GABRIEL PEREIRA
f-ílSTOP^IA— yVRTE -yVp^CHEOLOGTA
OS ASSÍOlOS D'[VORA [M 1663
2.» PARTE
MARCHA DO KXKRCITO PORTIGUKZ PARA KVORA.
AOAMPAMKNTO NO RKGO DA VARZKA. COMBATE \>E 3 DE JINHO
NAS MARGENS DO DEGEBE.
TUMULTO EM ÉVORA. RETIRADA OE D. JOÃO d'aUSTRIA. AMEIXIAL
SEGINDO MOVIMENTO SOBRE ÉVORA. UMA CARTA DE SARTIRANA.
OS fORTUGUEZES TOMAM O FORTE DE SANTO ANTÓNIO.
RENDE-SE A GUARNIÇÃO HESPANHOl.A.
(^^
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N.* q3
1889
GABRIEL PEREIRA
no n
^
S EBOPS
j^LlSTOP^IA — y^F^E — y^P^CHEOLOGIA
OS ASSÉDIOS O'[V01il EM 1663
2.' PARTE
MARCHA. DO EXERCITO PORTUGUEZ P.VHA iEVOKA.
AOAMI-ATviESTO NO «EGO DA VARZF.A. COMBATE IW. 5 1>K Jf.NHO
NAS MARGKNS DO DEGEBE.
-fUMUi.TO EM EVOUA. RETIRADA DE TX JOÃO d"aUSTRIA. AMLlXIAi..
sTrc!":s-no movimento sobkk evoka. lma carta de sartjrana.
os 1»ORT-íGUEZES tomam o KOKTE de santo ANTÓNIO.
RKNDK-SJ'; A GUARMi.ÃO HiíSPANHOÍ.A,
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
Dl-, JOA^riM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N.* ()':
1889
ESTIJI)()8 EBORENSES
Os assédios d'Evora m IS63
2.» PAKTK
Os ^arredores de Évora são accidentados sem
terem grandes elevações de terreno, nem profundos
valles; são largas ondulações com differenças de
nivel de vinte ou trinta metros em extensões de
dois ou mais kilometros. Quem olha os campos de
uma elevação julga ver enormes planicies, e toda-
via no regaço d'essas brandas collinas pode mar-
char escondido um grande exercito. Se ha largos
espaços despidos de arvoredos, ha também gran-
des manchas de montados ou mattas de azinheiras
ou sobreiras. Em geral a camada de terra é estrei-
ta, pouco espessa, sobre a rocha, e como os decli-
ves são mui brandos, as aguas das chuvas empo-
çam, cnxarcam facilmente o terreno. Pontos ha onde
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bastam poucos dias de chuva para fazer nateiro
impossível de cavar ou lavrar, e poucos dias de
sol para a terra endurecer tanto que a enchada não
entra, c os torrões parecem blocos de granito.
Não é a serra d'Ossa-, nem a- de MontemurO'
que estabelecem a divisão das aguas n'esta região
do Alemtejo; é na chapada da Oliveirinha que se
reúnem os limites das três grandes bacias hydro-
graphlcas do Tejo, do Sado, e do Guadiar>a; d'ahi
partem as aguas do Divor que vai ao Tejo, as do
Xarrama que se dirige ao Sado; e do Degebe que
entra no Guadiana.
O Xarrama passa a oriente da cidade em pe-
quena corrente, a dois kilometros, não constituindo
obstáculo serio; o Degebe corre a seis kilometros^
também a oriente da cidade, e embora insignifi-
cante, pela natureza e accidentado dos terrenos
que atravessa, engrossado pela chuva, alaga as
baixas ou enche as estreitas gargantas de modo
que não dá váo. Em sitios pode passar a infante-
ria mas a cavallaria ficaria atascada, noutros pas-
sam os cavallos mas a artilheria ficaria presa ; e
logo ao sul da estrada que da cidade conduz ás vil-
las do Redondo e Alandroal o Degebe corre entre
escarpas altas bastante para impedir a passagem,
formando um fosso de importância militar.
No dia I de junho deixou o conde de Villa Flor
o acampamento do Alandroal, tendo previamente
augmentado as suas forças com as guarnições das
praças que sem perigo as podiam dispensar; no
dia 3, sem encontrar embaraço algum, passou o
Degebe, e veio marchando até ao Rego da Vár-
zea. O conde de Schomberg empenhou todos os
esforços para que esta marcha fosse perfeita, e
desse ao hespanhoes que naturalmente tinham pi-
5
quetes e exploradores, subido conceito do exercito
portLiguez.
Corpos de infanteria e cavailaria marchavam
conservando admiravelmente as distancias: 8 ca-
nhões seguiam na linha da vanguarda o ultimo
batalhão de cavailaria (já se notou que as designa-
ções militares eram então bem diversas das mo-
dernas); e sete o ultimo troço de infanteria, na
primeira linha.
A reserva cobria as bagagens que iam na recta-
guarda da segunda linha.
Os castelhanos não appareciam ; D. João de
Áustria tinha disposto as suas tropas em sitios co-
bertos ás observações dos exploradores inimigos.
A' tardinha as linhas portuguezas occupavam to-
das as posições do Rego da Várzea, cortando as
estradas do Redondo, Portel, Vianna, chegando os
exploradores á estrada d^Alcacer.
O exercito dispoz-se como para combate imme-
diato, determinando Schomberg que n'esta ordem
passasse a noite.
Houve a este respeito divergências entre elle e
Villaflor, querendo este que se adoptasse a forma
clássica; a cavailaria no meio de corpos de infan-
teria, e os carros de bagagens, guarnecidos de in-
fanteria, cobrindo o exercito. Schomberg despre-
sou esta regra, tendo-a por perigosa estando á vista
c tão visinho do inimigo; e talvez por ver o pe-
queno incommodo que resultava por serem poucas
as horas de trevas no mez de junho.
D. Sancho Manuel insistiu e deu ordens directas
aos sargentos mores de batalha; estes porém não
obedeceram e seguiram o parecer de Schomberg.
passando o exercito a noite em ordem de comba-
te. Este episodio, como aquclle, que já referi, a
propósito do governo da praça d'Evora, mostram
bem o perigo que pode resultar dos privilégios em
occasiões de crise.
Os castelhanos attentos só ao desejo de incor-
porarem as tropas que tinham passado a Alcácer
não iizeram de noite movimento algum; novidade
que poz em maior disvelo o general d'artilheria,
presumindo que para o quarto d'alva reservavam
o combate, e com este sentido rondou toda a noi-
te ; e observando que não só os soldados, mas a
maior parte dos officiaes se deixavam vencer do
somno, fez montar varias partidas com -ordem de
tocar a espaços, ate amanhecer, alarma por todos
os lados do exercito, para que não houvesse ins-
tante em que a resolução dos castelhanos podesse
triumphar do nosso descuido.
No entanto D. João d'Austria enviava avisos ás
tropas que estavam em Alcácer, para que retiras-
sem sobre Évora com a maior brevidade.
Alli as forças hespanholas tinham commettido
extraordinárias violências, saqueando tudo.
Recebendo as apertadas ordens do comman-
dante em clufe essas tropas começaram a retirar,
e sabendo no caminho das posições das forças por-
íuguezas e da possibilidade de achar cortada a re-
tirada, largaram toda a preza, e antes de amanhe-
cer estavam no convento de Valverde. Então, como
ainda hoje, os soldados hespanhoes executavam
marchas rapidissimas. Ha, como se vê, pontos ob-
scuros n'estas operações militares. Imprudência de
D. João d'Austria em destacar para tão longe uma
força considerável tendo nas costas um exercito
inimigo. Descuido do portugucz em não cortar essa
força, não lhe oppondo o mínimo obstáculo, e tor-
nando possivel o ílanqueamento que seria fatal,
pois as posições de Villaflor não eram vantajosas.
O chefe hespanhol só pensa em condensar o seu
exercito, não tenta o flanqueamento, e deixa o
campo livre ao inimigo.
D. Sancho Manuel reconhecendo baldado o in-
tento com que marchara por não sor já possivel
pelejar com os castelhanos divididos, tanto que
amanheceo mandou retroceder a marcha do dia
antecedente observando-sc a mesma ordem até
chegar ao Degebe. Na passagem d'este pequeno
ribeiro houve confusão no exercito, e se a cavalla-
ria hespanhola tivesse avançado e Crirregado, as
torças portuguezas sotfreriam grande desastre.
Como já temos referido, embora se estivesse a
entrar no verão, o tempo tinha decorrido chuvoso;
as ribeiras levavam bastante agua. O Degebe c
uma d'estas pequenas correntes alemtejanas nuUas
na grande parte do anno, mas que enche, em pon-
tos se torna caudaloso, com alguns dias de chuvé*
Nas suas curvas mais visinhas da cidade este pe-
queno rio atravessa ora umas baixas de pequeno
declive encharcadiças, ora corre por entre rochas
de schistos mui rijos, em ásperas trincheiras. Hoje,
com o alcance das modernas armas, o Degebe não
forma obstáculo militar considerável; então cons-
tituiu ponto de lucta. Demais é possivel que em
i663 o leito da ribeira fosse mais profundo, me-
nor o areiamento.
As forças portuguezas terminaram o passagem
ás 3 horas da tarde.
Seguiremos agora a narrativa do conde da Eri-
ceira.
Começando o conde de Schomberg a dispor o
quartel na margem do rio, appareceram da outra
parte d'elle os primeiros batalhões da vanguarda
do exercito de Castella, porque D. João d'Austria,
ao mesmo tempo que chegaram as tropas de Al-
cácer, marchou a occupar com todo o exercito as
eminências sobre o Degebe, que poucas horas an-
tes haviamos largado, constando-lhe que os mora-
dores de Évora alegres murmuravam que ellc re-
8
ceava o conflicto que tanto havia mostrado appe-
tccer.
Creio que não é preciso recordar a orographia
da região; as forças de Portugal estavam nas altu-
ras do Outeiro das Vinhas. Galvoeira, Valmelho-
rado, emquanto as de Castella occupavam agora o
Espinheiro, o Montinho e as Ferrenhas.
Na cidade ficou pequena guarnição; nas alturas
mais próximas das posições portuguezas estabele-
ceram as de Castella rapidamente 1 5 bocas de
fogo; começaram a atirar ao cerrar da noite.
Recorreu-se então a uma traça de guerra muitas
vezes repetida.
Schomberg mudou á noitinha o alojamento do
exercito, deixando os fogos no primeiro, e algumas
tendas levantadas, que por toda a noite serviram
de inutilemprego ás balas hespanholas.
Durante a noite as baterias portuguezas occu-
pavam alturas que descubriam bem as margens
do Degebe; os dois portos mais fáceis, provavel-
mente no Outeiro e no Paço da Vinha (estradas
do Redondo, Azaruja e Estremoz) foram fortifica-
dos; 5oo mosqueteiros e grande parte da cavalía-
ria defendiam o porto do norte; um regimento de
inglezes e 5oo cavallos ás ordens do general iMa-
nuel Freire ficaram no do sul.
Estamos em 5 de junho; rompe a manhã. As
forças hespanholas entraram em grande movimen-
to, as tropas procuram os dois portos do Degebe ;
em breve estava travado sério combate; onde a
lucta porem se tornou mais bravia e sangrenta toi
no porto do sul, na estreita ponte, hoje renovada,
na estrada de S. Miguel de Machede e Redondo,
no moinho próximo, e no sitio do cruzeiro. Aqui
os hespanhoes empenharam os maiores estorços e
nada conseguiram; D.João d'Austria convenceu-se
depois d^algumas horas de acceso combate que
eram inúteis taes esforços, e retirou, não sobre a
cidade, mas descaindo sobre a esquerda. Schom-
berg fez então mover rapidamente a artilheria, a
seguir a marcha do inimigo, manobra n'aquella
época completamente desusada, e que mesmo até
ás gueiras de Bonaparte passou por perigosissima,
e de louca ousadia.
A artilheria portugueza foi collocar-se em ponto
donde se descobriam os campos que forçosamente
seriam atravessados pelas forças castelhanas; estas
cortavam agora pelos olivaes e vinhedos do Espi-
nheiro; os troços de infanteria corriam pelas quin-
tas, em desordem, saltando muros e valias; os ba-
talhões de cavallaria seguiam pelas estradas das
Barcieiras ou Cravelinba, e Salvadas; ao entrarem
no campo aberto rompeu o fogo dos canhões; as
primeiras tropas ainda conservaram alguma ordem
debaixo de fogo, mas os corpos que iam mais atra-
zados soífreram pânico e não obedeceram aos of-
íiciaes. Succedeu ali um episodio de guerra notável ;
alguns soldados e ofíiciaes procuraram o abrigo
das paredcNs de uma casa aruinada; viu-sc isto de
uma das barerias, apontaram para ali todas as pe-
ças e dispararam a um tempo; um paredão tom-
ba ao íurioso impulso e esmaga os que o haviam
buscado para remédio.
Ao começar da tarde D. João d'Austria mandou
afíaslar das peças. As i5 bocas de fogo dispara-
ram em 12 horas, das 3 da manhã ás 3 da tarde,
770 tiros; 64 tiros por hora, ou 5 i tiros por peça,
termo médio, desprezando uma pequena fracção.
Grande numero de mortos e feridos cobria os cam-
pos; os hespanhoes tiveram muitos ofíiciaes supe-
riores fora do combate. O mestre de campo D.
Gonçalo de Córdova, ficou gravemente ferido, e
talleceu pouco depois na cidade.
O nosso exercito guardou em seguida ao com-
IO
bate as suas primeiras posições; os hespanhoes,
ao cahir da tarde, prepararam-se para alojar á
ponte do Dcjebe, vindo a reclaguarda encostar- se
ao Espinheiro.
O conde de Schomberg tratou também de pre-
parar quartel com a máxima segurança. A van-
guarda occupava uma eminência bastante superior
á campanha.
O Degebe defendia-Ihe a esquerda. Na primeira
linha os terços e batalhões estavam dispostos pela
ordem da marcha, abrigados por pequenas trin-
cheiras; a meio das trincheiras construiram raoi-
damente ângulos que as flanqueavam, e ahi coUo-
caram 4 peças. No centro do quartel alojou a corte,
a vedoria, munições e bagagens. Durante a noite
não houve hostilidade alguma.
No acampamento portuguez todos esperavam
combate ao romper da manhã; nada. nem um tiro,
nem um movimento.
O general hespanhol levou o dia a preparar os
carros de bagagens, a formar o seu exercito e a
guarnição da cidade; pensava em retyar-se para
Badajoz, n'isto dera o grande impetc/da entrada.
Encarregou o governo da praça ao conde de Sar-
tirana,otficial italiano, de muito valore experiência.
Ás ordens do conde ficaram 3:ooo infantes divi-
didos em sete terços ou corpos de infanteria, de
hespanhíjes, italianos e allemães; 800 cavalleiros
das mesmas nações; i3 peças, entrando n'este nu-
mero 6 meios canhões. As munições, artifícios de
fogo, e os mnntimentos em abundância para sus-
tentar um largo sitio.
No quartel general portuguez havia grande sur-
preza ; não se sabia explicar aquella inacção do
exercito castelhano, depois de um dia de combate,
conservando-se em batalha na frente do inimigo,
e não fazendo tentativa alguma, nem o minimo
I I
reconhecimento, sobre as e.-,tradas que de Évora
partem para a fronteira.
Pelo fim da tarde o conde de Schomberg não
pode conter a impaciência, o desejo de obter qual-
quer esclarecimento; reúne alguns batalhões, e de
súbito passa o rio e carrega vigorosamente; trava-
se uma escaramuça e em pouco tempo retirani-se
os portugiiezes levando alguns prisioneiros, único
fim da acçcío.
Tudo inútil, os prisioneiros nada sabiam; as du-
vidas continuaram.
A pequena escaramuça deu porem um resultado
não previsto; o povo d'[ivora tinha agora já a ple-
na certesa de que D. João de Áustria preparava a
retirada.
A acção do dia antecedente era conhecida na
cidade; sabia-se que os portuguezes mantinham as
suas posições, e que os hespanhoes tinham soíTrido
severas perdas; ao ouvir agora o estrondear do
canhão, e vendo o sobresalto e a agitação dos in-
vasores, não conteve o povo eborense o natural
impulso do seu patriotismo e rompeu em grave
alvoroto, não considerando que a cidade estava
ainda cheia de tropas castelhanas, esperando tal-
\ ez causar confusão e pânico pelas sombras da
noite. O que é certo é que D. João d'Austria teve
difficuldade em serenar este movimento de um
pequeno numero de populares. Castigou os cabe-
ças, tirou as armas a todos, e convocoaas pessoas
principaes da cidade a uma conferencia. Entre es-
tas achava-se Manuel Freire, sargento mór de au-
xiliares. D. João d'Austria reprehcndeu o excesso
commettido, aconselhou a obediência completa a
el-rei de Castella, depois tomou uns modos aífa-
veis, conversou sobre diversos assumptos, e fallan-
do a respeito dos exércitos elogiou a artilheria por-
tugueza.
12
— Sim senhor, disse xManuel Freire, sem se po-
der conter, dizem que matou muito Ctistelhcino,
F^ez sensação o dito, e os oíliciaes hespanhoes
viram mais uma vez manifesta a firmeza dos âni-
mos portuguczcs na sua aversão ao dominio hes-
panhol.
Logo que cerrou bem a noite (6 de junlio) co-
meçou a marcha do grande numero de carros das
bagagens; os moradores da cidade tiveram então
a certeza de que era definitiva a retirada do exer-
cito hespanhol, deixando a praça guarnecida, e por
consequência toda a probabilidade de outro assedio,
e de novos e mais singulares horrores, porque se-
riam agora portuguezas as balas que entrariam em
Évora.
Ao raiar do soí de 7 de junho dissiparam-sc to-
das as duvidas no acampamento portugucz, onde
a noite se passara cm alarma ; o exercito hespa-
nhol retirava para norte, deixando Évora guarne-
cida e fortificada. Como n'estas largas ondulações
do solo alcmtejano das alturas se descobrem vas-
tos campos, os officiaes portuguezes reconheceram
facilmente as longas filas dos carros de bagagens,
os terços e os batalhões em marcha, e as compa-
nhias destacadas que seí^uiam nos flancos e na
rectaguarda. Resolveu-se logo seguir o exercito
hespanhol, avançando immediatamente uma força
de cavallaria paia picar e ameaçar o inimigo; esta
força horas depois tinha já colhido muitos prisio-
neiros. Villa Pior marchava pela estrada d^Evora
iMonte, e ao cerrar da noite transpunha a ribeira
do Ter.
O que foi essa marcha dos dois exércitos inimi-
gos, seguindo caminhos próximos, em constante
alerta, aíé convergir nos cerros do Ameixial, e es-
talar a fúria da renhidíssima batalha; e o que foi
esse dia 8 de junho, um dos mais solemnes de
i3
Portugal, a victoiia brilhante das nossas armas, a
decisiva derrota do invasor hespanhol, os esforços
heróicos, as desmedidas acções, contam-nos as pa-
ginas da historia ; cm muitos livros se pode ler a
narrativa do formidável combate donde, a custo
salvo, se retirou D. João d' Áustria, seguido de
poucos que apressadamente procuraram a praça
de Arronches, e d'ahi seguiram para Badajoz.
D. Sancho Manuel entrou logo em Estremoz a
recompor os terços de infanteria, as companhias
de cavallos, e o trem de artilheria; levou 5 dias
este trabalho. Era agora bem diversa a questão a
resolver.
Na fronteira hespanhola havia pequenas forças
isoladas; .Arronches estava ainda guarnecida de
castelhanos; c no coração da provincia Évora, a
importantissima cidade, que era preciso recuperar
a todo o custo. Para obstar a nova surpreza Villa
Flor reforçou algumas praças. Atfonso Furtado de
Mendonça ficou governando Estremoz, com os
terços de João Furtado, João da Costa de Brito,
Luiz da Silva, António de Almeida, Lourenço Gar-
cez, e José de Moraes; o conde da Torre foi go-
vernar Campo Maior com o terço de Pedro César
de Menezes. Alexandre de Moura com o seu terço
foi para Portalegre; Manuel Lobato para Villa Vi-
çosa com o terço de D. Pedro de Opessinga ; Antó-
nio Jacques de l''aiva para Monçaraz com 3oo in-
fantes.
Em [4 de junho começou o movimento do exer-
cito sobre Évora.
No dia antecedente partira de Aldeã Gallega o
marquez de Marialva, com forças consideráveis
qee vinham tomar parte nas operações militares;
constavam de 7 terços de infanteria, com 3:5oo
homens. Soo cavallos e 4 peças. Com o marquez
vinham também algumas pessoas da corte para
14^
assistir ao sitio da cidade, os condes de Sarzedas,
Santa Cruz, Vidigueira e Mesquitella, D. Lourenço
de Lencastre, D. Francisco de Mascarenhas, Luiz
de Saldanha e Albuquerque, etc.
Estas tropas eííectuaram a sua reunião com as
de D. Sancho Manuel, depois de fatigantes mai-
chas (estamos em junho, e nas vastas campinas
alemtejanas), no dia 17, na margem doDejebe. Im-
mediatamente se passou revista ás forças reuni-
das, vcrificando-se constarem de i3:ooo infantes, e
2:5oo cavallos.
No dia 18 de junho de i663, ao romper da ma-
nhã, o conde de Schomberg, os generaes de caval-
laria e artilheria, avançaram para reconhecer a
praça.
Já se disse dos grandes trabalhos de fortificação
levados a effeito pelos hespanhoes, e da forte guar-
nição que D. João d'Austria aqui deixou; pode-
mos ainda mencionar os oíiiciaes superiores hes-
panhoes que rodeavam o notável militar italiano,
conde de Sartirana, encarregado do governo da
praça: eram D. Ignacio d'Altariva, D. Pedro da
Fonseca, D. João Barbosa, e D. João de la Car-
rera ; dos dois regimentos allemães eram coronéis
o barão de Carandolet, e Franck; os dois terços
italianos commandados pelos mestres de campo
D. Fabrício Rossi, e conde de Valjosi ; um enge-
nheiro de grande reputação, cujo nome nos appa-
rece vagamente escripto, mr. de Henot ou mr. de
Anot olhava pelas fortificações.
A guarnição da cidade assim que deu noticia
dos ofificiaes portuguezes poz-se em armas, e o re-
conhecimento fez -se em grande perigo pelo fogo
das peças e dos mosquetes.
Feito o reconhecimento, Schom.bcrg dividiu o
exercito em duas partes, começando logo os traba-
lhos dos respectivos quartéis; um ao nascente da
!5
cidade, cm frente da porta de Machede, um quarto
de legoa distante da muralha; outro cm Valbom,
para lá da Cartuxa; n'este se alojou o conde de
Vi lia Flor, o marquez de Marialva, e muitos offi-
ciaes superiores. Immediatamente se deu principio
aos trabalhos dos aproxes. Uma trincheira vinha
de Valbom, deixava á direita o forte de Santo An-
tónio e dirigia-se ao baluarte de S. Bartholomeu;
outro aproxe sahia da Cartuxa e vinha procurar a
muralha a poente da porta da Lagoa. Do outro
quartel partia um terceiro aproxe caminhando ao
meio da muralha entre as portas de Machede c da
Mesquita.
Em ig continuaram os trabalhos dos quartéis
e dos aproxes, e cstabeleceram-se baterias; houve
varias escaramuças sem importância. Uma das ba-
terias tinha cinco peças e jogava sobre a muralha
entre as portas d'Aviz e Lagoa ; outra de 4 peças
atirava contra as portas de Machede e Aviz.
O fogo d'estas baterias começou na manhã
de 20.
As baterias atiravam sobre as muralhas, evitan-
do quanto possível todo o damno.á cidade. Perce-
be-se facilmente a melindrosa situação do exercito
portuguez sitiando Évora, guarnecida de hespa-
nhoes; demais entre os sitiadores havia muitos na-
luraes da cidade; estavam fora das muralhas o
terço e os voluntários d^Evora, que no Ameixial
se tinham batido valorosamente; das suas baterias,
das suas trincheiras e acampamentos viam as suas
casas, ou marcavam-lhe os sitios. Nos habitantes
dominava um complexo estado mental, o terror
que o troar da artilheria sempre causa, a impa-
ciência cruel, a excitação febril que nasce da crise
jirolongada, o ódio natural ao invasor, ao conquis-
tador insolente; a terrível convicção da impotên-
cia para quebrar as algemas que hora a hora lhes
i6
entravam nas carnes; ao mesmo tempo a espe-
rança, o cnthusiasmo, porque apczar da vigilância
dos hespanhoes tinham entrado ne cidade noticias,
boatos da grande victoria, que eram confirmados
pelo facto de ali estarem tropas tão numerosas que
tinham em respeito a guarnição hespanhola.
Esta ignorava o resultado da batalha, pelo nie-
nos não o julgava tão decisivo, e esperava a cada
momento, nos primeiros dias, ver apparecer de sú-
bito D. João d''Austria e varicr as campinas ebo-
renses.
Do povo não tinham receio; fizeram sahir todos
os homens validos capazes de pegar em armas,
excepto os ferreiros, abegões e alvaneos, que orga-
nisaram em corpos sujeitos a constante vigilância;
recolheram todas as armas que encontraram; dei-
xaram sahir da cidade muitas famílias, comtanto
que não levassem viveres de qualidade alguma.
Durante o bombardeamento o exercito de Villa
Flor estava parte em armas prompto a receber
qualquer sortida, e outra parte trabalhava nos
aproxes; em sitios este trabalho exccutou-se com
muito risco, principalmente entre o forte de Santo
António e o baluarte de S. Bartholomeu.
Na manhã de 21 havia bastante terreno occu-
pado por esses trabalhos. Na cabeça das trinchei-
ras o general D. Luiz de Menezes formou um re-
ducto, e na plataforma assentou ncna bateria que
por ficar muito próxima da muralha fazia maior
damno.
D. Sancho Manuel não consentiu em se trabu-
car ou bombear a praça, para impedir a sua rui-
na ; este dia viu porem maiores acontecimentos.
Os hespanhoes fizeram uma sortida com grande
Ímpeto sobre as trincheiras; os terços de guarda
resistiram briosamente, e em breve acudiram re-
forços numerosos dos quartéis; repellido o inimigo
^7
para fóra áús aproxes foi logo carregado pela ca-
vallarÍM ás ordens dos generaes D. Luiz da Costa
e D. Manuel de Athayde ; os dois valentes oíficiaes
receberam contusões de pequena gravidade; os
soldados portuguezes acompanharam no tumultuar
do combate as tropas castelhanas até próximo das
muralhas. Ao mesmo tempo cabiam em poder dos
nossos dois correios, um do duque de San Gcr-
man para o conde de Sartirana, com uma extensa
carta em que o animava á resistência, occultando-
ihe o immenso desastre do Ameixial ; outro do go-
vernador da praça para o duque. Esta tem para
nós algum interesse; vamos trai\screvel-a.
» Doy cucnta a v. ex.* de como el enemigo se
rezolvio a sitiar esta plaza, sobre la qual entiendo
será su ruina.
Todos los soldados estan con [.grande animo á
la defensa.
Por todo Júlio tenderemos bastimientos, tiempo
que me parece bastante para que el enemigo se
deshaga. y S. Alteza puede bolver a soccorrer-me.
Toda la gente que podia tomar ramas, y los frailes
mozos, y clérigos reboltozos eche de la ciudad,
tanto para me a provechar de sus bastimientos,
quanto para que no gasten los que tenemos. Don
Gonçalo de Córdova murió de la herida, perdida
considerable en tan grande soldado. Las justicias
dei pueblo, y algunos de ellos andan finíssimos.
Por aqui corre voz, aunque en secreto, que tuvo
una rota nuestro exercito, no creo; seria alguna
retriéga en Ia retroguardia, y v. ex.** me avize de to-
do, y ordene lo que hede hazer: porque estoy prom-
ptissimo a dar la vida por conservar el honor, y
la reputacion de las armas de S. M. A S. Alteza
puede v. ex." segurar de mi parte todo esto.
Évora, 17 de junio de i663.
El conde efe Sartirana.»
i8
Pelas cartas viram perfeitamente os chefes por-
íuguezes que Sartiraiia estava resolvido a tenaz
resistência; ora a dilação do assédio podia causar
difíiculdades gravíssimas; não era impossivel que
os hespanhoes conseguissem reunir em algumas
semanas na fronteira forças consideráveis que obri-
gassem o exercito a largar o sitio da praça, entran-
do em novas operações.
Os cliefes portuguezes resolveram empregar ain-
da maiores esforços; arrostar os mais custosos sa-
crifícios.
Já noite fechada receberam alguns corpos ordem
para se apromptar a combate; guardou-se o maior
segredo sobre a empreza. Algumas companhias
vieram no silencio da noite postar-se em frente das
muralhas; ao mesmo tempo soldados escolhidos
apromptavam se para assalto; tratava-se de tomar
por surpreza o forte de S. António. Eram 200 ho-
mens do regimento inglez de Diogo Aspley, com
os ofíiciaes Nathaniel Hill, João Smith e Carlos
Langley ; e outros tantos portuguezes ás ordens de
Luiz d'Azambuja, com os capitães Luiz Pereira de
Lacerda, Domingos Carrião, Manuel Beirão, e João
Freire Coelho.
A' uma da noite estoiraram dois tiros de peça,
era o signal; portuguezes e inglezes romperam em
corrida, e assaltaram o forte de Santo António com
Ímpeto extraordinário; os defensores nem tiveram
tempo de entrarem em ordem, o combate foi terrí-
vel, braço a braço, n'um tumultuar medonho; pou-
cos defensores fugiram, morreram bastantes, a
maioria ficou prisioneira. Os hespanhoes tinham
ahi retido algumas pessoas da cidade ; entre ellas
Manuel Corte Real, presidente da inquisição.
Ao ruido do assalto sahiu a cavallaria da praça;
não conseguiu prestar soccorro algum porque logo
encontrou as tropas de D. Manuel de Athayde.
'9
Logo pela manhã o capilão Miguel Rosado, com
5o mosqueteiros do terço de Sebastião Correia,
atacou o derrocado casarão do Carmo, e occupou-
o depois de alguma resistência dos defensores, com
bastante risco por causa do tiroteio que os caste-
lhanos faziam na muralha. Ao mesmo tempo, pa-
ra chamar a altenção para outro ponto, o sargen-
to mór, Manuvl da Siha da Horta, com i5o mos-
queteiros, vinha an>eaçar o forte de S. Bartholo-
rneu, travando- se fogo aciivissimo.
O aproxe chegava já a S. Bartholomeu, muito
próximo da muralha, na manhã de 22; as trinchei-
ras que partiam d<> quartel fronteiro á porta de
Machede avançavam também até breve distancia
da muralha, com o que começava a praça a estar
em perigo e constante sobresalto. No mesmo dia
cahia prisioneiro outro correio do duqucde S. Ger-
man; trazia cartas pedindo a Sartirana que susten-
tasse a todo o custo a praça, promettendo-lhe
prompto soccorro. A defeza continuava enérgica ;
todavia entre os defensores circulavam cada vez
mais intensas as noticias da batalha do Ameixial,
da completa derrota sotlVida por D. João de Áus-
tria.
Na tarde d'esí j dia. 22, estando nas cabeças das
■ >
trincheiras os terços de D. Diogo de Faro, Fernan-
do Mascarenhas, e Phacbo Moniz de Sampaio, fez
o inimig%segunda sortida com infanteria e caval-
laria; o ínTmigo foi logo repellido por D. Manuel
dê Aíhayde, e levado até ás portas da cidade.
Luiz Serrão Pimentel delineou logo outro apro-
xe a partir do forte de S. António, direito á porta
da Lagoa; D. Luiz de Menezes estabeleceu uma
bateria de três peças, n'uma elevação de terreno,
no sitio do Carmo, batend» mui de perto a mes-
ma porta.
Os defensores estavam já fatigados, com traba-
20
lho, e sobresaltos constantes, por augmentar hora
a hora o peri^^o, e por terem tantos pontos que de-
fender. Pouco depois de ter recolhido a tropa da
sortida, vieram os hespanhoes á muralha e tocaram
á chamada para capitulações. Sahiu em seguida o
coronel Francisco Franck, que ioi conduzido com
as formalidades usadas n'estes casos ao quartel
general onde o esperavam o conde de Villa Flor,
e o marquez de Marialva.
As propostas de Franck não foram bem acolhi-
das; nenhum dos artigos das capitulações teve a
approvação dos chefes poríuguezes.
Terminada a conferencia recomeçaram loí^o as
hostilidades nas posições portuguezas; e todo o dia
23, e a noite seguinte houve fogo incessante.
A' portada Lagoa travou-se durante a noite uiua
lucta renhidissima ; o engenheiro António Rodri-
gues, e os mestres de campo Correia de Sá, Ro-
que da Costa e Manuel de Sousa de Casti^o, pre-
pararam mantas para picar as muralhas, abrir mi-
nas, e dar assalto: chegaram a encostar i i nian-
tas á muralha; todas arderam pelos innumeraveis
instrumentos de fogo que atiravam das muralhas;
todavia não impediram que os portuguezes picas-
sem os muros.
Simultaneamente travava-se rijo combate nas
trincheiras da porta de Machede, havendo ahi sor-
tida e contra-sortida ; ficaram muitos feridos, bas-
tantes mortos, e entre uns e outros alguns oííiciaes
superiores; ficou ahi gravemente ferido o general
d'arl.ilheria Fontenai, e mortos os engenheiros Fran-
cisco Adão da Ponte e Bartholomeu Zanit, ambos
de grande reputação.
Agora começaram a manifestar-se symptomas
de desanimo entre os defensores da praça ; toda-
via a vigilância não enfraquecia ; nas posições por-
tuguezas conservava-se tudo em armas : era gran-
21
de o cansaço, a fadiga pelos extraordinários tra-
balhos, pelos constantes sobresaltos, pelas noites
perdidas nas convulsões dos combates, mas cada
vez maior o enthusiasmo, e a confiança.
>
Finalmente na manhã de 24 ouviu-se pela se-
gunda vez o toque de chamada nas muralhas, para
a entrega da praça ; suspenderam-se logo as hos-
tilidades. Fez-se uma breve conferencia prepara-
tória e logo se tratou da troca de reféns; por parte
de Portugal foram o sargento mor de batalha, Dio-
go Gomes de Figueiredo; o mestre de campo An-
tónio Soares da Costa, e Mr. de Charent; por parte
de Hespanha entraram no quartel portuguez o
mestre de campo D. Pedro de Aífonseca, o coro-
nel Franck, e D. Pedro da Rocha.
Durou a a)nferençia até á meia noite, ficando
justas as capitulações: que sairia o governador com
toda a guarnição, oíliciaes e soldados de todas as
nações, salvas as vidas e liberdade, e os oíBciaes
da provedoria e artilheria : que a marcha seria pela
brecha com honras militares devidas aos rendidos
de boa íé (mo;iiíicada depois i)or causa da cavalla-
ria, que saiu montada, não passar facilmente pelas
brechas abertas; a guarnição saiu toda pela porta
do Rocio); que se lhes marcaria logar em que as-
sistissem até i5 de outubro; que havendo alguns
soldados que desejassem ficar servindo no exercito
portuguez lhes seria consentido; que succedcndo
que alguns oííiciaes não quizessem esperar até ao
fim da campanha se poderiam retirar seguros a
Badajoz; concedidas ao governador duas peças- de
artilheria com as munições precisas para se carre-
garem ; os enfermos e feridos commodamente con-
duzidos a Badajoz ; que podiam sair 8 rebuçados,
passando logo a Gastella, sem impedimento; seria
restituído qualquer objecto pertencente aos mora-
dores da cidade; que se entregariam todos os ca-
22
vallos das companhias, não os dos officiacs, e tc>-
das as munições, petrechos e mantimentos que
houvesse na praça ás ordens dos vedores gera es
do exercito e artilheria; que ao dia seguinte ao
amanhecer se entregaria uma porta da cidade para
se lhe metter guarda e a guarnição rendida sahia
em seguida. Assignaram as capitulações D. Snnchí>
Manuel conde de^Villaflor, e D. Francisco Gatiiia-
ra, conde de Sartirana.
A' hora marcada o mestre de campo Lourenço
de Sousa e Menezes com o seu terço que estava
de guarda na trincheira foi guarnecer a porta do
Rocio. Em frente da pf)rta na espaçoso rocio de
S. Braz, formou o exercito em batalha: na cidade
entrou logo D. Luiz de Menezes, general de arti-
Iheria, a tomar posse, coui os seus ofíiciaes, vedo-
res, ofíiciaes de fazenda, e grande numero de fidal-
gos. Foram á sé, e de ahi avisaram o conde de
Sartirana Logo se tomou posse dos armazéns; as
bocas de fogo ficaram montadas nas muralhas e
baluartes. A guarnição hespanhola desfilou em se-
guida, apresentando-se bem depois de tantos dias
de séria fadiga. Os ofíiciaes dos dois exércitos tra-
taram-se com a maior cortezia. O conde de Villa
Flor estava assentado n\ima cadeira, em throno
alto, á porta do Rocio, onde recebeu logo cumpri-
mentos da gente da cidade, e das ordens religiosas.
A irman freira de Santa Clara mandou-lhe uma
capella de cravos e elie na expansão natural de
tal dia collocou-a no chapéu; os officiaes applau-
diram ; pouco depois passava o conde de Sartira-
na ; os dois chefes comprimentaram-se, e D. San-
cho Manuel oífereceu a capella a Sartirana que a
aceitou, pondo-a nos punhos da espada. Nas ba-
gagens e em vários pontos da cidade houve alguns
excessos que promptamente se contiveram. Mas
logo que terminou a retirada dos hespanhoes, e a
23
entrega das armas c cavallos, e ainda mesmo á
poria do Rocio, D. Sancho Manuel fez prender al-
gumas pessoas julgadas de responsabilidade na
entrega da cidade aos hespanhoes, e de extrema
baixeza nas homenagens a D. João de Áustria.
Kstava a cidade livre depois de tanto tempo de
sobresaltos e agonias; livre, cheia de enthusiasmos
patrióticos, e de luctos e ruinas.*
Os dois bombeamentos tinham arruinado bas-
tantes Ccisas, e a explosão das minas aluíra outras.
Dos episódios mais particulares e noticias diver-
sas nacionaes e estrangeiras relativas aos assédios
de Évora formaremos a 3.^ parte d'esta narrativa.
FIM DA 2.^ PAUTE
GABRIEL PEREIRA
^ 3GSTUD0S KBOHKNSieS
ílstilo publicados :
" O mosteiro de Nossa Senhora do Kspinheiro. — 2." Évora ro-
mana, i." p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3."
A (^asa pia. O ediHcio do collegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i35i. A egreja.
A instituição da (3asa pia em i83G. — 4." i-^oios. — 5." Bihliothe-
ca l*uhlica.— fi." Conventos, i.'' parte, l*araiso. Santa Clara c S.
l'.ciito. — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — <)."
Idem. z." parte. — 10." I^rasão d'Evora. — 11." A egreja de San-
to Antão.— 12." O archivo municipal. — 13." A restauração em
Évora. 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casada Miseri-
córdia d'Evora, i." parte. — i5." Idem, 2.=" parte. — 16." Idem,
3.-^ parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora.
1." parte. — 19." Idem. 2." parte.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica
livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
OQCUMENIOS HISTÓRICOS OA CIOADE OTVORA
Estão publicados :
[.' parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. E!xtractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i.° — 2.»
parte, fascículos X a XIV — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
;hes, praça do Geraldo, Évora.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand.
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR
(-ontos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
I'Vagmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor, Scvlax e Hannon, itenerario de Antonino, Pliriio e Mella.
Livro 3." da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
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S EBORENS
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j-llSTOP^IA— ^RTE— yA.F^HEOLOGIA
OS ASSÉDIOS wm m \m
3.^ PARTE
EPISÓDIOS. NOTICIAS DIVERSAS NACIOMAES E ESTRANGEIRAS.
<^
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
\)K JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA I>'aV1Z N." o'{
l8qo
GABRIEL PEREIRA
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PPSES
^ISTOP^IA — yA.RTE — ^P^HEOLOGIA
OS mios 0'EiíOíiii m \m
3.' PARTE
EPISÓDIOS. NOTICIAS DIVERSAS NACIONAES E ESTRANGEIRAS.
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N." 98
1890
ESTUDOS EBORENSES
Os assédios d'Evora em 1663
a.*» PARTE
Na primeira e segunda parte d'este trabalho se-
gui quanto possivel os documentos officiaes, as
relações escriptas pelos que em taes successos ti-
veram postos principaes, especialmente o Portugal
Restaurado do conde da Ericeira, D. Luiz de Me-
nezes.
Existe grande copia de outras noticias concor-
dantes, com ligeiras variantes, nos factos apontados.
E seria um não acabar se quizesse referir os
papeis vários, em prosa e verso, allusivos aos ca-
sos da campanha de i663 no Alemtejo.
Summariando chronologicamente o que ficou
exposto nos dois folhetos publicados temos estes
pontos mais salientes.
Em 14 de maio de i663 a cavaliaria do exer-
cito de D. Joõo d'Austria toma as estradas do
termo da cidade.
Em i5, D. João d'Austria no Espinheiro.
Em 1 6, os hespanhoes occupam o forte de San-
to António.
Em 17, trabalha-se no cerco, combate-se; os
mineiros ameaçam a torre-moiicha.
No dia 22, Évora em poder do exercito hespa-
nhol.
2 3. O exercito portuguez, ás ordens de D. San-
cho Manuel, conde de Villaflor, no termo de Évo-
ra Monte. Conhece ahi a catastrophe da rendição
da cidade.
24. Villaflor occupa a villa do Redondo.
25. No Alandroal; assenta-se o plano de cortar
as communicações com a fronteira ao exercito
hespanhol.
Em I de junho, sabendo-se dos soccorros que
vinham de Lisboa, e conhecida a divisão do exer-
cito hespanhol, que mandara forças importantes
para Alcácer, Yillafior marcha sobre Évora.
3. Os portuguezes passam o Degebe.
5. Acção nas margens do Degebe.
7. Os exércitos marcham para o Ameixial.
8. Batalha decisiva.
14. O exercito portuguez marcha de Estremoz
sobre Évora.
17. O exercito no Degebe.
18. Reconhecimento da praça,
ig. Estabelecem-se as baterias.
20, de manhã; começa o fogo.
Noite de 21 para 22, tomada por surpreza do
forte de Santo António. Sortida dos hespanhoes.
22, tarde; segunda sortida; em seguida a pri-
meira chamada para capitular.
23 e noite, o combate torna-se renhido.
5
Em 24 pela manhã a segunda chamada. As con-
ferencias duram até á meia noite.
Em 2 5 de junho de i6ó3 estava o exercito por-
tuguez na posse da cidade.
Antes de mais pcrmitta-se-me que deixe já emen-
dada uma asserção minha a respeito das disposi-
ções do exercito no dia 4 de junho, antes da acção
no Degebe. Os hespanhoes occupavam as alturas
de Valmelhorado, e não os portuguezes; estes es-
tavam no Outeiro das Vinhas e nas chapadas da
Gramacha. Foi próximo do monte de Valmelho-
rado que D. João d'Austria estabeleceu a primeira
bateria.
Repositório de noticias preciosas c a Évora II-
liistrada do jesuita Manuel Fialho, tão dedicado á
historia da sua pátria. Este formidável indagador
foi contemporâneo dos assédios eborenses e assis-
tiu ao primeiro cerco; era muito novo então, 17
annos. já tinha porem 4 de collegial na Compa-
nhia. Os collcgiaes, depois do primeiro cerco, re-
tiraram para o collegio de Santo Antão de Lisboa,
e só voltaram a Évora passada a crise.
Acho muito curiosas as noticias do jesuita, que
por vezes não duvida metter a sua anedocta, a
sua observação graciosa, na austera narrativa.
Vamos ouvir o bom eborense. Estamos em 14
de maio de i663.
O exercito hespanhol approxima-se ; logo pela
manhã os piquetes chegam ao moinho de vento,
do lado do Espinheiro. A noite de i3 para 14 foi
tempestuosa em extremo; os cavalleiros vinham
muito enxovalhados do temporal.
Na cidade havia naturalmente grande inquieta-
ção; no começo, ao descobrir o desfillar da caval-
laria, ainda alguém fallou em soccorro. Em breve
estavam desfeitas asillusões; o inimigo cercava a
cidade.
Alguns cavallciros chegaram a passar para cá
da cruz de páo que chamam de Santo Aleixo,
distante da cidade pouco mais de tiro de mos-
quete.
Xa cidade grande alvoroço, muitos conselhos,
enorme atrapalhação. Havia quatro pequenas pe-
ças disponiveis, e uma veio para o terreiro do Col-
legio, cm frente da arcada da Casa Pia. Os arti-
lheiros eram mãos, fizeram alguns tiros inúteis.
Conta Manuel Fialho a sua primeira anedocta.
Havia em Kvora um sangrador de rara habili-
dade chamado Pedro Nunes da Matta ; parece que
era deveras notável em temperar e afiar navalhas
e lancctas porque até de Lisboa lh'as enviavam
para apontar. Mas o sangrador tinha habilidade
para mais; apontada lancetas e quiz também apon-
tar a peça. . . e logo ao primeiro tiro metteu a
bala no meio de um batalhão de cavallaria.
Pela tarde. n'esse claro e vasto escampado do
Xarrama, appareceu o desdobramento do grosso
do exercito.
Um ofHcial superior hespanhol dizia depois, re-
ferindo-se a este momento, que não podéra dei-
xar de exclamar «que (os portuguezes) no tenian
razon de no Uamar rey ai duque de Bragança, por-
que quien tenia una tan linda ciudad con mucha
razon se debia Uamar rey».
Com effeito^ a vista da cidade ao descer do
Montinho, ou de qualquer das alturas do oriente,
é de extraordinária formosura, especialmente em
maio, quando o verde avelludado das cearas for-
ma um tapete de singular mimo e frescura.
Os quartéis hespanhoes occupavam o moinho
de vento, a Cartuxa, a quinta do Alcaide e a cerca
dos Remédios N'este ultimo ponto travou-se logo
combate de atiradores, porque alguns espingardei-
ros hábeis da cidade, do alto do cubcllo redondo
que íica entre a porta de Alconchcl e a rua do
Raymundo. antigamente chamada o Buraco, fize-
ram fogo mortífero; para os fazer calar os hespa-
nhoes tiveram de jogar a arlilheria.
Appareceram outros atiradores na torre de Al-
conchel; alguns hespanhoes vieram ao campaná-
rio dos Remédios a responder-lhe ; não sustenta-
ram a posição, o que é fácil de suppôr vista a to-
pographia local. O ultimo atirador do campanário
fazia trcgeilos humorísticos quando uma bala o
inutilisou.
Sabemos já da destruição do antigo convento
do Carmo, á porta da Lagoa. As pedras foram em-
pregadas depois no baluarte de S. Bartholomeu.
principalmente; ejá no tempo áo padre Fialho se
lavrava o terreno onde fora o Carmo, e só restava
um pedrastal da claustra.
As freiras do Calvário acolheram-se no convento
de Santa Clara. Xo mirante d'aquelle mosteiro
installou-se um piquete de espinganjeiros, que fi-
zeram terrível damno nos sitiantes até que a arti-
Iheria do baluarte de Santo António o desmantel-
lou completamente.
Um soldado temerário descobriu que entre duas
paredes faziam deposito de munições; consegue
lançar-lhe fogo; ha explosão, de que elle mesmo
foi vlctlma. — Nem lhe sabemos o nome, dos pe-
quenos ainda que de grande animo raramente se
lhe sabe — observa o padre Fialho.
O conde de Vimioso, D. Miguel de Portugal.
era activíssimo na rondagem ; não se sabia quan-
do descancava.
Um moço, um rapazotc, apezar do tiroteio,
atreveu-se a ir segar herva nos farrejaes; ia multo
cautelloso por uma valia e dá com um castelhano
que se desabotoara, e collocára as armas ao lado,
para necessidade urgente; o rapaz investe com
8
elle, foice ergui Ja, apanha as armas, e trouxe o
soldado prisioneiro.
Uma louca, Izabel Rodrigues, nndava pelas mu-
ralhas de espada desembainhada, gritando, ani-
mando os nossos, insultando os sitiantes.
Havia suspeitas na cidade contra alguns; foram
justificadas contra o próprio tio de Villaflor. Que-
ria ser bispo o infeliz, e julgou que servindo o ini-
migo alcançaria mais facilmente a mitra. Este ho-
mem conseguiu roubar os armazéns de munições,
e assim contribuiu para a entrega da praça.
Faltando o chumbo fundiram canudos de ór-
gãos, e a louça de estanho dos conventos de fra-
des. Os hespanhoes conheceram isto, e D. João
d'Austria reclamou por ser contra o direito das
gentes, e chegou a olferecer chumbo por estanho,
pezo por pezo; mas os acontecimentos precipita-
ram-se e não chegou a effectuar-se a troca.
O segundo governador Opessinga era da Sicí-
lia; a este se attribuem certos papeis terroristas
que se espalharam na cidade, affirmando que se
a praça fosse entrada á escala todos, soldados e
moradores, seriam mortos.
Quando se tratou da capitulação quiz o dito
Opessinga que os membros do senado da cidade
e os prelados das ordens assignassem; todos recu-
saram.
Nos tiroteios dos Remédios tiveram os portu-
guezes 2 5 mortos e 35 feridos. No Carmo 84 mor-
tos e 60 feridos.
No hospital da Cartuxa havia em curativo uns
5oo castelhanos.
N'estas estatísticas de mortos e feridos ha sem-
pre incertezas. Um ofíicial superior hespanhol di-
zia dias depois a um padre da Companhia de Je-
sus que só na cidade devia ter havido cinco a seis
mil mortos.
— Nem metade eram os defensores, observou
o padre.
— Por amor de su paternidad seriaii la mitad
menos, disse logo o official historiador.
As searas estavam lindas antes da chegada do
exercito; em três dias tudo desappareceu. E as
egrejas de Santo André, de S. Sebastião e a do
Carmo estavam cm montões de minas.
Para fazer abatizes e fachinas cortaram muitas
arvores; rebentaram depois com singular vigor;
as larangeiras pareciam ramilhetes; notc-se esta
observação, pois era primavera adiantada.
Uma nota perfeitamente local: os rapazes ebo-
renses em certas épocas do anno faziam bandos e
jogavam as pedradas; ás vezes estes bandos dos
bairros da cidade chegavam a travar luctas se-
rias; atraz da rapaziada chegavam os rapazotes,
os moços, e depois os homens : e accudiam os
maiores com armas maiores ; e havia mortes nes-
tas batalhas de rapazes.
Não vai muito longe, digo eu agora, o tempo
em que tiveram de empregar patrulhas de caval-
laria 5 para desfazer bandos de apedrejadores.
Os castelhanos entraram na cidade e logo no
primeiro ou segundo dia presenciaram inesperada
batalha dos rapazes de Farrobo e Cogulos.
— Valgalos el diablo, dizia um cabo de guerra,
i>i ansi los crian quien podrá despues con ellos?
Durante o cerco muitas bombas cairam na ci-
dade, algumas erráticas e innocentes que não re-
bentavam. Morreram duas mulheres e um meni-
no, e ficaram cinco pessoas feridas.
Houve casos prodigiosos no bombeamento. A
imagem da Sr.* da Expectação, ou do Ó, da ermi-
da da Porta d'Aviz, foi para casa de um devoto :
IO
á hora de certas orações reunia-se bastante gente
na casa ; uma bomba veio quasi verticalmente^
arrombou o telhado, os sobrados e sumiu-se; mui-
ta poeira, terror e desmaios, e quando passou o
susto reconheceu-se que todos estavam illesos.
No convento do Salvador estavam recolhidas
muitas senhoras da cidade; ahi rebentaram algu-
mas bombas, todas innocenles.
Em casa do cónego mestre-escola Jeronymo
Madeira caiu uma bomba entre os familiares; vi-
nha com a mecha acesa, ia rebentar; um anima-se,
levanta-a, e atira-a pela janella para o quintal
onde estourou com pavoroso estrondo.
N'uma estrebaria estavam três bestinhas, ganha-
pão do dono; a bomba rompe o telhado, faz ex-
plosão, ficaram alluidas e rotas as paredes, e as
bestinhas salvas.
No cubiculo do dr. António Ferreira, lente de
theologia moral, entrou uma bala que furou duas
paredes.
A bala que entrou em S. Francisco rompeu a
porta, quebrou um balaustre do cruzeiro, e foi dar
e deixou signal na parede junto do altar mór, lado
da epislola.
Em Santarém durante o cerco e o captiveiro
d'Evora houve grande excitação; o povo enchia
as egrejas chorando. Muita gente procurava a de-
vota imagem da Sr.'"* da Piedade ; todos viam que
o rosto do Senhor estava mais enfiado, e o da Se-
nhora mais abrazado e resplandecente; alem d'is-
to moviam-se, approximavam-se os dois rostos,
como em extraordinária angustia ; e todavia as
imagens eram de barro. Este milagre fez grande
impressão c foi authenticado.
Assignados os contractos da entrega D. João de
1 1
Áustria ficou em Santo António e mandou tomar
a posse por D. Agnello de Guzman filho do duque
<ie Medina de Ia Torre. Entrou pela porta d'Aviz.
e ahi no largo espeiou pelo príncipe; ahi se reu-
niram o senado, os tribunaes e os prelados das re-
lijíiões.
O reitor do colleglo não compareceu; D. João
d'Austria quiz esperar por elle, e foram dois pa-
dres castelhanos avisal-o; o reitor não teve outro
recurso e foi.
S. Alteza fallou a todos muito alegremente. Aos
padres disse =^ Eia, Padres mios, seamos todos
unos, seamos amigos, de hoy adelante es necessá-
rio una nueva regeneracion = .
Os conquistadores faziam diligencia por captar
as sympathias. D. Gaspar do Aro Guzman y Ara-
' gon, duque de Eliche, presenteou com um riquís-
simo tclim a Manuel de Sousa e Castro, mestre
de campo, do terço do Algarve, pela maneira co-
mo defendera ò convento do Carmo.
No dia 23 veio o príncipe ouvir missa á Sé; foi
recebido solemnemente, e recolheu-se logo ao pa-
lácio dós condes de Basto.
No dia seguinte, 5.* feira do Corpo de Deus,
24 de maio, acompanhou a procissão. O exercito
apresent(ju-se deslumbrante; e os grandes senho-
res hespanhoes trajando riquíssimos fardamentos
de gala formavam um singular cortejo. Mas o po-
vo tinha-se sumido; ninguém pelas janellas, e es-
tas sem adorno; nem havia bando de rapaziada
gritadora na testa da procissão.
Começou logo o trabalho das fortificações; cinco
mil homens faziam cestos, fachinas, transportavam
pedra e terra.
Para que ninguém parasse no trabalho D. João
d'Austria deu ordem para que nem a elle próprio
tirassem chapéu ou carapuça.
12
Em 27 vieram as obediências de Arrayollos,
Redondo e Vianna; a de Montemór-o-novo veiu
antes, o que todavia não obstou a que fosse sa-
queada grande parte da villa.
O príncipe hespanhol mandou abrir os cárceres,
e fez outras demonstrações de magnanimidade;
ordenou também que na collecta da missa men-
cionassem o rei Felippe; alguns padres continua-
vam a dizer regem uostrum Alphonsum.
No dia 29 foi ouvir missa ao Collegio; avisou
os padres da Companhia de Jesus e não os en-
controu na portaria. O principe ficou muito admi-
rado. Elles appareceram pouco a pouco, desculpa-
ram-se, não o esperavam tão cedo; assistiu á missa
e visitou o collegio.
Quando entrou na capella interior disse:
— Aqui se hizo la traicion à mi padre.
Alguém lhe tinha dito que n'esta capella se fize-
ram algumas consultas na occasião das alterações
do Manuelinho.
No refeitório estava preparada a mesa com do-
ces c fruLtas excellentes.
D. Sancho Manuel deixou Estremoz, resolvido
a soccorrer a cidade ; no segundo dia de marcha
o exercito portuguez estava nos arredores de Évo-
ra Monte; 4.* feira, 23, encontrou os que da cida-
de, já rendida, tinham saído. Entre elles o Opes-
, singa, que saíra da cidade rebuçado, conforme a
capitulação. Villaflor foi então occupar o Alandroal
para cortar a communicação dos hespanhoes com
a fronteira.
Gomo os traços seraes e fundamentaes da acção
militar ficam já descriptos, eu approveito agora
simplesmente as noticias minuciosas e locaes.
O exercito portuguez passa o Degebe, occupa
os amplos campos da Caeira e Rego da Vargem,
bem descobertos aos edifícios da cidade do oriente
e sul. D. João d^Aiistria não deixava as janellas e
varandas do palácio do pateo de S. Miguel, mi-
rando com o seu óculo de longa vista.
Na cidade ferviam as galopadas dos ajudantes
hespanlioes.
A força que tinha ido para Alcácer volta em
marcha forçadissima. No caminho vinham largan-
do a preza.
Perderam muitos cavallos, que deixavam no ca-
minho, esfaqueados, para que o inimigo se não
ulilisasse d'elles.
Depois os portuguezes tomaram posições de
combate, concentrando-se na Gramaxa. Os hespa-
nhoes seguiram logo o movimento guarnecendo a
linha do Degebe, e collocando quinze peças em
Valmelhorado. Esta foi a artilheria que inutilmen-
te esteve em fogo na noite de 4 para 5 de junho.
Seguiu-se logo o combate do Degebe.
A morte mais sensivel foi a de D. Gonçalo Fer-
>
nandez de Córdova Pimentel, neto do celebre du-
que d'Alva. Veiu ferido, com um braço quebrado,
para o palácio do duque de Cadaval; e falleceu
em 7 de JLHiho.
Em S. Francisco entrou moribundo, e ahi ficou
sepultado, D. Balthazar de Aquila, capitão de ca-
vallos, e gentilhomem do principe; este dizia: «que
lindos artilleros tienen los portuguezes, y quando
no los tuvieron ellos?»
D. João d'Austria teve um cava Ho morto, dando
grande queda ; mesmo de pé, no monte do Lagar
derrubado^ lhe applicaram uma sangria.
Na noite de 5 para 6 houve na cidade grande
exaltação; foram castigados os motores principaes.
Entre os chefes hespanhoes contrariavam-se as
opiniões. Alguns queriam que se arrasassem as
forlilicações, abandonando a cidade, e indo a com-
bate com as forças reunidas; mas o general hes-
panhol não quiz abandonar a cidade. Fez o movi-
mento para facilitar a reunião do seu exercito com
as forças que já deviam estar reunidas em Badajoz.
Para isto resolveu marchar torneando Estremoz.
Foi um frade leigo chamado Manuel de Lima,
sabedor de veredas e atalho^, que depois da meia
noite deu a D. Sancho Manuel a noticia da marcha
dos hespanhoes pela estrada das Bruceiras. O fra-
de estava no campo, em uma quinta dos campos
do Espinheiro. E foi o padre Francisco Rodrigues
Janeiro, nascido e criado na freguezia de S. Mi-
guel de Machede (falleceu em 1708) que foi encar-
regado pelo general portuguez de guiar o exercito
de modo que ao sol posto estivesse na margem da
ribeira do Ter.
Quando o exercito portuguez chegou ás margens
da ribeira os generaes ordenaram descanso e que
se tomasse alguma refeição; mas todos gritaram
que queriam marchar a ganhar a vanguarda do
inimigo. Continuou a marcha; quasi ao mesmo
tempo chegaram os hespanhoes ao porto, da Venda
do Duque, e os portuguezes ao de Évora Monte,
Depois da batalha do Ameixial, da organisação
das forças em Estremoz, Villaflor marcha para o
cerco d'Evora.
Entrou no Espinheiro na noite de 16 de junho,
ao romper da manhã no terreiro do mosteiro algu-
mas peças deram três salvas reaes, que foram ou-
vidas pela população eborense em assombro e al-
voroço indizível.
Em 17, pela manhã, a cavallaria passa o Xar-
rama, que já tinha mais pó que lama, nota o P.^
Fialho. A respeito do Degebe diz elle também,
<(rio mais cheio de glorias que de aguas.»
i5
Os piquetes de cavallaria occiíparam logo a Car-
tuxa, Torregela e S. Sebastião.
Como o leitor se recordará eu menciono agora
simplesmente os episódios que o P/ Fialho nos
conta.
Os hespanboes tinham peças no pateo do mar-
quez de Ferreira (palácio Cadaval), e no terreiro
do CoUe^^io.
Nos- logares mais públicos da cidade apparece-
ram espalhados papeis insultando os castelhanos.
Naturalmente houve logo medidas de repressão e
íiugmento de cautellas. Prohibiu-se o transito pelas
linhas de fortificação, não se tirassem desenhos
para mandar aos sitiantes.
O primeiro ponto de onde começou a jogar a
artilheria portugueza foi de um cabeço em frente
da porta da quinta de Valbom.
Uma bala veio quebrar o {d^re que jogava da
rua do Marquez de Ferreira.
Outra matou dois bois que conduziam uma peça
no largo do Collegio.
O inquisidor Manuel Cortereal Abranches esta-
va preso no forte de Santo António porque os hes-
panboes encontraram por denuncia um deposito
de armas nos cárceres da inquisição. EUe ignorava
tudo. Ficou ferido no grande tumulto do assalto.
Foi um trabalhador, morador na travessa da
Alegria, do bairro do Farrobo, que foi á muralha
gritar que a cavallaria queria fugir.
Os castelhanos nas brechas com enorme traba-
lho prepararam-se para resistir aos de fora e aos
de dentro; todavia na cidade havia apenas 3oo
homens capazes de fazer algum esforço; e seria
bem difficil vencer as cavas, valias e estacadas que
defendiam as brechas.
O tio de Villaflor, a que já me referi, era o deão
D. Theotonio Manuel; foi logo preso para Lisboa
i6
em uma humilde bestinha . . . soíTreu, foi solto,
mas não chegou a bispar, que era o seu sonho
dourado.
Schombcrg dizia maravilhas do valor portuguez,
e fallando-sc da batalha do Ameixial affirmou que
dera voto contrario, por não avaliar bem o valor
dos nossos soldados, nem sabia como os senhores
portuguezes se haviam em semelhantes occasiões.
— Confesso ingenuamente, diz o P." Fialho, que
tendo já 17 annos de idade, e quasi quatro de
Companhia, se me representava que tudo era so-
nho, e ouvi a muitos egual confissão.
O P." Fialho esteve na cidade durante o primeiro
cerco; depois saiu com mais 27 religiosos, em uma
leva; foram a Montemor o novo; ahi tiveram no-
ticia da marcha de Villaflor sobre Évora; já estava
em Lisboa quando chegou a noticia da victoria do
Ameixial.
No collegio de Santo Antão (era o collegio je-
suítico da capital) fizeram fogos e luminárias, e re-
citaram versos latinos.
Parece que os fogos dos rapazes de Évora cau-
saram admiração aos de Lisboa ; mas não se en-
tende bem a descripção: «papeis enfiados em ara-
mes e queimados, e luminárias volantes ; e papeis
acesos no fogo os lançavam ao ar, e o vento os
levava por esses ares.»
Termina o bom eborense :
— Este foi o cerco, essa a entrega, o choque, a
batalha, a victoria, a restauração de Évora; tudo
começou a 14 de maio e findou a 25 de junho.
Talvez houvesse culpados... todas as terras
grandes tem berço de engeitados. — Accrescenta
alludindo aos mysterios da rendição.
FIM DA 3.^ PARTE
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS EBOHEHSKS
Eslíío publicados :
i.° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. ^2.° F.vora ro-
maria, 1." p. O terrjplo romano. As inscripçóes lapidares. — 3."
A Casa pia. O edihcio do colleí^io do P-spirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — ^4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S.
Bento. — 7.° Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — 9."
Idem, 2.* parte. — io.° Brasão d'Evora. — 11." A egreja de San-
to Antão. — 12." O archivo municipal. — 13.° A restauração em
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri-
córdia d'Evora, 1." parte. — i5.° Idem, 2.* parte. — i6.° Idem,
3." parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora.
1." parte. — ■ 19.° Idem, 2.^ parte. — 20." Idem, 3." parte.
A' venda em Lisboa na livraria Bcrtrand^Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
OflCOMENíOS HISTOmCllS DA CIDfl D'Ey03H
Estão publicados :
i." parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e Xlll. Documentos doCabido. O livro
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas: antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i." — 2."
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Évora.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand.
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR
Contos singelos. Narrativas pára operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella.
l.,ivro 3.° da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
JilSTOP^IA— yVp^TE— ^P^HEOLOGIA
OS ASSÉDIOS 0'EfORA EM IG63
4.» PARTE
o EXERCITO HKSPANHOL. OPINIÕES DE ALVARES DA CUNHA
E DE ORTIZ DE I.A VEGA.
A NARRATIVA DE PASSARELLO. ETC.
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aVIZ N." 98
1890
GABRIEL PEREIRA
fílSTOP^IA — y^t^TE — y^.P^HEOLOGIA
OS ISSÍOiOò 0'[fOiíl EM 1683
4/ PARTE
o SXERCITO MESPANHOL. OPINIÕES BE ALVARES Í5A CUNHA
E DE OKTIZ DE LA VEGA.
A NARRATIVA T)E PASSAREJ.I.O. ETC
@a
EVvORA
MINERVA EBORExNSE
=jK IOAO;:;m JO-i-ií BAPTISTA, RUA iVaVIZ N." (,.'V
1890
ESTUDOS EBORENSES
Os assédios dlvora em 1663
4.^ PARTE
■ O exercito iiespanliol
Correm impressas relações numéricas dos exér-
citos portuguez e castelhano, e roes de armas, mu-
nições, etc, encontradas em Évora, ou recolhidas
em Estremoz depois da victoria do Ameixial.
Ampliaria extraordinariamente esta descripção
transcrevendo as relações : bastará mencionar os
resultados.
Da mostra geral feita no rocio de S. Braz em
25 de maio de i663, dos terços e regimentos do
exercito castelhano, consta que estavam presentes
2:904 officiaes e 12:206 soldados de infanteria.
Em 22 de maio teve a cavallaria mostra geral;
estavam j56 officiaes, 6:370 soldados montados,
'4
e 887 desmontados. As relações são dataJas Je
Évora, 25 de maio de i663, e assignadas por D^
António Ortiz de Velasco,
Na mostra de cavallaria appareeem algumas es-
pecialidades interessantes.
A companhia de couraças da guarda de S. A.
tinha 10 oíficiaes e 178 soldados montados. A de-
arcabuzeiros da guarda de S. A 7 oííicíaes e 162:
soldados. A de couraças do duqu-e de S. Germao
9 officiaes e 146 soldados. A de arcabuzeiros do^
duque 5 officiaes e i 19 soldados.
Menciona depois o trosso de Excelíencia, e os-
de Feria, Ordens, Flandres, Rossellon, Catalunha.
Borgonha, Guardas Velhas, Milão, e Frexenal. E
ainda as companhias de Guias e do Preboste Ge-
neral.
O conde de Villafíor segundo a relação da Ve-
dória Geral da Artilheria, encontrou em Evora^
deixados pelos hcspanhoes : 4 meios canhões de
bronze de 24 montados; 7 peças de 6 e 7; 2 tra-
bucos montados; 6 petardos aparelhados; 2:70a
balas de 24 e 12; 2:566 mosquetes, a maior par-
te biscainhos ; 1 840 frascos de mosquete, e arca-
buzes; 1876 espadas; 4002 arrobas de pólvora
200 arrobas de pelouros de chumho ; emfim, quan-
tidades consideráveis de canos e forquilhas de mos-
quetes, bolsas de pistolas ; murrão, fachas de ca-
vacos, saquinhos de trincheira, marraços de cortar
faxina, machados, picaretas, paz de ferro, enxa-
das, foices de segar, seirinhas de esparto, lampeões^
espaldares, peitos, morriões, cravos e ferraduras^
bombas de trabuco cheias e vazias, canudos de
bombas, granadas, pregos, borrachas, calabres de
artilheria, 4 barcas grandes com seus carros e ar-
mões, barris de salitre; carros matos ; caixa de tra-
buco; cabrilhas aparelhadas; escaleta; reparos,
taboões, pinas, raios, barrotes, madres, madretas,
eixos, ripa, soles, cangas, rodas, carretas, estacas,
e páos de S. João. Esta relação assignada por João
Mendes Mexia em Évora 2 de julho de i663.
Os hespanhoes deixaram na cidade 600 moios
de cevada, 80 de trigo, e i5:ooo cruzados em di-
nheiro.
Opinião de 'Alvares da Ccnlia
O autor da Relação da campanha de Portugal,
D. António Alvares da Cunha (Campanha de Por-
tugal pela província do Alemtejo na primavera do
anno i6C3, governando as Armas d'aquella Pro-
vinda o ex."'° sr. D. Sancho Manoel conde de Villa-
flor) ao contar a rendição d'Evora ao exercito por-
tucuez diz «No mesmo dia entraram na cidade
triumphantes os Portuguezes. Mandou o de Villa-
fíor pôr em arrecadação para a fazenda de S. M.
o que os castelhanos haviam deixado; as obras
que tinham feito na cidade foram : aperfeiçoar e
pôr em defesa o forte de Santo António, uma es-
trella no sitio dos Penedos; um ornaverque nos
Carmelitas Descalços (N. Senhora dos Remédios);
voar o convento dos Calcados; acabar de todo o
baluarte de S. Bartholomeu, e o da porta de Ma-
chede ; um forte com toda a perfeição no Rocio de
S. Braz, cujo centro era a dita ermida. Com todas
estas obras, e com todo aquelle presidio, com to-
das aquellas munições e bastimentos, em seis dias
entregou a cidade de Évora D. Francisco Gatinara
conde de Sartirana, a D. Sancho Manoel conde
de Villaflor; poucos dias eram passados que com
tudo aquillo menos a defendeu oito Manoel de xMi-
randa Henriques a D. João de Áustria Gran-Prior
de Castella : com esta diíTerença podem ver todos
o quanto os portuguezes se avantajam a todos tan-
to em defender como em expugnar praças».
Villaflor demorou-se em Évora alguns dias;
mandou reparar as muralhas, e continuar nas obras
de fortificação. Passou depois com o exercito a Es-
tremoz.
Foi o mestre de campo D. Diogo de Faro que
trouxe a Lisboa a nova da tomada d'Evora.
Quando elle relatava a el-rei e ao governo o bri-
lhante feito militar entrava no Tejo a armada do
Brazil composta de 64 galiões e navios, de guerra
e mercantes, carregados de fazendas e productos
de alto valor.
Esta opinião de Alvares da Cunha, e as consi-
derações em que a baseia, mostram que a defeza
da cidade pelos portuguezes foi deveras notável,
devendo contar-se, assim como o assédio por Villa-
fior, entre os brilhantes feitos d'armas do exercito
portuguez.
Narrativa de Ortiz de la Ye^a
Desde luego nombró general de sus tro-
pas ai conde Villafior, quien, siguiendo los conse-
jos de Schomberg, no quiso abandonar la posicion
de Estremoz. En 6 de mayo de i663, púsose nue-
vamente Juan de Áustria en campana, y encami-'
nando-se contra la ciudad de Évora, se apodero
de ella, y trato á sus vecinos con una suavidad y
dulzura de que ninguna muestra diera en la ante-
rior camparia. Conseguida esta importante venta-
ja, envio fuerzas contra Alcazar do Sal, villa cer-
cana á Setúbal.
Extraordinária alarma causo en Lisboa esta no-
ticia; y no se calmo el publico alboroto, hasta ha-
ber-se manifestado ai pueblo que se habia enviado
á los generales la órden para acometer ai ejercito
espanol.
Con efecto púsose desde luego Villaflor en mo-
vimiento contra don Juan de Áustria. Dirigia las
marchas de los portugueses Schomberg, hábil ge-
neral, que con bicn meditada estratégia desbarato
los planes dei caudillo espaiíol. Al mismo tiempo
una sublevacion de Évora, solo á fuerza de sangre
apaciguada. hizo diíicil la situacion de los espa-
noies.
Huia su jefe de dar una balalla decisiva; peto
en 8 de junio, encontrandose en las alturas de
Ameixial, que dominan el valle ai que por su an-
gostura se da el nombre de Canal, no pudo ya evi-
taria. Habia colocado en dicho valle la caballeria,
y un bagaje compuesto de mas de dos mil carros,
y vióse en la necessidad de defenderle, pues le
hostigaban los portuguezes desde las opuestas al-
turas.
A la caida de la tarde hizose general la accion.
En vano don Juan hizo en ella prodigios de valor,
en vano los espanoles pelearon con encarnizamen-
to grande, dejando cadáveres mas de cinco mil
portugueses; animados estos con el ejemplo de la
infanteria ingleza, y bien dirigidos por Schomberg,
y aguijoneados por el deseo de la independência
de su pátria, volvieron muchas veces á la carga
con impetu creciente, y ai lin triunfaron. Riquezas
immensas, dos mil carros, nueve piezas de artille-
ria, estandartes v banderas, mil cuatrocientos ca-
ballos, gran número de prisioneiros y no menor de
muertos, esto perdió la Espana^ en tan funesta ba-
talla, y perdió la esperanza de sujetar ai reino de
Portugal. Dicen que entre los muertos se conto ai
marquês de Liche ; outros escritores solo le haccn
prisionero, anadicndo que mas adelante servió á
Carlos II en calidad de virey de Nápoles. Schom-
berg se aprovechó de la victoria recobrando varias
plazas perdidas. Por la parte de Beira el duque de
Osuna rechazó con seis mil hombres la acometida
de doble numero de portugueses; débil compensa-
8
cion de la perdida de aquella batalla. Dióse im-
propriamente a dicha jornada el nombre de batalla
de Estremoz.
(Anales de Espana, desde sus origines hasta
el tiempo presente: por Ortiz de la Vega. iMadrid,
1859, Tomo IX pag. Soy e seg.)
Commemorações festivas
Um soneto formado de versos de Camões
Nos = Aplausos académicos, e relação do felice
successo da celebre victoria do Ameixial oferecidos
ao ex.'"° sr. Dom Sancho iManoel (Amsterdam, em
casa de Jacob van Velsen, ano de 1673) = ha gran-
de copia de composições poéticas relativas aos as-
sédios d'Evora.
Na Laurea triumphalis, Epinicia, ha algumas dis-
cripções de mérito. O n." X refére-se ao cerco fei-
to pela cavallaria hespanhola.
Extemplo turbati animi, timor occupat urbem
Elboream, dum cernit equos síne lege vagari ;
Armatasque equitum turmas discurrere ín agros.
Fuimineosque enses ventura ad bcUa rotari.
Cernere erat longas descendere ad arma phalanges
Austríacas clangorem inter, sonitumque tubarum.
No XIV allude ú occunacão do forte de S. An-
1 >
tonio:
Antoni in médio sedes augusta, malorum
Nascitur hinc urbi series funesta. . .
D. João de Áustria entra triumphante:
Elbora sola gemit. . .
'Vem o exercito portuguez, e começa o segundo
cerco :
Deveniunt, cínguntque urbem, tentóría figunt
Non procul unde hostem premerent; bombarda minaces
Explodit flammtita globos; concussa fatiscunt
Moenia. . .
Villaflor é victorioso;
...Lusi exultant, celebrantque triumphum,
Quo Rcgni sceptrum obfirmant, suaque arma coronant.
Ha uma epistola Elborae sub hispano jugo la-
crymantis, que principia:
ília ego Lusiaci quondam pars óptima regni
Elbora, quae fueram Regibus alma quies;
Vos loquor, ô Cives
Em oulra epistola-==Mercurii Eborensis ad exte-
ras nationcs — ha referencias especiaes a edifícios :
por exetnplo, ao Espinheiro:
Qua celebre occuhant Matris Spineta sacellum
^^irginis, hic acies junxit uterque suas.
Depois á Cartuxa:
Clausíra repente novo Brunonis mihte complet.
e a Santo António: •
Edita mox aho tua propugnacula caelo,
Antoni assiduo ferreus imbrc quatit.
Outro académico dedica a estes acontecimentos
muitas decimas de que transcrevo as ires primei-
ras:
Évora, se vos achou
Dom João desprevinida
e á custa de tanta vida
castelhana, vos ganhou ;
no pouco que lhe durou
o lucro da sua emprcza,
achará sua fraqueza,
dcitando-lhe conta estreita,
que foi maior que a receita
muitas vezes a despeza
IO
QuíinJo no campo fatal
de Sam Braz. foi a buscal-o
para nelle debela]-o
o poder de Portugal;
tendo junto o cabedal
com que a empreza comeieo,
nunca a sahir se atreveu
em mais de vinte quatro horas-
que duraram as demoras
em que se lhe offereceo
Se depois disto passado
foi buscal-o a Odipeve
o successo que lá teve
o deixou mais afrontado:
e ficando escarmentado
do perigo cm que se vio,
para Castella fugio,
porem lá junto do Cano
SC lhe deu o dezengano
fatal, do que piesumio.
Nas addiçôes aos x^plauzos Académicos fígura
iim soneto formado de versos dos Lusíadas; vou
transcrevera singular composição indicando os can-
tos, oitavas e números dos versos empregados n'es-
ta peça poética.
Faz contra í.usitania vir Castella. (>anto 4, oct. G, vers. 7
o filho de Pheiipe nesta parte, i. /i, z
fervendo-lhe no peito o duro Marte
das soberbas, e varias gentes delia.
l)a Cabeça do Império rica, e bella
hum Portuguez mandado logo parte
treme a bandeira, voa o estandarte.
com manha, esforço, e com benigna estrclla,
his, se ajunta o soberbo Castelhano
porque levasse avante seu dezejo
tomando aquelle premio, e doce gloria,
Mas nas mãos vay cair do Luzitano
Sancho de esforço e de animo sobejo
que causa índa será de larga historia
3.
JO,
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4-
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7i
2Õ.
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75,
5
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6
Passarello
O padre Caetano Passarello escreveu sobre os
1 I
succcssos da restauração de Portugal uma obra
considerável intitulada: «Bellum Lusitanum, ejus-
que rcgni scparatio a regno Castellensi» (Lugduni,
1684, in-fol.), onde encontro muitas referencias a
Évora. Logo ao tratar da acclamação de D. João I\'
clle põe bem em relevo a importância do papel
politico que a cidade então representou : «... re-
giae acclamationes, regnique incipientis auspicia
ab Kbora primo peli, quippe quam faciliímé tran-
sitaram in Bregantii partes fora putabant, et quam
paucis ante annis, nullo impellente, sed impctu
quodam amoris constabat illum regem appellavis-
se. . . .Atqui in labora urbe jam explorato consen-
su populi, conclamatoque rege Bregantio, inde
continuo ex omni hominum genere tanquam mili-
tum manu contracta majori constantia ac tirmitu-
dine posse Ulisipponem per se paratam, et melius
alterius exemplo parandam incurri.»
No decorrer da obra ha muitas referencias á ci-
dade; parece até que o P. Passarello lhe consa-
grava aífeição especial porque a singularisa com
expressões de louvor, não lhe poupa adjectivos si-
gnificativos da sua grandeza histórica. A maior
parte do livro 8.° é consagrado a Évora, aos acon-
tecimentos de ]Gb3. A pag. 353 encontro uma
descripção interessante da cidade e seus arredores:
«Ebora amplíssima, ac vctus in Lusitânia civi-
tas, et celebris quondam Viríati. ac Sertoriiquoquc,
ut plaeet aliquibus, sedes in lata planitie pòsita
jacet. . . . virentes, amaeni, ac fertiies colles ejus
aspectum terminant, ad quorum radices magniílce
structum surgit Carthusianorum monachorum CC2-
nobium . . .
. . . Divi Hieronymi fanum habet, idque in re-
cto Estremotii itinere situm. . . »
Descreve as fortificações, as operações militares.
Na primeiro ataque contra o forte de S. António,
12
Passarello menciona como chefe o conde Boelto
(comes Boeltus); foi este que avançou com Agnello
de Gusman, Luiz Frias, e duas legiões hespanho-
las.
D. João d'Austria deu ordens severas para que
nenhum dos seus maltratasse os habitantes, em
obediência á determinação do rei.
«... priusquam duces in congressudeliberarent
recitatae Regis Catholici litterae sunt, severa prae-
cipientis, ut Eborae eives et alii quicumque in pos-
terum Lusitani ad Regis obedientiam et fidem re-
vcrsi fuissent, clementer ac leniter tractarentur, ne-
ve praeteritus error, lapsusque communis igno-
miniae, vel fraudi resipiscentibus esset.»
A forílfitacão
t
As fortificações das praças fortes aíemtejanas
n'esta época merecem attenção na historia da en-
genharia militar em Portugal. Não chegara ainda
Vauban nem Cormontaigne, nomes bem conheci-
dos ; mas antes d'estes trabalhára-se enormemente,
por muito tempo, em modificar o systema da for-
taleza ; em deixar a antiga muralha e sua barba-
can com torres e cubellos, e passar para a linha
bastionada. Foram os engenheiros militares italia-
nos os primeiros que empregaram bastiões-
De Itália saíram para diíferentes paizes bastan-
tes engenheiros ou architectos militares; e sendo o
novo systema rapidamente adoptado e applicado
pelos hespanhoes passou a ser conhecido por «for-
tificação hespanhola». As guerras na Europa cen-
tral tornam-se chronicas e alastram-se, e a fortifi-
cação das praças toma singular importância. P7
pasmosa a quantidade de trabalho gasta em forti-
ficar nos séculos XVI e XVII.
Em Évora, como já vimos, approveitam ainda
i3
parte da cerca velha, da muralha construída em
tempo de D. Fernando; ao norte fortes destaca-
dos; no sul encostam se quanto possível á antiga
muralha.
Percorrendo os tratados da época e pouco ante-
riores encontrei Errard de Bois je Duc; o conde
de Pagan (1645); principalmente Antoine de Villc
Tholosain, com um livro notabilissimo : «Les for-
tifications du chevalicr avec Tataque et ia
defence des places. (Lyon, Philippe Borde, 1641,
in-fol.)»
Encontro n'este livro muitos exemplos applica-
veis á fortificação eborense.
Parece que o livro foi considerado importante
porque muito mais tarde o traduziram em portu-
guez : «O Governador de praças por António de
Ville Tolozano (Lisboa, off. de António Pedro Gal-
ram. 1708, in-8.*^)» Mas a edição portugueza ape-
zar de mais moderna é muito inferior á franceza.
Creio serem estas as bases principaes para o es-
tudo da forfificação eborense em i663.
O engenheiro Mallet
Esta lucta demorada e enorme chamou a Por-
tugal muitos homens notáveis na arte da guerra.
A campanha travada entre Schomberg e D. João
dVVustria, dois generacs de fama universal, fez
grande ruido; estava-se em tempo de modificações
na engenheria militar, as guerras de Conde, de Tu-
renne, de Nassau, de Gustavo Adolpho discutiam-
se. Esta lucta travara- se n'uma região plana em
geral, descoberta, fácil para os grandes movimen-
tos militares, e semeada de praças fortes de im-
portância então.
Mallet esteve no Alemtejo e apresenta desenhos
em pequena escala, mas de uma exactidão nota-
H
vcl, de todas as praças fortes, na sua obra «Les
iravaux de Mars, ou la fortification nouvclicí tant
reguliére qu'irrcguliere (Par Allaiu xMancsson iMal-
leí, parisien, ingenienr dcs cnmps et armões du roy
de Portugal, nommé sergent major d'artillerie dans
la province d'Alemtejo. Paris, i Õ7 i , 3 vol. in-S.")))
Traz muitas gravuras e plantas de praças forti-
ficadas interessantes.
A pag. 210, do I." vol., traía da «methode de
fortiíier les villes basties sur des hauteurs qui sont
environnées de plaines». O cxempU) de taes pra-
ças é Évora: e na regra IV aliude a circumstancias
particulares. aSi Tenceinte de la ville est justement
au picd de Ia hauteur, on la suivra dans la nou-
velle fortiíication, ou Ton s'en écartera. si elle ne
Tenfermait pas, afm d'occuper toute Ia hauteur avec
des bastions, demy-iunes, ou avec des forts déta-
chez.
Ainsi Ton a fortifie la ville d'Evora, de laquellc
j*ai leve le plan, en 1666, lorsque je faisais tra-
vailler aux reparations du bastion des Peres de la
Compagniede Jesus.»
A gravura, superiormente, representa uma
vista da cidade, em ponto mui pequeno mas
que dá idéa bem aproximada; tirada do alto de
S, Sebastião. Vc-sc o forte de Santo António, o
aqueducto, a cidade com a sua barbacan, o baluar-
te dos Penedos e a trincheira que o ligava á porta
de Alconchel.
A planta representa a antiga linha das mura-
lhas, e as novas fortificações do sul e oriente e os
fortes destacados. As obras de defeza da porta
d'Alconchel abrangem os íelhaes e a cerca dos Re-
médios.
Mallet representa lambem como exemplos de
fortificações notáveis, novissimas, as de Estremoz,
Villa Viçosa, Arronches, etc.
I5
Os obituários de 1663
Não encontrei no archivo cios livros íindos no
seminário eborense, talvez o arcliivo d'esta espé-
cie mellior organisado do paiz. os obituários das
íreguezias da cidade relativos a 1 663 ; isto é, faltam
os volumes que comprehendem este anno, c fal-
tam de ha muito; faltavam já, ao que parece, nas
collecções parochiaes antes de estas serem reco-
lhidas no Seminário.
A coincidência de faltarem taes volumes leva-
me a crer que alguém de má sina os pediu para
ver cm casa c os extraviou. Tem havido em todas
as épochas e em toda a parte estudiosos daninhos
que tudo perdem e desarranjam, que allegando
commodidades sempre dispensáveis para os que
estudam com amor, deslocam, demoram e extra-
viam documentos únicos insubstituiveis. O perigo
é tão conhecido que repetidas vezes os papas tem
fulminado excomunhões para o evitar.
Apenas por indicação do sr. Palmeiro, que em
tempo esteve empVegado na organisação do archi-
vo dos livros íindos, encontrei no n.° 19 dos óbi-
tos da freguezia matriz de Estremoz, a fl. 11, uma
nota lavrada pelo parocho fr. .loão Pitta de Vas-
concellos.'
«pessoas que morreram na batalha em 6.^* feira
8 de Junho de i663 dada nas serras do Ameixial
ás 5 horas da tarde». O P.* Vasconcellos refere-se
aos exércitos, ctc. e dá a relação dos mortos, isto
é, dos feridos que chegaram a Estremoz, e morre-
ram no mesmo dia ou pouco depois.
Estevão Soares da Fonseca capitão de cavallos,
natural de Moura enterrou-se em S. Francisco em
9 do dito mez.
João de Torres, capitão de cavallos . . . natural
de Villa Viçosa.
ib
Christovám do Brito, capitão de cavallos, natu-
ral de Lisboa.
Luiz Vaz de Sequeira, capitcão de cavallos ....
enterrou-se na dia ro na egreja matriz.
João de Brito, natural de Elvas, na Conceição,
no dia 9.
Um capitão cujo nome não soube, no mesmo
dia, na ermida da Conceição.
Paulo Nogueira capitão de iníantcria do terço
de Tristão da Cunha de xMendonça, na iMatriz,
em 10.
Jeronymo Moreira, capitão de infanteria do ter-
ço de Setúbal, em S. Francisco, em 10.
Garcia Mendes soldado de cavallo, de Castello
de Vide, com todos os sacramentos, na Matriz,
em I o.
Jerónimo Gomes, soldado de cavallo, de Santa
Olaya, em S. Francisco, em 12, com todos os sa-
cramentos.
No livro i3 dos casamentos da freguezia de S.
Thiago de Estremoz, a pag. 72. ha' uma descrip-
ção suminaria dos acontecimentos de Évora; na
parte relativa á batalha do Ameixial ha uma nota
local approveitavel.
Falia da marcha das tropas «... levanta o nos-
so exercito e veio dormir aquelle dia á ribeira de
Terá á ponte por baixo de Evoramonte, e o mais
d'elle neste termo, e o inimigo no porto do Vimiei-
ro; pela manban se avistaram, clle marchou ás
serras do Ameixial e dos Ruivinos, e o nosso di-
reito a N. S.'' da Conceição, pela Amieira á serra
d'Albojo. D
Descreve depois muito summariamente o en-
contro das tropas, sem fornecer noticia alguma es-
pecial.
Villaflor
E' o vulto mais saliente n'esta campanha do
Alemtejo. Embora em i663 fosse ainda um ver-
dadeiro homem de guerra, sereno nas crises, va-
lente, infatigável, era todavia um veterano. Passa-
ra a mocidade nos exércitos, nas marchas, nos as-
sédios, nos combates, como então succedia fre-
quentemente; servira com distincção sob a ban-
deira hespanhola na Itália, em Flandres, na Alle-
manha ; e em lôSy partira para o Brazil na arma-
da do conde da Torre.
Fez-se a acclamação, e logo entrou no serviço
portuguez no posto de mestre de campo ; na Bei-
ra, 1641, com D. Álvaro de Abranches; em 1642
com D. Fernão Telles de Menezes.
Depois D. Sancho Manuel soffreu como tantos
outros n'aquella época de heroísmos e intrigas ;
esteve preso, viveu algum tempo obscuro. Mas
chegam as linhas d'Elvas, a crise, e o militar ap-
parece logo. E passado o temporal os estadistas,
as camarilhas, de novo põem de parte o illustre
general.
Provavelmente era brusco, violento, e o corpo
costumado ás armas scntia-sc mal nas rendas e
gentilezas da corte.
Cresce de súbito o perigo em 1662; a campa-
nha corre desastrosa; chamam outra vez D. San-
cho Manuel; é elle que se encontra frente a frente
com D. João d'Austria; sustentando todas as res-
ponsabilidades, enormes e complexas, docomman-
do em chefe do exercito portuguez.
Basta este facto para nos demonstrar que o con-
de de Villaflor foi considerado a primeira capaci-
dade mililar da época ; valente, prudente, sa-
bedor.
E' escusado dizer que esta campanha de i663,
i8
no Alemíejo^ é a principal pagina militar do exer-
cito portnguez.
Ao lado de D. Sancho Manuel o conde de Cas-
tello Melhor collocára homens eminentes; D. Luiz
de Menezes, illustre conde da Ericeira, no com-
mando da artilheria ; e Diniz de Mello c Castro
chefe da cavallaria. Como chefe de estado maior
o famoso Schomberg.
Eu não faço agora a biographia de D. Sancho
Manuel, ponho apenas em relevo a importância
d'este vulto militar.
Nascido em Lisboa era todavia muito eborense;
um tio e uma irmã, e talvez mais parentes resi-
diam em Évora. Era filho de D. Christovam Ma-
nuel de Vilhena e de D. Joanna de Faria, filha de
Gaspar Gil Severim; isto é pae e mãe conheciam
Évora ; e quando elle triumphante fez salvar a sua
artilheria no terreiro do Espinheiro, na volta do
glorioso dia do Ameixial, lembrou-se sem duvida
dos ascendentes que ali repousam, n'aquelle vene-
rável e histórico templo, tão opulento em recorda-
ções eborenses.
Sclioffiberâ
Frederico Armando, conde de Schomberg, e em
Portugal conde de Mertola, nasceu em Heidelberg,
Allemanha, em dezembro de i6i 5, segundo o «Con-
versations- Lexicon, de Brockhaus», encyclope-
dia que tem hoje, especialmente em assumptos al-
lemães, como é natural, grande auíhoridade.
Faço a consideração porque encontrei variantes
notáveis nos diíferentes biographos d'este general.
^ Serviu com o celebre Gustavo Adolpho, entrou
ao serviço da França, depois com Henrique de
Nassau; volta a França: em i655 era considerado
como general noía^'el no exercito francez.
^9
A França Intervém activamente na politica por-
tiigueza ; ha as negociações diplomáticas do conde
de Soure, auxiliado pelo marechal de Turenne ;
resolvem-se mandar Schomberg a Portugal.
Grande soldo, posto garantido, bastantes offi-
ciaes para o acompanhar, e uns cem contos de
réis para armar mais 4:000 homens.
Em 29 de outubro de 1660 embarcou no Ha-
vre de Grace, e chegou a Lisboa em i i de novem-
bro. Em i3 estava tudo desembarcado. Trazia of-
ficiaes distinctos das differentes armas, cem subal-
ternos de artilheria, quatrocentos cavalleiros bons.
Schomberg começou logo a trabalhar.
«Mais Tarmée portugaise etait indisciplinée, dé-
pourvue de tout ; Tignorance et la jalousie des na-
lionaux miiltipliaicnt devant lui les difficultés.»
Não lhe deram commando em chefe, e em
1661-62 teve de conservar-se em defensiva, e de
certo modo n'um segundo plano. Mas veio a crise
e os planos do marechal foram obedecidos. Os as-
sédios d'Evora, a acção do Degebe, a batalha do
Ameixial, mostraram bem a sua aptidão militar;
o próprio conde de Villaflor seguia as suas indica-
ções.
Na campanha seguinte Schomberg bate o duque
de Ossuna em Castel-Rodrigo; depois o marquez
de Caraccna em Villa Viçosa.
Deram-lhe honrarias, foi grande de Portugal,
conde de Mertola, e finalmente governador das ar-
mas no Alemtejo (1666). N'esta posição fez a im-
petuosa e profícua marcha a Paymogo, Gibraleon
e a S. Lucar do Guadiana, que fez grande impres-
são na corte de Madrid.
Feita a paz Schomberg voltou ao serviço fran-
cez. Em i685, depois do édito de Nantes, ainda
veio a Lisboa; demorou-se pouco. Voltou a Allc-
manha, á Inglaterra e morreu na lucta com a Ir-
20
landa, na batalha da Boyne (julho de 1690), ten-
do-se atirado sem couraça ao mais perigoso da
lucía.
Era de estatura mediana, bem feito, côr bonita,
de robusta saúde ; cavalgava bem; estudava muito,
mas pensava melhor do que fallava ; todavia gos-
tava muito de casos e anedoctas, e mesmo nas si-
tuações graves se mostrava jovial.
Tem hoje a cidade a sua estrada de circumval-
lação completa e arborisada; em alguns pontos pit-
toresca, e com vistas sobre as campinas e longin-
quas serranias.
Essa estrada segue exactamente o que resta da
cerca fernandina e os baluartes do século XVII ; o
campo de acção dos assédios de i663.
Nos últimos tempos modificaram e abriram por-
tas ; dasappareceram de todo as velhas entradas
estreitas e angulosas; mas tudo carece de embel-
lezamentos. E será fácil, pouco dispendioso, o trans-
formar a entrada da Lagoa n'um terreiro amplo,
por serem os terrenos do municipio, e sem varian-
te considerável de nivel. E n'esse largo ficaria bem
uma memoria dos assédios eborenses de i663; ao
menos um pedaço de mármore lembrando em sin-
gella inscripção os soffrimentos da cidade, esses
dias de briosas luctas, e de gloria da nação e do
exercito portuguez.
FIM DA 4.» PARTE
GABRIEL PEREIRA
Estíio publicados :
1° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana, I.'' p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3."
A Casa pia. O edifício do collegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal, rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6." Conventos, i.-"" parte, Paraiso, Santa Clara e S.
Bento. — 7." Bellas artes. — S.*" Vésperas da restauração. — 9."
Idem, 2." parte. — io.° Brasão d'Evora. — 11." A egrejade San-
to Antão. — 12.° O archivo municipal. — iS.'' A restauração em
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri-
córdia d'Evora, i.^ parte. — 15." Idem, 2.''' parte. — 16." Idem,
3.» parte. — 17." Évora e o Ultramar. — 1 8." Assédios d'Evora.
I.' parte. — 19.° Idem, 2.= parte. — 20.° Idem, 3." parte. — 21.°
Idem, 4." parte.
A' venda em Lisboa na livraria Bcrtrand — Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
DOcyy[iiTos;iiisíO[iicos d* cide nmi.
Estão publicados :
i." parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i.° — 2."
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Évora.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand.
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR
Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella.
Livro 3° da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
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J-ilSTOPy^IA— yVp^TE— y\.P^HEOLOGIA
08 FESTEJOS DE ÉVORA EM 1/29
CASAMENTOS DA INFANTA D. MAHIA BARBARA COM O PRÍNCIPE
DAS ASTÚRIAS, K DA INFANTA DE CASTEI.LA D. MARIA ANNA DE BOURBON
COM O príncipe do BkAZIL, D. JOSÉ)
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MINERVA EBORENSE
DE JOAQIIM JOSÉ BAPTISTA, RUA d'aV)Z N." o3
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OS FESTEJOS OE El'0^il íi IM
CASAMENTOS D.K INFANTA D. MAKIA BARBARA COM O PRÍNCIPE
Í)*.S ASTÚRIAS, E DA INFANTA DK CASTELLA D. MARIA ANNA DE BOLRBON
COM O príncipe do BRAZIL, d. JOSÉ
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
UE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DAVIZ N.° Ci3
1890
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ESTUDOS EBORENSES
Os festejos de Evora em 1729
Em conselho de estado de 24 de março de 1725,
se tratou pela primeira vez dos casamentos da in-
fanta portugueza, D. Maria Barbara Xavier Leo-
nor Thereza Antónia Josefa, com o principe das
Astúrias, D. Fernando de Bourbon, filho de Filip-
pe V rei de Hespanha ; e da infanta de Castella,
D. Maria Anna Victoria de Bourbon, com o prin-
cipe do Brazil, D. José Francisco António Ignacio
Norberto Agostinho. As familias reaes, as cortes,
e os povos dos dois paizes consideraram e feste-
jaram estes casamentos como segura garantia da
paz e amizade entre os dois povos peninsulares.
D. João V determinou que as festas se celebras-
sem com a maior pompa. As duas familias reaes
vieram entregar as princezas na fronteira, 'num
palácio improvisado sobre o Cava, a breve distan-
cia de Elvas e Badajoz. Para descanço d'el-rei, e
do seu numerosissimo séquito n'esta jornada, se
construiram aposentos nos Pegões, e o palácio de
Vendas Novas. Despenderam-se enormes sommas.
Ao ler as relações da épocha não se espere encon-
trar o elevado, o artístico, o bello, sim o luxo^ o
ouro, o fausto frivolo. Existe um livro de mais de
400 pag. em que se descrevem mcudamente essas
festas reas; intitula-se : «Fasto de Hymeneo, ou
Historia panegyrica dosdesposorios, etc. . por fr.
José da Ts^ati vidado (Lisboa, 1752)»; ahi, entre flo-
restas de hyperboles, e estultos pensamentos, vem
curiosas relações e inventários de certa imnortan-
cia para o estudo do reinado de D. João V.
N'esta jornada levou el-rei 10 coches, 8 berlin-
das, 20. estufas, 2 caleças, 141 seges, 7 galeras,
12 carros-matos, e 20 andas. Para se fazer idéa
do pessoal empregado basta mencionar o quadro
da cosinha e ucharia : i escrivão da cosinha, i
ajudante do escrivão, i cosinheiro mór, um cosi-
nheiro francez, i comprador e 17 moços, 7 moços
da ucharia, 10 mestres de cosinha, 78 cosinhei-
ros, 45 ajudantes e 66 moços; mais 24 varredo-
res com seu apontador.
El-rei partiu de Lisboa em 8 de janeiro chegan-
do pelas 9 da manhã a Aldeia Gallega. No dia 9
começava a rainha a sua jornada, trazendo tam-
bém um enorme séquito.
O mez de janeiro de 1729 correu muito chuvo-
so, as estradas, as péssimas carreteiras, estavam
alagadas; devia ser curioso o desfilar dos coches,
estufas e berlindas, seges e caleças, cheios de ca-
belleiras empoadas, de sedas e velludos, de dou-
rados e prateados, fazendo etiqueta na passagem
de ribeiras e lamacaes.
