu que em v£r-vos sinto o pre^o, 
Que em Tossa vista consiste, 
Em a vendo me entristeço. 
Porque sei que nSo mereço 
A. gloria de vér-me triste. 

Falta o Poeta aqoi da famosa Arvore Trisle Ião conhe- 
cida na Ásia, e cuja origem poética se depara na historia 
de Saladiao, um dos mais beflos trechos da Lusitânia 
Transformada, deFeraao Alvares do Oriente, eii'um Poe- 
meto de Francisco Rodrigues Lobo, impresso oa Phemx 
Xenascida. 

Iluiii Rei de grande poder 

Com veneno toi criado, 

Porque seudo costumado, 

Não lhe podesse empecer, 

Si depois lhe fosse dado. 

Eu, que críd de pequeua 

A vista a quanto padece, 

Desta sorte toe acontece. 

Que não me faz mal a pena, 

Sinão quando me fallece. 

Quem da doença real 
De longe Enfermo se seBle, 
Por segredo natural 
Fica sSo, veado somente 



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tlT» V., ( 

Htttn volátil aaímal. 

Do mal, que Amor tm mira cria. 

Quando aqudia Pheoii vé^ 

São de toúo ficaria ; 

Uas fioa^me bydropesia, 

Que quanto maia, mais desejo. 

Da Víbora he. verdadeiro, 
Si a Consorte vai buscar, 
Qae em se querendo junlar 
Deixa a peçonha primeiro. 
Porque Ifae impede o gerar. 
Assi quando me apresento 
A' vossa vista inhumaoa, 
A pegonha do tormento 
Deixo á parte, porque damna 
Tamanho contentamento. 

Querendo Amor snstentar-se. 
Fez huma vontade esquiva. 
De huma Estatua namorar-se; 
Depois por manifeslnr-se 
Converteu-a em Mulher viva ; 
De qaem me hirei eu queixando, 
Ou quem direi que me engana, 
Si vou seguindo, e buscando 
Huma imagem, que de humana 
£m pedra se vai tornando? 

De huma fonte se sabia. 
Da qual certo se provava. 
Que quem sobre ella jurava, 
Si falsidade dizia. 
Dos olhos logo cegava. 
Vós que minha liberdade, 
Senhora, tyrannisaes, 
Inj ostameale mandais. 
Quando vos falio verdade. 
Que TOS não possa vér mais. 

Da Palma se escreve, c canta. 
Ser tão dura, e tão forfosa. 



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utauo BRMaArBHfr CRITICO, TOUo m. 

Que peso d3o a quebraata, 

lias anleE, de presumpsosa, 

Com ella nais^ se leva&ta^ 

Co' peso do mal, .que dais, 

A constância, que em mim véj« 

Não s&uente ma dobrais, 

Uas dobra-se meu desejo, 

Com que então tos quero maís. 

Si algaeni os olbos quizer 
A's ÀDdoríohas quebrar, 
Logo a May, sem se deter, 
Huma herva lhe vai buscar. 
Que lhes faz outros nascer. 
Eu, que os othos tenho attenlo 
Mos vossos, que Estrellas são, 
Gegara-me os do Entendimento, 
Mas nascem-me os da Razão, 
De folgar em meu tormento. 

Si para onde o Sol sahe. 
Descobrimos, navegando. 
Bum novo Rio admirando, 
Que o lenho, que neUe cabe, 
Em pedra se vai tornando. 
Não se espantem disto as Gentes; 
Mais razão será que espante 
Hddi coração tão possante. 
Que com lagrimas ardentes 
Se converte em diamante. 

Pôde bum bruto nadador 
Na linha, e cana influir 
Tão venenoso vigor. 
Que faz mais não se balir 
O braço do Pescador. 
Si comeram de beber 
Deste veneno exeelleate 
Meus olhos sem se deter, 
Não se- sabem maís mover 
A nada, que se apresente. 



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uno T-, GAnnw i, 30^ 

Por esia Estropie Tê-se, que « Poeta tinha cenhect- 
meDto do peixe, que os Naturalistks desigoan pelo aome 
de Gymnolus Electrieai. 

Isto sam claros signàes 
Do muito, que em mim podeis. 
Nem podeis desejar mais: 
Que hí vêr-vos desejais. 
Em mim claro vos vereis.. 
E quereis vér a que fim 
Em mim taoto bem se poz? 
Porque qniz Amor assim 
Que, por vos verdes a vós. 
Também me vísseis a mim. 

Dos mates, que me ordenais, 
Que inda teoho por pequenos, 
Sabei, si mos escutais 
Que já qSo sei diter mais. 
Nem vós podeis saber menos. 
Mas já que a tanto tormento 
Não se acha quem resista, 
En, Senhora, me contento 
De terdes meu solTriment» 
Por alvo de vossa vista. 

Quantos contrários consenle 
Amor por mais padecer! 
Que aquella vista cxcellenle 
Que me faz vJver contente, 
Me faça tão triste ser I 
Mas dou este entendimento 
Ao mal, que tnolo me ofTende, 
Como na veia se intende. 
Que si se apaga c'o vento, 
Co mesmo vento se accende. 

Exprimenton-se algoraa hora, 
Da Ave, que chamam Camão, 
Que se da casa, onde mora, 
yé adultera a Senhora 



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Morre de pura paÍi5o. 
Â. dAr he tSo seio medida. 
Que remédio lhe aio vel, 
Mas, oh ditoso animal. 
Que pôde perder a vida 
Quando vé tamanho mal. 

Ainda nSo achei esta Ave mencionada em algum Natu- 
ralista ! Mas si ella tinha a condicção, aqui apontada, e 
foi algum tempo moda te-ias em casa, é muito probavel 
qne se extinguisse esta espécie, morrendo todas pela ra- 
xio, qne o Poeta aponta. 

Nos gostos de vos querer 
Estava agora enlevado, 
Si não rara salteado 
Das lembranças de temer 
Ser por outrem desamado. 
Estas suspeitas tão frias, 
Com que o pensamento sonha, 
Sam assi como as Harpias, 
Que as mais doces iguarias 
Yam converter em peçonha. 

Faz-me este mal infinito 

Nâo poder jamais dizer. 
Por n3o vir a corromper 
Os gostos, que lenlio escripto, 
Cos males, que heidu escrever. 
Não quero que se apregoe 
Mal tanto para encobrir 
Porque em quanto aqui se ouvir 
Nenhuma oulra cousa sôe, 
Que a gloria de vos servir. 



As poesias satyricas do Cancioneiro de Resende pas< 
sam, ecom razão, pelas melhores daquell» cotiecção, mal 
entre todas ellas nao se acha cousa, que valha estas JÇb- 
díchas í uma Dama feia, e de má condicção. 



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V63 WHS faama Dam* 
Das feias do Muado, 
De toda a má fama 
Sois cabo profuodo. 

A Tossa fignra 
Não he para vér, 
Em TQBso pftder 
Não ha fOTmosura. 

Vós fostes dotada 
De toda a maldade, 
Perreita beldade 
De vós be tirada. 

Sois mnito acabada 
De laixa, e de glosa. 
Pois quanto a formosa 
Em vós nao ha nada. 

Do gran merecer 
Sois bem apartada. 
Andais alongada 
De bem parecer. 

Bem claro mostrais 
Em vós fealdade, 
Núo ha hi maldade 
Qne não precedais. 

De fresco cario 
Eu vos vejo ausente. 
Em, vós be presente 
A ntá condição. 

De ter perfeição 
Mui alheia estais : 
Mui, muito alcançais 
De pouca razão. 

Ou eslas Coplas a uma Dama resande {lor u^us contas. 

Dicpitizcii;,. Google 



Eifluio BiofliAnieo cmticm ttuio, m. 

Peço-vos que me digaes 
As orasses, que resaslee, 
Si sam pelos, que matastes, 
Si por Tós, qne assi mataes : 
Si sam por vós, sam perdidas, 
Qae qual será a Oração, 
Qne seja saiisfaçio. 
Senhora, de tantas vidas? 

Que si vedes quantos vam 
A só vida ves pedir. 
Como vos ha Deos de ouvir 
Si vós não ouvis ninguém? 
Não podeis ser perdoada 
Com mãos a matar tão promptas, 
Que si em huraa trazeis contas, 
Em outra trazeis espada. 

Si dizeis qne encommendando 
Os qae matastes andais ; 
Si resaes por quem matais 
Para que matais resando? 
Que si na força de orar 
Levantais as mãos aos Ceos, 
Não as ergneís para Deos, 
Erguei-Ias para matar. 

E quando os olhos cerrais 
Toda enlevada na fé, 
Cerram-se os de quem tos vâ 
Para nunca verem mais. 
Pois se assim forem tractados 
Os que vos vem quando orais, 
Essas horas, que lezais, 
Sam as horas dos finados. 

Pois logo si sois servida 
Que tantos mortos não sejam, 
Não reseis onde vos vejam, 
Ou vede para dar vida ; 
Oh si quereis «xcusar 



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uno T., cunoia i. ee» 

Estes males, qae oiwa^es, 
Resascitaí quem inalcstcs, 
Não tereis por quem rezar. 

Ha algumas Coplas de Camfies, qne pele sea pico, e 
nordscidade, merecem mais onomedeEpigrammas, que 
os de Ferreira, e Camioba. Tal é esta a certo fidalgo, 
que haTeodo-lhe promettido uma camiza, se não lembra- 
ra de cumprir a promessa 

Quem no mundo quizer ser 
Havido por singolar. 
Deve trazer sempre o dar 
Nas ancas do prometter. 
E já que Vossa Mercd, 
Largueza tem por divisa 
Como o Mundo todo vé, 
He mister, que tanto dé, 
Qne venha a dar a Camiza. 

E esta sobre o desconcerto do Mundo. 

Os bons vi sempre passar 
No Mundo graves tormentos, 
E para mais me espantar 
Os maus vi sempre nadar 
Em mar de contentamentos. 
Cuidando alcançar assim 
O bem tão mal ordenado. 
Fui mau ; mas fui castigado, 
Assim que só para mim 
Anda o Mundo concertado, . 

E esta a certa Senbora, que lhe chamou Diabo. 

Não posso chegar ao cabo 
De tamanho desarranjo. 
Que sendo vós, ^hora, Anjo 
Vos queira tanto o Diabo. 
Dais manisfesto signal 
Da minba muita firmeza, 
U 



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310 INSAIO BlOaUMtCO CUtKM, TOMO U|. 
Que os Diabos qverem mA 
Aos Anjos p» Natoreza. 

E 6aalmeute esta dirigida a D. Aatonía, Seahor de 
Cascaes, que haveodo-^he promettido seis GalUnbas re- 
cheadas por nms versos, qne lhe fiíera, Ibe mandou me- 
tade de ama por principio de pagamento. 

Cinco Galiinbas, e meia 
Deve o Senhor de Cascais, 
E a meia vinba cheia 
D'apetile para as mais. 

Affirmam alguns Biographos do Poeta, sendo um dellei 
Manoel de Faria e Sousa, que elle tivera amores com 
uma escrava preta, chamada Barbara, que vendia mexi- 
Ihacs, e ás vezes o soccorria com os seus pequenos lu- 
cros; este amor Mo é de admirar em homem, que gasta- 
ra parte da rida perigrinando pela Ásia, e além disso a 
belleza é de todas as cores. Parece que houve qaem o 
censurasse desta paixão, ou capricho, e o Poeta respon- 
deu a este reparo com os seguintes versos t9o graciosos, 
e cheios de suavidade, que Anacreonte de certo nlo se 
enfadaria de lhos attribuirem. 

Aquella Captiva, 
Que me tem captívo, 
Porque nella vivo. 
Já não quer que viva. 
En Dunca vi Rosa 
Em suaves molhos, 
Que para meus olhos 
Fosse mais formosa. 

Nem 00 campo flores, 
Nem no Ceo Estrellas, 
Me parecem bellas 
Como os meus amores, 
Rosto singular, . 
Olhos socegados 
Pretos, e csnçados. 
Mas aio de malar. 



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uno T., GAmiiio I. 311 

Homa grafa vira, 
Que Delles Ifae mora 
Para ser Seohora 
De qoem he captiva. 
Prelos os cabellos 
Onde o Povo vio 
Perde opiniSo 
Qoe oB Louros sam bellos. 

PretidSo de amor, 
Tão doce a figura, 
Que a neve lhe jura 
Que troeara a cAr. 
Leda mansidão, 
Que o siso accompanba 
Bem parece estranha, 
Has Barbara &3o. 

Presença serena, 
Qoe a tormenta «mansa ; 
Nella emlim descança 
Toda a minha pena. 
Esla he a Captiva, 
Que me tem captivo, 
£ pois nella.vivo, 
He forca, que viva. 

Creio que não faltará quem lendo estes versos se per- 
suada que Luiz de CamOes estava doudo de amores pela 
^Dlil negrinha, e aio ousarei dizer que não tem razSo 
para isso ; eu com tudo me não capacitarei de tal tão fa- 
cílmeatc, porque me lembro da resposta dada pela Ama 
do Doutor Swift a uma Lady, que lhe dava os parabéns 
de ser amada por homem de tanto engenho, e que tan- 
to acelehrava nos seus versos. « Ab Senhora, dizeis isso, 
porque não sabeis que o Deão é capaz de dizer ainda ti- 
Qezas mais ternas, e cousas mais galantes cm verso, á 
vassoura, com que eu varro a casa ! 9 

De propósito me tenho demorado com as poesias de 
Camões no antigo cstylo nacional, porque me tem mos- 
trado a experiência que é esta a parte de suas Obras, que 
li' 



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31-3 ENSAIO BIOGKAPinao GATTICO, TOUO III. 

meDos se lé, e que por essa razão se Ifae não dá o apreço, que 
merecem, e por isso jnlgo necessário chamar para ellas 
a atteoção dos Leitores, a fim de qile melhor se conheça 
quanto o nosso Homero era superior a quantos o prece* 
deram. 

Luiz de CamSes deísoii tret Comedias, de qoe os Crí- 
ticos, e os seus Editores tem failado como de cousa poa- 
co importante, e composições de rapaz. Eu pelo contra- 
rio as tenho como objecto de grande monta, porque des- 
cubro nellas tantos vestígios de um grande talento Dra- 
mático, que estou convencido de que si CamOes tivesse 
tido a fortona de nascer em uma Cidade, onde houvesse 
um Theatro público ,- e permanente, e elle ali vivesse 
vida sucegada, e desabafada de miséria, teria sido oL»- 
pe de Vega Portnguez, e despntaria a palma da Scena 
ao Castelhano, qualquer que seja o seu mérito, que na 
verdade é extraordinário, eque ninguém aprecia mais do 
que eu. 

a As Comedias de CamQes sam no gosto de Gil Vicen- 
te o dizem os Críticos com uma indifferença verdadeira- 
mente cómica, c presumem que tem dilo tudo. 

Seguio, é verdade o syslema de Gil Vicente, e o pre- 
ferio á forma pedantescameote clássica de Sá de Miran- 
da, e Ferreira, e nisso vejo eu a primeira prova do tino 
Dramático, de que era dotado. 

Mas esses Criticos myopes uSo tiveram vista para des- 
cobrir o progresso da arte, que se manifesta nas Comedias 
de Camões. Ha nellas Fabula bem ordenada, acçSo pro- 
gressiva, melhor ligação de scenas, que m seu njodello, 
desenredo fácil, e natural, caracteres bem sustratados, 
dialogo vivo, rápido, gracioso, e elegante sem com tudo 
sahir da esphera da Comedia, não se fatiga a attenção 
do Leitor com conversas prolixas, e monólogos fastidio- 
sos como oos Dramas de Ferreira, e Miranda, ou com 
as bravatas cxaggeradas, e estravagaotes, que nellaa ob- 
servamos. 

A primeira Comedia que se intitula El-Rei Selevce, 
versa sobre o facto histórico deSeleucoI., quehavende-se, 
já cm idade avançada, casado com a formosa Strotouica. a 
cedeu a sen filho, que estava a ponto de perecer pela 
desatinada paixão, que ;ua Madrasta lhe inspirava. Oas- 



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£lTkO T., GUITOIO I. 313 

jimpU) era nm pouco meliodroso para apresenlar-se em 
Sceoa, mas o Poela soubs tirar-se delle sem comprome- 
teres caracteres das suas Persouagens. 

Para prova do grande taleuto Dramático de CamSes, 
àlarei uma nnica Scena desla Comedia. 

OMedico do Príncipe, pela alteração do seu pulso, quan- 
liaHadrasla está presente, conhece que a causa da sua 
afenoidade é a paiíSo irresistivet, que por ella conce* 
In. IDescobre logo o único remédio , que p6de Eara-lo, 
UB a dificuldade está em fazer scieule o Rei deste se- 
pedo; era na verdade cousa mui árdua o propor a um 
Duido velho, casado de pouco, e de mais a mais Rei, 
Dceder sua mulher a um rival, c que rival ? seu próprio 
Slbo; e com tudo o Medico por seus artiQcios consegue 
dlocai oRei em circumstancias taes, que não pdde dei- 
ur de aonuir : oufamos as Personagens. 



Nesle mal, que o3o .comprendo, 
Que meio dais de conselho? 



Sefior, nada entiendo dello ; 
Y supuesto que lo entiendo 
To quisiera nò entenddlo. 

Porque í 

HBníCO. 

Porque hã entendido 
Lo mas maio de entender 
Para lo que puede ser , 
Porque anda, Senor, perdido 
D'amores por mi muger. 



Santo Deos I que I tal amor 
Lhe dã doença tão fera? 
Que remédio achais melhor? 



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ENSAIO BlDQIlAmiCO «mCO, tOHO ni. 



Forçado será que rouera, 
Por que no nmera mí honor. 



Pois como? a hum só Herdeiro 
Deste Reino n3o dareis 
Vossa Mulher, pois podeis, 
Que ludo faz o dinheiro? 
Pois este Dão o engeiteís. 
Daí-lha pois, porque eu espero 
De vos dar diaheiro, e honras 
Qoa&to eu para elle quero. 



No tira el mucho dinero 
Las manchas de la deshonra. 



Ora bem pouco derei(o ! 
He pequice conhecida 
Quando deiía de ser feito. 
Porque com elle dais vida 
A quem tos dará proTeito. 

HBVIGO. 

Quam facilmente aposfia 
Quien en tal nunca se vi6 1 
Del consejo que me dió 
Veslra Alteza que haria 
Si agora fuessc yo ? 



A Mulher, que eu tivesse, 

Diçpitizcii;,. Google 



uno V,, GiraoM i. 
Dar-lba-hia ; e oxalá 
Que elle a Rainlut quízeast- 



Paes de-la, si le parece, 
Qae por ella muerto está. 

III. 

Qae ne dizeú? 

HIDICO. 

La Terdad. 
■ Sem dúvida lai sentistes? 

MEDICO. 

Sin duda, sin falsedad. 
Paes, Sejlor, aora tooiad 
Los consejos, qae me distes. 



Certamente c[ae ea o via 
Em tado qaanio faltava. 
Como o vistes? porque via? 



Nel pulso, qae se alterava 
Si la via, ó si la oia. 



E qae maneira-hade haver? 
Qae eu certo me meravilho 
Possa mais o Amor do Filho 



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216 ENSAIO llOSUfllfiO CBITIdO, tOMO 111. 

Do qoe pôde o da Halher. 
Finalmente heid&-lba dar, 
Que a ambos conheço o ceatro, 
Quero-o hir alerantar, 
E hiremos para dentro 
Neste caso praticar. 

Eis aqui um Dialogo cerrado, vivo, sem inutilidades 
e cheio de artiQcio; estou certo que nem Moliere, qem 
Goldoni, os doug maiores mestres da Comedia moderna, 
se tirariam mais airosamente de situaçSo tío delicada, 
do que o fez aqui um Poeta niofo, sem eiperíencia de 
Theatro, mas a quem o Génio revelava os segredos da 
arte. 

Maior progresso de arte se observa no Amptiítríâo, as- 
sumpto, que o Poeta tomou de Planto, mauejando-o taolo 
a sen modo, que um Leitor, que não couhecesse a Co- 
media latina, sem difficuldade julgaria esta por ioleim- 
menle original. Já aqui se encontra uma FabuFa regu- 
larmente composta, e caracteres bem desenvolTÍdos, pos- 
to que os costumes estejam inteiramente moderoisados, 
sem que isso comtudo enfraqueça aforfa, einleresse das 
situações. Nada mais gracioso que as scenas burlescas 
entre Sósia, e Mercúrio, que toma a sua figura, como Jn- 
piter toma a ligura de ÂmphitriSo para enganar Alcme' 
na. Vejamos a Scena VI. do Acto II. em que Mercúrio 
peia primeira vez sabe ao encontro de Sósia, que vem 
do Porto para casa coin um recado de AjDjibitriSo, 

U£RCCBIO. 

Mil vezes comigo vejo, j 

Para que meu Pai se affoute. 
Pois em Ião pequeno ensejo 
Lhe mandei talhar a noite, 
À' medida do desejo. 
E pois que como possante 
A mi todo se reporta, 
Chego agora neste instanla 
A estorvar que este bargaite 
Me não chegue a esta porta. 



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LIVKt V., CAHTBb» I. 



No sé que miedo, 6 locnm 
Neste pecho se me cria : 
Por Dios, que se mi afigura 
Que hay mucho, que es noche escura, 
Sin qae veDga e) claro dia : 
Mas sabed que pienso yo 
Qae el Sol qaè Vb se acordo 
De coo el dia venir. 
Que a nocbe qnaDdo cena 
ilgan buen viao bebió, 
Que le hace tanto dormir. 



Já sentes comprida a noite. 
Que eu assim maadei fazer ? 
Pois mais te quero dizer 
Que sentirás muito açoite, 
Si cá quizeres ?ir ter. 
Porém pois este bargante 
Tem medroso coraçSo, 
Quero-me tingir Ladrfio 
Ou Phanlasma, e por diante 
Não hirá si vem á mfio. 
£ com tudo, si passar, 
A falia quero mudar 
Na sua de tal feição, 
Que couces, e porfiar 
Ibe façam boje assentar 
Que sou Sósia, e elle não. 
No veo passar nengimo, 
En quien yo me pueda bartar. 

iSOSlA. 

A quien oigo A(\m bablar ? 
Mande Dios no sea alguno 
Que me quiera apporrear. 



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EK5AI0 BHMlUPneo CKRHW, TOHO Ul. 



La carne d'algua humaso 
He seria mui sabrosa. 



Oh I que tos tan traierosa í 
Hombres com^, ob dh hermano ! 
No es mejor otra eosa? 
Carne hamana es mui mesquioa 1 
Oh 1 no comas d'esso, no I 
Ânles carne de Gallina, 
Pêro si mas s' avicina 
Que mas Gallina qoe yo? 



Una voz de hombre agora 
A. la oreja me toIA. 



Pesele quien mie pariõ ! 
La voz traigo voladora? 
Ella quisera ser yo. 
Pnes mi toz pudo íolar 
Dó la pudiesses oir, 
Por contigo no re&ir 
He debiera de prestar 
Las alas para buir : 

MIBGUBIO. 

Que bnscas cabe essa puerla, 
Hombre? sé que erei Ladron. 

S09U. 

Ai ! que el tdmi teogo muerta ! 



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tlVlO T., ( 
Oh ! Júpiter me convierta 
Las tripas en carafSB. 

Qniea eres? quieces btMar? 

som. 
Soy quien mi velaBtid quiere. 

HEBCUBTI). 

Pieosas qae puedes burlar? 

SÓSIA. 

T ta paedesme quitar 
Qne yo sea qnien qnísiere ? 



Osas hablar tan osado? 
DoD Vellaco beberrou I 
Dl quien eres? 



Un Criado 
Del SeSor Ampbitrion. 
Por nombre Sósia llamado. 



Pienso que el siso perdisle. 
Como te llamasi mal btHubre? 



805IA. 

Sósia soy, si no me oiste. 



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S30 XHSAIO BtO0UPB(CO CURCO, TOMO III. 
UEBCmiIO. 

Como? en persona lan triste 
Osas de eusuciar mi nombre? 
£stos paíios IheTtrás 
Pues tener mi oombre quleres, 
Queresme decir qaiea eres? 



Oh SeSor, no me des mas. 
Que yo sere quin tu qnisieres. 



Con tau nova falsedad 
Andais por esta Ciudad, 
Delante de quíea os mira? 
Paes si sois Sósia, tomad. 



Si me das por Ia verdad, 
Qne me harás por la mentira ? 



Y que verdad es la tuiaT 
Que te quiero dar castigo. 



Si no soy Sósia qné digo, 
Que lupiter me destrnia. 



Mirad el falso inemigo I 
Tomad esso bofeton, 
Qne yo soy Sósia, e no tôs. 



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unt» T<, uion» 1, 



Sósia por Dios, 
Esclaro de Ampbitrioo. 

sosu. 

De modo qne tiene doe I 

MBBCDUO. 

No lerá aonqoe to quieres, 
Que a mi boIo coooció. 

sosu. 

Paes luego de quien soy yo? 

HEBCDRIO. 

Si tn DO sabes qnien eres, 
Quieres que yo lo sepa? n6. 



Enfio, bas me de hacer crer 
Qne yo no soy quien soy yo? 

HEBGURtO. 

Quien solias ta de ser? 

BOBU. 

Tregoas me has de prometer, 
Dirio-lo bey siu porlia. 



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EHSAIO BIMUnm» GftlTlGO TOHO, 111. 

VBBCIIEIO. 

Prometo. 

BOSU. 

No me darás? 

KBBCUDIO. 

No, si no faere razoa. 

«MIA. 

Paes, hermano, ta eabras, 
Que mi amo Àmphitrion. . . . 

HBBGURIO. 

Tu amo? pues llevaras, 
Mi amo es, que tnio nó. 

BOSU. 

Ãi que un braço me quebro. 

USBCtRIO. 

Mas que tuego te matasse. 



Ojalá Dios ordeoasse 
Que tu aora fuesses yo, 
Y yo que te desmembrasse. 



Essa tu tema tan loca 
Puiladas te )a han de quitar, 
Dime, oh, vergueiua poça, 
Quehablas? 



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uno T., (umtao i. 

«tSIA. 

Qaepnedahablar? 
Si me hu qaebrado la bocca? 

■ERCCIIQ. 

Di quien eres sio Tatíga. 

80SIA. 

So; ou bnnbre, en qnien tu das. 

■EBCOUO. 

Dime pues que notnbre hss. 

aoscA. 

Como quieres tu que diga 
Para que no me des mas ? 

■EBCDBIO. 

No me bas de hablar conlrahecho. 

SÓSIA. 

Toda mi vida passada 
Sósia fui, y con despecho 
Aora soi.,.. que?... soy nada. 
Que tus manos me han desbecho. 

HBBCL-BIO. 

Coyo eres, puea los sientes, 
Dexando consejos vanos ? 
La verdad, qne si me mieotes 
Das coo la lingua ea los dieotes, 
Y yo doite con las menos. 



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KKSilO EIWRAPHISI CVnQO, nVO lU. 



CoDDceB Ãmphitrion? 



Hombre sin seso te llamo, 
Tau fuera estas de razon ! 
PieDsas de mi, bevarroa 
Qoe DO conosco a mi Amo T 



En sn casa conociste 
XJdo que es Sósia llamado, 
Hombre despreciado, y triste? 



Dessa suerte lo diseste^I 
To soy triste, y despreciado 7 
Paes sabe que te Ibegò 
X la mnerte tu fortuaa. 

sosu. 

Pues lúego si yo no soy yo, 
Àunque nadie me mato, 
Soy luego cosa ninguna. 
Ob Dioses, que descoocierto 1 
To por Tentura soy mnerto, 
O morime la razon ? 
To no soy d'A.mphitrion? 
T no me mandan dei puertoT 
To sé que no estoi loco, 
Be mi madre no naci? 
No ando? no hablo aqui? 

HSBCORm. 

Pues sociaga aora hum poço, 



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18 



imo T., Qinnn.0 i. 

Qoe yo tambiea diré de mi. 
To DO sê que yo soy yo ? 
To no te di coo mis manos? 
Ui Seiior no me Itevó 
k la gnerra, a dó mato 
A qad Rey de los Thebanos? 



Yo esso mui bíen lo sé. 
Empero to qse bacias 
QaandalabatallavJasV 



Escucha, yo lo diré, 
T cessaraa tus proGas. 
Quando mi Senor andara 
Peleando, y derramaTa 
Lu sangre de algaa mraquiuo, 
CoQ una bola de vino 
To Io mio accresceutava. 



Dice lo que yo bacia I 
CoQ todo saber querria 
Sola una cosa, si puedo, 
Tu pecbo entonces sentia.. 



De bever grande alegria, 

Y dei pelear grán miedo. 

SOSIA. 

Y despnesT 

BUBCUBIO. 

Mni reposado 
A dormir me eché dc- grado, 
Desde el Sol hasta Ia J.una. 



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XKBilO MOtttfBW CnUe» lOHO m. 



Todo lo tiene contado. 
Alfin teogo averiguado 
Que yo no soy cow niDgana. 
Paes de todo en au instante 
He bas ecbado de mi fnera, 
ÀcoQseja-me si qniera 
Qae seré daqui sddute, 
Pues no soy quien d'aatcs er». 



Qnando yo no ser qnisiere 
Esse que tu ser deaeas, 
Despiies que yo Sosía no sea, 
Darle hey, si te plagaí^e, 
Licencia que todo laaa. 
T acojote loega araigo, 
A. buscar tu noml^e digo, 
Pues Dios vida te ietít. 
Que el Sósia queda amigo. 



Pues contigo quede yo, 
Dios quede, humano, coAtiga. 
Aora qniere bir alia 
A do mi Seãora esta, 
Coutar le come es venido 
Mi Senor.... mas oh perdido I 
Si un otro yo tiene alta 
Todo lo tenia sabido. 

KERCUHIO. 

Ah nombre ! 

60BU. 

M voz soQú ! 



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uno r., aamio i 

MKKtnu». 

Idonde YaelveB aora ? 

a>au. 

Por Dios nu sé onde vó, 
Porque st yo no soy yo, 
Ni Álcmena és mi Senora. 

UBRCCUO. 

Adonde vas? 

SOMA. 

Coamosugt 



Adó. Selvajef 
Pucs quebraste la omonaje 
Abi veras tu perdicion. 
To doite consejos sanos, 
Y porlias oira vez? 



AUoa Dioses Soberanos 
Paes no me raleo las manos, 
Aqui me valgan los pies. 

K'Terdade qae a situação é de Planto ; mas o dialoga 
é de Luiz de Camões, e esse dialogo é rigoroHamente có- 
mico. Faz riso, e dó a confusão do pobre Sgsíb, que ata- 
natado do que ouve, e das pancadas que lera, chega a 
pepsoadir-se que nilo é nada ; ignal chiste tem a Scena 11. 
do Acto llt. entre Ampbitrião, e Sósia. A qnarta do mes- 
mo Acto entre AmpbitríSo , Alcmena , e Sosifl : é igual- 
Mnle bem coiKcbida , bem executada , e sammamenté 
iheatrsl a Sceoa I. do Acto IV. entre íupiler, Alcmena, 



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225 ENSAmJloOTlAPHICO CMTICOviTOMO III. 

e Sósia; e finalmente todo o Acto Y. em que AmphitriJo, 
altonito doque passa, sevé reduzido quast aendoudecer. 
ConTesso que em todas as Obras de Gil Vicente oSo en- 
coutro uma composição, qae possa comparar-se com esta 
Comedia, que estou bem certo que, representada por bons 
Adores, aioda hoje seda applaudida no theatro. 

A terceira Comedia de CamOes tem por tilolo Filode- 
mo, e foi o primeiro modelo daquellas Coinedias de fabu- 
la einburilbada, que por tanto tempo reinaram no Thea- 
tro Hespanhol, e de que se encontram tantas entre as 
Obras dos seus mais famosos Poetas Dramáticos como 
Lope de Vega , Calderon , Moreto , Roxas , c Alarcon. O 
seu assumpto é o seguinte. 

Havendo certo Fidalgo Portuguez, que andava naCosfa 
de Dinamarca, agradado taolo á filha d'EI-Rei, que achan- 
do-se a PriDccza, em consequência desses amores, amea- 
çada de passar de.D«izelta a Dona, tomaram ambos o 
«nico partido, que lhe restava, que era fogir daquelle 
Beino. 

Chegados á Costa deHespanha, aonde elle linha gran- 
des possessões , sobreveio borriyel tempestade , que des- 
pedaçou o navio nos rochedos , perecendo lodos os qae 
nelle vinham, á excepção da Priuceza, que pfldc ganhar 
a terra sobre uma prancha, porém, apenas havia sabido 
em terra, deu à íuz dous filhos, varão,' e femca, e no mes- 
mo momento expirou. 

Os choros dos innocentes chamaram áquetie logar um i 
Pastor daquellas visinhanças, que compadecido tomon con- 
ta delles, e os levou para sua casa, onde foram creados. | 

O minino, a quem deram o nome de Filodemo, levado 
de inclinação natural, abandonou os campos dirigindo-se ' 
a uma cidade, aonde por sua discrição, e perícia na ma- 
gica alcançou grande valia em casa de D. Lusidardo, que 
era irmão de seu Pai. 

Ignorando o parentesco, qae os ligava , -namorourst 
de Dionisia , filha de seu auio, e foi coriespondido ws 
seus amores; ao mesmo tempo que Venadoro, filho de 
D. Lusidardo, que era muito dado ao exercício da capi, 
seguindo umViado, separou-se d(» companheiros, íoidar 
a uma fonte , onde Filomena , irmãa de Filodemo eslau I 
enchendo o sgu cautero, ç de modo se apEÚsunou poi ell>i 



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uno y., CiflRM I. 229 

qie nio qois mais apartar-se daqnelle sitkt. Lnsidardo, 
depms de have-lo procnrado largo tempo , sabendo por 
ui Magico, chamado DoriaHo, que os orfios eram seus 
sobrinhos, os reconhece como taes, e consente nesta união. 

EsU Comedia a quem caberia melhor o nome de No- 
lelia Dramática, destingue-se das ostras em ter algumas 
Sceoas escriptas em prosa eomo «Igms Dramas de Sha- 
kespeare, assim dons Poetas de napOes tio dirersas, e 
que então communicavam t2o ponco, tomaram sem com- 
EDUDicaçSo alguma o mesmo caminho. Pela minha parte 
1^ posso approvar esta mistura em una Peça, ha mui- 
la differença entre a prosa, e o Terso, para que a passa- 
gem repentina de uma destas linguagens para a outra, 
Bo mesmo Drama, possa fazer-4e sem que se resistam os 
DBiidos de um espectador milindroBo. 

Ho Filodemo acham-se as Sceuas sérias matizadas com 
as jocosas, e de umas, e de outras ha maitas excellea- 
les: tem variados, e interessantes caracteres, affeclos vi- 
vos, esobre tudo é bem dialogada, como pôde vêr-se na 
Scena Vil. do Acto I. , em que o gracioso Velardo , que 
«inirehendeo o segredo de seu amo , se exprime desta 
tDaaeira. 

TELABDO. 

Ora hem esta a cilada 
De meu amo com sua ama, 
Que se levantou da Cama 
Para ouvi-lo ! esta tomada ! 
Assim a tome má trama. 
E mais crede que quem canta 
Ainda descantará : 
E quem do leito, onde está, 
Por ouvi-lo, se levanta 
Mór desatino fará. 
Quem havia de cuidar 
Que Dama formosa, e bella. 
Saltasse o Demónio nclla, 
Para a fazer namorar 
De quem não é igual delia? 
Que me dizeis a Solina? 
Como se fae Celestina, 



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330 IN9AI0 lilDGuni€0 CUTIOO, lOHO III. 
Que por nfio lhe baxa inreja, 
Tamb«D para ei deseta 
O que o desejo lhe eesina? 
Crede que si me alvoro^ 
Que a heide tomar por Dama ; 
E não será graa destroço. 
Pois o amo qaer a ama, 
Qoe a laoçA queira o Moço. 
VoQ-me, que vejo lá vir 
Venadoro apercebido 
Para á caça se partir, 
E voto a tal, que h« partido 
Para vêr, e para oovir. 
Que he razfto josta, e raia 
Qne seu folgar se desconte, 
£m quem arde como braza ; 
Que si vai caçar ao monte 
Fique ODtro caçando em casa. 

E igaalmente perfeito, em outro estylo, o dialogo da 
Sceoa II. do Acto III. entre Venadoro , e FlorimeDi, 
janto da fonte onde a encontra. 



Serrana, cuja pintura 
Tanto a alma me moveu, 
Sizei-me, por qual ventura 
Andareis nesta espessura, 
Mereceudo estar no Ceo? 

nouHXNA. 

Tamanho inconveniente^ 
Andar na terra parece? 
Pois a ventura da Gente 
Sempre he mui differente 
Do que, ao parecer, merece. ' 

VENADORO. 

Tal resposta he manifeste 



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una T., unmM t. 

NSo se pareoff eo'M Gibns, 
Pois não TOS para» honesto 
Saberdes matar co'gc8to 
Sinão ioda con palalMWS? 
No matto todo ke nde», 
fia tal gesto, « diserifiie! 
Não o creio. 

FIOUlfBNA. 

Porque não? 
N3o suprirá latoreíã 
Onde falta a criação? 

TBKiBOBO. 

Já logo BisGO, Senhora, 
Dizeis, si u2a ntrt» mcd. 
Que de Tosso nataral 
Não hera serdes Pastora. 

FLOBIHBNA. 

Digo, mas pouco me vai. 

TBmDOkO. 

Pois quem TOS pode trazer 
V coDTersação do monte? 



Pergnnlai-o a essa fonte ; 
Qae as cousas doras de crer 
Hum as fafa, e outro as conte. 



Essa fonte que está aqni, 
Que sabg do que dizeis? 

PlOaiKEHA. 

Senhor, -mais n5o pergnateis, 



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nuio BioGumco cbitigo tomo, 
Porqae oalra. cousa de mi, ■ 
Sabei que não sabereis. 
De vós agora sabei, 
O qae não tendes sabido, - 
Si quereis agoa, bebei. 
Si andais por dila perdido, 
En TOS encaminharei. 

TEHAOORO, 

Senhora, eu não vos pedia 
Qne ninguém me encaminhasse, 
Que o caminho, que eu queria, 
Si o eu agora achasse, 
Hais perdido ficaria. 
Não quero passar daqui, 
£ nao vos pareça espanto. 
Que em vos vendo me rendi, 
Porque quando me perdi, 
Não cuidei de ganhar tanto. 



Senhor, quem na Serra mora 
Também entende a verdade. 
Dos enganos da Cidade: 
Vá-se embora, ou fique embora, 
Qual fôr mais sua vontade. 



Oh lindíssima Donzella, 
À quem a ventura ordena 
Que me gnie como Estrella I 
Qnereis-me deixar a pena 
E levas-me a causa delia? 
E já que vós conjurastes 
Vós, e Amor para malar-me. 
Oh n3o deixeis de escutar-mel 
Pois a vida me tirastes. 
Não me tireis » queixar-me I 
Que eu em sangue, e en nobreza 



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uno T., cApmiLo i. 
O claro Ceu me eilremoa, 
£ a Fortona me dotoo 
De grandes bens, e riqueza. 
Que sempre a mnitos negou, 
Aadaodo caçando aqui 
Apoz hum C«vo ferido, 
Permittio meu fado assí 
Qne andando dos meus perdido 
He venha perder a mi. 
E porque inda mais passasse 
Do que tinha por passar. 
Buscando quem me ensinasse 
Porque via me tornasse, 
Acbo quem me faz (içar. 
Que vingança permittio 
A Fortuna n'hum perdido I 
Oh que tyranno partido. 
Que quem o Cervo ferio 
Vá como o Cervo ferido ! 
Aml)os feridos n'hum monte 
Eu a elle, outrem a mil 
Huma differeofa ba aqui 
Que .el(e vai sarar á fonte, 
E eu nella me feri, 
£ pois que tao transformado 
He tem vossa fomiosora, 
Hum de nós troque o estado, 
Ou vós para o povoado. 
Ou eu para a espessura. 



Dos Arminhos ha certeza. 
Si lhe a cova algucm (ujar, 
Uorar fora aales de entrar. 
De estimar muito a limpeza 
Pela vida a vai trocar. 
Também quem na Serra mora 
Tanto estima a honestidade. 
Que antes toma ser Pastora, 
Que perder a castidade 



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234 E5SAI0 BIOOIAMICO GltlTtOO, TMIO tlf. 

A troco de ser Senhora. 
Si mais quereis, esla Tonte 
Vos desculKa o imis de mim, 
O que ella vio, ella o eoote. 
Porque eu vou-me para • mimle 
Porque ha já muílo que vim. 

Resta agora dar uma amostra da prosa cómica de C^ 
m&es, e será ella o monologo de Duriauo, com que se 
abre o segundo Aclo, escolho de pensado um monologo 
para que se conheça o tino dramático de Camões, conh 
parando este solilóquio tãa breve, e tão rápido, o bem 
cortado de suas clausulas, e rhytbmos tão apropriados i 
. representação com as estiradissimae parlendas, que a ca- 
dapasso se encontram nas Comedias de Ferreira, e Si 
de Miranda, cuja verbosidade iosoffrivel occupa ás vezes 
paginas inteiras, apurando a paciência dos Leitores; ttpt 
faria a dos Espectadores se fosse possível, que taes Dra- 
uas hoje subissem á Scena. 



Pois não creio eu em S. Pisco de paa, si heide pôr pé 
em ramo verde, lhe lhe dar trezentos açoutes. Depois de 
ter gastado perlo de trezentos cruzados com ella, porqne 
não lhe mandei logo o setim para as mangas, fez de mio 
mangas ao Demo ! Não desejo eu de sãb<^ sinão qaeai é 
D galante, que me succedeo!.. Que si vo-lo eu colhoabal- 
ravento, eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe 
afortuna tem cortado àminbal.. Ora tenho assentadoqoe 
o amor destas anda com o dinheiro, como a maré com a 
Lua !.. Bolsa cheia, amor em aguas vivas ; mas si se vasa, 
vereis espraiar este engano, c deixar em secco quantos 
gostos andavam como o peixe u'agua 1 

Temos visto até agora CamSes superior em todos os 
géneros de composição aos mais afiamados Poetas Portn- 
goezesdoseu século; voamos agora f^mo com osenPo^ 
ma se eollocou a par dos Épicos de primeira ordem de i»- 
dos os PaUes da Europa moderna. 



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CAPITULO If. 

Os Ijusiada$ de Luiz de Camões. 



voando Laiz de Csmffes emprehendeu a cemposiçS» 
âes Lasiadas dSo ha?ia aa Eoropa um s6 Poema volgar, 
qiepodesse servir-lhe de guia. Qaepodia elle apprender 
da Itália Librrata de JoSo Jorge TríssJao, si não que seu 
AnthoF sDccumbira dehaixo do pezo do seu assumpto, e 
<]Qe Jnita-!o tra um meio seguro, e Ínra)ÍTel para nSo 
ter lido? E' cerlo que podiam ensioar-lhe muilo Dante 
na sna Dwina Comedia, Armto, no Orlando Furioso, e 
Baiardo no Orlando innamorate, mas nesse muito, que elles 
podiam ensiaar-lhe, ii9o se comprehcadiH a urdidura, o 
eslylo magestoso, a simplicidade de acçSo, e o colorido, 
e TerBÍ6caçSo própria de um verdadeiro Poema Heróico! 
Cam&es era, como Shakespeare um Geuio poderoso, • 
original, eabrio ua Epopeia umceminhonovocomo aquel- 
le o havia praticado no Drama. Em vez de cantar um 
heroe, enmaacflío, como haviam praticado os antigos Épi- 
cos, cantou todas as acções grandiosas, e sublimes dos seus 
pMricios, prepcHido-as, e unindo-as com tanto engenho, 
e artificio, quesoabe fazer delias um todo regular, ehar- 
moaioso : mas esta concepção era demasiadamente subli- 
me para os homens do sen tempo, e por isso escapou aos 
seus admiradores, que sõ o louvavam pela belleza, e elegân- 
cia do estylo, e pela vivacidade pitoresca do!i quadros ; e aos 
seos detractores, que à força queriam fazer entrar nas 
molduras das regras de Aristotelles, um painel que não 
havia sido feilo para ellas ; foi por tanto louvado, e cen- 
sarado sem ser comprehendido. 

No intervallo, que decorreu desde o len^po da publi- 
cação dos Lusíadas, até ao século passado, somente um 



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2ífl CWSAIO BIoanAPHlCO CMTICO, TOKO rii. 

tioQiem alinou com a idca Tundameatal daquelle Poema, 
esle liomeui cra graudePoela, este homem foi Rochefort, 
uue deu aosFrancezes amaíB elegante traducção em ver- 
so, si não a mais fiel, da liiada de Bomefo. Fallandode 
Luiz de Caroões nas bellissimas, e eruditas prefacçôes da 
sua Obra, diz elle » Um tsprilo íflo ardçnte coma o seu 
não podia ãtixar deproduzir um novo género de Epopeia. 

Sim, Toi elle o piinieiro, o unito até ao seu tempo, que 
coinprèheodeu a idéa do Poeta, porque s6 ao génio é da- 
do eoraprehender o génio, e para traduzir Homero (»• 
mo Rocbefort o traduzio, é coodicção indispensável o ter 
geoio. 

tuh de Camões, considerando as façanhas dos Eenes 
Portoguezes, vio que a mais importante de todas peles 
seus {í,Faudes resultados, não só para este Reino mas para 
a liumanidade, era o descobrimento da índia por Vasco 
da Gama ; conheceu mais, que Portugal entregue aos Je- 
boitas, á Inquisição, e a umGoverno dominado poreslas 
duas potencias maleKcas, principiava a decabir d« piná- 
culo da gloria, a que havia subido, e que tanta grande- 
za adquirida á custa de tamanbas fadigas, e tanto eia- 
gutt heróico generosamente vertido, hiria em bre^e sb- 
mir-se no esquecimento; quiz pois salvar este tbesouca 
das glorias nacionaes imprimíndo-as em um monumen- 
io. que resistisse á foice do Tempo, e que nos séculos Fu- 
turos disiiesse 30 Mundo inteiro a Érs aqui o que foi Vot- 
tugal, lespeitai-o, Povos da Europa, porque nenhum de 
\õs fez taato. » 

Ú Uomero Porlugucz, para conseguir este grande fim 
levantou no Parnaso uma Pyramide mais soberba, qoe 
todas as do Egypto ; cullocou Vasco da Gama no cimo, 
porque a sua ac^ão foi o remate das Tacanhas Lusas, e 
nas quatro faces da uiesraa Pyramide grupou sem contu- 
são em baixo relevo todas as proezas dos seus Reis, e 
dos seus Ueroes antigos, e modernos. Nenhum boeaem 
ainda consagrou á sua Nação um Uonumento 4ão tfli- 
11: ante ! 

iísia idéa era grande, sublime, original: mas para le- 
ra-la á execução, para reduzir á unidade tantas, e lio 
variadas ,icç5cs delào diíTerentes tempos, cra necessário 
um gciiio gigantesco, um homem lào essencialmente P«^ 



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MTRt» T., CAMTDU) 11. 137 

la como Liiz àt CamOes, c a prova é, qnc foi necessa- 
Ho a pbylosophía do nosso século para compreliendc-lo 
bem, e avalia-Jo devidamciiie t H que será se nos lem- 
brarmos que para tâo grande emprcza Cam&es achou 
uma Irogun, que apenas começava a depurar-se das fo- 
res Goitas ; em que pooeo se faavia escriplo, c, que po- 
desse dizer-se bom, muito menos? Que Camftes a aper- 
feiçoou, creando o dialecto poeiico, scparando-o da pro- 
s», com que alé ali andava cooriindido, elevando-o de 
repente a par dos niagestosos quadros, qnelraréra emRua 
idéa creadora, introduzindo novas palavras, e novas for- 
mas de dizer tSo ele^anles, tSo puras, que ainda não cn- 
vetbeceram, quando a linguagem dos seascoDlcmporancoí 
« tem tornado em grande porte obsoleta? 

Mal o avaliavam porím o» Críticos myopcs, que enfa- 
tuados de om saber pedantcsco, e dominados pelos pre- 
coBceilos eecholatiticos, se obstinavam em que ob Lusía- 
das eram fendidos nos moldes dalliada, e daEaeida, en 
floe Vasco da Gama «a oHeroe do Poema, e o descobri- 
mento da Índia o sen assumpto, e em chamarem epÍM- 
díos á Historia do Reino, e a todas as narra^Oes da faça- 
Bhas deHeroesLuBfiaiios! Mat pensavam cllcs, qse esses 
tbamados «pisodios eram partes inlegrantes do assomp- 
to. e que os episódios dos Lusíadas consistem apenas na 
parte mytholòtíica, e em aVgnnias descripções como a da 
Eoropn , e da lllia <los Amores ; a Historia tte S. Thoraé, 
as exclamações do Velho na praia, a iiarraçio de Mon- 
çaide, &c. 

Com omesmo fundamento atacaram o Titulo, e a Propo- 
sição, diiteodo que o Poeta ignorava os priacipios da ar- 
1e, porque no primeiro indicava muitos heroes, cnSo ura 
60, e na segtimJa misturava episódios com a acçlo ; mas 
pHa rozSo acima apontada se vê, qoe oTiMilo, caPn^io- 
sição Cfam oque deviam ser, eque (sCriiicos éque n3e 
os «atendiam. 

A maneira porqne Luiz de Camões tecen a fabula do 
seu Poema éna verdade muito enftenliosa, echeia dear- 
tilicíe, mae como em iodas as cautas humanas se cBCon- 
tra o sello da imperfeição, cumpre confessar, que este 
plano é pouco favorável para o grande desenvolvimento 
dos caraclweB, mas o iateresBe, quo resulta deste des«- 



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SSS ZNSAIO BIoaBiPBH» CRITICO, TOUO m. 

Tolvimeuto é sobejameate compeosado pelo patríolísoM 
ardeDte, e enlhusiasmo p»)a gloria da pátria, qoe passan- 
do do coração do Poela para a soa Obra, fez dos Lusía- 
das o Poema mais. nacional, e popular qse até agora tem 
apparecido na Europa. 

AlgoDS Críticos tem condeninado o Homero LnsitaBO 
por haver fundado o meraviihoso da sua Epopeia na Hj- 
Ihologia Grega, eHomana, que elies julgam ioconvesieit- 
Io em um Poema de assumpto moderno, e cujos beroei 
são chrisUos ; quizeram alguns defende-lo por meio da 
alegoria, e o Cardeal du P^ron de Caslera nas notas da 
soa traducçSo em prosa francesa uSo diivídon de affir- 
mar, que por Marle se entendia Jesus Clirigto, e por Vé- 
nus 8 Virgem Maria, na verdade que, si fosse assim, os 
symbolos nSo podiam ser melhor escolbidos ! 

Sem tomar tanto trabalho, sem gastar (anta sofalileza, 
direi para defender Camões, que a mythologia no seu 
tempo, era coi^iderada como parle essencial de toda a 
Poesia ; que e)la apparece, maís, ou menos, nos Poemas 
bmís afiamados da Itália, uo Orkndo de Baiardi, no de 
Arioslo, uo Gdíredo de Tasso, e até mesmo no Paríe áa 
Virgem de Sanoazzarro, e porqne kade fazer-se-lhe an 
crime de praticar o que lodos praltcavem, e de s^uir a 
opintio do seu século ? 

Ainda mais, haverá atguem tão insensível aos encantos 
da grande poesia, que negue que muitas d»s bellezas 
mais sublimes do Poema, como o Ãd^nastor, a liba do; 
Amores, o Sonho d'EI-Rei D. Manoel, a Piíilura dos Pa- 
ços de Neptuno, as Nympbas salvando as Néos, tem fun- 
damento nessa mylbologia, e que sem ella d9o exisU- 
liam i Não por certo ; pois essa é a melhor defeza de Car 
mSes, porque um defeito que produz belleza de ordem 
superior, e em grande numero, já mais pôde considerar- 
se defeito, si não pelas almas de gelo, que raciocinam, 
e não sentem : para avaliar obras de imaginação é prectr 
80 ter imaginação, como para julgar de musica é nece»- 
sario não ser surdo. 

Um dos prioeípaes predicados de Camfies como Poela 
Épico é a dexteridade de fundir a sua muita audição na 
poesia, sem cabir na pezadez, e na pedanlaria, como mnb 
tas vezes acconlece a Vasco Mosinbo de Quevedo no sen 



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uno V., CAPimu) ti. 339 

ilTanso Àrricano, emqse parece que tem mais «npeshB 
em passar por erudito, que por Poeta. 

O sen espirito phylosophico brilha nas sentenças, cmo- 
nlidadea cbeias de bom senso, e que iudicain grande co- 
nbecimento do mando, com que deu realce ao seu Poe- 
ma. É Tcrdade que o Padre Francisco José Freyre na sua 
ArtéPoetica asjulgou demasiadas, lendo a multiplicidade 
das senteo^a por mais própria da Tragedia ; mas eu não 
posso ser desta opinião, nem acabe de entender qo« aa 
Poeta Trágico, que Talla pw entrepostas peseoas caiba 
mais lib^dade para mondisar que ao Épico, que falia 
por si, « se supÀe inspirado immediaclameule por uma 
divindade. 

Oolros acham muilo amiudadas as suas digtesaSes, nas 
«ssas digressses sam tão patbeticat, e cheias de intcT«s- 
se quando o Poeta falia de si, tão enérgicas, e vchencn- 
tes quando o zelo patriótico o leva « invectivar a coirup- 
Na dos ;»stumes do seu século, a degen^at^o dos briot 
dl nobreza, «ambição dos grandes, os abusos do Poder, 
que de «erlo são sei qaaia terá aoioM) pêra cradeinna- 
los, quem ha alii tão bárbaro que deseje vêr supprinida 
u isMetivBs que elte faz do priocipío do Canto VII. «oo- 
Ira as Na^See da Europa, que se dilacererinn cn discw- 
dias civis, e guerras rel%Íosas, em proveito dos inimi- 
gas da fé. 

Vêde-los Alemães, sfiberbo Gado, 
Que poF tão largos campos se apascenta. 
Do Successor de Pedro rebellado, 
Noto Pastor, e nova Seita inventa : 
Vede— lo em feias guerras occ«pado, 
Qne inda co'eego errcff se não contenui: 
Não contra o superbissímo Othomano 
Uas por sahir do jugo soberano. 

Vêde-lo duro Inglei, que se notnéa 
Rey da velha, e aoliqnissíma Cidade, 
Que o turpe Ismaelita senhoréa: 
Quem vio honra tão lonje da verdade? 
Matre as Boreaes neves se reiíréa, 
Nova winoira faz de Ui[ij$tandad«, 



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240 BirSAIO NoaBAPRICO CRItlOO, TOKO ni. 
Para os de Christo tem a espada náa, 
Não por (ornar a terra que era sna. 

Guarda~lhe por eDtanlo hum Talso Rey 
A Cidade Hierosolyma terreste, 
Em qnanto e)le não guarda a Santa Ley 
Da Cidade Dyerosolyma celeste ; 
Pois de ti, Gatlo indiguo, que direi? 
Que o nome Clirislianissimo qaizeste 
NSo para dereudc-lo, uem gnarda^lo. 
Mas para ser contra elle, e derriba-lo. 

Achas que tens direito em senhorios 
De ChristSos, sendo o teu tSo largo, e tanto, 
E nSo contra o Cynipho, e Nilo Rios 
Inimif^s do antigo nome santo? 
Ali SC ham de provar da espada os fios, 
Em quem quer reprovar da Tgreja o canto : 
De Carlos, de Luiz o nome , e a terra 
Herdaste, e as cansas não da justa guem? 

Pois que direi daqoelles, que em delicias 
Que o vil Ócio do Mondo traz consigo, 
Gastam as vidas, logram as divicias 
Esquecidos do seu valor antigo? 
Nascem da Tyrannia ianimicicias 
Que o Povo Torte tem de si iunimigo: 
Contigo, Itália, fallo, já submersa 
£m vicios mil, e de ti mesmo adversa. 

Oh míseros ChristSos I pola ventura 
Sois os dentes de Cadmo desparsidos. 
Que huma aos outros se dam a morte dura 
Sendo todos de hum Ventre produzidos? 
N8o vedes a divina sepultura 
Possuida de Cães, que sempre unidos 
Vos vem tomar a vossa antiga (erra, 
Faiendo-se famosos pola guerra? 

Vedes que tem por uso, e por Decreto, 
Do qnal sam tão inteiros observastes, 



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tmo T., cuncLo H. 241 

AjiuAr«in Exercito Quieto 

CÓiiUa 08 PArrà, 4[ue aam de Cbri^ amantes ; 

S eolre tAs nnoca deix» a fera Aleeto.i 

De semear zisanias repugnantes, 

(Nhai si estaes Geg«r<» de pnises, 1 

Qia elles, e Tós, sois vosaos iniiiigts. ' ' . 

Si cobiça de grandes Senhorios ' 

Vos faz hír conquistar terras alheias, ' ' 
N5o TÍdes que Pactolo, e Hcrmo rios ' 
Ambos volvem auriTcras arSas? 
Em Lidia, Ãssiria lavram d'ouro os fios,' 
AOica ^onde em si lusenlés veias, ' ' ' 
Hova-Tos já si quer riqueza tanta, 
Pois mover-vos nao pôde a Casa Sairia, 

AqneHas iovoaffOes feres, e sovas,.. ■; 
De Instraneol«3 mortaes, de Artelbwis 
lá devem de faier as duras, provas > 
Jfos muros de Bisancío, e de TurquíQ.,- 
Fazei qne torne iá ás silveslxas covas 
Dos Caspios montes, e da Scithia fria 
K Turca gei«$9o, que muiUplíca 
Na policia d». vossa Earopa rica, -; 

Gregos, Traces, Armcoeos, .Georgeaios 
Bradando-vos eslam, que o PoTobrulcí 
Lhe obriga os charos filhos aos profanos 
Preceitos do AlcorSo!... duro tríbnto!... 
Em castigar os feilos inhumanos 
Vos gloriai de peito forle, e asluto.; 
E não qneiraes loutores arfogaúteí ' ' ' 
De' serdes contra os Vossos mui pojsaiiieii. ' ' 

Um em taU» qsecâgM, e s«leul«)t -1 . ,..t 
Andaes de tobso s^gDe, oh Gentb Jnswa, ; 1 
(N&0. tallario Ghriát9*s atr^iimenlos : .1 •' 
Neste pequena Caat LiMÍlana. '. ■>■■■! 

■ Na Africa teu «antioioa aiuenUts, - < - .. < > 
U 



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342 ENSAIO WoeMWaW CWIWíi ■ TOHO m. 
He na Ásia mia qtie.ttMjfu Bo^en». - 
Nb ({«aiU partQ nova «s C^wpos in, : 
£, si sais Mundo bouvera, 14 chegara. 

Jtqui a elegia(ãa:óo ertylo, a vivwa daa irnigeas, a 
força da «ipressão* e de melro ett&m apar da «lera;!» 
das idéas. e era esta a primeira vez que as Hasas W- 
lanas ousavam cautar neste tom. Dirá alguém qaeeste 
bfello trecho prejudica o. Poema, ou.é içdigno da miges- 
tadeda Epopeia? . ,, 

Nfio é meãos bella a digressão que se le no Canto ot 
tavo. Estanca ci^coeata e quatro sobre q escrupnle, que 
os Reis devem ter na esçolba dos »èuã Conselheiros. 

Oh-qnanlo deve o ttci, que bem ^veraa, 
De olhar que os Conselheiros, ou privados. 
De consciência, e de virtude interna, 
E de sincero amor G^am dotados! 
PerqSfl cofn« este posto Ba superna 
Cadeira, pãde mal dos apartados 
Negoáos terbolícia mais inteira, ' 

Do que tbe d«r a Mga& ConseHielra. 

Nem t9o ponoo direi que' tome tairto ' 
T.ÍD grosso a Gomsciencia limpa, e certas 
Que SC ealeve n'hum pobre, e humilde manto 
Osde ambição acaso ande encoberta ; 
£ quando hum bom cm tudo he justo, e saats 
£m negócios do Mundo pouco acerta, . 
Que mal com elles poderá ter conta ' 
A quieta iunocencia em só Deos prompta. 

Esta doutrina é muito copTorme com a boa raiio, e i 
boa p«lil|ca, e nella transilora o despeito patriótico do 
Poeta,' vendo todos os negócios públicos mover-se pel» 
influencia, c interesse dos Jesuítas, em quem D- Sebas- 
tião liulia umaconfiaiiç!! cég% ttetlB pnevúr ^ue diiio ' 
ria, e«nd'v8io. a roinadfliHUtado. 

No CantO'B0V8,- Estançt .««08618. tomou o Poeta « 
Bovo a censurar os erros daqtrdia £drt«t governada \** 
Frades, c os.fiéioB dDS'Corteii>s,- que «na, e outros <ie 



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LIVBO T-t CAVITULO ti, 243 

tndo CDidavam, vom toda ee «ilFoneitiaa, nu flem lem- 
brar-se de nisediar as desgraças do povo. 

Via Acteon na caça tSo anatero 
De cego na alegda brata, iusan», 
Qae í>or seguir hutn feio animal fero 
Foge da gente, e beRa ffthníi bamaiu, 
E por castigo qner doce, e severo 
Mostrar-lhe á formosura de Diana, 
E guarde-se nSo seja ioda comido 
Desses Cães^ qae agora ama, e consammUo. 

QDem se lembrar qae D. SebastiSo era, segando a 
phrase da Escriptnra wn poderm Caçador diante do Sé- 
nior, que com o engodo da ,caca o seu Confessor Jesai- 
la, e o seu Escrivão da Puridade, irmSo do Confessor, o 
ttmm sempre fora da Capital, para desvi^-Io da coa- 
Ttisa^, e tnicto dos Fidalgos velhos, carregados de ser- 
viços, e experiência, e zelosos do bem público, facilmen- 
te cmíbecerá o alvo, a que é dirigido este tiro. 

As pintuma 4m Ltuiadas sem cbeias de movimento, de 
acfâo, verdade, CMlerido; parece que aSo ouvimos 
o qae narra o Poeta, mas que os factos se passam dían- 
ta 4ps lumoB oibos, taf é a iegwBt« do Cauto cimeiro. 

Atidaib iiela ribeira alva, arettosB ' 
Os belKcoEòs Mourtts aceenando, 
' Cdm a adaga, écb'a hasta perigosa 
Os fortes Portngatizei idcítando ; 
NSo solTre mais a gente generosa 
Aodar-^e os Cfies os dentes amostrando, 
Qualquer em terra salta tio ligeiro, 
Que lienbnm dizer p6d'e qne be p^itoei^. 

Qàal no corro sanguíneo o \Èda Amante, 
Vendo a formosa Dama desejada, 
, O Xwi^o busca, é pottdo-se diante. 
Salta, corre, sibila, accena, e brada ' 
Uas o animal atroce viesse instante 
Com a froQle coroigera íacHnada, 
16* 



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244 ENSAIO WBfllAPHIOT Cinn», tOHO IH. 
BrananAo dnro«(in«.o»iolhos cerra, ' .. 
Derriba, fere, imrta, e piem por lenti 

Esta comparaçítoA or^ginsi, e refere-se a um especU- 
eulo privativo dgs habitantes daPetiinsuIa Ibérica, mts 
parece traduzida de Homero pela viveza dás cdies, e í 
í^lentia da expressão. Prosigamiís . , ., . 

Eis nos Batjeis o fogo se levanta 
Da furiosa, e dura Arlelharia, ' 
A plainbea pella mala, o brado espanta ; 
Ferido o ar retumba, e aSsovia : 
O coração dos Mouros.se quebranta, 
O lemor grande o sat^uethé resfria; 
Já foge o escondido de medroso, 
■ E morre' o destoberto avçnturosffl ' ' 

■ Que abundância! que viveis dé coloíidtfl qoeÉOe^ 
íé expressão ! que Verdade I ç que judlcioSá- eâColla de 
círcumstanciasi ',':.„'.., 

■ ■ A plúmbea pôWa mata, o braáoi e^Bla :■ ■ 

■ " Ferido o ar retasaba, e assovia. 

Sam do* versos, que Virgílio, elloiliero iAvfqarâun, etóffl 
de harmonia imitativa, e em Ioda esta Estanca, não ha 
uma palavra ooioga, «m termo improprip, m verso n* 
diocre; e no Poema h^i cepienare* delias, de que pôde 
diíer-se o mesmo; quç admi/? pois. que umToemaes- 
cripto desta manãfa awede uma reputação Europea! 

NJo se contefila,',á. gente Portugueza,. 
Mas, seguiud^o a^ yictoria, çstruê, e mà^, 
A Povoação sem muro, e sem defeza 
Esbombardea, accende, e desbarata. 
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa. 
Que bem cuidou coint>i;a-la mais Mníla. 
]á blasphcma da' guerra, e maldizia 
O Velho inerte, ç a'Mâí, que o Ffflit» cria. 

Fugindo, a setta o "Mouro vai tirando 
Sem força, de cobarde, e de apressado,' 

Diçpitizcii;,. Google 



uno T., cuneut ii. tia 

k pedn, o paH, o otDto arremeseinjo; 
Bi-lhe :anB» o fnror ddiaUmde, 
Já a liba, e todo e mais deaM»p»i»itd(>i 
A tetra finmfftge atnednmUúlo. 
Passa, e corta do mar o eslceilo braço, ' 
Que»Ten»em t«riio ceraa, eta^poaco Mpt(o. 

flótts vam nas Almaíias carregadas, - 



Toraam victoriosos para a Armada 
C'ó despoja da guefra, e rica pr«aa, 
E vain a seu prater iaser agaada . 
Sem aAar resistência, aem defesa, i 
Ficava a 'Moora Gente magoada. 
No ódio Mti^ SMts niàSi aijatfa acceza» - 
£, vend» sem -viogaaca taaLo damno, 
S&nmtte eauiba .no. segiwlo leogaoo. 

Par imnca com tamaaha proprie- 
dade, a ser Poeta ; era necessário 
juoiar 'c Navegador,* e 'Soldado, e 
haver o parte em factoí idênticos. 
Neste >s que me desconteírtanj, não 
porqui que descem amtanto daiua- 



Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa. 
Que bem cuidou coppra-la mais fiarala. 

É sobre Indo^ Bud«H»ÍpCõ«s marítimas, que mais rp^kn 
o talento de Luiz de flamôea, v^aowíe as Estancas tj^ia- 
rcala, e cinco, eieguintes domc^ieo Cauto» - 



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34Õ ENSAIO Noaumos cunaD; tdho ih. 
Ki8 appsreoem )e^ em coippsabia 
Bans peqòeHM ftileis, que Tta daquetts, 
Que iDMB chegada á terra' pareda, . 
Cortando » luflo mar oon lirga vila: ' 
A. Gente se alTOroça, • ds alegria 
mo 88l>e mais que olhar a eaosa ddla,-- 
a Que Gente será esta ? (em si diziam) 
«Que costumes? que Leys? que Bey teriam?» 

As Embarcações heram ua maoeiTa 
Mni veloces, estreitas, e compridas, 
As veias, com que vem, hçram de esteira, 
De humas folhas de Palma bem tecidas. , 
A Geate da cdr hera Terdadeira, 
Que Phaeton nas terras acceQdidas . 
Ao Mondo deu, de ousado e aSo prudente, 
O Pado o sabe, e Lampethusa, o sente. 

De paanos de algodão vinha» v«skidos 
De varias cAres, brancos, e listados ; 
HoDS trazem de redor dt»-st oingides, 
Outros em modo airoso sobraçados. 
Das cintas per» cima véu despidos. 
Por armas tem adagas, e traçàdw. 
Com loucas na eabeça, «, nav^ndot 
Aoafins sonorosos vem tocando. 

C'o8pannos, e c'os braços acenaram 
A's Gentes Lusitanas, que esperassem, 
Mas já as prOas ligeiras se inclinavam 
Para que junto ás Ilhas amainassem : 
A Gente, e Marinheiros trabalhavam 
Como si aqui os trabalhos se acabassem, 
Tomam velas, amaína-se a verga alta, 
D'ancora o mar ferido em cima salta. 

N3o heram ancorados quando a Gente 
Estranha pelas cordas já sobia. 
No gesto iMos vem, e hanaBaaMnte 
O Capitão snblime os recebia. 
As Mesas manda pdr inconltseote ; 



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■Lmwa ,tj, 4 
Do liMT ^«e Lieu i^Mo havia 
Enchem vasta dfl .vádra, e da ^pw dtitaw 
Os de PteotMt qutuaéM lurfa «njatan. 

Oqae di imíb interesse ir ttía, piKUira, é o<Mcrapnlo, 
«im qne o Poeta notou todas as-oÍtoiiBiilBiicÍH dõste ea- 
contro, que os PoiiigMKes tiverain com aqtwltes barba- 
ID9, 1 fórma-dos batas, aifa iigèireza, sou vMaS'teciilas 
de folhas de palmeira, a cór dos dotqs mareaotes, seos 
inges listados, aDi ciagidos ao eorpo, oHtros sobraçados, 
u Moca*, os tarbáulcs, (f«e iraaifiifl aacabefi, atarDUb 
de^ne OHVaO) ; é ifte oqae se chama calfirído local, « 
é peaa qae o Autbor IdDto ataitido se etqttecaaw d«Uc 1 
Ifu cono éMlorat: a alegria dos Porlugoecet vendo qp- 
parecw aqueltes balais rai> laes paragens I ts «ouaiderap' 
çdR^qae faien a resfieita daifaetta gente ciAranba! o al- 
rwDço dos bárbaros ao desootoir embarcatOvfi Uo difle- 
reates das snaa, aqaelle aceaar com os psanos, e com osí 
brafos para que os esperassem I aqnelle trepar pelas cor- 
das para entrar aaa naus apenas ancoradas, a franqueza 
com que comem, e bebeu quanto se lhe aprceeMa. In- 
do isto sam piMeladas de mestre, tudo isto é palpitante 
de verdade ! A versifioaçSo nio denuRce das idtos, « 

Tomam velas, amaiB«HK< a verga afta, 
D'aac(H« o mar ferido em m» salto 

sam dons versos daqnelles, qne sá Camãcs sabia Tazer. . 
As Estancas eiBCoeiUir, eorlo, eoiacoeDta,c.iiove, con- 
lím as doas maia tmves, mtns wnems, e graonisas pia- 
loras de uma noite deluáv, e do nascer da Aurora^ obser- 
Tadas do mar, qne a poeda ati agora prodmio. . 

Da noite os' «tares raiM l-nlilaTdm 
PclaS' OPgeMeis ondas Neptuninas^ 
As EstrellAB os GeoB acaompanfaavBm 
Qual campo revestido de boninas. 
Os íerioaos VenaM reponsanai . 

PelH e9v«8 escuras, penegrínas. 
Porém da armitda a tienlc vigiava 
Cmío por lowgft teflipa oostmeva.' 



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24«- KnsAlO BlMKMffK» CKITiro «OfO, iil. 

Has asBÍn coii» a Aurora nMrchetadi-.í 
OsforinosM eál)eiio8«BpaUiott« . 
No Ceo «ereAOj atiíriíMto a lixa- eulraátt : > 
Ao claro Hyperíonio, qac accordoa, 
. Começa a enbBadeínr-se teda a arandai . i .' 
E de toldos alegres se adomou . , i , 
POTrecd>er'Comftstas,'ealcg>ia '1 " 
O Regedor das Ilhas, que paitul. - 

Gomo eBta pompa, eategiia maTitimat e miUUr secw 

bimi feeiR com o espectaeitla de uma-EÓrimaa ntadiaga- I 

dtt 1 Cmio era formosa, e rica, a imaginação, qne ptodit- ' 

m sem custo estes qu»dro&! , i 

-Igo«l viveza, eforpa de colorido maritúBO cocMt» | 

inoB DO quadro do Canto segundo, em qae.YM»a, eu I 

Nymphas do Htr, impedem a^arBUula de entrai' no f»- i 

to de.Mombaça, onde OB UooroB lhe tiobán oppltroUudi 1 

á destruição. ■ ' ;'. I 

As aneoras tenaces vam leranda 
-Com a náutica grita costumada, . 
' Da proa as velas sós ao vento dand», 
Inclinam para a barra abalisada, 
Mas a liuda Erycina, que guardando 
Andara sem^e a G^ta assígnaladti 
Vendo a Ctààfe grande, é tio ^eortía, 
Yda do Ceo ao Mar como uma setta. 

Qoivoca as alras Filhas de Nereo , 
Com toda a BMH cemlea ciompanbia, 
' Qae'parqDe no salgado wus nasocoi. 
Das agUaro pod^ lhe obedecin. . 
E propondo~lhe a caasa^ a qae desceo, 
Com todas juntamente se {lartia^ ; 

Para estorvar que-a armada ofto obfigaase ■ 
Aonde pnra sempre se acabasse. i -,' 

34 D'ago« ergatM^. vwi tíbia graade {vessa 
Com as arguteat caudaa.Jiransa.fficuWi 
Doto c'o peito cortou e-ainvessa 
Com maia ima» o mv,-'^ que cestuoM^. 



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' uno V., 
Salta NisBi Nerine s» a 
Por cima d-agoâ eraspa em for{a snatnni, 
Alffeni caniiba -as ondas eneorvadai ■ ' 
De temor áiÉ NtreidiB ^HWMdas. 

-9{«s1itrtBbroS'dkhamTriM0; com gesto flcceso, 
Vaf-ft' KB^a BioBfe farioss 'i 
NSá 9M(í-)j|tteitf a )€nb o grave peso ' 
De soberbo com carga tSo Toniiosa. 
Já cbegavi 'perto donde o vento t^o ' 
Eucbe as TÍlás dk frota bélicesa, 
ReparMin-se,' e rodten nease loslante 
As Nana ligeiras, que biam per'diaRle> 

Pscm-se a Deosa com outras ein dír^ta 
Da pr6a Capilanca, e ali fechaadò 
O caminbú da barra cslain de geito, 
Qae.em vão assopra o Veoto a vela inchando. 
POem no madeiro duro o brando peito 
Para de traz a forte Naii forçando. 
Outras em derredor levando-a estavam, 
E da barra' inimiga á desviavam. 

Qojieg. para, a cova as providas Formigas 
Levando o pezo graude accomuodado, 
ks forças exercitam de inimigas 
Do iniiQi^ Javerno congellado. 
Alt sam seos trabalhos, e fadigas^ . 
Ali mostrau vigor lumca espeiadç, 
Taes andavam as Nympbas estorvando 
A' Geaie foriugu^ o &ai nefaado. 

Toma pan"delra2 a Nau forçada 
A p«aHr àM^ que kva, qM,'gHtaada, ' 
Marcam velas, ferve a Gente irada, 
O leme a bum faordo, e oHtro atraveflaando, 
O Hasire aslile era vio da pdpa btada. 
Venda: eoaw dtaate ameaçawío 
..'Os eslftva bmn raaritiBio penedo, 
Q«e de>qudicaT"Uie a Naa Ibe mete m«da. 



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■2ãD insAio iiosuniao CBUicOt tmhi m. 
A. celeanta stedonh» se ierAota 
No nide aMrioheir», que trdialtia : ' 
O grande estrondo. a Uooia Orate oBptDta, 
Como si vissem honidft iMtaHU'; 
NSo sabem a razão de fúria taata, 
N9o sab«B nesta pressa qaeio Ibe vaU», 
Cuidam qae seus eagaaos sam sabidos. 
E qae bam de sar por isso aqiii piiDiíJLÓs. 

£i-4os subitamente se lascavam 
A seus Bateis velsces, que traiiam ; 
Outros em ciioa o mar alevantav^oi. 
Saltando a'agiia, e a tiado se acolhiam.. . 
D'bttm bordo, e de outro súbito saltavam, 
Que, o medo os competlia do, que viam. 
Que aotes querem ao mar aveDt.urar-se, 
Que D3S mãos inimigas eatregar^e. 

Assim como em Selvática alagfta, . 
As Rãas, em outro tempo Lyeía Gente, 
Si sentem por ventura vir Pessoa 
Estando Tora d'agua iocaulameate. 
Daqui dali saltando, o charco sAa, 
Por fugir do perigo que se sente, 
E acolbendo-se ao couto,' que conhecem. 
Sãs as cabeças n'agna lhe ápparecem. 

Assim fogem os Mouros, e o Ptlolo, 
Que ao perigo grande as Naus guiara, 
Crendo que seu engano estava noto. 
Também foge saltando n'agua amara. 
>fas ])0T n3o darem uo penedo imoto, 
Onde percam a vida doce, e chara, 
A ancoca salta logo a Capilaioa, 
Qualquer das Miras jwto delia amaint. 

E accredilaiá alguém que um qiaibo tão pictoresco, tSo 
Tico de poesia, achasse bárbaros, que o suprimiMem em 
uma edição, substituiado-o por prosaicas trivialidades I Pois 
os Jesuítas não tiveram pejo de commetter esse sacrile- 
£io poético em as ediçSe^ om que motilanuuT e desSgo- 



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eivio V., CAfníAo m. -isi 

nnm o Poesia parA dcMCr^HMer o' Avthor, e iiUraju- a 
iBimemorii, niaeslando arepotaçSo, qnetanlo oíeocoa- 
modira! 

Teuholido eia Poemas nossM, eeslnubos, moitas pia- 
inras de tempestades, e alguma» deHas nolaveia pela bel- 
íeza da poesia, mas «n nenhoAia encootrn aiii« Utnla 
verdade, estfrg^.e movií&eff to c«ttADaque o PMtadescre- 
TenoseuCanioVl-, essss CFrcamstancias eua lambem es- 
colhidas, como o poderia fazer um homem acostumado a 
eocootrar-se naquclles terríveis lances. £ de noite, osNa- 
Tegaoles, que estavam de quarto» liados na serenidade 
da tempo acabavam de escutar as aventuras dos Doze df 
Inglalerra, e já Veloso se prqiàra para Uiar a aarraçío 
daí probas, e cavaliarias do grau Alagri^. 

Has nesse ponto assim promptos estando. 
Eis o Meslie, que olhando os ares anda, 
O apito toca ; acodem despertando 
Os Úarinheiros de buma, e d'oulra banda ; 
E porqae o vento vinha refrescando. 
Os traqHles das Gáveas tomar manda. 
« Alerta, (disse) estai, qrn o vesto cresce 
« Daqnella navem negra qac apparece. » 

Nio h««m OB traquetes beta tomados, 
Quando dá a grande, e súbita ProeeHa, 
a Amaina » disse o Mestre a grandes brados, 
« Amaina » disse ■ amaiaa a grande veta. » 
Nfto esperam os ventos indignados 
Qne amainasse, mas juntos daodo nclfa, 
Ena pedaços a tntai, com raid». 
Que o Mundo parecea ser dettruido. 

O Ctio fere com gritos ftisto a Gente 
Com snbito temor, e desaccordo. 
Que DO romper da vela a Nau pendente 
Toraa-graosorama d'Agna pelo bsrdo. 
« Aloja l * disse o Mestre rijamente, 
R Aloja todo ao mar nfio falte acoordo ; 
a Vaâ oBtMfr dar á bomba Dão cessando , 
« A' bomba, que nos bimos alagando. 



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. ', (:«rreiBlogaos.S4ld»di>»ai\ia)Ofios j 
. Á dar á bomba ; eUftU que chegaram,. , 
Os balaoços, que os mares temerosos 
Deram á Nau, a bom bordo os dçiribaram. 
Três BtaríabeÍTos duros, e forçosos 
A meAear o leme não bastaram, . , 

TaLbas Ibe puQham de huma, e de outra parte, 
Seu aproveitar de HomeuB Torca^ {OU. ^tte. 

Os Ventos eram taes, qne não poderam 
Mostrar mais Torça de ímpeto cruel ; 
Si para derribar cnt5o vieram 
A Fortíssima Torre de Babel. 
Nos altissimos márea, que cresceram, - 
A pequena grandura de um Batel 
Mostra a possante Nau, que move espante 
Si acaso se sustem nas ondas tanto. 

Até aqui mostra o Poeda, digamo-lo o-aqsim, «m glo- 
bo o eSeito de uma tampeElade r^peatima, o apito do 
Uestre, qae chama a geote a póetos, e ntand» tomar os 
iraquetes das gavias, e ficar de prevenção para a W- 
menta annuncíada pela nuvem negra, qne se percebe ao 
longe I Rompe i tormQtria, os ventos despeda^m a vSa 
grande, quehia anaioar-se, oSsoldsdoscoiTom á bomba, 
os maritlheifos sais derribados n'um bordo pelos balanços 
danan ; Irei-dellcs n^obasUm para ibenear «leme, mes- 
mo pondo-lbe talhas ; a nau levantada:, & 8ns|»endída ao 
ar por serras de vagaMes parece á vista uw .pcqa«io 
batel ; nada ha que desvie a nessa atVonção deite qua- 
dro medonho, Bão esestamos meia que oragir das vagas, 
o bramar dos ventos, o ranger dos cabos, e das roldanas, 
a celeuma dos manobeúros, e de «spaço a empaco a voi 
do Mestre mandando manobrar, em termos lacoDÍcos, 
precisos, e verdadeiramente maritime^.! 

Depois de desenhado este quadjro com pÍRO«l homéri- 
co, é que o Poeta passa a campÍT-io, passando dn genera- 
lidade á especialidade, e prese.çt^o~BOs os perigos de 
cada nau, e ospbeBosieAos, que accuapaahaiQ «ales hor< 
rores da natureza. 



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CTTw» T., cmmo n. ass 

A Nau ^raade^êm que Vii PrdIo 4a Gtnia, 
QoebrAdo iera o mastro pelo nmo, ' 
' QDasi toda «lagada ; a geDte cbama 
Aqnelle qae a salvar o Mando veio. 
NjÍq menos grilos vãos ao ar derrama 
Toda a Nair de Coelbo com receio, 
Com quanto teve o Megtre taato tento, . . 
Qae primeiro amainou, que desse o Venlo. 

Agora . sobre as iuiv«ns os sabiam 

As ondas de Neptuoo furihaudo, 

Agora a v£r parece que desciam , 

As intimas eatraahas do profundo. 
I Noto, Astro, Boroas, Aquilo queriam 

Arraiuar a machina do Muodo, 
I A aoite negra, e fera sé alumia 

I Co' os raios, em que o Polo todo ardia. 

Nada mais subUtte qne esta Estaaça, « sofcn» tudo oí' 
doDs ollilnos Versos. ' 

As H«leyo»eas At«8 triste pranto 
Junto da Costa bnra levantaram,. ' 

Lembraado--«e' do seu passado pranto; ' 
Que as fariosas a^a« lhe causaram, ' 
Os Deltius namorados entretanto, 
. Lá nas covas marilimas entraram, ■■ , 

Fugindo à tempestade^ e ventos dtfroe, 
-Que nem no fuodo os 'deiut estar seguros, . 

Nesta- Estanca,' e nas duas segaiales o PoHa col(and« 
^un» magos ameMs .seiti desparate, nos fai conhecfir 
iwitrfietunwie a graadeaa daqDeUa:procell3, pçIos«eus 
tSt^Bi DOO) tao^mlravel artiikio saliia eUeservir-«e 
dt-iB^h«tog<ai 

Nunca tãò vivois raios fabricou . .... 
CoBlraa fera soberba tdosGi^ntes,. 
O^an Ferreiro sórdido, que obrou 
De Jluteados as armas radiantes ;. . ~ 

. liem. toniag o Tonaote lairremessott . , '. 



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351 ENSAIO BIMMPBISO GBinOO, TOUO In. 

BelaãpdgDS ao Mundo fuIntiDafiteB, < 

No grau dilavia, doade sós viveram 

Os doo», que em Gente as pedras caaveiieraBi. 

Quantos monies eslfio que derribaram' 
As ondas, qae batiam denodadas ! 
Quantas Arrotes velhas arrancaram 
Do Vento bravo as faríaa iadtgtiedas ! 
As forçosas raizes n3o cuidaram 
Que dnnca para o Ceo fossem viradas. 
Nem as fundes aréas, que pedessem 
Tanto os mares, que em dma as revoiressem. 

Segne-se a deprecaçSo 'dõ Gama, implorando o auxí- 
lio do Ceo, e finda ella o Poeta accresceula. 

Assim dizendo os Ventos, que luclavam 
■ ■'y. Ced» Tonn» indómitos bcaaMDdo,. 
Mais, e mais a tormenta accresceittau» 
Pela miada enxárcia assoviando : 
RelampftgOB, medonhos a&o ««ssavafo. 
Feros tufbes, que ven r^resentando 
CahiroGe^ dóíeixQs lobre a teira, j 

Consigo os elemenios tecem {lUfirra. . ' 

O Poeta não pinta com menos exacçSío as terras, qae , 
se levantam 'como nuvens m» confins do harisonle, os | 
vapores erguendo-se do Oceeano, e condensando-se em 
nnvens, e todos os mais phenomenos da navegação. 

Algnns Críticos deparando nos Lusíadas alguns tndios 
imitadosdePúetasanligos, e modernos, adeusaram Ca»^ I 
de Mtà de invenção,' e de SÈ tnfellar com penaasalbeiíB, 
esta accusação é injusta, CamOcs vmrtoo alguns IredwB i 
de Virgílio, e de outros, como Virgílio imílára s^gtn-nt- 
gos de Homero, eAppoIonioHbodíp, pela maior parle m^ ' 
inorando-os; mas ninguém feron ISolongeesla calumoia { 
comn José Agostinho de Macedo, qne oSo teve pejo de 
affirmar, qae tudo oqne havia bom nos Lusíadas era foi' 
tado a outros Poetas, mas que o seu plagíarístoo cbegi' 
va a ponto de copiar lódas as suas nartVfJSes de Casta- 



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tmov., auBOM ii. U8 

iímíêií* Mo deAMrn»,' soei maia ttaiaUio, qMfdr «ai 
vtm I prosa (ÍB<|QettcB Historiadores. 

QwkIo tractor daqoell* Zoilo, ttnloglrcaBpeteite, h 
Ki lír pda isójofoifiiifio doi tribos, qne s^diícni inça- 
dos, com osorígioaos, qDe«ssta totitafOei se redinem ík 
Teie 8 mailbàiiça de MusApolwT», c^MpArisso 
José Agoatiobe foi iiÉiiBram«c«lnMiiidor. Agompeloqoe 
ns^ita aos Hislonadores. direi, que ma- KiMpeia é «• 
■amcfo de factu. e qne, easet belos tú aFoeta proM- 
! »-los á Historia pafft ovpiatar depei» com todos os ader- 
■os da poesia, e que étamanba estupidez chamar por ít- 
npta^ifrfo a um Poolo, oono « am Escniptor pòr fa- 
KT uso da madeira, «d da ptdra para fornar as Mts e»- 
iitBBB. P aa w aos Mscmnplos, qneioiUaMi mais do-qoe 
«a^lHWofos. 

Dii José Agostinho, qêé GftflaMs ao Canto primeir», 
Xslauça sessenta e oito, quando disse 

Está a Gente marítima de Lno' 
Subida pela enxárcia de admirada, 
Notando o Estrangeiro moéo, e õs», 
E a lingnagevtSo bartiàra, e enredalda:' 
Também o Hoaip astnlo está confoso 
Olhando a cAr; • tncge, « farte arnate, 
E pergontand» tadO the díiia 
Si por Teoton vkhaai da T«rqBift>3 

Furtara a Castanheda Iiir. I. Capitoto VI. estas pala- 
vras ■ O Sultão pergontou a Vasco da Gama si vinba 
da Turqnt. 

NSo é isto nmplagiate bem «omprorado? Castanheda 
conta na sus bístork «laolo,' deqne o $«(tio pergantou 
ao Gama si.vthha da TArqDia; Ca«5es refere tese mes- 
ma Tacto, nÍ»'OQmo:hitl«riado«,-t)MGome Pseta, oroan- 
do-o de circamslMoiajB .fncéiCMcaft, «omo a gente trepa- 
da petas eaxanias, as^^aass iwflenBet, sobrado modo, 
trajo, linguagem, e wosdos estningíBiros; JMlaHhe a 
confoeSo do Mouro, e occupando com isto, de que não 
Ita ^estigi« tim FernSo Lopes de Caalanhada. ^M*<loda 
4 fistaofia, a^ aaimstadede setisio verso, a no eiltintQ'é 
qua íftB qoe o Mouro perigwle «t vinham dft Z'w}tM,-'e 



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258 ENSAIO ÍIOOHAPHICO CUlTieo TOMO, III. 

Como? nBo so<b t6s ioda os descendentes 
DaqneHes, que, debanio da bandeira 
Do grande Heariqucí, ferw,' e valenMs ■ 
Venceram ' esta Gente tSo guerreira? 
Qaaado tantas bandeiras, taoUB gentes 
Puzeram cm rugida, de nwneiP* 
Que sete illnstrca Goades Ibe troHTOram 
Presos, âfóra a ptcs», qae tireram? 

Còm q«em fdram eotitiiiB& s^xMdos 
Estes, de qnem o estaes agwa vôa. 
Por Diniz, e seu FiHio soblimados 
SinHo com vossos fortes Pais, e Avos? 
- Pois si com seus descuidos, on peccados 
Fernando em tal fraqueia assim vos poi, 
Tronse-¥os vossas forças o Rey novo, 
Si he certo que c'o Rey se muda o Povo. 

Rey tendes tal, qoe si o valor tiverdes 
Igual ao Rey, que agftra alovaotastes, 
Desbaratareis tudo o que qiiiíerdes, 
Quanto toais a quem já desbaratastes. 
E si com isto em fim vos não moverdes 
Do penetrante medo qné tomastes, 
Atai as mãos ao vosso vao receio, 
Que eu só resistirei ao jugo alheio. 

Eu só, com meus Vassallos, e com esta.... 
E dizendo Jsto, arranca meia espada, 
Defenderei da força dura, e infesta 
A Terra nunca d'outrém subjugada. 
Em defeia do Rey, da Pátria mesta, 
Da leaWade já por vós negada, 
Vencerei nSo só estes adversários. 
Mas quantos ao meu Rey forem contrários. 

Parece que estamos ouvíildo aquellas allocuçfies li» 
concisas, e tao enérgicas, que NapoleSo dirigia aos se» 
Soldados no momento de dar uma acçSo, electrisandiHK 
para carregarem o inimigo sem sUsto, e sem receio. 

N5o é menos bcHo neste gmero o discarão de Marte, 

D çnzc^^v Google 



WVM T., ■CimOLO II. , , a59 

que se lã no prímuro Conto. Curo é cbúe de letnara e 
deaffwto» terBos odiseacso daRauha fi.llam de Cas- 
leUa pedindo a SM Pai D. ASuao IV. qqe soecgfrra seu 
marido coott» os Uturos, que ltt?niD iavadido o ko reino. 

Quantos Poros a terra produzio 
De África toda, Gente fera, e estranha, 
O Gr» R«y de llarrocoa conduzia 
Para vir possuir a nobre Hespanha- 
I Poder taoanbo jiiato oSo se ¥ia 

Depois une o salso Mar a Terra banha ; 

Trazem ferocidade, e furor tanto, 

Qne a vivos nedo, e « nortos faz espanto. 

Aquelle, que me deste por marido. 
Por defender sua terra amedrontada, 
I Ca pequeno poder offerecído 

Ao d^ro golpe e^tá da Haura espada. 
£ si nSo fãr comigo soccorrido, 
Vér-me-kas dejle; e do Heyao ser privada. 
Viuva, e triste, e posta em vida escura 
Sem maiido, sen Reyqo, e sem ventura. 

Por tanto, oh Rey, de qnem com puro medo 
A coreeifte Uoluca se congella, 
Rompe toda a tardança, accode cedo, 
A' miseranda Geoto de Castella, 
Si esse gesto, que mosíras claro, e ledo. 
De Pai o verdadeiro Amor assella, 
Accude, e corre, Pay, que si não corres. 
Pôde sier que não aches quem soccorres. 

Superior a este discurso pelo artificio oratório, e pela 
passagem prooipta de ums para outros affectosjulgo eu 
a supplica, que Vénus no Canto II. dirige a Jupller a 
faror dos Portuguezes. 

E mostrando do angélico scmlilaole 
. Gom riso huma tristeza uiíslurada, 
.Como Dqiqd, qiif foi do incauto Amante 
17- 



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aeO BIÍSAIO WMBAPHKO CBITIGO, TOltO III. 

Em brhwos amorosos maJtratadai 

Que se aqseixa e se ri no mesmo instMte, 

E se torna entre alegre magoada. 

Desta arte a Deusa, a quem nenhuma igmja, 

Mais mimosa, que triste ao Padre falta. 

Sempre cuidei, oh Padre poderoso, 
Que para as cousas, qwe eu do peito amasse, 
Te achasse brando, affavel, e amoroso. 
Posto que a algnm contrario lhe pesasse ; 
Mas pois qne contra mim te vôjo iroso ■ 
Sem que lo merecesse, nem te errasse, 
Faça-se como Baecbo determina. 
Assentarei em fim, que fui mofina. 

Este Povo, que he meu, por quem derramo 
As lagrimas, que cm v5o cabidas v^o, 
Qne assaz de mal lhe qnero pois que o amo 
Sendo tu tanto contra o meu desejo. 
Por elle a li rogando choro, e braaio, 
E contra minha dita em fim pelejo, 
Ora pois, porque o amo he mnl tratado, 
Qucro-lhe querer mal, será guardado. 

Mas morra em fim ás mãos das brotas Gentes, 

Que pois eu fui E nisto de mimosa 

O rosto banha em lagrimas ardentes 
Como c'o orvalho fica a fresca rosa; 
Callada hum pouco como se entre dentes 
Se lhe impedira a falia piedosa, 
Toma a segui-la, e hindo por diante. 
Lha atalha o poderoso, e gran Tonante! 

Nada inais perfeito que este quadro! Aqnelia trislew 
misturada denso, qoe anuvia um pouco o lindo semblan- 
te de Vénus ; a linda comparação, e nova da dama iir- 
canlamenle offendida pelo amante nos brincos amorosos, 
que chora, e ri ao mesmo tempo; a maneira engenhos! 
porque a Deusa no seu exórdio capta a benevolência de 
Jove, aquelle receio, qnefiage, dcqueBaccho possa fflai» 

D.„.c... Google I 



Lívio V., oirmsL» n. J6i 

do que ella omd Jéve; a rssigoaçio irónica «m qne ter- 
mina a EsUnça. 

Paça-se codm fiaocho determina, 
Asseatarei em fim que fai noSna. 

Aquelle toraar logo ao assumpto, fazer sua a eausa dos 
Ldíos f Esie Povo qw i meu (dii ella) of altcibuir á sua 
prolecção os seds trabalhos, accrescentando, 

Ora pois, porque o amo be maltratado, 
Qaero-lbe querer maK será guardad». ' 

Aquelle intemuaper de súbito o discurso com lagri- 
mis, e só produzir sons inanwulades, tudo -isto sam ras. 
gos de mestre; que sabe aprsreilar todoBosreeureos ora- 
tortos, etirarpartidoatédasiteacto; atéacoatparsçSo da 
Deosa lavada em lagrimas com a rosa orvalhada pelo ro- 
cio da maoMa produz «aia sensaçio delictosa. 

Arespostfde Jiipiler éum períeito modelo do cstvlo 
sablime, e ma^testoso, qae compele áqadlesqae reuaém 
a vontade, e o podw, que ordeaam coando eicplicaro. 
Nnnca o pai das ImbdUhb « dos Stom», na liiada, e na 
Eneida » ex^areasoo com tanis' dignidade, t elotrueocía, 
e sem sombra dearrogBDcia, como foliando peia bocca do 
Eomero Lusitano; ' ' 

Forswsa Filha misha, nio temais 
Perigo algnlti àos vossos LusíUdos, 
Nem que ninguém comigo possa mais 
Qne esses chorosos «Ibos soberanos ; 
Qe» eu vos premet«D, Filha, que vejais 
Esqueccrem-se Grtgos, e Romanos 
Pelos illustres feitos que esta Gente, 
Hade hzer nas partes de Oriente. 

Todos 08 Tírsos desla Estanca correm flaldamente , 
uniformes na cesura, sem interrupção de st!iHldo, e sem 
que este vá com'i^eiá'r-se no hemestichfo do verso seguiu- 
le ; é a Omnipotência que falta , e não adraitte di\vida , 
nem hesitação no que pcnsí, ou nòqne diz. 



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BffsAto Biosuntco cnnicv, tomo ui. 

Qie si o facando IRysKs eiéapoa 
iDe ser na OgyS'^ ^^^^ cteroo esemiQ, 
£ se Antenor os seios penetrou 
Ilyrtcos, e t foBte do TydiaT« : 
E si fi piedoM Bneas navegoo 
De Scilla, e de Charybdis o mar bravo, 
Os TOBSos, mores coosas atteutando, 
NoTOB Hundoí ao Unsdo UrKo mostrando. 

Fortalezas, Cidades, e altos mnros 
For «Res ver^B, SM, edificadps ; 
Os Tnrcos bellaoissimos, e d^ros 
Delles sempre vereis desbaratados. 
Os R«3 da índia, liTiei, e segaroft 
Vereis M Rey potente subiogsdos ; . . 
fi por eites, dejludo eu flin Seabores, : 
SerSo dadiB nas mrai leys ittelèafw.: 

Vereis este q» agMa-pranaioM:,, 
J>or tantas medoa o Iiâo vu foiseoido,. . ' 
TTeroer deite Ne^bno áemcdit»!). .■■■■-. i: 
.' Sem Tenta anu flgoas 'çncnetfpsndo. ' < - 
' Ob caso attnea visto, « milaifroso- 
M iQde trema, e ffflrTH o mar em «alas «Staadel 
Ob gente fette, e de.ãitos pe&satneMes, 
Que também delia bam medo os.KlemebtasJ 

Vereis a terra, que «gea Ikè t«lbia, 
Que inda ba de ser hum Pcffto mui deunte, 
Em que vam descançar da longa via,, 
As Naus, qoe navegarem do Oeeidente ; 
Toda esta Costa em fim, que «gota ludÍB 
O mortífero esgano, obediente .| - 

Lhe pagará tributo, CMíbeceado ■. ^- i 
Não poder resistw ao Luso borreodo. 

E vereis o nar Roío tSo famase . 
Tornar-se-the asardlo e «nfiadoí, 
Veieis de Ormiiz « reino poderwo - 
Duas, vezes tomado, e subjugado. 
AU verus o Mouro furioso 



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, .UVIUí v-, CWtCW H. 2Ô3 

' De suas munas patas irasi^assado, 

I Qoe quem vai çoojlra qs vossos claro vâjfi, 

I Que, &i resiste, coatra si peleja. 

Vereis a inexpugnável Dio forte, 
Qae doas Cercos terá 4os vossos sendo, 
Ali se mostrará seu preço, e sorte 
Feitos il'armas grandíssimos Tazendo; 
Invejoso vereis o gran Mavorte 
I Do peito Lusitano fero, e liorrendo, 

Do Mouro ali vereis que a voz extrema 
Do falso Mafamede ao Ceo blaspbema. 

G6a vereis aos Mouros ser tomada, 
A qaai virá depois a ser Senhora 
e, e sublimada 
í Gente vencedora : 
a, e exalçada, 
is ídolos adora, 
e a toda a Terra 
zer aos vossos guerra. 

Vereis a brtateza sffilentar-se 
' Do Gananor com pouca fòiva', e gente ; 
E vereis Calecut desbaratar -ee 
Cidade populosa, e tão potente ; ' 

. B vereis em Cochim a^signaUf-se 
Tanto 'hum peito soberbo, e insolente, 
Qae Cythara jamais oanton victorín, 
Que asnm mereça eterno nome, e gloria-. ' 

Nunca com Marte instruoto, e rurioao 
Se rio tnvei Leucate quando Augusto 
Nas Civis Accias guerras animoso 
O Capitão v«ueo Romano injusto, 
Q«« doG Povdf da- Aurora, e do famoso 
Nilo, edo Sactro Scytbico, e robusto 
A vietoria traiia, e pre» rica. 
Preso da Egypsia linda, e n3o pudica. 

Esta Balança époetícai e sablime imitação dos seguio- 
lesversos de Virgilio. 



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Sff4 ENSAIO BIOflBAPHiCO OUTICO, TOMO lU. 

/n médio classes aralas, Aetta belh. 
Cernere eraí, totum que inskweío Marte viieres 
Fervere Leucatm, awoqve effalgere flaeím; 
Bine Augiisifis agens Italot tn pralta César 
.Bine ope barbarica, variis Antonius armis, 
Victor ab Auror(B pojiulis, et Hílore rubro, 
CEgiptum, virtsque Oiientis, et ultima secura 
Bactra trakH, sequilurque, aefas! (jEgyptia Con^ux. 

José Agostinho , que tantas vezes no seu Oi-ienlc , pe- 
Taphrasea , e peiora Oilavas dos Lusíadas , rbaroa a islo 
roubo , e plagiato : mas vejam como Francisco Dias Go- 
mes, melhor Poeta, e melhor Critico que José Agosliubo, 
avalia, e analysa esta.imitação semilhanle ás que \ir^' 
lio tizera de Homero. 

« Àioda querem vér poesia mais elevada , mais elida 
de fogo, e movimento? Vamos por partes. MarU instr* 
elo e furioso é traducf ão de tolximque instrwlo Marte com 
um epitheto de mais , furioso , que augmeiíla a forca do 
colorido, sobre a novidade do partecipio inslruçto, com 
qne o Poeta enriqueceo o nosso idyoma , de modo qoe 
nesta elegância fica a Latisa vencida, da Portvgueza. Se 
vio ferver Lewcate, é tradvicçáo de videffs ferverei íftS' 
ten; quando Augusto aos Civis Aclias galras animoso, 
o é também de Aclia bella Il\nc Avgu&tus agai& halos; 
conhecidamente superior a esta do fipíco Latino pela har- 
monia, epela fort^ do adjectivo animoso. OCaipH&o cn- 
ceu Romano injmío, também esta escéssivamenle. $e avao- 
taja a qne traduz Antonius, que sem nomear este regí- 
mem do verbo venceu o faz conhecido pelos accidentes ca- 
racterísticos. Quedos Povos d(t Aurora, élraducfão dafor* 
muia ab Aurorce popuOs, aGSun como e 4o famoso iVt/if, 
é de Liltore rubro CEgipium, oude oçbo mais aubUme a 
elegância Purtugucin na mitboayoua de Nilo por Egyp- 
to, que é cerlamcnt« mais poctíco por aer combtaado com 
o predicado famos». TaHibeia se dwe reparar na dis- 
crição, com que o PoeU deinog de traduzir a.clausoli 
liltore rubro pof ociosa, estando ílEgipium. Do Bacln 
Scylhico, e robusto, é a formula Latina et ultima seem ; 
Bactra vekit, posto que a Iraducç&o não exprima a idú , 
incluída no adjectivo ultima, eu acho com' tudo aíonin- j 



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UTM T., CAPITCLO II. 36$ 

h PortHgHeza mais fi»rl«, e mais poética nosdoDs adjec 
tifes Safl^co, « rotojto, si bem qoe a paiarra ujfma 
suscita na intelligencia amti idéa de estenção, expnmia- 
do longioquídade, por assim dizer, que faz a expressão 
bem jillendivel. k viciaria Irasia, tainbanscho este mem- 
bro mais sigoificalivo, e poético qne o simiries Vielor do 
Migioal LatiBO. — f rfío daEggpeia Unáa, também eicc- 
de aciausala Latina, qae traduz sequiturqiic <£gypUa 
Cottjttx. O CMCsse eslá no predicameolo na voí linda, 
qae qaer dizer ramosa era grau sabido, a qual idéa se 
nío acha no origiMl. —Não pudiea, é traduoçto do ad- 
miraliTo nefas! cDjo sentido também se pôde leferír á 
aíersâo que os RoíuaDos tinham a casamentos com es- 
trangeiras. Também o adjectivo pudico foi introduzido 
DO idyoma pelo grande Camfics. > 

« NSo ha dúvida qae a tradacçto nSo expendeu as se- 
gniotes formulas d» origÍDal. Ia médio tlmses araias — 
euroque effiilgere flulm — ttfe barbatiiea — litíore ru- 
bro, as quaes elegâncias o flosw Poeta jalgou meros or- 
natos não esseaciacs ao todo, d por isso os não iotrodu- 
lio DO seu quadro, e lhes si^ituio ootras fsrmulBs, que 
sam necessárias á pintura, e nio se acham do texto, as 
epiaw mn-~ furioio^ mis— (mimoso — Sotiamo íji- 
}nsl»—^um»o Mio —StytUeo— robusto — linda, e 

vão fMiiiaS. k . 

Concordo ^rfeilamente cora o expendido nesta aoaly- 
se por Francisco Dias, except» com a «ua ultima asser- 
sio. fiSo ffli, comoelle pensa, pelas jolgar tneros onalot 
não esêmeiaes, que Cam5es despresou essas clausulas 
omittidas. Si elIC' fizesse uma tradocç&o não deixaria de 
traslada-las, mas bsia uma imitaçio, e as deixou por- 
que Dão convinham ao sen intento. Éa muita diffsi^nça 
enlre descrever Dsrelevos históricos, que adornara um es- 
cudo, como Virgílio fez, od citar um facto como Jovc 
pratica neste âiwurso. 

Desta analyae, e éomparafâo fbita por um tiomem. re- 
conhecido por fuz mui oómpetenle nestas matérias, re- 
sulta, qae Lniz deCamiJcs imitando um quadro de Virgí- 
lio ficou mui supenor ao original; e eu accrescento, que 
(acs imilaçQes nQo podem nem devem ser clasíilicadas 
tomo plagiatos, ifa roubos, etcnho a meu favor a opi- 



;,G00gIt' 



ses BNSAIO BlOfiRUBlCO CRlTlGfr, KMW tlt. 

■ião do jiHlicioso Boilean, qme mercc« dmÍs credãlo qne 
José Agostinho, o qoal chamava a estas iaiitafO«s íuelor 
gloriosame»te cem os mligo». ' 

Como vereis o mar ferveado acoeso 
Cos ÍBcendios dos vossos pelejando, 
Levando o Idolatra, e o Honro i^eso, 
De NaçO» diSerentes triumphándo, 
E sogeila a rica anrea Chersoueso, 
Até D loQginqno Gfoina naveguido, 
E as libas mais reauHas do Oriente, 
Ser-4he-ha todo o Occeaao obediente. 

De modo. Filha minha, que de geito - 
Amostrarão esforço mais que humano. 
Que nunca se ver* tio forte pwlo , 
Do Gangetico mar ao. Gaditano. 
Nem das Boíeaa ondas ao Estreito, 
Que mostrou o aggrBvado Luaitano; 
Posto que em. todo o Honda de affronlados 
Resnscitassem todos oe passados. 

' A estes discursos poderíamos j untar o deBacct» wàt- 
tando a ruina dosLusos.emMó^mbiqae, no Canlo I., o 
do Embaixador de. Mombaça no Cauto II., o do Snviade 
do Gama ao ftei de Meliode, no mesmo Caolo, o do Ve- 
lho nn praia do Rastreio, no Cauto VS.-, o de Baccho, no 
Canto VI., instigando as Deidades mtrilimas para des- 
truírem a frota Portngaeaa, e finalmente no Canlo VUl' 
a falia do Çamorim ao Gama, e a resposta deste jastífi- 
caodo-se, e confundindo as catumuas dos Houros, odes 
Cataaeft corrompidos por elles. 

Si os antigus ddictas, qae a malieia 
Humana commetleu na prisca idade, 
Nto causaf^m que o Vaso da nequicia, 
AfOuLe tôo cruel da CibristaBdtide, i - 
Vier» por perpetua iaoimecicia 
Na geração de Adio oo' a falsidade. 
Oh poderoso Rey, da torpe seita. 
Não conceberas tu ião úá sospeita. 



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UVflft \., CtWHOQ II. 267 

Mas poKiBe MB^an gnnde bem » alcança 
Sem graades «ppres^es, e em lodo o ferio 
Segne o temor oe passos da taperança, 
Que em suor vive sempre de seu peito, 
He mostras lu tão pouca eoDfiaoça 
Desta iniaba vwdade. sem respeito 
Das raiSee tm coBlrario, qae aefaarlas 
Si não cresses em iqnem nlo crér devias. 

