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Full text of "Estudos eborenses : historia, arte, archeologia"

GABRIEL PEREIRA 





f-ílSTOP^IA— yVRTE -yVp^CHEOLOGTA 



OS ASSÍOlOS D'[VORA [M 1663 

2.» PARTE 

MARCHA DO KXKRCITO PORTIGUKZ PARA KVORA. 

AOAMPAMKNTO NO RKGO DA VARZKA. COMBATE \>E 3 DE JINHO 

NAS MARGENS DO DEGEBE. 

TUMULTO EM ÉVORA. RETIRADA OE D. JOÃO d'aUSTRIA. AMEIXIAL 

SEGINDO MOVIMENTO SOBRE ÉVORA. UMA CARTA DE SARTIRANA. 

OS fORTUGUEZES TOMAM O FORTE DE SANTO ANTÓNIO. 

RENDE-SE A GUARNIÇÃO HESPANHOl.A. 



(^^ 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N.* q3 



1889 



GABRIEL PEREIRA 




no n 



^ 



S EBOPS 




j^LlSTOP^IA — y^F^E — y^P^CHEOLOGIA 



OS ASSÉDIOS O'[V01il EM 1663 

2.' PARTE 

MARCHA. DO EXERCITO PORTUGUEZ P.VHA iEVOKA. 

AOAMI-ATviESTO NO «EGO DA VARZF.A. COMBATE IW. 5 1>K Jf.NHO 

NAS MARGKNS DO DEGEBE. 

-fUMUi.TO EM EVOUA. RETIRADA DE TX JOÃO d"aUSTRIA. AMLlXIAi.. 

sTrc!":s-no movimento sobkk evoka. lma carta de sartjrana. 

os 1»ORT-íGUEZES tomam o KOKTE de santo ANTÓNIO. 
RKNDK-SJ'; A GUARMi.ÃO HiíSPANHOÍ.A, 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

Dl-, JOA^riM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N.* ()': 



1889 



ESTIJI)()8 EBORENSES 



Os assédios d'Evora m IS63 



2.» PAKTK 



Os ^arredores de Évora são accidentados sem 
terem grandes elevações de terreno, nem profundos 
valles; são largas ondulações com differenças de 
nivel de vinte ou trinta metros em extensões de 
dois ou mais kilometros. Quem olha os campos de 
uma elevação julga ver enormes planicies, e toda- 
via no regaço d'essas brandas collinas pode mar- 
char escondido um grande exercito. Se ha largos 
espaços despidos de arvoredos, ha também gran- 
des manchas de montados ou mattas de azinheiras 
ou sobreiras. Em geral a camada de terra é estrei- 
ta, pouco espessa, sobre a rocha, e como os decli- 
ves são mui brandos, as aguas das chuvas empo- 
çam, cnxarcam facilmente o terreno. Pontos ha onde 



4 

bastam poucos dias de chuva para fazer nateiro 
impossível de cavar ou lavrar, e poucos dias de 
sol para a terra endurecer tanto que a enchada não 
entra, c os torrões parecem blocos de granito. 

Não é a serra d'Ossa-, nem a- de MontemurO' 
que estabelecem a divisão das aguas n'esta região 
do Alemtejo; é na chapada da Oliveirinha que se 
reúnem os limites das três grandes bacias hydro- 
graphlcas do Tejo, do Sado, e do Guadiar>a; d'ahi 
partem as aguas do Divor que vai ao Tejo, as do 
Xarrama que se dirige ao Sado; e do Degebe que 
entra no Guadiana. 

O Xarrama passa a oriente da cidade em pe- 
quena corrente, a dois kilometros, não constituindo 
obstáculo serio; o Degebe corre a seis kilometros^ 
também a oriente da cidade, e embora insignifi- 
cante, pela natureza e accidentado dos terrenos 
que atravessa, engrossado pela chuva, alaga as 
baixas ou enche as estreitas gargantas de modo 
que não dá váo. Em sitios pode passar a infante- 
ria mas a cavallaria ficaria atascada, noutros pas- 
sam os cavallos mas a artilheria ficaria presa ; e 
logo ao sul da estrada que da cidade conduz ás vil- 
las do Redondo e Alandroal o Degebe corre entre 
escarpas altas bastante para impedir a passagem, 
formando um fosso de importância militar. 



No dia I de junho deixou o conde de Villa Flor 
o acampamento do Alandroal, tendo previamente 
augmentado as suas forças com as guarnições das 
praças que sem perigo as podiam dispensar; no 
dia 3, sem encontrar embaraço algum, passou o 
Degebe, e veio marchando até ao Rego da Vár- 
zea. O conde de Schomberg empenhou todos os 
esforços para que esta marcha fosse perfeita, e 
desse ao hespanhoes que naturalmente tinham pi- 



5 



quetes e exploradores, subido conceito do exercito 
portLiguez. 

Corpos de infanteria e cavailaria marchavam 
conservando admiravelmente as distancias: 8 ca- 
nhões seguiam na linha da vanguarda o ultimo 
batalhão de cavailaria (já se notou que as designa- 
ções militares eram então bem diversas das mo- 
dernas); e sete o ultimo troço de infanteria, na 
primeira linha. 

A reserva cobria as bagagens que iam na recta- 
guarda da segunda linha. 

Os castelhanos não appareciam ; D. João de 
Áustria tinha disposto as suas tropas em sitios co- 
bertos ás observações dos exploradores inimigos. 
A' tardinha as linhas portuguezas occupavam to- 
das as posições do Rego da Várzea, cortando as 
estradas do Redondo, Portel, Vianna, chegando os 
exploradores á estrada d^Alcacer. 

O exercito dispoz-se como para combate imme- 
diato, determinando Schomberg que n'esta ordem 
passasse a noite. 

Houve a este respeito divergências entre elle e 
Villaflor, querendo este que se adoptasse a forma 
clássica; a cavailaria no meio de corpos de infan- 
teria, e os carros de bagagens, guarnecidos de in- 
fanteria, cobrindo o exercito. Schomberg despre- 
sou esta regra, tendo-a por perigosa estando á vista 
c tão visinho do inimigo; e talvez por ver o pe- 
queno incommodo que resultava por serem poucas 
as horas de trevas no mez de junho. 

D. Sancho Manuel insistiu e deu ordens directas 
aos sargentos mores de batalha; estes porém não 
obedeceram e seguiram o parecer de Schomberg. 
passando o exercito a noite em ordem de comba- 
te. Este episodio, como aquclle, que já referi, a 
propósito do governo da praça d'Evora, mostram 



bem o perigo que pode resultar dos privilégios em 
occasiões de crise. 

Os castelhanos attentos só ao desejo de incor- 
porarem as tropas que tinham passado a Alcácer 
não iizeram de noite movimento algum; novidade 
que poz em maior disvelo o general d'artilheria, 
presumindo que para o quarto d'alva reservavam 
o combate, e com este sentido rondou toda a noi- 
te ; e observando que não só os soldados, mas a 
maior parte dos officiaes se deixavam vencer do 
somno, fez montar varias partidas com -ordem de 
tocar a espaços, ate amanhecer, alarma por todos 
os lados do exercito, para que não houvesse ins- 
tante em que a resolução dos castelhanos podesse 
triumphar do nosso descuido. 

No entanto D. João d'Austria enviava avisos ás 
tropas que estavam em Alcácer, para que retiras- 
sem sobre Évora com a maior brevidade. 

Alli as forças hespanholas tinham commettido 
extraordinárias violências, saqueando tudo. 

Recebendo as apertadas ordens do comman- 
dante em clufe essas tropas começaram a retirar, 
e sabendo no caminho das posições das forças por- 
íuguezas e da possibilidade de achar cortada a re- 
tirada, largaram toda a preza, e antes de amanhe- 
cer estavam no convento de Valverde. Então, como 
ainda hoje, os soldados hespanhoes executavam 
marchas rapidissimas. Ha, como se vê, pontos ob- 
scuros n'estas operações militares. Imprudência de 
D. João d'Austria em destacar para tão longe uma 
força considerável tendo nas costas um exercito 
inimigo. Descuido do portugucz em não cortar essa 
força, não lhe oppondo o mínimo obstáculo, e tor- 
nando possivel o ílanqueamento que seria fatal, 
pois as posições de Villaflor não eram vantajosas. 
O chefe hespanhol só pensa em condensar o seu 
exercito, não tenta o flanqueamento, e deixa o 
campo livre ao inimigo. 



D. Sancho Manuel reconhecendo baldado o in- 
tento com que marchara por não sor já possivel 
pelejar com os castelhanos divididos, tanto que 
amanheceo mandou retroceder a marcha do dia 
antecedente observando-sc a mesma ordem até 
chegar ao Degebe. Na passagem d'este pequeno 
ribeiro houve confusão no exercito, e se a cavalla- 
ria hespanhola tivesse avançado e Crirregado, as 
torças portuguezas sotfreriam grande desastre. 

Como já temos referido, embora se estivesse a 
entrar no verão, o tempo tinha decorrido chuvoso; 
as ribeiras levavam bastante agua. O Degebe c 
uma d'estas pequenas correntes alemtejanas nuUas 
na grande parte do anno, mas que enche, em pon- 
tos se torna caudaloso, com alguns dias de chuvé* 
Nas suas curvas mais visinhas da cidade este pe- 
queno rio atravessa ora umas baixas de pequeno 
declive encharcadiças, ora corre por entre rochas 
de schistos mui rijos, em ásperas trincheiras. Hoje, 
com o alcance das modernas armas, o Degebe não 
forma obstáculo militar considerável; então cons- 
tituiu ponto de lucta. Demais é possivel que em 
i663 o leito da ribeira fosse mais profundo, me- 
nor o areiamento. 

As forças portuguezas terminaram o passagem 
ás 3 horas da tarde. 

Seguiremos agora a narrativa do conde da Eri- 
ceira. 

Começando o conde de Schomberg a dispor o 
quartel na margem do rio, appareceram da outra 
parte d'elle os primeiros batalhões da vanguarda 
do exercito de Castella, porque D. João d'Austria, 
ao mesmo tempo que chegaram as tropas de Al- 
cácer, marchou a occupar com todo o exercito as 
eminências sobre o Degebe, que poucas horas an- 
tes haviamos largado, constando-lhe que os mora- 
dores de Évora alegres murmuravam que ellc re- 



8 



ceava o conflicto que tanto havia mostrado appe- 
tccer. 

Creio que não é preciso recordar a orographia 
da região; as forças de Portugal estavam nas altu- 
ras do Outeiro das Vinhas. Galvoeira, Valmelho- 
rado, emquanto as de Castella occupavam agora o 
Espinheiro, o Montinho e as Ferrenhas. 

Na cidade ficou pequena guarnição; nas alturas 
mais próximas das posições portuguezas estabele- 
ceram as de Castella rapidamente 1 5 bocas de 
fogo; começaram a atirar ao cerrar da noite. 

Recorreu-se então a uma traça de guerra muitas 
vezes repetida. 

Schomberg mudou á noitinha o alojamento do 
exercito, deixando os fogos no primeiro, e algumas 
tendas levantadas, que por toda a noite serviram 
de inutilemprego ás balas hespanholas. 

Durante a noite as baterias portuguezas occu- 
pavam alturas que descubriam bem as margens 
do Degebe; os dois portos mais fáceis, provavel- 
mente no Outeiro e no Paço da Vinha (estradas 
do Redondo, Azaruja e Estremoz) foram fortifica- 
dos; 5oo mosqueteiros e grande parte da cavalía- 
ria defendiam o porto do norte; um regimento de 
inglezes e 5oo cavallos ás ordens do general iMa- 
nuel Freire ficaram no do sul. 

Estamos em 5 de junho; rompe a manhã. As 
forças hespanholas entraram em grande movimen- 
to, as tropas procuram os dois portos do Degebe ; 
em breve estava travado sério combate; onde a 
lucta porem se tornou mais bravia e sangrenta toi 
no porto do sul, na estreita ponte, hoje renovada, 
na estrada de S. Miguel de Machede e Redondo, 
no moinho próximo, e no sitio do cruzeiro. Aqui 
os hespanhoes empenharam os maiores estorços e 
nada conseguiram; D.João d'Austria convenceu-se 
depois d^algumas horas de acceso combate que 



eram inúteis taes esforços, e retirou, não sobre a 
cidade, mas descaindo sobre a esquerda. Schom- 
berg fez então mover rapidamente a artilheria, a 
seguir a marcha do inimigo, manobra n'aquella 
época completamente desusada, e que mesmo até 
ás gueiras de Bonaparte passou por perigosissima, 
e de louca ousadia. 

A artilheria portugueza foi collocar-se em ponto 
donde se descobriam os campos que forçosamente 
seriam atravessados pelas forças castelhanas; estas 
cortavam agora pelos olivaes e vinhedos do Espi- 
nheiro; os troços de infanteria corriam pelas quin- 
tas, em desordem, saltando muros e valias; os ba- 
talhões de cavallaria seguiam pelas estradas das 
Barcieiras ou Cravelinba, e Salvadas; ao entrarem 
no campo aberto rompeu o fogo dos canhões; as 
primeiras tropas ainda conservaram alguma ordem 
debaixo de fogo, mas os corpos que iam mais atra- 
zados soífreram pânico e não obedeceram aos of- 
íiciaes. Succedeu ali um episodio de guerra notável ; 
alguns soldados e ofíiciaes procuraram o abrigo 
das paredcNs de uma casa aruinada; viu-sc isto de 
uma das barerias, apontaram para ali todas as pe- 
ças e dispararam a um tempo; um paredão tom- 
ba ao íurioso impulso e esmaga os que o haviam 
buscado para remédio. 

Ao começar da tarde D. João d'Austria mandou 
afíaslar das peças. As i5 bocas de fogo dispara- 
ram em 12 horas, das 3 da manhã ás 3 da tarde, 
770 tiros; 64 tiros por hora, ou 5 i tiros por peça, 
termo médio, desprezando uma pequena fracção. 
Grande numero de mortos e feridos cobria os cam- 
pos; os hespanhoes tiveram muitos ofíiciaes supe- 
riores fora do combate. O mestre de campo D. 
Gonçalo de Córdova, ficou gravemente ferido, e 
talleceu pouco depois na cidade. 

O nosso exercito guardou em seguida ao com- 



IO 



bate as suas primeiras posições; os hespanhoes, 
ao cahir da tarde, prepararam-se para alojar á 
ponte do Dcjebe, vindo a reclaguarda encostar- se 
ao Espinheiro. 

O conde de Schomberg tratou também de pre- 
parar quartel com a máxima segurança. A van- 
guarda occupava uma eminência bastante superior 
á campanha. 

O Degebe defendia-Ihe a esquerda. Na primeira 
linha os terços e batalhões estavam dispostos pela 
ordem da marcha, abrigados por pequenas trin- 
cheiras; a meio das trincheiras construiram raoi- 
damente ângulos que as flanqueavam, e ahi coUo- 
caram 4 peças. No centro do quartel alojou a corte, 
a vedoria, munições e bagagens. Durante a noite 
não houve hostilidade alguma. 

No acampamento portuguez todos esperavam 
combate ao romper da manhã; nada. nem um tiro, 
nem um movimento. 

O general hespanhol levou o dia a preparar os 
carros de bagagens, a formar o seu exercito e a 
guarnição da cidade; pensava em retyar-se para 
Badajoz, n'isto dera o grande impetc/da entrada. 
Encarregou o governo da praça ao conde de Sar- 
tirana,otficial italiano, de muito valore experiência. 

Ás ordens do conde ficaram 3:ooo infantes divi- 
didos em sete terços ou corpos de infanteria, de 
hespanhíjes, italianos e allemães; 800 cavalleiros 
das mesmas nações; i3 peças, entrando n'este nu- 
mero 6 meios canhões. As munições, artifícios de 
fogo, e os mnntimentos em abundância para sus- 
tentar um largo sitio. 

No quartel general portuguez havia grande sur- 
preza ; não se sabia explicar aquella inacção do 
exercito castelhano, depois de um dia de combate, 
conservando-se em batalha na frente do inimigo, 
e não fazendo tentativa alguma, nem o minimo 



I I 



reconhecimento, sobre as e.-,tradas que de Évora 
partem para a fronteira. 

Pelo fim da tarde o conde de Schomberg não 
pode conter a impaciência, o desejo de obter qual- 
quer esclarecimento; reúne alguns batalhões, e de 
súbito passa o rio e carrega vigorosamente; trava- 
se uma escaramuça e em pouco tempo retirani-se 
os portugiiezes levando alguns prisioneiros, único 
fim da acçcío. 

Tudo inútil, os prisioneiros nada sabiam; as du- 
vidas continuaram. 

A pequena escaramuça deu porem um resultado 
não previsto; o povo d'[ivora tinha agora já a ple- 
na certesa de que D. João de Áustria preparava a 
retirada. 

A acção do dia antecedente era conhecida na 
cidade; sabia-se que os portuguezes mantinham as 
suas posições, e que os hespanhoes tinham soíTrido 
severas perdas; ao ouvir agora o estrondear do 
canhão, e vendo o sobresalto e a agitação dos in- 
vasores, não conteve o povo eborense o natural 
impulso do seu patriotismo e rompeu em grave 
alvoroto, não considerando que a cidade estava 
ainda cheia de tropas castelhanas, esperando tal- 
\ ez causar confusão e pânico pelas sombras da 
noite. O que é certo é que D. João d'Austria teve 
difficuldade em serenar este movimento de um 
pequeno numero de populares. Castigou os cabe- 
ças, tirou as armas a todos, e convocoaas pessoas 
principaes da cidade a uma conferencia. Entre es- 
tas achava-se Manuel Freire, sargento mór de au- 
xiliares. D. João d'Austria reprehcndeu o excesso 
commettido, aconselhou a obediência completa a 
el-rei de Castella, depois tomou uns modos aífa- 
veis, conversou sobre diversos assumptos, e fallan- 
do a respeito dos exércitos elogiou a artilheria por- 
tugueza. 



12 



— Sim senhor, disse xManuel Freire, sem se po- 
der conter, dizem que matou muito Ctistelhcino, 

F^ez sensação o dito, e os oíliciaes hespanhoes 
viram mais uma vez manifesta a firmeza dos âni- 
mos portuguczcs na sua aversão ao dominio hes- 
panhol. 

Logo que cerrou bem a noite (6 de junlio) co- 
meçou a marcha do grande numero de carros das 
bagagens; os moradores da cidade tiveram então 
a certeza de que era definitiva a retirada do exer- 
cito hespanhol, deixando a praça guarnecida, e por 
consequência toda a probabilidade de outro assedio, 
e de novos e mais singulares horrores, porque se- 
riam agora portuguezas as balas que entrariam em 
Évora. 

Ao raiar do soí de 7 de junho dissiparam-sc to- 
das as duvidas no acampamento portugucz, onde 
a noite se passara cm alarma ; o exercito hespa- 
nhol retirava para norte, deixando Évora guarne- 
cida e fortificada. Como n'estas largas ondulações 
do solo alcmtejano das alturas se descobrem vas- 
tos campos, os officiaes portuguezes reconheceram 
facilmente as longas filas dos carros de bagagens, 
os terços e os batalhões em marcha, e as compa- 
nhias destacadas que seí^uiam nos flancos e na 
rectaguarda. Resolveu-se logo seguir o exercito 
hespanhol, avançando immediatamente uma força 
de cavallaria paia picar e ameaçar o inimigo; esta 
força horas depois tinha já colhido muitos prisio- 
neiros. Villa Pior marchava pela estrada d^Evora 
iMonte, e ao cerrar da noite transpunha a ribeira 
do Ter. 

O que foi essa marcha dos dois exércitos inimi- 
gos, seguindo caminhos próximos, em constante 
alerta, aíé convergir nos cerros do Ameixial, e es- 
talar a fúria da renhidíssima batalha; e o que foi 
esse dia 8 de junho, um dos mais solemnes de 



i3 



Portugal, a victoiia brilhante das nossas armas, a 
decisiva derrota do invasor hespanhol, os esforços 
heróicos, as desmedidas acções, contam-nos as pa- 
ginas da historia ; cm muitos livros se pode ler a 
narrativa do formidável combate donde, a custo 
salvo, se retirou D. João d' Áustria, seguido de 
poucos que apressadamente procuraram a praça 
de Arronches, e d'ahi seguiram para Badajoz. 

D. Sancho Manuel entrou logo em Estremoz a 
recompor os terços de infanteria, as companhias 
de cavallos, e o trem de artilheria; levou 5 dias 
este trabalho. Era agora bem diversa a questão a 
resolver. 

Na fronteira hespanhola havia pequenas forças 
isoladas; .Arronches estava ainda guarnecida de 
castelhanos; c no coração da provincia Évora, a 
importantissima cidade, que era preciso recuperar 
a todo o custo. Para obstar a nova surpreza Villa 
Flor reforçou algumas praças. Atfonso Furtado de 
Mendonça ficou governando Estremoz, com os 
terços de João Furtado, João da Costa de Brito, 
Luiz da Silva, António de Almeida, Lourenço Gar- 
cez, e José de Moraes; o conde da Torre foi go- 
vernar Campo Maior com o terço de Pedro César 
de Menezes. Alexandre de Moura com o seu terço 
foi para Portalegre; Manuel Lobato para Villa Vi- 
çosa com o terço de D. Pedro de Opessinga ; Antó- 
nio Jacques de l''aiva para Monçaraz com 3oo in- 
fantes. 

Em [4 de junho começou o movimento do exer- 
cito sobre Évora. 

No dia antecedente partira de Aldeã Gallega o 
marquez de Marialva, com forças consideráveis 
qee vinham tomar parte nas operações militares; 
constavam de 7 terços de infanteria, com 3:5oo 
homens. Soo cavallos e 4 peças. Com o marquez 
vinham também algumas pessoas da corte para 



14^ 

assistir ao sitio da cidade, os condes de Sarzedas, 
Santa Cruz, Vidigueira e Mesquitella, D. Lourenço 
de Lencastre, D. Francisco de Mascarenhas, Luiz 
de Saldanha e Albuquerque, etc. 

Estas tropas eííectuaram a sua reunião com as 
de D. Sancho Manuel, depois de fatigantes mai- 
chas (estamos em junho, e nas vastas campinas 
alemtejanas), no dia 17, na margem doDejebe. Im- 
mediatamente se passou revista ás forças reuni- 
das, vcrificando-se constarem de i3:ooo infantes, e 
2:5oo cavallos. 

No dia 18 de junho de i663, ao romper da ma- 
nhã, o conde de Schomberg, os generaes de caval- 
laria e artilheria, avançaram para reconhecer a 
praça. 

Já se disse dos grandes trabalhos de fortificação 
levados a effeito pelos hespanhoes, e da forte guar- 
nição que D. João d'Austria aqui deixou; pode- 
mos ainda mencionar os oíiiciaes superiores hes- 
panhoes que rodeavam o notável militar italiano, 
conde de Sartirana, encarregado do governo da 
praça: eram D. Ignacio d'Altariva, D. Pedro da 
Fonseca, D. João Barbosa, e D. João de la Car- 
rera ; dos dois regimentos allemães eram coronéis 
o barão de Carandolet, e Franck; os dois terços 
italianos commandados pelos mestres de campo 
D. Fabrício Rossi, e conde de Valjosi ; um enge- 
nheiro de grande reputação, cujo nome nos appa- 
rece vagamente escripto, mr. de Henot ou mr. de 
Anot olhava pelas fortificações. 

A guarnição da cidade assim que deu noticia 
dos ofificiaes portuguezes poz-se em armas, e o re- 
conhecimento fez -se em grande perigo pelo fogo 
das peças e dos mosquetes. 

Feito o reconhecimento, Schom.bcrg dividiu o 
exercito em duas partes, começando logo os traba- 
lhos dos respectivos quartéis; um ao nascente da 



!5 



cidade, cm frente da porta de Machede, um quarto 
de legoa distante da muralha; outro cm Valbom, 
para lá da Cartuxa; n'este se alojou o conde de 
Vi lia Flor, o marquez de Marialva, e muitos offi- 
ciaes superiores. Immediatamente se deu principio 
aos trabalhos dos aproxes. Uma trincheira vinha 
de Valbom, deixava á direita o forte de Santo An- 
tónio e dirigia-se ao baluarte de S. Bartholomeu; 
outro aproxe sahia da Cartuxa e vinha procurar a 
muralha a poente da porta da Lagoa. Do outro 
quartel partia um terceiro aproxe caminhando ao 
meio da muralha entre as portas de Machede c da 
Mesquita. 

Em ig continuaram os trabalhos dos quartéis 
e dos aproxes, e cstabeleceram-se baterias; houve 
varias escaramuças sem importância. Uma das ba- 
terias tinha cinco peças e jogava sobre a muralha 
entre as portas d'Aviz e Lagoa ; outra de 4 peças 
atirava contra as portas de Machede e Aviz. 

O fogo d'estas baterias começou na manhã 
de 20. 

As baterias atiravam sobre as muralhas, evitan- 
do quanto possível todo o damno.á cidade. Perce- 
be-se facilmente a melindrosa situação do exercito 
portuguez sitiando Évora, guarnecida de hespa- 
nhoes; demais entre os sitiadores havia muitos na- 
luraes da cidade; estavam fora das muralhas o 
terço e os voluntários d^Evora, que no Ameixial 
se tinham batido valorosamente; das suas baterias, 
das suas trincheiras e acampamentos viam as suas 
casas, ou marcavam-lhe os sitios. Nos habitantes 
dominava um complexo estado mental, o terror 
que o troar da artilheria sempre causa, a impa- 
ciência cruel, a excitação febril que nasce da crise 
jirolongada, o ódio natural ao invasor, ao conquis- 
tador insolente; a terrível convicção da impotên- 
cia para quebrar as algemas que hora a hora lhes 



i6 



entravam nas carnes; ao mesmo tempo a espe- 
rança, o cnthusiasmo, porque apczar da vigilância 
dos hespanhoes tinham entrado ne cidade noticias, 
boatos da grande victoria, que eram confirmados 
pelo facto de ali estarem tropas tão numerosas que 
tinham em respeito a guarnição hespanhola. 

Esta ignorava o resultado da batalha, pelo nie- 
nos não o julgava tão decisivo, e esperava a cada 
momento, nos primeiros dias, ver apparecer de sú- 
bito D. João d''Austria e varicr as campinas ebo- 
renses. 

Do povo não tinham receio; fizeram sahir todos 
os homens validos capazes de pegar em armas, 
excepto os ferreiros, abegões e alvaneos, que orga- 
nisaram em corpos sujeitos a constante vigilância; 
recolheram todas as armas que encontraram; dei- 
xaram sahir da cidade muitas famílias, comtanto 
que não levassem viveres de qualidade alguma. 

Durante o bombardeamento o exercito de Villa 
Flor estava parte em armas prompto a receber 
qualquer sortida, e outra parte trabalhava nos 
aproxes; em sitios este trabalho exccutou-se com 
muito risco, principalmente entre o forte de Santo 
António e o baluarte de S. Bartholomeu. 

Na manhã de 21 havia bastante terreno occu- 
pado por esses trabalhos. Na cabeça das trinchei- 
ras o general D. Luiz de Menezes formou um re- 
ducto, e na plataforma assentou ncna bateria que 
por ficar muito próxima da muralha fazia maior 
damno. 

D. Sancho Manuel não consentiu em se trabu- 
car ou bombear a praça, para impedir a sua rui- 
na ; este dia viu porem maiores acontecimentos. 

Os hespanhoes fizeram uma sortida com grande 
Ímpeto sobre as trincheiras; os terços de guarda 
resistiram briosamente, e em breve acudiram re- 
forços numerosos dos quartéis; repellido o inimigo 



^7 

para fóra áús aproxes foi logo carregado pela ca- 
vallarÍM ás ordens dos generaes D. Luiz da Costa 
e D. Manuel de Athayde ; os dois valentes oíficiaes 
receberam contusões de pequena gravidade; os 
soldados portuguezes acompanharam no tumultuar 
do combate as tropas castelhanas até próximo das 
muralhas. Ao mesmo tempo cabiam em poder dos 
nossos dois correios, um do duque de San Gcr- 
man para o conde de Sartirana, com uma extensa 
carta em que o animava á resistência, occultando- 
ihe o immenso desastre do Ameixial ; outro do go- 
vernador da praça para o duque. Esta tem para 
nós algum interesse; vamos trai\screvel-a. 

» Doy cucnta a v. ex.* de como el enemigo se 
rezolvio a sitiar esta plaza, sobre la qual entiendo 
será su ruina. 

Todos los soldados estan con [.grande animo á 
la defensa. 

Por todo Júlio tenderemos bastimientos, tiempo 
que me parece bastante para que el enemigo se 
deshaga. y S. Alteza puede bolver a soccorrer-me. 
Toda la gente que podia tomar ramas, y los frailes 
mozos, y clérigos reboltozos eche de la ciudad, 
tanto para me a provechar de sus bastimientos, 
quanto para que no gasten los que tenemos. Don 
Gonçalo de Córdova murió de la herida, perdida 
considerable en tan grande soldado. Las justicias 
dei pueblo, y algunos de ellos andan finíssimos. 
Por aqui corre voz, aunque en secreto, que tuvo 
una rota nuestro exercito, no creo; seria alguna 
retriéga en Ia retroguardia, y v. ex.** me avize de to- 
do, y ordene lo que hede hazer: porque estoy prom- 
ptissimo a dar la vida por conservar el honor, y 
la reputacion de las armas de S. M. A S. Alteza 
puede v. ex." segurar de mi parte todo esto. 

Évora, 17 de junio de i663. 

El conde efe Sartirana.» 



i8 



Pelas cartas viram perfeitamente os chefes por- 
íuguezes que Sartiraiia estava resolvido a tenaz 
resistência; ora a dilação do assédio podia causar 
difíiculdades gravíssimas; não era impossivel que 
os hespanhoes conseguissem reunir em algumas 
semanas na fronteira forças consideráveis que obri- 
gassem o exercito a largar o sitio da praça, entran- 
do em novas operações. 

Os cliefes portuguezes resolveram empregar ain- 
da maiores esforços; arrostar os mais custosos sa- 
crifícios. 

Já noite fechada receberam alguns corpos ordem 
para se apromptar a combate; guardou-se o maior 
segredo sobre a empreza. Algumas companhias 
vieram no silencio da noite postar-se em frente das 
muralhas; ao mesmo tempo soldados escolhidos 
apromptavam se para assalto; tratava-se de tomar 
por surpreza o forte de S. António. Eram 200 ho- 
mens do regimento inglez de Diogo Aspley, com 
os ofíiciaes Nathaniel Hill, João Smith e Carlos 
Langley ; e outros tantos portuguezes ás ordens de 
Luiz d'Azambuja, com os capitães Luiz Pereira de 
Lacerda, Domingos Carrião, Manuel Beirão, e João 
Freire Coelho. 

A' uma da noite estoiraram dois tiros de peça, 
era o signal; portuguezes e inglezes romperam em 
corrida, e assaltaram o forte de Santo António com 
Ímpeto extraordinário; os defensores nem tiveram 
tempo de entrarem em ordem, o combate foi terrí- 
vel, braço a braço, n'um tumultuar medonho; pou- 
cos defensores fugiram, morreram bastantes, a 
maioria ficou prisioneira. Os hespanhoes tinham 
ahi retido algumas pessoas da cidade ; entre ellas 
Manuel Corte Real, presidente da inquisição. 

Ao ruido do assalto sahiu a cavallaria da praça; 
não conseguiu prestar soccorro algum porque logo 
encontrou as tropas de D. Manuel de Athayde. 



'9 

Logo pela manhã o capilão Miguel Rosado, com 
5o mosqueteiros do terço de Sebastião Correia, 
atacou o derrocado casarão do Carmo, e occupou- 
o depois de alguma resistência dos defensores, com 
bastante risco por causa do tiroteio que os caste- 
lhanos faziam na muralha. Ao mesmo tempo, pa- 
ra chamar a altenção para outro ponto, o sargen- 
to mór, Manuvl da Siha da Horta, com i5o mos- 
queteiros, vinha an>eaçar o forte de S. Bartholo- 
rneu, travando- se fogo aciivissimo. 

O aproxe chegava já a S. Bartholomeu, muito 
próximo da muralha, na manhã de 22; as trinchei- 
ras que partiam d<> quartel fronteiro á porta de 
Machede avançavam também até breve distancia 
da muralha, com o que começava a praça a estar 
em perigo e constante sobresalto. No mesmo dia 
cahia prisioneiro outro correio do duqucde S. Ger- 
man; trazia cartas pedindo a Sartirana que susten- 
tasse a todo o custo a praça, promettendo-lhe 
prompto soccorro. A defeza continuava enérgica ; 
todavia entre os defensores circulavam cada vez 
mais intensas as noticias da batalha do Ameixial, 
da completa derrota sotlVida por D. João de Áus- 
tria. 

Na tarde d'esí j dia. 22, estando nas cabeças das 

■ > 

trincheiras os terços de D. Diogo de Faro, Fernan- 
do Mascarenhas, e Phacbo Moniz de Sampaio, fez 
o inimig%segunda sortida com infanteria e caval- 
laria; o ínTmigo foi logo repellido por D. Manuel 
dê Aíhayde, e levado até ás portas da cidade. 

Luiz Serrão Pimentel delineou logo outro apro- 
xe a partir do forte de S. António, direito á porta 
da Lagoa; D. Luiz de Menezes estabeleceu uma 
bateria de três peças, n'uma elevação de terreno, 
no sitio do Carmo, batend» mui de perto a mes- 
ma porta. 

Os defensores estavam já fatigados, com traba- 



20 



lho, e sobresaltos constantes, por augmentar hora 
a hora o peri^^o, e por terem tantos pontos que de- 
fender. Pouco depois de ter recolhido a tropa da 
sortida, vieram os hespanhoes á muralha e tocaram 
á chamada para capitulações. Sahiu em seguida o 
coronel Francisco Franck, que ioi conduzido com 
as formalidades usadas n'estes casos ao quartel 
general onde o esperavam o conde de Villa Flor, 
e o marquez de Marialva. 

As propostas de Franck não foram bem acolhi- 
das; nenhum dos artigos das capitulações teve a 
approvação dos chefes poríuguezes. 

Terminada a conferencia recomeçaram loí^o as 
hostilidades nas posições portuguezas; e todo o dia 
23, e a noite seguinte houve fogo incessante. 

A' portada Lagoa travou-se durante a noite uiua 
lucta renhidissima ; o engenheiro António Rodri- 
gues, e os mestres de campo Correia de Sá, Ro- 
que da Costa e Manuel de Sousa de Casti^o, pre- 
pararam mantas para picar as muralhas, abrir mi- 
nas, e dar assalto: chegaram a encostar i i nian- 
tas á muralha; todas arderam pelos innumeraveis 
instrumentos de fogo que atiravam das muralhas; 
todavia não impediram que os portuguezes picas- 
sem os muros. 

Simultaneamente travava-se rijo combate nas 
trincheiras da porta de Machede, havendo ahi sor- 
tida e contra-sortida ; ficaram muitos feridos, bas- 
tantes mortos, e entre uns e outros alguns oííiciaes 
superiores; ficou ahi gravemente ferido o general 
d'arl.ilheria Fontenai, e mortos os engenheiros Fran- 
cisco Adão da Ponte e Bartholomeu Zanit, ambos 
de grande reputação. 

Agora começaram a manifestar-se symptomas 
de desanimo entre os defensores da praça ; toda- 
via a vigilância não enfraquecia ; nas posições por- 
tuguezas conservava-se tudo em armas : era gran- 



21 



de o cansaço, a fadiga pelos extraordinários tra- 
balhos, pelos constantes sobresaltos, pelas noites 
perdidas nas convulsões dos combates, mas cada 
vez maior o enthusiasmo, e a confiança. 

> 

Finalmente na manhã de 24 ouviu-se pela se- 
gunda vez o toque de chamada nas muralhas, para 
a entrega da praça ; suspenderam-se logo as hos- 
tilidades. Fez-se uma breve conferencia prepara- 
tória e logo se tratou da troca de reféns; por parte 
de Portugal foram o sargento mor de batalha, Dio- 
go Gomes de Figueiredo; o mestre de campo An- 
tónio Soares da Costa, e Mr. de Charent; por parte 
de Hespanha entraram no quartel portuguez o 
mestre de campo D. Pedro de Aífonseca, o coro- 
nel Franck, e D. Pedro da Rocha. 

Durou a a)nferençia até á meia noite, ficando 
justas as capitulações: que sairia o governador com 
toda a guarnição, oíliciaes e soldados de todas as 
nações, salvas as vidas e liberdade, e os oíBciaes 
da provedoria e artilheria : que a marcha seria pela 
brecha com honras militares devidas aos rendidos 
de boa íé (mo;iiíicada depois i)or causa da cavalla- 
ria, que saiu montada, não passar facilmente pelas 
brechas abertas; a guarnição saiu toda pela porta 
do Rocio); que se lhes marcaria logar em que as- 
sistissem até i5 de outubro; que havendo alguns 
soldados que desejassem ficar servindo no exercito 
portuguez lhes seria consentido; que succedcndo 
que alguns oííiciaes não quizessem esperar até ao 
fim da campanha se poderiam retirar seguros a 
Badajoz; concedidas ao governador duas peças- de 
artilheria com as munições precisas para se carre- 
garem ; os enfermos e feridos commodamente con- 
duzidos a Badajoz ; que podiam sair 8 rebuçados, 
passando logo a Gastella, sem impedimento; seria 
restituído qualquer objecto pertencente aos mora- 
dores da cidade; que se entregariam todos os ca- 



22 



vallos das companhias, não os dos officiacs, e tc>- 
das as munições, petrechos e mantimentos que 
houvesse na praça ás ordens dos vedores gera es 
do exercito e artilheria; que ao dia seguinte ao 
amanhecer se entregaria uma porta da cidade para 
se lhe metter guarda e a guarnição rendida sahia 
em seguida. Assignaram as capitulações D. Snnchí> 
Manuel conde de^Villaflor, e D. Francisco Gatiiia- 
ra, conde de Sartirana. 

A' hora marcada o mestre de campo Lourenço 
de Sousa e Menezes com o seu terço que estava 
de guarda na trincheira foi guarnecer a porta do 
Rocio. Em frente da pf)rta na espaçoso rocio de 
S. Braz, formou o exercito em batalha: na cidade 
entrou logo D. Luiz de Menezes, general de arti- 
Iheria, a tomar posse, coui os seus ofíiciaes, vedo- 
res, ofíiciaes de fazenda, e grande numero de fidal- 
gos. Foram á sé, e de ahi avisaram o conde de 
Sartirana Logo se tomou posse dos armazéns; as 
bocas de fogo ficaram montadas nas muralhas e 
baluartes. A guarnição hespanhola desfilou em se- 
guida, apresentando-se bem depois de tantos dias 
de séria fadiga. Os ofíiciaes dos dois exércitos tra- 
taram-se com a maior cortezia. O conde de Villa 
Flor estava assentado n\ima cadeira, em throno 
alto, á porta do Rocio, onde recebeu logo cumpri- 
mentos da gente da cidade, e das ordens religiosas. 
A irman freira de Santa Clara mandou-lhe uma 
capella de cravos e elie na expansão natural de 
tal dia collocou-a no chapéu; os officiaes applau- 
diram ; pouco depois passava o conde de Sartira- 
na ; os dois chefes comprimentaram-se, e D. San- 
cho Manuel oífereceu a capella a Sartirana que a 
aceitou, pondo-a nos punhos da espada. Nas ba- 
gagens e em vários pontos da cidade houve alguns 
excessos que promptamente se contiveram. Mas 
logo que terminou a retirada dos hespanhoes, e a 



23 



entrega das armas c cavallos, e ainda mesmo á 
poria do Rocio, D. Sancho Manuel fez prender al- 
gumas pessoas julgadas de responsabilidade na 
entrega da cidade aos hespanhoes, e de extrema 
baixeza nas homenagens a D. João de Áustria. 

Kstava a cidade livre depois de tanto tempo de 
sobresaltos e agonias; livre, cheia de enthusiasmos 
patrióticos, e de luctos e ruinas.* 

Os dois bombeamentos tinham arruinado bas- 
tantes Ccisas, e a explosão das minas aluíra outras. 

Dos episódios mais particulares e noticias diver- 
sas nacionaes e estrangeiras relativas aos assédios 
de Évora formaremos a 3.^ parte d'esta narrativa. 



FIM DA 2.^ PAUTE 



GABRIEL PEREIRA 



^ 3GSTUD0S KBOHKNSieS 

ílstilo publicados : 
" O mosteiro de Nossa Senhora do Kspinheiro. — 2." Évora ro- 
mana, i." p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3." 
A (^asa pia. O ediHcio do collegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i35i. A egreja. 
A instituição da (3asa pia em i83G. — 4." i-^oios. — 5." Bihliothe- 
ca l*uhlica.— fi." Conventos, i.'' parte, l*araiso. Santa Clara c S. 
l'.ciito. — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — <)." 
Idem. z." parte. — 10." I^rasão d'Evora. — 11." A egreja de San- 
to Antão.— 12." O archivo municipal. — 13." A restauração em 
Évora. 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casada Miseri- 
córdia d'Evora, i." parte. — i5." Idem, 2.=" parte. — 16." Idem, 
3.-^ parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora. 
1." parte. — 19." Idem. 2." parte. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica 
livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 



OQCUMENIOS HISTÓRICOS OA CIOADE OTVORA 

Estão publicados : 

[.' parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. E!xtractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i.° — 2.» 
parte, fascículos X a XIV — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
;hes, praça do Geraldo, Évora. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand. 



A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 



DO MESMO AUCTOR 

(-ontos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

I'Vagmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor, Scvlax e Hannon, itenerario de Antonino, Pliriio e Mella. 

Livro 3." da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 



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OS ASSÉDIOS wm m \m 

3.^ PARTE 

EPISÓDIOS. NOTICIAS DIVERSAS NACIOMAES E ESTRANGEIRAS. 



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ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

\)K JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA I>'aV1Z N." o'{ 



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GABRIEL PEREIRA 



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^ISTOP^IA — yA.RTE — ^P^HEOLOGIA 



OS mios 0'EiíOíiii m \m 



3.' PARTE 



EPISÓDIOS. NOTICIAS DIVERSAS NACIONAES E ESTRANGEIRAS. 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N." 98 
1890 



ESTUDOS EBORENSES 



Os assédios d'Evora em 1663 

a.*» PARTE 



Na primeira e segunda parte d'este trabalho se- 
gui quanto possivel os documentos officiaes, as 
relações escriptas pelos que em taes successos ti- 
veram postos principaes, especialmente o Portugal 
Restaurado do conde da Ericeira, D. Luiz de Me- 
nezes. 

Existe grande copia de outras noticias concor- 
dantes, com ligeiras variantes, nos factos apontados. 

E seria um não acabar se quizesse referir os 
papeis vários, em prosa e verso, allusivos aos ca- 
sos da campanha de i663 no Alemtejo. 

Summariando chronologicamente o que ficou 
exposto nos dois folhetos publicados temos estes 
pontos mais salientes. 



Em 14 de maio de i663 a cavaliaria do exer- 
cito de D. Joõo d'Austria toma as estradas do 
termo da cidade. 

Em i5, D. João d'Austria no Espinheiro. 

Em 1 6, os hespanhoes occupam o forte de San- 
to António. 

Em 17, trabalha-se no cerco, combate-se; os 
mineiros ameaçam a torre-moiicha. 

No dia 22, Évora em poder do exercito hespa- 
nhol. 

2 3. O exercito portuguez, ás ordens de D. San- 
cho Manuel, conde de Villaflor, no termo de Évo- 
ra Monte. Conhece ahi a catastrophe da rendição 
da cidade. 

24. Villaflor occupa a villa do Redondo. 

25. No Alandroal; assenta-se o plano de cortar 
as communicações com a fronteira ao exercito 
hespanhol. 

Em I de junho, sabendo-se dos soccorros que 
vinham de Lisboa, e conhecida a divisão do exer- 
cito hespanhol, que mandara forças importantes 
para Alcácer, Yillafior marcha sobre Évora. 

3. Os portuguezes passam o Degebe. 

5. Acção nas margens do Degebe. 

7. Os exércitos marcham para o Ameixial. 

8. Batalha decisiva. 

14. O exercito portuguez marcha de Estremoz 
sobre Évora. 

17. O exercito no Degebe. 

18. Reconhecimento da praça, 
ig. Estabelecem-se as baterias. 
20, de manhã; começa o fogo. 

Noite de 21 para 22, tomada por surpreza do 
forte de Santo António. Sortida dos hespanhoes. 

22, tarde; segunda sortida; em seguida a pri- 
meira chamada para capitular. 

23 e noite, o combate torna-se renhido. 



5 



Em 24 pela manhã a segunda chamada. As con- 
ferencias duram até á meia noite. 

Em 2 5 de junho de i6ó3 estava o exercito por- 
tuguez na posse da cidade. 

Antes de mais pcrmitta-se-me que deixe já emen- 
dada uma asserção minha a respeito das disposi- 
ções do exercito no dia 4 de junho, antes da acção 
no Degebe. Os hespanhoes occupavam as alturas 
de Valmelhorado, e não os portuguezes; estes es- 
tavam no Outeiro das Vinhas e nas chapadas da 
Gramacha. Foi próximo do monte de Valmelho- 
rado que D. João d'Austria estabeleceu a primeira 
bateria. 



Repositório de noticias preciosas c a Évora II- 
liistrada do jesuita Manuel Fialho, tão dedicado á 
historia da sua pátria. Este formidável indagador 
foi contemporâneo dos assédios eborenses e assis- 
tiu ao primeiro cerco; era muito novo então, 17 
annos. já tinha porem 4 de collegial na Compa- 
nhia. Os collcgiaes, depois do primeiro cerco, re- 
tiraram para o collegio de Santo Antão de Lisboa, 
e só voltaram a Évora passada a crise. 

Acho muito curiosas as noticias do jesuita, que 
por vezes não duvida metter a sua anedocta, a 
sua observação graciosa, na austera narrativa. 

Vamos ouvir o bom eborense. Estamos em 14 
de maio de i663. 

O exercito hespanhol approxima-se ; logo pela 
manhã os piquetes chegam ao moinho de vento, 
do lado do Espinheiro. A noite de i3 para 14 foi 
tempestuosa em extremo; os cavalleiros vinham 
muito enxovalhados do temporal. 

Na cidade havia naturalmente grande inquieta- 
ção; no começo, ao descobrir o desfillar da caval- 
laria, ainda alguém fallou em soccorro. Em breve 
estavam desfeitas asillusões; o inimigo cercava a 
cidade. 



Alguns cavallciros chegaram a passar para cá 
da cruz de páo que chamam de Santo Aleixo, 
distante da cidade pouco mais de tiro de mos- 
quete. 

Xa cidade grande alvoroço, muitos conselhos, 
enorme atrapalhação. Havia quatro pequenas pe- 
ças disponiveis, e uma veio para o terreiro do Col- 
legio, cm frente da arcada da Casa Pia. Os arti- 
lheiros eram mãos, fizeram alguns tiros inúteis. 

Conta Manuel Fialho a sua primeira anedocta. 

Havia em Kvora um sangrador de rara habili- 
dade chamado Pedro Nunes da Matta ; parece que 
era deveras notável em temperar e afiar navalhas 
e lancctas porque até de Lisboa lh'as enviavam 
para apontar. Mas o sangrador tinha habilidade 
para mais; apontada lancetas e quiz também apon- 
tar a peça. . . e logo ao primeiro tiro metteu a 
bala no meio de um batalhão de cavallaria. 

Pela tarde. n'esse claro e vasto escampado do 
Xarrama, appareceu o desdobramento do grosso 
do exercito. 

Um ofHcial superior hespanhol dizia depois, re- 
ferindo-se a este momento, que não podéra dei- 
xar de exclamar «que (os portuguezes) no tenian 
razon de no Uamar rey ai duque de Bragança, por- 
que quien tenia una tan linda ciudad con mucha 
razon se debia Uamar rey». 

Com effeito^ a vista da cidade ao descer do 
Montinho, ou de qualquer das alturas do oriente, 
é de extraordinária formosura, especialmente em 
maio, quando o verde avelludado das cearas for- 
ma um tapete de singular mimo e frescura. 

Os quartéis hespanhoes occupavam o moinho 
de vento, a Cartuxa, a quinta do Alcaide e a cerca 
dos Remédios N'este ultimo ponto travou-se logo 
combate de atiradores, porque alguns espingardei- 
ros hábeis da cidade, do alto do cubcllo redondo 



que íica entre a porta de Alconchcl e a rua do 
Raymundo. antigamente chamada o Buraco, fize- 
ram fogo mortífero; para os fazer calar os hespa- 
nhoes tiveram de jogar a arlilheria. 

Appareceram outros atiradores na torre de Al- 
conchel; alguns hespanhoes vieram ao campaná- 
rio dos Remédios a responder-lhe ; não sustenta- 
ram a posição, o que é fácil de suppôr vista a to- 
pographia local. O ultimo atirador do campanário 
fazia trcgeilos humorísticos quando uma bala o 
inutilisou. 

Sabemos já da destruição do antigo convento 
do Carmo, á porta da Lagoa. As pedras foram em- 
pregadas depois no baluarte de S. Bartholomeu. 
principalmente; ejá no tempo áo padre Fialho se 
lavrava o terreno onde fora o Carmo, e só restava 
um pedrastal da claustra. 

As freiras do Calvário acolheram-se no convento 
de Santa Clara. Xo mirante d'aquelle mosteiro 
installou-se um piquete de espinganjeiros, que fi- 
zeram terrível damno nos sitiantes até que a arti- 
Iheria do baluarte de Santo António o desmantel- 
lou completamente. 

Um soldado temerário descobriu que entre duas 
paredes faziam deposito de munições; consegue 
lançar-lhe fogo; ha explosão, de que elle mesmo 
foi vlctlma. — Nem lhe sabemos o nome, dos pe- 
quenos ainda que de grande animo raramente se 
lhe sabe — observa o padre Fialho. 

O conde de Vimioso, D. Miguel de Portugal. 
era activíssimo na rondagem ; não se sabia quan- 
do descancava. 

Um moço, um rapazotc, apezar do tiroteio, 
atreveu-se a ir segar herva nos farrejaes; ia multo 
cautelloso por uma valia e dá com um castelhano 
que se desabotoara, e collocára as armas ao lado, 
para necessidade urgente; o rapaz investe com 



8 



elle, foice ergui Ja, apanha as armas, e trouxe o 
soldado prisioneiro. 

Uma louca, Izabel Rodrigues, nndava pelas mu- 
ralhas de espada desembainhada, gritando, ani- 
mando os nossos, insultando os sitiantes. 

Havia suspeitas na cidade contra alguns; foram 
justificadas contra o próprio tio de Villaflor. Que- 
ria ser bispo o infeliz, e julgou que servindo o ini- 
migo alcançaria mais facilmente a mitra. Este ho- 
mem conseguiu roubar os armazéns de munições, 
e assim contribuiu para a entrega da praça. 

Faltando o chumbo fundiram canudos de ór- 
gãos, e a louça de estanho dos conventos de fra- 
des. Os hespanhoes conheceram isto, e D. João 
d'Austria reclamou por ser contra o direito das 
gentes, e chegou a olferecer chumbo por estanho, 
pezo por pezo; mas os acontecimentos precipita- 
ram-se e não chegou a effectuar-se a troca. 

O segundo governador Opessinga era da Sicí- 
lia; a este se attribuem certos papeis terroristas 
que se espalharam na cidade, affirmando que se 
a praça fosse entrada á escala todos, soldados e 
moradores, seriam mortos. 

Quando se tratou da capitulação quiz o dito 
Opessinga que os membros do senado da cidade 
e os prelados das ordens assignassem; todos recu- 
saram. 

Nos tiroteios dos Remédios tiveram os portu- 
guezes 2 5 mortos e 35 feridos. No Carmo 84 mor- 
tos e 60 feridos. 

No hospital da Cartuxa havia em curativo uns 
5oo castelhanos. 

N'estas estatísticas de mortos e feridos ha sem- 
pre incertezas. Um ofíicial superior hespanhol di- 
zia dias depois a um padre da Companhia de Je- 
sus que só na cidade devia ter havido cinco a seis 
mil mortos. 



— Nem metade eram os defensores, observou 
o padre. 

— Por amor de su paternidad seriaii la mitad 
menos, disse logo o official historiador. 

As searas estavam lindas antes da chegada do 
exercito; em três dias tudo desappareceu. E as 
egrejas de Santo André, de S. Sebastião e a do 
Carmo estavam cm montões de minas. 

Para fazer abatizes e fachinas cortaram muitas 
arvores; rebentaram depois com singular vigor; 
as larangeiras pareciam ramilhetes; notc-se esta 
observação, pois era primavera adiantada. 

Uma nota perfeitamente local: os rapazes ebo- 
renses em certas épocas do anno faziam bandos e 
jogavam as pedradas; ás vezes estes bandos dos 
bairros da cidade chegavam a travar luctas se- 
rias; atraz da rapaziada chegavam os rapazotes, 
os moços, e depois os homens : e accudiam os 
maiores com armas maiores ; e havia mortes nes- 
tas batalhas de rapazes. 

Não vai muito longe, digo eu agora, o tempo 
em que tiveram de empregar patrulhas de caval- 
laria 5 para desfazer bandos de apedrejadores. 

Os castelhanos entraram na cidade e logo no 
primeiro ou segundo dia presenciaram inesperada 
batalha dos rapazes de Farrobo e Cogulos. 

— Valgalos el diablo, dizia um cabo de guerra, 
i>i ansi los crian quien podrá despues con ellos? 



Durante o cerco muitas bombas cairam na ci- 
dade, algumas erráticas e innocentes que não re- 
bentavam. Morreram duas mulheres e um meni- 
no, e ficaram cinco pessoas feridas. 

Houve casos prodigiosos no bombeamento. A 
imagem da Sr.* da Expectação, ou do Ó, da ermi- 
da da Porta d'Aviz, foi para casa de um devoto : 



IO 



á hora de certas orações reunia-se bastante gente 
na casa ; uma bomba veio quasi verticalmente^ 
arrombou o telhado, os sobrados e sumiu-se; mui- 
ta poeira, terror e desmaios, e quando passou o 
susto reconheceu-se que todos estavam illesos. 

No convento do Salvador estavam recolhidas 
muitas senhoras da cidade; ahi rebentaram algu- 
mas bombas, todas innocenles. 

Em casa do cónego mestre-escola Jeronymo 
Madeira caiu uma bomba entre os familiares; vi- 
nha com a mecha acesa, ia rebentar; um anima-se, 
levanta-a, e atira-a pela janella para o quintal 
onde estourou com pavoroso estrondo. 

N'uma estrebaria estavam três bestinhas, ganha- 
pão do dono; a bomba rompe o telhado, faz ex- 
plosão, ficaram alluidas e rotas as paredes, e as 
bestinhas salvas. 

No cubiculo do dr. António Ferreira, lente de 
theologia moral, entrou uma bala que furou duas 
paredes. 

A bala que entrou em S. Francisco rompeu a 
porta, quebrou um balaustre do cruzeiro, e foi dar 
e deixou signal na parede junto do altar mór, lado 
da epislola. 

Em Santarém durante o cerco e o captiveiro 
d'Evora houve grande excitação; o povo enchia 
as egrejas chorando. Muita gente procurava a de- 
vota imagem da Sr.'"* da Piedade ; todos viam que 
o rosto do Senhor estava mais enfiado, e o da Se- 
nhora mais abrazado e resplandecente; alem d'is- 
to moviam-se, approximavam-se os dois rostos, 
como em extraordinária angustia ; e todavia as 
imagens eram de barro. Este milagre fez grande 



impressão c foi authenticado. 



Assignados os contractos da entrega D. João de 



1 1 



Áustria ficou em Santo António e mandou tomar 
a posse por D. Agnello de Guzman filho do duque 
<ie Medina de Ia Torre. Entrou pela porta d'Aviz. 
e ahi no largo espeiou pelo príncipe; ahi se reu- 
niram o senado, os tribunaes e os prelados das re- 
lijíiões. 

O reitor do colleglo não compareceu; D. João 
d'Austria quiz esperar por elle, e foram dois pa- 
dres castelhanos avisal-o; o reitor não teve outro 
recurso e foi. 

S. Alteza fallou a todos muito alegremente. Aos 
padres disse =^ Eia, Padres mios, seamos todos 
unos, seamos amigos, de hoy adelante es necessá- 
rio una nueva regeneracion = . 

Os conquistadores faziam diligencia por captar 
as sympathias. D. Gaspar do Aro Guzman y Ara- 
' gon, duque de Eliche, presenteou com um riquís- 
simo tclim a Manuel de Sousa e Castro, mestre 
de campo, do terço do Algarve, pela maneira co- 
mo defendera ò convento do Carmo. 

No dia 23 veio o príncipe ouvir missa á Sé; foi 
recebido solemnemente, e recolheu-se logo ao pa- 
lácio dós condes de Basto. 

No dia seguinte, 5.* feira do Corpo de Deus, 
24 de maio, acompanhou a procissão. O exercito 
apresent(ju-se deslumbrante; e os grandes senho- 
res hespanhoes trajando riquíssimos fardamentos 
de gala formavam um singular cortejo. Mas o po- 
vo tinha-se sumido; ninguém pelas janellas, e es- 
tas sem adorno; nem havia bando de rapaziada 
gritadora na testa da procissão. 

Começou logo o trabalho das fortificações; cinco 
mil homens faziam cestos, fachinas, transportavam 
pedra e terra. 

Para que ninguém parasse no trabalho D. João 
d'Austria deu ordem para que nem a elle próprio 
tirassem chapéu ou carapuça. 



12 



Em 27 vieram as obediências de Arrayollos, 
Redondo e Vianna; a de Montemór-o-novo veiu 
antes, o que todavia não obstou a que fosse sa- 
queada grande parte da villa. 

O príncipe hespanhol mandou abrir os cárceres, 
e fez outras demonstrações de magnanimidade; 
ordenou também que na collecta da missa men- 
cionassem o rei Felippe; alguns padres continua- 
vam a dizer regem uostrum Alphonsum. 

No dia 29 foi ouvir missa ao Collegio; avisou 
os padres da Companhia de Jesus e não os en- 
controu na portaria. O principe ficou muito admi- 
rado. Elles appareceram pouco a pouco, desculpa- 
ram-se, não o esperavam tão cedo; assistiu á missa 
e visitou o collegio. 

Quando entrou na capella interior disse: 

— Aqui se hizo la traicion à mi padre. 

Alguém lhe tinha dito que n'esta capella se fize- 
ram algumas consultas na occasião das alterações 
do Manuelinho. 

No refeitório estava preparada a mesa com do- 
ces c fruLtas excellentes. 



D. Sancho Manuel deixou Estremoz, resolvido 
a soccorrer a cidade ; no segundo dia de marcha 
o exercito portuguez estava nos arredores de Évo- 
ra Monte; 4.* feira, 23, encontrou os que da cida- 
de, já rendida, tinham saído. Entre elles o Opes- 
, singa, que saíra da cidade rebuçado, conforme a 
capitulação. Villaflor foi então occupar o Alandroal 
para cortar a communicação dos hespanhoes com 
a fronteira. 

Gomo os traços seraes e fundamentaes da acção 
militar ficam já descriptos, eu approveito agora 
simplesmente as noticias minuciosas e locaes. 

O exercito portuguez passa o Degebe, occupa 



os amplos campos da Caeira e Rego da Vargem, 
bem descobertos aos edifícios da cidade do oriente 
e sul. D. João d^Aiistria não deixava as janellas e 
varandas do palácio do pateo de S. Miguel, mi- 
rando com o seu óculo de longa vista. 

Na cidade ferviam as galopadas dos ajudantes 
hespanlioes. 

A força que tinha ido para Alcácer volta em 
marcha forçadissima. No caminho vinham largan- 
do a preza. 

Perderam muitos cavallos, que deixavam no ca- 
minho, esfaqueados, para que o inimigo se não 
ulilisasse d'elles. 

Depois os portuguezes tomaram posições de 
combate, concentrando-se na Gramaxa. Os hespa- 
nhoes seguiram logo o movimento guarnecendo a 
linha do Degebe, e collocando quinze peças em 
Valmelhorado. Esta foi a artilheria que inutilmen- 
te esteve em fogo na noite de 4 para 5 de junho. 
Seguiu-se logo o combate do Degebe. 

A morte mais sensivel foi a de D. Gonçalo Fer- 

> 

nandez de Córdova Pimentel, neto do celebre du- 
que d'Alva. Veiu ferido, com um braço quebrado, 
para o palácio do duque de Cadaval; e falleceu 
em 7 de JLHiho. 

Em S. Francisco entrou moribundo, e ahi ficou 
sepultado, D. Balthazar de Aquila, capitão de ca- 
vallos, e gentilhomem do principe; este dizia: «que 
lindos artilleros tienen los portuguezes, y quando 
no los tuvieron ellos?» 

D. João d'Austria teve um cava Ho morto, dando 
grande queda ; mesmo de pé, no monte do Lagar 
derrubado^ lhe applicaram uma sangria. 

Na noite de 5 para 6 houve na cidade grande 
exaltação; foram castigados os motores principaes. 

Entre os chefes hespanhoes contrariavam-se as 
opiniões. Alguns queriam que se arrasassem as 



forlilicações, abandonando a cidade, e indo a com- 
bate com as forças reunidas; mas o general hes- 
panhol não quiz abandonar a cidade. Fez o movi- 
mento para facilitar a reunião do seu exercito com 
as forças que já deviam estar reunidas em Badajoz. 
Para isto resolveu marchar torneando Estremoz. 

Foi um frade leigo chamado Manuel de Lima, 
sabedor de veredas e atalho^, que depois da meia 
noite deu a D. Sancho Manuel a noticia da marcha 
dos hespanhoes pela estrada das Bruceiras. O fra- 
de estava no campo, em uma quinta dos campos 
do Espinheiro. E foi o padre Francisco Rodrigues 
Janeiro, nascido e criado na freguezia de S. Mi- 
guel de Machede (falleceu em 1708) que foi encar- 
regado pelo general portuguez de guiar o exercito 
de modo que ao sol posto estivesse na margem da 
ribeira do Ter. 

Quando o exercito portuguez chegou ás margens 
da ribeira os generaes ordenaram descanso e que 
se tomasse alguma refeição; mas todos gritaram 
que queriam marchar a ganhar a vanguarda do 
inimigo. Continuou a marcha; quasi ao mesmo 
tempo chegaram os hespanhoes ao porto, da Venda 
do Duque, e os portuguezes ao de Évora Monte, 

Depois da batalha do Ameixial, da organisação 
das forças em Estremoz, Villaflor marcha para o 
cerco d'Evora. 

Entrou no Espinheiro na noite de 16 de junho, 
ao romper da manhã no terreiro do mosteiro algu- 
mas peças deram três salvas reaes, que foram ou- 
vidas pela população eborense em assombro e al- 
voroço indizível. 

Em 17, pela manhã, a cavallaria passa o Xar- 
rama, que já tinha mais pó que lama, nota o P.^ 
Fialho. A respeito do Degebe diz elle também, 
<(rio mais cheio de glorias que de aguas.» 



i5 



Os piquetes de cavallaria occiíparam logo a Car- 
tuxa, Torregela e S. Sebastião. 

Como o leitor se recordará eu menciono agora 
simplesmente os episódios que o P/ Fialho nos 
conta. 

Os hespanboes tinham peças no pateo do mar- 
quez de Ferreira (palácio Cadaval), e no terreiro 
do CoUe^^io. 

Nos- logares mais públicos da cidade apparece- 
ram espalhados papeis insultando os castelhanos. 
Naturalmente houve logo medidas de repressão e 
íiugmento de cautellas. Prohibiu-se o transito pelas 
linhas de fortificação, não se tirassem desenhos 
para mandar aos sitiantes. 

O primeiro ponto de onde começou a jogar a 
artilheria portugueza foi de um cabeço em frente 
da porta da quinta de Valbom. 

Uma bala veio quebrar o {d^re que jogava da 
rua do Marquez de Ferreira. 

Outra matou dois bois que conduziam uma peça 
no largo do Collegio. 

O inquisidor Manuel Cortereal Abranches esta- 
va preso no forte de Santo António porque os hes- 
panboes encontraram por denuncia um deposito 
de armas nos cárceres da inquisição. EUe ignorava 
tudo. Ficou ferido no grande tumulto do assalto. 

Foi um trabalhador, morador na travessa da 
Alegria, do bairro do Farrobo, que foi á muralha 
gritar que a cavallaria queria fugir. 

Os castelhanos nas brechas com enorme traba- 
lho prepararam-se para resistir aos de fora e aos 
de dentro; todavia na cidade havia apenas 3oo 
homens capazes de fazer algum esforço; e seria 
bem difficil vencer as cavas, valias e estacadas que 
defendiam as brechas. 

O tio de Villaflor, a que já me referi, era o deão 
D. Theotonio Manuel; foi logo preso para Lisboa 



i6 



em uma humilde bestinha . . . soíTreu, foi solto, 
mas não chegou a bispar, que era o seu sonho 
dourado. 

Schombcrg dizia maravilhas do valor portuguez, 
e fallando-sc da batalha do Ameixial affirmou que 
dera voto contrario, por não avaliar bem o valor 
dos nossos soldados, nem sabia como os senhores 
portuguezes se haviam em semelhantes occasiões. 

— Confesso ingenuamente, diz o P." Fialho, que 
tendo já 17 annos de idade, e quasi quatro de 
Companhia, se me representava que tudo era so- 
nho, e ouvi a muitos egual confissão. 

O P." Fialho esteve na cidade durante o primeiro 
cerco; depois saiu com mais 27 religiosos, em uma 
leva; foram a Montemor o novo; ahi tiveram no- 
ticia da marcha de Villaflor sobre Évora; já estava 
em Lisboa quando chegou a noticia da victoria do 
Ameixial. 

No collegio de Santo Antão (era o collegio je- 
suítico da capital) fizeram fogos e luminárias, e re- 
citaram versos latinos. 

Parece que os fogos dos rapazes de Évora cau- 
saram admiração aos de Lisboa ; mas não se en- 
tende bem a descripção: «papeis enfiados em ara- 
mes e queimados, e luminárias volantes ; e papeis 
acesos no fogo os lançavam ao ar, e o vento os 
levava por esses ares.» 

Termina o bom eborense : 

— Este foi o cerco, essa a entrega, o choque, a 
batalha, a victoria, a restauração de Évora; tudo 
começou a 14 de maio e findou a 25 de junho. 

Talvez houvesse culpados... todas as terras 
grandes tem berço de engeitados. — Accrescenta 
alludindo aos mysterios da rendição. 



FIM DA 3.^ PARTE 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS EBOHEHSKS 

Eslíío publicados : 
i.° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. ^2.° F.vora ro- 
maria, 1." p. O terrjplo romano. As inscripçóes lapidares. — 3." 
A Casa pia. O edihcio do colleí^io do P-spirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — ^4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S. 
Bento. — 7.° Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — 9." 
Idem, 2.* parte. — io.° Brasão d'Evora. — 11." A egreja de San- 
to Antão. — 12." O archivo municipal. — 13.° A restauração em 
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri- 
córdia d'Evora, 1." parte. — i5.° Idem, 2.* parte. — i6.° Idem, 
3." parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora. 
1." parte. — ■ 19.° Idem, 2.^ parte. — 20." Idem, 3." parte. 

A' venda em Lisboa na livraria Bcrtrand^Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 



OflCOMENíOS HISTOmCllS DA CIDfl D'Ey03H 

Estão publicados : 

i." parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e Xlll. Documentos doCabido. O livro 
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas: antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i." — 2." 
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Évora. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand. 



A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 



DO MESMO AUCTOR 

Contos singelos. Narrativas pára operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella. 

l.,ivro 3.° da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 




JilSTOP^IA— yVp^TE— ^P^HEOLOGIA 



OS ASSÉDIOS 0'EfORA EM IG63 



4.» PARTE 

o EXERCITO HKSPANHOL. OPINIÕES DE ALVARES DA CUNHA 

E DE ORTIZ DE I.A VEGA. 

A NARRATIVA DE PASSARELLO. ETC. 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N." 98 



1890 



GABRIEL PEREIRA 




fílSTOP^IA — y^t^TE — y^.P^HEOLOGIA 



OS ISSÍOiOò 0'[fOiíl EM 1683 



4/ PARTE 

o SXERCITO MESPANHOL. OPINIÕES BE ALVARES Í5A CUNHA 

E DE OKTIZ DE LA VEGA. 

A NARRATIVA T)E PASSAREJ.I.O. ETC 



@a 



EVvORA 

MINERVA EBORExNSE 

=jK IOAO;:;m JO-i-ií BAPTISTA, RUA iVaVIZ N." (,.'V 
1890 



ESTUDOS EBORENSES 



Os assédios dlvora em 1663 



4.^ PARTE 



■ O exercito iiespanliol 

Correm impressas relações numéricas dos exér- 
citos portuguez e castelhano, e roes de armas, mu- 
nições, etc, encontradas em Évora, ou recolhidas 
em Estremoz depois da victoria do Ameixial. 

Ampliaria extraordinariamente esta descripção 
transcrevendo as relações : bastará mencionar os 
resultados. 

Da mostra geral feita no rocio de S. Braz em 
25 de maio de i663, dos terços e regimentos do 
exercito castelhano, consta que estavam presentes 
2:904 officiaes e 12:206 soldados de infanteria. 

Em 22 de maio teve a cavallaria mostra geral; 
estavam j56 officiaes, 6:370 soldados montados, 



'4 

e 887 desmontados. As relações são dataJas Je 
Évora, 25 de maio de i663, e assignadas por D^ 
António Ortiz de Velasco, 

Na mostra de cavallaria appareeem algumas es- 
pecialidades interessantes. 

A companhia de couraças da guarda de S. A. 
tinha 10 oíficiaes e 178 soldados montados. A de- 
arcabuzeiros da guarda de S. A 7 oííicíaes e 162: 
soldados. A de couraças do duqu-e de S. Germao 
9 officiaes e 146 soldados. A de arcabuzeiros do^ 
duque 5 officiaes e i 19 soldados. 

Menciona depois o trosso de Excelíencia, e os- 
de Feria, Ordens, Flandres, Rossellon, Catalunha. 
Borgonha, Guardas Velhas, Milão, e Frexenal. E 
ainda as companhias de Guias e do Preboste Ge- 
neral. 

O conde de Villafíor segundo a relação da Ve- 
dória Geral da Artilheria, encontrou em Evora^ 
deixados pelos hcspanhoes : 4 meios canhões de 
bronze de 24 montados; 7 peças de 6 e 7; 2 tra- 
bucos montados; 6 petardos aparelhados; 2:70a 
balas de 24 e 12; 2:566 mosquetes, a maior par- 
te biscainhos ; 1 840 frascos de mosquete, e arca- 
buzes; 1876 espadas; 4002 arrobas de pólvora 
200 arrobas de pelouros de chumho ; emfim, quan- 
tidades consideráveis de canos e forquilhas de mos- 
quetes, bolsas de pistolas ; murrão, fachas de ca- 
vacos, saquinhos de trincheira, marraços de cortar 
faxina, machados, picaretas, paz de ferro, enxa- 
das, foices de segar, seirinhas de esparto, lampeões^ 
espaldares, peitos, morriões, cravos e ferraduras^ 
bombas de trabuco cheias e vazias, canudos de 
bombas, granadas, pregos, borrachas, calabres de 
artilheria, 4 barcas grandes com seus carros e ar- 
mões, barris de salitre; carros matos ; caixa de tra- 
buco; cabrilhas aparelhadas; escaleta; reparos, 
taboões, pinas, raios, barrotes, madres, madretas, 



eixos, ripa, soles, cangas, rodas, carretas, estacas, 
e páos de S. João. Esta relação assignada por João 
Mendes Mexia em Évora 2 de julho de i663. 

Os hespanhoes deixaram na cidade 600 moios 
de cevada, 80 de trigo, e i5:ooo cruzados em di- 
nheiro. 

Opinião de 'Alvares da Ccnlia 

O autor da Relação da campanha de Portugal, 
D. António Alvares da Cunha (Campanha de Por- 
tugal pela província do Alemtejo na primavera do 
anno i6C3, governando as Armas d'aquella Pro- 
vinda o ex."'° sr. D. Sancho Manoel conde de Villa- 
flor) ao contar a rendição d'Evora ao exercito por- 
tucuez diz «No mesmo dia entraram na cidade 
triumphantes os Portuguezes. Mandou o de Villa- 
fíor pôr em arrecadação para a fazenda de S. M. 
o que os castelhanos haviam deixado; as obras 
que tinham feito na cidade foram : aperfeiçoar e 
pôr em defesa o forte de Santo António, uma es- 
trella no sitio dos Penedos; um ornaverque nos 
Carmelitas Descalços (N. Senhora dos Remédios); 
voar o convento dos Calcados; acabar de todo o 
baluarte de S. Bartholomeu, e o da porta de Ma- 
chede ; um forte com toda a perfeição no Rocio de 
S. Braz, cujo centro era a dita ermida. Com todas 
estas obras, e com todo aquelle presidio, com to- 
das aquellas munições e bastimentos, em seis dias 
entregou a cidade de Évora D. Francisco Gatinara 
conde de Sartirana, a D. Sancho Manoel conde 
de Villaflor; poucos dias eram passados que com 
tudo aquillo menos a defendeu oito Manoel de xMi- 
randa Henriques a D. João de Áustria Gran-Prior 
de Castella : com esta diíTerença podem ver todos 
o quanto os portuguezes se avantajam a todos tan- 
to em defender como em expugnar praças». 

Villaflor demorou-se em Évora alguns dias; 



mandou reparar as muralhas, e continuar nas obras 
de fortificação. Passou depois com o exercito a Es- 
tremoz. 

Foi o mestre de campo D. Diogo de Faro que 
trouxe a Lisboa a nova da tomada d'Evora. 

Quando elle relatava a el-rei e ao governo o bri- 
lhante feito militar entrava no Tejo a armada do 
Brazil composta de 64 galiões e navios, de guerra 
e mercantes, carregados de fazendas e productos 
de alto valor. 

Esta opinião de Alvares da Cunha, e as consi- 
derações em que a baseia, mostram que a defeza 
da cidade pelos portuguezes foi deveras notável, 
devendo contar-se, assim como o assédio por Villa- 
fior, entre os brilhantes feitos d'armas do exercito 
portuguez. 

Narrativa de Ortiz de la Ye^a 

Desde luego nombró general de sus tro- 
pas ai conde Villafior, quien, siguiendo los conse- 
jos de Schomberg, no quiso abandonar la posicion 
de Estremoz. En 6 de mayo de i663, púsose nue- 
vamente Juan de Áustria en campana, y encami-' 
nando-se contra la ciudad de Évora, se apodero 
de ella, y trato á sus vecinos con una suavidad y 
dulzura de que ninguna muestra diera en la ante- 
rior camparia. Conseguida esta importante venta- 
ja, envio fuerzas contra Alcazar do Sal, villa cer- 
cana á Setúbal. 

Extraordinária alarma causo en Lisboa esta no- 
ticia; y no se calmo el publico alboroto, hasta ha- 
ber-se manifestado ai pueblo que se habia enviado 
á los generales la órden para acometer ai ejercito 
espanol. 

Con efecto púsose desde luego Villaflor en mo- 
vimiento contra don Juan de Áustria. Dirigia las 



marchas de los portugueses Schomberg, hábil ge- 
neral, que con bicn meditada estratégia desbarato 
los planes dei caudillo espaiíol. Al mismo tiempo 
una sublevacion de Évora, solo á fuerza de sangre 
apaciguada. hizo diíicil la situacion de los espa- 
noies. 

Huia su jefe de dar una balalla decisiva; peto 
en 8 de junio, encontrandose en las alturas de 
Ameixial, que dominan el valle ai que por su an- 
gostura se da el nombre de Canal, no pudo ya evi- 
taria. Habia colocado en dicho valle la caballeria, 
y un bagaje compuesto de mas de dos mil carros, 
y vióse en la necessidad de defenderle, pues le 
hostigaban los portuguezes desde las opuestas al- 
turas. 

A la caida de la tarde hizose general la accion. 
En vano don Juan hizo en ella prodigios de valor, 
en vano los espanoles pelearon con encarnizamen- 
to grande, dejando cadáveres mas de cinco mil 
portugueses; animados estos con el ejemplo de la 
infanteria ingleza, y bien dirigidos por Schomberg, 
y aguijoneados por el deseo de la independência 
de su pátria, volvieron muchas veces á la carga 
con impetu creciente, y ai lin triunfaron. Riquezas 
immensas, dos mil carros, nueve piezas de artille- 
ria, estandartes v banderas, mil cuatrocientos ca- 
ballos, gran número de prisioneiros y no menor de 
muertos, esto perdió la Espana^ en tan funesta ba- 
talla, y perdió la esperanza de sujetar ai reino de 
Portugal. Dicen que entre los muertos se conto ai 
marquês de Liche ; outros escritores solo le haccn 
prisionero, anadicndo que mas adelante servió á 
Carlos II en calidad de virey de Nápoles. Schom- 
berg se aprovechó de la victoria recobrando varias 
plazas perdidas. Por la parte de Beira el duque de 
Osuna rechazó con seis mil hombres la acometida 
de doble numero de portugueses; débil compensa- 



8 



cion de la perdida de aquella batalla. Dióse im- 
propriamente a dicha jornada el nombre de batalla 
de Estremoz. 

(Anales de Espana, desde sus origines hasta 
el tiempo presente: por Ortiz de la Vega. iMadrid, 
1859, Tomo IX pag. Soy e seg.) 

Commemorações festivas 

Um soneto formado de versos de Camões 

Nos = Aplausos académicos, e relação do felice 
successo da celebre victoria do Ameixial oferecidos 
ao ex.'"° sr. Dom Sancho iManoel (Amsterdam, em 
casa de Jacob van Velsen, ano de 1673) = ha gran- 
de copia de composições poéticas relativas aos as- 
sédios d'Evora. 

Na Laurea triumphalis, Epinicia, ha algumas dis- 
cripções de mérito. O n." X refére-se ao cerco fei- 
to pela cavallaria hespanhola. 

Extemplo turbati animi, timor occupat urbem 
Elboream, dum cernit equos síne lege vagari ; 
Armatasque equitum turmas discurrere ín agros. 
Fuimineosque enses ventura ad bcUa rotari. 
Cernere erat longas descendere ad arma phalanges 
Austríacas clangorem inter, sonitumque tubarum. 

No XIV allude ú occunacão do forte de S. An- 

1 > 

tonio: 

Antoni in médio sedes augusta, malorum 
Nascitur hinc urbi series funesta. . . 

D. João de Áustria entra triumphante: 

Elbora sola gemit. . . 

'Vem o exercito portuguez, e começa o segundo 
cerco : 

Deveniunt, cínguntque urbem, tentóría figunt 
Non procul unde hostem premerent; bombarda minaces 
Explodit flammtita globos; concussa fatiscunt 
Moenia. . . 



Villaflor é victorioso; 

...Lusi exultant, celebrantque triumphum, 

Quo Rcgni sceptrum obfirmant, suaque arma coronant. 



Ha uma epistola Elborae sub hispano jugo la- 
crymantis, que principia: 

ília ego Lusiaci quondam pars óptima regni 
Elbora, quae fueram Regibus alma quies; 
Vos loquor, ô Cives 



Em oulra epistola-==Mercurii Eborensis ad exte- 
ras nationcs — ha referencias especiaes a edifícios : 
por exetnplo, ao Espinheiro: 

Qua celebre occuhant Matris Spineta sacellum 
^^irginis, hic acies junxit uterque suas. 



Depois á Cartuxa: 

Clausíra repente novo Brunonis mihte complet. 

e a Santo António: • 

Edita mox aho tua propugnacula caelo, 
Antoni assiduo ferreus imbrc quatit. 



Outro académico dedica a estes acontecimentos 
muitas decimas de que transcrevo as ires primei- 
ras: 

Évora, se vos achou 
Dom João desprevinida 
e á custa de tanta vida 
castelhana, vos ganhou ; 
no pouco que lhe durou 
o lucro da sua emprcza, 
achará sua fraqueza, 
dcitando-lhe conta estreita, 
que foi maior que a receita 
muitas vezes a despeza 



IO 

QuíinJo no campo fatal 

de Sam Braz. foi a buscal-o 

para nelle debela]-o 

o poder de Portugal; 

tendo junto o cabedal 

com que a empreza comeieo, 

nunca a sahir se atreveu 

em mais de vinte quatro horas- 

que duraram as demoras 

em que se lhe offereceo 

Se depois disto passado 
foi buscal-o a Odipeve 
o successo que lá teve 
o deixou mais afrontado: 
e ficando escarmentado 
do perigo cm que se vio, 
para Castella fugio, 
porem lá junto do Cano 
SC lhe deu o dezengano 
fatal, do que piesumio. 



Nas addiçôes aos x^plauzos Académicos fígura 
iim soneto formado de versos dos Lusíadas; vou 
transcrevera singular composição indicando os can- 
tos, oitavas e números dos versos empregados n'es- 
ta peça poética. 

Faz contra í.usitania vir Castella. (>anto 4, oct. G, vers. 7 
o filho de Pheiipe nesta parte, i. /i, z 

fervendo-lhe no peito o duro Marte 
das soberbas, e varias gentes delia. 

l)a Cabeça do Império rica, e bella 

hum Portuguez mandado logo parte 

treme a bandeira, voa o estandarte. 

com manha, esforço, e com benigna estrclla, 

his, se ajunta o soberbo Castelhano 
porque levasse avante seu dezejo 
tomando aquelle premio, e doce gloria, 

Mas nas mãos vay cair do Luzitano 
Sancho de esforço e de animo sobejo 
que causa índa será de larga historia 



3. 


JO, 


.1 


4- 




6 


7i 


2Õ. 


J 


l^ 


23, 


l 


2, 


73, 


3 


8, 


23, 


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3, 


34, 


i 


•3, 


78, 


I 




1 . 




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"^1 


60, 


■j. 


X 


75, 


5 


4, 


64. 


6 



Passarello 

O padre Caetano Passarello escreveu sobre os 



1 I 



succcssos da restauração de Portugal uma obra 
considerável intitulada: «Bellum Lusitanum, ejus- 
que rcgni scparatio a regno Castellensi» (Lugduni, 
1684, in-fol.), onde encontro muitas referencias a 
Évora. Logo ao tratar da acclamação de D. João I\' 
clle põe bem em relevo a importância do papel 
politico que a cidade então representou : «... re- 
giae acclamationes, regnique incipientis auspicia 
ab Kbora primo peli, quippe quam faciliímé tran- 
sitaram in Bregantii partes fora putabant, et quam 
paucis ante annis, nullo impellente, sed impctu 
quodam amoris constabat illum regem appellavis- 
se. . . .Atqui in labora urbe jam explorato consen- 
su populi, conclamatoque rege Bregantio, inde 
continuo ex omni hominum genere tanquam mili- 
tum manu contracta majori constantia ac tirmitu- 
dine posse Ulisipponem per se paratam, et melius 
alterius exemplo parandam incurri.» 

No decorrer da obra ha muitas referencias á ci- 
dade; parece até que o P. Passarello lhe consa- 
grava aífeição especial porque a singularisa com 
expressões de louvor, não lhe poupa adjectivos si- 
gnificativos da sua grandeza histórica. A maior 
parte do livro 8.° é consagrado a Évora, aos acon- 
tecimentos de ]Gb3. A pag. 353 encontro uma 
descripção interessante da cidade e seus arredores: 

«Ebora amplíssima, ac vctus in Lusitânia civi- 
tas, et celebris quondam Viríati. ac Sertoriiquoquc, 
ut plaeet aliquibus, sedes in lata planitie pòsita 
jacet. . . . virentes, amaeni, ac fertiies colles ejus 
aspectum terminant, ad quorum radices magniílce 
structum surgit Carthusianorum monachorum CC2- 
nobium . . . 

. . . Divi Hieronymi fanum habet, idque in re- 
cto Estremotii itinere situm. . . » 

Descreve as fortificações, as operações militares. 
Na primeiro ataque contra o forte de S. António, 



12 



Passarello menciona como chefe o conde Boelto 
(comes Boeltus); foi este que avançou com Agnello 
de Gusman, Luiz Frias, e duas legiões hespanho- 
las. 

D. João d'Austria deu ordens severas para que 
nenhum dos seus maltratasse os habitantes, em 
obediência á determinação do rei. 

«... priusquam duces in congressudeliberarent 
recitatae Regis Catholici litterae sunt, severa prae- 
cipientis, ut Eborae eives et alii quicumque in pos- 
terum Lusitani ad Regis obedientiam et fidem re- 
vcrsi fuissent, clementer ac leniter tractarentur, ne- 
ve praeteritus error, lapsusque communis igno- 
miniae, vel fraudi resipiscentibus esset.» 

A forílfitacão 

t 

As fortificações das praças fortes aíemtejanas 
n'esta época merecem attenção na historia da en- 
genharia militar em Portugal. Não chegara ainda 
Vauban nem Cormontaigne, nomes bem conheci- 
dos ; mas antes d'estes trabalhára-se enormemente, 
por muito tempo, em modificar o systema da for- 
taleza ; em deixar a antiga muralha e sua barba- 
can com torres e cubellos, e passar para a linha 
bastionada. Foram os engenheiros militares italia- 
nos os primeiros que empregaram bastiões- 

De Itália saíram para diíferentes paizes bastan- 
tes engenheiros ou architectos militares; e sendo o 
novo systema rapidamente adoptado e applicado 
pelos hespanhoes passou a ser conhecido por «for- 
tificação hespanhola». As guerras na Europa cen- 
tral tornam-se chronicas e alastram-se, e a fortifi- 
cação das praças toma singular importância. P7 
pasmosa a quantidade de trabalho gasta em forti- 
ficar nos séculos XVI e XVII. 

Em Évora, como já vimos, approveitam ainda 



i3 

parte da cerca velha, da muralha construída em 
tempo de D. Fernando; ao norte fortes destaca- 
dos; no sul encostam se quanto possível á antiga 
muralha. 

Percorrendo os tratados da época e pouco ante- 
riores encontrei Errard de Bois je Duc; o conde 
de Pagan (1645); principalmente Antoine de Villc 
Tholosain, com um livro notabilissimo : «Les for- 

tifications du chevalicr avec Tataque et ia 

defence des places. (Lyon, Philippe Borde, 1641, 
in-fol.)» 

Encontro n'este livro muitos exemplos applica- 
veis á fortificação eborense. 

Parece que o livro foi considerado importante 
porque muito mais tarde o traduziram em portu- 
guez : «O Governador de praças por António de 
Ville Tolozano (Lisboa, off. de António Pedro Gal- 
ram. 1708, in-8.*^)» Mas a edição portugueza ape- 
zar de mais moderna é muito inferior á franceza. 

Creio serem estas as bases principaes para o es- 
tudo da forfificação eborense em i663. 

O engenheiro Mallet 

Esta lucta demorada e enorme chamou a Por- 
tugal muitos homens notáveis na arte da guerra. 
A campanha travada entre Schomberg e D. João 
dVVustria, dois generacs de fama universal, fez 
grande ruido; estava-se em tempo de modificações 
na engenheria militar, as guerras de Conde, de Tu- 
renne, de Nassau, de Gustavo Adolpho discutiam- 
se. Esta lucta travara- se n'uma região plana em 
geral, descoberta, fácil para os grandes movimen- 
tos militares, e semeada de praças fortes de im- 
portância então. 

Mallet esteve no Alemtejo e apresenta desenhos 
em pequena escala, mas de uma exactidão nota- 



H 

vcl, de todas as praças fortes, na sua obra «Les 
iravaux de Mars, ou la fortification nouvclicí tant 
reguliére qu'irrcguliere (Par Allaiu xMancsson iMal- 
leí, parisien, ingenienr dcs cnmps et armões du roy 
de Portugal, nommé sergent major d'artillerie dans 
la province d'Alemtejo. Paris, i Õ7 i , 3 vol. in-S."))) 

Traz muitas gravuras e plantas de praças forti- 
ficadas interessantes. 

A pag. 210, do I." vol., traía da «methode de 
fortiíier les villes basties sur des hauteurs qui sont 
environnées de plaines». O cxempU) de taes pra- 
ças é Évora: e na regra IV aliude a circumstancias 
particulares. aSi Tenceinte de la ville est justement 
au picd de Ia hauteur, on la suivra dans la nou- 
velle fortiíication, ou Ton s'en écartera. si elle ne 
Tenfermait pas, afm d'occuper toute Ia hauteur avec 
des bastions, demy-iunes, ou avec des forts déta- 
chez. 

Ainsi Ton a fortifie la ville d'Evora, de laquellc 
j*ai leve le plan, en 1666, lorsque je faisais tra- 
vailler aux reparations du bastion des Peres de la 
Compagniede Jesus.» 

A gravura, superiormente, representa uma 
vista da cidade, em ponto mui pequeno mas 
que dá idéa bem aproximada; tirada do alto de 
S, Sebastião. Vc-sc o forte de Santo António, o 
aqueducto, a cidade com a sua barbacan, o baluar- 
te dos Penedos e a trincheira que o ligava á porta 
de Alconchel. 

A planta representa a antiga linha das mura- 
lhas, e as novas fortificações do sul e oriente e os 
fortes destacados. As obras de defeza da porta 
d'Alconchel abrangem os íelhaes e a cerca dos Re- 
médios. 

Mallet representa lambem como exemplos de 
fortificações notáveis, novissimas, as de Estremoz, 
Villa Viçosa, Arronches, etc. 



I5 

Os obituários de 1663 

Não encontrei no archivo cios livros íindos no 
seminário eborense, talvez o arcliivo d'esta espé- 
cie mellior organisado do paiz. os obituários das 
íreguezias da cidade relativos a 1 663 ; isto é, faltam 
os volumes que comprehendem este anno, c fal- 
tam de ha muito; faltavam já, ao que parece, nas 
collecções parochiaes antes de estas serem reco- 
lhidas no Seminário. 

A coincidência de faltarem taes volumes leva- 
me a crer que alguém de má sina os pediu para 
ver cm casa c os extraviou. Tem havido em todas 
as épochas e em toda a parte estudiosos daninhos 
que tudo perdem e desarranjam, que allegando 
commodidades sempre dispensáveis para os que 
estudam com amor, deslocam, demoram e extra- 
viam documentos únicos insubstituiveis. O perigo 
é tão conhecido que repetidas vezes os papas tem 
fulminado excomunhões para o evitar. 

Apenas por indicação do sr. Palmeiro, que em 
tempo esteve empVegado na organisação do archi- 
vo dos livros íindos, encontrei no n.° 19 dos óbi- 
tos da freguezia matriz de Estremoz, a fl. 11, uma 
nota lavrada pelo parocho fr. .loão Pitta de Vas- 
concellos.' 

«pessoas que morreram na batalha em 6.^* feira 

8 de Junho de i663 dada nas serras do Ameixial 
ás 5 horas da tarde». O P.* Vasconcellos refere-se 
aos exércitos, ctc. e dá a relação dos mortos, isto 
é, dos feridos que chegaram a Estremoz, e morre- 
ram no mesmo dia ou pouco depois. 

Estevão Soares da Fonseca capitão de cavallos, 
natural de Moura enterrou-se em S. Francisco em 

9 do dito mez. 

João de Torres, capitão de cavallos . . . natural 
de Villa Viçosa. 



ib 

Christovám do Brito, capitão de cavallos, natu- 
ral de Lisboa. 

Luiz Vaz de Sequeira, capitcão de cavallos .... 
enterrou-se na dia ro na egreja matriz. 

João de Brito, natural de Elvas, na Conceição, 
no dia 9. 

Um capitão cujo nome não soube, no mesmo 
dia, na ermida da Conceição. 

Paulo Nogueira capitão de iníantcria do terço 
de Tristão da Cunha de xMendonça, na iMatriz, 
em 10. 

Jeronymo Moreira, capitão de infanteria do ter- 
ço de Setúbal, em S. Francisco, em 10. 

Garcia Mendes soldado de cavallo, de Castello 
de Vide, com todos os sacramentos, na Matriz, 
em I o. 

Jerónimo Gomes, soldado de cavallo, de Santa 
Olaya, em S. Francisco, em 12, com todos os sa- 
cramentos. 

No livro i3 dos casamentos da freguezia de S. 
Thiago de Estremoz, a pag. 72. ha' uma descrip- 
ção suminaria dos acontecimentos de Évora; na 
parte relativa á batalha do Ameixial ha uma nota 
local approveitavel. 

Falia da marcha das tropas «... levanta o nos- 
so exercito e veio dormir aquelle dia á ribeira de 
Terá á ponte por baixo de Evoramonte, e o mais 
d'elle neste termo, e o inimigo no porto do Vimiei- 
ro; pela manban se avistaram, clle marchou ás 
serras do Ameixial e dos Ruivinos, e o nosso di- 
reito a N. S.'' da Conceição, pela Amieira á serra 
d'Albojo. D 

Descreve depois muito summariamente o en- 
contro das tropas, sem fornecer noticia alguma es- 
pecial. 



Villaflor 

E' o vulto mais saliente n'esta campanha do 
Alemtejo. Embora em i663 fosse ainda um ver- 
dadeiro homem de guerra, sereno nas crises, va- 
lente, infatigável, era todavia um veterano. Passa- 
ra a mocidade nos exércitos, nas marchas, nos as- 
sédios, nos combates, como então succedia fre- 
quentemente; servira com distincção sob a ban- 
deira hespanhola na Itália, em Flandres, na Alle- 
manha ; e em lôSy partira para o Brazil na arma- 
da do conde da Torre. 

Fez-se a acclamação, e logo entrou no serviço 
portuguez no posto de mestre de campo ; na Bei- 
ra, 1641, com D. Álvaro de Abranches; em 1642 
com D. Fernão Telles de Menezes. 

Depois D. Sancho Manuel soffreu como tantos 
outros n'aquella época de heroísmos e intrigas ; 
esteve preso, viveu algum tempo obscuro. Mas 
chegam as linhas d'Elvas, a crise, e o militar ap- 
parece logo. E passado o temporal os estadistas, 
as camarilhas, de novo põem de parte o illustre 
general. 

Provavelmente era brusco, violento, e o corpo 
costumado ás armas scntia-sc mal nas rendas e 
gentilezas da corte. 

Cresce de súbito o perigo em 1662; a campa- 
nha corre desastrosa; chamam outra vez D. San- 
cho Manuel; é elle que se encontra frente a frente 
com D. João d'Austria; sustentando todas as res- 
ponsabilidades, enormes e complexas, docomman- 
do em chefe do exercito portuguez. 

Basta este facto para nos demonstrar que o con- 
de de Villaflor foi considerado a primeira capaci- 
dade mililar da época ; valente, prudente, sa- 
bedor. 

E' escusado dizer que esta campanha de i663, 



i8 



no Alemíejo^ é a principal pagina militar do exer- 
cito portnguez. 

Ao lado de D. Sancho Manuel o conde de Cas- 
tello Melhor collocára homens eminentes; D. Luiz 
de Menezes, illustre conde da Ericeira, no com- 
mando da artilheria ; e Diniz de Mello c Castro 
chefe da cavallaria. Como chefe de estado maior 
o famoso Schomberg. 

Eu não faço agora a biographia de D. Sancho 
Manuel, ponho apenas em relevo a importância 
d'este vulto militar. 

Nascido em Lisboa era todavia muito eborense; 
um tio e uma irmã, e talvez mais parentes resi- 
diam em Évora. Era filho de D. Christovam Ma- 
nuel de Vilhena e de D. Joanna de Faria, filha de 
Gaspar Gil Severim; isto é pae e mãe conheciam 
Évora ; e quando elle triumphante fez salvar a sua 
artilheria no terreiro do Espinheiro, na volta do 
glorioso dia do Ameixial, lembrou-se sem duvida 
dos ascendentes que ali repousam, n'aquelle vene- 
rável e histórico templo, tão opulento em recorda- 
ções eborenses. 

Sclioffiberâ 

Frederico Armando, conde de Schomberg, e em 
Portugal conde de Mertola, nasceu em Heidelberg, 
Allemanha, em dezembro de i6i 5, segundo o «Con- 
versations- Lexicon, de Brockhaus», encyclope- 
dia que tem hoje, especialmente em assumptos al- 
lemães, como é natural, grande auíhoridade. 

Faço a consideração porque encontrei variantes 
notáveis nos diíferentes biographos d'este general. 
^ Serviu com o celebre Gustavo Adolpho, entrou 
ao serviço da França, depois com Henrique de 
Nassau; volta a França: em i655 era considerado 
como general noía^'el no exercito francez. 



^9 

A França Intervém activamente na politica por- 
tiigueza ; ha as negociações diplomáticas do conde 
de Soure, auxiliado pelo marechal de Turenne ; 
resolvem-se mandar Schomberg a Portugal. 

Grande soldo, posto garantido, bastantes offi- 
ciaes para o acompanhar, e uns cem contos de 
réis para armar mais 4:000 homens. 

Em 29 de outubro de 1660 embarcou no Ha- 
vre de Grace, e chegou a Lisboa em i i de novem- 
bro. Em i3 estava tudo desembarcado. Trazia of- 
ficiaes distinctos das differentes armas, cem subal- 
ternos de artilheria, quatrocentos cavalleiros bons. 
Schomberg começou logo a trabalhar. 

«Mais Tarmée portugaise etait indisciplinée, dé- 
pourvue de tout ; Tignorance et la jalousie des na- 
lionaux miiltipliaicnt devant lui les difficultés.» 

Não lhe deram commando em chefe, e em 
1661-62 teve de conservar-se em defensiva, e de 
certo modo n'um segundo plano. Mas veio a crise 
e os planos do marechal foram obedecidos. Os as- 
sédios d'Evora, a acção do Degebe, a batalha do 
Ameixial, mostraram bem a sua aptidão militar; 
o próprio conde de Villaflor seguia as suas indica- 
ções. 

Na campanha seguinte Schomberg bate o duque 
de Ossuna em Castel-Rodrigo; depois o marquez 
de Caraccna em Villa Viçosa. 

Deram-lhe honrarias, foi grande de Portugal, 
conde de Mertola, e finalmente governador das ar- 
mas no Alemtejo (1666). N'esta posição fez a im- 
petuosa e profícua marcha a Paymogo, Gibraleon 
e a S. Lucar do Guadiana, que fez grande impres- 
são na corte de Madrid. 

Feita a paz Schomberg voltou ao serviço fran- 
cez. Em i685, depois do édito de Nantes, ainda 
veio a Lisboa; demorou-se pouco. Voltou a Allc- 
manha, á Inglaterra e morreu na lucta com a Ir- 



20 

landa, na batalha da Boyne (julho de 1690), ten- 
do-se atirado sem couraça ao mais perigoso da 
lucía. 

Era de estatura mediana, bem feito, côr bonita, 
de robusta saúde ; cavalgava bem; estudava muito, 
mas pensava melhor do que fallava ; todavia gos- 
tava muito de casos e anedoctas, e mesmo nas si- 
tuações graves se mostrava jovial. 



Tem hoje a cidade a sua estrada de circumval- 
lação completa e arborisada; em alguns pontos pit- 
toresca, e com vistas sobre as campinas e longin- 
quas serranias. 

Essa estrada segue exactamente o que resta da 
cerca fernandina e os baluartes do século XVII ; o 
campo de acção dos assédios de i663. 

Nos últimos tempos modificaram e abriram por- 
tas ; dasappareceram de todo as velhas entradas 
estreitas e angulosas; mas tudo carece de embel- 
lezamentos. E será fácil, pouco dispendioso, o trans- 
formar a entrada da Lagoa n'um terreiro amplo, 
por serem os terrenos do municipio, e sem varian- 
te considerável de nivel. E n'esse largo ficaria bem 
uma memoria dos assédios eborenses de i663; ao 
menos um pedaço de mármore lembrando em sin- 
gella inscripção os soffrimentos da cidade, esses 
dias de briosas luctas, e de gloria da nação e do 
exercito portuguez. 

FIM DA 4.» PARTE 



GABRIEL PEREIRA 



Estíio publicados : 
1° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana, I.'' p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3." 
A Casa pia. O edifício do collegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal, rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6." Conventos, i.-"" parte, Paraiso, Santa Clara e S. 
Bento. — 7." Bellas artes. — S.*" Vésperas da restauração. — 9." 
Idem, 2." parte. — io.° Brasão d'Evora. — 11." A egrejade San- 
to Antão. — 12.° O archivo municipal. — iS.'' A restauração em 
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri- 
córdia d'Evora, i.^ parte. — 15." Idem, 2.''' parte. — 16." Idem, 
3.» parte. — 17." Évora e o Ultramar. — 1 8." Assédios d'Evora. 
I.' parte. — 19.° Idem, 2.= parte. — 20.° Idem, 3." parte. — 21.° 
Idem, 4." parte. 

A' venda em Lisboa na livraria Bcrtrand — Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 



DOcyy[iiTos;iiisíO[iicos d* cide nmi. 

Estão publicados : 

i." parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i.° — 2." 
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Évora. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand. 



A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 



DO MESMO AUCTOR 

Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella. 

Livro 3° da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 



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J-ilSTOPy^IA— yVp^TE— y\.P^HEOLOGIA 



08 FESTEJOS DE ÉVORA EM 1/29 



CASAMENTOS DA INFANTA D. MAHIA BARBARA COM O PRÍNCIPE 

DAS ASTÚRIAS, K DA INFANTA DE CASTEI.LA D. MARIA ANNA DE BOURBON 

COM O príncipe do BkAZIL, D. JOSÉ) 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQIIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aV)Z N." o3 



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jPilSTOP^IA-yALP^TE-y^P^HEOLOGIA 



OS FESTEJOS OE El'0^il íi IM 



CASAMENTOS D.K INFANTA D. MAKIA BARBARA COM O PRÍNCIPE 

Í)*.S ASTÚRIAS, E DA INFANTA DK CASTELLA D. MARIA ANNA DE BOLRBON 

COM O príncipe do BRAZIL, d. JOSÉ 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

UE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DAVIZ N.° Ci3 



1890 



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ESTUDOS EBORENSES 



Os festejos de Evora em 1729 



Em conselho de estado de 24 de março de 1725, 
se tratou pela primeira vez dos casamentos da in- 
fanta portugueza, D. Maria Barbara Xavier Leo- 
nor Thereza Antónia Josefa, com o principe das 
Astúrias, D. Fernando de Bourbon, filho de Filip- 
pe V rei de Hespanha ; e da infanta de Castella, 
D. Maria Anna Victoria de Bourbon, com o prin- 
cipe do Brazil, D. José Francisco António Ignacio 
Norberto Agostinho. As familias reaes, as cortes, 
e os povos dos dois paizes consideraram e feste- 
jaram estes casamentos como segura garantia da 
paz e amizade entre os dois povos peninsulares. 

D. João V determinou que as festas se celebras- 
sem com a maior pompa. As duas familias reaes 
vieram entregar as princezas na fronteira, 'num 



palácio improvisado sobre o Cava, a breve distan- 
cia de Elvas e Badajoz. Para descanço d'el-rei, e 
do seu numerosissimo séquito n'esta jornada, se 
construiram aposentos nos Pegões, e o palácio de 
Vendas Novas. Despenderam-se enormes sommas. 
Ao ler as relações da épocha não se espere encon- 
trar o elevado, o artístico, o bello, sim o luxo^ o 
ouro, o fausto frivolo. Existe um livro de mais de 
400 pag. em que se descrevem mcudamente essas 
festas reas; intitula-se : «Fasto de Hymeneo, ou 
Historia panegyrica dosdesposorios, etc. . por fr. 
José da Ts^ati vidado (Lisboa, 1752)»; ahi, entre flo- 
restas de hyperboles, e estultos pensamentos, vem 
curiosas relações e inventários de certa imnortan- 
cia para o estudo do reinado de D. João V. 

N'esta jornada levou el-rei 10 coches, 8 berlin- 
das, 20. estufas, 2 caleças, 141 seges, 7 galeras, 
12 carros-matos, e 20 andas. Para se fazer idéa 
do pessoal empregado basta mencionar o quadro 
da cosinha e ucharia : i escrivão da cosinha, i 
ajudante do escrivão, i cosinheiro mór, um cosi- 
nheiro francez, i comprador e 17 moços, 7 moços 
da ucharia, 10 mestres de cosinha, 78 cosinhei- 
ros, 45 ajudantes e 66 moços; mais 24 varredo- 
res com seu apontador. 

El-rei partiu de Lisboa em 8 de janeiro chegan- 
do pelas 9 da manhã a Aldeia Gallega. No dia 9 
começava a rainha a sua jornada, trazendo tam- 
bém um enorme séquito. 

O mez de janeiro de 1729 correu muito chuvo- 
so, as estradas, as péssimas carreteiras, estavam 
alagadas; devia ser curioso o desfilar dos coches, 
estufas e berlindas, seges e caleças, cheios de ca- 
belleiras empoadas, de sedas e velludos, de dou- 
rados e prateados, fazendo etiqueta na passagem 
de ribeiras e lamacaes. 