Existe no archivo municipal a descripção dos
festejos com que a cidade d'Evora recebeu a visi-
ta de D. João V. Passamos a publicar essa inte-
ressante noticia.
■* ■*
Havendo cheirado ao senado d'esta cidade de
o
Évora carta do secretario de Estado, Diogo de
Mendonça Corte Real, em que vinha inclusa uma
de S. Magestade firmada por sua real mão, e es-
cripta a 2 de janeiro de 1729, com aviso de que
l^zia viagem a Elvas com a Rainha, e com toda
a casa Real para, na ponte do Caya, fazer entrega
aos reis catholicos da senhora infanta D. Maria
Barbara de Portugal, sua filha, já desposada com
o serenissimo príncipe das Astúrias D. Fernando,
filho primogénito, e futuro herdeiro d'el-rei catho-
lico D. Felippe V, havido constante o seu primeiro
matrimonio; e receber a sereníssima infanta D.
Maria Anna Victoria de Bourbon, filha do mesmo
Rei e da presente rainha catholica D. Izabel Far-
nezi, esposada também com o serenissimo prínci-
pe do Brazil, D. José, filho de suas Magestades :
e que na vinda e na volta haviam de fazer transito
por esta cidade e pernoitar n'ella; se ajuntaram na
camará os vereadores e ofRciaes d'ella com assis-
tência do dr. Carlos Pery de Linde, juiz de fora
da dita cidade, e entre todos se tomou assento na
forma com que haviam de esperar a ss, magesta-
des, e nas disposições que se haviam de fazer para
o seu recebimento, attendendo-se á decência das
pessoas reaes c ao credito e honra da cidade; e as-
sim se resolveu que sem attenção a despeza se fi-
zesse tudo com a maior magnificência que fosse
possível.
Desde logo se começou a executar como se ti-
nha disposto concertando-se as estradas das terras
de sua jurisdição, reformando-se e pintando-se os
chafarizes para ficarem mais vistosos, fazendo-se
algumas obras no palácio dos arcebispos para fi-
car mais commodo ao alojamento da familia real,
accrescentando-se as cavallariças e cocheiras.
Dispozeram-sc arcos de triumpho, e fogos de
artificio; fizeram-se galas magnificas, não só os
ministros e vereadores, mas toda a nobreza da ci-
dade, e todos em competência procuraram corti-
nados e tapeçarias para ostentarem mais magnifi-
cência. Todos trabalharam 'nestas disposições,
mas com mais excessos e trabalho o Juiz de fora,
adiantando-as muito com a sua presença.
Recebido aviso de que .el-rei chegaria a esta ci-
dade no dia lo de janeiro de 1729, e que havia
de entrar pela porta chamada d'Alconchel, o foram
esperar á entrada d'ella, em corpo de Gamara, o
Juiz de fora Carlos Pery de Linde, os vereadores
Luiz Barreto Zagallo de Seixas, Rodrigo Toscano
de Valladares, e João Galvão de Oliveira, o escri-
vão da Gamara José Monteiro de IVlattos, e o pro-
curador da cidade Francisco Madeira de Sousa,
lodos a cavallo, vestidos de capa e volta com ves-
tias e bandas de ouro, chapeos guarnecidos de plu-
mas, e varas douradas ; e os dois procuradores do
povo José Nunes, e António José Gallado, com
José da Gosta, seu escrivão, todos também de ca-
pa e volta com vestias» e bandas de seda com ra-
mos de ouro, e chapéos agaloados e emplumados,
com varas vermelhas e a cavallo. Todos se apea-
ram começando a apparecer a comitiva real, na
qual se observava esta ordem.
i.° os trombeteiros e atabaleiros de S. Mages-
tade :
2.° os ministros .,d'esta comarca, o corregedor
Dionísio Esteves Negrão com vestido de velludo
lavrado, vestias e bandas de tela de prata, e cha-
peo bem guarnecido; o provedor António de Pai-
va e Pona com vestido correspondente á sua ida-
de; e o Juiz de fora dos órfãos Francisco Nunes
da Roza com vestido de velludo, vestia e banda
de tela d'ouro.
3.° o meirinho da corte e todos os mais officiaes
de justiça d'esta cidade, todos a cavallo, com as
varas alçadas.
4.° o desembargador José Vaz de Carvalho, cor-
regedor do crime da Corte e Casa^ em um coche.
5° todos os senhores titulares do reino cada um
em seu coche com cavallos á dextra, magnifica-
mente ajaezados, e os creados com librés guarne-
cidas de ouro ou prata.
6.° grande numero de excellentes cavallos d^el-
rei, príncipe e infantes, todos com riquíssimas sel-
las, custosos jaezes, magnificos telizes, levados á
dextra por outros criados de libré real também a
cavallo, e a dila libré se mudou n'esta funcção da
antiga, que era verde mesclada com passamanes
verdes e brancos, em panno encarnado, nas casa-
cas cobertas de galões d'ouro, e os canhões e ves-
tes de panno azul guarnecidos de galões de prata.
7.° todos os camaristas ou gentis homens da ca-
mará d'el-rei, príncipe e infantes, em coches da
casa real.
8.° o duque de Cadaval D. Jayme, como estri-
beiro mor de S. Magestade.
9.° O secretario de Estado, Diogo de Mendonça
Corte Real.
io.° El-rei em um coche com o príncipe do
Brazil, e o infante D. António seu irmão, rodeado
da sua guarda de archeiros montados a cavallo,
com o seu capitão de guarda o conde da Ribeira.
Junto á porta mandou el-rei deter o coche, e
deu logar a que o Juiz de fora lhe fizesse a se-
guinte oração em nome da cidade :
8
— Muito alto e muito poderoso Rei e senhor
nosso!
Perturbada com o respeito c veneração que in-
flue a real e augusta pessoa de V. xMagestade, e
com o alvoroço que lhe causa a incomparável for-
tuna de se ver na presença de um tão excellente
monarcha, não acha hoje esta cidade palavras para
fazer as expressões proporcionadas ao seu gosto e
contentamento, maior e mais excessivo ainda que
quanto poderá prometter-lhe a sua esperança.
E devendo eu fallar em seu nome necessaria-
mente me havia de ver na mesma perturbação, se
me não alentara a publica autoridade do meu mi-
nistério, devendo á grandeza de V. Magestade os
espíritos que me animam para desempenho de tão
diííicultosa obrigação; e assim em nome d'esta ci-
dade e de seus moradores offereço com reverente
culto o sacrifício de todos os nossos corações, nos
quaes recebemos a V. Magestade com o maior
amor, e com o mais sublime gosto que pôde con-
siderar a idéa e proferir o encarecimento.
Com esta fortuna se esquecerão das antigas fe-
licidades de seus antepassados, e só lhes ficará a
lembrança da gloria presente ; já não celebrarão
os triumphos de Sertório, nem o esforço de Geral-
do, que parece estava presentindo a felicidade da
grande obra que V. Magestade vai aperfeiçoar,
quando com arte igual ao seu valor arrancou
das mãos dos bárbaros esta grande cidade, e a
pôz aos reaes pés do Ínclito heroe primeiro rei da
monarchia; e até se lhes alliviarão as saudades da
continuada assistência que n'ella fizeram os senho-
res reis progenitores de V. Magestade. A estas glo-
rias todas excede a da fortuna de ver e receber na
real pessoa de V. Magestade um rei mais sábio,
mais forte, mais prudente, mais pio, e por todos
os titulos mais glorioso que todos os heroes dos
séculos passados; um rei feliz no real consorcio e
na prole, destinado pela providencia para generoso
tronco dos príncipes de Hespanha, e dos portu-
guezes que hão de subjugar e dominar o mundo
todo ao seu império. Estas, senhor, são as prero-
gativas que hão de fazer esclarecida nos séculos
futuros a gloriosa memoria de V. Magestade, c
esta c a gloria que hoje nos enche de alegria nos
corações, que oíferecemos por victimas a V. Ma-
gestade, que com os mais ardentes votos deseja-
mos que viva por annos dilatados para a admira-
ção de todo o mundo, e gloria immortal da nação
portugueza.
Viva! Viva ! »
E acabada e agradecida por Sua Magestade a
dita oração cheg(Ui o vereador mais velho, Luiz
Barreto Zagallo de Seixas, a oíferecer-lhe em uma
salva de prata sobredourada as chaves da cidade
(douradas também) presas em uma riquíssima fita
de tela encarnada em nome do senado. Sua Ma-
gestade poz n'ellas a mão em signal de que as
aceitava, e logo a cidade saudou a el-rei com uma
salva real de artilheria, e os sinos de todas as pa-
rochias e conventos começaram a festejar com in-
cansáveis repiques o honrar Sua Magestade esta
cidade com sua real presença.
Continuou el-rei a marcha; immediatamente o
seguiu montando a cavallo o senado da Gamara,
levando o estandarte com as armas da cidade o
alferes d'clla Gregório Pestana de Pina, e todos os
officiaes da Gamara as varas alçadas. Seguiu-se
a guarda real de cavallo de S. Magestade e logo
uma innumeravel quantidade de seges de campo
com os confessores, médicos, moços da guarda
roupa, moços da camará, criados particulares e
porteiros da canna. Depois vinh>im a cavallo em
grande numero reposteiros, moços de monte, e da
IO
estribeira: e ultimamente iim regimento de infan-
teria, e outro de cavallai'ia, que tinham saído a
esperar Sua Magestade ao sítio chamado da Cruz
da picada, que fica distante pouco menos de um
quarto de legoa da cidade. Haviam-se metido tam-
bém no acompanhamento quatro capitulares da
cathedral d'esta cidade, a saber, o deão José Cor-
reia de Azeredo Corte Real, o chantre Luiz de Sá
e Silva, e os cónegos Sebastião de Mira Coelho,
e Ignacio Francisco de Castro, cada um em sua
carruagem, osquaes por ordem do cabido, sede va-
cante, tinham ido esperar Sua iMagestade ao prin-
cipio d'este arcebispado, que fica d'aquella parte
1 1 léguas de distancia, a dar-lhe as boas vindas,
e ofFerecer-lhe o governo das mesas capitulares,
cujo cumprimento Sua Magestade ouviu fazendo
parar o coche em que vinha.
Fez Sua Magestade o trajecto, sempre com vi-
vas e acclamações do povo, pela rua d'AlconcheI,
praça, rua da Scllaria, na boca da qual tinham os
ourives do ouro e da prata erigido um arco de
triumpho com muitas figuras, e com os disticos e
emblemas seguintes :
Emblema 1."
Uma águia coroada no ninho, e voando d'elle ou-
tra águia mais pequena, também coroada, com a
letra :
Non absque corona
Ire aquilae datur
Emblema 2."
Sobre uma mesa, junto da qual estava um ho-
mem, se divisava uma pérola dentro da concha,
e ao longe o mar, com a letra :
Ditat
Cum procul á pátria.
1 1
Emblema 3."
Os dois escudos de Portugal e Castella enlaça-
dos um com o outro, e a letra :
Sociata tuentur
Et terrent
Emblema 4;'
Uma serpente mordendo a cauda em circulo
perfeito, e a letra :
Prudentia alterna
Emblema 5."
Uma águia e um leão, e entre elles uma coroa
e na tarja esta letra :
Debetur utrique.
Emblema 6/'
O sol pondo-se no occaso, c a letra :
In altera regna.
Na entrada da rua que vulgarmente se chama
rua Ancha erigiram os mercadores um arco, o qual
era de vistosa fabrica, composta de vinte colum-
nas e duas faces, em que se admirava o primor
da arte pelas ricas telas de que se adornava, e
com as tarjas seguintes :
Emblema V
Uma arvore com varias coroas nos ramos, e um
lavrador esgalhando um dos ramos, que também
tinha coroa, e a letra seguinte :
12
VellitLir, ut similis frondescaí
consita iMatri
Emblema 2."
As figuras de Lusitânia e Hespanha armadas, e
no meio d'ellas a figura do Amor lirando-Ihe das
mãos as armas, e a letra :
Non ultra scevire datum.
Emblema 3."
Uma náo á vella no meio do mar com as qui-
nas portuguezas e por divisa na bandeira :
Mutat regna ut commercia jungat.
Emblema 4.°
A cerva de Viriato (!) inspirando-lhe á orelha:
Intus ulit (!) (alit?)
3.° arco se erigiu na rua da Lagoa pelos offi-
ciaes que comprehendem as bandeiras de S. José
e S. Jorge, e se compunha de 24 columnas da or-
dem dórica e corinthia, com pilares e cimalhas de
airosa e elegante esculptura, todo de madeira, mas
dissimulada com o artificio da pintura, que pare-
cia dos mais primorosos mármores.
Emblema 1."
Uma águia arrebatando pelo ar a Ganimedes:
Suprema, ut teneat fastigia.
~ i3
Emblema 2.°
Uma romeira, e nos ramos uma unlca romã :
Única, sed coronata.
Emblema 3.°
Uma fonte, e no mais alto formava com a mes-
ma agua uma coroa :
Dum deferor, eferor ad coronam.
Emblema L°
O Zodiaco com os seus signos, e o sol no peito
do signo de Leo, e uma águia coroada que estava
fora do zodiaco olhando para o sol :
Regina probabor.
Emblema 5.°
O leão de Hespanha, e a serpente de Portugal,
no campo:
Temperat, ut regit.
Emblema V
A arca de Noé, e saindo d'ella a pomba:
Pacem, egressa fert.
Todas as ruas, praças, casas dos magistrados
estavam bem armadas com excellentes cortinados
de tapeçarias.
Chegando el-rei ao primeiro degráo da egreja
H
cathedral achou no adro todos os religiosos dos
conventos da cidade, e o cabido com um pallio
muito rico. Ajoelhou Sua Magestade com o prin-
cipe e o infante D. António em umas ahnofadas
que estavam sobre uma alcatifa, para adorar e bei-
jar a Santa Cruz; e logo foi debaixo do pallio até
á capella mór onde se cantou o Te-Deum. D'ali
passou a fazer oração na capella do Santíssimo
Sacramento, e depois á de Nossa Senhora do An-
jo, e logo se recolheu ao palácio archiepiscopal a
pé, por ter a porta mistica com a da cathedral,
acompanhado dos ministros, officiaes da Gama-
ra, cabido, religiões e toda a sua corte.
Na manhã seguinte, 1 1 de janeiro, foi o senado
ao paço, e na sua comitiva os procuradores do
povo, beijar a mão a Sua Magestade, príncipe, e
infantes D. António e D. Francisco, que também
tinha chegado de Lisboa, e o mesmo fizeram o ca-
bido, o tribunal do Santo Officio, prelados das re-
ligiões, e muitas pessoas particulares. N'esta tarde
e na manhã seguinte viram Suas Magestades e Al-
tezas vários conventos e edifícios da cidade.
Com o aviso de que a rainha chegaria a esta
cidade na tarde do dia 12, sahiu el-rei, com o prín-
cipe e infantes, do paço, seriam pouco mais de 5
horas da tarde, a esperar pouco distante da Cruz
da picada, e assim que se avistaram passou a rai-
nha e princeza das Astúrias do coche em que vi-
nha a rainha par.x o em que estava el-rei. Foram
infinitos os vivas e acclamações do povo que ali
tinha concorrido que era inumerável, dispararam
as artilherias, soaram os repiques, e continuou-se
a marcha para a porta de Alconchel onde se tinha
fabricado um arco de magnifica arquitectura e cus-
tosa armação. Achava-se junto a elle o senado com
os procuradores do povo, e o seu alferes com a
bandeira da cidade, com um riquíssimo pallio de
i5
brocado de flores e ramos de ouro, com preciosas
franjas e oito varas douradas para servir no caso
que quizessem as Alagestades usar d'elle como
os reis antigos costumavam fazer quando vinham
a esta cidade, porem não quizeram praticar este
estylo Suas Magcstades, e fizeram sua entrada em
um coche, e parando elle junto ao logar aonde es-
lava o senado, o juiz de fora, que estava com ou-
tro vestido magnifico todo de tissu d'ouro com
capa e voha, e no chapéo uma grande plumagem
branca levantada, a que n'estc tempo, com voz
franccza, chamam cocard, fez em nome da cidade
á rainha a seguinte oração:
— xMuito alta, muito poderosa, e augustissima
rainha, senhora nossa! Chegou o alegre dia em que
esta cidade, antigo domicilio dos monarchas por-
tuguczes, havia de ter o complemento de sua glo-
ria com a incomparável fortuna de receber a real
pessoa de V. M. A grande vantagem com que V.
M. excede as rainhas que lhe precederam no thro-
no, é a medida porque hoje cresce até o maior au-
ge a nossa gloria. Em V. M. se admiram unidas
todas as virtudes que divididas pelos outros prin-
cipes os fizeram famosos e esclarecidos não só
em Portugal, mas no mundo todo. A devoção e
piedade para com Deus, a misericórdia e liberalida-
de para com os pobres: o amor e beneficência para
com os vassallos; a prudência, a fortaleza, e todas
as mais virtudes resplandecem com tanto excesso
em V. M. como se em cada uma d'ellas se empre-
gasse somente o seu pio e religioso animo. A estas
virtudes com que V. Al. attrahiu egualmente o
amor e admiração de todos os seus vassallos, se
ajuntam as grandes felicidades que communicou
a este reino na multiplicada successão que deu ao
nosso augusto monarcha. E como se fosse Portu-
gal pequena esfera para os seus influxos, os com-
i6
municou também aos reinos de Hespanha com a
sereníssima princeza das Astúrias, primogénita imi-
tadora das virtudes de mãe tão heroina, que a deu
á luz para occupar o throno d'aquella monarchia,
e agora vae conduzindo para o feliz consorcio de
seu real esposo. Estas, senhora, são as excellen-
cias que fizeram a V. M. singular entre as maio-
res rainhas do mundo, e esta é a causa de crescer
excessivamente a gloria d'esta cidade, tendo a ven-
tura de receber uma tão famosa rainha destinada
por Deus para instrumento da felicidade de tantos
reinos. Em justo reconhecimento de tantas dividas
e tanta gloria que V. M. lhes communica lhe oífe-
recem a nobreza e povo d'esta cidade os seus co-
rações, e os seus ânimos, que por excessivos se
não podem explicar cabalmente com vozes; n'elles
promettemos a V. M. a mais fiel e voluntária obe-
diência, e para que esta seja mais perdurável e
mais continuada a nossa fortuna, desejamos a V.
M. a mais dilatada vida. Viva, viva! —
Agradeceu a rainha com especialidade as es-
pressões d'esta pratica, e com demonstrações de
benevolência ; e logo o vereador mais velho oíFere-
ceu as chaves á mesma senhora na mesma forma
e com o mesmo cumprimento que tinha feito a
el-rei ; e feita a cerimonia de pegar n'ellas se con-
tinuou a marcha pelo mesmo modo, e pelas pró-
prias ruas por onde el-rei passou no dia da sua
entrada; mas por ser de noite estavam as ruas não
só armadas e alcatifadas de espadanas, mas guar-
necidas de luminárias. Chegando á cathedral se
praticaram com a rainha as ceremonias que se ti-
nham observado com el-rei, e depois de se cantar
o Te-Deum se recolheram todos para o paço ; on-
de no dia seguinte pela manhã foi o senado com
os procuradores do povo, e tiveram a honra de
beijar a mão á rainha e princeza ; o que também
J7_
fez o cabido, o Tribunal do Santo Officio, prela-
dos das religiões e outras pessoas particulares.
A 14 pelas 3 horas da madrugada fez el-rei via-
gem para Villa Viçosa com o principe e infantes :
foi ouvir missa á igreja do Espinheiro dos religio-
sos de S. Jeronymo, até onde o acompanhou o
juiz de fora d'esta cidade, e d'ali permittindo-lhe
que lhe beijasse a mão, e ao principe, se recolheu.
De tarde assistiu com o senado na porta de Al-
conchel onde esperou ao patriarcha de Lisboa,
com quem se praticaram as mesmas cerimonias,
que com el-rei, por assim o haver ordenado o mes-
mo senhor por carta do secretario de Estado es-
cripta á Gamara. Aquartelou-se no collegio dos
Padres da Companhia.
No dia I 5 pelas 4 da madrugada sahiram d'es-
ta cidade a rainha e princeza, e até ao Espinheiro,
onde ouviram missa, as acompanhou o juiz de
fora, por não quererem consentir que passasse
adiante, e beijando-lhes a mão e voltando á cida-
de, foi n'essa mesma manhã com o senado em
corpo de camará visitar e beijar a mão ao patriar-
cha, que mandando-os entrar e assentar na pró-
pria camará em que assistia, lhes agradeceu a
muita attenção que tinham á sua pessoa; e como
partio no dia seguinte para Villa Viçosa, o foram
acompanhando o mesmo juiz, senado e procura-
dores do povo a cava lio, na mesma forma que fi-
zeram a el-rei, porcMii a pouca distancia requereu
que se recolhessem, o que fizeram.
Em 3 1 de janeiro voltou a esta cidade o mesmo
patriarcha pela porta da Lagoa e ali o esperavam
o juiz de fora, o senado e procuradores do povo,
apeando-se tanto que avistaram a sua comitiva,
fazendo o juiz de fora uma oração em nome da
cidade, e oíFerecendo-lhe o Vereador mais velho
as chaves d'ella e o seu governo politico, tudo
i8
com a mesma solemnidade que se observa com
el-rei. O patriarcha lhes rendeu as graças por es-
tas atlenções que a cidade com elle usava, e con-
tinuando a sua marcha se allojou no collegio da
Companhia, achando por todo o caminho as ruas
armadas e cobertas de espadanas, indo diante o
seu acompanhamento, e o corregedor, provedor,
juiz de fora, senado, etc. até o deixarem no seu
alojamento.
No dia seguinte i .° de fevereiro entraram incó-
gnitos n'esta cidade el-rei, o príncipe do Brazil,
os infantes D. Pedro, D. Francisco e D. António,
em um coche pela porta d'Aviz, seguido em outro
coche pelo duque D. Jayme, e pelo marquez de
Alegrete, que era o gentil homem da Gamara que
estava de semana, havendo corrido a posta desde
Estremoz.
Entraram no paço sem serem esperados n'aquel-
la hora, e pouco depois passaram para o coro da
egreja cathedral, aonde se cantavam as vésperas
da festa da Purificação. Voltando ao paço foram
ver as casas dos antigos marquezes de Ferreira,
que eram do duque D. Jayme, estribeiro mór, e
ali estiveram até vir a noticia de virem chegando
á cidade a rainha e a princeza do Brazil; partiram
a esperal-a ao chafariz dos Leões, onde se tinham
mandado ajuntar todos os cavalheiros da corte
com as suas magnificas carruagens e librés. Em
se encontrando sahiu a rainha e a princeza do co-
che em que vinham e se metteram no d'el-rei, no
qual continuaram todos a marcha para a porta da
Lagoa com esta ordem :
I ° O corregedor, provedor, juizes de fora.
2.° O meirinho da corte e ofíiciaes de justiça
da cidade.
3.° O desembargador José Vaz de Carvalho,
corregedor do crime da corte e casa, no seu coche.
4." Os trombeteiros e atabaleiros d'el-rei.
5.° Os coches de todos os títulos em que elles
iam, levando aos lados criados a cavallo com ou-
tros das suas pessoas á dextra com selias e telises
magnificos.
6.° Os cavallos d'estado d'el-rei e infantes, leva-
dos á dextra por creados da libré de Sua Magcs-
tade montados em outros.
q!" Os coches de estado.
8.° Os gentis homens da Gamara, e officiaes das
casas reaes em coches das mesmas casas.
9.° O duque D. Jayme, estribeiro mór em coche
d'el-rei.
io.° O coche de SS. MM. e AA.
1 i." Grande numero de seges de campo com os
confessores, médicos, moços da guarda roupa e da
camará, criados particulares e porteiros.
12.* Um grandissimo numero de reposteiros,
moços da estribeira e do monte.
A guarda dos archeiros, a cavallo. cercava o
coche das pessoas reaes.
Na porta da Lagoa havia um arco de triumpho,
de 12 columnas, magnificamente armado de sedas
e riquíssimos lóos, com emblemas e divisas allu-
sivas ao assumpto.
Junto do arco estava o senado da cidade e o
juiz de fora que n'este dia se apresentou com ves-
tido mais rico ainda que os outros dos dias ante-
cedentes, todo de lissu de ouro. Ahi fez uma ele-
gante oração que terminou com os vivas do cos-
tume.
As Magestades agradeceram ; o vereador mais
velho offereceu as chaves da cidade á princeza.
Estava logo á entrada da cidade contrafeito um
formoso jardim com muitas arvores, figuras, fon-
tes, penhascos, com vários emblemas e outras cu-
riosidades.
20
Toda a rua estava armada com excellentes cor-
tinados, colchas e tapeçarias. Junto ao adro de S.
Domingos outro arco com 24 columnas, com seus
frisos e architraves, sobre que assentava uma ga-
lei'ia de varandas, tudo fingindo admiravelmente
pedra com muitas figuras, rematando no escudo
real.
A fonte da Porta Nova estava ornada de mui-
tas figuras e ramalhetes, e sobre um globo a esta-
tua de Sertório, com os vestidos estofados de ou-
ro. Toda esta rua e a rua Ancha guarnecidas de
cortinados e tapeçarias nas janellas e portas.
Outro arco na boca da rua Ancha para a praça,
formado de columnas, com sedas lavradas a ouro,
e prata. Toda a praça estava adornada de tapeça-
rias e alfayas ricas, especialmente a casa do Ma-
gistrado. Na fonte pozeram muitas figuras de se-
reias e tritões, e pelas bordas do tanque craveiros
de grande variedade de galanterias.
No meio da praça formou-se uma representação
da torre de Belém com suas peças d'artilheria pe-
quenas, que salvaram na passagem de SS. MM.
Outro arco á entrada da rua da Sellaria, de co-
lumnas e estatuas, rematando em coroa real.
No adro da sé esperavam as MM. e AA., de
cruz alçada, todas as communidades religiosas da
cidade, e o cabido com um pallio riquíssimo.
A familia real, precedida de todas as religiões
em procissão entoando o Te-Deiim^ entrou na ca-
thedral, que estava toda custosissimamente ador-
nada por armadores que o cabido mandou vir de
Lisboa, com as melhores telas e ornamentos que
poderam obter na corte. Fizeram oração na ca-
pella mór, depois na do Santíssimo, e ultimamen-
te na da Senhora do Anjo, donde foram para o
Paço.
O juiz de fora, e o senado foram logo ao Paço,
21
levando as suas varas douradas : e os procurado-
res do povo e seu escrivão com as vermelhas.
No dia 2 de fevereiro, festa da Purificação de
Nossa Senhora, depois que os cónegos fizeram os
seus oííicios da igreja cathedral, entrou o patriar-
cha com os cónegos e clérigos da santa igreja pa-
triarchal de Lisboa, a fazer a benção da cera
com todas as solemnidades e requisitos que dis-
põe o ceremonial romano, na presença de SS.
MM. e A A., e esta funcção se executou com ex-
traordinária pompa e luzimento. Distribuiu-se cera
por toda a nobreza da côrle e da cidade, cama-
rá, pessoal da sé, e como sobejassem ainda 20 ar-
robas de velas as mandou el-rei repartir pelos al-
tares da cathedral. Terminada a distribuição o pa-
triarcha celebrou pontifical, que acabou ás 2 da
tarde, assistindo toda a familia real, a corte, se-
nado, muitos sacerdotes e innumeravel povo.
No dia seguinte, 3 de fevereiro, sahiu o pa-
triarcha pelas 8 da manhã para Montemor o
novo.
O senado da camará mandou 'nesse mesmo dia
um presente á princeza do Brazil. Constava de
24 vitellas todas enfeitadas, 24 cargas de perus,
gallinhas, capões, leitões, pombos, perdizes, e ou-
tras caças, levadas por trinta homens vestidos de
jaquetas encarnadas e verdes, e 24 meninas bem
vestidas com caixas de excellentes doces fabrica-
dos de tal forma que pareciam as mesmas frutas
de que se fizeram. Foi tudo guiado pelo procura-
dor da camará montado a cavallo com a sua vara
dourada, e apeando-se junto ao paço subiu á pri-
meira casa do docel, e deu o recado que levava
ao mordomo mór da rainha ; esta mandou ir á sua
presença as 24 meninas e lhes fez dar a cada uma
uma peça de 6^4.00 réis.
Nos dias em que SS. MM. se detiveram aqui
22
andaram vendo rtiosteiros e cousas mais notáveis
da cidade e arredores. El-rei partiu em 9 de feve-
reiro para Montemor.
N' esta cidade fez el-rei mercê de conde d' Alva a
D. João Diogo de Alhayde, que era na occasião e
continuou a ser general das armas d'esta provinda.
Nomeou gentis homens da sua camará o mar-
quez de Alegrete, Manuel Telles da Silva, o mar-
quez de Cascaes D. Manuel José de Castro, o
marquez de Fontes Joaquim Francisco de Sá e
Menezes, e o conde de Assumar D. João d'Almei-
da.
Também fez a mercê ao Corregedor d'esta co-
marca Dionisio Esteves Negrão, ao provedor An-
tónio de Paiva e Pona, de beca honorária, e ao
juiz de fora Carlos Pery de Linde de uma correi-
ção ordinária e do habito de Christo; outra cor-
reição ordinária ao juiz de fora dos orphãos Fran-
cisco Nunes da Rosa.
A universidade d'esta cidade concedeu o privi-
legio de ter mais duas cadeiras para cânones e di-
reito civil. Deu iníinitas esmolas a mosteiros de
frades e freiras, a muitas igrejas, e a grande nu-
mero de pessoas na cidade e no campo.
Mandou soltar os presos por dividas, pagando
o thesoureiro da jornada aos credores ; e os cri-
minosos não comprehendidos nas exclusões do seu
decreto, para o que se fez uma junta na secretaria
do Estado.
A rainha com a princcza sahiu pouco depois
d'el-rei, ouvindo primeiro missa na egreja dos
Lóios.
Emquanto as magestades estiveram em Évora
houve luminárias todas as noites, nos conventos e
casas da cidade. Quando chegou a princeza do
Brazil e nas duas noites seguintes houve fogo d'ar-
tiíicio.
23
Toda a gente d'Evora fez despezas extraordiná-
rias; a nobreza fez vestidos de grande custo; a to-
dos excedeu o juiz de fora que fez quatro vestidos
qual mais rico, e uma libré rica, côr de canella,
aos 4 lacaios, agaloada de prata com plumas bran-
cas nos chapéos, sendo magníficos os chareis e
jaezes dos seus cavallos.
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS EBOHKNSES
Eslíio publicados :
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana, 1." p. O templo romano. As inscripçóes lapidares. — 3."
A Casa pia. O edihcio do collegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S.
Bento.- — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — q."
Idem, 2.» parte.— 10." Brasão d'Evora. — 11." A egreja de San-
to Antão. — 12." O archivo municipal. — iS." A restauração em
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri-
córdia d'Evora, i." parte. — i5." Idem, 2.' parte. — i6.° Idem,
3.^ parte. — 17." Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora.
i." parte. — iq." Idem, 2.^ parte. — 20.° Idem, 3." parte. — 21."
Idem, 4." parte. — 22.° Os Festejos de Évora em 1729.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
DOCIM[NTOS HISIOBICOS D* WM CÍVORi
Estão publicados :
i." parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. Xll e Xlli. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i." — 2."
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da caihedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Évora.
A' verída em Lisboa na livraria Bertrand.
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR '
Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de .'\nder-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella.
Livro 3." da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
ESTUDOS EBORENSES
V
JilSTOP^IA-^P^TE-y^P^HEOLOGIA
ÉVORA
NOS
LLJSIADAS
®^
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSl'; BAPTISTA, IMPUESSOR DA CASA REAL
Rua Ancha n." 85
l8qo
GABRIEL PEREIRA
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ÉVORA
MINERVA EBORENSE
bK. JOAi'iI IM JOSK BAPTISTA, IMCUliSSOK DA CASA RiiAf.
Rua d'Aviz n." q3
1890
ESTUDOS EBORENSES
ÉVORA
IsTOS LXJSIA.r)A.S
CANTO TERCEIRO
LXII
E vós também, ó terras Transtaganas,
Aftamadas co'o dom da flava Ceres,
Obedeceis ás forças mais que humanas,
Kntregando-lhe os muros e os poderes.
E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
Se sustentar a fértil terra queres;
Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
E Alcaçare do Sal estam rendidas.
LXIII
Eis a nobre Cidade, certo assento,
Do rebelde Sertório antigamente,
Onde ora as aguas nitidas de argento
^'em sostentar de longo a terra, e a gente
Pelos arcos reaes, que cento e cento,
Nos ares se alevantam nobremente;
Obedeceo, por meio e ousadia
Oe Giraldo, que medos não temia.
4
LXIV
Já na cidade Beja vai tomar
Vingança de Trancoso destruida^
AfTonso, que nam sabe sossegar,
Por estender co'a fama a curta vida ;
Nam se lhe pode muito sostentar
A cidade; mas sendo já rendida,
Em toda a cousa viva a gente yrada
Provando os fios vay da dura espada.
Luiz de Camões descreve a conquista Jo Alem-
lejo aos mouros. Et-rei D. Alfonso Henriques, as-
segurada a posse da margem direita do Tejo pekí
íomada de Santarém e Libboa (i 147), começou as
suas campanhas de conquista no Aíemtejo.
O anno de 11 66 viu assignaiadas victorias dos
christãos ; os mouros perderam Évora pela cele-
bre surpreza de Giraldo sem pavor, e pouco de-
pois o rei, n'uma ousada e rápida campanha, con-
quista Moura, Serpa e Alconchel, Irez praças prin-
cipaes na região a oriente de Évora, dominando
já larga porção do Guadiana.
Alcácer do Saí fora tomada antes, em i r58, re-
tomada depois pelos mouros, e só entrou de vez
no dominio christão em 12 17.
Refére-se Camões também ao aqueducto que
traz á cidade a agua da fonte da Prata, sua ori-
gem, junto á aldeia de Nossa Senhora da Graça
do Divor. E por esta origem se diz a^iia da prata.
Até junto do mosteiro de S. Bento de Castris o
aqueducto segue as encostas salvando as depres-
sões mais fortes em poucos arcos sem importân-
cia : passado o mosteiro salva a larga depressão
do terreno n'uma arcana bem construída, com cer-
ta elegância na sua singeleza.
Antes do monumental aqueducto das aguas li-
vres de Lisboa era o d'Evora considerado o pri-
meiro de Portugal. Construido no remado de D.
João III era em tempo de Camões obra muito fal-
lada pelii sua importância, pelas questões de eru-
ditos que motivara, e ainda pelas artisticas orna-
mentações que cm pontos o realçavam, algumas
das quaes ainda subsistem.
LXXV
Porque levasse ovante seu desejo,
Ao forte filho manda o lasso velho,
(^ue ás terras se passe d'Alemtejo,
Com gente, e co'o belligero aparelho :
Sancho, d'esforço e d'animo sobejo,
Avante passa, e hz correr vermelíio
O rio c]ue Sevilha vay regando
Co'o sangue mauro, bárbaro e nefando.
LXXVI
E com esta victoria cobiçoso
Já nam descança o moço atá que veja
Outro estrago como este, temeroso
No bárbaro que tem cercado Beja.
Nam tarda muito o príncipe ditoso,
Sem ver o fim d'aquillo que deseja,
Assi estragado o Mouro, na vingança
De tantas perdas põem sua esperança.
E' a expedição feita por D. Sancho cm i 178-
1 179, ainda em vida do pae, a fim de evitar refor-
ços e auxilies aos mouriscos do sul do Alemtejo, o
que se conseguiu, ficando estes isolados e derrota-
dos. Os mouros chegaram a ter Beja cercada. O
exercito portuguez chegou a Sevilha, os mouros
tiveram de concentrar ahi rapidamente todas as
suas forças, e assim ficou isolado o exercito sarra-
ceno que estava sobre Beja, sendo derrotado.
LXXXV
Sancho forte mancebo, que ficara
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já se experimentara
Quando o Bctis de sangue se tingia,
E o bárbaro poder desbaratara
Do Ismaelita Rei de Andaluzia,
E mais quando os que Beja em vão cercaram
Os golpes de seu braço em si provaram.
GVII
Mas já co'os esquadrões da gente armada
Os Eborenses campos vão qiialhados,
Lustra co'o sol o arnez, a lança, a espada ;
Vam rinchando os cavaílos jaezados;
A canora trombeta embandeirada,
Os corações á paz acostumados,
Vay ás fulgentes armas incitando
Peias concavidades retumbando.
Começa Luiz de Camões a descrever a famosa
batalha do Salado. Reunem-se nos campos de Évo-
ra as tropas com que Affonso IV vai partir para
Tarifa em soccorro do genro Aífonso de Castella,
expedição terminada gloriosamente para os chris-
tãos (outubro de 1340).
Temos em Évora recordações históricas das
mais notáveis da victoria do Salado : a grande e
significativa inscripção descriptiva da batalha e
eommemorativa dos peões e cavalleiros eborenses
que ahi seguiram o santo leuho^ singular lettreiro
que se acha na divisória entre a capella doSantissi-
mo e a capella mór da Sé.
Existem ainda e bem conservadas as portas e
lados do armário ou tryptico que antigamente, jul-
go eu. guardava a celebre reliquia ; são quadros
em madeira, singulares e muito estimáveis na his-
toria da arte, evidentemente allusivos á partida e
á volta de Aífonso IV a Évora, commemorando
especialmente o voto do rei. No quadro que re-
presenta a volta á cidade, depois do Salado, appa-
rece entre os homens d'armas o príncipe mouro
que o rei acceitou.
Estes quadros estiveram nos últimos tempos na
vestiaria ; mal coUocados e sem cuidados. Recen-
temente o rev.**" cónego Alfredo César d'01iveira
mandou fazer-lhes molduras apropriadas e coUo-
cal-os em sitio mais conveniente.
A inscripçáo é um notabilissimo documento da
cidade de Évora, e essas taboas pintadas são ven-
deiras singularidades na arte portugueza, pela sua
execução, pelas suas caracteristicas, pelo facto his-
tórico a que alludem, e por ser bem raro encon-
trar no século XVI assumptos tratados na pintura
fora dos religiosos.
A fundação da antiga confraria da Victoria
também se liga ao Salado; todavia a capella exis-
tente na egreja de S. Vicente é muito mais mo-
derna.
E o próprio santo leuho^ a anliga veneração que
o rodeia, e o logar principal que sempre tem con-
servado entre as reliquias da sé, encontram o seu
motivo n'aquella famosa victoria.
CANTO QUARTO
III
Ser isto ordenaçam dos Ceos divina
Por sinais muito claros se mostrou,
Quando em Kvora a voz de hua minina,
Ante tempo fallando o nomeou;
E como cousa em fim que o Céo destina,
No berço o corpo, e a voz alevantou,
Portugal. Portugal, alçando a mão,
Disse, pelo Rei novo. Dom João.
IV
Akeradas entam do Reino as gentes
Co'o ódio que occupado os peitos tinha,
Absolutas cruezas e evidentes
Faz do povo o furor por onde vinha,
Matando vão amigos e parentes
Do adultero conde, e da Rainha,
Com quem sua incontinência desonesta
Mais (despois de viuva) manifesta.
Camões escreve da acclamação do mestre de
Aviz, do enthusiasmo popular que não leve limi-
8
tes no arrojo e na phantasia. O pov^o que fez Al-
jubarrota acreditava que uaia menina de berço
acclamára o rei nopo. Km Évora o partido popu-
lar era exaltado; foram tempos de morte e feroci-
dade que em Fernão Lopes tiveram sincero chro-
nista ; são admiráveis esses capitulos em que eile
nos descreve os casos eborenses, a prisão do mes-
tre, o arranco popular, a brava sanha contra os
partidários de Leonor Telles, a tomada do castello,
a selvageria dos bandos na morte da abadessa de
S. Bento.
D. João reconheceu depois os serviços dos ebo-
renses, e agradeceu com privilégios especiaes ao
povo meiído^ aos meiídos^ aos mesteiraes e bracei-
ros, em singulares documentos que chegaram até
nossos dias.
XXIV
Dom Nuno Alvarez digo, verdadeiro
Açoute de soberbos castelhanos,
Gomo já o forte Huno o foy primeiro
Pêra Franceses, pêra Italianos,
Outro também famoso cavalleiro.
Que a ala dereita tem dos Lusitanos,
Apto pêra mandatos, e regelos,
Mem Rodriguez se diz de Vasconcellos.
Nun' Alvares, e Mem Rodrigues de Vasconcel-
los, dois herocs d'Aljubarrota, tem relações ebo-
renses.
Muitas das emprezas militares do condestavel
partiram de Évora ; alem d'isto era aqui proprie-
tário e tinha casa c creadagem como se prova por
documentos.
Mem Rodrigues de Vasconcellos tem a sua cam-
pa, com brazão e espada de cavalleiro, na egreja
de S. Francisco.
xxvm
Deo signíil a trombeta Castelhana
Horrendo, fero, ingente, e temeroso,
Ouvio-o o monte Artabro, e Guadiana,
Atraz tornou as ondas 1e medroso :
Ouvio o Douro, e a terra Transtagana,
í Jorreo ao mar o Tejo duvidoso ;
K as ntãis, que o som ierri!)il escuitaram
Aos peitos os filhinhos apertaram.
XLV
O vencedor Joanne esteve os dias
Costumados no campo, em grande gloria ;
Com offertas despois, e romarias
As graças deu a quem lhe deu victoria :
Mas Nuno, que nam quer por outras vias,
Entre as gentes deixar de si memoria,
Senam por armas senpre soberanas.
Pêra as terras se passa Transtaganas.
Lvni
Nam quis ficar nos reinos occioso
O mancebo Joanne, e logo ordena
De ir ajudar o pay ambicioso
Que entam lhe foy ajuda não peqv^ena.
Saio -se em fim do trance perigoso
Com fronte nam torvada, mas serena
Desbaratado o pay sanguinolento :
Mas ficou duvidoso o vencimento.
LIX
l*orque o filho sublime e soberano,
Gentil, forte, animoso cavalleiro,
Nos contrários fazendo imenso dano.
Todo hum dia ficou no campo inteira.
Reféie-se á batalha de Toro. O mancebo Juanne
Q O príncipe D. João, depois el-rei D. Joã'> II.
(ioni o príncipe estavam muitos eborenses; -/cofii
as arotas no lombo e a lança nas mãos, gastundo
4?ossas fa/.endas, e poendo as pessoas a risco p<n'
IO
vosso serviço, que se Vossa Senhoria esgaardar
achará que da dita cidade morreram na batalha
desaseie por vosso serviço» dizem os procura-
dores de Évora em seus capilulos de cortes de
1476.
São muito interessantes lambem os documentos
de João II dirigidos á cidade a respeito d'esta ba-
talha; a descripção do combate, o regimento da
procissão, etc.
CANTO OITAVO
II
Este que vês he Luso. donde a fama
O nosso reino f-usitania chama.
III
Parece vindo ter ao ninho Hispano
Seguindo as armas que contino usou
Do Douro, Guadiana o campo ufano,
Já dito Elisio, tanto o contentou
Que ali quis dar aos já cansados ossos
Eterna sepultura, e nomfi aos nossos.
-^Sí
XXI
Olha aquelle que dece pela lança
Com as duas cabeças dos vigia-s,
Onde a cilada esconde, com que alcança
\ cidade por manhas e ousadias;
EUa por armas toma a semelhança
Do cavalleiro, que as cabeças frias
Na mão levava, feito nunca feito,
Giraldo sem-pavor he o forte peito.
Paulo da Gama descreve ao Catual as bandei-
ras da armada, e os escudos das cidad<ís; o brasão
eborense ficou descripto no estudo especial intitu-
lado «Brasão d'Evora».
.11
XXXIII
N:i mesma puerra vê que proiíás ganha,
tstoutro capitam de pouca ger^te,
Commcndadoics venct;, e o i^ado apanha,
Que levavam roubado ousadamente ;
Outra vez vé que a lança em sangue banha
Destes, só por livrar com icmor ardente.
O preso amigo, preso por leal,
Pêro Rodrigues he do L.androal.
Pero Roiz, o valente alcaide do castello do Alan-
droal, da ordem de Aviz, bom modelo de ousadia
c de lealdade, era partidário do mestre de Aviz c
teve papel importante na pequena guerra entre por-
iLiguczes e castelhanos que se prolongou por mui-
tos annos. sustentada principalmente pelas ordens
militares. Guerra de castello contra castello, cheia
de \inganças e ódios pessoaes ; de assaltos, de sur-
prezas, de ciladas e embuscadas, por vezes de uma
ferocidade extrema. Duas das façanhas do alcaide
>
do Alandroal ficaram memoráveis.
Um commendador da ordem de Alcântara e ou-
tro da de Calatrava, castelhanos, juntaram bastan-
tes cavalleiros, entraram pelo Alemtejo, devastan-
do e saqueando; principalmente fizeram grande
presa de gado e apressadamente retiravam para
Castella quando Pero Roiz lhes sahiu ao encontro
com pouca gente d'armas, mas de tal sorte lhes deu
que os obrigou a retirar, largando a presa.
Na geral agitação, profunda e dilatada, que do-
minou a gente portugueza depois da morte de D.
Fernando, muitos oscillavam entre os partidos do
mestre e o da rainha. Vasco Porcalho, alcaide de
Villa Viçosa inclinou-se para Castella; o alcaide
do Alandroal era do mestre d'Aviz.
Sabendo da inclinação de Vasco, e receando
que elle entregasse o castello aos hespanhoes, re-
uniu-se com Álvaro Gonçalves, e ambos com seus
12
freires e homens d'armas cahiram sobre Villa Vá
cosa e expulsaram o alcaide.
Hlste foi logo ter com o mestre d^Aviz c tae^
cousas allegou que D. João fez-lhe passar ordena
para voltar ao castello. Vasco Porcatho entra ero
Villa Viçosa, entrega o castello aos hcspanhoes, e
prendeu Álvaro Gonçalves, e sua mulher, roubarí-
do-lhe a casa.
Para maior segurança do preso foi este enviado
para Olivença.
O alcaide do Alandroal soube do acontecido,
reúne alguns homens decididos, corre ao caminho
de Olivença occultando-se quanto possivel, e díi
nos homens de Villa Viçosa que destroça, liber-
tando o seu amigo.
Y^jsõcs latina, hespaoliola, italiana, franceza, ioglCúa
e alleman das oitavas relativas a Évora
CANTO TERCEIRO
LXII
Vos quoque, flaventis Cereris ditissima donis
Trans ditfusa Tagum, Lusorum viribus arva
Cessistis, plusquam mortalibus ; arma ruentum
Sensisiis, clavesque illis, et colla dedistis.
Tuque adeo, tu Maure, solum qui scindis aratro,
Falleris, ereptos dum semina mittis in agros;
Cum Elvae celebres, et Serpa, et Maura colonos.
Subjecta accipiant, et pulchra Salacia lusos.
LXIII
En urbs fama ingens, sibi quam Sertorius olim
Delegit stabilem romana in proelia sedem,
(Nunc ubi per longos se lympha argêntea ductus
Ingerit, atque urbi latices, populisque ministrat. •
Centum arcus, et centum alii, quos regia coelo
Majestas eduxit, aquam inolimine ducunt
xA.ere sublatam immodico), virtute Gyraldi
Intrepidi dat capta manus, fastusque remittit.
LXIV
Cernitur hic meritas Pax Júlia pendere poenas
Trancosii eversi; violento has Marte reposcit
Impiger Alphonsus, qui despicit otia, famae
Gonsulit, aeternumque parat per secula nomen.
Nec potis est durare diu ; expugnata cruentum
Urbs sensit victorem ; animis furit ille, relinquit
Ac nihil intactum ferro; metit improbus ensis
Quidquid in urbe vigens animis sensuque repertum.
14
LXII
Y vosotras oh ! tierras Transtnganas .'
Del don tan ricas de la ruhia Ceres,
J.as ciudades le dais y las cabanas.
Obcdiciendo á más que humanos seres ;
Y tú, Moro cultor, cuánto te en^aiías
Si sustentar el fértil campo quieres I
Ya Moura, y Serpa, y Elvas distinguidas,
Y Alcazar de la feal están rendidas.
LXIII
Ved á la gran Ciudad, seguro asiento
Del rebelde Sertório antiguamente.
De donde rio liquido de argento
Hoy Icjos va a surtir á tierra y gente
Por los arcos de Rey que ciento á ciento
En los aires se elevan nohlemente :
Vedla ceder ai brio y fuerza brava
De Giraldo, que médios no Uevaba.
LXIV
Ya á la ciudad de Beja á imponer grave
Pena va de Trancoso destruidn
Alfonso, á quien reposo no le cabe
Por alargar con fama corta vida;
Y aunque asaz poço resistirlc sabe,
No bien la ciudad triste cae rendida,
En lo que aun vivo está, la gente airad»
Ensangrienta los filos de la espada.
LXII
E voi pur d'01tre-Tago e voi province
Per li doni di Cerere famose,
A quelhi forza ch'ogni forza viuce,-
Mura e campi cedeste ossequiose.
Quanto, o iMauro cultore, error t'avvince,
Se pensi le usurpate ed ubertose
Terre serbar ; ché il Lusitan potere
Giá tien Moura, Eiva e Serpa ed Alcacere.
LXIII
E la nobil cittá, che fu giá prima
Al ribelle Sertório amica sede,
Lá dove limpid'onda alto dalFima
Terra sospesa ancor correr si vede
Entro Talveo, che alFacr si sublima,
E sovra cento e cento archi procede ;
Gesse anch'essa a quel duce ardito e bakiu
Quel che timor non conoscea, Girakli'.
i5
LXIV
Quindi su Beja a venJicar Trancoso
baile maure distrutta empie masnade,
Alfonso va, che non puó aver riposo,
Se non stende sua fama oltre Tetade.
Molio Beja non regge ai valoroso,
E pien d'ira il soldato entra e Tinvade,
l£ in tutto che di vivo in lei si trova
Ka dei fil di sue spade acerba prova.
LXII
Torres Vedras, et vous oh? Terres Transtagancs
Que Cérès favorise et comble de ses dons,
11 vous faut obéir aux forces lusitanes,
Vous lui livrez vos murs, vos fortilications.
Kt toí, laboureur Maur, quelle erreur est la tienne
D'arroser de sueur, de cultiver ton champ,
Elvas, Alcácer, Moura et Serpa Tancienne,
Ont fait leur soumission, ne sont plus á l'Islam,
I.XIII
Et puis tombe Évora, la noble et forte ville
Oú Sertorius rebelle a trouvé vain asile,
Oú coulent dans les airs, sur centaines d'arceau^,
Pour la ville abreuver, de si limpides eaux;
Elle íut soumise aussi par Geraldo sans peur.
LXIV
Aiphonse, qui désire en incessante ardeur,
Prolonger en renom la trop courte existence,
í-ourt ensuite á Beja; il vient tirer vengeance
\)n sac de Trancoso, et de sa destruction.
Beja, bien peu resiste á la vaillante armée,
Mais le Roí furieux malgré leur soumission,
Ordonne qu'on les passe au dur fil de Tépée.
LXII
And ye, ye lands that beyond Tagus lay,
So much for Ceres 'yellow gift re^iowned,
The more than human po\vers did ye obey,
Yielding the walls and the doininions rouríd ;
And peasant Moor ! thou dost thyself betray,
ff thou dost hope to keep the fertile ground;
For Elvas, Moura, Serpa, ali well knoVn,
And Alcácer, have ali been overthrown.
i6
LXIII
The noble city, see, of long ngo,
Rcbel Sertorius 'seat in times gone by,
Where now the sparkling silver waters flov,
From far, both land and pcoplc to supply,
On royal arches, hunJreds in a row,
Which rear themselves in air right glniiously;
'Twas by Giraldo's means and daring soul,
Whom ícar ne'er frightened, humblcd to control.
LXIV
Now to avcnge Trancoso 's cruel end,
Alfonso to take Beja 's city carne ;
To thought of peace his mind he cannot bend,
Wishing to lenglhen out short life by famc,
Not long the city can itself defend;
And it»; last struggles they no sooner tame
Than the íierce ai-my, carrying out the word,
Puts every living creature to tlie sword.
LXII
Und ihr auch in den transtagan 'schen Landcu,
Die ander blonden Ceres Gaben reich.
Ihr liegt vor Uebermenschenkraft in Banden.
Und Mauern gabt und Herrschaft ihr zugleich !
Dir, maur' scher Ackersmann, dir wird zu Sclianrien
Des Landbebauens Wunscli durch Schicksalstrcich ,
Denn Elvas; Moura's Serpa's stolze Hallen
Und Alcacer-do-Sal, sie sind gefallen.
LXIII
Dort ist die edle Stadt, an deren Spitze
Sertorius, der RebcU, cinst herrschend stand,
Wo jetzt die Fluthen mit dem Silberblitze,
So weithin stromcnd, nahren Volk und Land
Durch stolze Bogen, die zum VVoIkcnsitze
Sich heben hundertfach mit \volb'gen Rand;
Sie hat dem Muth sich und der List ergeben
Giraldo's, der nicht Zaudern kennt noch Bebeu.
LXIV
Durch Beja will Alfonso, das zerstorte,
Irancoso suhnen, biser rachesatt ;
Der Lebenslust und Ruhmesgierbethorte
Zu wahren Beide nimmer Ruhe hat.
)hr Widcrstand war schwach und doch empoire
Nachdem sich schon ergeben hat die Stadt
Das Heer er so, dass es im wuth'gen Toben
Der sharfen Schwerter Schneide wili erprobcn.
_!7_
GVII
iamque acies latis, quos conspicit Ebora, campis
Agmine densantur vario, bellumque minantur;
Jam thorax, gladiusque, et lancea sole coruscat,
Insignes phaleris hinnitibus aera pulsant
Alipedes; mappa induitur tuba mania rubra,
Ia clangore ciet resides in praelia sensus,
ímpellens sonitu gravia arma, et concitat iras;
Terribili percussa sono cava saxa resultant.
Pero ya dei tropel de gente armada
Los Eborenses campos van cuajados ;
Brillan ai sol arnês, lanza y espada,
Los caballos relinchan enjaezados ;
Y la canora trompa enlistonadíi
Los pechos, á la paz acostumbrados,
Va incitando ai combate, con sus ecos,
Que zumban de los valles por los huecos.
Ma giá le squadre dé guerrieri arditi,
Van ricoprendo gli Eborensi campi :
Dé bardati corsieri odi i nitriti;
Vedi deirarme incontro ai sole i lampi.
Anco né petti usi alia pace e miti
Fa che il desio delle battaglie avvampi
La squillante nellaure acuta tromba,
Che dai concavi intorno echi rimbomba.
Dans les champs d'Evora, déja se réunissent
Hommes d'armes á pied, et fougueux escadrons,
Les mil feux du Soleil les armes réfléchissent,
La trompe retentit par les vaux et les monts;
Ccs terribles appels, annonces de la guerre,
Font rentrer dans les rangs quelques rétardataires,
Leurs coeurs se délectaient aux douceurs de la paix,
Mais pour 1'honneur du nom ne reculant jamais.
But now the squadrons battle had begun,
The Eborean plains are covcred with display,
Trappings, lance, sword, ali glitter in the sun,
And the oaparisoned war-horses neigh.
Hearts that the accustomed life of peace had run,
Incited by the eftbannered trumpets' bray,
Rush to their shining arms, 'midst the wild sound,
And echoes from the concave hills rebound.
i8
Schon sind von der Schwadronen WaíTenglanze
Rings die Gefilde Evoras bedeckt,
Das Streitross schnaubt, der Harnisch funkelt, I^anzc
Und Schwert in Sonnenlicht empor sich streckt;
Und die Drommete hell zum Waffentanze,
Die schmuckbebandene, die Herzen weckt
Die an den Frieden sonst gewohnt nur waren,
Aus ehVner Hohlung mit den Schlachifanfarei-y.
■4>:®;f
CANTO QUARTO
III
Sic placitum Superis, haud illa obscura fuerunt
Indicia, eboream cum vox audita puellae
Per urbem infantis, cui non permiserat aetas
Ante suae clausae retinacula solvere linguae.
Solvit at illa tamen (Superum v/s summa jubebat)
Sustulit in cunis, erecto corpore, vocem,
Elataque manu bis, Portugallia, dixit,
Gaude Rege novo; vivat regnetque Joannes í
— ¥.0''-^ —
Que era orden suya, el ciélo con luz pura
Por muy claras senales demostrólo,
Guando en Évora, hablando una criatura
Antes de tiempo, fuerte nominólo;
Y alzó el cuerpo y la voz de su envoltura,
Cual cosa revelada por Dios solo,
Y dijo : Portugal (la mano alzando),
Portugal por D. Juatx, Rey venerando.
— f!®'-^ —
E in ció Teccelsa volontá divina
Ben si fé a chiari segni allor palese :
Ché in Évora a nomarlo una bambina
Innanzi tempo favellar s'intese,
Come ad opra eseguir che il Ciei destina,
Alzossi in culla, e con le man prótese :
«Oh Portogallo, Portogallo viva
Per Don Giovanni!« alto sclamó giuliva.
Que ce fut un décret de la cour celeste,
La preuve s'en montra par signes évidents,
D'Evora le prodige, le rendit manifeste :
Une tendre enfant, parlant avant le temps,
19
I.e designe et prédit de sn voix enfantine
Comme le Roi qu'il faut, que le Ciei nous destine;
Au berceau se souléve, et les bras agitant :
• Portugal, s'écrie-t-elle, et pour Ic Roi Dom Juan.»
That ihis, indeed, was Heaven's divine decree
By marvels of the clearest was displayed
In Ebora, where female infancy,
Speaking before its time, the announcement made;
E'en as when Heaven doth will a thing shall be,
She raised her voice, while in her cradle laid,
Stretched forth her hand, and cried : «In Portugal,
In Portugal, Don John, new King of ali!»
Dass HimmelsSchluss dies sei, ward bald entdeckt
Durch Wunderzeichen ringsumher bekannt.
Da in Évora Er ein Kind erwecket,
Das, vor der Zeit schon redend, ihn genannt;
Das aus der Wiege Hand und Korper strecket,
Und: Portugal (ein Wunder, gottgesandt),
Ja Portugal « — so ruft die Stimm' helltonig» —
"Fur Dom João, fur unsern neuen KonigI»
¥.Q'^
CANTO OITAVO
XXI
Admotam muro labentem cerne per hastam,
Qui capita exportat vigilum praecisa duorurn,
Struxit ubi insidias auso temerarius. astu
Callidus ille capit, non Marte ac viribus, urbem
Hic miles claro victor pro stemmate monstrat
Bina manu capita, audacter quae frigida secum
Asportans, recreat nostros. Mirabile factum !
Giraldo intrepidi nomen sua gesta dederunt.
Mira aquel que desciende por la lanza,
Con las cabezas dos de los vigias,
La celada ocultando con que alcanza
La ciudad, por sus artes y osadias;
La cual toma por armas la semblanza
Del vencedor que las cabezas frias
Lleva en la mano : esfuerzo jamás hecho t
De Giraldo sin miedo este es el pecho !
€)
20
Guarda chi astuto vien giú d'uno spalto,
E due teschi di guardie in mano stringe.
Ei con arte e valor prende d'assalto,
E a darsi vinta una cittá costringe :
Quindi in sua stemma un cavallier che in alto
Leva due tronche teste, essa dipinge.
Fatto non fatto pria. Quel forte petto
Giraldo egli é, che Senja-tema é detto.
Celui-ci sur les murs vient tuer les sentinelles,
Leurs deux têtes tranchées il tient par les cheveux,
II fait signal aux siens, surprend les Infidéles,
Par la force et la ruse ils évacuent ces lieux.
La ville libérée aprés cette conquête,
En ses armes placa : Guerrier tenant deux têtes,
Trouve-t-on dans'rhistoire un fait supérieur !
Ce vaillant, ce héros, c'est Giraldo sans peur.
That other see, descending on his lance,
Bearing the two heads of the watchmen slain;
He hides in ambush, whence he doth advance,
The lown bv daring and by snare to gain :
This for its arms paints, with significance,^
The hero's portrait with the cold heads ta'en
And borne in hand ; till then deed never done f
Giraldo-the-Fearless is the valiant one.
Schau den dort mit dem Speere niedersteigen.
Er tragt der Wachter Haupt, die ergefallt,
Vom Hinterhalt gewann mit listgem Schweigea
Und Muth die Stadter, die er hielt umsteilt;
Die nimmt ais Wappen, Ehr'ihm zu erzeigen,
Ein Ritterbild, das Todtenkopfe halt,
O unerhorte That, die so verwegen !
=:: Giraldo Furchtlos = hiess der tapfre Degen.
GABRIEL PEREIRA
3KSTUD0S 3KBOH3KNSKS
Eslao publicados :
1." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2.° Évora ro-
mana, 1.'^ p. O templo romano. As inscripçóes lapidares. — 3.°
A Casa pia. O edifício do collegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6." Conventos, 1.=" parte, Paraiso, Santa Clara e S.
Bento. — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — q."
Idem, 2.* parte. — io.° Brasão d'Evora. — ii." A egreja de San-
to Antão. — 12.0 O archivo municipal. — 13." A restauração cm
Évora, 1G40-1645. — 14." O archivo da Santa Casada Miseri-
córdia d'Evora, 1." parte. — i5." Idem, 2.'' parte. — 16.° Idem,
3." parte. --- 1 7." Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora.
1.* parte. — 19.° Idem, 2." parte. — 20.0 Idem, 3.-^ parte. — 21."
Idem, 4.^ parte. — 22." Os Festejos de Évora em 1729.^ — ^23."
Évora nos Lusiadas.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
DOCOMENIOS HISÍOflICOS fli CiDíDE OTÍOIM
Estão publicados :
1.» parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. ,loõo j." — 2."
parte, fascículos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Evorn.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand.
31 Ai:>TMLTr> A 33 AS
A' venda em Évora env c»sa do editor .Abranches.
DO MESMO AUCTOR
C^ontos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropío, Aurélio
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plínio e Mella.
Livro 3." da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
jH!lSTOP^IA— y^F^TE— ^P^HEOILOGIA
PROCISSÕES EBORENSES
AS PROCISSÕES NA ANTIGUIDADK.
L'MA RUA EBORENSE EM FESTA. A PKt.MElKA PROCISSÃO HO SANTÍSSIMO.
DE S. MAMEOE, EM 1564. MASCARAS PREMIADAS.
TOUROS DE CAPAS K CORRIDAS DE PATOS. TRAGEDIA REPRESENTADA
Á. PORTA DA IGREJA. OUTRA PROCISS.\0 E.M S. MAMEDE E.M l65G.
O SACRO-PROFANO. CARROS, FIGURAS A CAVAI. LO.
SYMBOI.IS.MO E AI.I.EGORIAS. UM.A. PROCISS.AO DOS JESUÍTAS.
OS APPARATOS. AS TRADIÇÕES LOCAES NO CORTEJO.
CO.MBATE Sl.MUI.ADO. JÓIAS, COCARES E CAR AMINHOI.AS.
IDAS E HYMNOS.
'^í^
"^i^
Kvor<A
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUI.M JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAI.
Rua Ancha n." 65
iSgo
GABRIEL PEREIRA
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JilSTOP^IA— y^í^TE— ^r^HEOLOGIA
PROCISSÕES EBORENSES
AS PHOfMSSOíCS NA ANTIGUIDADK.
í.«A RUA EBOKtNSK KM V KS TA. A PRIMEIUA PROCISSÃO DO SANTÍSSIMO,
DK S. MAMiiDE, KM l3t)4. MASCARAS PKKMIADAS.
TOlHiOS DE CAPAS K COUKIDAS DK PATOS. TUAGEI:)IA REPRESENTADA
A PORTA DA UiRKJA. OUTKA PROCISSÃO EM S. xMAMer)E EM lG36.
O SACRO-PROFANO. CAKROS, f IGUKAS A CAVALLO.
SYMlíOIISMO E AIJ.ECORIAS. UMA PROCISSÃO DOS JESUÍTAS.
OS APPAUATOS. AS Ti<Al)lÇÕCS LOCAES NO CORTEJO.
COMBATE Sl.MUI.AiíO. JOlAS, COCARES E CARAMI.NHOLAS.
LOAS E HV.MNOS.
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQCl.M JOSÉ BAPTISTA, l.MPRESSOR bA CASA REAt,
Rua Ancha n." 85
1890
ESTUDOS EBORENSES
Procissões antigas
Cma raa eborense em festa
A procissão, a cerimonia religiosa celebrada por
muitos devotos e sacerdotes. caminhando solemne-
mente, e ao som de cânticos, tem origem muito
antiga; passou dos povos orientaes ao hel!enico e
ao romano; de religião para religião, do paganis-
mo ao catholicismo.
No Egvpto era famosa a festa de Isis, transpor-
tando-se a imagem da deusa em carro triumphal.
Fora das procissões ordinárias, annuaes. faziam
também outras singulares por algum acontecimen-
to notável, como a procissão de Ptolomeu Phila-
delpho, em Alexandria, cortejo de pompa estron-
dosa.
As procissões gregas com as suas theovias eram
encantadoras; cortejos solemnes formados pela íior
das cidades, magnificas exposições do homem e
da arte. Em Athenas á das panathcnéas concorria
gente de toda a Grécia, para ver conduzir ao Par-
thenon o novo pepliim da divindade protectora; no
cortejo desfilavam os moços com suas armadu-
ras, os velhos com os ramos de oliveira, e as don-
zellas com açafates de flores e ofFertas.
Era celebre também a procissão dos mysterios
de Eleusis.
No paganismo romano as procissões ordinárias,
de epocha determinada, ligavam-se ás formas pri-
mitivas do culto, e da civilisação d'aquelle povo;
a principal era a dos arvaes. No plenilúnio de maio
celebrava-se a de Ceres; e as /í/s/rjcõeí dos proprie-
tários rústicos, na primavera também, eram corte-
jos religiosos desfilando pela campina florida, atra-
vessando as verdes searas.
Em carros triumphaes nas grandes festas, em
andores nas menores lá iam as imagens de Júpiter
com o raio e a águia, de Minerva com a oliveira,
Neptuno com o cavallo, ou Ceres com as espigas
de trigo.
'Para obter a chuva fazia-se em Roma uma
procissão que se dirigia ao templo de Marte, fora
da porta Capena, com diversas cerimonias, e tra-
zia para um templo dentro da cidade a pedra Ma-
nai.
Os judeos antigos também formavam cortejos
religiosos com pompas e cerimonias.
Os christãos nos primeiros tempos da lucta e de
martyrio não faziam cerimonias publicas, mas no
tempo de triumpho e de expansão o antigo corte-
jo reappareceu com esplendor crescente.
A primeira procissão christã mencionada pare-
ce ser do anno 362; e no final d'este século iv ha
muitas noticias de cortejos religiosos, entoando cân-
ticos, dirigindo-se ao templo onde havia pregação.
Em seguida apparece em todo o mundo christão,
e desenvolve-se o cortejo de modo que na idade
media ha procissões extraordinárias em numero
de devotos, no tempo, no caminho, e na extrava-
gância das scenas.
Desfila ante o espectador solemncmente, moro-
samente, não só o viver normal de um povo civi-
co, militar e ecclesiastico, mas a sua arte, a sua
historia, os elementos tópicos do saber e da phan-
tasia, da creação attenta, e do improviso, do es-
pontâneo.
Em Roma as procissões medievaes, ainda as do
fins do sec. xv e dosec. xvi, são extraordinárias. A
das reliquias de Santo André, em 1462, e outras
parecidas, de triumpho ou penitencia, foram des-
criptas minuciosamente, e estão registadas pelo óTl/o-
roui Romano (Dizionaiio di erudizione storico-ec-
clesiastica, verb. Processione).
Nos — Documentos históricos da cidade d'Evo-
ra=2.' parte, pag. iSg eseg. publiquei o regimen-
to das procissões ordinárias da cidade, em tempo
de D. João 11.
•• Eram cortejos comprehcndendo a flor da cida-
de, em festa e alegria, n'um movimento e surpre-
za e ruido constante. Desfilavam os officios com
suas bandeiras, pendões, symbolos, atabaques, fo-
lias, chacotas, danças, mouriscas, gaiteiros e me-
nistréis, invenções e castellos, e a serpe, e as ima-
gens dos santos, os reis magos, e um imperador, o
diabo, os appostolos, os evangelistas e os anjos;
esta gente dançava, pulava, grita-\a, tocava instru-
mentos, entoava hymnos, jogava flores; easpéllas
das pescadeiras, das regateiras, das padeiras, cami-
nhavam com os oíiicios da cidade, com os bestei-
ros e homens d'armas levando bestas e lanças com
flores e verduras, com os magistrados, com o cle-
ro, a fidalguia e o rei.
Uma rua eborense em festa, cm dia de céo lim-
po de nuvens, azul, muito azul, c de um elfeito
raro, de aspecto vibrante sem parceiro. As ruas
são irregulares, os prédios succedem-se em linhas
quebradas ou brandas curvas, sem monotonia, sem
compridas fileiras de janellas, porque o solo é em
sitios declivoso, e variados os pés direitos das con-
struccões.
Nas paredes brancas, muito brancas, a cal ebo-
rense é especial, rasgam-se os grupos de janellas
muitas com suas grades antigas de elegantes e di-
versos desenhos.
Nos dias festivos das arcas e gavetões próprios
as donas de casa tiram as suas colchas, cuidado-
samente guardadas de geração em geração, do-
bradas em suas toalhas ou lençoes para que os
bordados se não desfiem roçando-see a poeira não
possa chegar-lhes. E pouco antes da procissão pas-
sar desdobram-se as colchas nas janellas; colchas
de seda, setim, damasco; amarello ouro, branco, ver-
melho, azul ou verde; colchas do reino, da índia, da
China, de Ormuz; comas suas flores, aves, grotes-
cos, matizes,folhagenseentrelaçados;umas brilhan-
tes como esmaltes, outras com os tons das finas pro-
celanas,com suas franjas e grandes borlas, n'uma va-
riedade e exuberância de cor que encan.taos olhos
e dá realce singular aos grupos de damas.
Foram dias cheios em Évora esses das solem-
nes procissões que vamos relatar, e que abrangem
largo tempo, do sec. xvi ao xviii.
Imagine-se aquella pompa estrondosa, as figu-
ras cobertas de jóias, vestindo cores vivas, borda-
dos de prata e. ouro, desfilando vagarosamente pe-
las ruas areiadas e espadanadas; as janellas orna-
das de colchas e sanefas; as paredes enramadas; e
damas e cavalheiros de vistosa indumentária.
Logo pela manhan os bandos do rapazio a sal-
tar nos montes de areia que os burriqueiros trou-
xeram do Xarrama, e a saquear os feixes de espa-
danas do Divor e do Degebe, para fazer maças de
combate, tecendo as compridas folhas em novelo
para formar cabeça deixando algumas soltas para
a pega. Aquella garotada eborense que pula na tes-
ta das musicas, e que de epocha eiii epocha faz ba-
talhas de pedrada, Farrobo contra Cogulos, que
já excitaram a admiração dos ofFiciaes de Dom
João d'Austria.
Pelas ruas, terreiros c praças desfila a torrente
de vivas cores, cheia de brilhos; os pendões, as
bandeiras, as figuras a cavallo, os carros e ando-
res, as cruzes douradas, as confrarias de opas va-
riadas, as danças, chacotas e folias, as charamellas,
os grupos de anjos cantando e tocando, as com-
munidades religiosas entoando os seus hymnos,
tudo n'uraa chuva de flores, entre finas nuvemzi-
nhas de incenso; um prodígio de cor e de luz; de
ruidos, harmonias e aromas, de devoção c alegria
vibrante.
A primeira procissão do Santíssimo, de S. Mamede, em 1564
Jhus T. No anno de mile quinhentos e sesen-
ta e quatro no quarto dominguo depois do penthe-
coste, dozoito dias do mes de junho nesta cidade
dEvora e Igreia de são iMamede: sendo (entreli-
nha — prior dioguo Tavares) cura delia aníonio Roiz
natural da villa de viana, benefficiado dioguo miz.
Iconimo dominguos ferreira e thesoureiro andre
diaz. na confraria do Sanctissimo sacramento si-
tuada na ditta Igreia sendo Juiz e escrivão balte-
sar fraguoso, mordomos domingos frz pombr." e
adão frz. çapateyro, se fez e ordenou a primeira
procição da ditta confraria concedida pelo Reve-
rendo snfíor Marcos fr."" e provisor d'este arcebis-
8
pado a instancia e petição dos dittos mordomos e
freguezes da ditta Igreia. sahirão pella porta prin-
cipal tomando a rua direita da mouraria acima do-
brando a mão direita pella rua davís abaixo atee o ca-
bo da Rua das fontes entrando por ella toda atee se
recolherem a rua de são Mamede, tornarão a en-
trar pella mesma porta principal, a qual se fez de-
pois da preeguação que fez o doctor Jorge saarrão
da companhia de Jesus. Levou nella osanctissimo
sacramento o ditto cura. levavão o pallio seis cle-
riguos com suas capas de borcado. outros muitos
diante com suas sobrepelises e cinquoenta duas
tochas ardendo e muita outra cera... (raspado
um espaço que conteria uma ou duas palavras)
quatro cruzes das freeguezias mui concerladas. di-
ante do pallio a mão direita o ditto provisor Mar-
cos frã (ferreira) da outra banda o visitador mestre
Johão sardinha, e mestre andre de Resende, Detrás
acompanhava muíta gente honrrada. ouve chara-
melas e trombetas, as ruas todas paramentadas de ri-
quas tapeçarias de Raaz, stofa, velludo c borcado.
alem de serem todas spadanadas enramadas e em-
bandeiradas todas as portas, beccos e janelas al-
guas cheas de altares de riquas invenções e custos
grandes, avendo em cada um novas cousas que
ver e considerar, ouve muitas danças, folias, e
invenções de mascaras as quaes quasi todas sahi-
ram premiadas, huas com carneiros e patos que
pêra isso avia e outras com dinheiro e ouve ao
sabbado a bespora alguas invenções e touros por
cordas, ao domingo a tarde ouve touros de capas
no terreiro da porta davis, que deu martim affon-
80 collaço. e patos que se correrão, a porta da Igreia
ouve hua tragedia da historia da morte que deu
Caim a seu irmão Abel. De maneyra que sendo a
primeira prosição he tão brevemente ordenada foy
dos freguezes com tanto alvoroço festeiada que foy
a mães solene e sumptuosa que atee guora se fez ou-
tra nesta cidade assi de apparato como de inven-
ções e gente, fezsse disto aqui assento pêra que se
soubesse o principio desta solemnidadefeita a glo-
ria de nosso Ds. E seu praeciosissimo corpo, pêra
que com seu favor, se augmentc c vaa cm cresci-
mento a devoção de seus íieis frei^uezes doesta sua
igreja, com a qual confundão os danados e heré-
ticos ânimos pello qual mereção suasancta gloria.
Amen.
(O original pertence á confraria do Santíssimo
da parochia de S. Mamede. Devo o conhecimen-
to d'este notável documento ao mui digno padre
Frederico Vaz Martins, actual prior da mesma fre-
guezia.)
Procissão de Encarnação na freguezia de S. Mamede
em 23 de julho do 1656
Foi uma festa esplendida; uma devoção particu-
lar, muito especial, auxiliou n'este anno as confra-
rias, sem olhar a despezas, e apresentou nas ruas
eborenses um extraordinário cortejo. Publicou-se
uma descri peão; — Extracto da procissam da Vir-
gem Senhora N. da Encarnaçam sita na igreja pa-
rochial de S. Mamede desta cidade de Évora aos
'i} de julho de i656. Lisboa, oíticina Graesbeeckia-
na, i656, 24 pag. in-4.°
i^arece escripta a descripção por padre pregador,
no estylo da épocha; começa: «Ao throno da Ma-
gestade suprema, á arvore da vida, á vara de Jes-
sé, á flor do melhor fructo, Aiaria Santíssima, se
dedica a representação seguinte do mysterio da
Encarnação do Divino Verbo, admirável ao conhe-
cimento, senhor da vontade, assombro doentendi-
2
IO
mento, pasmo dos sentidos, remédio de nossos dam-
nos, figurado nas sombras da lei escripta, executa-
do nas luzes da lei da Graça, cujos applausos ce-
lebramos para alegria dos servos da Senhora, au-
gmento da devoção christan, louvor de Maria pu-
rissima, e gloria a Deus encarnado. E' esta a sum-
ma ; a procissão esta.»
Uma dança começa o devoto cortejo. Não ti-
nham medo estes antigos de combinar o agradável
o divertido, o anedoctico com o religioso.
Nós hoje estamos muito mais sérios, nem que-
remos rir, só aspiramos a muito correctos.
Apoz a dança ia o pendão e a irmandade de N.
S. da Encarnação, e logo outra dança com musi-
ca. Depois a QÃdmiração !
Provavelmente um rapaz gentil.
A Admiração! ia a cavallo, lindamente vestida ;
sobre a cabeça uma caraminhola rica em cujos ar-
cos vão tremendo algumas pérolas, no peito um
luzido peito de pedras finas; na mão esquerda er-
guida a imagem de Deus encarnado, ea direita le-
vantada e aberta ; na roupa larga, esta lettra — Vo-
cabitur nomen ejus admirabilis.
Atraz da Admiração! apparecem o Temor to Si-
lencio^ ambos a cavallo.
O Temor veste de amarello; na cabeça uma ca-
raminhola; no peito cadeias miúdas de ouro for-
mando sutis lavores; na mão esquerda um coração
preso em duas cadeias, a direita sobre o peito,
aberta.
O Silencio vestindo de negro; na esquerda a Sag.
Escritura aberta, a direita poe o dedo na bocca.
Deixo de mencionar as lettras e algumas descri-
ções escusadas, e massadoras por mui repetidas.
Outra dança.
A Vontade; vae uma primavera nas cores; pei-
to e caraminhola mui ricos ; os olhos vendados,
1 1
porque a razão lhe guia os passos; na esquerda
umas chaves ; da mão direita desce a prender-Ihe o
pé uma cadeia.
O Entendimento, roupa larga, na mão esquerda
uma luz — Lucerna pedibus méis verbum tuum — ;
da direita uma cadeia prende-lhc o pé.
Agora os sentidos.
O Uev, na mão um espelho.
O Ouvir, na mão um laúde.
O z4palpar^ leva um pássaro, symbolo vulgar
d'este sentido.
Mais danças, e o pendão e a irmandade de N.
Senhora da Paz.
A Sagrada Escriptura^ a cavallo, vestida de ver-
de, no peito muitos jacinthos, ate aos pés a túnica
de seda branca; jóias; na esquerda a tiara da lei
antiga, na direita a Pontifical — Haec omnia liber
vitee et testamentum altissimi — .
Dança de musica.
Adam vestido de pelles, na mão o pomo vedado.
Figura II. — A Torre de ^cd^e!; de 3o palmos
de altura, quarenta em quadro. Provavelmente ia
cm carro. Cc»m seus versos que não transcrevo,
pois lhes acho nenhum meritci.
Fig. 12. O oTifundo, machina esphérica de 3o
palmos de circumferencia sobre um pedestal de 12
palmos. Com a leltra — Mundus totus in maligno
positus est — .
E estes dois versos
Foi para nós criado
Um fiat lhe deu luz, sombra um oeccaJo.
O Captiveiro, vestido de negro.
O Apetite, a cavallo, armas brancas, chapeo de
plumas, na mão a espada nua.
A Cegueira, vestida de negro, na mão um véo
negro.
12
A "Vaidade^ a cavallo, com muitas jóias, onde as
pérolas eram tantas^ e tantos os diamantes que ou a
Aurora chorou n'ella^ ou só nella teceu o Sol resplan-
dores.
Na mão direita uma flor do campo — Omnis glo-
ria ejus tanquam flos agri.
A Ambição, vestida ricamente, vae com azas
porque de andar se não contenta ; na mão uma qs-
caâa—Supeibia eorum^ qiii teoderunt^ ascenditsem-
per.
A Fraque^a^ vestida de amarelío, cabello solto,
na mão um vidro.
A Injustiça^ num ginete, veste de vermelho, na
direita a espada nua, na esquerda uma balança de-
sigual.
Fig. 20, — A Fortuna. Um carro de 25 palmos
de comprido e 8 de largo. Tiram por elledois pa-
vões de notável artificio; a figura sobre uma roda
cercada de azas ; na cabeça uma coroa, as mãos
uma aberta, outra fechada. Em quatro quadros
iim longo romance :
Aquella roda que sobe
E' mesmo a roda que dece,
Nunca para o bem segura,
Para o mal segura sempre.
Sempre infinitos abate,
Se apenas um engrandece,
Que sem alheios pezares
Não sabe dar interesses.
Etc, etc.
Entre duas danças de musica se segue o pêndulo
e irmandade da Virgem dos Prazeres,
Fig. 21. — Abel., innoce.ntc e pastor, na mão um
cajado.
Fig. 22 — . O Sacrifício de Abraham em um andor.
Isaac, de velho, cabelleira branca,
T^ebecca., na mão. uma arvore cujo tronco se di-
vide em duas partes.
i3
£5t7;/, de caçador, na mão o arco, aljava aohom-
bro.
Jacob, vestido á trágica.
Fig. 27, andor, a lucta de Jacob com o Anjo.
28. %achel, traje pastoril.
Joseph^ vestido ao trágico.
Entre duas danças segue a Cruz e Irmandade
do Santissimo Sacramento da freguezia.
Fig. 3o. Num andor a sarça de Moysés.
3 1 . Pharaoh sobre uma carroça militar, grande,
ornada de carrancas, na popa {sic) numa soberba
cadeira o Faraó coroado, vestido de armas bran-
cas. A carroça a dois cavallos, aos lados doze ga-
lhardos soldados.
Josué^ a cavallo, de lança e escudo.
Sansão, armado, cabelleira, aos hombros as por-
tas da cidade.
Riith^ vestida de campo, na mão umas espigas.
Dança de musica.
Nas duas visões seguintes se representa a gloria
da natureza humana unida á divina neste mys-
terio.
Fig. 35. Um throiio. Muito alto, terminando em
luzida charola, ventanada por quatro partes, com
volantes, dentro o Salvador; ao pé Isaias de joelhos,
aos lados dois Seraphms. Nos quadros do throno
quatro sonetos.
Nestes cortejos religiosos, como se vc. havia a
par do ensinamento, por assim dizer da vulgarisa-
ção histórica e moral, a manifestação artislica nas
suas diíTcrentes formas, a musica, a Jatiça, o can-
to, a poesia, a pintura, a esculptura, os formosos
tecidos, as jóias, a indimientaria luxuosa.
Fig. 36. O Carro de F^vchicl, levando pintadas
de olhos duas encontradas rodas, que a um só mo-
vimento olTerecem diíFcrentc curso; junto d'ellas
um leão, um anjo, um boi, uma águia, símbolos
H
dos apóstolos; no mais alto uma nuvem, e uma ca-
deira, ao lado Ezechiel.
Outra dança.
Fig. 37. A estatua de Nabiichodonosor^ agiganta-
da, aprazível objecto dos curiosos, quando seja es-
carmento dos soberbos, a cabeça de ouro, braços
e peito de prata, até joelhos de cobre, até aos pés
de ferro, e os pés de barro.
Vem agora o profeta Daniel com um livro na
mão.
O profeta Jonas^ saindo da boca de uma ba-
leia.
A Esposa dos Cantares^ cabello solto, grilhão de
flores, na mão um lirio : — Vox dilecti mei, ecce il-
le venit saliens montibus — .
Dança de musica.
Fig. 41 — A Victovia. a cavallo, coroada, na di-
reita uma palma, na esquerda uma bandeira.
A Liberdade^ na cabeça brincada caraminhola,
com martinete. Na mão um pássaro.
O Inferno^ dragão medonho, afogueado, lançan-
do pela bocca infinitos espirites.
Dança de diabretes.
O Limbo^ uma gruta de tafetá escuro com figuri-
nhas dentro.
A Vida^ com a Phenis.
A Fortaleza., um leão bordado no peito, na mão
uma columna.
A Rique:{a d'alma^ com um cofre e neste cofre
eram as jóias, a cruz, a coroa de espinhos, e outras
insignias da paixão.
A Gvaça^ vestida de branco, solto o cabello, com
flores, na mão um coração voando ; ella também
com azas.
A Gloria^ coroas nas mãos.
Fig. 5o — A arrore de Jessê num carro; a ascen-
dência da Senhora; em cima o Espirito Santo. O
i5
carro tirado por um lobo e um cordeiro; simboli-
sando a paz: — Habitabit lúpus cum agno — .
Neste carro havia ornamentação profusa ; viam-
se os títulos da Senhora representados.
A Rosa; Quasi plantaiio rosas.
Entre nuvens uma Janella: Janua coeli. Uma es-
trella: Stella ruiilans.
Um espelho: Speculum justitia^.
O Palácio de ouro: Domus áurea.
A Tomba: Cokimba mea.
O Plátano: Quasi Platanus.
Um Cedro: Sicut Cedrus.
Seis anjos cantando versos.
A communidade dos padres de S. Francisco, a
capella da Sé; depois o Palio com a Virgem Se-
nhora da Encarnação.
K Relação das festas do coUegiodo Espirito San-
to da Cidade de Évora na bcaíicação do venerá-
vel P. João Francisco Regis da Companhia de
J H S (Jesus). Évora, Com todas as licenças ne-
cessárias, na officina da Universidade. Anno de
M.DCCXVII» in 4."
As festas cclebraram-se em outubro de 1716.
Primeiramente descreve a ornamentação da egreja.
IVanscreve depois o sermão pregado no primei-
ro dia do solemne triduo, i i de outubro, pelo M.
R. P. Fr. Domingos da Veiga, religioso Agostinho
Prior do Convento da Graça, Fr. Manoel deChris-
lo, franciscano, pregou no segundo dia.
O M. R. P. Pedro do Sacramento, cónego se-
cular de Congregação de S. João Evangelista, orou
no dia i3.
Segue a relação das festas, das luminárias, da
procissão que levava nove andores e dez figuras a
cavallo.
Í6
Ultimamente os religiosos da Companhia, e os
de S. Francisco, S. Agostinho, e de S. João Evan-
gelista precediam o Santíssimo que era levado pe-
lo reitor dos Lóios, P, António da Purificação.
Vamos assistir agora a uma procissão solemnis-
sima da primeira metade do sec. xviii, celebrada
pelos Jesuitas. Está descripta minuciosamente na
«Relaçam do Apparato triumfal, e procissão so-
lemne, com que os P. P. da Companhia de Jesus
do Collegio de Évora applaudiram publicamente
aos gloriosos SS. Luiz Gonzaga, e Stanislao Kost-
ka da mesma Companhia novamente canonizados
pelo Sanctissimo Padre Benedicto XIII, agora pre-
sidente na Igreja de Deos. Évora, ofiicina da Uni-
versidade, 1728. >) E' folheto de 61 pag. in-4.*
O oitavario acabou no Collegio cm quinta feira,
1 3 de novembro.
O domingo 16 amanheceu lindo; na cidade ha-
via extraordinária concorrência; estavam famílias
da maior parte da província do Alemtejo; os ve-
lhos não se lembravam de ver tanta gente na ci-
dade.
Os Senhores da Camará mandaram arranjar e
alimpar todas as ruas por onde havia de passar a
procissão, e ordenaram aos moradores que armas-
sem as frontarias ; não era necessária a ordem por-
que todos espontaneamente se esmeraram. Nos
sítios onde havia grandes paredes vestiram-nas de
verduras.
As figuras foram repartidas aos moradores de-
votos, que se esmeraram na riqueza e luzimento
dos vestuários e ornamentações.
No Collegio trabalhava-se com o mesmo calor
na construcção dos carros triumphaes ; perderam
a noite de sábado para domingo, e até ás 9 da ma-
_12_
nban estiveram a compor e ornar figuras, mais de
setenta, não entrando n'este numero as que se ves-
tiram fóra. Ás IO da manhã já estavam no Colle-
gio, de cruz arvorada, as communidades religio-
sas.
Gastou-se até quasi meio dia a ordenar aquella
variada multidão, e pouco depois, pela porta late-
ral da egreja do Collegio (agora tapada) começou
a sair, para o terreiro de Nossa Senhora da Puri-
íicação (Seminário).
O itinerário foi singular e muito extenso. De
Santa Mónica subiram ao Paço Archiepiscopal e
seguiram pda rua da Sellaria, travessa de Burgos,
Praça do peixe (hoje de Sertório), rua de Aviz, até
á porta da cidade, rua do Muro, porta da Lagoa,
Rua Ancha, desceram ao convento de Santa Ca-
tharina, rua de Alconchel, ao convento de Santa
Clara, por uma travessa á rua dos Mercadores, su-
biram por esta á Praça,, rua do Paço, S. Vicente,
rua dos Infantes, porta de Moura, ao largo do Col-
legio. Eram Ave-Marias.
Em tão larga distancia não houve accidente al-
gum que causasse o minimo dissabor.
A tarde esteve de uma serenidade notável, as
tochas nem se apagaram.
Só figuras de cavallo eram tr/nta e nove.
A procissão dividia-se em quatro partes ou ap-
paratos, o ultimo todo era sagrado, os mais sacro-
profanos.
Era um cortejo disposto como um tratado, com
seus capitulos e paragraphos.
O primeiro apparato dedicado aos dois santos.
Na frente três cavalleiros, dois tocando clarins e
um atabales; tinham sido pedidos á praça de El-
vas; iam com uma escolta ou esquadra de cinco
soldados com seu cabo, todos bem montados; far-
da branca e canhão encarnado. Como a concor-
i8
rencia era muita, assim como a devoção, para ter
expedito o caminho era precisa a activa deliberação
da severidade militar. Hoje chamamos a isto o pei-
xe -espada.
Primeira figura o Applauso^ em cavallo murzelo^
charel e bolças de veludo verde bordado de prata,
crina semeada de fitas em campo de ouro, pala-
freneiro á rédea com boa libré. A figura levava
botinas brancas, bordadas a prata e ouro, e com
pedras; caraminhola, cocar de plumas encarnadas,
brancas e azues.
Um Cupido no peito ; capillar a descer dos hom-
bros de brocado vermelho, as roupas de tissu (ou
teçu) verde e tela encarnada e branca com ramos
de ouro, com franjões de ouro fino.
Estandarte de seda vermelha bordado, ramos
estofados, e seus dizeres.
A Igreja Militante., em cavallo castanho. Men-
cionarei somente as variantes nos objectos, teci-
dos, etc.
Esta levava também borzeguins ; no escudo as
chaves de S. Pedro e a tiara.
O Merecimento e a Remuneração., em cavallos
com topes de fitaria, e plumas na crina. Ao pes-
coço da figura uma cruz de pingentes de perdas.
A Companhia de Jesus., em cavallo pavonadocom
matiz de cores, com uma tremula ; dois palafrenei-
ros vestidos de tela branca á mourisca ; era guiado
por cordões de ouro. Na cabeça cocar de plumas
brancas.
Com muita pompa e riqueza o ^iCollegioda Com-
panhia de Jesus d' esta cidade^)., em cavallo castanho,
jaezes de velludo carmezim bordados a prata.
A figura levava capillar de tissu recamado de
prata e ouro; vestia de amarello e branco, fran-
jões de ouro com bambolins; borzeguins; capacete
com resplandor de flores; sobre este uma pombi-
_i_9_
nha branca, símbolo do Espirito Santo, orago do
CoIIegio. No braço um escudo com as armas do
Cardeal Rei D. Henri\]uc, fundador.
A Cidade de Evora^ em cavallo castanho, de ai-
rosa louçania ; a figura levava coroa de louro na
cabeça, guarnecida de pérolas e diamantes.
No pescoço e peito um chuveiro de pedras pre-
ciosas; nos braços grandes meadas de aljôfar; rou-
pas alcachofradas de ouro com bambolins; nos re-
mates seus broches. Na mão esquerda um molho
de espigas de trigo e um cacho de uvas fingido;
no braço esquerdo o escudo com armas; e a di-
visa: /// bouis justorwn exidtabit civitas.
A Cidade de Évora era seguida de duas arrogan-
tes figuras ; Giraldo e Sertório.
Montavam briosos ginetes. Nas cabeças dos il-
lustres guerreiros viam-se capacetes com seus co-
cares de plumas. Sobre as couraças bandas ricas
de seda encarnada e verde; os capillares e mais
roupas de tela vermelha c ouro. Um levava faim
e outro alfanje! Aos dois famosos capitães seguiani
24 soldados com seu tambor, vestidos á mourisca!
de turbantes encarnados passemanados de ouro.
Levavam escudos. Nos sítios mais largos faziam
exercício militar, representando uma batalha e uma
victoria. Fingiam um castello, formavam assalto,
e atiravam alcanzias uns aos outros; depois da vi-
ctoria lançavam flores, e formavam alas, conti-
nuando a procissão.
Eis agora a Universidade de Ei'ora^ que vinha
prestar homenagem ao novo santo S. Luiz Gonza-
ga, agora protector dos estudos da Companhia.
Também a cavallo, com dois palefreneiros vesti-
dos á mourisca. Notável caraminhola com muitas
jóias, flores tremulas, e plumagem branca, verde,
e côr de ouro, com uma águia ; roupas de prima-
vera Giialde com bordaduras. Por escudo um pan-
20
no riquíssimo da Universidade, obra sinica, com
suas aves, ramos, eic, em campo azul, com as qui-
nas e o chapéo cardinalício, com a leltra — Prote-
ctor factiis es ?nihi.
A Theologia^ de tela branca e ló com florões de
ouro.
A Filosofia, de estofos azUes e ouro.
A Mathernatica, com muitas jóias, aljôfares, tre-
mulas; vestia de azul e branco.
A Rhetorica^ de encarnado e branco.
A Humanidade^ vermelho e verde.
A Grammatica^ branco e verde.
Levavam salvas de prata com livros.
Carro triumphante dedicado pela Universidade
eborense á Virgem N. S. da Annunciada, e ao novo
santo protector. A Casa da Sabedoria^ Sedes sapien-
tiae. A imagem da Senhora dando um livro a S.
Luiz Gonzaga. Um coro de meninos músicos, ves-
tidos á trágica, representando o Estudo, a Diligen-
cia^ a Curiosidade e a Applicação. Atraz do carro
ia presa a Ignorância^ de trajo escuro, e cocar de
plumas sobre fumos pendentes.
Apparato 2.° dedicado á innocencia de S. Esta-
nisláo Koslka.
Vamos abreviar o mais possível que a procissão
é muito comprida.
Abel^ que foi a primeira victima innocente, com
o estandarte branco montando um cavallo branco
também.
A Polónia^ pátria do santo.
A Constância ; o I)espre{o do mundo; apoz este
o Mundo e o Diabo^ vestidos á ridícula. Satanai ia
de olandilha preta, com lavaredas pintadas e feia
mascara; o Mundo ia de meias encarnadas, saiote
de chita, peito de papel com cartas de jogar.
A Rique^a^ a Estimação; a primeira com a bolsa.
A Cidade de %pnia; de caraminhola com sete
21
torreões ; e estandarte de ló verde com os meninos
Rómulo e Remo.
A Q^fodestiú^ a Hi uni Ida de com o cipreste; o Si-
lencio^ com um relógio « Tempiis tacendi^ tempiis lo-
qiiendi» .
A ^obre{a; e logo o segundo carro triunfante,
de peregrina idéa, não só por ser de artifece es-
trangeiro, mas também pela notável fabrica; a ima-
gem do Santo, a Innocencia, coro de anjos com
instrumentos executando sonatas.
Apparato 3." dedicado á pureza de S. Luiz Gon-
zaga.
O casto Joseph^ vice-rei do Egypto.
A Itália^ onde viveu o Santo, a Lombardia^ sua
pátria; o marquezado de Castilhone^ seu berço; a
Nobreia.
oMarte, porque o santo não quiz seguir a vida
militar. O Deus da guerra ia com seu alfanje.
O Desengano^ a Providencia Divina, o Ticino^
onde o santo estivera em perigo ; Vulcano^ deus
do fogo, porque S. Luiz Gonzaga também um dia
estivera em risco de morrer queimado.
A Inspiração divina. O cavallo d'esta figura le-
vava jaezes bordados de prata em campo berne;
roupas de primavera branca teçuada com florões
de ouro, e de primavera azul celeste.
A Fortaleia, com o faim erguido.
O Collegio romano.
A Oração^ a Penitencia., tendo por emblema o
pelicano «5e ipsiim percutit».
A Caridade., em cavallo murzcllo; a figura ves-
tia roupas de Ihamas de prata, e de tabis; capillar
de tela abrazada. Coroa imperial de flores de es-
pumas com persis de prata e ouro.
- Na mão direita um coração, Cor nostrum ardens
> 7
erat; e no escudo o fogo., Fovet proximum.
22
A Obediência; Nescit habere moras. A Contem-
plação^ Caelo immobilis haeret.
Apparece agora o terceiro carro do triumpho,
com a imagem de S. Luiz Gonzaga ; rodeado de
anjos tocando instrumentos.
O quarto apparato : a confraria dos estudantes,
as communidades religiosas .com suas cruzes ar-
voradas.
No meio deste cortejo lo andores ornados pelos
mosteiros das religiosas. Levavam a imagem de
S. Catharina, S. Ignacio de Loyola, de S. Diogo
Quizay, mártir do Japão, S. João de Goto, S. Pau-
lo Miqui, S. João Francisco Regis. S. Francisco
de Borja, S. Francií>co Xavier^ S. Estanisláo Kostka,
S. Luiz Gonzaga. Tudo isto enlre muitos anjos,
muitas flores e aromas.
Em duas compridas alas 42 religiosos dos Lóios
e da Companhia com capas ricas de Asperges,
de tela branca. Sob o Palio levava o Santo Xenho
o R. P. M. Gregório do Espirito Santo, cónego de
S. João Evangelista, precedido de 6 anjos com
thuribulos e na vetas de prata. .
GABRIEL PEREIRA
3GSTUD0S EBOHKKSKS
Esiao publicados :
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2.° Évora ro-
mana, I.* p. O templo romano. As inscripcóes lapidares. — 3."
A Casa pia. O editicio do collegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Faraiso, Santa Clara e S.
Bento. — 7." Bellas artes. — 8." Vésperas da restauração. — 9."
Idem, 2.» parte. — io.° Brasão d'Evora. — 1 1."^ A egreja de San-
to Antão.— 12.° O archivo municipal. — 13.° A restauração em
Évora, 1640-1Ó45. — 14." O archivo da Santa Casada Miseri-
córdia d'tvora, i." parte. — i5." Idem, 2.^ parte. — 16.° Idem,
3." parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora.
1." parte. — iq." Idem, 2.» parte. — 20." Idem, 3.''' parte. — 21.°
Idem, 4.'* parte. — 22." Os Festejos de Évora em 172Q. — 23."
Évora nos Lusíadas. — 24.° Procissões eborenses.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand— Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
OOCUMENTBS HISíORICOS D* CIDíDE DTíOflí
Estão publicados ;
I.» parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e Xlll. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João 1." — 2.^
parte, fascículos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Évora.
A' verída em Lisboa na livraria Bertrand.
31 AT>p^xJO^\ i> jvííí
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR
Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor,^Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella.
Livro 3." da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
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EST
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■?-^
iC
ESTUDOS EBORENSES
F"pes!C^5S de arte ornamenía!
Em 1881 o South Kensiugton Musciim^ de Lon-
dres, celebrou nas suas galerias uma exposição
de arte ornamental portugueza e hesprnhola. Ás
coUecções pertencentes a esse admirável estabek-
cimento de educação artística e industrial reuni-
ra m-se alguns centos de objectos de collecçóes
particulares inglezas e francezas. Era muito; mas
logo v'';am que a exposição ficaria incompleta pela
falta de algumas espécies existentes em Portugal
e Hespanha. Temos sido muito explorados; a in-
cúria e a ignorância tem-nos devastado, mas fe-
lizmente ainda nos restam muitas jóias e primo-
res.