Ponjoe si ea àt rapinas só Tivesse 
Undivago, e da Pátria desterrado, 
Come ctiB que I3s Jooge'ine viesse 
Buscar assento incógnito, apartado t 
Pontne eípermças, ou porque iniercssc 
Viria exprimeBtaiido o Mar ir»do, 
Os Antarticos frios, e os ardores, 
Q» soffren de Canteiro os moradores? 

Si com grandes presentes d'aba eslíma 
O cred^^me pedes do que digo, 
Eu sio-vim nais quea achar o estranho clima. 
Onde a uatora pOK teu Reyno antigo, 
Mas si a Poi^tuna tanto me gablima, 
Que eu torne ámiaia Pátria, c Rcyíio amigo 
Então veris o dom soberbo, e rico' 
Com que minha tornada certifico. 

Si te parece ínepinado feito 

Que o Rey da uttima Hesperia aqni me mande, 

O contfio «ublime, o Régio peito 

Nenhum caso possibil tem por grande. 

Bem parece que o nobre, e grau conceito. 

Do Lusitano espirito demande 

ICaior credito, e fé de mais alteza, 

Qne creia delle tanta fortaleza.. 

Sabe que ba maitos annos que os aatigos 
Reys nossos firmérneule propozeram 
De vencer os trabalhos, e perigos 
Qne sen^r* ás grandes coosas se oppozeram. 
£ descobrifldo os sares inimigos - 



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BKSAIO HOfiBUBIOO CBITKA, TOHO 111. 

Do quieto deiGimi^, pertesDâeram 

De s^r que fim tiubiin, e onde eSlftvam 

4s deiradeiras praias, que lavavam. ' '' 

Conceito ^bo ím do ramo dntn 
Do venturoso Rey, que arot prnein} 
O mar, por hir deitar do nink» dar* 
O Morador de Àbyla derradeiro. ' ■• 
Este por sua industria, e engenho raro, 
N'hum madeiro ajuntando sulfo «aá^eiro 
Descobrir pôde a parle, que faz dan- - ' 
De Argos, da Hjrdra a lus, da ^bn,' e da Ara. 

Crescendo c'os successos itonsprimeicos- 
No peito as ousadias, descobriram". 
Pouco a pouco caiDÍQbos estrangeifos^ ' ' < 
Que hurns, soccedendo ao6 ««ubs, (ffosejitàram. 
De Africa os Moradores derradeiros 
Auslrae^, que aunoa-as sete flanfot» viram. 
Foram vistos de uós, atras dpiíand*: - 
Quantos estam os Trópicos qiMimand<k ' 

Assim com fitme peito, e coni,MinaBlw 
Propósito vencemos' a Fortuna, . . 

Até que nós no teu terreno eslraabo 
Viemos por a ultima columaa. ■. - 

Rompendo a Torta do liquido eslaolio, 
Da Tempestade borriflca, iotporluaa^ 
A ti cbegamos, de quem s6 queremos 
Sígual, que ao nossa Rey de ti. I&veiaoE. ■ 

Esta be a verdade, Rey ; que não faria 
Por tão incerl/bem, láo fraco premio. 
Qual, não sendo isto assi, esperar podia 
Tão longo. Ião fingido, e v5o proeniio. 
Mas aoles descaoçar me deixaria 
No nunca descançado, e fero grémio 
Da Madre Tlietysqual Pirata inico, 
Dos trabalhos alheios féilo rico. 

- Assi que, oh Rííy, si rainha graí vérdaíe. 
Teus por, qual tie, sincera, e não de^da, 



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UVM T., ClMTDtO II. 2B9 

Ajuota-lbe ao Deq»^» IvevidaA, ' 
Não me iaipidas o gosio da tentada. 
£ se inda te parece, falsidade, 
Cuida bem oa razão, qBoestú provMbi, 
Que com «Uro juizo pôde vôr-se, 
' Que fácil é a verdade de eittender-se. 

1 Luiz de Camões quando descreye balattias tem tanlo fo- 
go como Homero, sem com tudo o imitar oa diffusão. Os 

j sensheroes nSo gastam otempo cm insultar osiujmigos 
nem em deslindar geoelogias como a cada passo fazem os 
Gnerreiros delliada. Ooosso Poeta, que era militar, eqoe 
pintaTa lances, que tinha tnntas Tezes presenceadò, e de 
qpe Szera parte, nnnca se arreda da verdade, pòrqoe 
iracta de despertar dos leitores, as sensações, que elle 
próprio havia provado. Os encontros das massas, e oscom- 
bates particulares soccedem-«e com uma rapidez, e vi- 
Teia assombrosa, parece que vemos a marcha das tropas, 
o estrondo dos golpes, a grita dos combatentes ; as falias 
dos Generaes sam breves, e próprias das circumslancias 
é o patriotismo ardente do Poeta que se explica pela boo^ 
ca delles de nma maneira nervosamente eloquente. Em 
taea casos a sua versiGcaçSo sempre forte, e harmonio- 
sa, toma novas fbrí^as, e desenvolve todos os recursos da 
harmonia imitativa. Que fogol que impetuosidade decs- 
Ivio oa Batalha de Campo de Ourique, 

Qual g'os gritos, e vozes incitado 
Pela moolant» o rábido Uoloso 
Contra o Touro remette, que fiado 
Na for^ está do corno temeroso. 
Ora pega de orelha, ora de lado, 
Latindo mais ligeiro que forçoso, 
AlÉ que em lim, rompendo-lhe a garganta. 
Do bravo a força horrenda se quebranta. 

Esta comparação tãofnsaote, e tão vivamente descrip- 
la Sá podja ser assim executada por um Potita aascié), 
i criado em Paiz, etu que eram tSo freq^eates os comba- 
les de Touros. 



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270 KlfSAIO BIOCRAMltCO CRITICO, TOUO llt. 

Tal do It«y novo o-estoinffgo aeceikKtIa 
Por Deos, e pelo Povtf juntameate, 
O Bárbaro coniette apercebido 
Com aBiinoso Exercito rompente. 
Levantam Disto oa perros o alarido 
Dos grilos, tocam a arma, ferve a Gente 
As laapas, e arcos tomam, tobas sOam, 
Instrameilos de guerra tudo atroam. 

Bem oomo quando a flamma qne ateada 
Foi DOS áridos campos, assoprando 
O sibilante Boreas, animada 
Co vento o secco matto vai queimauda, 
A pastoral companha que deitada 
Co doce somno estava, despertando. 
Ao estridor do fog^, que se atéa. 
Recolhe o Fato. e foge para a Aldéa. 

Fato neste logar significa rebanho, ordinariamente de 
Cabras. Fapo esta advertência porque sam mui raros os 
nossos DiccionarioE, que trazem este vocábulo com semi- 
Ihante significação ; o que foi causa do mais moderao, e 
sem dúvida o melhor Traductor Italiano dos Lnsiadas, se 
enganar com este verso, que traduzio assivi. 

Trejriáo i panni aduaa, e via sen fagg*^ 

N3o reparou este grande Traductor, e grande Poeta qae 
os Pastores, que Gcam no campo guardando o gado, aio 
se despem porque b3o trai mais cama qse a terra, e p« 
isso nSo tinham roopa, que recolher, e por tanto sã po- 
diam cuidar em juntar o gado para conduzi-lo i poTM- 
(3o, ou aldéa como diz o Poeta. 



L'Incendio intanía sue speranze slruggt. 



Este verso com que o Sr. Bricolani termina a Estão;!, 
além de nSo estar no originai, é outro contrasenso. Aqai 
Bão se tracta de searas maduras, mas de mallo sec0, e 
h queima deste estava tão longe de estragar as esperas 
cas dos Pastores, que pelo contrario lhas augmenUn 
pois todos sabem que os Pastores mui de propósito tt 



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Á 



LIVM V., QtPlTDLO II. S7l 

lenjwMMiJá», i»Uké,pOeBCQeoa&iiiattosoe«p, pan<](|«. 
adubados os campos com as ciozas Ibe (««dii&aia imís 
hervas na esUçSo chuvosa. 

Desta aile o Hooro altoBíto, e hinrido 
Toma sen teolo as armas mw depreda : 
N3o foge ; mas espera confiado, 
E o Ginete belligero aireiaessa, . 
O Porlngiiei encoatra-o denodado, 
Petos peitos a lança Ike alravessa; 
Bums cabem meios nurtos, e outros vio 
A ajuda convocando do Alcorão. 

Ali se vem encontros temerosoB 
Para se desTaser boma alta SOTra, 
E os aaimaes cotreado furiosos 
Qat Neptuno uMfitron ferindo a Tena ; 
Gidpes se dam medoabos, « (arcaste. 
Por toda a parte andava acceza a guerra. 
Mas o de Luso arnez, coorafa, e malha, 
fiompe, corta, desfaz, abola, e lalfaa. 

Cabeças pelo campo vam saltando, 
Braços, pornas, sem dqao, e sem seatido, 
£ de oBtr-o as entranhas palpitando, 
Pallida o oár, o gesto amwlecido. 
Já perde o eanpe o Exercito aefaade. 
Correm Rios de sangue desjwzido, ■ 
Com que também do campo a côr ae perde. 
Tornado carmesi de branco, e verde, 

F isto o qae se chama pintar a grandes tnços ; e 
assim caiBtnba descrevendo o choque de um pequeoo ei- 
ercito contra uma multidão de Bárbaros, Nlo tcootece 
porém assim quando o Poeta descreve a batalfaa de Al- 
jubarrota ; então particularisa as manobras década devi- 
são destaca os indivíduos das massas, e mostra as proe- 
zas' e as providencias dos Chefes, e abala o cora(So dos 
Leitores com as diPferentes phases do combate, e a al- 
ternativa de bons, e ruins resultados dos e^rçoa dos 
doas Conteodores, e lan^a mao de lodos os accessorios, 



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27) ENSAIO nomApntm cbitioo, tomo ih. 
quepmltin darmais luz, e vida ao grandioso qndr», fK 



Com toda esta lustrosa companhia 
Joanne invicto sae da Tresca Abrantes, 
Abrantes, que também da fonte fria 
Do Tejo logra as agoas abundantes. 
Os primeiros Armigeros regia 
Quem para reger hera os mai possantes 
Orientaes Exércitos sem conto 
Com qne passava Xerses o HellespoDto. 

Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro 
Açoute de soberbos Castelhanos, 
Como já o fero Hunno o foi primeiro 
Para Franceies, para Italianos, 
Outro tambeta famoso CaTalleiro, 
Que a ala direita tem dos Lusitanos, 
Aplo para manda-los, e rege-los 
Uem Rodrigues, se diz, de Yasconcellos. 

E da outra ala qne a esta corresponde 
AntSo Vasques d' Almada he Capitfio, 
Que depois foi de Abranches nobre Conde, 
Das Gentes vai regendo a sestra mfio. 
Logo na rectaguarda nSo se esconde 
Das Quinas, e Castellos, o pendão. 
Com Joanue Rey forte em toda a parte 
Qne escorecendo o preço Tai de Marte. 

Estavam -pelos muros temerosas, 
£ de hum alegre medo qaasi frías 
Resando as Hâig, Irmãas, Damas, Esposas, 
Prometteudo jejuns, c romarias. 
}ã chegam as Esquadras belicosas 
Defronte das Imigas companhias, 
Qne com grita grandíssima os recebem, 
£ lodos grande dúvida concebem. 

Respondem as trombetas mensageiras. 
Pífaros sibilantes, e Atambores, 



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IIVHO T., CAPnDtO n. J73 

Alférezes ToheiaiD as baodeiras, 
Que rariadas sam de moitas cAres. 
Hera ao secco tempo, que nas Eyras 
Ceres a i>uta deixa aos Larradores, 
Eatra em. Àstréa o Sol no Mez d' Agosto, 
Baccbo das Uvas tira o doce.mosto. 

Dea sigoal-a trombeta Castelhana 
Horrendo, fero, ingente, e temeroso, 
Onvio-o o Monte Atabro ; o Guadiana 
Ãtraz tornou ás ondas de medroso ; 
Oovio-o o Donro, e a Terra Transtagana : 
Correo ao mar o Tejo duvidoso, 
E as Hiis, que o som terribil escutaram, 
Aos peitos os Filhinhos apertaram. 

Esta Estanca nio é sé excellente pela poesia, e versi- 
ficaçSo ; mas pela idéa indirecta, que dá da grandeza do 
combate, e estrondo delle, pelos effeitos, que produz. 

QoanloB rostos ali se víem sem cflr. 
Que ào cora^ acvode b sangue amigo I 
Que nos perigos grandes o temor 
He menor muitas yezes que o perigo ; 
£, si o não he, parece-o, que o furor 
De offeader, on vencer o duro Imigo 
Faz não sentir que he perda grande, e rara 
Dos membros corporaes, da vida chara. 

Começa-se a travar a incerta guerra, 
De ambas partes se move a primeira ala, 
Hams leva a defensão da própria terra, 
Outros as esperanças de ganha-la. 
Logo o grande Pereira, cm quem se encerra 
Todo o valor, primeiro ae assigualta, 
Derruba, encontra, a terra em fim seméa 
Dos que lauto a desejam sendo alhéa. 

Já pelo espesso ar os estridentes 
Farpões, settas, e vários tiros v6am: 
Debaixo dos pés duros dos ardentes . 
18 



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•ili ENSAIO ^KKWABQIÇP atju:^ TOMO, 111. 

Cavallos tn^ioa a lerr«, 9* vaUos íOanv 
Espedaçapi-^9 9S Ung^s, e a« frequad^s 
Quedas, ep'a« 4ur9s arma^ tiuLo «tr^aa, 
RecrescflEi) of iffiigtXí ¥4br« a PQWa 
G4Dt« 4o íarf) N«no, lyift f« apímc^, , - 

Nesta Estanca todas as expressOes fazem imagem, e 
não se encontra aell) uD) terno iqpFopriQ, *m vocábu- 
lo iaaiil, os spDS iniitam perMiawnte 99 ã^JMtos, 

«8 frequflítes 
Q^çdaâ w'a» dor» armi^ tutlo. Atroam. 

Véja-se f^n» quidw, com a primeira l«pga, e depois 
da pausa, quq « vo? é obrigada a Eazer na palavra frt- 
quentes do verso aolccedente imita bem a cabida de 
vn corpo, e o resto do verso pinta i» vivo o edio do 
raipor iíA anuas ! Procure-fie im Poetas aoteriores a 
Canítes ^0 repetidos exemplos de harmonia imitativa' 

Eis ali sfius IrmSoi cootra eils vAa 
Caio feio, e cruel, mas n^ etspaou-t 
Que me«oe he quefcr matar o Irmão 
Quem contra o Hoy, • a Pstria se levanta ! 
Destas arrenegados muítts sfie 1 

No primeiro csquadrãa. que se adianta I 

Centra Irmãos, e Parentes, caso estranbo 
Qual nas guerras civis de JuIio, e Hanho. 

Assi se pronunctaTa antigamente a palavra Msgiio, \ 
soando o g antes de n eomo boje soa nk, pronuncia, que os | 
Italianos inda conservam. 

I 
Qh Tu Sertório, oli nobre Cnriolaso, 1 

Catilina, e vós ou4ras dos antigos. 
Que conlra vossaS' Pátrias coa profane | 

Corefão vos fizestes inimigos: 1 

Si lú no Itcyuo escuro de Sumano 1 

Receberdes f^avissimos castigos, ' 

Dizei-lbe,. ^ue tamben dos PoFtggoeies | 

Alguns tríudorea houve algumas veies. 



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1 



I ItfM V., tíWttSM It. 2?5 

O ard^te ROMT ida pairia, « da IndepeBdmeia nacio^ 
Dal amncoo e«U apostropt» ao ooraç9o do Poeta contra 
Ds írmioa do CODdestavel, e os mais Portugnetes parti- 
dista} de Castella, e e qne lhe dá maior pezo, e abono 
ásDa EÍDceridade, é saber-se que nm de fielisÀvós mili- 
tava nesta batalha no exercito hespanhol ; e conio pode- 
ria um Poeta animado de Uo generosos sentimentos dei- 
xar de incorrer no ódio dos lesnitas, e dos seus devotos, 
pe machinavam surdamente a entrega de Portogal á 
\ Hespanha? 

Rofflpem-se aqui dos nossos os primeiroa. 
Tantos dos Inimigos a elles vao! 
Está ali Nono qual pelos Outeiros 
De Ceuta está o Tortissimo Leão, 
Qve cereado se vé doa Cavalleiros, 
Qae OG Campos Tam correr de TetnSo : 
Persegnem-oo co'as lau{iaB, e «He irosa 
Turbado bum poneo esià, mas n9o medro». 

Com torra vista os v£ ; tnas a Natura 
Ferina, e a ira n9o lhe compadecem 
Que as costas dé, mas antes na espessara 
Bas lanças se arremessa, que recrecem. 
Tal está o Carallelro, que a verdum 
Tinge c'a sangue alheio. Ali perecem 
Alguns dos seus, que o animo valente 
Perde a Virtude contra (abta gente. 

Seatío Joanne a alTroniA, que passava 
Nuno, qne, como sábio CapitSõ, 
Todo eorria, evia, e a todos dava 
Com presença, e palavras coração. 
Qual parida Leoa fera, e brava, 
One os Filhos, que no ninho sús eslSo, 
Sentio qne, em quanto o pasto lhe buscara, 
O Pastor de Masaflía lhos furtara ; 

Corre raivosa, e freme ; e dom toamidos 
Os montes selte Irmãos atrfiia, e áballa; 
Tal Joanne com mitos escolhidos-' 



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276 ENSAIO .SIOflBAraiCO CRITM»; TOMO Hl. 
Dos seuB, correndo acoo^e á primeira ala. 
« Oh Vorles Co[npaDlieirò& I oh subidos 
tt Cavalleiros, a quem oenbum se iguala, 
«Defesdei vossas terras; qne a esparaaça 
sDa Liberdade está iia vossa lan^. 

a Vêdes-me aqui Rey vosso, e companharo, 
a Que enUe as lauças, e seitas, e os arnezes, 
«Dos Inimigos corro, e vou primeiro; 
«Peleijai, valorosos Portuguezes.» 
Isto disse o magoaDimo Guerreiro, 
E, sobraçando a lança quatro veies. 
Com força tira, e deste unieo tiro 
Muitos ianpram o ultima suspiro. 

È assim que sam verosimcis as falias doB guerreiros no 
ardor de uma. batalha, e nâo quando, como acontece na 
Iliada, convertam, e contam historias intermináveis com 
tanto socego como se estivessem sentados em roda do 
lar em uma noite de Inverno. Mas é tal o cego enthu- 
siasmo da Botígnidade, que não só descnlpa, mas defui- 
de, eadmira estasgroBEeírasinvcrosimtlhanças,'easspre- 
senta como modelos dignos de imitação. 

Porque eis os seus accesos novamente 
De;bnma nobre vergonha, e honroso fogo, 
Scd)re qual mais com animo valente 
Perigos vencerá no mareio jogo, 
Porfiam ; tinge o ferro o sangue ardente, 
Bompem malhas primeiro, e peitos logo, 
Assi recebem junto, e dam, f«:idas 
Como 8 quem já são doe perder as vude^. 

A muitos .mandam vér o Estygio lago, 
Em cujo corpo a morte, e o ferro entrara, 

' O Mestre morre ali de São Tbiago , 
Que fortissimameute peleijava. 
Morre também, fazendo grande estrago, 

: Outro Mestre cruel de Calalrava^ 
Os Pereiras jtambem arrenegados. 
Morrem; arrenegando qs Ceos, e os Fados. 



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LiVko r., eiptmtt» n. ; 

Itaitos também do Valgo vil, sem itftme ' 
Vsnf, e também' dos Nobres, a« proTUndo, 
Ofide o trifauce Cão perpetua fome - 
Tem das almas, qae passam deste Mando, 
E porque mais aqui se »na»ce, e dome 
A solráfba do Imige furibundo, 
Á sflbNnie baBdeira Castelhana 
Foi deiTibada ai>s pés da Lusitana. 

Aqui a Terá batalha se encruece 
Com mortes, gritos, sangue, e cutiladas, 
A multidão da Gente, que perece. 
Tem as Dores da própria c6r mudadas. 
Já as costas dam, e as vidas ; já fallecc 
O Furor, e sobejam as lançadas ; 
lá de Castella o Rey desbaratado 
Se vê, e do seu propósito niudado. 

O eampo vai deixando ao Vencedor - 
Conteste de lhe Dão deinar a vida, 
Segaem-no os que ficaram ; e o temor 
Lhe dá, não pés, mas azas á fugida. 
Eocobretn no pnCuudo peito a dAr 
Da morte, da Fazenda despendida. 
Da magoa, da deshonra, e (riste enojo ' 
De yêt outrem tríumphar do sen despojo. 

Alguns vam maldizendo, e blasplicmando 
Do primeiro, que guerra fez no Mundo, 
Ootros a sede dura vam culpando 
Do peito ambicioso, e sitibundo. 
Que, por tomar o alheio, o miserando 
Povo aventura ás penas do profundo, 
Deixando tantas Miis, tantas Esposas 
Sem filhos, sem mandos desditosas- 

O Vencedor Joánne eslevc os dias 
Costumados no Campo cm grande gloria: 
Com offertas' depois, e Romarias 
As graças deo íi qoem lhe deo vicioria. 



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inS EKSÁIO BIOtaUBKO QUTHM, XOHO Ilt. 

Para sm tudo ser perfeito, Q KvM» este cisadio nem 
esqueceu ao Poeta ueiioiMar os q mivmm , «tidições, 
8 murmúrios des Soldados de Casl^lti que fu^wn em 
debandada, ao passa que «^ Tenosdor iwBtnèa. o campo 
da batalha traz dias, segusdo q e»lylo, e, « búairia do 
tempo, c as graças dadflB depois aoAltisatDM porvícto- 
ria tão assigualada , que hnoava a, c^ttM u cabeça 
do Rei popular, e assegurava a iadcpNtdeteú de reino. 
A pintura dos costumes é um dos priocipaes deveres do 
Poeta Épico. 

Iguaes belleiías eDcontraremos iiq combate dosDaze de 
Inglaterra, um dos trechos mais valentes, e eoergicameD- 
te escrtptos, que se encontram em tedo o Poema dos|.u- 
siadas. Citarei somente os logares mais importantes, e 
notáveis pela expressão. - 

Já o'bum snblime, e público Theatro 
Se assenta o Rey luglez com toda a Corte, 
Estavam trez, e Irez, e quatro, e quatro. 
Bem como a cada qual coubera em awte. 
Não sam vistos do Sol do Tejo ao Batr» 
Se força, earov^, e d'animo mais forte. 
Outros doz» sabir como os logiqzes 
No campo contra os oníe PorRigaezes, 

Mastigam es Cavallos escumando 
Os áureos freios com feros sembrante . 
£stava d Sol uas armas rutilando 
Como em crystal, ou rigido Diamante. 
Mas enxerga-se n'hum, e n'outro bando 
Partido desigual, e dissonante 
Dos onze contra os doze ; quando a Gente 
Começa a alvoraçar-se geralmente. 

Viram todos o rosto aonde bavía 
A causa prrftcípal do retn^rço ; 
Eis entra bo&i Cavalteiro, que trazia 
Armas, Cavallo, ao beilico serviço. 
Ao Rey, e ás Damas falia ; logo se h\& 
Para os Oue, qne eslQ hera o gran Mftgriço. 
Abraça os Compaaheiroe como araigos^ 
A quem não firiía certo iws períg«e. 

I 

Diçpitizcii;,. Google 



uno T., CÂnTtILO' II. 279 

k tma mm wrM tpK mm htok pmme 
QM^Alwft defender MD none, eMaiat ' 
Se alegra, e reste ali do aoimal de Helle, ' 
Qae a Gsnle brota mais que a virtadc atua. 
já dam signal, e o soro aa tuba impelle 
Oa bflUhcMM aHimos, qne ioSaniD* : 
Vmm dre^pras, largam radén Idgi», 
Aboi^H* las{i9, fwe a tern togn. 

Doa CáTattos o estrepilú parece, 
Oíie fai qae o cbio debaixg todo treme ; 
O coraçSo, no peito, que estremece, 
De qnem os olha, se alvoroça, c teme. 
Qual d» CaraUo vda qnt nM deoe. 
Qual, e'o Cavallo en letra ii&aãiy, gome : 
Qual verasMiM as afinsB faz de bradcaa. 
Qual c'cP8 pmaofKs da Elmo aoonla a* awus ! 

Algum da Jí tomou perpetuo somoo^ 
£ fez da vida ao 6ía hreVe iutervallo, 
Correndo algum Gavallo vai se^ dooo, 
E ii'ou[ra parte o Dono sem Cavallo I 
Cahe a soiberba Ingleza do seu tbrooD, / 
Que dot»r oiti>tfes já fórx vam do vatio, 
Os que da espada vem fazer batalha. 
Mais acbaiB já que arnez, eeeudo, e malfaSt 

N3o conheço em EtfOpéia al^útna níaOernd um trecho 

superior a este em valentia de expressão, cm linguagem 

picloresca, rapfdet dé iiarra^ção, variada desposição de 

gnipos, belt^íi, i ítifiá dé rêrsiflcaçSo, c barmoiitá imi- 

laliva ! Vemos 

puma, aterrai 

lagnear nas ai 

ir Togo coiíi 

íaFallo, câbir 

m tintas de s 

a do golpe', q 

sancas do gi 

o meio desta 

Corresdo ãlganl oavalío vai sem dono, 
E D'outra parte o Dono sem cavallo! 



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280 XHSAIO BIOCffiAHlICO ClUieo, TWO III. 
E' ÍB(o o que se chama ser Poeta fiinlar ; é isto qae se 
chama pintar com sons, e mosuar os objoetos em yez de 
narra-los 

Cabe a soberba Ingleza do sen throDo.. 

NIo sei se neste verso é mais para lonrar o piet«reseo 
da imagem, ou harmonia imitativa, mas sei. qae é um 
verso excellente, um verso digno de Luiz de CamOes I 

Luiz de CamOes é insigne nas pinturas [^afitasticas, e 
mythologicas, em qae emprega o maís vivo, eengraçado 
colorido. Véja-sc a marcha dos Deoaes marílimos cooto- 
cados para o alcapar de Neptuno. 

Vinba o Padre Oceano accompanhado 
Dos Filhos, e das Filhas, que gerara, 
Vem Nereo que com Doris foi casado, . 
Que todo o mar de Nymphas povoara : 
O Propbeta Protheo, deixando o. Gado, ^ 
Marítimo pascer pela agoa amara 
Ali veio também ; mas já sabia 
O que o Padre Lieu no mar queria. 

Vinha por outra parte a linda Esposa 
De Neptuno, de Ceio, e Veata Filha, j 

Grave, e leda no gesto, e tão ronnosa: 
Qae se amansava o mar de maravilha, I 

Vestida huma camisa preciosa . j 

Trazia de delgada beatilha, 
Que o corpo crestalino deixa vèr-se, 
Que tanCo bem não bc para escondã:-se. 

Ainphylrite formosa como as flores 
Neste caso não quiz que falléscesse, 
O Delphim traz comsigo que aos amores 
Do Rey lhe acconsclhóu que obedecesse. 
Cos olhos, que tie tudo sam Senhores, 
Qualquer parecerá, que o Sol vencesse. 
Ambas vam pelamão; igua! partido 
Pois ambas sam Esposas de bum Marido. 

Aquelta, que, das fúrias de Athamanla 
Fugindo, veio a ter divino estado, . . 



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^UmO T., CiPIIDLO tt. 331 

CoQSigo traz o Filho, Itello infante 
No numero dos fieoses reatado. 
Pela praia bríncaBdo vem diante 
Com as lindas coDcliinhas, que o salgado 
Mar sempre cria, e ás vezes pela ariía 
No colo a toma a bella Paaopãa. 

Pôde piatar-se com mais viveza, e graça os costumes 
de ama crean^. 

E o Deos, qne foi D'um temi» corpo bomano, 
£ por TÍrtade de berva poderosa 
Poi convertido em peixe, e desle damno 
Lite resulloo Deidade gloriosa, 
Iftda vinha choraodo o feio eogano 
Que Circe tinha osado co'a formosa 
Scylla, qne elle ama, delia sendo amado. 
Que » mais obriga aawr mal empregado. 

Encontra-se neste trecbo a pintora dé Tritão, qae 15o 
clogiida tem sido pelos Críticos, e pelos Commeulado- 
res do Poema. 

TrilSo que de ser Filho se gloria 
Do Rey, e da Salacia veneranda. 
Hera Mancebo grande, negro, e feioi 
Trombeta de seu Pai, e seo Correio. 

Os cabellos da liarba, o os que descera 
Ba cabeça nos hombros, todos beram 
Hums limos prenhez d'agoa, c bem parecem 
Que Dunca brando peotem conheco-am, 
Nas poutas pendurados nSo fallecem 
Os negros Mexilhões, que ali se geram, 
Na cabeça por, gorra tinha posta 
Huma mui grande casca de Lagosta. 

O corpo nú, e os membros genitaes 
Por nao ler ao nadar impedimento, 
Mas porém de pequenos animaes 
De mar tQdos cobertos cento n ccnlo. 

Diçpitizcii;,. Google 



£82 BnsAi» BKMBApaiâft cainco, fdvo m. 
CamarSes, Carangacijos, e outrM m«is 
Que recebem de Pkebo o cresoímauo, 
Oâlras, e MexilbOes de ionsgo çujoè, 
A's coslat com a easca os Caramujos. 

Na mão a grande concht rebiA;ida, 
Que Imzia com força já locava 
A voa grande, e canora foi oBvids 
Por todo o mar, que longe retumba™. 

N5o qncm contradizer a apÍni3o de GwMz Fnreira e 
do Padre Francisco JoséFreyre, que claasifieaB esta pin- 
lura deexcelleoie bypotbipose, só direi que e meiito da 
execução á parte, desejava anles encontra-4a m Seekia 
fapila delassoni, do qne nos Lusíadas. Àeasca delagos- 
la scrvind» de gorra, os mexilhões, carangoeijos, oslras, 
e caramujos, que Tazera de Tritão uia embreMdo Tiven- 
le, eoadaale, T^mam um uwaslr» tão gruteseo, qneoie 
parece mais próprio para tigurar em uma composição bor- 
tesca, que na magestade d» Poeitia Épico. 

Nào parecem trapos do pittcel Grego aquelas com qte 
o Poeta nos apresenta a marcha de Vénus em demanda 
de Júpiter para o implorar a favor dos Portnguezes? 

Ouvio-Jhe estas palavras piedosas 
A formosa Dione, e eomoTida 
D'entre as Nympbaa se foi que saadostu 
Ficaram desta súbita partida. 
Já penetra «s Eslrellas luraiuosasy 
E na terceira esphera recebid» 
A'vanle passa, e )á no SejtoCeo 
Para onde estava a Padre se ndveo^ 

E como Ma afffttnlada do «irainho 
Tão formosa no gesto se loosírava. 
Que 03 Estreilas, o Ceo, c o Ar visinho 
E tudo quanto a via namorava. 
Dos olhos donde íai sea fitha o Hínho 
llums Espirilos vivos inspiíuva 
Com que os Polo* gelados âccentíta, 
E tornava de fogo a Esphera fria. 



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IITBO T-, CAPITULO 11. , S.tJ 

E por mais nusorar no Soberano 
Padre, de q«em foi scoipre amada, e cbara. 
Se lhe apresenta atsí «mo ao Troiano 
Na Selva Idéa já ae apresentÁra ; 
Si a vira o Ciçador, que o Tulta liumano 
Perdeo, vcodo Diana na agea chira, 
Naaca os hmiatóB Gal^s o mataram, 
Qoe primeiro desejos o acabaran. 

Os crespos fios de ouro se esparziam 
Pelo colo, que a neve cscnrecia ; 
Andando as Kicleas tetas lhe tremiam. 
Com que o Amor briaciTa, e nSo se via. 
D'alva petríoa lluninias lhe salir.im, 
Onde o Mioino as almas acccndia, 
Pelas lisas columnas Ibc trepavam 
Desejos, que como Qcra se enrolavam. 

Cbum delgado cendal as partes cobre. 
De quem vergonha he natural reparo ; 
Porém nem tudo encobre nem descobre 
O vco de roxos lyrios pouco avaro. 
Mas para que o desejo accenda, e dolirc, 
Lhe põem dianlc aquelle objecto raro. 
]á se sentem no Ceo por toda a parte 
Ciúmes em Vulcano, Amor em Marte. 

E moslraiul* no angélico semblante 
Com riso uma tristeza misturada 
Como DaiBa c^ab foi do imcauto amante 
Em brincos amorosos maltratada. 
Que se aqueixa, e se ri no mesmo íostante 
£ SC torna entre alegre magoada, 
Desta arte a Deosa, a quem nenhuma iguala, 
Mais mimosa que triste ao Padre falia. 

O qne ninguém igual» é esta poesia deliciosa, e a qae 
seáepára no trecho bellissimo, e original em qoe o Poe- 
ta deseíflve a Estanca dos Amores na Idalia, e os seus traba- 
lhos, e os Esus escrcicioB. 



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3S4 BUSMO BIOWWBICO CRITICO, TOMO IH. 

Muitos destes Mioinos voadores 
Eâtam èm vmm obras trabalhando, 
Hums amolando os ferros passadores, 
Uulros bastas de settas de^açaodo. 
TrabalbaRdo, cantaado estam de amores 
Varias casos em verso modulando, 
Melodia senora, e concertada, 
Suave a letra, angélica a toada. 

Nas fragoas immortaes onde Torjavam 
Para as settas as pontas penetrantes 
PoF lenba corações ardendo estavam, 
Vivas entranhas inda palpitantes. 
As agoas, em que os ferros temperavam 
Lagrimas sam dos míseros amantes, 
A viva chamma, o nunca morto lume 
Desejo he só que queima, e não consumei 

Mosirem-mc em algum Poema moderno uma EsUaça, 
que emparelhe com esta uas idéas, no engenhoso da ale- 
gwia, oa graça das imagens, na originalidade, na força 
de expressão, e na elegância de linguagem, e melrol 
Quando leio estes, e tantos outros trechos semilhaotes, 
de que abundam os Lusíadas, confesso que me falta o 
animo para accusar o Poeta por haver lanhado mão de 
om nieravilhoso, que lhe forneceu bellezas de tão subido 
preço, 

Voltaire, que de cerlo sahía sentir, e conhecer a hoa 
poesia, diz faltando do Episodio do Adamastor, noseuEo' 
saio sobre a Poesia Épica. « Lòrsque la Flolte est prelê á 
doubler le Cap de Bouse Esperance, appellé ators lePro- 
meutoire des tempéles, on appercoit tout-a-comp nn for- 
iiiidahle ohjet. Cest ub Fanlomc, qni s^elcve du foad 
de la mer. Ta lele touehc aux nues; les tcmpeles, 
les Veats, les meteores sont autour de Ini , ses bras 
s'ctcDdeiit UQ loin sur la sarfacc des flols, ce raonstre, 
00 ce Dieu est le Gardien de cet Océaa, dont aucirn 
Viiisseau uavail cncors fcudu les flots. II menacc la 
llole, il se plainl de Taudace des Portugais. qoi vien- 
iicut fui disputer lEmpire de ses mers . il leur aononce 
loutcs les calamilés « quils doivent esisaycf dans ieurintre- 



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1J?H0 V., CAPIIOLO n. 235 

priso. Cila esí g^rand cn tout Page sons doutt. » E qne 

ootn consa p6de diíer-se qaaBdo se encontram vcrsov 
como estes. 



HuDia nuvem que os ares escurece 
Sobre nossas cabefas apparece. 

Tão temerosa vinha, e carregada. 
Que poz nos coraçOes um grande medo, 
Bramindo o negro mor de longe brada 
Como se dera em vão n'algam rochedo 
«Ob potestade (disse) sublimada, 
■• Que ameaço divino, on que segredo 
«Este clima, este mar nos apresenta 
"Qne mòr cousa parece que («rnenta?» 

Não acabara quando bama Figura 
Se nos mostra no ar robuEta, e válida. 
De desforme, e grandíssima estatura, 
O rosto carregado, a barba esquaUida ! 
Os olbos encovados, e a postura 
Hedonba, e má, a cAr terrena, e pallida. 
Cheios de terra, e crespos os cabelloe, 
A bocca negra, os dentes amarellos. 

Tão grande hera de membros, que bem posM 
Certiticar-te qne esle hera o segundo 
De Bhodes estranhíssimo Collosso, 
Que bum dos sele milagres foi do Mundo. 
Com tom de voz nos Tiilla horreudo, e grosso. 
Que pareceu sahir do mar profundo, 
Ãrrepiam-se as carnes, e o cabello 
À mim, e a fodoB só de ouvi-lo, e vã-iu- 

E disse '^Oh Gente ousada mais que quantas 
"No Mundo commeltcram grandes cousas, 
"Tu, que por guerras cruas, taes, e tanlaii 
•' E por trabalhos vãos nunca repousas, 
•' Pois ós vedados teminos quebranlasl ' 
" E navegar meus longo» mares cQfa.oi 



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ENSAIO BI06UPHIG0 CRITICO, TOUS Itl, 

•> Que tanto tempo lia já que gnardo, t tenho, 
" Nunca arados de estraotio, ou próprio lenho. 

» Pois vens a vér segredos escondidos 
«Da Natureza, e do liorrido elemento 
•• A uenham graode humano concedido» 
••De Qobre. os de immortal merecimento, 
" Ouve os damoos de mim, que apercebidos 
" Estam a teu sobejo alrevimeulo 
•> Por todo o largo mar, e pela terra, 
« Que inda hasde subjugar oom dura guerra. 

"Sabe que quantas Naus estn viagem, 
u Que tu fazes, tizerem de atrevidas, 
" Inimiga terão esta paragem 
" Com Ventos, e tormentas desmedidas, 
"E da primeira Armada, que passagem 
" Fizer por estas cwdas insoffridas 

En farei de improviso tat castigo 

" Que seja mór o damno, que o perigo. 

•• Aqui espero tomar, si nSo me engano 
« De quem me descubrio summa viBgaaça, 
■' E não se acabará só nisto o damno 
"Da vossa pertinace confiança. 
" Antes em vossas Naus vereis cada anno 
« Si he verdade o que o meu jnizo alcança, 

1 NauFragiog, perdiclíes de toda a sorte, 

•■ Que o menor mal de todos seja a morte. 

«E do primeiro illustre, que a Ventura 
« Com fama alta fizer tocar os Ceos, 
•• Serei eterna, e nova sepultura 
" Por juízos incógnitos de Deos. 
"Aqui porá da Turca armada dura 
•' Os soberbos, e prósperos iropheos, 
" Comigo de seus damnos o ameaça 
" Destruída Quiloa, com Mombaça. 

« Outro também virá d'boDrada fama, 
« Libend, Cavalleiro, namorado, 



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Linie V., apucw ii, 5R7' 

o E comigo trará formosa Dama, 
-Que amor por graa mercê Ibe haverá dado. 
"Triste veutnra, negro fado os ctiama 
«Neste lerreuo meu, que duro. e irado 
-Os deisará de tium cni nanfragio vífos 
o Para vereaa trabalhos excessivos. 

" Verão morrer com fome os filbos charos 
<• Em tanto amor gerados, e nascidos, 
» VerSo os Cafres ásperos, e araros 
•< Tirar é liada Dama os seus vestidos, 
"Os cristalinos membros, e preclaros 
u A.' calma, ao frio, ao Sol verão despidos: 
•• Depois de haver pisado longamente 
-Cos delicadas pés a iréa ardente, 

" £ TerSo mais os olbos, que escaparem 
«De tanto mal, de (anta desventura, 
"Os dons amantes miseros ficarem 
« Ma fervida, implacável espessura, 
" Ãli depois das pedras abrandarem 
" Com lagrimas de dòr, de magoa pura, 
" Abraçados as almas soltarão 
"Da formosa, c misérrima prísSo. 

D. Leonor de Sá nSo espirou nos braços de seu marí- 
doHanoel de Sousa deSupulveda; mas oPoela com oex- 
celIcDle tino, de que era dotado, não duvidou em alterar 
a historia nesle ponto para tornar mais patbelica a sua 
narração; é isto o que Gaiilicrme Sclilegel chama traus* 
portar a verdade histórica para a verosimilliança da 
poesia. Compare-se eslequadro tão terno cum o que ira- 
fou Cúrle Real do seu Poema, e se verá a grande díHe- 
renpa, que se dá entre o grande Poeta, c aquclle que o 
deseja ser. 

Mais bia por diante o Monstro borrendo 
Dizendo nossos fados quando alçado 
Lhe disso ou "Quem bes tu, que esse esfupend* 
" Coi^o, certo me teu meravilhado. •■ 
A bocca, os oibos negrofL retorcendo. 



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3S8 ElfSAI» BIOSBAPHICO CRITICO, TOHO III. 

E dando buiu espautoso, c grande brado, 
Ne resftondeu com voz pesada, e amara 
Como que da perguDta lhe pesara. 

•> Eu sou aqoelle occulto, e grande Gabo 
» A quem chamais vós outros tormentwio 
"Que nunca o Ptolomeu, Pomponeo, Slrabo, 
" Plínio, e quantos passaram fui notório, 
"Aqui toda a Africana costa acabo 
u Neste meu nunca visto Promontonoj ' 
•' Que para o Polo AniarCico se estende, 
<> A quem vossa ousadia tanto ofende. 

•• Fui dos Filhos aspérrimos da Terra 
•' Qual Encelado, Ggeo, e Centimano, 
«Chamei-me Adamastor, e fui na guerra (*) 
•■ Contra o que vibra os raios de Vulcano. 
"N3o que pozesse Serra sobre Serra, 
"Mas conquistando as ondas do Occeano, 
" Fui Capitão do mar, por onde andava 
H A amada de Neptuno que eu hnscava. 

" Amores da alta Esposa de Peleo 
" Me fizeram tomar tSo grande empreia, 
" Todas as Deosas despresei do Ceo 
" Só por amar das agoas a Princeza. 
<■ Hum dia a vi co'a8 filhas de Nereo 



" Que inda nSo senti cousa que mais queira. 

' (•) Jaté Agoatínho de Macedo em umFulheto em que 
peitende provar, çwc o Episodio do Adamcator é o maior 
entre os deipi-opoiHoi de Luia de ComSet, dii , qoe o nome 
do Gigante 6 furlado ds Giganloniacbia de Clandiano, e 
niito dii uma faltidade , e um detpropoaito , porque o éi- 
gante, d« que falta Claudiatio, chama.ie Damaiíor, c 
uSo Mamattof, 

Ssvua quB Damaitor, 
Ád depelletidoa jaoulum dum quiereret boitet, 
Germaoi rigidum rnUit pru rupe cadáver. 



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J 



Mno T., camu> a. ate 

» Como tosse impossível aleaBca?^ 
»P^a grandeza feia do meu gesto, 
H Determiaei por armas de loma-^a, 
R £ a Doris este caso manifesto. 
» De medo a Deosa então por mim Ibe falia, 
" Mas ella com formoso riso honesto, 
«Respondes : «Qual será o amor bastante 
"De Nympha, qae sustente o de hom Gigante? 

«Com tndopor lirrarmos o Occeano 
«De tanta gnerra, en basearei maneira 
«Com qne com minha honra esqníre o damno. 
» Tal resposta me torna a mensageira. 
H Eu qne cafair não pude neste engano, 
•I Que fae grande dos amantes a cegueira! 
- Encheram-me com grandes dinndanças 
•• O peito de desejos, e esperanças. •> 

O engano estava na equivoca intelligencia das palavras 
deThetis, qne tanto podem significar " Imseam maneira com 
jne tcile o damno á cwla da minha honra « como ■< busca- 
rá maneira de evitar o damno por modo que me faça hoa- 
m-mas geralmente estas phrases de sentido doble tò 
tem bom logar na Poesia Cómica, e desdizem da digni- 
dade do Poema Heróico. Quanto ao verso 

Eu que cahir nSo pude neste engano, 

deve adverlir-se qne a pbrase cahir no engano, que ho- 
je significa deixar enganar-se, vale aqui detcobrir o en- 
gano, que era a accepção que tinha no século do Poeta, 
nigto pôde vér-se de muitos exemplos dos Clássicos. 

» lá néscio, já da guerra desistindo, 
«Biima noite de Doris promettida 
« He apparece na praia o gesto lindo 
« Da branca Thetis, única, despida. 
" Como doado corri de longe abrindo 
<• Os brafos para aquelta, qae era vida 
«Deste corpo, e começo os olhos bellos 
<• A lhe beijar, e as faces, e os cabellos. í 

19 



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290 ENSAIO BI^GUraCO CVVCOí JWO UI. 

•< Oh 1 que não sei de nojo como o conte ; 
i> Qne, crendo ter uos braços quem amay», 
H Abraçado me achei com duro monte 
» D'aspero malto, de espessura brava. 
M Estando c'hum penedo fronte a fronte, 
•> Que eu peto rosto angélico apertava, 
" Não Sqoei Bomem, não 1 mas mndo, e qaedo, 
u £ junto de hnm penedo outro penedo.. 

" Oh Nympha a piais formosa do Occeano, 
•< Já que a minha presença não te agrada, 
1 Que te custava ter-me neste engano, 
" Ou foese monte, nuvem, sonho, ou nada í 
'< Daqui me aisirto irado, e quasi insano . 
«Da magoa, e da deshonra ali passada, 
•• A buscar outro Mundo, onde não visse 
» Quem de meu pranto, e de meu mal se Tísse. 

'I Heram já neste tempo meus Irmãoa 
. •• Vencidos, e em miséria extrema postos, 
•< E por mais segurar-se os Deoses vãos 
« Alguns a vários montes soltopostos. 
•• G como contra o Ceo não valem mãos, 
« Eu, que chorando andava meos desgostos, 
M Comecei a sentir do Fado imigo 
u Por meus atrevimentos o castigo. 

•• Converteu-se-me a carne em terra dnra, 
" Em penedos os ossos se fizeram ; 
«Estes membros, que vez, e esta Figura 
•• Por estas longas agoas se estenderam. 
•• Em fim minha grandíssima estatura 
« Neste remolo Cabo converteram 
<• Os Deoses, e por mais dobradas magoas, 
•• He anda Tbetys cercando destas agoas. •> 

Assim contava, e com medonho choro 
Súbito d'aQte os olhos se iiparton, 
Desfez-se a nuvem negra, e com sonoro 
Bramido, muilò longe o mar sdou. 

Idéa, estyto, lÍQgaagem, íoveação, affeclos, colohdo, 

Diçpitizcii;,. Google 



uvié V., CAtmi» II, 291 

Tersos, harmonia imitativa, tndo joalifica os tourorcs e 
enthusiasmo, com que Voltaire , La Harpe , Ddille Mi- 
cUe, Boutervéeck, Sismondi, e os mais abalisàdos Cri 
ticos tem proclamado este Episodio pelo miis snbiimê 
rasgo nSo só dos Lusíadas, mas da Epopeia moderna e 
é neceraario ser José Agostinho para nlo ter peijo de dí- 
Kr, que a Fabula de Aitnastor era o Mowr áttoropoiifo 
Jf todos os deipnpontos de Lmi de Camõa! UodeVoío 
disse a respeito de MilloB tamanha heresia literária ta^ 
manha blasphemia contra o bom senso, e foi otodemaa- 
do a desdizer-sc no Pelourinho. Estou bem kmee de ap- 
proTar o fanatismo, que dictou estó sentença ; detesto tfr 
dl a casta de fanatismo, e o literário tanto como os oa- 
In», mas nSo posso abster-me de rir do Zoilo, que profe- 
m esta infâmia, e dos Semidoutos, qne tiveram a baixe- 
la, oa a ignorância, de applaudi-la. 

Na mesma plana em qne collocam peto sublime a Ffr 
bola de Admastor, collocam os Críticos pelo pathcUco o 
quadro da morte de D. Igner de Castro, em qae o Poe- 
ta empenhou toda a suavidade do seu eslylo, e o caudal 
da temera, qne trasbordava de seu corafâo, naturalmeti- 
le apaixonado ; quasi a par destes dons trechos origi- 
Mes, e admiráveis, podemos por o sonho d*El-Hci O. 
MaDocI tao cbeio de imaginação , e de Poesia ; mn Poo- 
m, qne contem taes beilezas, é um magnifico padrão d« 
gloria nacional, que a foice do tempo não tem forca pa- 
ra dMlraip "^ 



ici ueijiruir. 

Uma das cousas, qneVollaire notou nos Lnsiadas como 
admiráveis, foi a formosura, e perTeiçlo do eslylo; e ra- 
iâo teve, porque ali a cada passo se encontram idéas ex- 
pressadas por Dm modo Ião novo , e tão brilhante , que 
sorprebendem , e arrebatam a quem tem coraçio para 
senti-las. Citarei alguns exemplos : eis aqui como oMon- 
ro Moofaide designa ao Çamorim a Religião Christãa. 
Tem a ley de hum Prophela, que gerado 
Foi sem fazer na carne detrimento 
Da Uãi, tal que por bafo está approvado 
Do Deos, que tem do Mundo o regimralo. 

Vejamos agora como Vasco da Gama expliea o mes- 
Do objecto. 
19*^ 



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292 SK3AI0 BieGBAPBiee CBIIIGO lOHO, 111. 

A Ley tenho daqnelte, a cujo império 
Obedece o visibil, e invisibil, 
Aqv^le, que creou todo o Bemispherío, 
Tudo o que sente, e todo o inseosibi) ; 
Qae padecea affronta, e victoperio 
SoCreudo morte injusta, e insoaríbil, 
E que do Ceo á terra em fim desceo 
Por subir os morttes da Terra ao Ceo. 

' Direi de passagem, qae estes ultrmoB versoi Toram ap»*' 
lotados por Dryden na sua formosa Ode a Santa Cicília. 

He rais'ed a mortal lo the skies, 
She drew an Angel down. 

Estas duas expressSes sam excelleotes, e próprias das 
diversas circumstancias das pessoas, qae as proferem. Hon* 
çaide. que é um Mouro, Talla de uma Religião, que the 
i estranha, e que só conhece por tradicfSo, e caraterí- 
sa-a poi- um Tacto isolado; mas Vasco da Gama, que pro^ 
fessa oChrístianismo dá uma idéa breve, e clara dosseos 
fundamentos. 

No Canlo 1. um Uouro de Moçambique , faltando de 
Uahomet, desigaa-o por esta periphrase. 

Nós temos a Ley certa, que ensinoa 
O claro Descendente de AbrahSo, 
Que agora tem do Mundo o Senhorio, 
A Uâí Hebrea teve, o Pai Gentio. 

Pôde acaso indícar-se mais poetícamente olsiamisnw,* 
e o seu Propbeta i 

Que Poeta soubera pintar asam a estranheza de am 
Povo Bárbaro, ouvindo pela primeira vez o estrondo da 
Artelbariã. 

As bombardas horrisonas bramavam 
Com as nuvens de fumo o Sol tomando, 
Amiudam-se os brados acceadidos, 
Tapam co'a8 mãos os Mouro» os ouvidos 



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IIVM V., CAPimo II. 9í)3 • 

Qide ha Toraos mais fornow», e engTMrios qae es- 

Pelas líMS coIamoBs lhe trepHvim 
Desejos, que, somo Hera, w eorolaTam. 



Accende-se o desejo, que se ceva 
Nas alvas carnes sabito mostradas. 



Hiam-se as sombras lealas desfazendo 
Sobre as flores da terra em frio orvallia 

O Tento dorme, o mar, c as ondas jazem. 



As Filhas do Mondego a morle escura 
Longo tempo chorando memoraram 
E por memoria eterna em fonte pura 
As lagrimas choradas transformaram, 
O nome lhe poieram, que inda dura 
Dos amores de Igoez que alí passaram. 
VMe qne ft-esca fonte rega as flores, 
Qne as lagrimas sam agoa, o nome amores I 

(a Estanca é digna de Ovídio. 

Qne bwa fraco Rey fu frtM a forte G«Bte! 

Qawa cono AstiâHax preoipilado, 
■ Sem lhe valeruD Ordens, da alta l«rre ! 
Quem nem ordens, nem aras, nenj respeito ! 
Qnun nú por ruas, e em podoços feito! 

A plnmbea péla matta, o brando espanta. 
Ferido o ar retumba, e assovii^ I 



A branca areia as lagrimas banharam, 
Que em maltidão com ellas se igualavam. 

Vimos as Ursas, apesar de ]ooo 
Banharem-se nas ondas de Neptuno. 



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* 294 msAio liwiunnco cmtigo, tomo m. 

Seria necessário copiar pelo menos trez quarUs parles 
do Poema, si quizessemos apontar todos os trechos, qoe 
nelle se encontram notáveis por aquella noTÍdade de ei- 
pressão, e bizarria de cAres, que os mestres da arte de- 
nominam poesia de estjlo, dote muito mais raro de eo< 
coutrar n'um Poeta , qae a faculdade de bem dispAr a 
matéria, e o joizo, e solidez dos pensamentos. 

Foi também CamOes oprimeiro, que iatrodnzio em nos- 
sa lingna apoesia discriptiva,'derramando-a profasamea- 
le no sen Poema. Tinha em suas longas peregríaaçSes 
tido sobejo logar, e tempo para observar a Natureza de- 
baixo dos differenles aspectos, em que ella se apresenta 
nos differeutes climas, e desvairadas regiões doHundo: 
é por isso que elle retrata com eicactid&o, e energia m 
variados pbenomenos, que observara, achando sempre pa- 
ra exprimi-los os vocábulos mais próprios, oue nunca 
faltam a quem falia de objectos, que conbece bem. 

Quem nSo se arrebata vendo como elle nos pinta a eva- 
poração das aguas do Occeano condensando-se em novcos 
na atmosphera, e produzindo as mangas Ião perniciosas 
aos navegantes, e os fogachos, oureverberaç&es eléctricas, 
que os antigos julgavam annuncíar a presença de Castor, 
e Polnx, serenadores das tempestades, e que os nossos 
marinheiros denominam fogo de Sanlelipo. 

Vi, claramente visto, o luine vivo, 
Qae a marituie gente tem por santo ; 
£m tempo de tormenta, é vento- esqnivo, 
De tempestade escora, e triste pranto ; - 
Nem menos foi a todos excessivA 
Milagre, e consa certo d'alto espanto, 
Vér as nuvens no mar, com largo cano . 
Sorver as altas agoas do Occeano. 

Ea o vi certamente, e não presumo 
Que a vista me engábaVa,* leVautar-sè 
No ar hum vaporsiuho, c subtil fumo, 
E, do \'ento trazido, rodcar-se. 
Daqui levado hum cano ao polo summo 
Se via, tão delgado, que enxcrgar-se 



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• uno T., CApmtLoii.' 295 

'- Dos Mbos faoitmtaié ido podia, 
Da matéria das aoTens pareraa. 

Hia-se poDco a pouco accrescenta&do, 
£ mais qaè kum largo iDastro se engrossava ; 
Áqni se estrala, ali se alarga qaando 
Oa golpes grandes d'agoa em si cbapava, 
EstavaHBe eo'as oadas «ideaDido ; 
Delia em cima orna nu?0m se espessava, 
F,azeDdo-Se maior, mais carregada 
Co cargo graade d'Bgoa em si tomada. 

Depois desta pinlora ião yiva, e tão própria , iodji o 
hiéta aoba meios de realça-^, applicando-lhe nma cóm- 
pancao tio JDSta, coom elegatatemeole expressa ; é, oque 
é mais, original, e Slha toda do seu gnude eogenho. 

Qeal roxa Saognessnga se reria 
Nos beiças da Alimaría, que imprudente 
Bebendo a recelheo na Tonte fria. 
Fartar c'o sangue alheio a s(de ardente. 
Chupando mais, e mais se engrossa, e cria, 
Ali se eoehe, e se alarga grandemente. 
Tal a grande columna enchendo augmenta 
A si, e a nuvem negra, que sustenta. 

José Agostinho de Macedo sempre promplo a deprimir 
o mérito do Homero Lusitano, tentou negar a originali- 
dade desta comparação, disendo qne era traduzida daquel- 



IVm tnâmra aittm nisi plena eruoris, hirudo. 

Esta asserção é nma perfídia. Horácio comparou a te- 
nacidade de um recitador impertinente, que não larga a 
pessoa, que involuntária o ouve, sem ter acabado de lhe 
iêr lodos os versos do seu canhenho, com a tcuacidade 
dabicba, que nSolarga apelle, si não depois de farta de 
sangue, eCamCcs explica omcchanismo, com que se for- 
ma a manga, attrahindo, on chupando, como elle diz, o 
vapor do Occeano pelo mechanismo, com que a sangucssu< 



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t96 ENSAIO kUeUFBICO GRmCO, TOMO III. 
ga extrabe o sangue por meio da incçSo : doas cobw 
inteiramente diversas , e qse o Zoilo eSo uitendea, ob 
maliciosamente confandio. 

Has depois qne de todo H fartoD, . 
O pé, que tem no mar, a si recolhe^ 
£ pelo Ceo cbovendo em fim ydoa 
Porqne co'a agoa a jace&te agoa molhe, ' 
A'i ondas torna as ondas, que tomou, 
Mas o sabor do Sal lhe lira, e- telhe. 
Vejam agora os sábios na Escnptara, 
Que segredos sam estes de Natura! 

. E"lre os mais bellos trechos deacfiptivos de Qimtiei 
uotam-^se com preTerencia a d^crípçSo da Eoropa, da 
Espheni Celeste, dos Paços de Neptuno, da Te»peílad^ 
e sobre tudo a da liba dos Amores, muito superior sem 
dúvida pelo colorido, e naturalidade á da liba de Alcina, 
no Ofíanáo Furioso, de Ariosto, e á do Jardim de Armi- 
da, na Jerusalém Liberiada, de Torq^ato Tasso. 

Mes ainda que ninguém estima, e adipira mais doqoe 
eu o prodigioso gento de Luiz de Cam&es, que tantos 
serviços fe; á Poesia, e á Língua Lusitana, ainda qne o 
considero- como um dos deus maiores Poetas Porlugneíes, 
e nm dos poucos épicos de prinieirji or^eqi da Europa 
moderna, nao é tflo cega a minha admiraçSo por elle, 
que degenere em enthusiasmo freoelico, que pretenda svs- 
lenlar rediculamente, que o sen Poema nâo tem defeitos; 
BI tal fosse teria elle goiado um privilegio, que atégwa 
nenhum homem gozou, nepj gozará. A gloria dos ^ran. 
des Escriptores não está, corao bem adveilio Longino, 
em nao ter defeitos, mas em ter produzido numeto^bellc- 
zas de primeira ordem, que desculpem , e obscurépam es- 
Ses defeitos : as-faculas, e manchas que ás vezes obsw- 
vamos nodisce do Sol, não impedem qne elle s^a onais 
brilliante de todos os Astros, pelo menos em relação aos 
habitantes do nosso Planeta, 

Pôde alguém uegar que nos Lusíadas os quadros ma- 
rítimos eslam mais bem pintados, que oslerrcstres? Qoc 
a pintura da Ilha dos Amores, perfeitissima, si a consi- 
deramos isoladamente, deixa muito a desejar considerada 



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lITâO V., CAUIBU» II. 297 

íoiBo Episodio do Poema ! Pelo menos eu desejara , que 
nn Tci de o Poeta me apresentar ali nma floresta , que 
pôde aer, se qniierem , o jardim de Vénus em Chypre» 
díodo de avesso a todas as suas remiDiscencíaa clássicas 
tmylhologicas, me transportasse a uma floresta virgem 
da Ásia, nutrida de toda a riqueza selvática da rica ve- 
getarão dos Trópicos, e que as arvores, as plantas, e as 
flores, que a embelecem alardlassem o caracter particular, 
easfónaas que as dtffereoíam das arvores, das flores, 6 
das plantas da Europa. 

Qaiz«ra igoalmenle que Luiz de Camões tivesse tira- 
do maior partido do Islamismo , das Ceremooias da Be- 
ligiio Braminica, e dos Costumes Orienlaes. 

Nb Caulo oitavo, e nono nos ioforma o Poeta de que 
esUogros instigados contra os nossos pelo ódio religt«so, 
epdo dane dos interesses commerciaes, de que até 
aH hariae Teito monopólio, sobornaram os Catuaes para 
uibaraçar o despacho do Gama, e talvez para destruir a 
frota no porto de Calicut: é isto certamente o que me 
díi a historia ; mas eu quereria que o Poeta tr,in!>porta85e 
aiiaí a verdade histórica para a verosimilliaiifa poética ; 
drunatoasse este facto, e dos fecsse assistir aos ceoci- 
liabiilos dos Sarracenos , e dos índios; escutar as suas 
discussões, e expAr os motivos das suas intrigas, e os 
laeíos, com qne contassem para leva-las ao cabo. Parcce- 
me qoe MoDçaide aíTeiçoado aos Portuguezes, que tantos 
serviços lhe fez, e qne os segyio á Europa abrofando a 
idigião Christã, podia representar nisto um papel l2o 
^tlba^ule, como AlMliel no couciliabulo dos Demónios no 
Paraiso Perdido de HiJton. 

Também ne parece , que o Gama faz uma Irislissjma 
figora épica qsaado reconhece 

Qoe elle nSo hera mais que hum Diligente 
Descobridor das Terras do Oriente. 
E quando 

Escreve a seu IrmSo, qoe lhe mandasse 
A fazenda com que se resgatasse. 
Qvanto á verosimilhança nSo dwxa de baver nos Lu- 
fadas alguma cousa digna de censura. As façanlias do 



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298 KKSAIO llOGEAPBIfiO CimflO, WWO III. 

tàmvs Usitabos aBtigos, e modenios pintadas nas biã' 
dwres sam iDíBBçao desgraçada , porque nas bandeira» 
Banca M piotam senão armas dos Priacipes , oo das Na- 
ções aqwem ellas pertencem : a^neilas memorias sòpodfr 
riem ter logar em painéis, on em tapeçarias, qne gasne^ 
cessem a camará do CapilSe. ,. . , „ 

Desgosta também que o zelo religioso de CainOes o li- 
basse a faier que o Gama, contando ao Hei de Meltnde I 
Hisloria de Portugal, todas as Tezes que falia em Meons 
lhe applique os cpithelos de nefandos, tdrâontt, íorpii, 
(íle*, perros, tA» se lembrando qse fallaT» com sm Prin- 
eipe Mabomctw», e qne este o recebia cwn unta affiba- 
lidade, e agasalho ; isto 6 peccer nSo só c^ra o decw» 
poético, roas contra as regras da cirilidade, e boa cria- 
ção* mírs serSo taes estes defeitos, qoe (Ascareçio a gjo- 
m do Poeta, e façam dos Lusíadas bbm Obra secoad»^ 
ria? NSo, responde a admiração de Irez secolos, eessa 
admiração me parece um abono segoro da perpetoidade 
da sna fama. 

A estima, e o applaoso das Obras de CamSes, e mnito 
especialmente dos seus Lusíadas, tem progredia), e ang- 
meirtado na ratóo directa doe progressos do bom gosto, 
da boa erilica , e das sciencias ; porém essa estima pá» 
vergonha nossa, é ainda maior entre os Sstrangciros, que 
entre os Portugueses, scmpi'e tíbios apreciadores das pró- 
prias riquezas. 

Foi neste secnlo, epocba a mais brilhante da gloria d< 
Camiíes, quando o sen nome era proDunciado com mais 
respeito entre «9 naçOes da Europa , qoaado os Crítiois 
Alemães, Inglraes, italianos, c Francezes se eecupara» 
em analysàr as soas bellezas, quando acabav» de ap^ 
reeer em Inglaterra a nova traducção deLord StrangfMd, 
e na Ilalia a deBricolani, qne entre nós se ergaeo do pá 
da terra um charlatão literário blasonando de aniqmllv 
o que elle chamava a maldita Siila Camomaiut, qnteU 
por moda se hia propagando .peia França. 

Esta mania lhe fez produzir não s6 os Artigos do Es- 
pectador, mas dous grossos volumes recheados de absur- 
dos, inepcias, ignorância, calumnias, e desaforos coaln 
Camões. Ahi existem impressos para perpelao ludibrio, 
e vergonha de seu aiilbor esses dous volumes, e o Dis- 



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^Pç^iminar do Poema Orimie; porúB esse Poetna 
éuHte Jul^o. ea mais hourftso para o dosso Poeta, que Uh 
m os louFores, qae lhe prodigalisoa Faria e Soiwa. íuh 
S^Ofs qae asna composição Toi uma rigorosa penitencia, 
qiie José Agostinho se impoz pelos seus peecados lilera^ 
lios contra Camfies. PAr aquelle Poema ao lado dos Lu-, 
laíts rpi dizer t eíe aqoi o que. de um assumpto difiicil 
uDit nm bomem de geoii»; eis aqui o que delle tirou, um 
«creviuhador sem talento ; ^irva o oada, que ou Iíe, de 
{HilO;de4»mpara(ãp para se conhecer o muito que fez 
loiz de Camões. « Pebaiso d<esle ponlo de visu, deve 
coBlje^r-se quç José Agostiabo de Macedo foi o mais 
generoso dos Criticos. 

Ainda ha pQuco a Inglaterra levantou uma Eiilalua a 
Sir Waller SÍEotM-> £ nanea chegará o tempo de pagar- 
mos a nossa divida de gratidão ao roais nacional , c ao 
mais mtriptico dos nossos Poetas t Ficario os ossos do 
Bom^o Púttuguez perpetuamente esquecidos sob o altar 
dD cdro debaixo do Convento de Santa Aana ? Nio serão 
jamais transferides para um tumulo decente, que todos 
conlenaplçp}, que desperte a veneração dos seus coaipa- 
triot^, einflanupe novos g^ios de briosa emularão ?> 
CootinuaFQmos a ser por muittt tempo a respeito das bel- 
las artes, e com. especialidade da poesia 

TSo laáes, e de engenho tio remisso, 
Que a muitos dará pouco, ou nada disso. 

Como elledizia dos 5«us contemporâneos, no seio da mi- 
séria, e da angustia ? 

Effl mil oiio ceaLte, e dezoito, alguns admiradores de- 
Camlies, Inglezes, e Portugaezes residentes em Londres» 
ordenaram uma subscrição para levantar um monuménU), 
onde descjtacassem lioorosamente os ossos do cantor des 
nossas gkrias ; o celebre professor João Uuniinjiives Bou- 
lempo foi iocombido da composição da uiusiiu yira aa 
tsechias, e tinha jé desempenhado esta bouru^i coiumis- 
s9o por um modo digno dos seus talentos ; iiki- ({uaiido 
Be diligencjoi) m líoeofa (ura se levar a elffíio < su cm- 
preza, foi ella denegada pelo judicioso aiviwu i; ' que o 
!tíoHttmenio Aavia de w «i* rraçu i'»blua .'.' 



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300 nrsAio iiosMrHioo cuTim, toho in. 

Mr.Ãdamson nasuaYida deLoisdeCarages, obraebeia 
de erudição, de boa crítica, e qae mostra nm proFondà 
GODhecimekto da Literatura Portogueia traz nina longa 
lista de todas as tradaeçSes dos Lnsiadas em Latim, He9> 
panhol, Italiano, logtez, Fraacez, e AtemSo, transcreven- 
do de todas ellas a morte de O. Ignez de Castro, eicep' 
tuande, a que Sulpicio Goubler Éimait, Major da Pr»^ 
ta de Lisboa, Rzera dos Episódios de Ádmaslor, t D. 
Igoez de Castro, que etie affiraia qne, apesar de todas 
as diligencias, não podéra descobrir, mesoio ein Portir- 
gal, onde as fizera procurar. E' na verdade rara, e co- 
mo possuo nm exemplar desta tradnçio com ella tenin- 
sarei o qne tinha a dizer á cerca de CamOes. 

LA MORT DINES DE CASTRO. 

Ta vivais, belle laés, et tranquille, et contente. 
Tu cueillais les doux fraits d'uR age ou toBt enobaste, 
Dans cette errem de Tame, et ce calme trompeur, 
Doat le sort rint biratot farracber ja faveur. 
Anx bords da Mondego sereíns, et pfeiM de ebannes, 
Que les beaux yeux tonjonrs moailletenl de quiques larnes, 
Aux RHHits, anx prés, aux bois, á Ia plus (entke flear 
Tu repelais le nom le plus cher á ton coeur. i 

Pédre etait toio de toi, mais te voiaít sans cesse, 
Du plus doHx souvêiâr il paioit ta leudresse, ' 

Lti muit, d'un songe beureuv la seduisante erreor, i 

Enoivrait ses esprits, fofTrail á son ardeur : 
Le joar, ses tendres veux. ses soupirs, ses pessées 
Volaint jusqnes á toÍ, sur l'aile des idèes, 
Objets, soDges, desirs, tout porte dans soa ccenr , 

L'empreinle de fa joie, et Taltrait da bosheor. 

Co PrÍBcc foit fbymen, et Tespair des caresses , 

Des plus toucbants objets, des {dus belles Piinoesses, 
Vaincu d'ua donx regard, d'un chasle amonr tprís, ' 

Ce qni ii'est pas loés &'oblient qoe ses m^s, 

Uais cet eCrange amour aliarme enfla sob Pere ; 
Ce Veillard circumspeet pese en juge scverc 
Le murmoro do Perple, «t le gout dangereox, 



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IIVBO V., CAntOLO II. 301 

Qni maitrisaill «m GIs, fdoigne d'anlrQS aceux, 
^}ll^ atracher ce Prince au piege, qai Tarrete, 
Le Roi coodwsane laés, et proscrivaot sa tdle, 
Ooit uoyer dans nn sang, qu'il verse iadignenMt, 
fia 1^09 Sde! amoor le feu ie pias ardent. 
Oh farear ! il falltrit qoe ce Ter invencible 
Qdí fil mordre la poDdre á 1'Afl'rícain terrible, 
Vit soailler sod triompbe ea portaat le trepu 
fiifls le seio delicat d' «o objet pleia d'appu I 

D'horribIe8 mettrtriers «ne Iroope farooche 
La traine aux pieds éa Boi : ce spectacle le lonclK... 
Uais le Peuple, qoe avengle un reroce traosporl, 
La poursuit á graads cris, et deounde sa nort. 
Oo entendait d'Iiié8 les accena lasienlablea, 
Qai cherchiienl a lechir des coeurs impitoiables ; 
Hoiíg sensible á ses maux, á ses beaax jonrs ravis, 
Qn'anx dooleurs de sod Prince, et e|a'au sort de ses fils, 
Elle elevait aux Ciei ses yenx reioplis de lannes, 
De ges dvniers monens aevks, el faíbles armes ; 
Taadis que lachement un de ses assassains 
I)'aa oefama liea desboniiorait ses mains. 
País baissaut ses regards, sa tcadrease eovisage 
Ses enTaus de l'ainoar et le fniit, et Timage ; 
Et pour ces Orpbeltiu craignaot de noaveaux maux, 
A' leor Ayeul àvá alie adresse cea móis. 

■ Entre ces anoilnaai Teròces par natore, 
'• Qoi du carnage seul tirent leur nourríture ; 

- Et parmi ces Oiseaax de rapine, et de suig, 
"Qui, fondand snr leur praie, en decbireut le flane, 
"De malhcnreuiE enfants proscrits des leur naissaoce 
•'Ont troQvé la pUié. des secours, l'esistencc, 
"Ainsi Semiramis vit ses jonrs conserves, 

- Home, les foBdaleurs ainsi íurenl sauvés : 
"Oh loi, qui des humains portes la resemhiance; 
-Si c"est Tetre cd effft d'aMouvir sa veugeoce, 
» D'abuser sans^remOTds d'an pouvoir inhumain, 
" D'outragér U sature, et de tremper sa main 

•> Dans le sang d'une fenme innooeute victime, 
'■ Sans force, sana secours, et qni n'a daulre crime 



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3&Í EKSAIO BMGRAPBIGO CBltlCO, TOMO m. ' 

•■ Qae d'avdir ciiptiTé lá teodresse d'un cam, 

o Que du sien, jeofie encor, Tpt Taniqne vaiiiqaenr : 

B Alphoase 1 vois mes fits, respicte lenr enfaoce, 

- Si i£3 fatale mort, moa ssDg, ni nu oaissance 

•> Ne penvcat t'eniouVoir en ma propre hreur, 

•• Ne les entraiae pas, do dioíDs, dans mon malheor. 

« Suspend ce Cer, cès feux, que jDstes dans lá gaertè, 

« Sur le sup*rbe Maorc ont sep?i la colere, 

•• EcoDle la cEeiDçoce, et cooserve dee joors 

•• Qui n'ont pas meríté que tu tranches sen cours. 

"Ne sois pas'iáflexi6el ! ahl si mon ibnoceaoe 

« Ponvoft preudre en toD coear nn mommt ma defuce 

•• Si Ia pieté pouvait t arraeher na regret. 

•• D'un exH elernel pronoace moi l'arret, 

« Anx glacons de Scytfaie, aux sables de Libie, 

" Daas des plèurs eteroels j'irais trainer ma vie, 

"Cboisis quelque deaert alTreux, inhabiU 

"TJieatre de carnage, et de ferocité, 

•• Lá toute á mon amoar, á cet amonr estreme, 

« Qui quand je perds lojour, surrit á la mort meaie, 

o Mes maias eleveront ces restes precieax, 

•' Ces tendres innocents, TOts leurs traits I vois leureyeai! 

•■ Ce regard, que te dít que toa Bis est leur pere ! 

u Eus seuls cousoleroat leur miserable Mere ; 

"Les Tygres, les Lious nous sertmt moios cru^s, 

" Que les cceurs endnrcis des barbares mwtels. 

Le Alouarque attendri penchail yen lá deonace, 
II Toulait revoquer la fatale sèntence, 
Ua People opiniatre, et le destein d'Iné9 
S'acbamait ã sa perte, ét hatait les forfaíte, 
Ainsi le sort le veul, et la Iroupe complice 
Couvrant sou alleulat du faux aom de justice, 
Fatsaat briller le fer, qne gníde la furear, 
Sert uae rage injuste, et croít servir Thonneark. 

Telle antrerais Taimable, e jeaue Políxene, 
D'uDe mere monrante et reapoir, et Ja peioe, 
Quand Pyrrbus la trainaite le póignardá la rnain, 
Fixait sa leadre mere, avec cet air seraia 
D'une jeuDC brebis, qa'oa meae au sacríSce, 



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tiyio T., CAmou h. 303 

Deuffivrait stn bean sein, et 8'ofl'rait au súplice ; 
lelle laés preseotait aux bourreaux de ses joars 
Celte tele charmante, ouvrage des amours; 
Cette (ete, ou depuis, et mal^ré 1« mort meme, 
La viag.eaiice, et ramour mireot le diademe. 
iTaspect des poignard retires, de son flaac, 
AiTDsés de sés pieurs, et baigaés de son^sang, 
Ces iBoiístres «'acharoant eocor sur la Tíctime, 
finvaint lés chatimeats reserves á leur crime. 

O soleil, tu devaisl dans cet horrible jouc 
Priverde tes raions ce coupable sejour, 
ÂJDsi qiie tu le iis dans ce momeol funeste, 
Quand Atrée iosultant á sou Trere Thyeste, 
Fitserrir a ce Koi eredule, et malheureux, 
Les membres de soa fils dans uu feslin alTreux. 
Pédrel.. esl le dornier cri qui jette loés mouranle, 
Ecfaos, TOBs le sfavez, et lors que i cetle amante 
Eteinle par Iei uort la vois se rerusoit. 
Sor ses levres eocor ce nom cber palpitait. 

Telle Ia Qeur des champs dont la jeane Bagere 
S'eii)presse de former sa coronne legere, 
CoBpée avant le temps se fletrit sous sa maio, 
Perd soQ eclat brillant, et soo parfum diviu ; 
Telle cette Beauté ravic á Ia lumiere ; 
les yoiles de la raort ont couveri sa panpiere, 
Sa paleur a temi Talbatre de son seio, 
£l soD sonfle a seché les roses de son tein. 

Nímpbes du Uoudegó, des lames les plus tendres, 
Vos b-isles yeus lougtemps ont arrosé ses cendres, 
Èfpour eterniser vos prolondes douleurs 
fAroour meme eu foulaioe a tranf,ronné vos plenrs, 
le aom d' Amours d'lnés, qu'elle conserve ancore 
Lai fut donné par vous, qui Ia vites eclore ; 
Etvous dites sans cesse en regardant son cours, 
Nos lanaes soai ses eaux, et son nom les amours. 



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ã04 EHa&IO BIOGIlAMRGO (^ITICO; fOHO IO. 

ADAMASTOR. 

Dejà dcpuis cine jonrs, au gré d'uíi venl heureax, 
Nos vaisseaux s'eíognaint de cfs bords danjereas, 
Vouguoient snr une mer jusqa'aIor8 ignorêe, 
Une nuit, qa'au repôs la flote etait Uvrêe, 
Je veiHail, observant sous des aslres oouveaiiX, 
La sillomaQte prode ouvrir le sein des cans, 
Sar DOS teles soudain uoe effroiable Doe, 
Se forme, obscnreit Tair, y parait snspeadoe. 

Ce nnage roulalt, si chargé de Yapenrs, 
Qa' á sou borrible aspect l'efroi glapa aos cteors, 
De la mer, qa'il noircit, les ilots ud loin mugísseot, 
Tels qnand de leors brisants les rochers retenlisaeQt. 
O sublime pouvoir l m'ecriai-je a TinstaRt, 
Est-ce un nooveau mislere, est-ce un ciei ntraaçant, 
Dont ces mers, ces clímats nous preseatent Timage? 
Prodiges i^ns affreox qae la Tondre, et la oragel 

A peinc j'aclievais, qne dans Tair lenebrenx 
Ud Phaotome apparait robusie, vigoureax, 
Sa 6gure est diforme, et sa taille etonnante. 
Jl a les traits chargés, la barbe degontante, 
L'air terrible, et inecbant, le tein pale, et térreos, 
Les yeux creux, les cheveax et crepas, et fangem, 
Sa boncbe affreuse, et noire, et ses levres pendaiteSi 
Offrent Taspect hideax de ses deats jaaDtssaateB. 

D'abord, je te fassure, á son corps moostraenx 
De Rhodes je crus toIs ce Collosse Tameuz, 
Dont Tetrauge grandeor n'eut jamais de pareílles, 
Et que le monde compte entre ses sept merveilles, 
D'un sou borrible, et rauqae il frappe eufin les airs, 
Sa voix parait sortir de Tabime des mers, 
A' 1'entendre, & le voir nos cbeveux se herissent, 
Tout, notre corps Tríssonne, et nos veines torisuat. 

i< Hardis mortels, (dit-il) et pios andacienx 
« Que tons céus, qui dn mwide ont ettooné les ymx^ 



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■ Tool dool de tubs traToau, ttuit da otoiHw giotM, 
" N* OBt jamais pn laner In vmes Umeraini, 

• Voos osez donc bríaer ce terme limite ? 

■ Vous osee de ces flota Gwrir TiiimeBsJtfl ? 

>0e ces Sota, doM lsiqo<tn j'ai gai>dé la Miface, 

■ Dont jamais goaTcraúi a'a nllmé r«pM« 7 

■ Eh bieo! poisqa' aujonnChu d'aD regard pnetrant 
uToQs scrotes la natore, et rhumide eleneit, 
•> Kt undez des secrels, dool des morteis c«tebrea, 
>D'db Bom, neme nimorlel, n'ont percé íes tenebrai; 

■ le lis dana aveair, ecoalez ies maltieara, 
«Doat ?sUe tivp d'liadaoe essaira las borrenra, 

" Tant aar cea Vastes mera, que par toate la terre, 
-Qa'il TOOl ftit so^upier par la jíbb dure goerre. 

- Voyez votre Toyage, et sa fatalit^; 

■ Tons ces Toíles ãrmés par Ia temerité 
•iuronl pour ennémis, a jamais, ces rivages, 
■Oq se rasambieroDt ies venta, et Ies naeges ! 
•Et des premíers Vatsseaax contre moí reroltés, 
■Qui franchiroul ces flols joii5qu'Íci respectés, 

■ Le cbatimeal sabil fera de teLs ravages, 

■Que vos perils seroni moios granda qne tos naufrages: 

<• Ml Teogeance, j'espere, na jour dana ce climat 
"De quí me decouvrit espiera Talteiitat ; 
"Si Tardeur de pooir Tolre audace obstinée 
1'k'soa seat chalimenl ne seru poiut borade, 

■ Ooi, si la verité se decoavre á aos sens, 

■ Tons Ies ans vous verrei, freles josets des vents, 

"Tos Vaisseaux eiig)outis, et taat de maux á craindre, , 

■ Que i'íax túus ressambles la mort será le moindre. 

» Au prímier Ghef Ulnatre, et parmi voua fimeax, 

■ Dont Ies faits porteroat le renom ja8qn'aux Ciem, 

* Je dois par des decreta, qu'aus bnmaína aa Dieu céte, 
- Servir de sepallnre eleroelle, et nouvelle, 

"De la ilotte da Tare c'eBtdaBs ces' mpmea lieux 

• Qa'ii Idi f«adra laismr te trephée. orgitetUe^x. . 



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soâ ENSAIO Bnmnna» >cBin(B( zdxo ni. 
« Qaitea reoTefSteí «ilíB ftv» Ifemkaoe 
X De sa perM In^iUlUe kVM Btií Jb aençe. 

« \prez lui âoil pamrtrfl m Meres genereèx 
aissu d'iM naWeMBg, plein ífbgoMtet^taoBWix) 
« Ponr com^gtre «I áan TiAjet fe fh» aiiBable, 
.. A' Vamonr il de? ra ce prix ineslimahle ; 
« Uflis lEâhi» por le flWt, eí par luws.iwire desORs, . , 
«EtjeUés8M««lí«*B«ridM,,i*^iiiM«s, , , , , 
.< Il8 sorltront títuIs da plua crvelf^afca^fl, 
„ poar íoafiir des lr«íWix plw tott qu* í«w «wufagí. 

4. lis verront leans enÍBBfi, «tjete de. leor biooiii;, 
» Par la-rtim devores, exi^rw (our  toar; 
u Oo T«rra raffrsiiii Oafre avíde, et pluB bubare 
« Depoailler sãos pilié la beanté la plus rare, 
« Et ce corps, dont Teelat efface le cristal, 
« Nud soufrir la chaleur, le froid, un air fatal, 
" Laissanl de toute pari sur .Varcne brulante 
u De ses pieds delicaU rempreiule encor saaglaiUe. 

«Eobappés á ces maux, á ces touroients diveis, 
« Ces amaús survíVroat á leur aB'reus revers, 

■ Poor langau', poor sooTrir, dans leurs sçrt deploraUç 
H Des arides forests ta chaleor implacablê, 

»C'est la qa' apres avoir & force de malbears 
•• \inolli les rocners pas lenrs cris de doolenrs; ' 
•• lis verroot embrassés fuir lenr ame imarortelíe 
X De la triste príson, qai ponr eux fat si belle , 

•• Poarsnivant nm discouTS, ceMonStrêbbrribtí enfia 
HPredisait noa destins ; quaad meleraiif^daiii 
« Qni es-tn V (,di-je) toi, qU( sous ce corps iirfohnc 
— Nons vieiis emerveifler de ta statijíe «Oonne? 
Toaroant alors la boacbe, et ronlant ses yeox creax, 
II poasse arec «ffort us iBirtetteAe aSreax, 
Et repottd d'Hn im dur, q«e ramertume eniamne, 
Comme si ma deintodê cat oppfiaié aaa ane. 

«Je sais ce Gaprfal^, 'ooalte, e renomoi^ 

■ Que le C«p «ra^iK ^b«i Imih a?èi nsanné, 



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•PiolomAé, et Str«lieii> POBponiiis, ot Pliite, 
>Ea oD mot nol mrtel &^ iça noa «iglae, 
■Ni TQ mon Promontoire Íqcoodu jusqu'alors, 

■ Dela CAte AffricaiDe il borae ia tcs boids, 

•E commattdant cw mcr* 8'etend mr lel^■ sarface, 

■ Yers le Polé AnUietifH oMrd de votre a«dac«. 

■ la Terre ma conpta panai ms flers enfans, 
•CenlinaBe, Bneelatte, £g4e, et les TilaM, 
<Je SHl5 AtMmaBtor, «l prie p«rt >i In ^aerto 
■GtMreMe DiH pMiast, -ipâ Imos le tonneiTe; 
■Mais on ne me vit poiíit entasser moats sor moDls; 
■Coajnerattt raoeeMi, et aes aotres praresdl, 

■ le me (*(irg«at des «wn, eo coaraat la fMttiBe 
"Je cbereAafs ttntMt la fkiltt áe NeptOM. 

"De ce hardi projet fAmonr fot le moteiir, 
"LTpoose de Peifie avait seduit mon coeap; 
"A' la ReiDc des eaux seiíle rendaot les armes, 
'Des Deesses dn Ciei je meprisai les charmes, 
"Sor les bord de la mer je la vis nue. ya jour, 
"Les Filies de Nerfie embellessaint sa cour, 
■Soudain mou coeur /ut pris, maJs de telle manicre, 
• Qa'a íout d^ns rvnlyers encor je la prerere. 

■ De moa enwina cwpe reffraiaiie jjnwd^ir, 

■ D'obteiúr Boa aveu m'otaBt l'efipoir flataur, . 
■Je Toalas Im^TlerysiT k foice -des ar,mefi, 
■Je le di3 á Doris; la Deosse ea altarmes 
■Coart tr«iabÍ4t)l« i'aSíoi parler «a bui fiivewi ' 

■ Tbelis, liú «wriaBt de lair -de la caodour 

■ Quelle N^^e pourrajt (4it elie aTac.liaesH!> . 

■ Ã J'amotti: d'«A Geant J^Àlf sa tendreece? 

■ Mtts «fln ^Mr aw mtt al''Ooocan «ix abais 
■D'noe guerre M lovgue, maioflS, toutefoix 

■ Sans blesaec man .faoÉBMT, d'arrflt»' le evnage, - 

■ Ma coaSdente ainsi me rebdit ce message, 
■Je D'ea.6DafCDBUi.poÍBt le piefje BeduiaaDt, 
"Des amaDts ioseosés te4 ést Taveogl^nenV 

20» 



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308 nuio BiooutBiw cum» wu, ui. 
k Abondanurent rêmpU de vaine «nfiance 
-Mon cffiw bercé d*errBur8 se gonSa d'eEperuM. . 

" Ridicale jooet de Vimbeeililé 
" De la gnerr» dejí je «'etaÍB desisW, 
«Par.DoriB une nait m'eBt promtBe; i'am«, '■ ■ 
H El je crois voir Thetis seule, áo loin sar Ia rife. 
« Aucnii voile jaloux ne CBOííail ses appts* ' 

«Cealson p«l, sablsDebear!.. j'oavre amsitotlei waB, 
uje cours baiser ce corps, i'y aens Toler laon ame, . 
"Saboaette, sesdieveaz, sonbelieil... toat m'iitíUnme. 

«Ah! je ne pois conter sans hoote, et sans regicth 
u Qtw eroiut embrasser la braaté, qae i'aiiiiais, 
•• Je me vis emlvassant m noat dar, effroydde, 
w Convert d'aDe forest epaisse, ímpenetrable ; 
« Et troavant face á Eace na raobo' dans mes bras, 
«Quand je. éroiait presser d'ai)geliqnes appas; 
n L'Homme en mot disparut, maet, presque saiu TÍt, 
•iJe devias une roche a nne autre rocbe cnie. 

«Nynphe derÒcean lá pias ricbe es attraiis, 
« Que fen eut-il coute si je te deplaisais, 
«De me laisser au moios Terreur d'aa bieo sopreme, 
■iFat>ce ia songe, une uue, ua mont, le neaat memet 
H Faiaat eafin ces lieuz, iasensé de furesr, 
•iOatri<d'aBietion, et de moa desboonear, 
•• ]e fut cbercer on monde, oa delivré d'alarmcs, 
« Je ae visse personne insolter^á mes lanues. 

«Hei freres dés longtemps etaient deja vaiocBS; 
•• Et dans leur triste sort sans resource abafus, 
« Pour phis de soreté les Dleux dans I6nr vengeance 
u Les avaieat ecrasés sons des roches ímiRMses, 
■ Ainsi contre le Ciei loas les eforts sont vaíns, 
- Tandis que je me tnine en piencmt mes cbagrias, 
" Des destío enfiemis tr«p oo)^>able viòtíme, 
« Je Gommeaoe á sentir la peine de mon crime. 

- En Iene dure na joar je vis cfaanger nca chsãr», 
X lies os petrófiés foraerent des rodiers 



;,Goo^Ic 



uno T.t cAPiroL» ii. »» 

■Os membres, qae ta toíb, cette figorfl «unve 
■ S'illo&gcant Bor les Max. prireat ua aatre fonne ; 
*Eb ce cap reeilé Jes Dieox vMgeaBt lears torts, 
«CoDTertircint enfia mon gigaatesqae corps : 
«El poar rendre á jamais mes donleurs pios profoiutes, 
'Tlietís meme, Thelís m'eDloare de ses ondes. 

Ce monstra ainsi parla pleorant affreasemeot, 
El de nos yeax sorprís disparait á l'instaat : 
Atk Ibí disparot le tenebrenz naage, 
Voa liHig gemissement la mer, et le rivage 
Betentirent aa loin : moi i'eIeTai les mains 
^fm le Ciêl, q« nus goide ea ms dlmats lonU^, 
Lepríant d'eloigMr les disgraces fulaces, 
Qfl'AdBastor predU dans ses tristes angnies. 
Sulpieio Govbur BarrauU. 

Da Dedkaione desta Tradao{Jo a £1-Aei D. loteph m 
Té que o Tmduelor estava res(drido a emjirehewler a 
Tosio completa do Poema, sifoue para isso aaxiliado pe- 
io Goverae. Por desgraça o Marqoez de PomJ»), qae alo 
m grande amador da poesia, nio joigoa qne a offerta 
ffierecesse galardio, easaim perdemos o ter uma boaTrft- 
dncpfo, dosLoúadas em Terso Fnic«2, eooj» qw auMi 
alo existe. 



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310 SHSAIO «QQUPBK» CUnQ», XO» Dl. 

CAPITULO lU. 

T^ro da Costa Perestrello, 



Oi iB Obrài d«te Poeta sm poooo conbeadis , me- 
nos conhecidas atnda aam ta dn:ai)BtaacÍR8 di ua vida, 
a sua familia, a asa patei&v es sms «Mudos, a sua fbrtn- 
na, e o anão, e local da suLiDOrtc. ' 

Nada disto consta da pequena noticia que deite nos dá 
IMogo BvbOEB HaabBdo, na siia BlUiotiicw taatMB, nen 
da qoe o professor ãc rbethorica, AMMiè LòuEeifo Ct- 
Binha, ruin (kitieo, e mais ruim Pmta, l!al^eo■ áâcn- 
tfl de jjgtfmas Obras deste Poeta, cigoi nnMuEeriplu dn- 
cobriu, e dea i Iue; poito ^c cu duiid» da anltoitiei- | 
dade áe algumas delias. Esta aotioia qie «tte dã estn- 
bida . de Barbosa, é Terdadeirancate copiaila deMe sen 
alteração de uma virgula. Na Talta pots de ontns noti- 
cias sorooB obrigados a seguir o que diz Barbosa, e as 
conjecturas que podermos formar de alguns logares das 
suas poesias. 

Parece pois que Pedro da Costa Perestrello seguio nos 
seus primeiros annc^ a vida militar, e sérvio em Hespa- 
nba, pois consta que assestira , no posto de Capitão, á 
celebre Batalha de Lepantbo, no auno de 1K71 . 

Esta batalha foi ganhada naquelle golfo sobre ama po- 
derosa armada Othomana, cem que o Sultão dos Turcos 
ameaçava a Cbrislandade, e com especialidade a Itália, 
por D. João de Áustria, filho do imperador Carlos V., e 
irmão de Filippe 11., Bei de Hespanha : aquelle Príncipe 
commandava em chefe as forças navaes de Hespanha, Ve- 
neza, Génova, e as galeras do Papa, e desejoso de glo- 
ria, deliberon-se a combater o inimigo, apesar das Íds- 
Irucffies secretas, que tinha em contrario, e da oposi{Jio 



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do celebre ÀsdréDoria^ 4J«ir«llc 4<a3«|kbMÍa Genoveza, 
qne nãopodendg alf#Vi s^CúQ^rvo^ poD} as suas gale- 
ras em inacção, c^n#.stfi$'?^ e^íUjUilor dfi batalha, e 
da ricloria. 

Esta TÍctoria, f\ oChristãa, 

fez grande estroRt; i pelos me- 

lhores Poetas d6 te i nma Can- 

ção, e uma Ode, q mais sabli- 

mes composições lo Rafo, e 

Jeronymo Carte R nemas Épi- 

cos a Ausíriadtt, e a Victoria de Lepanlho, e tornos o no- 
mede D. João d'Austf ia sanmasieBte popular tanto na Bes- 
puba, como na bW«, mas p«r isso mesmo despertou o 
ciome, e a desc(»iGaBça 4é Filipe II., ^^e Testejando a 
gloria do triumpfio dss suas armas, e)^u desde entSo 
com sobrenho e tri^phsdori que proearon sempre affas- 
tar de si, removendo-o com especiosos pretextos para os 
Paizes Baixos, ^rm. as fer(*s.Bcaw)Ula&para vencer os 
rebeldes, efazendpn«tlyidadiOSNS<nl*i*^Nliar como cons- 
ta de Estrada, HogoGiwit, BeatÍYegiiiai e outros bisloiia- 
dores, que tractamn its caofMotiAP 4a Bélgica. 

Também parecç, ífosi a «u «sl«iia em Castella d3o 
eoDtentou muito a Perestrello, talvei por vãr mal recom- 
pensados os sega sttTVJco^ } é pelp m^og o que pôde col- 
ligif-se da seguiiite ${ityra violente, pur elle publicada 
contra a cidade de IttV^CJd. «9pU4 d^q»çlla monarchia. 

O Madrid, ftscuro Itifieroo, . 
Emulo dei bien humano, 
Qae amonton^s con tu mano 
Muladares en lubierno, 
Para -èonbr de Veraao. 

Tus apparecias serenas, 
, Por mi mal las coneci, 

Por que oiro bien non le vi, 
Sinon ,t8s Sflidas ^ttoag, 
Por qw.Bfin salir de li. 

Dea(enn5tfi. a^ juS« cieg^, 
Y dei Miindo el bien maior, 



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nuàio Bnwaimfio eunoo, mio ui. 

Donde con pooo tsIot 
Ardeu tns Damas sin fnego, 
Qae amsn todas sin amat^ 

Ala Toz dalcisonantei 
Que en Ia Cylhara se apun. 
Diste Dombre de loacnra, 
T ai mas grossero amante 
Dás por dinero hermosnra. 

1m discretas, y las necias. 
De todas no qaitando una. 
Tractas en igaal fortuna ; 
Tienes corruptas Locrecías, 
Bfas no se mata ninguna. 

£1 TarquJBío es el .díoeto^ 
Qne qnita faer^a, y dolor, 
£1 Intereis, el Amor ; 
T de bravo es ya GOTden 
Qualquer Bruto veugador. 

Ea las tlerras dft yo moro, 
Cien Galioas toma nu GalIo, 
AI Camero tantas halb 
Ovejas, Vaccas ai Toro, 
Tantas Teguas ai Calutllo. 

T tus hembras infeniales, 
Que assi qniero que los nombres, 
ladinas d'otros renombres, 
Mas qne bmios annímales, 
Cada qual tiene cien bombres. 

Prado tienes de placer, . . 
Cercado de bosque ameno, 
Fuera de tí como ageno. 
Porque assi fa'e meneeler 
Para ser el prado bueno. 



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j ia™» T^ CiflTDU IH. 3IÍ 

Seeaa de VnaBo el Hio,- 
LtflTH do inbierno la psenle, 
Eres seco iiidifer«Bte, 
Eres mas que el hieto Trio 
Mas qae la frsgoa calienie. 

Qain t« boBca no se alibe. 
Sim dermes que te TJwe, 
Qaeldirá, si sábio faeiv, 
Quiea te qniere nó te eábe, ' 
Qnien te sabe oo te qaiere. 

Tmbem me persuado, qaevoUindo i pátria desgosto- 
u deCasletla, éqoe alcaaçon o logar deSecreUrío d'EI- 
Bei, de qoe falia o Abbade Barbosa Machado, o qae me 
parece provar, em prímeiro logar, que era fidalgo, pois 
sem e§5a circomatancia, nSo é probaVet, qee fosse assim 
empoado; ems^;DBdD logar, que era bem visto iraCAr- 
le, talvez pelo talento de Peeaia, que eatio andava mui- 
to eslinuda, e cnltívada dos Cortezfios. 

Nãoadmiraqne ivicloriadeLepanlho, quetaoto eatí»t- 
mmo tiafaa prodnúdo, nSo só noa Poetas Castdhanos, 
mas nos Bstrangaros, pois que a anmerosa collecçSo de 
Poetas Italianos, que escrereram em Latim, está cbeia de 
Poonelos a esta Batalba Naval, suscitasse o desejo de 
cdebra-U em um Poeta qae tinba ajudado a gaiáiB-la 
c«n a Boa espada : e assi accoDleceo, porque Perestrello 
eeçKtea effeclívameDte com o título de Saiallui Aiuonia 
QtB Poema em seis Cantos, e em oitavas, qoe o Abbade 
Barbosa diz, que priDcipiava por estes versos 

La Santa Liga de Ckristiaoos canto, 

De' Áustria las armas, y el Varon potente, 

e leimíBáTa com estes 

UiHda destes Príncipes la mano, 
Los scqttn» partirin dei Oibomano. 

Àcorescenta maíB que, no ultimo Canto trás pintado o 
Estuutarte R«tl, que os Chri^os, haviam tomado aus 



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3lj4 tHSAto iioGUmflO:CB}V](]|t, ymo m. 
Turcos Daqucíle cundiate aaval; é|tois, evidente qoe Dio- 
go Barbosa Maobado tinha Itd» «BLe Pwioa, porém tta 
Bos diz si impresso! ou nuteti^ÇTipl», 4>eia piiaha parle 
julga qoe saia mauusciípto, p«rque vtm (i |cbei de ven- 
da em Lisboa apesar il« to<la > díiliggBoi« que fiz para 
cncontra-Io, nem conheci ainda pessoa, que o tivesse vis- 
to, e Caiesdo-H» {ffocwai em H«drid, e em Cadii, live 
era resposta, q'ue.o«livr«iro8 ali aio liabáiB coabecimeB- 
to desemilhasle obra- NS» posso attribair isto ao descui- 
do das pessoas « quem inconU deisa diligencia, pois 
quem procoroa.e Mandou outros, quecseiicommeodára, 
também mandaria este se o encontrasse ; igualmente nio 
4epBrei:««m oEm tiiolo em «Igom daaC»tjil*c»>>i<biiBi- 
JUiolbeoas deslfl Cidade,, qtis esamineí. . 
. Lé-«e mm na Hbliothiecft de Barbesa» lue ft4r9 d« 
Costa PeiestreU» etcreverB oatro Pofua^ sobre a fi»t/tm 
de Yaseo da à&m para a lodis, p«Id Cabe daBu £^ 
lança^ nas q«« idú) «publicara, pwvér que aaUs^áliB 
.ePfama deCanúes, e vem eitaibs as Kgttiate& (úlavns 
de Manoel de Faria e Sousa, bo Iidca dos AwUuwes Par- 
tuguezes. de que Barbosa âÍzq«e.liaJia.vtst9Q.ongilul> j 
« VieHdo la Lwiitig tayeron lut Qiêim, j| mi Am») por 
■ti luelo': fué taáanm vwtaja gitnit ti reopttowr ia «a» 
taja agenã; Atso otra$ eaaaí, y iwnu^ » 

CoRfesfi» que esta aoedocia uâo me psrace maatpH; | 
seria deriaaiada modéstia em um Pocla do repiUa^..ao- 
.JloPareslFeMtf, o sacrificar ao eaquccMHQt» un foHW 
Heróis, ci^a oompasifao fiorçosaueBlc Uie bavi* Mc itr ■ 
ià» miit» tiabalho, tó porque sebavia pttblieaito ^Rtio ' 
sobre o mesno asswDpto, nèo pesao crer qae Pw^nKB 
tivesse em tão pouca conta a sua Obra, e o sen talento! 

Tenho para mim, que a rasfio porque Peresirello não 
ímpríjuio a sua Baíalha Xu«onÍ«, e aa aau oalras Poe* 
siíis, foi a mesma que fez com que cUe não desse á 
tuz o seu Pucma do descobrimeota da.,bdia; asta fdf 
menos será a minha opinião, em quanto não vir o facti» 
abonado por pessoa para mjm .do mia auUwaiáade qoe 
Manoel de Faria e Sousa cu]o tti% inefti^tido pala gloria 
de Camões podia leva-lo aaccredilar, que Perestreilo obra- 
- ra assim pelos motivos que elle lb« siqiAeií. 

Tem havido entre nós nestes nllinos Icnpes laotts le- 1 



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I,in«-T., CAKIU» IH. 315 

rniã^B de fwtm, que dcnniim m sepflkqm do es- 
qaecimento, qoe não seria grande adiBH'a(ão 41» o Det- 
(Xibriíaento dalnáia, e a^BÊMha A*mnio, vkesetn fazer 
gemer os prelos, coma oCancioiíeiro d'£l-Rei D. Diniz, e 
o do Conde de fiarotJlos, e 4 vJsía dellcs poderiamas en- 
(lo avaliar comexatidão a merecimento poético dePeres- 
Irello, e assigoar-lbe o logar que com justiça lhe compete 
naParaaso Portiigaez; mas nãd podeudo agora avalia-lo 
si nSo pelas poesias (Iesco])ertas, e publicadas por Aoto- 
m LoureD(o Caminha, dSo podemos t<!lo em couta si 
Bio de Poeta mediocre ; esta cólltcção de que o editor 
tece nm elogio tão enfático, e eiaggerado, qoe apenas po- 
deria caber aCamSes, consta datradncçSo deftl|uniasLÍ< 
tSes de Job, Teita em tercíaryma, de umaCançJlo a^fos» 
Seohora, qne o editor impropriamente ciaaliiicou de Ode, de 
cinco Odes, duas Epistolai, uma ao Marquez de Castello 
Rodrigo, c outra a El-Rei D. Sebastião, seis Epigram- 
mas, a Satyra a Madrid, rima Ed(^,'eet« Oitavas a S. 
Pedro, dez Sonetos adiflertMn «ssumplos, sendo «Iguos 
(teiJes em Castelhano, uma«' Voltas a um Moue, e uma 
Oitava sobre a tnorte d« Lucrécia. 

De todas estas composições a mais importante a meu 
vir, é a IraddoçSo, ou psrapbraBe das LífOeS delob; é 
ella escripta eit lingvigno porá, e apresenta bastantes 
Tercetos Ima fat)rícad03, e dvquaudo cm quando dii seus 
ares da energia, e foría oa Poesia BiHica. N5o pettendo 
porém dizer com iski, que PerestreHo possa neste traba- 
lho igualar-se oem Fre^ Luii d< Leio, e a comparação de 
aJgnns versos d«B dous Poetas far& conbeccn- a diferença. 

FERESTtBUO.' 

Porque, Senhor, Itie diz, bes coetra mi, 
E queres opprimir á fwça para 
Jlobra dfl tuas mios, feita por Ti¥ 

Parece-le justiça por ventura 
Os Maus serem de Ti favorecidos, 
Coademnados os bons tua feitura V 

Teus «lhes por ventura esdirccidos 
Saro de carne, Seíihór, e corpwaes, 
Quaes vâmds os dos Homens cú nascidos? 



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3IS iRSiio BKWuraieft êiitico, Tám m. 

Oa sam, Senhor, tens dias natoraes 
Qoaes nossos dias sam? ou ob teos «ddos 
C'o9 tempos vam carreado deeigoaes? 

Porqae, Senhor, por termos inhuinanoB 
Mens peccados inquires, e maldade, 
E sem colpa padeço tantos annos ? 

Jnstiça pefo a Ti, Deos de verdade. 
Livre de Vicios, e desejos vãos. 
Pois ningaem com peccados, ou maldade 
Pôde, S^bor, fugir das tnas mSos. 

Vejamos agora como o grtode Lyrico Hespuibol «• 
pnnúo as meunas idéas. 

TBXI LDIE SB LKXO. 

Este m(ffir viviendo noche, y dia 
Asei me enfada ya, que sín respeto 
Las rieodas soltari a la liogoa mia. 
Diré mis amarguras en secreto ; 
SeSor, co&demnaràs a un atrevido, 
Ni me dirás razon de aqoeste apríeto? ' 

Es boeno ante tus ojos opprimido 
Tener con violência ai que es ta hechara, 
Y dar calor ai maio? a su partido? 

Tos ojos Bon de carne por ventara? 
Tu vista qual la humana ? tu partido, > 
Tu s» es como el ser de la Criatura? 

Pesquisas lo que dndas enganado 
Por dicha, o por sospecha manifiesto? 
Tu sabes que jamas te fui calpado. 

No sabes mi igntffaneia? mas xà aqseste 
Ni fuerza, ni saber algu&o humano 
Descarga de mis hombros lo que bas poesto,. 

PKIESTULLO. 

Tnas mios que de nada me fizersim, ' 
De graças mil, e dotes rodeado, 
Contigo contra mi te converteram. 



iinzc;;. Google 



un» V., fitfinu iit. 117 

! Pois lembre-ie, Srabor, qae soa formada 

De lAds, e p6, qae em carne converteste, 
E de preça serei nelles tornado. 

Qoat Mie rae mangisie, e composeste, 
CoDie massa ds queijo me ajnntastc. 
De carne, nervo, e ossos me fizeste. 

iSfl ^edade, e vida me dotaste, 
Com tea soccerro, e bem favorecido, 
Yesitaste miiiia alma, e me amparaste, 
' ispinto ase deale aograndecida. 

FBEI LUn Dl LiXO. 

Toa dedos me ftmnaron, eon ta moBo, 
Seãor, me conposlste a la redonda : 
T aora me despefias inhnmano ? 

Àcaerdale qne soy vileia hedionda : 
Del polvo ne hiciate encesitado 
Hora es qae el mesmo polvo en mi se escoada. 

Gome se forma él queso, assi yo paedo 
Decir-te, d'ana leche sounada 
Me compusiste con ta sábio dedo. 

Vestisteme de carne rodeada 
De onero delicado, y sobre estables 
Hnessos con firmes nervíos assentada. 

Vida me diste, y bíwes no esUmables 
T con ta vestidara perservcra 
Mi haelgo fiaco, y dias deslenables. 

Parece-me que nSo sari díffieil o decidir de qa« parte 
está a superioridade. 

Tenho a segainte Lifão por «m dos neUtwei trechos 
desta initaçao poética. 

Dita Wra mui grande, em que me vira, 
Si dentro dos Infernos me amparasses, 
E me escondesses the passar tua Ira ; 

E tempo certo algam me lemiiasses, - 
Em que depois daquella pena esquiva 
De dar fim a meãs males t« lembrasMs. 



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3IS KNSUO BIOORAPmCD CKmCQ, TMIO Itt. 

Qtial Homem morto ciiidas ttt ((oe viva? 
Meus males cessem, e do corpo anstero 
Desejo desatar a alma captÍTS. 

E, «i me cbamas responder-te quero, 
« Sou obra ét tiun mios, di-me a (tírcAa, 
« Em qne salrar-me dfl naufraÉio aspiro. 

" De mens. pane» tomatle a coOU esmt(«, 
• Vistos os tws, SenbM', o noneradosi, 
"A coDta que fiteste hei por heli feit», 
«Mas tu, bom Deos; perdin «b meãs- poocadof.» 
AU(3o qainla éuma. das mais bellas da Obra, pela fa- 
cilidade da expressão, e pela melodia dos versos. 