Existe no archivo municipal a descripção dos 



festejos com que a cidade d'Evora recebeu a visi- 
ta de D. João V. Passamos a publicar essa inte- 
ressante noticia. 



■* ■* 



Havendo cheirado ao senado d'esta cidade de 



o 



Évora carta do secretario de Estado, Diogo de 
Mendonça Corte Real, em que vinha inclusa uma 
de S. Magestade firmada por sua real mão, e es- 
cripta a 2 de janeiro de 1729, com aviso de que 
l^zia viagem a Elvas com a Rainha, e com toda 
a casa Real para, na ponte do Caya, fazer entrega 
aos reis catholicos da senhora infanta D. Maria 
Barbara de Portugal, sua filha, já desposada com 
o serenissimo príncipe das Astúrias D. Fernando, 
filho primogénito, e futuro herdeiro d'el-rei catho- 
lico D. Felippe V, havido constante o seu primeiro 
matrimonio; e receber a sereníssima infanta D. 
Maria Anna Victoria de Bourbon, filha do mesmo 
Rei e da presente rainha catholica D. Izabel Far- 
nezi, esposada também com o serenissimo prínci- 
pe do Brazil, D. José, filho de suas Magestades : 
e que na vinda e na volta haviam de fazer transito 
por esta cidade e pernoitar n'ella; se ajuntaram na 
camará os vereadores e ofRciaes d'ella com assis- 
tência do dr. Carlos Pery de Linde, juiz de fora 
da dita cidade, e entre todos se tomou assento na 
forma com que haviam de esperar a ss, magesta- 
des, e nas disposições que se haviam de fazer para 
o seu recebimento, attendendo-se á decência das 
pessoas reaes c ao credito e honra da cidade; e as- 
sim se resolveu que sem attenção a despeza se fi- 
zesse tudo com a maior magnificência que fosse 
possível. 

Desde logo se começou a executar como se ti- 
nha disposto concertando-se as estradas das terras 



de sua jurisdição, reformando-se e pintando-se os 
chafarizes para ficarem mais vistosos, fazendo-se 
algumas obras no palácio dos arcebispos para fi- 
car mais commodo ao alojamento da familia real, 
accrescentando-se as cavallariças e cocheiras. 

Dispozeram-sc arcos de triumpho, e fogos de 
artificio; fizeram-se galas magnificas, não só os 
ministros e vereadores, mas toda a nobreza da ci- 
dade, e todos em competência procuraram corti- 
nados e tapeçarias para ostentarem mais magnifi- 
cência. Todos trabalharam 'nestas disposições, 
mas com mais excessos e trabalho o Juiz de fora, 
adiantando-as muito com a sua presença. 

Recebido aviso de que .el-rei chegaria a esta ci- 
dade no dia lo de janeiro de 1729, e que havia 
de entrar pela porta chamada d'Alconchel, o foram 
esperar á entrada d'ella, em corpo de Gamara, o 
Juiz de fora Carlos Pery de Linde, os vereadores 
Luiz Barreto Zagallo de Seixas, Rodrigo Toscano 
de Valladares, e João Galvão de Oliveira, o escri- 
vão da Gamara José Monteiro de IVlattos, e o pro- 
curador da cidade Francisco Madeira de Sousa, 
lodos a cavallo, vestidos de capa e volta com ves- 
tias e bandas de ouro, chapeos guarnecidos de plu- 
mas, e varas douradas ; e os dois procuradores do 
povo José Nunes, e António José Gallado, com 
José da Gosta, seu escrivão, todos também de ca- 
pa e volta com vestias» e bandas de seda com ra- 
mos de ouro, e chapéos agaloados e emplumados, 
com varas vermelhas e a cavallo. Todos se apea- 
ram começando a apparecer a comitiva real, na 
qual se observava esta ordem. 

i.° os trombeteiros e atabaleiros de S. Mages- 
tade : 

2.° os ministros .,d'esta comarca, o corregedor 
Dionísio Esteves Negrão com vestido de velludo 
lavrado, vestias e bandas de tela de prata, e cha- 



peo bem guarnecido; o provedor António de Pai- 
va e Pona com vestido correspondente á sua ida- 
de; e o Juiz de fora dos órfãos Francisco Nunes 
da Roza com vestido de velludo, vestia e banda 
de tela d'ouro. 

3.° o meirinho da corte e todos os mais officiaes 
de justiça d'esta cidade, todos a cavallo, com as 
varas alçadas. 

4.° o desembargador José Vaz de Carvalho, cor- 
regedor do crime da Corte e Casa^ em um coche. 

5° todos os senhores titulares do reino cada um 
em seu coche com cavallos á dextra, magnifica- 
mente ajaezados, e os creados com librés guarne- 
cidas de ouro ou prata. 

6.° grande numero de excellentes cavallos d^el- 
rei, príncipe e infantes, todos com riquíssimas sel- 
las, custosos jaezes, magnificos telizes, levados á 
dextra por outros criados de libré real também a 
cavallo, e a dila libré se mudou n'esta funcção da 
antiga, que era verde mesclada com passamanes 
verdes e brancos, em panno encarnado, nas casa- 
cas cobertas de galões d'ouro, e os canhões e ves- 
tes de panno azul guarnecidos de galões de prata. 

7.° todos os camaristas ou gentis homens da ca- 
mará d'el-rei, príncipe e infantes, em coches da 
casa real. 

8.° o duque de Cadaval D. Jayme, como estri- 
beiro mor de S. Magestade. 

9.° O secretario de Estado, Diogo de Mendonça 
Corte Real. 

io.° El-rei em um coche com o príncipe do 
Brazil, e o infante D. António seu irmão, rodeado 
da sua guarda de archeiros montados a cavallo, 
com o seu capitão de guarda o conde da Ribeira. 

Junto á porta mandou el-rei deter o coche, e 
deu logar a que o Juiz de fora lhe fizesse a se- 
guinte oração em nome da cidade : 



8 

— Muito alto e muito poderoso Rei e senhor 
nosso! 

Perturbada com o respeito c veneração que in- 
flue a real e augusta pessoa de V. xMagestade, e 
com o alvoroço que lhe causa a incomparável for- 
tuna de se ver na presença de um tão excellente 
monarcha, não acha hoje esta cidade palavras para 
fazer as expressões proporcionadas ao seu gosto e 
contentamento, maior e mais excessivo ainda que 
quanto poderá prometter-lhe a sua esperança. 

E devendo eu fallar em seu nome necessaria- 
mente me havia de ver na mesma perturbação, se 
me não alentara a publica autoridade do meu mi- 
nistério, devendo á grandeza de V. Magestade os 
espíritos que me animam para desempenho de tão 
diííicultosa obrigação; e assim em nome d'esta ci- 
dade e de seus moradores offereço com reverente 
culto o sacrifício de todos os nossos corações, nos 
quaes recebemos a V. Magestade com o maior 
amor, e com o mais sublime gosto que pôde con- 
siderar a idéa e proferir o encarecimento. 

Com esta fortuna se esquecerão das antigas fe- 
licidades de seus antepassados, e só lhes ficará a 
lembrança da gloria presente ; já não celebrarão 
os triumphos de Sertório, nem o esforço de Geral- 
do, que parece estava presentindo a felicidade da 
grande obra que V. Magestade vai aperfeiçoar, 
quando com arte igual ao seu valor arrancou 
das mãos dos bárbaros esta grande cidade, e a 
pôz aos reaes pés do Ínclito heroe primeiro rei da 
monarchia; e até se lhes alliviarão as saudades da 
continuada assistência que n'ella fizeram os senho- 
res reis progenitores de V. Magestade. A estas glo- 
rias todas excede a da fortuna de ver e receber na 
real pessoa de V. Magestade um rei mais sábio, 
mais forte, mais prudente, mais pio, e por todos 
os titulos mais glorioso que todos os heroes dos 



séculos passados; um rei feliz no real consorcio e 
na prole, destinado pela providencia para generoso 
tronco dos príncipes de Hespanha, e dos portu- 
guezes que hão de subjugar e dominar o mundo 
todo ao seu império. Estas, senhor, são as prero- 
gativas que hão de fazer esclarecida nos séculos 
futuros a gloriosa memoria de V. Magestade, c 
esta c a gloria que hoje nos enche de alegria nos 
corações, que oíferecemos por victimas a V. Ma- 
gestade, que com os mais ardentes votos deseja- 
mos que viva por annos dilatados para a admira- 
ção de todo o mundo, e gloria immortal da nação 
portugueza. 

Viva! Viva ! » 

E acabada e agradecida por Sua Magestade a 
dita oração cheg(Ui o vereador mais velho, Luiz 
Barreto Zagallo de Seixas, a oíferecer-lhe em uma 
salva de prata sobredourada as chaves da cidade 
(douradas também) presas em uma riquíssima fita 
de tela encarnada em nome do senado. Sua Ma- 
gestade poz n'ellas a mão em signal de que as 
aceitava, e logo a cidade saudou a el-rei com uma 
salva real de artilheria, e os sinos de todas as pa- 
rochias e conventos começaram a festejar com in- 
cansáveis repiques o honrar Sua Magestade esta 
cidade com sua real presença. 

Continuou el-rei a marcha; immediatamente o 
seguiu montando a cavallo o senado da Gamara, 
levando o estandarte com as armas da cidade o 
alferes d'clla Gregório Pestana de Pina, e todos os 
officiaes da Gamara as varas alçadas. Seguiu-se 
a guarda real de cavallo de S. Magestade e logo 
uma innumeravel quantidade de seges de campo 
com os confessores, médicos, moços da guarda 
roupa, moços da camará, criados particulares e 
porteiros da canna. Depois vinh>im a cavallo em 
grande numero reposteiros, moços de monte, e da 



IO 



estribeira: e ultimamente iim regimento de infan- 
teria, e outro de cavallai'ia, que tinham saído a 
esperar Sua Magestade ao sítio chamado da Cruz 
da picada, que fica distante pouco menos de um 
quarto de legoa da cidade. Haviam-se metido tam- 
bém no acompanhamento quatro capitulares da 
cathedral d'esta cidade, a saber, o deão José Cor- 
reia de Azeredo Corte Real, o chantre Luiz de Sá 
e Silva, e os cónegos Sebastião de Mira Coelho, 
e Ignacio Francisco de Castro, cada um em sua 
carruagem, osquaes por ordem do cabido, sede va- 
cante, tinham ido esperar Sua iMagestade ao prin- 
cipio d'este arcebispado, que fica d'aquella parte 
1 1 léguas de distancia, a dar-lhe as boas vindas, 
e ofFerecer-lhe o governo das mesas capitulares, 
cujo cumprimento Sua Magestade ouviu fazendo 
parar o coche em que vinha. 

Fez Sua Magestade o trajecto, sempre com vi- 
vas e acclamações do povo, pela rua d'AlconcheI, 
praça, rua da Scllaria, na boca da qual tinham os 
ourives do ouro e da prata erigido um arco de 
triumpho com muitas figuras, e com os disticos e 
emblemas seguintes : 

Emblema 1." 

Uma águia coroada no ninho, e voando d'elle ou- 
tra águia mais pequena, também coroada, com a 
letra : 

Non absque corona 

Ire aquilae datur 

Emblema 2." 

Sobre uma mesa, junto da qual estava um ho- 
mem, se divisava uma pérola dentro da concha, 
e ao longe o mar, com a letra : 

Ditat 
Cum procul á pátria. 



1 1 



Emblema 3." 

Os dois escudos de Portugal e Castella enlaça- 
dos um com o outro, e a letra : 

Sociata tuentur 
Et terrent 

Emblema 4;' 

Uma serpente mordendo a cauda em circulo 
perfeito, e a letra : 

Prudentia alterna 

Emblema 5." 

Uma águia e um leão, e entre elles uma coroa 
e na tarja esta letra : 

Debetur utrique. 

Emblema 6/' 

O sol pondo-se no occaso, c a letra : 

In altera regna. 

Na entrada da rua que vulgarmente se chama 
rua Ancha erigiram os mercadores um arco, o qual 
era de vistosa fabrica, composta de vinte colum- 
nas e duas faces, em que se admirava o primor 
da arte pelas ricas telas de que se adornava, e 
com as tarjas seguintes : 

Emblema V 

Uma arvore com varias coroas nos ramos, e um 
lavrador esgalhando um dos ramos, que também 
tinha coroa, e a letra seguinte : 



12 

VellitLir, ut similis frondescaí 
consita iMatri 

Emblema 2." 

As figuras de Lusitânia e Hespanha armadas, e 
no meio d'ellas a figura do Amor lirando-Ihe das 
mãos as armas, e a letra : 



Non ultra scevire datum. 

Emblema 3." 

Uma náo á vella no meio do mar com as qui- 
nas portuguezas e por divisa na bandeira : 

Mutat regna ut commercia jungat. 

Emblema 4.° 

A cerva de Viriato (!) inspirando-lhe á orelha: 

Intus ulit (!) (alit?) 

3.° arco se erigiu na rua da Lagoa pelos offi- 
ciaes que comprehendem as bandeiras de S. José 
e S. Jorge, e se compunha de 24 columnas da or- 
dem dórica e corinthia, com pilares e cimalhas de 
airosa e elegante esculptura, todo de madeira, mas 
dissimulada com o artificio da pintura, que pare- 
cia dos mais primorosos mármores. 

Emblema 1." 

Uma águia arrebatando pelo ar a Ganimedes: 
Suprema, ut teneat fastigia. 



~ i3 
Emblema 2.° 

Uma romeira, e nos ramos uma unlca romã : 
Única, sed coronata. 

Emblema 3.° 

Uma fonte, e no mais alto formava com a mes- 
ma agua uma coroa : 

Dum deferor, eferor ad coronam. 

Emblema L° 

O Zodiaco com os seus signos, e o sol no peito 
do signo de Leo, e uma águia coroada que estava 
fora do zodiaco olhando para o sol : 

Regina probabor. 

Emblema 5.° 

O leão de Hespanha, e a serpente de Portugal, 
no campo: 

Temperat, ut regit. 

Emblema V 

A arca de Noé, e saindo d'ella a pomba: 
Pacem, egressa fert. 

Todas as ruas, praças, casas dos magistrados 
estavam bem armadas com excellentes cortinados 
de tapeçarias. 

Chegando el-rei ao primeiro degráo da egreja 



H 

cathedral achou no adro todos os religiosos dos 
conventos da cidade, e o cabido com um pallio 
muito rico. Ajoelhou Sua Magestade com o prin- 
cipe e o infante D. António em umas ahnofadas 
que estavam sobre uma alcatifa, para adorar e bei- 
jar a Santa Cruz; e logo foi debaixo do pallio até 
á capella mór onde se cantou o Te-Deum. D'ali 
passou a fazer oração na capella do Santíssimo 
Sacramento, e depois á de Nossa Senhora do An- 
jo, e logo se recolheu ao palácio archiepiscopal a 
pé, por ter a porta mistica com a da cathedral, 
acompanhado dos ministros, officiaes da Gama- 
ra, cabido, religiões e toda a sua corte. 

Na manhã seguinte, 1 1 de janeiro, foi o senado 
ao paço, e na sua comitiva os procuradores do 
povo, beijar a mão a Sua Magestade, príncipe, e 
infantes D. António e D. Francisco, que também 
tinha chegado de Lisboa, e o mesmo fizeram o ca- 
bido, o tribunal do Santo Officio, prelados das re- 
ligiões, e muitas pessoas particulares. N'esta tarde 
e na manhã seguinte viram Suas Magestades e Al- 
tezas vários conventos e edifícios da cidade. 

Com o aviso de que a rainha chegaria a esta 
cidade na tarde do dia 12, sahiu el-rei, com o prín- 
cipe e infantes, do paço, seriam pouco mais de 5 
horas da tarde, a esperar pouco distante da Cruz 
da picada, e assim que se avistaram passou a rai- 
nha e princeza das Astúrias do coche em que vi- 
nha a rainha par.x o em que estava el-rei. Foram 
infinitos os vivas e acclamações do povo que ali 
tinha concorrido que era inumerável, dispararam 
as artilherias, soaram os repiques, e continuou-se 
a marcha para a porta de Alconchel onde se tinha 
fabricado um arco de magnifica arquitectura e cus- 
tosa armação. Achava-se junto a elle o senado com 
os procuradores do povo, e o seu alferes com a 
bandeira da cidade, com um riquíssimo pallio de 



i5 

brocado de flores e ramos de ouro, com preciosas 
franjas e oito varas douradas para servir no caso 
que quizessem as Alagestades usar d'elle como 
os reis antigos costumavam fazer quando vinham 
a esta cidade, porem não quizeram praticar este 
estylo Suas Magcstades, e fizeram sua entrada em 
um coche, e parando elle junto ao logar aonde es- 
lava o senado, o juiz de fora, que estava com ou- 
tro vestido magnifico todo de tissu d'ouro com 
capa e voha, e no chapéo uma grande plumagem 
branca levantada, a que n'estc tempo, com voz 
franccza, chamam cocard, fez em nome da cidade 
á rainha a seguinte oração: 

— xMuito alta, muito poderosa, e augustissima 
rainha, senhora nossa! Chegou o alegre dia em que 
esta cidade, antigo domicilio dos monarchas por- 
tuguczes, havia de ter o complemento de sua glo- 
ria com a incomparável fortuna de receber a real 
pessoa de V. M. A grande vantagem com que V. 
M. excede as rainhas que lhe precederam no thro- 
no, é a medida porque hoje cresce até o maior au- 
ge a nossa gloria. Em V. M. se admiram unidas 
todas as virtudes que divididas pelos outros prin- 
cipes os fizeram famosos e esclarecidos não só 
em Portugal, mas no mundo todo. A devoção e 
piedade para com Deus, a misericórdia e liberalida- 
de para com os pobres: o amor e beneficência para 
com os vassallos; a prudência, a fortaleza, e todas 
as mais virtudes resplandecem com tanto excesso 
em V. M. como se em cada uma d'ellas se empre- 
gasse somente o seu pio e religioso animo. A estas 
virtudes com que V. Al. attrahiu egualmente o 
amor e admiração de todos os seus vassallos, se 
ajuntam as grandes felicidades que communicou 
a este reino na multiplicada successão que deu ao 
nosso augusto monarcha. E como se fosse Portu- 
gal pequena esfera para os seus influxos, os com- 



i6 



municou também aos reinos de Hespanha com a 
sereníssima princeza das Astúrias, primogénita imi- 
tadora das virtudes de mãe tão heroina, que a deu 
á luz para occupar o throno d'aquella monarchia, 
e agora vae conduzindo para o feliz consorcio de 
seu real esposo. Estas, senhora, são as excellen- 
cias que fizeram a V. M. singular entre as maio- 
res rainhas do mundo, e esta é a causa de crescer 
excessivamente a gloria d'esta cidade, tendo a ven- 
tura de receber uma tão famosa rainha destinada 
por Deus para instrumento da felicidade de tantos 
reinos. Em justo reconhecimento de tantas dividas 
e tanta gloria que V. M. lhes communica lhe oífe- 
recem a nobreza e povo d'esta cidade os seus co- 
rações, e os seus ânimos, que por excessivos se 
não podem explicar cabalmente com vozes; n'elles 
promettemos a V. M. a mais fiel e voluntária obe- 
diência, e para que esta seja mais perdurável e 
mais continuada a nossa fortuna, desejamos a V. 
M. a mais dilatada vida. Viva, viva! — 

Agradeceu a rainha com especialidade as es- 
pressões d'esta pratica, e com demonstrações de 
benevolência ; e logo o vereador mais velho oíFere- 
ceu as chaves á mesma senhora na mesma forma 
e com o mesmo cumprimento que tinha feito a 
el-rei ; e feita a cerimonia de pegar n'ellas se con- 
tinuou a marcha pelo mesmo modo, e pelas pró- 
prias ruas por onde el-rei passou no dia da sua 
entrada; mas por ser de noite estavam as ruas não 
só armadas e alcatifadas de espadanas, mas guar- 
necidas de luminárias. Chegando á cathedral se 
praticaram com a rainha as ceremonias que se ti- 
nham observado com el-rei, e depois de se cantar 
o Te-Deum se recolheram todos para o paço ; on- 
de no dia seguinte pela manhã foi o senado com 
os procuradores do povo, e tiveram a honra de 
beijar a mão á rainha e princeza ; o que também 



J7_ 

fez o cabido, o Tribunal do Santo Officio, prela- 
dos das religiões e outras pessoas particulares. 

A 14 pelas 3 horas da madrugada fez el-rei via- 
gem para Villa Viçosa com o principe e infantes : 
foi ouvir missa á igreja do Espinheiro dos religio- 
sos de S. Jeronymo, até onde o acompanhou o 
juiz de fora d'esta cidade, e d'ali permittindo-lhe 
que lhe beijasse a mão, e ao principe, se recolheu. 
De tarde assistiu com o senado na porta de Al- 
conchel onde esperou ao patriarcha de Lisboa, 
com quem se praticaram as mesmas cerimonias, 
que com el-rei, por assim o haver ordenado o mes- 
mo senhor por carta do secretario de Estado es- 
cripta á Gamara. Aquartelou-se no collegio dos 
Padres da Companhia. 

No dia I 5 pelas 4 da madrugada sahiram d'es- 
ta cidade a rainha e princeza, e até ao Espinheiro, 
onde ouviram missa, as acompanhou o juiz de 
fora, por não quererem consentir que passasse 
adiante, e beijando-lhes a mão e voltando á cida- 
de, foi n'essa mesma manhã com o senado em 
corpo de camará visitar e beijar a mão ao patriar- 
cha, que mandando-os entrar e assentar na pró- 
pria camará em que assistia, lhes agradeceu a 
muita attenção que tinham á sua pessoa; e como 
partio no dia seguinte para Villa Viçosa, o foram 
acompanhando o mesmo juiz, senado e procura- 
dores do povo a cava lio, na mesma forma que fi- 
zeram a el-rei, porcMii a pouca distancia requereu 
que se recolhessem, o que fizeram. 

Em 3 1 de janeiro voltou a esta cidade o mesmo 
patriarcha pela porta da Lagoa e ali o esperavam 
o juiz de fora, o senado e procuradores do povo, 
apeando-se tanto que avistaram a sua comitiva, 
fazendo o juiz de fora uma oração em nome da 
cidade, e oíFerecendo-lhe o Vereador mais velho 
as chaves d'ella e o seu governo politico, tudo 



i8 

com a mesma solemnidade que se observa com 
el-rei. O patriarcha lhes rendeu as graças por es- 
tas atlenções que a cidade com elle usava, e con- 
tinuando a sua marcha se allojou no collegio da 
Companhia, achando por todo o caminho as ruas 
armadas e cobertas de espadanas, indo diante o 
seu acompanhamento, e o corregedor, provedor, 
juiz de fora, senado, etc. até o deixarem no seu 
alojamento. 

No dia seguinte i .° de fevereiro entraram incó- 
gnitos n'esta cidade el-rei, o príncipe do Brazil, 
os infantes D. Pedro, D. Francisco e D. António, 
em um coche pela porta d'Aviz, seguido em outro 
coche pelo duque D. Jayme, e pelo marquez de 
Alegrete, que era o gentil homem da Gamara que 
estava de semana, havendo corrido a posta desde 
Estremoz. 

Entraram no paço sem serem esperados n'aquel- 
la hora, e pouco depois passaram para o coro da 
egreja cathedral, aonde se cantavam as vésperas 
da festa da Purificação. Voltando ao paço foram 
ver as casas dos antigos marquezes de Ferreira, 
que eram do duque D. Jayme, estribeiro mór, e 
ali estiveram até vir a noticia de virem chegando 
á cidade a rainha e a princeza do Brazil; partiram 
a esperal-a ao chafariz dos Leões, onde se tinham 
mandado ajuntar todos os cavalheiros da corte 
com as suas magnificas carruagens e librés. Em 
se encontrando sahiu a rainha e a princeza do co- 
che em que vinham e se metteram no d'el-rei, no 
qual continuaram todos a marcha para a porta da 
Lagoa com esta ordem : 

I ° O corregedor, provedor, juizes de fora. 

2.° O meirinho da corte e ofíiciaes de justiça 
da cidade. 

3.° O desembargador José Vaz de Carvalho, 
corregedor do crime da corte e casa, no seu coche. 



4." Os trombeteiros e atabaleiros d'el-rei. 

5.° Os coches de todos os títulos em que elles 
iam, levando aos lados criados a cavallo com ou- 
tros das suas pessoas á dextra com selias e telises 
magnificos. 

6.° Os cavallos d'estado d'el-rei e infantes, leva- 
dos á dextra por creados da libré de Sua Magcs- 
tade montados em outros. 

q!" Os coches de estado. 

8.° Os gentis homens da Gamara, e officiaes das 
casas reaes em coches das mesmas casas. 

9.° O duque D. Jayme, estribeiro mór em coche 
d'el-rei. 

io.° O coche de SS. MM. e AA. 

1 i." Grande numero de seges de campo com os 
confessores, médicos, moços da guarda roupa e da 
camará, criados particulares e porteiros. 

12.* Um grandissimo numero de reposteiros, 
moços da estribeira e do monte. 

A guarda dos archeiros, a cavallo. cercava o 
coche das pessoas reaes. 

Na porta da Lagoa havia um arco de triumpho, 
de 12 columnas, magnificamente armado de sedas 
e riquíssimos lóos, com emblemas e divisas allu- 
sivas ao assumpto. 

Junto do arco estava o senado da cidade e o 
juiz de fora que n'este dia se apresentou com ves- 
tido mais rico ainda que os outros dos dias ante- 
cedentes, todo de lissu de ouro. Ahi fez uma ele- 
gante oração que terminou com os vivas do cos- 
tume. 

As Magestades agradeceram ; o vereador mais 
velho offereceu as chaves da cidade á princeza. 

Estava logo á entrada da cidade contrafeito um 
formoso jardim com muitas arvores, figuras, fon- 
tes, penhascos, com vários emblemas e outras cu- 
riosidades. 



20 



Toda a rua estava armada com excellentes cor- 
tinados, colchas e tapeçarias. Junto ao adro de S. 
Domingos outro arco com 24 columnas, com seus 
frisos e architraves, sobre que assentava uma ga- 
lei'ia de varandas, tudo fingindo admiravelmente 
pedra com muitas figuras, rematando no escudo 
real. 

A fonte da Porta Nova estava ornada de mui- 
tas figuras e ramalhetes, e sobre um globo a esta- 
tua de Sertório, com os vestidos estofados de ou- 
ro. Toda esta rua e a rua Ancha guarnecidas de 
cortinados e tapeçarias nas janellas e portas. 

Outro arco na boca da rua Ancha para a praça, 
formado de columnas, com sedas lavradas a ouro, 
e prata. Toda a praça estava adornada de tapeça- 
rias e alfayas ricas, especialmente a casa do Ma- 
gistrado. Na fonte pozeram muitas figuras de se- 
reias e tritões, e pelas bordas do tanque craveiros 
de grande variedade de galanterias. 

No meio da praça formou-se uma representação 
da torre de Belém com suas peças d'artilheria pe- 
quenas, que salvaram na passagem de SS. MM. 

Outro arco á entrada da rua da Sellaria, de co- 
lumnas e estatuas, rematando em coroa real. 

No adro da sé esperavam as MM. e AA., de 
cruz alçada, todas as communidades religiosas da 
cidade, e o cabido com um pallio riquíssimo. 

A familia real, precedida de todas as religiões 
em procissão entoando o Te-Deiim^ entrou na ca- 
thedral, que estava toda custosissimamente ador- 
nada por armadores que o cabido mandou vir de 
Lisboa, com as melhores telas e ornamentos que 
poderam obter na corte. Fizeram oração na ca- 
pella mór, depois na do Santíssimo, e ultimamen- 
te na da Senhora do Anjo, donde foram para o 
Paço. 

O juiz de fora, e o senado foram logo ao Paço, 



21 

levando as suas varas douradas : e os procurado- 
res do povo e seu escrivão com as vermelhas. 

No dia 2 de fevereiro, festa da Purificação de 
Nossa Senhora, depois que os cónegos fizeram os 
seus oííicios da igreja cathedral, entrou o patriar- 
cha com os cónegos e clérigos da santa igreja pa- 
triarchal de Lisboa, a fazer a benção da cera 
com todas as solemnidades e requisitos que dis- 
põe o ceremonial romano, na presença de SS. 
MM. e A A., e esta funcção se executou com ex- 
traordinária pompa e luzimento. Distribuiu-se cera 
por toda a nobreza da côrle e da cidade, cama- 
rá, pessoal da sé, e como sobejassem ainda 20 ar- 
robas de velas as mandou el-rei repartir pelos al- 
tares da cathedral. Terminada a distribuição o pa- 
triarcha celebrou pontifical, que acabou ás 2 da 
tarde, assistindo toda a familia real, a corte, se- 
nado, muitos sacerdotes e innumeravel povo. 

No dia seguinte, 3 de fevereiro, sahiu o pa- 
triarcha pelas 8 da manhã para Montemor o 
novo. 

O senado da camará mandou 'nesse mesmo dia 
um presente á princeza do Brazil. Constava de 
24 vitellas todas enfeitadas, 24 cargas de perus, 
gallinhas, capões, leitões, pombos, perdizes, e ou- 
tras caças, levadas por trinta homens vestidos de 
jaquetas encarnadas e verdes, e 24 meninas bem 
vestidas com caixas de excellentes doces fabrica- 
dos de tal forma que pareciam as mesmas frutas 
de que se fizeram. Foi tudo guiado pelo procura- 
dor da camará montado a cavallo com a sua vara 
dourada, e apeando-se junto ao paço subiu á pri- 
meira casa do docel, e deu o recado que levava 
ao mordomo mór da rainha ; esta mandou ir á sua 
presença as 24 meninas e lhes fez dar a cada uma 
uma peça de 6^4.00 réis. 

Nos dias em que SS. MM. se detiveram aqui 



22 



andaram vendo rtiosteiros e cousas mais notáveis 
da cidade e arredores. El-rei partiu em 9 de feve- 
reiro para Montemor. 

N' esta cidade fez el-rei mercê de conde d' Alva a 
D. João Diogo de Alhayde, que era na occasião e 
continuou a ser general das armas d'esta provinda. 

Nomeou gentis homens da sua camará o mar- 
quez de Alegrete, Manuel Telles da Silva, o mar- 
quez de Cascaes D. Manuel José de Castro, o 
marquez de Fontes Joaquim Francisco de Sá e 
Menezes, e o conde de Assumar D. João d'Almei- 
da. 

Também fez a mercê ao Corregedor d'esta co- 
marca Dionisio Esteves Negrão, ao provedor An- 
tónio de Paiva e Pona, de beca honorária, e ao 
juiz de fora Carlos Pery de Linde de uma correi- 
ção ordinária e do habito de Christo; outra cor- 
reição ordinária ao juiz de fora dos orphãos Fran- 
cisco Nunes da Rosa. 

A universidade d'esta cidade concedeu o privi- 
legio de ter mais duas cadeiras para cânones e di- 
reito civil. Deu iníinitas esmolas a mosteiros de 
frades e freiras, a muitas igrejas, e a grande nu- 
mero de pessoas na cidade e no campo. 

Mandou soltar os presos por dividas, pagando 
o thesoureiro da jornada aos credores ; e os cri- 
minosos não comprehendidos nas exclusões do seu 
decreto, para o que se fez uma junta na secretaria 
do Estado. 

A rainha com a princcza sahiu pouco depois 
d'el-rei, ouvindo primeiro missa na egreja dos 
Lóios. 

Emquanto as magestades estiveram em Évora 
houve luminárias todas as noites, nos conventos e 
casas da cidade. Quando chegou a princeza do 
Brazil e nas duas noites seguintes houve fogo d'ar- 
tiíicio. 



23 

Toda a gente d'Evora fez despezas extraordiná- 
rias; a nobreza fez vestidos de grande custo; a to- 
dos excedeu o juiz de fora que fez quatro vestidos 
qual mais rico, e uma libré rica, côr de canella, 
aos 4 lacaios, agaloada de prata com plumas bran- 
cas nos chapéos, sendo magníficos os chareis e 
jaezes dos seus cavallos. 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS EBOHKNSES 

Eslíio publicados : 

I." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana, 1." p. O templo romano. As inscripçóes lapidares. — 3." 
A Casa pia. O edihcio do collegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S. 
Bento.- — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — q." 
Idem, 2.» parte.— 10." Brasão d'Evora. — 11." A egreja de San- 
to Antão. — 12." O archivo municipal. — iS." A restauração em 
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri- 
córdia d'Evora, i." parte. — i5." Idem, 2.' parte. — i6.° Idem, 
3.^ parte. — 17." Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora. 
i." parte. — iq." Idem, 2.^ parte. — 20.° Idem, 3." parte. — 21." 
Idem, 4." parte. — 22.° Os Festejos de Évora em 1729. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 



DOCIM[NTOS HISIOBICOS D* WM CÍVORi 

Estão publicados : 

i." parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. Xll e Xlli. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i." — 2." 
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da caihedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Évora. 

A' verída em Lisboa na livraria Bertrand. 



A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 



DO MESMO AUCTOR ' 

Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de .'\nder- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella. 

Livro 3." da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSES 

V 



JilSTOP^IA-^P^TE-y^P^HEOLOGIA 



ÉVORA 



NOS 



LLJSIADAS 



®^ 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSl'; BAPTISTA, IMPUESSOR DA CASA REAL 

Rua Ancha n." 85 
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GABRIEL PEREIRA 



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I^USIADAS 



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ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

bK. JOAi'iI IM JOSK BAPTISTA, IMCUliSSOK DA CASA RiiAf. 

Rua d'Aviz n." q3 



1890 



ESTUDOS EBORENSES 



ÉVORA 



IsTOS LXJSIA.r)A.S 



CANTO TERCEIRO 

LXII 

E vós também, ó terras Transtaganas, 
Aftamadas co'o dom da flava Ceres, 
Obedeceis ás forças mais que humanas, 
Kntregando-lhe os muros e os poderes. 
E tu, lavrador Mouro, que te enganas, 
Se sustentar a fértil terra queres; 
Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas, 
E Alcaçare do Sal estam rendidas. 

LXIII 

Eis a nobre Cidade, certo assento, 
Do rebelde Sertório antigamente, 
Onde ora as aguas nitidas de argento 
^'em sostentar de longo a terra, e a gente 
Pelos arcos reaes, que cento e cento, 
Nos ares se alevantam nobremente; 
Obedeceo, por meio e ousadia 
Oe Giraldo, que medos não temia. 



4 



LXIV 

Já na cidade Beja vai tomar 
Vingança de Trancoso destruida^ 
AfTonso, que nam sabe sossegar, 
Por estender co'a fama a curta vida ; 
Nam se lhe pode muito sostentar 
A cidade; mas sendo já rendida, 
Em toda a cousa viva a gente yrada 
Provando os fios vay da dura espada. 

Luiz de Camões descreve a conquista Jo Alem- 
lejo aos mouros. Et-rei D. Alfonso Henriques, as- 
segurada a posse da margem direita do Tejo pekí 
íomada de Santarém e Libboa (i 147), começou as 
suas campanhas de conquista no Aíemtejo. 

O anno de 11 66 viu assignaiadas victorias dos 
christãos ; os mouros perderam Évora pela cele- 
bre surpreza de Giraldo sem pavor, e pouco de- 
pois o rei, n'uma ousada e rápida campanha, con- 
quista Moura, Serpa e Alconchel, Irez praças prin- 
cipaes na região a oriente de Évora, dominando 
já larga porção do Guadiana. 

Alcácer do Saí fora tomada antes, em i r58, re- 
tomada depois pelos mouros, e só entrou de vez 
no dominio christão em 12 17. 

Refére-se Camões também ao aqueducto que 
traz á cidade a agua da fonte da Prata, sua ori- 
gem, junto á aldeia de Nossa Senhora da Graça 
do Divor. E por esta origem se diz a^iia da prata. 

Até junto do mosteiro de S. Bento de Castris o 
aqueducto segue as encostas salvando as depres- 
sões mais fortes em poucos arcos sem importân- 
cia : passado o mosteiro salva a larga depressão 
do terreno n'uma arcana bem construída, com cer- 
ta elegância na sua singeleza. 

Antes do monumental aqueducto das aguas li- 
vres de Lisboa era o d'Evora considerado o pri- 
meiro de Portugal. Construido no remado de D. 
João III era em tempo de Camões obra muito fal- 



lada pelii sua importância, pelas questões de eru- 
ditos que motivara, e ainda pelas artisticas orna- 
mentações que cm pontos o realçavam, algumas 
das quaes ainda subsistem. 

LXXV 

Porque levasse ovante seu desejo, 
Ao forte filho manda o lasso velho, 
(^ue ás terras se passe d'Alemtejo, 
Com gente, e co'o belligero aparelho : 
Sancho, d'esforço e d'animo sobejo, 
Avante passa, e hz correr vermelíio 
O rio c]ue Sevilha vay regando 
Co'o sangue mauro, bárbaro e nefando. 

LXXVI 

E com esta victoria cobiçoso 
Já nam descança o moço atá que veja 
Outro estrago como este, temeroso 
No bárbaro que tem cercado Beja. 
Nam tarda muito o príncipe ditoso, 
Sem ver o fim d'aquillo que deseja, 
Assi estragado o Mouro, na vingança 
De tantas perdas põem sua esperança. 

E' a expedição feita por D. Sancho cm i 178- 
1 179, ainda em vida do pae, a fim de evitar refor- 
ços e auxilies aos mouriscos do sul do Alemtejo, o 
que se conseguiu, ficando estes isolados e derrota- 
dos. Os mouros chegaram a ter Beja cercada. O 
exercito portuguez chegou a Sevilha, os mouros 
tiveram de concentrar ahi rapidamente todas as 
suas forças, e assim ficou isolado o exercito sarra- 
ceno que estava sobre Beja, sendo derrotado. 

LXXXV 

Sancho forte mancebo, que ficara 

Imitando seu pai na valentia, 

E que em sua vida já se experimentara 

Quando o Bctis de sangue se tingia, 

E o bárbaro poder desbaratara 

Do Ismaelita Rei de Andaluzia, 

E mais quando os que Beja em vão cercaram 

Os golpes de seu braço em si provaram. 



GVII 

Mas já co'os esquadrões da gente armada 
Os Eborenses campos vão qiialhados, 
Lustra co'o sol o arnez, a lança, a espada ; 
Vam rinchando os cavaílos jaezados; 
A canora trombeta embandeirada, 
Os corações á paz acostumados, 
Vay ás fulgentes armas incitando 
Peias concavidades retumbando. 

Começa Luiz de Camões a descrever a famosa 
batalha do Salado. Reunem-se nos campos de Évo- 
ra as tropas com que Affonso IV vai partir para 
Tarifa em soccorro do genro Aífonso de Castella, 
expedição terminada gloriosamente para os chris- 
tãos (outubro de 1340). 

Temos em Évora recordações históricas das 
mais notáveis da victoria do Salado : a grande e 
significativa inscripção descriptiva da batalha e 
eommemorativa dos peões e cavalleiros eborenses 
que ahi seguiram o santo leuho^ singular lettreiro 
que se acha na divisória entre a capella doSantissi- 
mo e a capella mór da Sé. 

Existem ainda e bem conservadas as portas e 
lados do armário ou tryptico que antigamente, jul- 
go eu. guardava a celebre reliquia ; são quadros 
em madeira, singulares e muito estimáveis na his- 
toria da arte, evidentemente allusivos á partida e 
á volta de Aífonso IV a Évora, commemorando 
especialmente o voto do rei. No quadro que re- 
presenta a volta á cidade, depois do Salado, appa- 
rece entre os homens d'armas o príncipe mouro 
que o rei acceitou. 

Estes quadros estiveram nos últimos tempos na 
vestiaria ; mal coUocados e sem cuidados. Recen- 
temente o rev.**" cónego Alfredo César d'01iveira 
mandou fazer-lhes molduras apropriadas e coUo- 
cal-os em sitio mais conveniente. 



A inscripçáo é um notabilissimo documento da 
cidade de Évora, e essas taboas pintadas são ven- 
deiras singularidades na arte portugueza, pela sua 
execução, pelas suas caracteristicas, pelo facto his- 
tórico a que alludem, e por ser bem raro encon- 
trar no século XVI assumptos tratados na pintura 
fora dos religiosos. 

A fundação da antiga confraria da Victoria 
também se liga ao Salado; todavia a capella exis- 
tente na egreja de S. Vicente é muito mais mo- 
derna. 

E o próprio santo leuho^ a anliga veneração que 
o rodeia, e o logar principal que sempre tem con- 
servado entre as reliquias da sé, encontram o seu 
motivo n'aquella famosa victoria. 



CANTO QUARTO 
III 

Ser isto ordenaçam dos Ceos divina 
Por sinais muito claros se mostrou, 
Quando em Kvora a voz de hua minina, 
Ante tempo fallando o nomeou; 
E como cousa em fim que o Céo destina, 
No berço o corpo, e a voz alevantou, 
Portugal. Portugal, alçando a mão, 
Disse, pelo Rei novo. Dom João. 



IV 



Akeradas entam do Reino as gentes 

Co'o ódio que occupado os peitos tinha, 

Absolutas cruezas e evidentes 

Faz do povo o furor por onde vinha, 

Matando vão amigos e parentes 

Do adultero conde, e da Rainha, 

Com quem sua incontinência desonesta 

Mais (despois de viuva) manifesta. 



Camões escreve da acclamação do mestre de 
Aviz, do enthusiasmo popular que não leve limi- 



8 



tes no arrojo e na phantasia. O pov^o que fez Al- 
jubarrota acreditava que uaia menina de berço 
acclamára o rei nopo. Km Évora o partido popu- 
lar era exaltado; foram tempos de morte e feroci- 
dade que em Fernão Lopes tiveram sincero chro- 
nista ; são admiráveis esses capitulos em que eile 
nos descreve os casos eborenses, a prisão do mes- 
tre, o arranco popular, a brava sanha contra os 
partidários de Leonor Telles, a tomada do castello, 
a selvageria dos bandos na morte da abadessa de 
S. Bento. 

D. João reconheceu depois os serviços dos ebo- 
renses, e agradeceu com privilégios especiaes ao 
povo meiído^ aos meiídos^ aos mesteiraes e bracei- 
ros, em singulares documentos que chegaram até 
nossos dias. 

XXIV 

Dom Nuno Alvarez digo, verdadeiro 
Açoute de soberbos castelhanos, 
Gomo já o forte Huno o foy primeiro 
Pêra Franceses, pêra Italianos, 
Outro também famoso cavalleiro. 
Que a ala dereita tem dos Lusitanos, 
Apto pêra mandatos, e regelos, 
Mem Rodriguez se diz de Vasconcellos. 

Nun' Alvares, e Mem Rodrigues de Vasconcel- 
los, dois herocs d'Aljubarrota, tem relações ebo- 
renses. 

Muitas das emprezas militares do condestavel 
partiram de Évora ; alem d'isto era aqui proprie- 
tário e tinha casa c creadagem como se prova por 
documentos. 

Mem Rodrigues de Vasconcellos tem a sua cam- 
pa, com brazão e espada de cavalleiro, na egreja 
de S. Francisco. 



xxvm 

Deo signíil a trombeta Castelhana 
Horrendo, fero, ingente, e temeroso, 
Ouvio-o o monte Artabro, e Guadiana, 
Atraz tornou as ondas 1e medroso : 
Ouvio o Douro, e a terra Transtagana, 
í Jorreo ao mar o Tejo duvidoso ; 
K as ntãis, que o som ierri!)il escuitaram 
Aos peitos os filhinhos apertaram. 

XLV 

O vencedor Joanne esteve os dias 
Costumados no campo, em grande gloria ; 
Com offertas despois, e romarias 
As graças deu a quem lhe deu victoria : 
Mas Nuno, que nam quer por outras vias, 
Entre as gentes deixar de si memoria, 
Senam por armas senpre soberanas. 
Pêra as terras se passa Transtaganas. 

Lvni 

Nam quis ficar nos reinos occioso 
O mancebo Joanne, e logo ordena 
De ir ajudar o pay ambicioso 
Que entam lhe foy ajuda não peqv^ena. 
Saio -se em fim do trance perigoso 
Com fronte nam torvada, mas serena 
Desbaratado o pay sanguinolento : 
Mas ficou duvidoso o vencimento. 

LIX 

l*orque o filho sublime e soberano, 
Gentil, forte, animoso cavalleiro, 
Nos contrários fazendo imenso dano. 
Todo hum dia ficou no campo inteira. 



Reféie-se á batalha de Toro. O mancebo Juanne 
Q O príncipe D. João, depois el-rei D. Joã'> II. 

(ioni o príncipe estavam muitos eborenses; -/cofii 
as arotas no lombo e a lança nas mãos, gastundo 
4?ossas fa/.endas, e poendo as pessoas a risco p<n' 



IO 



vosso serviço, que se Vossa Senhoria esgaardar 
achará que da dita cidade morreram na batalha 
desaseie por vosso serviço» dizem os procura- 
dores de Évora em seus capilulos de cortes de 
1476. 

São muito interessantes lambem os documentos 
de João II dirigidos á cidade a respeito d'esta ba- 
talha; a descripção do combate, o regimento da 
procissão, etc. 

CANTO OITAVO 
II 



Este que vês he Luso. donde a fama 
O nosso reino f-usitania chama. 



III 



Parece vindo ter ao ninho Hispano 
Seguindo as armas que contino usou 
Do Douro, Guadiana o campo ufano, 
Já dito Elisio, tanto o contentou 
Que ali quis dar aos já cansados ossos 
Eterna sepultura, e nomfi aos nossos. 



-^Sí 



XXI 

Olha aquelle que dece pela lança 
Com as duas cabeças dos vigia-s, 
Onde a cilada esconde, com que alcança 
\ cidade por manhas e ousadias; 
EUa por armas toma a semelhança 
Do cavalleiro, que as cabeças frias 
Na mão levava, feito nunca feito, 
Giraldo sem-pavor he o forte peito. 



Paulo da Gama descreve ao Catual as bandei- 
ras da armada, e os escudos das cidad<ís; o brasão 
eborense ficou descripto no estudo especial intitu- 
lado «Brasão d'Evora». 



.11 



XXXIII 



N:i mesma puerra vê que proiíás ganha, 
tstoutro capitam de pouca ger^te, 
Commcndadoics venct;, e o i^ado apanha, 
Que levavam roubado ousadamente ; 
Outra vez vé que a lança em sangue banha 
Destes, só por livrar com icmor ardente. 
O preso amigo, preso por leal, 
Pêro Rodrigues he do L.androal. 



Pero Roiz, o valente alcaide do castello do Alan- 
droal, da ordem de Aviz, bom modelo de ousadia 
c de lealdade, era partidário do mestre de Aviz c 
teve papel importante na pequena guerra entre por- 
iLiguczes e castelhanos que se prolongou por mui- 
tos annos. sustentada principalmente pelas ordens 
militares. Guerra de castello contra castello, cheia 
de \inganças e ódios pessoaes ; de assaltos, de sur- 
prezas, de ciladas e embuscadas, por vezes de uma 
ferocidade extrema. Duas das façanhas do alcaide 

> 

do Alandroal ficaram memoráveis. 

Um commendador da ordem de Alcântara e ou- 
tro da de Calatrava, castelhanos, juntaram bastan- 
tes cavalleiros, entraram pelo Alemtejo, devastan- 
do e saqueando; principalmente fizeram grande 
presa de gado e apressadamente retiravam para 
Castella quando Pero Roiz lhes sahiu ao encontro 
com pouca gente d'armas, mas de tal sorte lhes deu 
que os obrigou a retirar, largando a presa. 

Na geral agitação, profunda e dilatada, que do- 
minou a gente portugueza depois da morte de D. 
Fernando, muitos oscillavam entre os partidos do 
mestre e o da rainha. Vasco Porcalho, alcaide de 
Villa Viçosa inclinou-se para Castella; o alcaide 
do Alandroal era do mestre d'Aviz. 

Sabendo da inclinação de Vasco, e receando 
que elle entregasse o castello aos hespanhoes, re- 
uniu-se com Álvaro Gonçalves, e ambos com seus 



12 



freires e homens d'armas cahiram sobre Villa Vá 
cosa e expulsaram o alcaide. 

Hlste foi logo ter com o mestre d^Aviz c tae^ 
cousas allegou que D. João fez-lhe passar ordena 
para voltar ao castello. Vasco Porcatho entra ero 
Villa Viçosa, entrega o castello aos hcspanhoes, e 
prendeu Álvaro Gonçalves, e sua mulher, roubarí- 
do-lhe a casa. 

Para maior segurança do preso foi este enviado 
para Olivença. 

O alcaide do Alandroal soube do acontecido, 
reúne alguns homens decididos, corre ao caminho 
de Olivença occultando-se quanto possivel, e díi 
nos homens de Villa Viçosa que destroça, liber- 
tando o seu amigo. 



Y^jsõcs latina, hespaoliola, italiana, franceza, ioglCúa 
e alleman das oitavas relativas a Évora 



CANTO TERCEIRO 



LXII 

Vos quoque, flaventis Cereris ditissima donis 
Trans ditfusa Tagum, Lusorum viribus arva 
Cessistis, plusquam mortalibus ; arma ruentum 
Sensisiis, clavesque illis, et colla dedistis. 
Tuque adeo, tu Maure, solum qui scindis aratro, 
Falleris, ereptos dum semina mittis in agros; 
Cum Elvae celebres, et Serpa, et Maura colonos. 
Subjecta accipiant, et pulchra Salacia lusos. 

LXIII 

En urbs fama ingens, sibi quam Sertorius olim 
Delegit stabilem romana in proelia sedem, 
(Nunc ubi per longos se lympha argêntea ductus 
Ingerit, atque urbi latices, populisque ministrat. • 
Centum arcus, et centum alii, quos regia coelo 
Majestas eduxit, aquam inolimine ducunt 
xA.ere sublatam immodico), virtute Gyraldi 
Intrepidi dat capta manus, fastusque remittit. 

LXIV 

Cernitur hic meritas Pax Júlia pendere poenas 
Trancosii eversi; violento has Marte reposcit 
Impiger Alphonsus, qui despicit otia, famae 
Gonsulit, aeternumque parat per secula nomen. 
Nec potis est durare diu ; expugnata cruentum 
Urbs sensit victorem ; animis furit ille, relinquit 
Ac nihil intactum ferro; metit improbus ensis 
Quidquid in urbe vigens animis sensuque repertum. 



14 



LXII 

Y vosotras oh ! tierras Transtnganas .' 
Del don tan ricas de la ruhia Ceres, 
J.as ciudades le dais y las cabanas. 
Obcdiciendo á más que humanos seres ; 

Y tú, Moro cultor, cuánto te en^aiías 
Si sustentar el fértil campo quieres I 

Ya Moura, y Serpa, y Elvas distinguidas, 

Y Alcazar de la feal están rendidas. 

LXIII 

Ved á la gran Ciudad, seguro asiento 
Del rebelde Sertório antiguamente. 
De donde rio liquido de argento 
Hoy Icjos va a surtir á tierra y gente 
Por los arcos de Rey que ciento á ciento 
En los aires se elevan nohlemente : 
Vedla ceder ai brio y fuerza brava 
De Giraldo, que médios no Uevaba. 

LXIV 

Ya á la ciudad de Beja á imponer grave 
Pena va de Trancoso destruidn 
Alfonso, á quien reposo no le cabe 
Por alargar con fama corta vida; 

Y aunque asaz poço resistirlc sabe, 
No bien la ciudad triste cae rendida, 
En lo que aun vivo está, la gente airad» 
Ensangrienta los filos de la espada. 



LXII 

E voi pur d'01tre-Tago e voi province 

Per li doni di Cerere famose, 

A quelhi forza ch'ogni forza viuce,- 

Mura e campi cedeste ossequiose. 

Quanto, o iMauro cultore, error t'avvince, 

Se pensi le usurpate ed ubertose 

Terre serbar ; ché il Lusitan potere 

Giá tien Moura, Eiva e Serpa ed Alcacere. 

LXIII 

E la nobil cittá, che fu giá prima 
Al ribelle Sertório amica sede, 
Lá dove limpid'onda alto dalFima 
Terra sospesa ancor correr si vede 
Entro Talveo, che alFacr si sublima, 
E sovra cento e cento archi procede ; 
Gesse anch'essa a quel duce ardito e bakiu 
Quel che timor non conoscea, Girakli'. 



i5 



LXIV 

Quindi su Beja a venJicar Trancoso 
baile maure distrutta empie masnade, 
Alfonso va, che non puó aver riposo, 
Se non stende sua fama oltre Tetade. 
Molio Beja non regge ai valoroso, 
E pien d'ira il soldato entra e Tinvade, 
l£ in tutto che di vivo in lei si trova 
Ka dei fil di sue spade acerba prova. 

LXII 

Torres Vedras, et vous oh? Terres Transtagancs 
Que Cérès favorise et comble de ses dons, 
11 vous faut obéir aux forces lusitanes, 
Vous lui livrez vos murs, vos fortilications. 
Kt toí, laboureur Maur, quelle erreur est la tienne 
D'arroser de sueur, de cultiver ton champ, 
Elvas, Alcácer, Moura et Serpa Tancienne, 
Ont fait leur soumission, ne sont plus á l'Islam, 

I.XIII 

Et puis tombe Évora, la noble et forte ville 
Oú Sertorius rebelle a trouvé vain asile, 
Oú coulent dans les airs, sur centaines d'arceau^, 
Pour la ville abreuver, de si limpides eaux; 
Elle íut soumise aussi par Geraldo sans peur. 

LXIV 

Aiphonse, qui désire en incessante ardeur, 
Prolonger en renom la trop courte existence, 
í-ourt ensuite á Beja; il vient tirer vengeance 
\)n sac de Trancoso, et de sa destruction. 
Beja, bien peu resiste á la vaillante armée, 
Mais le Roí furieux malgré leur soumission, 
Ordonne qu'on les passe au dur fil de Tépée. 

LXII 

And ye, ye lands that beyond Tagus lay, 
So much for Ceres 'yellow gift re^iowned, 
The more than human po\vers did ye obey, 
Yielding the walls and the doininions rouríd ; 
And peasant Moor ! thou dost thyself betray, 
ff thou dost hope to keep the fertile ground; 
For Elvas, Moura, Serpa, ali well knoVn, 
And Alcácer, have ali been overthrown. 



i6 



LXIII 

The noble city, see, of long ngo, 
Rcbel Sertorius 'seat in times gone by, 
Where now the sparkling silver waters flov, 
From far, both land and pcoplc to supply, 
On royal arches, hunJreds in a row, 
Which rear themselves in air right glniiously; 
'Twas by Giraldo's means and daring soul, 
Whom ícar ne'er frightened, humblcd to control. 

LXIV 

Now to avcnge Trancoso 's cruel end, 

Alfonso to take Beja 's city carne ; 

To thought of peace his mind he cannot bend, 

Wishing to lenglhen out short life by famc, 

Not long the city can itself defend; 

And it»; last struggles they no sooner tame 

Than the íierce ai-my, carrying out the word, 

Puts every living creature to tlie sword. 

LXII 

Und ihr auch in den transtagan 'schen Landcu, 
Die ander blonden Ceres Gaben reich. 
Ihr liegt vor Uebermenschenkraft in Banden. 
Und Mauern gabt und Herrschaft ihr zugleich ! 
Dir, maur' scher Ackersmann, dir wird zu Sclianrien 
Des Landbebauens Wunscli durch Schicksalstrcich , 
Denn Elvas; Moura's Serpa's stolze Hallen 
Und Alcacer-do-Sal, sie sind gefallen. 

LXIII 

Dort ist die edle Stadt, an deren Spitze 
Sertorius, der RebcU, cinst herrschend stand, 
Wo jetzt die Fluthen mit dem Silberblitze, 
So weithin stromcnd, nahren Volk und Land 
Durch stolze Bogen, die zum VVoIkcnsitze 
Sich heben hundertfach mit \volb'gen Rand; 
Sie hat dem Muth sich und der List ergeben 
Giraldo's, der nicht Zaudern kennt noch Bebeu. 

LXIV 

Durch Beja will Alfonso, das zerstorte, 
Irancoso suhnen, biser rachesatt ; 
Der Lebenslust und Ruhmesgierbethorte 
Zu wahren Beide nimmer Ruhe hat. 
)hr Widcrstand war schwach und doch empoire 
Nachdem sich schon ergeben hat die Stadt 
Das Heer er so, dass es im wuth'gen Toben 
Der sharfen Schwerter Schneide wili erprobcn. 



_!7_ 

GVII 

iamque acies latis, quos conspicit Ebora, campis 
Agmine densantur vario, bellumque minantur; 
Jam thorax, gladiusque, et lancea sole coruscat, 
Insignes phaleris hinnitibus aera pulsant 
Alipedes; mappa induitur tuba mania rubra, 
Ia clangore ciet resides in praelia sensus, 
ímpellens sonitu gravia arma, et concitat iras; 
Terribili percussa sono cava saxa resultant. 

Pero ya dei tropel de gente armada 
Los Eborenses campos van cuajados ; 
Brillan ai sol arnês, lanza y espada, 
Los caballos relinchan enjaezados ; 
Y la canora trompa enlistonadíi 
Los pechos, á la paz acostumbrados, 
Va incitando ai combate, con sus ecos, 
Que zumban de los valles por los huecos. 



Ma giá le squadre dé guerrieri arditi, 

Van ricoprendo gli Eborensi campi : 

Dé bardati corsieri odi i nitriti; 

Vedi deirarme incontro ai sole i lampi. 

Anco né petti usi alia pace e miti 

Fa che il desio delle battaglie avvampi 

La squillante nellaure acuta tromba, 

Che dai concavi intorno echi rimbomba. 

Dans les champs d'Evora, déja se réunissent 
Hommes d'armes á pied, et fougueux escadrons, 
Les mil feux du Soleil les armes réfléchissent, 
La trompe retentit par les vaux et les monts; 
Ccs terribles appels, annonces de la guerre, 
Font rentrer dans les rangs quelques rétardataires, 
Leurs coeurs se délectaient aux douceurs de la paix, 
Mais pour 1'honneur du nom ne reculant jamais. 

But now the squadrons battle had begun, 
The Eborean plains are covcred with display, 
Trappings, lance, sword, ali glitter in the sun, 
And the oaparisoned war-horses neigh. 
Hearts that the accustomed life of peace had run, 
Incited by the eftbannered trumpets' bray, 
Rush to their shining arms, 'midst the wild sound, 
And echoes from the concave hills rebound. 



i8 



Schon sind von der Schwadronen WaíTenglanze 
Rings die Gefilde Evoras bedeckt, 
Das Streitross schnaubt, der Harnisch funkelt, I^anzc 
Und Schwert in Sonnenlicht empor sich streckt; 
Und die Drommete hell zum Waffentanze, 
Die schmuckbebandene, die Herzen weckt 
Die an den Frieden sonst gewohnt nur waren, 
Aus ehVner Hohlung mit den Schlachifanfarei-y. 



■4>:®;f 



CANTO QUARTO 

III 

Sic placitum Superis, haud illa obscura fuerunt 
Indicia, eboream cum vox audita puellae 
Per urbem infantis, cui non permiserat aetas 
Ante suae clausae retinacula solvere linguae. 
Solvit at illa tamen (Superum v/s summa jubebat) 
Sustulit in cunis, erecto corpore, vocem, 
Elataque manu bis, Portugallia, dixit, 
Gaude Rege novo; vivat regnetque Joannes í 

— ¥.0''-^ — 

Que era orden suya, el ciélo con luz pura 
Por muy claras senales demostrólo, 
Guando en Évora, hablando una criatura 
Antes de tiempo, fuerte nominólo; 

Y alzó el cuerpo y la voz de su envoltura, 
Cual cosa revelada por Dios solo, 

Y dijo : Portugal (la mano alzando), 
Portugal por D. Juatx, Rey venerando. 

— f!®'-^ — 

E in ció Teccelsa volontá divina 

Ben si fé a chiari segni allor palese : 

Ché in Évora a nomarlo una bambina 

Innanzi tempo favellar s'intese, 

Come ad opra eseguir che il Ciei destina, 

Alzossi in culla, e con le man prótese : 

«Oh Portogallo, Portogallo viva 

Per Don Giovanni!« alto sclamó giuliva. 

Que ce fut un décret de la cour celeste, 
La preuve s'en montra par signes évidents, 
D'Evora le prodige, le rendit manifeste : 
Une tendre enfant, parlant avant le temps, 



19 



I.e designe et prédit de sn voix enfantine 
Comme le Roi qu'il faut, que le Ciei nous destine; 
Au berceau se souléve, et les bras agitant : 
• Portugal, s'écrie-t-elle, et pour Ic Roi Dom Juan.» 

That ihis, indeed, was Heaven's divine decree 
By marvels of the clearest was displayed 
In Ebora, where female infancy, 
Speaking before its time, the announcement made; 
E'en as when Heaven doth will a thing shall be, 
She raised her voice, while in her cradle laid, 
Stretched forth her hand, and cried : «In Portugal, 
In Portugal, Don John, new King of ali!» 

Dass HimmelsSchluss dies sei, ward bald entdeckt 

Durch Wunderzeichen ringsumher bekannt. 

Da in Évora Er ein Kind erwecket, 

Das, vor der Zeit schon redend, ihn genannt; 

Das aus der Wiege Hand und Korper strecket, 

Und: Portugal (ein Wunder, gottgesandt), 

Ja Portugal « — so ruft die Stimm' helltonig» — 

"Fur Dom João, fur unsern neuen KonigI» 



¥.Q'^ 



CANTO OITAVO 

XXI 

Admotam muro labentem cerne per hastam, 
Qui capita exportat vigilum praecisa duorurn, 
Struxit ubi insidias auso temerarius. astu 
Callidus ille capit, non Marte ac viribus, urbem 
Hic miles claro victor pro stemmate monstrat 
Bina manu capita, audacter quae frigida secum 
Asportans, recreat nostros. Mirabile factum ! 
Giraldo intrepidi nomen sua gesta dederunt. 

Mira aquel que desciende por la lanza, 
Con las cabezas dos de los vigias, 
La celada ocultando con que alcanza 
La ciudad, por sus artes y osadias; 
La cual toma por armas la semblanza 
Del vencedor que las cabezas frias 
Lleva en la mano : esfuerzo jamás hecho t 
De Giraldo sin miedo este es el pecho ! 



€) 



20 



Guarda chi astuto vien giú d'uno spalto, 
E due teschi di guardie in mano stringe. 
Ei con arte e valor prende d'assalto, 
E a darsi vinta una cittá costringe : 
Quindi in sua stemma un cavallier che in alto 
Leva due tronche teste, essa dipinge. 
Fatto non fatto pria. Quel forte petto 
Giraldo egli é, che Senja-tema é detto. 

Celui-ci sur les murs vient tuer les sentinelles, 
Leurs deux têtes tranchées il tient par les cheveux, 
II fait signal aux siens, surprend les Infidéles, 
Par la force et la ruse ils évacuent ces lieux. 
La ville libérée aprés cette conquête, 
En ses armes placa : Guerrier tenant deux têtes, 
Trouve-t-on dans'rhistoire un fait supérieur ! 
Ce vaillant, ce héros, c'est Giraldo sans peur. 

That other see, descending on his lance, 
Bearing the two heads of the watchmen slain; 
He hides in ambush, whence he doth advance, 
The lown bv daring and by snare to gain : 
This for its arms paints, with significance,^ 
The hero's portrait with the cold heads ta'en 
And borne in hand ; till then deed never done f 
Giraldo-the-Fearless is the valiant one. 

Schau den dort mit dem Speere niedersteigen. 
Er tragt der Wachter Haupt, die ergefallt, 
Vom Hinterhalt gewann mit listgem Schweigea 
Und Muth die Stadter, die er hielt umsteilt; 
Die nimmt ais Wappen, Ehr'ihm zu erzeigen, 
Ein Ritterbild, das Todtenkopfe halt, 
O unerhorte That, die so verwegen ! 
=:: Giraldo Furchtlos = hiess der tapfre Degen. 







GABRIEL PEREIRA 



3KSTUD0S 3KBOH3KNSKS 

Eslao publicados : 

1." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2.° Évora ro- 
mana, 1.'^ p. O templo romano. As inscripçóes lapidares. — 3.° 
A Casa pia. O edifício do collegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6." Conventos, 1.=" parte, Paraiso, Santa Clara e S. 
Bento. — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — q." 
Idem, 2.* parte. — io.° Brasão d'Evora. — ii." A egreja de San- 
to Antão. — 12.0 O archivo municipal. — 13." A restauração cm 
Évora, 1G40-1645. — 14." O archivo da Santa Casada Miseri- 
córdia d'Evora, 1." parte. — i5." Idem, 2.'' parte. — 16.° Idem, 
3." parte. --- 1 7." Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora. 
1.* parte. — 19.° Idem, 2." parte. — 20.0 Idem, 3.-^ parte. — 21." 
Idem, 4.^ parte. — 22." Os Festejos de Évora em 1729.^ — ^23." 
Évora nos Lusiadas. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 



DOCOMENIOS HISÍOflICOS fli CiDíDE OTÍOIM 

Estão publicados : 

1.» parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. ,loõo j." — 2." 
parte, fascículos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Evorn. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand. 



31 Ai:>TMLTr> A 33 AS 

A' venda em Évora env c»sa do editor .Abranches. 



DO MESMO AUCTOR 

C^ontos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropío, Aurélio 
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plínio e Mella. 

Livro 3." da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 




jH!lSTOP^IA— y^F^TE— ^P^HEOILOGIA 



PROCISSÕES EBORENSES 

AS PROCISSÕES NA ANTIGUIDADK. 

L'MA RUA EBORENSE EM FESTA. A PKt.MElKA PROCISSÃO HO SANTÍSSIMO. 

DE S. MAMEOE, EM 1564. MASCARAS PREMIADAS. 

TOUROS DE CAPAS K CORRIDAS DE PATOS. TRAGEDIA REPRESENTADA 

Á. PORTA DA IGREJA. OUTRA PROCISS.\0 E.M S. MAMEDE E.M l65G. 

O SACRO-PROFANO. CARROS, FIGURAS A CAVAI. LO. 

SYMBOI.IS.MO E AI.I.EGORIAS. UM.A. PROCISS.AO DOS JESUÍTAS. 

OS APPARATOS. AS TRADIÇÕES LOCAES NO CORTEJO. 

CO.MBATE Sl.MUI.ADO. JÓIAS, COCARES E CAR AMINHOI.AS. 

IDAS E HYMNOS. 



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Kvor<A 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUI.M JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAI. 

Rua Ancha n." 65 



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GABRIEL PEREIRA 




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JilSTOP^IA— y^í^TE— ^r^HEOLOGIA 



PROCISSÕES EBORENSES 



AS PHOfMSSOíCS NA ANTIGUIDADK. 

í.«A RUA EBOKtNSK KM V KS TA. A PRIMEIUA PROCISSÃO DO SANTÍSSIMO, 

DK S. MAMiiDE, KM l3t)4. MASCARAS PKKMIADAS. 

TOlHiOS DE CAPAS K COUKIDAS DK PATOS. TUAGEI:)IA REPRESENTADA 

A PORTA DA UiRKJA. OUTKA PROCISSÃO EM S. xMAMer)E EM lG36. 

O SACRO-PROFANO. CAKROS, f IGUKAS A CAVALLO. 

SYMlíOIISMO E AIJ.ECORIAS. UMA PROCISSÃO DOS JESUÍTAS. 

OS APPAUATOS. AS Ti<Al)lÇÕCS LOCAES NO CORTEJO. 

COMBATE Sl.MUI.AiíO. JOlAS, COCARES E CARAMI.NHOLAS. 

LOAS E HV.MNOS. 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQCl.M JOSÉ BAPTISTA, l.MPRESSOR bA CASA REAt, 

Rua Ancha n." 85 



1890 



ESTUDOS EBORENSES 



Procissões antigas 



Cma raa eborense em festa 



A procissão, a cerimonia religiosa celebrada por 
muitos devotos e sacerdotes. caminhando solemne- 
mente, e ao som de cânticos, tem origem muito 
antiga; passou dos povos orientaes ao hel!enico e 
ao romano; de religião para religião, do paganis- 
mo ao catholicismo. 

No Egvpto era famosa a festa de Isis, transpor- 
tando-se a imagem da deusa em carro triumphal. 

Fora das procissões ordinárias, annuaes. faziam 
também outras singulares por algum acontecimen- 
to notável, como a procissão de Ptolomeu Phila- 
delpho, em Alexandria, cortejo de pompa estron- 
dosa. 

As procissões gregas com as suas theovias eram 
encantadoras; cortejos solemnes formados pela íior 
das cidades, magnificas exposições do homem e 
da arte. Em Athenas á das panathcnéas concorria 
gente de toda a Grécia, para ver conduzir ao Par- 



thenon o novo pepliim da divindade protectora; no 
cortejo desfilavam os moços com suas armadu- 
ras, os velhos com os ramos de oliveira, e as don- 
zellas com açafates de flores e ofFertas. 

Era celebre também a procissão dos mysterios 
de Eleusis. 

No paganismo romano as procissões ordinárias, 
de epocha determinada, ligavam-se ás formas pri- 
mitivas do culto, e da civilisação d'aquelle povo; 
a principal era a dos arvaes. No plenilúnio de maio 
celebrava-se a de Ceres; e as /í/s/rjcõeí dos proprie- 
tários rústicos, na primavera também, eram corte- 
jos religiosos desfilando pela campina florida, atra- 
vessando as verdes searas. 

Em carros triumphaes nas grandes festas, em 
andores nas menores lá iam as imagens de Júpiter 
com o raio e a águia, de Minerva com a oliveira, 
Neptuno com o cavallo, ou Ceres com as espigas 
de trigo. 
'Para obter a chuva fazia-se em Roma uma 
procissão que se dirigia ao templo de Marte, fora 
da porta Capena, com diversas cerimonias, e tra- 
zia para um templo dentro da cidade a pedra Ma- 
nai. 

Os judeos antigos também formavam cortejos 
religiosos com pompas e cerimonias. 

Os christãos nos primeiros tempos da lucta e de 
martyrio não faziam cerimonias publicas, mas no 
tempo de triumpho e de expansão o antigo corte- 
jo reappareceu com esplendor crescente. 

A primeira procissão christã mencionada pare- 
ce ser do anno 362; e no final d'este século iv ha 
muitas noticias de cortejos religiosos, entoando cân- 
ticos, dirigindo-se ao templo onde havia pregação. 
Em seguida apparece em todo o mundo christão, 
e desenvolve-se o cortejo de modo que na idade 
media ha procissões extraordinárias em numero 



de devotos, no tempo, no caminho, e na extrava- 
gância das scenas. 

Desfila ante o espectador solemncmente, moro- 
samente, não só o viver normal de um povo civi- 
co, militar e ecclesiastico, mas a sua arte, a sua 
historia, os elementos tópicos do saber e da phan- 
tasia, da creação attenta, e do improviso, do es- 
pontâneo. 

Em Roma as procissões medievaes, ainda as do 
fins do sec. xv e dosec. xvi, são extraordinárias. A 
das reliquias de Santo André, em 1462, e outras 
parecidas, de triumpho ou penitencia, foram des- 
criptas minuciosamente, e estão registadas pelo óTl/o- 
roui Romano (Dizionaiio di erudizione storico-ec- 
clesiastica, verb. Processione). 

Nos — Documentos históricos da cidade d'Evo- 
ra=2.' parte, pag. iSg eseg. publiquei o regimen- 
to das procissões ordinárias da cidade, em tempo 
de D. João 11. 

•• Eram cortejos comprehcndendo a flor da cida- 
de, em festa e alegria, n'um movimento e surpre- 
za e ruido constante. Desfilavam os officios com 
suas bandeiras, pendões, symbolos, atabaques, fo- 
lias, chacotas, danças, mouriscas, gaiteiros e me- 
nistréis, invenções e castellos, e a serpe, e as ima- 
gens dos santos, os reis magos, e um imperador, o 
diabo, os appostolos, os evangelistas e os anjos; 
esta gente dançava, pulava, grita-\a, tocava instru- 
mentos, entoava hymnos, jogava flores; easpéllas 
das pescadeiras, das regateiras, das padeiras, cami- 
nhavam com os oíiicios da cidade, com os bestei- 
ros e homens d'armas levando bestas e lanças com 
flores e verduras, com os magistrados, com o cle- 
ro, a fidalguia e o rei. 



Uma rua eborense em festa, cm dia de céo lim- 
po de nuvens, azul, muito azul, c de um elfeito 



raro, de aspecto vibrante sem parceiro. As ruas 
são irregulares, os prédios succedem-se em linhas 
quebradas ou brandas curvas, sem monotonia, sem 
compridas fileiras de janellas, porque o solo é em 
sitios declivoso, e variados os pés direitos das con- 
struccões. 

Nas paredes brancas, muito brancas, a cal ebo- 
rense é especial, rasgam-se os grupos de janellas 
muitas com suas grades antigas de elegantes e di- 
versos desenhos. 

Nos dias festivos das arcas e gavetões próprios 
as donas de casa tiram as suas colchas, cuidado- 
samente guardadas de geração em geração, do- 
bradas em suas toalhas ou lençoes para que os 
bordados se não desfiem roçando-see a poeira não 
possa chegar-lhes. E pouco antes da procissão pas- 
sar desdobram-se as colchas nas janellas; colchas 
de seda, setim, damasco; amarello ouro, branco, ver- 
melho, azul ou verde; colchas do reino, da índia, da 
China, de Ormuz; comas suas flores, aves, grotes- 
cos, matizes,folhagenseentrelaçados;umas brilhan- 
tes como esmaltes, outras com os tons das finas pro- 
celanas,com suas franjas e grandes borlas, n'uma va- 
riedade e exuberância de cor que encan.taos olhos 
e dá realce singular aos grupos de damas. 



Foram dias cheios em Évora esses das solem- 
nes procissões que vamos relatar, e que abrangem 
largo tempo, do sec. xvi ao xviii. 

Imagine-se aquella pompa estrondosa, as figu- 
ras cobertas de jóias, vestindo cores vivas, borda- 
dos de prata e. ouro, desfilando vagarosamente pe- 
las ruas areiadas e espadanadas; as janellas orna- 
das de colchas e sanefas; as paredes enramadas; e 
damas e cavalheiros de vistosa indumentária. 

Logo pela manhan os bandos do rapazio a sal- 



tar nos montes de areia que os burriqueiros trou- 
xeram do Xarrama, e a saquear os feixes de espa- 
danas do Divor e do Degebe, para fazer maças de 
combate, tecendo as compridas folhas em novelo 
para formar cabeça deixando algumas soltas para 
a pega. Aquella garotada eborense que pula na tes- 
ta das musicas, e que de epocha eiii epocha faz ba- 
talhas de pedrada, Farrobo contra Cogulos, que 
já excitaram a admiração dos ofFiciaes de Dom 
João d'Austria. 

Pelas ruas, terreiros c praças desfila a torrente 
de vivas cores, cheia de brilhos; os pendões, as 
bandeiras, as figuras a cavallo, os carros e ando- 
res, as cruzes douradas, as confrarias de opas va- 
riadas, as danças, chacotas e folias, as charamellas, 
os grupos de anjos cantando e tocando, as com- 
munidades religiosas entoando os seus hymnos, 
tudo n'uraa chuva de flores, entre finas nuvemzi- 
nhas de incenso; um prodígio de cor e de luz; de 
ruidos, harmonias e aromas, de devoção c alegria 
vibrante. 

A primeira procissão do Santíssimo, de S. Mamede, em 1564 

Jhus T. No anno de mile quinhentos e sesen- 
ta e quatro no quarto dominguo depois do penthe- 
coste, dozoito dias do mes de junho nesta cidade 
dEvora e Igreia de são iMamede: sendo (entreli- 
nha — prior dioguo Tavares) cura delia aníonio Roiz 
natural da villa de viana, benefficiado dioguo miz. 
Iconimo dominguos ferreira e thesoureiro andre 
diaz. na confraria do Sanctissimo sacramento si- 
tuada na ditta Igreia sendo Juiz e escrivão balte- 
sar fraguoso, mordomos domingos frz pombr." e 
adão frz. çapateyro, se fez e ordenou a primeira 
procição da ditta confraria concedida pelo Reve- 
rendo snfíor Marcos fr."" e provisor d'este arcebis- 



8 



pado a instancia e petição dos dittos mordomos e 
freguezes da ditta Igreia. sahirão pella porta prin- 
cipal tomando a rua direita da mouraria acima do- 
brando a mão direita pella rua davís abaixo atee o ca- 
bo da Rua das fontes entrando por ella toda atee se 
recolherem a rua de são Mamede, tornarão a en- 
trar pella mesma porta principal, a qual se fez de- 
pois da preeguação que fez o doctor Jorge saarrão 
da companhia de Jesus. Levou nella osanctissimo 
sacramento o ditto cura. levavão o pallio seis cle- 
riguos com suas capas de borcado. outros muitos 
diante com suas sobrepelises e cinquoenta duas 
tochas ardendo e muita outra cera... (raspado 
um espaço que conteria uma ou duas palavras) 
quatro cruzes das freeguezias mui concerladas. di- 
ante do pallio a mão direita o ditto provisor Mar- 
cos frã (ferreira) da outra banda o visitador mestre 
Johão sardinha, e mestre andre de Resende, Detrás 
acompanhava muíta gente honrrada. ouve chara- 
melas e trombetas, as ruas todas paramentadas de ri- 
quas tapeçarias de Raaz, stofa, velludo c borcado. 
alem de serem todas spadanadas enramadas e em- 
bandeiradas todas as portas, beccos e janelas al- 
guas cheas de altares de riquas invenções e custos 
grandes, avendo em cada um novas cousas que 
ver e considerar, ouve muitas danças, folias, e 
invenções de mascaras as quaes quasi todas sahi- 
ram premiadas, huas com carneiros e patos que 
pêra isso avia e outras com dinheiro e ouve ao 
sabbado a bespora alguas invenções e touros por 
cordas, ao domingo a tarde ouve touros de capas 
no terreiro da porta davis, que deu martim affon- 
80 collaço. e patos que se correrão, a porta da Igreia 
ouve hua tragedia da historia da morte que deu 
Caim a seu irmão Abel. De maneyra que sendo a 
primeira prosição he tão brevemente ordenada foy 
dos freguezes com tanto alvoroço festeiada que foy 



a mães solene e sumptuosa que atee guora se fez ou- 
tra nesta cidade assi de apparato como de inven- 
ções e gente, fezsse disto aqui assento pêra que se 
soubesse o principio desta solemnidadefeita a glo- 
ria de nosso Ds. E seu praeciosissimo corpo, pêra 
que com seu favor, se augmentc c vaa cm cresci- 
mento a devoção de seus íieis frei^uezes doesta sua 
igreja, com a qual confundão os danados e heré- 
ticos ânimos pello qual mereção suasancta gloria. 
Amen. 

(O original pertence á confraria do Santíssimo 
da parochia de S. Mamede. Devo o conhecimen- 
to d'este notável documento ao mui digno padre 
Frederico Vaz Martins, actual prior da mesma fre- 
guezia.) 



Procissão de Encarnação na freguezia de S. Mamede 
em 23 de julho do 1656 

Foi uma festa esplendida; uma devoção particu- 
lar, muito especial, auxiliou n'este anno as confra- 
rias, sem olhar a despezas, e apresentou nas ruas 
eborenses um extraordinário cortejo. Publicou-se 
uma descri peão; — Extracto da procissam da Vir- 
gem Senhora N. da Encarnaçam sita na igreja pa- 
rochial de S. Mamede desta cidade de Évora aos 
'i} de julho de i656. Lisboa, oíticina Graesbeeckia- 
na, i656, 24 pag. in-4.° 

i^arece escripta a descripção por padre pregador, 
no estylo da épocha; começa: «Ao throno da Ma- 
gestade suprema, á arvore da vida, á vara de Jes- 
sé, á flor do melhor fructo, Aiaria Santíssima, se 
dedica a representação seguinte do mysterio da 
Encarnação do Divino Verbo, admirável ao conhe- 
cimento, senhor da vontade, assombro doentendi- 
2 



IO 



mento, pasmo dos sentidos, remédio de nossos dam- 
nos, figurado nas sombras da lei escripta, executa- 
do nas luzes da lei da Graça, cujos applausos ce- 
lebramos para alegria dos servos da Senhora, au- 
gmento da devoção christan, louvor de Maria pu- 
rissima, e gloria a Deus encarnado. E' esta a sum- 
ma ; a procissão esta.» 

Uma dança começa o devoto cortejo. Não ti- 
nham medo estes antigos de combinar o agradável 
o divertido, o anedoctico com o religioso. 

Nós hoje estamos muito mais sérios, nem que- 
remos rir, só aspiramos a muito correctos. 

Apoz a dança ia o pendão e a irmandade de N. 
S. da Encarnação, e logo outra dança com musi- 
ca. Depois a QÃdmiração ! 

Provavelmente um rapaz gentil. 

A Admiração! ia a cavallo, lindamente vestida ; 
sobre a cabeça uma caraminhola rica em cujos ar- 
cos vão tremendo algumas pérolas, no peito um 
luzido peito de pedras finas; na mão esquerda er- 
guida a imagem de Deus encarnado, ea direita le- 
vantada e aberta ; na roupa larga, esta lettra — Vo- 
cabitur nomen ejus admirabilis. 

Atraz da Admiração! apparecem o Temor to Si- 
lencio^ ambos a cavallo. 

O Temor veste de amarello; na cabeça uma ca- 
raminhola; no peito cadeias miúdas de ouro for- 
mando sutis lavores; na mão esquerda um coração 
preso em duas cadeias, a direita sobre o peito, 
aberta. 

O Silencio vestindo de negro; na esquerda a Sag. 
Escritura aberta, a direita poe o dedo na bocca. 

Deixo de mencionar as lettras e algumas descri- 
ções escusadas, e massadoras por mui repetidas. 

Outra dança. 

A Vontade; vae uma primavera nas cores; pei- 
to e caraminhola mui ricos ; os olhos vendados, 



1 1 



porque a razão lhe guia os passos; na esquerda 
umas chaves ; da mão direita desce a prender-Ihe o 
pé uma cadeia. 

O Entendimento, roupa larga, na mão esquerda 
uma luz — Lucerna pedibus méis verbum tuum — ; 
da direita uma cadeia prende-lhc o pé. 

Agora os sentidos. 

O Uev, na mão um espelho. 

O Ouvir, na mão um laúde. 

O z4palpar^ leva um pássaro, symbolo vulgar 
d'este sentido. 

Mais danças, e o pendão e a irmandade de N. 
Senhora da Paz. 

A Sagrada Escriptura^ a cavallo, vestida de ver- 
de, no peito muitos jacinthos, ate aos pés a túnica 
de seda branca; jóias; na esquerda a tiara da lei 
antiga, na direita a Pontifical — Haec omnia liber 
vitee et testamentum altissimi — . 

Dança de musica. 

Adam vestido de pelles, na mão o pomo vedado. 

Figura II. — A Torre de ^cd^e!; de 3o palmos 
de altura, quarenta em quadro. Provavelmente ia 
cm carro. Cc»m seus versos que não transcrevo, 
pois lhes acho nenhum meritci. 

Fig. 12. O oTifundo, machina esphérica de 3o 
palmos de circumferencia sobre um pedestal de 12 
palmos. Com a leltra — Mundus totus in maligno 
positus est — . 

E estes dois versos 

Foi para nós criado 
Um fiat lhe deu luz, sombra um oeccaJo. 

O Captiveiro, vestido de negro. 

O Apetite, a cavallo, armas brancas, chapeo de 
plumas, na mão a espada nua. 

A Cegueira, vestida de negro, na mão um véo 
negro. 



12 



A "Vaidade^ a cavallo, com muitas jóias, onde as 
pérolas eram tantas^ e tantos os diamantes que ou a 
Aurora chorou n'ella^ ou só nella teceu o Sol resplan- 
dores. 

Na mão direita uma flor do campo — Omnis glo- 
ria ejus tanquam flos agri. 

A Ambição, vestida ricamente, vae com azas 
porque de andar se não contenta ; na mão uma qs- 
caâa—Supeibia eorum^ qiii teoderunt^ ascenditsem- 
per. 

A Fraque^a^ vestida de amarelío, cabello solto, 
na mão um vidro. 

A Injustiça^ num ginete, veste de vermelho, na 
direita a espada nua, na esquerda uma balança de- 
sigual. 

Fig. 20, — A Fortuna. Um carro de 25 palmos 
de comprido e 8 de largo. Tiram por elledois pa- 
vões de notável artificio; a figura sobre uma roda 
cercada de azas ; na cabeça uma coroa, as mãos 
uma aberta, outra fechada. Em quatro quadros 
iim longo romance : 

Aquella roda que sobe 
E' mesmo a roda que dece, 
Nunca para o bem segura, 
Para o mal segura sempre. 
Sempre infinitos abate, 
Se apenas um engrandece, 
Que sem alheios pezares 
Não sabe dar interesses. 
Etc, etc. 

Entre duas danças de musica se segue o pêndulo 
e irmandade da Virgem dos Prazeres, 

Fig. 21. — Abel., innoce.ntc e pastor, na mão um 
cajado. 

Fig. 22 — . O Sacrifício de Abraham em um andor. 

Isaac, de velho, cabelleira branca, 

T^ebecca., na mão. uma arvore cujo tronco se di- 
vide em duas partes. 



i3 

£5t7;/, de caçador, na mão o arco, aljava aohom- 

bro. 

Jacob, vestido á trágica. 

Fig. 27, andor, a lucta de Jacob com o Anjo. 

28. %achel, traje pastoril. 

Joseph^ vestido ao trágico. 

Entre duas danças segue a Cruz e Irmandade 
do Santissimo Sacramento da freguezia. 

Fig. 3o. Num andor a sarça de Moysés. 

3 1 . Pharaoh sobre uma carroça militar, grande, 
ornada de carrancas, na popa {sic) numa soberba 
cadeira o Faraó coroado, vestido de armas bran- 
cas. A carroça a dois cavallos, aos lados doze ga- 
lhardos soldados. 

Josué^ a cavallo, de lança e escudo. 

Sansão, armado, cabelleira, aos hombros as por- 
tas da cidade. 

Riith^ vestida de campo, na mão umas espigas. 

Dança de musica. 

Nas duas visões seguintes se representa a gloria 
da natureza humana unida á divina neste mys- 

terio. 

Fig. 35. Um throiio. Muito alto, terminando em 
luzida charola, ventanada por quatro partes, com 
volantes, dentro o Salvador; ao pé Isaias de joelhos, 
aos lados dois Seraphms. Nos quadros do throno 
quatro sonetos. 

Nestes cortejos religiosos, como se vc. havia a 
par do ensinamento, por assim dizer da vulgarisa- 
ção histórica e moral, a manifestação artislica nas 
suas diíTcrentes formas, a musica, a Jatiça, o can- 
to, a poesia, a pintura, a esculptura, os formosos 
tecidos, as jóias, a indimientaria luxuosa. 

Fig. 36. O Carro de F^vchicl, levando pintadas 
de olhos duas encontradas rodas, que a um só mo- 
vimento olTerecem diíFcrentc curso; junto d'ellas 
um leão, um anjo, um boi, uma águia, símbolos 



H 

dos apóstolos; no mais alto uma nuvem, e uma ca- 
deira, ao lado Ezechiel. 

Outra dança. 

Fig. 37. A estatua de Nabiichodonosor^ agiganta- 
da, aprazível objecto dos curiosos, quando seja es- 
carmento dos soberbos, a cabeça de ouro, braços 
e peito de prata, até joelhos de cobre, até aos pés 
de ferro, e os pés de barro. 

Vem agora o profeta Daniel com um livro na 
mão. 

O profeta Jonas^ saindo da boca de uma ba- 
leia. 

A Esposa dos Cantares^ cabello solto, grilhão de 
flores, na mão um lirio : — Vox dilecti mei, ecce il- 
le venit saliens montibus — . 

Dança de musica. 

Fig. 41 — A Victovia. a cavallo, coroada, na di- 
reita uma palma, na esquerda uma bandeira. 

A Liberdade^ na cabeça brincada caraminhola, 
com martinete. Na mão um pássaro. 

O Inferno^ dragão medonho, afogueado, lançan- 
do pela bocca infinitos espirites. 

Dança de diabretes. 

O Limbo^ uma gruta de tafetá escuro com figuri- 
nhas dentro. 

A Vida^ com a Phenis. 

A Fortaleza., um leão bordado no peito, na mão 
uma columna. 

A Rique:{a d'alma^ com um cofre e neste cofre 
eram as jóias, a cruz, a coroa de espinhos, e outras 
insignias da paixão. 

A Gvaça^ vestida de branco, solto o cabello, com 
flores, na mão um coração voando ; ella também 
com azas. 

A Gloria^ coroas nas mãos. 

Fig. 5o — A arrore de Jessê num carro; a ascen- 
dência da Senhora; em cima o Espirito Santo. O 



i5 

carro tirado por um lobo e um cordeiro; simboli- 
sando a paz: — Habitabit lúpus cum agno — . 

Neste carro havia ornamentação profusa ; viam- 
se os títulos da Senhora representados. 

A Rosa; Quasi plantaiio rosas. 

Entre nuvens uma Janella: Janua coeli. Uma es- 
trella: Stella ruiilans. 

Um espelho: Speculum justitia^. 

O Palácio de ouro: Domus áurea. 

A Tomba: Cokimba mea. 

O Plátano: Quasi Platanus. 

Um Cedro: Sicut Cedrus. 

Seis anjos cantando versos. 

A communidade dos padres de S. Francisco, a 
capella da Sé; depois o Palio com a Virgem Se- 
nhora da Encarnação. 



K Relação das festas do coUegiodo Espirito San- 
to da Cidade de Évora na bcaíicação do venerá- 
vel P. João Francisco Regis da Companhia de 
J H S (Jesus). Évora, Com todas as licenças ne- 
cessárias, na officina da Universidade. Anno de 
M.DCCXVII» in 4." 

As festas cclebraram-se em outubro de 1716. 
Primeiramente descreve a ornamentação da egreja. 

IVanscreve depois o sermão pregado no primei- 
ro dia do solemne triduo, i i de outubro, pelo M. 
R. P. Fr. Domingos da Veiga, religioso Agostinho 
Prior do Convento da Graça, Fr. Manoel deChris- 
lo, franciscano, pregou no segundo dia. 

O M. R. P. Pedro do Sacramento, cónego se- 
cular de Congregação de S. João Evangelista, orou 
no dia i3. 

Segue a relação das festas, das luminárias, da 
procissão que levava nove andores e dez figuras a 
cavallo. 



Í6 

Ultimamente os religiosos da Companhia, e os 
de S. Francisco, S. Agostinho, e de S. João Evan- 
gelista precediam o Santíssimo que era levado pe- 
lo reitor dos Lóios, P, António da Purificação. 



Vamos assistir agora a uma procissão solemnis- 
sima da primeira metade do sec. xviii, celebrada 
pelos Jesuitas. Está descripta minuciosamente na 
«Relaçam do Apparato triumfal, e procissão so- 
lemne, com que os P. P. da Companhia de Jesus 
do Collegio de Évora applaudiram publicamente 
aos gloriosos SS. Luiz Gonzaga, e Stanislao Kost- 
ka da mesma Companhia novamente canonizados 
pelo Sanctissimo Padre Benedicto XIII, agora pre- 
sidente na Igreja de Deos. Évora, ofiicina da Uni- 
versidade, 1728. >) E' folheto de 61 pag. in-4.* 

O oitavario acabou no Collegio cm quinta feira, 
1 3 de novembro. 

O domingo 16 amanheceu lindo; na cidade ha- 
via extraordinária concorrência; estavam famílias 
da maior parte da província do Alemtejo; os ve- 
lhos não se lembravam de ver tanta gente na ci- 
dade. 

Os Senhores da Camará mandaram arranjar e 
alimpar todas as ruas por onde havia de passar a 
procissão, e ordenaram aos moradores que armas- 
sem as frontarias ; não era necessária a ordem por- 
que todos espontaneamente se esmeraram. Nos 
sítios onde havia grandes paredes vestiram-nas de 
verduras. 

As figuras foram repartidas aos moradores de- 
votos, que se esmeraram na riqueza e luzimento 
dos vestuários e ornamentações. 

No Collegio trabalhava-se com o mesmo calor 
na construcção dos carros triumphaes ; perderam 
a noite de sábado para domingo, e até ás 9 da ma- 



_12_ 

nban estiveram a compor e ornar figuras, mais de 
setenta, não entrando n'este numero as que se ves- 
tiram fóra. Ás IO da manhã já estavam no Colle- 
gio, de cruz arvorada, as communidades religio- 
sas. 

Gastou-se até quasi meio dia a ordenar aquella 
variada multidão, e pouco depois, pela porta late- 
ral da egreja do Collegio (agora tapada) começou 
a sair, para o terreiro de Nossa Senhora da Puri- 
íicação (Seminário). 

O itinerário foi singular e muito extenso. De 
Santa Mónica subiram ao Paço Archiepiscopal e 
seguiram pda rua da Sellaria, travessa de Burgos, 
Praça do peixe (hoje de Sertório), rua de Aviz, até 
á porta da cidade, rua do Muro, porta da Lagoa, 
Rua Ancha, desceram ao convento de Santa Ca- 
tharina, rua de Alconchel, ao convento de Santa 
Clara, por uma travessa á rua dos Mercadores, su- 
biram por esta á Praça,, rua do Paço, S. Vicente, 
rua dos Infantes, porta de Moura, ao largo do Col- 
legio. Eram Ave-Marias. 

Em tão larga distancia não houve accidente al- 
gum que causasse o minimo dissabor. 

A tarde esteve de uma serenidade notável, as 
tochas nem se apagaram. 

Só figuras de cavallo eram tr/nta e nove. 

A procissão dividia-se em quatro partes ou ap- 
paratos, o ultimo todo era sagrado, os mais sacro- 
profanos. 

Era um cortejo disposto como um tratado, com 
seus capitulos e paragraphos. 

O primeiro apparato dedicado aos dois santos. 

Na frente três cavalleiros, dois tocando clarins e 
um atabales; tinham sido pedidos á praça de El- 
vas; iam com uma escolta ou esquadra de cinco 
soldados com seu cabo, todos bem montados; far- 
da branca e canhão encarnado. Como a concor- 



i8 



rencia era muita, assim como a devoção, para ter 
expedito o caminho era precisa a activa deliberação 
da severidade militar. Hoje chamamos a isto o pei- 
xe -espada. 

Primeira figura o Applauso^ em cavallo murzelo^ 
charel e bolças de veludo verde bordado de prata, 
crina semeada de fitas em campo de ouro, pala- 
freneiro á rédea com boa libré. A figura levava 
botinas brancas, bordadas a prata e ouro, e com 
pedras; caraminhola, cocar de plumas encarnadas, 
brancas e azues. 

Um Cupido no peito ; capillar a descer dos hom- 
bros de brocado vermelho, as roupas de tissu (ou 
teçu) verde e tela encarnada e branca com ramos 
de ouro, com franjões de ouro fino. 

Estandarte de seda vermelha bordado, ramos 
estofados, e seus dizeres. 

A Igreja Militante., em cavallo castanho. Men- 
cionarei somente as variantes nos objectos, teci- 
dos, etc. 

Esta levava também borzeguins ; no escudo as 
chaves de S. Pedro e a tiara. 

O Merecimento e a Remuneração., em cavallos 
com topes de fitaria, e plumas na crina. Ao pes- 
coço da figura uma cruz de pingentes de perdas. 

A Companhia de Jesus., em cavallo pavonadocom 
matiz de cores, com uma tremula ; dois palafrenei- 
ros vestidos de tela branca á mourisca ; era guiado 
por cordões de ouro. Na cabeça cocar de plumas 
brancas. 

Com muita pompa e riqueza o ^iCollegioda Com- 
panhia de Jesus d' esta cidade^)., em cavallo castanho, 
jaezes de velludo carmezim bordados a prata. 

A figura levava capillar de tissu recamado de 
prata e ouro; vestia de amarello e branco, fran- 
jões de ouro com bambolins; borzeguins; capacete 
com resplandor de flores; sobre este uma pombi- 



_i_9_ 

nha branca, símbolo do Espirito Santo, orago do 
CoIIegio. No braço um escudo com as armas do 
Cardeal Rei D. Henri\]uc, fundador. 

A Cidade de Evora^ em cavallo castanho, de ai- 
rosa louçania ; a figura levava coroa de louro na 
cabeça, guarnecida de pérolas e diamantes. 

No pescoço e peito um chuveiro de pedras pre- 
ciosas; nos braços grandes meadas de aljôfar; rou- 
pas alcachofradas de ouro com bambolins; nos re- 
mates seus broches. Na mão esquerda um molho 
de espigas de trigo e um cacho de uvas fingido; 
no braço esquerdo o escudo com armas; e a di- 
visa: /// bouis justorwn exidtabit civitas. 

A Cidade de Évora era seguida de duas arrogan- 
tes figuras ; Giraldo e Sertório. 

Montavam briosos ginetes. Nas cabeças dos il- 
lustres guerreiros viam-se capacetes com seus co- 
cares de plumas. Sobre as couraças bandas ricas 
de seda encarnada e verde; os capillares e mais 
roupas de tela vermelha c ouro. Um levava faim 
e outro alfanje! Aos dois famosos capitães seguiani 
24 soldados com seu tambor, vestidos á mourisca! 
de turbantes encarnados passemanados de ouro. 
Levavam escudos. Nos sítios mais largos faziam 
exercício militar, representando uma batalha e uma 
victoria. Fingiam um castello, formavam assalto, 
e atiravam alcanzias uns aos outros; depois da vi- 
ctoria lançavam flores, e formavam alas, conti- 
nuando a procissão. 

Eis agora a Universidade de Ei'ora^ que vinha 
prestar homenagem ao novo santo S. Luiz Gonza- 
ga, agora protector dos estudos da Companhia. 
Também a cavallo, com dois palefreneiros vesti- 
dos á mourisca. Notável caraminhola com muitas 
jóias, flores tremulas, e plumagem branca, verde, 
e côr de ouro, com uma águia ; roupas de prima- 
vera Giialde com bordaduras. Por escudo um pan- 



20 



no riquíssimo da Universidade, obra sinica, com 
suas aves, ramos, eic, em campo azul, com as qui- 
nas e o chapéo cardinalício, com a leltra — Prote- 
ctor factiis es ?nihi. 

A Theologia^ de tela branca e ló com florões de 
ouro. 

A Filosofia, de estofos azUes e ouro. 

A Mathernatica, com muitas jóias, aljôfares, tre- 
mulas; vestia de azul e branco. 

A Rhetorica^ de encarnado e branco. 

A Humanidade^ vermelho e verde. 

A Grammatica^ branco e verde. 

Levavam salvas de prata com livros. 

Carro triumphante dedicado pela Universidade 
eborense á Virgem N. S. da Annunciada, e ao novo 
santo protector. A Casa da Sabedoria^ Sedes sapien- 
tiae. A imagem da Senhora dando um livro a S. 
Luiz Gonzaga. Um coro de meninos músicos, ves- 
tidos á trágica, representando o Estudo, a Diligen- 
cia^ a Curiosidade e a Applicação. Atraz do carro 
ia presa a Ignorância^ de trajo escuro, e cocar de 
plumas sobre fumos pendentes. 

Apparato 2.° dedicado á innocencia de S. Esta- 
nisláo Koslka. 

Vamos abreviar o mais possível que a procissão 
é muito comprida. 

Abel^ que foi a primeira victima innocente, com 
o estandarte branco montando um cavallo branco 
também. 

A Polónia^ pátria do santo. 

A Constância ; o I)espre{o do mundo; apoz este 
o Mundo e o Diabo^ vestidos á ridícula. Satanai ia 
de olandilha preta, com lavaredas pintadas e feia 
mascara; o Mundo ia de meias encarnadas, saiote 
de chita, peito de papel com cartas de jogar. 

A Rique^a^ a Estimação; a primeira com a bolsa. 

A Cidade de %pnia; de caraminhola com sete 



21 



torreões ; e estandarte de ló verde com os meninos 
Rómulo e Remo. 

A Q^fodestiú^ a Hi uni Ida de com o cipreste; o Si- 
lencio^ com um relógio « Tempiis tacendi^ tempiis lo- 
qiiendi» . 

A ^obre{a; e logo o segundo carro triunfante, 
de peregrina idéa, não só por ser de artifece es- 
trangeiro, mas também pela notável fabrica; a ima- 
gem do Santo, a Innocencia, coro de anjos com 
instrumentos executando sonatas. 

Apparato 3." dedicado á pureza de S. Luiz Gon- 
zaga. 

O casto Joseph^ vice-rei do Egypto. 

A Itália^ onde viveu o Santo, a Lombardia^ sua 
pátria; o marquezado de Castilhone^ seu berço; a 
Nobreia. 

oMarte, porque o santo não quiz seguir a vida 
militar. O Deus da guerra ia com seu alfanje. 

O Desengano^ a Providencia Divina, o Ticino^ 
onde o santo estivera em perigo ; Vulcano^ deus 
do fogo, porque S. Luiz Gonzaga também um dia 
estivera em risco de morrer queimado. 

A Inspiração divina. O cavallo d'esta figura le- 
vava jaezes bordados de prata em campo berne; 
roupas de primavera branca teçuada com florões 
de ouro, e de primavera azul celeste. 

A Fortaleia, com o faim erguido. 

O Collegio romano. 

A Oração^ a Penitencia., tendo por emblema o 
pelicano «5e ipsiim percutit». 

A Caridade., em cavallo murzcllo; a figura ves- 
tia roupas de Ihamas de prata, e de tabis; capillar 
de tela abrazada. Coroa imperial de flores de es- 
pumas com persis de prata e ouro. 
- Na mão direita um coração, Cor nostrum ardens 

> 7 

erat; e no escudo o fogo., Fovet proximum. 



22 



A Obediência; Nescit habere moras. A Contem- 
plação^ Caelo immobilis haeret. 

Apparece agora o terceiro carro do triumpho, 
com a imagem de S. Luiz Gonzaga ; rodeado de 
anjos tocando instrumentos. 

O quarto apparato : a confraria dos estudantes, 
as communidades religiosas .com suas cruzes ar- 
voradas. 

No meio deste cortejo lo andores ornados pelos 
mosteiros das religiosas. Levavam a imagem de 
S. Catharina, S. Ignacio de Loyola, de S. Diogo 
Quizay, mártir do Japão, S. João de Goto, S. Pau- 
lo Miqui, S. João Francisco Regis. S. Francisco 
de Borja, S. Francií>co Xavier^ S. Estanisláo Kostka, 
S. Luiz Gonzaga. Tudo isto enlre muitos anjos, 
muitas flores e aromas. 

Em duas compridas alas 42 religiosos dos Lóios 
e da Companhia com capas ricas de Asperges, 
de tela branca. Sob o Palio levava o Santo Xenho 
o R. P. M. Gregório do Espirito Santo, cónego de 
S. João Evangelista, precedido de 6 anjos com 
thuribulos e na vetas de prata. . 



GABRIEL PEREIRA 



3GSTUD0S EBOHKKSKS 

Esiao publicados : 

i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2.° Évora ro- 
mana, I.* p. O templo romano. As inscripcóes lapidares. — 3." 
A Casa pia. O editicio do collegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Faraiso, Santa Clara e S. 
Bento. — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — 9." 
Idem, 2.» parte. — io.° Brasão d'Evora. — 1 1."^ A egreja de San- 
to Antão.— 12.° O archivo municipal. — 13.° A restauração em 
Évora, 1640-1Ó45. — 14." O archivo da Santa Casada Miseri- 
córdia d'tvora, i." parte. — i5." Idem, 2.^ parte. — 16.° Idem, 
3." parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora. 
1." parte. — iq." Idem, 2.» parte. — 20." Idem, 3.''' parte. — 21.° 
Idem, 4.'* parte. — 22." Os Festejos de Évora em 172Q. — 23." 
Évora nos Lusíadas. — 24.° Procissões eborenses. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand— Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 



OOCUMENTBS HISíORICOS D* CIDíDE DTíOflí 

Estão publicados ; 
I.» parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e Xlll. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João 1." — 2.^ 
parte, fascículos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Évora. 

A' verída em Lisboa na livraria Bertrand. 



31 AT>p^xJO^\ i> jvííí 

A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 

DO MESMO AUCTOR 

Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor,^Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella. 

Livro 3." da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 



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K^ L 



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ENSES 



^ 



JilSTOPylA— y\.F^TE-^r^CHEOLOGIA 



EXPOSIÇÕES OE ARTE OHmENTilL 



LONDRES, l88l. LISBOA, 1882. ÉVORA, l889. NOTAS ESPECIAES 

SOBRE ALGUMAS PRECIOSIDADES EBORENSES. 