Organisou-se uma commissão official que pediu
o concurso dos governos da peninsula, e estes to-
maram a peito a boa representação no SoutJi Kcn-
sington.
4
Traballiou-se á ultima hora mas o resultado for
maravilhoso; dos thesouros officiaes, das calhe-
draes, dos conventos de freiras, surgiram maravi-
lhas de ourivesaria, de tecidos de indumentária^
de esculptura, de marcenaria : e logo se projectou^
realisar uma exposição em Lisboa, colhendo tam-
bém objectos em casas particulares, o que se rea-
lisou em 1882, no palácio das Janeílas Verdes, em
Lisboa, hoje Museu Nacional de Bellas Artes.
Essa exposição, apczar de muitas contrarieda-
des, marcou cpocha em Portugal; teve influencia
salutar. Foi a origem de outras exposições; de al-
guns trabalhos de valor; animou, instruiu, sobre-
tudo revelou ao publico a existência de grande nu-
mero de preciosidades.
Relacionado com alguns dos cavaíbeiro-s que for-
mavam Cl commissão portugueza tive occasião de
os coadjuvar especialmente na colheita de objectos
cm Évora, que ficou bem representada em Lon-
dres, melhor em Lisboa : e como sobre certos ob-
jectos d^arte fiz então estudo detido, conseguindo^
agrupar elementos pouco sabidos, julgo ser utii
publicar esses resultados ri nsXts Estudos Eborenses.
Seguirei exactamente a ordem das relações que
então elaborei, juntando as minhas notas.
Da e^iposição do Sotiih Kensington publicou-se
o c< Catalogue of the special loan exhibition of Spa-
íiish and Por tu gttese ornamental art.> Da reaíisada
no palácio das Janeílas Verdes lemos o Catalogo
illustrado da esposição retrospectiva da arfe ornamen-
tal por tu giieia e hespanhola. celebrada em Lisboa em
Dois volumes, um de texto, outro de estampas,
elaborados um tanto precipitadamente, contendo
todavia muitos elen^^entos preciosos para a historia
da arte em Portugal.
Na exposição figuraram objectos dos primeiros
5
tempos históricos até fim do século passado. Algu-
mas espécies estavam bem representadas, mesmo
opulentamente; outras apenas indicadas. Via-se
claramente que mais algum trabalho e methodo
produziriam uma exposição superior, de maior en-
sinamento e mais fecunda. Vejamos a parte ebo-
rense na exposição londrina.
Exposição de arte ornamental hespanhola e portngneza
no museu Kensington de Londres
Relação dos objectos pertencentes aos conven-
tos de religiosas d'Evora entregues por ordem su-
perior (Portarias do ex.""" ministro das justiças de
12 e 19 d'abril de 1 88 1, referindo-se á portaria do
ministério d'obras publicas de 5, publicada no Diá-
rio do Governo de 7 do mesmo mez) para figura-
rem na exposição de arte ornamental de origem
hespanhola e portugueza no museu Kensington,
de Londres, ao ex."" sr. Augusto Carlos Teixeira
de Aragão, vogal da respectiva commissão e seu
delegado.
Oo3n."ve3:ito <5lo IF*sira,izo
I Cruz processional de prata dourada e arren-
dada. Altura o'",86. Entre os extremos dos braços
o"',485. Base da cruz 0^,34 d'altura. Imagem de
prata mas encarnada. Nimbo redondo com a cruz.
E' uma cruz de braços eguaes terminados em flo-
res de liz. Pouco deteriorada. A base em perfeito
gothico florido. Fins do século XV. Na base cor-
pos salientes, com pequenas bases e baldaquins;
seis estatuetas de bom lavor, N. Senhora, S. Pe-
dro, etc. Volutas apoiavam as bases dos corpos
salientes, só restam duas inteiras, as outras que-
bradas. No verso, ao centro da cruz, um quadro
com a Senhora e o Menino. Alguns ornatos nas
chapas, folhagens em estylo da pruiv^ira renas-
cenca. ■ -'-' •
>
2 Cnstodia de prata dourada co.n algumas pe-
dras ordinárias; altura o"\83. Na base tem a ins-
eri peão — Esta custodia mandou fa{er soror M.^ de
S. Paulo e sva inu.^ a qualfii de custo dpientos mil
réis. Sobre a base, aos lados, dois anjos orando;
na haste, entre a base e o corpo principal um cor-
po d'architectura com seis pequenas columnas que
molduram nichos còtvi-figuras, S. Joáò Baptista, e
outros santos. No corpo principal grandes raios
terminando alternadamente em rosetas com pe-
dras imitando rubis (faltam duas). Em cima- õ ^Sal-
vador abençoando. Sob as pequenas columnas
existem os buracos para suspensões, mas só reS^ta
um pingente, qãe é uma pequena esphera e uma
pyramide de cristal. Aos lados do corpo central,
entre os raios, duas flores de liz.
3 Lâmpada de prata: pertence á capella da Se-
nhora do Rosário, na enfermaria. Altura o"', 6. Dois
pratos lavrados (pequenos relevos batidos) ligados
por braços singelos, em curvas simples e elegan-
tes; quatro correntes sustentamum -circulo para o
vidro: termina inferiormente por um pequeno pra-
to e uma esphera do mesmo lavor. No prato su-
perior o. dizer — De Nossa Snra do Rosário. — Tu-
do de prata.
4 Dois casíiçaes de madeira preta torneada com
ornatos de melai amarello. Altura o"\58.
Oon-^rarLto ISTo-vo (S. José e S. T'l':Leraz;a,)
1 Tapete de lã, a cores, em fundo verde, attri-
buido á industria dWrraiolíos.
2 Reposteiro pintado imitando pannos de raz.
Orlas de fructos e folhagens; figuras de guerrei-
ros.
Con-^ento ca.e S. Ola-ra,
T Porta-coeli de prata, do sacrário. Folha de
prata em relevos fortes, e alguns abertos deixando
ver um forro de velludo carmezim. o'",63Xo"\38.
Folhas, flores, espigas e cachos, volutas. O cordei-
ro imperfeito.
2 Resplandor de prata esmaltado e com pedras,
do Salvador do mundo (capella da quadra). Es-
maltes em azul e verde. Raios direitos e ondeados
alternados terminando em rosetas, de que faltam
14. Falta também uma pedra. As pedras ordiná-
rias.
3 Terrina de faiança, redonda. Tem as letras
D. V. R. 0^,3 1 de diâmetro. Antiga louça portu-
gueza imitando índia.
4 Perfumador de faiança verde; antiga cerâmi-
ca portugueza.
5 Véu de hombros; tecido em seda, ramagens
a branco sobre fundo encarnado.
6 Manto de seda lavrada a cores (capella do
P Salvador do mundo); ornamentação de folhagens,
insectos e aves.
I Custodia de prata lavrada e dourada tendo
cm cima a figura do Senhor. Altura o"\82. Orna-
tos de folhas em fortes relevos c seraphins. O cor-
po principal em 4 columnas. O Salvador abençoan-
do tendo na mão esquerda um pequeno pendão.
Sob as bases das columnas umas pequenas peças
que sustentavam provavelmente campainhas. En-
tre a base e o corpo principal um corpo d'architc-
ctura de frisos mui salientes, elegantes, as colum-
nas moldurando nichos vasios e que provavelmen-
te nunca tiveram imagens ou estatuetas. Esta ad-
mirável custodia existe hoje no Seminário.
8
2 Casula de tissu vermelho, com barras a bran-
co com applicaçõcs de vellado carmezim.
1 Quadro em pergaminho com moldura de éba-
no: 0,27X0,20. A Virgem, o Menino, S. João
Evangelista com a águia, e outra figura. No se-
gundo plano uma construcção em ruina. No fundo
paisagem em tom azul. Miniatura do século XVI.
2 Gravura em cobre estampada em setim :
i'",8oXo'",98. Em 3 partes bem unidas, 2 gran-
des e eguacs, i menor. Theses. Figuras grandes, de
bom desenho. Anno i 78 1 . Origem alleman. Actual-
mente na Bibliotheca.
S. Ben.to d.e Oastris
1 Véo de hombros, bordado a matiz e ouro, em
seda branca.
2 Panno de púlpito em setim branco. Bordados
de applicaçõcs de velludo carmesim e verde. Cruz
de Christo. Um brazão no centro, ao lado mitra e
báculo.
3 Quadro em azulejos, a Annunciação, 6 azulejos
quadrados de o, 1 8 de lado. Oquadro o™,5 5Xo"',365.
Em cima a legenda Ave Maria; o anjo sustenta
uma fita Ai'e Grada. Ornamentação do século XVI.
Estylo florentino. Agora na Bibliotheca.
4 Frontal de tissu, com ramagens a ouro.
Catalogo dos objectos pertencentes á Bibliotheca
publica d'Evora emprestados por ordem superior
(oíficio da direcção geral d'instrucção publica de
i3 d'abril de 1881, com referencia á portaria do
ministério das obras publicas de 5 d'abril, publica-
da no Diário do Governo de 7) para figurarem na
exposição de arte ornamental de origem hespa-
nbola e portugueza, no museu Kcnsington de Lon-
dres, e entregues ao ex.""" sr. Augusto Carlos Tei-
xeira de Aragão, vogal e delegado da respectiva
commissão.
^v^i3n.ia.t-u.xa,s eam. colore
i Chapa de o"", ioSXq^^^oSq. Pintura a óleo
com muitas figuras, conhecida pelo auto da fé; fi-
guras principaes de 0,045 de altura.
2 Retrato de dama; chapa de 0,078X0,058.
Bem conservado; meio corpo. Toucado, rendas,
minúcias de ornamentação no vestuário. Século
3 Retraio de homem; chapa de 0,134X0,104.
Bem conservado. Busto n\ima ellipse. Na parte
superior a legenda — Senhor francisco de Coimans
(ornato), ^///zo 166 r. — No verso entre duas co-
lumnas um estrado coberto de velludo, e uma ca-
veira coroada de folhas. Uma legenda — la crudel-
ta delia morte non é 'bastante á Stinglre la memo-
ria costante. Caracteres a ouro. Em baixo uma cor-
rente segurando uma ancora avivada a ouro e a
palavra T^iauna a ouro sob a argola,
4 Retrato de dama; chapada 0,180X0,128.
xMais de meio corpo. Vestuário singelo mas cara-
cterístico. Gola levantada. Facha da esquerda pa-
ra a direita sustentando uma medalha que parece
ter as le.ttras H. S.
5' Cha^pa em «moldura de tartaruga com
0.0% 2^0, 0'] o: 'N''uma ..face/S.t João Baptista, na
outra o retrato cie el-nei 0. João IV. Hlstc tapa-se
coni úma lamina coiTediça de tartaruga. Ha um
biiHcíe djc Cenáculo' que diz r-r-R:- trato yerdxivieiro
án sr. rei^ Q. João quarXo e i^io 5.1^1), .u^o- com a pin-
tura de S.' João 'Bapttsta. ' ^:
6 áétj-ato do priíjcipe.D. Tíiep4osiÍQ •,0,078 ^<
•,oo3^. Meio corpo. Vestunno c íun .10 em tom par-
o
I'0
do. Pacha bordada Ja direita para a çsquerdhv
vendo-se ainda os copos da espada. Mangas gol-
peadas, cabeção de rendas, não mostra as mãos.
7 Dois retratos de damas de o,o55 )(o.o4'V
dentro de uma caixa de ferro que lhes forma mol-
dura. Uma em máo estado, a inferior e fixa bem
conservada e de íinissima pintura. A tampa da
caixa é de corrediça, em ferro, com ornatos cn>
aberto e um escudo que dizem ser as armas dos-
Cordovas. O fundo da caixa é também uma la-
mina de ferro com ornatos em aberto.
^víEirj-ia-t-o-ra, em piata
8 Retrato do abbade Diogo Barbosa Machado-
autor da Bibliotheca Lusitana. Chapa elliptica de
0.075 Xo.o56 nos eixos maior e menor. Busto.
Pintura a óleo e muito fina. Inclusa n'uma caixa
de madeira singela, feita tm torno, com 0,092 de
diâmetro,
9 Chapa de cobre oblonga quasi elliptica : 7
buracos na orla mostram ter estado pregada. O
Salvador assentado abençoa, na esquerda susten-
ta um livro. Esmalte de alta antiguidade, menos,
mal conservado, com as cores azul, branca, verde,
vermelha e amarclla ; vivos de ouro. A cabeça
com um nimbo e a cruz em vermelho, aos lados a
ouro os caracteres alpha e omega. 0,104X0085
nos diâmetros maior e menor. No verso uma mar-
ca singela, espécie de báculo ponteado.
10 Chapa de cobre, circular, 0,078 de diâme-
tro, com um buraco para suspender. Ksmalte ver-
de, azul, branco, vermelho e ouro. Um cão bran-
co de coíleira vermelha. A cabeça n'um fundo
azul escuro, circular e em roda como que uma co-
roa de folhagens e palmas. Ornamentação gros-
seira.
1 1
-^icixo
I I Frasco de vidro verde de gargalo mui estrei-
«to, sendo o corpo achatado c deprimido. Bem coa-
-servado. Ornatos do mesmo vidro formando nos
tlados duas cruzes com saliências de forte relevo;
no contorno fitas de vidro também com saliências;
iima prolongando-se forma a extremidade. 0,088
<.i'altura. As depressões lateraes tocam-se interna-
mente de modo què o frasco se pode dizer forma-
do por um tubo enrolado.
12 Quadro em madeira de 0,174X0,156. O
Santo Encontro; Jesus, a Virgem e S. João Evan-
lífclista; Jesus com a cruz, mas de modo pouco
vulgar, os braços para traz. Bjm conservado, pin-
lura fina de antiga altribuição a Grão Vasco. An-
tiga pintura portugueza muito notável.
i3 Triptico. Quadro central: a familia sagrada.
Nas taboa-s lateraes, á esquerda S. Úrsula. S. Lu-
zia e um santo. A direita S. Gatharina. S. Apoló-
nia c outro santo. As 4 santas de o,io5Xo,095;
os santos, que são os quadros médios, são meno-
res e carecem de legendas. Pintura finissima, bem
conservada. No quadro de S. Apolónia a assigna-
lura Joana bautista fasiebat. Superiormente outra
taboa dobradiça com o Eterno e a pomba. Em
baixo outra dobradiça com um seraphim. Muito
notável.
Ijí-vxo3 d.e psrgrai^a.ixi.li.s csrcx ill-a.nain-cLxa.s
14. '^•^~- ■ (designação da collecção dos manus-
criptos da Bibliotheca). Folhas de o, 1 58 X o, 120.
Horae b. m. Uirginis. Lettra do século 14,
71 folhas. Encadernado em veludo carmesim, e
signaes de ter sido ornado com brazão, cantos, fe-
r2'
charla, e uma cruz de Chrisío, sem duvida de pra-
ta.
i5. ":^~- . 256 folhas de o, 106x0,077 Horae et
aliae dQvotiones. Meiado do século i5. Encaderna-
do em velludo azul.
16. 'y ■ Século 16. 287 folhas de 0,1 10X0,075,
Na lombada Hevre. Encadernado em marroquim
castanho.
17. '-•*~^ . 119 folhas de 0,1 17X0,085. Enca-
dernado em couro com ornatos dourados.
18. '"^~^ . 168 folhas, as 2 ultimas com uma ora-
ção em francez. Foi. de 0,1 i8^o,o85.
19. Biblia castelhana -H^::!., i vol. foi. grande a
2 columnas. Século 14 ou primeira metade do i5.
261 folhas. Algumas vinhetas concliiidas, outras
esboçadas, para muitas só existe o logar em bran-
co. Muitas iniciaes lindamente floreadas.
OujGcíôs enviados pelos cosYoaícs de Yllla Yl?osa e Borba
"^ills, "'s7"içosa.
1 — Cruz processional de ébano com pregaria
e ornatos de prata; imagem de marfim; sobre
uma esphera de prata de baixo relevo (género da
lâmpada da Senhora do Rosário, do convento do
Paraizo d'Evora).
2 — 5 bocados de seda antiga, tecida de varias
cores e padrões, pertencentes a cortinas de orató-
rios e vestimentas de santos.
Ocrj.-ven.to <a.e Santa, Ori^-z, em. "Villa, "Viçosa,
I — Quadro em moldura de pr,ata. Arte hespa-
nhola. N. Sr.^ de Ia Consolacion de Uterra, com
i3
indulgência Jo cardeal Borja. Pintura não supe-
rior, mas bem conservada. As roupagens muito
ornadas. Aos lados varias miniaturas aliusivas a
milagres, um duelo, uma tourada, etc. Século 17.
Agora no Seminário.
2 — Vdo de hombros com tecido branco e ouro ;
flores côr de rosa com folhagens verdes.
3 — Panno de púlpito em damasco branco com
guarnições de tisso carmesim e ouro.
4 — Um ralo de prata lavrada com 4 seraphins
aos cantos; da roda da portaria.
<a.a-s Ser-va-s, eiTL BorToa,
1 — Bacia e gomil de cobre esmaltado em máo
estado; a bacia em forma de concha (pecten); or-
namentação de ligeiras folhagens, de graciosa sim-
plicidade, em fundo branco.
2 — Dalmatica bordada a ouro e retroz verde e.
vermelho em fundo de setim branco, que faz par-
te de um paramento que está depositado na egre-
ja de S. Barlholomeu da mesma villa.
Sobre os objectos d'aríe da Sé d'Eyora emprestados
para a exposição
Calis de ouro lavrado e esmaltado, a principal
obra d'arte que lemos em Évora, e uma das pri-
meiras do paiz. Sob a base, n'um vão, a inscri-
pção : Doct. paiilus Alphonsiis T^Qg. Cousíliariíts in
ecclia Eboren. Archid. et Canon i cus donauit. Anno
Dne — ; disposta em circulo rodeando um brazão,
e aos lados d'este a data iSSy. O brazão sobre
lima cruz de S. Thiago em esmalte vermelho.
Ornamentação delicadissima em motivos de
grande simplicidade e elegância: relevos admirá-
veis; csmalies de extrema perfeição uns sobre re-
levos, outros em superfícies burniJiis. 0> relevo'?
e esmaltes da ornamentação geral m)l Juram i8
quadros onde o artista m lis se esmerou, 6 no cor-
po, 6 na base, 6 na haste e n'estes o buril attingio
um prodigio de execução. Os da taça quasi elli-
pticos graciosamente entremeadas por anjos de
braços abertos que os amparam. Os da haste sã.>
quadrangulares, oblongos, formando as faces d'um
prisma hexagonal; nas arestas umas pequenas pe-
ças, também esmaltadas, oscillando um pouco e
formando separações nos relevos: entre estes so-
bresáe ainda a ceia do Senhor^ relevo que não tem
mais de 2 millimetros de espessura, mostrando a
meza um tanto obliqua, e muitas figuras, nitidas,
vigorosas, todas diífcrentes, de pasmosa execução.
Notarei ainda que em vários pontos ha um fun-
do que não é fosco, mas parece revestido de certa
substancia brilhante, pequenos fragmentos talvez
de pedras preciosas.
A custodia de prata dourada e lavrada é uma
formosa peça : infelizmente foi concertada e mo-
dificada na haste por artista pouco entendido; o
corpo principal porem não tem modificações e es-
tá menos mal conservado; é em gothico terciário
do século I 5.
Se estivesse completa seria uma bella obra de
arte e uma digna companheira da cruz processio-
nal que foi emprestada pelo convento do Paraizo.
Um porta-paz lindissimo, do século i8, com
volutas de forte relevo, elegantemente lançadas,
formando moldura.
O panno, attribuido pela tradição aos templá-
rios, que pertenceu ao convento de Aviz, donde
veio para a Sé. Segundo opinião, creio que do fal-
lecido abbade de Castro, mas de que não conheço
o fundamento, seria este panno feito para cobrir o
cadáver d'el-rei D. Manuel, na trasladação talvez,
porque decerto levou elle muito tempo a fazer.
i5
Em 1887 descobiiram-se na Sé outras tapeça-
rias do mesmo lavor, vendo-se então que forma-
vam um dcK'cl. Esteve armado fazendo extraordi-
nário effcito na sala grande da Bibliotheca, por
occasiáo da visita da família real em maio de
1889. E sem duvida a primeira tapeçaria que exis-
te no paiz, pplo notável trabalho e estylo, e pelo
estado de conservação.
Do panno, da custodia, e do calis existem pho-
tographias.
A propósito da custodia da Sé direi que d'estas
ourivesarias do século i5, em estylo gothico, no
estylo da Batalha como vulgarmente se diz, se en-
contram no paiz dezenas de notáveis exemplares.
Tenho visto os melhores nos thesouros da sé de
Coimbra e de S. Maria da Oliveira de Guimarães,
ambos importantíssimos.
Na sé de Coimbra ha uma custodia que é uma
verdadeira belleza ; já lhe faltam porem algumas
peças, estatuetas, etc, o que não destroe todavia
o effeito geral, sendo muito possível restaural-a. O
thesouro da sé de Coimbra contem cálices e reli-
cários bem conservados, que devem classificar-se
nos séculos i5 e 14, e uma pixide admiravelmen-
te conservada, que demais tem a singularidade de
estar datada c assignada pelo ourives Geda Me-
nendiz, um artista contemporâneo de D. Affonso
Henriques. *
Esta pixide pertenceu ao antiquíssimo mosteiro
de S. Miguel de Refoios de Basto, depois ao colle-
gio de S. Bento de Coimbra, donde veio para a Sé.
Tem na base a inscripção seguinte: — Jesus rex.
Johanes. Petrus. Thomas. Andreas. Filipi et Ja-
cobi. Simonis. Bartholomeus. Jacobus. Mateus.
* Outro Geda Menendiz apparece como testemunha no foral da
villa de Constantim de Panoyas, dado pelo conde D. Henrique
cm lOvjO (era 1 134).
í6
Geda Menendiz me fecit. E. M. C. LXXX. — É
pois do anno 1 142 (era i 180).
Os ornatos consistem principalmente em SS de
pequenas fitas de ouro ou filigrana. Está comple-
ta, intacta, não soffreu alterações. A pixide de
Coimbra e a celebre cruz de D. Sancho, hoje per-
tencente ao museu d'el-rci (o OccUenJe publicou
a gravura), são, me parece, as duas peças mais
importantes da antiga ourivesaria portugueza.
Foi lambem pedido para fi.^urar na exposição,
o celebre calis da Sé de Braga, chamado de
S. Gerald(3. Conheço também este notável obje-
cto d'arte sem duvida de alta antiguidade, não sei
porem se poderá dizer-se producto de arte por-
tugueza ; é esmaltado no gosto dos velhos esmal-
tes de Limoges, que eram mais frequentes do que
se suppõc nos antigos mosteiros e cathedraes; do-
cumentos portuguezes dos mais antigos, inventá-
rios e testamentos, mencionam os alemoges. peças
de ourivesaria esmaltadas nas oííicinas de Limo-
ges, que durante muitos séculos produziram obje-
ctos d'este género.
OTojoctos do I^SLÇO .i^rcln.iepiscopa,l
Calis de prata dourada, o", 21 d'altura. Cinta na
taça com a inscripção *-\-fc, co. manhos. niaria.
fereira.» Bem conservado.
Campainha de bronze com capa de prata de
siní^elos abertos: o ctibo' termina em sineíe.>com as
anims do preliado D. -fi^efLlliz da Silva;-
/ri "
■(Dfíioio do Governo Civil de 3o de juljio de
iS8reí«portíit^a'^^iibHcadà no Diário do Governo
n." 16Õ, de 26 de jullio^^ Oííi:ia"ç]a' Camará Mu-
nrçif abiji.°'j:^^;^;^,i^:d'agostò dí ,., ..
Calis de prata douradaj íins do século -J^V: Ba-
I
se em hexágono de fortes chanfros relevados. Nó
com ornatos gothico- renascença, na taça uma cin-
ta de cherubins "sendo dois barbados. Inscripção
em gothico Anhiis dei qiií tolys pecata ; e na pa-
tena Uerbiim caro fautiim es aleliiya ale; tem 6
campainhas. Esmalte azul, verde e branco na
haste: o'",26 d'altura.
Mitra de prata: abertos, e baixos relevos, o'",3i
d'altura : pedras ordinárias: no verso a inscripção
— O sr. inquisidor Manoel de Maga^hães de Mene-
ses deu esta mitra a S. Brai sendo alcaide de sua
confraria o anno de 1648.
Báculo de prata, fracos relevos; o'",35 na parte
superior, a haste comp5e-se de 6 canudos eguaes
(por isto só um foi enviado) Inscripção no an-
nel<')u nó O deani o deu 162%. Um vaso ou urna
de elegante desenho forma a base do báculo. O ca-
nudo da haste tem o"', 23.
Relicário — braço e mão abençoando — o"". 40,
de prata; ornatos da manga, base e chapa com a
relíquia dourados. Na base a imagem de S. Braz
em relevo e a inscripção Ecce sacerdos magnus
^lasivs qui in diebus suis placuit Deo et inventus est
jus tus.
Estes objectos pertencem á ermida de S. Braz,
sendo o báculo e a mitra da própria imagem.
Faim de S. Jorge, o"\97 — Mão e guarda de
prata, aberta e lavrada a burij.
OTojectos eziTT-iaclos pelo e=-r.""> "Viscon.cLe
d-a, Espera-nça,
Cofre de madeira, pintado de preto, forrado de
velludo carmezim; o"',8o X 0*^,60 X 0^,28 : conten-
do 'quarenta e um objectos de prata, fosca e bur-
nida : espelho, bacia e jarro : guarda jóias : cafetei-
ra, bule, assucareiro, talher, 2 colheres de chá, 2
castiçaes, palmatória, barquinha e thesoura, 2
i8
frascos de cristal lavrado com tampas de prata^
tampa de um copo de cristal, salva de pé, campai-
nha, bandeja com tinteiro e areeiro, 4 bandejas de
diversos feitios e tamanhos, pincel de barba con>
cabo de prata, escova, pregadeira de veludo car-
mesim com cinta de prata, frasco para chá, 8 cai-
xas de dimensões diversas. xMarcas — G. C. D.' —
c — N—.
Par de castiçaes, de filigrana de prata, de o'",25
de alto, alguns ornatos esmaltados; uma ave de
azas abertas sobre a base ; esmaltes verdes, azues
e castanhos; folhagens e flores.
Cofre de prata revestido de filigrana; o,igN^ 14,
ornatos delicados, esmaltes ; espelho na tampa e
cadeia de prata.
OTojcctos en-viad-os pela- EUsliotlneca,
^■u-Tolica^ d.';ET7-oxai
Chave de ferro de o™, io5 d'altura, muito antí-
2 colheres de prata, antigas, diversas; uma em
máo estado.
Um par de acicates de bronze com restos de
douradura.
Uma espora, o™, i de comprimento na haste, or-
natos em relevo.
Um par de estribos de bronze, d'apoio circular,
o"',34 d'aIto.
Um par de sapatos de senhora, de damasco la-
vrado, com saltos forrados de marroquim vermelho
íiltos de um decimetro, ponta elevada, em pouco
aso.
Frasco para cheiros, de porcelana, em forma de
gato ; coleira e cadeia de prata dourada com a pa-
lavra • Fidelité» .
Cinco botões de 0,048 de diâmetro, cobre dou-
rado ; 4 com gravuras coloridas, i com miniatura
a nankim de gracioso desenho.
_i9_
t!}oIa de renJa, o, 5 5 no decote, o,i5 por lado.
Dita, 0.73 no maior comprimento.
Fragmentos de renda, 0,22. Rendas estas eguaes
<oa parecidas ás que figuram em retratos de da-
íiias do século 17.
Espada de folha direita de 0.87. Marcas na fo^
lha, e na guarda — T. Hollier — .
Espada curta de 0,40 na folha e 0,29 no virote,
para guarda da esquerda. No vasado da lamina
tem as palavras Lite domine espadcro.
Figura de coral em pedestal de marfim; a figu-
ra está mitrada e de braços abertos; com a le-
genda In médio positiis qno me verta... d'um formo-
so coral; o trabalho parece chinez.
Duas esculpturíis em pedra; 0,094X0,122.
Adoração dos reis. A Virgem e o Menino. Parece
trabalho muito antigo. .A^mbas teem na base as le-
tras /. V. H. Muito quebradas, collocadas sobre
lamina de madeira.
Desenho em papel; em moldura d'ebano: 0,1 5
Xo,i9. A Virgem, o Menino, dois anjos e a ser-
pe: sobre o desenho estão escriptas em caracteres
inicroscopicos a Salve regina, o Credo, o symbo-
io deS. Athanasio, os sete psalmos da penitencia,
€tc.
Quadro bordado a retroz; Christo e a adultera;
bem conservado o bordado, mas esvaídas as co-
res; fios de ouro nas roupagens; as carnes pinta-
das em seda branca.
Pendão do Santo Ofíicio. Grossos bordados a
ouro em damasco encarnado; a meio um meda-
lhão eliptico tendo n'uma face a cruz, a espada e
o ramo d'oliveira e o dizer — Exurge domine et jii-
dica cansam tuam. ps. j3. Na outra face a imagem
de S. Pedro martyr com a inscripção — Pro san-
efa munere martirii palmam meruit obtinere : roupa-
gens a prata c ouro, carnes bordadas grosseira-
20
mente em seda; o fundo a ouro; franjas d'ouro,.
e nos dois extremos grossas borlas também d'ou-
ro.
Colcha de pelica aberta applicada sobre seda
azul e vermelha; os abertos formam desenhos de-
licados de folhas e volutas; no centro uma águia
de duas cabeças.
>
Quadro; desenho; milagre dos 5 pães e 2 pei-
xes- 0,46X0,33. Assignado. Eqiies Faria inv. et
fecit 177I'
Desenho a lápis vermelho, 0,37X0,26. Cinco
desenhos diversos. Brazão de Diogo Fernandes de
Almeida. Um peregrino. Uma aurora lançando
flores. Projecto de medalha da Academia de His-
toria — Trotecção á Academia. 1720. — Chegada
dos reis e príncipes a Lisboa em ij2g — . '
Idem. 0,52X0,29. Eques V. L. invenit. Titula
— Tsyches historia 'JR^aphaelis Urbinatis opus singu-
lare in palatio vulgo guise Romae — . Os deuses
ouvem a historia de Eros e Psyches; desenho im-
portante, com muitas figuras.
Idem; 0,57^x^0,42. Cinco desenhos diversos; no
centro uma descida da cruz. Iniciaes IJ. e L. orna-
mentadas a lápis vulgar (Vieira Lusitano).
Idem; 0,52x29. Ass. Lusit^ iuveuit. Nuptia
Psyches, Os deuses em festa; desenho importante.
Quadro bysantino 0,35X0,297. Constantinae
Helena manifestam a cruz. Sobre a madeira que
parece revestida de gesso assenta a pintura e a
douradura ; fundo d'ouro ; as figuras nimbadas de
ouro. No verso do quadro uma cruz em vermelho
no fundo branco. Cantonando os ângulos da cruz
os caracteres I C — X C — N I — K também em
vermelho.
É importantíssimo este objecto d'arte, e pode
dizer-se perfeitamente conservado. Os caracteres
21
do reverso fornecem pela sua forma e disposição
elementos para a determinação de uma data.
Constantino Magno foi eleito César em 3o6 da
nossa era, mas o emprego da formula — Jesus
Christo venceu ou vencedor — (Jesus Christus Ni-
ka) só mais tarde apparece, por ex. nas moedas
de Leão V e Constantino VII (8i3 a 820).
No anverso das moedas attribuidas a João i.°
Zimisca (969 a 976) encontram-se os caracteres
I C — X C — N I — KA cantonando os ângulos
da cruz exactamente como succede no quadro da
Bibliolheca (Teixeira de Aragão — Descripção das
moedas romanas do gab, num. do sr. D. Luiz,
pag. 596: e sobre a inscripção IHS. XPS. NI
KA. — Jesus Christo venceu — a pag. 54 da Ico-
nographie chretienne de M. Crosnier. Tours.
1876).
Triptico, oratório portátil dividido em três par-
tes, uma central e maior, e duas lateraes que se
podem dobrar sobre a primeira. Esmalte sobre co-
bre.
Objecto d'arte importantissimo, bem conserva-
do; uma das maravilhas da Bibliotheca publica
d'Evora. Os esmaltes em molduras fortes, lisas,
douradas; o, 525 Xo, 410, no total.
Centro o, 280X0, 235.
Lados 0,280X0,098 ; cada um dos lados se de-
vido em dois quadros. Pequenas rosetas de prata
ornam as fachas das molduras. Nas fachas supe-
rior e inferior — Atendite et videte si est dolor simi-
lis sicnt {sichvt) dolor meus — em orthographia irre-
gular e disposição caprichosa.
O quadro central — Calvário — Longuinho dan-
do a lançada. A Virgem desfallecida amparada por
S. João. A Magdalena. Annás e Caiphas; figuras
de guerreiros a pé e a cavallo, com variadas e
22
mimosas ornamentações. Aos lados: Pilatos la-
vando as mãos. O encontro. A descida ao inferno.
Christo e a Virgem.
Na fímbria do manto deLonguinho Lougisaueu-
gle sa: na base do genuflexório á direita — O ma-
ter dei memente.
Fundos azues escuros salpicados de ouro; tom
violáceo nas carnes; toques de luz nos cabellos,
roupas, vegetaes e edifícios dados a ouro.
Parece não ter marca alguma do esmaltador
que era um artista insigne.
Nada se tem escripto sobre esta preciosidade;
o fallecido conselheiro Rivara, tão erudito, e tão
conhecedor das collecções e manuscriptos. da Bi-
bliotheca eborense de que foi por bastantes annos
chefe dedicadissimo; o dr. Filippe Simões cujos
trabalhos e espirito indagador todos conhecem,
também bibliothecario por muito tempo, e que es-
tudou muito os objectos do museu reunidos pelo
grande Cenáculo; o sr. Telles de Mattos, o infati-
gável catalogador, que com uma perseverança su-
perior a todo o elogio manuseou talvez todos os
manuscriptos da Bibliotheca, nada encontraram,
creio, sobre a proveniência do famoso triptico.
Conserva-se apenas a tradição de que Cenácu-
lo o recebera como presente dando de gratifíca-
ção 700^35^000 réis; e ha um papel impresso, talvez
por 1700 e tal, e collocado no verso do tampo da
caixa de madeira, cujo dizer é em parte certamen-
te falso, papel sem assignatura, sem data, sem cou-
sa alguma que lhe dê authenticidade, e que pare-
ce ser um simples artifício para augmentar, com a
lenda maravilhosa, o valor do esmalte; todavia eu
não rejeito as ultimas noticias de tal papel.
Começa por contar que o esmalte fora encon-
trado em S. Sophia por occasião da tomada de
Constantinopla em i2o3, e que os gregos por an-
23
liga tradição affirmaram ter elle pertencido a Cons-
tantino Magno ; ficou em poder dos francezes até
á batalha de Pavia (i525), em que Francisco I foi
prisioneiro ; Carlos 5." trouxe o triptico para Hes-
panha, mas Izabel d'Austria levou-o para Mantua
e ahi o teve n'uma capeila magnifica de columnas
de cristal. Diz ainda o impresso que isto consta da
carta do conde Castiglione dirigida ao Summo
Pontiíice para que concedesse a bulia da sagração
da dila capclla, carta que se conserva em Mantua
na casa de Castiglione; diz mais que o celebre Jú-
lio Romano o avaliara em 16:000 escudos roma-
nos.
Ora o esmalte é francez, e a analise do vestuá-
rio, etc, leva a marcar-lhe os fins do sec. XV ou
principios do sec. XVI.
Por isto a primeira parte é simples fabula, só
fabricada para illudir os enthusiastas. Mas a se-
gunda parte não repugna.
A nota porém deixa-nos o esmalte em Mantua,
na casa Castiglione; como voltou a Hespanha?
Não tenho pretenções a decidir ou a resolver,
não será porém inútil relatar alguns factos. É cer-
to que um membro da familia Castiglione de Man-
tua, Bahhasar, veiu a Hespanha como embaixa-
dor do duque de Urbino a Carlos 5.° e travou re-
lações de amisade com o imperador que lhe fez
muitos favores, escolhendo-o até para bispo de
Ávila. Era homem instruído, escreveu prosas e
versos, latinos e italianos, que foram muito apre-
ciados no seu tempo; morreu ím Toledo em 1529.
E possível que este Castiglione, vindo de Mantua,
e cingindo a mitra de Ávila, trouxesse de lá, ou re-
cebesse como oíferta de sua familia o precioso es-
malte.
A respeito de Júlio Romano, é também possí-
vel que o grande pintor earchitecto visse em Man-
24
tua o esmalte; Júlio Romano residia em Mantun,
onde morreu por 1546, tendo 54 annos d'idade.
Estudando o esmalte ve-se claramente pelas
roupas, barretes, espadas, etc. que deve ser dos
fins de 1400 ou princípios de i5oo. As scenas
representadas revelam igualmente que o artista co-
nhecia as tradições mais populares, os evangelhos
mais vulgares. Porque, é preciso notar, em assum-
ptos de archeologia artística christã, devem sem-
pre ter-se em vista os livros mais populares; na
idade media os 4 evangelhos (S. Matheus, S. Lu-
cas, S. Marcos e S. João) e mesmo muito depois,
não eram tão vulgarmente conhecidos como mui-
tos outros que a Egreja depois reprovou e excluiu
completamente por conterem lendas, episódios, e
doutrinas, ou cheias de maravilhoso excessivo, ou
em desharmonia com a doutrina christã.
Ao estudar o esmalte da Bibliotheca vô-se logo
que estamos em frente de uma obra em harmonia
com um evangelho popular; principalmente o epi-
sodio de Longuinhos e a descida aos infernos são
scenas que parecem inspiradas por um evangelho
que foi vulgarissimo, o celebre evangelho de Ni-
codemos; tão conhecido e importante que se lhe
attribuem algumas das lendas mais varia e vasta-
mente dilatadas, como as de Longuinhos, do Saint-
Graal (saing-raal, sangue real, o sangue da ferida
de Christo que foi recolhido no vaso d'ouro), do
rei Perceforest, etc.
Tão estimado era o evangelho de Nicodemos
que foi um dos primeiros que traduziram do latim
para francez; em 1497 ^^ publicou com o titulo
Passion de N. S. Jesus Christus par le bon mais-
tre Gamaliel et Nicodemus son neveu...
N'elle se conta o episodio de Longuinhos; co-
mo Annaz e Caiphaz se approximaram da cruz, e
outros cavalleiros, o centurião que se nega a dar
25
a lançada, apparece um judeu cego chamado Lon-
gis, e presta-se a isso para assim obter a vista; é
o episodio do centro do esmalte — Longis estoit
aueiigle diz o evangelho, é a inscripção da fím-
bria da capa do judeu no esmalte, com a mesma
orthographia, Longis aueiigle sa. . .
No evangelho de Nicodemos descreve-se com
muita minúcia a descida do Salvador ao inferno;
estouram as grades do terrivel cárcere para dei-
xar sair os antigos personagens biblicos; appare-
cem Moysés, David, Isaias, Adão, etc, que vão
para o paraiso onde Henoch e Elias os recebem ;
surge também um homem de aspecto miserável
com uma cruz marcada no hombra, é o bom la-
drão, Satan fugiu e a hedionda figura de Hades,
o senhor do inferno, contorce-se de dôr e medo; é
exactamente o quadro superior, á direita, do es-
malte; lá está Hades, o senhor do inferno, estor-
cendo o corpo horrivel, as grades abertas, Moy-
sés, David, etc, e o Salvador que lhes indica, o ca-
minho do paraiso. (Sobre os episódios do evange-
lho de Nicodemos, de importância maior, paia o
estudo da archeologia artística v. os Etudes sur les
Kvangiles apocryphes par Michel Nicplas. Paris.
1866).
Durante bastantes séculos floresceu em Limo-
ge< a industria do^ esmaltes; em vários documen-
tos antigos, dos sec. i3 e 14, se designam simples-
mente pelo nome — alemoges — . São conhecidas
algumas marcas de esmaltadores de Limoges (V.
Dictionnairedes monogrammes, par Christ de Lei-
pzig. Paris, lySo. E o — Guide de Tamateur d'ob-
jects d'art et collection des monogrammes par le
dr. Th. Graesse directeur du Museé de Dresden,
1877), mas n'este nada enconh-ámos ainda que nos
indicasse o artista. Parece que isto succede na
maioria de taes objectos d'arte.
26 - '
Uma nota ainJa a respeito de Castiglione.
Na edição de — II Cortegiano dei conte Baldes-
sar Castiglione (Pádua, 1766) — vem a sua bio-
graphia escripta pelo abbade Serassi, e a foi. 18
se diz : Questo bel génio dei Conte gli facea es-
pendere largamente nel provedersi di quadri, di
busti antichi, e di cammei d'ottimo artificio; e fu
cagione ch'egli nobilitasse maggiormente la sua
pátria, condu^endovi dopo vari anni il celebre
Giulio Romano... etc. —
Na exposição da grandeza de Madrid, por
occasião do centenário de Calderon, reuniram-
se alguns esmaltes; a descripção de alguns faz
lembrar o eborense, é bem possivel que a compa-
ração contribua a resolver o problema. O tom vio-
láceo das carnes, os bellos azues dos céus e rou-
pagens apparecem, ao que dizem, nos esmaltes de
Limo^es do século 16.
Ha poucos dias achei uma referencia ao esmal-
te eborense ; mencionando-se as preciosidades ar-
tísticas da Bibliotheca, especialisa : «Particuliére-
ment un email dont Texistence a etc signaleé par
M. Alfred Demersay, et qui aurait pour la France
une grande valeur historique. Cet email, l^im des
pliis beaux spécimens de l'art frauçais á Tépoque de
la Renaissance, est un triptyque de Limoges. Sur
la piéce centrale, comme sur les piéces latérales.
qui s'appliquent en volets sur la premiére, sont re-
presentces les scénes principales de la Passion du
Christ. On lit dans une inscription latine coUée sur
le couvercle de la boite qui renferme ce précieux
calvaire, qu'il aurait appartenu au roi François
I."; il aurait èté pris dans ses bagages á la batail-
le de Pavie. La tradition ne dit pas comment il a
passe des mains des espagnols dans celles de la
ville d'Evora. On sait seulement qu'on a refusé de
cet email des sommes considérables (Espagne et
27
Portugal, par GermonJ de Lavigne (Guidc- Joanne)
Paris, 1890. pag 701).
No esplendido livro intitulado — Al sommo pon-
tefíce Leone XIII omaggio giubilare delia Blblio-
theca Vaticana (Roma, tip. delia Propaganda Fi-
de, 1888), vem uma admirável estampa colorida
representando o esmalte oíTerecido pelo Papa á
referida bibliotheca, com sua descripção breve mas
erudita; «II trittico a smalio dipinto donalo da S.
Santitá Papa Leone XIII ai museo sacro delia bi-
bliotheca Vaticana illustrato dal prof. Gosimo Stor-
naiolo, assistente alio stesso museo.»
O professore Stornaiolo julga esse trlptico es-
maltado como jóia de primeira grandeza. F^all.i
dos esnialtes dos Reymond, Penicaud, Courteys,
Noulier, Denis, etc, e termina attribuindo-o a Nar-
done (Leonardo) Penicaud, que viveu em 1470 —
1539.
O quadro central representa a scena de Lon-
guinhos, quasi como no esmalte de Évora ; egual
disposição nas figuras principaes, gestos, attitudes
cguaes; os mesmos tons azues e violáceos; mais
simples, menos figuras -secundarias, menor orna-
mentação em vestuário e armas, menos perfeição
artisti.ca.
Sem sombra de entbusiasmo, ou de estreito
amor pátrio, o esmalte eborense é muito superior
ao do Vaticano. '
E um primor d'arte de primeira grandeza.
OTojectos e3n.-via.ca.0s pelo Esc.'"" T2>x. .A-Toel
^v^sirtins I^erreira
Pintura em nxideira Santo António de Pádua,
co;;/. o™, 175x0'", 1 35. Em -moldura de madeira,
alto relevo, aberta, dourada, com vestígios de pin-
tura.
Ornatos de flores e águias. No verso Esta lami-
28
na de Santo António deu a este noticiado de Évora o
padre Joseph Garcia; fora ella do Arcebispo T>. fr.
Luii da Situa e se deu ao R. por lhe assistir na mor-
te efa{er os colloquios.
Miniatura em pergaminho 0,145x102: triumpho
do Santíssimo Sacramento: grupos de anjos entre
flores; moldura de ébano: o,25oXo,2o5.
Quatro miniaturas em pergaminho 0,1 3o por
o,o85. Parecem iUuminuras^de um Hvro de horas,
talvez flamengas. A Visitação, Pentecostes, o Cal-
vário; a Virgem e o Menino com dois anjos can-
tando e 2 tocando, um d'estes toca um pequeno
órgão portátil, de forma não vulgar, tendo a mão
direita no teclado e a esquerda no folie. Molduras
modernas.
Medalha elliptica de cobre esmaltado o,o85 no
maior diâmetro; n'uma face M A (Maria); fundo
branco; aro de prata dourada e argola.
Escapulário bordado d'uma freira da ordem de
Malta, de Estremoz ; ornamentação de bordados e
cordões, 14 pequenos quadros bordados sobre se-
tim branco; os martyrios, a Verónica, o gallo, etc.
Cruz de Malta em branco sobre fundo preto. Três
grandes borlas e 2 menores, de grande trabalho
e perfeição.
A facha tem i,"'o6.
Capella, ornato da cabeça, de flores de seda,
também da mesma religiosa: 0,18 d'altura.
Estes dois últimos objectos pertenceram a uma
religiosa de Estremoz, que os deixou ao reverendo
prior de Santo André, e por este oíferecidos ao
cx."" dr. Abel. São objectos singularissimos no seu
género, de grande perfeição de írabalho, e em ex-
cellente conservação.
Os conventos de S. Bento, Nossa Senhora do
Paraizo e Salvador, offereceram os seguintes obje-
ctos :
29
Prato comprido de faiança grosseira, de meias
canas, pintura ordinária, o,"'38 no maior compri-
mento. —
Frasco de vidro verde em forma de cabaça —
frasco de vidro branco com meias canas, o, ""28 de
alto. Boião de faiança ordinária, da botica do mos-
teiro, com 4 pequenas azas.
Frasco de vidro verde de grande bojo, gargalo
estreito e alto, o bojo com saliências. —
Pequeno prato de pintura azul sobre fundo
branco, pintado também no verso.
Sa-1-vaca.ox
4 pratos de faiança, dois grandes e dois meno-
res: I prato que tem a marca de Rouen. i garra-
fa de vidro lapidado, de bojo achatado, com aza :
I frasco de vidro esverdeado (o vidro muito im-
perfeito), tem aza, gargalo alto, bico muito aperta-
do.
Tinteiro de faiança (falta o deposito de tinta).
Agnus Dei (piasinha d'agua benta) de louça or-
dinária. —
Muitos d'es1es objectos foram cedidos á Biblio-
theca onde se acham expostos.
Os objectos escolhidos em Évora (Bibliotheca,
Sé, e conventos de religiosas), e os que vieram dos
conventos de Borba e Villa Viçosa, estiveraip em
exposição publica, no primeiro de maio de 1881,
na sala de leitura da Bibliotheca.
Foi uma exposição improvisada á ultima hora,
annunciada oralmente por alguns amigos, e logo
bastante concorrida, corivencendo-se todos os vi-
3o
sitantes de que tínhamos na cidade elementos suf-
íicientes para organisar uma exposição a valer.
Os objectos mais preciosos não foram a Londres,
cautella justificável pela possibilidade de sinistro
maritimo; ficaram em Lisboa, na casa forte da Aca-
demia de Bellas Artes, esperando a exposição por-
tugueza.
Por decreto de 22 de junho de 1881 resolveu o
governo organisar a exposição de arte ornamental
no Museu Nacional de Bellas Artes, de novembro
d'csse anno ao fim de janeiro de 1882. Por isso
se fez a segunda colheita, recorrendo também a
particulares, ficando a nossa cidade muito bem re-
presentada n'esse congresso de monumentos da ar-
te portugueza.
Será conveniente mencionar aqui as classes das
obras de arte admissiveis á exposição.
i.* Ourivesaria, metaes preciosos e jóias.
2.* Obras de metaes não preciosos.
3.* Esculptura decorativa. Estatuetas, baixos re-
levos, imagens de santos, figuras de presepes, etc.
4.^ Armas.
5.^ Vehiculos, arreios, estribos, acicates, sellas,
coldres, telizes, xairéis, etc.
6.* Cerâmica, vidros e esmaltes.
7.* Mosaicos,
8.* Obras de tartaruga. Cofres, caixas de rape,
pentes, etc.
9.* Mobilia.
10.^ Relógios, e instrumentos de precisão, notá-
veis pela ornamentação.
M.* Instrumentos de musica ornamentados.
12.* Tecidos e bordados.
i3.* Encadernações.
14.^ Miniaturas.
i5.* Revestimentos de salas.
16.' Couros estampados, pintados, dourados ou
prateados.
3i
17/ Manuscriptos illuminaJos.
18.* Desenhos, modelos e photographias de obras
decorativas.
A exposição eborense
Em maio de 1889 a familia real visitou a capi-
tal alemtejana.
Foram dias de extraordinária animação na ci-
dade que interrompeu a sua pacatez habitual para
se ataviar e engalanar a fim de recebera gentil vi-
sita ; só houve uma nota dolorosa, o aspecto en-
fermo d'el-rei, já então muito ferido do mal que
poucos mezes mais tarde o prostrou.
Houve passeios, illuminaçõcs, bazares, touradas,
e um grupo de cavalheiros lembrou fazer uma ex-
posição de arte ornamental-
Improvisou-se, outra cousa não foi organisaruma
exposição em quatro dias. Não se recorreu aos con-
ventos de religiosas;a poucos estabelecimentos pú-
blicos; não se pediam jóias de pequeno volume;
evilou-se quanto possivcl a repetição de objectos;
e ainda assim, na sala grande da Bibliolheca Ebo-
rense, reuniram-se muitos, variados e bem interes-
santes artigos.
As jóias e tapeçarias da Sé e da .Mitra estavam
no topo do sul; em grandes vitrines horisontaes al-
gumas porcelanas, crystaes, leques; pratas, cofres,
etc. Sobre uma grande meza central toilettes anti-
gas de damas c cavalheiros; nos vãos das janellas
alguns moveis, jarras e tinas orientaes, grupos de
antigas armas; cadeiras antigas; no extremo nor-
te o bufete com o livro dos visitantes e a mobilia
^o^e///2 da casa Amaral. Esta mobilia principalmen-
te notável pelas finas grisalhas dos medalhões que
formam a ornamentação central, servira também
32
no paço archiepiscopal nas visitas regias da sr.^ D.
Maria ii e do sr. D. Pedro v.
Foram os srs. Mira, Vieira, dr. Abel, Villasboas,
Torres, que forneceram o maior numero de obje-
ctos.
Contribuiram também os srs Pimentel, Silveira,
Gouveia, Fernandes, P.'' Pompeu, Salles, Marques,
Palma, Martins, etc.
Da ex.™* sr.* D. Sabina Rivara, e de casa do
fallecido Esquivei vieram também alguns artigos
curiosos.
Foi, como já disse, uma exposição de improvi-
so; colhida por assim dizer, na visinhança da Bi-
bliotheca ; sem repetições ; evitando o amontoar e
o bric a brac: quer dizer provou-se á evidencia
que é possível realisar em Évora uma exposição a
sério, significativa e importante.
A exposição foi inaugurada no dia. 20 de maio
pela familia real, e livre ao publico n'esse e nos
dias seguintes. Foi muito concorrida e creio que
vulgarisou alguns conhecimentos.
A sr.* D. Maria Pia, que é entendedora e tem
visto muito e do melhor, notou especialmente o
docel da sé, tapeçaria notável pela riqueza, belle-
za, estado de conservação, e d'uma finura de tom
inexcedivel. Nos varões do tecto estavam penden-
tes quatro colchas, typos differentes, das mais fi-
nas que encontrei; pois a tapeçaria da sésobresahia
extraordinariamente pela finura do tom, muito de-
licado, opulento sem espalhafato. Formava um
fundo admirável ao cálix de ouro, á rendilhada
custodia, ao característico báculo attribuido ao
cardeal-rei, ao cálix do paço, e era bem acompa-
nhada pelos paramentos, casulas e pluviaes ; con-
juncto admirável, capaz de constituir só por si um
museo sacro^ á imitação do Uaticano, que muito
bem ficaria em Évora. Note-se que foram poucos
33
os objectos escolhidos ; havia pequeno espaço ; a
vestiaria da cathedral e do paço archiepiscopal po-
deriam fornecer muito mais; e no Seminário exis-
tem actualmente muitas preciosidades.
Só a casa do sr. José Paulo Barahona Carvalho
e Mira forneceu grande numero de objectos, ves-
tuários, louças, moveis, armas, pratas antigas e o
preciosíssimo esmalte, que é o segundo em Évo-
ra.
Do sr. Francisco Vieira sobresahia o grande pra-
to brazonado, e o fato de deputado de i834, ao
que dizem; casaca e calção em tecido especial, em
seda, azul e branco, com o M (Maria) muito repe-
tido no tecido; ainda não vi outro egual.
Bastantes procelanas antigas da índia. China,
Japão, do Rato, Delft, Génova, Nápoles, Ruão,
Talavera e Alcora. Reparou-se muito no cofre Ca-
po di Monte, pertencente ao sr. dr. Abel.
A ex."* sr.* D. Joanna de Torres Vaz Freire
mandou antigas toilettes, leques, pratos, cristaes la-
pidados e dourados, etc. Tem muitas preciosida-
des esta casa em mobilia, louças, jóias, quadros.
E sabe Deus quantas se perderam nesta c noutras
casas antigas eborenses, pelos entrudos ; porque
ainda ha poucos annos era vulgarissimo ver pelo
entrudo nas ruas da cidade, e nos bailes de mas-
caras, os creados das casas ricas pavoneando-se
com as velhas toilettes, os leques, os chapéos, as
casacas e coletes bordados; era uma ratice; um
vandalismo deplorável.
Na exposição não figurou a collecção do sr. vis-
conde da Esperança, porque muitas das suas pre-
ciosidades tinham sido utilisadas n'outra parte.
Possue muitos objectos notáveis, em vários géne-
ros, colchas, moveis, pratas, louças; com a sua li-
vraria e medalheiro, formam um conjuncto bem
raro em Portugal.
34
A exposição de arte ornamental lembrei-me de
juntar a dos liiTOS da cidade^ os primeiros livros, ou
melhor os mais antigos livros officiaes da Gama-
ra, do Cabido, da Misericórdia ; tombos, cartula-
rios, livros de actas ou ementas; collecção única.
Como isto se tem conservado em Évora atravez
tantas crises, desde a revolta contada por Fernão
Lopes ao bombardeamento de 1846, passando pe-
los assédios de i663, e a entrada dos francezes
em 1808!
Procurei ainda imprimir n'esta exposição outro
cunho, muito especial, outra feição bem caracte-
rística ; era uma exposição da cidade e das famí-
lias da cidade, das antigas casas; havia muita cou-
sa fora d'esta esphera ; mas o importante obede-
cia-lhe. Não era o òric á brac custoso que qualquer
argentario pode mercar no leilão do Leiria, no
Costa, ou em Paris. Estavam ali muitos objectos
antigos nas antigas famílias; a casaca do bisavô,
o leque da trisavô, a fina miniatura do antepassa-
do, o cofre que o bispo tal trouxe da índia, o pra-
to que veio á casa com o morgado de tal; el-rei D.
Luiz achou merecimento na intenção.
Como se vê não entraram na exposição todas as
collecçôes officiaes, não recorri a muitas particu-
lares; evitei repetições, e ainda assim enchemos a
grande sala da Bibliothcca, de modo a captivar a
attencão de muitos entendidos. E teve bom resul-
>
tado, porque vejo agora algumas pessoas darem
attencão a estes assumptos de arte, apreciando de-
vidamente, e não deixando perder muitos objectos
d'antes indiíferentes.
A Bíblia castclíiana da Bibliotlieca de Évora
Por ser mui singular este códice, interessante
na historia da arte e da linguagem, na península,
farei menção especial.
35
É o segundo tomo de La grande y general his-
toria de AíTonso, o Sábio; oíferece porém muitas
e importantes variantes do conhecido. Deve ser do
século XIV, do meiado talvez, mas o illuminador
seguia inspiração mais antiga ; o seu trabalho pa-
rece de unr século antes, pela ingenuidade do de-
senho, da composição e singeleza do colorido. Nas
lettras capitães ha influencia árabe. Poucas illumi-
nuras estão concluidas; para algumas está feito o
esboço, e muitos espaços ficaram em branco. Era
um velho talvez o illuminador, e falleceu a meio
da sua tarefa; ou o trabalho não agradou, e não
o deixaram concluir.
De modo que se vê neste códice o processo de
pintura, o simples apontamento, o esboço bem de-
finido, a illuminura colorida. Nas completas ha
elementos raros de vestuário, armas, instrumentos
músicos, que merecem muita attenção.
Ourivesaria eborense
É possível que algumas peças de ourivesaria
existentes actualmente na cidade fossem aqui fa-
bricadas. Muitas vezes apparecem os ourives men-
cionados em documentos eborenses dos séculos 14
c i5.
JSa rua de Alconchel onde estani os ouriveies se
diz em doe. do sec. 14 (Doe. hist. i.* parte, pag.
126). _ .
Ibid. pag. i54 a Hordenaçom dos houriveies.
Havia judeus artistas e fabricantes, e negocian-
tes de prata e ouro.
Sabemos alguns nomes : Estevam Annes, em
i38i ; João Roiz, da mesma epocha.
36
No notável documento das Sisas geraes do mes-
tre d^QÂuii (em 1884; pag. 78 e seg. i.* part. Doe.
hist) se falia dos negociantes de ourivesaria.
Em 1445, João AíTonso fabricava grandes pe-
ças de prata (Doe. hist. pag. 1 10, i.* part.)
Da ourivesaria eborense no sec. XVI ha grande
numero de noticias e documentos.
Fim.
GABRIEL PEREIRA
Esião publicados :
i.° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2.° Évora ro-
mana, I.* p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3.°
A Casa pia. O edifício do coUegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6." Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S.
Bento. — 7.° Delias artes. — 8." Vésperas da restauração. — g.°
Idem, 2.* parte. — 10.° Brasão d'Evora. — 11.° A egrejàde San-
to Antão. — 12." O archivo municipal. — 13.° A restauração em
Évora, 1 640-1 645. — 14.° O archivo da Santa Casa da Miseri-
córdia d'Evora, i." parte. — 15.° Idem, 2.^ parte. — i6.° Idem,
3." parte. — ly.'* Évora e o Ultramar. — 18.° Assédios d'Evora.
1.* parte. — ig.** Idem, 2.* parte. — 20." Idem, 3." parte. — 21."
Idem, 4.^ parte. — 22.° Os Festejos de Évora em 1729. — 23.°
Évora nos Lusiadas. — 24.° Procissões eborenses. — 25.' Expo-
sições de arte ornamental.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
OOCOMENTOS HISIORICOS Dl CIDE CHORí
Estão publicados :
i.= parte — fasciculos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e XIII. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capitules de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i." — 2."
parte, fasciculos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia, j
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Évora.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand.
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR
Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor, Scylax e Hannon, itenerario de Antonino, Plinio e Mella.
Livro 3.° da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
j^ISTOí^IA— y^í^TE— y4.P^CHEOLOGIA
U l IS
iiu
iS
A MURALHA ROMANA. O ARCO DE DONA IZAREL.
vestígios ROMANOS NA SENHORA DA GLORIA, Á HORTA DO BISPO,
rONTE COBERTA, MORGADA, CURRALEIRA, TOURKGA, REDONDO,
REGUENGOS, MONTEMOR O NOVO, ZAMBUJO, SANt'aNNA DO CAMPO, ETC.
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DK JOAQITIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAl.
Rua Ancha n." ^5
i8qi
GABRIEL PEREIRA
ESTUDOS
j^ISTOP^IA — y^F^TE— ^I^CHEOLOGIA
El mu i m iumm
A MURALHA ROMANA. O AHCO DE DONA IZABEL.
vestígios romanos NA SENHORA DA GI.OKIA, Á HORTA DO BISfO,
FONTE COBERTA, MORGADA, CURRAI.EIRA, TOUREGA, KEDONDO,
REGUENGOS, MONTEMOR O NOVO, ZAMBUJO, SANT'aNNA DO CAMPO, ETC.
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAL
Rua Ancha n." 85
1891
ESTUDOS EBORENSES
Antiguidades romanas
em Évora e seus arredores
Nos arredores de Évora são frequentes os ves-
tígios da epocha e civilisação romanas.
Tirado o Algarve, não conheço no território por-
tuguez outra região egualmente rica. As antiguida-
des romanas são no Algarve mais numerosas e
variadas; a influencia latina, parece, exerceu-se ali
mais intensamente e por mais tempo.
No aro eborense nota-se uma certa uniformida-
de nos achados conhecidos até hoje. Os mosaicos,
as cerâmicas, os mármores são mais pobres que
os da região algarvia ; não revelam sensivel evo-
lução.
No paiz limitado pelo Tejo, Guadiana e serras
do Algarve, no território portuguez, conhecemos
muitas memorias romanas; em parte alguma tão
condensadas como nos arredores de Évora.
' 4
Mertola, note-se, a celebrada Júlia Myrtilis, tenfí
mais relações com o Algarve; a fácil via do Gua-
diana liga-a com o litoral intimamente.
Verdade é que em muitos pontos teem faltado
estudiosos, explorações^ ou não tem havido cuidado
em registar os achados.
Alas a abertura das estradas de macadam,edos
caminhos de ferro, e a limpeza das herdades que
tem progredido extraordinariamente, nos últimos
trinta annos, restituiram á luz muitos monumentos;
e o desbravamento de terras e augmento de viaçáa
teem sido geraes nos três districtos alemtejanos;
todavia no aro eborense continua a marcar-se a
maioria dos achados archeologicos.
Parece que no tempo do dominio romano hou-
ve aqui muita vida; uma população densa, culta,
com seus povoados, casaes e santuários; e nos cam-
pos, em muitos sitios, a par da agricultura a ex-
ploração mineira.
Se cm alguns pontos as ruinas mostram um
, grupo de construcções, um logar, em outros reve-
lam antes a morada de algum opulento ; certos tan^
quês seriam de banhos e regas, outros de tratamen-
to de minério pela via húmida.
Com'parando com o que actualmente succede,
lembrando o poder destruidor de séculos de aban-
dono, chegamos a suppor que a vida na epocha
romana foi aqui maior que na actualidade.
As nossas pobres parochiasruraes, os montes dos
modernos lavradores, não teem íinos ornatos; as
taipas, os formigões, as alvenarias de agora são
menos perfeitas que as de então; até os materiaes,
a cal, o tijolo, a argamassa parecem inferiores. O
romano sabia construir admiravelmente.
Que o paiz era muito habitado é certo; rara a
povoação de hoje onde se não encontram vestígios
romanos; em charnecas, desertas agora, descobrem-
5
se restos de casas de essa epocha, paredes, pavi-
mentos, columnas. aqueductos; ao lado de pobres
montes onde faltam commodidades rudimentares
surgem mosaicos de singular arte e perfeição, ce-
râmicas finas, fragmentos de boa esculptura.
Vou reunir n'este Estudo algumas breves noticias
de antiguidades romanas no aro eborense, conden-
sando o mais possivel, simplesmente para mostrar
o que se poderia esperar de uma exploração inten-
sa, e scientifica.
As localidades apontadas encontram-se quasi
todas na carta n.** 29 da Commissão Geodésica,
publicada em 1875 ; todas na carta chorographica
do districto de Évora, com a demarcação dos con-
celhos, levantada pela Direcção Geral dos traba-
lhos geodésicos em i885.
A miirâllia romana— O arco de D. Izabel
Restam ainda em Évora vestígios da muralha
romana bastantes para lhe marcar a peripheria
pelas Alcarcovas de baixo e de cima, Salvador, ar-
co de D. Izabel, muralha norte do passeio de Diana,
palácio dos Bastos (pateo de S. xMigLiel), ao an-
gulo da rua do Collegio onde existiu a torre mou-
chiiiha, Freiria de baixo ao largo da Misericórdia
e a S. Vicente. Esta cerca defendeu a cidade ain-
da no dominio godo e no árabe, soífrendo prova-
velmente alguns concertos e alterações. Restos das
pequenas torres romanas que de espaço a espaço
reforçavam e flanqueavam a muralha ainda sub-
sistem na face oriente do palácio dos Bastos, e no
largo da Misericórdia.
Aos godos atlribue a- tradição local astorres de
Sisebuto, da rua Nova, e da rua da Sellaria; se-
melhantes a estas na grande altura e solidez ha a
do extinclo convento do Salvador, sobre a qual
está o mirante, a dos paços do concelho, e as duas
do palácio Cadaval.
Duas torres menores flanqueam a porta de Moura.
A designação de origem árabe — Alcarcova —
basta para provar que a cerca serviu aos agarenos.
Esta designação, hoje limitada á rua parallela á
praça de Giraldo, ainda no sec. xvi se dava tam-
bém ás ruas do Menino Jesus e do Gollegio.
Que soffreu reconstrucções prova-se por se te-
rem encontrado lapidas com inscripções sepulcraes
romanas, mettidas na muralha, quando ha poucos
annos se demoliu um fragmento no largo da Mi-
sericórdia, e no começo do século outro junto de
S. Vicente, facto este que só pôde atlribuir-se a re-
paração feita em. tempo de godos ou árabes.
Parece ter havido uma ampliação da cerca pe-
los restos da muralha medieval que existem em
S. Paulo, e da variante rápida do declive da Pra-
ça do Sertório para a rua Ancha ; seguindo as tor-
res a primeira muralha iria da torre da rua Nova,
ás da Gamara e Salvador, ficando a praça de Ser-
tório fora da cerca.
No arco de D. Izabel ha uma porta romana, se-
melhante ás portas de Beja, das quaes a chamada
— porta de Mertola — chegou a nossos dias (exis-
tem desenhos fieis das duas ha muito tempo des-
truidas).
No arco de D. Izabe! vê-se a porta romana, mui-
to soterrada já em relação á outra parte interna,
que deve ter sido construida em plena edade me-
dia, porque em tempo de D. Fernando, fins do
sec. XIV, se abandonou e destruiu a cerca romana;
pela altura dos capiteis, já muito gastos, parece ha-
ver aíi aterro superior a dois metros.
A peripheria da muralha romana tinha 1080
metros proximamente.
O lanço melhor conservado é o da base do pa-
lacio dos Bastos, na face do nascente. Vô-se ali o
grande apparelho romano, fiadas regulares de pe-
dras quasi eguaes, umas mostrando o lado maior,
outras o menor, travando na parede, alternada-
mente.
O lado maior attinge i""Xo,6.
O menor o,3xo,6.
Num d'estes fragmentos da muralha, para o la-
do dos Loyos, conserva-se a ultima fiada toda, de
silhares eguaes.
O arco de D. Izabel é a única porta romana,
certa: mas é possível que as grandes torres indi-
quem outras portas ou postigos. O tão celebrado
arco romano que o cardeal D. Henrique mandou
destruir para desafrontar a egreja de S. Antão por
elle reconstruída, correspondia talvez a uma porta
defendida pela torre da rua Nova. E tal edificação
indica que ahi vinha terminar alguma estrada prin-
cipal, a de Salacia talvez : as inscripçôes achadas
junto de S. Vicente, e largo da ^Misericórdia mos-
tram também que ahi havia portas, porque os ro-
manos não collocavam lapidas sepulcraes junto das
muralhas, sim á beira das estradas; a estrada que
terminava no lado sul da cidade era sem duvida
essa de que restam muitos vestígios, alguns na vi-
sinhança da cidade, junto da horta do Bispo, e que
seguia para Beja. A- porta de Moura pela sua dis-
posição, pelos subterrâneos visinhos, e ainda mais
pelas tradições locaes e antiquíssimas de origem
popular e ecclesiastica, pode também attribuir-se
alta antiguidade.
O arco de 1). Iiabel tem 4 metros de vão, sen-
do a volta semi-circular formada por 18 silhares;
todo de granito. Quando construíram a porta in-
terna, reforçando o arco romano, já este estava
bastante entulhado, pois as soleiras da parte inter-
na estão a i'",20 apenas da cornija que na porta
8
romana divide os prumos da volta do arco; e o
segundo arco, ou interno, fica mais alto.
Ha três annos no palácio do sr. Villas Boas ao
rebaixar um armazém que deita para a Alcarco-
va de cima, descobriu-se uma passagem muito es-
treita angulosa, toda de formidável silharia, que vem
abrir na Alcarcova, junto, e a sul, da grande torre
chamada de Sisebuto; provavelmente um postigo
junto da porta da cidade que devia existir pro-
ximoda torre, a norte.
A rampa coberta e as salas no edifício dos Lóios,
lado do oriente, parecem-me construcção medie-
val ; era a porta da traição, communicando direc-
tamente o castello com o exterior da cidade, no
ponto onde o declive é mais forte.
A sala maior, talvez sala de armas, é bem no-
tável e rara, e deve conservar- se com amor.
Yestigios romanos janto da ermida da Senhora da Gloria
A poente da cidade, uns 3oo metros da porta
de Alconchel, fica uma pequenina ermida chama-
da da Senhora da Gloria, com sua fontinha ao pé.
Uma construcção muito modesta, ainda hoje com
seu culto popular; tem quasi todos os annos sua
festa, e nas paredes pendem bastantes votos de
cera.
Junto da ermida ha dois moinhos de vento; não
será difíicil encontrar ainda agora por aquelle chão
algumas pedrinhas quadradas, com uma face lisa,
que o conhecedor vê logo serem de antigos mosai-
cos.
Ha uns annos, ahi por i86o,descobriram-se ca-
sualmente uns muros ; escavaram e ficaram á luz
paredes, chãos de mosaico, fragmentos de cerâmi-
ca. Quasi tudo se perdeu ; na Bibliotheca existe um
t)
fragmento grande de mosaico; ainda ha poucos
annos estava mettida n'uma parede de um telhai
próximo uma estrella perfeita, de o"',4 de diâme-
tro, formada por pedrinhas brancas e pretas. O
dono do telhai teimou em recusal-a ; resistiu a pe-
didos e oífertas de dinheiro, por birra, e afinal os
garotos quasi a destruiram; mas ainda hoje exis-
tem vestígios.
Muitos fragmentos dos pavimentos de mosaico
foram calçar os terreiros dos moinhos, e estraga-
ram-se.
Foi uma pena não haver então na cidade quem
acudisse a tempo de examinar o achado e tratasse
de salvar quanto fosse possível.
Sepulturas romanas á horta do Bispo. Ladrilhos.
Vidros. Estrada
No verão de 1881, fazendo-se uma excavação
n'um ferregeal próximo da horta do Bispo, á bei-
ra da estrada de Vianna, e a uns 600 metros da
porta do Raymundo, descobriram-se duas sepultu-
ras romanas collocadas a quasi um metro de pro-
fundidade, e um fragmento considerável da estra-
da calçada que pela direcção devia ir a Beja (Pax
Júlia).
As paredes d'estas sepulturas eram formadas de
tijolos sobrepostos; uma de i'-\20, outra de i™,8o
de comprimento; em ambas, principalmente na
maior, havia alguns vasos de vidro e barro, de dif-
íerentes dimensões; alguns d'estes vasos estavam
quebrados; outros foram partidos pelos trabalha-
dores; escapou inteiro um só lacrimatorio de vidro
mui delgado, que eu offereci á collecção de anti-
guidades da Bibliotheca Nacional de Lisboa.
Avaliando pelos fragmentos que ainda pude col-
ligir conteriam as sepulturas mais de doze vasos,
IO
sem particularidade notável. Os ladrilhos porém
não são vulgares ; creio até que são os primeiros
d'este feitio encontrados em território portuguez. *
Comprimento: 44 centímetros
Largura: i3 centimetros
Espessura : 6 centimetros. Apresentam duas pro-
fundas chanfraduras lateraes, oppostas, destinadas
a travar com outros ladrilhos quadrados, que em
vez de chanfros tinham uma saliência.
O sr. D. Vicente Barrantes, conhecido escriptor
e sábio muito investigador das antiguidades da E^x-
tremadura hespanhola, publicou no vol. 7." pag.
549, do Museu hespanhol de antiguidades, um ar-
tigo sobre alguns objectos romanos, de barro, acha-
dos em xMerida, e menciona como raros dois tijolos
do mesmo feitio ha pouco ali descobertos, diíferin-
do d'estes só na largura; 1 5 centimetros nos de
Merida.
O sr. António Vicente da Rocha teve a amabili-
dade de meofferecer dois tijolos, optimamente con-
servados que eu enviei para a Bibliotheca eborense.
O fragmento de estrada com as suas fiadas de
pedras era bem visivel na occasião da primeira
excavação, mas progredindo esta para o approvei-
tamento de barro para o telhai próximo quasi de-
sappareceu, restando apenas poucos indícios.
Antiguidades romanas na Herdade da Fonte Coberta.
Os materiaes de construcção
A herdade da Fonte Coberta fica a uns 10 kilo-
metros a sueste de Évora.
Um monte^ uma ribeirinha, uma eira, alguns
muros velhos entre terras de semear e de pastagem
em sitio agreste.
Em tempo dos romanos houve ali edificações.
Ha restos de um aqueducto, fragmentos de mosai-
1 1
cos, de cimentos. Um camponez da localidade fal-
loLi-me de certo achado de moedas de que ouvira
contar. Seguindo pelo alveo da pequena corrente en-
contrei dois pequenos fragmentos de mosaico di-
versos, branco e prelo, bastante tosco, e de telhas
de rebordo. Mas na Bibliotheca está um bello
<íxemplar de mosaico, representando peixes, appa-
recido no mesmo sitio. Logo havia pelo menos três
pavimentos de mosaico. Estes vestígios encontram-
se em espaço muito resíricto; era algum sanctuario
ou residência de lavrador culto. A singular pia de
cimento, hoje no museu Cenáculo, que tem o'",940
de- diâmetro, bem conservada, peça muito interes-
sante, dizem ter vindo também da Fonte Coberta;
não tenho certeza.
Creio que nem todos os cimentos são romanos.
Os árabes fabricavam muito frequentemente tai-
pas, formigões e cimentos. A taipa para formar pa-
rede, e o formigão para revestir o solo, em vez do
ladrilho, ainda hoje se usam vulgarmente em mui-
tas povoações alemtejanas.
A rariciadif de construcções mouriscas explica-se,
me parece, pelo uso da taipa. Logo que uma pa-
rede assim construída não seja caiada frequente-
mente, apodrece^ arruina-se, desfaz-se; fica um mon-
tão de terra.
A arte romana alem de outras excellencias teve
a de saber escolher materiaes. ""^
Conheciam a pedra admiravelmente.
E' cousa essencialissima a que depois se tem
dado pouca attenção. No Alemtejo quasi todas as
estatuas, capiteis, etc. da época romana, são em
mármore de Estremoz; e mesmo algumas aras ou
lapidas. Note-se que o mármore branco de Estre-
moz é de trabalho difficil, muito rijo, estalando fa-
cilmente, mas lavor em tal mármore fica para sem-
pre, nem musgos nem humidades o atacara.
12
Nos capiteis do templo romano de Évora ainda<
se conhecem os golpes dos canteiros.
Nos fustes das columnas empregaram o granito,
mas do melhor, tanto que as arestas das canellu-
ras estão bem vivas ainda. Os grandes blocos de
granito da muralha estão inteiros, no seu logar.
Em tudo, em toda a parte, attenderam ao mate-
rial. Ha pontes, arcos, lapidas, estatuas, em perfei-
ta conservação.
A velha cathedral eborense está admiravelmente
construída ; as pesadas torres, a formidável nave,
o amplo cruzeiro encimado pelo arrojado e elegan-
te zimbório, altivo como um elmo, tudo está no
seu logar, no seu prumo; os séculos e os abalos de
terra não teem damnificado a magestosa construc-
ção; todavia o granito empregado não é egual ; hai
silhares carcomidos; não toram muito escrupulosos
na escolha do material.
A frontaria da egreja da Graça é uma belleza ;
exemplar da renascença ultra-classica, único em
Portugal. Tem três séculos e meio. E' de granito.
Tem partes bem conservadas, outras^'á muito car-
comidas.
A capella mór da sé é do tempo de D. João 5.^
sumptuoso salão, rico e elegante. Tem mármores
excellentes, bardilhos de primeira ordem, polidos,
nitidos na perfeição ; felizmente os relevos, as figu-
ras, as grinaldas são em mármore de Estremoz;
as columnas, principalmente as duas do retábulo,
são prodigiosas ; o mármore preto das duas portas
é de primeira qualidade; mas o avermelhado é de
má qualidade, e já está a desfazer-se. O revesti-
mento exterior em mármore de Estremoz está como
na hora em que terminou o trabalho.
Mais moderna ainda é a egreja da Estrella em
Lisboa; a maioria do mármore empregado é de
péssima qualidade; está baço, parece sujo, e a des-
fazer-se.
i3
Que maravilha a Batalha I e o frontespicio de
Santa Cruz em Coimbra! mas o lioz empregado, fá-
cil de trabalhar, desfaz-se ao tempo com rapidez
deplorável; em Santa Cruz não se conhecem já mui-
tos lavores, e a Batalha precisará de restauração
constante. N'estes casos acho justificado o empre-
go de um verniz qualquer que defenda a pedra da
acção da humidade.
Agora edificou-se em Lisboa a monumental es-
tação dos caminhos de ferro.
— Mas que bella pedra, diziam alguns, faz-se o
que se quer, corta-se com um canivete.
Lá para os fins do século xx esta custosa edifi-
cação estará velha; e os capiteis corinthios, de fi-
nas volutas e recortadas folhas, do templo romano
de Évora estarão puros, eternamente nítidos.
Os jesuítas, gente de juízo seguro, tinham nas
suas instrucções a respeito de construcção a regra
de sempre attender á duração; assim os seus colle-
gios se conservam firmes, sendo notável em Évo-
ra o edificio do actual seminário, todo construído
pelos jesuítas, no sec. xvi, com perfeição notável.
Ruínas romanas na herdade da Morgada
Indo de Évora para S. Miguel de Machede, an-
tes de chegar a esta linda aldeia, toda branca de
cal, sécia e prasenteira, como bom povoado do
Alemtejo central, está quasi á beira da estrada uma
herdade chamada — os Curraes. Atravessando as
terras d'esta herdade, seguindo a carreteira que
passa junto do monle, chega-se á herdade da Mor-
gada. Em frente do monte d'esta herdade ha uma
collína de terras de semeadura, de brandos decli-
ves; uma collína vasta, pouco elevada. Os homens
de lavoura conheciam de ha muito que ali morara
gente porque nos alqueivcs os ferros levantavam a
cada momento barros cosidos, telhas de rebordo,
pedaços de vasos, tijolos grandes e pequenos; e
uma noite uma velha sonhou que ali havia grande
thesouro enterrado, e entre risadas os rapazes fo-
ram cavar, abrir covas, aqui, ali, onde a velha in-
dicava. E um d'elles achou uma parede.
O caso começou a parecer sério.
Cavaram mais, foi mais gente; e descobriram
outra e outra parede, e muitos cacos, e um chão
de mosaico que era uma maravilha : continuaram
chegando a ter a descoberto varias paredes e três
grandes e bellos pavimentos de mosaico ; não achan-
do porém a sonhada burra repleta de peças de ou-
ro, e tornando-se cada vez mais penosa a excava-
ção por irem entrando as construcçôes para o lado
mais elevado, e como os cacos e os mosaicos não
pagam trabalho, deixaram a empreza, E o que foi
peior estragaram os mosaicos, de que poucos fra-
gmentos escaparam.
Se um dia se organisasse um estudo metho-
dico do passado d'este paiz, como se tem feito na
Dinamarca, na Bélgica, na Grécia para não fallar
de outros povos, eu aconselharia uma explor.ação
n'estas ruinas da herdade da Morgada. Os restos
encontrados não indicam povoado, um grupo de
apertadas edificações ; parece antes indicarem uma
villa sumptuosa; uma casa de campo magnifica.
Os vestigios romanos alastram-se por toda a
collina, e a parte descoberta, uma ponta do véo
apenas, promette muito, pois a curva da collina,
o invólucro, acompanha a linha das paredes, sendo
possível haver ainda compartimentos inteiros para
a maior altura da collina. Não sei de moedas en-
contradas, nem de lapidas com inscripções; todos
os vestigios porém devem ser de origem romana.
i5
Ampliora da Curraleira
Em julho de i885, na herdade da Curraleira,
então pertencente ao notável eborense Joaquim
Sebastião Limpo Esquivei, appareceuumaampho-
ra bem conservada. Tem de particular que no bo-
jo, superiormente, mostra claros vesti gios de uma
cercadura de curvas, feita talvez só com os dedos
estando o barro ainda fresco. Não é marca de fa-
bricOj ou de olleiro, sim ornamentação, que eu
não conheço em outros objectos análogos. Esta am-
phora foi oíferccida por Esquivei á Bibliotheca ebo-
rense. Na herdade da Curraleira tem apparecido
outros vestígios de construcções antigas.
•D'
Tonrega
A freguezia da Tourcga é vasta e pouco povoa-
da; um grande grupo de herdades com seus mon-
tes^ ou casaes isolados. A meio da freguezia a egre-
ja parochial apenas acompanhada pela casa do sa-
cristão, o cemitério moldurado pela sua parede
branca, e um quinchoso cercado por um muro de
pedra solta que é o passal do padre prior. Per-
to da egreja uma grande construcção em completa
ruina; e em volta, pelas terras de lavoura, muitos
vestígios romanos, e alguns medievaes.
O caminho de ferro entre as estações da Casa
Branca e Monte das Flores percorre parte dos cam-
pos da Tourega, passando a dois kilometros a sul
da egreja. A via romana de Évora a Alcácer (Ebo-
ra-Salacia) atravessava também aquella campina.
A egreja marca-se bem no escampado; o cam-
panil singelo sobresahindo entre algumas arvores
altas, bem salientes na charneca de matto rasteiro.
Nossa Senhora da Assumpção da Tourega é o
orago da freguezia. Fica o templo a doze kilome-
tros a sudoeste de Évora.
i6
A freguezia terá pouco mais de cem fogos.
Muitas tradições bem antigas, populares ou de
fundo popular modificado pelos eruditos, se ligam
a estes sitios.
O sanguinário Daciano, pretor das Hespanhas,
em tempo do imperador Diocleciano, teve aqui, dis-
seram sábios imaginosos, palácio, jardim, quinta,
thermas, etc. Aqui mandou degolar dezoito santos
martyres no anno 3o5, mandando enterrar os cor-
pos n*uma gruta a que ainda hoje chamam cóua
dos Martyres.
Na egreja estava um altar sustentado sobre qua-
tro columnetas, e dizia-se ser o tumulo de S. Viá-
rio, bispo.
Em 1 540 o cardeal bispo D. Affonso teve curio-
sidade de saber ao certo que santo era este, e man-
dou André de Rezende examinar o local, a inscri-
pção, o altar; e o notável archeologo declarou que
não havia tal santo e mandou entupir o altar.
Outra lenda, sem duvida antiga modificada pela
erudição, diz que o fero Daciano mandou ali dego-
lar duas santas irmans, Comba e dAuouyrna,
No logar onde tombou a cabeça de Santa Ano-
nyma brotou uma fonte, a fonte santa. A pouca
distancia está a antiga ermidinha de Santa Comba.
Estas santas eram irmans de S. Jordão, bispo de
Évora, martyrisado também em 3o5, nositioonde
hoje está a egreja do seu nome. A este S. Jordão
succedeu S. Brissos, que tem também o seu sitio,
egreja, e a sua ribeira.
Evidentemente ligam-se a estes logares lendas
christans das mais antigas da península.
Note-se desde já que nos campos da Tourega
se formam e definem algumas correntes de certa
importância, e que a serra próxima pertence ao
grande relevo metalúrgico da serra dos Monges,
onde abunda o ferro.
J2_
Oiirega dizem alguns, e em documentos dos úl-
timos séculos assim apparece por vezes designado
€ste sitio; nos documentos mais antigos diz-se Tou-
rega. O povo hoje diz Tourega; mas uma vez um
pastor disse-me: Tourega é na charneca, Ourega
na serra.
A lenda de S. Viário tem origem interessante
que será bom referir para demonstrar como a fal-
ta de critica e de conhecimentos pode causar
erros.
Na lapide dedicada pela dama Calpurnia Sabina
á memoria do marido e dos dois filhos (inscripção
que durante séculos esteve na egreja da Tourega
e hoje se guarda no Museu Cenáculo) por duas ve-
zes se le VIRO.VIARVM.GVRANDARVM.ANN.
palavras que se referem ao emprego dos dois mo-
ços romanos que eram dos quadrumviros encarre-
gados das estradas, e á sua idade ; em taes pala-
vras imaginaram um santo varão chamado ,Viario
que tinha cura das almas, improvisando logo um
santo bispo.
No livro dos herdamentos do cabido (Doe. hist. da
cidade de Évora, parte i.* pag. 45) menciona-se a
Tourega em noticia do século xiii ou começo do
XIV. — Item. ha o cabidoo com a obra de smim a Iipr-
mida da touregaa e a venda e o herdamento dy — .
A venda era antigamente, antes da moderna
transformação da viação, justificada, porque o lo-
cal fica a meio caminho entre Évora e Alcáçovas,
e na estrada de Alcácer.
E' bem fácil agora ir á Tourega; uma bella es-
trada nova leva até mui perto da egreja. Deixa-se
a cidade pela porta do Raymundo e segue-se a es-
trada das Alcáçovas cortando pelas herdades do
sr. Margiochi. Entre alas de eucalyptos chega-se á
ponte de Peramanca ; atravessa-se o bello montado
do Pomarinho, de grandes azinheiras, e pouco de-
i8
pois, cousa de quarto de hora, acabam os arvore-
dos e começa o escampado agreste, pouco povoa-
do, um terreno ferruginoso vestido de matagal es-
curo; em breve avista-se uma construcção velha,
um grupo de arvores, uma ruina; a parede branca
do cemitério construido ha pouco, tudo destacando
bem no meio da ampla e severa charneca.
O que é certo é que esta charneca tem muito a
contar.
Pelo norte fecha o panorama, a breve distancia,
a serra de Montemuro. O cabeço mais oriental da
serra tem um aspecto, um feitio que o differença
dos outros; a grande distancia, á vista um tanto
educada, se revela haver ali alteração da curva na-
tural da serra ; é um castello^ uma altura fortifica-
da por grande trincheira de que reslam vestígios
importantes; um castello pre-historico, mas ainda
conhecido em tempos medievaes; é o chamado
castello de Giraldo ainda hoje na tradição popular.
Não é um castello com torres, muralhas e fossos ;
como em Castro Verde, na Colla ou na serra d'Os-
sa é apenas um largo espaço cercado de vatlado
formando parapeito, dando para fora uma escarpa
difficil de subir.
A breve distancia da egreja da Tourega fica
o dolmen do Barrocal ; um pouco mais e nas mar-
gens da ribeira de Peramanca se encontram vestí-
gios d'outras antas, e duas bem conservadas na
herdade de Valverde.
Estamos pois em paiz pre-historico.
A norte da egreja a ruina de um edifício a que
chamam o cardeal, construcção talvez do século xvi,
de que só restam uns paredões de grossa alvenaria.
A porta principal da egreja voltada a poente ; a
porta lateral para o norte. A disposição do templo
é bem antiga, mas tem havido rebocos, alterações
consideráveis; á vista nada de alta antiguidade.
^9
Na sacristia vi um azulejo, árabe talvez, com
seu finos relevos entrelaçados.
A um canto dentro da egreja, á direita da por-
ta principal, uma pia de agua benta, obra rude que
parece bem velha, na sua forma de calis. A pia
baptismal não é vulgar; um enorme bloco de már-
more branco cortado de veios azulados, sustentado
sobre grossa e baixa columna entre quatro colum-
netas de mármore branco bem lavradas.
Pela frente e lado norte da egreja ergue-se um
muro formando adro que foi em tempo coberto
por alpendre.
Sobre o muro ainda estão as bases das colum-
nas que sustentavam a cobertura, e nas paredes
da egreja os cachorros onde apoiavam os barrotes.
Essas bases de granito singelamente lavradas
podem ser mui velhas.
Perto, a sul da egreja, junto de um muro, um
grande cilindro de granito, com dois chanfros pro-
fundos, e na parle superior um buraco; pode ter
sido base de lagar ou atafona, mas formidável.
Mais uns passos, ena entrada do passal um grande
doliar, infelizmente picado, também chanfrado,
mas vendo-se bem a forma de meia pipa, com
seus aros em forte relevo.
Junto do poço outra pedra trabalhada, cujo uso
não é fácil determinar; pelos muros de pedra solta
do passal, e do quintal do sacristão, muitas pedras
lavradas que serviram a construcções e alguns ca-
piteis, romanos alguns talvez, outros da alta eda-
de media, de ornamentação vegetal muito rudi-
mentar.
Em redor da egreja e de seus annexos até gran-
de distancia, 3oo, 400 metros em algumas direc-
ções, as terras todas de lavoura estão salpicadas
de fragmentos de tijollos, de telhas de rebordo.
A Soo metros a poente dois tanques, é o nome
20
que melhor quadra a taes construcções, de 2o"x5%
os muros de alvenaria com um metro de altura,
forrados ainda em muitas partes de argamassa, ou
cal com pequenos fragmentos de tijollo.
Os dois tanques são parallelos, eguaes, um mais
avançado que outro, talvez pelo declive do terre-
no ; e próximo do mais avançado, a poente d'elley
uma construcção semi-circular, de 4 metros de diâ-
metro, que me parece resfo de um forno.
Serem estas construcções da época romana pa-
rece-me certo ; ha mais no paiz ; chamam-lhe tan-
ques com bastante razão segundo creio. Seriam de
banhos? banhos de lavagem, de culto, de remédio?
ou simplesmente tanques para tratamento de mi-
nério pela via húmida ?
Caminhando para o norte a partir dos tanques,
desce o brando declive da collina, e, percorridos
cem metros a fonte roínana, designação talvez de
origem erudita, ou de Santa Dominata^ dizer que
revela tradição antiga ; Dominata, Inominata, a
z4nGnyma da lenda religiosa.
E' uma excavação defendida por umas pedras
sem feitio ; a agua vem por um cano subterrâneo,
e tem na crença local virtudes medicinaes, salutar
principalmente nas doenças dos olhos.
Que alguns d'esses silhares de granito estão ali
ha longos séculos, e foram em tempo muito usa-
dos (de ha muito que é rara a frequência n'squella
fonte), parece certo pelo gasto de suas arestas.
Partindo da egreja para sueste, a uns 5oo me-
tros está a fonte de Santa Comba; um pouco mais
a ermidinha, era ruina completa.
E por todo este terreno os fragmentos de grossa
cerâmica.
André de Resende falia deTourega na sua obra
— De Antiquitatibus Lusitanise — , livro 3."
I
21
Chama- lhe Turegia, latinisando a formula an-
tiga e popular.
Publica a inscripção de Calpurnia Sabina a pag.
l52.
Vid. Relatório acerca da renovação do museu
Cenáculo, pag. 18, n.° 35. Évora romana (Estudos
eborenses) n." 22.
Esta inscripção é do século iii.
Artigo curioso sobre a Ourega ou Tourega, em
Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, vol. 6°
pag. 3i I e seg.
E na «Évora gloriosa», do P. Francisco da Fon-
seca, pag. 204.
No Santuário aMariaiw, de fr. Agostinho de San-
ta Maria, tomo 7.° pag. SSg e seg.
— Esta egreja da Senhora é a mais antiga de
todas as do termo de Évora, e querem alguns que
seja ainda mais antiga que a mesma sé da cidade,
e para confirmação d'isto referem, que indo o pa-
rocho d'aquella egreja á sé buscar os Santos Óleos
reparara que aos mais parochos, que também iam
com a mesma pertenção, se lhe pedia uma moeda
nova de reconhecença, e que a elle lha não pedi-
ram, nem quizeram acceitar, e perguntando ao sa-
cristão (o padre Sebastião Ferreira, o que foi mui-
tos annos) a causa de elle não pagar, lhe disse, que
era porque a sua egreja era a mais antiga, e ainda
que a mesma sé, e que se houvesse synodo, e não
houvesse cabido, e houvessem de assistir todos os
parochos do arcebispado, elle havia de ser, por
mais antigo, o presidente d'elle.
Ainda hoje se não pa^a a reconhecença. Pelo li-
22
vro dos herdamentos vê-se que território e ermida
da Tourega pertenceram ao cabido e fabrica da Sé.
Creio ser esta a razão do isento da reconhecença.
Também pode ser por estar na freguezia o passal
da mitra, a quinta e herdade de Valverde. Estes
differentes factos dão importância singular á Tou-
rega, no ponto de vista de tradição ecclesiastica.
Já dissemos das tradições dos supplicios dos
christãos do sec. iv.
Fr. Agostinho de Santa Maria ainda nos conta
(ja „casa da balança onde se pesavam os devotos
a ti-igo — , uso vulgar antigamente, e ainda hoje em
alguns pontos praticado.
No Agiologio lusitano, de Jorge Cardoso, tomo
3.° pag. i8 também se falia da Turega, Tourega
ou Touregia ; e de Santa Comba e Anomiiiata ou
Anonyma.
Fontes de Santa Comba ha muitas no paiz. São
conhecidas as formas latinas Turobriga e Turibriga.
No Museu Cenáculo está a inseri peão votiva a
uma divindade Tiinibrici, achada no termo de Beja
(Évora romana, n.° i). Insc. 71 do Corpus.
Not. Arch. de Port. pag. 40.
]S[os — Documentos históricos da cidade de Évo-
ra — , 2.* parte, pag. 35, publiquei uma doação de
terras aos pobres da pobre vida na serra de Mon-
temuro.
N'este notável documento se falia do castello de
Girai sem pavor .^ que é o mesmo castro pre-histo-
rico, que serviu ainda na idade média, e que fica
bem visível a pouca distancia da Tourega.
A vida ercmitica encontra-se no Alemtejo, na
serra d'Ossa e na de Montemuro, na alta edade
media.
23
Mnsen Cenáculo
Antiguidades da herdade da Capella
Em janeiro de 1882 entraram no museu Cená-
culo duas lapidas sepulcraes romanas descobertas
poucos mezes antes na herdade da Capella, a 2 ki-
lometros ao sul da villa do Redondo. O nosso bom
amigo, dr. João Martins da Silva Marques, juntou
ao obsequio da offerta o incommodo de as fazer
transportar até Évora. As lapidas foram encontra-
das com outros vestígios romanos, sepulturas for-
madas de tijollos, restos de parede, etc. que pro-
vam a existência ali de povoado de certa impor-
tância.
As inscripções mencionam Júlia Maela (Évora
romana. n.° 19), dama que falleceu de 55 annos ;
e L. C. Gallo de 5o (Evor. rom. n.° 20).
Nos arredores da importante villa do Redondo
ha também muitos vestigios pre-historicos, dol-
mens ou antas. O sr. dr. João Martins da Silva
Marques tem reunido em sua casa algumas anti-
guidades significativas. Era tão bom se em todas as
localidades houvesse um dedicado a estes estudos
que pelo menos salvasse o que fosse apparecendo.
ÂntiéDidades de Reguengos — Os arados
O sr. Fernando Palma professorem Reguengos,
offereceu á Bibliotheca Publica três objetos interes-
santes :
Uma arma de pedra polida, em diorite, bem con-
servada, de ponta e gume nitidos; achada ha pou-
co na herdade chamado do Reguengo.
Uma lucerna, menos mal conservada, de barro
vidrado, talvez de origem árabe.
O terceiro objecto é mais curioso, e ficou deve-
ras muito bem no museu de uma cidade onde a
24
agricultura prepondera ; é uma relha de arado, um
vomer de ferro, com 3o centímetros de compri-
mento.
Este ferro d'arado é muito notável.
Julgo que não é romano. O i^o/zzer não encávava
no dentale por um modo tão primitivo como n'es-
te exemplar que se fixava na madeira pelo simples
aperto, a quente provavelmente, das rebordas la-
teraes.
Ora no excellente — T>ictionaire des antiqidtés
grecques et vomaines^ de Daremberg et Saglio, no
vocábulo oAratrum vem uma gravura representan-
do um ferro de arado em que o modo de fixar é
análogo a este de Reguengos: diífere apenas o fer-
ro por ter posteriormente lugar para uma cavilha,
o que augmentava a segurança, e mostra já um
progresso.
Esse ferro de arado não é romano, é da Gallia
antiga; céltico como se costuma dizer.
Ora este de Reguengos ainda é mais primitivo,
mais rudimentar; não é de arte romana; podemos
chamar-lhe lusitano. E' o avô, o pae Adão dos ara-
dos alemtejanos; quantos séculos, quantas gerações,
quantos tempos de alqueives e sementeiras teem
passado sobre a terra desde que este ferro parou
no rego que ia abrindo! Gosto muito de ver aquelle
pedaço de ferro, tosco, oxydado, no museu ebo-
rense.
Arado e lucerna foram achados na Mina do
Castello; localidade onde me dizem que nem mina
nem castello existe. Basta o nome para chamar at-
tenção. Designa quasi sempre o sitio onde existiu
trincheira ou fortificação, que nada tem que ver
com os castellos de muralhas, torres, etc. mais mo-
dernos.
Ás vezes conserva-se a trincheira, por exemplo
na serra d'Ossa; varias na Colla e Castro Verde,
2"5
•^tc. Em muitos pontos o tempo, a vegetação tem
desfeito completamente o rude cordão de pedregu-
lhos; do logar forte resta apenas o nome.
Na villa de Ourique não ha vestigios de fortifi-
cação pre-romana; o povo comtudo continua a cha-
mar castello á parte superior da villa.
Não visitei a mina do Castello, mas estando
nos Reguengos, um cavalheiro da localidade, que
me acompanhava, de uma altura apontou-me o si-
tio e pareceu-me ver no ponto indicado não a trin-
cheira, mas uma curva de terreno diversa das cir-
cumvisinhas, o que indica muitas vezes trabalho
intencional. Para a vista um tanto educada a cur-
va, a linha natural, não se confunde facilmente com
íi fabricada, para fortificação, ou por accumulação
proveniente de grande operação mineira.
Conhecida proximamente a formação geológica
do terreno é sabido o aspecto, o contorno; e repá-
ra-se logo na linha artificial ; os granitos, os schis-
•los, os calcáreos teem as suas linhas ; o trabalho
do homem no terreno conhece-se como um incha-
ço ou uma cicatriz na pelle.
Ha pouco (março 1891) vi no British Museum,
na sala de antiguidades prehistoricas, um ferro de
arado que me recordou o publicado pelo Darem-
berg. Está marcado assim Iron plouglishare from
Gloiicester. O de Reguengos c mais primitivo,
mais rudimentar.
Antiguidades romanas no aro de Montemér-o-Novo.
A herdade das Commendas
Nos arredores da importante villa de Montemor
o Novo ha vestigios das diíTerentes civilisações. In-
felizmente tem faltado ali um indagador paciente.
Não sei mesmo onde param actualmente alguns
objectos que vi, era eu bem criança, em casa do
26
fallccido Silva Grenho, que foi por muitos annos
administrador do concelho, cavalheiro muito esti-
mável e culto; recordo-me de ver na sua sala al-
gumas armas de pedra polida, bons exemplares, e
moedas romanas achadas pelos arredores da villa
e cm Cabrella.