Homeia nascido da Mnlhcr, e eaftmo , 
De pouca vida, e de miscH» «hcia, 
Que passa como a Flor em breve lemik 

E quasi ao vento' como aetta oreilt 
Fugindo em sopre a afe desapparoee, 
' Ón como SDmbrn, que do Sol se albeia. 

Que no mal, e mudeoças qne padece, 
Não teve, nem itrí aterre bttm dia. 
Nem nunca n'hnm estad» permatiee. 

A este pois. Senhor, nesta agoBía 
Com sanha abres teus olhos, « o destisas 
A juiio severo em lai porfia? 

Quem poderá, bom Dees, obras indioiH 
Do cujo Peccador fazer Hupeia, 
Si não as loas mãos, qne sam divinas? 

Do Homem breves sam por natuf^a 
Ob dias, « os mezes, mas coDasle - 
Em ti delles o termo, e a cerleeaí 

O qntmto ham 4e durar coxslálai^, 
Que traspassar não pôde a humana Gente: 
Que queres pois. Senhor, ao Homem triste? 

Ddíe te aparta (úedoâimeote, - 
E deixa bran pow» de lhe ser coutrario, 
Porque geae de ti suavemente, 
E seja de sess dias mercenário. 

É opinião de alguns Críticos, e sábios ericntalislas, 
qae o Livro de Job, nSo foi originalmente a)B)po9» m 



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HVM T., CAfrrmo m. - 3Í9 

liDgaa Imtlíto, «ms a (radnoçso St/briia-àti oh PÃe- 
flaAMlte; *9t8*opiiiMte len muita pn^MMa<á« alftM*' 
»(sl^h> figurada da «bra, as sass G«iDpi»oSe9 tíraèat 
do Ml, da lux, âratttsti, as vaneim otMaptmicas de 
«pfwsar M ípaiai, e ■ mwisfit) de tmimaes, e ares, 
pntpMt dftArriíí». B Kc«mparamo8 este Hem», vm 
iw nate eaUiísej qae se ten eserípto m mflddo, eom «j 
Psalmos, e o Cântico doa Caóticos, « «otnn 'qu« nm is> . 
dabitavetinente hebraicos , notaremos entre elle , e elles 
Dio peqaena differença nas iáéas, e bo estylo. 

As Lições sétima, e oitava podem dar ao leitor idéa 
elara da differença, que corre entre a pocsíã daá QaçSes 
barbaras, e das napOes dvilisadas, e ínodernas; especial- 
mente oa esc«lha dos tfbjelos de hoilaÇão. 
LiçXo vn. 
O men espiito .pwderi sen brio, 
Acabando-se birão meus poucos dias, 
£ lica-me o sepulchro escuro, e Trio. 

Em amarguras, e melancbolias 
Ueus olhos se detém, e eu sem peccado 
Em anciãs me Aesfb^, em agMias. 

Mas si d^ ti, bom DeAS, «ra aapmAê,- 
Não poderei ttmet as Lt^MB 
Do UumIo lodo Gonbia min amail», 

Atraz o>' dÍBS« aa M£in«$tos - - 
Bessipadaa desta alma, e divertidas, 
Sfe dá Bella morl^es perseguições. 

As noitâs passo em dias couvertidas, 
Depois das trevas luz, e Sol espero. 
As névoas de meus olhos coosumidas. 
No que posSo durar bem ceoàdett) 
Ter minha casa no profuBilo hífèrao, 
Meu leito nelle teuieroso, e fero. 

Corrapta psdrídio co'pranl(» eterno. 
Por Pai quero ofaaman, por Hii, e Irmta * 
Os Bichos desse Abysme stmpítrai». 

A. Pacieseia co'a Virtude ala ' 

Promptas, meu Deos, para serviço teu, 
Ltvres as tenho de fispu^nça vãa, 
Em ti postas, SeiAbr, jasto D^s Btttl . ^ <- 



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320 Einun atoouniM «iunw, two m. 
. Qaal s«ia o Poeti moderno, que oBsasseeKKTer M 
«m Poema original ■ £» quero ehanutr Pai é PoAridS», 
é Mãi, e Irmios aos Siehot do SapuicAro?» eoMtada, 
estas idéas, qoe em oatra parte pareceriam sofdidu, a 
extraragantes, saportam-se nas versSes poeticardOB Ii< 
TTOS Sagrados, que estamos enstnmadofl alér, e anafa- 
tar desde a iafancia. Esta eipUcaçio vik para alguáil 
imageu da Lição aegniAte. 

LtçZo TUI. 

Pegon-se a minha pelle ã minha bocca, 
A carne já tão fraca, e consiuaida. 
Que só c'os báíoa a meus denles toca. 

A. Gente por mim cliore «ntrístecída, 
E pelo menos meus amigos sintam 
k á&r da minha trabalhosa vida. . 

£ nunca desfavores tens consintam 
Debaixo de tua mSo ser perseguido 
Daquelles, que os desastres meus requintam» 

Que quer dixer o peito endnrecíde 
Dos Homens, sinSo Deos s^-me inimig» 
Farto de carne, qne me tem comido? 

Oh t qoem poderá neste gren perigo 
Vér que se escreram declaradamente 
Minha Tox, e palavras como as digol 

Oh qoem me dera que deslintamenfe 
Em chambo as escrevesse ó ferro dnro, 
Ou pedreneira mais qne o fogo ardente I 

Qne vivo, meu bom Deos, estou segara. 
Que da Terra no dia derradeiro. 
Em carue, pelle, e osso vivo, e puro, 

Bomem resorgirei, qual fni ;ffímein>. 
Com. olhos próprios meus, e n3o albeioi; 
Verei entáo a ti, Deos verdadeiro ' 

Cos d'alma em tanto de esperanças dido8<- 

ALiçKo nona é um pougeole grilo de desespenji*! j 
que o Traduetor exímio cpm bututQ eoffgia. 



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uno r., cmnio m. mi 

hinfaa, StUtot, du carptnés estraobu 
Da tDulfaer me tiraste, e fni tniido 
á \tt Bisems tant«8, e taMaihoa? 

Melhor me fAra calio ser comamídu, 
E dXo me vira em tanta déBTeMura 
Si qaasi sem nascer fAra nascido? 

£ do veatre levado i Sepultara, 
O fim se antecipara de Ambs dias, 
Qoe s« sam b^Tes, e de pouca dura. 

Deixa-me pois, Senhor, as agonias, 
£ dores lamentar desta alma tua 
Antes ãe entnr nas tenebrosas vias. 

E assim eomigo de tornar Éie exclua 
A T£r tem Ub) sbcca, e tenebrosa 
De misérias coberta, e morte crua. 

E da sombra me guardes espantosa, 
Onde s6 trevas, e dasor do laferno 
Em confusão habitam lastimosa, 
Desordem, dõri temorj e pranto eterno. 

Pedro da Costa Pereslrello rompeo aqUi um caminho 
DOTO, fazendo pela primeira vez ouvir na Lyra Lusitana 
alguns sons da Mdsa do Deserto, e do Cinoor Hcbrtico I 
pena é que não eoiprebendesse a verato completa do Li> 
vro úe Job, Poema sublime, cheio de imagens grandes, 
e de elevadas sentenças ! Trabalho é este, que ainda es- 
pera por um Poeta, que oemprefaenda, e desempenhe com 
a mesma perfeição, com que o Padre António Caldas de> 
sempenhoQ a versão de uma parte dos Psalmos. 

O menor defeito da Caução, ou Ode a Nossa Senhora 
é a sua descommonhal estensão; tenho para mim que 
esta composição não é de Perestrello ; não só porque a 
liognagem me parece muito mais moderna, mas porque 
está tão cheia de versos errados, outrosdoros, eeatros pro- 
saicos, que seria ridicalo attríbui-la a um Poeta, que foi 
eglimado no seu tempo. 

Igualmente duvido da authenticidade das Odes, não 
perque ellas façam vergonha, a quem as compoz, mas 
porqae vejo neUas a imitafão directa de Horácio, o que é 
conúaiio á pratica dos Poetas contemporâneos, que imi- 
tando as idéaa dos antigos, guardavam sempre A fOrma 
21 



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3t2 BNSÀio noauraua cuxtco, tomo m. 
externa .da Põem ItaUana, como pôde ohscrvaivse tn 
Ferreira, Bernardes, Cammha e Gamões :.até i escolbi 
dos assumptos parece indicar iHDgoit«jaaismad«Tift. Pa- 
ra que o Leitvr ptesa avitiar a mioba opiníio Irsucreve- 
rei aqui algumas StroptiOs. 

teva por ondas, a Ciibi(a bbomBfl 
N'huin pobre leolut rdto, e mal vedado 
Idilbares d'Homens, d'oDde o.Sol se pfe 
. Oade elle nasce. 

Por Scillas, e Carybdis vam rempeado 
Ignotos mares, bravas temp^adee,- . 
Perigos, e YaloOes, que, a Morte fera. 
Lhe pSem Àaate. 

As riqueias, que vam basear ISo looge. 
Alijam pelo mar com pena grave, 
Pusam, e affrouxam, e em roda viva 
Todos trabalham I 

As frouxas calmarias vam sc^reodo» 
Quando nas ondas falta o solto Vfento, 
As farias, qtte depois o Tormentório 
Cabo levanta. 

Sngeitos a naufragids, e a tromenlas 
Bums ficam por manjar aos símiles Peixes, 
Outros, vagando em ásperos desertos, 
Morrem nas praias. 

Outros, que escapam, procurando a vida. 
Nas montanhas de Cafres habitadas 
A vam perdendo lastimosamente 
Ao desamparo. 

Dirá alguém que esta liag«3g«m, estas ídéas, eslas 
Strophes lloraciiiiiHs não rymadas |>erlencein aosecalo dt 
quinbealos? Nâo imlicam eitas autes uma epocba postt- 
rior á Aroedia? Suspeito muito que estas Odes sejm 
4o professor António Lourenço Caminha, que qoíz com 



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ttno r., GAMTuto irr. 323 

ettas eogrosHr 6 ádinero das poucaa poesias de Peres- 
trello; mas seja, on d9o seja assim, ellas poslo que va^ 
Ibam algama cousa pelos pensamentos, valem poueo pe- 
ia versificaçío," em que apparceem versos prosaicos, dn- 
ros, e agndos, e nwstram em qoem a compoz graude 
'gooraocia do metro da Ode ; basta diíer, que Iodas as 
Strophes sam cóinpostas ddtrei bendicasylabos, e umado- 
nico, o que porduE nma dJEonaacia iosoportavci. O ver- 
to septenario é'o ueico que se casa bem com d headíca- 
lylalw, porque a voe passa com facilidade, e sem repelão 
de um paraóntro. Substitui um octosylabo aosepleuario 
Snal da mais beRa Strophe de GarçSo, ou de Praueisco Ha- 
Dael, e destruirá Ioda a sua graça, e harmonia. O verso 
adoDico prodm exceltente effeito no fim de orna Strophe 
composta de versos saptrícos, mas se o collocaes depois 
de trez hendecasylabos, a Strophe, como vnlgarmente se 
diz u vai de vénias a lerra n tSo escandallsado fica o on* 
Tido, com aqueHe choqae violento, enlre dous versos de 
tio drlTerecle nalarena. NuDca poderá ser grande lyrico 
quem njo estiver bem penetrado destes segredos da har- 
monia métrica, conhecimento, cuja falta se nota em al- 
goas Poetas dti merecimento como António Ribeiro dos 
Santos , mas cuja eecmpalosa observância te encontra 
sempre em Garção, Domingos Maximiano Tdrres, eFran- 
cisco Bfanoel. 

Nada mais differente do que nós chamamos ^pigram- 
mas do que os de Pedro da Costa Perestrello ; á maior par- 
le caberia melhor o titulo de Epistolas moraes, tanto pe- 
los assumptas, como pela extensão; neste caso me pare- 
ce estar muito especialmente o qae édiiigido a Filippe 
U. de Castella, e I. de Portugal. 

Catholico Monarcba, cujo Império 
De hum Polo ao ontro, terra, e mar prt^oodo 
Dos Hemispberios rege o Bemispherio. 

Grão Monarciía primeiro, e sem segundo. 
Que d'onde nasce o Sol, onde se pOe 
O sceptro, e formosura tens do Mundo. ' 

Que tudo quanto aclle peraopõe. 
As barbaras Nações mais apartadas 
A leu querer, e acceno se dispfte, 

21* 



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3t4 ENSAIO lIOQIUPgiM CRITICO, TOVO III. 

Que as trez partes das terras habitadu, 
. Europa, África, e Ásia mais remota, 
Ao só leu nome estam domesticadas. 

. Que a Dova Região grau tempo ignota, 
Rica de perlas, Tente de oon, efirata, 
Gozas cada ani») d» ligeira fraU : 

Teu grau valor quebranta, t destMVala 
As armas, e vigias peregrisas 
A's rodas preades da Fortuea ingiala. 

Dos moDtes Pireneos ás Cisalpinas 
Fragas rompendo as Águias co'a Vicloria 
Dé novo exaltam tuas santas Qninasl 

Digno por ellas de imisorta! memoria, 
De Joiio César transcendendo as Eras, ' 
Novos Homeros cantarSlo toa gloria. 

Dos flereges domaste a Serpe fera. 
Da Ley de Christo encheste co'a verdade 
T«us novos Mundos, tua nova espb^a. 

C<MB santo zâlo, e grau severidade 
Presides teus juízos approvados 
Nos lermos da 7nStifa, e da ignaldade. 

Com boBS costumes honras tcos Estados, 
Aos bons, e justos fazes Soberanos, 
Com justas leys castigas os cnlpadu, 
Deos te guarde, bom Rey, por muitos annos. 
O mesmo pôde dlzer-se de ontro, que tem por objeeb 
os louvores dos virtuosos, e prudentes, que des{)resam os 
bens da fortuna. 

De Alcibiades dizem, qne os Silenta, 
Baixas, e vis imagens na Pintora, 
Heram mais, quando pareciam menos. 

Simples, e torpes beram na figura, 
De r<6ra pareciam monstruosas, 
Sublimes por de dentre em formosura. 

De vários desbarates copiosos 
Provocavam a riso oa assistentes. 
Com Pbantasmas enormes, e espantosos. 

Mas curtas descrepaucias appareutes 
Co'a capa se cobriam da simpleza 
Grandes virtudes, varias, e excellentes. 



UVM V., caatriA ni. 

Desfraaram d» M asdo a ¥ia riqaeu, 
Cobriam etm jea gesto (arboieato 
Os altas bens da aabia Hialareza- 

Seu dn^aslvel traje, e oraameoto 
Nas coasas, qae moslrav am miseráveis, 
Cobriam seu divlos eatendimenlo. 

£ Eendo trisies Feras, admiráveis, 
Para si mesmas o reolediA forte. 
Sem d6r coravam chagas incuráveis. 

Contentes cada um com sua sorte. 
Vida passavam branda, e descaa^ada, 
tjvres das anciãs, e lemor da morte. 

A mudável Fortuna despresada. 
Lançavam de seus ânimos quietos 
Não tendo delia, nem queiendo nada. 

Seus crassM lermos, doudos, e indiscretos, 
Ao parecer dos homens babatidos 
Em {^oria couTertiam bem secretos. 

Da Cobiça geral aborrecidos, 
De Terra, e mar solicitas Viagens 
Alegres jipartavam dos sentida. 

Não pendiam de Estados, nem Itnbages, 
£ tinbam por fraqueia, e v&o receo 
Os enganos do Mundo , e seus ulirages. 

E quapto maia o rosto tinham fco. 
Tanto mais por de dentro parecia 
De angélico favor, e graças cheo. 

A Sócrates seguiam, que dizia 
Qoauto mais douto, e sabiõ se mostrava, 
Que nada saber hera o que sabia. 

Diógenes na pipa, em que morava, 
Por Sileno famoso estava nella, 
Pois tudo tinha, e nada desejava. 

Longe dos tractos da Fortuna bella. 
Sem mudar os desejos, nem o Estado, 
Teve dos Sábios a mais clara Estreita. 

Qne sendo de Alexandre visitado, 
E como seu favor lhe prtHiietiesse, 
Ao Sol estando, disso descuidado : 



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3it8 ENSAIO BIMKUHUU CundO, . KHIO iii. 

Outras grafas aSa teve,'(pie Ihordwse, 
Mais que com livre vos alUva, a rara; 
Que se apartasse, e o Sol Ibfl aão tollwsM, ' ' 

Resposta^ esta qiiia taato edáticám, ' ' '. 
Que a não ser Alexandre lhe dissera, . 
Que ser outro Biogenes tomara. 

Resolução bem digna de quem bera. 
De hum Príncipe tão grande, e tão famoso. 
Posto do Mundo na mais alta esphera. 

Que, si nao fora hum Rey tão poderoso. 
Não tinha que hera ser em nada meãos 
Si pobre fosse reto, e virtuoso. 

Destes houve no Mundo alguns Silenos, 
Antisthenes por tal foi conhecido, 
% admirando a grandes, a pequenos. 

E Epicteto, Servo esclarecido, 
E manco, e pobi'e tido em ludibrie 
Sileno foi de bens enriquceido. 

E ainda que o çafáro, e vil Gentio- . . 

Os Silenos por Monstros reputasse 
Co'a natural doudice, e desvario, 

E sem ponderação os despresasse, 
Na ley da Graça temos approvados 
Outros Silenos de mais alta classe. 

Nos ermos para Deos sanliBoados, ■ ' 
Fugindo dos humanos desconcertos. 
Ricos de Deos, dos Homens despresados, 

Em gloria ae tornavam seus apertos, 
A dura paciência, e aspereza, 
Doce manjar lhe davam nos desertos. 

Alta sciencia liaham na surpreza. 
No desamparo a vida mais segura, 
E no ser pobres a maior riqueza. 

Tinham em serem justos a ventura. 
Nos trabalhos, e ddres a saúde. 
Cobrindo com severa catadura 
As altas escelleocias da Virtude. 

N3o será este o eilylo dAs Carias, ou Epistolas de 
Diogo Bernardes ? Que sefflilbança tem isto coro • E]»- 
gramma? Duvido muito que o Aiitbor pozesse tal iiiuto 

Diçpitizcii;,. Google 



a estas compo^çSes; twho por mm fWDmil, que lhe 
Tosse dado por algun C^>pÍBU ignonalei « qoe CaAiaba 
acliaado-as assim istíUilada» ao seiisuiiuccrjpto, Ibecon- 
servoQ sam mais e^ms aqo«lhiitKfiberealedeiwiniaação. 
A Écloga tem o defeito oomiriam a todos os Poetas rfa- 
qaelle tempo; isto é, At disTarçar com alegorias pastoris 
accoDtecimealo? 4a vídft conimvm. Parece que o liclo do 
Aathor nesta Obn é persuadir a «a^ Cor leziío, qoe áes- 
gostoso se retirara da ^rte o voltar para eila ; oio dei- 
xa porém, de conter bastautes bellezas próprias do géne- 
ro, e a sua rersifieapSo é bastante fluida, e correote, e 
me parece principiar de meoeira mui natural. Advirto 
porém que desconfio muito de que este Poema não é de 
Perestretio; uão só pela liagnagem, mas até pelo nome 
deAlcino, de que não encontrei outro exemplo nos Boco- 
licos do século de quinbeDtoE. 



Alcino da Fortuna desconleole 
No fértil Riba-Téjo andava hum dia 
Em trage de Pastor fogindo à Gente. 

Tem por damoo cruel vér alegria, 
Crecia no praiter o seu tormento, 
Dobrava-lbe seu mal o bem qne via. 

Na dura scquidão, e apartamento 
O menos do que tem tinha i»H)SÍgOT 
Sua aima se Itte vai no apartamento. 

Salicio, que de muUo tempo amig« 
De Alcino se chamava, eRprimeotado 
Km obras de sincero amor antigo; 

Por montes, e por valles apressado, 
Solicito em desejo achar procura 
Aquelle bom Pastor amigo, e amado. 

£ ainda qoe sen mal dHficil cura 
NSo queira, ním remédio net«ssario, 
Amor, que lho deseja, (ho assegura. 

E sem outro desvio haver conlrarioi. 
Achava nesl* Í4r o triste Alefito 
N'hom bosque roíUilado solitário, 

Salicio, que bem vô que o d«»líB» 
Com forças rfem&iDr tormeíitodamna, 
No peilo, qa«do ttal fie j4lgti4int)llo: 



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!a muio BncniMii» cuTice iwo, m. 

A. oum conhecendo d'oDde mina, 
k qneixa lhe 4a^i, e desordena 
Com pràlÍM de branda voi hamana,- 

Oitendo-lhes : « Pash»*, pois te cosdemna 
« O ódio baixo, e riJ, a ley te manda 
a Que quem culpa não tem. Bio tenha pena. 

■ Nio te ponha temor rér desla banda 
« k. roda, qoe, sem cansa, outros levanta, 
• Qne ainda cOTrerá porqae desanda.» 

41-CIITO. 

« NSo me espanta, Salicio, vér com qaanta 
. « Uadança, se nos perde o bem presente, 
« Qaem vive, quem se alegra só me espanta. 

« He prompla, como sabes, facilmente 
« A justo parecer esta alma minha ; 
a A carne, como Traça us males sente. 

R Da perda, que me vem calpf) u3o tinha, 
« Não pedirei perdão, pois não tiz erro, 
K A quem me fez o mal isso convinha.» 



< No mais duro metal, no aço, e ferra 
O tempo faz gastar toda a dureza, 
a Qqe cuidas qtie serã no leu desterro? 

I Vestígio pedregoso a Fortaleza 
« Si mostra mil ausências n'hum só dia, 
n Pois diie, Alcino, em que poris firmeza.» 



d Agrada-me, Salioioi, a fonte tm, 
a As Arvores, os Montes, o Deserto ; 
a As Feras escolhi por companhiaj 

1 Ham gesto vejo só no desowccrto, 
e Dos outros para mim, raas os Pastores 
«Bum rosto tem de longe, oulfOEto perto. 

« A porta principal de seus.farores ' 
n Culpas accusa, que chamam Virtude, 
a Fazendo vioios o qoe fei loavores. 



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trrw T., câFHiiLs ni. 329 

tt Carar-medesle mi nto qm, nem fai«, 
« Pois mais pravsci dòr a MedíeíBa . 
« CoB meios qae accreBCMdm á sanfe. 

K Epistola a El-B^ D- SebasliSo, que lambem se en- 
contra na Miscellauea de Miguel Leitão de Andrade, tem 
por abjecto dissuadir aquelle Uosarcha da funesta jorna- 
da de Arrica, que teve em resultado a sua ruína, e a 
mina da naçfto: si aquella Epistola foi com effeita pre- 
tente a D. Sebastião, é grande abono do valor, e gene- 
rosidade do Poeta, que não temeo por nnu exposiffto tSo 
franca como respeitosa da verdade, expAr-ae ao desagra- 
do de um Hei mancebo representando-lbe os perigos, e 
naa resultado de uma empreza, porque elle eslava poi- 
saldo do maior enthuslasmo ; si o oão foi, e eu me in- 
clino muito a isso, sempre prova que elle tiuba bastante 
pcrepicacia para prever o lim, i]ue poderia ter tão ma) or- 
deuada tentativa. Em todo o caso a leitura desta Obra 
p6de servir de regra sobre o modo porque se pôde fallar 
aos Príncipes sem covardia, e sem arrogância, nem que- 
bra de acatamenlo, e respeito, que lodo o homem bem 
criado devetríbular ásua alta dignidade. Cousiderando-a 
pelo lado poético, esta Epistola, sem ser um modelo do 
sen género , contém alguns trechos que podem dizer-se 
moilp bem escriptos. 



Com lagrimas do Povo foi pedida 
A Deos esta mercê, que sem tardança 
Lhe foi delle outliorgada, e concedida. 

Em passo extremo dando co'a bonança 
Tea nascimento bavido, e alcançado 
Gom lagrimas de Amor, e de esperança. 

E deilas em nascendo logo entrado 
Em ten sçeptro real já vãs (íada hora 
Do Povo mais qoerido, e mais amado, 
- ' Este bem, qae na paz gozas agora, 
Sem defle te apartar, nem divertir, 
Prospera teus Estados, e os melhora, 

E nelles crescerás com sempre onvir 
Ajos bonâ, e:maus eom aninip quieto. 
Seus casofl, e. jtuBos presidir. 



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Sid IKSAIO nODUnW» CUTtCO, T»HO III. 

fira pnbliBo sstwo, e aa secrel» . 
De proprioi motos, e.scicDcia cerU, 
Fujas o teimo crassv, e iodtsCTeto, 

Que a poucos vai, e a muitos desconcerta 
Co'a preça, de vagar sintas prutleaeia. 
Que he ama singtilar de lodo o acerto. 

A Guerra he doce vista na apareocit, 
Terrivel, fêa, fera, e espantosa 
A qnan delia lem mais experiência. ' 

Em afiparato, e resplendor fumosa, 
Noi effeítos cruel Serpe maitoa. 
Sobre loías as Pestes perniciosa. 

Quem oeilã vio de furia Serpealina 
Cwpos nos Campos feitos oalomia 
Ter nos Abotrea sepultura indfna. [") 

E fpieni as miveos d'Arcabuíaria, 
Estrépito, furor, grita, e espanto 
De borrwidos Irons da grossa Artelharra ;■■ 

E quem sangue de vivos correr tanto. 
Que delb tintos vio passar os RiOs, 
£ dos feridos o clamor, e espanto. 

Perde da mocidade os altos brios, 
E teme com raziio (delies Isento) 
Tornar a tantos doros martyrios. 

Marlyrios é vocábulo esdrúxulo, isto é lem a antepeoot- 
ijma loQga ; mas o Poeta o faz aqui grave, isto é, coia a 
penúltima longa; a íim de rymar com rios, n brioi. O 
mesmo pralicou em o Epigramma VI. com 8 palavra Ii*- 
dibrio, a que alongou também a penúltima para a fazer 
rymar com gentio, e desDurio, o-que só pôde verifiear-se 
pronunciando ludibrio grave, em logar de ludibrio es- 
drúxulo. Não sei seestas licen^, contra todas asregraa 
da prosódia da liugo^, serão admitUdas hoje, ^ que os 
Poetas, quasl todus, se não pejam de ignoru oanaís 
sJmpleces precellos da tbeoria àp metio ; mas tãfou bem 
curto que uo tempo daAicadia eílas seriam allamevte re- 
provadas pelos discípulos d^ Gar(3o,,e que uen-osmais 

(•} A edigSo de Caminha dií Uinoi Mbutra, o qaa é 
groiseiro deipioposito t moito! oiltroi «enillbant«r M ba , 
que emendti reitituíndo a rerdadeirtftittSiM ■ '■ '> -' 



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331 

insipiOcaates, tttàkaB versejadores Be aitiiiMial) a lao- 
[sr mio destas, ed'oalns liúnfw, ^oa.orâ nlou Vendo 
pnlicar acada momeMo pw-hancna aqMin miofalta sa- 
ber, nem laleato poetk«, |ims aqatin a aaturçza qío doloa 
de uru flRvido inuxico, e delíGadQ. Beu coobeçp qae es- 
las, eoDtras censuras niiiliaR, posta que feitas sem agrí- 
moQia, Dem personalidades, « só aoialeressc da arte, ar- 
nirão coQlra inim o melindre de alguns vaidosos, qne 
querem ser louvados sem restrícçSo; e pôde ter que me 
tomem para alvo de suas Satjras, mas já daqui os ad- 
Tirto, que perdbm o sen tempo, porqne a minha inalte- 
rável pachorra njio se altera com essas cousas. Quando 
era moço sempre tire ú bom senso de aproveitar-me das 
criticas, qaando me pareciam judiciasas, e d» despresar 
as injurias, oa rír-tne deitas, e de qoa» mas dirigia : 
boje que estou vdtko fHiis, com grande pesar meu, jA pas- 
so dos sessenta, aio é pcob4vel que mude de sysleiua. 

Ora costra isto cefre o pensamento 
Com faria juvenil ao que nSo vin. 
Em que biuca praaer, e acha tormeato. 

E como aSo passou, viu, nem seatiu 
O mal da Guerra antes de entrar nella. 
Não pôde vêr quam mal se persuadiu. 

O Poeta passa logo a citar algans exemplos dos mal- 
(es, que acarretou aos Príncipes o kaverem-se empenha- 
do em guerras desnecessárias, imprudentes, e de meros 
Gapricbos; e estes exemplos corroíioram admiravelmente 
D que elle jterteDdia provar. 

O grande Xerses eom milbSes de gealcs. 
Gozando em pai a grande Monarchia 
De sem Reybiís <p]Íetos, e florestes. 

Qtíi conqóisW' a Orooia min portia, 
De tonar para bí<o q«e hera alheio, 
Tecado de' soberba, e phrenosi». ' - 

Cbegado a ella conheces a caleid, . , -. 
E com poMOB dati rdto, <e vencido 
Desbaratado « seus domínios vei9. 



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n INSilO MMttflM» CUnC*. TOIIQ In. 

O mUõ 'Crro fero, a tfio {fluido. 
Si o peUo DioderAra' doiodado, 
E f4r« Mtiifeilo do adqMrido, 

Nio Mra pw Thorairis rfegoíado. 
Nem seu peHfl, qne em sangue se mastilhs, 
No odre do seu próprio mergalhado. 

Coasas sam de cruel vida mesqninhB, 
Em que por culpa de bomeos tetueraribs 
Por graves desveuluras se caminha. 

Ninguém se livra de successos vários, 
Si não se conservar co'a paz amada 
Em seus termos suaves, e ordinários. 

Cousa f(H dos antigos bem notada 
Nos Ai«xuidrea, Pyr^bas, e outros toes 
HeproTafidiLide .guerras a jornada. 

Honrerao) que nos PafM seM reaei 
Poderam ser supremos, e excellentes 
Gozando Uva, e nome de immortaes. 

E sendo dano cruel de tantas gentes. 
Perderam com viver menos famosoe 
Mais quietos viver, e mais contrates. 

Sentença Foi de sábios curiosos 
Dizerem que mais vale aos Reys da terra 
Sor justos do que vai ser poderosos. 

Carlos, que o diga, que movendo gierra, 
De Bergonna pacilieo Senhor, 
A' França, com ajndas de Inglaterra, 

Com ira pertinaz, e t3o fnror 
Morto ficou na empreza, cm qae perdido 
Esperanças cortou do seu valor. 

O mesmo se dirá do mui teuHdo, 
E poderoso Rey' Carlos outavo. 
Que em seus Reynos quieto, a beis servido, 

Lanfou na roda da Fortuw hum cr^v^í 
Com que, cuidando que a re^nhã piesa, 
Sábio de França poderoso, e bravo, ,. - ■ 

E por Itália, sem achar defee», . 
Com 86 rama das. ari^ pAdç tanto, .. - - 
Que de todo se fez Senhor. (b fmpre»... 



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uno T., «innu m. 333 

Dando, partindoi, e âespoddo 4e qoMio 
Qir& ordenar a prospera Vertmi, 
^id sas roHas caídar, de Mr, e eapasta. 

Os tniduos da fortoita Mil «egara 
Qaal VwavHha fcran, ((ue ■'hom dia 
Abriads a Sòr a secea, e Imasfigara. 

AflAr qoe se chama JferoDiMa aSo abre, e murcha em 
BB dia eono o Peetò aqui aSàrma ; bem pelo cootrano é 
tta flAr hem duradoura, pois se conserva por muilos dias 
em lodo o sen britbo. 

Tal d»te Carlos foi a Ho&archia, 

Qoe vefldo~se -fomoao, e prepol«ile, 

, Se qniz perder por Tama, e ufania. 

Voltando-se o que Tet pEosperaaiBBla 
Em tantas perdas, e adversidades, . 
Qne escapou delias nilagrosamente. 

£ cheio de anciãs, e necessidades. 
Veio de Itália roto, e persegaido, 
A sea> Beynofi por mil difficaldadea. 

O Poeta prosegae em citar outros exemplos, como do 
&ei Filippe, D. JoSo I. de Caslelta, Francisco I. Rei de 
França , prisioneiro na batalha de Pavia, e conclue. 

Estado be o dos Reys sublime, e honroso. 
Si co'a Phylosophia sempre unido, 
O Rey fAr sábio quanto he poderoso. 

£ assí na paz de santas leys rigido. 
Os bens conseguirá perfeitamente, 
Dos bons amado, e pelos maus temido. 

Aqui lembro, Senhor, humildemente. 
Exemplos de conquistas já passadas, 
Que bem podem servir no que he presente. 

Que sendo com resguardo ponderadas, 
E antes de as provar bem entendidas. 
Quanto forem dos sábios approvadas, 
Tanto serão de Deos favorecidas. 

Se D. Sebastião leu esta Epistola; é natoral qnê fiies- 
sem muita impressão cm sen animo os exemplos de bn- 



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334 KNSilO HWG»AP»WO CBITIOO, TOMO m. 

tos MonawífflB, qw se harâ» ^pMa'eBi «^«dipees de 
guerras mal combinwías ; mas si Deos fim Seus «neicrn- 
laveis juízos havia decretado qse elle perecesfio «m o 
Reino nas margflfts do UtKsàm, que força podiam ter 
supplicas, represenlaplíeí, e «mseíios da prodaBCia? Â 
vontade de Deos pôde mais,, que todo» os esÍMcoadart 
zSo humana. 

' TémoB dez Sonetos de Pedro da CobU Pereslrdlo, e wa 
délles sam em Castelhano ; é bem po(uco, si considerwaw 
ò apreço, que nosecnlo do Poeta se dava a estes Póem», 
e aos centenares delles, que nos deitaram (W Poetas ew 
lemporancos ! Pereslrello é muito natural, qne nSo fosse 
mais avaro do qne elles destas composiçícs ; niaí o tem- 
po as devorou quasi todas, oudormcm desconhecidas es 
alguma livraria antiga : eis aqui um que tem poriAjecto, 
a Amisade, íe que me parece dos melhores. 

SONETO. 

Amor, que todo vence entre os nascidos, 

Em termos pOe perfeitos de Amisade 

Dous corapQes iguaes n'huina vontade, 

' Promplos, conformes, n'hum querer unidos- 

Da Natnreza vam favorecidos 
.Ãquelles, que em amor, e caridade, 
' Se amam, e se querem com verdade 
Dos ódios, e contendas esquecidos. 

Mas inJa que sabemos que os amigos 
Sam muitos, e dos bens sempre Adversarias 
De que devemos ler grau pena, e magoa. 

Devemos procurar ter bons amigos 
Pois estes muito mais sam necessários, 
Que para bem viver o fogo, e agoa. 

Este Soneto é na verdade bem pensado ; mas está íit- 
cnrso na condemnaçSo de Boiteau, que na sua ArtePc>^ 
tília estabelece, que nos Sonetos nõo deve repelÍr-MP>- 
lavra nenhuma. 



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. tivio ¥., cxnnu) m. «35 

Stfrt»Bl 4e ce pAeae il bamnl la liceneo; 
Lut. n)«me Al) iBiBnrti le nowbre, et U radmee:- 
Detemlil. qa'ntí ver» faiMe y pCtt jMiais eatrer, 
Ni qa'uB a~.ol déja ais osM E'y reaioatnir. 

■Ofío vacabalo, amigot, nao só se enconlra repelid» 
nos trecctog, mas oque é peior, serve doas vezes ierv- 
ma, e isto nSo pôde deixwr de haver-se por pobreu, « 
incorreccSo, si b3o quizermos anates suppflr, que o Poeta 
escrevesse imígcu, e não amigos no fim do verso primei- 
ro do primejro terceto, rousa que me parece veTwimíl, 
Tislo <)ae bz oelhor sentido. 

OSooelo primeiro não tem senão dius rymas, qne se 
repetem aos quartetos, e n«s íercelos, o que mç parece 
sobre maneira TastídJcso ; é natnral, que si o Poel« po- 
desse agora serarpuido disso, se desculpasse dizendo, que 
este modo do rymar era no gosto dos Árabes: bem sei 
que entre as Arabcii reina esse gosto ; pofém duvido mui- 
to, que es€e gosto seja o ktm. 

SONETO. 

Dos annos mal gastados pede a conta 
Aos bu'manos o GrBo Seubor do Tempo; 
A conta he larga, e he tâo breve o tempo. 
Que uâo ousam chegar a Ibe dar conta. 

A despesa nHo lem ordem, nem conta, 
Perdem-se as horas, e perdeu-se o tempo, 
E para se ganhar n3o he já tempo. 
Que a prepa não deixou dar boa conta. 

Culpa he dos homens, mas n3o he do Terapa 
Em deixar, quando podem, de dar cMila, 
Guardaodo-0,' pur descuido, a pcior tempo. 

A vida corre, c nSo discorre a eonls. 
Mas 00 lim correrá fora de tempo. 
Com nome de castigo, e oãe de conla. 

Nfio tei^o <hívida em concctler que reduzir a compo< 
sÍç3o do Soneto á estreita moldura destas TymaB obnga- 



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339 BNSAio BiMumeo cunco, TeHO nt. 
das, sem que pareça ler barido siato graade triMho, è 
pfova de muito engoubo, e habilidade, ma» Bimftt k- 
garei um tsin tewn depasse-pau€, ootmxfowB osFru- 
ceies, sejtm o qae se cbana Poesia. 

Parece-me mnilo preferível a este o Soneto tercein 
sobre a ingratidão dos homens para com os beneficidi, 
qne recebem da bondade do Creador. 

SONETO. 

As cousas se dispOem com máo severia 
Por ordem singniar da Natureza, 
O verde prado, as flores, a beU^ 
Rmoram na suave Primavera. 

As Onças, os Leões, e a Tygre fera 
Por desertos se apartam da aspereur, 
E todas as mais cousas oom pureza 
Zm seus destinos a razSo tempere. 

As Estrelfas, o Ceo, o Mar, e a Twra 
Seguem humildes sua temperança. 
Em sen termo preciso, e lemítado. 

O Homem s6 a Deos faz crua guerra. 
Que sendo de Deos feito á semilbança. 
Rebelde lhe be, soberbo, e levantado. 

A' Temperança, 
SONETO. 

Guardar a Santa Mediocridade, 
Evitar os extremos viciosos, 
Com freios apertando rigorosos 
As fúrias espantosas da vontade. 

Os erros temperar na pouca idade. 

Seus leves appetites trabalhosos, 

O pouco, e muito termos sam ditosos, 

£ bem regiáos sam felicidade. 



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ttvtS V., ÉaWWI* W. M7 

O mulo se consume com Tioleocis, 
O pouco cresce <Mái ajd^ expressa. 
Da ordem dos prndeutes moderada. 

Pelo que cuotinV em hona díilgmela 
Siga em taite ewn vagar sua presu, 
Què d pouM ha ttditOj « que o anilo te nada. 

Desconfio muito de que Me Soneto Èqa áUHbaído a 
Pedro da Costa Perédtrello, e bÍo Terdadeiramente delle : 
Dina das cousast ^Bt mais mt fai tntrsr eta (Mtida é o 
prosaismo da vãreificafiie/ 

Helbor pensada, e melhor escripto é o seguinte sobre 
o valor de ntortaMt e àn ftvw. 

SONETO. 

Pragueja-sa no Mundo por costumei 
Porém não eom razão« do Aaior períetta) 
Os rogo8, e alTeição sam por respeito 
Acliágas do Favor, ou do Queixume. 

d Vírítiíisó quê ifièáfár pfèSuioé 
Não p&nha nas tirtudes seu diréílo, 
Mas bilsqtJé n'úútròs meios ò provtiitõ, 
Catu qíie tudo sd gafiba, b sè cóasumé. 

AttJaflfâ-íe 6 iflefhef òòm dífígenCÍa, 
Coúi grafa, cOfti favor, 6 com valia, 
ÕtW fidifl nO Mdtido a parte inais segufa, 

Itfãs hto ã píit' de Deos he iâscienciã, 
Ellé permitia vctraos jtlgum dia 
Que quem tem a razSo teolia a ventura. 

Parcce-me igualmente twra õ seguinte sobre a phan- 
lasia. 



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aqfa; bm&io kumrapbco cuiieor nn ni. 

SONETO. 

Em varies formas corre a Phantasia 
Por levea accidentes da voBtade, 
Magina, e aada com velocidade 
Dp Mundo ss partes todas n'hum_só dia. 

Vontade a leva pela solta Tia 
De pensamentos, en que a liberdade* 
Sem deleites lhe dar na variedade, 
Toraa os cuidados em melancholia. 

Assim se vai de bum mal a entras miiores, 
Porque seguimos o que não devemos 
A desejos sugeitos, e accidentes. 

Largo caminho de tormento e dAres, 
Que em roda viva de ásperos extremos, 
Nos deixao) como em sonhos de doealea. 

Pedro da Costa Perestrello, cmno muitos dos sens con- 
temporâneos , apesar de baver abrafado a Escbola Ita- 
liana nSo deixava ás vezes de ter suas velleidades de 
poetar pelo estylo da antiga poesia nacional ; estes Poe- 
tas podem nislo assemilhar-se aos Hebreos, que snsles- 
tando-se do maná celeste, durante a sna longa peregci- < 
nação pelo deserto, d9o deixavam de se recordar frequai- i 
temente com viva saudade das cebolas do Egypto , e de : 
suspirar por ellas. Eis-aqui am Motte com suas voltas, 
que noslicou das composiçOes daste género, qoe sahinm 
da penua de Perestrello, e que não é destituído de faci- I 
lidade, e merecimento poético. 



Fez-vos, Senhora, a ventura 
Muito dura, e rigorosa. 
Porém fez-vos mais formosa, 
Que rigorosa, e que dura. 



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> V., OAriTDLÕ III. 



Fez Tossa figura bella, 
E depois de a fazer, 
Airependea-se ãe yit 
Qne éreis mais forniosa qae ella, 
£ entfo de inveja pura 
Fee-Tos dura, e rigorosa, 
fítrém fez-vos mais (iMinosa, 
Qie rigorosa, * qne dára. 

De tao rara, e peregrina 
Perfeição tao só se espera 
Por nalnral não ser fera, 
X ser branda por divina. 
Furtai a volta á ventura, • 
Que se tos fez tão formosa, 
Como adultera invejosa. 
Vos quiz rigorosa, e dura. 

&s poe«as de PerestreHo acabam -com nma oitava so- 
bre a morte de Lucrécia, que é um verdadeiro Epigram- 
nu, e direi mais, am óptimo Epigramma. 

Si culpa tens Lucrécia uo adultério, 
Foi justo premio tua morte feia ; 
E si cuJpa nao leni, foi vitupério 
Cbegar a te malar por culpa alheia. 
£ posto qne das castas tens o Império, 
E por fama geral assim se creia. 
Ainda nella duvidosa corres. 
Si casta vives, se culpada morres. 

Pedro da Costa Pereslrello, foi conlemporaDeo doDou- 
'm António Ferreira, e de Luiz de Camões, mas nem 
»e acorrecçSo, e elegância de estylo do primeiro; nem 
génio, a elevação, e colorido brilbaaíe do segundo, 
Danto a versificação, si não teve a dureza, e escabro- 
dade que mancbam alguns versos de Ferreira, também 
Io cbegou nem de longe á harmonia, sonoridade, e for- 



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340 BKSAIO It^U»»^ CRlflW, HOMO til. 

ça, que destiDgue os versos de Camfies de todos os dos 
Poetas, Dão só do sea tempo, ipAS da maior parte dosqae 
floresceram em epochas mailo posteriores, em qne o me- 
chanismo métrico foi Mla^ado ctm W&íl tsmero , e cni- 
dado. 

Uma sitigularidade qfi^ ate par^e aoUv^l no destim 
de Pedro d^ Costa Per^trellp, ^ o bav^r «capado ao fu- 
ror laudadorio do Padrç A^teniQ ^ Roie, éa Congrega- 
ção do Oratório, q^ oq «eu Entimi^m^t foetictts, que 
precede a colleçd» doq ^nsKpigranmH tvMnos, loavoa 
quasi todos os PoçUw FoF(agi)e£e« «ntJCQ», e moderoos, 
bons, erains, qoer escrevessem em latim, quer emcaste- 
Ibano, quernalingvaatcienal, MvefldPntreellesniDitos 
cujas (Htras dSo eiistw, e ie qqeB) Mipfetpi já teriam 
perecido os nomes, si B3oestivfl«s«n «Msigvdos naquel- 
le Poema latino, qi}0 viQ i 4efllitvib 48 nerecimenlo, 
e de brio poético. 



vni T» TOMO TUCHIO. 



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índice do tomo terckiro. 



lUIVBO IV. 

CAHTDLO I. Pêro de Andrade Caminha. fi 

CAPITDLO II. Epistolas, e mtros Poemas de Pêro 

de Andrade Caminha 45 

CAPITULO III. ia« de Camões 83 

CAPITULO IV- Algumas observações sobre a vida de 

Lm de Camões IIB 

I.ITBO T. 

CAPITULO I. Hhylhmas de Lmz de Camões 137 

CAPITULO II. Os Lusíadas de Luiz de Camões. ... 235 
CAPITULO III. Pedro da Cuia Peresh-etlo 310 



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iiçpitizcii;,. Google 



ENSAIO 



lOBBX OS ■UCLBOKBI 



POETAS FORTMViZlS. 



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J 



ENSAIO 



aoBBK OB aucLBomu 



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ENSAIO 
UliEAfnít-BKIXEIt 

80BBE OS MBLHOHEa 

POETAS PORTimiIEZeS. 

roR 

mw Cerre^ondenie da Academia Rrai dai Seieneiat dt 

l^ioa, Soeio Honorariq da Acadtmia Liibanetne dai 

ScieiKiai, e dat Lrirai, r Soeio CarreipoTuUnU d« 

GabintU de I^lwa do Rio de Janeiro. 

TOMO IV. 



VA IMVasmA ■II.TZANA, 



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S9I8ASO 
BI06RAPHIG0-CRIT100. 

LIVBO VI. 

CONTINUAÇÃO DA ESCHOLA ITALIANA. 

CAPITULO I. 

Jercnymo Carte Beah 



U Dootor ABtonio Ferreira com o bom seoso, e juízo 
penetrante, de que era dotado, havia presentido a gniB- 
deTaDtagtm, qae apoesia portugueza podia tirar do ver- 
so sdto para sea aperfeiçoamento ; ecoobeceitdo quetar-. 
de, oa cedo elle tinha de tomar-se commnm CBtre nós* 
eipoz o sea parecer nos segaiates versos. 

Oh doce ryma I mas inda ata, e damna. 
Ioda do Verso a liberdade estreita 
£ffl qoaslo com som leve o juizo engana. 

Não foi a consonância sempre acceila 
Tam repetida, assim como a doçura 
CoDtiaua o appetite cheio engeiu ; 

Mas soffraDO-la em quanto uma figura 
Não vemos, qae mais viva represente 
Daqaella Musa antiga a boa soltura. 
Ferreira Liv. II. Carta X. 

Para mostrar o qne neste género pedia faier-se em 
portDguez, aventuron neste verso a sua Epístola a D. 
João III., que não perdeu nada com isso, e a sua Trage- 
dia Castro, que tanta nomeada lhe deu na Europa ; mas 
o seu claro desccrnimenlo lhe fez conbeccc que nem a 



D,nzc...GòOgIc 



S KNSllO BIMBAPHICO CBITICO, TOItO tT. 

IÍDgaa tinha chegado aiada á grande perfeição requeri* 
da para pipiar em verso solto, laem o verso adquirido a 
Hexibilidade, «nobreza precisa para marchar livre, ehar- 
moBíoBo sem a molela doi coosoantee, e por iaso nuten' 
te com aquellas tentativas, resignou-se a tolerar a ryna 
(sam palavras suas) até ao tempo çm que, prescindindo del- 
ia, podessemos imitar a boa sottvra daqaelh antiga geate. 

Mas estas ponderaçfies, iSo judiciosas, e tão verdadeiras, 
ou não lhe occorreram, ou, si lhe oecorreram, nSotiveraia 
pezo algum no animo de um Poeta da soa eschola, sen 
intimo amigo, grande sabedor, e juntamente distincto por 
seu nascimento, e por seus servi^ iDílitares, visto que 
sem reparar em obstáculos, e difficuldadea, aventuroa o 
verso solto na composição de tret lojigos Poemas Épicos, 
ou qw pelo Bienos tinham a presump^o de o serem. 

Este 1'oela íoiJeronynio Corte Real, natural deEvora, 
segundo as melhores opiniões, sem embargo de qoe e»- 
(e facto não está bem elucidado, e terceiro filho de Ma- 
noel Corte iteal, pessoa de n^dlssima linhagem, rico, e 
casado com uma senhora deextracpáo igualmente nobre. 

Também não consta o auno do «eu nascimento, vm 
pôde, me parece, sem grande escrúpulo suppAr-se que se- 
ria poBco aales de ISiO, pois sahamos que no aoM de 
1371, commaodava elle uma armada naqualidade deCa- 
pitilo Mór. 

Estudou, probavelmente na Universidade déEvora, nSo 
s6 as línguas antigas, emodemas, mas todaa ashoas dis- 
ciplinas, que então se usavam, e que enlravani do plano 
da educação dos fidalgos daquelle tempo, qne secreavam 
para grandes feitos, e não para vegetar nooccio, edessi- 
par grandes fortunas. 

Oestingoio-se mutto na poesia segundo os princípios 
clássicos de Ferreira, com quem famibaroMate conrivia, 
assim como com Diogo fiernardes. Pêro deAndrade, An- 
tónio de Castilho, Francisco de Sá de Menezes, e outros 
gmodes Litteralos, c Poetas daquelle tempo, todos soi* 
gOH, e imitadores de Ferreira. 

Cultivou lambem com grande esmera a Musica, tantv 
instrumeRlal como vocal, e a Pintura, em qne foi insigne, 
como, aliim de outros quadros, se prova peto de S. Migud, 
que existia, e não seí si ainda e:tiste, na Cap«lla dns Al- 



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uns n., CAMnu i. v 

Ml dt Igreja Panclual it Stnio AAtSo, u Cidade de 
Ktmi, (rfn do «n piaed, qac w eBieudedoraiiTeniD 
lemiffe em moita estima. 

Foi owdo con D. Lniia de VaBconceDos, seobwa ani 
Bobn, e abastada, cujo Pai «ureia o importante, e rea* 
doso emprego de Provedor dos Amuifies ; desle matrí- 
nuie tere nma nnica filha, qne veio depoia a casar coai 
om CavalheirD por nome Anionio de Sonsa. 

Segando o cmtnBae dorSdaigos de sei lempo aegnie 
1 Tida militar, e dwante alguns annos sedestingnio tau* 
to nu guerras de Africa come da índia, assistindo a muh 
b» combales, ajodando a ganbar muitas Ticlorías, tanta 
por tura como por mar, commaBdando armadas, e Tacen- 
do gruides serriçOB, qne fil-Hei D. }oao III. reffloneron 
íueudo-lbe meicft de Capitto Donalorío das llhaa Ter- 
cfin, e de S. lorge. 

Cinçado em fim desta vida errante, e aTentarosa, « 
da iolenperíe, e insalubridade dos climaB deAfrica, e do 
Onente, Tcdlon & pátria, reeolbendo-se ao seu Morgado 
dePahac para viver vida traBqníHa, e pbílosopfaiea etktn 
os prazeres do bymeaeo, e o cultivo das Setlas Artes. 

Asna babita(io era uma dás mais apraiiveis, ecommO' 
das de toda a Província do Alemtéjo, sitoada em om al> 
lo, cercada de jardins, e fazendas bem ciltivadas, dali a 
Tisla se espalhava por nma vasta paiiagem, cheia de 
pontos de vista, e prospectos pietorocoE, e deleitosos, que 
cncanlaTam ainda os espíritos men'os próprios para sentir 
belezas sirapleees da natureza. 

O próprio FIlippe II. esse homem sem coração, quttn- 
do entrou en Pwingat, Scoo transportado de admiração 
quando visitou o domicilio do Poeta, e nlo cessava de 
eisitar a amenidade, e eacantos do sitie. 

Foi oeste verdadeiro Paraíso Terrestre, q«e Jeronymo 
C<^le Real, longe dos encargos públicos, das intrigas pa- 
lacianas, tao freqaentes no seu tempo, no seio da opulên- 
cia, e dos prazeres delicados, entre acnhura dasBellasAr- 
tes, e da Poesia, independente, e livre passou o restante 
dos sens dias alé ao anno de U9I1, em qne falleceu, com 
ciacoenta e dous anãos de idade, pouco mais, ou menos 
visto nfio termos certeia do anno do sen nascimento. 

As Obras de Jeronymo CArtc Real, foram moitas lan- 



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S ENSAIO Bioeuraico ttniea, mm ir. 

to em Castelbano, còtno em Portngaez. Asqae me (XW> 
ta haverem sabido álin, ou que chegaram aomea coiáe* 
cimento sam as seguintes, 

Siiccesso âo segnodo Cerco de Dio, Lisboa 1671, «n 
quarlo. Este Poema Toi reimpresso pelo Professor Besto 
]osé de Sonsa Farinha, em fJgí. Frey Pedro de RodiUis 
o tradoúe em Terso Caslelhaiio, dando á ioz a sua tn> 
ducç9a em Aicalá, 1S97: 

FdicisBima Victeria concedida ddCietoal SeSor D. han 
de Áustria en el, golfo de Lepanto de la (uderosa Armi* 
daOthomaaa, en d afio deNaestrafiedempcion, em^l592, 
Lisboa 1578, em qnarto. 

Híaufragio, e lastimoso soccesso da perdi^ de. Jíè- 
aoel de'^usa de Sepiriveda. Lisboa lS9Íi em quarto, fot 
dado á iuz pelo genro d» Ànthor depois da sua merte, e 
foi ponco depois traduzido em oitavas Castelhanas por 
Francisco de Ciutrera, e impresso era Madrid em 1GSI. 

Além destas edÍ£<Jes lia uma de RQllanil, Lisboa, anl783, 
em oitavo, e outra em dous peqgenos volumes dedezeseis, 
em ISiSi Eslas-duas ediçfiessam a meu ver as mdfao- 
res, e mais conhecidas. 

Estes trez Poemas sam em verso solto, salvo o Naufrá- 
gio de Sepúlveda, em que ha alguns trechos, especialmen- 
te falias, escriplesem oitava ryma. 

Todos elles estam compostos segundo asidéas erradas, 
qoe então vogavam em Hespanha á cerca do Poema Epi- 
co, e que ainda padece não e6t«rein desvanetãdas dt 
todo segundo se deprehende doinoderno Poema intnlado 
a Iberiada composto por Frey Samon Valvidares y Longo. 

Esto modo particular, coíb que a maior parte doaHes- 
pauboes, calguos Poriugueies, concebiam a Epopoia, con- 
sistia em versificar a Historia, adernando a narração com 
algumas flore» Poéticas, alguns episódios ; algumas cooi- 
parafOes, e pouco maravilhoso, e ás vezes nenhioi ; sem 
úar-se ao Irabalho de arebitectar uma fabula draoati' 
sando os acontecimentos, desenhar caracteres, efazernos 
factos as alterações, e grupameutos necessários para os 
reduzir á unidi^e da acção. Asijim preferiam o exeutpla 
de Lucaoo, e de Silio Ittlico aos de Homero, e Virgílio, 
únicos guias seguros neste género áe coniposição, e c(n 
ianto que tivessem escripto a verdade, poaco lhe impor- 



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^ IIVIO fl., «jWTDLO I. 9 

teTi qse as soas conHMwiçSes w^vessem deaccordo com 
IS regras da arte, que Ibecbaoasseia Poemas Épicos, 
«D Poemas HÍ$torie6s. 

Porém aittitacSodeLucano nSoera oníticomotiYOdes- 
le systema errado, mas a mania de celebrar acçOes coo- 
teD|ioraa«as, cujos Actores viciam, eqne pcH-isso davam 
poaca margeo) paraJaveuf&eG dramáticas, e episódicas, e 
para a indispensável transrereDcia da verdade bistorka pa- 
ra a verosimilhança poética, ee maravilhoso. Para evitar 
este incoflveuieute eslabeleceram mui judicíosameote os 
Hestres da Poética, qae para a Epopeia se não escolha 
moa .acfSo demasiado antiga, uem demasiado moderna, ' 
porque no primeiro caso se vê e Poeta obrigado a pintar 
uaitos costames estranhos para aús, e no segundo o ple- 
no conhecimento do facto, c as tesiemanlias presenciaes, 
m qnasi presenciaes delle, cortam os voos da invenção, 
e phantefiia do Poeta, e tornam mui difErJl o )ogo dos 
agottes sobrenatur»es. 

Esta r«gra é judiciosa, e «til, mas nSo concordo intei- 
lamente com ella quanto áj;iriueira parte, porque a pin- 
tara de costumes nimiamente remotra, e estranhos, é 
£ÍiD uma difficoldade, mas não prejudica oeSeito: bem 
entranhes para dós, sacn os costumes dos Gregos d» liia- 
^, e da Odissea, e dos Heroes da Eneida, e essa mes- 
ma pÍDtnra é talvez o que mais encanta, e recria naquel- 
les Poeoas. O que em verdade aaste caso me parece 
mais inconveniente é que oPotóa cm vez de pintar esises 
costumes «om exacçào, e escolha, lhe substitua outros 
sibeios daquelie tempo, como pi^licon. o Doutor Miguei 
da Silveira ao seu Poema intitulado oMeekabeo, esUma- 
vel a .outros respeitos, que sendo os scns Heroes He- 
breos, ou Gregos, não samGresos nep Uebrcos os cos- 
tumes, que nelle pista.. 

Concordo porém perfeitamente cont a segunda parle, 
poi^ue nada ha mais contrario ó mageslade do Poema 
Épico, eá liberdade de fingir, de que necessita o Poeta, que 
o compõem, do que uma acç5o muito recente ; os gran- 
des feitos , e os heroes tocnam-se mais respeitáveis cora 
a dislancia dos teroposnwior ex loitgwquo reoermiia. Uma 
acção antiga apresenU-se-nos em certo vago prestigio- 
sa, que oio se dá naquelias, deque fomos espcctódorQB, 



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10 EIIMIO KOtXUnCB GtmCD, TOXO IT. 

porqae aa ctmtei&iriaiiH» por todas as suas faces, e je 
ttma Kaneira precisa, e determinada ; e oa lieroea CM' 
temporaaeo» diãicílmente parecem taes áqoelles, qne oi 
Téen todos os dias, e traclam, e convenam com elles, e 
que sabem perfeitamente oque fizeram, como o fizeru, 
e por que. listou bem certo de qoe Themistodes, e C»- 
zar iiniica pareceram aos Gregos, e aos Homanos coa» 
Bos parecem a nós. 

O resultado parece acodir aqui em aoxifio da tíieorís, 
pois não cmheço am único Poeina Épico sobre ac(ii> 
eoBt^ttpotafKa do Author, que tenba repotapão taiva- 
wl, e qoe não labore tm grandes def^tos. Bem sei qse 
s&o faltará quem para refutar esta assersão, me cite i 
Artnteana de Atooso de £rdlla ; mas si a AntneaDa pas- 
9» pelo primeiro Peema Épico Bespanboi, deve-oa ter sido 
fitada por Voltaire ao Ensaio sobre o Poema Épico, e é 
muito Mturat queVirilaire o citasse porque não conhecia 
outro. Si a Araocasa fosse a melhor Epopeia dos Bespft' 
DltDfs, isso s6 provaria que a tkspasha são tínba aíada 
um PMíBa Épico. Qual será o bom Juiz na matéria, qoe 
a pesvr de aeiis defeitos, lhe não pretira tlmanion dt k 
Crus de Zanrte, a CkriBtiada do Padre Ojeda, oao Sir- 
nerdo deSalboesa? Como pôde julgar-se Epopua lUie- 
GCpffo rigoreaa, e tecboica deste termo, ma Poema eujt 
31^. tift& duas ou trez veies, sem naraTillwso, e qoe 
|BÍiKí[Ha por uma díseripçãD geographic* doChile, eaca- 
fMper nn saoifeslo snbre os direitos deFilíppelI. á Ca- 
rta de Portugal? Sejamoe francos, todo o merile da Anih 
cana está no cslyto, qse muitas raés não ebega á digm- 
dadeEpica, mas oeetylo só por si nik) OHHtitttc um ru- 
ma Épico ; para isso é neeessario uma fabula bem cons- 
ínjá», maeliÍBÍirao grandioso, « sublime, episódios ielc- 
ressanles, que nasçam da acção, e que se enlacem bea 
com ella, qse o assumpto seja graade, e de interesse ge- 
ral, e em>o Md» disto se eiicootra na Araucana, nunca 
esta pod«ri eeosíderar-ge ai não come unut cbrontca itt- 
sffícada, e eso-ipta em cstyle qoasi sempre poético. 

De todos 06 Pioemas Heróicos de Jeronynio Curte Real, 
qne cb^aran até a^ra ao meu coabecimenlo, é a Bata- 
Iba de Lepanio o qiiemais si aproxima á forma epíci, 
pâstnqtic ulio passe de um Poema Histórico; mas ha nd- 



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rmo n., CAnnLo i, I i 

le rica iioagiaaclo, maiUt talento ^ts^iptím, e compara- 
{O^Terdadeiramuitelioiiiericai, algniu^íiodioBbrilliaD- 
les, e os seHi versos stritos, sam, sí nflo me engano, os 
mais bem fabricados qoealélí tiaham apparecido emCas- 
táumo. 

A verdadeira acçlo começa no sétimo Capto, em que 
D. João d'ÀHsb'ia recebe da m9o do Cardeal Gnvella o 
Estandarte da Liga, e se apercebe para bir pneuiar os 
Turcos : os Cantos antecedentes Mm empregadfts na dis- 
cripfSo defeitos, qae nSo btem parta daac(&o, mas que 
Im alguma relaçio com ella, e de que efoeta lançou mBo 
paia estender o seu Poema a qoinie Cantos, e oSo sam 
pequenos, tal é a invasão da Ilfaa de Chipre, o Cerco, e 
tomada de Nicosia, a devastação do alguns logares do 
Zaate, e Cepbalonia pelos Corsários, comoiaQdados pelo 
Rei 4'Argel Ochali, e alguns episódios de paixão, e al- 
gumas íovençSes mythologicas, e oão parecerá pequeno 
disparate, que tendo o Poeta feito a sua invocação nes- 
tes tenpos 

No pido de la Lyra, y voz d'Apotlo 
La suave consonância, y dulce accnérdo, 
Ni la abuiidaate vena clara, y pufa 
De aqadla antiga fuente Cabalina, 
Ni Uamo las Hermanas, que en la cumbre 
Del celebrado monte, el verde sucio 
De açucenas, y rosas variado, 
Pisan con blanco pié, tierDo, y desnudo. 

A vos, oh buen lesu, a vos, Dios miff. 
Levantado en el monte ea Cruz triumpbante, 
Del abierto costado en saera fuente 
El arroio sangrieato invoco, y pido, 
Concededeme, Seflor, que dei yo guste, 
T ea la sagrada vena mi alma lave, 
Converlicadose alli mi rude ÍBgcni« 
£& elegante frasis, y alto cstilio, 
Y k mi baxa lyra ya tocada 
Del divino favor de vnestra mano, 
Con varias consonancias, y altos pnntas 
fiompiendo el ayre, suene en Ioda a parte 



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IJÍ ENUIO UOOUMIGO GBmeo.TttlfO IT. 

. Sabienilo-se por ella ti &n gTonow 
Del conflícto naval fiero, y- terrible, 
DondjB Selim qvedó obscuro, y triste, 
X coo tal resplendor el Jovea d'Àustria, 
Aquel prodígio en quiea valor, y eafuer»). 
Animo liberai, y cortesia'. 
£Bteadiinien(« alto, altos cenceptos, 
Clemência con justícia se ye iunto, 
Del raoinrcha Éspanol R«y poteaUssifpo, 
Único, amado Hennaoo, y dei gran Cesai 
Cario QainU) segando, anuído bígo. 

diser, peqneno disparate aoLeilsr, 
\êr esta deprecaç&o tão piedosa, t 
Crucificado, o bir deparar dahi i 
le Cupido, e com Yeaus, que pede 
f)rique armas para D. João d'&as> 
os, e que yà offerecer-Ibas, e eu- 
tregar-lbas no Canto IX. 

Não sou tão jucrupuloso como Rulia, que julga qoaSi 
que os Poetas Chrtstãos peccam em fazer uso das ma- 
chinas pagãas, untes penso r.omo Boíleau, que ellas lem 
logar em uma Epopeia, que nSo seja de assuinpto relir 
gioso, mas lenho que é necessário que e^se madhinismo 
não seja como os vestidos dosTorçados, depauno de doas 
cores, eporisso acho summameQte ridículo, abjurar a my- 
tliologia na invocação, e admltti-la no corpo do Poema; 
Milton, que invocou o Espirito Sanlo, e aMusa Celeste, bus- 
cou os sens agentes sobrenaluraes no Ceo, e no Inferno 
do Christianismo ; e CanxQes que se sérvio dos Deoses 
Homéricos, invocou as Tasides, e Calíopc. 

Não farei exame deste Poi;raa, por ser Castelhano, e 
por isso alheio do objecto desteÈnsaío, conlentando-me 
com dizer, que devccootar-sc entre os melhores daBcs- 
panha, e que prova bem o talento doÃuthor, e asoapo^ 
líca fecundidade. Attendendo porém á que este Poema é 
quasi desconhecido entre nós, peço licença ao leitor, i»- 
ra aprcsenlar a pintura do ultimo assalto dado a Ntco^ 
pelos Turcos, c sua tomada por Moslafã Bachã. 

Cemo en las hicrrarias de Canlibria 
Do ae labra úe hterro grande capisi 



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Lino tt., cAntete i. i 

Aqnellos doros yunqaes golpeados 
côa Irabajo continuo, y faerza imnieosa . 
Hazeffl fiero sonido, que ensordesce 
Qualqaiera habitacien circumYezioa, 
La mal compaesla Casa, y techo bumosa 
De ceatellas ardieutés occupando ; 
Aviva-se por puulos el combate. 
Cresce en ambas Ias partes faria, y sana 
. Baela una crude ouve de saetas, 
Que baze notable mal, y mortal dano; 
Por el fosso allanado ya se tienden 
Varones valentissimos sin vida, 
En lagunas de sangue ; otfos con peiUi 
T rabias de lá mnerte se rebaelven. 
El severo Tyraoo anda con ceSo . 
Bravissimo a los suios animando 
T con palabras ásperas reprehbode 
A tan fácil entrada tanto espacio, 
Ellos desto afrontados arremeteu. 
Com nuevo, ímpeto, y nueva fnría alzando 
Al Cielo horrenda grita^ assi ferozes 
Conrabioso fnror entrar iosislen. 

No es menor Ia faerie resistência, 
Qne la sobervia, foerzas, y osadla, 
Trava-se una sangrieata, peligrwa. 
Porfiada, cruel, dnra pelea, 
Echan de las almenas graves pesos» 
Arrojan dardos, piedras, hastas, gmessas: 
Hierve la Gente, suena el rumor d'armas, 
Suena el grito, la voi, suena el gemido. 
Caen estos, y aquellos uei coniliclo 
Torbulento, rebnelto, y peligroso; 
Trabajan lerantar-sc, y con la prisa 
II nno ai oiro se aze, y alli se impWe. 

Assi como por fiesta en la ancha {dazc 
Donde anda el furioso, bravo TorOj 
Acierta de caer alio palanque, 
Qne el peso de Ia Gente hizo rendeim, 
Sexanse alli venir con grande eslrneado 



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EKSAIO NOOUFVCO CBITKO, TOHO 1T. 

Gruessas ngas ai anelo; alia-se ai ayre' 
Regosigada grita, y qu^a herviendo 
La rebnelta Un ciega, y tan confusa, 
Nadie mira por otro, solo enUeode 
Dane mafio, o remédio de salrar-se, 
T el qae el gtave njoaton a ooestas ticae 
Echa apeoás la voz qoasi sia vi4a. 
Da voies Uostaphá, grita victoriá, 
Janízeros trai el Tktwia grítau, 
Entrao cod denodada fuerza, y safia 
En horrendo tropel duitro dei moro. - 
Te mneren los valienlet defenmreg. 
Ta de ínneroigos pies bollados qnedan, 
T aqneHoa qae «I horror de la presente 
Haerte receian, vnelven las espaldas, 

ITn alarido horrible, m Hanto fiero 
Anda por lá Ciudad a Díos llamandv. 
De las fUcaa mogneres, qoe sin ordcn 
"Àtonitaí van, palma, y púho híríendo. 
Bien essi como quando alia ín la vanda 
De Grallas el Baicoa bambriento affiena 
La que el Hado le da, las compaiieras 
Acá, .y alia ran todas esparzidas, - 
T de sn mortal dafio recelous 
Llerantaa per los ayrea altos gritos, 
No saben, de turradas, a que parte 
Las tristes dei peligro se ^seguren. 

' £1 Dandolo aniiDoso incita, y muere 
Los valientes Soldados a bonra^ y fama, 
T cos palavras dignas de memoria 
Dobra Ias faenas, y ânimos aviva. 
Tal 8Í »;Ierla que aliando el braço armado 
CoB la sangrienta espada ai pnBo azida 
Antes que el fiero golpe ai enemigo 
Kostre qnanto es potente por su daAo,' 
En el snele se tiende traspassado 
Dd morlireFO piorno, y fuego ardíenle. 
Que repeoBno llega, toca, y rompe 
St bravo coraçon, qoo ardia ea Toria. 

Diçpitizcii;,. Google 



uno Tl., CAMRLO I. 15 

Tal si acierta a empaxar U gruesM Uaç» 
Coa cholera movido, y foena immensa: . 
Embolbíendo el peqnefio, agodo faierro 
En oalíentó, espumosa, roxa sangre, 
Del curvo arco la cuerda el nro nelta 
Volando d mortal tiro dó haja date 
Otro despara el tnieno, aponta el raio, ■ 
Dó DO paeãa quedar livre Ia vida. 

Estando en estos pontos la reboelta, . 
Que a tal sazon parece el Mundo huodíiw 
Uoa pequeíta bala ardieodo es Toego 
Ayrada, furiosa, y brava Ilega 
Al Boble Nicolao ; un acerado 
Peito, y el coraçon juntos le rompe, 
Cae el fuerte Varon, dando loa ojos 
A un profundo, mortal, eterno olvido, 
Traz >el va Bernardino, a qoiea voIanU 
Saeta, atravessando el petto, mueitra 
La punta ensangrentada a las espaldas, . 
Us plumas escondiendo ên Ias entraãas, 
Un temblor ya mortal va por los guesaw. 
Al mísero Mancebo en tal instante, 
Baãole alli un sodor topioso, y frio 
El amarillo rosto, elada fronte. 
Y con anciã penosa revolviendo 
Los ojoB de tinieblas y« cercados, 
CoD allimo gemido, y vos postrera, 
Va suella de prison rolando el alma, 
Marco lulio Romano, mal faerido, 
T ai termino final qnasi Ilegedo, 
Tendido entre los mnertos queda, y entras 
XiDs Tnrcos de rondon, y con victoria 
Por ias calies corriendo van, sobevios, 
Con impetu cruel a todos mataa. 

Jerooymo CArte Real era homem muilo instraido, « 
Dm espirito original, que não imitou Homero, nem Vín 
gilio, nemAriosto, equiz abrir um caminho novo DaEpe> 
peia ; alguém comparou o Cerco de Bio com a ItaUaLú 
Wate de Trissino ; mas eu' confesso qne a nnjca analo* 



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16 KKSAIO niOOiAIHlCO ainCO TOUO, IV. 

gía, qne eocontro enlre estes dons Poemas é o serem aift- 
bos escfiptos em Terso solto. 

Seria difficil deparar d8 nossa historia do Ofiente ub 
assumpto mais profirio, e mais digno da Epopeia do qoe 
o Cerco de Bio, é uma acção aUamente heroicfl, dejuB- 
la grandeza, «nica, e interessante a Portugal pelos seos 
resultaáòs. E'"nm punhado de bravos, que enserradoa em 
uma fortaleza qaasi desmoronada, a cinco mil legoas dt 
sua pátria, privados das cousas mais necessárias, vendo 
todos 05 dias diminuir os seus, sem esperança qoasi desoc- 
corrOi porque o inverno lhe fecha os mares, resdotos i 
morrer, ou vencer, mantém o seu posto com inabalável 
constância durante muitos mezes contra todas as forças 
do SnllSo de Cambaia, um dos mais poderosos HoDa^ 
chás da índia; ansiliado pelos consideráveis reforços, que 
lhe presta o SultSo dos Tiircos, até que tomando-se o 
tempo mais hr»ido, D. João de Castro pôde chegar a soc- 
corre-loscora uma armada, e ajuda-los a libertar a for- 
taleza, dessipando, e extremiirando o poderoso exercite, 
que a cercava. 

E' claro que si naqnelles fleroes faltasse a cottstaacii, 
e o valor. ' e deixassem perder aquella fortaleza, todo o 
Império Portuguez na índia se perderia também com el- 
la, porque os Reis do Oriente, malsoffriâos d» nosso jn- 
go, que tanto lhes pesava, aproveitariam o ensejo para 
sacudi-lo, e coUigados com o Rei de Cambaia victorioso, 
nos acommetteríam ao mesmo tempo em todos os pontos 
do nosso dominio, e assim consegniriam expnlsar-nos do 
Ittdtistão. 

E' pois evidente que Côrle Real soube escolher um as- 
sumpto, grande, admirável, e digno de ser cantado por 
um Poeta Patriota, nome que elle deverto merecia ; o 
que elie não soube foi architeclar sobre esse assnmpto 
uma fabula dramática, cujo progresso fosse alteniativ»- 
mente adiantado, e atrazado pêlo jogo de paixfies ardea- 
tes, e de caracteres bem deseuhados, cutrança-la arlíCcÃo- 
lamente com episódios, que lhe dessem variedade, e ac- 
commodar-lhe um maravilhoso, que a amenisasse coV 
quadros brilhantes, em uma palavra compor nm Põem 
£pico, e não um Poema simplesmente histórico. 

Preocupado com As doutrinas dos IXcspanhoes a este 



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lino VI., GAniiJio t. 1? . 

nspeilo, dra c*™*) 6l'^ i>a mania de escrever só a ver- 
dide pnra ; mas a verdade pura dSo tem logar na poesia 
mas sim a Ttrdadè revestida, e adornada pelos dedos 
mágicos da Gcçio. O Cerco deDio é uma relaçSo nobre, 
«nergica, e elegante de tndo, qne se passou no cerco de 
SlD, mas nSo um Poema, em qne o Leitor veja passar 
dimte de sens olhos aqttelle grande acoalecimento. O Poe- 
ta narra circamstanciada , e chroBologicamenle quantos 
assaltos deo RnmecSo, JasarcSo, e Coge Çofar á fortale- 
ia, como D. João Mascarenhas, e sens companheiros a 
d^mderam, como D. Joio de Castro veio em seu soccor- 
ro, TÍo, combateo, e v*nceo ; conta quantas minas reben- 
taram com estrago, e quantas sem eite, nSo Ibe esquece 
mn facto, n9o omitte uma circamstanoia, mesmo daquel- 
hs qoe por ireriaes, e insigoiftcautfcs, nSo mereciam ser 
mencionadas neste géner* dè escripta, mas debalde pro- 
curamos ali os differentes caracteres dos seus heroes , 
nem os Temos operar eHes mesmos. CúTte Beal bJsto- 
rton o segundo Cerco de Dio com a mesma eiactidSo com 
que Jacintfao Vreire de Andrade o pratícou^pois na Ti- 
dade D. JoSo ^e Castro, e ainda me parece que o Bis* 
twiador é muito superior ao Poeta na eloquência das fal- 
ias, além deqne, quanto lhe édado,'esboça oscaracleres 
dos heroes, e dá á sua narração uma certa fónna dramá- 
tica, qne a enche de vigor, e de vida. 

O Cerco de Dio consta de vinte e um Cantos, ma« é 
de iiotar, qne grande parte do penúltimo, e o ultimo to- 
do b3o fazem parte dclle, e sam orna verdadeira excres- 
cência; pois vencida a batalha, destroçados os Mouros, 
mortos os seus principaes Chefes, apossados os nossos da 
Cidade, e derrocadas por ellos todas as suas cercas, c 
maros, despedido D. Joio Mascarenhas dó Governo da 
Praça, enomeado outro Governador para substitui-to, pa- 
rece que a acçfio está perfeitaniente terminada, e que 
nada tem com cila as profecias, e excursão de D. Manoel 
de Lima petas costas de Cambaia mettendo tudo a fogo, 
e a sangue-, e commettendo barbaridades, de que o mes- 
no Atila stenvergonbaria ; a chegada do Vicc-Rei a Gfla, 
; de Mascarenhas .1 Portugal, sani cousas absolulamenle 
jslranhas ao assumpto, e com que o Po<-lá, levado da sua 
xhuberanle fecundidade, quii cncbur alguns ccntenaret 



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18 ENSAIO BJoqUVBICO CUTIf», TOHO IT. 

de yçrso?- Parece-uw qae para Jeronymo Carte Keal an- 
dar regularmente M composição do sev Poema ánvao- 
joeça-lo com os preparativos do Vic&-Bei para wcconer, 
B descercar DÍq, e narrar de[wis ím lagar epporlui» lo- 
do; os factos antecedentes, daqoell» atenoravel cerca; 
niaa.istp suppnaba a orgaoisaG&p de apu fabula draju- 
tica, o qu& eslava muito longe das idéas 4o Autl^or uk 
fl Poema Épico. 

Si M Cerco deDío nSo ha fabula. B^m cvactcrec Um- 
bejB tio h* episódios, se n5o nijizernws «b«far do« tir- 
mos, dando es^e ^otne ^ ^mna^ digice»s4ea espaUudu 
com m5o avat? por algans caBl0%do Poana. 

O MeravilUoso alén d« offe^eçer « mesm» PQntradic(i* 
com invocação, qu^já notamos 04 Mt«tha ie Itpmia, 
é sobre maneira aiçsqninho, pois.,s& redui' todo a »\^ 
mas yis&QS, e sonhos, sem resyiiafh>i ^^gun»? profeciít, ' 
Q íisonjas a algomaq famílias nobres. 

A. linguagem á qijasi. semprt puf», oqtbU, « is voo 
elegante, mas o dialecto poético se. coafK4de a niult 
com o da pro^ e a versiltipaFío qiitda ,1^ iMu grU' 
geado aqHeila flexibilidade, ,e liarm^ia ÍBtMsptnsiTeii 
para prescindir da ryma : daqui a«sced frequentes t» 
cbos tão pobres de .estylo, como de bafaionia meUiu, t 
daquella sonoridade, que lisongea, e contenta o ouvia 

leronymo Corte fieal, quit talvez imitar &rioste, Bc^ 
ui, e o CcHtde de Scandiano, fazendo preceder os atts 
Cantos de pioemioa, ou iuIroduccOes morges, satuo-K 
porém mal desta tentativa, porque os seuseiordioe rechea- 
dos de máximas pesadas, e de trivialidades moraes, & 
tão mni longe de emparelhar com os prólogos tão chit- 
..tosos, tão esgr^cados, e tâo burlescamente pbilosopfaicos, 
com que os Irez grandes Poetas Italianos prdudJaraa » 
Cantas dos seus tão longos, e tão eomplicadús Poemat. 

fl ]Jiesse caso [dirão alguns) O Cerco de pi^ é um P» 
ma informe, e sem mer^imeaio algum- » Alto lá, SeBbo- 
res CrilicosI Informe quanto quizerdes, mas sem me»' 
cimento nego, porque tem muito, merecimenio, e aiert- 
cimento de moilos géneros. 

Já não é pequeno merecimento o ser o Cerco de Oit 
composto, de vinte e um Cantos, nada pequenos, eescrif- 
to em versos soltos, em um tempo, em que ningum ft* 

Diçpitizcii;,. Google 



tmo n^ CAmsu i. 19 

liifnerbemtaes*er9M, e p«i«-fie i*r trio senfto. 
M^ e MHtH vetes (xn goalo. 

Ooiro merita deste Poena é i abudoacit, e lidltH 
du Mts mapmiçim qoui Benpre fruanici, «lúiaafls 
Bttmu, e Anisado como «s de Honoro pennos è 
liilbsitei quadras, q«e de qaando ca Coando dli^ 
htn o eipirílo do Leitor, da monotiwa da nainçle, afio* 
ceBdo-Jha eslu vanadas sceau para doçaaçu da crali- 
fiuda atten^o. Taes sam as seguiiitas: - . 

B«B iBii coqa tfuoio bim gnn penedo 
Qae longo traqw eitan da fragbia 
Hocba di^ciubltado, aneacaado- 
O Bio, 4W por baixo vai Argiodo, 
Con carso aceeterado, e aa oormIob 
VtÊçaus, e eeatlDaas salaparaiD, 
A Terra, que nstiaba o gran peio ; 
Dali daqaelta altara coni gvaii' biria - 
SeMxa vir, Csendo bm» e^nstose 
EslroBdo, •dasde B'aeaa, os área gsmeo. 
Com aonerosa voz ali causada 
Do fero golpe, roaco,. e teneroao. ■ 
Os Peixes, qiw aleaaçott a dura pedia 
Em cima d'ag0a, Scam em pedefoa, 
Ootros de eipaeto oheí<»'TaB fugindo, 
Blas ji paasadO'» impet» farioao- 
Do perigo ea^ineidoa^ tonum logo 
& s«gDir 08 camiaboB ooftnoiados; 
Assi detta maneira os Moeres veada 
O damoot qoe este fogo lhe fizera, 
Queimados, todos deite se aSaslaram, 
Mas com esfu^ grande, e ousadia 
Arremetem com fúria, dando pouco 
Por Uros de espingarda, oom que morre 
Grande numero dãles I 

Cmo d4 JHo Canio VII.' 

Esta comparaçSo além de frteante, está cheia de uma 
rariedade de objectos, todos bem expressados, que a ter- 
iam rica, e agradável; algoos pscbosos, e rnias de coo* 
tentar a jnlgaraa moi longa, amo PerraoU oo&sura fio- 
1" 



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20 EH9AI0 HOatimCD CimCD, TOM IT. 

mero, por muita», que tan ncBle gosto; e qnêâePn^ 
rault meUa a bulba, chamando-lhe, julgara eUeqae CMi 
nalta graça, « êomparasòes de roto comprido » mas Per- 
rault, a quem nfto faltara saber, bhb qoe tOa tnrin ó 
seatímento da ^andè Poesia, foi nésU parte vietariwt- 
mente refutado porBõUcaa, que Uie [wotou, que asem- 
paragOes em um PÁema uSo aerTein só para elscidar os 
objectos, UNS também para míAçk o estylo, e variar • 
tom geral da Obra.' - 

Qual ficA.o rdxo Lyrio, qne o agrute 
Boslico Lavrador co» curve arado 
Arranca do togar» qie p siístentaTa, 
Dando-lbe ^í virtude, e formasua : 
Harcha-se a verde folha, e se ealHsteee 
A fresca hti perdendo o banor, e a vida^ 
Assim desta maneira ogéntil mofo 
Inclina o débil colo, cerra os olbos, 
Constrangidos da morte, e cõm prc^undo . 
Gemido es[»ra, e võa .ao Ceo sua altna. . 
Cant. II. 

Assim como frenetíco tomado 
Do mortal accÍdente..qBc a joizo- 
l,be transtorna de U^o, ali imprime 
Slil phantastiias f6rmas alteradas, 
Affronlá-se o Enfermo, vira os olbos, 
Desvelados, a bama, e ontra parle. 
Levanta o brafo, dando em vSo mil gidpes. 
Com vários desatinos brada, e pede 
"Vingança pêra o mal, qné imaginado 
O triste passa ; e sente tanto a pena, 
E trabalhos gravíssimos cansados 
Só da imagíDacdo, como si fossem 
Verdadeiros, e firmes, nSo Gngidos ; 
Desta maneira aquelle bellieoso, 
PVndente Capitão raivoso, e bravo 
Consigo falia só. 

Cánt. XII. 

Qual wt, mostra feroz, raivoso, e bravo 
Nb caApD o Javali, qne- perseguido 



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siTu ri., < 

De animosos L^bréo», e dós HtotcirM, 
Qae a morte Ibe procuram, vendo « pn^a, 
X alaridos -dos Cães, qaejilbechegam, 
Com temerosos róBMs encre^udas 
As biiias cerdas, vira, bate e dente - 
Agudo, todi> ioTollo em braooa csonma, 
E ao qae chega buúia ves, bz. qne afo ouse 
' Ifflportuna-^lomais, assiioMsKelM 
Copi a capada na ntfio, e aceeao em in 
Escarmeala aa Imigos. 

Canf. J///. 

FonmTa-sehiimnimor surdo, eeoi^ase 
Ali destes diversos pareceres, 
Como qnudo se quebra manso rio 
Antre pequca? pedras, levantando 
Transparentes empolas eom rngido 
De soamisas, mal disliactes votes. 

Cml. XYI. 

Ao mérito dss cmaparaçOes jnnta-se no Ctrto de Bio 
abelleza das discrippDs ; a natureza parece quê havia 
formado Corte Real, paraqne Tosse o primeiro Poeta des- 
críptivo da soa Pátria ; más a opinifio do seu século o le- 
?oi] á Poesia Épica, porém nessa mesma, elte, ctdendo ao 
impulso do seu génio, prodigahsa a itnz as mais. vivas, 
e enérgicas desoripçOes de lodo o gsnero, aBimaado--as 
do mais rico cplorido. Tfija-.fie esta deBcripçao rápida, e 
concisa de uma tempestade. . 

Mas quando Phebo ji se declinava 
Para dar Inz a oníro meio Mundo, 
As AleySes; ia azas sacudindo 
Contra elle, tempo adverso pronoslicam, 
Fágin de lodo a luz, e ham manio-esouro ' 
Cobriu a redondeza. Já começam^ _' ' - 
Grossas, e negras nnvens a esteader-se ■ '■ . ■* 
Pok) Ceo,amastrasdo Carregado " ''' 

Omedonbosembrante: já nas praias i 

Seqoebram com furorínchadasondas-, ' - , '' 
Já se mostrara o mar escdK», horríbii, ' ' '' 



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KVtnio, Humuiié a todu partw, 
E qnoto nais a noitt ae cerrara, . 
Tanto eiwma o vento cos mais tvçã. • 
Accodem narinhein» aoa Logaret, 
Que tem iteeosBiâade ; amaiaan vélaf, 
Recolhem-MB, e ji qnaii perdMM, 
Agaardam a tvaveia do soberba 
S verdenegio mar ; aH os utíob 
Gemam da grande aOronla ^le padaoe», 
Algamas vezes sobem li nas mtom, 
Oatras 80 centro descem ; entram dentro 
Embravecidas ondas, e ao^ Soldadas, 
Daiiam todos cobertos de grossa agú ; 
Soava o grandfrCco de nm Polo ao ostro; 
Com IrovOes espantosos, e medonhos 
Hostravamon rdavpagos espesse», 
' Sen resplendor fogoso, e hz ardeote. 
£ÍB vem bramando cena estrondo borrtrel 
O fnriosissimo Austro, 4 traz comsigo 
Bnma peiada nuvem grossa, e negra. 
Que bomii mnltidio grande vem tasoando 
P* tmgAii pedra Involta em agoa ; 
Eia a espantosa imagem fera, e crna, 
Ba morte sa tbet pfem diante doe <Aee, 
A gtttte, levantadas as mioa, pule 
Em alta vw a Deos misericórdia. 
Dasta manara arribam eombattdos 
Bas foriossi, emas, inchadas ondas, 
Quasi desbaratados tomam porte 
No togar, que o panado dia, todoã 
Tiahqm paúado ji, e ati repaifam 
CoQsas damnifieadas da tormenta. 

Cmt.XIL 

Este qaadra é perfeito, e nelia 080 Mta nenliraDa du 
oircnmstanciu. qae Bobem eccorrer em semithaDtes lao- 
ces ; o PoelA ras fa» vêr o qn« eHe próprio bavin maiiis 
veies presenceado *o danoso de sua vida av^ntoreira, c 
narilima: Alcyoies qm acodem as aas annnnciaido min 
tempo, oCeo, eomv, qneescoreosm, asanvens, qoeie 
condensam, os ventoE, qne se d^eacadeian, os mahnbáni 



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qKtralnibni, «dAAKtíaatBflm afmr^ »etta/e sabi- 
ás ao alio, 00 dMOiãas «gniid» prt^u^ntihd^, segando 
obedecei! ao» corovrse tfo mar, as oudai qae- it arrojam 
sobre o coDTa, e alagai* os BtridadM,- qm tsUA sobre 
a tfãái, o rebte doa "Umths, •« fUilar dos n^anpagos, 
1 chora, ofwérísoo, aBMrroa déescaiteos levantadas 
pelo Tento, « iá genl» MeitwIlO , « com as oftos er- 
guidas pediodu & 9e«l iBiserictdi£« , ftié qufe arribam 
DO mesmo porta, de qtse oa vvspen faaviam SaUdo com 
Bar bonan{»90, « leapif «ereao. ' MQo foi no seu gabine- 
te, e sentado aft saa bofeU, qne o Pecla imaginou eela 
taupestade, consaMando «s Iíttob de Tíajanteb, mas con- 
sultoDassaasFamediseenoias, epinfos aqtitllcs perigos, 
um Uo freipieBM t«b« tiaàa visto, ein que mil vezes 
jDlgára perdor a rida. 

Iiaminemoa agora uma díaetípfM de mrtro género, e 
seja esta a pintora do pessamenfo de Nano Pereira, que 
failecea dd navio, qtte o coKdmia a OAa, OBd« hia cu* 
lar-se das perigosas Farídss, que harn recebido comba- 
teodo ralorosaiKMe aos boftiartes da Fortateta át Diu. 

Pois como 'pouco a pouco já chegasse 
Àqaella bora Gatí, qne ledes lemett, 
Os seus cíHtçadoB olboe oemefarant 
Sentir da vida o tn-mo dntadein. 
Vistos estes si:^a« aceodem juntos 
Seus oriídas ali, e OB outros lodo», 
Qne no navà iam, mostram tristeza. 
Vendo onobfa Varão, qne já espiravil. - 
É nesta graade affronta, em que está, chamam, 
Jesu com grandes brados; outros trazem 
Com preça a funeral, ultima cera, 
Companheira das horas derradeiras. 
Entregam-tha na mão, e a triste alma 
TrabaUtada commette sahir fAra : 
Mu Mrcada de eiílreioos diffiereotes, ' ' 

Acobardada torna a recofteivse, 
Daido ao ims«o corpo grave pena. 
Os oliios tem no Ceo prompUs,' e Sxos; ' ' 
A booa meia aberta, os: beifos negros, ' 

Amareno na eir, inchado o peito, 



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M xssuo BiateoAPBioo arnco, nuio it. 

O alento apressado, os nwoibnu frios, 

E do esprito vital desamparadea, 

Onye-se na gaigaDta hum sou já roaco ; 

Comera a .estreineoei^>«e com penoso 
. ICortal desasocego, e triste angustia 

sempre aeonpaBhada. 
croei«, e feras 
nossas mortaes vidts, 
ali presidem 
cwto em iodos 
iros de tristesa, 
- ftvorre^da 
icio se lemita. 
10 tem etários, 
i rostos escomiiam. 
m do Supremo 
em confessam 
e a qaem com rozes 
lara sempre 
: a cujo Dome 
ra, e o. Reino escnro. 

Sendo chegado o termo, os poros se abrem, 
Hstilam-se por elles gotas frias; 
Abaixa 05 oll)o& já cheios de morte, 
E cont grandfi agoqia de improriso 
Bama névoa mortal lhe cerca o rosto. 
Vendo Atropos sigoaes tam conhecidos, 
Aleranta no ar o braço, e corta 
N'hum momento o delgado d^il-fio, 
Ajndada de todos, com devotas, 
£ pias oraffies, se foi soa alma 
Ao Ceo, ficando « corpo ali estendido. 

Se ahstrahirmoE da inconveniência das Pvcas cofloca- 
das de traz da cabeceira do enfermo, espvando para Ibe 
cortar o fio da vida, a sentença do supremo Idíz, que os 
Anjos confessam por Senhor, qne sam idéas qne se com- 
binam mnito mal, e que os contemporaneois do Auttior 
nfto acharam ser deffeito. esta pintura é palpitante de 
verdade, e de ctulorido eiiergiçii. 



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uno TI., CAPITUO I. 55 

OAQtbor chama á norte pauo final, » eetto em todos. 
t verdade : a morte pôde considerar-se como sn tbsIo 
paii, para onde eslam em jornada todos os qoe tiveram 
1 desventura de nascer ; mas os caminhos porque nelle 
«e enUa não sam todos Ifio fragueiros, e ásperos nms co- 
m os onlros ; e tenho para mim que vai por om dos mais 
peaosos aqnelle, que fallece em nata viagem, no centro 
de ora navio, cercado da immensidão dos mares, .entre 
ptEsoas estranhes, e iadiflerentes, longe da patrja, pri- 
vado de todos 08 soccorros, tíormentaido pelas saudades 
dos pais, das irmias, da esposa, dos tiihiuhos, e com a 
certeu de que neq ao menos seus ossos serio cobertos 
pela terra, que o vio nascer 1 

O Cavalleiro Hypolito Pindemonte, grande, e elegante 
Poeta da moderaa Itália, que lhe deu a mais hella tra- 
docfio da. Odyssea de Homero ; este Poeta, que foi um 
dos mais teimosos, e incansáveis viajadores do seu tem- 
ya, já deu todo o pezo a esta idéa penosa, descrevendo 
Bo sen Poema dos Ineoaveníentes das Viagens, a morte 
de nm desses eorradòres do Mundo exposto ao desampa- 
ro em uma estalagem em poder de creados ladroes ; seja- 
m permittido citar estes bellos versos de um Poela de 
tanto merilo, e ainda inteiramente desconhecido entre 
DÓS, pois que o demasiado amor á literatura Franceza. 
« lugleza aos tem tornado estranha a Italiana , que os 
psGOs avt>s estudavam com tanto fructo. 

Oh Mice chi mai bod pose il piede 
Foori delia natia ma d<dce terra I 
JEgli il coor noD laa«ió titto io oggetti 
Chie di piú riveder noa ha sperania, 
£ cio che vive ancor morto nó piange. 



Si rjmporiuna 
Herte ti timI rafur, brami tu dunque 
Cbe nella slaua d'aB Ostier ti colga 
Lnngi dai tooi, tra ignsti volii, e in liraccio 
D'nn Servo, che fedei prima, ma gua^tiv 
Anch'ei dal luDgo viaggiar, tuoí bianelii 
Liai, le sele, e i pieaiosi arredi, 
Mangia co'i gVpcebi, e oel sao cor l'i»cidc? 



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36 mSAtO MHMAPHICO OITKM, TOMO TT. 

N(tD pieU ií eoogianto, ddb d'sniko 
TteoH a dihider 1e ciglia ; debilmente 
StrtBger ia paot c«'la fflcno maDUBte 
Tert wm cara, e hb caro oggèto indarm 
Dai moriboRds, emati ocebt cercato 
Glt ebHu Bel tao sea cos uu s&sptro. 

||«s asdtscripçQes marciae» sast m, que espeeialmente 
brflhaB DO Certo ie Dio, e enr qae tríumpha « UI«bI« 
peetie» df JentBTnoOtrtelleal-Blivendo passado amnor 
parte drsna vié» estre «stes especltcnlos de deitra^àe, 
fbàc obBern-loe, e anaty^-los de perto, e parece qn 
se recr£a em pinta-los com una verdade, t eAergIa e»- 
paiteea. Parece imp«8sbe1 qaechegoe a tanto a suaiMt- 
bauríTel feémididade, e qne depare na IJDgQa oi terAos, 
e expreSBBes Bccessarias para ptatar betrihas sobre babH 
Otas, assaltos s<^ assaltos, taata diversidade de conb»- 
les, de feridas, de nortes ; elle dos Faz osvir o recbinar 
das Qecbas, o sibilo das rosciadas d^ mosqsetaria, e es- 
tnndo das bombardadas, o baque dos antros, qoe se de»- 
iDoroD&in, osalaridos dosvencedores, os ais dos morllKit- 
doe ; fei-oos vér o mtilsr das langas, o relampear dH 
espadas, e dos alfanges golpeando nes capacetes, e&oses' 
eodoa, e u norens, e lurbílbSes de poeira, t de fiuw, 
qneródCaiB, eiavolvenoaoembetentes* e os estragos das 
minas, que rebentara, e qne os sepultam em labaredas, 
e ruínas. E' assim que emparelba is vezes com Homero, 
e com Camões, á quem é Hd inferior em outras qaalí- 
dades de Poeta. Eis aqui como elle no Canto VL- des- 
creve os Mouros, que marebam a aasJdtar a Praça, e se 
travam com os vencedwes. 

Ainda a belle Aurora bI» mostrav» 
Os SQBS iMros eabellos quando tinham 
Postoa SMS esquadrões em bom concerta^ 
Postas soas haodeíras em k^rei 
Onde ficam Senhoras, e devassam 
A Fortaleia, e mwos Portnguee», 
levando com sotemne reverencia, 
£ tioorado acatamento buma figon 
De aspeeto Cerocissimo, «¥^(^''<> 



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uvM. Tfi, cantm»i. 3; 

A qoi) r«freHRtHa Oisen Rn^tU, 
Preverso cansadar ds lanlu jiales, 
Sstaulfi juDlDS já perlo dés Buras 
Cheios de cenfiaifi, e. via nberlHi 
Com fonwsQS gaites, e nil.tandeinB 
Dentadas m Vtuioi, locam maia» 
Instnuieiitos de guorn, daido gritos 
Qae eam aKdoalio astiwdo vav ronpeodo 
O ar, e íut aUas Hiveu : T*dos juntas ' 
Com jiBfieto arremeteiB, e em Irae partas 
Dam iam aasalto fero, mas em (odaa 
Acharam forte, e dura resisteiicia. 
Os nossas arremessam com grau fúria, 
E com igjaal .^streza, toda sorte 
De offeasivas, craets, e deras armas. 
Impellem-oos c»a forca, como aquellss 
Que o DUkis da sua vida esereilaram 
£m ásperos ««bates, em lutalhas 
Perigosas, e darás, arriecaod» 
Cada fflOBaento as vidas pela honra. 
Capittes euwllentes d'afflbes parles 
Accodem, aaim^do «s seus soldadas. 
Os qwM cada hom derandé, e gnanh o posto 
Que com- peciga Ibe assinara a sorte;, 
Alça-se butt ^an clamor, e Toatria, 
Que o canpD retinir fas lodo em rada, 
Cada momento mais, e mais se accead« 
A fúria do combate sanguiaeso. 
Os muros, as estancias to(ks ardes 
Com coruscantes raies, cahem grandes 
HontSes de corpea mortos doa laiigos. 
Accode aqui a frol dos Sarracenos, 
Frecham com forfa, e pre^a curvos arcos, 
I.ançaoi dardos espessos, com que ferem, - 
E maltratam valentes cávalleiros, 
Aqai aos cercados dam grandes trabalhos 
As homeoidas stílas «scoodides 
Pelas escutas somlH-as, e ares negros. 
Aqui perdeado os Hoiiros vidas, perdem 
As almas para sempre, cousa digna 
De la^iBiosa d4r, e sentimwto. 



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IH5AI0 ■lOSUmCO CUTIO», YéHO IT. 

Dom Ferusdo de Castro aqaj peleja 
Com coragam, e aaimo íATBDcivel, 
Resistindo aos imigòs tiage a espada 
De saDgae fresco, e qaeBte sobre aqaeHe 
Uue odla estafa já .coalhado, e frio. 
Dom FraoNKO de JLlimida grande parte 
Sustara do Cero asaalto, dando mnilos, 
£ gnmdísaimos golpes ; pois Dom Pedro 
D'Alaieida sea InnflOj beai ctero mostra 
Hom corsfão maior do que promettem 
Os penoas aanos seus, e tenra idade.' 
Estava úi diante o forte Moço 
Soffrendo a forpa, e faria do perigo 
De laminas coberto, .e o doro escudo ' 
Cortado dos pesados, iluros golpes; 
Em cima da cabeça bua» celada 
Que, ferida do Sol, oitra vez torna 
Uandar ao alto Ceo os claros raios. 
O roslo juvenil, em cór ta&gvÍBha 
Convertido, mostrava a grande affronta, 
£ o trabalbo, em qne está, aoffrflndo, e daado 
Golpes de nuita for(« ; Luís d& Sousa 
Também se mostra' aqni oasado, e duro. 
Por força defendendo a estrada aos Mouros. 
Aqui ÀBtonio Peçanba, forleseute 
Acommettido foi pelos contrários 
Cma muitas Espiogardaa, e con grande 
Quantidade de sottas ; mas com forças, 
Com fero coração dos seos Soldados, 
E grande esforço sen vai resistindo 
O ímpeto* e furor destes imigoa. 

£di ls4a a inrle s6am graadesgolpas 
'Dosparan-ree. Espingardas, e bima sonnoa 
De lanças mil de fogo arremessadas. 
OuTe-se bum grande eslnuide, hum grão rugidi 
Das armas, como qoaado no gran monto 
Etboa -os feros Ministros de Volcano 
Cmi agoa, t«'ra, fogo, e ar fotiartm 
A Jupàler coríaeos, atraando 
As sombrias jnoradas, com conUuus. 



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E grandes nartetadás. Aqni oagrilU* 
Dos miseros, qqe morrem, vam ^Mttdo^ 
Bcíu se p4!léja, e fere em ambas jurtesi ' 
Bem se conibecnn' fúfas, e' eosadia. 

Neste tempo beTataáU a for^, è firtlça 
Das lanças, dardos, settas, ^ ^ Espingardas, 
De' tSo contiauos golpes, qne parece 
A BMbína do Mindo destmir-se. 
Tal hera a tenebrosa escuridade, 
Eta) a confnsam, qm' pnnfaa espanto 

; Em todo o cara(9o,* maa. nesta scanbra ' 
EsCnra, negra, e triste resplandescrá ' 

' Nos ahos moTOE, fogos mtilantes 
De alcaniias, qne lançam com gran faria 
Os nossos nos imigos, que porfiam' " 
Na fortaleza entrar' por pnra fbrpa. ' 

O quadro a^ninte, em que CArle Seal piMá o sorinò 
agitado dos soldados portugueses depoifr «h destnilçló 
deAnaote, em razão de se lhe representarem em sonhos 
as fadigas do dia, e W éraeldades por ellei praticadas 
naquelia Cidade, tem sido eo« ntaounltó ^gíado pe- 
los CrilKíos estrangeiros. ' 

CttofadoB todos Já di iiBtas Biaites 
Ao serviço d^BlT^Rcy tto''neceEsartae, ' ' 

£mba^can^-se nas.toti»; qnaOihi ApoltA' 
O luminow earr* jâ estendia, 
E os Gavattos banhetTa no Oeceano, -'' 
Ficando o ar involto em negra somtffa, 
E o Mundo tsdo ein e4r escara, e trfátei 
Tetos tMnam ' repouso do continuo ' 
Trabalha, em que- o passade dia andMfti, 
. Estendem-^ par bancos, por conveies; - 
Dam repoasD aos «aafados; lassos menrli^s, 
Eolregaodo-os a bnm brando, e doce siteno. 
Dormindo movem biims os fortes braços, 
Dando com nwila força em tSo roif gol^s, 
Outros com vocês mal dislinctas diztm ' 
• Aqui matamos çstés, qac nos fogern!''' 



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30 EKSilO BlMUnHU CKtnflt fOMO, iT. 

Alguns isto diseiMla MnoUram 
As eftbeças em toaaa sepultachis ; 
Hostnnde eom ãgama de fnrn- gra«ie 
Naqa^lcs mortes inds andar involtos ! 
Mas (I profundo somno toma logo 
Sender ob alteraiss corpos ; liga 
Os sortidas Ve ib>to, e rqwesenta 
Em lodoí liaina ioisgeB) nõada, e triste 
Da crael, fero, horretida, e negra nerts. 

Quantas Tecei terhi o Aathor stio teslemanha dest» 
geenas de taríttba, d« qne fax aqoi onai pinlirg tão vi- 
va! E'a bettezudtstatndem, que defeasndançio»- 
le monamento, engida em honra. dar>Btrla|pel«pii>eta Sol- 
dado ! 

Entre as sus desciipçOes mais pieterescss CDnlo en 
aqnelta, em qaeolle n» Capto dueiore nos mostra i 
confnsa precipitatAo, e desordem com qne os habitantes 
^GotA aimiauíà, hgiodo, aqaeila cidade acomneiit- 
d« per O. Maneei da Lima. 

Aqni n«ate k«tr oa Pociagoacs 
Sedetiromm rnido i grude pref». 
Com qne a mesqaioba Gcmle tsí fugindo. 
Mil cairetas douradas vam sem ordem 
Pelo eaftfoio campo, e nm da. Iov^b 
Com tibestiata. raÍM relMiudo; 
GcBte a «avalio ni por ontm parte, 
Levando mailos d^s aa mnlheres 
Abraçadas consigo : lambem fbgem', 
TraapaMadas de medo, maitas onms. 
Com volnnMs de bio nas cabeças ; 
Nos braços leram Filhos, qoe ai» podnn 
ABdar, e os estros já de mtàa idads 
Também vam carregados ajodimde 
Saas misana' MSã. Vam maHoa Velboa 
De l0«ga ida4e, e annos já eaarades 
Csm «Krida forçoia, e desusada. 
Bem «aiim eõmo quando par castiga 
• Divioe, se pertnine aqudla grave 
CoitagioKi Bocaç», dé; qaem todos 

D :n2c;;. Google 



SI 

r^;eiii, sem <e Lembrar mais qn 4||9. tíiIm, 
Oi caminhos, e campos oecopados 
Se mostram de avexada, e triste Geote, 
Attoaitos, pumados, « ss eotrxBluu 
Traspassadas, não sabem onde auenlun^ 
Od ^d& lhe sfsfá logar segwra, 
Sem concerto, e aem «rden mb tv^ad^ 
Dos rebates «•rlíferos ; fue «m dando . 
Matam sem ter msedioi, e «st«s mwks 
Cansam temor aos ootros; desamparam 
As Famili», e Ças». dei»a M>d« 
Fugindo do rigor, que Daoe Ibe qwMra; 
Assim desta mueira pola Variea 
, Hia toda esta geale em mil maiwdH. 
Todos fugiado vam qaaBta mais podam^ 
Rcceiosos doa males, dos Kslngos, 
Das perdas, e das mortes, qae aeie awDo 
Famoso Capitão tioba já feita, 
Poucos dias bavia, era toda a Coa^ 
Desta grande enseada com qve, D nome' 
Delle hera nesta parte a$si£ temido. ' 

Abraiada Goga, cnjo incendia duròa quatro dTas, D. 
Manoel de Lima manda traser á soa presofiga trez Mer- 
cadores Baaianes, que haviam sido apresionados, e os in< 
lerroga sobre oaomero de gente de p^c^a, qge liavia es- 
capado de Goga, e sobre o sitio onde se bavtam rerogia- 
de; os pobres M«^»dores respondem, qoe m Tugilivos 
eram quasi todos gente iaeriae, a que tinham procurado 
rcTagio em um logar a uma legoa dali. 

O. Manoel ós i^iga a servir-lbe de gaia, entra pdo 
SerlSo, e seus soldados passan á empada Me quanto en- 
contrdo), sem perdoar a sexo, nem a idade, ncu aos ani- 
maes, com cujo sangue, eimmnndice profanam es pofos, 
e taoqoes consagrados ao rito do paiz , deisaia grande 
numero de Uooros enforcados nos Pagodes, e entre elles 
os trez Banianes, pacificas peles principies da sga seita, 
e qoe na. qualidade de mercadores, e «slrnogeiíDs nada 
tinham com as desavenças do Sultão de Csmliaia, e dos ' 
Portugnezes. Depois da narração cin:u«ftv>wd« destas 
iellas proezas, o Poeta iraça com vivissjcias «úres oin 



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âc KDSAio Moninitêò camKo, t<ni« it. 
qnadro da pelalante, cseWstica alegria dos soldadoí ■ 
meia dos estragos, e das rniaas. 