AS JOlAS DA SÉ. O TKIPTVCO DE LIMOGES E O QUADRO BYSANTINO DA 

BIBLIOTHECA. AS COLLECÇÕES PARTICULARES, ETC. 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAL 

Rua Ancha n.** 85 



1890 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSES 



V 



j^^ISTOF^IA— ^F^E-^í^ CHEOLOGIA 



EXPOSPESOEARTEÍlfiNllIimL 



LONDRES, 1881. LISBOA, 1882. ÉVORA, l889. NOTAS ESPECIAES 

SOBRE ALGUMAS PRl&CIOSIDADES EBORENSES. 

AS JOlAS DA SÉ. O TRIPTYCO DE LLMOGES E O QUADRO BYSANTINO DA 

BIBLIOTHECA. AS COLLECÇOES PARTICULARES, ETC. 



EVORA 

MINERVA EBORENSE 

S* JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA KCM. 

Rua Ancha n." 85 



1890 



■?-^ 



iC 



ESTUDOS EBORENSES 



F"pes!C^5S de arte ornamenía! 



Em 1881 o South Kensiugton Musciim^ de Lon- 
dres, celebrou nas suas galerias uma exposição 
de arte ornamental portugueza e hesprnhola. Ás 
coUecções pertencentes a esse admirável estabek- 
cimento de educação artística e industrial reuni- 
ra m-se alguns centos de objectos de collecçóes 
particulares inglezas e francezas. Era muito; mas 
logo v'';am que a exposição ficaria incompleta pela 
falta de algumas espécies existentes em Portugal 
e Hespanha. Temos sido muito explorados; a in- 
cúria e a ignorância tem-nos devastado, mas fe- 
lizmente ainda nos restam muitas jóias e primo- 
res. 

Organisou-se uma commissão official que pediu 
o concurso dos governos da peninsula, e estes to- 
maram a peito a boa representação no SoutJi Kcn- 
sington. 



4 

Traballiou-se á ultima hora mas o resultado for 
maravilhoso; dos thesouros officiaes, das calhe- 
draes, dos conventos de freiras, surgiram maravi- 
lhas de ourivesaria, de tecidos de indumentária^ 
de esculptura, de marcenaria : e logo se projectou^ 
realisar uma exposição em Lisboa, colhendo tam- 
bém objectos em casas particulares, o que se rea- 
lisou em 1882, no palácio das Janeílas Verdes, em 
Lisboa, hoje Museu Nacional de Bellas Artes. 

Essa exposição, apczar de muitas contrarieda- 
des, marcou cpocha em Portugal; teve influencia 
salutar. Foi a origem de outras exposições; de al- 
guns trabalhos de valor; animou, instruiu, sobre- 
tudo revelou ao publico a existência de grande nu- 
mero de preciosidades. 

Relacionado com alguns dos cavaíbeiro-s que for- 
mavam Cl commissão portugueza tive occasião de 
os coadjuvar especialmente na colheita de objectos 
cm Évora, que ficou bem representada em Lon- 
dres, melhor em Lisboa : e como sobre certos ob- 
jectos d^arte fiz então estudo detido, conseguindo^ 
agrupar elementos pouco sabidos, julgo ser utii 
publicar esses resultados ri nsXts Estudos Eborenses. 

Seguirei exactamente a ordem das relações que 
então elaborei, juntando as minhas notas. 

Da e^iposição do Sotiih Kensington publicou-se 
o c< Catalogue of the special loan exhibition of Spa- 
íiish and Por tu gttese ornamental art.> Da reaíisada 
no palácio das Janeílas Verdes lemos o Catalogo 
illustrado da esposição retrospectiva da arfe ornamen- 
tal por tu giieia e hespanhola. celebrada em Lisboa em 

Dois volumes, um de texto, outro de estampas, 
elaborados um tanto precipitadamente, contendo 
todavia muitos elen^^entos preciosos para a historia 
da arte em Portugal. 

Na exposição figuraram objectos dos primeiros 



5 



tempos históricos até fim do século passado. Algu- 
mas espécies estavam bem representadas, mesmo 
opulentamente; outras apenas indicadas. Via-se 
claramente que mais algum trabalho e methodo 
produziriam uma exposição superior, de maior en- 
sinamento e mais fecunda. Vejamos a parte ebo- 
rense na exposição londrina. 

Exposição de arte ornamental hespanhola e portngneza 
no museu Kensington de Londres 

Relação dos objectos pertencentes aos conven- 
tos de religiosas d'Evora entregues por ordem su- 
perior (Portarias do ex.""" ministro das justiças de 
12 e 19 d'abril de 1 88 1, referindo-se á portaria do 
ministério d'obras publicas de 5, publicada no Diá- 
rio do Governo de 7 do mesmo mez) para figura- 
rem na exposição de arte ornamental de origem 
hespanhola e portugueza no museu Kensington, 
de Londres, ao ex."" sr. Augusto Carlos Teixeira 
de Aragão, vogal da respectiva commissão e seu 
delegado. 

Oo3n."ve3:ito <5lo IF*sira,izo 

I Cruz processional de prata dourada e arren- 
dada. Altura o'",86. Entre os extremos dos braços 
o"',485. Base da cruz 0^,34 d'altura. Imagem de 
prata mas encarnada. Nimbo redondo com a cruz. 
E' uma cruz de braços eguaes terminados em flo- 
res de liz. Pouco deteriorada. A base em perfeito 
gothico florido. Fins do século XV. Na base cor- 
pos salientes, com pequenas bases e baldaquins; 
seis estatuetas de bom lavor, N. Senhora, S. Pe- 
dro, etc. Volutas apoiavam as bases dos corpos 
salientes, só restam duas inteiras, as outras que- 
bradas. No verso, ao centro da cruz, um quadro 
com a Senhora e o Menino. Alguns ornatos nas 



chapas, folhagens em estylo da pruiv^ira renas- 
cenca. ■ -'-' • 

> 

2 Cnstodia de prata dourada co.n algumas pe- 
dras ordinárias; altura o"\83. Na base tem a ins- 
eri peão — Esta custodia mandou fa{er soror M.^ de 
S. Paulo e sva inu.^ a qualfii de custo dpientos mil 
réis. Sobre a base, aos lados, dois anjos orando; 
na haste, entre a base e o corpo principal um cor- 
po d'architectura com seis pequenas columnas que 
molduram nichos còtvi-figuras, S. Joáò Baptista, e 
outros santos. No corpo principal grandes raios 
terminando alternadamente em rosetas com pe- 
dras imitando rubis (faltam duas). Em cima- õ ^Sal- 
vador abençoando. Sob as pequenas columnas 
existem os buracos para suspensões, mas só reS^ta 
um pingente, qãe é uma pequena esphera e uma 
pyramide de cristal. Aos lados do corpo central, 
entre os raios, duas flores de liz. 

3 Lâmpada de prata: pertence á capella da Se- 
nhora do Rosário, na enfermaria. Altura o"', 6. Dois 
pratos lavrados (pequenos relevos batidos) ligados 
por braços singelos, em curvas simples e elegan- 
tes; quatro correntes sustentamum -circulo para o 
vidro: termina inferiormente por um pequeno pra- 
to e uma esphera do mesmo lavor. No prato su- 
perior o. dizer — De Nossa Snra do Rosário. — Tu- 
do de prata. 

4 Dois casíiçaes de madeira preta torneada com 
ornatos de melai amarello. Altura o"\58. 

Oon-^rarLto ISTo-vo (S. José e S. T'l':Leraz;a,) 

1 Tapete de lã, a cores, em fundo verde, attri- 
buido á industria dWrraiolíos. 

2 Reposteiro pintado imitando pannos de raz. 
Orlas de fructos e folhagens; figuras de guerrei- 
ros. 



Con-^ento ca.e S. Ola-ra, 

T Porta-coeli de prata, do sacrário. Folha de 
prata em relevos fortes, e alguns abertos deixando 
ver um forro de velludo carmezim. o'",63Xo"\38. 
Folhas, flores, espigas e cachos, volutas. O cordei- 
ro imperfeito. 

2 Resplandor de prata esmaltado e com pedras, 
do Salvador do mundo (capella da quadra). Es- 
maltes em azul e verde. Raios direitos e ondeados 
alternados terminando em rosetas, de que faltam 
14. Falta também uma pedra. As pedras ordiná- 
rias. 

3 Terrina de faiança, redonda. Tem as letras 
D. V. R. 0^,3 1 de diâmetro. Antiga louça portu- 
gueza imitando índia. 

4 Perfumador de faiança verde; antiga cerâmi- 
ca portugueza. 

5 Véu de hombros; tecido em seda, ramagens 
a branco sobre fundo encarnado. 

6 Manto de seda lavrada a cores (capella do 
P Salvador do mundo); ornamentação de folhagens, 

insectos e aves. 

I Custodia de prata lavrada e dourada tendo 
cm cima a figura do Senhor. Altura o"\82. Orna- 
tos de folhas em fortes relevos c seraphins. O cor- 
po principal em 4 columnas. O Salvador abençoan- 
do tendo na mão esquerda um pequeno pendão. 
Sob as bases das columnas umas pequenas peças 
que sustentavam provavelmente campainhas. En- 
tre a base e o corpo principal um corpo d'architc- 
ctura de frisos mui salientes, elegantes, as colum- 
nas moldurando nichos vasios e que provavelmen- 
te nunca tiveram imagens ou estatuetas. Esta ad- 
mirável custodia existe hoje no Seminário. 



8 



2 Casula de tissu vermelho, com barras a bran- 
co com applicaçõcs de vellado carmezim. 

1 Quadro em pergaminho com moldura de éba- 
no: 0,27X0,20. A Virgem, o Menino, S. João 
Evangelista com a águia, e outra figura. No se- 
gundo plano uma construcção em ruina. No fundo 
paisagem em tom azul. Miniatura do século XVI. 

2 Gravura em cobre estampada em setim : 
i'",8oXo'",98. Em 3 partes bem unidas, 2 gran- 
des e eguacs, i menor. Theses. Figuras grandes, de 
bom desenho. Anno i 78 1 . Origem alleman. Actual- 
mente na Bibliotheca. 

S. Ben.to d.e Oastris 

1 Véo de hombros, bordado a matiz e ouro, em 
seda branca. 

2 Panno de púlpito em setim branco. Bordados 
de applicaçõcs de velludo carmesim e verde. Cruz 
de Christo. Um brazão no centro, ao lado mitra e 
báculo. 

3 Quadro em azulejos, a Annunciação, 6 azulejos 
quadrados de o, 1 8 de lado. Oquadro o™,5 5Xo"',365. 
Em cima a legenda Ave Maria; o anjo sustenta 
uma fita Ai'e Grada. Ornamentação do século XVI. 
Estylo florentino. Agora na Bibliotheca. 

4 Frontal de tissu, com ramagens a ouro. 



Catalogo dos objectos pertencentes á Bibliotheca 
publica d'Evora emprestados por ordem superior 
(oíficio da direcção geral d'instrucção publica de 
i3 d'abril de 1881, com referencia á portaria do 
ministério das obras publicas de 5 d'abril, publica- 
da no Diário do Governo de 7) para figurarem na 
exposição de arte ornamental de origem hespa- 



nbola e portugueza, no museu Kcnsington de Lon- 
dres, e entregues ao ex.""" sr. Augusto Carlos Tei- 
xeira de Aragão, vogal e delegado da respectiva 
commissão. 

^v^i3n.ia.t-u.xa,s eam. colore 

i Chapa de o"", ioSXq^^^oSq. Pintura a óleo 
com muitas figuras, conhecida pelo auto da fé; fi- 
guras principaes de 0,045 de altura. 

2 Retrato de dama; chapa de 0,078X0,058. 
Bem conservado; meio corpo. Toucado, rendas, 
minúcias de ornamentação no vestuário. Século 

3 Retraio de homem; chapa de 0,134X0,104. 
Bem conservado. Busto n\ima ellipse. Na parte 
superior a legenda — Senhor francisco de Coimans 
(ornato), ^///zo 166 r. — No verso entre duas co- 
lumnas um estrado coberto de velludo, e uma ca- 
veira coroada de folhas. Uma legenda — la crudel- 
ta delia morte non é 'bastante á Stinglre la memo- 
ria costante. Caracteres a ouro. Em baixo uma cor- 
rente segurando uma ancora avivada a ouro e a 
palavra T^iauna a ouro sob a argola, 

4 Retrato de dama; chapada 0,180X0,128. 
xMais de meio corpo. Vestuário singelo mas cara- 
cterístico. Gola levantada. Facha da esquerda pa- 
ra a direita sustentando uma medalha que parece 
ter as le.ttras H. S. 

5' Cha^pa em «moldura de tartaruga com 
0.0% 2^0, 0'] o: 'N''uma ..face/S.t João Baptista, na 
outra o retrato cie el-nei 0. João IV. Hlstc tapa-se 
coni úma lamina coiTediça de tartaruga. Ha um 
biiHcíe djc Cenáculo' que diz r-r-R:- trato yerdxivieiro 
án sr. rei^ Q. João quarXo e i^io 5.1^1), .u^o- com a pin- 
tura de S.' João 'Bapttsta. ' ^: 

6 áétj-ato do priíjcipe.D. Tíiep4osiÍQ •,0,078 ^< 
•,oo3^. Meio corpo. Vestunno c íun .10 em tom par- 



o 



I'0 



do. Pacha bordada Ja direita para a çsquerdhv 
vendo-se ainda os copos da espada. Mangas gol- 
peadas, cabeção de rendas, não mostra as mãos. 

7 Dois retratos de damas de o,o55 )(o.o4'V 
dentro de uma caixa de ferro que lhes forma mol- 
dura. Uma em máo estado, a inferior e fixa bem 
conservada e de íinissima pintura. A tampa da 
caixa é de corrediça, em ferro, com ornatos cn> 
aberto e um escudo que dizem ser as armas dos- 
Cordovas. O fundo da caixa é também uma la- 
mina de ferro com ornatos em aberto. 

^víEirj-ia-t-o-ra, em piata 

8 Retrato do abbade Diogo Barbosa Machado- 
autor da Bibliotheca Lusitana. Chapa elliptica de 
0.075 Xo.o56 nos eixos maior e menor. Busto. 
Pintura a óleo e muito fina. Inclusa n'uma caixa 
de madeira singela, feita tm torno, com 0,092 de 
diâmetro, 

9 Chapa de cobre oblonga quasi elliptica : 7 
buracos na orla mostram ter estado pregada. O 
Salvador assentado abençoa, na esquerda susten- 
ta um livro. Esmalte de alta antiguidade, menos, 
mal conservado, com as cores azul, branca, verde, 
vermelha e amarclla ; vivos de ouro. A cabeça 
com um nimbo e a cruz em vermelho, aos lados a 
ouro os caracteres alpha e omega. 0,104X0085 
nos diâmetros maior e menor. No verso uma mar- 
ca singela, espécie de báculo ponteado. 

10 Chapa de cobre, circular, 0,078 de diâme- 
tro, com um buraco para suspender. Ksmalte ver- 
de, azul, branco, vermelho e ouro. Um cão bran- 
co de coíleira vermelha. A cabeça n'um fundo 
azul escuro, circular e em roda como que uma co- 
roa de folhagens e palmas. Ornamentação gros- 
seira. 



1 1 



-^icixo 



I I Frasco de vidro verde de gargalo mui estrei- 
«to, sendo o corpo achatado c deprimido. Bem coa- 
-servado. Ornatos do mesmo vidro formando nos 
tlados duas cruzes com saliências de forte relevo; 
no contorno fitas de vidro também com saliências; 
iima prolongando-se forma a extremidade. 0,088 
<.i'altura. As depressões lateraes tocam-se interna- 
mente de modo què o frasco se pode dizer forma- 
do por um tubo enrolado. 

12 Quadro em madeira de 0,174X0,156. O 
Santo Encontro; Jesus, a Virgem e S. João Evan- 
lífclista; Jesus com a cruz, mas de modo pouco 
vulgar, os braços para traz. Bjm conservado, pin- 
lura fina de antiga altribuição a Grão Vasco. An- 
tiga pintura portugueza muito notável. 

i3 Triptico. Quadro central: a familia sagrada. 
Nas taboa-s lateraes, á esquerda S. Úrsula. S. Lu- 
zia e um santo. A direita S. Gatharina. S. Apoló- 
nia c outro santo. As 4 santas de o,io5Xo,095; 
os santos, que são os quadros médios, são meno- 
res e carecem de legendas. Pintura finissima, bem 
conservada. No quadro de S. Apolónia a assigna- 
lura Joana bautista fasiebat. Superiormente outra 
taboa dobradiça com o Eterno e a pomba. Em 
baixo outra dobradiça com um seraphim. Muito 
notável. 

Ijí-vxo3 d.e psrgrai^a.ixi.li.s csrcx ill-a.nain-cLxa.s 

14. '^•^~- ■ (designação da collecção dos manus- 
criptos da Bibliotheca). Folhas de o, 1 58 X o, 120. 

Horae b. m. Uirginis. Lettra do século 14, 
71 folhas. Encadernado em veludo carmesim, e 
signaes de ter sido ornado com brazão, cantos, fe- 



r2' 



charla, e uma cruz de Chrisío, sem duvida de pra- 
ta. 

i5. ":^~- . 256 folhas de o, 106x0,077 Horae et 
aliae dQvotiones. Meiado do século i5. Encaderna- 
do em velludo azul. 

16. 'y ■ Século 16. 287 folhas de 0,1 10X0,075, 
Na lombada Hevre. Encadernado em marroquim 
castanho. 

17. '-•*~^ . 119 folhas de 0,1 17X0,085. Enca- 
dernado em couro com ornatos dourados. 

18. '"^~^ . 168 folhas, as 2 ultimas com uma ora- 
ção em francez. Foi. de 0,1 i8^o,o85. 

19. Biblia castelhana -H^::!., i vol. foi. grande a 
2 columnas. Século 14 ou primeira metade do i5. 
261 folhas. Algumas vinhetas concliiidas, outras 
esboçadas, para muitas só existe o logar em bran- 
co. Muitas iniciaes lindamente floreadas. 

OujGcíôs enviados pelos cosYoaícs de Yllla Yl?osa e Borba 

"^ills, "'s7"içosa. 

1 — Cruz processional de ébano com pregaria 
e ornatos de prata; imagem de marfim; sobre 
uma esphera de prata de baixo relevo (género da 
lâmpada da Senhora do Rosário, do convento do 
Paraizo d'Evora). 

2 — 5 bocados de seda antiga, tecida de varias 
cores e padrões, pertencentes a cortinas de orató- 
rios e vestimentas de santos. 

Ocrj.-ven.to <a.e Santa, Ori^-z, em. "Villa, "Viçosa, 

I — Quadro em moldura de pr,ata. Arte hespa- 
nhola. N. Sr.^ de Ia Consolacion de Uterra, com 



i3 

indulgência Jo cardeal Borja. Pintura não supe- 
rior, mas bem conservada. As roupagens muito 
ornadas. Aos lados varias miniaturas aliusivas a 
milagres, um duelo, uma tourada, etc. Século 17. 
Agora no Seminário. 

2 — Vdo de hombros com tecido branco e ouro ; 
flores côr de rosa com folhagens verdes. 

3 — Panno de púlpito em damasco branco com 
guarnições de tisso carmesim e ouro. 

4 — Um ralo de prata lavrada com 4 seraphins 
aos cantos; da roda da portaria. 

<a.a-s Ser-va-s, eiTL BorToa, 

1 — Bacia e gomil de cobre esmaltado em máo 
estado; a bacia em forma de concha (pecten); or- 
namentação de ligeiras folhagens, de graciosa sim- 
plicidade, em fundo branco. 

2 — Dalmatica bordada a ouro e retroz verde e. 
vermelho em fundo de setim branco, que faz par- 
te de um paramento que está depositado na egre- 
ja de S. Barlholomeu da mesma villa. 

Sobre os objectos d'aríe da Sé d'Eyora emprestados 
para a exposição 

Calis de ouro lavrado e esmaltado, a principal 
obra d'arte que lemos em Évora, e uma das pri- 
meiras do paiz. Sob a base, n'um vão, a inscri- 
pção : Doct. paiilus Alphonsiis T^Qg. Cousíliariíts in 
ecclia Eboren. Archid. et Canon i cus donauit. Anno 
Dne — ; disposta em circulo rodeando um brazão, 
e aos lados d'este a data iSSy. O brazão sobre 
lima cruz de S. Thiago em esmalte vermelho. 

Ornamentação delicadissima em motivos de 
grande simplicidade e elegância: relevos admirá- 
veis; csmalies de extrema perfeição uns sobre re- 



levos, outros em superfícies burniJiis. 0> relevo'? 
e esmaltes da ornamentação geral m)l Juram i8 
quadros onde o artista m lis se esmerou, 6 no cor- 
po, 6 na base, 6 na haste e n'estes o buril attingio 
um prodigio de execução. Os da taça quasi elli- 
pticos graciosamente entremeadas por anjos de 
braços abertos que os amparam. Os da haste sã.> 
quadrangulares, oblongos, formando as faces d'um 
prisma hexagonal; nas arestas umas pequenas pe- 
ças, também esmaltadas, oscillando um pouco e 
formando separações nos relevos: entre estes so- 
bresáe ainda a ceia do Senhor^ relevo que não tem 
mais de 2 millimetros de espessura, mostrando a 
meza um tanto obliqua, e muitas figuras, nitidas, 
vigorosas, todas diífcrentes, de pasmosa execução. 

Notarei ainda que em vários pontos ha um fun- 
do que não é fosco, mas parece revestido de certa 
substancia brilhante, pequenos fragmentos talvez 
de pedras preciosas. 

A custodia de prata dourada e lavrada é uma 
formosa peça : infelizmente foi concertada e mo- 
dificada na haste por artista pouco entendido; o 
corpo principal porem não tem modificações e es- 
tá menos mal conservado; é em gothico terciário 
do século I 5. 

Se estivesse completa seria uma bella obra de 
arte e uma digna companheira da cruz processio- 
nal que foi emprestada pelo convento do Paraizo. 

Um porta-paz lindissimo, do século i8, com 
volutas de forte relevo, elegantemente lançadas, 
formando moldura. 

O panno, attribuido pela tradição aos templá- 
rios, que pertenceu ao convento de Aviz, donde 
veio para a Sé. Segundo opinião, creio que do fal- 
lecido abbade de Castro, mas de que não conheço 
o fundamento, seria este panno feito para cobrir o 
cadáver d'el-rei D. Manuel, na trasladação talvez, 
porque decerto levou elle muito tempo a fazer. 



i5 



Em 1887 descobiiram-se na Sé outras tapeça- 
rias do mesmo lavor, vendo-se então que forma- 
vam um dcK'cl. Esteve armado fazendo extraordi- 
nário effcito na sala grande da Bibliotheca, por 
occasiáo da visita da família real em maio de 
1889. E sem duvida a primeira tapeçaria que exis- 
te no paiz, pplo notável trabalho e estylo, e pelo 
estado de conservação. 

Do panno, da custodia, e do calis existem pho- 
tographias. 

A propósito da custodia da Sé direi que d'estas 
ourivesarias do século i5, em estylo gothico, no 
estylo da Batalha como vulgarmente se diz, se en- 
contram no paiz dezenas de notáveis exemplares. 
Tenho visto os melhores nos thesouros da sé de 
Coimbra e de S. Maria da Oliveira de Guimarães, 
ambos importantíssimos. 

Na sé de Coimbra ha uma custodia que é uma 
verdadeira belleza ; já lhe faltam porem algumas 
peças, estatuetas, etc, o que não destroe todavia 
o effeito geral, sendo muito possível restaural-a. O 
thesouro da sé de Coimbra contem cálices e reli- 
cários bem conservados, que devem classificar-se 
nos séculos i5 e 14, e uma pixide admiravelmen- 
te conservada, que demais tem a singularidade de 
estar datada c assignada pelo ourives Geda Me- 
nendiz, um artista contemporâneo de D. Affonso 
Henriques. * 

Esta pixide pertenceu ao antiquíssimo mosteiro 
de S. Miguel de Refoios de Basto, depois ao colle- 
gio de S. Bento de Coimbra, donde veio para a Sé. 
Tem na base a inscripção seguinte: — Jesus rex. 
Johanes. Petrus. Thomas. Andreas. Filipi et Ja- 
cobi. Simonis. Bartholomeus. Jacobus. Mateus. 



* Outro Geda Menendiz apparece como testemunha no foral da 
villa de Constantim de Panoyas, dado pelo conde D. Henrique 

cm lOvjO (era 1 134). 



í6 



Geda Menendiz me fecit. E. M. C. LXXX. — É 
pois do anno 1 142 (era i 180). 

Os ornatos consistem principalmente em SS de 
pequenas fitas de ouro ou filigrana. Está comple- 
ta, intacta, não soffreu alterações. A pixide de 
Coimbra e a celebre cruz de D. Sancho, hoje per- 
tencente ao museu d'el-rci (o OccUenJe publicou 
a gravura), são, me parece, as duas peças mais 
importantes da antiga ourivesaria portugueza. 

Foi lambem pedido para fi.^urar na exposição, 
o celebre calis da Sé de Braga, chamado de 
S. Gerald(3. Conheço também este notável obje- 
cto d'arte sem duvida de alta antiguidade, não sei 
porem se poderá dizer-se producto de arte por- 
tugueza ; é esmaltado no gosto dos velhos esmal- 
tes de Limoges, que eram mais frequentes do que 
se suppõc nos antigos mosteiros e cathedraes; do- 
cumentos portuguezes dos mais antigos, inventá- 
rios e testamentos, mencionam os alemoges. peças 
de ourivesaria esmaltadas nas oííicinas de Limo- 
ges, que durante muitos séculos produziram obje- 
ctos d'este género. 

OTojoctos do I^SLÇO .i^rcln.iepiscopa,l 

Calis de prata dourada, o", 21 d'altura. Cinta na 
taça com a inscripção *-\-fc, co. manhos. niaria. 
fereira.» Bem conservado. 

Campainha de bronze com capa de prata de 
siní^elos abertos: o ctibo' termina em sineíe.>com as 
anims do preliado D. -fi^efLlliz da Silva;- 

/ri " 

■(Dfíioio do Governo Civil de 3o de juljio de 
iS8reí«portíit^a'^^iibHcadà no Diário do Governo 
n." 16Õ, de 26 de jullio^^ Oííi:ia"ç]a' Camará Mu- 

nrçif abiji.°'j:^^;^;^,i^:d'agostò dí ,., .. 

Calis de prata douradaj íins do século -J^V: Ba- 



I 



se em hexágono de fortes chanfros relevados. Nó 
com ornatos gothico- renascença, na taça uma cin- 
ta de cherubins "sendo dois barbados. Inscripção 
em gothico Anhiis dei qiií tolys pecata ; e na pa- 
tena Uerbiim caro fautiim es aleliiya ale; tem 6 
campainhas. Esmalte azul, verde e branco na 
haste: o'",26 d'altura. 

Mitra de prata: abertos, e baixos relevos, o'",3i 
d'altura : pedras ordinárias: no verso a inscripção 
— O sr. inquisidor Manoel de Maga^hães de Mene- 
ses deu esta mitra a S. Brai sendo alcaide de sua 
confraria o anno de 1648. 

Báculo de prata, fracos relevos; o'",35 na parte 
superior, a haste comp5e-se de 6 canudos eguaes 
(por isto só um foi enviado) Inscripção no an- 
nel<')u nó O deani o deu 162%. Um vaso ou urna 
de elegante desenho forma a base do báculo. O ca- 
nudo da haste tem o"', 23. 

Relicário — braço e mão abençoando — o"". 40, 
de prata; ornatos da manga, base e chapa com a 
relíquia dourados. Na base a imagem de S. Braz 
em relevo e a inscripção Ecce sacerdos magnus 
^lasivs qui in diebus suis placuit Deo et inventus est 
jus tus. 

Estes objectos pertencem á ermida de S. Braz, 
sendo o báculo e a mitra da própria imagem. 

Faim de S. Jorge, o"\97 — Mão e guarda de 
prata, aberta e lavrada a burij. 

OTojectos eziTT-iaclos pelo e=-r.""> "Viscon.cLe 
d-a, Espera-nça, 

Cofre de madeira, pintado de preto, forrado de 
velludo carmezim; o"',8o X 0*^,60 X 0^,28 : conten- 
do 'quarenta e um objectos de prata, fosca e bur- 
nida : espelho, bacia e jarro : guarda jóias : cafetei- 
ra, bule, assucareiro, talher, 2 colheres de chá, 2 
castiçaes, palmatória, barquinha e thesoura, 2 



i8 



frascos de cristal lavrado com tampas de prata^ 
tampa de um copo de cristal, salva de pé, campai- 
nha, bandeja com tinteiro e areeiro, 4 bandejas de 
diversos feitios e tamanhos, pincel de barba con> 
cabo de prata, escova, pregadeira de veludo car- 
mesim com cinta de prata, frasco para chá, 8 cai- 
xas de dimensões diversas. xMarcas — G. C. D.' — 
c — N—. 

Par de castiçaes, de filigrana de prata, de o'",25 
de alto, alguns ornatos esmaltados; uma ave de 
azas abertas sobre a base ; esmaltes verdes, azues 
e castanhos; folhagens e flores. 

Cofre de prata revestido de filigrana; o,igN^ 14, 
ornatos delicados, esmaltes ; espelho na tampa e 
cadeia de prata. 

OTojcctos en-viad-os pela- EUsliotlneca, 
^■u-Tolica^ d.';ET7-oxai 

Chave de ferro de o™, io5 d'altura, muito antí- 

2 colheres de prata, antigas, diversas; uma em 
máo estado. 

Um par de acicates de bronze com restos de 
douradura. 

Uma espora, o™, i de comprimento na haste, or- 
natos em relevo. 

Um par de estribos de bronze, d'apoio circular, 
o"',34 d'aIto. 

Um par de sapatos de senhora, de damasco la- 
vrado, com saltos forrados de marroquim vermelho 
íiltos de um decimetro, ponta elevada, em pouco 
aso. 

Frasco para cheiros, de porcelana, em forma de 
gato ; coleira e cadeia de prata dourada com a pa- 
lavra • Fidelité» . 

Cinco botões de 0,048 de diâmetro, cobre dou- 
rado ; 4 com gravuras coloridas, i com miniatura 
a nankim de gracioso desenho. 



_i9_ 

t!}oIa de renJa, o, 5 5 no decote, o,i5 por lado. 

Dita, 0.73 no maior comprimento. 

Fragmentos de renda, 0,22. Rendas estas eguaes 
<oa parecidas ás que figuram em retratos de da- 
íiias do século 17. 

Espada de folha direita de 0.87. Marcas na fo^ 
lha, e na guarda — T. Hollier — . 

Espada curta de 0,40 na folha e 0,29 no virote, 
para guarda da esquerda. No vasado da lamina 
tem as palavras Lite domine espadcro. 

Figura de coral em pedestal de marfim; a figu- 
ra está mitrada e de braços abertos; com a le- 
genda In médio positiis qno me verta... d'um formo- 
so coral; o trabalho parece chinez. 

Duas esculpturíis em pedra; 0,094X0,122. 
Adoração dos reis. A Virgem e o Menino. Parece 
trabalho muito antigo. .A^mbas teem na base as le- 
tras /. V. H. Muito quebradas, collocadas sobre 
lamina de madeira. 

Desenho em papel; em moldura d'ebano: 0,1 5 
Xo,i9. A Virgem, o Menino, dois anjos e a ser- 
pe: sobre o desenho estão escriptas em caracteres 
inicroscopicos a Salve regina, o Credo, o symbo- 
io deS. Athanasio, os sete psalmos da penitencia, 
€tc. 

Quadro bordado a retroz; Christo e a adultera; 
bem conservado o bordado, mas esvaídas as co- 
res; fios de ouro nas roupagens; as carnes pinta- 
das em seda branca. 

Pendão do Santo Ofíicio. Grossos bordados a 
ouro em damasco encarnado; a meio um meda- 
lhão eliptico tendo n'uma face a cruz, a espada e 
o ramo d'oliveira e o dizer — Exurge domine et jii- 
dica cansam tuam. ps. j3. Na outra face a imagem 
de S. Pedro martyr com a inscripção — Pro san- 
efa munere martirii palmam meruit obtinere : roupa- 
gens a prata c ouro, carnes bordadas grosseira- 



20 



mente em seda; o fundo a ouro; franjas d'ouro,. 
e nos dois extremos grossas borlas também d'ou- 
ro. 

Colcha de pelica aberta applicada sobre seda 
azul e vermelha; os abertos formam desenhos de- 
licados de folhas e volutas; no centro uma águia 
de duas cabeças. 

> 

Quadro; desenho; milagre dos 5 pães e 2 pei- 
xes- 0,46X0,33. Assignado. Eqiies Faria inv. et 

fecit 177I' 

Desenho a lápis vermelho, 0,37X0,26. Cinco 
desenhos diversos. Brazão de Diogo Fernandes de 
Almeida. Um peregrino. Uma aurora lançando 
flores. Projecto de medalha da Academia de His- 
toria — Trotecção á Academia. 1720. — Chegada 
dos reis e príncipes a Lisboa em ij2g — . ' 

Idem. 0,52X0,29. Eques V. L. invenit. Titula 
— Tsyches historia 'JR^aphaelis Urbinatis opus singu- 
lare in palatio vulgo guise Romae — . Os deuses 
ouvem a historia de Eros e Psyches; desenho im- 
portante, com muitas figuras. 

Idem; 0,57^x^0,42. Cinco desenhos diversos; no 
centro uma descida da cruz. Iniciaes IJ. e L. orna- 
mentadas a lápis vulgar (Vieira Lusitano). 

Idem; 0,52x29. Ass. Lusit^ iuveuit. Nuptia 
Psyches, Os deuses em festa; desenho importante. 

Quadro bysantino 0,35X0,297. Constantinae 
Helena manifestam a cruz. Sobre a madeira que 
parece revestida de gesso assenta a pintura e a 
douradura ; fundo d'ouro ; as figuras nimbadas de 
ouro. No verso do quadro uma cruz em vermelho 
no fundo branco. Cantonando os ângulos da cruz 
os caracteres I C — X C — N I — K também em 
vermelho. 

É importantíssimo este objecto d'arte, e pode 
dizer-se perfeitamente conservado. Os caracteres 



21 



do reverso fornecem pela sua forma e disposição 
elementos para a determinação de uma data. 
Constantino Magno foi eleito César em 3o6 da 
nossa era, mas o emprego da formula — Jesus 
Christo venceu ou vencedor — (Jesus Christus Ni- 
ka) só mais tarde apparece, por ex. nas moedas 
de Leão V e Constantino VII (8i3 a 820). 

No anverso das moedas attribuidas a João i.° 
Zimisca (969 a 976) encontram-se os caracteres 
I C — X C — N I — KA cantonando os ângulos 
da cruz exactamente como succede no quadro da 
Bibliolheca (Teixeira de Aragão — Descripção das 
moedas romanas do gab, num. do sr. D. Luiz, 
pag. 596: e sobre a inscripção IHS. XPS. NI 
KA. — Jesus Christo venceu — a pag. 54 da Ico- 
nographie chretienne de M. Crosnier. Tours. 
1876). 

Triptico, oratório portátil dividido em três par- 
tes, uma central e maior, e duas lateraes que se 
podem dobrar sobre a primeira. Esmalte sobre co- 
bre. 

Objecto d'arte importantissimo, bem conserva- 
do; uma das maravilhas da Bibliotheca publica 
d'Evora. Os esmaltes em molduras fortes, lisas, 
douradas; o, 525 Xo, 410, no total. 

Centro o, 280X0, 235. 

Lados 0,280X0,098 ; cada um dos lados se de- 
vido em dois quadros. Pequenas rosetas de prata 
ornam as fachas das molduras. Nas fachas supe- 
rior e inferior — Atendite et videte si est dolor simi- 
lis sicnt {sichvt) dolor meus — em orthographia irre- 
gular e disposição caprichosa. 

O quadro central — Calvário — Longuinho dan- 
do a lançada. A Virgem desfallecida amparada por 
S. João. A Magdalena. Annás e Caiphas; figuras 
de guerreiros a pé e a cavallo, com variadas e 



22 



mimosas ornamentações. Aos lados: Pilatos la- 
vando as mãos. O encontro. A descida ao inferno. 
Christo e a Virgem. 

Na fímbria do manto deLonguinho Lougisaueu- 
gle sa: na base do genuflexório á direita — O ma- 
ter dei memente. 

Fundos azues escuros salpicados de ouro; tom 
violáceo nas carnes; toques de luz nos cabellos, 
roupas, vegetaes e edifícios dados a ouro. 

Parece não ter marca alguma do esmaltador 
que era um artista insigne. 

Nada se tem escripto sobre esta preciosidade; 
o fallecido conselheiro Rivara, tão erudito, e tão 
conhecedor das collecções e manuscriptos. da Bi- 
bliotheca eborense de que foi por bastantes annos 
chefe dedicadissimo; o dr. Filippe Simões cujos 
trabalhos e espirito indagador todos conhecem, 
também bibliothecario por muito tempo, e que es- 
tudou muito os objectos do museu reunidos pelo 
grande Cenáculo; o sr. Telles de Mattos, o infati- 
gável catalogador, que com uma perseverança su- 
perior a todo o elogio manuseou talvez todos os 
manuscriptos da Bibliotheca, nada encontraram, 
creio, sobre a proveniência do famoso triptico. 

Conserva-se apenas a tradição de que Cenácu- 
lo o recebera como presente dando de gratifíca- 
ção 700^35^000 réis; e ha um papel impresso, talvez 
por 1700 e tal, e collocado no verso do tampo da 
caixa de madeira, cujo dizer é em parte certamen- 
te falso, papel sem assignatura, sem data, sem cou- 
sa alguma que lhe dê authenticidade, e que pare- 
ce ser um simples artifício para augmentar, com a 
lenda maravilhosa, o valor do esmalte; todavia eu 
não rejeito as ultimas noticias de tal papel. 

Começa por contar que o esmalte fora encon- 
trado em S. Sophia por occasião da tomada de 
Constantinopla em i2o3, e que os gregos por an- 



23 



liga tradição affirmaram ter elle pertencido a Cons- 
tantino Magno ; ficou em poder dos francezes até 
á batalha de Pavia (i525), em que Francisco I foi 
prisioneiro ; Carlos 5." trouxe o triptico para Hes- 
panha, mas Izabel d'Austria levou-o para Mantua 
e ahi o teve n'uma capeila magnifica de columnas 
de cristal. Diz ainda o impresso que isto consta da 
carta do conde Castiglione dirigida ao Summo 
Pontiíice para que concedesse a bulia da sagração 
da dila capclla, carta que se conserva em Mantua 
na casa de Castiglione; diz mais que o celebre Jú- 
lio Romano o avaliara em 16:000 escudos roma- 
nos. 

Ora o esmalte é francez, e a analise do vestuá- 
rio, etc, leva a marcar-lhe os fins do sec. XV ou 
principios do sec. XVI. 

Por isto a primeira parte é simples fabula, só 
fabricada para illudir os enthusiastas. Mas a se- 
gunda parte não repugna. 

A nota porém deixa-nos o esmalte em Mantua, 
na casa Castiglione; como voltou a Hespanha? 

Não tenho pretenções a decidir ou a resolver, 
não será porém inútil relatar alguns factos. É cer- 
to que um membro da familia Castiglione de Man- 
tua, Bahhasar, veiu a Hespanha como embaixa- 
dor do duque de Urbino a Carlos 5.° e travou re- 
lações de amisade com o imperador que lhe fez 
muitos favores, escolhendo-o até para bispo de 
Ávila. Era homem instruído, escreveu prosas e 
versos, latinos e italianos, que foram muito apre- 
ciados no seu tempo; morreu ím Toledo em 1529. 
E possível que este Castiglione, vindo de Mantua, 
e cingindo a mitra de Ávila, trouxesse de lá, ou re- 
cebesse como oíferta de sua familia o precioso es- 
malte. 

A respeito de Júlio Romano, é também possí- 
vel que o grande pintor earchitecto visse em Man- 



24 

tua o esmalte; Júlio Romano residia em Mantun, 
onde morreu por 1546, tendo 54 annos d'idade. 

Estudando o esmalte ve-se claramente pelas 
roupas, barretes, espadas, etc. que deve ser dos 
fins de 1400 ou princípios de i5oo. As scenas 
representadas revelam igualmente que o artista co- 
nhecia as tradições mais populares, os evangelhos 
mais vulgares. Porque, é preciso notar, em assum- 
ptos de archeologia artística christã, devem sem- 
pre ter-se em vista os livros mais populares; na 
idade media os 4 evangelhos (S. Matheus, S. Lu- 
cas, S. Marcos e S. João) e mesmo muito depois, 
não eram tão vulgarmente conhecidos como mui- 
tos outros que a Egreja depois reprovou e excluiu 
completamente por conterem lendas, episódios, e 
doutrinas, ou cheias de maravilhoso excessivo, ou 
em desharmonia com a doutrina christã. 

Ao estudar o esmalte da Bibliotheca vô-se logo 
que estamos em frente de uma obra em harmonia 
com um evangelho popular; principalmente o epi- 
sodio de Longuinhos e a descida aos infernos são 
scenas que parecem inspiradas por um evangelho 
que foi vulgarissimo, o celebre evangelho de Ni- 
codemos; tão conhecido e importante que se lhe 
attribuem algumas das lendas mais varia e vasta- 
mente dilatadas, como as de Longuinhos, do Saint- 
Graal (saing-raal, sangue real, o sangue da ferida 
de Christo que foi recolhido no vaso d'ouro), do 
rei Perceforest, etc. 

Tão estimado era o evangelho de Nicodemos 
que foi um dos primeiros que traduziram do latim 
para francez; em 1497 ^^ publicou com o titulo 
Passion de N. S. Jesus Christus par le bon mais- 
tre Gamaliel et Nicodemus son neveu... 

N'elle se conta o episodio de Longuinhos; co- 
mo Annaz e Caiphaz se approximaram da cruz, e 
outros cavalleiros, o centurião que se nega a dar 



25 

a lançada, apparece um judeu cego chamado Lon- 
gis, e presta-se a isso para assim obter a vista; é 
o episodio do centro do esmalte — Longis estoit 
aueiigle diz o evangelho, é a inscripção da fím- 
bria da capa do judeu no esmalte, com a mesma 
orthographia, Longis aueiigle sa. . . 

No evangelho de Nicodemos descreve-se com 
muita minúcia a descida do Salvador ao inferno; 
estouram as grades do terrivel cárcere para dei- 
xar sair os antigos personagens biblicos; appare- 
cem Moysés, David, Isaias, Adão, etc, que vão 
para o paraiso onde Henoch e Elias os recebem ; 
surge também um homem de aspecto miserável 
com uma cruz marcada no hombra, é o bom la- 
drão, Satan fugiu e a hedionda figura de Hades, 
o senhor do inferno, contorce-se de dôr e medo; é 
exactamente o quadro superior, á direita, do es- 
malte; lá está Hades, o senhor do inferno, estor- 
cendo o corpo horrivel, as grades abertas, Moy- 
sés, David, etc, e o Salvador que lhes indica, o ca- 
minho do paraiso. (Sobre os episódios do evange- 
lho de Nicodemos, de importância maior, paia o 
estudo da archeologia artística v. os Etudes sur les 
Kvangiles apocryphes par Michel Nicplas. Paris. 
1866). 

Durante bastantes séculos floresceu em Limo- 
ge< a industria do^ esmaltes; em vários documen- 
tos antigos, dos sec. i3 e 14, se designam simples- 
mente pelo nome — alemoges — . São conhecidas 
algumas marcas de esmaltadores de Limoges (V. 
Dictionnairedes monogrammes, par Christ de Lei- 
pzig. Paris, lySo. E o — Guide de Tamateur d'ob- 
jects d'art et collection des monogrammes par le 
dr. Th. Graesse directeur du Museé de Dresden, 
1877), mas n'este nada enconh-ámos ainda que nos 
indicasse o artista. Parece que isto succede na 
maioria de taes objectos d'arte. 



26 - ' 

Uma nota ainJa a respeito de Castiglione. 

Na edição de — II Cortegiano dei conte Baldes- 
sar Castiglione (Pádua, 1766) — vem a sua bio- 
graphia escripta pelo abbade Serassi, e a foi. 18 
se diz : Questo bel génio dei Conte gli facea es- 
pendere largamente nel provedersi di quadri, di 
busti antichi, e di cammei d'ottimo artificio; e fu 
cagione ch'egli nobilitasse maggiormente la sua 
pátria, condu^endovi dopo vari anni il celebre 
Giulio Romano... etc. — 

Na exposição da grandeza de Madrid, por 
occasião do centenário de Calderon, reuniram- 
se alguns esmaltes; a descripção de alguns faz 
lembrar o eborense, é bem possivel que a compa- 
ração contribua a resolver o problema. O tom vio- 
láceo das carnes, os bellos azues dos céus e rou- 
pagens apparecem, ao que dizem, nos esmaltes de 
Limo^es do século 16. 

Ha poucos dias achei uma referencia ao esmal- 
te eborense ; mencionando-se as preciosidades ar- 
tísticas da Bibliotheca, especialisa : «Particuliére- 
ment un email dont Texistence a etc signaleé par 
M. Alfred Demersay, et qui aurait pour la France 
une grande valeur historique. Cet email, l^im des 
pliis beaux spécimens de l'art frauçais á Tépoque de 
la Renaissance, est un triptyque de Limoges. Sur 
la piéce centrale, comme sur les piéces latérales. 
qui s'appliquent en volets sur la premiére, sont re- 
presentces les scénes principales de la Passion du 
Christ. On lit dans une inscription latine coUée sur 
le couvercle de la boite qui renferme ce précieux 
calvaire, qu'il aurait appartenu au roi François 
I."; il aurait èté pris dans ses bagages á la batail- 
le de Pavie. La tradition ne dit pas comment il a 
passe des mains des espagnols dans celles de la 
ville d'Evora. On sait seulement qu'on a refusé de 
cet email des sommes considérables (Espagne et 



27 

Portugal, par GermonJ de Lavigne (Guidc- Joanne) 
Paris, 1890. pag 701). 

No esplendido livro intitulado — Al sommo pon- 
tefíce Leone XIII omaggio giubilare delia Blblio- 
theca Vaticana (Roma, tip. delia Propaganda Fi- 
de, 1888), vem uma admirável estampa colorida 
representando o esmalte oíTerecido pelo Papa á 
referida bibliotheca, com sua descripção breve mas 
erudita; «II trittico a smalio dipinto donalo da S. 
Santitá Papa Leone XIII ai museo sacro delia bi- 
bliotheca Vaticana illustrato dal prof. Gosimo Stor- 
naiolo, assistente alio stesso museo.» 

O professore Stornaiolo julga esse trlptico es- 
maltado como jóia de primeira grandeza. F^all.i 
dos esnialtes dos Reymond, Penicaud, Courteys, 
Noulier, Denis, etc, e termina attribuindo-o a Nar- 
done (Leonardo) Penicaud, que viveu em 1470 — 
1539. 

O quadro central representa a scena de Lon- 
guinhos, quasi como no esmalte de Évora ; egual 
disposição nas figuras principaes, gestos, attitudes 
cguaes; os mesmos tons azues e violáceos; mais 
simples, menos figuras -secundarias, menor orna- 
mentação em vestuário e armas, menos perfeição 
artisti.ca. 

Sem sombra de entbusiasmo, ou de estreito 
amor pátrio, o esmalte eborense é muito superior 
ao do Vaticano. ' 

E um primor d'arte de primeira grandeza. 

OTojectos e3n.-via.ca.0s pelo Esc.'"" T2>x. .A-Toel 
^v^sirtins I^erreira 

Pintura em nxideira Santo António de Pádua, 
co;;/. o™, 175x0'", 1 35. Em -moldura de madeira, 
alto relevo, aberta, dourada, com vestígios de pin- 
tura. 

Ornatos de flores e águias. No verso Esta lami- 



28 

na de Santo António deu a este noticiado de Évora o 
padre Joseph Garcia; fora ella do Arcebispo T>. fr. 
Luii da Situa e se deu ao R. por lhe assistir na mor- 
te efa{er os colloquios. 

Miniatura em pergaminho 0,145x102: triumpho 
do Santíssimo Sacramento: grupos de anjos entre 
flores; moldura de ébano: o,25oXo,2o5. 

Quatro miniaturas em pergaminho 0,1 3o por 
o,o85. Parecem iUuminuras^de um Hvro de horas, 
talvez flamengas. A Visitação, Pentecostes, o Cal- 
vário; a Virgem e o Menino com dois anjos can- 
tando e 2 tocando, um d'estes toca um pequeno 
órgão portátil, de forma não vulgar, tendo a mão 
direita no teclado e a esquerda no folie. Molduras 
modernas. 

Medalha elliptica de cobre esmaltado o,o85 no 
maior diâmetro; n'uma face M A (Maria); fundo 
branco; aro de prata dourada e argola. 

Escapulário bordado d'uma freira da ordem de 
Malta, de Estremoz ; ornamentação de bordados e 
cordões, 14 pequenos quadros bordados sobre se- 
tim branco; os martyrios, a Verónica, o gallo, etc. 
Cruz de Malta em branco sobre fundo preto. Três 
grandes borlas e 2 menores, de grande trabalho 
e perfeição. 

A facha tem i,"'o6. 

Capella, ornato da cabeça, de flores de seda, 
também da mesma religiosa: 0,18 d'altura. 

Estes dois últimos objectos pertenceram a uma 
religiosa de Estremoz, que os deixou ao reverendo 
prior de Santo André, e por este oíferecidos ao 
cx."" dr. Abel. São objectos singularissimos no seu 
género, de grande perfeição de írabalho, e em ex- 
cellente conservação. 

Os conventos de S. Bento, Nossa Senhora do 
Paraizo e Salvador, offereceram os seguintes obje- 
ctos : 



29 

Prato comprido de faiança grosseira, de meias 
canas, pintura ordinária, o,"'38 no maior compri- 
mento. — 

Frasco de vidro verde em forma de cabaça — 
frasco de vidro branco com meias canas, o, ""28 de 
alto. Boião de faiança ordinária, da botica do mos- 
teiro, com 4 pequenas azas. 

Frasco de vidro verde de grande bojo, gargalo 
estreito e alto, o bojo com saliências. — 

Pequeno prato de pintura azul sobre fundo 
branco, pintado também no verso. 

Sa-1-vaca.ox 

4 pratos de faiança, dois grandes e dois meno- 
res: I prato que tem a marca de Rouen. i garra- 
fa de vidro lapidado, de bojo achatado, com aza : 
I frasco de vidro esverdeado (o vidro muito im- 
perfeito), tem aza, gargalo alto, bico muito aperta- 
do. 

Tinteiro de faiança (falta o deposito de tinta). 

Agnus Dei (piasinha d'agua benta) de louça or- 
dinária. — 

Muitos d'es1es objectos foram cedidos á Biblio- 
theca onde se acham expostos. 

Os objectos escolhidos em Évora (Bibliotheca, 
Sé, e conventos de religiosas), e os que vieram dos 
conventos de Borba e Villa Viçosa, estiveraip em 
exposição publica, no primeiro de maio de 1881, 
na sala de leitura da Bibliotheca. 

Foi uma exposição improvisada á ultima hora, 
annunciada oralmente por alguns amigos, e logo 
bastante concorrida, corivencendo-se todos os vi- 



3o 



sitantes de que tínhamos na cidade elementos suf- 
íicientes para organisar uma exposição a valer. 

Os objectos mais preciosos não foram a Londres, 
cautella justificável pela possibilidade de sinistro 
maritimo; ficaram em Lisboa, na casa forte da Aca- 
demia de Bellas Artes, esperando a exposição por- 
tugueza. 

Por decreto de 22 de junho de 1881 resolveu o 
governo organisar a exposição de arte ornamental 
no Museu Nacional de Bellas Artes, de novembro 
d'csse anno ao fim de janeiro de 1882. Por isso 
se fez a segunda colheita, recorrendo também a 
particulares, ficando a nossa cidade muito bem re- 
presentada n'esse congresso de monumentos da ar- 
te portugueza. 

Será conveniente mencionar aqui as classes das 
obras de arte admissiveis á exposição. 

i.* Ourivesaria, metaes preciosos e jóias. 

2.* Obras de metaes não preciosos. 

3.* Esculptura decorativa. Estatuetas, baixos re- 
levos, imagens de santos, figuras de presepes, etc. 

4.^ Armas. 

5.^ Vehiculos, arreios, estribos, acicates, sellas, 
coldres, telizes, xairéis, etc. 

6.* Cerâmica, vidros e esmaltes. 

7.* Mosaicos, 

8.* Obras de tartaruga. Cofres, caixas de rape, 
pentes, etc. 

9.* Mobilia. 

10.^ Relógios, e instrumentos de precisão, notá- 
veis pela ornamentação. 

M.* Instrumentos de musica ornamentados. 

12.* Tecidos e bordados. 

i3.* Encadernações. 

14.^ Miniaturas. 

i5.* Revestimentos de salas. 

16.' Couros estampados, pintados, dourados ou 
prateados. 



3i 



17/ Manuscriptos illuminaJos. 
18.* Desenhos, modelos e photographias de obras 
decorativas. 



A exposição eborense 

Em maio de 1889 a familia real visitou a capi- 
tal alemtejana. 

Foram dias de extraordinária animação na ci- 
dade que interrompeu a sua pacatez habitual para 
se ataviar e engalanar a fim de recebera gentil vi- 
sita ; só houve uma nota dolorosa, o aspecto en- 
fermo d'el-rei, já então muito ferido do mal que 
poucos mezes mais tarde o prostrou. 

Houve passeios, illuminaçõcs, bazares, touradas, 
e um grupo de cavalheiros lembrou fazer uma ex- 
posição de arte ornamental- 

Improvisou-se, outra cousa não foi organisaruma 
exposição em quatro dias. Não se recorreu aos con- 
ventos de religiosas;a poucos estabelecimentos pú- 
blicos; não se pediam jóias de pequeno volume; 
evilou-se quanto possivcl a repetição de objectos; 
e ainda assim, na sala grande da Bibliolheca Ebo- 
rense, reuniram-se muitos, variados e bem interes- 
santes artigos. 

As jóias e tapeçarias da Sé e da .Mitra estavam 
no topo do sul; em grandes vitrines horisontaes al- 
gumas porcelanas, crystaes, leques; pratas, cofres, 
etc. Sobre uma grande meza central toilettes anti- 
gas de damas c cavalheiros; nos vãos das janellas 
alguns moveis, jarras e tinas orientaes, grupos de 
antigas armas; cadeiras antigas; no extremo nor- 
te o bufete com o livro dos visitantes e a mobilia 
^o^e///2 da casa Amaral. Esta mobilia principalmen- 
te notável pelas finas grisalhas dos medalhões que 
formam a ornamentação central, servira também 



32 

no paço archiepiscopal nas visitas regias da sr.^ D. 
Maria ii e do sr. D. Pedro v. 

Foram os srs. Mira, Vieira, dr. Abel, Villasboas, 
Torres, que forneceram o maior numero de obje- 
ctos. 

Contribuiram também os srs Pimentel, Silveira, 
Gouveia, Fernandes, P.'' Pompeu, Salles, Marques, 
Palma, Martins, etc. 

Da ex.™* sr.* D. Sabina Rivara, e de casa do 
fallecido Esquivei vieram também alguns artigos 
curiosos. 

Foi, como já disse, uma exposição de improvi- 
so; colhida por assim dizer, na visinhança da Bi- 
bliotheca ; sem repetições ; evitando o amontoar e 
o bric a brac: quer dizer provou-se á evidencia 
que é possível realisar em Évora uma exposição a 
sério, significativa e importante. 

A exposição foi inaugurada no dia. 20 de maio 
pela familia real, e livre ao publico n'esse e nos 
dias seguintes. Foi muito concorrida e creio que 
vulgarisou alguns conhecimentos. 

A sr.* D. Maria Pia, que é entendedora e tem 
visto muito e do melhor, notou especialmente o 
docel da sé, tapeçaria notável pela riqueza, belle- 
za, estado de conservação, e d'uma finura de tom 
inexcedivel. Nos varões do tecto estavam penden- 
tes quatro colchas, typos differentes, das mais fi- 
nas que encontrei; pois a tapeçaria da sésobresahia 
extraordinariamente pela finura do tom, muito de- 
licado, opulento sem espalhafato. Formava um 
fundo admirável ao cálix de ouro, á rendilhada 
custodia, ao característico báculo attribuido ao 
cardeal-rei, ao cálix do paço, e era bem acompa- 
nhada pelos paramentos, casulas e pluviaes ; con- 
juncto admirável, capaz de constituir só por si um 
museo sacro^ á imitação do Uaticano, que muito 
bem ficaria em Évora. Note-se que foram poucos 



33 



os objectos escolhidos ; havia pequeno espaço ; a 
vestiaria da cathedral e do paço archiepiscopal po- 
deriam fornecer muito mais; e no Seminário exis- 
tem actualmente muitas preciosidades. 

Só a casa do sr. José Paulo Barahona Carvalho 
e Mira forneceu grande numero de objectos, ves- 
tuários, louças, moveis, armas, pratas antigas e o 
preciosíssimo esmalte, que é o segundo em Évo- 
ra. 

Do sr. Francisco Vieira sobresahia o grande pra- 
to brazonado, e o fato de deputado de i834, ao 
que dizem; casaca e calção em tecido especial, em 
seda, azul e branco, com o M (Maria) muito repe- 
tido no tecido; ainda não vi outro egual. 

Bastantes procelanas antigas da índia. China, 
Japão, do Rato, Delft, Génova, Nápoles, Ruão, 
Talavera e Alcora. Reparou-se muito no cofre Ca- 
po di Monte, pertencente ao sr. dr. Abel. 

A ex."* sr.* D. Joanna de Torres Vaz Freire 
mandou antigas toilettes, leques, pratos, cristaes la- 
pidados e dourados, etc. Tem muitas preciosida- 
des esta casa em mobilia, louças, jóias, quadros. 
E sabe Deus quantas se perderam nesta c noutras 
casas antigas eborenses, pelos entrudos ; porque 
ainda ha poucos annos era vulgarissimo ver pelo 
entrudo nas ruas da cidade, e nos bailes de mas- 
caras, os creados das casas ricas pavoneando-se 
com as velhas toilettes, os leques, os chapéos, as 
casacas e coletes bordados; era uma ratice; um 
vandalismo deplorável. 

Na exposição não figurou a collecção do sr. vis- 
conde da Esperança, porque muitas das suas pre- 
ciosidades tinham sido utilisadas n'outra parte. 
Possue muitos objectos notáveis, em vários géne- 
ros, colchas, moveis, pratas, louças; com a sua li- 
vraria e medalheiro, formam um conjuncto bem 
raro em Portugal. 



34 

A exposição de arte ornamental lembrei-me de 
juntar a dos liiTOS da cidade^ os primeiros livros, ou 
melhor os mais antigos livros officiaes da Gama- 
ra, do Cabido, da Misericórdia ; tombos, cartula- 
rios, livros de actas ou ementas; collecção única. 
Como isto se tem conservado em Évora atravez 
tantas crises, desde a revolta contada por Fernão 
Lopes ao bombardeamento de 1846, passando pe- 
los assédios de i663, e a entrada dos francezes 
em 1808! 

Procurei ainda imprimir n'esta exposição outro 
cunho, muito especial, outra feição bem caracte- 
rística ; era uma exposição da cidade e das famí- 
lias da cidade, das antigas casas; havia muita cou- 
sa fora d'esta esphera ; mas o importante obede- 
cia-lhe. Não era o òric á brac custoso que qualquer 
argentario pode mercar no leilão do Leiria, no 
Costa, ou em Paris. Estavam ali muitos objectos 
antigos nas antigas famílias; a casaca do bisavô, 
o leque da trisavô, a fina miniatura do antepassa- 
do, o cofre que o bispo tal trouxe da índia, o pra- 
to que veio á casa com o morgado de tal; el-rei D. 
Luiz achou merecimento na intenção. 

Como se vê não entraram na exposição todas as 
collecçôes officiaes, não recorri a muitas particu- 
lares; evitei repetições, e ainda assim enchemos a 
grande sala da Bibliothcca, de modo a captivar a 
attencão de muitos entendidos. E teve bom resul- 

> 

tado, porque vejo agora algumas pessoas darem 
attencão a estes assumptos de arte, apreciando de- 
vidamente, e não deixando perder muitos objectos 
d'antes indiíferentes. 

A Bíblia castclíiana da Bibliotlieca de Évora 

Por ser mui singular este códice, interessante 
na historia da arte e da linguagem, na península, 
farei menção especial. 



35 

É o segundo tomo de La grande y general his- 
toria de AíTonso, o Sábio; oíferece porém muitas 
e importantes variantes do conhecido. Deve ser do 
século XIV, do meiado talvez, mas o illuminador 
seguia inspiração mais antiga ; o seu trabalho pa- 
rece de unr século antes, pela ingenuidade do de- 
senho, da composição e singeleza do colorido. Nas 
lettras capitães ha influencia árabe. Poucas illumi- 
nuras estão concluidas; para algumas está feito o 
esboço, e muitos espaços ficaram em branco. Era 
um velho talvez o illuminador, e falleceu a meio 
da sua tarefa; ou o trabalho não agradou, e não 
o deixaram concluir. 

De modo que se vê neste códice o processo de 
pintura, o simples apontamento, o esboço bem de- 
finido, a illuminura colorida. Nas completas ha 
elementos raros de vestuário, armas, instrumentos 
músicos, que merecem muita attenção. 



Ourivesaria eborense 



É possível que algumas peças de ourivesaria 
existentes actualmente na cidade fossem aqui fa- 
bricadas. Muitas vezes apparecem os ourives men- 
cionados em documentos eborenses dos séculos 14 
c i5. 

JSa rua de Alconchel onde estani os ouriveies se 
diz em doe. do sec. 14 (Doe. hist. i.* parte, pag. 
126). _ . 

Ibid. pag. i54 a Hordenaçom dos houriveies. 

Havia judeus artistas e fabricantes, e negocian- 
tes de prata e ouro. 

Sabemos alguns nomes : Estevam Annes, em 
i38i ; João Roiz, da mesma epocha. 



36 



No notável documento das Sisas geraes do mes- 
tre d^QÂuii (em 1884; pag. 78 e seg. i.* part. Doe. 
hist) se falia dos negociantes de ourivesaria. 

Em 1445, João AíTonso fabricava grandes pe- 
ças de prata (Doe. hist. pag. 1 10, i.* part.) 

Da ourivesaria eborense no sec. XVI ha grande 
numero de noticias e documentos. 



Fim. 



GABRIEL PEREIRA 



Esião publicados : 

i.° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2.° Évora ro- 
mana, I.* p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3.° 
A Casa pia. O edifício do coUegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S. 
Bento. — 7.° Delias artes. — 8." Vésperas da restauração. — g.° 
Idem, 2.* parte. — 10.° Brasão d'Evora. — 11.° A egrejàde San- 
to Antão. — 12." O archivo municipal. — 13.° A restauração em 
Évora, 1 640-1 645. — 14.° O archivo da Santa Casa da Miseri- 
córdia d'Evora, i." parte. — 15.° Idem, 2.^ parte. — i6.° Idem, 
3." parte. — ly.'* Évora e o Ultramar. — 18.° Assédios d'Evora. 
1.* parte. — ig.** Idem, 2.* parte. — 20." Idem, 3." parte. — 21." 
Idem, 4.^ parte. — 22.° Os Festejos de Évora em 1729. — 23.° 
Évora nos Lusiadas. — 24.° Procissões eborenses. — 25.' Expo- 
sições de arte ornamental. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 

OOCOMENTOS HISIORICOS Dl CIDE CHORí 

Estão publicados : 

i.= parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i." — 2." 
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia, j 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Évora. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand. 



A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 



DO MESMO AUCTOR 

Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella. 

Livro 3.° da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 




j^ISTOí^IA— y^í^TE— y4.P^CHEOLOGIA 



U l IS 



iiu 



iS 



A MURALHA ROMANA. O ARCO DE DONA IZAREL. 

vestígios ROMANOS NA SENHORA DA GLORIA, Á HORTA DO BISPO, 

rONTE COBERTA, MORGADA, CURRALEIRA, TOURKGA, REDONDO, 

REGUENGOS, MONTEMOR O NOVO, ZAMBUJO, SANt'aNNA DO CAMPO, ETC. 






ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DK JOAQITIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAl. 

Rua Ancha n." ^5 



i8qi 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS 




j^ISTOP^IA — y^F^TE— ^I^CHEOLOGIA 



El mu i m iumm 



A MURALHA ROMANA. O AHCO DE DONA IZABEL. 

vestígios romanos NA SENHORA DA GI.OKIA, Á HORTA DO BISfO, 

FONTE COBERTA, MORGADA, CURRAI.EIRA, TOUREGA, KEDONDO, 

REGUENGOS, MONTEMOR O NOVO, ZAMBUJO, SANT'aNNA DO CAMPO, ETC. 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAL 

Rua Ancha n." 85 



1891 



ESTUDOS EBORENSES 



Antiguidades romanas 
em Évora e seus arredores 



Nos arredores de Évora são frequentes os ves- 
tígios da epocha e civilisação romanas. 

Tirado o Algarve, não conheço no território por- 
tuguez outra região egualmente rica. As antiguida- 
des romanas são no Algarve mais numerosas e 
variadas; a influencia latina, parece, exerceu-se ali 
mais intensamente e por mais tempo. 

No aro eborense nota-se uma certa uniformida- 
de nos achados conhecidos até hoje. Os mosaicos, 
as cerâmicas, os mármores são mais pobres que 
os da região algarvia ; não revelam sensivel evo- 
lução. 

No paiz limitado pelo Tejo, Guadiana e serras 
do Algarve, no território portuguez, conhecemos 
muitas memorias romanas; em parte alguma tão 
condensadas como nos arredores de Évora. 



' 4 

Mertola, note-se, a celebrada Júlia Myrtilis, tenfí 
mais relações com o Algarve; a fácil via do Gua- 
diana liga-a com o litoral intimamente. 

Verdade é que em muitos pontos teem faltado 
estudiosos, explorações^ ou não tem havido cuidado 
em registar os achados. 

Alas a abertura das estradas de macadam,edos 
caminhos de ferro, e a limpeza das herdades que 
tem progredido extraordinariamente, nos últimos 
trinta annos, restituiram á luz muitos monumentos; 
e o desbravamento de terras e augmento de viaçáa 
teem sido geraes nos três districtos alemtejanos; 
todavia no aro eborense continua a marcar-se a 
maioria dos achados archeologicos. 

Parece que no tempo do dominio romano hou- 
ve aqui muita vida; uma população densa, culta, 
com seus povoados, casaes e santuários; e nos cam- 
pos, em muitos sitios, a par da agricultura a ex- 
ploração mineira. 

Se cm alguns pontos as ruinas mostram um 
, grupo de construcções, um logar, em outros reve- 
lam antes a morada de algum opulento ; certos tan^ 
quês seriam de banhos e regas, outros de tratamen- 
to de minério pela via húmida. 

Com'parando com o que actualmente succede, 
lembrando o poder destruidor de séculos de aban- 
dono, chegamos a suppor que a vida na epocha 
romana foi aqui maior que na actualidade. 

As nossas pobres parochiasruraes, os montes dos 
modernos lavradores, não teem íinos ornatos; as 
taipas, os formigões, as alvenarias de agora são 
menos perfeitas que as de então; até os materiaes, 
a cal, o tijolo, a argamassa parecem inferiores. O 
romano sabia construir admiravelmente. 

Que o paiz era muito habitado é certo; rara a 
povoação de hoje onde se não encontram vestígios 
romanos; em charnecas, desertas agora, descobrem- 



5 

se restos de casas de essa epocha, paredes, pavi- 
mentos, columnas. aqueductos; ao lado de pobres 
montes onde faltam commodidades rudimentares 
surgem mosaicos de singular arte e perfeição, ce- 
râmicas finas, fragmentos de boa esculptura. 

Vou reunir n'este Estudo algumas breves noticias 
de antiguidades romanas no aro eborense, conden- 
sando o mais possivel, simplesmente para mostrar 
o que se poderia esperar de uma exploração inten- 
sa, e scientifica. 

As localidades apontadas encontram-se quasi 
todas na carta n.** 29 da Commissão Geodésica, 
publicada em 1875 ; todas na carta chorographica 
do districto de Évora, com a demarcação dos con- 
celhos, levantada pela Direcção Geral dos traba- 
lhos geodésicos em i885. 

A miirâllia romana— O arco de D. Izabel 

Restam ainda em Évora vestígios da muralha 
romana bastantes para lhe marcar a peripheria 
pelas Alcarcovas de baixo e de cima, Salvador, ar- 
co de D. Izabel, muralha norte do passeio de Diana, 
palácio dos Bastos (pateo de S. xMigLiel), ao an- 
gulo da rua do Collegio onde existiu a torre mou- 
chiiiha, Freiria de baixo ao largo da Misericórdia 
e a S. Vicente. Esta cerca defendeu a cidade ain- 
da no dominio godo e no árabe, soífrendo prova- 
velmente alguns concertos e alterações. Restos das 
pequenas torres romanas que de espaço a espaço 
reforçavam e flanqueavam a muralha ainda sub- 
sistem na face oriente do palácio dos Bastos, e no 
largo da Misericórdia. 

Aos godos atlribue a- tradição local astorres de 
Sisebuto, da rua Nova, e da rua da Sellaria; se- 
melhantes a estas na grande altura e solidez ha a 
do extinclo convento do Salvador, sobre a qual 



está o mirante, a dos paços do concelho, e as duas 
do palácio Cadaval. 

Duas torres menores flanqueam a porta de Moura. 

A designação de origem árabe — Alcarcova — 
basta para provar que a cerca serviu aos agarenos. 
Esta designação, hoje limitada á rua parallela á 
praça de Giraldo, ainda no sec. xvi se dava tam- 
bém ás ruas do Menino Jesus e do Gollegio. 

Que soffreu reconstrucções prova-se por se te- 
rem encontrado lapidas com inscripções sepulcraes 
romanas, mettidas na muralha, quando ha poucos 
annos se demoliu um fragmento no largo da Mi- 
sericórdia, e no começo do século outro junto de 
S. Vicente, facto este que só pôde atlribuir-se a re- 
paração feita em. tempo de godos ou árabes. 

Parece ter havido uma ampliação da cerca pe- 
los restos da muralha medieval que existem em 
S. Paulo, e da variante rápida do declive da Pra- 
ça do Sertório para a rua Ancha ; seguindo as tor- 
res a primeira muralha iria da torre da rua Nova, 
ás da Gamara e Salvador, ficando a praça de Ser- 
tório fora da cerca. 

No arco de D. Izabel ha uma porta romana, se- 
melhante ás portas de Beja, das quaes a chamada 
— porta de Mertola — chegou a nossos dias (exis- 
tem desenhos fieis das duas ha muito tempo des- 
truidas). 

No arco de D. Izabe! vê-se a porta romana, mui- 
to soterrada já em relação á outra parte interna, 
que deve ter sido construida em plena edade me- 
dia, porque em tempo de D. Fernando, fins do 
sec. XIV, se abandonou e destruiu a cerca romana; 
pela altura dos capiteis, já muito gastos, parece ha- 
ver aíi aterro superior a dois metros. 

A peripheria da muralha romana tinha 1080 
metros proximamente. 

O lanço melhor conservado é o da base do pa- 



lacio dos Bastos, na face do nascente. Vô-se ali o 
grande apparelho romano, fiadas regulares de pe- 
dras quasi eguaes, umas mostrando o lado maior, 
outras o menor, travando na parede, alternada- 
mente. 

O lado maior attinge i""Xo,6. 

O menor o,3xo,6. 

Num d'estes fragmentos da muralha, para o la- 
do dos Loyos, conserva-se a ultima fiada toda, de 
silhares eguaes. 

O arco de D. Izabel é a única porta romana, 
certa: mas é possível que as grandes torres indi- 
quem outras portas ou postigos. O tão celebrado 
arco romano que o cardeal D. Henrique mandou 
destruir para desafrontar a egreja de S. Antão por 
elle reconstruída, correspondia talvez a uma porta 
defendida pela torre da rua Nova. E tal edificação 
indica que ahi vinha terminar alguma estrada prin- 
cipal, a de Salacia talvez : as inscripçôes achadas 
junto de S. Vicente, e largo da ^Misericórdia mos- 
tram também que ahi havia portas, porque os ro- 
manos não collocavam lapidas sepulcraes junto das 
muralhas, sim á beira das estradas; a estrada que 
terminava no lado sul da cidade era sem duvida 
essa de que restam muitos vestígios, alguns na vi- 
sinhança da cidade, junto da horta do Bispo, e que 
seguia para Beja. A- porta de Moura pela sua dis- 
posição, pelos subterrâneos visinhos, e ainda mais 
pelas tradições locaes e antiquíssimas de origem 
popular e ecclesiastica, pode também attribuir-se 
alta antiguidade. 

O arco de 1). Iiabel tem 4 metros de vão, sen- 
do a volta semi-circular formada por 18 silhares; 
todo de granito. Quando construíram a porta in- 
terna, reforçando o arco romano, já este estava 
bastante entulhado, pois as soleiras da parte inter- 
na estão a i'",20 apenas da cornija que na porta 



8 



romana divide os prumos da volta do arco; e o 
segundo arco, ou interno, fica mais alto. 

Ha três annos no palácio do sr. Villas Boas ao 
rebaixar um armazém que deita para a Alcarco- 
va de cima, descobriu-se uma passagem muito es- 
treita angulosa, toda de formidável silharia, que vem 
abrir na Alcarcova, junto, e a sul, da grande torre 
chamada de Sisebuto; provavelmente um postigo 
junto da porta da cidade que devia existir pro- 
ximoda torre, a norte. 

A rampa coberta e as salas no edifício dos Lóios, 
lado do oriente, parecem-me construcção medie- 
val ; era a porta da traição, communicando direc- 
tamente o castello com o exterior da cidade, no 
ponto onde o declive é mais forte. 

A sala maior, talvez sala de armas, é bem no- 
tável e rara, e deve conservar- se com amor. 



Yestigios romanos janto da ermida da Senhora da Gloria 

A poente da cidade, uns 3oo metros da porta 
de Alconchel, fica uma pequenina ermida chama- 
da da Senhora da Gloria, com sua fontinha ao pé. 
Uma construcção muito modesta, ainda hoje com 
seu culto popular; tem quasi todos os annos sua 
festa, e nas paredes pendem bastantes votos de 
cera. 

Junto da ermida ha dois moinhos de vento; não 
será difíicil encontrar ainda agora por aquelle chão 
algumas pedrinhas quadradas, com uma face lisa, 
que o conhecedor vê logo serem de antigos mosai- 
cos. 

Ha uns annos, ahi por i86o,descobriram-se ca- 
sualmente uns muros ; escavaram e ficaram á luz 
paredes, chãos de mosaico, fragmentos de cerâmi- 
ca. Quasi tudo se perdeu ; na Bibliotheca existe um 



t) 

fragmento grande de mosaico; ainda ha poucos 
annos estava mettida n'uma parede de um telhai 
próximo uma estrella perfeita, de o"',4 de diâme- 
tro, formada por pedrinhas brancas e pretas. O 
dono do telhai teimou em recusal-a ; resistiu a pe- 
didos e oífertas de dinheiro, por birra, e afinal os 
garotos quasi a destruiram; mas ainda hoje exis- 
tem vestígios. 

Muitos fragmentos dos pavimentos de mosaico 
foram calçar os terreiros dos moinhos, e estraga- 
ram-se. 

Foi uma pena não haver então na cidade quem 
acudisse a tempo de examinar o achado e tratasse 
de salvar quanto fosse possível. 

Sepulturas romanas á horta do Bispo. Ladrilhos. 
Vidros. Estrada 

No verão de 1881, fazendo-se uma excavação 
n'um ferregeal próximo da horta do Bispo, á bei- 
ra da estrada de Vianna, e a uns 600 metros da 
porta do Raymundo, descobriram-se duas sepultu- 
ras romanas collocadas a quasi um metro de pro- 
fundidade, e um fragmento considerável da estra- 
da calçada que pela direcção devia ir a Beja (Pax 
Júlia). 

As paredes d'estas sepulturas eram formadas de 
tijolos sobrepostos; uma de i'-\20, outra de i™,8o 
de comprimento; em ambas, principalmente na 
maior, havia alguns vasos de vidro e barro, de dif- 
íerentes dimensões; alguns d'estes vasos estavam 
quebrados; outros foram partidos pelos trabalha- 
dores; escapou inteiro um só lacrimatorio de vidro 
mui delgado, que eu offereci á collecção de anti- 
guidades da Bibliotheca Nacional de Lisboa. 

Avaliando pelos fragmentos que ainda pude col- 
ligir conteriam as sepulturas mais de doze vasos, 



IO 



sem particularidade notável. Os ladrilhos porém 
não são vulgares ; creio até que são os primeiros 
d'este feitio encontrados em território portuguez. * 

Comprimento: 44 centímetros 

Largura: i3 centimetros 

Espessura : 6 centimetros. Apresentam duas pro- 
fundas chanfraduras lateraes, oppostas, destinadas 
a travar com outros ladrilhos quadrados, que em 
vez de chanfros tinham uma saliência. 

O sr. D. Vicente Barrantes, conhecido escriptor 
e sábio muito investigador das antiguidades da E^x- 
tremadura hespanhola, publicou no vol. 7." pag. 
549, do Museu hespanhol de antiguidades, um ar- 
tigo sobre alguns objectos romanos, de barro, acha- 
dos em xMerida, e menciona como raros dois tijolos 
do mesmo feitio ha pouco ali descobertos, diíferin- 
do d'estes só na largura; 1 5 centimetros nos de 
Merida. 

O sr. António Vicente da Rocha teve a amabili- 
dade de meofferecer dois tijolos, optimamente con- 
servados que eu enviei para a Bibliotheca eborense. 

O fragmento de estrada com as suas fiadas de 
pedras era bem visivel na occasião da primeira 
excavação, mas progredindo esta para o approvei- 
tamento de barro para o telhai próximo quasi de- 
sappareceu, restando apenas poucos indícios. 

Antiguidades romanas na Herdade da Fonte Coberta. 
Os materiaes de construcção 

A herdade da Fonte Coberta fica a uns 10 kilo- 
metros a sueste de Évora. 

Um monte^ uma ribeirinha, uma eira, alguns 
muros velhos entre terras de semear e de pastagem 
em sitio agreste. 

Em tempo dos romanos houve ali edificações. 
Ha restos de um aqueducto, fragmentos de mosai- 



1 1 

cos, de cimentos. Um camponez da localidade fal- 
loLi-me de certo achado de moedas de que ouvira 
contar. Seguindo pelo alveo da pequena corrente en- 
contrei dois pequenos fragmentos de mosaico di- 
versos, branco e prelo, bastante tosco, e de telhas 
de rebordo. Mas na Bibliotheca está um bello 
<íxemplar de mosaico, representando peixes, appa- 
recido no mesmo sitio. Logo havia pelo menos três 
pavimentos de mosaico. Estes vestígios encontram- 
se em espaço muito resíricto; era algum sanctuario 
ou residência de lavrador culto. A singular pia de 
cimento, hoje no museu Cenáculo, que tem o'",940 
de- diâmetro, bem conservada, peça muito interes- 
sante, dizem ter vindo também da Fonte Coberta; 
não tenho certeza. 

Creio que nem todos os cimentos são romanos. 

Os árabes fabricavam muito frequentemente tai- 
pas, formigões e cimentos. A taipa para formar pa- 
rede, e o formigão para revestir o solo, em vez do 
ladrilho, ainda hoje se usam vulgarmente em mui- 
tas povoações alemtejanas. 

A rariciadif de construcções mouriscas explica-se, 
me parece, pelo uso da taipa. Logo que uma pa- 
rede assim construída não seja caiada frequente- 
mente, apodrece^ arruina-se, desfaz-se; fica um mon- 
tão de terra. 

A arte romana alem de outras excellencias teve 
a de saber escolher materiaes. ""^ 

Conheciam a pedra admiravelmente. 

E' cousa essencialissima a que depois se tem 
dado pouca attenção. No Alemtejo quasi todas as 
estatuas, capiteis, etc. da época romana, são em 
mármore de Estremoz; e mesmo algumas aras ou 
lapidas. Note-se que o mármore branco de Estre- 
moz é de trabalho difficil, muito rijo, estalando fa- 
cilmente, mas lavor em tal mármore fica para sem- 
pre, nem musgos nem humidades o atacara. 



12 



Nos capiteis do templo romano de Évora ainda< 
se conhecem os golpes dos canteiros. 

Nos fustes das columnas empregaram o granito, 
mas do melhor, tanto que as arestas das canellu- 
ras estão bem vivas ainda. Os grandes blocos de 
granito da muralha estão inteiros, no seu logar. 

Em tudo, em toda a parte, attenderam ao mate- 
rial. Ha pontes, arcos, lapidas, estatuas, em perfei- 
ta conservação. 

A velha cathedral eborense está admiravelmente 
construída ; as pesadas torres, a formidável nave, 
o amplo cruzeiro encimado pelo arrojado e elegan- 
te zimbório, altivo como um elmo, tudo está no 
seu logar, no seu prumo; os séculos e os abalos de 
terra não teem damnificado a magestosa construc- 
ção; todavia o granito empregado não é egual ; hai 
silhares carcomidos; não toram muito escrupulosos 
na escolha do material. 

A frontaria da egreja da Graça é uma belleza ; 
exemplar da renascença ultra-classica, único em 
Portugal. Tem três séculos e meio. E' de granito. 
Tem partes bem conservadas, outras^'á muito car- 
comidas. 

A capella mór da sé é do tempo de D. João 5.^ 
sumptuoso salão, rico e elegante. Tem mármores 
excellentes, bardilhos de primeira ordem, polidos, 
nitidos na perfeição ; felizmente os relevos, as figu- 
ras, as grinaldas são em mármore de Estremoz; 
as columnas, principalmente as duas do retábulo, 
são prodigiosas ; o mármore preto das duas portas 
é de primeira qualidade; mas o avermelhado é de 
má qualidade, e já está a desfazer-se. O revesti- 
mento exterior em mármore de Estremoz está como 
na hora em que terminou o trabalho. 

Mais moderna ainda é a egreja da Estrella em 
Lisboa; a maioria do mármore empregado é de 
péssima qualidade; está baço, parece sujo, e a des- 
fazer-se. 



i3 



Que maravilha a Batalha I e o frontespicio de 
Santa Cruz em Coimbra! mas o lioz empregado, fá- 
cil de trabalhar, desfaz-se ao tempo com rapidez 
deplorável; em Santa Cruz não se conhecem já mui- 
tos lavores, e a Batalha precisará de restauração 
constante. N'estes casos acho justificado o empre- 
go de um verniz qualquer que defenda a pedra da 
acção da humidade. 

Agora edificou-se em Lisboa a monumental es- 
tação dos caminhos de ferro. 

— Mas que bella pedra, diziam alguns, faz-se o 
que se quer, corta-se com um canivete. 

Lá para os fins do século xx esta custosa edifi- 
cação estará velha; e os capiteis corinthios, de fi- 
nas volutas e recortadas folhas, do templo romano 
de Évora estarão puros, eternamente nítidos. 

Os jesuítas, gente de juízo seguro, tinham nas 
suas instrucções a respeito de construcção a regra 
de sempre attender á duração; assim os seus colle- 
gios se conservam firmes, sendo notável em Évo- 
ra o edificio do actual seminário, todo construído 
pelos jesuítas, no sec. xvi, com perfeição notável. 

Ruínas romanas na herdade da Morgada 

Indo de Évora para S. Miguel de Machede, an- 
tes de chegar a esta linda aldeia, toda branca de 
cal, sécia e prasenteira, como bom povoado do 
Alemtejo central, está quasi á beira da estrada uma 
herdade chamada — os Curraes. Atravessando as 
terras d'esta herdade, seguindo a carreteira que 
passa junto do monle, chega-se á herdade da Mor- 
gada. Em frente do monte d'esta herdade ha uma 
collína de terras de semeadura, de brandos decli- 
ves; uma collína vasta, pouco elevada. Os homens 
de lavoura conheciam de ha muito que ali morara 
gente porque nos alqueivcs os ferros levantavam a 



cada momento barros cosidos, telhas de rebordo, 
pedaços de vasos, tijolos grandes e pequenos; e 
uma noite uma velha sonhou que ali havia grande 
thesouro enterrado, e entre risadas os rapazes fo- 
ram cavar, abrir covas, aqui, ali, onde a velha in- 
dicava. E um d'elles achou uma parede. 

O caso começou a parecer sério. 

Cavaram mais, foi mais gente; e descobriram 
outra e outra parede, e muitos cacos, e um chão 
de mosaico que era uma maravilha : continuaram 
chegando a ter a descoberto varias paredes e três 
grandes e bellos pavimentos de mosaico ; não achan- 
do porém a sonhada burra repleta de peças de ou- 
ro, e tornando-se cada vez mais penosa a excava- 
ção por irem entrando as construcçôes para o lado 
mais elevado, e como os cacos e os mosaicos não 
pagam trabalho, deixaram a empreza, E o que foi 
peior estragaram os mosaicos, de que poucos fra- 
gmentos escaparam. 

Se um dia se organisasse um estudo metho- 
dico do passado d'este paiz, como se tem feito na 
Dinamarca, na Bélgica, na Grécia para não fallar 
de outros povos, eu aconselharia uma explor.ação 
n'estas ruinas da herdade da Morgada. Os restos 
encontrados não indicam povoado, um grupo de 
apertadas edificações ; parece antes indicarem uma 
villa sumptuosa; uma casa de campo magnifica. 

Os vestigios romanos alastram-se por toda a 
collina, e a parte descoberta, uma ponta do véo 
apenas, promette muito, pois a curva da collina, 
o invólucro, acompanha a linha das paredes, sendo 
possível haver ainda compartimentos inteiros para 
a maior altura da collina. Não sei de moedas en- 
contradas, nem de lapidas com inscripções; todos 
os vestigios porém devem ser de origem romana. 



i5 

Ampliora da Curraleira 

Em julho de i885, na herdade da Curraleira, 
então pertencente ao notável eborense Joaquim 
Sebastião Limpo Esquivei, appareceuumaampho- 
ra bem conservada. Tem de particular que no bo- 
jo, superiormente, mostra claros vesti gios de uma 
cercadura de curvas, feita talvez só com os dedos 
estando o barro ainda fresco. Não é marca de fa- 
bricOj ou de olleiro, sim ornamentação, que eu 
não conheço em outros objectos análogos. Esta am- 
phora foi oíferccida por Esquivei á Bibliotheca ebo- 
rense. Na herdade da Curraleira tem apparecido 
outros vestígios de construcções antigas. 



•D' 



Tonrega 

A freguezia da Tourcga é vasta e pouco povoa- 
da; um grande grupo de herdades com seus mon- 
tes^ ou casaes isolados. A meio da freguezia a egre- 
ja parochial apenas acompanhada pela casa do sa- 
cristão, o cemitério moldurado pela sua parede 
branca, e um quinchoso cercado por um muro de 
pedra solta que é o passal do padre prior. Per- 
to da egreja uma grande construcção em completa 
ruina; e em volta, pelas terras de lavoura, muitos 
vestígios romanos, e alguns medievaes. 

O caminho de ferro entre as estações da Casa 
Branca e Monte das Flores percorre parte dos cam- 
pos da Tourega, passando a dois kilometros a sul 
da egreja. A via romana de Évora a Alcácer (Ebo- 
ra-Salacia) atravessava também aquella campina. 

A egreja marca-se bem no escampado; o cam- 
panil singelo sobresahindo entre algumas arvores 
altas, bem salientes na charneca de matto rasteiro. 

Nossa Senhora da Assumpção da Tourega é o 
orago da freguezia. Fica o templo a doze kilome- 
tros a sudoeste de Évora. 



i6 



A freguezia terá pouco mais de cem fogos. 

Muitas tradições bem antigas, populares ou de 
fundo popular modificado pelos eruditos, se ligam 
a estes sitios. 

O sanguinário Daciano, pretor das Hespanhas, 
em tempo do imperador Diocleciano, teve aqui, dis- 
seram sábios imaginosos, palácio, jardim, quinta, 
thermas, etc. Aqui mandou degolar dezoito santos 
martyres no anno 3o5, mandando enterrar os cor- 
pos n*uma gruta a que ainda hoje chamam cóua 
dos Martyres. 

Na egreja estava um altar sustentado sobre qua- 
tro columnetas, e dizia-se ser o tumulo de S. Viá- 
rio, bispo. 

Em 1 540 o cardeal bispo D. Affonso teve curio- 
sidade de saber ao certo que santo era este, e man- 
dou André de Rezende examinar o local, a inscri- 
pção, o altar; e o notável archeologo declarou que 
não havia tal santo e mandou entupir o altar. 

Outra lenda, sem duvida antiga modificada pela 
erudição, diz que o fero Daciano mandou ali dego- 
lar duas santas irmans, Comba e dAuouyrna, 

No logar onde tombou a cabeça de Santa Ano- 
nyma brotou uma fonte, a fonte santa. A pouca 
distancia está a antiga ermidinha de Santa Comba. 
Estas santas eram irmans de S. Jordão, bispo de 
Évora, martyrisado também em 3o5, nositioonde 
hoje está a egreja do seu nome. A este S. Jordão 
succedeu S. Brissos, que tem também o seu sitio, 
egreja, e a sua ribeira. 

Evidentemente ligam-se a estes logares lendas 
christans das mais antigas da península. 

Note-se desde já que nos campos da Tourega 
se formam e definem algumas correntes de certa 
importância, e que a serra próxima pertence ao 
grande relevo metalúrgico da serra dos Monges, 
onde abunda o ferro. 



J2_ 

Oiirega dizem alguns, e em documentos dos úl- 
timos séculos assim apparece por vezes designado 
€ste sitio; nos documentos mais antigos diz-se Tou- 
rega. O povo hoje diz Tourega; mas uma vez um 
pastor disse-me: Tourega é na charneca, Ourega 
na serra. 

A lenda de S. Viário tem origem interessante 
que será bom referir para demonstrar como a fal- 
ta de critica e de conhecimentos pode causar 
erros. 

Na lapide dedicada pela dama Calpurnia Sabina 
á memoria do marido e dos dois filhos (inscripção 
que durante séculos esteve na egreja da Tourega 
e hoje se guarda no Museu Cenáculo) por duas ve- 
zes se le VIRO.VIARVM.GVRANDARVM.ANN. 
palavras que se referem ao emprego dos dois mo- 
ços romanos que eram dos quadrumviros encarre- 
gados das estradas, e á sua idade ; em taes pala- 
vras imaginaram um santo varão chamado ,Viario 
que tinha cura das almas, improvisando logo um 
santo bispo. 

No livro dos herdamentos do cabido (Doe. hist. da 
cidade de Évora, parte i.* pag. 45) menciona-se a 
Tourega em noticia do século xiii ou começo do 
XIV. — Item. ha o cabidoo com a obra de smim a Iipr- 
mida da touregaa e a venda e o herdamento dy — . 

A venda era antigamente, antes da moderna 
transformação da viação, justificada, porque o lo- 
cal fica a meio caminho entre Évora e Alcáçovas, 
e na estrada de Alcácer. 

E' bem fácil agora ir á Tourega; uma bella es- 
trada nova leva até mui perto da egreja. Deixa-se 
a cidade pela porta do Raymundo e segue-se a es- 
trada das Alcáçovas cortando pelas herdades do 
sr. Margiochi. Entre alas de eucalyptos chega-se á 
ponte de Peramanca ; atravessa-se o bello montado 
do Pomarinho, de grandes azinheiras, e pouco de- 



i8 



pois, cousa de quarto de hora, acabam os arvore- 
dos e começa o escampado agreste, pouco povoa- 
do, um terreno ferruginoso vestido de matagal es- 
curo; em breve avista-se uma construcção velha, 
um grupo de arvores, uma ruina; a parede branca 
do cemitério construido ha pouco, tudo destacando 
bem no meio da ampla e severa charneca. 

O que é certo é que esta charneca tem muito a 
contar. 

Pelo norte fecha o panorama, a breve distancia, 
a serra de Montemuro. O cabeço mais oriental da 
serra tem um aspecto, um feitio que o differença 
dos outros; a grande distancia, á vista um tanto 
educada, se revela haver ali alteração da curva na- 
tural da serra ; é um castello^ uma altura fortifica- 
da por grande trincheira de que reslam vestígios 
importantes; um castello pre-historico, mas ainda 
conhecido em tempos medievaes; é o chamado 
castello de Giraldo ainda hoje na tradição popular. 
Não é um castello com torres, muralhas e fossos ; 
como em Castro Verde, na Colla ou na serra d'Os- 
sa é apenas um largo espaço cercado de vatlado 
formando parapeito, dando para fora uma escarpa 
difficil de subir. 

A breve distancia da egreja da Tourega fica 
o dolmen do Barrocal ; um pouco mais e nas mar- 
gens da ribeira de Peramanca se encontram vestí- 
gios d'outras antas, e duas bem conservadas na 
herdade de Valverde. 

Estamos pois em paiz pre-historico. 

A norte da egreja a ruina de um edifício a que 
chamam o cardeal, construcção talvez do século xvi, 
de que só restam uns paredões de grossa alvenaria. 

A porta principal da egreja voltada a poente ; a 
porta lateral para o norte. A disposição do templo 
é bem antiga, mas tem havido rebocos, alterações 
consideráveis; á vista nada de alta antiguidade. 



^9 

Na sacristia vi um azulejo, árabe talvez, com 
seu finos relevos entrelaçados. 

A um canto dentro da egreja, á direita da por- 
ta principal, uma pia de agua benta, obra rude que 
parece bem velha, na sua forma de calis. A pia 
baptismal não é vulgar; um enorme bloco de már- 
more branco cortado de veios azulados, sustentado 
sobre grossa e baixa columna entre quatro colum- 
netas de mármore branco bem lavradas. 

Pela frente e lado norte da egreja ergue-se um 
muro formando adro que foi em tempo coberto 
por alpendre. 

Sobre o muro ainda estão as bases das colum- 
nas que sustentavam a cobertura, e nas paredes 
da egreja os cachorros onde apoiavam os barrotes. 

Essas bases de granito singelamente lavradas 
podem ser mui velhas. 

Perto, a sul da egreja, junto de um muro, um 
grande cilindro de granito, com dois chanfros pro- 
fundos, e na parle superior um buraco; pode ter 
sido base de lagar ou atafona, mas formidável. 
Mais uns passos, ena entrada do passal um grande 
doliar, infelizmente picado, também chanfrado, 
mas vendo-se bem a forma de meia pipa, com 
seus aros em forte relevo. 

Junto do poço outra pedra trabalhada, cujo uso 
não é fácil determinar; pelos muros de pedra solta 
do passal, e do quintal do sacristão, muitas pedras 
lavradas que serviram a construcções e alguns ca- 
piteis, romanos alguns talvez, outros da alta eda- 
de media, de ornamentação vegetal muito rudi- 
mentar. 

Em redor da egreja e de seus annexos até gran- 
de distancia, 3oo, 400 metros em algumas direc- 
ções, as terras todas de lavoura estão salpicadas 
de fragmentos de tijollos, de telhas de rebordo. 

A Soo metros a poente dois tanques, é o nome 



20 



que melhor quadra a taes construcções, de 2o"x5% 
os muros de alvenaria com um metro de altura, 
forrados ainda em muitas partes de argamassa, ou 
cal com pequenos fragmentos de tijollo. 

Os dois tanques são parallelos, eguaes, um mais 
avançado que outro, talvez pelo declive do terre- 
no ; e próximo do mais avançado, a poente d'elley 
uma construcção semi-circular, de 4 metros de diâ- 
metro, que me parece resfo de um forno. 

Serem estas construcções da época romana pa- 
rece-me certo ; ha mais no paiz ; chamam-lhe tan- 
ques com bastante razão segundo creio. Seriam de 
banhos? banhos de lavagem, de culto, de remédio? 
ou simplesmente tanques para tratamento de mi- 
nério pela via húmida ? 

Caminhando para o norte a partir dos tanques, 
desce o brando declive da collina, e, percorridos 
cem metros a fonte roínana, designação talvez de 
origem erudita, ou de Santa Dominata^ dizer que 
revela tradição antiga ; Dominata, Inominata, a 
z4nGnyma da lenda religiosa. 

E' uma excavação defendida por umas pedras 
sem feitio ; a agua vem por um cano subterrâneo, 
e tem na crença local virtudes medicinaes, salutar 
principalmente nas doenças dos olhos. 

Que alguns d'esses silhares de granito estão ali 
ha longos séculos, e foram em tempo muito usa- 
dos (de ha muito que é rara a frequência n'squella 
fonte), parece certo pelo gasto de suas arestas. 

Partindo da egreja para sueste, a uns 5oo me- 
tros está a fonte de Santa Comba; um pouco mais 
a ermidinha, era ruina completa. 

E por todo este terreno os fragmentos de grossa 
cerâmica. 

André de Resende falia deTourega na sua obra 
— De Antiquitatibus Lusitanise — , livro 3." 



I 



21 



Chama- lhe Turegia, latinisando a formula an- 
tiga e popular. 

Publica a inscripção de Calpurnia Sabina a pag. 

l52. 

Vid. Relatório acerca da renovação do museu 
Cenáculo, pag. 18, n.° 35. Évora romana (Estudos 
eborenses) n." 22. 

Esta inscripção é do século iii. 



Artigo curioso sobre a Ourega ou Tourega, em 
Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, vol. 6° 
pag. 3i I e seg. 

E na «Évora gloriosa», do P. Francisco da Fon- 
seca, pag. 204. 



No Santuário aMariaiw, de fr. Agostinho de San- 
ta Maria, tomo 7.° pag. SSg e seg. 

— Esta egreja da Senhora é a mais antiga de 
todas as do termo de Évora, e querem alguns que 
seja ainda mais antiga que a mesma sé da cidade, 
e para confirmação d'isto referem, que indo o pa- 
rocho d'aquella egreja á sé buscar os Santos Óleos 
reparara que aos mais parochos, que também iam 
com a mesma pertenção, se lhe pedia uma moeda 
nova de reconhecença, e que a elle lha não pedi- 
ram, nem quizeram acceitar, e perguntando ao sa- 
cristão (o padre Sebastião Ferreira, o que foi mui- 
tos annos) a causa de elle não pagar, lhe disse, que 
era porque a sua egreja era a mais antiga, e ainda 
que a mesma sé, e que se houvesse synodo, e não 
houvesse cabido, e houvessem de assistir todos os 
parochos do arcebispado, elle havia de ser, por 
mais antigo, o presidente d'elle. 

Ainda hoje se não pa^a a reconhecença. Pelo li- 



22 



vro dos herdamentos vê-se que território e ermida 
da Tourega pertenceram ao cabido e fabrica da Sé. 
Creio ser esta a razão do isento da reconhecença. 
Também pode ser por estar na freguezia o passal 
da mitra, a quinta e herdade de Valverde. Estes 
differentes factos dão importância singular á Tou- 
rega, no ponto de vista de tradição ecclesiastica. 

Já dissemos das tradições dos supplicios dos 
christãos do sec. iv. 

Fr. Agostinho de Santa Maria ainda nos conta 
(ja „casa da balança onde se pesavam os devotos 
a ti-igo — , uso vulgar antigamente, e ainda hoje em 
alguns pontos praticado. 



No Agiologio lusitano, de Jorge Cardoso, tomo 
3.° pag. i8 também se falia da Turega, Tourega 
ou Touregia ; e de Santa Comba e Anomiiiata ou 
Anonyma. 

Fontes de Santa Comba ha muitas no paiz. São 
conhecidas as formas latinas Turobriga e Turibriga. 

No Museu Cenáculo está a inseri peão votiva a 
uma divindade Tiinibrici, achada no termo de Beja 
(Évora romana, n.° i). Insc. 71 do Corpus. 

Not. Arch. de Port. pag. 40. 

]S[os — Documentos históricos da cidade de Évo- 
ra — , 2.* parte, pag. 35, publiquei uma doação de 
terras aos pobres da pobre vida na serra de Mon- 
temuro. 

N'este notável documento se falia do castello de 
Girai sem pavor .^ que é o mesmo castro pre-histo- 
rico, que serviu ainda na idade média, e que fica 
bem visível a pouca distancia da Tourega. 

A vida ercmitica encontra-se no Alemtejo, na 
serra d'Ossa e na de Montemuro, na alta edade 
media. 



23 

Mnsen Cenáculo 
Antiguidades da herdade da Capella 

Em janeiro de 1882 entraram no museu Cená- 
culo duas lapidas sepulcraes romanas descobertas 
poucos mezes antes na herdade da Capella, a 2 ki- 
lometros ao sul da villa do Redondo. O nosso bom 
amigo, dr. João Martins da Silva Marques, juntou 
ao obsequio da offerta o incommodo de as fazer 
transportar até Évora. As lapidas foram encontra- 
das com outros vestígios romanos, sepulturas for- 
madas de tijollos, restos de parede, etc. que pro- 
vam a existência ali de povoado de certa impor- 
tância. 

As inscripções mencionam Júlia Maela (Évora 
romana. n.° 19), dama que falleceu de 55 annos ; 
e L. C. Gallo de 5o (Evor. rom. n.° 20). 

Nos arredores da importante villa do Redondo 
ha também muitos vestigios pre-historicos, dol- 
mens ou antas. O sr. dr. João Martins da Silva 
Marques tem reunido em sua casa algumas anti- 
guidades significativas. Era tão bom se em todas as 
localidades houvesse um dedicado a estes estudos 
que pelo menos salvasse o que fosse apparecendo. 

ÂntiéDidades de Reguengos — Os arados 

O sr. Fernando Palma professorem Reguengos, 
offereceu á Bibliotheca Publica três objetos interes- 
santes : 

Uma arma de pedra polida, em diorite, bem con- 
servada, de ponta e gume nitidos; achada ha pou- 
co na herdade chamado do Reguengo. 

Uma lucerna, menos mal conservada, de barro 
vidrado, talvez de origem árabe. 

O terceiro objecto é mais curioso, e ficou deve- 
ras muito bem no museu de uma cidade onde a 



24 

agricultura prepondera ; é uma relha de arado, um 
vomer de ferro, com 3o centímetros de compri- 
mento. 

Este ferro d'arado é muito notável. 

Julgo que não é romano. O i^o/zzer não encávava 
no dentale por um modo tão primitivo como n'es- 
te exemplar que se fixava na madeira pelo simples 
aperto, a quente provavelmente, das rebordas la- 
teraes. 

Ora no excellente — T>ictionaire des antiqidtés 
grecques et vomaines^ de Daremberg et Saglio, no 
vocábulo oAratrum vem uma gravura representan- 
do um ferro de arado em que o modo de fixar é 
análogo a este de Reguengos: diífere apenas o fer- 
ro por ter posteriormente lugar para uma cavilha, 
o que augmentava a segurança, e mostra já um 
progresso. 

Esse ferro de arado não é romano, é da Gallia 
antiga; céltico como se costuma dizer. 

Ora este de Reguengos ainda é mais primitivo, 
mais rudimentar; não é de arte romana; podemos 
chamar-lhe lusitano. E' o avô, o pae Adão dos ara- 
dos alemtejanos; quantos séculos, quantas gerações, 
quantos tempos de alqueives e sementeiras teem 
passado sobre a terra desde que este ferro parou 
no rego que ia abrindo! Gosto muito de ver aquelle 
pedaço de ferro, tosco, oxydado, no museu ebo- 
rense. 

Arado e lucerna foram achados na Mina do 
Castello; localidade onde me dizem que nem mina 
nem castello existe. Basta o nome para chamar at- 
tenção. Designa quasi sempre o sitio onde existiu 
trincheira ou fortificação, que nada tem que ver 
com os castellos de muralhas, torres, etc. mais mo- 
dernos. 

Ás vezes conserva-se a trincheira, por exemplo 
na serra d'Ossa; varias na Colla e Castro Verde, 



2"5 



•^tc. Em muitos pontos o tempo, a vegetação tem 
desfeito completamente o rude cordão de pedregu- 
lhos; do logar forte resta apenas o nome. 

Na villa de Ourique não ha vestigios de fortifi- 
cação pre-romana; o povo comtudo continua a cha- 
mar castello á parte superior da villa. 

Não visitei a mina do Castello, mas estando 
nos Reguengos, um cavalheiro da localidade, que 
me acompanhava, de uma altura apontou-me o si- 
tio e pareceu-me ver no ponto indicado não a trin- 
cheira, mas uma curva de terreno diversa das cir- 
cumvisinhas, o que indica muitas vezes trabalho 
intencional. Para a vista um tanto educada a cur- 
va, a linha natural, não se confunde facilmente com 
íi fabricada, para fortificação, ou por accumulação 
proveniente de grande operação mineira. 

Conhecida proximamente a formação geológica 
do terreno é sabido o aspecto, o contorno; e repá- 
ra-se logo na linha artificial ; os granitos, os schis- 
•los, os calcáreos teem as suas linhas ; o trabalho 
do homem no terreno conhece-se como um incha- 
ço ou uma cicatriz na pelle. 