Na serra de Cabrella, por noticias que tenho, ha
vestígios pretromanos de certa importância; ha al-
guns annos um proprietário do sitio me offereceu
um grande fragmento de lança, em cristal de ro-
cha, infelizmente quebrado porque fizeram deli-
■gencia por' lhe tirar a patina. Fora encontrada n'u-
ma sepultura que pela descripção seria um dst.
A estrada nova de Évora para Montemor passa
pela egrcja de S. Mathias, a meio caminho, onde
se conserva atraz do altar mor, note-se, uma pe-
dra, um mármore lavrado, que pode ser parte de
uma grande ara. No sitio tem apparecido algumas
antiguidades.
Passado o Jarro, uma pequena ribeira correndo
entre montados densos, começa pouco depois a en-
costa da Abaneja, e entra-sen'um planalto bem de-
finido onde se encontram os dolmens, a distancias
varias, das Valladas e do Pinheiro do Campo ; des-
ce-se para Patalim, a antiga e histórica estalagem,
e nãa longe ficam os restos do solar medieval dos
Patalins.
Pouco depois costeam-se os altos cerros vestidos
de escuros montados da Serrinha, onde ha também
vestígios pre-historicos.
A estrada entra em terras desafogadas, de am-
plos horisontes, e eis-nos a atravessar a courella
dos Touraes, com o seu bello dolmen bem con-
servado. A' direita, na baixa, fica a Amoreira da
Torre, com a sua alterosa torre quadrada, onde es-
tão as grandes e bellas estatuas romanas, que vie-
ram de Mertola.
27
Em breve Montemor, a villa opulenta, aristocrá-
tica, mui limpa, recostada entre o seu admirável
castello romano-arabe-medieval, com as suas torres
do cAnjo, e da oAíá-hora^ e o seu palácio; mais
longe o sanctuario celebre da Senhora da Visitação;
sobre outra collina, bem erguida, a ermida de San-
to André, bom exemplar do primeiro gothico.
No termo de Montemor fica a herdada das Com-
mendas, de que é proprietário o sr. Oliveira e
Silva, cavalheiro mui distincto e extremamente
íimavel.
Abrindo-se uma valia em terra d'esla herdade
toparam os trabalhadores cousas inesperadas; de-
ram a noticia, e o sr. Oliveira e Silva mandou con-
tinuar a excavação e recolher cuidadosamente os
objectos. A excavação revelou muros, pavimentos,
canos ou aqueductos, grande quantidade de gros-
sas cerâmicas.
Muitos objectos vi eu em casa do sr. Oliveira c
Silva, enchendo um caixote ; utensílios e ornatos,
de ferro e bronze.
Entre objec-tos cofnmuns vi alguns menos vul-
gares. Algumas peças pareceram -me de arreios dc-
cavallos, fibulas grandes de correias, ornatos de
freios e peitoraes, em bronze.
Entre os utensílios agrícolas de ferro vi uns de
feitio singular que parecem ferros de crestar, para
separar e extrair os favos dos cortiços.
O sr. Oliveira e Silva brindou-me com uma fi-
bula de bronze, que eu oífereci para a collecção de
antiguidades da Bibliotheca Nacional.
As antiguidades encontradas na herdade das
Commendas são da epocha romana, e denunciam
uma exploração agrícola.
Objectos romanos da herdade do Zambujo
A herdade do Zambujo fica ao norte de Évora,
28^
»
poente de Arrayollos, a um quarto de legoa da?
egreja de S. Pedro da Gafanhoeira.
Abrindo-se uma valia descobriram muitos ves-
tigios romanos, alicerces, sepulturas^ grande nume-
ro de fragmentos de cerâmica. O intelligente pro-
prietário sr. Joaquim António Rosado dignou-
se oíferece,r-me três objectos completos.
Vaso de vidro um tanto esverdeado, de alto gar-
galo esguio, de 12 centímetros de altura.*
Vaso, ou guttus de barro vermelho, aza e garga-
lo pequenos, muito bem conservado: tem 19 cent.
de alto e 10 no diâmetro maior.
E uma telha de rebordos, de 45 cent. de largo,
6 cent. de espessura no rebordo, chanfrada nos ex-
tremos, bem conservada.
Estes objectos pertencem agora áBibliotheca de
Évora.
Por todos aquelles sitios, no aro de Arrayollos,.
são frequentes os vestígios da epocha romana.
Houve ali povoação bastante densa. Ha também
algumas antas na freguezia de S. Pedro da Gafa-
nhoeira : uma bem conservada e notável na herdade
da Serrinha. Em i8go descobriu-se perto de Ar-
rayollos grande porção de moedas árabes, de prata.
O sr. Júlio Machado fez favor de me dar algumas
que eu oífereci cí Bibliotheca Nacional. O sr. Vis-
conde da Esperança comprou alguns centos d'estas
moedas.
Como se vê no aro de Arrayollos ha antiguida-
des dolmenicas, romanas, árabes e medievaes.
Entre estas ultimas a Sempre VSjjmi agora já
conhecida, citada, celebrada.
As rnlnas romanas de SanfAnna do Campo
A egreja de Sant'Anna do Campo fica a uns 4
kilomelros a noroeste de Arrayollos. A freguezia
_29_
de Sanl'Anna é vastíssima, comprehcnde proprie-
dades importantes, mas pouco povoada ; tem 94
fogos que na maioria são montes de herdades.
A egreja e a pequena aldêa que a cerca, estão
em terra da herdade da Adúa.
O terreno é accidentado, de fortes relevos, e
muito arborisado de montados de sobro e azinho;
as ribeiras de Arrayollos e do Divor, e outras cor-
rentes menores cortam a freguezia em leitos irre-
gulares, e de pouco declive, causa provável das
febres periódicas que são frequentes.
A egreja de Sant'Anna é única na vasta fregue-
zia.
Ora esta egreja ali escondida entre os arvoredos
é uma preciosidade, porque para a construírem
aproveitaram, e salvaram, os restos de um ediíicio
romano de dimensões e fabrica mui singulares.
Não soífre duvida que esses restos do primitivo
edifício são da epocha romana ; teem o cunho gran-
dioso e solido que essa pasmosa civilisação sabia
imprimir a todas as suas obras; era umaconstruc-
ção vasta, de robustas paredes formadas de gros-
sos silhares faciados, fortalecidas por contrafortes
bastante próximos para sustentarem superiormen-
te outros silhares de grandes dimensões, formando
um friso que ainda se conserva perfeito na face
oriental da egreja.
Demais na proximidade da egreja, a norte, já se
tem descoberto sepulturas romanas, e algumas
moedas que infelizmente se perderam, mas, pela
discripção, romanas e do tempo do império.
Estas singulares e veneráveis ruinas são conhe-
cidas ha muito.
O P." Luiz Cardoso, no seu Viccioiíario Geogra-
phico, menciona uns achados que tiveram logar
quando se acrescentou a egreja, para o lado do
norte, porque para o sul o ediíicio é propriamente
OO
romano : o P.' Cardoso escrevendo o;i; 1 74?, diz
— mandaiído-se accresceaiar a e^reja haverá 16
annos (iJ^iS ou ijso). e cavando- se a terra para
se limpar o logar se achou uma pedra lavrada de
muita grandeza com um buraco eauipido de ca!.
c partindo-se se achou dentro uma baiTa de peso
de 2 arráteis, i palmo de comprimento, 2 dedos
no largo, e 1 de altura ; e presumindo-se ser ouro
teve noticia d*istoo cabido; foi examinada a bar-
ra e o contraste achou ser latão e estanho — .
Dá noticia também de uma sepultura coberta
de grande pedra ; dentro acharam uma vasilha de
barro vidrado grosso e uma caveira.
Na conferencia 14.* da Academia Real do His-
toria poriugjeza de i dabril de 1734, a foi. 5, se
dá noticia de uma cotnmunicação de fr. Aâooso
da Madre de Deus Guerreiro que enviara á aca-
demia varias relações das suas descobertas archeo-
lógicas; uma de taes relações respeita a SaniWn-
na do Campo.
— Na egreia de Sant*Anaa se achou uma pedra
co:r letras amigas mas tão gastas que se não po-
deram ler. Em outra pedra grosseira que terá de
lace palmo e meio, e mostra ter comprimento {por
que está cravada na parede^ se divisara umas let-
tras e as que se podem ler são as seguintes :
CÁRNEO
CAL-ANTICE
SICAECILIA
OR M CVIS
R. CVIS.
MetiCroaa lambem os lacios n Suciados pc: v.^. ;-
doso.
, Outros escripiores se tem o>:w„pdij Ja n. tavc.
cgreja. Cunha Rivara no 'P-njrjiTM ie iSrS, pag.
^I
1 3o e seguintes, relata com a sua costiinuiJa eru-
dição, paciente e rigorosa, quanto poude obter re-
lativo a Sant'Anna do Campo.
O sr. Cunha Rivara visitou as ruinas do Sant'-
Anna do Campo que encontrou no estado em que
ainda hoje se conservam.
Notou a forma do templo, em cruz de braços
iguacs, formado de pilastras e paredes de grossas
pedras de granito toscamente lavradas, despidas
de ornatos e galas de architectura.
O braço sul pode dizer-se completo, existe par-
te do que olha a poente, e outra do nascente; no
angulo formado pelos braços nascente e sul ha
uma construcção da mesma época, de pequenas
dimensões. Pelas paredes das casas e quintaes da
aldeia viu grande numero de pedras de cantaria
que sem duvida pertenceram ao edifício do tem-
plo; em roda se descobrem alicerces de outras edi-
ficações.
Reparando bem n'estes restos, sobre tudo esbo-
çando a planta, notei que não pertencem a ediíi-
cações isoladas, sim a uma só construcção, de pla-
no mui symetrico.
No mesmo artigo se mencionam as inscripçõcs
incompletas :
. . . AFCA
...NANll
. ..lERME
LAVS
e
. . CÁRNEO
...CALANTICE
As inscripções de Sant'Anna estão no — Corpus
— do sr. Hubner, sob os n."' i25 e 126.
As ultimas letras LAVS (lubens animo votum
solvit) mostram claramente que se trata de ara vo-
32
tiva; o nome bárbaro da divindade chama atten-
ção, é único, não devemos todavia esquecer que
ha muitas divindades locaes na península com de-
nominações ainda mais singulares, nem pretender
modificar a leitura para Deo Eterno, como alguém
indicou.
Infelizmente as inscripções desapparcceram ha
muito, e não resta meio de verificar a leitura.
Diz ainda o sr. Rivara que o templo da povoa-
ção de Calantica era mais pequeno mas de risco
semelhante ao de Endovelico junto á moderna vil-
la de Tercna, ambos transformados em templos
christãos, mas do ultimo tendo só aproveitado os
alicerces.
Não encontro analogia entre as ruinas de Sant'-
Anna e o templo de Terena : e sobre este ponto
temos de divagar um pouco.
Quando se falia do templo de Terena eníende-
se o celebre sanctuario da Senhora da Boa Nova,
situado, a dois kilometros da villa para nascente.
N'este caso, como em tantos outros, tem havido
confusão.
No termo de Terena ha dois templos, um é a
ermida de S. Miguel da Motta, hoje em completa
ruina; uns paredões isolados encimando um cabe-
ço mui preeminente, de rápido declive, a 4 kilo-
metros ao norte da villa, com um vastíssimo hori-
sonte. Este é o sanctuario certo, e indubitável de
Endovelico, que o duque de Bragança D. Theodo-
sio encontrou em ruina, e donde mandou levar as
lapidas para os Agostinhos de Villa Viçosa; que
mais tarde se reconstruiu, para ser já n'este século
completamente abandonado; e hoje é simplesmen-
te a ruína da ermida de S. Miguel da Motta. Aqui
os fragmentos de aras, as inscripções, os vestígios
romanos ás dezenas (agora na Biblíotheca Nacio-
nal) ; o risco da ermida nada tem que ver com o
de Sant'Anna.
33
O outro templo, a Senhora da Boa Nova, é vas-
to, sumptuoso mesmo, construído ou totalmente
reconstruído em tempo de João i ou Affonso v,
tendo soífrido depois varias modificações, pouco
importantes, mesmo modernamente. E' desde mui-
to um sanctuario famoso, muito venerado em toda
aquella região alemtejana. Alem de duas inscrip-
ções nenhum vestígio romano; o risco é em forma
de cruz, mas de braços desiguaes. As duas lapidas
são as endovellicas de Sitnia e Terentia. Nada re-
corda Sant'Anna do Campo.
Teria Endovellico dois sanctuarios? ou assim
como o duque de Bragança levou para Villa Viço-
sa as lapidas que estão nos Agostinhos, e que fo-
ram de S. Miguel da iMotta, algum sacerdote illus-
trado da Senhora da Boa Nova, querendo salvar
as duas lapidas, as faria transportar da ermida aban-
donada para o seu templo? é o mais verosímil.
A S. Miguel pertenceram as inscripções de Vil-
la Viçosa, e ultimamente, em consequência mesmo
da ruína completa a que a ermida chegou, cahin-
do paredes, abatendo telhados, desfazendo-se os
rebocos, appareceu uma grande agglomeração de
mármores romanos, inteiros ou partidos, entre el-
les algumas aras com inscripções completas de que
eu já tenho fallado. Demais o risco mesmo da er-
mida, apezar da reconstrucção e da ruina não é o
usual do templo chrístão, e coincide comod'alguns
sanctuarios pagãos ha muito conhecidos, um corpo
central estreito ladeado de compartimentos acanha-
dos (V. n.** 3 da pi. 44, da i.* parte do tom. 2.° de
— L'Anliquílé expliquee — de Monlfaucon).
Isto é, S. Miguel da Motta representa-nos hoje
o sanctuario de Endovellico: avaliando pelo que
resta este sacellum apezar do grande numero das
suas aras, algumas formosíssimas, que attestam a
sua impoitancia em largo período, era em dimen-
34
soes muito inferior ao edifício de Sant'Anna do
Campo.
(Esta noticia foi escripta em agosto de 1882. Em
1889 fez-se uma exploração official em S. Miguel
da Motta, sob a direcção do sr. Leite de Vascon-
cellos. Resultou uma collecção única na península
luso-hispanica nos pontos de vista epigraphico e
archeologico, importante também no ponto de vis-
ta artístico).
Alguns números mostrarão a importância do e-
dificio romano : a egreja de Sant'Anna tem inter-
namente i5'",4X7'",3; a largura externa na pare-
de sul, ou da capella mór, é de i2™,6 contando as
pilastras ou contrafortes dos cunhaes ; esta parede
é toda romana.
A parede do nascente é quasi toda romana ; os
contrafortes completos sustentam ainda os silhares
de grandes dimensões, que formam uma architra-
ve rudimentar.
No poente a parede está mais incompleta, res-
tam 4 pilastras, e a estas segue-se uma fiada de
silharia, na vertical, que trava a parede sobresa-
hindo ainda bastante no .interior do templo; é um
fragmento de parede romana, perpendicular ás da
capella mór; esta parede seguia e o seu extremo
se vê claramente formando o cunhal da casa do
sacristão; da parede da egreja a este cunhal vão
i2™,5 ; é o que resta do braço poente da cruz, con-
sideravelmente maior que o braço sul. Para o ou-
tro lado a parede tinha egual extensão, e o cunhal
do pequeno cemitério corresponde ao do poente ;
de modo que de cunhal a cunhal, isto é, entre os
extremos dos braços ha uns Sy metros. E a pare-
de que seguia em frente da casa do prior, no ter-
reiro da egreja, para norte, e que foi cortada ha
annos para facilitar o transito, mas de que existem
vestígios, era ainda mais afastada, distava i5"',4da
parede do poente.
35
Bastam estes números para mostrar a vastidão
do edifício.
A pequena ccnstrucção também romana, e per-
feitamente conservada no exterior, que occupa o
angulo formado pelos braços sul e nascente tem
2^,9X5,85.
A parede completa tem 6 metros d'altura.
Infelizmente as inscripções desappareceram ha
muito, ou estão escondidas pelos rebocos; o que
resta dá uma prova sufíiciente de que ali existiu
um sanctuario d'uma divindade local.
Se o que resta não faz lembrar S. Miguel da
Motta, e se se afasta da Sr.^ da Boa Nova, em
compensação approxima-se de sanctuarios pagãos
conhecidos (Montfaucon — Templos — N. 3 da pi.
47). O templo da Fortuna em Preneste (hoje Pa-
lestrina) tinha muitos annexos, avenida, claustras,
jardins; em Sant'Anna parece ver-se o templo e
algumas dependências todas feitas na mesma epo-
cha e forma.
O digno parodio de Sant'Anna (era em 1882 o
rev. P.' Brito), vendo o máo estado da abobada da
sua egreja instou com a junta de parochia pelo seu
concerto; julgava-se a principio que seria indis-
pensável a demolição de parte da obra romana,
viu-se depois que seria inútil fazel-o, e que de tal
demolição resultaria grande augmento de despe-
z'a ; para aformosear e desimpedir o interior da
egreja seria preciso cortar os silhares salientes,
resto da parede de que já fallei, mas esse corte
ou desbaste sahiu muito moroso e só se levou a
certo ponto, porque as pancadas repetidas do pi-
cão atormentavam e aluiam as paredes de alvena-
ria ; e assim estão salvas as ruinas romanas de
Sant*Anna do Campo, e na sua velhice de 20 sé-
culos, amparam as pobres alvenarias incompara-
velmente mais recentes.
36
Procedendo-se ao desbaste dos silhares no inte-
rior da egreja appareceu entre duas pedras uma
setta de cobre, que me foi offerecida, e que eu dei
á Bibliotheca d'Evora. Setta e o que resta da has
te tem o",2o3 de comprimento; a farpa tem
o'",o 1 2 ; a espessura da haste é de 5 millimetros.
A egreja de Sant'Anna, única na vasta freguezia,
em parte construida de veneráveis restos d'um
edifício romano, merece toda a attenção aos pode-
res públicos, e deveria mesmo ser classificada en-
tre os monumentos nacionaes. No seu género não
conhecemos no paiz monumento de egual impor-
tância.
A memoria do padre Aífonso da Madre de Deos
Guerreiro, respectiva a Santa Anna do Campo,
vem sob o n.° XVI: «Noticias da conferencia que
a Academia Real de Historia Portugueza fez no
primeiro de abril de 1734». Nesta memoria se re-
fere também ás 3i5 antas que viu, ou de que teve
conhecimento.
A inscripção romana de Calantica que elle men-
ciona é a de Cárneo Calanticesi.
No Corpus, n."' i23 e 126.
CÁRNEO
CALANTICE
S:CAECILIA
OR NI CVIS
R. CVIS
DEO . PTARNEO . CALANTÍ
CENSI . LAVS
37
A FG A (?)
NANII
lERME
L.A.V.S.
Arado de Reguengos
Outro ferro de arado também proveniente da
mina do castello tem o™,38 de comprido, e o'",! o
na cava, no lado maior. Está também na Biblio-
theca.
-<P5£í_2H!ieS=^&-
Fica muito a contar das antiguidades romanas
nos arredores de Évora. Mais tarde agruparei ou-
tras noticias. Nas freguezias de S. Marcos e S. Man-
cos, nas herdades do Freixo, de Alcalá, da Cas-
queira ha vestígios importantes.
Fragmentos de cerâmica e cimentos são frequen-
tes em muitos pontos. Uma exploração methodi-
ca, dirigida por pessoas dedicadas, sem grande
despcza, daria muitos elementos para estudo, for-
maria um opulento museu.
Ao menos que se não deixem perder os obje-
ctos que eventualmente forem encontrados, nem os
vendam a estrangeiros.
Fim.
GABRIEL PEREIRA
KSTUBOS KBOHKNSKS
Eslao publicados :
i,° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana, !.■■' p. O templo romano. As inscripções lapidares. — 3.°
A Casa pia. O ediíicio do collegio do Espirito Santo da Com-
panhia de Jesus, fundado pelo Cardeal rei em i55i. A egreja.
A instituição da Casa pia em i836. — 4." Lóios. — 5." Bibliothe-
ca Publica. — 6," Conventos, i." parte, Paraiso, Santa Clara e S.
Bento. — 7." Bellas artes. ^ — • 8." Vésperas da restauração. — 9."
Idem, 2." parte. — io.° Brasão d'Evora. — 11." A egreja de San-
to Antão. — 12." O archivo municipal. — 13." A restauração em
Évora, 1640-1645. — 14." O archivo da Santa Casa da Miseri-
córdia d'Evora, i." parte. — i5." Idem, 2.-' parte. — 16." Idem,
3." parte. — 17.° Évora e o Ultramar. — 18." Assédios d'Evora.
1.'' parte. — iq.° Idem, 2." parte. — 20." Idem, 3.^ parte. — 21."
Idem, 4.^ parte. — 22." Os Festejos de Évora em 1729. — 23."
Évora nos Lusiadas. — 24." Procissões eborenses. — 25." Expo-
sições de arte ornamental. — 26." Antiguidades romanas em
Évora e seus arredores.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand — Livraria Académica
e livraria do sr. António Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'£¥ora
Estão publicados :
1." parte — fascículos I a IX — Foraes, costumes. Documentos mu-
nicipaes dos sec. XII e XIIÍ. Documentos do Cabido. O livro
dos herdamentos. Capítulos de Fernão Lopes. Extractos dos
inventários municipaes do sec. XIV. Extractos dos documen-
tos das albergarias. O livro do Acenheiro. Posturas antigas da
camará. Regimento da cidade em tempo de D. João i.° — 2."
parte, fascículos X a XVI — Documentos municipaes. Ordens
religiosas. Cartulario da cathedral eborense. Documentos da
Misericórdia.
Assignam-se no estabelecimento do editor J. F. Pereira Abran-
ches, praça do Geraldo, Évora.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand.
31 Ai3i^xjc>A r> Aí?;
A' venda em Évora em casa do editor Abranches.
DO MESMO AUCTOR
Contos singelos. Narrativas para operários. Contos de Ander-
sen (trad.). Notas d'archeologia. Biographia de Quinto Sertório.
Fragmentos de Floro, Salustio, Ptolomeu, Eutropio, Aurélio
Victor, Scylax e Hannon, ítenerario de Antonino, Plinio e Mella.
Livro 3." da Geographia de Strabão.
Catalogo dos pergaminhos do cartório da Universidade de
Coimbra.
GABRIEL PEREIRA
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RENSES
j^ISTOf^IA — ^I^TE— ^E^CHEOLOGIA
ROTEIRO DE UM EBORENSE,
EM RÁPIDO, POR MADRID, PARIS E LONDRES
(NOTAS PARA OS AMIGOS)
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, IMPRESSOR DA CASA REAL
Rua Ancha n." 85
189I
GABRIEL PEREIRA
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BORENSES
j4lST0P^IA -y^P^TE-yAr^CHEOLOGIA
ROTEIRO DE UM EBORENSE,
£M RÁPIDO. POR MADRID. PARIS E LONDRES
(NOTAS PARA OS AMIGOS)
ÉVORA
MINERVA EBORENSE -
t)K JOAQCIM JOSi; P.AI^TISTA, IMl-RKSSOK DA CASA «EA'
Rua Ancha n." 85
i8qi
ESTUDOS EBORENSES
Roteiro de um eborense,
€m rápido, por iadrid, Paris e Londres
(notas para os amigos)
A\s sete horas da noite de 22 de fevereiro parti
de Lisboa, da estação do Cães dos Soldados. Pou-
cos passageiros. Noite agradável. Na estação do
Entroncamento, bem illuminadaa luz eléctrica, pe-
queno movimento. Ao passar o Tejo havia luz suf-
ficiente para distinguir vagamente o vulto de Al-
mourol. Já havia um tenuissimo ar de madrugada
na j3assagem das serranias de Marvão, que se re-
cortavam em escuro sobre um céu limpo de nu-
vens, estrellado, ligeiramente alvacento a oriente.
A fronteira; paragem maior, uma passeiata na
plataforma ; a primeira vista do piquete de carabi-
neiros que examinam as bagagens, a primeira pa-
relha de guardas civis, com os seus chapéos bicor-
nes; as primeiras designações estrangeiras, la fon-
da^ la cantina.
Vae partir o comboyo, ai tren^senores ; viajeros^
ai tren !
Um grupo de hespanhoes faz troça do nosso ter-
mo comboyo, comparado ao tren ; um cavalheiro en-
sina outro a pronunciar ton-e das vargens ; é diffi-
cil para um estrangeiro pronunciar i^argeus.
Lembrei- me de um inglez que me dizia que lhe
era mais fácil aprender chinez do que pronunciar
bem portuguezmente: Albuquerque Noronha Falcão.
Já era manhan clara ao chegar a Herreruela; a
paizagem, a orographia e vegetação parecida á do
alto Alemtejo, e sul da Beira Baixa ; o paiz muita
deserto.
Aliseda ; dia bem claro. E' manhan de segunda
feira ; pequenos grupos de populares pela estação.
Pouco movimento. O aspecto das casas humilde.
O que já mudou completamente foi o tom do
vestuário das mulheres; domina o verde, nas saias
o amarello.
A posição, a attitude é diíTerente tafnbem; o ho-
mem com a rrtão na cinta, a mulher firma os pu-
nhos nos quadris.
Ha junto da Aliseda afloramentos graniticos, de
blocos maisoumenosarredondados, como em mui-
tos sitios de Portugal. Em alguns d'esses penedos
pareceu-me ver trabalho intencional; em uns pró-
ximos da estação julguei avistar cavas artificiaes,
como as de sepulturas em rochas, frequentes em
pontos do nosso paiz; a cava para receber o cadá-
ver com o vão para a cabeça.
Está um dia lindo, o ar de fina transparência.
Atravessa o Tejo; uma bella corrente fresca, pu-
rissima, opulentada pela fusão das neves ; a linha
férrea salva o rio n'uma altura considerável. Ha
umas barcas de passagem que n'esse momento fa-
ziam vai-vem transportando de uma a outra mar-
gem, homens, bestas carregadas, e um rebanho.
Caminhamos agora com maior velocidade. Li-
mita o horisonte a norte a serra de Grados, ou de
I
Gredos, ou el-Gréu como lhe chamou um campô-
nio, que eu interroguei n'uma paragem. Estava im-
ponente a cordilheira, severa e linda; coberta de ne-
ve nas regiões superiores, como se a involvesse a
fímbria de uma mantilha branca de larga franja.
Como o ar estava mui transparente a luz marcava
bem os espinhaços, os côncavos nas asperezas nuas
da serra; o branco brilhante da neve superior, pe^
la reverberação, fazia parecer escura a zona pro*
xima do horisonte, sobresahindo assim aquelle enor-
me relevo esmaltado; a sul, a grande distancia, co-
meçam a definir-se os montes de Toledo.
Durante três horas, de marcha rápida, se avis-
tam as duas enormes trincheiras parallelas; que for-
tificação! Os montes de Toledo também vestidos
de neve.
Percorremos uma região cultivada mas de pare-
cer pobre.
Uma cultura mais extensa, e menos intensa ain-
da que a das herdades alemtejanas.
Tudo parece mais pobre, o solo, o trabalho, as
povoações. Como o inverno correu mui secco a
terra está em pó, a aragem levanta remoinhos pe-
los campos lavrados. Os gados poucos e máos. Ra-
ros olivaes e azinhaes de enfezado arvoredo, pou-
co desenvolvido, e de côr amortecida.
Alguns homenzinhos lavravam com uns burri-
nhos, e uns arados que pareciam feitos de uma
tranca com um fueiro, abrindo sulcos pequeninos.
As povoações correspondem aos campos, cheias
de ruinas, de remendos; c aos grupos de populares
que apparecem nas estações ; geralmente de aspe-
cto pobre.
— São os governos, os impostos! é a explicação
sabida. As contribuições em Hespanha são maio-
res que entre nós. Ouvi dizer que havia 400:000
propriedades penhoradas pela falta de pagamento
de tributos ao Estado! O terreno parece-me pobre,
e as povoações ali só tem os recursos agrícolas.
Apenas de vez em quando anima a paizagem o
carro coberto puxado a dois, três, quatro cavai-
los ou muares, a fio, seguindo pela carreteira ou
pelo macadam ; ou a recova de mercadores ambu-
lantes cantarolando ao sol, com o acompanhamen-
to fino dos guizos e esquilas.
O Teita, uma corrente linda, fresca, com as aguas
das neves do Gréo, cortando bruscamente os cam-
pos a procurar o Tejo.
As povoações visinhas de Madrid conservam o
mesmo aspecto triste e pobre.
Torrijos. Uma mulher apregoa em voz fresca
rosqiiillas. São umas cavacas que vendem ás dú-
zias enfiadas em um cordel, agradáveis e baratas.
Entra um cavalheiro no compartimento, homem
de sessenta annos, de óculos, e caçadeira.
Vieram despedir-se d'elle á estação algumas se-
nhoras, homens e rapazes, em grande alarido de
comprimentos e affabilidades.
Era um cavaqueador, vivo, expansivo; era de
Valência, viuvo, proprietário, caçador enthusiasta,
e tinha ali parentes; todos os annos vinha passar
alguns dias, caçar. Também n*aquelle paiz só ha-
via de bom os coelhos, as perdizes, e os parentes :
que fosse eu a Valência se queria ver campos, e
vistas bonitas, e lindas terras; o paraizo I
E sempre as mesmas terras de lavoura com o
feitio de farrejeaes pobres, sempre até Madrid.
Las T)elicias é a estação; a mim succedeu-me logo
um desastre; paguei ao carro duas pesetas em vez
de meia.
— Que era um carro de hotel ; que seria meia se
fossem quatro passageiros; para evitar questões e
cavacos fui pagando.
O Prado; cinco e meia da tarde; como o tempo
está ameno anda muita gente na bclla avenida. A
rua de S. Jerónimo cheia; carros de aluguel e equi-
pagens bem postas formam linha; muita gente de
bom aspecto nos passeios. Finas parelhas e muitos
cavallos de preço; grupos de officiaes, bem mili-
tares e bem montados. Estabelecimentos brilhan-
tes e de tons especiaes alguns, com individualida-
de nacional.
O csrro levou- me ao Hotel dos Embaixadores
que fica no fim da Carrera de San Jerónimo, jun-
to da Puerta dei Sol. Bom serviço e preço regular.
Lavei-me, jantei, comi pimentos, bebi bom Valde-
penas, e gostei do queijo Manchego. E fuipasmar-
me para a Porta do Sol.
Continua o grande movimento ; estava-se com
difíiculdade nos passeios; os tramways e os car-
ros formavam correntes constantes; os cafés em
plena frequência e illuminação. Entrei no café de
Lisboa, muita gente, grande conversa; passa toda-
via por pacato. Em três mezas de lado estavam gru-
pos de emigrados portuguezes, dos acontecimentos
do Porto.
No café de Paris, mulheres e homens sortidos.
Uma excellente orchestra executava trechos clássi-
cos, que não dominavam a vozearia. O café de Lis-
boa é limpo, os outros são maiores e mais luxuo-
sos; mais bulhentos também. Estava um tanto fa-
tigado; ahi pelas lo horas da noite recolhi ao ho-
tel. Na praça o movimento era o mesmo; bem lon-
ge da apathia lisbonense.
A's oito da manhan, 24 de fevereiro, flanava pe-
la Porta do Sol ; abriam-se os estabelecimentos, ia-
se aos mercados; os alfaiates ornavam as frentes
das suas lojas com as capas de bandas vistosas ;
garotos e mulheres apregoavam jornaes, em tom
musical.
El heraldo de Madrid^ soa como se fosse o pri-
meiro verso de uma peteuera.
8
Grupos de raparigas, costureiras, floristas, em
cabello, de chalé ou mantilha, bem penteadas e cal-
çadas, risonhas e palradoras. Typos vários, mas
domina o typo fino, olhos escuros, cabello escuro,
lez clara, rosada nos malares, o typo que Velasquez
gostava de copiar.
O ministério da governação tem o portão aber-
to e passeiam em grande uniforme dois galhardos
guardas-civis, que me custa a tomar a serio; lem-
bram-me logo as zarzuelas. Ha um prédio junto do
Ministério que mostra bem a concentração da vi-
da; cada porta cada estabelecimento; cada janella
da sobre loja, do i.° e 2.° andar pertencem a diífe-
rentes misteres; modista, tabellião, ourives, barbei-
ros, alfaiates, todos arranjaram nichos n'aquella
gaiola.
Grandes estabelecimentos bancários de Paris tem
succursaes na Porta do Sol; destapam-sé os gran-
des cristaes das montras deixando ver o papel moe-
ç!a, os papeis de credito, as acções,^ os titulos, de
muitos paizes, emprezas e companhias.
— O correio? o telegrapho?
Um guarda civil muito attenciosamente indicou-
me o telegrapho: atraz do ministério de la Gober-
nacion.
' — Onde se passa o telegramma?
— Lá em cima.
Subi, escrevi, com uma penna horrível, e fui en-
tregar ;
— E' preciso o selio.
— Quanto?
— Paga-se lá em baixo.
E desci, e subi para passar o telegramma. Ago-
ra o correio.
Sellos vendem-se no estanco.
Fui a um estanco, não havia sellos; que fosse á
calle de Carretas; mandaram-me a outro estanco.
_9_
Havia sellos; e não havia cartas postaes para o
estrangeiro; tive de ir a terceiro estanco para as
cartas postaes. Madrid tem cousas de grande ca-
pital, e pareceu-me atrazada em certos respeitos.
O peso dos impostos geraes e municipaes faz-se
sentir também; a cousa publica especula com to-
dos os serviços. A vida é mais cara, mais difílcil
que em Lisboa e todavia ha muita vida airada.
O actual edifício da Bibliotheca Nacional de Ma-
drid é apertado e sombrio; em breve estará cons-
truido outro no Prado, vasto e de bello aspecto.
Ha preciosidades na Bibliotheca Nacional, e mui-
tos impressos e manuscriptos portuguezes. A ac-
tual sala de leitura publica é triste, e não a achei bem
disposta; a pobre sala de leitura da B. de Lisboa
€ melhor disposta, tem mais luz. O serviço não é
melhor em Madrid. O leitor, obtida a senha no
porteiro, vai á casa dos catálogos onde lhe mar-
cam o volume na senha e lhe indicam a secção, e
o continuo, a que se deve dirigir.
Gostei da casa dos catálogos, mas para se ado-
ptar o systema é precisa uma casa própria, e ne-
cessário também mais pessoal. Estavam quatro em-
pregados na casa dos catálogos e quatro continuos
na sala de leitura, além do presidente e outros em-
pregados. A frequência não é grande. As commo-
didades para os leitores são poucas. Os caloriferos
faziam uma atmosphera um tanto desagradável. Os
empregados são amáveis e instruídos.
O monumental palácio real, a opera, outros edi-
fícios públicos de bom aspecto ficam próximos da
Bibliotheca.
O museu de bellas-artes, no Prado, é bem co-
nhecido como um dos melhores do mundo. Enor-
me conjuncto de primores.
Procurei e achei alguma cousa de Portugal, ou
que importasse a portuguezes. Os retratos dos Phi-
10
lippes, do duque d'Alba, de D. João d'Austria, etc,
importam a portuguezes.
Poucos e de proveniência incerta os quadros em
madeira, do século XV e XVI, dos que tem chamado
entrenós de Grão- Vasco, golhicos, e escola portu-
gueza: quadros dos primeiros mestres flamengos que
vieram para os palácios e conventos de Portugal, e
que foram a base para uma grande actividade em pin-
tura. Temos deixado perder muitos de taes quadros,
muitos foram vendidos para o estrangeiro, e ainda
temos no paiz porção enorme; só em Évora que
thesouro no palácio archiepiscopal, no museu da
Bibliotheca, na Sè, em S. Francisco! E além does-
tes mais vistos ha quadros na capella do bispo D.
Pedro, na claustra da sé, e em S. Mamede (os que
eram de Santa Mónica), em S. Bento; pois bem,
em i836 vieram officialmente para Lisboa alguns
centos de quadros!
Ao génio hespanhol parece que não agradou a
pintura flamenga ; a planta não vingou ali como
entre nós.
Nas salas de pintura moderna vi um quadro do
sr. Alfredo de Andrade, Paul de Castel Fitsano^ cer-
canias de Roma^ de tom muito lindo, mais mimo-
so ainda que a singela paizagem cm branda luz
que eu tanto gosto de ver nas Janellas Verdes.
Um quadro de Miguel Angelo Lupi, Lafamilia,
faz sua figura rasoavel.
Um artista «hespanhol mui distincto, Salvador
Martinez Cubei Is, pintou uma T>. Inês de Castro,
na scena do beija-mão em Alcohaça, segundo o
trecho de Faria y Sousa. Tela vasta, bem tratada.
Entre os pintores hespanhoes contemporâneos
cita o catalogo Alvarez Dumont, natural de Vilía
Real de Santo António; e Ricardo Balaca, natural
de Lisboa.
Dumont terh La oracion^ La florista^ e El guer-
rillero.
II
Balaca um quadro só, mas importante. Episodio
de la batalla de Bailen, bella pintura.
Em vários pontos do museu ha retratos histori-
ricos de grande mérito; mas ha uma sala especial
para retratos da familia real hespanhola, que são
obras d'arte e documentos históricos, nos sec. i8 e
Entre elles ha dois retratos, corpo e meio corpo,
de D. Maria Isabel de Bragança, segunda esposa
delrei D. Fernando VII, pintado por D. Bernardo
Lopez. O de corpo inteiro, n." 773, é uma belleza,
a dama retratada devia ser uma jóia de fresca ju-
ventude.
Esta senhora era filha de D. João VI e de D.
Carlota Joaquina de Bourbon. Casou com o rei de
Hespanha Fernando VII, em 29 de setembro de
1816, e morreu muito nova. Só a galeria dos re-
tratos de Fernando VII e das suas quatro mulhe-
res é extraordinária como documento. Do retrato de
D. Maria Isabel Francisca de Bragança ha uma li-
thographia de Lopes, rara, por ter quebrado a pedra
ao tirar o quarto exemplar. Uma gravura de Agui-
lar filho, em 18 17, e outra de Dicn, desenho de
Thibault, em moldara de rosas com o brazão hes-
panhol.
O Museu Nacional de pintura y escultura é tão ce-
lebrado que não me atrevo a dizer mais. E traba-
Iha-se muito ali; a cada passo artistas hespanhoes,
homens e senhoras, copiando e estudando; bastan-
tes estrangeiros também.
Em frente da SenJiora da Conceição, de Murillo,
c de outros quadros celebres, havia dois e três co-
'pistas. Os museus allemãeseanglo-americanos tem
copistas por todas as grandes colleções. Nem d'is-
so se tem tratado em Portugal. Quem pensa hoje em
comprar Rubens, Velasquez, Vandick, Raphael! com
trinta ou quarenta contos que pôde valer um ori-
12
ginal d^esses, ou mais, se apparecer no mercado^
obtem-se algumas dezenas de boas copias de qua-
dros de primeira ordem, que servem para estudo.
Em Portugal nem temos elementos sufficientes pa-
ra conhecer as escolas e suas evoluções. E tem-se
gasto bom dinheiro; mas tem faltado tino.
Cousa singular, os monumentos de Madrid são
pobres, mesquinhos. A estatua de Cervantes, ante
o palácio do Congresso, é feia ç acanhada; o mo-
numento de Colombo, muito trabalhado, é rachiti-
co; o de Dois de Maio é mesquinho; todos pobres
em arte e mesmo em material.
Entra no Prado uma rua chamada de D. Bar-
bara de Bragania; provavelmente commemora a
infanta D. Maria Barbara, filha de D. João V, que
casou com o principe das Astúrias, e foi rainha de-
pois, fallecida em lySS.
Na armaria ha objectos portuguezes, e grande
numero de hespanhoes que servem para recompor
e completar o muito que falta entre nós.
Como temos tido a habilidade de estragar tudo,
de perder tudo, é para espantar. Que revoluções,
e crises a Hespanha tem soíTrido! pois guarda os
seus thesourosdeartee historia religiosamente, so-
fregamente; tem tido a felicidade decomprehendcr
que esses objectos fazem pai te da nacionalidade,
são fontes de gosto, de arte, de inspiração; fomen-
to de industria, e monumentos de historia.
Percorri depois as salas do Museo archeologico
onde se guardam muitas preciosidades. O meJa-
Iheiro, de primeira ordem, que antes estava na Bi-
bliotheca Nacional, está hoje no Museu. Em cons-:
trucção especial duas grandes salas da collecção
elhnographica: podíamos ter em Lisboa uma col-
lecção assim, ou superior; e nada temos. Se hou-
vesse tino com o dinheiro gasto nas edificações da
Tapada, e da Avenida para a exposição industrial,
í3
teríamos hoje um bom edifício para exposições per-
manentes, coloniaes, industriaes, agricolas, ethno-
graphicas que tudo é preciso para educar e illus*
trar este povo, e especialmente a capital.
Em tudo se conhece o terrivel deficit de juízo e
illustração, origem de todos os outros deficits.
O museo archeologico de Madrid é official; alem
das collecções hespanholas tem algumas estrangei-
ras, de Itália e Grécia; a collecção de vasos gregos
é muito notável.
Nas collecções hespanholas brilham as mobilias,
os trabalhos em ferro, grades, etc, as louças e vi-
dros. Fiz logo tenção de visitar mais de vagar o
museo na torna-viagem.
Fui jantar, flanar um pedaço pelas ruas; ás oito
da noite parti para Paris.
No compartimento três hespanhoes, pessoas gra-
das, fallavam em politica; pertenciam a três parti^
dos, e concordavam em que todos os últimos
ministérios tecm sido immoraes e daninhos. A ques-
tão das actas sujas das ultimas eleições gcraes, fal-
sificação em larga escala e descarada; e as recen-
tes eleições municipaes de Madrid, lucta travada
com grande calor por todos os partidos e grupos,
que não conseguiram levar á urna um terço dos
eleitores recenseados, revelando-se assim frisante-
mente o indiíTerentismo orgânico da povoação mais
illustrada da Hespanha, formavam os assumptos
da discussão, animada, movimentada. Os três hespa-
nhoes sahiram nas estações próximas; só ficou um
passageiro, que não tomara parte na conversa. Ao
sahir o ultimo, voltou-sc para mim: Ufl los polí-
ticos!
E começou n'uma desanda cerrada nos partidos
políticos de lá e cá.
Queria ministérios d'affaires^ de administração^
botar fora partidos; etc. Era um joalheiro de Ma^
14
drid; seguia até Paris; passeio que faz ordinaria-
mente quatro vezes por anno, em seus negócios.
Bello companheiro de viagem. Conhece a indus-
tria e o commercio de Portugal, Hespanha eFran-
ça, profundando a miudezas, explicando absurdos
das pautas aduaneiras.
Depois dorniitamos um pouco; despertei ao per-
corrermos uma região accidentada ; entramos nas
Vascongadas. Atravessam-se perpendicularmente
ásperas cordilheiras e valles fundos, pittorescos,
moldurando entre casaes e aldeias, fragas e flores-
tas, tí^rrentes sinuosas formando quedas e cachoei-
ras. E' um paiz agrícola e industrial. Alguns tre-
chos da paizagem lembram-me as deliciosas des-
cripções das Encartaciones, de Trueba.
Os guardas-civis são substituídos pelos miquele-
tes^ ou guardias-forales. de boinas vermelhas. Os
governos teem ainda hoje cuidado em não oífender
os melindres cantabricos.
Tolosa pareceu-me ser o ponto que avistei que
resume melhor a região. Tem um aspecto rijo, sa-
dio, farto e contente, aquella cidade rodeada de bel-
las culturas e cheia de fabricas.
Vicíoria; aqui se liquidou a questão napoleoni-
ca; apanhando os inglezes as bagagens francezas,
um thesouro incalculável, formado de jóias portu-
guezas e hespanholas, que hoje estão nos museus
públicos e particulares da Inglaterra; nós dêmos o
sangue, o heroísmo, e ficámos com muita gloria.
Os Pyreneus, um rosário de aspectos imprevis-
tos; túneis e viaductos ; as bétulas alvacentas for-
mando mattas, em amplos mantos de neve; alguns
rebanhos de merinos pelas encostas.
Soam nomes vasconços das estações; Alsásua,
Ortzáurte. O joalheiro de Madrid aponta-me alguns
indivíduos da valentíssima raça que se tem conser-
vado pura atravcz tantos séculos nos seus costumes
i5
e linguagem, e até nos seus ossos, e eu reconheço
depois facilmente o typo basco, em homens, rapa-
zes, mulheres, pelos malares fortes, as dentaduras
brancas e cerradas, a coloração rósea tão differen-
te do branco, pallido, ou moreno da gente caste-
lhana.
Em muitos cabeços avisto umas torres, grandes,
que me pareceram construcções medievaes. Não
são.
Como n'esta região, geologicamente tão atormen-
tada, tem havido muitas guerras, o governo quan-
do se adoptaram os telegraphos de palhetas fez as
torres com dimensões taes que podessem conter
guarnições para segurança dos postos contra as
guerrilhas. Não avistei um só relevo que me recor-
dasse as trincheiras prehistoricas. Em raros pontos
vi algumas edificações que podem ser bem antigas:
casas de silharia com arcos de pleno cíntro, e pe-
quenas janellas quadradas, românicas talvez.
S. Sebastião; esplendidos arredores, casas de cam-
po, jardins modernos, elegantes; avista-se a cida-
de e a bahia ampla, azul. Pouco mais estamos na
fronteira franceza. O aduaneiro giza nas malas os
circulos brancos, signal do j^isto^ e vou logo com o
joalheiro para o restaurante. Veio um empregado
pedir ao meu amável companheiro as chaves para
revistar a sua bagagem. Elle levantou-se e seguiu
o empregado. Antes de entrar no restaurante elle
pediu-me para eu tomar conta n'um saquinho de
viagem.
O homem trazia seis ou sete malasinhase saqui-
nhos. Eu continuei o meu almoço, e elle sem vol-
tar. Terminei, levantei-me, fui trocar as pesetas por
francos, e dei com o homem a conversar muito com
os aduaneiros. Estes muito serenos e attenciosos.
Por fim os empregados francezes, sem sombra de
máo humor, fecharam as malas de bagagem, en-
i6
tregaram-lhe as chaves, cintaram íi'Lirn prompto e
sellaram os volumes, deram ao joalheiro um im-
presso, um documento, e disseram-lhe com muita
cortezia que podia receber a sua bagagem, em Pa-
ris, na Administração central, rua tal, numero tan-
tos, onde se resolveriam todas as duvidas.
Houve denuncia, ou os aduaneiros já conheciam
o homem. Não vi o que ia nas malas; vi depois,
já na carruagem, os saquinhos e malasinhas, por-
que o homem entendeu, vendo-me um tanto intri-
gado, que me de via. explicações. Iam jóias parti-
das, amolgadas, e algumas dezenas de relógios de
algibeira, de ouro, desarranjados. Tudo aquillo ia
a concerto em Paris. Isto é, se os aduaneiros lhe
revistassem as malasinhas elle mostrava um docu-
mento hespanhol provando que eram objectos, pa-
ra concerto. Mas em Paris comprava jóias e reló-
gios, em numero egual, para vender em Madrid, e
que passariam a fronteira como objectos já con-
certados; e também as jóias partidas e os relógios
estropiados que viriam então como socata de ou-
rivesaria. Conhece as pautas na perfeição, o joa-
lheiro.
Os volumesinhos contidos no talego que me en-
tregou eiiam muito interessantes. Pareciam uns ces-
tinhos de merenda; felizmente os aduaneiros nem
repararam. Levavam centos de folhas de bisturis,
molas, ponteiros de relógio, pinças, agulhas, tubos,
instrumentos de ííirurgia, tudo de íinissimo aço de
Toledo, incomparável, que nenhuma outra indus-
tria consegue attingir. Disse- me que só o lucro dos
relógios, ou dos bisturis lhe pagava a viagem.
Do que elle sabiatambem era do movimento dos
caminhos de ferro; e por isso tomámos logo outro
trem que ia partir para Bordéos, pagando uma pe-
quena diíferença, para em Bordéos alcançarmos o
expresso especial entre Bordéos e Paris.
J7__
Bíanitz; avistam -se pakicios e jardins, a praia
alvíssima, e o mar muito azul, de um azul celeste
vivo, como nunca vi egual. Varia a cor do mar, e
a do ar, como a relação de uma com outra. A cor
do Tejo não é a cor do Sado ; o azul do mar em
Cascaes diíTcre do que se vê na Foz do Douro. O
tom do céu puro em Évora é mui diverso, mais for-
te que o azul do ar nitido em Lisboa.
O mar em Biarritz tem um azul, um anil violá-
ceo intenso que faz parecer de uma alvura extra-
ordinária as. cabelleiras das vagas e o areal da praia.
Deixámos o paiz montanhoso, a formidável suc-
cessão de trincheiras que separa a Hespanha da
França; mais duas paragens de poucos minutos e
entramos nas planuras das landes, povoadas de ex-
tensos pinhaes, tratados, cortados de avenidas, aqui
e ali salpicados de pequenas explorações agrícolas,
em muitos sitios sujeitos á resinagem. Faz calor, e
poeira, muita poeira, mais que entre Vendas No-
vas e o Pinhal Novo em tempo de verão. Anoite-
ce ainda no pinhal enorme, na carreira a grande
velocidade durante seis horas, sempre na formidá-
vel floresta que veste as dunas, nuas e estéreis ha
trinta e seis annos apenas, l^orque não povoam de
pinhaes as charnecas de entre Tejo e Sado, as du-
nas, os médões de areias do nosso littoral?
Boniéos^ a gare enorme, movimento por toda a
parte; chegam, partem, organisam, manobram os
comboyos. O joalheiro não me larga, vamos lavar-
nos e escovar-nos. Umas senhoras de meia idade
lêem uns gabinetes bem arranjados, para homens
e senhoras, com muitas commodidades; a troco de
dois vinténs temos agua, toalhas, sabonetes, esco-
vas. Uma consolação depois da poeirada das lan-
des.
Grande diíferença entre as estações hespanholas
c francezas; em tudo. Nós os peninsulares a custo,
i8
mui vagarosamente temos aprendido a conhecer a
commodidade, o bem estar, a tornar a vida mais
agradável. A grande gare franceza com as suas de-
pendências, o restaurante, os gabinetes, a venda de
livros, illustrações, guias, e informações é um todo
muito completo e bem combinado.
Eu nem sei como certa gente em certos casos se
soverna nos melhores sitios de Lisboa. As senho-
ras devem soffrer muito. E pensar como estávamos
ha trinta annos em hygiene e asseio públicos!
O banho, a lavagem barata é ainda um mytho
na nossa capital. Certas commodidade-s que se ob-
tém a troco de poucos cobres em Paris ou Lon-
dres, em Lisboa são ignoradas.
Os jornaes! Um garoto apregoa na plataforma:
La France ! La Patrie !
Singular! Seria preoccupação minha? Em Ma-
drid o primeiro grito de garoto que ouvi — El he-
raldo de Madrid — soou -me com um verso de pe-
tenera; em França o primeiro pregão de jornaes,
a voz vibrante, alta, do rapaz impressionou-mecomo
um toque de clarim. Muita gente no restaurante; a
meu lado e na minha frente ficaram alguns oííiciaes
de dilferentes armas que conversavam muito ex-
pansivamente. Um d'estes seguia no expresso até
Orleans, e cavaqueou commigo muito amável.
Todas as carruagens e todas as zorras dos cami-
nhos de ferro francezes estão taradas militarmente.
Certos números indicam logo bem claro quan-
tos cavallos ou soldados pode transportar o carro;
um signal mostra o serviço que o vehiculo pode
prestar na organisação de um trem de artilheria.
Tudo para o caso de mobilisação.
Parte o expresso. Uma bella carruagem de pri-
meira de quatro compartimentos folgados, um com
sete logares, dois a seis, o quarto servindo de gabi-
nete-toilette, communicando por portas. As novas
^9
carruagens allemans em serviço na ferrovia do sul
parecem-me melhores. Aquillo vae n'um zig-ziguc
que incommoda alguns passag'eiros. A machina
dá uns sopros fortes, depois uns silvos curtos, é um
irem que passa na outra linha em sentido contra-
rio, ouve-se o rugido, e a successáo rápida das vi-
draças illuminadas da apenas a impresssão de uma
facha de luz.
Amanhece já nas planuras do ^•alle do Loire; tu-
do cultivado, a natureza disciplinada em toda a li-
nha, em todos os aspectos. A defeza da via férrea
c uma sebe aparada como o buxo n'um jardim an-
tigo: as pequenas ribeiras correm entre muros e es-
tacarias; as arvores de fructa isoladas ou encosta-
das a paredes cortadas simetricamente.
Frequentes as vivendas anti-gas, os castellos^ de
nobres edifícios, e avenidas de altos arvoredos.
Nas quintas, nos campos trabalha-se; a lavou-
ra feita a possantes cavallos ; grupos de poucas vac-
cas, malhadas de branco e amarello; as estradas
marcam-se bem pelas fileiras de esguios choupos,
de uma egualdade massadora.Tudo n'um tom cla-
ro, que deve mudar para verde no verão. Ouida
(La Ramée) descreve perfeitamente a região do Loi-
re no Tricotriu.
Mesmo junto da estação de Orleans está um cam-
po militar, onde se desdobra um regimento de ar-
lilheria, em escolas; a pouca distancia do comboyo
passa a trote uma bateria completa.
A' medida que Paris se avisinha o trabalho ru-
raltorna-se mais intenso e complexo.
Depois as grandes culturas dão logar a hortejos
e jardins de exploração. Em algumas de taes pro-
priedades as estufas, estufins e campanulas de vi-
dro representam um capital considerável. Parecem
os repolhaes da Moita, em redomas de vidro Al-
gumas hortas tem os seus canteiros completamen-
te abrigados por vidraças.
20
ym>isy^ uma villa alegre, chakts ás dúzias, entre
jardins de recreio, um pequeno cemitério, e próxi-
mo d'este um monumento singular coberto de co-
roas e ramos deflores; recorda um episodio do jyz-
no terrível^ do cerco de Paris, e celebraram ha pou-
co o anniversario d'esse dia de sangue.
París^ 26 de fevereiro, ás 10 da manhã.
O carro segue pela margem sul do Sena. Tan-
tas vistas ha da grande capital tranceza que me pa-
rece estar em paiz conhecido; o rio entre os seus.
cães, as pontes, os vaporsinhos, os omnibus, os al-
tos prédios, não me impressionam; distinguem-se
bem as severas linhas da cathedral. Notre-Dame, as
grandes massas da Gamara Municipal e do palá-
cio de Justiça, De súbito uma nota desagradável,
um cartaz verde com grande letreiíx) afrontoso pa-
ra Portugal, do tal syndicato do empréstimo de D.
Miguel. Estava n'um muro baixo de jardim. Al-
guém rasgara pyrte do cartaz, mas viam-se bem os
dizeres principaes.
Mandei seguir o carro para o Graiid Hotel de
Malte, na rua Rlchelieu, porque, dizia o guia, fi-
cava em frente da Bibliotheca Nacional.
Hospedaria regular, pacata, quartos bem mobi-
lados : o dono é dinamarquez, e na occasião esta-
vam ali algumas familias escandinavas.
Quiz tomar o ar de Paris. Já almoçado fui ao
acaso pelas ruas e praças; fui ter á bolsa, vasto
edifício com alta columnata e ampla escadaria ex-
terior; na escada e na columnata estariam i :5oò su-
jeitos; havia muitas mezas, onde os agentes, os bol-
sistas escreviam; liam-se telegramas, gritando; ás
vezes a vozearia era atroadora ; formavam-se gran-
des grupos ouvindo alguém que fallava alto; ap-
parecia outro e logo de vários pontos corriam mui-
tos a rodeal-o. Tudo aquillo dava uma impressão
de remoinho e confusão completamente nova pa-
ra mim.
21
Metti-me pelos grupos e percebi que a origem
da excitação extraordinária eram as noticias rela-
tivas á viagem da imperatriz de Allemanha, a im-:
peratriz-mãe, que viera a Paris convidar os artis-
tas francezes e tivera a desastrada lembrança de
visitar Versailles e S. Cloud, ferindo profunda, ex-
cusada, e impoliticameníe os brios nacionaes.
Todos os jornaes se occupavam da questão; ás
geribandas dos jornaes allemães chegados na ma-
nhan, respondiam já no mesmo tom os francezes.
O jornal que mais se apregoava era L' Autorité
que trazia o seu artigo principal intitulado Vipe la
Frauce ! de P. de Cassai^nac.
Impressionou-me uma mulher de 5o annos tal-
vez, robusta, alta, voz estridula, que apregoava agi-
tando a folha; L! Autorité! voyei 1'aiticle de Cas-
sa gnac. Vive- la -j rance !
O Vive- In-Jr (ince sahia agudo, espaçado; a mu-
lher gritava do coração, não era reclamo, parecia
que tinha contas a ajustar com os allemães. To-
dos os jornaes se vendiam immenso.
Passava um omnibus indicando T^assy% a cele-
bre avenida , subi, paguei trinta réis, e percorri boa
parte do bello Paris, durante uma hora.
Muita gente nos boulevards, fallando em grupos,
lendo jornaes;. soprava uma lufada draiuatica na
multidão.
Apeei-me perto de uma estatua de Lamartine,
entre algumas arvores, em pequeno etranquillo ter-
reiro de Passy; não é um monumento, c uma lem-
brança; os francezes são admiráveis em afinar es-
tatuas memorativas ou ornamentaes com os sitios,
com as molduras obrigatórias.
Havia cinco minutos que percorria a Avenida
entre pequenos prédios elegantes e jardins, onde
brincavam ranchos de crcanças, quando ouvi mu-
sica. Era um regimento de infanteria, seguido de
22
um esquadrão de dragões. Creio que iam para exer-
cício.
- Muitas senhoras vieram ás janellas, e creanças,
cavalheiros, trabalhadores, creadas, vieram aos pas-
seios. Muitos, quasi todos, tiraram os chapéos na
passagem do coronel, que comprimentava com a
espada.
Era um typo como os de Protais, cabello grisa-
lho, cortado rente, pequeno bigode aguçado, ho-
mem delgado e nervoso.
Quando a bandeira passou todos se descobriram,
e um official montado que ia próximo cortejava
também com a espada.
O regimento levava talvez dois mil homens, ra-
pazes delgados e de pequena estatura. Na nossa in-
fanteria ha gente mais vigorosa.
Não iam bem vestidos; não se preoccupam com
feitios; calças largas, casacos largos, e, pareceu-me,
de tecido inferior. Mas a polaina e o bonet dão ar
elegante.
A marcha rápida, o passo largo tem um toque-
sinho de salto. Aquella tropa no campo deve ser
um bando de estorninhos com Lebéis.
Gostei de ver o respeito com que o povo corte-
java o regimento e a bandeira. Aquilloé sério. En-
tre nós muitos respeitos teem dado em droga: por-
que não temos consideração ou não temos que res-
peitar.
Os dragões eram homens altos e montavam bons
cavallos; o cavallo francez que serve no exercito
pareceu-me um meio termo entre o hespanhol e o
inglez. E* alto, ácxe correr bem. Já em Madrid re-
parara que muitos officiaes montavam cavallos
meio-inglezes.
Depois em S. Germain-en-Laye vi passar um re-
gimento de caçadores a cavallo, e dois esquadrões
de couraceiros, excellentemente montados, espe-
cialmente os couraceiros.
23
Vim ao arco da Estrella; lá estão os nomes de
Junot, Loison, eThiebault,ochcfe de estado-maior
que escreveu o relatório da tomada de Évora.
Desci pelos Campos Elysios.
E' escusado dizer que ha em Paris palácios ma-
gniíicos, lojas opulentas, tafues galhardos, equipa-
gens boas e bem afinadas.
Eu gosto do inédito.
As vendas de combustivel são em Paris casas
nsseiadas, teem montras, balcões, balanças limpas.
Nas montras exp(3em o molho de vides, de madei-
ras diversas, bem cortadas, o carvão de varias es-
pécies, as bóias de cisco amassado, etc. : tudo pre-
parado para o fogão de quarto, de sala, para o fo-
gão de cosinha, para a fornalha industrial. Pesos e
preços indicados. -
Tenho pensado muitas vezes em que o combus-
tivel alemtejano, especialmente o azinho, devia
ser vendido em Lisboa para fogão de sala ; não
conheço combustivel melhor, a brasa c linda, a cin-
za muito branca, e tem aroma agradável.
Lavanderias e casas de engomar são grandes of-
ficinas, com muitas mulheres e bem installadas.
Parece-me que este ramo está melhorem Paris que
em Lisboa. .Mesmo da rua se vê a successão de
trabalhos; cosem, concertam, lavam, engomam rou-
pas brancas de ambos os sexos.
Vi uma Uivanderia próxima da Sorbonne que se
o Grandella a apanhasse na rua do Ouro tinha que
pôr alguidares para a baba dos janotas. Que lava-
deiras e costureiras!
Também cm Londres as lavanderias são estabe-
lecimentos bem installados.
Ha em Paris, nas bocadas de muitas ruas uns
postes com moldura e vidro, e um mappa dos es-
tabelecimentos commerciaes, escriptorios, etc, que
na rua ou praça se encontram. E' um annuncio e
é uma indicação útil. No pequeno mappa, bem le-
givel, indica-se nome, numero de porta e andar, e
até a hora, se é medico, advogado, commissario,
procurador, etc.
O policia de Madrid é superior ao de Lisboa,
o de Paris superior ao de Madrid, o de Londres
ainda melhor. Não me refiro só a maneiras, tem
mais conhecimentos, e os serviços estão especiali-
sados A policia é também mais respeitada.
Um incidente perto do theatro francez ; um co-
cheiro deu com a ponta do látego na orelha de um
pobre homem; um grito, o trem parou; appareceu
um policia, onviu ambos, escreveu, tomou, prova-
velmente, nome e numero : uns segundos depois
do grilo estavam talvez duzentas pessoas paradas
nos passeios, ninguém se approximou do grupo,
perfeitamente isolado. Em Lisboa estariam logo
quarenta sujeitos a dar sentenças, a ralhar da po-
licia, e a embaraçar o exacto conhecimento do fa-
cto.
Ha muitos postos de soccorro, e alguns espe-
ciaes para creanças. com medicamentos^ pessoal
inferior, etc.
Como alguns estabelecimentos públicos são vas-
lissimos podem alojar, o que é altamente conve-
niente, postos de policia, de bombeiros, e de soc-
corros.
A entrada da Bibliotheca Nacional fica a poucos
passos da porta do hotel. Um garboso guarda far-
dado e de chapéo armado estava á porta; indicou-
me a entrada, de batentes envidraçados; atraves-
sei a quadra, limpa, simples e severa.
A um lado uma mulher recebe pára-aguas e aba-
fos; do outro um modesto restaurante, com pou-
cos artigos, e nada de bebidas excilan-tes ; è servido
também por mulheres. *
Em Londres no Soiith-Kensiiigion, e no British-
25
Musewn também ha restaurantes, com sandwichs^
pasteis, pão e manteiga, e chá preto e verde, nada
de cervejas, nada de álcool.
Na Bibliotheca Nacional de Paris para o servi-
ço do publico ha duas divisões, a menor ou menos
importante c a da leitura publica, a maior a sala
de estudo.
Para a sala de leitura publica deram-me um bi-
lhete onde escrevi nome e residência que apresen-
tei a um continuo, dentro da sala. Este entregou-
me outro bilhete onde escrevi nome e titulo do li-
vro, e entreguei; marcaram-me numero do logar,
que eu fui occupar. Era uni livro bem conhecido
em França, sem duvida, o 6". Paiilo^ de E. Renan.
Esperei vinte minutos pelo livro, que desceu pe-
lo pequeno elevador ao lado do continuo.
A sala de leitura é acanhada. Mais triste que a
de Lisboa. As compridas mezas más, a mobilia in-
ferior, o ar viciado pelos caloriferos: estavam uns
sessenta leitores.
Não estavam creanças na sala; a meu lado um
operário, talvez, porque trazia bluza azul, lia luii
romance de Júlio Verne; em frente um sujeito, ty-
po de militar reformado, repimpado na cadeira, fo-
lheava o D. Quixote, á minha direita um moço es-
tudava uma arithmetica.
A pouca distancia um leitor muito á vontade co-
mia o seu lúnch.
A meio da comprida sala, ao lado, um espaço
com divisória e nelle um empregado superior a
quem terminada a leitura fui mostrar o livro e bi-
lhete, poz o vísa^ e vim entregar a senha ao conti-
nuo, que me deixou sair.
Fui á sala de estudo; mostraram-m'a da porta,
mas era tarde, e não podia entrar sem licença su-
perior.
A impressão que me íicou da sala de leitura pu-
• 4
26
blica é pouco favorável. Mas é preciso notar des-
de já que em Paris ha muitas bibliothecas popu-
lares.
Para a sala de estudo deram-me no dia seguinte
uma senha de admissão visada pelo director, de-
pois de eu mandar o meu cartão de visita. E' uma
sala ampla, bem mobilada, luxuosa mesmo, com
logares marcados; os leitores estão á vontade; mui-
tos empregados, trabalhando em serviços do esta-
belecimento, e promptos a attender a qualquer lei-
tor.
Alguns estudiosos tinham vinte ou ti'inta volu-
mas nas suas secretárias.
Pedi um volume conhecido que me foi forneci-
do passada hora e meia. Os ca lori feros, como na
Bibliotheca de Madrid, faziam atmosphera incom-
moda. Ha collecções de estampas, e de numismá-
tica que tem dias especi.aes de exposição. Ha sala
para consulta de manuscriptos onde vi muitos co-
pistas, entrando n'esta classe algumas senhoras. Na
sala de leitura publica estavam 6o pessoas, na de
estudo mais de loo, na dos manuscriptos umas 40.
Na exposição de estampas entra-se por uma pe-
quena sala guarnecida de molduras e vitrines ou
taceiras com bons exemplares para a historia da
gravura. Algumas estampas estão em molduras ar-
ticuladas a uma haste central. Na segunda sala,
muito grande, em estantes, milhares de volumes
de desenhos e gravuras, e algumas estampas raras
em molduras nas paredes dos vãos das janellas.
A exposição das cartas geographicas está instal-
lada n'um corredor com pouca luz; algumas car-
tas, em pergaminho, e«tão com vidro sustentado
entre duas réguas. A exposição dos impressos ra-
ros e dos livros illuminados é admirável. Os per-
gaminhos manuscriptos e illuminados, abertos em
taceiras ou escaparates, com as folhas expostas re-
27
vestidas por capas de gelatina segura por elásti-
cos: por causa da poeira. No Museu britannico não
usam isto, e é certo que as follias expostas estão
pardacentas, mas o ar de Londres tem carvão; e
o de Paris é certamente menos puro que o de Lis-
boa. No Museu britannico as rifriues, os centos de
grandes vitrines, são todas vestidas de pannos es-
curos; só estão destapadas nas horas de serviço.
Nem em Paris nem em Londres vi impressos ou
manuscriptos tão bem conservados como os temos
cm Portugal.
Para visitar o Museu de S. Gennaiii-en-Laye é
preciso ir á gare de S. Lazaro e tomar um com-
boyo que passa por Baíignolles, Asníéres, e Nan-
terre, percorrendo sitios que devem ser deliciosos
na primavera e verão. Kw, fevereiro as arvores es-
tão nuas; as terras naJa verdejavam.
5". Gennain-en-Laye está para Paris, como Cin-
tra para Lisboa. Aproveitaram ahi uma antiga e
vasta residência real para installar ascollecções de
antiguidades nacionaes. A restauração d'esse es-
plendido e vasto palácio acastellado fez-se com
muito cuidado, nada de ca["iriclios nem de enxer-
tos sem justificação.
Deu-me logo na visia a rede formada pelas fi-
tas de argamassa nas juntas dos silhares, exacta-
mente como em tantos edifícios antigos eborenses.
Dentro nuiitas salas e as escadas tem as pare-
des forradas de tijolo sem revestimento algum, as
Juntas marcadas por fitas, menores, de argamassa,
dando o eíTeito de rêJe fina.
No fosso um menhir erguid i e um dolineii (anta),
de galeria.
Temos nosarredoresdi Évora muitas antas maio-
res, mais monumentaes.
O Museu occupa três pavimentos, contendo opu-
lentas collecçóes desde o silex lascado até ás anti-
guidades christans da idade media.
28
A installação é conveniente, nada luxuosa. Nas
collecções cpigraphicas avivam os lettreiros com
tinta vermelha.
As pontas de flecha em silex lascado mais gros-
seiras que as nossas.
Nada que se approxime dos estoques de bron-
ze. Faltam os machados de cobre; e as ardósias
lavradas. As grandes pedras ornamentadas de sul-
cos parallelos, em curvas irregulares, dodolmen de
Gavrinnis são mui diversas da pedra formosa, da
Citania de Briteiros. Ha grandes diífcrenças entre
o nosso pre- romano, e o do território francez.
Os grupos cerâmicos das gruías da quinta do
Anjo e de Cascaes não tem lá rivacs.
A collecção epigraj'hica de Endovellico é muito
mais importante que as da mesma espécie em S,
Tjermain.
As collecções de bronzes são lá opulentissimas.
Estive em S. Germain no sabbado, 28 de íeve-
reiro, mas a visita passou quasi toda cm conversa
com os srs. Bertrand e Fieinach.
Voltei no domingo (1 de março).
O museu está franco ao publico nos domingos.
Parti cedo de Paris, enorme concorrência na ga-
re; o comboyo estava formado em secções, com
grandes letreiros, indicando as estações onde de-
viam íicar os grupos de carruagens. Muitas senho-
ras, famílias de operários, collegios de meninas;
muitas pessoas, a maioria, levavam cestos com as
refeições.
Em Londres tive occasiãodeobservar omesmo.
Eu creio que as diversões domingueiras do povo
lisboeta são mais caras que em Paris e Londres.
Os transportes são lá mais baratos, e a gente de
Lisboa vai comer nos restaurantes que em geral
servem mal por alto preço.
Na segunda visita ao museu tive occasião de
29
percorrer a sala das festas^ enorme e elegante cotl-
strucção, onde se acham installadas as collecções
pre-historicas estrangeiras. As mais notáveis sãoas
de Dinamarca, Suécia c Rússia.
A pequena collecçao portugucza foi offerecida
pelo fallecido Pereira da Costa. A collecçao forma-
da pelo sr. Cartailhac está no museu de Toulouse.
A Hespanha está mal representada. Grande par-
te da importante collecçao Siret (onde ha grande
numero de objectos análogos aos do território por-
tugiiez), e dos achados de Almedinilla (a que cor-
responde perfeitamente a necropole de Alcácer do
Sal) está no Museu britannico.
Parti no trem das duas da tarde, cheguei a Pa-
Yis^c mandei bater para Notre-Dame; quiz visitar
a calhedral apanhando uma conferencia de quares-
ma, e n'um jornal da manhan tinha visto marca-
das as 4 horas para a conferencia do padre Mon-
sabré.
A' porta do templo um cego vendia folhetos;
apregoava — La dcuxiemc conférence de Monseig-
neur le révérend Pére Monsabré — em voz muito
nasal e prolongada ; dava o eífeito de um zangão.-
E' escusado dizer que o publico francez é pro-
fundamente respeitador nos templos.
Uma das grandes bellezas de Notre-Dame são
as vidraças finissimas e historiadas, onde abundam
as cores vermelha e azul, dando um tom violáceo
geral de extraordinária delicadeza.
Que pena não ter a sé de Évora umas vidraças
com aquellc tom !
Se no mosteiro de Bclem collocassem vidraças
finas, imitações modernas, já que perdemos as an-
tigas por desleixo e ignorância, que enorme realce,
para as finas columnas^ para os gentis lavores ma-
nuelinos.
Paga-se meio franco para ver o thesouro ; um
3o
empregado especial mostra e explica aquellas ma-
ravilhas em alfaias e paramentos. Uma grande no-
ta trágica turva a alma n'aquelle thesouro, guar-
dam-se ali vestes e insígnias manchadas de sangue
dos arcebispos de Paris, Affre ( 1 848) Sibourd, ( i SSy)
e Darboy (1871), mortos em circumstancias histó-
ricas bem conhecidas.
Ha no thesouro moveis especiaes para os riquís-
simos paramentos bordados ; teem 3'metros de fren-
te e metro e meio de largura, de modo que no gran-
de gavetão cabe desdobrado um pluvial.
O gavetão ésemi-circular, na circumferencia tem
rodizios que rodam n'uma calha ; a meio do diâ-
metro um forte anel que abraça, girando, uma has-
te grossa a meio da frente do movei.
O gavetão sae até dois terços, e o empregado
com pequeno esforço o faz girar. Em cada gave-
tão está um paramento completo, desdobrado, en-
tre grandes toalhas. Não ha dobras, não se desfiam
bordados, conservam- se assim muito melhor esses
valiosos trabalhos.
O padre iMonsabré estava doente, subiu ao púl-
pito o padre Gandegabe, gritador, gesticulador ar-
rebatado, que não estava convencido, nem conven-
ceu ninguém, nem agradou, porque muitas pessoas,
pé ante pé, foram desertando. Se o nosso arcebis-
po fallasse francez asseguro que fazia boa figura em
Notre-Dame.
Fui comer alguma cousa n'um restaurante ba-
rato da rua Rivoli, frequentado por gente do com-
mcrcio, caixeiros e caixeiras ; depois ao hotel ar-
ranjar as malinhas, e bati para a estação do nor-
te, caminho de Londres.
Os compartimentos das carruagens tem frestas
a uma certa altura, entre si, para vigia e policia.
A's 1 1 e meia em Calais: á meia noite a bordo
do vapor para atravessar a Mancha para Dover:
3i
um quarto de hora depois o barco dansava a va-
ler. O scenario era formidável; noite, nevoeiro cer-
rado, temporal, um grande farol eléctrico jorrando
feixes luminosos; tocavam sinos e uivavam as se-
reias dos vapores, e de cinco em cinco minutos um
tiro de peça.
Em breve o bracejar luminoso do farol tornou-
se apenas um clarão periódico, amortecendo ; o ti-
ro desceu a tom baço, que em pouco deixou de se
ouvir.
Tudo incommodado a bordo. Eu e uns sete ou
oito ficámos em cima, entre os tambores das ro-
das. O meu querido gabão eborense prestou um
servição.
No canal soaram por vezes algumas sereias de
vapores; só um passou próximo, via-se o clarão
dos farolins de cores, passando rápido na névoa.
A's três da manhan ouviu-se um tiro de peça,
na costa ingleza, em Folkestone; viu-se o clarão do
farol, mais trinta minutos e desembarcámos.
Londres, na estação de Charing-Cross, 6 da ma-
nhan de 2 de março.
— Télve. Glosstarplêce^ disse ao cocheiro do cab^
como o sr. Carlos du Bocage me ensinara a pro-
nunciar no Ministério dos Estrangeiros, para me
entender com os cocheiros londrinos. A legação
poitugueza é em Glciicester place^ n." 12, perto de
Tortsman sqiiare. Os cacheiros de Londres conhe-
cem bem a legação portugueza porque está, creio
que desde o começo do século, na mesma rua, eha
muitos annos no mesmo prédio.
Estava o mordomo que me indicou as 5 da tar-
de, para me apresentar, e me entregou cartas que
me esperavam.
— Que me indicasse um hotel . . .
— Se eu não punha duvida em estar n'um peque-
no hotel, unicamente inglez, havia perto uma casa
séria e excellente.
32
r
— Que não punha duvida, disse eu, o meu inglei
chegaria.
O mordomo é um inglez todo correcto; indi-
cou-me Durrant's hotel em George Street^ a três mi-
nutos da legação.
O cab é fácil de governar e voltar ; em Lisboa
seria impossível por causa das ladeiras. As ruas de
Londres quasi todas calçadas a madeira. No sitio
em que fiquei e em muitas partes de Londres as
casas teem fossos, de modo que as caves^ não são-
SLibterraneas, tem luz. Entra-se passando uma pon-
tesinha, um arco. Grades de ferro limitam o pas-
seio.
A maior parte dos prédios tem CíJ^í^, rez do chão,
i." e 2." andar e mansardas. Paredes de tijollo, sem
revestimento, escLU'as, janellas e portas sem hom-
breiras nem vergas, em geral. A' primeira vista pa-
recem-nos casas pobres, por acabar.
Cristaes bons, vidraças duplas, cortinas e stores,
nas janellas do rez do chão pequenas grades guar-
necidas de bons azulejos esmaltados, com arbus-
tos aparados que abrigam flores de cebola.
Uma casa regular em Londres, para uma famí-
lia, custa 2:000 libras. Fallava-sede uma casa pró-
xima em construcção, que custará 10:000 libras,
como extravagância. A pouca distancia da legação
portugueza está a residência do duque de West-
minster, riquíssimo; esse palácio sombrio é inte-
rior em tamanho, muito inferior em aspecto ao pa-
lácio de S. Sebastião da Pedreira, ou á casa Pal-
mei la.
Em Portsmah Square, a cem passos da legação,
mora o nosso amigo duque de Fife, riquíssimo,
n'uma casa sombria que valerá 3:ooo libras. O in-
glez, em tudo, não se importa com aspectos. Dentro
essas casas respiram tranquilidade e conforto.
Muitos annuncios. Perto do hotel ha um sujei-
33
to que vende objectos de verga, da ilha da Madei-
ra, e ornamentou para reclamo a frontaria da ca-
sa com muitas cadeiras, que faziam singular effei-
to com os flocos de neve.
O hotel Durrant é uma espécie de hotel Durand
em Lisboa; cosinha ingleza sadia, e vinho francez;
meia garrafa de Bordéos custa um' shilUng. Esta-
vam algumas familias inglezas interessantes, per-
feitamente á vontade passadas as primeiras horas
de melindre.
Só com a minha planta de Londres fui, a pé, para
South-Kensington, o grande museu nacional. Atra-
vessei Hyde-park, enorme terreno arrelvado com
seus arvoredos e avenidas, e lago que parece um
rio; o T^ing e Rotten-Row são avenidas ensaibra-
das onde passeiavam a cavallo centos de homens
e senhoras; familias a trote; grupos de meninas a
meio galope; bellos rapazes e sujeitos gebos; ca-
vallos finos e alguns sendeiros. O inglez passeia a
cavallo porque estima o exercício, não dá impor-
tância ao mirone. Um grupo de inglezinhas frescas,
vestidas com simplicidade, botões de rosa ou lila-
zes brancos na lapela, galopando em finos cavai-
los, é bonito deveras.
Passei pelo quartel dos Horse-guards; fazia sen-
tinella em grande uniforme um rapagão' de 1,^90
de altura, com brilhante couraça, capacete alto de
aço brunido e pennachoque tudo chegaria a 2, "3o.
Na policia ingleza vi também alguns homens de
formidável corpulência.
O monumento do príncipe Alberto, o fallecido
marido da actual rainha, é imponente e luxuoso;
a abobada do alto baldaquim é revestida de mo-
saico dourado de grande eíTeito.
South-Kensington é já uma cidade de inuseus e
escolas, e tende a augmentar. A media diária dos
visitantes anda por dois mil; e a da frequência es-
5
34
colar por três mil. Só a secção indiana occiípa um
edifício como a Escola polytechnica de Lisboa. Uma
quadra envidraçada tem reproducções em tamanho
natural da columna de Trajano, do portal de S.
Thiago de Compostella, das estatuas collossaes de
Miguel Angelo, etc.
Ha collecçóes de pinturas, esculpturas, ourivesa-
ria, tecidos, cerâmicas, esmaltes, mobílias, etc. etc.
A escola de rendas, para meninas, tem cursos
de desenho e professoras especiaes dos pontos e
malhas das rendas antigas e modernas: é uma aca-
demia; e o mesmo succede com os trinta cursos in-
dustriaes que ali se professam.
O pavimento de grande parte do andar térreo é
de fino mosaico feito nas casas de correcção.
Tem uma livraria especial p^ira estudos de ar-
te, onde se paga a admissão. O movimento artísti-
co e industrial nos grandes paizes estuda-se me-
lhor n'este museu que em Paris.
Nas salas de pinturas, aguarellas, etc, trabalha-
vam em copias muitas senhoras.
D'aqui ao Museu britannico é uma légua em
ruas de grande movimento. E' um edifício quadra-
do, com dois pavimentos; está aqui a maior e mais
importante livraria do mundo. A sala de leitura,
circular, será quasi das dimensões do Colyseu no-
vo, em Lisboa. Nas estantes d'esta sala estão 80:000
volumes; nos corredores que a cercam, e em al-
guns salões ha dois milhões de livros.
Em Paris os museus são galerias elegantes e se-
ries de salões luxuosos e artísticos. Em Londres
collossaes armazéns. Se no Louvre ha dois mil va-
sos gregos, no British Museum ha 20:000. Ha no
Louvre duas salas regulares com objetos egypcios,
no British Museum ha três salões, como a celebre
casa do risco do xA^rsenal da Marinha, cheios de pha-
raohs, escarabéos, esfinges e papyros.
35
Entra-se no vestibulo que parece um terreiro
com abobada, e á esquerda está um salão com ma-
nuscriptos illuminados, e outros com autographos,
e series de vitrines com sellos, e manuscriptos orien-
taes, e códices gregos, romanos; depois a impren-
sa, os primeiros livros, a typographia nos diíferen-
tes paizes, a encadernação, os alphabetos, etc. Teem
maravilhas.
Na collecção de estampas ha uma sala, que é
um prefacio, onde n'um relance se conhecem as
escolas da gravura, e depois as galerias onde ex-
põem milhares de estampas preciosas classificadas
por espécies e epochas. A installação não é luxuo-
sa; as portas envidraçadas dos armários estão dis-
postas em molduras. Para seradmittido na sala de
leitura é preciso ir á secretaria, ser apresentado,
escrever o nome e residência n'um livro; dão'um
bilhete com talão, onde se marca o numero de dias
para o estudo que se quer fazer; este bilhete é va-
lido só para esses dias; depois apresenta-se esse
bilhete ao porteiro da sala, e este entrega-nos o ta-
lão.
Entra-se na sala de leitura e pôde consultar-se o
enorme catalogo de referencias. Se o livro está na
sala o leitor mesmo o pôde ir buscar, e fica obriga-
do a pol-o no seu logar; se não está na sala vae
ao balcão central e apresenta o pedido por escripto
a um empregado.
O catalogo que está á disposição dos leitores
comprchende uns dois mil volumes, in-folio, de 200
a Soo paginas, com indicações das obras, muitos
bilhetes collados nas paginas, notas á margem,
muitos subsídios emfim, sem preoccupação algu-
ma de forma. A palavra Portugal tem três volumes;
o palavra Camões umas oito paginas.
Eu não fui apresentado; succedeu o seguinte:
Estava eu na collecção dos vidros e passou junto de
36
mim um guarda. Os guardas não teem fardamen-
to, conhecem-se porque trazem uma bengala alta.
A vara ou bengala é distinctivo muito empregado.
Em Madrid os officiaes de serviço trazem uma ben-
galinha.
Em Paris, em Notre-Dame, quando o pregador
foi para o púlpito precedia-o um porteiro com gran-
de bengala, batendo fortemente com a ponteira no
lageado. Em Londres vi frequentemente o uso da
bengala significando auctoridade.
O guarda passou e eu pedi-lhe informação so-
bre certo objecto; elle foi logo chamar um empre-
gado da secção ; este, depois de conversar uns mi-
nutos, disse-me que o sr. Franks, conservador do
museu, poderia dar-me informação mais completa.
— Eu não desejo incommodar, isto é simples cu-
riosidade. . .
— Não incommoda nada ; dê-meo seu cartão de
visita.
Momentos depois apparccia o sr. Franks, cava-
lheiro idoso, alto, vestindo de preto (notei que os
empregados superiores em Inglaterra, em serviço,
vestem de panno preto); é um erudito muito amá-
vel, sem pose; percorremos algumas salas.
Na conversa fallou-me de Portugal, e do sr. H.
Major, author da Vida do infante D. Henrique, na
occasião ausente em Itália, a tratar da saúde, e que
infelizmente falleceu um mez depois.
H. Major era conservador aposentado do Museu.
— E' um louco por assumptos portuguezes. El-
"le gostaria immenso de conversar com você.
O sr. Franks indicou-me depois um livro; e foi
por isto que pedi admissão na Bibliotheca. Como
ha telephones por toda a parte é possivel que dis-
sessem alguma cousa á secretaria ; o que é certo é
que me deram promptamente o bilhete de admis-
são.
3?
Estariam 400 leitores na sala, todos em logares
numerados ; carteiras grandes e pequenas, em filas
que irradiam de junto do grande balcão central,
onde em duas prateleiras, nas faces externa e in-
terna, estão os in-foiios do catalogo.
Empregados e leitores de chapéo na cabeça.
Só três quartas partes do vasto salão circular
estão francas ao publico.
O resto está vedado, ahi estão muitos emprega-
dos trabalhando.
Creio mesmo que não ha ofFicinas [forque em
vários pontos do museu vi operários trabalhando,
concertando louças, por exemplo.
A defeza contra a multidão, a mob^ é necessária
em Londres.
Nas grandes galerias de esculptura, do Egypto,
da Assyria, etc, onde só ha grandes peças, nos
bancos, junto das bocas dos caloriferos, havia mui-
ta gente que não visitava ou não estudava as col-
lecções^ ia passar tempo, ler jornaes, cavaquear.
Ábre-se ás 10, fecha -se meia hora antes do sol
posto. A' noite, durante duas horas, abrem-se as
galerias do primeiro pavimento, illuminadas com
focos eléctricos de incandescência.
5 horas da tarde, toca o sino a sabida ; parei no
vestibulo. Saem os leitores, o publico das galerias,
os empregados que vão entregar senhas a um por-
teiro especial, os policias. Talvez 200 empregados,
e uns 80 policias.
Westminster. Domingo, 8 de março. Um grupo
de edifícios collossaes; abbadia, o parlamento, um
hospital, as repartições oííiciaes das colónias, etc.
O templo estava fechado quando cheguei, porque
ao domingo só se abre para os officios religiosos.
Passiei pela praça. Grandes estatuas de Russell,
Palmerston, Derby, Disraeli, os últimos estadistas
chefes. Junto da estatua de Disraeli algumas lem-
branças de amigos e parentes.
38
Mesmo da rua se conhece a divisão das repar-
tições coloniaes porque ha letreiros nas portas e
janellas. ,
Todos estes edifícios teem um tom muito escu-
ro; agora quebrado pela neve. Parecem de ferro.
São phantasticos, com as suas grimpas, ogivas
e botaréos.
Duas horas ; o sino de Westminster deu algumas
badaladas graves, compassadas. Abriram as portas;
entrei pela do cruseiro na vasta nave. Um braço
do cruseiro é do tamanho do corpo da egreja de
S. Francisco, mais alto, com columnas. Estatuas
e monumentos fúnebres por todos os lados; clas-
sificados; almirantes e generaes a um lado: ora-
dores, estadistas a outro.
N'um grupo Newton, Herschell, Darwin. No
outro braço do cruzeiro Shakespeare presidindo aos
homens de lettras. Carlos Dickens ahi repousa,
sob campa de mármore escuro, com letreiro em
bronze.
Watt, tem uma grande estatua, com o seu em-
bolo e balanceiro, e um dizer simples A Inglater-
ra a Watt, que nobilitou a sua pátria augmentando
a forca do homem.
E' sério e suggestivo todo o interior do templo,
brandamente esclarecido pelas esguias vidraças an-
tigas, historiadas como illuminuras de velhos livros
de horas.
Entra muita gente, é incessante o chegar de trens,
de equipagens bem postas.
Em breve os cadeirados estão cheios, ficam mui-
tas pessoas de pé pelas coxias centraes.
Nos cadeirados ha biblias, livros de orações, e
papeis avulsos com a letra do hymno e do psalmo,
do dia, em verso inglez, e o nome do conferente,
dr. Patherto, cónego e académico. Começou a to-
car o órgão. Que esplendido órgão! os sons gra-
39
ves pareciam estremecer a cathedral; e começou a
entrar o clero, em cortejo, para o coro que fica na
nave central.
Reáaram o ofíicio. O conferente subiu ao púl-
pito; nada de grande oratória; uma conferencia,
parte de serie, sobre direitos e deveres, dita e lida,
nas citações por vezes extensas, como uma lição
n'um curso superior. Foi ouvido com muita atten-
ção. Outra vez o órgão, e o publico todo, excepto eu,
creio, entoou o coro.
Estava ali muita gente de alta posição social,
com certeza; famílias inteiras; tudocantava a meia
voz dando um effeito de profunda espiritualidade.
Junto de mim estava uma familia com creanças
encantadoras que me fizeram lembrar um dito de
um arcebispo de Évora. Uma familia ingleza com
creanças bonitas e louras visitou o paçoarchiepis-
copal, e o prelado foi mostrar-lhe aquella maravi-
lhosa pintura da Senhora da Gloria, entre anjos
cantando e tocando instrumentos.
— Porque é que os anjos catholicos se parecem
com meninos de herejes? disse o prelado para al-
guém que estava próximo.
Voltei no dia seguinte a Westminster para visi-
tar os jazigos da nobreza ; ha um venerável guia
especial e uma taxa fixa de remuneração. Lá es-
tão jazigos das famílias Talbot, Arundel, Cambrig-
de, e Lancaster, do sec. 14 e seguintes, que podem
importar a portuguezes.
Um formidável conjuncto monumental, e artís-
tico, guardado e conservado com attenção intelli-
gente.
Na Torre de Londres, um armazém de armas e
armaduras, ha muita cousa hespanhola, da Gran-
de-Armada, principalmente. Esta Grande-Armada
foi uma mina para os museos britannicos. Estão
ahi também as jóias da coroa. Os guardas da tor-
4Q
re de Londres, antigos policias, usam um farda-
mento tradicional; parecem homens d'armas do
sec. I 5. Os inglezes são extraordinariamente con-
servadores.
Para ir de Londres examinar os papeis do ve-
nerável ancião Ribeiro Saraiva, fallecido em S.'
Peters in Kent, segui a ferrovia até Broadstairs.
Três horas de comboyo, em caminho maior de
um terço, que o de Évora a Lisboa.
Nos compartimentos ha avisos ao publico con-
tra gatunos e jogadores.
Estive alguns dias no campo, porque S.* Peters
pôde dizer-se uma parochia rural. As casas ali são
construídas de pederneira, ~ e o templo, e alguns
muros; não ha outra pedra. As terras admiravel-
mente tratadas. Trabalha-se multo: na lavoura em-
pregam cavallos possantes.
As casas do lúpulo com as coberturas cónicas
sobresaem nos casaes.
Visitei n'um hora de folga uma quinta próxima,
de nove hectares de superfície cultivada pelo pro-
prietário. A casa de habitação n'um páteo, tendo
aos lados casas de operários permanentes, e ofíi-
cinas, cavalariças, galinheiro, vaccaria, porcos; tu-
do bem tratado.
As casas de operários com suas commodidades
baratas; muito asseiadas.
Em geral os trabalhos são pagos ás horas. O
operário se não tem trabalho no campo, tem-n'o em
casa, faz cestos, utensílios de madeira, alfaias agrí-
colas. Faz meia, camisolas de lan, se for preciso.
Todos procuram ter em casa uma garrafa de
Porto e uma botija de genebra de HoUanda, para
oíferecer á visita.
O aspecto das creanças denota muitos cuidados;
a gente ingleza é fundamentalmente educadora. Vi
todas bem vestidas, com tecidos fortes, grossas
meias, muitas com luvas espessas, de lã.
4^
Por toda a parte ha associações de beneficcncia.
E' um povo forte.
Ha burros no Kent ; fiquei admirado depois do
que se fallou da compra do burro de Cintra pelo
principe de Gallcs. Pois ha burricos, e bonitos, pa-
ra passeios a Margate e a Ramsgatc, cidadesinhas
que ficam próximas, na beira-mar. Todos estes si-
ties são muito frequentados no verão pelas familias
londrinas.
E vi com admiração enlre gallinhas britannicas
um negro e ahivo gallo hespanhol, talvez descen-
dente de algum gallo que viesse na Grande-Arma-
da, que não esquece na tradição popular ingleza.
Na legação portugueza encontrava sempre o sr,
secretario Castro, e um empregado inglez, fallando
portuguez econhecedorde Portugal, o sr. Manders,
cxcellentc informador na immensa Londres.
No andar nobre está o gabinete e saia do mi-
nistro, sr. Soveral, que foi muito amável comigo.
A secretaria é no réz do chão. Ahi encontrei al-
gumas vezes o sr. Pinto Bastos, e o sr. barão da Re-
galeira, que esteve em Londres comprando mobí-
lia para o Turf-Club.
Na legação pesava no momento o aguaceiro da
questão ingleza com muita correspondência, e lon-
gos telegrammas em cifra.
Não longe da legação está uma estação de tele-
grapho e correio unicamente servida por senhoras,
velhas e novas. Vi na estação, e em vários estabe-
lecimentos londrinos um guichet especial, o da cai-
xa económica.
Passei algumas horas das noites, em Paris e Lon-
dres, em estabelecimentos de instrucção popular.
Em Paris ha uma bella instituição moderna —
Enseignementpopulairesupérieursubventionné par
la villc de Paris— onde, entre outros cursos, se fa-
6
ziam conferencias sobre Historia nacional^ e Histo-
ria da cidade de Paris.
Em Londres, em Regent-street, está o T^olyíe-
chnic Jnstitute^ onde se ensina tudo, á vontade, des.-
de assumptos de economia domestica, até applica-
ções de electricidade. Paga-se mais ou menos, de
20 a 120 réis, para assistir aos cursos.
Por I20 réis ouvi ahi, n'um salão como o da
Trindade, em Lisboa, mais severo, quasi ecclesias-
. tico, durante duas horas, das 8 ás lo, com peque-
nos intervallos, o sr. Brandram, formoso velho en-
casacado, recitando trechos clássicos, de Shakes-
pieare, i^ddisson, Macaulay, etc. Estariam i:5oq
pessoas, na maioria gente nova, que não perten-
ciam seguramente ás classes superiores.
Em instrucção, em mutuo auxilio, nos meios de
armar o individuo para a lucta da vida, estamos
extraordinariamente atrazados.E\iesoladora a com-
paração,
Na torna viagem, em Paris, visitei a Bibliotheca
de Santa Genoveva. Occupa edifício apropiiado,
junto do Panthéon, e da escola de direito, próximo
do Luxemburgo.
Na frontaria estão gravados os nomes dos ho-
mens eminentes, e fiquei consolado ao ler nomes
portuguezes, João de Barros, Camões, S. António
de Pádua.
Desejando visitar a Bibliotheca pediram o cartão
de visita, e appareceu logo o sr. Lavoix, conserva-
dor. Fiquei admirado da promptidão.
O sr. Lavoix, muito amável, explicou; vira o no-
me de um portuguez, e tal visita na occasião ca-
bia como sopa no mel, por causa da livraria do fal-
lecido Ferdinand Denis, que tão amigo foi sempre
de Portugal.
Ferdinand Denis foi por muitos annos emprega-
do ali. por bastante tempo conservador, e chefe, e fe-
43
choua sua longa e Litil carreira legando os seus livros
ásua querida Bibliotheca. A importância maior do
legado está nos livros portuguezes, brazileiros, e
hespanhoes. Poucas livrarias particulares ha em
Portugal que se lhe ponham a par, só na colleção
portugueza.
Eu peicorri os livros com o espirito clieio de gra-
tidão e respeito por aquella nobre actividade que
tantos, serviços prestou a Portugal.
E a propósito -de estrangeiros que se importam
com l^ortugal não esquecerei que tive occasião em
Londres (ie visitar o sr. Youle, opulento banquci-
lo. Logo em frente da porta de entrada A torre de
Belém, a óleo. Na casa de jantar e no gabinete d-e
trabalho os melhores quadros de Annunciação, que
tenho visto; e muitas outras cousas portuguezas.
O sr. Youle começou a sua vida commercial em
Lisboa. E' um formoso velho cor de rosa, fallando
regularmente a nossa lingua.
Paris, i5 de março, domingo. Vamos para Ma-
drid. A's i I da manhan na gare de Orleans.
Passeia va na plataforma, e vejo um grupo por-
luguez, espera ! um rapaz da Casa Pia d'Evora, com
o seu bonnet de uniforme; despediam-se de uma
mulher que os acompanhou á gare.
Percebi pelas ligaduras que eram clientes de Pas-
teur. Foi-se a mulher.
— Agora acabou-se, dizia um pequeno, filho do
hortelão da Casa pia, ninguém nos entende.
— Cá vou eu, menino.
Que espanto!
— Então tem tido noticias do sr. Paula Rober-
tesi' do sr. João Barreiros?
Que assombro!
Acompanhei-os até Madrid. Gostei de vOr a ma-
neira como os chefes de gare os trataram ; ha ins-
irucções especiaes para os mordidos que vão a Pa-
ris, e são bem cumpridas.
44
17 de março, 6 da manhan. Madrid.
Uma visita ainda ao museu do Prado, á Univer-
sidade central, e ao museu de archeologia.
Em i8, ás 9 da manhan parti de Madrid. Pou-
co depois tornava a ver o admirável panorama do
el-Grco^ e dos montes de Toledo vestidos de
neve.
pBSEP^VAÇÕES
I
Escaela superior de diplomática.
Faz parte da Universidade central de Madrid. É um curso pa-
recido ao de Bibliothecarios-Archivistas creado em 1887.
Divide-se em 3 grupos.
1."
Gramática histórica comparada de las lenguas romances.
Paleografia general y critica, diplomática y ordenacion de ar-
chivos.
Geografia antigua y de la edad media, especialmente de Es-
pana.
2.»
• Historia literária.
Historia de las instituciones de Espana en la edad media.
Archeologia y ordenacion de los museos.
Exercícios práticos de classificacion, catalogacion y arreglo de
archivos.
3.»
Bibliologia y ordenacion de bibliothecas.
Historia de las instit. de Espana en la edad moderna.
Numismática y epigrafia.
Historia de las Bellas-Artes.
Exercícios práticos de classificacion, catalogacion y arreglo de
Museos.
Idem de Bibliothecas.
O curso portugueziicaria quasi egnal com a cadeira de Historia
das instituições. E' director o sr. Rada y Delgado. •
Secretario o distincto lente de paleographia, sr. Munoz y Rive-
ro
II
Escola de Louvre.
Professa-se no Louvre um curso superior de erudição e histo-
ria das artes : é sem£stral : tem oito cadeiras : lições ou conferen-
cias semanaes, excepto na 4.^ cadeira. É director d'esta escola o
sr. A. Kaempfen, que é também director dos museus nacionaes.
Duas cadeiras tem substitutos ou ajudantes.
i." Archeologia nacional (A. Bertrand ; S. Rcinach).
2." Archeologia oriental e cerâmica antiga (Heuzey ; Pottier).
3.* Archeologia egypcia (Pierret).
4.* Demotica. Direito egypcio (Revillout).
5.« Epigraphia oriental; assyria e phenicia (Ledrain).
6." Historia da pintura (G. Lefenestre).
7." Historia da esculptura na idade-media, e no renascimento
(Courajod).
8." Historia das artes applicadas á industria em França (E. Mo-
linier).
46
sr. RevilloLit ensinava demotico nas segundas feiras, copta
nas terças, e antigas instituições egypcias nos i.° e 3.» sabbado do
mez.
Todos os professores tem nomes respeitáveis na erudição mo-
derna.
Ill
A Bibliotlieca Nacional de Lisboa dlvlde-se em XIV
secções.
>
1 Historia e geographia.
II Cartas geographicas.
III Numismática.
IV Sciencias civis e politicas.
. V Religiões. Sciencias ecclesiasticas.
VI Bibíias.
VII Sciencias e artes.
VIII Bellas-artes.
IX Estampas.
X Fhilologia e bellas-lettras.
XI Jornaes.
XII Paleotypos e reservados.
XIII Manuscriptos.
XIV Polv£;rapliia.
» IV
Gravuras na Bibliolheca Nac. de Paris.
Tem cartas de jogar, grav. em madeira em 14SS.
A gravara em França tem desde o seu começo muita importân-
cia; apresenta uma bella serie de grandes artistas, cujos nomos
ornam o friso das estantes. .