Chfgaado perto já do Logar, Togem 
Aquelles, que estam nelle recolhidos, 
Leyaado seus Ihesonros; e deserto 4 
Fica todo o Logar ao fogo entregne, 
Abrasado Toi logo em carto espado 
E com fumosas cfaammas cõnfOQdido. 

Acabado este damtro se recolbem 
Oade a armada Ecoa. Todos caoçados 
N'bam campo se assentaram, qoe visinho 
Estava da Cidade, e netle hnm grande 
Alto Tamarinlieiro ^i assombrava 
Verdes; e frescas hervas éom frondosos 
Robustos, estendidos, velhos braços. 
Em cima delias p6em brancas tóalbas 
Palas berva», e flores estendidas. 
Aqni nobres Mancebos, alí destros, 
£ valentes Soldados' se assentaram. 
Em bom concerto e ordem lhe trouxeram . 
Com' grande diligencia muitos pratos, 
Bem povoados de lodo o necessário, 
Com que os cangados ânimos recreiam, 
ÍÁ dos grandelb trabalhos esquecidos. 

•>- Jnotas eStam aqni muitas Cotias 
Eacalhadas na terra, ardendo todas 
Em grandes labaredas. Os Soldados 
Qaerendo ali ordenar siras cozinhas, 
Assam úellas Cabritos, assam quartos 
■ De gostosas Vitellas, assam gordos, 
Assis tenros Cordeiros. Hnms aSo podem 
Tanto espaço soffrer a fortaleia 
Do desmandado fogo, outros de preça 
Com rostos affrontados vam correndo, 
Levaado mis tostados páos, qne servenr 
De Espetos, assadnras, qae estillaudo 
Vam gotas de cheiroso, e quente gomo. 
f ■ 1>epoÍ9 de satisfeitos se levantam 



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Utebarcantfse na drmada sem levaran 
Desta grande Cidade mais proveito, 
Qne hum trabalho grandíssimo, snstido 
Por serviço d'E1-Itey com grande g03lo< 
Porque como esta armada toda fosso 
De Navios subtis, e esta Enseada 
Mostrasse ali soberbas, procelosas^ 
E levantadas ondas pola força 
Polo Ímpeto farioso das correntes. 
Que ali sam sempre certas, e contíoMS, 
O Capitão pedio, e juntamente 
Mandou a todos quantos seguem sue 
Vencedora bandeira, que n3o levem 
Destas fazendas grossas, porque possam 
Os Navios soffrer qualquer tormenta, 
E possam mais ligeiros passar esta 
Trabalhosa Enseada a outra banda. 
Todo, por esta causa, foi queimado 
Sem nada se «alvar, sem dar proveito 
A muitos, que alí tem necessidade. 

Si alguma cousa falta a esU scenà de camiíbus ciri- 
Usados,' sam a men vér, as cantigas, os brindes e aquelles 
alaridos tumoltuosos, que em taes casos nunca costumam 
faltar ; nem pareça estranho, que os Soldados de D. Ma- 
noel de Lima se banqueteassem em Um campo tinto da 
sangue, e juncado de mortos, e assassem a carne no fo- 
go das embarcat^es incendiadas, k historia modenia nos 
apresenta sobejos exemplos destas barbaridades suggeri- 
das aos Soldados pelo delirlo da victoría. 

No tempo da lovasSo da Peninsalá pelos Exércitos de 
Napoleão, uarram os papeis públicos desse tempo, que en- 
trando os Fraocezes á viva força em ume pequena Cida- 
de, os Soldados de um Itegimetito, comeram o rancho em 
uma praça delia, servindo-lhe de cadeiras os cadaverea 
liespanboes, que por ali jaziam, emborcando grandes tar- 
ros ao som dos gritos de vive l'Emperear! Em circami- 
laocias iguaes todos os homens praticam as mesmas cousas. 
Entre as digressões , com que Jeronymo CArte Beal ' 
costuma ás vezes amenisar , e interromper a monotonia 
la saa narração, deve quanto a mim mtiilo esp«Gialmea- 



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te nour-se a B^wste do Canto .IX-> qae « woi.especie 
de HymBO, em louvor da Naçío Poitugaeza. 

Antigo Portugal, Reyno ditoso, 
Ganhaà) aos Infiéis, e concedido 
Por divino favor 8o Bey primeiro. 
Que, rasgados os Ceos, vio \i na glorÚL 
C'os olbos corporaes aa Santas Chagas, 
Sm ti o gran Marte influo sna poteocla, 
Fa^Bdo-lfl lenido athe nas partes 
De ti mais apartadas, ftoode o Indo, 
2 o furiosa Ganges, com er^cidas, 
Apressadas correntes vam regando 
A. fértil, opulenta, e rica terra. 
Hui Terá, e belicrâa Gente crias. 
Costumada a vencer grandes batalhas* 
£ a romper mil exércitos famosos. 
Com numaro pequeno de valentes, 
S fortes Catallefroa ; os qnaes lodos 
Dolados.sam de esforço, e cortesia. 
Pois de honestas Matronas, pois de Damas | 

, Honestas, e formosas, bem se pôde 
Dizer qne bes escolhido em todo o Mundo. 
Governado de Reys prudentes foste 
Com justiça direita, e santo zéJo, 
Aos pequenos, e aos pobres sempre ouvindo 
Seus aggravos, seus males, e misérias. 
Agora em ti floresce bum Rey potentQ 
Cuja vinda mostrou ser milagrosa; 
£ quando quasi estavas arriscado 
Sogeito a mil trabalhos, e perigos, 
Então t'o'concedeo aqnetia Eterna 
Divina Hagestade. Este promette 
Na sua idade tenra nm alto preço, 
Bum esfori^o, e valor ao Mundo faro; 
Este Senhor serik perfeito em tndo. 
Segundo claro delle o €eo nos mostn; 
Dar-lhe-ba Deos felíces, largos annos 
Para que te acrescente em fama, e honra, ' 

E para que com gloria, e nome eterno 
Paca o qne deli* «lápronosticado.. \ 



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Cbte Krâl, qoe nests logar m altas eoasu p^»!». 
eira ácoci d'BKBci D. SebtstiSo, pusm pdo desgott» 
de vdr ainda «m soa vida desmentidas as suas mfatiou 
praiihecías, o ftei, e a gloria do Beiao s^tor-ie nas 
arfas de Africa, e a Pátria sogeita ao ja^ estrangeiro. 
Agradeçamos-lhe porém os bona desejos, pc^ tta todas 
ta saas obras respira um viro amor da pátria, e um ar- 
deole espirito religioso; nas estes dons sentimentos tio 
Bobres, mas penco illnstrados, o levam ás rezes além doa 
jmlos lemiles, chegando a penio de deacreTcr cmd gran- 
de complacência as barbarídides iuodilas commeltidas 
por D. Uanod de Lima nas snas excurçOes pela eoata de 
Cimbaia, nlo s6 queimando, e arrazando Cidades, estra- 
gando [HaBta{Ses, matando acinte m rebanhos de gado, 
pagando é espada velhos, molh^es, e nuainos, fazendo 
eaquarlejar vivos centos de priBÍonoros, e o qne é mais, 
de litiu a apologia destes excessos nos segointes versos. 

Depois qne este togar, ijae se cbamava 
Do Abexim, foi queimado, e todo qnanlo 
Havia dentroddle; determina 

Capitão dar ãm ao qne ji tinha 
Começado UU> bem, com tanta bonn ; 

1 ainda qne fazia estas cmezas, 

Nio hera por cruel, qne mui beoígno, 
Brando, e affave! hera ; mas cnmpría 
TracUr desta maneira hnma tal gente, 
Porqne beras tão soberbos, que daqueUãa, 
E d'ontras moitas mores crueldules, 
Tinham necessidade ; porque sendo 
Tractados menos dura, e cruelmente 
Levantam de contínuos novas guerras, 
Dando novos b-abalbos cada dia; 
Assi que bera mui justo, e necessário 
Doma-los com temor, com força d'armas. 

Estas razties nSo desculpam o santarrSo de D. loSo de 
Castro de dar tão barbaras .ordens, nem D. Manoel- de 
Lima de aa haver executado com tão infernal exactidio. 
O PoeU devia lembrar-se de qae si as Íeis da gnem 
poioittem matar os ininriges armados , nem -«eu leis , 

a* 



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M W9AI0 B1D0»A*IBW amo»- «0010 TT. 

lett aa da bamaDidade, e muito meiíos os precúiaa ido 
eh ristianismo.pwioittem assassinar crBàBças,mnlhcres,Te- 
11)08 e cidadãos inofensivos , e desarmados , e mailo 
menos janUndo a essas mortes es horríTois atrocidades 
praticadas por D. Manoel de Lima. 

CArte Real preocupado com as opioifles fanáticas do aes 
tempo, persnadla-se, como JoSo de Barros, que «nprega 
longas paginas em argumentar a favor deste absordo, 
qae os Honres, e Gentios, e todos os qae estavam íbn 
do grémio da Igreja, estavam privados dos íóros da ha* 
inanidade, e qae suas terras, fazendas, e vida eram pro- 
priedade dús ChristSos Ortb6doxos , que podiam dispdr 
delias a seu bel prazer, e por isso julgava licito todo o 
mal, que se Ibe fizesse. Em consequência desta doutrina, 
diametralmeate opposla ao Evangelho, e á boa Politia, 
Ct^te Real declara necessárias estas barbaridades. 

Necessariasl.. Seria mais justo, e mais verdadeiro de- 
nomina-las perniciosas , e contrarias aos nossos intereí- 
ses 1 Sim, ousemos faltar claro depois de alguns secolos, 
e em tempos de verdadeira pbylosophia, o nosso' ^piríio 
de dominação, e as violências, e crueldades de mniloa dos 
Qossos Capitães, è que accenderam em Iodas as naçlks 
paciBcas do IndustSo esse odío implacável contra osP«- 
tagnezes, ao passo que as outras NaçSes Eoropeas, que 
ali aportavam, eram bem, e hospitaleiramente recebidas, 
e assim devia ser, porque se lêmitavam ás «nigaveis re- 
lac&es commerciaes, sem exigirem páreas, e vassalligu 
dos Beis, e sem insultarem, e menoscabarem o cullo r^ 
ligioso dos ludigenas, qne ÉAunica injuría,'que Oifòm 
não sabem perdoar t 

Os nossos historiadores dizem unanimemente,' que ei 
Mouros, por ciúme de commercio, e por ^ntipatbia dere- 
ligião, com suas intrigas, e calumuias nos tornavam odio- 
sos aos Gentios uaturaes da terra. Porém esta afeersioè 
inadmissivel: gi os Mouros nos disserviam porque erenuc 
christãos, e negociantes, porque não praticavam o meS' 
IDO com os Hollandezes, osFrancezés, e osIng)ezes?pK 
que estes povos longe de s& queixarem delles, confesati 
o grande proveito, que tiravam' dos sens serviços? Os 
Nonros não conhecem Galvinistas, nem Luteianos, vm. 
Zoitigliaiíss, mm Epísbopaes, neia PresbyteriaiM», 



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-xffio" TI., cmino i. 37 

li» nitram nas nossas dissídrácias, todos oalIéraiâenB 
dBEnropa eram pa^ ellQs Chrisiaos, como para nós sam 
Habometanos todos os que proressam o Alcorão, sem de»- 
liagiiirmos as diSweatea, e variadas seitas, em qua e&- 
(in dirididos 



CAPITULO lí. 

O NuHp'agio de Sepúlveda, e outres Foe- 
mas de Jenmymo Corte Real, 



Ainda nto tivemos nm Poeta tSo fecondo ém Poemas 
EfúcoE como Jerooymo CArle Real ; porém de todos elles 
O qne é mais lido dos sacioDaes, e mais cÒDliecido,'e ap- 
plaodido dop estrangeiros é sem duvida o Naorragio de 
Septdveda, que talvei seja o mais defeitaoso de todos. 

Os dons que tem passado perante oa nossos olhos, pos- 
to que nio contenham fabula épica, sam pelo menos épi- 
cos ptínassumpto grande, interessante, epilbUco; potim 
Bo NanfragJo de Sepúlveda apenas apparece um assump- 
to pgffticalar, a desgraça de uma familía, que naufraga 
xa costa de Africa, e que nella perece de miséria, e can- 
aapo, e de fome, depois de passarem grandes calemida' 
èès ; Lm de CamSes nos sem Xusiodas escolbeu este snc- 
eesso para facer parte do sen msia ma^^lfico Episodio, 
tenho para mim, sem querer dar a miuba opiniSo como 
regra,- ^ué as poucas Estancas, em que eUe o descreve, 
valem mais do que todo o longo Poema de CArte Real. 

A desgraçada heroína deste Poema, D. Leonor de Sá, 
filha do Govemaddr da índia Garcia de Sá, e que pas- 
sava no seu tempo pela mais formosa Dama do Oriente, 
■ra prima de D. Loizade Vtti^ncetloa, Esposa deJeronymo 



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corte Aetl. e oPoMa «m ohteqnio « soa msllifflr ^ «>■ 
gaer um mouuBCDto pMtico à mamAm, e desventan 
diqBdIa deiéilosa KShcwa. 

Poreste Udo coDsoguo oPoeta aqneputoidia, muã 
elle fosse, tão rico de bom gosto, comodeimagiaacio, ede 
talento, 8i quiiesse reduzir-se sos lemites marcad(H peli 
natoreza do Bca assumpto, -teria fwtoam óptimo, eiatero- 
sante Poema de seis, oa oito Cantes, e a sua gloria seria 
mais pura. 

O seu primeiro erro está, quanto amim, emquererfazer 
QmaEpopeia dedezesete Castos, sobre um-assumpto, que 
Bão era épico, pois em vez de uma acçSo meditada, empre- 
hendida, e perfeitamente desempenhada pelo beroe, i6 
nos apresenta nm seccesso eventual, qw] é nu nanfl»- 
gio, independente da vontade de todos, oaqne nelle figo- 
ram, e na encadeamento de infelicidades da mesnm nt- 
toreza. 

Tenbo pelo segundo erro do Aslbor a mnlUdão de ob- 
jectos estranhos, a que recorreo para encher o vasto qua- 
dro, que traçara, e que continuamente destrahem a at- 
teofSo do aisnmpto prinoipal^ qsando toda o esTwí» da 
wte deveria consistir em coneestrar oelie toda a attei- 
cão, e interesse dos {.eitores. Será ifijusUca oootar w 
numero destas excrescências viciosas o^episixiiosdoTeB- 
pio da Verdade, e do Templo da Mentira, onde oÀnlbK 
80 entretém a passar em revista todos os Heresiardus, 
e a invectivar co^ra etlea? O ostro em qne iam Migs 
mostra a PanlaleSo de Sá, na costa d'Africa, piílaâa eo 
painéis a jornal de Africa, e a perda d'£HBci'P. St- 
bastião? £st« episodio n£o só é zeprebenslvel pw sff 
inteiramente alheio do assumpto, maa porque prejndia 
o interesse geral da Obra, e esfria a sensibilidade p»t 
com os heroes dejia, pois qual será o Leitor, tm cuja pa- 
to palpfie URI corado poriuguec, que vendo destoonau- 
se a Monarchía Lusitana nas marg^is doMnoazem, edyp- 
sar a gloria de tantos séculos, sspultarTse a isdependon 
cia da pátria com o seu Rei naquellas aréas, tenba se 
qner nma lagrima para o infortúnio de uma família pir- 
ticular, quando a calamidade pablica absarbe todos os 
seus sentimentos? 

Mão faria eu grande crime a Jonn^no CArU Ked do 



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£ITI0 TT., CAFmU» It. jg 

ulTMliizir MstePoent a Hy ihologia Gregt. A epiUíSo pe- 
«tiutescaf qse ao sea tempo reíoara nas escbolas, nlo ad- 
mittia Poema Epieo sem Mylhología Gn^, mtsno dos 
anomptos modernos, nernSaimautro, nearAriosio, nem o 
proprie Tasso deixaram de neAa pirte mais oa menos 
condescender csm este gosto dós seus eoatemporaneos, o 
([oe ea lhe nSo perdoo é « mn ns« que fez dessa My< 
tki^t^a, e mtregar os fias todos da sna ae$io a esses 
agentes imaginários, não tirando dessas macfainasienhnm 
grande e&iio, orabama daqnellas bellezassaUimes, que 
admiramos em CamOes. 

Todo o fmcto que oAatbor tiroa dest« mtcltiftas my- 
Ibologicas se red« a a^mas deserípçOes, e «tegorías is 
vetes uigenbOBas, e algnmas pintoras, e o alardo de nma 
emdicçSofrequentementepedanlesca; mas esse rrnctoégo< 
IwjaméDte descontado com oqneprejndicam^aodesenvolvi- 
Bento daacfSo, e ao effeito do patiíetieo, e apesar disso 
o Poeta parece qae se não atrere a dar nm passo, sem 
Tder-se do ansilio daquellas machinas heterogenias. St 
Loiz Falcão, Governador de Dio, morre assassinado com 
Din tiro, é porqne o Amar aconselliado por Vends, qne 
lhe dá espingarda, para Antbero faier nso delta, accom- 
panhado peloOdio, Ira, Desespero, eResoIooflo livra as- 
ara Manoel de Sonsa de am riral, qne Ifae desputava a 
mSo de D. Leonor. Si o galeão grafide nasfraga é per- 
; qae Ampbitrile, e as Nympbas domar insoSfidas de que 
; D. Leonor as exceda em formosora, rogam a Eolo que 
^ sdHé ia Ventos, para excitarem a tráipestade, qne mõti- 
, ra a sna perdi$8o. 

Se estas invençSes parecem mesqaiobaa, e iiaproprias; 

dereaa parecer rídicntos os amores dos Óeoses -por D. 

^ Leenor de Sã : namora-se delia l^thee, sft^ porqne a vé 

' assomar-se a ama jandla da nao. E eis aqui a pintura 

, qne o Poeta fai desta Deidade marilima. 

'_, Andava eip tal sai3o Prãtheo pastasdo 

Ali ranhos mil de hamilde Gado, 
E vendo a poderosa Nau, paron-se, ' 

;, Alegre por vêr Gente Portngueza. 

Á desforme cabeia set^e as ondas 
AJ^, de verdes liaras abnfada, 



í. Google 



40 fisiio taaimea atmoo, tq» it, 
fiacode 1 barba inoatta, e (» eabelloâ 
Birtos, e duros mais que a neve brancos, 
Olha o antigo velho como as ondas 
An'd>ei)taffi Qa Naa alta, e soberba: 
Olha os divraws trages, dba a Gente, 
Que peto T£r ao bordo se jnnlaTa, 
JUçam da poderosa Nau aos ares 
Boma grita, que chega ás altas nnvena, 
Mito «e espanta o marinho fero Monstro, 
Mem duxa de mostrar lédo sembrante; 
leonor, que já do mar vem enfadada. 
Do pi«lixo caminho avOrrecida, 
.0 snbitQ alvoroço, e grita onvindo, 
A^soma-sft por vér o qne os espanta, 
O velho PróUieo vio,' qne em doas azis 
Esiri^nhosas, e grandes se so^eqta, 
Altonito, e pasmado ; mas de v&-lo 
EUa fria ficon, e quasi mada. 
Olha o peito escamoso, a cAr, e o rosto, 
. A proporçio, e o talhe diOferente ; 

Oiba aquella figura estranha aos Homens, 
, Has conhecida, e nsada à Natareza. 
Alfa os olhos o Velho, firma-os Sios 
Nos olhos de Leonor, e não podeado 
Sofrer a viva Inz, e ardente raio, 
Qne o frio coraçSo penotrou dentro. 

Esta pintara é b^a, e poetíca ; mas será este AdNÍ9 
marinho muito perigoso para a virtude dê O. Leonor íi 
Sá ? Será verosímil, que o velho Pr6theo, o Pnpheti d> 
Occeaao, o mais sábio de todos osDeos^, qae rormaiB i 
CArte de Neptuno, represente o papei de amante déntii- 
do, que o Poeta lhe atiribue? Que este velho venerulo 
dé um descante á sua bella, em oitava ryma acuNopt' 
nhado peia Harpa de -Çimodoee? Pois é isso exactaan- 
te o que accenteoe; eaqui vai a talX)ancSò, exactamei- 
te copiada, sçm lerar, borrSo, ou emenda, ou coosa, qM 
pávida faça, < 

Remsdio do mea mal, qpem te detém? 
Que te fa?, qne oio veuhú dar-me rida? 

Diçpitizcii;,. Google 



' ' ttvH xt., (!Ai'in)to n. 41 

Qaem he o qae me atalha tanto benT 
Como estás db teo Prótheo assi esquéeida? 
Vem formosa Líoaor, ah Lionor vem, 
jilegra está abúa trlsle a ti rendida, 
NSo pagues tanto amor com crneldade. 
Que Bãp sé espera tal de lai beldade. 

Cbega. verás o mar sssocçgado, 
Ornado de betlissioia Pintura, 
Pe Neptuno veráâ l3o celebrado 
A. escamosa, ,e faorrÍ.da figura. 
Verás do ReiQo líquido salgado 
O bando da marinoa formosura, 
Que toda jnnta vem obedecerte, 
£ aqui aguarda toda só por vfir-te. 

Verás arder bnma alma em triste peito 
No meio deste mar por ti gritando, 

. Verás bum corarão todo desfeito 
JSm lagrimas mil vSas nada esperando. 
Verás vários affectos n'hnm sugeito. 
Verás «mor cada bora accresceolando 

, A' minha grave tj^^r novo tormento 
Fjado npen^ só do pen^ainento- 

Tu voes isto, e Pr6lheo. desventura 
Noa teus olhos verá eerta, e sabida^ 
Verá, vendo-te, a summa formosura. 
Por hoara, e mal do JUnndo cá nascida. . 
Vocá buais belleza dará, e pura 
Por onda a Divindade he oeihecida, 
GAr de rosa verá, vwá çabellos, 
E bams olbos, qoe s6 Deos p6de faze-los. 

Vem, alma minha, vem, vem descoidada, 
DesGo^-e-me esse rosto tSo formoso, 
Vtr-^ne-has a vida já por ti chegada 
Ae ponto extremo, e passo trabalhoso? 
Vesa frotda formosBra mais loavada 
AhnD4a o p«ito esqwvo, desdenhoso. 



;, Google 



4« muro nooti^K» euTlCC, tom« it. 

Apags j £*t« ardor, pois todo. o mar 
Nao tem forta, nem bosta ao apagar? 

E' Pròtbeo que falia, on o Hfrtiio de GuariBí, eo • 
Amintas d« Torquato Taaso? E ainda esses mesmos, ni» 
exprimem assoas queixas amor^uas em termos tftoalaiih 
bicados ; mas aioda temos qne f ér mais Nomes arrea- 
tados na formosura de D. Leonor: namora-se detla oDeos 
P88, que com seus pés de cabra, e com seus comos re- 
torcidos Bio é mais bem apposta Galan que Prólbeo, mas 
oPoeta, temendo talvez que nospersuadissimos de qne os 
encantos da soa heroina só tiressem poder, einSoeneia 
scrfire monstros, Ibe dá em fim por amante a ÀpoUo, o 
mais belle, o mais prendado, e o mais brílbante de todos 
09 Deoses do Olympo, mas qne resulta de toda esta far- 
ragen erotico-mylliologica ? LamenlacOes, lagrimas, eao- 
tjgas, Bospiros, «pensamentos Platónicos, em estyio Bo- 
colico: nenhum desses Deoses sabe oqnequer, oafazama 
tentativa para obter as boas graças de D. Leonor, nem 
para salva-la doinfortunio, em qne perece! Náo é decer- 
to assim, que Ovidio costuma pinlar-^ios na amores dos 
Deoses. 

Em nm Poema de Jerónimo Côrle Real, é excnsado bl* 
lar em caracteres ; D. Leonor de Sá é mulher mntto v- 
dínaría na ventara, ena desgraça; não sabe mais qne ge- 
mer, e SDfTrèr. Uanoel de Sonsa é um bomem inconse- 
quente, fraco, sem previsão, nem energia, crédulo, etei- 
moso. Commandante de uma nau, é tao' ignorante con» 
o seu Piloto, que procurando «Rio de LonreocoMarqaes, 
passa por cHe sem o conhecer ; a^ado-se por desgraça 
á testa de um Esquadrio por cnja sieguranca devevi^ar, 
e responder, se entrega á mercí de nm Begnlo Cafre, 
dividindo a sua gente, e (mtregando as snss afmas, ape- 
sar de tbdas as representasses, qne o» seus Ibe faKm, 
chegando a sua estupidez a desconhecer que a sua sal- 
vado, e a âe todos estaTS na nniie, e Bas armas. 

Contra todas as regras da poética, e do bom senso, 
em logar de principiar com a acção, ista é, a víiagem pa- 
ra Portugal, qne sé tem logsr no Caolo VI., c«meça o 
Poeta a sua narraçlo pelo menos vmte muMs antes, com 
o nascimento de D. Leonor, emi«egnido (fuim Cantos, 



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- uno n., euiTirte n. 43 

e nXo peqww», contando os sDores desU SeirhorB com 
Manoel de Soou de Sepalveds. a oppoȍao qae seu Pai 
Garcia de Sá faz a eates amores por ter empenhado a soa 
palavra com Luiz Falcão, a morte deste mandado assas- 
fiinu' por Manoel de Sonsa, o len casamento com Sepúl- 
veda, aafeslas publicas, eparticnlares feitas por esta «c- 
casiio , e o nascimenlo de seos filhos, eis aqni nm esor- 
dio qne ní(e p6de.cbamar-se ah ovo, mas á Gatlina. 

Has, dirá algoem, como é possirel qne sem embargo 
desses defeitos, e irrcgnlaridades, seja o Ifavfragio de 
Sefmlved» o mais lido, o mais estimado de todos os Poe- 
mas de Corte Real, e o mais seguro abono da immorta- 
lidada do seu nome? A. resposta é fácil; a vida dos Poe- 
mas está mais no estylo, qoe na boa, e perfeiu ordenan- 
ça deites. Ningoem lé as Tragedias de Campistron bem 
ordenadas, e fracamente escriptas, e as bellnas de esty^ 
lo, e a energia das gibões fazem qne as Tragedias de 
CÓmeille, cheias de defeitos de disposição, e as de Sha- 
Vespeare mais irregulares ainda, sejam hoje ouvidas, e 
applandidas no Iheatro com o mesmo enlhusiasmo com 
que foram ree«bidas no seu tempo. É pelo estylo que a 
Eneida tem contrabalançado, a grandeza da Ilíada. O gran- 
de Trágico João Racine dizia & «eo filho Luiz, o Author 
do Poema da Religião: «A única differença que ba entre 
mim, e Pradon, é que eu sei escrever, d E si isto nio é 
verdade porque as Tragedias de Pradon sam tim ruins 
peta dÍ8p«siçio cwno pdo estylo, ao moios proia que el- 
te adberia á doutrina de Boilean, de que o estylo é a vi- 
da dos Poemas. 

Afama, e a estima do Naufrágio de SepaWeda devem- 
se á sua linguagem, sempre pura, elegante, e cheia de 
phrases, e modos de díeer enérgicos e pictorescos ; á sua 
versificação, porque si os seus versos soltos estam ainda 
longe da harmonia, eprecisão, queBocage, e outros mo- 
dernos souberam du-lhe, não deiíam por isso de serem 
mai superiores a todos, qne no sen tempo se haviam es- 
crípto nas liogoas modernas. Deve-se ás suas compara- 
ções brilhantes, eoríginaes, ásdiscripçOes, epinturas, que 
nelle |Hi>digaa)eile derramou o génio essencialmente dis- 
críptÍTo do Poeta. Tal éesla da partida da nau de Sepúlve- 
da sabindo do porto de Cochin, -e o principio da viagem. 

Diçpitizcii;,. Google 



xnSAlO BroStAlSlCo CSniGO,' Ivan rr. 

Com véU ÍBchada vai a Naa cortando 
O transparente Campo de Neptono, 
Itupellida por Zephiro ; atraz deiía 
Ham raslo de salgada branca escuma. 
Foge-lbe a eonhecida Terra ; fogem 
N'um momento a gran praia, o porto, a GcaUt 
AlUs frondosas Árvores de yista 
Se perdem já, e em névoa se convertem. 
A Costa já se vé toda confusa. 
Mal distincU» os montes, e agras Serras, 
E quanto maís se aparta, tanto em grossos 
Turvos densos bulcões tudo se muda. 
Ao Norte deixa já todas as Terras 
Do soberbo Hidalcão, Rey poderoso. 
Inimigo da Gente Lusilana, 
E deisa Baçatn, Cidade insigne, 
Soberba em outro tempo, bumitde agora, 
Da Cidade Taná pouco distante 
Deiía as grandes ruinas, que do Tempo 
Amigo de mudar estados, foram 
Convertidas «m vil, triste desenho. 
Em trez mil, e trezentas casas nella 
Telas: de onro, e de prata se teciam. 
Com sedas outras mil de varias tí^es, 
Agora já não tem mais que a memoria. 
Também deixa Salcete, e o animal fttq 
Feito de Pedra, e igusl g ham alto monte; 
E o estranho admirável Edi&cio 
Debaiio de alta rocha fabricado; 
Obeliscos geraea da Natureza 
Sen artelioio humano aqrui se mostram. 
Obra, onde se vâ daro o saber alto, 
E aquelia alta, e divina omnipotência. 
Deiía a grande. Cambaia, onde o invenuvd 
Rey Luciano' tem por força, e annas 
Aquella Iiortaleza, já dos Turcos, 
Por sen mal, duas vezes combatida. 
No mesmo parallelo mais ao Norte 
Deixa os fartes Mogores, também deixa 
Os Reynos de Caxem, Xaol, que ao Reiíw 
Famoso Portagnez pagam tributo. 



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uMi» TI., turimo n.- 4, 

A Pérsia vai: deiiando, e deixa o seio 
Que detia tomou Dome, e wâe se mostra 
A Ilha Ormuz estehl, mas jwr cansa 
De universae» cbncursos rica, e nobre. 
Ali Judeos hiibium, e o lefando 
Torpíssimo Alcorão se préga,e guarda*. 
Idqlatras Gentios coro sens rílos, 
£ oon snperstit^es ali rcsideoi. 
Ali os Cbrístíos Arménios, e onlros mniloi 
Jacobitas, Scismaticos, distinctos 
Dos outros Moravitas, separados 
Sam dos que a sacra fé Christfia confessam. 
Ali a tórrida Zona tem. tal força. 
Que os aeus habitadores os abraza, . 
£ para metigar tal ardor uaam 
Os Cataveatos tanto celebrados. 
Em Damas formosisslnias, em tracta 
De amores, de delicias, de branduras 
Memoria faz de Papbo. e Chipre, aonde 
S^ honra Venns, e Amor coia sacriUcioâ. 

Deiía Arábia deserta á parte esquerda, 
£ á dextra Baporá no fim do seio, 
£ os celebrados Bios tão famosos 
Dos quaes o Nascimento a nós be occutto. 
Deixa no meio delias o soberbo 
Único, e admirável Edifício 
Fundado por Nembrotb, robusto, e braro, 
Em Babel por tal obra sempre vivo. 
lá deixa o rouxo mar, que na Cidade 
Sues. acaba o curso; á dextra parle 
Deixa o Toro, e Medina, onde o perverso 
Inventor do Alcorão tem casa, e nome. 
As sessenta Palmeiras se divisam, 
£ antes delias as Tootes do anunoso 
Insigne Capitão, que o Povo amado 
Livrou da Servidão cruel ào Ggypto. 
O celebrado monte já descobre 
Onde a tey foi de Dcos a Moysés dada. 
£ onde a Esposa bellissima de Christo 
£m custodia deixou ^a santo Corpo. 



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O Cabo Goírdafa, deixa, e Arqoieo, ' 
Alencer, e Saaqnem, já "deixa o fértil 
Gran Reyno d"Al«issi, de vagamnndM, 
E occiosos Horadores-habíUdo. " 
]á ToUa deste Cabo ao Sul, e eorra 
Esta Africana Cflsla, e ndta deixa 
Zflila co'a guerra atroz saugrenta, e dnra. 
Dos BasDsgais, do grau Rey da Ethioi»a, 
D'oBde a Raynha de Sabá o filho 
Por vér do que, Pastor fiendo, dea morte 
Ao fero HiyliSteo, qoe o circamciso 
Povo, amado de Deos, tinba alTronta^o, 
Veio a Jerusalém, e também deste 
Reyao Caadace foi, ciijo Hínistro 
Ignorando Isaías, por Philippe 
Ficou na sacra ti de todo instrocto. 

Parece qne estamos lendo um trecho dos Arjoaonlsi 
deApoUonio Rhodio, qne tanto se esmera nesUs discrip- 
ções denavegaçSo, e era juntar a cada Porto, e Cidade, 
qne nomeia a memoria de suas legendas, antiguidades, 
e circornstancias physicas, e pccnliarea. 

NSo é menos imaginosa a pintara de Eolo, vindo ac- 
eompanbado dos ventos, e a chamado de AmiÃíIrite, e o 
impnlso que eHes dam ao velame da nan, qae estava tn 
calmaria. 

Como recado teve o fero Eolo 
Da marinha Prínceza. vem n'hnm ponto 
De brandos, frescos Ventos rodwdo 
Os soberbos deixando em prísSo dora 
Em gmtas profiiadissíraas,, debaixo 
De altoís montes, e Serras pedregosas. 
Bramando coro braveza, e força ímmeasa, 
Com Ímpeto cruel, e infernal furíà. 

Z^hiro coffl snave força inclina 
Por onde vai passando as verdes Faias, 
S os Ulmeiros frondosos ; com voi sarda 
Brandamente queixar os faz com graça. 
Coro, Septemtrião, Phenix, e Ciroio, 



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Braicas novens espalham pelos ares. 
Trácio, Tapir, a fithesias com mais viro 
SoBoroso riiHwr entram nos bosqnes 
libonothos, Olympias, e Atabulo. 
Uenses, Podromo, Cecias, e Earothoao 
Respirando vem todos, e nas partes 
CalmoBas dam favor, e bnndo slente. 
Depois qne no mar «tram. Tendo as ondu 
Tão quietas, e planas, e banzeiras 
Todos jontos com brando, fresco assopro 
Por differentes partes as lerastam. 
Chegam Thracio, e Tapir. onde a Nao Gu 
Com fronsa vélt está sem moTÍmeoto 
O grande Tren, sentindo a favwavH 
Vinda já desejada nio a engeita> 
Antes no selo concavo recetw 
O propicio Eoccorro, e pola parte 
De bombordo se Ml^na, inchado vira 
Com for^o poder a froDxa pmja, 
A Hezena, e Traquete o mesmo fazem, 
O cânhamo torcido o maslo ajada, 
lá favorece o leme a vela, e vóa 
Pelo encrespado mar a Naa irJninphaiite. 

A discrjpçao da tempestade é cbeia de verdade como 
fala por um homem, qne muitas vezes se havia achado 
naqntílw funestos accontecimentos, mas demasiado lon- 
ga para poder aqni copiar-se ; o Poeta nSo qaii omiltir 
circnmstancia alguma das que tem logar naqnetlas catas- 
trophes ; parec&-me porém que elle teria «ndado melhor 
reduíindo a sua pintura aos traços mais salientes, e dè 
maior effeito ; a tempestade, que se lé no Canto Vil. dos 
Insiadas de Luiz de Camftes, n3o é menos bella, e vigo- 
rosa por ser mais breve, e mais rápida. Nestas matérias só 
o gosto marca oslemites, em que o Poeta deve conter-se. 

Passemos agora a uma discripção de outro género, ê 
vejamos coroo Carte Beal pinta um Deserto Africano em 
Ioda a soa pompa selvática, e natural. 



Por hums caminhos ásperos descendo 
Entcam em lopgo, dlranho, e f reaco valle 



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iNSiio iiAÀAtefa.cunco, fom ir. 

Onde palinta «ItúsimftB hoDTWtèi 
AqneUe aiid)roeo sitio defendido. 
Ali froodosos Ulmos, ali Faias, 
Faiem ledo Verão, b dm» wmbra- 
Ali os Alamos altos cgm brandura 
Se queixam dos assojHos de Favonid* 
Ali nataracs fontes com rumores 
Sonorosos, « mansos se repartem 
Por frescas, verdes hervís, deraandand» 
Com voltas, e revoltas o mar alio. 
Qoasi DO meio delle sedevisa 
Hum frondoso, cerrado, espesso bosque 
Do Semicapro Pan tosca morada, 
A quem mde» Pastores sacrificam. 
Por verijM, fréecas hervas apascenta 
Rebanho de lanoso, e manso Gad«, , 
E livre ji de Amor que tanta peaa 
Nos olhos de. Seringa lhe- buscava. 
Agora o verde campo, agora, ç prado 
Esmaltado de flores piza isempto; 
Agora a cristalina fonte, agora 
Os aresKíos, e puros o.recream, 
Esquecido de hmat, e seus enganos, 
Qoielo, e alegre traz o. pensamento; 
Tudo o que lhe daréi alivio bosca, 
E todo que o fará triste avorrece. 
Quantas vezes subido a mór altura 
Õo solitário, esquivo, áspero monte 
O declinado -Sol se lhe escondia, 
Por detraz das fragosas, e altas Serras? 
Dali via o Solar carro banbar-se . 
Deiundo de ouro as nuvens perfiladas. 
Dali o claro Horisonte, e o Ceo roxeado 
Reverberado vio nas puras ondas ; 
Dali via os Pastores, que os Rebanhos 
Contentes ás malhadas recolhiam ; 
As rústicas sampbonhas resonando 
No confuso silencio, e ar nocturno. 
Dali mil vezes vljk com rosto alegre 
De dous fortes Carneiros leda Justa 
De lanosos, e grandes corpos ambos, 



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uno VI., ciHmo ii. . . 49 
De retorcidos armas bem providos, 
Com severa preseuga, recolheodo 
Atraz os curtos passos, remetliam 
Com denodada furía, e bem oq -mdo . 
Da carreira se davam íato encontro; 
Quantas vuzes ali a rociada 
Api ■ ■ 

Coi cio 

Re: 
Vèi 

Coi itoa i, 

A^ 
Qfl 

Já fatiando do Cerco de Dio fizemos notar o vigor de 
colorido, e fogo mitilar, que este Poeta alardea nas dis- 
cripçOes dos combates; 'egora notaremos outro ponto de 
semilbança, que eUe tem com Homero, que é a variedade 
de circumstancías, que die emprega nas feridas, e nas 
mortes dos seus facões, o que mui especialmente pôde 
vêr-se na narração de uma esr^ramupa entre os Portu- 
gaezes, e os Cafres, que etle. íai no Canio IX. do Poe- 
ma, de que estamos tractando. 

Accende-se a peleja hórrida, e fera, 
Cresço o bravo furor em cada parte. 
Si morre hum Poríuguez, com vinte vidas 
1>os Inimigos esta só se compra. 
Procura cada hum' por. vários casos, 
E pór successo iocerlo haver victoriã. 
Levauta-se hum clamor the ás Estrcllas, 
£ alarido, que chega, e rompe as nuvens ; 
N'hnma parte as agudas frechas passam ' 
De esforçados YarOes os fortes peitos; 
Em outras jazem muitos, reclinados 
Os celebros sangrentos sobre os hombrcs, 
O Mancebo animoso, que do illustre 
Antigo,, e nobre sangue descendia 
Dos generosos Sás, vendo hum daqucllcs. 
Que mais soberba mostram, e ousadia. 



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■nuio noIuMiM anu» flmo, n. 
Qoe dobrando com força tmmenHa bsin arco, 
Nervoso, grasso, e forte despedido 
Tinha litiBi moBte d'agiida8, morttes frechas, 
Causando omito mal aos dessmiádos. 
Cerra com dle ao tempo qae assestara 
Contra elle o furioso, mortal tiro. 
à flecha sacudida chega, e toca 
K rodelJa, qoe de açõ he gnamecida, 
Resvalla, e vai com for^ recfainando 
Por meio dos Safatll delgados ariei; 
Usa elle nas entranhas, pela parte 
Do Tiro Coração a espada «conde. 
Com bramido espantoso se debmca 
O Gentio na tena, onde co'a raiva 
Hortd as berras morde, qne de sangne 
Da f»ida cmel ji estavam tintas. 
Toma Amador de Sonsa, ardendo em ira, 
Hnma lesa, meeira, grossa lan^, 
Torcendo o corpo adquire mores forças, 
E a linm nralé de inimigos a arremeda, 
à bnn delle» pusi o peito ; cabe de coslit 
O Gentio co'a dAr, que o desatina, 
E r6ra de u bate a dora terra 
Hama vei, e mil veies co'a cabefa. 
Traz este também mata oníro, qne accode 
Para' vingar o morto companheiro ; 
Chega ferot, mas logo fica em terra, 
Snmilde, ptúr sen mal entregue i morte. 

E to, Tristío de Sonsa, nSo detinhas 
O infatigável brafo bum só momento, 
Uas, movido com cholera, tiraste 
A muitO!) em tal tempo á triste vida. 
O clanior, e alaridos dos que morrem. 
Com som funesto o campo, e o monte atroam, 
X nas cavernas concavas formavam 
'Com Viva voz diversos appellidos. 
Banba-se o campo em sangne, mas os CaCrei 
Recebem maior parte deste darnno; 
Hnitos corpos se estendem, cnjas almas 
GHtando vam com dAr ao atgn abysmo. 



D çn2B;v Google 



UTpo yi., ttiíiruia a* 
O TaJeole Dourado, que idi ti^it 
Com tnerigo da vida hatra ganhadot 
£ os seus robustos braços UabifH falo 
Nos inimigos uus sainrealo estrago, 
Vendo hum Catre, qoe iJi bem entre Io4o8 
Inlgado com titio pw mus Talei^ 
Remeite fom- furor; e alo reena 
O Imigo, antes stffuo espera o golpt. 
Que sobre elie já vinha tflo pesado, 
Que iHistava a feader qwdcfaer durem. 
O ligeiro Adversário furta o corpo, 
O goips £ca vSo, e a vide salva. 
Nfio tarda o Cafre em vir, aatea eobtttQ 
Do forte escudo toraa e brafo «Içaode, 
O alfauge descarrega, cuja ponta 
Ma cabeça a Dourado hum pouco alcança, 
Ambos investem, daado-se mil golpes. 
Com qnc retine o ar, e o valle geme. 
Que ^i ò Dourado' be forte, e vaíoroWt 
O seu contrario quasi ignal rwpoadfl' 

Assim como.eerdoBOS dons Selragens 
Pelas hnmbas, e mato ambos crfeciáe» 
Hpn vremelte ao ostro denodado, 
C«D agrido «olmilho, e crespo lombo, 
Pas eacinBOaes boccas com bcaveca 
Lançai roncos borríveis, e fiimou», 
N9a assanhados olhos amostrando 
Ker«rbcrar,r^mpagofl eipessos. 

O Dourado nio qaer qne se dilate 
Hat» a fwte costeada. Chama, «p«(to . 
O £vino favor, do qual sentindo ' 

Conhecido signal, reddva os golpes, 
A rutilante espada alto levanta, 
E eenbv o duro ímígo a manda, e fwds 
O e«rpo qJBasi todo ! Vai fugindo « 
Atpi0lla tàam furiosa ao ReioíOi^Gu». 

Mas que aproveib 90 iriste tal.Ticl«Da^ 
Sois que n2o teie teoipo 4e goiar-n 

4* 



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ffí MSAtó «otaAPBKínainco, rftiio it. 
Delia? Nem teve tempoqne os cangados 
Membros, hum pouco s6 favorweMBÍ 
Que' apenas acabava o fero transe, 
Quaudo^ lá da contraria parte vda 
Hnma frecha cruel de rigoroso 
DestÍno.Jnrelict6Simo guiada 
Levemente Ibe passa o forte peito, ■ 
PasB»-lhç,o coração robusto, e duro, 
Huma ponX& a\i mostra as pranas, eontrá 
Nas costas mostra o terto em sangoe-tialo. 
Cahe o forte Varáo regando a Terra j 

Com escumoso, ruivo, e quente saagae. 
Desamparados já da luz radiosa 
Os frios olhos cerm em noite escura. 

■ Apoz esla vem doas ; huma fere 
O Sampaio no braço esquerdo, e abrindo 
A bocca, por queixar-se co'a dôr grande 
 outra, que lhe trai a morte, chega, ■ 
Mete-se pela aberta bocca, e passa 
Sem nada se deter, e o Varão fero 
Co'a raiva aperta os dentes, racha, e qbebra 
Aqnella vSa, .ligeira, e subtil basta; - 
Cahe-lhe o Arcabuz das mãos, elle recua 
Quatro passos atraz, e~o'hum momento 
Atravessa a purpúrea aliAa n'bum rio 
Todo sapgrenlo, e cahe sem mais mover-«e. 

Este passar alternativamente do combate geral itias 
hostes aos doellos indivíduaes, e destes áquelles; este 
cuidadoem particularisar as circamstancias decadamorti, 
cada golpe, cada queda, i a atitude de espirar, diii il- 
guem*que «ão recorda a maneira habitual de Honin^ 
Não prova isto que o -Poeta estava cheio da leíton ii 
lliada, e que sabia imita-la? 

Si a poesia discriptiva tem feito viver d Naufrágio « 
Sepúlveda, ■ njo lhe tem dado mcoos raiOes para isso » 
muitas, e beflissimas comparações, quasi todas origiiao, 
de quff o Aulhor soube adorna-lo, e muitos rasgos pslbfr 
ticos, e cheios de novidade,- que nçste Poema frequttW 
mente se deparam ; entre eetes conto ea a terníssima [ám 



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. LITBO TI., CAntDLO II- £3 

iDB doe- companheiro? de Sepúlveda, que n!lapod«ndo. 
Íái«sistif aQcançasEO detãoprolougada marcba, eáexte- 
naiçSo daf^e, sedeixam cabír moribundos nomeio da- 
quelles descampados, dirigem os seus últimos adeoe sos- 
seus sócios de infertanio, e ae resignam a ser ein breve 
pasto dasferas, edasaves de rapina. Trecho éestequeTac 
anita honra ao talento do Poeta, e que será mui dif- 
Scil encontrar em õatro Poema algani, que possa equipa- . 
w-se «oju elle; 

Algnns se rendem já, já de cansados 
Se deixam ser de Tygres mantimento. 
Os olhos nos que vam, getaem, suspiram, 
Em lagrimas banhados se despedem. 
Dizendo: «Bi-vos, amigos, Deos vos livre 
«Deste passo espantoso, em que ficamos. » 
Apoi estas palavras, reclinando 
Os lassos membros, choram seu fim triste. 
Ali de bravos Tygres, e outras Feras 
Em breve espaço sam feitos pedaços. 

Finalmente além dralos, e de outras bellezas de exe- 
cução , que poderia facilmente apontar , é bastante fun- 
damento do apreço, em que é tido este Poema, apesar da 
falta de ordem,. e deboin gosto, que nelie reinam', o in- 
teresse, que inspira nos cor3çí>es'dos Leitores sensiveis, 
D valor romanesco, bem que infructuoso. de um punhado 
debomeos, queemprehendem uma longa jornada, por en- 
tre perigos, e obstáculos insuperáveis, atravez dosDcser- 
tos da Africa, e o quadro lastimoso de um Amante apai- 
lonado, que vé perecer de cauçasso, e de fome, nii.i, e 
meio enterrada na arêa a Esposa, aqnem arfora, e os in- 
nocentes filhinhos, e que se entranha desesperado pelos 
maios, .cm busca dos Tygres, que o devorem : se houves- 
se alguém, quepodesse léresta terrível aarraçjo stmdi-r- 
ramar lagrimas, mereceria bemqueselheapplicasSe o ver- 
so de Dante 

Ma si non piangi di che piangêr suoli? 

É verdade que a Mylhologia Grega, absurdamente em- 
pregada, ás vezes damua çpatbetico da situação, comoac- 



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54 nniro naoiumco cimco, Tono ir. 
eoiUM no CaDtd IVI., em qae Pheho, com êxot imptr- 
Umas cutigas, reqagM D. Leonor quasi moribandi- mà 
a lerriTel realidade vem depreda chamar a msm suen- 
00 sokre o abandono, e a mwte dsqueDa itíetit, e de «eu 
filbíidios, e ebrigar-aos a verter lagrimas sobre a sqml- 
Inra, qw Manoel de Sonsa lhe cava na aréa. 

Poucas vezes aHosa de CArte Real solton accniu llit 
temos, poncas vezes alardeoo umaelognencia ISoeonoo- 
vedora como na píotura do passamento daqoella iofoltt, 
e da magoa de sen Esposo, qne cfaeio de funestos presei- I 
timenlos, a encontra no instante Uemendo de èzlialar » i 
ultimo sospiro. i 

No Canto airaz passado, se vos lembra, I 

Vistes o Capitão oavir mil gritos, , 
E o coração presago a duA morte ' i 

Da sua Leonor lhe descobria; \ 

Com trabalho se apressa por achar-se 
Presente ao mal que tome, c já vi certo ; 
E da penosa ddr affadigado 
Qnasi arrastrando vai os lassos membros, j 

Hum difficil anhelito lhe secca 
A bocca já mortali e os tristes olhos 
&iniido8 de fraqaeía, em vivas Tootea 
De lagrimai piedosas se convertem. 

Cbega aonde Leonor ao passo bffte, 
E termo tSo temido estava entregae, 
Yé qae a turvada visla rodeando 
A eite só demanda, a elle só busca, 
B, vendo que he chegado, esforça faom pouco 
O animo, e procara despedif-se. 
Levanta com trabalho os inortaes olhos, 
Qoer-Hie failar,... a Morte a tingoa impide. 
firma-os cada vez mais no triste rosto ' 

Daqnelle unicó amigo, que já deixa; 
Trabalha agasalha-lo, e nSo podendo, 
Com dór mortal na terra se reclina. 

ínlregam-se a morrer aquelles olhos. 
Que mil mortes já tiohaDi dado a mnito^ 



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i.ino TI., CiPtntLo II. ss 

Hana m«(àl aoswtia lb« rod^a 
Aqodfe slegre Aafelico sembraote : 
Já de lodo Jbe fogs a c4tr de rosa 
Ilio rosto tfo.fonnosp ; já 8e erfria, 
Jà fica a branca mSo sem mofimento, 
O puto ehnriieo fica sem sentido, 
Qaal da casta Diana a bella imagfm 
Se Tin por inSo de Phfdiu escnTpida, 
Que, o soberbo ediKcto eanobrecrado, 
Sentiu do Tempo Avaro a for^, e ^ ira. 
Entre antigas ruiass jaz a IRu^tre 
A4niirave] Figora despegada; 
E ainda qae perdee estado, e gloria, 
Desenhp Ibe ficov, valor, .e eitima. ' 
Ali mostra bqm perfil medido, e justo. 
Nos membros porporção perfeita, e rara; 
Mostra formosos olbrà. mostra graça, 
Ifoetra tudo foroMW, naa n&o rida. 

Tal na deserta praia fica o empo. 
Mais que mármore, ou branca neve, branco. 
De orespas febras de ouro soccoriido, 
. Que com intento caslo ali o defendem. 
ÃiçirM bum alarido alhe ás Estrellas, 
Das (kiadas, que em lonio delia estavam. 
Ferem com dures pnobos roslo, e peitos. 
Fazendo bpm triste som , qae rompe As nuvens. 
Dos gritos, e lamento oatra vez torna 
O concaro rochedo a voz escura; 
E correndo por liaixo do Arvoredo 
Miseráveis accenlos vai formando, 
Quantas veza o nome amado chamam, 
CuB palavras de eboro interrompidas. 
Tantas Echo chorosa lhe responde, 
Co'a mesma dAr, c'o mesmo sentimento. 

O VarSo infelice, traspassado 
De huma terrível dAr já sem remédio. 
Tremendo as fracas pernas, nSo podendo 
Soffrer a grave carga, a pezo triste, 
Junto do amado corpo ie reclina 



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66 BHSilÚ BIOGKAnnCO CBITICO TOUO, tT. 

Com semblante afligido; os tristes olhos 
Com tutrinatca pena os tinha prompAt 
Naquella jjr defuncta formosara. 
Cuida no duro termo, a' que seus gostos, 
A que todos sens beus se redaziram, 
Cuida em contentameatos já passados, 
Que agora muito mais o intristeeiam. 
Ali, por maior ddr se lhe apresenta 
O varie proceder dos seus amores, 
O priacipio alterado, e o successo 
Tâo prospero, jticuDdo, e tao fel/ce ; 
Cuida como passou em sombra o tempo 
Ligeiro, e tão amigo de mudanças, 
E quaildo imaginada' estar mais alto 
\Ío da mudável roda a volta dura. 

O Poeta rinuio aqaj todas as cirCBmGlân<^a& capnef 
de mover a compaixão : uma joven tão formosa como des- 
graçada, sem um ténue véa com que se cubra, expiraa- 
do de fome, e cançaço abrasado aos filhos ém nm des- 
campado de Africa, procurando cora osolbos oesposo au- 
sente, e quando elle cbega, não teudo já forças pa^aa^ 
ticniar um adeos; esem mais consolo qae morrer comos 
olhos lictos nèlie; os gritos, elamentos, ecboros dasciia- 
das, suas únicas exéquias, repetidas pelos «chos das ro- 
chas, e dos arvoredos.dos -desertos; a áòr muda doespo- 
EO, que se reclina ao lado do cadáver, e não podendo cW 
rar medita nos seus gostos passados, nas vicicitudes dai 
seus amores, na ventura que lhe fugio, e na desgraça qae 
Ibe resta ; tudo isto sam pinceladas de raesb'e, concep- 
ções de espirito altamente poético; duvido qne em alga- 
maTragedia se encontre uma Scena, em queo terror,e 
a compaixão esteja levada a «s(e auge ! Até a versifica- 
ção é, neste trecho, perfeita, harmouiosa, einergica quin- 
to pôde ser I Mas o génio do Poeta ainda não cança, ain- 
da acha Dovos rasgos que juntar a esta pintura tão ter- 
na, vejamos. 

Depois que hum grande espaço está paso^, 
Opprimido de dõr o peito enfermo, 
Alcvanta-Se, e vai ntudo, e choroso 



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iiTío TI., CAwniLO ir; 57 

Onde a prata se H mais opportuna, 
Af^hanifo Go'as mãos a branca aréa' 
- Abre nella huma estreita Eepa|fura, 
T«rBa-se atrat, altando nos cansados 
Braços aqúcUè corpo lasso, frio. 
Ajudam as Criadas ás TuoesUis 
Derradeiras etequias com mil grilos: 
« AJ duro tempo I (dizem) como apartas 
« Para sempre de aós tal formosura ! s 

Na perpetua morada tenebrosa 
A deixam, leváiilando alto alarido. 
Com salgado hquor bnnliaDdò a terra, 
Aqnelle ultimo, vtile, todas dizem. 

N2o fica Leonor sú na casa infausta. 
Que de bum tenro iitbioho se acompanha, . . 
Que a,luz vital goiou quatro perfeitos 
Aqqos, ficaudo o quinto interrompido. 
Ali co'a morta May o Filbo morto. 
Ambos com muito amor em terra jazem, 
£lla lhe uega o branco amado peito, 
E elle o doce, materno, amado gosto. 
. Ambos ua solitária praia Ucam, 
Junto das grossas ondas sepultados, 
iteixando, ao Mundo bum triste, raro exemplo, 
Da perversa, cruel, impia fortuna. 

O mísero Sepúlveda rodéa 
Os olhos com effeilo saudoso, 
Enr lagrimas desfaz o vulcão turvo. 
De que ' assombrado tinha o triste esprito, 
Com voz do triste choro embaraçada 
Palavras diz de lastima, e piedosas. 
Nos braços toma hum Filbo, que ali tinha, 
De tenra idade, e vista miserável. 
Por estreita vereda entra no mato 
De bravBS Leões, e Tygres povoado, 
A morte vai buscando, elles doidos 
De seu mal lha darão em breve espaço. 
Aqui devia acabar o Poema ; depois destas scenas, em 
que está ^gotftdo todo o. pathetico, que interesse pode 



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5i iRBiie insuraicM axnco, «nt» ir. 
achar • t>«tor nu IwnenlacOea de Pbebe, de PrMheo, e 
de Pan, que vem did depois do onlro qnereUi^-w sobre 
a safinUna deD.^nor, e grarar sobre ella um EpitlHr< 
phio, todo isto é gracíal, e iooportono ; budcb se fez an 
HM mais ÍDatil, e absurdo da Uytholt^ia Grega, nSo loi 
assim qne delia soube serrir-se CamOes, e a razAo desta 
differenca, [além da habilidade indiTidatl do Poeta) esU, 
segundo peàso, em qae CamOes applicou « merarilbos» 
vythologico a uma acfãft graode, poMtea, e de interes- 
se geral, e cajos resallados eram la Bn- 
Jopa, e lalTez do Muodo iDteiro ; oa a^ 
ção particular, e romântica, qae i andes 
meios, e as grandes macfaiiias da 'ragia 
de Stfttlteia é uma verdadeira ' i, em 
que o grande poalo estava em e: o, vi- 
brado brandamenle as cordas mi irafio 
dos Leitores; e é tal a força de bomogeniedade, e liga(^ 
das idéas, que ai poncas vezes que o Poeta recorree ao 
meraTílboso chrisllo, o fez sempre com grande eSeito, e 
■para prova basta citar a apparíçio do espectro de seu fi- 
lho natural a Manoel de Sonsa de Sepnlveda, o sangoe 
de Luiz FalcSo mandado assassinar por elle, apresentan- 
do-se diante do tbrono do Altíssimo para pedir vingan- 
ça, e a descida do Anjo, qne por ordem d» Senbor, vem 
deslumbrar, eamedronlârcomsenfolgor oespiríto docal- 
pado, e finalmente, a scena em que a Desesperado, e a 
Paciência, dispertam a alma do viovo de Leonor. Isto 
mostra que oPoeta teria feito mçlbor obra, se menos obe- 
diente aos preconceitos das escfaolas, usicameate se ti- 
vesse servido das machinas, que Ibe fornecia a reUgiio 
dos seus hcroea, que era a sua própria. 

Os Cantos deste Poema, como os dos outros, san pre* 
cedidos de Prólogos, mas estes pelas idéas, e pela eipre»- 
são sam muito superiores at» outros. Gonteatar-mè-hd 
de citar o doCantoIV-, que muitas vezes se eleva 4 BUt- 
gestade, e força da Poesia Lyríca: 

Nada resiste ao Tempo ; tudo vence. 
Tudo desfaz, consume, e tudo gasta; 
Grandes males, e perdas, grandes danuo9« 
Grandes desgostosa a esquecimento. 



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uno TI., CftClIBLO It. ss 

bn-B08 da menorit cm poaco espaço 
Avdflo qM aates bera espanto á Geote, 
fi o que aos assoiobroa boategi, já hoje 
Lere o faz parecer brando, e traclavel. 
Nio ba tri^esa grande, qst nSo cure. 
Não ha dAr, que com elie seja grave, 
Todo o rati, e rigor, toda a aspereza 
Este Veifao cnief dos torna racil. 
4qarile cam atnu que a quem o oavln 
A graade indignapio o provocava, 
' Tão esquecido fez, que qnasi em sonhe 
Julgava a Gente ter accontecido. 

Cesse já a Tempestade, e o duro Inverno 
Pas», e leve comsigo' as sombras negras. 
£ompa-ee o manto escuro, e tenebroso. 
Que as, amorosas almas leip sombrias; 
Desfafa-se o VulcSo, e a névoa espessa, 
E iafelice vapor moresto, e triste; 
Yenha já o resplendor do louro Ãpollo, 
Aclare destes dons o niai occuíto. 
O brando, suave Zei^yro respire, 
Nos brandos cortçOeB dos dous amantes, 
favoreça o gran ma), que o bravo, « fero 
VuftDTQO tinba aclles supprimido; 
Venha .já, venha já a lúcida estrella 
Do Sepnlveda já ditoso, e ledo. 
Brotem Lyrios os campos, que athegora 
De Cardos espinhosos se cobriam, 
Desappareça o rosto fusco, e negro 
Da tristonha, sombria, e mude Noite, 
Que em suspiros, e angustias occupadoa 
Os dons ardentes peitos sempre tinha. 
Appareça o risinho, lédo rosto 
Da fresca Aurora, e mostre I6das cdres 
' Kfls tristes horisontes; resplandeça 

Nos tristes coraçOes alegre âia. 

Cospare-se este Prologo com qualquer dos ioCmo d* 
JNo, e facilmente se convencerá o Leitor da grande dif- 
> feraiç^ que «itre eJlcs se dá. , 



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00 BH3U0 BIOfiRAFmOO CUTICO, TOMO IT. 

ResnmÍDdo, o Nmfra§%o di Stjmloeda é am Po(ma ir- 
regular, fallo de ligaç&o, e nexo de idéas, ch^o de pe- 
danteria, e nau gosto ; mas euire esses defeitos faa bo- 
letas de primeira ordem, que juiittticam os louvores, qoe 
por naturaes, e estraugeiros the tem sido prodigalisa- 
dos. 

\ inexgotaTel fecundidade de Jeroaymo C&rte Beal, 
não se Goateolou só com a composição dos Poemas, de 
que havemos feíio. menção ; eile compoz mais outro tam- 
bém em verso solto sobre os Novissimos do Boroeio, qoe 
foi publicado péla primeira vez em Lisboa, no aooo de 
1768, em Tormato de i.",- e-com viule e trez paginas ; na- 
da direi a seu rúspei:o, porque apezar de todas as diligen- 
cias nunca pude alcançar um exemplar delle. , 

Consta também qa& havia composto outra Epopeia em 
muitos Cantos, e que linha por título Perdicçào d'Ei-Rti 
J). Sebastião m..Africa, e das calamidades gue se segui- 
rom a esle reino. Mas os Authores, que fazem mensão del- 
Ic, não accresceutam que fora impresso Também me nãa 
foi possível enconlra-Io, e é muito probavel que ficasse 
manuscripto, porque os seus parentes se não atreveriam 
a da-lo á luz durante' o dominio dos Hespanhoes. Tenho 
para mim que o desapparecimeQlu deste Poema foi gran- 
de perda para oParaaso Portuguez, porque aqoella gran- 
de catastrophe devia, inspirar bem o estro de um Poeta 
de tamanha esphera. 

Na primeira parte da MoDarchia Lusitana, Livro IV., 
Capitulo Ylll., acha-se um trecho de uma Elegia destft 
Poeta á morte de uma Dama. illustre, natural de Évora, 
que mostra bem oque oPoeta poderiafazer nestegenero. 

Não temos as rhythmas de leronymo Corte Beal, qse 
c natural que fossem nu|neroses, visto que nenhum Poe- 
ta principia por compor um Poema Heróico ,' para tomar 
tão grande empreza é necessário que se tenha longo tem- 
po exercitado na versificação, e aperfeiçoado o estylo nas 
composifSeslyricas:' masduasCartas, em Tercetos, deSe- 
pulvcda a D. Leonor, e de D. Leonor a Sepúlveda, qse 
se lêem no Canto H. do Naufrágio de Sepúlveda ; assim 
como as Cançães de Pan nos Cantos IX., e X., me coa- 
veucem de que si as suas composições deste género che- 
gassem a imprimir-se, B|;raardes, Camiiiba, c lalvezFer- 



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uno fi., CAMWto Ui 61 

itlra teriam neste Poeta um rÍTal.qaelhe despBlasse a 
palma da Poesia BocoJíca, e Epistolar.' 

Posto que JeroDymoCõrle Real escrevesse habitualmen- 
te em Jiaguagein pura, e elegante, e seja um dos Clássi- 
cos, que iioscumpre cuidadosamente estudar, nÍo obstan- 
te isto. seuestylo deixa ainda muito que desejar; poisaqui 
se acha o dialecto poético misturado com o da prosa, co- 
mo em todos os seus co d têmpora aeos, áexcepsão deLniz 
de Cambes, que foi oprimeiro, que soube fazer eutre es- 
tes dons dialectos a uecessaria distinção, e por falia del- 
ia Jeronymo Corte Real descabe muitas vezes em modoa 
de dizer rasteiros, e indignos da magestade da Epopeia, 
e mesmo fia Poesia «levada. Citaremos alguns exemplos, 
porque as faltas, e descuidos dos grandes Poetas sam a 
fifio mais profícua para os Poetas ooiíeo^ 

E se ÍDtentaTa 
O muro fabricar fora do termo 
Já lemitado d'antes, que impossível 
Stria sofre-b elie em nenhum modo. 



Aonde estavam 
Ppf CapitSes Alonso Sonifaçio, 
Ltás deSotua, e Gil Coutinho. 

^eúrando ali Ireientos esimiUos. 

9 as cousas ji nestes taes iermot. 



Morreo Mestre JoSo, Varão prudente, 
£ muilo exprimentado em Cirtèrg^. 

E ainda^ nfla sabiam que hera morto. 

O Padre Frey Ânlonio, que d^Alemha 
Po Cusal se chamava, é aesta parte 
Custodio hera Geral de São Fratwitco, 
Hia por Capitão d'oatro navio; 
Trez Fradts leva aii^or eomfOHieint, 



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0t iHiAio noflLiPHico otmcr, Tom vr. 
E leva Tinte e qaatro bons Soldados, 
Jhnd9-lhê ie comer mui Uwgamtule. 

Cvn» ié Si*. 

Dir& algaem que os Tersos sablinhados contém mais 
do qne {hws, e prosa mni rasteira ? No Naufrágio át 
Sepúlveda também n3o faltam destas faltas de toda a de* 
gancia, e namero poético, por exemplo. 

N'ama caprina pelle cheia de «ui^r. 

A nefanda TÍnginça abominável 
Pme ConnU /ulioo ao viro eslava. 

De todos he traelado eom n$pèito. 

A. formosa Leonor, e oi dot» pequenos 
Bellissimos Hininos. 

Os tem Mininos limbos desembúrcam 
SimSo, e o que Thadeo tem por aíemta. 

Do recebido tnul remetUar-u. 

Kmfragio áe S^heda. 

Ontro defeilB do estalo deita Poeta, é o sestro ds 
amontoar os epilhetos. de modo que é raro o sobstanti- 
To, qne não app&reça acompanhado de trez adjcstíTos, 
por exemplo. 

Seguiam todos esta ínsignia torpe. 
Espanto», infernal, fera, e medonha. 



Vuf 6 nobre, 
Pnidente, gnvt, afiarei, e esforpad». 

h. teitdwosa, triste, e negra iombn. 

O dnro cora(fo bravo, « Tairoso. 



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unto n., uraoLo n, 

■wlifcros, craeis, hnvoa sembUstes. 



Ba éáereito o jantar n'oi!i Terso trcz epttbetos aam 
nnjeiló, e occasi&es haverá em qne possa até ser belleia ' 
o que é {tefeito é faze-lo tao Treqnentemeile eomo oAn' 
tlnr pratica, porqne dahi resulta a inimoloaEa, e a veN 
bosidade ; mas pede a justiça qae se deacnlpem estas « 
miras negligencias dos nossos Poetas antigos, que uio 
IkKliaai fazer todo , que nos appraiiaram 9 caioinbo do 
findo, e qae luctavani com as-difficnldadar de inlrodiizir 
n liflgaa pátria moa poesia nova. 



CAPITULO lU. 

Ziitar Perora Bran^b. 



l/e todas as cireamstanoias rebtívafl i pessoa deatf 
totta s6 acho duas bem averiguadas ; a sua nataralida* 
de, e as suas desventuras; no de mais n3o encontrei se- 
Bio cont»dícpíles, e incertezas. 

k sua pairía foí a cidade do Porto, e d seu Bascimes- > 
topareceverosimil que tivesse logar noiníervalto, quede- 
corre de 1630 a lUQ. Da sna familia tudo se ignora, m- 
iim como aprolissão, que exerceo, e a sua posrcKo sócia). 
Sabe-se que estudou nas aulas dos Jesuitas, onde se 
distíngnio. e a quem sempre foi mui acceilo; edevoto. Vinda 
ívOrte ahi grengeou alguma reputação como Poeta, algnoa 
amigos entre os Literatos , e alguns protectores «nlre n 
Fidalgos. 

Estava elle na cArte quando a Gaballa Jesuitica, diri- 
gida pelo Padre Gamara, Confessor dfil-Rei, eseuimiSa 



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G4 KK9AI0 BIoailPHIGO CRITICO tOHO IV. 

Harlim da Gamara, Himstro, e valido doMonsn^ia, anf 
seguio, contra o parecer de lodos os Capitães eiperimen- 
tados nas guerras d' Africa, e d'Asia, que elle se resolTes- 
66 a ÍDtrevir com mão armada na questão do XaTifecom 
sen Tio Muley Mulaco sobre o thrcuo deUarroeos ; «Lis- 
boa toda ferria em apparatos, e preparativos para esla 
desgraçada expedição, que todos os homens prudentestt 
mentavam, antevendo que delia proviria aruíoa total dn- 
tesreioos, eoscesultados comprovaram liem ojusto moli* 
vo destes receios. 

Folgavam porém com ella os Jesuítas, que lá tjnbam 
seus fins ; folgava D. Sebastião amei^tado pelas suas tns- 
tígaçOes apoiadas em falsas prophecias de Jesuítas, qoe 
lhas mostravam para escandecer-lhe o espirito gnerreiro, 
e qne elle acreditava com tanta fé como se fossem as de 
Isaías, ou de Danie) ; acreditava com a mesma confiaafa, 
e boa fé as promessas pomposas do Xarife, qne segundo 
o costume dos pretendentes em facilitar oque requerem, 
lhe afiançava, que, apenas elle poiesse pé em terra, Ioda a 
Hoarisma correria a alistar-se debaixo da sua bandeira, 
e partindo destes fundamentos, coutava vér em breve to- 
da a Mauritânia Christâa. Folgavam os fidalgos moços, 
que arrebatados de ardor marcial já phantasiavam títu- 
los, e commendas em recompensa das suas proezas ; fol- 
gava finalmente Flllppe II. no centro do Escurial, epas- 

.seando pelos seus longos corredores, traçava com, D. 

'Ctmstovão de Moura, o plano de aproveitar-se dos des- 
pojos do Sobrinho, cqja perda, com cazãsy- bavia eoãia 
inevitável. , 
D. Sebastião porém contava tanto com a víctoria, q^ 
, determinou levar comsigo alguns Poetas, que presenceas- 
eem ^s snns proezas para as celebrarem depois era seos 
Poemas ; da maneira que muito depois Luiz UV- s» fet 
âcon^)anbar dos seus dous Historiographos Boileaa, e 
Baçine pva hisloíiacem, como testemunhas de vista, as 
soas Campanhas de Flandres, mas com o infeliz resoUt- 
do de nenhum dos dous Poetas deimr si quer um Capita- 
lo de taes Historias. 

Parecia muito natural, que existiudo nessa epocba en 
Lisboa Luiz deCamOes, que vinha de dar provas eviden- 
tes niio s6 do seá assombroso génio poético, mas dassns 



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Ltno Tl., eurrúLo iir. 65 

f^es disposições para o género épico, cora a recente 
poblicação dos stns ítaiadas, qne andavam nas mios de 
lodos, fosse este o escolhido para o desempenho dos pro- 
jectos d'EI-Ilei a esse respeito. 

Mas a Companhia de Jesns detestava, e persegaia laiz de 
CamOes, cajás idéas liberaes, e apaixonado amor da inde- 
pendência, e gloria da sua pátria Dão o tornavam próprio pa- 
ra servir de iostrumento á(}uelies agentes de Pilippe II., 
eus muitos mates, qne lhe haviam já Teito, quizeram ain- 
dijaaiar o dissabor de vèr preferidos a si dOns homens, 
qn estavam tâo longe delle em aptidão, e saber; poze- 
nun pois em movímeoto todas aâ macbinaçOes, e intri- 
gas para que Lniz Pereira BraodSo, e Diogo Bernardes 
fossem eseolhidos psra^rem os Homeros do novoAchy- 
les, pdsto que nem nm úem outro tivessem hombros bas- 
tante robustos para sustentar tão grave pezo. 

É muito de presumir, que os que estavam á testa da- 
qoella Cu^xtrapao Beligiosa, si este nome. lhe compele, 
coahecessem beni -a mediocridade dos sens protegidos ; 
e que dada se perderia com a soa nomeação, porque es- 
tavam bem certos de que Daquellaexpedipio haveria mai- 
lo que chorar, e nada que cantar ; mas isso mesmo pro- 
va a malignidade, que os animava, pois não perdiam a oc- 
casião de mortificar o amor próprio de um Poeta tSo 
gTài)de como desgraçado, quando tráctavam da subver* 
£ão completa de um reino. • 

Partio a Esquadra, a mais brilhaíije, e pomposa, que tem 
sabido da barra de Lisboa, parecia que bia e triumphar, 
e flio a combater. Reinava o luxo a bordo ; tudo era ar- 
mas douradas, e vestidos bordados com quantas lou- 
çainhas podéra inventar õ gosto, ou e capricbo da nu- 
inerosa nobreza, que acompanhava oMonarcba, eembr^ 
ve tempo aproaram ás pniias d'AfrÍca. 

Desembarcou El-Rei, e passou iinmediatameole uma 
revista geral ao exercito, e então começaram a desvane- 
ceTrse as iflusOes, e a manifestar-se a má fé de nms, » 
,aB demonstrações dos sinistros projectos de outros: oi 
Terços Hespaohoes, e Flamengos, que o Bei de Castélla 
mandara em auxilio do de Portugal, commandados pelo 
^Capitáo Aldana, apresentaram menos de metade da força, 
^{ue se dizia terem, e com qaa se bavia calculada. Dos 



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fiS KnsAw iisavAmCd cbitico, ioho it. 
Uouroi pjirçiaes do Xarife apenas algumas duziu de Jio' 
niens vieram reunir-se com elje. Moley Moluco congregava 
em roda de si om Diioiei;oso exercito^ e os sens enússa- 
rios giravam appellidiodo a terra para a guerra Saala, 
e os povos se levantariam em massa para defenderem os 
seus lares, e a religião de Mdhomet ameaçada pelos 
Giaoures. 

Aioda liouvealguns homeos prudentes, esioceros, ze- 
losos do bera da palria, e do bom serviço d'El-Beí. qae 
ousaram propdr oo concelho de guerra, qoe yísU a ao- 
)avel dimionifão das forças Porlajíuezas, eafallencia das 
pionieasas do Xarife, cujos parlidislas' nem appareciam, 
nem loiuavím armas, o exercito devia reemiwrcar-se, e 
guardar-se a empreza para occasiSo mais oppoituna. 

Era na verdade este o único passo, que devift dar-se, 
e nada tinha de deshonroso, porque a engano das pro- 
messas do Xarife o cobonestavam bastante. 

D. Sebastião allucinado com as suas idéas de heróis- 
moravalheiresco, ecom assugestões.ePropitecíasJesaíll' 
cas,. regcitou este voto cora indignação, « com grande ap- 
plauso dosHdalgos mancebos mandou levar tendas, eque 
o exercito se internasse no paiz. 
. A marcha se verificou com bastante desordem, e, gran- 
des fadigas, e privações, dçbaixo de um sol ardente, e 
pisando aréas escaldadas, cabiodo alguns soldados esbaa- 
ridos ^e forças pelo cançaço, e a sede. 

Cbegiido^ em fiip a uma vasta planice bordada pelos 
rios Lucco, e Mocazim; ali souberam pelos corredores, e 
éspiOet:, que. o Imperador de Marrocos, em umaJitnra, 
porque se achava gravemente enfermo, dizem qne de ve- 
neno, á frente de, liraa multidão de Mouros, pela maior 
parte cavallaria, vinha ao seu encontro, resoluto a dicíàa 
á contenda em uma só batalha. 

p. Sebastião, mandou, que o seu exercito fizesse alto, 
e tomasse posições. Distribuio toda a gente em trez bata- 
lhas, rollocando em logar, que lhe parcceo opportuiio, nm 
corpo Av. reforço, ordenando ao seu commandanle que, 
pena de incorrer na sua indignação^ ali permanecesse, e 
pão lizesse movimento algum sem que elle€m pessoa lho 
ordenasse. Não c fácil hoje atinar com o motivo dai|oeUa. 
disposição singular. Desconfiaria cllç da victona, e diãti- 



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iwro Tf., cAMTuio in. a7 

iflria aqneTle corpo fresco para cobrir a recta^arda da 
sna gente desbaratada, alé qae cobrando animo, podeg- 
se rfTazer-se, e effectuar a retirada em ordem e sem 
grande perda i Destinaria aqnella tropa para perseguir o% 
Mouros na fugida, em quanto descansavam os qtte tives- 
sem combatido? Não sei, mas éevidente, queaquella or- 
dem foi uma das príncipaes cansas da sua rnina. 

Barou Cm Gm o fatal dia 1 de Agosto del678, ecome- 
param a apparecer as primeiras bandeiras Mouriscas, e 
praco depois o immensó exercito de Hnley Holuco esten- 
dendo-se em f6rma de meia loa, segundo o costume da- 
qaelles bárbaros 

O. Sebastião deu sí^al, e Iravon-se a balalba com 
uma alacridade de ambas as partes, poucas vezes vista, e foi 
peleijada com om encarniçamento mais próprio deleSes 
qae de homens : El-Rei fez prodígios de Talor, e teve 
alguns cavallos mortos debaiio de si, e o seu exemplo 
poude tanto no animo dos seus soldados, eda nobreza, que 
08 commaudava, que os Mouros foram rotos, e desbara- 
tados, fugindo por toda a parte, e hkdo alguns dar ás 
portas de Pez, e de Marrocos, onde levaram o desalento 
e o terror. - 

Os Portuguezes, bradando victoria, seguiram o alcan- 
ce, matando, ferindo ndies desapiedadamente, quando 
de diversos pontos se ouviram vozes gritando «ter! terlo 
A estas vozes pararam todos, allonitos, e perturbados, 
espalhou-ae- um terror pauicò, e os Mouros, vendo que 
cessava a perseguição, e o pequeno numero dos, que oa 
perseguiam, tomando animo, se voltaram sobro o inimi- 
go incerto, e desordenado : o mesmo Muley Moluco, mo- 
ribundo, faz um esforço para montar a' cavailo, a fim 
de anima-los com o seu exemplo, e as suas vozes ; porém 
breve ahio desfallecido, e recolhendo-sc á sua liteira ali 
espirou. Cm Elcbe, seu valido, conhecendo a impor- 
tância de qne a sua morte se não divulgasse, passou a 
dar asordens, que lhe pareceram opportunas, como ema- 
nadas do Imperador, a cuja liteira se dirigia como para 
recebê-las. 

D. Sebastião, desesperado por têr que assim se lhe ar- 
rancava a victoria das mãos. julgou, e com raiSo, que 
poderia remediar tud» fazend» entrar aa acção o corpo 



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6S KSSAIO BWOÍAMIt» CllTiCO TWW, IV. 

de reserva, mas n9o podendo hir cc^ocar-se á testa dei- 
te mandou repetidas ordens para que elle avançasse, mas 
o commapdanle, em virtade das primeiras, qne bavia re- 
cebido do próprio Rei, recusou tenazmeale compri-Jas. 
Esta circumstancia acabou de perder tudo ; os Potta- 
suezes nío podevam tornar a reunir-se, nem combater 
com a mesma energia, pois além de haverem exhãarido 
as forcas no primeiro combate, aohavam-se debilitados 
pelas feridas, pelo ardor de um sol intenso, e pela sede, 
e além disso cercados por uma alluviao deMouros, que 
auKmentava de momento em momento, e o resultado foi 
como todos sabem, a morte de dous Beis o Uoloco, eD. 
Sebastião, e do Xarife, que se intitulava como taf, e a perda 
da lustrosa nobreza, que bavía acompanhado oMonarch», 
parle da qual morreu combatendo, e parle foi reduzida á 
escravidão com muitos outros homens de menos conta, 
qnc osMouros pouparam, n5o por humanidade, mas por 
avareza. Demanda "foi está em que todos os litígantes 
perderam oxDt^jecto despulado, e ainda em cima a vida. 
Mas quem soltou as vozes, que tizerain deter o impele 
das tropas, eesfriar-o seu ardor? Quem soltou essas vo- 
zes, que nos roubaram avictoria, e deram togar aosMoo- 
J08 para reconhecer-se, e animar-se fazendo retroceder 
« fortuna,' que Ibe hia voltando as cosias? Ninguém o 
«oube ; nioguempóde explicar o motivo delias, posto qae 
todos, que escaparam, referissem o facto, e ocoafiroiu- 
eem como verdadeiro ! Em minha opinião foi isto o eff»- 
to de planos premeditados pelos traidores, .que trabalha- 
vam para que esta expedição fosse a ruina dos, que foram 
a ella, e da iadepcndencia nacional. 

Nem posso igualmente persuadir-me de qne a inacção 
absoluta,- em que o commandante da reserva se obstim» 
em conservar aqueIJe corpo, apesar das repetidas ordens, 
que recebeo para entrar com elle no combale, nascesse 
somente da cega obediência ás primeiras ordeas d'£WRei ; 
na campanha tudo sam cálculos de probabelidade, que 
podem falhar, e que é preciso remediar deproroplo. Nior 
guem pôde antever com exactidão mathematica todas as 
providencias, que dovem lomar-se para assegurar o êxito 
da batalha, que vai dar-se: a habilidade dos Geoeraes 
«tíá em accodír, e providenciar segundo aaoccorrencias. 



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LÍVIO Tl., CAFITOtO III. gg 

% claro que no estado, em que eslava a liatatha de i 
de Agosto, a victoria só poderia coaseguir-se. sé o cor- 
po de reserva, fresco, e ainda não tocado de terror pâni- 
co dos outros corpos, fizesse amaxarga vigorosa, <: verda- 
deiramente Portugueza, sobre os Houròs, quebrasdo-ltie 
assim o ardor, e dando logar aos terços para respirar, 
reaoir-se, e voltar ao combate ; o General da reserva, ou 
não vio isto, ou d3o o quiz vér, no primeiro caso é reo 
de notória incapacidade para comutaDdar; do segundo é 
reo de cumplicidade na traição, de cuja existência tioje 
nÍDgnem duvida. Ãs ordens tl'ÉI-Itel não o desculpam, 
porqoe obedecco antes ás primeiras de que ássegnndas? 
Kâo eram eJfas as onicas, que podiam ser uleis no estado das 
cousas? N3o está primeiro que tudo a salvação commum, 
e restaurada a victoría oSo seria El-Rci o primeiro, qse 
lourasse a sua prodencia, e valentia? Mas para que nos 
demoramos nestas reOexiies? Deos o havia assim des- 
tinado ; -os crimes, as atrocidades eomeltidas pelos Por- 
tngaezes nas índias Oríentaes haviam acceodtdo a sua 
justa indignação sobre este Reino ; tinha chegado o tem- 
po do castigo : a justiça divina levantoa neste .'dia o seu 
braço irresistível ; e como os gmodes haviam sido os mais 
culpados, Toi sobre elles que elie cahio mais pesadamente. 
No meio da multidão immensa de captivos de todas as 
classes, que eram conduzidos ás masmorras de Fez, e de 
Uarrocos, viam-se os dous Poetas Diogo Bernardes, e 
Luiz Pereira Brandão, que ali haviam hido para observar 
as proezas dos nossos,- e celebrar a victoria, que se con- 
tava como ioTalivel. 

Pôde suppdr-se os trabalhos, os insultos, e vexames 
porque passariam os infelizes prisioneiros em poder de 
bárbaros exaltados pelo triumpho, lembrados do perigo 
qoe haviam corrido, eestimulados pelo Tanatismo rcligio* 
so: homens pela maior parte creados na riqueza, e nas 
dilicias da cftrie , seminus, famintos, sobrecarregados de 
fadigas, arrastrando ferros, sofTrendo injurias, e: panca- 
das, que vezes nSoamaldiçoariaip o seu destino! Que ve- 
zes não verteriam Ligrimas amargas ! Equautos não per- 
deram a vida á força do mau tratamento, ou envenena- 
dos pelo desconsolo, e pela desesperação. Eis aqui como 
I,ai2 Pereira dos transmittio uma parte da condição des* 



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70 IHSAIO BIoáUMfCO CKITICa IMIO, IV. 

gradada dos seus companheiros, e de que lhe coabe n 
pequena porçio. 

Hiam os tristes, que hera mag4)a vé-\se,' 
Peto pesco^ presos caminhando, 
A' for^a de duríssimos flagellos, 
Que as feridas lhe vam ensasgucDlando. 
Nas gargantas lhe punham os cutellos. 
Os Mouros com temor, e arreceiando 
Inda os Torçosos brafos manietados, 
Heram de noile a quartos vigiados. 



Os mais captivos, que em varias manadas 
Caminham co'Arraial tristes, e affiiclos. 
Cheios de cruelissimas lançadas, 
Padeciam tormentos infinitos. 
Forças tiram das forças já acabadas, 
Muitos dando apoz ellas os esprltos, 
£ os, que andar d3o podem por diante, 
Feitos sam ent pedaços n'hum instante. 

Vam quaes aqaelles tristes, e saudosos 
Israelitas quando presos foram, 
Dos Babilónios, que nos deleitosos 
Inslromentos, que deixam, os hens memoram 
Onde Euphrates, e Tygre caudalosos 
Das lagrímas, que ali sobre elles choram, 
Turbam a ciara véa, e DÍo me espanto 
Pois agora o Sabut faz outro tanto. 

Era natural, que os dpus Puelas no meto daqueila c^ 
lamidade procurassem odesafogo desoaspenasempregan- 
do as poucas horas, que de dia lhe ficavam livres, e par- 
te das noites nO cultivo da poesia ; as letras foram sem- 
pre a consolação dos homens iustruidos; mas o diverso 
caracter de um, e de outro traosflora no modo, porque se 
aproveitaram de tal lenitivo. 

Diogo Bernardes compunha Elegias lamentando as sou 
desventuras pessoaes, pn seus peccados, e J^colatorías 
a Nossa Senhora, muito devotasse muito prosaicas : Lmz 



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* LIÍIO VI., CAMTOtÒIlf. ■ - 71 

Pereira BnndSo de espirito mais patriótica; e elevado, 
parecen esqnecer-se de si, para só lenibrar-se da des- 
graça da sua pátria. Concebeo aidéa dêem loj;ar da vic- 
loiia, qne liobá sido chamado acaDtar, trausmitlir á pos- 
teridade em uiQ Poema aquella lanieolosa calnstrophe, e 
os martyrios de tantas, e tão nobres viclimas impruden- 
temente sacrificadas pelo inconsiderado ardor guerreiro 
ie um Rei mancebo, íllndido por falsos amigos, e obce- 
cado por nm falso zelo religioso, que arteíriímcote lhe ha- 
Tíam introduzido DO coração: de um Rei, que, Eiconduzío 
t flor do seu Reino á morte quasi infalível, tiveta o lie- 
nismo de regcitar salvar-se, para morrer combatendo 
como beroe áfrenle dassaas bradas tropas, provando as- 
sim, qne não havia nelle nm espirito vulgar. 

Para snavisar seus trabalhos do capliveiro, para de al- 
gnm modo se esquecer por alguns momentos da sua ]>e- 
nosa situaçio, principiou Luiz Pereira o seu Poema, qué 
intJtalon Èlegiada, titulo na verdade apropriado á natu- 
reza do assumpto, que netie setractava; e tinha jáescri(>- 
(0 uma boa portão delle, quando depois de largos tem- 
pos de misérias, e tribulações penosas, conseguio ser res- 
gatado, e voltar á pátria. Veto porém encontrá-la em tal 
estado, e envolta èm tantas^ calamidades proVcníenlcs da 
mina dasnaindepeadeQcia,e das violências de um gover- 
no estrangeiro, e oppressor, e dos seus agentes purlugiie- 
zes ainda mais oppressot-es do que elle, que a uo\a si- 
tnapão em que se achava, longe de distralii-lo das amar- 
guras daquella, de. qne sahira ha pouco, e alterar a dis- 
posição de espirito, em que principiara o seuPoonia, lhe 
dava novos eslimulos de continua-lo, e completa-lo. 

E assim succedeo. Si o génio poético do Autbor cor- 
respondesse ao seu patriotismo, atllegiada seriahiije um 
dos mais interessantes monumentos erigidos no Pnrniisii 
á gloria Lusitana I A concepção era grande, c sut)liiiie I 
Continha o pleito doChrislianismo, e do Islamismo, que 
disputavam a posse da Africa, dícidida cm unia siiti^ui- 
nolenla batalha com a perda, e mina de uma Illgniirttiiii, 
que dominava com seu sceptro lima grande extensão ili; 
terreno da Ásia, -de Africa, e do novo Mundo: era uni 
assnmpto original ; que podia ser embéiccido' coiii todus 
os proídigios da imaginação, e do méravilhoso l Alu3 lIj 



;,GoQgIc 



70 MS*»' ^jtí»Ormo, TOMO IT. 

graçf ' t^^^^ formar nv grande qaadn, 

per /í ^"^^ ^J' *"" Raphael, ou am Ciira- 

^>J^j^i,Folve-la completamente, eaiuiBa- 

í'^r^^ rico, e grandioso ! Mas estes doles 

i^í/>i.uiz Pereira, Poeta mediano, equeoSo 

*0> desejos. 

^/^içapao, o.saber, o enthusiasuio, e o magi- 

}i*J^ Luia de Camões,, que apeoas bastariam para 

^^ empreza, Luiz Pereira julgou qoe tluíia Teilo 

^jS^odo em deioítoloiigos Cantos, em oitavas, abis- 

^(jaquelia desastrada expedifão, principiando ainda 

."^mcla da Bainlia D. Catiiarína, e híado despoodo 

^ /'actos pela ordem chrpnologica ^té á vo/ta a Lisboa da 

^la destroçada. 

Logo DO seu exórdio o Poeta nos (az saber, que o'sea 
plano é seguir exactamente a verdade histórica, o qoe 
^into Tafe como confessar, que nio tem plano, nwi ^^ 
iScio épico : çis aqui como elle se exf^iça. 

Verdades canto din^s de memoria. 
Castigos justamente merecidos. 
Não fabulosa, Qu sonhada historia. 
Que engana peitos, embaraça ouvidos. - 
Nao de Alcides a fingida gloria, 
Nem factos, que nâo fossem acCoatecidos, 
Nem de Busiris altares indinos, 
Ifem JasoQ, neto Theséos peregrinos. 

Cante Homero o que chorou Dardauia; 
Cante depois Virgílio o amor de Dido, 
Inventem danmo da fatal insânia. 
Por ser seu nome mais engrandecido 
Que eu choro o Rey da triste ínsitania 
Sentido athe das pedras sem sratido. 
Cuja historia certa, e dolorosa 
Excede toda a outra fabulosa/ 

Bem sei a quantos votos aveiituroi 
O fructo do trabalho começado. 
Mas a dôr de ficar g nome escuro 
Da Pátria- minha me faz ser ousado, 
Ouero qne saiba o Tenipo lá futuro . 



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uno n., CAViniLo m. 73 

-OttSDdo ()aizer culpar este passado, 
A razão que moreo o Losltano 
Para príacipío ser de tanto damno. 

. Fortuaa Toj que nfio lembrasse aõ Poeta principiar a 
tida do seu beroe de mais loDge, por exemplo do mo- 
mento daEuacoDcepsio, eoiretoodo-nos dous outrazCao' 
tos, pela menos, com os incommodos, que suaUãi a Rai< 
ubá, padecera duraate a suageslaçio, com o parto, com 
o bapUamo tl'EI-ReÍ, soa creaçSo, estado das primeiras 
letras &c. ; ioda bem que não ahio nossa tentação, coo- 
lentaodo-se com abrii* a scena nas vésperas de ser decla- 
rado maior, e toitiar as redéas do Govcmo. 

Bem sei que o Poeta podiadefénder-se de haTer pos- 
to ém vtfso a historia d'EI-IteÍ D. Sebastião com o exemr 
pio, -e.authoridade de muitos Poetas, não só contemporâ- 
neos seus, mas mesmo Gregos, e Romanos, pois esta ma- 
nia dovenilicar a historia data de tempos muito antigos ; 
que outra cousa Gzerant na Grécia os Ãuthores da Adra- 
stida, da Theseida, da Heracleida, de que falia Aristóteles, 
e Noono na sua Dionessiada ? Qac outra cousa fizeram Si- 
lio Itálico na sua Guerra Puniea, Lucano na sua Pka' 
talut, Stacio na sua Tltebaiãa, e na sua Achyleida, cm 
qne tencionava narrar toda a vida de Acbyles a nos ire 
fier oiffii«i» Beroa?» Toda a questão é se (aes exemplos 
devem seguir-se^ e isso é que me parece diíEcil de pro- 
var á vista das regras, e do bom sc&so, e a prova dici- 
siva está em que nenhuma das Epopeias, que no muudo 
tem adquirido grande reputação, pertence á classe des- 
tes Poemas Hislorícos ; porque ninguém deseja que a his- 
toria seja escripla em verso, mas todos desejam vér nm 
facto histórico traasportado com arte para o meravilhoso 
da poesia; isto é, uma fabula magniSca, e engenhosa ar- 
cbit^tada sobre fundamentos históricos. 

Ba porém na Elogiada um «lefeilo, quanto a mim muito 
mais ponderoso do que a ordem histórica, e chronologi- 
ca, e este defeito é a longuidez da narração , a Irialdade 
do estylo, e o prosaismo da versificação. Lucano nos ar- 
rebata muitas vezes pom a vivacidade, e atrevimento de 
soas idéas, a eíoqncncia de seus discursos, e uma mul- 
tidão de versos, que facilmente se estampam, e gravam 



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74 SNSAIO BIMBAVRIGO GRITtCO, TOHO IT. 

proruodameote ik) ineDioría. Stiicio com o robosio cofo- 
rido das suas piotaras,'' com a Feroz éner^na dos caracte- 
res dos seus beioFS, e a sua verKÍfi(;Elc:Ío sonora, e vihri' 
da faz estremecer ocorafão dos Leitores, edisperUosea 
joteresse ê curiosidade. MasflorimtiM de Luiz Pereira nio 
1m nada disto; epflsloque asualiuguageioseia pura, nió 
merece o nome deelefráiile, pois é uniílas vetes lOanchada 
com vocábulos, efrazcs, que6iada ((ue sejam Portugaeies, 
snm com tudo baixos, «populares, e couto laes iódlgaos da 
poesia, especialmeute épica. Tal é, lurba mutla, cvnía; 
€ontar folMdedos, rubo, tremer a bar ba,lta»Hãofút^\a'i' 
tiSo, e moitas outras d«s(e jaez, qlte a cada pagioa se de- 
ram. 

Quanto á versifieac&o nSoconheço Poeta aígom da((uel- 
)a epocba, tão falto de Buniero, e harmonia como Cui£ 
Pereira; os seus versos mostram-se a cada passo proní- 
cos, e coxos, por não dizer errados, pela falta das sTna- 
lephas ; e nSo serei exaggerado se disser, que cm lodo es- 
te longo Poema se não encontram duzentos versos, que 
possam dizer-se bons ; si algumas vezes fiahe deste sen 
habitual prosaísmo, é para os fazer duros, e insoporla- 
velmente ásperos, e isto depois deLuiz de CamOes haver 
com seu exemplo mostrado a que ponto de harmonia, e 
de força podia chegar o metro Lusitano. Ê necessário 
que Luiz Pereira tivesse ura ouvido bem grosseiro, epoo- 
co sensível ã melodia para coiitentar-se com versos semi- 
Ihaates a estes, que hirei citando a eito, c sem cscolba 
conforme os fàr deparando. 

Nuaca enxuto em Portagneza gente. 

E sem Q qne nao é tudo mais nada. 

Mo de .Ucides a Gogida gloria. 

Nome ao pego d' Ancora profundo. 

Que de Carlos o Calvo ousado leva. [ 

Tomando ao trabalho oonvçnPcnte. 

De falsos gostos, e contentamento. 



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UTKO TI., diPnBLO m. 75 

E o tenro mofo no duro accideote. 

Não se acha tal memoria em al^m lembrado. 

De Pario AUbasti^ ntarcbetava. 

De moilos, qne a viram celebrada. 

' Ponderando a~ qaanlo está obrigado. 

Medula o furor do Po?o brnto. 

Buas apoi outros pssaam o Hercoleo Estreilo. 

* Fazem-se alpendres, e reparlimenta&. 

De varias pegadas toda cbeia^ 

Dos seus dando o tramo promettido. 

A. elle, e aos seus desaGando. 

£ iito bera Ilha venerada. 

Serão isto versos, ou regras de ruim prosa, sem cen- 
suras, nem accenlos, nem harmonia ? Pois toda a Ele- 
giada, com excepsão de moi poucos trechos, está versi- 
ficada neste goste, e por isso não couhefo, em nossa lín- 
gua. Poema de mais Tastidiosa leitura. Apesar disso d9o lhe 
tem faltado paaegeristas em prosa, e verso; nSo acoima- 
rei muito disso a Corte Real, Bernardes, Caminha, e 
FraDcisco deAndrade^ que dirigiram Sonetos, c Epigram- 
mas ao Aulhor; páde servir-lbes de desculpa, primeiro, 
qne escreveram debaixo da inlluencia do assumpto, se- 
gundo, qse 08 illudia a amizade doAotlior; mas como p6- 
de desculpar-se, que depois de passados tantos annos o 
Padre Reis no seu EnthusiastÀus Póelicaa levasse a sua 
raiva elogiadora, a celebrar o Poema de Laii Pereira nos 
seguintes lermos? 

fUbilis umbrosa residms lab fronde Cumprmi 
TrUlia magnanimi lugebat faia Sebasli, 



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76 IKUIO BIOOBinieD GBITIfiO, TOHO IT. 

JSt quarulo riqidai eogendo carmine petrus 
In lamenta, fugil toktta blánda Pereira: 
Et ne dttke sonant po&et mtiicamina pinlrum 
Ferre sibi, empacíum saxo comfregií acuto, 
Tritte gtntens! 

Para isto é oecessarío oii:deioasiada indnlgeneia, oo mw- 
to pooeo seolimeato da belleu poética ; á vista disso qaé 
credito podemos dar aos louvores tributados por esl« Padre 
a tantos Poetas Latinos, e Porlugueies, que hoje w» são 
inteirameate ' descoabecidos ? 

O mdbor, ou para fallar com propriedade, o menos 
inaa, qne' se eDcontra na Elegiada^ sam algoos quadros 
discriptivos, que não sam destituídos de viveza, e de co- 
lorido, é porém de notar, qse havendoelle passado al- 
gons annos desua vida naUauritania, se descuidasse àt 
adornar o sèo Poema com atjjuinas pinturas locaes, (JM 
podiam enchelo de vida ; mas contente deinvectivar com 
vehemencia, e amargura os Mouros, u3o cuidou de des- 
crever os seus usos e costumes, tão piclorescos, assim 
como a paizagem das soas terras. Porém esle é um peo- 
cado de lodos os nossos E{mcos, que pAsto que alguns dellea 
tivessem girado muilo pela Africa, e pelo Oriente, e que 
celebrem Tacto^ que lá se passaram, apesar disso, apre- 
sentam nas suas composipOes Me pouco colorido locai, ft 
menosaioda, doque osque escrevem semeonfaeceraquel' 
les paizes senão pela símiles leitura dos livros. 

Vm^ das melhores discripcOes da Elogiada,^ a que o 
Poeta nos faz de Cintra no Canto IV. 

Deiíei, si bem me lembra, e Moço ousada 
Sobiodp pela Serra penhascosa,' 
Onde quando mór bem be o esperado. 
Tanto a esperança dcUe he mais sabrosa. 
Caoçado sobe; muito mais cançado 
Da tardança, que faz grave, e penosa, 
Mas quaiido acima já cbegar presume 
Á nova esperança esta resume. 

CoDtudo avante vai, can^, e porBa, 
AUie Cbegar ao fia do monte erguido, 



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imo TI., CAmnio ra.~ tt 

Que, a região das Nutcds estendia 
No Uaiida pela Fama coobecido. 
O Olympo ThessalioD excedia 
Onde dos Veotos é claro, e- sabido. 
Que no Templo, de Júpiter mostraram; 
Que a tão alto logar nuóca chegaram. 

Dea-lhe sea próprio nome a bella Filha- 
De Latoaa. e Toi já sua morada, 
Vê bem wt^cnme fanma meravilba. 
Que n9o cuido que fósse igoal contada. 
Só cem passos da terra o.Uoço trilha, 
£m cima, qoe nio Tosse aleantilada. 
Os qoaes occupa bum Templo, que «e inTOca, 
A Senhora da P«ia, oa d'alta Roca. 

Aqal vio claras fontes cristalinas. 
Que «m duras pedras tinham nascimento, 
EdiRradas altas officinas 
De bum consagrado, e pudico Conrenlo. 
Bum peregrino ali de pciegrínas 
Pedras, com jamais visto entendimento 
Bum retábulo Tez, qae parecia 
De rica, de subtil Marcenaria. 

De Pario Alabastro marchetava 
O Coriothio porfido, enierindo 
O jaspe em Luso mármore, que estava 
Suspeiíso o Rey, pintar-se presumindo, 
Brutescoíi, e cordões dependurava,. 
Tudo de pedra, que se estava rindo. 
Quem oSo vio esta obra desusada 
De muitos que a viram celebrada. 

N3o só no altar santo se embebia 
O mo{o Hey, que ,está rapto, enlevado. 
Ouvindo tão suave melodia. 
Que lhe parece está beatificado. 
Has como para o JMundo em fim jiendía 
Sahe~sB' do templo, a vêr o mar ^hado, 



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nisAia noGSAntGO ctiTico toho iv» 

DesAobriodo da|i do Otympio monte 
Do mes Orbe terreao o hòrisoute. 

Tendo sempre presente na memoria 
O qoe lhe o seu esforço permittia, 
Dos setu-pessadoa a superna gloria, 
Que oelle o tempo assim escurecia, 
A prolongada ei 
A quem a Ley 
Esteader the ac 
Contra a lança 

Uagoa, com < ■, 

Por Ibe nSo rei 
E caminhando I 
Effeito de CDm|: 

Do monte desce em lim, onde subira, 
A vér D que be sugeito de mudanças, 
E forte de perigos nSo cuidados 
Só para cobiçosos ordenados. 

Vé qne as nnvens abaixo errando andanm, 
Cobrindo os vales, qne altas serras feadem, 
Desce atbe qoe por cima lhe ficavam, 
Qne em fria sombra pelo ar se estendem, 
Bosqnes de ferieis plantas se mostravam 
De cujos ramos froclos vários pendem, 
Hnmas, e outras sempre florescendo, 
GooH) que sempre fosse amanhecendo. 

Ouvindo as rolas Lymphas, qne cahiodo 
Por entre lisas pedras mormuraodo. 
Parece certo ali qúe vam sentindo 
O que no peito o Moço está traçando. 
Onde Piora, de Zephyro fugindo. 
As esquecidas folhas meneando. 
Do bosque^ bem parece qne dizia 
Porque Ião croehuenle |he fugia. 

Sendo néctar, e ambrósia ali o Rocio, 
Qne eu malalinas flores lenlo, c grave, 



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! uvifr Tt., CimiAA m. 79, 

Olhiado.tó du Ceo coaliiado,- e rrio 
Da astuia Abelha hera iDSBJnr soare, 
Debaixo de um Castanho alio, e sombrio 
Se absttnta o Luso, porque mais o aggrave 
Seu mal ouvindo ao som das duras a^aas, 
Pafarinhus cantarem tantas magoas. 

Ali por divertir O Tagantnn^o 
Pensamento, mjl caushíí cODuidera, 
Para applncnr o'peiio funhondo, 
Que com nenhum repgiiso se modera. 
Ali vé o que foi Senhor do Mundo, 
Que liiais, depois de sè-lo, não qniiert 
Que lograr.o socegO' desejado . 
Etu doce companhia congregado. 

Mas nada o satisfaz, porque faltando 
Ao appeiiie aqailjo, que deseja, 
O peior multas veies desejando. 
Nada o- quieia em lím por mais qne <réja. 
Assim todo o repouso desprcsaodo 
Abraça hmna interna, e vaa peleja, 
D'unde turbado^ e triste se levanta. 
Depois que' de confuso se quebranta. 

Por entre os lisos troncos corcovados 
O passo move Boude' eseríplas crescem 
Varias tciiçAca de peitos namorados, ' 
Que em perpetua memoria perníanecem. 
Estão do tempo ali dos Reys passados. 
Que os rortezâos d'»gora já nborrecem, 
A pureta d'amor porqné chorando 
Kão andam as pobres Arvores riscando. 

Desta Estanca se deprehénde quanto é antigo em Cin- 
tra o costume dos attianltis airavaieni nn ícasca das ar- 
Tores coplas, c inscripçôps em nbnequio das suas hellas, 
ou em desafogo das suas penas ; pois que o Pftpta tem o 
cuidado de nos advertir, que as lendas que El-Rei D. 
Sebastião ali examinou, existiani ali já do tempo dos Reis 
seus antecessores : esta pratica de GaíaDleria Lusitana, fó- 



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freque •■. 1"» 
voras'( "38 ar- 
te leot lifferea- 



j 

■loo» Araljicos verêi» , oçcoparaB "' 

Coe grandes íouaas He jinmoslicawiii. 

Sahe o Eey muito já trisUi, e Inriad» 
Uo coDcaío penedo, imaginando 
Ho novo ca«o, aonde demoidado 
Em ranos desconcertos vai cuidando. 
Oh como me levam alvoratado ■ 
Si a causa .f6ra amor, atrai chorando 
Pois claras botes, verdes arvoredos, 
«ao poderam lazer seus olbos lodos! 

Descolire a breves passos altos tKlos 
Por entre « verdejante, espessa rama, 
OnaSr.";!^ me bumau. i„dMr« fe,|„^ 
NSo cjnsnmmando ouro, tSo perfeitos ^ 
O longo Tempo, ou a Dardauia ckamma. 
Igualmente o louvor ali se parle 
tlem ali a matéria excede i Arte. 

Entra subindo por toraida escada 
u« mármores iusentes jaspeados, 



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A. Tarios corredores de estremada 
Vista, e parapeitos relevados : 
Ouvem a voz hamana retorubada 
Os Pássaros noctorcos, e espaotados 
Fugindo Tam da U», e teitos ricos, 
k dar nos corvos, inimigos bicos. 

Entrando logo na meravílhosa 
Casa dos bnncoa Cisnes, qae guardando 
O costume na morte tenebrosa 
Parece certo ali qae esttm cantando, 
Avante passa onde bnma dolorosa 
Nyrapba mostrava estar-^e-lhe qoeixando, 
Ba agua, qne por cima lhe corria. 
Qne n'h«ma curva concha ali sabia. 

De hnma banda do sólio coarleado 
Sabia de clara agua faama espadana, 
Que mais de duas lanças levantado 
parece que repagna a industria bumam; 
Da outra parte bum teito está dourado. 
Que os quatro Ventos tem, por onde mana 
Fresco rocio, p ás vezes se exfffimenta 
De bravo Inverno ali brava tormenta. 

Logo a Galé avante a vista espanta 
De tarjas cbeia, aonde está pintado 
O Monstro de septívoca garganta, 
E Cérbero trrfauce encarniçado : 
Ipomanes, qne atraz vai do Atalanta, 
Cepbalo, que madrnga namorado, 
Bosqnes, Batalhas, e selvagens Feras, 
Solphureas grutas, hórridas Chimeras. 

k Camará das Pegas entre aqnelles 
Aposentos estava, e outros, que callo, 
Gfjo lavor o grande PraitKelles 
Ou Callicrates mal pôde iguala-lo. 
Pois Parrhasio, Protogenes, e Ãpelles, 
Timante com os mais, em que não fallo, 
Si ficaram suspensos na Pintura, 
Parceiros acbariam na Escuiptura. 



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Í2 ENSAIO IIOGUIBCO CUftCO, TftHO IV. 