Ha pouco (março 1891) vi no British Museum, 
na sala de antiguidades prehistoricas, um ferro de 
arado que me recordou o publicado pelo Darem- 
berg. Está marcado assim Iron plouglishare from 
Gloiicester. O de Reguengos c mais primitivo, 
mais rudimentar. 

Antiguidades romanas no aro de Montemér-o-Novo. 
A herdade das Commendas 

Nos arredores da importante villa de Montemor 
o Novo ha vestigios das diíTerentes civilisações. In- 
felizmente tem faltado ali um indagador paciente. 
Não sei mesmo onde param actualmente alguns 
objectos que vi, era eu bem criança, em casa do 



26 



fallccido Silva Grenho, que foi por muitos annos 
administrador do concelho, cavalheiro muito esti- 
mável e culto; recordo-me de ver na sua sala al- 
gumas armas de pedra polida, bons exemplares, e 
moedas romanas achadas pelos arredores da villa 
e cm Cabrella. 

Na serra de Cabrella, por noticias que tenho, ha 
vestígios pretromanos de certa importância; ha al- 
guns annos um proprietário do sitio me offereceu 
um grande fragmento de lança, em cristal de ro- 
cha, infelizmente quebrado porque fizeram deli- 
■gencia por' lhe tirar a patina. Fora encontrada n'u- 
ma sepultura que pela descripção seria um dst. 

A estrada nova de Évora para Montemor passa 
pela egrcja de S. Mathias, a meio caminho, onde 
se conserva atraz do altar mor, note-se, uma pe- 
dra, um mármore lavrado, que pode ser parte de 
uma grande ara. No sitio tem apparecido algumas 
antiguidades. 

Passado o Jarro, uma pequena ribeira correndo 
entre montados densos, começa pouco depois a en- 
costa da Abaneja, e entra-sen'um planalto bem de- 
finido onde se encontram os dolmens, a distancias 
varias, das Valladas e do Pinheiro do Campo ; des- 
ce-se para Patalim, a antiga e histórica estalagem, 
e nãa longe ficam os restos do solar medieval dos 
Patalins. 

Pouco depois costeam-se os altos cerros vestidos 
de escuros montados da Serrinha, onde ha também 
vestígios pre-historicos. 

A estrada entra em terras desafogadas, de am- 
plos horisontes, e eis-nos a atravessar a courella 
dos Touraes, com o seu bello dolmen bem con- 
servado. A' direita, na baixa, fica a Amoreira da 
Torre, com a sua alterosa torre quadrada, onde es- 
tão as grandes e bellas estatuas romanas, que vie- 
ram de Mertola. 



27 

Em breve Montemor, a villa opulenta, aristocrá- 
tica, mui limpa, recostada entre o seu admirável 
castello romano-arabe-medieval, com as suas torres 
do cAnjo, e da oAíá-hora^ e o seu palácio; mais 
longe o sanctuario celebre da Senhora da Visitação; 
sobre outra collina, bem erguida, a ermida de San- 
to André, bom exemplar do primeiro gothico. 

No termo de Montemor fica a herdada das Com- 
mendas, de que é proprietário o sr. Oliveira e 
Silva, cavalheiro mui distincto e extremamente 
íimavel. 

Abrindo-se uma valia em terra d'esla herdade 
toparam os trabalhadores cousas inesperadas; de- 
ram a noticia, e o sr. Oliveira e Silva mandou con- 
tinuar a excavação e recolher cuidadosamente os 
objectos. A excavação revelou muros, pavimentos, 
canos ou aqueductos, grande quantidade de gros- 
sas cerâmicas. 

Muitos objectos vi eu em casa do sr. Oliveira c 
Silva, enchendo um caixote ; utensílios e ornatos, 
de ferro e bronze. 

Entre objec-tos cofnmuns vi alguns menos vul- 
gares. Algumas peças pareceram -me de arreios dc- 
cavallos, fibulas grandes de correias, ornatos de 
freios e peitoraes, em bronze. 

Entre os utensílios agrícolas de ferro vi uns de 
feitio singular que parecem ferros de crestar, para 
separar e extrair os favos dos cortiços. 

O sr. Oliveira e Silva brindou-me com uma fi- 
bula de bronze, que eu oífereci para a collecção de 
antiguidades da Bibliotheca Nacional. 

As antiguidades encontradas na herdade das 
Commendas são da epocha romana, e denunciam 
uma exploração agrícola. 

Objectos romanos da herdade do Zambujo 

A herdade do Zambujo fica ao norte de Évora, 



28^ 

» 

poente de Arrayollos, a um quarto de legoa da? 
egreja de S. Pedro da Gafanhoeira. 

Abrindo-se uma valia descobriram muitos ves- 
tigios romanos, alicerces, sepulturas^ grande nume- 
ro de fragmentos de cerâmica. O intelligente pro- 
prietário sr. Joaquim António Rosado dignou- 
se oíferece,r-me três objectos completos. 

Vaso de vidro um tanto esverdeado, de alto gar- 
galo esguio, de 12 centímetros de altura.* 

Vaso, ou guttus de barro vermelho, aza e garga- 
lo pequenos, muito bem conservado: tem 19 cent. 
de alto e 10 no diâmetro maior. 

E uma telha de rebordos, de 45 cent. de largo, 
6 cent. de espessura no rebordo, chanfrada nos ex- 
tremos, bem conservada. 

Estes objectos pertencem agora áBibliotheca de 
Évora. 

Por todos aquelles sitios, no aro de Arrayollos,. 
são frequentes os vestígios da epocha romana. 
Houve ali povoação bastante densa. Ha também 
algumas antas na freguezia de S. Pedro da Gafa- 
nhoeira : uma bem conservada e notável na herdade 
da Serrinha. Em i8go descobriu-se perto de Ar- 
rayollos grande porção de moedas árabes, de prata. 
O sr. Júlio Machado fez favor de me dar algumas 
que eu oífereci cí Bibliotheca Nacional. O sr. Vis- 
conde da Esperança comprou alguns centos d'estas 
moedas. 

Como se vê no aro de Arrayollos ha antiguida- 
des dolmenicas, romanas, árabes e medievaes. 

Entre estas ultimas a Sempre VSjjmi agora já 
conhecida, citada, celebrada. 

As rnlnas romanas de SanfAnna do Campo 

A egreja de Sant'Anna do Campo fica a uns 4 
kilomelros a noroeste de Arrayollos. A freguezia 



_29_ 

de Sanl'Anna é vastíssima, comprehcnde proprie- 
dades importantes, mas pouco povoada ; tem 94 
fogos que na maioria são montes de herdades. 

A egreja e a pequena aldêa que a cerca, estão 
em terra da herdade da Adúa. 

O terreno é accidentado, de fortes relevos, e 
muito arborisado de montados de sobro e azinho; 
as ribeiras de Arrayollos e do Divor, e outras cor- 
rentes menores cortam a freguezia em leitos irre- 
gulares, e de pouco declive, causa provável das 
febres periódicas que são frequentes. 

A egreja de Sant'Anna é única na vasta fregue- 
zia. 

Ora esta egreja ali escondida entre os arvoredos 
é uma preciosidade, porque para a construírem 
aproveitaram, e salvaram, os restos de um ediíicio 
romano de dimensões e fabrica mui singulares. 

Não soífre duvida que esses restos do primitivo 
edifício são da epocha romana ; teem o cunho gran- 
dioso e solido que essa pasmosa civilisação sabia 
imprimir a todas as suas obras; era umaconstruc- 
ção vasta, de robustas paredes formadas de gros- 
sos silhares faciados, fortalecidas por contrafortes 
bastante próximos para sustentarem superiormen- 
te outros silhares de grandes dimensões, formando 
um friso que ainda se conserva perfeito na face 
oriental da egreja. 

Demais na proximidade da egreja, a norte, já se 
tem descoberto sepulturas romanas, e algumas 
moedas que infelizmente se perderam, mas, pela 
discripção, romanas e do tempo do império. 

Estas singulares e veneráveis ruinas são conhe- 
cidas ha muito. 

O P." Luiz Cardoso, no seu Viccioiíario Geogra- 
phico, menciona uns achados que tiveram logar 
quando se acrescentou a egreja, para o lado do 
norte, porque para o sul o ediíicio é propriamente 



OO 



romano : o P.' Cardoso escrevendo o;i; 1 74?, diz 
— mandaiído-se accresceaiar a e^reja haverá 16 
annos (iJ^iS ou ijso). e cavando- se a terra para 
se limpar o logar se achou uma pedra lavrada de 
muita grandeza com um buraco eauipido de ca!. 
c partindo-se se achou dentro uma baiTa de peso 
de 2 arráteis, i palmo de comprimento, 2 dedos 
no largo, e 1 de altura ; e presumindo-se ser ouro 
teve noticia d*istoo cabido; foi examinada a bar- 
ra e o contraste achou ser latão e estanho — . 

Dá noticia também de uma sepultura coberta 
de grande pedra ; dentro acharam uma vasilha de 
barro vidrado grosso e uma caveira. 

Na conferencia 14.* da Academia Real do His- 
toria poriugjeza de i dabril de 1734, a foi. 5, se 
dá noticia de uma cotnmunicação de fr. Aâooso 
da Madre de Deus Guerreiro que enviara á aca- 
demia varias relações das suas descobertas archeo- 
lógicas; uma de taes relações respeita a SaniWn- 
na do Campo. 

— Na egreia de Sant*Anaa se achou uma pedra 
co:r letras amigas mas tão gastas que se não po- 
deram ler. Em outra pedra grosseira que terá de 
lace palmo e meio, e mostra ter comprimento {por 
que está cravada na parede^ se divisara umas let- 
tras e as que se podem ler são as seguintes : 

CÁRNEO 
CAL-ANTICE 
SICAECILIA 
OR M CVIS 

R. CVIS. 

MetiCroaa lambem os lacios n Suciados pc: v.^. ;- 
doso. 

, Outros escripiores se tem o>:w„pdij Ja n. tavc. 
cgreja. Cunha Rivara no 'P-njrjiTM ie iSrS, pag. 



^I 



1 3o e seguintes, relata com a sua costiinuiJa eru- 
dição, paciente e rigorosa, quanto poude obter re- 
lativo a Sant'Anna do Campo. 

O sr. Cunha Rivara visitou as ruinas do Sant'- 
Anna do Campo que encontrou no estado em que 
ainda hoje se conservam. 

Notou a forma do templo, em cruz de braços 
iguacs, formado de pilastras e paredes de grossas 
pedras de granito toscamente lavradas, despidas 
de ornatos e galas de architectura. 

O braço sul pode dizer-se completo, existe par- 
te do que olha a poente, e outra do nascente; no 
angulo formado pelos braços nascente e sul ha 
uma construcção da mesma época, de pequenas 
dimensões. Pelas paredes das casas e quintaes da 
aldeia viu grande numero de pedras de cantaria 
que sem duvida pertenceram ao edifício do tem- 
plo; em roda se descobrem alicerces de outras edi- 
ficações. 

Reparando bem n'estes restos, sobre tudo esbo- 
çando a planta, notei que não pertencem a ediíi- 
cações isoladas, sim a uma só construcção, de pla- 
no mui symetrico. 

No mesmo artigo se mencionam as inscripçõcs 
incompletas : 

. . . AFCA 

...NANll 

. ..lERME 

LAVS 

e 

. . CÁRNEO 

...CALANTICE 

As inscripções de Sant'Anna estão no — Corpus 
— do sr. Hubner, sob os n."' i25 e 126. 

As ultimas letras LAVS (lubens animo votum 
solvit) mostram claramente que se trata de ara vo- 



32 

tiva; o nome bárbaro da divindade chama atten- 
ção, é único, não devemos todavia esquecer que 
ha muitas divindades locaes na península com de- 
nominações ainda mais singulares, nem pretender 
modificar a leitura para Deo Eterno, como alguém 
indicou. 

Infelizmente as inscripções desapparcceram ha 
muito, e não resta meio de verificar a leitura. 

Diz ainda o sr. Rivara que o templo da povoa- 
ção de Calantica era mais pequeno mas de risco 
semelhante ao de Endovelico junto á moderna vil- 
la de Tercna, ambos transformados em templos 
christãos, mas do ultimo tendo só aproveitado os 
alicerces. 

Não encontro analogia entre as ruinas de Sant'- 
Anna e o templo de Terena : e sobre este ponto 
temos de divagar um pouco. 

Quando se falia do templo de Terena eníende- 
se o celebre sanctuario da Senhora da Boa Nova, 
situado, a dois kilometros da villa para nascente. 
N'este caso, como em tantos outros, tem havido 
confusão. 

No termo de Terena ha dois templos, um é a 
ermida de S. Miguel da Motta, hoje em completa 
ruina; uns paredões isolados encimando um cabe- 
ço mui preeminente, de rápido declive, a 4 kilo- 
metros ao norte da villa, com um vastíssimo hori- 
sonte. Este é o sanctuario certo, e indubitável de 
Endovelico, que o duque de Bragança D. Theodo- 
sio encontrou em ruina, e donde mandou levar as 
lapidas para os Agostinhos de Villa Viçosa; que 
mais tarde se reconstruiu, para ser já n'este século 
completamente abandonado; e hoje é simplesmen- 
te a ruína da ermida de S. Miguel da Motta. Aqui 
os fragmentos de aras, as inscripções, os vestígios 
romanos ás dezenas (agora na Biblíotheca Nacio- 
nal) ; o risco da ermida nada tem que ver com o 
de Sant'Anna. 



33 

O outro templo, a Senhora da Boa Nova, é vas- 
to, sumptuoso mesmo, construído ou totalmente 
reconstruído em tempo de João i ou Affonso v, 
tendo soífrido depois varias modificações, pouco 
importantes, mesmo modernamente. E' desde mui- 
to um sanctuario famoso, muito venerado em toda 
aquella região alemtejana. Alem de duas inscrip- 
ções nenhum vestígio romano; o risco é em forma 
de cruz, mas de braços desiguaes. As duas lapidas 
são as endovellicas de Sitnia e Terentia. Nada re- 
corda Sant'Anna do Campo. 

Teria Endovellico dois sanctuarios? ou assim 
como o duque de Bragança levou para Villa Viço- 
sa as lapidas que estão nos Agostinhos, e que fo- 
ram de S. Miguel da iMotta, algum sacerdote illus- 
trado da Senhora da Boa Nova, querendo salvar 
as duas lapidas, as faria transportar da ermida aban- 
donada para o seu templo? é o mais verosímil. 

A S. Miguel pertenceram as inscripções de Vil- 
la Viçosa, e ultimamente, em consequência mesmo 
da ruína completa a que a ermida chegou, cahin- 
do paredes, abatendo telhados, desfazendo-se os 
rebocos, appareceu uma grande agglomeração de 
mármores romanos, inteiros ou partidos, entre el- 
les algumas aras com inscripções completas de que 
eu já tenho fallado. Demais o risco mesmo da er- 
mida, apezar da reconstrucção e da ruina não é o 
usual do templo chrístão, e coincide comod'alguns 
sanctuarios pagãos ha muito conhecidos, um corpo 
central estreito ladeado de compartimentos acanha- 
dos (V. n.** 3 da pi. 44, da i.* parte do tom. 2.° de 
— L'Anliquílé expliquee — de Monlfaucon). 

Isto é, S. Miguel da Motta representa-nos hoje 
o sanctuario de Endovellico: avaliando pelo que 
resta este sacellum apezar do grande numero das 
suas aras, algumas formosíssimas, que attestam a 
sua impoitancia em largo período, era em dimen- 



34 

soes muito inferior ao edifício de Sant'Anna do 
Campo. 

(Esta noticia foi escripta em agosto de 1882. Em 
1889 fez-se uma exploração official em S. Miguel 
da Motta, sob a direcção do sr. Leite de Vascon- 
cellos. Resultou uma collecção única na península 
luso-hispanica nos pontos de vista epigraphico e 
archeologico, importante também no ponto de vis- 
ta artístico). 

Alguns números mostrarão a importância do e- 
dificio romano : a egreja de Sant'Anna tem inter- 
namente i5'",4X7'",3; a largura externa na pare- 
de sul, ou da capella mór, é de i2™,6 contando as 
pilastras ou contrafortes dos cunhaes ; esta parede 
é toda romana. 

A parede do nascente é quasi toda romana ; os 
contrafortes completos sustentam ainda os silhares 
de grandes dimensões, que formam uma architra- 
ve rudimentar. 

No poente a parede está mais incompleta, res- 
tam 4 pilastras, e a estas segue-se uma fiada de 
silharia, na vertical, que trava a parede sobresa- 
hindo ainda bastante no .interior do templo; é um 
fragmento de parede romana, perpendicular ás da 
capella mór; esta parede seguia e o seu extremo 
se vê claramente formando o cunhal da casa do 
sacristão; da parede da egreja a este cunhal vão 
i2™,5 ; é o que resta do braço poente da cruz, con- 
sideravelmente maior que o braço sul. Para o ou- 
tro lado a parede tinha egual extensão, e o cunhal 
do pequeno cemitério corresponde ao do poente ; 
de modo que de cunhal a cunhal, isto é, entre os 
extremos dos braços ha uns Sy metros. E a pare- 
de que seguia em frente da casa do prior, no ter- 
reiro da egreja, para norte, e que foi cortada ha 
annos para facilitar o transito, mas de que existem 
vestígios, era ainda mais afastada, distava i5"',4da 
parede do poente. 



35 



Bastam estes números para mostrar a vastidão 
do edifício. 

A pequena ccnstrucção também romana, e per- 
feitamente conservada no exterior, que occupa o 
angulo formado pelos braços sul e nascente tem 
2^,9X5,85. 

A parede completa tem 6 metros d'altura. 

Infelizmente as inscripções desappareceram ha 
muito, ou estão escondidas pelos rebocos; o que 
resta dá uma prova sufíiciente de que ali existiu 
um sanctuario d'uma divindade local. 

Se o que resta não faz lembrar S. Miguel da 
Motta, e se se afasta da Sr.^ da Boa Nova, em 
compensação approxima-se de sanctuarios pagãos 
conhecidos (Montfaucon — Templos — N. 3 da pi. 
47). O templo da Fortuna em Preneste (hoje Pa- 
lestrina) tinha muitos annexos, avenida, claustras, 
jardins; em Sant'Anna parece ver-se o templo e 
algumas dependências todas feitas na mesma epo- 
cha e forma. 

O digno parodio de Sant'Anna (era em 1882 o 
rev. P.' Brito), vendo o máo estado da abobada da 
sua egreja instou com a junta de parochia pelo seu 
concerto; julgava-se a principio que seria indis- 
pensável a demolição de parte da obra romana, 
viu-se depois que seria inútil fazel-o, e que de tal 
demolição resultaria grande augmento de despe- 
z'a ; para aformosear e desimpedir o interior da 
egreja seria preciso cortar os silhares salientes, 
resto da parede de que já fallei, mas esse corte 
ou desbaste sahiu muito moroso e só se levou a 
certo ponto, porque as pancadas repetidas do pi- 
cão atormentavam e aluiam as paredes de alvena- 
ria ; e assim estão salvas as ruinas romanas de 
Sant*Anna do Campo, e na sua velhice de 20 sé- 
culos, amparam as pobres alvenarias incompara- 
velmente mais recentes. 



36 



Procedendo-se ao desbaste dos silhares no inte- 
rior da egreja appareceu entre duas pedras uma 
setta de cobre, que me foi offerecida, e que eu dei 
á Bibliotheca d'Evora. Setta e o que resta da has 
te tem o",2o3 de comprimento; a farpa tem 
o'",o 1 2 ; a espessura da haste é de 5 millimetros. 

A egreja de Sant'Anna, única na vasta freguezia, 
em parte construida de veneráveis restos d'um 
edifício romano, merece toda a attenção aos pode- 
res públicos, e deveria mesmo ser classificada en- 
tre os monumentos nacionaes. No seu género não 
conhecemos no paiz monumento de egual impor- 
tância. 



A memoria do padre Aífonso da Madre de Deos 
Guerreiro, respectiva a Santa Anna do Campo, 
vem sob o n.° XVI: «Noticias da conferencia que 
a Academia Real de Historia Portugueza fez no 
primeiro de abril de 1734». Nesta memoria se re- 
fere também ás 3i5 antas que viu, ou de que teve 
conhecimento. 

A inscripção romana de Calantica que elle men- 
ciona é a de Cárneo Calanticesi. 



No Corpus, n."' i23 e 126. 

CÁRNEO 

CALANTICE 

S:CAECILIA 

OR NI CVIS 

R. CVIS 

DEO . PTARNEO . CALANTÍ 
CENSI . LAVS 



37 

A FG A (?) 
NANII 
lERME 
L.A.V.S. 



Arado de Reguengos 

Outro ferro de arado também proveniente da 
mina do castello tem o™,38 de comprido, e o'",! o 
na cava, no lado maior. Está também na Biblio- 
theca. 



-<P5£í_2H!ieS=^&- 



Fica muito a contar das antiguidades romanas 
nos arredores de Évora. Mais tarde agruparei ou- 
tras noticias. Nas freguezias de S. Marcos e S. Man- 
cos, nas herdades do Freixo, de Alcalá, da Cas- 
queira ha vestígios importantes. 

Fragmentos de cerâmica e cimentos são frequen- 
tes em muitos pontos. Uma exploração methodi- 
ca, dirigida por pessoas dedicadas, sem grande 
despcza, daria muitos elementos para estudo, for- 
maria um opulento museu. 

Ao menos que se não deixem perder os obje- 
ctos que eventualmente forem encontrados, nem os 
vendam a estrangeiros. 



Fim. 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUBOS KBOHKNSKS 

Eslao publicados : 
i,° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana, !.■■' p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3.° 
A Casa pia. O ediíicio do collegio do Espirito Santo da Com- 
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja. 
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe- 
ca Publica. — 6," Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S. 
Bento. — 7." Bellas artes. ^ — • 8." Vésperas da restauração. — 9." 
Idem, 2." parte. — io.° Brasão d'Evora. — 11." A egreja de San- 
to Antão. — 12." O archivo municipal. — 13." A restauração em 
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri- 
córdia d'Evora, i." parte. — i5." Idem, 2.-' parte. — 16." Idem, 
3." parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora. 
1.'' parte. — iq.° Idem, 2." parte. — 20." Idem, 3.^ parte. — 21." 
Idem, 4.^ parte. — 22." Os Festejos de Évora em 1729. — 23." 
Évora nos Lusiadas. — 24." Procissões eborenses. — 25." Expo- 
sições de arte ornamental. — 26." Antiguidades romanas em 
Évora e seus arredores. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica 
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta. 

Documentos Históricos da Cidade d'£¥ora 

Estão publicados : 
1." parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu- 
nicipaes dos sec. XII e XIIÍ. Documentos do Cabido. O livro 
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos 
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen- 
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da 
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i.° — 2." 
parte, fascículos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens 
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da 
Misericórdia. 

Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran- 
ches, praça do Geraldo, Évora. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand. 



31 Ai3i^xjc>A r> Aí?; 

A' venda em Évora em casa do editor Abranches. 



DO MESMO AUCTOR 

Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander- 
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório. 

Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio 
Victor, Scylax e Hannon, ítenerario de Antonino, Plinio e Mella. 

Livro 3." da Geographia de Strabão. 

Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de 
Coimbra. 



GABRIEL PEREIRA 



•-inrjnTT"nnn 

-_JkJ J- KJ jlJkJkJ 



^ 



j 



\^ 



RENSES 



j^ISTOf^IA — ^I^TE— ^E^CHEOLOGIA 



ROTEIRO DE UM EBORENSE, 
EM RÁPIDO, POR MADRID, PARIS E LONDRES 

(NOTAS PARA OS AMIGOS) 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAL 

Rua Ancha n." 85 



189I 



GABRIEL PEREIRA 



^ 



m 



r\ 



v_/ 



H 



BORENSES 



j4lST0P^IA -y^P^TE-yAr^CHEOLOGIA 



ROTEIRO DE UM EBORENSE, 
£M RÁPIDO. POR MADRID. PARIS E LONDRES 

(NOTAS PARA OS AMIGOS) 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE - 

t)K JOAQCIM JOSi; P.AI^TISTA, IMl-RKSSOK DA CASA «EA' 

Rua Ancha n." 85 

i8qi 



ESTUDOS EBORENSES 



Roteiro de um eborense, 
€m rápido, por iadrid, Paris e Londres 

(notas para os amigos) 



A\s sete horas da noite de 22 de fevereiro parti 
de Lisboa, da estação do Cães dos Soldados. Pou- 
cos passageiros. Noite agradável. Na estação do 
Entroncamento, bem illuminadaa luz eléctrica, pe- 
queno movimento. Ao passar o Tejo havia luz suf- 
ficiente para distinguir vagamente o vulto de Al- 
mourol. Já havia um tenuissimo ar de madrugada 
na j3assagem das serranias de Marvão, que se re- 
cortavam em escuro sobre um céu limpo de nu- 
vens, estrellado, ligeiramente alvacento a oriente. 

A fronteira; paragem maior, uma passeiata na 
plataforma ; a primeira vista do piquete de carabi- 
neiros que examinam as bagagens, a primeira pa- 
relha de guardas civis, com os seus chapéos bicor- 
nes; as primeiras designações estrangeiras, la fon- 
da^ la cantina. 

Vae partir o comboyo, ai tren^senores ; viajeros^ 
ai tren ! 



Um grupo de hespanhoes faz troça do nosso ter- 
mo comboyo, comparado ao tren ; um cavalheiro en- 
sina outro a pronunciar ton-e das vargens ; é diffi- 
cil para um estrangeiro pronunciar i^argeus. 

Lembrei- me de um inglez que me dizia que lhe 
era mais fácil aprender chinez do que pronunciar 
bem portuguezmente: Albuquerque Noronha Falcão. 

Já era manhan clara ao chegar a Herreruela; a 
paizagem, a orographia e vegetação parecida á do 
alto Alemtejo, e sul da Beira Baixa ; o paiz muita 
deserto. 

Aliseda ; dia bem claro. E' manhan de segunda 
feira ; pequenos grupos de populares pela estação. 
Pouco movimento. O aspecto das casas humilde. 

O que já mudou completamente foi o tom do 
vestuário das mulheres; domina o verde, nas saias 
o amarello. 

A posição, a attitude é diíTerente tafnbem; o ho- 
mem com a rrtão na cinta, a mulher firma os pu- 
nhos nos quadris. 

Ha junto da Aliseda afloramentos graniticos, de 
blocos maisoumenosarredondados, como em mui- 
tos sitios de Portugal. Em alguns d'esses penedos 
pareceu-me ver trabalho intencional; em uns pró- 
ximos da estação julguei avistar cavas artificiaes, 
como as de sepulturas em rochas, frequentes em 
pontos do nosso paiz; a cava para receber o cadá- 
ver com o vão para a cabeça. 

Está um dia lindo, o ar de fina transparência. 

Atravessa o Tejo; uma bella corrente fresca, pu- 
rissima, opulentada pela fusão das neves ; a linha 
férrea salva o rio n'uma altura considerável. Ha 
umas barcas de passagem que n'esse momento fa- 
ziam vai-vem transportando de uma a outra mar- 
gem, homens, bestas carregadas, e um rebanho. 

Caminhamos agora com maior velocidade. Li- 
mita o horisonte a norte a serra de Grados, ou de 



I 



Gredos, ou el-Gréu como lhe chamou um campô- 
nio, que eu interroguei n'uma paragem. Estava im- 
ponente a cordilheira, severa e linda; coberta de ne- 
ve nas regiões superiores, como se a involvesse a 
fímbria de uma mantilha branca de larga franja. 
Como o ar estava mui transparente a luz marcava 
bem os espinhaços, os côncavos nas asperezas nuas 
da serra; o branco brilhante da neve superior, pe^ 
la reverberação, fazia parecer escura a zona pro* 
xima do horisonte, sobresahindo assim aquelle enor- 
me relevo esmaltado; a sul, a grande distancia, co- 
meçam a definir-se os montes de Toledo. 

Durante três horas, de marcha rápida, se avis- 
tam as duas enormes trincheiras parallelas; que for- 
tificação! Os montes de Toledo também vestidos 
de neve. 

Percorremos uma região cultivada mas de pare- 
cer pobre. 

Uma cultura mais extensa, e menos intensa ain- 
da que a das herdades alemtejanas. 

Tudo parece mais pobre, o solo, o trabalho, as 
povoações. Como o inverno correu mui secco a 
terra está em pó, a aragem levanta remoinhos pe- 
los campos lavrados. Os gados poucos e máos. Ra- 
ros olivaes e azinhaes de enfezado arvoredo, pou- 
co desenvolvido, e de côr amortecida. 

Alguns homenzinhos lavravam com uns burri- 
nhos, e uns arados que pareciam feitos de uma 
tranca com um fueiro, abrindo sulcos pequeninos. 

As povoações correspondem aos campos, cheias 
de ruinas, de remendos; c aos grupos de populares 
que apparecem nas estações ; geralmente de aspe- 
cto pobre. 

— São os governos, os impostos! é a explicação 
sabida. As contribuições em Hespanha são maio- 
res que entre nós. Ouvi dizer que havia 400:000 
propriedades penhoradas pela falta de pagamento 



de tributos ao Estado! O terreno parece-me pobre, 
e as povoações ali só tem os recursos agrícolas. 

Apenas de vez em quando anima a paizagem o 
carro coberto puxado a dois, três, quatro cavai- 
los ou muares, a fio, seguindo pela carreteira ou 
pelo macadam ; ou a recova de mercadores ambu- 
lantes cantarolando ao sol, com o acompanhamen- 
to fino dos guizos e esquilas. 

O Teita, uma corrente linda, fresca, com as aguas 
das neves do Gréo, cortando bruscamente os cam- 
pos a procurar o Tejo. 

As povoações visinhas de Madrid conservam o 
mesmo aspecto triste e pobre. 

Torrijos. Uma mulher apregoa em voz fresca 
rosqiiillas. São umas cavacas que vendem ás dú- 
zias enfiadas em um cordel, agradáveis e baratas. 

Entra um cavalheiro no compartimento, homem 
de sessenta annos, de óculos, e caçadeira. 

Vieram despedir-se d'elle á estação algumas se- 
nhoras, homens e rapazes, em grande alarido de 
comprimentos e affabilidades. 

Era um cavaqueador, vivo, expansivo; era de 
Valência, viuvo, proprietário, caçador enthusiasta, 
e tinha ali parentes; todos os annos vinha passar 
alguns dias, caçar. Também n*aquelle paiz só ha- 
via de bom os coelhos, as perdizes, e os parentes : 
que fosse eu a Valência se queria ver campos, e 
vistas bonitas, e lindas terras; o paraizo I 

E sempre as mesmas terras de lavoura com o 
feitio de farrejeaes pobres, sempre até Madrid. 

Las T)elicias é a estação; a mim succedeu-me logo 
um desastre; paguei ao carro duas pesetas em vez 
de meia. 

— Que era um carro de hotel ; que seria meia se 
fossem quatro passageiros; para evitar questões e 
cavacos fui pagando. 

O Prado; cinco e meia da tarde; como o tempo 



está ameno anda muita gente na bclla avenida. A 
rua de S. Jerónimo cheia; carros de aluguel e equi- 
pagens bem postas formam linha; muita gente de 
bom aspecto nos passeios. Finas parelhas e muitos 
cavallos de preço; grupos de officiaes, bem mili- 
tares e bem montados. Estabelecimentos brilhan- 
tes e de tons especiaes alguns, com individualida- 
de nacional. 

O csrro levou- me ao Hotel dos Embaixadores 
que fica no fim da Carrera de San Jerónimo, jun- 
to da Puerta dei Sol. Bom serviço e preço regular. 
Lavei-me, jantei, comi pimentos, bebi bom Valde- 
penas, e gostei do queijo Manchego. E fuipasmar- 
me para a Porta do Sol. 

Continua o grande movimento ; estava-se com 
difíiculdade nos passeios; os tramways e os car- 
ros formavam correntes constantes; os cafés em 
plena frequência e illuminação. Entrei no café de 
Lisboa, muita gente, grande conversa; passa toda- 
via por pacato. Em três mezas de lado estavam gru- 
pos de emigrados portuguezes, dos acontecimentos 
do Porto. 

No café de Paris, mulheres e homens sortidos. 
Uma excellente orchestra executava trechos clássi- 
cos, que não dominavam a vozearia. O café de Lis- 
boa é limpo, os outros são maiores e mais luxuo- 
sos; mais bulhentos também. Estava um tanto fa- 
tigado; ahi pelas lo horas da noite recolhi ao ho- 
tel. Na praça o movimento era o mesmo; bem lon- 
ge da apathia lisbonense. 

A's oito da manhan, 24 de fevereiro, flanava pe- 
la Porta do Sol ; abriam-se os estabelecimentos, ia- 
se aos mercados; os alfaiates ornavam as frentes 
das suas lojas com as capas de bandas vistosas ; 
garotos e mulheres apregoavam jornaes, em tom 
musical. 

El heraldo de Madrid^ soa como se fosse o pri- 
meiro verso de uma peteuera. 



8 

Grupos de raparigas, costureiras, floristas, em 
cabello, de chalé ou mantilha, bem penteadas e cal- 
çadas, risonhas e palradoras. Typos vários, mas 
domina o typo fino, olhos escuros, cabello escuro, 
lez clara, rosada nos malares, o typo que Velasquez 
gostava de copiar. 

O ministério da governação tem o portão aber- 
to e passeiam em grande uniforme dois galhardos 
guardas-civis, que me custa a tomar a serio; lem- 
bram-me logo as zarzuelas. Ha um prédio junto do 
Ministério que mostra bem a concentração da vi- 
da; cada porta cada estabelecimento; cada janella 
da sobre loja, do i.° e 2.° andar pertencem a diífe- 
rentes misteres; modista, tabellião, ourives, barbei- 
ros, alfaiates, todos arranjaram nichos n'aquella 
gaiola. 

Grandes estabelecimentos bancários de Paris tem 
succursaes na Porta do Sol; destapam-sé os gran- 
des cristaes das montras deixando ver o papel moe- 
ç!a, os papeis de credito, as acções,^ os titulos, de 
muitos paizes, emprezas e companhias. 

— O correio? o telegrapho? 

Um guarda civil muito attenciosamente indicou- 
me o telegrapho: atraz do ministério de la Gober- 
nacion. 
' — Onde se passa o telegramma? 

— Lá em cima. 

Subi, escrevi, com uma penna horrível, e fui en- 
tregar ; 

— E' preciso o selio. 

— Quanto? 

— Paga-se lá em baixo. 

E desci, e subi para passar o telegramma. Ago- 
ra o correio. 

Sellos vendem-se no estanco. 

Fui a um estanco, não havia sellos; que fosse á 
calle de Carretas; mandaram-me a outro estanco. 



_9_ 

Havia sellos; e não havia cartas postaes para o 
estrangeiro; tive de ir a terceiro estanco para as 
cartas postaes. Madrid tem cousas de grande ca- 
pital, e pareceu-me atrazada em certos respeitos. 

O peso dos impostos geraes e municipaes faz-se 
sentir também; a cousa publica especula com to- 
dos os serviços. A vida é mais cara, mais difílcil 
que em Lisboa e todavia ha muita vida airada. 

O actual edifício da Bibliotheca Nacional de Ma- 
drid é apertado e sombrio; em breve estará cons- 
truido outro no Prado, vasto e de bello aspecto. 

Ha preciosidades na Bibliotheca Nacional, e mui- 
tos impressos e manuscriptos portuguezes. A ac- 
tual sala de leitura publica é triste, e não a achei bem 
disposta; a pobre sala de leitura da B. de Lisboa 
€ melhor disposta, tem mais luz. O serviço não é 
melhor em Madrid. O leitor, obtida a senha no 
porteiro, vai á casa dos catálogos onde lhe mar- 
cam o volume na senha e lhe indicam a secção, e 
o continuo, a que se deve dirigir. 

Gostei da casa dos catálogos, mas para se ado- 
ptar o systema é precisa uma casa própria, e ne- 
cessário também mais pessoal. Estavam quatro em- 
pregados na casa dos catálogos e quatro continuos 
na sala de leitura, além do presidente e outros em- 
pregados. A frequência não é grande. As commo- 
didades para os leitores são poucas. Os caloriferos 
faziam uma atmosphera um tanto desagradável. Os 
empregados são amáveis e instruídos. 

O monumental palácio real, a opera, outros edi- 
fícios públicos de bom aspecto ficam próximos da 
Bibliotheca. 

O museu de bellas-artes, no Prado, é bem co- 
nhecido como um dos melhores do mundo. Enor- 
me conjuncto de primores. 

Procurei e achei alguma cousa de Portugal, ou 
que importasse a portuguezes. Os retratos dos Phi- 



10 



lippes, do duque d'Alba, de D. João d'Austria, etc, 
importam a portuguezes. 

Poucos e de proveniência incerta os quadros em 
madeira, do século XV e XVI, dos que tem chamado 
entrenós de Grão- Vasco, golhicos, e escola portu- 
gueza: quadros dos primeiros mestres flamengos que 
vieram para os palácios e conventos de Portugal, e 
que foram a base para uma grande actividade em pin- 
tura. Temos deixado perder muitos de taes quadros, 
muitos foram vendidos para o estrangeiro, e ainda 
temos no paiz porção enorme; só em Évora que 
thesouro no palácio archiepiscopal, no museu da 
Bibliotheca, na Sè, em S. Francisco! E além does- 
tes mais vistos ha quadros na capella do bispo D. 
Pedro, na claustra da sé, e em S. Mamede (os que 
eram de Santa Mónica), em S. Bento; pois bem, 
em i836 vieram officialmente para Lisboa alguns 
centos de quadros! 

Ao génio hespanhol parece que não agradou a 
pintura flamenga ; a planta não vingou ali como 
entre nós. 

Nas salas de pintura moderna vi um quadro do 
sr. Alfredo de Andrade, Paul de Castel Fitsano^ cer- 
canias de Roma^ de tom muito lindo, mais mimo- 
so ainda que a singela paizagem cm branda luz 
que eu tanto gosto de ver nas Janellas Verdes. 

Um quadro de Miguel Angelo Lupi, Lafamilia, 
faz sua figura rasoavel. 

Um artista «hespanhol mui distincto, Salvador 
Martinez Cubei Is, pintou uma T>. Inês de Castro, 
na scena do beija-mão em Alcohaça, segundo o 
trecho de Faria y Sousa. Tela vasta, bem tratada. 

Entre os pintores hespanhoes contemporâneos 
cita o catalogo Alvarez Dumont, natural de Vilía 
Real de Santo António; e Ricardo Balaca, natural 
de Lisboa. 

Dumont terh La oracion^ La florista^ e El guer- 
rillero. 



II 



Balaca um quadro só, mas importante. Episodio 
de la batalla de Bailen, bella pintura. 

Em vários pontos do museu ha retratos histori- 
ricos de grande mérito; mas ha uma sala especial 
para retratos da familia real hespanhola, que são 
obras d'arte e documentos históricos, nos sec. i8 e 

Entre elles ha dois retratos, corpo e meio corpo, 
de D. Maria Isabel de Bragança, segunda esposa 
delrei D. Fernando VII, pintado por D. Bernardo 
Lopez. O de corpo inteiro, n." 773, é uma belleza, 
a dama retratada devia ser uma jóia de fresca ju- 
ventude. 

Esta senhora era filha de D. João VI e de D. 
Carlota Joaquina de Bourbon. Casou com o rei de 
Hespanha Fernando VII, em 29 de setembro de 
1816, e morreu muito nova. Só a galeria dos re- 
tratos de Fernando VII e das suas quatro mulhe- 
res é extraordinária como documento. Do retrato de 
D. Maria Isabel Francisca de Bragança ha uma li- 
thographia de Lopes, rara, por ter quebrado a pedra 
ao tirar o quarto exemplar. Uma gravura de Agui- 
lar filho, em 18 17, e outra de Dicn, desenho de 
Thibault, em moldara de rosas com o brazão hes- 
panhol. 

O Museu Nacional de pintura y escultura é tão ce- 
lebrado que não me atrevo a dizer mais. E traba- 
Iha-se muito ali; a cada passo artistas hespanhoes, 
homens e senhoras, copiando e estudando; bastan- 
tes estrangeiros também. 

Em frente da SenJiora da Conceição, de Murillo, 
c de outros quadros celebres, havia dois e três co- 
'pistas. Os museus allemãeseanglo-americanos tem 
copistas por todas as grandes colleções. Nem d'is- 
so se tem tratado em Portugal. Quem pensa hoje em 
comprar Rubens, Velasquez, Vandick, Raphael! com 
trinta ou quarenta contos que pôde valer um ori- 



12 



ginal d^esses, ou mais, se apparecer no mercado^ 
obtem-se algumas dezenas de boas copias de qua- 
dros de primeira ordem, que servem para estudo. 
Em Portugal nem temos elementos sufficientes pa- 
ra conhecer as escolas e suas evoluções. E tem-se 
gasto bom dinheiro; mas tem faltado tino. 

Cousa singular, os monumentos de Madrid são 
pobres, mesquinhos. A estatua de Cervantes, ante 
o palácio do Congresso, é feia ç acanhada; o mo- 
numento de Colombo, muito trabalhado, é rachiti- 
co; o de Dois de Maio é mesquinho; todos pobres 
em arte e mesmo em material. 

Entra no Prado uma rua chamada de D. Bar- 
bara de Bragania; provavelmente commemora a 
infanta D. Maria Barbara, filha de D. João V, que 
casou com o principe das Astúrias, e foi rainha de- 
pois, fallecida em lySS. 

Na armaria ha objectos portuguezes, e grande 
numero de hespanhoes que servem para recompor 
e completar o muito que falta entre nós. 

Como temos tido a habilidade de estragar tudo, 
de perder tudo, é para espantar. Que revoluções, 
e crises a Hespanha tem soíTrido! pois guarda os 
seus thesourosdeartee historia religiosamente, so- 
fregamente; tem tido a felicidade decomprehendcr 
que esses objectos fazem pai te da nacionalidade, 
são fontes de gosto, de arte, de inspiração; fomen- 
to de industria, e monumentos de historia. 

Percorri depois as salas do Museo archeologico 
onde se guardam muitas preciosidades. O meJa- 
Iheiro, de primeira ordem, que antes estava na Bi- 
bliotheca Nacional, está hoje no Museu. Em cons-: 
trucção especial duas grandes salas da collecção 
elhnographica: podíamos ter em Lisboa uma col- 
lecção assim, ou superior; e nada temos. Se hou- 
vesse tino com o dinheiro gasto nas edificações da 
Tapada, e da Avenida para a exposição industrial, 



í3 



teríamos hoje um bom edifício para exposições per- 
manentes, coloniaes, industriaes, agricolas, ethno- 
graphicas que tudo é preciso para educar e illus* 
trar este povo, e especialmente a capital. 

Em tudo se conhece o terrivel deficit de juízo e 
illustração, origem de todos os outros deficits. 

O museo archeologico de Madrid é official; alem 
das collecções hespanholas tem algumas estrangei- 
ras, de Itália e Grécia; a collecção de vasos gregos 
é muito notável. 

Nas collecções hespanholas brilham as mobilias, 
os trabalhos em ferro, grades, etc, as louças e vi- 
dros. Fiz logo tenção de visitar mais de vagar o 
museo na torna-viagem. 

Fui jantar, flanar um pedaço pelas ruas; ás oito 
da noite parti para Paris. 

No compartimento três hespanhoes, pessoas gra- 
das, fallavam em politica; pertenciam a três parti^ 
dos, e concordavam em que todos os últimos 
ministérios tecm sido immoraes e daninhos. A ques- 
tão das actas sujas das ultimas eleições gcraes, fal- 
sificação em larga escala e descarada; e as recen- 
tes eleições municipaes de Madrid, lucta travada 
com grande calor por todos os partidos e grupos, 
que não conseguiram levar á urna um terço dos 
eleitores recenseados, revelando-se assim frisante- 
mente o indiíTerentismo orgânico da povoação mais 
illustrada da Hespanha, formavam os assumptos 
da discussão, animada, movimentada. Os três hespa- 
nhoes sahiram nas estações próximas; só ficou um 
passageiro, que não tomara parte na conversa. Ao 
sahir o ultimo, voltou-sc para mim: Ufl los polí- 
ticos! 

E começou n'uma desanda cerrada nos partidos 
políticos de lá e cá. 

Queria ministérios d'affaires^ de administração^ 
botar fora partidos; etc. Era um joalheiro de Ma^ 



14 

drid; seguia até Paris; passeio que faz ordinaria- 
mente quatro vezes por anno, em seus negócios. 
Bello companheiro de viagem. Conhece a indus- 
tria e o commercio de Portugal, Hespanha eFran- 
ça, profundando a miudezas, explicando absurdos 
das pautas aduaneiras. 

Depois dorniitamos um pouco; despertei ao per- 
corrermos uma região accidentada ; entramos nas 
Vascongadas. Atravessam-se perpendicularmente 
ásperas cordilheiras e valles fundos, pittorescos, 
moldurando entre casaes e aldeias, fragas e flores- 
tas, tí^rrentes sinuosas formando quedas e cachoei- 
ras. E' um paiz agrícola e industrial. Alguns tre- 
chos da paizagem lembram-me as deliciosas des- 
cripções das Encartaciones, de Trueba. 

Os guardas-civis são substituídos pelos miquele- 
tes^ ou guardias-forales. de boinas vermelhas. Os 
governos teem ainda hoje cuidado em não oífender 
os melindres cantabricos. 

Tolosa pareceu-me ser o ponto que avistei que 
resume melhor a região. Tem um aspecto rijo, sa- 
dio, farto e contente, aquella cidade rodeada de bel- 
las culturas e cheia de fabricas. 

Vicíoria; aqui se liquidou a questão napoleoni- 
ca; apanhando os inglezes as bagagens francezas, 
um thesouro incalculável, formado de jóias portu- 
guezas e hespanholas, que hoje estão nos museus 
públicos e particulares da Inglaterra; nós dêmos o 
sangue, o heroísmo, e ficámos com muita gloria. 

Os Pyreneus, um rosário de aspectos imprevis- 
tos; túneis e viaductos ; as bétulas alvacentas for- 
mando mattas, em amplos mantos de neve; alguns 
rebanhos de merinos pelas encostas. 

Soam nomes vasconços das estações; Alsásua, 
Ortzáurte. O joalheiro de Madrid aponta-me alguns 
indivíduos da valentíssima raça que se tem conser- 
vado pura atravcz tantos séculos nos seus costumes 



i5 

e linguagem, e até nos seus ossos, e eu reconheço 
depois facilmente o typo basco, em homens, rapa- 
zes, mulheres, pelos malares fortes, as dentaduras 
brancas e cerradas, a coloração rósea tão differen- 
te do branco, pallido, ou moreno da gente caste- 
lhana. 

Em muitos cabeços avisto umas torres, grandes, 
que me pareceram construcções medievaes. Não 

são. 

Como n'esta região, geologicamente tão atormen- 
tada, tem havido muitas guerras, o governo quan- 
do se adoptaram os telegraphos de palhetas fez as 
torres com dimensões taes que podessem conter 
guarnições para segurança dos postos contra as 
guerrilhas. Não avistei um só relevo que me recor- 
dasse as trincheiras prehistoricas. Em raros pontos 
vi algumas edificações que podem ser bem antigas: 
casas de silharia com arcos de pleno cíntro, e pe- 
quenas janellas quadradas, românicas talvez. 

S. Sebastião; esplendidos arredores, casas de cam- 
po, jardins modernos, elegantes; avista-se a cida- 
de e a bahia ampla, azul. Pouco mais estamos na 
fronteira franceza. O aduaneiro giza nas malas os 
circulos brancos, signal do j^isto^ e vou logo com o 
joalheiro para o restaurante. Veio um empregado 
pedir ao meu amável companheiro as chaves para 
revistar a sua bagagem. Elle levantou-se e seguiu 
o empregado. Antes de entrar no restaurante elle 
pediu-me para eu tomar conta n'um saquinho de 
viagem. 

O homem trazia seis ou sete malasinhase saqui- 
nhos. Eu continuei o meu almoço, e elle sem vol- 
tar. Terminei, levantei-me, fui trocar as pesetas por 
francos, e dei com o homem a conversar muito com 
os aduaneiros. Estes muito serenos e attenciosos. 
Por fim os empregados francezes, sem sombra de 
máo humor, fecharam as malas de bagagem, en- 



i6 

tregaram-lhe as chaves, cintaram íi'Lirn prompto e 
sellaram os volumes, deram ao joalheiro um im- 
presso, um documento, e disseram-lhe com muita 
cortezia que podia receber a sua bagagem, em Pa- 
ris, na Administração central, rua tal, numero tan- 
tos, onde se resolveriam todas as duvidas. 

Houve denuncia, ou os aduaneiros já conheciam 
o homem. Não vi o que ia nas malas; vi depois, 
já na carruagem, os saquinhos e malasinhas, por- 
que o homem entendeu, vendo-me um tanto intri- 
gado, que me de via. explicações. Iam jóias parti- 
das, amolgadas, e algumas dezenas de relógios de 
algibeira, de ouro, desarranjados. Tudo aquillo ia 
a concerto em Paris. Isto é, se os aduaneiros lhe 
revistassem as malasinhas elle mostrava um docu- 
mento hespanhol provando que eram objectos, pa- 
ra concerto. Mas em Paris comprava jóias e reló- 
gios, em numero egual, para vender em Madrid, e 
que passariam a fronteira como objectos já con- 
certados; e também as jóias partidas e os relógios 
estropiados que viriam então como socata de ou- 
rivesaria. Conhece as pautas na perfeição, o joa- 
lheiro. 

Os volumesinhos contidos no talego que me en- 
tregou eiiam muito interessantes. Pareciam uns ces- 
tinhos de merenda; felizmente os aduaneiros nem 
repararam. Levavam centos de folhas de bisturis, 
molas, ponteiros de relógio, pinças, agulhas, tubos, 
instrumentos de ííirurgia, tudo de íinissimo aço de 
Toledo, incomparável, que nenhuma outra indus- 
tria consegue attingir. Disse- me que só o lucro dos 
relógios, ou dos bisturis lhe pagava a viagem. 

Do que elle sabiatambem era do movimento dos 
caminhos de ferro; e por isso tomámos logo outro 
trem que ia partir para Bordéos, pagando uma pe- 
quena diíferença, para em Bordéos alcançarmos o 
expresso especial entre Bordéos e Paris. 



J7__ 

Bíanitz; avistam -se pakicios e jardins, a praia 
alvíssima, e o mar muito azul, de um azul celeste 
vivo, como nunca vi egual. Varia a cor do mar, e 
a do ar, como a relação de uma com outra. A cor 
do Tejo não é a cor do Sado ; o azul do mar em 
Cascaes diíTcre do que se vê na Foz do Douro. O 
tom do céu puro em Évora é mui diverso, mais for- 
te que o azul do ar nitido em Lisboa. 

O mar em Biarritz tem um azul, um anil violá- 
ceo intenso que faz parecer de uma alvura extra- 
ordinária as. cabelleiras das vagas e o areal da praia. 

Deixámos o paiz montanhoso, a formidável suc- 
cessão de trincheiras que separa a Hespanha da 
França; mais duas paragens de poucos minutos e 
entramos nas planuras das landes, povoadas de ex- 
tensos pinhaes, tratados, cortados de avenidas, aqui 
e ali salpicados de pequenas explorações agrícolas, 
em muitos sitios sujeitos á resinagem. Faz calor, e 
poeira, muita poeira, mais que entre Vendas No- 
vas e o Pinhal Novo em tempo de verão. Anoite- 
ce ainda no pinhal enorme, na carreira a grande 
velocidade durante seis horas, sempre na formidá- 
vel floresta que veste as dunas, nuas e estéreis ha 
trinta e seis annos apenas, l^orque não povoam de 
pinhaes as charnecas de entre Tejo e Sado, as du- 
nas, os médões de areias do nosso littoral? 

Boniéos^ a gare enorme, movimento por toda a 
parte; chegam, partem, organisam, manobram os 
comboyos. O joalheiro não me larga, vamos lavar- 
nos e escovar-nos. Umas senhoras de meia idade 
lêem uns gabinetes bem arranjados, para homens 
e senhoras, com muitas commodidades; a troco de 
dois vinténs temos agua, toalhas, sabonetes, esco- 
vas. Uma consolação depois da poeirada das lan- 
des. 

Grande diíferença entre as estações hespanholas 
c francezas; em tudo. Nós os peninsulares a custo, 



i8 



mui vagarosamente temos aprendido a conhecer a 
commodidade, o bem estar, a tornar a vida mais 
agradável. A grande gare franceza com as suas de- 
pendências, o restaurante, os gabinetes, a venda de 
livros, illustrações, guias, e informações é um todo 
muito completo e bem combinado. 

Eu nem sei como certa gente em certos casos se 
soverna nos melhores sitios de Lisboa. As senho- 
ras devem soffrer muito. E pensar como estávamos 
ha trinta annos em hygiene e asseio públicos! 

O banho, a lavagem barata é ainda um mytho 
na nossa capital. Certas commodidade-s que se ob- 
tém a troco de poucos cobres em Paris ou Lon- 
dres, em Lisboa são ignoradas. 

Os jornaes! Um garoto apregoa na plataforma: 
La France ! La Patrie ! 

Singular! Seria preoccupação minha? Em Ma- 
drid o primeiro grito de garoto que ouvi — El he- 
raldo de Madrid — soou -me com um verso de pe- 
tenera; em França o primeiro pregão de jornaes, 
a voz vibrante, alta, do rapaz impressionou-mecomo 
um toque de clarim. Muita gente no restaurante; a 
meu lado e na minha frente ficaram alguns oííiciaes 
de dilferentes armas que conversavam muito ex- 
pansivamente. Um d'estes seguia no expresso até 
Orleans, e cavaqueou commigo muito amável. 

Todas as carruagens e todas as zorras dos cami- 
nhos de ferro francezes estão taradas militarmente. 

Certos números indicam logo bem claro quan- 
tos cavallos ou soldados pode transportar o carro; 
um signal mostra o serviço que o vehiculo pode 
prestar na organisação de um trem de artilheria. 
Tudo para o caso de mobilisação. 

Parte o expresso. Uma bella carruagem de pri- 
meira de quatro compartimentos folgados, um com 
sete logares, dois a seis, o quarto servindo de gabi- 
nete-toilette, communicando por portas. As novas 



^9 

carruagens allemans em serviço na ferrovia do sul 
parecem-me melhores. Aquillo vae n'um zig-ziguc 
que incommoda alguns passag'eiros. A machina 
dá uns sopros fortes, depois uns silvos curtos, é um 
irem que passa na outra linha em sentido contra- 
rio, ouve-se o rugido, e a successáo rápida das vi- 
draças illuminadas da apenas a impresssão de uma 
facha de luz. 

Amanhece já nas planuras do ^•alle do Loire; tu- 
do cultivado, a natureza disciplinada em toda a li- 
nha, em todos os aspectos. A defeza da via férrea 
c uma sebe aparada como o buxo n'um jardim an- 
tigo: as pequenas ribeiras correm entre muros e es- 
tacarias; as arvores de fructa isoladas ou encosta- 
das a paredes cortadas simetricamente. 

Frequentes as vivendas anti-gas, os castellos^ de 
nobres edifícios, e avenidas de altos arvoredos. 
Nas quintas, nos campos trabalha-se; a lavou- 
ra feita a possantes cavallos ; grupos de poucas vac- 
cas, malhadas de branco e amarello; as estradas 
marcam-se bem pelas fileiras de esguios choupos, 
de uma egualdade massadora.Tudo n'um tom cla- 
ro, que deve mudar para verde no verão. Ouida 
(La Ramée) descreve perfeitamente a região do Loi- 
re no Tricotriu. 

Mesmo junto da estação de Orleans está um cam- 
po militar, onde se desdobra um regimento de ar- 
lilheria, em escolas; a pouca distancia do comboyo 
passa a trote uma bateria completa. 

A' medida que Paris se avisinha o trabalho ru- 
raltorna-se mais intenso e complexo. 

Depois as grandes culturas dão logar a hortejos 
e jardins de exploração. Em algumas de taes pro- 
priedades as estufas, estufins e campanulas de vi- 
dro representam um capital considerável. Parecem 
os repolhaes da Moita, em redomas de vidro Al- 
gumas hortas tem os seus canteiros completamen- 
te abrigados por vidraças. 



20 



ym>isy^ uma villa alegre, chakts ás dúzias, entre 
jardins de recreio, um pequeno cemitério, e próxi- 
mo d'este um monumento singular coberto de co- 
roas e ramos deflores; recorda um episodio do jyz- 
no terrível^ do cerco de Paris, e celebraram ha pou- 
co o anniversario d'esse dia de sangue. 

París^ 26 de fevereiro, ás 10 da manhã. 

O carro segue pela margem sul do Sena. Tan- 
tas vistas ha da grande capital tranceza que me pa- 
rece estar em paiz conhecido; o rio entre os seus. 
cães, as pontes, os vaporsinhos, os omnibus, os al- 
tos prédios, não me impressionam; distinguem-se 
bem as severas linhas da cathedral. Notre-Dame, as 
grandes massas da Gamara Municipal e do palá- 
cio de Justiça, De súbito uma nota desagradável, 
um cartaz verde com grande letreiíx) afrontoso pa- 
ra Portugal, do tal syndicato do empréstimo de D. 
Miguel. Estava n'um muro baixo de jardim. Al- 
guém rasgara pyrte do cartaz, mas viam-se bem os 
dizeres principaes. 

Mandei seguir o carro para o Graiid Hotel de 
Malte, na rua Rlchelieu, porque, dizia o guia, fi- 
cava em frente da Bibliotheca Nacional. 

Hospedaria regular, pacata, quartos bem mobi- 
lados : o dono é dinamarquez, e na occasião esta- 
vam ali algumas familias escandinavas. 

Quiz tomar o ar de Paris. Já almoçado fui ao 
acaso pelas ruas e praças; fui ter á bolsa, vasto 
edifício com alta columnata e ampla escadaria ex- 
terior; na escada e na columnata estariam i :5oò su- 
jeitos; havia muitas mezas, onde os agentes, os bol- 
sistas escreviam; liam-se telegramas, gritando; ás 
vezes a vozearia era atroadora ; formavam-se gran- 
des grupos ouvindo alguém que fallava alto; ap- 
parecia outro e logo de vários pontos corriam mui- 
tos a rodeal-o. Tudo aquillo dava uma impressão 
de remoinho e confusão completamente nova pa- 
ra mim. 



21 



Metti-me pelos grupos e percebi que a origem 
da excitação extraordinária eram as noticias rela- 
tivas á viagem da imperatriz de Allemanha, a im-: 
peratriz-mãe, que viera a Paris convidar os artis- 
tas francezes e tivera a desastrada lembrança de 
visitar Versailles e S. Cloud, ferindo profunda, ex- 
cusada, e impoliticameníe os brios nacionaes. 

Todos os jornaes se occupavam da questão; ás 
geribandas dos jornaes allemães chegados na ma- 
nhan, respondiam já no mesmo tom os francezes. 

O jornal que mais se apregoava era L' Autorité 
que trazia o seu artigo principal intitulado Vipe la 
Frauce ! de P. de Cassai^nac. 

Impressionou-me uma mulher de 5o annos tal- 
vez, robusta, alta, voz estridula, que apregoava agi- 
tando a folha; L! Autorité! voyei 1'aiticle de Cas- 
sa gnac. Vive- la -j rance ! 

O Vive- In-Jr (ince sahia agudo, espaçado; a mu- 
lher gritava do coração, não era reclamo, parecia 
que tinha contas a ajustar com os allemães. To- 
dos os jornaes se vendiam immenso. 

Passava um omnibus indicando T^assy% a cele- 
bre avenida , subi, paguei trinta réis, e percorri boa 
parte do bello Paris, durante uma hora. 

Muita gente nos boulevards, fallando em grupos, 
lendo jornaes;. soprava uma lufada draiuatica na 
multidão. 

Apeei-me perto de uma estatua de Lamartine, 
entre algumas arvores, em pequeno etranquillo ter- 
reiro de Passy; não é um monumento, c uma lem- 
brança; os francezes são admiráveis em afinar es- 
tatuas memorativas ou ornamentaes com os sitios, 
com as molduras obrigatórias. 

Havia cinco minutos que percorria a Avenida 
entre pequenos prédios elegantes e jardins, onde 
brincavam ranchos de crcanças, quando ouvi mu- 
sica. Era um regimento de infanteria, seguido de 



22 



um esquadrão de dragões. Creio que iam para exer- 
cício. 

- Muitas senhoras vieram ás janellas, e creanças, 
cavalheiros, trabalhadores, creadas, vieram aos pas- 
seios. Muitos, quasi todos, tiraram os chapéos na 
passagem do coronel, que comprimentava com a 
espada. 

Era um typo como os de Protais, cabello grisa- 
lho, cortado rente, pequeno bigode aguçado, ho- 
mem delgado e nervoso. 

Quando a bandeira passou todos se descobriram, 
e um official montado que ia próximo cortejava 
também com a espada. 

O regimento levava talvez dois mil homens, ra- 
pazes delgados e de pequena estatura. Na nossa in- 
fanteria ha gente mais vigorosa. 

Não iam bem vestidos; não se preoccupam com 
feitios; calças largas, casacos largos, e, pareceu-me, 
de tecido inferior. Mas a polaina e o bonet dão ar 
elegante. 

A marcha rápida, o passo largo tem um toque- 
sinho de salto. Aquella tropa no campo deve ser 
um bando de estorninhos com Lebéis. 

Gostei de ver o respeito com que o povo corte- 
java o regimento e a bandeira. Aquilloé sério. En- 
tre nós muitos respeitos teem dado em droga: por- 
que não temos consideração ou não temos que res- 
peitar. 

Os dragões eram homens altos e montavam bons 
cavallos; o cavallo francez que serve no exercito 
pareceu-me um meio termo entre o hespanhol e o 
inglez. E* alto, ácxe correr bem. Já em Madrid re- 
parara que muitos officiaes montavam cavallos 
meio-inglezes. 

Depois em S. Germain-en-Laye vi passar um re- 
gimento de caçadores a cavallo, e dois esquadrões 
de couraceiros, excellentemente montados, espe- 
cialmente os couraceiros. 



23 



Vim ao arco da Estrella; lá estão os nomes de 
Junot, Loison, eThiebault,ochcfe de estado-maior 
que escreveu o relatório da tomada de Évora. 

Desci pelos Campos Elysios. 

E' escusado dizer que ha em Paris palácios ma- 
gniíicos, lojas opulentas, tafues galhardos, equipa- 
gens boas e bem afinadas. 

Eu gosto do inédito. 

As vendas de combustivel são em Paris casas 
nsseiadas, teem montras, balcões, balanças limpas. 
Nas montras exp(3em o molho de vides, de madei- 
ras diversas, bem cortadas, o carvão de varias es- 
pécies, as bóias de cisco amassado, etc. : tudo pre- 
parado para o fogão de quarto, de sala, para o fo- 
gão de cosinha, para a fornalha industrial. Pesos e 
preços indicados. - 

Tenho pensado muitas vezes em que o combus- 
tivel alemtejano, especialmente o azinho, devia 
ser vendido em Lisboa para fogão de sala ; não 
conheço combustivel melhor, a brasa c linda, a cin- 
za muito branca, e tem aroma agradável. 

Lavanderias e casas de engomar são grandes of- 
ficinas, com muitas mulheres e bem installadas. 
Parece-me que este ramo está melhorem Paris que 
em Lisboa. .Mesmo da rua se vê a successão de 
trabalhos; cosem, concertam, lavam, engomam rou- 
pas brancas de ambos os sexos. 

Vi uma Uivanderia próxima da Sorbonne que se 
o Grandella a apanhasse na rua do Ouro tinha que 
pôr alguidares para a baba dos janotas. Que lava- 
deiras e costureiras! 

Também cm Londres as lavanderias são estabe- 
lecimentos bem installados. 

Ha em Paris, nas bocadas de muitas ruas uns 
postes com moldura e vidro, e um mappa dos es- 
tabelecimentos commerciaes, escriptorios, etc, que 
na rua ou praça se encontram. E' um annuncio e 



é uma indicação útil. No pequeno mappa, bem le- 
givel, indica-se nome, numero de porta e andar, e 
até a hora, se é medico, advogado, commissario, 
procurador, etc. 

O policia de Madrid é superior ao de Lisboa, 
o de Paris superior ao de Madrid, o de Londres 
ainda melhor. Não me refiro só a maneiras, tem 
mais conhecimentos, e os serviços estão especiali- 
sados A policia é também mais respeitada. 

Um incidente perto do theatro francez ; um co- 
cheiro deu com a ponta do látego na orelha de um 
pobre homem; um grito, o trem parou; appareceu 
um policia, onviu ambos, escreveu, tomou, prova- 
velmente, nome e numero : uns segundos depois 
do grilo estavam talvez duzentas pessoas paradas 
nos passeios, ninguém se approximou do grupo, 
perfeitamente isolado. Em Lisboa estariam logo 
quarenta sujeitos a dar sentenças, a ralhar da po- 
licia, e a embaraçar o exacto conhecimento do fa- 
cto. 

Ha muitos postos de soccorro, e alguns espe- 
ciaes para creanças. com medicamentos^ pessoal 
inferior, etc. 

Como alguns estabelecimentos públicos são vas- 
lissimos podem alojar, o que é altamente conve- 
niente, postos de policia, de bombeiros, e de soc- 
corros. 

A entrada da Bibliotheca Nacional fica a poucos 
passos da porta do hotel. Um garboso guarda far- 
dado e de chapéo armado estava á porta; indicou- 
me a entrada, de batentes envidraçados; atraves- 
sei a quadra, limpa, simples e severa. 

A um lado uma mulher recebe pára-aguas e aba- 
fos; do outro um modesto restaurante, com pou- 
cos artigos, e nada de bebidas excilan-tes ; è servido 
também por mulheres. * 

Em Londres no Soiith-Kensiiigion, e no British- 



25 



Musewn também ha restaurantes, com sandwichs^ 
pasteis, pão e manteiga, e chá preto e verde, nada 
de cervejas, nada de álcool. 

Na Bibliotheca Nacional de Paris para o servi- 
ço do publico ha duas divisões, a menor ou menos 
importante c a da leitura publica, a maior a sala 
de estudo. 

Para a sala de leitura publica deram-me um bi- 
lhete onde escrevi nome e residência que apresen- 
tei a um continuo, dentro da sala. Este entregou- 
me outro bilhete onde escrevi nome e titulo do li- 
vro, e entreguei; marcaram-me numero do logar, 
que eu fui occupar. Era uni livro bem conhecido 
em França, sem duvida, o 6". Paiilo^ de E. Renan. 

Esperei vinte minutos pelo livro, que desceu pe- 
lo pequeno elevador ao lado do continuo. 

A sala de leitura é acanhada. Mais triste que a 
de Lisboa. As compridas mezas más, a mobilia in- 
ferior, o ar viciado pelos caloriferos: estavam uns 
sessenta leitores. 

Não estavam creanças na sala; a meu lado um 
operário, talvez, porque trazia bluza azul, lia luii 
romance de Júlio Verne; em frente um sujeito, ty- 
po de militar reformado, repimpado na cadeira, fo- 
lheava o D. Quixote, á minha direita um moço es- 
tudava uma arithmetica. 

A pouca distancia um leitor muito á vontade co- 
mia o seu lúnch. 

A meio da comprida sala, ao lado, um espaço 
com divisória e nelle um empregado superior a 
quem terminada a leitura fui mostrar o livro e bi- 
lhete, poz o vísa^ e vim entregar a senha ao conti- 
nuo, que me deixou sair. 

Fui á sala de estudo; mostraram-m'a da porta, 
mas era tarde, e não podia entrar sem licença su- 
perior. 

A impressão que me íicou da sala de leitura pu- 

• 4 



26 



blica é pouco favorável. Mas é preciso notar des- 
de já que em Paris ha muitas bibliothecas popu- 
lares. 

Para a sala de estudo deram-me no dia seguinte 
uma senha de admissão visada pelo director, de- 
pois de eu mandar o meu cartão de visita. E' uma 
sala ampla, bem mobilada, luxuosa mesmo, com 
logares marcados; os leitores estão á vontade; mui- 
tos empregados, trabalhando em serviços do esta- 
belecimento, e promptos a attender a qualquer lei- 
tor. 

Alguns estudiosos tinham vinte ou ti'inta volu- 
mas nas suas secretárias. 

Pedi um volume conhecido que me foi forneci- 
do passada hora e meia. Os ca lori feros, como na 
Bibliotheca de Madrid, faziam atmosphera incom- 
moda. Ha collecções de estampas, e de numismá- 
tica que tem dias especi.aes de exposição. Ha sala 
para consulta de manuscriptos onde vi muitos co- 
pistas, entrando n'esta classe algumas senhoras. Na 
sala de leitura publica estavam 6o pessoas, na de 
estudo mais de loo, na dos manuscriptos umas 40. 

Na exposição de estampas entra-se por uma pe- 
quena sala guarnecida de molduras e vitrines ou 
taceiras com bons exemplares para a historia da 
gravura. Algumas estampas estão em molduras ar- 
ticuladas a uma haste central. Na segunda sala, 
muito grande, em estantes, milhares de volumes 
de desenhos e gravuras, e algumas estampas raras 
em molduras nas paredes dos vãos das janellas. 

A exposição das cartas geographicas está instal- 
lada n'um corredor com pouca luz; algumas car- 
tas, em pergaminho, e«tão com vidro sustentado 
entre duas réguas. A exposição dos impressos ra- 
ros e dos livros illuminados é admirável. Os per- 
gaminhos manuscriptos e illuminados, abertos em 
taceiras ou escaparates, com as folhas expostas re- 



27 

vestidas por capas de gelatina segura por elásti- 
cos: por causa da poeira. No Museu britannico não 
usam isto, e é certo que as follias expostas estão 
pardacentas, mas o ar de Londres tem carvão; e 
o de Paris é certamente menos puro que o de Lis- 
boa. No Museu britannico as rifriues, os centos de 
grandes vitrines, são todas vestidas de pannos es- 
curos; só estão destapadas nas horas de serviço. 
Nem em Paris nem em Londres vi impressos ou 
manuscriptos tão bem conservados como os temos 
cm Portugal. 

Para visitar o Museu de S. Gennaiii-en-Laye é 
preciso ir á gare de S. Lazaro e tomar um com- 
boyo que passa por Baíignolles, Asníéres, e Nan- 
terre, percorrendo sitios que devem ser deliciosos 
na primavera e verão. Kw, fevereiro as arvores es- 
tão nuas; as terras naJa verdejavam. 

5". Gennain-en-Laye está para Paris, como Cin- 
tra para Lisboa. Aproveitaram ahi uma antiga e 
vasta residência real para installar ascollecções de 
antiguidades nacionaes. A restauração d'esse es- 
plendido e vasto palácio acastellado fez-se com 
muito cuidado, nada de ca["iriclios nem de enxer- 
tos sem justificação. 

Deu-me logo na visia a rede formada pelas fi- 
tas de argamassa nas juntas dos silhares, exacta- 
mente como em tantos edifícios antigos eborenses. 

Dentro nuiitas salas e as escadas tem as pare- 
des forradas de tijolo sem revestimento algum, as 
Juntas marcadas por fitas, menores, de argamassa, 
dando o eíTeito de rêJe fina. 

No fosso um menhir erguid i e um dolineii (anta), 
de galeria. 

Temos nosarredoresdi Évora muitas antas maio- 
res, mais monumentaes. 

O Museu occupa três pavimentos, contendo opu- 
lentas collecçóes desde o silex lascado até ás anti- 
guidades christans da idade media. 



28 

A installação é conveniente, nada luxuosa. Nas 
collecções cpigraphicas avivam os lettreiros com 
tinta vermelha. 

As pontas de flecha em silex lascado mais gros- 
seiras que as nossas. 

Nada que se approxime dos estoques de bron- 
ze. Faltam os machados de cobre; e as ardósias 
lavradas. As grandes pedras ornamentadas de sul- 
cos parallelos, em curvas irregulares, dodolmen de 
Gavrinnis são mui diversas da pedra formosa, da 
Citania de Briteiros. Ha grandes diífcrenças entre 
o nosso pre- romano, e o do território francez. 

Os grupos cerâmicos das gruías da quinta do 
Anjo e de Cascaes não tem lá rivacs. 

A collecção epigraj'hica de Endovellico é muito 
mais importante que as da mesma espécie em S, 
Tjermain. 

As collecções de bronzes são lá opulentissimas. 

Estive em S. Germain no sabbado, 28 de íeve- 
reiro, mas a visita passou quasi toda cm conversa 
com os srs. Bertrand e Fieinach. 

Voltei no domingo (1 de março). 

O museu está franco ao publico nos domingos. 

Parti cedo de Paris, enorme concorrência na ga- 
re; o comboyo estava formado em secções, com 
grandes letreiros, indicando as estações onde de- 
viam íicar os grupos de carruagens. Muitas senho- 
ras, famílias de operários, collegios de meninas; 
muitas pessoas, a maioria, levavam cestos com as 
refeições. 

Em Londres tive occasiãodeobservar omesmo. 
Eu creio que as diversões domingueiras do povo 
lisboeta são mais caras que em Paris e Londres. 
Os transportes são lá mais baratos, e a gente de 
Lisboa vai comer nos restaurantes que em geral 
servem mal por alto preço. 

Na segunda visita ao museu tive occasião de 



29 

percorrer a sala das festas^ enorme e elegante cotl- 
strucção, onde se acham installadas as collecções 
pre-historicas estrangeiras. As mais notáveis sãoas 
de Dinamarca, Suécia c Rússia. 

A pequena collecçao portugucza foi offerecida 
pelo fallecido Pereira da Costa. A collecçao forma- 
da pelo sr. Cartailhac está no museu de Toulouse. 

A Hespanha está mal representada. Grande par- 
te da importante collecçao Siret (onde ha grande 
numero de objectos análogos aos do território por- 
tugiiez), e dos achados de Almedinilla (a que cor- 
responde perfeitamente a necropole de Alcácer do 
Sal) está no Museu britannico. 

Parti no trem das duas da tarde, cheguei a Pa- 
Yis^c mandei bater para Notre-Dame; quiz visitar 
a calhedral apanhando uma conferencia de quares- 
ma, e n'um jornal da manhan tinha visto marca- 
das as 4 horas para a conferencia do padre Mon- 
sabré. 

A' porta do templo um cego vendia folhetos; 
apregoava — La dcuxiemc conférence de Monseig- 
neur le révérend Pére Monsabré — em voz muito 
nasal e prolongada ; dava o eífeito de um zangão.- 

E' escusado dizer que o publico francez é pro- 
fundamente respeitador nos templos. 

Uma das grandes bellezas de Notre-Dame são 
as vidraças finissimas e historiadas, onde abundam 
as cores vermelha e azul, dando um tom violáceo 
geral de extraordinária delicadeza. 

Que pena não ter a sé de Évora umas vidraças 
com aquellc tom ! 

Se no mosteiro de Bclem collocassem vidraças 
finas, imitações modernas, já que perdemos as an- 
tigas por desleixo e ignorância, que enorme realce, 
para as finas columnas^ para os gentis lavores ma- 
nuelinos. 

Paga-se meio franco para ver o thesouro ; um 



3o 



empregado especial mostra e explica aquellas ma- 
ravilhas em alfaias e paramentos. Uma grande no- 
ta trágica turva a alma n'aquelle thesouro, guar- 
dam-se ali vestes e insígnias manchadas de sangue 
dos arcebispos de Paris, Affre ( 1 848) Sibourd, ( i SSy) 
e Darboy (1871), mortos em circumstancias histó- 
ricas bem conhecidas. 

Ha no thesouro moveis especiaes para os riquís- 
simos paramentos bordados ; teem 3'metros de fren- 
te e metro e meio de largura, de modo que no gran- 
de gavetão cabe desdobrado um pluvial. 

O gavetão ésemi-circular, na circumferencia tem 
rodizios que rodam n'uma calha ; a meio do diâ- 
metro um forte anel que abraça, girando, uma has- 
te grossa a meio da frente do movei. 

O gavetão sae até dois terços, e o empregado 
com pequeno esforço o faz girar. Em cada gave- 
tão está um paramento completo, desdobrado, en- 
tre grandes toalhas. Não ha dobras, não se desfiam 
bordados, conservam- se assim muito melhor esses 
valiosos trabalhos. 

O padre iMonsabré estava doente, subiu ao púl- 
pito o padre Gandegabe, gritador, gesticulador ar- 
rebatado, que não estava convencido, nem conven- 
ceu ninguém, nem agradou, porque muitas pessoas, 
pé ante pé, foram desertando. Se o nosso arcebis- 
po fallasse francez asseguro que fazia boa figura em 
Notre-Dame. 

Fui comer alguma cousa n'um restaurante ba- 
rato da rua Rivoli, frequentado por gente do com- 
mcrcio, caixeiros e caixeiras ; depois ao hotel ar- 
ranjar as malinhas, e bati para a estação do nor- 
te, caminho de Londres. 

Os compartimentos das carruagens tem frestas 
a uma certa altura, entre si, para vigia e policia. 

A's 1 1 e meia em Calais: á meia noite a bordo 
do vapor para atravessar a Mancha para Dover: 



3i 



um quarto de hora depois o barco dansava a va- 
ler. O scenario era formidável; noite, nevoeiro cer- 
rado, temporal, um grande farol eléctrico jorrando 
feixes luminosos; tocavam sinos e uivavam as se- 
reias dos vapores, e de cinco em cinco minutos um 
tiro de peça. 

Em breve o bracejar luminoso do farol tornou- 
se apenas um clarão periódico, amortecendo ; o ti- 
ro desceu a tom baço, que em pouco deixou de se 
ouvir. 

Tudo incommodado a bordo. Eu e uns sete ou 
oito ficámos em cima, entre os tambores das ro- 
das. O meu querido gabão eborense prestou um 
servição. 

No canal soaram por vezes algumas sereias de 
vapores; só um passou próximo, via-se o clarão 
dos farolins de cores, passando rápido na névoa. 

A's três da manhan ouviu-se um tiro de peça, 
na costa ingleza, em Folkestone; viu-se o clarão do 
farol, mais trinta minutos e desembarcámos. 

Londres, na estação de Charing-Cross, 6 da ma- 
nhan de 2 de março. 

— Télve. Glosstarplêce^ disse ao cocheiro do cab^ 
como o sr. Carlos du Bocage me ensinara a pro- 
nunciar no Ministério dos Estrangeiros, para me 
entender com os cocheiros londrinos. A legação 
poitugueza é em Glciicester place^ n." 12, perto de 
Tortsman sqiiare. Os cacheiros de Londres conhe- 
cem bem a legação portugueza porque está, creio 
que desde o começo do século, na mesma rua, eha 
muitos annos no mesmo prédio. 

Estava o mordomo que me indicou as 5 da tar- 
de, para me apresentar, e me entregou cartas que 
me esperavam. 

— Que me indicasse um hotel . . . 

— Se eu não punha duvida em estar n'um peque- 
no hotel, unicamente inglez, havia perto uma casa 
séria e excellente. 



32 

r 

— Que não punha duvida, disse eu, o meu inglei 
chegaria. 

O mordomo é um inglez todo correcto; indi- 
cou-me Durrant's hotel em George Street^ a três mi- 
nutos da legação. 

O cab é fácil de governar e voltar ; em Lisboa 
seria impossível por causa das ladeiras. As ruas de 
Londres quasi todas calçadas a madeira. No sitio 
em que fiquei e em muitas partes de Londres as 
casas teem fossos, de modo que as caves^ não são- 
SLibterraneas, tem luz. Entra-se passando uma pon- 
tesinha, um arco. Grades de ferro limitam o pas- 
seio. 

A maior parte dos prédios tem CíJ^í^, rez do chão, 
i." e 2." andar e mansardas. Paredes de tijollo, sem 
revestimento, escLU'as, janellas e portas sem hom- 
breiras nem vergas, em geral. A' primeira vista pa- 
recem-nos casas pobres, por acabar. 

Cristaes bons, vidraças duplas, cortinas e stores, 
nas janellas do rez do chão pequenas grades guar- 
necidas de bons azulejos esmaltados, com arbus- 
tos aparados que abrigam flores de cebola. 

Uma casa regular em Londres, para uma famí- 
lia, custa 2:000 libras. Fallava-sede uma casa pró- 
xima em construcção, que custará 10:000 libras, 
como extravagância. A pouca distancia da legação 
portugueza está a residência do duque de West- 
minster, riquíssimo; esse palácio sombrio é inte- 
rior em tamanho, muito inferior em aspecto ao pa- 
lácio de S. Sebastião da Pedreira, ou á casa Pal- 
mei la. 

Em Portsmah Square, a cem passos da legação, 
mora o nosso amigo duque de Fife, riquíssimo, 
n'uma casa sombria que valerá 3:ooo libras. O in- 
glez, em tudo, não se importa com aspectos. Dentro 
essas casas respiram tranquilidade e conforto. 

Muitos annuncios. Perto do hotel ha um sujei- 



33 



to que vende objectos de verga, da ilha da Madei- 
ra, e ornamentou para reclamo a frontaria da ca- 
sa com muitas cadeiras, que faziam singular effei- 
to com os flocos de neve. 

O hotel Durrant é uma espécie de hotel Durand 
em Lisboa; cosinha ingleza sadia, e vinho francez; 
meia garrafa de Bordéos custa um' shilUng. Esta- 
vam algumas familias inglezas interessantes, per- 
feitamente á vontade passadas as primeiras horas 
de melindre. 

Só com a minha planta de Londres fui, a pé, para 
South-Kensington, o grande museu nacional. Atra- 
vessei Hyde-park, enorme terreno arrelvado com 
seus arvoredos e avenidas, e lago que parece um 
rio; o T^ing e Rotten-Row são avenidas ensaibra- 
das onde passeiavam a cavallo centos de homens 
e senhoras; familias a trote; grupos de meninas a 
meio galope; bellos rapazes e sujeitos gebos; ca- 
vallos finos e alguns sendeiros. O inglez passeia a 
cavallo porque estima o exercício, não dá impor- 
tância ao mirone. Um grupo de inglezinhas frescas, 
vestidas com simplicidade, botões de rosa ou lila- 
zes brancos na lapela, galopando em finos cavai- 
los, é bonito deveras. 

Passei pelo quartel dos Horse-guards; fazia sen- 
tinella em grande uniforme um rapagão' de 1,^90 
de altura, com brilhante couraça, capacete alto de 
aço brunido e pennachoque tudo chegaria a 2, "3o. 

Na policia ingleza vi também alguns homens de 
formidável corpulência. 

O monumento do príncipe Alberto, o fallecido 
marido da actual rainha, é imponente e luxuoso; 
a abobada do alto baldaquim é revestida de mo- 
saico dourado de grande eíTeito. 

South-Kensington é já uma cidade de inuseus e 
escolas, e tende a augmentar. A media diária dos 
visitantes anda por dois mil; e a da frequência es- 
5 



34 

colar por três mil. Só a secção indiana occiípa um 
edifício como a Escola polytechnica de Lisboa. Uma 
quadra envidraçada tem reproducções em tamanho 
natural da columna de Trajano, do portal de S. 
Thiago de Compostella, das estatuas collossaes de 
Miguel Angelo, etc. 

Ha collecçóes de pinturas, esculpturas, ourivesa- 
ria, tecidos, cerâmicas, esmaltes, mobílias, etc. etc. 

A escola de rendas, para meninas, tem cursos 
de desenho e professoras especiaes dos pontos e 
malhas das rendas antigas e modernas: é uma aca- 
demia; e o mesmo succede com os trinta cursos in- 
dustriaes que ali se professam. 

O pavimento de grande parte do andar térreo é 
de fino mosaico feito nas casas de correcção. 

Tem uma livraria especial p^ira estudos de ar- 
te, onde se paga a admissão. O movimento artísti- 
co e industrial nos grandes paizes estuda-se me- 
lhor n'este museu que em Paris. 

Nas salas de pinturas, aguarellas, etc, trabalha- 
vam em copias muitas senhoras. 

D'aqui ao Museu britannico é uma légua em 
ruas de grande movimento. E' um edifício quadra- 
do, com dois pavimentos; está aqui a maior e mais 
importante livraria do mundo. A sala de leitura, 
circular, será quasi das dimensões do Colyseu no- 
vo, em Lisboa. Nas estantes d'esta sala estão 80:000 
volumes; nos corredores que a cercam, e em al- 
guns salões ha dois milhões de livros. 

Em Paris os museus são galerias elegantes e se- 
ries de salões luxuosos e artísticos. Em Londres 
collossaes armazéns. Se no Louvre ha dois mil va- 
sos gregos, no British Museum ha 20:000. Ha no 
Louvre duas salas regulares com objetos egypcios, 
no British Museum ha três salões, como a celebre 
casa do risco do xA^rsenal da Marinha, cheios de pha- 
raohs, escarabéos, esfinges e papyros. 



35 



Entra-se no vestibulo que parece um terreiro 
com abobada, e á esquerda está um salão com ma- 
nuscriptos illuminados, e outros com autographos, 
e series de vitrines com sellos, e manuscriptos orien- 
taes, e códices gregos, romanos; depois a impren- 
sa, os primeiros livros, a typographia nos diíferen- 
tes paizes, a encadernação, os alphabetos, etc. Teem 
maravilhas. 

Na collecção de estampas ha uma sala, que é 
um prefacio, onde n'um relance se conhecem as 
escolas da gravura, e depois as galerias onde ex- 
põem milhares de estampas preciosas classificadas 
por espécies e epochas. A installação não é luxuo- 
sa; as portas envidraçadas dos armários estão dis- 
postas em molduras. Para seradmittido na sala de 
leitura é preciso ir á secretaria, ser apresentado, 
escrever o nome e residência n'um livro; dão'um 
bilhete com talão, onde se marca o numero de dias 
para o estudo que se quer fazer; este bilhete é va- 
lido só para esses dias; depois apresenta-se esse 
bilhete ao porteiro da sala, e este entrega-nos o ta- 
lão. 

Entra-se na sala de leitura e pôde consultar-se o 
enorme catalogo de referencias. Se o livro está na 
sala o leitor mesmo o pôde ir buscar, e fica obriga- 
do a pol-o no seu logar; se não está na sala vae 
ao balcão central e apresenta o pedido por escripto 
a um empregado. 

O catalogo que está á disposição dos leitores 
comprchende uns dois mil volumes, in-folio, de 200 
a Soo paginas, com indicações das obras, muitos 
bilhetes collados nas paginas, notas á margem, 
muitos subsídios emfim, sem preoccupação algu- 
ma de forma. A palavra Portugal tem três volumes; 
o palavra Camões umas oito paginas. 

Eu não fui apresentado; succedeu o seguinte: 
Estava eu na collecção dos vidros e passou junto de 



36 

mim um guarda. Os guardas não teem fardamen- 
to, conhecem-se porque trazem uma bengala alta. 
A vara ou bengala é distinctivo muito empregado. 
Em Madrid os officiaes de serviço trazem uma ben- 
galinha. 

Em Paris, em Notre-Dame, quando o pregador 
foi para o púlpito precedia-o um porteiro com gran- 
de bengala, batendo fortemente com a ponteira no 
lageado. Em Londres vi frequentemente o uso da 
bengala significando auctoridade. 

O guarda passou e eu pedi-lhe informação so- 
bre certo objecto; elle foi logo chamar um empre- 
gado da secção ; este, depois de conversar uns mi- 
nutos, disse-me que o sr. Franks, conservador do 
museu, poderia dar-me informação mais completa. 

— Eu não desejo incommodar, isto é simples cu- 
riosidade. . . 

— Não incommoda nada ; dê-meo seu cartão de 
visita. 

Momentos depois apparccia o sr. Franks, cava- 
lheiro idoso, alto, vestindo de preto (notei que os 
empregados superiores em Inglaterra, em serviço, 
vestem de panno preto); é um erudito muito amá- 
vel, sem pose; percorremos algumas salas. 

Na conversa fallou-me de Portugal, e do sr. H. 
Major, author da Vida do infante D. Henrique, na 
occasião ausente em Itália, a tratar da saúde, e que 
infelizmente falleceu um mez depois. 

H. Major era conservador aposentado do Museu. 

— E' um louco por assumptos portuguezes. El- 
"le gostaria immenso de conversar com você. 

O sr. Franks indicou-me depois um livro; e foi 
por isto que pedi admissão na Bibliotheca. Como 
ha telephones por toda a parte é possivel que dis- 
sessem alguma cousa á secretaria ; o que é certo é 
que me deram promptamente o bilhete de admis- 
são. 



3? 

Estariam 400 leitores na sala, todos em logares 
numerados ; carteiras grandes e pequenas, em filas 
que irradiam de junto do grande balcão central, 
onde em duas prateleiras, nas faces externa e in- 
terna, estão os in-foiios do catalogo. 

Empregados e leitores de chapéo na cabeça. 

Só três quartas partes do vasto salão circular 
estão francas ao publico. 

O resto está vedado, ahi estão muitos emprega- 
dos trabalhando. 

Creio mesmo que não ha ofFicinas [forque em 
vários pontos do museu vi operários trabalhando, 
concertando louças, por exemplo. 

A defeza contra a multidão, a mob^ é necessária 
em Londres. 

Nas grandes galerias de esculptura, do Egypto, 
da Assyria, etc, onde só ha grandes peças, nos 
bancos, junto das bocas dos caloriferos, havia mui- 
ta gente que não visitava ou não estudava as col- 
lecções^ ia passar tempo, ler jornaes, cavaquear. 

Ábre-se ás 10, fecha -se meia hora antes do sol 
posto. A' noite, durante duas horas, abrem-se as 
galerias do primeiro pavimento, illuminadas com 
focos eléctricos de incandescência. 

5 horas da tarde, toca o sino a sabida ; parei no 
vestibulo. Saem os leitores, o publico das galerias, 
os empregados que vão entregar senhas a um por- 
teiro especial, os policias. Talvez 200 empregados, 
e uns 80 policias. 

Westminster. Domingo, 8 de março. Um grupo 
de edifícios collossaes; abbadia, o parlamento, um 
hospital, as repartições oííiciaes das colónias, etc. 
O templo estava fechado quando cheguei, porque 
ao domingo só se abre para os officios religiosos. 
Passiei pela praça. Grandes estatuas de Russell, 
Palmerston, Derby, Disraeli, os últimos estadistas 
chefes. Junto da estatua de Disraeli algumas lem- 
branças de amigos e parentes. 



38 

Mesmo da rua se conhece a divisão das repar- 
tições coloniaes porque ha letreiros nas portas e 
janellas. , 

Todos estes edifícios teem um tom muito escu- 
ro; agora quebrado pela neve. Parecem de ferro. 

São phantasticos, com as suas grimpas, ogivas 
e botaréos. 

Duas horas ; o sino de Westminster deu algumas 
badaladas graves, compassadas. Abriram as portas; 
entrei pela do cruseiro na vasta nave. Um braço 
do cruseiro é do tamanho do corpo da egreja de 
S. Francisco, mais alto, com columnas. Estatuas 
e monumentos fúnebres por todos os lados; clas- 
sificados; almirantes e generaes a um lado: ora- 
dores, estadistas a outro. 

N'um grupo Newton, Herschell, Darwin. No 
outro braço do cruzeiro Shakespeare presidindo aos 
homens de lettras. Carlos Dickens ahi repousa, 
sob campa de mármore escuro, com letreiro em 
bronze. 

Watt, tem uma grande estatua, com o seu em- 
bolo e balanceiro, e um dizer simples A Inglater- 
ra a Watt, que nobilitou a sua pátria augmentando 
a forca do homem. 

E' sério e suggestivo todo o interior do templo, 
brandamente esclarecido pelas esguias vidraças an- 
tigas, historiadas como illuminuras de velhos livros 
de horas. 

Entra muita gente, é incessante o chegar de trens, 
de equipagens bem postas. 

Em breve os cadeirados estão cheios, ficam mui- 
tas pessoas de pé pelas coxias centraes. 

Nos cadeirados ha biblias, livros de orações, e 
papeis avulsos com a letra do hymno e do psalmo, 
do dia, em verso inglez, e o nome do conferente, 
dr. Patherto, cónego e académico. Começou a to- 
car o órgão. Que esplendido órgão! os sons gra- 



39 

ves pareciam estremecer a cathedral; e começou a 
entrar o clero, em cortejo, para o coro que fica na 
nave central. 

Reáaram o ofíicio. O conferente subiu ao púl- 
pito; nada de grande oratória; uma conferencia, 
parte de serie, sobre direitos e deveres, dita e lida, 
nas citações por vezes extensas, como uma lição 
n'um curso superior. Foi ouvido com muita atten- 
ção. Outra vez o órgão, e o publico todo, excepto eu, 
creio, entoou o coro. 

Estava ali muita gente de alta posição social, 
com certeza; famílias inteiras; tudocantava a meia 
voz dando um effeito de profunda espiritualidade. 

Junto de mim estava uma familia com creanças 
encantadoras que me fizeram lembrar um dito de 
um arcebispo de Évora. Uma familia ingleza com 
creanças bonitas e louras visitou o paçoarchiepis- 
copal, e o prelado foi mostrar-lhe aquella maravi- 
lhosa pintura da Senhora da Gloria, entre anjos 
cantando e tocando instrumentos. 

— Porque é que os anjos catholicos se parecem 
com meninos de herejes? disse o prelado para al- 
guém que estava próximo. 

Voltei no dia seguinte a Westminster para visi- 
tar os jazigos da nobreza ; ha um venerável guia 
especial e uma taxa fixa de remuneração. Lá es- 
tão jazigos das famílias Talbot, Arundel, Cambrig- 
de, e Lancaster, do sec. 14 e seguintes, que podem 
importar a portuguezes. 

Um formidável conjuncto monumental, e artís- 
tico, guardado e conservado com attenção intelli- 
gente. 

Na Torre de Londres, um armazém de armas e 
armaduras, ha muita cousa hespanhola, da Gran- 
de-Armada, principalmente. Esta Grande-Armada 
foi uma mina para os museos britannicos. Estão 
ahi também as jóias da coroa. Os guardas da tor- 



4Q 

re de Londres, antigos policias, usam um farda- 
mento tradicional; parecem homens d'armas do 
sec. I 5. Os inglezes são extraordinariamente con- 
servadores. 

Para ir de Londres examinar os papeis do ve- 
nerável ancião Ribeiro Saraiva, fallecido em S.' 
Peters in Kent, segui a ferrovia até Broadstairs. 

Três horas de comboyo, em caminho maior de 
um terço, que o de Évora a Lisboa. 

Nos compartimentos ha avisos ao publico con- 
tra gatunos e jogadores. 

Estive alguns dias no campo, porque S.* Peters 
pôde dizer-se uma parochia rural. As casas ali são 
construídas de pederneira, ~ e o templo, e alguns 
muros; não ha outra pedra. As terras admiravel- 
mente tratadas. Trabalha-se multo: na lavoura em- 
pregam cavallos possantes. 

As casas do lúpulo com as coberturas cónicas 
sobresaem nos casaes. 

Visitei n'um hora de folga uma quinta próxima, 
de nove hectares de superfície cultivada pelo pro- 
prietário. A casa de habitação n'um páteo, tendo 
aos lados casas de operários permanentes, e ofíi- 
cinas, cavalariças, galinheiro, vaccaria, porcos; tu- 
do bem tratado. 

As casas de operários com suas commodidades 
baratas; muito asseiadas. 

Em geral os trabalhos são pagos ás horas. O 
operário se não tem trabalho no campo, tem-n'o em 
casa, faz cestos, utensílios de madeira, alfaias agrí- 
colas. Faz meia, camisolas de lan, se for preciso. 

Todos procuram ter em casa uma garrafa de 
Porto e uma botija de genebra de HoUanda, para 
oíferecer á visita. 

O aspecto das creanças denota muitos cuidados; 
a gente ingleza é fundamentalmente educadora. Vi 
todas bem vestidas, com tecidos fortes, grossas 
meias, muitas com luvas espessas, de lã. 



4^ 

Por toda a parte ha associações de beneficcncia. 
E' um povo forte. 

Ha burros no Kent ; fiquei admirado depois do 
que se fallou da compra do burro de Cintra pelo 
principe de Gallcs. Pois ha burricos, e bonitos, pa- 
ra passeios a Margate e a Ramsgatc, cidadesinhas 
que ficam próximas, na beira-mar. Todos estes si- 
ties são muito frequentados no verão pelas familias 
londrinas. 

E vi com admiração enlre gallinhas britannicas 
um negro e ahivo gallo hespanhol, talvez descen- 
dente de algum gallo que viesse na Grande-Arma- 
da, que não esquece na tradição popular ingleza. 

Na legação portugueza encontrava sempre o sr, 
secretario Castro, e um empregado inglez, fallando 
portuguez econhecedorde Portugal, o sr. Manders, 
cxcellentc informador na immensa Londres. 

No andar nobre está o gabinete e saia do mi- 
nistro, sr. Soveral, que foi muito amável comigo. 

A secretaria é no réz do chão. Ahi encontrei al- 
gumas vezes o sr. Pinto Bastos, e o sr. barão da Re- 
galeira, que esteve em Londres comprando mobí- 
lia para o Turf-Club. 

Na legação pesava no momento o aguaceiro da 
questão ingleza com muita correspondência, e lon- 
gos telegrammas em cifra. 

Não longe da legação está uma estação de tele- 
grapho e correio unicamente servida por senhoras, 
velhas e novas. Vi na estação, e em vários estabe- 
lecimentos londrinos um guichet especial, o da cai- 
xa económica. 

Passei algumas horas das noites, em Paris e Lon- 
dres, em estabelecimentos de instrucção popular. 

Em Paris ha uma bella instituição moderna — 
Enseignementpopulairesupérieursubventionné par 
la villc de Paris— onde, entre outros cursos, se fa- 
6 



ziam conferencias sobre Historia nacional^ e Histo- 
ria da cidade de Paris. 

Em Londres, em Regent-street, está o T^olyíe- 
chnic Jnstitute^ onde se ensina tudo, á vontade, des.- 
de assumptos de economia domestica, até applica- 
ções de electricidade. Paga-se mais ou menos, de 
20 a 120 réis, para assistir aos cursos. 

Por I20 réis ouvi ahi, n'um salão como o da 
Trindade, em Lisboa, mais severo, quasi ecclesias- 
. tico, durante duas horas, das 8 ás lo, com peque- 
nos intervallos, o sr. Brandram, formoso velho en- 
casacado, recitando trechos clássicos, de Shakes- 
pieare, i^ddisson, Macaulay, etc. Estariam i:5oq 
pessoas, na maioria gente nova, que não perten- 
ciam seguramente ás classes superiores. 

Em instrucção, em mutuo auxilio, nos meios de 
armar o individuo para a lucta da vida, estamos 
extraordinariamente atrazados.E\iesoladora a com- 
paração, 

Na torna viagem, em Paris, visitei a Bibliotheca 
de Santa Genoveva. Occupa edifício apropiiado, 
junto do Panthéon, e da escola de direito, próximo 
do Luxemburgo. 

Na frontaria estão gravados os nomes dos ho- 
mens eminentes, e fiquei consolado ao ler nomes 
portuguezes, João de Barros, Camões, S. António 
de Pádua. 

Desejando visitar a Bibliotheca pediram o cartão 
de visita, e appareceu logo o sr. Lavoix, conserva- 
dor. Fiquei admirado da promptidão. 

O sr. Lavoix, muito amável, explicou; vira o no- 
me de um portuguez, e tal visita na occasião ca- 
bia como sopa no mel, por causa da livraria do fal- 
lecido Ferdinand Denis, que tão amigo foi sempre 
de Portugal. 

Ferdinand Denis foi por muitos annos emprega- 
do ali. por bastante tempo conservador, e chefe, e fe- 



43 

choua sua longa e Litil carreira legando os seus livros 
ásua querida Bibliotheca. A importância maior do 
legado está nos livros portuguezes, brazileiros, e 
hespanhoes. Poucas livrarias particulares ha em 
Portugal que se lhe ponham a par, só na colleção 
portugueza. 

Eu peicorri os livros com o espirito clieio de gra- 
tidão e respeito por aquella nobre actividade que 
tantos, serviços prestou a Portugal. 

E a propósito -de estrangeiros que se importam 
com l^ortugal não esquecerei que tive occasião em 
Londres (ie visitar o sr. Youle, opulento banquci- 
lo. Logo em frente da porta de entrada A torre de 
Belém, a óleo. Na casa de jantar e no gabinete d-e 
trabalho os melhores quadros de Annunciação, que 
tenho visto; e muitas outras cousas portuguezas. 
O sr. Youle começou a sua vida commercial em 
Lisboa. E' um formoso velho cor de rosa, fallando 
regularmente a nossa lingua. 

Paris, i5 de março, domingo. Vamos para Ma- 
drid. A's i I da manhan na gare de Orleans. 

Passeia va na plataforma, e vejo um grupo por- 
luguez, espera ! um rapaz da Casa Pia d'Evora, com 
o seu bonnet de uniforme; despediam-se de uma 
mulher que os acompanhou á gare. 

Percebi pelas ligaduras que eram clientes de Pas- 
teur. Foi-se a mulher. 

— Agora acabou-se, dizia um pequeno, filho do 
hortelão da Casa pia, ninguém nos entende. 

— Cá vou eu, menino. 

Que espanto! 

— Então tem tido noticias do sr. Paula Rober- 
tesi' do sr. João Barreiros? 

Que assombro! 

Acompanhei-os até Madrid. Gostei de vOr a ma- 
neira como os chefes de gare os trataram ; ha ins- 
irucções especiaes para os mordidos que vão a Pa- 
ris, e são bem cumpridas. 



44 



17 de março, 6 da manhan. Madrid. 

Uma visita ainda ao museu do Prado, á Univer- 
sidade central, e ao museu de archeologia. 

Em i8, ás 9 da manhan parti de Madrid. Pou- 
co depois tornava a ver o admirável panorama do 
el-Grco^ e dos montes de Toledo vestidos de 
neve. 






pBSEP^VAÇÕES 
I 

Escaela superior de diplomática. 

Faz parte da Universidade central de Madrid. É um curso pa- 
recido ao de Bibliothecarios-Archivistas creado em 1887. 
Divide-se em 3 grupos. 

1." 

Gramática histórica comparada de las lenguas romances. 

Paleografia general y critica, diplomática y ordenacion de ar- 
chivos. 

Geografia antigua y de la edad media, especialmente de Es- 
pana. 

2.» 

• Historia literária. 

Historia de las instituciones de Espana en la edad media. 
Archeologia y ordenacion de los museos. 

Exercícios práticos de classificacion, catalogacion y arreglo de 
archivos. 

3.» 

Bibliologia y ordenacion de bibliothecas. 

Historia de las instit. de Espana en la edad moderna. 

Numismática y epigrafia. 

Historia de las Bellas-Artes. 

Exercícios práticos de classificacion, catalogacion y arreglo de 
Museos. 

Idem de Bibliothecas. 

O curso portugueziicaria quasi egnal com a cadeira de Historia 
das instituições. E' director o sr. Rada y Delgado. • 

Secretario o distincto lente de paleographia, sr. Munoz y Rive- 
ro 

II 

Escola de Louvre. 

Professa-se no Louvre um curso superior de erudição e histo- 
ria das artes : é sem£stral : tem oito cadeiras : lições ou conferen- 
cias semanaes, excepto na 4.^ cadeira. É director d'esta escola o 
sr. A. Kaempfen, que é também director dos museus nacionaes. 
Duas cadeiras tem substitutos ou ajudantes. 

i." Archeologia nacional (A. Bertrand ; S. Rcinach). 

2." Archeologia oriental e cerâmica antiga (Heuzey ; Pottier). 

3.* Archeologia egypcia (Pierret). 

4.* Demotica. Direito egypcio (Revillout). 

5.« Epigraphia oriental; assyria e phenicia (Ledrain). 

6." Historia da pintura (G. Lefenestre). 

7." Historia da esculptura na idade-media, e no renascimento 
(Courajod). 

8." Historia das artes applicadas á industria em França (E. Mo- 
linier). 



46 



sr. RevilloLit ensinava demotico nas segundas feiras, copta 
nas terças, e antigas instituições egypcias nos i.° e 3.» sabbado do 
mez. 

Todos os professores tem nomes respeitáveis na erudição mo- 
derna. 

Ill 

A Bibliotlieca Nacional de Lisboa dlvlde-se em XIV 

secções. 

> 

1 Historia e geographia. 

II Cartas geographicas. 

III Numismática. 

IV Sciencias civis e politicas. 

. V Religiões. Sciencias ecclesiasticas. 

VI Bibíias. 

VII Sciencias e artes. 

VIII Bellas-artes. 

IX Estampas. 

X Fhilologia e bellas-lettras. 

XI Jornaes. 

XII Paleotypos e reservados. 

XIII Manuscriptos. 