J. Duvet (1483-1562).
E. Delaune (1519-1583).
Androuet du Cerceau (1515-1585).
J. Calloe (159-2-1635).
C. Gelléc (1600-1682).
J. Morin (1612-1666).
Poillv (1622"169.3).
Pesne (1623-1700).
Nanteuil (1626-1678).
Rouzonnet. Stella (1634-1697.)
Masson (1636-1700).
Audran (1640-1703).
Drevet (1697-1748).
Cars (1702-1776),
Vivares (1709-1782)
Moreau (1741-1814)
Bervic (1756-1822).
Bouchers-Desnoyers (1779-1857).
Gericault (1781-1824).
Cnarlet (1792-1845).
Raftet (1804-1860).
A collecção de estampas da Bibliotheca N;tcional de Lisbao é
_47_
pouco numerosa, mas representa e demonstra muito bem a histo-
ria da gravura. Assim a podessemos insiallar convenientemente.»
As installações de Paris e Londres são modestas; excepto na dis-
posição de estampas, gravuras ou desenhos de primeira ordem,
em que usam cartões muito caros.
A Bibliotheca de Évora possue também desenhos e gravuras; a
coHecção de gravuras tem miportancia. Tem bellos exemplares de
Durer, Rembrandt, Audran, etc. Ha também n'esta Bibliotheca al-
gumas chapas em cobre mandadas abrir por Cenáculo.
V
_ GraYUraS no Britísh Museum.
Uma pequena sala Com talvez 100 gravuras nas vidraças dos ar-
mários, mostrando os principaes mestres, da 'Bíblia paupentm até
IHoO.
Três compridas salas com vitrines centraes onde brilham moe-
das e medalhíSs; nas vidraças dos armários que forram as salas
alguns milhares de gravuras, em series, terminando todas em
1850.
Historical series of etchings, (desde loOO).
Historical series of stipple engraving, (desde 1750).
Historical series of line engravings (desde 1480)
Historical series of wood engravings, (desde 14G0).
Historical series of mezzotints, (desde 1650).
VI
Cartas geographicas na Bibliotheca Nacional de Pa-
ris.
Estavam na collecção exposta algurnas que importam a poriu-
guezes.
A collecção còmprehende umas 50 cortas. Os números são os
da collecção geral. *
Carta de Africa occidental, em 1534, por Gaspar Viegas (n.» 452l.
Carta de Africa em 1599, por Evcrt Gisbert; é uma carta hol-
landeza feita sobre trabalhos portuguezes, com o escudo das qui-
nas (n.° 462).
N.» 466 e 467. Brazil e Africa.
N.° 404. Portugal e parte de Africa.
Todas estas cartas com as quinas portuguezas.
VII
Cartas è^O^FaplllcaS. No Museu britannico no corpo central
da grande galeria consagrada á historia da imprensa, em logares
principaes, nas paredes:
Carta de Diego Ribero, datada de 1529, com a linha de separa-
ção dos dominios ultramarinos entre Portugale Hespanha.
Planisphcrio (fíic-simile) mandado de Lisboa a Hercules d'Éste
por Alberto Cantino, em 1502. As disignaçóes de logares em hes-
panhoj e portuguez. O original pertence ao museu de Modena.
48
Em frente d'estas cartas está uma grande gravura em madeira
'representando o sitio e ataque de Aden por Aííbnso de Albuquer-
que. Gravada em Antuérpia em 1513.
VIII
Biblia hebraica manuscripta e illuminada daBiblio-
theca Nacional de Lisboa.
É celebre esta biblia, e citada em alguns ^uias ; por isto os vi-
sitantes estrangeiros pedem para a ver. Foi escripta por um ju-
deu, e illuminada por artista francez, em Hespanha no findar do
século XIII. O trabalho de illuminura é variado, sempre fino ; o
artista n'uma pagina apresenta entrelaçados árabes, noutra orna-
tos bysantinos; agora arcos de pleno cintro, logo eiji volta de fer-
radura, depois em ogiva ; uma confusão singular.
Ha na collecçcão de mss. illuminados da Bibliotheca nacional
de Paris, um códice com idêntica ornamentação. É- o volume das
Etimologias, de Isidoro de Sevilha, feito em 1072, em Hespanha.
Está classificado como mo^iarabe.
IX
AntO^râpuOS. Na collecção de autographos do British Museum
ha dois interessantes a portuguezes.
N.° 72. Carta de Sir Àrthur Wellesley, depois duque de Wel-
lington (1769-1852) ao general Roberto Wilson prevendo o cerco
de Ciudad Rodrigo, datada de Lisboa, 2 setembro 1809.
N.» 74. Carta de H. J. Temple, visconde Palmerston (1784-18C'))
a R. B. Hoppner, representante hritannico em Lisboa, sobre o ca-
minho a seguir no caso de hostilidades, se D. Pedro IV. conse-
guir desembarcar. Datada em 18 de junho de 1832.
X
Óla, ou folha áe óla.
É uma folha de palmeira preparada, em que se escreve gravan-
do com ponteiro ou estilete. Era usual na índia meridional, em
Ceylão, e também em Java. Ha na Bibliotheca Nacional de Lis-
boa uma óla disposta e escripta com os mesmos caracteres do
n.» 143 da Case F dos mss. em exposição no British Museum.
Diz o bilhete junto que os caracteres são Kannadi,-do Mysore.
Ha ali outras parecidas, cingalezas e burmezas. E também um
Stylus cingalez, de latão, para abrir os caracteres nas ólas.
Ha uma óla burmeza, lacréada, sendo os caracteres formados
de aljôfares embutidos no lacre.
XI ' .
Apocalypse da Torre do Tombo.
Pertenceu ao mosteiro de Lorvão, e agora pertence ao Archivo
da Torre do Tombo este volume em pergaminho com illuminu-
49
ras, importante sob vários respeitos, principalmente para a histo-
ria da arte. As suas ingénuas pintaras dão-nos elementos precio-
sos, únicos para o conhecimento da indumentária e do mobiliário
do século XII. Foi escripto por Egas ou Egeas na era 1227, anno
1189..
Jam liber est scriptus
Qui scripsit sit benedictus.
Era M.GC.XX.VII.
No 'Biitish Museinn, Grenville library, secção dos mss. illu-
minados, case 3, sob os n.°* 29, 30 e 31 estão três copias do Apo-
calypse, assim classificadas :
29, latim e francez, miniaturas de artista inglez.
30, latim e francez, artista francez.
31, francez, artista inglez.
São rruji diversos do mss. da Torre do Tombo que julgo ser
bem portuguez.
XII
Imprensa portugueza no Oriente.
Estão expostos no Museu Bntannico dois volumes : os — Col-
loqiiios dos simples — de Garcia da Orta, impressos em Goa : e —
De missione legatorum japonensium ad romanam curiam, versus
ab Eduardo de Sande, Macáo, 1596 — .
XIII
Contas de vidro matizado.
No Algarve e em Ghellas, próximo de Lisboa, t;.em apparecido
estas curiosas contas perfuradas. Obtive uma inteira em Ghellas
que ofTereci para o gabinete de antiguidades da Bibliotheca Na-
cional de Lisboa. E algumas partidas que dei á Bibliotheca de
Évora. Gonsta-me agora que appareceram contas eguaes na villa
das Alcáçovas. Vi uma grande, na collecção egypcia do Louvre ;
outra em um collar no gabinete de jóias antigas também do Lou-
vre. No Museu britannico, no 4.'^ egyptian rooni, estante B, nu-
mero 16845, está uma egual ás de Ghellas; e na Glass and cera-
mic gallery, do mesmo museu, algumas inteiras ou partidas, de
proveniência incerta.
Constituem um problema archeologico estas contas. Ha vasos
e objectos de vidro de egual fabrico, phenicios e etruscos, na clas-
se Amphoriski and alabastrj^, no 1.° vase rooni, do M. Brit.
Teem apparecido em tiimuli em Aalborg e no Jutland, com ob-
jectos da idade do ferro, e em sarcophagos do Egypto. E em
Dakkeh, na Núbia. E entre árabes consideradas como amulettos.
Em Inglaterra, em sepulturas pre-romanas, em Canterbury e no
Somersetshire.
Teem sido chamadas contas de druida, gleininadroeth or glas-
sadders of the driíids; the druid anguinum, snake stones, cor angiii-
num. Ovum angiiimim, Plinio, 1. 29. c. 3.°).
No vol. 45 da — Archaeologia or miscellaneous tracts relating
to antiquity — vem um interessante artigo sobre estas contas :
On glass beads with a Ghevron Pattern, bv John Brent, esq Read
June, 13, 1872—.
5o
XIV
Jade.
Existe no museu da Bibliotheca eborense um objecto de pedra
que por muito tempo ignorei o que fosse. A pedra é verde muito
e<5vaido, translúcida, com sulcos e furo artiHciaes, muito polida.
Teni dois decimctros em comprimento.
Kjade orienta!. Ha no Museu Britannico jades da China e das
ilhas de Sonda, com aspecto e trabalho iguaes.
XV
DSDtC u6 DdrVRl. O que está na Bibliotheca Eborense tem
2, "'2o de comprimento. E' direito, e muito regularmente espirala-
do. Dizem que ha dentes de narvaes com três metros de compri-
mento. Os que vi no Bethnal green (M. de Historia Natural) e na
secção de ethnographia (M. Brit. Groenlândia), e vi muitos, são
menores, e nenhum tão perfeito como o eborense.
XVI
lCrr3,-C0ildS. Enorme colleccão no museu britannico: são mi-
lhares de estatuetas de barro cosido que enchem os escaparates da
vastíssima galeria.
Os principaes grupos são de Canosa, Tanagra, Cyrenaica, Gen-
torbi, Gapua, Tarento, Sardinia, Chypre.
Entre os de Tanagra ha figurinhas encantadoras. Nos grupos
Chypre e Gapua vi algumas terras-cottas, rudes, singelas, que re-
cordam as figurinhas de barro que de ha muito existem no gabi-
nete da Bibliotheca Nacional de Lisboa, e no museu da Bibliothe-
ca d'Evora.
Um episodio. No museu archeologico de Madrid ha uma collec-
çã.0 d'estas figurinhas gregas. Eu, vendo uma estatueta de Tanagra,
uma rapariga gentil, pequena cabeça, airoso penteado, o busto
n'um chale cruzado sobre o seio, disse para o guarda ou continuo
que me acompanhava :
— Esta grega parece uma hespanhola.
— Parece uma rapariga de Sevilha; emendou elle, e bem. Já se
tem notado parecenças entre gregas antigas e andaluzas modernas.
As modernas explorações tem revelado milhares de terras-cot-
tas, mas ha já muitas falsificações.
XVII
AinillGlOS. No museu britannico entre as collecções pre-histori-
cas ha uma denominada Superstitioiís use of stone implements, on-
de \i alguns amuletos que recordam os ainda actualmente usados
em Portugal.
A maioria dos objectos d'essa colleccão pertence á Itália, espe-
cialmente do sul. Vi ahi pequenos machados de pedra furados, e
pontas de silex engastadas em prata, com argola para pendurar.
5i
XVIII
RetabolO da Sé velha de Coimbra.
E' um trabalho admirável em madeira, em gothico florido, in-
felizmente bastante arruinado ; não tanto que seja impossivel re-
constituil-o. Vi exemplares de trabalhos em madeira notáveis, es-
pecialmente no Museu de Cluny. Ha um retabolo, arte franceza,
século XIV, representando a 'Paixão ; outro grande fragmento, ar-
te hespanhola, do século xv ; etc.
Nenhum eguala o de Coimbra em belleza e execução.
Fiquei também ainda mais convencido de que o cadeirado do
coro da Sé eborense é extraordinário.
XIX
TriptyCO esmaltado, da Bibliotheca Eborense.
Vi em Paris duas grandes collecçóes de esmaltes, no Louvre,
sala das jóias, e no museu Cluny. O South-Kensington Museum
possue uma serie admirável também. Em qualquer d'estas collec-
çóes o esmalte eborense faria cxcellente figura.
Como os esmaltes pequenos do museu eborense vi alguns em
encadernações de livros religiosos, e ornamentação de cofres ou
relicários da edade media.
XX
Poria da sacristia da Sé de Évora.
E bem venerável esta porta. No Museu archeologico de Madrid
vi uma quasi egual, classificada como arie viiidejar.
XXI
Espadas de ferro da necropole de Alcácer do Sal.
No Museu de Bellas-Artes e Archeologia das Janellas Verdes
estão muitos objectos de ferro provenientes de esta necropole, es-
padas, lanças, adagas, freios, etc. Eu possuo alguns depositados
na Bibliotheca eborense.
As espadas largas, curtas, e de curvas especiaes tem chamado a
attenção dos eruditos.
Em vasos gregos, muito antigos, apparecem alguns guerreiros
com taes armas. O sr. Cartailhao estudou-as.
Ha um achado egual em Almedenilla, perto de Córdova ; bas-
tantes objectos de este achado estão no Museu Britannico. Perfei-
tamente cguaes aos de Alcácer.
Fiquei admirado ao ver no museu archeologico de Madrid um
yataga nXurco^ apanhado na batalha de Lepanto, com as curvas,
disposição e tamanho das taes espadas de antiquíssimos gregos.
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS KBOHKNSKS
Eslao publicados :
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4." Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5.° Bibliotheca Publica. Noticias das
collecções. — 6." Conventos do Paraíso, Santa Clara e S. Bento.
— 7.° Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9."
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12." O archi-
vo municipal. — iS." A restauração em Évora. — 14.°, i5.» e i6.°
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7.° Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.°, 19.°, 20.° e 21.° Assédios d'Evora em i663. — 22.° Os Fes-
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nosLusiadas.' — 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. —
26.° Antiguidades romanas em Évora e seus arredores. — 27.°
Roteiro d'um eborense.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'E¥ora
Estão publicados :
I.* PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João i.°. Etc.
I vol. de 202 pag. in-4.» — lí&Soo réis.
2.* PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. ín-4.° — iíCèzoo réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
^
m
EBORENSES
jrllSTOPylA— y^E^TE— ^F^CHEOLOGIA
UNIVERSIDADE DE ÉVORA
ESTATUTOS. REGIMENTO DA LIVRARIA. JURAMENTOS E PROFISSÕES DE FE,
ORAÇÕES DE SAPIÊNCIA.
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOURARIA N." 3
l8()2
GABRIEL PEREIRA
e;
m
EBORENSES
j-IlSTOP^IA— y^P^TE— y^P^CHEOLOGIA
UNIVERSIDADE DE ÉVORA
:5TATUT0S. REGIMENTO DA LIVRAkrA. JURAMENTOS E PROFISSÕES DE FE.
.ORAÇÕES UE SAPIÊNCIA.
tVORA
Minerva eborense
Dí: JOAQCIM JOSÉ liAPTlSTA, RUA DA MOURARIA N.° 3
I 892
ESTUDOS EBORENSES
Universidade de Évora
o cardeal infante D. Henrique, arcebispo de
Évora, fundara e dotara o collegio do Espirito
Santo. Em i553, em grande solemnidade. abriu
as aulas de theologia, moral e letras humanas.
Cercavam-no professores de muita sciencia e de-
dicação ao trabalho. Como em Coimbra levantas-
sem embaraços á Companhia de Jesus, o arcebis-
po eborense empregou a sua diligencia para trans-
portar para Évora o que se fizera a favor do col-
legio jesuítico de Coimbra.
Meios não faltavam. O cardeal tinha uma ren-
da enorme; ao grosso cabedal da mitra eborense
reunia elle fartas pensões das mitras de Braga e
de Lisboa.
O cabido, o illustrissimo cabido, era grande
proprietário e capitalista, e cedia a sua quota pa-
ra os progressos dos estudos em Évora.
A teimosia da academia conimbricense excitou
os da Companhia de Jesus. Os cursos do collegio
eborense, professados por homens superiores, fo-
ram logo celebrados no paiz. Em i556 ali ensi-
nava philosophia o mestre que alcançou maior
popularidade então, e cujo nome na tradição oral
tem atravessado os tempos, o P.^ Ignacio Martins,
o celebre Mestre Ignacio.
Havia meios, vontade, auctoridade; facilmente
conseguiram o desenvolvimento do collegio tm
Universidade, sujeita á Companhia
Em i35g ficou ofíicialmente constituída para
ensinar humanidades, theologia, cânones, mathe-
matica, o quadro superior então, excepto a medi-
cina, o direito civil, e a parte contenciosa do di-
reito canónico.
Vieram as bulias do Papa e os alvarás d'el-rei.
A mitra e o corpo capitular cediam sommas avul-
tadas para sustentação de professores e alumnos.
Com extraordinária pompa em i de novembro
de i559, o cabido, onde então figuravam bispos e
notabilidades, o clero secular e regular, o senado
e a nobreza, assistiram ao pontifical da íYindação,
e ouviram ler a bulia.
Houve orações dos padres Jorge Serrão e Si-
mão Vieira : e Te-Deum ; e repiques e salvas. De
tarde representou-se a tragicomedia : El-rei Saiil;
e durante três noites houve luminárias, descantes,
musicas e encamisadas.
Mez e meio depois a Universidade recebia a
visita de um homem extraordinário, cujo nome a
fama apregoava então ao espanto dos povos, o
duque de Gandia, o padre (depois santo) Francis-
co de Borja, que trocara a sua coroa ducal pelo
barrete preto. Era a visita do Geral como que a
confirmação da Universidade.
A Universidade abriu com duas cadeiras de
iheologia, uma de escriptura, uma de moral, uma
de philosophia, e sete de latim. Mais tarde o qua-
dro desenvolveu-se em três cadeiras de theologia
especulativa, duas de theologia moral, uma de es-
criptura, quatro de philosophia, uma de mathe-
matica, oito de latim, duas de ler, escrever e con-
tar.
A Universidade tinha cancellario, prefeito, exa-
minadores e substitutos, e formava, como a de
Coimbra os seus mestres, bacharéis, licenciados e
doutores.
Entre os seus professores teve noines europeus,
o grammatico Manuel Alvares, o pensador Luiz
de Molina, e tantos outros.
Tão bons começos para tão curta vida !
Um dia o marquez de Pombal cortou a Uni-
versidade com um traço de penna. Não a melho-
rou, não a reformou, não a fez progredir, nada,
matou-a.
E' diíficil explicar como n'este paiz de bondo-
sos, "de branduras de costumes, se tende a des-
truir por bruscos processos. E como facilmente se
destroe o que tanto custa a fazer!
Os bens da Universidade de Évora, assim co-
mo os do coUegio do Espirito Santo, foram para a
Universidade de Coimbra, que de súbito se viu
opulentíssima ; que se tivesse sabido conservar o
seu regimen e se respeitasse a sua tradição, esta-
ria hoje como Oxford ou Cambridge, forte e vi^
vendo sobre si, mas que enlevada nas delicias
da desamorlisação, na commodidade da verba do
orçamento, na limpeza da folha mensal, arrasta vi-
da mesquinha.
Com os bens foram os cartórios, os papeis, os
velhos tombos e registos; foi uma explosão! Mui-
tos volumes, massos e pergaminhos avulsos, es-
tão em Coimbra ; outros em Évora ; outros em
Lisboa.
Todavia numerosos volumes do cartório da
Universidade de Évora, os seus documentos mais
principaes, salvaram-se.
Vamos reunir n'este estudo alguns documentos
importantes da Universidade eborense.
Universidade de Évora
Cod. ^ da Bibliotheca Publica de Évora.
2-3 1
Estatutos ordenados polo xMui alto e excellente
principe, e Sereníssimo Senhor dom Anrique por
mercê de Deos, e da S.'^ Igreja de Roma Cardeal
do titulo dos S.'°' 4. coroados, iffante de Portu-
gual, legado, e Arcebispo de Lisboa etc. pêra a uni-
versidade que ordenou, e fundou na cidade de
Euora, da invocação do spu. S.'" com autoridade
do S. Padre Paulo 4. .
E' um vol. in-fol. de 144 pag- escripto até pag.
i38: em duas columnas; na primeira columna o
texto, e a segunda destinada a — Reforma e emen-
da dos Estatutos que defronte estão escritos e nes-
ta parte se põem somente o que nelles se deve de
melhorar — .
Pag I. Primeiro liiiro dos ofíiciaes da universi-
dade.
Cap. 1.'^ do proteifor da universidade. Era elrei
D. Sebastião.
2 l^anscreve o juramento delrei. -
Eu el Rey proteitor da universidade de Euora,
juro a estes Santos Evangelhos em que ponho as
mãos, que daqui em diante quanto em* mim for,
empararei e defenderei a dita universidade, com
todas as cousas que lhe tocarem, segundo vir que
lhe mais convém a sua conservação, e proveito, e
guardarei as cousas que estão postas neste capitu-
lo de proteitor o qual me foi lido.
Capitulo segundo das cousas em que o arcebis-
de Évora, a de favorecer e ajudar a universidade.
3. Capit. 3.° do Reitor da Universidade.
6. Capit. 4° do officio de Canceliario.
8. Capit. 5.° dos conselheiros, decanos e depu-
tados.
9. Capit. 7." do cartóreo da universidade.
10. Capt. 8.° do escrivão da universidade.
i3. Capit. 9.° do officio do bedel.
i5. Capit. io.° da livraria.
Regimento da livraria
Averá nas escolas hua casa pêra livraria da uni-
versidade na qual estarão livros de todas as fa-
culdades em abastança, postos em estantes, e pre-
sos por cadeas, e em quadernados em tavoas com
suas brochas, com seus titulos de boa letra.
O bedel da theologia terá cuidado da casa da
dita livraria, abrindo-a e fechando-a com diligen-
cia duas vezes no dia; no inverno se abrirá as 7
da menhan, e fecharseá as 1 1 e a tarde se abrirá
duas horas, e fecharseá as 5.
E no verão se abrirá as 6 horas da menhan e
se fechará as 10. e a tarde se abrirá as 3 horas e
se fechará as 6. E nestas horas estará elle presente,
ou algua pessoa em seu lugar pêra que os estu-
dantes que neste tempo quiserem ir lá a estudar
pellos ditos livros o possam fazer (em letra mais
moderna — e serão somente os que ouvirem theo-
logia, casos, e artes e rhetorica, e não os das de-
mais classes de latim nem pessoas seculares).
O dito guarda da livraria terá grande vigia so-
bre os ditos livros, que senão furtem, nem se tra-
tem mal, e serão sobre elle carregados em receita,
e todas as cousas da livraria pello escrivão da uni-
versidade em hum livro sobre si pêra que dê con-
ta de tudo o que faltar, e por-se ha um edito a
8
porta da dila livraria, assinado pelo Reitor, em
que mande a todos os estudantes, e mais pessoas
da universidade, que entrarem na dila casa que
não tirem doUa livro algum nem parte delle, nem
ponhão cota nenhuma (á margem : nem signal al-
gu sob pena de pagarem a valia delle em dobro)
nos ditos livros, e quando sairem os serrem e fe-
chem com todas as brochas que os ditos livros ti-
verem, e que emquanto estiverem na dita casa
procurem ter modéstia (i'iscado, emenda — não fa-
lem e tenham modéstia — ) e quietação pêra se
não estrovarem hus aos outros, e quem o contra-
rio fizer será castigado, segundo que ao reitor pa-
recer.
Terá cuidado o dito guarda de alimpar os ditos
livros, e sacudilos do pó huma vez na somana, e
mandar varrer a casa duas vezes na somana pello
menos, e quando achar menos algum livro o fará
logo saber ao reitor pêra que mande fazer diligen-
cia pêra se saber quem o levou, e pêra se cobrar,
e castigar quem nisso tiver culpa, e tendo-a o
guarda, e não se achando o livro, se comprará ou-
tro semelhante as custas do seu salário do dito
guarda.
A dita livraria será cada anno visitada no prin-
cipio das ferias pello reilor com ajuda dos lentes
que lhe parecer o poderão mais pêra isso ajudar,
e o dito reitor com os ditos lentes estando presen-
te o escrivão da universidade, e o guarda da li-
vraria, verá os livros de cada faculdade como es-
tão tratados, e se achar que estão damniíicados
por culpa dos que nelles estudarão, o reitor man-
dará pello guarda amoestar que o não façam e
mandará reprender disso aos estudantes nas li-
çoens, e não bastando os mandará castigar confor-
me a culpa que tiverem e achando o guarda cul-
pado, o Reitor o reprenderá e multará como lhe
parecer, comunicando com as pessoas com que fi-
zer a dita visitação.
17. Capit. 1 1. do guarda das escollas.
18. Capit. 12. do Correitor.
19. Capit. i3. do officio de Conservador secu-
lar.
Era o corregedor da cidade que servia de con-
servador.
26. Cap. 14. do meirinho da universidade.
29. Cap. i5 do officio do escrivão dante o con-
servador secular.
30. Cap. 16. do escrivão dalmotaçaria.
» Cap. 17. do officio do escrivão das armas.
3i. Cap. 18. do escrivão das taixas.
32. Cap. 19. do Almotacé da universidade.
34. Cap. 20. do taxador das casas dos estudan-
tes c aposentador.
41. Cap. 21. do Enqueredor, contador e distri-
buidor.
41. Cap. 22. do officio do sindico da Univ.''".
42. Cap. 23. dos recebedores das rendas do '
Collegio, e universidade.
44. Cap. 24. dos sacadores das rendas.
45. Cap. 25. do porteiro dante o conservador.
» Cap. 26. do escrivão da fazenda.
» Livro 2.° dos estatutos q. trata dos costumes
dos estudantes.
Cap. I." da matricula •
48. Cap. 2.° do que toca aos bons costumes.
5o. Cap. 3.° da honestidade e vestidos dos es-
tudantes.
Não era permittido aos estudantes terem cães
ou aves de caça.
Todos os estudantes andarão honestamente ves-
tidos e calçados, e não trarão em nenhum vestido
de roupeta, mantco, pelote, meias ou calças as co-
IO
res aqui declaradas, s. amarelo, laranjad.o, verme-
lho, verde, encarnado, porem, debaixo das roupe-
tas poderão trazer gibões, ou jaquetas de pano de
cor para sua saúde, com tanto que os colares não
sejão mais altos que os das roupetas, nem as man-
gas- mais compridas, e poderão outrosim debaixo
de botas ou borseguis trazer calças de cores escu-
ras, e honestas, bem cubertas, e em casa, e pela
rua* onde pousarem, poderão trazer roupões de
cores, comtanto que não sejam amarelos, verme-
lhos, laranjados, verdes e encarnados.
Os manteos e roupetas compridos té o artelho.
Não trarão capas de capello, somente lobas
abertas ou cerradas.
Não poderão trazer barretes doutra feição senão
redondos, nem carapuças senão no tempo que an-
.darem vestidos de dó.
Nenhum estudante estará na lição ou em algum
auto publico com chapéo, ou sombreiro na cabeça^
porem os estudantes pobres que pedem esmola e
os criados que servirem, e mininos menores de
doze annos (depois dei) ^^^'^ serão obrigados a tra-
zer manteos, roupetas, nem barretes.
Não trarão golpes, nem entretalhados en nhum
vestido nem calcado.
Nas camisas ou lenços não trarão lavores de
cor algua, e porem poderão trazer lavores bran-
cos (nota — chãos e de pouco custo) com tanto
que não sejam desfiados, trancinhas, cadanetas lar-
gas, ou outros lavores de muito custo.
Não poderão trazer barras nem debruns de pa-
no em vestido algum, nem luvas perfumadas.
(Nota — Nenhum estudante trará botas, burse-
guis, ou ça patos piquados, ou com golpes, botois
ou fitas, ou de cor que não seja preta).
O meirinho da Universidade com seu escrivão,
duas vezes no anno, antes do Natal e passada a
1 1
Paschoa, visitavam, sem estrondo de justiça, as
moradas dos estudantes para saberem se havia
mulheres suspeitas, etc.
53. Cap. 4° da defesa das armas, e jogos e mas-
caras.
Não podem usar jogos de dados ou de tavolei-,
ros com tavolas. Mascaras só em tragedias e co-
medias.
56. Cap. 5.° da visitação.
57. Livro 3." que trata do exercicio das letras,
autos e gráos.
Cap. I." das lições que ha de aver na universi-
dade e que as não aja em outra parte.
58. Cap. 2° dos exames dos que ouverem de
ouvir latim.
Cap. 3." do que se ade ler das artes e exame ,
em latim, dos que as ande ouvir.
Cada curso de artes durará três annos e meio
começando-se o primeiro dia do mez de Outubro
que for de lição, e nos três annos primeiros se le-
rá pela menhan e a tarde. Enos seis mezes do 4.''
anno se lerá somente de dialéctica, o 2." se acaba-
rá a lógica, lendose nelle. . .phisicos e ethicas. no
3.° se proseguirá a philosophia, trabalhando o mais
que se puder ler de metaphisica, e do livro que se
chama Parva naturalia. E nos seis mezes do quarto
anno se acabará a philosophia.
Os discipulos exercitavam-se na declaração dos
textos da Aristóteles.
59. Cap. 4.° Ordem das disputas das artes.
62. Cap. 5.° do exame e examinadores dos ba-
charéis em artes.
65. Cap. 6° do modo em que se dará o gráo
de bacharel em artes.
67. Despezas dos bacharéis em artes. .
Cap. 7.' das repostas que fazem os que ande
receber o gráo de licenceados cm artes.
12
As férias eram em julho e agosto, mudaram pa-
ra agosto e setembro. Provisão do cardeal infame"
a pag. 68,: por termos por informações que he
tempo em que ha mais doenças na dita cidade — .
Neste códice estão registadas muitas provisões
importantes e curiosas, relativas á Universidade.
71. Cap. 8.° das repostas menores.
» Cap. 9. exame dos licenciados em artes.
75. Cap. 10 do gráo dos licenceados em artes.
76. Cap. í I . do gráo de Mestre em artes.
78. Cap. 12 dos ouvintes da theologia.
■80. Cap. i3. da tentativa.
82. Cap. 14. da ordem que se guardará nos au-
tos da theologia.
84. Cap. i5. do primeiro principio.
» Cap. 16. do segundo principio.
85. Cap. 17. do 3." principio e formaturas.
86. Cap. 18. do principio da Biblia.
» Cap. 19. da magna ordinária.
87. Cap. 20. da Anriquiana.
88. Cap. 21 dos quodlibetos.
90. Cap. 22. do exame privado.
97. Cap. 23. do gráo de licenceado em theolo-
gia.
98. Cap. 24. das vésperas
100. Cap. 2 5. do doutoramento em theologia.
io3. Livro 4.° dos estatutos.
Cap. i.° da prova dos cursos.
io5. Cap. 2.° da festa do Espirito Santo e fe-
rias.
O dia de assueto era a quarta feira.
106. Cap. 3." dos assentos.
107. Cap. 4.° dos estrangeiros doutras univer-
sidades que vierem a esta, e se quiserem nella en-
corporar.
Os agraduados em qualquer gráo de artes fei-
3
tos nas universidades de Salamanca e Alcalá (mais
tarde riscaram estes nomes, e escreveram — Coim-
bra — ) se poderão encorporar nesta universidade
no ultimo gráo que tiverem sem exame, tornan-
do-o todavia a tomar nesta universidade, e pagan-
do as propinas delle. E os agraduados em iheolo-
gia, ou qual quer gráo que seja, feitos nas ditas
duas universidades, e na universidade de Paris e
Lovaina se incorporarão da mesma maneira nesta
universidade.
108. Çap. 5." das insignias dos doutores c mes-
tres e propinas. A côr branca para as insignias -de
theologia, e a azul para as artes.
109 Cap. 6.° dos chamados ao claustro.
110 Cap. 7." Como se curarão os estudantes
pobres, e do enterramento dos estudantes.
III. Cap. 8,° das liçoens e exercícios dos casos
de consciência.
1 13. Estatutos ordenados pelo mui alto e excel-
lente príncipe e sereníssimo Snr. Dom Anrique por
mercê de Dcos e da S.'''' Jgi^eja de Roma, Cardeal
do tit.° dos Santos. quatro coroados, iíF.'^ de Portu-
gal, legado, e arcebispo de Lx.^ pêra os capel-
laens da capella da Vera Cruz da See desta cida-
de de Euora, que ordenou com autoridade do San-
to Padre.
Para 28 capelães; depois para 26.
Tinham preferencia, coeteris paribus, os natu-
raes da cidade, depois os do arcebispado, em se-
guida os do reino.
Ouviam casos de consciência.
1:21 Estatutos. . .pêra os capellaens da capella
de S. Joam da Sé de Évora.
Pêra 24 capellães, que ouviam artes c theolo-
gia.
i3o. Registo de algumas provisões especiaes,,
para o caso de haver peste, etc. e da carta de con-
firmação dos estatutos passada por D. Sebastião
em Lisboa, em 28 de novembro de iSyy.
i35. Provisão sobre a impressão das conclu-
sões.
CoHegio de N."* S."" da Purificação, e do hospi-
tal para os collegiaes. Carta passada em Almeirim
a 29 de Janeiro de i58o. Manda applicar ás obras
2ví5oo cruzados por anno.
Este códice esteve em uso muito tempo; tem
cortes, emendas, etc. Referi-me sempre ao texto
primitivo.
Orações de sapiência
{Bibliotheca Nacional de Lisboa. Mamiscriptos.
Cod. P. 6. 26.) Volume in-fol. grande; Soo e tan-
tas paginas. Excellentemente conservado. Na lom-
bada; oActa publice in Ebor. oAcademia. Encader-
nado em pergaminho branco.
Hoc libro continentur ea qiiae acta sunt pu-
blice in hac Eborensi academia ab anno 1620.
As orações de sapiência na abertura dos traba-
lhos escolares na Universidade eborense enchem
principalmente este códice.
Pag. 4. Oratio in laudem Scientiarum habita á
pe Pj._cc. perreira Magistro Primário Anno 1620.
Kal. Octob.
Ha referencias neste discurso ao aqueducto e
ás fontes eborenses, especialmente á fonte da pra-
ça do Giraldo, monumento único no seu género
no paiz.
9. Sapientiae commendatio habita á fralre Bla-
sio Dias kal. octobris 1621 anno.
Estes discursos estão cuidadosamente copiados
por differentes calligraphias neste códice.
i3. Sapientiae commendatio habita á fratre
Gregório Domingues magistro secundano kal.
octob. 1622.
ID
26 V. — Certamcn poético em tempo do P.^
Francisco Costa.
Seguem poesias latinas, epigrammas, carmens,
paraphrases dos psalmos. hymnos. Quanto talen-
to, quanto trabalho !
Muitas poesias alludem a episódios da vida de
S. Luiz Gonzaga: a S. Francisco Xavier; aos
martyres do Japão.
57 V. Oratio pro sapiae laudibus habita a P.
Balthasar Telles Magistro primano. Anno 1623.
61 V. IVagicomaedia D. Ignatius nuncupata in,
honorem ejusdem Sancti Patriarchae nostrae. Soe.
Fundatoris acta. Auctore Patre António Parreira
Rhctorices professore atque in Academiae átrio
publicum data in theatrum die XV et XVI maii
anni Dni. 1622.
i." acto. Ignacio militar.
2.^ » A conversão.
3." » Os estudos. A confirmação da Socie-
dade.
4.° » Caminho de Xavier para a índia.
5." )) A morte de Ignacio,
Depois o coro triumphal.
Nesta tragedia entram pagãos e christãos, orto-
doxos e heréticos, virtudes e pecados, danças,
quadros vivos, anjos, cortejos fúnebres, outros
triumphaes etc. etc.
119. Uma declaração de que falta a oração
de sapiência recitada pelo mestre João da Rocha,
em 1624.
•
120. Oratio pro sapientiae commendatione ha-
bita á P.® Benedito do Valle rhctorices magistro
primário cal. octobr. anjii 162 5.
Referencias a D. José de Mello e á fundação
do Collegio de S. Mançgs.
i6
126. Discurso do P. Balthazar Saraiva, em
1626.
i3o. Discurso de Diogo da Areda em 1627.
O mesmo pronunciou o discurso em 1628.
141 V. Discurso do P.*^ Francisco da Veiga.
E um pequeno discurso (oraliuncula) do mes-
mo padre, e no mesmo anuo em honra da Santa
Cruz.
146. Discurso do P.® André Fernandes em
i633.
i55. Discurso do P.*^ Jerónimo Nunes, 1634.
166. Certamen poeticum.. . á memoria de Fer-
nando e de Joanna, principes do reino da Lusitâ-
nia
São pequenas peças em verso.
170. Discurso do P. António Pinheiro.
1 79 Extemporânea pro Sapientia oratio intra
septem confccta dies, et pro rostris habita a patre
Andreas Frz. primário quondam Rhectorices ma-
gistro.
186. V. Panegyricus patri Gaspari Fernandez
quando doctoratus gradum accepit, dictus ab eo-
dem patre Andrea Fernandez primo Rhetorices
o!im ín hac Academia professore.
191. Congratulatio pro Magistrali iaurea phyloso-
phica sapientissimis adolescentibus Emanueli
Gomes Esíremotiensi et Emanueli Freyre Olysi-
ponensi, habita ab eodem P. Andrea Fernandez.
194. Pro celebritate conclusionum in solennibus
feriis Spiritus Sancti.
195. Praefatio ad académicos pro inauspicanda
Phylosophia ab codcm P. Andrea Fernandez 2
octobris 1640.
199. Praefactio ad dialecticam ab eodem P.
Andrea Fernandez.
_}T_
■200 V. Oratio pro ingressu examinum phyloso-
l^hici bacchalaureatus ab eodem Andrea Fernan-
dez 4 fcbruarii 1641.
Neste discurso breve e eloquente manifesta-se
grande enthusiasmo pela restauração de Portugal:
renascentis Liisitanici imperii \ com allusões mytho-
logicas á guerreira altitude da Universidade.
O padre André Fernandez recitou lambem os
discursos ofíiciaes da Universidade nos annos se-
guintes.
211. Pro Sapientia oratio; pelo P.- Simão Tei-
xeira : cm 1641 .
216. Oratio de laudibus sapienliae habita á ir.
F>ancisco Caldeira primário rhetorices professore,
kalend. oclobris anno 1642.
222. Oração do p. Jorge Rebello em outubro
de 1643.
Em quasi todos estes discursos ha elogios re-
tumbantes, em altiva latinidade, da cidade de
Évora, e da Universidade.
229. Prologus et oratiunculae sequentes de
principe Alfonso recensnato, compósita sunt a fr.
Joanne Gomes, primário humaniarum litterarum
in hac Academia professore: et ab ejus discipulis
in aula publica habita sunt in junii médio anni
1644.
São discursos engenhosos e allisonantes.
232 v. Palladis vaticinium oAlphonso Lusitaniae
prmcipi. Poesia.
237. Oratio pro colenda sapientia habita á fr.
Nicolao de Sousa primário rhecloricae professore,
Kalend. Oclobris anno 1644. ' '
249 v. Oratio de laudibus sapienliae habita á
fratre Joanne Gomes. . . 2 oclobris 1645.
256. Oratio pro auspicanda philosophia habita
a P. Georgio á Costa 3 die oclobris 1645.
i8
Nesíes discursos ha idéas, arrojos de philoso-
phia, de patriotismo, e formas lilterarias mui no-
táveis.
264. Oratio habita a P.® M.° Georgio á Costa
pro bachelaureatu philosophiae anno 1 647. 4 fe-
bruarii.
271. Pro solemni Eborensis Academiae jura-
mento Conceptionis intemeratae defensione présti-
to, oratio habita á magistro Nicolao de Sousa iii
templo 1 1 decembris anno dni 1646.
275. Oratio panegyrica in doctorat. R. R. P. P.
Benedicti Pereira et Emmanuelis Ludovici habita
a P. M. Francisco Caldeira, in templo.
283. Discurso do P. Manuel de Mattos, na inau-
guração do retrato de D. João IV.
291. Oração da sapiência recitada pelo P.® An-
tónio Garcia em i65o.
269. Oração do P.^ Bento de Lemos em i65i.
3o3 V. Oração do P.® Nicoláo Coelho, em i653.
320. Oração do P." Francisco Leitão, i658.
Jaramentos e profissões de fé
Livro dos juramentos e profissões de fee.
(Bibl. d'Evora, coll. mss. cod. ^^^). Vol. in-fol.
calligraphia diversa, encadernado em folha de
pergaminho que parece fragmento de livro, tendo
notação musical, talvez do sec. XIV.
Fl. 3. O primeiro assento que transcrevo na
integra.
Aos nove dias do mez de setembro do anno de
mil e quinhentos e sessenta e nove na igreja do
spo. s.'" d'esta universidade de Évora sendo pre-
sente ho reverendíssimo snor. Dom João de Mel-
lo arcebispo d'este arcebispado de Évora, por elle
foi dito que elle se avia por satisfeito das informa-
ções de fide ac religione catholica conforme ao que
manda o sancto pontífice Pio quarto em ha sua
bulia, e de boa vida e costumes dos padres e ir-
mãos da companhia de Jhus abaxo nomeados os
quaes padres e irmãos fizerão ho juramento na
forma que manda o sancto concilio tridentino. s.
Ho padre doclor Jorge Serrão rector do dito co-
légio e universidade, e o padre doclor Pêro Paulo
Ferrer cancellario dela e o padre doctor Fernão
Peres e o padre Luiz de iMolina lentes de theolo-
gia e o padre doctor Diogo Sisneiros e o padre
Francisco de Gouvêa lentes de casos de concien-
lia, e mestre Francisco Cardoso, e mestre João
Correia e mestre Fernão Rebello e mestre Pêro
Simões lentes dos cursos das artes e Marcello da
Rocha, António Pacheco, Jeronymo Luiz, Simão
Martins, Frutuoso Gonçalves, Pêro d'Andrade,
Jeronymo Rodrigues mestres da latinidade, e mes-
tre Pêro Martins e António Carvalho, Estevão
Dias, António da Costa, António Velles, Sebastião
Barradas, Pêro Luiz, Mestre João Brandão, Se-
bastião Al veres. Lazaro Lopes, António da Gama,
ho padre João Árias, Manoel da Costa, João de
Lucena, substitutos, e no mesmo dia fizerão ho ju-
ramento da fee na forma que manda e ordena ho
S.'° Pontifice na dita bulia hos abaxo nomeados,
s. Jerónimo Luiz, Jerónimo Rodrigues, António
da Costa, e o padre João Árias, mestre Pêro Si-
mões, João de Lucena. E por quanto eu Diogo de
Gollete escrivão d'esta dita Universidade estive
presente ha dita approvação do dito snor arcebis-
po e ao fazer dos ditos juramentos fis este auto
aos oito dias de novembro do anno de mil qui-
nhentos e setenta annos.
Assign. de Hieronimo Roiz, D." Gollete, e P.
Paulo Ferrer.
Muitos d'estes assentos não estão assignados;
só pelo escrivão.
A fl. 8. assign. de Liiis de molina.
Fl. 12. muitas assign. diversas.
20
Algumas listas de estudantes marcam as natu-
ralidades; na maioria eram alemtejanos, alguns
do Algarve e do arcebispado de Lisboa.
21. Outra assignatura de Luiz de Molina.
Aos da Companhia de Jesus não indicam naturali-
dade.
34. . . E aos vinte e dous dias de abril de mil
quinhentos setenta e hum na dita igreja sendo
presentes o padre Manoel Roiz vice rector da di-
ta universidade e o padre doctor Pêro Paulo Fer-
rer cancelario d'elia e o padre doctor Fernão Pe-
res e o padre doctor Diogo Cisneiros e o padre
Pêro Martins, fez o dito juramento da fee o pa-
dre Luiz de xMolina depois de ser appróvado por
bom e catholico christão. . . foi graduado doctor
na sancta theoli)gia pêra o qual gráo era necessá-
rio preceder o dito juramento. Este assento data-
do de 1 1 de julho de 1572. A fl. 2170 ultimo as-
sento n'este livro de i de outubro de 1609.
Faltam as íi. de 217 a 235 arrancadas por al-
gum boçal damninho.
Invertendo o códice, mas conservando a mesma
paginação, lançaram os termos das profissões de
fé, isto é, o mesmo códice serviu para os dois mis-
teres, começando dos extremos para o meio.
== Das profissões da fé que se fazem ao tomar
dos grãos em esta universidade de Évora de 8 de
junho de 97 té hoje.
O ultimo termo é de 26 de maio de 16 18.
Ha n'este códice notas de formatura de grande
numero de indivíduos, nos períodos indicados.
Muitos nomes ahi apparecem conhecidos na his-
toria da Companhia, na erudição, nas missões,
etc.
Em outro estudo descreverei a fundação da
Universidade e a visita solemne de S. Francisco
de Borja.
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS KBORKHSES
Eslíio publicados :
1° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana. O templo. As inscripções. — 3.° A Casa pia. — 4." Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliotheca Publica. Noticias das
collecções. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8° e 9.°
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.° O archi-
vo municipal — 13." A restauração em Évora. — 14.", i5.° e iG."
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7.° Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.", 19.", 20." e 21.° Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1 729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. —
26.° Antiguidades romanas em Évora e seu'' arredores. — 27."
Roteiro d'um eborense. — ^28." Universidade de Évora.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'Evora
Estão publicados :
i." PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
■ de D. João 1.". Etc.
1 vol. de 202 pag. in-4.'' — i^tP^oo réis.
2." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. in-4.» — 22ÍI200 réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
n
v^
nT-)TiATn
v_-/
jFilSTOP^IA— y^P^TE— y\.Í^CHEOLOGIA
MONTERIAS E AI.TANERIAS. A CAÇA ANTIGA. VEAÇÃO NO TERMO d'eVORA
NA IDADE MEDIA. O LIVKO DE MONTERIA DE D. J0.\0 I.
I.AI.AIN. a ESPINGARDA NO SÉCULO XVI.
LUIZ DE CAMÕKS E A CAÇ.\. ALTANERIA E CITRARIA ALEMTEJANA.
A DECADÊNCIA DAS CAÇADAS. DIOGO FEKNaNDES TERREIKA.
AS CAÇAS REDONDAS DO INFANTE D. LUIZ, E DO PRIOR DO CR.\TO, D. ANTÓNIO
EPISÓDIOS ALENTEJANOS
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOURARIA N." 3
l8()'2
GABRIEL PEREIRA
r\
\j
RENSES
JilSTOP^IA— y^F^TE— ^I^CHEOLOGIA
J^S aJ^QJLIDJ^^
i_» :E'.A-I^TE
CONTERIAS E ALTANERIAS. A CAÇA ANTIGA. VEAÇAO NO TERMO D ÉVORA
NA IDADE MEDIA. O LIVRO DE MONTERIA DE D. J0.\0 I.
LALAIN. A ESPINGARDA NO SÉCULO XVL
LUIZ DE CAMÕES E A CAÇA. ALTANERIA E CITRARIA ALENTEJANA.
A DECADÊNCIA DAS CAÇ.\DAS. DIOGO FERNANDES FERREIRA.
AS CAÇAS REDONDAS DO INFANTE D. LUIZ, E DO PRIOR DO CRATO, D. ANTÓNIO
EPISÓDIOS ALEMTEJANOS
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOURARIA N." 3
1892
ESTUDOS EBORENSES
As caçadas
à caça antiga
Ha tempos vi uma enorme ardósia, de quatro
metros de comprido por três de largo, lavrada to-
da em fino relevo, e representando uma caçada
real. Um rei assyrio com a sua corte, o seu exerci-
to, e a multidão dos seus vassallos, correndo por val-
les e montanhas os javardos, os veados, as girafas
e os leões.
iMilhares e milhares de figurinhas em relevo,
formadas ingenuamente, muitas todavia tradu-
zindo grande observação do natural, enchem a
ardósia lavrada ha três mil annos para ornar uma
parede do palácio régio de Khorsabad. Vê-se per-
feitamente que n'aquelles tempos uma caçada era
feito importante ; era muito mais que um exercito,
n*um esforço maior que uma evolução militar.
E quando estava no Museu britannico em admi-
ração perante o estranho relevo venatorio lembrei -
me do Iwro de monteria delrei D. João i que tan-
to amava o montear pelas charnecas e cerros de
Portugal.
A historia da caça é a da civilisação. Diminue
a caça porque raream os animaes bravos, e estes
raream porque diminuem as selvas, porque aug-
menta a cultura, porque sobem as necessidades
dos povos.
Mas ha outro factor; é o progresso da arma ve-
natoria; da funda e da frecha á caçadeira mo-
derna.
• Como era que nos velhos tempos pre-historicos,
o homem, eterno caçador, aptfnhava o animal bra-
vo? Tinha a seta armada com a ponta de silex ou
de osso, ou a funda que jogava a distancia o ca-
Iháo lascado.
Os homens que habitavam as grutas de Cesa-
reda prostravam com tão rudes armas os grandes
felinos do paiz. Pelos restos encontrados se vê que
habitavam aqui n'essa época mui remota grandes
gatos, parentes dos tigres e leões modernos, e tam-
bém o corpulento urso.
Esses animaes desappareceram de ha muito, em
longiquos tempos pre-historicos. O urso vulgar vae
rareando nos desvios dos Pyreneus, os felinos ac-
tuaes na peninsula são pequenos; apparece toda-
via ainda o gato cravo, alto, elegantíssimo, a que
alguns chamam lynce pelo pincel de sedas nas pon-
tas das orelhas.
O homem pre- histórico do cabeço da Arruda
(valle do Tejo) talvez não conhecesse já as gran-
des feras; não ha vestígios d'ellas alli. Mas era ca-
çador também, apanhava o veado, o javali, o coe-
lho, etc.
Tanto o caçador de Cesareda como o de Arru-
da, possuia armas de silex ou pederneira admira-
velmente talhadas.
Quinto Sertório era grande amigo da caça : n'el-
5
la empregava os s-jus feriados. Recebia com agra-
do todos os presentes de caça e uma vez, conta
Plutarcho, trouxeram-lhe um corça branca. E elle
conservou e amansou o animal, que lhe serviu de-
pois para explorar a ingenuidade dos povos. A
menção' tão especial da corça branca parece indi-
car que o veado branco era já então raro.
Estrabão falia da prodigiosa fartura de caça na
Turdetania.
Não se refere a grandes feras o que indica se-
guramente considerável civilisação. Na idade m^-
dia porém o urso tornou- se vulgar; pelo menos ha
episódios de caçadas de ursos, e em muitos docu-
mentos se falia de pelle de urso como de uso tri-
vial.
Falia também Estrabão de muitas abetardas,
hoje pouco vulgares, e de cabritos bravos. Chegou
a nossos dias a cabra do Gerez, raríssima hoje se-
gundo creio.
O desapparecimento das feras perante a civili-
sação explica-se bem porque os mattos ibéricos
são facilmente penetráveis; não ha juncaes como
na índia, nem fortes plantas espinhosas como na
Africa, onde os grandes animaes bravios possam
defender as creações.
Caça no termo de Évora na idade media
No foral de Évora (?.eculo xii) mencionam-se
coelhos e furões, cervos, gamos e zevras; nos cos-
tumes de Terena (século xiii) o z/550 (urso) também.
Um século mais tarde apparecem bastantes dispo-
sições relativas a caça, e sua venda.
Ha uma postura municipal muito interessante
(século xiv) prohibindo caçar com cordas e redes,
até três léguas da cidade, porque os caçadores que
usavam de aves e galgos não achavam nos coutos
da cidade nem lebres nem perdizes (Doe. hist.d'E-
vora, p. I.* pag. i35).
Outra postura prohibe matar a pomba mansa
com besta ou armadilha.
Outra (Doe. hist. pag. 146) menciona como cou-
sa bem corrente a calçadura de pelle de cervo ou
gamo.
De modo que em tempo de D. João i a quali-
dade e provavelmente a quantidade da caça no
Alemtejo seria como ha cincoenta annos. Em uma
tponteria que se fez, ha meio século apenas I na
serra da Alpedreira, morreram 42 lobos, 5 javalis,
6 corsos e 10 gatos cravos!
Os corsos acabaram, javalis e gatos bravos são
raros.
Tem sido principalmente a limpeza das herda-
des, o augmento da cultura, que tem acabado com
a caça maior.
Vão rareando felizmente as manchas de matto
alto. E as novas armas são muito superiores ás
antigas. Resistem os lobos e as rapozas! Na ver-
dade custa a perceber como em certas regiões vi-
vem e defendem a creação as perdizes e outros ani-
maes! Teem muita vida.
Viemos no tempo das mudanças. Assistimos ao
final da cabra montez, do veado bravio, e do ja-
vardo. Os naturalistas do século xx hão de fazer
dissertações sobre esses animaes extinctos, e os ca-
çadores do futuro ficarão satisfeitos atirando ás
cotovias. Ah ! mas como eram gentis, fortes e agi-
tadas as caçadas antigas!
O «Libro de monterla de D. João I>>
Aqui temos um dos preciosíssimos códices ma-
nuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa (Cod.
P-3-4).
Na relação da livraria de D. Duarte (v. Docu-
mentos históricos da cidade de Évora, fase. 23
(2.° da 3.* parte), pag. 37), se diz eífectivamente
do — Livro de monteria que copiou o victorioso rey
D. João ao qual Deus dê eternal floria.
A frase que copiou é bem provável que seja erro
de copista; é possível que no original estivesse
que compo{. Porque do texto do manuscripto exis-
tente se vê bem claramente que o livro foi com-
posto por el-rei D. João i.
E' obra notabilissima, de alto valor litterario e
especial ; se n'este paiz houvesse gente de gosto,
homens de sport a valer, o velho manuscripto de
ha muito estaria reproduzido em edição de luxo.
Na livraria d'el-rei D. Duarte havia mais livros
de caça : o liuro de cetraria, dois livros de monteria,
um em castellão, e outro livro de cetraria que foi
d'el-rei D. João. Havia grande enthusiasmo pela
caça, e, note-se, havia caça, muita caça.
Vamos a descrever o manuscripto de D. João i.
E' um in-4.° de 267 pag. a 24 linhas de letra miú-
da, em texto seguido.
E' trabalho extenso como se vê.
Diz logo na primeira pagina: — n Libro de mon-
teria composto polo senor Rey Don Joam de Por-
tugal e dos Algarves e senor de Ceuta, trasladado
de un original de maom escrito en pergaminho que
se achou na libreria do GoUegio da Comp.* de
Jhs. de Monforte de Lemos, polo bacharel Manoel
Serrão de Paz, este anno de mil e seyscentos e
vinte e seys».
Que seria feito do original? Muita cousa se tem
perdido n'este paiz!
E diz o impagável bacharel que nos salvou a
singular jóia: Começa assi o libro d'esta maneira :
oAqui se começa o libro de oMontaria, o qual é to-
mado e ajuntado con acordo de muitos bons montey-
ros.
8
— E porque en todas as obras que os homens
fazem em o screver aquclles que as lêem filham
as entenções de muytas guisas, ca segundo os en-
tenderes de cada um assi filham as entenções, e
porque os que este libro leerem saibam a ordem
que nós tivemos em o fazer rogamos-lhe que quan-
do o quiserem leer a primeira vez que leam pri-
meiramente este prologo, e dês hi os capitulosque
se seguem na taboa d'elle, e per alli saberam a en-
tençon que tivemos en o escrever. —
Neste prologo vem a declaração do real au-
tor : que os homens por serem sabedores fi-
zeram libros de gramática e de rhetorica. . e ou-
trosi libros de phisica, e de celorgia, e de alvey-
taria, e de falcoaria, e de outras muitas artes que
seriam longas de contar. Por ende nós Don Joham
por graça de Deus rey de Portugal e do Algarve,
senor de Cepta . . . vendo en como o joguo de an-
dar ao monte eva tam boom e tão proveitoso que
en sua bondade passa todolos joguos a que hora
dizem manhas, e em seu ser, para se os homens por
elle poderem aproveitar mais que de nenhum dos
outros de que os homens agora usam e assi mes-
mo en como elle era en si mais alta cousa, e mais
proveitosa que algumas outras, de que se alguns
trabalharam de fazer libros assi como de falcoa-
ria e de cantigas e de outras cousas e artes que
muito menos que esta aproveitam nos tra-
balhamos com a ajuda de Deus de fazer este li-
bro de Monteria en o qual ha lxx capítulos divi-
didos en três libros ou partes. —
E' terminante e claríssima a aííirmativa; o li-
vro é feito por el-rei.
E' um trabalho extenso, por vezes minucioso,
revelando perfeito conhecimento e larga pratica do
objecto, ornamentado com citações eruditas, por
vezes elegante.
Tem referencias alemtejanas; é escusado lem-
brar que D. João i.° foi mestre de Aviz, e natu-
ralmente entre os seus freires havia bons montei-
ros.
Começa pelo — Louvor dos jogos ou manhas. —
O jogo de andar ao monte é o melhor para re-
crear e entender e correger o feito de armas, e
não é peccado.
Considerações sobre o peccado na venatoria são
frequentes nos tratados antigos; havia mortes
n'aquellas caçadas; ás vezes os cercos eram ba-
talhas; havia javalis velhos de muita força e cor-
pulência. Lembre-se o caso de D. Fernando San-
ches cujo tumulo está no museu do Carmo; a es-
tatua deitada sobre o lado direito, caso raro, e na
trente do sarcophago a scena com o javali que ter-
minou em desastre.
Pois D. João I .° socega os espíritos afíirmando
(cap. 6.") que posto que algum fosse ferido de por-
co, ainda que morresse, que sua alma non seria
por elle perdida.
Tem uns artigos interessantíssimos sobre os
cães.
Cap. 9 en como os monteiros ham de fazer por
averem os cãaes que sejam formosos e bons. Cap.
10 da guarda dos cadelinos. Cap. 1 1 do escolher
os cãaes cachorrinhos na cama , allâos e sabujos.
Cap. i3 do ensino dos alãos.
Cap. 14 dos sabujos, tanto os de correr como
de trela, como de achar.
Cap. 1 6 do conhecer os rastros huns dos outros
e departilos de que animalias son.
Cap. 17 das horas dos rastros pelas fresquidóes
das terras e das hervas.
Cap. 21-22. Logares azados para aprazar e do
assentar.
. Tem muitas observações originaes em todos
IO
estes pontos, e dá seu relevo ao esiylo com cha-
ções da mythologia, e da Bíblia, da estoria geral
de Lucas de Tuy, da astrologia, de Joam Gil e Al-
bamazar, e do Tolomeu.
Faz mesmo suas observações sobre as plantas
dos mattos da Beira e Alemtejo.
No cap. 26 entra-se na monteria; como os mon-
teiros devem cercar o porco, e segue;n os cap. so-
bre os incidentes da caça; do alevantar do porco,
do melhor logar para poer as bozerias (as voze-
rias dos cães) e armadas para filhar o porco.
Chega-se ao javardo^ ao giande drama, , os cães
ante o fortissimo bicho que estripa Je uma foci-
nhada e atira ao ar o cão mais corpulento.
São os cap. da part. 2.'' que tratam dos cães e
mocos : de levar os cães e telos em trella : de cor-
rer ao porco: de quando apparecerem dois e três
porcos; de tornar o porco; da morte de través.
Cita Job, S. João etc. e Ayres Gonçalves de Fi-
gueiredo que foi bom monteiro.
Cap. 14. Matar o porco de justa en mouta es-
pesa que non possam entrar senon de giolhos.
E' um livro methodico, um grande tratado bem
feito. O livro 3.° trata dos bons monteiros, do ves-
tido e trajo.
Cap. 3.° Quejandos an de ser os cavalos con
que an de andar ao monte os monteiros.
Cap. 4.° Quejandas an de ser a áscuma e a
trélla.
E depois sobre as armadas; quejandas son as
armadas chan, larga, bem vistosa, enfestosas, pon-
tas das bozarias, herectas, en arboredos cerrados,
en saltos de ribeiros ou cheeiras, em pontas de
monte, em valles, e em charnecas de matto alto.
E' um livro interessantíssimo, mesmo nos pon-
tos de vista litterario e philologico, que de ha mui-
to deviam ter feito imprimir.
1 1
Caçadas reaes em tempo de Affonso Y. em Évora.
Em tempo de Affonso V havia luzidas partidas
de caça de citraria e montaria pelos campos de
Évora.
O rei, a rainha, a corte, sahiam pela manhan,
f m graspécies: girifaltes,
nebris, bafaris, e sacres. Vinham da Noruega e
Suécia. Matavam cotovias, perdizes e perdigões.
Havia esmerilhões muito finos, ágeis e ardilo-
sos. Até as princezas nas suas galerias se diver-
tiam vendo as fiadas e os assaltos das pequenas
águias.
D. António era louco pelas aves; tinha açores e
falcões vindos de Allemanha, com enorme despe-
za.
De Irlanda e da Noruega vinham também aço-
res bons perdigueiros.
Os falcões chamados tagarotes, para perdizes,
vinham das ilhas de Cabo Verde.
O Affonso Borges tinha geito especial para edu-
car estas aves.
O infante D. Luiz teve um açor norueguez que
22
matava corvos e garças. Pairava, dava a fiada,
presava, logo vinham ao chão, em queda, e estava
morto o corvo.
Os caçadores tinham seus adágios : Sacre com
chuva, giri falte com vento, nebri com bom tempo.
As' aves de caça davam suas alimentações es-
peciaes.
Estando no Crato no inverno morreram dois
açores a Simão Mascarenhas, deão de Évora, e
outro açor meu (do bom Ferreira), e fizeram a
anatomia, achando-lhes os buchos franzidos de
frio.
E' perfeitamente possível, a congestão súbita,
nas alturas, pelos estoques de ar.
Agora conta o Ferreira um episodio interessan-
te.
Dom Luiz de Moura, Dom Rolim e outros fo-
ram á caça dos coelhos n'uma queimada no Ri-
batejo,
Levavam furões. Fugiu um furão que foi l')go
visto por uma águia.
Os caçad(nes viram a águia erguer-se veloz-
mente levando o furão nas garras. Era uma águia
enorme. Mas como as garras eram grandes, e o
furão muito delgado, abarcaram e não cravaram :
o furão ficou vivo. E quando já em grande altura
a águia se quiz cevar, o furão abocou-lhe as guel-
las; houve no espaço um rodopio enorme ; vie-
ram ao chão a águia morta, e o furão vivo.
O Ferreira conta uma infinidade de historias de
falcões, nebris, bafaris, e tagarotes; grifaltes, sa-
cres e bornis. E dos tamanhos, talhos e pluma-
gens dos alfaneques e aletos.
E dos ataques aos grous e garças, ás cegonhas,
abetardas e patos bravos.
E das brigas pittorescas dos açores e gaviães
com as garçotas, sizões, zambralhos, pombos bra- '
23
vos, e com os admiráveis banJos dos zurzaes, ás
dezenas de milhares, em rapidissimas evoluções.
O infante Dom Luiz tinha um girifalte tão alvo
como uma pomba : fora tomado a borJo de uma
náo na altura do Brazil.
O inffante tinha a seu serviço oitenta caçado-
res! entre elles havia um afamado, Pedro de \'e-
zilha.
O marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello
era grande auctoridade em venatoria.
Os aletos vinham da America do Sul. O licen-
ceado Felippe Butaca Fienriques. natural de Évo-
ra, viu aletos no rio das Pedras, capitania de Per-
nambuco, muito voadores, e caçando com extraor-
dinária porfia.
Havia seus perigos na alienaria.
A's vezes a águia queria cevar-se logo e se lhe
tiravam a presa feria com força. Outras vezes en-
tre águia e caça havia lucta, e voltava, ás vezes
uma ave de preço, gravemente ferida. Por isto um
servidor era encarregado de levar estojos, thesou-
ras, furadores para piozes e avessadas, tenazes,
canivete, lima, pinças, canudo para agulha de en-
xerir, botão de fogo para apostemas, palmeta e
unguentos, etc, etc.
Os campos mais abundantes em caça eram os
de Coimbra, Santarém, Évora e Beja. I\las já no
sec. XVI se notavam as rocianas de Sevilha.
Ainda hoje a bacia do Guadalquivir, na metade
inferior, é excepcional em caça de arribação.
Alem do Vesilha era considerado como de pri-
meira ordem, em altenaria, o hespanhol Pêro
Lopes de Ayala.
D. Henrique, senhor das Alcáçovas, criou um
francelho de rama em casa, que viveu 28 annos;
no tempo da criação desapparecia de casa, ia pa-
ra os bravos ; se alguma vez lhe faltava o comer
H
voltava á falcoaria, abijava a comida que levava
para os filhos; terminada a creação permanecia
sem esforço em casa dos amos.
D. João 3." conversando uma vez com D. Hen-
rique da Cunha, o dono do francelho, contou que
mandara ao imperador Carlos 5.° um papagaio
que fallava e respondia a propósito, mas o pássa-
ro vcndo-se entre gente que não conhecia por
mais que o imperador perguntasse, não abria o
bico.
O imperador mandou chamar o homem que
lh'o levara.
— Elrei me escreveu maravilhas do papagaio,
vê lá porque elle não falia.
João Fernandes perguntou logo !
— Papagaio qual é a causa porque não falia
diante de S. iMagestade?
— Oh! João Fernandes, não me entendo com
esta gente.
A historias de caçadores e veteranos faz-se sem-
pre algum desconto.
O infante D. Luiz foi grande caçador de falcão;
chegou a ter oitenta caçadores a salário, entre el-
les muitos estrangeiros. Cada caçador tinha a seu
cargo dois ou três falcões.
D. António, o prior do Crato, seguindo as pi-
sadas e pensamentos do pae, teve «mui redonda
caça de falcões, garceiros e milhaneiros e altanei-
ros, gaviões e açores, é foi homem de altos pen-
samentos, que assaz custaram á nação portugue-
za.»
O Ferreira fora pagem de D. António.
Note-se que elle escrevia em plena dominação
estrangeira, tinha de ter cautella com opiniões,
mas em todo o livro ha intenção patriótica ; não
pretende só lembrar as antigas modas da altena-
ria, procura levantar os espíritos.
25
Conta um episodio de caça interessante:
Saindo meu amo á caca da villa de Montouto
>
annexa ao seu priorado, a qual elle foi visitar,
acompanhado somente dos caçadores, fez voar
primeiramente o milhano, depois com os falcões
altaneiros matou quatro adens ; e os gaviães agar-
raram algumas pegas e perdizêlos. Quasi sol pos-
to apparece uma garça. O caçador mór poz um
sacre na mão de D. António.
— Mate vossa excellencia esta garça.
O prior que era bem engenhoso, aproveitou a
occasião e largou o sacre, o qual rendeu a fina
garça no mesmo pego donde se levantou, mas a
garça estava somente atordoada e o sacre não po-
dia continuar a lucta na agua; alguns caçadores
entraram no pego, ella então saiu da agoa por
aquella parte donde o sr. D. António estava, e por
falta de vento e não tomar terra com os pés não
se poude levantar, e foi voando muito baixa. D.
António que estava a cavallo correu sobre ella e
deitou-lhe a mão. Não quiz que a pobre garça
morresse, e por não enraivecer o falcão mandou
que lhe fizessem o papo com uma gallinha.
Ferreira falia com elogio das proezas e habili-
dades de caça dos cavalheiros mouriscos. Cide-
muça e Cide Albequerim. Os mouros usavam tra-
zer o falcão no hombro.
Muito variadas estas caçadas antigas !
Em outro estudo veremos o que succedia ha
meio século apenas no Alemtejo. Contarei das
grandes monterias officiaes, e das animadas caça-
das de javalis e pombos.
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS EBOHKNSKS
Esiao publicados :
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora- ro-
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4." Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliotheca Publica. Noticias das
collecçôes. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Bellas artes-. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e q."
Vésperas da restauração. — • 10." Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.'' O archi-
vo municipal — 1 3." A restauração em Évora. — 14.", li." e 16."
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7." Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.", 19.°, 20.0 6 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1 729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24." Pro-
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. —
26." Antiguidades romanas em Lvora '=' seus arredores. — 27.°
Roteiro d'um eborense. — 28.0 Uni\ersidade de Évora. — 20."
As caçadas, i." parte.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'EYora'
Estão publicados :
i.^ PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João i.°. Etc.
I vol. de 202 pag. in-4.'' — 1 5^800 réis.
1." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.", de Garcia de Rezen-
de. Al/arrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
' cortes no sec. XV. Etc. l^íí^ o^^ vcjj-l .;
1 vol. de 282 pag. in-4.'* — 25^200 réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J.
F. Peren-a Abranches, praça do Geraldo, Evora.|
MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
-{
m
DOS EBORENS
í,
JFÍISTOP^IA— yVp^TE— ytPyCHEOLOGIA
ÉVORA E O ULTRAMAR
2-= zPjãjtitíe:
moco DF AZAMBUJA E OIOOO I1K AZAMBUJA DK MEU.O-
nOCUMENTOS DO ARCHIVO DA SANTA CASA. A HAGAGEM DE UM CAPITÃO
PORTUGUÊS NO SECUI.O XVI
-ym
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQUÍM JOSt BAPTISTA, RUA ANCHA, N.°' 62 C 64
1802
GABRIEL PEREIRA
EST
^^
.jD
^
P
j4lSTOPJA— yk-P^TE— y^P^CHEOLOGIA
ÉVORA E O ULTRAMAR
DIOGO DE AZAMBUJA E DIOGO DE AZAMBUJA DE MELLO.
DOCUMENTOS DO ARCHIVO DA SANTA CASA. A BAGAGEM DE UM CAPITÃO
PORTUGUEZ NO SÉCULO XVI
ÉVORA
MINERVA EBORENSE
DE JOAQ.flM JOSÉ BAPTISTA, RUA DA MOUUARIA N." 3
1 8C)2
ESTUDOS EBORENSES
Évora e o liltramar
Diogo de Azambuja e Diogo de Azaml)ijja de Mello
No arLliivo da Santa Casa da Misericórdia de
Évora existem alguns documentos relativos a ca-
pellas instituídas por Diogo de Azambuja fidalgo
mui estimado nas cortes de D. João 2." e D. Ma-
nuel, e por Diogo de Azambuja de Mello, vulto
histórico assaz conhecido, que eu julgo neto do pri-
meiro.
Com os instrumentos das instituições entra-
ram porém para o archivo outros documentos
particulares, e são estes que nos fornecem al-
guns dados interessantes, que singelamente va-
mos apresentar. Diogo de Azambuja, conta Gar-
cia de Rezende na — Vida e feytos dei Rey
Dom Joarii 2.° (cap. 87) — : Diogo de Azambuja
era homem que elrey tinha em muita boa conta,
e estima, e a que tinha muito boa vontade e fazia
muita honra e mercê; e quando casou sua filha
Dona Cecilia com Francisco de xMiranda, foram
recebidos com muita honra perante elrey e a rai-
4
nha em uma sala com muita gente, e grande se-
ram de danças e muitos galantes; e em nos rece-
bendo no estrado, Diogo de Azambuja era muito
manco de huma perna, que quasi lhe fora cortada
nas guerras, e estava junto com os degráos, e com
a muita gente que chegou era muito maltratado, e
tanto quj se náo iM)d;a ter; e elrey o vio, e veyo
á borda do estrado, e tomou -o pela mão e subio-o
encima e disse-lhe alto que o ouviram muitos:
Salvayvos cá e chamem-vos como quizerem; e
assi esteve com muita honra perante todos enci-
ma no estrado, que he lugar de Reys e Prínci-
pes.»
Diogo de Azambuja serviu largos annos, pres-
tou muitos serviços nas guerras, nas navegações,
chegando a occupar posições eminentes.
Em 19 de janeiro de 1482 sahia elle de Lisboa
capitaneando dez caravellas e duas urcas; e ain-
da nos primeiros annos do século XVI servia nas
praças de Africa, embora já então tivesse idade mui-
to avançada ; no conlinenle, em tempo de D.
Manuel, foi veador mor de artilheria.
No archivo municipal eborense conserva-se uma
carta de D. Manuel a Diogo de Azambuja, data-
da de i5 de março de 1499. respectiva ás mura-
lhas de Évora ; e outra delle á vereação, escrita
de Monsaraz, relativa ás cavas e fossos de Oli-
vença.
O sr. Augusto Mendes Simões de Castro, no
«Guia do viajante em Coimbra», na parte relati-
va a Montemór-o-velho, descreve-nos o sumptuo-
so tumulo de Azambuja na egreja dos 'Anjos; o
tumulo tem uma longa inscripção que nos diz en-
tre outras cousas que o fidalgo quebrou a perna
na tomada da villa de Alegrete aos castelhanos,
que fundou o mosteiro dos Anjos, e falleceu em
i5 de agosto de i5i8 com 86 annos de idade.
5
E' um typo completo da epocha : vida de guer-
ras, de trabalhos de terra e mar, alguns dias bri-
lhantes na áspera carreira, um dito del-rcy que fi-
cou celebre, depois na velhice a fundação do mos-
teiro, a instituição de capellas, e o repouso no tu-
mulo monumental.
Os documentos do archivo da Misericórdia de
Évora vem dar-nos algumas noticias dos primei-
ros tempos do conhecido navegador.
Diogo de Azambuja acompanhou na Catalunha
o infante D. Pedro, condestavel de Portugal, a
quem em 1463, estando em Tanger, foram os ca-
talães oíTerecer o throno. Este infante D. Pedro
era filho do outro infante I). Pedro, o que morreu
na Alfarrobeira, e de D. Izabel, filha do conde de
Urgel, D. Jayme el dcsdichado. Nasceu em 1429 e
falleceu em 1466. Chegou a Barcellona em 21 de
janeiro de 1464. Era homem de bellissima figura,
muito sympathico e intelligente — rey bondadosis-
simo, caballero sin tacha, politico, latinista y ar-
queólogo consumado.
Em 1878, na «Revista de Gerona», publicou o
sr. D. José Coroleu é Inglada, escriptor catalão,
um estudo intitulado "El condestable de Portugal,
rey intruso de Cataluna». E em 1881 appareceu á
luz um folheto extremamente interessante «D. Pe-
dro el condestable de Portugal considerado como
escriptor, erudito y anticuario; estúdio histórico bi-
bliographico por D. Andrés Balaguer y Merino».
N'este folheto publicou o sr. Balaguer o inventa-
rio da bibliotheca, e o testamento do infante D.
Pedro.
Paine pouv joie ou Payne poiír joye , era a divisa
do formoso sábio e infeliz condestavel ; esta divi-
sa ainda hoje se lê em alguns sitios do castello de
Aviz.
Ora Diogo de Azambuja foi guarda-roupa e
guarda -mór do rei de Catalunha, amigo seu inse-
parável, e seu testamenteiro. N'esse curiosíssimo
testamento appparece mencionado pela forma se-
guinte «DiJacum Dazambuia custodem preciose
supellectilis domus nostrae».
A elle se refere a verba 9/ — Elrey deixa-ihe o
castello de Montsori e cem pacíficos de ouro, e ac-
crescenta: «tametsi maiori quidem munere dignus
est».
Passemos aos documentos do archivo da Mise-
ricórdia ; são pergaminhos que estão agora n'uma
das collecções especiaes do archivo — pergami-
nhos vários da iMisericordia de Évora — ; numa
grande pasta, desdobrados, cosidos só por um la-
do a fortes escarcellas de linho, de modo que se
podem manusear como um livro ou um albiim\ é
disposição que tenho adoptado e recommendo aos
amadores de veneráveis pergaminhos.
Pergaminho n.° 2. — 1460 — . Doação a fr.
Diogo de Azambuja, cavalleiro freire conventual
da ordem de Aviz e guarda-roupa do infante D.
Pedro: por serviços feitos ao infante e á ordem;
constitue uma commenda, de 1460 em diante, nas
rendas das coutadas da Ghancellaria e Cova do
Piam, coimas da coutada de S. Gens e Montinho
em termo de Alter Pedroso e as deste lugar e o
foro de uma horta. Ruy Vaz a fez, na villa de
Aviz, em i de outubro de 1460. Assignado — I.
P.° — (infante Pedro) Original bem conservado.
Perg. n.* 3. — 1464. — Traslado de procuração.
Em 22 de junho de 1464, em Coimbra na rua
da Calçada, ante as portas das casas de morada
de João de Freites. . ., estando presente Luiz Af-
fonso bacharel em degredos e vigário geral de D.
João Galvão, bispo de Coimbra. Apresenta-se uma
procuração feita em Barcellona em 8 de maio do
referido anno.
— Diogo de Azambuja, cavalleiro de Aviz, com-
mendador de Alter Pedroso e de Seda, guarda-
roupa e guarda-mór do muito nobre e excellente
D. Pedro, rei de Aragom, de Cezilia, de Valença,
das jMaiorcas, de Sardenha e de Corsia, e conde
de Barcellona, nomeia procurador seu pae, Pêro
de Azambuja, escudeiro, morador em Monte-mór-
o-velho. Feita em Barcellona, no paço do reveren-
do bispo de Barcellona no qual o dito sereníssimo
sr. rei sua morada continua faz. Testemunhas :
D. João de Castro copeiro-mór, Pêro de Souza
Cavalleiro, mordomo da casa do dito rei. António
França notário del-rei.
Como se vê o infante D. Pedro tinha na sua
corte alguns portuguezes; direi ainda que n'um
dos documentos transcriptos pelo sr. Balaguer, ap-
parecem dois — Cabots — , talvez relacionados
com os conhecidos navegadores.
Perg. n.° 5, — 1485. — Carta de D.João 2."
dando licença a Diogo de Azambuja para pôr no
escudo um castello. Pelos grandes serviços de Dio-
go de Azambuja, cavalleiro da ordem de Aviz, do
nosso conselho, commendador de Cabeço de Vi-
de, Rio Maior, montados de Pedroso, alcaide-mór
de Monsaraz... assi nas guerras como no fazi-
mento do castello de S. Jorge, que é nas partes de
Guiné. . . que no escudo das armas metta um cas-
tello além das outras armas. Dada em Beja, em
17 de março de 1485.
Pergaminhos n.° 7 (1494) e n.° 8 (1495); refe-
rem-se a propriedades compradas por Diogo de
Azambuja no termo de Monsaraz.
Perg. n.° i3 — i5o9. — Traslado de carta del-
rei D. Manuel, dada em Abrantes, a 27 de junho
de i5o7 (o traslado feito em 21 de novembro de
i5o9, em Monte-mór-o-velho, no paço de conce-
lho).
8
Concede a Diogo de Azambuja a capitania e al-
caidaria-mór do castello de Mogador. . . pelos
serviços do fazi mento do castello real de Mogador
com despeza da sua fazenda.
Pcrg. n.° 14. ■ — Provisão, carta de mercê e mu-
dança de renda; carta dada por D. Manuel em Al-
meirim, a 20 de janeiro de i5io, alterando outra
dada em Cintra em 18 de agosto de i5o8. . . te-
mos dado uma carta a Diogo de Azambuja do
nosso conselho, nosso veador-mór de artilheria. . .
(transcreve) . . esguardando aos muitos e extre-
mados serviços... de Diogo de Azambuja capi-
tão da nossa cidade de Çaffi. . . (faz) merco dês o
i." de janeiro de iSog. . . de juro e erdade de réis
i5o:ooo de renda na capitania da villa e castello
de Aguez, que é no rio dos Savées, jun.to com a
dita cidade de Çafíi. . . A 2.'' carta transfere esta
renda para o almoxarifado de Coimbra.
O ultimo perg. que se refere a Diogo de Azam-
buja é o n.° 17, instituição de capella e designa-
ção de propriedades: «Em Monte-mór-o-velho,
em I de setembro de i5i2, nas casas do dr. João
Pinheiro, deão que foi da capella del-rei, onde ora
pousa o commendador Diogo de Azambuja»...
por este documento consta ser filho de Pêro Ean-
nes de Azambuja e de Maria Gonçolves, e ter
uma irman, Izabel de Azambuja.
• Koíicia à'estes Âzambujas em Manso áe Lima
■ Jacinto Leitão Manso de Lima escreveu uma
obra genealógica, em dezenas de grossos in-folios,
que se conserva manuscripta na Bibl. Nac. de
Lisboa. Tem por titulo Famillas de Portugal No
artigo Aiambujas dá as seguintes noticias :
Diogo da Azambuja, filho segundo d'este Jorge
9
da Azambuja, foi commendador de CoriiLhe na
ordem de Aviz, e craveiro da mesma ordem; foi
mais commendador de Cabeço de Vide, Rio iMavor,
e Montados de Alter Pedroso, na mesma ordem,
e Alcaide mór da villa de Monsaraz.
Passou a Aragão em companhia do senhor D.
Pedro condestable de Portugal, filho do infanle D.
Pedro duque de Coimbra, a quem os Catalães ha-
viam eleito para seu soberano.
Sérvio ali muito bem emquanto viveu o dito
Príncipe, e foi hum dos seus testamenteiros, a quem
deixou o senhorio do Castello de Monzorim.
E voltando para este reyno, por ser varão es-
forçado e prudente foi mandado no anno de 1481
descobrir novas terras, e os limites dos mares; des-
cobriu a xMina onde logo fez celebrar missa, c man-
daram presentes a Curamansa, que ali era regulo,
e fizeram com elle amisade; e ali fez por ordem do
senhor rey D. João o 2." o castello de São Jorge
da Mina na costa de Africa e o poz em expugna-
ção em 2 annos e sete mezes, e foi o primeiro ca-
pitão d'aque!la fortaleza por espaço de trez annos,
como escreve Rezende na Chronica do dito rey.
Por morte do senhor rey D. João foi mui res-
peitado do senhor rey D. Manoel que no anno de
1 507 o mandou com huma Armada em compa-
nhia de Gracia de Mello, a conquistar a cidade de
Çafim na costa da Barbaria, que ganhou com gran-
de valor, e industria aos mouros c ficou nclla por
governador, aonde os mouros andavam em devi-
sões, e diferenças de que se aproveitou entrando-a
c expulsando delia os mouros no anno de i5oS; e
já no anno de i5o6 havia ido fazer o Castello Real
de fronte da ilha do Mogador e junto a Çafim; em
cuja tomada se achou com seus netos Diogo de
Miranda e Manoel da Silveira.
E mandando-o depois o mesmo rey render por
2
TO
Nuno Fernandes Je Ataíde disendolhe qne o fazicf
em razão de ser já velho, respondeu elle que el rey
o achara moço pêra conquistar a cidade, e velho^
pêra a defender, e vohando para o reyno fundou
na vilhi de Montemor o velho o mosteiro de San-
to Agostinho onde jaz enterrado.
Foi do- conselho do sr. D. João 2.® que lhe con-
cedeu licença pêra poder meter no escudo de suas
armas hum castello em memoria dos seus serviços,
por carfa dada cm Beja a 17 demarco de 1485 res-
peitando aos grandes serviços que lhe havia feito-
e ao reyno. Foi provedor dos Armazéns reaes e
pessoa de muita authoridade, valor, talento e esti-
mação no rejMio. Não casou por ser dos commen-
dadores nntigos mas houve de Leonor Botelha com
quem andou muitos annos, e de quem falaremos
em outra parte :
D. Cecilia, que fõ\ mulher de Francisco
de Miranda
D. Catharrna, que foi mulher de Marlim
da Silveira, alcaide mor de Terena
Mas outros dizem que foi casado, com dispen-
sa de Roma, com D. Leonor Velha, irmande Gon-
çalo Velho, com!i"iendador de Almourol, depoisdas
relações com Leonor Botefha.
E outro affirma que foi casado com esta mesma.
E' possível que casasse duas vezes; o que é cer-
to é que de Leonor Velha teve três filhos, Jorge,
António e Diogo.
António de Azambuja navegou, e teve a sua
carta d'armas, passada em Évora em fevereiro de
i535.
O mais velho, Jorge, serviu na índia e voltan-
do ao reino numa náo se perdeu sem mais se sciber
delle.
O 3.° filho, Diogo d'Azambuja, foi morto na ín-
dia, pelejando valorosamente em i536.
I T
António de Azambuja cazou com D. Maria de
Castro, filha de Vasco Martins de Mello, alcaide
mór de Cabeço de Vide; d'este matrimonio nasce-
ram Diogo d'Azambuja
Vasco Martins de Mello
Pedro de Azambuja
D. Izab^l de Castro
D. Margarida de Castro.
Por consequência este Diogo de Azambuja fi-
lho mais velho de António de Azambuja, era neto
do primeiro Diogo de Azambuja de que falíamos.
Diz Manso de Lima — Diogo de Azambuja, fi-
lho primeiro deste António da Azambuja serviu
muitos annos na índia, aonde foi capitão das for-
talezas de Columbo e Tidore, e voltando ao reino
foi feito governador da iíha da Madeira. Soccorreu
a fortaleza de Chaul estando cercada, e dali pas-
sou á conquista das ilhas Molucas aonde fez uma
fortaleza á sua custa, e houvera tido empregos
muito mais relevantes se se atendesse ao seu me-
recimento, porque alem de ser mui valoroso e ter
feito muitos serviços ao rei dispendeu também no
serviço real incríveis sommas de dinheiro de que
não teve satisfação. Foi commendador da ordem
de Christo, e morreu governando a dita ilha da
Madeira. Casou sendo já velho com D. Guiomar
Pereira filha de Jacome de Mello Pereira.
Esta dama D. Guiomar Pereira quando casou
com Diogo d'Azambuja de Mello, era já viuva de
quatro maridos. Pois viuvou do quinto, e ainda
casou 6.* vez com Tristão Vaz da Veiga.
o cosLice 3:».a-n-u.scripto SilTl
E um volume in-S.", contendo os privilégios e
liberdades dos commendadoves e cavalleiros da ordem
de Christo, em publica forma passada em Thomar
12
n 8 de abril de iSgS. Contém também as regras e
definições da dita ordem, e trata largamente da
profissão de Diogo de Azambuja do conselho d'el-
rei, capitão geral da ilha da Madeira, com varias
peças poéticas em louvor d'este cavalíeiro.
No frontispício lê-se : oJos lectores e aocommen-
dador Diogiio daiambuja de mello do conselho dei
Mei nosso Senhor.
E vós DioiíO iUustre que na guerra
Tal nome e fama honrosa conseguistes,
Domando tantos reis da gente perra,
Se áquelle grande estado não subistes
Que tendes pelas armas merecido,
Nos Mouros que por elles destruístes,
E aquelle largo Império esclarecido
Que a vosso rei e pátria levantastes
Na parte oriental do ceo lusido
E assim vae seguindo o pomposo encómio, até
chegarmos — á profissão que Diogo d'Azambuja
de Mello. . . . fez a 2 3 de setembro de 1594, no
mosteiro de Nossa Senhora da Luz.
E' o conhecido mosteiro da Luz, próximo de
Lisboa, onde por algum tempo se fizeram profis-
sões da ordem de Christo.
AO PROFESSO
Tão grande profissão e tão bem dada
De hum cavalíeiro tal a tão grão Mestre,
O menos que obrigou foi própria espada
A defensão da fé, e ao rei terrestre
Por estes sempre em campo, e estacada
Co imigo de cavallo, e co pedestre
Te envolvera's, Varão que assi o juraste
Na honrosa profissão que aqui tomaste.
Este Azambuja de Mello era já fallecido eni
1600, e no Funchal se tratou do legado, inventá-
rios, etc, ào illustre capitão geral. Este inventario,
mal cscripto e orthographado, chegou a nossos
dias no Archivo da Santa Casa da Misericórdia de
i3
Évora, e julgo-o documento de algum valor por
mencionar livros e instrumentos da profissão do
antigo capitão de. Tidore, que teve vida de guer-
ras e aventuras na segunda metade do século xvi.
Vamos transcrevel-o na integra.
Bagagem de um capitão
poríu^aez na segunda metade do saculo XYI
Saibão quantos este estromento dado em publi-
ca forma por mandado e authoridade de justiça,
com ho theor do abaixo escrito e pella maneira se-
guinte virem q no anno do nascimento de nosso
Senhor Jhu xpto de mil e seiscentos aos vinte e
dous dias domes de agosto do dito anno nesta cida-
de do Funchal da ilha da madeira perante ho juiz
ordinário diogo pereira da Silua pareceu João vaas
mendes estãte nesta cidade e lhe disse que elle ti-
nha huns papeis e iteins de cousas que o capitam
geral desta ilha Diogo dazambuja de mello ja de-
íuncto mandara daqui pêra a cidade de Lisboa por
duarte de mello dos quaes lhe era necessário man-
dar ho treslado á dita cidade de Lisboa q lhe pe-
dia lhe mandasse passar em estromento publico e
nelle interpuzesse sua authoridade, apresentando
logo hos ditos papeis dos quaes ho treslado do que
ao caso toca de verbo ad verbum hee o seguinte.
Na guardarroupa :
hum masso de cartas que diz q rresponde pello
navio de pêro Simoins pêra Lisboa a vinte sete de
dezembro noventa e cinco.
It. outro masso de cartas que vieram na caravel-
la do cravo de Lisboa o primeiro de janeiro de
noventa e seis.
It. De braz Freire e outras pessoas seis cartas sol-
tas.
It. hum masso grande de cartas de minha mai e
irmans.
14
It. hum masso de cartas suas delia que mandou a
machiquo.
It. hum masso de cartas das freiras de portalegre.
It. hum masso de António de Mello Valle dupar.
It. hum masso grande de cartas e copias q escrevi
a el-rei e ao conde de portalegre.
It. Três pedassos de pao da cobra e hum bahul
de chorumella e hua verruma.
It. hua pedra de moer mezinhas e um coquinho
por alimpar e dous alambeis dacoxellas de olan-
da vermelha bons pcra a touqua.
It. hum masso de cartas e papeis de malluco q rre-
levam e tem no principio a procurasam do go-
uernador.
It. hum masso de cartas q dareis e outro masso de
cartas e papeis que não tem de fora escrito.
It. masso de cartas das letras que mandei de dr.**
a Fernão Giz da camará da fazenda q vendeu
aos padres na ilha da madeira.
It. papeis soltos sem sobrescripto.
It. hum masso de papeis que rrellevam.
It. hum masso de papeis que rrelevam acerca das
diíferensas que tive com o toito de Duarte Perei-
ra em malluco.
It. papeis que rrelevam do rrequerimento que tive
na fazenda d'elrrei pedinJo o pagamento do dr."
que me elrrei deve.
it. massos de cartas de iMalaca e certidões de ami-
gos e contas do alfaiate e de braz freire e outros.
Listra dos soldados do galeão rreis magos em
q foram uns estromentos de meos seruiços.
It. de malluco de mil quinhentos noventa e seis
um masso grande.
It. outros muitos papeis que não pude descrever q
podem rrelevar muito.
It. hum masso de papeis do traidor alferes Cle-
mente.
i5
It. hum masso de cartas do trigo de Lanssarote.
It. hum masso de cartas de Jeronvmo dahneida de
iMadrid q tractam dos chorumellas que rrelevam
de Esteva m da guama.
It. ametade dos massos de cartas e papeis de mal-
luco que estavão no sacco. Vão na gaueta q le-
ua a agulha de marear, ao rredor delia e por
cima delles e da agulha vão muitos papeis e car-
tas da ilha da madeira que podem rrelevar.
It. hum cobertor de cochonilha uermelha com seus
ourcllos sem nenhua guarnissão e não vai mais
q um só. E se se achar neste rrol outro é o mes-
mo.
It. onze chaves que dei a duarte de mello.
Convém a saber : Duas do cofre grande de Flan-
des e hua do caixão de angelim em q vão as ca-
deiras e oito das gauetas da guarda rroupa^oje vin-
te cinco de setembro de noventa e nove.
Em hum dos barris, digo quartos, vae o se-
guitc :
It. hum cesto com um globo celeste,
It. o liurinho de olenisto de medições em pasta
vermelha.
It. o livrinho de discuções militares de manleor de
lange, pasta verde.
It. Dois liurinhos de oclides de geometria, hum em
purgaminho e outro em pasta. -'
It. hum liurinho Jerónimo Catanho de fortefica-
çoens em pasta vermelha.
It. outro liurinho Leão bautista albcrto dartetetura
ciuil em pasta vermelha.
It. Cissoro livro segundo em pasta preta piqueno.
It. oracio em pasta preta piqueno.
It. Joannes rrauisse em pasta preta.
It. Epistollas familliares em pasta preta de dom
ant.^ de gauara.
It, livro de los comentários do Caio Júlio Ccsar
cm pasta preta.
i6
It. graveestiama de Sermoins em purgaminho bran-
quo.
It. discarso de pregadores cm purgaminho branco.
It. pregaçoens do mesmo Frame em purgaminho
branco.
It. di-scurssos do rameto em purgaminho branquo. ^
It. outro segundo do mesmo em purgaminho bran-
co.
It. rrecordo de bem morir em pergaminho branco.
It. de muitas valorosas donnas em purguaminho
branco.
It. lembranças pcra bem morir em purguaminho
branco.
It. da rrepublica dos venezianos em purguaminho
branquo.
It. cartas messageiras em purguaminho branco.
It. manual do contaderem em purguaminho branco.
It. jardim espiritual em purguaminho branco.
It. Sonetos de petrarca em purguaminho branco.
It. triumphos em pasta preta.
It. Cissero livro tersseiro em pasta vermelha e pre-
ta q sam dous.
It. livro da terra Santa em purguaminho branco.
It outro discurso de pregadores em purguaminho
branco.
It. segunda parte de la auracana em purguaminho
branco.
It. livro das quatro regras da arismelica a primera
parte de maia em purguaminho branco.
It. a doutrina christaam em purguaminho branco.
It. dous relógios e hu agulhão de marfim.
It. Sonetos de petrarca em purgaminho branco.
It. reportório em purgaminho branco.
It. ho rosário da virgem nossa síiora em purgami-
nho branco.
Ir. regras de melicia do capitão F.'° Cretileancona
em purgaminho branco.
t. livro da regra da hordem de Xpõ em purgua-
minho branco.
t. livro dos outo maiores emperadores lurquos em
purguaminho escrito e sujo.
t. tratado dos esquadroensem pLirguaminho bran-
co.
t. tratado da matamatica de cantaneo em pur-
guaminho branco.
t. livro em ingres da naveguassão em purguami-
nho sujo.
t. vida e martírio de Sanctiago em purguaminho
escrito.
Todos ateequi vão dentro no globo celleste.
t. arquetetura millitar de, pêro catanho em pasta
tamarada.
t. tratado da esfera em purguaminho branco do
doutor pêro nunes.
t. rregimenlo da mellicia de bernardino rroqua
purguaminho branco.
t. hum livro de pinturas em purguaminho bran-
co.
t. rreformassam da justa ê purguaminho escrito.
t. Jerónimo catanho ê pasta vermelha sem coor.
t. has duas regras de prespetiua dom leauroro em
pasta vermelha.
t. empresas mellitares em purguaminho branco.
t. instetuiçoens canónicas em purguaminho bran-
co.
t. nauegassam e compendio da esfera de martim
cortes pasta vermelha.
t. outro livro de rregimento da hordem de Xpõ
em pasta preta.
t. vagapullairo de toscano hee italiano em pur-
guaminho branco.
t. hum livro de pinturas em pasta preta.
t. historia imperial cezarea em purguaminho bran-
co.
3
i8
It. o livro que novamente fez hum flamengo da
Índia horiental em pasta branca.
It. hum livro de caixa branco em pasta vermelha.
It. hum livro francez de cavallaria em pasta bran-
ca ; e vai no outro globo, c dentro nelle.
It. hila resma de papel muito fino de flandes bran-
co.
It. teórica de irertudes em coplas de f."" de Casti-
lho purguaminho sujo.
It. ho primeiro livro das ordenaçoens portuguesas
em pasta.
It. teatrum obris de abrahão ortelio em castelhano
em pasta branca.
It. de rroteiros flamengos de todas as costas da Eu-
roupa, muito curioso em pasta branca.
It. hum livro de trovas.
It. outro livro de trovas e cousas de maluquo.
It. avisos pêra soldado.
It. o rrosario de nossa senhora.
It. quatro livrinhos brancos em q tenho alguas
lembranças da Madeira, e estes assima também
vão no sesto do globo celleste.
No outro quarto vai ho outro globo celleste den-
tro e fora delle do cesto vai o seguinte:
It. hum livro de cidades em pasta vermelha.
It. outro livro de cidades em pasta vermelha.
If. hum estrelabio de metal francês.
It. hua caixa de pao com três compassos.
It. hum quadrante de cobre e três toalhas de bei-
tilha e dous vidros despelho do sol e hum ca-
nudo de bambo.
It. hum compasso de latão.
It. livro de artetura de sebastião celi em purgua-
minho branco.
It. três oliveis com seus prumos e húa ballestilha
e dous rrotos e muitas penas de pauão.
It. duas cartas de marear hua hee do maar do sul
do mexiqOj as malucas mexiqua.
^9
It. dentro n'este quarto vão as mais das cartas de
maluco das comendas.
It. hua caldeira para beberem hos caualos^ de fer-
ro, ou cobre.
It. hum quarto com seu fecho em 4 vai o biscou-
to e cadeado.
Hum caixão muito comprido.
It. em que vai o meu leito e alguas pessas do lei-
to de duarte de mello, e leua quatro cocos c ar-
peas dos caualos c vai marcado com ha minha
marca como vão todos os demais que hee a de
fora.
It. houtro caixão comprido mais piqueno em q vai
outro leito mais piqueno de duarte de mello
com a mesma marca.
As cartas q escreui por duarte de mello.
It. ao padre ant." madeira, diogo das pouoas, a
elrrei, a joam da costa, ao conde de portalegre, a
dona guiomar pereira, ao padre frei nicullao
coelho, ao capitão garcia mousinho, ao arcebis-
po, ao conde meirinho moor, ao conde de San-
cta cruz, a miguei de moura, a diogo velho Se-
cretario, a cristouam soares secretario.
No cofre de flandes:
It. seis paneis de óleo a saber são Jerónimo, a es-
peranssa, a fortalesa e três obras da misericór-
dia, daar de comer a quem haa fome, vestir ho
nun, remir os captiuos.
It. painéis de fresco a esperanssa, a charidade,
odoratus.
It. três mapas hua de todo ho mundo, outra de
europa, outra da cidade de Jerusalém.
It. três pratos couos grandes das fontes e hua fon-
te tudo destanho de flandes com suas duas es-
capulias de ferro.
It. três pratos mais couos destanho mais piquenos
de fontes.
èa
It. hum guinde destanhò'a cara flamengo.
It. vinte hum pratos piquenos couos de serviço
também couos.
It. has cortinas velhas de sarja uerde do meu ca-
tre dô bauh
It. duas rodellas de dargoes rodomadas.
It. vinte couados de baeta vermelha. • •
It. vinte seis couados' de frizà azul pêra dona guib-
rrfar çom hà's sésserfta è seis pares de pelles de
coelho.- -• • ^ "'' ■■"'•■' ' ' • '- '"
Vão* em .hua gaiíeba ' picífiTena -da; ■gliardárrou'pa.
It. hua pessa de sarja preta. ■' ' "
It. outo couados de bezuarte amarello.
It. a minha maqua que trouxe do peru.
It. dous atados de rretalhos pretos e uerdes e de
bocassim.
It. três rretalhos de baeta e de paninho do uestido
preto é ;panno vermelho bezufirte fudo cousa
pòííqúáV "■••'-•" '' /*^ ■
It. a minha alabardh dobradissa cónl sua funda.
It.-a mirttíhfo^qliiíha coilí sua bTsarríia dentro dou-
rada.' - • • ■ • . í i. V
It. hum plumo de chumbo e hua furidarezà de li-
nho.
It. dezouto couados de rraxa rroxa pêra donna
guiomar.
It. trinta e seis varas em hua pessa de pano de li-
nho crua digo trinta -e seis,
It. trinta* e*'seis varas rhai-s em outra pessa de pa-
no de linho crua.
It. "hilá^tòálhácíe òlartdá das que ti-ouxè de rasa,
vai stija que seruia. . . w j, . ; .. - .,
It. âuks" á^lilá^ 'de uerga'^de sèstò e hum chapeo
- 'dá mestria' vérg^. -• - ' • -
It. quatro cestos mais de vergúa tudo' carrèquita
janda. - • '. í; . . '
It. hua forma de pao do meu pee que trouxe de
maluquo.