Em fim, por dar remate, o Hoço entrando 
Pola Casa dos CerTw, esUndia 
A vista em varias consaa occnpando, 
Qae ali de seu cuidado o saspendia ; 
O espirito bra^vo levantando, 
Vendo que hsm forte escudo ali pendia 
De cada hum dos Cervos, qne mostrava 
Levar gloria no peso, qne levava. 

Os escudos brasi 
Bravo Luso, e de i. 

Onde se vê o que ido, 

E o que deve a b 
De Reys, Duques 
De Capitães, flagel 
£ da que morta Pedro lhe procura 
.Helhor que Hauseola Sepultura. 

Os Noronhas, os Eças, àlancastros, 
Henezes, Hetlos, Sonsas, Hanoeis, 
Coutinhos, Telos, Teles, Pharos, Castros, 
Silvas, e AragOes também vereis, 
Almeidas, e Mendouf^s, e ontros Castros, 
Castellos-brancos, e outros que sabeis, 
Qne aqui não he ra2ão, qne vos nomee, 
Purqae com tanto nome os não entee. 

Esta exacta descripfSo do Paço de Cintra nos íai yér 
as aiteraçfies,^ que nelle tem havido, comparaado o qne 
diz o Poela com o que hoje ali se vé, e com o qne j& de- 
sappareceo. A salla dos Cisnes, que ora vemos, vio i > 
de que falia o Poeta ; basta olhar para as piatnras para 
se conhecer qne foi modernamente arranjada, desman- j 
chando-se outras para forma-la de tal tamanho. 

Um dos melhores episódios deste Poema, se tal pôde 
chamar-se um facto, qne não pertence á acção, e qnt 
lhe fica ranito /antecedente, é quanto a mim a narra(*> 
que se lé no Canto II. do Cerco de Harzagão pelos Hon- 
res: é escripto com nm vigor bem potico usual neste 
Poeta, e em versos mais cadentes do que elle costanii 

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imo n., cirmno m. 83 

fazer : em prora dislo citarenM» algumas das Estancas 
qae nos parecerem melhores. 

Mas neste- tempo hum CaTalleiro forte 
Que Pedro, e. Lourenço hera chamado, 
A Fama ronha, apesar da morte, ■ 
De glorioso tempo jã passado : 
E pondo o rosto a toda a adversa sorte 
NSo podendo soffrcr vér-se cercado, 
Da ViHa sae com sós seis Caralletna, 
A incerto fim seguros companheiros. 

Entra pelas tranqueiras de secreta 
Uaneira astutamente fabricadas, 
AU trincheiras, Labyrinlho em Creta, 
De arcabuzeiros Iodas occapadas ; 
Pasmam todos de vér, que hum só cometia 
Tantas Gentes assim em Campo armadas ; 
Promptas estatn a vér que determina, 
Vendo do seu furor logo a rnina. 

Que curva, a grossa lança solH^çando, 
Largando a redéa ao bellico Cavallo, 
O campo todo vai desbaratando, 
Nio ousando nenhum ]â de eapera-lo. 
Os seis atraz por terra derribando 
O fero Povo, fazem retira-lo. 
Mas infinita Geníe, que crescia 
Certíssima prisão lhe promettía. 

Onde .voltando aqui, e ali feritdo 
Co duro cwle da íusente espada, 
Bompendo o inimigo, vinha abrindo 
O forle, e largo braço larga estrada. 
Vem-nos atraz os Honres perseguindo, 
Qual de Sabujos tímida manada, 
Que atraz de Hibernio Alão, que vai seguro. 
Vai cada qual batendo o queixo duro. 



Pouco montando a ley potente, e eerta 
De muitos contra poucos, que cinrnsttt 



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BKSiio Biosumeo durfco noo, ir. 
Do valor Lusitano, fica incerta 
Nesta Gente sem medo, brava, tstnta, 
Onde entrando na Cidade aberta. 
Tintos de sangnc, de fereaa bruta, 
Sam c'o nislico dedo ali amostrados, 
E dos fortes amigos abraçados. 

N3o tarda para males o malvado 
Espirito Infernal, que astulamebte 
Nas alcauiiaa põem o fogo asado. 
Como quem sempre vive em fogo ardente: 
Arrebenta o furor accelerado, 
Azas dá já o fogo á Lusa Gente, 
Ficam 08 Mouros quedos, e pasmados, 
, Do espantoso caso descuidados. 

O que vendo Isidoro, que já estava 
Prompto na occasião do imigo damao, 
Ao que lhe dá esperança o fogo dava, 
Triste de ti, oh Povo Mauritano 1 
Atôa-se o furor, qoe medulava 
No polvoroso centro, e o Africano 
Intento desordena, e desbarata, 
E a infinita Gente abraza, e mata. 

Já em ham se converte outro Elemento. 
Nío cabe o fogo aonde cabe a Terra, 
Com horribil estrondo turbolento 
Do impróprio lugar se desencerra; 
Levantf ao Ceo o impeto violenjo 
No móbil solo a geole ali de guerra. 
Dentro do negro fumo gritos stam, 
Ardidos corpos variamente voam. 

Vai polo ar ardendo a Feiticeira, 
Que sempre as Gentes animando andava, 
A P«vo iníquo, e mau peiof Conselheira, 
Do Senhor Internai prescita Escrava, 
Nâo sendo parte a nunca verdadeira 
Froaefisa, que ella a Muça segurava. 

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imo TI., CiPiTtiLo m. 
Para deixar a empreza bdlicosa, 
TAo Terá, tio eme), tio davidosa. 

Mas maii endvrecido apalpa, e iatenti 
Oatra nova maneira de combate, 
Arteficios de fogo ordene, e intenta, 
Com qne 03 Portaguezes desbarate ; 
E oatra vez solicito esprimeota, 
(Depois que com trabucos rompe, e abate 
Às fracas casas,] cavernosa ^erra 
Debaixo lá do intimo da Terra. 

Vinham com férreos picos já rompendo 
Os imigos a cava, qoando ouvindo 
Isidoro o mmor, qae vem fazendo, 
A foi também de cá depreça abrindo. 
Hams, e outros se vam apercebendo 
Para quando se fosse descobrindo 
A íuterna espelunca, e larga mina, 
Qae ali descobre súbita ruina. 

Yem-se subitameate os Militantes, 
Nfio metem tempo entre a vista, e effeito. 
Já de sulpbureas charomas crepitantes 
Se tolda o curvo, e terreno teito; 
Pelouros de arcabuzes sibilantes 
De rosto a rosto ali, de peito a peito. 
Disparam, sam os nossos quatro ousados, 
E os seus os mais ferozes, e esforçados. 

Já das espadas os agudos fios 
Se escondem . pelos membros sanguinosos, 
liá cabem na fria gruta corpos frios, 
Sdam extremos gritos dolorosos. 
Correndo vam sangainolentos Rios. 
Feridos andam já braços nervosos, 
"Ventres premem, alentos affadigata, 
A duras mSos os cotios se subjigam. 

Coino Olympicos rodes .esprimentaiui 
Hercúleas totçss, testas linmedeceiD, 



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KNUIO BIMUnUCO CUTUW, TOHO IT. 

Curvos, direitoa a victoria ioteatamt 

Torcidos peroai, brados ali tecem 

Quaes os ramos da Parra, qne seaagmeatam 

Qoe BO Olmo sombrio se entretecem, 

Cortado jà do rústico machado 

A.' terra vem, da vida acompanhado. 

Assim 03 Mouros cabem c'o já perdida 
Sangue, do Luso ferro ataçalhados, 
O Vencedor despoja ali o vencido. 
Vencidos ficam em vida sepultados, 
Tapava-se o logar curvo, bomecido, 
JÃ disto 08 Agarenos iaojados 
Desenrolam o harbaro estandarte, 
E comettem de oovo o baluarte. 

Vem cpm tanto furor, c< 
Que os ânimos dos Lusos 
Hum o dardo, outro foge i 
Após de vozes altas, que I 
Accode Bui dê Sousa, e o 
Para os que só de vérlo ali se espantam, 
Os ousados imigos derribando, 
Qne bravamente vinham já trepando. 

Corta as robnslas mSòs, que dependuram 
Hum corpolento Mouro valoroso, 
D'huma ruina abate os qoe folgurám 
Com ferro agudo, e modo rigoroso: 
Os sem ventura Mouros se av«aluram. 
Vendo seu Rey diante já furioso, 
k quebrantar as leys, que o medo ordena, 
A pura força então de premio, e pena. 

Tornam de fer« ímpeto animados 
Tragando ousadamente ferro, e morte ; 
Precipitando logo esvicerados 
No mesmo iotento, de bama mesma sorte. 
Sam os mais destes já doap«daçados. 
Bem se vi ncties si era agudo o corte 
Da Lusa espada-; ameas si pesavam, 
Arrebealados corpos o mostravam. 



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■Lino Tl-, CAtiTiiLo ni. S7 

Ardido andava o Soosa p^eijando, 
O Carvalha lambem de fuíia ardia, 
Vam-se já ob ímigea retirando 
Vendo qumto os «ngaoa a via porSa. 
Os Portugueies guerra iuda bnidoado 
Gnerra, que espanto, e larga paz fazia. 
Não tomam os Mouros, não, mas levantaram 
O campo, e as trincbeiras abrazaram. 

Levanta o Bey o arraial vencido, 
E deixa o campo de tropbeos cheio ; 
Levanta as mios o Luso agradecido 
A quem lhe he sempre de Victoria meio. 
Chega a uova do caao acontecido 
Ao Seyno, que está cheio de receio, 
Fazem-se nelle já pela victoria 
Prazeres de importante e longa Historia. 

No Canto I. encontra El-Rei D. SebastiSo na Serra de 
Cintra um velho Eremita, que lhe narra a Historia do Rei- 
no até ao seu temjio. A collocaçSo deste episodio não é 
dos mais felizes, porquê não é probavel, que ll~Rei a 
ignorasse, ainda que o velho tem desculpa, por não co- 
nhecer a pessoa, com quem fallava. Nesta narração en- 
contra-se iucluida aLegenda doRei Ramiro, e do Mouro 
Atboazar, Legenda Romântica, que admira que nenhum 
dos nos^ Authores Dramáticos se teaha lembrado delfa 
para assumpto de um Drama, que bem traciado devia 
pntdotir grande effeílo. . 

Pois pela Can«nlregue toda a Hespanha, 
Como Troya pela malvada H^ena, 
Tendo como he razão culpa tamanha. 
Para ei:«Di^ dos mú» tenaalw peia ; 
Fez-se Seahora delia Gente estranha. 
Como a divina permisaSo ordena, 
Has DUDca podem tanto os HaarítãnoB, 
Que acabem de domar os Luatanos. 

Empreza sobre a qml bom Re; andava 
Chamado Alboazar, perto d» Doara, 



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8S ENSAIO BlOOmAFHICO CBimiO TOm IT. 

Onde daK 8S Terras procurava, 
SnbmetlN* ao esqaivo jogo Monro. 
Ifas Ramiro (ostro Rey) que prompto andava, 
Por conservar sea bem, e sea thesonro, 
Qoe hnn a Mnlher, qae o Uooro Ibs fartara, 
Secntamente pelo Rio entrara. 

Per baixo do Arvoredo entrando veio. 
Com a frota Ramiro 
Por ser o Rio então 

Be bosque, si he qu : ; 

Alheio vai de prigot 
Qae bera, porque o 
Temor de aventurar 
Nas mios, que lhe i 

E deixando-a flcar ali secreta 
pi por sigoal que quandi 
OuDtdo alguma canora t 
Que sem temor a terra ci 
E porque mais segaro se 
Vai de modo que ujo o c 
Onde lá n'huma fonte se 
Em quanto o Mouro Rey 

O tercaro verso dasta Estanca é dos que tem o ■cceS' 

to aa quarta, ese^ma syllabas, sam muito asados uIíb' 
gna Franceia, e na Italiana, porém avessos ao gieni» 
do nosso idyoma, em que produzem péssimo eDeito, e por 
isso tem sido abandonados por todos ps Poetas, que sn 
prezam de bons versífiaadores, 

Logo mn bama Honra a tomar delia 
Com vaso, qae de sua Esposa hera. 
Onde bom tnael lançou, porqne a eant^ 
Lhe diga como ali seu bem a espera; 
Fica a Esposa muda, e amarella 
Depois que tanto amu-, e fé pondera, 
MaodaJido sem tardar logo chama-lo. 
Depois de com promeEsas segara-lo. 



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Lino Tl., UHTIIL» Itl. 

Vai e ci>iU(I»Mm soapeíUs ledo, 
Que por cbegar a ^ a per quem chora. 
Mão sei si prígo algHin ^MStára, ou medo. 
Para que a tal chamada a»si não fora ; 
Manda a Esposa eatio pA-ki em segredo, 
iQae mnito mais do Honro se namora, 
Ao qaal, vindo da caça, lhe dizia 
A qnem Ibe át {Umiro » qoe daria ? 

Nestas, e noutras grafas descontente 
Sendo trazido o brando namorado. 
Ante o Rey, e a adaltera presente, 
A ser á dura morte ali jalgado. 
Pergnatando-lhe o Mouro gravemente 
£i delle fura preso^ e coodemaado, 
Que maçeira de morte lhe ordenara, 
£m que mais cruametUe o atormeatãra ? 

A« «(DC lhe respondeu sabia, e discreta- 
Menle Ramiro asiiim : a O mór tormenlo 
« Que o ódio, que te tenho te decreta, 
a Hera faier-te dar a alma c'o alento, 
« Tangendo tanto espado hmna trombeta, 
4 Que se te desfizesse o corpo em vento ; 
(I E si inda outro maior tormento hoavera, 
o Nelle perpetuamente te tivera, » 

c Ora (dis o Rey Mouro) a mesma pena, 
M Que executar em mim, cruel, querias,, 
a ^sa mesma te dou, que inda he pequena 
« Pêra o qne só por isso merecias. > 
Logo o supplicio A «nia gejite ordena, 
Já destro9c«m as Arvores sombrias, 
Já denaneia o alto Cadafalso 
Da mi, e falsa Esposa o p«ito fako. 

Sobe Ramiro nejlc, e a rir provoca 
A- 'v*^ ^^^^ < V*' ^"^ conliaoça ; 
PAe grossa trompa retorcida á bocca. 
Da pena o meio, he meio de vingaopa. 
Qoam de pre^a o poder estão se troca I 



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uisiio Biomume» cinic», tow» it. 
Qaem ee p6de jactar, de seguraaça ! 
Estam 08 seas do mar com prompto oavido; 
S6a já rouco o tremolo luido. 

Oare-o da Trola a Gente, que advertida 
Estava já, e dã na descuidada, '~ 

Que estará vendo como acaba a vida 
Quem a morte lhe assim tinha ordenada; 
Ferro homecida passa ao Rey homecida 
O peito crá ; furor de agoda espada 
Deixa pendendo em hombros corpolentos 
Barbudos rostos já sanguinolentos. 

Áspera corda já : 
Presas atrai, da píL. ^ 
Formosa de feifSesK 
Co rosto á terra m '- 

O Mouro Esposo ra 

O passo á força de hsmbros encaminha, 
Roga, promette, avisa, e amoesta, 
k vista torce, tijrbida, e molesta. 

Tantos extremos faz de sealimenlo, 
Tantos protestos vãos desatinados, 
Que \k rompendo a ira o soCTrimenlo 
Lemite põem a adulterínos brados; 
E cotn modo asperissimo, e violento 
No niveo collo lhe atam os Soldados 
Pendente corda, presa á corda grave, 
Quf a morte lhe assegure, e a vista aggrave. 

Fazendo-lbe anojado com que desse ' 
O nome ao pego d' Ancora profundo, 
Qne assim se chama agora, onde pozesse 
Com a lenibranf^a delle exemplo ao Usado. 
Algans díiiem que o nome aqui tivesse 
De Leixois o começo, e que segundo 
Deixado foi atí, bem lho pozeram, 
Si os tempos ontro algum nSo corromperam. 

Onde Caia de então diiem que tere 
Este nome, porque a fonte fria, 



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LiTKo TI., (urmiLO m. 91 

Em qne kamiro useMado estere, 
Sacaia, em Mouraiiugaa se diiia. 
Donde o aome corrupto toiut deve, 
leda qttea Fama nisto desvaria : 
Tadu faz «squeeer tempo comprido, 
Uaa lloarisoo parece este apptillido. 

Outros dizem, qae hnai Capitio Romano 
Chamado Gaio Sérvio aqui chegou. 
Que vencido do braço Lusitano 
£m hum CasteJIo aii se restaroa, 
Ficaado o tal logar, si aio me engano, 
Gaya por Bome c«ao se chamou, 
E ioda agora m chama este alto monte, 
O qual do Porto está quasi defronte. 

Pois do Porto, e de Gaia o nome veio 
A PorUigat, segundo se publica, 
On do Porto dós Gallos, como creio, ^ 
Que Porlo dos Francezes signitica. 
Que como sempre estava de Náos cheio. 
Segundo se inda agora verítica. 
Dos Alberuéos Gallos este Rio, 
N3o b« pâr-ltie tsle nome desvario. 

Temos aqui poeUcamente explicada a origem dos oo- 
Tm d' Ancora, leixois, Gaya, FiM-tugal, o que éama in- 
leasão verdadeiramente épica, que Luiz Pereira havia 
aprendido dos antigos. É porém de notar, que^lle mos- 

' troa maito hom juíeo, omittindo algumas circuèstaucias 
desta Legenda Bomanlíca, que desculpando o chamado 
Kei Húuro Àlboazar, leria necessarianente tornado Ra- 
miro menos interessante. Si Alboazat havia roubado a 

', Kaiaha Esposa deRamiro, foi em deeaggraTO da injuria, 

* que e!lc primeiro lhe havia feito, roubaodo-lbe sua irmãa 
Zafha, ou Zaida, de qu^n teve um tilho por nomeAlbo- 
lar Ramires ; e em tal cíeo também parece menos crimi- 
nosa a Rainha, que Ramiro tinha oBeudido faltando-lbe 

* ííé conjugal, dando-lbe assim o exemplo para lhe faltar 
^ elle. A' vista do que, Luiz Pereira den provas de que 
"Conhecia as regras da arte, descartando-se daquella par- 



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92 BifSAio Bioflumco euni», tmo tr. 

te doassampto, q^eprejadicava ao fim, que seb&Tia pro- 
posto. 

Oatro episodio, lambem estranho á acção, masbastia- 
te interessante, é a narraçSo do naufrágio, e morte de lU- 
floel de Sousa de Sepúlveda, e de sua Esposa D. Leoaor 
de Sá, feita por Pantaleão de Sá, que fAra parte, e fie- 
tima daquella catastrophe, mas que teve a fortona de 
salrar-sfl com os poucos, que oseguiram. Nesta namfio 
ha algumas Oitavas bem fabricadas, taes sam ata da 
tempestade. 

Vem lerautando bravos, e furiosos 
Nos verdes mares jã brancas capellas, 
Encootram-se hums com outros impetooaos. 
Sobe a escuma delies ás Estrellas; 
Combatem inhumanos, rigorosos. 
Os tristes Nautas cheios de qnereltas, 
Embalan(!aado a Nau de tal maneira. 
Que a hora vimos todos derradeira. 

Corre com tudo a Nau, seguindo aqnella, 
Fúria, que mais potente a conquistava, 
Cresceudo sempre a hórrida procella. 
Com qae o mar o furor accelerava; 
Uas vendo oSo poder assim reade-ía. 
Os VeaUts, cada hum o veotr& inchava. 
Picando a Nau em calma trabalhando, 
Cos enjoados mares peleijaodo. 

Não se passando largo ^paço, quando 
Todos juntos ali subitamente, 
O maior papafigo espedaçando. 
Deixam sem réla a desastrada Gei^; 
Eis o Piloto aqui alio bradando, 
A. morte escura vendo já presente, 
ir Amaina, amaina I o outro papa&go 
« Para remédio do oitimo perigo. » 

O qual nio hera ainda bem tomado 
Quando ficou a Nau atravessada. 
Ao ímpeto do mar medonho, e irado, 



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ttno Tl., UPiTVto m. 9! 

OD<Íe cnidáiDOs Fosse soçobrada. 
Eis vera hum Teio mar incapetlado, 
E hama, e outra onde acapellada, 
Que, dando nella, cheia d'agaa pende. 
Onde o temor as liogaes nos suspende, 

kpot este o faror embravecido 
Dos feros Ventos, snbilo romperam 
Os apparelhos todos, conhecido 
Fim dos tríslcB, que a morte enlSo beinnm; 
Vários gemidos vam n'hum sA gemido 
Ao Ceo, dos qoe mil lastimas disseram ; 
Alguns perdão pedindo de giolhos, 
Mo Ceo pondo a esperança apoz os (dhos. 



Accodíndo os Ministros c'os i 
Para cortar o masto, qne pendia 
Cos balanços da Nau desordenados. 
Onde vimos, que ali claro se abria. 
Em tal perigo seodo enlSo escusados, 
Qne súbito os tirou desta porfia, 
O Vento na mOr força do receio 
O quebrando c'hum sOpro pelo meio. 

Onde sem velas, roastos, e apparelhos, 
Sem antena, ordenámos novo amparo. 
De pAdres vetas, e de mastos velhos, 
Para tormenta tal fraco reparo. 
Servindo mais prestezas que conselhos. 
Mas o furor do tempo pouco avaro, 
Nos tornou a levar a pÃdre vela, 
Que poderá c'ham sopro meu rompe-la. 

Eis a Nau se atravessa, e a gente geme, 
Em alta voz, que o Ceo escuro atrAa, 
Eis hum inchado mar lhe leva o leme, 
O gorupés, o masto (outro) da prAa. 
Vede, Senhor, si com razão me treme 
Ittda a voz, de temor que nfio perdAs 
A nenhum coraçSo por mais ousado. 
Que seja o valoroso, em tal estado. 



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Vi ElHAtO BIMllralCO Cinn», TOHO ir. 

£sta pintara lenirei é palpitaste de verdade, t de 
energia de expressão. Poucos sam otespeclacalos] que a 
natureza possa apresentar mais horrendos, que o de ani 
naa, qae iDctandÍD com um temporal desfeito, a pouco « 
ponco se vai desfazeiido entre o bramido das ondas, qu 
a levantam ás nuvens, e a escuridade, qae cobre a«|A&- 
ra, o coruscar dos relâmpagos, a o sibilar contínuo do» 
Tentos, que representa qae iodas as Giboias, e ai So- 
críús da America, e todas as Boas, e Adevinhas da Africa 
ali concorrem com a esperança do devorar os desgraça- 
dos Nautas, que ji tem abandonado toda a e^wraofa ds 
salvamento \ Pela minba parte ni* sei iwsginar uma si- 
tuação mais dokirou, e o Poeia sonbe exprimi-la cm 
bastante força, e colorido. 

Também não faltam rasgos de pathetico, e de poesia 
na narração da viagem, e trabalhos daqnelles desgraça- 
dos pelos aréaes da Africa, oprimidos de sede, fome, 
e cançasso, trahidos, e roebados pelos negros, mas de 
tndo isto só apresentarei aos Leitores a pintura da mor- 
te de D. Leonor, e seos filbos, e da desesperação de sen 
Esposo, que a encontra morta quando volta com algumas 
fruclas, que fflra colber para alimcnlar-lhe a vida. 
Kfas nSo esteve muilo repousando. 
Que quem de verdade ama não r^nsa, 
E assi accorda, lá da alma airancando 
O doce nome do sen triste Sousa. 
Anlre suspiros rouca a voz soltando. 
Dizendo cousas, mas em cada cousa 
Interrompem extremos amorosos 
Os brados vSos, que dava dolorosos. 

Aqoi ciHlon a Parca os tenros annos, 
D'bum dos Filhinhos, que apertado tinha, 
Comsigo estreitamente, vãos enganos 
Nos quaes a força da paixão sustinha. 
Aqui o mais cruel dos inhumanos 
Brutos c'o pranto ouvido se detinha, 
Convencido de magoa, ouvindo as magoas, 
Qoe tmnavam atraz correntes agoas. 
Não bastando levar-lbe desta sorte 
Amor o coração a dflr tamanha. 



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tino TI., cinTDLo m. 95 

Que com o mesmo rigoroso corte 
Logo bom Irmão bIí ontro acompanha. 
Com vagarosa, e piedosa morte, 
Lhe aocresceotaudo a dAr cruel, e estranha, 
Onde nSo p&de taato o soffrimeato, 
Qae as rédeas não largasse ao KDlimento. 

Dizendo « Esposo men, abrigo, e amparo 
« Dos Filhos, e da May. qne s6s deiíasle, 
« Toma, toma, cruel, qne o tempo avaro 
« Tos rouba aos olhos, ^ne apoz ti levaste, 
o Olhos quaoto me Toste nelles caro, 
« Lembre-te Leonor, qne tanto amaste, 
« Para tenão causar esquecimento 
a Tão breve, a mim tão longo, apartamento. > 

Apoi isto, qual neve endurecida 
Do raio ardente, fervido, Nemco, 
Com a vista turbada, e escondida. 
De suor frio o rosto todo cheo ; 
Com bocca pouco aberta, denegrida. 
Com já mortal, e languido meneo, 
Qnal cortada do arado alva Bwina 
Pouco a pouco a cabeça, e corpo incliu. 

O fecho desta Estanca é tio betlo pelas idéas como pe- 
lo eslylo, e os vereos ; nada mais melaocholicamente gra- 
cioso, que a Aproximação de uma bonina, qne cabe, e 
murcha cortada do ferro do arado, e uma mnlher joven, 
e formosa, que perece de desfallecimento, e cançasso em 
meio de um deserto de aréa relisnada pelo So) ardente 
da Africa; pena é que estas pinceladas mimosas, e pa- 
theticas não sejam mais frequentes na Elegiada. 

A.SSÍ fenece aqnella illnstre Dama 
De perpetua niemoría, e louvor dina. 
No Mundo alcança peregrina Fama ; 
Quem nunca vÍo tão casta peregrina? 
Onde não basta ao choro, que derrama, 
Nem o não vér remédio não lhe ensina 
Para enxnga-lo á companhia triste. 
Que a grave áòr jamais razão resiste. 



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eo nnito Moouni» ramco tomo, rr. 

Chora; mas nisto vem c'9s braças cheios 
De Tmctas o calpado em taes tardanças, 
Hnilo mais carregado de receios. 
Que aadam boisbro por honbro de esperanças; 
O qnal creado dos grites, s meneios 
O que lhe affirmaai as descsofiaocas, 
Certo do que não crê no que adivinha 
Sem alma os Corpos ré, que n'alma linha. 

Os Filhos vi no 
Da ri goros» morte 

Cortada a fresca, < ; 

E a ella morka, e 
Qne inda parece ^ 
No cimo lhe dos I 
Cada Filhiaho, o i 
Sem os scHlar o et 

NSo chora, e pt 
O juízo, nao perd< 
Qne amor lhe dá 
Apoz do natural ci 
Da qual inlernamente convencido. 
Depois de respirar o grosso aleofo. 
As mãos deu ao trabalho suspirando, 
A. doce Esposa, e fiRios enterrando. 



Apoz isto Tarioso Tal correndo, 
Por aquellas Florestas, e espessuras, 
Com ronca voz mil lastimas dizendo, 
De magoa CDteniecendo as pedras dnras 
Onde a fome cruel satisfazendo 
Alguma Fera nelle, a desventuras 
Tamaubas, deu o fim que tenho dito. 
Jamais tão desastrado em carta escrípto. 

Poucas silnaçSes podem eocontrar-se tSo dolorosas em 
nmPoema, como a de um Esposo, e Pai obrigado a abrir 
nas aréas de am descampado de Africa com suas propnM 
mãos o sepulchro, em que deve depositar os cadáveres de 
uma Esposa formosa, e querida, e de dous filhinhos bet- 



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Lino VI-, CiPITClO III. 97 

1m como Anjos, e mortos de Tome, e cançasso. k á6r 
profaDda, de que o Poeta o pinta possuído no meio daqnel- 
le trabalho, sem derramar nma lagrima, nem soKar nm 
sQspiro, é um toque de mestre, e ao mesmo tempo pbiloso- 
phico. As grandes magoas, aqnellas, que n3o admittem con- 
solarão, e que se acompanham do desespero, sam mudas, 
e sem pranto. Depois de D. Ignez de Castro, nenhuma 
Senhora Portngueza se fez tão famosa pelo excesso de snas 
desventuras : as Musas porém a tomaram debaiio da sua 
protecção, e cobriram de flores a sua sepultura abando- 
nada nas cercanias do Rio de Loareoço Marques, Je- 
ronyinoCdrteBeal Jhe consagrou um Poema inteiro, Luiz 
Pereira um Canto da Eiegiada, e CamOes as seguintes 
Estancas dos Lusíadas, que valem mais, que o Poema de 
nm, e o Canto do outro, e que piomeltem mais duraçSo. 

Oulro também virá de honrada Fama, 
Liberal, Cavalleiro, e namorado, 
E comsigo trará formosa Dama, 
Que Amor por gran mercê lhe haverá dado; 
Triste ventura, negro fado os chama 
Neste terreno meu, que duro, e irado 
Os deixará de bum cru naufrágio vivos 
Para soffrer tormentos excessivos. 

Verão morrer com fome os Filhos caros 
Em tanto amor gerados, e nascidos. 
Verão os Cafres ásperos, e avaros 
Tirar á linda Dmoa os seus vestidos. 
Os cristalinos membros, e preclaros 
A' calma, ao frio, ao Sol verlo despidos. 
Depois de ter pisado longamente 
Cos delicados pés a arSa ardente. 

.E verSo mais os dhos, que escaparem 
I>e tanto mal, de tanta deaveiitura, 
Os dous amautos míseros ficarem 
Na fervida, implacável espessura. 
.Ali depoisdas pedras abrandarem 
Com lagrimas de dâr, de magoa pura, 
Abraçados as almas soltarão, 
iDa formosa, e misérrima prisSo. 
7 



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93 ENSAIO BI&GBAPHIl» CSIlIjCa, TOMO IT. 

C^Ses para toraar o quadro mais pathetico finge qne 
D. Leonor morreu abraçada com seu marido, apartando- 
se nisto da Historia, que nos diz, que Manoel de Swsa, 
depois de I: . - _ ^ ^ 

2aD.4o Vio c I Di- 

tos, não ha 

Mas oem o » 

teg, desliga KtD- 

teci mento ( cm 

sua Esposa hsb 

mprlalnent t M- 

daver da ai 

Asf 

Poii4o- cenio a que iaab> estiota e pf esa. 
Pôde quem tudo pt^e asium reude-la, 
Qne Pátria, Pwí,,e tudo em fim despreza,! 
. ' Por sQguir &e« amado, « doce Esposo, 
Bam, Soldado Tudesco valoroso. 

Este, depois de já desbaratado 
O Campo todo. põe 9 Esp^ amiga 
Nas ancas de hum Frjsão'acos(uinado 
Para tão dura, e aspeia fatUga, 
Bindq rompendo vatoraeoi e ousado 
Pela Gente eru^, geate inoiiga; 
Que atfai o hia s«m^o |>erteguindoi 
Com laitpadas a hum, eviítro-fierlndo. 

Vai chorando a coitada ali abraçada 
Co doce amigo, o rosto atraz voltando. 
De purpura vestida, escabeUaàa 
Sen^re do. imigo o Esposo ali eseadandá. 
Qual nas aacas <le Nesso a ingrata aatada 
Dejanira, que. a seita recerando 
Tira á orelha^á do braço Torte, 
Com que^ oh Centauro, Alcides te di morte. 

Assim vai a Tudesca, c juntamente 
A fere Amor, e a Canalha fera, 



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iivBO it., CxfnVLO iit. a 

Que maia sente dé Athor d mal ^bã séilte, 
Qoe daqaelle em que céria a nlorte espera; 
Vede como he bnra (I'oDlro differente, 
£ qaaiQ poilco lhe ali então doera 
1'erder fi vida, nSo vivendo d'ellá. 
Que lhe doe pela alheia de perdo-la. 

Mil magoas ^ai diíeado ã sedi rent^á, 
Mil temores a cercam, e descoDfíam, 
Sobre qtiélii lhe dará a moíle escurs 
Fortuna impiedosa, é krtíot porfiam. 
ADtec)p#-s« aqui a sorte dura. 
Vendo qué amores já a consiiitiiam, ■ ' 
£ Taz tttú ijtfe hum Aiarbe a laiiça atire, 
Ante qfie asst d'aniclr a ttislè espire. 

Passa o ferno cru«l, crnel, e aguda > 
As entranhas da iaclita Donzelta, 
Qae dindo^lhe hf&idv, : « IKlos0 esewlo 
a Porá UJtt vida p6â(l defende-]»!* 
Fica o Esposo âc|uj palliilo, q noA», 
Que Dão pareceo dar a laa^a nella 
Como a Heâaâti d«u aiais crua fielte •- 
Passando * corpo et etls, a alma t dle. 

Onde o turbado Àmaate bem quiíera- 
Voltar pêra vingar a morte crna, 
Si o brando rogo n^o lho defendera 
Com que a empreza Itie estorva a presa sua ; 
Dizendo :.<iG6pogo meUf si se perdera 
« A minha vida só sem essa tua, 
o Comprandp-a tão barata,' aqui com ella 
a Ganhava o grande gosto de perde-la. 

«Mas Coáo cá seto íós, ficar eti pósáo? 
<t Como apartar noá pôde o (empo imigo, , 
ttSi he verdade que estou no peito vosso, 
o Como sempre nesta alma estaes cóiáigo? 
« Olhai a obrigaçSo dcsíe aáor liosso 
« X quanto vos obriga, doce amigo, 
a Seja, de amfiòs de dous só buma ai sorte, 
« Só buma a vida, e' tunía mestna i Morte. « 

1* 



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ENSilO KOQRtfHICO CEITICO, TOMO IT. 

Torna o amante então a hir proseguiodo 
Seu caminho, já tenro da brandura, 
Com que o yai a triste pCTSuadindo, 
Que tornara de cera hiia pedra dura. 
Tam-se já dos imigos eocobrindo 
D'hum Soveral pela hórrida espessura. 
Aonde ao pé d'huina Arvore, que acharam, 
Haia triste, e escondida, se apearam. . 

Ali já do perdido í 
Rosto da linda Dama 
Cahindo de mortal s( 
Ficou, e a bocca hui ; 

Por cima lhe ficou s< 
E os olhos pooco ab< 
A vista tendo, o col! 
Cbum brapo em terra, e outro derribado. 

Nio de outro modo a viva cór perdendo. 
Que quando já da rude mão cortada 
A caodida Àçuceaa vai pendendo. 
Em pouco espaço pallida, e mudada 
A roalntina grapa emmurchecendo 
Aquella suavidade transformada 
]á em tristes memorias do bem caro, 
Qne t5o de preça leva o lempo Avaro- 

Assim a triele pallida jazia 
Na dura terra junto ao temo Esposo, 
Qué maldizendo a sorte as mãos toreia, 
Da certa morte ainda duvidoso. 
Onde de quando em quando Int^rompia 
O Ímpeto de alento soluçoso, 
A voz desordenada, c dissonante, 
Qra grave, ora aguda, ora iremaule. 

Dizendo : « Oh doce amor I doce Esperança» 
« Esperança nSo já, pois v6s partistes, 
« Dêixando-me sô cá a triste lembrança 
« Pêra mór magoa de memorias tristes ! 
« £m que me conQei t oh confiança 



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UTRO Vr., CAMTCI,0 Ul. 101 

K Como DO fim em fim sempre mentistes ! 
a Ah [ porque como a morte, Alarbe bmto, 
«De meu sangue ferasle o f^rro euiuto? 

« Ah como ào mcn bem me parlirei? 
« Ou como poderei viver sem ti? 
«Que não vivas comigo! onde estarei 
o Que ta nSo estejas, e eu esteja aqui? 
« Ah quanto em ser o teu amor gaubej, 
d E quanto em te perder, meu bem, perdi? 
a Pois que me liça cá a bella Consorte 
« SioSo tão desastrada, e escura morte, n 

Isto dizendo, o rosto descobria 
-Da descorada, e já morta Donzella, 
Que parece que morta inda sentiu 
Cbegar-se o seu amado Esposo a ella, 
Ou seja que inda Amor se não sahiu, 
Ou inda a alma delle dentro nelia 
Estava, ou que fosse por ventura 
O que o Desejo ás vezes effigura. 

Elle co'a voz tremente, o rosto lento 
Ajuntou ao que fica, e morto estava, 
Olhando si respira o tíbio alento. 
Ou SB inda o coraçãs lhe palpitava, 
Benova-lbe ootra vez o senlimento 
Amor, que s6 por isso o enganava ; 
Já tomara viver naquelle engano, 
Has teme em fim o lemilar seu damno. 

Onde os Mouros, que andavam desmandados 
Por aquella Selvática floresta, 
Ouvindo os roucos, e tristonhos brados. 
Com que responde o Echo á voz fanesta, 
Por elle áquella parte ali guiados, 
Que de espaço em espaço aOlicta, c mesta 
Resoava, o lugar lhe determina 
Que esconde o triste, e a morta peregrina. 

Os quaes, ao vir ali tal aventura, 
Co'a condição perversa, embravecida, 



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BNSAIO DtOGfUPQlCO ÇBITICO, lOilO If. 

Põem a cçrvi? do triste çm prisão dura, 
£ eni continuada morte a morta vida; 
O qual c'a corarão da dór escura 
Partido, e resistiodo a la) partida, 
PoDdo ft dcfeza brava em fracos bra^s 
Foi feito logo ali em mil pedafw. 



O mcravilboso, que é uma das paries maís 
da Epopeia, pois que é ellc quem levanta o assumpto da 
região prosaica para as alturas da poesia pot meioèíD' 
terveução dos agentes sobrenaturses, que sarprcheode, 
arrebata a nossa imaginação, elaoto lisongea oiDDatoo^ 
gnlho do coração humano, lazendo-lhe crer que as sms 
acçSes interessam o Ceo, e olnteroo, é talvez o que mi- 
nos avnlta neste Poemi- Luiz Pereira mostrou nisto gran- 
de esterilidade de iaveaçao : nenhuma das suaa macbw 
presenta resultado grandioso; lançou mão das persona- 
gens alegóricas, que s6 podem servir de comparças, oa 
iigurantes, e já mais de agentes principaes nas grínia 
scenas da Tabula sobrenatural, que se enlaça coma 
fabula histórica do Poema Épico. Que grande eITeito pô- 
de produzir a Vangloria que tentíi D. Sebastião cm so- 
nhos com a esperança de grandes conquistas? O Enga- 
no, que se lhe apresenta em trage de Mercador, e Ihí 
dá a faisa noticia de que em França se prepara uma ar- 
mada contra elle? K, sombra -de um Cacii velho, que em 
sonhos inspira ao Rei Mouro o projecio de põr cerco í 
Marzagão? Uma Feiticeira que consulta o 0iabo, qne 
lhe apparcce em forma de Bode? Tudo isto me par«e 
mesquinho, e indigno da mageslade do Poema Beroico 

Todo o emprego do meravilhoso em um Poema Herói- 
co é alrazar, ou adiantar a acç5o ; si não serve para is- 
to entra na ciasse dos ornamentos ambiciosos, de que f<il- 
la Horácio, e poda deleitar com ficcOes agradáveis, porém 
não excitar iolcresse produzindo obstáculos, e desenTol- 
vendo-os por meios sobrenaturaes ; ejá se vê que asper- 
sonagcns puramente alegóricas sam pouco próprias para 
esse lim quando se tracta de matéria grave; o sen ver- 
dadeiro logar é nos Poemas Ileroicomicos, como oiuí"" 
deBoileau, ou o //i/scop* de António Diniz da CrozeSIl"- 

O único rasgo de machinisrao verdadeiramente ípit^ 



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LEVBO Tf., CAnnitO III. ' 103 

que se encontra oa Elegiada, é a Concítlo Inrerfiat, con- 
vocado porLocifer, noCanto II., em que ha algumas bel- 
lezas deeslylo, mas que uen apreBenta efiejlo çtramatico 
pelas discussCcs, Dem pelo resultado, que seredoz ao Rei 
do laTerno iacombÍT a VsDgloria e a Cobiça de promover 
algnus desaguisados na Corte Lnsitaua. 

Onde lá- DOS abysàioE cavernosos 
Deste prindpio. Lúcifer horrendo 
Já en(^adOj piu a ardente c'rAa, 
Nova, que pelo Befuo escoro sAa. 

Sda o rumor qual Boreas enojado 
Tai por espessos, c altos Arvoredos, 
Ou qual do Tero Noto o mar inchado 
Do fundo mostra os Íntimos segredosi. 
Que formando o. medonho, e rooee brado 
Por cavernas de coacavos rochedos 
Arruinar-se o Uundo representa 
Sigoal d'algami liorrida t(»iiKiita. 

Assim vai o murmureo dlseerreodo, 
Por este hoB|Mcto triste, escuro, enorme, 
Onde hnm blasphema, e outro está gemendo 
Em pena desigual, pranto conforme : 
Yai-se já de Plulio a gruta enchendo 
Dos Espíritos maus, turba disforme, 
Accodem os Penates, e os maiores 
Dos Infernos Juízes Regedores. 

Está lá no sulphurco assento pôslo 
Lucifero lançando fogo ardente. 
De negra bocca, serpcnliuo rosto, 
Deseoroscandoo rabo de serpente. 
Com fera vista mostra o presupposto 
Damnado, contra a fraca, humana gente. 
De Águia sam os pés, e os braços delle, 
Pc Lixa tem a verdenegra pelle. 

Os oHtros, que o rodeiam,' differentcs 
Figuras tem, a qual peior Figura, 
De Dragos, Onças, Tygres, e Serpentes, 



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104 BHSAIO BIMBAniGO CBinCO, TOKIt IT. 

Todos com negra côr á sombra escora. 
Os que logares tem mais preeminentes 
Nesta Casa de pena eteraa, e dura 
Mais perto de Plnllo estam sentados, 
E os outros por carrerDas eacostados. 

Todos esperam vér o que qaeria 
Neste caso Platão ordenar delles. 
Que já cora Toz medonha lhe dizia 
Que toda sua esperança tinha oeDes; 
£ contra a Vangloria proseguia 
(Depois que se aconselha contra aquelles 
Portaguezes) dizendo : « Oh vja Senhora, 
t De meu erro primeiro executora ! 

«Vai, vai vencer aquelle Lusitano, 
a Nova esperao^ do valor passado, 
e E tu, Cobifa, com sedeolo engano 
a Todos os Grandes traze ao teu mandado, 
a Tecei ao Luso Rey bem novo damno, 
a Qual nunca foi no Mundo imaginado, 
d B vós outros, Ministros do tormento 
« Cheguai a breve Sm meu fero intento. » 

Isto dizendo, já pegada á coma 
K Vangloria de um Drago esquivo, c horrendo, 
A. Figura, que vio Nabuco toma, 
Qoal o grande Colosso parecendo. 
Leva de sceptros infinita somma 
O leve Vento inchado vem bebendo. 
Hum olho só qlial Polyphemo tinha, 
De cabos de Pavões coberto riiiha. 

A. Elegiada de Luiz Pereira Brandão é um grapde as- 
sumpto estropiado, que sómejile se torna recommendavel 
pela pureza da linguagem, alguns trechos de poesia dis- 
criptiva, algumas comparações plctorescas, e alguns epi- 
sódios, se pôde dtzer-~se que ha episódios, ou que a maior 
parte delles o sam em uma ordem histórica desuccessos, 
c que propriamente mais pôde cbamar-se Biograpbia bw- 
trica d'El-Rei D. Sebasliâo, que Poema Heróico, yisto 



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L1VX0 VI., «APITDLO III. lOã 

que oSo tem ordidura dramática, nem fabula, nem udí- 
dade, requisitos necessários em semilhaotes composições, 
jonte-se a estes defeitos tão consideráveis outro mais 
sensível, que é a roim versificação, e ninguém dirá qae 
somos injustos quaudo collocamos a Elegiada na plana 
das nossas Epopeias de terceira ordem. 

Afortuna sempre caprichosa ecéga conservou esta com- 
pesifào informe, & essencialmente mediocre, e deixou pe- 
recer as Poesias de António de Castilho, o Parneso Lusita- 
no de Luiz de Cam&es, as Salyras de Francisco de Sá de 
Uenezes. as Poesias Lyricas de Gabriel Pereira de Castro, 
de Uanoel de Galhe^s, de Domingos Uaximiano Torres, 
de Domingos Pires Uonleiro Bandeira, de Sebastião José 
Ferreira Barroco, e ontras muitas antigas, e modernas, 
qne os amadores das Musas lamentam com tanta razão. 



CAPITULO IV. 

Francisco de Sá de Menezes. 



ISoIre os Poetas, que a cidade do Porto se ufana com 
razSo de haver produzido, é este um a quem de justiça 
pertence nm dos Jogares mais distintos. 

Francisco de Sá de Menezes foi filho de loão Rodri- 
gues de Sá, que tnmhem cultivava a poesia, segundo 
consta de testemunho dos seus contemporâneos, que fal- 
iam com muito louvor dos seus versos, pOsto que nunca 
sabissem á luz. A sua família era das mais distioias da 
sua provinda, e foi depois agraciada com o Afarquc^ado 
de Abrantes; sqa Mãi chamava-se D. Maria da Silva, u 
era df> linhagem tão nobre como seu esposo. 

Não consta ao certo o auno do seu nascimento, mas 
parece TU'osimil que teve logar pouco antes de 1600. 
Applicou-se cora grande proveito ao estudo das lingnas 



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106 tmkW BIOQnAPBtGO CRtriCO T0310, IT. 

Grega, e Latina, dss Sciencias, das Letras, e dos Idvo- 
nas das mais cultas naçOes modernas, tornando-se assim 
haUl paia os empregos do Estado, que exerceo com bem 
dcsen>p«ubo. 

A uma erbdiçSo não volgar juntava grande faleslo pa- 
ra a poesia, em que depreea adquirio grande Domeada; 
c iraitou com desvelos <» Italianos, e com especialidade 
a Torquato Tasso, por quem é evideale tiaver-se rega- 
lado na composição da sua Malaca Conquistada. 

Consta qoe casou mui moço com D. Antónia deAndra- 
(te, que era sua prima, e filha dcBaUhãsurLeilào deAn- 
drade, CommeiKlador da Ordem de Cbrislo, e Thesoarei- 
fo da Casa da índia, de que teve um Blbo, por nomeBal- 
lliasarde Sá Leitão, que foi elegante, e engenhoso Poela 
Latino, como se deprehende do seguinte Epigntmma eta 
louvor da Malaca Conquistada de seu Pai, e que se lê à 
frente da terceira edição daqucllu Poema, feita eiu Lis- 
boa por José d'Aquino BalhOes no anno de 1779. 

CuiD laus ex gnato venial suspecta parenti. 

Me gnatum, fateor, áÍx javat esse (uum, 
At cum coDspicio laudanda Pocmala, Icelor, 

Cum me sors tanto fausta parente, bcal, 
Inscquar ergo Palris vesligía, carmina fiogam, 

Carrainihus sed eriC gloria nulla mcis, 
Phtebo digna moves nain solus plectra; nco uUc 

Ingeaium poterit vincerc Musa tuum 
Si fuil in Gnato Viitua iuvisa Theodoso 

Dum Fam« credit oil soporcsse sus ; 
Ipre tuoa possim mérito incusare triumplios, 

Spes etenim taadi anila relida me» est. 
Ergo omncs ullro mittamus plectra ; relinquit 
■ Hic líber exhanslas, quas ultra claudit, opes. 

Teve também uoui filha, por Dome D. Joanna de Sá e 
Meneies, que foi casada com Fernão da Silveira, irmSo 
segundo do Conde de Sarsedas, que militou nas campa- 
iilias dos Paiíos Baixos na qualidade de Capitão de Ca- 
vailarra, e que foi depois Conselheiro de Guerra dos Reis 
I), João IV., c D. Affonso VI., e que veio a perder çlo- 
ríosamuute a vida na Batalha das Linhas d'Elvn$, gauba- 



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LIVEO VI., GAPITDLO IV. )y7 

da aos Castçlhaoos em li de Jaueiro de 1639 , delsaodo 
numerosa posteridade. 

Francisco de Sá de Menezes fui Commendador de S. 
Pedro de Fins, c de S. Cosme de Garfo da Ordem Mili- 
tar de Cliristo. 

Seniior de uma casa opulenta, cercado da estima dos 
Coaciíladãos, e cora especialidade dos Literatos, empre- 
gaudú o tempo, qiie lhe restava do desempeolio dos seus 
deveres, como bomcm publico, ao tracto das Musas, pas- 
sara Francisco de Sá de Menezes tranguillameute seus 
dias, quaado a mofle lhe arrebatou dos braços a Esposa, 
(]ae lhe servira sempre de consolação nos dissabores da 
vida; esta perda lhe abateu o espirito de maneira, queto- 
maado de dia para dia maior aborrecimento ao mundo, 
resolveo por tioi abandona-lo, sem que as rogativas, e 
tDstancias dos liltios, dos parentes, e dos amigos fossem 
poderosas para o fazerem mudar de resolução. 

Depois d'algum tempo de besitação sobre a escolha 
do seu ultimo domicilio, resolveu em fim retirar-se para 
o Beal Mojlciro de Bumlica, da Ordem dos Pregadores, 
DOS subúrbios de Lisboa, onde tomou o habito, o profes- 
sou no dia li de Dezembro de IGil. Ãlí debaixo do Do- 
me de Frey Francisco de Jesus, se entregou com todo o 
ardor á observância dos preceitos da regra, e ás praticas 
de devoção mais austeras, tornando~se por esle modo ob' 
jecto de veneração, e respeito para todos os Religiosos, 
que com ellc habitavam aquella Santa Casa. 

Neste modo de vida, e constante desapego do mundo 
persistio com admirável constância, e placidez de espiri- 
to, sem jamais desmentir-sc até ao dia 21 de Maio de 
IfiOl em que Deos foi servido de chama-lo da vida tem- 
p.oral para a eterna. 

As Obras deste Poeta, de que temos noticia, sam as 
seguintes. 

Malaca Conquistada, Lisboa,. 163S, em$.°, edepois re- 
formada, e alterada em vários logarcs, 1658, em j.° 

Canção, quese encontra uoprincipiodoGigantomachia, 
Poema de Manoel de Galhegos, 1628, em i° 

Um Soneto que vem no Templo da Memoria, Poema 
do mesmo Manoel de Galbegos, 1G25, em 4.° 

D. Maria Telles, Tragedia, que.ae conservava manus- 



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108 BHSilO SIMKAVeiCO CRITICO, TOMO tr. 
cripta Da Bibliotbeca do Paço Real, a qual ardeo com o 
mesmo Pafo na occasião do Terreatoto de 173S, e prin- 
cipiava com este verso. 

Horas alegres do ditoso Dia. 

A Morte deD. Maria Telles, )rm9a da Raioha D.Leo- 
Bor, Esposa de El-Rei D. Fernando I., e casada com o 
Inraute D. ]oão,, irmão de D. Fernando, é um dos raros 
assumptos verdadeiramente trágicos, queoETerece anossa 
Historia ; e a escolha deste assumpto prova graude des* 
ccfnimeuto, e tiuo (heatral em Francisco de Sá de Me- 
uezes. Uma esposa amante, e innocente, assassinada bat' 
barameute por sen marido, allucinado pelas cafumnias 
da própria inuSa da viclima, e com a esperança da mão 
de sua Giba, única herdeira do Reino, que vasto campo 
para o deseqvolvimento de paixões encontradas, para a 
pintura de caracteres, e de todos os recursos pathetlcos 
da compaixão, e do terror ! É muito para sentir, qne esta 
Tragedia perecesse ; seria curioso vér o partido, que o \u- 
tbor havia tirado deste Tacto doloroso, e com que arleticio 
teria architectado a sua fabula um homem, que tanta in- 
venção dramática havia mostrado na sua Epopeia. 

Escreveo mais. 

Satyras, que existiam manuseriptas na opulenta livra- 
ria do Bispo do Porto, D. Rodrigo da Canha, em nm vo- 
lume de 8.°, como consta do seu Index, impresso na ci- 
dade do Porto no anno de 1627, em l.° 

£ muito probavel que Francisco de Sá tivesse composto 
muitas poesias d'outros géneros, como Sonetos, CançOes, 
Epistolas, que tanto andavam em moda no tempo, emqae 
lloresceo, mas ou os annos as devoraram, ou ficaram se- 
pultadas na livraria do Convento de BemKca, onde tal- 
vez se desencaminhassem qnaodo peia extincção dasOr- 
dcns Regulares aquelle Convento foi sccularisado; on el- 
le próprio as queimaria dos últimos annos da sua nis- 
tcncia, ou porque as julgasse pouco dignas do seu (alen- 
to, 00 por escrúpulos de consciência na vida ascética, 
que abraçara. O cerlo é que dcsappareceram ; hoje Ioda 
a gloria de Poeta, tão fecundo, se acha recouceatrada na 
:iua Malaca. 

Para dar alguma idéa do estylo lyrico do Aalbor, e 



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UVaO VI,, CAWIULO IV. 109 

porque tanto a GigaQtomachia, como o Templo da Memo- 
ria, de Manoel de tialhegos, sam dous Poemas boje quasi 
descoDhecídus, apezar do grande talento daquelte Poela, 
copiarei aqui, ainda que em Castelhano, a Canção, em que 
Sá de Meuczeii celebrou o primeira, e o Soaeto em <(ue 
elogiou o segundo. 

C4NC10N. 

Balid, Cisnes dei Tajo, 
Batid alegres las canoras alas, 
CoD vueto altivo penetrando <j Cido; 
Dexad el luargen, y dorido suek> 

Del curso trasparenle 
Del cristal fuguetivo, <\ue amais tanio; 
Por siil)limes regíoaes discorrendo 
Canoros derratnad dulces accentos, 

Y cl aire enoobleciendo, 
Enriqueced, y suspended los víenlos. 

Celebrad, Cisnes, admirando, el canto 

Del Varon Lusitano 

Del nuestro unevo Apollo, 

Qi» d'uno ai otro Polo 
Besuena borrible, pêro dnlce tanio, 
Que igualmente deleita, y mueve espanto. 

Celebrad, Cisnes, que cantando pinta 
Con (ai destreza, y modo lan estrano, 

Que baie un íllusire engano. 

Assi a lo vivo imita. 
Que parece que ea Phlegra resnsctta 
Los de la Tierra monstruosos partos, 

Que amontoaando montes, 
£1 Cielo escalam, rompem borisontes. 

Segunda vez parece 
. Tamblan en el supremo firmameota 
Sus claros moradores, 
T cu cl largo Oceano 
Los divos nadadores, 
Y qne entre el fuego en el escnro elerne 



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1)0 ENSAIO BIOintAíniCO CRITICO TOUO, IT. 

No se da por segnro 
Con puerta de Jininaote y férreo muro, 
£) horrible Senor dei negro lafierDo. 

Cetebrad, Cisnes, qae cantando pinla 
O, por megor decir, hace visíbles 
De Ia Irabada gnerra 
Eutre el Cielo, y la Tierra 
SíD arte militar fieros assaltos ; 
Los eocncnlros horribtes 
El comtKttir, la pertiaas porBa, 
Las Taftas, y las sobras de osadia, 
Y que hace sentir a los oydos 
El estraendo, las tocea, y clamores, 
De aqnetios tiasmeDle condozidos 
De ódio, nascido apenas, ya infinito, 
A temerário, y horriífo cunílito. 

Celebrad, Cisnes, que canlando advierte 

A los subervíDs vanos 

S« infelice snírtc, ' 
T que no Talem contra el Cielo manos .* 
Si cl sacrílego osar mismo eBcaniina 
Misero precipício, alta rnína, 
. Modéstia ai mundo ensifis 

Y religioso zelo, 
Teiber la pena, y respetar el Cielo; 

Moved, cândidos Cisnes, 
Moved canoros tas canoras alas, 
Con alto canto celebrad el canto, 
Qae, applaosos adqniriendo, obriga a espanlo. 

Esle estylo é Terdadeíraraente! lyrice, elle corre facil, 
e animado, e até na irregularidade das Stropbes o Poeta 
soube dar-lhe todo o ar de um canto improvisado, sem 
preparação, nem eslndo. 

Eis aqui o Soneto endereçado a Manoel de Galhegos. 



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UTRO v^, cinTCLO ar. 111 

SONETO. - 

Vcnliiroso Hymeiíco felice contas 
De alta Bellcza, de Iléfoe soberauo. 
Cisne do Tejo, Orpbeío Lusilano, 
Que, tudo suspeadeodo, almas encaatâs. 

,De aquelle alto valor,' de graças tanlas 
Não poderá já o Tempo ser Tyranno, 
■ E lu, fazendo á Muqa illuslre eogaoA, 
A's Eslrellas mais altas te levantas. 

Di^ameute serão sempre invejados 
Por teu clarim, que asBomlwa.e alegra o Hund*, 
E invejado âerás em ioda a idade. 

. As$iin do Tempo, e Horle respeitados 

Entre ímiporta^, nâo em: Ioga r secundo, 
. Simulacros «creis da Eternidade.- 

A Malaca Conquistada, cobsÍ derasdo-a dicbaiíio do pon- 
to. de vislft ds cwDpesição; e daa regras da aile, é o me- 
lhor Poema do geoero claesicov que |io^tiimos. A acfâo 
é justa eiD seuG motivfls ; traota-^se de vingar a morte dos 
companheiros de Diogo Lopes de Sequeira, traidoramen- 
te assassinados em Malaca, (ld>aiio das apparencias de 
pa^j e de commericio : importante em seus rusohados por 
que a.dominiç^ e poses de Malaca punha em mão dos 
Pwlaguezes a aaríia Cherunesso, e xcliaive do coaimei-- 
cio ilitClúaa,. da A^rabij, das filíppinas, e das MAliicas : 
vartladeirafflenle heróica porijue se empreliCndc tomar 
á viva.íori;íi. <tma Ci<jade, Metrópole de am grande Rei- 
jio, ,forle f or sua siiuacGo, por saas forteficações, pelos 
seus haUilanUs, cujo valor era pcoveibiil «o Oriente, 
ajudados pelasforças d^poderoaosalliodoíi; áe justa gtan- 
ae&i conforme o preceito de àrislotelea, ,i\«b exige (foe 
uma. Epop^i*^'''' ^^j" ^^^ lofiga, q»ft se ceníoad*» rire- 
^avoriíi, .nem Ião l)neve que não tenha oawwsarioéese»- 
vpl^imcnto. ' 

A acEãp ,4a, Mdlaíft é «utca, íaíír-eaante', gloriowf foi- 



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112 ZMAIO noQKAfffiCO CRITlCO rftVO IT. 

ra a Nação Portagneza. Os episódios coDrorme os precei- 
tos da arte, nascem todos do assumpto, e cooperam para 
o alTormosear, semolTuscaliD, defeito, quemesmoosgrait- 
dcs Épicos nSo tem sempre sabido cvitítr. 

O caracter doHeroe tem toda abelleza bislorica, epoe- 
lica, de qae era susceptive). Nâo cenheceiaos si ni» 
Goffredo de Tasso, que possa rivalisar com elle : kfSmi 
d'Alboquerque é oeste Poema, como na Ilistoría, aqwlle 
Português honrado, que como se diz em om doí Canb» 

Hum palavra, hum Rey, c 

£ D nntco homem que passou r-s 

com piratarias, e crseldades it mt 

Acbylea, e prudente como Nes íoi- 

migos muito superiores em nui 1^ 

litica de Tundar um grande Império no Oriente, civilisar 
os índios, castigar os demasia» dos sens, prererir ajaslica 
no lucro, e deixar na Ásia uma memoria respcilavel, e 
saudosa mesmo entre povos por elle conquistados : qnu- 
las vezes os Indianos, desesperados com a oppressSo Pot- 
Ingueza, nSo correram ao sen sepulchro pira clamartii- 
gu^ contra os seus suceessores 1 Sá de Menezes soai» 
deseahar com mSo de mestre esta grande figore, que des- 
cola no seu quadro como Alexandre iias prodigiosas b- 
talhas de le Bruu. 

Igualmente bem pintados eatam os Hcroes secundaria 
CMjoe variados caracteres lançam o interesse, o contras- 
te, e o movimento neste grande Drama Épico. Aladino, 
Geinal, Soiimfio, Sarcia, Jaime, Abl-en, Araiijo, Mdto, 
Etoi, Alaida, Tilonia, e Glaura, mostrara a fecundidade 
do Autbor nesta parte, e as variedades das suas concq)- 
çiies Epieas. S6 quem tendo lido a Historia da Conquisto 
de Malaca, na vida d"EI-Rei D.Manoel, pelo Bispo Jm- 
Bjmo Osório, passa depois a comparar com oPoemaaqud- 
h narração eloquente, é que pôde fazer adequada idéa dt 
força de invenção que o Aulhor possuía, e do raro lateB- 
(o com que sabe fandar meravilhosas macbinas epic» 
so^e accontecimenlos, e circumslancias as mais treviaw. 

Nenhum dos nossos Épicos foi tSo exacto, e tão fiel ni 
pintura dos costume» asiaUcoe, dos ritos, e dasdifferenles 



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Íi[AéllkB dosnriádos povos daqnelta parte dóMoDilo. às 
iaas ^scrípcOes geograpbtcas sám verdadeiras^ grandio- 
sas as das tempestades, e das naregaçSes.; e as das ba- 
talhas navae», e terrestres, magnificas, variadas, e cheias 
de fogo. 

Igiual cotorido seenconlra nas soas narraçOes, b por to- 
das cilas basta apontar a dos Amores de Alaida, da fun- 
daçSa de Malaca, das façanhas d'A)boquerqae, das des- 
Tentúras de Glaora, e a da catastropbe dos companhei- 
ros dé Diogo de Seqoeira. 

O HeraVilhost) é uma das bases, essencises, e necessá- 
rias do Poetoa Heróico. Digam o qoe qoizerem cm con- 
trario alguns Crilicos modernos, qne desprovidos deima- 
^néçflo, querem reduzir á bitola das suas' mesquinhas 
faculdades prosaicas, e positivas as vastas, e elevadas 
CAUcepfCíes do génio, e despojar osheroes antigos das sn- 
perslições, cresças, e preconcdlos, que formam uma fei- 
çSo do seu caracter, e qne tanta influencia tireitun nas 
suas acpOes, e façanhas. A prova mais evidente do erro, 
emque laboram esses Críticos, é que de tantas Epopeias an- 
tigas, e modernas, nem ama sá ainda cooseguío a esti- 
ma geral sem ser adornada do meravithoso, ou rondada 
nelte, ptffque o hotnem, q&e tem em si uma parte espí- 
Tiioaí, não pôde conten(ar-se i:om idéas umcanteate ter* 
reslres: 

■ Sá de Meneies mostroa-se muito sõperior ás preoca- 
papOês do sea século dando, d' avesso á Mythologia, que 
D6 seus contemporâneos julgavam admissível em toda á 
serie de PoCmas, a ponto qne Sanuazzaro não escrnpnli- 
soa de fazer uso delia no Poema de Partu Virginis. Me-* 
aeies Xtn oboni senso de conhecer, que sã do Cliristia- 
nismo podia tirar machinas convenientes a nma Epopeia, 
cajos heroes eram Gbristfiõs, e é força conressar, que el- 
le toube tirar óptimo partido deste meravilhoso, que én 
todos os tempos tem feito parte da religiSo do vulgo. 

A parle erótica não é meãos bella riesle Poema, e de- 
kois de CamAes talvez oenhum Épico de Portuga) seja 
SoBíogete. tSo terno, e verdadeiro nos afTeclosI Pran- 
ísoo do Sá de Menezes estava mni longe das a^éctaçOei 
e^orkias, e dos Conceitos rebuscados de Vascú MozinbQ 
e Quebedo : 6 certo que as tkamas do Aíbnso Afrícuo 
8 



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IJ^ HlSilO ^OflUfWCe CWT^W,, TOMO IT. 

(ain.niaiBegui:^V>>(!'^.<v^^^<^ mu (pu i^Heo^U-T 
si esse espírM» 6 4o hnfUax, & uSo delias? . , 
' ' Rimye um Cr^VKO caç^wporf neo, iiue se Iç^con df 
assacar à ^ cie Mçoetes o deEeiW de Goo^rísmo. Ka- 
da me parece mais injusto, e ÍDruodado do qae est^cM- 
sóra; a Gongonsiipo ^ d excesso ^ poe^ • ^bii&o doi 
pruflin^nliós, e. o é^\»úími^9 4o$ conceitos ; e o d^- 
to niiximQ da Malaca» f^wuibewío ppr faiiff^ oshmm 
dÁ gosto, o ddeito iioe ias con <iife afi, Ásfkv bSo foír 
sa dar-se o primeiro logar entce w 'Epic*s Porif ^ipua* 
que d]« merece sem dúvid« ^^ arcbyteetqr^ dp ediK- 
cío epió), è a íraquwá d^.fiMsia, « a /alta 4^ «^«id? 
em seu esljlp, bem q;»^ SLNilá 1jpgiu«em vi^^t^empsafo^ 
ra, correcta,, e di^w Á>^ 9<>i^^<^ i»#(»f« QsissifW : Sá 
deMeaçzçs i ppiço al^nsPiptores, qfte dislribaem, f 
grupam magistralmente ^ G^iin^s em um quadra, qsf 
;^, deséobam com tpdo o primor d'arta, mas que são »f 
faiem realfajr pel» colorido quanto era preciso, ,porq[aé 
liié (alta um bom empasiQ de (iotas- 

úaiio defeits, o p^q peques», é a dure^ d^ yecsíGoa- 
fSo :'^ Dâlor&za ,11^ b^yia dado a^ deMeaeies.um eo- 
Ti(Io muçiço, e daqui ftas<íe a eecabrosiâa^e de aJg«H 
versos, que desfonuosam algvunaH dw «oa9 Estappas- O 
piJEiBO deTeilo,. com muUa maiorexfssso, seeQcontm w« 
poesias do Doutor António Ferreira, onde com Indo s« 
pSa acham versos Ma flaidps, e harnuuiiosos c4vdd na 
Malaca quando o Pgeta qcerta eis , versificar bejoa, o qatf 
nSo é raro acontecer, Creio porém que boa parte dosde- 
feitos versiBca tórios da Malaca não devem impqtar-se m 
Xpthor ; inuitos deUes sam eyidentemenje oresu^taijo dft 
incorrecção t^pograpluca, ffa i^ço muito seria para des«- 
jan, que fa^udo-se ^arta edifSo deste P«ej&a, já basr 
tanle raro, fosse esta vigila por um. Corrçctw hábil, e 
JDte1li£çnt£, qae Bzesse desappar^-vr «stas macqlas, &icftr 
tabe)£9ce^se aJ^niDas rymas, qae si acbam troçadas. 
. Lisongcio-ip^ de h^yer ne^ía r^suiuâo exame doPoe- 
má .àt, Sá da;Mcnezç$ ^pf^lado sincera, e leahnente ■• . 
beU^s, ,>^m, 4issÍ!puLar'«s defeitos c^w <« impamalidft*J 
de,, qne ,6^ exige em («^ matérias, q q«e de todo q«* , 
tevan^iis dito rçsud^a,. que «8 Ia Epopeia ^ HW dos mais bo^i 
lps.ornam^(paj^aBosB».lJle«t«ra. 



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' iiyw VI., Ctfimo if . 115 

PMtfvei 969», m^ni» o.8|rgteiiui f^ nOu adoptado 

lestji íi»n, »■ apoiar umiaiits assenOes pitukflo alguns 

iRc^ dft Obra^ Hfi* ne parpcem mais «ohdmentcs a 

esse fim. ; : 

£|d gji^tó S90re^ ing^f^s «^^s ^^qs, 
Quaes sohem Tenceddres vir da gaeira, 
Uaoik» çi)t (tfdenx ^ fortes Si}ldado9i 
SegDiDdo a.ifiskf^a, qu^a iaforsal dealem] 
De ,l»fpçp, £ rpio TiwaieBlf aimadw, \ 
Co 'a prtppura vi^I íegando a Terra^ , , ^ 
Cansa Vff jieito de AlEt)||áergi4e esp»^ ; 
O £âqiiA4i'3Q bello, que julgou por Santo. 

Quem. berámi e a qye TiUiaiti ^esejav? ' 
Perguaiar, elevado uo que via; 



^m 'ckfitu^ t3o alta « OhVarK» Ibrte, 
lhe disse uHi dos etíie^eos CaVàlleiro^,' 
< Os, qne preseijte^ vés, da lei da morta 
•IWftó' jí;' tehs pAaBJtts' terditdaií^i 
ê Vtmai' ío? escolhidos, a ^tie eiti -torti ' 
« Tocou sef de Cegueira compánbéifes, 
« As TJdaá nos tir,ou Malacfr fera, ' 
cfoi* ti TJu^aoça, nosso saDg;ne'cÍ^rit>^ 

à lú á dk bartnroiIUy dárq i^|iieda<lA 
(( Darás fim, « privúpiQ ventoros» 
a Ao Santo Império, e á Cbristfia piedade 
•xNessfi extreii»o> do MuikdiíitSd bsciao: 
a E a ruína fatal da aiffea Gtdida 
« Huia exemplo depois será gkmofio, . 
a De tadb» i!cspeÍtado, e o. fera imigo - 
« A qua raia* iEallaFi taipa ,0 otstíkQf . ' 



iinzc;;. Google 



iRgAio.iioauTBn armo, to» ir. 

t Ks -d^ ten ^olor grande a digna ui^mã, 
lEm qt» te está aguardando eterna glnia, 
f O €eo o qner, qne o teu bom zelA presa, 
* G por nós te promette alta victoria : 

< Dos Ventos a niadança, e sua braveza 
áObrit he diviáá, accorda, e na memoria 
«.Estampa o qae no Ceo está ordenado, 
«E por obra badepítr ten peito ousado, s 

Disse, e li 
Restituindo i 
Aceórdando 
Dos sentimei 
Deixa o nan 
E so mais-fi 
k divino. Yii 
(^è ser òrd 

Presentando-JI 
O modo, em qne rira, 

AccrtEcentando i 
Que contra os E 
Por dar.eSeíto í 
Qne o Ceo lhe < 

E ao oeieste Esquadrão, que Ibe predisse, 
Còm aSoctos piedosos assim disse: 

« Seguir prometto, (rfi almas ventOnsas, 
«Essa, qae me mostraea, alta esperança; 
« Entrarei nas emprezas duvidosas 
« Com vossa bem fnndada segurança : 
« E das mortes cruéis, bem que ditosas, 
«Darei ao justo Ceo justa vingança, 
« Inda qne, pois em Deoa' pira o desejo, 
« Morrer conio moifestes, vos inf ejò. 

((Gozai do S«l divino o eterno dia, 

< Na divina SÍSo eternamente ; 

« E alcançai, qne nos dé tfio certa gina 
a Como a seu Povo na columna ardente. » 
Assim ditado, a Aoron b«lia «ta» 



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. IITBÇ TI., CMMKO IV.: . 117 

As.mtricaoéss portw^ Oriente, 

O fresco orvalho «s. coDcboç rsoÁiam^ -: .'. 
E as pérolas presadas concebiam. 

O LeiíOT teri nMaão neste quadro a fticUid8(le , com 
qne g Aathor fonde as idéas ChrísUas na sua poesia, e 
nio é esse pettaeao noarito, nem muito trivial nos nossos 
Poetas Heróicos enjoe Actores a raaior parte das vezes 
se eiprimem mais o«no Pagãos, que. como CkrittSost 
Os quatro versos desta DUitoa Estanca sam- deliciosos pe- 
la graça das imagens, e pela barmonia faeil, e«orreate 
dos versos, e isto prova que Francisco de Sá de Menezes 
Dáo tem um tstyio tio fraco de colorido poético como 
ilguns Críticos tem pertandido ensinuar. : 

VUGfiM DE ALBOQUERQUE PARA COCHIN. 

Em bem composta Esquadra a naval tropa 
Segue pela naritíma campanha, 
Da grande Capitania a excelsa pAppa, • 

Qne assombrado Neptuno bumitde banha; 
Quaes d'AfHca passando ã iltustre Eiiropa , 
Os Grous, deixando a pátria peta estranha,' 
Em ordem seguem peta aérea estrada 
Sen CBpil9o em ala ecmcerttda. 

Posta a prAa.Bo Aostro, dividia 
Alegro aserespas ondas ; respirava 
0«J^ BotMi.qne a neve fHa 
Nos montes de Tartaría congelava, 
£ de Haldiva o mar, que entre Ilhas cria 
Salatifero antídoto, deixava 
Para o Poente, e as Ilbas.qtte florescem 
Cos despojos, qne as Palmas offerecem. 

Eis jé ao Septentrlio Onor lhe fica, 
£ Bracelor armígera, e possante. 
Com Mangalor de Cardamomo rica. 
De pródigos palmares abundante ; 
A ric^Hangalm-, que mais se ai^Iica 
A' GuUon, qae a guwras, ao Levante, . 



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118 IMSAIO 1 

Gom oaVcM. ^trados Povns, « oBiras QwM 
Ao Rey dé Kmagà obedíMlM. 

Do CaDará já atraz deixando a Costa, 
G«rt!e a do Hclribar, Bcfno ds Uarte, 
IN» Gale vtndD a altiira descgppMit 
Cftia qoem amigo o Ceo .uái* re^me^ 
N^R a aboodanda raina .ii4 idtdpogbl, 
Qtfe ao cdUot » trabalbó exensa, e art*« 
Por ser Enrio rie 
]>a forlkWB Poma 

Enlre o DeCan, \ 

Vai despendendo 

Que com seu cris >, 

£ earíqueoeaâo • 

Com as mais aíta: , 

E ás vezes c'os Planetas, lunuBosoSi 
Atobá aonde em mais «sUeita íòraa 
Do Comorií^D ProÍBOiUorio forma. 

Assombra a Armada ao Malabar rabaEtO) 
Do nome Lusitano hto inige, 
Uas sua coBluinacia, e ódio iojusle 
Moitas vezes tem visito em si o cosligoi 
Toca arma em Calecut o Povo adosto, 
Que atalba a prevessío qualquer parijip, 
As Quinai Santas no K&t«adarl* vendei 
De Alboqueri}De os desenhos dS« sabeúlo. 

A' visla de Cocbin velas tomaranii 
Os Nautas destramente coidadoaoe, 
£ ao mar as firmes ancoras deUaFam, 
Ao som dos Instrãmeotos ballicffios : 
A Terra juntamente saudarain 
Com estrondo, e bramidos espantosos . 
Dos côncavos metaes arruinadorast 
Dos raios do Tonante irailadaFOS. 

A Gente corre, e att ieàa a Cidade, 
Que, desejando vãr, cobré aa ribeiras* 



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■' ■ tiftio vi-, «Ahlrttíi*."" ■ ■ 113 ■ 

Osothoa fttomgtiifé» á^arríedádt! 
De flâmula», {Kiadtieâ,' «'de ttaidc^as. 
Nabeodíría, setíRi^;^tledtf ami^idé , 
Procurava dar lÀoStfftS verdadeira», 
toge' refrcicos ínaoiia á Lusa Geíite, ' 
E ao Capitão fflágtiÍBiío preséálé. - ' 

Este mod 
las soas po: 
nsanfas, dt 
geograpbici 
dado com a 
bia imíla-Ic 
íaDte aqueli 
tíca, examii 
OQ a igDorai 
mação mais 
de colorir, i 
to pelo esta 
do mais eol 
eloquência, 
mais nas Bi 
dos livros, t 
As Batalb 
JlJada cheia 

las o Poeta mostrou- grande habilidade iem traçar o qua- 
dro dos estragos, e effeitvs das «rmat' de fosd, oaino se 
eridenceia da rápida júotura do coaibate eirtrca armada 
de Diogo de Sequei», « a de UBlacâ,- em rftátB desta 

Cidade. .■ ■ ' ■ ; 

Livre Seqiiéln, baiq queiESás- tortMdo, 
Do enganosó.ettrevido pehsxnHmo, 
Eis v& da Armada imiga o mar coalhado. 
Que a demandar a vinha, cm pdppa o vento ; 
Vio que Sèrraç taibbem vinha accossado. 
De imigos'Caialuzes, e o violento 
Estrondo Da'.3Ttenida tetra .ou via. 
Que mais cadamoaeUtbj e ãiai^ crescia. 

Handanòs-tiattts l0g4'eittbarcar Gente, 
Que soceotrá Setrão, em terra invista ; 



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nnuo uosunuo cutkw, tm» tr. 
X c'a valor, qoepede.^ nul ^rasoiter 
A' faria, e rigor bárbaro resista. 
A,lbe salrar alguns, que da insolente 
Torba fagiado, peleijajido á vista 
Da Armada aadavam, dilatando a mute, 
Od da pris&o a miserável socte. 

eotino 
ío rallesce, 
)r divino 
e se offerece ; 
iteato dino 
D valor floresce, 
mada move,' 
o rigor ptove. 

Em breve a tiro ( 
O estrondo comecoí 
Mortes a Ãrtilbaria 
Que iovisiveis os ai 
Sobem nuvens de f 
£ a clara luz do Sa 
A conrusSo medonb 
Que ali a do eterno 

Oflve-se mil gemidos lastiuonts 
Doe que míseramente pereciam, 
Dos Lenboi os encontros rigorosos, 
Que, i&vestiodo hum com outro, se rompiam, 
Híl Vulcdes ralminaotes, e espsatostffi 
Por entre o negro fumo appareciam, 
Bem coino ((nando Júpiter irado 
Com feros raios fende o ar turbado. 

No rigor duro da batalba o vento 
Levanta o fumo, descobrindo d estrago, 
Do inimigo, e o Sol sanguinolento 
Vé de mortos coberto o imnienso lago. 
Succede logo ao Mouro atrevimento 
Covardia, e terror, com justo pago, 
Da GonSiclo fugindo, se apartaram, 
Os <] ie [joberbos no conllieto eatraram. 



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umo n., mnmnja ir. 121 

Dan Tigo k^Ok nus -c«m Tio effieitov 
Da Terra á Artilhtria muita, e groau, 
Qae pouco lhe vaicra. bí respeito 
Sequeira dSo tiveca á pr iaSo Mssa. 
Refréa-the o faror, e ira bo peito 
Entender qne alcançar aos presos possa 
Por pacílicos meios lii>erda<le, 
E a dutar ferro torna ante a (^dade. 

Digam os qae tem tido a desarenlora d^asnstir a uma 
peleja naval, si nâo estão reunidos, e inergicaisente ex- 
pressos nestas ponoas Estancas os priscipees traços de 
lio Itorrivel acesa .' As aavess de fano, que se levanta 
em tarbilbSes, e escurece o» ares, as Inneradas qne rom- 
pem ondeando por entre etlas, o rebombo estrondoso das 
explttsiJes, o choque das embarcaç&es, qae se abalroam, e 
despedaçam nmas contra as onlras, a celenma dos mari- 
nheiros, e os gritos dos feridos, e moribundos, e depois o 
vento, qne dissipando a fumaçada descobre o estrago dos 
savios, e os cadáveres boiando scAire as o>das ! E logo 
a fagida dos Mouros, e a artilharia da cidade disparan- 
do-se toda para proteger a sua entrada ' no Porto ; em 
qual dos nossos Épicos se eDcontrará Bcmilbanle poesia, 
si não TAr em Caaiões ? 

Vâjamos agora eom que calor, e força o Poeta nos faz 
vér a primeira iavestida dada a Malaca, queimando pri- 
neiro as embarcações Guzarates, que derendiam a entra- 
da do porto. 

Arrancam todos com clamor horrendo 
Ferindo os ares, e c'03 remos duros 
As ondas alteradas revolvendo. 
Espuma levantando, e cristaes puros. 
Gritajn também oa iaimígos, vendo 
De improviso o rebate, mal seguroa. 
Nas concavas cavernas repetiam 
Uil ecfaos tudo. e tudo coaíundiam. 

Qual Sf^, tocando a fflf;o oa noilc alta, 
Que em easa cada qua) ter intajjiau. 
Correr a Gente, que da cama aalto. 



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IS3 UlUiO BIMkjUraiOO CailHXf, TUIO IT. 

Albe que a paile, que k a^ma, atioa. 
Tal afr intr, e D* terra s^Kesaná 
O estrondo, e « rozeria repentina ;~ 
Os de Luso enlre taMo o mar cortãTam, 
E por chegu- oe nmw apertavain. 

ComparafSo pictoresea, c«)a idéa ti anUior nfo dsTei 
a uenhum doa. Poetas, qneo preeeéeram. 

Cbegadoa á dii 
Faicr effeito, o ei 
Naa ÍBhsigis Nau 

Fogo ao salitre dl > 

Nos ardenltB pt^ 

Se ÍDTolve, e logi i 

Som coafQB» de g 
' Dos qae morrend 

Bravos os iDimígo8 responderam, 
Támbem a artiibaria dísparaado, 
£ chegando a abordar, os receberam 
Pedras, fundas, e dardos mil tirando. 
Cobertos dos escados, remetleram 
Os fortes Portugaczes ; e pegando 
£m varias partes fogo, n'hum momento 
Sobem chammast e fumo pelo vento. 

Eotron o medo, confusão, e espanto 
Nos Guzaratcs míseros, «ercados 
De fogo, e fumo; hnm lastimoso prauCo 
Aos ares levantando acobardadas ; ' 
Vendo seu fim, algoi» em rigor tinltt ■ 
De outro remédio já desesfMràides, 
Saltam por entre aa cbanmas aocendíMa 
Procnrandft Bo mar salvar as vidas. 

Mas já tasibem no mar a laAgá sorte 
Lhes tinha apparelbado morte dura ; 
Acabam netie ás mim da Gente foti% 
Que a ferina tralfSo viAgar procura ,- 
Presa os imigos já da justa morte,' 



iinzc;;. Google 



un» Tl., cAtimo ir. 133 

fiam-lhes o mK, « fogo sefiullura i 
HoTefo c^Qtra.a Cidade os venoodores, 
QuereJado executar •ova» tig«rssk 

Bem com» o bravo Touro, magOMlo 
Do farplío duro, segue o ^ue o ferira, 
E apenas morto deiía o Uoço onsado, 

)«mira: 

o 

Fo aspira : 

irra. 

Em seil ser o maior inflaxo estava, 
£ aos Edificios, cm que o mar batia, 
Desde os bateis c'o fogo se alcançava, 
Que em balcdes, « jauellas se accendia : 
O sopro Boreal, que respirava, 
A' chamoa forças dava, que sobía. 
Ameaçando o Ceo pontas ribrantes, 
Imitadoras vflas dos vSos Gigaoles. 

O forte Lima foi o qne primeiro 
Huma casa accendea com mllo oosada. 
Descendo sobre o inviclo Caralleiro 
Tiros, que a Pagãa turba arroja irada: 
Teixeira, por amor aventureiro, 
O fogo D'buQia mSo, e n outra a espada. 
Com pesar' d9 ioiraigo, e vilipeidio, 
Fez n'oatra casa rigoroso iacendío. 

O Poela chama aqui PagSos aos Malaios, denomíoaçio 
que lhe não pertence, porque sam Mabometanos, e só 
verdadeiramente por aquetle epilbeto se desigaa os Ido- 
latras ; mas tem a seu favor o exemplo dos Poetas Itália- 
nos, e de muitos dos nossos, que abusivamente denomi- 
naramassim os Mouros; mas e:9ta pratica nãoduixa por is- 
so de ser tão imprópria como seria chamar Hereges aos 
JTudeos. 

Abreu, Silva, Miranda, ham, e outro Auirade, 
A fu do estreito Rio atravessaram ; 



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KNSAio noaBApnm cunco, nnto iT. 
E de tiros formande tempesluãe, 
Sabi4a i Armada barbara estorTaram. 
Os mais, oorreodo ao longo da Ct^de, 
Hil ao fogo Edihcios entregaram. 
Entre 08 primeiros rai Jorge Botelho, 
Em larga idade de valor espelho. 

( 

AO! 

Cai 
Pii 
Ha 
En 
Ira 
E 

Estavam nesta casa apercebidos 
Das armadas Reaes os bãstimentos ; 
Ensarxias, miinin&es, cem os fundidos 
Por Vulcano Mavórcios instrumentos; 
Cresceu a voraz chamma, e recolhidos 
Os Tortea Porlugnetes, pelos ventos 
VAa a Casa em pedafos dividida 
Pelo furor da pólvora accendida. 

Os míseros Malaios, quando viram 
TXo espantosa, e súbita ruina, 
Todos de bnm medo frio se cobriram, 
Solicitaudo o qse o vil medo ensina. 
El-Rei de Pan, e o Princípe acodiram 
A' aqnetie estrondo horrtveí, e dom dina 
. Reprcnsao os animam, a qne rirem, 
E i vingança do grande estrago aspirem. 

PAde a vergonha tanto, c Real respeito, 
Que tomam animosos á defensa, 
£ com mil tiros, de mortal effeito. 
Fazem á Porlugueza Gente oSensa, 
Mas como o fogo já de teilo, a teito - 
Vai correndo velos com fvria i 



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4 *P^ portB' aoDdiaselQ não sabiam, 
iQBelude íbtoUo em norte, « ckaramu viam. 

Em tABta confasfio, em tanto danuo 
Tenros Hehínos, timidas Donzeliaa, 
Imbellâ \ábús cota imerao espanto, 
I! gritos allos ferem as Estrellas ; 
£ cómodo & Mesquita em triste pranto 
Esvaias rogativas, e quefellas, 
Hit TotoB liberaes offereceram, ' ' 
Qoe sendo -a Deoses vãos, nada Valeram. ' 

Eifi-aqtii Hina imitação de Homero, sem com tudo s* 
copiarem os versos da Iliáda, assim como naquelle Poe- 
ma em quanto os Troyanos combatem com os Gregos, suas 
Esposas, Mlis, e Filhas 
de Hinerva, e oETerecend' 
desarmar sna ira contra ' 
é atacada, e combatida p 
Ifaos, e meninos correm < 
lagrimas, preces, e volos 
ça é completa, quanto & : 
accesBwias difiram. 

A derribada Troya, quando a^ia, ' 
E Roma ao natural representava 
O incêndio fero; e a turba, que temia 
Chega iá oade o Rey turbado estava. 
Entre o Povo confuso Damur hia. 
Que por Santo Malaca veúerava. 
Porque devoto Peregrino fora 
A tumba visitar, que o Uouro adora. .. 

OsMustimea, ouMvsalsisnos, appellidam j£fJA«*, etem 
por santos, todos aqoelles, que tem feíUi -n perrgriaaçSo 
de Meca, para orar sobre o sèpnlcbro d«'Maroma. Todo 
o Habometono é obrigado a Ciier esta'perigrinaeló, ao 
menos uma Vei Ba vida. A-mator parte destes Ronteiros 
dirigem-se ao Cairo, donde partem^ em graades carava- 
nas, qae-atrfltessam o deserto da Arábia, com grandei 
fadigas, sendo jaraitos os, que métieai de xaH^ssoj -e da 



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136 IMBUO ito«BJiiBW cnrn», tomo it. 
sede aates de ohe^em allveá, e to tolt&r de 1Í O » 
miatKi dM Garavants fiei naroado n» deserto com wca- 
daveres, queellas vamabandoDando. Estas romagens um 
BDQa foDte i» riqaeú para a Meea, e para o Cairo. 

Tanbm r$ligio fotuií tmaiwt Mo^vnm! 

Veadoí «SJ e: 

•■Nâo le Aíy 
«Que mais 
" Qjie vêr d 
«Bárbaro fa 
"Que assou 
«O Ceo o ^ 
"Quem CQU 

«N3o sofl 
«Homens, f 
«A damoos 
«Além dos 
«'Abranda', < 
«Dá-Ihcs o; 
« Qáe n5ó í 
«Pois Toncf 

Estas palavras, oti 
Que a tudo obriga, a 

O peito, e disposerail ', 

Que a dispor fortes .t | 

Dar manda logo aos 
Que delle, pôde ser. 

Si o esperado soccorr \ 

Antes que a guerra i 

En takio em bellicosa ebrapeUiu:ut ' ' 

. GaHtettiam façanhas espantosas 
0$ da LiKO, e já tarde a resisteKia 
Era Tfia contra as forças Tietoríòaas, ' 
Crescendo bia das cfauiisas a tMcmís, 
K% Torres coDEnnmindo mais Ciidobbs, 
Por ratpe o fogn, e Imoa andava a HWlCr 
Ministra da ii» d'Attoqncrfiie tort*. ■ 

Diçpitizcii;,. Google 



. im» VI., c««mo BT.- .' \i*f 
Andava a, Cjsilfjtio.^efko € vAlealfe, 
Pelo mar decoiTeiulQ A toda a fwte; . 
Solicito acodjuido^ e diligente , 
Co valor graade «çciMiipanhfliido a j^rte; 
E em quasto á ferJe, e victioriwa gftnlfs 
Favor Vulcano dá, Neptua», o MBrte, ' 

Eis vé sahir de mates, tâo ^quiyot], . ■■ .■ 
Como triumphaiida, livres os CMpliroa. . ' 

De qi ' 

Qae 

SolUi 

Teadi 

Dâ d< «, . 

Alegri , 

E do Mosteiro tímido não cura. , 

Tal o VarSo insigne ante si vendo, 
Os que emiogar de filhos estimava, 
A «oBcebidacbf^ara perdendo. 
De se alegrar cota clles sótractava: 
Das armaB cessar «nanda o estnmdo horrendo, 
fim sigBat da alegria, que gozava, ' ' 

B por lioBra dos Hospeíes fl dia 
£m festas pttssa ao sém da Árfitheriàv :' . ' 

Paiecõ-B» que % kaWtot não poéia terminar mettior 
este bcllo, e variado quadro, que, com a cxc^«flt« com- 
pacaeão HW acaibaaifla de transcrever: 

geria necossario traDscrever todo eCanlo 11. para mos- 
trar como 11'pncisco de Sá de Me&ézes no quadro' de uma 
baialba («rr^Etre sabe oom admirável facilidaiie apresentar 
dtffefentqg acosteci mentos, variai os grnpM, « destacar das 
massas, àinapcira de Homero. oslieroeHdcíllBbosas partia 
doK, emp^nkarleP ^n duélits unscAntra os,oubf03, cMfandí- 
los logo aos cboqucs dos balalbOes cerrados, tornar a desta- 
ca—los dellcs, e varjar aainfioílo os estragos, as mortes 
os ferimentos j nbseryaodo scn^re a camolev dístinctivó 
de cada iaitnigo, e oc«loFidoIoeal.'NS»4oÍicfirei «orlan- 
do de citar ,aa oitava» deste Canto.: .que insis' provias me 
pareceraot, para ^rotae o qae levo dt4{i.: 



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12S iNsiio Bion&nfOD ciittco, raio rr. 

Porém Cand, Ragois com Ariaro 
Fazem com feros golpes respeitar-se ; 
E sobre todos o soberbo, e bravo 
SolimSo procurava avantajar-se. 
Garcia, qae da Fama a eterno gavo 
Aspira, veodo o terapo de mostrar-se 
A' tranqueira, qoe Ibe era impedimento, 
Generoso se cbega, si violento. 

As m3os 
E traz gra 
Treme o I 
£ veucedo: 
Em tanto < 
As inimiga 
Rompendo 
Abrir larg' 

Garcia deSá era da familia do Poeta, e Toi depoisGo* 
▼ernador Geral, ou Vice-Bei da lodia, e Pai daqaella D. 
Leonor de Sá, qne desposou Manoel de Sousa de Sepal* 
veda. Senhora que passava pela primeira formosura da 
índia, e qne hoje é ainda mais celebre pelo seu naufrit- 
gio na Terra de Natal, e sua desgraçada morte nos arêaes 
de Africa, com sens trez filhinhos^ e fisposo. Jeronyino 
Corte Real, casado com uma prima de D. Leonor, lhe 
consagrou o Poema de que fizemos mensão no Capitulo L 
pertencente a este Poeta. 

O Poeta faz, que o seu parente Gania de Si execatft 
na Malaca Conquistada, o mesmo papel, que Achyles re- 
presenta na Ilíada, e Rinaldo na Jerusalém Libertada. B' 
elle o majs beilo, o mais moço, e o mais intrépido das 
Cavalleiros Porlognezes, e sem cuja cooperação a Prowl»- 
cia nâopermitle, que aemprezaseremate. Desculpemos- 
Ifae esta vaidlade, ou demasiado amor pela sua familia. 

Mas qual nas officinas de Vulcano 
A çatn cercam os Ministros daròs, 
Quando para o Tonante Soberano 
Os raios formam de Elementos poros, 
7^1 elles, por chegar ao extremo damno. 



: uno TU, CAmoto it. ' iso 

Aquelle, de qáe estavam huI seguros, 
Bravos, quanto iracundos, o eercavam, ' 
£ nelle golpes mil reciprocavam. 

Ellequal já nos CalUdtmios montes 
Das inimigas armas oSo CQnava 
O monstruoso Javali, que as fontes, 
Camilihos, campos, valles infestava. 
Dos inimi^M as altivas frontes, 
E contjctqiastas armas despretava. - 

Já destes se repara, a aqnelles tira, .' . 
Segundo o more o Âcasa, ou leva a Irá. 

Tirou-ibe com a ratça, semilbaute. . 
K' do Thebano, Ariavo hum golpefeío,' 
Que bum a derribar fura bastante 
O roboBtD do Geo ' seguro esleitf: 
Porém o Cavaltetro vigilante 
Se desviai, e fioou Garoi na meio, : ' ; 
Que ali. lhe tinha Íifflibido:a sorte' 
.0 'fiiB da vida em desa&lrada nwrt«. 

Do golpe borre[ido, em partos, mil. deereito, 
Fai com sangue o Pagjjo a terra' impura. 
Ao tempo que Garcia ahrio no peito 
'' Do «tberbo Ariavo fonle esetna. ' 

Pnssado o gtilpe, que líOGado or«ffeita - ". 
TeVei HO intento, já que a maoa^durai i . ' 
T-ornava.a lewnnUir, a aguda esfioda '■■■'■ 
Sabida abrio á vida, á morte entrada.' • - ~ 



Cabd o -fefos 1 péla eroél ferida 
Sanguinolento ri» derramando; 
£ o fero Solimâa, a espiKla^ETguids,' 
Sobre.:GarBtft vai, fogn lirotani]».' ;> "' 
RaixBva o ferro ' agudo, 4^e haiii<cid<t 
Fora do forte. incauta, si imitaildo ' 
O destro Mello a Clrlo, não^ebeg^a^ 
Que no segflToescudorlbo reparai 

âsbira spoz Garcia'» 'fMrtO' Mello; "* 
£ assim rápatar.pòde o cleTo.Hai|iDi. ' 



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130 EUSAio iiomratCD curtco, toko n. 
Traraado férociuimo daello 
Com o soberbo quanto forte isigo ; 
Cnidou o Sorraceoo desfoze-lt) 
Estreítando-o nos braços; mas anlíj^ 
Carvalho nlo eetá, seib Sobro dltro, 
Como o OMiteiro Efe nostroti, s^hto. 

Hom bnra eaptiço forcetando andafam, 
As forças iparaado por reodcr-^e, 
Athe qas mais Irosos se largaiwn, 
PoF tornar co'ai espadas a (^endâr'-se : 
Porém outros- sueeesiDS estorraram 
O tornar, por então, a combaler-se. 
Entrando com gnb fúria os qae subiam, 
k quem nal os llalaios resistiam. 

Corre HeUo mn bárbaros ferindo: 
For onde passa mata, ironCa, Iteode: 
E o bravo Solinio, só resistindo, 
A Cbtistii moltidao deter pertende. 
Decepa btm braço a Artbur, e dividindo 
A cabeça a Leonel em terra o estende. 
Mas, carreando tantos, foi forçoso 
Seguir os nus, porém mais vagaroso. 

Duvido muito qie no tempo da Conquista de Valaca 
bouvesse um Portugoes cfaaniado Artbur ; hojeqneaAn- 
glomania tem feito tantos progressos oeste Paii Clasaico 
da imitação, aiida é mui raro encontrar algacm cob 
esie nome. 

Tal doí MonlieiTos duros acossada, 
O Leão genelroso se retira, 
Porque a vista da morte ao esforçado 
Pdsto que dá temor, valor nSo tira. 
Em tanto com Delaíde embaraçado 
O forte ASbnso esteve ; e dali inspira 
Yalor nos seus co'a vista, e claros foílos, 
E temor frio nos Malaios peitos. 

Com. o LequioCambir Leio te affitfflta, 
E Ca«tel-teaDte c'e Botm» Matan», 



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. , IITBO Vr., CAKTOLO IV; ' igj 

. Que eotio cerrara a irreTOcarel couta, 
Dos breves dias do vilat engano : 
Por juBto ao paladar a aguda ponta 
Entra, e o passo Ibe abre a eterno damoo; 
Sabe rosicler fervente em grossa véa, 
E cabe de bruços na sanguínea ar^a. 

Este, ao partir~se da qnerída Esposa, 
O tornar victorioso Ibe assegura. 
Porém ella affligida, e lacrimosa 
Não lia de esperan^s na ventura. 
Parte elle em fim, deixando-a receíosa : 
E quanto o ama mais, menos segura ; 
Que o corafSo persago adivinhava. 
Do amado Esposo a perda, que cborava. 

Outra imitação de Homero, e de Virgílio ; estas curtas 
digressfSes Geutimentaes amenúam o horror do quadro 
terrível de uma batalha, jillivíam o esfiirito do Leitor, 
cbamando-o, quando menos o espera, a sentimeatos ter- 
sos, e sam a mais evidente prova d» talento Épico do 
Poeta. 

No mesmo ponto entrou pela outra parte 
Da ponte Batburel com nova Gente, 
H BandSo com hum raro esforço, e arte, 
VolUkva, junto hum Esquadrão valente; 
\è AÍIbnso o perigo, e manda parte 
Pa Lasilana Esquadra em coutineoto 
Com Pereira, e Abreo, porque deitassem 
Da ponte a Batburel, c a segurassem. 

Elles, de assignalar-se desejosos. 
Como dúus feros raios fnloiinantes ' 
Aferem pelos imigos, qae Toriosos 
Yictoria se promettem de nrrogattles; 
naraspc c'os Pegús, pouco ditosos, 
Soccoíre a Batburel; roas semiJhanles 
Foram ali os dons ua mortal sorte, 
B«in que em varias feridas, varia a Morte. 

A bocea Bathurel, grilando, abria. 
Culpando, e reprendendo 6e«s SokUdos, 



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133 ENSAIO DIoatAPHICO CBníCO, TOUO IV. 

Quando a laoça, que em morle se involria, 
De Abreo, poT ella entrou tnincaudo os bradcB. 
Cabe o feroz, rendido á Morle fria. 
Os olhos retorcendo ioda indignados ; 
Dar-lhe vingança Haraspe bem qnííem. 
Mas de Pereira o atalha a espada fera. 

Desce i 
Deixa a f 3; 

Cabe o E 
E a rebel 
Mortos os 
A braveza 
Salvar s6i 
E ao rio 

Cos fiazaráles Abdálá soccorre, 
£ aos, que Tugindo vam, o medo enfréa, 
Aos golpes inimigos quasi Torre 
Excelsa, e firme de mudança aibéa : 
O valente Noulel por dle morre, 
£ entrega António, e Lopo á morle féa. 
Quando hum bote de lança o tat Terceiro 
De Annibal, e Sertório Companheiro. 

Quer dizer o Poeta, que a lança lhe vazou um olho, por 
que tanto Annibal como Sertório tinham nm olbo de me- 
nos; parece-me com tudo, que este modo de expressar, 
além de affectado, é^ouoo digno da magestáde do estyto 
beroico. . 

Pica Aonde a Iuí perde dAr intensa. 
Os sentidos confuso^ e turbados, 
Reliraram-no os seus, e em sua defensa 
Se mostram. qSensor^, denodados. ' 

Os de Luso, que Já nejn ^«ai licença 
Para Tugir, qs. vão segu|nd« ousados. 
Pelas ruas, .qne Marte poz, de sorte, 
Que.-j^ as inunda p sí^gue, e occapa a Morte ■ 

Coolii^ nesse lempé se afrontava 
Com Balcão, e na briga perigosa 



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UTKO 11 i, GAHIVLO IV. 

Mal ferido o Ps^o am se indignava, 
£ mais fúria miaístra á dextra irosa', 
Porém fiaadâo, que a peleijar toraava 
RemeUeo por. seu mal, qoe a rigorosa 
Espada, que a BatrSo ferira o peito, ' 
Mais rigoroso nelle- Tas eSeilo. 

Passa o fio subtil pela garganta, 
E do alento vital corta o caminho, 
Cabe elle em fim, qual decepada Planta, 
£ deixa a alma soberba o iDínbo antigo. - 
Clamor bárbaro logo se levanta, 
Cbovendo tirus mil sobre Coutinho, 
E mnitoa, a quem furia tanta alcança, 
Foram do morto General Tingan^a. 

Mas Botelho, Alpoim, Silva, Caldeirai 
Pessoa, e Caslcl-branco rebateram 
As fileiras Malaias de maneira, 
Que em desordem cobarde se poseram. 
Em tanto Solimão a ira primeira 
Invencível sustenta. Não pod^^m 
Os encontros faier de tanto imigo, 
Que não se exponha intrépido ao perigo., 

Não se repara o Bárbaro; sã imota 
De ferir, a inliaitos dando morte; 
Ao valente Gastão de biun golpe: mata, . 
Que onsado quiz provar com elle a sorte. 
A Macedo apoz cate a elma^ desata, 
Passando^lha de ponta hum.peilo forle, 
Qoe e/a Milão sábio artífice forjácui 
E em planetárias boc» [lenperãra. 

Com furia tanta aespada atraz rOdèa, 
Que se f^E respeitai dòs qtte o Ririam, 
£ já a vergonha aos seus o medd eofréa, 
Tornando a soccorre-lo, os que fugiam. 
Gritando, elle os anima, o se recrfia 
Nos de Luso matendo, que perdiam - 



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134 tiTSAio Moaumoo oinco, toho it. 
O camfw. Oh quantas Tidas aeabÃrs, 
Si o Ceo ali a Garcia nlo levara. 

Viaba o famoso Sá de sangae alheio 
O Valar, oomo as arraas, matiiando. 
Aos que irado seguia horrendo, e feio, 
A quem o segue heróico exemplo dando: 
Os inimigos com igual receio 
Delle fitgiam, qual costuma o bando 
Das leres Pombas, da Águia caudalcea, 
Que ligeira as persegue, e rigorosa. 

Conhece o Turco fero o Varão ferie, 
Todos por elle deixa, e aó defeja 
Nelle vingar do grande Ariavo a morte, 
E soberbo o chamou assi á peleja. 
K Já me não poderá tirar a sorte, 
a Qne o Mundo ás minhas mãos morrer te veja, 
V Espera, on foge, que de qualquer arle 
u De mim não poderás hoje escaparte. n 

A'b vãas palavras, que levava o vento, 
Nio responde o Guerreiro valoroso, 
Mas, do escudo coberto, ao mais violento 
Encontro corre intrépido, espantoso: 
Coro duros golpes o furioso intento 
Cada qnal delias executa iroso. 
Ora usam d'arte, e ara os leva a fúria, 
Tractaodo sempre de faier-se iiijaria. 

Ham altabaixo horrendo o PagSo lira. 
Que o Cbristão Cavallelro the rebate, 
£ de poola responde, pondo a mira 
Lá onde o corado pulsando bale ; 
Deo-lbe o PagSo o escndo, e cego de ira 
Cuidando rematar o cruel combate 
Outra ponta lhe lira, mas errada 
Passou por «ntre o peito, e o braço a espada- 

Chegaram a jantar peito com peiio: 
Já do furiosa encontro a gloria &m, 



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HTM VI., CArffIHiQ IV. 

Aos fartes braçfu, já dQ i»Stí e^toeito 
A ferir-se de ppvo, se deviam. 
Has a (anto furor tirou o eSeita 
Bellippsa awbicAo áoB qut poFrian, 
Por offeitder taB^b^n p I^agis forte. 
Parte quereado, em yift, na gpw4« nittrtt. 

Garcia o aio cpuente, e iroso grila, 
Que o dciíceBi co'dle só, e o ajudara, 
Taoto o vér tantos eoatra hna o irrita, 
Si impotar-se-Uie a culpa, uio cuidara. 
Mas no rigor, qoe o imigo necessita, 
Si golpe tira algum, d'ootro o repara, 
Nem o Pagão, que o corttz acto entande, 
Já Ibe lira, nem delia se defende. 

Yfegas, Araújo, e os Coropaufaeíros 
Dos passados aggravos íacttados. 
Em tudo querem ser sempre 09 primeiros, 
Vingativos, ferozes, indigoados. 
Reforçado Esquadrão de Jáos guerreiros, 
The ent&o a vencer acostumados. 
Ao eucoBtro Ibe sahin ; porém já a sorte 
Hams guiava á Victoria, outros á Uorte. ' 

Feroz o encontro foi, dura a porGa, 
E estar mostrava o caso duvidoso, 
Athe que dos de Luso a alta valia 
Pelo Esquadrão rompeo dos Jáos famoso. 
Não que perdesse o Jáo a valentia 
Hum só ponto do antigo ser brioso. 
Que das lao^s passados camíuiiavani 
E, morrendo, vipgar-sç procurava rp. 

No m^mo tempo I^ima, que invencivst. 
Os imigos levara de corrida, 
Acbon diante o Príncipe terrível 
Com a Gente mais brava, e mais Insida. 
Salva-se Apstucao contra o possível. 
Que já BBS niã(» da morte tialia a vida- 



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ENSAIO «MBAraiGO CRITICO, TOMO IV. 

A. batalha mais fera se renova, 
Tazeado cada qual heróica prova. 

El-Hey de Pad, com quem d9o Toí araro 
Amor, ferio tamhem na ChristSa Geote, 
A tempo qne chegou, com valor raro, 
Geinai, de nSo vir antes descontente. 
Não Ibe soffreo o espirito predsra 
Estar da guerra, vendo a gaeira, ansents ; 
Sentido de que AffoBso se eunsasse, 
E segai-lo aa gloria o nSo deixasse. 

Elle o Competidor odioso vendo, 
O sangue se lhe altera, a foría cresce. 
Move contra elle em fim bravo, e lrem«id0' 
Qual o raio, que d'a1ta nuvem desce. 
Ydando o Rey áquelle estrondo horrendo, 
Repentino temor em si conhece ; 
Mas logo, de si mesmo envergonhado, 
O inimigo feroz esper^ ousado. 

A Terir-se começam com. braveza, 
Mas Tez-se conhecer, em breve espafo, 
De Gciual o valor, forca, o destreza, 
E El-Rey de Pan se vio no «tremo passo. 
Acodir^m-lhe os seus nesta estreiteza. 
Tendo já feito alraz hum, e outro passo 
Chamando-o vai Geínal, e o vai seguindo, 
Pelos imigos larga estrada abrindo. 

« N3o fnja? (disse) que o fugir da Morte 
« Be v9o, si ao fatal limite chegaste, 
« Sé para me tirar a vida forte, 
a Pois o melhor da vida me tiraste ; 
a N5o desmereças por cobarde a sorte 
Q Ditosa, que eu perdi, e to alcançaste, 
<c Mas foge, que pois tens ditosa Estreita, 
a Conserva a vida para gozíkr delia. ■ 

Taes palavras Geinal ao vento dava. 
Porque o Rcy assombrado o nfio ouvia, 



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UVBO TI., CAFtTDLO IT. 1 

E de se pAr em salvo só tractsTa, 
Vencido já o vator da cobardia. 
Aladím, que de nada se assombrava, 
Bravo os seas animava, e defendia ; 
Corta hum braço a Rodrigo ; e a Malbtas 
Aulecipon o fim dos riltea dias. 

Porém Dom João de Sonsa, que matança 
Igual fazendo vioha nos Malaios, 
Os olhos nelle pondo, se abalaofa, 
£ tal si acaso dous ardcotes raios, 
Dos ^ue costumam dar ao Ceo vingança. 
Nos ares se mostrassem, que desmaios 
Mortaes aos mortaes causam, tal irosos 
Violentos se encontram, e espantosos. 