XIV Polv£;rapliia. 

» IV 

Gravuras na Bibliolheca Nac. de Paris. 

Tem cartas de jogar, grav. em madeira em 14SS. 

A gravara em França tem desde o seu começo muita importân- 
cia; apresenta uma bella serie de grandes artistas, cujos nomos 
ornam o friso das estantes. . 

J. Duvet (1483-1562). 

E. Delaune (1519-1583). 

Androuet du Cerceau (1515-1585). 

J. Calloe (159-2-1635). 

C. Gelléc (1600-1682). 

J. Morin (1612-1666). 

Poillv (1622"169.3). 

Pesne (1623-1700). 

Nanteuil (1626-1678). 

Rouzonnet. Stella (1634-1697.) 

Masson (1636-1700). 

Audran (1640-1703). 

Drevet (1697-1748). 

Cars (1702-1776), 

Vivares (1709-1782) 

Moreau (1741-1814) 

Bervic (1756-1822). 

Bouchers-Desnoyers (1779-1857). 

Gericault (1781-1824). 

Cnarlet (1792-1845). 

Raftet (1804-1860). 

A collecção de estampas da Bibliotheca N;tcional de Lisbao é 



_47_ 

pouco numerosa, mas representa e demonstra muito bem a histo- 
ria da gravura. Assim a podessemos insiallar convenientemente.» 
As installações de Paris e Londres são modestas; excepto na dis- 
posição de estampas, gravuras ou desenhos de primeira ordem, 
em que usam cartões muito caros. 

A Bibliotheca de Évora possue também desenhos e gravuras; a 
coHecção de gravuras tem miportancia. Tem bellos exemplares de 
Durer, Rembrandt, Audran, etc. Ha também n'esta Bibliotheca al- 
gumas chapas em cobre mandadas abrir por Cenáculo. 

V 

_ GraYUraS no Britísh Museum. 

Uma pequena sala Com talvez 100 gravuras nas vidraças dos ar- 
mários, mostrando os principaes mestres, da 'Bíblia paupentm até 
IHoO. 

Três compridas salas com vitrines centraes onde brilham moe- 
das e medalhíSs; nas vidraças dos armários que forram as salas 
alguns milhares de gravuras, em series, terminando todas em 
1850. 

Historical series of etchings, (desde loOO). 

Historical series of stipple engraving, (desde 1750). 

Historical series of line engravings (desde 1480) 

Historical series of wood engravings, (desde 14G0). 

Historical series of mezzotints, (desde 1650). 

VI 

Cartas geographicas na Bibliotheca Nacional de Pa- 
ris. 

Estavam na collecção exposta algurnas que importam a poriu- 
guezes. 

A collecção còmprehende umas 50 cortas. Os números são os 
da collecção geral. * 

Carta de Africa occidental, em 1534, por Gaspar Viegas (n.» 452l. 

Carta de Africa em 1599, por Evcrt Gisbert; é uma carta hol- 
landeza feita sobre trabalhos portuguezes, com o escudo das qui- 
nas (n.° 462). 

N.» 466 e 467. Brazil e Africa. 

N.° 404. Portugal e parte de Africa. 

Todas estas cartas com as quinas portuguezas. 

VII 

Cartas è^O^FaplllcaS. No Museu britannico no corpo central 
da grande galeria consagrada á historia da imprensa, em logares 
principaes, nas paredes: 

Carta de Diego Ribero, datada de 1529, com a linha de separa- 
ção dos dominios ultramarinos entre Portugale Hespanha. 

Planisphcrio (fíic-simile) mandado de Lisboa a Hercules d'Éste 
por Alberto Cantino, em 1502. As disignaçóes de logares em hes- 
panhoj e portuguez. O original pertence ao museu de Modena. 



48 

Em frente d'estas cartas está uma grande gravura em madeira 
'representando o sitio e ataque de Aden por Aííbnso de Albuquer- 
que. Gravada em Antuérpia em 1513. 

VIII 

Biblia hebraica manuscripta e illuminada daBiblio- 
theca Nacional de Lisboa. 

É celebre esta biblia, e citada em alguns ^uias ; por isto os vi- 
sitantes estrangeiros pedem para a ver. Foi escripta por um ju- 
deu, e illuminada por artista francez, em Hespanha no findar do 
século XIII. O trabalho de illuminura é variado, sempre fino ; o 
artista n'uma pagina apresenta entrelaçados árabes, noutra orna- 
tos bysantinos; agora arcos de pleno cintro, logo eiji volta de fer- 
radura, depois em ogiva ; uma confusão singular. 

Ha na collecçcão de mss. illuminados da Bibliotheca nacional 
de Paris, um códice com idêntica ornamentação. É- o volume das 
Etimologias, de Isidoro de Sevilha, feito em 1072, em Hespanha. 
Está classificado como mo^iarabe. 

IX 

AntO^râpuOS. Na collecção de autographos do British Museum 
ha dois interessantes a portuguezes. 

N.° 72. Carta de Sir Àrthur Wellesley, depois duque de Wel- 
lington (1769-1852) ao general Roberto Wilson prevendo o cerco 
de Ciudad Rodrigo, datada de Lisboa, 2 setembro 1809. 

N.» 74. Carta de H. J. Temple, visconde Palmerston (1784-18C')) 
a R. B. Hoppner, representante hritannico em Lisboa, sobre o ca- 
minho a seguir no caso de hostilidades, se D. Pedro IV. conse- 
guir desembarcar. Datada em 18 de junho de 1832. 

X 

Óla, ou folha áe óla. 

É uma folha de palmeira preparada, em que se escreve gravan- 
do com ponteiro ou estilete. Era usual na índia meridional, em 
Ceylão, e também em Java. Ha na Bibliotheca Nacional de Lis- 
boa uma óla disposta e escripta com os mesmos caracteres do 
n.» 143 da Case F dos mss. em exposição no British Museum. 
Diz o bilhete junto que os caracteres são Kannadi,-do Mysore. 

Ha ali outras parecidas, cingalezas e burmezas. E também um 
Stylus cingalez, de latão, para abrir os caracteres nas ólas. 

Ha uma óla burmeza, lacréada, sendo os caracteres formados 
de aljôfares embutidos no lacre. 

XI ' . 

Apocalypse da Torre do Tombo. 

Pertenceu ao mosteiro de Lorvão, e agora pertence ao Archivo 
da Torre do Tombo este volume em pergaminho com illuminu- 



49 

ras, importante sob vários respeitos, principalmente para a histo- 
ria da arte. As suas ingénuas pintaras dão-nos elementos precio- 
sos, únicos para o conhecimento da indumentária e do mobiliário 
do século XII. Foi escripto por Egas ou Egeas na era 1227, anno 
1189.. 

Jam liber est scriptus 

Qui scripsit sit benedictus. 

Era M.GC.XX.VII. 

No 'Biitish Museinn, Grenville library, secção dos mss. illu- 
minados, case 3, sob os n.°* 29, 30 e 31 estão três copias do Apo- 
calypse, assim classificadas : 

29, latim e francez, miniaturas de artista inglez. 

30, latim e francez, artista francez. 

31, francez, artista inglez. 

São rruji diversos do mss. da Torre do Tombo que julgo ser 
bem portuguez. 

XII 

Imprensa portugueza no Oriente. 

Estão expostos no Museu Bntannico dois volumes : os — Col- 
loqiiios dos simples — de Garcia da Orta, impressos em Goa : e — 
De missione legatorum japonensium ad romanam curiam, versus 
ab Eduardo de Sande, Macáo, 1596 — . 

XIII 

Contas de vidro matizado. 

No Algarve e em Ghellas, próximo de Lisboa, t;.em apparecido 
estas curiosas contas perfuradas. Obtive uma inteira em Ghellas 
que ofTereci para o gabinete de antiguidades da Bibliotheca Na- 
cional de Lisboa. E algumas partidas que dei á Bibliotheca de 
Évora. Gonsta-me agora que appareceram contas eguaes na villa 
das Alcáçovas. Vi uma grande, na collecção egypcia do Louvre ; 
outra em um collar no gabinete de jóias antigas também do Lou- 
vre. No Museu britannico, no 4.'^ egyptian rooni, estante B, nu- 
mero 16845, está uma egual ás de Ghellas; e na Glass and cera- 
mic gallery, do mesmo museu, algumas inteiras ou partidas, de 
proveniência incerta. 

Constituem um problema archeologico estas contas. Ha vasos 
e objectos de vidro de egual fabrico, phenicios e etruscos, na clas- 
se Amphoriski and alabastrj^, no 1.° vase rooni, do M. Brit. 

Teem apparecido em tiimuli em Aalborg e no Jutland, com ob- 
jectos da idade do ferro, e em sarcophagos do Egypto. E em 
Dakkeh, na Núbia. E entre árabes consideradas como amulettos. 

Em Inglaterra, em sepulturas pre-romanas, em Canterbury e no 
Somersetshire. 

Teem sido chamadas contas de druida, gleininadroeth or glas- 
sadders of the driíids; the druid anguinum, snake stones, cor angiii- 
num. Ovum angiiimim, Plinio, 1. 29. c. 3.°). 

No vol. 45 da — Archaeologia or miscellaneous tracts relating 
to antiquity — vem um interessante artigo sobre estas contas : 
On glass beads with a Ghevron Pattern, bv John Brent, esq Read 
June, 13, 1872—. 



5o 
XIV 



Jade. 



Existe no museu da Bibliotheca eborense um objecto de pedra 
que por muito tempo ignorei o que fosse. A pedra é verde muito 
e<5vaido, translúcida, com sulcos e furo artiHciaes, muito polida. 
Teni dois decimctros em comprimento. 

Kjade orienta!. Ha no Museu Britannico jades da China e das 
ilhas de Sonda, com aspecto e trabalho iguaes. 

XV 

DSDtC u6 DdrVRl. O que está na Bibliotheca Eborense tem 
2, "'2o de comprimento. E' direito, e muito regularmente espirala- 
do. Dizem que ha dentes de narvaes com três metros de compri- 
mento. Os que vi no Bethnal green (M. de Historia Natural) e na 
secção de ethnographia (M. Brit. Groenlândia), e vi muitos, são 
menores, e nenhum tão perfeito como o eborense. 

XVI 

lCrr3,-C0ildS. Enorme colleccão no museu britannico: são mi- 
lhares de estatuetas de barro cosido que enchem os escaparates da 
vastíssima galeria. 

Os principaes grupos são de Canosa, Tanagra, Cyrenaica, Gen- 
torbi, Gapua, Tarento, Sardinia, Chypre. 

Entre os de Tanagra ha figurinhas encantadoras. Nos grupos 
Chypre e Gapua vi algumas terras-cottas, rudes, singelas, que re- 
cordam as figurinhas de barro que de ha muito existem no gabi- 
nete da Bibliotheca Nacional de Lisboa, e no museu da Bibliothe- 
ca d'Evora. 

Um episodio. No museu archeologico de Madrid ha uma collec- 
çã.0 d'estas figurinhas gregas. Eu, vendo uma estatueta de Tanagra, 
uma rapariga gentil, pequena cabeça, airoso penteado, o busto 
n'um chale cruzado sobre o seio, disse para o guarda ou continuo 
que me acompanhava : 

— Esta grega parece uma hespanhola. 

— Parece uma rapariga de Sevilha; emendou elle, e bem. Já se 
tem notado parecenças entre gregas antigas e andaluzas modernas. 

As modernas explorações tem revelado milhares de terras-cot- 
tas, mas ha já muitas falsificações. 

XVII 

AinillGlOS. No museu britannico entre as collecções pre-histori- 
cas ha uma denominada Superstitioiís use of stone implements, on- 
de \i alguns amuletos que recordam os ainda actualmente usados 
em Portugal. 

A maioria dos objectos d'essa colleccão pertence á Itália, espe- 
cialmente do sul. Vi ahi pequenos machados de pedra furados, e 
pontas de silex engastadas em prata, com argola para pendurar. 



5i 

XVIII 

RetabolO da Sé velha de Coimbra. 

E' um trabalho admirável em madeira, em gothico florido, in- 
felizmente bastante arruinado ; não tanto que seja impossivel re- 
constituil-o. Vi exemplares de trabalhos em madeira notáveis, es- 
pecialmente no Museu de Cluny. Ha um retabolo, arte franceza, 
século XIV, representando a 'Paixão ; outro grande fragmento, ar- 
te hespanhola, do século xv ; etc. 

Nenhum eguala o de Coimbra em belleza e execução. 

Fiquei também ainda mais convencido de que o cadeirado do 
coro da Sé eborense é extraordinário. 

XIX 

TriptyCO esmaltado, da Bibliotheca Eborense. 

Vi em Paris duas grandes collecçóes de esmaltes, no Louvre, 
sala das jóias, e no museu Cluny. O South-Kensington Museum 
possue uma serie admirável também. Em qualquer d'estas collec- 
çóes o esmalte eborense faria cxcellente figura. 

Como os esmaltes pequenos do museu eborense vi alguns em 
encadernações de livros religiosos, e ornamentação de cofres ou 
relicários da edade media. 

XX 

Poria da sacristia da Sé de Évora. 

E bem venerável esta porta. No Museu archeologico de Madrid 
vi uma quasi egual, classificada como arie viiidejar. 

XXI 

Espadas de ferro da necropole de Alcácer do Sal. 

No Museu de Bellas-Artes e Archeologia das Janellas Verdes 
estão muitos objectos de ferro provenientes de esta necropole, es- 
padas, lanças, adagas, freios, etc. Eu possuo alguns depositados 
na Bibliotheca eborense. 

As espadas largas, curtas, e de curvas especiaes tem chamado a 
attenção dos eruditos. 

Em vasos gregos, muito antigos, apparecem alguns guerreiros 
com taes armas. O sr. Cartailhao estudou-as. 

Ha um achado egual em Almedenilla, perto de Córdova ; bas- 
tantes objectos de este achado estão no Museu Britannico. Perfei- 
tamente cguaes aos de Alcácer. 

Fiquei admirado ao ver no museu archeologico de Madrid um 
yataga nXurco^ apanhado na batalha de Lepanto, com as curvas, 
disposição e tamanho das taes espadas de antiquíssimos gregos. 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS KBOHKNSKS 

Eslao publicados : 
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4." Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5.° Bibliotheca Publica. Noticias das 
collecções. — 6." Conventos do Paraíso, Santa Clara e S. Bento. 
— 7.° Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9." 
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12." O archi- 
vo municipal. — iS." A restauração em Évora. — 14.°, i5.» e i6.° 
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7.° Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.°, 19.°, 20.° e 21.° Assédios d'Evora em i663. — 22.° Os Fes- 
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nosLusiadas.' — 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. — 
26.° Antiguidades romanas em Évora e seus arredores. — 27.° 
Roteiro d'um eborense. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'E¥ora 

Estão publicados : 
I.* PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João i.°. Etc. 
I vol. de 202 pag. in-4.» — lí&Soo réis. 

2.* PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. ín-4.° — iíCèzoo réis. 

Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J. 
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran- 
ches. 



GABRIEL PEREIRA 



^ 



m 




EBORENSES 



jrllSTOPylA— y^E^TE— ^F^CHEOLOGIA 



UNIVERSIDADE DE ÉVORA 



ESTATUTOS. REGIMENTO DA LIVRARIA. JURAMENTOS E PROFISSÕES DE FE, 

ORAÇÕES DE SAPIÊNCIA. 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOURARIA N." 3 



l8()2 



GABRIEL PEREIRA 



e; 



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EBORENSES 



j-IlSTOP^IA— y^P^TE— y^P^CHEOLOGIA 



UNIVERSIDADE DE ÉVORA 



:5TATUT0S. REGIMENTO DA LIVRAkrA. JURAMENTOS E PROFISSÕES DE FE. 
.ORAÇÕES UE SAPIÊNCIA. 



tVORA 

Minerva eborense 

Dí: JOAQCIM JOSÉ liAPTlSTA, RUA DA MOURARIA N.° 3 

I 892 



ESTUDOS EBORENSES 



Universidade de Évora 



o cardeal infante D. Henrique, arcebispo de 
Évora, fundara e dotara o collegio do Espirito 
Santo. Em i553, em grande solemnidade. abriu 
as aulas de theologia, moral e letras humanas. 
Cercavam-no professores de muita sciencia e de- 
dicação ao trabalho. Como em Coimbra levantas- 
sem embaraços á Companhia de Jesus, o arcebis- 
po eborense empregou a sua diligencia para trans- 
portar para Évora o que se fizera a favor do col- 
legio jesuítico de Coimbra. 

Meios não faltavam. O cardeal tinha uma ren- 
da enorme; ao grosso cabedal da mitra eborense 
reunia elle fartas pensões das mitras de Braga e 
de Lisboa. 

O cabido, o illustrissimo cabido, era grande 
proprietário e capitalista, e cedia a sua quota pa- 
ra os progressos dos estudos em Évora. 



A teimosia da academia conimbricense excitou 
os da Companhia de Jesus. Os cursos do collegio 
eborense, professados por homens superiores, fo- 
ram logo celebrados no paiz. Em i556 ali ensi- 
nava philosophia o mestre que alcançou maior 
popularidade então, e cujo nome na tradição oral 
tem atravessado os tempos, o P.^ Ignacio Martins, 
o celebre Mestre Ignacio. 

Havia meios, vontade, auctoridade; facilmente 
conseguiram o desenvolvimento do collegio tm 
Universidade, sujeita á Companhia 

Em i35g ficou ofíicialmente constituída para 
ensinar humanidades, theologia, cânones, mathe- 
matica, o quadro superior então, excepto a medi- 
cina, o direito civil, e a parte contenciosa do di- 
reito canónico. 

Vieram as bulias do Papa e os alvarás d'el-rei. 
A mitra e o corpo capitular cediam sommas avul- 
tadas para sustentação de professores e alumnos. 

Com extraordinária pompa em i de novembro 
de i559, o cabido, onde então figuravam bispos e 
notabilidades, o clero secular e regular, o senado 
e a nobreza, assistiram ao pontifical da íYindação, 
e ouviram ler a bulia. 

Houve orações dos padres Jorge Serrão e Si- 
mão Vieira : e Te-Deum ; e repiques e salvas. De 
tarde representou-se a tragicomedia : El-rei Saiil; 
e durante três noites houve luminárias, descantes, 
musicas e encamisadas. 

Mez e meio depois a Universidade recebia a 
visita de um homem extraordinário, cujo nome a 
fama apregoava então ao espanto dos povos, o 
duque de Gandia, o padre (depois santo) Francis- 
co de Borja, que trocara a sua coroa ducal pelo 
barrete preto. Era a visita do Geral como que a 
confirmação da Universidade. 

A Universidade abriu com duas cadeiras de 



iheologia, uma de escriptura, uma de moral, uma 
de philosophia, e sete de latim. Mais tarde o qua- 
dro desenvolveu-se em três cadeiras de theologia 
especulativa, duas de theologia moral, uma de es- 
criptura, quatro de philosophia, uma de mathe- 
matica, oito de latim, duas de ler, escrever e con- 
tar. 

A Universidade tinha cancellario, prefeito, exa- 
minadores e substitutos, e formava, como a de 
Coimbra os seus mestres, bacharéis, licenciados e 
doutores. 

Entre os seus professores teve noines europeus, 
o grammatico Manuel Alvares, o pensador Luiz 
de Molina, e tantos outros. 

Tão bons começos para tão curta vida ! 

Um dia o marquez de Pombal cortou a Uni- 
versidade com um traço de penna. Não a melho- 
rou, não a reformou, não a fez progredir, nada, 
matou-a. 

E' diíficil explicar como n'este paiz de bondo- 
sos, "de branduras de costumes, se tende a des- 
truir por bruscos processos. E como facilmente se 
destroe o que tanto custa a fazer! 

Os bens da Universidade de Évora, assim co- 
mo os do coUegio do Espirito Santo, foram para a 
Universidade de Coimbra, que de súbito se viu 
opulentíssima ; que se tivesse sabido conservar o 
seu regimen e se respeitasse a sua tradição, esta- 
ria hoje como Oxford ou Cambridge, forte e vi^ 
vendo sobre si, mas que enlevada nas delicias 
da desamorlisação, na commodidade da verba do 
orçamento, na limpeza da folha mensal, arrasta vi- 
da mesquinha. 

Com os bens foram os cartórios, os papeis, os 
velhos tombos e registos; foi uma explosão! Mui- 
tos volumes, massos e pergaminhos avulsos, es- 
tão em Coimbra ; outros em Évora ; outros em 
Lisboa. 



Todavia numerosos volumes do cartório da 
Universidade de Évora, os seus documentos mais 
principaes, salvaram-se. 

Vamos reunir n'este estudo alguns documentos 
importantes da Universidade eborense. 

Universidade de Évora 

Cod. ^ da Bibliotheca Publica de Évora. 

2-3 1 

Estatutos ordenados polo xMui alto e excellente 
principe, e Sereníssimo Senhor dom Anrique por 
mercê de Deos, e da S.'^ Igreja de Roma Cardeal 
do titulo dos S.'°' 4. coroados, iffante de Portu- 
gual, legado, e Arcebispo de Lisboa etc. pêra a uni- 
versidade que ordenou, e fundou na cidade de 
Euora, da invocação do spu. S.'" com autoridade 
do S. Padre Paulo 4. . 

E' um vol. in-fol. de 144 pag- escripto até pag. 
i38: em duas columnas; na primeira columna o 
texto, e a segunda destinada a — Reforma e emen- 
da dos Estatutos que defronte estão escritos e nes- 
ta parte se põem somente o que nelles se deve de 
melhorar — . 

Pag I. Primeiro liiiro dos ofíiciaes da universi- 
dade. 

Cap. 1.'^ do proteifor da universidade. Era elrei 
D. Sebastião. 

2 l^anscreve o juramento delrei. - 

Eu el Rey proteitor da universidade de Euora, 
juro a estes Santos Evangelhos em que ponho as 
mãos, que daqui em diante quanto em* mim for, 
empararei e defenderei a dita universidade, com 
todas as cousas que lhe tocarem, segundo vir que 
lhe mais convém a sua conservação, e proveito, e 
guardarei as cousas que estão postas neste capitu- 
lo de proteitor o qual me foi lido. 

Capitulo segundo das cousas em que o arcebis- 



de Évora, a de favorecer e ajudar a universidade. 
3. Capit. 3.° do Reitor da Universidade. 
6. Capit. 4° do officio de Canceliario. 

8. Capit. 5.° dos conselheiros, decanos e depu- 
tados. 

9. Capit. 7." do cartóreo da universidade. 

10. Capt. 8.° do escrivão da universidade. 
i3. Capit. 9.° do officio do bedel. 

i5. Capit. io.° da livraria. 

Regimento da livraria 

Averá nas escolas hua casa pêra livraria da uni- 
versidade na qual estarão livros de todas as fa- 
culdades em abastança, postos em estantes, e pre- 
sos por cadeas, e em quadernados em tavoas com 
suas brochas, com seus titulos de boa letra. 

O bedel da theologia terá cuidado da casa da 
dita livraria, abrindo-a e fechando-a com diligen- 
cia duas vezes no dia; no inverno se abrirá as 7 
da menhan, e fecharseá as 1 1 e a tarde se abrirá 
duas horas, e fecharseá as 5. 

E no verão se abrirá as 6 horas da menhan e 
se fechará as 10. e a tarde se abrirá as 3 horas e 
se fechará as 6. E nestas horas estará elle presente, 
ou algua pessoa em seu lugar pêra que os estu- 
dantes que neste tempo quiserem ir lá a estudar 
pellos ditos livros o possam fazer (em letra mais 
moderna — e serão somente os que ouvirem theo- 
logia, casos, e artes e rhetorica, e não os das de- 
mais classes de latim nem pessoas seculares). 

O dito guarda da livraria terá grande vigia so- 
bre os ditos livros, que senão furtem, nem se tra- 
tem mal, e serão sobre elle carregados em receita, 
e todas as cousas da livraria pello escrivão da uni- 
versidade em hum livro sobre si pêra que dê con- 
ta de tudo o que faltar, e por-se ha um edito a 



8 

porta da dila livraria, assinado pelo Reitor, em 
que mande a todos os estudantes, e mais pessoas 
da universidade, que entrarem na dila casa que 
não tirem doUa livro algum nem parte delle, nem 
ponhão cota nenhuma (á margem : nem signal al- 
gu sob pena de pagarem a valia delle em dobro) 
nos ditos livros, e quando sairem os serrem e fe- 
chem com todas as brochas que os ditos livros ti- 
verem, e que emquanto estiverem na dita casa 
procurem ter modéstia (i'iscado, emenda — não fa- 
lem e tenham modéstia — ) e quietação pêra se 
não estrovarem hus aos outros, e quem o contra- 
rio fizer será castigado, segundo que ao reitor pa- 
recer. 

Terá cuidado o dito guarda de alimpar os ditos 
livros, e sacudilos do pó huma vez na somana, e 
mandar varrer a casa duas vezes na somana pello 
menos, e quando achar menos algum livro o fará 
logo saber ao reitor pêra que mande fazer diligen- 
cia pêra se saber quem o levou, e pêra se cobrar, 
e castigar quem nisso tiver culpa, e tendo-a o 
guarda, e não se achando o livro, se comprará ou- 
tro semelhante as custas do seu salário do dito 
guarda. 

A dita livraria será cada anno visitada no prin- 
cipio das ferias pello reilor com ajuda dos lentes 
que lhe parecer o poderão mais pêra isso ajudar, 
e o dito reitor com os ditos lentes estando presen- 
te o escrivão da universidade, e o guarda da li- 
vraria, verá os livros de cada faculdade como es- 
tão tratados, e se achar que estão damniíicados 
por culpa dos que nelles estudarão, o reitor man- 
dará pello guarda amoestar que o não façam e 
mandará reprender disso aos estudantes nas li- 
çoens, e não bastando os mandará castigar confor- 
me a culpa que tiverem e achando o guarda cul- 
pado, o Reitor o reprenderá e multará como lhe 



parecer, comunicando com as pessoas com que fi- 
zer a dita visitação. 

17. Capit. 1 1. do guarda das escollas. 

18. Capit. 12. do Correitor. 

19. Capit. i3. do officio de Conservador secu- 
lar. 

Era o corregedor da cidade que servia de con- 
servador. 

26. Cap. 14. do meirinho da universidade. 

29. Cap. i5 do officio do escrivão dante o con- 
servador secular. 

30. Cap. 16. do escrivão dalmotaçaria. 

» Cap. 17. do officio do escrivão das armas. 

3i. Cap. 18. do escrivão das taixas. 

32. Cap. 19. do Almotacé da universidade. 

34. Cap. 20. do taxador das casas dos estudan- 
tes c aposentador. 

41. Cap. 21. do Enqueredor, contador e distri- 
buidor. 

41. Cap. 22. do officio do sindico da Univ.''". 

42. Cap. 23. dos recebedores das rendas do ' 
Collegio, e universidade. 

44. Cap. 24. dos sacadores das rendas. 

45. Cap. 25. do porteiro dante o conservador. 
» Cap. 26. do escrivão da fazenda. 

» Livro 2.° dos estatutos q. trata dos costumes 
dos estudantes. 

Cap. I." da matricula • 

48. Cap. 2.° do que toca aos bons costumes. 

5o. Cap. 3.° da honestidade e vestidos dos es- 
tudantes. 

Não era permittido aos estudantes terem cães 
ou aves de caça. 

Todos os estudantes andarão honestamente ves- 
tidos e calçados, e não trarão em nenhum vestido 
de roupeta, mantco, pelote, meias ou calças as co- 



IO 

res aqui declaradas, s. amarelo, laranjad.o, verme- 
lho, verde, encarnado, porem, debaixo das roupe- 
tas poderão trazer gibões, ou jaquetas de pano de 
cor para sua saúde, com tanto que os colares não 
sejão mais altos que os das roupetas, nem as man- 
gas- mais compridas, e poderão outrosim debaixo 
de botas ou borseguis trazer calças de cores escu- 
ras, e honestas, bem cubertas, e em casa, e pela 
rua* onde pousarem, poderão trazer roupões de 
cores, comtanto que não sejam amarelos, verme- 
lhos, laranjados, verdes e encarnados. 

Os manteos e roupetas compridos té o artelho. 

Não trarão capas de capello, somente lobas 
abertas ou cerradas. 

Não poderão trazer barretes doutra feição senão 
redondos, nem carapuças senão no tempo que an- 
.darem vestidos de dó. 

Nenhum estudante estará na lição ou em algum 
auto publico com chapéo, ou sombreiro na cabeça^ 
porem os estudantes pobres que pedem esmola e 
os criados que servirem, e mininos menores de 
doze annos (depois dei) ^^^'^ serão obrigados a tra- 
zer manteos, roupetas, nem barretes. 

Não trarão golpes, nem entretalhados en nhum 
vestido nem calcado. 

Nas camisas ou lenços não trarão lavores de 
cor algua, e porem poderão trazer lavores bran- 
cos (nota — chãos e de pouco custo) com tanto 
que não sejam desfiados, trancinhas, cadanetas lar- 
gas, ou outros lavores de muito custo. 

Não poderão trazer barras nem debruns de pa- 
no em vestido algum, nem luvas perfumadas. 

(Nota — Nenhum estudante trará botas, burse- 
guis, ou ça patos piquados, ou com golpes, botois 
ou fitas, ou de cor que não seja preta). 

O meirinho da Universidade com seu escrivão, 
duas vezes no anno, antes do Natal e passada a 



1 1 

Paschoa, visitavam, sem estrondo de justiça, as 
moradas dos estudantes para saberem se havia 
mulheres suspeitas, etc. 

53. Cap. 4° da defesa das armas, e jogos e mas- 
caras. 

Não podem usar jogos de dados ou de tavolei-, 
ros com tavolas. Mascaras só em tragedias e co- 
medias. 

56. Cap. 5.° da visitação. 

57. Livro 3." que trata do exercicio das letras, 
autos e gráos. 

Cap. I." das lições que ha de aver na universi- 
dade e que as não aja em outra parte. 

58. Cap. 2° dos exames dos que ouverem de 
ouvir latim. 

Cap. 3." do que se ade ler das artes e exame , 
em latim, dos que as ande ouvir. 

Cada curso de artes durará três annos e meio 
começando-se o primeiro dia do mez de Outubro 
que for de lição, e nos três annos primeiros se le- 
rá pela menhan e a tarde. Enos seis mezes do 4.'' 
anno se lerá somente de dialéctica, o 2." se acaba- 
rá a lógica, lendose nelle. . .phisicos e ethicas. no 
3.° se proseguirá a philosophia, trabalhando o mais 
que se puder ler de metaphisica, e do livro que se 
chama Parva naturalia. E nos seis mezes do quarto 
anno se acabará a philosophia. 

Os discipulos exercitavam-se na declaração dos 
textos da Aristóteles. 

59. Cap. 4.° Ordem das disputas das artes. 

62. Cap. 5.° do exame e examinadores dos ba- 
charéis em artes. 

65. Cap. 6° do modo em que se dará o gráo 
de bacharel em artes. 

67. Despezas dos bacharéis em artes. . 

Cap. 7.' das repostas que fazem os que ande 
receber o gráo de licenceados cm artes. 



12 



As férias eram em julho e agosto, mudaram pa- 
ra agosto e setembro. Provisão do cardeal infame" 
a pag. 68,: por termos por informações que he 
tempo em que ha mais doenças na dita cidade — . 

Neste códice estão registadas muitas provisões 
importantes e curiosas, relativas á Universidade. 

71. Cap. 8.° das repostas menores. 
» Cap. 9. exame dos licenciados em artes. 

75. Cap. 10 do gráo dos licenceados em artes. 

76. Cap. í I . do gráo de Mestre em artes. 
78. Cap. 12 dos ouvintes da theologia. 
■80. Cap. i3. da tentativa. 

82. Cap. 14. da ordem que se guardará nos au- 
tos da theologia. 

84. Cap. i5. do primeiro principio. 
» Cap. 16. do segundo principio. 

85. Cap. 17. do 3." principio e formaturas. 

86. Cap. 18. do principio da Biblia. 
» Cap. 19. da magna ordinária. 

87. Cap. 20. da Anriquiana. 

88. Cap. 21 dos quodlibetos. 
90. Cap. 22. do exame privado. 

97. Cap. 23. do gráo de licenceado em theolo- 
gia. 

98. Cap. 24. das vésperas 

100. Cap. 2 5. do doutoramento em theologia. 

io3. Livro 4.° dos estatutos. 
Cap. i.° da prova dos cursos. 
io5. Cap. 2.° da festa do Espirito Santo e fe- 
rias. 

O dia de assueto era a quarta feira. 

106. Cap. 3." dos assentos. 

107. Cap. 4.° dos estrangeiros doutras univer- 
sidades que vierem a esta, e se quiserem nella en- 
corporar. 

Os agraduados em qualquer gráo de artes fei- 



3 



tos nas universidades de Salamanca e Alcalá (mais 
tarde riscaram estes nomes, e escreveram — Coim- 
bra — ) se poderão encorporar nesta universidade 
no ultimo gráo que tiverem sem exame, tornan- 
do-o todavia a tomar nesta universidade, e pagan- 
do as propinas delle. E os agraduados em iheolo- 
gia, ou qual quer gráo que seja, feitos nas ditas 
duas universidades, e na universidade de Paris e 
Lovaina se incorporarão da mesma maneira nesta 
universidade. 

108. Çap. 5." das insignias dos doutores c mes- 
tres e propinas. A côr branca para as insignias -de 
theologia, e a azul para as artes. 

109 Cap. 6.° dos chamados ao claustro. 

110 Cap. 7." Como se curarão os estudantes 
pobres, e do enterramento dos estudantes. 

III. Cap. 8,° das liçoens e exercícios dos casos 
de consciência. 

1 13. Estatutos ordenados pelo mui alto e excel- 
lente príncipe e sereníssimo Snr. Dom Anrique por 
mercê de Dcos e da S.'''' Jgi^eja de Roma, Cardeal 
do tit.° dos Santos. quatro coroados, iíF.'^ de Portu- 
gal, legado, e arcebispo de Lx.^ pêra os capel- 
laens da capella da Vera Cruz da See desta cida- 
de de Euora, que ordenou com autoridade do San- 
to Padre. 

Para 28 capelães; depois para 26. 

Tinham preferencia, coeteris paribus, os natu- 
raes da cidade, depois os do arcebispado, em se- 
guida os do reino. 

Ouviam casos de consciência. 

1:21 Estatutos. . .pêra os capellaens da capella 
de S. Joam da Sé de Évora. 

Pêra 24 capellães, que ouviam artes c theolo- 
gia. 

i3o. Registo de algumas provisões especiaes,, 



para o caso de haver peste, etc. e da carta de con- 
firmação dos estatutos passada por D. Sebastião 
em Lisboa, em 28 de novembro de iSyy. 

i35. Provisão sobre a impressão das conclu- 
sões. 

CoHegio de N."* S."" da Purificação, e do hospi- 
tal para os collegiaes. Carta passada em Almeirim 
a 29 de Janeiro de i58o. Manda applicar ás obras 
2ví5oo cruzados por anno. 

Este códice esteve em uso muito tempo; tem 
cortes, emendas, etc. Referi-me sempre ao texto 
primitivo. 

Orações de sapiência 

{Bibliotheca Nacional de Lisboa. Mamiscriptos. 
Cod. P. 6. 26.) Volume in-fol. grande; Soo e tan- 
tas paginas. Excellentemente conservado. Na lom- 
bada; oActa publice in Ebor. oAcademia. Encader- 
nado em pergaminho branco. 

Hoc libro continentur ea qiiae acta sunt pu- 
blice in hac Eborensi academia ab anno 1620. 

As orações de sapiência na abertura dos traba- 
lhos escolares na Universidade eborense enchem 
principalmente este códice. 

Pag. 4. Oratio in laudem Scientiarum habita á 
pe Pj._cc. perreira Magistro Primário Anno 1620. 
Kal. Octob. 

Ha referencias neste discurso ao aqueducto e 
ás fontes eborenses, especialmente á fonte da pra- 
ça do Giraldo, monumento único no seu género 
no paiz. 

9. Sapientiae commendatio habita á fralre Bla- 
sio Dias kal. octobris 1621 anno. 

Estes discursos estão cuidadosamente copiados 
por differentes calligraphias neste códice. 

i3. Sapientiae commendatio habita á fratre 
Gregório Domingues magistro secundano kal. 
octob. 1622. 



ID 



26 V. — Certamcn poético em tempo do P.^ 
Francisco Costa. 

Seguem poesias latinas, epigrammas, carmens, 
paraphrases dos psalmos. hymnos. Quanto talen- 
to, quanto trabalho ! 

Muitas poesias alludem a episódios da vida de 
S. Luiz Gonzaga: a S. Francisco Xavier; aos 
martyres do Japão. 

57 V. Oratio pro sapiae laudibus habita a P. 
Balthasar Telles Magistro primano. Anno 1623. 

61 V. IVagicomaedia D. Ignatius nuncupata in, 
honorem ejusdem Sancti Patriarchae nostrae. Soe. 
Fundatoris acta. Auctore Patre António Parreira 
Rhctorices professore atque in Academiae átrio 
publicum data in theatrum die XV et XVI maii 
anni Dni. 1622. 

i." acto. Ignacio militar. 

2.^ » A conversão. 

3." » Os estudos. A confirmação da Socie- 
dade. 

4.° » Caminho de Xavier para a índia. 

5." )) A morte de Ignacio, 

Depois o coro triumphal. 

Nesta tragedia entram pagãos e christãos, orto- 
doxos e heréticos, virtudes e pecados, danças, 
quadros vivos, anjos, cortejos fúnebres, outros 
triumphaes etc. etc. 

119. Uma declaração de que falta a oração 
de sapiência recitada pelo mestre João da Rocha, 
em 1624. 

• 

120. Oratio pro sapientiae commendatione ha- 
bita á P.® Benedito do Valle rhctorices magistro 
primário cal. octobr. anjii 162 5. 

Referencias a D. José de Mello e á fundação 
do Collegio de S. Mançgs. 



i6 



126. Discurso do P. Balthazar Saraiva, em 
1626. 

i3o. Discurso de Diogo da Areda em 1627. 

O mesmo pronunciou o discurso em 1628. 

141 V. Discurso do P.*^ Francisco da Veiga. 

E um pequeno discurso (oraliuncula) do mes- 
mo padre, e no mesmo anuo em honra da Santa 
Cruz. 

146. Discurso do P.® André Fernandes em 
i633. 

i55. Discurso do P.*^ Jerónimo Nunes, 1634. 

166. Certamen poeticum.. . á memoria de Fer- 
nando e de Joanna, principes do reino da Lusitâ- 
nia 

São pequenas peças em verso. 

170. Discurso do P. António Pinheiro. 

1 79 Extemporânea pro Sapientia oratio intra 
septem confccta dies, et pro rostris habita a patre 
Andreas Frz. primário quondam Rhectorices ma- 
gistro. 

186. V. Panegyricus patri Gaspari Fernandez 
quando doctoratus gradum accepit, dictus ab eo- 
dem patre Andrea Fernandez primo Rhetorices 
o!im ín hac Academia professore. 

191. Congratulatio pro Magistrali iaurea phyloso- 
phica sapientissimis adolescentibus Emanueli 
Gomes Esíremotiensi et Emanueli Freyre Olysi- 
ponensi, habita ab eodem P. Andrea Fernandez. 

194. Pro celebritate conclusionum in solennibus 
feriis Spiritus Sancti. 

195. Praefatio ad académicos pro inauspicanda 
Phylosophia ab codcm P. Andrea Fernandez 2 
octobris 1640. 

199. Praefactio ad dialecticam ab eodem P. 
Andrea Fernandez. 



_}T_ 

■200 V. Oratio pro ingressu examinum phyloso- 
l^hici bacchalaureatus ab eodem Andrea Fernan- 
dez 4 fcbruarii 1641. 

Neste discurso breve e eloquente manifesta-se 
grande enthusiasmo pela restauração de Portugal: 
renascentis Liisitanici imperii \ com allusões mytho- 
logicas á guerreira altitude da Universidade. 

O padre André Fernandez recitou lambem os 
discursos ofíiciaes da Universidade nos annos se- 
guintes. 

211. Pro Sapientia oratio; pelo P.- Simão Tei- 
xeira : cm 1641 . 

216. Oratio de laudibus sapienliae habita á ir. 
F>ancisco Caldeira primário rhetorices professore, 
kalend. oclobris anno 1642. 

222. Oração do p. Jorge Rebello em outubro 
de 1643. 

Em quasi todos estes discursos ha elogios re- 
tumbantes, em altiva latinidade, da cidade de 
Évora, e da Universidade. 

229. Prologus et oratiunculae sequentes de 
principe Alfonso recensnato, compósita sunt a fr. 
Joanne Gomes, primário humaniarum litterarum 
in hac Academia professore: et ab ejus discipulis 
in aula publica habita sunt in junii médio anni 
1644. 

São discursos engenhosos e allisonantes. 

232 v. Palladis vaticinium oAlphonso Lusitaniae 
prmcipi. Poesia. 

237. Oratio pro colenda sapientia habita á fr. 
Nicolao de Sousa primário rhecloricae professore, 
Kalend. Oclobris anno 1644. ' ' 

249 v. Oratio de laudibus sapienliae habita á 
fratre Joanne Gomes. . . 2 oclobris 1645. 

256. Oratio pro auspicanda philosophia habita 
a P. Georgio á Costa 3 die oclobris 1645. 



i8 



Nesíes discursos ha idéas, arrojos de philoso- 
phia, de patriotismo, e formas lilterarias mui no- 
táveis. 

264. Oratio habita a P.® M.° Georgio á Costa 
pro bachelaureatu philosophiae anno 1 647. 4 fe- 
bruarii. 

271. Pro solemni Eborensis Academiae jura- 
mento Conceptionis intemeratae defensione présti- 
to, oratio habita á magistro Nicolao de Sousa iii 
templo 1 1 decembris anno dni 1646. 

275. Oratio panegyrica in doctorat. R. R. P. P. 
Benedicti Pereira et Emmanuelis Ludovici habita 
a P. M. Francisco Caldeira, in templo. 

283. Discurso do P. Manuel de Mattos, na inau- 
guração do retrato de D. João IV. 

291. Oração da sapiência recitada pelo P.® An- 
tónio Garcia em i65o. 

269. Oração do P.^ Bento de Lemos em i65i. 

3o3 V. Oração do P.® Nicoláo Coelho, em i653. 

320. Oração do P." Francisco Leitão, i658. 

Jaramentos e profissões de fé 

Livro dos juramentos e profissões de fee. 

(Bibl. d'Evora, coll. mss. cod. ^^^). Vol. in-fol. 
calligraphia diversa, encadernado em folha de 
pergaminho que parece fragmento de livro, tendo 
notação musical, talvez do sec. XIV. 

Fl. 3. O primeiro assento que transcrevo na 
integra. 

Aos nove dias do mez de setembro do anno de 
mil e quinhentos e sessenta e nove na igreja do 
spo. s.'" d'esta universidade de Évora sendo pre- 
sente ho reverendíssimo snor. Dom João de Mel- 
lo arcebispo d'este arcebispado de Évora, por elle 
foi dito que elle se avia por satisfeito das informa- 
ções de fide ac religione catholica conforme ao que 
manda o sancto pontífice Pio quarto em ha sua 
bulia, e de boa vida e costumes dos padres e ir- 



mãos da companhia de Jhus abaxo nomeados os 
quaes padres e irmãos fizerão ho juramento na 
forma que manda o sancto concilio tridentino. s. 
Ho padre doclor Jorge Serrão rector do dito co- 
légio e universidade, e o padre doclor Pêro Paulo 
Ferrer cancellario dela e o padre doctor Fernão 
Peres e o padre Luiz de iMolina lentes de theolo- 
gia e o padre doctor Diogo Sisneiros e o padre 
Francisco de Gouvêa lentes de casos de concien- 
lia, e mestre Francisco Cardoso, e mestre João 
Correia e mestre Fernão Rebello e mestre Pêro 
Simões lentes dos cursos das artes e Marcello da 
Rocha, António Pacheco, Jeronymo Luiz, Simão 
Martins, Frutuoso Gonçalves, Pêro d'Andrade, 
Jeronymo Rodrigues mestres da latinidade, e mes- 
tre Pêro Martins e António Carvalho, Estevão 
Dias, António da Costa, António Velles, Sebastião 
Barradas, Pêro Luiz, Mestre João Brandão, Se- 
bastião Al veres. Lazaro Lopes, António da Gama, 
ho padre João Árias, Manoel da Costa, João de 
Lucena, substitutos, e no mesmo dia fizerão ho ju- 
ramento da fee na forma que manda e ordena ho 
S.'° Pontifice na dita bulia hos abaxo nomeados, 
s. Jerónimo Luiz, Jerónimo Rodrigues, António 
da Costa, e o padre João Árias, mestre Pêro Si- 
mões, João de Lucena. E por quanto eu Diogo de 
Gollete escrivão d'esta dita Universidade estive 
presente ha dita approvação do dito snor arcebis- 
po e ao fazer dos ditos juramentos fis este auto 
aos oito dias de novembro do anno de mil qui- 
nhentos e setenta annos. 

Assign. de Hieronimo Roiz, D." Gollete, e P. 
Paulo Ferrer. 

Muitos d'estes assentos não estão assignados; 
só pelo escrivão. 

A fl. 8. assign. de Liiis de molina. 

Fl. 12. muitas assign. diversas. 



20 



Algumas listas de estudantes marcam as natu- 
ralidades; na maioria eram alemtejanos, alguns 
do Algarve e do arcebispado de Lisboa. 

21. Outra assignatura de Luiz de Molina. 

Aos da Companhia de Jesus não indicam naturali- 
dade. 

34. . . E aos vinte e dous dias de abril de mil 
quinhentos setenta e hum na dita igreja sendo 
presentes o padre Manoel Roiz vice rector da di- 
ta universidade e o padre doctor Pêro Paulo Fer- 
rer cancelario d'elia e o padre doctor Fernão Pe- 
res e o padre doctor Diogo Cisneiros e o padre 
Pêro Martins, fez o dito juramento da fee o pa- 
dre Luiz de xMolina depois de ser appróvado por 
bom e catholico christão. . . foi graduado doctor 
na sancta theoli)gia pêra o qual gráo era necessá- 
rio preceder o dito juramento. Este assento data- 
do de 1 1 de julho de 1572. A fl. 2170 ultimo as- 
sento n'este livro de i de outubro de 1609. 

Faltam as íi. de 217 a 235 arrancadas por al- 
gum boçal damninho. 

Invertendo o códice, mas conservando a mesma 
paginação, lançaram os termos das profissões de 
fé, isto é, o mesmo códice serviu para os dois mis- 
teres, começando dos extremos para o meio. 

== Das profissões da fé que se fazem ao tomar 
dos grãos em esta universidade de Évora de 8 de 
junho de 97 té hoje. 

O ultimo termo é de 26 de maio de 16 18. 

Ha n'este códice notas de formatura de grande 
numero de indivíduos, nos períodos indicados. 
Muitos nomes ahi apparecem conhecidos na his- 
toria da Companhia, na erudição, nas missões, 
etc. 

Em outro estudo descreverei a fundação da 
Universidade e a visita solemne de S. Francisco 
de Borja. 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS KBORKHSES 

Eslíio publicados : 
1° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana. O templo. As inscripções. — 3.° A Casa pia. — 4." Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliotheca Publica. Noticias das 
collecções. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8° e 9.° 
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.° O archi- 
vo municipal — 13." A restauração em Évora. — 14.", i5.° e iG." 
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7.° Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.", 19.", 20." e 21.° Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1 729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. — 
26.° Antiguidades romanas em Évora e seu'' arredores. — 27." 
Roteiro d'um eborense. — ^28." Universidade de Évora. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'Evora 

Estão publicados : 
i." PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
■ de D. João 1.". Etc. 
1 vol. de 202 pag. in-4.'' — i^tP^oo réis. 

2." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in-4.» — 22ÍI200 réis. 

Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J. 
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran- 
ches. 



GABRIEL PEREIRA 




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jFilSTOP^IA— y^P^TE— y\.Í^CHEOLOGIA 



MONTERIAS E AI.TANERIAS. A CAÇA ANTIGA. VEAÇÃO NO TERMO d'eVORA 

NA IDADE MEDIA. O LIVKO DE MONTERIA DE D. J0.\0 I. 

I.AI.AIN. a ESPINGARDA NO SÉCULO XVI. 

LUIZ DE CAMÕKS E A CAÇ.\. ALTANERIA E CITRARIA ALEMTEJANA. 

A DECADÊNCIA DAS CAÇADAS. DIOGO FEKNaNDES TERREIKA. 

AS CAÇAS REDONDAS DO INFANTE D. LUIZ, E DO PRIOR DO CR.\TO, D. ANTÓNIO 

EPISÓDIOS ALENTEJANOS 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOURARIA N." 3 



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GABRIEL PEREIRA 




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RENSES 



JilSTOP^IA— y^F^TE— ^I^CHEOLOGIA 



J^S aJ^QJLIDJ^^ 



i_» :E'.A-I^TE 



CONTERIAS E ALTANERIAS. A CAÇA ANTIGA. VEAÇAO NO TERMO D ÉVORA 

NA IDADE MEDIA. O LIVRO DE MONTERIA DE D. J0.\0 I. 

LALAIN. A ESPINGARDA NO SÉCULO XVL 

LUIZ DE CAMÕES E A CAÇA. ALTANERIA E CITRARIA ALENTEJANA. 

A DECADÊNCIA DAS CAÇ.\DAS. DIOGO FERNANDES FERREIRA. 

AS CAÇAS REDONDAS DO INFANTE D. LUIZ, E DO PRIOR DO CRATO, D. ANTÓNIO 

EPISÓDIOS ALEMTEJANOS 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOURARIA N." 3 



1892 



ESTUDOS EBORENSES 



As caçadas 



à caça antiga 

Ha tempos vi uma enorme ardósia, de quatro 
metros de comprido por três de largo, lavrada to- 
da em fino relevo, e representando uma caçada 
real. Um rei assyrio com a sua corte, o seu exerci- 
to, e a multidão dos seus vassallos, correndo por val- 
les e montanhas os javardos, os veados, as girafas 
e os leões. 

iMilhares e milhares de figurinhas em relevo, 
formadas ingenuamente, muitas todavia tradu- 
zindo grande observação do natural, enchem a 
ardósia lavrada ha três mil annos para ornar uma 
parede do palácio régio de Khorsabad. Vê-se per- 
feitamente que n'aquelles tempos uma caçada era 
feito importante ; era muito mais que um exercito, 
n*um esforço maior que uma evolução militar. 

E quando estava no Museu britannico em admi- 
ração perante o estranho relevo venatorio lembrei - 
me do Iwro de monteria delrei D. João i que tan- 



to amava o montear pelas charnecas e cerros de 
Portugal. 

A historia da caça é a da civilisação. Diminue 
a caça porque raream os animaes bravos, e estes 
raream porque diminuem as selvas, porque aug- 
menta a cultura, porque sobem as necessidades 
dos povos. 

Mas ha outro factor; é o progresso da arma ve- 
natoria; da funda e da frecha á caçadeira mo- 
derna. 

• Como era que nos velhos tempos pre-historicos, 
o homem, eterno caçador, aptfnhava o animal bra- 
vo? Tinha a seta armada com a ponta de silex ou 
de osso, ou a funda que jogava a distancia o ca- 
Iháo lascado. 

Os homens que habitavam as grutas de Cesa- 
reda prostravam com tão rudes armas os grandes 
felinos do paiz. Pelos restos encontrados se vê que 
habitavam aqui n'essa época mui remota grandes 
gatos, parentes dos tigres e leões modernos, e tam- 
bém o corpulento urso. 

Esses animaes desappareceram de ha muito, em 
longiquos tempos pre-historicos. O urso vulgar vae 
rareando nos desvios dos Pyreneus, os felinos ac- 
tuaes na peninsula são pequenos; apparece toda- 
via ainda o gato cravo, alto, elegantíssimo, a que 
alguns chamam lynce pelo pincel de sedas nas pon- 
tas das orelhas. 

O homem pre- histórico do cabeço da Arruda 
(valle do Tejo) talvez não conhecesse já as gran- 
des feras; não ha vestígios d'ellas alli. Mas era ca- 
çador também, apanhava o veado, o javali, o coe- 
lho, etc. 

Tanto o caçador de Cesareda como o de Arru- 
da, possuia armas de silex ou pederneira admira- 
velmente talhadas. 

Quinto Sertório era grande amigo da caça : n'el- 



5 



la empregava os s-jus feriados. Recebia com agra- 
do todos os presentes de caça e uma vez, conta 
Plutarcho, trouxeram-lhe um corça branca. E elle 
conservou e amansou o animal, que lhe serviu de- 
pois para explorar a ingenuidade dos povos. A 
menção' tão especial da corça branca parece indi- 
car que o veado branco era já então raro. 

Estrabão falia da prodigiosa fartura de caça na 
Turdetania. 

Não se refere a grandes feras o que indica se- 
guramente considerável civilisação. Na idade m^- 
dia porém o urso tornou- se vulgar; pelo menos ha 
episódios de caçadas de ursos, e em muitos docu- 
mentos se falia de pelle de urso como de uso tri- 
vial. 

Falia também Estrabão de muitas abetardas, 
hoje pouco vulgares, e de cabritos bravos. Chegou 
a nossos dias a cabra do Gerez, raríssima hoje se- 
gundo creio. 

O desapparecimento das feras perante a civili- 
sação explica-se bem porque os mattos ibéricos 
são facilmente penetráveis; não ha juncaes como 
na índia, nem fortes plantas espinhosas como na 
Africa, onde os grandes animaes bravios possam 
defender as creações. 

Caça no termo de Évora na idade media 

No foral de Évora (?.eculo xii) mencionam-se 
coelhos e furões, cervos, gamos e zevras; nos cos- 
tumes de Terena (século xiii) o z/550 (urso) também. 
Um século mais tarde apparecem bastantes dispo- 
sições relativas a caça, e sua venda. 

Ha uma postura municipal muito interessante 
(século xiv) prohibindo caçar com cordas e redes, 
até três léguas da cidade, porque os caçadores que 
usavam de aves e galgos não achavam nos coutos 



da cidade nem lebres nem perdizes (Doe. hist.d'E- 
vora, p. I.* pag. i35). 

Outra postura prohibe matar a pomba mansa 
com besta ou armadilha. 

Outra (Doe. hist. pag. 146) menciona como cou- 
sa bem corrente a calçadura de pelle de cervo ou 
gamo. 

De modo que em tempo de D. João i a quali- 
dade e provavelmente a quantidade da caça no 
Alemtejo seria como ha cincoenta annos. Em uma 
tponteria que se fez, ha meio século apenas I na 
serra da Alpedreira, morreram 42 lobos, 5 javalis, 
6 corsos e 10 gatos cravos! 

Os corsos acabaram, javalis e gatos bravos são 
raros. 

Tem sido principalmente a limpeza das herda- 
des, o augmento da cultura, que tem acabado com 
a caça maior. 

Vão rareando felizmente as manchas de matto 
alto. E as novas armas são muito superiores ás 
antigas. Resistem os lobos e as rapozas! Na ver- 
dade custa a perceber como em certas regiões vi- 
vem e defendem a creação as perdizes e outros ani- 
maes! Teem muita vida. 

Viemos no tempo das mudanças. Assistimos ao 
final da cabra montez, do veado bravio, e do ja- 
vardo. Os naturalistas do século xx hão de fazer 
dissertações sobre esses animaes extinctos, e os ca- 
çadores do futuro ficarão satisfeitos atirando ás 
cotovias. Ah ! mas como eram gentis, fortes e agi- 
tadas as caçadas antigas! 

O «Libro de monterla de D. João I>> 

Aqui temos um dos preciosíssimos códices ma- 
nuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa (Cod. 

P-3-4). 



Na relação da livraria de D. Duarte (v. Docu- 
mentos históricos da cidade de Évora, fase. 23 
(2.° da 3.* parte), pag. 37), se diz eífectivamente 
do — Livro de monteria que copiou o victorioso rey 
D. João ao qual Deus dê eternal floria. 

A frase que copiou é bem provável que seja erro 
de copista; é possível que no original estivesse 
que compo{. Porque do texto do manuscripto exis- 
tente se vê bem claramente que o livro foi com- 
posto por el-rei D. João i. 

E' obra notabilissima, de alto valor litterario e 
especial ; se n'este paiz houvesse gente de gosto, 
homens de sport a valer, o velho manuscripto de 
ha muito estaria reproduzido em edição de luxo. 

Na livraria d'el-rei D. Duarte havia mais livros 
de caça : o liuro de cetraria, dois livros de monteria, 
um em castellão, e outro livro de cetraria que foi 
d'el-rei D. João. Havia grande enthusiasmo pela 
caça, e, note-se, havia caça, muita caça. 

Vamos a descrever o manuscripto de D. João i. 
E' um in-4.° de 267 pag. a 24 linhas de letra miú- 
da, em texto seguido. 

E' trabalho extenso como se vê. 

Diz logo na primeira pagina: — n Libro de mon- 
teria composto polo senor Rey Don Joam de Por- 
tugal e dos Algarves e senor de Ceuta, trasladado 
de un original de maom escrito en pergaminho que 
se achou na libreria do GoUegio da Comp.* de 
Jhs. de Monforte de Lemos, polo bacharel Manoel 
Serrão de Paz, este anno de mil e seyscentos e 
vinte e seys». 

Que seria feito do original? Muita cousa se tem 
perdido n'este paiz! 

E diz o impagável bacharel que nos salvou a 
singular jóia: Começa assi o libro d'esta maneira : 
oAqui se começa o libro de oMontaria, o qual é to- 
mado e ajuntado con acordo de muitos bons montey- 
ros. 



8 

— E porque en todas as obras que os homens 
fazem em o screver aquclles que as lêem filham 
as entenções de muytas guisas, ca segundo os en- 
tenderes de cada um assi filham as entenções, e 
porque os que este libro leerem saibam a ordem 
que nós tivemos em o fazer rogamos-lhe que quan- 
do o quiserem leer a primeira vez que leam pri- 
meiramente este prologo, e dês hi os capitulosque 
se seguem na taboa d'elle, e per alli saberam a en- 
tençon que tivemos en o escrever. — 

Neste prologo vem a declaração do real au- 
tor : que os homens por serem sabedores fi- 
zeram libros de gramática e de rhetorica. . e ou- 
trosi libros de phisica, e de celorgia, e de alvey- 
taria, e de falcoaria, e de outras muitas artes que 
seriam longas de contar. Por ende nós Don Joham 
por graça de Deus rey de Portugal e do Algarve, 
senor de Cepta . . . vendo en como o joguo de an- 
dar ao monte eva tam boom e tão proveitoso que 
en sua bondade passa todolos joguos a que hora 
dizem manhas, e em seu ser, para se os homens por 
elle poderem aproveitar mais que de nenhum dos 
outros de que os homens agora usam e assi mes- 
mo en como elle era en si mais alta cousa, e mais 
proveitosa que algumas outras, de que se alguns 
trabalharam de fazer libros assi como de falcoa- 
ria e de cantigas e de outras cousas e artes que 
muito menos que esta aproveitam nos tra- 
balhamos com a ajuda de Deus de fazer este li- 
bro de Monteria en o qual ha lxx capítulos divi- 
didos en três libros ou partes. — 

E' terminante e claríssima a aííirmativa; o li- 
vro é feito por el-rei. 

E' um trabalho extenso, por vezes minucioso, 
revelando perfeito conhecimento e larga pratica do 
objecto, ornamentado com citações eruditas, por 
vezes elegante. 



Tem referencias alemtejanas; é escusado lem- 
brar que D. João i.° foi mestre de Aviz, e natu- 
ralmente entre os seus freires havia bons montei- 
ros. 

Começa pelo — Louvor dos jogos ou manhas. — 
O jogo de andar ao monte é o melhor para re- 
crear e entender e correger o feito de armas, e 
não é peccado. 

Considerações sobre o peccado na venatoria são 
frequentes nos tratados antigos; havia mortes 
n'aquellas caçadas; ás vezes os cercos eram ba- 
talhas; havia javalis velhos de muita força e cor- 
pulência. Lembre-se o caso de D. Fernando San- 
ches cujo tumulo está no museu do Carmo; a es- 
tatua deitada sobre o lado direito, caso raro, e na 
trente do sarcophago a scena com o javali que ter- 
minou em desastre. 

Pois D. João I .° socega os espíritos afíirmando 
(cap. 6.") que posto que algum fosse ferido de por- 
co, ainda que morresse, que sua alma non seria 
por elle perdida. 

Tem uns artigos interessantíssimos sobre os 
cães. 

Cap. 9 en como os monteiros ham de fazer por 
averem os cãaes que sejam formosos e bons. Cap. 
10 da guarda dos cadelinos. Cap. 1 1 do escolher 
os cãaes cachorrinhos na cama , allâos e sabujos. 

Cap. i3 do ensino dos alãos. 

Cap. 14 dos sabujos, tanto os de correr como 
de trela, como de achar. 

Cap. 1 6 do conhecer os rastros huns dos outros 
e departilos de que animalias son. 

Cap. 17 das horas dos rastros pelas fresquidóes 
das terras e das hervas. 

Cap. 21-22. Logares azados para aprazar e do 
assentar. 
. Tem muitas observações originaes em todos 



IO 

estes pontos, e dá seu relevo ao esiylo com cha- 
ções da mythologia, e da Bíblia, da estoria geral 
de Lucas de Tuy, da astrologia, de Joam Gil e Al- 
bamazar, e do Tolomeu. 

Faz mesmo suas observações sobre as plantas 
dos mattos da Beira e Alemtejo. 

No cap. 26 entra-se na monteria; como os mon- 
teiros devem cercar o porco, e segue;n os cap. so- 
bre os incidentes da caça; do alevantar do porco, 
do melhor logar para poer as bozerias (as voze- 
rias dos cães) e armadas para filhar o porco. 

Chega-se ao javardo^ ao giande drama, , os cães 
ante o fortissimo bicho que estripa Je uma foci- 
nhada e atira ao ar o cão mais corpulento. 

São os cap. da part. 2.'' que tratam dos cães e 
mocos : de levar os cães e telos em trella : de cor- 
rer ao porco: de quando apparecerem dois e três 
porcos; de tornar o porco; da morte de través. 
Cita Job, S. João etc. e Ayres Gonçalves de Fi- 
gueiredo que foi bom monteiro. 

Cap. 14. Matar o porco de justa en mouta es- 
pesa que non possam entrar senon de giolhos. 

E' um livro methodico, um grande tratado bem 
feito. O livro 3.° trata dos bons monteiros, do ves- 
tido e trajo. 

Cap. 3.° Quejandos an de ser os cavalos con 
que an de andar ao monte os monteiros. 

Cap. 4.° Quejandas an de ser a áscuma e a 
trélla. 

E depois sobre as armadas; quejandas son as 
armadas chan, larga, bem vistosa, enfestosas, pon- 
tas das bozarias, herectas, en arboredos cerrados, 
en saltos de ribeiros ou cheeiras, em pontas de 
monte, em valles, e em charnecas de matto alto. 

E' um livro interessantíssimo, mesmo nos pon- 
tos de vista litterario e philologico, que de ha mui- 
to deviam ter feito imprimir. 



1 1 

Caçadas reaes em tempo de Affonso Y. em Évora. 

Em tempo de Affonso V havia luzidas partidas 
de caça de citraria e montaria pelos campos de 
Évora. 

O rei, a rainha, a corte, sahiam pela manhan, 
f m graspécies: girifaltes, 
nebris, bafaris, e sacres. Vinham da Noruega e 
Suécia. Matavam cotovias, perdizes e perdigões. 

Havia esmerilhões muito finos, ágeis e ardilo- 
sos. Até as princezas nas suas galerias se diver- 
tiam vendo as fiadas e os assaltos das pequenas 
águias. 

D. António era louco pelas aves; tinha açores e 
falcões vindos de Allemanha, com enorme despe- 
za. 

De Irlanda e da Noruega vinham também aço- 
res bons perdigueiros. 

Os falcões chamados tagarotes, para perdizes, 
vinham das ilhas de Cabo Verde. 

O Affonso Borges tinha geito especial para edu- 
car estas aves. 

O infante D. Luiz teve um açor norueguez que 



22 



matava corvos e garças. Pairava, dava a fiada, 
presava, logo vinham ao chão, em queda, e estava 
morto o corvo. 

Os caçadores tinham seus adágios : Sacre com 
chuva, giri falte com vento, nebri com bom tempo. 

As' aves de caça davam suas alimentações es- 
peciaes. 

Estando no Crato no inverno morreram dois 
açores a Simão Mascarenhas, deão de Évora, e 
outro açor meu (do bom Ferreira), e fizeram a 
anatomia, achando-lhes os buchos franzidos de 
frio. 

E' perfeitamente possível, a congestão súbita, 
nas alturas, pelos estoques de ar. 

Agora conta o Ferreira um episodio interessan- 
te. 

Dom Luiz de Moura, Dom Rolim e outros fo- 
ram á caça dos coelhos n'uma queimada no Ri- 
batejo, 

Levavam furões. Fugiu um furão que foi l')go 
visto por uma águia. 

Os caçad(nes viram a águia erguer-se veloz- 
mente levando o furão nas garras. Era uma águia 
enorme. Mas como as garras eram grandes, e o 
furão muito delgado, abarcaram e não cravaram : 
o furão ficou vivo. E quando já em grande altura 
a águia se quiz cevar, o furão abocou-lhe as guel- 
las; houve no espaço um rodopio enorme ; vie- 
ram ao chão a águia morta, e o furão vivo. 

O Ferreira conta uma infinidade de historias de 
falcões, nebris, bafaris, e tagarotes; grifaltes, sa- 
cres e bornis. E dos tamanhos, talhos e pluma- 
gens dos alfaneques e aletos. 

E dos ataques aos grous e garças, ás cegonhas, 
abetardas e patos bravos. 

E das brigas pittorescas dos açores e gaviães 
com as garçotas, sizões, zambralhos, pombos bra- ' 



23 



vos, e com os admiráveis banJos dos zurzaes, ás 
dezenas de milhares, em rapidissimas evoluções. 

O infante Dom Luiz tinha um girifalte tão alvo 
como uma pomba : fora tomado a borJo de uma 
náo na altura do Brazil. 

O inffante tinha a seu serviço oitenta caçado- 
res! entre elles havia um afamado, Pedro de \'e- 
zilha. 

O marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello 
era grande auctoridade em venatoria. 

Os aletos vinham da America do Sul. O licen- 
ceado Felippe Butaca Fienriques. natural de Évo- 
ra, viu aletos no rio das Pedras, capitania de Per- 
nambuco, muito voadores, e caçando com extraor- 
dinária porfia. 

Havia seus perigos na alienaria. 

A's vezes a águia queria cevar-se logo e se lhe 
tiravam a presa feria com força. Outras vezes en- 
tre águia e caça havia lucta, e voltava, ás vezes 
uma ave de preço, gravemente ferida. Por isto um 
servidor era encarregado de levar estojos, thesou- 
ras, furadores para piozes e avessadas, tenazes, 
canivete, lima, pinças, canudo para agulha de en- 
xerir, botão de fogo para apostemas, palmeta e 
unguentos, etc, etc. 

Os campos mais abundantes em caça eram os 
de Coimbra, Santarém, Évora e Beja. I\las já no 
sec. XVI se notavam as rocianas de Sevilha. 

Ainda hoje a bacia do Guadalquivir, na metade 
inferior, é excepcional em caça de arribação. 

Alem do Vesilha era considerado como de pri- 
meira ordem, em altenaria, o hespanhol Pêro 
Lopes de Ayala. 

D. Henrique, senhor das Alcáçovas, criou um 
francelho de rama em casa, que viveu 28 annos; 
no tempo da criação desapparecia de casa, ia pa- 
ra os bravos ; se alguma vez lhe faltava o comer 



H 

voltava á falcoaria, abijava a comida que levava 
para os filhos; terminada a creação permanecia 
sem esforço em casa dos amos. 

D. João 3." conversando uma vez com D. Hen- 
rique da Cunha, o dono do francelho, contou que 
mandara ao imperador Carlos 5.° um papagaio 
que fallava e respondia a propósito, mas o pássa- 
ro vcndo-se entre gente que não conhecia por 
mais que o imperador perguntasse, não abria o 
bico. 

O imperador mandou chamar o homem que 
lh'o levara. 

— Elrei me escreveu maravilhas do papagaio, 
vê lá porque elle não falia. 

João Fernandes perguntou logo ! 

— Papagaio qual é a causa porque não falia 
diante de S. iMagestade? 

— Oh! João Fernandes, não me entendo com 
esta gente. 

A historias de caçadores e veteranos faz-se sem- 
pre algum desconto. 

O infante D. Luiz foi grande caçador de falcão; 
chegou a ter oitenta caçadores a salário, entre el- 
les muitos estrangeiros. Cada caçador tinha a seu 
cargo dois ou três falcões. 

D. António, o prior do Crato, seguindo as pi- 
sadas e pensamentos do pae, teve «mui redonda 
caça de falcões, garceiros e milhaneiros e altanei- 
ros, gaviões e açores, é foi homem de altos pen- 
samentos, que assaz custaram á nação portugue- 
za.» 

O Ferreira fora pagem de D. António. 

Note-se que elle escrevia em plena dominação 
estrangeira, tinha de ter cautella com opiniões, 
mas em todo o livro ha intenção patriótica ; não 
pretende só lembrar as antigas modas da altena- 
ria, procura levantar os espíritos. 



25 



Conta um episodio de caça interessante: 
Saindo meu amo á caca da villa de Montouto 

> 

annexa ao seu priorado, a qual elle foi visitar, 
acompanhado somente dos caçadores, fez voar 
primeiramente o milhano, depois com os falcões 
altaneiros matou quatro adens ; e os gaviães agar- 
raram algumas pegas e perdizêlos. Quasi sol pos- 
to apparece uma garça. O caçador mór poz um 
sacre na mão de D. António. 

— Mate vossa excellencia esta garça. 

O prior que era bem engenhoso, aproveitou a 
occasião e largou o sacre, o qual rendeu a fina 
garça no mesmo pego donde se levantou, mas a 
garça estava somente atordoada e o sacre não po- 
dia continuar a lucta na agua; alguns caçadores 
entraram no pego, ella então saiu da agoa por 
aquella parte donde o sr. D. António estava, e por 
falta de vento e não tomar terra com os pés não 
se poude levantar, e foi voando muito baixa. D. 
António que estava a cavallo correu sobre ella e 
deitou-lhe a mão. Não quiz que a pobre garça 
morresse, e por não enraivecer o falcão mandou 
que lhe fizessem o papo com uma gallinha. 

Ferreira falia com elogio das proezas e habili- 
dades de caça dos cavalheiros mouriscos. Cide- 
muça e Cide Albequerim. Os mouros usavam tra- 
zer o falcão no hombro. 

Muito variadas estas caçadas antigas ! 

Em outro estudo veremos o que succedia ha 
meio século apenas no Alemtejo. Contarei das 
grandes monterias officiaes, e das animadas caça- 
das de javalis e pombos. 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS EBOHKNSKS 



Esiao publicados : 
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora- ro- 
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4." Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliotheca Publica. Noticias das 
collecçôes. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 
— 7." Bellas artes-. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e q." 
Vésperas da restauração. — • 10." Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.'' O archi- 
vo municipal — 1 3." A restauração em Évora. — 14.", li." e 16." 
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7." Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.", 19.°, 20.0 6 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1 729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24." Pro- 
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. — 
26." Antiguidades romanas em Lvora '=' seus arredores. — 27.° 
Roteiro d'um eborense. — 28.0 Uni\ersidade de Évora. — 20." 
As caçadas, i." parte. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'EYora' 

Estão publicados : 
i.^ PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João i.°. Etc. 
I vol. de 202 pag. in-4.'' — 1 5^800 réis. 

1." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.", de Garcia de Rezen- 
de. Al/arrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
' cortes no sec. XV. Etc. l^íí^ o^^ vcjj-l .; 

1 vol. de 282 pag. in-4.'* — 25^200 réis. 

Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J. 
F. Peren-a Abranches, praça do Geraldo, Evora.| 



MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran- 
ches. 






GABRIEL PEREIRA 



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DOS EBORENS 



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JFÍISTOP^IA— yVp^TE— ytPyCHEOLOGIA 



ÉVORA E O ULTRAMAR 



2-= zPjãjtitíe: 



moco DF AZAMBUJA E OIOOO I1K AZAMBUJA DK MEU.O- 

nOCUMENTOS DO ARCHIVO DA SANTA CASA. A HAGAGEM DE UM CAPITÃO 

PORTUGUÊS NO SECUI.O XVI 



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ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQUÍM JOSt BAPTISTA, RUA ANCHA, N.°' 62 C 64 

1802 



GABRIEL PEREIRA 



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j4lSTOPJA— yk-P^TE— y^P^CHEOLOGIA 



ÉVORA E O ULTRAMAR 

DIOGO DE AZAMBUJA E DIOGO DE AZAMBUJA DE MELLO. 

DOCUMENTOS DO ARCHIVO DA SANTA CASA. A BAGAGEM DE UM CAPITÃO 

PORTUGUEZ NO SÉCULO XVI 



ÉVORA 

MINERVA EBORENSE 

DE JOAQ.flM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOUUARIA N." 3 

1 8C)2 



ESTUDOS EBORENSES 



Évora e o liltramar 



Diogo de Azambuja e Diogo de Azaml)ijja de Mello 

No arLliivo da Santa Casa da Misericórdia de 
Évora existem alguns documentos relativos a ca- 
pellas instituídas por Diogo de Azambuja fidalgo 
mui estimado nas cortes de D. João 2." e D. Ma- 
nuel, e por Diogo de Azambuja de Mello, vulto 
histórico assaz conhecido, que eu julgo neto do pri- 
meiro. 

Com os instrumentos das instituições entra- 
ram porém para o archivo outros documentos 
particulares, e são estes que nos fornecem al- 
guns dados interessantes, que singelamente va- 
mos apresentar. Diogo de Azambuja, conta Gar- 
cia de Rezende na — Vida e feytos dei Rey 
Dom Joarii 2.° (cap. 87) — : Diogo de Azambuja 
era homem que elrey tinha em muita boa conta, 
e estima, e a que tinha muito boa vontade e fazia 
muita honra e mercê; e quando casou sua filha 
Dona Cecilia com Francisco de xMiranda, foram 
recebidos com muita honra perante elrey e a rai- 



4 



nha em uma sala com muita gente, e grande se- 
ram de danças e muitos galantes; e em nos rece- 
bendo no estrado, Diogo de Azambuja era muito 
manco de huma perna, que quasi lhe fora cortada 
nas guerras, e estava junto com os degráos, e com 
a muita gente que chegou era muito maltratado, e 
tanto quj se náo iM)d;a ter; e elrey o vio, e veyo 
á borda do estrado, e tomou -o pela mão e subio-o 
encima e disse-lhe alto que o ouviram muitos: 
Salvayvos cá e chamem-vos como quizerem; e 
assi esteve com muita honra perante todos enci- 
ma no estrado, que he lugar de Reys e Prínci- 
pes.» 

Diogo de Azambuja serviu largos annos, pres- 
tou muitos serviços nas guerras, nas navegações, 
chegando a occupar posições eminentes. 

Em 19 de janeiro de 1482 sahia elle de Lisboa 
capitaneando dez caravellas e duas urcas; e ain- 
da nos primeiros annos do século XVI servia nas 
praças de Africa, embora já então tivesse idade mui- 
to avançada ; no conlinenle, em tempo de D. 
Manuel, foi veador mor de artilheria. 

No archivo municipal eborense conserva-se uma 
carta de D. Manuel a Diogo de Azambuja, data- 
da de i5 de março de 1499. respectiva ás mura- 
lhas de Évora ; e outra delle á vereação, escrita 
de Monsaraz, relativa ás cavas e fossos de Oli- 
vença. 

O sr. Augusto Mendes Simões de Castro, no 
«Guia do viajante em Coimbra», na parte relati- 
va a Montemór-o-velho, descreve-nos o sumptuo- 
so tumulo de Azambuja na egreja dos 'Anjos; o 
tumulo tem uma longa inscripção que nos diz en- 
tre outras cousas que o fidalgo quebrou a perna 
na tomada da villa de Alegrete aos castelhanos, 
que fundou o mosteiro dos Anjos, e falleceu em 
i5 de agosto de i5i8 com 86 annos de idade. 



5 

E' um typo completo da epocha : vida de guer- 
ras, de trabalhos de terra e mar, alguns dias bri- 
lhantes na áspera carreira, um dito del-rcy que fi- 
cou celebre, depois na velhice a fundação do mos- 
teiro, a instituição de capellas, e o repouso no tu- 
mulo monumental. 

Os documentos do archivo da Misericórdia de 
Évora vem dar-nos algumas noticias dos primei- 
ros tempos do conhecido navegador. 

Diogo de Azambuja acompanhou na Catalunha 
o infante D. Pedro, condestavel de Portugal, a 
quem em 1463, estando em Tanger, foram os ca- 
talães oíTerecer o throno. Este infante D. Pedro 
era filho do outro infante I). Pedro, o que morreu 
na Alfarrobeira, e de D. Izabel, filha do conde de 
Urgel, D. Jayme el dcsdichado. Nasceu em 1429 e 
falleceu em 1466. Chegou a Barcellona em 21 de 
janeiro de 1464. Era homem de bellissima figura, 
muito sympathico e intelligente — rey bondadosis- 
simo, caballero sin tacha, politico, latinista y ar- 
queólogo consumado. 

Em 1878, na «Revista de Gerona», publicou o 
sr. D. José Coroleu é Inglada, escriptor catalão, 
um estudo intitulado "El condestable de Portugal, 
rey intruso de Cataluna». E em 1881 appareceu á 
luz um folheto extremamente interessante «D. Pe- 
dro el condestable de Portugal considerado como 
escriptor, erudito y anticuario; estúdio histórico bi- 
bliographico por D. Andrés Balaguer y Merino». 
N'este folheto publicou o sr. Balaguer o inventa- 
rio da bibliotheca, e o testamento do infante D. 
Pedro. 

Paine pouv joie ou Payne poiír joye , era a divisa 
do formoso sábio e infeliz condestavel ; esta divi- 
sa ainda hoje se lê em alguns sitios do castello de 
Aviz. 

Ora Diogo de Azambuja foi guarda-roupa e 



guarda -mór do rei de Catalunha, amigo seu inse- 
parável, e seu testamenteiro. N'esse curiosíssimo 
testamento appparece mencionado pela forma se- 
guinte «DiJacum Dazambuia custodem preciose 
supellectilis domus nostrae». 

A elle se refere a verba 9/ — Elrey deixa-ihe o 
castello de Montsori e cem pacíficos de ouro, e ac- 
crescenta: «tametsi maiori quidem munere dignus 
est». 

Passemos aos documentos do archivo da Mise- 
ricórdia ; são pergaminhos que estão agora n'uma 
das collecções especiaes do archivo — pergami- 
nhos vários da iMisericordia de Évora — ; numa 
grande pasta, desdobrados, cosidos só por um la- 
do a fortes escarcellas de linho, de modo que se 
podem manusear como um livro ou um albiim\ é 
disposição que tenho adoptado e recommendo aos 
amadores de veneráveis pergaminhos. 

Pergaminho n.° 2. — 1460 — . Doação a fr. 
Diogo de Azambuja, cavalleiro freire conventual 
da ordem de Aviz e guarda-roupa do infante D. 
Pedro: por serviços feitos ao infante e á ordem; 
constitue uma commenda, de 1460 em diante, nas 
rendas das coutadas da Ghancellaria e Cova do 
Piam, coimas da coutada de S. Gens e Montinho 
em termo de Alter Pedroso e as deste lugar e o 
foro de uma horta. Ruy Vaz a fez, na villa de 
Aviz, em i de outubro de 1460. Assignado — I. 
P.° — (infante Pedro) Original bem conservado. 

Perg. n.* 3. — 1464. — Traslado de procuração. 
Em 22 de junho de 1464, em Coimbra na rua 
da Calçada, ante as portas das casas de morada 
de João de Freites. . ., estando presente Luiz Af- 
fonso bacharel em degredos e vigário geral de D. 
João Galvão, bispo de Coimbra. Apresenta-se uma 
procuração feita em Barcellona em 8 de maio do 
referido anno. 



— Diogo de Azambuja, cavalleiro de Aviz, com- 
mendador de Alter Pedroso e de Seda, guarda- 
roupa e guarda-mór do muito nobre e excellente 
D. Pedro, rei de Aragom, de Cezilia, de Valença, 
das jMaiorcas, de Sardenha e de Corsia, e conde 
de Barcellona, nomeia procurador seu pae, Pêro 
de Azambuja, escudeiro, morador em Monte-mór- 
o-velho. Feita em Barcellona, no paço do reveren- 
do bispo de Barcellona no qual o dito sereníssimo 
sr. rei sua morada continua faz. Testemunhas : 
D. João de Castro copeiro-mór, Pêro de Souza 
Cavalleiro, mordomo da casa do dito rei. António 
França notário del-rei. 

Como se vê o infante D. Pedro tinha na sua 
corte alguns portuguezes; direi ainda que n'um 
dos documentos transcriptos pelo sr. Balaguer, ap- 
parecem dois — Cabots — , talvez relacionados 
com os conhecidos navegadores. 

Perg. n.° 5, — 1485. — Carta de D.João 2." 
dando licença a Diogo de Azambuja para pôr no 
escudo um castello. Pelos grandes serviços de Dio- 
go de Azambuja, cavalleiro da ordem de Aviz, do 
nosso conselho, commendador de Cabeço de Vi- 
de, Rio Maior, montados de Pedroso, alcaide-mór 
de Monsaraz... assi nas guerras como no fazi- 
mento do castello de S. Jorge, que é nas partes de 
Guiné. . . que no escudo das armas metta um cas- 
tello além das outras armas. Dada em Beja, em 
17 de março de 1485. 

Pergaminhos n.° 7 (1494) e n.° 8 (1495); refe- 
rem-se a propriedades compradas por Diogo de 
Azambuja no termo de Monsaraz. 

Perg. n.° i3 — i5o9. — Traslado de carta del- 
rei D. Manuel, dada em Abrantes, a 27 de junho 
de i5o7 (o traslado feito em 21 de novembro de 
i5o9, em Monte-mór-o-velho, no paço de conce- 
lho). 



8 

Concede a Diogo de Azambuja a capitania e al- 
caidaria-mór do castello de Mogador. . . pelos 
serviços do fazi mento do castello real de Mogador 
com despeza da sua fazenda. 

Pcrg. n.° 14. ■ — Provisão, carta de mercê e mu- 
dança de renda; carta dada por D. Manuel em Al- 
meirim, a 20 de janeiro de i5io, alterando outra 
dada em Cintra em 18 de agosto de i5o8. . . te- 
mos dado uma carta a Diogo de Azambuja do 
nosso conselho, nosso veador-mór de artilheria. . . 
(transcreve) . . esguardando aos muitos e extre- 
mados serviços... de Diogo de Azambuja capi- 
tão da nossa cidade de Çaffi. . . (faz) merco dês o 
i." de janeiro de iSog. . . de juro e erdade de réis 
i5o:ooo de renda na capitania da villa e castello 
de Aguez, que é no rio dos Savées, jun.to com a 
dita cidade de Çafíi. . . A 2.'' carta transfere esta 
renda para o almoxarifado de Coimbra. 

O ultimo perg. que se refere a Diogo de Azam- 
buja é o n.° 17, instituição de capella e designa- 
ção de propriedades: «Em Monte-mór-o-velho, 
em I de setembro de i5i2, nas casas do dr. João 
Pinheiro, deão que foi da capella del-rei, onde ora 
pousa o commendador Diogo de Azambuja»... 
por este documento consta ser filho de Pêro Ean- 
nes de Azambuja e de Maria Gonçolves, e ter 
uma irman, Izabel de Azambuja. 

• Koíicia à'estes Âzambujas em Manso áe Lima 

■ Jacinto Leitão Manso de Lima escreveu uma 
obra genealógica, em dezenas de grossos in-folios, 
que se conserva manuscripta na Bibl. Nac. de 
Lisboa. Tem por titulo Famillas de Portugal No 
artigo Aiambujas dá as seguintes noticias : 

Diogo da Azambuja, filho segundo d'este Jorge 



9 

da Azambuja, foi commendador de CoriiLhe na 
ordem de Aviz, e craveiro da mesma ordem; foi 
mais commendador de Cabeço de Vide, Rio iMavor, 
e Montados de Alter Pedroso, na mesma ordem, 
e Alcaide mór da villa de Monsaraz. 

Passou a Aragão em companhia do senhor D. 
Pedro condestable de Portugal, filho do infanle D. 
Pedro duque de Coimbra, a quem os Catalães ha- 
viam eleito para seu soberano. 

Sérvio ali muito bem emquanto viveu o dito 
Príncipe, e foi hum dos seus testamenteiros, a quem 
deixou o senhorio do Castello de Monzorim. 

E voltando para este reyno, por ser varão es- 
forçado e prudente foi mandado no anno de 1481 
descobrir novas terras, e os limites dos mares; des- 
cobriu a xMina onde logo fez celebrar missa, c man- 
daram presentes a Curamansa, que ali era regulo, 
e fizeram com elle amisade; e ali fez por ordem do 
senhor rey D. João o 2." o castello de São Jorge 
da Mina na costa de Africa e o poz em expugna- 
ção em 2 annos e sete mezes, e foi o primeiro ca- 
pitão d'aque!la fortaleza por espaço de trez annos, 
como escreve Rezende na Chronica do dito rey. 

Por morte do senhor rey D. João foi mui res- 
peitado do senhor rey D. Manoel que no anno de 
1 507 o mandou com huma Armada em compa- 
nhia de Gracia de Mello, a conquistar a cidade de 
Çafim na costa da Barbaria, que ganhou com gran- 
de valor, e industria aos mouros c ficou nclla por 
governador, aonde os mouros andavam em devi- 
sões, e diferenças de que se aproveitou entrando-a 
c expulsando delia os mouros no anno de i5oS; e 
já no anno de i5o6 havia ido fazer o Castello Real 
de fronte da ilha do Mogador e junto a Çafim; em 
cuja tomada se achou com seus netos Diogo de 
Miranda e Manoel da Silveira. 

E mandando-o depois o mesmo rey render por 
2 



TO 



Nuno Fernandes Je Ataíde disendolhe qne o fazicf 
em razão de ser já velho, respondeu elle que el rey 
o achara moço pêra conquistar a cidade, e velho^ 
pêra a defender, e vohando para o reyno fundou 
na vilhi de Montemor o velho o mosteiro de San- 
to Agostinho onde jaz enterrado. 

Foi do- conselho do sr. D. João 2.® que lhe con- 
cedeu licença pêra poder meter no escudo de suas 
armas hum castello em memoria dos seus serviços, 
por carfa dada cm Beja a 17 demarco de 1485 res- 
peitando aos grandes serviços que lhe havia feito- 
e ao reyno. Foi provedor dos Armazéns reaes e 
pessoa de muita authoridade, valor, talento e esti- 
mação no rejMio. Não casou por ser dos commen- 
dadores nntigos mas houve de Leonor Botelha com 
quem andou muitos annos, e de quem falaremos 
em outra parte : 

D. Cecilia, que fõ\ mulher de Francisco 

de Miranda 

D. Catharrna, que foi mulher de Marlim 

da Silveira, alcaide mor de Terena 

Mas outros dizem que foi casado, com dispen- 
sa de Roma, com D. Leonor Velha, irmande Gon- 
çalo Velho, com!i"iendador de Almourol, depoisdas 
relações com Leonor Botefha. 

E outro affirma que foi casado com esta mesma. 

E' possível que casasse duas vezes; o que é cer- 
to é que de Leonor Velha teve três filhos, Jorge, 
António e Diogo. 

António de Azambuja navegou, e teve a sua 
carta d'armas, passada em Évora em fevereiro de 
i535. 

O mais velho, Jorge, serviu na índia e voltan- 
do ao reino numa náo se perdeu sem mais se sciber 
delle. 

O 3.° filho, Diogo d'Azambuja, foi morto na ín- 
dia, pelejando valorosamente em i536. 



I T 



António de Azambuja cazou com D. Maria de 
Castro, filha de Vasco Martins de Mello, alcaide 
mór de Cabeço de Vide; d'este matrimonio nasce- 
ram Diogo d'Azambuja 

Vasco Martins de Mello 
Pedro de Azambuja 
D. Izab^l de Castro 
D. Margarida de Castro. 

Por consequência este Diogo de Azambuja fi- 
lho mais velho de António de Azambuja, era neto 
do primeiro Diogo de Azambuja de que falíamos. 

Diz Manso de Lima — Diogo de Azambuja, fi- 
lho primeiro deste António da Azambuja serviu 
muitos annos na índia, aonde foi capitão das for- 
talezas de Columbo e Tidore, e voltando ao reino 
foi feito governador da iíha da Madeira. Soccorreu 
a fortaleza de Chaul estando cercada, e dali pas- 
sou á conquista das ilhas Molucas aonde fez uma 
fortaleza á sua custa, e houvera tido empregos 
muito mais relevantes se se atendesse ao seu me- 
recimento, porque alem de ser mui valoroso e ter 
feito muitos serviços ao rei dispendeu também no 
serviço real incríveis sommas de dinheiro de que 
não teve satisfação. Foi commendador da ordem 
de Christo, e morreu governando a dita ilha da 
Madeira. Casou sendo já velho com D. Guiomar 
Pereira filha de Jacome de Mello Pereira. 

Esta dama D. Guiomar Pereira quando casou 
com Diogo d'Azambuja de Mello, era já viuva de 
quatro maridos. Pois viuvou do quinto, e ainda 
casou 6.* vez com Tristão Vaz da Veiga. 

o cosLice 3:».a-n-u.scripto SilTl 

E um volume in-S.", contendo os privilégios e 
liberdades dos commendadoves e cavalleiros da ordem 
de Christo, em publica forma passada em Thomar 



12 

n 8 de abril de iSgS. Contém também as regras e 
definições da dita ordem, e trata largamente da 
profissão de Diogo de Azambuja do conselho d'el- 
rei, capitão geral da ilha da Madeira, com varias 
peças poéticas em louvor d'este cavalíeiro. 

No frontispício lê-se : oJos lectores e aocommen- 
dador Diogiio daiambuja de mello do conselho dei 
Mei nosso Senhor. 

E vós DioiíO iUustre que na guerra 
Tal nome e fama honrosa conseguistes, 
Domando tantos reis da gente perra, 
Se áquelle grande estado não subistes 
Que tendes pelas armas merecido, 
Nos Mouros que por elles destruístes, 
E aquelle largo Império esclarecido 
Que a vosso rei e pátria levantastes 
Na parte oriental do ceo lusido 

E assim vae seguindo o pomposo encómio, até 
chegarmos — á profissão que Diogo d'Azambuja 
de Mello. . . . fez a 2 3 de setembro de 1594, no 
mosteiro de Nossa Senhora da Luz. 

E' o conhecido mosteiro da Luz, próximo de 
Lisboa, onde por algum tempo se fizeram profis- 
sões da ordem de Christo. 

AO PROFESSO 

Tão grande profissão e tão bem dada 
De hum cavalíeiro tal a tão grão Mestre, 
O menos que obrigou foi própria espada 
A defensão da fé, e ao rei terrestre 
Por estes sempre em campo, e estacada 
Co imigo de cavallo, e co pedestre 
Te envolvera's, Varão que assi o juraste 
Na honrosa profissão que aqui tomaste. 

Este Azambuja de Mello era já fallecido eni 
1600, e no Funchal se tratou do legado, inventá- 
rios, etc, ào illustre capitão geral. Este inventario, 
mal cscripto e orthographado, chegou a nossos 
dias no Archivo da Santa Casa da Misericórdia de 



i3 



Évora, e julgo-o documento de algum valor por 
mencionar livros e instrumentos da profissão do 
antigo capitão de. Tidore, que teve vida de guer- 
ras e aventuras na segunda metade do século xvi. 
Vamos transcrevel-o na integra. 

Bagagem de um capitão 
poríu^aez na segunda metade do saculo XYI 

Saibão quantos este estromento dado em publi- 
ca forma por mandado e authoridade de justiça, 
com ho theor do abaixo escrito e pella maneira se- 
guinte virem q no anno do nascimento de nosso 
Senhor Jhu xpto de mil e seiscentos aos vinte e 
dous dias domes de agosto do dito anno nesta cida- 
de do Funchal da ilha da madeira perante ho juiz 
ordinário diogo pereira da Silua pareceu João vaas 
mendes estãte nesta cidade e lhe disse que elle ti- 
nha huns papeis e iteins de cousas que o capitam 
geral desta ilha Diogo dazambuja de mello ja de- 
íuncto mandara daqui pêra a cidade de Lisboa por 
duarte de mello dos quaes lhe era necessário man- 
dar ho treslado á dita cidade de Lisboa q lhe pe- 
dia lhe mandasse passar em estromento publico e 
nelle interpuzesse sua authoridade, apresentando 
logo hos ditos papeis dos quaes ho treslado do que 
ao caso toca de verbo ad verbum hee o seguinte. 

Na guardarroupa : 

hum masso de cartas que diz q rresponde pello 
navio de pêro Simoins pêra Lisboa a vinte sete de 
dezembro noventa e cinco. 
It. outro masso de cartas que vieram na caravel- 

la do cravo de Lisboa o primeiro de janeiro de 

noventa e seis. 
It. De braz Freire e outras pessoas seis cartas sol- 
tas. 
It. hum masso grande de cartas de minha mai e 

irmans. 



14 

It. hum masso de cartas suas delia que mandou a 

machiquo. 
It. hum masso de cartas das freiras de portalegre. 
It. hum masso de António de Mello Valle dupar. 
It. hum masso grande de cartas e copias q escrevi 

a el-rei e ao conde de portalegre. 
It. Três pedassos de pao da cobra e hum bahul 

de chorumella e hua verruma. 
It. hua pedra de moer mezinhas e um coquinho 

por alimpar e dous alambeis dacoxellas de olan- 

da vermelha bons pcra a touqua. 
It. hum masso de cartas e papeis de malluco q rre- 

levam e tem no principio a procurasam do go- 

uernador. 
It. hum masso de cartas q dareis e outro masso de 

cartas e papeis que não tem de fora escrito. 
It. masso de cartas das letras que mandei de dr.** 

a Fernão Giz da camará da fazenda q vendeu 

aos padres na ilha da madeira. 
It. papeis soltos sem sobrescripto. 
It. hum masso de papeis que rrellevam. 
It. hum masso de papeis que rrelevam acerca das 

diíferensas que tive com o toito de Duarte Perei- 
ra em malluco. 
It. papeis que rrelevam do rrequerimento que tive 

na fazenda d'elrrei pedinJo o pagamento do dr." 

que me elrrei deve. 
it. massos de cartas de iMalaca e certidões de ami- 
gos e contas do alfaiate e de braz freire e outros. 

Listra dos soldados do galeão rreis magos em 
q foram uns estromentos de meos seruiços. 
It. de malluco de mil quinhentos noventa e seis 

um masso grande. 
It. outros muitos papeis que não pude descrever q 

podem rrelevar muito. 
It. hum masso de papeis do traidor alferes Cle- 
mente. 



i5 



It. hum masso de cartas do trigo de Lanssarote. 

It. hum masso de cartas de Jeronvmo dahneida de 
iMadrid q tractam dos chorumellas que rrelevam 
de Esteva m da guama. 

It. ametade dos massos de cartas e papeis de mal- 
luco que estavão no sacco. Vão na gaueta q le- 
ua a agulha de marear, ao rredor delia e por 
cima delles e da agulha vão muitos papeis e car- 
tas da ilha da madeira que podem rrelevar. 

It. hum cobertor de cochonilha uermelha com seus 
ourcllos sem nenhua guarnissão e não vai mais 
q um só. E se se achar neste rrol outro é o mes- 
mo. 

It. onze chaves que dei a duarte de mello. 

Convém a saber : Duas do cofre grande de Flan- 

des e hua do caixão de angelim em q vão as ca- 
deiras e oito das gauetas da guarda rroupa^oje vin- 
te cinco de setembro de noventa e nove. 

Em hum dos barris, digo quartos, vae o se- 

guitc : 

It. hum cesto com um globo celeste, 

It. o liurinho de olenisto de medições em pasta 
vermelha. 

It. o livrinho de discuções militares de manleor de 
lange, pasta verde. 

It. Dois liurinhos de oclides de geometria, hum em 
purgaminho e outro em pasta. -' 

It. hum liurinho Jerónimo Catanho de fortefica- 
çoens em pasta vermelha. 

It. outro liurinho Leão bautista albcrto dartetetura 
ciuil em pasta vermelha. 

It. Cissoro livro segundo em pasta preta piqueno. 

It. oracio em pasta preta piqueno. 

It. Joannes rrauisse em pasta preta. 

It. Epistollas familliares em pasta preta de dom 
ant.^ de gauara. 

It, livro de los comentários do Caio Júlio Ccsar 
cm pasta preta. 



i6 



It. graveestiama de Sermoins em purgaminho bran- 
quo. 

It. discarso de pregadores cm purgaminho branco. 

It. pregaçoens do mesmo Frame em purgaminho 
branco. 

It. di-scurssos do rameto em purgaminho branquo. ^ 

It. outro segundo do mesmo em purgaminho bran- 
co. 

It. rrecordo de bem morir em pergaminho branco. 

It. de muitas valorosas donnas em purguaminho 
branco. 

It. lembranças pcra bem morir em purguaminho 
branco. 

It. da rrepublica dos venezianos em purguaminho 
branquo. 

It. cartas messageiras em purguaminho branco. 

It. manual do contaderem em purguaminho branco. 

It. jardim espiritual em purguaminho branco. 

It. Sonetos de petrarca em purguaminho branco. 

It. triumphos em pasta preta. 

It. Cissero livro tersseiro em pasta vermelha e pre- 
ta q sam dous. 

It. livro da terra Santa em purguaminho branco. 

It outro discurso de pregadores em purguaminho 
branco. 

It. segunda parte de la auracana em purguaminho 
branco. 

It. livro das quatro regras da arismelica a primera 
parte de maia em purguaminho branco. 

It. a doutrina christaam em purguaminho branco. 

It. dous relógios e hu agulhão de marfim. 

It. Sonetos de petrarca em purgaminho branco. 

It. reportório em purgaminho branco. 

It. ho rosário da virgem nossa síiora em purgami- 
nho branco. 

Ir. regras de melicia do capitão F.'° Cretileancona 
em purgaminho branco. 



t. livro da regra da hordem de Xpõ em purgua- 
minho branco. 

t. livro dos outo maiores emperadores lurquos em 
purguaminho escrito e sujo. 

t. tratado dos esquadroensem pLirguaminho bran- 
co. 

t. tratado da matamatica de cantaneo em pur- 
guaminho branco. 

t. livro em ingres da naveguassão em purguami- 
nho sujo. 

t. vida e martírio de Sanctiago em purguaminho 
escrito. 
Todos ateequi vão dentro no globo celleste. 

t. arquetetura millitar de, pêro catanho em pasta 
tamarada. 

t. tratado da esfera em purguaminho branco do 
doutor pêro nunes. 

t. rregimenlo da mellicia de bernardino rroqua 
purguaminho branco. 

t. hum livro de pinturas em purguaminho bran- 
co. 

t. rreformassam da justa ê purguaminho escrito. 

t. Jerónimo catanho ê pasta vermelha sem coor. 

t. has duas regras de prespetiua dom leauroro em 
pasta vermelha. 

t. empresas mellitares em purguaminho branco. 

t. instetuiçoens canónicas em purguaminho bran- 
co. 

t. nauegassam e compendio da esfera de martim 
cortes pasta vermelha. 

t. outro livro de rregimento da hordem de Xpõ 
em pasta preta. 

t. vagapullairo de toscano hee italiano em pur- 
guaminho branco. 

t. hum livro de pinturas em pasta preta. 

t. historia imperial cezarea em purguaminho bran- 
co. 
3 



i8 

It. o livro que novamente fez hum flamengo da 
Índia horiental em pasta branca. 

It. hum livro de caixa branco em pasta vermelha. 

It. hum livro francez de cavallaria em pasta bran- 
ca ; e vai no outro globo, c dentro nelle. 

It. hila resma de papel muito fino de flandes bran- 
co. 

It. teórica de irertudes em coplas de f."" de Casti- 
lho purguaminho sujo. 

It. ho primeiro livro das ordenaçoens portuguesas 
em pasta. 

It. teatrum obris de abrahão ortelio em castelhano 
em pasta branca. 

It. de rroteiros flamengos de todas as costas da Eu- 
roupa, muito curioso em pasta branca. 

It. hum livro de trovas. 

It. outro livro de trovas e cousas de maluquo. 

It. avisos pêra soldado. 

It. o rrosario de nossa senhora. 

It. quatro livrinhos brancos em q tenho alguas 
lembranças da Madeira, e estes assima também 
vão no sesto do globo celleste. 
No outro quarto vai ho outro globo celleste den- 
tro e fora delle do cesto vai o seguinte: 

It. hum livro de cidades em pasta vermelha. 

It. outro livro de cidades em pasta vermelha. 

If. hum estrelabio de metal francês. 

It. hua caixa de pao com três compassos. 

It. hum quadrante de cobre e três toalhas de bei- 
tilha e dous vidros despelho do sol e hum ca- 
nudo de bambo. 

It. hum compasso de latão. 

It. livro de artetura de sebastião celi em purgua- 
minho branco. 

It. três oliveis com seus prumos e húa ballestilha 
e dous rrotos e muitas penas de pauão. 

It. duas cartas de marear hua hee do maar do sul 
do mexiqOj as malucas mexiqua. 



^9 

It. dentro n'este quarto vão as mais das cartas de 
maluco das comendas. 

It. hua caldeira para beberem hos caualos^ de fer- 
ro, ou cobre. 

It. hum quarto com seu fecho em 4 vai o biscou- 
to e cadeado. 
Hum caixão muito comprido. 

It. em que vai o meu leito e alguas pessas do lei- 
to de duarte de mello, e leua quatro cocos c ar- 
peas dos caualos c vai marcado com ha minha 
marca como vão todos os demais que hee a de 
fora. 

It. houtro caixão comprido mais piqueno em q vai 
outro leito mais piqueno de duarte de mello 
com a mesma marca. 
As cartas q escreui por duarte de mello. 

It. ao padre ant." madeira, diogo das pouoas, a 
elrrei, a joam da costa, ao conde de portalegre, a 
dona guiomar pereira, ao padre frei nicullao 
coelho, ao capitão garcia mousinho, ao arcebis- 
po, ao conde meirinho moor, ao conde de San- 
cta cruz, a miguei de moura, a diogo velho Se- 
cretario, a cristouam soares secretario. 
No cofre de flandes: 

It. seis paneis de óleo a saber são Jerónimo, a es- 
peranssa, a fortalesa e três obras da misericór- 
dia, daar de comer a quem haa fome, vestir ho 
nun, remir os captiuos. 

It. painéis de fresco a esperanssa, a charidade, 
odoratus. 

It. três mapas hua de todo ho mundo, outra de 
europa, outra da cidade de Jerusalém. 

It. três pratos couos grandes das fontes e hua fon- 
te tudo destanho de flandes com suas duas es- 
capulias de ferro. 

It. três pratos mais couos destanho mais piquenos 
de fontes. 



èa 



It. hum guinde destanhò'a cara flamengo. 

It. vinte hum pratos piquenos couos de serviço 
também couos. 

It. has cortinas velhas de sarja uerde do meu ca- 
tre dô bauh 

It. duas rodellas de dargoes rodomadas. 

It. vinte couados de baeta vermelha. • • 

It. vinte seis couados' de frizà azul pêra dona guib- 
rrfar çom hà's sésserfta è seis pares de pelles de 
coelho.- -• • ^ "'' ■■"'•■' ' ' • '- '" 

Vão* em .hua gaiíeba ' picífiTena -da; ■gliardárrou'pa. 

It. hua pessa de sarja preta. ■' ' " 

It. outo couados de bezuarte amarello. 

It. a minha maqua que trouxe do peru. 

It. dous atados de rretalhos pretos e uerdes e de 
bocassim. 

It. três rretalhos de baeta e de paninho do uestido 
preto é ;panno vermelho bezufirte fudo cousa 
pòííqúáV "■••'-•" '' /*^ ■ 

It. a minha alabardh dobradissa cónl sua funda. 

It.-a mirttíhfo^qliiíha coilí sua bTsarríia dentro dou- 
rada.' - • • ■ • . í i. V 

It. hum plumo de chumbo e hua furidarezà de li- 
nho. 

It. dezouto couados de rraxa rroxa pêra donna 
guiomar. 

It. trinta e seis varas em hua pessa de pano de li- 
nho crua digo trinta -e seis, 

It. trinta* e*'seis varas rhai-s em outra pessa de pa- 
no de linho crua. 