2\
Rrealeigo:
lí. o peso dos folies do orguão de chumbo e dous
ferros de parafuso com sua chave também de
parafuso com que se arma. Vai dentro no x:ofre
de flcjndes emsima de tudo.
It. a funda do rrealeigo de encerado com seus ala-
mares brancos' e forradí) pòr dentro -d* bada
uerde também. vai nol cofre de'flãdes: . \
It. hos três rrabos de pauáo com que -sacodem ho
poo dos painéis e livros, j . * . ..
no caixão» de angelim da índia grande :
II. a minha cadeira de varandas com todas suas
cortinas e encerados forradas de baeta verde e
alamares de linhas brancas e correas q se daraa
aò padre frei christovão. • . .
It. hua trepéssa ' destrado kgiíi' 'duas- -gaiietas e
chauô. • ' '.
It. btra 'Cadeira Vrasa de duarte de m^lio de uellli-
do rroxo guardeme o uclludo coberto com hum
trapo digo guarnecida com' cravassão do prafa.
It. dous ue41adores piquenos de pao .branco. . I
It. hum vellador de pao grande. .• » -1>
II. duas serrapilheiras com que vai cuberta a- ca-
deira de uelludo e outra debaixo delia. . !
It. os paos dos pees do cofre de frades.
It. três folhas de papel assinei em -branco que dei
a duarte de mello pêra em Lisboa escreuer nel-
las por -mim a elrnei, ou aos gouernadores, ou
ao falcão no que tocar a minha ida e rreqiieri-
mentos de^m^us seruiços.
It. hua bocceta com dous guardanapos nouos. e ho
meu bemtinho vèlht) e hua" tòalha^ de linHo tia
china do maar do sul. . '
It. duas pdles d-e ueados aguanTaussç\daS'de piíe-
to. ^ •
It. hua pessa de fuslao. !-'•...
It.'doUs chapcQs no«os da charrua. - . • »
22
t. ho barrete de Jorge marlins.
t. a carapussa de doo q fiz por elrrei.
t, hua pelle de forrar meãs atamarada.
t. a petrina de couro preto com fiuellas de prata.
t. o sinto com seus talabartes de couro preto e a
ferragem de prata,
t. hum rretalho de panno verdoso.
t. guaheiras duas de ceda muito velhas e hua de
raxa noua muito boa.
t. hum livrinho e três rrosairos não inteiros de
contas de carrascos de fruita do peru e hua
vnha de besta,
t. cartas em hum masso "] dei de Joanna luis e
paio rroiz.
t. outro masso que diz da terceira sentenssa da
rrellassam do juiz dos feitos delrrei e muitas
cartas soltas amarradas a estes dous massos.
t. dous massos mais de cartas de galeão são Si-
mão,
t. hum masso de donna guiomar.
t. dous de cartas desteuão da gama e do almeida
de credito.
na guardaiToupa :
t. quarenta e duas varas de guardanapos cru
atoalhados de couado de largo,
t. trese varas de pano branco rruão em hum pe-
dasso.
t. vinte seis varas de pano branco rruão noutro
pedasso.
t. sete varas e terssa de panno cruu pêra giboens
muito largo,
t. doze varas de guardanapos curados atoalhados
de largura de dous palmos,
t. quatro varas e dous couados e meo de baeta
uerde.
t. dous couados de pano verde crjze.
t. hua pessa de catassol rroxa digo de rraxeta.
23
It. sete couados e meo de sarja uerde.
lí. hua pessa de catasol preto.
It. onze pares de meãs de laa de cores num atado.
It. onze pares de meãs noutro atado.
It. outo pelles de gamoussa e hum atado de mui-
tos pedassos.
It. huns calçoens e rroupeta de pano de malluco.
It. huns calçoens de velkido laurado preto abotoa-
dos.
It. hua rroupeta de galla preta.
It. outra rroupeta de galla de maluco.
It. huns calçoens de galla irmaons da rroupeta as-
sima.
It. hum gibão de olanda amarella com mangas de
couro usado.
It. hum gibão de olanda branca com huas man-
gas picadas e forradas de dentro.
It. hua rroupeta de gorgorão irmãa da capa da
rraxeta.
It. hum gibão de olanda branca com mangas de
tiistana preta.
It. huns calções de rroxa preta digo de rraxa
parda.
It. hua rroupeta de velIuJo laurado preto forrada
de tristana.
It. huns calçoens do mesmo velludo laurado pre-
to tudo velho.
It. hua rroupeta de rraxa preta entrapada forrada.
It. ho guião das minhas armas e a bocca da cha-
ramella rretorcida de latão e a mangua de uel-
ludo da piqua.
It. hum bastão dastea de lanssa e hua vara de
medidas.
It.-hua coura com suas meãs mangas de couro
branco de ueado guarnecida de passamane de
ouro com suas ataquas de cordoens de rretroz
pardo c agulhetas de prata.
24
It. huns calçocns de gamaussa brãca guarnecidos
de passamanes douro.
It, hua mantilha de gala preta forrada toda de vel-
ludo laurado preto irmaons dos calçoens e coa-
ra assima dita.
It. huns retalhos dantas.
It. hua capa de baeta e hua rroupeta jaa vsada.
It. hum farregoulo de gorgorão que trouxe de Lis-
boa.
It. hua capa preta de rraxeta entrapada irmãa da
rroupeta atraz.
It. hua capa de gala preta de que tenho também
rroupeta.
It. huns borseguins velhos e bem velhos.
It. hua espada guarnecida de branquo dourada
com seus sintos e adaga.
It. hua espada e adagua guarnecida de preto com
seus sintos.
It. hua tauoa da hordem que pus da guerra.
It. duas tauoas de cartas de marear.
It. ho capus e a rroupeta de doo q fiz por elrrei.
It. hua carta de marear de navegassão da india
oriental com duas ballcstilhas dentro.
It. Sinco pedassos grandes e piquenos desgorrna-
ruquo e hum.
It. hua rresma de papel m.'' fino de fiãdes.
It. as ordenaçoens de castella em tauoas pardas em
vso muito grande.
It. as ordenaçoens de portugal em purguaminho
branco nos quartos vai tudo.
It. hum pedasso de olanda.
Fim
GABRIEL PEREIRA
Esláo publicados :
i.° O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia.-— 4." Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5.° Bibliotheca Publica. Noticias das
'collecçõe§. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7.° Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — S." e q."
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1° A egrèja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada.^ — 12." O aVchi-
vo municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.°, 15." e 16."
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — 1 7.» Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.°, 19.°, 20." e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1 729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental.—
26.° Antiguidades romanas em Évora e seu« arredores. — 27."
Roteiro d'um eborense. — 28.** Universidade de Évora. — 29."
As caçadas, i.^ parte. — Évora e o ultramar, 2.^ parte.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'Evofa
Estão publicados :
i.» PARTE- — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XlIIe XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João i.°. Etc.
I vol. de 202 pag. in-4.<' — i^&Soo réis.
\
2.* PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
I vol. de 282 pag. in-4.° — 2^200 réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J.
F. Pereira Abranches^ praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
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JilSTOPJA— yA.PyTE— ^P^CHEOLOGIA
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os ESCRIPTORES ÁRABES DE ENTRE TEJO K GUADIANA
O POETA EBORENSE.
ÉVORA
-M.IlsrEFtV.V E T3 O II, P-INT SE
OE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressob d* caía real
62 — Rua Ancila — O \
1893
GABRIEL PEREIRA
ESTUDOS EBORENSES
j^ISTOr^IA— ^í\TE-^F^CHEOLOGIA
IBISr--A.B3DTJlsr
os ESCRIPTORES ÁRABES DE ENTRE TEJO E GUADIANA
O POETA EBORENSE.
ÉVORA
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, ihprcsbor o* casa ncal
62 — Rua Ancha — 64
1893
ESTUDOS EBORENSES
Ibn-Abdun
Na sua maior extensão a Arábia é um paiz de
largos horisontes, de panoramas vastos c simples.
A população tem um viver singelo também; na
alma popular, como na paizagem, ha sobriedade
e grandeza. O árabe, o camelo, o cavallo, a vasta
campina, os grupos de esguias palmeiras, o céo
azul e ardente, rubro nas auroras e nos occasos,
as noites tépidas, afinam mutuamente n'aquelle
paiz. Pelas charnecas do Yémen ha plantas de ex-
traordinário aroma ! Como o clima é tépido, o ára-
be, o simples árabe, dispensou a architectura ; bas-
ta-lhe a tenda; a vida pastoril c ali fácil e doce;
pelas manhans, pelas auroras, as caravanas pas-
sam morosamente; á noite em redor da tenda fal-
la-se,falla-se em casos maravilhosos; todos cantam;
as raparigas de olhos negros, carnes douradas,
dentes mui alvos, dançam.
E o rylhmo na dança, na poesia, na cantilena
ficou simples também. O irmão do árabe, o semi-
ta da Judéa, chegou ao prodígio Job, á Sulamite
encantadora, á Ruth sublime, ao drama ; e na so-
ciedade moderna, contemporânea, conserva o lo-
gar brilhantíssimo na musica, no theatro e na lit-
teratura. O semita árabe continua a sua kassidah,
acompanhada pelo som dos instrumentos de corda.
Nem se percebe que a cantilena do árabe atra-
vessando a larga planura no camelo, em movi-
mento de berço, pudesse ser outra; é invariável
como o céo, inconfundível como a palmeira.
Ha enorme quantidade de poesias árabes; as
mais antigas são tradicionalmente attribuidas a
chefes e heroes do Yémen ; ha poemas vigorosos e
de extremo cultismo anteriores de dois séculos, pe-
lo menos, a Mahomet. Não se sabe a data appro-
ximada de taes poemas; sabemos sim que no co-
meço do século v já existiam muitos, variados no
metro, para o sério e para o jocoso; canções de
amor e cânticos^ guerreiros, descripções, preceitos,
fabulas, elegias e satyras.
Todos os annos nos tempos primitivos, por oc-
casião das festas de Okad, reuniam-se os melho-
res poetas para recitar as suas composições; eram
uns grandes jogos íloraes; havia delírio de enthu-
siasmo e recompensas principescas. A satyra, a
elegia festejada cantava-se um mez depois em to-
das as caravanas, em todas as tendas. Por uma
kassidah, uma simples ode, um poeta recebeu uma
vez cem camellos. As peças applaudídas eram es-
criptas e expostas ao publico na Kasbeh, o logar
de mais freauencia, para que todos as lessem e
decorassem.
Sete d'estas peças escolhidas, modelos da poe-
sia árabe, chamam-se Muallakat, que quer dizer
suspensas, penduradas, alludíndo á forma da ex-
posição.
A satyra e a fabula foram muito cultivadas pe-
los árabes, é porem na elegia, terna, de profunda
melancolia, que elles são mais eminentes.
O tom melancólico, dolente de algumas canções
nossas, principalmente do sul do paiz, parece con-
servar reminiscências árabes.
Tiveram épocas fecundas; na corte de Damas-
co, no tempo dos Ommaidas, houve uma série de
magniíicos poetas: Omar-ibn-Rabiyah, Jamil-ben-
Adhrah, Jarir e Farazdak, estes dois últimos de
Tamlcen ; e o negro Noseieb, insignes nas canções
de amor, na satyra, na poesia descriptiva; e ao
lado d'estes uma nuvem de celebridades menores.
Mais tarde augmentando os meios, crescendo a
influencia, a poesia árabe sem perder o cunho es-
pecial deixou todavia a genialidade primeira; an-
gariou elementos gregos e persas, e surgiu então
uma nova escola, menos simples, mais imaginosa,
profunda e philosophica. E' a época do celebre
Thesouro áureo e da Hamara^ o famoso cancionei-
ro compilado por Abu-Teman. A estesuccede Mu-
tenebhe, e, já no século xi, Toghrai e Ibn-Faridh.
Bem se manifesta que os árabes constituiram
uma formação poética, uma escola, própria, cara-
cterística e opulenta.
Não confundamos porem jamais em questões
litterarias, os árabes puros, do Yémen, com os do
Maghreb ou da península hispânica; n'este ponto
a questão é mais complexa; os mesmos árabes do
oriente censuram os occidentaes, os hispano-arabes,
tratando-os como poetas de mau gosto, e imitado-
res ordinários. Opinião injusta ante a critica im-
parcial, como se provou entre os próprios árabes.
O arabe-hispano é um typo bem raro na hu-
manidade : não é o gothico, o germânico lançado,
antigamente, de súbito no meio latino; nem o in-
glez na sociedade brahmanica, nos tempos moder-
nos.
o árabe culto e conquistador, iníelligente e al-
truísta admittia facilmente as outras raças, não era
um egoista, nem o podia ser. Os árabes que en-
traram na península eram poucos, e esses ficaram
maravilhados do clima, dos rios, das violáceas mon-
tanhas, das amenas veigas, dos bellos portos maríti-
mos. Era singularmente sociável o hispano árabe ;
fallava com todos, ouvia o parecer das gentes, nunca
perdeu o habito das francas e animadas conversas
da tenda de campanha, mesmo quando possuiu o
palácio com as suas arcadas rendilhadas, a fonte
de mármore no meio da quadra sussurando bran-
damente ante os reflexos metallicos dos azulejos
lavrados.
Para a arte, para a sciencia, chamou o grego, o
românico, o bysantino; para o harém veio a gen-
til de Corintho, e na guerra não duvidava em ter
a seu lado o homem de armas de raça e crença
alheia.
Na poesia cantava a natureza, o amor, os pen-
samentos moraes; descrevia o mar, as estrellas, o
firmamento; os planetas, a rosa e o lyrio, e a vio-
leta; a laranja, a roman^fructo de Granada, que
tanta influencia teve na arte peninsular, a cereja e
o cacho de uvas; o cão de caça, o cavallo, o gál-
io; os banhos frescos, e os amenos jardins, sem es-
quecer a meiga, embalante íjoria.
Principalmente o hispano-arabe ama o dito, o
episodio nítido e vivaz, o pensamento fino e deli-
cado.
Quando passaram as crises da invasão árabe na
península, os episódios épicos de Rodrigo, de Ta-
rik e Musa, serenados os espíritos, o poeta agareno
sentio o enlevo d'este clima e d'esta terra privile-
giada, das bellas noites de luar, do grande mar
azul, dos frescos e amenos rios, das serranias ves-
tidas de mattas virentes, os cimos franjados de ne-
ve, das gandaras atapetadas de matagaes aromá-
ticos.
Era um enlevo !
EUes, os poetas árabes, comparam as terras pe-
ninsulares á Syria pelo ar, ao Yémen pela tempe-
ratura, á índia pelos perfumes, ao Ahw^az pela
opulência, á China nas pedras preciosas e nos mc-
taes; e comparam o povo ao de Adem pela hospi*
talidade!
Abd-al-uahad, poeta, instrumentista, composi-
tor musical, exaltou o clima peninsular. A musica I
a poesia 1 as duas cristallisações da alma árabe!
Ainda hoje a musica, a poesia constituem as
manifestações artísticas do portuguez meridional;
elle não cura do ornato, da jóia, da cor garrida,
nem a dança agitada e voluptuosa, tem a larga
melopéa, e ama na palavra o doce rythmo; o pas-
tor isolado com o seu rebanho no matto da serra
ou da charneca enche os seus repousos com a
flauta rudimentar, e sabe de cór quadras e deci-
mas, satyras e elegias.
Entre os árabes Sevilha foi a grande musical,
e Córdova a erudita.
No dialogo celebre de Ibn-Rachol (Averroés)
com Ibn-Zohr (Avenzoar), o primeiro diz ao se-
gundo: — o que eu tenho a dizer-te é que se um .
sábio morre em Sevilha, vão vender os seus livros
a Córdova; e se um musico morre em Córdova,
ninguém duvida, mandam os seus instrumentos
musicaes para Sevilha. —
As sciencias e a litteratura foram muito cultiva-
das pelos arabes-hispanicos, que demais mui fa-
cilmente emprehendiam longas viagens; a viagem
é, e será sempre, fecunda origem de conhecimen-
tos; antigamente, muito mais que hoje, era tam-
bém fonte de altruísmo; hoje o rápido^ os txpres-
€
8
SOS não dão tempo a formar sciencia ; dão as im-
pressões fugitivas na carreira a vapor, não deixam
tirar a moralidade ao contacto eventual das clas-
ses sociaes ; e não conhecendo não se cria amor.
Os rapazes árabes viajavam para saber; de To-
ledo, de Córdova, de Évora iam passar alguns
annos nos institutos fundados pelos kalifas, nos fo-
cos intellectuaes, do mundo oriental, nas acade-
mias de Bagdad, Damasco, Cairo.
Os emires ommaydas fundaram uma grande es-
cola em Córdova, onde se professavam a theolo-
gia, o direito, a philosophia, a rhetorica e o ensi-
no da lingua. E todavia o moço hispano-arabe
continuou a ir ao oriente ; era quasi um culto, uma
tradição e uma saudade, era a homenagem á pá-
tria dos avós.
Al-Makkari apresenta mais de Soo biographias
d'estes viajantes que iam a Alexandria, ao Cairo,
a Damietta, Bagdad, Damasco, Alepo, Jerusalém,
á Mekka, a Medina, a Ispahan, até a Samarkand !
Mais ainda para se instruirem, viajando, vendo
povos, climas, regiões diversas, não a procurar es-
colas, alguns árabes peninsulares, de nomes que fica-
ram na historia, fizeram viagens ao Soudão, á ín-
dia, á China.
Não devemos por isto admirar-nos dos alma-
gnirin que da Alfama de Lisboa foram viajar pe-
lo Atlântico fora; e seguramente não seria raro ou-
vir no território portuguez contar das dilatadas
jornadas do Oriente.
Especialmente á Mecca ia muita gente para os
estudos de jurisprudência, de historia, poesia, tra-
dições propheticas, e mais principalmente para ou-
vir o alcorão.
Estes viajantes eram legistas, coranistas, cadis
e muftis, soufis e ascetas, grammaticos, médicos,
naturalistas, mathematicos.
Entre estes viageiros alguns houve que mere-
cem muito reparo.
Por exemplo, Yahya-ibn-al-Hakam, al-Ghszal,
poeta de Jaen, que falleceu no anno 864. Este ho-
mem foi na quahdade de embaixador ao paiz dos
Normandos.
Sabem-se geralmente as invasões, as correrias
dos septentrionaes pelo littoral hispânico, mas es-
ta viagem diplomática revela outras relações entre
hispano-arabes e as gentes do norte. Mas al-Gha-
zal fez ainda outra viagem, ao Irak, e a propósito
d'esta jornada conta- se uma anedocta que merece
attenção.
.Al-Ghazal chegou ao Irak pouco tempo depois
do fallecimento do grande poeta Abou-Nowas : e
achando-se um dia em grande assembléa litteraria,
os orientaes mostraram desdém pelos poetas de
Hespanha.
Al-Ghazal não respondeu; e aproveitando de-
pois a conversa, fallou com muito elogio de Abou-
Nowas, e declamou alguns versos, que lhe attri-
buiu; a assembléa applaudiu os versos, e elle de
súbito exclamou : — Moderae os vossos applausos,
estes versos foram feitos por mim !
Cito ainda outro viajante celebre para mostrar
as relações em plena idade media de arabes-hes-
panhoes com os orientaes.
O medico Mohammad-ibn-Abdun, de Córdova,
foi para o Oriente em 938 e voltou a Hespanha
em 970. Este medico, entre outras posições offi-
ciaes, esteve superior no hospital do Cairo. E' au-
tor de varias obras, e, dizem, escreveu sobre li-
thotricia.
Outro: Ibn-Z )hr, também medico, estudou em
Bagdad, e no Cairo.
As viagens, sempre boas fontes de instrucção,
vinham completar a erudição, a cultura escolar,
2 XST. IB.
IO
já muito desenvolvida n'esta época em Toledo,
Córdova, e Sevilha.
No tempo de Al-Hakam (961-976) a bibliothe-
ca de Cordcva tinha um catalogo dos seus livros,
que enchia 44 volumes. Resta saber que volumes
eram estes, mas é certo que era celebrada pela sua
opulência entre os eruditos do tempo.
Outro ponto ha que manifesta bem as muitas
relações dos árabes hespanhoes com o oriente; é
nas obras d'arte. Por exemplo falla-se do mármo-
re que vinha de Carthago; de um architecto que
veio de Alexandria, etc.
Em 986, Ahmed o grego, note-se, tfouxe de
Constantinopla uma grande piscina esculpida e
dourada, e outra mais pequena ornada de figuras
humanas (talvez bysantina).
Será bom mencionar aqui a pia baptismal da
egreja de Sacavém, a que andam ligadas tradic-
ções mouriscas, a meu vêr com bons fundamentos.
Ao percorrer as poesias dos arabes-hispanicos,
dos bellos espíritos do al-Gharb ou do Andaluz,
parece escutar-se um decadista, em phase de finas
combinações de ideias, de sons, de ridmicas sub-
tilezas. Elles cantam os suspiros da ausência, os
vagos voos das pombas, os hálitos almiscarados,
os dentes de pérolas. São os poetas das morosas,
dolentes canções. Mas estes homens viam frequen-
tes tragedias : como os portuguezes de Ceuta e
Mazagáo entremeavam as refregas com os doces
saráos.
Eram guerreiros e trovadores.
No começo do sec. XI, em 1009, rebenta uma
grande revolução em Córdova ; quebra-se a uni-
dade do dominio, e surgem os pequenos soberanos,
os chefes das taifas, at-Tauaif.
São os Bemi-Abbad^ em Sevilha ; os 'Benu-al-
Aftas, em Badajoz; os ^emi-dhi-an-noun, em To-
«
>
1 1
ledo; os ^enu-abi-Amir^ em Valência; os Benii-
Hiid, em Saragoça ; os Modjahid-al-Amiri em De-
nia e Baleares.
Pois segundo parece iodos estes chefes de re-
volta eram espíritos cultos, dedicados ás lettras,
ás sciencias, procurando rodear-se de sábios e de
poetas. Entre os próprios principes al-Aftas se
mencionam duas notabilidades, al-Mozhaffar e al-
Motevakkil.
Nas palacianas quadras frescas de gentis arca-
das, lavradas de caprichos e esmaltadas de azu-
lejos, a meio o elegante repucho susurrando entre
roseiras e alfazemas, sobre as esteiras de palma
e os macios tapetes de lan vivamente coloridos,
conversava-se amenamente em giupos em volta
do califa, do vali, ou do vizir.
Quantas poesias desabrochavam n'essas viven-
das de fadas! improvisavam sobre os espectácu-
los da natureza, o occaso, o luar, a tempestade,
a flor, a abelha, travando-se muitas vezes o dialo-
go rimado, forma fre.juente entre os arabes-hispa-
nicos.
Ibn-al-Cid, Ibn-Ammar, Ibn-Wahbun, recitam
os seus versos, alegres companheiros, n'essas ho-
ras de culto recreio.
— Que feliz tempo! exclama um, sob o formo-
so céo de Hespanha, para a sensitiva humana que
é o poeta !
— Caríssimo! diz outro, ha três cousas que não
merecem confiança, o mar, o sultão e o destino!
Descrevem também paizagem e casos maravi-
lhosos, por exemplo, o dos thesouros que Tarik
achou em Toledo.
O culiismo árabe era ainda bem animado pelas
repetidas viagens dos orientaes; magistrados e mi-
litares vinham á península ; viajantes com o único
fim de ver e estudar vinham de Damasco e de Ale-
xandria até Córdova e Toledo.
"W
12
A terra hispânica linha enorme fama de belleza
e opulência no Oriente.
Um dia perguntaram a As-Sarakhsi (sec. 12):
— Como achas o paiz? é inferior ao teu?
— Este paizé admirável! solhe vejo um defeito.
— E qual?
* — Faz esquecer a pátria.
Os marroquinos tinham grande inveja dos ára-
bes peninsulares ; por que os do Yémen diziam
que o Magreb (Marrocos) era apenas um paiz de
passagem; sem a Hespanha nada valeria.
Um viajante illustre que tinha percorrido a Sy-
ria e o Egypto, chegou a Sevilha. Elle comparou
a brilhante cidade a uma noiva, coroada pelo Axa-
rafe, e tendo o rio Guadalquivir em collar.
— Já viste paiz mais bello?
— Não; o Axarafe é uma floresta sem lião; e o
Guadalquivir um Nilo sem crocodilos.
— Oh! meu Deus! exclama outro poeta, de tu-
• do que ha bom no Paraizo eu só desejo o vinho
de Málaga, e as uvas passadas de Sevilha!
Gostavam muito do dito prompto, conciso.
O califa a um poeta :
— Como te achas commigo?
— Acima do meu valor, inferior ao teu.
Houve poetisas também em Hespanha. Om-al-
kiram foi celebre pelos seus versos e pela singular
belleza.
Hafçah, outra poetisa, bella, rica, nobre, e ro-
deada de trágicos amores.
Itimad-ar-Romaikiyah, Al-Bothainah, Miriem e
Nazhoun, de Granada, todas poetisas e musicas,
cujos nomes ficaram na historia.
Eu peço ao leitor benevolência para estas di-
gressões. Creio que ellas são indispensáveis pa-
i3
ra a apresentação do grande poeta arabe-eborense.
Se ha em Portugal tão pouco escripto e conhe-
cido d'esses sarracenos que dominaram no sul da
península, no Alemtejo, para mais de seis séculos!
Vencida a monarchia una ergueram se os thro-
nos, os waliados diíferentes; esses reis ou walis
eram aristocratas; na posição social e militar, ena
vida intima.
O godo não era bem assim, era mais rude, mais
isolado; o árabe chefe era em tudo, em todos os
elementos sociaes, um superior. Tinha a inconfun-
divel educação da tenda de campanha; o contac-
to immediato do chefe tolerante com as diversas
camadas e individuos.
Os historiadores chamam-lhes aristocratas; eram
chefes, e eram também sábios e poetas; espiritos
de tendências taes não podem viver isolados, es-
pecialmente quando teem o poder.
O emir, o wali^ o califa^ procinava ter na sua
côrtc o homem de talento, a meaico, o astrólogo,
o chimico ou alchimista, o muisico, o poeta.
Ora o poeta eborense foi mui distincto entre os
notáveis nas cortes de Badajoz e em Sevilha.
Abou-Mohammed-dAbdo-il-niadjir-ibn-Z^bdollah-
ibn-QÂbdoun-al-Jehvi, nasceu em Évora, cidade
que pertencia aos al-Aftas (ou Aítasidas), principes
de Badajoz; elle revelou desde a mocidade gran-
de talento para a poesia.
Ciirsou estudos, ou antes cultivou as suas feli-
zes disposições sob mestras afamados, como eram
então os celebres grammaticos al-Alam, Abu-il-
Hadjadj Yusof ibn Soleiman-ibn-Yusof-ibn-Jsá de
Santa Maria, conhecido por al-Alam^ que viveu
de 410 da hégira até 476 (1019-1083) ; e Abu-
Becr-Acim-ibn Aiyoub, de Badajoz, autor de um
commentario sobre as sessões de al-Hariri.
Santa Maria, a naturalidade de al-Alam, é Fa-
ro, que em documentos antigos apparece também
Schantmaria, Hayrun, ou Harum ; ainJa hoje fica
bem perto de Faro o cabo de Santa Maria.
O príncipe aftasida Ornar al-Motauakil, gover-
nador de Ev^ora, notou o joven Ibn-Abdun, e quan-
do peia morte de seu irmão Jahya-ai-Manzor, foi
chamado ao ihrono de Badajoz, nomeou seu se-
cretario o poeta eborense.
Ibn-Abdun esteve n'este emprego até á queda
dos al-Aftas, ou Aftasidas (487 da hégira, 1094 da
nossa éra); então acceitou idêntico logar junto de
Sir-ibn-abi-Becr, chefe militar, general, almoravi-
de, que tinha conquistado Sevilha e Badajoz para
Yusof ibn-Téschifin.
E depois foi também secretario de Ah. filho e
successor de Yusof, que na época era senhor em
Hespanha e no norte de Africa.
Como se vê o poeta e secretario mudou com as
conquistas; como succedia em Roma, e como tan-
tas vezes succede hoje, sem todavia esmorecer na
sua arfe sublime.
Sentiu-se um dia fadigado de trabalhos e veio
a Évora passar algum tempo com a familia, e os
antigos amigos e companheiros; e morreu então,
na sua cidade natal, em 529 da hégira (i 1 34-35).
Trata-se pois de um eborense completo, com a
ventura de nascer e morrer na sua terra.
Abdun devia ser velho em i 134; e que extcaor-
dinarias cousas elle poderia contar, que aventuras
singulares, do seu tempo; e que elegias, que doces
e languidas cassídas^ de Évora, de Sevilha, elle
poetaria; que suaves canções de amor, que trage-
dias tristes !
Diz-se que tinha uma memoria prodigiosa; tes-
temunhas dignas de fé aííirmam que elle sábia de
cór todo o K^tabo-il-agam, que é um cancioneiro
i5
arabc, enorme collecção das tradições, das trovas,
e dos poemas dos antigos árabes.
Ainda ha pouco tempo (setembro, 1892), os de-
legados turcos vindos a Lisboa para o projectado
congresso dos Orienlalistas, me disseram, ao mos-
trar-lhe alguns exemplares do alcorão, manuscrip-
tos e impressos, que esse livro sagrado dos mus-
sulmanos se não perderia, embora ardessem ou se
sumissem todos os volumes, pois em Constantino-
pla, no Cairo, ou em Tehéran, e até em muitas
mesquitas isoladas, ha ulémas e softís qué o sa-
bem de cór, palavra a palavra, marcando todos
os assentos e pausas.
Parece que é um' exercício querido aos orien-
taes o decorar, uma prenda mui distincta o saber
recitar trechos e capítulos inteiros dos seus livros
superiores.
Ibn-Abdun tinha muitos conhecimentos históri-
cos e linguisticos. Escrevia fácil e elegantemente
cartas em prosa rimada; género de composição,
dizem os críticos especiaes, que exige noção per-
feita das delicadezas da linguagem.
Compoz um livro para defender Abu-Obed con-
tra as criticas de Ibn-Kotebah; mas julga-se per-
dida esta obra.
Poeta sempre hábil e elegante escreveu todavia
poucos poemas; flores suaves e mimosas que de-
sabrocho vam ao acaso.
Gosta de pintar o dolcefaníeute^ quando deita-
do na relva do valle, vê a aragem brincando com
o manto.
Descreve as horas de prazer, nas bellas noites
do sul, ouvindo o murmúrio das vagas, ou quan-
do o Guadalquivir se cobre de barcos, cheios de
alegres comp;mhias, e os olhos das formosas mou-
riscas hespanholas inflamam os corações juvenis.
Mas cm taes composições finas e elegantes sur-
i6
getn de súbito nobres sentimantos, resalta a ex-
pressão da nobre altivez árabe; ha toques origi-
naes a esmaltar os doces tons; e o artificio tam-
bém, ás vezes em exaggcro, especialmente nas
imagens trabalhadas, singulares.
Parece haver n*este espirito a inspiração de
João de Deus, combinada á de Campoamor.
Todavia não foram as breves poesias delicadas,
as peças lyricas ou galantes, que deram a Ibn-
Abdun a grande fama entre árabes ; foi a elegia
admirável, de arte e inspiração, sobre o final da
dyninastia dos Aftasidas, que o tornou celebre.
Mas outros escriptores árabes, naturaes de en-
tre Tejo e Guadiana, ficaram lembrados, e será
bom aprescntal-os desde já ; os seus nomes encon-
tram-se em volumes pouco accessiveis, e os nos-
sos litteratos e historiadores não teem cultivado
este ramo.
Casiri, na sua IMbliotheca arábico hispana escii-
rialensis. diz dos escriptores árabes naturaes da re-
gião lusitana : em alguns casos, em certos nomes
de logares pode haver duvidas; ha Beja em Por-
tugal e em Africa, e Alcântara e Alcácer repetem-
se bastante: ás vezes também o mesmo escriptor
árabe apparece com variantes de nome que podem
originar confusão.
Vou, seguindo a ordem de Casiri, indicar alguns
nomes.
Abdelmalek ben Badrun e ben Abdun Abi Mos-
hamad (t. i p. i5).
Abi Mohamad Abdelmagid, de Évora (65).
Abulcassem Khalaph (gS), em Santarém.
Abu Baker ben Sokon (96), e Abulwalid Ismail.
Abu Mohamad (97).
17
Abulcassem Abdelmalek (99).
Abu Abdallah (128).
No tomo 2.° p. 32 ao tratar de Alhasem ben
Dharar refere-se á distribuição das tropas árabes
na península. Com os árabes propriamente ditos
vieram turbas de outros asiáticos. Na continuação
do doiTiinio sarraceno outras forças foram impor-
tadas, de modo que no tempo de Dharar, na me-
tade meridional da península, estavam os damas-
cenos em Córdova, os egypcios com arabes-hispa-
nos em Lisboa, Beja e Tadmir; os palestinos em
Medina Sidónia e Algezíras; os persas em Huete;
os assyrios em Illiberi; os kinsaritas em Jaen.
Abu-Baker (2.°, 44) natural de ScJianabos in dic-
tione iirbis Silvis; talvez Schanabos seja uma for-
ma árabe de Ossonoba.
Ahmad ben Alhassain (5i).
Mohamad ben Omar.
Abdallah ben Moheb ; este era de Alcácer ben
Abi Danes, que é Alcácer do Sal (59).
Mohamad ben Mophadel, natural de Silves (yS).
Abdallah ben Mohamad (102).
Mohamad ben Obaid (124), de Santarém.
Abdallah ben Isa (128).
Abdelmalek ben Hescham (i32).
Abdelmalek ben Abdallah.
Abdalla ben Mohamad, de Beja(i37).
Soliman ben Khalaph, Beja (142).
Mohamed ben Abdelrahman (146).
Mohamed ben Abraham, de Silves (147).
Mauphac ben Síl (147).
Mohamad ben Almad, Beja (164).
Em Casiri apparecem varias referencias a cida-
des alemtejanas, a Évora, Beja, Mertola ; infeliz-
mente algumas localidades são designadas por no-
mes que não é fácil identificar.
Perderam-se muitas obras árabes, e entre ellas
3 IIT. IB.
i8
a de Ibnu-Said que era uma descripção do sul e
occidente da península.
Apenas sabemos que era dividida em sete li-
vros, todos com os seus graciosos títulos orientaes.
O primeiro era o livro dos vestidos de ouro, e
descrevia as bellezas do reino de Córdova.
O 2.° tinha o titulo — Livro das puras palhetas
de ouro; descrevia o reino de Sevilha.
3.° O livro dos polidos galanteios; tratava de
Málaga.
4.° O livro dos cavallos, as bellezas do reino de
Baihalios (Badajoz).
5.° O livro do leite fresco. Descripção do reino
de Shilb (Silves).
6.° O livro do prefacio illuminado. Descripção
do reino de Béjah (Beja).
7.° O livro dos jardins fechados. Descripção do
reino de Ulíshibonah (Lisboa).
Que pena perder-se a obra de Ibnu-Said ! por-
que pelas citações e noticias que d'ella ha seria
descripção mui particular e opulenta de factos.
No bello trabaího do sr. Diaz y Perez, os Ex-
tremenos illustres^ encontro referencias de muito
valor no ponto de vista que adoptei :
E vou já apresentar uma que respeita a Évora.
— Acim-ibn-Aíyoub (Abou-Becr), escriptor dis-
tincto, nasceu em Badajoz, nos fins da primeira
metade do sec. XL
— O poeta Ibn-Abdun (cá temos o eborense),
no seu poema sobre a dynastia dos Aftasidas (ou
Alaftas), lhe faz justos elogios.
— Um dos mais notáveis poetas da corte dos
Alaftas foi eífectivamente Abou-Mohamed-Abdo-
1-majíd-ibn-Abdallah-ibn Abdun ai Fehri, natural
_J9_
de Évora, cidade que então pertencia aos princi-
pcs de Badajoz.
E termina a noticia com esta observação — Não
se conserva obra alguma do grammatico árabe de
Badajoz, o que é para estranhar, quando existe na
bibliotheca do Esciirial o poema do seu discípulo, o
poeta de Évora.
O poema do poeta eborense, dizemos nós ago-
ra, existe em grande numero de bibliothccas da
Europa e da Ásia occidental como em breve lere-
mos occasião de demonstrar.
Notemos também: Almetuacil-Omar-ben-Negm-
doda ou doía, que nasceu em 1079; era dos Ala-
íias, e foi wali de Santarém.
Querem ver como será difficil muitas vezes iden-
tificar um nome.^ Çapor, Çapur, Sapur ou Labur
é o mesmo individuo; é o primeiro rei árabe de
Badajoz, no sec. XI : e é El-Mansor el Marid.
Mondzir-ben-Harem, natural de Badajoz, ho-
mem de lettras distincto que foi educado em Beja.
Por vezes em noticias dos — Estremeíios illus-
tres^ apparecem as palavras Zelb e Xelb que se
julga serem os nomes árabes de Elvas.
%^
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS KBOHKHSKS
Esláo publicados :
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4.° Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliotheca Publica. Noticias das
collecçôes. — 6." Conventos do Paraiso, Santa CUira e S. Bento.
— 7.° Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8.° e 9.°
Vésperas da restauraçcão.' — 10.° Brasão d'Evora.— 1 1° A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. CoUegiada. — 12.° O archi-
vo municipal — iS." Aresiauração em Évora. — 14.°, i5." e 16."
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 17.» Évo-
ra' e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.", 19.°, 20.° e 21." Assédios d'Evora em i6d3. — 22.°0sFes-
tejosde Évora em 1729. — 23.° Évora nos Lusiadas. — 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental. —
26." Antiguidades romanas em Évora ^ seu'' arredores. — 27.°
Roteiro d'um eborense. — 28.0 Universidade de Évora. — 29.°
As caçadas, 1." parte.— 3o." Évora e o ultramar, 2." parte.—
3i." Ibn-Abdun.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da CiMe á'E¥ora
Estão publicados : _ .
I.» PARTE— -Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João i.". Etc.
I vol. de 202 pag. in-4.° — iítP8oo réis.
2." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. in-4." — 2v!í''.iOo réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento dceditor J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
-I
m
j- \-j
no-n
K^
J.
IRENS
^
J^ISTOF^IA— y^r^TE-y^P^CHEOLOGIA
OS MOUHOS
A GEOGRAPHIA DE ÉDRISI. DESCRIPÇÁO DO ALEMTEJO. YEBORAH (eVORA)
OS MOUROS EM BEJA
EVORA
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor d* c*sa real
O2 — Kiia Ancha — Õ4
1893
GABRIEL PEREIRA
ESTUDOS EBORENSES
JilSTOI^IA -yA.P^TE-y^í^CHEOLOGIA
OS MOUROS
A GEOGRAPHIA DE ÉDRISI. DESCRIPÇÃO DO ALEMTEJO. YEBORAH (eVORA)
OS MOUROS EM BEJA
EVORA
MI>.'KR.V-V EISOR-ENSE
CE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor oa caía real
62 — Rua Anclia — 64
1893
ESTUDOS EBORENSES
Os mouros
Édrisi é um geographo árabe, que viveu no sé-
culo XII.
O seu nome todo é : Abu-abd-Allah-Mohammed-
ben- Mohammed-abd-Allah-ben-Edris-al-Hamudi .
Foi também conhecido por — Cherif-ai-Edrisi-
as-Sikilli-al-Rodjari — , que quer dizer : o nobre
Edrisi, da Sicilia, amigo de Rogério — .
Outra variante do nome do geographo E'drisi
é: Abu-Abd-allah-Mohammed-Idrisi; ou ainda:
al-Sherif-el-Idrisi.
E mais simplesmente: el-Edrisi.
E ainda: Xerif-Aledris.
Finalmente, até ha pouco tempo, era conhecido
por Niibiense; quem se referia ao Edrisi de Sicilia,
ou ao geographo da Núbia, citava : o nubiense.
Este sábio nasceu em Sibtah (Ceuta), em 493
da hégira, que corresponde a 1099 da era de Chris-
to, e falleceu por 1 164.
De Ceuta veio frequentar estudos nas escolas
de Córdova, viajando depois pelos paizes do Me-
diterrâneo; esteve em Lisboa, visitou os paizes
agora chamados França, e Inglaterra ; esteve tam-
bém em Constantinopla.
Estes árabes viajavam extraordinariamente! Ain-
da hoje teem gosto na deslocação. Como os nos-
sos ciganos, a quem parece, na maioria, contraria
a residência fixa.
Nas ordens religiosas viajava-se muito, também
a pé.
Por exemplo o celebre franciscano, fr. João da
Povoa, confessor de D. João 2.°, que, sempre a
pé, foi a vários concílios geraeSj da sua ordem, na
Europa !
E'drisi viajou muito, e, por felicidade, viveu no
seu tempo Rogério 2.° da Sicilia, que era enthu-
siasta da geographia.
Rogério quiz saber do mundo, e mandou via-
jantes para marcar longitudes e latitudes, forman-
do itenerarios rigorosos.
Os resultados de essas viagens e cálculos foram
gravados sobre um globo de prata.
Esses trabalhos foram approveitados por E'dri-
si, chamado pelo rei de Sicilia, Rogério, <^ue se tor-
nou em perfeito amigo : por isto ao E'drisi deno-
minaram — al-Rodjari — .
E'drisi esteve muitos annos na Sicilia e ahi es-
creveu a sua vasta geographia.
O titulo do seu livro traduzido á lettra é : Pas-
satempo do homem curioso de conhecer a fundo
os diversos paizes do mundo — .
O livro foi terminado nos últimos dias do mez
de xejval^ em 548 da hégira, o que corresponde a
meio-janeiro de 11 54 da era christã.
Em 1592 se imprimiu em Roma uma versão
latina: — De geographia iiniversali hortus cultissi-
mus — . E' um resumo do Nubiense.
Conde traduziu em hespanhol a parte relativa á
península hispânica. Depois Jaubert e Dozy tra-
duziram também (Dozy et Goeje, Description de
TAfrique et de TEspagne. Amédée Jaubert, Géo-
graphie d'E'drisi).
O celebre geographo árabe para a sua discri-
pção dividiu o globo terrestre em 7 climas, e ca-
da clima em 10 regiões; descrevendo as regiões
de cada clima a seguir, sem se importar com as di-
visões politicas.
E' um documento precioso para nós portugue-
zes, e para todos os estudiosos da península ibéri-
ca, por E'drisi ter vivido no periodo da constitui-
ção da monarchia e da nacionalidade.
Elle foi contemporâneo de Affonso Henriques.
Em sua vida taifas mouriscas e mesnadas chris-
tãs se cruzavam sem cessar pelos campos alemte-
janos.
Por isto me pareceu útil transcrever nos Estu-
dos Eborenses a parte da geographia de E'drisi que
se refere á região a sul do Tejo. Não é muito ex-
tensa e constitue elenlento importante para a his-
toria da região.
Antes de tratar da descripção da peninsula ibé-
rica, E'drisi refere-se a Lisboa, a propósito do por-
to de Asafi, — assim chamado, afiirma elle, pelos
aventureiros (al-mogharriroun) viajantes da cidade
de Lisboa, em Hispânia, que ahi abordaram. A
descripção d'esta aventura é bastante longa, e te-
remos occasião de a referir quando tratarmos de
Lisboa — .
E'drisi escreve depois a respeito da ilfia dos av-
iieiros (Djaiirat-l-Ghanam)^ alludindo outra vez aos
aventureiros.
A relação entre estas narrativas de E'drisi e a
lenda de S. Brandão foi percebida por M. d'Ave-
zac (Les iles fantastiques de Tocéan occidental).
Recentemente ouvi porém outra interpretação da
viagem dos árabes lisbonenses ; julgam alguns crí-
ticos musulmanos que elles chegaram á America
septentrional.
E* no quarto clima (E'drisi divide a terra em
grandes zonas ou climas, começando a sua descri-
pçâo do sul para norte) que principia a descripção
do paiz de al-Andalos^ chamado em lingua grega
Ichbanya (forma árabe de Hispânia).
O maior comprimento é desde a egreja do Cor-
vo (cabo de S. Vicente) situada n'um promontório
que entra pelo occeano, até á montanha chamada
do templo de Vénus (Port-Vendres).
— De Toledo a Lisboa, no extremo occidente,
nove jornadas — . O geographo árabe usa duas
medidas, a milha e a jornada; por esta devemos
entender a marcha de um cavalleiro por um dia.
— Toledo é o centro de toda a Hespanha. . . no
tempo dos christãos era a capítal e centro da admi-
nistração— . E' claro que E'drisi se refere ao tem-
po da dominação goda.
— Na provincia de al-Facr (al-Faghar, o nosso
Algarve) estão wSanta Maria (Santa Maria d'Algar-
ve), Mertola, Silves, assim como grande numero
de fortalezas e aldeias.
— A esta provincia segue-se a do Castello (Al-
Kassr, Alcácer do sal), onde se acha o castello que
chamam de Abou-Danis (também se encontra nos
escriptores árabes Al-kassr-ben-Abou-Danés, Al-
cácer do sal), e onde estão também Évora (Ye-
burah). Badajoz (Bathalioz), Xerez (de los Cabal-
ieros), Merida, Cantara as-saif (Alcântara), e Coria.
• 7
— Depois vem a província de al-Balat, onde es-
tá a cidade do mesmo nome (hoje em ruinas na
margem esquerda do Tejo ; conserva-se o nome
campina de Albalat)^ e Medelin.
— Na província de Balata estão Santarém, Lis-
boa e Cintra — . Alvalade é designação locativa
que ficou também vulgarmente em Portugal, por
exemplo o Campo grande^ próximo de Lisboa.
— O rio Yana (Guadiana) banha as cidades de
Merida, Badajoz e Mertola tão conhecida pela ex-
cellencia das suas fortificações.
— Castella (Cacelh, Cacella) é uma fortaleza
construída sobre a margem do mar; é bem po-
voada ; ha ahi muitas hortas e figueiraes.
— De ahi a Tavira, junto do mar 14 milhas.
— De ahi a Santa Maria do Algarve, 12 milhas.
— Esta cidade fica na margem do oceano, e suas
muralhas são banhadas no preamar. Não é gran-
de mas muito bonita; tem uma mesquita princi-
pal (aljama), outra commum (diríamos hoje paro-
chial), e uma capella. E' frequentada por navios.
O seu campo produz muitos figos e uvas.
— Da cidade de Santa Maria a Silves são 28
milhas.
— Silves, bonita cidade, é cercada de fortes mu-
ralhas. Nos arredores ha hortas e vergéis ; bebe-se
a agua de um rio que banha a cidade pelo sul, e
que tem moendas.
— O oceano está a 3 milhas a occidente (e a
sul). — Estas medidas do E'drisi não merecem con-
fiança plena : todavia admira em muitos casos co-
mo o geographo árabe conhecia a posição das lo-
calidades; tinha boa informação; é certo que Sil-
ves está quasi equidistante do mar a sul e a occi-
dente.
— Tem porto sobre o rio (refere- se talvez a Por-
timão que seria o porto de Silves), e estaleiros — .
q
E' bem possível que em Silves se construíssem pe-
quenos barcos; hoje só com o auxilio da maré os
botes podem ir atracar a Silves.
— As montanhas próximas produzem muita ma-
deira que se exporta — . A serra de Monchique ain-
da hoje produz madeira para exportação, princi-
palmente castanho em ripa, vara e barrotes.
— ^A cidade é bonita, com edifícios elegantes, e
mercados bem próvidos.
— A população da cidade, e a das aldeias dos
arredores, compôe-se de árabes do Yémen, e ou-
tros, que faliam um dialecto árabe muito puro. Sa-
bem também improvisar versos; são todos elo-
quentes e animados, tanto a gente popular como a
classe mais elevada — .
O algarvio ainda mantém a sua fama de gran-
de fallador; é certo que em geral o povo do lito-
ral é expansivo e gesticulador.
O povo de Silves está mesclado nos tempos mo-
dernos; e a cidade longe do littoral.
Eu vejo no Algarve diíferenças consideráveis,
que saltam aos sentidos, entre a gente agricultora
do littoral, e a povoação da parte montanhosa. E
entre esta mesma ha diversidades. Por exemplo a
população de Monchique differe muito da de S.
Braz; e a população da serra algarvia diífere tam-
bém da gente do Alemtejo meridional.
Ha outros testemunhos que provam que os ára-
bes que povoaram, ou se estabeleceram em Sil-
ves, eram considerados puros árabes do Yémen.
— Os habitantes dos campos d'esta região são
extremamente generosos; ninguém os excede a es-
te respeito.
A cidade de Silves faz parte da província d^
ach-Chinchin (Chenchir, em outros auctores), cujo
território é afamado pelos figueiraes ; exporta figos
para todos os paizes do occidcnte; são figos ópti-
mos, finos, saborosos e de aroma delicado — .
— De Silves a Badajoz 3 jornadas (engano segura-
mente; não está em relação com outras distancias).
— De Silves ao castello de iVlertola 4 jornadas;
engano também. De Silves a Mertola devem ser
duas jornadas de cavallo, e a Badajoz, cinco pelo
menos.
— De Mertola ao castello de Huelba duas jorna-
das pequenas (assim deve ser).
— De Silves a Halc-az-Zawia, porto e aldeia,
20 milhas. (O Maracid diz que ai-Zawia é o no-
me de um districto da província de Ocsonoba).
— De ahi a Sagres, sobre o mar, 18 milhas. De
ahi ao extremo do Algarve, que entra no oceano,
12 milhas. De ahi á egreja do Corvo, 7 milhas (é
o cabo de S. Vicente, antes promontorium sacriim^
Florez, Esp. sagr. viii, pag. 186 e seg.)
— Esta egreja não tem soífrido mudanças desde
a epocha do dominio christão; possue proprieda-
des territoriaes, doadas por pessoas devotas, e pre-
sentes oíTerecidos pelos christãos que ahi vão em
romarias. Está situada em um promontório que
entra pelo mar. Sobre o alto do edificio estão dez
corvos; nunca se deixam de ver ali; nunca se pou-
de constatar a sua ausência ; os sacerdotes da
egreja contam a respeito destes corvos cousas de
maravilhar; duvidar-se-hia da boa fé de quem as
referisse.
— E' impossível ir ahi sem tomar parte no lau-
to banquete que os da egreja oíTerecem; é uma
obrigação que não muda, um uso que jamais dei*
xam de observar, e ao qual todos se conformam ;
é costume muito antigo, transmittido de idade em
idade, em longa practica.
Servem a egreja sacerdotes e outros religio-
sos (monges e leigos?); possue grandes thesouros,
2 EST. EB.
IO
e rendas muito consideráveis, na maioria prove-
nientes das terras que lhe teem sido legadas em
diíferentes partes do Algarve.
— Taes rendimentos servem para as necessida-
des do templo, dos seus sacerdotes (ou monges),
de todos os que lhe estão ligados por qualquer ti-
tulo, e dos forasteiros que o visitam em pequeno
ou grande numero.
— D'esta egreja a al-Caçr (Alcácer do sal) 2 jor-
nadas; de Silves a al-Gaçr 4 jornadas.
— Al-Gacr é uma bonita cidade de tamanho re-
guiar, construida na margem do Chetoubar (Sado)^
grande rio navegado por muitas embarcações e
navios de commercio. Pinhaes cercam a cidade
por todos os lados; construem ahi muitos navios.
— Esta região é naturalmente muito fértil, pro-
duz em abundância leite, manteiga, mel e carne
para talho,
— De al-Caçr ao mar contam-se 20 milhas; de
al-Caçr a Yeborah (Évora) 2 jornadas.
— Esta cidade é grande e bem povoada. Está
rodeada de muralhas, tem um" castello fort ; (uma
cidadela) e uma mesquita principal (ou cathedral,
aljama). Os campos que a cercam são de singular
fertilidade; produz trigo, animaes, toda a qualida-
de de fructas e legumes. E' uma região excellente
onde o commercio é vantajoso tanto em objectos
de exportação como de importação.
— De Évora a Badajoz (Bathalioz) a oriente, 2
jornadas. Badajoz é uma cidade notável, situada
em planura, e rodeada de fortes muralhas. D'an-
tes tinha a oriente um arrabalde maior que a pró-
pria cidade, mas tornou-se ermo em consequência
das revoltas.
— Esta cidade fica na margem do Yana (Gua-
diana), grande rio a que chamam também q rio
subterrâneo, porque depois de um curso já consi-
I I
deravel, levando agua bastante para ser navegável,
corre em seguida sob a terra, a ponto que se não
acha uma gota dj su.is aguas; surge mais adiante
e proseguc o seu curso ale Mertola, e acaba por
se lançar no mar não longe da ilha de Ghaltich
(Huelva). . . . (De Coria) a Coimbra 4 dias de ca-
minho.
— Esta ulilma cidade está construída sobre uma
montanha arredondada; esta cercada por boas mu-
ralhas. fortificad£\ perfeitamente e tem três portas.
— Coimbra está nã margem do Mondego, que
corre para occidente da cidade, para o mar; e cu-
ja foz é defendida pela fortaleza de Montmayor
(Montemór-o-velho). Este rio dá movimento a
muitos moinhos, e nas suas margens ha muitos vi-
nhedos e hortas. O campo do termo da cidade,
para o lado do mar, a poente, tem muitas terras
cultivadas.
— Os habitantes possuem também gados, e são
contados enlre os mais corajosos dos christãos.
— De al-Caçr (al-Kassr, Alcácer do sa!), de que
já se fez menção, a Lisboa, duas jornadas.
— Lisboa está edificada na margem septentrio-
nal do rio Tejo; é o mesmo que banha Toledo. A
largura d'este rio, perto de Lisboa é de 6 milhas,
e a maré ahi se faz sentir com violência.
— Esta formosa cidade alastra-se ao longo do
rio; está cercada de muralhas, e tem uma cida-
dela.
— Ao centro da cidade estão as fontes de agua
quente, que conservam o mesmo calor no inverno
e no estio. Fica próxima do occeano, c tem na sua
frente, na margem opposta, o forte de al-Mádan
(Almada), assim chamado porque na verdade o
mar lança palhetas de ouro nas areias da margem.
Durante o inverno os habitantes da localidade vão
junto do castello buscando este metal, e entregam-
Í2
se a tal mister emquanío dura a estação rigorosa.
E' um facto curioso de que nós mesmo fomos tes-
temunha.
— De Lisboa partiram os aveiititreiros^ quando
fizeram a sua expedição com o fim de saber o que
ha no occeano, e quaes os seus limites, assim co-
mo o dissemos mais acima.
— Existe ainda em Lisboa, próximo dos banhos
quentes, uma rua chamada dos Aventureiros.
— Eis aqui como o facto se passou : reuniram-
se em numero de oito, todos próximos parentes (á
lettra, primos-irmãos), e depois de ter construído
um navio mercante, embarcaram agua e viveres
sufficientes para uma viagem de muitos mezes.
— Fizeram-se ao mar ao primeiro sopro do ven-
to leste. Depois de ter navegado durante onze dias ,
ou proximamente, chegaram a um mar cujas on-
das espessas exhalavam um cheiro fétido e occul-
távam numerosos recifes, havendo alem á^\sXo pou-
ca lii^.
Temendo a morte, mudaram o rumo e corre-
ram para o sul durante 12 dias, e chegaram á ilha
dos carneiros., onde inumeráveis rebanhos de car-
neiros andavam sem pastor, sem alguém que os
guardasse.
Desembarcaram n'esía ilha, ali acharam uma
fonte de agua corrente, e próximo uma figueira
brava.
Mataram alguns carneiros mas a carne era tão
amarga que a acharam imprópria para a alimen-
tação; só guardaram as pelles.
Navegaram ainda do{e dias para o sul, e emnm
avistaram uma ilha que parecia habitada e culti-
vada; approximaram-se para se informarem; pou-
co depois viram-se rodeados de barcos^ prisionei-
ros e conduzidos a uma povoação situada na bei-
ra-mar.
i3
Entraram depois n'uma casa onde estavam ho-
mens de alta estatura^ e de cor avennelhada ; tinham
pouca barba e usavam cabello comprido^ não cres-
po; e mulheres de singular belleza.
Por três dias ficaram prisioneiros n'um compar-
timento d'esta casa. No quarto dia chegou um ho-
mem que f aliava a língua árabe; perguntou-lhes
quem eram, porque tinham vindo, qual era o seu
paiz.
Contaram-lhe a sua aventura; deu-lhes boas es-
peranças, e lhes disse ser interprete do rei.
No dia seguinte foram apresentados ao rei que
lhes dirigiu as mesmas perguntas, e ao qual res-
ponderam, como já na véspera tinham feito ao in-
terprete, que elles se tinham aventurado no mar
afim de saber o que poderia haver n'elle de singu-
lar e curioso, e de saber os seus limites.
Quando o rei os ouviu assim fallar entrou a rir,
e disse ao interprete: Explica a essa gente que meu
pae mandou em tempos alguns de seus escravos
embarcados por esse mar.^ elles o percorreram na
sua largura durante imi mei^, até que a claridade
(dos céus) tendo-lhes faltado completamente, fo-
ram obrigados a renunciar a esta van empreza.
O rei ordenou mais ao interprete de assegurar
aos aventureiros a sua benevolência, para que el-
les ficassem fazendo bom conceito d'elle e assim
foi.
Voltaram pois á sua prisão e ahi ficaram até
que, tendo apparecido o vento de oeste, lhes tapa-
ram os olhos, fizeram-nos embarcar, e navegaram
algum tempo no mar.
Navegámos, dizem elles, quasi fres dias e três
noites, e alcançámos depois uma terra onde nos
desembarcaram, com as mãos atadas atraz das
costas, e nos abandonaram n'uma praia.
Ficámos ahi até ao nascer do sol, no mais tris-
H
te estado, por causa dos laços que nos apertavam
fortemente, e nos incommodavam muito; emfim
tendo ouvido ruido e vozes humanas começámos
todos a gritar.
Então alguns habitantes do paiz vieram ter
comnosco, e tendo-nos achado n'uma situação tão
miserável nos desligaram, e fizeram diversas per-
guntas a que respondemos narrando-lhes a nossa
aventura. Eram berberes. Um d'elles nos disse: —
Sabeis a distancia de aqui ao vosso paiz?
E á nossa resposta negativa ajuntou: d'aqui á
vossa pátria ha dois me^es de caminho.
O chefe dos aventureiros exclamou então van!
asafil (ali de nós !). Eis aqui por que o nome d'es-
te logar é ainda hoje Asafi.
E' o porto de que nós já falíamos como sendo
na extremidade do occidente.
— De Lisboa, seguindo as margens do rio, para
oi-iente, até Santarém ha 8o milhas.
— Pode á vontade fazer-se esta viagem por ter-
ra ou pelo rio.
— No intervalloestáa planura de Balata. Os ha-
bitantes de Lisboa e a maior parte dos de Gharb
dizem que o trigo que ahi se semeia não fica na
terra mais de quarenta dias; no fim d'este tempo
pode ser ceifado. Ajuntam que uma semente pro-
duz cem, mais ou menos.
Santarém é uma cidade construída sobre uma
montanha muito elevada.
A escarpa do sul é um grande precipício. Esta
cidade não tem muralhas, e junto da montanha es-
tá um bairro (arrabalde) construído na margem do
rio Tejo (é a ribeira de Santarém); bebe-se ahi
agua de fontes e do rio. Tem muitas hortas pro-
duzindo fructas e legumes de toda a qualidade.
De Santarém a Badajoz contam-se quatro jor-
nadas.
i5
A' direita do caminho está Elvas, cidade forte,
situada junto de uma montanha. No risonho paiz
que a cerca ha numerosas habitações e bazares.
As mulheres são de grande belleza. De aqui a Ba-
dajoz são 12 milhas.
Ârabes-béjenses
Os traços geraes da historia da invasão árabe
na península hispânica, são conhecidos. Tarik de-
pois da celebre derrota dos godos, marcha até To-
ledo; Aluza ben Noseir vem em seguida com
grandes forças, toma Sevilha, encerra os judeus na
cidadella, põe guarnição na cidade, e caminha logo
sobre M crida.
Nas chronicas, e nos historiadores árabes, os
godos são denominados os bárbaros. Ora vamos
ver já um facto pouco sabido entre nós: os barba-*
ros de Sevilha fugiram para Beja.
Pode suppor-se que alguma força goda, tomada
a cidade, retirasse para Beja.
E emquanto Muza vae sobre Mérida, e pára*
por algum tempo ante as muralhas da velha ci-
dade que se defende, os de Beja juntam-se aos de
Niebla; vão sobre Sevilha ; e entram na cidade ma-
tando a guarnição sarracena.
Outros dizem que depois de Sevilha, Muza mar-
chou logo a occidenie, a Ossonoba, que pode ser
Estoi, ou Faro, porque os escriptores árabes, al-
guns, chamam a Faro, Santa Maria de Ossonoba
(Shant-Maria de Ocsonob), de ahi a Mertola, a
Beja, Évora, Mérida, e depois a Toledo, onde se
encontrou com Tarik.
O que é certo é que estando Muza em frente de
Mérida recebeu a noticia do ataque de Sevilha pela
gente de Beja e Niebla; e destacou logo o filho
i6
AbJuI-Azzís, com tropas bastantes para reprimir o
movimento.
Creio que este facto não é muito conhecido; elle
ficará bem nos gloriosos annaes do municipio pa-
cense.
O paiz entre Tejo e Guadiana teve sempre im-
portância na vida politica dos árabes. Badajoz,
Évora, Beja, Alcácer, Mertola e Silves apparecem
frequentemente na historia do dominio agareno.
De facto basta olhar a carta da península para nos
convencermos de tal importância, logo que Sevilha
e Mérida occupem logar eminente no dominio da
península como succedeu principahrjente nos sécu-
los II a id.
Ainda em 1 144, já em frente por assim dizer
constantemente das algaras christans, os árabes nas
suas guerras civis disputavam entre si a posse de
Beja.
N^esse anno os partidos de Almondar e Sid-Ray
bateram-se cruelmente, ganhando e perdendo al-
ternativamente a cidade.
Por fim ficou Aben-Cosai, senhor ou wali de
•Beja.
Este Aben-Cosai é mahratado pelo famoso es-
crlptor Al-Makícari porque teve muitas relações com
D. Affonso Henriques, o tirano Aben-Errik, wali
de Colimbria.
Em 1 145, Mohamed Sid-Ray toma outra vez
Medina Beja, e faz prisioneiro o Aben-Cosai. E
depois mezes apenas, apparece Abdalá ben Samail,
retoma Beja, e a gente de Almondar e Sid-Ray
foge até Sevilha.
Nos fins do sec. 1 2 as refregas entre estes e os
christáos tornam-se cada vez mais frequentes.
A entrada de Jacub Almanzor com enorme mul-
tidão de almohades, alárabes e andaluzes, devasta
o território de Xelb (Silves) até a Abu Danes (AI-
^7
cacer ben Abu Danes, Alcácer do Sal), e o termo
de Medina Beja.
E ainda em I23i-i232 apparece um béjense
celebre entre os mouros pelos feitos militares; é
Abu Mervan Al-Baji, chefe de uma grande revolta
contra Ibn-Hud; Mervan com o seu partido ficou
senhor de Sevilha em 629 da Hégira.
Isto em resumo do que se pode encontrar nas
chronicas árabes a respeito de Beja, e resumo muito
condensado.
Peço licença para apenas lembrar aqui as bellas
estancias de Camões, 64,75, 76 e 85 do cant. 3."
dos Lusíadas que se referem á conquista do Alem-
tejo, e á expedição feita por D. Sancho em 1 178,
para descercar Beja.
Al-Makkari (Traduc. Gayangos, vol. i.° pag. 60)
refére-se a Beja nos seguintes termos: Beja é
a capital de um dilatado território que durante a
dynastia dos Beni-Abbad formou parte do rei-
no de Sevilha. E' famosa pelas suas alcaçarias
e pelas manufacturas de algodão. Neste território
ha minas, mesmo de prata, e tem além disto a glo-
ria de ser pátria de Al Miiatamed Ibn-Abbad — .
Casiri foi um arabista muito distincto que ainda
conheceu completa a grandiosa coUecção dos có-
dices árabes do Escurial, e os descreveu miuda-
mente.
Foi nesta obra que o illustre Félix Caetano da
Silva colheu as suas notas sobre escriptores árabes
naturaes de Beja, que vamos apresentar.
Os mss. de F. C. da Silva estão hoje na Biblio-
theca Nacional de Lisboa; foram comprados no
leilão dos livros e papeis de José Silvestre Ribeiro.
I Noticia de todos os auctores de que ha me-
moria pertencentes a Beja.
II Noticia geral de todos os autores de que ha
memoria pertencentes a Beja assim antigos como
3 EST. EB.
i8
modernos; a saber: árabes, godos, e portuguezes.
Extrahida das bibliothecas arabico-hispaua Es~
curialense de D. Miguel Gasiri; Lusitana do abba-
de Diogo Barbosa Machado e de outros autores e
documentos dignos de credito, por Félix Caetano
da Silva, natural da mesma cidade, e autor das
Memorias históricas d'ella, para se incorporar nas
ditas Memorias em seus lugares. Anno de 1802—.
E' a pag. 3 que principia a relação dos autores,
que vamos transcrever fielmente; respeitando em
tudo o trabalho do illustre e benemérito béjense;
fazendo porém algumas observações que julgamos
úteis e indispensáveis.
— Autores árabes pertencentes a Beja, da perda de
Espanha em 71 1 por diante: e de que faz menção
Gasiri na Bibliotheca Arabico-Hispana Escurialen-
se, tomos i.° e 2.° extrahida d'ella com immenso
trabalho a sua noticia.
■ 1.°
Abi Abdallá Albagéo, foi oriundo de Beja, e
floresceu no fim do oitavo século da Hégira, (a hé-
gira corresponde a 622-623 de Ghristo) ou princi-
pio do nono (?) Escreveu um appendice ao co-
mentário que havia escripto o árabe Jacobo Ben
Said Almokelati, cordovense, sobre o poema La-
miat, de que faz menção Gasiri, Bibl. t. i.° cod.
16. pag. 5.
2.*
Ahmad ben Mohamad Ben Ali Ben Nomari ebn
Munis Albégiani. Foi natural de Beja, e não se
sabe em que tempo íloresceo. Gompòs um tratado
em letras cuphicas, dividido em três partes ; cujo
titulo traduzido do árabe na lingoa latina é o se-
guinte := De origine ac significatione literarum al-
phabeti arabice=.
19
Existe o mesmo incompleto na Real Bibliolheca
do EscLirial; e delle extrahio Casiri as interpreta-
ções e significações galantes e celebres que o autor
dá ás letras do referido alphabeto árabe, que de-
vem ver-se. Vide a Biblictheca do mesmo Casiri,
TomT 1." codex. XXXV pag. 9 e lo.
Abu Baker Mohamad Ben Abrahin Alamari Al-
carschi. Foi natural de Beja, grande orador e como
tal floreceu na cidade de Silves, no Algarve, onde
residiu e morreu. Não se sabe em que tempo vi-
veu, isto é, as datas certas do nascimento e morte.
Consta sim mais que foi também excellente poe-
ta, e como tal compôs o seu epitaphio em versos
para ser, como foi, gravado sobre a sua sepultura.
Vide Casiri, T. i.° cod. CCGLIV, pag. 95.
4-
Abu Abdallah Mohamad. Foi natural de Beja,
e se julga floresceu no sec. VI da Hégira. Delle se
faz menção como poeta celebre nas odes na colle-
ção feita pelo douto Mohamad Ben Assaker. Cod.
436, em Casiri, T. i.** pag. 127.
5.»
Maleki Ben Anes. Natural de Beja, famoso pro-
fessor de direito canónico, em a qual faculdade es-
creveu uma obra, sobre a qual se fizeram uns com-
mentarios, que divididos em três tomos formam o
cod. 981 de Casiri. Trata essa obra das seguintes
matérias : de matrimonio; de diportio e de mitricibiis.
Casiri, T. i ." pag. 445.
Esta obra em Árabe se chama Maceta^ que este
era o seu titulo.
20
O anonymo pacense de que se faz menção em
3.° lugar entre os de que trata o cod. 1 102 de Ca-
siri, T. i.° pag. 462, por este modo — Pacensis,
siimine júris consulti^ de jure hispano dissertatío.
Ahmad Ben Said, famoso jurisconsulto, natural
de Beja. Ignoram-se as datas precisas de nasci-
mento e morte.
Escreveu uma obra em caracteres cuphicos, que
forma o cod. 1 127 de Casiri, juntamente com ou-
tra de Averroes. Casiri, T. i.° pag. 466.
8.°
Abu Mohameti Abdallá Ben Mohamad Ben AI-
saied. Natural de Beja, grande theologo, floresceu
no sec. 8.° da Hégira, em que compoz em lettras
cuphicas uma obra theologica, que é o codex i 5 i3
de Casiri, T. i.*^ pag. 524.
9-'
Soliman Ben Khalaph Ben Sad Ben Aiub Aeta-
gibi, vulgarmente chamado Albuvallid Albagi. Foi
natural de Beja; nasceu no anno 403 de Hégira,
que corresponde a i o 1 2 de Christo. Era filho de pães
illustres que o mandaram educar muito bem, se-
guindo especialmente os estudos de jurisprudência
em que foi consumado, e como tal fez em a cidade
de Córdova muitos progressos e grande figura, che-
gando a ser na mesma cidade cadi ou alcaide ou
pretor; passou depois a Almeria onde morreu, dei-
xando escriptos alguns livros egrégios de direito.
Falleceu em 1081 de Christo. Casiri, T. 2.° cod.
1622, pag. 142.
21
I0.°
Abdallá Ben Mohamad, vulgo Albagi. Natural
de Beja, professor de direito, que por muitos an-
nos ensinou em Sevilha, onde falleceu em 878 da
hégira.
Casiri, T. 2.° cod. 1621, pag. 187.
ii.«
Soliman Ben Mokamad Ben Batal pacence.
Grande professor de direito, que ensinou em
Córdova; escreveu muitas obras, mencionando-se
mais especialmente uma de júris institutionibus.
Foi também excellente orador e poeta. Morreu
em Iliberi em 404 da Hégira. Casiri, T. 2.° cod.
1622, pag. 141.
12.*'
Mohamed Ben Ahmad Abu Baker Allaisi: Na-
tural de Beja, de familia muito nobre e reputado
como nobilissimo escriptor entre os historiadores.
Casiri, cod. 1735. T. 2.° pag. 164.
E.ste escriptor viveu quasi sempre em Sevilha,
e ahi morreu em 542 da Hégira.
Albagéo, Albégiani, Albagi, indicam a naturali-
dade, Beja, ao uso árabe.
Por estas singelas notas se deixa ver o grau de
cultura que os bejenses attingiram no dominio a-
labe. Por entre as crises politicas, tantas vezes vio-
lentas, ao lado das suas fabricas notáveis de cor-
tumes e tecidos, parece que floresceu ahi alguma
escola de scicncias e letras.
Silves, Faro, Alcácer, Santarém e Évora tam-
bém apresentam alguns nomes de escriptores ára-
bes, de que restam obras.
Ha trabalhos modernos, de Dozy, de Hoogvliet,
22
etc, sobre alguns d'esses escriptores ; ao celebre
Ibn Abdun, o poeta eborense, os dois mencio-
nados críticos dedicaram extensos estudos, ain-
da bem pouco conhecidos em Portugal.
Ibn Abdun
O famoso poeta eborense é mencionado em Ca-
siri (Bibliotheca arabico-hispanaescurialensis, ope-
ra et estúdio Michaelis Casiri, Madrid, 1760, 2
vol. in-fol.)
i.° vol. n.° 272. Abi Mohamad Abdelmagid Ben
Abdiím, poeta hispanus celebenimiis^ qiii in oppido
Ebiira anno Egiras 52g decessit.
E' noticia referente ao poema de Ibn-Abdun so-
bre os Beni-Alaphtas.
Ao mesmo poeta arabe-eborense ha referencias
no vol. 2.° sob os n.°* i653 e 1769.
Ha livros especiaes de Hoogvliet e Dozy, cujos
titulos vou indicar, Specimen e litteris orientalibus
exhibens diversorum scriptorum locos de regia Aphta-
sidarwn família et de Ibn zábdiín poeta . . . ad pu-
blicam disceptationem proponit Marimis Hoogvliet.
Lugduni Batavorum apud S. & J. Luchtmans,
1839, in-4.''
Commentaire historique siir le poême d'Ibn-Ab'
doiin, par IbnBadrowi, Tiiblié poiír la premiére
fois, precede d\me introduction et accompagné de
notes, d'im glossaire et d'im índex des noms propres
par R. P. A. ^Doiy. Luchtmans, 1846, in-8.°
Comprehende o commentario em francez, notas,
e o texto árabe.
No catalogo dos manuscriptos árabes do Escu-
rial (Zes mamiscripts árabes de rEscurial. Paris, Le-
roux, Tom. i J"' 1 884), do sr. Hartvmg Dcrenbourg,
23
pag. 1 67, n." 274, vem mencionado o — Livro con-
tendo o commentario sobre o poema do visir, es-
criptor lettrado e historiador Abou Mohamad Abd
ai Madjid Ibn-Abdoun ; este commentario tem por
autor o jurisconsulto Abou Marwan Abd ai Ma-
lik ibn Abd Allah Ibn Badroun^ de Silves, originá-
rio do Hadramaut.
Os «magrnrinos» de Lisboa
O sr. D'Avezac escreveu um livro muito valioso
sobre as ilhas africanas, que íaz parte da grande
collecção geographica VUiiivers (L'Univers pitto-
resque. Histoire et descripiion detous les peuples.
lies de TAfrique par M. D'Avezac. Paris, Didot,
1848).
E' na segunda parte d'este volume que ha noti-
cias minuciosas sobre as ilhas africanas do Ocea-
no Atlântico.
A pag. 1 5 -conta do nobre geographo Edrisi.
A pag. 1 16 tratando das antigas noções sobre o
archipelago da xMadeira, diz da viagem dos famo-
sos (£Maggroiiry'n que partiram de Lisboa.
Avezac opina que esta viagem se date do sec.
VIII até o sec. XII. E' claro; os árabes entraram
na península no s>izc. VIII, e Edrisi viveu no sec.
XII.
Da narrativa de Edrisi não se pode concluir a
data approximada da navegação dos aventureiros;
mas o que é verdade é que elle se refere a uma
tradição, como de cousa passada de ha muito.
Na versão da geographia de Edrisi feita por A.
Jaubert, c no tomo 2.° pag. 26 que vem o caso
dos magriiruios.
Foi o sr. Ahmed-Zeki, doCairo, cavalheiro mui-
to illustrado, que me disse da opinião, a que já al-
ludi, de alguns sábios mussulmanos, sobre terem
os magruriíios de Lisboa chegado á America sep-
tentrional e conhecido os pelles vermelhas.
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS KBOHEHSKS
Pistão publicados :
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro.- — 2." Évora ro-
mana. O templo. As inscripçóes. ^- 3." A Casa pia. — 4.° Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5." Biblioiheca Publica. Noticias das
collecções. — 6." Conventos do Paraíso, Santa Clara e S. Bento.
, — 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9."
Vésperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1 ." A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — ri." O archi-
vo municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.°, i5.° e \6.°
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — ly.^Evo-
ra e o LUtramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.", iQ.°, 20." e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nos Lusíadas. — 24." Pro-
cissões eborenses. -—25." Exposições de arte ornamental. —
26.° Antiguidades romanas em Évora e se'j« arredores. — 27."
Roteiro d'um eborense.- — -28.*^ Universidade de -Évora. — 29.*"
As caçadas, i.^ parte. — 3o." Évora e o ultramar, 2." parte. — .
31." Ibn Abdun. — 32." Cs mouros.
A' venda em Lisboa na livrai^ia Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'Eyora
Estão publicados :
i." PARTE — Foraes, co,stumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XÍV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João i.°. Etc.
I vol. de 202 pag. in-4.° — i^tSoo réis.
2." PARTE — Documentos municipaes do sec. XV^ Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. in-4.° ^213^200 réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor ,J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo^ Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos., em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
ESTUDOS EBORENSE'
iffistoria — (Arte — (Archeologia
j^S CA.QA.IDJLS
2." PARTE
O r.OBo
o ANIMAL. O RAFEIRO. O LOBO NAS ANTIGAS LEIS. AS MONTERIAS.
O REGLMENTO DOS MOSTEIROS. OS CERCOS.
AS COMr'ANHIAS DE ÉVORA E TERMO. PLANOS DK CERCOS.
A TROPA DE LINHA NAS MONTERIAS. PAPEIS OFFICIAES DOS MONTEIROS
DE ÉVORA. MIRA, O ULTIMO GRANDE CAÇADOR
®®
ÉVORA
iVlTNEFl\OV EeOFlENSE
BE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor da casa real
62 — Rua Ancha— Õ4
1893
GABRIEL PEREIRA
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\ji.
{Historia — Arie — ^rcheologia
j^S CJLÇJ^IDA.S
2.* PARTS
O LOBO
o ANIMAI.. O 1<.\FK5R0. O I.030 NAS ANTIG.\S I.EIS. AS .MONTERIAS.
O KEGl.MENTO DOS MONTÍCIROS. OS CERCOS.
AS COMPANHIAS DE EVOÍIA E TERMO. PLANOS DE CEKCOS.
A TitOPA DE MNHA NAS MONTERMS. PAPEIS OFFICIAES DOS MONTEIROS
DE EVOKA. M [<A, O ULTIMO G'<ANOE CAÇADOR
i^V-í
ÉVORA.
A\ I X íc F5. \' . \ !•: i-{ 1 1 rc N S K
DE JOAQUIM JOjc baptista, impressor oa oa3a «eal
ó.» — Rn I Aiiclia — 64
1893
n
ESTUDOS EBORENSES
As caçadas
o lobo
O lobo é um animal extraordinário. A civilisa-
ção encurralou o urso nos ermos fragosos das gran-
des serranias, ou nas espessuras das maltas; ba-
teu o leão para os desertos, exterminou na Euro-
pa todos os grandes felinos; e lucta, e luctará ain-
da por muito tempo com o lobo, o eterno inimigo.
E' o animai dominante no hemispliçrio norte;
habita na Europa, na Ásia, na America septenlrio-
nal; ha lobos na Rússia e na Arábia; na Groen-
lândia e no México; nas montanhas, nas selvas,
nas charnecas, nos alagadiços; está á vontade com
os climas; muda um pouco na côr, afina o pello
com a côr do paiz; é mais forrado, tem o pello
mais espesso nos climas frios; tem menos pello,
e é mais escuro nos paizes do sul: varia um tanto
na estatura, mas o typo é inconfundivei, o canis
lúpus tem uma individualidade bem definida.
Vive isolado ou faz alcaléa, caça á noite mas
lambem nttaca de din, matta um viiello c appro-
veita o coelhilo, o ralo da ribeira; vê, ouve, fareja
admiravelmente; é rapidissinr.o na carreira, dá sal-
tos formidáveis, é intelligente e no maior perigo,
no meio da matilha furiosa, elle conserva o sau-
gue frio. Tem todos os recursos de vida.
Quando o pobre ser humano da idade da pe-
dra lascada se embuscava para ferir a presa, en-
controu um rival no lobo. Quando o homem, já
'num triumpho enorme, descobriu a maravilha da
domeslicidade de alguns animaes, o lobo subiu de
rival a inimigo declarado, constante, temivel.
Se as alcatéas de lobos são capazes de atiacar
as manadas de bisões e buífalos! E o lobo isolado
salta de improviso e arrebata o cordeiro e o chi-
bo, 'num abrir e fechar d'olhos, a dois passos do
pastor, vendo-se apenas o movimento da moita de
estevas ou de urze, porque elle calcula o ponto de
espera, a altura do matto, e antes de saltar ou par-
tir já sabe por onde hade fugir occultando-se me-
lhor.
E' o pesadelo do pastor.
E' o grande inimigo do aiya^ da nossa brilhan-
te familia aryana, diz Pictet. E' perfeitamente cer-
to que na vida pastoril, perante o rebanho, o lobo
é o grande inimigo.
E' o devastador, o voraz, o cruel, o despedaça-
dor, como lhe chamam os povos por essa historia
fora.
Elle a única fera que' para comer um cordeiro
estrangula quarenta, que attaca raivoso, aboca-
nhando, mordendo, sacudindo em inútil ferocidade.
— Livrae-nos do lobo^ livrae-nos do lobo! co-
mo se diz no Rig-Veda.
As velhas mithologias, as veneráveis historias
antigas estão cheias da lenda do lobo. O olhar do
lobo fascinava. Já Plinio tratava de netas muitas
cousas que corriam entre o povo a respeito de lo-
bos; e ri -se da credulidade grega a propósito do
caso de Etantho (Hist. Nat. iiv. viii. cap. 34).
Plinio ria-sc dos casos de lobos ha 19 séculos,
e ainda continua a lenda, ainda se falia do lobis-
homem, da magia d'aquelle olhar.
Inventado o rebanho o pastor teve de descobrir
o cão para combater o lobo; o cão pelo faro, vista
e ouvido descobre o lobo, pelo latido avisa o pas-
tor e põe alerta a rez, mas raras vezes consegue
bater o lobo.
Para que o rafeiro, o grande rafeiro do Alemte-
io, não seja victima, é preciso armal-o com a col-
ieira de puas. Porque o lobo procura logo a guela
para sangrar ou o pescoço para pegar e sacudir
até partir a columna vertebral.
O lobo é vulgar ainda no nosso paiz, não tem
sido possível exterminar este animal apezar das
montarias, das leis, dos prémios municipaes, da
moderna espingarda, da progressiva limpeza das
terras.
Adulto, em completo desenvolvimento chega a
ter i,'"2o de comprimento, até á raiz da cauda;
i,'"6o com a cauda.
Tem o, 7o a 0.80 de altura.
Dizem que chega a ter 54 kilos; 40 a 46 kilos é
peso vulgar.
Pôde viver vinte annos.
Mesmo á simples vista ha diíferenças funda-
mentaes entre o lobo e o cão.
A cabeça é larga na parte superior, especial-
mente entre as orelhas; estas são direitas, abrindo
bem o pavilhão para a frente; os olhos são obli-
quos relativamente ao focinho (esta provavelmen-
te a origem das lendas sobre o olhar do lobo),
emquanto que no cão são horizontaes; o irise
6
amarello lorraJo; os maxillares, compridos, abrem
mais que no cão, sendo maior também a fenda da
bocca ; os músculos de deante são fortíssimos; a
parte trazeira é mais fraca e decahida todavia é
capaz de forte impulsão, porque õ lobo dá saltos
enormes em altura e comprimento.
Uni lobo salva facilmente uma altura de dois
metros.
E' menos ílexivel, tem a «íspinha mais hirta que
o cão.
No forte pescoço, na linha do dorso os pellos
são mais compridos e fortes; o pello do lobo é
amarello torrado com a extremidade negra; em se
irritando eriça-se e fica mais escuro.
A loba pôde ter filhos duas vezesno anno; a
gestação dura 63 dias.
Pôde ter 4, 5, 8 e dizem que até i3 filhos. Os
cachorros nascem cegos conservando os olhos fe-
chados nos primeiros dias. Se desconfiam que al-
guém descobriu o covil, elles mudam os filhos; sa-
hindo ou entrando não seguem caminho direito ; e
caçam ao longe; se houver ou se passarem reba-
nhos próximos do covil, elles não fazem presa n'es-
ses rebanhos.
Quando os cachorros teem já alguns dias, do co-
vil sáe um cheiro tão particular que os cães o per-
cebem ás vezes a distancia. E' facii também imi-
tar o uivo do lobo, e nas primeiras horas da noite,
quando os pães estão na caça, ir ao sitio de que se
desconfia, e repetir os uivos; os cachorros respon-
dem e assim se pode descobrir o covil.
Pelas pegadas distingue-se o lobo do cão ; no
lobo são mais apertadas, em comprimento egual a
pata do lobo é mais delgada que a do cão.
E' fácil o cruzamento da loba com o rafeiro. O
lobo tem a raiva, mas parece certo que se isola
quando raivoso, e não morde nos outros, lembre-
se o dictado lobo não morde lobo, mas vem mor-
der nos cães e nos rebanhos. E' perfeitamente cer-
to que o lobo raivoso morde dezenas de rezes 'num
minuto se o rafeiro não consegue dominal-o. Se o
lobo estiver damnado o pastor tem de matar de-
pois o pobre e fiel rafeiro, ferido na lucta.
E' o voraz, o dcspedaçador !
O rafeiro é o nosso cão para lobos; propria-
mente é o cão para defender o rebanho contra o
ataque do lobo, e para luctar com este.
O rafeiro arma-se com uma larga e fone collei-
ra com puas salientes. Talvez educando o rafeiro
se conseguisse obter o cão para descobrir, seguir
e deter o lobo, um cão de caça emfim. Em Fran-
ça, na Áustria, na Rússia ha matilhas bem prepa-
radas, de raça apurada, e bem treinadas em des-
cobrir rasto e farejar, o que é fácil porque se po-
de ter e crear o lobo. como se cria o cão e assim
habituar a matilha a conhecer e a farejar o lobo.
(Le Couteulx de Canteleu, Manuel de \énerie
française. E' um livro moderno, elegante, de spo^t,
que tem dados preciosos para o apuramento dos
cães de caça).
O bom fr. João Pacheco, no seu óptimo Diver-
timento erudito (Tom. i ." Animaes) conta das len-
das do lobo, de como tolhe a voz ao homem se
elle o vê primeiro; e se é o homem que o vê pri-
meiro então o lobo esmorece. Tudo o que piza
morre; as plantas mirram-se. E' ta! o ódio de lo-
bos a carneiros que se 'numa rebeca se puzeruma
corda de tripa de carneiro e outra de lobo a pri-
meira não soa! Ao mesmo tempo o pó do intestino
é óptimo para collicas!
Já no Glanvilla, na celebre encyclopedia me-
dieval de Bartholomeu Anglo de Glanvilla. intitu-
lada — De proprietatibiis reruni^ — se contam e.>>tas
8
lendas dos lobos, e elle cita as velhas autoridades
gregas e romanas a este respeito.
DiíTére também o lobo do cão na voz ; o Crâo
tem uma escala muito mais vasta, intensa e va-
riada. O grande latido grave e forte do rafeiro é
muito notável. Todo o cão ladra, late, gane, uiva
e rosna; o lobo uiva e rosna, tem um pequeno la-
tido raro e rudimentar; e produz um ruido parti-
cular batendo as queixadas com força.
O lobo maior que está actualmente (maio) no
Jardim Zoológico produz ás vezes um gemido tre-
mulo, intermittenle, que recorda o regougo da ra-
posa, mas pouco intenso.
Este lobo é um bello exemplar, está fechado em
largo espaço onde elle passeia constantemente, no
mesmo trilho; passeio de fera; os cães nunca pas-
seiam de tal modo. Ct)mo os cães os lobos teem
medo das pedras, procuram-nas e mordem nas; e
apanham no ar um bocado de pão.
El-rei D. Sancho i era homem de sport a valer;
audaz nos coníiictos arrfiados, dado aos galanteios
amorosos, amigo do campo, e enthusiasta da ca-
ça. Se elle até obrigava os clérigos a sustentarem-
Ihe os cães e as aves de caça d'altenaria !
Ha também uma lei de D. AtTonso ii. de 121 i,
que é muito curiosa; refére-se aos que davam al-
javas para as aves: — T^orque os mesquinhos som
atormentados sem razom quando som constrenjudos
a dar aljavas que nós havemos mester para nossas
aves. IPorem quitamolos pêra todo sempre. . .
(E' a lei XVI, de 121 1, do reinado de Aífonso 11.
Port. mon. hist. Leges et cons. pag. 172.
Sobre a disposição de Sancho i, veja-se a noía
de A. Herculano no Toin. n da Hist, de Porl. pag.
i34 da I.* ed. 1847).
AíTonso II livra os mesquinhos.^ a gente meuda,
9
do imposto das aljavas, o que prova que já não
era necessário no seu tempo; era um imposto an-
tigo, tradicional, que a practica mostrara inútil.
Leis da caça, leis da civilisação.
Ainda no século xiv o serviço das montarias en-
trava em vários pontos do paiz no rol dos serviços
pessoaes, da contribuição de trabalho, então ex-
traordinariamente mais pesada do que presente-
mente.
Certos caseiros do mosteiro de Santo Thyrso
eram obrigados a geira, rogos, etc. e a lobos, quer
dizer, a ir a montarias (Viterbo, íZlucidario, na pa-
lavra lobos).
Nas Ordenações affonsinasha urn titulo inteiro a
respeito do monteiro moor e cousas que a seu offjcio
pertcencem. E' no livro primeiro, o titulo 67.
São leis que se referem ao tempo de D. João i
e assentes, depois de consultado Vicente Esteves,
a esse tempo monteiro moor da montaria de Santa-
rém, sobre os foros de monteiros de cavallo, mo-
ços do monte, e escudeiros que tiverem cães, e so-
bre os limites da coutada velha.
Trata das coimas dos que matassem porcos e
bácoros nas coutadas, dos fogos postos nas matas,
das armadilhas.
Lopo Vasques ahi apparece mencionado como
monleiro-mór. em tempo de D. Duarte, me parece.
Também se falia dos cervos e cervatos mortos
(§ 4."), e da madeira grossa que se í7 jo/ro tire com
bois, uso que se tem perdido, porque de ha muito
está em voga na maior parte do paiz o carro de
rodas.
O alvará de que fallo é de 1435, feito em Cin-
tra; tempo de D. Duarte.
E' curioso o g 8." O monteiro-mór, e os moços
do monte, e os monteiros de cavallo, e os escudei-
TO
ros d'E]-R«jy, e os moços díi camora do dito Se-
nhor, que tivessem cães do dito Senhor, houves-
sem sempre dos mouros de Lisboa esta louça que
se segue, a saber, hum pote com hum cobertor, e
hum púcaro e hum alguidar, que leve hum pote
d'augua, e hua panella com seu testo, e hua tigel-
]a com hum cobertor, c hua enfusa comhuaalmo-
talia, e hum candieiro. . .
E' que os mouros também em Lisboa tinham o
exclusivo da olaria. E o candieiro? é possível que
fosse de latão, porque entre os mouros também
havia fundidores de metaes, mas é possivel tam-
bém que seja ainda a candeia de barro, a velhíssi-
ma lucerna.
O que então se chamava a coutada velha, onde
era tiefeso o matar porcos moníezes era um terri-
tório enorme, talvez a quinta parte do paiz. O ter-
mo de Montemor o Novo também era coutado,
para porcos montezes; e no território entre Évora,
Monsaraz, Redondo e Portel as matas que se se-
guem :
— Primeiramente dês o pego do lobo á mouta
do Perichalvo, e dês y á ribeira do almo, e dahi
á cabeça das fasquias e dhi ao paço da Pedra al-
çada, e dhi indo per "a ribeira da aroeira á ribeira
do Freixo, e pela ribeira de Bemcasadi á mouta
da cega, e dês y ao pego do lobo. Todos estes mon-
tes deste couto a dentro som coutados de porcos,
e porcas, bácoros, e bácoras montezes, e de fogos,
e armadilhas; e qualquer que errasse em cada hua
d'estas cousas, que pagasse quinhentas libras da
moeda antiga; e esto em tempo d'El-Rcy Dom
Joham,
Refére-se a D. João i.*'
O g 17 é muito interessante no nosso ponlo de
vista: Qualquer que matasse usso per toJooRey-
no sem mandado d'El-Rey, pagava mil libras de
boa moeda.
I I
NaJa de confundir estas libras com as estreli-
nas, hoje tão apreciadas.
Esta disposição a respeito do wíjo, ou urso, mos-
tra que este animal era já pouco vulgar em tem-
po de D. Duai íc, ou começo do reinado de D. Af-
fonso V.
Pouco vulgar, julgo, em logares practicaveis,
porque nos ermos montannosos do norte do paiz
o urso viveu até aos tempos modernos. Em in-
verneiras de muitas neves, ha 5o annos. mais ou
menos, ainda os pequenos ursos das Astúrias che-
gavam ás montanhas do Minho e de Traz-os-
Montes.
iMas aqui temos agora um titulo das Ordena-
<;6es Aífonsinas bem frisanle ; é o tit. i.xviiii. do
Li v. i .° Das duvidos que Vasco Fernandes, e Joham
de Basto movcrom a El-Rey Dom Joham sobre a
apuraçom dos beesteiros e gualliotes.
Trata-se da organisação do recrutamento da
força terrestre e maritin^a, nas localidades, como
diriamos hoje; galiotes são os marilimiOs chama-
dos a servir nas galés.
Ora o ^ 4.° da ordenação diz: Em alguns loga-
res da costa do mar, e dos rios, galiotes som cons-
trangidos pelos concelhos pêra correrem os lobos
cada sábado, nom embargando, que som escusa-
dos dos encarregues do Concelho. Mandadesese-
rom dello escusados.
Diz El-Rey, que sejam escusados de correr os
lobos, salvo se teverem guados, que entam os vão
correr com os outros.
De modo que iam correr os lobos aos sabba-
dosl todos os sabbados! pois na lei não se marca
mez ou estação. Acho notável, para haver muitos
lobos é preciso haver muita caça, ou muitos ga-
dos; não é muito difficil, com os cães, ou mesmo
1 2
sem elles, achar as creações, os cachorros dos lo-
bos.
Parece-me montaria demais. O faclo de ser o
sabbado o dia escolhido é natural ; não se ia ao
domingo por não perder a missa.
Em alguns pontos do Alemtejo se as montarias
eram marcadas em periodos de trabalhos agrico-
las mais intensos, quando não fazia conta perder
jornas e dias de trabalho, faziam montaria aos do-
mingos, começando a marcha ás 5 ou 6 horas, in-
do os parochob celebrar as missas na madrugada.
Isto ha poucos annos.
Mais antigamente eram em dias de semana,
pagando jornas; o trabalhador não perdia, mas
perdia o lavrador ás vezes um dia de trabalho pre-
cioso por causa do tempo, e da rotação dos seus
serviços.
O regimento úos monteiros
A montaria mór do Reino esteve regularmente
organisada, com a sua secretaria, livros de regis-
to, e regimentos geraes ou parciaes. Os officios
das Reaes Coutadas, e das montarias mores do
Reino tinham seus privilégios e isenções.
Ainda em 175 1 esses privilégios foram confir-
mados por Decreto real. Tenho á vista esses do-
cumentos, em treslado autheníico, passado em
1820, que pertenceu ao monteiro-mór de Kvora.
Vou transcrever o :
Regimento dos Monteiros -mores
das montarias dos lobos, e mais 1)101103 das comarcas
do Reino
Capitulo i ."
Primeiramente tanto que os IVIonteiros-móres
das montarias dos lobos e mais bichos, cada um
per si, tiverem cartas passadas pela chancelaria
i3
em nome de Sua Magestade, que Deos Guarde, e
assignadas pelo Monteiro-Mór do Reino, irão logo
jurar ás Gamaras das cidades ou villas que forem
cabeças das ditas comarcas, de fazerem o serviço
do dito Senhor, e bem commum dos povos, fa-
zendo-se assento nos Livros d'ella, e por elles as-
signados, na forma que nas taes cartas lhes é de-
clarado.
Capitulo 2.»
Mettidos de posse os ditos Monteiros-Móres pe-
la maneira sobredita, logo com muito cuidado pro-
curarão saber, se nos logares de suas comarcas ha
lobos ou outros bichos que façam, prejuizos aos
povos das vilias ou logares de suas comarcas, e
sabendo que os ha ordenarão fazerem montaria
para atalhar os damnos que os lobos fazem, o que
farão na forma seguinte,
CAPiTai-o 3.*
Assentarão o dia ou dias em que se ha de fa-
zer a dita montaria, e o mandarão publicar, nas
praças das ditas cidades, villas, ou logares das co-
marcas, que a lodos seja notório, e os logares mais
conjunctos onde houver juizes, lhe farão saber por
precatórios, e não os havendo, lh'o noleíicarão por
mandados, pondo n'élles as pennas que lhe pare-
cer a qual não passará de duzentos réis, por se
não dar opressão aos povos das ditas comarcas.
As ditas montarias se farão pelas oitavas do Na-
tal e pelas da Paschoa.
Capitulo 4."
E porque para procederem a seus officios os di-
tos monteiros-móres lhes é necessário escrivão, e
elles o poderão eleger das cidades ou villas onde
residirem os ditos monteiros-móres, e este- tal es-
H
crivão, será por S. M.' posto e approvaJo e com
clles os ditos monteiros-móres farão todas as cou-
sas que devem para cumprimento de seus offi-
cios.
Capitulo 5."
Quando constar que algumas pessoas foram re-
queridas por algum official de Justiça para as di-
tas montarias, e o não quizeram fazer, nem se
acharam no dia apontado nellas, os ditos montei-
ros-móres os mandarão requerer perante os juizes
das ditas villas, e lhes farão certo com a fé dos di-
tos oíficiaes como não obedeceram a seus manda-
dos, e constando-lhe ser assim, os ditos juizes os
condemnarão no que lhe parecer, conforme as qua-
lidades das'culpas não passando porem dos ditos
duzentos réis, porque a jurisdição que Sua Mag.^
dá aos juizes das coutadas que ha em as monta-
rias do reino, é para outros casos.
Capitulo 6."
Mas se os ditos juizes passarem da dita quan-
tia, e condemnarem os rebeldes e remissos em
mais pena de dinheiro por algumas causas ou
suspeitas, que os ditos juizes tiveram com a justi-
ça, em tal caso apeliarão para o Juizo geral das
coutadas do Reino, e applicarão as penas, meta-
de d'ellas para os ditos monteiros-móres, e a ou-
tra metade para o monteiro-mór do jcino, na for-
ma do seu regimento.
Em o livro 7.* a folhas i3o verso se acha regis-
tado o Decreto, pelo qual é Sua Mag.^ servido or-
denar se guardem e observem os privilégios a to-
dos os oíficiaes de suas reaes coutadas e monta -
rias-móres do reino e o seu theor é o seguinte:
Por me ser presente que se não guardam os pri-
vilégios que os Senhores Reis Meus Predecessores
i5
concederam a todo<; os officiaos das coutadas do
reino, não só dos juizes couteiros e guardas mas
Também dos monteiros-móres dos disirictos delias,
monteiros menores e empnizadores. Sou Servido
Confirmar os ditos privilégios, e Ordenar que lo-
dos se guardem e observem aos sobreditos oííiciaes
das coutadas inteiramente, por convir assim a
Meu Real serviço e guarda das mesmas coutadas.
A iMeza do Dezembargo do Paço, o tenha assim
entendido, e mande passar as ordens necessárias
para a sua devida execução. Lisboa, 21 de junho
de 1751. Com a rubrica de S. Mag.* ; ■
" '' ^ '
O treslado authentico d estes documentos foi
passado em Lisboa, a 22 de agosto de 1820 por
João Francisco da Costa, secretario da Moniaria-
jMór do Reino.
Os cercos
Para o effeito das batidas, em cada fregnezia
estavam organisadas companhias com seus cabos
e alferes; e sendo pouco densa a população reu-
niam-se duas freguezias para com;?or a sua com-
panhia.
Havia disciplina, e isto era indispensável; en-
trava muita gente; se o cordão não fosse bem fei-
to e a batida prudentemente dirigida, os lobos que
tocTii sempre boa vista e bom ouvido escapavam
facilmente nos mattos altos, nas quebradas d'ar-
voredo; c era preciso ter cuidado também com as
férasinhas humanas.com as rivalidades de fregue-
zias, que se encontravam nas charnecas com as
espingardas carregadas.
Auctoridades, proprietários, grandes lavradores,
assistiam ás montcrias e frequentemente nos arre-
dores de Évora a tropa entrava no cordão; houve
mesmo algumas batidas organisadas pelo regimen-
to de cavallaria 5.
i6
A cidade dava cinco companhias (tinha antiga-
mente cinco freguezias, Sé, S. Thiago, S. Pedro,
S. Antão e S. Mamede), e as hortas e quintas dos
arredores forneciam duas.