Pesados golpes com furor se tiram, 
E com igual destreza se reparam ; 
Nunca taes dous de Cadmo os campos viram. 
Nem os onde Ásia, e Europa trabalharam. 
Logo de ambas as partes acodiram, 
E de modo hums, e outros se ajuntaram. 
Que lhes foi necessário dividlr-se, 
E atraz (ornaram por poder fcrir-se. 

Porém fí&9 torna atraz o heróico Luw, 
Antes persegue mais o imigo bando. 
No já remordem Esquadrão confuso 
Hnm numero inhniio derribando. 
Tal como os Lavradores leai por uso ' - 
A seu tempo as Searas hir segando; 
Ou no moulc Qortar a espesta brenha 
Por dar depois ao fogo asecca lenha. 

Assim derribam na Agarena turba, 
Que a vil fugida por remédio escolhe. 
Brama iroso Aladím, e a vista turba 
A cholera, o furor, qne a alma recolhe : 
Geme, grila, ameaça, e não perturba 
Do medo a sombra o coração, nem lolfn 



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I ENSálO BIOOKUBICO CKITUIO, TOHO IT. 

A FortuDa, que irada se lhe mosVa, 
Dar de heróico valor htfoica mostra. 

De traz de todos por esscodo 6ea, 
Ora offeoder procura, ora repara, 
NSo foge, não, que o seu valor implica, 
Has c'os seus se retira, a quem ampara. 
Porém em rão aquij e ali se applica, 
£ sem dúvida a vida ali deiíára, 
Si ealSo Delaide, e El-ftey aio soccorreram. 
Que dos de Luso a Turia detiveram. 

Sobro bum grande Blepbantc guarnecido' 
De rico arreio de ouro, e seda, obrado 
Lá na rica Ceilão, linba subido 
O Velho Rcy, de forte arnei armado, 
K pé Delaide o segue, do lusido 
Esquadrão dos Daros acompanhado : 
Dous Elcphantes diante delle vinham. 
Que dous Caslellos sobre si sustinham. 

Trez, a qnem chamam Naires domadores, 
As adestradas Feras lhe regiam, 
E das macbinas destros tiradores 
Dardos, e hervadas Frechas despediam. 
Horrendos gritos, bellicos clamores, 
ftompendo os ares, the ao Ceo subiam, 
Chegam pois a ferir, mas lirevemente 
Vicloria oMiseguio a Christaã Gente. 

Em quanto faz G^m), e Aladim rosto, 
Paiva, Miranda, Lima, Jaime, Aiidrade, 
Come[l«ia com heróico presuppdsto, 
Dos fortes Brutos s ferocidade, 
Foi o ferro nos dous primeiro pasto, 
Que com a «aturai bravosidade, 
K das feridas grande sentimento 
Bramidos deram ao turbado vento. 

Os Naires, a que bum t«mpo obedeceram, 
Nas trombas retorcidas abraçaram, 



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LtVBO VI., CAMTtLO ir. t,l9 

E logo c'o faror, qa« ooDceberaoi, 

U«ios m«rl08, de si loBg« os deitaram ; 
Com isto contra oB seus a volta deram, 
JUataffl maitos, os mais desoFdcDorABi, 
Derribando a DeUide laal ferido, 
Que quasi falto esteve de fientido. 

Neste trecbo, não peqneno, a eaergioameote escrípto, 
tem passado diante de oosst» olhos uma multidão de lan- 
ces variados, em que figoraoi differentes Adores «em coa- 
fusSo, e sem se impeccrem : a alteraatira de snccessos 
prósperos, e infelizes já para um, já para outro partido, 
ciMiservam suspenso o espirito do Leitor sem sater para 
que lado penderá avíctoria, e assim se excita a sua curio- 
sidade, e interesse : além disso não se esquece o ^oeta 
de animar os seus quadros com o colorido local, apresen- 
tando o uso, que no Oriente razem dos Elephantes na guer- 
ra, jã faaendo-os carregar com torres cheias de gente 
armada, já fazeudo-os combater com espadas ligadas ás 
trombas, como se vfi cm outro Cauto, já mostrando os 
■iconveDíenles deste uso, pois muitas vezes aquellcs aui- 
maes sendo feridos, exasperados com a àòv despedaçam 
os sens guias, e voltando, derribam, e desordenam as li- 
leiras, dos que os trazem ua sua rrenlc, ajudando assim 
os inimigos a destrofa-Ios : em nenhum outro dos dossos 
Épicos se acham meacioBadas estas círcumslancias locaes. 
Francisco de Sã tom igualmente muito cuidado em 
aproveitar, revestindo-as da magia do estylo poético, as 
tradições, e crença do Oriente ; assim o pratica, por exem- 
plo, com a persMsfio vulgar na índia, de que na Serra 
Jáoa existe um aaimal coja costella esquerda tem a pro- 
priedade de impedir a sabida do sangue, por mais feri- 
das, que se abram uo corpo. 

No 1V> Cauto, narra o ('«eta que, Ayres Pereira abt»-- 
dando um navio^ uelle combate loAgo tampo eow ■» 
Uonro, Blé que vem abrais eom elle. 

Pereira, em sius forças ooafiado, 
Co Agaren» se «braça ; e de tal sorte 
Nos braços o apertou ao ar levantado, 
Que o espirito render-lhe fez à morte. 



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140 ENSAIO BlOOUlUCO CUTICO, ISHO IT. 

O Gorpolenlo AaLbeo asti apertado 
Nds braços acaboa de Hercules forte. 
Porque forpas da May nfio recebesse, 
£ as recebidas ultimas i>erdesse. 

Do corpo despedida a alma iodígnada 
Peia porta desceo da pena, e pranto, 
A'<faella escíira, e misera morada, 
Que atbe no pensamento causa espanto. 
Dos valentes Soldados foi eotrada 
A d^ndida Embarcação em tanto, 
' £, caplivos 'alguns do9 defeusóres 
Depois de obras em armas superiores. 

J^lcaoçada a v 
Saber o Cavaltei 

Qúein fâi'a o foi fira 

Tauto valor, qat 
Feridas mil lhe 
De que aeuhumi 

Em tim pergunt anío 

A hum S^clho, q praalo. 

" Força [diz elle) de cruel destino 
«Em vão com vários meios resistida, 
" Foi guiando a essa morile de continuo 
«Esse, que a. vossas mãos perdeu a vida. 
'■ Querer fugir ao Fado he desatino, 
•' E sam mui poucos os que tem unida 
"A razão á vontade ; e eatre ceuto 
•> Domina os Astros bum c'o peasameolo. 

EÍB aquj tnnos uma allus9o ao Dogma da Fatalidade, 
tí» celebre em todca as religiões do Oriente, e muito 
mais no Islamismo; DOle-se o arliiicio cora que oAotbor 
o traz aqui, não corao rasgo de erudição, mas insen^- 
vdmente, e como um modo de expressar do Sarraceno, 
ialímameale coaveDcido delle, é isto ti que se chami 
fundir a eroóição na poeiMa, segredo com que mui rans 
Poetas acertam. 



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tlVlO VI., OAMTntO IT. 141 

•' Sen bom Progcoilor no rigoroso 
»PoDlo, aotes <le espirar, a mim o entrega; 
-Estimei o peáhor pooco ditoso, 
>t Porque a mioha desdita o bem lhe nega. 
"Servo, si bem no ômor Pay cuidadoso, 
nPiz qeanto a díligeucia humaoíi chega, 
» Por ellé ã varias parles navegando, 
"Oráculos, e Magos consultando. 

»De hom monte de CeilSo na excelsa alteza, 
■'Desde antigas idades venerada, 
'•Onde bom penedo na hórrida aspereza 
"Conserva de hum Varão Santo a pegada, 
"De Scieocia rico, amante da pobreza, 
"O Adivinho Larnão teve morada, 
"Busca-lo fui, que amor hc todo excessos, 
"Por saber delle o lim, vida, e succcssos. 

»]á que a meu rogo levantou Hgura, 
• Deixou incerta as^im minha esperança 
"Com valor gratide, si em secreto dura; 
>> Dará reinando a seu n ' 
"Mas corta Astro infetii; 
» Saa vidd eslará posla 
"Mas si lhe fdr contrari irle, 

"Eterna Fama o livrará 

"Dali' passei lá onde o grande Itip , 
"Mecón 'òríi gruta' escura respondia;^ r 
" PrVpuz-lIie ónieo desejo, ou desvario, 
"E co'a . i>e^posia sssi Dje^desconfia:' - 

— Cortai:á ao forte Mo{o « vital íio; " 

— Hum que virá lá donde acaba O Dtai — 
"Eu doudo enlão.ço'a,dôrv'd'»mor letsdo, 
•> Qniz estorvar a que «^denave o Fado; 

"No mais inculto da /rftgttsa Sârra ; 
"De Jáqa Aaimal fero, ;e rarQ habila, 
"Que virtude n'hum osso tanta encerra 
•• Que, BÉmorá ài Hfísgm, a"d'd'goa imita. 
«Fiz-lhci' alhe o aíeauríri e aos ibiÍDtçs guerra 



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144 KNSAIO lIOOBAPKtCO CUTIGO, TOSO Ir. 

Este é um dos mais belloB eimodios da Malaca Con- 
quistada, Ião abuodaole de episódios «xcellentès, mas li- 
ja-se como o Poeta soube Itgat esta historia com o as- 
sumpto do Poema, faxeodo diter ao Ayo de Nahodá Re- 
guea, que pelo receio que 
por um Português fisera I 
mover o morteciaio dos F 
vingança é d motivo da ai 
Sá de Menezes tinha, ou n 
bem a theoría dos Poemo: 
duzir todos osacoatticimei 
ja-se mais a tema melaocl 
Iremosa, e verdadeira, qu 
VelKo Agareno, e dicida-s 
injustos em accusar de fi 

Poema ! Ã comparaçSo de vm repuxo que se levaola em 
um tanque quando se liie solta o registo, com o sangue 
a espirrar por todas as Teridas do cadáver, quando Ibe 
tiram a manilha do braço, me parece tão Tormosa, e pró- 
pria, como origiaal. 

Francisco de Sá de Menezes, qoe nas discripções de 
combates, mostrou a mais viva. e ioergica eioqueocia, 
com a iftcKhaurivel fecundidade de soa rica imaginação, 
nSo se distingue menos Ho eslylo patético, e linguagem 
aHectaosa, e branda da desgraça, e do amor, para com- 
prova-lo citaremos uma parte do seu episodio de Glau- 
ra, que tem sido julgado pelo mais bello, e mais impor- 
tante do Poema. 

No Canto VI. do Poema, o Rei de Malaca convoca um 
Conselho de naturaes, ê estrangeiros, onde se veniila, e 
discute o modo de destruir os portuguezes. Dm Mago 
Christao, por nome Etol, natural de Melíapor, é o único 
que ousa propflr a paz, proretando, que o contrario seria 
a mina de Malaca. Suas razões excitam a indignação de 
todos, e o Rei manda prende-lo. Nessa noite, por suas ar- 
tes, escapa da prisão, e em um batel encantado se dirige 
á Armada Lusitana. 

Apresentado a Alboquerque Ibe assegura a êonqnisla, e 
victoria em presença dos Capitães, mas accrescenla, que 
aquella-naepóde levar-se aocabo sem entrar nella umCa- 
valleiro a quem o Ceo a deslíiia, e que ora se acha em um 



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IIVM TI., ClPITULO IT. 145 

paiz loDgiqao, onde as Potencias ÍDreroaes o levaram por 
meio de uma tempestade, e qoo ali jaz preso de amor, e 
esquecido da glõriii. Este hefoe é Garcia de Sá, o ascen- 
deole do Poeta, de qaem acima^llámos. O Mago se ulTe- 
rece para condud-Io á armada, uma vez que haja um 
CaTalleiro, que o acoiQpanhe ; todos se offerecem, mas 
Âffonso â'All>oqiierque receiando alguma traina, nega o 
seuconsenso: porém emquaatoellecoiisidera, O. Jo3o de 
SoGsa, Gdalgo. valoroso, cbamando o Hago de parte, sal- 
ta com elle no batd, e partem. O Capitão fica abrazado 
de cholera, e depesar, mas p caso não tem remédio, por 
que o batel escautado vúa com taata rapidez, que dar- 
Ihe capa seria trabalho baldado. 

Os dous viajantes passam sem perigo longo trado de 
mar, e Sousa embebido na conversação do Mago, que 
lhe vai narrando as tacanhas de muitos herues Portugae' 
zes, que no futuro tem de militar na Índia, não ái tino 
do immenso caminho, que tem precorrido. 

De mais Heroes o Sabia Ibe Iractára 
Ornato, e resplendor do mar d'Oriente, 
Si delicada voz não lho atalhara. 
Que rompeu pelos ares tristemente. 
Altera-se o Guerreiro, qne julgara 
Ser o grilo de quem desditas sente, 
£ perguntar querendo ao Companbeiro, 
Ouvem segundo grito, ouvem terceiro. 

Ouvem logo mais vozes, e gemidos. 
Que o silencio da noite interrompiam, 
£, entrando ao coração pelos ouvidos, 
Mais se chegavam, mai?, e mais feriam. 
Ãpplica o Sábio altentos os sentidos 
A' part«, d'0Dde, ao parecer, sahiaia ; ■' 
Por entre a escoridão, que o Mundo cobra. 
Terra em penhascos altos se descobre. 

Ão Guerreiro a mostrou, que com elT^M 
Piedoso o rogou, qne vfir quizasse 
Quem com gritos feria o excelso teito, 
Que a obrigação pedra lhe valesse. 



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146 RHSAIO llOU^raiCO CUnJCtS. TOHO IT. 

EUtl, B&o raa^oB oompaaàTO o peito , 
Oade de $m futOF o mar K esquece, 
O UdIlo guia, e com piodoso nlto 
. K «anu basear vam do s{4Mr«salto. 

Foram^hs is tozcb l&sllroosa gd^, 
E a \m, qoe a Ire^ãa d« Sol ao Mundo ãavai 
Q^e aem nuvfos no Ceo respiaadecía, 
Qoém triste as despedia lhe oioslraTa. 
Os de amor laços belke oS^ndia 
Offãiidida Belleia, qae abrandava 
Com lae^imas o monte, e aa ístitBts 
Feriam suas magoas, equerdlas. 

■i Toma (dizia) serás mais piedoso 
•• NSo usando comigo de piedade, 
>' KxeCuta o maodádo rigoroso, 
•• Si be que intentas guardar Bdelidade. 
» Com rezão tca Senbor verás (|aeixoso, 
.. E eu com razSo te accuso de impiedade, 
» Mas que sejas, ordena o Fado duro. 
•I Cruel comigo, e a teu Sçabc» pr^uro. » 

Assim chorava, qnaado salteada 
Se vio de Etol, e do Gueireiro twU; 
Vence a iMtaral força, e accobardada 
Todo o mal leme, só não teme a morte. 
Uas seodo pelos dous assegurada. 
Pára, já offerecida a cpialqaer sorte,', 
Brandameole a coasolam ; ella em tanto 
De novo torna ao lastimoso pranto. 

Sousa ge lhe offerece, e jfintameftte 
Be seu lamento a causa Ibe pergonta, 
•> Amo, já aborrecida, adoro anseate, 
- [Disse ella) co'a esperança hoje defonla, 
n E quantas ha no loreroo penas sente 
n Meu peito. Contra mím tudo se ajonta: 
» Que taato a ser cruel a sorte chega, 
•• Que me itá mate», e inqrrer me nega. 



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JJTJIO TI., OinTOLO 1T. 147 

« NuGÍ nobre m Siio ; nasces oanigo 
•• Aqisr, que foi- croaogndD om a idade, 
" Que deode a íAMêe berça onei o ímigo, 
» Que idolalfando adora esla vontade. 
» £ tfinbfliD tenro lafaBte, qnaado a&Hgo 
H Me befa o'0m, me reideo a }H>erd>de 
" Esse; qoe ii fiat&r-4ne teu ttesejo, 
n Por qneib TÍv9, per quem morrer desejo. 

• A idade pueril JantM goiámes, 
» Bem, q« auflos ^renis depois negaram, 
" Parai tj>N-iio8 qae traças aso scb««os, 
II Depois que os Pays cruéis dos apartaram? 
» Quaes sobrestltoa, e anciaB Bio provámos, 
x Quando dor-me por Dobo ontto intentaram ? 
• Alhe qoe Amor, e Fé poderatn taato, 
» Que o laço nos tigon dft Hynioeo unlo 1 

» Em tanto \>em, BatrSo, que assim se ohama 
» Meu Consorte enganoso, oa enganado,' 
» Por valer a Malaea, e ganbsr fama, . 
H Passou o campo aznl de naus arado ; 
■ fiquei, qual fica ausente quem bém ama, 
« Quando, (Hão tinha, cuido, o mar passado,) 
« Servo, que por' fiel sempre foi tido, 
1 Torna da parte do cruel qoerida. 

x Na caria, que a «essagê aeraditaTS, 
«Morte a ausência cbamava, e meitizia* 
•' Fingindo, que mostrasse q«aato e amava 
X Passando o mar, si 
n Eu, que só vê-lo si 
» Julgai qve gosto o 
«Vamos, fdissé) lá^l >; 

E incauta òs pés m< 

iiHeram os Nautas de região estranliá. 
mE quem em mim levassem não sabiam. 
» Que foi, entendo, cautelosa manha, 

1 PorqiM diíer de mim. niío saberiam- 

" TomaFam terra ao pé desta m«»tanba, 



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148 OTBMo wooiínHflo mm», tomo ti. 
» Adokde Feras só bramar se 6aviam, 
n Balia cm tado o mais stlenci» naito, ' 
»E cobria a ttootunut sombra tudo. 

,» Cmh engano mA f^ SBltar em t«cra,. 
B Já aparlaíos da praia, e do NaY», 
» Do peilo » d»ro iatento deseocerra 
» TiFando a espada eom furioso brio, 
» Diiendo : Bem qne julgue iodigoa guerra, 
» E truDoar sinta de tua vida o fio ; 
«PenUM; Glaora, mando he ngoroso- 
» De «ctf SeDbar, e teu marido iroso. 

»£a. quã nwrU, piisera tremendo, 
«A. cansa perguntei da miaha morte, 
« N5o sell me respondeu, e o braço horrendo 
«Contra fraco poder .levanta forte. 
B A vida aborrecida aborrecendo, 
. •■ O peito descobri, e disse : Corte 
.. k dura espada o c(rfio, pesae o peito 
» Em. toda a sorte s6 a Balrto sogeiío. 

. » Por elle, nSo por mim, amava a vida, 
« E poia elle a aborrecer eu a aborrepo, 
» Laco de amor a tem com elle unida, 
i.Sua be, como sua Iha.offereeo. 
» Que foi sua sentença obedecida 
B Com -gosto, Ibe dirás: vér que pade^ 
•• Por goBl» seu, e que eHe assim o ordena, 
u Doce a morte fará, suave a peoa. 
"E a teu Senbor, e meu affirma, quando 
- "Ante elle tornes, que de mira offendido 
- "Nuoca foi, e seu gosto idolatrando 
«Horta o amarei, si lá fCr permítlido. 
.. Assim disse, o mortal golpe aguardando, 
" Injusto tpnto, qoanto obedecido 
-Quando, o què já a ferir-me se applicaTa, 
-Vi que o ferro da mao cahir deisava. 

..Pois dar-te a morte o Ceo o dSo penmttt: 
«Que lambem te rebito por Senhora; 

Diçpitizcii;,. Google 



UW TL, OUITULO IV, 149 

» Mas SBt eos dous fiel -se facilito, : 
hSí a ley guardares, .que te der agora. ■ 
» A perpetuo desterro necessita ; 
» Uas pôde o Ceo dispdr que inda alguma hora, 
X CUras as coasas, vos v^aes unidos, 
■ E me sejaes os dous agradecidoe. ' 

»S6 que a vitla conserves, de ti quero, 
'•OccuUa, ou ()eregriná, pdrqae ohegcfe 
» Só de tua mwte a fama ao Rsposo fero, 
xEm quanto a opioíSo errada segue. 
» Assim disse; mas eu que não espero 
»/á da vida algum bem, que o ferro impregne 
» Em mim the peço, e aqnella -cortcaaj ' ' 
»Que estimaçio merece, mé oEtesdla. ' 



nQuem 

■'Eu pe' 

»Elle ÍE 

i>E com 

"Que e 

« Sô me , : 

».Podeã 

. . »The á piaia osegni; aas qual.o veato, 
"Partio Tâãado no. intiel navio; 
»La^jmas de meus olhos cento a i;^to, . . 
» Ao mar mandaram caudaloso Kio : 
"Com gritos penetrei o £rffi«meQta,. 
xUtl vãos queixumes dando ae Veato Trio, 
o Ao teippo, que chagastes, onde agoio 
oUales minha alma: sem remédio chora." 

Os Astros oentemplaido Etol, em "' 
Que a escutava, lhe disse: "As In/. 
xEnictiga, illustre Glaura, que a tiv - 
•■Fim ditoso promeltem as Estretlii. . 
» Hir comnoEco te importa ; deixa U. 
>• Inútil suspirar, e vãEH qaerellas. 



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150 BRMio woourBHM cainaa, touo iv. 
»Yein, Ma)K« verás, em tei^ breve, 
» Qae 10 pcosamento imitt o Icnbo leve. •• 

•• Soihori, (o SoBga dis) &«cega, e lia, 
» Que quando os Aitros falteni esta espada 
«Wo faUará, e te farA n'bum dia 
'•inotamente iaculpavel, e viiigada." 
EUa qne a Etel ouvio, q«« a levaria 
Ao áureo aieenUt, díwe: •• Confiada 
tNa promessa, que he o nais do aobra peito, 
» Vos fflga, e ao valor vosso me sug^tos. » 

Kntbarcam os trez logo, e pela amara 
Lagda q Ba^l v^ ; uo boríBoato 
Em tanto de Hypetion a Filha cara 
Já descobria a rubicooda fronte. 

Esle trechi rra- 

{3o clara, di Íso- 

dio de Glaur lan- 

tasla de Frai nli- 

uaamente co sce- 

nas, e situat vtUt 

de Glaura, i do 

Poema. 

Outro episodio não menos formoso, e qae parece ter 
sido inspirado ao Aotbor pela Dído dê' Virgílio, e talvez 
pela Armida de Tosse, é a historia de Ihilonia, Rainha 
do Cathai, moi respeiíada dos sens poves, como desceo- 
deate da Aurdra. 

Esta PriDceia, (Se moça cemo formosa, havia género- 
sãmente acolbídi) Gercla de' Si, arrojado ás praias do 
seu Reino, por uma tempestade suscitada por Lúcifer, pa- 
ra desvía-lo de Malaca, porque sabia que da sua espada 
dependia a conquista daquella Cidade ; a pequena embar- 
cação, que oconduzia, de£pedaçou-Be msTocbedos, esca- 
pando apenas do naufrágio elie, e os seus companheiros 
Mello, Lemos, ViUalobos, Continbo, e alguns poucos dos 
Marinheiros. 

Agasalhado Garcia, e osems bo Palácio Real, em bre- 
ve se Kjtabelece ealre a Kaiaba, e elle^ «ma oorrespoa- 



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UTM TI., ontnto Ir. I6i 

dencia amonm, tus fao&estt, que talrtz («raiiHsse pe- 
lo Hymcaeo, 8i Btaf, ctaegaftdp ai) com Soa», oo «eo ba- 
tel encantado, não cooseguisse despertar-lhe os brios guer< 
reiros resfriados p«1o amor, redttsitHloH) a eitiharcar-se 
com eite, e os seus «otspaHheií^s, Aigiailo «ceultamenlc 
daqnella peri^sa habttfrpSo. 

Por poria occulta, Ç|fie lalveí deixava 
Ora o cuidado, ora o descuida abaria, 
Fogem ; e mal em taato repousava 
Thltonia, mal dormindo, e mal desperta. 
Andar juolo de hqm Rio enluo sonhava, 
E correr pela estéril, e deserta 
Aréa em t9o, porque beber queria, 
£ como a Taoíalo a agua lhe fugia. 

k grande pena. o coração no peito 
Ue estreita assí, que despertou griundo j 
Ã. voz retumba ao dourado teito, 
A. Gente em somoa involta despertando. 
Cerca a Tamilla feminil o tçlto,, 
De tanto jgrite a causa perguntando, . 
EUa^ispira, e diz : "l^raii lual me aguardSt 
-O E em sonlitos já me aSlige, e me accobards. >■ 

lião teát o mal , que ao {Mmto dwis Moiteíros, 
Dos que a em^aiar a caça madvàgarani, 
A fiigidi doa inctitos gaerrtiros 
A' bella, e triste amante revelaram. 
Julga Tbitosia os sonhos verdadeiros. 
Dos olhos foHles vlv« Itw brotaram, 
: Scono Salmão dBrdo<d'am<)r senle. 
Da inÊuÉti oaaMsaha ÍQipaokdI«. 

Gritando mfla descalça, c mal vestida, 
Apoz o ingrato amado sahc correndo, 
Sem reparar, da grande dòr vencida, 
No credito, qne arriSca, e vai perdendo. 
li neste teinpo a Aurora 'despedida 
Do amante esposo, rinha apparcceudo ; 



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IS2 KNS&IO BIMK&nUCO OníCO, TOMO IT. 

T^roa eUa eatre « Geate, qae a seguia, 

E assin se queixa i que ebre a porta «o-INa. - 

•• Kubicanda Deidade, a quem adoru, 
» Clara, do claro Dia parvnrsera, 
■ NSo consintas, que offeadam teu decoro 
nEm mim, que May te chamo, bella Aurora. 
» Ah 1 n3o se diga que te vejo, e choro ! 
H E que me deixas .em tristeza agora, 
» Que o Mundo alegras, sendo a confiança, 
I, Qne em ti puz, vãa, e via minha espeniofa l 

«E se o charnar-me Descendente (ua, 
mMo sam do Hnndo Fabulas sonhadas, 
» Hoje se mostre ! Impede a tenção crua, 
» Qoe deixa minhas anciãs enganadas ; 
»Assi o Ceo vida a Hémnon restitua, 
-Pelas lagrimas bellas derramadas 
«Dos teus olhos, que enxuga a luz do Dia 
■■A qouD já as minhas fazem companhia.» 

Não disse mais, qoe a pressa, e grande pe» 
A mais larga oraçio lugar nSo davam, 
O moDte desce, em quanto a Igz serena 
Com cânticos as Aves saudavam. 
A' praia chega, e nella amor lhe ordena 
A exeeussão dos males, que a esperavam. 
Dar vé o Navio á vela. Ai fera vista, 
Quem haverá, que a taola d6r resista ? 

O contraste das aves, que sandam com seus cânticos 
o despontar da Aurora, com a« lagrimas, as qserelas, e 
al11ic{^o da Rainha 4o Cathai, sam orna piacelada de mes- 
tre, que dobra o interesse, e o patético da situafâo. Ba 
no Poema muitos rasgos semilhantes, que parecem laa- 
çados ao acaso, e que por isso mesmo indicam aos co- 
nhecedores maior arteticio. 

Já então vinha sahindo o gran Planeta ; 
. Dormindo estava o mar, dormia o vento, 
E qual sabe pelos ares veloz setta, 



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.uno Ti., CAPimtfl IT. 153 

Ro^a o Lenho o liqsido Etemento. 

Conhece os fwgilivos, e indiscreta, 
Reodída qaan(o a Amor, no seo tawento. 
Disse gritando: "Foges, ininigo? 
"Mas do Ceo mais ijgeirohe b castigo. 

"Deoses, cujo poder he iamenEo, eterno, 
•t Do crist*lino asswlo loondores, 
»E os que tendes do mar largo o goverao, 
» £ quantos sois na tem h^tador«s ; 
»£ vós, que lá impenes no escuro Averno, 
» E puQiz dos JDgralos os rigores, 
« Si justes sois^ á pena, qae me alcança, 
"Guardai justiça, concedei vingança. 

■ A ti Nemésis vingadora, invoce, 
"Ea vós, negras. IriD$8S, Ministras d'ira, 
»Qae bem cuido que a lastima provoco 
"inda a mesma impiedade, que ódio inspira. 
-Deste, por quem em pena a gloria troco, 
» Açoite viperino o peito tira, 
>■ E perseguido seja como Orestes, 
»E em ódio mesmo a Humanos, e Celestes. 

■ Oh Thetis, bella May da bella Aurora, 
-Tu qae hes. si antiga Umti me não mente, 
» Da Casa de Tbitan progenitora, 
» Doe-te desta afliigida descendente. 
» O húmido Povo, que em teu Reyno mora, 
••GoAtra o pérfido incita: o gran tridente 
» Empregue neJIe o digno teu Consorte, 
» Pasto que indigno de ISo nobre morte. ' 

H Fique enlce a «asa, e limos sepultado ; 
» De Malaca nio ohegue a vér a terra ; 
»E quando vé-la lhe conceda o Fado, 
»A' traição morra na fvimeira guerra. 
"Mas ai que digo? Amor he só o culpado, 
» Que cego infante sempre os golpes erra, 
«Do peito me roubou a liberdade, 
«E ao prejnro, deixou livre a vontade. 



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i KlfSAIO IHMaWHH» CBIIfC», lOBO IV. 

u Mas, trítte ! que Deidade o lk«omee, 
"£ cootra miio ^r etiese coDJara? 
»0 mv UaBqwlio, e brando lhe oferece 
» Presos Ds Teolos em tuasmoira «scura ; 
» E D nav ift iniéai désapparece : 
i>Ob Deoses inimigos 1 sorte dora'. 
•• Nfio vos noBlreis em todo rígarost», 
•.Dai-me-a morte, aereís-tanbem pieílesost » 

Nesie (empo, veicebdo a dór |>emtfia, 
O. espirito, que iafíMidc aos membros vida, 
Perdea a b^ia faoe a c(» de rosa, 
£ oahira, a oto ser das se» stistída. 
Cercoit-« a turba tettinil chMeEa, 
Imaginando em tudo ter perdida 
A natufai Senbora, e gritos davam , 
Uue en Tatles, e «avetnas retumbavam.' 

Chegou da Itoda, qusuto trirte anwste, 
A vida quasi ao derraderro fio ; 
Usam remédio mil, nenhum baisionte 
Para corar <le' amor « desvario. 
Hera o mal «o da morte semiftaBte, 
Banha o pallido rosto hum suor frio, 
A lui se (uiiM de huma, e de outra Estrella ; 
Uas nsBte eidiieato, por extreme bella. 

Assi, o vitai espirite sospeoso, 
Ao Akaçar «m hr^pes a ícvaraor, 
E com magoa, e còm dàr, pegar immeeso 
Mais activos remédios íhe applicaram. 
Em tanto aquelle sedtimeato inteoso, 
Por quem as vitaes vias se serraram, 
Fez tenao; o recebeedo «leMoo peito. 
Ferio com gritos o estnella«(o leite. 

Domortal paroxêmo em ãl (ornada, 
Se alegram- todos; «fia soluçattdu 
Os olhos baixos, como envergonhada, 
E DO aminroBo escosse imagíõándo. 
Ora amor sente, ora a paixSo ni*s(rada, 



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Livw vt., citimo it: 195 

E o ca» i;i>iR rnão c»B*ideivnâo, - 
A desesperarão ttn aocende a ira, 
Já por vÍDgaDC34 já de amor suspira. 

Este ahalinealo de espirito, esta e^)eeie de p«jo me- 
ditativo, costuma tegiiir->sa sempre depois da explosão 
immoderada de uma paixão ardente, .e forte, mas este 
estado abre.«oaifflttBiD)««te atiaioho para novos excessos, 
e Dovas v'Íole8Cias ; o Poeta traçaado esta pintura da de- 
sordem da alma de Tbitoaia. mostroa grande eooheci- 
ineiito da eeracio huotttKo ãescrareudo-o, não só como 
Poeta, mas coao fracde Phiiosopho, que era; Até aqní 
este magnifico episodio dá, oodio já 1Í2 abiervar alguns, 
bastantes ares de semiibanfa com a Dído de Virgílio, e 
mesmo, com a Armida ds Ttsio, mas Franoiííco de Sá de 
Menezes, que tinha Eobeja invenção para seguir as pisadas 
dos servis imitadores, sabe descobrir meios de Jiombrear 
com os seus modelos, terminando o sçu quadro demodo, 
que' o desemelba iiiteirameute dos do Poeta Lnliuo, e 
Italiano, dando-lhe novo realce, e novo interesse. Veja- 
mos. 

O dia lodo passa entregue fto pranto, 
Também cborosa a ooile não socega, 
E llie ordenava o mesmo amor em tanto . 
Fim, mas fim triste, ao m^l a que se entrega. 
Na gran Coréa, do Japão espanto, 
A quem « paz ha largos annos nega. 
Reinava Jecolaao aos seus acceito, 
£ a formosa Tbitonia no seu peito. 

Desejoso de vêr, e de mostrar-se ' 
Nos jogos, que celebra bellicosos, 
Catbai SOS Deoses vãos, em que ajuntiir-se 

Os gnerreifos costumam mais famosos ; 
O mar passou; e quando a assignalar-se 
Se .a>pp8Pcebe entre tantos valorosos, 
Delie triusiplu Amor; que em ioda a parte 

Ostenta mais poder Amor, que Marle. 

A clara Fillia da lusente Aurora 
A vãr as festas a hum Balcão sahia, 



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INSAIO tiOfiUraiCD CUTICO, TOXO IT. 

Qual a formosa Uty na alegre, hen 
Que o UuDdo alegra, daiulo passo ao dia. 
A formosura «Btraoba o Rey adora 
Admirado, e conleole do ((ue via. 
Todo o suspende hum amoroso eacanto, 
£ a anada Ulterdade perde em Unto. ' 

De anorpreM, sem afana, levanlado, 
Se tornpa a asaistir ao Real Governo, 
D'oiide, pteto que bKo desesperado. 
Todo o mais bera lism amoroso laferso. 
A' boa, ou mi fOT-toaa appardhado 
Faier procura sea amor elerao. 
Declarando quanto ama, e quanto sente 
Co'aa fineiBl, qoe usar pede hum ausente. 

Intenta tudo quanto Amor ensina, 
Por ter da esquiva amada o bem de Esposo, 
Mas dura Estrella, que a rigor a inclina, 
Ao passo que hera amante, o fez odioso : 
Felice em seu despreso otilro jmagina, 
Qne vive qnem bem ama receioso, 
Hum, e oulro cuidado o inquietava, . 
E em amorosas iras se abrazava. 

Nestas anciãs chegou de vòo a Fama 
Da aspirada ingrata, exaggerando 
O mal fundado amor, eh quanto a flamma 
Dos ciumes, e amor cresce abrazando! 
Iniqui^simo a Amor mil vezes chama, , 
E á, que desesperado eslá adorando; 
Geme, suspira, chora, e não descaofa . 
Todo involto em desejos de vingança I 

Já, coBdemnado o Icngo soSrimento, ' 
Passa o mar com treieMos escolhidos, 
E, dando panno ao favorável Veuto, 
Ao Calhai porto chegam desmentidos ; 
Dali sobem ao celebre aposento. 
Todo revolto em choros, e gemidos, - 



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imo vr;, wmvto it. 157 

Hera enlSo alta noJM, e de rep«it« 
Sotram, ferindo a descuidada gente. 

Note-se nesta Estanca' á $ig«ifieaç9D qóe o Poeta dá 
ao adjectivo desnuntiáos, tomaado-o ta accepç&ft de Ht- 
forçados, ou nOo pertenAto, de qve alo lieúbit achad» 
exoDplo em uenhain ontro Clássico. 

Confusas vozes, com estrondo horrendo, 
Nas bóbedas, e teiíos retumbavam, 
Defendiam-se alguns, outros temendo 
Onde cborava a triste amante entraram : 
EIta o rumor oaviodo, e fugir vendo, 
Os que guardar a vida procuravam. 
De bom dardo lan^a mão, e generosa 
Corre, onde a confasSo bera espantosa. 

Bradando vinha o amante Jocolano 
Aos seus, (]ue a amada ingrala respeitassem, 
J! áqoelte, que hera causa do seu daniiio. 
Ou prender, ou dar morte procurassem. 
Quando crvel destino, ao bem t^ranno 
Qoiz, então mais ctvià; qne se encontrassem 
N'hum corredor escuro, donde a vida 
TroKon incduto, detie mais qaerída. 

Com o dardo ella passa o escudo forte 
' Do 'Príncipe infeliii qoe a fera espada 
Mopeiío lhe escondeo ínvolla em morte, 
Lá onde hera d'amor doce morada : 
Gahe a infelice, como o quer a sorte, 
E assi disse, esforçando a voz cançada, 
' «Sejas bem vioda, oh morte, hoje piedosa, 
» Fim desejada á vida tSo penosa!» 

Tere' no coi^çjto do amante irado, 
A delicada. vw; e Ibjto teme 
A desgraça i maiur ; acobardado 
Da sua má fortuna, o triste geme. 
Correm com ioiíés buid, e datro SoMado s 
Seir-daEiuiio recoabeee, e vmdoH) treme. 



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159 BRSAw pioflRAnnco CAiriee, tomo rr, 
O cont^o feros no peiw ardente, 
Que jà males 4a morle, e de amor senle. 

. BroUr o sangve vô do aberto p«io, 
. S adie lista a generosa eepada. 
Por I^Fra derribado o aoreo teito, 
A luz doa bellos olhos cctypsada. 
Vê seu mal infinito, o bem desfeito, 
Worta a esperflOfa, a dãr eternsada. . 
E assi os qaeixumes derramoa ao Vento, 
Qae Ibe diclava o grave sentineato. 

" PoBSivel he que o justo Ceo pervítta 
"Qoe íDjasto Amor, e injosta sorte unidos 
» Prtwiilgueni dura ley co» sangoe eecfipU, 

• Contra fraco» tnortaes endurecidos 1 
-Monstro cruel d'amor, e de desdita, 

- Em quem errw, aem cUlpa ccnCttidos, 
" Pedindo aofl CeM eatão maior vinganga, 

• Qnn baver perdido a Tida, e a eepernsa. 

-Os funestos vistigiflB do fèriao 
»Rigor, que me movia, triste vejo, 
»K ii3o nte mela a dór? duro deslinol 
"Vingança de mim mesmo ler des^, : 
"Olhos que mais cruéis inda imagino, 
"Qne a dura mão, qne tão iitcanta vejo, 
"Enxutos Tóf, sen luz btima e oitra Ktrvlla, 
"A mão a ehaga fez, tAs podeis rfr^la. 

"Oh bejieza divina, boje eclypsada 
"Por esta dora nio inadrertidÓ, 
"Quem como de mim eols, morta, adorada, 
" Poderá com morrer dar-vos a vida. 
"Tu, sacrílega mão accelerada, 
" Para do bem maior ser homecída, 
» Emprega em mim tua fnria, volta o ferro, 
" Contra este peito, origem d* teo ern»; 

"Mas, costumada ao feito aU-oz, rceeív 
» Rçfoçlde a este serás por ser piedoso. 



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>■ Oh ! ntai seja aubi, dBo ! si o eno feio 
»A' Morte ne nio faz Umbtta odioso.' 
"E tu, ^Dtil Eapírib), bent atíh 
M Qae 8g»i» me serás DMíe rí^otoio,' 
' " Acceita este d« mim iriUmo Officío, 
» Si por vingança não, por sacrilicio. •• 

AEsim dizendo, sobre o ferro. daro 
Se laoc», nnles que ser posEa «storvado, . 
Entra po amaote peito o Fado escuro, 
E calie mortal sobre o objecto amado, 
De altos clamores o Celeste aturo 
Triste, e piedoBamente peaetr«do. 
Cobre as Estrellas, e comera o dia 
O suceesso cboraado a Auror» fria. 

Tal d o episodio de ThitoDÍa, o mais pátbetico, e ãro- 
nadco da Malaca Conquistada, a Epopeia mais dramáti- 
ca, que possuímos. Nas mãos deum bomem de génio ti- 
le daria assumpto 
tim exceÚentc Drai 
na época em que l 
do a escrever par 
lembrasse de o Ira 
Iratora, que aclnali 
de que ha tanto, c 
parte dos novos Va 
Francczes, e não 
lianos, mas até a <: 
tos, que foi a nossi 
vros preciosos se v 
por isso a lingDa V< 
profusão de galicis 
saa Índole, e a su 
graça primittiva , 
daqnella loçania d( 
tacto nos encanta i 

e Francisco Manoel , que tanto se esmeraram em imita- 
lofl. Obl com quanlii rnâo clamava o ulttoM & juventu- 
de Lositana. 



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160 XNuio BiooiínHio cnmao, tomo it. 

Gemo ent límpida loDte em bossos Mestres 
Do- Sfieulo das Letras Lusitasas, 
£ nas Paginas lerteis dos Latinos 
Bebua Ungugem pura os bons engenhos. 
Prattcisco Ma»o«l. Efist. I. Tom. 1. 

N2o ha em nenhum dos nossos Poemas Épicos oma 
discrípçSo do Inferno, que possa comparar-se com a, que 
Ee lé noCaatoVl. da Malaca Conquistada ; que rica ima- 
ginação na piotora local! qae tariedade na distribuição 
dos supplicios ! que propriedade na personal íseção dos vi* 
cios, como estflo bem caracterisados os outros habitantes 
daquella funesta região de lagrimas, e tormentos ! Lns- 
bel está ali deaenbado com um vigor de pincel, que faz 
lembrar muitas Tezes o Sataa de Uilton. Bem sei qne 
nSo faltará quem tache dedesacato o, que acabo de dizer, 
e o attribuirSo á falta de gosto, ou exaltação de anuv 
das cousas pátrias, de nenhuma destas duas supposifOea 
me oSendo, nem envergonho; não da primeira, porque 
o bom gosto é um dole natural, que nío depende do íD' 
díviduo, ou possuí-lo, ou deixar de o possuir; da segais 
da porque acho melhor ser notado de demasiado espirilo 
patriótico, quededespresar os nossos pelos estranhos, que 
muitas vezes valem menos do que elles; direi com tnde, 
para que me entendam bem, que estou muito longe de pre- 
ferir o Inferno, e o Lusbel de Sá de Menezes, ao Salan, 
G ao Inferno do Paraíso perdido ; mas susteato, que o 
quadro do Poeta Portuguez pôde apparecer sem grande 
desvantagem ao pé do quadro do Bomero Britânico, e 
]á não é pouco que o nosso Poeta, possa dizer com Cot> 
reggio, acm ser tachado de arrogaocia son pittor atuh'io-' 
Pelo menos não ha no Inferno da Malaca Conquistada, al- 
guns defeitos essenciaes, que se encontram oo do Paraíso 
perdido : Milton, por exemplo, que era um republicano 
exaltado, a pouto de fazer a apologia do regecidio, eo 
vez de procurar o typo do Inferno na Ãnarchia, segando 
'a judiciosa; e engraçada diliníção de Casli 

■ i7t»/femo ch'é? ma anarckia di DimoK. 

figurou o reJBo do Príncipe das trevas coaw uma Ho- 
Barcbia representativa, com uma Camará de Lords. e ou- 



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imo n., CinnEo iv. lOi 

tra deComiDiiDs, qne tem assento em separado, e os seus 
habitantes unidos, paciScos, e obedientei ao sen Moaar-' 
cba. 

But far vsiíhia, 
Ánd in títeir Oto» dimensiona Uke themtthts, 
The great Serafhie Lorda, and Cbenibim 
In ctoie rtetst, and secret conclave tal. 

rjMt. LAT. BOOK. J. 

Temos pois no Inferno de Milton ama Gamara deLords, 
que em suas próprias dimeasOes deliberam separados dos 
Communs, que para prova da sua inferioridade entram 
Qo Paademonio (ransfonnados em ÂnOes, ou Pigmeos. 

Befèold a wonder! they but noto tofto seem'd 
Itt bigness to surpass earíh's giant sons, 
Now less than smallcst detcarfe, in narrow rootit 
Throng numberless, hkr. that Pt/gmean raee 
Beyond the Indian mount. 

Igualmente o sen ódio ao Clero lhe suggerío a lem- 
brança de pintar os Demónios enlretcndo-sc com discus- 
soes iheologicas sobre os dogmas da grafa, e da prcdcs- 
tioação. 

A sua paixSo pela musica, de qne elle tinha nSo vul- 
gar conhecimento, o levou á ficção, mui pouco tbeologí* 
ca, de que os Demónios tangendo, e cantando com a per- 
feição de Espíritos, que haviam habitado oCeo, com ado- 
fura, e prestígios da musica conseguiam adormentar as 
penas eternas. Estes defeitos sam graves, e mais graves 
porque sam voluntários ; mas porqoe os conheço, não 
deiío de admirar o raro talento de Milton, e de fazer jus- 
tiça ás ionumeraveis bellezas de primeira ordem, com que 
sDperabundautemente resgata, e compensa os seus des- ' 
cuidoB. . 

Francisco deSá de Menezes é muílo abundante de sen- 
tenças, e máximas moracs, mas cm vez de alardci-las, 
e eofia-las umas nas outras pedantesca mente, como pra- 
ticou Sã de Miranda, elle as embebe (digamo-lo assim) nos 
discursos das suas personagens com tanto arteHcio, que 



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\Q1 ENSAIO lIOfllArlH» CSm&t, TOHO IT. 

parece qaeiDTOlunUriameDte lhe escapam, segando aei* 
preBsSo valgar, por entre os dedos. 

Outro mérito, e não pequeno, do nosso Poeta é saber 
realc-ar com a elegaocia, e a Poesia da expressão as cir- 
cumstoacias mais Uiviaea, e menos poéticas, 

E em atgnns, a qaem pés, e mãos ataram, 
Saogaineo rito á fofça executaram. 

Poderá dizer-se por am modo roais elegante, e deceote 
que alguns Portuguezes captivos foram circumcidados pot 
força? 

Passou o campo axol de naus arado. 

Não exprime esta expressSo metbaphorica com baslaa- 
tQ nobreza, a ídéa trivial de atravessar o mar? 

Para dizer que Tuão Baudão recebendo do Rei de Ma- 
laca o bastão de General lhe Gzera reverencia á moda do 
paíz, serve-se o Poeta desta phrase. 

Com grata adoração pôslo, que iadina, 
Por trez vezes cabeia, e corpo inclina. 

Mio indicam estes versos bem poeticamente o lomper 
d! Alva 9 

Fugia cobarde 
Do claro Dia a Noite, e já as Estrellas 
Buscavam de Nereo as Filhas bellas. 

V£ja-se em fim esta bellissima Estanca, em qne oPoe- 
ta fazendo memoria de alguns Príncipes Sarracenos, qoe 
se vão retirando da Cidade já rendida ao valor de Albu- 
querque, e dos sens, especifica o estado lastimoso, em que 
cada um delles chega á presença do fiei fugitivo. 

Ali chega Geinal da vida incerto, 
Que escapara das niSos do forte Lima, 
Do muito sangue, que perdia, coberto, 
O lasso corpo sobre a espada arrima. 



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tino TI., (UWTirio IV. 183 

Por mil partes o fino aroez aberto, 
A acompanha-lo em vão Cambir se anima. 
Que rio de seu saogue a Terra esmalta, 
E co'a falta do sangue a vida falta. 

Para escrever este Capitulo precorrí de novo a Mal*- 
ca Conquistada, o bem arcbitectado da sua fabula, a va- 
riedade, e bem sustentado dos caracteres, o seu movi- 
meLto dramático, a rica invenção dos seus episódios, a 
formosura nas suas discripfSes, e sna poesia, verdadeira- 
mente épica, me confirmaram na opinião, que sempre ti- 
ve, de que depois de CamíJes, o primeiro logar entre os 
nossos Poetas Heróicos cabe de juslipa a Francisca de Sá 
de Menezes. 



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saii AS<i 

BIOGRAPHIGO-caiTlCO. 

liIVRO VII. 

CONTINUAÇÃO DA ESCHOLA ITALIANA. 

CAPITULO r. 

AntúHio de Abreo. 



Oi allendermos ao testemnnho dos Àuthores contem- 
porâneos, devemos fazer a mais elevada idéa deste Poe- 
ta, qae pelos seas grandes talentos era geralntenle co- 
nhecido pela antonomásia do £ngenAon>,- mas é muito pa- 
ra notar, que as pessoas, que tanto nos aboaam o sen m^ 
recimento literário, quasi nada uos transmitissem acerca 
da sua pessoa, da sua Tortuna, dos acontecimentos da 
EQa vida, e da sua posição social. 

Um dos nossos amigos possue um exemplar da Biblio- 
tbeca de Barbosa com varias notas margínaes de letra de 
mSo, que parecem escriplas por pessoa contemporânea, 
da publicarão daquella obra, as quaes contém muitas ob- 
servaçSes, em qne, quem as escreveo, se mostra mui bea 
informada das matarias, e ter feito muita diligencia para 
apurar a verdade, e corregir os descuidos do AnUior. 

Em uma das notas ao primeiro Tomo, se diz, que Ao- 
lonio dcÃbreo foi filho de Duarte de Abreo Castello-Bran- 
GO, Senhor da Quinta da Charneca, e de Brites Teixei- 
ra : mas não declara onde, e quando nasceo, ou morreo. 
Como porém ali se não dá á Úâí o tractamento de Dom, 
nem se declara, que ella fosse mnlher do sobredito Duar- 
te de Ãbreo Castello-Branco, parece que desta circams- 
iftDcia pôde dedozir-se, que António deAbreo fora sen fi- 



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UTBO TH., CAnrSLD I. 165 

Hk) natnral, ou bastardo, e qae não nascera de legítimo 
matrimonio. 

Todas as noticias, que temos a sen respeito, se reduzem 
a que ei» homem de boa conTiveacia, de caracter jovial, 
e moí prompto em respostas agudas, e que tinha grande ' 
facilidade em compôi extemporaneamente em diversas qua- 
lidades de metro. 

Consta mais, que ftfa intimo amigo de Luiz de CamSes, 
a quem admirava muito, e procurava imitar, e que com 
elle convivera muitos mbos, tanto em Portugal como na 
índia, onde passeu grande parte de ^ua vida, sem que 
se saiba que motivo o levou áquelles remotos paizes, e 
em que qualidade residio no -Oriente : é fmém mui vero- 
fiimil, que lá fosse com o uolco intuito de mercadejar, 
porque se fosse como militar, ou para exercer algnm em- 
prego público, civil, OB dejustiça, dífScilGousa'seria, que 
delIeeenSo fizesse alguma vez menção nas Obras dos Bis- 
toriadores daqoelle tempo, e com especialidade nas Déca- 
das de Diogo do€oulo, de ordinário tão exacto em fazer 
fflenpio de todas as pessoas, que tinham caracter público. 

Consta mais qua teve um irmão Frade, não se diz de 
que Ordem, Franciscano talvez, por nome Frey Bartbolo- 
meo (le Santo Agostinho, a quem sobre o leito da morte 
conKoH uma graade collecfâo dos seus versos sagrados, 
e profanos, que elle nunca publicou, e que por isso se 
julgaram perdidos. 

Nâo obstante isso o Professor António Lourenço Ca- 
minha, noannode 1806 publicou um pequeno folheio, im- 
presso ua Officina Regia, com o titulo de Obras itinít- 
las de António de Abreo, Amigo, e Companheiro de Luiz 
àe Camões no Estado da índia, fielmenle exlrahidas do 
sea antigo manuseriplo, qae possuimos, em Papel Asiático. 

N3o serei eu qoem dl estas Obras todas por authenti- 
cas na ré de um homem tão falto fé como o Professor Ca- 
minha, tantas vezes convencido de haver attribuido aos 
Bossos Poetas antigos Obras evidentemente modcraas, e 
até da própria lavra delle Caminha. 

Para mim é caso demonstrado, que António Lourenço 
Caminha nunca possuio o antigo mannscripto de Antó- 
nio de Abreo, que seu irmão Frey Barthoíomeo deixou, 
perder, em logar d« publíca-lo : e qae tal códice escrip- 



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160 KRSilO BIOSlAraiCO CKItlOO, TOSO IT. 

to em Papel Atiatieo émais orna impostura daqoelIePoe< 
ta rolho, e bclforioheiro literário. O Abbade Barbosa diz 
dará, e explicitanieute na soa Bibliolheca Lositana, que 
as poesias sagradas, e profanas de António de Abreo, 
companham uma grande Colleeçào, e acreditará algoem 
que elle por esta expressão queria designar Tinte Sooe- 
tos, uma Ode, uma Sextina, e a DiscrlpçSo Geograpbici 
de MaUca, contendo cincoenta, e oito Estancas? Nio de 
certo, porque o Aulhor da Bibliolheca Lusitaaa conhecia 
o valor dos termos, e fallava com propriedade a sua lin- 
gna. Acreditará alguém, que António Lourenço Caminha, 
si possuisse aquella preciosidade literária, em Papel Asiá- 
tico, ou Europeo, deixaria de a dar ao préio por inteiro, 
e se contentaria de exlrahir delia aquelíe pequeno folhe- 
to? Esta suppostçlio é inadmissível, em um homem, qae 
comamir^ nointeresse, que dahi tirava, compilava, quan- 
tos manuscriptos antigos, e modernos encontrava, de mui 
pouco merecimento, e ás vezes de nenhum, para formar 
volumes, que imprimia em nome de authores antigos, 
mesmo phantaslicos, como um certo Duarte Galvão, Poe- 
ta que ninguém conheceo, e que elle fingia ser Estribeiro 
do Duque de Bragança D. Tbeodosio, sem nos dizer qual, 
sem ao menos apontar o tempo, em que floresceo. 

Mas serão apocriphas todas estas poesias? Assim ojol- 
go de algumas, mas não o assevero de Iodas. Tenho co- 
mo tacs alguns Sonetos em italiano mouitsco, cbeio de 
erros grammalicaes ; alguns Sonetos portugoezes Ião mins 
pelas idéas , como pela versificarão. £' evidente que a 
Ode ao Bispo D. Jcronymo Osório, não é de António 
de Abreo, mas de Teio de Andrade Caminha, e qoe co- 
mo tal anda nas suas Obras, impressas peta Aademia 
Real das Scíencias em 1791 , onde pôde vêr-se a pagi- 
nas 205, e comparaodo-se o seu estylo com o das outras 
Odes, quealivem, facilmente se convencerá oLeitor, ver- 
sado nestas matérias, que ella è verdadeiramente daqoelle 
Poeta, que eu tenho pelo melhor lyríco da eschola de 
Ferreira. 

Da porém ne^tc Folheto, publicado pelo Professor Ca- 
minha, alguns Sonetos, e com especialidade o Poema in- 
titulado Discrípção Geographica de Malaca, que pela lin- 
guagem, idéas, e versificarão me parece pertencerem u 



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LITBO Til,, CAPIIDLO I, 1Õ7 

verdade ao secolo de quinheatos, e Dão leobo dúvida em 
admÍ(lÍ-los como composifQes de Aotonio de Abreo ; pois 
aiada que não acredito que d dito CamÍDlia possuísse , 
como diz , a Collecção que se perdeo oas mãos de Frey 
fiartfaolomeu de Santo Agostinho, Dão vejo incompatibi- 
lidade alguma, que em cumpilaçQes mnnuscriplas giras- 
sem pelas mãbs dos Curiosos algumas composiçfies do 
nosso Poeta , involvldas com as de outros engenhos , é 
que alguma destas CollecfOes fosse parar ao poder de 
Caminha, que tomaria daqui motivo para dizer, que pos- 
suía a Collecção completa de António de Abreo, cm P(h 
pel Asiático. 

AdmiltJndo pois como genninos os Sonetos, de que fal- 
to, que sam quasi todos em estyio ascético, soscita-se 
uma lembrança, que talvez não seja desprovida de vero- 
similbanfa, isto é, que António de Abreo, cançado de sua 
Tida vagamanda pelas regiões de Africa , e do Oriente , 
voltando á palria, e desenganado das chymeras do mun- 
do, tomara o haÚto, talvez da jnesma Ordem, que seu 
irmão havia professado, e Bndára os seus dias em um Claus- 
tro, e netle composera aquellas poesias. Dou isto como 
coDJectura minha, mos que me parece não ser destituída 
de fundamento avista dos Sooetos, que passo a transcre- 
ver. Eis aqni o qne serve de introducção aos outros. 

SONETO. 

Oh vás, que ouvis o som dós nossos (*) versos, 
E minha antiga Rhythma conhecestes, 
ApplaudI a qnem íez dlffrentes estes 
Conceitos dos aatigos meus preversos. 

E dos sentidos meus já a Deos conversos. 
Que para o seu louvor sempre estão prestes. 
Si escândalo alguma hora merecestes 
Mudai-^ agora em pensamentos tersos. 

Rendei graças comigo da mudança 
Deste estado sublime, e venturoso, 
Aquella, que he de nós doce Esperança. 

(•) Julgo que nossos é erro typogT«f)hko, ou de copia, 
e que deverá lêr-sc novos. 



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ite nniio Bioflftjvneo ennco, tono vr. 
Da qaal, Bi onvido chego a ser, ditoso 
Hem dias passarei na confiança 
De vir a ter hum eternal reposo. 

NSo indicam os pensamentos cootiudos nestes versos 
o arrependimento de antigos erros, a emenda da vida pas- 
sada, o desapego do Mondo, e a entrada noClanstra? 

O mesmo caracter se observa, e o mesmo me parece 
qne se pôde inferir deste Soneto, em lonvor de S. Boa* 
ventura, que sempre esteve em grande veneracSio entre 
as differeotes, e variadas Ordens Fraociscanãs. 

SONETO. 

Ooator das almas, que iDflammado, e ardente 
Qual Serapbim, trouxeste a alta doutrina, 
De Tazer Anjos cá dos Homens dina. 
Tão celeste, táq pura, e tão fervente- 

A qual qos ipostra. que a tua alta mente 
Nos Ceos tomou quanto de Deos ensina, 
Quando, porque se abaixa humilde, indina. 
De mais perto o converte, enxerga, e sente. 

Daquelle ódio, e despreso, que ensinaste, 
A ter de dós c'o escripto, e com o exemplo, 
Mos alcauça, que enchamos nossas almas. 

Com o qual guardando Deoi em nós seq Temido, 
Vencendo dos Demónios o contraste. 
De mil TÍctorias lhe alcançamos palmas. 

Está tão pouco clara a sentença dos dons ultímos Te^ 
SOS do segundo quarteto, que me parece que elles foras 
alterados, e desfigurados pela ignorância dos copistas. 

Entre os melhores Sonetos de devoção, quesahiram da 
peona do Poeta, pode, si não me engano, coutar-se o se- 
guinte, endereçado a Santa Maria Magdalena, na ac^ia 
de ungir com bálsamo precioso as Sacrosanlas Plantas ia 
Redemptor. 



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lítio VII., GiPtTCLO I. 169 

SONETO. 

Com alabastro de precioso oDgaeoto 
Na casa de Simão Maria entrou, 
E sobre Jesus todo o derramou. 
Lagrimas aos pés seas chorando cealo. 

Ob 1 engano do humana entendimento 1 
Toda a Casa a Santa obra mal julgou; 
S6 Cbristo a defendeu, s6 a louvou 
Por exéquias do seu enterramealo. 

Oh I Propbetisa rara, em cnjo esprito 
O amor de Christo entrou de tal maneira. 
Que firme te fez ser como hera cscripto. 

Tu Toste a immortal pedra, e verdadeira 
Aonde o nome seu ficou escripto, 
Tu quem o viste ao Ceo subir primeira. 

NSo fies inrerifir a este o seguinte, em louvor daCrnz, 
em que o Mediador padeceo. 

SONETO. 

Arvore tríompbal, victoriosa. 
Que co'a raii no Ceo, ramos na Terra, 
A' morada inferoal fulminas guerra. 
Do pfssado iriuqipbo iuda pomposa. 

Tu bes a via porqne á gloriosa 
CArte se vai somente cá da Terra, 
Quando purgas do erro a alma, que se enterra. 
Quando contrita a ti corre, e chorosa. 

A ti, oh Cruz, a ti vou confiado. 
De vér teus doces ramos estendidos 
Co fructo a Salvação a ledo, e presado. 

Sé minha intercessora, e tens ouvidos 
BeQjgna me offerece nesto estado, 
£0 que sómeate ao Ceo doa meus gemidos. 



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170 ENSAIO BIOCB&PHICO GktlIGO, lOHO tV. 

O Soneto á iaconstancia, e velubil idade do moodo, é 
um dos que pareeem iadicar, queoAulhor, nofimdasDa 
vida, bavia abraçado o retiro da vida claustral. 

SONETO. 

Riquezas, e Honras vãas, que ao vario Mando 
Dentro do seio teu volves cada hora, 
Inda primeiro qtie a tusente Aurora 
Baahe de luz o globo alvo, e rotundo. 

Delles fugindo vou ledo, e jocundo 
K' solidão aonde o prazer mora. 
Pois temo, e tremo, que qualquer demora 
Mc nSo sobterrc neste vai profundo. 

Deixai-me viver já sem, o triste engano, 
Em que errante vaguei, nesta pousada. 
Feita para o mortal por Deos Sobrano. 

E Jsempto já da carne tão pesada, 
Isempto de huma vez de todo o damno, 
Da Terra suba a immortal morada. 

O Soneto Teito no dia da Commemorafão dosDefuDtos 
parece bem pensado, e bem c^cripto. 

SONETO. 

Aos que acabam cm teu serviço santo - 
Livras em vida do mundano enleio. 
Por lerem do amor teu o esprilo cheio, 
Da gloria tua veste o eterno manto, 

Benigno Pay ! aos outros que índa tanto 
Bem não merecem, e convém por meio 
Do fogo ser purgados, abre o seio 
Da clemência ao desterro, á pena, ao pranto- 

E neste santo dia, em que a memoria 
De todos eocommenda a Sacra Esposa, 
Que o CvA dotou de graça tão notória. - 



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LIVBO VIL, CAPirOLO I. 171 

Seus ais ouve na Pátria veulurosa, 
£ manda aos Aojos dessa eterna gloria, 
Que nos alcem de Estancia luo penosa. 

O Soneto a Jesu Christo respira lodo o fervor, e alTec- 
to de uma alma convertida, e a firme esperança na mi- 
sericórdia divina; e é igualmeote um doa melhor versiK- 
cados, de toda a Colleccao. 

SONETO. 

Cfaamei, Senhor, por li, regando o estrado 
Com lagrimas da minba consciência ; 
Bem sei que não mereço achar ckmeucia, 
Nem, sem tua grafa, ser justificado. 

Mas do esprito contrito o puro tirado 
Na ara de bondade da tua Essência, 
Co coração provado em pacleocia 
k' tua vontade oiTerecido, e dado: 

Elles me alcancem teu amor immcnso, 
E minha alma, abrasada em vivo fogo, 
De desejos te oITerte o puro inccaso. 

Desta arte poderei, alçando o rogo, 
Tua morada vér ledo, e suspenso, 
E do Mundo sabir com desaíTogo. 

Qualquer porém que seja o merecimento dos Sonetos 
de devoção de Ãnlonío de Abreo, tenho para mim, que 
os que elle dirigio a objectos profanos Ibe sam muito su- 
periores, talvez por terem sido compostos no verdor da 
idade, e quando a soa phantasia se nSo achava obscure- 
cida pelas sombras da idade avançada, e pelas tribula- 
ções dos remorsos. Tal c este, em que o Poeta se liirigc 
a Cbaul no tempo, em que estava cercada por um pode- 
roso exercito do Nisamaluco, que ameaçava a sua ruiua; 
attribuiado aquelic flagcllo aos vicios, e ás delicias dos 
seus moradores. 



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m ENSAIO BIOOB&PBICO CUnCO, TOU Vf. 

SONBTO. 

May dos Deleiles, da Cobiça, e Onteoâ 
Perversa Bscbola, e só de roubos cora. 
Que aos Yicios todos torpe altar renova, 
£ o Hatrímonio de infiel accena ! 

Cbaol dormente entre a frescura amena 
Dos teus Jardins, accorda á vida nova, 
E si o ponco temor de Deos to estorva, 
Dos malvados receia a justa pena. 

Coberto de pesar, d'entre a raioa 
Dos Edificios tens, alçando as palmas, 
A Deos pede segura Medicina. 

Do pó da áÒT vestindo as tristes almas, 
Applaca de buma vez a ira divina, 
E assim do Ceo vé se a tormenta acalmas. i 

Desgraçadamente as reprchensfies, que o Poela dirige 
aos moradores de Chaul, nSo eram uma esaggeraçio dó- 
clamaloria, bem pelo contrario, ellas assentavam emían- 
damento verdadeiro. Os Portuguezes estabelecidos na 
lodie, já não eram aquelles bomens de ferro, entbusiu- j 
mados pelo amor da gloria, e pelo fervor religioso, qae 
seguiam as bandeiras de D. Francisco de Almeida, e de | 
AlTonso de Atboquerque. Todos os Historiadores, tanto oa- 
cionaes, como estrangeiros, nos informam, que esses bo- 
mens pervertidos pelo exemplo dasnaçSes, com qaem vi- 
viam, corrompidos pelas delicias do Oriente, sem miis 
ficto que adquirir riquezas para submergir-se na crapo- 
)b, e nos vicies, só cuidavam em dar rédea aos seus p» 
zcres, e a nm luxo ruinoso, que lhe enervava as forças, e j 
animava os Povos Indígenas a rebellar-se contra elles, 
perdendo aquelle terror, c susto, que nelles haviam inei- 
lido os primeiros Conquistadores. Tal foi o estado en 
que D. CoDstanlíoo de Bragança encontrou a índia, e de 
que forcejou, ijuantopAde, para a tirar durante oseaViW' 
Reinado ; mas o mal tinha lançado fundas raízes, e Uin- i 



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LITM TIL, CAMTn.0 I. 173 

Ta sem freio, nem medida. Os Portugoezes receDlemeate 
chegados do Reiao, aio eram próprios para applicar-lbe 
o remédio; já nSo era, como d'aates, a lIAr da Nobreza, 
que lá hia procurar boora, e illusirar-se pela gloria das 
armas, era nma tnrba de arentureiros obscuros, que se- 
dentos de ouro, lá corriam para mercadejar á sombra da 
milicia, enfrascar-se nos vícios, que lá havia, juntaa- 
do-os ao9, que levavam da Europa ; foi a corrupção, e a 
soltura de costumes dos Portugaezes, que arruinou a nos- 
sa influeucia, e o uosso poder no Oriente, ajudando as- 
gím as causas externas, que sam conhecidas de todos. 

Depois de repreheader tão asperamente os Portogue* 
les de Chaui pelos seus vícios, que hiam produzindo a 
sua ruina, o Poeta se volta para Deos implorando o seu 
auxilio, e a salvação do estado, em dons bellissimos So- 
netos, que passamos a transcrever. 

SONETO. 

Handa, alto Deos, aos Portugueses peitos 
Hum impávido esforço como o antigo, 
Que a frente abata do cruel Imígo, 
Ousado a destruir teus santos feitos. 

Plantada fique a Fé, e os seus preceitos, 
Que o Filho teu nos deo com peito amigo ; 
E elle soffra o exemplar castigo 
Devido aos seus, e mais aos nossos feitos. 

Nos olbos seus, que já olhar te sabem, 

Tal luz Ibe pOem, que os Mouros vendo os cégnen^, 
E com toa gloria ás stias mãos acabem. 

Como Ovelhas perdidas se congreguem, 
E envoltos no próprio sangue acabem. 
Depois qae ao Português braço se eitireguem. 



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174 ENSAIO BlOOhAPBIGO CMITICO, TOMO IT. 

SONETO. 

Manda ora, alto Senhor, sobre a ousadia 
Do cruel Mouro esforço a tens Soldados, 
Porque possam vencendo denodados, 
Troncos mil esparzir na terra fria. 

Nos peitos sena lhe põem tal valenlia 
Que os Tortes EsquadrCes deixem prostrados, 
E só de os vér altonitos, pasmados 
Tremam do auxilio, que tua mão Ibe eaiía. 

E desta rara meravilba, e gloria 
Bem claramcQte tua, a ti se cante 
Accorde canto de eternal memona. 

O Lusitano Povo te levante 
Padrão perenue sobre sua Historia, 
Que os Poios ambos de esplendor espante. 

Não sei si o Omnipotente deu atlençSo ás supplicas 
poéticas de António deAbreo; mas oqne nãoadmitte dá- 
Yida éqiie não entrava nos planos da sua alia providencii, 
e misericórdia, que a Cidade do Chaul cahisse de doio 
uas mãos dos infiéis, pois que pelo seu austlio os sitia- 
dos não desanimaram, resistiram com valor heróico aos 
inimigos, acobertados, não já pelas suas muralhas, e bas- 
tiões, mas pelas ruínas delias, e delles, e que o Nisami- 
luco se vio obrigado a levantar o Cerco, e desistir daeis- 
preza, que tinha tanto a peito, com grande perda des 
Eeus, e maior quebra da sua honra militar, e da opiniio, 
que no Oriente se havia concebido do seu poder. 

AfToDSo de Alboquerque fallecêra, como elle disse i 
hora da morte o mal com os homens por amor i^El-Rà, 
e mal com Sl-Rei por amor dos homens » e si a sua ea- 
trepidez sem igual, as suas expedições quasi romaniicas, 
8 a sna espada sempre vencedora o haviam feito temida 
de G0a a Malaca, e de Malaca ao Cairo ; a soa probida- 
de, sem mancha, a fundação de um novo Portugal na Ift- 
dia, o seu talento administrativo, a jusliça imparcial) 



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LIVBO VII., CAPITBLO I. 175 

pAsto' que severa, tinha tornado o seu uome grato, e res- 
peitado até dos próprios ÍDimigos. Contam os flistoriado- 
res, que algumas vezes os Índios desesperados com os 
veiames, que soflriam dos Porluguczes, hiatn abraçar- 
se com asepuUura, emquedescançavam asciozas doRe- 
foe, até serem trausporUdas para a pátria, e comlagri- 
mas, e gritos implorar~)he protecção. 

Não admira pois, qae a vista do tumulo de sm homem 
de tanta virtade, serviços, e que tamanba gloria adqui- 
rira para a sna pátria, exaltasse a imaginação ardente 
de um Poeta como António de Abreo, e Ibe inspirasse o 
seguinte 

SONETO. 

O Corpo jaz aqui, que o gran ibesonro 
Da Pé, da Caridade, e da Esperança, 
Saber, justiça, esforço, e temperança, 
Guardou, que ora os Ceos tem por divino ouro, 

Venerou, e temeu Gentio, c Mouro 
Sen grave, e santo aspecto, e a Bel lança 
Sempre ante elle venceo, tu que olhas, lança 
Flores, versos na tumba, palma, e louro. 

De Reys vem, a Reys serve, o Reys subjiga, 
Trez sempre, e Reinos trez, duas vezes toma 
Ormoz, e cnrva-lbe a cerviz imiga. 

I!m que barbara lingua, cm que Idyoma 
Igual Heroe se vio na Grécia antiga. 
Na gran Carthago, nem na illustre Roma. 

Este Soneto parece-me digno do assumpto, e nelle ha 
TÍsIumbrea do estylo do Doutor António Ferreira, e ape- 
nas acbo nelle qae notar alguma dureza no quarto verso 
do primeiro quarteto ; e a pobreza da ryma lança verbo, 
lança arma, no segundo quarteto, posto que nio Taltam 
exemplos deste uso nos nossos Poetas antigos, e mesmo mo- 
dernos, que não deixa por isso de ser defeito. 

Das muitas poesias de António de Abreo, que se per- 
: deram em poder de seu irmão, só escaparam as poucas 



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176 imAio BioMuniGo ctmeo, Tom n. 
que por nm felis acaso, foram parar ás mi« de Anloiús 
Lourenço Caminha, entre as qnaes a veracidade de algu- 
mas émailo problemalica, e destas a mais importante, e 
que felizmeole í também aquelia coja antbetUecidade pa- 
rece mais bem comprovada, é um Poemeto, qae coDtém 
a DescrípçSo Geographica da Cidade de Malaca, qae prfr- 
bavelmenle foí escriplo quando o Poeta ali vivia, k lia- 
guagem é puramente quinhentista, o colorido verdadei- 
ro, e fiel, a versificação corrente; mas tanto pelo estyls, 
como pelo metro me parece estar muito Ituige da gru* 
diosidade, ebarroonja de Camões, e da correcpSo deFe^ 
reira, e Caminha ; que sSo os trez maiores oraam»tos da 
Eschola Italiana entre nós. O Poema é como se segne. 

DESCRIPÇÃO DE MALACA. 

O Sábio Homero, o Lívio, e MonloaiMi, 
E os de mais no Parnaso laureados, 
Que escreveram o licto, e o profano, 
E 03 feitos, dos Antigos signalados; 
Mil looros dam ao nome Lusitano, 
E a sens heróicos feitos sublimados, 
A Fama pelo Mundo os «pergóa 
Da Fundsçao de Ulysses athe Gôa. 

Confesso iugenuamenle que não percebo a idéa do Po^ 
ta nesta Estaaça ; não sei que louvores podiam dar Ho- 
mero, Tilo Livio, e Virgílio aos grandes feitos dos for- 
iDguezcs, que só tiveram logar muitos séculos depois di 
morte daquelles Authores ; quererá o Poeta dizer, qae as 
almas daquelles grandes homens, suppondo-as nos E);- 
sios, lá se occnpam com as proezas do Condestavel, de 
AfliaDSo de Alboquerque, de Duarte Pacheco? Que as ce- 
lebram, e engrandecem lá mesmo? Este pensamento poé- 
tico podia admittir-se, mas era necessário que Antooi* 
de Abreo o innnnciasse deste modo, aliás esta primein 
Estanca, quando se examina com attenção, s6 apresenta 
uma perfeita embrulhada. 

Grandes os conta a Terra, e os mesmos Ceos, 
A Gloria immortal lendo por Cbroaisla, 



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De toita'«^£(Ht^, e Ask G^M boiAtMí 
Ooáe -tem diiatúla a.^ui oDoquiata.'. 
O seu louror isempto de labéos, 
)á no Maaàa nlo ha qaem Ibe resiMa, 
O mesmo :teiDpodelie9iO'ameilrenta, 
E do sea braço' rígido os isei^tc. .. . 

Empreza he d« Minerva, do sen Gboro, 
De todo o raro Engenho, e peregrino, 
£ athe do p}ectro de Affif>fal36 canoro 
O Lusitano e9for{!o, e seu desltao. 
£]Ie canta de si seu próprio Foro, 
Que a&o ba mister foripa esse «urft-^lki. 
Por todo o Mnsdo cantam seos toarores 
Os Gregos, e Latinos EBcrípt<H«s. '- 
■ ■ * i 

Traçar somente quero a descripçSd ' \ 
Da Gentia, Malaia Cbersonesa, ' '"' 
Da Terra, e Mar, da Gente a çondlcfíí6, 
Do regimen, do tracto, e àa riqueza, ' 
Do astuto iffligo nosso a pertenpSo 
Com que o esforça a Gente Portugueza, 
Da usança da Paz, e mais da Guerra, '. 
E do regimen, que em si tem a Terra-, : 

Passando o Oriental Mar por Taprobapa, 
£ colhendo nas ouda$ espumosas 
O celebrado Gaages, que a profana 
Gente lava com sorte desdUosa, 
Dali correndo a Terra MartaTana 
De Bramas, Gente fera, e viciosa, 
Despede bam. longo braço c'o preceito 
De nunca Eólo ter nelte direito. 

Obrou a Natureza por lai arte 
Por bem dozralas legoas, que o estende, 
Tendo áurea Cbersonesa n'buma parte, 
E de outra o gr^ Maleio, que a defeiMle». 
Ag bocoas Ibe estreitou mais do remate, . 
Com que Neptnno humilde. fse Ibe r^nd», 



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«NSAIOl-- 

GraUr, fl » pm eíle- grw *»tó«» ~ 
A Droga, u Pcfcwia» aPratat o Qvs». 

SMa brava Orie^itat ite aSmaâo, 
Este liqriíio fi«alttko,:>iDfa(muiOr 
Uabometlm lod» notneado, -. ■. 
Por muitos aanos foi de Rey prorano: 
fntià9 íeado * BftrtJBM o.«(i-f(4o , 
Presan» nais à&,9\ qpe ser biwwWi 
Um <1<mU frenwi"^ o ^f^paufivia 
A invenãTel GsBle {'««iMuia. .. > 

Baftt«.^l« dQ AfIJço. aEseDMda.' : . - 
Itz «'hviN vianda íerlil, e eauDeqte 
De Malaca a Cidade memorada 
De Povoa Oríe^laes, e do Occidente, 
Por causa do Commefcjo frequeatada,' . 

Ínerida dos amigos ^r preceikts. . ., 
emida do? imígos por seus feílos. 



Pelo cei)lro,bnii) formosfl, e, caudal Bio 
Beiq como (i Tybre à Boma, à. formoseoia, 
Formoso, cristalino^ ,e mui ^òmbriQ,' 
De mil Nações por pontes se frequenta, 
,De huma parte, e da outra o >il Gentio 
'Se recolhe do t.nso em Turfb isempta. 
Reparo algum d9o tem Grme, e seguro, 
Que 6 Luso braço nSo eonsenle moro. 

Francisco de Sá de Meneies, na sna Malaca ÇoHf^ú- 
íado, lambem rererè, que aquella Cidade n3ò tinha mura- 
Ibas, nem rorteficaçQes algnoias, mas ppr outra razão, qae 
dá nos segninleg versos. 

Muros nao /Vifiricoít, ptrqui tu dftjwwa 
pBS JVatafaes » ittâomita ^roMca. 

Ant6lM»'<to AbrWk, dis aqoi, qae «s PovtugfKzes éqie 
Ibe oSo péntílliam ter murãldas ; qwt áoe doos se tt- 
gana ? A pHtneira opinião Mm « sen Ufíbr a Taleatii 



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-:.'itiT|o V3I., umnnii 17(1 

dM JlaWo&, psoTHbial ad Oritrale ; a fltgwHia parece 
ser filha da bod imlitiGa dos l>DrtBguflias, qite ^vivendo 
hq meio de tantos, e tão feroi«s iaiiíiigiM, e lio loDge 
dalndla, deYÍiaBipnKapiFa£i]aEegaran{« prohibiiido-lbe 
i& foTteficafGeA que. podiam servir cooda ell(s. 

HoDi|Deabo -a visita, artodie de ouro ' 
Das ií^uis8i«aB ibíd^, ccandoes, . . i 
De Saphyras, Rubis o Pega Mouro 
' Be pérolas mm preço Orientais. 
<: Qs braços tem jápunwde l&esMni . 
' - paRoeea VeJfM, e todos deaejaes , . 

■ ■ DeCaafora o Sraofe acompaobado,'- . . > 

'' £ de AmlMr qué ontpoe maitts mais prefido. . 

Subido oBCo doftitato destro ChiB, 

A Itiia seda,' abn»carv poroelAna; i. 

De SatuMra o s^iare Benjbi», 
' E ladd em que se ceva a sede kmoaHy 
J) rico Siata já ilado no Bremim, . i 
'' De Coohim ò caliímba, que olio ajaBa». ' . 
' ' Dé Sapata «hambo, aitro, e vitoalbae 
' táapercetom cetein», e moralbac. 

Os Sondas, e Malaios com Pimenta, 
Còiu massa,' e no2'o$ ricos Baadatlâzes, 
Com roupa, e Urogaé Cambaia a oppuleflta, 
.£ fl<tm cravo os iQflgiijUQS j^aluquezes: 
Bengala com mllpapuos a Trcqueatà, 
Nem falta São Ttiomé com seus trez mezes, 
Esta de mattlimeutos a.roraece, 
E Jáoa de oavallos a guaraççe. 

Ali a skibtU obra d9 lap&o 
Frecedp iuda á materí«. de a^ro. e ptata, 
O tecido,' e o lavrado- de, invenção, 
E o mais, de qoe alfuea aqai t^o trácia ;, 
Avaros peitos farlos tioarSÔ, . ; 

Almas não, que a cobiça não ^e farta, 
Aqui )as o tfaesoaro Oriaatftl, 
. . Que se espalha por iodo 9 U^v^Efal. 

12- 

Diçpitizcii;,. Google 



180 EHSàlO 1 .- - , 

' Um n tato em naito t^ea, tende';^ maiit ■ 
O qm tafito precede ao nooBltctov 
K vírtaíe dw prapriM ailiBaes,; 
QUe aelta vi, e iwfao eiprnienttdo : 
0-Vtiicornío, que -tanto decanues, ■■■ ■' 
Por ontro nome Abada Domeado, 
N» ha ooB» «n s» eorpo seiu ^Veilo, 
E conlra todo o msi^ uetAom eiocítoi; ■ 

UniGornio está aqni, nfio no scnlida vrigar, dl^gnan- 
do am animati fabuloso^ qne t^m.nn aó e»rao, qie passa 
por grande espee^ce eontea toda aqúalídade de veneno; 
mas sim para dnigDar om-dos aniniies mais tèroies, qoe 
se ciínlweem; e quasi tão «ofpoloflto cama o Elephante, 
com quem anda em perpetua gnerra. Os Gregos chama- 
ram a esta ^eia, HhynoccroMet e os.nossofi antigos lhe 
deram o nome de Aiad». vocaèdo ttdves tonado de al- 
guma das linguas de iMhMtãtK A denajaina^o de Uni- 
comio, qoe o Anthor Ibe dá íqti, « ^eeutroa já lhe ha- 
viam dado, parece convirperfeitanteate éqoeUe gigante 
dos matos, porque a nataresalhe coliocoa sobre o nariz 
um fortíssimo, e agndo oorno, q«e lhe s&cva de defesa. 
Creio porém qne o A-utfaor leva a exageeração demasiado 
loDge, quando diz 

JVao hfi eoim «o» $tu eorpo sem pfooetto, 
£ toftlra. todo o maí, nenitm exceifo; 

pois em nenhpm naturalista encontrei ainda méndonadaB 
tantas virtudes do Rhynocermrtc. 

Em grandeza nSo chega asm aliava, 
Mas sendo quasi igual ao Elephante 
Nos pés, pois náo possne nelles jsntura, 
NSo se pôde deitar, qne ae levante. 
Í)é Mula tem o rosto, e em tromba dora 
O curto, e grosso cbmo de díameute, 
Abocca mui rasgada, oSpoilos grossos," 
E em cada pé trez nriías, fortes ossos. 

ORhynoceronle, on Abada nio tem propriamente trom- 
ba; mas siinptéisiMiite ». beiço am peacoproleBgaâo, 



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troa Tn.j CAWTOto i. ■ 191 

como o Tapir, 'mtsa o oohio' ffltá. c6llocado nellt,' mas sobre 
o nariz; e mesmo (ftraado iAotive98e'jUtiti]ras'DBg!perDas, 
Bem por isso ficarÍB{irivftdeiledeilar-«e, elevabtatt^se, por 
que a natareza, tpieé pra?ida,lfae daria meios para isso, as- 
sim como dea ás CoiuBS, o ootros atimERs, ijlieiíão tem 
pernas, os ndos neoenarios para anãor, e pdtHU a ^u- 

IHO, i ' .' ■ ■ I ■' -. ■■.;'. 

Â3 pedras dereVáfUo ceteBràdaS ■ '; 
Pelo Mundo por usos excellentes. 
De bochosde íogiossam liradss '- , 
Nestes Haiaio^ tnatos florescentes, 
E as do PoreoTEsplin também tlMadas ' 
Aqui vi de Tirtudea emlaentes, ■ ■ '"- 
E o còiviclio, qoe a Cobta teM, sõtaieitte 
Desrai' á dura pedra- ent continente; '- ' 

A estas deu o Ceo virtudes làcs,' " ' 

Sue ao n^al d 
ellas usam c 
, ÍDÓ Physico a 
■'., Contraoqne '.'[ 

':,.' , Que traga ol ^ 

■ ' Esô contra a 
Do iniquo pei 

Dá bem oAulbor aesteoder smaldada. dotiarapSo hu- 
mano; énaverdado ««nico, ou quas oníco v^enò contra 
oqnalnão sedeScolirioaíadaafltidãtv.-AcdaGacfio, asieis, 
a religiio; oasuppIJcios btdo íidba, tudo é io^iirtenle coa- 
tra a. maldade. dos bomens,'. qiu apesar de tinb) se abaa- 
dooam aos viGioa,i e,<perpelDajn crimes,, e Retintos, por 
mais odiosos, e abomináveis, que sejam : a razão parece 
<pfe:Bãii»nbe'Gerve para ttmnroshomeDsnieisppevBnos, 
ajõdaitdD-os a>eccaU8T:fieRi^8ttc«tadDs;'eipaJiÍa'-loslco« 
denodiioaoifesespeoiDsae,' :eii.lDgar de cooduai-to para 
a . vinhide.' BoUms inão dunidoii eseiéver, que jobemei» 
jM5bia/'majU, parque erá isao a sua natureza.. ^sta^optaiao 
tem sido motto cond>atida,^ttas pveC£^mB-que osTriba^ 
mmfa, e o OonCessicHoano advogara poderowifente"o pare- 
cer JoPbyloiaphoJn^. ■; <j -j-:^ ■ : J "1 -' , ' (' 



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J8S muo wonAMM» »»i«a, nono ir. 

AcfOi o Capro &ÍgBo-he temporado, 
. . ' B o Lw ooDlra a oõtii^ GMgrtphãav 

De-BoaiUs matiaa o Tbrde prado, 
£ a ribeira jaz asmpre ali sombria, ; 
O Baeqae todo o anão está oompaÁ) 
Com feros animaes, que estranho» cria : 
Tal qne Yenus, e Marte de viçoso 
O esúdbeiD para o sen furto amoroso. . 

Aqui na mala espega, e ^rasdo feno 
Ambos doces eSeílee conclalram', '. . 
£ ora em verdo' Ouleiro, on, em aaeao, ' 
As armas, e o amor ainus qniraai, , 
Aqui o doivado pomo, que o yeaeoa ', 
Esconde dentro em si, ambos fruíram, 
O Satyro de ioTCJa desatina, 
E o Phauso, que os yé, d'amor£e fisa. . 

Creio que foi António déj Poe- 

tas antigos, que fez uso do epoíi 

pelos melhores Escriptores' ( siaa- 

(a é mui poética, e b rasg< ívm 

Tersos além de gracioso, ei oeài 

antiga. -, . 

Cytharea formosa, alTeiçoada 
A' Terra, que lhe deu coDleatameDto, 
A deslÍDi a Nãfâo mais estimada, 
£ traz a Lositan^ a «eus asseatos : 
A Gente ■ seu Mátorl&aesemilbada, - 
E qne possue á& aineF seus movimentos ; 
Já de tiama, e d« Mfrauoiua ii preeminência 
O lem mostrado a hug^ experiência. 

Tanto > Edicção de Camniba, eowa o Paraíso tusib' 
M Tomo II. traz ne principio daat^ talso^ Cyntiu, 
í);fnHntt, mas en subetitut este neme'^petO' de Cytherea, 
q»e:ine pareceu a ticffto gdnaina, e a oottat-esnltado di 
ponca exBcvão dos Copistas, eu de descuido do Aalbn. 
tiMBhÍDada esta Estanca ean & dntiBcedente, o lie dtl 
idéas pede qm se lâa Cytberea, e não C^Dt&la, poR|«t 
aquella, e não esta è que o Poelà niostqt folgando amo- 



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nsameatofitia peOcob dft<6MHTBi; beiíflariiSaipaío á ter- 
ra, ett qMMuffi^w^tnigmwkf^én^t 4«Btregoi)-^s Por- 
tuguezes ; é claro qné uão se trácia de Cyutfaia, mas de 
Vénus, que segníKlotiíiií-derCámfies', noa sftssíifsiadas, 
é a Deosa sfftíjçoada, a«s Ptírtugti^es, e Guaci^slante 
protectora. '■■"■■.[ • 

A forja aonde o 6do amor .séápiíríf ,~-, 
Pos Povos, bé ãõ Rçy a gratidão, ! ; 
Esta dilata o Império, e ã veotuca,, __. .,,\ 
E nâo desarma seu poder em ^3o. 
. ^. Esta cria o esAirço, a chaga ci^ti, ... ., 

., E toma Heroe.» miuiiflo Yarâo,. . 
£st^ dilata -sempre o Luso Eâta^o^ . > . . ..i; 
... Pof mar, e terra.aléiado imagi&ado^ •.■,.'.■.. 

. .ji .'Es(ai(rwuati«^Beraft.valeate< .t •' ^ «: > 
< |AfftQía4'Aíboqlierquei.(faferame90S ,> . . 

! '.£etlos oíf ando, gai^a DO OríeatB' k. ^ -"c'...; 
. A mór pfliie dos Reyaos beltioases;' -. ■'.■■-.:-i m \ 
PMS.meralta oestyloicompeteotã, - : <> >■ y <-^ 
.1 do alto Booero oâ versoa 'ssnof o»sy - ; / .■: ■'■■. 
^ói.4hret, q(ie.seu$/eÍtãa.b8m,Bias(iataiDv ,-:- . ^.''1 
Que pela Pátria, e Rey se execularam. 

A tudo vence Affii(lí,'ou tarde, onlògcí,'' 
Qoeopdloque heIéal,'elie"flmtiMáíj i' ]' 
Traspaça pelo ferro, cagaá, efogcr ' ■ ', 
Constante, Srmé, lê<io, e amoroso, '' '^■'■■' 
Criado este Heroe foi no tnaN:!» jogo," 'l 
Aonde o esprito sen fez bellieoso. * j 
PorsenHey odtKloiOheíoiWisteíMs," '^ 
Alt9^ niurçs^ deix^tn^o ali desfeitos. . 

Descínla,,T(i, Çpliope,,o,gH^(#p« -,. 
O impávido, Ãlineid^^me^iitVfaííoM ::/ . , ", . 
Aquem.da mor^.aFfima IUÍer<tov., ,< , . r- 
De immorlal palma, e la\iro çoril>a(í(ii. . , 
Esle foi quem a.p,alria s^blimoi;^. ...j . . .^ ■:■ 

Çon.«flimeii)Jíií(rp.,.fi#t* ?iffii>êl4íío.,i * y 



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IM B1IUI0 BiofumM GHin», nm tr. 

- Qae4'Amat e EQroi»'URHB]pto foi d«'btot(Ák. 

Amor que tornoa sangaeesta pplAole . 
Das Torquescas NapOes, e das Sultaou, 
A Zona tórrida, a Bacchica Gente, , 

Hahometicas, Gentias, e Profanas ; 
Descantem deste Heroe tão sabiamente , 
Quanto amou leys divinas, e as humanas. 
Ditosa Laãitania, e o Outeiro. 
De Abrantes, que criou ial Cavalteiro. 

Snpponho qne nesta Oitava se introdaziram efros de 
eopia, que alornam iniutelligivel. Que qòer dízec, qoeo 
Amor (ornou attfoteAlt sangue fás 'IfaçÔa Twrqwicaí, 
e Sultanas? Qoaes sani as Napfies 'Sultanas? Porque se 
denominam aqui NafSes Bacchicas as MahomeUmas, Gen- 
tias, e Proranas? Acaso porque sam^ da lodra, e Baccfao 
conquistou este pau, segundo a Mythologia? Ou porque 
Baccho BDS Lusiadas se serve dos Mouros para impecer aos 
Porluguezes ? Mas aoB Mouros é prohibldo o vinho, e po- 
vos que a religiio obriga a ser abstemios, n&o sei com 
qoe propried^e podem chamar-seBacchicos? Se rossen 
Ingiezes, ou Soíbwu, babadores mesures, e «Amados I 

Recontam os annaes mais verdadeiros 
Da Li)sit«Qa Histqria Ocienlal, 
O quanto iIlusU'es foram laesJLmeiros : :, 
Da sua feliz pátria Occidental. 
Como foram Heroes, e C^valleiros , 

Em ganhi^r este Içiperio alto, e B,ea) ; 
Em defender a Pátria, ^o Rpy «ervir, 
E seus rivaes Jmigos destruir- 

Governa com poder, e masdo ísem^to 
Todo este Sul do Norte separado. 
Tende péstopor^obra o fúnâAit^nto 
Para abrir «GoiBmertJio desejédtt': 
Sulcar por n&ta via o salso' tr^lilo,' ' 
No leobo Canari abalizado, 
£ pôr em fin o Sol em grande cotftai; - 
Que a seu fieos, c Ifoaafcba isnltfVrtata. 



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■ ■ iw» vti., aintBto T. 1 

AnMtlftbtfTdariulenta, e'Dá(diei& 
A ferài lanto delles reciaifa, 
Qae DO Gommercio abe-lo clarcr vem 
Pela agoa, pelo fogo, e pela espada. 
Heio abre ao Luso Estado qual convém, 
K fim da bonra, e Fé Sei" dilatada, 
A Nas jti se apercebe d'úlil Gente, 
Argonanti animoso, e dlK^ente. ' ', 

Prestes estava }i a' sabia Gente, 
Odiosa por roubos; e afTamada, 
Trabilba cada bom com Turia ardente, 
Para a Empreza em seu damno designada. 
Em vão o Costa se arma diligente, 
De bellicosa faria, e mão armada. 
Porque chegando Almeida denodado 
Desfeito deixa todo aquelle Estado. 

Ajuntam com presteza os Samatriííos 
Galiotas, e Galés a mais Úé cento, 
NSo lhe faltam canhões, e columbríaos, 
£ bellii 
Cem m 
ComC: 
Enão 
Doqnc 

Sobre á tarde apparece na ribeira 
Com soberba, e conliada p^esumpçSo, 
A Cbersonesa Armada mui ligeira ' 

Com bandeira, p estandarte de iaveoçSa; 
Do Levante a ordem guardam, e a maneira 
Em cerrado, .e aberto o Esquadrão, 
O mar enchem de velas iniinitas, , 

E lodo o arde Instrumentos, ede gritas.: 

Comeltem a gran Nau em nvlle escura, ■ 
Faiendo.o fogo hum dia lamiopso, ; 

De esforço estando cheia, e da ventura, 
£ do Luso valor sempre animoèoi 
Cada hum dos Argonauta» bem procniíi 



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Nesta .enp^'«aabiw,haoiMlliK:bn»un. 
Vencem aDÍiD06,tllpB«m,pol(:ja' j. 

Todaacoti^pftr.aUa.queâllBKtai ' 



Aates, que, oh. valor I«uso, abaJles, tallef ! 
Oh que espantosa scena parais, o 

O vêr que tudo çin fogo, e grila ardia. . 

Pega o Togo por vezes, Deos o apaga; . 
Tudo teota o brutal comettiraenlo, 
Cada hum ein despreso a vida estraga, '• 
Porque oonbuo) i quer sem. veucimeuto ; . 
Tentam com fúria huma, e outra ilharga, 
Morles Btaltum com sal4il,ín|leíilo, 
Só lembra ao Luso o Moura aq,ui vencer, . 
Nada por nada deixa de ftaer. 

Com oleo, e cal, penedos, e-pontjíes, . , 
Com arteticios mil, e surriadfis 
Os coQvida Caraoja ; ma^ pioutjDes 
O' almas sabem .dos corpos dcsatttdas. 
Perdem vidos, galés, e muniçOes, 
Em menos de trcz horas desastradas ; .' 
Se sangue o mar, e a tçrra se .ajagou, 
J, o Estandarte Luso ^e aj'yqr(tu.. 

Decúbito no ibar, è terra logo, 
E nãCrdadb dando òAriptena, ' 

Com animoso assaltú accefide ftfgo, ' ' , 
Porém nas chammas supportoá a pena.' 
Oh Ceftã,'c)uã incêndio IMas o joslo rogo,' 
Movendo o Summo Dcos, depreça ordena. 
Que o cristaMo Poló^se-lurtiássè, 
E que bom diluvio d^àgiià o crpagasse. ' 

Tudo perdem no nar, e na Cidade > 
Us q8««asaiB entrar nella eufníetídos, 



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,UTI»a Tll-i SAmVM la " ■ 187 

. . M>H^« :«)brevBm em ijutwâí afa, ■ 
Vorim lo^jse Tem arr^>ie«diílDS. 
Muito mór Ibe parece a morl«n4»de, - 
Do que -be a ingente copia dos feridos.' ' 
DeJian^ o campo em fitn as costas dennii 
E, as armas largando, se abolberain. 

TrabBitia «alBO àifwà*. |Kir rorrar-EC, 
E em «ateQ mór. combale refazer-se, 
P«rém p&iori em vm de melliorv-se, . 
£ acaba ao aStucode psrdjer-se. ■'■ 

Ousado, e íeD^rari» qutt càegar-fle. 
Mas o ;leiBor ly fai aiTepeoder-^e ; 
Retira-rO por fim o grate daiooo, 
Avisaudo-o, já tarde, o deseogaoo. 

Os BlettQnk». quairo lhe ínpediron 
Do divioo faTiK. »'qt>,e. esperarvara. 
No mar. a a^a, « v«at« Ibe affiMidiram^ 
Galéfi, e Galeotas, que estimavam. 
CoDlra eties (erra, e fogo as£i conspiran., 
Que ,49 vjvvs; úpmi os. mortes Ee joatafant ; 
Veado-se eoiij.Hralíos i)'J9mD óiooieata- ' 
Cwtra.e^es mar, lerrai-fo^i 9 ,v«^to. - 

. Oh' poderosa 't«^ de Jleos, armada . 
CoDtn » laido ]il»<ifo, e [emeqlidA, ' 
j S^»« na terra, « Ceo sempre «Kttitada , 
. . Com (erao. peito, e cotaçSoTepdido; - , 
iPoi» tendes a sti^erba. derribada^ 
Não só deste rival torpe, e descrido, . ., , . 
Mas d'outros, igualando com o cbSo 
O podtic ^e H«liqu^, e do Uidi^cSo. 

A^tt!t4ra rápida, e in^elftosa d«sta cwntate é um 
dos melhores trecbos.do Poema; tqnto pelas idé«s, como 
pelo colorido, e yeráfie»ç5o. ' -> ' 

Não fica en pé o "intqiM" Malabar, ' ' 
Imigofero, «adai.-G btltícofro, ' -'^ 



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rss xnsAw iiMiirateo eunt», tovo iv. 

Com qnett ^li- qtM valar trattttk' etnpr^r 
Vai, que é doS lepiatTa mesos paãeiroso: 
Unidos-iKat paderam «osq&htãr 
O Hando, e nflo lhe ser dilficalMsai 
V6de o poder de Deos,' qne i)'bam:sá' amo 
Os desfae pelo braço Lusílano. 

Mil gFBçaB ceftde Miiíeida da Victoría 
A qo^at delias Autbor he coubecMo, 
H qoe por seu serviço, o tionra, e gloria 
De lha dar tSo felice foi servido : 
Pede-lhe o qoe trazia na merâoría, 
Que he- vtr-se de Malaca despedido, 
A Cogc se apercebe, embarca a Gente, ' 
Na Nan se embarca o Ctèta diligente. 

Batregando o Governo de Hataca, 
}á Senhor do despejo Oriental, - ' 
No dia dos tréz Reys feliz se embarca: 
Co'a nova pertencão Occidental * ' 
Alia.orael Parca aadai o staca. 
Mas nada, si Deos qner, a Psiva vai;' 
Abrio a Nan ta) agua daai^- & vela, 
Que 'pouca' esperan^ boave de reneé-la. 

Embarca aSapitâ^ rymar oo» ataca, e Mataca, por- 
qne está de permeio o r, qoe deslrbe aconaonancia. An- 
tónio de Abreo parece qne rymava com díffiouldade, oa 
que ao menos era pouco escrupuloso nesia parte, porqae 
nas poucas poesias, que restam delle^ sCettcoatram alga- 
mas destas rymas falsas. 

Vencida qnasi estere a Nauifior agoa^ 
Que vencer nunca p6de ferro, e fogo, 
' S»H'ter FÓDKdio atgBar!inais>4o'qiie~ anagUt 
'' Neste- azo da Fortoua, e dosoa ^g!o>: 
Mas Deos, que foi a Gota ^«Bt» taM8, ' 
OuTJo do Luso peito o justo rogo, 
E a viagom segftí.fa» per^osa ; .. ' 
Com estylo mais j4sto, e mãBgna. 



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vm» nL, CAKmo x. is» 

Sfvpre.Dew favorece o bom r«speit«, 
£ senfWfl os Derees tem da sus mão, . 
Passa o jovi-e dos Yentoa » despeito,- 
Yictorias mil alcança ao Hidalcão : 
.CsÉi esforçado brio e Luto peito^ 
O fim vence da «ua perten^, 
Gfaega à Pátria, e do ftey bb Teoebído ^ 
£oli pnMíca fauia, e pato agndoculo. 

Sa Viagem Ibe den, e dos Terigas 
Das gnemei e do eoooatco SÚjatriBo,-. 
De seu poder^ Estado, e dos amigos, ' 
Das armas, da Milicia, e culto iadino. 
Do Melo de eitíagoir estes Imigos, 
Que laMo anWa com Favor divino, 
Estas palavras o bom Rey diiia, 
E deste' >gflitb Ahneiâft rtsptndia. 

M-Podero60i e atloi'R«yi a'occaifíSo 
» Que Deos offr«ee agórã de extirpar 
*• O -SamatTim inpevlo, èm uoSsa mSo ' 
» Certo está, e a Té sua dilatar. 
■ Não^ehias pois, Sèahor, esta Saãiío, 
n Que ao diante será de dámnos mar ; ' 
» Olba <(ae a léiapò htí disto avS^dõ, ' 
tt Olha bem o que importa ao teo Ksta^õ. 

» Desd'a aiiAa Taprobiioa attie Jap9o 
nSe estende hum tar^, rico, e Vasto Estado, 
.1 qual èom poflcas forças, « tnVeuçsi '' 



>>Sam, Terras de NafSes á r^Sò dada^, 
" Que sé podem domar, e^ couverler, . ,. 
nDe tódas as riquezas semeadas, 
» Que a mortal Geale aeb^ eu muit» ter. 
•*SítdMi»,:« do bem jpi) abaftadaa, 



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MO ENSAIO BKMUUUVM» IUI«C0t' TOMO IT. 

»Dft- lado quanto 'pede o- tnniáD» isr,-' 
«Não deixe» pois, Senhor, tao nobre emproa, 
■ Aioade ganbarás boDra, e ríqneza. •■ 

• Entram no Ãdacben oen Naus cada anoo 
-De bellicoMS Tnrcps, prenhes de ourc^^ 
«Das qiuee tiram, proveíloi e faztm dkmno, 
t>Poia.<lbiD-eiigeiibo,>e'arte eo bri^ Mouro. 
«Blil, e vinte quiotaes, que não me engaDO, 
» De Pinenta reloroa ao sea Thesóuro; 
» Si isto pois «talhar se b3o prooara 
» A poesutr tÍtío. a múr .Tenlnra. 

nSuft guerra he já gperra goerreida, 
» Sen desftoho. at& qm foi diSiirute, 
«Negocêa cop ôi«oi«:ei«h«isad», 
9 Aos oaicw R^« 'm*n do enente. 
oDelennioa atalhar com soa Armada 
"Os bbBS, djue Tíwdo Soi ISo.faciltDonle. 
» Cercar jáoiais Nvlsoa o&o perleade^ 
-PwJiâ^r QHirp 10^0 qoe a oOendo. 

■< ireo, o infido ^anatrim, , 

»A £slado, t) esper^^içai 

»E com ouro o ÇanDorii^, 

» C a, e Uelique fa^ lianca : : , 

»P . linem guerra ao nosso tim, 

"Cem arrojada e barbara pujapft - 
» A todos peita,, e moi^tra it <Jaf}Sie»o, 
» Quç te^Bi de devastar M» e Cbrietão, 

•>0s nossos priacipaes sani os direitos, 
•■ Que sustentam íio Oriente o teu Estado, 
"E estes vem do Sul por dous Estreitos, 
"Bem como ao Uiiodo todo está mostrado: 
"Selecd, e Singapura bem aceéitos 
» Pelo sabroso fruito, e desejado ; 
"Destas duas gargantas tudo pende, 
"Que Èsle imigo atalhar tudo perlcDde. 

" Ao tei General ^o Oríenle, 
» Tão importante empreza só compele, 



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1 - IW» TH.i^eíl»IWW:ir • . 191 

' : ^i)«ri80M, ,e iaiconsMdis p^omene. 

■l n V«lar. Sul coBln Nerle de repente ' ' 
. I "lO war auavessado logoloMe, ' 
' "for^iBO' Jandiniidci. Norte h« s^irv^adó- ' 

> .^ColD itS'i^iiAs'.do>Siil, e «pnweHad». ' 

: mO ,Tiircov o dm Ifctgal, e o HidrioSo, 
., »2(ína)iiez.c«ílig«o, «Jlítabar, ; r , 

I ..r Alç«da «eiDpre tem a foMe mSD . . 
..."Ten^Kt.^c^arcIaitd» jSxd, e bom .logor^ ' 

».Pafa< todo « fB¥er..ao â«í .negar, . 
••Pois estando a seu cargo o provimento, ' 
. . «MSo.pedom bitar neios aõjutHéuid.» 

Prooede d'alina,'e bonra anjof' levado 
 seu, Rey nas, lembranças proveitosas, , 
.Mas quem olvidar p^ds o d^ljoado, 
'ÍE o gírq ;d9s, Éstrellasiufflinofiasl - , ' 
Inteotax. coniett^las he de ousado, 
Do .er8it4e o perlender, courts .b«iiroaUt ' : n 
. Vemwr.âuiíera. l«e>,.e #i)iríoao, - 

Mas foi;7lftp o fadp.ftvafp,, 6, ímt4|}oso. ■ 

As nove Irmâas, que no Parnaso habitam, 
E se banham nas aguas Cabaliuas, 
Me aconselham, e pedem, e inda invitam 
NSo prosiga nas cousas Samatrinas, 
Hum novo canto a começar me ificílam 
Em altas cousas de memoria dinas. 
Si intenta-las cantãT o engenho rudo, 
Desculpa obedecer ás Musas tudo. 

Descançar quero hum pouco pois me obrigs 
De hir cantar outro assumpto dos portentos 
Da Fortuna, e Neptuno dnro imigo. 
Como de Eólo os rijos movimentos, 
Os snccessos, os casos, o perigo. 
A. que homens deram causa, e elementos, 
K por fim o que o nosso bom destino 
Alcançou por hum modo tão divino. 



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'193 ENSAIO SIOeStMOOD «imCO, TOIfO IT. 

Que assampto .seria estii qneÀRlOBW' <i& Abro perles- 
dia cattlar? SegVDde as iiéaa d» temi» é natnral qne 
Uvesse em vista a composição de algom Poema Épico 
sobre as facaobas dos Porlogneies na índia i 6n em oa- 
tra parte do (Uobo , maa leTon HIe a efiini» este projec- 
to? Deu-lbe ao menos priocipio? Nfio se acha nos Coo* 
temporaneos a soluto destas perguntas : é porém mat 
crivei, qae ti rile compAz o Poema, aqaí promettido, 
qualquer que fosse o seíl geaero, 'derra ratar incluído na 
graode Collecf^o das suas PoeNas^nas ses irmSo Frey 
Bartholomeo de Saato AgostHiho , a quem elle a contioa 
antes da sua marte, julgou a propósito dar-l&éfitii prí' 
Tando assim a literatura Nacional daquefla ríqãeza poé- 
tica. " , 

Si oqaetlK .GoUeeçSo eiiatisse, poderíamos Jtilgar com 
segurança até qne ponto António de Abreo fora merece- 
dor da reputação de grande Poeta , que desfíncton em 
nm lempo , em qn« florescia CámBes r mas limitados a 
julgar do seo BEterec^mento pelos poocos versos, qae nos 
restam delle, de alguns dos qnaeã é mtit problemática a 
aulhentecidade, força é qne a sua gigantesca fatt(a se re- 
duza a mwto acanhadas dimeBsSes , e qne o seu nome 
possa apenas ser oollocado entre os dos Poetas de segui- 
da ordem do c«tekrado Secolo de Quiabeiitos. 



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CAPITULO II. 