It. "hilá^tòálhácíe òlartdá das que ti-ouxè de rasa, 
vai stija que seruia. . . w j, . ; .. - ., 

It. âuks" á^lilá^ 'de uerga'^de sèstò e hum chapeo 

- 'dá mestria' vérg^. -• - ' • - 

It. quatro cestos mais de vergúa tudo' carrèquita 
janda. - • '. í; . . ' 

It. hua forma de pao do meu pee que trouxe de 
maluquo. 



2\ 



Rrealeigo: 

lí. o peso dos folies do orguão de chumbo e dous 
ferros de parafuso com sua chave também de 
parafuso com que se arma. Vai dentro no x:ofre 
de flcjndes emsima de tudo. 

It. a funda do rrealeigo de encerado com seus ala- 
mares brancos' e forradí) pòr dentro -d* bada 
uerde também. vai nol cofre de'flãdes: . \ 

It. hos três rrabos de pauáo com que -sacodem ho 
poo dos painéis e livros, j . * . .. 
no caixão» de angelim da índia grande : 

II. a minha cadeira de varandas com todas suas 
cortinas e encerados forradas de baeta verde e 
alamares de linhas brancas e correas q se daraa 
aò padre frei christovão. • . . 

It. hua trepéssa ' destrado kgiíi' 'duas- -gaiietas e 
chauô. • ' '. 

It. btra 'Cadeira Vrasa de duarte de m^lio de uellli- 
do rroxo guardeme o uclludo coberto com hum 
trapo digo guarnecida com' cravassão do prafa. 

It. dous ue41adores piquenos de pao .branco. . I 

It. hum vellador de pao grande. .• » -1> 

II. duas serrapilheiras com que vai cuberta a- ca- 
deira de uelludo e outra debaixo delia. . ! 

It. os paos dos pees do cofre de frades. 

It. três folhas de papel assinei em -branco que dei 
a duarte de mello pêra em Lisboa escreuer nel- 
las por -mim a elrnei, ou aos gouernadores, ou 
ao falcão no que tocar a minha ida e rreqiieri- 
mentos de^m^us seruiços. 

It. hua bocceta com dous guardanapos nouos. e ho 
meu bemtinho vèlht) e hua" tòalha^ de linHo tia 
china do maar do sul. . ' 

It. duas pdles d-e ueados aguanTaussç\daS'de piíe- 
to. ^ • 

It. hua pessa de fuslao. !-'•... 

It.'doUs chapcQs no«os da charrua. - . • » 



22 



t. ho barrete de Jorge marlins. 

t. a carapussa de doo q fiz por elrrei. 

t, hua pelle de forrar meãs atamarada. 

t. a petrina de couro preto com fiuellas de prata. 

t. o sinto com seus talabartes de couro preto e a 

ferragem de prata, 
t. hum rretalho de panno verdoso. 
t. guaheiras duas de ceda muito velhas e hua de 

raxa noua muito boa. 
t. hum livrinho e três rrosairos não inteiros de 

contas de carrascos de fruita do peru e hua 

vnha de besta, 
t. cartas em hum masso "] dei de Joanna luis e 

paio rroiz. 
t. outro masso que diz da terceira sentenssa da 

rrellassam do juiz dos feitos delrrei e muitas 

cartas soltas amarradas a estes dous massos. 
t. dous massos mais de cartas de galeão são Si- 
mão, 
t. hum masso de donna guiomar. 
t. dous de cartas desteuão da gama e do almeida 

de credito. 

na guardaiToupa : 
t. quarenta e duas varas de guardanapos cru 

atoalhados de couado de largo, 
t. trese varas de pano branco rruão em hum pe- 

dasso. 
t. vinte seis varas de pano branco rruão noutro 

pedasso. 
t. sete varas e terssa de panno cruu pêra giboens 

muito largo, 
t. doze varas de guardanapos curados atoalhados 

de largura de dous palmos, 
t. quatro varas e dous couados e meo de baeta 

uerde. 
t. dous couados de pano verde crjze. 
t. hua pessa de catassol rroxa digo de rraxeta. 



23 



It. sete couados e meo de sarja uerde. 

lí. hua pessa de catasol preto. 

It. onze pares de meãs de laa de cores num atado. 

It. onze pares de meãs noutro atado. 

It. outo pelles de gamoussa e hum atado de mui- 
tos pedassos. 

It. huns calçoens e rroupeta de pano de malluco. 

It. huns calçoens de velkido laurado preto abotoa- 
dos. 

It. hua rroupeta de galla preta. 

It. outra rroupeta de galla de maluco. 

It. huns calçoens de galla irmaons da rroupeta as- 
sima. 

It. hum gibão de olanda amarella com mangas de 
couro usado. 

It. hum gibão de olanda branca com huas man- 
gas picadas e forradas de dentro. 

It. hua rroupeta de gorgorão irmãa da capa da 
rraxeta. 

It. hum gibão de olanda branca com mangas de 
tiistana preta. 

It. huns calções de rroxa preta digo de rraxa 
parda. 

It. hua rroupeta de velIuJo laurado preto forrada 
de tristana. 

It. huns calçoens do mesmo velludo laurado pre- 
to tudo velho. 

It. hua rroupeta de rraxa preta entrapada forrada. 

It. ho guião das minhas armas e a bocca da cha- 
ramella rretorcida de latão e a mangua de uel- 
ludo da piqua. 

It. hum bastão dastea de lanssa e hua vara de 
medidas. 

It.-hua coura com suas meãs mangas de couro 
branco de ueado guarnecida de passamane de 
ouro com suas ataquas de cordoens de rretroz 
pardo c agulhetas de prata. 



24 

It. huns calçocns de gamaussa brãca guarnecidos 
de passamanes douro. 

It, hua mantilha de gala preta forrada toda de vel- 
ludo laurado preto irmaons dos calçoens e coa- 
ra assima dita. 

It. huns retalhos dantas. 

It. hua capa de baeta e hua rroupeta jaa vsada. 

It. hum farregoulo de gorgorão que trouxe de Lis- 
boa. 

It. hua capa preta de rraxeta entrapada irmãa da 
rroupeta atraz. 

It. hua capa de gala preta de que tenho também 
rroupeta. 

It. huns borseguins velhos e bem velhos. 

It. hua espada guarnecida de branquo dourada 
com seus sintos e adaga. 

It. hua espada e adagua guarnecida de preto com 
seus sintos. 

It. hua tauoa da hordem que pus da guerra. 

It. duas tauoas de cartas de marear. 

It. ho capus e a rroupeta de doo q fiz por elrrei. 

It. hua carta de marear de navegassão da india 
oriental com duas ballcstilhas dentro. 

It. Sinco pedassos grandes e piquenos desgorrna- 
ruquo e hum. 

It. hua rresma de papel m.'' fino de fiãdes. 

It. as ordenaçoens de castella em tauoas pardas em 
vso muito grande. 

It. as ordenaçoens de portugal em purguaminho 
branco nos quartos vai tudo. 

It. hum pedasso de olanda. 



Fim 



GABRIEL PEREIRA 



Esláo publicados : 
i.° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia.-— 4." Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5.° Bibliotheca Publica. Noticias das 
'collecçõe§. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 
— 7.° Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — S." e q." 
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1° A egrèja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada.^ — 12." O aVchi- 
vo municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.°, 15." e 16." 
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — 1 7.» Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.°, 19.°, 20." e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1 729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental.— 
26.° Antiguidades romanas em Évora e seu« arredores. — 27." 
Roteiro d'um eborense. — 28.** Universidade de Évora. — 29." 
As caçadas, i.^ parte. — Évora e o ultramar, 2.^ parte. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'Evofa 

Estão publicados : 
i.» PARTE- — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XlIIe XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João i.°. Etc. 

I vol. de 202 pag. in-4.<' — i^&Soo réis. 

\ 

2.* PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
I vol. de 282 pag. in-4.° — 2^200 réis. 

Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J. 
F. Pereira Abranches^ praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran- 



ches. 



GABRIEL PEREIRA 



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JilSTOPJA— yA.PyTE— ^P^CHEOLOGIA 



IBitT-^BIDTJISr 



os ESCRIPTORES ÁRABES DE ENTRE TEJO K GUADIANA 
O POETA EBORENSE. 



ÉVORA 
-M.IlsrEFtV.V E T3 O II, P-INT SE 

OE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressob d* caía real 

62 — Rua Ancila — O \ 

1893 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSES 



j^ISTOr^IA— ^í\TE-^F^CHEOLOGIA 



IBISr--A.B3DTJlsr 



os ESCRIPTORES ÁRABES DE ENTRE TEJO E GUADIANA 
O POETA EBORENSE. 



ÉVORA 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, ihprcsbor o* casa ncal 

62 — Rua Ancha — 64 

1893 



ESTUDOS EBORENSES 



Ibn-Abdun 



Na sua maior extensão a Arábia é um paiz de 
largos horisontes, de panoramas vastos c simples. 

A população tem um viver singelo também; na 
alma popular, como na paizagem, ha sobriedade 
e grandeza. O árabe, o camelo, o cavallo, a vasta 
campina, os grupos de esguias palmeiras, o céo 
azul e ardente, rubro nas auroras e nos occasos, 
as noites tépidas, afinam mutuamente n'aquelle 
paiz. Pelas charnecas do Yémen ha plantas de ex- 
traordinário aroma ! Como o clima é tépido, o ára- 
be, o simples árabe, dispensou a architectura ; bas- 
ta-lhe a tenda; a vida pastoril c ali fácil e doce; 
pelas manhans, pelas auroras, as caravanas pas- 
sam morosamente; á noite em redor da tenda fal- 
la-se,falla-se em casos maravilhosos; todos cantam; 
as raparigas de olhos negros, carnes douradas, 
dentes mui alvos, dançam. 

E o rylhmo na dança, na poesia, na cantilena 



ficou simples também. O irmão do árabe, o semi- 
ta da Judéa, chegou ao prodígio Job, á Sulamite 
encantadora, á Ruth sublime, ao drama ; e na so- 
ciedade moderna, contemporânea, conserva o lo- 
gar brilhantíssimo na musica, no theatro e na lit- 
teratura. O semita árabe continua a sua kassidah, 
acompanhada pelo som dos instrumentos de corda. 

Nem se percebe que a cantilena do árabe atra- 
vessando a larga planura no camelo, em movi- 
mento de berço, pudesse ser outra; é invariável 
como o céo, inconfundível como a palmeira. 

Ha enorme quantidade de poesias árabes; as 
mais antigas são tradicionalmente attribuidas a 
chefes e heroes do Yémen ; ha poemas vigorosos e 
de extremo cultismo anteriores de dois séculos, pe- 
lo menos, a Mahomet. Não se sabe a data appro- 
ximada de taes poemas; sabemos sim que no co- 
meço do século v já existiam muitos, variados no 
metro, para o sério e para o jocoso; canções de 
amor e cânticos^ guerreiros, descripções, preceitos, 
fabulas, elegias e satyras. 

Todos os annos nos tempos primitivos, por oc- 
casião das festas de Okad, reuniam-se os melho- 
res poetas para recitar as suas composições; eram 
uns grandes jogos íloraes; havia delírio de enthu- 
siasmo e recompensas principescas. A satyra, a 
elegia festejada cantava-se um mez depois em to- 
das as caravanas, em todas as tendas. Por uma 
kassidah, uma simples ode, um poeta recebeu uma 
vez cem camellos. As peças applaudídas eram es- 
criptas e expostas ao publico na Kasbeh, o logar 
de mais freauencia, para que todos as lessem e 
decorassem. 

Sete d'estas peças escolhidas, modelos da poe- 
sia árabe, chamam-se Muallakat, que quer dizer 
suspensas, penduradas, alludíndo á forma da ex- 
posição. 



A satyra e a fabula foram muito cultivadas pe- 
los árabes, é porem na elegia, terna, de profunda 
melancolia, que elles são mais eminentes. 

O tom melancólico, dolente de algumas canções 
nossas, principalmente do sul do paiz, parece con- 
servar reminiscências árabes. 

Tiveram épocas fecundas; na corte de Damas- 
co, no tempo dos Ommaidas, houve uma série de 
magniíicos poetas: Omar-ibn-Rabiyah, Jamil-ben- 
Adhrah, Jarir e Farazdak, estes dois últimos de 
Tamlcen ; e o negro Noseieb, insignes nas canções 
de amor, na satyra, na poesia descriptiva; e ao 
lado d'estes uma nuvem de celebridades menores. 

Mais tarde augmentando os meios, crescendo a 
influencia, a poesia árabe sem perder o cunho es- 
pecial deixou todavia a genialidade primeira; an- 
gariou elementos gregos e persas, e surgiu então 
uma nova escola, menos simples, mais imaginosa, 
profunda e philosophica. E' a época do celebre 
Thesouro áureo e da Hamara^ o famoso cancionei- 
ro compilado por Abu-Teman. A estesuccede Mu- 
tenebhe, e, já no século xi, Toghrai e Ibn-Faridh. 

Bem se manifesta que os árabes constituiram 
uma formação poética, uma escola, própria, cara- 
cterística e opulenta. 

Não confundamos porem jamais em questões 
litterarias, os árabes puros, do Yémen, com os do 
Maghreb ou da península hispânica; n'este ponto 
a questão é mais complexa; os mesmos árabes do 
oriente censuram os occidentaes, os hispano-arabes, 
tratando-os como poetas de mau gosto, e imitado- 
res ordinários. Opinião injusta ante a critica im- 
parcial, como se provou entre os próprios árabes. 

O arabe-hispano é um typo bem raro na hu- 
manidade : não é o gothico, o germânico lançado, 
antigamente, de súbito no meio latino; nem o in- 
glez na sociedade brahmanica, nos tempos moder- 
nos. 



o árabe culto e conquistador, iníelligente e al- 
truísta admittia facilmente as outras raças, não era 
um egoista, nem o podia ser. Os árabes que en- 
traram na península eram poucos, e esses ficaram 
maravilhados do clima, dos rios, das violáceas mon- 
tanhas, das amenas veigas, dos bellos portos maríti- 
mos. Era singularmente sociável o hispano árabe ; 
fallava com todos, ouvia o parecer das gentes, nunca 
perdeu o habito das francas e animadas conversas 
da tenda de campanha, mesmo quando possuiu o 
palácio com as suas arcadas rendilhadas, a fonte 
de mármore no meio da quadra sussurando bran- 
damente ante os reflexos metallicos dos azulejos 
lavrados. 

Para a arte, para a sciencia, chamou o grego, o 
românico, o bysantino; para o harém veio a gen- 
til de Corintho, e na guerra não duvidava em ter 
a seu lado o homem de armas de raça e crença 
alheia. 

Na poesia cantava a natureza, o amor, os pen- 
samentos moraes; descrevia o mar, as estrellas, o 
firmamento; os planetas, a rosa e o lyrio, e a vio- 
leta; a laranja, a roman^fructo de Granada, que 
tanta influencia teve na arte peninsular, a cereja e 
o cacho de uvas; o cão de caça, o cavallo, o gál- 
io; os banhos frescos, e os amenos jardins, sem es- 
quecer a meiga, embalante íjoria. 

Principalmente o hispano-arabe ama o dito, o 
episodio nítido e vivaz, o pensamento fino e deli- 
cado. 

Quando passaram as crises da invasão árabe na 
península, os episódios épicos de Rodrigo, de Ta- 
rik e Musa, serenados os espíritos, o poeta agareno 
sentio o enlevo d'este clima e d'esta terra privile- 
giada, das bellas noites de luar, do grande mar 
azul, dos frescos e amenos rios, das serranias ves- 



tidas de mattas virentes, os cimos franjados de ne- 
ve, das gandaras atapetadas de matagaes aromá- 
ticos. 

Era um enlevo ! 

EUes, os poetas árabes, comparam as terras pe- 
ninsulares á Syria pelo ar, ao Yémen pela tempe- 
ratura, á índia pelos perfumes, ao Ahw^az pela 
opulência, á China nas pedras preciosas e nos mc- 
taes; e comparam o povo ao de Adem pela hospi* 
talidade! 

Abd-al-uahad, poeta, instrumentista, composi- 
tor musical, exaltou o clima peninsular. A musica I 
a poesia 1 as duas cristallisações da alma árabe! 

Ainda hoje a musica, a poesia constituem as 
manifestações artísticas do portuguez meridional; 
elle não cura do ornato, da jóia, da cor garrida, 
nem a dança agitada e voluptuosa, tem a larga 
melopéa, e ama na palavra o doce rythmo; o pas- 
tor isolado com o seu rebanho no matto da serra 
ou da charneca enche os seus repousos com a 
flauta rudimentar, e sabe de cór quadras e deci- 
mas, satyras e elegias. 

Entre os árabes Sevilha foi a grande musical, 
e Córdova a erudita. 

No dialogo celebre de Ibn-Rachol (Averroés) 
com Ibn-Zohr (Avenzoar), o primeiro diz ao se- 
gundo: — o que eu tenho a dizer-te é que se um . 
sábio morre em Sevilha, vão vender os seus livros 
a Córdova; e se um musico morre em Córdova, 
ninguém duvida, mandam os seus instrumentos 
musicaes para Sevilha. — 

As sciencias e a litteratura foram muito cultiva- 
das pelos arabes-hispanicos, que demais mui fa- 
cilmente emprehendiam longas viagens; a viagem 
é, e será sempre, fecunda origem de conhecimen- 
tos; antigamente, muito mais que hoje, era tam- 
bém fonte de altruísmo; hoje o rápido^ os txpres- 



€ 



8 

SOS não dão tempo a formar sciencia ; dão as im- 
pressões fugitivas na carreira a vapor, não deixam 
tirar a moralidade ao contacto eventual das clas- 
ses sociaes ; e não conhecendo não se cria amor. 

Os rapazes árabes viajavam para saber; de To- 
ledo, de Córdova, de Évora iam passar alguns 
annos nos institutos fundados pelos kalifas, nos fo- 
cos intellectuaes, do mundo oriental, nas acade- 
mias de Bagdad, Damasco, Cairo. 

Os emires ommaydas fundaram uma grande es- 
cola em Córdova, onde se professavam a theolo- 
gia, o direito, a philosophia, a rhetorica e o ensi- 
no da lingua. E todavia o moço hispano-arabe 
continuou a ir ao oriente ; era quasi um culto, uma 
tradição e uma saudade, era a homenagem á pá- 
tria dos avós. 

Al-Makkari apresenta mais de Soo biographias 
d'estes viajantes que iam a Alexandria, ao Cairo, 
a Damietta, Bagdad, Damasco, Alepo, Jerusalém, 
á Mekka, a Medina, a Ispahan, até a Samarkand ! 

Mais ainda para se instruirem, viajando, vendo 
povos, climas, regiões diversas, não a procurar es- 
colas, alguns árabes peninsulares, de nomes que fica- 
ram na historia, fizeram viagens ao Soudão, á ín- 
dia, á China. 

Não devemos por isto admirar-nos dos alma- 
gnirin que da Alfama de Lisboa foram viajar pe- 
lo Atlântico fora; e seguramente não seria raro ou- 
vir no território portuguez contar das dilatadas 
jornadas do Oriente. 

Especialmente á Mecca ia muita gente para os 
estudos de jurisprudência, de historia, poesia, tra- 
dições propheticas, e mais principalmente para ou- 
vir o alcorão. 

Estes viajantes eram legistas, coranistas, cadis 
e muftis, soufis e ascetas, grammaticos, médicos, 
naturalistas, mathematicos. 



Entre estes viageiros alguns houve que mere- 
cem muito reparo. 

Por exemplo, Yahya-ibn-al-Hakam, al-Ghszal, 
poeta de Jaen, que falleceu no anno 864. Este ho- 
mem foi na quahdade de embaixador ao paiz dos 
Normandos. 

Sabem-se geralmente as invasões, as correrias 
dos septentrionaes pelo littoral hispânico, mas es- 
ta viagem diplomática revela outras relações entre 
hispano-arabes e as gentes do norte. Mas al-Gha- 
zal fez ainda outra viagem, ao Irak, e a propósito 
d'esta jornada conta- se uma anedocta que merece 
attenção. 

.Al-Ghazal chegou ao Irak pouco tempo depois 
do fallecimento do grande poeta Abou-Nowas : e 
achando-se um dia em grande assembléa litteraria, 
os orientaes mostraram desdém pelos poetas de 
Hespanha. 

Al-Ghazal não respondeu; e aproveitando de- 
pois a conversa, fallou com muito elogio de Abou- 
Nowas, e declamou alguns versos, que lhe attri- 
buiu; a assembléa applaudiu os versos, e elle de 
súbito exclamou : — Moderae os vossos applausos, 
estes versos foram feitos por mim ! 

Cito ainda outro viajante celebre para mostrar 
as relações em plena idade media de arabes-hes- 
panhoes com os orientaes. 

O medico Mohammad-ibn-Abdun, de Córdova, 
foi para o Oriente em 938 e voltou a Hespanha 
em 970. Este medico, entre outras posições offi- 
ciaes, esteve superior no hospital do Cairo. E' au- 
tor de varias obras, e, dizem, escreveu sobre li- 
thotricia. 

Outro: Ibn-Z )hr, também medico, estudou em 
Bagdad, e no Cairo. 

As viagens, sempre boas fontes de instrucção, 
vinham completar a erudição, a cultura escolar, 



2 XST. IB. 



IO 



já muito desenvolvida n'esta época em Toledo, 
Córdova, e Sevilha. 

No tempo de Al-Hakam (961-976) a bibliothe- 
ca de Cordcva tinha um catalogo dos seus livros, 
que enchia 44 volumes. Resta saber que volumes 
eram estes, mas é certo que era celebrada pela sua 
opulência entre os eruditos do tempo. 

Outro ponto ha que manifesta bem as muitas 
relações dos árabes hespanhoes com o oriente; é 
nas obras d'arte. Por exemplo falla-se do mármo- 
re que vinha de Carthago; de um architecto que 
veio de Alexandria, etc. 

Em 986, Ahmed o grego, note-se, tfouxe de 
Constantinopla uma grande piscina esculpida e 
dourada, e outra mais pequena ornada de figuras 
humanas (talvez bysantina). 

Será bom mencionar aqui a pia baptismal da 
egreja de Sacavém, a que andam ligadas tradic- 
ções mouriscas, a meu vêr com bons fundamentos. 

Ao percorrer as poesias dos arabes-hispanicos, 
dos bellos espíritos do al-Gharb ou do Andaluz, 
parece escutar-se um decadista, em phase de finas 
combinações de ideias, de sons, de ridmicas sub- 
tilezas. Elles cantam os suspiros da ausência, os 
vagos voos das pombas, os hálitos almiscarados, 
os dentes de pérolas. São os poetas das morosas, 
dolentes canções. Mas estes homens viam frequen- 
tes tragedias : como os portuguezes de Ceuta e 
Mazagáo entremeavam as refregas com os doces 
saráos. 

Eram guerreiros e trovadores. 

No começo do sec. XI, em 1009, rebenta uma 
grande revolução em Córdova ; quebra-se a uni- 
dade do dominio, e surgem os pequenos soberanos, 
os chefes das taifas, at-Tauaif. 

São os Bemi-Abbad^ em Sevilha ; os 'Benu-al- 
Aftas, em Badajoz; os ^emi-dhi-an-noun, em To- 



« 

> 



1 1 



ledo; os ^enu-abi-Amir^ em Valência; os Benii- 
Hiid, em Saragoça ; os Modjahid-al-Amiri em De- 
nia e Baleares. 

Pois segundo parece iodos estes chefes de re- 
volta eram espíritos cultos, dedicados ás lettras, 
ás sciencias, procurando rodear-se de sábios e de 
poetas. Entre os próprios principes al-Aftas se 
mencionam duas notabilidades, al-Mozhaffar e al- 
Motevakkil. 

Nas palacianas quadras frescas de gentis arca- 
das, lavradas de caprichos e esmaltadas de azu- 
lejos, a meio o elegante repucho susurrando entre 
roseiras e alfazemas, sobre as esteiras de palma 
e os macios tapetes de lan vivamente coloridos, 
conversava-se amenamente em giupos em volta 
do califa, do vali, ou do vizir. 

Quantas poesias desabrochavam n'essas viven- 
das de fadas! improvisavam sobre os espectácu- 
los da natureza, o occaso, o luar, a tempestade, 
a flor, a abelha, travando-se muitas vezes o dialo- 
go rimado, forma fre.juente entre os arabes-hispa- 
nicos. 

Ibn-al-Cid, Ibn-Ammar, Ibn-Wahbun, recitam 
os seus versos, alegres companheiros, n'essas ho- 
ras de culto recreio. 

— Que feliz tempo! exclama um, sob o formo- 
so céo de Hespanha, para a sensitiva humana que 
é o poeta ! 

— Caríssimo! diz outro, ha três cousas que não 
merecem confiança, o mar, o sultão e o destino! 

Descrevem também paizagem e casos maravi- 
lhosos, por exemplo, o dos thesouros que Tarik 
achou em Toledo. 

O culiismo árabe era ainda bem animado pelas 
repetidas viagens dos orientaes; magistrados e mi- 
litares vinham á península ; viajantes com o único 
fim de ver e estudar vinham de Damasco e de Ale- 
xandria até Córdova e Toledo. 

"W 



12 

A terra hispânica linha enorme fama de belleza 
e opulência no Oriente. 

Um dia perguntaram a As-Sarakhsi (sec. 12): 

— Como achas o paiz? é inferior ao teu? 

— Este paizé admirável! solhe vejo um defeito. 

— E qual? 

* — Faz esquecer a pátria. 

Os marroquinos tinham grande inveja dos ára- 
bes peninsulares ; por que os do Yémen diziam 
que o Magreb (Marrocos) era apenas um paiz de 
passagem; sem a Hespanha nada valeria. 

Um viajante illustre que tinha percorrido a Sy- 
ria e o Egypto, chegou a Sevilha. Elle comparou 
a brilhante cidade a uma noiva, coroada pelo Axa- 
rafe, e tendo o rio Guadalquivir em collar. 

— Já viste paiz mais bello? 

— Não; o Axarafe é uma floresta sem lião; e o 
Guadalquivir um Nilo sem crocodilos. 

— Oh! meu Deus! exclama outro poeta, de tu- 
• do que ha bom no Paraizo eu só desejo o vinho 

de Málaga, e as uvas passadas de Sevilha! 
Gostavam muito do dito prompto, conciso. 
O califa a um poeta : 

— Como te achas commigo? 

— Acima do meu valor, inferior ao teu. 
Houve poetisas também em Hespanha. Om-al- 

kiram foi celebre pelos seus versos e pela singular 
belleza. 

Hafçah, outra poetisa, bella, rica, nobre, e ro- 
deada de trágicos amores. 

Itimad-ar-Romaikiyah, Al-Bothainah, Miriem e 
Nazhoun, de Granada, todas poetisas e musicas, 
cujos nomes ficaram na historia. 



Eu peço ao leitor benevolência para estas di- 
gressões. Creio que ellas são indispensáveis pa- 



i3 

ra a apresentação do grande poeta arabe-eborense. 

Se ha em Portugal tão pouco escripto e conhe- 
cido d'esses sarracenos que dominaram no sul da 
península, no Alemtejo, para mais de seis séculos! 

Vencida a monarchia una ergueram se os thro- 
nos, os waliados diíferentes; esses reis ou walis 
eram aristocratas; na posição social e militar, ena 
vida intima. 

O godo não era bem assim, era mais rude, mais 
isolado; o árabe chefe era em tudo, em todos os 
elementos sociaes, um superior. Tinha a inconfun- 
divel educação da tenda de campanha; o contac- 
to immediato do chefe tolerante com as diversas 
camadas e individuos. 

Os historiadores chamam-lhes aristocratas; eram 
chefes, e eram também sábios e poetas; espiritos 
de tendências taes não podem viver isolados, es- 
pecialmente quando teem o poder. 

O emir, o wali^ o califa^ procinava ter na sua 
côrtc o homem de talento, a meaico, o astrólogo, 
o chimico ou alchimista, o muisico, o poeta. 

Ora o poeta eborense foi mui distincto entre os 
notáveis nas cortes de Badajoz e em Sevilha. 

Abou-Mohammed-dAbdo-il-niadjir-ibn-Z^bdollah- 
ibn-QÂbdoun-al-Jehvi, nasceu em Évora, cidade 
que pertencia aos al-Aftas (ou Aítasidas), principes 
de Badajoz; elle revelou desde a mocidade gran- 
de talento para a poesia. 

Ciirsou estudos, ou antes cultivou as suas feli- 
zes disposições sob mestras afamados, como eram 
então os celebres grammaticos al-Alam, Abu-il- 
Hadjadj Yusof ibn Soleiman-ibn-Yusof-ibn-Jsá de 
Santa Maria, conhecido por al-Alam^ que viveu 
de 410 da hégira até 476 (1019-1083) ; e Abu- 
Becr-Acim-ibn Aiyoub, de Badajoz, autor de um 
commentario sobre as sessões de al-Hariri. 

Santa Maria, a naturalidade de al-Alam, é Fa- 



ro, que em documentos antigos apparece também 
Schantmaria, Hayrun, ou Harum ; ainJa hoje fica 
bem perto de Faro o cabo de Santa Maria. 

O príncipe aftasida Ornar al-Motauakil, gover- 
nador de Ev^ora, notou o joven Ibn-Abdun, e quan- 
do peia morte de seu irmão Jahya-ai-Manzor, foi 
chamado ao ihrono de Badajoz, nomeou seu se- 
cretario o poeta eborense. 

Ibn-Abdun esteve n'este emprego até á queda 
dos al-Aftas, ou Aftasidas (487 da hégira, 1094 da 
nossa éra); então acceitou idêntico logar junto de 
Sir-ibn-abi-Becr, chefe militar, general, almoravi- 
de, que tinha conquistado Sevilha e Badajoz para 
Yusof ibn-Téschifin. 

E depois foi também secretario de Ah. filho e 
successor de Yusof, que na época era senhor em 
Hespanha e no norte de Africa. 

Como se vê o poeta e secretario mudou com as 
conquistas; como succedia em Roma, e como tan- 
tas vezes succede hoje, sem todavia esmorecer na 
sua arfe sublime. 

Sentiu-se um dia fadigado de trabalhos e veio 
a Évora passar algum tempo com a familia, e os 
antigos amigos e companheiros; e morreu então, 
na sua cidade natal, em 529 da hégira (i 1 34-35). 

Trata-se pois de um eborense completo, com a 
ventura de nascer e morrer na sua terra. 

Abdun devia ser velho em i 134; e que extcaor- 
dinarias cousas elle poderia contar, que aventuras 
singulares, do seu tempo; e que elegias, que doces 
e languidas cassídas^ de Évora, de Sevilha, elle 
poetaria; que suaves canções de amor, que trage- 
dias tristes ! 

Diz-se que tinha uma memoria prodigiosa; tes- 
temunhas dignas de fé aííirmam que elle sábia de 
cór todo o K^tabo-il-agam, que é um cancioneiro 



i5 



arabc, enorme collecção das tradições, das trovas, 
e dos poemas dos antigos árabes. 

Ainda ha pouco tempo (setembro, 1892), os de- 
legados turcos vindos a Lisboa para o projectado 
congresso dos Orienlalistas, me disseram, ao mos- 
trar-lhe alguns exemplares do alcorão, manuscrip- 
tos e impressos, que esse livro sagrado dos mus- 
sulmanos se não perderia, embora ardessem ou se 
sumissem todos os volumes, pois em Constantino- 
pla, no Cairo, ou em Tehéran, e até em muitas 
mesquitas isoladas, ha ulémas e softís qué o sa- 
bem de cór, palavra a palavra, marcando todos 
os assentos e pausas. 

Parece que é um' exercício querido aos orien- 
taes o decorar, uma prenda mui distincta o saber 
recitar trechos e capítulos inteiros dos seus livros 
superiores. 

Ibn-Abdun tinha muitos conhecimentos históri- 
cos e linguisticos. Escrevia fácil e elegantemente 
cartas em prosa rimada; género de composição, 
dizem os críticos especiaes, que exige noção per- 
feita das delicadezas da linguagem. 

Compoz um livro para defender Abu-Obed con- 
tra as criticas de Ibn-Kotebah; mas julga-se per- 
dida esta obra. 

Poeta sempre hábil e elegante escreveu todavia 
poucos poemas; flores suaves e mimosas que de- 
sabrocho vam ao acaso. 

Gosta de pintar o dolcefaníeute^ quando deita- 
do na relva do valle, vê a aragem brincando com 
o manto. 

Descreve as horas de prazer, nas bellas noites 
do sul, ouvindo o murmúrio das vagas, ou quan- 
do o Guadalquivir se cobre de barcos, cheios de 
alegres comp;mhias, e os olhos das formosas mou- 
riscas hespanholas inflamam os corações juvenis. 

Mas cm taes composições finas e elegantes sur- 



i6 

getn de súbito nobres sentimantos, resalta a ex- 
pressão da nobre altivez árabe; ha toques origi- 
naes a esmaltar os doces tons; e o artificio tam- 
bém, ás vezes em exaggcro, especialmente nas 
imagens trabalhadas, singulares. 

Parece haver n*este espirito a inspiração de 
João de Deus, combinada á de Campoamor. 

Todavia não foram as breves poesias delicadas, 
as peças lyricas ou galantes, que deram a Ibn- 
Abdun a grande fama entre árabes ; foi a elegia 
admirável, de arte e inspiração, sobre o final da 
dyninastia dos Aftasidas, que o tornou celebre. 



Mas outros escriptores árabes, naturaes de en- 
tre Tejo e Guadiana, ficaram lembrados, e será 
bom aprescntal-os desde já ; os seus nomes encon- 
tram-se em volumes pouco accessiveis, e os nos- 
sos litteratos e historiadores não teem cultivado 
este ramo. 

Casiri, na sua IMbliotheca arábico hispana escii- 
rialensis. diz dos escriptores árabes naturaes da re- 
gião lusitana : em alguns casos, em certos nomes 
de logares pode haver duvidas; ha Beja em Por- 
tugal e em Africa, e Alcântara e Alcácer repetem- 
se bastante: ás vezes também o mesmo escriptor 
árabe apparece com variantes de nome que podem 
originar confusão. 

Vou, seguindo a ordem de Casiri, indicar alguns 
nomes. 

Abdelmalek ben Badrun e ben Abdun Abi Mos- 
hamad (t. i p. i5). 

Abi Mohamad Abdelmagid, de Évora (65). 

Abulcassem Khalaph (gS), em Santarém. 

Abu Baker ben Sokon (96), e Abulwalid Ismail. 

Abu Mohamad (97). 



17 

Abulcassem Abdelmalek (99). 

Abu Abdallah (128). 

No tomo 2.° p. 32 ao tratar de Alhasem ben 
Dharar refere-se á distribuição das tropas árabes 
na península. Com os árabes propriamente ditos 
vieram turbas de outros asiáticos. Na continuação 
do doiTiinio sarraceno outras forças foram impor- 
tadas, de modo que no tempo de Dharar, na me- 
tade meridional da península, estavam os damas- 
cenos em Córdova, os egypcios com arabes-hispa- 
nos em Lisboa, Beja e Tadmir; os palestinos em 
Medina Sidónia e Algezíras; os persas em Huete; 
os assyrios em Illiberi; os kinsaritas em Jaen. 

Abu-Baker (2.°, 44) natural de ScJianabos in dic- 
tione iirbis Silvis; talvez Schanabos seja uma for- 
ma árabe de Ossonoba. 

Ahmad ben Alhassain (5i). 

Mohamad ben Omar. 

Abdallah ben Moheb ; este era de Alcácer ben 
Abi Danes, que é Alcácer do Sal (59). 

Mohamad ben Mophadel, natural de Silves (yS). 

Abdallah ben Mohamad (102). 

Mohamad ben Obaid (124), de Santarém. 

Abdallah ben Isa (128). 

Abdelmalek ben Hescham (i32). 

Abdelmalek ben Abdallah. 

Abdalla ben Mohamad, de Beja(i37). 

Soliman ben Khalaph, Beja (142). 

Mohamed ben Abdelrahman (146). 

Mohamed ben Abraham, de Silves (147). 

Mauphac ben Síl (147). 

Mohamad ben Almad, Beja (164). 

Em Casiri apparecem varias referencias a cida- 
des alemtejanas, a Évora, Beja, Mertola ; infeliz- 
mente algumas localidades são designadas por no- 
mes que não é fácil identificar. 

Perderam-se muitas obras árabes, e entre ellas 

3 IIT. IB. 



i8 

a de Ibnu-Said que era uma descripção do sul e 
occidente da península. 

Apenas sabemos que era dividida em sete li- 
vros, todos com os seus graciosos títulos orientaes. 

O primeiro era o livro dos vestidos de ouro, e 
descrevia as bellezas do reino de Córdova. 

O 2.° tinha o titulo — Livro das puras palhetas 
de ouro; descrevia o reino de Sevilha. 

3.° O livro dos polidos galanteios; tratava de 
Málaga. 

4.° O livro dos cavallos, as bellezas do reino de 
Baihalios (Badajoz). 

5.° O livro do leite fresco. Descripção do reino 
de Shilb (Silves). 

6.° O livro do prefacio illuminado. Descripção 
do reino de Béjah (Beja). 

7.° O livro dos jardins fechados. Descripção do 
reino de Ulíshibonah (Lisboa). 

Que pena perder-se a obra de Ibnu-Said ! por- 
que pelas citações e noticias que d'ella ha seria 
descripção mui particular e opulenta de factos. 



No bello trabaího do sr. Diaz y Perez, os Ex- 
tremenos illustres^ encontro referencias de muito 
valor no ponto de vista que adoptei : 

E vou já apresentar uma que respeita a Évora. 

— Acim-ibn-Aíyoub (Abou-Becr), escriptor dis- 
tincto, nasceu em Badajoz, nos fins da primeira 
metade do sec. XL 

— O poeta Ibn-Abdun (cá temos o eborense), 
no seu poema sobre a dynastia dos Aftasidas (ou 
Alaftas), lhe faz justos elogios. 

— Um dos mais notáveis poetas da corte dos 
Alaftas foi eífectivamente Abou-Mohamed-Abdo- 
1-majíd-ibn-Abdallah-ibn Abdun ai Fehri, natural 



_J9_ 

de Évora, cidade que então pertencia aos princi- 
pcs de Badajoz. 

E termina a noticia com esta observação — Não 
se conserva obra alguma do grammatico árabe de 
Badajoz, o que é para estranhar, quando existe na 
bibliotheca do Esciirial o poema do seu discípulo, o 
poeta de Évora. 

O poema do poeta eborense, dizemos nós ago- 
ra, existe em grande numero de bibliothccas da 
Europa e da Ásia occidental como em breve lere- 
mos occasião de demonstrar. 

Notemos também: Almetuacil-Omar-ben-Negm- 
doda ou doía, que nasceu em 1079; era dos Ala- 
íias, e foi wali de Santarém. 

Querem ver como será difficil muitas vezes iden- 
tificar um nome.^ Çapor, Çapur, Sapur ou Labur 
é o mesmo individuo; é o primeiro rei árabe de 
Badajoz, no sec. XI : e é El-Mansor el Marid. 

Mondzir-ben-Harem, natural de Badajoz, ho- 
mem de lettras distincto que foi educado em Beja. 

Por vezes em noticias dos — Estremeíios illus- 
tres^ apparecem as palavras Zelb e Xelb que se 
julga serem os nomes árabes de Elvas. 



%^ 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS KBOHKHSKS 

Esláo publicados : 
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4.° Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliotheca Publica. Noticias das 
collecçôes. — 6." Conventos do Paraiso, Santa CUira e S. Bento. 
— 7.° Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8.° e 9.° 
Vésperas da restauraçcão.' — 10.° Brasão d'Evora.— 1 1° A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. CoUegiada. — 12.° O archi- 
vo municipal — iS." Aresiauração em Évora. — 14.°, i5." e 16." 
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 17.» Évo- 
ra' e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.", 19.°, 20.° e 21." Assédios d'Evora em i6d3. — 22.°0sFes- 
tejosde Évora em 1729. — 23.° Évora nos Lusiadas. — 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental. — 
26." Antiguidades romanas em Évora ^ seu'' arredores. — 27.° 
Roteiro d'um eborense. — 28.0 Universidade de Évora. — 29.° 
As caçadas, 1." parte.— 3o." Évora e o ultramar, 2." parte.— 
3i." Ibn-Abdun. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da CiMe á'E¥ora 

Estão publicados : _ . 

I.» PARTE— -Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João i.". Etc. 
I vol. de 202 pag. in-4.° — iítP8oo réis. 

2." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in-4." — 2v!í''.iOo réis. 
Assignam-se estas publicações no estabelecimento dceditor J. 

F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran- 
ches. 



GABRIEL PEREIRA 



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j- \-j 



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K^ 



J. 



IRENS 



^ 



J^ISTOF^IA— y^r^TE-y^P^CHEOLOGIA 



OS MOUHOS 



A GEOGRAPHIA DE ÉDRISI. DESCRIPÇÁO DO ALEMTEJO. YEBORAH (eVORA) 

OS MOUROS EM BEJA 



EVORA 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor d* c*sa real 

O2 — Kiia Ancha — Õ4 

1893 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSES 



JilSTOI^IA -yA.P^TE-y^í^CHEOLOGIA 



OS MOUROS 



A GEOGRAPHIA DE ÉDRISI. DESCRIPÇÃO DO ALEMTEJO. YEBORAH (eVORA) 

OS MOUROS EM BEJA 






EVORA 
MI>.'KR.V-V EISOR-ENSE 

CE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor oa caía real 

62 — Rua Anclia — 64 

1893 



ESTUDOS EBORENSES 



Os mouros 



Édrisi é um geographo árabe, que viveu no sé- 
culo XII. 

O seu nome todo é : Abu-abd-Allah-Mohammed- 
ben- Mohammed-abd-Allah-ben-Edris-al-Hamudi . 

Foi também conhecido por — Cherif-ai-Edrisi- 
as-Sikilli-al-Rodjari — , que quer dizer : o nobre 
Edrisi, da Sicilia, amigo de Rogério — . 

Outra variante do nome do geographo E'drisi 
é: Abu-Abd-allah-Mohammed-Idrisi; ou ainda: 
al-Sherif-el-Idrisi. 

E mais simplesmente: el-Edrisi. 

E ainda: Xerif-Aledris. 

Finalmente, até ha pouco tempo, era conhecido 
por Niibiense; quem se referia ao Edrisi de Sicilia, 
ou ao geographo da Núbia, citava : o nubiense. 

Este sábio nasceu em Sibtah (Ceuta), em 493 
da hégira, que corresponde a 1099 da era de Chris- 
to, e falleceu por 1 164. 



De Ceuta veio frequentar estudos nas escolas 
de Córdova, viajando depois pelos paizes do Me- 
diterrâneo; esteve em Lisboa, visitou os paizes 
agora chamados França, e Inglaterra ; esteve tam- 
bém em Constantinopla. 

Estes árabes viajavam extraordinariamente! Ain- 
da hoje teem gosto na deslocação. Como os nos- 
sos ciganos, a quem parece, na maioria, contraria 
a residência fixa. 

Nas ordens religiosas viajava-se muito, também 
a pé. 

Por exemplo o celebre franciscano, fr. João da 
Povoa, confessor de D. João 2.°, que, sempre a 
pé, foi a vários concílios geraeSj da sua ordem, na 
Europa ! 

E'drisi viajou muito, e, por felicidade, viveu no 
seu tempo Rogério 2.° da Sicilia, que era enthu- 
siasta da geographia. 

Rogério quiz saber do mundo, e mandou via- 
jantes para marcar longitudes e latitudes, forman- 
do itenerarios rigorosos. 

Os resultados de essas viagens e cálculos foram 
gravados sobre um globo de prata. 

Esses trabalhos foram approveitados por E'dri- 
si, chamado pelo rei de Sicilia, Rogério, <^ue se tor- 
nou em perfeito amigo : por isto ao E'drisi deno- 
minaram — al-Rodjari — . 

E'drisi esteve muitos annos na Sicilia e ahi es- 
creveu a sua vasta geographia. 

O titulo do seu livro traduzido á lettra é : Pas- 
satempo do homem curioso de conhecer a fundo 
os diversos paizes do mundo — . 

O livro foi terminado nos últimos dias do mez 
de xejval^ em 548 da hégira, o que corresponde a 
meio-janeiro de 11 54 da era christã. 

Em 1592 se imprimiu em Roma uma versão 



latina: — De geographia iiniversali hortus cultissi- 
mus — . E' um resumo do Nubiense. 

Conde traduziu em hespanhol a parte relativa á 
península hispânica. Depois Jaubert e Dozy tra- 
duziram também (Dozy et Goeje, Description de 
TAfrique et de TEspagne. Amédée Jaubert, Géo- 
graphie d'E'drisi). 

O celebre geographo árabe para a sua discri- 
pção dividiu o globo terrestre em 7 climas, e ca- 
da clima em 10 regiões; descrevendo as regiões 
de cada clima a seguir, sem se importar com as di- 
visões politicas. 

E' um documento precioso para nós portugue- 
zes, e para todos os estudiosos da península ibéri- 
ca, por E'drisi ter vivido no periodo da constitui- 
ção da monarchia e da nacionalidade. 

Elle foi contemporâneo de Affonso Henriques. 

Em sua vida taifas mouriscas e mesnadas chris- 
tãs se cruzavam sem cessar pelos campos alemte- 
janos. 

Por isto me pareceu útil transcrever nos Estu- 
dos Eborenses a parte da geographia de E'drisi que 
se refere á região a sul do Tejo. Não é muito ex- 
tensa e constitue elenlento importante para a his- 



toria da região. 



Antes de tratar da descripção da peninsula ibé- 
rica, E'drisi refere-se a Lisboa, a propósito do por- 
to de Asafi, — assim chamado, afiirma elle, pelos 
aventureiros (al-mogharriroun) viajantes da cidade 
de Lisboa, em Hispânia, que ahi abordaram. A 
descripção d'esta aventura é bastante longa, e te- 
remos occasião de a referir quando tratarmos de 
Lisboa — . 

E'drisi escreve depois a respeito da ilfia dos av- 



iieiros (Djaiirat-l-Ghanam)^ alludindo outra vez aos 
aventureiros. 

A relação entre estas narrativas de E'drisi e a 
lenda de S. Brandão foi percebida por M. d'Ave- 
zac (Les iles fantastiques de Tocéan occidental). 

Recentemente ouvi porém outra interpretação da 
viagem dos árabes lisbonenses ; julgam alguns crí- 
ticos musulmanos que elles chegaram á America 
septentrional. 

E* no quarto clima (E'drisi divide a terra em 
grandes zonas ou climas, começando a sua descri- 
pçâo do sul para norte) que principia a descripção 
do paiz de al-Andalos^ chamado em lingua grega 
Ichbanya (forma árabe de Hispânia). 

O maior comprimento é desde a egreja do Cor- 
vo (cabo de S. Vicente) situada n'um promontório 
que entra pelo occeano, até á montanha chamada 
do templo de Vénus (Port-Vendres). 

— De Toledo a Lisboa, no extremo occidente, 
nove jornadas — . O geographo árabe usa duas 
medidas, a milha e a jornada; por esta devemos 
entender a marcha de um cavalleiro por um dia. 

— Toledo é o centro de toda a Hespanha. . . no 
tempo dos christãos era a capítal e centro da admi- 
nistração— . E' claro que E'drisi se refere ao tem- 
po da dominação goda. 

— Na provincia de al-Facr (al-Faghar, o nosso 
Algarve) estão wSanta Maria (Santa Maria d'Algar- 
ve), Mertola, Silves, assim como grande numero 
de fortalezas e aldeias. 

— A esta provincia segue-se a do Castello (Al- 
Kassr, Alcácer do sal), onde se acha o castello que 
chamam de Abou-Danis (também se encontra nos 
escriptores árabes Al-kassr-ben-Abou-Danés, Al- 
cácer do sal), e onde estão também Évora (Ye- 
burah). Badajoz (Bathalioz), Xerez (de los Cabal- 
ieros), Merida, Cantara as-saif (Alcântara), e Coria. 



• 7 

— Depois vem a província de al-Balat, onde es- 
tá a cidade do mesmo nome (hoje em ruinas na 
margem esquerda do Tejo ; conserva-se o nome 
campina de Albalat)^ e Medelin. 

— Na província de Balata estão Santarém, Lis- 
boa e Cintra — . Alvalade é designação locativa 
que ficou também vulgarmente em Portugal, por 
exemplo o Campo grande^ próximo de Lisboa. 

— O rio Yana (Guadiana) banha as cidades de 
Merida, Badajoz e Mertola tão conhecida pela ex- 
cellencia das suas fortificações. 

— Castella (Cacelh, Cacella) é uma fortaleza 
construída sobre a margem do mar; é bem po- 
voada ; ha ahi muitas hortas e figueiraes. 

— De ahi a Tavira, junto do mar 14 milhas. 

— De ahi a Santa Maria do Algarve, 12 milhas. 

— Esta cidade fica na margem do oceano, e suas 
muralhas são banhadas no preamar. Não é gran- 
de mas muito bonita; tem uma mesquita princi- 
pal (aljama), outra commum (diríamos hoje paro- 
chial), e uma capella. E' frequentada por navios. 
O seu campo produz muitos figos e uvas. 

— Da cidade de Santa Maria a Silves são 28 
milhas. 

— Silves, bonita cidade, é cercada de fortes mu- 
ralhas. Nos arredores ha hortas e vergéis ; bebe-se 
a agua de um rio que banha a cidade pelo sul, e 
que tem moendas. 

— O oceano está a 3 milhas a occidente (e a 
sul). — Estas medidas do E'drisi não merecem con- 
fiança plena : todavia admira em muitos casos co- 
mo o geographo árabe conhecia a posição das lo- 
calidades; tinha boa informação; é certo que Sil- 
ves está quasi equidistante do mar a sul e a occi- 
dente. 

— Tem porto sobre o rio (refere- se talvez a Por- 
timão que seria o porto de Silves), e estaleiros — . 



q 



E' bem possível que em Silves se construíssem pe- 
quenos barcos; hoje só com o auxilio da maré os 
botes podem ir atracar a Silves. 

— As montanhas próximas produzem muita ma- 
deira que se exporta — . A serra de Monchique ain- 
da hoje produz madeira para exportação, princi- 
palmente castanho em ripa, vara e barrotes. 

— ^A cidade é bonita, com edifícios elegantes, e 
mercados bem próvidos. 

— A população da cidade, e a das aldeias dos 
arredores, compôe-se de árabes do Yémen, e ou- 
tros, que faliam um dialecto árabe muito puro. Sa- 
bem também improvisar versos; são todos elo- 
quentes e animados, tanto a gente popular como a 
classe mais elevada — . 

O algarvio ainda mantém a sua fama de gran- 
de fallador; é certo que em geral o povo do lito- 
ral é expansivo e gesticulador. 

O povo de Silves está mesclado nos tempos mo- 
dernos; e a cidade longe do littoral. 

Eu vejo no Algarve diíferenças consideráveis, 
que saltam aos sentidos, entre a gente agricultora 
do littoral, e a povoação da parte montanhosa. E 
entre esta mesma ha diversidades. Por exemplo a 
população de Monchique differe muito da de S. 
Braz; e a população da serra algarvia diífere tam- 
bém da gente do Alemtejo meridional. 

Ha outros testemunhos que provam que os ára- 
bes que povoaram, ou se estabeleceram em Sil- 
ves, eram considerados puros árabes do Yémen. 

— Os habitantes dos campos d'esta região são 
extremamente generosos; ninguém os excede a es- 
te respeito. 

A cidade de Silves faz parte da província d^ 
ach-Chinchin (Chenchir, em outros auctores), cujo 
território é afamado pelos figueiraes ; exporta figos 



para todos os paizes do occidcnte; são figos ópti- 
mos, finos, saborosos e de aroma delicado — . 

— De Silves a Badajoz 3 jornadas (engano segura- 
mente; não está em relação com outras distancias). 

— De Silves ao castello de iVlertola 4 jornadas; 
engano também. De Silves a Mertola devem ser 
duas jornadas de cavallo, e a Badajoz, cinco pelo 
menos. 

— De Mertola ao castello de Huelba duas jorna- 
das pequenas (assim deve ser). 

— De Silves a Halc-az-Zawia, porto e aldeia, 
20 milhas. (O Maracid diz que ai-Zawia é o no- 
me de um districto da província de Ocsonoba). 

— De ahi a Sagres, sobre o mar, 18 milhas. De 
ahi ao extremo do Algarve, que entra no oceano, 
12 milhas. De ahi á egreja do Corvo, 7 milhas (é 
o cabo de S. Vicente, antes promontorium sacriim^ 
Florez, Esp. sagr. viii, pag. 186 e seg.) 

— Esta egreja não tem soífrido mudanças desde 
a epocha do dominio christão; possue proprieda- 
des territoriaes, doadas por pessoas devotas, e pre- 
sentes oíTerecidos pelos christãos que ahi vão em 
romarias. Está situada em um promontório que 
entra pelo mar. Sobre o alto do edificio estão dez 
corvos; nunca se deixam de ver ali; nunca se pou- 
de constatar a sua ausência ; os sacerdotes da 
egreja contam a respeito destes corvos cousas de 
maravilhar; duvidar-se-hia da boa fé de quem as 
referisse. 

— E' impossível ir ahi sem tomar parte no lau- 
to banquete que os da egreja oíTerecem; é uma 
obrigação que não muda, um uso que jamais dei* 
xam de observar, e ao qual todos se conformam ; 
é costume muito antigo, transmittido de idade em 
idade, em longa practica. 

Servem a egreja sacerdotes e outros religio- 
sos (monges e leigos?); possue grandes thesouros, 



2 EST. EB. 



IO 



e rendas muito consideráveis, na maioria prove- 
nientes das terras que lhe teem sido legadas em 
diíferentes partes do Algarve. 

— Taes rendimentos servem para as necessida- 
des do templo, dos seus sacerdotes (ou monges), 
de todos os que lhe estão ligados por qualquer ti- 
tulo, e dos forasteiros que o visitam em pequeno 
ou grande numero. 

— D'esta egreja a al-Caçr (Alcácer do sal) 2 jor- 
nadas; de Silves a al-Gaçr 4 jornadas. 

— Al-Gacr é uma bonita cidade de tamanho re- 
guiar, construida na margem do Chetoubar (Sado)^ 
grande rio navegado por muitas embarcações e 
navios de commercio. Pinhaes cercam a cidade 
por todos os lados; construem ahi muitos navios. 

— Esta região é naturalmente muito fértil, pro- 
duz em abundância leite, manteiga, mel e carne 
para talho, 

— De al-Caçr ao mar contam-se 20 milhas; de 
al-Caçr a Yeborah (Évora) 2 jornadas. 

— Esta cidade é grande e bem povoada. Está 
rodeada de muralhas, tem um" castello fort ; (uma 
cidadela) e uma mesquita principal (ou cathedral, 
aljama). Os campos que a cercam são de singular 
fertilidade; produz trigo, animaes, toda a qualida- 
de de fructas e legumes. E' uma região excellente 
onde o commercio é vantajoso tanto em objectos 
de exportação como de importação. 

— De Évora a Badajoz (Bathalioz) a oriente, 2 
jornadas. Badajoz é uma cidade notável, situada 
em planura, e rodeada de fortes muralhas. D'an- 
tes tinha a oriente um arrabalde maior que a pró- 
pria cidade, mas tornou-se ermo em consequência 
das revoltas. 

— Esta cidade fica na margem do Yana (Gua- 
diana), grande rio a que chamam também q rio 
subterrâneo, porque depois de um curso já consi- 



I I 



deravel, levando agua bastante para ser navegável, 
corre em seguida sob a terra, a ponto que se não 
acha uma gota dj su.is aguas; surge mais adiante 
e proseguc o seu curso ale Mertola, e acaba por 
se lançar no mar não longe da ilha de Ghaltich 
(Huelva). . . . (De Coria) a Coimbra 4 dias de ca- 
minho. 

— Esta ulilma cidade está construída sobre uma 
montanha arredondada; esta cercada por boas mu- 
ralhas. fortificad£\ perfeitamente e tem três portas. 

— Coimbra está nã margem do Mondego, que 
corre para occidente da cidade, para o mar; e cu- 
ja foz é defendida pela fortaleza de Montmayor 
(Montemór-o-velho). Este rio dá movimento a 
muitos moinhos, e nas suas margens ha muitos vi- 
nhedos e hortas. O campo do termo da cidade, 
para o lado do mar, a poente, tem muitas terras 
cultivadas. 

— Os habitantes possuem também gados, e são 
contados enlre os mais corajosos dos christãos. 

— De al-Caçr (al-Kassr, Alcácer do sa!), de que 
já se fez menção, a Lisboa, duas jornadas. 

— Lisboa está edificada na margem septentrio- 
nal do rio Tejo; é o mesmo que banha Toledo. A 
largura d'este rio, perto de Lisboa é de 6 milhas, 
e a maré ahi se faz sentir com violência. 

— Esta formosa cidade alastra-se ao longo do 
rio; está cercada de muralhas, e tem uma cida- 
dela. 

— Ao centro da cidade estão as fontes de agua 
quente, que conservam o mesmo calor no inverno 
e no estio. Fica próxima do occeano, c tem na sua 
frente, na margem opposta, o forte de al-Mádan 
(Almada), assim chamado porque na verdade o 
mar lança palhetas de ouro nas areias da margem. 
Durante o inverno os habitantes da localidade vão 
junto do castello buscando este metal, e entregam- 



Í2 



se a tal mister emquanío dura a estação rigorosa. 
E' um facto curioso de que nós mesmo fomos tes- 
temunha. 

— De Lisboa partiram os aveiititreiros^ quando 
fizeram a sua expedição com o fim de saber o que 
ha no occeano, e quaes os seus limites, assim co- 
mo o dissemos mais acima. 

— Existe ainda em Lisboa, próximo dos banhos 
quentes, uma rua chamada dos Aventureiros. 

— Eis aqui como o facto se passou : reuniram- 
se em numero de oito, todos próximos parentes (á 
lettra, primos-irmãos), e depois de ter construído 
um navio mercante, embarcaram agua e viveres 
sufficientes para uma viagem de muitos mezes. 

— Fizeram-se ao mar ao primeiro sopro do ven- 
to leste. Depois de ter navegado durante onze dias , 
ou proximamente, chegaram a um mar cujas on- 
das espessas exhalavam um cheiro fétido e occul- 
távam numerosos recifes, havendo alem á^\sXo pou- 
ca lii^. 

Temendo a morte, mudaram o rumo e corre- 
ram para o sul durante 12 dias, e chegaram á ilha 
dos carneiros., onde inumeráveis rebanhos de car- 
neiros andavam sem pastor, sem alguém que os 
guardasse. 

Desembarcaram n'esía ilha, ali acharam uma 
fonte de agua corrente, e próximo uma figueira 
brava. 

Mataram alguns carneiros mas a carne era tão 
amarga que a acharam imprópria para a alimen- 
tação; só guardaram as pelles. 

Navegaram ainda do{e dias para o sul, e emnm 
avistaram uma ilha que parecia habitada e culti- 
vada; approximaram-se para se informarem; pou- 
co depois viram-se rodeados de barcos^ prisionei- 
ros e conduzidos a uma povoação situada na bei- 
ra-mar. 



i3 



Entraram depois n'uma casa onde estavam ho- 
mens de alta estatura^ e de cor avennelhada ; tinham 
pouca barba e usavam cabello comprido^ não cres- 
po; e mulheres de singular belleza. 

Por três dias ficaram prisioneiros n'um compar- 
timento d'esta casa. No quarto dia chegou um ho- 
mem que f aliava a língua árabe; perguntou-lhes 
quem eram, porque tinham vindo, qual era o seu 
paiz. 

Contaram-lhe a sua aventura; deu-lhes boas es- 
peranças, e lhes disse ser interprete do rei. 

No dia seguinte foram apresentados ao rei que 
lhes dirigiu as mesmas perguntas, e ao qual res- 
ponderam, como já na véspera tinham feito ao in- 
terprete, que elles se tinham aventurado no mar 
afim de saber o que poderia haver n'elle de singu- 
lar e curioso, e de saber os seus limites. 

Quando o rei os ouviu assim fallar entrou a rir, 
e disse ao interprete: Explica a essa gente que meu 
pae mandou em tempos alguns de seus escravos 
embarcados por esse mar.^ elles o percorreram na 
sua largura durante imi mei^, até que a claridade 
(dos céus) tendo-lhes faltado completamente, fo- 
ram obrigados a renunciar a esta van empreza. 

O rei ordenou mais ao interprete de assegurar 
aos aventureiros a sua benevolência, para que el- 
les ficassem fazendo bom conceito d'elle e assim 
foi. 

Voltaram pois á sua prisão e ahi ficaram até 
que, tendo apparecido o vento de oeste, lhes tapa- 
ram os olhos, fizeram-nos embarcar, e navegaram 
algum tempo no mar. 

Navegámos, dizem elles, quasi fres dias e três 
noites, e alcançámos depois uma terra onde nos 
desembarcaram, com as mãos atadas atraz das 
costas, e nos abandonaram n'uma praia. 

Ficámos ahi até ao nascer do sol, no mais tris- 



H 

te estado, por causa dos laços que nos apertavam 
fortemente, e nos incommodavam muito; emfim 
tendo ouvido ruido e vozes humanas começámos 
todos a gritar. 

Então alguns habitantes do paiz vieram ter 
comnosco, e tendo-nos achado n'uma situação tão 
miserável nos desligaram, e fizeram diversas per- 
guntas a que respondemos narrando-lhes a nossa 
aventura. Eram berberes. Um d'elles nos disse: — 
Sabeis a distancia de aqui ao vosso paiz? 

E á nossa resposta negativa ajuntou: d'aqui á 
vossa pátria ha dois me^es de caminho. 

O chefe dos aventureiros exclamou então van! 
asafil (ali de nós !). Eis aqui por que o nome d'es- 
te logar é ainda hoje Asafi. 

E' o porto de que nós já falíamos como sendo 
na extremidade do occidente. 

— De Lisboa, seguindo as margens do rio, para 
oi-iente, até Santarém ha 8o milhas. 

— Pode á vontade fazer-se esta viagem por ter- 
ra ou pelo rio. 

— No intervalloestáa planura de Balata. Os ha- 
bitantes de Lisboa e a maior parte dos de Gharb 
dizem que o trigo que ahi se semeia não fica na 
terra mais de quarenta dias; no fim d'este tempo 
pode ser ceifado. Ajuntam que uma semente pro- 
duz cem, mais ou menos. 

Santarém é uma cidade construída sobre uma 
montanha muito elevada. 

A escarpa do sul é um grande precipício. Esta 
cidade não tem muralhas, e junto da montanha es- 
tá um bairro (arrabalde) construído na margem do 
rio Tejo (é a ribeira de Santarém); bebe-se ahi 
agua de fontes e do rio. Tem muitas hortas pro- 
duzindo fructas e legumes de toda a qualidade. 

De Santarém a Badajoz contam-se quatro jor- 
nadas. 



i5 

A' direita do caminho está Elvas, cidade forte, 
situada junto de uma montanha. No risonho paiz 
que a cerca ha numerosas habitações e bazares. 
As mulheres são de grande belleza. De aqui a Ba- 
dajoz são 12 milhas. 

Ârabes-béjenses 

Os traços geraes da historia da invasão árabe 
na península hispânica, são conhecidos. Tarik de- 
pois da celebre derrota dos godos, marcha até To- 
ledo; Aluza ben Noseir vem em seguida com 
grandes forças, toma Sevilha, encerra os judeus na 
cidadella, põe guarnição na cidade, e caminha logo 
sobre M crida. 

Nas chronicas, e nos historiadores árabes, os 
godos são denominados os bárbaros. Ora vamos 
ver já um facto pouco sabido entre nós: os barba-* 
ros de Sevilha fugiram para Beja. 

Pode suppor-se que alguma força goda, tomada 
a cidade, retirasse para Beja. 

E emquanto Muza vae sobre Mérida, e pára* 
por algum tempo ante as muralhas da velha ci- 
dade que se defende, os de Beja juntam-se aos de 
Niebla; vão sobre Sevilha ; e entram na cidade ma- 
tando a guarnição sarracena. 

Outros dizem que depois de Sevilha, Muza mar- 
chou logo a occidenie, a Ossonoba, que pode ser 
Estoi, ou Faro, porque os escriptores árabes, al- 
guns, chamam a Faro, Santa Maria de Ossonoba 
(Shant-Maria de Ocsonob), de ahi a Mertola, a 
Beja, Évora, Mérida, e depois a Toledo, onde se 
encontrou com Tarik. 

O que é certo é que estando Muza em frente de 
Mérida recebeu a noticia do ataque de Sevilha pela 
gente de Beja e Niebla; e destacou logo o filho 



i6 



AbJuI-Azzís, com tropas bastantes para reprimir o 
movimento. 

Creio que este facto não é muito conhecido; elle 
ficará bem nos gloriosos annaes do municipio pa- 
cense. 

O paiz entre Tejo e Guadiana teve sempre im- 
portância na vida politica dos árabes. Badajoz, 
Évora, Beja, Alcácer, Mertola e Silves apparecem 
frequentemente na historia do dominio agareno. 
De facto basta olhar a carta da península para nos 
convencermos de tal importância, logo que Sevilha 
e Mérida occupem logar eminente no dominio da 
península como succedeu principahrjente nos sécu- 
los II a id. 

Ainda em 1 144, já em frente por assim dizer 
constantemente das algaras christans, os árabes nas 
suas guerras civis disputavam entre si a posse de 
Beja. 

N^esse anno os partidos de Almondar e Sid-Ray 
bateram-se cruelmente, ganhando e perdendo al- 
ternativamente a cidade. 

Por fim ficou Aben-Cosai, senhor ou wali de 
•Beja. 

Este Aben-Cosai é mahratado pelo famoso es- 
crlptor Al-Makícari porque teve muitas relações com 
D. Affonso Henriques, o tirano Aben-Errik, wali 
de Colimbria. 

Em 1 145, Mohamed Sid-Ray toma outra vez 
Medina Beja, e faz prisioneiro o Aben-Cosai. E 
depois mezes apenas, apparece Abdalá ben Samail, 
retoma Beja, e a gente de Almondar e Sid-Ray 
foge até Sevilha. 

Nos fins do sec. 1 2 as refregas entre estes e os 
christáos tornam-se cada vez mais frequentes. 

A entrada de Jacub Almanzor com enorme mul- 
tidão de almohades, alárabes e andaluzes, devasta 
o território de Xelb (Silves) até a Abu Danes (AI- 



^7 

cacer ben Abu Danes, Alcácer do Sal), e o termo 
de Medina Beja. 

E ainda em I23i-i232 apparece um béjense 
celebre entre os mouros pelos feitos militares; é 
Abu Mervan Al-Baji, chefe de uma grande revolta 
contra Ibn-Hud; Mervan com o seu partido ficou 
senhor de Sevilha em 629 da Hégira. 

Isto em resumo do que se pode encontrar nas 
chronicas árabes a respeito de Beja, e resumo muito 
condensado. 

Peço licença para apenas lembrar aqui as bellas 
estancias de Camões, 64,75, 76 e 85 do cant. 3." 
dos Lusíadas que se referem á conquista do Alem- 
tejo, e á expedição feita por D. Sancho em 1 178, 
para descercar Beja. 

Al-Makkari (Traduc. Gayangos, vol. i.° pag. 60) 
refére-se a Beja nos seguintes termos: Beja é 
a capital de um dilatado território que durante a 
dynastia dos Beni-Abbad formou parte do rei- 
no de Sevilha. E' famosa pelas suas alcaçarias 
e pelas manufacturas de algodão. Neste território 
ha minas, mesmo de prata, e tem além disto a glo- 
ria de ser pátria de Al Miiatamed Ibn-Abbad — . 

Casiri foi um arabista muito distincto que ainda 
conheceu completa a grandiosa coUecção dos có- 
dices árabes do Escurial, e os descreveu miuda- 
mente. 

Foi nesta obra que o illustre Félix Caetano da 
Silva colheu as suas notas sobre escriptores árabes 
naturaes de Beja, que vamos apresentar. 

Os mss. de F. C. da Silva estão hoje na Biblio- 
theca Nacional de Lisboa; foram comprados no 
leilão dos livros e papeis de José Silvestre Ribeiro. 

I Noticia de todos os auctores de que ha me- 
moria pertencentes a Beja. 

II Noticia geral de todos os autores de que ha 
memoria pertencentes a Beja assim antigos como 

3 EST. EB. 



i8 



modernos; a saber: árabes, godos, e portuguezes. 

Extrahida das bibliothecas arabico-hispaua Es~ 
curialense de D. Miguel Gasiri; Lusitana do abba- 
de Diogo Barbosa Machado e de outros autores e 
documentos dignos de credito, por Félix Caetano 
da Silva, natural da mesma cidade, e autor das 
Memorias históricas d'ella, para se incorporar nas 
ditas Memorias em seus lugares. Anno de 1802—. 

E' a pag. 3 que principia a relação dos autores, 
que vamos transcrever fielmente; respeitando em 
tudo o trabalho do illustre e benemérito béjense; 
fazendo porém algumas observações que julgamos 
úteis e indispensáveis. 

— Autores árabes pertencentes a Beja, da perda de 
Espanha em 71 1 por diante: e de que faz menção 
Gasiri na Bibliotheca Arabico-Hispana Escurialen- 
se, tomos i.° e 2.° extrahida d'ella com immenso 
trabalho a sua noticia. 

■ 1.° 

Abi Abdallá Albagéo, foi oriundo de Beja, e 
floresceu no fim do oitavo século da Hégira, (a hé- 
gira corresponde a 622-623 de Ghristo) ou princi- 
pio do nono (?) Escreveu um appendice ao co- 
mentário que havia escripto o árabe Jacobo Ben 
Said Almokelati, cordovense, sobre o poema La- 
miat, de que faz menção Gasiri, Bibl. t. i.° cod. 
16. pag. 5. 

2.* 

Ahmad ben Mohamad Ben Ali Ben Nomari ebn 
Munis Albégiani. Foi natural de Beja, e não se 
sabe em que tempo íloresceo. Gompòs um tratado 
em letras cuphicas, dividido em três partes ; cujo 
titulo traduzido do árabe na lingoa latina é o se- 
guinte := De origine ac significatione literarum al- 
phabeti arabice=. 



19 

Existe o mesmo incompleto na Real Bibliolheca 
do EscLirial; e delle extrahio Casiri as interpreta- 
ções e significações galantes e celebres que o autor 
dá ás letras do referido alphabeto árabe, que de- 
vem ver-se. Vide a Biblictheca do mesmo Casiri, 
TomT 1." codex. XXXV pag. 9 e lo. 



Abu Baker Mohamad Ben Abrahin Alamari Al- 
carschi. Foi natural de Beja, grande orador e como 
tal floreceu na cidade de Silves, no Algarve, onde 
residiu e morreu. Não se sabe em que tempo vi- 
veu, isto é, as datas certas do nascimento e morte. 

Consta sim mais que foi também excellente poe- 
ta, e como tal compôs o seu epitaphio em versos 
para ser, como foi, gravado sobre a sua sepultura. 
Vide Casiri, T. i.° cod. CCGLIV, pag. 95. 

4- 

Abu Abdallah Mohamad. Foi natural de Beja, 
e se julga floresceu no sec. VI da Hégira. Delle se 
faz menção como poeta celebre nas odes na colle- 
ção feita pelo douto Mohamad Ben Assaker. Cod. 
436, em Casiri, T. i.** pag. 127. 

5.» 

Maleki Ben Anes. Natural de Beja, famoso pro- 
fessor de direito canónico, em a qual faculdade es- 
creveu uma obra, sobre a qual se fizeram uns com- 
mentarios, que divididos em três tomos formam o 
cod. 981 de Casiri. Trata essa obra das seguintes 
matérias : de matrimonio; de diportio e de mitricibiis. 

Casiri, T. i ." pag. 445. 

Esta obra em Árabe se chama Maceta^ que este 
era o seu titulo. 



20 



O anonymo pacense de que se faz menção em 
3.° lugar entre os de que trata o cod. 1 102 de Ca- 
siri, T. i.° pag. 462, por este modo — Pacensis, 
siimine júris consulti^ de jure hispano dissertatío. 

Ahmad Ben Said, famoso jurisconsulto, natural 
de Beja. Ignoram-se as datas precisas de nasci- 
mento e morte. 

Escreveu uma obra em caracteres cuphicos, que 
forma o cod. 1 127 de Casiri, juntamente com ou- 
tra de Averroes. Casiri, T. i.° pag. 466. 

8.° 

Abu Mohameti Abdallá Ben Mohamad Ben AI- 
saied. Natural de Beja, grande theologo, floresceu 
no sec. 8.° da Hégira, em que compoz em lettras 
cuphicas uma obra theologica, que é o codex i 5 i3 
de Casiri, T. i.*^ pag. 524. 

9-' 

Soliman Ben Khalaph Ben Sad Ben Aiub Aeta- 
gibi, vulgarmente chamado Albuvallid Albagi. Foi 
natural de Beja; nasceu no anno 403 de Hégira, 
que corresponde a i o 1 2 de Christo. Era filho de pães 
illustres que o mandaram educar muito bem, se- 
guindo especialmente os estudos de jurisprudência 
em que foi consumado, e como tal fez em a cidade 
de Córdova muitos progressos e grande figura, che- 
gando a ser na mesma cidade cadi ou alcaide ou 
pretor; passou depois a Almeria onde morreu, dei- 
xando escriptos alguns livros egrégios de direito. 
Falleceu em 1081 de Christo. Casiri, T. 2.° cod. 
1622, pag. 142. 



21 



I0.° 



Abdallá Ben Mohamad, vulgo Albagi. Natural 
de Beja, professor de direito, que por muitos an- 
nos ensinou em Sevilha, onde falleceu em 878 da 
hégira. 

Casiri, T. 2.° cod. 1621, pag. 187. 



ii.« 



Soliman Ben Mokamad Ben Batal pacence. 

Grande professor de direito, que ensinou em 
Córdova; escreveu muitas obras, mencionando-se 
mais especialmente uma de júris institutionibus. 

Foi também excellente orador e poeta. Morreu 
em Iliberi em 404 da Hégira. Casiri, T. 2.° cod. 
1622, pag. 141. 



12.*' 



Mohamed Ben Ahmad Abu Baker Allaisi: Na- 
tural de Beja, de familia muito nobre e reputado 
como nobilissimo escriptor entre os historiadores. 
Casiri, cod. 1735. T. 2.° pag. 164. 

E.ste escriptor viveu quasi sempre em Sevilha, 
e ahi morreu em 542 da Hégira. 

Albagéo, Albégiani, Albagi, indicam a naturali- 
dade, Beja, ao uso árabe. 

Por estas singelas notas se deixa ver o grau de 
cultura que os bejenses attingiram no dominio a- 
labe. Por entre as crises politicas, tantas vezes vio- 
lentas, ao lado das suas fabricas notáveis de cor- 
tumes e tecidos, parece que floresceu ahi alguma 
escola de scicncias e letras. 

Silves, Faro, Alcácer, Santarém e Évora tam- 
bém apresentam alguns nomes de escriptores ára- 
bes, de que restam obras. 

Ha trabalhos modernos, de Dozy, de Hoogvliet, 



22 

etc, sobre alguns d'esses escriptores ; ao celebre 
Ibn Abdun, o poeta eborense, os dois mencio- 
nados críticos dedicaram extensos estudos, ain- 
da bem pouco conhecidos em Portugal. 

Ibn Abdun 

O famoso poeta eborense é mencionado em Ca- 
siri (Bibliotheca arabico-hispanaescurialensis, ope- 
ra et estúdio Michaelis Casiri, Madrid, 1760, 2 
vol. in-fol.) 

i.° vol. n.° 272. Abi Mohamad Abdelmagid Ben 
Abdiím, poeta hispanus celebenimiis^ qiii in oppido 
Ebiira anno Egiras 52g decessit. 

E' noticia referente ao poema de Ibn-Abdun so- 
bre os Beni-Alaphtas. 

Ao mesmo poeta arabe-eborense ha referencias 
no vol. 2.° sob os n.°* i653 e 1769. 

Ha livros especiaes de Hoogvliet e Dozy, cujos 
titulos vou indicar, Specimen e litteris orientalibus 
exhibens diversorum scriptorum locos de regia Aphta- 
sidarwn família et de Ibn zábdiín poeta . . . ad pu- 
blicam disceptationem proponit Marimis Hoogvliet. 
Lugduni Batavorum apud S. & J. Luchtmans, 
1839, in-4.'' 

Commentaire historique siir le poême d'Ibn-Ab' 
doiin, par IbnBadrowi, Tiiblié poiír la premiére 
fois, precede d\me introduction et accompagné de 
notes, d'im glossaire et d'im índex des noms propres 
par R. P. A. ^Doiy. Luchtmans, 1846, in-8.° 

Comprehende o commentario em francez, notas, 
e o texto árabe. 

No catalogo dos manuscriptos árabes do Escu- 
rial (Zes mamiscripts árabes de rEscurial. Paris, Le- 
roux, Tom. i J"' 1 884), do sr. Hartvmg Dcrenbourg, 



23 



pag. 1 67, n." 274, vem mencionado o — Livro con- 
tendo o commentario sobre o poema do visir, es- 
criptor lettrado e historiador Abou Mohamad Abd 
ai Madjid Ibn-Abdoun ; este commentario tem por 
autor o jurisconsulto Abou Marwan Abd ai Ma- 
lik ibn Abd Allah Ibn Badroun^ de Silves, originá- 
rio do Hadramaut. 

Os «magrnrinos» de Lisboa 

O sr. D'Avezac escreveu um livro muito valioso 
sobre as ilhas africanas, que íaz parte da grande 
collecção geographica VUiiivers (L'Univers pitto- 
resque. Histoire et descripiion detous les peuples. 
lies de TAfrique par M. D'Avezac. Paris, Didot, 
1848). 

E' na segunda parte d'este volume que ha noti- 
cias minuciosas sobre as ilhas africanas do Ocea- 
no Atlântico. 

A pag. 1 5 -conta do nobre geographo Edrisi. 

A pag. 1 16 tratando das antigas noções sobre o 
archipelago da xMadeira, diz da viagem dos famo- 
sos (£Maggroiiry'n que partiram de Lisboa. 

Avezac opina que esta viagem se date do sec. 
VIII até o sec. XII. E' claro; os árabes entraram 
na península no s>izc. VIII, e Edrisi viveu no sec. 
XII. 

Da narrativa de Edrisi não se pode concluir a 
data approximada da navegação dos aventureiros; 
mas o que é verdade é que elle se refere a uma 
tradição, como de cousa passada de ha muito. 

Na versão da geographia de Edrisi feita por A. 
Jaubert, c no tomo 2.° pag. 26 que vem o caso 
dos magriiruios. 

Foi o sr. Ahmed-Zeki, doCairo, cavalheiro mui- 
to illustrado, que me disse da opinião, a que já al- 
ludi, de alguns sábios mussulmanos, sobre terem 
os magruriíios de Lisboa chegado á America sep- 
tentrional e conhecido os pelles vermelhas. 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS KBOHEHSKS 

Pistão publicados : 
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro.- — 2." Évora ro- 
mana. O templo. As inscripçóes. ^- 3." A Casa pia. — 4.° Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5." Biblioiheca Publica. Noticias das 
collecções. — 6." Conventos do Paraíso, Santa Clara e S. Bento. 
, — 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9." 
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1 ." A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — ri." O archi- 
vo municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.°, i5.° e \6.° 
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — ly.^Evo- 
ra e o LUtramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.", iQ.°, 20." e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nos Lusíadas. — 24." Pro- 
cissões eborenses. -—25." Exposições de arte ornamental. — 
26.° Antiguidades romanas em Évora e se'j« arredores. — 27." 
Roteiro d'um eborense.- — -28.*^ Universidade de -Évora. — 29.*" 
As caçadas, i.^ parte. — 3o." Évora e o ultramar, 2." parte. — . 
31." Ibn Abdun. — 32." Cs mouros. 

A' venda em Lisboa na livrai^ia Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'Eyora 

Estão publicados : 
i." PARTE — Foraes, co,stumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XÍV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João i.°. Etc. 
I vol. de 202 pag. in-4.° — i^tSoo réis. 

2." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV^ Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in-4.° ^213^200 réis. 
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor ,J. 

F. Pereira Abranches, praça do Geraldo^ Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos., em casa do editor Abran- 
ches. 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSE' 



iffistoria — (Arte — (Archeologia 



j^S CA.QA.IDJLS 



2." PARTE 

O r.OBo 



o ANIMAL. O RAFEIRO. O LOBO NAS ANTIGAS LEIS. AS MONTERIAS. 

O REGLMENTO DOS MOSTEIROS. OS CERCOS. 

AS COMr'ANHIAS DE ÉVORA E TERMO. PLANOS DK CERCOS. 

A TROPA DE LINHA NAS MONTERIAS. PAPEIS OFFICIAES DOS MONTEIROS 

DE ÉVORA. MIRA, O ULTIMO GRANDE CAÇADOR 



®® 



ÉVORA 

iVlTNEFl\OV EeOFlENSE 

BE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor da casa real 

62 — Rua Ancha— Õ4 

1893 



GABRIEL PEREIRA 



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{Historia — Arie — ^rcheologia 



j^S CJLÇJ^IDA.S 



2.* PARTS 

O LOBO 



o ANIMAI.. O 1<.\FK5R0. O I.030 NAS ANTIG.\S I.EIS. AS .MONTERIAS. 

O KEGl.MENTO DOS MONTÍCIROS. OS CERCOS. 

AS COMPANHIAS DE EVOÍIA E TERMO. PLANOS DE CEKCOS. 

A TitOPA DE MNHA NAS MONTERMS. PAPEIS OFFICIAES DOS MONTEIROS 

DE EVOKA. M [<A, O ULTIMO G'<ANOE CAÇADOR 



i^V-í 



ÉVORA. 
A\ I X íc F5. \' . \ !•: i-{ 1 1 rc N S K 

DE JOAQUIM JOjc baptista, impressor oa oa3a «eal 

ó.» — Rn I Aiiclia — 64 

1893 



n 



ESTUDOS EBORENSES 



As caçadas 



o lobo 



O lobo é um animal extraordinário. A civilisa- 
ção encurralou o urso nos ermos fragosos das gran- 
des serranias, ou nas espessuras das maltas; ba- 
teu o leão para os desertos, exterminou na Euro- 
pa todos os grandes felinos; e lucta, e luctará ain- 
da por muito tempo com o lobo, o eterno inimigo. 

E' o animai dominante no hemispliçrio norte; 
habita na Europa, na Ásia, na America septenlrio- 
nal; ha lobos na Rússia e na Arábia; na Groen- 
lândia e no México; nas montanhas, nas selvas, 
nas charnecas, nos alagadiços; está á vontade com 
os climas; muda um pouco na côr, afina o pello 
com a côr do paiz; é mais forrado, tem o pello 
mais espesso nos climas frios; tem menos pello, 
e é mais escuro nos paizes do sul: varia um tanto 
na estatura, mas o typo é inconfundivei, o canis 
lúpus tem uma individualidade bem definida. 

Vive isolado ou faz alcaléa, caça á noite mas 



lambem nttaca de din, matta um viiello c appro- 
veita o coelhilo, o ralo da ribeira; vê, ouve, fareja 
admiravelmente; é rapidissinr.o na carreira, dá sal- 
tos formidáveis, é intelligente e no maior perigo, 
no meio da matilha furiosa, elle conserva o sau- 
gue frio. Tem todos os recursos de vida. 

Quando o pobre ser humano da idade da pe- 
dra lascada se embuscava para ferir a presa, en- 
controu um rival no lobo. Quando o homem, já 
'num triumpho enorme, descobriu a maravilha da 
domeslicidade de alguns animaes, o lobo subiu de 
rival a inimigo declarado, constante, temivel. 

Se as alcatéas de lobos são capazes de atiacar 
as manadas de bisões e buífalos! E o lobo isolado 
salta de improviso e arrebata o cordeiro e o chi- 
bo, 'num abrir e fechar d'olhos, a dois passos do 
pastor, vendo-se apenas o movimento da moita de 
estevas ou de urze, porque elle calcula o ponto de 
espera, a altura do matto, e antes de saltar ou par- 
tir já sabe por onde hade fugir occultando-se me- 
lhor. 

E' o pesadelo do pastor. 

E' o grande inimigo do aiya^ da nossa brilhan- 
te familia aryana, diz Pictet. E' perfeitamente cer- 
to que na vida pastoril, perante o rebanho, o lobo 
é o grande inimigo. 

E' o devastador, o voraz, o cruel, o despedaça- 
dor, como lhe chamam os povos por essa historia 
fora. 

Elle a única fera que' para comer um cordeiro 
estrangula quarenta, que attaca raivoso, aboca- 
nhando, mordendo, sacudindo em inútil ferocidade. 

— Livrae-nos do lobo^ livrae-nos do lobo! co- 
mo se diz no Rig-Veda. 

As velhas mithologias, as veneráveis historias 
antigas estão cheias da lenda do lobo. O olhar do 
lobo fascinava. Já Plinio tratava de netas muitas 



cousas que corriam entre o povo a respeito de lo- 
bos; e ri -se da credulidade grega a propósito do 
caso de Etantho (Hist. Nat. iiv. viii. cap. 34). 

Plinio ria-sc dos casos de lobos ha 19 séculos, 
e ainda continua a lenda, ainda se falia do lobis- 
homem, da magia d'aquelle olhar. 

Inventado o rebanho o pastor teve de descobrir 
o cão para combater o lobo; o cão pelo faro, vista 
e ouvido descobre o lobo, pelo latido avisa o pas- 
tor e põe alerta a rez, mas raras vezes consegue 
bater o lobo. 

Para que o rafeiro, o grande rafeiro do Alemte- 
io, não seja victima, é preciso armal-o com a col- 
ieira de puas. Porque o lobo procura logo a guela 
para sangrar ou o pescoço para pegar e sacudir 
até partir a columna vertebral. 

O lobo é vulgar ainda no nosso paiz, não tem 
sido possível exterminar este animal apezar das 
montarias, das leis, dos prémios municipaes, da 
moderna espingarda, da progressiva limpeza das 
terras. 

Adulto, em completo desenvolvimento chega a 
ter i,'"2o de comprimento, até á raiz da cauda; 
i,'"6o com a cauda. 

Tem o, 7o a 0.80 de altura. 

Dizem que chega a ter 54 kilos; 40 a 46 kilos é 
peso vulgar. 

Pôde viver vinte annos. 

Mesmo á simples vista ha diíferenças funda- 
mentaes entre o lobo e o cão. 

A cabeça é larga na parte superior, especial- 
mente entre as orelhas; estas são direitas, abrindo 
bem o pavilhão para a frente; os olhos são obli- 
quos relativamente ao focinho (esta provavelmen- 
te a origem das lendas sobre o olhar do lobo), 
emquanto que no cão são horizontaes; o irise 



6 



amarello lorraJo; os maxillares, compridos, abrem 
mais que no cão, sendo maior também a fenda da 
bocca ; os músculos de deante são fortíssimos; a 
parte trazeira é mais fraca e decahida todavia é 
capaz de forte impulsão, porque õ lobo dá saltos 
enormes em altura e comprimento. 

Uni lobo salva facilmente uma altura de dois 
metros. 

E' menos ílexivel, tem a «íspinha mais hirta que 
o cão. 

No forte pescoço, na linha do dorso os pellos 
são mais compridos e fortes; o pello do lobo é 
amarello torrado com a extremidade negra; em se 
irritando eriça-se e fica mais escuro. 

A loba pôde ter filhos duas vezesno anno; a 
gestação dura 63 dias. 

Pôde ter 4, 5, 8 e dizem que até i3 filhos. Os 
cachorros nascem cegos conservando os olhos fe- 
chados nos primeiros dias. Se desconfiam que al- 
guém descobriu o covil, elles mudam os filhos; sa- 
hindo ou entrando não seguem caminho direito ; e 
caçam ao longe; se houver ou se passarem reba- 
nhos próximos do covil, elles não fazem presa n'es- 
ses rebanhos. 

Quando os cachorros teem já alguns dias, do co- 
vil sáe um cheiro tão particular que os cães o per- 
cebem ás vezes a distancia. E' facii também imi- 
tar o uivo do lobo, e nas primeiras horas da noite, 
quando os pães estão na caça, ir ao sitio de que se 
desconfia, e repetir os uivos; os cachorros respon- 
dem e assim se pode descobrir o covil. 

Pelas pegadas distingue-se o lobo do cão ; no 
lobo são mais apertadas, em comprimento egual a 
pata do lobo é mais delgada que a do cão. 

E' fácil o cruzamento da loba com o rafeiro. O 
lobo tem a raiva, mas parece certo que se isola 
quando raivoso, e não morde nos outros, lembre- 



se o dictado lobo não morde lobo, mas vem mor- 
der nos cães e nos rebanhos. E' perfeitamente cer- 
to que o lobo raivoso morde dezenas de rezes 'num 
minuto se o rafeiro não consegue dominal-o. Se o 
lobo estiver damnado o pastor tem de matar de- 
pois o pobre e fiel rafeiro, ferido na lucta. 

E' o voraz, o dcspedaçador ! 

O rafeiro é o nosso cão para lobos; propria- 
mente é o cão para defender o rebanho contra o 
ataque do lobo, e para luctar com este. 

O rafeiro arma-se com uma larga e fone collei- 
ra com puas salientes. Talvez educando o rafeiro 
se conseguisse obter o cão para descobrir, seguir 
e deter o lobo, um cão de caça emfim. Em Fran- 
ça, na Áustria, na Rússia ha matilhas bem prepa- 
radas, de raça apurada, e bem treinadas em des- 
cobrir rasto e farejar, o que é fácil porque se po- 
de ter e crear o lobo. como se cria o cão e assim 
habituar a matilha a conhecer e a farejar o lobo. 

(Le Couteulx de Canteleu, Manuel de \énerie 
française. E' um livro moderno, elegante, de spo^t, 
que tem dados preciosos para o apuramento dos 
cães de caça). 

O bom fr. João Pacheco, no seu óptimo Diver- 
timento erudito (Tom. i ." Animaes) conta das len- 
das do lobo, de como tolhe a voz ao homem se 
elle o vê primeiro; e se é o homem que o vê pri- 
meiro então o lobo esmorece. Tudo o que piza 
morre; as plantas mirram-se. E' ta! o ódio de lo- 
bos a carneiros que se 'numa rebeca se puzeruma 
corda de tripa de carneiro e outra de lobo a pri- 
meira não soa! Ao mesmo tempo o pó do intestino 
é óptimo para collicas! 

Já no Glanvilla, na celebre encyclopedia me- 
dieval de Bartholomeu Anglo de Glanvilla. intitu- 
lada — De proprietatibiis reruni^ — se contam e.>>tas 



8 

lendas dos lobos, e elle cita as velhas autoridades 
gregas e romanas a este respeito. 

DiíTére também o lobo do cão na voz ; o Crâo 
tem uma escala muito mais vasta, intensa e va- 
riada. O grande latido grave e forte do rafeiro é 
muito notável. Todo o cão ladra, late, gane, uiva 
e rosna; o lobo uiva e rosna, tem um pequeno la- 
tido raro e rudimentar; e produz um ruido parti- 
cular batendo as queixadas com força. 

O lobo maior que está actualmente (maio) no 
Jardim Zoológico produz ás vezes um gemido tre- 
mulo, intermittenle, que recorda o regougo da ra- 
posa, mas pouco intenso. 

Este lobo é um bello exemplar, está fechado em 
largo espaço onde elle passeia constantemente, no 
mesmo trilho; passeio de fera; os cães nunca pas- 
seiam de tal modo. Ct)mo os cães os lobos teem 
medo das pedras, procuram-nas e mordem nas; e 
apanham no ar um bocado de pão. 

El-rei D. Sancho i era homem de sport a valer; 
audaz nos coníiictos arrfiados, dado aos galanteios 
amorosos, amigo do campo, e enthusiasta da ca- 
ça. Se elle até obrigava os clérigos a sustentarem- 
Ihe os cães e as aves de caça d'altenaria ! 

Ha também uma lei de D. AtTonso ii. de 121 i, 
que é muito curiosa; refére-se aos que davam al- 
javas para as aves: — T^orque os mesquinhos som 
atormentados sem razom quando som constrenjudos 
a dar aljavas que nós havemos mester para nossas 
aves. IPorem quitamolos pêra todo sempre. . . 

(E' a lei XVI, de 121 1, do reinado de Aífonso 11. 
Port. mon. hist. Leges et cons. pag. 172. 

Sobre a disposição de Sancho i, veja-se a noía 
de A. Herculano no Toin. n da Hist, de Porl. pag. 
i34 da I.* ed. 1847). 

AíTonso II livra os mesquinhos.^ a gente meuda, 



9 

do imposto das aljavas, o que prova que já não 
era necessário no seu tempo; era um imposto an- 
tigo, tradicional, que a practica mostrara inútil. 

Leis da caça, leis da civilisação. 

Ainda no século xiv o serviço das montarias en- 
trava em vários pontos do paiz no rol dos serviços 
pessoaes, da contribuição de trabalho, então ex- 
traordinariamente mais pesada do que presente- 
mente. 

Certos caseiros do mosteiro de Santo Thyrso 
eram obrigados a geira, rogos, etc. e a lobos, quer 
dizer, a ir a montarias (Viterbo, íZlucidario, na pa- 
lavra lobos). 

Nas Ordenações affonsinasha urn titulo inteiro a 
respeito do monteiro moor e cousas que a seu offjcio 
pertcencem. E' no livro primeiro, o titulo 67. 

São leis que se referem ao tempo de D. João i 
e assentes, depois de consultado Vicente Esteves, 
a esse tempo monteiro moor da montaria de Santa- 
rém, sobre os foros de monteiros de cavallo, mo- 
ços do monte, e escudeiros que tiverem cães, e so- 
bre os limites da coutada velha. 

Trata das coimas dos que matassem porcos e 
bácoros nas coutadas, dos fogos postos nas matas, 
das armadilhas. 

Lopo Vasques ahi apparece mencionado como 
monleiro-mór. em tempo de D. Duarte, me parece. 

Também se falia dos cervos e cervatos mortos 
(§ 4."), e da madeira grossa que se í7 jo/ro tire com 
bois, uso que se tem perdido, porque de ha muito 
está em voga na maior parte do paiz o carro de 
rodas. 

O alvará de que fallo é de 1435, feito em Cin- 
tra; tempo de D. Duarte. 

E' curioso o g 8." O monteiro-mór, e os moços 
do monte, e os monteiros de cavallo, e os escudei- 



TO 



ros d'E]-R«jy, e os moços díi camora do dito Se- 
nhor, que tivessem cães do dito Senhor, houves- 
sem sempre dos mouros de Lisboa esta louça que 
se segue, a saber, hum pote com hum cobertor, e 
hum púcaro e hum alguidar, que leve hum pote 
d'augua, e hua panella com seu testo, e hua tigel- 
]a com hum cobertor, c hua enfusa comhuaalmo- 
talia, e hum candieiro. . . 

E' que os mouros também em Lisboa tinham o 
exclusivo da olaria. E o candieiro? é possível que 
fosse de latão, porque entre os mouros também 
havia fundidores de metaes, mas é possivel tam- 
bém que seja ainda a candeia de barro, a velhíssi- 
ma lucerna. 

O que então se chamava a coutada velha, onde 
era tiefeso o matar porcos moníezes era um terri- 
tório enorme, talvez a quinta parte do paiz. O ter- 
mo de Montemor o Novo também era coutado, 
para porcos montezes; e no território entre Évora, 
Monsaraz, Redondo e Portel as matas que se se- 
guem : 

— Primeiramente dês o pego do lobo á mouta 
do Perichalvo, e dês y á ribeira do almo, e dahi 
á cabeça das fasquias e dhi ao paço da Pedra al- 
çada, e dhi indo per "a ribeira da aroeira á ribeira 
do Freixo, e pela ribeira de Bemcasadi á mouta 
da cega, e dês y ao pego do lobo. Todos estes mon- 
tes deste couto a dentro som coutados de porcos, 
e porcas, bácoros, e bácoras montezes, e de fogos, 
e armadilhas; e qualquer que errasse em cada hua 
d'estas cousas, que pagasse quinhentas libras da 
moeda antiga; e esto em tempo d'El-Rcy Dom 
Joham, 

Refére-se a D. João i.*' 

O g 17 é muito interessante no nosso ponlo de 
vista: Qualquer que matasse usso per toJooRey- 
no sem mandado d'El-Rey, pagava mil libras de 
boa moeda. 



I I 



NaJa de confundir estas libras com as estreli- 
nas, hoje tão apreciadas. 

Esta disposição a respeito do wíjo, ou urso, mos- 
tra que este animal era já pouco vulgar em tem- 
po de D. Duai íc, ou começo do reinado de D. Af- 
fonso V. 

Pouco vulgar, julgo, em logares practicaveis, 
porque nos ermos montannosos do norte do paiz 
o urso viveu até aos tempos modernos. Em in- 
verneiras de muitas neves, ha 5o annos. mais ou 
menos, ainda os pequenos ursos das Astúrias che- 
gavam ás montanhas do Minho e de Traz-os- 
Montes. 



iMas aqui temos agora um titulo das Ordena- 
<;6es Aífonsinas bem frisanle ; é o tit. i.xviiii. do 
Li v. i .° Das duvidos que Vasco Fernandes, e Joham 
de Basto movcrom a El-Rey Dom Joham sobre a 
apuraçom dos beesteiros e gualliotes. 

Trata-se da organisação do recrutamento da 
força terrestre e maritin^a, nas localidades, como 
diriamos hoje; galiotes são os marilimiOs chama- 
dos a servir nas galés. 

Ora o ^ 4.° da ordenação diz: Em alguns loga- 
res da costa do mar, e dos rios, galiotes som cons- 
trangidos pelos concelhos pêra correrem os lobos 
cada sábado, nom embargando, que som escusa- 
dos dos encarregues do Concelho. Mandadesese- 
rom dello escusados. 

Diz El-Rey, que sejam escusados de correr os 
lobos, salvo se teverem guados, que entam os vão 
correr com os outros. 

De modo que iam correr os lobos aos sabba- 
dosl todos os sabbados! pois na lei não se marca 
mez ou estação. Acho notável, para haver muitos 
lobos é preciso haver muita caça, ou muitos ga- 
dos; não é muito difficil, com os cães, ou mesmo 



1 2 



sem elles, achar as creações, os cachorros dos lo- 
bos. 

Parece-me montaria demais. O faclo de ser o 
sabbado o dia escolhido é natural ; não se ia ao 
domingo por não perder a missa. 

Em alguns pontos do Alemtejo se as montarias 
eram marcadas em periodos de trabalhos agrico- 
las mais intensos, quando não fazia conta perder 
jornas e dias de trabalho, faziam montaria aos do- 
mingos, começando a marcha ás 5 ou 6 horas, in- 
do os parochob celebrar as missas na madrugada. 
Isto ha poucos annos. 

Mais antigamente eram em dias de semana, 
pagando jornas; o trabalhador não perdia, mas 
perdia o lavrador ás vezes um dia de trabalho pre- 
cioso por causa do tempo, e da rotação dos seus 
serviços. 

O regimento úos monteiros 

A montaria mór do Reino esteve regularmente 
organisada, com a sua secretaria, livros de regis- 
to, e regimentos geraes ou parciaes. Os officios 
das Reaes Coutadas, e das montarias mores do 
Reino tinham seus privilégios e isenções. 

Ainda em 175 1 esses privilégios foram confir- 
mados por Decreto real. Tenho á vista esses do- 
cumentos, em treslado autheníico, passado em 
1820, que pertenceu ao monteiro-mór de Kvora. 

Vou transcrever o : 

Regimento dos Monteiros -mores 
das montarias dos lobos, e mais 1)101103 das comarcas 

do Reino 

Capitulo i ." 

Primeiramente tanto que os IVIonteiros-móres 
das montarias dos lobos e mais bichos, cada um 
per si, tiverem cartas passadas pela chancelaria 



i3 

em nome de Sua Magestade, que Deos Guarde, e 
assignadas pelo Monteiro-Mór do Reino, irão logo 
jurar ás Gamaras das cidades ou villas que forem 
cabeças das ditas comarcas, de fazerem o serviço 
do dito Senhor, e bem commum dos povos, fa- 
zendo-se assento nos Livros d'ella, e por elles as- 
signados, na forma que nas taes cartas lhes é de- 
clarado. 

Capitulo 2.» 

Mettidos de posse os ditos Monteiros-Móres pe- 
la maneira sobredita, logo com muito cuidado pro- 
curarão saber, se nos logares de suas comarcas ha 
lobos ou outros bichos que façam, prejuizos aos 
povos das vilias ou logares de suas comarcas, e 
sabendo que os ha ordenarão fazerem montaria 
para atalhar os damnos que os lobos fazem, o que 
farão na forma seguinte, 

CAPiTai-o 3.* 

Assentarão o dia ou dias em que se ha de fa- 
zer a dita montaria, e o mandarão publicar, nas 
praças das ditas cidades, villas, ou logares das co- 
marcas, que a lodos seja notório, e os logares mais 
conjunctos onde houver juizes, lhe farão saber por 
precatórios, e não os havendo, lh'o noleíicarão por 
mandados, pondo n'élles as pennas que lhe pare- 
cer a qual não passará de duzentos réis, por se 
não dar opressão aos povos das ditas comarcas. 
As ditas montarias se farão pelas oitavas do Na- 
tal e pelas da Paschoa. 

Capitulo 4." 

E porque para procederem a seus officios os di- 
tos monteiros-móres lhes é necessário escrivão, e 
elles o poderão eleger das cidades ou villas onde 
residirem os ditos monteiros-móres, e este- tal es- 



H 

crivão, será por S. M.' posto e approvaJo e com 
clles os ditos monteiros-móres farão todas as cou- 
sas que devem para cumprimento de seus offi- 
cios. 

Capitulo 5." 

Quando constar que algumas pessoas foram re- 
queridas por algum official de Justiça para as di- 
tas montarias, e o não quizeram fazer, nem se 
acharam no dia apontado nellas, os ditos montei- 
ros-móres os mandarão requerer perante os juizes 
das ditas villas, e lhes farão certo com a fé dos di- 
tos oíficiaes como não obedeceram a seus manda- 
dos, e constando-lhe ser assim, os ditos juizes os 
condemnarão no que lhe parecer, conforme as qua- 
lidades das'culpas não passando porem dos ditos 
duzentos réis, porque a jurisdição que Sua Mag.^ 
dá aos juizes das coutadas que ha em as monta- 
rias do reino, é para outros casos. 

Capitulo 6." 

Mas se os ditos juizes passarem da dita quan- 
tia, e condemnarem os rebeldes e remissos em 
mais pena de dinheiro por algumas causas ou 
suspeitas, que os ditos juizes tiveram com a justi- 
ça, em tal caso apeliarão para o Juizo geral das 
coutadas do Reino, e applicarão as penas, meta- 
de d'ellas para os ditos monteiros-móres, e a ou- 
tra metade para o monteiro-mór do jcino, na for- 
ma do seu regimento. 

Em o livro 7.* a folhas i3o verso se acha regis- 
tado o Decreto, pelo qual é Sua Mag.^ servido or- 
denar se guardem e observem os privilégios a to- 
dos os oíficiaes de suas reaes coutadas e monta - 
rias-móres do reino e o seu theor é o seguinte: 

Por me ser presente que se não guardam os pri- 
vilégios que os Senhores Reis Meus Predecessores 



i5 

concederam a todo<; os officiaos das coutadas do 
reino, não só dos juizes couteiros e guardas mas 
Também dos monteiros-móres dos disirictos delias, 
monteiros menores e empnizadores. Sou Servido 
Confirmar os ditos privilégios, e Ordenar que lo- 
dos se guardem e observem aos sobreditos oííiciaes 
das coutadas inteiramente, por convir assim a 
Meu Real serviço e guarda das mesmas coutadas. 
A iMeza do Dezembargo do Paço, o tenha assim 
entendido, e mande passar as ordens necessárias 
para a sua devida execução. Lisboa, 21 de junho 
de 1751. Com a rubrica de S. Mag.* ; ■ 

" '' ^ ' 
O treslado authentico d estes documentos foi 

passado em Lisboa, a 22 de agosto de 1820 por 

João Francisco da Costa, secretario da Moniaria- 

jMór do Reino. 

Os cercos 

Para o effeito das batidas, em cada fregnezia 
estavam organisadas companhias com seus cabos 
e alferes; e sendo pouco densa a população reu- 
niam-se duas freguezias para com;?or a sua com- 
panhia. 

Havia disciplina, e isto era indispensável; en- 
trava muita gente; se o cordão não fosse bem fei- 
to e a batida prudentemente dirigida, os lobos que 
tocTii sempre boa vista e bom ouvido escapavam 
facilmente nos mattos altos, nas quebradas d'ar- 
voredo; c era preciso ter cuidado também com as 
férasinhas humanas.com as rivalidades de fregue- 
zias, que se encontravam nas charnecas com as 
espingardas carregadas. 