Estas eram as companhias de n." i a 7.
8.^ Companhia. S. Mathias,
9.* Tourega.
10.* Graça.
1 1.* S. Miguel de Machede.
12.* Egrejinha.
i3.' Pigeiro e Vallongo (duas freguezias).
14.' S. Marcos.
i5.* S. Mancos.
16.* N. Sr." de Machede.
i7.'Vianna.
Segundo parece dos documentos que tenho á
vista estas eram as companhias que o monteiro-
mór de Évora podia pôr em movimento. Mas fi-
zeram-se grandes batidas entrando dois e três e
mais concelhos ; as mais profícuas eram as bati-
das em terreno bem marcado, com gente habitua-
da, sem algazarras, com o cerco bem planeado e
bem executado.
As 17 companhias apresentavam uns 700 ho-
mens, capazes de prestar bom serviço. Os mais
affastados perdiam um dia, quasi sempre uma noi-
te, de sabbado para domingo, em marcha, e pela
madrugada estavam no ponto marcado.
Com esta gente só, 700 homens, já se fazia um
cerco de quatro léguas de lado a lado, ou seja um
circulo de 10 kilomelros de raio, mais de 60 de
circumferencia.
Pouco mais ou menos um homem para cem
metros no começo do cerco.
Mas antes de chegar ao cerco ja havia batida,
bulha de cães, gritos dos homens; batedores ar-
mados de bordões iam na frente do cordão, a três
tiros de distancia.
_1Z_
Pela manhan clara, se alguma companhia não
ficara atrazada, formado o cerco, marcadas as
posições e as direcções da marcha, depois de al-
gumas corrimassas da rapaziada fina, galopando
ao ar fresco da manhan, cheio de bellos aromas de
charneca, a levar noticias ao monteiro-mór, soa-
vam os búzios, d'estes búzios que ainda hoje ser-
vem para marcar os tempos nos trabalhos do cam-
po, e que produzem uma larga sonoridade tão in-
tensa e avelludada. Era o signal; os batedores
partiam logo, e os caçadores e perreiros começa-
vam a marcha, rápida nos primeiros minutos, na
primeira meia hora, porque as distancias diminuin-
do, apertava o cerco, o perigo augmentava, e po-
diam começar a apparecer bichos já desorientados.
O lobo, o corço, o cabriolo, ou o javardo es-
pantado pelo batedor fugia, parava adiante, ouvia
novo ruido, fugia mais, depois de três ou quatro
carreiras, estava cançado; porque o animal, como
é natural, dá um voo ou uma carreira, facilmente;
se foge segunda vez emprega o seu esforço maior,
e cansa; á 3.* está fatigado, e ao dar com o cor-
dão esmorece, as perdizes caem exânimes, o lobo,
o veado vae a terra sob o fila ou o rafeiro.
Aqui temos nós um plano de boa monteria.
Imaginem três círculos concêntricos, divididos
pelos raios em 12 partes; no centro, dentro do
circulo menor está o nome do ponto central, do
sitio para onde as companhias se devem dirigir;
entre o primeiro e segundo circulo, a partir do
centro, estão designadas as companhias; nos es-
paços entre o 2." e 3." circulo, os sitiosdo extremo
cerco, quer dizer, dos pontos guarnecidos pelas
companhias no estabelecimento do cerco.
N'este plano o ponto central é o Valle de Tas-
nar.
As primeiras quatro companhias da cidade es-
i8
tavam no Monte das Flores, direita a S.'" Antoni-
co d'entre as Vinhas, esquerda no Pomarinho.
5.* 6.' e 7.* companhias em S.'" Antonico, direi-
ta a S. José, esquerda ao Monte das Flores.
16.^ Companhia, de N. Sr.^ de Machede. Em S.
José de Peramanca, direita a Agua de Lupe (Gua-
dalupe) esquerda a S.'° Antonico.
11.' S. Miguel de Machede. Em AguadeLupe;
direita Abaneja, esquerda S. José de Peramanca.
12.* Comp. da Egrejinha. Na Abaneja, direita
ás Valladas de Cima, esquerda a Agua de Lupe.
10.* Graça do Divor. Nas Valladas de Cima, di-
reita ás Cortiçadas, esquerda á Abaneja.
8.* S. Mathias. Nas Cortiçadas, direita a S. Se-
bastião da Giesteira, esquerda ás Valladas.
9.* Companhia da Tourega. S. Sebastião da
Giesteira, direita á Boa fé, esquerda ás Cortiçadas.
14.* S. Marcos. Na Boa fé, direita ao Outeiro,
esquerda S. Sebastião da Giesteira.
15." S. Mancos. Outeiro, direita á Machada, es-
querda á Boa fé.
17.* Vianna. Machada ; direita ao Pomarinho,
esquerda ao Outeiro.
i3.* Companhia do Pigeiro e Vallongo No Po-
marinho, direita ao Monte das Flores, esquerda á
Machada.
E assim fechava o cerco que teria depois de
ajustado uns 70 kilometros, e um homem por 90
metros, ao começo do cerco.
Na realidade ia sempre mais gente, havia mui-
tos curiosos ; todavia no tempo em que as monta-
rias tinham de ser a sério, evitavam quanto possi-
vel o curioso, e a gente desnecessária; muita gen-
te d'esta fazia confusão, e havia perigos, havia ba-
las. Podiam escapar os lobos e ficar feridos os ca-
çadores.
'9
Aqui outro plano de uma boa montaria.
Ponto central as extremas da herdade de Valle
de Maria de Cima.
Só entravam as companhias do termo da cidade.
8.* e 9.* Outeiro do Conde, d. Valhidas de Ci-
ma, esq. Matoso.
10.* Matoso, d. Outeiro, esq. Paredes.
14.* Paredes, d. Matoso, esq. Mógos.
i3.* Mógos, d. Paredes, esq. Casbarra.
i5.* Casbarra, d. Mógos, esq. Serrinha.
12.'' Serrinha, d. Casbarra, c. S. José de Pera-
manca.
16.* S. José, d. Serrinha, esq. Agoa de Lupe.
1 1.* Agoa de Lupe, d. S. José, esq. Valladas de
Cima.
17.* Valladas de Cima, d. Agoa de Lupe, esq.
Outeiro.
Este foi o plaro da montaria de 17 de maio de
1824.
Parece que esta montaria teve excellente resul-
tado porque o monteiro foi elogiado oficialmente.
III.""' Sr.
Sua ex.* o Sr. General Governador das Armas
d*esta Provincia ficando muito satisfeito do con-
theudo do ofiicio que V. S.* lhe dirigiu na data de
20 do corrente participando-lhe o bom resultado
da Montaria a que procedeu no districto da sua
Capitania mór, manda louvar o zelo e efíicacia de
V. S.* nesta parte do serviço publico, e espera que
V. S.' continuará a mostrar o seu interesse com o
mesmo zelo em todos os objectos do serviço de
Sua Magestade.
Sua Ex.* manda remetter a V. S.*aslnstrucções
inclusas datadas de 12 de julho do anno próximo
passado, que foram distribuídas a todas as Capi-
20
tanias mores d'esta Província, e confia muito que
\. S.* lhe dará inteiro cumprimento.
Deus Guarde a V. S.* — Quartel General de
Estremoz, 27 de maio de 1824. — 111."'° Sr. Antó-
nio Telles Monteiro.
(a) José z4ntoiuo Pestana.
Secr.° do G." das Armas
Montarias houve em que entraram cinco mil ho-
mens ; quasi todos os annos se faziam grandes
montarias officiaes, entrando gente de dois, três e
quatro concelhos, mettendo uns ires mil homens
no cordão.
Aqui em Évora por muitas vezes o regimento
de cavallaria se juntou ás companhias da cidade
e termo para as batidas aos lobos.
Tenho á vista alguns officios que se referem a
uma batida em fevereiro de i83i.
nir Sr.
Em ofíicio de S. Ex.* o Sr. General G.*"" das
Armas d'esta Provincra de 3 do corrente sou en-
carregado de fazer uma montaria, a que passo a
dar as minhas ordens ; e como o dito Ex.™" Sr. de-
termina combine com V. S.^ participo-lhe que te-
nho determinado o juntarem-se n'este quartel no
dia 8 do corrente os practicos para se etfeituar o
detalhe pelas 10 horas da manhan, o que partici-
po a V. S.* para sua intelligencia. Deus Guarde —
Quartel em Évora, 6 de janeiro de i83i. — 111.™°
Sr. João Telles Monteiro.
(a) 'Vicente da Gama Cordovil Lobo.
Sargento-Mór Coinmandante
Reuniram-se os praclicos, assentaram no plano,
2f
marcaram os itinerários ás companhias, e designa-
ram os dias i6 e 17 de janeiro para a grande ba-
tida.
Moços a cavallo levaram os avisos ás aldeias, c
toca a fundir balas, e fazer cartuchos.
Mas começou uma inverneira medonha, sendo
preciso addiar a montaria.
Ilir Sr.
Como se não poude eífectuar a Montaria que
€stava destinada para os dias 16 e 17 passado e
os bichos teem continuado na devoração dasreaes
manadas é do meu dever fazel-a verificamos dias
II e 12 do corrente o que participo a V. S.* para
sua intelligencia. — Deus Guarde a V. S.* — Quar-
tel em Évora, 5 de fevereiro de i83i. — 111.'°" Sr,
João Telles Monteiro.
(a) Vicente da Gama Cordovil Lobo.
Sargento-Mór Conimandante
N'este tempo ainda havia grandes manadas em
Alter, Salvaterra e Almeirim, e pelas inverneiras,
■quando o Tejo e o Sorraia inundavam os campos
as manadas das éguas vinham á Adúa de Monte-
mor o Novo, aos campos do Barrocal, aos coutos
de Reguengos, onde havia menos humidade.
As crias das manadas das éguas eram então di-
zimadas pelos lobos.
E' excusado lembrar que as terras então esta-
vam n')UÍto mais matagosas; nos montados, por
muitas léguas, o mato alto tocava na rama de azi-
nheiras e sobreiras.
O augmento das culturas e a limpeza dos rr on-
tados, este enorme trabalho feito pelo proprietário-
22
lavrador íilemtejano, nos últimos quarenta annos-,
teem combatido de vez a bicharia brava.
Menos cultura, menos limpeza nos campos, mais
bichos. Tal qual como nos livros, que se enchem
de traça e de larvas roedoras se lhes não mechem,
nem os limpam.
A tal montaria reaiisou-se com algum resultado.
Ilir Sr.
Participo a V. S.* que na Montaria a que se
procedeu no dia de hontem consta terem-se ma-
tado doze lobos, o que communico a V. S.* para
sua intelligencia. — Deus Guarde a V. S.* mui-
tos annos. — -Quartel em Évora, i3 de fevereiro
de i83i. — íll.™^ Sr. João Telles xMonteiro.
(a) Vicente da Gama Cordoml Lobo.
Sargeuto-Múr Commandante
Na correspondência official só se falia dos lo-
bos, por ser esse o objecto da batida; na monta-
ria cahiam javardos, veados, raposas, gatos bra-
vos ; uma bicharia medonha ; uma hora depois
dos búzios tocarem já os cães sem correr aboca-
vam coelhos e lebres; as perdizes cahiam esfalfa-
das.
Raras vezes se poderia saber o resultado certo
da montaria.
José Paulo de Mira. o grande general dos caça-
dores alemtejanos, escreveu um folheto muito in-
teressante sobre as montarias: Um brado contra as
montarias de cerco aos lobos na província do Alem-
tejo (Évora, typ. Bravo. 1875, 18 pag. in-8.°).
Os folhetos de Mira sobre caçadas são impor-
tantes a caçadores e ainda no ponto de vista da
23
historia natural, do estudo da fauna alcnitejana :
elle conhecia, na sua larga e intensa experiência,
os animaes e seus costumes e modo de vida.
Nas grandes montarias dirigidas pelo Mira os
grandes grupos de caçadores iam atirando até che-
gar ás primeiras bandeiras brancas, onde logo no
começo da batida se tinham coilocado as esperas;
ahi estacava o grande cordão; depois de se ver
que o cerco marcado pelas bandeiras brancas es-
tava completo, tocava-se o signa! para avançar
até ás bandeiras vermelhas, segundas esperas; n*es-
se segundo cerco parava tudo; e a outro signal só
os caçadores das esperas avançavam até ao cen-
tro.
O principal motivo porque o grande caçador
condemnava as montarias, era a íalta de discipli-
na, a má vontade da gente das freguezias. de mui-
tos lavradores, em executar á risca os preceitos se-
guros necessários para o bom resultado do cerco.
Mira ainda assistiu ás antigas montarias, com
tropa de linha, ordenanças, milicianos, e por isto
estranhava o tempo do cada iim fai o que quer.
— Presentemente vae para as esperas quem quer,
pôr-se aonde lhe parece, e cada um faz o que lhe
apraz — diz elle na sua forma sincera e enérgica.
Depois appareciam-lhe os curiosos com espin-
gardas de dois canos, um de bala, outro com
chumbo, inventando esperas falsas, atirando á ca-
ça miúda, e fazendo fugir o lobo. E elle gritava,
zangava-sc com as precipitações, com as faltas de
disciplina.
No tempo do brigadeiro Cairo, íez-se uma
montaria na serra de Alpedreira, a que foi quasi
todo o regimento de cavallaria 5, em que morre-
ram 42 lobos, 5 javardos, 6 corsos, 600 raposas,
10 gatos cravos, e vários bichos menores.
Annos depois cahiranj em cutra montaria 22 lo-
24
bos, 3 javalis, 2 corsos, 212 raposas, 4 gatos cra-
vos, 6 gatos bravos.
Por estes números se póJe ver como temos pro-
gredido, porque é principalmente a limpeza das
terras que tem batido o animal bravio.
Na sala Portugal do Museu de Historia Natu-
ral da Escola Polytechnica, está um bello exem-
plar de lobo, mandado por J. P. de Mira.
N'esta sala estão hoje reunidos os exemplares
da fauna do paiz; a do Alemtejo está bem repre-
sentada, contando muitos exemplares bons, quasi
todos oíferecidos pelo Mira.
Este grande caçador em vez das grandes mon-
tarias aconselha as pequenas, constituidas por pou-
ca mas boa gente, collocando com antecedência e
cautella as esperas, e espantando os lobos com fo-
guetes, tiros de pólvora secca, homens gritando^
ou tocando businas, e levando assim os lobos a
irem ter aos atiradores das esperas.
Em França montarias grandes e pequenas, re-
compensas officiaes e particulares, não teem con-
seguido acabar com o lobo, e por isto aconselham
hoje a criação e educação de um cão especial, pa-
ra achar o covil, descobrir a ninhada, levantar o
lobo no matto, e fazel-o parar para receber o tiro.
Tem havido casos de o lobo estar parado, entre
a matilha, sem os cães se atreverem a approximar-
se; parece que o bull-dog é então útil, o lobo dis-
trahe-se com o atrevido, e os grandes assaltam-no
e subjugam -no sem perigo.
Assim como as grandes montarias se devem con-
demnar porque representam grande perda de tem-
po, de salários, etc, também o emprego dos cães
precisa cautella, porque ha exemplos de um lobo
estragar em poucos instantes alguns cães de gran-
de valor. O rafeiro ou o fila, educado e armado,
talvez servisse para parar o lobo.
25
Batidas de lobos com grandes pompas, e ás ve-
zes com inesperados episódios picarescos contam
velhas historias em estylo altisonante.
Quando o infante D. Fernando, príncipe das As-
túrias, casou com D. Maria Barbara, filha de D.
João 5." celebraram-se ruidosas festas em Sevilha.
A municipalidade da grande cidade andaluza,
depois de muito cogitar, querendo fazer algo de
novo, do original, e de muito apparatoso, resolveu
offerecer aos noivos uma batida de lobos. O prín-
cipe hespanhol era grande atirador.
Marcaram- se pontos e esperas, tudo preparado
para quanto possível levar os lobos ao alcance da
espingarda de D. Fernando. D. Maria Barbara es-
tava ao lado do esposo; ambos a cavallo.
Muita bulha, gritaria, toques, e de súbito, de en-
tre o matto, levanta-se um touro, que investe com
o casal principesco. Um susto enorme.
O príncipe — adeantou o cavallo, fazendo-se
escudo da princeza, e armando a espingarda em-
pregou na fera um felicíssimo tiro, de que logo ca-
hiu morta — .
E logo uma chuva de sonetos ao caso, dispara-
da em portuguez e hespanhol, por quantos poetas
frequentavam as duas cortes, com muita mytholo-
gia, ao limado bruto^ ao feroi Júpiter, ao bicorne
bruto^ uracan robusto, e á Vénus lusitana.
Só um soneto por amostra
SOHKTO
Feroz promette o touro alta terida
a Vénus digna do melhor Mavorte,
e o príncipe se adeanta a dar-lhe a morte,
bem fulminada sim, mal merecida.
Ditosa culpa foi, que ao ser punida,
achou no invicto braço a feliz sorte,
feliz a Esposa, a quem o real consorte
por lhe a vida salvar, arrisca a vida.
De zelo e magestade o ardor inflama,
26
ao concavo metal ; e em raio expulso
castiga Marte, quanto Adónis ama.
O brio natural lhe rege o pulso,
um Vesúvio de amor lhe acende a chama,
e nascem dois trophéos de um mesmo impulso.
Este caso do touro em vez de lobo foi impresso:
Em lima batida de lobos a que a cidade de Sevilha
convidou a SS. cAI.oM.e oA.ÔA. Catholicas: etc.,eic.
E' um folheto, com muitos versos. Mal pensava a
cidade de Sevilha que a sua festa seria tão cele-
brada.
O nosso D. Miguel matou um lobo, e apanhou
versos pelo feito. Foi no termo de Santarém.
— Morrendo um lobo em Santarém de um tiro
que lhe deo o Ser."'" Sr. Infante D. Miguel hoje
nosso amável Soberano.
30KCIMA
Senhor, pareceu-me bem
O dareis a um lobo a morte ;
Pois mostraste d'esta sorte
Que as caçadas vos convém ;
Porem não só Santarém
Tem temivel bixaria
Lisboa de noite e dia
Tem bixos que nos assaltam
Cá mesmo lobos não faltam
Que devem ter montaria
(Obras de J. Daniel Rodrigues da Costa, Lisboa
1829, pag. 40).
E' transparente a allusão politica na decima.
EíTectivameníe pouco depois começou uma ba-
tida real que veio terminar aqui em Évora.
Em abril d'este anno(i 898) assistiram asMages-
tades a uma batida no termo de Alvito. O Be-
jense de 22 dá a noticia n'estes termos:
— A batida aos lobos, domingo (16) não deure-
27
sultado. Morreram apenas dois. A coisa começou
logo por os batedores formarem escalão em vez de
linha^ e por fecharem mal o circulo. O fechar do
circulo é perigoso, muito perigoso, e não se fechou
com receio das magestades poderem ser feridas.
O resultado foi escaparem-se onze lobos que
andam ás portas de Beja, á Pia quebrada já elles
tem apparecido.
Na batida tomaram parte mais de 2.-ooo caça-
dores dos concelhos de Beja, Alvito, Cuba, Fer-
reira, Alcácer do Sal, e Vidigueira. A batida foi
dirigida pelos srs. Fialho e Jorge d' Ayres — .
Morreram dois. escaparam onze, os avistados;
na mancha batida estavam i3 lobos: o que é no-
tável.
Alguns dos fugidos foram ter a Beja. Em geral
o lobo, com.o todo o animal de presa, tem o seu
campo de operações muito limitado.
A batida desloca-o, mas em breve escolhe ou-
tra sede; ás vezes a muitas legoas da primeira.
O mesmo n." do Bejense dá noticia de outra ba-
tida em Almodovar; mas esta parece que foi pit-
loresca; morreram duas raposas apenas; não sei
se os lobos paparam os jantares dos caçadores.
O Manueliiiho d'' Évora de 4 de junho, dá, na 3.*
pag., a seguinte noticia — Lobinhos e lobos ceruaes
— Gabriel António, um rapagão natural da fregue-
zia de S. Bento do iMatto, de 25 annos de idade,
e altura de i,"'97, apresentou ha dias nos paços
d'este concelho uma ninhada de 9 lobos, que te-
riam uns quinze dias de existência, apanhados na
herdade das Cabanas.
Recebeu Soo réis de premio por cada cabeça.
Transcrevi estas noticias porque ellas provam
2a
como é ainda frequente o lobo em Portugal. Bati-
da em Alvito, i3 lobos; pouco depois na herdade
das Cabanas, um rapaz apanha uma ninhada de
9. Note-se que não é esta região a que passa por
mais abundante em lobos no Alemtejo central.
Pôde haver no paiz mais de um milhar de lobos.
Agora uma noticia referente aos lobos cervaes
(mesmo n.° do Mamielinho); é a seguinte — Osr. dr.
Barahona Fragoso offereceu á direcção do Jardim
Zoológico. . . uma curiosa ninhada de quatro lyn-
ces, aprisionados n'uma das suas propriedades — .
Gatos cravos, lobos cervaes, lynces, são desi-
gnações do mesmo animal. O Mira chamava-lhes
gatos cravos, e assim por todo o Alemtejo.
Ha um bello exemplar de gato cravo adulto em
casa do sr. José Paulo de Barahona, e outro na
sala ^ortugal^ da Esc. Polyt., offerecidopeloM^ra.
Eu fui vêr os quatro gatinhos, ou gatos cravi-
nhos no dia 1 1 de junho. Estavam bem, começa-
vam a comer.
Teem o pello amarello claro com pequenas ma-
lhas escuras; salpicado; cabeças largas, olhos vi-
vos, fitando; as patas grossas; orelhas largas, di-
reitas, com seus pincelinhos pretos, formados de
pellos rijos, nos extremos. Aspecto, attitude, cos-
tumes como os do gato vulgar.
No Jardim morreu ha mezes um gato, de Ca-
brella, alto, gentil, salpicado, um animal lindissi-
mo, mas sem pincéis nas orelhas, de modo que
parece haver nos mattos alemtejanos gatos de três
espécies.
Diziam-me que era um lynce, que por ser novo
ainda não tinha pincéis, mas estes agora eram de
mama e já os mostravam bem. i^lém d'isto o feli-
no a que me refiro era tão alto e comprido como
os gatos cravos conhecidos, mas delgado, muito
fino, e menos fulvo.
^■9
No gabinete dos livros raros da Bibl, Nac. de
Lisboa ha um volume (n. 684) de legislação avul-
sa ; nelle a Ordenaçam sobre os lobos^ em gothico,
do reinado de D. João 3.°
Eis algumas disposições:
— Todo o homem que matar lobo velho haja
3ííooo réis, se matar lobo pequeno haja até 5oo
réis, e quem emprazar cachorros e os mostrar ha-
ja 400 réis — .
Pela Paschoa do Espirito Santo começavam as
montarias: — O qual ajuntamento e montaria se
fará em cada hum anno na terça feira segunda oi-
tava de paschoa. E depois se fará ao domingo i5
dias depois do Espirito Santo e de ahi por diante
ao domingo de i5 em i5 dias até o mez de ju-
nho — .
Desapparece o veado, o gamo, a cabra montez,
em breve será raro o javali, mas o lobo, apezarde
tantas montarias e dos prémios, continua os seus
assaltos: eterno inimigo dos rebanhos.
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS EBOHlÊinSieíS
Ksino publicados :
i." í) mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro.^ — 2." Évora, ro-
mana. O templo. As inscripções; — 3." A Casa pia. — 4." Lóios,
azulejos e obras d'arte. • — 5." Bihliolheca Publica. Noticias das
collecções. — 6.° Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e q.°
Vésperas da restauração. — io.° Brasão d'Evora. — 1 1." A egreja
de Santo Antão. I^ivros parochiaes. Collegiada. — 12." O archi-
vo municipal — 1 3.° A restauração em Évora. — 14.", li." e i6.°
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — 1 7.° Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.", iQ.°, 20.° e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1729. — 23.° Évora nos Lusíadas. — 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental. —
26.0 Antiguidades romanas em Évora e seus arredores. — 27.°
Roteiro d'um eborense.— 28.'' Universidade de Évora. — 29.°
As caçadas, 1.^ parte. — 30." Évora e o ultramar, 2.' parte. —
Si." Ibn Abdun. — 32." Cs mouros. — 33.° As caçadas, 2.» parte.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'E¥ora
Estão publicados :
I." PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIIl e XIV, Documentos do Cabido. Inventários niunici-
paes dí) sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João i.°. Etc.
1 vol, de 202 pag. in^." — iCJíiSoo réis.
2.° PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capitulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. in-4.° — i^zoo réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos, em casa do editor Abran-
ches.
GABRIEL PEREIRA
ESTUDOS EBORENSE
(Historia — ^rte — (Archeologia
ANTIGUIDADES. MESTRE ESTEVÃO ANNES. O RACHAREI. r.INHARES.
D. J0.\0 DE CASTKO. OS QUATRO DA PARODIA CAMONEANA.
O DESASTRE DE JUROMENHA.
ÉVORA
.AlT^JKnv.V ICI?OR.EN"SE
DE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor d* casa real
62 — Rua Ancha — 64
1893
GABRIEL PEREIRA
e:
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u JjL
OR
ENS
^
(Historia — (Arte — Archeclogía
mm
- v^
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ANTIGUIDADES. MESTRE ESTEVÃO ANNES. O BACHAREL LINHAUES.
D. JOÃO DE CASTRO. OS QUATRO DA PAUOiílA CA.MONEANA.
O DESASTRE DE ;u:<OMENWA.
ÉVORA
>E JOAQUIM J03á BAPTISTA, im^rejsor o» oíj» be*i.
Õ2 — RuJ Aiiciu — O»
18^3
ESTUDOS EBORENSES
Os esíodaírtss
Seguramente no tempo dos romanos houve es-
colas em Évora; escolas de ler e escrever, e de
grammatica, e de eloquência, tão estimada na bri-
ihante civilisação latina.
Se aqui estava o grande templo, o aqueducto, o
arco triumphal, a cerca de muralhas e torres, a
grande cidade emfim, e por todo o seu aro tantas
habitações mimosas, de certo houve também es-
colas.
Se até o povoado mineiro de Vipasca (Aljustrel)
tinha os seus mestres primários, os Lídima gistri,
que por signal gosavam de singulares privilégios
(Ludi-magistri. Ludi-magistros a proc. metallorwn
immwies esse placet : é uma verba da tabula de
bronze de Aljustrel), é bem de suppor que em Évo-
ra alem das escolas inferiores houvesse as supe-
riores onde se aprendia a fallar, a discutir, a des-
crever, e a conhecer a língua do grande povo ci-
vilisador.
4
Por isto podemos, o mais naturalmente possí-
vel, imaginar o esíudantinho eborense de ha de-
zoito séculos, pelas ruas estreitas lageadas, seguin-
do o caminho do liiJus litterariíis^ com a capsa dos
livrinhos, e a tabula encerada para a escripta e pa-
ra as contas.
A capsa parecia-se muito com o tarro usado
ainda hoje, principalmente pelos camponezes e pas-
tores ; servia para os pergaminhos, cuidadosamen-
te enrolados, com os seus titulos em etiquetas.
A tabula é hoje directamente representada pela
ardósia, a pedra com moldura.
O ludi-magister recebia meninas e meninos. Uma
pintura de Herculanum representa uma escola com
suas bancadas, a um lado os rapazes, a outro as
raparigas ; n'um extremo o magister^ em pé; no
outro o ajudante castiga um alumno,. batendo-lhe,
com um feixe de varinhas ou juncos, no sitio. . .
destinado pela natureza para açoutes sem conse-
quências graves.
Lia-se Virgilio e H trácio, as Georgicas que en-
sinam e fazem amar a vida rural (como essa lei-
tura ficava bem na Ebora cerealisfj^ as finas odes
que fazem pensar, amar e perdoar. Nas escolas
immediatamente superiores Quintiliano e os Séne-
cas dominaram por muito tempo.
Virailio e Horácio eram lidos nas escolas pri-
marias de Roma já em vida d'elles; o ser lido nas
escolas era uma grande gloria para o escriptor ro-
mano.
Quantas gerações teem lido esses grandes e bons
poetas, quantas suaves emoções teem produzido
na humanidade esses dois espiritos; quantas pal-
matoadas por essa historia fora !
Em muitas escolas romanas havia os bustos dos
dois poetas.
Quando o relógio de agua, ou o de sol, marca-
5
va a hora da sabida o bando juvenil corria e folia-
va ; os meninos Laberios jogavam os ossinhos (as-
tragahisj^ hoje as cinco pedrinhas; os meninos
Froutonios a ocellata, o bugalho; os Tancinos cor-
riam apoz os arcos (trochus)^ os Florentinos brin-
cavam ás nozes (tabula); emquanto as meninas,
pobre Manilia Maxiima^ tão querida, tão cedo
morta ! riam nos jardins com as suas piipae^ bone-
cas de engonços.
Também me parece poder affirmar-se que os
rapazes no tempo dos romanos jogavam a pedra-
da. E é bem possivel que usassem a funda na rija
brincadeira.
Se os godos aqui estiveram, se os seus reis cu-
nharam aqui os seus justos de ouro, e na sua egre-
ja os bispos entoavam os extraordinários hymnos,
as maravilhosas e ingénuas lendas dos primeiros
christãos, de certo também continuou o magistev
a ensinar o seu latim^ soletrando nos evangelhos,
nos textos do código: se na mansão rural, a cinco
léguas da cidade, se consagrou á memoria de Ve-
nancia uma longa inscripção latina, e poética, na
cidade seguramente se continuou a ensinar, em
lenta decadência e transformação, a linguagem que
a egreja adoptara.
Um dia ao lado do pobre magister godo, no-
tário ou clérigo, que ensinava o seu estragado la-
tim, appareceu o árabe alcoranista, com uma toa-
lha na cabeça, assentado na sua esteira, de per-
nas dobradas, e apontando os estranhos caracte-
res dos versículos do Alcorão, e as cassidas lyri-
cas, banhadas de saudades, dos poetas do Yemen
e do Hadramaut.
Quantas vezes Ibn-Abdun seguiria, a mente en-
levada, o olhar espraiando-se a espaços pelas gan-
daras do Xarraaia, ora repousando-se nas longiquas
serranias de amethysta, a leitura dos antigos poe-
tas cantando as rosas e as palmeiras, os episódios
galantes^ as finas allegorias, as guerras gloriosas
do oriente !
Depois do feito nunca feito de Giraldo sem pa-
vor. . . provavelmente os primeiros professores
seriam de proveniência ecclesiastica. A organisação
dos cabidos como que implicava a creação de aulas
de ler e escrever, de latim, e de canto ou de musica.
Para os estudos mais superiores era preciso ir
ao estrangeiro, á França, á ítalia. Em certo docu-
mento eborense de 1292 se concedem privilégios
ás pessoas que fossem estudar a alguma Universi-
dade estrangeira.
Também franciscanos e dominicanos teriam es-
colas ou aulas nas suas crastas golhicas.
Como seria bom estudar, nos cantos frescos do
claustro ogival, ouvindo a fontinha murmurante no
meio da quadra, as andorinhas cortando o lindo
azul do ar, os pardaes bulhando na copado lourei-
ro, junto dos jasmins e das madresilvas que tre-
pando pelas columnas iam beijar os phantasticos
capiteis de symbolismos ingénuos e coloridos. De
modo que haveria já n'aquelle extraordinário sécu-
lo XIII, tão agitado, estudantes da cidade, e dosjr-
rabaldes de S. Mamede, de Alconchel, de S. Fran-
cisco, e da porta de Moura, procurando as aulas
das crastas dos mosteiros, e mais ainda as da sé.
E é muito possível que houvesse também algum
mestre particular, isolado, em casa própria; que
algum publico notário ensinasse a ler e escrever,
aquelles pergaminhos curtos ou compridos, em ní-
tidos caracteres, com os seus artísticos signaes nas
conclusões.
E' notabilissima a calHgraphia, com muitas va-
riantes que denunciam diversidade de ensino, nos
documentos eborenses do século xiv.
Em iSyS, pelo menos, já a rua da Carta Velha
era assim chamada, e esta designação tem sido ex-
plicada como allusiva a uma escola, onde, em cer-
ta época, se ensinava por um methodo antiquado.
Esta rua fica longe da parte antiga da cidade, da
cerca velha; ella pertenceria no século xiv ao ar-
rabalde de Alconchel (Documentos históricos da ci-
dade d' Évora ^ i/ parte, pag. i2 5, n." 55i (iByS),
e n.** 586 (1392).
N'este antiquissimo arruamento ainda hoje
apresentando muitas portas de acanhadas ogivas,
aparece-nos, por 1480, um mestre escola que foi
popular na cidade, pois que o seu nome servia pa-
ra indicar a rua ou travessa . . .casas onde mora
Esteve Anes que ensina hos moços {Doe. hist. \^
parte., pag. 120, n.° 807, Soq c 336).
Mas essa rua tinha nome «rua de Esteve Anes
que ensina os moços, a que chamam rua da Ca-
beça do Lobo. . . depois chamada rua dos Gale-
gos, que vinha ter ao adro de S. Domingos», isto
é não ficava longe da rua da Carta Velha, que
tem sabido conservar o seu nome pelos séculos
adiante.
Estudantinhos nos seus capeiretes, pelas ma-
nhans frescas, iam para mestre Esteve Anes
que lhes ensinava nos seus pergaminhos. Boa tin-
ta havia então; ha documentos que parecem es-
criptos hontenj ; provavelmente os rapazes atura-
vam grandes massadas naescripta, na calligraphia;
são admiráveis algumas letras de essa epocha.
Antes de 1456 já o concelho eborense pagava a
um mestre de grammatica e de escrever.
Conclue-se isto dos capítulos de cortes de 1456
{Doe. hist. 2.^ parte, pag. 78, n." 8) . . .um bache-
8
ler que ensina de gramatiga e a escrever os filhos
dos boons e quaesquer outros que querem apren-
der.
Por signal que já então se regateava o ordenado
ao proveitoso bacharel, como se pode ver no tre-
cho indicado.
Em 1481 (fDoc. hist. 2.* pag. i55) Estevain Ca-
valleiro succede ao bacharel Linhares no ensino de
grammatica.
Por isto se vê que no século xv houve na cida-
de mestres que ensinavam moços, íilnos de bons
e quaesquer, em escolas publicas.
A situação da escola de Esteve Anes, em sitio
então arrabalde, faz suppor que não seria paga pe-
lo concelho. Que era escola bem conhecida, popu-
lar, vê-se por que atéservia para os notários designa-
rem a rua em suas cartas. O nome Carta Velha,
leva a conjecturar de uma escola ainda mais antiga.
E, ainda uma vez, o sitio era arrabalde; na cidade
haveria outras escolas e superiores, ou de mais
elevada cathegoria.
Na Universidade de Évora os estudantes eram
vigiados, havia disciplina rigorosa, nos costumes,
no vestuário, e na vida escolar.
O jesuita, dos primeiros tempos da celebre or-
dem, tinha a mania de regulamentar tudo.
No cartório da Universidade de Coimbra, onde
estão muitos papeis dos diíferentes collegios da
Companhia de Jesus, vi eu vários regulamentos e
instrucções para escrever cartas, para fazer visitas,
e até para comprar pannos pretos!
Aos estudantes de Évora não era permittido ter
cães ou aves de caça.
Não podiam usar cores garridas, nada de ama-
rello, alaranjado, encarnado, verde. Nada de tafu-
larias, nem fatos golpeados ou entretalhados, nem
uvas perfumadas ; também não podiam trazer mas-
caras (o que era trivial nos séculos xv e xvi) fora
das tragedias e comedias que representavam no
collegio: e muitas outras disposições que já publi-
quei nos Estudos Eborenses, Unipersidadc de Évora,
e por esta razão não menciono agora.
A livraria da Universidade estava aberta para
os estudiosos das 7 ás i [ da manhan, e das 2 ás
5 da tarde, no inverno.
No verão abria ^s 6 e fechava ás 10 da manhan ;
de tarde das 3 ás 6. As aulas funccionavam tam-
bém de manhan e tarde.
Todos os trabalhos escolares começavam anti-
gamente cedo ; de sol a sol; a noite era para re-
pousar.
Os hábitos mudam no decorrer dos annos, de
classe para classe; como no século presente teem
variado as horas das refeições, nas classes supe-
rior e média! Teem variado mesmo as qualidades
das comidas; o chá, o café, o assucar, géneros ho-
je de primeira necessidade, são de uso moderno.
A qualidade, o progresso da luz artificial influiu
provavelmente nos horários.
O estudante do século xvi se quizesse trabalhar
de noite tinha a luz da candeia de azeite, ou do
candieirinho de latão, com o seu arsenal de tenaz,
balde e espevitador. A vela de cebo era impossí-
vel, a de cera muito cara. O progresso da lui tem
inliuencia grande na vida ; veja-se o que está suc-
cedendo actualm.ente com o approveitamento da
luz eléctrica ; ha fabricas onde a machina não pá-
ra ; succedem-se os grupos de operários nas gran-
des ofiíicinas onde a formula de sol a sol passou á
historia.
Vamos nós ouvir um estudante da Universida-
de de Évora no século xvi.
TO
Na ccillecção de manuscriptos da Bibliolheca
Nacional da Lisboa, ha nns volumes inleressantes,
com titulo Obras de D. João de Castro.
O auctor apresenta-se (vol. xviii pag. 434) em
um capitulo assim denominado: — Dá o auctor
conta de si até o tempo em que começou a ser es-
tudante em Évora — (cap. 3." do liv.v). N'este ca-
pitulo e nos três seguintes falia da sua vida de es-
tudante, com um cunho de verdade admirável.
— Saibam portanto os que isto lerem que a mi
me chamam Dom Joam de Castro; filho bastardo
de D. Álvaro de Castro, que foi do conselho do
Estado dei Rey Dom Sebastiam, e veador da sua
fazenda, assaz conhecido no reino — .
Era neto do celebre D. João de Castro, visorei
da índia.
— ■ Sendo de oito annos pouco mais ou menos
(cautella com que sempre irei fallando na minha
idade por não saber decerto ao te.mpo que isto es-
crevo, o anno em que nasci, inda que me parece
que foi no de 5o (i55o), ou aoiedor d'elle), fui
tirado do poder de minha ama e levado para casa
da Senhora D. Leonor Coutinha, minha avó, mu-
lher que foi do Senhor Dom Joam de Castro go-
vernador e visorei da índia, o primeiro do nome,
N'ella me criei até idade de i3 ou 14 annos na
cidade de Lisboa — .
De casa da avó o mandaram para o mosteiro
de N. Sr.^ da Penha longa, de frades Jerónimos,
em Cintra.
Esteve ahi quatro annos estudando e ajudando
ás missas. Andava de roupeta comprida, sem ca-
pello, só com a gualteira do mesmo panno,
A aspiração do moço era frequentar uma uni-
versidade, mas os frades não lhe davam ouvidos,
a familia parecia esquecer-se d'elle; não tinha
meios alguns.
í í
Por este tempo começou a frequentar o mostei-
ro um moço honrado dt Cintra, quasi da mesma
idade de D. João; era filho do mestre d'obras do
infante cardeal D. Henrique, e chamava-se Ma-
nuel Carreira. Era bom rapaz, andava no offici*^
de ourives, mas aspirava a ser religioso, frade ca-
pucho.
Os dois moços passeavam juntos por aquella
cerca tão pittoresca; trocavam as suas confidencias.
Manuel Carreira pouco mais sabia do mundo
que D. João; mas era engenhoso, e capaz de se
arriscar.
Perdidas as esperaoças de alcançar meios para
estudar resolveram-se a correr a ventura; o Ma-
nuel sabia que em todas as universidades havia
estudantes pobres que viviam pelos mosteiros, ser-
viam os mestres e os estudantes ricos, ou andavam
á tuna.
D. João cão tinha fato á futrica ; auxiliado pelo
companheiro engenhoso conseguiu transformar
umas roupetas velhas em pelote e calções; e fez
duas trouxinhas das cobertas brancas da cama,
com alguma roupa e uns livrinhos.
Uma noite sahiram do mosteiro, saltaram o
muro da cerca, e eil-os em plena liberdade.
Era principio do verão de 1567.
Ao am.anhecer estavam longe de Cintra ; não
sabiam caminhos; o plano era correr até Salaman-
ca, porque em Coim.bra ou em Évora poderiam
encontrar alguém conhecido.
Chegaram a Sacavém, ouviram um bateleiro a
bradar :
— Vai largar! vai largar I
Metteram-se no batel, com outros passageiros e
desembarcaram quasi noite em Aldea-Gallega.
— íamos como dois passarinhos saidos das
gaiollas.
T2
Não queriam interrogar ninguém, sempre com
receio de serem conhecidos, ou de motivarem des-
confianças.
Foram seguindo a pé uns almocreves hespa-
nhoes.
Andaram, andaram por aquella charneca^ e can-
saram muito.
Um arrieiro castelhano que ia com a recova de
vasio por ter já vendido o seu trigo, entrou de con-
versa com os rapazes, u por pouco dinheiro lhes
deixou montar dois burrinhos. Chegaram a Mon-
temor o Novo, vilia que o Manuel Carreira conhe-
cia; só então os dois estudantes souberam que es-
tavam em mau caminho para Salamanca.
No dia seguinte estavam em Évora; o Carreira
conhecia um estudante, chamado João Pinto, pre-
to do Congo ou Angola, branco pelas suas virtu-
des e prudência. Indagou, soube da sua morada,
quiz vel o.
O Pinto animou os rapazes, que estudassem ali,
podiam viver como em Salamanca ; elle guarda-
ria segredo : convenceu-os a ficar.
Começaram logo a ir ao estudo. Pinto era mui-
to pobre. Dormiam n'uma esteira, mal cobertos.
Dias depois não quizeram incommodar mais o
pobre preto e conseguiram alugar uma camará.
Alugaram a camará da Cru^; parece que era ce-
lebre entre os estudantes.
Uma casa com duas arcas mui grandes, e no
meio uma cruz enorme que um alentado discipli-
nante ou penitente mandou fazer para a levar na
procissão de quinta feira de Endoenças; e depois
a deixou ali; a cruz tinha a altura do pé direito da
casa, e estava tão atochada entre os sobrados que
ninguém a movia.
Os dois rapazes dormiam sobre as arcas e vi-
viam mui pobremente. Alguns mezes depois Ma-
1iN
i3
nuel Carreira foi para casa do pai, e mais tarde
professou nos Capuchos, como desejava.
D. João de Casiro ficou muito triste, sem o seu
companheiro; a pobreza era agora mais pesada.
Ninguém o conhecia, nem o próprio João Pinto
sabia o seu verdadeiro nome.
Não queria pedir, nem servir, nem andar átuna.
Nunca se resolveu a ser estudante pobre, dos que
pediam pelas portas.
— Não podia acabar commigo chegar a isso — .
Os últimos cinco réis empregou-os n'um pão de
rala e com elle se sustentou un a semana.
Mas o rapaz queria viver, queria estudar, e sen-
tia que ia morrer, ou perder o juizo.
— Fui constrangido a começar a pedir, sem me
poder ainda dobrar de todo; porque não pedia se-
não pelas portas dos mosteiros, e não pelas outras;
nem de noite como faziam alguns estudantes po-
bres. Tinha eu isto por opinião de honra; antes
me deixara morrer que fazel-o; por onde padecia
mais que os que o faziam.
De maneira que nunca pedi a secular, nem inda
a ecclesiastico; porém recebia a esmola que o ar-
cebisDO de Évora D. João de iMello costumava dar
cada semana aos estudantes pobres — .
Assim viveu uns mezes. Chegou o tempo das
ferias grandes.
O neto de D. João de Castro, visorei da índia,
descobriu um meio de viver sem pedir esmola.
Arranjou um cesto e uma faca, voltou o pelote
do avesso, e foi á praça grande da cidade, muito
de madrugada, metter-se nos grupos de ratinhos
trabalhadores das vindimas.
Foi alugado para as vinhas dos padres da Com-
panhia.
Contente por não esmolar; contrariado sempre;
Ob ratinhos, os manageiros íitavam-lhe as feições
e o vestuário estranho, e elie sentra-se incommo-
dado.
Fato, cousas novas não havia quando acaba-
ram as férias e se abriram os estudos; estava es-
farrapado.
Nos mosteiros davam somente pão, caldo e al-
guns sobejos de carne ou peixe.
Pelas ruas e monturos apanhou sohis velhas
para remendar os sapatos. Um beliodia houve re-
ceita extraordinária; os padres da Companhia re-
partiram pelos estudantes pobres algum dinheiro
das multas dos de partido.
Depois um estudante criado do inquisidor Ma-
noel da Veiga também o ajudou com poucochinho.
Faltou ao pagamento da camará da cruz, e o
senhorio expulsou-o. Foi outra vez para casa de
João Pinto.
Nos estudos ia seguindo regularmente; sem li-
vros, papel pouco, um dia sem tinta, outro sem
penna, todavia o pobre D. João não era dos peiores.
De súbito á sabida de uma aula. quando a tur-
ba negra e revolta dos estudantes se espalhava pe-
la arcada, deu de rosto com um religioso da Pe-
nha Longa, que visitava os geraes com um padre
do Coliegio.
Era frei Luiz de Lisboa; conheceu o rapaz, fi-
tou-o bem, poz os olhos no chão, e passou sem
dizer palavra.
Fr. Luiz na manhan seguinte foi visitar João
Mendes de Mendonça, morgado da Oliveira, o que
morreu com D. Sebastião em Africa, e na conver-
sa fallou do estudante.
— Que no Coliegio tinha visto o neto de D.João
de Castro, e que já sabia que vivia mui pobre-
mente — .
O fidalgo e sua mulher D. Beatriz de Vilhena
ficaram muito emocionados. Delicadamente pro-
i5
curaram conhecer o moço. Tinham em casa um
estudante seu criado, que nesse anno era condis-
cípulo do João Pinto; com o pretexto de mandar
uns mimos a este que estava doente, pediu a D.
João para o acompanhar a casa. Foram, entraram
n'i)ma sala, e disse- lhe que esperasse.
D. João fícou-se, com o seu fatinho remendado,
um farrapo, no salão opulento.
Appareceram-lhe os fidalgos.
Com muita bondade interrogaram-no; elle que-
ria esquivar-se, fugir, não queria responder, mas
João de Mendonça segurou-o por um braço.
— Digo a verdade, como fidalgo que é, e falle
de igual para igual, sr. D. João de Castro.
O rapaz contou a verdade toda.
D. Beatriz mandou arranjar um quarto, e horas
depois o rapaz estava lavado, esfregado, vestido
de boas roupas, um primor.
\í dias depois mandaram-no para o Collegio,
tão bem aviado e provido de vestido de estudan-
te, cama e roupa de linho, como o melhor do Col-
legio, posto na primeira meza, que era de quinze
mil réis por anno, de que se pagava logo no prin-
cipio a metade.
— Emfim por este fidaldo e fidalga me tirou
Deus da vida mísera e pedinte. Elle lh'o pague e
a iodas as .suas cousas — .
Fallou-se muito do caso em Évora; entre a fi-
dalguia e o alto clero conversava-se do pobre tu-
nante que tivera a coragem de viver tanto tempo
na miséria; queriam conhecei o, cortejavam-no, e
até o infante cardeal D. Henrique quiz ver o mo-
ço fidalgo que andara á jorna a vindimar em Val-
bom.
Pasmavam de tal coragem.
O cardeal conversou com o morgado da Olivei-
ra e pediu-lhe licença para tomar o estudante sob
sua protecção.
i6
E assim o tomou — por seu collcgial, no nume-
ro dos que elle sustentava com opas em o dito
collegio. De ahi por diante fiquei collegial do car-
deal, da primeira meza, sustentado como cada um
dos seus; cujo ordenado era mui sisado e depen-
dia de outras achegas e extraordinários, para se
poder de alguma maneira passar a vida de estu-
dante, sem se estar uma pessoa revolvendo sem-
pre em comichões de necessidades.
O Cardeal dava aos seus estudantes, em cada
anno, uma opa, uns calções e uma jaqueta. De
seis em seis mezes um barrete, ou um tanto para
elle, e um par de meias de estamenha ou dois tos-
tões. Três camisas ; e quatro vinter.s por mez para
sapatos.
Quando se abriam as escolas dava dois tostões
para papel, tinta e pennas, e alguns, poucos, livri-
nhos de humanidades. Dava botica aos doentes,
mas não pagava a despeza das doenças que exce-
dia a quantia da porção de cada dia.
O pobre D. João de Castro via-se em apuros,
agora que todos sabiam quem era; não se atrevia
a acompanhar os collegas nos seus passeios pelas
hortas e quintas do termo da cidade, nem tomava
parte nos seus jogos.
Os estudantes finos, fidalgos e ricos, jogavam a
pélla, a barreira e as chachas, em que era preciso
apparecer em corpo, e frequentemente se estraga-
va o fato.
Chegou a aborrecer o collegio, os estudos, e até
os livros. Esteve onze annos alli, chegando a fre-
quentar o terceiro de theologia. Tomou o gráo de
mestre em Arfes.
Quando começou a frequentar theologia, o car-
deal por parecer dos padres da Companhia, mu-
dou-lhe a opa em mantéo e roupeta, e deu-lhe um
beneficio simples, ou abbadia sem cura, em S.
Gião da Silva, termo de Valença do Minho.
_1Z_
Depois obteve uma pensão de 5o cruzados em
uma egreja da apresentação de elrei D. Sebastião.
Em iSyS deixou o collegio. O padre Luiz de
Molina instou com elle para íicar, como almotacé
dos esludantes. Elle quiz sahir, entrar n'um con-
vento, mas veio o desastre de Africa que tudo
transtornou.
D. João de Castro ligou-se depois com o prior
do Grato, e teve suas aventuras, e muitas desven-
turas, até que teve de saliir do reino.
(O códice em que vem esta autobiographia tem
o rosto seguinte: — Tratado dos Portugueses de Ve-
neia, ou Ternário^ Senario e U^ovenario dos portu-
gueies que em Veneia solicitaram a liberdade delT^ey
D. Sebastião. 'Parte II. Por D. João de Castro.
Vol. XVIII. Taris 1622- 162S. E' in-4.'' — Bibl.
Nac. de Lisboa. P — 3 — 40.)
O cardeal infante D. Henrique gostava muito
de andar pelas aulas, de conversar com os estu-
dantes, indagando de seus estudos e projectos de
vida.
Aquelle edifício vastíssimo do Collegio que ac-
tualmente aloja, á larga, a Casa Pia, Governo Ci-
vil, Fazenda districtal, o Lyceu, foi quasi todo
construido em tempo do cardeal, e até um tanto
precipitadamente, porque em pontos se nota falta
de perfeição no trabalho. Não acontece isto no Se-
minário que ficou admiravelmente estabelecido,
perfeito no seu todo e afinado em cada uma de
suas divisórias.
Um dia estava o cardeal á sua varanda, gostan-
do, de ver a turba dos estudantes nos geraes, e re-
parou que os mais pequenos não podiam chegar
á taça da fonte que está no meio do pátio; man-
dou logo fazer aos quatro lados do tanque uns
supplementos de mármore, para que os pequenos
podessem beber na taça.
i8
QuanJo havia obras, que em tempo d'elle hou-
ve sempre obras, gostava muito de ver o pessoal
interessado n'ellas.
Alguns noviços nas horas vagas vestiam pelotes,
e trabalhavam nas officinas. Pelotes eram certos
vestidos rústicos que nos primeiros tempos vestiam
ás vezes os religiosos de Jesus, para maior humi-
lhação e desprezo próprio. Quando o velho car-
deal assim encontrava os noviços ficava muito
alegre, tratando-os com benevolência de pae ; e
sempre os protegia.
D. Sebastião frequentava muito a Universidade
e o collegio; por esses longos corredores, pelas ar-
cadas firmes nas clássicas columnatas, passou mui-
tas vezes esse rapaz de formoso aspecto, tez mui-
to alva, cabeilo loiro, bem posto e estatura regular,
e a feição muito grave, ás vezes mesmo triste.
Parecia-se com a mãe, D. Joanna, filha de Car-
los V, o mystico imperador. O pae de D. Sebastião
era o infante D. João, nascido aqui em Évora ;
falleceu muito novo. D. Sebastião nasceu 18 dias
depois da morte do pae.
Que triste, que afílictival cheia de rrortes pre-
coces de filhos e de parentes, a vida do pobre D.
João III! Por isto não admira o temperamento sin-
gular de D. Sebastião, aggravado talvez pela edu-
cação.
>
Ha um episodio significativo que fica bem aqui.
Um dia el-rei D. Sebastião disse ao cardeal, em
segredo, a meia voz, como indo espairecer a um
terraço do collegio vira, fora do collegio, na estra-
da, um mancebo tangendo viola e motejando mui-
to, que lhe disseram ser estudante; e que lhe tinha
parecido mal tanta desenvoltura.
O cardeal ficou muito incommodado, e logo que
se recolheu a casa mandou chamar o padre pre-
feito, contou-lhe o que el-rei lhe dissera, ajuntan-
J9_
do logo que elle lhe respondera que lhe parecia
que o mancebo não seria estudante: e deu-lhe os
indicios, a hora, etc, para que examinasse o caso.
O padre prefeito foi logo indagar, e verificou não
ser estudante o tal rapaz; o cardeal ficou mui
contente, dizendo que bem lhe parecera que estu-
dante da sua Universidade não faria tal coisa 1 É
foi logo communicar o resultado da devassa a el-
rei, que era um rapaz de dezoito annos, com um
buço dourado, em segredo, a meia voz !
No mez de junho de iSyS houve prémios aos
estudantes, dados á custa do deão da sé Simão
Mascarenhas.
Representou-se a historia de Dionísio tyranno
da Sicilia ; D. Sebastião assistiu a toda a funcção.
Deram prémios ás figuras da historia^ aos estudan-
tes, ainda aos das classes inferiores; dois meninos
fizeram seus discursos, tudo acompanhado de ex-
cellente musica. (P.® António Franco, Imagem da
virtude. . . no Collegio de Évora, pag. 49, 57. . .).
Na callada da noite, treva fria de inverno, ou
branco, tépido, luar estival, vem lentamente o gru-
po negro, ao som de violas, uma voz de rapaz en-
toando a modinha, satyra ou paixão de amor.
Nas ruas, terreiros ou travessas apenas os lam-
peões ou lanternas dos nichos dos santos ; e som-
bras espessas pelas arcadas, nos cotovellos dos
terreiros, nos alpendres.
N'uma, n'outra janella soergue-se a adufa, de
fina grade de madeira, ou entreabre-se a rótola, e
assoma uma cabeça de mulher.
Que finas noites de luar as de Évora ! a altitude,
a seccura do ar, não sei quê, dão um tom de vida
ás constellações, que se destacam muito, dando
20
uma profundidade infinita ao céo : o ar é leve, no
avançar da noite uma ligeira humidade rasa os
campos, e enche-se então o ar do aroma delicioso
dos fenos levemente orvalhados.
Passa o grupo, esmorece o rythmo musical, vol-
ta a serena quietude.
Ha suspiros, anceios, saudades no ar.
A's vezes um remoinho súbito, no alpendre, no
arco, á bocca da viella, o estalo dilacerante da vio-
la partida, um ruido de folhas d'aço, um baque
surdo.
Fogem, fica alguém na rua, que geme e se quei-
xa, até que vem o alcaide com os seus homens.
Corria o anno de iSSg.
Os graves mestres, os venerandos theologos co-
meçavam a estar intrigados. Aquelles quatro estu-
dantes andavam agora sempre juntos, todas as
tardes; ora silenciosos como entregues a funda me-
ditação, ora gesticulando, fallando a um tempo, e
desdobrando ás vezes rijas gargalhadas.
Iam pela tarde, estradinha fora, por entre os far-
regeaes, á horta das Oliveiras, assentavam-se na
relva, e que faziam ? conspiravam ? cousa politica?
oh 1 a época era terrivel ! ou haveria caso de Mo-
lina, innovação perigosa? scisma, heresia?
Os rapazes levavam um livro; o reitor quiz sa-
ber que livro era; um leigo tomou sentido, e veri-
ficou serem Os Lusíadas.
O reitor íicou descansado, não era o Molina!
Mas. . . os Lusíadas ?
Os estudantes, os quatro do passeio, eram to-
dos theologos adiantados e qualificados. Eram Ma-
noel do Valle de Moura, natural de Arrayollos,-
Bartholomeu Varella, de Vianna do Alemtejo, Luiz
2í
Mendes de Vasconcellos, e Manuel Luiz Freire,
que depois foi prior de Terena.
Quatro theologos, com os Lusíadas^ passeiando
todas as tardes, saindo da porta de Machede, e
entrando nos farregeaes, gesticulando muito, tro-
cando papeis entre si, era para intrigar mestres e
alumnos.
E elles sem nada revelarem. Um segredo impe-
netrável.
Dois mezes durou a conspiração.
Um bello dia soube-se no collegio, emíim, o que
faziam os quatro estudantes.
Foi uma explosão. Elles eram grandes fanáti-
cos pelos Lusíadas^ e muitas vezes passeavam re-
citando as maravilhosas oitavas cheias de pátria c
amor. Mas rapazes amigos de folgar lembraram-
se um dia de parodiar a epopéa; era uma forma
nova de homenagem ao poeta sublime: e fizeram
a parodia com elementos populares da cidade, e
do seu tempo.
O divino passou a ser o de vinho. Em vez de
Gamas, e Castros, e Albuquerques, apparecem os
Catigelas, Lunas, e Barbanços alcunhas de barões
assignaiados então nas proezas de Baccho, e ge-
ralmente conhecidos na rua das Adegas.
A índia é Peramanca com as suas vinhas cele-
bres.
Em vez do Cabo, de Quiloa, de Melinde, te-
mos Rio Mourinho, o Louredo, a Lagcm, a poria
d'.Aviz. Por ahi andavam o Bagulho, o Novellão,
o Rangel e o Carranca, o Cláudio e o Coutinho e
Fero Vaz, heroes da borracha, empunhando:
De chifre copos grandes, taças bravas.
Fizeram cento e seis oitavas parodiando o pri-
meiro canto dos Lusíadas. Foi um triumpho! A
gente mais sisuda da cidade estourava de rir. As
carapuças, as allegorias eram admiráveis. E não
22
oíTendia gente de posição^ nem fidalgos, nem dou-
tores, nem o meirinho tinham razão de queixa.
O padre Ferrer, varão doutissimo da Compa-
nhia, declarou alto e bom som, no seu bello cas-
telhano, que a obra era excellente, era extraordi-
nária! Tiraram-se copias que giraram por todo o
paiz em pouco tempo.
Houve ainda tentativa de continuação da paro-
dia por António de Magallanes y Menezes, senor
de la Ponte de Barca.
Manuel de Faria e Sousa, Francisco de Soares
Toscano, e outros tratam da parodia feita pelos
estudantes de Évora. N'este século imprimiu-se já
duas vezes.
(V. Brito Aranha, Dicc. bibl. port.tomoxiv, pag.
404 e 410).
Como alguns copistas não conheciam bem as
designações de pessoas e logares, especiaes a Évo-
ra, apparecem muitas variantes nas copias ; houve
conimentarios á parodia! Foi um êxito enorme!
A idéa de parodia litteraria não é má. A Batracho-
myomachia descrevendo os combates de rans com
os ratos é parodia á ílliada de Homero.
A Agnés, de Chaillot, é parodia da Inês de Cas-
tro, de Lamotte.
O D. Jayme, de Thomaz Ribeiro, foi parodiado
pelo Roussado.
A parodia n'estes casos é uma verdadeira ho-
menagem.
As festas bacchanaes dos quatro estudantes de Évora teem duas
edições impressas.
— Parodia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões. Porto,
Typ. da rua Formosa, 1845, in-S."
— Parodia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões por qua-
tro estudantes de Évora, em i58q.
Lisboa, Typ. de G. M. Murtins", 18S0, in-S."
Talvez um dia me resolva a publicar uma edição commentada,
porque é interessante como documento alemtejano eborense do
final do século xvi.
23
19 de janeiro de 1659
A pátria estava em perigo!
Elvas, a grande praça militar, formalmente cer-
cada e investida pelo exercito hespanhol, teria de
render-se !
Rendida, ficava em brecha a fronteira, livre o
caminho para a capital. Se o exercito hespanhol
fosse obrigado a levantar o cerco e a retirar, a H-
berdade ficaria garantida. Era preciso empregar
um grande esforço; reunir alli todas as forças dis-
poníveis, responder á concentração hespanhola com
a portiigueza.
Para isto levantaram as guarnições das praças,
improvisando outras, com gente bisonha, leiga nas
armas, rapazes e velhos, com chuços, arcabuzes,
e antigos mosquetes, que servissem para encerrar
portas, atirar por uma fresta ou detraz de ameias,
gritar alarma, e apparentar de guarnição verdadei-
ra. Ninguém se recusou, n'aquella urgência, no pe-
rigo enorme, por aquellas terras alemtejanas; foi
uma leva em massa; o velho morgado e o reitor
dos Loyos encontraram-se ao lado do operário,
do quintaneiro, do bravio zagorro da charneca,
e marcharam a guarnecer castellos e muralhas.
Os terços tinham ido todos a formar o exercito
para bater os hespanhoes que cercavam Elvas. Tu-
do era preciso, instava empregar todos os elemen-
tos de forca.
Lembraram-se de fazer uma companhia comos
estudantes da Universidade e collegio do Espirito
Santo; com os que restavam, porque muitos esta-
vam já no terço da cidaTe ; com os rapazes de 14
a 20 annos, e com os privilegiados; eram ao todo
uns cem.
O reitor era então o dr. Francisco Soares, cha-
mado o lusitano^ um santo padre que passara a vida
_24_
a estudar a sua philosophia, a -commentar S. Tho-
maz d'Aquino, a ensinar iheologia nas aulas.
Era muito humilde, um doestes homens mansos,
tranquillos, que vivem bem na sua modéstia, no
estudo. n'uma cella conventual, ou á sombra de
uma arvore na cerca silenciosa.
Tivera um dia uma ambição! queria ser mar-
tyr ! ir para o Japão, dar o seu sangue pela fé !
Houve muito d'isto; ha ainda hoje o delírio do
martyrio!
Estava idoso, morrer aqui ou no oriente.-. . na
enxerga da cella ou varado por uma lança. . . lá
a morte seria útil á fé !
O geral iMucio Vitelleschi não deu licença; dis-
se-lhe que as suas luzes e prudência eram preci-
sas cá ; já estava idoso para as longas viagens ma-
ritimas ...
— Olhe Vossa Paternidade, eu em breve hei de
morrer; deixem-me á minha vontade.
Mas o geral negou a licença; e em vez de ir
para o Japão veio reitor para o coUegio e Univer-
sidade de Évora.
Em breve tinha as sympathias, a dedicação es-
pontânea de leigos, estudantes, irmãos e sacerdo-
tes. Era um sábio professor, e um caracter adorá-
vel.
De súbito a crise da lucta, e a gente do collegio
formada em companhia de guerra! e que marchas-
se logo ; escolhesse um chefe, arranjasse armas,
pólvora, mantimentos; e que se fossem apresentar
ao governador de Juromenha! logo! logo!
Os estudantes reuniriam -se e elegeram para che-
fe o padre reitor! o pobre velho professor, todo
humildade!
Elle foi! Pediu que o escusassem do com man-
do. . . os estudantes e o claustro insistiram. Que o
chefe militar da praça os mandaria nas cousas de
25
seu officio, mas o chefe d'aquelle terço Improvisa-
do havia de ser o reitor, só o reitor. E elle obede-
ceu, foi acompanhar os seus estudantes.
O dr. Diogo de Alfaya e o padre Francisco Car-
doso quizeram acompanhal-o,
E marcha para Juromenha ! A curiosa compa-
nhia! Os padres iam nas suas caleças, os rapazes
a pé; arranjaram uns burricos para levar algumas
bagagens, mantimentos, roupas; carros, cavallos,
muares tudo fora requisitado para o exercito.
Rapazes! como elles iriam contentes pelas férias
inesperadas! e assim amilitarados, em tom de
guerra, pela campina fora!
Chegaram, e fizeram o serviço de guarnição sem
novidade, muito limpamente; em vez de sineta
soava a corneta, e pelas noites nas torres e nas
guaritas das muralhas não cessavam os alertas vi-
brantes.
Uma bella manhan um cavalleiro a galope pas-
sando junto da muralha, sem parar, bradou : Vi-
ctoria I victoria ! viva Portugal 1
Vieram todos ás muralhas; outro cavalleiro ap-
pareceu logo, a galope, agitando o chapéu. Este
era de Juromenha e parou na porta da villa no
meio do grupo dos rapazes. Victoria ! os hespa-
nhoes completamente derrotados nas linhas de
Elvas !
Então a rapaziada eborense rompeu em salvas
de mosquetes e artilheria, os sinos desfizeram-se
em repiques, e os bandos de pombos esvoaçavam
loucos sobre a antiga villa alemtejana.
O padre reitor Francisco Soares foi logo a El-
vas dar os parabéns aos generaes; deram-lhe li-
cença para voltar a Évora com os seus estudantes.
Elle volta a Juromenha, 19 de janeiro de 1659,
e manda logo preparar tudo para marchar para
Évora no dia seguinte.
26
N'este tempo adoeceu perigosamente um homem
em casa do governador, no castello; o medico
mandou que lhe dessem o viatico. O reitor e a sua
gente iam n'esta occasiáo fazer as suas despedidas
ao governador. Entraram naturalmente no acom-
panhamento do viatico. O enfermo parece que es-
lava no pavimento térreo, nos baixos da morada
do governador da praça, e que na casa onde elle
estava, ou alli próximo, havia barris de pólvora;
ou o paiol. O enfermo como estava tão maí náo
poude avisar. Algumas pessoas entraram çoiii to-
chas accesas.
Houve uma explosão 1 uma explosão enorme !
A casa estourou como uma bomba, as abobadas
baquearam desfeitas; tudo alli dentro ficou quei-
mado, espedaçado, triturado, esmagado.
Impossível de reconhecer os cadáveres. Achou-
se um fragamento de corpo que se conheceu ser
do reitor porque conservava na algibeira, n'um
fragmento da roupeta, o sinete do ofíicio, o cilicio
e as disciplinas.
Os três padres e mais cem pessoas entre estu-
dantes e privilegiados da Universidade de Evora,
terminaram as vidas n'uma explosão, n'aquelles
dias de immensa gloria!
(Évora gloriosa, pag. 173. Barbosa Machado. Bibl. Lusitana, art
Francisco Soares. Imagem da virtude em o noviciado da Compa-
nhia de Jesus na corte de Lisboa peio P. António. Franco (Coim-
bra, 1717), cap. 48 do.Iiv. 3." pag. 6i5 e seg.)
GABRIEL PEREIRA
KSTUDOS EBOHKHSKS
Estáo publicados :
I," O mosteiro de Nossa Senhor?, do Espinheiro. — .2." Evofa ro-
mana. O templo. As inscripçóes. — 3." A Casa pia. — 4.'',Loios,
azulQJos e obras d'arte. — -5." Bibliotheca Publica. Noticias das
collecções. — 6." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9.»
Vésperas da restauraçãp. — io."Brasão d'Evora. — 1 1.° A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.» O archi-
vo municipal —1 3." A restauração em Évora. — 14.°, iS." e iG."
O archivo da Santa Casada Misericórdia d'Evora — 17.° Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.", 19.°, 20.° e 21.° Assédios d'Evora em i6õ3. — 22.° Os Fes-
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nos Lusiadas.-^ 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25.° Exposições de arte ornamental. —
26." Antiguidades romanas em ELvora e seus arredores. — 27.°
Roteiro d'um eborense. — 28.0 Universidade de Évora. — ^^29.°
As caçadas, i.^ parte. — 3o." Évora e o ultrampr, 2.^ parte. —
3i.° Ibn Abdun. — 32.» Cs mouros. — 33." As caçadas, 2.° parte.
— .54." Os estudantes.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta.
Documentos Históricos da Cidade d'£vora
Estão publicados : ,
i." PARTE —Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João 1.°. Etc.
1 vol. de 202 pag. in-4.° — líttiSoo réis.
2.^ PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborensçs na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. in 4.° — 1^-2.00 réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos., em casa do editor Abran-
ches.
, GABRIEL PEREIRA
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DOS EBOR
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{Historia — ^rte — (Archeologia
ferses Ibofsnjss áo . seeulo VíM
SONETOS DE FREIRAS. O PINHEIRO DO ALTO DE S. BENTO.
O DISCURSO DA. CABALINA. EKUDITOS JOVIAES.
UM SONETO MORDENTE. O Al.EMXEJO NO CORO DAS MUSAS.
ÉVORA
MIJNTKFIVA. EPíOFtFCNSE
DE JOAÇUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor da oas* rí*l
62 — Rua Ancha — 64
1894
GABRIEL PEREIRA
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^istoria — Arte - ^rcheologia
f trsos lborêiii0§ úq mo-úo ZMll
SONETOS DE FREIRAS. O PINHEIKO t>0 Af.TO DK S. PENTO.
O DISCURSO f)A CAHAIINA. KIU!li|IOS .IOV(AKS.
UM SONKTO MOkhKNTE. O Al bMlFJO Ni) COKO DAS MUSAS.
ÉVORA
OE JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor b* oaía rea^
*>.! — Kua Ancha -- 0^
1S94
ESTUDOS EBORENSES
Versos Eborenses do século XVlil
Sonetos de freiras
A senhora infnnta D. Francisca, filha de D. ÍV-
cho II e de D. Maria Sophia Izahcl. Ibi giande
protectora de mosteiros de rehgiosas. l^^stava seni-
pre em dia com a vida das clausuras; carteava se
com abbadessas e priorezas, e quaesqucr freiras;
sabia das vagas, das festas; soccorria as pobrezas,
secundava os projectos, dotava meninas, dava e
promovia donativos, era o anjo tutelar; e era ado-
rada pelas freiras, que duvida!
Isto das casas religiosas em tempo das casas
vinculadas impunha-se como indispensável resul-
tado. Que fazer da pobre menina fidalga que não
encontrava marido? Ou dos íilhos depois do pri-
mogénito que era o senhor morgudo!^ Kstes tinham
os cabidos, ás vezes as mitras, os convenlc^, e ain-
da a carreira das armas; para ser capitão de ca-
vallos não era preciso ler por cima.
Para as senhoras a solução era uma só, o mos-
teiro, onde se entrava com pequeno dote, e se pas-
sava uma vida considerada superior. A fidalga po-
bre; a viuva a quem o marido só deixara um no-
me honrado e hábitos polidos, sem meios de sub-
sistência; a dama que por incidentes domésticos
se via forçada a isolar-se, asylavam-se no mostei-
ro. Era uma solução digna. A moderna sociedade
portugueza não sabe resolver o problema. Para o
cavalheiro fechou o convento, põediííiculdades nos
cabidos e mitras, os cursos militares apertantes
cada vez mais, de modo que só tem a secretaria;
por isto temos grandes fidalgos ás vezes em em-
pregos de segunda ou terceira ordem, o que não é
bonito para elles e é máo para o serviço publico,
para o estado. E' urgente inventar uma guarda fi-
dalga, uma corporação de principacs da pa-
triarcal, um cotíllon de nome pomposo, para collo-
car esles senhores de sorte a não embaraçar os que
trabalham.
As fldalguinhas pobres iam para a clausura, ves-
tiam os seus hábitos muito decentes, frequente-
mente elegantíssimos, ouviam órgão, tocavam cra-
vo e viola de arco, resavam nos bellos coros artís-
ticos, faziam doces deliciosos, flores de seda, an-
dainas para o Menino Jesus, bordados incompará-
veis e não faziam mal a ninguém.
Os doces fabricados pelas freiras de Évora sem-
pre tiveram fama, ainda a tem hoje, e muito me-
recida; que paraizo de paladar naquelles qiieijiuhos
frescos, que symphonia de gulodice nas douradas
lampreias; ha idyllios, odes, elegias; um bolo real
do Paraizo é uma e pope a!
Mas, como ia dizendo, a senhora infanta D. Fran-
cisca era muito querida nos mosteiros; a sua mor-
te prematura, aos Sy annos (a infanta nasceu em
Lisboa cm 3o de janeiro de 1699, e morreu na
mesma cidade, em i5 de julho de 1736), foi natu-
ralmente muito sentida; as freiras de Beja e Evo-
ra que tinham muitas rclaç(5es com a infanta pesa-
ram muito, c prestaram-liie homenagem em um
livrinho que supponho mui pouco vulgar: Ltictiio-
sos ays do pranto man enternecido na sentida morte
daser.""^ srJ^ T). Francisca, infanta de "Tortugal . .
por 7). QÃÍarianna Josepha 'í^ío <2Ãíaior.^ religiosa da
Conceição de ^eja (Lisboa, lyS/, in-4.").
D. Marianna Rio Maior tez a collecção e a man-
dou imprimir; ahi estão poesias de freiras eboren-
ses, que são as que me importam; sonetos! procla-
mados então sem segundos; todos de primeira or-
dem; na minha opinião os sonetos não são máos,
engenhosos, hoje ha cousa muito peior, mas estou
convencido de que as notáveis poetisas seriam in-
signes em especioncs. Mas o que é certo é repre-
sentarem muito bem um feitio do tempo, aquelle
fabrico joãoqiuntesco^ com suas volutas, conchas, e
fachos estyUsados.
O primeiro soneto é de D. Águeda Maria do
Sacramento, religiosa do mosteiro do Paraizo, de
Évora.
I
NA MORTP: da infanta d. FRANCISCA
A uma Ifz tão formosa, um accidcnte
Assim se atreve ousado? que harmonia!
P^az um desmaio a luz ! sim agonia
E' da formosa luz, quando a crecente?
Oh ! como todo o esphcrico vivente,
Sentirá d'esta luz (que produzia
Alentos jci ás espheras, já ao dia)
' Esta magoa fatal, e irreverente?
Mas subiu como ecclipsc á luz mais pura,
Que no Céo se está vendo com espanto,
E com cultos se vè na sepultura;
No occaso não hade ser. que esplendor tanto,
"Só no oriente sepulta a formosura,
Suspendendo a do sol, da aurora o pranto.
A mesma relii^iosa fez outro soneto, segundo na
1
dos.
orJem, mas ambos com acclamações de sem segwi
II
Do Jardim Luso ;i melhor tlor sem vidai
\ imagem de Minerva sem alento
Das três graças o còi o em sentimento !
Do sol a precursora escurecida !
l>a aurora a melhor pérola perdida !
Da Lusitânia o Céo sem movimento !
Do hello o original sem luzimento !
A luz da Lysia a sombras reduzida !
Do Augusto a ideii já sem permanência,
Da Regia estirpe em tior cortado o fructo,
Todo o hnperio do amor em decadência,
Transformando o divino em triste lucto !
Ou parece se esquece a Providencia
Ou passa a crueldade, o que é tributo.
O terceiro soneto é de Soror Brites da Concei
ção, religiosa do mosteiro de Santa Mónica de Évo-
ra : é obrigado ás palavras íinaes.
IIÍ
Já o alento que dava alento á vida,
L a vida, qnc tudo era um puro alento,
Lntre um íuctuoso pranto o sentimento,
A lamenta por luz escurecida :
Luz era. por quem a luz do Sol perdida.
Andava cm continuo movimento ;
Que para ter mais régio luzimento,
Ver queria esta á sua reduzida.
- Mas ainda que não tem já permanência,,
Desta luz, Hor também o altivo fructo,
O ha de ter, ainda tendo decadência.
Que uma ílor, e uma luz niío traja luto
Por morrer luz e Hôr que c Providencia,
Que a ílor e luz sejam Fénix por tributo.
o pinheiro do alto de S. Bento
Em 1739 Jeu-se o celebre caso do pinheiro de
S. Bento; parece que era uma arvore enorme que
muitas gerações tinham reconliecido, imponente na
sua collina de granito. Os pinheiros de S. Bento
são nomeados de ha muito, são balisas, atalaias da
cidade; quando a gente parte e olha por aquclles
sítios são elles a ultima característica que desap-
parece. Quando volta, ou procura a cidade, a mui-
tas léguas, elles marcam a direcção. De niuito lon-
ge, na vastíssima paisagem do Alemtejo central, o
grupo dos pinheiros de S. Bento, e o elmo guer-
reiro da sé, dão a linha inconfundível da cidade.
Pois os pinheiros que lá estão hoje, na parte
mais alta da cerca do extincto mosteiío, talvez se-
jam filhos da veneranda arvore tjue tombou em
janeiro de 1739.
Mais feliz que outras arvores teve esta panegy-
ristas. — discursos da cabaliua^ em que se descreve a
niitia do grande e antiquisshno pinheiro da cidade de
Évora ^ que depois de deioito séculos de duração a im-
pulsos do vento cahio por terra a dous de janeiro des-
te presente anno de ij3g. ^Dedicados á muita reve-
renda madre abbadessa e mais religiosas do conven-
to de S. '^ento da mesma cidade por J. C. da C.
(qúe é João Cardoso da ('osta). Offic. de Miguel
%odrigues^ rySg^ i^-4.^
Em agosto ultimo, visitando o seminário, aò en-
trar na quadra do norte, eu tive intimo pezar, sen-
ti a faltif-d'aquella velha larangeira, que segundo
me disse o reverendo secretario padre Neves, tal-
vez fosse da origem do edifício; porque era uma
larangeira das que chamam [lorluguezas, e todos
os velhos a conheceram velhíssima.
Eugosto immenso d'uma arvore antiga, o as-
pecto estranho das sobreiras seculares! Aquclles
8
pilriteiros collossaes e velhissimos do claustro da
sé, que encanto! e a crisia de gallo da Porta de
Moura [Erythrma Cnstagalli) que dizem ser do
Brazil, a arvore dos papagnios. A palmeira e o frei-
xo da horta do Louredo, dos srs. Torres, que se-
gundo ha tempos ouvi a um antigo do sitio devem
ter agora um século. Mais velho é o cypreste dos
Remédios. A azinheira da Esparragosa também é
antiga e marcante na paisagem.
Os pinheiros mansos (os de S. Bento são pinhei-
ros mansos, piniis pinea) maiores que tenho visto
estavam junto do ínonie de Cajados entre Vendas
Novas e Setúbal; eram enormes, cada um abriga-
va na sua sombra densa, á vontade, 40 carros do
Alemtejo; elevavam a grande altura as magesto-
sas copas.
Eu adoro uma arvore velha, tem o quer que se-
ja de sobrenatural, de eterno e impeccavel, de for-
taleza e de bondade. Acho poesia na azinheira
grande da herdade dos Azinhaes, ou nas do Frei-
xo. Que magestade nos seculares carvalhos das
Va liadas de Alcanede, abrigando sob os hercúleos
braços as velhas antas prehisioricas. Eu fiquei en-
levado ao ver os castanheiros e plátanos dos Pisões
em Monchique, as carvalheiras da Azoia, entre
Leiria e a Batalha, o carvalho de D. Mafalda, na
cerca do convento da Gosta, em Guimarães, o cas-
tanheiro da Senhora dos Remédios, em Lamego;
a magnólia e a tilia grande do jardim botânico de
(À)imbra. Que lindo pensamento em collocarem o
monumento de Brotero á sombra da formoaissima
magnólia que elle plantou!
Mas voltemos ao pinheiro de S. Bento.
O nosso gracioso inventor Amador Patricio(His-
toria das Antiguidades de fCvora. Oílic. da Uni-
versidade, 1739 in-4.'^ P^^D-í 174) conta a historia
do pinheiro.
Um bello dia appareceii em Évora a AL>e Feuix^
enorme, vermelha, pescoço dourado, e rabo roxo,
uma arara formidável. Os eborenses não se admi-
raram muito, porque de ha muito estão costumados
a pássaros de arribação; cm chegando arara põem
logo de lado patos, gallinhas e perus do sitio; o
melhor boccado, o logar melhor é para as aves de
fóra, as do sitio contentem-se com o pátio. Mas
em fim esta ave Fénix foi grata, o que já não é
pouco; é muito até; e muito raro mesmo.
Como a estranha ave quizesse fazer ninho, sen-
do Ião biilhante e rara, nenhum sitio melhor que
o pinheiro de S. Bento. O logar mais alto! A gran-
de arara fez o seu ninho, um grande ninho, mas
no inverno desappareccu; alguns então treparam
pelo pinheiro e viram pasmados (agora é que se
mostra a gratidão da ave) que o ninho era feito de
pãos de cedro, canella, cravo, sândalo, e oulras
espécies odoriferas que a ave fora buscar á Arábia
e á InJia. Cardoso de Azevedo conta varias paU-a-
nhas mais ou menos chistosas, o Giraldo esteve
ali á sombra varias vezes, etc, mas depois diz al-
gumas cousas provavelmente certas. O pinheiro
cahiu em uma noite de quinta para sexta íeira, 3
de janeiro de 1739. Eslava dentríi da cerca e na
queda arrombou o muro. linha i3 pahvios de diâ-
metro no tronco, grossuia Je quatro braçadas.
\í continua a brincadeira. Do lionco íez-se um
cepo para a cosinha do convento, onde se laz o
[licado para tortas e pasteis, e dizem as religiosas
queos picados licam tão saborosos e cheirosos que
não é necessário lançar-lhes adubos. Isto só se pô-
de atlribuir a ter a Fénix feito ninho neste pinhei-
ro com páos de canella, eti:.
Quando o pinheiro tombou descobriram entre
as raizes uma pedra com inscripção. Chamaram
logo todos os archeologos da cidade, dos moslei-
IO
ros, das quintas, vieram as academias da Igreginha
e de MacheJe, e depois de muitas brigas, e de
varias cabelleiras arripiadas, os conspicuos sábios
declararam que não percebiam nada ; mas a madre
refeitoreira, freira travessa, especialista em fiam-
bre, achou que a inscripçáo era em portuguez e
emverso, e decifrou-a logo:
Apollo, Musas e Poetas
Dos vindouros celebrados
A' sombra deste pinheiro
Farão versos amuados.
Todos os homens insignes
Nas armas e entendimento
Nesta cidade de Évora
Mão de ter seu nascimento
Cahirá este pinheiro
Se escapar de ser queimado
O tronco dará um cepo
Em que se fará picado.
Mas vamos ver o Discurso da Cabalína.
João Cardoso da Costa cultivava o chiste eru-
dito, brincava desenfadadamente com os velhos sá-
bios, e os então modernos que em faltando texto
antigo inventavam para seu uso auctores ou inter-
pretações phantasistas. Provavelmente Cardoso da
Costa era parente de Cardoso de Azevedo, que com
o pseudonymo Amador Patrício escreveu a Histo-
ria das antiguidades de Erora^ satyra vasta aos eru-
ditos exaggerados e patetas, inclinados ao mara-
vilhoso. Irmãos na critica, na independência do
espirito, com certeza eram. Note-se que o pinhei-
ro cahiu em 1739, e que no mesmo anno se impri-
miram a Historia (jocosa) (^^75 antiguidades de Évo-
ra e os Discursos da Cabalina. Foi uma explosão
satyrica.
Vae discursar o pinheiro; citarei apenas alguns
versos :
1 1
Naquelle tempo bárbaro e mesquinho,
Que Roma f^uerras dava ao Luso Minho
Quando muitos daquelles más figuras
Vestiam pelles de carneiros, duras.
Turdetanos, e Cehas, todos lusos
Com férreas massas em batalha intrusos
Feros, gentios, bravos em seus modos,
Muito antes dos godos,
Antes de Christo ao mundo ter chegado.
Annos sessenta e dois sobre um contado,
Já o grande pinheiro com plumagem
Dava a corvos e a pegas estalagem
Segundo diz Vallesio
Fublio, ('aiturnio, Taburlim, Farnesio.
Pertencia o pinheiro á nobreza ; tão antigo e tão
altamente colIocad:j, não podia ser de outro modo:
Porque todo o morgado
Na successão faz firme o vinculado;
E o morgado dos Pinhos, e o primeiro
Sem controvérsia íoi este pinheiro.
Plinio o naturalista conhecia perfeitamente o pi-
nheiro, e até SC lhe refere :
Por conselho de Plinio
O qual fallando das plantas do Universo
Tratou deste pinheiro a folhas. . . verso.
O tronco era enorme :
Quatro homens e meio
Não o abraçavam pelo tronco, em cheio.
O pinheiro faz a sua autobiograhia:
• SONETO
Nasci antes de Christo ser nascido
Fui do antigo Sertório venerado.
Ocsci de vários tempos respeitado,
Durei em l*ortugal bem conhecido
Lembra-me deste reino estar perdido,
E de ser por Affonso restaurado;
Évora vi ganhar ao celeiuado
Giraldo sem pavor esclarecido.
12
Vi fundar'o convento a quem destina
O céo luzes sagradas, cu)a empreza,
Sueiro bispo a São Bernardo inclina.
Mas oh ! dura pensão da natureza!
Um ar me derribou ; nesta ruina
Aprenda desenganos a grandeza !
Depois dos romanos appareceram por aquelles
sitios os godos; mas um dia;
Em campo de batalha
o rei com murrião, saia de malha,
Perdeu o godo império.
E surgiram os agarenos:
Perros mouros, ladroens de raça.
Surge emfim o audaz Giraldo, com o seu valor
e ardis de guerra ;
E viste a valentia
De um varão sem pavor, único em guerra
Dominante a muralhas desta terra
E termina a peça poética exclamando
Oh ! tronco altivo
E no mesmo lugar qual de antes eras
Dos teus Abris nas doces primaveras
Como passaste os teniporaes do outomno
De dezembro e janeiro as tempestades?
Por ventura tiveste saudades
Do primeiro senhor que foi teu dono í
Tinha mulher, ou era ainda solteiro.-'
Para nada faltar G. da Costa apresenta o epita-
phio do pinheiro :
EPITAPHIO DO PINHEIRO
Aqui jaz estirado o grão pinheiro
Em São Bento de Aranhas desprezado,
Antigo desde Adão, sem ter peccado,
Quando aqui caducou dentro em janeiro.
Deu-lhe o seu nascimento este terreiro,
E por mais que viveu de força armado
Contra o vento, não pôde estar parado,
Que a vida vento é por derradeiro.
i3
Não viveo poucos annos rei cVoado
Porque mil setecentos nove e trinta,
Sessenta e tantos mais teve a seu lado.
Ao fim da conta o vento pela pinta
Conhecendo lhe antigo o seu morgado,
Deo com elle por terra, e está na tinta.
S. Bento de Aranhas parece que era designação
popular usada antigamente; modernamente não;
e nos documentos não me recordo de a encontrar :
Castris, S. Bento de Gastris, sim, é vulgar em do-
cumentos.
Nos discursos da Cabalina ha ainda outras pe-
ças poéticas dedicadas ao pinheiro, assignadas por
fr. J. X. de C; J. de C. P. ; e P. A. T.
D'este uhimo \^em um soneto em hespanhol
(pag- 7)
Tu, de la eternidad planta animada
Oy a un bronco cadáver reduzida . . .
Termina menos mal
Conciba horror dei hombre la altiveza,
Que si ai tiempo nó escapa lo insensible,
Que espera la mortal naturaleza ?
UM SONETO MORDENTE
A carta de lei de 3 de setembro de 1759, expul-
sando os jesuitas, foi festejada em Évora. A Com-
panhia apezar de ter tido aqui gente de muita im-
portância e valimento, em todos os sentidos, não
chegou nunca a ter sympathias geraes; viveu em
demandas e questões com a Gamara Municipal,
com a Misericórdia, e com as outras ordens reli-
giosas. E todavia nas questões anti-hespanholas
os jesuitas em Évora trabalharam sempre a favor
dos patriotas da cidade, conspirando a valer, em
quanto que os franciscanos eram pelo Philippe.
Os jesuitas foram muito demandistas, ha mesmo
recommendações dos geraes para que evitem tan-
tas demandas; talvez porque se fizeram grandes
H
proprietários territoriaes, e senhores de muitos mi-
lhares de foros, em pouco tempo. Eu o que não
perdoo ao marquez de Pt)mbal é a extincçáo da
Universidade; podia modifical-a, leformal-a; mas
eslava feita, e dotada de modo que não era pe-
sada ao Estado. Também recentemente mataram
de uma pennada a Escola Normal, tão tolamente !
Évora tem bastantes razões para se dizer aggra-
vada pelos poderes centraes, por estes grandes es-
tadistas que tem levado e>te povo, de uma paciên-
cia que até parece criminosa, á lamentável posi-
ção actual, interna e externamente de miséria e
vergonha.
Mas, deixemos isto; cm novembro de 1759 hou-
ve grande festa em Évora, e um despeitado fez
um soneto que se tornou celebre no temjK^, porque
em varias collecções manuscriptas o tcnno topado.
Relação abreviada das festas de Évora em novembro de 1759
Epilogo d;is lestas : mascaradas
Pleheos e nobres, tolos e discretos
Contradanças de brancos e de pretos
Carros triumphantes, burros enfeitados.
Touros bravos e mansos capeados
Contagio de sonatas e sonetos
Disurias nas borrachas e botetos,
Nas bolças puxos secos e molhados.
Os voluntários com espadas nuas
Diversas farças, vários entremezes
Presos, freires, doutores pelas ruas.
Tudo isto repetido muitas vezes
E outras cousas mais nuas e cruas,
Qae se verão d'aqui a nove mezes.
(B. N. Lx.' Mss. V • i ■ 18;
O Alemtejo no CORO DAS MUSAS
Poucos livros haverá escriptos com intuitos pa-
trióticos que se possam comparar á obra de Fran-
i5
cisco do Nascimento Silveira — Coro das Musas
junto por Vénus na casa do Sol, em obsequio dos
reis fidelissimos, e de todos os mais famosos lusi-
tanos antigos e modernos. (Lisboa, offic. de Simão
Thaddeo Ferreira, 1792, in 8."). É uma chorogra-
phia e uma historia de Portugal, postas em oita-
vas; o talento poético do auctor não seria extraor-
dinário, e o seu pensar é por vezes optimista; to-
davia cu aclio muito interessante a obra d'este poe-
ta do findar do século 18. Elle descreve paciente-
mente as províncias, antepondo sempre um resu-
mo estatistico em prosa.
— Província V. Alemtejo — /Fem de comprido
pelo sertão Sg legoas, pela costa 28. Pela margem
do Tejo 35, e pela raia do Algarve 21. Tem cida-
des 4 episcopaes, villas 100, priora.^os grandes 2,
inquisição 1, parochias 35o, rios 60, e muitas fon-
tes. Comarcas 8, praças d'armas 8 e seis mil ho-
mens capazes de militar. —
Sessenta rios no Alemtejo é um tanto forte; o
bom Silveira contou com ribeiros e regatos. Voa-
mos á descripção poética
A quinta * é de Alem-Tejo, triumphante
Das tropas que se crêem mnis valorosas,
De viveres diversos abundante,
Mil gentes enriquece, e faz ditosas.
Das carnes tira lucro interessante.
Ganâncias dos mais fructos copiosas.
Os queijos alli feitos são primor ;
Seus mármores, e barros tem valor.
Em largas extensões mal povoada,
Dilata seu paiz, sempre provido,
E de puros cristaes alimentada
O callido vapor faz não temido,
De praças d'armas oito circumdada
O túmido valor tem reprimido,
Cidades quatro tem, villas, logares.
Pelos campos opimos singulares.
Bispados três numera submettidos,
A sé metropolita respeitável,
# A quinta província.
i6
Pnrochias, e mosteiros tem luzidos,
Cujo raro esplendor é admirável,
Teve templos famosos (já abolidos.
Trocado o culto infame, em fé estável)
A Pura Conceição triumpha e brilha
Nos altares, e boca de Domilha.
Desde Kvoía preclara e populosa
Bem célebre por sua antiguidade,
A Fé se dilatou, sendo pasmosa
A colheita, que teve a Chrisiandaile.
Já Daciano vlo, que vigorosa
Trajava de carmim a mocidade.
A tempo, que nos ermos florecia
De penitente aspereza a valentia.
Por Celtas Eburões, dizem, fundada
}'^sta corte famosa transtagann.
Em collinas alegres dilatada
Como m>mo de Flora, e gloria Ispana,
Municipio de Augusto proclamada,
Participa do foro e lei romana,
Aque^luctos soberbos, torres, muros,
A seos filhos promettem ter seguros.
Seitorio teve alli habitação
Magello dos romanos invencivel,
Giraldo n'ella fez apprehensão
Surpreza a vigilância mais temivel.
Alli venceu por fim a promptidao
A tropa iberiana aborrecivel •,
Cortando com valor a lusa espada.
Uma gente de todo destroçada.
É Beja por antiga conhecida,
Pax Júlia por César nomeada,
Nobilissima colónia ennobrecida,
Por titulo ducal e sé gabada,
A santa lei de Deus alli trazida.
Por Thesifon, brilhou mui dilatada,
Aprigio seu prelado a illustrou,
E Manoel, o grande, a sublimou.
De Helvécio, cremos, Elvas derivada,
Fortaleza do Reino mui luzida.
Pelas linhas quebradas affamada,
E por mitra e- bastão ennobrecida.
Portalegre pomposa, e respeitada.
Sobre antigas ruinas erigida.
De Minicio já vio a desventura,
E de Maia se crê ser sepultura.
A villa de Estremoz a quem a sorte
Occaso destinou de Isabel santa ;
E brilha pelos golpes com que a morte
As tropas hespanholas fere e espanta ;
_17_
L terra singular ; são d'alto porte
Os mármores e iiarros com que encanta ;
Por Affonso terceiro vive e brilha,
Da transia gana terra maravilha.
Dos Moiras é solar Moira arrogante ;
A pequena Canal teve blazão ;
Villa Viçosa corte foi flamante
Da Casa dominante na Nação :
K Boi i^a e Landroal muito abundante,
A Palma, Barbacena junta a mão ;
Alegrete seu nome desempenha,
Campo Maior, Marvão e Jerumenha;
O novo Ríontemór corte algum dia,
D'Affonso, e de João seu filho amado,
P'undado por D. Sancho se gloria,
De dar-nos a João canonizado.
As cortes alli juntas regalia
Tributam a seu velho marquezado,
Assim como nas covas penitente
Merece eterna gloria Santa Gente.
Da planta por Minerva produzida,
Olivença tem nome, e tem blazão.
Pelo grande Diniz enriquecida,
Favores não regeita a Dom João ;
E de fortes muralhas defendida
Como Mertola, Serpa com Marvão,
Kvandria, dizem, fora nomeada,
E por condes illustres governada.
A santa serra de Ossa alli se vê
D'antigos cenobitas povoada :
Em cuja successão certo se crc
A vida penitente restaurada.
Ourique que do Ceo viu a mercê
A Lusa monarchia dispensada
No célebre e pomposo obelisco
D'Affonso, e dos seus nos mostra o risco.
Os hevelcios ou celtas celebrados
Este fértil paiz aproveitando.
Seus campos povoaram dilatados
As matas mais horríveis roteando.
Dos Penos formidáveis visitados,
Seus ritos infernaes professando
Em gentílicos templos demonstraram
O culto que singelos acceitaram.
Os gentílicos templos são as antas^ tão ii um cio-
sas no Alemtejo.
E escusado lembrar nue a villn de Olivença es-
1 t
queceu nas garras do leão hespanhol.
i8
Na oitava de Montemor alludc-^e a S, João de
Deus, e ás cóuas da serra dos Monges.
As outras allusões são facilmente decifráveis.
Em outras partes do Goro das Musas, Nasci-
mento Silveira loca assumptos eborenses; por ex-
emplo :
No seguinte Gir^ildo sem pavor
Sentinellas dormentes degollava ;
E por sua destreza e grão valor
Ser Évora christan se gloriava.
(par. II. est. 67)
O grande D. Garcia de Menezes
Eborense prelado e general
Seguido de fidalgos portuguezes
Bem merece ter gloria iinmortal,
Recebe-o o pastor ; louvam cortezes
As purpuras sagradas Portugal
Pois manda soccorrer por um prelado
O Lacio da moiri.sma ameaçado.
O bispo de Évora D. Garcia de Menezes é um
vulto eborense, e do páiz, notabilissimo no secuío
XV. Este bispo, lettrado illustre, foi general de ex-
çrcitos e almirante de armadas. Silveira refere-sc
á armada mandada em soccorro do Papa. E a fi-
nal o grande prelado enleiou-se na conspiração do
duque de Vizeu, e-morreu miseravelmente no cas-
tello de Palmella. Garcia de Rezende allude tam-
bém ao infeliz bispo.
Outra referencia eborense no Curo das Musas:
Em Évora vio Palias laureados
A muitos singulares portuguezes,
(^ue devem entre os doutos ser contados
Desde o 'I ejo final aos Chinezes
O Fonseca tbi um dos mais prendados,
Como Roma notou diversas vezes ;
Devendo-se a Rezende este primor
Por ser de leitras o restaurador.
(part. lII. est. 41.^
Fonseca é o illustre bispo do Porto, D. fr. José
Maria da Fonseca e Évora.
GABRIEL PEREIRA
Estão publicados :
I." O mosteiro de Nossa Senhora do Kspinheiro. — 2." Evura ro-
mana. O templo. As inscripções. — 3." A Casa pia. — 4.» Lóios,
azulejos e obras d'arte. - -5." Bibliotheca Publica. Noticias das
coUecçôes. — 6." Convent-^s do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9."
Veàperas da restauração. — io.''Brasão d'Evora. — 1 1.» A egreja
de Santo Antão. Livros parpchiaes. CoUegiada. — 12.» O archi-
vo municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.", i5.» e 16."
O archivo da Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 1 7." Évo-
ra e o UltranVar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— 18.°, 19.°, 20.° e 21." Assédios d'Evora em i6ó3. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1729. — 23.° Évora nos Lusiadas. — 24.° Pro-
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental.—
26.° Antiguidades romanas em Évora e seu<; arredores. — 27
Roteiro d'um eborense.— 28.0 Universida>Je de Évora. — 29
As caçadas, i.» parte. — 3o."Evora'eo ultramar, 2.» parte. —
3i.° Ibn-Abdun. — 32.» Cs mouros. — 33.° As caçadas, 2.* parte.
— 34.° Os estudantes. — 35.° Versos eborenses do século xviii.
À' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. Aatonio
Maria Pereira, rua Augusta.
o
Documentos Históricos da Cidade d'£Yora
Estão publicados ;
i.» PARTE — Foraes, costumes. Documentos municipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas.Jlegimento da cidade em tempo
de D. João i.°. Etc.
I vol. de 202 pag. in-4.° — lítPSoo réis. . .
2.= PARTE — Documentos municipaes do sec. XV. Doe. da Mise-
ricórdia c Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. E!pi-
sodios eborenses na chronica de João 2.°, de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. iiT-4.° — 2ÍiT)200 réis. ,
Assignam-se estas publicações no estabelecimeilto do editor J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo, Évora.
MADRUGADAS, contos escolhidos., em casa do editor Abran-
ches. - , '
GABRIEL PEREIRA
ESTUD
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Historia — ^rie — ^rcheologia
k v^lti ái 0@nacuk
A PRISÃO DE CENÁCULO. TRABALHOS, DO SECRETARIO GUSMÃO.
AS DISPOSIÇÕES MILITARES. A MARCHA
PARA EVOKA. ENTRADA SOLEMNE. MANIFESTAÇÕES
RESPEITOSAS DAS FORÇAS INGLEZAS. O VELHO- ARCEBISPO LEVANTA AS
SAÚDES NO JANTAR. A CORRESPONDENCU.
ÉVORA
AtIXKF?,\\V KF!OR.rCrvrSE
OE JDAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impressor oa c«sa rea..
, 62 — Rua Ancha — 64
1894
GABRÍEL PEREIRA
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(Historia — <^rte — tArchQologia
A if rfta ái Cisiouki
A PRISÃO DE CFNACUt.O. TRABALHOS nO Si:rKKTARIO CUSMAO.