Femm Alvares do Oriente. 



n. Cidade de GAa, Metrópole do Império Porfngnez 
AO Oríeale, um dos mais briliiaates Iheatros das faça- 
nhas do graode AFToaso de Alboquerque, que a conquis- 
tou ao Sabaio para ser a cabeça do Estado, que a sua ati- 
lada politica, não meuos que o sea valor gaerreiro, desti- 
nava fundar no Orieute, esta Cidade t2o rica, e tão su- 
berba, que elle Tez o priacipal empório do commercio da 
Ásia, e boje tão decahlda do seu autigo esplendor, Toi a 
pátria de Fernão Alvares do Oriente, um dos nossos mais 
/arnosos Poetas antigos : mas si os seus versos sam muito 
poobecidos, não acontece o mesmo á sua pessoa, a cujo 
respeito tudo sam dúvidas, iacertezas, e coujecturas. 

A epocha precisa do seu nascimento ígnora-se, mas 
parece verosímil que tivesse logar pelos annos de 1510, 
ponco aiites, ou pouco depois : nada consta da sua fami- 
iia. mas podemos conjecturar que seria distincta, e rica, 
visto que não pôde negar-se, á vista dos seus escriptos, 
qoe ella lhe dera educação esmerada, c scientiBca, e uma 
educação destas, especialmente naquelle tempo, nãoapO' 
deria dar a sens filhos quem fosse desprovido dos bens 
da Torluna. 

Esta educação não foi mal empregada ; foi semente 
que cahio «m terreno fértil, que depreça fructificou, e pro- 
^uzio abundante seara. Fernão Alvares amava o estuda, 
applicava-se assiduamente, e por isso fez rápidos pro- 
gressos nas bellas letras ; havia nascido Poeta, e como 
tal se fez conhecer logo na sua adolescência. 

Commercio, e armas era a occupação de todos oa Porr 
tuguezes na Ásia ; nobres, e plebeos, velhos, e moçoç 
mercadejavam, e combatiam segundo aoccasião odeman- 
13 



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194 BSSAio nosKiraico CBtnco, Tono iv. 

dava ; podia applicar-se-lbe aqaelle Terso, qneCamSeaes* 
ereveo em senlide bem differente, 

N'buma mSo sempre a espada, e n'onlra a peona, 

a espada para combater os Mouros, e Genlíos, defender 
es forlaleias, abater o orgolho dos Reis, e castigar as 
suas rcbelliiSes contra o poder Lasilano ; a penna para es- 
crever correspondências mercantis, e lançar no livro mes- 
tre a receita, e despeza das suas transações. O Portagal 
Asiático, era, nem podia ser outra cousa, nm Estado de 
Mercadores Soldados, como antigamente Carlfiago; e des- 
tas duas circumstancias tirava a soa existência, a saa se- 
gurança, e o SCO esplendor, e riqueza. 

NSo admira pois qne Fernão Alvares seguisse na 
sua mocidade a vida militar. O nosso Historiador Diogo 
do Couto, DO Capitulo XIIl. da sua Década IX. conte 
mui prolixamente, segundo o seu costume, qne Heeobat, 
Imperador, ou Rei dos Mogores no anno de 1B73, inva- 
dio com ura poderoso exercito, pela maior parte dè ca- 
vallaria, o Reino de Cambaia, e depois de muitas bata- 
lhas em que vcnceo, e derrotou sempre os naturaes, 
se apoderou de todo aqoelle paia: não conlenle ainda 
com esta fortuna, foi apresentar-se diante de Darajo, 
manáando intimar o Governador, e maiaPortoguezes, qne 
habitavam naquella praça, para iramediatamente Ihades- 
peiarein, e entregarem, como fazendo parte integraste d* 
sua nova conquista. 

Os Portugneies na índia estavam costumados a dar 
ordens, e bSo a recebe-las; mandaram, mas d3m) obede- 
ciam, tinham o seu direito na espada ; 09 seus titolos de 
posse na força, e esse direito, e esses titulos sam incM- 
testáveis para aquellcs, que não tem forças soperiores pa- 
ra oppôr-lhe. Em consequência disto o Governador da 
Praça zombou do orgulhoso mandado do Mogor ; prepa- 
rou-se para a defeza, eas hostilidades principiaram. 

Chegada esta noticia a Gôa, o Vice-Rei D. António da 
Noronha, conhecendo quanto importava a conservaçSo df 
quella fortaleza para a segurança do nosso commercio, e 
do nosso dominio naquellas partes, deu logo obra aos prs- 
paralivos necessários para soccorre-la, e castigar o at» 



;,G00glG 



urso vn., CAFiTCLO ti. 195 

iMeato dos Motores, e pdz no mar uma poderosa anna- 
da, em qne, além de outros maitos navios, se contavam 
seteola e seis Fuslas bem anilhadas^ e guarnecidas de 
brava, e lustrosa geale. 

Não me perlence uarrar aqui os saccesBos desta espe- 
diç3o, mas somente notar, que Diogo do Gonlo ali faz ex- 
pressa menfão do nosso Poeta, como Commaodante de 
uma das referidas Fastas : o qne prova qne o cultivo das 
Musas o nSo desviara da palestra de Marle. 

O Abbade Diogo Barbosa Machado dit também, qae el- 
le commandára outra Fusta em uma expedição, qne teve 
logar no tempo de António Moniz Barreto : isto nada tem 
de improbavel, mas nem Barbosa declara d' onde tirou es- 
ta notícia, nem eu a encontro mencionada em aignm dos 
nossos Hisloriadores. 

Consta também, que FernSo Alvares fizera, natural- 
mente por motivos de commercio, uma viagem á Cidade 
de Macau, e de lá passara á Província de Cantão, que 
fica Tisinha, e é um dos principaes empórios, on merca- 
dos do Império da China, e que ali se demorara bastan- 
te tempo, e qne voltando a Macau, dali se Szera de ve- 
la para o Império do Japão, não menos rico, e commer* 
ciante, que a China. 

De lim episodio da sua Lusitânia Transfonoada parece 
collegir-se, que elle antes de partir para as Ilhas do Japão 
bavia deixado em Macau o seu casamento justo com uma 
formosa donzeila daquella Cidade, cujo nome era, aoqns 
parece, Catharina ; mas que oa sna volta a achou esqnecí- 
da delle, e empregada em outro, de que tomou tanla pai- 
xão, que mandaado-lhe todas as cartas, e prendas, que 
deilã tinha recebido, se embarcou precipitadamente em 
vm navio, que estava verga d'alto para Malaca, e partira 
para aqcella Cidadei 

Ali tornou a embarcar-se, em ontro baixel, que eslava 
de retorno para a Europa; sua viagem Toi feliz até ao 
Cabo de Boa Esperança, onde o colheu uma tempestade, 
que o fez, si não naufragar, ao menos arribar á Cosia d'A- 
frica, onde foi obrigado a demorar-se algum tempo, an- 
tes' que tivesse logar para cootiuuar a sua viagem para 
Portugal, onde-fiualmente chegou a salvo. 

Todos os, que tem tractado deste objecto, concordam 
13* 

Diçpitizcii;,. Google 



196 ENSAIO BIomAPBICe CBITIOr, TflHO IT. 
com o Padre Joaquim de Fojos, a quem devemos a nifr* 
da, e correcta edicção de Fernão ÃWares ia Oriente, e 
que é a segunda, que delle tem sahido á \at, que este 
episodio contém em resumo a vida, e successos do Ao- 
tbor ; mas o qae se \è na prosa sexta, do iivro terceiro, 
será também verdade, oa adorno poético para dar soltf- 
(9o á historia de Felício ? Si a resposta íòr pela affirm»^ 
tiva é claro, que o ciome mal averiguado de FernSo Al- 
vares acarretou a desgraça sobre elle, e sobre a sua in- 
BOCMite amante, puis deu credito á sua ioEdelidade eó- 
meote por uma carta deita, que o seu rival lhe mostrou, 
mas carta forjada por elle, contraFazendo a letra de Ca- 
tbarina, á vista de outra, que obtivera por intervenção 
de uma amiga perGda. 

Consta mais da mesma prosa, que a amante deFemao 
Alvares, recebendo as cartas, e as prendas, que elle lha 
recambiava sem a ouvir, tomara disso lamanba paixão, e 
desgosto, que cm breve terminou a sna existência. 

Verdade, ou u3o, que isto seja, parece que a magoa do 
Poeta õ acompanbou, miúto tempo, e a inquietação, qoe 
lhe causava, o levou em breve á Itália, procurando coto 
a mndauca dos lugares, e o bolteio das jornadas, e via** 
gens espairecer os pesares, que o opprimiaffi. 

O meu amigo Ângelo TálIaSsi, me afirmou mailas ve- 
zes, que em uma livraria de Ferrara, saa pátria, éocoí^ 
trára um pequeno livro contendo ama Écloga, duas Ca»- 
(Ses, alguns Sonetos Italiãnbs, e outros Caslelbauos, coai 
o nome de Fernão Alvares; não o affirme, nem o nego; 
somente cito o facto, como prova de que elle visitara a9 
principaes Cidades da Iialia, sendo mui natural, que ^ 
le desejasse percorrer terras tão differeutes daquellas, 
qne havia até ali conhecido. 

Ali se deu ccoí afíinco ao estudo dos Poetas Toscanos, 
e com especialidade de Saonazíaro, cuja grande reputa- 
{fio estava ainda mui Fresea, pois havia passado da vida 
presente com Ti annos de idade, em 1S30, e os seus es- 
criptos pasloraes serviam então de modelo atòdos os Poe- 
tas da epocha. 

É Bvidenie, que a leitura da Arcádia de Sannaziaro lhe 
suscitou a Icmbronça de eompftr a sua Lusitânia Trans- 
formada, em que ba visíveis imilapiSes da Obra Italia&a, 



iinzc;;. Google 



LIVBO TIL, CAtlTOLO II. 197 

e elte próprio parece insiana-lo, quando diz no princi- 
pio da primeira prosa, que havendo deparado com a fraa- ■ 
la de Sincero (Sanoazzaro) pendurada em um troco do 
Meoalo, (ornando com ella á pátria, cania com ella, na 
Lasiiania Transformada, as glorias de Deos, e as teis ty- 
lannícas do mando. 

Daqui parece oother-se, que «lie trouxera para Portu- 
gal a resolução de compor a saaObra, e que nessa com- 
posifSe trabftlhoH aqui nos últimos annos da sua vida, 
qae talves oSo fosse longa, pois a Obra parece nSo estar 
terminada ; raas ignora-se o aono, o sitio em qne teve 
logar a sua morte, e aonde foi sepultado. 

A Lusitânia Transformada, énm titulo defeituoso, pois 
Mto dá idéa do assampto da Obra, com elle baptisada. 
Qoando lemos á frente de um livro A Primavera, ou o 
Patlor Peregrino, coaccbemos logo a idéa da matéria de 
qoe tracta ; mas mesmo depois de lida a Pastoral de Fer- 
nSo Alvares, não podemos entender bem a sigoificaçio 
do titulo, e apenas podemos suppõr, que o Poeta quizera 
dizer, a Lusitânia Transformada em Arcádia. 

Esta Obra consta de trez livros, compostos de prosa, 
e Poemas de todo o género, como a Arcádia de Sanoaz- 
zaro, e Lope de Vega, e as Pastoraes de Francisco Ro- 
drigues Lobo, com a differeoça, que uaquelles os rersos 
sam sempre separadas da prosa, e nesta os versos moi- 
tas vezes sam continuação dos diálogos, e das narraçOes. 

Esta Obra é escrípta em linguagem purissima, correc- 
ta, elegante, posto que a prosa pareça ás vezes desata- 
da, e falta de numero, carecendo da fluidez, e barmonia 
de periodos, que tanto admiramos em Francisco Hodrigues 
Lobo. A sua fabula não é implexa, e os seus nexos se 
soltam verosimilmente pela marcha natural dos inciden- 
tes. Ha nella muita imaginação, muita invenção nos epi- 
eodi«8, e historias cheias de interesse, de que se com- 
pfiem. É certo que nella desejáramos encontrar mais qua- 
dros Asiáticos, e pinturas dos costumes, e bellFzas pícto- 
rescas daquellas regiões estranhas ; quizcramos antes, que 
as scenas se passassem nas margens do Ganges, ou do 
' Iodo, que nafi do Douro, e a historia de Saladino bastaria 
para nos convencer do interesse, que o Poeta teria por es- 
te modo conferido á sua composição. 



iinzc;;. Google 



iga BNSilO BtMâAPHlOO CUIIC«, I9II0 IT. 
As poesias d« Fernão Alvares do Oriente, ieiMptfo. 
de ama Elegia, qae priucipiaTa 

Saia desta alma triste, e magoada, 

qae consta andar em nm Cancioneiro, collegido em 1677 
pelo Padre Pedro Bibeiro, cujo manoscriplo esislia na 
copiosa bibliotheea da casa de Laffies, aonde pereçeo (*) 
com mnitaa oatras preciosidades literárias, esistem todas 
encerradas na Lusitânia Transformada, e é por ella5„ 
qae podemos hoje Tormar juízo do talento poético do A.a- 
thor. 

Estas poesias constam de Sonetos, Canç9es, Elegias, 
Éclogas, Epístolas, Quintilhas, Estancas, eEpigrammas; 

(•] AiiiiB o atfitmam o Abbade Barbota Machado, e 
o Padr* Joaquim áe Foyoi, o priínairo na Bibliõtbcca liu- 
lilanat " " *c{"ik1o na lua Intfuducjio á Luiitasia Tram- 
formada, de qao foi l£dilur, e aqui legiii a niraina opiaiSo 
na falta de melhorei noticiai. CLnando porém fii nova lei. 
tura da CamSe» para eierever oi Capilulot que neita Obra 
lha perleoceoi, deparei no Vulume 3.'^ da £dÍs3o de 1783 
a pagina* 344 uma Elegia, que como ai aulecedeDlei, e ai 
teguintei vem ali reeolbidai na dávída de lerem de liuii 
de CaroSei, oa não, mai que andavam djipanai por >Igo- 
nai E^i^ei dal Obra* deite Poeta, como eontia da advet- 
teocia do Editor a pagíntt 33S, tto fim da ElegU Xlt, , 
ultima dai que índubilavelmcute perteucsm a CamSM. Oa 
prímeiroi verioi daquelta Elegia 

Saiam deita alma tririe, e magoada 
Palavra* magoada! da trillcia, 

e o let feila á morte de um tal O.Tello, qae foi aiorlo n» 
índia em uma batallia , me fiíeram laipaiUr que etU po< 
dería aer aElegia de Feroio Alvar», queBarboia, eFsjraa 
davam por perdida, poii que o prioeipio, c o «aanaipto me 
foiijiin auím tuppór; pattei paia a examinar mioucioaMaeiH 
te o ettj^ki, e modoí de ditet daquelle Poema, e tirei eM 
resultado o perioadir-me de que ella nlo era do CamõNi 
porém de Feruio Alvatei , « o meimo que >c Julpivi per- 
dido. 



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I 

uno iTí, CANinte ii. im 

estrat, naoHBha i^bíSo, as mais Miaa eoispoai^es lyrí- 
cas, qae^^Ktis daa Bby tbmãs de Laii de Camfies, . nos ftca- 
nm -dos QuiabenUsUu : FeraSo Alvares do Oriente me 
parece, âepoif de OtmOes » homem mais naliiralmente 
Poela, de maia imagiaacSo, e de gosto mais apurado da- 
qnelles tempos, o sen eatylo correcto, imaginoso, elêgan- 
te, e ás vezes saUime, e sobre tailo a robtistec de soa' 
expressão, e perfcclibitidade de melro apresenta lanla se- 
milbança com o taleoUi, e maneira de compte do Cantor 
dos Lusíadas, que alg«em chegou a affirmar, que a Lusi- 
tânia Transformada nfio era mais que o Parnaso de Luiz 
de CacQííes, cajá perda lem sido taulas vezes, e com tan- 
ta razSo lamentada. 

Uas esta ■Hpposi{2o me parece inteiramente destituida 
de fandameoto: reconheço, é verdade, essa muita semi- 
Ifaaoca enlre os versos, e o estylo de Fernão Alvares do 
Oriente, e os de Luiz de Camões ; mas estou ccrlo, que 
Deohun delicado conhecedor da matéria deiKará de sen- 
tir, que nas Poesias da Lusilaota Transformada faltam cer- 
tas pinceladas amenas, e graciosas, certa audácia ph^lo- 
sophica, certa maneira particular, e facil de dizer, que 
parece individual, e privativa de Cam9es; e que aversi-; 
ficaçSo deste lem maia variedade de cesuras, mais flui- 
dez, e doçura, que adaquelle: teuho portanto para miro, 
que tal supposição, malfundada, devedesculpar-se, como 
illusão do desejo de encontrar a obra perdida, ou despre- 
sar-secomo cffeito de malignidade, contra n Poela Oriental. 
Parece-me que em apoio da minha opinião pôde cilar- 
se a paixão de Fernão Alvares pelos versos esdrúxulos, 
escrevendo nellesCaofCes, eEclogas, inteiras, cousa nun- 
ca praticada por Camfies, que tinha sobejo gosto para 
sentir quanto é desagradável semilhante modo de escre- 
ver, em uma língua como a nossa, que não tem taes dic- 
çQes em seus verbos, a não ser com o auxilio affectado 
de sufixas, e multo poucas nos nomes; foi a leitura, e o 
exemplo de Sannazzaro, que levou Fernão Alvares a se- 
znilliante pratica, semattender á diversidade do génio dos 
dous idyomas. 

Deixando porém este assumpto desagradável, passarei 
' a apresentar aos Lei(<)res o testemunho de estima, e de 
admiração, que FeriSo Alvares deixou oa sua Obra ao 



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200 ntuio BioaimcA mítico, toHo ir. 
Homero Portnguez; «ba-«etíle no Livro I., eédolben 
MgniotQ : « Moitas estataas estaTam polaa colraonas do 
templo, alevaotadaB, mas consumidas de maneira, qne M 
nSo deixavam conhecer, nem ainda lér os letreiros, qne 
declaravam cojas fossem ; mas entre todas a estatua do 
Príncipe dos Poetas. da nossa idade, qne cantou a larga 
navegação dos Lositanos, a qual se divisava das «otns 
- com este letreiro. Príncipe do» Poetat, titnio, que daqui 
parece que trasladou á sua sepultara um peito ilittstre, 
e generoso. Estava só com toda a soa perfeição, com 
que sen esonlptor ali a posera de 'principio ; com quanto 
que nm esquadrão de Bonzos, e Zoilos, que lhe ficaviD 
aos pés, com muitos tiros pertendiam damoifica~la....> 
Estas linhas sam tão honrosas para CamOes, a qaem sa> 
dirigidas, como para Fernão Alvares, que as escrevco. 
O discipolo, que honra o mestre, é sempre digno de k» 
vor. 

B indnbittvd qne a semilhança de estylo, qne se nota 
nas Obras de Fernão Alvares, e de CamOes nasce do 
desvelo, com qne o primeiro estadava, e imitava os ver- 
sos do segando, o que melhor se evidenciará pelas cilt- 
{Oes, que passamos a fazer. 

Parece-me qoe o mestre não desdenharia esta Cansio 
do discípulo. 

Agora que descança 
Do tríste peito humano os vãos eaidados 
A noite escura, e mansa, 
E ]á não se ouvem brados 
De Ovelha, ou de Pastor por rates prados. 

E o silencio refr&i 

Do subtil ar o leve movimento, 
Diana a Inz alhta 
Trazendo, no alto assento. 

Seus cabellos doarados solta ao Venlo. 

Os Aoimaes nos montes, 
Os Pafaros nos troncos, que florecem. 

Os Peixinhos nas fontes, 

]á pelo somno esqnecem 
O pasto, e repoosados adormecem. 



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IVmt TII-, CiPITOLO U. 8( 

Agora te aleTanta, 
Oh peosauento meu lao mal esperto, 

Pois vêa que a fresca Planta 

Vendo o teu desconcerto, 
Te mostra para o Ceo caminho aberto. 

Por onde hirás ytanio 
Effl que a vista alcança á samma altura, 

QueiB tudo fez louvando; 

Em quanto teus segura 
Adoce 0!ccasíio da noite escura. . 

E minha Musa agreste 
Louvores espalhando aos Ceos serenos. 

Do nosso Rey celeste. 

Nestes campos amenos 
Já que não pôde o mais, celebre o menos. 

Que si tanto poderá 
Minha -flauu em rudeza ao Mundo rara. 
Que o seu som detivera 
O curso da agua clara, 
-E 03 montes mais remotos abalara. 

Ou se o Ceo me inHuira 
Tal graça, que fitera ao Alando espanU» 

A minha branda Lyra, 

E a Phebo com meu canto 
Ganhara o ramo verde, qae amo tanto. 

Jamais 03 vSos coidados 
Em qne o sentido empregam os humanos, 

De mim foram cantados, 

Nem 03 falsos enganos 
Que me gastaram dez, e outros mais annos. 

Aqndles, que assigualam- 
Seu preço no valor sanguinolento, 

£ os qne as obras igualam, 

Ao alto pensamento. 
Deixara sepultar no esquecimento. 



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IHSAH) BUWkAMUlO- CBITKO, TMO IT. 

Em quem empre^ria 
O lalenlo qoe assim «driço agora ? 

No Seahor, que vos guia. 

Que do Ceo, onde mora. 
De BÒs na baixa terra se enamora I 

Ao negro esquecimento 
Nio se rendera então meu vario canto, 
Effl quanta o qiiarto assento 
Trouiesse o Sol, e em quanto 
Vestisse a Terra o Sol de verde manto. 

Has pois pobre me vejo 
QoSe rica a causa, á qual me aspira o peito, 

Pois esle meu desejo. 

Em tão alto sngeito 
Cbegar nSo pôde a ter devido efetlo. 

Vós, Tonte cristalina, 
Vás lonvaes o Senhor, frescos Rosaes, 

Z>e cajá mão divina 

A Trescora alcançaes, 
De que esto alegre canto, e monte omaes. 

Vós, Nympbas, e Pastores, 
Do peito a voz laofai, agua dos ollios, 

E deste campo as Bores 

Atando em frescos molhos 
Nas mãos offerecei-^has, de giolbos. 

A Flor mimosa, o rudo 
Espinho, e tudo quanto o valle cria, 

Ao Creador de tudo 

Com muda melodia 
Cantando estam cantares de alegria. 

Mas ah ! que de invejosa, 
Aurora, derramando o fresco orvalho. 

Com tua luz formosa 

Pões a meu canto atalho, 
Canto, com que eu o punha ao me» tralrailbo. 



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AI 

notai 
mos 
A 
se I» 
e em 



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SNSAIO WOMiratGO GUnCO, TWO IT. 
Que tndo nSo prosiga 
Sea sataral ; aossa alma, a qual obriga 
Haior razio, seguindo esse alio, e raro 
Ardor daquella formosura asliga, 
Eq si aquella laz tão clara veado 

De que he retrato claro, 
Re^Uodece, e ás Estreitas sobe ardendo. 

Nem casos de Fortuna, 
Nem semraz6es do Tempo, a qae he svgeita, 
E C(NB tanta raiâo a mortal vida. 

Nem a vida importuna 
No bem, si viu algam. Ião caria, e estreita, 
Como no mal, que vé larga, e comprida 

Nem a gloria perdida 

O peito nobre isenta 
Daquella alteza, qne a alma sempre ialenla. 
Que como a verde palma, insigne Planta, 
Não se dobra c'o peso, qae sustenta, 
Uas então com mais força o Ar rompendo, 

Os ramos alevanla, 
Assi do corpo hama alma o peso erguendo. 

Qoe o peilo generoso. 
Que do principio seu não degenera, 
Do principio, que o deu no Mando a tudo, 

O que ha mais trabalhoso, 
Perigo por subir a essa alta esphera. 
Ousado vence, si o temeu sesado. 

Ou no continuo estndo 

Passando a vida escassa, 
; A qual em tudo o mais em v3o se passa, 
Faz que o Loaro gentil lhe cerque a Trento, 
Que o terra baixa mede, e o Ceo compassa, 
Ê porque entre os Heroes a Fama o assento 

No sea snblime monte 
Ao Ceo sobe ahrazado em fogo ardente. 

Porém si o Fado injusta 
lãmais corta os sacccssos á medida 
Da T«Ha daquelle, que (» procura. 



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ZNSAtO «MSVAPHteO CRYtfCd, TODO NT. 

O Mnndo íBjosto, e varío 
A'qielle5 sempre dá seus vSos fdvores. 
Em quem fica o sea bera mal empregado : 

O Tempo, que he contrario 
A peasamenbM altos, leas furores 
Em quantos oi tireram, lem provado. 

Pois como ham al(o estado. 

Pôde viver segaro 
Em tempo do metal mais baixo, e poro, 
Si a veoda pende só de ham Traço 60, 
St sempre ae mostron o Mundo escaro, 
Pdsto qne o Ceo se mostre alegre á Geole, 

De prazeres vasio, 
£ os dias eheios de ira, e pena nrgente. 

Si alguém diz que o tormento 
Com cansa padecido se alivia, 
He falto parecer ao Valgò acceito, 

Que nenhum sentimento. 
Da mór pena, que tenha, em fim teria, 
QaefD da culpa tivera isento o peito. 

Pois si vivo sugeilo 

Em vida triste, e escura 
X.' ten raiãD do Tempo, e da ventura. 
Que a tudo ha tanto tem negado o preto, 
£ se ha ua vida quem na gloria pura 
Que tem sem merecer, não se gloria : 

Dapena, que padeço. 
Porque causa minha alma se injnria? ' 

Que nem hum alto estado, 
He bem que satisfaça a quem o alcança, 
Si [Kira isto lhe falta o mere«e-lo; 

Nem si hc arrebatado, 
Das mSos daquelle a quem se deve, o canga. 
Que merecer o bem he mais qu« hav&-Io. . 

O metal amarello, 

A prata, as pedras finas, 
A Gloria que. Fortuna, aos tens destinas, 
Ou tiras a qualquer, ou dás acasél 
£ como as honras deste note« iadioas, 



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tmo va., urmna n. «07 



iiçpitizcii;,. Google 



108 KHSklO IIOOMBBIOO CUTICOf TOUO IT. 

Como Vento que infasa 
A. Nau da Tida. misera, imporlnna, 
1 leva aosdo a deixa espedaçada. 
Si os bens que dam os Fados, e a Fortnoa, 
Acabam quando estam mais sublimados, 

Bem posso dar por aada 
Tudo que podem dar Fortuaa, e Fados. 

£ si o meu peosamenlo, 
Qn« pude levantar a essa alia esphera, 
Derriba-lo de lá poder Ventura, 

A gloria qne já sinto. 
Que de t6-lo subido assi me espera, 
N9o pôde derribar, que está segara. 

Falte Fortuna escura, 

A meus comettimentos ; 
O Tempo v3o, e os Fados avarestos 
Faltem tamben^ que em fim sam Tempo, QFados: 
Has por salísracSo dos meus tormentos 
Aqueiies, que me vem subindo ao alto 

- De tão nobres cuidadas. 
Si elles faltarem, saibam que eu nSo fatto. 

Vé-se que Gabriel Pereira de Castro liubs presente o 
fecho desta Canção, quando na soa Uljsséa, Canto IV>i 
Estanca cento e oito,. escreveu os seguioles versos: 

A Paciência os casos facilita, 
. SolTreado bas de vencer Fortuna, e Fados, 
Sempre o animo ergue a cousas altas. 
Si ellas faltarem, vejam que não faltas. 

Nenhum dos nossos Épicos se aproveitoa mais dos tra- 
balhos alheios, e òque nislo ha mais singular, é quenit- 
gnem linha menos precisão disso, visto a rica, e fecoft- 
dissima veia, de que era dotado, evendo-se ge^BlmeDt^ 
qne os trechos mais bellos, e mais perfeitos do seu Po^ 
ma, sam aquelles, que elle tirou do sen próprio fundo. 

Eis aqui outra Canção, sobre a felicidade da vida cu»- 
pesfre, que deve ser contada entre as melhores prodM- 
çOes de Fernão Altares do Oriente. 



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- : ttwo iT., cAvamo w. 

Qari swte Uti ditosa; ' 
Que doúi tfio soMíiDado aqaelle atcasça, 
Que apaseotoa nos campos a veirturat 

Nd bem, de que a alma fjioza 
Isempta de' temor, e de esperança. 
Nem de^a, nem daqvdla- se osEegara. . 
Passando a vida alegre, nfio procura 

V6r QS sDlKfbos Paços, 

Em qne busque os favores, 
-Qne grangeam sómeaté Adoladores 
A' custa d'alnia I e a foffa tios seus braço» 

A rrudta Ide riaria ' 
O ramo,' á^s á fonte, o campo as PloreSi 
Oa qufio alto destaaço em fim t«-ia A 
' Quem lio baixa tivesse a Phaniasia! 

Ver4 Bos Anrwedos, 
Da Natureza as Obras contemplando, 
A fructa de mil flores variada, 

: Dbs asperos-penedns 
Veria b fonte dara.hir Uísmnranido, ' 
Por entre ahos seixinbos dirivada; ' 
Veria pelos montes pendurada 

A soa amada Orelba, 

Na máohãã clara, e pura ; 
Que deixando dos campos a verdura,' ' 
.Dera a seu doce canto alteiitd orelha; 

Oh quem passar soubesse 
A vidatão quieta, e tâo segnra, 
Bella apartando assim todo o iuteresse, 
Qne nunca em mares oonsas'a nietessel 

Veria a alegre Anrora 
Gommauicar 00 campo As frescas flores, 
A bella côr, que lein na roxa frtfnte ; 

Veriadotide mora 
Pintadas de subtis, b varias cAres 
Na praia conchas mil. Seres no moile, 
E quando o Sol se esconde no horisonte 

As nuvens transparentes ; 
. Veri na freoca tarde 
M 



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2iD Bnuio.HMwmNi» tsmm^ vant n. 
Como de noitQ « laz aos neateiarde, 
FtBttr de- bordaduras dtSnesrte»; 

O froeto etriberia, 
Qae por coUnr welbor sen tcnpo aguarde; 
E em titda mdhor goeto ievarUi, 
Qut em tovar o ku Qad» á r«Bt« fiia. 

Dera^be O cwpo « Vid«, 
Dera-)be a Vide os cacbo» roso, e verde, 
E oa wwhos o iic4r gosto», « liado. 

Q Valle em f99 reside, 
Quando o Sol da q«atara a f»r«a perde, 
fdifi «o» fftgaroeoa fi» mediado ; 
CanG«es caalBDdo bus wa, oitroia «BTíodo, 

N'bvtQ gosIoM des«utco, 

E descaoçado gosto. 
Teria lodo o sen cuidado pftsb) 
Em tosquiar o aiti^dw Gado, • naiEa: 

Quando nais Pbebo ardasst 
Em o levar ao mais f egoro pteta ; 
E Tttlir-se dt Ifia, que Ibe tík desse ; 
E mii»BÍ-í» d* leite, qoe eoitesee. 

Do (riste, «n léilo roslo 
Daquelle, de que esa vio, vSo preço espera, 
Não Irará. seu daseanço pendurado: 

Nem temor, oes desgosto, 
Lhe causará na guerra ardente, e fera, 
Cahir o Gvmpanbeiro ao [H^oprio lado- 
Não exprimentará ao mar irado 

Do!» Ventos prooeiasos 

A fúria nuDca mansa; 
O que pois tão diteaa sorte aleança, 
Que de tantos «cantros^ poigosos 

A Ventura o desvia, 
Si CDtcude sua bemaveatuTanfa, ' 
Que lhe cantam as Aves ã p(H'fia, 
Quifr liemavstttiirBdo que saiia ! 

Em fraoolenbo, e teve 
A vida oSo enlrega ae VMto indo, 



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Para as Pcdr» ^mur, qM i b4ia manda, 

Nan pdmo gosto brarç 
No soberbo íbkIaIv qie M^a • Pado, 
A quen iras elle mais trabalba, e pada. 
Por mais que volle a huma, e outra banda, 

O &)l nio lha seria 

Si qSo sereno, e dara, 
QiK taa) pódB mudar-ie o gosto raro 
Pa vidfl, qa« em lio doce fus se cria, 

Por mais que a aoonineuesie 
CoDi' seus tÃros nortiiea o Tempo «varo, 
£ «JMJ» ttceriuia se diasesse. 
Que por aiais que a Forlmia reT«l?eBM. 

Si o Tcslido Ifae fdla 
De fioa prata orasd», e it tato alMOi 
. £ as CBS3S de sobtil, e Tarja tinta ; 

N* ^^mpo se Ibe esmalta 
O Tcr^ cbio de graeiúso arréo, 
- Que o Coe 4e suas próprias eArés piaUí ' 
£ sem que do temor o assalto sinta, 

Ao som DO EOCfi^o 

O convida a corrente 
Do Ribeira, 
Ppr eutre as 

Si a €■ 
A Terra lhe 

Que por cauí leoa, 

Nunca em si sentiria maior pena. 

Qn3o bcmaTept^rado, 
Quão ledo, quão ditoso, em fim' seria 
O que merçé do Cèo l5o grande houvesse. 

Que sò acompanhado 
Das Ovelhas pacifjéoã, que cria, ' ~ 
Na doee satidSo viver podesâel 
£ eemluiBcar do Hundo outro iiaieresiM, 

No seguro remauso, 

Que pare n baseasse, > 
Alegre o vida em santa paa passasse) 
Q«e jtUBca ptofaBÁra o rau deícauço ' 
li* 



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219 ENSAIO nosumeo nnioo, nuo iT< 

Dalra mais graf© pena. 

Por maíB que a sorte dura «ateasse 

Com' vario» casos ssff paz strená, ' 

Que pesar-lhe da Tida seF peqneia^ 

Os Sonetos de FernSorJLlvares doOrienl* sam escriploB 
com elegância, comidéasescMhidas, e engenhosas, emaii 
que tudo em excdlenlts versos. Este Poema tSo-miiDOso 
dos Poetas da Eeciwla Toscana, é um daqwilleB,^ que 09 
engenhos Portagueíes temcsKivado com mais felicidade, 
poucas nações da Europa poderSo al)resenlar tamanha 
quantidade de bons Soaetos, como a Porlugseza ; mti 
8 abuadascia produxio, cotuo era de espenir, a sacieda* 
de, e oa Seiscentistas estravaganciando. e delirando lar- 
gamente em Sonetos .desacreditaram de modo o género, 
que dos mètínos Poetas Uassicos lant os Sonetos as com- 
posições que menos LíHorcs encontram. Fentío- Alvares 
do Oriente nSo foi doa mais pródigos destes Poemas, ao 
menos na Lusitânia Transformada; trascrevwemos alguns 
dos mdhoMs, eis aqoi um ao- Nascinealo do Salvados. 

SONETO. 

Como, si do Ceo bes Senhor superno. 
Te vêjó, immenso Deos, pobre Miníno? ' 
Como te offende o frio, Rcy beniiio, 
Si tens dos Elemenlos o governo? 

Oa como o ventre te encerrou materno, 
Si não compreade o Ceo teu ser divino? 
Como choras, si cantam de contino 
Anjos, com quem disiKopas gosto eterno-? 

Como, sv he» Verbo tu d6. Padre imnens(v 
Me nSo falias. Senhora eomo, si infante 
ttcMtvilbas ao Mundo- jã disseste? 

Si hes Deos, coroo te frits o sacro incenso? 
Si Qomem, como to dam? k Ninguém se espante; 
a Homem terreno sou, sou Vça» Celeste. > 



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jãna Tn., cMwno ^. 3i3 

Estas idéas sam nobres, pAsto qae a expressSo seja 
&m taHo afieclada. O segtikite a im Cracifixo é samma- 
lawtó eogeafaoso. 

SONETO. 

Quando. o Hnndo creoa Deos Ínarea4o, 
Da T^ra o Paraíso deleitosa, 
Qaatra Rios brutoa, qne.o gracioio 
TerrfiDO d'agaa fresca tnn banhado. 

Depois qae Adáo peccou, Deos encarnado 
Dea de outro Paraiso mais formoso 
Cinco Rilieiros de íicdr precioso 
Desta, e daquetla mão, dos pés, do lado. 

Nesle taoqve gentil da .SaaU. Igreja . 
Se ajnoita esle 1íc4f, aates Ibosooro, 
Das almas lavatQrk», e mais res^te. 

Quemqner qne iiumando, e que capti?o esteja 
Aqni lem cerlo, isempto já do cbouro, 
Liqnor qoe o lave, e preço que q resgate. 

Note-se, que o Poèla no segundo verso do segundo 
Terceto escceveciAonro emloger de ckorq pararymar com 
tiesouro, que está no fim do segundo verso do primeiro 
Terceto; ÍOa licea)}a nSo seria hoje desculpada, porém 
os nossos antigos eram mais indalgeales em matéria de 
ryma. 

Os Sonetos Eróticos, sam, como era de esperar, supe- 
riores aos de assumpto moral, e nisto succedeu ao Poeta 
o mesmOt queaossens eontemporaDeos : Téí«ows alguns. 



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SONETO. 

O brando Amor, mas em meQ damno forte. 
Só Deite qHiz mostrar potencia rara ; 
Em não querer que a mão do Fado avat& 
Bum âii me õiuhorgasK alegre sorte. 

Da Parca áan assim temi que o eotte 
Com a vida a fé d'alm8 me ««abani 
Uas ab! qoe hesemrazão ÍDJusta, e clara 
Que o qoe começa Amor acabe a Uorle. 

E como 8 pena, que me traz cancado. 
Tem feito n'alma eleroa eterno assesto, 
Estou nTium triste, mas seguro, estado. 

Que si Amor aSo^der fiin ao ate« t^ns^io, 
Nem Fortuna rfeitaedi» áo mea èiiMMo-, 
Nem iDofte modarJi mea pensmuentov 

SONETO. 

No bem dattdo-mè assalto o Tempo fero; 
Que me pintava alegre a phantasia, 
Cumprida do Receio a prophecia. 
Do qne esperei nenbnai consa espn*. - 

. Mas Bi, apesar das Lejs do Fado austera, 
E do Desejo, qne em contrario gttta ' 
Da Razão, si não posso o que queria, 
Poderá não querer • qne maia quenv 

Et» que a ti, desta Tróia inioeta Hetesi, . 
Flamma betia, e cruel, raio celeste, 
De quem quiz triste oITerecer-le o peito. 

Os penhores te entrego, que me deste 
Quando Mulher, que agora bes fera Hyeoi, 
Fera que de Mulher tens s6 o aspeito. 



iinzc;;. Google 



uno VH., c*H«tte «A ns 

Parece qse este Soneto foi pelo Antbor remettído A 
sua Dama Hacaista cora as cartas, e prendas, que delia 
bavia recebido, qaaodo por causa da soa ia&delídade, 
verdadeira, ou soppest*, Aigio arrelMtedtiiíefite do Ma- 
cau. Site Soneto acaba c«(& uva kljAría, qa« é e eignal 
mais eTideste, de que o Poda a amiTa aiada. O ódio não 
desaffoga em vitupérios ; recoscoatra-so MdespresD, e es- 
pera em silencio a occasião da visgaoça. O segainte 4 
descriptÍTO, e eBoettoate Bi» Bea geoer».. 

SONETO. 

Ilha, soave, «mesa, « ddeito», 
Por dom de Deos entre onda» nwadora, 
Qne ornaram com lens áHm Pomona, « flora, 
Huma DO fructo, onira na Qm ditosa. 

De Lyrios sem^ ornada estás, e "Rosa, 
Da graça singular de qu« faes Senhora, 
Do mrae qne te dea a sorte agora 
Otnada mais qne nunca, e mds formosa. 

Pois hes piemio gentil de Varfi^ claros, . . , 

Que por seu Bey contentes vam passando 
Dos Ventos o rigor nas aguas frias. 

Seiâpre te -seja o Sol sereno, e bnndo, ■ 

Nunca, sejam -es Coos contigo avart») 
. Pois ta 1k6 literal dos dses, que cfias. 

O Ànthor Gogé qtie encontrou este Soneto gravado no 
tronco de um dos dous alamos, que naiíha de Santa 
Helena, defendiam a Ermida dedicada équella Santa,' e 
elle gravara no oatro álamo o seguinte 



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S19 nnuio «wojMwa cuueo. mio ir. 

; SONETO. 

. No Cm, bo Hw, u Terra seldvada .. 

:He1eBa, por tm díies, que ao Mundo deste, 
O graade Cvnslaotiiu), com que encheste 
Tanto o Ceo de progénie snblintada. 

Na Terra aqúella Planta consagrada 
A qual nos deu por fructo o Rey celeste ; 
No Har esta Ilha alegre, a que trouxeste 
A. Gente de seus medos salteada. 

Pois de tantas ntercâs- b3o foete escassa 
HnitBB graças te dã todo o Voiverso, 
E mais grafas te dé qnem mais te deve. 

O teu louvor se cante em prosa, e verso, 
£ lia. em teu louvor todo o que passa. 
Tudo, que em teu louvor aqui se escreve- 

EnUo era a Ilha de Santa Helena celebrada pela ver- 
dura, e fresquidão dos seus arvoredos, pela salubridade 
de seu ar, e de suas agnas límpidas, e perenes: hoje 
é famosa pela prisão do maior Capitão dos tempos mo- 
dernos, pelos tractanientos atrozes, e as injaiias, e insal- 
tos á grandeza decahida, e ao infortúnio, que constam das 
Memorias de Budson Low, Governador laglez daqoella 
Prata, e iosEriiue&tD dócil das' ordens do seu Governo, 
outras ÍQscrip(6esseiéefl) agora Dostroncos, e nosroche- 
dos de Saola Helena, gritos da opinião publica, qne cha- 
mam a maldição da posteridade sobre o mais horrível, 
e iuulil de quaolos crimes a Cobardia, e a Politica tem 
aiégora cometl^do. 

As Éclogas, que formam a parte mais importante das 
Poesias da LusUauia Transformada, umas sam compostas 
em Tercetos, outras em Oitavas, e algumas em Estro- 
. phes, e outras combinações de versos, de differcntes me- 
didas, e rymas. OAuthor, seguindo a Camões, os Italia- 
nos, e os Antigos, soube atinar quasi sempre com o loa 
próprio destes Poemas; oestylonem ê levantado demais, 



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tnio vn;, cktvnio ik 317 

Bem tão humilde que descaia na batxeu, «s sens Pasto- 
res nem sam tão moralistas, e seatenciosos como os de 
Sá de Miranda, nem tão rosticos como os de Rodrigues 
Lobo. Eis aqui nma daqnelias «n qse o Autlior julga 
necessário levaolar mais oestylo ; é o canto <le duas Nym- 
phas, que arrependidas de sena antigos erros, cantam 
queiíaudo-se do amor. 



Pensamento, qne ham tempo alcTantado 
Gonira o Ceo, lhe negaste o seu direito, 
E de Amor tributário a sen cuidado. 
Por peita deste lagrimas do peito. 
Alma, que opprime jago tão pesado, 
A ser tão grave o cora^So sugeilo. 
Desempenhe a razão já agora, e ordene 
Outra fonte no peilo de Climene, 



Ferida já de nova ddr suspire 
A alma, que suspirou á'Amor Terida, 
A aqueJia alteza, que perdeo, aspire 
Por sua alteza tal, Uo mal perdida. 
Si já no gosto a morte achou blphyre. 
Agora nos tormentos busque a vida; 
£ o mal, que peta vista entrou ao peito. 
Saia por elle em lagrimas desfeito. 



Si aquella Hay*d'Amor, bella Erycíaa, 
Qne no Fitbo sustem soêptro, e governo, 
Tyranníca, falsaria, que destina 
Por bum breve prazer tormento' eterno. 
Somente a culpa tem da pena iodina. 
Que os seus padecem nhnm comprido ioferoo', 
Seus bens. fugindo, a jurdição lhe tegne 
Quem lhe leve aibegora o peito eoiregtie. 



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BHSAIO SIOlUtraH» CNUfiO, «Mo IT, 



Si aquelle Rey, digo, crpel TyraDDo. 
Que o seu fogo aoceõdeo ois nossas agoas. 
Converte bum brev« gaslo aa Iw^ danao, 
DesGODia por hum bem perpetuas magoas, 
Quem se vé livre do sen doce eDgaoo, 
Do seu ardor oSo ei|»rimeate as Tragoas, 
E si tem seu rigor exprimentado 
Furte o corpo, antes alma, ao sen cuidado. 



No fundo lã do cristalino Tejo, 
Da Fortuna vivi levando a palma, 
Depois, seguindo Amor traz hum Desejo, 
Que á custa se alcançou da vida, e da alma, 
Em estado tão misero me vejo 
Agora, que licoo o gosto em calma, 
Que de corrida tomo csle desterro 
Vm pena, e por remédio do meu erro.. 



Livre vivi, passando alegre a vida 
Ko Reyoo de cristal posta em socego, 
Da dâr, que n'alma entrou pela ferida, 
Que nella o tiro fen d'hum Moço eégo. 
Depois a Liberdade vi perdida. 
Por quem me fez faier tão baiso emprego, 
E assim perdi por hama vaidade 
A vida, a alma, o socego, a liberdade. 



Pelos olhos beU doce veneno. 
Criei uo coração go»(ota chaga, ' 
Agoit sinto a dte da cara, c ■peão. 
Que afflictft o coração bebe a triaga. 
Ãlegra-Doa Anmr com breve occeoo, 



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■ ' "tan* Ttt.^ oinrtL* n:' 

Corre á prtça Fortma cpindo aftga. 
Que aareditBBdo a sua iangnia beítii 
D'aiioBni isa JM mal, no ton da vita. 



Gloria qualquer, que se alcaoçoa na vida. 
Tarde, e á custa da vída em fim se alcança. 
Mas, triste I que depois de possuida^ 
De preça, e levemeate faz iQudaDcai 
Por mór magoa, depois de estar perdida, 
Mui de vagar se perde da lembrança, 
E afflige assim n'iium bem o mal de have-lo, 
Temor em o gozar, pena em petdé-to. 



Lembranças occiosas, que á memoria 
O passado praaer me apresentais. 
Que Toi daquella, que alcaupasles, gloria? 
Ou de té-la alcançado, que alcançais? 
..Si recovando agora a doce historia 
])ú gosto que perdi se perde o mais? 
iPara qne ainda em vós lembrança guardo 
D^^silos de ([ue inda faço alardo? 



A Cerva, que ferio sella embebida, 
A poz agnas descerre o monte, e a fragoa ; 
Que remédio terá a alma ferida 
De dons golpes da culpa, pejo, e magoa? 
Porque possa '0»brar de novo a vida, 
Qne por erros perdeu, banfaa-fie B'agua, 
Que lhe vertem do peiu» lastimado 
Pejo, e magoa, qao' tem, por ter errado. 



Jágora pois, cançada phaotaaia, 
Qne com mimoriíta tristes me acompaobas. 



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330 KflSAIO NOaUVnCO CBIVIOf, IQMO IT. 
De ti lsD0O «A relMiaiu ife akgrui. 
Que já las^UD dfi mim magoss (aniftdias, 
Sobre 0. fogo, de «sor, qaB'i) peito esfria 
No bem, aguas derrama das eutranhas. 
Porque elie assim se apigne, e o pensameolo 
ÂB mostras aellas dõ do seu tormento. 



Tu também, coração, que nos ardores 
Desse amor athequi te viste acceso, 
Rompe 08 grilhões, despede os Passadores, 
Com qae ba taoto te vés ferido, e preso. 
Chorando sempre aoade quer qae Tores, 
Sobre ti de teus erros leva o peso. 
Que pois lagrimas Eam o suor d'alma. 
De amor seccaado hasde levar a palma. 

Conresso, que estas lagrimas, que íttm suor da alam 
Hie parecem mais próprias ios crislaes acalma, doEscobar, 
que das Obras de om Poeta da esphera de Fernão Alva- 
res do Oriente ; isto prova, que no tempo do Author já come- 
çavam a apparecer symptomas dacorrnpçKo do gosto, que 
dep<us se desenvolveu, cora tanto excesso, como testçmih 
nham as Poesias dos Seiscentistas. 

Tenho por uma das mais amenas, é formosas Éclogas 
de Fcrnilo Alvares a primeira, que se encontra na Lusitâ- 
nia Transformada, em qué tantas vezes deparamos a vi- 
vcza das pinturas campestres de Virgílio, e a phraset^ 
gia brilhante de Camões, que o Poeta havia escolhido para 
múdek).' 



As porias marchetadas de mid abrítido 
A Moça de Titão, a luz serena 
Do seio espalha gracioso, e linde. 

E coàvidando ao canto a Philiuseiia, 
Chora, co' choro mitigando as dares. 
Pérolas, que ornama verdura amena. 

Pelo campo, que esmaltam varias cJJres, 
Hide, minhas Ovelhas; pasat' a passo. 
Pastando as hervas, e gostando as lloi«& 



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Indf sgora o Sol nbe de Idk ( 
Delias -sattsíazei a fome agora, 
Xm qaaiito aqui reelioo o corpo las». 

Torna o frésco Vei-a«; Pomoni, e Flora 
Seus dSes vem 'pelos campos espalhando, 
'GMtáodo espalha PhaHDo a voz sonora. 

Ctfmo este ftto move o passo brando, 
R«gandò as planlàç, cujos ramos IMos 
Com goarda-lo do Sol lhe estam pagando. 

Fazemdoce harmonia. os Arvoredos, 
Que o Vento bole, e as aguas derivadas 
Das ásperas eSIrauhas dos penedos t 

As Aves, bumas de outras namoradas, 
Eocbem de queixa saudosa o moste, 
N'bum desconcerto alegre consertadas. 

Boninas varias vai regando a fonte. 
Que convida correndo manso, e manso, 
O Rouxinol, que suas magoas conte. 

Á qualquer parte poís que os olbos lanço ' 
Uateria m^ ofierece de alegria. 
Tudo quanto co'a vista alegre alcanço. 

Tudo que vejo emfim a pbantasit 
A bum prazer ,wive me aJeranta, 
Que a uiór alteza o pensanwBto gnia. 

De flor coberta, e fructo á ^-ráca planta, 
A, agua com brânido ao» ré^ndo as flores, 
O Cordetrinho, que do som se espanla; 

.Esie campo, que imita o Ceo nas cAres, 
Aqueile, que do manto alegre o veste. 
Cantam com língua muda mil louvores. 

O valle. o monle, a serra, o mato agreste» 
Azas fígeiràs' dam ao pensamento. 
Com que subindo á altura vai celeste. 

Si tivera qualquer doce Instrumento, 
Xntre estas flores, e Arvores cantando, 
A minha voz também soltara ao VeUto. 

Tambeim aqui caAtára, em verso brando, ,. 
O que de novo o Ceo n'alma me inspira, '.' 
Ao Ceo, da Terra, o pensamento alí^aiidi). 



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nii ENSAIO Rioutmu» BNTiOBi- roMo rr. 

Hasji ventora ao mea destjo ioipifí, ' 
Pende hnma fliiata deste SoreiceiM 
Ramo, por qaoni Apollo en vfio ii»|Mn. 

Esla, ti a phantisia ma são meste, 
E si a verdade o peito me adiviaba. 
Foi de hum Pastor, qne p(>z espanto & GtBte. 

Pastor qae arrebatou a Sorts asioba; 
O qual ouvindo Alpbeo, comeigo ufaoo 
O vg^aroso corso ali detipha> 

Como se cbaiua?... Ob pensamento hunano! 
O Tempo mo levon já da memoria, 
Qae das almas lambem so faz tyranoo. 

Ab \ si. Sincero, cujo nome a Gloria 
Celebra entre os Pastores, e alcançou 
De baixo esquecimento alta TÍctona, 

E depois de mil versos, que cantou, 
A frauta, e não qniz dellá outro Interesse. 
Neste 'formoso tronco a pendurou. 

O tronco fez Apollo, que crescesse. 
Tio oHo os ramos sens da terra ergoendo 
S6 porque põr-lhe a di3o ninguém podesse. 

Estes versos fatem alusio áArcedia deSanaazzaro, que 
o Autbor imitou na sua Lusítaoia Transformada ; no tem- 

?ó em que Fernão Alvares viajou pela Itália era aquelli 
astoral aObra mais acamada naqiiéllepaiz, era, disamo- 
Io assim, o livro da moda, e aiRd« boje conserva ^nde 
parte da sua bem merecida reputafão. SÍiíc«to era o do- 
me poetieo de Saanaztaro, «ojonpme de baptismo &i 
Giacopo, isto é, Di«g«. 

£ sobre a flauta as azas estendeado 
Das Injurias do Tempo a guarda, e cobre. 
No Inverno, e no Verão feverdecendo. 

A' vista dos mortdcs tambem.a encobre, 
Porque o Tempo d'entrc elles d^eiterraBda 
Foi todo o bom co&luue, e asj^Qfa nobre, ,_ 

Que do mundo perdido, e. miserando 
Desterrada a simplesa bem nascida, 
Veio a cebipa <sà peitos occupafl4o. 



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Lino TH., emino ii. sis 

ty<tait em kigar da pai, qoe «Icgra a Tida^ 
JBryinoit alavaota notrtal guerra 
No9 horabros do que menos p6de erguida. 

Mora, deiuiDdo o prado alegre, a Sem 
O Pastor, que em legar da clara foste 
yè- qae « 8aDg«e espalhado tioge a terra. 

Ferro, em togar de Loaro, ciage « froile, ' 
Ep^lq seiv, qae alegre faz a Ovelha, 
k iromlKta espantosa atrAa o moate. 

Tiuguido «rosto está da edr verisellia 
Vergwba, a qtien pelo que vé ssafira, 
Mas o temor lhe tira pela orelha. 

Estas saudades, e eacomios dos tempos passados, e 
qaeixumes contra o tempo preseale sa« de anligl data 
nos Aothores, e especialmente uos Poetas- Já QOTacio 
dizia 

Mlut parenlum, peior Avis, lalil 
Nos aequiores, mox datwús 
Progeniem viliosiorem. 

Todos comòllesiodo contam a idade, cm que existem, 
como a idade de ferro, a idade mais calamitosa do moii- 
do. Somente Voltaire ousoa excfamar em uma Poesia jo- 
cosa < 

Oh U bon Temps que ce steck de ftrl 

hoje a maaia é elogiar a idade media, como o tempo da 
TÍrtude, e da felicidade do género humano 1 Desejava po- 
der transportar esses, que chorani tanto pelos tempos do 
feodalismo, para essa epocba de barbarez, e de ignorân- 
cia, para vâr si se julgavam felizes ao meio do fanatismo, 
c da rapina, que enlão reinava, sem seguríiaça de pro- 
priedade, nem de vida, no meio dos incommodos, e da 
misma : queria vêr si nâo choravam então por este 
século de ferr», em que a tranqaillidadc é raras vezes 
perturbada, e<n qiie a existência é mais ditosa, em que 
os prazeres, e eonimodtdades se tmiltipllciím, em {jtie a 
justiça defeude o pequeno da oppressao do grande, e o 
pobre das injurias dorico: ha, é verdade, crimes, e vio- 
lências, mas o crime, e a TÍoleacia nie é como então o 



iiçpnzc^;. Google 



it* EHSAio sioauran» amoo. Tono it. 
estado norinal da Sociedade ; mSú ha Santos tfae façain 
milagres, mas não ha guerras derdígiSo, qaeraHDgoeo' 
tem, e devastem a terra; nem Tribonoes qae queimem 
a gente porque nio come loopiího, ou porque toma ta- 
baço. Bem considerado tndo, ;creio que si o roDodo dÍo 
lem melborado, pelo menos n9o ten perorado : tem mu< 
dado Qs costiwes, as opiniões, e as ridicularias, e fallaa- 
do francamente, ea desejara n9o ter nascido r hus si es- 
sa desventura me estava reservada, dou moitas gnpas a 
Deos por me haver antee feito nascer do secnio XVIII., qne 
cmoulro algus dosprecedentit; cada >m tem seu gosto. 

E se acontece a alguém que tome a Lyra, 
#«ra furtar o corpo a seu cuidado. 
Logo o desgosto dentre as mios lha tira. 
' Que, quanto ante o Falcão arrebatado, 
A Pomba mansa vai, flores do Pindo 
Valem tanto entre as mãos de Marte irado. 

Donde c'd ramo a flauta ao Ceo subindo. 
Não consentia que lhe pozesse a bocca 
Na Terra algum Pastor do Tãjo ao Iodo. 

Mas 3 min que hum desejo B'aloHi toes 
De renovar na Serra o canto, ob Loura, 
Conscnte-me fazer contigo troca. 

As agoas te consagro do meu cbour», 
E lu, si estimas lagrimas, em pago 
Delias me dá, que alcance este ibesoure. 

Assi nunca do Ceo ligeiro, e vago. 
Sintas injuria alguma ; nem ó ardente 
Raio, neste teu monfe faça eslrago. 

Que se brandura alguma em ti se sente 
Agora a ti me dés fácil subida, 
Oh ramo mais que todos florescente. 

Porque alcance esta dita eu sò n» víd». 
Eu só, que tanto estimo o preço delia» 
Porque com fama eterna me convida. 

Já te tenho.na m3o sanfonha bella, 
Contigo agora ao Ceo suba meu canto, 
Ueu canto ao Ceit te suba feita eslrcHa. 



iiviH) TIL, anTirto ir. 2í5 

E jí qnewfrchegóomcu faido a tanto,' 
Que qaiz trazlír-oie a Y£r esta Ribeira, 
D'oDde liieste a lodo o-Moodo espanto, ' 

E,.ji qtie qoiB qne te alcançasse, queira 
Fazer que a voz, qne em tf cantando espalho,' 
Em tudo se pareça co'a prfmeira. 

Si em mdo dSo, qae sei qne pouco valho, 
Ao menos ^a com clemência onvidai 
Premie, ooe eu tomarei por men trabalho.- ' 

Si a vida ti^ste fbi pw ti sentida. 
De Sincero, b de Phylli a morte escura. 
Que em fim doe mais qne a morte a triste rida. 

Si chorando cantaste a sorte dura. 
Do Tempo que a Discordfa, é a má Ztzania 
Meteo eatre os Pastores na éâpessnra. 

Eu, á Patrte tomando, a sua insânia 
Em ti cboro com ddr que d'alma nasce, 
' Xrcadja transromiando em Lasitania. 

• Por estes versos parece que o Author compóz esta Eèlo- 
' ga bo tempo da sua estada na Itália, onde concebeó o 
projecto daf sda' Obra. - 

No campo alegre aonde o Gado pasce. 
Quando 09 «abelloa desaieraspa a Aintrá', 
Ou quaBda« Sol ao Hufidoesfionde a,tice«' 

Ao sõm d'asua, que rega a Ser, sonora > 
A sombra.freseada Arvoce.iqueDella -. >'■ 
De si, como Narciso, se enamora, 

Contigo cantarei ; a iniDha Estrella 
Que do Louro me dea, poz-te na hocca, 
Por ti de louro me dará capella. 

E já que tudo ao canto me provoca, 
A cantar me offereço em quanto prcí^a 
Estiver a alma nesta estreita roca. 

Na floresta sombria, e na devesa 
Quando o Sol as cobrir com verde manto, 
S es Delias contra o Sol achar defesa. 

Varias CançSes entoarei, e em quanto 
Trouxer flores a Terra, o Ceo Estrcllas, 
O fiome á Fama, e a voz darei ao canto, 
lo 



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Entre W jJdçiíws bffmcas, B aflwrtlias. 
De qúe p?W^ SwaWS os Ra^U^pS, 
Hum rafft^ííieies )fiWi, wU^íapeHM, 

O BWife caiHars^ o <^«m. «* ll«íW . 
L(^^víl^pa pep^.tpdiWff'. Aa»t»l>BlWfl. 
X qiieín sorooí ^9 f,t^o, «Jftvirfwía- 

E ^, Qu QE» #onPSS yãíí, gaé^p^ft ti4>. 
ABdei seiRgfp ; e si peH^s,^Í5efff«. 

Tu im¥^ **^w» w Mwírf*^ «ífiefiwid.». 

Cóm novo acordo mf^ W RfiS:'*»»'» 
Caiilemo^ ji Ipn wr*^. i|IÍ9(WWÍ9 

E assi alegre"»*»»)* .t>iW tBIHW» 

Que na v^ilfl,. (HW b» PMW». <??*»!»» 
Se forj% p soflrifflçníopíííi ^ yiíí. ; 

EÍ9 aqoi òolrfi, Ecíq^, eift Qufírtçtíiç, çtR qo» M don 

Pastores Urbano, e Jacinlho cantam allernadameiíte ; ei 

Hltira» io iííTO. P"»«'Ç*>i ^ •!'** *? '"^"^ Bo^wl por SM 

bcçnídada, o "t^ê ^ bont çonlrçi « ççistunte díf P()çtí, q« 

' As vezes pecca por demasiada exlç^tfílp «os, )KW es«*" 



Tia t&leadQ trone • pensamento ^ 
No ben que desejei; ft6 ntal, q«eT«^, 
Que Idi^os aaiwi vi de ineii' (t«Bej», 
Boras bráaes ito dnq cODtentftmento. 

Horas, qaé im mórtaí vida mesqainhíi 
Do trabalho alcancei por interesse ; 
Mas qne ião puco espaço vos tivesse 
Nunca me pareceu òuàndo vos linha. 

■ VBBlHOi 

Pois tardo cpiao de.preça w fiw «»ii#li», 
Na «ida qnulqu^r gosl|0 á vida eslraobo. 
Si vos. vi lloJsFlias çot^ estranho,' 
Que vos vi^se iqadaíH(6 1^ ^ifttiii J 



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zHSAia iioflursH» cu^eo, tom ir. 



Porque atormente as slmas pôr procura 
Amor & Esperança onsádo freio r 
E porque arrisque as vidas ao Receio, 
Tudo posiivel faz/tnâs assegura. 



Mil bens com larga mão nos oferece, 
. Que d«pois nega a condição isemptK, 
LÊd» aesla Trtgedia representa, 
Elef^ no Belbor desapparece. 



On acompanha o engano a vida escura, 
On a magoa de ser desesganado. 
De sorte que na vida em lodo o esladfr 
Ha graud& engano, e grande desventors. 



Os sentidc»s aos quaes razão parece 
Por bum gosto a míl penas se aveotoram, 
£ sotlrem males mil, que sempre duntcp,' 
Por bum pe(;^ueno.bem, que desfallece. 



Si o bem da vtda, e o mal tão pouco atura. 
Quem pelo bem me fez da yida escassa, 
E pòr rugir seu mal, que logo passa, 
Aventurar hum bem, que sempre dura? 

Este Canto em Strophes alternadas dos Pastores Rog^ 
rio; e Silvaodro, estrahido da Écloga I. do Livro 11. bk 
parece digno de transcrever-se aqui. 



Qual aq Sol alto a jaeve. 
Ou qual ao Veaio.aíwvoa, :« «âra ao iogo. 



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■ ' uno «r., CAPitttD ir. ' 
Do (riste amante em breve 
Se desfai a alma em lagrimas, e logo 

Se refaz porque teoba 
Amor sempre nas fragoás agna, e lenba. 

4ILVAKBEÒ. , , , . . 

Em hom ditoso eDgano 
Vivendo ledo, e miserável, mostro 

E abraçando seu damno. 
Fogo no peito traz, agua no rosiro : 

Porque no peito ardente 
Hum coatrario copi outro se acrescente. 



ArO som que o peosaifEtNitA , 
Faz nos dure» grilbões, que o tem atado ; 

Celebra o seu tormento ; 
E cantando de amor cruel do Fado, 

Inimigo a Victpria, 
O pranto tem por gosto, a dSr por gloria. 



Com doce som ao visco 
Em qae dos prende amor, nos traz, seguindo 

O fero Basilisco, 
Qae segue, falsas lagrimas fingindo. 

. Dos animaes o estylo, 
Que na soa agua doce esconde o Nil«. 



TalveBcom ledo gesto 
Finge a falsa brandura, com que engana, 

Talvez com manifeslo 
Rigor, maltrata quem o adora. Insana 

Poriia, e n&cia qnando 
Tcabalba bom Tj^gre de abrandar chorando. 



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«30 ENSAIO Biq9urBfC9, nanjffiy tff^ n. 

...... I 

SILVAM*»- 

Cor mtís que a Furút, cftate. 
Do falso amor, em alta voz, Cassandra, 

Nio queres, cé^o amante. 
Fugir seu vago inccodió. Salamandra 

Já feito : mas o lume. 
Que a Tida le sasients, te coasume, 



CameliSo faminto, 
Qoe mal snstenta o teve mantimento, 

Qae inda a Ipbis o cinto 
Tiron ; bem se retrata o ar, e o vento, 

De que vives, na canna 
Qae o nos» An Kgnio en tbnaa hnmam. 



Po Ar queres que vira, 
E de agua, em fogo a vida, em ySo seguindo, 

O nada, a sombra esquiva, 
O nada emfim, qae sempre vai fugindo. 

Mostrando que te agrada 
Ar, agua, fogo, vento, sombra, e nada. 



Vós, qoe á sombra encostados 
Destas Plantas, fugia & calina, estiva, 

Dai o peito a cuidados. 
Pastores, de hum anor, que o peitu aviva; 

Que em Bethiem foi nascido, 
£ não ao qne nascçu émi Cbypre, ou Gnido. 

BUTAHOIO' 

A Ti pi^, epmifé.para^ 
Ql VirgAtD b«Ha^ maíB quão» ijb-ioe-ttRaaca, 



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nCSUQ lIOfiUJBICQ CKnmo, X91I0 IV. 



Si víjo honia. hora alegre, e deleitoBa, 
Vejo em cambio mil annos de tormento, 
Mas Á magoa, que traz sorte invejosa, 
N'huma alma eterna faz eterno assento. 
No maior gosto pois que esta alma goza, 
Como achar poderei contentamento f 
Pois estando no bem mais sublimado. 
Tremendo estou do mal apparelhado. 



Tremendo estou do mal apparelhado. 
Do bem Donca alcancei mais que a esperança, 
E si dá mais do bem o Tempo irado, 
Delle não deixa então mais que a lembrança. 
O mais alegre, e deleitoso eslado 
Acompanham tormentos, e esquivanc-a. 
Entre os raminhos, de que nasce a Bosa, 
Não v6s que mera a Serpe venenosa? 



Não vês que mora a Serpe veaeaosa 
No campo, que de flores mil se esmalta? 
Qne de improviso erguendo o colo irosa 
O caminhante descuidado assalta? 
Esta idade de ferro trabalhosa 
De magoas cheia, e de prazeres falta 
Tem ásperos abrolhos semeado. 
Entre as flores do fresco, e verde prado. 

VBBAKO., 

Entre as flores do fresco, e verde prado, 
Cuja excellencia rouba o tempo ufano, 
Mat p6de muito tempo hum doce estado, 
Isempto estar áis mãos do Fado insano. 
Pois Vou de meus descauços desterrado 



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A. todos fiqutt aqui por .desCíB^ano ' 
Em roz all« gritando meu (ormealo, 
Não se engane uenbum <caoleatain«nlo.. 



Kão se eogaae nenhum costeatamento. 
Que vão ao tim correodo ^sso a passo, 
K a todos o ligeiro movimeato 
Levando vai ao derradeiro passo, . 
Pois que seguro o tirme fundameAto 
Eiii o £o&to farei do Mundo escasso. 
Que me fo^e apressado mais que o YentOi 
Que mais instável he,.que o pensamento. 

Como é terno, e melancholico o exórdio da Écloga IV., 
desle meemo Livro ! Como os versos correni fáceis, como 
uma tela de agua limpida, que murmura sobre as a<rêas, 
e a verdejante felpa dos prados. 

Porque a men triste oTE«io me alevantó 
Tão tarde, que já a Aurora clara, e pura ' 
Estende pela Ceo seu roxo manto í 

E alegraado 4os Campos a verd»ra, 
A.'s ceusas restitae as próprias cores. 
Que lhe roubou da noite a sombra escura! 

Alguns de novo já chorando as ddres, 
A que atalhava o somno socegado. 
Regando vam com lagrimas as flores. 

Porém essoKtros, que em ditoso estado 
A vida alegres passam, espertando 
O goste, em que se vem, sentem dobrado. 

Oh Tu, Pastor do Tejo, eaminhaado 
Levas a repostar as Ovelbiabas, 
Ora langeodo a Santa, ora cantando, 

Per tlwes odoríferas caminhas, 
As manadas guiando ao prado euxalo. 
Mas cu fugindo vou, e deixo as minhas. 

Colhendo do Arroredo triegre o fructo, 
:. A' somltra esUs ouvindo agreste Avena, 
Mas eu nos montes só meu pranto escuto. 



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^34 imuo BKMBimm «Hmub, nnio iv. 

A ti, DOS campos teus, o Ceo l« órdÃft 
Goslo, coDteDtamenlo, e floria estranha', 
Mas a mim s6 dos mea» loriUento, e p«i». 

Com musica soave te acompanha 
Cantando o Rouxioof, e o Estorninho, 
£ a mim bramindo as Feras da niootanha. 

O Ribeiro com brand» marmutínho' 
CoBvidando-te está ao éoté somtio", ■ 
Mas eu por montes gsperoí càritiiritO'. 

Vi-se que o Poeta sabia Cffipfegar, €Tfíattiifl\íS»a lest- 
po os contrastes, e é esse uni dote, que nâo é inuito cob- 
loum, mesmo em Poetas de grande tepaiaçào; elle pro- 
va 8 facilidade de contemplar diversos objectos, e com- 
parados entre si, e isto não se consegue sem imagiaac^ 
viva, e muito talento de observação. 

A este exórdio nSò Boa inferior o da Écloga IX.', do 
Livro I., pela valentia da expressão. 

Buscando o largo . mar N^hSo Tamoso; 
Do seu natural ímpeto forcado,. . 
Regando com sua agua o ramo umbrasp, 
A cuja sombra está do Sol. guardado. 
Corta hum campo gentil, que o. Ceo formoiso 
Tem de varias Eslrcllas semeado, 
Juntooode jaz aquella autiga^ Estancia' 
Que o nome do Nabão tirou, Nabaocia. 

Urbano, a quem trouxera aqui Ventara 
Desterrado do seu paterno ntolio. 
Que hum pequeno proEer, naviíta nearíp 
Para hwn gíande pesar &br«^ o camlblM^ 
Ao longo da Ribbiro, qa« & v«i^r« 
Regando vai com' grande muniiuriíiboi 
Vendo quamnoal nereoe o BAu-fofluaBl* 
Aguas ao ftio, e queixas <k-jao' Veato. 

O exórdio da Ecltiga II., do Livro' n.,'coaiémí a tindi 
pintura de uma 'paítagem Oriental ilfuitliAadil ptlo clario 
da Lua. 



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unpLVD^ CltlllU)' KJ! 



Con» NxifiO' clara os ótmjKM afamia 
Dian, qoeCrerfe que ánorte escura 
Sua propriaf preseeça empresta o dia. 
.:; <0 ']cenip»,'qDe hi oalmn*,- ctíe. Aroscura 
NosicaMÍda de faqin^ ar seieaUv BJreeo»- 
A gozaiimu:j<]ui dwíã. esfWBsiiu. 

A. viraeão, q^ «gwa 4e EefrciSSQ 
Vem por.ciiw,d4ij«^ito7^rvoiie Triple, 
Gloria dq^teiíorJEâittemftiKaa^KSca^ ; 

Vovendo a;E,az^s brajidameaic, iosist» 
,No peito lUQu çoDira o rjgpr da calma. 
Que quanto aperta mais mais. fte resiste. 

K no seu brando movimento a alma 
iíe- recréa e'ò cheiro, a que se deve 
Dos outros cheiros todo o preço, e palma.. 

Do lenpo nos òccupc espaço breve 
Doce coBvw«a^, que o tempo cncuna. 
Porque da-víÀ « tempo assim se leve. 

i nesta .mesma EclegO' qu« se aocoalra a Hisloria de 
Saladino^ que o&Criliooslem julgado o maís bello, e poé- 
tico trecho de toda a poesia da iusilaoia Transformada. 
Esta Historia de Saladiao c u lodia- 

na, no gosto de Ovidio, que i a ori- 

gem da rructificecSo da Palmei iste. 

Dá-se o nome de Arvore T ia qn« 

durante a noite abre uma mui s, que 

exbalain perrume snavissimo, isce o 

dia se fecham, e tornam inodr e com 

as folhas tristemente decabídaí lesLo- 

bo compôs sobre a Arvor< Tri i Oita- 

va ryma. qtie não é indigito do ue aão 

anda oa CollecçKo dlas^SNS Obrsâ, eqne semente se en- 
contra impressa no piiBcipio do Tomo t\: àtPhemx He- 



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2dS UtUIO UOO&AHIM CimCD, TUIfl lY. 
HISTORIA DE SiX&DINO. 

N'bDiBa parle que mais «o Orientei 
Se estude a Terra, que dos LusilaQes 
Ganhou aos Mouros o aoimo yaleiíle : 

Dizm os Natoraes, qae, ba maitos aonos, 
Houve ham Senhor em prego, e gentileza 
Assignalado entSo entre os Hqibukis. 

De buma Halber, qae mais qae as outras preza, 
Que moitas o seu rito Ibe concede, 
Hum Filbo leve s6 de igual Nobreza. 

A todos do seu tempo o Mofo eicede 
Nos beos, que o Ceo para os humanos gera. 
De que nunca se farta a humana sede. 

Tinha-ltie ornado as faces Primavera, 
De nova, e rosa flor, de ouro esparzido 
O monte onde a razão tem sua espbera. 

Foi por dom raro Saladiao havido. 
Que o Moço Saladiuo bera chamado, 
Na guerra soCfredor, na paz temido. 

Mas sen descanço, e ventâroso estado 
Polo fogo, que Amor no Moodo acceade. 
Em cinza foi desta arte, e em p6 tornado, 

HDm dia quando pois á Terra estende 
Os seus raios do Ceo ò louro amante 
Da Nympha, que com lagrimas offende, 

O Moço, ou de esforçado, ou de arrogante, 
Porque cora fama illustre alargue a vida, 
£ com a vida a mesma fama espante ; 

Da casa de. seu l>ay posto em fugida, 
O descaDço deixou dos pátrios lares; 
Bem, de que hiima alma illiistr^ be.mal.sofirida. 
Pondo por obn feitos aingukreE 
- Dignos do peito sea, que eu oÍo declaro. 
Que be razão que só tn, Fama, os declares; 

O Mundo todo descorria em claro 
Qual Sol, que o Ceo descorre, visitando 
Os signos c'o seu lume altivo, e claro. 



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ivna vn., flipmiio ir. 537 

C'tt8 gtBiidés, e sebcrtos fero, e brando 
Cos hKinildes mostrava,' e poqBeninos 
O pietto, a gnerra, « pes sempre alternando. 

Das tiaãOB Ioiuod a empreza aõs Ptiladinos, 
£ Delta o f« o Ceo tio teútaroso, 
Qúe pôde ter logar eolre us divinos. 

Mas pot remate, nesle valte nmbroso, 
l^oz Saladino a ultima columua, 
De seus illuslres feiloa fim ditoso. 

Neste tempo por orden^ da Fortipoa, 
Que os males traz de loiige para. o dámno. 
Que ordena á vida misera importuna, 

k inclemência 'do Polo, o fado insano 
A' Jerfa trasladou fatHk.dss Piaoctas " 
Ceifisi£s, disfarçado em trege bumaio. ' 

Venew, c«m q»e Amor lempeVa as settas, 
Bé <coraç(]«8 aitítbs prisão dorá, 
iBoçndiu Tero d'aliQas indiscretas. 

A força rigorosa da' Ventura 
Inventou em Grisalda, transformando '. 
Em ma), que damna o bem da formosura. 

Yivia enlSo ali Grisalda ornando' 
De graça os campos, com seii, lindo aceito, 
Que mostra amor no mór perigo brando. 

C.o Pay.firisalda eatai(^, que sugeUo ■ 
A's sçipir^^es do tempo, ,a sorte injusta I, 
O tinha reduzidp a passo. estreito. 
. ,\ifia, a vida. ^angeando á^cnsl» '. 

Se d«ficango tía vída> es' qM vJTía, ' 
:..Na:ai!te, qlie Cere^ ensignou, robusta. 
' Veedo o Mancebo Saladino hum dia 
Que ilores odoríferas âristMa 
N'bum campo seu com livre mSo colhia; 

Qne da earga cheirosa 'eoretiendo' a fralda, 
Dos does. da beila Flora rftroavtt o seio' ' 
Sobre ou^o pondo de Jasuita grinalda,^ 

Sentindo ii'ajfiia hum amoroÊo enteio 
Sactitiuoii á tíam os seus cuidadas ' ■ 
■ Da paga iw^gnós, .qlie.âc atnnr Itieveio. 



iinzc;;. Google 



SB3 lK9AI<»«mKmilCQCN1«M/.10IIO |T. 

Ma» cono a ASMeofa -áis «statloi» 
Ne Uopo tmaamoirtoi «io 'Mffcit, 
Qnfl fo»KiD tio vysteum, « aoanhadts, 

Tudo o que eatre ambof deseonCotme batia 
PAde iguíUai: amor, %ai tudo ignada, 
Qiie.juta GonãcaU , alteza e« companhia. 

Imitação daquelJes bellos Versos de Ovídio to Poema 
das Melbamorphosês. 

JY&itieMíOMfílimi, Mc tím ittãeSt tnaraatur 
JtfugMMS, el Amor." 

, (h vastiSos Mtba 40 pvupi, « fiRa, 
O 8BAtTeaiura«Muie; q«e' a' ventura 
Maia togé de qoen mais n«recB achite. 
., As flffflaa.p^los ^raai^s depeaéitra, 
Das Plaulaa mais oçcuIlâK.comagrafidai 
Os seus lropbe«s ás N^tnptiaft da atimlura. 

E a trajos desfariados ajuntando ' 
FoT^s de amor, em que ^u peito escora 
Do Pay da Moça se entregou ao naodo. 

A Filha liella, ao Pay servindo, adora, 
A elle eotrêgã ò corpo, a alma a ella, ' 
Teiío já Lavrador ío*a Lavradora. 

Aqnellee <|ue tivertiia WioPtimáfíãe, via dos mdhor 
pensadite, emais bem eatriptos Livros de CaTailarías, 
que sahiram á iBt, guando era modÈi còmpfir, e publicar 
destes livros, seleií^arflo sem devida, ao lâr isto, deD. 
Duardos Prinoípe ée Inglaterra, disfarçado em horteliia 
no jardiíqi da Infanta. Fléiida, velando as noites para ler 
o gosto da se enoanlnir tom «tia, e gonr da soa coo- 
Tersacão ; e quem sabe m d« ik- tirou ferião Altares es- 
to idéal 

Bm eomtxuihia de firiaaMai, e nelta 

Os trabftkboBida Tida t«nperaDde. 

Co gasta à»fnaew!» «m^, « ballat ' 
' Viwen.faain tempo' aaAfvoreB ovotifedo 

Dó Dottift do seu bem,^ ^ne nellM bia 

Oalaai, wát «ainllà «WE^, imHtidtBdo. 



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. A -M^ UviSfí, ^«00 89MI1M ria 

Cltiuiuiws> tIffiBW,' que OB^ tutto a bHsca, e serve 

Çdo) ogw, poríiuo «rdea«Q.:iH>e /ii^ia. 

<}iiaa(o: «aia elle oeste incsodia ftsrve, 
Hais dt! neve ac moMra'; ,poH|u« a beata 
Eotre esjas frias ciasas »e, c(His«j-ve. 
.; . 1^ (t.peito S8I) mísera fttgo abun. 
Podia ter Mulher nalnia eD<»i)erto» -r 
Fogo, qii« ftllas moDlaolias q^iMa. e arraza? 

Alhe: qw vewi» o Pay • Moço .esjierto 
No trabyjtwi que Ofille Ainnr o esforta, 
Ve«do-lb^ Q wfissiQ Âqtor no . peUn. aberto : 

.Qt)iivobirigii-4e; maa eixo powa força, 
A reaeb«r a ^iibepiH' líetwsa, 
Qve, a , t«etp o. 6041 .diis^ ardente o forca- 

E4«$iA'HJáa ;ca«fada, mas ditosa, 
Na sua «pi^iâo, tódo wia, ■ ■ 
Po, apra^ive}^ verâe qttlhwdo a itont, 

O beR] da Caia de seu Pay t»^ 
Pa vislA desterrudQ, e da lembratifa, i 
■Qfie is« Qc^u^va sé na boB, qae via- 
. Mo tardou miito qoa a flatal isDdaDça 
S««â^,bctis.fiDm mAa ligeira nio irooasBe, 
Que para raner irai &%>jfai tardança; 
' Quis qiK-.éstn- gosta em nMgaa sé 'tornasse, 
Poniite a^oifáiE qa^ait eon SaladiRo ' 
Seu uaó de inudar^^a-se mudasse.' 
' Ariiia*!: de aspéreía'» seh Peslino, 
Qn« Cniitra o seu 'socégo conspirava, 
Troi^!!e :a(fiii nesse tempe htIffl'7^fegtirio■ 
:0 ^oai no \<iva^ qveiQtisatía estava 
Sogcita tKi:l>ay; d»^»e 4»er» Oíiaais vésínho, 
Su^to a sm amor se tk& mostrava. 
.: ãta'.aMa .linba 6cfto nslla O' oibh», 
Tbe. ({tieide tQJiala oecasíSo forçadto 
Ue f« a Am>r'fiaibr ootrai.catn^o. ' 

Pa' QiaNHi ae «patiou ca» s«ii «uidado, 
Q^e MaM/ 1"* "^ ft empn^t. a maâ obriga, 
Por iÍsUq 9e-«|Hrt«r (telia afaritado. ' '' 



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E coidft maJfiqne em lado ÀBrcfr periga 
Na aasCDcla,' teroa a Peregrino ager» 
Mui fora, ffQtnindo «m si, áa sotte ntígi. 
■ Mas etia, que o ttio vè qoal d'aBtes Tora, 
Se quem a já despresa feita Escrava, 
Despresa o que de si a fez Seafaoía. 

Branda com o livre, eontrã o arnsnte brara, 
Do peito femenino certa usança, 
Fugindo deste, atpielle 96 buscava. 

£ mostrando huma suMlã mudança 
No rosto sen, no cúraçSs tratía 
Do sen «migo Atnor nova Esperança. 

Os oHtoB, ei» qtie alegre &iBor se Via, 
Do bello BspWo-sM vende a presença, 
ií agora se vm tristes- qoasde a vis. 

Mas 9 Moço, de querti a differença 
Foi do gosto mudado eonbecída, ' 
Quem be que Amor com ãrteficios veoça? 

Por s^ desenganar ftH liomecida 
De si; que em fim biim desengano iodino - 
Nunca a niognem cnstou menos que a vida. 

Uosirou-Jhe á vista, o seu crniet destino, 
Uie estranha coUwr sm fmcto amado, 
E pisar sua &or pé peregrino. 

Que hama ves com a Esposa em tal estado 
O Peregrino acbon, qne bom poderá 
Nas redes de Vulcano ser tomado^ . 

A ohannna d'alma ardente, que devera 
Ser c<»n sangue do Adultero apagada, 
Co sangae de seu peito se 4eoipera. 

Mas c'o3 asBD^w logo acaescentada 
Dos Buspiros ardentes, qae' durama. 
Não aeka o Triste refrigério em nada. 

De bama parle affei{çllú da béHa Dama, 
D'ontra vingança da inimiga Jngnita, - 
Lbe liaz o peilo asdendo enf viva chauma, 
' 'Amor do Amante 'as ra3o8 rendidas ata; 
DoAggravado o fnr(n"pBde vingança; 
Mas o t*Tat em ágoa AsMtâesata. 



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' tlTlff Tlli, CJtPlTCM ir. ■ 341 

\ Repreode-la tsBWu por seganraça ; ' 
' Mas nislo aquillo fez que Taz na fragoa - 
Quem agua pouca etn muito fego luaça.- 
- Que ella inostraiida euUío vergsnba, e magoa, 
Do amor de coração Ião limpo, e puro ■ 
Den por satisfação <los olhos agoa. 
, Qoe outra vez, roto da vergonha o muro, 
Imiga já de tão amigo Esposo 
; Poz em eíTeito o peosameoto impuro. - 

De seu tormento Saladioo iroso 
'Mil remédios buscando a seu tormento, 
Escolíieo o peior, e o mais' custoso. '' 

A muitos ajuntou n*hum Tresco assento 
Anií'^os, e parentes de Grísalda, 
O Pay entrou, e a May no ajunlanienlo: 

Depois de juntos com tristeza igual da 
Causa, qnc tinha para a ^, dsfloic» 
Powlo sobre, a cab«ca .holaa grinalda, - 

igaal úa — Estas rymas artificiacs, pAsto que delias haja 
alguns exemplos nos antigos Poetas Italiaaos, sam' do mui- 
to mau' gosto, mal cabidas com a língua Porlugueza, e 
por isso-i^erá mui diiKcil encontrar: exemplos deste uso 
nos outros Poetas do século deouro da nosea literatura. 

'Assi por huma Palma das maiores, . 
■. Que viu aquelle assento, foi tréjjando' '^ 
Officio aqui (ámbem du Lavradores. 
" ' 'Por buns degraus, que a Natureza obrando 

■'No tronco vai, sobe elle passo a passo, 
' Seguro, seu iotento cseculaudo. 

Depois que em riba esteve, abrindo o passo, 
■' peWs olhos a lagrimas cançadas, 
•■■pe que não foi o triste peito escasso. '* 
.' -Magoas, (fue dentro em si lin&a' encerrada;:, 
A suspiros roortaes soltando o freio. 
Soltou nestas palavras magoada»: 

u liem de espanto mostrais o peito cheio 
n Do triste caso, que vereis diante, ' > 
» Nem magoa alguiDa vosoccupe o ^eiov 
16 



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„ Qaf f^ (jueif peistfiW o Ceo fime, « constante 
nMftgMS ^ emprug^n ntal; poia fto mofino 
»P« íp[«rM)ni«s d'Api>i; nÍBei)^iQ se e^pfinte. 

.. S6 de v6s quero, qoe- este caso i>dino 
»E3»tpto Rqm aqui, porqoe notória 
«Seia Qo Mando a fé de Saladino. 



N Ta, pw ntao sal, (irualda, ingrata, e l>eUa, 
n E rana, E|i nio fàras bella, ingrata, 
••Belleza ingrata contra o Ceo rebelia. 

■'Ttt ^ cfinsa da magoa, que me mata, 
"Magoa,. %W nie não tem tirado a lída, 
«Poiqu^ in(jí> P°^ qaior damno a dilata. 

u Já que. qiti^ste ser delU hoipecida, 
■■Coab«ce qg»ra quanto Ibe deveste, 
» E quanto foste tu desconhecida. 

•> Minha yoz derradçira K 
xCoino de dsne, quando a i, 

dQuSo mal (amanho amor 

I. Depois quç de meu pel imina 

«Te foi clara cora raoslras, 
»Dam testemunho as agua^ 

" O coração, de qué It; íi 
xTe dei, d'úulro qualquer , 

o E adorando as prisSes, qi 

«Tu pDiido n'oulra parle o, pensamento, 
»Dest4 vontade pura despfcsaste, 
nA alma, que em si te .^eu eterno assento. 

» Com. falso intente as íej^s d.'anu>E quebraste, 
"Buscando para o tu eu subi prosado, 
>> Engastado on meu peito, estranho engaste. 



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IITM TH.( CArmtU tt. 243 

•• A firare dte do pleita magoado 
•• Me constraige a loÉiarjasta TJHguçs, 
n De qa«B na loíiba offensa está culpado. ~ 

••Mas In da grave dAr, que assi me alcaD^, 
«Caosa, qoe para o collo ofTerecesté, 
» Deste Ipbis, desles raios d'ouro a trança. 

••Eatelide ^»t te fez segura deate 
» Furar, de ti cem cansa mereeidb^ 
» Esse amor, a que ta tal premio deste; 

"Qse a li sugeito, pdsto que offenAido, 
H Desesperado^ mas- Mm ' todo amaBle, 
■• Mc irai coiilige enr designai partldo< - 

■'Mas leve amor seu éstaBdarte avante; 
"Atraz fiqoe o Faror, qm inorta a offensa, 
."Qnft pédie mais em BÍn rerle ^iaote. 
.1 "Arnõr^ q«e tudo véiice, agora ò vença, 
••Qiie quaildft contra li tne arBára'o peito, 
"As mãot soltas me atifa essa presença. 

"Mal poderá offeader tSo béllo aspeito, 
•• Menos poderá ser, que eu a^gfavado, 
"De ti, em tí ficas» satisfeita. 

■•Pnis esse, qoe em mèa dafnrAo alevantado 
'• A sorte traz, não ipih tíraU-lhe a Tídd, 
» Só porque pAslo tens nelle o, caidado; - 

.'• Porque neUe não fosses uffesdida . 
•'De mim, nen 0'teu.pcfitD:magMssei 
•> Dada ob seu por minhk.mSo ferida. > 

" Que como do amador a alma se p^e 
n Em quem ama, não quii^c se offeédcsse 
"Qaalt|uer paríte de si, qnendfa achasse, 

i'£ bera ben que a vinsanç» se fikesse 
>■ Do sg^iavocoiAra mim só camwetlKlA, 
••£m> quem mais mt agradara naif perdesse. 

->'TendD-me togo eu tSo o&ndido, 
>• Tomo a vmgaflça em miin, qUe sou^ Sebhora, 
»Ebi qlieinlu perdes mais o mais perdido. " 

Isto disse das- [agi^ines, qnéthora 
ITum Itibeiro solwu; do qual « eseasíto ; 
Tronco licou 120 l*berf|l agdra. : ' ■: ; 



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Bitsfcio Hoeuraco cunoD, »ho it. 

E apoz dia lanpaniJo o' corpo lasso ' 
Desesperado sobre a terra dará, 
Pusou da vkla logo o extremo passo. 

Aquella rica, e betla vcalidura. 
Que biima alma em si tio namorada encerra. 
Em mil pedapos fez fortuna escura. 

D'oode ali se ficou cobria^o & Terra, 
Que cobria rreaquissima e«Deralila 
De rabis, que de amor esparze a guerra. 

As gotas, que Eallantn, de Grisalda - 
' Pareoe, por UHnar delia vingança, 
Tipgirua de verBeJh» ardente a fralda. 
' Ella, q«e a todos ji seu erre alcança, 

- Sc7 na mente do amigo manifesto. 

Mais digna de qaem fez no amor mudança, 

Cobrindo^lbe c'hnm véo Tergonha o geslo, 
Tinto de ina grSa, qae antes da cnlpa 
Si triste o fei depois, fisera honesto, 

Cero p&kvras, e lágrimas desculpa 
(Natural erro) o erro, que o cbipado 
Fazendo vai mais grave otí'a desculpa, 

-E o Povo todo em lagrimas baobado, 
O «orpo à terra den, cobrindo a urna 
Da varia pompa, que oBèrece o prado. 

Na seguinte maohãa quando a nocluraa 
Sombra, fugindo da presen^ ao dia. 
Foi para se escondei buscando a fuma, 

O chão, que do Deposito servia 

- Enriquecido assim, porque mais nelie 
Brandura que n'faiim peito bamano bavia. 

Brotou mudado em ramo fresco aqaelle 
Despojo â'alma tão illustre e clara, 
liuin IroDco, que tomo» nil graças delle. 

Planta, qne perdes a flagrância rara 
Sendo de feminioa mão lorâda, 
Pòr quão cara te foi sendo Ião chara. 

Nesse líheíro gentil, de que dotada 
Por beneficie estás da tua Estreita, 
Yêmos a tua -fÉ representada. 



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t\vv> ni., cktamau. 245 

Ás eòns, qae a Flor traz faraDca, amarella 
Da desesperação di signal esta, , 
£, mostcas da de peito casto aqHella. 

£ si cahindo tsí quaado a floresta 
CoiQ luz visita D Sol, vcrgoaba, e magoA 
De aiBõr mal empregado toaniresta. 

Qaando st estilla em grãos d'aljofre a agoa, 
Que choram as Kstrellas saudosas. 
Que eolão lhe accende Amor no peito a fragoa. 

Na sombra escura flores amorosas 
O preço, qoe encemis- ao seio, abriodo, . 
Maib liodas vos mostraes, e mais formosas ; 

Porque Ba terra o peito oaslo, « liado 
Sua dòr sandosa naaireste, 
Quaoda o Cco vem a sua descobríado. ■ 

Eatão se veja, que do campo agreste, 
Qaando o Ceo semeado está de flores, 
Aespoade a flor lerrena á flor celeste: 

Sabe, no caso mais, que doa amores 
Também, Ribeiro meu, do triste Amaste > 

Em quem mostrou amor tantos primores; 

A bella Palma, insigoia trittmpbaote. 
Que eotâo sem fructo a fronte alerautava 
Ficou de vários fnictos abundante. 

Hera entre bravas Plantas, Planta brava. 
Que a seu Senhor não dava mais tributo, 
Que a rama, cuja sombra a praia ornava. 

O Author chama à Palmeira planta ; e parece-mc que 
com muita razão ; nem a Palmeira, nem a Bananeira sam 
verdadeiras arvores; mas plantas gigantes, cujo talo im- 
propriamente se cbama tronco, pois que não tem as qua- 
lidades constitutivas da madeira. 

Triste areal de bumor gostoso enxuto. 
Terra dt- destra mão não cultivada, 
A Palmeira occupou, nua de fructo. . 
Mas depois, que das lagrimas regada 
. De Saladioo foi com copia lart^. 
De soa aliça no tronco derivada:; .. 



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346 eusaio uoauaiiGa cbiticov toha iv. 

lá se ergae para o Ceo levando a cargi, 
. Qae vai pelo seu choro digita cbcia. 
Na cara, que de humor salgado amarga, 

O liquido crifilal, que assi recreia 
A quem o gosta com doçura estrasha, 
Que a talma estUla por secreU te». 

Tomou da mesoao choro seu tamanha 
Doçura, porque deite o trcoco aatigo 
Nos poros seus o Sai de (odo apanha. 

Mil fructoa daodo assim o ramo amigo, 
Fioou, que Saladina aqui primeira 
A' custo accresceaton do sbB' periga 

Est« o preiuo de amor tão lei^adeira 
Foi, com que a fé de mísero Maaoeb» 
Pagou bum peito ingrato, e Usougeiro. 

Ssle bellissifflo trecho de poesia, que tautoB applaosos 
tem recebido dos coleodedores, prova o quanto a Lusitâ- 
nia Transformada perdeu em ueu Author Dão haver col- 
locado a scena da sua arção do meio dos Palmares do 
Oriente aproveitmdo os costumes, legendas, e tradições 
do paiz, qve seriam roolQ íoexhaosta de interesse, e ile 
deleite para os Leitores: mas é também certo, que esla 
idéa difficilmente poderia occorrer a alguém no século do 
Autbor, ea que a imilaçâa dos Antigos, e dos Italianos 
parecia a lodos o uaico caminho de subir ao Parnaso. 
Fernão Alvares propoz-se a imitar Samiaziaro na suaAr- 
eadia, consegui-o, e não terei dúvida em dizer, que o 
evcedeo ; e segundo as idéas, iim pouco pedantescas do 
sectilo, em que vivia, não líaha mais que Tazer, nem os 
Leitores 'que exigir delíc. 

Peia minha parte eu concordo com os seus admirado- 
res sobre o merecimento poético daBtstoria de Saladino, 
a pesar disso nilo hesito em declarar, que sem fallar em 
algumas pequenas negligencias do estjlo, e de expres- 
são, me Dfio couttuta a methaphÍ»'oa ii amor platónico, 
e os alambicados sentimentoti, qu« resombram e«n parle 
da falia de Saladioo: ellesnãó me pBreceM convir a um 
Alahometaoo : o amor ('os HusulloaBos é abnzador corai 
o Sol dos seus paiies ardentes, o seu ciúme é como o fu- 
ror dos LeOes, e dos Tygres,-e oada maia estranho, e 



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lííVrt Tlt.,- CAHTDlfl «.- Í0 

mais oppAsto á sua netoreza, caracter, e opiniões, que 
esse culio exaggerado dado ás mulheres seguado o es- 
thusiasmo da Cavalaria.' Diie^ como 'Saladioo, que não 
ousa Tingar-se do seu rival , por não dar desgosto á 
Eua bella Adultera, me pareceria demasiada devoção em 
D. Florisel de Kiqueh, Amadb 4a Gevia,- ou. D. Floridao- 
te de Hespanha; mas altriboir tal conceito a um lodio 
Musulmano, me parece transcender todos os raios de \tr 
rosimilhança. 

Fernão Alvares do Oriente é um dos nossos meiborcs 
Clássicos, e vim sTutnno, que fiz Sanita habra á Esctiola 
Italiana ; as suas Obras éevem ser estudadas petos que 
pertaideni fbitar a oodsa liftgua com elegattcía. e pureza, 
pontue nellas encentrdrão muitos moídos dè diter gracio- 
sos, muitas expressões enérgicas, e pictorescas, fie ^ue po- 
dem apTDTeitar-se nas suas eomposiéses, tanto em verso, 
como em prosa. O Padre AotOBio dos Heis na seu Èothtt- 
Stasmo Peetrco, Ibe consagrou estes versos : 

Ferreira ennonis, (•) 
Tagne colms, Feniande, plagas, quas rostidb frffítviít 
Tilh«tti Conjttx, maiRtiis ettm sttnjií ab tmdís, 
Aáspkit, in Pinêo/ non ncrmina parva,- iéSitii. 



C*) Bslo Pmer», de «{us aqiii-H> faIU, iito i o Dnulof 
AntonÍoFerTeíra,o Aufhor daCasiTOi maioBiroPoela mait 
tnoJflTDo, cujo Doma era Otogo Ferreím de Figaeiroa, de 
que fat m«iisSó O, FraociKO Manoel de Metki naa tuls 
Obras Famiiíaret, . . 



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346 ENSAIO |IO«láMI0O GKITHIO, lOlfO. Vf. 

CAPÍTULO m. 

Franchoo «te Andrade. 



Jljste Poeta, que fi^ra distíDctamente entre os nossos 
melhores Épico? de seganda ordem, nasceu, na Cidade 
de Lisboa ; d(Lo consta ao certo o anoo do seu nascimeD- 
Iq, posto que pareça verosimit que fosse pelos aonos de 
l^iÕ^ poico maU ou menos. 

foi blho de Francisco Alvares de Andrade, fidalgo da 
Casa .d'EI-Rei D. João lU., e de Isabel de Paiva, sna mu- 
lher, e filba de Nano Fernandes Morara, Escrivão da Ca- 
mará de Lisboa. 

Francisco de Andrade frequentou, com muito aprovei- 
tamento, os estudos de humanidades, em que sabíu maí- 
to extremado, grangeando tal respeito por seu talento, e 
saber, que faltando da vida presente o Guarda Mór da 
Torre do Tombo António de Castilho, grande Literato, e 
grande Poeta, foi, sem o requerer, escolhido para o subs- 
tituir naquelle legar, coja serventia, naquelles tempos, só 
era conferida a pessoas de cousummada literalara. 

Foi igualmente agraciado com a nomeação de Chro- 
nísla Mor do Reino, que muitas vezes se annexava ao 
emprego de Guarda Mòr da Torre do Tombo. No eier- 
cicio destes logares, tão lucrativos como honrosos, passou 
a vida tranquillamente até ao anno delfili, em que fal- 
lesceu. 

Francisco de Andrade desde os seus primeiros annos 
cultivou a poesia, que então andava mui valida na cor- 
te, e estimada entre os particulares ; porém de todas a» 
suas Obras poéticas, que nos consta terem sido numero^ 
sas, apeuas publicou as seguintes: Instituição d'E^Rei 
Nosso Senhor ; esta Obra é ama traducção em verso sol- 
to, ás vezes elogante, de outra que o Doutor, e lionte ik 
Universidade de Coimbra Diogo deTeive, bavia compôs- 



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uyv> vu., oAmoiA m. ■■- Z4'j 
to com esle titulo lEfoio», sive /««Ucorum camm, 
Libri Irez i c stibiu á lâz com o original em Lisboa, an- 
uo de ISfia. A traducpSo principia c(us est«fi veiros 

Doatas habitadoras do Parnaso, 
Maaifestai agora aos bons Poetas 
O sagrado líqnor das Yossas fonles. 

Apesar da louçania, c é 
traducção, força é confessai 
vezes por falta de numero, 
Ibe 6 commuii] com todos 
parecem faltar uma linguagi 
jitdam da ryiua: antes da ( 
Porlugucz versos soltos, qu 

Philomcla de S. Boaveoti 

Esta Obra principia assin. 

Philomela suave, que cantando, 
O liui do breve Inverno denuncias, 
E a vinda do Verão alegre, e brando. 

Esta poesia é muito superior á outra, pelos pensamen- 
tos, pela expressão, e pelo metro. Juntè-se a isto o s&- 
guiale Soneto, em louvor da Elogiada de Luiz Pereira 
Braadío, impresso com o mesmo Poema, e teremos todos 
08 Poemas de menor extensão, que restam de Francisco 
de Aadrade. 

SONETO. 

De lagrimas, de mortes, de crueza, 
De sangue, inda lioje fresco era Barberia, . 
Brandos versos fazer, dote harmonia, 
Que dá .gosto apesar da mór tristeza; 

Maior espanto foi, mór estranheza, 
Que o que fingia de Orpheo a Poesia, 
Que si elle as cousas naturaes movia, 
Estoutro move. a mesma Natureza. 



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ÍBO BHMIO BIominiM «MTK»-, 't*IIO IT. 

Bstfl eatranfaeu tal, que em mir espanto 
O que meibor a eDteode hoje tem posto, 
A ti. Pereira, b6 Tm cDoceilida. 

Ditoso aquelle,- a qaem cbegdr tea canto, 
Que pois da sua dòr liieste gMio^ 
Também de sua morte seiás vida. 

Mas que caminho levaram os seas outros Sonelos, as 
suas Poesias Lyricas, que não deviam ser em pequena 
^quaatidade, visto que estava eotão tanto em moda escre- 
ver Beste género? Picarain sem dúvida em manoscriplo 
sepulLadas nas livrarias dealguns Convénios, epej^i sup- 
pressão delles, sabe Dcoa o fim que tiveram. 

Que elle devia, como os outros PoeLas do seu tempo, 
ler composto Sonetos, Éclogas, Canç&es, Epistolas, e Ele* 
gias é cousa que não admilte dúvida. Nenhum homem 
caceia a carreira poética com a composição de um Poe- 
ma Épico; para al>alaaçar-se a tamanha cmpreia é ne- 
cessário Msaiar muilas vezes o võo, adquirir forças, e 
grangear com longo exercício a perfeifão de estylo, pa< 
ra poder remontar-se com segurança a região tão eleva- 
da ; t com tudo uda nuits trivial entre nós, que vér Poe- 
tas, qne se apreseolem no Píndo s6 com uma Epopeia oa 
maoí Qoe Poesias Lyricas nos deixaram Gabriel Pereira 
de Castro, FraacÍBcode Sá, e Meneies, António de Sou- 
sa Macedo, Braz Garcia Mascarenhas, e Vasco Mouzinho 
de Quevedo? Qaa) seria a causa diMo? Peasariam aca- 
so que a Poesia Lyrica era um jogo pueril, que liw nio 
dava honra? Seria por ieso, qoe Francisco de Andrade, 
em tão longa, e prospera vida, não teve tempo de colle- 
gir, e publicar os seus Poemas deste género? Mas quan- 
tos Poetas Ucrotcos não' trocariam de boamente a su 
gloria pela de Pindaro, Horácio, e Petrarcba ? pela de 
Ctiiabrera, de Gray, de António Diniz,' e de Fraitcisco 
Manoel ? Um Poeta Lyrico de primeira ordem vale cem 
vezes mais do que um Épico mediano, ou um escríptor 
de Tragedias de segunda otdei» : Roossiéitt), e Le Bros 
sempre serfto mais estimados, e 3ppland?d*s qOe Campis- 
trau, e La Fosse. Embora Calíope, c Melpomene tenhaa 
no Pindo um throno mais elevado do qae Glio, e Ku- 



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Ibcrpe.: «s grqadss r^idwfies era paesia^ lio |HnWal 
de> gtíucj-o, que m culL^va, b«s da mueira eoperíof por 
que se culiivam. (tu g!wer«B. O ge&i« sempre é graucte 
eu <jual«t««r terreoo, que «e ii^i<e£t)D;le; 

Quaotu não teria perdido a Lileralura ItalluaEi Tor- 
quato lasso, e Luduvigo Ariosio, eOfrientee da gloria, 
<pu Ilies resjiltava de Jiavedem ptiMIcado o Gc/redo, e ú 
AaiiUas o príoeira, e a seguado o Orlando fuiioso, ti- 
v«fiãci]i ijueiqiads, au deiudo em sonascriplo. as auas 
outraâ composições ? Uarini p«r liaver publicado o Ado^ 
Rit, e Guariai o Pastor Fido r«gci(araiD. acaso o louvor, 
qoe podiaia graagear-Ihe u» aoas I'oesÍaa Lyricas? 

Para aSaDi<«r iaitnortalidade m grande none de KJo- 
pstock bastava sem dúvida a gruode coacepcSo da sua 
Metsiada, a mais stiblime, e a n>ais riea de Iodas as Epo- 
peias sagradas : mas deixaoi par isso os Alemães de lâf, 
e admirar as suae maguilicas Odes, que ludos os dias r e- 
pelfiQ}, e cauLaai com ealhusiasijio ? 

Si Luí& de Camões d3o tivesse dado á luz seuão as 
suas rymas. anta par isso deisaiía de ser noosiderado co- 
mo o prineipo das b«£sos Podas antigos, o Palriarcha 
da nossa poesia, e o aperfeiçoador da versificação porUi- 
gueza ; tamanha é a' pureu, e loucsuia- de tingoagem 
que nellas renam, tao.brilhaolcs as auas iniageiís, tão 
paUielicoj os seus affectos, e tão fiarmoDiosos, e correc- 
\as os seus versos. 

toi, não scoega, gnode braiàu para anossa pátria, e 
para as nossas letras, que elle com os Lusíadas desse á 
Eoropa um género novo de Epopeia, como o reconheceo 
Roehefort, no Frefucin da sua traducção de llomero, em 
FerEo Traocez ; roas taotbem Bão pOde negar-se, que o 
Cantor das glorias aacíooaes, para ser lido em couta de 
grande Poeta não precisava Juntar os touros Épicos, ao 
Diadema Lírico, com que as Musas lhe haviam adorna- 
do a douta fronte. 

É pois muito para sBalir, que Os nossos melhores Poe- 
tas Épicos tivessem o capricho de condemuar ao esque- 
cimento as snas composiçftea l;ri>^s. 

É nas poesias laricas, que o grande Poeu, livre de re- 
gras, e rormas cuaveotranaes, p6de mais fraucanieole 
abandonar-^ a« impulso da inspiracSo, soltar os vãos 



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2St EKSAio HoaumiM cárneo, tmo it. 
dipbaBt»i», divagar cora» a Abelha de flor, era flor, so- 
bre diiereates objeoltfa, tonar ra^dameote a» sssamp- 
t», c revestir ss saas idéas âe toda a' magia do estyto, 
de todos os encantos da liii{iiBgeBi, e da barraoiúa varia- 
da da TersiticatSo. 

Ootta vantagem da poesia iyriea, é q«e eHa oasce or* 
diaariaiDeBte dás impressCes fM-tnitas, que soRre a alma 
do Poeta, t por isao se loroa a expressão natural dos 
seus aSectos, da «u admiração, dos seoa prazeres, que 
se hamooisam, e comoDam com os sentimentos do Let* 
lor, o que se lorn» ttma fonte perene de ioleresse, e de 
sympatbia ; aiéia disso a peqtteaez des assumptos não dà 
t^ar ao canfasso, is quebras de imagiaaçSo, que fre- 
quentes se eicoBtram uas grandes composições como a 
TragetUa, e o Poema Épico, que sam verdadeiras tare- 
fo, e aão meros desafogos do eDgenb». 