Auctoridades, proprietários, grandes lavradores, 
assistiam ás montcrias e frequentemente nos arre- 
dores de Évora a tropa entrava no cordão; houve 
mesmo algumas batidas organisadas pelo regimen- 
to de cavallaria 5. 



i6 

A cidade dava cinco companhias (tinha antiga- 
mente cinco freguezias, Sé, S. Thiago, S. Pedro, 
S. Antão e S. Mamede), e as hortas e quintas dos 
arredores forneciam duas. 

Estas eram as companhias de n." i a 7. 

8.^ Companhia. S. Mathias, 

9.* Tourega. 

10.* Graça. 

1 1.* S. Miguel de Machede. 

12.* Egrejinha. 

i3.' Pigeiro e Vallongo (duas freguezias). 

14.' S. Marcos. 

i5.* S. Mancos. 

16.* N. Sr." de Machede. 

i7.'Vianna. 

Segundo parece dos documentos que tenho á 
vista estas eram as companhias que o monteiro- 
mór de Évora podia pôr em movimento. Mas fi- 
zeram-se grandes batidas entrando dois e três e 
mais concelhos ; as mais profícuas eram as bati- 
das em terreno bem marcado, com gente habitua- 
da, sem algazarras, com o cerco bem planeado e 
bem executado. 

As 17 companhias apresentavam uns 700 ho- 
mens, capazes de prestar bom serviço. Os mais 
affastados perdiam um dia, quasi sempre uma noi- 
te, de sabbado para domingo, em marcha, e pela 
madrugada estavam no ponto marcado. 

Com esta gente só, 700 homens, já se fazia um 
cerco de quatro léguas de lado a lado, ou seja um 
circulo de 10 kilomelros de raio, mais de 60 de 
circumferencia. 

Pouco mais ou menos um homem para cem 
metros no começo do cerco. 

Mas antes de chegar ao cerco ja havia batida, 
bulha de cães, gritos dos homens; batedores ar- 
mados de bordões iam na frente do cordão, a três 
tiros de distancia. 



_1Z_ 

Pela manhan clara, se alguma companhia não 
ficara atrazada, formado o cerco, marcadas as 
posições e as direcções da marcha, depois de al- 
gumas corrimassas da rapaziada fina, galopando 
ao ar fresco da manhan, cheio de bellos aromas de 
charneca, a levar noticias ao monteiro-mór, soa- 
vam os búzios, d'estes búzios que ainda hoje ser- 
vem para marcar os tempos nos trabalhos do cam- 
po, e que produzem uma larga sonoridade tão in- 
tensa e avelludada. Era o signal; os batedores 
partiam logo, e os caçadores e perreiros começa- 
vam a marcha, rápida nos primeiros minutos, na 
primeira meia hora, porque as distancias diminuin- 
do, apertava o cerco, o perigo augmentava, e po- 
diam começar a apparecer bichos já desorientados. 

O lobo, o corço, o cabriolo, ou o javardo es- 
pantado pelo batedor fugia, parava adiante, ouvia 
novo ruido, fugia mais, depois de três ou quatro 
carreiras, estava cançado; porque o animal, como 
é natural, dá um voo ou uma carreira, facilmente; 
se foge segunda vez emprega o seu esforço maior, 
e cansa; á 3.* está fatigado, e ao dar com o cor- 
dão esmorece, as perdizes caem exânimes, o lobo, 
o veado vae a terra sob o fila ou o rafeiro. 

Aqui temos nós um plano de boa monteria. 

Imaginem três círculos concêntricos, divididos 
pelos raios em 12 partes; no centro, dentro do 
circulo menor está o nome do ponto central, do 
sitio para onde as companhias se devem dirigir; 
entre o primeiro e segundo circulo, a partir do 
centro, estão designadas as companhias; nos es- 
paços entre o 2." e 3." circulo, os sitiosdo extremo 
cerco, quer dizer, dos pontos guarnecidos pelas 
companhias no estabelecimento do cerco. 

N'este plano o ponto central é o Valle de Tas- 
nar. 

As primeiras quatro companhias da cidade es- 



i8 

tavam no Monte das Flores, direita a S.'" Antoni- 
co d'entre as Vinhas, esquerda no Pomarinho. 

5.* 6.' e 7.* companhias em S.'" Antonico, direi- 
ta a S. José, esquerda ao Monte das Flores. 

16.^ Companhia, de N. Sr.^ de Machede. Em S. 
José de Peramanca, direita a Agua de Lupe (Gua- 
dalupe) esquerda a S.'° Antonico. 

11.' S. Miguel de Machede. Em AguadeLupe; 
direita Abaneja, esquerda S. José de Peramanca. 

12.* Comp. da Egrejinha. Na Abaneja, direita 
ás Valladas de Cima, esquerda a Agua de Lupe. 

10.* Graça do Divor. Nas Valladas de Cima, di- 
reita ás Cortiçadas, esquerda á Abaneja. 

8.* S. Mathias. Nas Cortiçadas, direita a S. Se- 
bastião da Giesteira, esquerda ás Valladas. 

9.* Companhia da Tourega. S. Sebastião da 
Giesteira, direita á Boa fé, esquerda ás Cortiçadas. 

14.* S. Marcos. Na Boa fé, direita ao Outeiro, 
esquerda S. Sebastião da Giesteira. 

15." S. Mancos. Outeiro, direita á Machada, es- 
querda á Boa fé. 

17.* Vianna. Machada ; direita ao Pomarinho, 
esquerda ao Outeiro. 

i3.* Companhia do Pigeiro e Vallongo No Po- 
marinho, direita ao Monte das Flores, esquerda á 
Machada. 

E assim fechava o cerco que teria depois de 
ajustado uns 70 kilometros, e um homem por 90 
metros, ao começo do cerco. 

Na realidade ia sempre mais gente, havia mui- 
tos curiosos ; todavia no tempo em que as monta- 
rias tinham de ser a sério, evitavam quanto possi- 
vel o curioso, e a gente desnecessária; muita gen- 
te d'esta fazia confusão, e havia perigos, havia ba- 
las. Podiam escapar os lobos e ficar feridos os ca- 
çadores. 



'9 

Aqui outro plano de uma boa montaria. 

Ponto central as extremas da herdade de Valle 
de Maria de Cima. 

Só entravam as companhias do termo da cidade. 

8.* e 9.* Outeiro do Conde, d. Valhidas de Ci- 
ma, esq. Matoso. 

10.* Matoso, d. Outeiro, esq. Paredes. 

14.* Paredes, d. Matoso, esq. Mógos. 

i3.* Mógos, d. Paredes, esq. Casbarra. 

i5.* Casbarra, d. Mógos, esq. Serrinha. 

12.'' Serrinha, d. Casbarra, c. S. José de Pera- 
manca. 

16.* S. José, d. Serrinha, esq. Agoa de Lupe. 

1 1.* Agoa de Lupe, d. S. José, esq. Valladas de 
Cima. 

17.* Valladas de Cima, d. Agoa de Lupe, esq. 
Outeiro. 

Este foi o plaro da montaria de 17 de maio de 
1824. 

Parece que esta montaria teve excellente resul- 
tado porque o monteiro foi elogiado oficialmente. 

III.""' Sr. 

Sua ex.* o Sr. General Governador das Armas 
d*esta Provincia ficando muito satisfeito do con- 
theudo do ofiicio que V. S.* lhe dirigiu na data de 
20 do corrente participando-lhe o bom resultado 
da Montaria a que procedeu no districto da sua 
Capitania mór, manda louvar o zelo e efíicacia de 
V. S.* nesta parte do serviço publico, e espera que 
V. S.' continuará a mostrar o seu interesse com o 
mesmo zelo em todos os objectos do serviço de 
Sua Magestade. 

Sua Ex.* manda remetter a V. S.*aslnstrucções 
inclusas datadas de 12 de julho do anno próximo 
passado, que foram distribuídas a todas as Capi- 



20 



tanias mores d'esta Província, e confia muito que 
\. S.* lhe dará inteiro cumprimento. 

Deus Guarde a V. S.* — Quartel General de 
Estremoz, 27 de maio de 1824. — 111."'° Sr. Antó- 
nio Telles Monteiro. 

(a) José z4ntoiuo Pestana. 
Secr.° do G." das Armas 

Montarias houve em que entraram cinco mil ho- 
mens ; quasi todos os annos se faziam grandes 
montarias officiaes, entrando gente de dois, três e 
quatro concelhos, mettendo uns ires mil homens 
no cordão. 

Aqui em Évora por muitas vezes o regimento 
de cavallaria se juntou ás companhias da cidade 
e termo para as batidas aos lobos. 

Tenho á vista alguns officios que se referem a 
uma batida em fevereiro de i83i. 

nir Sr. 

Em ofíicio de S. Ex.* o Sr. General G.*"" das 
Armas d'esta Provincra de 3 do corrente sou en- 
carregado de fazer uma montaria, a que passo a 
dar as minhas ordens ; e como o dito Ex.™" Sr. de- 
termina combine com V. S.^ participo-lhe que te- 
nho determinado o juntarem-se n'este quartel no 
dia 8 do corrente os practicos para se etfeituar o 
detalhe pelas 10 horas da manhan, o que partici- 
po a V. S.* para sua intelligencia. Deus Guarde — 
Quartel em Évora, 6 de janeiro de i83i. — 111.™° 
Sr. João Telles Monteiro. 

(a) 'Vicente da Gama Cordovil Lobo. 
Sargento-Mór Coinmandante 

Reuniram-se os praclicos, assentaram no plano, 



2f 



marcaram os itinerários ás companhias, e designa- 
ram os dias i6 e 17 de janeiro para a grande ba- 
tida. 

Moços a cavallo levaram os avisos ás aldeias, c 
toca a fundir balas, e fazer cartuchos. 

Mas começou uma inverneira medonha, sendo 
preciso addiar a montaria. 

Ilir Sr. 

Como se não poude eífectuar a Montaria que 
€stava destinada para os dias 16 e 17 passado e 
os bichos teem continuado na devoração dasreaes 
manadas é do meu dever fazel-a verificamos dias 
II e 12 do corrente o que participo a V. S.* para 
sua intelligencia. — Deus Guarde a V. S.* — Quar- 
tel em Évora, 5 de fevereiro de i83i. — 111.'°" Sr, 
João Telles Monteiro. 

(a) Vicente da Gama Cordovil Lobo. 
Sargento-Mór Conimandante 

N'este tempo ainda havia grandes manadas em 
Alter, Salvaterra e Almeirim, e pelas inverneiras, 
■quando o Tejo e o Sorraia inundavam os campos 
as manadas das éguas vinham á Adúa de Monte- 
mor o Novo, aos campos do Barrocal, aos coutos 
de Reguengos, onde havia menos humidade. 

As crias das manadas das éguas eram então di- 
zimadas pelos lobos. 

E' excusado lembrar que as terras então esta- 
vam n')UÍto mais matagosas; nos montados, por 
muitas léguas, o mato alto tocava na rama de azi- 
nheiras e sobreiras. 

O augmento das culturas e a limpeza dos rr on- 
tados, este enorme trabalho feito pelo proprietário- 



22 



lavrador íilemtejano, nos últimos quarenta annos-, 
teem combatido de vez a bicharia brava. 

Menos cultura, menos limpeza nos campos, mais 
bichos. Tal qual como nos livros, que se enchem 
de traça e de larvas roedoras se lhes não mechem, 
nem os limpam. 

A tal montaria reaiisou-se com algum resultado. 

Ilir Sr. 

Participo a V. S.* que na Montaria a que se 
procedeu no dia de hontem consta terem-se ma- 
tado doze lobos, o que communico a V. S.* para 
sua intelligencia. — Deus Guarde a V. S.* mui- 
tos annos. — -Quartel em Évora, i3 de fevereiro 
de i83i. — íll.™^ Sr. João Telles xMonteiro. 

(a) Vicente da Gama Cordoml Lobo. 
Sargeuto-Múr Commandante 

Na correspondência official só se falia dos lo- 
bos, por ser esse o objecto da batida; na monta- 
ria cahiam javardos, veados, raposas, gatos bra- 
vos ; uma bicharia medonha ; uma hora depois 
dos búzios tocarem já os cães sem correr aboca- 
vam coelhos e lebres; as perdizes cahiam esfalfa- 
das. 

Raras vezes se poderia saber o resultado certo 
da montaria. 

José Paulo de Mira. o grande general dos caça- 
dores alemtejanos, escreveu um folheto muito in- 
teressante sobre as montarias: Um brado contra as 
montarias de cerco aos lobos na província do Alem- 
tejo (Évora, typ. Bravo. 1875, 18 pag. in-8.°). 

Os folhetos de Mira sobre caçadas são impor- 
tantes a caçadores e ainda no ponto de vista da 



23 



historia natural, do estudo da fauna alcnitejana : 
elle conhecia, na sua larga e intensa experiência, 
os animaes e seus costumes e modo de vida. 

Nas grandes montarias dirigidas pelo Mira os 
grandes grupos de caçadores iam atirando até che- 
gar ás primeiras bandeiras brancas, onde logo no 
começo da batida se tinham coilocado as esperas; 
ahi estacava o grande cordão; depois de se ver 
que o cerco marcado pelas bandeiras brancas es- 
tava completo, tocava-se o signa! para avançar 
até ás bandeiras vermelhas, segundas esperas; n*es- 
se segundo cerco parava tudo; e a outro signal só 
os caçadores das esperas avançavam até ao cen- 
tro. 

O principal motivo porque o grande caçador 
condemnava as montarias, era a íalta de discipli- 
na, a má vontade da gente das freguezias. de mui- 
tos lavradores, em executar á risca os preceitos se- 
guros necessários para o bom resultado do cerco. 

Mira ainda assistiu ás antigas montarias, com 
tropa de linha, ordenanças, milicianos, e por isto 
estranhava o tempo do cada iim fai o que quer. 

— Presentemente vae para as esperas quem quer, 
pôr-se aonde lhe parece, e cada um faz o que lhe 
apraz — diz elle na sua forma sincera e enérgica. 

Depois appareciam-lhe os curiosos com espin- 
gardas de dois canos, um de bala, outro com 
chumbo, inventando esperas falsas, atirando á ca- 
ça miúda, e fazendo fugir o lobo. E elle gritava, 
zangava-sc com as precipitações, com as faltas de 
disciplina. 

No tempo do brigadeiro Cairo, íez-se uma 
montaria na serra de Alpedreira, a que foi quasi 
todo o regimento de cavallaria 5, em que morre- 
ram 42 lobos, 5 javardos, 6 corsos, 600 raposas, 
10 gatos cravos, e vários bichos menores. 

Annos depois cahiranj em cutra montaria 22 lo- 



24 

bos, 3 javalis, 2 corsos, 212 raposas, 4 gatos cra- 
vos, 6 gatos bravos. 

Por estes números se póJe ver como temos pro- 
gredido, porque é principalmente a limpeza das 
terras que tem batido o animal bravio. 

Na sala Portugal do Museu de Historia Natu- 
ral da Escola Polytechnica, está um bello exem- 
plar de lobo, mandado por J. P. de Mira. 

N'esta sala estão hoje reunidos os exemplares 
da fauna do paiz; a do Alemtejo está bem repre- 
sentada, contando muitos exemplares bons, quasi 
todos oíferecidos pelo Mira. 

Este grande caçador em vez das grandes mon- 
tarias aconselha as pequenas, constituidas por pou- 
ca mas boa gente, collocando com antecedência e 
cautella as esperas, e espantando os lobos com fo- 
guetes, tiros de pólvora secca, homens gritando^ 
ou tocando businas, e levando assim os lobos a 
irem ter aos atiradores das esperas. 

Em França montarias grandes e pequenas, re- 
compensas officiaes e particulares, não teem con- 
seguido acabar com o lobo, e por isto aconselham 
hoje a criação e educação de um cão especial, pa- 
ra achar o covil, descobrir a ninhada, levantar o 
lobo no matto, e fazel-o parar para receber o tiro. 

Tem havido casos de o lobo estar parado, entre 
a matilha, sem os cães se atreverem a approximar- 
se; parece que o bull-dog é então útil, o lobo dis- 
trahe-se com o atrevido, e os grandes assaltam-no 
e subjugam -no sem perigo. 

Assim como as grandes montarias se devem con- 
demnar porque representam grande perda de tem- 
po, de salários, etc, também o emprego dos cães 
precisa cautella, porque ha exemplos de um lobo 
estragar em poucos instantes alguns cães de gran- 
de valor. O rafeiro ou o fila, educado e armado, 
talvez servisse para parar o lobo. 



25 

Batidas de lobos com grandes pompas, e ás ve- 
zes com inesperados episódios picarescos contam 
velhas historias em estylo altisonante. 

Quando o infante D. Fernando, príncipe das As- 
túrias, casou com D. Maria Barbara, filha de D. 
João 5." celebraram-se ruidosas festas em Sevilha. 

A municipalidade da grande cidade andaluza, 
depois de muito cogitar, querendo fazer algo de 
novo, do original, e de muito apparatoso, resolveu 
offerecer aos noivos uma batida de lobos. O prín- 
cipe hespanhol era grande atirador. 

Marcaram- se pontos e esperas, tudo preparado 
para quanto possível levar os lobos ao alcance da 
espingarda de D. Fernando. D. Maria Barbara es- 
tava ao lado do esposo; ambos a cavallo. 

Muita bulha, gritaria, toques, e de súbito, de en- 
tre o matto, levanta-se um touro, que investe com 
o casal principesco. Um susto enorme. 

O príncipe — adeantou o cavallo, fazendo-se 
escudo da princeza, e armando a espingarda em- 
pregou na fera um felicíssimo tiro, de que logo ca- 
hiu morta — . 

E logo uma chuva de sonetos ao caso, dispara- 
da em portuguez e hespanhol, por quantos poetas 
frequentavam as duas cortes, com muita mytholo- 
gia, ao limado bruto^ ao feroi Júpiter, ao bicorne 
bruto^ uracan robusto, e á Vénus lusitana. 

Só um soneto por amostra 

SOHKTO 



Feroz promette o touro alta terida 
a Vénus digna do melhor Mavorte, 
e o príncipe se adeanta a dar-lhe a morte, 
bem fulminada sim, mal merecida. 

Ditosa culpa foi, que ao ser punida, 
achou no invicto braço a feliz sorte, 
feliz a Esposa, a quem o real consorte 
por lhe a vida salvar, arrisca a vida. 

De zelo e magestade o ardor inflama, 



26 



ao concavo metal ; e em raio expulso 
castiga Marte, quanto Adónis ama. 

O brio natural lhe rege o pulso, 
um Vesúvio de amor lhe acende a chama, 
e nascem dois trophéos de um mesmo impulso. 



Este caso do touro em vez de lobo foi impresso: 
Em lima batida de lobos a que a cidade de Sevilha 
convidou a SS. cAI.oM.e oA.ÔA. Catholicas: etc.,eic. 
E' um folheto, com muitos versos. Mal pensava a 
cidade de Sevilha que a sua festa seria tão cele- 
brada. 

O nosso D. Miguel matou um lobo, e apanhou 
versos pelo feito. Foi no termo de Santarém. 

— Morrendo um lobo em Santarém de um tiro 
que lhe deo o Ser."'" Sr. Infante D. Miguel hoje 
nosso amável Soberano. 

30KCIMA 

Senhor, pareceu-me bem 
O dareis a um lobo a morte ; 
Pois mostraste d'esta sorte 
Que as caçadas vos convém ; 
Porem não só Santarém 
Tem temivel bixaria 
Lisboa de noite e dia 
Tem bixos que nos assaltam 
Cá mesmo lobos não faltam 
Que devem ter montaria 

(Obras de J. Daniel Rodrigues da Costa, Lisboa 
1829, pag. 40). 

E' transparente a allusão politica na decima. 

EíTectivameníe pouco depois começou uma ba- 
tida real que veio terminar aqui em Évora. 

Em abril d'este anno(i 898) assistiram asMages- 
tades a uma batida no termo de Alvito. O Be- 
jense de 22 dá a noticia n'estes termos: 

— A batida aos lobos, domingo (16) não deure- 



27 

sultado. Morreram apenas dois. A coisa começou 
logo por os batedores formarem escalão em vez de 
linha^ e por fecharem mal o circulo. O fechar do 
circulo é perigoso, muito perigoso, e não se fechou 
com receio das magestades poderem ser feridas. 

O resultado foi escaparem-se onze lobos que 
andam ás portas de Beja, á Pia quebrada já elles 
tem apparecido. 

Na batida tomaram parte mais de 2.-ooo caça- 
dores dos concelhos de Beja, Alvito, Cuba, Fer- 
reira, Alcácer do Sal, e Vidigueira. A batida foi 
dirigida pelos srs. Fialho e Jorge d' Ayres — . 

Morreram dois. escaparam onze, os avistados; 
na mancha batida estavam i3 lobos: o que é no- 
tável. 

Alguns dos fugidos foram ter a Beja. Em geral 
o lobo, com.o todo o animal de presa, tem o seu 
campo de operações muito limitado. 

A batida desloca-o, mas em breve escolhe ou- 
tra sede; ás vezes a muitas legoas da primeira. 

O mesmo n." do Bejense dá noticia de outra ba- 
tida em Almodovar; mas esta parece que foi pit- 
loresca; morreram duas raposas apenas; não sei 
se os lobos paparam os jantares dos caçadores. 

O Manueliiiho d'' Évora de 4 de junho, dá, na 3.* 
pag., a seguinte noticia — Lobinhos e lobos ceruaes 
— Gabriel António, um rapagão natural da fregue- 
zia de S. Bento do iMatto, de 25 annos de idade, 
e altura de i,"'97, apresentou ha dias nos paços 
d'este concelho uma ninhada de 9 lobos, que te- 
riam uns quinze dias de existência, apanhados na 
herdade das Cabanas. 

Recebeu Soo réis de premio por cada cabeça. 

Transcrevi estas noticias porque ellas provam 



2a 



como é ainda frequente o lobo em Portugal. Bati- 
da em Alvito, i3 lobos; pouco depois na herdade 
das Cabanas, um rapaz apanha uma ninhada de 
9. Note-se que não é esta região a que passa por 
mais abundante em lobos no Alemtejo central. 
Pôde haver no paiz mais de um milhar de lobos. 

Agora uma noticia referente aos lobos cervaes 
(mesmo n.° do Mamielinho); é a seguinte — Osr. dr. 
Barahona Fragoso offereceu á direcção do Jardim 
Zoológico. . . uma curiosa ninhada de quatro lyn- 
ces, aprisionados n'uma das suas propriedades — . 

Gatos cravos, lobos cervaes, lynces, são desi- 
gnações do mesmo animal. O Mira chamava-lhes 
gatos cravos, e assim por todo o Alemtejo. 

Ha um bello exemplar de gato cravo adulto em 
casa do sr. José Paulo de Barahona, e outro na 
sala ^ortugal^ da Esc. Polyt., offerecidopeloM^ra. 

Eu fui vêr os quatro gatinhos, ou gatos cravi- 
nhos no dia 1 1 de junho. Estavam bem, começa- 
vam a comer. 

Teem o pello amarello claro com pequenas ma- 
lhas escuras; salpicado; cabeças largas, olhos vi- 
vos, fitando; as patas grossas; orelhas largas, di- 
reitas, com seus pincelinhos pretos, formados de 
pellos rijos, nos extremos. Aspecto, attitude, cos- 
tumes como os do gato vulgar. 

No Jardim morreu ha mezes um gato, de Ca- 
brella, alto, gentil, salpicado, um animal lindissi- 
mo, mas sem pincéis nas orelhas, de modo que 
parece haver nos mattos alemtejanos gatos de três 
espécies. 

Diziam-me que era um lynce, que por ser novo 
ainda não tinha pincéis, mas estes agora eram de 
mama e já os mostravam bem. i^lém d'isto o feli- 
no a que me refiro era tão alto e comprido como 
os gatos cravos conhecidos, mas delgado, muito 
fino, e menos fulvo. 



^■9 

No gabinete dos livros raros da Bibl, Nac. de 
Lisboa ha um volume (n. 684) de legislação avul- 
sa ; nelle a Ordenaçam sobre os lobos^ em gothico, 
do reinado de D. João 3.° 

Eis algumas disposições: 

— Todo o homem que matar lobo velho haja 
3ííooo réis, se matar lobo pequeno haja até 5oo 
réis, e quem emprazar cachorros e os mostrar ha- 
ja 400 réis — . 

Pela Paschoa do Espirito Santo começavam as 
montarias: — O qual ajuntamento e montaria se 
fará em cada hum anno na terça feira segunda oi- 
tava de paschoa. E depois se fará ao domingo i5 
dias depois do Espirito Santo e de ahi por diante 
ao domingo de i5 em i5 dias até o mez de ju- 
nho — . 

Desapparece o veado, o gamo, a cabra montez, 
em breve será raro o javali, mas o lobo, apezarde 
tantas montarias e dos prémios, continua os seus 
assaltos: eterno inimigo dos rebanhos. 




GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS EBOHlÊinSieíS 

Ksino publicados : 
i." í) mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro.^ — 2." Évora, ro- 
mana. O templo. As inscripções; — 3." A Casa pia. — 4." Lóios, 
azulejos e obras d'arte. • — 5." Bihliolheca Publica. Noticias das 
collecções. — 6.° Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e q.° 
Vésperas da restauração. — io.° Brasão d'Evora. — 1 1." A egreja 
de Santo Antão. I^ivros parochiaes. Collegiada. — 12." O archi- 
vo municipal — 1 3.° A restauração em Évora. — 14.", li." e i6.° 
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — 1 7.° Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.", iQ.°, 20.° e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental. — 
26.0 Antiguidades romanas em Évora e seus arredores. — 27.° 
Roteiro d'um eborense.— 28.'' Universidade de Évora. — 29.° 
As caçadas, 1.^ parte. — 30." Évora e o ultramar, 2.' parte. — 
Si." Ibn Abdun. — 32." Cs mouros. — 33.° As caçadas, 2.» parte. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 

Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'E¥ora 

Estão publicados : 
I." PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIIl e XIV, Documentos do Cabido. Inventários niunici- 
paes dí) sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João i.°. Etc. 
1 vol, de 202 pag. in^." — iCJíiSoo réis. 

2.° PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capitulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in-4.° — i^zoo réis. 
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J. 

F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran- 
ches. 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSE 



(Historia — ^rte — (Archeologia 




ANTIGUIDADES. MESTRE ESTEVÃO ANNES. O RACHAREI. r.INHARES. 

D. J0.\0 DE CASTKO. OS QUATRO DA PARODIA CAMONEANA. 

O DESASTRE DE JUROMENHA. 






ÉVORA 

.AlT^JKnv.V ICI?OR.EN"SE 

DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor d* casa real 

62 — Rua Ancha — 64 

1893 



GABRIEL PEREIRA 



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(Historia — (Arte — Archeclogía 



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ANTIGUIDADES. MESTRE ESTEVÃO ANNES. O BACHAREL LINHAUES. 

D. JOÃO DE CASTRO. OS QUATRO DA PAUOiílA CA.MONEANA. 

O DESASTRE DE ;u:<OMENWA. 



ÉVORA 

>E JOAQUIM J03á BAPTISTA, im^rejsor o» oíj» be*i. 

Õ2 — RuJ Aiiciu — O» 

18^3 



ESTUDOS EBORENSES 



Os esíodaírtss 



Seguramente no tempo dos romanos houve es- 
colas em Évora; escolas de ler e escrever, e de 
grammatica, e de eloquência, tão estimada na bri- 
ihante civilisação latina. 

Se aqui estava o grande templo, o aqueducto, o 
arco triumphal, a cerca de muralhas e torres, a 
grande cidade emfim, e por todo o seu aro tantas 
habitações mimosas, de certo houve também es- 
colas. 

Se até o povoado mineiro de Vipasca (Aljustrel) 
tinha os seus mestres primários, os Lídima gistri, 
que por signal gosavam de singulares privilégios 
(Ludi-magistri. Ludi-magistros a proc. metallorwn 
immwies esse placet : é uma verba da tabula de 
bronze de Aljustrel), é bem de suppor que em Évo- 
ra alem das escolas inferiores houvesse as supe- 
riores onde se aprendia a fallar, a discutir, a des- 
crever, e a conhecer a língua do grande povo ci- 
vilisador. 



4 

Por isto podemos, o mais naturalmente possí- 
vel, imaginar o esíudantinho eborense de ha de- 
zoito séculos, pelas ruas estreitas lageadas, seguin- 
do o caminho do liiJus litterariíis^ com a capsa dos 
livrinhos, e a tabula encerada para a escripta e pa- 
ra as contas. 

A capsa parecia-se muito com o tarro usado 
ainda hoje, principalmente pelos camponezes e pas- 
tores ; servia para os pergaminhos, cuidadosamen- 
te enrolados, com os seus titulos em etiquetas. 

A tabula é hoje directamente representada pela 
ardósia, a pedra com moldura. 

O ludi-magister recebia meninas e meninos. Uma 
pintura de Herculanum representa uma escola com 
suas bancadas, a um lado os rapazes, a outro as 
raparigas ; n'um extremo o magister^ em pé; no 
outro o ajudante castiga um alumno,. batendo-lhe, 
com um feixe de varinhas ou juncos, no sitio. . . 
destinado pela natureza para açoutes sem conse- 
quências graves. 

Lia-se Virgilio e H trácio, as Georgicas que en- 
sinam e fazem amar a vida rural (como essa lei- 
tura ficava bem na Ebora cerealisfj^ as finas odes 
que fazem pensar, amar e perdoar. Nas escolas 
immediatamente superiores Quintiliano e os Séne- 
cas dominaram por muito tempo. 

Virailio e Horácio eram lidos nas escolas pri- 
marias de Roma já em vida d'elles; o ser lido nas 
escolas era uma grande gloria para o escriptor ro- 
mano. 

Quantas gerações teem lido esses grandes e bons 
poetas, quantas suaves emoções teem produzido 
na humanidade esses dois espiritos; quantas pal- 
matoadas por essa historia fora ! 

Em muitas escolas romanas havia os bustos dos 
dois poetas. 

Quando o relógio de agua, ou o de sol, marca- 



5 



va a hora da sabida o bando juvenil corria e folia- 
va ; os meninos Laberios jogavam os ossinhos (as- 
tragahisj^ hoje as cinco pedrinhas; os meninos 
Froutonios a ocellata, o bugalho; os Tancinos cor- 
riam apoz os arcos (trochus)^ os Florentinos brin- 
cavam ás nozes (tabula); emquanto as meninas, 
pobre Manilia Maxiima^ tão querida, tão cedo 
morta ! riam nos jardins com as suas piipae^ bone- 
cas de engonços. 

Também me parece poder affirmar-se que os 
rapazes no tempo dos romanos jogavam a pedra- 
da. E é bem possivel que usassem a funda na rija 
brincadeira. 



Se os godos aqui estiveram, se os seus reis cu- 
nharam aqui os seus justos de ouro, e na sua egre- 
ja os bispos entoavam os extraordinários hymnos, 
as maravilhosas e ingénuas lendas dos primeiros 
christãos, de certo também continuou o magistev 
a ensinar o seu latim^ soletrando nos evangelhos, 
nos textos do código: se na mansão rural, a cinco 
léguas da cidade, se consagrou á memoria de Ve- 
nancia uma longa inscripção latina, e poética, na 
cidade seguramente se continuou a ensinar, em 
lenta decadência e transformação, a linguagem que 
a egreja adoptara. 

Um dia ao lado do pobre magister godo, no- 
tário ou clérigo, que ensinava o seu estragado la- 
tim, appareceu o árabe alcoranista, com uma toa- 
lha na cabeça, assentado na sua esteira, de per- 
nas dobradas, e apontando os estranhos caracte- 
res dos versículos do Alcorão, e as cassidas lyri- 
cas, banhadas de saudades, dos poetas do Yemen 
e do Hadramaut. 

Quantas vezes Ibn-Abdun seguiria, a mente en- 



levada, o olhar espraiando-se a espaços pelas gan- 
daras do Xarraaia, ora repousando-se nas longiquas 
serranias de amethysta, a leitura dos antigos poe- 
tas cantando as rosas e as palmeiras, os episódios 
galantes^ as finas allegorias, as guerras gloriosas 
do oriente ! 

Depois do feito nunca feito de Giraldo sem pa- 
vor. . . provavelmente os primeiros professores 
seriam de proveniência ecclesiastica. A organisação 
dos cabidos como que implicava a creação de aulas 
de ler e escrever, de latim, e de canto ou de musica. 

Para os estudos mais superiores era preciso ir 
ao estrangeiro, á França, á ítalia. Em certo docu- 
mento eborense de 1292 se concedem privilégios 
ás pessoas que fossem estudar a alguma Universi- 
dade estrangeira. 

Também franciscanos e dominicanos teriam es- 
colas ou aulas nas suas crastas golhicas. 

Como seria bom estudar, nos cantos frescos do 
claustro ogival, ouvindo a fontinha murmurante no 
meio da quadra, as andorinhas cortando o lindo 
azul do ar, os pardaes bulhando na copado lourei- 
ro, junto dos jasmins e das madresilvas que tre- 
pando pelas columnas iam beijar os phantasticos 
capiteis de symbolismos ingénuos e coloridos. De 
modo que haveria já n'aquelle extraordinário sécu- 
lo XIII, tão agitado, estudantes da cidade, e dosjr- 
rabaldes de S. Mamede, de Alconchel, de S. Fran- 
cisco, e da porta de Moura, procurando as aulas 
das crastas dos mosteiros, e mais ainda as da sé. 

E é muito possível que houvesse também algum 
mestre particular, isolado, em casa própria; que 
algum publico notário ensinasse a ler e escrever, 
aquelles pergaminhos curtos ou compridos, em ní- 
tidos caracteres, com os seus artísticos signaes nas 
conclusões. 



E' notabilissima a calHgraphia, com muitas va- 
riantes que denunciam diversidade de ensino, nos 
documentos eborenses do século xiv. 

Em iSyS, pelo menos, já a rua da Carta Velha 
era assim chamada, e esta designação tem sido ex- 
plicada como allusiva a uma escola, onde, em cer- 
ta época, se ensinava por um methodo antiquado. 
Esta rua fica longe da parte antiga da cidade, da 
cerca velha; ella pertenceria no século xiv ao ar- 
rabalde de Alconchel (Documentos históricos da ci- 
dade d' Évora ^ i/ parte, pag. i2 5, n." 55i (iByS), 
e n.** 586 (1392). 

N'este antiquissimo arruamento ainda hoje 
apresentando muitas portas de acanhadas ogivas, 
aparece-nos, por 1480, um mestre escola que foi 
popular na cidade, pois que o seu nome servia pa- 
ra indicar a rua ou travessa . . .casas onde mora 
Esteve Anes que ensina hos moços {Doe. hist. \^ 
parte., pag. 120, n.° 807, Soq c 336). 

Mas essa rua tinha nome «rua de Esteve Anes 
que ensina os moços, a que chamam rua da Ca- 
beça do Lobo. . . depois chamada rua dos Gale- 
gos, que vinha ter ao adro de S. Domingos», isto 
é não ficava longe da rua da Carta Velha, que 
tem sabido conservar o seu nome pelos séculos 
adiante. 

Estudantinhos nos seus capeiretes, pelas ma- 
nhans frescas, iam para mestre Esteve Anes 
que lhes ensinava nos seus pergaminhos. Boa tin- 
ta havia então; ha documentos que parecem es- 
criptos hontenj ; provavelmente os rapazes atura- 
vam grandes massadas naescripta, na calligraphia; 
são admiráveis algumas letras de essa epocha. 

Antes de 1456 já o concelho eborense pagava a 
um mestre de grammatica e de escrever. 

Conclue-se isto dos capítulos de cortes de 1456 
{Doe. hist. 2.^ parte, pag. 78, n." 8) . . .um bache- 



8 



ler que ensina de gramatiga e a escrever os filhos 
dos boons e quaesquer outros que querem apren- 
der. 

Por signal que já então se regateava o ordenado 
ao proveitoso bacharel, como se pode ver no tre- 
cho indicado. 

Em 1481 (fDoc. hist. 2.* pag. i55) Estevain Ca- 
valleiro succede ao bacharel Linhares no ensino de 
grammatica. 

Por isto se vê que no século xv houve na cida- 
de mestres que ensinavam moços, íilnos de bons 
e quaesquer, em escolas publicas. 

A situação da escola de Esteve Anes, em sitio 
então arrabalde, faz suppor que não seria paga pe- 
lo concelho. Que era escola bem conhecida, popu- 
lar, vê-se por que atéservia para os notários designa- 
rem a rua em suas cartas. O nome Carta Velha, 
leva a conjecturar de uma escola ainda mais antiga. 
E, ainda uma vez, o sitio era arrabalde; na cidade 
haveria outras escolas e superiores, ou de mais 
elevada cathegoria. 

Na Universidade de Évora os estudantes eram 
vigiados, havia disciplina rigorosa, nos costumes, 
no vestuário, e na vida escolar. 

O jesuita, dos primeiros tempos da celebre or- 
dem, tinha a mania de regulamentar tudo. 

No cartório da Universidade de Coimbra, onde 
estão muitos papeis dos diíferentes collegios da 
Companhia de Jesus, vi eu vários regulamentos e 
instrucções para escrever cartas, para fazer visitas, 
e até para comprar pannos pretos! 

Aos estudantes de Évora não era permittido ter 
cães ou aves de caça. 

Não podiam usar cores garridas, nada de ama- 
rello, alaranjado, encarnado, verde. Nada de tafu- 
larias, nem fatos golpeados ou entretalhados, nem 



uvas perfumadas ; também não podiam trazer mas- 
caras (o que era trivial nos séculos xv e xvi) fora 
das tragedias e comedias que representavam no 
collegio: e muitas outras disposições que já publi- 
quei nos Estudos Eborenses, Unipersidadc de Évora, 
e por esta razão não menciono agora. 

A livraria da Universidade estava aberta para 
os estudiosos das 7 ás i [ da manhan, e das 2 ás 
5 da tarde, no inverno. 

No verão abria ^s 6 e fechava ás 10 da manhan ; 
de tarde das 3 ás 6. As aulas funccionavam tam- 
bém de manhan e tarde. 

Todos os trabalhos escolares começavam anti- 
gamente cedo ; de sol a sol; a noite era para re- 
pousar. 

Os hábitos mudam no decorrer dos annos, de 
classe para classe; como no século presente teem 
variado as horas das refeições, nas classes supe- 
rior e média! Teem variado mesmo as qualidades 
das comidas; o chá, o café, o assucar, géneros ho- 
je de primeira necessidade, são de uso moderno. 
A qualidade, o progresso da luz artificial influiu 
provavelmente nos horários. 

O estudante do século xvi se quizesse trabalhar 
de noite tinha a luz da candeia de azeite, ou do 
candieirinho de latão, com o seu arsenal de tenaz, 
balde e espevitador. A vela de cebo era impossí- 
vel, a de cera muito cara. O progresso da lui tem 
inliuencia grande na vida ; veja-se o que está suc- 
cedendo actualm.ente com o approveitamento da 
luz eléctrica ; ha fabricas onde a machina não pá- 
ra ; succedem-se os grupos de operários nas gran- 
des ofiíicinas onde a formula de sol a sol passou á 
historia. 



Vamos nós ouvir um estudante da Universida- 
de de Évora no século xvi. 



TO 



Na ccillecção de manuscriptos da Bibliolheca 
Nacional da Lisboa, ha nns volumes inleressantes, 
com titulo Obras de D. João de Castro. 

O auctor apresenta-se (vol. xviii pag. 434) em 
um capitulo assim denominado: — Dá o auctor 
conta de si até o tempo em que começou a ser es- 
tudante em Évora — (cap. 3." do liv.v). N'este ca- 
pitulo e nos três seguintes falia da sua vida de es- 
tudante, com um cunho de verdade admirável. 

— Saibam portanto os que isto lerem que a mi 
me chamam Dom Joam de Castro; filho bastardo 
de D. Álvaro de Castro, que foi do conselho do 
Estado dei Rey Dom Sebastiam, e veador da sua 
fazenda, assaz conhecido no reino — . 

Era neto do celebre D. João de Castro, visorei 
da índia. 

— ■ Sendo de oito annos pouco mais ou menos 
(cautella com que sempre irei fallando na minha 
idade por não saber decerto ao te.mpo que isto es- 
crevo, o anno em que nasci, inda que me parece 
que foi no de 5o (i55o), ou aoiedor d'elle), fui 
tirado do poder de minha ama e levado para casa 
da Senhora D. Leonor Coutinha, minha avó, mu- 
lher que foi do Senhor Dom Joam de Castro go- 
vernador e visorei da índia, o primeiro do nome, 

N'ella me criei até idade de i3 ou 14 annos na 
cidade de Lisboa — . 

De casa da avó o mandaram para o mosteiro 
de N. Sr.^ da Penha longa, de frades Jerónimos, 
em Cintra. 

Esteve ahi quatro annos estudando e ajudando 
ás missas. Andava de roupeta comprida, sem ca- 
pello, só com a gualteira do mesmo panno, 

A aspiração do moço era frequentar uma uni- 
versidade, mas os frades não lhe davam ouvidos, 
a familia parecia esquecer-se d'elle; não tinha 
meios alguns. 



í í 



Por este tempo começou a frequentar o mostei- 
ro um moço honrado dt Cintra, quasi da mesma 
idade de D. João; era filho do mestre d'obras do 
infante cardeal D. Henrique, e chamava-se Ma- 
nuel Carreira. Era bom rapaz, andava no offici*^ 
de ourives, mas aspirava a ser religioso, frade ca- 
pucho. 

Os dois moços passeavam juntos por aquella 
cerca tão pittoresca; trocavam as suas confidencias. 

Manuel Carreira pouco mais sabia do mundo 
que D. João; mas era engenhoso, e capaz de se 
arriscar. 

Perdidas as esperaoças de alcançar meios para 
estudar resolveram-se a correr a ventura; o Ma- 
nuel sabia que em todas as universidades havia 
estudantes pobres que viviam pelos mosteiros, ser- 
viam os mestres e os estudantes ricos, ou andavam 
á tuna. 

D. João cão tinha fato á futrica ; auxiliado pelo 
companheiro engenhoso conseguiu transformar 
umas roupetas velhas em pelote e calções; e fez 
duas trouxinhas das cobertas brancas da cama, 
com alguma roupa e uns livrinhos. 

Uma noite sahiram do mosteiro, saltaram o 
muro da cerca, e eil-os em plena liberdade. 

Era principio do verão de 1567. 

Ao am.anhecer estavam longe de Cintra ; não 
sabiam caminhos; o plano era correr até Salaman- 
ca, porque em Coim.bra ou em Évora poderiam 
encontrar alguém conhecido. 

Chegaram a Sacavém, ouviram um bateleiro a 
bradar : 

— Vai largar! vai largar I 

Metteram-se no batel, com outros passageiros e 
desembarcaram quasi noite em Aldea-Gallega. 

— íamos como dois passarinhos saidos das 
gaiollas. 



T2 



Não queriam interrogar ninguém, sempre com 
receio de serem conhecidos, ou de motivarem des- 
confianças. 

Foram seguindo a pé uns almocreves hespa- 
nhoes. 

Andaram, andaram por aquella charneca^ e can- 
saram muito. 

Um arrieiro castelhano que ia com a recova de 
vasio por ter já vendido o seu trigo, entrou de con- 
versa com os rapazes, u por pouco dinheiro lhes 
deixou montar dois burrinhos. Chegaram a Mon- 
temor o Novo, vilia que o Manuel Carreira conhe- 
cia; só então os dois estudantes souberam que es- 
tavam em mau caminho para Salamanca. 

No dia seguinte estavam em Évora; o Carreira 
conhecia um estudante, chamado João Pinto, pre- 
to do Congo ou Angola, branco pelas suas virtu- 
des e prudência. Indagou, soube da sua morada, 
quiz vel o. 

O Pinto animou os rapazes, que estudassem ali, 
podiam viver como em Salamanca ; elle guarda- 
ria segredo : convenceu-os a ficar. 

Começaram logo a ir ao estudo. Pinto era mui- 
to pobre. Dormiam n'uma esteira, mal cobertos. 

Dias depois não quizeram incommodar mais o 
pobre preto e conseguiram alugar uma camará. 

Alugaram a camará da Cru^; parece que era ce- 
lebre entre os estudantes. 

Uma casa com duas arcas mui grandes, e no 
meio uma cruz enorme que um alentado discipli- 
nante ou penitente mandou fazer para a levar na 
procissão de quinta feira de Endoenças; e depois 
a deixou ali; a cruz tinha a altura do pé direito da 
casa, e estava tão atochada entre os sobrados que 
ninguém a movia. 

Os dois rapazes dormiam sobre as arcas e vi- 
viam mui pobremente. Alguns mezes depois Ma- 



1iN 



i3 



nuel Carreira foi para casa do pai, e mais tarde 
professou nos Capuchos, como desejava. 

D. João de Casiro ficou muito triste, sem o seu 
companheiro; a pobreza era agora mais pesada. 
Ninguém o conhecia, nem o próprio João Pinto 
sabia o seu verdadeiro nome. 

Não queria pedir, nem servir, nem andar átuna. 
Nunca se resolveu a ser estudante pobre, dos que 
pediam pelas portas. 

— Não podia acabar commigo chegar a isso — . 
Os últimos cinco réis empregou-os n'um pão de 

rala e com elle se sustentou un a semana. 

Mas o rapaz queria viver, queria estudar, e sen- 
tia que ia morrer, ou perder o juizo. 

— Fui constrangido a começar a pedir, sem me 
poder ainda dobrar de todo; porque não pedia se- 
não pelas portas dos mosteiros, e não pelas outras; 
nem de noite como faziam alguns estudantes po- 
bres. Tinha eu isto por opinião de honra; antes 
me deixara morrer que fazel-o; por onde padecia 
mais que os que o faziam. 

De maneira que nunca pedi a secular, nem inda 
a ecclesiastico; porém recebia a esmola que o ar- 
cebisDO de Évora D. João de iMello costumava dar 
cada semana aos estudantes pobres — . 

Assim viveu uns mezes. Chegou o tempo das 
ferias grandes. 

O neto de D. João de Castro, visorei da índia, 
descobriu um meio de viver sem pedir esmola. 

Arranjou um cesto e uma faca, voltou o pelote 
do avesso, e foi á praça grande da cidade, muito 
de madrugada, metter-se nos grupos de ratinhos 
trabalhadores das vindimas. 

Foi alugado para as vinhas dos padres da Com- 
panhia. 

Contente por não esmolar; contrariado sempre; 
Ob ratinhos, os manageiros íitavam-lhe as feições 



e o vestuário estranho, e elie sentra-se incommo- 

dado. 

Fato, cousas novas não havia quando acaba- 
ram as férias e se abriram os estudos; estava es- 
farrapado. 

Nos mosteiros davam somente pão, caldo e al- 
guns sobejos de carne ou peixe. 

Pelas ruas e monturos apanhou sohis velhas 
para remendar os sapatos. Um beliodia houve re- 
ceita extraordinária; os padres da Companhia re- 
partiram pelos estudantes pobres algum dinheiro 
das multas dos de partido. 

Depois um estudante criado do inquisidor Ma- 
noel da Veiga também o ajudou com poucochinho. 

Faltou ao pagamento da camará da cruz, e o 
senhorio expulsou-o. Foi outra vez para casa de 
João Pinto. 

Nos estudos ia seguindo regularmente; sem li- 
vros, papel pouco, um dia sem tinta, outro sem 
penna, todavia o pobre D. João não era dos peiores. 

De súbito á sabida de uma aula. quando a tur- 
ba negra e revolta dos estudantes se espalhava pe- 
la arcada, deu de rosto com um religioso da Pe- 
nha Longa, que visitava os geraes com um padre 
do Coliegio. 

Era frei Luiz de Lisboa; conheceu o rapaz, fi- 
tou-o bem, poz os olhos no chão, e passou sem 
dizer palavra. 

Fr. Luiz na manhan seguinte foi visitar João 
Mendes de Mendonça, morgado da Oliveira, o que 
morreu com D. Sebastião em Africa, e na conver- 
sa fallou do estudante. 

— Que no Coliegio tinha visto o neto de D.João 
de Castro, e que já sabia que vivia mui pobre- 
mente — . 

O fidalgo e sua mulher D. Beatriz de Vilhena 
ficaram muito emocionados. Delicadamente pro- 



i5 



curaram conhecer o moço. Tinham em casa um 
estudante seu criado, que nesse anno era condis- 
cípulo do João Pinto; com o pretexto de mandar 
uns mimos a este que estava doente, pediu a D. 
João para o acompanhar a casa. Foram, entraram 
n'i)ma sala, e disse- lhe que esperasse. 

D. João fícou-se, com o seu fatinho remendado, 
um farrapo, no salão opulento. 

Appareceram-lhe os fidalgos. 

Com muita bondade interrogaram-no; elle que- 
ria esquivar-se, fugir, não queria responder, mas 
João de Mendonça segurou-o por um braço. 

— Digo a verdade, como fidalgo que é, e falle 
de igual para igual, sr. D. João de Castro. 

O rapaz contou a verdade toda. 

D. Beatriz mandou arranjar um quarto, e horas 
depois o rapaz estava lavado, esfregado, vestido 
de boas roupas, um primor. 

\í dias depois mandaram-no para o Collegio, 
tão bem aviado e provido de vestido de estudan- 
te, cama e roupa de linho, como o melhor do Col- 
legio, posto na primeira meza, que era de quinze 
mil réis por anno, de que se pagava logo no prin- 
cipio a metade. 

— Emfim por este fidaldo e fidalga me tirou 
Deus da vida mísera e pedinte. Elle lh'o pague e 
a iodas as .suas cousas — . 

Fallou-se muito do caso em Évora; entre a fi- 
dalguia e o alto clero conversava-se do pobre tu- 
nante que tivera a coragem de viver tanto tempo 
na miséria; queriam conhecei o, cortejavam-no, e 
até o infante cardeal D. Henrique quiz ver o mo- 
ço fidalgo que andara á jorna a vindimar em Val- 
bom. 

Pasmavam de tal coragem. 

O cardeal conversou com o morgado da Olivei- 
ra e pediu-lhe licença para tomar o estudante sob 
sua protecção. 



i6 



E assim o tomou — por seu collcgial, no nume- 
ro dos que elle sustentava com opas em o dito 
collegio. De ahi por diante fiquei collegial do car- 
deal, da primeira meza, sustentado como cada um 
dos seus; cujo ordenado era mui sisado e depen- 
dia de outras achegas e extraordinários, para se 
poder de alguma maneira passar a vida de estu- 
dante, sem se estar uma pessoa revolvendo sem- 
pre em comichões de necessidades. 

O Cardeal dava aos seus estudantes, em cada 
anno, uma opa, uns calções e uma jaqueta. De 
seis em seis mezes um barrete, ou um tanto para 
elle, e um par de meias de estamenha ou dois tos- 
tões. Três camisas ; e quatro vinter.s por mez para 
sapatos. 

Quando se abriam as escolas dava dois tostões 
para papel, tinta e pennas, e alguns, poucos, livri- 
nhos de humanidades. Dava botica aos doentes, 
mas não pagava a despeza das doenças que exce- 
dia a quantia da porção de cada dia. 

O pobre D. João de Castro via-se em apuros, 
agora que todos sabiam quem era; não se atrevia 
a acompanhar os collegas nos seus passeios pelas 
hortas e quintas do termo da cidade, nem tomava 
parte nos seus jogos. 

Os estudantes finos, fidalgos e ricos, jogavam a 
pélla, a barreira e as chachas, em que era preciso 
apparecer em corpo, e frequentemente se estraga- 
va o fato. 

Chegou a aborrecer o collegio, os estudos, e até 
os livros. Esteve onze annos alli, chegando a fre- 
quentar o terceiro de theologia. Tomou o gráo de 
mestre em Arfes. 

Quando começou a frequentar theologia, o car- 
deal por parecer dos padres da Companhia, mu- 
dou-lhe a opa em mantéo e roupeta, e deu-lhe um 
beneficio simples, ou abbadia sem cura, em S. 
Gião da Silva, termo de Valença do Minho. 



_1Z_ 

Depois obteve uma pensão de 5o cruzados em 
uma egreja da apresentação de elrei D. Sebastião. 

Em iSyS deixou o collegio. O padre Luiz de 
Molina instou com elle para íicar, como almotacé 
dos esludantes. Elle quiz sahir, entrar n'um con- 
vento, mas veio o desastre de Africa que tudo 
transtornou. 

D. João de Castro ligou-se depois com o prior 
do Grato, e teve suas aventuras, e muitas desven- 
turas, até que teve de saliir do reino. 

(O códice em que vem esta autobiographia tem 
o rosto seguinte: — Tratado dos Portugueses de Ve- 
neia, ou Ternário^ Senario e U^ovenario dos portu- 
gueies que em Veneia solicitaram a liberdade delT^ey 
D. Sebastião. 'Parte II. Por D. João de Castro. 
Vol. XVIII. Taris 1622- 162S. E' in-4.'' — Bibl. 
Nac. de Lisboa. P — 3 — 40.) 

O cardeal infante D. Henrique gostava muito 
de andar pelas aulas, de conversar com os estu- 
dantes, indagando de seus estudos e projectos de 
vida. 

Aquelle edifício vastíssimo do Collegio que ac- 
tualmente aloja, á larga, a Casa Pia, Governo Ci- 
vil, Fazenda districtal, o Lyceu, foi quasi todo 
construido em tempo do cardeal, e até um tanto 
precipitadamente, porque em pontos se nota falta 
de perfeição no trabalho. Não acontece isto no Se- 
minário que ficou admiravelmente estabelecido, 
perfeito no seu todo e afinado em cada uma de 
suas divisórias. 

Um dia estava o cardeal á sua varanda, gostan- 
do, de ver a turba dos estudantes nos geraes, e re- 
parou que os mais pequenos não podiam chegar 
á taça da fonte que está no meio do pátio; man- 
dou logo fazer aos quatro lados do tanque uns 
supplementos de mármore, para que os pequenos 
podessem beber na taça. 



i8 



QuanJo havia obras, que em tempo d'elle hou- 
ve sempre obras, gostava muito de ver o pessoal 
interessado n'ellas. 

Alguns noviços nas horas vagas vestiam pelotes, 
e trabalhavam nas officinas. Pelotes eram certos 
vestidos rústicos que nos primeiros tempos vestiam 
ás vezes os religiosos de Jesus, para maior humi- 
lhação e desprezo próprio. Quando o velho car- 
deal assim encontrava os noviços ficava muito 
alegre, tratando-os com benevolência de pae ; e 
sempre os protegia. 

D. Sebastião frequentava muito a Universidade 
e o collegio; por esses longos corredores, pelas ar- 
cadas firmes nas clássicas columnatas, passou mui- 
tas vezes esse rapaz de formoso aspecto, tez mui- 
to alva, cabeilo loiro, bem posto e estatura regular, 
e a feição muito grave, ás vezes mesmo triste. 
Parecia-se com a mãe, D. Joanna, filha de Car- 
los V, o mystico imperador. O pae de D. Sebastião 
era o infante D. João, nascido aqui em Évora ; 
falleceu muito novo. D. Sebastião nasceu 18 dias 
depois da morte do pae. 

Que triste, que afílictival cheia de rrortes pre- 
coces de filhos e de parentes, a vida do pobre D. 
João III! Por isto não admira o temperamento sin- 
gular de D. Sebastião, aggravado talvez pela edu- 
cação. 

> 

Ha um episodio significativo que fica bem aqui. 

Um dia el-rei D. Sebastião disse ao cardeal, em 
segredo, a meia voz, como indo espairecer a um 
terraço do collegio vira, fora do collegio, na estra- 
da, um mancebo tangendo viola e motejando mui- 
to, que lhe disseram ser estudante; e que lhe tinha 
parecido mal tanta desenvoltura. 

O cardeal ficou muito incommodado, e logo que 
se recolheu a casa mandou chamar o padre pre- 
feito, contou-lhe o que el-rei lhe dissera, ajuntan- 



J9_ 

do logo que elle lhe respondera que lhe parecia 
que o mancebo não seria estudante: e deu-lhe os 
indicios, a hora, etc, para que examinasse o caso. 
O padre prefeito foi logo indagar, e verificou não 
ser estudante o tal rapaz; o cardeal ficou mui 
contente, dizendo que bem lhe parecera que estu- 
dante da sua Universidade não faria tal coisa 1 É 
foi logo communicar o resultado da devassa a el- 
rei, que era um rapaz de dezoito annos, com um 
buço dourado, em segredo, a meia voz ! 

No mez de junho de iSyS houve prémios aos 
estudantes, dados á custa do deão da sé Simão 
Mascarenhas. 

Representou-se a historia de Dionísio tyranno 
da Sicilia ; D. Sebastião assistiu a toda a funcção. 
Deram prémios ás figuras da historia^ aos estudan- 
tes, ainda aos das classes inferiores; dois meninos 
fizeram seus discursos, tudo acompanhado de ex- 
cellente musica. (P.® António Franco, Imagem da 
virtude. . . no Collegio de Évora, pag. 49, 57. . .). 



Na callada da noite, treva fria de inverno, ou 
branco, tépido, luar estival, vem lentamente o gru- 
po negro, ao som de violas, uma voz de rapaz en- 
toando a modinha, satyra ou paixão de amor. 

Nas ruas, terreiros ou travessas apenas os lam- 
peões ou lanternas dos nichos dos santos ; e som- 
bras espessas pelas arcadas, nos cotovellos dos 
terreiros, nos alpendres. 

N'uma, n'outra janella soergue-se a adufa, de 
fina grade de madeira, ou entreabre-se a rótola, e 
assoma uma cabeça de mulher. 

Que finas noites de luar as de Évora ! a altitude, 
a seccura do ar, não sei quê, dão um tom de vida 
ás constellações, que se destacam muito, dando 



20 



uma profundidade infinita ao céo : o ar é leve, no 
avançar da noite uma ligeira humidade rasa os 
campos, e enche-se então o ar do aroma delicioso 
dos fenos levemente orvalhados. 

Passa o grupo, esmorece o rythmo musical, vol- 
ta a serena quietude. 

Ha suspiros, anceios, saudades no ar. 

A's vezes um remoinho súbito, no alpendre, no 
arco, á bocca da viella, o estalo dilacerante da vio- 
la partida, um ruido de folhas d'aço, um baque 
surdo. 

Fogem, fica alguém na rua, que geme e se quei- 
xa, até que vem o alcaide com os seus homens. 



Corria o anno de iSSg. 

Os graves mestres, os venerandos theologos co- 
meçavam a estar intrigados. Aquelles quatro estu- 
dantes andavam agora sempre juntos, todas as 
tardes; ora silenciosos como entregues a funda me- 
ditação, ora gesticulando, fallando a um tempo, e 
desdobrando ás vezes rijas gargalhadas. 

Iam pela tarde, estradinha fora, por entre os far- 
regeaes, á horta das Oliveiras, assentavam-se na 
relva, e que faziam ? conspiravam ? cousa politica? 
oh 1 a época era terrivel ! ou haveria caso de Mo- 
lina, innovação perigosa? scisma, heresia? 

Os rapazes levavam um livro; o reitor quiz sa- 
ber que livro era; um leigo tomou sentido, e veri- 
ficou serem Os Lusíadas. 

O reitor íicou descansado, não era o Molina! 
Mas. . . os Lusíadas ? 

Os estudantes, os quatro do passeio, eram to- 
dos theologos adiantados e qualificados. Eram Ma- 
noel do Valle de Moura, natural de Arrayollos,- 
Bartholomeu Varella, de Vianna do Alemtejo, Luiz 



2í 



Mendes de Vasconcellos, e Manuel Luiz Freire, 
que depois foi prior de Terena. 

Quatro theologos, com os Lusíadas^ passeiando 
todas as tardes, saindo da porta de Machede, e 
entrando nos farregeaes, gesticulando muito, tro- 
cando papeis entre si, era para intrigar mestres e 
alumnos. 

E elles sem nada revelarem. Um segredo impe- 
netrável. 

Dois mezes durou a conspiração. 

Um bello dia soube-se no collegio, emíim, o que 
faziam os quatro estudantes. 

Foi uma explosão. Elles eram grandes fanáti- 
cos pelos Lusíadas^ e muitas vezes passeavam re- 
citando as maravilhosas oitavas cheias de pátria c 
amor. Mas rapazes amigos de folgar lembraram- 
se um dia de parodiar a epopéa; era uma forma 
nova de homenagem ao poeta sublime: e fizeram 
a parodia com elementos populares da cidade, e 
do seu tempo. 

O divino passou a ser o de vinho. Em vez de 
Gamas, e Castros, e Albuquerques, apparecem os 
Catigelas, Lunas, e Barbanços alcunhas de barões 
assignaiados então nas proezas de Baccho, e ge- 
ralmente conhecidos na rua das Adegas. 

A índia é Peramanca com as suas vinhas cele- 
bres. 

Em vez do Cabo, de Quiloa, de Melinde, te- 
mos Rio Mourinho, o Louredo, a Lagcm, a poria 
d'.Aviz. Por ahi andavam o Bagulho, o Novellão, 
o Rangel e o Carranca, o Cláudio e o Coutinho e 
Fero Vaz, heroes da borracha, empunhando: 

De chifre copos grandes, taças bravas. 

Fizeram cento e seis oitavas parodiando o pri- 
meiro canto dos Lusíadas. Foi um triumpho! A 
gente mais sisuda da cidade estourava de rir. As 
carapuças, as allegorias eram admiráveis. E não 



22 



oíTendia gente de posição^ nem fidalgos, nem dou- 
tores, nem o meirinho tinham razão de queixa. 

O padre Ferrer, varão doutissimo da Compa- 
nhia, declarou alto e bom som, no seu bello cas- 
telhano, que a obra era excellente, era extraordi- 
nária! Tiraram-se copias que giraram por todo o 
paiz em pouco tempo. 

Houve ainda tentativa de continuação da paro- 
dia por António de Magallanes y Menezes, senor 
de la Ponte de Barca. 

Manuel de Faria e Sousa, Francisco de Soares 
Toscano, e outros tratam da parodia feita pelos 
estudantes de Évora. N'este século imprimiu-se já 
duas vezes. 

(V. Brito Aranha, Dicc. bibl. port.tomoxiv, pag. 
404 e 410). 

Como alguns copistas não conheciam bem as 
designações de pessoas e logares, especiaes a Évo- 
ra, apparecem muitas variantes nas copias ; houve 
conimentarios á parodia! Foi um êxito enorme! 
A idéa de parodia litteraria não é má. A Batracho- 
myomachia descrevendo os combates de rans com 
os ratos é parodia á ílliada de Homero. 

A Agnés, de Chaillot, é parodia da Inês de Cas- 
tro, de Lamotte. 

O D. Jayme, de Thomaz Ribeiro, foi parodiado 
pelo Roussado. 

A parodia n'estes casos é uma verdadeira ho- 
menagem. 



As festas bacchanaes dos quatro estudantes de Évora teem duas 
edições impressas. 

— Parodia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões. Porto, 
Typ. da rua Formosa, 1845, in-S." 

— Parodia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões por qua- 
tro estudantes de Évora, em i58q. 

Lisboa, Typ. de G. M. Murtins", 18S0, in-S." 

Talvez um dia me resolva a publicar uma edição commentada, 
porque é interessante como documento alemtejano eborense do 
final do século xvi. 



23 

19 de janeiro de 1659 

A pátria estava em perigo! 

Elvas, a grande praça militar, formalmente cer- 
cada e investida pelo exercito hespanhol, teria de 
render-se ! 

Rendida, ficava em brecha a fronteira, livre o 
caminho para a capital. Se o exercito hespanhol 
fosse obrigado a levantar o cerco e a retirar, a H- 
berdade ficaria garantida. Era preciso empregar 
um grande esforço; reunir alli todas as forças dis- 
poníveis, responder á concentração hespanhola com 
a portiigueza. 

Para isto levantaram as guarnições das praças, 
improvisando outras, com gente bisonha, leiga nas 
armas, rapazes e velhos, com chuços, arcabuzes, 
e antigos mosquetes, que servissem para encerrar 
portas, atirar por uma fresta ou detraz de ameias, 
gritar alarma, e apparentar de guarnição verdadei- 
ra. Ninguém se recusou, n'aquella urgência, no pe- 
rigo enorme, por aquellas terras alemtejanas; foi 
uma leva em massa; o velho morgado e o reitor 
dos Loyos encontraram-se ao lado do operário, 
do quintaneiro, do bravio zagorro da charneca, 
e marcharam a guarnecer castellos e muralhas. 

Os terços tinham ido todos a formar o exercito 
para bater os hespanhoes que cercavam Elvas. Tu- 
do era preciso, instava empregar todos os elemen- 
tos de forca. 

Lembraram-se de fazer uma companhia comos 
estudantes da Universidade e collegio do Espirito 
Santo; com os que restavam, porque muitos esta- 
vam já no terço da cidaTe ; com os rapazes de 14 
a 20 annos, e com os privilegiados; eram ao todo 
uns cem. 

O reitor era então o dr. Francisco Soares, cha- 
mado o lusitano^ um santo padre que passara a vida 



_24_ 

a estudar a sua philosophia, a -commentar S. Tho- 
maz d'Aquino, a ensinar iheologia nas aulas. 

Era muito humilde, um doestes homens mansos, 
tranquillos, que vivem bem na sua modéstia, no 
estudo. n'uma cella conventual, ou á sombra de 
uma arvore na cerca silenciosa. 

Tivera um dia uma ambição! queria ser mar- 
tyr ! ir para o Japão, dar o seu sangue pela fé ! 
Houve muito d'isto; ha ainda hoje o delírio do 
martyrio! 

Estava idoso, morrer aqui ou no oriente.-. . na 
enxerga da cella ou varado por uma lança. . . lá 
a morte seria útil á fé ! 

O geral iMucio Vitelleschi não deu licença; dis- 
se-lhe que as suas luzes e prudência eram preci- 
sas cá ; já estava idoso para as longas viagens ma- 
ritimas ... 

— Olhe Vossa Paternidade, eu em breve hei de 
morrer; deixem-me á minha vontade. 

Mas o geral negou a licença; e em vez de ir 
para o Japão veio reitor para o coUegio e Univer- 
sidade de Évora. 

Em breve tinha as sympathias, a dedicação es- 
pontânea de leigos, estudantes, irmãos e sacerdo- 
tes. Era um sábio professor, e um caracter adorá- 
vel. 

De súbito a crise da lucta, e a gente do collegio 
formada em companhia de guerra! e que marchas- 
se logo ; escolhesse um chefe, arranjasse armas, 
pólvora, mantimentos; e que se fossem apresentar 
ao governador de Juromenha! logo! logo! 

Os estudantes reuniriam -se e elegeram para che- 
fe o padre reitor! o pobre velho professor, todo 
humildade! 

Elle foi! Pediu que o escusassem do com man- 
do. . . os estudantes e o claustro insistiram. Que o 
chefe militar da praça os mandaria nas cousas de 



25 

seu officio, mas o chefe d'aquelle terço Improvisa- 
do havia de ser o reitor, só o reitor. E elle obede- 
ceu, foi acompanhar os seus estudantes. 

O dr. Diogo de Alfaya e o padre Francisco Car- 
doso quizeram acompanhal-o, 

E marcha para Juromenha ! A curiosa compa- 
nhia! Os padres iam nas suas caleças, os rapazes 
a pé; arranjaram uns burricos para levar algumas 
bagagens, mantimentos, roupas; carros, cavallos, 
muares tudo fora requisitado para o exercito. 

Rapazes! como elles iriam contentes pelas férias 
inesperadas! e assim amilitarados, em tom de 
guerra, pela campina fora! 

Chegaram, e fizeram o serviço de guarnição sem 
novidade, muito limpamente; em vez de sineta 
soava a corneta, e pelas noites nas torres e nas 
guaritas das muralhas não cessavam os alertas vi- 
brantes. 

Uma bella manhan um cavalleiro a galope pas- 
sando junto da muralha, sem parar, bradou : Vi- 
ctoria I victoria ! viva Portugal 1 

Vieram todos ás muralhas; outro cavalleiro ap- 
pareceu logo, a galope, agitando o chapéu. Este 
era de Juromenha e parou na porta da villa no 
meio do grupo dos rapazes. Victoria ! os hespa- 
nhoes completamente derrotados nas linhas de 
Elvas ! 

Então a rapaziada eborense rompeu em salvas 
de mosquetes e artilheria, os sinos desfizeram-se 
em repiques, e os bandos de pombos esvoaçavam 
loucos sobre a antiga villa alemtejana. 

O padre reitor Francisco Soares foi logo a El- 
vas dar os parabéns aos generaes; deram-lhe li- 
cença para voltar a Évora com os seus estudantes. 

Elle volta a Juromenha, 19 de janeiro de 1659, 
e manda logo preparar tudo para marchar para 
Évora no dia seguinte. 



26 



N'este tempo adoeceu perigosamente um homem 
em casa do governador, no castello; o medico 
mandou que lhe dessem o viatico. O reitor e a sua 
gente iam n'esta occasiáo fazer as suas despedidas 
ao governador. Entraram naturalmente no acom- 
panhamento do viatico. O enfermo parece que es- 
lava no pavimento térreo, nos baixos da morada 
do governador da praça, e que na casa onde elle 
estava, ou alli próximo, havia barris de pólvora; 
ou o paiol. O enfermo como estava tão maí náo 
poude avisar. Algumas pessoas entraram çoiii to- 
chas accesas. 

Houve uma explosão 1 uma explosão enorme ! 
A casa estourou como uma bomba, as abobadas 
baquearam desfeitas; tudo alli dentro ficou quei- 
mado, espedaçado, triturado, esmagado. 

Impossível de reconhecer os cadáveres. Achou- 
se um fragamento de corpo que se conheceu ser 
do reitor porque conservava na algibeira, n'um 
fragmento da roupeta, o sinete do ofíicio, o cilicio 
e as disciplinas. 

Os três padres e mais cem pessoas entre estu- 
dantes e privilegiados da Universidade de Evora, 
terminaram as vidas n'uma explosão, n'aquelles 
dias de immensa gloria! 

(Évora gloriosa, pag. 173. Barbosa Machado. Bibl. Lusitana, art 
Francisco Soares. Imagem da virtude em o noviciado da Compa- 
nhia de Jesus na corte de Lisboa peio P. António. Franco (Coim- 
bra, 1717), cap. 48 do.Iiv. 3." pag. 6i5 e seg.) 






GABRIEL PEREIRA 



KSTUDOS EBOHKHSKS 

Estáo publicados : 
I," O mosteiro de Nossa Senhor?, do Espinheiro. — .2." Evofa ro- 
mana. O templo. As inscripçóes. — 3." A Casa pia. — 4.'',Loios, 
azulQJos e obras d'arte. — -5." Bibliotheca Publica. Noticias das 
collecções. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 

— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9.» 
Vésperas da restauraçãp. — io."Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.» O archi- 
vo municipal —1 3." A restauração em Évora. — 14.°, iS." e iG." 
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — 17.° Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.", 19.°, 20.° e 21.° Assédios d'Evora em i6õ3. — 22.° Os Fes- 
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nos Lusiadas.-^ 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental. — 
26." Antiguidades romanas em ELvora e seus arredores. — 27.° 
Roteiro d'um eborense. — 28.0 Universidade de Évora. — ^^29.° 
As caçadas, i.^ parte. — 3o." Évora e o ultrampr, 2.^ parte. — 
3i.° Ibn Abdun. — 32.» Cs mouros. — 33." As caçadas, 2.° parte. 

— .54." Os estudantes. 

A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta. 



Documentos Históricos da Cidade d'£vora 

Estão publicados : , 

i." PARTE —Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João 1.°. Etc. 
1 vol. de 202 pag. in-4.° — líttiSoo réis. 

2.^ PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborensçs na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in 4.° — 1^-2.00 réis. 
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J. 

F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos., em casa do editor Abran- 
ches. 



, GABRIEL PEREIRA 



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DOS EBOR 



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{Historia — ^rte — (Archeologia 



ferses Ibofsnjss áo . seeulo VíM 



SONETOS DE FREIRAS. O PINHEIRO DO ALTO DE S. BENTO. 

O DISCURSO DA. CABALINA. EKUDITOS JOVIAES. 

UM SONETO MORDENTE. O Al.EMXEJO NO CORO DAS MUSAS. 



ÉVORA 

MIJNTKFIVA. EPíOFtFCNSE 

DE JOAÇUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor da oas* rí*l 

62 — Rua Ancha — 64 

1894 



GABRIEL PEREIRA 






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^istoria — Arte - ^rcheologia 



f trsos lborêiii0§ úq mo-úo ZMll 



SONETOS DE FREIRAS. O PINHEIKO t>0 Af.TO DK S. PENTO. 

O DISCURSO f)A CAHAIINA. KIU!li|IOS .IOV(AKS. 

UM SONKTO MOkhKNTE. O Al bMlFJO Ni) COKO DAS MUSAS. 



ÉVORA 

OE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor b* oaía rea^ 

*>.! — Kua Ancha -- 0^ 

1S94 



ESTUDOS EBORENSES 



Versos Eborenses do século XVlil 



Sonetos de freiras 

A senhora infnnta D. Francisca, filha de D. ÍV- 
cho II e de D. Maria Sophia Izahcl. Ibi giande 
protectora de mosteiros de rehgiosas. l^^stava seni- 
pre em dia com a vida das clausuras; carteava se 
com abbadessas e priorezas, e quaesqucr freiras; 
sabia das vagas, das festas; soccorria as pobrezas, 
secundava os projectos, dotava meninas, dava e 
promovia donativos, era o anjo tutelar; e era ado- 
rada pelas freiras, que duvida! 

Isto das casas religiosas em tempo das casas 
vinculadas impunha-se como indispensável resul- 
tado. Que fazer da pobre menina fidalga que não 
encontrava marido? Ou dos íilhos depois do pri- 
mogénito que era o senhor morgudo!^ Kstes tinham 
os cabidos, ás vezes as mitras, os convenlc^, e ain- 
da a carreira das armas; para ser capitão de ca- 
vallos não era preciso ler por cima. 

Para as senhoras a solução era uma só, o mos- 
teiro, onde se entrava com pequeno dote, e se pas- 



sava uma vida considerada superior. A fidalga po- 
bre; a viuva a quem o marido só deixara um no- 
me honrado e hábitos polidos, sem meios de sub- 
sistência; a dama que por incidentes domésticos 
se via forçada a isolar-se, asylavam-se no mostei- 
ro. Era uma solução digna. A moderna sociedade 
portugueza não sabe resolver o problema. Para o 
cavalheiro fechou o convento, põediííiculdades nos 
cabidos e mitras, os cursos militares apertantes 
cada vez mais, de modo que só tem a secretaria; 
por isto temos grandes fidalgos ás vezes em em- 
pregos de segunda ou terceira ordem, o que não é 
bonito para elles e é máo para o serviço publico, 
para o estado. E' urgente inventar uma guarda fi- 
dalga, uma corporação de principacs da pa- 
triarcal, um cotíllon de nome pomposo, para collo- 
car esles senhores de sorte a não embaraçar os que 
trabalham. 

As fldalguinhas pobres iam para a clausura, ves- 
tiam os seus hábitos muito decentes, frequente- 
mente elegantíssimos, ouviam órgão, tocavam cra- 
vo e viola de arco, resavam nos bellos coros artís- 
ticos, faziam doces deliciosos, flores de seda, an- 
dainas para o Menino Jesus, bordados incompará- 
veis e não faziam mal a ninguém. 

Os doces fabricados pelas freiras de Évora sem- 
pre tiveram fama, ainda a tem hoje, e muito me- 
recida; que paraizo de paladar naquelles qiieijiuhos 
frescos, que symphonia de gulodice nas douradas 
lampreias; ha idyllios, odes, elegias; um bolo real 
do Paraizo é uma e pope a! 

Mas, como ia dizendo, a senhora infanta D. Fran- 
cisca era muito querida nos mosteiros; a sua mor- 
te prematura, aos Sy annos (a infanta nasceu em 
Lisboa cm 3o de janeiro de 1699, e morreu na 
mesma cidade, em i5 de julho de 1736), foi natu- 
ralmente muito sentida; as freiras de Beja e Evo- 



ra que tinham muitas rclaç(5es com a infanta pesa- 
ram muito, c prestaram-liie homenagem em um 
livrinho que supponho mui pouco vulgar: Ltictiio- 
sos ays do pranto man enternecido na sentida morte 
daser.""^ srJ^ T). Francisca, infanta de "Tortugal . . 
por 7). QÃÍarianna Josepha 'í^ío <2Ãíaior.^ religiosa da 
Conceição de ^eja (Lisboa, lyS/, in-4."). 

D. Marianna Rio Maior tez a collecção e a man- 
dou imprimir; ahi estão poesias de freiras eboren- 
ses, que são as que me importam; sonetos! procla- 
mados então sem segundos; todos de primeira or- 
dem; na minha opinião os sonetos não são máos, 
engenhosos, hoje ha cousa muito peior, mas estou 
convencido de que as notáveis poetisas seriam in- 
signes em especioncs. Mas o que é certo é repre- 
sentarem muito bem um feitio do tempo, aquelle 
fabrico joãoqiuntesco^ com suas volutas, conchas, e 
fachos estyUsados. 

O primeiro soneto é de D. Águeda Maria do 
Sacramento, religiosa do mosteiro do Paraizo, de 
Évora. 

I 

NA MORTP: da infanta d. FRANCISCA 



A uma Ifz tão formosa, um accidcnte 
Assim se atreve ousado? que harmonia! 
P^az um desmaio a luz ! sim agonia 
E' da formosa luz, quando a crecente? 

Oh ! como todo o esphcrico vivente, 
Sentirá d'esta luz (que produzia 
Alentos jci ás espheras, já ao dia) 
' Esta magoa fatal, e irreverente? 

Mas subiu como ecclipsc á luz mais pura, 
Que no Céo se está vendo com espanto, 
E com cultos se vè na sepultura; 

No occaso não hade ser. que esplendor tanto, 
"Só no oriente sepulta a formosura, 
Suspendendo a do sol, da aurora o pranto. 



A mesma relii^iosa fez outro soneto, segundo na 
1 
dos. 



orJem, mas ambos com acclamações de sem segwi 



II 



Do Jardim Luso ;i melhor tlor sem vidai 
\ imagem de Minerva sem alento 
Das três graças o còi o em sentimento ! 
Do sol a precursora escurecida ! 

l>a aurora a melhor pérola perdida ! 
Da Lusitânia o Céo sem movimento ! 
Do hello o original sem luzimento ! 
A luz da Lysia a sombras reduzida ! 

Do Augusto a ideii já sem permanência, 
Da Regia estirpe em tior cortado o fructo, 
Todo o hnperio do amor em decadência, 

Transformando o divino em triste lucto ! 
Ou parece se esquece a Providencia 
Ou passa a crueldade, o que é tributo. 



O terceiro soneto é de Soror Brites da Concei 
ção, religiosa do mosteiro de Santa Mónica de Évo- 
ra : é obrigado ás palavras íinaes. 

IIÍ 

Já o alento que dava alento á vida, 
L a vida, qnc tudo era um puro alento, 
Lntre um íuctuoso pranto o sentimento, 
A lamenta por luz escurecida : 

Luz era. por quem a luz do Sol perdida. 
Andava cm continuo movimento ; 
Que para ter mais régio luzimento, 
Ver queria esta á sua reduzida. 

- Mas ainda que não tem já permanência,, 
Desta luz, Hor também o altivo fructo, 
O ha de ter, ainda tendo decadência. 

Que uma ílor, e uma luz niío traja luto 
Por morrer luz e Hôr que c Providencia, 
Que a ílor e luz sejam Fénix por tributo. 



o pinheiro do alto de S. Bento 

Em 1739 Jeu-se o celebre caso do pinheiro de 
S. Bento; parece que era uma arvore enorme que 
muitas gerações tinham reconliecido, imponente na 
sua collina de granito. Os pinheiros de S. Bento 
são nomeados de ha muito, são balisas, atalaias da 
cidade; quando a gente parte e olha por aquclles 
sítios são elles a ultima característica que desap- 
parece. Quando volta, ou procura a cidade, a mui- 
tas léguas, elles marcam a direcção. De niuito lon- 
ge, na vastíssima paisagem do Alemtejo central, o 
grupo dos pinheiros de S. Bento, e o elmo guer- 
reiro da sé, dão a linha inconfundível da cidade. 

Pois os pinheiros que lá estão hoje, na parte 
mais alta da cerca do extincto mosteiío, talvez se- 
jam filhos da veneranda arvore tjue tombou em 
janeiro de 1739. 

Mais feliz que outras arvores teve esta panegy- 
ristas. — discursos da cabaliua^ em que se descreve a 
niitia do grande e antiquisshno pinheiro da cidade de 
Évora ^ que depois de deioito séculos de duração a im- 
pulsos do vento cahio por terra a dous de janeiro des- 
te presente anno de ij3g. ^Dedicados á muita reve- 
renda madre abbadessa e mais religiosas do conven- 
to de S. '^ento da mesma cidade por J. C. da C. 
(qúe é João Cardoso da ('osta). Offic. de Miguel 
%odrigues^ rySg^ i^-4.^ 

Em agosto ultimo, visitando o seminário, aò en- 
trar na quadra do norte, eu tive intimo pezar, sen- 
ti a faltif-d'aquella velha larangeira, que segundo 
me disse o reverendo secretario padre Neves, tal- 
vez fosse da origem do edifício; porque era uma 
larangeira das que chamam [lorluguezas, e todos 
os velhos a conheceram velhíssima. 

Eugosto immenso d'uma arvore antiga, o as- 
pecto estranho das sobreiras seculares! Aquclles 



8 

pilriteiros collossaes e velhissimos do claustro da 
sé, que encanto! e a crisia de gallo da Porta de 
Moura [Erythrma Cnstagalli) que dizem ser do 
Brazil, a arvore dos papagnios. A palmeira e o frei- 
xo da horta do Louredo, dos srs. Torres, que se- 
gundo ha tempos ouvi a um antigo do sitio devem 
ter agora um século. Mais velho é o cypreste dos 
Remédios. A azinheira da Esparragosa também é 
antiga e marcante na paisagem. 

Os pinheiros mansos (os de S. Bento são pinhei- 
ros mansos, piniis pinea) maiores que tenho visto 
estavam junto do ínonie de Cajados entre Vendas 
Novas e Setúbal; eram enormes, cada um abriga- 
va na sua sombra densa, á vontade, 40 carros do 
Alemtejo; elevavam a grande altura as magesto- 
sas copas. 

Eu adoro uma arvore velha, tem o quer que se- 
ja de sobrenatural, de eterno e impeccavel, de for- 
taleza e de bondade. Acho poesia na azinheira 
grande da herdade dos Azinhaes, ou nas do Frei- 
xo. Que magestade nos seculares carvalhos das 
Va liadas de Alcanede, abrigando sob os hercúleos 
braços as velhas antas prehisioricas. Eu fiquei en- 
levado ao ver os castanheiros e plátanos dos Pisões 
em Monchique, as carvalheiras da Azoia, entre 
Leiria e a Batalha, o carvalho de D. Mafalda, na 
cerca do convento da Gosta, em Guimarães, o cas- 
tanheiro da Senhora dos Remédios, em Lamego; 
a magnólia e a tilia grande do jardim botânico de 
(À)imbra. Que lindo pensamento em collocarem o 
monumento de Brotero á sombra da formoaissima 
magnólia que elle plantou! 

Mas voltemos ao pinheiro de S. Bento. 

O nosso gracioso inventor Amador Patricio(His- 
toria das Antiguidades de fCvora. Oílic. da Uni- 
versidade, 1739 in-4.'^ P^^D-í 174) conta a historia 
do pinheiro. 



Um bello dia appareceii em Évora a AL>e Feuix^ 
enorme, vermelha, pescoço dourado, e rabo roxo, 
uma arara formidável. Os eborenses não se admi- 
raram muito, porque de ha muito estão costumados 
a pássaros de arribação; cm chegando arara põem 
logo de lado patos, gallinhas e perus do sitio; o 
melhor boccado, o logar melhor é para as aves de 
fóra, as do sitio contentem-se com o pátio. Mas 
em fim esta ave Fénix foi grata, o que já não é 
pouco; é muito até; e muito raro mesmo. 

Como a estranha ave quizesse fazer ninho, sen- 
do Ião biilhante e rara, nenhum sitio melhor que 
o pinheiro de S. Bento. O logar mais alto! A gran- 
de arara fez o seu ninho, um grande ninho, mas 
no inverno desappareccu; alguns então treparam 
pelo pinheiro e viram pasmados (agora é que se 
mostra a gratidão da ave) que o ninho era feito de 
pãos de cedro, canella, cravo, sândalo, e oulras 
espécies odoriferas que a ave fora buscar á Arábia 
e á InJia. Cardoso de Azevedo conta varias paU-a- 
nhas mais ou menos chistosas, o Giraldo esteve 
ali á sombra varias vezes, etc, mas depois diz al- 
gumas cousas provavelmente certas. O pinheiro 
cahiu em uma noite de quinta para sexta íeira, 3 
de janeiro de 1739. Eslava dentríi da cerca e na 
queda arrombou o muro. linha i3 pahvios de diâ- 
metro no tronco, grossuia Je quatro braçadas. 

\í continua a brincadeira. Do lionco íez-se um 
cepo para a cosinha do convento, onde se laz o 
[licado para tortas e pasteis, e dizem as religiosas 
queos picados licam tão saborosos e cheirosos que 
não é necessário lançar-lhes adubos. Isto só se pô- 
de atlribuir a ter a Fénix feito ninho neste pinhei- 
ro com páos de canella, eti:. 

Quando o pinheiro tombou descobriram entre 
as raizes uma pedra com inscripção. Chamaram 
logo todos os archeologos da cidade, dos moslei- 



IO 

ros, das quintas, vieram as academias da Igreginha 
e de MacheJe, e depois de muitas brigas, e de 
varias cabelleiras arripiadas, os conspicuos sábios 
declararam que não percebiam nada ; mas a madre 
refeitoreira, freira travessa, especialista em fiam- 
bre, achou que a inscripçáo era em portuguez e 
emverso, e decifrou-a logo: 

Apollo, Musas e Poetas 
Dos vindouros celebrados 
A' sombra deste pinheiro 
Farão versos amuados. 

Todos os homens insignes 
Nas armas e entendimento 
Nesta cidade de Évora 
Mão de ter seu nascimento 

Cahirá este pinheiro 
Se escapar de ser queimado 
O tronco dará um cepo 
Em que se fará picado. 

Mas vamos ver o Discurso da Cabalína. 

João Cardoso da Costa cultivava o chiste eru- 
dito, brincava desenfadadamente com os velhos sá- 
bios, e os então modernos que em faltando texto 
antigo inventavam para seu uso auctores ou inter- 
pretações phantasistas. Provavelmente Cardoso da 
Costa era parente de Cardoso de Azevedo, que com 
o pseudonymo Amador Patrício escreveu a Histo- 
ria das antiguidades de Erora^ satyra vasta aos eru- 
ditos exaggerados e patetas, inclinados ao mara- 
vilhoso. Irmãos na critica, na independência do 
espirito, com certeza eram. Note-se que o pinhei- 
ro cahiu em 1739, e que no mesmo anno se impri- 
miram a Historia (jocosa) (^^75 antiguidades de Évo- 
ra e os Discursos da Cabalina. Foi uma explosão 
satyrica. 

Vae discursar o pinheiro; citarei apenas alguns 
versos : 



1 1 



Naquelle tempo bárbaro e mesquinho, 
Que Roma f^uerras dava ao Luso Minho 
Quando muitos daquelles más figuras 
Vestiam pelles de carneiros, duras. 
Turdetanos, e Cehas, todos lusos 
Com férreas massas em batalha intrusos 
Feros, gentios, bravos em seus modos, 

Muito antes dos godos, 
Antes de Christo ao mundo ter chegado. 
Annos sessenta e dois sobre um contado, 
Já o grande pinheiro com plumagem 
Dava a corvos e a pegas estalagem 

Segundo diz Vallesio 
Fublio, ('aiturnio, Taburlim, Farnesio. 



Pertencia o pinheiro á nobreza ; tão antigo e tão 
altamente colIocad:j, não podia ser de outro modo: 

Porque todo o morgado 
Na successão faz firme o vinculado; 
E o morgado dos Pinhos, e o primeiro 
Sem controvérsia íoi este pinheiro. 

Plinio o naturalista conhecia perfeitamente o pi- 
nheiro, e até SC lhe refere : 

Por conselho de Plinio 
O qual fallando das plantas do Universo 
Tratou deste pinheiro a folhas. . . verso. 

O tronco era enorme : 

Quatro homens e meio 
Não o abraçavam pelo tronco, em cheio. 

O pinheiro faz a sua autobiograhia: 

• SONETO 

Nasci antes de Christo ser nascido 
Fui do antigo Sertório venerado. 
Ocsci de vários tempos respeitado, 
Durei em l*ortugal bem conhecido 

Lembra-me deste reino estar perdido, 
E de ser por Affonso restaurado; 
Évora vi ganhar ao celeiuado 
Giraldo sem pavor esclarecido. 



12 



Vi fundar'o convento a quem destina 
O céo luzes sagradas, cu)a empreza, 
Sueiro bispo a São Bernardo inclina. 

Mas oh ! dura pensão da natureza! 
Um ar me derribou ; nesta ruina 
Aprenda desenganos a grandeza ! 

Depois dos romanos appareceram por aquelles 
sitios os godos; mas um dia; 

Em campo de batalha 
o rei com murrião, saia de malha, 
Perdeu o godo império. 

E surgiram os agarenos: 

Perros mouros, ladroens de raça. 

Surge emfim o audaz Giraldo, com o seu valor 
e ardis de guerra ; 

E viste a valentia 
De um varão sem pavor, único em guerra 
Dominante a muralhas desta terra 

E termina a peça poética exclamando 

Oh ! tronco altivo 
E no mesmo lugar qual de antes eras 
Dos teus Abris nas doces primaveras 
Como passaste os teniporaes do outomno 
De dezembro e janeiro as tempestades? 

Por ventura tiveste saudades 
Do primeiro senhor que foi teu dono í 
Tinha mulher, ou era ainda solteiro.-' 

Para nada faltar G. da Costa apresenta o epita- 
phio do pinheiro : 

EPITAPHIO DO PINHEIRO 



Aqui jaz estirado o grão pinheiro 
Em São Bento de Aranhas desprezado, 
Antigo desde Adão, sem ter peccado, 
Quando aqui caducou dentro em janeiro. 

Deu-lhe o seu nascimento este terreiro, 
E por mais que viveu de força armado 
Contra o vento, não pôde estar parado, 
Que a vida vento é por derradeiro. 



i3 

Não viveo poucos annos rei cVoado 
Porque mil setecentos nove e trinta, 
Sessenta e tantos mais teve a seu lado. 

Ao fim da conta o vento pela pinta 
Conhecendo lhe antigo o seu morgado, 
Deo com elle por terra, e está na tinta. 

S. Bento de Aranhas parece que era designação 
popular usada antigamente; modernamente não; 
e nos documentos não me recordo de a encontrar : 
Castris, S. Bento de Gastris, sim, é vulgar em do- 
cumentos. 

Nos discursos da Cabalina ha ainda outras pe- 
ças poéticas dedicadas ao pinheiro, assignadas por 
fr. J. X. de C; J. de C. P. ; e P. A. T. 

D'este uhimo \^em um soneto em hespanhol 
(pag- 7) 

Tu, de la eternidad planta animada 
Oy a un bronco cadáver reduzida . . . 

Termina menos mal 

Conciba horror dei hombre la altiveza, 
Que si ai tiempo nó escapa lo insensible, 
Que espera la mortal naturaleza ? 

UM SONETO MORDENTE 

A carta de lei de 3 de setembro de 1759, expul- 
sando os jesuitas, foi festejada em Évora. A Com- 
panhia apezar de ter tido aqui gente de muita im- 
portância e valimento, em todos os sentidos, não 
chegou nunca a ter sympathias geraes; viveu em 
demandas e questões com a Gamara Municipal, 
com a Misericórdia, e com as outras ordens reli- 
giosas. E todavia nas questões anti-hespanholas 
os jesuitas em Évora trabalharam sempre a favor 
dos patriotas da cidade, conspirando a valer, em 
quanto que os franciscanos eram pelo Philippe. 
Os jesuitas foram muito demandistas, ha mesmo 
recommendações dos geraes para que evitem tan- 
tas demandas; talvez porque se fizeram grandes 



H 

proprietários territoriaes, e senhores de muitos mi- 
lhares de foros, em pouco tempo. Eu o que não 
perdoo ao marquez de Pt)mbal é a extincçáo da 
Universidade; podia modifical-a, leformal-a; mas 
eslava feita, e dotada de modo que não era pe- 
sada ao Estado. Também recentemente mataram 
de uma pennada a Escola Normal, tão tolamente ! 
Évora tem bastantes razões para se dizer aggra- 
vada pelos poderes centraes, por estes grandes es- 
tadistas que tem levado e>te povo, de uma paciên- 
cia que até parece criminosa, á lamentável posi- 
ção actual, interna e externamente de miséria e 
vergonha. 

Mas, deixemos isto; cm novembro de 1759 hou- 
ve grande festa em Évora, e um despeitado fez 
um soneto que se tornou celebre no temjK^, porque 
em varias collecções manuscriptas o tcnno topado. 

Relação abreviada das festas de Évora em novembro de 1759 

Epilogo d;is lestas : mascaradas 
Pleheos e nobres, tolos e discretos 
Contradanças de brancos e de pretos 
Carros triumphantes, burros enfeitados. 

Touros bravos e mansos capeados 
Contagio de sonatas e sonetos 
Disurias nas borrachas e botetos, 
Nas bolças puxos secos e molhados. 

Os voluntários com espadas nuas 
Diversas farças, vários entremezes 
Presos, freires, doutores pelas ruas. 

Tudo isto repetido muitas vezes 
E outras cousas mais nuas e cruas, 
Qae se verão d'aqui a nove mezes. 

(B. N. Lx.' Mss. V • i ■ 18; 

O Alemtejo no CORO DAS MUSAS 

Poucos livros haverá escriptos com intuitos pa- 
trióticos que se possam comparar á obra de Fran- 



i5 



cisco do Nascimento Silveira — Coro das Musas 
junto por Vénus na casa do Sol, em obsequio dos 
reis fidelissimos, e de todos os mais famosos lusi- 
tanos antigos e modernos. (Lisboa, offic. de Simão 
Thaddeo Ferreira, 1792, in 8."). É uma chorogra- 
phia e uma historia de Portugal, postas em oita- 
vas; o talento poético do auctor não seria extraor- 
dinário, e o seu pensar é por vezes optimista; to- 
davia cu aclio muito interessante a obra d'este poe- 
ta do findar do século 18. Elle descreve paciente- 
mente as províncias, antepondo sempre um resu- 
mo estatistico em prosa. 

— Província V. Alemtejo — /Fem de comprido 
pelo sertão Sg legoas, pela costa 28. Pela margem 
do Tejo 35, e pela raia do Algarve 21. Tem cida- 
des 4 episcopaes, villas 100, priora.^os grandes 2, 
inquisição 1, parochias 35o, rios 60, e muitas fon- 
tes. Comarcas 8, praças d'armas 8 e seis mil ho- 
mens capazes de militar. — 

Sessenta rios no Alemtejo é um tanto forte; o 
bom Silveira contou com ribeiros e regatos. Voa- 
mos á descripção poética 

A quinta * é de Alem-Tejo, triumphante 
Das tropas que se crêem mnis valorosas, 
De viveres diversos abundante, 
Mil gentes enriquece, e faz ditosas. 
Das carnes tira lucro interessante. 
Ganâncias dos mais fructos copiosas. 
Os queijos alli feitos são primor ; 
Seus mármores, e barros tem valor. 

Em largas extensões mal povoada, 
Dilata seu paiz, sempre provido, 
E de puros cristaes alimentada 
O callido vapor faz não temido, 
De praças d'armas oito circumdada 
O túmido valor tem reprimido, 
Cidades quatro tem, villas, logares. 
Pelos campos opimos singulares. 

Bispados três numera submettidos, 
A sé metropolita respeitável, 



# A quinta província. 



i6 



Pnrochias, e mosteiros tem luzidos, 
Cujo raro esplendor é admirável, 
Teve templos famosos (já abolidos. 
Trocado o culto infame, em fé estável) 
A Pura Conceição triumpha e brilha 
Nos altares, e boca de Domilha. 

Desde Kvoía preclara e populosa 
Bem célebre por sua antiguidade, 
A Fé se dilatou, sendo pasmosa 
A colheita, que teve a Chrisiandaile. 
Já Daciano vlo, que vigorosa 
Trajava de carmim a mocidade. 
A tempo, que nos ermos florecia 
De penitente aspereza a valentia. 

Por Celtas Eburões, dizem, fundada 
}'^sta corte famosa transtagann. 
Em collinas alegres dilatada 
Como m>mo de Flora, e gloria Ispana, 
Municipio de Augusto proclamada, 
Participa do foro e lei romana, 
Aque^luctos soberbos, torres, muros, 
A seos filhos promettem ter seguros. 

Seitorio teve alli habitação 
Magello dos romanos invencivel, 
Giraldo n'ella fez apprehensão 
Surpreza a vigilância mais temivel. 
Alli venceu por fim a promptidao 
A tropa iberiana aborrecivel •, 
Cortando com valor a lusa espada. 
Uma gente de todo destroçada. 

É Beja por antiga conhecida, 
Pax Júlia por César nomeada, 
Nobilissima colónia ennobrecida, 
Por titulo ducal e sé gabada, 
A santa lei de Deus alli trazida. 
Por Thesifon, brilhou mui dilatada, 
Aprigio seu prelado a illustrou, 
E Manoel, o grande, a sublimou. 

De Helvécio, cremos, Elvas derivada, 
Fortaleza do Reino mui luzida. 
Pelas linhas quebradas affamada, 
E por mitra e- bastão ennobrecida. 
Portalegre pomposa, e respeitada. 
Sobre antigas ruinas erigida. 
De Minicio já vio a desventura, 
E de Maia se crê ser sepultura. 

A villa de Estremoz a quem a sorte 
Occaso destinou de Isabel santa ; 
E brilha pelos golpes com que a morte 
As tropas hespanholas fere e espanta ; 



_17_ 

L terra singular ; são d'alto porte 

Os mármores e iiarros com que encanta ; 

Por Affonso terceiro vive e brilha, 

Da transia gana terra maravilha. 

Dos Moiras é solar Moira arrogante ; 
A pequena Canal teve blazão ; 
Villa Viçosa corte foi flamante 
Da Casa dominante na Nação : 
K Boi i^a e Landroal muito abundante, 
A Palma, Barbacena junta a mão ; 
Alegrete seu nome desempenha, 
Campo Maior, Marvão e Jerumenha; 

O novo Ríontemór corte algum dia, 
D'Affonso, e de João seu filho amado, 
P'undado por D. Sancho se gloria, 
De dar-nos a João canonizado. 
As cortes alli juntas regalia 
Tributam a seu velho marquezado, 
Assim como nas covas penitente 
Merece eterna gloria Santa Gente. 

Da planta por Minerva produzida, 
Olivença tem nome, e tem blazão. 
Pelo grande Diniz enriquecida, 
Favores não regeita a Dom João ; 
E de fortes muralhas defendida 
Como Mertola, Serpa com Marvão, 
Kvandria, dizem, fora nomeada, 
E por condes illustres governada. 

A santa serra de Ossa alli se vê 
D'antigos cenobitas povoada : 
Em cuja successão certo se crc 
A vida penitente restaurada. 
Ourique que do Ceo viu a mercê 
A Lusa monarchia dispensada 
No célebre e pomposo obelisco 
D'Affonso, e dos seus nos mostra o risco. 

Os hevelcios ou celtas celebrados 
Este fértil paiz aproveitando. 
Seus campos povoaram dilatados 
As matas mais horríveis roteando. 
Dos Penos formidáveis visitados, 
Seus ritos infernaes professando 
Em gentílicos templos demonstraram 
O culto que singelos acceitaram. 

Os gentílicos templos são as antas^ tão ii um cio- 
sas no Alemtejo. 

E escusado lembrar nue a villn de Olivença es- 

1 t 

queceu nas garras do leão hespanhol. 



i8 

Na oitava de Montemor alludc-^e a S, João de 
Deus, e ás cóuas da serra dos Monges. 

As outras allusões são facilmente decifráveis. 
Em outras partes do Goro das Musas, Nasci- 
mento Silveira loca assumptos eborenses; por ex- 
emplo : 

No seguinte Gir^ildo sem pavor 
Sentinellas dormentes degollava ; 
E por sua destreza e grão valor 
Ser Évora christan se gloriava. 

(par. II. est. 67) 

O grande D. Garcia de Menezes 
Eborense prelado e general 
Seguido de fidalgos portuguezes 
Bem merece ter gloria iinmortal, 
Recebe-o o pastor ; louvam cortezes 
As purpuras sagradas Portugal 
Pois manda soccorrer por um prelado 
O Lacio da moiri.sma ameaçado. 

O bispo de Évora D. Garcia de Menezes é um 
vulto eborense, e do páiz, notabilissimo no secuío 
XV. Este bispo, lettrado illustre, foi general de ex- 
çrcitos e almirante de armadas. Silveira refere-sc 
á armada mandada em soccorro do Papa. E a fi- 
nal o grande prelado enleiou-se na conspiração do 
duque de Vizeu, e-morreu miseravelmente no cas- 
tello de Palmella. Garcia de Rezende allude tam- 
bém ao infeliz bispo. 

Outra referencia eborense no Curo das Musas: 

Em Évora vio Palias laureados 

A muitos singulares portuguezes, 

(^ue devem entre os doutos ser contados 

Desde o 'I ejo final aos Chinezes 

O Fonseca tbi um dos mais prendados, 

Como Roma notou diversas vezes ; 

Devendo-se a Rezende este primor 

Por ser de leitras o restaurador. 

(part. lII. est. 41.^ 

Fonseca é o illustre bispo do Porto, D. fr. José 
Maria da Fonseca e Évora. 



GABRIEL PEREIRA 



Estão publicados : 
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Kspinheiro. — 2." Evura ro- 
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4.» Lóios, 
azulejos e obras d'arte. - -5." Bibliotheca Publica. Noticias das 
coUecçôes. — 6." Convent-^s do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 

— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9." 
Veàperas da restauração. — io.''Brasão d'Evora. — 1 1.» A egreja 
de Santo Antão. Livros parpchiaes. CoUegiada. — 12.» O archi- 
vo municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.", i5.» e 16." 
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7." Évo- 
ra e o UltranVar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 
— 18.°, 19.°, 20.° e 21." Assédios d'Evora em i6ó3. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1729. — 23.° Évora nos Lusiadas. — 24.° Pro- 
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental.— 
26.° Antiguidades romanas em Évora e seu<; arredores. — 27 
Roteiro d'um eborense.— 28.0 Universida>Je de Évora. — 29 
As caçadas, i.» parte. — 3o."Evora'eo ultramar, 2.» parte. — 
3i.° Ibn-Abdun. — 32.» Cs mouros. — 33.° As caçadas, 2.* parte. 

— 34.° Os estudantes. — 35.° Versos eborenses do século xviii. 

À' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. Aatonio 
Maria Pereira, rua Augusta. 



o 



Documentos Históricos da Cidade d'£Yora 

Estão publicados ; 

i.» PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas.Jlegimento da cidade em tempo 
de D. João i.°. Etc. 
I vol. de 202 pag. in-4.° — lítPSoo réis. . . 

2.= PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia c Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. E!pi- 
sodios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 

1 vol. de 282 pag. iiT-4.° — 2ÍiT)200 réis. , 

Assignam-se estas publicações no estabelecimeilto do editor J. 

F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora. 



MADRUGADAS, contos escolhidos., em casa do editor Abran- 
ches. - , ' 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUD 



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Historia — ^rie — ^rcheologia 



k v^lti ái 0@nacuk 



A PRISÃO DE CENÁCULO. TRABALHOS, DO SECRETARIO GUSMÃO. 

AS DISPOSIÇÕES MILITARES. A MARCHA 

PARA EVOKA. ENTRADA SOLEMNE. MANIFESTAÇÕES 

RESPEITOSAS DAS FORÇAS INGLEZAS. O VELHO- ARCEBISPO LEVANTA AS 

SAÚDES NO JANTAR. A CORRESPONDENCU. 



ÉVORA 
AtIXKF?,\\V KF!OR.rCrvrSE 

OE JDAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor oa c«sa rea.. 
, 62 — Rua Ancha — 64 

1894 



GABRÍEL PEREIRA 




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(Historia — <^rte — tArchQologia 



A if rfta ái Cisiouki 



A PRISÃO DE CFNACUt.O. TRABALHOS nO Si:rKKTARIO CUSMAO. 