AS UISPOSIÇÓIJS MILITARES. A MARCHA
PARA KVORA. KNTRADA SOLEMNE. MANIFESTAÇÕES
RESPEITOSAS DAS FORÇAS INGLEZAS. O VELHO ARCEBISPO LEVANTA As
SAÚDES NO JANTAR. A CORRESPONDÊNCIA.
ÉVORA
.^^.I^J•lÇF^.\'"'V Ecrjor^icNSE
De JDAQUIM JOSÉ BAPTISTA, iMPRrason oa caoa rhu
t)2 ~- Rua Ancha — 64
1894
ESTUDOS EBORENSES
A volta de Cenacalo
José Jorge Guzmão, secretario do illustre arce-
bispo Cenáculo, e seu amigo dedicadissiaio, escre-
veu uma noticia, que parece bem sincera, d'aquel-
la affronta singular que a Junta de Beja, arrastada
pela paixão politica, fez ao prelado eborense, que
antes fora também seu bispo.
Depois do desastre de julho de 1808, Cenáculo
achou-se, muito naturalmente, á frente da Junta
provisória administrativa da cidade, de uma cida-
de cheia de luctos e angustias. A Junta de Beja,
que até com a de Lisboa questionava primasia,
levada de exaltadas paixões, quiz entender que a
de Évora era de origem imperial, inimiga, e vio-
lentamente, sem avisos de espécie alguma, man-
dou prender o velho* arcebispo.
E' facto bem conhecido.
Cenáculo descreveu o desastre eborense na Me-
moria dos acontecimentos de Évora em julho de i8oS,
que eu publiquei no Manuelinho (n." i ig de i de
maio de i883, e seg.)
Essa relação foi depois impressa em folheto de
ordem da Camará Municipal. Eu publiquei ainda
muitos documentos, existentes na Bibliotheca d'E-
vora, referentes á Memoria de Cenáculo, e outros
dados colhidos em fontes diversas que agrupei sob
o titulo geral Évora em i8oS, [Manuelmho^ n.*" 12 i
e seg.)
O P." Gusmão vae descrever-nos um episodio
d'esse período; as diligencias que empregou para
salvar o seu amigo da prisão de Beja; e essa vol-
ta triumphal a Évora, depois de tantos trabalhojá,
cautellas e perigos.
Cenáculo tinha então 84 annos!
A linguagem por vezes áspera do bom secreta-
rio merece desculpa, pela natural irritação produ-
zida por ver tamanha affronta a um velho tão ve-
nerando.
Mas respira sinceridade; por isto eu respeito na
integra a narrativa. E como ella por si só forma
um quadro tão definido, e até piítoresco e dramá-
tico, resolvi incluil-a nos Estudos Eborenses.
G, Pereira,
Senhor !
José Jorge de Gusmão, presbytero secular, e se-
cretario do Arcebispo de Évora, achando-se n'esta
corte desde tempo anterior á invasão franceza, en-
tende que como súbdito d'aquelle Venerável Pre-
lado é do seu dever representar a V. A. R. que o
mesmo Prelado se acha preso desde 14 de agosto
á ordem da Junta de Beja, e que a sua prisão e
conducção para essa cidade se fez com estrépito
cruel, e escandaloso por tropa e contrabandistas
armados, que repentinamente o surprenderam no
seu palácio, e o encerraram em uma sala, junta-
mente com os mais membros da Meza do Go-
verno, pelo espaço de urpa noite inteira, fazen-
do-o sotiVer todo o género de angustias, e mortifi-
cações, esquadrinhando-lhe o seu escriplorio, rou-
bando-lhe até o próprio capote, e precisando-o a
servir-se de uma janella, para acudir ás necessi-
dades físicas: tendo-o depois na praça de Beja por
mais de quarenta minutos, escoltado da mesma
maneira, á vista de immenso povo, que misturava
os vivas de alegria com as lagrimas que derrama-
vam, por contemplarem em semelhante situação
aquelle Prelado, que os tinha tão dignamente pas-
toreado por mais de trinta e dois annos: de cujo
sitio foi mandado levar com escoltas dobradas ao
convento de Santo António, e com tanto rigor ahi
encerrado, que ate foi prohibido ás sentinellas que
o guardavam, deixar fallar-lhe nos primeiros três
dias outrem, que não fosse o creado.. que lhe le-
vava a comida.
O crime do Arcebispo, c o que mostra o docu-
mento incluso, attestado pelas principaes pessoas
da Nobreza e povo da cidade de Évora (era uma
folha de papel cheia de assignaturas reconhecidas
por tabelião, em que todos aquelles habitantes
confessam que é ao seu ex."'° e virtuosíssimo Pre-
lado, e meu muito Amo, que elles devem as suas
vidas, e a existência da sua cidade).
Estas mesmas expressões me fizeram vários ha-
bitantes de Estremoz, quando na minha volta de
Elvas, trazia a ordem do General Leite, para o re-
gimento d'aquella Praça marchar para Beja,fazen-
do-se alli publico o motivo da minha jornada.
Eu não podia conter as lagrimas vendo aquellas
gentes abraçar-me com tanto amor. satisfazendo
em mim de algum modo o grande desejo que ti-
nham de abraçar o seu Prelado, e todos, em alta
voz, dizendo-me: Nós, nós .também devemos ao
nosso santinho as nossas vidas, os -nossos teres, c
a existência da nossa villa, que também estava
sentenciada a ser reduzida a cinzas, e nós todos
passados á espada mas o nosso santinho orou tam-
bém por nós aquelle tigre (Loison, general fran-
cez) e o soube amansar; é ao nosso santo Prelado
que devemos tant(^ beneíicio. c que aquella mal-
dita e excomungada Junta de Boja levou preso com
tanta ignominia, como os judeus prenderam a Je-
sus Christo Senhor Nosso,
Se os edihcios da mesma cidade não foram ar-
rasados e queimados; se os seus habitantes esca-
param de ser passados á espada; se o saque se mo-
derou, e cessaram as hostilidades, dando-se a li-
berdade o duzentos prisioneiros do regimento de
Estremoz, destinados, alem de outros muitos, a
passar pelas armas, tudo isto aconteceu porque o
Arcebispo soube amansar a tirannia de taes inimi-
gos, valendo para isso a sua provecta anciã nidade,
e o nome que tem no mundo, e que em lodo o
tempo fez honra á Nação Portugueza.
V. A. R. que sempre apreciou os seus talentos,
conhece que o Metropolitano o serviu bem, pres-
íando-sc n'aquclle momento a alguma das coisas
que os inimigos exigiram, por ser o único remédio
que restava para salvar o povo.
Se a Junta de Beja se esqueceu do respeito e
decoro devido á sua sagrada pessoa; se ella man-
chou de maneira tão indecente a honra adquirida
em tantos annos; agora que felizmente se acabou
a calamidade publica, e todos se acham restitui-
dos aos seus direitos, implora o supplicante a be-
nignidade de Vossa Alteza Real, para que o seu
Prelado seja reposto na sua metrópole com a hon-
ra que merece pelos seus trabalhos, e pelas suas
intenções, e com a satisfação que V. A. R. julgar
que possa ter equilíbrio com a grandeza do ultra-
je recebido.
E. R. M.
José Jorge de Gusmão.
Em consequência d'esta minha representação
feita á Regência expediram os Senhores Governa-
dores as ordens seguintes:
Ex.™' e RcvT Senhor.
Os Governadores d'estes reinos tornando t;m
consideração o prejuiso que faz a ausência de V.
Ex.* a toda a sua diocese, recomendam a V. Ex.*
que sem perda de tempo se recolha á mesma pa-
ra continuar a dar exemplos de fidelidade, carida-
de e mais virtudes, com que V. Ex.' tem edifica-
do sempre estes Reinos.
E se V. Ex.* quizer ser acompanhado de tropa
para maior decoro, poderá pedil-a ao Tenente Ge-
neral encarregado do governo das Armas d'essa
Província, em execução do Aviso incluso. O que
participo a V. Ex.* para que assim o lenha enten-
dido.
Deus Guarde a V. Ex.*
Secretaria de Estado dos Negocio* do Reino em
6 de outubro do 1808.
Ao Senhor Arcebispo de Évora.
Joãu o^ntoiúo Saltcr de éÃíeiídonca.
Sabendo eu que aquelia Junta de Jacobinos,
mascarados com o nome de portuguezes, questio-
navam no modo de dar cab(^ do meu muito ama-
do Amo e Prelado, havendo entre elles uns que
votavam em o degolarem, e outros em o manda-
rem desterrado para Sines, para ahi acabar os seus
últimos dias, assentando todos em transferir a ca-
deira iMetropolitana de F^vora para Beja, fazendo
arcebispo d'esta nova metrópole ao Padre Antó-
nio Aliar, um digno membro d'aquella infame Jun-
ta Jacobina, clérigo culpado com enormes crimes,
e que deve a sua existência á bem conhecida ca-
ridade do meu muito amado Arcebispo, ainda des-
de quando era Bispo de Beja; e fazendo Bispo
Provisor para Évora ao outro^clerigo, e também
digno membro datai Junta, Provisor e Vigário Ge-
r ai actual de Beja, a quem meu muito querido
Amo e Senhor tinha escolhido em todo aquelle
Bispado para o pôr á testa do Governo do seu
mimoso Bispado de Beja, que elle tem no seu co-
ração; sabendo eu, digo, que aquelia infame Junta,
á maispequena noticia das ordens que eu levava,
de certo o mataria, não quiz ir a Beja, levar a
cai"ta honradíssima d'esta nossa Regência, a saber
se meu Amo queria ou não. que eu voltasse a El-
as para o general lhe mandar tropa, que o acom-
panhasse na forma da ordem inclusa na carta, e
puntamente porque receei, que a modéstia do meu
jArcebispo me prohibisse de lhe ir buscar tropa pa-
ra o acompanhar com a decência que lhe era.de-
.vida, e n'este caso teria aquelia infame e traidora
Junta motivo de lançar mão d'elle, e o matar de-
baixo do falso pretexto de fuga: e por isso, como
as ordens se me tinham mandado abertas com sel-
lo volante, marchei logo com todo o segredo em
direitura a Elvas, a hm de que chegassem a Beja
as ordens juntamente com a tropa, como assim
aconteceu: de sorte que como eu sabia que as mi-
nhas cartas do correio para meu Amo, e as d'elle
para mim eram abertas no correio de Beja, eu
não lhe participei coisa alguma se não quando
passei por Évora em direitura a Elvas; então d'a-
quella Metrópole o avisei de tudo o que tinha fei-
to, as expressões honradissimas com que tanto me
consolaram os Senhores do Governo, distinguin-
do-se entre todos o muito honrado venerando fi-
dalgo, partr quem são limitados os maiores elogios
o ex.""" sr. D. Francisco Xavier de Noronha, o qual
depois das expressões mais consoladoras, para
mim, e mais honrosas que é possível para meu
muito querido Amo e Senhor, me insinuou o mo-
do como eu devia fazer a minha representação á
Regência, para n'ella se saber legalmente o facto,
e que lh'a levasse, porque clle é quem seria o pro-
curador do meu Senhor Arcebispo; c igualmente o
exT" senhor Marquez das Minas, que me encheo
de tanta consolação com as suas honrosas expres-
sões, com que exprimiu pensamentos tão heróicos,
que me deixou admirado de (;s ouvir a um joven
fidalgo, cuja pouca idade, eu suppunha, não lhe
poderia ainda ter adquirido conhecimentos tão pro-
fundos^ e pensamentos tão sublimes; mas é que as
almas grandes, e verdadeiramente fidalgas não es-
tão ligadas á tardança e demora vagarosa dos an-
nos.
Também de Évora mandei a meu Amo as co-
pias das ordens que levava para o general, e que
na volta eu lhe mandaria outro próprio, para o
certificar do dia em que eu deveria chegar a Beja
com a tropa; mas que guardasse segredo em tudo
para não perigar a sua vida; e eu marchei para
Elvas com a ordem seguinte:
IO
111."'° e Ex.""» Sr.
Os Governadores d'este Reino determinam que
V. Ex.* faça apromptar uma escolta da força que
exigir o Arcebispo de Évora, a qual o deverá
acompanhar até á dita cidade para maior decoro
d'aquelle Prelado; o que participo a V. Ex.* para
sua devida intelligencia e execução.
Deus guarde a V. Ex/
Palácio do Governo em 6 de outubro de 1808.
João cAntonio Salter de Mendonça.
Senhor Francisco de Paula Leite.
Felizmente eu tinha pedido ao coronel hespa-
nhol Moretti, que se achava então n'esta corte, seis
dos seus voluntários para me acompanharem na
minha viagem, receando o encontro nas estradas
dos contrabandistas do Jacobino IVlor, digno Pre-
sidente da Jimta Jacobina de Beja, que andavam
pelas estradas, roubando e saqueando pur toda a
parte: porque sabendo o dito Jacobino íMór João
José, o qual se achava já n'esta Corte, tendo sido
acariciado para cá pelo nosso Governo, a íim de o
arrancarem de Beja. aonJe tinha á sua disposição
6 a 8 mil homens armados de todas as armas, e
com elles ameaçando esta Regência, estabelecida
pelo nosso adorado c muito saudoso Príncipe e
Senhor, até ao ponto de publicar em Beja, que a
existência d'esta Regência estava dependente da
sua, de que elle era presidente; sabendo, digo, que
eu linha passado para Aldeã Gallega. mandou em
meu seguimento quatro dos seus contrabandistas,
sem duvida para me assassinarem ou me apanha-
I I
rem quaesquer ordens que eu levasse, e me segui-
rem até Vendas Novas; e como eu ia tão bem es-
coltado não se me atreveram, e d'aquella povoa-
ção voltaram para esta corte, dizendo á sabida da
estalagem uns para os outros — Vamos outra vez
em secco como viemos.
Copia (la Ordem que o Tenente General Leito mandou ao mui-
to bonrado coronel do regimento de Moura Joào Botelho de
Lucena Beltrão.
xMarcbe V. S.'' com os indivíduos do regimento
do seu commando em direcção á cidade de Beja,
aonde deverá achar-se no dia i 5 do corrente, pa-
ra tomar o commando de todas as tropas de ca-
valleria inclusive o regimento n." 3, a fim de acom-
panhar com as ditas tropas ao Ex.""' Senhor Arce-
bispo de Évora, na restituição á sua Diocese, con-
formando-se em tudo ás ordens do mesmo Senhor;
e tendo chegado á cidade de Évora, fará recolher
aos seus quartéis respectivos as referidas tropas.
Ainda que eu esteja na intelligencia de que as tro-
pas do seu cargo, bem como as outras que se lhe
hão de unir, não estão armadas, nem por isso dei-
xarão de marchar, como fòr possível; pois que não
só se trata de fazer a guarda de S. Ex.^^com aquel-
le decoro, que lhe corresponde, mas também de
dar á sua comitiva aquelle caracter magestoso de-
vido ás altas qualidades de um Príncipe tão rc-
commendavel pelas suas virtudes, e tão digno de
toda a nossa dedicação. Deus guarde a V. Ex.*
Quartel General de Elvas, i i de outubro de 1808.
Francisco de ^^Paida Leite. Sr. João Botelho de Lu-
cena Beltrão.
N'aquellc dia i3, depois de eu ler chegado a
12
Beja á testa da tropa de Extremoz e de Évora, de
ahi a uma hora (.hegou a iropa de Moura com o
seu muito digno coronel, o qual defronte da por-
taria do Convento de Santo António, aonde estava
preso o meu amabilissimo Prelado, já consolado
com a minha chegada, e com a honradíssima car-
ta da Regência, que pouco antes tinha recebido
da minha mão, levantou a voz, tendo elle e toda a
oíficialidade e soldados os chapeos na mão, dizen-
do três vezes, e respondendo todos outras três ve-
zes — Viva o Ex.™" e Rev.""* Senhor Arcebispo Me-
tropolitano de Évora — ; depois apeou-se com toda
a officialidade, e entrou para o convento a cum-
primentar a S. Ex.*, e pedio-lhe as ordens, e sa-
ber quando queria marchar para Évora; a que res-
pondeu que logo pela manha do dia seguinte, vis-
to não serem já horas de fazer jornada por ser
quasi sol posto; mas que pela manhã queria di-
zer missa ás 6 horas, e logo marchar quanto an-
tes, como assim aconteceu. Elnlretanto o coronel
Beltrão fez o detalhe da tropa da maneira ae-
guinte:
Ordom do dia 16 de oaíabro para a marcha da escolta do ex.""
e rev.""" Senhor Arcebispo de Évora
Pelas 9 horas estarão todas as tropas que hão
de acompanhar o ex.'"" e rev.'"" Senhor Arcebispo
promptas no largo do convento de Santo António,
para alli se formarem dois esquadr(5es na maneira
seguinte:
As tropas do regimento de cavallaria n. " 2 com
as do regimento n." 5 formam o i ." esquadrão da
direita. As tropas do regimento de cavalleria n." 3
com a companhia que veio de Estremoz, formam
o esquadrão da esquerda. Cada esquadrão é com-
t3
posto de dois capitães, dois tenentes, três alferes,
um porta estandarte, dois furriéis e oito cabos de
esquadra.
Os mais senhores ofiiciaes restantes hão de ir
na rectaguarda da carruagem do ex."*" senhor Ar-
cebispo, pelas ordens de suas patentes, fazendo
assim a guarda de honra do ex."*" Prelado.
Os srs. cadetes Manuel Limpo de Lacerda, Ben-
to de Almeida e Francisco José Villares vão de or-
dens ao mesmo ex.'"" senhor, e devem marchar
formados todos três diante da sua carruagem.
Os porta- estandartes António Januário, e Pedro
da Silva Raposo hão de ir nos lados da carruagem,
servindo de creados de estribeira.
O sr. alferes Amândio Bernardo com i6 solda-
dos, quatro cabos e um furriel hão de ir na frente
da comitiva toda para fazerem a descoberta do
caminho, fazendo n'aquelles sitios em que lhes pa-
recer, sahir da direita e da esquerda um cabo de
esquadra e dois soldados para baterem e fazereni
a descoberta dos íiancos das estradas.
Tudo deve estar prompto no melhor asseio pos-
sivel pelas 9 horas no largo do convento de Santo
António, aonde o sr. Major João da Silva Raposo
fará as repartições, conforme vão detalhadas, for-
mando os esquadrões por meios esquadrões e sec-
ções.
Do esquadrão de cavalleria n." 2 é commandan-
te o sr. capitão Joaquim Carlos Vidal, e oíficiaes
o sr. tenente António da Gama, os srs. alferes Joa-
quim Leocadio e António de Sampaio; furriel Jo-
sé Joaquim da Costa; cabos Fernando José, José
Mathias, José Francisco Cardoso, e Joaquim de
Santanna, e todos os mais oííiciaes inferiores vão
formados a três nas rectaguardas dos esquadrões;
e o furriel Lourenço José Mendes fique em toda a
rectaguarda com dois soldados para fazer recolher
ludo o que para traz íicar. O regimento de cavai-
larla n.° 3 manda dois Estandartes que se hão de
metter nos dois esquadrões; e quando o ex."*" se-
nhor Arcebispo passar na írente us Estandartes fa-
rão as continências devidas, abatendo-se três ve-
zes; e logo que S. Ex.* passe pela Írente, princi-
piarão os esquadrões a destroçar por secções pela
direita, e a corporação dos srs. otíiciaesirá seguin-
do a carruagem por ordem das patentes, Beja i6
de outubro de 1808. João Botelho cie Lucena Bel-
trõo^ Coronel Commandante.
N'esta forma se tez toda a jornada, indo n'este
dia 16 dormir á Senhora de Ayres, e no dia 17 pe-
las onze horas chegámos a Évora, já acompanha-
dos por todos os habitantes e cabido d'aquella ci-
dade, e nos apeámos á purta da Sé, aonde já se
achava postada uma grande gunrda de tropa in-
gleza, que fez as devidas conunencias a S. Ex.* e
depois de darmos a Deus Senhor Nosso as devi-
das graças, voltamos para o Paço, a cuja porta já
estavam duas sentinellas inglezas; e quando S. Ex.*
entrou na casa do docel, achou a officialidade in-
gleza toda desde o brigadeiro até á ultima paten-
te forrando a saia; o que S. Ex.* agradeceu com
aquella urbanidade e politica que o caractensam,
recebendo de cada um os seus cumprimentos, e
correspondendo a cada um d'elles por diíferentes
expressões, e diversas phrases com toda a presen-
ça de espirito; de que os inglezes ficaram bastan-
temente admirados, como elies mesmos o confes-
saram, quando na despedida os acompanhámos.
Ao jantar foi S. Ex."" o primeiro que levantan-
do-se em pé bebeu á saúde do Príncipe Nosso Se-
nhor, a que toda a meza correspondeu com mil
vivas; depois da mesma forma bebeu á saúde da
Rainha e das Princezas Nossas Senhoras, e de to-
da a Familia Real, correspondendo todos a cada
uma das saúdes com muitos vivas em alta voz.
i5
Depois também em pé bebeu á saúde dos srs.
Governadores d'este Reino, como representantes
do iiosso Soberano; e d'esta maneira continuou o
jantar no maior prazer e alegria; emquanto a mim
eu não tive ainda maior na minha vida, principal-
mente depois de eu, estando n'esta Corte, em ca-
sa, e na companhia das sobrinhas, e do irmão, ve-
nerando religioso (presentemente já fallecido) do
meu santo Prelado, a quem desde minha tenra
idade amo como a Pae^ e venero como a Senhor,
ter aqui supportado em toda a extensão o rigor da
amargura, e da consternação durante o seu cruel
captiveiro, em cujo tempo comi muito lume, e be-
bi tanto veneno.
Foram iníinitns as pessoas, que concorreram de
varias partes, durante a minha pequena demora
em Évora, para congratular-se com o meu ex.*""
Prelado pela sua felicissima restituição á sua igre-
ja; e outros emquanto o não podiam fazer pessoal-
mente, enviaram-lhe em cartas os sentimentos de
amor e respeito, que os animavam; eu transcreve-
rei aqui algumas das que pude ter tempo de co-
piar n'aquelles poucos dias, que alli me demorei
entre o barulho e alvoroço causado pela summa
alegria e prazer, que inundavam toda a casa ar-
chiepiscopal.
Copia da carta que escreveu o ex."'' Tenente General da
Província do Alíintejo ao meu ex.'"" sr. Arcebispo.
Ex-""' e Rev ."*•' Senhor.
Suppondo a V. Ex.* no goso das suas proprie-
dades, e procurando manifestar-lhe regosijo e res-
peito, expeço o meu Ajudante d'Ordens José da
Costa de Atahide Teive, visto que as minhas ou-
i6
iras obrigações me privam por agora de me apre-
sentar pessoalmente a V. Ex.* a quem peço a sua
benção.
Deos Guarde a V. Ex.*
Elvas, 17 de Outubro de 1808.
Sou de V. Ex.^ obrigado captivo
Francisco de Paula Leite.
Resposta
111."'° e Ex."" Sr.
Desde que ha muito comecei a formar uma ideia
das prendas de V. Ex.% reservou-me a Providencia
para que um dia eu fosse obrigadissimo a V. Ex.^
em um género de obséquios, que são raros no
Mundo. V. Ex.* foi servido a restituir-me de um
ingrato captiveiro com um apparato de demons-
trações que entre os homens se assignalam como
coisa vinda de mão de Mestre e Bemíeitora, e do
extremo da cortesia. Estas demonstrações na Gra-
ça militar levam-me o coração á presença de V.
Ex.* com o possível acatamento; e das mãos deli-
cadai., e as mais civis, a que V. Ex.^ me confiou,
recebi o maior carinho, e a maior verdade na exe-
cução das ordens de V. Ex."*.
>
O sr. Coronel João Botelho de Lucena Beltrão
ostentou na face do Mundo, como devem ser obe-
decidas as ordens do senhor General prespicaz e
positivo. No espirito do preceito, atrahiu-me, rega-
lou-me, e me destinguiu por maneira de me lem-
brar perpetuamente quanto fico penhorado para
^7
ser a V. Ex.*' muito agradecido, ao que ajuntarei
uma fiel execução nos preceitos de V. Ex.".
Deos Guarde a V. Ex.^ m/ an."
Palácio Archiepiscopai de Évora em 21 de ou-
tubro de 1808.
Ilir e Ex.'"" Sr. Francisco de Paula Leite, general
d'esta Província.
De V. Ex.* Am." obg.'"'^
Fr. Manoel Z^rcebispo de Évora.
Copia da carta do brigadeiro governador de Estremoz
111.™" e Ex.™'' Sr.
Parecerá arrojo tomar esta deliberação, mas o
grandíssimo prazer que me acompanha me obriga
por este meio ir certiíicar a V. Elx.* o quanto me
regosijo que os snrs. Governadores deste reino at-
tendessem ás suas sublimes virtudes, e ao nosso
pessoal interesse, nos restituíssem o nosso legitimo
pastor, e tão sabiamente fizessem contundir as ca-
lumnias.
Deos Guarde a V. Ex.^ muitos annos
Estremoz, 20 de outubro de 1808.
111.°'* e Ex.™' Snr. Arcebispo de Évora.
Amceto Simão Borges.
i8
Copia da carta do Dr. José Ignacio da Costa, lente
da Universidade de Coimbra
Ilir e Ex.'"" Senhor
E a quanto se não atrevem homens desalmados,
quando medem suas esperanças pela grandeza das
victimas que sacrificam á sua ambição! heróicas
virtudes constantemente praticadas. Illustrada sa-
bedoria, rara fidelidade ao Soberano, terno amoi-
á Pátria, venerandas cans adquiridas no uso e de-
sempenho de instruir Principes, presidir Tribunaes,
crear bispados, pastorear metrópoles, não impedi-
ram a negra calumnia de lançar traidoras mãos
sobre o maior e mais respeitável Prelado que hon-
ra o Episcopado n'esies reinos. A melhor causa do
mundo sérvio de pretexto ao mais execrando ar-
rojo. Elle escandalisa o século presente, e parece-
rá incrivel aos vindouros. Era necessário aos de-
sígnios da Providencia, que V. Ex."" passasse pu-
blicamente pelos sofrimentos de Confessor dos de-
veres do Apostolado. Com o mais profundo res-
peito, e não sem lagrimas, eu beijei a humiliação
de virtude, suspirei ser por ella abençoado, e ad-
mirei a grande alma de V. Ex."" tão inalterável no
Throno da religião, conio na ignominia do capti-
veiro.
Deus immortal ! a calumnia dissipa-se, a inno-
cencia apparece com as cores nativas, que a dis-
tinguem, e V. Ex."'' em triumpho é restituído á
Igreja, que illustra por sua doutrina, e edifica por
seus exemplos. Desde esta Universidade eu vou
por este modo levar aos pés de V. Ex.'' a minha
alegria : Supplico a V. Ex.* a receba favoravelmen-
19
te, porque ella é filha da intima gratidão e do pro-
fundo respeito com que sou :
De V. h:x.^
Ill"", e Ex."'" Senhor Arcebispo d^Evora.
o mais humilde súbdito e creado
José Ignacio da Costa.
Coimbra 22 de outubro de 1808.
No dia antecedente ao da minha partida para
esta Corte, entrando eu de manhã no quarto do
meu Amo e Senhor Arcebispo, a saber como tinha
passado a noite, e a pedir-lhe a benção, o achei já
íóra da cama e de joelhos regando as suas devo-
ções do costume: e logo que as concluiu, c nos
saudámos, me disse que voltasse logo, porque que-
ria fechar-se para escrever á Regência como re-
presentante do Nosso Soberano, e a cada um dos
membros d'ella em particular, como amigos ; meia
hora depois eu voltei ao mesmo tempo que elle
abria a porta, e entrando eu me disse: — Alli es-
tão teitas as cartas que você hade levar para a
corte, e entregal-as pessoalmente : logo se passa-
rão a limpo para se fecharem. Eu então as li, c lo-
go lhe pedi licença para tirar as copias, e são as
seguintes :
Senhor
A generosa e solemnissima liberdade com que
V. Alteza foi servido Mandar-me restituir ac meu
domicilio e casa arquiepiscopal de Évora, da qual
toi transferido com a maior ignominia e violência
para a cidade de Beja. que eu havia governado
20
por trinta e dois annos, é um compendio das raras
virtudes, que eu adoro em V. Alteza.
Destinou a Divina Providencia que a minha sor-
te cahisse em um centro prodigioso de justiça : eu
delle derivo quanto é de exemplo nas summas auto-
ridades, para o governo dos homens. Decoro, acer-
to, magestade nas providencias da justiça distribu-
tiva, e quanto é da equidade, tudo resplandece em
V. Alteza. A estes meus pensamentos deverei sem-
pre a força das inclinações, que haja em todos os
tempos de respeitar todos os atributos, que for-
mam a coroa das prerogativas que adornam a V.
Alteza.
Aquelles mesmos pensamentos são os que me
tem ensinado sempre os Direitos que os raios da
Divindade fazem reluzir em V. Alteza, sem os
quaes facilmente se torcem as combinações das
ideias humanas. A esta participação de acerto fará
o Deos omnipotente, que prendam todas as ope-
rações t felicidade de V. .Alteza. Pois que das
Summas Graças e grandes despachos que tenho
recebido no serviço de V. Alteza, tenho aprendido
em toda a minha vida lições da mais cumprida
obediência, seja também a mais fiel e apurada
aquella que aprendi no mais cruel dos tratamen-
tos, sendo arrancado do seio da minha egrcja,
quando, pela Graça Divina, acabava de a remir
das mais ferozes vexações.
Com estes votos me deixará a Providencia Di-
vina continuar emoutraiv e outras aspirações mais,
as quaes todas cedam cm prosperidades de V. Al-
teza, e de toda a Familia Real.
As felicidades pátrias, o contentamento dos po-
vos, a abundância, cèo aprazível, todo o género
de bênçãos celestiaes, a repulsa prepetua dos ini-
migos, as bênçãos dos anjos tutelares, a paz, e a
serenidade dos tempos, acerto das acções e har-
31
monia das virtudes em uma unidade de sentimen-
tos, e de affeições sejam perpetuamente as graças,
com que a Divindade nos adopte.
Copia da carta para o ex.™" sr. D. Francisco Xavier de Horonha
íil.""' e Ex."'» Sr.
A singular aíTeição e diligencia com que V. Ex.*
se ha dignado expedir a minha causa, são dividas
intermináveis, de que eu me acho penhoradissimo.
Tal é o insigne caracter que eu desde muitos an-
nos respeito em V. Ex.*, Tudo me provoca para
viver penetrado de tanto excesso. Ainda que meu
contendor me ha tratado com summa indecencia,
eu fui mui feliz em cahir nos braços de V. Ex.*
de benignidade e carinho, sendo rcstituido á mi-
nha egieja tão plausivelmer.te, quanto valeoappa-
rato de uma tropa provinciana, ptjo qual tanto a
raiva me observou de revez. mais ainda o braço
forte de V. Ex.* pelo seu conselho e arbítrio a des-
mascarou, e lhe dissipou a força, deixando- me em
indizivel obrigação.
D>.us Guarde a V. Ex.^ etc.
Copia da carta para o ex.""' sr. Marqnez das Minas
111.'"" e Ex."" Sr.
Quanta vivacivlade se me excitou acodindo ás
tristíssimas urgências das minhas ovelhas outra
tanta padici em novo g nero de trabalhos, sendo
do meio dVIlas arrancado: porém V. Ex.* me fe-
licitou com o reparo do animo e de boasoíte. Mil
22
c mais graças rendo a V. Ex.* pela reparação que
lhe devo. O Céo ha inspirado a V. Ex.' e fará o
que eu não posso, ficando da minha obrigação os
desejos e os votos para as feUcidades de V. Ex.'.
Deos Guarde a V. Ex.*, etc.
Carta para o ex.""' sr. D. Francisco da Canba e Menezes
111."° e Ex.""" Senhor.
A especialíssima graça que a V. Ex." devo da
minha restituição, é necessário ser acompanhada
deste tributo de agradecimento e respeito. Distin-
guio-se a temeridade em molestar-me, porém o ge-
neroso soccorro de Y.^ Ex.* acudio á minha op-
pressâo para rebatel-a com tanta energia, quanta
se patenteou á face do mundo inteiro, deixando-
me em tanto reconhecimento quanto é o beneficio
da restituição, que por isso mesma haverá de ex-
citarme para uma indelével acção de graças, prom-
pto sempre no serviço de V.* Ex.*.
Deus Guarde a V. Ex.*. etc.
Carta para o ex.""' sr. conde Moníeiro-Mór
I1I."° e Ex."' Sr. .
De tanta valia foi o auxilio de V. Ex.* em gra-
ça minha, que me chegou muito positivo e bené-
volo. Todos os meus cuidados cessaram no ins-
tante em que experimentei cahir sobre mim. um
23
peso de patrocínio que me libertou de mentira e
infâmia. Com estas disposições serei sempre prom-
pto no serviço de V. Ex.*.
Deos Guarde, etc.
Carta para o ex."° sr, D. Miguel Pereira Forjaz
Ilir" e Ex.*"" Sr.
Rendo a V. Ex/ as devidas graças por seu bem
aventurado concurso para a minha liberdade, a
qual me evitará para uma perpetua correspon-
dência do entendimento e coração. Fui maltratados
mas torna feliz a minha situação um auxilio de
tanto credito e valia, quanto o recommendam a,
admiráveis virtudes de V. Ex.''.
Deos Guarde, etc.
Carta para o ex.'"" sr. João António Salter
111.'^'° e Ex."° Sr.
Todas as cooperações de V. Ex.*em minha sal-
vação me tem causado a maior sensibilidade e
agradecimento. Tanto a minha crença mais dista-
va do perigo, menos me acaulellava. Doze annos
me enganou aquelle homem, escrevendo querer-
me bem com todos os desmanchos da perfídia, e
retendo no animo uma cólera lucifcrina. A igreja
taz-me dó. e para meu liniiivo tenho as boas gra-
ças de V. Ex.* a quem servirei do animo.
Deus Guarde, etc.
1
GABRIEL PEREIRA
KSTUJOOS KBOHKNSKS
Esião publicados :
I " O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2," Evpra ro-
mana. O lemplo. As inscripções. — r'3." A Casa pia. — 4." Lóios,
azulejos c obras d'arte. — 5." Ribliotheca Publica. Noticias das
collecções. — f>.° Conventos do Paraíso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Bellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — S." e 9.°
V^esperas da restauração. — 10." Brasão d'Evora. — 1 1." A egreja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiàda. — 12." O aíchi-
\o municipal — 13.° A restauração em Évora. — 14.", i5." e 16."
O archivo da Santa Casa da 'Misericórdia d'Evora-c- 17." Évo-
ra eo Ultramar. Balthazar Jorge c Marco António Pessanha.
—18.". 19.''. 2o.''e 21." Assédios d'Evora em i663. — 22."0sFes-
lejos de Évora em 1729. — 23.^* Evora nos Lusíadas. — 24." Pro-
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. —
26.° Antiguidades romanas em Évora '^ se'j« arredores. — 27.*^
Roteiro d\im eborense. — 28." Universidade de Évora. — 29."
As caçadas, 1.^ parte. — 3o." Evorá e o ultramar, 2.-'' parte. —
3i.' Ibn Abdun. — J2.'' Cs mouros. — 33." As caçadas, 2." parte
• 34." Os estudantes. — 35.° Versos Eborenses do século xvni
òG." A volta de Cenáculo.
A' venda em Lisboa na livraria liertrand, e na do sr. António
Maria Pereira, rua Augusta." '
Documentos Históricos da idade d'Evora
Estão publicados : ■
I." PARTE — Foraes. costumes. Documenios munícipaes dos sec.
XU, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários muníci-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João I .". Ktc.
1 vol. de 202 pjig. in-4.0 — 15^800 réis.
?..'• PARTE — Documentos munícipaes do sec. XV. Doe. ua Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O -primeiro compromisso. Epi-
sodips eborenses na chronica de João 2.", de Garcia de Rezen-
- de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-,
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVI. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
1 vol. de 282 pag. in-4.'' — 2."ZÍ!200 réis.
Assignam-se estas publicações no estabelecimento do editor. J.
F. Pereira Abranches, praça do Geraldo. Eyora.j
MADRUG.'\DAS. contos escolhidos., en> casa do editor Abran-
ches.
re)M'j<ju'j'j';' i 'i^^'Ji ?'7n^7rwmT) '" i uMMJUij' i iJO»j'JU'.iu';'j')'j' j<i' "^'i'j'^i'TO »ji"iuu'i'JuuiJiJuij»' JU<j»iij'jiii jr"ii i ij»i i ji n^ ^
GABRIEL PEREIRA
^istoria :Arte — Archeologia
AS QUESTÕES DO PÃO
QUESTÕES ECONÓMICAS ANTIGAS. LAVUADOItES, MOLEIROS E PADEIROS
IMPOSTOS E PREÇOS l)0 TRIGO. O GRANDE VEKEAnOR CICIOSO
E OS REIS D. JOÃO 2." E D. MANUEL.
ÉVORA
AlIMRFtVvV EBOFXEiSrSK
oe JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, iMP«Et«eR b« e*t* «e*L
Praça de D. Pedr». 22
1896
i,r.^.|»k-iittr.r»ri Z:Tí7tT<,TiTm7,^f ^ f if ifi f Ff'-** fu. TTFT! .r,r.j^i Jtxvi^rjr^trtr^A
GABRIEL PEREIRA
nnrn
ffistoría — Arte — ,Archeologia
AS QUESTÕES DO PÃO
QUFSTOES KCONOMK.AS ANTIGAS. I.AVK ADORFS, MOLEIROS E PADEIROS.
IMPOSTOS E IKÍCOS I)0 TRIGO. O GRANDE VEREADOR ClCIOSO
E OS REIS n. JO.\0 2.° t D. MANUKI,.
(^%
ÉVORA
Bi JOAQUIM JOSÉ BAPTISTA, impresíor o* caía real
% loi — Kiia AiKÍia — Õ4
1894
\
■•r
ESTUDOS EBORENSES
As questões do pão
Escreve-se a historia de um povo, de um reina-
lo, de umn cidade. O narrador dos acontccimen-
ir)s npparece logo nas primeiras civilisações. Os
romanos aprcsentam-nos um grupo de historiado-
j^es, modelos eternos nas varias feiç(jes da lii>tori;i.
Ao narrador dos successos pode juniar-se o criti-
co; o saber dos factos, e o saber relacionar esses
factos e explical-os é já muito; critical-os, e che-
gar a scntencear sobre o bom e o máo, o ulil e o
estéril, é muitíssimo; a imparcialidade histórica é
uma qualidade excelleníc. uma cristalisação que
raros attingem. O espirito que tem uma determi-
nada tendência ou sympathla; a necessidade, o
destino que impõe balisas ou barreiras, originam
(]ue a muitos, á grande maioria dos historiado-
res, seja impossível a imparcialidade. Ha pontos
de vista particulares, como ha circumstancias pes-
soaes que dominam o homem.
Até o simples narrador de factos e acções está
sugeito á falta de imparciiilidade.
OccLilta-se, esquece-se este. e põe-se est'outro
em grande relevo. Veja-se o jornalismo actual on-
de os chronistas do dia a dia, narram muitas vezes
com duas camadas de parcialidade, a do jornal
junta ao ponto de vista pessoal. Alexandre Hercu-
lano, que adorava Fernão Lopes, foi também par-
cial. Agora temos exemplos de historiadores que
variam por lustros, ou na conformidade das en-
commendas.
Durante muito tempo, até em livros de ensino,
se definiu: historia, a narração dos factos. E toda-
via já Tito Livio, o velho, o querido historiador
romano, soube apreciar e explicar factos e acções,
tj ainda mais chegou a fazer historia social des-
crevendo-nos frequentemente episódios da vida
do grande povo, das crises moraes e económicas.
Ha pouco Rosebery, o premier inglez, disse que
mais que os problemas políticos se impõem hoje
ao estadista os sociaes e económicos.
Para os que não são estadistas isso não tem no-
vidade; os problemas políticos são secundários;
o que admira muito é que os económicos se não^
tenham imposto mais bruscamente, e que os esta-
distas não tenham curado de resolver alguns d'es-
ses problemas ou de preparar as cousas para a
melhor ou mais suave solução.
Os meios de defeza, tarifas, pautas, protecção
etc. alimentam uma existência artificial; ávida
dos povos está a encher-se de tutores, á mercê de
um pé de vento.
Quantos problemas políticos se teern resolvido,
bem ou mal, com violência ou com brandura, des-
de que o sr. D. Atfonso Henriques fundou a mo-
narchia ? que quantidade de processos findos! de
allianças, pactos, tratados que passaram aos pa-
peis velhos, como as gerações, com os seus ódios
ç os seus amores, se foram sumindo no silencio
das sepulturas; pois a questão do pão está viva e
bem vivaz, c dura. , . ha quanto tempo! a ques-
tão, ou melhor, as questões do pão duram natu-
ralmente desde que houve productor, moleiro, pa-
deiro e consumidor,
A cidade de Évora em i i 66, lo^o a seguir á
conquista, tbi concedido o íoral e costume de Ávi-
la. As condições das duas cidades eram eguacs;
terras agricolas e fortalezas fronteiriças. Em Évo-
ra os conquistadores respeitaram os mouros traba-
lhadores c proprietários agrícolas; segundo a tra-
dição marcou-se-lhes lo^o um bairro na cidade;
não ha documentos bastantes do século XII, mas
ha do século XI II que provam a existência pacifi-
ca, bem garantida de muitos operários mouris-
cos, de muitos pequenos proprietários.
O rei, o bispo, o cabido, as ordens militares ta-
lharam á larga os seus reguengos, coutos e herda-
des nas amplas campinas alem do aro da cidade.
Com pequenas variantes as zonas da proprie-
dade coincidiam com as actuaes; o couto da cida-
de dividido em tarrejaes de pão e alcáceres com
alguns hortejos ; a zona da.s quintas com os seus
quartéis ecourellus vestidos de oliveiras c vinhedos;
depois as herdades, terras de cereaes, montados,
e grandes pastagens.
Não chegou até nós um códice com os cosliimcs
de Évora, mas ijmos us furos, costumes^ usos e jiii-
los de Évora dados aos habitadores de Alcácer, e
d'aqui communicados aos de (Jarvão, os cusliimcs
de Tercna também communicados de Évora, c as-
sim os dados ás Alcáçovas.
Como c natural o foral e os costumes de Évora
íoram applicados á província no progresso da con-
quista, como o foi o estatuto da sua confraria pie-
dosa formada pelos homens bons que foram a Je-
rusalém.
6
O que chegou a nossos dias forma [xns um cor-
po Jc legislação costumeira único nopaiz;elle
pertence a uma povoação considerável, agricola c
fronteiriça, c que por muitt) tempo foi a guarda
avançada contra mouros.
>
Necessariamente emquaiito as terras de Elvas c
Alcácer do Sal pertenceram a mouros o território
eborense foi muitas Víízes atravessado pelas taiias
agarenas, mas creio que respeitavam a proprieda-
de rural, por nella haver mouros, ou por a es-
tes pertencer.
Porque o estudo das costumes de Évora conven-
cc-nos de que a propriedade eslava então consti-
tuída como actualmente ; as vinhas, as herdades,
os casaes, os gados e a pasloria ; os numcebos de
soldada e creados de lavoura; mondadeiras e se-
gadores á jorna ou á tarefa.
Mais o elemento mourisco.
Nos arrabaldes, nas hortas, nas vinhas, nas her-
dadcs havia mouros, alguns escravos, outros for-
ros, a maior parte livres. Mouros mesteiraes, com
suas tendas, ferrarias, olarias, alcaçarias; mouros
proprietários ruraes, fazendo seus negócios, com-
pras e escambos, arrendamentos c aforamentos,
com a sua actividade perfeitamente garantida; oran-
do na bua mesquita, negociando com a sua moeda.
Na cultura rural apenas uma variante; hoje
muitas quintas tecm duas ou três figueiras; então
havia niais; os documentos faliam mesmo de fi-
gueiredos ou figueiraes, que só no Algarve coíiti-
nuaram.
Pelo foral dado aos mouros de Évora cm 1273
vê-se que cllcs deviam passar má vida, não tinham
tempo para sesta folgada. Vida de moiro, trabalhar
como imi moiro, ainda se diz hoje.
Pagavam a capitação geral, a dizima, mais os
mpostos especiaes do alfitre e do azeque, isto pa-
i
ra os christãos ; porcjuc tinham a pagar ainda pa-
ra a sua communa, para a mesquita, para o seu
alcaide, etc.
Parece-me digno de reparo que muitos moiros
sabiam escrever, apparecem frequentes assignatu-
ras de esses hortelões e oleiros.
Em 1273 o concelho de Évora nomeia sesmci-
ros para regular a destribuição das terras das pre-
siirias novas ; e faz convenção com os de Portel
sobre o uso das pastagens.
Pelo mesmo tempo apparecem os grandes pro-
prietários, por exemplo o cabido eborense, e D.
João d'Aboim, extraordinário vultodo século XIII,
fazendo contractos, subdividindo terras, tomando
encargos, reslaurando egrejas e cultos, computan-
do oííertas e outras rendas ccclesiasticas, o que nos
mostra estar garantida a propriedade, a existência
de população permanente entregue a trabalhos ru-
raes.
Assim n'este largo período de lucta parece que
a população mixta, christãos, e mouros c mosara-
bes, dos arrabaldes, do aro da povoação, mestei-
racs, hortelões, vinhuteiros, Uigareiros, passou qua-
si indiíferenle á briga das hostes c taifas; mas a
povoação do.^ campos, das herdades, das peque-
nas aldeias sotfreu muito, e desertou dos logarcs.
E natural: e fui o que succedcu ainda em i833 c
184Ó; as gucrrilhus victimavam os montes^ os lo-
garejos, as pequeninas povoações agrícolas inca-
pazes de resistir, mais isoladas, onde se não po-
diam reunir de prompto 3o ou 40 homens arma-
dos.
Muitas egrejas foram restaurada^ no meiado
do século XIII ; tinham vivido serenamente essas
agremiações christãs sob o dominio agareno, e
só quando a lucta, a onda da conqu'.sta chegou^
ellas soítrcram, e o culto cessou : a lucta foi longa.
«
secular, apanhou trcs gerações, por islo ío\ j^rcci-
so íazcr composições com os restos dos antigos
grémios, com os proprietários territoriaes, para a
restauração do culto. Rei, prelado eborense, e o ca-
bido, as ordens militares, especialmente os caval-
leiros de Évora, depois ordem de Aviz, e o mos-
teiro de Alcobaça estão todos, no meiadodo sécu-
lo XIII, interessados na organisação rural, c na
do culto; nem ha separação possivel entre culto
religioso e trabalho rural ; o padre precisa de pão
e vinho para celebrar a missa.
Que havia movimento commcrcial, troca de va-
lores, prova-s@ pela instituição du feira de S. Thia-
go em 1275.
Ao mesmo tempo vem a expansão dos costu-
mes de Évora, das posturas municipacs de 1264,
1270 pelas vilhis alemtejanas, posturas com dis-
posições penaes a par de regimentos de pastoria,
onde até appareccm artigos contra a ialsificação
dos géneros alimentícios.
Já por falsidade deitavam agua no vinho!
E ainda mais, já em i285 houve reivindicações
de reguengos c herdamentos d'el-rei; gente esper-
ta tinha conseguido apropriar-se d(j alheio; do
que já tinha sido dcfiijido, e onerado com renda
ou foro, mas ficara mal garantido, ou por defeito
de descripção, ou desfazimcnto de extremas, lin-
das ou arranque de marcos, ou, também já, por
negligencia dos funccionarios: — B disse dona Jus-
ta que á eu de a tneyadade^ que queria fa^er o seu
quinum^ e que o almoxarife non quisera hy faier
rem, e disse que se perdiam ende as rendas — .
Nos documentos eborenses do sec. XIÍI, raro e
o nome de sitio, ribeira ou cabeço que não seja
ainda hoje usado, tal qual ou com pequena va-
riante, Almansor, Valleira, Benamolleique^ Alva-
do, Molrógos (Motrovegas), Louredo, Pecenas, são
nomes usados ainda hoje.
Em lodo o aro de Évora são frequentes os no-
mes de origem ou teição árabe. Os dois ribeiros
mais próximos são o Xarrama c o Degebe; Bena-
moriquc, Benaíilé, Bencatede, devem ser bem ára-
bes; Machede dizem ler a mesma origem.
Na cidade ha nomes árabes, a lorre de Alcon-
chel, a rua de Mahumud, Alcarcovas, Alcaça-
rias, ele.
No dia 6 de fevereiro de 1286 o alcaide Eslc-
vam Garcia e os dois juizes Rodrigo Annes e Lou-
renço Gonçalves, com a gente do concelho toram
ao adro de Santo Antão tallar a el-rei D. Diniz.
Perante elrei, que eslava com a sua corte, Martim
Aligucns, tabellião da cidade, desenrolou o seu
pergaminho e leu a petição: — Senhor^ estas som as
cousas sobre que o concelho de Epora pos pede mer-
co. . .
Está a gente a ver a scena; o adro de Santo
Antão, maior e muis baixo que o actual; o lado
da egreja (porque a primitiva egreja devia ter a
pporia principal para o poente), com o seu pórtico
lateral c as frestas talvez românicas; próximo o
grande arco romano, e junto d'estc um chafariz
com seus leões de pedra; c a grande praça irregu-
lar na sua moldLira de arcarias, e as fileiras de
moradas estreitas, esguias, as janellas vestidas de
rotulas, e nos altos as varandas cobertas, os bei-
raes assentando cm pequenos arcos.
Que queriam os do concelho!^
(Querem em tudo enlender-se directamente com
elrei, nada de dar o concelho em aprcslamo a ri-
come\ isto c não querem o protector^ o úitcrmcdia-
rio poderoso.
(Querem feira geral c franquida. o que bem
mostra que a vida, o commerciante e o productor
precisavam expansão.
Querem os açougues maiores. Açougues então
IO
.eram verdadeiros mercados; açougues mais lar-
gos, porque augmeiítava a povoação.^ sem duvida.
■ Querem mais que os mouros forros c os judeus
usem nas cousas da almotacaria assi como vesi-
it/ios^ todos eguaes, nada de distincçõcs, perante o
^ítlmotacc não ha laçOs ou castas inferiores.
vO christão que vá egreja, o mouro á mesquita.
e o |udeu á synagoga, (á asiioga^ como era uso di-
^ '-''zer-se), cada um tenha a sua crença, isso não tem
duvida. Agora ao mercador no seu negocio não
SC olhe a raça ou religião, lodos assi como vcsinhos.
O rei concedeu a todos os pedidos.
z4 qual petiçom lenda e compridamenle entendii-
da elrei D. Diniz pessoalmente staiido presente com
muitos de sa corte outorgou. . . c então o concelho
(depois do rei!) em hua i>o{ concordavelmentc todos
ensembra leixarom e quitaram c perdoaram ludo o
que o pae, D. AfFonso, tivera do dito concelho cm
cousas a que o concelho entendia haver direito.
Eu gosto immenso deste documento, é são, é
puro e bom.
O rei vai ouvir os do concelho no adro da cgre-
ja; e os cidadãos dizem-lhe que não querem rtco-
me, nem se importam com diíferença de raças e
de credos.
E depois assignam a corte, o bispo, os nobres,
os magistrados e os cidadãos, s os parentes d'cs-
tcs: e miiytos dos seus parentes; c vem ainda assi-
gnar os cabeças dos arrabaldes d'Alconchel, de S.
P>ancisco, da porta de iMoura e de S. Mamede.
Fizeram a carta partida por abc^ c ^Ó5 'J^ey
Don ^inii e concelho de Évora fademos as ditas
cartas seer selladas dos nossos seellos pendentes.
O sello do rei c o sello do concelho, a par!
Outro documento significativo na historia eco-
nómica do Alemtejo é o livro dos herdamentos do
cabido; elle mostra a importância da propriedade
II
episcopal c;L'apitular no scc. XIII. Já o publiquei
na integra, por isto não me demoro com cllc.
J4m i3ii trata-sc de pontes, fontes, carreiras c
rocios e outras cousas semelháveis a estas a prol do
commum e aprovei taiiça da terra!
Nos três primeiros cjuarteis do século XIV rc-
pclem-sc as leis destinadas a garantir a proprie-
dade rural, os meios de trabalho, e a detendcr o
lavrador livrando o de gravames, talhas c fintas, jj-*
Parece que tudo progredia cm Évora, a popu-
lação augmentava, a riqueza também, havia com-
mercio, industria, faziam-se grandes obras: e vem
de súbito a crise de i3y6.
Houve estiagem enorme; as searas pcrdcram-
sc; as pastagens mirraram-se; quasi desapparccc-
ram os gados; e logo a pestilência íortissima.
— E porque outrosy a dita cidade he despobrada
que mengua cm ella bem a meyadade da jente
que cm ella vivya por a dita seca e por pestilên-
cia que ora cm ella anda — .
A crise prolongou-se; e veio a guerra. Évora
toma o partido do mestre de Aviz, lucta, tem dias
torvos de brigas e de sangue; aquelle sanhuso poro
como diz Fernão Lopes tem horas de gloria; o po-
vo meudo de Évora é credt-r ao mestre de serviços
que ellc celebra; as sisas geracs do mestre d'Aviz
(1384) mostram bem os sacrifícios que foi preciso
aguentar naquella porfiada guerra.
O pão c a eterna base natural. O imposto do
pão c elemento principal, por si e pelas questões
inherentes, no estado social. O mestre de C^vi{ le-
ve de lançar mão cm 13S4 de todos os recursos,
as sisas geraes aqui em Évora trou.xcram imposto
no trigo, no moleiro c na padeira; mas logo em
i3S5, em abril, aboliram o imposto de terrado do
pão cosido e dos cereacs vendidos na praça c no
terreiro.
12
O conJLincto dos documentos municipacs ebo-
renses é extraordinário; aos juisos e costumes do
sec. XlIIsuccedem as posturas municipaes do sec.
XIV, e este corpo tem a sua coioa no regimento
da cidade elaborado por João Mendes de Góes.
Os documentos das albergarias provam a divi-
são da propriedade urbana e rural na mesma épo-
ca; onde hoje na praça ha duas lojas pouco espa-
çosas havia então seis; pequenas propriedades ru-
raes de hoje estiveram divididas em ^quatro ou
mais pequeninas courellas; era enorme o numero
de propriedades íoreiras.
Uma postura municipal, que deve ser do ulti-
mo quartel do sec. XIV, manda que o pão tenha
um certo peso, que seja alvo, bem cosido e bem
finto (Doe. hist. p. i3o). Marca ás padeiras i .* e
2." multas, e pela terceira vez multa c picota; isto
é, prisão de algumas horas no pelourinho.
No titulo das padeiras e vendedeiras de pão
cosido, do regimento da cidade, marca -se peso e
preço, sendo obrigadas a ter sempre pam cosido
avondo.
Simultaneamente havia disposições severas pa-
ra os moleiros, c sobre as medidas do pão.
E não esqueciam os jornaes e salários dos sin-
geleiros, dos servidores das sementeiras, dos se-
gadores e apanhadores dos trigos e cevadas, c das
mondadeiras fpag. 149 dos Doe. hist.).
Pelos capitulos das cortes de Lisboa de 1459
se vê que fora longa a questão dos varejos; n'es-
tas cortes os procuradores da cidade, Pêro Vaz
de Camões e Diogo Varella, pediram resolução
definitiva. O lavrador guardava as sobras enco-
vadas (as covas de ter pão ainda se usaram em
Évora até o sec. XVI: havia muitas na cidade;
algumas enormes; em obras recentes, dos últimos
^nnos, nas rqas do Paço, Aviz, Alconchel, c no
i3
largo da porta Nova. abrindo escâvaç(5es para ali-
cerces, encontraram grupos de silos, ou covas pa-
ra guardar trigo), esperando o preço alto, fazendo
carestia; havia lavrador que tinha o pão 7 e 8 an-
nos, e dizem os procuradores, o que em outros tem-
pos foi muito mais; os lavradores, é claro, não que-
riam o varejo.
Em 1480 tiveram novamente de regular o pre-
ço das moagens, os impostos de atafonas e moen-
das, maquias, e, ainda mais, marcaram a propor-
ção dos preços do trabalho e do valor dos géne-
ros.
Estas questões do pão parece que se aggrava-
vam cada vez mais; como se vê são as questões
de agora; em 148 1 product/')res e consumidores
continuam em lucta; a oscillação dos preços do
trigo é enorme; a questão da sabida do dinheiro,
da exportação do ouro, prcoccupa os dirigentes.
O nosso Garcia de Rezende conta um episodio
d'essa briga económica na sua chronica de D.
João 2."
Do que el-rei te{ em Évora sobre a vinda do pão.
Estando el-rei em Évora, começou de haver ne-
cessidade de pão havendo muito na cidade em po-
der de alguns fidalgos e cidadãos, que o não que-
riam vender esperando que o haviam de vender
a como quizessem. Mandou-lhes el-rei rogar a to-
dos que vendessem seu trigo a trinta réis o alquei-
re, (mais de 600 réis hoje) que lhe parecia preço
honesto para clles ganharem e o povo ser provi-
do; pois havia annos que o não venderam tão ca-
ro e que n'isso lhe fariam prazer ; e que se o não
quizessem vender que soubessem certo que depois
lho não deixaria vender cmquanto na cidade esti-
vesse.
Escuram-se todos esperando por maior valia,
salvo um João iMendes Cicioso, cidadão honrado,
14
que mandou logo levar praça á uns quarenta moios
que linha, e ma idou dizer a el-rei se queria sua
alteza que o pozesse a vinte réis que assim se ven-
deria:
Agradeceu-lhe el-rei e quiz que a trinta se ven-
desse, e fez-lhe logo por isso mercê de dois escra-
vos.
E mandou logo ao mestre de Santiago em Gas-
tella dizer que lhe aprazia dar licença para pode-
rem vir a Évora vender o seu pão, como lhe re-
queriam havia dias, e el-rei não queria por lhe não
levarem o dinheiro do reino; e tanto que teve re-
cado que eslava muito pão para vir, mandou logo
apregoar pela cidade que qualquer homem delia
que vendesse trigo emquanlo clle ahi estivesse,
que perdesse por isso sua fazenda ; e mandou pôr
sobre isso tanta guarda que se não vendeu alquei-
re. Acudiu logo de Castclla tanto que valia a vinte
réis o alqueire.
Por onde todos os que tinham pão o perderam
quasi lodo.
K elrei sem castigo os castigou bem e deu gran-
de perda aos cobiçosos, e muito proveito á sua
corte e a todo o povo, de que sempre linha muito
grande cuidado. E quando saiu de Évora para as
Alcáçovas mandou dizer aos que o não quizessem
servir, que agora que se elle ia da cidade poderiam
vender seu pão, em que os ainda tornou a enver-
gonhar— .
Na Miscellaina allude também o nosso impagá-
vel Garcia de Resende ás extraordinárias oscilla-
çôes do preço do trigo no seu tempo.
Vimos em Évora valer
os moios de pão yguaes
quinze, vinte mil reaes
agora os vemos vender
a setenta mil, e mais.
anno vi tão abastado
que a oito reaes compruilo.
i5
toi o alqueire de pão
outro vimos em que não
se acliavn por um cruzado.
Estas questões económicas são tão interessan-
tes e o vulto do grande vereador Cicioso c de tal
forma honrado^ íirme e levantado no seu afan de
defensor do povo, que me parece bem reunir aqui
o que ha de mais certo sobre este caso do trigo;
vejamos a noticia que nos dá o padre Manuel
Fialho (foi óptimo indagador!) na sua preciosa
obra Evova illustrada, que ainda infelizmente se
conserva inédita.
— Todas as palavras e acções del-rei D. João
2.** foram lição e doutrina. Agora veremos uma
nova lição, um novo castigo contra os avarentos,
o mais próprio que se lhe pôde dar, c de que ellcs
mais fogem, e mais se temem.
Estando ainda a corte em Évora houve uma ca-
restia de pão, na qual ainda que não faltava trigo,
os que o tinham esperavam maior preço.
Quasi que os mandou rogar o rei por terceiras
pessoas que quizesscm vcndel-o, e lhe pcrmittiria
já o preço de 3o réis, eniendc-se de cobre (note-
se que este caso é do fim do século XV) por cada
alqueire, dizendo que assaz caro era, pois que nun-
ca a tal preço tinha chegado; e ficariam com mui-
to ganho, e o povo remediado, e que nisto lhe fa-
riam o gosto; e elles fechados, e sem quererem dar
esse gosto ao rei nem acudirão povo.
De novo lhe mandou intimar, nem já rogando
mas ameaçando, que se o n^o vendessem logo,
pelo que lhe permittia, lhe prometlia que o não
haviam de vender por maior preço, nem por esse
permittido, emquanto elle estivesse na cidade e
vivesse. Ainda ficaram elles tezos, lestos e fecha-
dos, esperando que a necessidade levantasse o j^re-
ço, e suppondo que as ameaças gerariam no ar.
i6
Só lhe fez o gosto João Mendes Cicioso, honra-
do cidadão de Évora, (o que levantou a casa do
Senado, sendo vereador), a quem veremos ainda
mais glorioso no tempo del-rei D. Manuel.
Lá porque resistindo ao rei, aqui porque fazen-
do-lhe o gosto, e sempre pelo bem do povo.
iMandou este á praça uns 40 moios, com que se
achava, mandando dizer ao rei, que S. Alteza lhe
puzesse o preço, ainda que fosse muito mais ba-
rato, mas que fosse o terço menos; e o queria as-
sim vender mais por acodir ao povo que por al-
guma outra causa.
Estimou o rei o lanço, e mandou se vendesse a
3o réis. Assim se fez, e vendeu-se o trigo ás reba-
tinhas (encheu o Cicioso a bolsa, e livrou o seu
trigo de gorgulho, diz o P.'' M.'' Plalho, em obser-
vação) ; e o rei lhe fez de mais mercê de dois es-
cravos de Guiné.
No entretanto mandou el-rei recado ao mestre
de Santiago de Castella, que lhe dava licença pa-
ra mandar vender a Évora o seu trigo, e o de seus
amigos, como lhe pedira e instara; a que o rei até
então não quisera permittir, por lhe não levarem
o dinheiro para fora do reino (tão miúdo ou del-
gado se fiava então nesta matéria).
Agora o houve por bem para ensino e castigo
dos avarentos.
Logo que soube que estava muito pão para vir
de Castella, ou vinha já chegando, e pelo cami-
nho, mandou apregoar que suppostos os seus ro-
gos e permissão de preço, e a negação dos que
não quizeram acudir ao povo, tinha dado a so-
bredita licença, e por isto mandava que nenhuma
pessoa de qualquer qualidade e estado, sob pena
do perdimento de sua fazenda para o fisco real,
vendesse pão na cidade e seu termo até sua nova
ordem que mandaria apreg<:)ar, quando se acabas-
17
SC de gastar o que tinha dado licença de vir de
Gastella.
Sobre isto para segurara observância do decre-
to, para castigar aos delinquentes, poz taes vigias
publicas e occultas que nenhum d'elles pôde ven-
der alqueire de pão temendo serem apanhados, e
tendo por infallivel a pena imposta, porque conhe-
ciam a resolução real.
Assim acudiu a Évora tanto pão que venden-
do-o os primeiros a 3o réis, começaram os segun-
dos a abater o preço, e foi abaralando até chegar
a 14 réis e ja não havia quem o quizesse; ás mos-
cas, como dizem, estava já I — (Aqui uma nota
mui curiosa do P." Fialho: «Foi isto no anno de
1495, fazia quando isto escrevia 210 annos (em
!7o5, por consequência) e tinha o preço do trigo
subido a mais de 400 réis — . K segue outra no-
ta, n'uma tira de papel collado--t' agora que re-
vejo estas noticias, no anno de i 70c) é o preç(j de
um alqueire de trigo 800 reis — e mais ainda ou-
tra v^ez em 171 i se vendeu algum a 1:700 réis
(1!) ou ainda mais, tudo faz ou destaz o bom ou
máo governo. Não ha já um rei D. João 2.". nem
um vereador João Mendes Cicioso : ha hum que
degenerado de seus maiores disse que lhe cheira-
va o seu trigo a meia moeda de ouro, que é 2:400
réis. Mas graças a Deus que novissimamente, no
anno de 17 18. está aqui (em Évora) o trigo esco-
lhido pelo preço de 140 réiS; e a cevada e o cen-
teio a 40 réis: é porque delle existe naiito. . . mas
á vae sobindo).
O porque destes excessos Deus o sabe. e em
parte o podiam remediar os homens, mas Deus
lhes acuda! — (A facilidade de communicações, e
o maior numero de regiões productoras tem já re-
mediado muito ; hoje não são possíveis taes oscil-
lações de preços; a regularisação da venda tam-
i8
bem se pode conseguir, querendo ; não querendo,
ou não sabendo ainda se chega ao tumulto como
ha pouco succedeu na questão do milho, nas pro-
vindas do norte do paiz. Em Guimarães em 1894
deu-se o caso de Évora de 1495 ; lá com o milho,
aqui com o trigo. Antigamente estes casos repe-
tiam-se muito. Hoje é fácil prevenil-os; ou, appa-
recendo súbitos, remedial-os a tempo. Já não suc-
cede o mesmo com a questão da exportação do
ouro, o outro problema de João 2." Está ainda de
pé, mas ha-de ser o Aiemtejo que o ha-de resol-
ver).
Agora segue o P.* Fialho : — Perderam os ava-
rentos não só as vans esperanças do maior preço
mas o mesmo pão, que tinham tão fechado: deu-
Ihe o bicho, que em algumas terras chamam san-
to ! ; bicho santo ioi d'esta vez o rei ; e por lhe es-
premer mais, como dizem, o agraço no olho, quan-
do depois em julho d'um anno saiu de Évora man-
dou apregoar que levantava o outro seu pregão,
e que cada um vendesse o seu pão. como quizesse
e pudesse. Assim os correu e carregou ainda mais;
assim os ensinou e castigou.
N'esta occasião fez o senado eborense uma con-
sulta ou supplica ao rei para que favorecesse mais
aos lavradores com alguns privilégios, porque a
falta não só procedera da esterilidade do anno,
mas também da falta de lavradores.
Sem duvida o faria el-rei, Dorém a sua morte
atalhou esses bem premeditados intentos, como a
muitos outros — .
Veremos as questões económicas alemtejanas
tratadas em diversas épocas, por summidades por-
tuguezas. Será uma collecção mui curiosa e ins-
tructiva.
GABRIEL PEREIRA
Ksião publicados :
i." O mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro. — 2." Évora ro-
mana. O templo. As inscripçócs. — 3." A Casa pia. — 4." Lóios,
azulejos e obras d'arte. — 5." Bibliòtheca Pulilica. Noticias das
collecções. — O." Conventos do Paraiso, Santa Clara e S. Bento.
— 7." Hellas artes. Raczynski. Pintores eborenses — 8." e 9."
Vésperas da restauração. — io."Brasíío d'Evora. — 1 1." A egrcja
de Santo Antão. Livros parochiaes. Collegiada. — 12.° O archi-
vo municipal — 1 3." A restauração cm Évora. — 14.", i5." e 16."
O archivo da .Santa Casa da Misericórdia d'Evora — 17." Évo-
ra e o Ultramar. Balthazar Jorge e Marco António Pessanha.
— iS.", 19.", 20.° e 'zf." Assédios d'Evora em i663. — 22." Os Fes-
tejos de Évora em 1729. — 23." Évora nosLusiadas. — 24." Pro-
cissões eborenses. — 25." Exposições de arte ornamental. —
26." Antiguidades romanas em Évora e seu'^ arredores.— 27."
Roteiro d'um eborense. — 28.'^ Universidade de I^vora. — 29."
As caçadas, i." parte. — 3o." Évora e o ultramar, 2'.» parte. —
3i." Ibn Abdun. — 32.» Cs mouros. — 33." As caçadas, 1." parte
— 34.° Os estudantes. — 35." Versos Eborenses do século xviii.
— 3G." A volta de Cenáculo. — 37." As questões do pão.
A' venda em Lisboa na livraria Bertrand, e na do sr. António
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Estão publicados :
i." PARTE — Foraes, costumes. Documentos oiunicipaes dos sec.
XII, XIII e XIV, Documentos do Cabido. Inventários munici-
paes do sec. XIV. Documentos das albergarias. O livro do
Acenheiro. Posturas antigas. Regimento da cidade em tempo
de D. João I.". Etc.
I vol. de 202 pag. ift-4." — líJííSoo réis.
2." PARTE — Documentos municipaes do sqc. XV. Doe. da Mise-
ricórdia e Hospital no sec. XVI. O primeiro compromisso. Epi-
sódios eborenses na chronica de João 2.", de Garcia de Rezen-
de. Alfarrobeira e Toro. Regimento das procissões. Os primei-
ros livros de acordos capitulares, sec. XV e XVJ. Capítulos de
cortes no sec. XV. Etc.
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As questões do pão
Escreve-se a historia de um povo, de um reina-
do, de uma cidade. O narrador dos acontecimen-
tos apparece logo nas primeiras civilisações. Os
romanos apresentam-nos um grupo de historiado-
res, modelos eternos nas varias feições da historia.
Ao narrador dos successos pode juntar-se o criti-
co; o saber dos factos, e o saber relacionar esses
factos e explical-os é já muito; critical-os, e che-
gar a sentencear sobre o bom e o máo, o util e o
estéril, é muitissimo; a imparciaHdade histórica c
uma qualidade excellente, uma cristalisaçào que
raros attingem. O espirito que tem uma determi-
nada tendência ou sympathia; a necessidade, o
destino que impõe balisas ou barreiras, originam
que a muitos, á grande maioria dos historiado-
res, seja impossível a imparcialidade. Ha pontos
de vista particulares, como ha circumstancias pes-
soaes que dominam o homem.
Até o simples narrador de factos e acções está
sugeito á falta de imparcialidade.
OccLilta-se, esquece-se este, e põe-se est'outro
em grande relevo. Veja-se o jornalismo actual on-
de os chronistas do dia a dia narram muitas vezes
com duas camadas de parcialidade, a do jornal
junta ao ponto de vista pessoal. Alexandre Hercu-
lano, que adorava Fernão Lopes, foi também par-
cial. Agora temos exemplos de historiadores que
variam por lustros, ou na conformidade das en-
commendas.
Durante muito tempo, até em livros de ensino,
se definiu: historia, a narração dos factos. E toda-
via já Tito Livio, o velho, o querido historiador
romano, soube apreciar e explicar factos e acgòes,
e ainda mais chegou a fazer historia social des-
crevendo-nos frequentemente episódios da vida
do grande povo, das crises moraes e económicas.
Ha pouco Rosebery, o premier inglez, disse que
mais que os problem.as politicos se impõem hoje
ao estadista os sociaes e económicos.
Para os que não são estadistas isso não tem no-
vidade; os problemas politicos são secundários;
o que admira muito é que os económicos se não
tenham imposto mais bruscamente, e que os esta-
distas não tenham curado de resolver alguns d'es-
ses problemas ou de preparar as cousas para a
melhor ou mais suave solução.
Os meios de deíeza, tarifas, pautas, protecção
etc. alimentam uma existência artificial ; a vida
dos povos está a encher-se de tutores, á mercê de
um pé de vento.
Quantos problemas politicos se teem resolvido,
bem ou mal, com violência ou com brandura, des-
de que o sr D. Affonso Henriques fundou a mo-
narchia? que quantidade de processos findos! de
allianças, pactos, tratados que passaram aos pa-
peis velhos, como as gerações, com os seus ódios
e os seus amores, se foram sumindo no silencio
_i_
das sepulturas ; pois a questão do pào está viva e
bem vivaz, e dura ... ha quanto tempo! a ques-
tão, ou melhor, as questões do pão duram natu-
ralmente desde que houve productor, moleiro, pa-
deiro e consumidor.
A cidade de Évora em 1166, \o\ip a seguir á
conquista, foi concedido o foral e costume de Ávi-
la. As condições das duas cidades eram eguaes ;
terras agricolas e fortalezas fronteiriças. Em Évo-
ra os conquistadores respeitaram os mouros traba-
lhadores e proprietários agricolas; segundo a tra-
dição marcou-se-lhes logo um bairro na cidade;
não ha documentos bastantes do século XII, mas
ha do século Xlll que provam a existência pacifi-
ca, bem garantida de muitos operários mouris-
cos, de muitos pequenos proprietários.
O rei, o bispo, o cabido, as ordens militares ta-
lharam á larga os seus reguengos, coutos e herda-
des nas amplas campinas alem do aro da cidade.
Com pequenas variantes as zonas da proprie-
dade coincidiam com as actuaes ; o couto da cida-
de dividido em farrejaes de pão e alcáceres com
alguns hortejos ; a zona das quintas com os seus
quartéis e courellas vestidos de oliveiras e vinhedos;
depois as herdades, terras de cereaes, montados,
e grandes pastagens.
Não chegou até nós um códice com os costumes
de Évora, mas temos os foros, costumes, usos ejui"
zos de Évora dados aos habitadores de Alcácer, e
d'aqui communicados aos de Garvão, os costumes
de Terena também communicados de Évora, e as-
sim os dados ás Alcáçovas.
Como é natural o foral e os costumes de Évora
foram applicados á província no progresso da con-
quista, como o foi o estatuto da sua confraria pie-
dosa formada pelos homens bons que foram a Je-
ruzalem.
o que chegou a nossos dias forma pois um cor-
po de legislação costumeira único no paiz ; elle
pertence a uma povoação considerável, agrícola e
fronteiriça, e que por muito tempo foi a guarda
avançada contra mouros.
Necessariamente emquanto as terras de Elvas e
Alcácer do Sal pertenceram a mouros o território
eborense foi muitas vezes atravessado pelas taifas
agarenas, mas creio que respeitavam a proprieda-
de rural, por nella haver mouros, ou por a es-
tes pertencer.
Porque o estudo dos costumes de Évora conven-
ce-nos de que a propriedade estava então consti-
tuída como actualmente; as vinhas, as herdades,
os casaes, os gados e a pastoria ; os mancebos de
soldada e creados de lavoura ; mondadeiras e se-
gadores á jorna ou á tarefa.
Mais o elemento mourisco.
Nos arrabaldes, nas hortas, nas vinhas, nas her-
dades havia mouros, alguns escravos, outros for-
ros, a maior parte livres. Mouros mesteiraes, com
suas tendas, ferrarias, olarias, alcaçarias ; mouros
proprietários ruraes, fazendo seus negócios, com-
pras e escambos, arrendamentos e aforamentos,
com a sua actividade perfeitamente garantida; oran-
do na sua mesquita, negociando com a sua moeda.
Na cultura rural apenas uma variante; hoje
muitas quintas teem duas ou três figueiras; então
havia mais; os documentos faliam mesmo de fi-
gueiredos ou fígueiraes, que só no Algarve conti-
nuaram.
Pelo foral dado aos mouros de Évora em 1273
vê-se que elles deviam passar má vida, não tinham
tempo para sesta folgada Vida de moiro , trabalhar
como um moiro^ ainda se diz hoje.
Pagavam a capitação geral, a dizima, mais os
impostos especiaes do alfitre e do azeque, isto pa-
ra os christãos; porque tinham a pagar ainda pa-
ra a sua communa, para a mesquita, para o seu
alcaide, etc
Parece-me digno de reparo que muitos moiros
sabiam escrever, apparecem frequentes assignatu-
ras de esses hortelões e oleiros.
Em 1273 o concelho de Évora nomeia sesmei-
ros para regular a destribuição das terras ádiSpre^
sttrias novas ; e faz convenção com os de Portel
sobre o uso das pastagens.
Pelo mesmo tempo apparecem os grandes pro-
prietários, por exemplo o cabido eborense, e D.
João d'Aboim, extraordinário vulto do século XIíI,
fazendo contractos, subdividindo terras, tomando
encargos, restaurando egrejas e cultos, computan-
do offertas e outras rendas ecclesiasticas, o que nos
mostra estar garantida a propriedade, a existência
de população permanente entregue a trabalhos ru-
raes.
Assim n'este largo período de lucta parece que
a população mixta, christãos, e mouros e mosara-
bes, dos arrabaldes, do aro da povoação, mestei-
raes, hortelões, vinhateiros, lagareiros, passou qua-
si indifferente á briga das hostes e taifas; mas a
povoação dos campos, das herdades, das peque-
nas aldeias soffreu muito, e desertou dos logares.
E' natural; e foi o que succedeu ainda em 1S33 e
1846; as guerrilhas victimavam os montes, os lo-
garejos, as pequeninas povoações agrícolas inca-
pazes de resistir, mais isoladas, onde se não po-
diam reunir de prompto 30 ou 40 homens arma-
dos.
Muitas egrejas fcram restauradas no melado
do século XIII ; tinham vivido serenamente essas
agremiações christãs sob o dominio agareno, e
só quando a lucta, a onda da conquista chegou,
ellas softreram, e o culto cessou ; a lucta foi longa.
8
secular, apanhou três gerações, por isto foi preci-
so fazer composições com os restos dos antigos
grémios, com os proprietários territoriaes, para a
restauração do culto. Rei, prelado eborense, e o ca-
bido, as ordens militares, especialmente os caval-
leiros de Évora, depois ordem de Aviz, e o mos-
teiro de Alcobaça estão todos, no meiado do sécu-
lo XIII, interessados na organisaçào rural, e na
do culto; nem ha separação possível entre culto
religioso e trabalho rural; o padre precisa de pão
e vinho para celebrar a missa.
Que havia movimento commercial, troca de va-
lores, prova-se pela instituição da feira de S. Thia-
go em 1275.
Ao mesmo tempo vem a expansão dos costu-
mes de Évora, das posturas municipaes de 1264,
1270 pelas villas alemtejanas, posturas com dis-
posições penaes a par de regimentos de pastoria,
onde até apparecem artigos contra a falsificação
dos géneros alimentícios
Já por falsidade deitavam agua no vinho!
E ainda mais, já em 1285 houve reivindicações
de reguengos e herdamentos d'el-rei; gente esper-
ta tinha conseguido apropriar-se do alheio; do
que já tinha sido definido, e onerado com renda
ou foro, mas ficara mal garantido, ou por defeito
de descripção, ou desfazimento de extremas, lin-
das ou arranque de marcos, ou, também já, por
negligencia dos íunccionarios: — E disse dona Jus=
ta que â (nde a meyadade, que queria fazer o seu
quinum^ e que o almoxarife non quisera hy fazer
rern, e disse que se perdiam ende as rendas — .
Nos documentos eborenses do sec. XIÍI, raro é
o nome de sitio, ribeira ou cabeço que não seja
ainda hoje usado, tal qual ou com pequena va-
riante, Almansor, Valleira, Benamolleique, Alva-
do, Motrógos (Motrovegas), Louredo, Pecenas, são
nomes usados ainda hoje.
Em todo o aro de Évora são frequentes os no-
mes de origem ou feição árabe. Os dois ribeiros
mais próximos são o Xarrama e o Degebe; Bena-
morique, Benafilé, Bencafede, devem ser bem ára-
bes; Maciíede dizem ter a mesma origem.
Na cidade ha nomes árabes, a torre de Alcon-
chel, a rua de Mahumud, Alcarcovas, Alcaça-
rias, etc.
No dia 6 de fevereiro de 1286 o alcaide Este-
vam Garcia e os dois juizes Rodrigo Annes e Lou-
renço Gonçalves, com a gente do concelho foram
ao adro de Santo Antão fallar a el-rei D. Diniz.
Perante el-rei, que estava com a sua corte, Martim
Miguens, tabellião da cidade, desenrolou o seu
pergaminho e leu a petição: — Senlior, estas som as
cousas sobre que o concelho de Évora vos pede mer'
cê. . .
Está a gente a ver a scena; o adro de Santo
Antão, maior e mais baixo que o actual; o lado
da egreja (porque a primitiva egreja devia ter a
porta principal para o poente), com o seu pórtico
lateral e as frestas talvez românicas; próximo o
grande arco romano, e junto d'este um chafariz
com seus leões de pedra; e a grande praça irregu-
lar na sua moldura de arcarias, e as fileiras de
moradas estreitas, esguias, as janellas vestidas de
rotulas, e nos altos as varandas cobertas, os bei-
raes assentando em pequenos arcos.
Que queriam os do concelho ?
Querem em tudo entender-se directamente com
el-rei, nada de dar o concelho em aprestanio a ri^
come; isto é não querem o protector, o intermediá-
rio poderoso.
Querem feira geral e franquida, o que bem
mostra que a vida, o commerciante e o productor
precisavam expansão.
Querem os açougues maiores. Açougues então
IO
eram verdadeiros mercados; açougues mais lar-
gos, porque augmentava a povoação, sem duvida.
Querem mais que os mouros forros e os judeus
usem nas cousas da almotaçaria assi covão vesí=
nhos, todos eguaes, nada de distincções, perante o
almotacé nào ha laços ou castas inferiores.
O christão que vá egreja, o mouro á mesquita,
e o judeu á synagoga, (á esnoga, como era uso di-
zer-se), cada um tenha a sua crença, isso não tem
duvida. Agora ao mercador no seu negocio nào
se olhe a raça ou religião, todos assi como vesinlios.
O rei concedeu a todos os pedidos.
^ qual petiçcm leuda e compridamente entendu=
da el rei D. Diniz pessoalmente stando presente com
muitos de sa corte outorgou . . . e então o concelho
(depois do rei !) em liua voz cone ordavelm ente todos
ensembra leixarom e qn taram e perdoaram tudo o
que o pae, D Affonso, tivera do dito concelho em
cousas a que o concelho entendia haver direito.
Eu gosto immenso deste documento, é são, é
puro e bom.
O rei vai ouvir os do concelho no adro da egre-
ja; e os cidadãos dizem-lhe que não querem rico^
me, nem se importam com differença de raças e
de credos.
E depois assignam a corte, o bispo, os nobres,
os magistrados e os cidadãos, e os parentes d es-
tes: e muytos dos seus parentes; e vem ainda assi-
gnar os cabeças dos arrabaldes d'Alconchel, de S.
Francisco, da porta de Moura e de S. Mamede.
Fizeram a carta partida por abe, e J\^âs ^Rey
(Don (Diniz e concelho de Évora fazemos as ditas
cartas seer selladas dos nossos seellos pendentes,
O sello do rei e o sello do concelho, a par !
Outro documento sicrnificativo na historia eco-
o
nomica do Alemtejo é o livro dos herdamentos do
cabido; elle mostra a importância da propriedade
ir
episcopal e capitular no sec. XIII. Já o publiquei
na integra, por isto não me demoro com elle.
Em 131 1 trata-se de pontes, fontes, carreiras e
rocios e outras cousas semelháveis a estas a prol do
com m um aproveiiança da terra/
Nos três primeiros quartéis do século XIV re-
petem-se as leis destinadas a garantir a proprie-
dade rural, os meios de trabalho, e a defender o
lavrador livrando-o de gravames, talhas e fintas.
Parece que tudo progredia em Évora, a popu-
lação augmentava, a riqueza também, havia com-
mercio, industria, faziam-se grandes obras: e vem
de. súbito a crise de 1376.
Houve estiagem enorme; as searas perderam-
se; as pastagens mirraram-se; quasi desapparece-
ram os gados; e logo a pestilência fortíssima.
— E porque outrosy a dita cidade he despobrada
que mengua em ella bem a meyadade da jente
que em ella vivya por a dita seca e por pestilên-
cia que ora em ella anda — .
A crise prolongou-se; e veio a guerra. Évora
toma o partido do mestre de Aviz, lucta, tem dias
torvos de brigas e de sangue; aquelle sanhoso povo
como diz Fernão Lopes tem horas de gloria; o po=
vo nieiiÁo de Évora é credor ao mestre de serviços
que elle celebra; as sisas geraes do mestre d'Aviz
(1384) mostram bem os sacrifícios que foi preciso
aguentar naquella porfiada guerra.
O pão c a eterna base natural. O imposto do
pão é elemento principal, por si e pelas questões
inherentes^ no estado social. O mestre de Aviz te-
ve de lançar mão em 1384 de todos os recursos,
as sisas geraes aqui em Évora trouxeram imposto
no trigo, no moleiro e na padeira; mas logo em
1385, em abril, aboliram o imposto de terrado do
pão cosido e dos cereaes vendidos na praça e no
terreiro.
12
O conjuncto dos documentos municipaes ebo-
renses é extraordinário; aos juisos e costumes do
sec. XlIIsuccedem as posturas municipaes do sec.
XIV, e este corpo tem a sua coroa no regimento
da cidade elaborado por João Mendes de Góes.
Os documentos das albergarias provam a divi-
são da propriedade urbana e rural na mesma épo-
ca; onde hoje na praça ha duas lojas pouco espa-
çosas havia então seis; pequenas propriedades ru-
raes de hoje estiveram divididas em quatro ou
mais pequeninas courellas; era enorme o numero
de propriedades foreiras.
Uma postura municipal, que deve ser do ulti-
mo quartel do sec. XIV, manda que o pão tenha
um certo peso, que seja alvo, bem cosido e bem
finto (Doe. hist. p. 130). Marca ás padeiras i.' e
2.''' multas, e pela terceira vez multa e picota; isto
é, prisão de algumas horas no pelourinho.
No titulo das padeiras e vendedeiras de pão
cosido, do regimento da cidade, marca-se peso e
preço, sendo obrigadas a ter sempre pam cosido
avondo.
Simultaneamente havia disposições severas pa-
ra os moleiros, e sobre as medidas do pão.
E não esqueciam os jornaes e salários dos sin-
geleiros, dos servidores das sementeiras, dos se-
gadores e apanhadores dos trigos e cevadas, e das
mondadeiras (pag. 149 dos Doe. hist.).
Pelos capitules das cortes de Lisboa de 1459
se vê que fora longa a questão dos varejos; n'es-
tas cortes os procuradores da cidade, Pêro Vaz
de Camões e Diogo Varella, pediram resolução
definitiva. O lavrador guardava as sobras enco-
vadas (as cova'^ de ter pão ainda se usaram em
Évora até o sec. XVI: havia muitas na cidade;
algumas enormes, em obras recentes, dos últimos
annos, nas ruas do Paço, Aviz, Alconchel, e no
13
largo da porta Nova, abrindo escavações para ali-
cerces, encontraram giiipos de silos, ou covas pa-
ra guardar trigo), esperando o preço alto, fazendo
carestia; havia lavrador que tinha o pão 7 e 8 an-
nos, e dizem os procuradores, o que em outros tent^
fos foi muito mais; os lavradores, é claro, não que-
riam o varejo.
Em 1480 tiveram novamente de regular o pre-
ço das moagens, os impostos de atafonas e moen-
das, n:aquias, e, ainda mais, marcaram a propor-
ção dos preços do trabalho e do valor dos géne-
ros.
Estas questões do pão parece que se aggrava-
vam cada vez mais; como se ve são as questões
de agora; em 148 1 productores e consumidores
continuam em lucta; a oscillaçào dos preços do
trigo é enorme; a questão da sahida do dinheiro,
da exportação do ouro, preoccupa os dirigentes.
O nosso Garcia de Rezende conta um episodio
d'essa briga económica na sua chronica de D.
João 2°
(Do que el=rei fez em Évora sobre a vinda do pão.
Estando el-rei em Évora, começou de haver ne-
cessidade de pão havendo muito na cidade em po-
der de alguns fidalgos e cidadãos, que o não que-
riam vender esperando que o haviam de vender
a como quizessem. Mandou-lhes el rei rogar a to-
dos que vendessem seu trigo a trinta réis o alquei-
re, (mais de 600 réis hoje) que lhe parecia preço
honesto para elles ganharem e o povo ser provi-
do; pois havia annos que o não venderam tão ca-
ro e que n'isso lhe fariam prazer; e que se o não
quizessem vender que soubessem certo que depois
lh'o não deixaria vender emquanto na cidade esti-
vesse.
Escuram-se todos esperando por maior valia
salvo um João Mendes Cicioso, cidadão honrado.
14
que mandou logo levar praça á uns quarenta moios
que tinha, e mandou dizer a el-rei se queria sua
alteza que o pozesse a vinte réis que assim se ven-
deria :
Agradeceu-lhe el-rei e quiz que a trinta se ven-
desse, e fez-lhe logo por isso mercê de dois escra-
vos.
E mandou logo ao mestre de Santiago em Cas-
tella dizer que lhe aprazia dar licença para pode-
rem vir a Évora vender o seu pão, como lhe re-
queriam havia dias, e el-rei não queria por lhe não
levarem o dinheiro do reino; e tanto que teve re-
cado que estava muito pão para vir, mandou logo
apregoar pela cidade que qualquer homem delia
que vendesse trigo emquanto elle ahi estivesse,
que perdesse por isso sua íazenda; e mandou pôr
sobre isso tanta guarda que se não vendeu alquei-
re. Acudiu logo de Castella tanto que valia a vinte
réis o alqueire.
Por onde todos os que tinham pão o perderam
quasi todo.
E el-rei sem castigo os castigou bem e deu gran-
de perda aos cobiçosos, e muito proveito á sua
corte e a todo o povo, de que sempre tinha muito
grande cuidado. E quando saiu de Évora para as
Alcáçovas mandou dizer aos que o não quizessem
servir, que agora que se elle ia da cidade poderiam
vender seu pão, em que os ainda tornou a enver-
gonhar — -.
Na Jvliscellania allude também o nosso impagá-
vel Garcia de Resende ás extraordinárias oscilla-
ções do preço do trigo no seu tempo.
vimos em Évora valer
os moios de pão ygufies
quinze, vinte mil reaes
agora os vemos vender
a setentii mil, e mais,
anno vi tão abastado
que a oito reaes comprado.
_i5_
foi o alqueire de pão
outro vimos em que não
se achavii por um cruzado.
Estas questòer económicas são tào interessan-
tes e o vulto do grande vereador Cicioso c de tal
forma honrado, firme e levantado no seu afan de
defensor do povo, que me parece bem reunir aqui
o que ha de mais certo sobre este caso do trigo;
vejamos a noticia que nos dá o padre Manuel
Fialho (foi óptimo indagador!) na sua preciosa
obra Évora iLlustrada, que ainda infelizmente se
conserva inédita.
— Todas as palavras e acções del-rei D. João
2° foram lição e doutrina. Agora veremos uma
nova lição, um novo castigo contra os avarentos,
o mais próprio que se lhe pôde dar, e de que elles
mais fogem, e mais se temem.
Estando ainda a corte em l^lvora houve uma ca-
restia de pão, na qual ainda que não faltava trigo,
os que o tinham esperavam maior preço.
Quasi que os mandou rogar o rei por terceiras
pessoas que quizessem vendel-o, e lhe permittiria
já o preço de 30 réis, entende-se de cobre (note-
se que este caso é do fim do século XV) por cada
al(]ueire, dizendo que assaz caro era, pois que nun-
ca a tal preço tinha chegado; e ficariam com mui-
to ganho, e o povo remediado, e que nisto lhe fa-
riam o gosto; e elles fechados, e ssm quererem dar
esse gosto ao rei nem acudir ao povo.
De novo lhe mandou intimar, nem já rogando
mas ameaçando, que se o não vendessem logo,
pelo que lhe permitti?, lhe promettia que o não
haviam de vender por maior preço, nem por esse
permittido, emquanto elle estivesse na cidade e
vivesse. Ainda ficaram elles tezos, testos e fecha-
dos, esperando que a necessidade levantasse o pre-
ço, e suppondo que as ameaças gerariam no ar.
i6
Só lhe fez o gosto João Mendes Cicioso, honra-
do cidadão de Évora, (o que levantou a casa do
Senado, sendo vereador), a quem veremos ainda
mais glorioso no tempo del-rei D. Manuel.
Lá porque resistindo ao rei, aqui porque fazen-
do-lhe o gosto, e sempre pelo bem do povo.
Mandou este á praça uns 40 moios, com que se
achava, mandando dizer ao rei, que S. Alteza lhe
puzesse o preço, ainda que fosse muito mais ba-
rato, mas que fosse o terço menos; e o queria as-
sim vender mais por acodir ao povo que por al-
guma outra causa.
Estimou o rei o lanço, e mandou se vendesse a
30 réis. Assim se fez, e vendeu-se o trigo ás reba-
tinhas (encheu o Cicioso a bolsa, e livrou o seu
trigo de gorgulho, diz o P.^ M.'^' Fialho, em obser-
vação); e o rei lhe fez de mais mercê de dois es-
cravos de Guiné.
No entretanto mandou el-rei recado ao mestre
de SantTago de Castella, que lhe dava licença pa-
ra mandar vender a Évora o seu trigo, e o de seus
amigos, como lhe pedira e instara; a que o rei até
então não quisera permittir, por lhe não levarem
o dinheiro para fora do reino (tão miúdo ou del-
gado se fiava então nesta matéria).
Agora o houve por bem para ensino e castigo
dos avarentos.
Logo que soube que estava muito pão para vir
de Castella, ou vinha já chegando, e pelo cami-
nho, mandou apregoar que suppostos os seus ro-
gos e permissão de preço, e a negação dos que
não quizeram acudir ao povo, tinha dado a so-
bredita licença, e por isto mandava que nenhuma
pessoa de qualquer qualidade e estado, sob pena
do perdimento de sua fazenda para o fisco real,
vendesse pão na cidade e seu termo até sua nova
ordem que mandaria apregoar, quando se acabas-
se de gastar o que tinha dado licença de vir de
Castella.
Sobre isto para segurar a observância do decre-
to, para castigar aos delinquentes, poz taes vigias
publicas e occultas que nenhum d'elles pôde ven-
der alqueire de pão temendo serem apanhados, e
tendo por infallivel a pena imposta, porque conhe-
ciam a resolução real.
Assim acudiu a Évora tanto pão que venden-
do-o os primeiros a 30 réis, começaram os segun-
dos a abater o preço, e foi abaratando até chegar
a 14 réis e já não havia quem o quizesse; ás mos-
cas, como dizem, estava já! — (Aqui uma nota
mui curiosa do P.*^ Fialho: «Foi isto no anno de
1495, fazia quando isto escrevia 210 annos (em
1705, por consequência) e tinha o preço do trigo
subido a mais de 400 réis — . E segue outra no-
ta, n'uma tira de papel collado — e agora que re-
vejo estas noticias, no anno de 1709 é o preço de
um alqueire de trigo 800 réis — e mais ainda ou-
tra vez em 171 1 se vendeu algum a 1:700 réis
(!!) ou ainda mais, tudo faz ou desfaz o bom ou
máo governo. Não ha já um rei D. João 2.°, nem
um vereador João Mendes Cicioso: ha hum que
degenerado de seus maiores disse que lhe cheira-
va o seu trigo a meia moeda de ouro, que é 2:400
réis. Mas graças a Deus que novissimamente, no
anno de 1718, está aqui (em Évora) o trigo esco-
lhido pelo preço de 140 réis, e a cevada e o cen-
teio a 40 réis: é porque delle existe muito. . .mas
já vae sobindo).
O porque destes excessos Deus o sabe, e em
parte o podiam remediar os homens, mas Deus
lhes acuda ! — (A facilidade de communicações, e
o maior numero de regiões productoras tem já re-
mediado muito; hoje não são possíveis taes oscil-
lações de preços; a regularisação da venda tam-
i8
bem se pode conseguir, querendo; não querendo,
ou nào sabendo ainda se chega ao tumulto como
ha pouco succedeu na questão do milho, nas pro-
víncias do norte do paiz. Em Guimarães em 1894
deu-se o caso de Évora de 1495 ; ^^^ ^^^ ^ milho,
aqui com o trigo. Antigamente estes casos repe-
tiam-se muito. Hoje é fácil prevenil-os; cu, appa-
recendo súbitos, remedial-os a tempo. Já nào suc-
cede o mesmo com a questão da exportação do
ouro, o outro problema de João 2.° Está ainda de
pé, mas ha-de ser o Alemtejo que o ha-de resol-
ver).
Agora segue o P.'^ Fialho: — Perderam os ava-
rentos não só as vans esperanças do maior preço
mas o mesmo pão, que tinhani tão fechado: deu-
Ihe o bicho, que em algumas terras chamam san-
to!; bicho santo foi d'esta vez o rei; e por lhe es-
premer mais, como dizem, o agraço no olho, quan-
do depois em julho d'um anno saiu de Évora man-
dou apregoar que levantava o outro seu pregão,
e que cada um vendesse o seu pão, como quizesse
e pudesse. Assim os correu e carregou ainda mais;
assim os ensinou e castigou.
N'esta occasião fez o senado eborense uma con-
sulta ou supplica ao rei para que favorecesse mais
aos lavradores com alguns privilégios, porque a
falta não só procedera da esterilidade do anno,
mas também da falta de lavradores.
Sem duvida o faria el-rei, porém a sua morte
atalhou e^ses bem premeditados intentos, como a
muitos outros — .
Veremos as questões económicas alemtejanas
tratadas em diversas épocas, por summidades por-
tuguezas. Será uma collecção mui curiosa e ins-
tructiva.
r
G;al>i-iel r*ei-eii"a
ESTUDOS EBORENSES
3j fascículos a ^/o cada
i.o O mosteiro de Nossn Senhora do Espinheiro. — 2** Évora ro-
mana. O templo. As inscrirçóes. — 3.o a Cas:i l*ia. — 4.0 L.oios,
azulejos e obras d'arte. -3.° Bibliotheca Publica. Noticias das
collecçóes.— 6.° Conventos do P,íraiso, Santa Clara e S. Bento
— 7.0 Bellas artes. Raczyn kl. Pintores eborenses — 8.0 e 9.0
Vésperas da Restaurriçáo. — 10. " Brasão d'Evora. — ii.oAegreja
de Santo Antão, l.ivrtjs parochiaes. Collegiada. — 12." O aichi-
vo municipal — 13." A restauracã) em Évora. — 14.0 i5 " e i .°
O ar^hivo 4a Santa di^u da Misericórdia dEvora. — 17." Evor
ra e o Uitrftmar. Balthazar Jorge ft Mdrco António Pessanha.
— 18.". 19.0, 20.0 e 21.° Assédit)b d'Evora em i6ó3.— 22." Os Fes-
tejos de Évora cm 1729. — 28 » Évora nos Lusíadas. — 24" Pro-
cissões eborenses. — 23 o Exposições de arte ornamental. —
26 o Antiguidades romanas em Évora e ^eus rtrred.ires. — 27.0
Roteiro. d'um eborense. — 28.° Universidade de Évora. — 29.0
As caçadas, i.' pa'te. — 3o." Évora e o ultramar, 2. a parte. —
3i.° Ibn Abdun.— 32.0 Os mouros:— 33." As Cíiçadas, 2." parte,
34.0 Os estudantes. —33.** Versos Eboren-es do século XVIII,
— 36.° A volta de Cenáculo — 37.0 As questões do pão.
Documentos Históricos da Cidade de Évora
I .a Parte — 1 vol : 1 S80
3a » — » » 2820
3 a » _ » » . . • S60
MADRUGADAS, contos, i vol S^^o
JOSÉ CAEL08 BE GÚ13'¥EIJÊL
1)iique^a de "Bragança, poema em 8 cantos S3o
Ilusões e devaneios, poesias, i." parte .S3o
Miragens da primavera, poesia , 2.a parte SJo
Afonso d' Albuquerque, poema igoo
António I'^l•^^lI<•i^^cío Ttíii-nt».
Homenagem da cidade de Évora a Alexandre Herculano^
com inéditos. . S3o
Évora Antiga, i vol. ilustrado. . .S70
DR. PEDRO DE CASTRO
Congregações Religiosas Sio
coneõo Dii. BERnnRDo cíiousnb
Discurso recitado na festa da Virgem do Carmo S40
Orações fúnebres S40
Sermão recitado n:i festa da Virgem das Neves em Viana
do Castelo S40
Sinopse da gramática francesa — Morfologia Si 2
ík;**-*
v^.^