Si eousiderariDos a belkia de est;)», -e da versificaçã» 
de Francisco de Andrade, aio podemos deixar de conhe- 
cer, que «s suas composiffie» lyrieas seriam de mento 
noito ratevaate, e de muita gioria para o seu aome, mas 
e Poeta a3o se dignou de c«llegi-las, e cofiteotou-se de 
a^CKatar-se m Templo da Memoria (fuasi sem mais n- 
coawNBdaçOes do que o Primeiro Certo áe &». 

Esta Epopeia consta de vinte Cantos, em Oitavas, e a 
Fabnia, si pôde dtzer-se que tero Fabula, começa não 
ub ovo, roas a Galtina, segundo a expressão deScaligero, 
em objecto semilbante, ptús o Poeta abre a sceaa do seu 
Poema dando larga coata da vida, «astumes, e caracter 
do Snllio Badar, Rei de Cambaia; passa logo a narrara 
tomada da Ilha de Betb, pelo Governador Nudd da Ca- 
nha, com tamaBho estrago, e matança dos.naluraes, qui 
por isaoosPorluguezes lhe ficaram chamando a Itba dos 
Mortos : eis aqui o modo porque elle descreve esta gna- 
dfi facpão. 

.0 Lusitano Heitor á porta imiga 
Chega, com férrea luz resplandecendo, 
Não ha nenhum dos sens, que não o siga, 
£ lambem oSo commetta ousadamente; 
Trava-sc ali cruel, e dura briga, 
Parque a força maior da ímiga lieate, . 



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tmo TH., «âPWTOO MI. 21 

PosU em hum Bsqnadrao oaqdeHft parie, 
Seu forte Capttfto aegoe o estandarte. 

Hinia por Bvhir «BOe no baixo morot 
E, por ramp«r a porta, ' oulro' Uabalhat ■ 
Faz isto.flio liaver logar;seguro, 
Mas perifíosa em todos a batalha ; 
Oh fortnaa crael '. oh fado duro, 
Quem ha (^e cootra li resisto, ou valha? 
Guarda-ie, forte Beitor, muda esse p^lo, 
Porque em mortal perigo ahi estás posto. 

Mas quem ha hí, que nSo esteja preso 
Do que manda o que o Ceo alto governa? 
Desce hum raio de Marte, em fogo aceeso, 
Lít da parte do muro mais superna, 
Não detém o forte aço o subtil peso, 
Ào valoroso (leitor passa uma perua, 
Cahe o corpo mortal, que a morte o chama, 
Mas triumpha da morte a eterna Fama. 

Mas antes no salgado Senhorio "; 

Tm vezes accendeo o Sol séu luine. 
Que cortasse o subtil delgado Ro [ . 

A Parca, que as mortaes vidas cOnsume; 
Aposentam na Terra o corpo frio, 
A alma sobe ao ciaro ethereo rtime, 
Com gran perda da ficnte Lusitânia^ 
De que o salgado humor de carpir laáait. 

E feita mais feroz, e mais accesa 
Co'a grave ã6t, que lá n'alma'a lastína; 
Rompe a porta, dá Hm á dura empreza. 
Por mais qtfe lho defendem lá de cima ; 
Porém acha an Mnuro gran defesa, 
QueleoibenFa hdoi^naisqae a rrda ^tima. 
Porque qualquer parece hlim>Bo«0'Marte 
Em «pufito os oão tíntráraiD d'outra/pDrile: 

Porém dnpMs dASotrados não senõdeiUi 
Nem dç-l^ufba.aaoalrgm appsrebctá, 



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ENSAioiBionuaviO) cBitiM, nnio it. 
Em quanta dura a força, se defendem, 
E van trasear a mnrte á ooapeteaaia. 
Os mais delles em fim mortos se estendem, 
Que nSo lhe» va< neftbvma resistência, 
E o «esroó tegar mo«M occnparam. 
Que para defeaddr tívoi Unarant. 

A. todo o qve cscapiòa dás mãos dos nossos, 
Os melhores dos seus já mortos vendo, 
Lá junlo ao mais inlrinsico dos ossos. 
Se foi kmn tremor frio decorrendo, 
E para se salvar dos fortes, grossos. 
Esquadrões Lusitanos, técolneodo 
■Se Tai qoát por cislcma húmida,'* Wa, 
Qoal por futoa, on por cova alta, e sombria. 

Hum a qne entre Iiumas pedras tinha dado 
De salvar-se o temor grande esperança. 
Por hum de seus iraígos foi achado, 
Que o fez sahir á saiiguinosa Dança; 
Acena logo o Mouro c'o terçado. 
Estende o Portuguez a teza lança ; 
O ferro por diante nelle encobre. 
Que por de traz de novo se descohre. 

O Mouro, cuja Fama agora véa, 
Lá pela região clara, e superna, 
E c'o melai sereno o Mundo atràa, 
Pola fazer ao Mundo sempiterna, 
Pola laufW pas^da assi ei aòa. 
Ao imigo cruel coría uma perna, , 
Juntamente na terra ambos se estendem, 
E juatameate o Espirito ambos reodeio. 

, . Bemeus TBTS03 MUlado etenmmite 
Tons, vaVesle Sfouro, » meu conto, 
MSo tjveni outen objecto aqni praseate,' 
Be que eu me ensoberbeço, e me honro tanto, 
, Qoe com imaginar oetle somente 
lhe ás dania \Estrcila8 melerisHto ; 



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K4S a falta da «lioba, ou de «oin historia 
Não p9(ter tjrar-rle a toa glpria. 

Alguns, a quem o esforço inda d|o falia, 
Por fuijirem do jugo Lusil^DO, 
Qual o fvrido Cervo corrf, exalta, 
A hu^v-ar o repiedio do seu darono, 
Selwm l«K& na roeiía, que be mais atta, 
E sj^viai abraçar com largo Qceaoo, 
Oade chegando já despedaçados 
Eolre os treines ticarau) sepaludoa. 

^ Os Chrislâos a triste Ilha em fim tomaram, 
Cessa logo o faror, miliga~se a ira. 
Sã dous, ou trez caplivoa aella acbaram, 
E as ciaias de que o fogo coasuniira, 
O seu primeiro Qome lhe ouadaram, 
Os mortos, que ella em v3o chora, e suspira, ' 
£ de si lhe pozeram o segundo 
CTp qual be coabeei^a boje. ao lluado. 

Eete Ião triste fim ta» laelimoiso 
po que lio fácil boje êt cuidava, 
Mostrou quaol» eotio bera proveitoso, . 
O cpAs^lho que o Turco^oles lhe dava, 
Porque o I'ovo de si iwuce ssimos» 
O alvoroço pisrdt.'o. que «ntes levava, 
£ do animoso Ueiíor, que tanto estima, 
O entiJiit^tc a grâa Eatta» e desaaina. 

p£pois desta espantosa úaroificina , Nuno dai C<wba 
manda uma frota ialeatar as costas de Cambaia, em ^ir- 
.tude de cujas tlevsiitaQãcs oSullãofai,propoKí{:a«s de pai, 
(}«e são acoeiíaa. 

Entanto osilogoresrovpémgvten-ftcow aRei de Caia- 
bai4, este vendo-SB cm grnpde apuro, implora O soccarro 
4e H^tioa A.ffonso de Squ8a. Qapitão-do Uar. Jjtiígea-w 
. Q forlateia de Dio ; mas de pf«ç». se, eoqtWw que. BiWInr, 
que só ^.forca i» upues^dad^ , « pelo d^eje de. sv 
soccorrido concedera, aos Porlugfieieií q aasentarcnir íur< 
ia\e3fl> ip Dio, agora:liwQde Bqria>,, n3« góso íWTcjen- 



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Í56 KNSiio klooi&Mnâo cniico, tamo it. 
déra da mercê ouAorgada, mas ciHispira para demoli-la, e 
exterminar todos os Poriiigoezes, que neHa existem. 

As suspeitas tornam-se realidades, e o Goveroador da 
lodia Nuno da Conba , infornodo desta per&dia , e co- 
nhecendo a importância do negocio, apresenton-se em 
Dio com oma armada formidável. 

O SulUo, vendo os seus projectos transtornados, e pro- 
caraodo illadir o Governador, á Torça de honrarias, re- 
solve ir visita-lo a bordo da a)míranla; Cunba o recebe 
com Ioda a distinfão, mas na volta para terra, é p« 
soa ordem assassinado a bordo de uma fusta. 

Narra depois o Poeta , como o GoTeroador depois de 
confiscar os armflzSes, e tbesouro de Badur, Faz collocar 
no throoo de Ctmbaia a Merizam Ihrard, qne em breve 
é desthrooado pelos Grandes do Reino, que tomam o par- 
tido do Prinoipe Mabamoud , sobrinho de Badur , e por 
isso sen legitimo herdeiro. 

Todos estes acontecimenlos, eaFgoDs, eraqueoSojul' 
gnei necessário locar, formaOi a matéria dos primeiros 
nove Cautos, vindo por isso a acçfio a principiar no Can- 
to decimo, o que na verdade é um pouco tarde. 

Neste decimo Canto o Renegado Italjami Coge ÇoTar, 
apresenta-se em Amadabat, cdrte do SultSo Mahamood, 
a quem persuade a vingança de Badur seu lio, a espog- 
nação da fortaleza de Dio, e o extermínio dos Portugoe- 
zes , por quem aquellc Monarcha íbra morto. O Sultio 
lhe confere o commando de suas tropas, com qoe Çofar 
marcha para Dto , e dá nm vigoroso assalto á Villa dos 
Rumes, é rechaçado, e se retira ferido para Nevanegaes. 

António da Silveira, Capitão da fortaleza, vendo assim 
repelidas as hostilidades, toma a resolução de defender 
a Ilha , e o Renegado a ataca com todas as soas forças, 
ha diversos recontros , dt: que resulta ficar finalmente a 
Ilha em poder dos inimigos, que dabi concebem grandes 
etperaiiças do bom resnttado da sua empresa. 
' O CapitSo assalta novamente os Mouros, e recolbe-se 
é fortaleza , onde se forlefica ; Coge Çofar, e AIrcan , fa- 
iem sua entrada na Cidade , e passam logo a assentar 
MUS arraiaes, e Lopo de Sousa Coutinho, ataca, e rom- 
pe os inimigos por differentes vcecs. 

Cma armada de Turcos , vem lançar ferrt) diante óe 



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limo TU., CinTDLO III. 257 

Dio ; o Poeta dá conta dos motivos desta expedicSo, e do 
acontecido eoisun viagem ; o Chefe manda assaltar a forta- 
leza pelos Janizaros, euma horrível tempestade dispersa a 
frota Othomana, que vai ecolher-se no porto de Madra- 
fabal ; continua ctn tanto o cerco, dam-se diversos, e re- 
petidos assaltos, em que a defesa é igual á vivacidade 
dos ataques. Lopo de Sousa chega ao baluarte de Fran- 
cisco Pacheco, e salva a Tortaleza. 

Tornam a surgir os Turcos diante deDio, e dam mor- 
te a João Peres, e a seus companheiros; António da Sil- 
veira recehe uma carta de Francisco Pacheco, a que res- 
ponde. Os Turcos assestam sua artilharia, e com ella va- 
rejam impetuosamente o baluarte de Sousa, e os nossos 
melhoram o melhor, que podem as suas estancias. 

Entra Manoel de Vasconcellos duas vezes ua cava, e 
João da Niva trabalha por persuadir a guarnição para 
que entregue a praça, recusa ella capitular, e os Turcos 
a aconioiettem por cinco partes, e seudo repellidos re- 
correm a uma mina, em que é morto Gaspar de Sousa, 
qae hia reconhece-la . 

Entra na fortaleza o soccorro de Gòa, e António da 
Silveira, ordena que os Catures vindos de Gõa se façam 
de vela ao despontar damanhSa ; os inimigos atacam im- 
petuosamenle o baluarte, chamado do mar, mas sam ro- ' 
tos, e desbaratados naarremeltida, ficando morto qo cam- 
po o chefe, que os commandava. 

Os Masulmanos cessam por algum tempo os assaltos, 
e continuam com o assedio. Os Turcos, já menos confia^ 
dos, appellaro da força para a astúcia, reliram-se para 
assim colherem os Chrisiãos desprevenidos ; porém Sil- 
veira aventando o projecto doslulieis, toma todas as pre- 
cauções, que lhe aconselha a sua prudeDcia, e pratica da 
guerra. 

Desembarcam de noite os Bárbaros, e amparados das suas 
sombras dam vigoroso assalto á praça, e sam rcciíassa- 
dos com grande inorteciuío, edicide-se finalmente o ne- 
gocio em uma batalha geral, em que os inimigos desba- 
ratados se embarcam. 

Por esta exposição da marcha do Poema, se vê que o 
Aulhor em sua contextura não empregou artilicio algum, 
Dem soube dar-IIie a forma epíca, seado alias mui facit 
17 



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258 ENSAIO XIMaAVBIGO GBITICO, TOMO IT. 

reduKÍ-lo ás regras, começando o Poema com o Conse- 
lho de Estado, em que o Sultão deliberasse o cerco da 
íwtaleEa, e maodasse para ali marchar as tropas, e nar- 
raado depois, em legares conveaiente!), todos osacoateci- 
meolos, que eochem os nove primeiros Cantos, que aia 
Tazem parle da acção, mas que tem referencia a «Ua. 

NSo quero dizer com isto, que Francisco de Andrade 
ignorava as regras estabelecidas para a contextura da 
fabula cpica; elle era sobejo iostraido, e conhecia hem 
os exemplares Gregos, e Bomanos, e si em logar de om 
Poema Heróico nos deixou um Poema Histórico, e qaasi 
sem artiBcio algum em sua composição, Toi porque esla- 
va subjugado pela opinião errónea dos He^ianhoes, de 
que os assumptos nacionaes deviam ser tractados por es- 
te methodo a fim de não se Taltar á verdade. Assim o 
praticaram João Bufo na sua Ausíriada, Ercilla na soa 
ATttttcana, Samper no Cario Famoso, Jeronymo Corte 
Real nasuaifafdíM ãeLepantko, enos dous Poemas Por- 
tugueees o Naufrágio de Sepúlveda, e o Segundo Cerro 
de Dio, Francisco Rodrigues Lobo no seu Condestabre, 
Lope de Vega na sua Corom Trágica, e tantos outros, 
que em logar de verdadeiras Epopeias, publicaram His- 
torias, e Chrooicas, em eslylo poético, e ás vezes em ei- 
celientes versos. 
Não julguem porém os Leitores, que esta estravagas- 
' cia de tomar por Epopeia a Historia ero verso sem fabu- 
la, nem architeclura dramática, nem unidade de acçSii 
seja privativa dos Hespanhoes, e Portuguezes; entre os 
Cregos, e os Bomanos se encontra a mesma opinião, pois 
Aristóteles, e outros faliam da Adraiiia, da Tht&eiáa, e 
da Heradeida, Poemas que coutinham toda a vida de Adras- 
to, deTheseo, e de Hercules; e entre os Bomanos, Ima- 
no escreveo em verso toda a guerra civil de César, e 
Pompeo, Silio Itálico todos os acontecimentos da segun- 
da guerra púnica, e Stacio emprehendeo um Poema íb- 
titulado Achyieida, de que nos resta o primeiro Canto, 
e parte do segundo, em que cantava toda a vida de Achj- 
les, cumo elle mesmo nos informa no exórdio. 

Nos ire per omnem 



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ITTBO ni., CAPITCLO IH. 259 

Parece á vista destes, e de outros exemplos, qae pode- 
ria citar, que os Gregos, eRonianos, on não coabeciam a 
Poética de Aristóteles, on uâo reconheciam a anthorida- 
de das suas regras, pois que os seus Épicos tão pouco 
' se coarormaram com elias. 

Não farei grande culpa a Francisco de Andrade poc 
haver empregado o meravilhoso mytbologico, até porque 
o assumpto do seu Poema nada tem de religioso : nisso 
não fez mais que seguir a opinião do seu século, em que 
se julgava, que era aquetla a linguagem peculiar do Par- 
naso, tendo nisso boas authoridades com que dãfender- 
se, tanio de Jiaturaes, como de ^tranbos, e muitos ân- 
uos depois o severo, e escrupuloso fioileau, na sua Poé- 
tica, appròvou, que os Poetas mod<ewos usassem na Epo- 
peia das machtnas do fioliliíeismo, com titato que o as- 
sumpto fosse profano. 

Não terei com tudo a mesma indulgência com o uso 
mesquinho, catédireí ridículo, que elle fez desse meravi- 
lhoso. Tal é a idéa eslravagaote, que se observa no quar- 
to Cauto, em que o Poeta finge que Zephyro, vivamente 
apaixonado pda Bainha de Cambaia, pede auxilio a Eolo 
jKira rouba-la na occasião, em que eeu mArído a manda- 
va para Judá. 

Zephyro, a quem o Aisaor hoje a,CFeEceata 
A sua natural velocidade, 
A gran preça que leva inda ha por lenta, 
Tanto o vai apertando a saudade ; 
Por onde em breve espado se apresenta. 
Perante aquclle, a cuja magestnde, 
Elle, e os mais Ventos dam obediência. 
£ lhe fai a devida revereucía. 

Logo desta arte a liugua solta ousado, 
Que Amor dá para tudo atrevimento, 
•' Eterno Rey, a quem no Ceo foi dado, 
"Dos Ventos o poder, e o regimento, 
n Porque eu sei que de li foi sempre usado, 
"Antes foi sempre teu eontentamenlOi 
«Dares favor ao teu que delle tinha 
1' Necessidade, o peço eu para a minha. 
17* 

Diçpitizcii;,. Google 



360 BHSAIO BIDOIiraieO CBITICe, TOSO IT. 

n Lá Da parte, oode o Sol d'eBtre o Occeano 
■• Solta o primeiro raio matutino, 
•>Hiim tal parecer vj, tão sobrehumaoo, 
» Que não creio que haja outro mais divino ; 
» Pêra roeu mal o vi, pêra meu damno, 
<> Pois lhe sou tâo sogeito, que imagino, 
>• Que si não daes remédio a mal tão forte, 
» Começará nos teus tormento, e morte. 

»DeÍxei-&, qne com curso vagaroso 
fO Reyno de Neptuno cortando hia, 
»]á que Borcas le achou tSo piedoso 
■•Quando Amor o abrazava d'0rylhia, 
«Não queiras a mira só ser rigoroso, 
» Pois outro fogo mór em mim se cria, 
uNão queiras que Cupido se engrandeça 
»De fazer que o que he teu a elle obedeça. 

•> Consente que Noto, Africo, Levante 
K Me dem nislo o remédio só que tenbo, 
i>E qne comigo passem tanto avante, 
»Qae vam ti ter á parte d'onde eu venho, 
» E façam lá que o mar se inche, e levante, 
•• E que a seu pesar volte a proa o lenho 
n Em que vai meu hem todo, e vã direito 
•> Onde eu quietar possa o acceso peito. « 

Traz disto o humor dos olhos mal refreia, 
E do peito os SLis|iiros triste, e ardente ; 
Eolo a quem a hella Dinopeia 
Quiçá fuz entender o que e^le sente. 
De piedade então tendo a elma cheia, 
No qití lhe pede Zephyro consente; 
E Dão consente só, idrs determina 
Fazer com que elle auabe o qne imagina. 

Esta ficção corre pnrelhas com as paíxftes, e extremos 
amorosos de 1'hrho, de l'rolheo. e de Pan por D. Leo- 
nor de Sá, que turnain inútil, e fastidiosa uma grande 
parle do Toeina do Naufrágio de Sepúlveda, de Jerony- 
uo Carte Aeal. 



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WTIO VII., CAÍITCLO III. 261 

Sste namorameDlo de Zephyro também, segundo me 
parece, tem mauifesla ioverosimilhança. E possivel que 
elle nesta viagem visse pela primeira vez a Raioha de 
Cambaia? Nunca teria adejado nos jardins de Amada- 
liai, em occasião, que ella ali passeava? Que nunca ti- 
vesse entrado do liarem de Badur, onde ella vivia? Mas 
dado tudo isto, que pertendia lazer aquelle Numen, le- 
vantando uma tempestade? Acaso meter a nau a pique, 
e affogar o objecto dos sens amores? Bello meio na ver- 
dade de satisfazer 3 sua paixão ! Ê verdade que elle diz 
a Eolo, que quer 

Que volle ao Lenho 
Em que vai o meu bem, e vá direito 

' Onde eu quietar possa o acceso peito ; 

mas vemos qoe a tempestade faz que o baixel se desgar- 
re do rnmo, que levava, e quando a toroienla é applaca- 
da por Neptuno, vá dar a nma Ilha desconhecida, onde 
a Rainha salta em terra, e separando-se da sua comiti- 
va, se embrenha aósioha em um bosque delicioso pa- 
ra meditar nos seus amores, e nas suas saudades ; apro- 
veita acaso o Zephyro esta occasião (9o favorável para 
arrebata-la como Boreas praticara com Orylbia? Pelo 
contrario, espera tranquiltameute que cita torne a embar- 
car-se, e enfuna as vélas da nau até a conduzir a Judá, 
onde a Rainha bia procurar asylo. Pôde haver procedi- 
mento mais absurdo, e inverosímil que este do esposo 
de Flora, considerado no seulido poeiico, e no sentido 
amoroso? Pàde com razSo applicar-se-lhe o titulo da Co- 
media de Shakespeare a Muita bulha para cousa nenhu- 
ma. » 

Além de todas estas circumstancías, que a tornam ri- 
dícula, esta machina pecca contra as regras, c artificio 
da contextura épica : segando ellas, toda a intervenção 
meravilhosa deve ter por iim retardar, ou adiantar a 
conclusão da fabula: dar-Se-lia essa círcumslancía nes- 
te caso? Que Zephyro ajudado pelo muito complacente 
Eolo, levante uma procelía, que leve a nau, em que vai 
a Rainha de Cambaia, a uma Ilha ; que elle a roube, ou 
deixe de roubar, que influo isso na marcha do Poema? 
Em que retarda, ou adianta a sua solução? Em cousa ne- 



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262 ENSAIO IIOSUPHICO CRITICO, TMO IV. 

nbnma de certo. \ Rainha entra em ludá, e ali fica. Ba- 
dur Qão se lembra mais delia, e o Leitor ignora o resnl- 
tado deste acontecimento, de que presenciou o principio, 
e deqtie nâo vé desfecho; e este conlarello absurdo ape- 
nas serve de deslrabir a sua attençâo, e de aloDgar a ts^ 
tenção material do Poema. Não é assim que oCantor dos 
Lusíadas costuma a)H'oveitâr-se das licçfies mylbologi- 
cas : no seu Poema a inlrereoção de Baecho suscita sem- 
pre obstáculos à empreza de Vasco da Gama ; a de Vé- 
nus 03 aniquilla, e Tavorece o cumprimento da empreza 
do Gama. 

Quando Homero fai adormecer Júpiter nos braços de 
Juno nas cumiadas do Ida, acobertado de uma nuvem de 
ouro, não faz de certo uma narração occiosa para afec- 
tar engenho, ou para divertir os Leitores ; pelo contra- 
rio os resultados desta licção' tornam-se imnensos, por- 
que transtornam inteiramente a situação das duas naçOes 
bel li gerastes, que combatem nas praias de llion. 

Júpiter havia prabibido aos Numes tomarem parte na 
acção, e com seus olhos Gotos oo theatro da guerra, di' 
rige os acontecimentos delia: Heitor, inspirado por elle, 
desbarata os Gregos, fazendo delles horrível caraiiicína, 
transpõe com os seus o fosso, derriba os muros, qn» 
guardam o campo, e quasi chega á linha dos navios va- 
rados em terra, para lhe pClr o fogo; a consteroação é 
geral oo campo, os principaes Capitães retiram-ãe feri- 
dos; mas apenas o Dcos adormece nos braços de Judo, 
os outros Numes inimigos delroya, descem eoi soccorro 
dos Helenos, que reanimados r^lkm osTroyanos, osp&em 
em fugida, os acossam para fora dos vatlos ; e o próprio 
Heitor ferido é levado pelos seus para fora da refrega, c 
privado do uso dos sentidos; eis aqui como os grandes 
Poetas sabem fazer uso do meravilhoso. 

Outro inconveniente, e não pequeno, dos Poemas Bis^ 
loricos, é que em taes composições os caracteres doshe- 
rocs ficam apenas esljoçados; por isso é baldado procih 
rar no Verco de Dio, aquelles grandes descnvolvimenlos 
de paixões, e de caracteres, com que Homero, Tasso, t 
Arioslo auimam os graodes quadros dos seus Poemu 
Épicos, loruando-os verdadeiros Dramas cheios de iate- 
rcsse, e de grandiosidade. 



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LIVRO Tlt., GAnTttLO IIT. 263 

Grande louvor merece, quanto a mim, Francisco de 
ÃQdrade, por não se haver esquecido de adocuar o sen 
Poema com brilhantes episódios, históricos, ou de inveu' 
ção, com qae amenisa, e varia o seu assumpto. Tal é o 
segainte episodio, em que ne segundo Canto se narram 
os successos da vida de João de Santiago. 

Este para que a minha historia pede, 
Seohores, attençKo, seguia a insana 
Ley primeiro do immundo Mafamede, 
£ nasceu na iniiel Terra Àrricaua. 
Ley, que a brutalidade Ioda excede, 
Que os seus por si sómenlc desengana ; 
Mas tanto pòdc a carne com seu damno, 
Que vai mais que a razão, que o desengano. 

No Mundo fdra apenas este entrado 
Quando se vio sujeito ao jugo tmigo, 
5'entre os braços da cara May roubado, 
Perdeo da sua Palria o ninho antigo, 
Dahi ao Hei Povo foi levado, 
Banham-no no licor sagrado, e amigo, 
Que as culpas lava, enche de graça o peito, 
E p5em nas almas ser puro, e perfeito. 

O Ceo. que para varia sorte o chama, 
A hum Calafate Portuguet o entrega, 
Gran saber, discriçíío nelle derrama, 
Grande engenho, e agudeza lhe não nega ; 
Grandemente por isto o Senhor o ama, 
£ depois acontece que navega 
Lá para o Oriental Reyuo o mar bravo, 
£ leva em companhia o seu Escravo. 

Nem lá cessa este Amor, esta vontade, 
Em quanto de ar o corpo vivilica, 
£ qnando a alma mandou á Eternidade, 
Este amor por mil provas veriliea ; 
Deiía o amado Servo em liberdade, 
E com ella também ao Servo fica, 



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264 ERSAIO BIOaBiTnCO CRITICO, TOlfO 1T. 
Por morte do Senhor, mui graoile parle 
Do que suas mãos lhe deram, e sua Arte. 

Já neste tempo aqnelle que tomara 
Dos dous de Zebedeo nome, e appellido. 
Da idade pueril, que atrai deixara, 
Os tenros annos linha consumido; 
Agora nu veril estado entrara, 
E com estudo tal tinha aprendido 
Quasi as linguagens todas do Oriente, 
Que delias usa assas perfettamenle. 

Este ultimo verso é prosaico pela Talta de OTimero, e 
pela vulgaridade da expressão; nos nossos Poetas anti- 
gos é mni fácil deparar exemplos destas negligencias. 

Depois que a cruel Ã'tropos, e horrenda 
De seu Seabor cortou o subtil tio, 
Ajuntando o que pôde de fazenda 
Entra de Bisnaga no Senhorio; 
Nenhum ha que melhor a língua entenda, 
Daquella Terra, e o Rey que bera Gentio, 
logo por Eua audácia o reconhece, 
E dá~lhe entrada em casa, e o favorece. 

Sobre o segundo verso desta Estanca farei um repare, 
que de certo não faria em outro escríptor menos polido, 
e menos correcto : subfil fio é uma expressão deniaaada 
vaga, e que não designa bem a vida, deveria por tanlo 
dizer vital fio, ou cousa semilbante. 

Este seu favor togo n5o se acaba, 
Que co'a lisongeria se aconselha, 
E tudo louva ao Bey, nada desgaba, 
Nunca se lhe para isso nega a orelha ^ 
Seus ídolos approva, e ritos gaba, 
E mil vezes ante elles se ajoelha ; 
Tanto favor lhe mostra El-Rey por isto, 
Que entre os aeus mais acceilos hera visto. 



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LITSO VII., CiriTDLD III. 265 

Mas como hum cobiçoso, e mau conceito, 
NSo pôde muilo tempo estar no seio, 
Que Deos ás vezes, que he Juiz direito. 
Faz que de se mostrar seja eile o meio: 
Nâo pôde esle encobrir tanto o seu peito. 
De maldade e cobiça sempre cheio. 
Que antes que muito tempo ali passasse 
Elle per si se d3o maoirestasse. 

D'buma parle este Vicio baixo, e immundo, 
Pay de todos, e tronco verdadeiro, 
Que a Gente pasma, e athe por sem segundo, 
Uais qualquer em segui-lo be o primeiro. 
Que sempre he falso o bem que uioslra o Mundo, 
£ d'outra hum tal favor n'buni estrangeiro, 
Avorrecido o fez d'oiitros privados 
Os quaes delle se tem por acanhados. 

Este ódio, inda que novo, assi crescia, 
Que em breve tempo foi maior que antigo, 
Por onde elle naquelle mesmo dia. 
Que o Ceo se lhe mostrara mais amigo, 
E mais aito chegou sua valia, 
Se vio encaminhar para castigo. 
Que o miserável corpo no ar levanta, 
£ com laço cruel prende a gargaula. 

Esta he do Mundo a bcmaventurança, 
Oh quanto vás juizo humano errado, 
Nisto para quem põem a confiança 
No que de si promette hum alio estado; 
Este triste chegando á múr honança, 
O sobem n'ham rocim, e deshonrado, 
O guiam para a forca, a qual faz guerra 
£ soe punir os maus naquella terra. 

Já de buma còr mortal coberto o rosto, 
£ a força natural quasi perdida, 
Chegado eslava áquelle triste põslo, 
Lá onde condemnado deixe a vida. 
Quando os mesmos a que elle deu desgosto, 



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266 IllSilO BlOOuraiGO CBITICO, lOIlO IT. 
E qae por elle viram abatida 
Saa privaDça (dõr que ás almas chegay 
O pairam a El-ftey, e não lho nega. 

Torna o mísero ein si, vive, e respira. 
Os membros cobram o calor nativo. 
Torna a cdr ao logar donde sahira, 
Da-lhe alguma Bgura já de vivo; 
Anda, vé, Talla, e cuida que be mentira 
Vér-se solto, e inda cuida que he captivo ; 
Cos olhos o está vendo, e o pensamento 
Inda cuida que he sonho, ou &ogimen(o. 

Porém vendo que já segura tioha 
De hum perigo mortal a vida cara, 
Temendo que si ali mais se detiaha 
à veja n'oulro mór do que passara, 
Para GOa dali logo encaminha, 
Foge á terra, que á morte o condemnãra. 
Mas não se fica longo tempo em Gôa, 
Que logo para Ormuz voltou a prAa. 

D'Ormuz na branca praia apenas salla, 
Quando o sen grande engenho, e ousado peito, 
Que com tantos trabalhos lhe não falta, 
O faz a El-Bey da terra tSo acceito, 
Que privança alcançou logo tao alta. 
Que no Reyoo por elle tudo he feito ; 
A Cubica, que lhe hera Natureza, 
Fqz que logo juntasse graa riqueza. 

Ali sua Bonança ha por segura, 
E que sua Fortuna ali soITregue, 
Mas como ella o que pôz na nrór altura. 
Sempre c'o maior mal tracta, e persegne, 
Faz que neste ali foi de pouca dura, 
Tudo quanto lhe fora antes entregue; 
Perde o mando, as riquezas, a privança, 
£ quasi do viver a conliança. 

A causa disto foi, si não me engano, 
Saber de certo El-Rey, que se fizera 



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LIVBO Vil., CiHTUtO III. 2(i7 

Este, Daquella terra, hum tal It/ranno, 
Qual Sicília jamais de si bSo dera, 
E outro castigo mór, outro mór daumo 
Este falso em Ormuz então tivera, 
Si aquelie Capitão Dão o atalhava. 
Que a Christáa Fortaleza governava. 

Bum tal tyrafuio, éexpress3o prosaica, eplebea, e in- 
digna da magestade Jo eslyto do Poema Heróico. 

De segundo perigo em salvo posto, 
Deter-se aqui também mais arreceia, 
E outra vez para Gôa volta o rosto, 
Oade seus intoituaios remedeia; 
Em grau miséria ali, em gran desgosto. 
Passa a vida de males sempre cheia, 
Athe que outra occasíSo o tempo traga, 
Com que possa curar a nova ctiagn. 

Mas o Geo, que lhe coiao lhe fora vario. 
De novo bem lhe da novo desenho, 
O Governador manda o Secretario, 
Da Índia, ao que já acima dito tenho; 
Jo3o Santiago vô, que necessário 
Lhe he oaqueila jornada o seu engenho. 
Porque a Cambaia liugua bem sabia, 
Pede-lhe que o levasse em companhia. 

Ferreira o companheiro não enjeita, 
Leva-o por seu Pharantc na viagem, 
E em entrando em Cambaia se aproveita 
Do sen esperto engenho, c da linguagem- 
Logo c'o Sultão teve tão estreita 
Amizade, que a todos fez vantagem ; 
Tal hera o seu saber, e habilidade. 
Que bastaya a gauhar qualquer vontade. 

A sua inclinação perversa o incita 
A que nenhuma ley tem firme, e assente. 
Por que tão devoto entra na Ucsquila, 
Que faz a Mafamedc a Moura (ieate; 



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208 INSAIO BIOCmiPHICO CamCO, TOHO IV. 

Como quando o Chrístão Templo visita, 
Que honra a Deos verdadeiro, e ooinipoteute ; 
Com ígnsl devoção também acode, 
Qnando está c'd Gentio ao seu Pagode. 

De tal sovte o Sultão se lhe afTeifoa, 
Que quando o Secretario se despede, 
Tara cortar o mar direito a Gõa, 
Lhe pede que lho deixe, e lho concede, 
Logo 8 sua bonança ao cume vAa, 
£ todas as passadas bem excede. 
Que logo Foi em (aulas honras pAsto, 
.Quantas soube inventar o Amor, e o Gosto. 

A primeira he fazer que e1le se veja 
Com gran Casa, e apparalo soberano, 
£ para a sustentar como deseja 
De renda vinte mil pardaos cada anno, 
Lhe tinha dado El-Rey para que esteja 
Bico, grande, abastado, alegre, ufano, 
V. dons Logares para que mais cresça. 
Sua honra, e seu estado se engrandeça. 

Nem farlo inda com islo o ardente peito, 
O Rey, a quem amor novo então cega, 
A este, sem mais conselho, ou mais respeito 
O mando universal do Reyno entrega, 
Tal que aos mais nobres seus, contra direito, 
Qualquer Cargo, que lem, agora nega, 
£ para este só quer que se reserve, 
E também de Farante este Ibe serve. 

Porém em quanto o Ceo bum tal estado 
Tão alto, e soberano então lhe dera. 
Não lhe deu bum aspeito nobre, e honrado. 
Conveniente ao Estado, em que o pozera. 
Dera de rosto ma) albgttrado. 
No qual por mil signaes se via o que hera, 
I)o mal contagioso combalido 
A quem França tem dado o appelUdo. 



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LIVBO TIL, CAPITULO III. 309 

Parece-me que esla circumstaDcia sórdida nSo devia 
apontar-se em escriptura tão nobre como um Poema Épi- 
co, aiuito mais sendo absolutamente inútil, de qualquer 
maneira, que a considerem é este um daquelles casos, 
que o Judicioso Boileau recommenda na sua Arte Poética. 

Ne fTtstntez jamais de basse cireumstance. 

Se examinarmos a literatura de todas as naçOes, acha- 
remos que em todas ellas a poesia lyrica cfaega primeiro 
á sua perfeição , que a épica, e a tragedia, e a razão é, 
porque o etityio grave, e sublime é o mais diíGculloso, 
e porisso o uliimo que cbega á perreição. Os Francezcs 
tiveram Maltierbe, eRacan, que escreveram Odes, eldy- 
lios com pureza, e eli-gancía, antes deRolrou, eComeil' 
]e, que com muito mais geuio (especialmente o segua- 
do], ape!='>r das scenas sublimes que admiramos em suas 
Tragedias, nellas a cada passo claudicam pelas idéas, e 
pela expressão. 

Mas como nada disto Ibe tirava 
A. grande descrição, grande eloquência. 
Que o sea peito de si dentro enserrava, 
Taes que c'os Vicios vam em competência, 
Aquelle que algum tempo o conversava, 
E disto tinhii alguma experiência 
Yê que os Principe:< ficam desculpados, 
Que lhe Toram já tão affeiçoados. 

Em casa desle Rey, que a tanta altura, 
De hum estado t3o baixo o alevantára, 
Se mostrou a Fortuna de mais dura 
Do que em todas as outras se nwslrára, 
Mas como n<'iihuma hn firme, e segura. 
Aqui lhe di-u o fim que lhe nguardára, 
Do que d'hum Infiel malvado blsprito 
Como espero que avante seja dito. 

No Canto IX. apresenta o Poeta um episodio de ca- 
racter ditTereole, em que pinta o amor de dons Esposos 
Mogores, querendo o marido sacrilicar-se para salvar « 



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270 BKSAtO MOORAPfllCO CRITICO, TOMO IT. 

esposa á casta da soa própria vida , pois qne só a ella , 
e não a elle se concede orefugiar-se na forlaleza. Pass« 
a transcreve-lo para dar ama amostra do estylo patbeti- 
CO , e affectuoso de Francisoo de Andrade ; os Leitores 
coniparando-o com ontros iguaes de Luiz de CamOes po- 
derão adquirir mais ama prova da superioridade desle 
sobre todos os seos rivaes em todos os dotes de grande 
escriptor. 

Has se me oavis, vereis o raro, e Forte 
Poder de Amor, que tado desbarata ; 
Anlre estes a qae a liranda, amiga sorte, 
Com tante risco seu hoje arrdtala 
Das mãoB da rigorosa, cruel morte. 
Havia alguns que o nó conjugal ata, 
E as Mulheres comsigo calão traziam, 
Como nas guerras sempre estes faziam. 

Um, que co'a Companheira tao unida 
A alma tinha, e o amor tem nella posto. 
Que delia s6 pendia a soa vida, 
Seu descanço, seu bem, lodo o seu gosto. 
Vendo ac^nella purpúrea cõr perdida, 
Qne antes acompanhava o beHu rosto, 
Agora se internece, agora se ira. 
Treme, disfarça em vão, arde, e suspira. 

Estes dous versos sam excellentes ; e seria dilicil o 
fechar esta Estanca com maior energia. 

De novo olha d'amor, e temor cbeio, 
Aquelles olhos, antes vivos raios, 
E como de os salvar não vê enl5o meio, 
Lhe causa não um só, mas mil desmaios, 
Agora tem da morte mais receio. 
Que entre os mais duros golpes dos Cambaios, 
Por que menos mortal o imígo achava. 
Que o perigo da tjue a vida lhe dava. 

A bellissima Moura, que a vontade 
Tem também ao amante tão sugeila, 



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irfRO TIL, CAPITULO «I. 271 

Qae nem vida, nem gosto, ou liberdade 

Sem elle lhe podia ser acceita, 

Menos seate em Ião Tresca, e l«nra idade, < 

£ tal que o mesmo A.mor se lhe sQgeita, 

De a^eeeios da morte vér-se cheia, 

Qne o mal, que o raro Esposo então receia. 

Os olhos nella pSem tio braodameote, 
Que rompera a iotractavel penedia, 
E junto ao amor antigo, o mal presente. 
Estilar vivas perlas Ibe Tazia, 
O namorado Ãkaro a que bum ardente 
Fogo n'aima de novo esta agua cria, 
N3o sabe já que faça, nem se entende, 
Pois o que mata, o fogo uelle acceode. 

Nestes versos pagou o Author um tributo á mania dos 
conceitos, moléstia epidemica de toda a literatura do seu 
tempo, e que depois subio ao maior excesso tanto em 
Portugal, e Hespanha, como ua Itália, e na França. 

E maldizendo em fim o fado imigo, 
Quer tentar o remédio derradeiro, 
Chega-se ao muro, em parte de bum postigo, 
Abre algumas entradas por dinbeíro, 
Sente então não trazer muito comsigo 
Com que mais accender possa o Porteiro, 
Que quanto o Mundo tem menos iollamma, 
Que buma lagrima só do que tanio ama. 

"Valeroso, c esforçado Lusitano 
(Diz contra o que o postigo a cargo tinha) 
» Em cuja mão está o bem. ou damno ' 
»Meu, e da triste companheira minha, 
i>Si aqueila parte acaso tens de bumano, 
» Que sempre ao grande Esprito, anda visíoba, 
«Mostrarás piedade não duvido, 
» A quem, si o tu não salvas, be perdtdo. 

»Usa lu comigo hoje de brandura, 
«Basta ser-me a Fortuna iraiga forte, 



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972. XNSAIO BI0QKAFR1C0 CBlTICfl, TOOIO IT. 

•• Si qoer porque esta graade formosara, 

» Anle ti Dão receba cruel morte ; 

kE tudo, o que entro tanta desventura, 

..Me conseoiio salvar a adversa sorte, 

»Te dou, que mais riqueza não procuro, 

.> Que vér-me g'o meu bem póslo em seguro. > 

O Portugnez, que n3o hera composto 
De jaspe, nem estava em ódio acceso. 
Enternecido assas do bello rosto, 
De que o triste Mogor via tSo preso. 
Diz, que os metera dentro com grau gosto, 
Mas que do Capitão lhe hera defeso, 
Que o que a6 Tazer pôde he que ella entrasse, 
Com tanto que de fora elle ficasse. 

Acccita o Mouro a entrada só da Esposa, 
Por ella ao Portuguez as graças rende; 
Já sua perdição ha por ditosa. 
Pois seu amor da morte elle defeiide, 
E inda que a larga ausência, e trabalhosa, 
O amor, e saudade mais lhe acceude. 
Morrer por lhe dar vida assas Ibe paga 
Todo o mat, que Ibe causa a nova chaga. 

Responde, que o partido elle acceitava, 
E que de ficar fora he satisfeito, 
Porque salvando-se ella, elle salvava 
A melhor vida, e o gosto mais perfeito; 
E porque o gran temor o estimulava 
Quiz que esta entrada logo houvesse effeito, 
Chega-se á porta, e solta a sua Estrella, 
Tira-sB atraz c'os olhos postos oella. 

Cos os olhos pastos nella atraz se tira 
O triste amante cheio de saudade, 
E a cada passo mais ama, e suspira, 
Os olhos lá se vam traz a vontade ; 
k Moura, a que o amor Dão consentira 
Que doude tinha entregue a liberdade, 



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ttTM VII., CIPITULÒ m. S73 

Os olliw apartasse linin s6 momento, '■ 
Bem vio do sea amor o apartameato. 

Pintura excellente de um amor extremo, exprimida, e 
animada com colorido simples, e por isso mais próprio 
para despertar a compoBsío, e o intererae na alma do 
L«lor. 

E vendo qne Scando elle de fora 
Por salvalla, a morrer se offerecia, 
Não quer que em piedade a vença agora» 
Qaem agora em amor não a vencia , 
Torna' alraz com grão força Dsqaella hort. 
Que para a recolher se apercebia 
O PorlDgoez, porqne ha por bem mais num 
Na morte acompanhar o Esposo cbaro. ■ 

Qae consa nSo íkri já o poderoso 
Amor, por mais qne scija alta, e s(d)lime. 
Pois qne o'ham feminil peito medron 
Tal despreso da morte agora imprime? 
Chegada a belta Amante ao charo Esposo 
Não sente consa já qne ali a lastime. 
Si oSo temer qne a morte agora a tncte 
Tfto mal qne a deixe Tíva, e lho arrebate. 

£ porqne ambos os leve juntamente 
A Morte, qne estar perlo lhe parece,. 
Nem haja cousa ali que delia o ausente, ' 
Os braços, a que a neve alva obedece, 
Lhe lança tão onida, e tnslémenle 
Quanto a verde Hera o antigo Ulmeiro tece, 
Onde de tanta gloria fica cheia, 
Que a morte mais deseja qné receia. 

Em meio deste gran contentamento, ■ 
Que d'amoroso amor lhe banba o neto, 
Solta a suave voz, e brando acceato, 
Que d'amor, e de queixa vai composto: 
» Amado Esposo mea, em quem snsteoto 
>• A vida, a liberdade^ a gloria, o gosto, 
28 



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!t74 iniiI9J|»)^4ntC<> WnQO. «ONO IT. 

(Lhe dii^ -a ma qaem teobo por pnrdída ' 
"á gloria» a ltber<úde, o gosb^ a vida. 

> " .- HQaannal.teinereciaoque leeafiqero, 
xBfHsme a foltas da vida hpia mal Uo forte, 
mQo^ taato.^a mim Sàn mm fero, 
xQaanto me dilatara mais á morte; 
" Si de viver sem ti já desespero, 
» Que poderá stm ti dar^me tal sorte 
o Si dSo morte crneJ, aapera, e grave, 
» Qafr «emtigo tsrei branca, « suave? 

■•Gemo viver sem ti, meu bem, poderá, ' 
"Quem de ti vive só^ de ti respira? 
■ Qttem aalvaçSo sem ti, e vida espera? 
«Sem li bem p6de9 vér o. que sutlíra; - 
" Por mais perdida enlio eu me tivera, 
» Quando- «m sa|v», sem ti, posta me vira : 
••De pcMC' morte eatSo Hra ekptira, 
«Quatidii, meu bem, sem- ti me acbára viva. 

>eBen:véjo,que aDnr deve desoilpar-te, 
n Que em ti foi, certo, amor a mi inimigo, 
n Mas aí qBeres ulvar-me em toda a parte 
"Eácade ii me psesno már pwigo; 
»Não coosiotas que mais de li me aparte, 
••Deisa^^e ter a morte aqui eomtigo, 
••Não queiras, dilalaado-me huma agora, 
n Que outras mil mais cruéis sinta cada bora.» 

O frio caramelo, a branca neve . 
NSo.se desfa2 assi a* Sol ardeste. 
Nem a branda matéria, que em si lave 
D'Al>elhaafrflito, doce, eexcellenie . 
Se desfaz taoto a quaiqaer chamma teve, 
Que tem DB pedi'eneira sua semeotev. • 
Quaqto o Alouro, a suave voz ouvinte, 
Sente-se a pouco, e pouco hir coBsumiado. 

Menos arde o VesoWo que o seu peito, 
Menos tefp que seus olhos agua. o Tejo, 



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■ " imio Trt., CiFitntB iti. " 275 

Poréfit em fefn», em agaa assi desFetW 
Nâo torna atfas, mas cresce Q seD étò^b ; ' ' 
Vé-se agora de novo mais sageito 
A' aqueste sen antigo aitior sobejo; 
Porque o que em sua Bsposa tigora éotende, 
O que Ibe seu|lre fôve mate aceènde. 

D'àmtfr,,e do arreceio coiobatido 
O triste p^o se entende, õn determióa, ' 
Não porque sinta então vér-se perdido, 
Uas do seu bem temendo a mór ruína. 
O qne com taiito amor lhe tem pedido 
A fazer-lhe a vontade o move,'e inclina ; '.. 
O receio, de a vêr á morte entregue ' 
Por outra parle o move, a que lho negae. 

Com a alma ioda coafusa, -e (|uvidosa . 
D'esta arte entre suspiros a voi lan^a,. 
■iPedira-te et] perdão, amada Esposa,, . 
«Antes Iium só meu bem,' minha Esperança, 
»Si a forc» d'a)npr grande, e poderosa.. ■. -: 
« A quem nada resiste apnde alcançai 
»\goraa,learrojar,na() me íorpára,^ , .. "". 
n Que m,al. sen^ esta forfa eu te arrojara. , ^ '_ ■'■ 

oNSocBides.anBw meu,:quemenoB(ÍHtft o 
«He foi o. teu cru^ apartamento, . . , j 

■ Que si me vira ^:nií({»s d^fifv^ iflpçttt. - 
n Que esperando aqui estou cada momento ; 
»Mas porque em meio d|e^~ttdyeiisa bqeLq,; 
n Alcançasse este só contenlaioeplxh ' ' . " 
» De vér que por salvar-le mç peril^,' . ,. \ 
nO mal'da ti» ausência bem solfiri&<. n , 

» Amor neste meu erro foi colpado,' ■ : i 
mSí o qoe na^e de Amor erro sechuilai ;' 1 
» Porém ea a este amor sou lio atado; .}■ 
» Que o desejo de errar-te iada me inflamma ; 
.: » Porque v6r-(e em tão triste, e ioiqaoisÁdo; 1 
L nJUal^opiklesoflrer quem tanto te MBtf"' - " . 



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vre tnuw Bioaupuco cimeot tono it. 
*> À' cosi* nlo 66 de tmma, mas mi) Tidas, 
"Patiae-todu por U sam beni perdidas. 

> Por isso o grande amor, que me moslnste, 
M E «gora te obrigou a vir bascar-me, 
> Polo que ta em mim sempre enxwgasle 
» Te peco, que este nSo queiras negar-me, 
(• Qae pois na vida os males me abrandaste 
«Nfio queiras mais na morte atormentar-me, 
«Basta ser-me a Fortuna imiga, e dora, 
" NSo ajudes tu minba desrentora. 

mEq aonpFe pefa ti s6 quiz a rida, 
»0 que desejei sempre tinha agora, 
>Has n'bDm grave torúientõ convertida, 
» Vtjo esta gloria estando tu de fora. 
•• Nfio queiras qne por tí v6ja eu perdida 
• A vida, o bem, o gosto só a'huma hora ; 
•• Foge, (bge. Amor mea, do mal presente, 
«Porqne, virendo tu, morra eu cotatente*» 

Em qiiáDto estas palavras solta o triste, 
£ stJicito amante, desejando. 
Dar vida ao sea amor, de novo insiste, 
E ao postigo outra vez se vai chegando, 
Ella, que ao sen amor menos resiste, 
Quanto mais amor nèlle está enxergando, 
Õas suas raiOes mesmas contra el)e asa, 
E com ellas d'entrar entfto se escusa. 

Forcado de bom amor sineero, e^uro. 
Esperando qualquer a morteestara, 
Porque a Moura oito quer ter o seguro. 
Que a qnem he saa vida se negava ; ' - -' 
Quando se abre buma porta, que no muro 
Livre entrada aos Hogores todos dava, 
Porqufi' Silveira vendo oqne be passado, 
Que os recelhesscm já liaba mandado. 

Esta sitaapto é rerdadeiramenle dramática, e o eçaih 
dio bem peoiado, e bem escripio ; parece-me poràBt ^ 



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. uno ni., citmtft III. - i77 
nSo meengano, qne hft iqoi demasiada rhettoriea, ed& 
nusiado estudo na expraaSo doa seotitnentos, edos af- 
fectos. A teilura de Petrarcha, havia Teilo impressão no 
Mpiríto dos IlalMBOÍ, e p6sto em moda entre elles os 
GOQceitos nm poaeo alambicados, e eivadc» de platooís- 
mo aos assumptos. eróticos, e 080 admira por isso qoe os 
Portagaezes, e Bespanboes, adoptando o sysl«ma métrico, 
dos Italianos, e a ssa maneira 4e poetar, também fizesse 
passar para ossens quadros aimitaçlo doestylo dosorigí- 
naes, es^uecendo-^se de (pe a reforma, que pertendiam 
fazer na poesia das suas respectivas ■ajÁes, devia consis- 
tir em combinar a forma externa da Poesia Toscana, com 
D espirilo, e maoeira d^ colorir dos Gregos, e dos Roma- 
nos. 

No Canto TUI. aprcsaeitton Francisco de Andrade ou- 
tro episodio de um género exlraordinar lo,- de que Simfio 
Machado também- laaçoil mão na sua primeira Comedia 
do Cerco de Dio, e que tem fundamento histórico, pois 
qne muitos Historiadores fazem meosSo delle, referindo 
que um Honro de mais de trezentos annos de idade se 
apresentou a Nuno da Cunha na occasifio em que tomou 
posse de Dio, por morte do Sultão Badur, pedindo-lhe 
a confirmação da mercê de uma pensão alimentícia, men- 
salmente paga, qne lhe havia ado conferida em razSO de 
sna prodigiosa ancianidade, por todos os Reis de Cam- 
baia. 

Acabado isto assi de concertar~se, ' 

Em gran proteito assas dos Lusitanois, 

Posta a Cidade em paz sem recear-se 

De quaesqner sobresaltos, quaesquer damttos. 

Bani Honro veio ao Cunha apreaentar-se. 

De tal antiguidade^ e longos anãos. 

Que os que de novo a Terra povoaram 

Unito poncoi nos annos o passaram. 

Nesta Busma Cidade o sen assento 
Tinha este eatão,'e muito antes tivera; 
Sua idade traz vezes annos cento ■■ ' ' 

Sobre mais trinta, e cinco aOSrmam que bera, 
Hamilde no saber, e^ntendimeato, 
Que na seita geoiilica já crera, 



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S79 KNUio HfMUHnoy (;>inco, loao tr. 
. . }to B^tto de Bengala f*i iBaKído, 
-- E d9 estatura não moito crescido. 

Esla idade tio larga, • mondraon,' 
Que qaiçà crér-se agora mal merece, . 
Se provou que Dão hera fabulosa, > 
E por tal destro em Dio se conheoe : 
Porém iada outra ui6r^ mais e^nlosa 
. Monstruosidade aqui se me offerece. 
Si acaso a natureza a tem mais rara, 
£m i«mpo em que he d<» ânuos (fio avara. 

Nebnm tempo moslroo o qne esta niaba.. 
Oistoría oeste Honro aqoi apresenta. 
Porque de sós dous Plltios, que ioda tinha. 
Tiaba d(0e auaos bum, outro oovrata; 
Bem Tejo que calar isto coQTíaba, 
Para quem com rigor era. tudo altenta; ;. 
Haa este si uão crãr isto que digo 
Bs^ja-o lá com a Fama, e não comigo. 

. . Affirma-se também, vou coro receio. 
De escrupulosas lioguas malditenles, 

, Que quatro, ou cinco vezes neste meio 
Lbe dera a Natureza povos dentesi 
Bstraaba cousa assas, mas uisto creio 
O que affirmam passadas, e presentes. 
Que contam delle inda outra mais estranba 
Cousa, com ser tão uova esta, cumanha-.': 

Dizem, que aquella barhs, que se yia- 
antigo peito. eatSo eslar-rlhe çfnaodo, 
Qoalro vezes, ou cinco sq. sabia; 
Que em branca, e preta a cAr f4m 
Sendo branca de todo de novo bia 
Pouco a p(MtoD>fanma negra cõr tonuuidOj 
E sendo toda negra se alterava, 
E pouco a pouco em branca sq tomava. 

Esta monstruosidade nunca ouvida^ 
Esta refornação da Natureza. 



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T •»IT10,Tllí,;C*Knun»í : :■ 279: 

A esle foi nate tendia xooee^A»^ - 

k vollar de uina estoeita, hU« pofaren; 

Porque possamos v£r que a longa vida. 

Que luiUi a imiga carse «stÍBu, e. prffla,-. .: ■"■: 

NSo gerve eu fim de mais, qaet 6«r,natsi;í«. :., 

Se dar vida a ti^Uw», ea miséria. 

INante do grau Cuoha • Hoaro poslo, 
A liegua desatou logo desta arte : ■ ■ i 
•• Seobor, eem ânuos ha quedeste posto ' v 

. «JíodaBpaBuiica fii'para outra parle, ■ '•'■■"■ 

■ U Sempre em todoeste tempo achei focra re^, '' ' 
«Como na.íerra pôdea i*torm«r-te, 
«Nos Reya, queaoUB-aqui aenhoriaraiB; . ■-',' 
! fSeiãpTeapassar a ridameajudaram. - ■'■ 

» O Sultão, de que agora a fúria brava 
» Dos 'leos, deixou no' mar o corpo frio, 
» No tempo que da Tida elle gozava, 
» £ tinha desta Terra o Senhorio, 
oCadamez bom. Cruzado, e meio dava 
» A estes cancados.annosv e eu cobGo. 
» Que este bem Já na Geo se lhe apresente, 
>'£ lá receba a paga. eteruameDlB. - i •.■■■'■■ 

)• Obrigou-o a fazer isto que digo 
••Yêr.qwospassados.Reysislo fizeram, < '. 
M Pois perdeu esta terra o seu antigo 
»Bey, eosfadosa ti acoacedçiam, , 
» ]Não sejas a esta idade tu só imig4>,, 
»Dá-nie o que os outros Reys também .me.defam,^ 
•> A tSo cançada idade sempre humanQS, -, 
^.Valba-^me nisto a po$$Q de cem anãos. " 

Veftdoo GoT^oador lão-JoDgaidade,* 
Qoe as,ajiliga9 idade» qnaai escede,- - ' 

.Eapozissoa miseiiB„a.pou(iuidade, 
- Qiw para sosteatar-se eotão lha pede,. . 
Com grande espanto assas, graa piedade 
. J)e Uto. pobre. velhicB lho coucfide; . 



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SSO niuio BieaAiBW caineo, tm» it. 
Parta-se Uo cootents o pobre Moaro 
Como qatm tem achado bum graa thesouro. 

O Leitor «DrioBo deve cotejar esta falta d« Honro, com 
B qae SimBo Hachado lhe altribne, e ae acha oeste En- 
caio, no Capitulo correst>oadeiite, para vêr como os doas 
Poetas expressaram as mesmas idéas. Francisco de An- 
drade, referindo este pbeBomeao, traballva por persoadir 
ao Leitor, qne elle bÍ6 acredita o qoe conta, nem podem 
ter ODtro fim ase&pressftes, que ae lêem na mtrodHcçSo: 
idaã« tão larga, tahez mal mer«eia trér-st,.., mtnhunt 
Umjn flwwtmu o qve esta ttiinba kUtotia refere áttít Mou- 
ro, bem vejo qtu comittha ««^r iito, gveru não aertiitar 
o 91M digo, hajit-o lá com a Fama, e não comigo, ^c. 
mas si esta dúvida, em qi^a eu 4 acompanho, lhe faz boa* 
r^ como philosopho, prejudica-o como Poeta, 

Si PU me fiere dolenãum acf 
Primum ipsi tiU. 

Si qneres que acredite o qne dizes, mostra to primeiro 
qne o acreditas : Trancisco de Andrade devia lembrar-^ 
4e qneVirgilip, rererindo orna' cousa não somais invero- 
símil- porém Inteiramente ímposaivel, se coatentoa com 
está única reflesSo 

Prispa /ides faett, $ed fama yeroiaãf. 

E na verdade nada produz peior elTeilo, que ouvir nm ho- 
mem, fazer narração de cousas, que elle próprio mostra 
qne aain hisas, O Po(:ta £lpico deve mostrar-se persaa> 
dido das cousas, que celebrar.lA idade do Houro, e as 
mais circumstanciás, que o Poeta narra, n|() sam verosí- 
meis, mas Dão sam impossíveis. Tem por foadamenlo a 
tradicção do paiz, e a memoria que diaso fai«D os Bis- 
toriadores, e é regra estábalecida na Poética, qne a opi- 
nião vulgar basta para dar a qualquer facto a verosimi- 
lhança poética. £ certo que o máximo da vida bnmana 
se calcula em cem annw, e qne sam raras as pessoas 
que chegam aeste terioo; masissotaivei se deva aonos- 



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Lmo ni., càmmo m. SSI 

30 modo 4e Tiver, aos nossos trabaKios intelectitaes, e 
mecbasicos, aos desgostos, paixOes, vícios, bebidas arti- 
ficúei, roifD qualidade de alimentos, oanocívamenle pre- 
parados; circuiDSluiGías estas, qne cooperam para abre* 
víar a «ida, e gastar as molas da existência. Ha porém 
maitos axemplos, especialmeole nas regiões do norte, de 
HacrobMS, que fazem excepção, o que os jornaes qaasi 
quotidiasamenle referem. Quasi todos os Historiadores 
da índia nos faliam do chamado Joio dos Tempos, fa- 
moso por haver vivido duzentos annos. Ha poucos annos 
qne falloceu um Escooei deixando am 6lbo de roais de 
cem annos, e oulro de sele. Ea conheci um homem' cha- 
mado Pedro, que fdra pescador, e vivia em casa do Juiz 
de Índia, e Mina, na rua direita de Santa Martha, que 
contava cento e quatro annos, gozava boa saúde, e can- 
tava ainda as modas do seu teppo, eviveo ainda alguns 
annos. O meu amigo o Sr. Francisco Aulonío Martins 
Bastos, hoje Uestre de Suas Altezas, me convidou um 
dia, que nos achávamos ^ru Cacilhas, para vér uma mu- 
lher de ceato ^ dez annos. Fomos lá, e quando chega- 
mos á casa, antes pocilga, em que ella vivia, a vi che- 
gar do rio, pois era lavadeira, com uma grande trouxa 
de roupa á cabeça : era uma mulher mui baixa, e mui 
magra, quasi composta só de pelle, e osso, e fallou ae 
men amigo com muito acerto, e desembaraço ; e só cinco 
annos depois é que Deos a chamou a si. A. ama de leite 
do General Washington, o fundador da liberdade dos 
Estados Unidas da Americq, era talvez a mulher mais 
velba do Mundo, pois falleceu ba pouco com cento e ses* 
senta e seis annos de idade, no pleno gozo dos seus mo- 
vimentos, e das suas faculdades intetectuaes, e si a na- 
toreza pôde fazer que um indlvidno dure cento e sessen- 
ta eseis annos, porqne não poderá fazer que outro dure, 
duzentos, onmais? Pôde alguém marcar os lemites do seu 
poder? A renovação dos dentes, e do cabelto sam pheno- 
nienos de que Pbysicos, e Naturalistas fazem muitas ve- 
zes mensão, e ainda ha bem podcos annos, que certa mu- 
lher sexagenária, moradora naPregoezia de Santa Gatha- 
rina desta Cidade, recobrou a vista, que havia muito 
que tinha quasi perdida , parece-me pois que um Poe- 
ta como Francisco de Andrade podia torrar-se ao iraba- 



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iSH BMSAIO BNGianiCO -CUftOOi :nMKI IT. 

Hio de [QMlrar qutt d^mídavadaveraoidada do pheDome' 
Bo,' qu&referiR. 

- Um dos defeilos do Cerco de Dioéa escacez de eain- 
paraçOe», que urattM veves se faz :scaltr ; e essas Bies- 
BUS poucas eoisparaçtíes, qnetem, ficanjuvilo (oage em 
força, e oolorido poético das qne adtaííaiBos em Luu de- 
Gamftes, Gabriel Pereira, e Praacisco de Sá, e Meaezes. 
Uas em-desoiiilo dessa falta o oessoPoela mostra mot- 
10 vigor Das discrípcões, em qiie'de-erdiaarH) é aboo- 
dattte, e cheio de viiacidade, e Terégide; tal se.mostn 
■M descripçío que faz: da amurai oem que NuflO da Ctt- 
uba se prqMra para alaoat a Cidade de Dio. 

Tanto qne no oiilro dia Phebo tão 
■ BaohaNise, na de' Bete Iristepraía, 
Parte o Goveroâdor sem ter receio, 
Porque com tantas mortes dSo desmaia. 
Vô-sc o mar de Navios quasi cheio, 
Hèrolrc-o a chumbada, e longa Faia, 
Estendendo o remeiro' os durus braços; 
Epcolhe-os logo com iguaes espaços. 

Os dous Tersos que fecham á Kstança, descrevem de 
uma maneira sublime a anção de remar. 

G ciuco dias antes que o flaurado 
^ Planeta visitasse aquç-lie Sina, ■ 
Que uosiilgado Reynofoi gerado, 
K no Ceo tem assenso a|te, e divino. 
,, Sin^a Q Govunador acompanhado 
, I>e seu nobre apitarato delje dia», 
, Meia legoa daqueíla forte, e brava 
Cidade, para onde elle navegafa. 

E veodo-se onde.já' de^jen Ua|o, ' 
Nfio se quer mais deter hum .só memenlo, 
Logo: com diligencia^ocdo^a quanto 
I \â, que lhe he necessarÍA ao. seu inlealo; 
Alas porém antes qite entre «»se meu caalo, 
No combioc Cruel ..aaogujnokniv, . . 



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xiTfio Tii>, cutnu m, t\ 

Lhe parece razão, qne hom psoce Uttíê ' 
Do modo, e dos lagares do «ombaUL . 

Foi o principio enlio deste iqipania ' 
Porem-se taes Bateis em ordeoança, . 
Levava o primeiro hum espalhafato. 
Que a morte iovolta em fogo de si lança, 
O seguodo hum Leão, que em desbarato, 
PAe tudo quanto sua fúria alcança, 
O terceiro outra Peça desta sorte 
Cruel, ininadora. grossa, e forte. 

De mantas, e arrombadas, vai por, cima 
Coberto cada bum comp convinha, 
Vai por Capitão de hum o forte Lima, 
O qnal de Vasco eulúo o some tinha. 
De gran preço, valor, de. grande estima,. 
A quem perigo, ou morte não detínba, ' 
E dos que no Bntel leva com^Igo 
Qual hera seu parente, qual amigo. 

Leva hum negro Estandarte, qoe'em pintora , 
Mostra a triste Visão, que a derradeira 
Hora espantosa traz á creatura, ' 

A que o peccado fez da morte herdeira. 
Já com esta pintada, e vãa ligura 
Prophbtisaodo a sua derradeira. 
A qnal hera tão dará, e lió medonha 
Qne não ha quem os alhos nelta ponha. 

Aquelle experimentado Cavaleiro, 
Jorge de Lima, vai naquelle dia; 
No segundo Batel, a qnem primeiro 
Ninguém no esforço M, ou aa oasadia. 
Levava Tristão Homem o terceiro, 
Cujo animo esperto^ e videalia 
Bera hnma verdadeira testemunha, 
Que benonvinhft auàs.á sna alcunha. ' 

Estes gntiRles Bateis, qiw de tal arte 

Appareibwhs vam para eate feito, 



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ÍM' KfSlIO BfOBIArtM» amOO, TOM IT. 

Que pvderaiA fkKr em to& a parte 

Tremer a barba ao mais oosado peito, 

Kaú ham de bater d baluarte 

Qoe da parte do fliar estava Teito. 

E roto com poder de ferro, e fogo 

Se haviam de ebegar para eile logo, ^ 

Hnina cadéa neste muro afTerra, 
Desse duro metal que dá Biscaia, 
Que chega aos balaartes, lá da Terra, 
Ê nega ao mareante que entre, ou saia, 
Porque do rio a livre entrada cerra ; 
Mas chegando os Bateis á sua praia 
Hani-de largar-lha, para que entre, e acuda 
V nossa Armada, e possa dar-lhe ajuda. 

EsU o Silveira então nobre, e esrorçado, 
Que o Dome tem do Santo Lusitano, 
Que na grande Lisboa foi gerado, 
E morto, ioda honra o Povo Paduano, 
Algum tanlo dos muros affastado 
Pêra se segurar de todo o damno, 
Que podia fazer-lhe a ArtilheriOi 
Com trinta EonharcaçOes em companhia. 

O grau Cnnba, de.qnem esta ordem pende, 
Nem deiíou de fazer tudo o que lhe hera 
Necessário para i«to, que pertende, 
£ que hera a causa só qae ali o trouxera. 
Lá sobre o baluarte que defende 
A Terra, Irez Navios pôr fizera. 
Que com força de grosso bronze cavo. 
Hum combata lhe dâ áspero, e bravo. 

N'hum, qne bera hnima Galé grande, e bastarda 
Vai Francisoode Si senhoreando; 
N'outro, qoe bH-a Galé ficai, he «sarda 
Nono Fernandes Kreyre, e lera o mando. 
Nada AatoM» de Sá; tiaz estea tarda. 
Que buma grasdO' AUietafa vai mandando, 



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tiTBo TIL, otnrau H. st 

Todos trez valeron», e esforfados, 
Todos por suis obras sígDaladOB. 

Sobre outro Bahiirte a quem Diogo 
Lopes, que de Sequeira tem alcunha, 
Com seu nome depois, ordena lo|!o 
Bem nove Embarcações o nobre Cnnba, 
Que c'o pó salitrado envolto em fogo > 
Lbe dã hnm gran combate, e nellas puaba 
Seis Basyliscos, onde batuta a morte, 
E outros grossos canhSes de toda sorte. 

Manoel d'Albiiquerque ali apparece 
Por Capitão em bueia Galeaça, 
En fiada huna Gaié desobedece 
Quanto Jorge Cabral manda que fa^a; 
A Manoel de Sousa outra obedece, 
Quando manda, castiga, ou ameaça; 
Outra (n quanto manda em todo a parte 
Martim Affunso de Hello Zuzarlc. 

Nunca neste entrou algum desmaio, 
Nem a morle diante causou medo, 
TascoDcellos Francisco [si bem caio) 
N'oulra Galé tem maudo firme, e quedo. 
N'hum Batel Vasco Pires de Sampaio, 
N'«atro mandava Henrique de Macedo, 
Tfoutro Hartim de Freitas Senhor anda, 
Uiguel Carvalbo huma Albetaça mabda. 

Qualquer destes tambein com signaladas - 
Obras ganhado fama por si tinha, 
Que fíeram com grande nome celebradas. 
Nem o invejoso nellas se detinha. 
Os Bateis levam todos arrombadas, 
E tudo irnrs efltto quotlo coaviabilt , 
Perá bem seit, e damno do coUrotío 
Gomo a eada hum- bera necessário. - - > . 

Mandon-se a muita parte da «atra «raiada. 
Que em outras partes faça outn o^itendar 



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S86 Bifuio iiMunieo cmtim, ti»o it. 
E «qnella anteale farn arrdiaUida, 
A. qnem iotça nSo ba que se adenda, 
Que o Ceo aIrAa, os muros toraa em nada. 
Sem ham ponU> cessar bcUbs deqKBda, 
Porqne ectando os ímígM dnididos 
PoiHin mais raãlmente ler vencidos. 

Em quanto em se ordenar pfiem tal coMado 
O'portugaez, mais forte que manbffio, 
O Mouro nSo esteve repousado, 
Porqne nnoca o temor foi occíoso, 
Também lança de si ferro coado 
O canbSo iúimigo furioso, 
E a caminbar com tal fúria o constrange 
Que a Frota, inda que longe, bem abrange. 

Já Melique TocSo, Senhor da Terra 
Antes, [como vos já disse] sabia 
Deste grande apparato, desta guerra, 
Que diante de si agora via. 
Também, dii-se, qiíe dentrttlogo encerra 
HooifOes, mantimento, arlilberta, 
Annas, Gente, e também repaira o moro, ' 
Mas (wm isto não se ba por bem seguro. 

O nome Portugoez por sí somente 
Com tão alio temor neile se asseota. 
Que esta forte Cidade, e forte gente. 
Nem tudo o mais, qne forte se apresenta, 
Não podem segura-lo no presente , 
Naufrágio, que Ibe mostra esta tormenta, 
E ditem, que a Cidade elle deixara 
Si O que então succedeo, não Ibo estorvara. 

Francisco de Andrade coBtnma fazer maito nso^depe- 
riphrases, ade phntsea, por isso vemos aqai dcsigaar 
António da Silvnra por este modo : SileeWa , fue iae a 
nome do Saato Lusitano, que foi gorado etn Lisboa, tih 
fms de «Mrto dHHía Amra cjhwo deFacIwi; e accrcsset- 
ta em oatr» EMaaça 



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iiVBO: Tir., «átnoti» uf. HXT 

Estei <iBaAro bal«s,.qQe de tal srte 
Ar^arelfaados ?an para este .feito. 
Que podefani faEcrem loda/âparve 
Trea*r • barba- ao mau outaáo jmiío.- 

nas pAslo,<ige esteainodog dedizer sejam mui poéticos, 
e admittidosna alta poesia .compre oom tudo advertir, 
que muito repetidos tornam o estgilo aflectado, epreien- 
cioso, c si n2o houver grande advertência, e cuidado no 
sen uso, obaerva|idot-fie Iodas as relações das pfarases, 
umas com as outras , podem prod«ir um eeatido que á 
primeira vista pareça ridieski, e desa^ a hilaridade do 
Leitor: é o que acwteoefio uHioioi.TeFGa .adina opoa- 

tado, ■' 

Tremer a barba ao maisioosado peito. 

cujo sentido mis «bvio é, que ,ba peitos- qae lenham 
barbas; e semilhante despropósito não pôde deixar de 
fazer rir o Leitor maisi baniotenciAiado. £ de;que vem 
isto? De qoefl Peeâa: empwgaBdé aphrase:b8ÍKí.i eple- 
bléa tremer «barba, para diaer trímer rfe meda, fte jon- 
toH o períphrase aa mais ousada feito-,: qoerendi assim 
designar o Mawo maii ousado, oa o homem mais puxado. 
É necessário que quem aspira á gloria de escrever bem 
uão se contente de couoeber sò boas idéas^ ma^ qlie pro- 
cure exprimi-las bem, e correctamente. É veriftule que 
a ry thma é mnitas vezes causa destas imperfeições, e tal- 
vez delia proviesse efita negligeocia. do Csnlor de DÍo. 

Ha também bastaotA força de oc^rido na diseripçâo , 
que o Poeta fai no Canto XVIT.^ de um Nancebo Por- 
tuguez , que combale , e mata um Mouro eatrando Mray. 
delle pelo rio dealroj com graade perigo de soa. vida. 

Depois <|ue da espingarda afio ae njvda ' 
Esle Marte novel logo «m preça,' ,; 
Apertando nas mãos a espada aguda, 
Tr«a um dos ootros Titrooa se an^ow^V 
}iapedÍF-fto o Fartado assiis tstudai 
Mas. de seguira T^irooelle «fto ceesa;-. ' 
Que maÍS'be en^ft ao eeu eSprito anJente, 
Que a« qwa mtàã o Furladó obedieáte. . 



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n iNSAio iKWumm cbitom, nwo ir. 
O Torce, de entraaltavel iaeda dieio, 
Dá-Jhe as costas, ligeiro quanto o vente,' 
Com tal preça porém trai dle veio, 
O Hoço, que Ibe chega n'hum noaeiUo. 
Bem desejoQ o Turco enlão ter meto 
De entrar lá onde os seus tem aen atuaSo, 
Mas a pre^ do Moço be tfio sobqa, 
Qie o faz desesperar do qne deseja. 

B veado qae chegar já não podia 
&'8 Estancias dos seus, lá janto á cava, < 
Onde entSo mais segara, e oerta via 
Aqaella salvafio qoe desejava, 
E pAr-se em defeosío n&o se atrevia 
Contra o Mofo feroi qne o maltratava. 
No Bio D rosto p5e com grande magoa, 
Determinando já salvar-se n'agoa. 

Direito ao Rio vai ' com tal presteza, 
Qnal nelle pOe fanm grave temor Trio, 
O Moço, qae lhe é igual na ligeiren, 
luDto com elle vai também ao Rio, 
Onde sempre lhe faz com grau croeza 
Sentir da dora espada agudo fio 
Em qaaato lhe dbroa esta corrida, 
Mas nem com isso faz qae perca a vida. 

Nio foi isto escondido á imiga fiente, 
Qne mais de mil lhe tem deserta a fronte, 
E qual sobe o Libreo qae o Touro 'sente, 
Oa sente o lavaly correr o monte. 
Salta de cá, e de lá feroz, e ardente. 
Por ferrar no animal que tem defronte, 
Hos reprímeH)- a teza, e dura trc^, 
E astuto Caçador, qae ferra nella. 

Tal v^o cada hnm dos qoe atnz digo, 
Qne os doas da Turca Estancia estavam ven 
Os qaaes vendo o furor do Moço imigo. 
Em vingadora faria estam ardendo. 
Bem desejam de fcir lá^ moi o perigo 



;,GÒOglc 



uno TH., cinimo m. m 

Tanto esUm dos mortaes tiros tonado, 
Com que os ChrísUos ao Moço dam ajuda, 
Que nenhum d'oiHl« está o passo moda. 

Nenham a própria ?ída aventurando, 
Qner segurar a albeía naquella hora, 
£ assim nenhum íai mais qoe estar olhando 
Como saWar-se o seu trabalha agora, 
O qual chegado ao Rio, tanto entrando 
Foi pela agua, qnc os bombros sós tem fora; 
Bntra também traz elle o ousado moço, 
Athe que Ibe a agua deu pelo pescoço. 

Tam dilTerentes heram na estalara. 
Que inda que o Mouro estava avante posto, 
£ o Moço atraz, onde ba menos altura, 
Com tudo a agua mais perto tem do rosto. 
Para aqui o triste Mouro, que outra dura 
Sorte arrecéa na agna, outro desgosto. 
Temendo, que se lá mais dentro entrasse, 
K corrente também Iras si o levasse. 

Procura o Mouro assas por dar eSeílo 
A aquella obra, que tinha começada, 
Has elle, e o Mouro estun de tão mau g^to, 
Que alcança-lo mal pôde com a espada: 
Aquelte Sousa, a quem elle he sugcito. 
Que no muro está eotSo, de lá Ibe brada. 
Que encolha o braço a si, depois o estenda, 
£ co'a ponta da espada o imigo oSenda. 

O Moço, cujo esprílo Torte, e ousado 
No perigo maior mais prevalece, 
Também agora está tão acordado. 
Que do Senhor a Talla bem conhece; 
E havendo-se por bem aconselhado, 
Logo neste conselho lhe obedece : . 
Já não levanta o braço, c d'alto fende. 
Mas para si o encolhe, e logo o estende. 

Huma outra vez encolhe, e estende o braço, 
Mas nem o que perteode assim alcança ; 
19 



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299 ENSAIO I 

O tristeUoaro em loéo aqueltc espafo 
Nem rtmente Ibe veio buma limbmça, 
Que tasbcin tras ja« lado o «ibtíl sfo. 
Com que de se salvar lenba esperança. 
Que tanlo «aperta o medo, que imagftia 
Que tem na salvaçSo maior ruiaa. 

O Moço, qne o furor 
Porque chegar ao Mouro 
Com tudo quer lenlar si 
Pôde o esforço acabar, i 
Entra pela agua mais, d 
' A.0 fim do que. a ^fi^ejo eolSo lhe pede. 
Que coma a agua n'aUura o setiboréa, 
Vaía-se-lbe os pés por baixo, e cabe oa aréa. 

Vé-Ec eatio nuis que Dinea perigoso, 
Porque d>gu_a ficou todo eoberlo, 
E o Itfouro, eo defead^t-se antes medroso, 
Para ofTender se mostra agora esperto; 
Salta logo sobre elle, desejoso 
De o l^ter alTogar, e muito perto 
Estere esta teDç9o de vir a effeilo, 
£ bs, que de íònt (» vfla>, o dam por feito. 

Has.aquellevalor raro, esobejo 
Na id6f oecessjdade mais se accende. 
Que ioda que o Moço já caiiçadà vâjo, 
E das mfios a espingarda huma Ibe prende, 
E bebera agua assas, vendo o dçsejo 
Do Mouro, que, a9oga-lo então pertende. 
Volta a espada para elle, c.fas que lhe entre 
Lá trez, ou quatro veaes p^o ventre. 

Corre o sangue íofiel em grosso flo, 
K quem 'O Moço deu larga Sabida, 
Começa-se a tornar .o. corpo feto, 
A que o sangue traz si levava a vida. 
Perde a cdr natural a agua do RiO, 
E de branca em [turpurea be convertida. 



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irvèo ni., capiutlò lít. 2 

E o cobttàrío á inGe] face acontece. 
Que, sendo antes purpúrea, amarcltbce. 

Do mortal ferro o Monro traspassado 
Solta de lodo o Ho^, c o de5aÕ'erra, 
E logo posto ém pé desatinado, 
Correndo da agua vai lá para a terra ; 
Peréo) apenas bera delia entrad« . 
Quando o Esprito i^tiel, que o corpo encerrat 
Bla$pbe«aDdo desceu á «terna queixt. 
Solto de oerpft já, qne em (erra deiu. 

O Mapo, que de toéo já se sente 
Livre de tal trabalho, o tal perigo. 
Também se pOe em pé, assas contente. 
Ioda eovolto 00 fresco sangue imigo. 
Desatina de úovo a imisa Gente, 
Porque Ibe tolhe bir nella ao que alraz digo, ' 
Mas c'o que pôde eoláo Ibè faz que veja 
O que seu peito imigo lhe deseja> 

QnaV da espingarda lanÇa o cbarabo KiH, 
Qual faz que k subtil fleCM cérle e TAM, 
Porém ttenhom ■ tSo certo atira agora, 
Que execute no Moto o duro iatenl». 
EUè fatraião ali qoalqoér demora, - '- 

£m quanto «Iguma força toma & alento, 
Ufano da agwt&ahe, erai vagaroao 
Passo, mais confiado, que medroso. 

Na niSo direita á espada sustentando, 
E na esquerda a Espingarda faz a via, 
E junto lá G'os'TBreo5 eavailllíabdo, 
H mais dellos o rosto nQo desvia ; 
Por fítAré morlaés tiros Vèi passando, 
Cbm mostras de despreso, e de ufania, 
G assi, apesar da imiga fúria brava, 
Inteiro, e sáo entrou dentro da cava. 

Hec€^ido àe todos foi com tanto 
, Prazer, que a pouco mais fora infinito, 
19» 



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292 RtsAio iionAraico ennco, tomo rr. 
Porém mais qoe o prazer fòn o espanto, 
Vemlo em Uu pouca idade tanto esprito. 
Não qaero em teu louvor soltar o canto^ 
Famoso Moço, por o que hei só dito 
De ti, matéria já será bastaole 
Para que todo o eogeabo de (í canle. 

A descripcSo deste combale singular me parece reunir 
todos os requisitos Becessarlos para o tornar digno da 
magestade da epopeia ; perspicuidade, e clareza de esty- 
lo, elegância de expressão, evidencia deperigo, varieda- 
de desiluaçSes, alternativas de susto, e de esperança, 
diversos affeclos dos espectadores, e versos qac se des- 
taeam do fundo pela harmonia, e víveia das imagens. 

No Rio o rosto pSe com grande magoa, 
Determinando já salvar-se n'agoa, 



Salta de ci, de lá Teroz, e ardente, 

Que eneolfaa o braço a.si, depois o estenda, 
E co'â ponta da espada o imigo oOcnda. 

Que como a agsa na altura o aenhorèa, 
Yão-se-lbe os pés por baixo, e cabe na aréa. 

Que, sendo antes purpúrea, amarellece. 

Qual Tai que a snbtit flecha corte o vento. 

Toi sempre uso de qoasi todos os Authores de Poemas 
Épicos o fazerem a descripçío do sitio, e a origem das 
Cidades, a que se refere a acçio, que celebram. Assim 
o praticou Vasco Mousinho de Quevedo com Arzila, Fran- 
cisco de Sá de M«nezes com Malaca, Torqualo Tasso com 
a JerusRlcm. 

Seguindo esta pratica Francisco de Andrade consigaoa 
lambem no seu Poema a localidade de Dio, e a histwía 
da sua fundacio. 



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LITBO TIL, CAVITDLO III. 393 

O sitio, onde elia (em seu fondamento, 
Polo mar c'bDma poDta vai entrando, 
A qual fanm Rio, (cujo nascimento 
Vem lá da salgada onda,] vem cortando ; 
E qae seja Ilha a faz, que em comprimento 
Duas legoas somente está mostrando, 
E lá na parte onde ella mais se alarga 
Heift legoa somente se vê larga. 

Estas rymas de alarga, ehtrgo, derem cuidadosamen- 
te evilar-se; a regra prescreve, qae o simples nunca ry- 
ine com o seu composto ; porém os nossos Poelas, a exem- 
plo dos Italianos, fizeram sempre tão pouco caso delia, 
que o abuso tem passado a uso. 

Foram anligameute habitadores 
Desfilha, a que hoje (antas sam sugeilas, 
Algans poucos, e pobres Pescadores, 
Em pobres casas vis, baixas, e estreitas; 
E outros, do mesmo oScio imitadores. 
Redes, Barcos, c as cousas, que sam feitas 
Para dso deste officio, ali passaram, 
£ aquella Povoarão accrescentaram. 

Duron~the mallo (empo aquelle eslado 
Tão vil, tBo baixo, e pobre, que ealSo tinha, 
Sem ler nella oatra gente gasalhado 
SenSo a que da rede se mantioha. 
Por Talla do cristal, que liquidado 
Seu curso para o mar sempre encaminha, 
E porque a Talla principal eslava 
Lá no logar onde a Ilha se habitava. 

Porém como esta humana, e Tragil massa 
Nada arreceia pêra conservar-se, 
E por todo o trabalho grande passa 
Onde entende que pôde segurar-se, 
Para esta Ilha t9o secca, e d'agua escassa, 
Depois vieram muitos a passar-se, 
£ passados sam já annos trezentos. 
Depois que estes ali lént seus assentos- 



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3SU IKSAIO uqakjfflW GUIUIIS TOHO IT. 
£ por Fugir a ntais gm^fts peri^oa 
Aqui siia morada est^ Szersm, ' 

Lá onde os moradores seus aatigos, 
Antes, e cota razão fugir deveram ; 
Porque oa cruéis Bezbutos, que ifiiraigas 
De alheios bens, d'albeias vida« berau ; 
A Terra firme eutio com rojjibo, « morte i 
Salteam, sem que escape q fraco, «u forUi, 

Fácil Toi esta geuta, qu» 99t> cora 
Da Pátria, que com. medo des^víia. 
Porque, além de ^ssu pw tftdii a dura 
Cousa, o temor ^u^ que.çlle, fpK « grA^it 
A maior parte só teni de larg4iT& 
Da que a setta, qiie sabe da bèsla vòa, 
O Rio, que lU^i, a terra Qslá faieado,, 
£ a patte njais estreita se está vendo. 

Aqoelle ajujplameDto de Estrangeira 
Gente fat, que huni logai aates tão pobre, 
Depois venha a crescer de lai otaneira. 
Que se converte em Villa grande, e jiobre, 
Mas donde teve origem sua primeira, 
Aquella alta nobreza, que hoje encobre 
O resplendor ao índia, e Garamaa^a, 
No que se segue a minba bisaria canta. 

Quando o Principfr nobro, e val«rp6a 
Sultão Madafaxão, de cuja linj^ 
Este cruel Badjjr falso, eagaooso, 
O Terceiro após elle ao Rey^o vinha, 
Sobre o Cambaico Hje;ri>° popoloso, 
O mando, o sceptro, o império, e poder tinha, 
Foi cercar bam logar lá nessa Te^ra 
De Madoú, coiu que entiia l^zia gtie^r^. ' 

Os grossos KsqnadrCes, que de luseates 
Armas cobertos, o logar resistam^i 
Não foram partem sós daqoellas Geptes, 
Que de Madafaxão o reynp habitam; 
De diTer&as Na(iâes, e- differeiítçs ;,' 



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UVBO Til., CAPITÇL» Uí. . 39 

Sam, os que. neste cerco- e«Mto m^liUtSi 

Que a nobre empresa, quando, a faisa esien^^, 

Os Estrangeiros seiupre chama, e accendè. 



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Com tudo dIo faltou ham que o tentasse, 
E que este sen intento effeclnasse. 

Lá na Tartaria Terra Toi nascido, 
Este t9o signalado, aquelle dia, 
Dito Meliqaeyaz, mas conhecida 
Muito mais pelas obras, qne fatia ; 
Este, ioda qne hum espaço assas comprido 
Vio de si o Ifilhaao, porque fia 
Em sua força assas, destreza, e manha. 
Teuta horaa obra espantosa, rara, estranha. 

O Poeta poz aqui signalado por assignalado, usar do 
aimples pelo composto é pratica de que muitas vezes se 
encontram exemplos nos escriplos dos nossos Clássicos. 

Entre os dedos o Arco, e a frecha prende. 
No pé esquerdo se firma, e de tal getlo 
Para diante o braço esquerdo esleade, 
B para traz encolhe o qne ha direito. 
Que o rijo arco á gran força então se rende; 
. Tanto o encurva que a corda chega ao peito, 
E com tai fúria a aguda frecha lança, 
Que «n breve espaço a misera Ave alcaDça. 

Da ferrada, subtil, Isve madeira, 
Passada a ligeira Ave desditosa 
Deiía dos qzues ares a carreira. 
Que eotjto foi por seu mal tão vagarosa: 
Ditosa si entio fSra mais ligeira, 
Ah ! si apressara o vóo quão ditosa I 
Mas não ha quem fugindo se defenda 
Da morte, tSo veloce qoaato berreiída. 

Horto o triste Milbano á terra dece. - 
Com grau louvor do dextro, e forte Moaro, ■ 
A tristeza d'BI-Rey desapparece. 
Que por livre se tem do mau agonro; 
Ao Tártaro honra moilo, e favorece. 
Cuida qne be pouca a prata, meãos o osro 



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K IRUiO MtMUMK» CMTIO», TOMO tT. 
Boma gros»a cadáa despedia, 
Do melai, a nw todo o outro obedece. 
Que \i tbe o baluarte se esteodia, 
Com que o mfir se defeaáe, e fortalece, 
E a força d« pesado cabreslaate 
Fai com que. ella se. ahaiie, e se alevaole. 

QiMsi em neio do Rio ali criara 
De pedra huma reatioga a Nlrtorezaf 
Lá Da bocea da barra, que jaatára 
A este forte logar mais fortaleza ; 
Do mar o baluarte aqui assentara. 
Sobejo em cboiprímeiíto, e na graadeia, 
O Tártaro pradentcs e o fortifica 
Oom a Terra, que em neio Ifae edifica. 

Além da força, que por benefício 
fía natureza já ttaha esta entrada, 
Quiz que fosse também com artificio 
A forca natural accrescentnda ; 
£ para isto ordenou hum edifício ; 
Lanpa da terra firme huma estacada 
Uu tio rija madeira forte, e grossa. 
Que qualquer grande força deter poesa. 

Esta grossa estacada de tal arte 
Meliqne poi, que aquíllo bem entende, 
Que ítcassc lançada pela parle 
De fora, porque encerra em sí, e defende 
Melhor do mar o grande baluarie, 
A qual lhe ao canal quasi si estende, 
E pOe-llie 80 longo, porque nada a abrande. 
De grandes pedras soltas copia grande. 

Feita a Cidade já tão forte, e brava, 
Melique de mui grossos mercadores 
Eiu breve tempo a eoçheo, porque Ibc dava 
Licenças em seus tractos, e favores; 
E de hum pobre logar, que agasalhava 
Em si somente pobres Pescadores, 



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300 INSAM «iMuraieo CRineo, tono rr. 

Bum Heliqae Tocan mui valeroso, 
Outro Metique Sacia se nomeia ; 
Has o cruel Badur de colúposo, 
Que taBto bem aio soffre eui mão alheia, 
Com grandes crueldades nuoca ouvidas, 
A Cidade lhes toma, e lira as vidas. 

Si destas descripfOes, que podem chamar-se narrati- 
vas, porque contém a represealaf^o de Tactos e acfões, 
passarmos a eiaminar as que se denominam piclores- 
las, c que tem por fim representar-nos objectos phy»- 
cos, como paisagens, montes, rios, esittiapões, não acla- 
remos de certo menos merecimeolo de estylo, e de ei- 
preitsam neste Poema, boje tio pooco lido, e ião pouco 
coabecido. Yeja-se a pintura, que o Poeta faz dahabila- 
(ão de Eólo, e do cárcere dos Ventos. 

Daqni cora grande pressa íat mudança 
Lá contra Slróngíle Itba conhecida 
Entre as Volcaneas septe, e celebrada, 
Porque Eólo ali faz sua morada. 

Aqui, D'huma profunda cova escora, 
Os inquietos Ventos encerrados, 
Jupiler poz, e com bera forte, e dura 
Prisam a todos tem presos, e alados. 
E porque aisda possam mais segura 
Mente dos seus furores ser domados, 
Lhe poz também hum grande monte em cina, 
£ bum Rey lhes dco, que os mande, e que os reprima. 

Elles com grande ruido, estrondo horrendo 
Sempre em torno da porta estam bramando, 
Eólo, a quem o Padre alto, e tremendo 
Deu sobre elles o sceptro, deu o mando. 
Os está de buma torre alta regendo, 
Seus ímpetos, c fúrias temperando, 
E de tal sorte o temem, e veneram. 
Que por clle se carreiam, ou se alteram. 

Logo do Real Sceplro a ponta volta 
Ào cavo monte, qu'em si os ventos cerra, 



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Lin« ni., Capitulo ih. 3i 

Empaxa-o pera hum lado, e a prtnm solta, 
A'queUes, com que faz a sua guerra. 
Sabe a turba feroz com grão revolta, 
Soyerter desejasdo o mar, e a terra. 
Mas vendo do seu Rey a veneranda 
Preseuça, param, vendo o que elle maudft. 

Elle lhe manda eulSo, que ao companheiro 
Zephyro dem Tavor do que perleode. 
Já Zephyro dali parte ligeiro, 
E ajudado do amor, que dentro o accende, 
Em breve tempo chega onde o primeiro 
Baio da lui dourada (*hebo estende; 
Contente assas de v6r-se já t£o perto 
Do seu bem, que ser seu já tem por certo. 

Os Tnriosos Ventos, qne seguiram 
O companheirn sempre, qne os gniava, 
'Tanto, qne da prisani soltos se viram, 
Mostram e sua antiga fúria brava. 
Os mansos mares, tanto que sentiram 
Aquella Pufia, que antes presa estava. 
De tal sorte se vam embravecendo, 
Que parece atbe ás nuvens hir-se ergueodo. 

As grossas, altas ondas escamosas, 
Dos furiosos Ventos constrangidas, 
Vam quebrar seu furor nas alterosas 
Bochas, nu lá nas praias estendidas. 
Belunibam as montanhas cavernosas, 
Véeni-se do mar as nuvens combalidas, 
Que a força, com que encontra a rocha durft, 
Lhe faz com que eatjlo suba a lanta altura. 

O «laro ar, e sereno se escurece, 
Que a grossa, e negra nuvem lhe succede, 
O respiaoilor do Soi desapparece, 
Esta nuvem também mesmo lho impede. 
Mo mar ao meto dia hoje anoitece, 
Qorrisooes trovfies de si despede 



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303 ENSAIO BlMBAftnCtl lattífo, fMtt IT. 

O Oeo, e fifpoi eitrondes eE{»Bt69M, 
Solta de si mil rafos laiAíaosol. 

Chegam em taoto o EOro, ktiita, t NAtOi 
Oade os NaVios nm, que fá levaraiA, 
' £ g'o sen costamado terramAto, ■ 

Em tudo gran temor eolSo causaram. 
Eis já CO» alta vos grila o Piloto, 
Os mariabeiros nSo se descoidavaiD, 
Saltam de cá, de lá, com grande presis, 
UuD) i corda, bwn ao remo ce arremessai. 

Mas por mais que aade eiperlo, e diligeot^ 
De se poder salvar já dcsconãi. 
Porque cada momento, mats presente, 
Crescendo a Tempestade, a morte via. 
Zcphyro receioso, e descoatente . . 

Do perigo, em que vé, par quem morria. 
Roga aos Ventos, que cm Gu^ queiram pÁr freio, 
Nem lhe dem tanto bem, com tal receio. 

Porém elles, que mal então podiam 
ReTrear ó que tem por natuieza. 
Cada momento mais, e mai^ cresciam. 
Em Ímpeto, furor, ira, e braveza. 
Ora por entre as ondas descobriam 
Dos mares a arenosa profundeza, 
Ora fazem, que o mar iSo alto saia. 
Que lá naâ nuvens quer fazer a praia. 

Nas Naus atribuladas iáto espalha ■: 

Grande espanto, temor, desconfiança. 
Mas a gente, que nellas se agasalha, 
Faz quanto de viver lhe dá esperança. 
Com revesada força se trabalha 
Na longa Bomba, e o mar ao mar se lança, 
Ora, se encolhe a escota, ora se srit». 
Cresce a volta» do oíedo a gran- revolta. 

Bem sei que isto é nma imitação deVir^íIi», nasiima 
imitação livre, a que oPwta accrescenteu «rai»s pmct- 



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UiBO TO., CAPITULO III. ■ 303 

ladas snas, espeoialmeale na fiialurB de tetDpcstade, e 
se exprime com uma Tálentia de estalo, e soBwidade de 
melro, com que se torna digno de muito louvor. 

Estas mesmas bellezas se eDcòotram na pintura de lít- 
rizao, DO momento deadoifimetterssCanbaio», comoseu 
pequeno esqundrfio de Mogores. 

Nesta hora estaodo de uma, e d*ontra pafle 
Para a batalha tudo apparelhadõ, 
Veado o Mogor, que o imigo nâo se parte, 
Mas que n'hum Esquadrão está cerrado; 
.Faz soar o anafis, lai^a o estandarte, 
Então já de romper deteruiioado, 
A Gente faz que a grita ao Ceo se iguale, 
Selumba o prado, o bosque, o monte, o vale. 

Posto entáo Miríiao n» dianteira 
Beluzindo-lbe em Terro o corpo, e a testa. 
Pedindo que cadn hum segui-lo queira. 
Chega o escudo ao peito, a lança earesta ; 
E mostrando já o Sol a l«z primeira. 
Favorável a alguns, a siguui fuoesta,- 
Cos seus, 4 quem mercês novas pioniette. 
Com gran fúria os imigo; acomnwUe. . ; 

Aquella ardente raachina batids 
Dos Ciclopas, nas Tragoas de Vulcano, 
Com gran forf^a na (erra despedida 
Lá do celeste assento soberana ; 
Da força humana nanea reeistídsy 
Antes traz onde cbega o altirao damnOf 
Nada a delem de qtianto acha diante, . "i 
O marmoce, o ap), a roclta, o-diaBOite^ 

Não se vio- penetrar tSo facilmente 
O copado Pinfieiro, a larga Faia, 
Como o forte Mogor co'a sue Gente 
Penetrou o Esquadrão dos de Cambaia, 
Parte-se logo em dous, e livremente ■ ' 
Larga esuada Ibe dá por onde* saia ; 



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304 IK9AI0 BlMUniflO UlflCe. t«NO IT. 
PassB a Gente aaímosa, em breve espace, 
Pelo camintio feita com seu braço. 

Signai deixa do saa esprito forte, 
E o leva fem ú da imtga covardia, 
Hirízao, porque a muitos deu a norte, 
Com perder trez da sua companhia ; 
E si elle uio faltara á sua sorte, 
E ao seu mesmo esprilo, e valentia, 
Quando em seu Rey da Terra poz a prfia, 
De Cambaia alcançara a alta corAa. 

O Poeta representoa, com igaal viveza, no Canto II. 
o aflbgo, e açodamento com qne os Mogores, que fugiam do 
furor dos soldados de Cambaia , por quem haviam sido 
derrotados, se atropellavam, e emborilbavam na entrada 
da porta da Villa dos Rumes, que António da Silveira 
maadára abrir para recolhe-los. 

Saltéa acaso o Lobo carniceiro 
Das ovelhas a tímida manada, 
Em ausência do A.Iáo seu companheiro, 
E do Pastor de que hera antes gaardada ; 
Correm cheias de medo, e a que primeiro 
Acerta do corrai co'a larga entrada, 
Segura hca ali, de medo alheia. 
Nem morte, ou desventura já receia. 

Desta sorte os Hogores, que presente 
Ter o imigo cruel inda cuidavam, 
Yendo que dentro já se lhe consente, 
A' porta com gran furía se lançavam, 
E querendo entrar todos juntamente 
Uuns aos ontrt» a eotrada embaraçavam, 
Que como aqui só esperam de salvar-se 
Qualquer entáo procura adiantar-se. 

Mas como a porta a poucos agasalha, 
E a todos uclla a vida se prometle, 
Qual de ilharga o caminho abrir trabalha, 
Qoal a entrada c'os hombros acommette. 



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LivBA TIL-, <unm« m. - - fos 

Qual torna bus) poueo atraz porque.se nlba, ' 
Mas donde este se alarga outro se Dfete, 
Ora vam atraz todos, ora avante, 
UoTJmento aa das ondas semilhante. 

Porém como sa Villa enUo já lendo 
Poucos a poucos vara recolhimento, 
E a porta os«omeçou de hir recolhendo, 
}á com menos revolta, e ítnpedi mento, 
Pouco a pooeo ae viu hir desTazeado 
Aqnellerevoltoso.aj:antamefltos : 
Nâo se ouve grita já porque já cessa 
A revolt», o tunulto, a grande pressa. 

A pintura da. Cobísa, debaixo do nome de PJulo é 
Adornada de muita inveoclo, e originalidade. * 

Hil veies no caminho a Faria indta 
A que 9e desça á Terra, imaginando 
Que em qualquer dos kigares, que vê, habita ■ 
A Cobiça, que então hiam bust;aodo; 
Porque segundo a todos solicita, 
A sede de túr o seu accrescestatado, 
Crê não só qoe a Cobiça «li estaria 
Mas qualquer dos que vê, cré que o seria. 

NBo se detendo, a Fúria lhe responde ; 
« Não me espanto de teres esse engano, 
< Que o seu doce veneno Plulo esconde, 
fl Em todo o peito, que he mortal, e humano, 
o E mui poucos serSo os peitos onde ■ 
o NSo reine este appelile cego, e insano; 
« Isto faz laatas vezes enganar-le, ' 

« E cuidar que vés Pluto em toda a parle. » 

Tanto nesta hora já tiubam andado. 
Porque qualquer ligdro enLSo voava. 
Que já o assento vfim, qve gaaalhado 
A'quelle, que buscavam, em si dava. 
Este ú'huina alta cova e^tá assentado 
Lá onde cm maior copia ouro sa cava 



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30S BNSIU BIOaUMM» ClITIM, •WHa IT. 
Pobre, nal pelrecbado, bmI cMDposto, 
Mas tem eu toruo ham' forto miro posto. 

Vé-se no meio delle hDtnK.I«na(lt 
Porta de buma matéria forte, e dura, 
A qaal o uais de teaipe está carada. 
Que nem com >>lo PHito se assegBr». 
Tanto que a Fúria aqui hiZ a dwgailt. 
Dar fim a isto ft que vera l»;*> proennrf 
Cbega-se á ^KNtta, e bal« quanto pMe,. 
Porém de dentro lá rágoen Ihé acode. 

Poaco ao eapmU a Fnria, qas isto ailiga 
Uso he, do que naquella parte mora ; 
Ineta eu bater de «w», Mde atraz iKgo, 
àccçsa já de si pela demofa. 
logo na porta abrir sente hum postigo, 
E vio bum, qne a calaça Im^ làn, 
E pergunta de lár qne quer? quetn bcrtt? 
£ irada lhe responde ascim Megera : 

■ Abre a porta, q«e a ti do ftlto, e temido 
s Plutão mandada sou, bem 9» cmbece. » 
Treme Pluto sónest» em .l«r ftmià» 
O Dome de qnoB só tem«, e úbedeee ;. 
Cerra o postigo, e lá por escondido 
Logar aahe fora, e eatre eHes appsrece ; 
Espanla-se o SnllOo do qtK enfio TÍa, 
Porém aPnría não, qie o eesbeeia. 

Vé-se-lbe buma presesça teBeraiMhi, 
Digna aasás de real sceptro, e cerea. 
Com velhos trapos vis, e çajes attd». 
Uai ornad», e eompteto m peSsoè ; 
Moslrando-se vem coxo de buma Ijanda, 
De outra se Ibe véai azas, cotn que TAa, 
Cego be de todo, e qvem pSe nefle o tentd 
Vé, que ás vesos Ibe Mia o entendimento. 

Parece-me, qne ests pintora tem graad<e merecimento 
poético , em rjtião dos traços de mestre, com qne é do> 



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LifHo Tn., CAprrtift lii. 307 

seohada. Â casa de Pluto, em om terreno dorirero, era 
sitio forte; cercado de forte, e grosso maro, em qoe ha 
uma porta, mui forle, e chapeada de ferro, que raras ve- 
zes se abre; tudo isto fndica bem a cuidado, qae tem oa 
avareotos, em precaver que lhe não roubem os seus the* 
sonros! Vede como a Farta bate replicadamente oa por- 
ta, sem que de dentro se lhe respouda ; e quando já está 
impacientada, é que sente abrir, não a porta, mas nm pos- 
tigo, por onde Pluto deita a cabeça, para perguntar quem 
é, e o que quer ! Megera manda-Iba abrir em nome de 
Plutão, este nome tremendo o faz obedecer, mas como? 
abrindo logo a porta? pelo contrario. Pinto nem com o 
medo se esquece das precauções; fecha primeiro o pos- 
tigo, e vem ter com eties por nm caminho occulto ; ta- 
manha É a desconRança, qae' tem de tndo: cumpre con- 
fessar que o Poeta n9o podia «bservar melhor os costu- 
mes desta personagem. 

O seu bom juizo ainda acha novas pinceladas subli- 
mes, com que avigorar este quadro. Pluto é um velho de 
aspecto venerando, e i>roprio para empunhar sceptro, e 
cingir coroa: Jsío dá a eotender, que a Avareza 6 vicio 
particular dos Velhos, dos Reis, e altas Personagens, qne 
ordinária meu te quanto mais tem mais desejam ! Já tinha 
dicto que a sua habitaçSo era' pobre, e mal trastejada, e 
agora accrescenta, que seus vestidos eram cujos, andra- 
josos, e mal aceiados : tal é o costume dos avaros, qae 
morrem de fome, e vivem na miséria no meio das rique- 
zas, que possuerii I NSo traz isto á memoria dos que o co- 
nheceram, o Manteigueiro de miserável, e sórdida repu- 
tação, que passeiava por essa cidade emborado em unx 
capote já desbotado, que se descalçava para entrar nas 
salas do seu apparatoso palácio, para Dão gastar as al- 
catifas ; que possuindo uma duzía de soberbos leitos, dor- 
mia em um solãe em ama enxerga com lançoes de esto- 
pa, e nella se obstioou em receber oVialico, e expirar? 

Tam ãeest Avaro gnod kabel qaam quoã nò» babel. 

PDBLO StB. 

Não é menos bella a pintura da casa do Somno, do 
Canto XVI., posto qnc em parte imitada das Methamo^ 
phosçs de Ovidio. 
20« 



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308 IHSAIO BIftlUiVBICO>euXl£a> TOVO IT. 
Lá juato d(» Cimerlo» uma escapa 
ProfuDda cova esU, qae 6o lusCDlt: 
Sol Dunca vio a luz dourada, e pnrar, 
Ou seja Oriental, ou do Occidecte. 
Grossas uevoas de si a terra dura 
. Enhalando ali está coiUiniiainente, 
Com que buma ÍDcertA lut ali se eepattta, 
£ aqui o iobabil sonbo se agasalha. - 

Ali da vigilante, e crielada Ave 
Nfio deouDcia o caato a nova Aurora ; 
Nem do Palp, ou do CSo sAa a voz grave, 
' Nem de fera, ou do gado em alguma bora. 
Os ramos do gran Veuta, ou do Ãr saave 
Movidos, nem humaDa voz lá fora 
Fazem qualquer rumor, qualquer ruido, 
Com que o silencio seja ioterroi^ido. . 

NSo se sente ali cousa que incgaiele, . 
Mas tudo Ião calado se está vendo. 
Que buma quietação longa proroette, 
£ por brancos seixiobos vem correndo 
Hum Ribeiro, que trai aguas do Lelhe, 
Cujo brando rumor favorecendo 
Não somente está o somoo ao que dormia, 
Mas convidando a» somno o que vigia. 

Ante as portas da Cova alta.' e profunda, 
A Dormideira está sempre, e floresce, 
D'outras Hervas alí a Terra abunda. 
Com cujo fumú a noite se enriquece, 
De sonioo, que por toda a terra infunda, 
Com que a Gente descança, e se adormece, 
E do mais que n dormir move, e convida 
Se vê aquetia leira bem provida. - 

N3o )ia portas em todo aquelie assento. 
Em que está o molle somoo agasalbado, 
Para que da couceira o movimento, 
Não faça o seu ruído acostumado. 
Tudo o que pôde ser impedimento 



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IITIOTII., CAPWdLO III. ^05 

" Ao somno, dali estava desterrado, ' ' ' 
' E esta porta, qne estava sempre aberta, 
Neuhama guarda feto fiel, e cert