AS UISPOSIÇÓIJS MILITARES. A MARCHA 

PARA KVORA. KNTRADA SOLEMNE. MANIFESTAÇÕES 

RESPEITOSAS DAS FORÇAS INGLEZAS. O VELHO ARCEBISPO LEVANTA As 

SAÚDES NO JANTAR. A CORRESPONDÊNCIA. 



ÉVORA 
.^^.I^J•lÇF^.\'"'V Ecrjor^icNSE 

De JDAQUIM JOSÉ BAPTISTA, iMPRrason oa caoa rhu 

t)2 ~- Rua Ancha — 64 

1894 



ESTUDOS EBORENSES 



A volta de Cenacalo 

José Jorge Guzmão, secretario do illustre arce- 
bispo Cenáculo, e seu amigo dedicadissiaio, escre- 
veu uma noticia, que parece bem sincera, d'aquel- 
la affronta singular que a Junta de Beja, arrastada 
pela paixão politica, fez ao prelado eborense, que 
antes fora também seu bispo. 

Depois do desastre de julho de 1808, Cenáculo 
achou-se, muito naturalmente, á frente da Junta 
provisória administrativa da cidade, de uma cida- 
de cheia de luctos e angustias. A Junta de Beja, 
que até com a de Lisboa questionava primasia, 
levada de exaltadas paixões, quiz entender que a 
de Évora era de origem imperial, inimiga, e vio- 
lentamente, sem avisos de espécie alguma, man- 
dou prender o velho* arcebispo. 

E' facto bem conhecido. 



Cenáculo descreveu o desastre eborense na Me- 
moria dos acontecimentos de Évora em julho de i8oS, 
que eu publiquei no Manuelinho (n." i ig de i de 
maio de i883, e seg.) 

Essa relação foi depois impressa em folheto de 
ordem da Camará Municipal. Eu publiquei ainda 
muitos documentos, existentes na Bibliotheca d'E- 
vora, referentes á Memoria de Cenáculo, e outros 
dados colhidos em fontes diversas que agrupei sob 
o titulo geral Évora em i8oS, [Manuelmho^ n.*" 12 i 
e seg.) 

O P." Gusmão vae descrever-nos um episodio 
d'esse período; as diligencias que empregou para 
salvar o seu amigo da prisão de Beja; e essa vol- 
ta triumphal a Évora, depois de tantos trabalhojá, 
cautellas e perigos. 

Cenáculo tinha então 84 annos! 

A linguagem por vezes áspera do bom secreta- 
rio merece desculpa, pela natural irritação produ- 
zida por ver tamanha affronta a um velho tão ve- 
nerando. 

Mas respira sinceridade; por isto eu respeito na 
integra a narrativa. E como ella por si só forma 
um quadro tão definido, e até piítoresco e dramá- 
tico, resolvi incluil-a nos Estudos Eborenses. 

G, Pereira, 



Senhor ! 



José Jorge de Gusmão, presbytero secular, e se- 
cretario do Arcebispo de Évora, achando-se n'esta 
corte desde tempo anterior á invasão franceza, en- 
tende que como súbdito d'aquelle Venerável Pre- 
lado é do seu dever representar a V. A. R. que o 
mesmo Prelado se acha preso desde 14 de agosto 



á ordem da Junta de Beja, e que a sua prisão e 
conducção para essa cidade se fez com estrépito 
cruel, e escandaloso por tropa e contrabandistas 
armados, que repentinamente o surprenderam no 
seu palácio, e o encerraram em uma sala, junta- 
mente com os mais membros da Meza do Go- 
verno, pelo espaço de urpa noite inteira, fazen- 
do-o sotiVer todo o género de angustias, e mortifi- 
cações, esquadrinhando-lhe o seu escriplorio, rou- 
bando-lhe até o próprio capote, e precisando-o a 
servir-se de uma janella, para acudir ás necessi- 
dades físicas: tendo-o depois na praça de Beja por 
mais de quarenta minutos, escoltado da mesma 
maneira, á vista de immenso povo, que misturava 
os vivas de alegria com as lagrimas que derrama- 
vam, por contemplarem em semelhante situação 
aquelle Prelado, que os tinha tão dignamente pas- 
toreado por mais de trinta e dois annos: de cujo 
sitio foi mandado levar com escoltas dobradas ao 
convento de Santo António, e com tanto rigor ahi 
encerrado, que ate foi prohibido ás sentinellas que 
o guardavam, deixar fallar-lhe nos primeiros três 
dias outrem, que não fosse o creado.. que lhe le- 
vava a comida. 

O crime do Arcebispo, c o que mostra o docu- 
mento incluso, attestado pelas principaes pessoas 
da Nobreza e povo da cidade de Évora (era uma 
folha de papel cheia de assignaturas reconhecidas 
por tabelião, em que todos aquelles habitantes 
confessam que é ao seu ex."'° e virtuosíssimo Pre- 
lado, e meu muito Amo, que elles devem as suas 
vidas, e a existência da sua cidade). 

Estas mesmas expressões me fizeram vários ha- 
bitantes de Estremoz, quando na minha volta de 
Elvas, trazia a ordem do General Leite, para o re- 
gimento d'aquella Praça marchar para Beja,fazen- 
do-se alli publico o motivo da minha jornada. 



Eu não podia conter as lagrimas vendo aquellas 
gentes abraçar-me com tanto amor. satisfazendo 
em mim de algum modo o grande desejo que ti- 
nham de abraçar o seu Prelado, e todos, em alta 
voz, dizendo-me: Nós, nós .também devemos ao 
nosso santinho as nossas vidas, os -nossos teres, c 
a existência da nossa villa, que também estava 
sentenciada a ser reduzida a cinzas, e nós todos 
passados á espada mas o nosso santinho orou tam- 
bém por nós aquelle tigre (Loison, general fran- 
cez) e o soube amansar; é ao nosso santo Prelado 
que devemos tant(^ beneíicio. c que aquella mal- 
dita e excomungada Junta de Boja levou preso com 
tanta ignominia, como os judeus prenderam a Je- 
sus Christo Senhor Nosso, 

Se os edihcios da mesma cidade não foram ar- 
rasados e queimados; se os seus habitantes esca- 
param de ser passados á espada; se o saque se mo- 
derou, e cessaram as hostilidades, dando-se a li- 
berdade o duzentos prisioneiros do regimento de 
Estremoz, destinados, alem de outros muitos, a 
passar pelas armas, tudo isto aconteceu porque o 
Arcebispo soube amansar a tirannia de taes inimi- 
gos, valendo para isso a sua provecta anciã nidade, 
e o nome que tem no mundo, e que em lodo o 
tempo fez honra á Nação Portugueza. 

V. A. R. que sempre apreciou os seus talentos, 
conhece que o Metropolitano o serviu bem, pres- 
íando-sc n'aquclle momento a alguma das coisas 
que os inimigos exigiram, por ser o único remédio 
que restava para salvar o povo. 

Se a Junta de Beja se esqueceu do respeito e 
decoro devido á sua sagrada pessoa; se ella man- 
chou de maneira tão indecente a honra adquirida 
em tantos annos; agora que felizmente se acabou 
a calamidade publica, e todos se acham restitui- 
dos aos seus direitos, implora o supplicante a be- 



nignidade de Vossa Alteza Real, para que o seu 
Prelado seja reposto na sua metrópole com a hon- 
ra que merece pelos seus trabalhos, e pelas suas 
intenções, e com a satisfação que V. A. R. julgar 
que possa ter equilíbrio com a grandeza do ultra- 
je recebido. 

E. R. M. 

José Jorge de Gusmão. 

Em consequência d'esta minha representação 
feita á Regência expediram os Senhores Governa- 
dores as ordens seguintes: 

Ex.™' e RcvT Senhor. 

Os Governadores d'estes reinos tornando t;m 
consideração o prejuiso que faz a ausência de V. 
Ex.* a toda a sua diocese, recomendam a V. Ex.* 
que sem perda de tempo se recolha á mesma pa- 
ra continuar a dar exemplos de fidelidade, carida- 
de e mais virtudes, com que V. Ex.' tem edifica- 
do sempre estes Reinos. 

E se V. Ex.* quizer ser acompanhado de tropa 
para maior decoro, poderá pedil-a ao Tenente Ge- 
neral encarregado do governo das Armas d'essa 
Província, em execução do Aviso incluso. O que 
participo a V. Ex.* para que assim o lenha enten- 
dido. 

Deus Guarde a V. Ex.* 

Secretaria de Estado dos Negocio* do Reino em 
6 de outubro do 1808. 

Ao Senhor Arcebispo de Évora. 

Joãu o^ntoiúo Saltcr de éÃíeiídonca. 



Sabendo eu que aquelia Junta de Jacobinos, 
mascarados com o nome de portuguezes, questio- 
navam no modo de dar cab(^ do meu muito ama- 
do Amo e Prelado, havendo entre elles uns que 
votavam em o degolarem, e outros em o manda- 
rem desterrado para Sines, para ahi acabar os seus 
últimos dias, assentando todos em transferir a ca- 
deira iMetropolitana de F^vora para Beja, fazendo 
arcebispo d'esta nova metrópole ao Padre Antó- 
nio Aliar, um digno membro d'aquella infame Jun- 
ta Jacobina, clérigo culpado com enormes crimes, 
e que deve a sua existência á bem conhecida ca- 
ridade do meu muito amado Arcebispo, ainda des- 
de quando era Bispo de Beja; e fazendo Bispo 
Provisor para Évora ao outro^clerigo, e também 
digno membro datai Junta, Provisor e Vigário Ge- 
r ai actual de Beja, a quem meu muito querido 
Amo e Senhor tinha escolhido em todo aquelle 
Bispado para o pôr á testa do Governo do seu 
mimoso Bispado de Beja, que elle tem no seu co- 
ração; sabendo eu, digo, que aquelia infame Junta, 
á maispequena noticia das ordens que eu levava, 
de certo o mataria, não quiz ir a Beja, levar a 
cai"ta honradíssima d'esta nossa Regência, a saber 
se meu Amo queria ou não. que eu voltasse a El- 
as para o general lhe mandar tropa, que o acom- 
panhasse na forma da ordem inclusa na carta, e 
puntamente porque receei, que a modéstia do meu 
jArcebispo me prohibisse de lhe ir buscar tropa pa- 
ra o acompanhar com a decência que lhe era.de- 
.vida, e n'este caso teria aquelia infame e traidora 
Junta motivo de lançar mão d'elle, e o matar de- 
baixo do falso pretexto de fuga: e por isso, como 
as ordens se me tinham mandado abertas com sel- 
lo volante, marchei logo com todo o segredo em 
direitura a Elvas, a hm de que chegassem a Beja 
as ordens juntamente com a tropa, como assim 



aconteceu: de sorte que como eu sabia que as mi- 
nhas cartas do correio para meu Amo, e as d'elle 
para mim eram abertas no correio de Beja, eu 
não lhe participei coisa alguma se não quando 
passei por Évora em direitura a Elvas; então d'a- 
quella Metrópole o avisei de tudo o que tinha fei- 
to, as expressões honradissimas com que tanto me 
consolaram os Senhores do Governo, distinguin- 
do-se entre todos o muito honrado venerando fi- 
dalgo, partr quem são limitados os maiores elogios 
o ex.""" sr. D. Francisco Xavier de Noronha, o qual 
depois das expressões mais consoladoras, para 
mim, e mais honrosas que é possível para meu 
muito querido Amo e Senhor, me insinuou o mo- 
do como eu devia fazer a minha representação á 
Regência, para n'ella se saber legalmente o facto, 
e que lh'a levasse, porque clle é quem seria o pro- 
curador do meu Senhor Arcebispo; c igualmente o 
exT" senhor Marquez das Minas, que me encheo 
de tanta consolação com as suas honrosas expres- 
sões, com que exprimiu pensamentos tão heróicos, 
que me deixou admirado de (;s ouvir a um joven 
fidalgo, cuja pouca idade, eu suppunha, não lhe 
poderia ainda ter adquirido conhecimentos tão pro- 
fundos^ e pensamentos tão sublimes; mas é que as 
almas grandes, e verdadeiramente fidalgas não es- 
tão ligadas á tardança e demora vagarosa dos an- 
nos. 

Também de Évora mandei a meu Amo as co- 
pias das ordens que levava para o general, e que 
na volta eu lhe mandaria outro próprio, para o 
certificar do dia em que eu deveria chegar a Beja 
com a tropa; mas que guardasse segredo em tudo 
para não perigar a sua vida; e eu marchei para 
Elvas com a ordem seguinte: 



IO 

111."'° e Ex.""» Sr. 

Os Governadores d'este Reino determinam que 
V. Ex.* faça apromptar uma escolta da força que 
exigir o Arcebispo de Évora, a qual o deverá 
acompanhar até á dita cidade para maior decoro 
d'aquelle Prelado; o que participo a V. Ex.* para 
sua devida intelligencia e execução. 

Deus guarde a V. Ex/ 

Palácio do Governo em 6 de outubro de 1808. 

João cAntonio Salter de Mendonça. 
Senhor Francisco de Paula Leite. 

Felizmente eu tinha pedido ao coronel hespa- 
nhol Moretti, que se achava então n'esta corte, seis 
dos seus voluntários para me acompanharem na 
minha viagem, receando o encontro nas estradas 
dos contrabandistas do Jacobino IVlor, digno Pre- 
sidente da Jimta Jacobina de Beja, que andavam 
pelas estradas, roubando e saqueando pur toda a 
parte: porque sabendo o dito Jacobino íMór João 
José, o qual se achava já n'esta Corte, tendo sido 
acariciado para cá pelo nosso Governo, a íim de o 
arrancarem de Beja. aonJe tinha á sua disposição 
6 a 8 mil homens armados de todas as armas, e 
com elles ameaçando esta Regência, estabelecida 
pelo nosso adorado c muito saudoso Príncipe e 
Senhor, até ao ponto de publicar em Beja, que a 
existência d'esta Regência estava dependente da 
sua, de que elle era presidente; sabendo, digo, que 
eu linha passado para Aldeã Gallega. mandou em 
meu seguimento quatro dos seus contrabandistas, 
sem duvida para me assassinarem ou me apanha- 



I I 



rem quaesquer ordens que eu levasse, e me segui- 
rem até Vendas Novas; e como eu ia tão bem es- 
coltado não se me atreveram, e d'aquella povoa- 
ção voltaram para esta corte, dizendo á sabida da 
estalagem uns para os outros — Vamos outra vez 
em secco como viemos. 



Copia (la Ordem que o Tenente General Leito mandou ao mui- 
to bonrado coronel do regimento de Moura Joào Botelho de 
Lucena Beltrão. 

xMarcbe V. S.'' com os indivíduos do regimento 
do seu commando em direcção á cidade de Beja, 
aonde deverá achar-se no dia i 5 do corrente, pa- 
ra tomar o commando de todas as tropas de ca- 
valleria inclusive o regimento n." 3, a fim de acom- 
panhar com as ditas tropas ao Ex.""' Senhor Arce- 
bispo de Évora, na restituição á sua Diocese, con- 
formando-se em tudo ás ordens do mesmo Senhor; 
e tendo chegado á cidade de Évora, fará recolher 
aos seus quartéis respectivos as referidas tropas. 
Ainda que eu esteja na intelligencia de que as tro- 
pas do seu cargo, bem como as outras que se lhe 
hão de unir, não estão armadas, nem por isso dei- 
xarão de marchar, como fòr possível; pois que não 
só se trata de fazer a guarda de S. Ex.^^com aquel- 
le decoro, que lhe corresponde, mas também de 
dar á sua comitiva aquelle caracter magestoso de- 
vido ás altas qualidades de um Príncipe tão rc- 
commendavel pelas suas virtudes, e tão digno de 
toda a nossa dedicação. Deus guarde a V. Ex.* 
Quartel General de Elvas, i i de outubro de 1808. 
Francisco de ^^Paida Leite. Sr. João Botelho de Lu- 
cena Beltrão. 

N'aquellc dia i3, depois de eu ler chegado a 



12 



Beja á testa da tropa de Extremoz e de Évora, de 
ahi a uma hora (.hegou a iropa de Moura com o 
seu muito digno coronel, o qual defronte da por- 
taria do Convento de Santo António, aonde estava 
preso o meu amabilissimo Prelado, já consolado 
com a minha chegada, e com a honradíssima car- 
ta da Regência, que pouco antes tinha recebido 
da minha mão, levantou a voz, tendo elle e toda a 
oíficialidade e soldados os chapeos na mão, dizen- 
do três vezes, e respondendo todos outras três ve- 
zes — Viva o Ex.™" e Rev.""* Senhor Arcebispo Me- 
tropolitano de Évora — ; depois apeou-se com toda 
a officialidade, e entrou para o convento a cum- 
primentar a S. Ex.*, e pedio-lhe as ordens, e sa- 
ber quando queria marchar para Évora; a que res- 
pondeu que logo pela manha do dia seguinte, vis- 
to não serem já horas de fazer jornada por ser 
quasi sol posto; mas que pela manhã queria di- 
zer missa ás 6 horas, e logo marchar quanto an- 
tes, como assim aconteceu. Elnlretanto o coronel 
Beltrão fez o detalhe da tropa da maneira ae- 
guinte: 

Ordom do dia 16 de oaíabro para a marcha da escolta do ex."" 
e rev.""" Senhor Arcebispo de Évora 

Pelas 9 horas estarão todas as tropas que hão 
de acompanhar o ex.'"" e rev.'"" Senhor Arcebispo 
promptas no largo do convento de Santo António, 
para alli se formarem dois esquadr(5es na maneira 
seguinte: 

As tropas do regimento de cavallaria n. " 2 com 
as do regimento n." 5 formam o i ." esquadrão da 
direita. As tropas do regimento de cavalleria n." 3 
com a companhia que veio de Estremoz, formam 
o esquadrão da esquerda. Cada esquadrão é com- 



t3 



posto de dois capitães, dois tenentes, três alferes, 
um porta estandarte, dois furriéis e oito cabos de 
esquadra. 

Os mais senhores ofiiciaes restantes hão de ir 
na rectaguarda da carruagem do ex."*" senhor Ar- 
cebispo, pelas ordens de suas patentes, fazendo 
assim a guarda de honra do ex."*" Prelado. 

Os srs. cadetes Manuel Limpo de Lacerda, Ben- 
to de Almeida e Francisco José Villares vão de or- 
dens ao mesmo ex.'"" senhor, e devem marchar 
formados todos três diante da sua carruagem. 

Os porta- estandartes António Januário, e Pedro 
da Silva Raposo hão de ir nos lados da carruagem, 
servindo de creados de estribeira. 

O sr. alferes Amândio Bernardo com i6 solda- 
dos, quatro cabos e um furriel hão de ir na frente 
da comitiva toda para fazerem a descoberta do 
caminho, fazendo n'aquelles sitios em que lhes pa- 
recer, sahir da direita e da esquerda um cabo de 
esquadra e dois soldados para baterem e fazereni 
a descoberta dos íiancos das estradas. 

Tudo deve estar prompto no melhor asseio pos- 
sivel pelas 9 horas no largo do convento de Santo 
António, aonde o sr. Major João da Silva Raposo 
fará as repartições, conforme vão detalhadas, for- 
mando os esquadrões por meios esquadrões e sec- 
ções. 

Do esquadrão de cavalleria n." 2 é commandan- 
te o sr. capitão Joaquim Carlos Vidal, e oíficiaes 
o sr. tenente António da Gama, os srs. alferes Joa- 
quim Leocadio e António de Sampaio; furriel Jo- 
sé Joaquim da Costa; cabos Fernando José, José 
Mathias, José Francisco Cardoso, e Joaquim de 
Santanna, e todos os mais oííiciaes inferiores vão 
formados a três nas rectaguardas dos esquadrões; 
e o furriel Lourenço José Mendes fique em toda a 
rectaguarda com dois soldados para fazer recolher 
ludo o que para traz íicar. O regimento de cavai- 



larla n.° 3 manda dois Estandartes que se hão de 
metter nos dois esquadrões; e quando o ex."*" se- 
nhor Arcebispo passar na írente us Estandartes fa- 
rão as continências devidas, abatendo-se três ve- 
zes; e logo que S. Ex.* passe pela Írente, princi- 
piarão os esquadrões a destroçar por secções pela 
direita, e a corporação dos srs. otíiciaesirá seguin- 
do a carruagem por ordem das patentes, Beja i6 
de outubro de 1808. João Botelho cie Lucena Bel- 
trõo^ Coronel Commandante. 

N'esta forma se tez toda a jornada, indo n'este 
dia 16 dormir á Senhora de Ayres, e no dia 17 pe- 
las onze horas chegámos a Évora, já acompanha- 
dos por todos os habitantes e cabido d'aquella ci- 
dade, e nos apeámos á purta da Sé, aonde já se 
achava postada uma grande gunrda de tropa in- 
gleza, que fez as devidas conunencias a S. Ex.* e 
depois de darmos a Deus Senhor Nosso as devi- 
das graças, voltamos para o Paço, a cuja porta já 
estavam duas sentinellas inglezas; e quando S. Ex.* 
entrou na casa do docel, achou a officialidade in- 
gleza toda desde o brigadeiro até á ultima paten- 
te forrando a saia; o que S. Ex.* agradeceu com 
aquella urbanidade e politica que o caractensam, 
recebendo de cada um os seus cumprimentos, e 
correspondendo a cada um d'elles por diíferentes 
expressões, e diversas phrases com toda a presen- 
ça de espirito; de que os inglezes ficaram bastan- 
temente admirados, como elies mesmos o confes- 
saram, quando na despedida os acompanhámos. 

Ao jantar foi S. Ex."" o primeiro que levantan- 
do-se em pé bebeu á saúde do Príncipe Nosso Se- 
nhor, a que toda a meza correspondeu com mil 
vivas; depois da mesma forma bebeu á saúde da 
Rainha e das Princezas Nossas Senhoras, e de to- 
da a Familia Real, correspondendo todos a cada 
uma das saúdes com muitos vivas em alta voz. 



i5 



Depois também em pé bebeu á saúde dos srs. 
Governadores d'este Reino, como representantes 
do iiosso Soberano; e d'esta maneira continuou o 
jantar no maior prazer e alegria; emquanto a mim 
eu não tive ainda maior na minha vida, principal- 
mente depois de eu, estando n'esta Corte, em ca- 
sa, e na companhia das sobrinhas, e do irmão, ve- 
nerando religioso (presentemente já fallecido) do 
meu santo Prelado, a quem desde minha tenra 
idade amo como a Pae^ e venero como a Senhor, 
ter aqui supportado em toda a extensão o rigor da 
amargura, e da consternação durante o seu cruel 
captiveiro, em cujo tempo comi muito lume, e be- 
bi tanto veneno. 

Foram iníinitns as pessoas, que concorreram de 
varias partes, durante a minha pequena demora 
em Évora, para congratular-se com o meu ex.*"" 
Prelado pela sua felicissima restituição á sua igre- 
ja; e outros emquanto o não podiam fazer pessoal- 
mente, enviaram-lhe em cartas os sentimentos de 
amor e respeito, que os animavam; eu transcreve- 
rei aqui algumas das que pude ter tempo de co- 
piar n'aquelles poucos dias, que alli me demorei 
entre o barulho e alvoroço causado pela summa 
alegria e prazer, que inundavam toda a casa ar- 
chiepiscopal. 



Copia da carta que escreveu o ex."'' Tenente General da 
Província do Alíintejo ao meu ex.'"" sr. Arcebispo. 

Ex-""' e Rev ."*•' Senhor. 

Suppondo a V. Ex.* no goso das suas proprie- 
dades, e procurando manifestar-lhe regosijo e res- 
peito, expeço o meu Ajudante d'Ordens José da 
Costa de Atahide Teive, visto que as minhas ou- 



i6 

iras obrigações me privam por agora de me apre- 
sentar pessoalmente a V. Ex.* a quem peço a sua 
benção. 

Deos Guarde a V. Ex.* 

Elvas, 17 de Outubro de 1808. 

Sou de V. Ex.^ obrigado captivo 

Francisco de Paula Leite. 



Resposta 

111."'° e Ex."" Sr. 

Desde que ha muito comecei a formar uma ideia 
das prendas de V. Ex.% reservou-me a Providencia 
para que um dia eu fosse obrigadissimo a V. Ex.^ 
em um género de obséquios, que são raros no 
Mundo. V. Ex.* foi servido a restituir-me de um 
ingrato captiveiro com um apparato de demons- 
trações que entre os homens se assignalam como 
coisa vinda de mão de Mestre e Bemíeitora, e do 
extremo da cortesia. Estas demonstrações na Gra- 
ça militar levam-me o coração á presença de V. 
Ex.* com o possível acatamento; e das mãos deli- 
cadai., e as mais civis, a que V. Ex.^ me confiou, 
recebi o maior carinho, e a maior verdade na exe- 
cução das ordens de V. Ex."*. 

> 

O sr. Coronel João Botelho de Lucena Beltrão 
ostentou na face do Mundo, como devem ser obe- 
decidas as ordens do senhor General prespicaz e 
positivo. No espirito do preceito, atrahiu-me, rega- 
lou-me, e me destinguiu por maneira de me lem- 
brar perpetuamente quanto fico penhorado para 



^7 

ser a V. Ex.*' muito agradecido, ao que ajuntarei 
uma fiel execução nos preceitos de V. Ex.". 

Deos Guarde a V. Ex.^ m/ an." 

Palácio Archiepiscopai de Évora em 21 de ou- 
tubro de 1808. 

Ilir e Ex.'"" Sr. Francisco de Paula Leite, general 
d'esta Província. 

De V. Ex.* Am." obg.'"'^ 

Fr. Manoel Z^rcebispo de Évora. 



Copia da carta do brigadeiro governador de Estremoz 

111.™" e Ex.™'' Sr. 

Parecerá arrojo tomar esta deliberação, mas o 
grandíssimo prazer que me acompanha me obriga 
por este meio ir certiíicar a V. Elx.* o quanto me 
regosijo que os snrs. Governadores deste reino at- 
tendessem ás suas sublimes virtudes, e ao nosso 
pessoal interesse, nos restituíssem o nosso legitimo 
pastor, e tão sabiamente fizessem contundir as ca- 
lumnias. 

Deos Guarde a V. Ex.^ muitos annos 

Estremoz, 20 de outubro de 1808. 

111.°'* e Ex.™' Snr. Arcebispo de Évora. 

Amceto Simão Borges. 



i8 

Copia da carta do Dr. José Ignacio da Costa, lente 
da Universidade de Coimbra 



Ilir e Ex.'"" Senhor 

E a quanto se não atrevem homens desalmados, 
quando medem suas esperanças pela grandeza das 
victimas que sacrificam á sua ambição! heróicas 
virtudes constantemente praticadas. Illustrada sa- 
bedoria, rara fidelidade ao Soberano, terno amoi- 
á Pátria, venerandas cans adquiridas no uso e de- 
sempenho de instruir Principes, presidir Tribunaes, 
crear bispados, pastorear metrópoles, não impedi- 
ram a negra calumnia de lançar traidoras mãos 
sobre o maior e mais respeitável Prelado que hon- 
ra o Episcopado n'esies reinos. A melhor causa do 
mundo sérvio de pretexto ao mais execrando ar- 
rojo. Elle escandalisa o século presente, e parece- 
rá incrivel aos vindouros. Era necessário aos de- 
sígnios da Providencia, que V. Ex."" passasse pu- 
blicamente pelos sofrimentos de Confessor dos de- 
veres do Apostolado. Com o mais profundo res- 
peito, e não sem lagrimas, eu beijei a humiliação 
de virtude, suspirei ser por ella abençoado, e ad- 
mirei a grande alma de V. Ex."" tão inalterável no 
Throno da religião, conio na ignominia do capti- 
veiro. 

Deus immortal ! a calumnia dissipa-se, a inno- 
cencia apparece com as cores nativas, que a dis- 
tinguem, e V. Ex."'' em triumpho é restituído á 
Igreja, que illustra por sua doutrina, e edifica por 
seus exemplos. Desde esta Universidade eu vou 
por este modo levar aos pés de V. Ex.'' a minha 
alegria : Supplico a V. Ex.* a receba favoravelmen- 



19 

te, porque ella é filha da intima gratidão e do pro- 
fundo respeito com que sou : 

De V. h:x.^ 

Ill"", e Ex."'" Senhor Arcebispo d^Evora. 

o mais humilde súbdito e creado 

José Ignacio da Costa. 

Coimbra 22 de outubro de 1808. 

No dia antecedente ao da minha partida para 
esta Corte, entrando eu de manhã no quarto do 
meu Amo e Senhor Arcebispo, a saber como tinha 
passado a noite, e a pedir-lhe a benção, o achei já 
íóra da cama e de joelhos regando as suas devo- 
ções do costume: e logo que as concluiu, c nos 
saudámos, me disse que voltasse logo, porque que- 
ria fechar-se para escrever á Regência como re- 
presentante do Nosso Soberano, e a cada um dos 
membros d'ella em particular, como amigos ; meia 
hora depois eu voltei ao mesmo tempo que elle 
abria a porta, e entrando eu me disse: — Alli es- 
tão teitas as cartas que você hade levar para a 
corte, e entregal-as pessoalmente : logo se passa- 
rão a limpo para se fecharem. Eu então as li, c lo- 
go lhe pedi licença para tirar as copias, e são as 



seguintes : 



Senhor 



A generosa e solemnissima liberdade com que 
V. Alteza foi servido Mandar-me restituir ac meu 
domicilio e casa arquiepiscopal de Évora, da qual 
toi transferido com a maior ignominia e violência 
para a cidade de Beja. que eu havia governado 



20 



por trinta e dois annos, é um compendio das raras 
virtudes, que eu adoro em V. Alteza. 

Destinou a Divina Providencia que a minha sor- 
te cahisse em um centro prodigioso de justiça : eu 
delle derivo quanto é de exemplo nas summas auto- 
ridades, para o governo dos homens. Decoro, acer- 
to, magestade nas providencias da justiça distribu- 
tiva, e quanto é da equidade, tudo resplandece em 
V. Alteza. A estes meus pensamentos deverei sem- 
pre a força das inclinações, que haja em todos os 
tempos de respeitar todos os atributos, que for- 
mam a coroa das prerogativas que adornam a V. 
Alteza. 

Aquelles mesmos pensamentos são os que me 
tem ensinado sempre os Direitos que os raios da 
Divindade fazem reluzir em V. Alteza, sem os 
quaes facilmente se torcem as combinações das 
ideias humanas. A esta participação de acerto fará 
o Deos omnipotente, que prendam todas as ope- 
rações t felicidade de V. .Alteza. Pois que das 
Summas Graças e grandes despachos que tenho 
recebido no serviço de V. Alteza, tenho aprendido 
em toda a minha vida lições da mais cumprida 
obediência, seja também a mais fiel e apurada 
aquella que aprendi no mais cruel dos tratamen- 
tos, sendo arrancado do seio da minha egrcja, 
quando, pela Graça Divina, acabava de a remir 
das mais ferozes vexações. 

Com estes votos me deixará a Providencia Di- 
vina continuar emoutraiv e outras aspirações mais, 
as quaes todas cedam cm prosperidades de V. Al- 
teza, e de toda a Familia Real. 

As felicidades pátrias, o contentamento dos po- 
vos, a abundância, cèo aprazível, todo o género 
de bênçãos celestiaes, a repulsa prepetua dos ini- 
migos, as bênçãos dos anjos tutelares, a paz, e a 
serenidade dos tempos, acerto das acções e har- 



31 



monia das virtudes em uma unidade de sentimen- 
tos, e de affeições sejam perpetuamente as graças, 
com que a Divindade nos adopte. 



Copia da carta para o ex.™" sr. D. Francisco Xavier de Horonha 

íil.""' e Ex."'» Sr. 

A singular aíTeição e diligencia com que V. Ex.* 
se ha dignado expedir a minha causa, são dividas 
intermináveis, de que eu me acho penhoradissimo. 
Tal é o insigne caracter que eu desde muitos an- 
nos respeito em V. Ex.*, Tudo me provoca para 
viver penetrado de tanto excesso. Ainda que meu 
contendor me ha tratado com summa indecencia, 
eu fui mui feliz em cahir nos braços de V. Ex.* 
de benignidade e carinho, sendo rcstituido á mi- 
nha egieja tão plausivelmer.te, quanto valeoappa- 
rato de uma tropa provinciana, ptjo qual tanto a 
raiva me observou de revez. mais ainda o braço 
forte de V. Ex.* pelo seu conselho e arbítrio a des- 
mascarou, e lhe dissipou a força, deixando- me em 
indizivel obrigação. 

D>.us Guarde a V. Ex.^ etc. 



Copia da carta para o ex.""' sr. Marqnez das Minas 

111.'"" e Ex."" Sr. 

Quanta vivacivlade se me excitou acodindo ás 
tristíssimas urgências das minhas ovelhas outra 
tanta padici em novo g nero de trabalhos, sendo 
do meio dVIlas arrancado: porém V. Ex.* me fe- 
licitou com o reparo do animo e de boasoíte. Mil 



22 



c mais graças rendo a V. Ex.* pela reparação que 
lhe devo. O Céo ha inspirado a V. Ex.' e fará o 
que eu não posso, ficando da minha obrigação os 
desejos e os votos para as feUcidades de V. Ex.'. 

Deos Guarde a V. Ex.*, etc. 



Carta para o ex.""' sr. D. Francisco da Canba e Menezes 

111."° e Ex.""" Senhor. 

A especialíssima graça que a V. Ex." devo da 
minha restituição, é necessário ser acompanhada 
deste tributo de agradecimento e respeito. Distin- 
guio-se a temeridade em molestar-me, porém o ge- 
neroso soccorro de Y.^ Ex.* acudio á minha op- 
pressâo para rebatel-a com tanta energia, quanta 
se patenteou á face do mundo inteiro, deixando- 
me em tanto reconhecimento quanto é o beneficio 
da restituição, que por isso mesma haverá de ex- 
citarme para uma indelével acção de graças, prom- 
pto sempre no serviço de V.* Ex.*. 

Deus Guarde a V. Ex.*. etc. 



Carta para o ex.""' sr. conde Moníeiro-Mór 

I1I."° e Ex."' Sr. . 

De tanta valia foi o auxilio de V. Ex.* em gra- 
ça minha, que me chegou muito positivo e bené- 
volo. Todos os meus cuidados cessaram no ins- 
tante em que experimentei cahir sobre mim. um 



23 

peso de patrocínio que me libertou de mentira e 
infâmia. Com estas disposições serei sempre prom- 
pto no serviço de V. Ex.*. 

Deos Guarde, etc. 



Carta para o ex."° sr, D. Miguel Pereira Forjaz 

Ilir" e Ex.*"" Sr. 

Rendo a V. Ex/ as devidas graças por seu bem 
aventurado concurso para a minha liberdade, a 
qual me evitará para uma perpetua correspon- 
dência do entendimento e coração. Fui maltratados 
mas torna feliz a minha situação um auxilio de 
tanto credito e valia, quanto o recommendam a, 
admiráveis virtudes de V. Ex.''. 



Deos Guarde, etc. 



Carta para o ex.'"" sr. João António Salter 

111.'^'° e Ex."° Sr. 

Todas as cooperações de V. Ex.*em minha sal- 
vação me tem causado a maior sensibilidade e 
agradecimento. Tanto a minha crença mais dista- 
va do perigo, menos me acaulellava. Doze annos 
me enganou aquelle homem, escrevendo querer- 
me bem com todos os desmanchos da perfídia, e 
retendo no animo uma cólera lucifcrina. A igreja 
taz-me dó. e para meu liniiivo tenho as boas gra- 
ças de V. Ex.* a quem servirei do animo. 

Deus Guarde, etc. 



1 



GABRIEL PEREIRA 



KSTUJOOS KBOHKNSKS 

Esião publicados : 
I " O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2," Evpra ro- 
mana. O lemplo. As inscripções. — r'3." A Casa pia. — 4." Lóios, 
azulejos c obras d'arte. — 5." Ribliotheca Publica. Noticias das 
collecções. — f>.° Conventos do Paraíso, Santa Clara e S. Bento. 
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — S." e 9.° 
V^esperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1." A egreja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiàda. — 12." O aíchi- 
\o municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.", i5." e 16." 
O archivo da Santa Casa da 'Misericórdia d'Evora-c- 17." Évo- 
ra eo Ultramar. Balthazar Jorge c Marco António Pessanha. 
—18.". 19.''. 2o.''e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22."0sFes- 
lejos de Évora em 1729. — 23.^* Evora nos Lusíadas. — 24." Pro- 
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. — 
26.° Antiguidades romanas em Évora '^ se'j« arredores. — 27.*^ 
Roteiro d\im eborense. — 28." Universidade de Évora. — 29." 
As caçadas, 1.^ parte. — 3o." Evorá e o ultramar, 2.-'' parte. — 
3i.' Ibn Abdun. — J2.'' Cs mouros. — 33." As caçadas, 2." parte 
• 34." Os estudantes. — 35.° Versos Eborenses do século xvni 
òG." A volta de Cenáculo. 

A' venda em Lisboa na livraria liertrand, e na do sr. António 
Maria Pereira, rua Augusta." ' 

Documentos Históricos da idade d'Evora 

Estão publicados : ■ 

I." PARTE — Foraes. costumes. Documenios munícipaes dos sec. 
XU, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários muníci- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João I .". Ktc. 
1 vol. de 202 pjig. in-4.0 — 15^800 réis. 

?..'• PARTE — Documentos munícipaes do sec. XV. Doe. ua Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O -primeiro compromisso. Epi- 
sodips eborenses na chronica de João 2.", de Garcia de Rezen- 
- de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-, 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in-4.'' — 2."ZÍ!200 réis. 
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor. J. 

F. Pereira Abranches, praça do Geraldo. Eyora.j 



MADRUG.'\DAS. contos escolhidos., en> casa do editor Abran- 
ches. 



re)M'j<ju'j'j';' i 'i^^'Ji ?'7n^7rwmT) '" i uMMJUij' i iJO»j'JU'.iu';'j')'j' j<i' "^'i'j'^i'TO »ji"iuu'i'JuuiJiJuij»' JU<j»iij'jiii jr"ii i ij»i i ji n^ ^ 




GABRIEL PEREIRA 




^istoria :Arte — Archeologia 



AS QUESTÕES DO PÃO 



QUESTÕES ECONÓMICAS ANTIGAS. LAVUADOItES, MOLEIROS E PADEIROS 

IMPOSTOS E PREÇOS l)0 TRIGO. O GRANDE VEKEAnOR CICIOSO 

E OS REIS D. JOÃO 2." E D. MANUEL. 



ÉVORA 

AlIMRFtVvV EBOFXEiSrSK 

oe JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, iMP«Et«eR b« e*t* «e*L 

Praça de D. Pedr». 22 

1896 



i,r.^.|»k-iittr.r»ri Z:Tí7tT<,TiTm7,^f ^ f if ifi f Ff'-** fu. TTFT! .r,r.j^i Jtxvi^rjr^trtr^A 



GABRIEL PEREIRA 




nnrn 




ffistoría — Arte — ,Archeologia 



AS QUESTÕES DO PÃO 



QUFSTOES KCONOMK.AS ANTIGAS. I.AVK ADORFS, MOLEIROS E PADEIROS. 

IMPOSTOS E IKÍCOS I)0 TRIGO. O GRANDE VEREADOR ClCIOSO 

E OS REIS n. JO.\0 2.° t D. MANUKI,. 



(^% 



ÉVORA 

Bi JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impresíor o* caía real 
% loi — Kiia AiKÍia — Õ4 

1894 



\ 



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ESTUDOS EBORENSES 



As questões do pão 



Escreve-se a historia de um povo, de um reina- 
lo, de umn cidade. O narrador dos acontccimen- 
ir)s npparece logo nas primeiras civilisações. Os 
romanos aprcsentam-nos um grupo de historiado- 
j^es, modelos eternos nas varias feiç(jes da lii>tori;i. 
Ao narrador dos successos pode juniar-se o criti- 
co; o saber dos factos, e o saber relacionar esses 
factos e explical-os é já muito; critical-os, e che- 
gar a scntencear sobre o bom e o máo, o ulil e o 
estéril, é muitíssimo; a imparcialidade histórica é 
uma qualidade excelleníc. uma cristalisação que 
raros attingem. O espirito que tem uma determi- 
nada tendência ou sympathla; a necessidade, o 
destino que impõe balisas ou barreiras, originam 
(]ue a muitos, á grande maioria dos historiado- 
res, seja impossível a imparcialidade. Ha pontos 
de vista particulares, como ha circumstancias pes- 
soaes que dominam o homem. 

Até o simples narrador de factos e acções está 
sugeito á falta de imparciiilidade. 



OccLilta-se, esquece-se este. e põe-se est'outro 
em grande relevo. Veja-se o jornalismo actual on- 
de os chronistas do dia a dia, narram muitas vezes 
com duas camadas de parcialidade, a do jornal 
junta ao ponto de vista pessoal. Alexandre Hercu- 
lano, que adorava Fernão Lopes, foi também par- 
cial. Agora temos exemplos de historiadores que 
variam por lustros, ou na conformidade das en- 
commendas. 

Durante muito tempo, até em livros de ensino, 
se definiu: historia, a narração dos factos. E toda- 
via já Tito Livio, o velho, o querido historiador 
romano, soube apreciar e explicar factos e acções, 
tj ainda mais chegou a fazer historia social des- 
crevendo-nos frequentemente episódios da vida 
do grande povo, das crises moraes e económicas. 

Ha pouco Rosebery, o premier inglez, disse que 
mais que os problemas políticos se impõem hoje 
ao estadista os sociaes e económicos. 

Para os que não são estadistas isso não tem no- 
vidade; os problemas políticos são secundários; 
o que admira muito é que os económicos se não^ 
tenham imposto mais bruscamente, e que os esta- 
distas não tenham curado de resolver alguns d'es- 
ses problemas ou de preparar as cousas para a 
melhor ou mais suave solução. 

Os meios de defeza, tarifas, pautas, protecção 
etc. alimentam uma existência artificial; ávida 
dos povos está a encher-se de tutores, á mercê de 
um pé de vento. 

Quantos problemas políticos se teern resolvido, 
bem ou mal, com violência ou com brandura, des- 
de que o sr. D. Atfonso Henriques fundou a mo- 
narchia ? que quantidade de processos findos! de 
allianças, pactos, tratados que passaram aos pa- 
peis velhos, como as gerações, com os seus ódios 
ç os seus amores, se foram sumindo no silencio 



das sepulturas; pois a questão do pão está viva e 
bem vivaz, c dura. , . ha quanto tempo! a ques- 
tão, ou melhor, as questões do pão duram natu- 
ralmente desde que houve productor, moleiro, pa- 
deiro e consumidor, 

A cidade de Évora em i i 66, lo^o a seguir á 
conquista, tbi concedido o íoral e costume de Ávi- 
la. As condições das duas cidades eram eguacs; 
terras agricolas e fortalezas fronteiriças. Em Évo- 
ra os conquistadores respeitaram os mouros traba- 
lhadores c proprietários agrícolas; segundo a tra- 
dição marcou-se-lhes lo^o um bairro na cidade; 
não ha documentos bastantes do século XII, mas 
ha do século XI II que provam a existência pacifi- 
ca, bem garantida de muitos operários mouris- 
cos, de muitos pequenos proprietários. 

O rei, o bispo, o cabido, as ordens militares ta- 
lharam á larga os seus reguengos, coutos e herda- 
des nas amplas campinas alem do aro da cidade. 

Com pequenas variantes as zonas da proprie- 
dade coincidiam com as actuaes; o couto da cida- 
de dividido em tarrejaes de pão e alcáceres com 
alguns hortejos ; a zona da.s quintas com os seus 
quartéis ecourellus vestidos de oliveiras c vinhedos; 
depois as herdades, terras de cereaes, montados, 
e grandes pastagens. 

Não chegou até nós um códice com os cosliimcs 
de Évora, mas ijmos us furos, costumes^ usos e jiii- 
los de Évora dados aos habitadores de Alcácer, e 
d'aqui communicados aos de (Jarvão, os cusliimcs 
de Tercna também communicados de Évora, c as- 
sim os dados ás Alcáçovas. 

Como c natural o foral e os costumes de Évora 
íoram applicados á província no progresso da con- 
quista, como o foi o estatuto da sua confraria pie- 
dosa formada pelos homens bons que foram a Je- 
rusalém. 



6 



O que chegou a nossos dias forma [xns um cor- 
po Jc legislação costumeira único nopaiz;elle 
pertence a uma povoação considerável, agricola c 
fronteiriça, c que por muitt) tempo foi a guarda 
avançada contra mouros. 

> 

Necessariamente emquaiito as terras de Elvas c 
Alcácer do Sal pertenceram a mouros o território 
eborense foi muitas Víízes atravessado pelas taiias 
agarenas, mas creio que respeitavam a proprieda- 
de rural, por nella haver mouros, ou por a es- 
tes pertencer. 

Porque o estudo das costumes de Évora conven- 
cc-nos de que a propriedade eslava então consti- 
tuída como actualmente ; as vinhas, as herdades, 
os casaes, os gados e a pasloria ; os numcebos de 
soldada e creados de lavoura; mondadeiras e se- 
gadores á jorna ou á tarefa. 

Mais o elemento mourisco. 

Nos arrabaldes, nas hortas, nas vinhas, nas her- 
dadcs havia mouros, alguns escravos, outros for- 
ros, a maior parte livres. Mouros mesteiraes, com 
suas tendas, ferrarias, olarias, alcaçarias; mouros 
proprietários ruraes, fazendo seus negócios, com- 
pras e escambos, arrendamentos c aforamentos, 
com a sua actividade perfeitamente garantida; oran- 
do na bua mesquita, negociando com a sua moeda. 

Na cultura rural apenas uma variante; hoje 
muitas quintas tecm duas ou três figueiras; então 
havia niais; os documentos faliam mesmo de fi- 
gueiredos ou figueiraes, que só no Algarve coíiti- 
nuaram. 

Pelo foral dado aos mouros de Évora cm 1273 
vê-se que cllcs deviam passar má vida, não tinham 
tempo para sesta folgada. Vida de moiro, trabalhar 
como imi moiro, ainda se diz hoje. 

Pagavam a capitação geral, a dizima, mais os 
mpostos especiaes do alfitre e do azeque, isto pa- 

i 



ra os christãos ; porcjuc tinham a pagar ainda pa- 
ra a sua communa, para a mesquita, para o seu 
alcaide, etc. 

Parece-me digno de reparo que muitos moiros 
sabiam escrever, apparecem frequentes assignatu- 
ras de esses hortelões e oleiros. 

Em 1273 o concelho de Évora nomeia sesmci- 
ros para regular a destribuição das terras das pre- 
siirias novas ; e faz convenção com os de Portel 
sobre o uso das pastagens. 

Pelo mesmo tempo apparecem os grandes pro- 
prietários, por exemplo o cabido eborense, e D. 
João d'Aboim, extraordinário vultodo século XIII, 
fazendo contractos, subdividindo terras, tomando 
encargos, reslaurando egrejas e cultos, computan- 
do oííertas e outras rendas ccclesiasticas, o que nos 
mostra estar garantida a propriedade, a existência 
de população permanente entregue a trabalhos ru- 
raes. 

Assim n'este largo período de lucta parece que 
a população mixta, christãos, e mouros c mosara- 
bes, dos arrabaldes, do aro da povoação, mestei- 
racs, hortelões, vinhuteiros, Uigareiros, passou qua- 
si indiíferenle á briga das hostes c taifas; mas a 
povoação do.^ campos, das herdades, das peque- 
nas aldeias sotfreu muito, e desertou dos logarcs. 
E natural: e fui o que succedcu ainda em i833 c 
184Ó; as gucrrilhus victimavam os montes^ os lo- 
garejos, as pequeninas povoações agrícolas inca- 
pazes de resistir, mais isoladas, onde se não po- 
diam reunir de prompto 3o ou 40 homens arma- 
dos. 

Muitas egrejas foram restaurada^ no meiado 
do século XIII ; tinham vivido serenamente essas 
agremiações christãs sob o dominio agareno, e 
só quando a lucta, a onda da conqu'.sta chegou^ 
ellas soítrcram, e o culto cessou : a lucta foi longa. 



« 



secular, apanhou trcs gerações, por islo ío\ j^rcci- 
so íazcr composições com os restos dos antigos 
grémios, com os proprietários territoriaes, para a 
restauração do culto. Rei, prelado eborense, e o ca- 
bido, as ordens militares, especialmente os caval- 
leiros de Évora, depois ordem de Aviz, e o mos- 
teiro de Alcobaça estão todos, no meiadodo sécu- 
lo XIII, interessados na organisação rural, c na 
do culto; nem ha separação possivel entre culto 
religioso e trabalho rural ; o padre precisa de pão 
e vinho para celebrar a missa. 

Que havia movimento commcrcial, troca de va- 
lores, prova-s@ pela instituição du feira de S. Thia- 
go em 1275. 

Ao mesmo tempo vem a expansão dos costu- 
mes de Évora, das posturas municipacs de 1264, 
1270 pelas vilhis alemtejanas, posturas com dis- 
posições penaes a par de regimentos de pastoria, 
onde até appareccm artigos contra a ialsificação 
dos géneros alimentícios. 

Já por falsidade deitavam agua no vinho! 

E ainda mais, já em i285 houve reivindicações 
de reguengos c herdamentos d'el-rei; gente esper- 
ta tinha conseguido apropriar-se d(j alheio; do 
que já tinha sido dcfiijido, e onerado com renda 
ou foro, mas ficara mal garantido, ou por defeito 
de descripção, ou desfazimcnto de extremas, lin- 
das ou arranque de marcos, ou, também já, por 
negligencia dos funccionarios: — B disse dona Jus- 
ta que á eu de a tneyadade^ que queria fa^er o seu 
quinum^ e que o almoxarife non quisera hy faier 
rem, e disse que se perdiam ende as rendas — . 

Nos documentos eborenses do sec. XIÍI, raro e 
o nome de sitio, ribeira ou cabeço que não seja 
ainda hoje usado, tal qual ou com pequena va- 
riante, Almansor, Valleira, Benamolleique^ Alva- 
do, Molrógos (Motrovegas), Louredo, Pecenas, são 
nomes usados ainda hoje. 



Em lodo o aro de Évora são frequentes os no- 
mes de origem ou teição árabe. Os dois ribeiros 
mais próximos são o Xarrama c o Degebe; Bena- 
moriquc, Benaíilé, Bencatede, devem ser bem ára- 
bes; Machede dizem ler a mesma origem. 

Na cidade ha nomes árabes, a lorre de Alcon- 
chel, a rua de Mahumud, Alcarcovas, Alcaça- 
rias, ele. 

No dia 6 de fevereiro de 1286 o alcaide Eslc- 
vam Garcia e os dois juizes Rodrigo Annes e Lou- 
renço Gonçalves, com a gente do concelho toram 
ao adro de Santo Antão tallar a el-rei D. Diniz. 
Perante elrei, que eslava com a sua corte, Martim 
Aligucns, tabellião da cidade, desenrolou o seu 
pergaminho e leu a petição: — Senhor^ estas som as 
cousas sobre que o concelho de Epora pos pede mer- 
co. . . 

Está a gente a ver a scena; o adro de Santo 
Antão, maior e muis baixo que o actual; o lado 
da egreja (porque a primitiva egreja devia ter a 
pporia principal para o poente), com o seu pórtico 
lateral c as frestas talvez românicas; próximo o 
grande arco romano, e junto d'estc um chafariz 
com seus leões de pedra; c a grande praça irregu- 
lar na sua moldLira de arcarias, e as fileiras de 
moradas estreitas, esguias, as janellas vestidas de 
rotulas, e nos altos as varandas cobertas, os bei- 
raes assentando cm pequenos arcos. 

Que queriam os do concelho!^ 

(Querem em tudo enlender-se directamente com 
elrei, nada de dar o concelho em aprcslamo a ri- 
come\ isto c não querem o protector^ o úitcrmcdia- 
rio poderoso. 

(Querem feira geral c franquida. o que bem 
mostra que a vida, o commerciante e o productor 
precisavam expansão. 

Querem os açougues maiores. Açougues então 



IO 

.eram verdadeiros mercados; açougues mais lar- 
gos, porque augmeiítava a povoação.^ sem duvida. 
■ Querem mais que os mouros forros c os judeus 
usem nas cousas da almotacaria assi como vesi- 
it/ios^ todos eguaes, nada de distincçõcs, perante o 
^ítlmotacc não ha laçOs ou castas inferiores. 

vO christão que vá egreja, o mouro á mesquita. 

e o |udeu á synagoga, (á asiioga^ como era uso di- 

^ '-''zer-se), cada um tenha a sua crença, isso não tem 

duvida. Agora ao mercador no seu negocio não 

SC olhe a raça ou religião, lodos assi como vcsinhos. 

O rei concedeu a todos os pedidos. 

z4 qual petiçom lenda e compridamenle entendii- 
da elrei D. Diniz pessoalmente staiido presente com 
muitos de sa corte outorgou. . . c então o concelho 
(depois do rei!) em hua i>o{ concordavelmentc todos 
ensembra leixarom e quitaram c perdoaram ludo o 
que o pae, D. AfFonso, tivera do dito concelho cm 
cousas a que o concelho entendia haver direito. 

Eu gosto immenso deste documento, é são, é 
puro e bom. 

O rei vai ouvir os do concelho no adro da cgre- 
ja; e os cidadãos dizem-lhe que não querem rtco- 
me, nem se importam com diíferença de raças e 
de credos. 

E depois assignam a corte, o bispo, os nobres, 
os magistrados e os cidadãos, s os parentes d'cs- 
tcs: e miiytos dos seus parentes; c vem ainda assi- 
gnar os cabeças dos arrabaldes d'Alconchel, de S. 
P>ancisco, da porta de iMoura e de S. Mamede. 

Fizeram a carta partida por abc^ c ^Ó5 'J^ey 
Don ^inii e concelho de Évora fademos as ditas 
cartas seer selladas dos nossos seellos pendentes. 

O sello do rei c o sello do concelho, a par! 

Outro documento significativo na historia eco- 
nómica do Alemtejo é o livro dos herdamentos do 
cabido; elle mostra a importância da propriedade 



II 

episcopal c;L'apitular no scc. XIII. Já o publiquei 
na integra, por isto não me demoro com cllc. 

J4m i3ii trata-sc de pontes, fontes, carreiras c 
rocios e outras cousas semelháveis a estas a prol do 
commum e aprovei taiiça da terra! 

Nos três primeiros cjuarteis do século XIV rc- 
pclem-sc as leis destinadas a garantir a proprie- 
dade rural, os meios de trabalho, e a detendcr o 
lavrador livrando o de gravames, talhas c fintas, jj-* 

Parece que tudo progredia cm Évora, a popu- 
lação augmentava, a riqueza também, havia com- 
mercio, industria, faziam-se grandes obras: e vem 
de súbito a crise de i3y6. 

Houve estiagem enorme; as searas pcrdcram- 
sc; as pastagens mirraram-se; quasi desapparccc- 
ram os gados; e logo a pestilência íortissima. 

— E porque outrosy a dita cidade he despobrada 
que mengua cm ella bem a meyadade da jente 
que cm ella vivya por a dita seca e por pestilên- 
cia que ora cm ella anda — . 

A crise prolongou-se; e veio a guerra. Évora 
toma o partido do mestre de Aviz, lucta, tem dias 
torvos de brigas e de sangue; aquelle sanhuso poro 
como diz Fernão Lopes tem horas de gloria; o po- 
vo meudo de Évora é credt-r ao mestre de serviços 
que ellc celebra; as sisas geracs do mestre d'Aviz 
(1384) mostram bem os sacrifícios que foi preciso 
aguentar naquella porfiada guerra. 

O pão c a eterna base natural. O imposto do 
pão c elemento principal, por si e pelas questões 
inherentes, no estado social. O mestre de C^vi{ le- 
ve de lançar mão cm 13S4 de todos os recursos, 
as sisas geraes aqui em Évora trou.xcram imposto 
no trigo, no moleiro c na padeira; mas logo em 
i3S5, em abril, aboliram o imposto de terrado do 
pão cosido e dos cereacs vendidos na praça c no 
terreiro. 



12 



O conJLincto dos documentos municipacs ebo- 
renses é extraordinário; aos juisos e costumes do 
sec. XlIIsuccedem as posturas municipaes do sec. 
XIV, e este corpo tem a sua coioa no regimento 
da cidade elaborado por João Mendes de Góes. 

Os documentos das albergarias provam a divi- 
são da propriedade urbana e rural na mesma épo- 
ca; onde hoje na praça ha duas lojas pouco espa- 
çosas havia então seis; pequenas propriedades ru- 
raes de hoje estiveram divididas em ^quatro ou 
mais pequeninas courellas; era enorme o numero 
de propriedades íoreiras. 

Uma postura municipal, que deve ser do ulti- 
mo quartel do sec. XIV, manda que o pão tenha 
um certo peso, que seja alvo, bem cosido e bem 
finto (Doe. hist. p. i3o). Marca ás padeiras i .* e 
2." multas, e pela terceira vez multa c picota; isto 
é, prisão de algumas horas no pelourinho. 

No titulo das padeiras e vendedeiras de pão 
cosido, do regimento da cidade, marca -se peso e 
preço, sendo obrigadas a ter sempre pam cosido 
avondo. 

Simultaneamente havia disposições severas pa- 
ra os moleiros, c sobre as medidas do pão. 

E não esqueciam os jornaes e salários dos sin- 
geleiros, dos servidores das sementeiras, dos se- 
gadores e apanhadores dos trigos e cevadas, c das 
mondadeiras fpag. 149 dos Doe. hist.). 

Pelos capitulos das cortes de Lisboa de 1459 
se vê que fora longa a questão dos varejos; n'es- 
tas cortes os procuradores da cidade, Pêro Vaz 
de Camões e Diogo Varella, pediram resolução 
definitiva. O lavrador guardava as sobras enco- 
vadas (as covas de ter pão ainda se usaram em 
Évora até o sec. XVI: havia muitas na cidade; 
algumas enormes; em obras recentes, dos últimos 
^nnos, nas rqas do Paço, Aviz, Alconchel, c no 



i3 



largo da porta Nova. abrindo escâvaç(5es para ali- 
cerces, encontraram grupos de silos, ou covas pa- 
ra guardar trigo), esperando o preço alto, fazendo 
carestia; havia lavrador que tinha o pão 7 e 8 an- 
nos, e dizem os procuradores, o que em outros tem- 
pos foi muito mais; os lavradores, é claro, não que- 
riam o varejo. 

Em 1480 tiveram novamente de regular o pre- 
ço das moagens, os impostos de atafonas e moen- 
das, maquias, e, ainda mais, marcaram a propor- 
ção dos preços do trabalho e do valor dos géne- 
ros. 

Estas questões do pão parece que se aggrava- 
vam cada vez mais; como se vê são as questões 
de agora; em 148 1 product/')res e consumidores 
continuam em lucta; a oscillação dos preços do 
trigo é enorme; a questão da sabida do dinheiro, 
da exportação do ouro, prcoccupa os dirigentes. 

O nosso Garcia de Rezende conta um episodio 
d'essa briga económica na sua chronica de D. 
João 2." 

Do que el-rei te{ em Évora sobre a vinda do pão. 

Estando el-rei em Évora, começou de haver ne- 
cessidade de pão havendo muito na cidade em po- 
der de alguns fidalgos e cidadãos, que o não que- 
riam vender esperando que o haviam de vender 
a como quizessem. Mandou-lhes el-rei rogar a to- 
dos que vendessem seu trigo a trinta réis o alquei- 
re, (mais de 600 réis hoje) que lhe parecia preço 
honesto para clles ganharem e o povo ser provi- 
do; pois havia annos que o não venderam tão ca- 
ro e que n'isso lhe fariam prazer ; e que se o não 
quizessem vender que soubessem certo que depois 
lho não deixaria vender cmquanto na cidade esti- 
vesse. 

Escuram-se todos esperando por maior valia, 
salvo um João iMendes Cicioso, cidadão honrado, 



14 

que mandou logo levar praça á uns quarenta moios 
que linha, e ma idou dizer a el-rei se queria sua 
alteza que o pozesse a vinte réis que assim se ven- 
deria: 

Agradeceu-lhe el-rei e quiz que a trinta se ven- 
desse, e fez-lhe logo por isso mercê de dois escra- 
vos. 

E mandou logo ao mestre de Santiago em Gas- 
tella dizer que lhe aprazia dar licença para pode- 
rem vir a Évora vender o seu pão, como lhe re- 
queriam havia dias, e el-rei não queria por lhe não 
levarem o dinheiro do reino; e tanto que teve re- 
cado que eslava muito pão para vir, mandou logo 
apregoar pela cidade que qualquer homem delia 
que vendesse trigo emquanlo clle ahi estivesse, 
que perdesse por isso sua fazenda ; e mandou pôr 
sobre isso tanta guarda que se não vendeu alquei- 
re. Acudiu logo de Castclla tanto que valia a vinte 
réis o alqueire. 

Por onde todos os que tinham pão o perderam 
quasi lodo. 

K elrei sem castigo os castigou bem e deu gran- 
de perda aos cobiçosos, e muito proveito á sua 
corte e a todo o povo, de que sempre linha muito 
grande cuidado. E quando saiu de Évora para as 
Alcáçovas mandou dizer aos que o não quizessem 
servir, que agora que se elle ia da cidade poderiam 
vender seu pão, em que os ainda tornou a enver- 
gonhar— . 

Na Miscellaina allude também o nosso impagá- 
vel Garcia de Resende ás extraordinárias oscilla- 
çôes do preço do trigo no seu tempo. 

Vimos em Évora valer 
os moios de pão yguaes 
quinze, vinte mil reaes 
agora os vemos vender 
a setenta mil, e mais. 
anno vi tão abastado 
que a oito reaes compruilo. 



i5 



toi o alqueire de pão 
outro vimos em que não 
se acliavn por um cruzado. 

Estas questões económicas são tão interessan- 
tes e o vulto do grande vereador Cicioso c de tal 
forma honrado^ íirme e levantado no seu afan de 
defensor do povo, que me parece bem reunir aqui 
o que ha de mais certo sobre este caso do trigo; 
vejamos a noticia que nos dá o padre Manuel 
Fialho (foi óptimo indagador!) na sua preciosa 
obra Evova illustrada, que ainda infelizmente se 
conserva inédita. 

— Todas as palavras e acções del-rei D. João 
2.** foram lição e doutrina. Agora veremos uma 
nova lição, um novo castigo contra os avarentos, 
o mais próprio que se lhe pôde dar, c de que ellcs 
mais fogem, e mais se temem. 

Estando ainda a corte em Évora houve uma ca- 
restia de pão, na qual ainda que não faltava trigo, 
os que o tinham esperavam maior preço. 

Quasi que os mandou rogar o rei por terceiras 
pessoas que quizesscm vcndel-o, e lhe pcrmittiria 
já o preço de 3o réis, eniendc-se de cobre (note- 
se que este caso é do fim do século XV) por cada 
alqueire, dizendo que assaz caro era, pois que nun- 
ca a tal preço tinha chegado; e ficariam com mui- 
to ganho, e o povo remediado, e que nisto lhe fa- 
riam o gosto; e elles fechados, e sem quererem dar 
esse gosto ao rei nem acudirão povo. 

De novo lhe mandou intimar, nem já rogando 
mas ameaçando, que se o n^o vendessem logo, 
pelo que lhe permittia, lhe prometlia que o não 
haviam de vender por maior preço, nem por esse 
permittido, emquanto elle estivesse na cidade e 
vivesse. Ainda ficaram elles tezos, lestos e fecha- 
dos, esperando que a necessidade levantasse o j^re- 
ço, e suppondo que as ameaças gerariam no ar. 



i6 



Só lhe fez o gosto João Mendes Cicioso, honra- 
do cidadão de Évora, (o que levantou a casa do 
Senado, sendo vereador), a quem veremos ainda 
mais glorioso no tempo del-rei D. Manuel. 

Lá porque resistindo ao rei, aqui porque fazen- 
do-lhe o gosto, e sempre pelo bem do povo. 

iMandou este á praça uns 40 moios, com que se 
achava, mandando dizer ao rei, que S. Alteza lhe 
puzesse o preço, ainda que fosse muito mais ba- 
rato, mas que fosse o terço menos; e o queria as- 
sim vender mais por acodir ao povo que por al- 
guma outra causa. 

Estimou o rei o lanço, e mandou se vendesse a 
3o réis. Assim se fez, e vendeu-se o trigo ás reba- 
tinhas (encheu o Cicioso a bolsa, e livrou o seu 
trigo de gorgulho, diz o P.'' M.'' Plalho, em obser- 
vação) ; e o rei lhe fez de mais mercê de dois es- 
cravos de Guiné. 

No entretanto mandou el-rei recado ao mestre 
de Santiago de Castella, que lhe dava licença pa- 
ra mandar vender a Évora o seu trigo, e o de seus 
amigos, como lhe pedira e instara; a que o rei até 
então não quisera permittir, por lhe não levarem 
o dinheiro para fora do reino (tão miúdo ou del- 
gado se fiava então nesta matéria). 

Agora o houve por bem para ensino e castigo 
dos avarentos. 

Logo que soube que estava muito pão para vir 
de Castella, ou vinha já chegando, e pelo cami- 
nho, mandou apregoar que suppostos os seus ro- 
gos e permissão de preço, e a negação dos que 
não quizeram acudir ao povo, tinha dado a so- 
bredita licença, e por isto mandava que nenhuma 
pessoa de qualquer qualidade e estado, sob pena 
do perdimento de sua fazenda para o fisco real, 
vendesse pão na cidade e seu termo até sua nova 
ordem que mandaria apreg<:)ar, quando se acabas- 



17 



SC de gastar o que tinha dado licença de vir de 
Gastella. 

Sobre isto para segurara observância do decre- 
to, para castigar aos delinquentes, poz taes vigias 
publicas e occultas que nenhum d'elles pôde ven- 
der alqueire de pão temendo serem apanhados, e 
tendo por infallivel a pena imposta, porque conhe- 
ciam a resolução real. 

Assim acudiu a Évora tanto pão que venden- 
do-o os primeiros a 3o réis, começaram os segun- 
dos a abater o preço, e foi abaralando até chegar 
a 14 réis e ja não havia quem o quizesse; ás mos- 
cas, como dizem, estava já I — (Aqui uma nota 
mui curiosa do P." Fialho: «Foi isto no anno de 
1495, fazia quando isto escrevia 210 annos (em 
!7o5, por consequência) e tinha o preço do trigo 
subido a mais de 400 réis — . K segue outra no- 
ta, n'uma tira de papel collado--t' agora que re- 
vejo estas noticias, no anno de i 70c) é o preç(j de 
um alqueire de trigo 800 reis — e mais ainda ou- 
tra v^ez em 171 i se vendeu algum a 1:700 réis 
(1!) ou ainda mais, tudo faz ou destaz o bom ou 
máo governo. Não ha já um rei D. João 2.". nem 
um vereador João Mendes Cicioso : ha hum que 
degenerado de seus maiores disse que lhe cheira- 
va o seu trigo a meia moeda de ouro, que é 2:400 
réis. Mas graças a Deus que novissimamente, no 
anno de 17 18. está aqui (em Évora) o trigo esco- 
lhido pelo preço de 140 réiS; e a cevada e o cen- 
teio a 40 réis: é porque delle existe naiito. . . mas 
á vae sobindo). 

O porque destes excessos Deus o sabe. e em 
parte o podiam remediar os homens, mas Deus 
lhes acuda! — (A facilidade de communicações, e 
o maior numero de regiões productoras tem já re- 
mediado muito ; hoje não são possíveis taes oscil- 
lações de preços; a regularisação da venda tam- 



i8 



bem se pode conseguir, querendo ; não querendo, 
ou não sabendo ainda se chega ao tumulto como 
ha pouco succedeu na questão do milho, nas pro- 
vindas do norte do paiz. Em Guimarães em 1894 
deu-se o caso de Évora de 1495 ; lá com o milho, 
aqui com o trigo. Antigamente estes casos repe- 
tiam-se muito. Hoje é fácil prevenil-os; ou, appa- 
recendo súbitos, remedial-os a tempo. Já não suc- 
cede o mesmo com a questão da exportação do 
ouro, o outro problema de João 2." Está ainda de 
pé, mas ha-de ser o Aiemtejo que o ha-de resol- 
ver). 

Agora segue o P.* Fialho : — Perderam os ava- 
rentos não só as vans esperanças do maior preço 
mas o mesmo pão, que tinham tão fechado: deu- 
Ihe o bicho, que em algumas terras chamam san- 
to ! ; bicho santo ioi d'esta vez o rei ; e por lhe es- 
premer mais, como dizem, o agraço no olho, quan- 
do depois em julho d'um anno saiu de Évora man- 
dou apregoar que levantava o outro seu pregão, 
e que cada um vendesse o seu pão. como quizesse 
e pudesse. Assim os correu e carregou ainda mais; 
assim os ensinou e castigou. 

N'esta occasião fez o senado eborense uma con- 
sulta ou supplica ao rei para que favorecesse mais 
aos lavradores com alguns privilégios, porque a 
falta não só procedera da esterilidade do anno, 
mas também da falta de lavradores. 

Sem duvida o faria el-rei, Dorém a sua morte 
atalhou esses bem premeditados intentos, como a 
muitos outros — . 

Veremos as questões económicas alemtejanas 
tratadas em diversas épocas, por summidades por- 
tuguezas. Será uma collecção mui curiosa e ins- 
tructiva. 



GABRIEL PEREIRA 



Ksião publicados : 
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro- 
mana. O templo. As inscripçócs. — 3." A Casa pia. — 4." Lóios, 
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliòtheca Pulilica. Noticias das 
collecções. — O." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento. 

— 7." Hellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9." 
Vésperas da restauração. — io."Brasíío d'Evora. — 1 1." A egrcja 
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.° O archi- 
vo municipal — 1 3." A restauração cm Évora. — 14.", i5." e 16." 
O archivo da .Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 17." Évo- 
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha. 

— iS.", 19.", 20.° e 'zf." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes- 
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nosLusiadas. — 24." Pro- 
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. — 
26." Antiguidades romanas em Évora e seu'^ arredores.— 27." 
Roteiro d'um eborense. — 28.'^ Universidade de I^vora. — 29." 
As caçadas, i." parte. — 3o." Évora e o ultramar, 2'.» parte. — 
3i." Ibn Abdun. — 32.» Cs mouros. — 33." As caçadas, 1." parte 

— 34.° Os estudantes. — 35." Versos Eborenses do século xviii. 

— 3G." A volta de Cenáculo. — 37." As questões do pão. 

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Maria Pereira, rua Augusta. 



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Estão publicados : 

i." PARTE — Foraes, costumes. Documentos oiunicipaes dos sec. 
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici- 
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do 
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo 
de D. João I.". Etc. 
I vol. de 202 pag. ift-4." — líJííSoo réis. 

2." PARTE — Documentos municipaes do sqc. XV. Doe. da Mise- 
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi- 
sódios eborenses na chronica de João 2.", de Garcia de Rezen- 
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei- 
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVJ. Capítulos de 
cortes no sec. XV. Etc. 
1 vol. de 282 pag. in-4." , — 2^200 réis. 



GABRIEL PEREIRA 



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tXlshría — c^Hc — fflrc/ieoíogia 



AS QUESTÕES DO PÃO 



QUESTÕES ECONÓMICAS ANTIGAS. LAVRADORES, MOLEIROS E PADEIROS. 

IMPOSTOS E PREÇOS DO TRIGO. O GRANDE VEREADOR CICIOSO 

E OS REIS D. JOÃO 2.0 E D. MANULL. 



'■£.» KílivA*» 



PaPEI.ARI V H l.IVRAKIA 

JOAQUIM DA Sil.VA NAZARETH 

Praça de Geraldo 

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101 () -Composto e impresso na Minerva Comercial, Rua da Republica, Évora 



GABRIEL PEREIRA 



ESTUDOS EBORENSES 



fXisíoria — Jlrie — cHrc/ieoíogia 



AS QUESTÕES DO PÃO 



«i^KSTOES KCONOMICAS ANTIGAS. I AVUAOOKES, MOl.KIKOS E PADEIROS. 

IMrOSTOS E PREÇOS DO TRIGO. O GRANDE VEREAD "'K CICIOSí) 

E OS KElS D. ,T0.\0 2.0 E D. .MANLI K. 



ii.a Ertiçào 



Papelaria e Livhakia 

■IOAOi;iM DA SlkVA NAXAKKTH 

Praça de Geraldo 

E\'ORA 



1916— Composto é impresso na Minerva Comercial, Rua da Republica, Évora , 



ESTUDOS EBORENSES 



As questões do pão 



Escreve-se a historia de um povo, de um reina- 
do, de uma cidade. O narrador dos acontecimen- 
tos apparece logo nas primeiras civilisações. Os 
romanos apresentam-nos um grupo de historiado- 
res, modelos eternos nas varias feições da historia. 
Ao narrador dos successos pode juntar-se o criti- 
co; o saber dos factos, e o saber relacionar esses 
factos e explical-os é já muito; critical-os, e che- 
gar a sentencear sobre o bom e o máo, o util e o 
estéril, é muitissimo; a imparciaHdade histórica c 
uma qualidade excellente, uma cristalisaçào que 
raros attingem. O espirito que tem uma determi- 
nada tendência ou sympathia; a necessidade, o 
destino que impõe balisas ou barreiras, originam 
que a muitos, á grande maioria dos historiado- 
res, seja impossível a imparcialidade. Ha pontos 
de vista particulares, como ha circumstancias pes- 
soaes que dominam o homem. 

Até o simples narrador de factos e acções está 
sugeito á falta de imparcialidade. 



OccLilta-se, esquece-se este, e põe-se est'outro 
em grande relevo. Veja-se o jornalismo actual on- 
de os chronistas do dia a dia narram muitas vezes 
com duas camadas de parcialidade, a do jornal 
junta ao ponto de vista pessoal. Alexandre Hercu- 
lano, que adorava Fernão Lopes, foi também par- 
cial. Agora temos exemplos de historiadores que 
variam por lustros, ou na conformidade das en- 
commendas. 

Durante muito tempo, até em livros de ensino, 
se definiu: historia, a narração dos factos. E toda- 
via já Tito Livio, o velho, o querido historiador 
romano, soube apreciar e explicar factos e acgòes, 
e ainda mais chegou a fazer historia social des- 
crevendo-nos frequentemente episódios da vida 
do grande povo, das crises moraes e económicas. 

Ha pouco Rosebery, o premier inglez, disse que 
mais que os problem.as politicos se impõem hoje 
ao estadista os sociaes e económicos. 

Para os que não são estadistas isso não tem no- 
vidade; os problemas politicos são secundários; 
o que admira muito é que os económicos se não 
tenham imposto mais bruscamente, e que os esta- 
distas não tenham curado de resolver alguns d'es- 
ses problemas ou de preparar as cousas para a 
melhor ou mais suave solução. 

Os meios de deíeza, tarifas, pautas, protecção 
etc. alimentam uma existência artificial ; a vida 
dos povos está a encher-se de tutores, á mercê de 
um pé de vento. 

Quantos problemas politicos se teem resolvido, 
bem ou mal, com violência ou com brandura, des- 
de que o sr D. Affonso Henriques fundou a mo- 
narchia? que quantidade de processos findos! de 
allianças, pactos, tratados que passaram aos pa- 
peis velhos, como as gerações, com os seus ódios 
e os seus amores, se foram sumindo no silencio 



_i_ 

das sepulturas ; pois a questão do pào está viva e 
bem vivaz, e dura ... ha quanto tempo! a ques- 
tão, ou melhor, as questões do pão duram natu- 
ralmente desde que houve productor, moleiro, pa- 
deiro e consumidor. 

A cidade de Évora em 1166, \o\ip a seguir á 
conquista, foi concedido o foral e costume de Ávi- 
la. As condições das duas cidades eram eguaes ; 
terras agricolas e fortalezas fronteiriças. Em Évo- 
ra os conquistadores respeitaram os mouros traba- 
lhadores e proprietários agricolas; segundo a tra- 
dição marcou-se-lhes logo um bairro na cidade; 
não ha documentos bastantes do século XII, mas 
ha do século Xlll que provam a existência pacifi- 
ca, bem garantida de muitos operários mouris- 
cos, de muitos pequenos proprietários. 

O rei, o bispo, o cabido, as ordens militares ta- 
lharam á larga os seus reguengos, coutos e herda- 
des nas amplas campinas alem do aro da cidade. 

Com pequenas variantes as zonas da proprie- 
dade coincidiam com as actuaes ; o couto da cida- 
de dividido em farrejaes de pão e alcáceres com 
alguns hortejos ; a zona das quintas com os seus 
quartéis e courellas vestidos de oliveiras e vinhedos; 
depois as herdades, terras de cereaes, montados, 
e grandes pastagens. 

Não chegou até nós um códice com os costumes 
de Évora, mas temos os foros, costumes, usos ejui" 
zos de Évora dados aos habitadores de Alcácer, e 
d'aqui communicados aos de Garvão, os costumes 
de Terena também communicados de Évora, e as- 
sim os dados ás Alcáçovas. 

Como é natural o foral e os costumes de Évora 
foram applicados á província no progresso da con- 
quista, como o foi o estatuto da sua confraria pie- 
dosa formada pelos homens bons que foram a Je- 
ruzalem. 



o que chegou a nossos dias forma pois um cor- 
po de legislação costumeira único no paiz ; elle 
pertence a uma povoação considerável, agrícola e 
fronteiriça, e que por muito tempo foi a guarda 
avançada contra mouros. 

Necessariamente emquanto as terras de Elvas e 
Alcácer do Sal pertenceram a mouros o território 
eborense foi muitas vezes atravessado pelas taifas 
agarenas, mas creio que respeitavam a proprieda- 
de rural, por nella haver mouros, ou por a es- 
tes pertencer. 

Porque o estudo dos costumes de Évora conven- 
ce-nos de que a propriedade estava então consti- 
tuída como actualmente; as vinhas, as herdades, 
os casaes, os gados e a pastoria ; os mancebos de 
soldada e creados de lavoura ; mondadeiras e se- 
gadores á jorna ou á tarefa. 

Mais o elemento mourisco. 

Nos arrabaldes, nas hortas, nas vinhas, nas her- 
dades havia mouros, alguns escravos, outros for- 
ros, a maior parte livres. Mouros mesteiraes, com 
suas tendas, ferrarias, olarias, alcaçarias ; mouros 
proprietários ruraes, fazendo seus negócios, com- 
pras e escambos, arrendamentos e aforamentos, 
com a sua actividade perfeitamente garantida; oran- 
do na sua mesquita, negociando com a sua moeda. 

Na cultura rural apenas uma variante; hoje 
muitas quintas teem duas ou três figueiras; então 
havia mais; os documentos faliam mesmo de fi- 
gueiredos ou fígueiraes, que só no Algarve conti- 
nuaram. 

Pelo foral dado aos mouros de Évora em 1273 
vê-se que elles deviam passar má vida, não tinham 
tempo para sesta folgada Vida de moiro , trabalhar 
como um moiro^ ainda se diz hoje. 

Pagavam a capitação geral, a dizima, mais os 
impostos especiaes do alfitre e do azeque, isto pa- 



ra os christãos; porque tinham a pagar ainda pa- 
ra a sua communa, para a mesquita, para o seu 
alcaide, etc 

Parece-me digno de reparo que muitos moiros 
sabiam escrever, apparecem frequentes assignatu- 
ras de esses hortelões e oleiros. 

Em 1273 o concelho de Évora nomeia sesmei- 
ros para regular a destribuição das terras ádiSpre^ 
sttrias novas ; e faz convenção com os de Portel 
sobre o uso das pastagens. 

Pelo mesmo tempo apparecem os grandes pro- 
prietários, por exemplo o cabido eborense, e D. 
João d'Aboim, extraordinário vulto do século XIíI, 
fazendo contractos, subdividindo terras, tomando 
encargos, restaurando egrejas e cultos, computan- 
do offertas e outras rendas ecclesiasticas, o que nos 
mostra estar garantida a propriedade, a existência 
de população permanente entregue a trabalhos ru- 
raes. 

Assim n'este largo período de lucta parece que 
a população mixta, christãos, e mouros e mosara- 
bes, dos arrabaldes, do aro da povoação, mestei- 
raes, hortelões, vinhateiros, lagareiros, passou qua- 
si indifferente á briga das hostes e taifas; mas a 
povoação dos campos, das herdades, das peque- 
nas aldeias soffreu muito, e desertou dos logares. 
E' natural; e foi o que succedeu ainda em 1S33 e 
1846; as guerrilhas victimavam os montes, os lo- 
garejos, as pequeninas povoações agrícolas inca- 
pazes de resistir, mais isoladas, onde se não po- 
diam reunir de prompto 30 ou 40 homens arma- 
dos. 

Muitas egrejas fcram restauradas no melado 
do século XIII ; tinham vivido serenamente essas 
agremiações christãs sob o dominio agareno, e 
só quando a lucta, a onda da conquista chegou, 
ellas softreram, e o culto cessou ; a lucta foi longa. 



8 



secular, apanhou três gerações, por isto foi preci- 
so fazer composições com os restos dos antigos 
grémios, com os proprietários territoriaes, para a 
restauração do culto. Rei, prelado eborense, e o ca- 
bido, as ordens militares, especialmente os caval- 
leiros de Évora, depois ordem de Aviz, e o mos- 
teiro de Alcobaça estão todos, no meiado do sécu- 
lo XIII, interessados na organisaçào rural, e na 
do culto; nem ha separação possível entre culto 
religioso e trabalho rural; o padre precisa de pão 
e vinho para celebrar a missa. 

Que havia movimento commercial, troca de va- 
lores, prova-se pela instituição da feira de S. Thia- 
go em 1275. 

Ao mesmo tempo vem a expansão dos costu- 
mes de Évora, das posturas municipaes de 1264, 
1270 pelas villas alemtejanas, posturas com dis- 
posições penaes a par de regimentos de pastoria, 
onde até apparecem artigos contra a falsificação 
dos géneros alimentícios 

Já por falsidade deitavam agua no vinho! 

E ainda mais, já em 1285 houve reivindicações 
de reguengos e herdamentos d'el-rei; gente esper- 
ta tinha conseguido apropriar-se do alheio; do 
que já tinha sido definido, e onerado com renda 
ou foro, mas ficara mal garantido, ou por defeito 
de descripção, ou desfazimento de extremas, lin- 
das ou arranque de marcos, ou, também já, por 
negligencia dos íunccionarios: — E disse dona Jus= 
ta que â (nde a meyadade, que queria fazer o seu 
quinum^ e que o almoxarife non quisera hy fazer 
rern, e disse que se perdiam ende as rendas — . 

Nos documentos eborenses do sec. XIÍI, raro é 
o nome de sitio, ribeira ou cabeço que não seja 
ainda hoje usado, tal qual ou com pequena va- 
riante, Almansor, Valleira, Benamolleique, Alva- 
do, Motrógos (Motrovegas), Louredo, Pecenas, são 
nomes usados ainda hoje. 



Em todo o aro de Évora são frequentes os no- 
mes de origem ou feição árabe. Os dois ribeiros 
mais próximos são o Xarrama e o Degebe; Bena- 
morique, Benafilé, Bencafede, devem ser bem ára- 
bes; Maciíede dizem ter a mesma origem. 

Na cidade ha nomes árabes, a torre de Alcon- 
chel, a rua de Mahumud, Alcarcovas, Alcaça- 
rias, etc. 

No dia 6 de fevereiro de 1286 o alcaide Este- 
vam Garcia e os dois juizes Rodrigo Annes e Lou- 
renço Gonçalves, com a gente do concelho foram 
ao adro de Santo Antão fallar a el-rei D. Diniz. 
Perante el-rei, que estava com a sua corte, Martim 
Miguens, tabellião da cidade, desenrolou o seu 
pergaminho e leu a petição: — Senlior, estas som as 
cousas sobre que o concelho de Évora vos pede mer' 
cê. . . 

Está a gente a ver a scena; o adro de Santo 
Antão, maior e mais baixo que o actual; o lado 
da egreja (porque a primitiva egreja devia ter a 
porta principal para o poente), com o seu pórtico 
lateral e as frestas talvez românicas; próximo o 
grande arco romano, e junto d'este um chafariz 
com seus leões de pedra; e a grande praça irregu- 
lar na sua moldura de arcarias, e as fileiras de 
moradas estreitas, esguias, as janellas vestidas de 
rotulas, e nos altos as varandas cobertas, os bei- 
raes assentando em pequenos arcos. 

Que queriam os do concelho ? 

Querem em tudo entender-se directamente com 
el-rei, nada de dar o concelho em aprestanio a ri^ 
come; isto é não querem o protector, o intermediá- 
rio poderoso. 

Querem feira geral e franquida, o que bem 
mostra que a vida, o commerciante e o productor 
precisavam expansão. 

Querem os açougues maiores. Açougues então 



IO 



eram verdadeiros mercados; açougues mais lar- 
gos, porque augmentava a povoação, sem duvida. 

Querem mais que os mouros forros e os judeus 
usem nas cousas da almotaçaria assi covão vesí= 
nhos, todos eguaes, nada de distincções, perante o 
almotacé nào ha laços ou castas inferiores. 

O christão que vá egreja, o mouro á mesquita, 
e o judeu á synagoga, (á esnoga, como era uso di- 
zer-se), cada um tenha a sua crença, isso não tem 
duvida. Agora ao mercador no seu negocio nào 
se olhe a raça ou religião, todos assi como vesinlios. 

O rei concedeu a todos os pedidos. 

^ qual petiçcm leuda e compridamente entendu= 
da el rei D. Diniz pessoalmente stando presente com 
muitos de sa corte outorgou . . . e então o concelho 
(depois do rei !) em liua voz cone ordavelm ente todos 
ensembra leixarom e qn taram e perdoaram tudo o 
que o pae, D Affonso, tivera do dito concelho em 
cousas a que o concelho entendia haver direito. 

Eu gosto immenso deste documento, é são, é 
puro e bom. 

O rei vai ouvir os do concelho no adro da egre- 
ja; e os cidadãos dizem-lhe que não querem rico^ 
me, nem se importam com differença de raças e 
de credos. 

E depois assignam a corte, o bispo, os nobres, 
os magistrados e os cidadãos, e os parentes d es- 
tes: e muytos dos seus parentes; e vem ainda assi- 
gnar os cabeças dos arrabaldes d'Alconchel, de S. 
Francisco, da porta de Moura e de S. Mamede. 

Fizeram a carta partida por abe, e J\^âs ^Rey 
(Don (Diniz e concelho de Évora fazemos as ditas 
cartas seer selladas dos nossos seellos pendentes, 

O sello do rei e o sello do concelho, a par ! 
Outro documento sicrnificativo na historia eco- 

o 

nomica do Alemtejo é o livro dos herdamentos do 
cabido; elle mostra a importância da propriedade 



ir 



episcopal e capitular no sec. XIII. Já o publiquei 
na integra, por isto não me demoro com elle. 

Em 131 1 trata-se de pontes, fontes, carreiras e 
rocios e outras cousas semelháveis a estas a prol do 
com m um aproveiiança da terra/ 

Nos três primeiros quartéis do século XIV re- 
petem-se as leis destinadas a garantir a proprie- 
dade rural, os meios de trabalho, e a defender o 
lavrador livrando-o de gravames, talhas e fintas. 

Parece que tudo progredia em Évora, a popu- 
lação augmentava, a riqueza também, havia com- 
mercio, industria, faziam-se grandes obras: e vem 
de. súbito a crise de 1376. 

Houve estiagem enorme; as searas perderam- 
se; as pastagens mirraram-se; quasi desapparece- 
ram os gados; e logo a pestilência fortíssima. 

— E porque outrosy a dita cidade he despobrada 
que mengua em ella bem a meyadade da jente 
que em ella vivya por a dita seca e por pestilên- 
cia que ora em ella anda — . 

A crise prolongou-se; e veio a guerra. Évora 
toma o partido do mestre de Aviz, lucta, tem dias 
torvos de brigas e de sangue; aquelle sanhoso povo 
como diz Fernão Lopes tem horas de gloria; o po= 
vo nieiiÁo de Évora é credor ao mestre de serviços 
que elle celebra; as sisas geraes do mestre d'Aviz 
(1384) mostram bem os sacrifícios que foi preciso 
aguentar naquella porfiada guerra. 

O pão c a eterna base natural. O imposto do 
pão é elemento principal, por si e pelas questões 
inherentes^ no estado social. O mestre de Aviz te- 
ve de lançar mão em 1384 de todos os recursos, 
as sisas geraes aqui em Évora trouxeram imposto 
no trigo, no moleiro e na padeira; mas logo em 
1385, em abril, aboliram o imposto de terrado do 
pão cosido e dos cereaes vendidos na praça e no 
terreiro. 



12 



O conjuncto dos documentos municipaes ebo- 
renses é extraordinário; aos juisos e costumes do 
sec. XlIIsuccedem as posturas municipaes do sec. 
XIV, e este corpo tem a sua coroa no regimento 
da cidade elaborado por João Mendes de Góes. 

Os documentos das albergarias provam a divi- 
são da propriedade urbana e rural na mesma épo- 
ca; onde hoje na praça ha duas lojas pouco espa- 
çosas havia então seis; pequenas propriedades ru- 
raes de hoje estiveram divididas em quatro ou 
mais pequeninas courellas; era enorme o numero 
de propriedades foreiras. 

Uma postura municipal, que deve ser do ulti- 
mo quartel do sec. XIV, manda que o pão tenha 
um certo peso, que seja alvo, bem cosido e bem 
finto (Doe. hist. p. 130). Marca ás padeiras i.' e 
2.''' multas, e pela terceira vez multa e picota; isto 
é, prisão de algumas horas no pelourinho. 

No titulo das padeiras e vendedeiras de pão 
cosido, do regimento da cidade, marca-se peso e 
preço, sendo obrigadas a ter sempre pam cosido 
avondo. 

Simultaneamente havia disposições severas pa- 
ra os moleiros, e sobre as medidas do pão. 

E não esqueciam os jornaes e salários dos sin- 
geleiros, dos servidores das sementeiras, dos se- 
gadores e apanhadores dos trigos e cevadas, e das 
mondadeiras (pag. 149 dos Doe. hist.). 

Pelos capitules das cortes de Lisboa de 1459 
se vê que fora longa a questão dos varejos; n'es- 
tas cortes os procuradores da cidade, Pêro Vaz 
de Camões e Diogo Varella, pediram resolução 
definitiva. O lavrador guardava as sobras enco- 
vadas (as cova'^ de ter pão ainda se usaram em 
Évora até o sec. XVI: havia muitas na cidade; 
algumas enormes, em obras recentes, dos últimos 
annos, nas ruas do Paço, Aviz, Alconchel, e no 



13 

largo da porta Nova, abrindo escavações para ali- 
cerces, encontraram giiipos de silos, ou covas pa- 
ra guardar trigo), esperando o preço alto, fazendo 
carestia; havia lavrador que tinha o pão 7 e 8 an- 
nos, e dizem os procuradores, o que em outros tent^ 
fos foi muito mais; os lavradores, é claro, não que- 
riam o varejo. 

Em 1480 tiveram novamente de regular o pre- 
ço das moagens, os impostos de atafonas e moen- 
das, n:aquias, e, ainda mais, marcaram a propor- 
ção dos preços do trabalho e do valor dos géne- 
ros. 

Estas questões do pão parece que se aggrava- 
vam cada vez mais; como se ve são as questões 
de agora; em 148 1 productores e consumidores 
continuam em lucta; a oscillaçào dos preços do 
trigo é enorme; a questão da sahida do dinheiro, 
da exportação do ouro, preoccupa os dirigentes. 

O nosso Garcia de Rezende conta um episodio 
d'essa briga económica na sua chronica de D. 
João 2° 

(Do que el=rei fez em Évora sobre a vinda do pão. 

Estando el-rei em Évora, começou de haver ne- 
cessidade de pão havendo muito na cidade em po- 
der de alguns fidalgos e cidadãos, que o não que- 
riam vender esperando que o haviam de vender 
a como quizessem. Mandou-lhes el rei rogar a to- 
dos que vendessem seu trigo a trinta réis o alquei- 
re, (mais de 600 réis hoje) que lhe parecia preço 
honesto para elles ganharem e o povo ser provi- 
do; pois havia annos que o não venderam tão ca- 
ro e que n'isso lhe fariam prazer; e que se o não 
quizessem vender que soubessem certo que depois 
lh'o não deixaria vender emquanto na cidade esti- 
vesse. 

Escuram-se todos esperando por maior valia 
salvo um João Mendes Cicioso, cidadão honrado. 



14 

que mandou logo levar praça á uns quarenta moios 
que tinha, e mandou dizer a el-rei se queria sua 
alteza que o pozesse a vinte réis que assim se ven- 
deria : 

Agradeceu-lhe el-rei e quiz que a trinta se ven- 
desse, e fez-lhe logo por isso mercê de dois escra- 
vos. 

E mandou logo ao mestre de Santiago em Cas- 
tella dizer que lhe aprazia dar licença para pode- 
rem vir a Évora vender o seu pão, como lhe re- 
queriam havia dias, e el-rei não queria por lhe não 
levarem o dinheiro do reino; e tanto que teve re- 
cado que estava muito pão para vir, mandou logo 
apregoar pela cidade que qualquer homem delia 
que vendesse trigo emquanto elle ahi estivesse, 
que perdesse por isso sua íazenda; e mandou pôr 
sobre isso tanta guarda que se não vendeu alquei- 
re. Acudiu logo de Castella tanto que valia a vinte 
réis o alqueire. 

Por onde todos os que tinham pão o perderam 
quasi todo. 

E el-rei sem castigo os castigou bem e deu gran- 
de perda aos cobiçosos, e muito proveito á sua 
corte e a todo o povo, de que sempre tinha muito 
grande cuidado. E quando saiu de Évora para as 
Alcáçovas mandou dizer aos que o não quizessem 
servir, que agora que se elle ia da cidade poderiam 
vender seu pão, em que os ainda tornou a enver- 
gonhar — -. 

Na Jvliscellania allude também o nosso impagá- 
vel Garcia de Resende ás extraordinárias oscilla- 
ções do preço do trigo no seu tempo. 

vimos em Évora valer 
os moios de pão ygufies 
quinze, vinte mil reaes 
agora os vemos vender 
a setentii mil, e mais, 
anno vi tão abastado 
que a oito reaes comprado. 



_i5_ 

foi o alqueire de pão 
outro vimos em que não 
se achavii por um cruzado. 

Estas questòer económicas são tào interessan- 
tes e o vulto do grande vereador Cicioso c de tal 
forma honrado, firme e levantado no seu afan de 
defensor do povo, que me parece bem reunir aqui 
o que ha de mais certo sobre este caso do trigo; 
vejamos a noticia que nos dá o padre Manuel 
Fialho (foi óptimo indagador!) na sua preciosa 
obra Évora iLlustrada, que ainda infelizmente se 
conserva inédita. 

— Todas as palavras e acções del-rei D. João 
2° foram lição e doutrina. Agora veremos uma 
nova lição, um novo castigo contra os avarentos, 
o mais próprio que se lhe pôde dar, e de que elles 
mais fogem, e mais se temem. 

Estando ainda a corte em l^lvora houve uma ca- 
restia de pão, na qual ainda que não faltava trigo, 
os que o tinham esperavam maior preço. 

Quasi que os mandou rogar o rei por terceiras 
pessoas que quizessem vendel-o, e lhe permittiria 
já o preço de 30 réis, entende-se de cobre (note- 
se que este caso é do fim do século XV) por cada 
al(]ueire, dizendo que assaz caro era, pois que nun- 
ca a tal preço tinha chegado; e ficariam com mui- 
to ganho, e o povo remediado, e que nisto lhe fa- 
riam o gosto; e elles fechados, e ssm quererem dar 
esse gosto ao rei nem acudir ao povo. 

De novo lhe mandou intimar, nem já rogando 
mas ameaçando, que se o não vendessem logo, 
pelo que lhe permitti?, lhe promettia que o não 
haviam de vender por maior preço, nem por esse 
permittido, emquanto elle estivesse na cidade e 
vivesse. Ainda ficaram elles tezos, testos e fecha- 
dos, esperando que a necessidade levantasse o pre- 
ço, e suppondo que as ameaças gerariam no ar. 



i6 



Só lhe fez o gosto João Mendes Cicioso, honra- 
do cidadão de Évora, (o que levantou a casa do 
Senado, sendo vereador), a quem veremos ainda 
mais glorioso no tempo del-rei D. Manuel. 

Lá porque resistindo ao rei, aqui porque fazen- 
do-lhe o gosto, e sempre pelo bem do povo. 

Mandou este á praça uns 40 moios, com que se 
achava, mandando dizer ao rei, que S. Alteza lhe 
puzesse o preço, ainda que fosse muito mais ba- 
rato, mas que fosse o terço menos; e o queria as- 
sim vender mais por acodir ao povo que por al- 
guma outra causa. 

Estimou o rei o lanço, e mandou se vendesse a 
30 réis. Assim se fez, e vendeu-se o trigo ás reba- 
tinhas (encheu o Cicioso a bolsa, e livrou o seu 
trigo de gorgulho, diz o P.^ M.'^' Fialho, em obser- 
vação); e o rei lhe fez de mais mercê de dois es- 
cravos de Guiné. 

No entretanto mandou el-rei recado ao mestre 
de SantTago de Castella, que lhe dava licença pa- 
ra mandar vender a Évora o seu trigo, e o de seus 
amigos, como lhe pedira e instara; a que o rei até 
então não quisera permittir, por lhe não levarem 
o dinheiro para fora do reino (tão miúdo ou del- 
gado se fiava então nesta matéria). 

Agora o houve por bem para ensino e castigo 
dos avarentos. 

Logo que soube que estava muito pão para vir 
de Castella, ou vinha já chegando, e pelo cami- 
nho, mandou apregoar que suppostos os seus ro- 
gos e permissão de preço, e a negação dos que 
não quizeram acudir ao povo, tinha dado a so- 
bredita licença, e por isto mandava que nenhuma 
pessoa de qualquer qualidade e estado, sob pena 
do perdimento de sua fazenda para o fisco real, 
vendesse pão na cidade e seu termo até sua nova 
ordem que mandaria apregoar, quando se acabas- 



se de gastar o que tinha dado licença de vir de 
Castella. 

Sobre isto para segurar a observância do decre- 
to, para castigar aos delinquentes, poz taes vigias 
publicas e occultas que nenhum d'elles pôde ven- 
der alqueire de pão temendo serem apanhados, e 
tendo por infallivel a pena imposta, porque conhe- 
ciam a resolução real. 

Assim acudiu a Évora tanto pão que venden- 
do-o os primeiros a 30 réis, começaram os segun- 
dos a abater o preço, e foi abaratando até chegar 
a 14 réis e já não havia quem o quizesse; ás mos- 
cas, como dizem, estava já! — (Aqui uma nota 
mui curiosa do P.*^ Fialho: «Foi isto no anno de 
1495, fazia quando isto escrevia 210 annos (em 
1705, por consequência) e tinha o preço do trigo 
subido a mais de 400 réis — . E segue outra no- 
ta, n'uma tira de papel collado — e agora que re- 
vejo estas noticias, no anno de 1709 é o preço de 
um alqueire de trigo 800 réis — e mais ainda ou- 
tra vez em 171 1 se vendeu algum a 1:700 réis 
(!!) ou ainda mais, tudo faz ou desfaz o bom ou 
máo governo. Não ha já um rei D. João 2.°, nem 
um vereador João Mendes Cicioso: ha hum que 
degenerado de seus maiores disse que lhe cheira- 
va o seu trigo a meia moeda de ouro, que é 2:400 
réis. Mas graças a Deus que novissimamente, no 
anno de 1718, está aqui (em Évora) o trigo esco- 
lhido pelo preço de 140 réis, e a cevada e o cen- 
teio a 40 réis: é porque delle existe muito. . .mas 
já vae sobindo). 

O porque destes excessos Deus o sabe, e em 
parte o podiam remediar os homens, mas Deus 
lhes acuda ! — (A facilidade de communicações, e 
o maior numero de regiões productoras tem já re- 
mediado muito; hoje não são possíveis taes oscil- 
lações de preços; a regularisação da venda tam- 



i8 



bem se pode conseguir, querendo; não querendo, 
ou nào sabendo ainda se chega ao tumulto como 
ha pouco succedeu na questão do milho, nas pro- 
víncias do norte do paiz. Em Guimarães em 1894 
deu-se o caso de Évora de 1495 ; ^^^ ^^^ ^ milho, 
aqui com o trigo. Antigamente estes casos repe- 
tiam-se muito. Hoje é fácil prevenil-os; cu, appa- 
recendo súbitos, remedial-os a tempo. Já nào suc- 
cede o mesmo com a questão da exportação do 
ouro, o outro problema de João 2.° Está ainda de 
pé, mas ha-de ser o Alemtejo que o ha-de resol- 
ver). 

Agora segue o P.'^ Fialho: — Perderam os ava- 
rentos não só as vans esperanças do maior preço 
mas o mesmo pão, que tinhani tão fechado: deu- 
Ihe o bicho, que em algumas terras chamam san- 
to!; bicho santo foi d'esta vez o rei; e por lhe es- 
premer mais, como dizem, o agraço no olho, quan- 
do depois em julho d'um anno saiu de Évora man- 
dou apregoar que levantava o outro seu pregão, 
e que cada um vendesse o seu pão, como quizesse 
e pudesse. Assim os correu e carregou ainda mais; 
assim os ensinou e castigou. 

N'esta occasião fez o senado eborense uma con- 
sulta ou supplica ao rei para que favorecesse mais 
aos lavradores com alguns privilégios, porque a 
falta não só procedera da esterilidade do anno, 
mas também da falta de lavradores. 

Sem duvida o faria el-rei, porém a sua morte 
atalhou e^ses bem premeditados intentos, como a 
muitos outros — . 

Veremos as questões económicas alemtejanas 
tratadas em diversas épocas, por summidades por- 
tuguezas. Será uma collecção mui curiosa e ins- 
tructiva. 



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G;al>i-iel r*ei-eii"a 

ESTUDOS EBORENSES 

3j fascículos a ^/o cada 

i.o O mosteiro de Nossn Senhora do Espinheiro. — 2** Évora ro- 
mana. O templo. As inscrirçóes. — 3.o a Cas:i l*ia. — 4.0 L.oios, 
azulejos e obras d'arte. -3.° Bibliotheca Publica. Noticias das 
collecçóes.— 6.° Conventos do P,íraiso, Santa Clara e S. Bento 
— 7.0 Bellas artes. Raczyn kl. Pintores eborenses — 8.0 e 9.0 
Vésperas da Restaurriçáo. — 10. " Brasão d'Evora. — ii.oAegreja 
de Santo Antão, l.ivrtjs parochiaes. Collegiada. — 12." O aichi- 
vo municipal — 13." A restauracã) em Évora. — 14.0 i5 " e i .° 
O ar^hivo 4a Santa di^u da Misericórdia dEvora. — 17." Evor 
ra e o Uitrftmar. Balthazar Jorge ft Mdrco António Pessanha. 
— 18.". 19.0, 20.0 e 21.° Assédit)b d'Evora em i6ó3.— 22." Os Fes- 
tejos de Évora cm 1729. — 28 » Évora nos Lusíadas. — 24" Pro- 
cissões eborenses. — 23 o Exposições de arte ornamental. — 
26 o Antiguidades romanas em Évora e ^eus rtrred.ires. — 27.0 
Roteiro. d'um eborense. — 28.° Universidade de Évora. — 29.0 
As caçadas, i.' pa'te. — 3o." Évora e o ultramar, 2. a parte. — 
3i.° Ibn Abdun.— 32.0 Os mouros:— 33." As Cíiçadas, 2." parte, 
34.0 Os estudantes. —33.** Versos Eboren-es do século XVIII, 
— 36.° A volta de Cenáculo — 37.0 As questões do pão. 

Documentos Históricos da Cidade de Évora 

I .a Parte — 1 vol : 1 S80 

3a » — » » 2820 

3 a » _ » » . . • S60 

MADRUGADAS, contos, i vol S^^o 

JOSÉ CAEL08 BE GÚ13'¥EIJÊL 

1)iique^a de "Bragança, poema em 8 cantos S3o 

Ilusões e devaneios, poesias, i." parte .S3o 

Miragens da primavera, poesia , 2.a parte SJo 

Afonso d' Albuquerque, poema igoo 

António I'^l•^^lI<•i^^cío Ttíii-nt». 

Homenagem da cidade de Évora a Alexandre Herculano^ 

com inéditos. . S3o 

Évora Antiga, i vol. ilustrado. . .S70 

DR. PEDRO DE CASTRO 
Congregações Religiosas Sio 

coneõo Dii. BERnnRDo cíiousnb 

Discurso recitado na festa da Virgem do Carmo S40 

Orações fúnebres S40 

Sermão recitado n:i festa da Virgem das Neves em Viana 

do Castelo S40 

Sinopse da gramática francesa — Morfologia Si 2 




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